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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS ANCESTRAIS DE AVALON / Marion Zimmer Bradley
OS ANCESTRAIS DE AVALON / Marion Zimmer Bradley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS ANCESTRAIS DE AVALON

 

Fala Morgana...

O povo de Avalon traz ao conhecimento de sua Senhora todos os problemas, tanto os grandes quanto os pequenos. Hoje de manhã os druidas vieram me procurar para dizer que houve um deslizamento de rochas na galeria que vai do Templo deles à câmara onde fica a Pedra Omphalos, e eles não sabiam como poderá ser reparado. Eles agora são poucos aqui, e a maioria dos que restam está idosa. Muitos dos que poderiam ter renovado a Ordem dos Druidas morreram nas guerras contra os saxões ou foram se juntar aos monges que cuidam da capela cristã que fica naquela outra Avalon.

E assim eles vêm me procurar, como todos vêm me procurar, os que ainda restam, para que eu lhes diga o que devem fazer. Sempre me pareceu estranho que o caminho para um mistério que está enterrado tão profundamente na terra comece no Templo do Sol, mas eles dizem que aqueles que foram os primeiros a trazer a antiqüíssima sabedoria para estas ilhas, muito antes dos druidas, reverenciavam e glorificavam a Luz acima de todas as coisas.

O dom da Vidência não me visita mais como fazia quando eu era jovem e lutamos para trazer a Deusa de volta ao mundo. Agora sei que Ela já estava aqui, e sempre estará, mas a Omphalos é a pedra ovo, o umbigo e o centro do mundo, a derradeira magia de uma terra afundada sob as águas do mar há tanto tempo, que mesmo para nós é uma lenda.

Quando eu era menina, havia tapeçarias no Templo dos Druidas que contavam a história de como a pedra veio para cá. Elas se desfizeram em fiapos e pó, mas eu pessoalmente certa ocasião segui por aquela galeria até o coração da colina e toquei na pedra sagrada. As visões que tive na época estão mais vividas agora do que muitas de minhas próprias recordações. Mais uma vez posso ver a Montanha Estrela coroada de fogo e o navio de Tiriki suspenso, a tremer na onda, enquanto a Terra Condenada é engolfada pelo mar.

Mas não acredito que eu estivesse naquele navio. Tenho tido sonhos em que fiquei parada de mãos dadas com um homem a quem eu amava e assisti enquanto meu mundo se desfazia em pedaços, exatamente como a Bretanha se desfez quando Artur morreu. Talvez por isso eu tenha sido mandada de volta para esta época, pois Avalon certamente está tão perdida quanto estava Atlântida, embora sejam brumas e não fumaça o que a esconde do mundo dos mortais.

Houve um tempo em que havia uma galeria que conduzia até a Pedra Omphalos partindo da gruta onde a Nascente Branca brota do Tor, mas tremores na terra bloquearam esse caminho já faz muito tempo. Talvez não seja nosso destino que caminhemos mais por ali. A Pedra nos está sendo tomada, como tantos outros Mistérios.

Eu conheço tudo sobre como as coisas chegam ao fim. São os princípios que me escapam.

Como eles vieram para cá, aquelas bravas sacerdotisas e sacerdotes que sobreviveram ao Afundamento? Dois milênios se passaram desde que a Pedra foi trazida para esta costa, e mais quinhentos, e embora saibamos pouco mais do que seus nomes, preservamos seu legado. Quem eram esses ancestrais que pela primeira vez trouxeram a sabedoria antiqüíssima e enterraram-na como uma semente no coração desta colina sagrada?

Se eu puder compreender como eles sobreviveram à sua provação, talvez encontre esperança de que a antiqüíssima sabedoria que preservamos será levada até o futuro e que alguma coisa da magia de Avalon perdurará...

 

 

Tiriki acordou com um grito sufocado quando a cama deu um solavanco. Estendeu a mão em busca de Micail, piscando os olhos para afastar as imagens de fogo e sangue, paredes desmoronando e de um vulto ameaçador sem rosto, se contorcendo acorrentado. Mas estava em segurança, deitada na própria cama, com o marido a seu lado.

- Graças aos deuses! - sussurrou. - Era apenas um sonho!

- Não inteiramente, olhe aquilo ali... - Soerguendo-se apoiado no cotovelo, Micail apontou para a lamparina que balançava diante do relicário da Mãe no canto, lançando sombras, que tremeluziam de um lado para outro ao redor do quarto. - Mas eu sei o que você sonhou. Também tive a visão.

No mesmo instante a terra se moveu de novo. Micail a tomou em seus braços e rolou com ela em direção à proteção da parede enquanto o emboço chovia ao cair esfacelado do teto. De algum lugar ao longe veio um troar de alvenaria ruindo. Eles ficaram abraçados, mal respirando, enquanto a vibração chegou a um auge de intensidade e depois, aos poucos, se tornou mais branda.

- A montanha está acordando - observou ele, em tom sombrio, quando afinal tudo silenciou. - Este foi o terceiro tremor em dois dias. - Ele a soltou e saiu da cama.

- Estão ficando mais fortes... - concordou ela. O palácio era solidamente construído de pedra e tinha resistido a muitos tremores ao longo dos anos, mas mesmo à luz vacilante Tiriki podia distinguir uma nova rachadura que se estendia de ponta a ponta no teto.

- Tenho de ir. As informações devem estar chegando. Você vai ficar bem aqui? - Micail calçou as sandálias e se agasalhou com um manto. Alto e forte, com a luz da lamparina arrancando reflexos chamejantes de seu cabelo ruivo, ele parecia a coisa mais estável no quarto.

- É claro - respondeu ela, levantando-se e envolvendo o corpo esguio numa veste fina. - Você é príncipe e sacerdote desta cidade. Todos eles virão procurá-lo para pedir instruções. Mas não se canse demais com trabalho que pode ser feito por outros homens. Precisamos estar prontos para o ritual de hoje à tarde. - Tiriki tentou esconder seu calafrio de medo ao pensar na Pedra Omphalos, mas sem dúvida um ritual para reforçar o equilíbrio do mundo nunca havia sido tão necessário quanto agora.

Ele assentiu, baixando o olhar para ela.

- Você parece frágil, mas às vezes penso que é a mais forte de todos nós...

- Eu sou forte porque estamos juntos - murmurou Tiriki enquanto ele a deixava.

Além das cortinas que protegiam a sacada, uma luz vermelha incandescia. Aquele dia marcava a metade exata da primavera, pensou ela preocupada, mas aquela luz não era o nascer do sol. A cidade de Ahtarrath estava em chamas.

 

Na cidade acima, os homens esforçavam-se para afastar os escombros e apagar os últimos incêndios. No santuário onde a Pedra Omphalos ficava escondida, tudo estava silencioso. Tiriki levantou mais alto seu archote enquanto seguia os outros sacerdotes e sacerdotisas para a câmara mais recôndita, contendo um arrepio à medida que a chama se tornava sua própria sombra e a fumaça esverdeada rodopiava em volta do tição banhado em resina.

A Pedra Omphalos bruxuleava como cristal ocluído no centro do aposento. Era um objeto em formato de ovo, com a metade da altura de um homem, e parecia pulsar à medida que absorvia a luz. Vultos em trajes cerimoniais enfileiravam-se ao longo da parede curva. Os archotes que haviam encaixado nas arandelas acima deles tremeluziam bravamente, contudo, o santuário parecia envolto em escuridão. Havia uma friagem ali, nas profundezas abaixo da superfície da ilha de Ahtarrath, que nenhum fogo comum podia amenizar. Mesmo a fumaça do incenso que ardia no altar afundava no ar pesado.

Todas as outras luzes perdiam o brilho diante da Pedra incandescente. Mesmo sem seus capuzes e véus, os rostos dos sacerdotes e sacerdotisas teriam sido difíceis de ver mas, à medida que tateava, encontrando seu lugar contra a parede, Tiriki não precisava da visão para identificar o vulto encapuzado a seu lado como Micail. Ela sorriu numa saudação silenciosa, sabendo que ele a sentiria.

Mesmo se fôssemos espíritos desencarnados, pensou ela afetuosamente, ainda assim eu o reconheceria... O medalhão sagrado no peito dele, uma roda de ouro com sete raios, reluzia levemente, recordando Tiriki de que ali ele não era apenas seu marido, mas o Sumo Sacerdote Osinarmen, Filho do Sol, ela tampouco era Tiriki, mas Eilantha, Guardiã da Luz.

Empertigando-se, Micail começou a cantar a Invocação do Equinócio da Primavera, sua voz vibrava estranhamente. “Que o Dia tenha por limite a Noite... “

Outras vozes, de tom mais suave, uniram-se no cântico.

 

“Que a Escuridão seja equilibrada pela Luz

Terra e Céu e Sol e Mar, Uma cruz, circundada para sempre será”

 

Uma vida inteira de formação no exercício do sacerdócio havia ensinado Tiriki todas as maneiras de pôr de lado as exigências do corpo, mas era difícil ignorar a umidade do ar subterrâneo ou a misteriosa sensação de pressão que lhe deixava a pele toda arrepiada. Somente através de um supremo esforço ela conseguiu se concentrar de novo na canção à medida que esta começou a transformar o silêncio em harmonia...

“Que a dor abra um espaço para a alegria, Que o luto se dissolva em júbilo, Passo a passo para abrir nosso caminho, Até a Escuridão se unir com o Dia“.

Na luta desesperada que havia causado a destruição da Terra Antiga uma geração antes, a Pedra Omphalos havia se tornado, ainda que apenas brevemente, o brinquedo da magia negra. Durante algum tempo houve o temor de que a corrupção se tornasse absoluta, de modo que os sacerdotes haviam feito circular a história de que a Pedra se perdera, junto com tantas outras coisas, sob o mar vingativo.

De certo modo, a mentira era verdade, mas o lugar profundo no qual a pedra jazia era aquela caverna debaixo dos templos e da cidade de Ahtarra. Com a chegada da Pedra, aquela ilha de tamanho médio dos Reinos do Mar de Atlântida havia se tornado o centro sagrado do mundo. Mas, embora a Pedra estivesse longe de estar perdida, ela estava escondida, como sempre estivera. Mesmo os que ocupavam as mais altas posições na hierarquia do sacerdócio raramente encontravam motivos para entrar naquele santuário. Os poucos que ousavam consultar a Omphalos sabiam que suas ações podiam perturbar o equilíbrio do mundo.

A canção mudou de ritmo e tornou-se mais insistente.

“Cada estação é limitada pela que a segue, Encontros e partidas formam o círculo, O centro sagrado é a moldura que nos cinge Onde tudo está sempre em mutação, tudo sempre igual...”

Tiriki estava perdendo a concentração de novo. Se tudo era para ser sempre igual, pensou dominada por súbita rebeldia, não estaríamos aqui agora!

Há meses, notícias de tremores de terra e rumores de catástrofes ainda piores por vir tinham circulado e se disseminado como incêndios espontâneos em todos os Reinos do Mar. Em Ahtarrath, de início esses terrores haviam parecido distantes, mas ao longo das últimas noites, tanto os residentes do Templo quanto o povo da cidade tinham sido atormentados por tremores de terra de pequena intensidade e sonhos persistentes e medonhos. E mesmo agora, enquanto a canção prosseguia, ela podia perceber a inquietação nos outros cantores.

Será que este pode realmente ser o Tempo do Final anunciado pelas profecias? Tiriki perguntou-se silenciosamente. Depois de tantos avisos?

De maneira resoluta, ela voltou a unir sua voz à arquitetura de som que se elevava, cuja manipulação era talvez a ferramenta mais poderosa de magia atlante.

“Em movimento maior torna-se nossa quietude, Apaixonados, somos contidos pela força da vontade, Girando em perpetuidade, Enquanto o Tempo se torna Eternidade... “

As sombras se adensaram, contorcendo os redemoinhos de incenso que finalmente se elevaram em espiral no ar frio.

A música parou.

A luz da Pedra fulgurou esplendorosa, enchendo o santuário tão completamente quanto a escuridão o fizera antes. Havia Luz por toda parte, tão radiante que Tiriki ficou surpreendida ao descobrir que não emitia qualquer calor. Até os archotes brilhavam com mais intensidade. Os cantores deixaram escapar um suspiro coletivo. Agora podiam começar.

O primeiro a tirar o capuz e a se mover em direção à Pedra -, foi Reio-ta, governador do Templo. Ao lado dele Mesira, sacerdotisa da veste azul, líder dos praticantes da arte da cura, tirou o véu. Tiriki e Micail avançaram para ficar de frente para eles do outro lado da Pedra. Sob aquela luz, os cabelos ruivos de Micail brilhavam como chama, enquanto os fios que escapavam das tranças enroladas de Tiriki reluziam em tons de ouro e prata.

A voz magnífica de tenor de Reio-ta entoou a invocação:

“Neste lugar de Ni-Terat, Rainha Sombria da Terra, Agora luzente com o Espírito da Luz de Manoah, Ora confirmamos nós, o Centro Sagrado A Omphalos, Umbigo do Mundo. “

A força melodiosa da voz de contralto de Mesira fazia com que se desacreditasse de sua idade.

- O centro não é um lugar, mas um estado de existência. A Omphalos é de outro reino. Ao longo de muitas eras a Pedra repousou sem ser perturbada nos santuários da Terra Antiga, mas o centro não estava lá, tampouco está em Ahtarrath.

Micail pronunciou sonoramente a resposta formal:

- Atentos ao fato de que todos aqui presentes fizeram o voto solene de que o que é, é merecedor de ser preservado, e para tanto empenham poder e vontade... - ele sorriu para Tiriki e mais uma vez tomou na sua a mão dela. Juntos eles respiraram fundo para as palavras finais.

- Nós chegamos para sempre ao Reino do Verdadeiro, que nunca pode ser destruído.

E os outros responderam em coro:

- Enquanto mantivermos a fé, a Luz vive em nós!

A luminosidade sobrenatural pulsou quando Mesira falou mais uma vez.

- Assim invocamos o Equilíbrio da Pedra, para que o povo possa de novo conhecer a paz, pois não podemos ignorar os presságios a que assistimos. Reunimo-nos em um lugar de sabedoria para buscar respostas. Pitonisa, eu te convoco - Mesira estendeu os braços para o vulto cinza que naquele momento deu um passo adiante. - A hora é chegada. Que tu sejas nossos olhos e nossa voz diante do Eterno.

A pitonisa afastou para trás os véus. Sob a claridade intensa da luz da Pedra não era difícil reconhecer Alyssa, os cabelos negros soltos ao redor dos ombros, os olhos já dilatados pelo transe. Com um caminhar de passos estranhos, meio dobrando-se em reverências, ela penetrou no clarão radiante do altar.

Os cantores observaram nervosamente quando a pitonisa pousou as pontas dos dedos sobre a Pedra. Padrões translúcidos de luz concentravam-se em círculos e moviam-se em redemoinhos em seu interior. Alyssa se retesou, mas em vez de recuar, aproximou-se ainda mais.

- E... é assim - sussurrou. - Unida à Pedra estou. O que ela sabe vós sabereis. Que a canção sagrada nos leve às portas do Destino.

À medida que ela falava, os cantores começaram a cantar com os lábios fechados. A voz de Micail se elevou na cadência de Comando, chamando a pitonisa por seu nome de Templo.

“Neniath, pitonisa, sabes quem te fala, me conheces? Eu, Osinarmen, sou quem te fala e a ti recorre. Separa-nos de sonhos quando despertares Por meio da resposta que nos deres. “

- Eu ouço. - A voz era bem diferente daquela de Alyssa, penetrante e sonora. - Estou aqui. Que quereis saber?

- Fala se te agradar, e nós escutaremos. - Micail cantou a resposta formal em uma exalação sustentada, mas Tiriki podia ouvir a tensão em sua voz. - Viemos porque a Pedra nos chamou, misteriosamente sussurrando durante a noite.

Um momento se passou.

- A resposta, vós já conheceis - murmurou a pitonisa. - A pergunta mente diante da verdade. E, no entanto, a porta que já foi aberta não se fechará. Pedra após pedra se eleva cada vez mais alta, fadada a cair. As florestas se encherão de lenha em brasa. A força que serviu ao coração do mundo se modifica... e ela anseia.

Tiriki sentiu um desequilíbrio momentâneo, mas não sabia dizer se vinha do solo, debaixo das pedras do piso ou de seu próprio coração. Olhou para Micail, mas ele estava parado, imobilizado, o rosto contraído numa máscara.

Reio-ta proferiu as palavras com dificuldade:

- A escuridão já esteve à solta antes - disse com sombria concentração - e sempre pôde ser contida. Que devemos fazer para contê-la desta vez?

- Podeis fazer qualquer outra coisa senão cantar enquanto maior se faz o silêncio? - Alyssa estremeceu com uma gargalhada inesperada e amarga e dessa vez a terra de repente tremeu com ela.

Um arrepio de medo sacudiu os cantores. Eles exclamaram num só grito:

- Somos servos de Luz Interminável! A escuridão nunca vencerá!

Mas os tremores não cessaram. Os archotes piscaram e se apagaram. Raios escarlates projetaram-se para fora da Pedra. Por um momento Tiriki pensou que a caverna ao redor deles estivesse gemendo, mas era da garganta de Alyssa que saíam aqueles sons horrendos.

A pitonisa estava falando, ou tentando, mas as palavras saíam truncadas e ininteligíveis. Lutando contra o pavor, os cantores se aproximaram de Alyssa pé ante pé, esforçando-se para ouvi-la, mas a pitonisa recuou afastando-se deles, os braços debatendo-se contra a Pedra.

- Ela cresce! - Seus gritos ecoavam muito além da câmara circular. - A flor infame! Sangue e fogo! VIESTES TARDE DEMAIS!

Enquanto os ecos diminuíam, a força abandonou o corpo rígido da pitonisa. Só o movimento rápido de Micail a impediu de cair.

- Levem-na - arquejou Reio-ta com dificuldade. - Mesira, vá com eles! Nós encerraremos aqui...

Assentindo, Micail carregou a pitonisa para fora da câmara.

 

A alcova para onde levaram a pitonisa, junto à entrada do santuário, estava estranhamente silenciosa. Embora a terra abaixo deles finalmente tivesse se aquietado, o espírito de Tiriki ainda estava abalado. Quando entrou, sua acólita Damisa, que havia esperado ali com os outros ajudantes durante a cerimônia, levantou a cabeça; os olhos verdes demonstravam ansiedade.

Micail passou depressa por ela, tocando na mão de Tiriki numa caricia rápida que foi mais íntima que um beijo. Os olhos de um encontraram os do outro com uma promessa sem palavras - Eu estou aqui... Eu estou aqui. Nós sobreviveremos, ainda que caiam os céus.

Da câmara abaixo veio o burburinho de vozes.

- Como estão eles? - murmurou Micail com um balançar de cabeça em direção ao som.

Tiriki deu de ombros, mas ficou segurando a mão dele.

- Metade deles afirma, jurando uns para os outros, que não entendeu as palavras de Alyssa, e os outros estão convencidos de que Ahtarra está prestes a desmoronar e cair no mar. Reio-ta cuidará deles. - Ela olhou para Alyssa, deitada em um banco com Mesira a seu lado. - Como está ela?

O rosto da pitonisa estava pálido e os longos cabelos, que naquela manhã haviam luzido negros como uma asa de graúna, agora estavam entremeados com mechas grisalhas.

- Dormindo - respondeu Mesira com simplicidade. À luz suave que entrava pelo vão da porta, o rosto da praticante de artes de cura revelava sua verdadeira idade. - Quanto a seu despertar... Creio que vai levar algum tempo para sabermos se o trabalho do dia de hoje lhe causou algum dano. É melhor que se retirem. Acho que recebemos todas as respostas que vamos obter. Minha cheia foi chamar carregadores e uma liteira, para que possamos levá-la de volta à Casa de Cura. Se houver alguma alteração, mandarei avisá-los.

Micail já havia tirado seus trajes cerimoniais e enfiado o emblema de sua posição hierárquica sob a gola da túnica sem mangas. Tiriki dobrou seu véu e capa e os entregou à Damisa.

- Também devemos chamar carregadores e uma liteira? - perguntou.

Micail fez que não.

- Não quer caminhar um pouco? Preciso sentir o toque de luz do dia sobre minha pele.

 

O calor e a claridade intensa que encontraram ao ar livre foi uma bênção que fez desaparecer de seus ossos o frio das câmaras subterrâneas. Tiriki sentiu ceder a tensão em seu pescoço e ombros, e caminhou a passos mais largos para acompanhar as passadas maiores do marido. Por meio das colunas de pedras vermelhas e brancas do Templo, que assinalavam a entrada para o santuário subterrâneo, ela avistou uma fileira de telhados revestidos de telhas azuis. Dispersa mais abaixo na encosta, uma porção de abóbadas recentemente construídas de cor creme e vermelha aninhava-se em meio aos jardins da cidade. Para além deles, a amplidão do mar reluzente se estendia até o infinito. À medida que emergiam do pórtico, os sons e cheiros da cidade elevaram-se ao redor deles - o latido de cachorros e o choro de crianças, os gritos de mercadores oferecendo seus artigos, o aroma picante do cozido de frutos do mar que era um prato típico favorito local, e o odor menos salubre de um esgoto nas vizinhanças. Os incêndios iniciados pelo tremor de terra da noite anterior haviam sido apagados e os danos estavam sendo reparados. A destruição havia sido bem menor do que eles tinham temido. Na verdade, agora o pior inimigo deles era o medo. Até mesmo os fedores eram uma afirmação de vida rotineira, tranqüilizadores depois do confronto com a força sobrenatural da Pedra.

Talvez Micail sentisse o mesmo. De todo modo, ele a estava conduzindo pelo caminho mais longo, que se afastava dos prédios altos do complexo do Templo e que descia passando pelo mercado, em vez de seguir a Via da Procissão, pavimentada de branco, que levava ao palácio. Os flancos reluzentes das Três Torres ficaram escondidos quando eles entraram por uma rua lateral que seguia em direção ao porto, onde os comerciantes negociavam os preços com os fregueses como o fariam em qualquer dia normal. Eles atraíram alguns olhares de admiração, mas ninguém apontou nem ficou olhando fixamente. Sem os trajes cerimoniais, ela e Micail pareciam um casal comum, fazendo suas compras no mercado, embora fossem mais altos e mais claros de pele que a maioria das pessoas na cidade. E caso alguém tivesse considerado a possibilidade de importuná-los, a expressão decidida nas feições fortes de Micail e a energia de suas passadas teriam sido intimidação suficiente.

- Você está com fome? - perguntou Tiriki. Eles haviam jejuado para o ritual e agora era quase meio-dia.

- O que eu realmente quero é uma bebida - respondeu ele com um sorriso. - Costumava haver uma taverna perto do porto que servia um bom vinho - não o nosso tinto local áspero, mas de uma safra respeitável da terra dos helenos. Não se preocupe, a comida também não vai desapontar você.

A taverna tinha uma arcada aberta sombreada por videiras presas a treliças. Ao redor de suas bordas cresciam os lírios carmesins de Ahtarrath. Sua fragrância delicada perfumava o ar. Tiriki inclinou a cabeça para trás para permitir que a brisa do porto levantasse seus cabelos. Se ela se virasse, poderia ver as encostas da Montanha Estrela - o vulcão adormecido que era o núcleo da ilha, tremeluzindo na névoa quente. Descendo pela encosta havia um cinturão de floresta, e depois uma colcha de retalhos de campos e vinhedos. Sentada ali, os acontecimentos da manhã pareciam nada mais que sonhos sombrios. Os ancestrais de Micail reinavam ali há uma centena de gerações. Que poder poderia fazer submergir uma tradição de tamanha sabedoria e glória?

Micail tomou um longo gole de sua taça de cerâmica e deixou escapar um grande suspiro com visível prazer. Tiriki ficou surpreendida ao sentir um borbulhar de riso brotar em seu íntimo. Ao ouvir o som, seu marido levantou uma sobrancelha.

- Por um instante você me fez lembrar de Rajasta - explicou ela.

Micail sorriu.

- Nosso professor era um espírito nobre, mas de fato apreciava um bom vinho! Ele também esteve em meus pensamentos hoje, mas não por causa do vinho - acrescentou, ficando sério.

Ela assentiu.

- Estive tentando me lembrar de tudo que ele nos contou sobre o destino que condenou a Terra Antiga à destruição. Quando a terra começou a afundar, eles foram avisados com antecedência suficiente para enviar os rolos de pergaminho sagrados para cá, junto com os adeptos para lê-los. Mas se um desastre vier a destruir todos os Reinos do Mar... onde poderia ser encontrado um refúgio para a antiqüíssima sabedoria de Atlântida?

Micail gesticulou com a taça.

- Não foi exatamente para este propósito que enviamos emissários para as terras orientais de Helas e de Khem, e para o norte até a Costa Âmbar e as Ilhas de Estanho?

- E o que será do saber que não pode ser preservado em rolos de pergaminho, símbolos e pela memória? - ruminou ela. - O que será das coisas que têm de ser vistas e sentidas antes que se possa compreendê-las? E que será dos poderes que só podem ser concedidos quando um mestre julga que o aluno está pronto para eles? Que será da sabedoria que tem de ser transmitida de alma para alma?

Micail franziu o cenho pensativamente, mas seu tom de voz se manteve descontraído.

- Nosso professor Rajasta costumava dizer que por maior que seja o cataclismo, se pelo menos a Casa dos Doze for preservada - não o sacerdócio, mas os seis casais, os rapazes e donzelas que são os acólitos escolhidos - por si só, eles podem recriar toda a grandeza de nossa terra. E então dava uma boa gargalhada...

- Ele devia estar brincando - disse Tiriki, pensando em Damisa e Kathan, Ellis e Aldel, Kalaran e Seleast, Elara e Cleta e nos outros. Os acólitos tinham sido concebidos e criados para o sacerdócio, eram frutos de uniões ordenadas pelas estrelas. O potencial deles era grande, mas eram todos tão terrivelmente jovens!

Tiriki sacudiu a cabeça.

- Sem dúvida eles superarão todos nós quando completarem sua formação, mas se não forem supervisionados, receio que tenham dificuldade de resistir à tentação de fazer mau uso de seus poderes. Mesmo meu pai. - Ela se calou abruptamente, a pele clara enrubescendo.

A maior parte do tempo ela conseguia se esquecer de que seu pai verdadeiro não era Reio-ta, o marido de sua mãe, e sim Riveda, que havia comandado a Ordem dos Magos da Veste Cinza na Terra Antiga; Riveda, que havia demonstrado ser incapaz de resistir às tentações da magia proibida e fora executado por feitiçaria.

- Até Riveda fez bem na mesma medida em que fez mal - disse Micail com delicadeza, segurando-lhe a mão. - A alma dele está sob a guarda dos Senhores do Destino, e ao longo de muitas vidas trabalhará para cumprir sua penitência. Mas seus escritos sobre o tratamento de doenças salvaram muitas vidas. Você não deve permitir que a lembrança dele a preocupe, minha amada. Aqui ele é recordado como um mestre da arte da cura.

Um jovem de olhos escuros chegou com uma travessa de bolos de tabuleiro e peixinhos pequeninos fritos, bem crocantes, servidos com queijo de cabra e ervas picadas. Os olhos dele se arregalaram um pouco quando viu os olhos azuis e os cabelos louros de Tiriki, seu único legado de Riveda, que originalmente não viera da Terra Antiga, mas do pouco conhecido reino do norte de Zaiadan.

- Nós temos de tentar não sentir medo - disse Micail, depois que o criado se retirou. - Existem muitas profecias além da profecia de Rajasta que falam do Tempo do Final. Se este tiver chegado, estaremos em grave risco, mas os presságios nunca sugeriram que estivéssemos totalmente condenados. De fato, a visão de Rajasta nos assegurou que você e eu fundaremos um novo Templo numa nova terra! Estou convencido de que há um Destino que nos preservará. Precisamos apenas encontrar seu fio.

Tiriki assentiu e apertou a mão que ele lhe estendeu. Mas toda esta vida bela e luminosa que nos cerca deverá morrer antes que a profecia se possa cumprir.

Mas, por enquanto, o dia estava bonito e os aromas que se elevavam de seu prato ofereciam agradável distração contra qualquer coisa que o destino pudesse ter reservado para eles. Obrigando-se a pensar apenas no momento imediato e em Micail, Tiriki procurou um assunto mais neutro para conversar.

- Você sabia que Elara é uma excelente arqueira? Micail ergueu uma sobrancelha.

- Essa me parece uma estranha diversão para uma praticante da arte da cura - ela é aprendiz de Liala, não é?

- Sim, é, mas você sabe que trabalho de cura exige ao mesmo tempo precisão e coragem. Elara tornou-se uma espécie de líder entre as acólitas.

- Eu teria esperado que a garota de Alkona - sua acólita

- Damisa - assumisse este papel - respondeu ele. - Não é ela a mais velha? E creio que tem algum tipo de parentesco com Tjalan. Aquela família realmente gosta de assumir o comando. - Ele sorriu e Tiriki se recordou de que Micail havia passado vários verões com o Príncipe de Alkonath.

- Talvez ela seja um pouco consciente demais de suas -, origens reais. Em todo caso, ela foi a última do grupo a chegar aqui e creio que está tendo alguma dificuldade para se integrar.

- Se esta for a maior dificuldade que ela tiver de enfrentar, pode se considerar afortunada! - Micail bebeu de um gole o resto do vinho e se levantou.

Tiriki suspirou, mas estava mesmo na hora de irem embora.

Quando o taberneiro se deu conta de que o casal que estivera ocupando a melhor mesa em seu terraço há tanto tempo eram o príncipe e sua senhora, tentou recusar o pagamento, mas Micail insistiu em imprimir seu sinete numa tabula de argila.

- Apresente isso no palácio e meus criados pagarão o que devo.

- É, de fato, gentileza demais de sua parte - zombou Tiriki baixinho, quando eles finalmente puderam deixar a taverna.

- O homem visivelmente sentia-se honrado por receber uma visita do príncipe e em troca, quis oferecer um presente a você. Por que não permitiu que ele o fizesse?

- Pense nisso como uma afirmação - Micail sorriu, um tanto sombriamente. - Aquela tábula de argila representa minha crença de que alguém estará aqui amanhã. E se, como você diz, ele preferir ter tido a honra, bem, não há nada que o obrigue a cobrar a dívida. A memória aos poucos se apaga. Mas terá o meu selo como lembrança.

Lentamente eles caminharam de volta para o palácio, conversando sobre assuntos corriqueiros, mas Tiriki não conseguia parar de se recordar de como os gritos da pitonisa haviam ecoado da cripta.

 

Quando Damisa voltou à Casa das Folhas Caindo, os outros acólitos estavam acabando uma aula. Elara de Ahtarrath foi a primeira a vê-la entrar. Elara, de cabelos escuros e pele rosada, era nativa da ilha e coubera-lhe a tarefa de fazer com que os que haviam chegado há pouco tempo de outros Reinos do Mar tivessem boa acolhida.

Em cada ilha, os templos formavam sacerdotes e sacerdotisas. Mas, dentre os jovens mais talentosos em cada geração, doze eram escolhidos para ascender aos conhecimentos mais elevados dos Mistérios mais profundos. Alguns um dia voltariam a suas ilhas como membros da mais alta hierarquia do clero, enquanto outros exploravam especialidades como a arte da cura ou astrologia. Concluída a iniciação, esses doze atingiam o grau de adeptos, que serviam a toda a Atlântida como Guardiões Investidos no Templo da Luz.

A casa era uma construção baixa de vasta área, com corredores estranhamente alinhados e cômodos enormes, que se dizia ter sido construída um século ou mais antes, para receber um dignitário estrangeiro. Os acólitos se divertiam com sugestões de outras explicações para as sereias de pedra na fonte desbotada pelo tempo no pátio central. Quaisquer que tivessem sido suas origens, até bastante recentemente, a estranha e antiga casa de campo havia sido usada como dormitório para sacerdotes solteiros, peregrinos e refugiados. Agora era a Casa dos Doze.

Alguns dos acólitos aceitavam de boa vontade a ajuda de Elara, já outros reagiam com resistência, mas Damisa, que era prima do príncipe de Alkonath, de maneira geral era a mais auto-suficiente de todos. Naquele momento, contudo, pensou Elara, ela parecia estar muito mal.

- Damisa? Que aconteceu com você? Está doente? -

Ela se sobressaltou quando a outra moça se virou para ela com os olhos arregalados, vidrados. - Aconteceu alguma coisa na cerimônia? - Elara segurou Damisa com firmeza pelo cotovelo e a fez sentar junto à fonte. Virou-se para chamar a atenção de um dos outros. - Lanath, vá buscar um pouco de água para ela! - pediu Elara em voz baixa, enquanto os outros acólitos as rodeavam. Elara sentou-se, afastando os cachos de cabelos negros que sempre caíam sobre seus olhos. - Calados, todos vocês! - ela lhes lançou um olhar furioso até que eles recuaram. - Deixem-na respirar!

Ela sabia que Damisa tinha sido chamada para estar a serviço de Lady Tiriki bem cedo naquela manhã, e a invejava. O papel de Elara como cheia da sacerdotisa da Veste Azul, Liala, no Templo de Ni-Terat era uma função bastante agradável, mas nada tinha de glamuroso. Os acólitos tinham sido avisados de que os aprendizados que fariam eram determinados pelo posicionamento das estrelas e pela vontade dos deuses. Fazia sentido que o noivo de Elara, Lanath, tivesse sido designado como aprendiz do astrólogo do Templo porque ele tinha uma cabeça boa para números, mas Elara sempre havia desconfiado de que o parentesco real de Damisa lhe obtivera a posição junto a Tiriki que, afinal, era não só uma sacerdotisa, mas também princesa de Ahtarrath. Mas, agora, ela não invejava Damisa.

- Conte-nos, Damisa - murmurou enquanto a outra moça bebia. - Alguém se feriu? Alguma coisa correu mal?

- Mal! - Damisa fechou os olhos por um momento, depois se empertigou e olhou ao redor do círculo. - Vocês não ouviram os rumores que estão circulando pela cidade?

- É claro que ouvimos. Mas onde estava você? - perguntou a pequenina Iriel.

- Em um ritual do equinócio, a serviço de minha senhora - respondeu Damisa.

- Esses rituais em geral são realizados no Grande Templo de Manoah - comentou Ellis, que também era nativo de Ahtarra. - Você não levaria tanto tempo para voltar de lá!

- Nós não estávamos no Templo da Luz! - declarou Damisa em tom firme. - Fomos para outro lugar, um santuário construído nos penhascos na orla leste da cidade. O pórtico é comum, como um outro qualquer, mas o verdadeiro Templo é subterrâneo, fica nas profundezas da terra. Ou pelo menos imagino que fique. Recebi ordens para esperar na alcova no alto da galeria.

- Pelos ossos de Banur! - exclamou Elara. - Este é o Templo de - não sei nem o que é - ninguém vai lá!

- Eu também não sei o que é - respondeu Damisa recuperando um pouco sua arrogância habitual - mas alguma Força está lá embaixo. Pude ver os clarões intermitentes de luz subindo até lá no alto da galeria.

- É o Afundamento... - disse Kalaran em voz baixa. - Minha própria ilha já se foi e agora esta aqui também será tragada. Meus pais migraram para Alkonath, mas eu fui escolhido para o Templo. Eles acharam que era uma honra para mim vir para cá...

Os acólitos se entreolharam, abalados.

- Nós não sabemos com certeza que o ritual falhou - disse Elara em tom animador. - Devemos esperar... nós seremos avisados...

- Eles tiveram de carregar a pitonisa para fora da câmara - interrompeu Damisa. - Ela parecia semimorta. Levaram-na para Liala e os praticantes da arte da cura, na Casa de Ni-Terat.

- Preciso ir para lá - observou Elara. - Liala pode estar precisando de minha ajuda.

- Para que se dar ao trabalho? - retrucou Lanath. - Todos nós vamos morrer.

- Cale-se! - Elara ralhou com ele, perguntando-se o que teria levado os astrólogos a fazer dela a noiva de um rapaz que seria capaz de fugir até da própria sombra se esta latisse. - Todos vocês, tratem de se acalmar. Somos os Doze Escolhidos, não um bando de camponeses do interior. Vocês por acaso imaginam que nossos ancestrais não previram esse desastre e não fizeram algum plano? Nosso dever é ajudar de todas as maneiras possíveis. - Ela afastou os cabelos escuros para trás mais uma vez, no íntimo esperando que fosse verdade o que acabara de dizer.

- E se eles não fizeram plano algum? - perguntou o noivo de Damisa, um rapaz bastante enfadonho, de cabelos castanhos, chamado Kalhan.

- Então morreremos. - Damisa havia se recuperado o suficiente para amarrar a cara para ele.

- Bem, se morrermos - declarou a pequenina Iriel, com seu sorriso irresistível -, eu terei uns bons desaforos para dizer aos deuses!

 

Quando Micail e Tiriki voltaram ao palácio, encontraram uma sacerdotisa da veste azul esperando no portão, trazendo notícias de Mesira. Alyssa havia despertado e esperava-se que tivesse boa recuperação.

Se ao menos, pensou Tiriki sombriamente, pudéssemos nos sair tão bem na cura de sua profecia...

Contudo, ela manteve um sorriso nos lábios enquanto acompanhava Micail na subida da escadaria até o conjunto de aposentos que eles dividiam no andar de cima. O véu diante da alcova onde ficava o relicário da deusa e as tapeçarias que cobriam as portas para a varanda ondularam com o vento da noite -, vindo do mar. As paredes caiadas eram ornadas de afrescos com um friso de falcões dourados acima de um canteiro de lírios carmesins. A luz bruxuleante das lamparinas penduradas, os pássaros elevavam-se nas alturas e as flores pareciam se inclinar sob uma brisa invisível.

Depois de terem se trocado e vestido túnicas limpas, Micail saiu para conferenciar com Reio-ta. Quando ficou sozinha, Tiriki ordenou que as criadas de andar suave enchessem para ela uma banheira com água fresca perfumada. Depois de tomar seu banho, ela foi para a varanda e contemplou a cidade abaixo. Ao leste, a Montanha Estrela erguia-se em certa massa sombria contra o céu fresco da noite. Bosques de ciprestes cobriam as partes baixas das encostas mas, acima deles, o cone elevava-se abruptamente. A chama perpétua no Templo em seu cume aparecia como uma luz piramidal, esmaecida e constante. Pontos de luz dispersos marcavam as sedes de fazendas nos sopés, apagando-se um por um à medida que os moradores se recolhiam a seus leitos. Na cidade, as pessoas ficavam acordadas até mais tarde. As luzes oscilantes de archotes moviam-se pelas ruas no quarteirão das casas de entretenimento.

À medida que o ar esfriava, a terra exalava fragrâncias de relva secando e de terra recém-arada, como um delicioso perfume. Ela se entregou à contemplação da tranqüilidade da noite e, em seu coração, a letra do hino do anoitecer tornou-se uma prece:

Oh, Fonte de Estrelas em esplendor

Que se mostram no manto da Tua escuridão,

Concede-nos um sono reparador

E esta noite, o conhecimento de Tua bênção.

Como podia tamanha paz, tamanha beleza ser destruída?

 

A cama de Tiriki tinha roupagem de cortinado de gaze e era vestida de lençóis de linho tão fino que, ao toque contra a pele, parecia seda. Nenhum conforto que Ahtarrath pudesse oferecer lhe era negado, mas apesar de sua prece, Tiriki não conseguiu dormir. Quando Micail afinal veio para a cama, era meia-noite. Ela podia senti-lo contemplando-a e tentou tornar sua respiração lenta e regular. O simples fato de estar com insônia não era motivo para que ele também devesse ser privado de sono. Mas o laço de união que existia entre eles ia muito além dos sentidos da carne.

- Que há de errado, minha amada? - A voz dele soou suave na escuridão.

Ela deixou escapar longo suspiro.

- Estou com medo.

- Mas nós soubemos desde que nascemos que Ahtarrath poderia estar fadada à destruição.

- Sim, em algum momento num futuro distante. Mas a advertência de Alyssa a torna imediata!

- Pode ser... pode ser... - A cama rangeu quando ele se sentou e estendeu a mão para acariciar-lhe os cabelos. - Apesar disso, você sabe como é difícil saber quando uma profecia se irá cumprir.

Tiriki sentou-se na cama de frente para ele.

- Você realmente acredita nisso?

- Minha amada, nenhum de nós pode saber o que o fato de estarmos cientes poderá mudar. Tudo que podemos fazer é usar todos os poderes de que dispomos para enfrentar o futuro quando ele vier. - Ele suspirou, e Tiriki pensou ter ouvido o ecoar de um trovão, embora a noite estivesse sem nuvens.

- Ah, sim, seus poderes - murmurou ela com amargura, pois de que serviam eles agora? - Você pode invocar o vento e o relâmpago, mas que será da terra abaixo? E como este poder será transmitido, se tudo mais cair? Reio-ta só tem uma filha, e eu... eu não consigo dar-lhe um filho!

Percebendo-lhe as lágrimas, ele a abraçou, trazendo-a mais para perto de si.

- Você ainda não o fez, mas nós ainda somos jovens! Tiriki repousou a cabeça contra o ombro dele e relaxou abrigada na força de seus braços, inalando o perfume ligeiramente picante do corpo dele, mesclado com os óleos de seu próprio banho.

- Já deitei dois bebês sobre a pira funérea - sussurrou ela - e mais três perdi antes que pudessem nascer. As sacerdotisas de Caratra não têm mais como me ajudar, Micail. - Ela sentiu as lágrimas lhe encherem os olhos. - Nossas mães eram irmãs... talvez sejamos parentes próximos demais. Você deve tomar uma outra esposa, meu amado, uma que lhe possa dar um filho.

Ela o sentiu sacudir a cabeça na escuridão.

- A lei de Ahtarrath o permite - sussurrou.

- E a lei do amor? - perguntou ele. Micail a agarrou pelos ombros, baixando o olhar para ela. Tiriki sentiu, mais do que viu, a intensidade de seu olhar. - Para gerar um filho digno de possuir meus poderes, tenho de dar não somente meu sêmen, mas também minha alma. Sinceramente, minha amada, não creio que seria sequer capaz com uma mulher que não fosse minha companheira tanto de corpo quanto de alma. Fomos destinados um para o outro, Tiriki, e nunca poderá haver outra pessoa para mim a não ser você.

Ela ergueu a mão para acariciar as linhas fortes das faces e sobrancelhas dele.

- Mas sua linhagem se extinguira!

Ele baixou a cabeça para apagar-lhe as lágrimas com beijos.

- Se a própria Ahtarrath deve deixar de existir, será que é de grande importância que a magia de seus príncipes também seja perdida? É a sabedoria de Atlântida que devemos preservar, não seus poderes.

- Osinarmen, sabe quanto amo você? - ela se deitou de volta na cama com um suspiro enquanto as mãos dele começavam a se mover acariciando-lhe o corpo, cada toque despertava uma sensação para qual seu corpo havia aprendido a responder da mesma forma que os exercícios espirituais do Templo haviam treinado sua alma.

- Eilantha... Eilantha! - respondeu ele e a envolveu num abraço.

Diante desse chamado, espírito e corpo se abriram juntos, arrebatados e transfigurados na mais absoluta união.

Dois

Damisa espiou ao redor em meio à folhagem da Casa dos Doze, perguntando-se se dali conseguiria ver algum dos danos causados pelo terremoto. Desde o ritual no Templo subterrâneo, a terra ficara quieta, e o Príncipe Micail tinha ordenado a seus guardas que ajudassem na reconstrução. A capital de Ahtarrath havia crescido a partir das ruínas de uma colonização mais antiga. As Três Torres, revestidas de ouro, haviam se alongado em direção ao céu há mil anos. Quase tão venerandos eram os Sete Arcos, em cujas faces desgastadas pelo tempo os estudantes esforçavam-se para, com as pontas dos dedos, retraçar hieróglifos que há muito se haviam apagado.

O clero de Ahtarra dera o melhor de si para preparar os velhos quartos da Casa das Folhas Caindo para os doze acólitos, mas eram os jardins que tornavam o local ideal, pois deixavam a casa bastante distanciada da cidade e do templo. Damisa deu um passo para trás, permitindo que os galhos da cerca viva de loureiro balançassem para baixo. Dali, nenhuma outra construção podia ser vista.

Ela se virou para observar o grupo no gramado a uma pequena distância dali. Casamentos entre sacerdotes parentes consangüíneos podiam resultar tanto em fraqueza quanto em talento. Com freqüência, Damisa se perguntava se ela teria sido escolhida como acólita mais por causa da influência de sua avó rainha do que por seu próprio mérito, mas metade dos outros teriam saído correndo aos gritos se tivessem visto aquelas luzes piscando na galeria do Templo subterrâneo. Agora lhe ocorria que os guardiões poderiam ter visto algum benefício em acrescentar o sangue robusto de Alkonath à linhagem sacerdotal.

Mas por que teriam decidido que o detestável Kalhan, com suas feições e seu senso de humor igualmente rudes, era um par adequado para ela? Certamente ele teria sido um companheiro muito melhor para Cleta, que não tinha absolutamente senso de humor algum. Na qualidade de princesa menor, Damisa havia esperado um casamento arranjado, mas pelo menos seu marido deveria ser um homem capacitado, dotado de poder. Tiriki dissera que Kalhan provavelmente melhoraria com a idade, mas Damisa não via quaisquer sinais disso.

Lá estava ele, correndo aos saltos pelo gramado, encabeçando um grupo de outros acólitos em vivas barulhentos, enquanto Aldel, que na opinião de Damisa era o mais agradável dos rapazes, e Lanath, que era melhor ao usar a cabeça do que ao usar as mãos, lutavam ferozmente corpo a corpo. Mesmo Elara, de modo geral a mais sensata das jovens acólitas, observava-os com um sorriso. Selast, por outro lado, parecia querer entrar na luta. Provavelmente, refletiu Damisa, ela poderia vencer, enquanto examinava o corpo musculoso da moça mais jovem. Damisa deu as costas para eles. Não sabia dizer se a luta era por diversão ou para valer, e naquele momento ela pouco se importava.

Todos eles parecem ter esquecido de se preocupar com o fim do mundo, pensou tristemente. Como eu gostaria de estar em casa! É uma honra ser uma Escolhida, mas aqui faz sempre muito calor, e a comida é estranha. Mas será que lá seria de algum modo mais seguro? Será que ao menos temos permissão para fugir? Ou espera-se que apenas fiquemos, nobre e corajosamente, parados aqui e deixemos que o mundo desabe e se despedace ao nosso redor?

Lutando contra a vontade de chorar, Damisa permitiu que seus pés errantes a levassem pela subida da encosta relvada. Poucos momentos depois, ela alcançou o mais afastado dos muitos terraços externos do jardim, uma longa e larga parede de animo, com vista panorâmica da cidade e do mar.

Apenas dois dias atrás Damisa havia descoberto aquele lugar, que ela estava certa de que não podia ser visto nem sequer do telhado da Casa dos Doze. Com alguma sorte, os outros nem sequer sabiam ainda de sua existência.

Como sempre, o vento do mar dissipou seu humor sombrio. Cada rajada de ar salgado lhe parecia uma carta de amor secreta vinda de sua terra distante. Passaram-se minutos antes que ela reparasse no grande número de barcos que havia no mar naquele dia - não, não eram barcos e sim navios, e não apenas quaisquer navios, mas uma frota de “asas-de-pássaro”, veleiros de três mastros com cutelos e varredouras, orgulho e poderio de Atlântida. Altaneiros sobre as águas, com as perigosas proas em aríete revestidas de bronze endurecido, podiam ser remados com velocidade para atacar com o aríete ou fazer uso do vento para navegar à vela. Alinhados em formação precisa, eles fizeram a curva ao redor do promontório.

Aninhado quase imediatamente abaixo da posição privilegiada de Damisa, havia um ancoradouro numa pequena enseada. Raramente era usado e de maneira geral era sossegado o suficiente para que se pudesse entrar em transe só de olhar fixamente para suas águas azuis transparentes. Mas naquele momento, um por um, os veleiros ferraram âncora enquanto seus pendões de cores vivas adejavam suavemente e depois descansavam nas águas lisas da enseada. O maior já estava atracado ao cais, colhendo e ferrando as velas de cor púrpura.

Damisa esfregou os olhos de novo. Como é possível? perguntou-se, mas nada havia de errado com sua visão. Cada imponente mastro grande tinha arvorado ao alto o Círculo dos Falcões, a bandeira soberana de sua terra natal. Uma enorme saudade se apoderou dela e lhe encheu os olhos de lágrimas.

- Alkonath - sussurrou e, sem pensar duas vezes, levantou a bainha das vestes e começou a correr, os longos cabelos acaju esvoaçavam às suas costas enquanto passava pela disputa de luta livre que ainda continuava e saía voando do jardim em direção à escadaria que descia até a enseada.

 

O maior dos veleiros havia ancorado junto ao cais principal, mas ainda não tinha baixado a prancha de desembarque. Mercadores e moradores da cidade já se tinham reunido no cais, tagarelando com grande animação, enquanto esperavam para ver o que aconteceria a seguir. Mas, mesmo contando seus criados, eram quase superados em número pelos homens e mulheres vestidos de branco da casta dos sacerdotes.

Tiriki estava posicionada mais à frente dos outros, envolta em camadas finas de tecido incolor; sua tiara mesclava Fios com pendentes de flores de ouro aos fios de seus cabelos. Seus dois acompanhantes portavam os mantos de cor púrpura real de Ahtarrath. Os rubis em seus diademas fulgiam como fogo ao sol. Damisa levou um instante para reconhecê-los como Reio-ta e Micail.

Então, os navios eram esperados, deduziu a acólita, que sabia muito bem quanto tempo era necessário para vestir os trajes cerimoniais. A frota deve ter sido avistada da montanha e um mensageiro enviado para avisá-los de que visitantes estavam para chegar. Ela abriu caminho em meio à multidão até conseguir chegar ao lado de sua mentora.

Tiriki inclinou ligeiramente a cabeça numa saudação.

- Damisa, você chegou no momento oportuno! - Mas antes que Damisa se pudesse perguntar se Tiriki estava galhofando com ela, uma aclamação coletiva anunciou que os visitantes haviam começado a desembarcar.

Os primeiros a sair foram os soldados de capa verde armados de piques e espadas. Eles escoltavam homens vestindo capas de viagem de lã, acompanhados por um sacerdote cuja veste era cortada em um estilo desconhecido. Reio-ta deu um passo à frente e levantou seu cajado cerimonial para traçar o círculo da bênção. Tiriki e Micail haviam se aproximado mais um do outro. Damisa teve de esticar o pescoço para ver.

- Em nome de Manoah, Criador de Todos, cujo esplendor enche nossos corações enquanto Ele ilumina o céu, eu lhes dou as boas-vindas.

- Nós agradecemos a Nar-Inabi, Formador de Estrelas, que os trouxe em segurança na travessia pelo mar - acrescentou Micail. Quando ele levantou os braços para fazer uma reverência formal, Damisa viu de relance os braceletes fulgurantes em forma de serpente que só podiam ser usados por um príncipe de linhagem imperial.

Tiriki deu um passo à frente e ofereceu uma cesta de frutas e flores. Sua voz soou como música.

- Ni-Terat, a Grande Mãe, que também é chamada de Caratra, dá as boas-vindas a todos os seus filhos, jovens e velhos.

O mais alto dos viajantes atirou para trás o capuz da capa e a saudação de Damisa se transformou num grito prolongado de prazer. Tjalan! Ela não teria sabido dizer se para ela era mais importante o fato de que ele fosse o Príncipe de Alkonath ou que fosse o seu primo que sempre havia sido gentil com ela. Foi com dificuldade que teve a disciplina suficiente para se impedir de correr para ele e atirar os braços ao redor de seus joelhos, como costumava fazer quando criança. Mas se controlou, e foi bom que tivesse feito isso, pois naquele momento Tjalan era única e inteiramente um lorde do império com a grandiosa esmeralda faiscando em seu diadema e os braceletes reais entrelaçando-se ao redor de seus antebraços.

Esguio e bronzeado, ele tinha o porte e a confiança de alguém que jamais duvidava de seu direito de comando. Havia alguns fios prateados em suas têmporas - isso era novidade - mas Damisa achou que eles acrescentavam certa elegância aos cabelos escuros de seu primo. Apesar de tudo, os olhos perspicazes continuavam os mesmos - verdes como a Esmeralda de Alkonath, embora houvesse ocasiões, ela sabia, em que podiam exibir todas as cores do mar. Quando o sacerdote de vestes estranhas se aproximou, Tiriki pôs a mão primeiro sobre o coração e depois sobre a testa, na saudação que só era oferecida aos superiores iniciados de mais alto nível.

- Mestre Chedan Arados - murmurou ela -, que possais caminhar na Luz.

Damisa observou o sacerdote com interesse. Em toda a Atlântida, pelo menos na casta dos sacerdotes, o nome de Chedan Arados era muito conhecido. Ele havia sido um acólito na Terra Antiga, treinado na mesma época da mãe de Tiriki, Deoris, mas Chedan dera continuidade aos estudos até tornar-se Mago Emancipado. Depois da destruição da Cidade da Serpente Circulante, havia viajado muitíssimo. Mas, a despeito de suas várias visitas a Alkonath, Damisa nunca o tinha visto.

O mago era alto, de olhos calorosos, mas penetrantes, e tinha a barba farta de um homem maduro. Já havia forte tendência para a redondeza em sua barriga, mas com justiça não se podia dizer que ele era gordo. Sua vestimenta longa, feita do mesmo linho branco fino que as vestes usadas pelos sacerdotes comuns da Luz, era de um feitio visivelmente diferente, fechada com presilhas e botões em um ombro e pendendo solta até o tornozelo. Sobre seu peito havia um disco de cristal, uma lente na qual tremulavam finos raios branco-azulados que dardejavam e faiscavam como um peixe em um tanque.

- Eu caminho na Luz - respondeu o mago a Tiriki -, mas com demasiada freqüência o que vejo é escuridão. E isso é o que ocorre hoje.

O sorriso de Tiriki congelou.

- Nós vemos o que o senhor vê - disse ela baixinho, muito delicadamente -, mas não deveríamos falar disso aqui.

Micail e Tjalan, depois de completar as saudações mais formais entre príncipes, vigorosamente apertaram os pulsos um do outro. Enquanto seus braceletes tilintavam, a expressão séria de seus rostos de traços bastante parecidos, e nariz igualmente grande, cederam lugar a sorrisos calorosos.

- Fizeram boa viagem? - perguntou Micail enquanto os dois se viravam de braços dados, caminhando pelo cais.

- O mar estava bastante calmo - gracejou Tjalan com uma careta.

- Sua esposa não quis deixar Alkonath? Tjalan fungou alto para conter uma gargalhada.

- Chaithala está convencida de que as Ilhas de Estanho são uma selva horrorosa habitada por monstros, mas nossos mercadores vêm preparando um refúgio em Belsairath há muitos anos. Ela não vai passar tão mal. O fato de saber que ela e as crianças estão em segurança deixa minha mente livre para se dedicar à tarefa a cumprir aqui.

- E se todos nós estivermos errados e nenhum desastre acontecer? - perguntou Micail.

- Então ela terá passado uma temporada de férias bastante incomum e, provavelmente, nunca me perdoará. Mas estive conversando com Mestre Chedan durante a viagem e receio que as profecias de que tiveram conhecimento por aqui estejam mais do que corretas.

Damisa conteve um calafrio. Ela havia presumido que o ritual no Templo subterrâneo tivesse sido bem-sucedido, a despeito do colapso de Alyssa, porque os tremores de terra e os pesadelos haviam cessado. Agora ficou preocupada. Será que aqueles tremores haviam sido sentidos em Alkonath também? Estava tornando-se difícil garantir a si mesma que a visita de Tjalan não passasse de simples compromisso social.

- E quem é essa? Será que pode ser a pequenina Damisa, crescida e alta como uma mulher?

A voz fez com que Damisa virasse a cabeça. O terceiro viajante estava parado diante dela, agora com a capa atirada para trás, de modo a revelar uma túnica sem mangas e um saiote pregueado tão rebordado de brasões que ela piscou os olhos quando as roupas de cores vivas brilharam sob a luz do sol. Mas sabia que as roupas espalhafatosas cobriam um corpo musculoso e o punhal longo que pendia embainhado ao lado do corpo do homem, por mais exagerado que pudesse parecer, não era bugiganga de aristocrata. Ele era Antar, guarda-costas de Tjalan desde que eram meninos.

- E é Damisa - respondeu Antar à sua própria pergunta, os olhos escuros, como sempre em constante movimento, atentos a qualquer possível ameaça a seu senhor.

Damisa corou, dando-se conta de que agora todos os outros também estavam olhando para ela.

- Sempre se pode contar com você, Antar, a ser o primeiro a vê-la - observou Micail, sorrindo.

- Eu sempre confio em Antar a ser o primeiro a ver tudo - comentou Tjalan, com um sorriso igualmente largo. - Damisa! Que prazer, querida prima, encontrar uma flor de Alkona em meio a tantos lírios. - A atitude dele era carinhosa e acolhedora, mas à medida que avançava e se aproximava dele, Damisa soube com certeza que os dias de abraços infantis se haviam acabado para sempre. Ela estendeu a mão, e seu príncipe se inclinou para ela respeitosamente, se bem que com um brilho travesso nos olhos da cor do mar.

- Damisa, você de fato se tornou uma mulher - disse Tjalan com admiração. Mas ele soltou a mão dela e se virou mais uma vez para Tiriki. - Pelo que vejo, cuidou muito bem de nossa flor.

- Fazemos o que podemos, milorde. E agora - Tiriki entregou a cesta de frutas e flores à Damisa, enquanto dizia num tom de voz ressonante: - Permitamos que os representantes da cidade recebam e apresentem suas mais cordiais boas-vindas ao Príncipe de Alkonath. - Ela fez um gesto em direção à praça aberta contígua à entrada para o cais onde, como se por um passe de mágica, pavilhões carmesins haviam sido armados para sombrear mesas repletas de comida e bebida. Tjalan franziu o cenho.

- Acho difícil que tenhamos tempo... Tiriki, delicadamente, tomou-o pelo braço.

- Devemos adiar a discussão de qualquer assunto mais sério até que os senhores de terra cheguem de suas propriedades no interior. E se a gente do povo nos vir comer e beber juntos, isto encorajará a cidade. Faça nossa vontade, milorde, eu lhe suplico.

Como sempre, havia uma musicalidade subjacente às palavras de Tiriki, ressonante como a cadência de uma canção. Um homem teria de ser feito de pedra, refletiu Damisa, para resistir à doçura de sua súplica.

 

Micail olhou rapidamente ao redor do grande salão para se assegurar de que os criados já haviam acabado de pôr os jarros de cerâmica de limonada e as taças de vinho, e então balançou a cabeça dando permissão para que se retirassem. Os últimos raios de luz do dia penetravam através das janelas estreitas sob a cúpula alta e majestosa da Câmara do Conselho, iluminando a mesa circular e os rostos preocupados dos mercadores, senhores de terras e líderes que estavam sentados ao seu redor. Será que algum dia a força de Atlântida voltaria a se reunir com tamanha ordem e dignidade?

Micail se levantou de seu divã e esperou que as conversas cessassem. Para aquela reunião, ele havia conservado as insígnias da dignidade real que o distinguiam como príncipe, embora Tiriki tivesse retomado a veste e o véu brancos de simples sacerdotisa e estivesse sentada ligeiramente afastada para um lado. Reio-ta, vestindo os trajes cerimoniais de governador do Templo, havia ocupado um lugar à esquerda junto dos outros regentes.

Mais uma vez Micail sentiu agudamente que se encontrava entre dois reinos, o terreno e o espiritual. Ao longo dos anos ele sempre tinha visto suas duas identidades, a de Guardião Investido e a de Príncipe de Ahtarrath entrarem em conflito, mas naquela noite, talvez seu poder real pudesse lhe dar autoridade para impor a sabedoria do clero.

Se pelo menos isso for suficiente. Naquele momento, o que Micail sentia com mais intensidade era medo, mas os dados estavam lançados. Seu amigo Jaritaren deu-lhe um menear de cabeça encorajador. Fez-se silêncio na sala. Todos os olhos estavam cravados nele, carregados de tensão e expectativa.

- Meus amigos, herdeiros de Manoah, cidadãos de Atlântida, todos nós sentimos os tremores que sacodem nossas ilhas. Sim, ilhas - repetiu, em tom áspero, vendo os olhos de alguns dos senhores de terras se arregalarem -, pois os mesmos precursores do desastre sacudiram Alkonath, Tarisseda e outros reinos. De modo que nos reunimos aqui para, juntos, deliberarmos sobre a ameaça que está diante de todos nós. - Micail fez uma pausa e olhou lentamente ao redor da mesa.

- Ainda há muito que podemos fazer - declarou em tom encorajador -, pois, como certamente sabem, o império já enfrentou circunstâncias não menos terríveis e sobreviveu até - hoje. Mestre Chedan Arados - Micail fez uma pausa, permitindo que um burburinho de sussurros percorresse a câmara.

- Mestre Chedan, o senhor esteve entre os que escaparam da destruição da Terra Antiga. Pode nos falar agora sobre as profecias?

- Certamente. - O mago se levantou e encarou o grupo reunido com expressão grave.

- Chegou a hora de abrir-se o véu - declarou. - Serão revelados alguns segredos que, até o presente momento, só foram contados com a chancela e o voto de segredo da iniciação, mas isso era feito para preservar a verdade, para que ela fosse revelada na hora devida. Continuar a ocultar esses segredos, neste momento, seria um verdadeiro sacrilégio. Na verdade, a ameaça que enfrentamos tem suas mais profundas raízes em um sacrilégio cometido quase trinta anos atrás na Terra Antiga.

- Enquanto Chedan tomava fôlego, a barra de luz do sol que havia feito um halo ao redor de sua cabeça se moveu, deixando-o subitamente na sombra. Micail sabia que era apenas porque o sol estava descendo abaixo do horizonte, mas o efeito foi inquietador.

- E não foram homens comuns e sim sacerdotes - declarou Chedan muito claramente - que, numa busca desencaminhada por conhecimento proibido, desestabilizaram o campo magnético que harmoniza as forças conflitantes no interior da Terra. Toda a nossa sabedoria e todo o nosso poder foram suficientes apenas para retardar o momento em que a falha cedeu e, quando a última Cidade da Serpente Circulante afundou sob o mar interior, não foram poucos os que disseram que aquilo era apenas justiça. A cidade que havia permitido a profanação deveria pagar o preço disso, disseram eles. E quando, pouco depois, a própria Terra Antiga foi tragada pelo mar, embora os videntes nos advertissem de que as repercussões iriam continuar e que o desmoronamento se iria expandir ao longo da linha da falha, talvez fender e quebrar o mundo como um ovo, mesmo assim ousamos ter esperança de já termos visto a pior parte da destruição.

A expressão no rosto dos sacerdotes era séria, sombria - eles sabiam o que estava por vir. No rosto dos outros, Micail viu uma apreensão crescente à medida que Chedan continuava.

- Os recentes tremores em Alkonath e aqui são um último aviso de que a Ascensão de Dyaus - o Tempo do Final, como alguns o chamam - está muito próxima.

Àquela altura, a maior parte da câmara estava na escuridão. Micail fez sinal para um criado acender as lamparinas pendentes, mas a iluminação delas era fraca demais para o aposento.

- Por que não nos disseram? - gritou um mercador. - Tinham a intenção de manter esse segredo para que apenas os sacerdotes pudessem ser salvos?

- Mas o senhor não estava ouvindo? - Micail o silenciou. - Tornamos de conhecimento público os únicos fatos de que dispúnhamos à medida que os recebíamos. Deveríamos ter criado um pânico inútil ao proclamar previsões de um desastre que poderia não vir a ocorrer ao longo de um século?

- É claro que não - concordou Chedan. - Esse foi, na verdade, o erro cometido na Terra Antiga. Até o antevisto ser visto novamente, seus sinais não podem ser reconhecidos. É por isso que os maiores vaticinadores ficam impotentes contra o verdadeiro destino. Quando homens se preparam por um tempo demasiadamente longo contra um perigo que não chega, eles se tornam descuidados, e não conseguem responder quando, de fato, o momento chega.

- Se tiver chegado - zombou um preeminente senhor de terras. - Eu sou um homem simples, não sei nada a respeito do significado de luzes no céu, mas sei que Ahtarrath é uma ilha vulcânica. É absolutamente natural que ela trema de vez em quando. Mais uma camada de cinzas e lava servirá apenas para tornar a terra mais fértil.

Ouvindo murmúrios de concordância dos senhores dos vilarejos, Micail suspirou.

- Tudo que os sacerdotes podem fazer é dar avisos - disse ele, esforçando-se para não permitir que sua irritação crescente se manifestasse em sua voz. - O que os senhores farão a respeito disso cabe aos senhores mesmos decidir. Eu não obrigarei nem mesmo meus criados a abandonar seus lares. Posso apenas advertir a todos aqui presentes que a maioria dos Guardiões do Templo decidiu entregar nossa sorte e nossos deuses ao mar e só retornar à terra quando o cataclismo chegar ao fim. Digo isso na qualidade de príncipe do sangue, e nos esforçaremos para levar conosco tantos quantos pudermos. Reio-ta se levantou, meneando a cabeça em sinal de aprovação.

- Não devemos permitir que morra a verdade que o Templo protege. Enviaremos nossos Doze Acólitos e tantos... tantos outros mais para os quais pudermos encontrar lugar para embarcar nos navios, com nossa esperança de que pelo menos alguns deles consigam chegar em segurança a terras onde novos templos possam ser erigidos.

- Que terras? - exclamou alguém. - Os rochedos estéreis onde selvagens e animais são soberanos? Só tolos confiam no vento e no mar!

Chedan abriu os braços.

- Os senhores se esquecem de sua própria história - censurou. - Embora tenhamos nos mantido afastados do mundo desde a guerra com os helenos, não desconhecemos outras terras. Os navios de Atlântida já foram aonde quer que houvesse mercadorias para ser compradas ou vendidas, e desde a queda da Terra Antiga muitos de nossos sacerdotes os acompanharam. Em entrepostos comerciais, de Khem e da Hélade às Hespérides

e Zaiadan, eles suportaram a provação de um exílio solitário, aprendendo os costumes dos povos nativos, estudando seus deuses desconhecidos em busca de crenças que pudessem ter em comum, ensinando e praticando a arte da cura, preparando o caminho. Estou certo de que quando nossos viajantes chegarem, encontrarão boa acolhida.

- Aqueles que preferirem ficar não precisam temer a ociosidade - disse, inesperadamente, a sacerdotisa Mesira. - Nem todos os que estão no Templo acreditam que o desastre seja inevitável. Continuaremos a trabalhar com todos os nossos poderes para manter o equilíbrio aqui.

- Isso é algo que tenho prazer em ouvir - respondeu uma voz irônica, com o sotaque das terras do Oriente. Micail reconheceu Sarhedran, abastado capitão de navio, com seu filho Reidel logo atrás dele. - Outrora Ahtarrath dominou os mares mas, como nos recordou meu nobre senhor, nosso olhar se voltou para dentro. Mesmo se as pessoas pudessem ser convencidas a ir para essas terras estrangeiras, não teríamos embarcações para transportá-las.

- Foi exatamente por isso que viemos agora, com metade da frota de Alkonath, para oferecer ajuda. - Quem falou foi Dantu, capitão do navio em que Tjalan havia chegado. Se seu sorriso era pouco diplomático e mais triunfante do que deveria, havia motivo para isso. Os mercadores de Alkonath e Ahtarrath tinham sido ferrenhos rivais.

Naquele momento Tjalan interveio.

- Nesta hora de dificuldade, recordamo-nos de que somos todos filhos de Atlântida. Meus irmãos ficam para supervisionar a evacuação de Alkonath. É minha honra e meu grande prazer pessoal destinar oitenta de meus melhores veleiros “asas-de-pássaro” para a preservação do povo e da cultura desta grandiosa terra dos senhores.

Alguns ao redor da mesa ainda pareciam um bocadinho hostis, mas a maioria dos rostos começou a se abrir em sorrisos. Micail não conseguiu conter um largo sorriso endereçado a seu primo príncipe, embora mesmo oitenta naus, é claro, não pudessem salvar mais do que pequena parte da população.

- Então que esta seja a nossa decisão - declarou Micail, de novo assumindo o comando. - Os senhores voltarão para seus distritos e seguidores, e darão conhecimento a eles desta notícia da maneira que acharem mais apropriada. Sempre que necessário, o tesouro público de Ahtarrath será aberto para garantir compra de suprimentos para a viagem. Partam agora, façam os preparativos necessários. Não entrem em pânico, mas ninguém tampouco deve se retardar desnecessariamente. Nós suplicaremos aos deuses para que haja tempo.

- E o senhor estará em uma dessas embarcações, milorde? O sangue real de Ahtarrath abandonará a terra? Nesse caso, então, realmente estamos perdidos. - A voz era a de uma mulher idosa, uma das principais proprietárias de terras. Micail se esforçou para se lembrar do nome, mas antes que conseguisse, Reio-ta se agitou a seu lado.

- Os deuses ordenam que Micail deva ir para o exílio. - O homem mais velho respirou fundo algumas vezes para controlar a gagueira que de vez em quando ainda o afligia. - Mas eu também sou um Filho do Sol, unido por laço de sangue a Ahtarrath. Não importa o que acontecer, qualquer que seja a sorte que o destino reservar para os que permanecerem aqui, eu ficarei para partilhar a mesma.

Atônito, Micail conseguiu apenas olhar fixamente para seu tio, uma vez que o choque de Tiriki aumentava o seu. Reio-ta não lhes dissera nada a respeito disso. Eles mal ouviram as palavras finais de Chedan.

- Não cabe aos sacerdotes decidir quem viverá e quem morrerá. Não há quem possa dizer se aqueles que partirão terão melhor sorte do que os que ficarem. Nossos destinos resultam de nossas próprias escolhas, nesta vida e em todas as outras. Peço apenas que se recordem disso, e que escolham cuidadosamente, de acordo com a sabedoria que reside no íntimo de cada um dos senhores. Que Os Poderes da Luz e da Vida abençoem e protejam todos os senhores!

 

Chedan tirou seu ornato de cabeça e o enfiou debaixo do braço enquanto saía da Câmara do Conselho para o pórtico. O vento vindo do porto foi um sopro abençoado de frescor.

- As coisas correram melhor do que eu esperava - comentou Reio-ta, enquanto observava os outros descendo as escadarias. - Chedan, obrigado por suas palavras e auxílio.

- Eu fiz muito pouco até agora - retrucou Chedan, com um aceno em direção a Tjalan, que havia saído para se juntar a eles -, mas mesmo isso teria sido impossível sem a generosidade infinita de meu nobre primo.

O Príncipe Tjalan cerrou os punhos apertando-os contra o coração e se inclinou numa reverência antes de responder.

- Minha melhor recompensa é saber que servi à causa da Luz. - Subitamente deu um largo sorriso para o mago. - Tem sido meu professor e meu amigo e nunca me indicou um mau caminho.

A porta se abriu de novo e Micail, depois de ter aplacado os temores imediatos dos conselheiros mais ansiosos, veio se juntar a eles. Parecia preocupado. Até de fato ele ter embarcado num navio, teria a responsabilidade não só de cuidar da evacuação, mas também do bem estar daqueles que decidissem ficar.

- Nós lhes agradecemos, senhores - disse Micail com um gesto. - Eu sei que não desejaria enfrentar um conselho desse tipo depois de uma viagem marítima. Os senhores devem estar cansados. A hospitalidade de Ahtarrath ainda pode oferecer algum alimento e abrigo - ele conseguiu dar um sorriso - se me derem o prazer de me acompanhar.

Creio que você precisa mais de descanso do que eu, meu rapaz, pensou Chedan, mas sabia que não deveria mostrar a pena que sentia.

Os aposentos destinados ao mago eram espaçosos e agradáveis, com longas janelas para deixar entrar a brisa refrescante do mar. Chedan percebeu que Micail teria gostado de se demorar mais um pouco, mas, fingindo estar exausto, Chedan logo foi deixado sozinho.

Tão logo o som de passos se afastou, o mago abriu a bolsa e procurou dentro dela um par de botas marrons e uma capa de cor escura, do tipo que qualquer viajante poderia usar. Depois de vesti-las, rapidamente desceu para a rua, tomando cuidado para se manter despercebido, e se pôs a caminho, em meio ao crepúsculo sombrio, com tamanha autoconfiança que qualquer um que o visse passar pensaria que fosse um morador de uma vida inteira do emaranhado de aléias, ruelas e caminhos secundários dos recintos do Templo.

Na verdade, há muitos anos Chedan não visitava Ahtarra, mas as ruas pouco tinham mudado. Quase cada um de seus passos era seguido por ecos da juventude perdida, de amor perdido, vidas perdidas... Chedan fez uma parada ao lado do muro do norte do novo Templo, recoberto por trepadeiras, e encontrou uma porta lateral. Ela se abriu com bastante facilidade. Foi mais difícil fechá-la.

Ali dentro estava escuro, exceto por uma fieira de pedras alinhadas que brilhavam ligeiramente no piso e delineavam o caminho por um estreito corredor de serviço enfileirado de portas não identificadas. Chedan conseguiu percorrer o caminho depressa, até que subitamente chegou à arcada baixa de pedras ao seu final.

Estou ficando velho demais para este tipo de atalhos, refletiu o mago tristemente enquanto esfregava a cabeça. Eu poderia ter chegado mais depressa pela porta da frente.

Depois da arcada havia uma atravancada câmara abobadada, iluminada pelos degraus reluzentes de uma escada espiral. Chedan subiu cuidadosamente dois lances e saiu por um outro arco para chegar à sala coletiva de leitura, um amplo salão piramidal situado quase no topo do prédio. Projetado para captar ao máximo a luz do dia, agora estava quase inteiramente às escuras. Apenas algumas lamparinas de leitura ardiam aqui e ali.

Sob o foco de luz de uma delas, o Guardião Investido Ardral estava sentado sozinho diante de uma mesa larga, examinando o conteúdo de uma arca de madeira. Aproximando-se, Chedan mal conseguiu ver o tampo da mesa, devido ao amontoado de coisas que o cobriam: rolos de pergaminho, fragmentos de tabuletas de pedra gravadas, e o que pareciam ser cordões de contas coloridas.

A atenção de Ardral estava absorta na peça mais valiosa da coleção, uma curiosa espécie de livro longo e estreito, feito de tiras de bambu costuradas umas nas outras com fios de seda.

- Eu não sabia que vocês tinham o Códex Vimana aqui - comentou Chedan, mas Ardral ignorou a delicada tentativa de interrupção.

Com uma careta, o mago apoderou-se de um pequeno banco próximo e o arrastou ruidosamente até um lugar ao lado de Ardral.

- Eu posso esperar - declarou.

Ardral levantou a cabeça, com um sorriso largo e franco.

- Chedan - disse baixinho -, eu realmente não estava esperando por você até...

- Eu sei. - Chedan desviou o olhar. - Imagino que deveria ter esperado, mas acabei de sair da reunião do conselho.

- Minhas condolências - exclamou Ardral. - Espero ter sido bem-sucedido fornecendo a todos quaisquer informações de que necessitassem.

- Bem que pensei ter visto sinais de seu trabalho - comentou Chedan.

- Mas eu simplesmente não tinha condições de encarar mais uma repetição das inevitáveis trivialidades.

- Pois é, houve um bocado delas. Eles estão com medo - disse Chedan.

Ardral revirou os olhos.

- Com medo de que possam lembrar-se de por que ainda não estão prontos? Isso está se anunciando há muito tempo, meu sobrinho. E é exatamente como Rajasta previu, ainda que ele estivesse ligeiramente enganado quanto à data. Mesmo com a maior boa vontade do mundo, no Templo e na fazenda a maioria das pessoas simplesmente não consegue continuar ano após ano, em busca de uma saída para uma situação impossível que deixa de se apresentar na ocasião esperada! O anseio de retomar a rotina da vida... - Ardral se calou por um instante. - Bem, é isso, como você vê, até eu faço o mesmo. Aliás, por falar nisso, tenho uma coisa aqui guardada de que você costumava gostar muito. Talvez possamos ir resolver os problemas do mundo em particular, hein?

- Eu - Chedan piscou os olhos, depois olhou ao redor do salão mergulhado em sombras... Por um momento, vendo seu tio, ele se sentiu de novo muito jovem. - Sim, está bem - respondeu com uma risadinha, e depois com um sorriso de verdade. - Obrigado, tio.

- Isso mesmo, tenha ânimo - aprovou Ardral. Levantando-se, tratou de colocar o estranho livro de volta dentro da arca de madeira. - Só porque a eternidade nos está atropelando, não quer dizer que não possamos viver um bocadinho antes... - Trancando a arca, ele deu uma piscadela de olho para Chedan. - Dançaremos conforme a música que vier, seja ela qual for.

Durante a última visita de Chedan, Ardral havia ocupado um dormitório bastante decrépito, a uma pequena distância do templo. Agora, como curador da biblioteca, tinha um aposento espaçoso dentro dos muros do próprio templo.

O fogo ardeu com mais intensidade e brilho na lareira quando eles entraram, ou talvez já estivesse aceso. Chedan lançou um olhar rápido para as escassas peças de mobília, mas de bom gosto, enquanto Ardral trazia duas taças de prata filigranada, e abria um cântaro preto e amarelo de vinho de mel. - Tewir? - exclamou o mago.

Ardral assentiu.

- Atrevo-me a dizer que não existe mais que uma dúzia de garrafas.

- O senhor me honra, tio. Mas receio que a ocasião não seja digna disso. - Com um suspiro, Chedan acomodou-se num divã cheio de almofadas.

Ali, em companhia do tio, bebendo teli‘ir, era quase como se o Império Luminoso ainda governasse ambos os horizontes. Como se o tempo quase não houvesse passado. Ele não era mais o culto e experiente Chedan Arados, o grande Iniciado dos Iniciados, aquele de quem se esperava que partissem respostas, soluções, esperança. Podia ser ele mesmo.

Embora os dois não tivessem sido especialmente íntimos antes da queda da Terra Antiga, Chedan conhecia Ardral durante a vida inteira - de fato, anos antes que ele se tornasse um acólito, por um breve período seu tio havia sido seu professor particular. Muitos anos tinham se passado desde então, mas Ardral não parecia nem um pouco mais velho. Havia, sem dúvida, novas rugas e vincos na face expressiva e móvel, e a espessa cabeleira de fios castanhos perdera a cor e tornara-se menos farta... Se Chedan olhasse bem atentamente, poderia encontrar esse tipo de marcas da idade, mas esses ligeiros detalhes não mudavam a identidade interior dele que, de alguma forma, mantivera-se exatamente a mesma.

- É um grande prazer vê-lo, tio - observou.

Ardral sorriu e tornou a encher as taças.

- Estou contente por você ter chegado aqui - respondeu ele. - As estrelas não têm sido tranqüilizadoras para viajantes.

- Não - concordou Chedan -, e o tempo está pouco melhor do que elas, embora Tjalan me diga para não me preocupar. Mas, como o senhor abordou o assunto, deixe-me lhe perguntar - sua cabeça está sempre lúcida...

- Só por mais um momento - galhofou Ardral, e rapidamente bebericou mais vinho.

- Ora! - zombou Chedan. - O senhor sabe o que quero dizer. Nunca foi uma pessoa que se deixasse enganar facilmente por presunções ou lendas. O senhor só vê o que realmente está diante de si, ao contrário de alguns, mas isso não importa.

- Certa vez, anos atrás - persistiu Chedan - o senhor me falou das outras profecias de Rajasta, e de seus motivos pessoais para acreditar nelas. Esses motivos mudaram?... Eles mudaram? - repetiu ele, inclinando-se para mais perto do tio. - Não há alguém vivo que conheça melhor as obras de Rajasta do que o senhor.

- Suponho que não - disse Ardral em tom frio, enquanto comia um pedaço de queijo.

Sem se amedrontar, Chedan prosseguiu:

- Todo mundo se concentrou nos elementos trágicos da profecia. A destruição de Atlântida, a perda inevitável de vidas, a remota possibilidade de sobrevivência. Mas se alguém compreende a escala maior da profecia, é o senhor - o que era, o que é, e...

- Você vai ser maçante e insistir com relação a isso, não vai? - resmungou Ardral, sem seu sorriso habitual. - Está bem. Só desta vez, vou responder à pergunta que você não consegue formular. E depois vamos deixar este assunto de lado, pelo menos por esta noite!

- Como o senhor quiser, tio - disse Chedan, obedientemente como uma criança.

Com um suspiro, Ardral enfiou os dedos nos cabelos, despenteando-os ainda mais.

- A resposta curta é sim. É justamente o que Rajasta temia. O inevitável está acontecendo, e pior, ele ocorre sob exatamente o tipo de condições que leva os praticantes medíocres de horologia a ter ataques. Ora! Eles são desatentos e com muita facilidade se desviam das muitas influências positivas - é como se quisessem pensar o pior. Mas, sim, sim, não podemos negá-lo, Adsar, a Estrela Guerreira definitivamente mudou seu curso em direção ao Chifre do Carneiro. E esse é precisamente o alinhamento que os textos antigos chamam de a Guerra dos Deuses. Mas os antigos claramente não dizem que tal configuração significará coisa alguma para o mundo mortal! E a vaidade humana habitual. Muito previsível.

Por alguns momentos houve silêncio, enquanto Ardral mais uma vez enchia sua taça, e Chedan tentava pensar em alguma coisa para dizer.

- Você compreende? - perguntou Ardral, com grande gentileza. - Não adianta ficar pensando nesse tipo de coisas. Nós vemos apenas a bainha da vestimenta, como se costuma dizer. De modo que, esqueça isso. As coisas ficarão caóticas o suficiente durante os próximos dias. Não vai haver muito tempo para sentar calmamente e não fazer nada. - Apesar disso, ele levantou a taça, com uma solenidade zombeteira. - Em horas como essas...

Sem conseguir conter o riso, a despeito de seus pensamentos sombrios, Chedan repetiu com ele o velho refrão:

“Não existe nada melhor que nada para acalmar a mente!” Como se embala uma vida para partir?

Micail olhou para a confusão de objetos empilhados sobre seu divã e sacudiu a cabeça. Parecia uma triste e pequenina seleção à luz da manhã. Três quartos por necessidade para um quarto por saudade?

Todos os navios, é claro, estariam aprovisionados com objetos de uso prático tais como roupas de cama, sementes e medicamentos. Enquanto isso, os acólitos e alguns cheias de confiança tinham sido encarregados da tarefa de embalar os rolos de pergaminho, as insígnias da dignidade real, usando listas que o Templo havia preparado muito tempo antes. Mas esses objetos, na verdade, eram todos para uso público. Ficava a critério de cada passageiro escolher tantos de seus objetos de uso pessoal quantos coubessem num saco de viagem para que ele ou ela levasse consigo para a travessia do mar.

Ele havia feito isso uma vez antes, quando tinha doze anos, ao deixar a Terra Antiga onde havia nascido para vir para aquela ilha que era sua herança. Naquela ocasião ele deixara para trás sua infância.

Bem, eu não vou mais encabeçar procissões subindo a Montanha Estrela. Por mais um momento ele examinou o manto cerimonial lindo, ricamente bordado com uma teia de espirais e cometas. Com uma ínfima pontada de pesar, atirou-o para o lado e começou a dobrar um par de túnicas simples de linho. O único manto de seu ofício que ele dobrou para levar foi um tecido em fios de seda branca, tão delicado que era luminoso e o manto azul que o acompanhava. Com os ornamentos de seu sacerdócio, aquilo bastaria para o trabalho de rituais. E sem um país eu não serei mais um príncipe. Será que isso seria um alívio, perguntou-se, ou ele sentiria falta do respeito que seu título lhe trazia?

O símbolo não é nada, recordou a si mesmo; a realidade é tudo. O verdadeiro iniciado deve ser capaz de dar continuidade a seu ofício sem quaisquer emblemas ou decorações. “A mais importante ferramenta do mago está aqui”, costumava dizer o velho Rajasta, batendo de leve na testa com um sorriso. Por um instante Micail teve a sensação de estar de volta à Casa dos Doze na Terra Antiga. Sinto muitíssima falta de Rajasta, pensou Micail, mas estou feliz por ele não ter vivido para ver este dia.

O olhar dele vagou até se deter na árvore de plumas em miniatura em seu vaso no parapeito da janela, a folhagem verde-clara reluzia ao sol da manhã. Havia sido um presente de sua mãe, Domaris, não muito depois de ele ter chegado a Ahtarrath, e desde então ele a havia regado, podado, cuidado dela. Quando pegou o vaso, ouviu as passadas suaves de Tiriki no corredor.

- Meu querido, você realmente está planejando levar a arvorezinha?

- Eu não sei. - Micail pôs o vaso de volta na janela e se virou para Tiriki com um sorriso. - É uma pena abandoná-la depois de ter cuidado dela por tanto tempo. - Ela não vai sobreviver no saco de viagem - observou Tiriki, aproximando-se para que ele a tomasse nos braços.

- É verdade, mas poderia haver um espaço para ela em algum lugar. Se decidir se devo ou não levar a pequena árvore fosse a mais difícil de minhas escolhas... - As palavras morreram de repente na garganta de Micail.

Tiriki levantou a cabeça, seus olhos buscaram os dele e seguiram seu olhar em direção à janela. As delicadas folhinhas da pequenina árvore estremeciam, tremulando, embora não houvesse vento algum.

Percebido mais do que ouvido, o roncar subsônico abaixo e por toda parte ao redor deles tornou-se uma vibração sentida nas solas de seus pés, de longe muito mais violenta do que o tremor que haviam sentido no dia anterior.

Não de novo! Pensou Micail, numa súplica, ainda não, não agora...

Do cume da montanha, uma pluma de fumaça se elevou para macular o céu claro.

O piso ondulou. Ele agarrou Tiriki e a puxou em direção à porta. Apoiados sob seu umbral, teriam alguma proteção se o teto desabasse. Seus olhos se cravaram uns nos do outro de novo, e sem necessidade de palavras, eles sincronizaram a respiração, entrando no estado de desligamento concentrado do transe. Cada inspiração e exalação levava-os a um transe mais profundo. Unidos, ambos tinham maior percepção das tensões desencadeando-se no interior da terra, e ficavam menos vulneráveis a elas.

- Forças de Terra não se movam! - ordenou ele em um grito, lançando mão de toda a autoridade de sua herança. - Eu, Filho de Ahtarrath, Caçador Real, Herdeiro da Palavra do Trovão, ordeno! Fiquem em paz!

Do céu vazio veio o trovão, ecoado por um ronco que ressoou muito longe. Tiriki e Micail podiam ouvir o tumulto e o clamor de gritos no palácio e os sons de coisas batendo, caindo e quebrando por toda parte.

O tremor finalmente cessou, mas não a tensão. Pela janela, Micail viu que o cume da Montanha Estrela havia desaparecido - não, não havia desaparecido, havia se deslocado. Fumaça ou poeira subia por toda parte ao redor da inconfundível pequenina pirâmide à medida que, ainda em brasa, ela deslizava lentamente em direção à cidade.

Micail fechou os olhos com força e mais uma vez saiu de si enquanto um ataque furioso e turvejante de energias o açoitava. Ele tentou visualizar as camadas de rocha que formavam a ilha, mas a visão do continente apareceu apenas por um instante e se alterou, até que finalmente se tornou a imagem dos braços cruzados do homem sem rosto, amarrado e acorrentado, mas se debatendo, que havia assombrado os sonhos deles. Seus músculos se flexionaram e os elos das correntes se partiram enquanto o homem lutava contra suas amarras.

- Quem é você? QUE SIGNIFICA ISSO? - Ele não se deu conta de que estivera gritando até que sentiu os pensamentos de Tiriki dentro dos seus.

“É o Não Revelado!” - veio o grito mental dela. “Dyaus! Não olhe para os olhos dele!”

Ao ouvir isso, a visão se levantou, rosnando. O chão tremeu de novo, mais violentamente que antes, e o tremor não parou. Micail havia crescido ouvindo as histórias sussurradas do deus Dyaus, invocado para trazer mudanças por Magos da Ordem Cinza da Terra Antiga. Em vez disso, ele havia trazido o caos cujas reverberações, finalmente, haviam acabado por destruir aquela terra e agora pareciam prestes a destruir Atlântida também. Mas ele nunca estivera na cripta onde aquela imagem estava acorrentada.

“Eu não consigo contê-lo! Ajude-me!”

Imediatamente Micail sentiu o ímpeto inabalável da compaixão de Tiriki.

“Que a Luz equilibre a Escuridão”. Seu pensamento tornou-se uma canção.

“E a Reação, o Repouso “ - acompanhou ele.

“Que o Amor equilibre o Ódio”. O calor cresceu entre as mãos dadas dos dois.

“O Masculino, o Feminino”. Luz cresceu entre eles, gerando o poder de transformar as tensões das forças opostas.

“Existe Luz - Existe Forma Existe Sombra e Ilusão e Proporção”.

Um longo tempo pareceu passar enquanto eles ficaram parados assim, à medida que o ulular ininteligível do deus acorrentado foi desaparecendo gradualmente, de má vontade, contrariado. Quando afinal o tremor cessou, Micail respirou fundo e deu um suspiro de alívio, embora sua percepção sensibilizada e muito aguçada sentisse os tremores constantes abaixo do equilíbrio que eles haviam imposto à ilha.

- Acabou. - Tiriki abriu os olhos com um suspiro.

- Não - respondeu ele em tom abatido -, está apenas contido, por um breve tempo. Minha amada... - Faltaram-lhe as palavras, e ele a abraçou mais apertado. - Eu não teria conseguido fazer recuar aquela força sozinho.

- Será que temos tempo?

- Pergunte aos deuses - respondeu Micail. - Mas pelo menos, agora ninguém vai duvidar de nosso aviso. - Ele olhou para além dela; os ombros se curvaram quando viu, caídas no chão abaixo da janela com o vaso despedaçado, a terra espalhada e as raízes nuas de sua pequenina árvore de plumas.

Pessoas morreram neste terremoto, disse a si mesmo. A cidade está em chamas. Isto não é hora de chorar por causa de uma árvore. Mas enquanto enfiava um par a mais de sandálias na bolsa, seus olhos ardiam com as lágrimas.

 

O estado de espírito da cidade sem dúvida havia se alterado, pensou Damisa, enquanto ia caminhando cuidadosamente ao redor de uma pilha de escombros e prosseguia em direção ao porto. Depois do terror bem cedo de manhã, o sol claro e forte parecia uma zombaria. A fumaça de uma dúzia de prédios em chamas havia tingido a luz de estranho tom dourado escuro. De vez em quando, uma vibração na terra lhe recordava que, embora a poeira de seu cume derrubado tivesse se dispersado, a Montanha Estrela ainda estava despeita.

As tavernas estavam repletas, movimentadas como nunca, vendendo vinho para aqueles que preferiam afogar o medo em vez de tomar providências para se salvar do mar, mas exceto por isso o mercado estava deserto. Uns poucos teimavam em dizer que o tremor da manhã seria o último, mas a maioria das pessoas estava em casa, arrumando seus objetos de valor para levar para o navio ou para o campo. Do telhado da Casa dos Doze, Damisa tinha visto as estradas repletas de carroças. As pessoas estavam se dirigindo para os portos ou para as colinas no interior da ilha, ou para qualquer lugar que ficasse distante da Montanha Estrela, cuja coroa em forma de pirâmide havia se detido precariamente depois de descer mais ou menos metade da encosta. Do novo cume achatado, um penacho de fumaça continuava a se elevar, numa promessa constante de mais violência.

E pensar que houve momentos em que ela resistiu à serenidade ordeira do Templo, à sua incessante imposição de paciência e disciplina. Se aquela manhã era uma prova do que estava por vir, ela desconfiava de que brevemente se estaria lembrando de sua vida lá como um paraíso.

Diante da situação crítica, até os doze acólitos tinham sido convocados para trabalhar como simples mensageiros. Damisa havia se apoderado do bilhete endereçado ao príncipe Tjalan, e tinha a firme intenção de entregá-lo. Determinada, foi andando nas pontas dos pés ao redor de uma poça de líquidos nocivos que vazavam de um mercado e enveredou por uma ruela fedorenta que descia para a orla.

Os pátios do porto estavam cheios de gente e barulhentos como em qualquer dia normal, mas agora havia uma histeria contida com dificuldade. Ela puxou o véu para o lugar certo e apressou o passo em direção ao burburinho. Damisa ouvia o sotaque arrastado de Alkonath em todos os cantos para onde se virava. Deve ter sido algum tipo de instinto que lhe permitiu distinguir a voz de Tjalan, ressonante acima das conversas dos homens que trabalhavam duro para alojar uma centena de tipos diferentes de equipamentos.

À medida que se aproximava, ouviu o marinheiro com quem o príncipe estava falando.

- Que importância tem se as sementes em grão forem colocadas acima ou abaixo dos fardos de pano?

- Você come pano? - perguntou Tjalan com aspereza.

- Linho molhado secará, mas cevada encharcada de água salgada vai mofar, não vai crescer. Portanto, trate de voltar lá para baixo homem, e dessa vez faça direito!

Damisa ficou aliviada ao ver a expressão do príncipe se suavizar quando a reconheceu.

- Minha querida, como vão as coisas lá no alto? - Um aceno de sua mão indicou os templos e o palácio na colina.

- Como estão as coisas por toda parte? - Damisa tentou manter a voz controlada, mas teve de desviar o olhar. - Ah!

- ela se animou. - Mas há boas notícias! Os sacerdotes que ficam de serviço no cume da Montanha Estrela realmente sobreviveram! Todos eles chegaram há cerca de uma hora, exceto o chefe. Ele mandou um recado dizendo que mora naquele pico desde que era menino, de modo que se a montanha quiser se livrar da pirâmide, ele retornará ao cume sem ela.

Tjalan deu uma gargalhada.

- Já conheci homens como ele - de todo entregues à Misericórdia dos Deuses’, como se costuma dizer. É possível que ele viva mais do que todos nós!

- Existem alguns - ela viu-se dizer - que crêem que quando a terra começou a tremer, nós deveríamos ter feito uma oferenda especial...

Tjalan pestanejou, franzindo o cenho.

- Minha doce menina - nem sequer pense nesse tipo de coisas! - Seu rosto bronzeado ficou tenso e pálido. - Nós não somos bárbaros que sacrificam crianças! Os deuses estariam certos em nos destruir se fôssemos!

- Mas eles estão nos destruindo - balbuciou ela, incapaz de desviar o olhar do pico achatado e fumegante.

- Eles sem dúvida estão desfazendo as ilhas - Tjalan corrigiu com delicadeza. - Mas, antes, nos concederam um aviso, não é verdade? Primeiro através das profecias e agora com os tremores. Deram-nos tempo para preparar um meio de escapar... - O gesto dele abarcou os navios, as pessoas, as caixas, sacas e barris de provisões. - Nem mesmo os deuses podem fazer tudo por nós!

Ele é tão sábio quanto um sacerdote. Damisa admirou a força de seu perfil enquanto ele se virava para responder a uma pergunta do capitão, um homem chamado Dantu. Eu posso me orgulhar de ser parente de sangue de um homem como esse, pensou, e não pela primeira vez. Originalmente ela não havia sido destinada ao Templo; sua avó a propusera como candidata para os Doze. Quando ela, menininha, sonhou com um casamento na realeza, Tjalan tinha sido seu modelo de um consorte à sua altura. Era um alívio descobrir que um julgamento mais maduro confirmava sua opinião original. Ele fazia com que Kalhan parecesse o menino tolo que era.

- Atenção, comportem-se! - O príncipe estava olhando furioso para um grupo de marinheiros que tinham parado de trabalhar para olhar, embasbacados, para duas altas e atraentes moças sajis, envoltas em mantos cor de açafrão, que puxavam uma carroça cheia de embrulhos do Templo de Caratra.

Um dos homens estalou os lábios e fez um som alto de beijo para as garotas que deram risadinhas atrás de seus véus.

- Eu bem que gostaria de embarcar vocês no porão de meu navio. . .

- Vocês aí! - repetiu Tjalan. - Tratem de voltar para o trabalho. Elas não são para gente como vocês!

Para que eram as sajis tinha sido objeto de muitas discussões furiosas entre os acólitos. Em tempos antigos, dizia-se, as sajis tinham sido treinadas para ser assistentes em certos tipos de magia que envolviam energias sexuais. Damisa estremeceu com um arrepio, feliz com o fato de que ainda não tinha experiência suficiente para imaginar quais poderiam ser essas energias. Os acólitos eram livres para ter amantes antes de se casarem, ela, porém, era cheia de melindres demais para fazê-lo e Kalhan, escolhido para seu noivo por algum misterioso procedimento de astrologia, não fazia com que se sentisse tentada a experimentar antes da hora.

- Eu quase esqueci! - exclamou. - Trouxe uma lista de candidatos para viajar no navio real, com o senhor. - Enquanto o Príncipe Tjalan se virava de novo para ela, Damisa abriu o estojo de rolos e entregou-lhe o pergaminho.

- Ah, sim - murmurou ele, percorrendo de alto a baixo, com o dedo, a lista de nomes. - Humm. Não sei se isto é um alívio ou não... - Ele acenou com o papel para ela. - Posso ver ao lado disso, como uma sombra, a lista dos que não escaparão - seja porque escolheram ficar, ou porque não há lugar suficiente. Eu tinha a esperança de que as únicas decisões que me seriam exigidas tratassem dos locais onde acomodar os equipamentos.

Damisa ouviu a amargura em sua voz e teve de conter um forte impulso de lhe estender a mão.

- Lorde Micail e Lady Tiriki viajarão com o capitão Reidel, mas eu estou em sua lista - disse ela baixinho.

- Sim, minha florzinha, e estou muito contente com isso! - O olhar de Tjalan voltou-se de novo para o rosto dela, e sua expressão séria se abrandou. - Quem teria pensado que minha priminha magricela cresceria e iria se tornar tão...

Um outro chamado de Dantu interrompeu lá o que fosse que ele estivesse a ponto de dizer, mas por muito tempo Damisa guardaria com carinho aquelas últimas palavras. Tjalan havia reparado que ela agora estava crescida. Tinha realmente olhado para ela e a vira. Sem dúvida, a palavra que não tivera a oportunidade de dizer era “bonita” ou “encantadora” ou até mesmo “linda”.

 

A casa onde Reio-ta morava com Deoris se localizava numa ladeira próxima do Templo, com vista para o mar. Quando criança, Tiriki tinha morado na casa das sacerdotisas com sua tia Domaris. Eles a tinham trazido para Ahtarrath nos primeiros anos de vida para salvá-la do perigo que ela corria por ser filha do Mago da Veste Cinza, cuja magia havia despertado a maldade de Dyaus. Deoris temera a morte de sua filha até ela vir para Ahtarrath e elas tornarem a se encontrar. Àquela altura, Tiriki considerava Domaris sua mãe e foi somente depois da morte de Domaris que Tiriki passou a morar com Deoris.

Agora, enquanto subia a larga escadaria da casa, de braço dado com Micail, não conseguiu conter um súbito suspiro de admiração provocado pela harmonia da construção e dos jardins ao seu redor. Quando criança, confusa e enlutada pela morte da tia, tinha dado pouca atenção aos lugares onde estava, e quando afinal a dor da perda se abrandara, ela já havia aprendido a andar por ali bem demais para ser capaz de realmente ver o que era o lugar.

- Que glorioso! - exclamou Chedan, que subia logo atrás deles, em palavras fazendo eco a seu pensamento. - É uma triste realidade que geralmente só apreciemos as coisas mais profundamente quando estamos prestes a perdê-las.

Tiriki assentiu e discretamente enxugou uma lágrima. Quando isto tiver desaparecido, com que freqüência eu lamentarei todas as vezes que passei por este caminho sem parar para realmente olhar?

Os três se detiveram por um momento, contemplando o oeste. De onde estavam a maior parte da cidade destruída estava escondida pelos telhados resplandecentes do bairro do Templo. Para além deles havia apenas o azul ambíguo do mar.

- Parece tão pacífico! - comentou Chedan.

- É ilusão - retrucou Micail entre dentes, enquanto os conduzia pelo pórtico. Tiriki teve um calafrio quando eles atravessaram a ponte decorativa que sempre, recordou a si mesma, havia balançado ligeiramente sob o mais leve dos passos, mas desde o tremor da manhã, ela havia se tornado consciente de modo sobrenatural das tensões acorrentadas na terra. Sempre que qualquer coisa estremecia, ela ficava tensa e se perguntava se o horror estava prestes a começar de novo.

Ali, observou, não havia pilhas caóticas de lembranças e de coisas descartadas, nada do alvoroço frenético que dominava o resto da cidade. Apenas uma criada de voz calma, esperando para acompanhar os visitantes até Reio-ta e Deoris. O coração de Tiriki se contraiu com uma premonição de que a missão que os trazia ali iria fracassar. Claramente, seus pais não tinham intenção de partir.

Chedan havia entrado à sua frente na ampla câmara com vista para os jardins, e estava parado, saudando Deoris. Pareceu a Tiriki que a voz dele tremia enquanto proferia as palavras convencionais. Só gostaria de saber o que teria sido Chedan para sua mãe, quando juntos haviam sido jovens na Terra Antiga? Será que ele via a sacerdotisa madura, com fios prateados entremeados, aqui e ali, nas trancas negro-avermelhadas, enroladas e presas como um diadema acima de sua fronte, ou a sombra de uma moça rebelde de olhos tempestuosos e um emaranhado revolto de cabelos escuros cacheados - a moça que Domaris havia descrito quando falava da mãe de Tiriki, antes que Deoris viesse para Ahtarrath da Terra Antiga. .- Já acabaram de arrumar as coisas para a viagem? - perguntou Reio-ta. - O Templo está preparado para a evacuação, e os acólitos prontos para partir? - O modo de falar do governador não tropeçava mais do que de costume. A julgar por seu tom de voz, aquele poderia ser um dia perfeitamente comum.

- Sim, tudo está correndo bem - respondeu Micail - ou pelo menos tão bem quanto se pode esperar. Alguns dos navios já partiram. Pretendemos nos fazer ao mar na maré da manhã.

- Poupamos espaço mais do que o suficiente no navio de Reidel para acomodar os dois - acrescentou Tiriki. - O senhor e a senhora têm de vir! Mãe, pai - ela estendeu as mãos espalmadas. - Precisaremos da sabedoria dos senhores. Precisaremos dos senhores!

- Eu também amo você, querida, mas não seja tola. - A voz de Deoris soou baixa e vibrante. - Eu preciso apenas ver vocês dois para saber que já lhes demos tudo de que precisam.

Reio-ta assentiu, os olhos calorosos sorriram.

- Já se esqueceram de que eu dei minha palavra diante do conselho? Enquanto qualquer indivíduo de meu amado povo permanecer nesta terra eu... eu também ficarei.

Tiriki e Micail trocaram um olhar rápido, mas expressivo. Está na hora de tentar o outro plano.

- Então, caro tio - disse Micail em tom ponderado -, nós devemos beber muito da fonte de seus conselhos enquanto podemos.

- T... terei muito prazer - respondeu Reio-ta, com uma modesta inclinação de cabeça. - Talvez o senhor, Mestre Chedan, queira beber, alguma coisa mais doce? Posso oferecer várias boas safras. Tivemos alguns anos notáveis, durante sua ausência.

- O senhor me conhece bem demais - disse baixinho o mago.

Micail deu uma gargalhada.

- Se Reio-ta não tivesse oferecido - prosseguiu ele, falando sem rodeios -, sem dúvida Chedan teria pedido. - Trocando um olhar com Tiriki, Micail acenou com a cabeça em direção ao jardim, como se para dizer, Vocês duas poderiam ir conversar a sós lá fora.

- Venha, mãe - chamou Tiriki em tom alegre. - Deixemos que os homens celebrem suas pequenas cerimônias. Que tal darmos um passeio em seu jardim? Acho que isto é do que mais vou sentir falta.

Deoris levantou uma sobrancelha, primeiro para Tiriki e depois para Micail, mas permitiu que sua filha a tomasse pelo braço sem nenhum comentário. Enquanto passavam pelas portas abertas, elas ainda puderam ouvir Chedan fazer o primeiro brinde.

O jardim do pátio que Reio-ta mandara construir para sua esposa era singular em Ahtarrath e, desde a queda da Terra Antiga, talvez único no mundo. Havia sido projetado como um lugar para meditação, uma recriação do paraíso primai. Mesmo agora a brisa ainda era acompanhada pelo som doce do trinado constante dos passarinhos canoros, e o cheiro das ervas ao mesmo tempo aromático e pungente perfumava o ar. A sombra dos salgueiros, os pés de hortelã cresciam verdejantes e plantas que adoravam muita água abriam flores viçosas, enquanto pés de sálvia e artemísia e outras ervas aromáticas haviam sido plantados em canteiros mais altos para receber o sol. Os espaços entre as lajes eram preenchidos com as minúsculas folhas e flores azul-claras de trepadeiras de tomilho.

O próprio caminho curvava-se numa espiral tão graciosa que mais parecia ser obra da natureza do que arte, conduzindo para o interior da gruta onde a imagem da Deusa ficava colocada num relicário, semi-oculta por um véu de ramos pendentes de jasmim, cujas flores brancas e delicadas enchiam o ar cálido de seu próprio perfume.

Tiriki se virou e viu os grandes olhos de Deoris cheios de lágrimas.

- Que foi? Devo admitir que ainda tenho esperança de que a senhora finalmente esteja disposta a temer o que com certeza está por vir, se isso puder persuadi-la...

Deoris sacudiu a cabeça com um estranho sorriso.

- Então lamento desapontá-la, minha querida, mas francamente o futuro nunca teve qualquer poder de me assustar. Não, Tiriki, eu estava apenas me recordando. Mal parece que dezessete anos atrás nós estávamos paradas exatamente aqui, neste lugar - ou não - era lá em cima no terraço. Este jardim mal havia acabado de ser plantado na época. Agora olhe só para ele! Há flores aqui cujos nomes eu ainda não conheço. Sinceramente não sei por que as pessoas querem vinho; por vezes sou capaz de ficar bastante inebriada só com os perfumes que há por aqui.

- Dezessete anos atrás? - Tiriki questionou, num tom um pouco duro demais.

- Você e Micail não eram mais que crianças - Deoris sorriu - quando Rajasta veio. Você se lembra?

- Lembro - respondeu Tiriki. - Foi pouco antes de Domaris morrer. - Por um instante ela viu seu próprio sofrimento estampado nos olhos da mãe. - Ainda sinto muita falta dela.

- Ela me criou também, você sabe, com Rajasta, que foi mais um pai para mim que meu próprio pai - disse Deoris, em voz baixa. - Depois que minha mãe morreu, e meu pai estava ocupado demais cuidando do Templo para nos dar atenção, Rajasta ajudou a cuidar de nós e Domaris foi a única mãe que conheci.

Embora ela já tivesse ouvido aquelas mesmas palavras um milhar de vezes, Tiriki rapidamente estendeu a mão com compaixão.

- Então fui muito afortunada, por ter tido duas!

Deoris assentiu.

- E eu fui abençoada por ter você, filha, por mais tarde que a tenha conhecido! E por ter Galara, é claro - acrescentou ela, com uma expressão quase de censura.

A grande diferença de idade entre Tiriki e a filha que Deoris tinha com Reio-ta lhes dera poucas oportunidades de se conhecerem. Ela conhecia muito mais Nari, o filho que Deoris teve para cumprir sua obrigação de ter um filho de casta sacerdotal, que se havia tornado sacerdote em Tarisseda Menor.

- Galara - Tiriki refletiu um pouco. - Ela agora está com treze anos?

- Sim. Exatamente a mesma idade que você tinha quando Rajasta me trouxe para cá. Ele era um eminente sacerdote na Terra Antiga, talvez nossa maior autoridade no significado dos movimentos das estrelas. Ele interpretou seu significado como sendo que teríamos sete anos, mas foi a data de sua própria morte que ele predisse. Na ocasião, pensamos que talvez tivesse estado completamente enganado. Tivemos esperança... - Ela arrancou um ramo com folhas de lavanda e o girou entre os dedos enquanto elas caminhavam. O perfume intenso e agradável encheu o ar. - Mas eu não deveria reclamar; tive mais dez anos para amar você e para desfrutar este belo lugar. Eu deveria ter morrido ao lado de seu pai, muitos, muitos anos atrás!

Elas completaram um circuito do caminho espiral e agora estavam mais uma vez defronte ao relicário da Mãe.

Tiriki se deteve, ao se dar conta de que sua mãe estava falando não de Reio-ta, que tinha sido um padrasto amável e bondoso, mas de seu verdadeiro pai.

- Riveda - murmurou, e em sua boca o nome era como uma maldição. - Mas a senhora era inocente. Ele usou a senhora!

- Não inteiramente - respondeu Deoris com simplicidade. - Eu... eu o amava. - Ela se virou para olhar para a filha, fitando-a com aqueles olhos tempestuosos cuja cor mudava rapidamente do cinza para o azul. - O que você sabe de Riveda, ou melhor, o que você pensa que sabe?

Tiriki escondeu o cenho franzido e o olhar de censura atrás de uma flor.

- Ele era um mestre na arte da cura, cujos tratados sobre medicina tornaram-se o modelo para nossa formação atual - apesar de ter sido executado por praticar magia negra! - Ela baixou a voz. - O que mais preciso saber? - perguntou, forçando um sorriso. - Em todos os sentidos que importam, Reio-ta foi meu pai.

- Ah, Tiriki, Tiriki! - Deoris sacudiu a cabeça, os olhos cheios de pensamentos secretos. - É verdade, Reio-ta nasceu para ser um pai, e um bom pai. Mas apesar disso existe um dever de sangue que é diferente do respeito que você deve ao homem que a criou. Você precisa compreender o que Riveda estava buscando e por que motivo ele caiu.

Elas chegaram ao centro da espiral, onde a Deusa sorria serenamente através da cortina de flores. Deoris fez uma pausa e baixou a cabeça numa reverência. Atrás dela havia um banco de jardim esculpido em pedra, marchetado com um desenho dourado de tartarugas. Ela se deixou cair sentada nele como se suas pernas não tivessem mais forças para carregar tanto ela quanto o peso de suas lembranças.

Tiriki fez uma mesura para a Força que a imagem representava, depois se recostou apoiada numa oliveira próxima e cruzou os braços sob os seios. Não era a Grande Mãe, e sim a mulher que lhe dera à luz cujas palavras lhe interessavam agora.

- Seu pai tinha a mente mais brilhante de todas as pessoas que jamais conheci. E exceto, talvez, por Micon, pai de Micail, era extremamente determinado. Nós nunca nos apaixonamos por homens comuns, Domaris e eu - acrescentou Deoris, com um sorriso pesaroso. - Mas o que você precisa compreender antes de tudo é que Riveda não era um destruidor. Tanto o branco quanto o negro estão mesclados na veste cinza que sua ordem usava. Ele sabia por seus estudos e pela prática de medicina que todo ser vivo que não cresça e mude morrerá. Riveda pôs à prova as leis do Templo porque desejava torná-lo mais forte e, finalmente, acabou por violá-las pela mesma razão. Ele passou a aceitar que o sacerdócio se havia tornado tão preso a dogmas antiqüíssimos, que não era mais capaz de se adaptar e evoluir, independentemente de desastre que pudesse ocorrer.

- Mas isso não é verdade! - exclamou Tiriki indignada, defendendo as tradições e a formação que haviam moldado sua vida.

- Eu sinceramente espero que não seja - Deoris sorriu tolerantemente. - Mas cabe a você e a Micail provar que ele estava errado. E vocês nunca terão uma oportunidade melhor. Vocês perderão muito do que é belo, sólido e límpido neste exílio, mas também se tornarão livres de nossos velhos pecados.

- E a senhora também, Mãe! Tem de concordar em ir embora...

- Cale-se! - disse Deoris. - Eu não posso. Eu não quero. Riveda foi julgado, condenado e executado não apenas por seus atos, mas também por muita coisa que foi feita por outros - os Vestes Negras, que só foram apanhados e punidos mais tarde. Foi a obra deles que partiu os laços que Riveda havia afrouxado. Eles buscavam poder, mas Riveda queria apenas conhecimento. Foi por isso que eu o ajudei. Se Riveda mereceu o destino que teve, minha culpa não é menor.

- Mãe - Tiriki começou, porque ainda não compreendia inteiramente.

- Dê meu lugar a sua irmã - disse Deoris, em tom decidido e mudando de assunto. - Eu já tomei as providências para que um acompanhante leve Galara e sua bagagem aos seus aposentos logo ao amanhecer, de modo que você terá dificuldade de mandá-la embora.

- Eu já havia presumido que a mandaria - disse Tiriki, exasperada.

- Então está resolvido. E agora - disse Deoris enquanto se levantava -, acho que está na hora de nos juntarmos aos homens. Duvido que Chedan e Micail tenham tido melhor sorte em persuadir Reio-ta do que você teve comigo. Mas eles são dois contra um e meu marido agora pode estar sentindo necessidade de um reforço.

Derrotada, Tiriki seguiu sua mãe de volta à varanda onde os homens estavam sentados com taças e duas pequenas jarras de vinho Cariano. Mas Micail parecia furioso e Chedan também estava olhando com raiva para dentro de seu copo. Somente Reio-ta mostrava alguma serenidade.

Tiriki lançou um olhar para Micail, como se para dizer, Imagino que ele também esteja decidido a ficar?

Micail assentiu ligeiramente e Tiriki virou-se para seu padrasto, com a intenção de suplicar-lhe que viesse com eles.

Em vez disso, porém, ela apontou para Deoris e exclamou:

- O senhor iria depressa se ela decidisse ir! Vocês estão sacrificando um ao outro, sem nenhum motivo justo. Têm de concordar em vir conosco!

Deoris e Reio-ta trocaram olhares, e Tiriki sentiu-se dominada por um súbito calafrio, como se fosse uma sacerdotisa noviça arriscando-se com mistérios proibidos.

- É o destino de vocês levar a verdade dos Guardiões para uma nova terra - declarou Deoris gentilmente -, e é o nosso carma ficar. Não é um sacrifício e sim uma reparação, que nós devemos desde...

Reio-ta completou seu raciocínio.

- Desde antes da queda da Terra Antiga.

Chedan fechou os olhos, numa expressão de sofrimento. Micail olhou de um para o outro, e as sobrancelhas se uniram, com súbita desconfiança.

- Reparação - Micail repetiu baixinho. - Diga-me, tio, o que o senhor sabe sobre o Homem de Mãos Cruzadas? - A voz dele estava trêmula, e Tiriki também sentiu um tremor na pedra abaixo de seus pés, como se alguma outra coisa tivesse ouvido as palavras dele.

- O quê? - perguntou Reio-ta asperamente; seu rosto moreno ficou muito pálido. - Ele se mostra a vocês?

- Sim - sussurrou Tiriki -, hoje de manhã, quando a terra tremeu, ele estava tentando partir as correntes que o prendiam. E eu... eu sabia qual era o nome dele! Como é possível?

Mais uma vez Deoris e seu marido trocaram um olhar estranho, e ele estendeu a mão para segurar a dela.

- Então você sem saber nos traz a mais clara das provas - disse Deoris em voz baixa - de que é nosso destino e nosso dever ficar. Sente-se - ela gesticulou imperiosamente. - Tiriki, agora compreendo que tenho de contar a você e Micail o resto da história, e até a você, Chedan, meu velho amigo. Embora você seja um Grande Adepto, seus professores não poderiam ter-lhe contado as partes da história que não conheciam.

Reio-ta respirou fundo.

- Eu... amava meu irmão. - O olhar dele voltou-se rapidamente em direção a Micail fitando-o por um breve instante com expressão de súplica. - Mesmo no Templo da Luz sempre houve alguns que serviam à escuridão. Nós fomos dominados pelos Vestes Negras que desejavam para si próprios o poder de Ahtarrath. Eu concordei em deixar que me usassem se eles o poupassem. Eles me traíram e tentaram matá-lo. Mas Micon obrigou-se a viver por tempo suficiente para gerar você e lhe transmitir seus poderes. - Ele olhou para Micail de novo, lutando para encontrar as palavras.

Tiriki os contemplou com imediata compaixão, agora compreendendo por que era Micail, e não Reio-ta, quem possuía a herança mágica de sua linhagem real. Se Micon tivesse morrido antes que seu filho tivesse nascido, os poderes de Ahtarrath teriam passado por direito de sucessão para Reio-ta, e deste modo para os feiticeiros praticantes de magia negra que o mantinham a seu serviço.

- Eles... quebraram... seu corpo - gaguejou Reio-ta. - E... a minha mente. Só fui voltar a saber quem eu era muito mais tarde. Riveda me abrigou, cuidou de mim e eu o ajudei...

Tiriki virou-se para olhar para a mãe. O que aquilo teria a ver com o Homem de Mãos Cruzadas?

- Reio-ta ajudou Riveda como um cachorro serve àquele que lhe dá de comer - observou Deoris em tom defensivo -, sem compreender o que fazia. Eu ajudei Riveda porque amava o espírito nele que ansiava por trazer vida nova ao mundo. Na cripta que fica abaixo do Templo da Luz havia uma imagem, cuja forma parecia diferente para cada um que olhasse para ela. Para mim, sempre apareceu como um deus acorrentado de braços cruzados lutando contra as correntes que o prendiam. Mas a imagem era uma prisão que confinava as forças do caos. Juntos nós trabalhamos no ritual que libertaria aquela energia porque Riveda acreditava que, ao desencadear aquela força, poderia controlar as energias que governam o mundo. Mas minha irmã me obrigou a contar a ela o que havíamos feito. As cadeias já estavam se separando quando Domaris desceu para aquela cripta escura sozinha, correndo grave risco de vida, para repará-las...

- Eu sabia de todas essas coisas - observou Chedan em voz baixa. - A energia da Pedra Omphalos pode apenas tornar mais lentas as forças destrutivas desencadeadas por aqueles rituais há tanto tempo. A desintegração tem sido gradual, mas ainda está acontecendo. Podemos apenas ter a esperança de que, quando Atlântida cair, isso chegará ao fim.

- Rajasta não costumava dizer: “Entregar-se em vez de lutar contra a morte é covardia”? - interveio Micail com aspereza.

- Mas ele também dizia - retrucou Deoris com uma suavidade dolorosa - “Quando você quebra alguma coisa, é seu dever consertá-la, ou pelo menos varrer os cacos quebrados”. Embora não tivéssemos intenção de fazer mal, fizemos escolhas que permitiram que o mal se apresentasse - desencadeamos uma sucessão de acontecimentos que condenaram nossa maneira de viver.

Um longo instante se passou em silêncio. Os quatro ficaram sentados tão imóveis quanto os frisos esculpidos que emolduravam o vão da porta.

- Nós devemos ficar porque há um último ritual a ser realizado. - Pelo modo firme de falar de Reio-ta, eles perceberam quanto sua emoção era profunda. - Quando o Homem de Mãos Cruzadas romper suas cadeias, nós, que o conhecemos tão bem, devemos confrontá-lo.

- De espírito para espírito nos dirigiremos a ele - acrescentou Deoris, com os olhos enormes brilhando. - Não existe Força alguma no mundo que não tenha um propósito. O caos que Dyaus traz será como um grande vendaval que arranca as folhas das árvores e espalha as sementes para longe. Vocês nasceram para preservar essas sementes, meus filhos, gloriosos galhos da árvore perene de Atlântida, libertados de sua deterioração, livres para criar raízes em novas terras. Talvez o Criador venha a compreender isso e sinta-se apaziguado.

Seria isso realmente verdade? Naquele momento, Tiriki sabia apenas que aquele dia lhe oferecia a última visão que ela teria de sua mãe. Soluçando, ela avançou e tomou nos braços a mulher mais velha.

Quatro

Embora o longo dia tivesse sido fresco para a estação, o pôr-do-sol trouxe ventos que sopraram quentes e uma noite de calor agourento. A maioria daqueles que tentaram dormir virava-se de um lado para o outro, com frustração e suor. A cidade que tinha estado tão silenciosa durante o dia tornou-se o oposto naquela noite, à medida que sua população saiu a vagar pelas ruas e pelos parques. Talvez surpreendentemente, poucos na verdade saqueavam as casas e lojas abandonadas; o resto parecia estar em busca de alguma coisa, mas de que, ninguém parecia saber - um lugar mais fresco para descansar. Talvez o verdadeiro objetivo fosse chegar àquele estado de exaustão do corpo que por si só é capaz de dar paz ao cérebro febril.

Em seus aposentos no alto do palácio, Tiriki permaneceu sentada observando o marido dormir. Muitas horas haviam-se passado desde meia-noite, mas o descanso lhe fugia. Eles tinham ficado acordados até tarde, fazendo os preparativos finais para partir de manhã. Depois ela cantou até que Micail finalmente mergulhou num sono pesado e inquieto, mas não havia qualquer pessoa para cantar para que ela dormisse. Ficou a se perguntar se sua mãe, que poderia tê-lo feito, também estaria acordada, esperando pelo que inevitavelmente estava por vir.

Não tem importância alguma, disse a si mesma, olhando ao redor para o quarto onde havia conhecido tanta felicidade. Terei o resto de minha vida para dormir... e chorar.

Além das portas abertas do terraço o céu noturno estava vermelho. Naquela luz lúgubre Tiriki podia ver a silhueta da árvore de plumas de Micail, que ela havia resgatado e replantado em um vaso. Sabia que era tolice ver naquela pequenina planta um símbolo de todas as coisas belas e frágeis que teriam de ser abandonadas. Num impulso súbito, ela se levantou, encontrou um lenço para amarrar ao redor do vaso e dos galhos finos e o enfiou na parte de cima de sua bolsa. Deu-se conta de que era um ato de fé. Se conseguisse preservar aquela pequenina vida, talvez os deuses fossem igualmente misericordiosos com ela e aqueles que ela amava.

Exceto pela luz que ardia diante da imagem da Grande Mãe no canto do quarto, todas as lamparinas haviam se apagado; mesmo assim, ela ainda conseguia ver a desordem no aposento. As malas que eles haviam enchido para levar estavam reunidas junto da porta, esperando pelo último adeus frenético.

O bruxulear vacilante atrás do véu do relicário concentrou a atenção de seu olhar. Ahtarra tinha muitos templos e ordens de sacerdotes, mas somente na Casa de Caratra havia um altar-mor e um santuário consagrados em nome da Mãe. Apesar disso, pensou Tiriki com ligeiro sorriso, a Deusa recebia mais veneração do que qualquer dos deuses. Mesmo na mais humilde choupana de pastor ou pescador havia um nicho para Sua imagem e, se não houvesse azeite que se pudesse usar para acender uma lamparina, sempre se podia encontrar um ramo de flores „ para oferecer a Ela.

Tiriki se levantou e afastou a gaze que cobria o relicário. A lamparina dentro dele era de alabastro e nela só eram usados os óleos mais refinados, mas a imagem de marfim, com apenas um palmo de altura, estava amarelada e com as formas desgastadas pelo tempo. Sua tia Domaris a havia trazido da Terra Antiga e, antes disso, pertencera à mãe dela, a herança de uma linhagem de antepassadas cujas origens eram anteriores até aos registros do Templo.

Com a chama da lamparina ela acendeu uma lasca de pinheiro e a estendeu para o carvão em pedra que era sempre mantido pronto para ser usado sobre o leito de areia no prato ao lado da lamparina.

- Ficai longe de mim, tudo que é profano. - Enquanto ela murmurava as palavras antiqüíssimas, sentiu o mergulho familiar da alteração do estado de consciência. - Ficai longe de mim, tudo que vive no mal. Ficai longe do sinal dos Seus passos e da sombra de Seu véu. Aqui busco refúgio, sob a cortina da noite e o círculo das Suas alvas estrelas. A moça respirou fundo e exalou o ar lentamente. O carvão havia começado a arder em brasa. Apanhou alguns grãos de incenso e os espalhou sobre o carvão, sentindo sua percepção consciente se alterar ainda mais, à medida que a fumaça doce e pungente subia em espirais no ar.

Baixando a cabeça, ela tocou com os dedos a testa, depois os lábios e o peito. Então levantou as mãos num gesto de adoração tão familiar, que se tornara involuntário.

- Senhora... - a palavra morreu em seus lábios. A hora de pedir que aquela destruição fadada não acontecesse já havia passado. - Mãe... - ela tentou de novo, e quaisquer palavras que poderiam ter-se seguido foram carregadas por intensa onda de emoção.

E naquele momento ela tomou consciência de que não estava sozinha.

- Eu sou a terra debaixo de seus pés... - disse a Deusa em sua mente.

- Mas a ilha está sendo destruída! - objetou uma parte em pânico da alma de Tiriki.

- Eu sou a chama ardente...

- A chama será afogada pelas ondas!

- Eu sou o mar que se levanta...

- Então é o caos e a destruição! - protestou a alma de Tiriki.

- Eu sou a noite e as estrelas circulantes... - a resposta veio calma e a alma de Tiriki agarrou-se àquela certeza.

- Eu sou tudo o que é, o que foi e o que será, e não existe força que possa separar-te de Mim...

E, por um instante fora do tempo, Tiriki soube que isso era verdade.

Quando ela retornou à consciência do lugar onde estava, o incenso havia parado de arder e o carvão estava cinza. Mas quando a luz da lamparina bruxuleou, pareceu-lhe que a Mãe estava sorrindo.

Tiriki respirou fundo e estendeu a mão para tirar a imagem do altar.

- Sei que o símbolo não é nada e que a realidade é tudo - sussurrou -, mas mesmo assim vou levá-la comigo. Que a chama continue a arder até que se una ao fogo da montanha.

 

Ela havia acabado de embrulhar a imagem e a estava enfiando na bolsa de viagem quando o pequenino carrilhão que pendia da porta tocou suavemente. Ela correu para a entrada, temerosa de que o ruído acordasse Micail. Alguns passos ligeiros levaram-na até a porta onde ela acenou para que o mensageiro tornasse a sair para o corredor, levando o dedo aos lábios.

- Por favor, perdoe-me, Milady - começou ele, ruborizado.

- Está tudo bem - ela suspirou enquanto apertava o cinto de sua veste, recordando-se das ordens que dera. - Eu sei que você não teria vindo se não houvesse necessidade. O que o traz aqui?

- A senhora deve vir à Casa dos Doze, milady. Eles estão em tumulto... mas ouvirão a senhora!

- O quê? - Ela piscou os olhos espantada. - Aconteceu alguma coisa com Gremos, a guardiã deles? - Tiriki franziu o cenho. - É dever dela...

- Suplico que me perdoe Senhora, mas parece que a Guardiã dos Doze foi... foi embora.

- Muito bem. Espere um minuto enquanto me visto e irei.

 

- Calem-se - Tiriki levantou a voz de modo a ser ouvida acima do burburinho de reclamações e acusações. - Vocês são a esperança de Atlântida! Lembrem-se de sua formação! Sem dúvida, não é pedir demais a vocês que me façam um relato coerente!

Ela lançou um olhar zangado ao redor do círculo de rostos afogueados na entrada da Casa das Folhas Caindo e deixou que seu manto deslizasse de seus ombros enquanto se sentava. Seu olhar se fixou em Damisa; corando, a moça se adiantou.

- Muito bem. Você diz que Kalaran e Vialmar beberam vinho. Como isso aconteceu e o que eles fizeram?

- Kalaran disse que o vinho o ajudaria a dormir. - Damisa se calou um instante e fechou os olhos enquanto punha em ordem seus pensamentos. - Ele e os outros rapazes desceram até a taverna no final da estrada para comprar vinho. Como o lugar estava vazio, eles trouxeram duas ânforas inteiras para cá e beberam todo o vinho, pelo que sei.

Tiriki voltou o olhar para os três jovens sentados num banco junto à porta. O rosto bonito de Kalaran estava marcado por um arranhão numa das faces, e a água escorria pelo pescoço de seus companheiros por causa do cabelo molhado, como se alguém tivesse tentado fazê-los recuperar a sobriedade mergulhando-lhes a cabeça na fonte.

- E o vinho os fez dormir?

- Por algum tempo - respondeu Vialmar, de má vontade.

- Ele ficou enjoado e vomitou - disse Iriel alegremente, mas se calou depressa diante do olhar furioso de Damisa. Aos doze anos, Iriel era a mais jovem dos Doze, loura e traquinas, mesmo naquelas circunstâncias.

- Há cerca de uma hora eles acordaram gritando - prosseguiu Damisa - que estavam sendo perseguidos por monstros semi-humanos com chifres como touros. Isto despertou Selast, que já estava zangada porque eles só voltaram para cá depois de terem acabado com todo o vinho. Eles começaram a discutir aos berros e isso fez com que todo mundo entrasse na briga. Alguém atirou a jarra de vinho e então todo mundo perdeu a cabeça.

- Todos vocês concordam que isso é o que aconteceu?

- Todos exceto Cleta - zombou Iriel. - Como de hábito ela continuou dormindo enquanto tudo acontecia.

- Eu os teria acalmado em mais alguns minutos - disse Elara. - Não havia necessidade de incomodar a Senhora.

Damisa fungou.

- Nós teríamos tido de contar a ela porque Gremos havia sumido.

Tiriki suspirou. O fato de a Guardiã dos Acólitos ter deixado seu posto, em tempos normais, seria motivo para iniciar uma busca por toda a cidade. Mas agora, se a mulher deixasse de ocupar seu lugar no barco, a vaga iria para alguém que merecesse mais ou que tivesse mais sorte. Ela desconfiava de que os acontecimentos dos dias seguintes iriam por si mesmos efetuar uma seleção entre os membros do sacerdócio e pôr à prova o caráter deles de forma que nenhum deles poderia ter previsto.

- Vamos esquecer Gremos - disse Tiriki em tom severo. - Ela terá de cuidar de si mesma. Também não há sentido em culpar alguém pelo que aconteceu. O que importa agora é como vocês vão se comportar durante as próximas horas, não como passaram as últimas. - Ela olhou para as janelas, onde a aproximação do raiar do dia trazia uma palidez enganosamente delicada ao céu sombrio.

- Eu disse que vocês eram a esperança de Atlântida, e é verdade. - Seus olhos límpidos se moveram, encarando-os de um em um até as faces afogueadas voltarem à cor normal e eles estarem prontos para olhá-la de frente. - Uma vez que todos estão acordados, podemos aproveitar e começar cedo o dia. Cada um de vocês tem tarefas a cumprir. O que eu quero...

A cadeira deu um solavanco súbito abaixo dela. Tiriki estendeu as mãos, tocou na veste de Damisa e, instintivamente, agarrou-a enquanto o chão sacudiu-se com violência mais uma vez.

- Procurem abrigo! - gritou Elara. Os acólitos já estavam mergulhando para se protegei” debaixo da mesa longa e pesada. Damisa puxou Tiriki pondo-a de pé, e as duas cambalearam -, em direção à porta, desviando-se das molduras esculpidas em gesso que adornavam o alto das paredes à medida que essas se partiam e se espatifavam no chão.

Micail! Com sua percepção interior, Tiriki sentiu que ele despertara abalado. Cada fibra de seu ser clamava pela força dos braços dele, mas Micail estava a uma distância de meia cidade. Quando a terra se moveu de novo, ela percebeu que nem a força unida dos dois juntos teria sido suficiente para deter a destruição uma segunda vez.

Ela se agarrou ao batente da porta, olhando fixamente para fora onde as árvores se sacudiam violentamente no jardim, e uma enorme coluna de fumaça se elevava acima da montanha. Era da forma de um imenso pinheiro feito de cinzas, de cujo enorme tronco um dossel de nuvens sólidas, cada vez mais grossas, estava se espalhando pelo céu. Repetidas vezes o chão sacudiu e ondulou debaixo dos pés da moça. A nuvem de cinzas acima da montanha reluzia com pontos de luz, e cinzas em brasa ardente começaram a cair.

Chedan havia lhes contado como outras ilhas haviam desmoronado no mar, deixando apenas alguns picos para marcar sua localização anterior. Ahtarrath, agora se tornava claro, não desapareceria sem uma batalha de proporções titânicas. No momento ela não conseguia decidir se deveria exultar diante daquele desafio ou chorar de medo.

Um movimento ao longe atraiu seu olhar - acima das árvores que cercavam a Casa das Folhas Caindo Tiriki viu uma das reluzentes torres de ouro estremecer e desabar. No instante em que ela desapareceu de vista, um tremor que pareceu mais um terremoto sacudiu o solo. Tiriki se encolheu ao pensar na devastação que agora jazia debaixo dela. No momento seguinte, o som de um desabamento vindo do outro lado da cidade chegou aos ouvidos deles.

- A segunda torre... - sussurrou Damisa.

- A cidade já está semi-deserta. Talvez não houvesse muita gente por lá...

- Talvez eles tenham sido os afortunados - respondeu Damisa e Tiriki não foi capaz de encontrar palavras para discordar. Mas no momento, pelo menos por enquanto, parecia que tudo que poderia desmoronar já estava no chão.

- Alguém vá buscar uma vassoura - balbuciou Aldel -, deveríamos limpar os escombros daqui do piso.

- E quem vai varrer os escombros das ruas da cidade? - perguntou Iriel, a voz trêmula, à beira da histeria. - O fim está próximo. Ninguém viverá aqui de novo!

- Controlem-se! - Tiriki recuperou o autocontrole com algum esforço. - Vocês foram instruídos sobre o que fazer quando este momento chegasse. Vistam-se e calcem seus sapatos mais resistentes. Usem capas grossas mesmo se estiver quente demais - elas vão protegê-los quando cinza e brasas caírem. Peguem suas bolsas de viagem e desçam para os navios.

- Mas nem tudo foi embarcado - exclamou Kalaran, tentando controlar o medo. - Não conseguimos levar nem metade das coisas que deveríamos. Os tremores pararam. Sem dúvida temos ainda algum tempo.

Tiriki ainda podia sentir tremores vibrando no piso, mas era verdade que o momento de violência havia passado.

- Talvez, mas sejam cautelosos. Alguns de você foram designados para levar mensagens para os sacerdotes. Não entrem em qualquer prédio que pareça danificado - um tremor secundário poderia fazê-lo desmoronar. E não demorem muito. Dentro de duas horas todos vocês devem estar a bordo. Lembrem-se: o que homens fizeram, podem fazer de novo. A vida de vocês é mais valiosa do que qualquer coisa pela qual poderiam arriscá-la! Digam-me de novo o que devem fazer.

Um por um eles enumeraram suas tarefas e ela as aprovou ou lhes deu novas instruções. Mais calmos agora, os acólitos se dispersaram para ir buscar seus pertences. Os arquitetos da Casa das Folhas Caindo tinham-na construído melhor do que imaginavam - embora os ornamentos destruídos cobrissem o chão, a estrutura da casa ainda estava íntegra.

- Eu tenho de voltar para o palácio. Damisa, vá buscar suas coisas e venha comigo.

Tiriki esperou junto à porta até que sua acólita retornasse, observando a chuva contínua de escórias e cinzas no jardim. Volta e meia um pedacinho ainda incandescente ateava fogo a uma das plantas. Novas nuvens de fumaça se elevavam na cidade. Atordoada, ela se perguntou quanto tempo levaria para que a cidade inteira estivesse em chamas.

- Pensei que o sol estivesse raiando - disse Damisa chegando junto dela -, mas o céu está escuro.

- O sol raiou, mas não creio que o veremos - respondeu Tiriki, levantando a cabeça para olhar para o palio escuro que se estendia sobre o céu. - Este será um dia sem alvorada.

As escórias e cinzas ainda caíam quando Tiriki e Damisa partiram da Casa das Folhas Caindo, acrescentando o perigo vindo do alto aos riscos de percorrer ruas cuja pavimentação estava destruída ou deformada pelo terremoto e coberta de escombros. Quando uma projeção especialmente grande de lava solidificada por pouco não acertou Tiriki, Damisa correu para o interior de uma estalagem abandonada e voltou com dois grandes travesseiros.

- Segure-o em cima da cabeça - recomendou, entregando um a Tiriki. - Vai parecer tolice, mas poderá protegê-la se alguma coisa maior cair.

Tiriki percebeu o tom de ligeira histeria na risada que ela Própria deu em resposta e a conteve abruptamente, mas imaginar a aparência que teriam, quase correndo pelas ruas sombrias como se fossem cogumelos com pernas, manteve um estranho sorriso em seus lábios enquanto elas prosseguiam cautelosamente no caminho rumo ao palácio.

Aquela seria a única fonte de diversão que ela encontraria durante a jornada. Por mais chocante que tivesse sido a devastação causada pelos tremores da véspera, ela pelo menos havia sido capaz de reconhecer a cidade. Os abalos daquele dia tinham transformado a silhueta no horizonte em um lugar que não conhecia. Tiriki disse a si mesma que o tremor daquela manhã tinha sido apenas um abalo secundário, fazendo desmoronar estruturas já fragilizadas, mas sabia que desta vez a terra havia sido torcida e deslocada numa direção diferente e a cada passo tornou-se mais consciente de que o que sentia sob seus pés agora não era equilíbrio, e sim uma tênue estabilidade que a qualquer momento poderia deixar de existir.

As correntes que contêm o Homem de Mãos Cruzadas estão se partindo... pensou com um calafrio, a despeito do calor na atmosfera. Mais um esforço romperá a última delas e ele estará livre.

O palácio estava deserto. Quando chegaram aos aposentos de Tiriki, ela viu que tanto Micail quanto a bagagem dele haviam desaparecido. Ele deve estar esperando por mim no cais do porto, disse a si mesma. Apanhando sua sacola, seguiu Damisa de volta para a rua e começou a descer a ladeira.

A Casa da Cura havia desabado, bloqueando a passagem pela rua. Tiriki parou por um instante para escutar mas não ouviu som algum vindo do interior. Esperava que todos tivessem conseguido sair sãos e salvos. Na verdade, já fazia algum tempo desde que ela vira quem quer que fosse. Evidentemente, disse a si mesma, os sacerdotes e funcionários da cidade que viviam e trabalhavam ali haviam levado a sério o.aviso e já estavam buscando segurança no cais do porto ou nas montanhas, mas não foi totalmente capaz de conter o temor de que todos estivessem mortos e que, quando afinal ela e Micail procurassem o navio do capitão Reidel, fossem encontrar o porto vazio, e tivessem por companhia apenas fantasmas enquanto esperavam que a ilha caísse.

Guiada por Damisa, cuja experiência como mensageira lhe ensinara todos os atalhos da parte alta da cidade, elas refizeram seus passos, virando em direção à Casa dos Sacerdotes logo acima na colina.

Quando ascendiam a Via Processional, coalhada de estátuas tombadas e de escombros das arcadas em ruínas, Tiriki avistou o vulto apressado de um homem de botas de marinheiro e com uma capa marrom de viajante.

- Chedan! - exclamou. - O que está fazendo aqui? Os sacerdotes estão...

- Aqueles religiosos tolos! Eles afirmam comandar os espíritos, mas não são capazes de controlar a si próprios. Seu marido está lá agora, tentando chamar à razão os que restam. Alguns desceram para os navios como lhes foi ordenado, e outros fugiram, só os deuses sabem para onde. Estão semi-loucos, em minha opinião, implorando a Micail que use seus poderes para fazer com que isto pare. - Ele sacudiu a cabeça com tristeza.

- Mas Micail se esforçou ao máximo ontem, usou tudo que tinha e foi até um pouco além. Não há mais nada que possa fazer. Será que eles não conseguem compreender isso?

- Não conseguem ou não querem... - Chedan deu de ombros. - Homens assustados desconhecem a razão, mas aquele seu marido os fará compreender. Enquanto isso, aqueles dentre nós que ainda conseguem pensar direito têm trabalho a fazer. E que ainda estão vivos - acrescentou em tom sombrio. - O homem que deveria ter liderado o grupo que embarcaria a Pedra Omphalos foi morto pelo desmoronamento de um muro. Eu disse a Micail que cuidaria disso, mas não há mais ninguém aqui, ou pelo menos ninguém que possa ser útil.

- Nós estamos aqui - declarou Damisa com bravura - e os outros acólitos ficarão bem se tiverem uma missão definida a cumprir!

Pela primeira vez, Chedan sorriu.

- Então seja nossa guia, se ainda for capaz de encontrar o caminho para sair deste caos, e vamos tratar de encontrá-los.

Eles encontraram Aldel parado, olhando fixo e com incredulidade a Casa da Cura, não tendo encontrado a quem pudesse entregar sua mensagem; Kalaran estava a seu lado, apertando uma saca vazia. Em silêncio, Tiriki e Damisa retornaram à Casa das Folhas Caindo. Elis e Selast estavam logo na entrada, arrumando a bagagem.

- Vocês são os únicos que ainda estão por aqui? - perguntou Tiriki.

Elis assentiu.

- Espero que os outros tenham chegado aos navios em segurança.

- Aldel está esperando lá fora, e Kalaran também, de modo que pelo menos você e seu noivo estarão juntos - disse Tiriki em tom animador. - E Kalhan é um rapaz forte - acrescentou para Damisa. - Tenho certeza de que quando chegarmos ao cais do porto ele estará esperando por você. - Como Micail estará esperando por mim, acrescentou silenciosamente.

- Kalhan? Ah, sim, tenho certeza de que estará... - retrucou Damisa secamente.

Tiriki olhou para ela com curiosidade. Aquela não era a primeira vez que tinha a impressão de que os sentimentos de Damisa pelo rapaz que os astrólogos do Templo haviam escolhido para ser seu companheiro eram desprovidos de entusiasmo. Mais uma vez se deu conta de quanto ela e Micail haviam sido afortunados quando a eles fora permitido escolherem por si próprios.

- Será que só eles darão conta? - perguntou Chedan, enquanto Tiriki conduzia os acólitos em direção à porta de saída.

- Terão de dar - respondeu ela, quando um tremor mais forte sacudiu a cidade. - Nós precisamos ir, agora - No momento em que começavam a descer a estrada, mais dois abalos os fizeram cambalear, e às suas costas ouviram um ruído alto e violento, enquanto a varanda da Casa das Folhas Caindo desmoronava.

- Aquilo foi uma folha muito pesada que acabou de cair! - disse Kalhan, os lábios se torcendo num esforço para sorrir.

- Aquilo foi a árvore inteira - corrigiu Damisa em tom ácido e cruel, mas havia lágrimas em seus olhos e ela não olhou para trás.

Elis estava chorando baixinho. Selast, que desprezava aquelas fraquezas femininas, a olhou com escárnio. Mas todos eles continuaram em movimento, andando com cuidado ao redor dos escombros e prosseguindo sem fazer mais que um sinal de bênção quando viam corpos na estrada. Foi bom que não encontrassem quem necessitasse de ajuda. Isso teria submetido a disciplina deles a uma prova demasiado dura. De fato, Tiriki pensou que se tivessem encontrado uma criança ferida, não teria sido capaz de garantir inteiramente seu autocontrole.

Aquilo que buscamos salvar protegerá a vida de gerações que ainda não nasceram, disse a si mesma. Mas os velhos ditados pareciam desprovidos de significado diante do tipo de catástrofe que agora estavam enfrentando. Cinzas ardentes tinham começado a cair mais uma vez. Ela se contraiu e puxou o manto sobre a cabeça - havia descartado o travesseiro algum tempo antes -, inspirou profundamente uma vez e depois mais outra, invocando os reflexos treinados que lhe iriam trazer calma. Não existe pensamento algum... nenhum medo existe... existem somente o momento certo e a ação certa.

Com alívio, ela avistou a entrada do Templo. Só naquele instante Tiriki se permitiu olhar para a montanha adiante. A pirâmide em seu cume e o sacerdote que dela cuidava há muito tempo tinham sido tragados. A fumaça que subia em rolos de seu cume agora rodopiava numa nuvem disforme, mas a face lateral da montanha havia se fendido e as lavas estavam inscrevendo sua própria mensagem mortífera em letras de fogo enquanto desciam pela encosta.

Por um instante ela se permitiu a esperança de que o derrame de lava do interior da montanha, como o lancetar de um furúnculo, aliviaria a pressão interior. Mas a vibração sob seus pés falava de tensões subterrâneas não resolvidas que eram ainda maiores.

- Depressa! - Chedan gesticulou em direção ao pórtico. Sua estrutura ainda parecia sólida, embora partes das pedras de mármore do revestimento se amontoassem espalhadas na estrada.

No interior as coisas estavam menos tranqüilizadoras, mas não havia tempo para ficar pensando na profundidade que as fendas nas paredes poderiam ter. O armário portátil construído para transportar a Omphalos estava esperando na alcova, e a lamparina ainda balançava em suas correntes. Assim que acabaram de acender os archotes, levantaram a caixa pelos longos punhos que compunham sua base na frente e atrás, e impuseram um andar rápido aos acólitos, passando pela parede rachada da entrada em direção à galeria.

Descer por aquele corredor em procissão formal, com os sacerdotes e sacerdotisas de Ahtarrath, havia sido uma experiência de provação para a alma. Seguir apressadamente em direção àquelas profundezas em companhia de um punhado de acólitos semi-histéricos era quase mais do que Tiriki podia suportar. Eles temiam o desconhecido, mas era a lembrança do que havia acontecido ali, apenas alguns dias antes, que fazia com que ela sentisse medo. Vendo-a vacilar, Chedan segurou-lhe o braço e, agradecida, Tiriki valeu-se de sua força e firmeza.

- Aquilo é lava? - a voz de Elis soou num sussurro assustado quando eles contornaram a última curva.

- Não. A Pedra está incandescente - respondeu Damisa, mas sua voz estava trêmula. Tanto quanto seria de esperar que estivesse, pensou Tiriki, seguindo-a para o interior da câmara. Raios e clarões de luz vívidos como os que o ritual havia despertado na Omphalos já pulsavam nas profundezas da Pedra. Luzes e sombras misteriosas corriam umas atrás das outras ao redor da câmara e, cada vez que a terra se movia, clarões saltavam de parede em parede.

- Como podemos tocar nela sem sermos destruídos? - sussurrou Kalaran.

- É para isso que temos estes envoltórios - respondeu Chedan, retirando uma verdadeira massa de tecidos de dentro do armário e deixando-os cair no chão. - Isto é seda e vai isolar as energias da Pedra.

Espero que sim, acrescentou Tiriki silenciosamente. Mas a Omphalos havia sido trazida em segurança da Terra Antiga, de modo que transportá-la tinha de ser possível.

Ambos de coração disparado, ela e Chedan seguraram os envoltórios de seda e os carregaram em direção à Pedra. Mais de perto, sua força se irradiava como o fogo de uma fogueira, embora ela não a sentisse nem como calor nem como qualquer outra sensação que pudesse denominar. Então a seda a cobriu, suavizando a pressão, e Tiriki deixou escapar um suspiro que não sabia que estivera contendo. Eles a velaram uma segunda vez e Tiriki sentiu seu medo se abrandar.

- Tragam o armário - ordenou Chedan roucamente. De rostos pálidos, Kalaran e Aldel arrastaram a caixa até estar quase tocando na Pedra e levantaram o painel na face lateral. Respirando fundo, o sacerdote pôs as mãos ao redor da Pedra e a empurrou para dentro.

A luz explodiu ao redor deles com uma força que derrubou Tiriki deixando-a estendida no chão. Damisa agarrou mais envoltórios de seda e os enfiou na caixa ao redor da Pedra.

- Cubra-a... cubra-a completamente! - Tiriki se esforçou para se pôr de pé novamente. Chedan passou o resto dos panos de seda para Damisa, que os enrolou para empurrá-los para dentro dos cantos até a incandescência pulsante da Omphalos não poder mais ser vista.

Ela ainda podia ser sentida, mas agora era uma agonia suportável. Infelizmente, sem a distração da Pedra, não havia coisa alguma para protegê-los do gemer da rocha ao redor deles.

- Levantem-na! Aldel e Kalaran, vocês são os mais fortes, peguem os punhos da frente. Damisa e eu pegaremos os de trás. O resto de vocês pode tratar de manter o caminho livre e carregar os archotes. Quando sairmos daqui, podem se revezar nos punhos, mas temos de ir já, agora!

No mesmo instante em que Chedan falou, o solo da câmara tremeu assustadoramente. Tiriki apanhou seu archote e correu atrás deles, se dando conta de que só a presença da Omphalos mantivera o solo estável por tanto tempo!

Os carregadores cambalearam e gemeram como se seu fardo fosse não só imensamente pesado, mas instável. Vendo a dificuldade deles, Elis e Selast puseram as mãos debaixo da parte do meio do armário e os ajudaram a erguê-lo. Mas à medida que se foram afastando da câmara, o peso pareceu tornar-se menor, e ainda bem que foi assim, porque a cada passo os pontos de apoio para seus pés foram se tornando mais traiçoeiros.

O último abalo deslocou o piso na galeria em vários lugares. Enormes rachaduras apareceram nas paredes e, em certos lugares, o teto estava começando a ceder. Enquanto lutavam para subir à superfície ouviram o estrondo de rochas caindo um pouco mais atrás, num lamento alto, agudo e dissonante que parecia vir de toda parte ao redor.

- Meu espírito é o espírito da Vida; ele não pode ser destruído... - entoou Tiriki, tentando fazer com que aquela percepção consciente substituísse o medonho cantar das pedras. - Sou a filha da Luz, que transcende a Escuridão... - Os outros se uniram a ela no cântico, mas suas palavras pareciam fracas e destituídas de sentido naquele vórtice de energias primordiais.

- Depressa! - a voz de Damisa parecia vir de muito longe. - Posso sentir mais um tremor se aproximando! - Eles já podiam ver a luz pálida da entrada pouco mais adiante.

A terra sacudiu-se com um solavanco abaixo deles. Com um estrondo que superou todas as medidas de som anteriores, a parede da esquerda ruiu.

Então os sons de desabamentos de rochas e os gritos que se seguiram se calaram gradualmente, à medida que a poeira subiu em rolos espessos para fora. O archote de Tiriki havia se apagado. Ela tossiu, protegendo os olhos. Quando conseguiu ver novamente, a luz fraca que vinha do exterior mostrou-lhe a caixa tombada de lado e os acólitos pondo-se de pé ao seu redor.

- Estão todos bem?

Uma a uma, vozes responderam. O último a responder foi Kalaran.

- Estou um pouco arranhado, mas inteiro. Eu estava do outro lado da caixa e sua massa me protegeu. Aldel...

Houve um silêncio assustado, e uma das garotas começou a soluçar.

- Ajudem-me a tirar os escombros de cima dele - Chedan se ajoelhou, freneticamente afastando pedaços de pedra e de argamassa.

- Damisa, Selast, Elis! Vamos pôr o armário na vertical e tirá-lo do caminho - Tiriki segurou um dos punhos e fez força. Sentiu os outros levantarem o resto do peso e começar a avançar.

- Mas Aldel... - sussurrou Elis.

- Os outros o trarão - disse Tiriki com firmeza. - Vamos levar o armário para fora. - A rocha gemeu e um pouco mais de poeira fina caiu enquanto eles arrastavam a Omphalos para fora através do pórtico. Tiriki olhou para trás apreensivamente, mas um momento depois viu Chedan e Kalaran emergindo da escuridão com o corpo de Aldel nos braços.

- Ele está desacordado, não é? - gaguejou Elis, olhando de um para o outro, esperançosa,

- Não, Elis, nós o perdemos - respondeu Chedan desolado, enquanto eles deitavam o corpo no chão. Em meio à poeira, todos puderam ver a forma distorcida do crânio do rapaz onde a rocha o esmagara. - Acabou num instante, sem dor.

Elis sacudiu a cabeça, sem compreender, então se ajoelhou, limpando a poeira da testa do noivo e contemplando seus olhos vazios.

- Aldel... volte, meu amado. Nós vamos escapar daqui juntos... sempre ficaremos juntos. Você me prometeu.

- Ele se foi antes de nós, Elis - disse Damisa com uma compaixão que surpreendeu Tiriki. - Agora vamos. Venha comigo. - Ela passou o braço ao redor da outra moça e a afastou.

Chedan se inclinou sobre o vulto inerte, fechou os olhos de Aldel, e traçou o sinete do desatamento em sua testa.

- Vá em paz, meu filho - murmurou. - E que numa outra vida esse sacrifício possa ser recompensado. - Ele se levantou e tomou Elis pelo braço.

- Mas não podemos simplesmente deixá-lo aí - disse Selast em tom hesitante.

- Não temos escolha - respondeu Tiriki. - Mas o santuário será um nobre túmulo.

Ela ainda estava falando quando a terra ondulou novamente e os propeliu para fora através do pórtico. Enquanto caíam estendidos na estrada, um pilar de fogo explodiu, elevando-se em direção ao céu acima da montanha e o Santuário da Omphalos ruiu com um rugido dilacerante.

Os músculos e o equilíbrio diziam a Tiriki que eles estavam descendo a ladeira enquanto lutavam para prosseguir. Mas aquilo era a única coisa que ela sabia com certeza. Saltou e quase deixou cair o punho do armário que continha a Omphalos quando a parede da frente de uma casa tombou com violência sobre a rua. Um pouco além dela um segundo prédio estava desmoronando com suave determinação, como se estivesse caindo no sono. Um vulto escuro emergiu de uma das casas, hesitou e gritou ao correr de volta para dentro do prédio que caía.

- Estou sentindo o cheiro do porto - arquejou Damisa. - Estamos quase chegando!

Um sopro de ar úmido abençoou as faces e a testa de Tiriki. Mais alto que o crepitar das chamas e os gemidos de prédios moribundos ela conseguia ouvir o som quase tranqüilizador de gritos e gemidos humanos. Havia começado a temer que fossem os únicos sobreviventes que restassem na ilha.

E agora, todos podiam ver a água e os mastros que balançavam no porto. As embarcações partiam cruzando as águas escuras, rumando para alto-mar. Dois veleiros “asas-de-pássaro” haviam colidido e estavam afundando, numa certa massa emaranhada, enquanto vultos oscilantes nadavam em direção à costa. Enquanto eles avançavam rapidamente, a terra tremeu como se para empurrá-los pelo caminho. Rochas despencaram de penhascos e levantaram água na baía.

- Lá está o Serpente Carmesim! - exclamou Selast. Os cabos que o prendiam aos pilares ainda estavam amarrados, e o jovem capitão Reidel, a postos, bem equilibrado na popa, sombreava os olhos com uma das mãos.

- Micail, onde está você? Tiriki enviou seu espírito dirigindo seu vôo para que seguisse à sua frente.

- Milady, graças aos deuses! - exclamou Reidel. Ele saltou para o cais e a levantou nos braços quando ela cambaleou. Antes que Tiriki pudesse protestar, braços fortes a estavam carregando para o convés. - Todos vocês tratem de embarcar o mais rápido que puderem!

- E alguém embarque a caixa - ordenou Chedan.

- Sim, sim, mas apressem-se - Reidel estendeu a mão para ajudar Damisa a embarcar, mas a garota recuou.

- Eu devo partir no navio de Tjalan!

- Mas parece que não vai! - respondeu Reidel. - A frota de Alkonath estava ancorada no outro porto e tudo entre aqui e lá está em chamas. - Ele gesticulou, e um de seus marinheiros pegou a mocinha à força e a atirou para os braços dele.

Tiriki lutou para se pôr de pé, tentando entender a confusão de pessoas, sacolas e caixas. Ela reconheceu a pitonisa Alyssa encolhida entre os braços de Liala, mestra da arte de cura e Mel.

- Onde está Micail?

- Eu não o vi - respondeu Reidel -, nem Galara. Não podemos esperar por eles, milady. Se o promontório desmoronar ficaremos presos aqui! - Ele se virou e começou a gritar ordens. Os marinheiros principiaram a soltar as amarras que prendiam o navio ao cais.

- Pare! - gritou Tiriki. - Não pode partir ainda... ele virá! - Ela tivera tanta certeza de que ele estaria esperando por ela, desesperado de preocupação com seu atraso, e agora era ela quem estava temerosa.

- Há quarenta almas a bordo desse navio que eu tenho de salvar! - exclamou Reidel. - Já nos atrasamos demais! - Ele agarrou um varejão e empurrou, afastando-os da doca, no mesmo instante em que o último marinheiro saltava para bordo.

A terceira grandiosa torre, a que era a guardiã do palácio, estava caindo lentamente, como se o próprio tempo estivesse relutante em deixar que se fosse. Então, com um rugido que obliterou todos os outros sons, ela desapareceu. Os escombros explodiram em direção aos céus e irromperam em chamas.

O navio de Reidel ergueu-se e caiu quando a onda de choque passou abaixo dele. Uma outra embarcação, ainda presa por amarras, chocou-se com violência contra o cais. Os remadores lutaram para safar o barco em meio aos escombros que boiavam nas águas escuras.

Acima, o céu fervia em um vórtice de chama e sombra e o fogo caía de volta sobre a cidade que já ardia em labaredas, numa saraivada de indescritível destruição. Damisa chorava. Um dos marinheiros praguejou, num murmúrio de sons incompreensíveis. Já se haviam distanciado o suficiente para que os vultos que se atiravam nas águas se tornassem apenas silhuetas sem rostos nem nomes. Micail não estava entre eles - Tiriki teria sabido se ele estivesse assim tão perto.

Eles agora estavam passando abaixo do penhasco. Um pedregulho mergulhou diante da proa e o convés rabeou inclinando-se na vertical, derrubando Tiriki e atirando-a contra Chedan. Ele a agarrou com um braço e com o outro se agarrou ao mastro enquanto o barco se aprumava e avançava rapidamente.

- Micail estará num dos outros barcos - murmurou Chedan. - Ele sobreviverá... isso também é parte da profecia.

 

Com os olhos embaçados pelas lágrimas, Tiriki olhou fixamente para a pira funérea que havia sido seu lar. O movimento do barco tornou-se mais vigoroso à medida que as velas se enfunaram, levando-os para alto-mar.

Fumaça negra se elevou em rolos quando o vulcão falou mais uma vez, encobrindo totalmente o céu. No momento antes que tudo escurecesse, Tiriki viu a imagem tremenda do Homem de Mãos Cruzadas, cobrindo o céu.

E Dyaus gargalhou e estendeu os braços para engolfar o mundo.

Tiriki lutou com todas as forças para sair do pesadelo em que se estava afogando. Ao estender a mão para Micail na escuridão em busca de consolo, seus dedos se fecharam sobre lã fria. Enquanto ela tateava, o piso jogou e ela se retesou mais uma vez, preparando-se para mais um terremoto; mas não, aquele balançar era suave demais e regular demais para sustentar seu medo. Exausta, mergulhou frouxamente de volta na cama dura, agradecida pelos cobertores de lã de inverno, e seus olhos se semi-cerraram de novo.

Um sonho, ela garantiu a si mesma, trazido pela brisa fria entrando pela janela...

Por algum motivo, ela havia pensado que já fosse primavera, que o desastre tivesse ocorrido, que ela e Micail tivessem acabado em barcos diferentes. Mas aqui estamos nós lado a lado, como devíamos estar.

Sorrindo da tolice dos sonhos, ela mudou de posição de novo, tentando se manter confortável, a despeito de uma vaga sensação de tonteira e de um frio persistente. Havia alguma coisa dura através dos cobertores. E então, muito perto, alguém começou a chorar.

Seu próprio desconforto ela podia ignorar, mas não o sofrimento de outrem. Tiriki se obrigou a abrir os olhos e sentou-se na cama, piscando para os vultos indistintos deitados por toda a parte ao seu redor. Além deles podia ver um corrimão e o mar escuro ondulado.

Ela estava em um barco. Não tinha sido um sonho.

Enquanto olhava ao redor, alguém fora de seu ângulo de visão, na direção da proa, começou a cantar:

“Nar-Inabi, Formadora de Estrelas Concede nesta noite tua dádiva “

Enquanto ela ouvia, outras vozes cujos donos ela também não via uniram-se na canção:

“Ilumina nossas velas aladas Enquanto voamos sobre as águas. Aqui os ventos são todos estranhos E nós nada mais que marinheiros. Nar-Inabi, Formadora de Estrelas, Nesta noite revela Tua Glória...”

Por um momento a beleza da canção animou seu espírito. As estrelas estavam escondidas mas, não importava o que acontecesse aqui, elas permaneciam nos céus, flutuantes no mar do espaço enquanto o barco deles flutuava no mar abaixo. Pai estelar, Senhor do mar, protegei-nos! - exclamou o espírito de Tiriki, tentando sentir no jogar inquieto do barco o conforto de braços poderosos.

Mas quer o deus estivesse ouvindo ou não, Tiriki continuava a ouvir alguém chorar. Cautelosamente, afastou um número suficiente dos cobertores de lã envolvendo o vulto encolhido e aninhado a seu lado, e reconheceu o rosto jovem de Elis, profundamente adormecida, os cabelos escuros emaranhados, os olhos molhados pelos sonhos infelizes.

Pobre criança. Nós duas perdemos nossos companheiros. Tiriki sufocou e conteve o próprio luto antes que ele pudesse dominá-la. Não, disse a si mesma com severidade, embora seja certo que nunca mais veremos Aldel, Micail está vivo! Eu sei disso.

Ternamente, ela acalmou Elis, levando-a a um sono mais profundo, e só então se afastou o suficiente para poder se levantar. Tremendo de frio sob o vento duro, tentando não permitir que o jogar suave e constante sob seus pés lhe perturbasse o estômago, Tiriki tentou afastar pela força de vontade as tensões remanescentes de seu sono inquieto e concentrou o olhar em direção à paisagem marítima enevoada além do corrimão. A esteira do barco brilhava rubra sob a incandescência de um vermelho cor de sangue que pulsava no horizonte, iluminando uma vasta nuvem de fumaça e cinzas que turvava os céus e escondia as estrelas.

Não era o nascer do sol, ela se deu conta abruptamente. A luz furiosa vinha de outra fonte - vinha de Ahtarrath, que mesmo em seus últimos estertores de morte recusava-se a submeter-se ao mar.

À medida que a luz lúgubre do amanhecer ganhou intensidade, ela reconheceu Damisa de pé, parada junto ao corrimão, olhando fixa e tristemente para as chamas distantes. Tiriki fez um movimento em sua direção, mas Damisa lhe deu as costas, os ombros se curvaram defensivamente. Tiriki se perguntou se Damisa seria uma daquelas pessoas que preferiam sofrer com privacidade, e se queria a companhia de Damisa pelo bem da moça ou por seu próprio bem.

A maioria das outras pessoas agrupadas no convés era desconhecida, mas Tiriki avistou Selast e Iriel não muito longe, deitadas encolhidas juntas, enquanto Kalaran roncava protetoramente ao lado delas.

De meia-nau veio uma voz baixa dando ordens, e Reidel apareceu carregando uma lanterna, os pés nus quase silenciosos no tabuado de madeira do convés. Ela meneou a cabeça num „ cumprimento automático. Desde ontem ele parecia ter envelhecido dez anos. Já que estou pensando nisso, refletiu, eu gostaria de saber quanto eu devo parecer mais velha agora!

Reidel retribuiu-lhe o cumprimento de maneira bastante ansiosa, mas antes que pudessem trocar palavras, ele foi abordado por um par de comerciantes de faces coradas, querendo alguma coisa para comer.

Um homem a quem ela reconheceu como marinheiro de Reidel, Arcor, estava nas proximidades.

- Milady - disse ele, quando ela finalmente se virou para encará-lo -, não queríamos perturbá-la enquanto dormia, mas o capitão deseja que saiba que há camas confortáveis para a senhora e para os jovens na coberta. As venerandas damas, a adepta Alyssa e a sacerdotisa Liala, já repousam lá.

Tiriki sacudiu a cabeça.

- Não... mas obrigada... - ela olhou para ele inquisitiva-mente e o homem murmurou seu nome, mais uma vez tocando na testa, num gesto de reverência. Vivendo em contato tão íntimo durante esta viagem, refletiu ela, quanto tempo durarão as antigas distinções de casta?

- Obrigada, Arcor - repetiu ela, em tom mais gentil -, mas enquanto ainda houver alguma coisa para ver por aqui... - Ela se interrompeu. - Eu devo ir - murmurou e rapidamente se encaminhou para a área de meia-nau, onde avistou Chedan postado, sozinho, contemplando as ondas e o céu turbulento.

- Perdoe-me, eu tinha a intenção de ajudar a manter a guarda sobre a Pedra - disse ela, ao chegar ao lado de Chedan. Tiriki pretendia dizer mais, viu-se, porém, tossindo e uma dor aguda cada vez mais intensa em seu peito, recordou-a de que o próprio ar que eles respiravam estava envenenado pelas cinzas de Ahtarrath.

Chedan sorriu afetuosamente para ela.

- Precisava de um descanso - declarou - e não deveria sentir nenhuma vergonha por tê-lo. Na verdade, não houve o que ver. A Pedra está em paz, ainda que nós não estejamos. - Ele a abraçou e a trouxe para junto de si; por um momento Tiriki sentiu-se contente por descansar cingida pela firmeza daqueles braços, mas os olhos brilhantes do mago e sua barba embranquecida pelas cinzas não conseguiam esconder-lhe o cenho franzido de preocupação.

- Não viu outros navios? - a voz dela era um sussurro rouco.

- Antes, sim, avistei algumas velas, navegando rumo a outras rotas, mas nesta escuridão... - Ele acenou para fumaça e a neblina. - Cem navios poderiam passar sem que os víssemos! Contudo podemos ter confiança de que Micail dará ordens para que qualquer navio em que ele possa estar rume para a mesma destinação que nós.

- Então o senhor concorda que ele esteja vivo? - Ela o olhou suplicante. - Que minha esperança não seja apenas uma ilusão induzida pelo amor?

A expressão do mago tornou-se solene, mas calorosa.

- Sendo você quem é e o que é, Tiriki - ligada a Micail por carma e mais que isso -, com certeza você teria sentido se ele tivesse morrido. - Chedan ficou em silêncio por um momento, então seu rosto se contraiu e ele deixou escapar uma imprecação murmurada. Seguindo seu olhar, Tiriki viu o clarão distante da terra que morria rapidamente se expandir num turbilhão de chamas.

- Segurem firme! - A voz de Reidel ressoou num grito às costas deles. - Todo mundo, agarre alguma coisa e segure firme! - Reidel já estava com um braço ao redor do mastro grande, mas ele e Chedan mal tiveram tempo de abraçar Tiriki entre os dois enquanto a popa do navio se levantava, fazendo deslizar num grande escorregão, em direção à proa, equipamentos não amarrados e passageiros adormecidos. Com um grito, alguém foi lançado pela borda. Os mastros gemeram, as velas panejaram desesperadamente em sapatadas, enquanto a embarcação continuava a se erguer até ficar equilibrada na própria crista do vagalhão. Atrás deles um longo declive de água reluzente se estendia em direção às chamas de Ahtarrath, por cerca de dezesseis quilômetros de distância. Então a onda passou, e a popa se inclinou à medida que o navio veleiro começou a deslizar de volta para a longa descida. Mais e mais fundo eles mergulharam verticalmente, até que Tiriki pensou que o mar voraz quisesse engoli-los inteiros. Embicado, o navio pinoteou buscando equilíbrio na água, mas o mastro grande, submetido a um esforço anormal, partiu-se e caiu com estrondo. O Serpente Carmesim estremeceu, enquanto as ondas em turbilhão ^ ao seu redor se entrechocavam.

Um tempo enorme pareceu passar antes que a nau finalmente se endireitasse e parasse, jogando suavemente com o balanço da maré. A lanterna de Reidel não estava em lugar algum à vista. A ligeira fosforescência que dançava ao longo das cristas das ondas era a única luz. Não havia qualquer estrela no céu acima, e as chamas de Ahtarrath, finalmente e para sempre, haviam afundado sob as ondas do mar.

Na manhã seguinte, sobressaltado, Chedan despertou, sentou-se de supetão com um ronco e se deu conta de que, contrariando todas as expectativas, ele esteve dormindo profundamente. Já era dia e isso também, ele supunha, era mais do que qualquer um deles poderia ter ousado esperar depois da violência da noite anterior. Era uma luz do dia, contudo, em que muito pouco podia ser visto. Ele conseguia ouvir muito claramente o onipresente ranger de madeira à medida que o navio balançava de bordo para bordo com as ondas, o gorgulhar de água abaixo de suas amuras e os gritos de aves marinhas enquanto flutuavam como rolhas por toda parte ao redor. Uma névoa fria, úmida e cinzenta pairava entre o mar e o céu. Era como se eles estivessem navegando por outro mundo.

Embora Chedan com freqüência tivesse encontrado perigo em suas viagens, não conseguia recordar-se de ter sentido tanto desconforto antes. Suas costas doíam por causa da estranha postura em que dormiu, e ele percebeu uma farpa em seu cotovelo. Isto é o que mereço como prêmio por não descer para a coberta, censurou a si mesmo, enquanto arrancava a farpa. Desejou que uma vida inteira de experiência pudesse ajudá-lo agora a levá-lo de volta para casa.

Com um suspiro e um bocejo, ele encolheu os pés enquanto quatro marinheiros, banhados em suor a despeito daquele amanhecer frio, passavam por ele carregando a metade superior do mastro grande. Os marinheiros tinham desenfurnado a metade inferior do mastro de sua base e eliminado pedaços de ambas as extremidades quebradas de modo que se pudessem encaixar uma na outra de novo. Emendado e seguro por talas de madeira bem fixadas, presas por suportes de cabos bem costurados, o mastro poderia ser robusto o suficiente para envergar e sustentar sua vela.

Se os ventos se mantiverem moderados. Se nenhum desastre natural vier para terminar o que a magia de homens mortos começou... Chedan suspirou. Ora! Pensamentos sombrios para um dia sombrio! Pelo menos Reidel tem o bom senso de manter seus homens ocupados. Ele se levantou com um esforço, apenas pelo tempo necessário para ir sentar-se numa das caixas de utensílios enfileiradas, permanentemente aparafusadas ao convés.

Enquanto estava ali sentado, massageando o cotovelo dolorido, viu Iriel se aproximar, andando com cautela exagerada em meio aos caixotes quebrados e outros objetos que obstruíam o convés. As olheiras fundas sob seus olhos revelavam a tensão; ela, porém, exibia um semblante corajoso. Na verdade, sua expressão decidida o acalentava mais, calculou ele, do que o faria a tigela de líquido fumegante que ela segurava tão cuidadosamente.

Ela estendeu a tigela para ele e disse:

- Eles têm uma fogueira acesa na cozinha, e achei que talvez lhe agradasse tomar um chá.

- Querida menina, você é uma salva-vidas! - Uma péssima escolha de palavras, refletiu ele quando a viu empalidecer.

- Estamos perdidos? - As mãos dela tremiam por causa do esforço que estava fazendo para se manter calma. - Pode me contar a verdade. Todos nós vamos morrer aqui no mar?

- Minha criança - Chedan começou a falar, sacudindo a cabeça espantado.

- Eu não sou criança - interrompeu Iriel, com certa aspereza -, pode me dizer a verdade.

- Minha querida, todos aqui são como crianças para mim, - recordou-lhe Chedan e, agradecido, tomou um gole do chá quente. - Mais exatamente, Iriel, você está fazendo a pergunta errada. Todos nós vamos morrer... um dia. Esse é o significado da mortalidade. Mas antes que isso aconteça, devemos aprender a viver! Por isso, não nos entristeçamos agora. Você começou bem ao me ajudar. - Ele olhou ao redor, e viu uma saca de farinha de cereal caída no convés, ameaçando derramar o que restava de seu conteúdo.

- Veja se você consegue reunir os acólitos. Vamos aproveitar aquela farinha para fazer um mingau e poupar um desses marinheiros do trabalho de limpeza.

- Que ótima idéia! - disse uma outra voz. Ele se virou e viu Tiriki se desvencilhando do emaranhado de cobertores em que tinha passado a noite. Ela se levantou e se aproximou dele, com passos um tanto inseguros no convés que jogava suavemente. - Bom-dia, Mestre Chedan. Bom-dia, Iriel.

- Minha senhora - Iriel se inclinou na mesura de saudação habitual, e depois de novo para Chedan, antes de sair correndo em busca dos outros acólitos.

- Eu não sei como ela consegue - comentou Tiriki, enquanto eles a observavam partir. - Eu mal posso impedir meus joelhos de bater um no outro.

- Sente-se aqui ao meu lado - convidou Chedan. - Você está meio verde. Quer tomar um pouco deste chá?

- Obrigada - respondeu ela, e rapidamente sentou-se num caixote ao lado dele. - Mas não sei se convém beber alguma

coisa. Meu estômago está perturbado esta manhã. Não é de surpreender; eu nunca fui grande amante do mar.

- O segredo é não concentrar o olhar no horizonte - aconselhou Chedan. - Olhe além dele... você tem apenas de se habituar com isso. Pôr alguma coisa para dentro da barriga a ajudará a acalmar-se, acredite se quiser.

A expressão dela era de dúvida, mas aceitou a tigela e obedientemente bebeu.

- Eu ouvi o senhor falar com Mel - observou ela em tom sério. - Quantos mais de nós de fato se foram?

- Considerando tudo, tivemos uma sorte enorme. Duas ou três pessoas foram levadas pela borda quando a onda nos atingiu, mas somente Alammos não foi resgatado. Ele era um guarda na biblioteca. Eu, na verdade, não o conhecia, mas... - Com esforço, ele obrigou sua voz a se manter firme. - Cinco dos acólitos conseguiram embarcar neste navio. Devemos ter esperança de que os outros estejam com Micail. E há alguns outros da casta dos sacerdotes aqui - Liala já se encarregou de acalmá-los, ou de cuidar para que estejam tão bem quanto se pode esperar. A tripulação é um problema mais sério. A maioria dos tripulantes é de Alkonath e se orgulha disso. Na verdade, Reidel teve de pôr fim a uma briga com troca de socos há bem pouco tempo atrás. - Chedan lançou um olhar rápido para ela e vendo que seu semblante ficou preocupado, observou-a atentamente à medida que prosseguia.

- Considerando que aquele mastro grande partido vai tornar tudo mais difícil, devemos nos sentir muito gratos pelo fato de o Serpente Carmesim dispor de uma tripulação experiente e bem-treinada. Quando a questão é o fato de ter pouca experiência de mar, bem, isso é algo que a casta dos sacerdotes tem em comum com os moradores da cidade - somos todos marinheiros de água doce, embora a maioria, pelo menos, seja relativamente jovem e forte. Não, sinceramente, as coisas poderiam estar muito piores.

Tiriki assentiu, e suas feições mais uma vez ficaram tão calmas quanto Chedan esperava que as suas estivessem. Ambos podiam estar chorando amargamente no íntimo, mas pelo bem daqueles que ainda dependiam deles, precisavam mostrar aparência de firme e constante esperança.

Desviando o olhar, ele avistou Reidel se encaminhando cautelosamente para eles, em meio aos escombros no convés.

- Por que isto ainda não foi devidamente armazenado? - resmungou Reidel, com uma carranca furiosa. - No instante em que o mastro estiver erguido - por favor, aceitem minhas desculpas.

- Não precisa desculpar-se - respondeu Tiriki rapidamente. - Sua primeira obrigação é manter o navio em segurança e em condições de navegar. Estamos bem, muito confortáveis.

Ele a olhou muito espantado, e ela pensou mais uma vez que ele era extremamente severo para alguém tão jovem.

- Com a devida vênia, milady, não era à senhora que eu estava pedindo desculpas. O fato de ver minha embarcação em tamanha desordem... meu pai diria que traz má sorte.

Envergonhada, Tiriki enrubesceu, e ao ver isso, Reidel sacudiu a cabeça e deu uma risada.

- Bem, mais uma vez, creio que ofendi a senhora, o que não era minha intenção em qualquer das ocasiões. Ainda temos de aprender como trabalhar juntos, ao que parece.

- Quanto a isso... - Chedan falou para distrair os dois de seu constrangimento. - Pode nos dizer onde estamos?

- Sim e não. - Reidel vasculhou uma bolsinha que trazia presa ao cinto e tirou um bastão de cristal leitoso com cerca da mesma grossura de seu dedo. - Isto é capaz de captar a luz do sol mesmo num forte nevoeiro. De modo que sabemos bastante bem onde ele está acima de nós e podemos calcular aproximadamente quanto navegamos rumo ao norte ou rumo ao sul. Mas quanto ao leste e oeste - bem, para isto esperamos que o Formador de Estrelas nos conceda a graça de sua presença, mas ele continua a nos recusar isso. - Ele repôs o cristal em sua bolsinha de couro. - Partimos com provisões para uma lua, e isso deve ser suficiente, mas mesmo assim, se tivermos oportunidade de desembarcar, não seria nada mal trazer suprimentos frescos para bordo. Tudo isso, presumindo que o mastro... - As palavras se interromperam enquanto ele se virava para observar seus tripulantes trabalhando.

- Mas nós estamos seguindo uma rota em direção às Hespérides? - perguntou Tiriki, sem conseguir se conter. Num tom calmo, prosseguiu: - Eu sei que muitos refugiados das ilhas de Tarisseda e de Mormallor já foram para Khem, onde a antiqüíssima sabedoria há muito tempo é bem-vinda. E outros, creio, pretendiam buscar as terras orientais fazendo a travessia do mar maior. Mas, Micail e eu planejávamos ir para o norte.

- Sim, milady, eu sei. No dia antes de... antes de partirmos, passei alguns minutos em companhia do príncipe. Com ambos os príncipes, na verdade. O príncipe Tjalan me disse... - ele se interrompeu, mordendo o lábio. - Se tudo correr bem - Reidel mais uma vez fez uma pausa, enquanto um dos marinheiro se aproximava, tocando a testa com a mão numa saudação. - Que é, Cadis?

- Os rapazes acabaram de fazer a emenda no mastro, e esperam apenas vossa ordem.

- Irei num instante... se me dão licença - Reidel inclinou a cabeça respeitosamente para Chedan e Tiriki, mas seus olhos e sua atenção já estavam de novo concentrados em seu navio e sua tripulação.

O vento em nenhum momento deixou de enfunar-lhes as velas, o que permitiu ao Serpente Carmesim fazer boas singraduras, e embora o mastro emendado rangesse assustadoramente, manteve-se firme. Mas o vento também brincou com o céu encoberto, dando forma a criaturas feitas de nuvens com as névoas espessas. Ahtarrath podia jazer destruída nas profundezas do mar, mas a fumaça de sua destruição permanecia no céu, obscurecendo o sol durante o dia e velando as estrelas durante a noite.

Como combinado, Reidel seguia rumo ao norte, mas muitos dias se passaram e mesmo assim não avistaram terra. Não cruzaram com quaisquer outros navios tampouco, mas com a forte neblina constante, era possível que isso fosse de se agradecer. Uma colisão teria sido um desastre definitivo.

Tiriki fizera questão de, todos os dias, passar algum tempo com os acólitos, em particular com Damisa, que ainda estava sentida pelo fato de não ter conseguido embarcar no navio capitaneado pelo príncipe Tjalan, e Elis, cujo luto por Aldel lembrava Tiriki de que podia pelo menos ter a esperança de que seu amado tivesse sobrevivido. Aos que ainda estavam mergulhados na depressão, podia apenas aconselhar que seguissem o exemplo de Kalaran e Selast, que estavam tentando ser úteis, uma sugestão geralmente recebida com lágrimas. Tiriki insistia, contudo, que no mínimo se dedicassem aos ensaios de canto e outros estudos, mesmo se não estivessem em condições que lhes permitissem ajudar nas tarefas do dia-a-dia.

Ela havia esperado que Alyssa, na qualidade de segunda sacerdotisa mais antiga a bordo, se mostrasse mais prestativa e a ajudasse, mas a pitonisa estava tirando pleno proveito do que era quase um camarote particular, para cuidar de sua perna machucada e meditar. Tiriki havia começado a suspeitar de que se estivesse fingindo de doente para se furtar ao cumprimento de suas obrigações, mas Liala lhe assegurou que a perna da pitonisa de fato havia sofrido grave torção durante o tumulto da fuga.

Certa tarde, quando Tiriki estava sentada no convés da proa refletindo sobre o que fazer ou se deveria fazer alguma coisa a respeito das repetitivas e inúteis discussões e brigas que o sacerdote inferior Rendano mantinha com uma pequenina e alegre mulher saji chamada Metia, os céus encobertos escureceram e uma tempestade se abateu sobre eles. Se Tiriki havia pensado que sua primeira noite no mar fora terrível, quando por fim a tempestade havia obscurecido até a visão das ondas gigantescas, ela estava realmente desejando ter ficado no palácio. Lá, pelo menos, teria se afogado com dignidade.

Por um tempo infinito de tormento ela se agarrou a seu beliche na coberta, enquanto o navio arfava e jogava, cavalgando as ondas até a crista para mergulhar no cavado. Selast, que havia herdado pelo menos os pés de marinheiro da linhagem real de Cosarrath, cuidava de reencher seu frasco de água fresca. Atenta ao conselho de Chedan, Tiriki sempre tomava alguns goles nos breves intervalos de calma entre as ondas revoltas, e tentava não observar os outros alegremente consumindo pão de queijo e o que restava de frutas frescas.

Por vezes, entre o soluçar quase incessante da sacerdotisa anciã Malera e as reclamações dos acólitos, havia um instante de silêncio longo o suficiente para que ela ouvisse os marinheiros gritando no convés acima, e a voz clara e forte de Reidel respondendo; mas sempre, justo no instante em que ela estava começando a ter esperanças de que o pior tivesse passado, o ulular de uma rajada mais forte de vento encobria todas as vozes, e o navio se inclinava a tal ponto que ela ficava na expectativa de que fosse virar por completo e afundar. A razão dizia-lhe que nenhuma embarcação poderia sobreviver a um assalto tão violento. Ela não sabia se deveria rezar para que o navio de Micail estivesse encontrando melhor sorte, ou para que ele já estivesse morto e esperando por ela do outro lado.

Seu sofrimento gradualmente se apagou num estupor de resistência no qual sua alma se retirou para uma fortaleza interior tão recôndita que Tiriki nem reparou que as rajadas se estavam tornando mais brandas, enquanto o arfar e soluçar do navio se reduzia quase ao normal. A exaustão tornou-se um sono profundo e sem sonhos, há muito esperado; ela só acordou na manhã seguinte.”

O mastro principal emendado quase não havia sobrevivido à tempestade, mas os outros dois ainda permaneciam intactos, embora só tivessem altura suficiente para envergar velas pequenas. Contudo, à medida que o tempo se manteve bom e o vento constante, eles puderam avançar lentamente. Entretanto, a cada obscurecimento da luz enevoada, Tiriki se contraía, temendo um desastre.

Que foi feito de minha disciplina? censurou duramente a si mesma. Fui treinada para ser capaz de enfrentar qualquer coisa, até mesmo a própria escuridão fora do alcance dos deuses, mas aqui estou eu sentada, imobilizada de terror enquanto essas crianças lutam corpo a corpo e batem os dentes e se penduram para fora do corrimão.

O ranger dos caibros de madeira do navio, uma súbita inclinação do convés, até mesmo o odor de carvão queimado vindo da cozinha, tudo tinha a capacidade de fazer seu coração disparar. No entanto, também era uma distração para uma ansiedade mais profunda que se havia enraizado quando a tempestade afinal passou e eles viram que o navio deles era o único no plácido mar azul. Chedan tinha dito que os outros barcos, tendo partido antes, poderiam ter usado as velas para acelerar a velocidade, correr à frente e fugir da tempestade. Será que ele acreditava nisso? Não adiantava nada dizer a si mesma que os acólitos ficariam apenas mais apavorados se seus superiores mais velhos demonstrassem os próprios temores. O medo estava presente, e fazia com que ela se sentisse envergonhada.

Tiriki respirou fundo e prosseguiu em direção à popa do navio, onde Chedan e o capitão analisavam o céu noturno. Ela não estava sozinha, recordou a si mesma enquanto se aproximava dos dois homens. Reidel era um experiente homem do mar, e Chedan era muitíssimo viajado. Certamente eles saberiam como encontrar o caminho.

- Mas é exatamente isso o que estou dizendo - Reidel espetou o dedo apontado para o alto. - No mês do Touro, a constelação do que Traz a Mudança deveria ter nascido logo depois do pôr-do-sol. A esta hora, a estrela polar já deveria estar alta.

- Mas o senhor se esquece de que estamos muito mais ao norte do que jamais esteve. - Chedan levantou o rolo de pergaminho que segurava, de modo que ficasse sob a luz. - O horizonte está diferente de várias pequenas maneiras. Ora, não é de espantar que não consiga encontrá-la, esse não é o rolo certo. Ardral preparou cartas celestes mais recentes para nosso uso.

- Foi isso o que o príncipe Tjalan disse, mas esses mapas nunca chegaram às nossas mãos.

- E os rolos de pergaminho que eram usados nas aulas? - perguntou Tiriki, enquanto se juntava a eles. - Eu disse a Kalaran que os retirasse das caixas.

- Sim, e agradeço por ter-se lembrado deles - observou Chedan. - O problema é que são muito velhos. Veja por si mesma.

Ela examinou o rolo de pergaminho, que tratava do movimento do zodíaco. Infelizmente, não lhe parecia mais, nem de longe, tão detalhado quanto parecera quando era estudante tentando decorá-lo, e aquela fora a última vez em que ela havia dedicado qualquer pensamento mais sério às estrelas.

Isto simplesmente não está certo, pensou ela com raiva, enquanto seu estômago mais uma vez começava a protestar contra o movimento oscilante do mar. De todos nós, Reio-ta era o marinheiro! Ele e Deoris fizeram aquela viagem até

Oranderis sozinhos, há apenas cinco anos. Qualquer um dos dois seria mais útil aqui do que eu! Chedan respirou fundo.

- A principal estrela polar é Eltanin, é claro, conforme se mostra em todas as nossas cartas. Mas agora, já há gerações, a configuração das estrelas tem mudado.

- Quê? - exclamou Reidel, chocado. - Nós sabemos que terra e mar podem mudar suas configurações, mas os céus também?

O mago assentiu, com expressão de grande seriedade.

- Eu muitas vezes verifiquei isso com uma luneta para observação à noite, e a cada hora que se passava, apenas tornava-se mais evidente. Os céus mudam da mesma forma que nós, só que mais lentamente. Mas ao longo dos séculos, as diferenças tornaram-se muito claras. Deve saber alguma coisa a respeito das estrelas errantes.

- Eu sei que elas vagueiam ao longo de um percurso previsível.

- Só porque foram observadas durante tantos anos. Quando a estrela polar sobre a qual tantos de nossos cálculos estão baseados subitamente se move - bem, uma mudança tão tremenda é considerada um presságio de uma alteração da mesma grandeza nas questões humanas.

- Sim. Um desastre. Como vimos - observou Reidel. Protegendo os olhos da luz da chama das lanternas, Tiriki olhou para o alto. Brumas velavam o horizonte, mas a lua estava bem nova e já se havia posto. Diretamente acima a escuridão estava cravejada de estrelas em tamanha profusão, que seria espantoso se ela conseguisse identificar quaisquer constelações.

- Talvez - Chedan estava dizendo - já tenha ouvido as pessoas mais idosas resmungando que os dias de primavera e verão não são mais como costumavam ser. Bem, elas não reclamam por uma questão de esquecimento, elas estão certas. Antigos documentos do Templo provaram isso. A época da estação do plantio, a chegada das chuvas - todo o cosmo está envolvido em certa misteriosa mudança - e nós também temos de nos adaptar, ou perecer.

Com um esforço, Tiriki desviou sua atenção do esplendor confuso dos céus, para tentar entender as palavras dele.

- Que está querendo dizer?

- Desde a queda da Terra Antiga, os príncipes governaram sem moderação, esquecendo-se de seu dever de servir enquanto perseguiam o poder. Talvez tenhamos sido salvos de modo que possamos revitalizar a sabedoria antiqüíssima numa nova terra. Não estou falando de Micail, é claro, ou de Reio-ta. E o príncipe Tjalan, também, é... era... um grande homem. Ou teria sido...

Vendo a aflição de Chedan, ela estendeu a mão para confortá-lo.

- Sem dúvida, o senhor está certo - concordou Reidel, rapidamente -, mas no momento fazer com que cheguemos até a nova terra deve ser minha principal preocupação.

- As estrelas podem ser inconstantes - observou Tiriki -, mas nada aconteceu ao sol e à lua, não é? Por meio deles podemos navegar rumo ao leste até encontrarmos terra. E se não houver terra nenhuma, podemos trocar idéias de novo, mais adiante.

Chedan sorriu para ela com aprovação e Reidel assentiu, constatando a sensatez de suas palavras. Tiriki sentou-se reclinada para trás e permitiu que seus olhos se voltassem novamente para o alto, em direção à faixa de estrelas. Frias e altaneiras, zombavam dela e de todo ser mortal. Não confie em nada, elas pareciam dizer, pois seu conhecimento adquirido com tanta dificuldade de pouco lhe adiantará no lugar para onde está indo agora.

 

Tiriki despertou com o balanço familiar da rede e gemeu por causa da náusea que se estava tornando uma sensação interna igualmente familiar. Era o terceiro dia depois da tempestade.

- Tome - disse uma voz baixa. - Use a bacia.

Tiriki abriu os olhos e viu Damisa estendendo-lhe uma bacia de latão e a visão dela intensificou sua necessidade. Depois de vários momentos dolorosos, ela tornou a se deitar e enxugou o rosto com o pano úmido que Damisa lhe ofereceu.

- Obrigada. Eu nunca fui boa marinheira, mas achei que a esta altura já teria me habituado ao jogar do barco. – Tiriki não sabia dizer se era dever ou afeição o que instigava as atenções de Damisa, mas precisava demais de sua ajuda para se importar. - Como vão as coisas com o navio? A moça deu de ombros.

- O vento ganhou um pouco de força, e toda vez que os mastros rangem alguém pergunta se eles vão se partir, mas sem vento parecemos praticamente não nos mover. Se temos vento contrário a soprar, eles reclamam que estamos perdidos, e quando pára, desandam a se lamentar dizendo que vamos todos morrer de fome. A propósito, Elis e eu preparamos um caldeirão de sopa de aveia. Vai se sentir melhor se tomar um pouco de ar fresco e comer alguma coisa de desjejum.

Tiriki estremeceu arrepiada.

- Não por enquanto, mas vou subir ao convés. Prometi a Chedan que o ajudaria a fazer a revisão dos mapas das estrelas, embora da maneira como estou me sentindo, não acho que vá ser capaz de fazer muito mais que ruídos de aprovação e segurar a mão dele.

- Ele não é o único que precisa que alguém lhe dê a mão - respondeu Damisa. - Tenho tentado manter os outros ocupados para não criarem confusão, mas o convés se inclina demais longitudinalmente para as posturas de meditação e há um limite para o tempo a que nos podemos dedicar para debater o que diziam os magos. Eles podem ser jovens - acrescentou ela, do alto de seus dezenove anos -, mas foram selecionados pela inteligência, e podem ver o perigo em que nos encontramos.

- Suponho que sim - suspirou Tiriki. - Muito bem. Vou subir.

- Se a senhora passar a manhã com os outros, posso fazer um inventário completo dos suprimentos. Com a sua permissão, é claro - acrescentou ela relutantemente.

Tiriki se deu conta da medida em que aquele pedido havia sido uma reflexão tardia e conteve um sorriso. Ainda se lembrava de sentir um desdém semelhante pela ignorância dos mais jovens e pelas fraquezas dos mais velhos que ela quando tinha aquela idade.

- É claro - repetiu inexpressivamente. - Damisa, estou agradecida por você ter assumido esta responsabilidade enquanto estive adoentada. - Na luz fraca era impossível ver se a

moça enrubesceu mas quando Damisa respondeu, seu tom de voz era calmo.

- Eu fui uma princesa de Alkonath antes de ser uma acólita. Liderar é o que fui educada para fazer.

 

Damisa falou com confiança mas, quando afinal concluiu sua inspeção dos mantimentos armazenados no Serpente Carmesim, estava começando a desejar não ter assumido tamanha responsabilidade. Mas enfrentar a verdade desagradável também era parte do trabalho. Só lhe restava esperar que o capitão Reidel, embora fosse apenas um homem do povo, pudesse fazer o mesmo. Como imaginava, ela o encontrou com Chedan na proa do navio, calculando a posição deles a partir da visada do sol do meio-dia.

- Damisa, minha cara - disse o homem mais velho. - Está com o semblante preocupado. Que há de errado?

- Trago notícias muito graves. - O olhar dela passou dele para o capitão. - Nossa reserva de provisões está se esgotando muito depressa. Se for mantida a proporção em que a estamos usando - disse-lhe em tom firme -, a saca aberta estará vazia depois da refeição da noite, e há apenas mais uma saca. Posso fazer um mingau mais ralo, mas isso não é alimento suficiente para os homens que trabalham.

Reidel franziu o cenho.

- Mais uma vez desejo que nosso cozinheiro tivesse conseguido embarcar. Mas tenho certeza de que está fazendo tudo o que pode. Eu aceitaria de bom grado quaisquer sugestões construtivas. Está me dizendo que só temos alimentos para mais dois dias?

- Da maneira como estamos consumindo, é mais provável que seja só para mais um. Eu reparei que certas pessoas, e não me refiro só à gente do povo da cidade... - Damisa sentiu-se enrubescer sob a intensidade de seus olhos escuros. De constituição forte, com a pele bronzeada e cabelos escuros, ele era um representante típico da classe média atlante, mas naquele momento ela se deu conta de que era muito mais jovem do que Parecia visto de longe, e tinha uma boca que parecia muito mais habituada a sorrir do que a ficar cerrada na linha dura em que estava agora. - Algumas pessoas - repetiu ela resolutamente - têm estado tirando e guardando alimentos. Eu sei onde parte deles está escondida e, se seus marinheiros me ajudassem a tomá-los deles, poderíamos distribuí-los adequadamente, e conseguir pelo menos mais uma refeição para todo mundo. Talvez até mais.

- Certo. - Reidel suspirou.

Chedan resmungou, seus olhos ainda cravados no curioso e delicado instrumento de bastões de cristal ligados a cones com os quais ele estava calculando o ângulo do horizonte para o sol.

- Eu já conversei sobre tudo isso com os outros acólitos - disse Damisa diante do silêncio deles. - Estamos habituados a jejuar - explicou ela, e corou de novo quando o capitão e o mago se viraram para olhá-la. - Na verdade, não estamos fazendo trabalho pesado algum. Não nos fará mal passar a consumir rações de meditação por algum tempo.

Os olhos de Reidel a examinaram como se ele a estivesse vendo, como sendo alguém que se distinguia muito do resto da casta dos sacerdotes, pela primeira vez. Damisa sentiu suas faces se ruborizarem sob o escrutínio dele, mas dessa vez seus olhos não vacilaram e no final foi ele quem desviou o olhar.

- Chegaremos à terra dentro em breve - murmurou ele, olhando fixamente para o horizonte. - Temos de chegar. Quando falar com seus amigos, diga-lhes que agradeço muito.

- Direi - respondeu Damisa. Ela se virou para Chedan.

- Venha comigo, Mestre. Os acólitos estão esperando na popa do navio. Podemos suportar todas as provações que tivermos de suportar, mas o faremos com coração mais forte se nos trouxer palavras de esperança.

O mago ergueu uma sobrancelha com ironia.

- Minha cara, creio que você já tem palavras suficientes. Não, não, isso não é uma censura - apressou-se em tranqüilizá-la - sinceramente, você me traz esperança sob a forma da força que, claramente, conquistou a partir dessas dificuldades. Todos nós estamos em dívida com você.

Na área do meio do convés, alguns dos marinheiros emendavam cordas partidas durante a última ventania, enquanto outros costuravam uma vela sobressalente. Chedan podia sentir os olhos deles em suas costas enquanto seguia Damisa em direção à popa, mas as regras de casta impediam quem quer que fosse de questionar suas ordens. Os acólitos, e um ou dois outros da casta dos sacerdotes, estavam sentados agrupados em um semi-círculo informal sob um toldo improvisado feito com os restos de uma vela rasgada demais para poder ser reparada. As conversas terminaram subitamente quando eles reconheceram o renomado Mestre Chedan Arados, e em troca ele os examinou com interesse.

Ele havia conhecido Damisa quando ela ainda era uma criança, em Alkonath. Naquela época, já era franca e desinibida, e se agora o estava apresentando ao grupo como se tivesse saído ao seu encalço e o tivesse capturado, ele supunha que tinha o direito de fazê-lo. Ele estivera ocupado demais lutando com as cartas celestes para prestar atenção aos acólitos, mas com Tiriki passando tão mal, supunha que era seu dever.

Enquanto Damisa se sentava de maneira pomposa no capacho no piso em meio a seus companheiros, o mago acomodou os ossos doloridos sobre um rolo de cordas, olhando de um rosto jovem para outro com o que esperava fosse um sorriso tranqüilizador.

- Lamento que até agora eu tenha estado ocupado demais para visitá-los - começou ele -, mas tudo o que ouvi nesses últimos dias me diz que nas circunstâncias difíceis pelas quais temos passado vocês têm se esforçado para ser úteis. Quando não há necessidade de orientação, sei que o melhor a fazer é não dá-la. Mas compreendo que existem alguns aqui que acreditam que nossa situação é desesperadora. Pois bem, é muito razoável se preocupar, de fato, é muito sensato, tendo em vista a situação em que nos encontramos, mas desesperar seria um erro.

A pequenina Iriel deixou escapar um som que poderia ter sido riso ou um soluço abafado.

- Erro? Mestre, muito de nossa formação é dedicada à interpretação de sinais. Quando o sol começa a se pôr, sabemos que vai cair a escuridão. Se as estrelas não brilham, pode haver chuva. Os sinais que vejo agora dizem que nós vamos morrer aqui, pois não vimos qualquer outro navio nem avistamos terra. Uma sombra alada cruzou o convés e o olhar de Chedan a seguiu, levantando-se até que ele viu o pássaro reluzir num clarão branco contra o azul do céu.

- Não duvido do que você viu. - Ele se virou de volta para Iriel. - Embora eu tenha viajado mais do que a maioria, nem mesmo eu posso ter absoluta certeza de nossa posição exata. Mas você está tirando conclusões antes de todas as provas terem chegado. Não incorra no erro daqueles que vêem a mudança apenas como declínio e dizem que no final haverá escuridão. No final, também, existe luz - luz que nos mostrará finalmente o cosmos e nosso verdadeiro lugar nele, o propósito de nossas esperanças e nossas perdas, de nossos amores e nossos sonhos...

- Sim, Mestre, não duvidamos que nossos espíritos sobreviverão - o rosto bonito de Kalaran estava contorcido numa expressão de escárnio. - Mas se somos tão importantes, por que os deuses nos deixam suspensos na beirada do mundo?

- Kalaran, Kalaran! - Chedan fechou os olhos e sacudiu a cabeça. - Você sobreviveu ao fogo e à destruição praticamente incólume, e agora reclama de precisar passar por um bocadinho de suspense? Não é de admirar que os deuses tão raramente intervenham! Graças à misericórdia deles nos foi concedido um caminho para escapar à devastação, mas isso não é suficiente? Não, agora temos de enfrentar duras condições! - Chedan sacudiu os dedos, num arremedo de horror. - Certamente tudo está perdido. - Ele esperou enquanto um coro de risadas nervosas percorria o círculo.

- Filhos da Atlântida do passado - prosseguiu, em tom mais suave -, nós perdemos tudo, exceto uns aos outros, mas quando digo que nos devemos sentir gratos por nossas dificuldades, não estou apenas repetindo filosofias batidas. Nós não teríamos essas dificuldades se não tivéssemos sobrevivido! Certamente vocês não pensam que seja um erro sobreviver, meramente porque as coisas estão mudadas.

- Mas nós estamos perdidos! - objetou Kalaran, e um murmúrio de acordo fez eco a suas palavras.

- É pior do que isso - exclamou a jovem Selast de seu lugar ao lado de Damisa, o corpo esguio tremendo de energia nervosa. - Os marinheiros dizem que navegamos para fora do mundo!

- Em minha experiência - respondeu Chedan, olhando para trás, de uma ponta a outra do navio -, marinheiros dizem muitas coisas ridículas e absurdas para os jovens e inocentes. Eu a aconselharia a não acreditar em tudo que ouve.

Mas, consideremos por um momento a possibilidade de que esses rumores sejam verdadeiros, e que tenhamos navegado para fora do mundo. Como você sabe que não navegaremos de volta para dentro dele com a mesma facilidade? O mar é vasto e incontrolável, mas é finito. Nós encontraremos terra e creio que cedo antes que tarde. Mas deixem-me adverti-los com antecedência, meus caros jovens amigos: quando mais uma vez chegarmos à costa, provavelmente não encontraremos grandes salões aquecidos e criados esperando com iguarias finas e bebidas saborosas.

Justo nesse instante, como se as palavras do sacerdote tivessem sido nada menos que uma profecia, ouviu-se um guinchado agudo e depois um grito do homem de visão aguçada que Reidel havia mandado subir ao topo do mastro.

- Terra! Meu capitão, aquilo não é uma nuvem no horizonte! É terra à vista o que vejo, com toda a certeza!

 

Na euforia da descoberta, eles se esqueceram de que avistar terra não era a mesma coisa que alcançá-la. A medida que se aproximaram, aqueles que tinham boa visão ao longe descreveram altos penhascos de pedra acastanhada, esculpidos pelo vento e pela água em colunas e torres. Aos pés deles as ondas espumavam em violento redemoinho.

- Creio que seja a Cassitéridas, a Ilha de Estanho, cuja extremidade sul, em forma de chifre, os mercadores chamam de Beleri’in - disse Chedan em voz baixa. - Esses devem ser os penhascos na ponta da península. Na costa sudoeste, existe uma baía com uma ilha que é onde os navios mercantes aportam.

Reidel se dobrou sobre a cana do leme empurrando-a com o peso do corpo, e os marinheiros deram o melhor de si, mas o vento soprava de leste e o máximo que puderam fazer sem a vela mestra foi botar o Serpente Carmesim a adernar atravessado em direção aos penhascos pontiagudos. Praguejando, derrotado, Reidel virou mais uma vez seu navio em direção à segurança relativa do mar aberto.

- Existem outras enseadas na costa norte? - perguntou Tiriki baixinho, incapaz de tirar os olhos da costa indistinta até ela ter quase desaparecido na neblina do fim de tarde.

- Existem muitos portos aqui - assegurou-lhe Chedan -, é uma ilha bastante grande. Há muitos anos, nossos navios costumavam arribar em uma enseada um pouco mais acima na costa. Ficava na embocadura de um regato que eles chamavam de Naradeck em homenagem a um rio na Terra Antiga. Havia um outeiro que parecia uma pirâmide, onde eles tinham construído um Templo para o sol. Mas quando a Terra Antiga afundou, o contato foi perdido. Duvido que ainda reste alguma coisa.

Reidel conseguiu dar-lhe um sorriso.

- Pelo menos sabemos onde estamos. Amanhã, com certeza desembarcaremos.

Mas o vento, ao que parecia, não queria que o fizessem. Durante mais três dias eles lutaram para avançar ao longo da costa escarpada, enfrentando correntes hostis, mau tempo e ventos contrários, e a cada dia tinham menos condições de se alimentar com apenas alguns peixes que conseguiam arrancar das ondas.

No quarto dia, o vento morreu. A alvorada mostrou-lhes um semicírculo de montanhas que abrigavam um largo estuário onde a terra e a água se misturavam em incontáveis riachos. Pequeninas ilhas cobertas de árvores agrupavam-se em fileiras na região de pântanos como os anéis de uma serpente titânica, encaracolando-se para o interior em direção a uma terra cujos contornos as brumas ainda escondiam.

Um por um, os refugiados se reuniram no convés para contemplar a terra desconhecida, quase sem conseguir acreditar que realmente tinham chegado a uma destinação. Tiriki ficou parada sozinha na proa do navio, lutando contra as lágrimas à medida que se dava conta de que, de alguma forma, havia imaginado que Micail estivesse ali esperando por ela quando a jornada estivesse terminada.

Eles ainda estavam a algumas léguas a oeste do entreposto comercial na foz do Naradek de que Chedan havia falado. Uma selva jamais pisada antes não era o local de desembarque que algum deles havia esperado encontrar. Mas a maré os estava puxando impiedosamente em direção à terra e o navio deles, avariado demais para que se arriscassem a sair para mar aberto de novo. Com um suspiro metade de alívio, metade de resignação, Reidel virou a cana do leme e embicou para o estuário.

- Aqui afinal está a nova terra... - a voz era de Chedan, mas soou alta de maneira incomum. Um pouco espantada, Tiriki se virou para olhar enquanto ele se dirigia a todo o grupo reunido. - Daqui por diante, não haverá mais tempo para prantear ou para luto - dizia ele -, pois precisaremos de todas as nossas energias para sobreviver. Portanto, aproveitemos este momento para prantear e nos despedirmos de Ahtarrath, a bela e de Alkonath, a poderosa. Ah, infeliz do Império Luminoso que um dia existiu e não mais existe.

E então, com ainda maior pungência, a dor do luto pelos Dez Reinos de Atlântida, cujos poderosos navios haviam corrido as águas do mundo inteiro, diminuiu e afinal silenciou. Por um instante, as lembranças de tudo o que haviam perdido tornaram-se demasiado claras; demasiado vivida, mais uma vez, veio-lhes a visão da Montanha Estrela quando explodiu em fogo e trovão e o último bastião da invencível Atlântida orgulhosamente se rendeu ao mar.

“Ó bela no horizonte do Leste, Levantai vossa luz ao dia, Ó Estrela do Oriente, Estrela do Dia, despertai, raiai! Senhor e doador de vida, despertai - Júbilo e doador da Luz, raiai - Oh bela no horizonte do Leste, Estrela do Dia, despertai, raiai!”

Micail gradualmente foi recuperando a consciência ao ouvir o subir e descer da cadência dos versos que haviam dado início aos seus dias desde que conseguia lembrar-se. As vozes tinham a pureza da juventude; eram os acólitos que estavam cantando? Micail não conseguia lembrar-se muito bem de por que os acólitos estavam com ele, mas a presença deles e as cadências de afirmação de vida da canção eram proteções contra os pesadelos que já começava a esquecer.

Tentou abrir os olhos, mas um tecido fresco de cor cinza os cobria. Será que estive doente? Sentia dor no peito e por trás dos olhos. Ele gostaria de levantar as mãos para retirar o tecido úmido, mas tinha uma sensação de fraqueza e calor nos braços.

- Tiriki... - Teve força suficiente para sussurrar. - Tiriki? - tentou de novo.

- Não tente falar. - Certa mão habilidosa ajeitou o tecido sobre sua fronte, depois levantou-lhe a cabeça. - Aqui está uma coisa para beber. Vá devagar. - A borda dura de uma caneca tocou-lhe os lábios. Automaticamente ele engoliu o líquido, um mingau de aveia azedo, quase levedado pelo gosto de mel, que desceu bem. A pressão no peito cedeu, mas a dor de cabeça continuou.

- Pronto, muito bem - falou a voz novamente, enquanto as mãos fortes delicadamente pousavam a cabeça de Micail de volta no travesseiro. - Isto deve acalmá-lo.

Ele tentou se concentrar na pessoa que falava, mas seus olhos não queriam ficar abertos. A voz era familiar de maneira tantalizante, com o sotaque da terra de sua infância, mas era baixa demais para ser de Tiriki. Por que ela não está aqui, se eu estou tão doente? Tentou reunir forças para chamar a mulher de novo, mas lá o que fosse misturado no líquido que havia bebido o arrastava de volta para o fundo de uma agradável escuridão. Ele franziu a testa, inalando o cheiro fresco de chuva e de terra verdejante no instante em que sua consciência confusa do presente foi dominada pela lembrança.

“O equilíbrio está rompido!”

“A escuridão ascende! Dyaus está liberado!”

“E o cataclismo! Salve-nos, Micail!”

“Salve-nos!”

 

- Micail, está me ouvindo? Acorde, rapaz. Você já vadiou aqui tempo demais!

Mãos musculosas com a pele ressequida pela idade apertaram as dele, e o solavanco de energia que elas transmitiram com um choque fez com que ele recuperasse a plena consciência. Seus olhos pestanejaram e se abriram. O homem inclinado acima dele era alto, tinha rosto expressivo e cabelos grisalhos que caíam como penas revoltas sobre a testa alta.

- Ardral! - O som que saiu de sua boca foi um coaxar, mas Micail estava surpreso demais para se importar. - Meu senhor Ardravanant - emendou-se, preferindo a forma mais correta ao dirigir a palavra ao Sétimo Guardião Investido do Templo da Luz de Ahtarrath. Em teoria, ele e Micail eram pares na hierarquia, mas o velho adepto era uma lenda desde que Micail era criança e usar o apelido parecia presunçoso.

- Gosto mais da maneira como me chamou antes - advertiu o Sétimo Guardião. - Ultimamente não me tenho sentido absolutamente como um “Conhecedor do Esplendor Maior”. Além disso, dá a questão como provada, você não acha? Já é um bocado desagradável nas cerimônias. Não, continue a me chamar de Ardral. Por acaso eu ando por aí chamando você de Osinarmen?

- Nesse ponto, de fato, tem razão. Mas... - Micail sacudiu a cabeça e tossiu. - Que está fazendo aqui? Já que estamos falando nisso... - ele se calou de novo por um momento, mas não tossiu. - Onde estamos?

Os olhos cinzentos de Ardral se estreitaram.

- Você não se lembra?

Eu não me lembro de nada, pensou Micail; mas no instante seguinte, ele se lembrou.

- Estávamos na biblioteca - disse ofegante. - Você estava tentando descer a escada com um grande baú de madeira. Meu amigo Jiri e eu o ajudamos, mas aí você correu de volta para dentro e... - Sua mente foi dominada por múltiplas imagens: os sacerdotes discutindo, pilares desabando, paredes desmoronando, rolos de papiro se espalhando como folhas sopradas pelo vento, e o gemer perpétuo da terra, vibrando tanto através das pedras como dos ossos...

- Você salvou minha vida - disse baixinho o iniciado, e de novo suas mãos apertaram as de Micail -, embora, pelo que me lembro, na ocasião, eu não tenha ficado muito grato.

- Você praticamente quebrou meu nariz.

- Pois é... sinto muito por isso. Não sei o que deu em mim. Não era eu quem fazia uma porção de discursos muito bonitos sobre aceitar o inevitável? De modo que, naturalmente, tinha de ser eu aquele que não conseguiu resistir à tentação de tentar salvar mais uma coisa - mesmo se grandes nacos de lava voando estivessem ateando fogo à cidade! Bem, estou muito satisfeito de que você tenha sido capaz de ver que estava na hora de ir embora.

- Afinal, como conseguimos chegar ao porto? - sussurrou Micail, sentindo um aperto no peito. - Eu me lembro das torres caindo, bloqueando o caminho... - Sua memória transbordou com imagens distorcidas: pessoas cambaleando enquanto a Praça Darokha arfava, as antiqüíssimas pedras azulejadas subitamente encrespando-se numa onda medonha - e uma mulher idosa caindo, sendo pisoteada pela multidão e deixada caída no meio da rua como uma boneca quebrada.

Os punhos de Micail se cerraram com impotência enquanto ele via de novo o clarão vermelho nas águas agitadas do litoral, ouvia o reunir das armaduras dos soldados de elite que o príncipe Tjalan havia mandado para encontrá-lo e, embora lutasse para não fazê-lo, não conseguiu impedir-se ver, com insuportável clareza, o caos de penhascos desmoronado onde o porto deveria ter estado e onde o Serpente Carmesim estivera atracado.

E o tempo todo, as cinzas tinham estado caindo, cobrindo a terra e o mar com um pó cinzento pútrido, como se toda a vida estivesse morta e ele nada mais fosse que um fantasma, assombrando um túmulo em ruínas, o túmulo de...

- Tiriki! - a voz dele se embargou e Micail lutou para respirar. - Onde está ela? - A tosse que o sacudia causava uma dor dilacerante a seus pulmões, mas ele arqueou o corpo para cima, debatendo-se. - Eu tenho de encontrá-la, antes...

Mas então ele sentiu de novo a força surpreendente nas mãos de Ardral, quando o adepto murmurou uma Palavra de Poder que, rapidamente, fez Micail cair, mais uma vez mergulhado em sonhos inebriados.

À medida que continuou a oscilar entre instantes de consciência e inconsciência, Micail se deu conta de que uma série de mãos diferentes cuidava dele. Por vezes, até mesmo o mais delicado dos toques era intolerável. Em outras ocasiões, seli amigo Jiritaren estava com ele, ou alguma outra pessoa, falando em tom de extrema preocupação sobre alguma crise, febre pulmonar... Gradualmente, Micail começou a compreender que estava correndo perigo de vida, mas aquilo não importava. A única coisa que importava era Tiriki. Micail não conseguia lembrar-se de como a havia perdido, mas sua ausência era um ferimento através do qual sua vida estava se esvaindo.

E então houve um momento em que ele sentiu braços ao redor de si. Estou morrendo, pensou, e Tiriki veio para levar-me para casa. Ela, porém, estava praguejando com ele. gritando a respeito de uma tarefa que ele deixara por fazer. Micail sentiu que se estava afogando numa poderosa maré...

Ele despertou com o toque de tambor de forte aguaceiro. Aquilo lhe pareceu estranho; a estação das tempestades já havia passado. Inspirou profundamente e reparou que, embora ainda houvesse alguma congestão em seus pulmões, eles não doíam mais. A cama era desconhecida, mais macia do que lhe agradava. Levantando a cabeça do travesseiro de plumas, olhou ao redor de um aposento agradavelmente iluminado, com paredes caiadas e uma janela estreita. Seu coração pulsou quando viu certa mulher parada ao lado dela, olhando para fora, para o mar e para a tempestade, mas não era Tiriki. Aquela mulher tinha cabelos escuros cacheados, orlados de fios que reluziam acobreados quando apanhados pela luz.

- Deoris? - sussurrou, e quando ela se virou, Micail viu a pele dourada, os enormes olhos escuros, uma espinha de adolescente no nariz. É claro que não era Deoris; aquela era sua filha mais moça, meia-irmã de Tiriki...

- Galara - disse em voz mais alta. - Pelo menos você está viva!

- E você também! - exclamou ela, se inclinando para ele, cheia de animação. - E agora você recuperou o domínio de si mesmo, voltou a ser como era, não é? Graças ao Criador! É melhor eu ir avisar ao príncipe, ele vai querer saber.

Micail começou a compreender suas lembranças. Se o Príncipe Tjalan também estava ali, quando eles haviam encontrado o caminho para o porto principal bloqueado, devia ter levado Micail para bordo do Esmeralda Real, que ainda estava a salvo na enseada, e o trouxera para aquele lugar... Onde quer que fosse naquele lugar. Micail estava a ponto de perguntar, mas não conseguiu pronunciar as palavras antes que Galara saísse correndo do quarto. Tentou sentar-se na cama, mas o esforço foi demasiado e tornou a deitar-se no leito macio, procurando respirar mais fundo.

A porta bateu contra a parede quando o Príncipe Tjalan em pessoa entrou, com passadas largas. Havia mais algumas mechas prateadas em suas têmporas do que Micail se recordava, e uma ou duas rugas profundas ao redor dos olhos que antes não existiam, mas o saiote de linho pregueado estava tão bem passado como sempre, e ao ver Micail, o semblante do príncipe se encheu de prazer.

- Você está acordado! - Tjalan tirou a pelerine curta de lã e sentou-se no banquinho ao lado da cama, apertando as mãos de Micail por um breve momento entre as suas.

- Estou... e fico muito feliz em vê-lo. Pelo que entendi, foi você quem conseguiu me trazer para cá inteiro? - Micail teve dificuldade de se sentir grato, mas sempre tivera afeto por Tjalan e pelo menos isto não havia mudado.

- Vou conceder uma medalha a mim mesmo! - Tjalan deu uma risada. - Primeiro precisei trazê-lo à força para bordo do navio... mais ninguém teve coragem! Depois, quando estávamos mais ou menos a meio caminho de saída do porto, você pensou ter visto Tiriki... - Ele se calou por um instante. - Saltou no mar e, é claro, bateu direto numa verga que flutuava e levou uma violenta pancada na cabeça! Por pura sorte não se afogou e não levou consigo seu salvador! Que, diga-se de passagem, também fui eu. Mas eles, de alguma forma, conseguiram nos içar de volta para bordo. Desde então, entre a concussão devida ao ferimento na cabeça e a febre pulmonar causada pela água imunda que bebeu, você tem sido de uma falta de graça total e absoluta, inconsciente ou delirante o tempo todo. Mas valeu a pena um pouquinho de aborrecimento para manter você respirando.

- Que lugar é este? - perguntou Micail.

- As Hespérides - a Ilha do Estanho - exatamente como você e eu tínhamos planejado. - Tjalan sorriu de novo. - Desembarcamos aqui, em Beleri’in, para reabastecer nossas despensas e esticar as pernas, mas assim que se sentir em condições de viajar novamente, seguiremos viagem subindo pela costa até Belsairath. Não é nada de majestoso, apenas um antigo entreposto comercial dos tempos de meu avô, mas com todos esses refugiados, logo será uma cidade próspera!

- Refugiados... - Micail estremeceu, a despeito dos cobertores e peles. - Então chegaram outros navios?

- Ah, sim. Não só de Ahtarrath, mas também há alguns das outras ilhas. Salvamos mais dos seus sacerdotes do que eu havia ousado esperar naqueles últimos momentos em que o mundo inteiro parecia prestes a explodir. Quando a estrada para o porto ficou bloqueada, vários de seus acólitos conseguiram chegar à enseada. O Esmeralda Real fico completamente lotado, mas é um bom navio e depois que saímos do porto fizemos boa viagem.

- Mas não houve alguma notícia... - Ele lutou para respirar.

- Por favor, acalme-se - suplicou o príncipe -, meu querido amigo! Nós não tivemos notícia alguma de Tiriki, não. Mas os navios ainda estão chegando, e alguns até navegaram à nossa frente, sem dúvida também rumando para Belsairath. Pode ser que ela ainda venha se juntar a nós. Mas de que servirá isso, se você se maltratar e estiver desfeito em pedaços?

Nos dias que se seguiram, Micail começou a preencher mais lacunas em sua memória. A casa em Beleri’in onde o haviam alojado era uma de várias pertencentes a um mercador nativo que havia enriquecido com o comércio de estanho. À medida que recuperava a força, Micail fazia caminhadas pelo vasto jardim, enchendo os pulmões com o vento limpo que varria as colinas verdejantes enevoadas, apenas parcialmente visíveis, para além dos muros do jardim. O céu parecia imenso, quer se mostrasse como uma tapeçaria de nuvens disformes ou uma vasta amplidão de azul radiante.

Então este é o novo mundo, ele se deu conta, e por um momento seu humor sombrio quase se desvaneceu. Há muita beleza por aqui... mas é frio, muito frio. Pai Sol, nós cantamos para louvá-lo e enaltecê-lo como sempre fizemos, por que o senhor se recusa a aquecer a terra aqui? Mesmo o vento do mar não me traz coisa alguma do senhor. Será que devo construir seu novo Templo só para sentir um momento de calor?

Micail observava o mar constantemente em busca de navios, mas só quando estavam de partida para Belsairath foi que apreciou a beleza do oceano. A enseada era do mesmo azul límpido que o céu. No meio dela havia uma pequenina ilha que separava um agrupamento de navios veleiros com cutelos e varredouras nos dois bordos, que balançavam suavemente com a maré. O maior era o navio de Tjalan, o Esmeralda Real; suas velas verdes pareciam folhas luminosas em contraste com o verde mais escuro da ilha.

- O cume daquela ilha é tão pontudo que parece feito pelo homem - comentou Micail com Galara, numa tentativa de distrair seus pensamentos do barco de pesca leve com armação de vime coberta de peles, que jogava muito e fedia a peixe em que eles estavam sendo transportados para o Esmeralda.

- Talvez seja - observou o menino nativo, enquanto uma destra remada de sua pá os impelia velozmente adiante. - Tem farolete no topo. Tinha fogo quando navios de estanho vinham. Mas agora, não tem mais mercadores - acrescentou tristemente.

- Não tenha tanta certeza de nada - aconselhou Micail, pensando no que Tjalan lhe havia contado de seus planos para aquele novo país. Mas será que realmente tinha importância? Será que havia algum sentido em tentar construir uma nova Atlântida se Tiriki estivesse perdida?

Ele se agarrava à amurada do barquinho quando o mar ficava ainda mais agitado, espantado com o fato de que o garoto conseguisse governar o movimento de uma embarcação tão inacreditável. Mas à medida que a estranha ilhota pontuda se aproximava, Micail tomou consciência de uma outra sensação, uma espécie de zunido pouco audível que instintivamente associou com o fluxo de energia. Ele tocou no ombro de Galara e perguntou:

- Você está sentindo?

- Eu estou me sentindo enjoada. - Ela estava pálida e nauseada. Micail lembrou-se de ouvi-la dizer que não gostava do mar. Devia ser por esse motivo que não percebia o tamborilar na água.

Tiriki o teria sentido. Meio desajeitado, deu uma palmadinha no braço de Galara e depois fechou os olhos, dominado por nova onda de imenso pesar. Sem ela, fico mutilado, pensou. Os deuses não me vão querer.

Quando finalmente subiram a bordo, encontraram o convés do Esmeralda Real enxameado de soldados. Micail não se havia dado conta de que Tjalan trouxera não só os homens de sua guarda pessoal, mas também um contingente da tropa de soldados regulares.

Os soldados permaneceram no convés durante os três dias de viagem necessários para cobrir o percurso rumo ao norte e ao leste, ao longo da costa até Belsairath. As cabines na coberta eram reservadas para os passageiros nobres e sacerdotes como ele. Naquela primeira noite, contudo, encontrou-se apenas com a acólita Elara. Haviam lhe contado que ela tinha acabado por embarcar no navio do príncipe Tjalan, mas não a havia visto até aquele momento. Satisfeito por poder deixá-la com Galara, Micail saiu em busca de seu camarote, onde logo mergulhou num sono profundo como uma pedra caindo num abismo.

O segundo dia já ia bem avançado quando despertou para a descoberta de que dividia o camarote com Ardral, que também tinha deixado que seu amigo Jiritaren usasse a mesma cabine. Jiritaren não estava nem um pouco disposto a permitir que Micail se entregasse à autocomiseração deitado em seu beliche num dia tão bonito.

- É preciso que se reconheça, o povo de Alkonath sabe construir bons navios - comentou Jiritaren quando eles saíram para o convés, passando a mão na madeira bem encerada do corrimão. O vento deu cor à sua pele de tez amarelada, e levantou mechas de seus cabelos negros muito lisos.

- Pois é - respondeu Micail, levantando a cabeça para olhar para a bandeira verde que panejava bravamente sob o vento, cujo círculo de falcões parecia bater as asas douradas. - Afinal, aqui estamos nós.

Jiritaren olhou-o preocupado. Eram amigos há muito tempo e, de maneira geral, não precisavam nem falar para saber qual era o humor um do outro. Passado um instante, ele pôs um braço ao redor do ombro de Micail e levantou a outra mão para apontar para os veleiros “asas-de-pássaro” que os seguiam, especialmente para um, de construção um bocadinho mais comprida e delgada do que os outros, com uma bandeira de cor laranja no mastro.

- Aquele é o Veloz Laranja - disse Jiritaren -, de Tarisseda! Eles chegaram com algumas cabines vazias, de modo que alguns dos nossos estão com eles. E ainda bem que isso aconteceu, caso contrário eu provavelmente estaria dormindo no convés com os lanceiros.

Micail conseguiu esboçar uma sombra de sorriso.

- Que navio é aquele? - e apontou.

- Ah, é o Delfim Azul. Um navio mais antigo, mas robusto. Há um bando de gente nele, alguns de nosso Templo.

- Minha companheira acólita, Cleta, está no Delfim, reverendíssimos senhores - disse Elara, avançando para se juntar a eles -, com seu irmão Lanath e Vialmar também. - Ela levantou o olhar para Micail com um sorriso que pareceu um tanto caloroso demais, considerando-se que, exceto por Damisa, que ele via com freqüência em companhia de Tiriki, mal conhecia os acólitos.

Mas, por poucos que fossem eles, desconhecidos ou não, seriam as fundações do novo Templo, e agora eram responsabilidade dele. Micail conseguiu retribuir o sorriso de Elara. Era uma moça graciosa, com idade suficiente para não ficar embaraçada com a atenção de dois sacerdotes superiores na hierarquia. A moça tinha apenas estatura média, mas suas feições regulares eram harmoniosas, e as tranças de cabelos negros cacheados, precariamente presas contra o vento com um grampo filigranado, tinham um brilho lustroso como a asa de um corvo.

- Você é a prometida de Lanath, não é? - murmurou ele. - Sinto muito, deve ser duro para vocês estarem separados. Pelo menos Cleta e Vialmar estão juntos.

Ela baixou os olhos.

- Qualquer plano de casamento deve esperar, milorde - respondeu ela. - Estamos longe de ter concluído nossa formação. Eu queria dizer que é uma grande honra estar aqui, reverendíssimos, onde posso esperar receber instrução e adestramento sob a supervisão direta dos senhores.

 

Foram precisos dois dias para alcançar o porto mercante de Belsairath. Ficava na costa sul da terra que os habitantes nativos chamavam de “Ilha dos Poderosos”. Foi fundado quando Alkonath inicialmente buscou conquistar a supremacia sobre as rotas comerciais dos Reinos do Mar, mas desde então se mantinha um lugar pouco conhecido.

Como em Beleri’in, havia uma pequena ilhota a alguma distância ao largo do porto, rodeada não por navios ancorados, mas por uma fileira de longos bancos de areia que protegiam a costa das tempestades. Quando o Esmeralda Real aproou para ultrapassá-la, os soldados correram para a amurada para ter uma primeira visão de relance da sua destinação. Até Micail sentiu ligeira curiosidade.

Ele tremeu de frio e tornou a se cobrir com o novo manto do verde de Alkonath que ganhara recentemente. Era bem forrado de modo a agasalhar bem, mas parecia-lhe estranho substituir o carmesim cerimonial de sua família por aquela cor. Mas que importância tem isso? perguntou a si mesmo. Nem Ahtarra nem Alkona existem mais. Mesmo os deuses parecem muito distantes...

As nuvens estavam se aglomerando de novo, prenunciando chuva, e o cenário que se desvendava diante dele tornou-se um mural pintado em tons de cinza e marrom. O delta baixo ao fundo da baía era salpicado de pequenas lagoas e leitos de juncos, como se a terra não tivesse vencido inteiramente sua briga com o oceano. Ele imaginava que tempestades de vez em quando poderiam modificar por completo a arrumação daquela paisagem. Esperava que os homens de Alkonath tivessem construído seu porto em terra firme.

A notícia de que tinham chegado espalhou-se depressa. Micail olhou ao redor e viu que a maioria, senão todos os passageiros, tinha saído para o convés. Elara e Galara estavam paradas bem perto dele, com a atenção mais concentrada, ao que parecia, nos soldados do que na vista.

Uma pluma flutuou em direção à terra passando diante deles, e Micail se deu conta de que a maré estava subindo. Forçando os olhos, observou a costa mais para o interior em direção à terra firme escarpada, certa massa indistinta de colinas cobertas por densas florestas. No centro delas, ele podia ver uma única faixa fina de fumaça, em espiral como serpentina, subindo e se enrascando sob o vento. Talvez aquela fumaça venha do porto, pensou. Como é mesmo que eles chamam este lugar? Belsairath? “Porto da ponta alguma coisa...”

A voz do capitão Dantu soou alta, acima do burburinho dos passageiros, gritando ordens. Os soldados foram para o outro bordo do navio para equilibrá-lo, enquanto o timoneiro governava a proa pontuda do veleiro através de uma entrada que se abria para uma enseadinha enevoada e tranqüila, onde o rio finalmente fazia as pazes com o mar. Uma barreira de molhes para orientar correntes, de aspecto eficiente, havia sido construída projetando-se mar adentro ao redor dos ancoradouros dentro do porto, mas Micail imaginava que, mesmo assim, na maré baixa os navios maiores ficariam todos encalhados.

Esta, portanto, é o fim da jornada, refletiu ele. Um belo lugar para morrer.

Junto às instalações portuárias erguia-se um recinto fechado fortificado com paliçadas. Atrás dele, uma fieira de construções, de início, cinzentas e indistintas, serpenteava em direção ao interior, acompanhando a margem do rio. Massas de madeira marcadas pelo tempo, com a pintura desbotada, e telhados de colmo gasto subitamente surgiram em seu campo de visão, e ele se deu conta de que cada prédio, de uma forma ou de outra, refletia as configurações de modelo atlante: aqui um arco, ali algumas varandas, e a alguma distância mais acima na encosta, uma estrutura mais nova que parecia ser um pátio de sete paredes em princípio de construção. Os arredores da velha cidade eram uma vasta extensão desordenada de casas de campo, construídas no estilo aristocrático de Alkonath, com uma área considerável dos prédios escondida sob a terra. Como em toda parte, a madeira era o principal material de construção, mas pelo menos os terraços e as fundações eram todos de pedra, ornamentados com os habituais trabalhos de entalhe e gesso pintados. A estranheza das brumas fazia com que tudo parecesse vagamente ameaçador mas, ainda que a contragosto, ele não conseguiu deixar de sorrir.

O rompante de divertimento não durou. Rajasta, o Sábio, dissera que o novo Templo seria construído numa nova terra, mas Belsairath parecia velha, até mesmo abandonada.

O Príncipe Tjalan havia tomado providências para que Micail ficasse hospedado numa estalagem à beira-mar, porque Micail queria ficar atento à chegada de navios e quaisquer notícias de Tiriki. Contudo, antes que pudesse descansar, o Príncipe Tjalan convocou Micail a comparecer a uma recepção em sua vila.

Enquanto se mantinha parado em meio a um grupo de pessoas luxuosamente vestidas, viu-se desejando ter ficado em sua cama na estalagem.

- Príncipe Micail, seja muitíssimo bem-vindo! - falou uma mulher às suas costas. - Encontrei o senhor apenas uma vez naquele ano que passou com Tjalan em Alkona, mas é claro que não poderia lembrar-se de mim; na época, eu era apenas uma criança...

A voz dela tinha aquele timbre ligeiramente rouco que muitos achavam sedutor e seu perfume, que Micail sentiu antes mesmo de se virar para ver quem havia falado, era um aroma da combinação de essências do mais caro óleo de nardo. Na verdade, não precisava de quaisquer outros sentidos para reconhecer a mulher de Tjalan, a Princesa Chaithala. Tjalan lhe havia contado que ela havia partido de Alkonath bem antes do Afundamento, trazendo os três filhos deles para ficarem em segurança ali. Mas ele também teria podido adivinhar isso, pois seus olhos castanhos-claros, habilmente delineados com kohl, não mostravam qualquer vestígio das terríveis lembranças que assombravam todos os que haviam assistido à morte do velho mundo.

A linhagem real de Micail e a maneira como foi educado desde pequeno o haviam treinado para todas as respostas corretas. Ele se inclinou numa reverência na medida exata, e falou delicadamente da impossibilidade de se esquecer de tamanha beleza, mas sua mente e seu coração estavam muito longe.

- É muita gentileza dizer isso, milorde - respondeu Chaithala, com igual compostura. - Faço o melhor que posso. O senhor meu marido diz que devemos manter nossos padrões elevados. - A moça lançou um olhar rápido ao redor, para se assegurar de que os criados estivessem mantendo todas as taças, cálices e pratos cheios.

- Tem se saído muito bem - respondeu ele automaticamente. O clamor constante das conversas fazia sua cabeça zumbir. Pior, por cortesia ele havia acompanhado em um drinque quase todo mundo que se aproximara até aquele momento e desconfiava seriamente de que não se conseguiria lembrar do nome de pessoa alguma na manhã seguinte.

- Há muita coisa por fazer - disse a princesa. - Mas eu quis vir falar com o senhor porque, de certa maneira, temos ambos a mesma tarefa. - Ela o convidou a segui-la até uma longa galeria que dava para um agradável pátio a céu aberto.

- Obrigado - disse ele, agradecido. - Receio que para mim estes aposentos subterrâneos sejam um tanto sufocantes, mesmo com todas as clarabóias e condutos de ar para ventilação...

- É um estilo - observou a princesa com delicadeza - que protegia a bela Alkonath do sol impiedoso do verão e que aqui será muito útil para conservar o calor.

- Sem dúvida, tem razão - admitiu Micail. Os mesmos tubos de bronze polidos que traziam para o interior o pouco que havia de luz do sol também impediriam a entrada dos ventos que varriam aquelas costas frias e cinzentas. - Mas sou por demais um filho do Sol - concluiu Micail, com o floreio necessário -, para vicejar onde sua presença é vista com menos freqüência do que é inferida pela sombra.

- É possível que sim, mas não vai encontrar mais luz do sol nas janelas do estabelecimento do porto do que encontra por aqui. - Chaithala sorriu. - Meu marido me disse que é seu desejo ficar alojado na estalagem de Domazo, em vez de ficar hospedado aqui conosco. A escolha é sua, é claro, mas mesmo assim espero que nos visite com freqüência. Eu, também, tenho necessidade de seus conselhos.

- Sim, foi o que me disse - Micail tentou parecer atento.

- Diz respeito à educação de meus filhos. O senhor meu marido tem tantas responsabilidades, que a educação deles foi deixada a meu encargo.

- Milady, perdoe-me, mas nada sei sobre como educar crianças - gaguejou Micail, dominando uma pontada de dor ao se recordar dos bebês que Tiriki havia perdido. Toda a minha linhagem está morta, refletiu ele, que posso ensinar aos vivos?

- O senhor me compreendeu mal, milorde. Eles já dispõem de um excelente tutor, um homem de vasto saber e muito paciente. Não, a questão a respeito da qual queria consultá-lo se refere mais ao teor dos ensinamentos que estão recebendo, pois a instrução e o adestramento dos acólitos são de sua responsabilidade, não é verdade?

- Eu... - ele se calou por um instante e olhou para ela atentamente. - A senhora está absolutamente correta, milady, mas tive pouca oportunidade de cumprir minha obrigação com eles. A Casa dos Doze foi transferida para Ahtarrath somente no ano passado. E apenas quatro deles estão conosco agora... - Por um momento a dor e o pesar por todos aqueles que se haviam perdido embargou-lhe a garganta mais uma vez.

- Sim - retrucou Chaithala alegremente. - Mas pelo menos esses quatro estão aqui. O senhor acha que poderiam nos visitar de vez em quando? Os deuses sabem que temos um número suficiente de sacerdotes! - Ela gesticulou para trás, em direção ao salão principal, com um sorriso pesaroso. - Mas parece-me que a maioria deles se tornou religiosa e exaltada demais para se lembrar de como falar com crianças. Apenas com o exemplo deles, receio que as três que tenho venham a crescer sem nenhuma compreensão ou apreço pelo verdadeiro significado de nossa religião.

- Terei o maior prazer em perguntar se eles se disporiam a isso - respondeu Micail lentamente. - Francamente, eu mesmo ainda não lhes dei muito que fazer. - Sua cabeça girava confusa, dominada pela culpa e por dúvidas. A princesa tinha dito pouco antes que ambos tinham diante de si a mesma tarefa, e agora ele percebia que isso era verdade. Como poderiam os acólitos preservar a sabedoria de Atlântida se ele não se encarregasse de instruí-los? Mas sem Tiriki parecia que tudo o que ele poderia ensinar era fracasso e desespero.

- Isso é tudo o que peço, Príncipe. - Chaithala o agraciou com mais um sorriso encantador e pôs a mão no braço dele, delicadamente puxando-o de volta em direção à massa rodopiante de convidados. Um instante depois, ela o deixou para ir apresentar a sacerdotisa Timul, que havia servido à Suma Sacerdotisa do Templo de Ni-Terat em Alkonath, e que agora era a superiora da Ordem Azul em Belsairath. Como a princesa, Timul viera para a nova terra há pouco mais de um ano e parecia ter-se adaptado muito bem.

Tiriki gostaria dela, pensou Micail com tristeza.

De alguma forma ele conseguiu manter os olhos abertos e cumprimentou todo o mundo. Alguns eram de Ahtarrath, dentre eles seu próprio primo mais velho, Naranshada, o Quarto Guardião Investido. Também estavam lá o velho Metanor, que havia sido o Quinto Guardião Investido do Templo e, é claro, Ardral, cuja posição como Sétimo Guardião Investido nem de perto chegava a refletir seu verdadeiro prestígio.

Na qualidade de filho de uma casa real, Micail fora educado para desempenhar seu papel em reuniões desse tipo. Sabia que deveria estar circulando, criando novos relacionamentos, diferençando os poderosos dos meramente influentes, mas não conseguia reunir a energia necessária. Nunca se havia dado conta de quanto dependia de Tiriki em situações desse tipo. Eles haviam trabalhado juntos, como uma equipe, um dando apoio ao outro.

Um criado se aproximou com uma bandeja de licor Ha‘anaat em delicados cálices de cerâmica fina como concha, e Micail pegou logo dois, esvaziando o primeiro de uma só golada. A bebida era doce e picante e deixava um rastro de fogo da garganta ao estômago.

- Sim, devemos aproveitar para apreciar isso enquanto podemos - disse uma voz levemente irônica. - A baga Ha não pode ser cultivada nesta latitude.

Através dos olhos cheios d’água, Micail reconheceu o rosto bronzeado e bigodudo de Bennurajos, um corpulento sacerdote de meia-idade. Originalmente de Cosarrath, ele por muito tempo havia servido em Ahtarrath, e Micail se lembrava dele como excelente cantor e um especialista na arte de cultivar plantas.

Micail tomou um gole menor do segundo cálice e deixou que o fogo interior crescesse e se propagasse pelos membros de seu corpo.

- Que pena! Mas imagino que saiba melhor do que ninguém. Bennurajos balançou a cabeça de um lado para o outro.

- Existem videiras por aqui que parecem promissoras - retrucou -, mas não saberei dizer para que são boas enquanto não amadurecerem.

- Não tenho certeza nem de em que estação estamos - murmurou Micail.

- Sim, isso cria um problema interessante. Em nossa terra, o sol era constante e rezávamos para pedir chuvas. Aqui deve ser com a luz do sol que os homens sonham; os deuses sabem que há toda a chuva de que possam precisar!

Micail assentiu. Até o presente momento, tinha chovido todos os dias.

- Se isto for a primavera, assusta-me pensar em como será o inverno. - Ele piscou os olhos, de repente sentindo-se nauseado, e sacudiu a cabeça bruscamente, mas a sensação estranha se recusava a passar. Será o calor no aposento, os ruídos, cheiros, e as bebidas?

Bennurajos deu um passo atrás, percebendo que Micail tinha perdido o interesse pela conversa. Micail tentou dizer alguma coisa cortês e amistosa - ele sempre gostou de Bennurajos - mas seu autocontrole estava indo embora. Sacudiu a cabeça de novo; as lágrimas lhe fizeram arder seus olhos.

- Por favor, deve perdoá-lo. - Era Jiritaren, aparecendo como se saído do ar. - O Príncipe Micail foi acometido por uma grave febre durante a viagem e ainda não está inteiramente recuperado.

- Onde você estava? Estava me vigiando? - acusou Micail.

- Vamos sair daqui, Micail - respondeu Jiri baixinho -, há gente demais. Vai estar mais fresco no jardim. Venha comigo, vamos lá para fora.

Eles abriram caminho em meio aos convidados, passando por um grupo de sacerdotes de Alkonath. Ele devia conhecê-los - sua memória forneceu os nomes do Primeiro Guardião Haladris, um homem bastante orgulhoso e pretensioso, e do famoso cantor Ocathrel, que tinha a graduação de Quinto Guardião. E havia os sobreviventes do Templo de Tarisseda - as sacerdotisas Mahadalku e Stathalkha, a médium. Um bando de sacerdotes e sacerdotisas subalternos circulava ao redor das fímbrias do grupo. Muitos lhe pareciam conhecidos, mas isso, concluiu, era apenas porque pelos trajes via-se claramente que eram sacerdotes da Luz. Mas nenhum deles interessava a Micail. Nenhum grupo seria grande o suficiente a menos que incluísse a única pessoa que ele desejava tão desesperadamente.

 

Sete

- Seria possível eu saber se gosto daqui? - Franzindo o rosto, Damisa esmagou com um tabefe um mosquito-pólvora em seu braço. - Pergunte-me amanhã!

- Sua opinião terá mudado? - as palavras de Iriel soaram abafadas através dos véus que havia prendido como bandagens ao redor do rosto e pescoço para se proteger dos mosquitos-pólvora e outros insetos que abundavam ao longo do rio. Juncos demarcavam a margem e salgueiros pendiam sobre as águas marrons do canal por onde seguia o Serpente Carmesim. Na véspera o sol havia aparecido, e eles haviam sentido uma promessa de calor no ar. Mas hoje o céu estava tão sombrio quanto o estado de espírito deles, e as brumas escondiam a fileira de colinas que tinham vislumbrado do mar.

- De forma alguma - negou Damisa, com um olhar invejoso para os véus de Iriel -, mas não posso deixar de pensar que, se me tivesse perguntado ontem se não teria sido melhor voltar para sair para o mar, eu teria chamado você de idiota...

- Você é que é idiota - retrucou Iriel automaticamente, os olhos ainda fixos na margem verdejante do rio que ia passando lentamente ao largo da amurada. Damisa sacudiu a cabeça, desconfiando de que não estivesse vendo o que fosse que a garota mais jovem olhava tão fixamente.

Para Damisa um trecho serpenteante de terreno alagadiço e lamacento era impossível de distinguir de outro. Quando um emaranhado de copas de salgueiros não pendia sobre uma extensão de água turva, havia moitas de juncos e bambuzais altas e pontudas, ou arbustos mirrados e espinhosos. Não importava qual fosse o caso, eles não podiam chegar a lugar algum próximo de terreno firme. De todo modo, o interior provavelmente é composto apenas de arbustos e toda espécie de plantas rasteiras encobertos pela neblina, pensou ela. Ao longo de três dias, tinham sido enganados pelos numerosos rios que desembocavam no estuário, cada um largo e promissor na embocadura, mas tornando-se atravancado demais por carvalhos semi-submersos, salgueiros e cipós de modo que o navio só poderia bater em retirada. Ela esperava que alguém estivesse fazendo um mapa.

- Olhe! - exclamou Iriel animadamente, quando um bando de pássaros levantou vôo ruidosamente dos juncos e se dispersou como um punhado de pedras atiradas cruzando o céu claro.

- Encantador - observou Damisa de má vontade, sem conseguir livrar-se tão facilmente de seu desânimo. Estava começando a suspeitar de que as colinas que tinham visto do mar não passavam de uma visão enviada por espíritos malévolos para atraí-los para o interior daquela região inóspita onde o Serpente Carmesim estava condenado a errar até que todos eles afundassem na imundície lamacenta abaixo.

Ou será que o cheiro de podridão que venho sentindo o dia inteiro é alguma coisa que recentemente foi devorada pela metade por alguma coisa que está esperando para nos devorar?

O rio, de fato, tornava-se salobro e repugnante à medida que eles avançavam rumo ao interior, mas seu nível ainda era determinado pelo mar. No dia anterior, os homens que o capitão Reidel havia mandado para terra, para explorar e fazer reconhecimento, tinham se demorado demais e ficado presos nos pântanos até a maré vazante. Quando afinal conseguiram voltar para bordo, estavam cobertos até o pescoço de lama cheia de sanguessugas e... Damisa estremeceu com um arrepio e matou mais um minúsculo predador alado com um golpe, afastando-o de sua sobrancelha, praguejando, e Iriel caiu na gargalhada por trás de seus véus.

- Ah, cale a boca - advertiu Damisa, observando Arcor, o velho marinheiro de cabelos grisalhos, fazendo sondagens com a linha de prumo na proa do navio. Como ele agüenta isso? perguntou-se. Seus músculos nodosos se flexionaram e se alongaram sob as mangas curtas da túnica enquanto ele balançava e arremessava a linha e o prumo batia ruidosamente na água, uma vez após a outra. Os mosquitos-pólvora formavam uma nuvem ao redor dele, mas nunca, nem uma única vez ele se deteve para golpeá-los. Mesmo apenas alguns instantes de desatenção poderiam deixá-los encalhados num banco de lama até a maré do anoitecer.

Por pura força de vontade, Damisa ignorou o pequenino inseto que agora andava em seu cotovelo. Eu não devo reclamar, disse para consigo mesma, refletindo que até Arcor tinha um trabalho mais fácil do que os homens que remavam o pequeno barco que penosamente os rebocava rio acima. Ela esperava que Reidel soubesse o que estava fazendo. A única coisa pior que serem comidos vivos enquanto flutuavam em meio à floresta seria ficarem encalhados ali, sem poder se mover.

Subitamente Arcor se pôs ereto e olhou fixo para a frente.

- Que é? - Reidel perguntou calmamente. - Que você vê?

- Desculpe, capitão, pensei que fosse um elmo - brincou Arcor. - É apenas a careca de Teiron! E lá está nosso Cadis com ele, mantendo as pegas à distância!

Os ombros largos do capitão se relaxaram numa ligeira risada e Damisa, observando-o, sentiu a própria tensão se abrandar. Reidel era apenas um capitão de navios, e muito mais jovem do que parecia, mas ao longo das últimas semanas todos eles tinham passado a confiar e depender de sua mente rápida e da força sempre pronta. Mesmo o Mestre Chedan, isso sem mencionar Tiriki, acatavam suas opiniões, algo que, para Damisa, parecia errado. Abruptamente, ela se deu conta de que estivera presumindo que a viagem deles os conduziria a uma nova civilização e a um novo Templo na nova terra. Ela e os outros acólitos tinham passado muito tempo tecendo especulações sobre a aparência que teriam as pessoas ali e, um bocadinho menos, sobre como elas viviam, e onde, mas até aquele momento parecia que simplesmente não havia quaisquer habitantes.

Algo que, refletiu ela, franzindo o cenho, poderia ser melhor. No momento eles eram pura e simplesmente náufragos. Reidel havia se saído muito bem no mar - talvez até excepcionalmente bem - mas como ele se sairia se tivesse de enfrentar selvagens hostis?

Perdida em seus pensamentos, Damisa se sobressaltou quando a vegetação estremeceu e dois homens subitamente surgiram em meio aos arbustos, cobertos de lama até as panturrilhas e transpirando muito. Ela, porém, viu seus dentes se mostrarem em sorrisos entusiásticos e os reconheceu como Teiron e Cadis, que mais cedo naquele dia tinham sido enviados para uma excursão exploratória. Arcor arremessou uma corda pela borda e os dois subiram a bordo, sendo recebidos com brincadeiras e risadas pelos outros marinheiros.

Tiriki e Chedan subiram da coberta, acompanhados por Selast e Kalaran. Ocorreu a Damisa que ela não via Elis desde a manhã. Estaria ainda confinada à coberta, entregue à tarefa de reanimar a sacerdotisa Malaera, que continuava a lamentar tudo que tinham perdido? Damisa estremeceu. Ah, isso mesmo, hoje era ela quem tinha sido designada para ficar de serviço com a Pedra. Nossa! Mesmo com a Pedra fechada dentro de sua caixa, o simples fato de precisar ficar sentada do lado de fora da porta do camarote, me deixa inquieta e indisposta. Melhor ficar com os ratos do pântano! Ou mesmo as lágrimas infindáveis de Malaera...

- Boas notícias, nobres senhores - estava dizendo Teiron, o marinheiro de cabeça raspada de Alkonath. - Afinal, existe gente nestas bandas! Onde vive não sei, mas alguém fez aquela trilha de passagem no pântano!

- Trilha de passagem? - repetiu Chedan. - Que está querendo dizer?

Teiron moveu as mãos numa tentativa de explicar, desenhando no ar.

- É um caminho elevado, acima do lamaçal. Imagino que frágil demais para suportar o peso de uma carroça, mas ainda assim bem feito e sólido, de madeira cortada em pranchas colocadas sobre toras, tudo fortemente fixado com pregos e estacas. E como algumas das toras são antigas e outras são novas, alguém deve mantê-lo em bom estado.

- Mas para onde vai o caminho? - perguntou Iriel em voz alta. - Vocês nem olharam? Há leões por lá?

- Não, nada de leões, senhorinha - respondeu o marinheiro em voz gentil -, pelo menos eu não vi. Mas tínhamos ordens de retornar depressa...

- Eu diria que o caminho de pranchas segue para lá - disse Cadis, apontando para além das árvores que se enfileiravam na margem. A bruma havia começado a se dissipar. Diante deles podiam ver a extensão de águas azuis do lago que alimentava o córrego. Além dele, a luz delicada do sol de primavera cintilava na ponta de uma encosta verdejante que se projetava para fora, a uma distância de cerca de mil e cem metros dali, mais para ao interior.

Tiriki agarrou o braço de Chedan enquanto eles avançavam na travessia do enlameado passadiço elevado. As pranchas cuidadosamente cortadas pareciam balançar de maneira assustadora sob seus pés mas, depois de tantos dias a bordo do navio, desconfiava que se teria sentido trôpega mesmo caminhando sobre as pedras lisas de granito da Via da Procissão em Ahtarrath. Ela engoliu em seco, lutando contra a conhecida náusea. Não se sentia mais tão infeliz quanto se sentira no mar, mas estava longe de sua forma habitual, e sentia-se inchada, apesar de observar que seus pulsos estavam ficando finos.

Em posição de vantagem em terreno mais alto logo adiante, um grupo de habitantes do pântano vestindo saiotes de couro os aguardava com semblantes de expressão impassível, mas não, esperava ela, implacável. Eram de estatura pequena, mas rijos e bem musculosos, e de pele clara onde o sol não os havia queimado. Os cabelos escuros reluziam entremeados com fios vermelhos acobreados ao sol.

Tiriki se concentrou nos próprios pés. Não seria apropriado para a dignidade de uma sacerdotisa da Luz chegar com o traseiro sujo de lama, ainda que as bainhas de suas vestes já estivessem manchadas. Se eu escorregar agora, provavelmente vou arrastar Chedan comigo e talvez Damisa e a velha Liala também. Respirando fundo, ela manteve seus passos tão uniformes, ritmados e solenes quanto se estivesse andando não em meio a uma ralé de marinheiros e refugiados, mas encabeçando a Grande Procissão para a Montanha Estrela.

Eu deveria ter posto minha capa longa, disse a si mesma à medida que o suor lhe esfriava a fronte. O sol finalmente brilhava, mas o céu permanecia cheio de nuvens, e havia uma umidade gelada no ar. Por que aquilo haveria de surpreendê-la, ela não sabia. Chedan dissera que, com bastante freqüência, o tempo ali era instável. Mas não me sinto realmente aquecida desde que Micail me abraçou pela última vez. Impiedosamente, ela afastou esse pensamento.

Só os gritos distantes de pássaros perturbavam o silêncio, enquanto os nativos continuavam a encará-los fixamente. Seus olhos negros pareciam examinar cada detalhe à medida que eles se aproximavam - das vestes sacerdotais ricamente ornamentadas e o metal reluzente que dourava o punhal cerimonial de Chedan ao espadim de Reidel e às lanças curtas que os marinheiros empunhavam. Alguns dos nativos estavam armados de porretes e chuços (* Chuço - (ant.) arma que consiste numa ponta de ferro encastoada num bordão. (N. da T.)), mas a maioria estava armada de arcos de madeira de teixo muito bem trabalhada e polida, as flechas tinham pontas de pederneira. Os marinheiros repararam que o povo do pântano parecia nem sequer possuir bronze e se animaram. Suas passadas recuperaram uma ligeira afetação e ares de superioridade.

Tiriki respirou fundo e parou à distância de alguns passos dos nativos. Chedan se deteve logo atrás dela, e depois Reidel. Os marinheiros assumiram posições no caminho de pranchas, prontos para cobrir uma retirada rápida. O silêncio tornou-se absoluto.

Levantando as palmas das mãos abertas para o céu, Tiriki tremulou a frase de saudação formal cadenciada como canção:

“Deuses, contemplai com benevolência este encontro.”

Só então se deu conta de que aquelas pessoas, quase com absoluta certeza, não compreenderiam a língua atlante. Ela tentou sorrir, perguntando a si mesma se ajudaria se inclinar em mais uma mesura, mas o povo do pântano não estava mais olhando para ela. Seus olhos haviam voltado a se cravar na silhueta estranha que os havia atraído até ali - o veleiro de proa alta que se podia apenas vislumbrar em meio aos salgueiros que escondiam o rio.

- Sim - disse Tiriki, ainda sorrindo nervosamente -, aquele é nosso navio.

Talvez em resposta às palavras dela ou seus gestos, um homem atarracado com plumas de garça balançando na faixa que lhe cingia a cabeça se adiantou, mostrou as palmas das mãos e emitiu uma série de sons guturais sussurrados. Sem saber o que fazer, Tiriki virou-se para Chedan e, depois de um momento, o mago respondeu, bastante devagar, no mesmo tipo de fala. Tiriki abençoou mais uma vez o destino que havia mandado Chedan àquelas ilhas uma vez antes. Ela percebia que iria ser bastante difícil chegar a um acordo com aquelas pessoas, mesmo com o auxílio de palavras.

A carranca do chefe se dissolveu num instante e ele falou de novo. Os olhos de Chedan se arregalaram de surpresa.

- Diga-me o que vocês estão dizendo - murmurou Tiriki. Chedan pestanejou olhando para ela.

- Ah, perdoe-me! Esse sujeito é o chefe da tribo. O nome dele é Heron. Ele diz que nossa chegada é muito afortunada, ou predestinada. Se o entendi corretamente, estas pessoas passam o inverno nas colinas e só agora acabaram de voltar para cá, para a temporada de caça e para celebrar um tipo de festival.

Enquanto Tiriki assentia pensativamente, Chedan se virou de novo para Heron, e deu início a mais uma complicada troca de palavras. Tiriki mordeu o lábio e tentou aparentar ser paciente e sábia.

- Ele diz - traduziu finalmente Chedan - que a sacerdotisa deles - uma mulher de saber, uma feiticeira - a convidou para visitá-la. Ao que parece, ela sonhou com nosso navio. Ele diz que todos nós podemos ir e receber sua bênção, mas que os homens devem esperar separados a alguma distância enquanto ela fala com você.

- Quê? Princesa Tiriki, a senhora não deve ir sozinha! - interrompeu Reidel, com um olhar protetor furioso que, pensou Tiriki, na realidade era endereçado a Damisa. Ela havia observado olhares daquele tipo com freqüência ultimamente e havia ficado a se perguntar se a própria garota os teria notado.

- Diga a ele que nós iremos - declarou Tiriki subitamente, e, olhando nos olhos de Heron, deu-lhe um sorriso e assentiu em sinal de concordância. - Creio que Liala, Damisa e eu somos perfeitamente capazes de controlar uma mulher idosa sozinhas, não importa quanto saber ela tenha.

Reidel resmungou e lançou um olhar furioso ao redor, mas Chedan se virou e indicou ao chefe da tribo que ele deveria mostrar o caminho. Para Tiriki, contudo, o mago disse baixinho:

- Não subestime esse povo. Existem alguns nesta terra que são dotados de imenso poder. Não sei se esse é o caso com essa mulher de saber, mas... - Ele deu de ombros, e disse de novo: - Não a subestime.

Com Reidel e Cadis na retaguarda para protegê-las contra qualquer traição, Tiriki, Damisa e Liala seguiram pela trilha de pranchas atravessando os pântanos e penetraram num denso arvoredo de faias e amieiros até chegarem a uma ampla plataforma elevada feita de pranchas largas. No centro havia uma quantidade de choupanas e construções de paredes baixas, algumas desgastadas pelo tempo ou até sem teto, mas várias tinham recentemente sido revestidas de barro e cobertas com telhados de juncos verdes.

Os moradores saíram para recebê-los - um grupo variado, de velhos e jovens. Embora as mulheres não fossem mais altas que uma criança atlante, muitas traziam no colo crianças ainda menores, que olhavam para os recém-chegados com os olhos escuros arregalados. Tiriki queria se demorar um pouco ali, mas o chefe da tribo os apressou a prosseguir e entrar no pântano de novo, seguindo por mais uma trilha de pranchas de madeira, até que alcançaram as margens de uma ilha de terra firme. A ponta inconfundível do outeiro que tinham visto antes aparecia indistinta nas alturas mais adiante, entre as árvores e as nuvens.

Até aquele momento, a gente do pântano havia se comportado de maneira quase descontraída, rindo e conversando entre si, com muitos olhares de esguelha para os desconhecidos. Agora todos eles ficaram em silêncio e começaram a se mover com cuidado exagerado, como se o local fosse de alguma forma tão desconhecido para eles quanto para os atlantes. As pranchas de madeira não seguiam além dali, mas havia uma vereda muito antiga e bem batida por pegadas, e ladeada por pequenas pedras arredondadas.

Tiriki soube imediatamente que era terra sagrada. O farfalhar nas folhas deixava isso claro, bem como a sutil alteração na pressão do ar. Não foi apenas porque o caminho era tão liso que ela se viu se empertigando e caminhando com passadas mais largas e seguras. Começou a receber forças da terra e do ar. Mais do que alívio, sentiu um ímpeto real de esperança, e um olhar rápido ao redor lhe mostrou que Liala sentia a mesma admiração e espanto diante da energia incomum que havia ali.

O caminho serpenteava suavemente subindo por uma encosta de bosque denso, só fazendo curvas de vez em quando para acomodar uma árvore especialmente veneranda. De tempos em tempos a encosta verde e lisa do Tor podia ser vista entre as árvores, e ela se deu conta de que isso era porque as árvores estavam escasseando.

Diante deles estendia-se pequena campina. A esquerda, um emaranhado de espinheiros formava um recinto fechado. De uma abertura em arco nos arbustos saía um pequeno riacho, ladeado por pedras vermelho ferrugem. À direita, mais acima no outeiro, pedras brancas projetavam-se para fora do solo, semi-escondidas por árvores. Do meio delas, um segundo riacho corria descendo a encosta para se juntar ao primeiro. Num montículo logo acima do ponto onde os rios se juntavam aninhava-se uma pequena choupana redonda; o telhado de colmo desbotado bem trançado se estendia quase até o chão.

Ao contrário dos abrigos simples na aldeia, aquela construção claramente estava ali há muitíssimo tempo.

Eles ainda não tinham bem chegado às margens das águas  ligeiras quando um vulto emergiu da choupana, apoiando-se num bastão curto. Para os atlantes, sua estatura parecia a de uma menina de dez anos de idade, mas quando ela levantou a cabeça para examiná-los, Tiriki viu um rosto todo vincado de rugas e soube que aquela era a pessoa mais velha que jamais havia visto.

Heron estendeu as palmas das mãos abertas e saudou a mulher de saber com seu falar gutural, depois se virou para Chedan e falou de novo:

- Esta é a sacerdotisa deles. O nome dela é Taret - traduziu Chedan. Tiriki assentiu, sem conseguir desviar o olhar. Embora o corpo da mulher de saber fosse velhíssimo, sem dúvida ninguém jamais tivera olhos negros tão vivos e penetrantes.

Enquanto os atlantes faziam suas várias mesuras, Tiriki deu mais um passo adiante.

- Bem-vinda - disse a mulher de saber, na língua dos Reinos do Mar. - Eu espero por você. - Suas palavras tinham um sotaque carregado, mas apesar disso eram perfeitamente compreensíveis. Ao observar a surpresa deles, ela sorriu alegremente e disse: - Venha agora.

Sem fazer quase nenhuma pausa, a sacerdotisa seguiu adiante para cruzar quatro enormes alpondras que atravessavam as águas turbulentas do rio de uma das margens à outra. Mas, quando Reidel fez menção de segui-las, o chefe tribal lhe barrou a passagem. Imediatamente, os marinheiros correram para junto de seu líder e a cena ficou tensa, mas Chedan pôs a mão no ombro de Reidel e o puxou gentilmente para trás.

Taret, parada à beira da água, encarou o mago por longo momento, mas a única resposta dele foi fazer uma espécie de estranha saudação ao sol.

- Ah! Então, você, sim - disse Taret - e ficou muito claro com quem ela falava -, você caminhará aqui.

Chedan se espantou, mas Heron ficou ainda mais surpreendido. Ele olhou de Taret para Chedan e de volta de um para o outro várias vezes antes de, com uma expressão que revelava seu conflito, afastar-se para o lado, permitindo que o mago pisasse nas pedras passadeiras.

Rindo baixinho, a mulher de saber acomodou-se num robusto banco de três pernas junto à porta da choupana, e com um gesto convidou os outros a se sentarem num banco entalhado num tronco de árvore caído.

Os olhos negros brilhantes de Taret moviam-se rapidamente examinando as pessoas uma a uma, dos pés à cabeça, e afinal se detiveram no ornato que cobria a cabeça de Tiriki e nos cachos de cabelos dourados que ficavam visíveis abaixo dele. A mulher de saber sorriu de novo, porém com mais meiguice.

- Povo do Sol - disse ela, com evidente satisfação. - Filhos da serpente vermelha que vi em meus sonhos.

- Estamos muito gratos por termos encontrado este lugar - respondeu Tiriki, e embora suas palavras fossem formais, eram animadas por uma genuína emoção. - Eu sou Tiriki, uma Guardiã da Luz. Este é Chedan, Guardião e mago...

- Sim. Homem de poder - interrompeu Taret. - A maioria dos homens, eu não convido a vir aqui. - Chedan ficou desconcertado com o cumprimento e inclinou-se em mais uma pequena mesura, mas o olhar da mulher moveu-se com expressão curiosa para os outros.

- Liala é uma sacerdotisa dos praticantes da arte da cura e minha compatriota - disse Tiriki, sem se dar realmente conta de que estava pronunciando as palavras lenta e cuidadosamente.

- E Damisa é minha cheia.

Taret inclinou a cabeça.

- Sejam bem-vindos. Mas existe uma outra pessoa. - Mais uma vez seus olhos eternamente jovens os examinaram.

- Com vocês em meu sonho... uma que vê dentro de lugares fechados. Talvez... - Ela olhou curiosamente para Liala, depois sacudiu a cabeça. - Não. Mas você é amiga dela, talvez?

Tiriki e Chedan trocaram olhares e Liala respondeu, um tanto nervosamente:

- De fato, temos uma pitonisa. O nome dela é Alyssa. Ela machucou o joelho durante a viagem e tenho cuidado dela, mas está... ainda não está em condições de deixar o navio.

- Se a senhora quiser - ofereceu Tiriki - nós a traremos aqui para vê-la quando pudermos.

- Ótimo. Eu quero perguntar a ela se viu o que está aqui.

Se ela me viu? - A velha riu baixinho de novo.

- Estamos aqui não por nossa intenção - disse Chedan em tom fervoroso -, mas por uma mudança ditada pelo destino. Pedimos apenas para ser amigos da senhora e de seu povo. Nosso lar foi destruído e tivemos de buscar refúgio aqui.

Taret sacudiu a cabeça.

- Vocês perderam mais do que casa velha. E estão aqui porque os Seres Que Brilham querem vocês. Vocês sentem o poder deles.

- Sim - respondeu Tiriki fervorosamente. - Mas não sabíamos...

- Os deuses sabiam - interrompeu Chedan. - Na verdade, eu, pessoalmente, vi nas estrelas! Mas não havia compreendido até agora. Pensamos que tínhamos sido mandados aqui para construir um Templo, mas pode ser que o santuário já esteja aqui.

Taret sorriu.

- Não Templo como os Reis do Mar fazem, mas lugar sagrado de segurança e verdade.

- Não queremos perturbar seu lugar sagrado - disse Chedan rapidamente.

Dessa vez os ombros mirrados de Taret se sacudiram com o que logo eles perceberam que não era um espasmo de dor, e sim um acesso incontrolável de riso.

- Não tenham medo! - disse ela ofegante por fim. - Os que Brilham não perturbados!

 O rosto enrugado não conseguia conter seus sorrisos. - Em sonhos eu vejo. Eu sei que o lugar de vocês é aqui. E sonhos são verdade, senão vocês não estariam aqui. De qualquer maneira, o lugar sagrado não é meu.

- Ela gesticulou em direção ao Tor. - Eu mostrar algumas coisas. Então, se Os Que Brilham desejarem, eles mostram mais.

- Os Seres Que Brilham - repetiu Chedan, como se não tivesse certeza de tê-la ouvido corretamente. - A senhora nos apresentará a eles?

- O quê? - Taret balançou a cabeça e quase começou a rir de novo. - Não, não. Eu disse apenas - vocês viver aqui. Nova casa, Seres Que Brilham - encontrar vocês.

Chedan ficou pensativo, depois disse:

- Grande Sábia, sua generosidade é muito maior do que poderíamos ter esperado. Procuramos chegar a este lugar porque fica muito acima da linha da maré cheia. Mas eu estava começando a ter a impressão de que construir aqui não seria permitido.

Taret assentiu.

- Para o meu povo, não. Todo este vale é lugar dos espíritos, mas o Tor - especial. Um portão. Só pessoas de saber vivem aqui. - Ela se recostou por um momento, parecendo olhar para seu íntimo, e depois apontou um dedo ossudo para o mago.

- Então, agora você sabe. E agora vai embora, sim? - Ela sorriu, de maneira quase coquete. - Diga aos outros, tudo está bem. Mas sacerdotisa e sacerdotisa precisam falar... de outras coisas.

Chedan apertou as mãos unidas e inclinou a cabeça.

- Creio que compreendo. Mais uma vez muito obrigado, sábia Taret. Concede-me uma enorme honra. - O mago se levantou e ofereceu a ela a saudação que um iniciado concede a um outro que é respeitado por seu grande conhecimento dos Mistérios. Então se encaminhou de volta para onde estava Reidel e os marinheiros, que ficaram aliviados por ter pelo menos uma das pessoas sob seus cuidados de volta em segurança sob sua proteção.

- Tiriki - disse a velha depois que o mago se foi -, pequena cantora. Você serve ao sol mas, na verdade, é sacerdotisa da Mãe. - Seus dedos se curvaram num sinal que Tiriki pensara fosse desconhecido para qualquer pessoa exceto um iniciado de Ni-terat e Caratra. Ao mesmo tempo em que seus dedos se moveram automaticamente fazendo o sinal de resposta, os olhos de Tiriki se arregalaram diante de uma recordação súbita e clara do voto que sua mãe Deoris fizera antes que ela nascesse. O trabalho de Tiriki no templo havia enveredado por outros caminhos, mas aquele juramento de fidelidade primordial sempre estivera lá, o fundamento de sua alma.

- Pensa que nós somos povo selvagem - a gargalhada juvenil de Taret ressoou mais uma vez. - Mas conhecemos Mistérios. Nesta terra, nove mulheres de saber servem a Ela. Às vezes, encontramos e conhecemos sacerdotisas de outras terras. Assim eu aprender sua fala, já faz muito tempo.

- A senhora fala a nossa língua muito bem - elogiou Damisa.

- Não ser tão gentil. - Taret deu um sorriso para a garota. - Mas sabemos o suficiente para ensinar para donzelas os Mistérios da iniciação do vermelho e branco. - Damisa franziu a testa, confusa, e Taret prosseguiu. - Logo você vai ver. Rochas brancas onde uma corrente de água vem - rochas brancas, caverna branca. Outra fonte deixa mancha vermelha, como sangue de lua. E vocês irão lá.

- A senhora está nos oferecendo iniciação em seus Mistérios? - perguntou Tiriki, em tom de dúvida. - É uma grande honra, mas nenhuma de nós pode tomar parte em qualquer ritual que seja conflitante com os votos solenes que já assumimos sob juramento.

- “A Ti invocamos, Ó Mãe, Mulher Eterna.” - Taret inclinou a cabeça para o lado como um passarinho de olhos faiscantes. - Nenhum conflito nesse voto, Eilantha.

Ao ouvir seu nome sagrado, Tiriki sentiu o sangue deixar-lhe as faces. O que a velha dissera era exatamente o voto que a tia e a mãe de Tiriki haviam assumido, sob juramento solene, para si próprias e para sua descendência antes de seu nascimento.

- Como...? - Por um momento sua voz se recusou a obedecer-lhe. Ela viera para aquela nova terra para preservar a alta magia de Atlântida, mas o que tinha diante de si era algo muito mais profundo. Em Ahtarrath a adoração de Ni-Terat havia sido um culto menor, respeitado, mas não especialmente importante; no entanto, Taret claramente estava saudando Tiriki, não como Guardiã da Luz, e sim como sacerdotisa da Grande Mãe, como se esta fosse uma dignidade superior. - Como a senhora pode saber? Taret apenas sorriu.

- Mistérios, Mistérios. Por toda parte os mesmos. Agora acredita em mim? A Mãe dá boas-vindas a você... e seu bebê.

Tiriki oscilou, estonteada. Damisa estendeu a mão para segurá-la, com as sobrancelhas erguidas de surpresa.

- O quê? - Taret deu uma risada, inclinando a cabeça para um lado como se fosse um pássaro antiqüíssimo. - Você não sabe?

- Pensei que estivesse com enjôo do mar - sussurrou Tiriki, a mente pensando rápida nos seus sintomas. Nunca havia suspeitado. Devido à dor pelos bebês que havia perdido, tinha reprimido a própria recordação de como era estar grávida. Involuntariamente, suas mãos moveram-se para proteger a barriga, que agora não estava mais vazia, se o que a mulher de saber dizia era verdade.

Tiriki sacudiu a cabeça.

- Como eu ainda poderia estar grávida, depois do que passamos? Todos os mestres da arte da cura de Atlântida não foram capazes de me impedir de perder meus bebês de outras vezes!

- Como você veio aqui para Ilha Escondida? - Taret deu mais uma gargalhada. - Ela quer você aqui - você e sua família!

Tiriki se curvou para a frente, embalando o ventre, recordando-se daquela última noite de amor com Micail. Será que o sêmen dele havia criado raízes naquele momento de êxtase? E se fosse assim, seria aquela parte dele que vivia dentro dela o que seus sentidos percebiam, quando se sentia tão segura de que ele havia sobrevivido...? Tiriki piscou os olhos e então se descobriu chorando abertamente nos braços de Damisa, sem saber se suas lágrimas eram de alegria ou de pesar.

A notícia da gravidez de Tiriki se espalhou como fogo grego e foi um raio de esperança numa situação que parecia desoladora, a despeito da boa acolhida dos moradores do pântano. Em primeiro lugar, os atlantes necessitavam de alojamentos, e nos dias que se seguiram, Tiriki não foi a única que se viu fazendo tarefas para os quais não estava qualificada. Mesmo se eles não tivessem estado sincera e vigorosamente cansados da vida a bordo do navio, o Serpente Carmesim não podia servir como abrigo de longo prazo. Na verdade, a própria embarcação precisava de proteção enquanto passava por obras de reparo.

Na juventude, Chedan havia supervisionado a construção de mais de um Templo - e nem todos eles haviam sido construídos com pedras - mas seu conhecimento se limitava às exigências esotéricas para o espaço sagrado e a estética do projeto. E embora ele conhecesse a magia através da qual a canção poderia ser usada para mover pedras, sem um número suficiente de vozes de baixo e tenor bem treinadas para compor nem sequer um grupo de cantores, havia muito pouco que eles pudessem fazer. E o trabalho concreto de cortar pedras era uma especialidade reservada apenas à guilda dos pedreiros, da qual não havia qualquer membro que tivesse embarcado no Serpente Carmesim.

O povo do pântano construía, com madeira, uma arte com que os sacerdotes não estavam familiarizados. Mas nas comunidades mais rurais dos Reinos do Mar, onde a maioria - se não todos - dos marinheiros havia sido criada, os camponeses viviam em choupanas não muito diferentes das que viam ali. Além disso, a própria construção naval exigia conhecimentos técnicos especializados de obra de carpintaria, e Reidel, filho de um capitão de navios, tinha aprendido muita coisa do ofício.

Mais uma vez, Damisa viu-se resmungando, nosso audaz, capitão assume o comando. Tinha de admitir que ele, de fato, estava fazendo um bom trabalho. Em quase num piscar de olhos, havia destacado os marujos para o trabalho de construção, mas Damisa não podia deixar de se perguntar como eles aceitariam a tarefa. Marinheiros de Ahtarrath ou de outros lugares poderiam não importar-se, mas em Alkonath os homens do mar eram uma casta privilegiada. Damisa havia sido criada perto do Grande Porto, e lembrava-se muito bem do desprezo deles pelas tarefas de paisanos.

Naquele momento, fazendo uma pausa na orla do bosque com uma braçada de galhos de salgueiro, ela ouviu vozes alteradas e se desviou, dando a volta ao redor de uma moita de espinheiros-alvares, para ver o que estava acontecendo.

- Nem mais uma tora levanto, e desafio o senhor a me dar um motivo por que eu deveria! - Pelo forte sotaque de Alkonath, Damisa identificou quem falava como sendo o marinheiro Aven, ameaçando Chedan com punhos cerrados e uma carranca furiosa.

- Você vai precisar de um teto debaixo do qual vai dormir, não vai? Certamente, isso deve ser motivo mais do que suficiente. - O tom de voz de Chedan estava perfeitamente equilibrado.

Quem pode discutir com isso? - pensou Damisa, enquanto puxava o capuz sobre a cabeça. Os céus azuis que tinham recebido a manhã já haviam desaparecido por trás de nuvens cinzentas que pareciam prontas para se dissolver em chuva.

- Nossas tendas servem muito bem! - argumentou Aven.

- Se todos nós voltarmos a trabalhar no Serpente Carmesim...

- O alconante já havia baixado as mãos. Sua atitude se tornou ainda mais descontraída. - Em uma semana vamos poder estar longe deste lugar atrasado, imundo e fedorento! Isto não é lugar para gente como nós, santo homem! Vamos tratar de partir para uma terra civilizada!

- Eu já disse a você que este lugar é o nosso destino. - A voz de Chedan estava dura, severa. - Está questionando a sabedoria da casta dos sacerdotes?

- Eu não! - respondeu Aven com um sorriso afetado. - Tudo que sei de destino é que não sou desenterrador de árvores! E suplico o seu precioso perdão, mas saiba que não sou seu escravo.

- Pois muito bem, meu bom homem - disse Chedan em tom controlado -, se seu destino é tão diferente, nós não devemos mais detê-lo aqui. Podemos presumir que não haverá tentativas de sua parte de, daqui por diante, reivindicar quaisquer rações da nossa comida e bebida?

- O quê? - mais uma vez a postura de Aven tornou-se ameaçadora - e aquilo foi o bastante para Damisa, que largou no chão o fardo de galhos e saiu correndo pelo caminho em direção à costa.

Como havia esperado, o capitão do navio estava bastante perto do navio, aplainando um pedaço de madeira para substituir um pranchão que havia sido rachado por uma rocha submersa. O dia estava frio, mas o trabalho o aquecera o suficiente para sentir-se confortável, e estava despido, exceto pelo pano ao redor dos quadris. Em Ahtarrath, isso não teria significado nada, mas ali, o frio fazia com que a maioria dos exilados andasse com todas as peças de roupas que possuíam umas sobre as outras. Ver aquele corpo musculoso e bronzeado flexionado em movimento harmonioso enquanto a plaina desbastava a prancha era... uma surpresa.

Ela não teve tempo para analisar sua reação, pois ao ouvir o som rápido de seus passos Reidel se pôs ereto e os olhos se arregalaram de preocupação.

- O que foi? Não está... não, vejo que não está machucada.  Que aconteceu?

- É o que vai acontecer! - respondeu ela. - Aven está à  beira de amotinar-se. Diz que deveríamos estar trabalhando no navio em vez de...

- Maldito idiota! - Um brilho perigoso iluminou os olhos de Reidel. Ele apanhou a túnica no chão e saiu caminhando em passadas largas tão rapidamente que Damisa precisou correr para alcançá-lo.

Em poucos instantes chegaram à clareira. Ela não se havia demorado e Aven, aparentemente, não havia avançado além de dizer palavras e assumir posturas insultuosas, mas a atmosfera tinha um pulsar carregado que não lhe agradou. Chedan estava parado imóvel como um pilar de pedra, mas seu cabelo estava eriçado e as pupilas dos olhos expandidas com a concentração da força interna. O ar estava se tornando superaquecido. Todo mundo podia senti-lo, especialmente Aven, embora ele tentasse parecer indiferente à medida que o suor começou a jorrar de suas faces e ombros.

- Finalmente! - observou desafiante, em voz rouca e áspera. - Uma brisa quente. Os deuses do vento confirmam minhas

palavras para o senhor! - Com extraordinária impudência, ele estendeu a mão em direção a Chedan, mas sua coragem faltou quando o punho de sua camisa se incendiou e ele afastou a mão com um arquejo.

- Mestre, por favor! - gritou Damisa. - Ele é apenas um homem ignorante...

- Não, não pare! - a voz de Reidel estalou como um chicote.

- Mas, capitão - gemeu Aven, como uma criança -, isto não é trabalho para marinheiros honestos! Permita apenas que eu volte para o navio. Vou fazer bolhas nos dedos para o senhor, só o que peço é sair desses pântanos e voltar para onde é nosso lugar!

- Ah, é? - perguntou Reidel bem baixinho. - E onde ficaria esse lugar?

- Lá em Alon - a voz de Aven gaguejou.

- Pois é - assentiu Reidel -, lá, é exatamente onde você estaria se não fosse pelo Mestre Chedan -, em Alkonath ou em Ahtarrath -, no fundo do mar!

Damisa soltou a respiração num longo suspiro enquanto os últimos resquícios de desafio abandonavam seu compatriota.

- É verdade, admito - declarou Aven com desespero -, mas por que aqui?

O olhar de Reidel faiscou em direção a Chedan, que parecia bastante relaxado, embora a voz estivesse cortante de tensão.

- O erro é meu - declarou o mago -, pois embora este seja o abrigo que os deuses nos concederam, por vezes me esqueço de que nem todos nós juramos os votos solenes de um servo da Luz. Por que nós fomos salvos, quando tantos morreram? Precisamente para que pudéssemos vir para cá. Embora vocês não o vejam, aqui existe poder suficiente para fazer deste lugar uma luz guia para o mundo inteiro. E nesta vida e mesmo além dela, tenho a obrigação de fazer tudo o que puder para favorecer essa possibilidade. Será que você não poderia considerar, no mínimo, que também pode ter sido trazido para cá para um propósito, e nos dar qualquer ajuda de que for capaz?

Aven olhou fixamente para o chão, emburrado como um garotinho. Chedan bocejou e anunciou a intenção de ir beber um pouco de água na Nascente Branca enquanto Reidel, de mãos nos quadris, sacudia a cabeça.

- Mestre Chedan é bondoso demais - observou ele. - Quando esta comunidade estiver estabelecida, Aven, você irá para onde quiser, mas até chegar este dia, nós todos trabalharemos juntos - e você obedecerá ao Mestre Chedan como obedeceria a um príncipe do sangue!

Depois disso não houve mais desafios e, surpreendentemente, só ocorreram poucas reclamações. Uma semana de trabalho duro assegurou que todos eles tivessem algum tipo de abrigo. A construção desses foi bastante simples - seguindo o exemplo dos aldeões, tinham feito paredes trançando os galhos finos de salgueiro entre pilares de madeira fincados na terra e a cobertura dos tetos com maços de juncos amarrados. Emboçar as paredes com lama para torná-las impermeáveis, à prova do vento e da água levaria mais tempo, mas pelo menos estavam fora da  chuva.

Alyssa finalmente tinha sido carregada do navio até a costa, para dividir uma grande choupana redonda com as Vestes Azuis, Liala e Malaera. Bem perto delas havia pequeno recinto fechado no qual a Pedra Omphalos esperava, ainda na caixa, envolta em sedas. Nas vizinhanças, mais duas choupanas pequenas, mas separadas, tinham sido erigidas para Tiriki e Chedan, ao redor dessas havia três construções maiores. As acólitas ficavam alojadas numa, a saji Metia e suas irmãs ocupavam uma outra. Kalaran tinha um leito na terceira, que dividia com um sacerdote da veste branca, chamado Redano. Reidel e a tripulação, juntamente com o mercador Jarata e alguns outros cidadãos atarantes, tinham construído um outro punhado de abrigos para si próprios perto do lugar onde o veleiro estava varado em seco.

Estava tudo bem encaminhado para se tornar uma comunidade. Mas embora os resultados do trabalho deles fossem bons o suficiente para mantê-los secos, de acordo com os padrões atlantes nada daquilo podia ser chamado de uma casa de família, ou nem sequer de um lugar aquecido. Encolhendo-se junto a uma fogueira de turfa em sua choupana varrida por correntes de vento, Tiriki tremia de frio, fungava e se perguntava se estaria se abatendo com uma premonição de desastre ou apenas ficando resfriada. Ela olhou suplicante para a imagem da Mãe, que havia colocado numa pequena alcova de pedras, mas à luz bruxuleante da fogueira mesmo a deusa parecia estar tremendo. A dor e o latejar de seus seios confirmavam o misterioso diagnóstico de Taret, mas que esperança tinha ela de levar a termo uma gravidez e ter uma criança naquele lugar inóspito? Teriam os refugiados sobrevivido à queda de Atlântida e à viagem apenas para serem derrotados pelo clima daquela nova terra?

Mesmo dando certa margem para uma dose de exagero, o relato de Damisa do confronto entre Aven e Chedan deixou a barriga de Tiriki contraída por uma dor bem diferente da náusea induzida pela gravidez que, finalmente, havia começado a diminuir. De nada ajudava o fato de que ela compreendesse, enquanto sua acólita não o tivesse conseguido, que Aven havia desafiado não apenas a autoridade do mago, mas a de toda a casta dos sacerdotes. E Chedan era do Velho Templo. Na verdade, não houvera escolha para ele senão defender sua casta.

Ele não faz isso para sua glória pessoal, havia recordado a Damisa. O que ele faz é por você e por mim. E não há meio algum de julgar que resultado teria tido o confronto sem a sua interferência.

Damisa tinha se retirado devidamente repreendida, mas o relato havia continuado a assombrar Tiriki, tão palpável quanto uma presença na choupana ventosa e fria quanto uma tigela de leite derramado. Tiriki não duvidava de que ele fosse capaz de fazê-lo, mas não conseguia aceitar a idéia de que Chedan, a quem conhecia bem e sabia ser uma pessoa gentil e sensata, teria realmente queimado um marinheiro de Alkonath reduzindo-o a cinzas. Mas isso não a impedia de agradecer aos deuses e deusas pelo fato de que Reidel tivesse posto um fim à história, embora o verdadeiro problema tivesse apenas sido reprimido, não solucionado.

Aven não era o problema. Apenas tinha sido o primeiro a dizer em voz alta o que ela já havia ouvido outros resmungarem quando pensavam que ninguém estava ouvindo.

- Micail, Micail - sussurrou -, por que nem sequer tentamos? Teria sido melhor enfrentarmos nosso destino junto com a gente de nosso próprio povo, de mãos dadas. A esta altura, o sofrimento teria se acabado e nós estaríamos em paz.

Você sabe por quê, respondeu a voz de seu espírito. Você assumiu voto, por juramento solene à Luz e à profecia.

Uma súbita mudança na direção do vento lançou a fumaça que subia ondulada para dentro de seus olhos.

- Maldita seja a profecia! - Bruscamente ela afastou a pele de veado presa com tachas que cobria o vão da porta e saiu. O ar estava fresco e perfumado com o aroma de folhas verdes, trazendo-lhe intensa lembrança do jardim de sua mãe e de Galara, que também deveria ter estado a seu lado. Tiriki piscou os olhos para afastar as lágrimas e só então se deu conta de que as nuvens tinham desaparecido. O sol brilhava forte e claro acima, ela levantou os braços e com exultação entoou o antiqüíssimo hino de saudação:

“Levantai vossa luz ao dia, Ó Estrela do Oriente, Alegria e doadora de Luz, despertai!”

Ela deixou que seus braços baixassem lentamente, de olhos semi-cerrados, regalando-se com o esplendor benigno que brilhava em todas as terras. Em que mês estavam agora? A lua era cheia e as Irmãs Sombrias haviam perdido o brilho desde o equinócio. Mesmo nestas colinas nevoentas, o verão já deveria ter começado há algum tempo. A teoria de Chedan sobre maior lentidão gradual na mudança das estações veio-lhe à mente.

Taret nos chamou de Filhos do Sol. Mas é claro! As mãos de Tiriki finalmente tombaram paralelas ao seu corpo. Atlantes não gostam de ficar encolhidos no escuro! Não é de espantar que tudo pareça tão triste e sombrio. Eu tenho de sair daqui.

Consciente de que os outros poderiam estar observando, ela se descobriu caminhando rapidamente em meio às árvores. Sem nenhuma idéia clara de para onde estava indo, seus pés encontraram uma vereda. Poucos momentos depois, estava sozinha, fora do alcance da visão e dos sons do povoado.

Instintivamente, Tiriki escolheu a direção que conduzia encosta acima. O caminho desapareceu; nem sequer o rastro de um cervo ou de um coelho marcava a subida. Ela sentia intensamente que precisava afastar-se do acampamento e dos pântanos,

e responder ao sussurro da brisa e ao toque de clarim do chamado do sol. Desde a chegada deles, Tiriki tinha querido saber o que havia no topo do Tor; por isso, não se surpreendeu ao se dar conta de que cada um de seus passos a estava levando para mais perto de lá, embora a vegetação de arbustos cerrados do bosque a obrigasse a voltar atrás e refazer os passos até encontrar um caminho que lhe permitisse passar e chegar até lá, de modo que ela acabou traçando seu caminho ora avançando, ora voltando atrás, em volta do Tor.

Pouco tempo depois, transpirando, ela tirou o manto e olhou ao redor. Havia chegado a uma altura suficiente para que, de maneira geral, as árvores tivessem cedido lugar a arbustos e samambaias dispersos, mas entre eles estendia-se a relva reluzente ao sol, mais vibrantemente verde do que qualquer coisa que ela já tivesse visto. Mais uma vez as lágrimas encheram-lhe os olhos, mas eram lágrimas de felicidade. Garota idiota, disse a si mesma, será que você realmente pensou que não haveria beleza na nova terra?

Um último esforço de subida a levou até o cume, uma extensão oval, suavemente arredondada, com um cobertor do mesmo relvado de cor verde muito viva. Mesmo naquele primeiro momento, semi-ofuscada pela luz gloriosa do sol, ela teve consciência da presença, algo que era como um outro tipo de esplendor...

Seus olhos se adaptaram rapidamente. Dali, muito alto acima da floresta primeva que cingia o Tor, até mesmo os pântanos abaixo lhe revelaram uma estranha beleza selvagem, pois os vastos campos de juncos primaveris verdejantes estavam reluzentes e jaspeados com veios azul claros onde quer que a água refletisse o sol.

Magnífico, disse para consigo mesma, mas seu suspiro de admiração imediatamente cedeu lugar a uma repentina pontada de nostalgia. Em Ahtarrath, ela e Mikail com freqüência tinham saudado a chegada do dia do cume da Montanha Estrela, onde o sol fulgurante acima do mar diamantino revelava cada pequenino detalhe da região dos campos e cintilado sobre um milhar de telhados ornamentados com uma clareza de tirar o fôlego. Aqui, mesmo num dia de céu claro, sem nuvens, a vista dissolvia-se numa sombra brumosa de colinas ondulantes tendo ao fundo um mar desconhecido.

Em Ahtarrath ela sempre soube quem era e onde estava. Ali, não tinha essa capacidade de clareza de pensamento. Em vez disso, o que via na paisagem sutilmente velada diante dela era... possibilidade.

Ela foi se virando devagar, observando como a longa cadeia de montanhas ao sul e as montanhas mais altas ao norte abrigavam os níveis entre elas. Ao leste a bruma estava se tornando uma névoa marrom, mas Tiriki nem sequer percebeu. Diante dela, no topo do Tor, havia um círculo de pedras em posição vertical.

Comparado com as edificações maciças de Atlântida, não era especialmente impressionante. Para começar, aquelas pedras conservavam as mesmas formas com que tinham sido feitas pelos deuses da terra, a mais alta mal alcançava a altura do peito. Mas o próprio fato de que tal coisa pudesse existir ali a obrigou a fazer uma súbita reavaliação do conhecimento e capacidade, ou talvez da vontade, do povo que a fizera.

A verdadeira questão, refletiu ela naquele instante, é por quê? Tiriki pôs o corpo bem ereto e inspirou profundamente, recordando-se dos próprios conhecimentos. Perto do centro do círculo de pedras avistou uma área mais escura e os restos de uma fogueira. Movendo-se no sentido do movimento do sol ao redor do perímetro do círculo, ela entrou por uma brecha ligeiramente mais larga no lado leste. Com o primeiro passo, ela soube que estava certa a respeito da poderosa energia que havia ali; à medida que continuou em direção ao interior, sua percepção da energia na terra tornou-se ainda mais forte, aumentando quando chegou ao centro do círculo. Somente seu preparo permitia-lhe se manter ereta.

Fechando os olhos, ela deixou que seus sentidos se infiltrassem para o interior da terra, fixando-se cada vez mais profundamente, e sentindo as correntes rodopiantes de energia à medida que elas se irradiavam em todas as direções, porém mais poderosamente para sudoeste e para nordeste. Contudo, com ainda maior intensidade ela sentia a vitalidade que se encrespava em ondas no solo sob seus pés, fluindo para cima por seu corpo até que seus braços, mais uma vez, se levantaram por si só e se estenderam em direção aos céus, tornando-a um conduto vivo entre a terra e o céu.

Tiriki havia pensado em usar aquele momento para tomar posse da nova terra mas, em vez disso, viu-se rendendo-se a ela.

- Aqui estou eu... Aqui estou eu! - exclamou. - Que quer que eu faça?

Penetrante como o vento, radiante como o sol, firme como toda a terra abaixo, veio a resposta.

- Viva, ame, ria e saiba que é bem-vinda aqui.

Os olhos de Tiriki abriram-se subitamente, em choque, pois a voz que ouviu não era a de seu espírito. Ela estava ouvindo com a audição física de seus ouvidos. Por breve e furioso momento, ela pensou que alguém a havia seguido na escalada desde o acampamento, mas a mulher diante dela, vestida em trajes tecidos de raios de sol e teias de aranha, não era alguém a quem tivesse visto antes.

Observando os membros esguios do corpo e a nuvem de cabelos escuros, ela pensou que aquela deveria ser mais uma pessoa do povo do pântano. Mas havia alguma coisa no desenho da linha da maçã do rosto e da fronte, e ainda mais na maneira como a luz oblíqua tremulava ao redor da figura - por vezes reluzindo refletida nela e em outros momentos atravessando-a incandescente - que proclamava que esse não era um ser do mundo dos mortais.

Tiriki baixou a cabeça numa reverência instintiva.

- Está tudo bem - disse a mulher, com um sorriso estranho, mas gentil -, ainda assim não sou um de seus deuses, tampouco. Eu sou... o que sou.

- E o que a senhora é? - Os pensamentos de Tiriki se aceleraram; o coração batia tão forte e rápido que mal conseguia falar. No Templo eles haviam chamado seres como esse de devas, mas aqui parecia mais natural repetir as palavras de Taret. - A senhora é um dos Seres Que Brilham?

Os olhos estranhos da mulher se dilataram e ela pareceu dançar pairando um pouco acima do solo.

- É o que alguns dizem - admitiu, ainda com aquela leve expressão de divertimento.

- Mas como deverei chamá-la? - Houve uma pausa, e Tiriki sentiu ligeiro formigamento, como se certa mão delicada lhe tivesse tocado a alma numa leve carícia.

- Se um nome é tão importante, pode me chamar de... a Rainha. - Ela levantou uma das mãos e tocou no cabelo e Tiriki se deu conta de que a fronte da Senhora estava coroada por uma guirlanda de flores de espinheiro-alvar. - Sim - acrescentou ela com uma sugestão de riso na voz -, assim poderei estar segura de que me vai respeitar!

- Com toda a certeza! - murmurou Tiriki, ajoelhando-se; ainda que a mulher pudesse ser um espírito, tinha a mesma estatura dos moradores do Lago, e seria descortês tratá-la com superioridade. - Mas que devo oferecer à senhora?

- Uma oferenda? - A Rainha franziu o cenho e por um momento Tiriki sentiu mais uma vez aquele ligeiro toque em sua alma. - Pensa que sou um de seus... mercadores... que exijo pagamento pelas dádivas que trago? Você já se ofereceu a esta terra - prosseguiu ela, em tom mais gentil. - Que mais eu lhe poderia pedir? O que você deseja?

Tiriki sentiu-se corar.

- A sua bênção - respondeu, pondo a mão sobre o ventre. Sem dúvida a melhor salvaguarda que ela poderia ter seria a proteção do poder daquela terra. - Peço que conceda sua bênção à criança que trago no ventre.

- Você a tem - a resposta veio, suave como fragrância de flores. - E contanto que eles se mantenham fiéis às coisas que são sagradas aqui, também prometo que sua linhagem nunca se extinguirá.

- E este outeiro? Qual seu papel? - perguntou Tiriki.

- O Tor é apenas a aparência externa, como seu ventre é o abrigo de seu bebê. Com o tempo você aprenderá a conhecer os Mistérios que se encontram no interior dele: a Nascente Vermelha e a Branca, a Caverna de Cristal.

Os olhos de Tiriki se arregalaram.

- Como vou aprender essas coisas?

A Rainha levantou uma sobrancelha escura.

- Você conheceu a mulher sábia. Ela lhe ensinará. Você tem sido uma servidora do sol, mas agora aprenderá também os segredos da lua. Você, suas filhas e aquelas que vierem depois.

Ela sorriu, e o esplendor ao seu redor se intensificou até que Tiriki só conseguiu ver luz.

 

Oito

Os dias desde a chegada de Micail a Belsairath transformaram-se em semanas, e ainda assim Tiriki não veio. Ele sempre se havia julgado o elemento forte do casal, mas agora começava a se dar conta de que, apesar de sua aparente fragilidade, o espírito alegre dela sempre sustentou o dele. Durante o dia, ele participava em rituais e comparecia a reuniões, na esperança de ouvir alguma notícia dela ou de convencer os alconantes a montar uma expedição de busca, embora não tivesse idéia de onde os outros refugiados pudessem ser encontrados. Todas as noites em seus sonhos ele percorria novamente ruas de Ahtarra que não mais existiam, procurando por Tiriki à medida que as luzes se iam apagando em cada loja, lar e templo.

Às vezes, por um momento, ela parecia estar tão próxima que ele tinha a impressão de tê-la tocado. Então despertava e se dava conta de que ela nunca se afastava porque sempre já se fora.

Os dias eram quase tão deprimentes quanto as noites. A existência de Belsairath provava que os atlantes podiam de fato sobreviver e até prosperar numa nova terra, mas de alguma forma o número de novos prédios sendo erigidos, com suas imitações pomposas de arquitetura antiga, só contribuíam para aprofundar a melancolia cada vez maior que dominava Micail.

Tjalan quis fazer com que Micail se alojasse em sua villa - uma casa requintada cercada de jardins, nas cercanias da cidadezinha; na verdade, em sua própria suíte, mas Micail se recusou firmemente e com palavras muito incisivas. Belsairath era barulhenta e nem um pouco limpa, e a estalagem ficava bem no centro dela, mas ele precisava poder ver o porto.

- Tiriki poderia chegar. Se eu estivesse em algum lugar em que não pudesse ver o navio, então... - ele sacudiu a cabeça. - Ela poderia ir embora. Alguns dos navios que aportam aqui não ficam. Não, eu preciso ficar aqui.

Depois disso, Micail foi liberado das reuniões de conselho na vila de Tjalan. É claro que ficou bastante satisfeito por se livrar dos infindáveis debates dos estudiosos sobre as influências astrais e fluxos de energia na terra. E também não era difícil apreciar a tentação regular das mais finas iguarias, temperadas com loore, marinadas em rafnViri. Mas apesar disso, Micail teria preferido mais solidão. Ao que parecia, sempre havia um soldado por perto para protegê-lo, uma Veste Azul ou algum outro mestre da cura para cuidar dele. Jiritaren ou até mesmo Bennurajos ia visitá-lo oferecendo bebidas fortes e um fluxo constante de comentários satíricos e diversões.

Estoicamente, Micail tolerava aquele tratamento especial e infindáveis interrupções, pois em algum nível de consciência sabia estar muito próximo da loucura. Talvez, de todas, as mais difíceis fossem as visitas de estímulo e apoio de Tjalan, que repetidas vezes proclamara publicamente estar disposto a providenciar qualquer coisa que pudesse quebrar a letargia de Micail, „ chegando ao ponto de trazer mulheres jovens para diverti-lo.

Seu primo Naranshada algumas vezes aparecia para vê-lo, mas Micail não conseguia concluir se as visitas de Ansha traziam-lhe consolo ou mais sofrimento. Quando jovens sacerdotes principiantes, ele e Ansha eram íntimos, mas à medida que Ansha se aprofundara nos estudos de engenharia que eram sua especialidade, eles haviam tornado a se afastar. Agora o que tinham em comum era a perda, pois no caos da fuga de Ahtarrath, a esposa e os filhos de Ansha tinham-se afogado. O Esmeralda Real, buscando sobreviventes, havia encontrado Ansha agarrado a uma verga, quase louco de dor e desespero.

Por vezes Micail invejava o primo, que conseguia deixar de lado o tormento inútil da espera por notícias e seguir adiante com a vida. Mas aí via novamente o sofrimento mudo nos olhos de Ansha e se dava conta de que mesmo a mais ligeira esperança era melhor do que a certeza do desespero. Se tivesse visto Tiriki afundar sob as ondas, jamais teria sobrevivido.

Certo dia, já bem no final da tarde, Ardral apareceu inesperadamente para visitar Micail, oferecendo um jarro de vinho melífero das adegas de Forrelaro e uma travessa de carne de porco assada vinda diretamente do cozinheiro-chefe pessoal de Tjalan. O dia estava quente, mas nem um pouco ensolarado, de modo que eles arrastaram uma mesa e um par de bancos para mais perto da varanda aberta e atacaram o repasto com voracidade. Um bocadinho mais tarde, com o apetite saciado, começaram a conversar sobre os planos para o novo Templo.

- Você deveria assistir a algumas dessas reuniões, meu rapaz. Haladris e Mahadalku formam uma equipe formidável e você seria o único sacerdote com superioridade hierárquica para opor-se a eles - disse Ardral, em tom sério. - Se fizerem tudo como bem quiserem, o novo Templo reproduzirá fielmente todos os defeitos do antigo.

- Mas não é um pouco cedo para nos preocuparmos com quem ficará no comando do novo Templo? Afinal, não podemos realmente decidir sem Tiriki e Chedan.

- E em que vida eles virão participar nos debates? - A resposta seca de Ardral fez Micail se empertigar chocado. - Ah, meu rapaz, sinto muito - disse o adepto, em tom mais gentil -, mas você foi receber cada navio, barco e foca que entrou nesta enseada desde que chegamos aqui, e há três luas novas não houve qualquer sinal, qualquer notícia. Chega uma hora em que...

- Eu sei! - Micail sacudiu a cabeça. - Eu sei. É tolice minha e teimosia. Mas mesmo assim... como todos nós pudemos nos resumir a tão poucos! Não consigo acreditar nisso, seria uma pilhéria demasiado cruel. Eu me recuso a acreditar que minha adorada, que todos eles estejam perdidos para sempre, os melhores dentre nós, deixando apenas um punhado de sacerdotes obscuros e uma porção de nobres arrogantes, um bando de escribas e cheias e um número excessivo de soldados! E muitos deles são pouco mais do que crianças.

- Escute, Micail. - A voz de Ardral tornou-se mais suave, e seu tom quase confortador. - Você não está errado em manter a esperança. Eu com freqüência ouvi Reio-ta afirmar que vocês eram como uma única alma, e ele entendia dessas coisas. Se você acredita que ela está viva, eu também acredito.

Mas lembre-se: tudo será como está destinado a ser. Talvez o trabalho de Tiriki e o seu, há tanto realizado em paralelo, deva por algum tempo seguir por caminhos separados. - O adepto fez uma pausa, medindo suas palavras. - E quando o que está em questão é a fundação de um Templo digno de respeito, considere o seguinte - não será por nossos talentos ou por quantos somos que nos será cobrada a responsabilidade. É necessário apenas um espírito íntegro para preservar todos os caminhos da Luz.

- Isto é o que sempre me disseram - rebateu Micail -, mas para preservar os dons sacerdotais precisamos de mais, e o fato puro e simples ainda é que, dos Doze Escolhidos, salvamos apenas quatro. Quatro.

Ardral assentiu.

- Mais? - perguntou ele, e suspirando, Micail permitiu que sua taça fosse reabastecida. Mais uma vez o licor envelhecido em barricas de madeira da Terra Antiga ondulou sobre seu palato, deixando um sabor delicadamente seco e aveludado.

- Sim, deixamos muitos para trás - murmurou Ardral.

- É claro que não sei exatamente o que você esperava...

- Esperava? - A gargalhada de Micail soou com um toque de histeria. - Eu não consigo nem me lembrar do que eu esperava! Embora saiba que Rajasta sempre pareceu estar descrevendo algo mais primitivo do que... isso. - Ele acenou com um braço em direção aos prédios arruinados de Belsairath.

- Uma terra selvagem, inculta, de fato, seria mais fácil - concordou Ardral, enquanto cortava mais uma fatia de presunto.

- Os incivilizados geralmente estão dispostos a ser ensinados.

Os quatro sobreviventes dos Doze Escolhidos quase sempre se viam contando apenas com os próprios recursos. Os acólitos nem sequer estavam alojados juntos, e moravam em vários lugares distintos em Belsairath e cercanias. A vila da princesa Chaithala, bem aquecida e espaçosa, rapidamente se tornara o ponto de reunião favorito dos jovens atlantes. Os próprios acólitos, é claro, deveriam ter estado ocupados com meditação e estudos. Havia alguns sacerdotes mais idosos que poderiam ter-se encarregado deles, mas esses sacerdotes eram os mais profundamente envolvidos em suas próprias disputas e estudos pessoais. O tempo continuou a se arrastar e, embora Micail não tivesse formalmente posto de lado sua responsabilidade de supervisionar os estudos e a formação deles, nunca parecia disposto a começar. Elara, que anteriormente havia conjeturado se poderia ser reordenada para se tornar sua acólita, era de opinião que se poderiam sair melhor sem ele. Ela o vira com freqüência suficiente durante a viagem de Beleri’in para Belsairath para duvidar de que tivesse condições de cuidar da própria vida no presente momento, menos ainda de cuidar da deles.

- Realmente, é uma pena - disse ela para Lirini, filha do meio do grande cantor Ocathrel, que aos dezessete anos era a que mais se aproximava dela em idade. - Eu gostaria de tê-lo como mestre e estudar com ele. Quando o príncipe está bem-humorado, é um homem encantador.

- Só encantador? Eu acho que ele é o mais bonito de todos os sacerdotes. Você acha que algum dia voltará a se casar?

Elara ergueu uma sobrancelha bem desenhada. Lirini não parecia estar de luto, pranteando seu noivo, que não escapara do Afundamento, mas francamente, Elara duvidava de que ela própria tivesse ficado desolada se Lanath não tivesse sobrevivido. No momento, ele parecia estar sofrendo uma total devastação no jogo de Plumagens que estava disputando com Vialmar, mas isso não era incomum. Lanath estava ainda mais atarracado do que de costume ao franzir a testa para o desenho que as pedras formavam no tabuleiro, enquanto Vialmar, alto e magro, com cabelos negros rebeldes, tamborilava com impaciência no braço da cadeira.

- Sem dúvida é um pouco prematuro pensar nesse tipo de coisas - respondeu Elara em tom repressor, embora ela própria tivesse tecido conjeturas sobre o que aconteceria se Tiriki não chegasse. Mas que direito tinha Lirini de falar da vida dos outros? Era apenas uma cheia, e ainda mais negligenciada por seu mestre, o sacerdote Haladris, do que os acólitos eram por Micail.

Ouvindo o som de passadas e gritos, Elara estendeu a mão rapidamente para resgatar sua tigela de chá, quando o príncipe Baradel passou correndo, sendo perseguido de perto pela princesa Cyrena, cujo cachecol agitava ao alto como se fosse uma presa capturada. A princesa de nove anos era a última sobrevivente da família de Tarisseda e costumava esconder suas tristezas ao tiranizar o noivo, dois anos mais moço.

- Que pestinha! - resmungou Lirini. - Ele pensa que já é Grande Príncipe. Mas tem duas irmãs e um irmão mais moço, e depois ainda há Galara, da sua ilha - cochichou Lirini. - Ela é duas vezes prima de Lorde Micail. Há realezas de sobra por aqui, e muito pouco para eles governarem.

- Pois existem ainda mais sacerdotes e sacerdotisas - suspirou Elara -, e nenhum templo onde possam servir.

- Mas há Timul - recordou-lhe Lirini.

- É verdade - Elara franziu a testa, lembrando-se da mulher forte e enérgica que conhecera pouco depois de chegar. - Eu sou iniciada de Ni-Terat - bem, uma noviça - ela corou. - Em Ahtarrath, era aprendiz de Liala... - ela se calou por um momento, recordando-se com tristeza da sacerdotisa da Veste Azul, pois Liala, embora firme, sempre tinha sido gentil com ela. - Que a Mãe sorria para ela. Mas Timul não lhe parece um pouquinho dominadora? ,,

Lirini deu de ombros.

- Os homens para ela não têm qualquer utilidade, mas Timul é muito paciente com mulheres. Tem uma espécie de capela montada, que várias das mulheres da cidade freqüentam.

- Talvez eu deva fazer-lhe uma visita - disse Elara pensativa. Poderia ser bom ampliar minhas opções, decidiu, silenciosamente, mas não, é claro, se significar desistir dos homens. Pelo menos não antes que eu encontre alguém que mereça me fazer desistir deles!

Elara conteve um sorriso. Lanath, na qualidade de seu futuro marido, ainda não estava disponível para ela. Mais uma vez observou especulativamente Vialmar, que acabara de ganhar o jogo de Plumagens e contava piadas enquanto tentava convencer Karagon, um rapaz tranqüilo que era cheia do Adepto da Veste Cinza, Valadur, a jogar uma partida. Qualquer um dos dois poderia ficar contente por ter um relacionamento com alguém menos sério do que Cleta. Na verdade, Karagon já havia tentado um flerte, embora Elara não se tivesse dado conta na ocasião. Ela sorriu de novo. A vida poderia ser bastante interessante, mesmo naquela costa desolada.

Houve uma agitação na porta, e todo mundo se levantou quando a Princesa Chaithala entrou majestosamente no aposento.

- Não, não - disse a princesa gentilmente. - Não interrompam seus jogos por minha causa. - Com um flutuar de tecidos verdes claros drapejados às costas, ela circulou pela sala, conversando com os jovens. Elara reparou que ela primeiro se aproximou de Cleta, depois de Lanath e Vialmar, de modo que não ficou surpreendida quando a princesa veio em sua direção.

Elara se virou para Lirini, dizendo:

- Desconfio que daqui a muito pouco tempo vá ser chamada para cumprir meu dever. Fico satisfeita que tenhamos tido a oportunidade de conversar. - Antes que a cheia pudesse responder, Elara se afastou e foi se juntar aos outros acólitos, que seguiam na esteira de Chaithala.

- Tenho pensado muito a respeito da situação de vocês

- declarou a princesa -, e conjeturado se não poderíamos convidar o príncipe Micail para vir se reunir com vocês, e ver se podemos solucionar o problema do tédio e da ociosidade gerais. Mas é possível que precisemos de um pretexto. O que acham? Talvez um jantar? Nada formal, é claro, mas poderia tornar mais fácil para ele admitir, sem constrangimento, que tem sido negligente com o treinamento de vocês.

E quanto desse treinamento por acaso seria necessário para dar algumas lições especiais para seus filhos? - perguntou-se Elara. Mesmo assim, poderia não ser um preço demasiado alto a pagar, se participar nas maquinações de Chaithala resultasse a retomada de uma rotina adequada de estudos. Era muito agradável permanecerem sentados ali, sem fazer nada, conversando e disputando jogos, mas Elara temia que os acólitos estivessem ficando como maçãs que amadureciam demais, começando a apodrecer por dentro.

- Micail! Estou tão contente que tenha podido vir se juntar a nós! Sua aparência está muito melhor do que da última vez em que o vi.

Micail se encolheu quando Tjalan passou o braço musculoso ao redor de seus ombros e apertou. O salão de recepção da casa de Tjalan estava repleto de sacerdotes e sacerdotisas. A luz de uma miríade de lamparinas dependuradas lançava suas sombras aos saltos contra as paredes pintadas com afrescos. Micail se permitiu ser conduzido até um banco para sentar-se ao lado de Haladris e Mahadalku.

- Todos os senhores têm conhecimento dos esforços de Naranshada e Ardral para identificar o local ideal para nosso novo Templo - disse Tjalan. - Convocamos esta reunião porque finalmente se comprovou que um fluxo de energia corre para cima de Beleri’in e prossegue atravessando a maior parte desta terra. Correto? - o príncipe olhou para Naranshada.

- O suficiente para nossos objetivos - respondeu Ansha com um sorriso. - A teoria relativa a forças desse tipo é bem conhecida da maioria de nós, mas mesmo nas ilhas maiores, só conseguimos identificar alguns exemplos muito localizados. Aqui, parece que as redes são muito mais extensas e é possível que possam fornecer uma fonte de energia que podemos usar, mas existem alguns problemas imprevistos. - Um ligeiro murmúrio percorreu a sala.

- Nada com que não possamos lidar - prosseguiu Ansha - mas teremos de obter uma posição de ponto de interseção mais precisa, de preferência um local onde duas grandes rotas se cruzem.

- Está dizendo que um lugar assim existe? - Haladris, já um dos homens mais altos no salão, levantou-se e se pôs bem ereto, arregalando os olhos velados pelas pálpebras grandes.

O príncipe Tjalan mais uma vez tomou a palavra.

- Talvez. Um negociante chamado Heshoth chegou recentemente a Belsairath com um pequeno grupo de negociantes de matérias-primas como grãos e couros. Ele vem de uma tribo chamada de os Ai-Zir que, aparentemente, domina a planície que fica além das colinas perto do mar ao norte daqui. No centro do território deles há um santuário. De acordo com Heshoth, é um lugar de enorme poder. O nome que dão a ele significa “um encontro das vias de deuses”.

- Tem certeza de que o compreendeu corretamente? - Perguntou Mahadalku. Ela era uma mulher pujante cuja forte compleição corporal dava uma falsa idéia de sua idade.

- Ele é digno de confiança? - quis saber Metanor.

- Os mercadores daqui o consideram fidedigno - respondeu Tjalan. - E, mais objetivamente ainda, ele fala nossa língua. A primeira tarefa, Lorde Guardião, será sua - o príncipe dirigiu a palavra a Haladris. - Utilize seus conhecimentos para determinar o potencial do lugar. O segundo componente é militar, e a responsabilidade, claro, é minha. Vou enviar uma patrulha para investigar o território. Precisamos saber se a população é numerosa o suficiente para nos fornecer um contingente de mão-de-obra capaz de executar nossos projetos.

Existe algum motivo pelo qual eles iriam querer fazer isso? - Micail perguntou-se, mas Haladris e Mahadalku balançaram a cabeça a contragosto, em sinal de aprovação, e os outros também pareciam dispostos a concordar. Talvez eles não tivessem considerado a possibilidade de os nativos não se quererem tornar a fundação do novo império atlante, ou talvez não se importassem com isso. Mas se Atlântida estava destinada a ascender mais uma vez naquela terra invernosa, então Micail supunha que o faria, pouco importava o que quem quer que fosse pudesse dizer.

De acordo com os padrões locais, Belsairath podia ser uma metrópole, mas na verdade era menor do que a menor das pequenas jurisdições territoriais de Ahtarra, Alkona, ou até mesmo de Taris. De fato, Elara e Cleta não tiveram dificuldade alguma para encontrar o Templo que Timul construíra ali para a Grande Mãe. Comparado com as colunas de mármore, pináculos em espiral e azulejos trabalhados com douraduras que haviam adornado templos como aquele, nos Reinos do Mar, aquela construção baixa, de telhado de colmo nada tinha de imponente, mas os pilares de madeira do pórtico eram devidamente arredondados e caiados, e o sinete da Deusa estava pintado em azul no frontão acima da porta.

- Teria sido mais sensato construir isto nas montanhas, onde ficam as casas de campo - comentou Cleta. Seu rosto redondo se alegrou quando o sol apareceu entre as nuvens que haviam encoberto o céu durante o dia inteiro. Quase simultaneamente, as duas garotas se viraram como flores em direção à luz estival, dando as boas-vindas a seu fulgor, com as pálpebras semi-cerradas.

- Provavelmente, na época não havia tantas pessoas aqui - murmurou Elara. - Ah, Estrela Dia! Parece ter-se passado uma eternidade desde que senti o calor de Manoah. - Mas, no mesmo instante em que disse isso, ela sentiu a claridade se apagar e, abrindo os olhos, observou as nuvens se adensarem mais uma vez.

- Eu não deveria ter falado. Eu O afugentei... - Ela sorriu, depois suspirou ao ver Cleta observando-a com expressão perplexa. - Era uma brincadeira, Cleta. Não tem importância. Agora que encontramos o lugar, podemos muito bem entrar.

Havia mais surpresas no interior. Quando a porta se abriu, viram-se entrando num aposento comprido, com paredes coloridas e três portas internas. Uma delas se abriu e uma sacerdotisa entrou, com o rosto plácido e impassível, mas quando reconheceu as vestes brancas das acólitas, a Veste Azul começou a sorrir.

- Lodreimi! Que está fazendo aqui? - exclamou Elara, por sua vez reconhecendo-a. Exceto pela própria Timul e por Marona, a quem Elara não conhecia bem, a mocinha de Alkonath parecia ser a única outra atlante iniciada de Ni-Terat, ou Caratra, em Belsairath. Elara tinha tentado encontrá-la, mas ninguém lhe soubera dizer onde Lodreimi estava alojada.

- Servindo à Deusa... - A seriedade habitual da alconante se dissolveu em mais um sorriso. - Quando cheguei aqui me senti tão perdida... Até conhecer Timul, eu não sabia o que fazer! Tenho certeza de que vocês também se beneficiarão com sua sabedoria. Esperem aqui e irei chamá-la.

De algum lugar mais além nas profundezas do interior do templo elas podiam ouvir o som repetitivo de canto, ou melhor, de meninas aprendendo uma canção. De outra direção vinha o aroma de ervas e uma ligeira sugestão de incenso. O barulho da via pública lamacenta, mas movimentada, ali perto, logo além da porta, não era mais que um zumbido distante. Elara sentiu os olhos arderem com as lágrimas de recordação, à medida que a paz do lugar a envolvia. O Templo das Artes da Cura, em Ahtarra, lhe passara a mesma sensação.

Quando conseguiu ver de novo, a arqui-sacerdotisa em pessoa estava diante delas, uma mulher de formas confortavelmente arredondadas, cabelos castanho-avermelhados trançados numa coroa ao redor da cabeça, que irradiava uma autoridade sutil muito especial.

- Elara, Cleta, estivemos esperando que vocês nos viessem visitar. Lodreimi nos contou muita coisa a respeito de vocês. Estão com frio? Venham até a cozinha e tomarão um chá quente, depois eu lhes mostrarei o que estamos fazendo aqui.

A porta da direita dava para um corredor. Outras portas se abriam ao longo dele. Elas conduziam aos dormitórios, disse-lhes Timul, alguns eram usados por sacerdotisas e outros reservados para mulheres que pudessem vir procurá-los necessitando de refúgio.

- Aqui a vida é dura para algumas - disse a arqui-sacerdotisa. - Entre as tribos daqui, via de regra, as mulheres são respeitadas, mas quando vêm à cidade não há estrutura de clã para protegê-las.

- A senhora lhes dá medicamentos? - perguntou Cleta quando entraram na cozinha.

- Nós lhes damos tudo o que está a nosso alcance - respondeu Timul, de modo um tanto afetado. - Comida, abrigo ou tratamento, de acordo com a necessidade delas.

- Estava planejado que eu me tornasse uma herborista - explicou Cleta -, mas não pude começar os estudos para minha formação.

- Você pode começá-los aqui quando quiser. - Timul balançou a cabeça em direção a uma mulher de vestes cor de açafrão que estava agachada junto à lareira mexendo um caldeirão pendurado acima do fogo. - Sadhisebo apreciaria muito seu auxílio.

- Uma saji? - perguntou Cleta em tom de dúvida, quando a mulher se levantou com uma graça de fluidez própria e se virou para cumprimentá-las calorosamente. Elara encolheu-se, assustada. Soubera de histórias demais sobre as mulheres sajis que haviam servido nos templos da Ordem Cinza nos tempos antigos. Os Vestes Cinza estudavam magia, e a magia era uma força que podia ser utilizada de várias maneiras, nem todas aprovadas pelos Servidores da Luz. O simples fato de ver a diminuta mulher saji, de ossatura pequenina, era perturbador de uma forma que não conseguia identificar exatamente. Timul sorriu com suavidade.

- Você pensou que fossem as estúpidas meretrizes do Templo? As artes do amor, sem dúvida, são um caminho para o reino divino, mas Sadhisebo e Saiyano, sua irmã, são muito bem versadas nas tradições, conhecimentos e usos de ervas.

- Ervas para tirar do ventre uma criança? - perguntou Cleta.

- Essas também, se necessário - respondeu Timul austeramente -, bem como aquelas que a manterão em segurança no ventre. Nós aqui servimos à vida, você precisa compreender isso, e o bem maior, por vezes, exige ações cruéis. Para salvar, a Deusa por vezes tem de matar.

- Eu sei disso. - Elara inclinou a cabeça, sorrindo hesitantemente, enquanto a mulher saji colocava as tigelas de chá diante delas. - Antes mesmo de ser escolhida como uma das Doze, eu fui consagrada a Ni-Terat. Em Ahtarra, era cheia da sacerdotisa Liala no Templo da Veste Azul.

- Foi o que me disseram, e esse é um motivo pelo qual você é duplamente bem-vinda aqui. Mas este Templo não é dedicado a Ni-Terat, e sim a Caratra.

Elara levantou a cabeça surpreendida.

- Mas... elas não são a mesma Deusa?

- E você é a mesma criança que foi levada para aquele Templo? - perguntou Timul com delicadeza.

- É claro - Elara começou a dizer, e então sacudiu a cabeça. - Ah! A resposta, suponho, é ao mesmo tempo sim e não. Eu me lembro de ser aquela criança, mas agora sou muito diferente...

- E a Deusa também muda. - As feições duras da arqui-sacerdotisa tornaram-se suavemente radiantes à medida que ela prosseguiu. - Só para os homens ela sempre aparece como Ni-Terat, da Face Velada, coberta pelo véu, pois para os homens suas verdades mais límpidas permanecem misteriosas. Mas no recinto do Templo, esses mistérios são revelados, e assim a chamamos de Caratra, Aquela que Nutre.

- Mas me ensinaram que Caratra era a filha de Ni-Terat e de Manoah - disse Cleta. - Como ela pode ser mãe também?

Elara levantou uma sobrancelha.

- Suponho que da maneira habitual! Como pensa que você veio ao mundo? - ela sorriu.

- Eu sei de onde vêm os bebês, muito obrigada! - Cleta enrubesceu. - Estou tentando compreender a teologia!

- É claro que está - interveio Timul, embora ela também tivesse de reprimir um sorriso. - Tome seu chá e eu tentarei explicar, mas não fique surpreendida se essa não for exatamente a maneira como você ouviu a história antes. Quando viajamos, com freqüência chegamos a novos pontos de vista, bem como a novas terras. Mas, em tempos antigos, a Rainha da Terra era chamada de a Fênix, porque com a virada do tempo, ela desaparece e é renovada.

- Como a estátua de duas faces na grande praça de Ahtarra? - perguntou Cleta.

- Exatamente - concordou Timul. Elara sorriu.

- Mas é a estátua de Ni-Terat ou de Banur? - Ela se calou por um instante. - Mas não me diga, nunca ouviu essa velha piada? - ela prosseguiu enquanto Cleta a encarava, exprimindo visível incompreensão. - Cleta, você é impossível!

- Mas qual é a resposta? - perguntou a garota mais jovem. Timul agora sorriu francamente.

- A resposta, minha criança, é “Sim”. Este é o Mistério. Todos os deuses são um deus e todas as deusas são uma deusa, e existe um iniciador. Certamente, mesmo no Templo da Luz eles lhe ensinaram isso...

- É claro! - exclamou Elara. - Mas sempre me deram a entender que isso significava que deveríamos procurar alcançar além de formas e imagens, o que existe além de todos eles.

- A essência dos deuses está além de nossa compreensão, exceto por aqueles momentos em que o espírito levanta vôo... - Timul olhou de uma garota para a outra.

Elara baixou a cabeça, recordando-se de um momento em sua infância, em que ela ficou parada olhando o sol afundar no mar, esforçando-se para alcançar alguma coisa que sentia estar logo ali, por pouco além de sua compreensão. E aí, no momento do maior esplendor, a porta subitamente se abriu, e por um instante ela se sentiu como se estivesse unida ao céu e à terra. Cleta também assentiu. E Elara perguntou-se que recordação teria vindo à sua mente.

- Mas ainda assim fazemos estátuas... - Cleta as trouxe de volta à consciência do presente mais uma vez.

- Fazemos, porque estamos em corpos mortais cercados por formas físicas. A Mente Profunda fala uma língua que usa símbolos, não palavras. Não há palavras suficientes que possamos dizer a respeito da Deusa que sejam capazes de comunicar tanto quanto uma linda imagem.

- Isso ainda não responde à minha pergunta sobre Caratra - declarou Cleta, obstinadamente.

- Eu estive devaneando, não é? - Timul sacudiu a cabeça.

- Perdoe-me. As mulheres aqui são verdadeiras filhas da Deusa, mas exceto por Lodreimi, elas não têm instrução para conversar sobre teologia.

- Caratra - repetiu Elara, com um sorriso de esguelha para Cleta.

- Tudo é uma questão de níveis, compreende - respondeu Timul. - No nível mais alto, só existe o Uno, não manifestado, assexuado, que tudo abarca, auto-suficiente. Mas, quando só o que existe é Ser, não há ação.

- E é por isso que falamos de Deus e Deusa - disse Cleta. - Pelo menos isso eu sei. O Uno torna-se Dual, e os dois interagem para levar o espírito a manifestar-se. A força feminina desperta a masculina, ele a fecunda e ela dá à luz o mundo...

- Em cada terra os deuses são diferentes. Alguns povos têm apenas alguns deuses, enquanto outros veneram muitos. Nos Reinos do Mar, nós adorávamos quatro - prosseguiu Timul.

- Nar-Inabi, Senhor do Mar e das Estrelas, a quem rogávamos em nossas preces para que nos fizesse sobreviver à noite escura quando Ahtarrath caiu - sussurrou Elara.

- E Manoah, Senhor do Dia, a quem glorificamos no Templo da Luz - concordou Cleta.

- Mas também Banur das Quatro Faces, que ao mesmo tempo preserva e destrói, e Ni-Terat, que é a terra e a Mãe Misteriosa de Todos - concluiu Elara.

- Em Atlântida tudo o que víamos da terra eram ilhas, e assim Ni-Terat permanecia velada. - Timul estendeu a mão para baixo e tocou na terra batida do chão, em sinal de reverência. - Aqui - disse ela, se endireitando - é diferente. Este lugar também é uma ilha, mas tão grande que se você for para o interior pode viajar durante dias sem avistar nem ouvir o mar. Isso nos lembra uma outra história. No Templo da Deusa se diz que a Era da Deusa está chegando, mas isso não é algo a respeito de que falemos com pessoas que não pertencem ao Templo, pois um número excessivo delas consideraria qualquer diminuição na primazia de Manoah como uma rebelião contra a própria Luz.

- Que isso tem a ver com o Templo que os sacerdotes vão construir? - perguntou Cleta, pondo o chá sobre a mesa.

O rosto de Timul ficou mais sombrio.

- Espero que muito pouco. A Deusa não precisa de templos de pedra. Na verdade, Ela pode ser reverenciada mais adequadamente em um jardim ou um bosque sagrado. O culto à Grande Mãe floresceu nesta ilha há muito tempo, e ainda existem algumas dentre as nativas que podem corretamente ser chamadas de sacerdotisas. Minha esperança é encontrá-las e usar como base aquele antiqüíssimo juramento de fidelidade e devoção para progredir. Não terá importância alguma o que os sacerdotes fizerem depois disso.

Elara baixou os olhos para a tigela e tomou mais um gole de chá. E se isso resultar num sério conflito de interesses, perguntou a si mesma, com quem ficará minha lealdade e fidelidade?

Ainda profundamente concentrada em seus pensamentos, ela seguiu a arqui-sacerdotisa pela porta que dava entrada ao santuário.

O lugar estava todo mergulhado na escuridão, exceto por uma única lamparina bruxuleando sobre o altar. Depois que seus olhos se habituaram à sombra, Elara observou que as paredes eram pintadas em afrescos com imagens que pareciam mover-se sob a luz sutilmente cambiante.

- As quatro forças divinas que cultuamos são um pouco diferentes aqui - sussurrou Timul. - Vejam...

Na parede de leste a Deusa era retratada como uma donzela dançando em meio a flores. A parede ao sul ostentava um mural de Caratra como Mãe, entronada com uma criança risonha sentada em seu colo e todos os frutos da terra ao seu redor. Na de oeste estava a representação familiar de Ni-Terat, envolta em véus cinzentos de mistério, coroada com estrelas, mas a parede ao norte fez o coração de Elara bater mais forte e disparado, pois a deusa era mostrada de pé com uma espada na mão, e seu rosto era uma caveira.

Elara fechou os olhos, sem conseguir sustentar aquele olhar implacável.

- A Donzela, a Mãe, e a Mulher de Saber são as faces da Deusa que todas as mulheres conhecem - disse Timul em voz baixa. - Cultuamos Caratra como a fonte da vida, mas nós sacerdotisas devemos aceitar e reverenciar da mesma forma ambas as faces de Ni-Terat, pois é por seu julgamento que passaremos para poder renascer.

É verdade, refletiu Elara, mantendo os olhos fechados. Ainda posso sentir a deusa olhando para mim. Mas no mesmo instante em que essa percepção fluía por sua mente, ela sentiu a energia que a rodeava mudar tornando-se calorosa e envolvendo-a como os braços da mãe.

“Agora você compreende“, em sua mente surgiu um pensamento que não era seu. “Mas não tenha medo, pois na escuridão e na luz, eu estou aqui.”

Nove

Para aqueles que se haviam deleitado com auges de calor sufocante de um verão atarante, a luz da nova terra parecia sempre tão distante do ouro quanto prata, da mesma forma que, para um atlante, mesmo a mais quente daquelas águas do norte sempre evocaria um calafrio. Porém, nenhum deles poderia ter negado que uma alteração havia ocorrido, fazendo as terras dos pântanos renascerem, mais cheias de vida vibrante que nunca. Os refugiados recebiam calorosamente cada minuto que a luz se prolongava um pouco mais. Ainda que o céu jamais fosse chegar ao azul-turquesa profundo que havia coroado Atlântida, também nenhuma campina do velho mundo teria podido rivalizar com o verde vivido daquelas colinas.

Para Tiriki, o vicejar luxuriante da vegetação parecia se unir em comunhão perfeita com sua própria fertilidade. À medida que o espinheiro-alvar se cobria de flores nas moitas e as prímulas abriam as pétalas reluzentes sob as árvores, seu próprio corpo se arredondava e seu rosto ficava rosado ao sol. Junto com os frutos dos bosques ela amadureceu, a criança em seu ventre cresceu com um vigor desconhecido em suas gestações anteriores, e ela deu graças a Caratra, a Nutridora.

A chegada do filho de Micail renovou sua esperança, e novas esperanças também renasceram nos acólitos. O filho de Tiriki tornou-se a ligação deles com o futuro, seu talismã de sobrevivência. Encontravam desculpas para visitá-la, e ficavam conversando sobre qualquer minúscula mudança. Iriel borbulhava, amilhava e se preocupava; Elis cozinhava e cuidava da limpeza para Tiriki sempre que tinha a mais leve oportunidade; e Damisa se transformou numa espécie de sombra solícita, exceto quando estava aborrecida. Tiriki aceitava tudo aquilo de bom grado - de fato, ela poderia ter estado completamente feliz - só que de vez em quando, durante a noite, acordava chorando, porque Micail, que devia estar dividindo com ela aquela alegria, estava perdido, e ela sabia que deveria ter e criar a criança sozinha.

Havia um ponto na margem onde os salgueiros formavam um cercado sussurrante ao lado do rio de águas rápidas. O lugar havia se tornado um retiro onde os sacerdotes mais graduados se reuniam; a luz cálida do sol ainda penetrava salpicada em meio às folhas, com força suficiente para rebrilhar nos cabelos grisalhos de Alyssa.

- Um é perdido... um é encontrado... muitos trilham o círculo sagrado... da colina até a planície... e dois serão um mais uma vez. - A voz da pitonisa foi baixando aos poucos até cair em silêncio, e ela sorriu, com os olhos concentrados em nada. Chedan a observou, perguntando a si mesmo se dessa vez haveria algum significado nos meandros de suas palavras.

Com esforço, ele manteve o semblante sereno enquanto „ gesticulava para que Liala enchesse a tigela da pitonisa com chá. Oráculos, o mago recordou a si mesmo, já eram bastante problemáticos quando proferidos num recinto adequadamente preparado, em resposta a perguntas específicas. Mas embora nos meses desde a chegada deles, a Pedra Omphalos, embrulhada em sedas e mantida fechada em seu próprio abrigo de pedra, perto da choupana que Alyssa e Liala dividiam, tivesse estado quiescente, Alyssa havia começado a entrar e sair do estado de transe profético sem aviso, como se tivesse sido arrancada não só de Ahtarrath, mas também da realidade cotidiana.

O perfume de menta e erva-cidreira encheu o ar enquanto Liala servia o chá de um bule de barro em quatro tigelas entalhadas em madeira de faia.

- É exatamente como eu estava dizendo... - Tiriki fez uma pausa para aceitar uma das tigelas. - Não devemos nunca esquecer que nossas vidas não são apenas nossas. Antes, sempre houve as regras do Templo para nos guiar. Agora, são nossos próprios pés que têm de criar o caminho, e devemos estar preparados para vê-los vacilar de vez em quando. - Ela se calou por um instante de novo, e Chedan teve certeza de que estava pensando em Malaera, a mais idosa sacerdotisa da Veste Azul, que havia tentado enforcar-se na noite anterior.

- Não creio que Malaera se tenha desencaminhado completamente - prosseguiu Tiriki -, embora tenhamos de mantê-la sob vigilância durante algum tempo. Ela está confusa e desgostosa, e quem dentre nós não sentiu algo parecido? Pior, ela sofre de dores nas juntas, de modo que há muito pouco que possa fazer que não lhe cause verdadeiro sofrimento.

- Não me agrada dizer isso - resmungou Liala -, mas o maior tormento que temos por aqui é ela. Todos nós perdemos nossos amigos e família! Será que ela tem de mostrar-se triste e abatida o tempo todo?

- Evidentemente - disse Chedan em voz calma. - Talvez ela seja movida pelos deuses, para nos recordar de que nem todo mundo se esquecerá facilmente de seus amores e esperanças perdidas, Disseram-me que Malaera é uma pessoa que nunca na vida escondeu as emoções. Quem somos nós para exigir que ela o faça agora?

- Eu acredito que seu desespero passará - repetiu Tiriki. - Talvez mais do que a maioria, ela parece compreender que a nossa missão aqui exige mais de nós do que a simples sobrevivência. - A moça lançou um olhar inquieto em direção a Alyssa, mas a pitonisa estava absorvida em apreciar o aroma delicioso do chá.

- Se devemos fundar um novo Templo, isso deve ser feito logo - prosseguiu Tiriki -, caso contrário dentro de uma geração ou duas, no máximo, nossos filhos serão assimilados pela população local, e nosso propósito estará perdido. Eu não me tornei um oráculo, mas estudei história o suficiente para saber que isso já aconteceu.

Chedan assentiu.

- A primeira geração de sobreviventes do naufrágio se lembra de que seus ancestrais vieram de além do oceano; um século depois, seus netos quase sempre dizem que o oceano é seu ancestral e fazem oferendas a ele.

- Ora! - resmungou Liala. - Estou menos preocupada com o futuro do que com o que está acontecendo agora. Agradeço por tantos de nós terem sido salvos, mas gostaria de que tivessem chegado sacerdotes e sacerdotisas em números mais proporcionais. Temos você e todas nós e Kalaran e todas aquelas garotas. Não acha que estamos mais do que ligeiramente fora de equilíbrio por aqui?

- O que diz é verdade. - Tiriki parecia levemente surpresa. - Eu realmente não havia percebido isso como um problema até agora. A energia do Tor é, em si, tão intensamente equilibrada...

- Um único pico se eleva - murmurou Alyssa, o rosto meio virado na direção oposta à deles -, uma centelha terrena, que conserva três nascentes e seis cavernas, e mais tantos corações. Brilhando, brilhando, brilhando, brilhando. Não faz mal a escuridão.

O vento agitou os salgueiros; galhos bateram uns contra os outros por um momento, depois se acomodaram. Ninguém falou. O mago olhou fixamente para a tigela de chá, passando o dedo nos entalhes engastados com conchas que ornavam em listras seus lados. Liala mais uma vez está correta, pensou ele. Tiriki simplesmente não se permitiu refletir a respeito do problema, porque então teria de pensar em Micail. Ela e eu podemos trabalhar como sumo sacerdote e suma sacerdotisa, mas não podemos gerar o tipo de energia que ela e Micail... Ou será possível não seja a preocupação dela, mas a minha que esteja equivocada?

Um som agudo, bem no limite do alcance da capacidade de audição, lhe chamou a atenção. Emoldurado por folhas de salgueiro, um esmerilhão pendia no ar prateado. Por muito tempo houve uma paixão por falcões nas casas de famílias da nobreza, mas Chedan nunca prestou atenção especial a eles. Agora ele parecia sempre saber quando um falcão ou uma coruja estavam por perto. Talvez isso fosse uma promessa, um lembrete do que havia além.

Liala ainda estava falando.

- Se é da natureza das coisas que as nossas sacerdotisas tenham companheiros e dêem continuidade à nossa tradição, é possível que tenhamos de recrutar sacerdotes dentre os outros sobreviventes. Por exemplo, temos Reidel - em minha opinião ele tem potencial...

- Especialmente com Damisa! - Alyssa, de súbito completamente de volta ao normal, deixou escapar um bufar mesclado com uma gargalhada desagradável. - Já viram a maneira como ele olha para ela?

- E como ela não olha para ele em resposta? - exclamou Tiriki rapidamente. - Concordo em que depois precisaremos fazer alguma coisa, mas...

- Eu sou uma sacerdotisa da Mãe, não uma de vocês, adeptos. Nós, da Veste Azul, sempre nos empenhamos em celebrar o corpo, não em transcendê-lo! - Liala sorriu. - Não gosto muito dos marinheiros, mas estou ficando menos exigente. Já comecei até a observar os homens do povo do pântano.

Chedan olhou para ela, subitamente se dando conta de que havia um corpo feminino dentro daquela veste azul. Houve uma época em que ele não teria ficado tão surpreendido com o comentário dela. Teria a luta para sobreviver lhe distraído a atenção ou estaria ele simplesmente ficando velho?

- Eu compreendo o que está dizendo - prosseguiu Tiriki

- e concordo, mas uniões entre parceiros de culturas ou castas diferentes podem ser arriscadas.

- Não podem ser assim tão diferentes - retrucou Liala.

- Taret é sacerdotisa da Grande Mãe, exatamente como nós somos.

- Eles não parecem ter muitas cerimônias - aparteou Chedan. - Essas pessoas vivem sem grandes esforços dos frutos da terra e já há algum tempo têm desfrutado de paz. Aqueles a quem os deuses mantêm satisfeitos - concluiu ele - costumam querer pouco exceto isso.

- Não, não faça a pergunta errada! - Alyssa o interrompeu, seus olhos estranhos estavam sem cor e baços.

Chedan se virou, tentando adivinhar por que caminho secreto da mente ela se teria perdido agora. Alyssa prosseguiu.

- Você constrói canais para colher pingos de chuva, mas para o mar não faz qualquer provisão. Existem forças aqui que precisam receber atenção. Existem nomes a serem aprendidos. E que dizer da outra força, aquela a quem você afirma servir e proteger? Que dizer da Pedra Omphalos?

No silêncio chocado que se seguiu, soou o grito de um falcão, movendo-se rápido como um dardo e girando pelos ares, determinado a capturar alguma presa invisível.

Chedan franziu o rosto numa careta. Crer que a sacerdotisa da Veste Cinza se tornara inútil tinha sido o pior dos erros. O controle dela sobre seu dom podia estar em degeneração, mas mesmo na loucura Alyssa ainda era capaz de recordar-lhes verdades que eles estavam desconsiderando, sob risco de se exporem a grande perigo.

Quando as noites se tornaram mais frias e mais longas, o último abrigo dos abrigos ficou pronto e, embora as habitações nada tivessem de requintadas, não mais eram úmidas nem cheias de correntes de vento. Um início entusiasmado até foi feito para erigir um salão de reuniões adequado, mas pouco trabalho podia ser feito sob a chuva fria. Era uma vida dura. Contudo, se por vezes a bruma gelada não se aplacava um pouco, as colheitas de forragens feitas por eles no verão os deixaram com reservas suficientes, ainda que não muito variadas, de alimentos.

Na véspera do solstício de inverno, com a entrada de uma nova tempestade soprando vinda do mar, Tiriki estava em sua choupana, vestindo mais uma túnica para se abrigar da friagem, quando ouviu um grande brado vindo do lado de fora.

- Damisa? Que é? - gritou para a outra. - Alguma coisa errada?

- Errada não - veio a resposta -, maravilhosa! Tiriki cobriu os ombros com mais um xale e se encaminhou para o vão da porta, desatando os nós das tiras de couro que mantinham a cortina de couro bem fechada.

- Olhe só! - sussurrou Damisa, e Tiriki prendeu a respiração.

Um vento duro soprava e as árvores escuras sacudiam uma teia esfarrapada de galhos em direção a nuvens cinza grafite e cinza pérola que se estendiam em camadas contendo as mais surpreendentes combinações de azul lavanda e rosa forte e rosa claro. Ela havia visto uma orgia de cores semelhante no jardim de sua mãe, mas só naquela estranha terra nova eram os céus repletos de magnificência tão espantosa e deslumbrante.

- Asas de tempestade - murmurou ela, quase em voz alta -, asas de maravilha.

De momento em momento o flamejar fulgurante do céu tornava-se mais intenso, até que cada nuvem se tornou um tremeluzir escarlate de fogo fantasma e, por um momento, Tiriki pensou que estivesse vendo as derradeiras chamas de Ahtarrath erguendo-se de novo do mar. Ela chegou mais perto de Damisa, cuja pele clara parecia ter tomado emprestado algum novo esplendor do sol moribundo.

O Sol apenas cede, por tempo limitado, a administração ao Senhor Nar-Inabi, Formador do Mar e das Estrelas da Noite, disse Tiriki consigo mesma, repetindo o catecismo que aprendeu quando criança, e embora no inverno Banur, o Destruidor, brevemente assuma o trono, Aquele Que Tem Quatro Faces também é o Protetor, o Preservador, e em seu reino invernal prepara o caminho para o milagre de Ni-Terat, a Mãe Misteriosa de Todos, que eternamente faz renascer Caratra, a Nutridora.

Ainda tremendo de frio, mas curiosamente animada, Tiriki prendeu as pontas do xale e observou escurecerem as cores do pôr-do-sol até que restassem apenas os mais ligeiros vestígios de púrpura. O último estandarte de luz se reduziu a uma ponta de espada de laranja incandescente, depois empalideceu para carmesim, foi se apagando e desapareceu.

- O Senhor do Dia virou Seu rosto para a terra - anunciou Tiriki para o grupo que se havia reunido ladeando-a. - Vós já apagastes o fogo em todas as lareiras? - Em Atlântida, na véspera do solstício de inverno, todos os fogos teriam sido apagados ao meio-dia, mas aqui o bom-senso tinha prevalecido e Chedan havia proclamado que a tradição, na verdade, só proibia chamas nas lareiras durante a cerimônia propriamente dita.

Os atlantes arrastaram e bateram os pés no chão, inquietos. Aquela noite seria mais fria e escura do que qualquer coisa que eles tivessem conhecido; nem mesmo Chedan Arados algum dia havia passado o inverno naquelas ilhas do norte. Pior, as nuvens de tempestade os impediam de ver as estrelas. Nem mesmo a mensageira de Manoah, a lua, apareceria. Só a estrela de Caratra, brilhando no horizonte, dava esperança de que vida e luz poderiam permanecer no mundo.

O ritual do solstício de inverno que estavam prontos para celebrar nunca antes foi tão necessário. Naquele ambiente desolado era difícil confiar nas antiqüíssimas certezas, e embora tanto a razão quanto a tradição dissessem a Tiriki que, mesmo quando ela não podia vê-las, as constelações nunca deixavam de brilhar, em seu coração algum espírito atávico tremia, sussurrando que se suas preces não fossem atendidas, aquela noite jamais teria fim.

No centro do círculo de pedras no cume do Tor, Chedan estava fazendo seus preparativos para o ritual do solstício. Desde a chegada deles, todos os membros da casta dos sacerdotes tinham, é claro, mantido as regras disciplinares diárias de saudação e meditação. Mas, durante todo aquele tempo, aquele era o primeiro Trabalho que tentavam realizar.

Desde a metade da manhã, ele e Kalaran tinham trabalhado arduamente para construir um pequeno altar quadrado e consagrá-lo com água e azeite e, depois disso, para juntar galhos e gravetos secos para a fogueira sagrada. Ao longo de todo aquele tempo de preparação, Chedan fora importunado por lembranças que perturbavam sua concentração.

Com as costas doloridas voltadas para o leste, o mago colocou a máscara cintilante de olhos bem abertos de Nar-Inabi e entoou a Abertura, que só seria ouvida por seu acólito e os deuses. No mesmo instante, elevou-se dos sopés do Tor a música sagrada de flautas e tambores, enquanto sacerdotes e sacerdotisas começavam a subir pela trilha recém-aberta na floresta. Muitas vozes se elevaram, cantando em coro na escuridão:

“O céu torna-se frio e o ano velho,

A medida que a Roda gira. Nua a Terra, que outrora formosa floria,

E a Roda gira. “

Tiriki foi a primeira a entrar no espaço sagrado; o capuz dourado, insígnia de sua dignidade de guardiã, fulgurava acima de sua fronte; ainda mais merecedora de nota era a protuberância de sua barriga à medida que a gravidez se aproximava do fim. Chedan sabia que essa gravidez, na verdade, havia aumentado o poder de Tiriki, mas em seu estado teria sido perigoso permitir-lhe desempenhar o papel de sacerdotisa naquela cerimônia.

Ele fixou os olhos na pessoa seguinte a entrar, Liala, com a máscara cinzenta de Ni-Terat. Chedan sorriu por baixo da própria máscara. Liala era uma sacerdotisa experiente, sólida, de confiança. Chedan tinha certeza de que ela seria capaz de controlar qualquer influxo errático de energia.

Acalentamos sonhos à beira de rios gelados,

A medida que a Roda gira. Uma minúscula centelha a treva desafia...

E a Roda gira.

Para aquela cerimônia, como exigia a tradição, todos estavam usando o traje cerimonial simples do Templo da Luz mas, na verdade, quase nenhum retalho daquele tecido branco podia ser visto sob os mantos pesados exigidos pelo clima.

Chedan sorriu ironicamente por trás da máscara. Teremos de criar vestimentas que agasalhem mais, se quisermos manter o esplendor de nosso ritual, refletiu.

De uma só arrancada, ele voltou a ficar atento e acrescentou sua voz à canção...

“A escuridão cresce, mas o luar aparece,

E a Roda gira. A noite estrelada pode trazer deleite...

Até a Roda voltar a girar. “

Com a última palavra, os cantores, flautas e tambores silenciaram. Um momento se passou.

- Quem aqui vem diante do ano que parou de se mover? - cantou Chedan. - Onde Banur, o rei de quatro faces, detém soberano o poder? Por que esperais, à medida que o mundo mergulha na escuridão?

- Nós somos os filhos da Luz - respondeu o coro. - Não tememos as sombras. Nós nos levantamos para erigir faróis que a todos concederão luz!

- Contudo, neste reino de luas congeladas - a voz calorosa de Liala se elevou -, além do saber e da fé, qual é a força que vos pode sustentar?

- A força da Vida! O círculo do Amor...

- Então vamos - Chedan e Liala cantaram juntos -, vamos deixar esse calor em nossos corações entrar.

Todas as vozes se uniram.

- Pai Luz, retorna ao mundo!

Vestimentas farfalharam e uma infinidade de juntas estalaram à medida que os celebrantes sentavam e se acomodavam na postura de meditação. O solo sem dúvida estava muito frio, mas não úmido demais ou, pelo menos, não de início.

- Agora cai a mais longa das noites - entoou Chedan. - Agora Banur mantém na escravidão toda a terra... - Ele se calou por um momento, tentando calcular exatamente quanto tempo restava antes que os nodos celestiais se cruzassem no ponto norte da eclíptica. Havia labutado muito para identificar o instante preciso em que o sol passaria do reino do Carneiro do Mar (* Denominação dada pelos antigos para as constelações zodiacais de, respectivamente, Capricórnio e Aquário. (N. da T.)) para o do Homem Vertendo Água de uma ânfora.

- Desde os tempos mais antigos do Templo - prosseguiu ele -, celebramos este momento antes que o sol mais uma vez comece a crescer. Nós nos reunimos, portanto, não só para mais uma vez nos consagrarmos à grande obra, mas também para afirmar que nossos poderes são dignos de ser aliados daqueles que governam tudo o que existe.

“O Fogo é certa manifestação terrestre daquela Luz. Portanto o reverenciamos, sabendo como sempre que o Símbolo nada é, mas que a Realidade da qual o Símbolo nasce, é tudo. Nesta noite, aliamos nossas energias às da terra para invocar o céu. Estão preparados para unir seus poderes agora, que a Luz pode renascer?

Do círculo veio um murmúrio de assentimento.

- Tirai-nos do irreal - cantou Chedan - e levai-nos até o Real!

- Tirai-nos da escuridão - cantou Liala - e levai-nos para a Luz!

- Tirai-nos do medo da morte - cantaram os acólitos num coro de vozes agudas - e levai-nos ao conhecimento da Eternidade!

“Defensores da Luz, levantai! Despertos, vivos na esfera mortal, E, como a lua, refleti Manoah, Em Sua refulgência sempre próxima...”

Chedan não viu os celebrantes darem-se as mãos, mas sentiu ligeira mudança na pressão à medida que o círculo se fechou. Liala postou-se do outro lado do altar com as mãos estendidas, as palmas viradas para cima. Ele espelhou o movimento e as primeiras gavinhas de energia faiscaram entre eles.

Juntos, emitiram o som da primeira das sílabas sagradas, fazendo subir a energia da terra na qual estavam posicionados, até a base da coluna dorsal. Chedan sustentou a nota enquanto Liala tomava fôlego, então inspirou ele próprio quando ela recomeçou e, da mesma forma, todos ao redor do círculo, de modo que o som se manteve quase sem emenda. A Palavra de Poder começou a se mover em ondulações ao redor do círculo e se avolumar em força, até que o Tor abaixo de seus pés pareceu zumbir.

Chedan respirou fundo mais uma vez, deixou que a energia subisse até sua barriga, e começou a proferir a Segunda Palavra. A medida que o círculo a reforçava, seu falo se entesou ereto com a força bruta da energia que subia em espirais através de seu abdome, mas ao mesmo tempo em que admitia sua excitação sexual, estava redirecionando a focalização da energia... Não costumava ser assim tão difícil. O suor brotou-lhe em gotas na fronte.

O círculo fez uma transição suave para a Terceira Palavra, mas Chedan não conseguiu impedir-se de se contorcer espasmodicamente à medida que as chamas se avivavam com ardor em seu plexo solar, implosões de energia que faiscavam em cada nervo. Quando os tremores se abrandaram, ele viu que Liala se havia tornado um vulto dourado, incandescente, salpicado de raios de topázio. Mas a força de Liala estava vacilando. À medida que a dificuldade dela começou a repercutir nele, Chedan lutou contra o pânico.

Mas era tarde demais para voltar atrás. Chedan inspirou profundamente mais uma vez e, de novo, vocalizou a Terceira Palavra, dessa vez dirigindo a força plena dela para o vulto com a máscara de Ni-Terat. Os membros de seu corpo tremeram, faixas de azul e violeta ondularam ao redor dela como uma serpente se alimentando, e com um choque a barreira se rompeu. O círculo arquejou e oscilou com a súbita e impetuosa onda de energia.

Tremendo de alívio, Chedan modulou as ressonâncias remanescentes, levando-as a nota mais alta e aguda que carregava a Quarta Palavra. Os corações se abriram e foram preenchidos por ondas de amor. Com a Quinta Palavra veio um vento de energia, um som de uma beleza tão intensa que se tornou insuportável. Foi uma libertação seguir adiante para o ponto de poder no terceiro olho.

A expressão vocal da Sexta Palavra, refletindo-se e ocorrendo repetidamente em ondas visíveis de som, resolveu o conflito entre percepção e ilusão. Mesmo Chedan não sabia dizer se as auras dos outros tinham se tornado mais luminosas ou se era sua própria visão que havia mudado; ainda assim, podia ver cada membro do círculo claramente - e não só seus traços físicos característicos. Chedan sabia que estava vendo até seus espíritos. O mais ligeiro olhar de relance para Liala revelava sua dedicação e seu orgulho, e a necessidade ardente de amor em sua alma, mas então tudo se submeteu e se integrou quando a energia maior fluiu, um grande pilar de luz, que se elevou em arco entre terra e céu.

Pouco a pouco o fluxo se estabilizou e Chedan começou a puxar a energia para baixo e para fora, por meio de seus ombros e para suas mãos.

Subitamente, dos galhos empilhados sobre o altar de pedra, um fio pálido de fumaça subiu numa espiral.

Linhas douradas faiscaram na madeira e então as chamas se elevaram. O perfume de óleos doces encheu o ar.

- Abençoada seja a Luz! - cantaram em coro. - Abençoada a Luz em nossa aurora interior, mostrando o caminho para despertar, para aquecer. Abençoada seja a Luz que vive em todo coração pulsante. Abençoada a Luz de que cada um e todos são feitos.

As chamas saltaram mais altas, tingindo de dourado as faces dos fiéis enquanto eles começavam a dançar ao redor delas no sentido do movimento do sol, e rebrilhando sobre as silhuetas desgastadas do antiqüíssimo círculo de pedras. Chedan deu um passo para trás quando a força eterna da terra se avolumou num fluxo constante de energia que se irradiava para fora do altar, consumindo com sua chama a neblina que havia envolvido o Tor.

Chedan gesticulou, e os celebrantes soltaram as mãos, levantando os braços.

- Venham, filhos da Luz, venham, defensores da Luz - cantou ele. - Banhem seus archotes do mundo mortal no fogo do espírito. Levem nova luz para a lareira e para casa!

Um por um, cada um dos celebrantes se aproximou do altar, acendeu o archote dele ou dela no fogo sagrado e então continuou no percurso ao redor do círculo para começar a jornada de descida da encosta. Chedan observava com um sorriso fatigado enquanto a fileira de archotes se afastava ondulando, decorando o caminho com uma grinalda de luz. Os cantores prosseguiram:

“Uma centelha para acender o fogo sol, E enche-se nosso olhar de visões que a chama ilumina, Mas o amor resiste; conhecemos suas trilhas, À medida que a Roda gira.”

Em anos por vir, refletiu o mago, as coisas precisariam mudar. Tinha havido uma violência rústica incomum na energia, e embora tudo tivesse saído bem, no final a estranheza o perturbava. Qual poderia ser a explicação? Será que meu tio Ardral estava certo? perguntou a si mesmo, com uma pontada de pesar. Será que estamos à beira do raiar de uma nova era?

A Mãe descansa, mas logo despertará, Antes de catar as ervas, fazemos pão, Do ventre da Terra, vem vida nova, E a Roda gira.

Chedan franziu o cenho, depois sorriu mais largamente do que antes. A velha canção parecia apropriada de um modo novo. Mas as sementes do futuro são sempre encontradas no passado, recordou a si mesmo. O pai não está morto enquanto sobrevive a sua sabedoria...

- A senhora está bem? Quer se apoiar em mim no caminho de descida? - As palavras de Damisa foram delicadas, mas subjacentes a elas Tiriki pôde perceber uma exasperação mesclada com preocupação.

Ela sacudiu a cabeça. Já tinha sido bastante constrangedor mover-se com dificuldade ao longo da dança ritual, como um pônei aguado! Daqui a pouco alguém estaria se oferecendo para carregá-la numa liteira...

- Milady? - insistiu Damisa. - Quer que eu...?

- Estou bem! - respondeu Tiriki, irritada.

- Tenho certeza de que está! - O tom da moça também ficou mais áspero. - Estava apenas tentando ajudar!

Tiriki suspirou. Estava ficando cansada das oscilações de humor de Damisa entre vagarosa desatenção e preocupação „ solícita, mas sabia que despender energias como haviam feito no ritual, costumava deixar os nervos à flor da pele. Ela respirou fundo e arquejou surpreendida ao sentir a frigidez do ar, e impôs um controle mais rígido sobre a própria compostura.

- Eu agradeço - disse Tiriki com grande cortesia. - Vou descer devagar sozinha, e me encontro com você lá. Pode ir. O banquete que Reidel e os marinheiros prometeram provavelmente já deve estar pronto! - Ela levantou o archote, que chamejou intensamente sob o vento feroz que começou a soprar tão logo o ritual acabou.

- Ah, Reidel! - Damisa jogou a cabeça para trás. - Imagino que marinheiros tenham de aprender a cuidar de si próprios no mar, mas não achei a cozinha deles nada que valha a pena eu me apressar...

- Talvez não - respondeu Tiriki secamente -, mas tenho certeza de que você está com fome, de maneira que trate de ir andando.

Damisa pareceu surpresa, mas se ficou ofendida não foi o suficiente para impedi-la de fazer o que Tiriki dizia. Enquanto a moça seguia adiante, descendo pela trilha, Tiriki suspirou e, muito mais cuidadosamente, a seguiu. Pelo menos na descida da encosta teria seu archote para iluminar o caminho.

O passo seguinte não deu certo e seu pé afundou estranhamente atravessado numa pequena concavidade no solo rochoso. Ela perdeu o fôlego, os músculos da barriga se contraíram e Tiriki parou de novo, apoiando-se no bastão, lembrando-se mais uma vez dos bebês que não conseguiu levar a termo. Com esse pensamento veio um pouco de medo, um horror de que talvez tivesse feito mal à criança.

Bem ali perto, um pedregulho espetava-se para fora da turfa. Ela considerou a possibilidade de sentar-se, mas seu instinto dizia-lhe para continuar em movimento. Certamente, disse a si mesma, não é nada muito sério. Depois que eu me aquecer um pouco, a dor vai passar.

Respirando fundo de novo, Tiriki se pôs em marcha mais uma vez. Ouvia risadas vindo de mais abaixo, e uma ou duas vozes ainda acima mas, naquele momento, encontrava-se totalmente sozinha na trilha. À medida que entrava na curva em direção à base da encosta, a vegetação de arbustos dos dois lados da trilha tornou-se mais cerrada. Logo estaria entre as árvores. E já será mais do que hora - vem chuva por aí, pensou, quando um toque de umidade lhe beijou a face.

Mais uma vez as nuvens obscureceram as estrelas. Uma névoa fina baixou salpicando um véu de cristais sobre a trama grossa do tecido de seus xales. Ela tentou acelerar o passo, mas o ponto dolorido em suas costas era agora um pulsar latejante de dor.

A condensação imperceptível da bruma transformou-se num tamborilar constante à medida que a chuva começou a cair de verdade. Seu archote sibilou enquanto gotas mais pesadas passavam pelas folhas, encharcando-lhe as roupas e tornando o caminho traiçoeiro. Ela precisaria andar ainda mais devagar para evitar uma queda. Se eu não tivesse mandado Damisa embora, pensou, eu bem que estaria disposta a aceitar ajuda...

Suspirando, ela disse a si mesma para respirar atenta e cuidadosamente e, por um breve intervalo de tempo, aquilo ajudou a controlar a dor. Então uma outra pedra solta virou sob seu pé e a fez sair aos tropeções, perdendo o equilíbrio; o archote e o bastão voaram longe de suas mãos, que se debatiam. Água gelada espirrou-lhe no rosto e braços quando ela bateu no chão e no mesmo momento sentiu uma golfada quente entre as coxas. O ar saiu de seus pulmões num soluço explosivo enquanto sua barriga se contraía com mais intensidade.

A criança! pensou ela, apavorada, compreendendo o que acontecia. A criança está vindo... agora Deveria ter tomado mais cuidado, faltava tão pouco para chegar sua hora de parir! Naquele frio intenso, tinha sido louca até de subir o outeiro para o ritual.

Ela tateou em busca do archote caído mas antes que seus dedos se pudessem fechar ao redor do punho, ele crepitou e se apagou. Tiriki não conseguiu conter uma praga. Por mais fraca que tivesse sido a luz, sem ela a escuridão era impenetrável.

- Liala! - chamou, pois embora não houvesse qualquer Casa de Caratra ali, a sacerdotisa da veste azul havia prometido ajudá-la no trabalho de parto. - Alguém! Socorro!

Ela respirou fundo de novo, batendo os dentes de frio, e lutou para recuperar o controle. Dispunha de algum tempo - os relatos que tinha ouvido de partos diziam que dar à luz o primeiro filho levava muitas horas. Esse pensamento lhe dava muito pouco consolo. Tremendo, ela se ergueu sobre as mãos e os joelhos, enquanto se perguntava se conseguiria se pôr de pé, e se seria seguro caminhar se conseguisse. Andar de galinhas é melhor, disse a si mesma. Pelo menos assim posso tatear o caminho pela trilha. Contudo, era uma forma penosa de se mover e, antes de ter ido muito longe, não queria mais nada além de se enroscar inteira, gemendo de dor.

Tiriki se obrigou a continuar em movimento.

- F-filho querido! Eu que-quero muito ver você vivo! - Estranhamente, sua determinação fez com que sentisse muito menos frio. Eu vou ficar bem. Se tudo mais falhar, Chedan e Liala com certeza me encontrarão quando descerem...

As disciplinas rigorosas do Templo tinham lhe assegurado que ela teria forças para enfrentar qualquer coisa que pudesse acontecer, mas nunca antes ela se havia dado conta de quanto dependia do exército de criados sempre presentes em Ahtarrath. No mundo do espírito ela podia enfrentar todos os perigos, mas aquele era um desafio da carne, e se descobriu inesperadamente fraca, sozinha e com dor.

E o pior de tudo, se deu conta, quando esbarrou numa árvore encharcada no meio do que pensara ser o caminho, era que ela estava perdida.

Agarrando-se ao tronco da árvore, ela se levantou penosamente.

- Alooo! - berrou, mas o vento arrancou-lhe o fôlego. Ela teve a impressão de ouvir alguém gritando de um ponto mais acima na encosta. Será que estavam procurando por ela? Com certeza, àquela altura, alguém deveria ter percebido que estava desaparecida. Tentou gritar de novo, mas seus gritos foram abafados pelo rufar de tambor da chuva batida pelo vento.

Esta criança foi um milagre, pensou atordoada, com certeza os Poderes que me enviaram esta alegria não permitirão que seja destruída... não desta maneira insensata! Ela descansou as mãos nos joelhos, respirando cautelosamente enquanto a dor lhe sacudia o corpo inteiro novamente.

Eu sou uma Guardiã, disse aquela parte de sua mente que ainda era capaz de pensar, certamente posso invocar o auxílio de alguém, mesmo que meu corpo esteja aprisionado aqui... A Dama! A Rainha! Ela me deu sua bênção! Mas quando Tiriki reuniu as forças para se concentrar em fazer o chamado, uma outra contração lhe despedaçou a concentração e a obrigou a voltar a seu corpo.

No final, tudo que ela conseguiu fazer foi aproveitar os momentos entre as contrações para continuar se arrastando lentamente pela descida da encosta.

- Levante-se.

A percepção simples e animal da dor para onde a consciência de Tiriki havia se retirado ouviu as palavras sem compreendê-las. Semi-consciente, ela havia continuado a se arrastar. Agora pequeninas mãos estavam agarrando-lhe os braços com uma força surpreendente, e pondo-a de pé.

- Isso mesmo - você pode andar! Eu vou lhe mostrar o caminho.

- Quem é você? - gemeu Tiriki, enquanto uma energia calorosa fluiu para seu corpo por meio daquelas mãos pequeninas e fortes.

- Concentre a mente em seus pés! - veio a resposta severa, enquanto Tiriki parava para deixar mais uma contração passar.

- Muito bem! - disse sua ajudante. - Agora respire para dentro da dor! - Era uma voz de mulher e pelo tamanho de suas mãos, provavelmente uma das mulheres do povo do pântano. Talvez, pensou Tiriki sem muita clareza, alguém que tivesse vindo ao Tor para observar o acender da fogueira do solstício. Ela não tinha idéia de para onde estavam indo naquela selva de galhos chicoteantes e chuva torrencial, nem quanto tempo caminharam em meio à floresta. Mas finalmente sua misteriosa companheira a conduziu para uma clareira além das árvores. Os pés de Tiriki sentiram o solo nivelado. Ela sentia o cheiro de fumaça de madeira queimando, e sentiu mais do que viu o volume de uma morada.

Então sua guia gritou um chamado, numa sucessão de notas líquidas como o chamado de um pássaro, mas Tiriki se deu conta de que na verdade eram palavras.

Uma luz bruxuleante se derramou para fora quando uma fralda de porta de couro foi rapidamente aberta. As mãos da desconhecida soltaram-na e Tiriki tombou para a frente, nos braços da mulher de saber Taret.

Talvez, misericordiosamente, as horas seguintes para sempre permaneceriam indefinidas na memória de Tiriki, mas intercalada com breves períodos de dor lancinante havia uma consciência de calor e cuidado, e do brilho intenso dos olhos sábios da velha Taret, do conforto de suas mãos. Mais tarde, o rosto de Liala também estava lá, mas Tiriki sabia que era a força de Taret que a estava sustentando.

À medida que as contrações chegaram ao auge, ela perdeu inteiramente a consciência de onde estava. Parecia-lhe que estava de volta ao seu leito no palácio de Ahtarrath, acalentada pelos braços de Micail. Ela sabia que aquilo só podia ser um sonho dentro de um sonho, pois de acordo com as tradições do Templo nenhum homem, nem mesmo o pai da criança, teria tido permissão de sequer se aproximar de uma câmara de parto, nem tampouco de saber se a mãe e a criança haviam sobrevivido até que sua esposa estivesse em condições de trazer o bebê, ela própria, da Casa de Caratra.

Mas talvez no Outro Mundo as regras fossem diferentes, pois, sem sombra de dúvida, ele estava com ela, murmurando palavras de encorajamento, enquanto seu corpo era distendido por uma dor após a outra. E ela se lembrava de ser levantada, e dos seios e barriga macios de uma outra mulher dando apoio às suas costas enquanto mãos fortes dobravam e abriam suas coxas.

- Empurre só mais uma vez. - Será que as palavras vinham de Taret ou de Micail? - Traga para si a força da terra. Grite! Berre! Urre! Empurre o bebê para o mundo!

É claro. Ela tinha de invocar o poder daquela terra. Por um instante Tiriki readquiriu o controle absoluto. Recordou-se de como as forças no Tor haviam jorrado e fluído através de seu corpo e mais uma vez as instigou a vir e se apoderou delas, até sentir-se como se ela fosse a terra. Com um grito que pareceu reverberar por todas as regiões da terra, ela empurrou seu bebê para o mundo da humanidade.

A fralda de couro da porta estava escancarada, formando um triângulo luminoso em contraste com a escuridão ao redor.

A consciência, despertando gradualmente, reconheceu-o como um céu claro, tingido com todos os matizes de cor perolada de um raiar do dia de inverno. Tiriki se deu conta com surpresa de que, embora estivesse fraca, não estava com dor. De fato, sua sensação dominante era de radiante contentamento, e quando se deu conta de que uma pequenina vida estava deitada ali, aninhada na curva de seu braço, gorgolejando e se apertando contra ela, compreendeu por quê.

Maravilhada, examinou a curva lisa da cabeça, coroada por um chumaço de cabelos cor de fogo, e depois, quando o bebê se mexeu, ela viu as minúsculas feições, cerradas no sono como o botão de uma rosa.

Uma sombra lhe cortou o campo de visão. Levantando a cabeça, encontrou o sorriso de Liala.

- Ele é inteiro, saudável? - murmurou Tiriki

- Ela é perfeita - respondeu a voz de Taret vinda do outro lado.

O olhar de Tiriki se voltou para seu bebê. Não havia um filho, então, para herdar os poderes de Micail - se, realmente, aqueles poderes significassem alguma coisa naquela nova terra. Uma filha, então, para herdar o quê? Silenciosamente, sem conseguir pôr em palavras as perguntas que a assaltavam e confundiam, levantou o olhar para Taret.

- Filha de lugar sagrado - disse a mulher de saber alegremente. - Ela vai ser sacerdotisa aqui, um dia.

Tiriki assentiu, ouvindo apenas parcialmente, contudo sentindo todas as partes de sua alma que estavam dispersas voltarem a se encaixar nos seus lugares, mas não exatamente na mesma configuração. Havia uma parte que a unia à criança a seu lado, e uma outra que tocava a terra em que estava deitada, e alguma outra coisa que não teria podido definir ou nomear.  Sabia apenas que com aquele nascimento, o processo que se havia iniciado com o ritual no topo do Tor estava completo. Agora ela sempre pertenceria àquela terra.

Com esse pensamento, veio um outro.

- Obrigada - disse para Taret -, e transmita minha gratidão à mulher que me trouxe aqui. Sem a ajuda dela eu teria morrido. Foi você, Liala? Ou Metia? Ou...?

- O quê? - Liala franziu as sobrancelhas com uma expressão confusa. - Eu fiz muito pouco. Foi Damisa quem ficou preocupada quando você não se juntou a nós no banquete e, depois, ninguém conseguia encontrá-la em lugar algum. De modo que vim procurar Taret, na esperança de que ela pudesse ajudar. Eu tinha apenas acabado de entrar quando ouvimos seus gritos e abrimos a porta para que você entrasse... mas pensei que você tivesse vindo sozinha!

O sorriso de Taret se tornou largo e radiante.

- A Rainha dos Seres que Brilham, foi ela - disse toda orgulhosa. - Ela cuida dos seus.

Dez

Micail suspirou enquanto dormia, estendendo os braços em busca de Tiriki com um instinto que nem mesmo a solidão dos últimos nove meses havia sido capaz de destruir. Dessa vez pareceu-lhe que seus braços se fecharam ao redor dela. Ele sentiu o contorno redondo e rígido de sua barriga se contrair e, com a certeza de sonho, soube que ela estava dando à luz seu filho.

Ela gemeu de dor e ele a cerrou mais em seu abraço, murmurando palavras de encorajamento, e então, abruptamente, eles estavam numa planície coberta de relva alta, na hora cinzenta antes do raiar do dia. Enquanto a barriga de sua esposa inchava e ondulava, a terra também inchou e ondulou, mas não com os fogos de destruição. Por toda parte vida nova estava brotando do solo. Os esforços de Tiriki se tornaram mais intensos até que, com um grito, ela empurrou a criança para o mundo. Enquanto se recostava ofegante, ele se abaixou para pegar o bebê e viu que era uma menina, perfeitamente formada, com um tufo rebelde de cabelo vermelho como uma nova chama.

Rindo, ele a levantou bem alto.

- Vejam a criança da profecia, meu penhor para esta terra! - Enquanto todos os seres reunidos naquela planície, humanos e de outras naturezas, gritavam boas-vindas e vivas numa acolhida entusiástica, ondas de contentamento levantaram-no e levaram-no embora.

Micail se esforçou para se libertar dos cobertores e piscou quando se deu conta de que ainda estava ouvindo vivas e o som de vozes elevando-se numa canção.

Terá sido um sonho, perguntou-se, ou será que tudo que me lembro do ano que passou foi apenas um pesadelo? Mas os contornos obscuros do quarto ao seu redor eram mais do que conhecidos, e não pertenciam a quaisquer recordações que incluíssem Tiriki ou uma criança.

Então tinha sido um sonho - uma mentira. Mas, estranhamente, esta percepção não o encheu do desespero que ele sentia quando as promessas gloriosas da noite lhe eram tomadas. Se tinha sido uma ilusão, pelo menos era uma boa ilusão.

O tumulto do lado de fora se tornou mais alto. Ele saiu da cama com um tranco, cambaleou pela esteira trançada e tateou para abrir os postigos que impediam a entrada de parte da umidade do ar da noite. Para o oeste uma nova entrada de tempestade se aproximava, arrastando atrás de si uma esteira de serpentinas de chuva, mas a lua nova, mensageira de Manoah, deslizou entre as faixas de nuvens, buscando descanso abaixo do horizonte e as estrelas brilharam frias e fracas.

O mundo inteiro estava em repouso, escuro e silencioso - exceto por Belsairath. Os cruzamentos de ruas lamacentas defronte à estalagem fervilhavam com archotes e na praça uma imensa fogueira ardia. As pessoas dançavam ao redor dela, gritando.

Será que chegou um outro navio? Ele se esforçou para ver o porto, mas o cais estava escuro e silencioso. Micail esfregou os olhos, sem conseguir imaginar, naquele momento, que outro motivo as pessoas poderiam ter para uma celebração tão frenética.

A porta de seus aposentos se abriu e ele viu a silhueta angulosa de Jiritaren contra a luz da lamparina que era deixada acesa no corredor.

- Então está acordado! Pensei que deveria estar mesmo, com toda esta gritaria lá fora! - Como sempre, a voz de Jiritaren soava como se ele estivesse à beira do riso.

- Por acaso eu tive escolha? - Micail gesticulou em direção à janela. - Qual é, em nome de todos os deuses, o motivo de todo esse tumulto?

- Ninguém contou a você? É assim que eles comemoram o solstício de inverno por aqui!

- Sei... - Micail deu de ombros e fechou os postigos, que abafaram ligeiramente o ruído. Ele soubera que era o solstício de inverno e havia preferido não comparecer ao ritual do Fogo Novo na villa do príncipe Tjalan. - Não me tenho sentido bem ultimamente.

- Pela voz, você me parece muito melhor do que tem andado. Vamos lá, um pouco mais de luz! - Jiritaren enfiou uma tira longa fina de madeira na chama e a trouxe de volta para acender a lamparina do quarto de Micail.

- Sim - disse ele então, enquanto olhava para dentro da orelha de Micail. - Parece que realmente tem alguém em casa por aí, e bem a tempo, na hora certa.

- Ah, pare! - Micail acertou um soco de brincadeira no amigo e se virou, procurando por sua taça e pela água que esperava ainda estivesse nela. - Estou contente por você estar aqui. Estou contente até por esse maldito festival! Já estava mais do que na hora de que alguma coisa alegre acontecesse por aqui.

- Ele se calou e olhou atentamente para Jiritaren. - Bem a tempo, na hora certa, para quê?

- Haladris e Mahadalku convocaram uma reunião especial

- relaxe, eles só vão começar de verdade depois das preces da alvorada. Mas uma vez que acabei de voltar do ritual e por acaso sei que você, com freqüência, fica acordado até tarde, achei que possivelmente gostaria de saber...

- Realmente gostaria - rosnou Micail -, se puder me fazer a gentileza de me contar qualquer coisa!

Os olhos de Jiritaren faiscaram.

- O que eu estava a ponto de dizer é que os médiuns de Tarisseda com quem Stathalka vem trabalhando encontraram o local, e não fica muito longe.

- O local?

- O local onde fica a fonte de energia de que precisamos para construir nosso Templo. Naranshada conseguiu confirmar que as energias, provavelmente, também se coordenam. Fica no lugar de que o príncipe Tjalan estava falando, nas terras dos Air-Zir.

Micail franziu o cenho, sua mente começou a funcionar interessada de uma forma como não fazia há muitas luas.

- Se Ansha concorda em que seja o lugar certo, então deveríamos começar a planejar. - Ele se calou subitamente diante da gargalhada de Jiritaren.

- Não, não, continue - é só que você parece mais bem disposto hoje do que tem andado em muito, muito tempo.

- Imagino que você tenha razão. - Mesmo que seu sonho tivesse sido apenas uma ilusão, Micail abençoava os deuses por lhe terem enviado aquele sonho para dar-lhe a força de que necessitava para cumprir suas responsabilidades. Se acontecesse de Tiriki chegar ao porto hoje, pensou ele, iria sentir-se quase envergonhado demais para encará-la. Nada fiz, disse a si mesmo severamente, mas isso vai acabar agora.

Jiritaren assentiu, com a expressão mais uma vez séria.

- Eles querem que você comande a expedição. Tjalan diz que tenciona ir com você, mas quase certamente ele terá de voltar para cá, só para ficar de olho nas coisas. Você é o único que tem ao mesmo tempo a graduação de posto superior para comandar um destacamento de soldados e a posição para controlar os sacerdotes que eles estarão encarregados de defender.

Micail sacudiu a cabeça com espanto. O que Jiri estava dizendo o surpreendia menos do que o fato de que, pela primeira vez desde o Afundamento, ele se descobria sinceramente interessado.

Micail permaneceu acordado pelo que lhe pareceu um tempo enorme depois de seu amigo ter ido embora, ouvindo a balbúrdia dos farristas lá fora. A chuva torrencial que pouco depois começou a bater em pancadas fortes e incessantes contra as telhas de cerâmica do telhado não diminuiu em nada a animação deles. O temporal o fazia lembrar do quebrar das ondas na costa de Ahtarrath e ele se viu sorrindo.

Finalmente, Micail fechou os olhos, repassando as imagens alegres de seu sonho mais uma vez. E no momento em que os primeiros passarinhos começaram a anunciar a chegada do dia, a visão mudou. Ele ouviu uma voz proclamar:

“A Filha de Manoah traz a vida de volta ao mundo!” e do bebê que ele tinha nas mãos cresceu um clarão de luz fulgurante no mesmo instante em que o sol do solstício de inverno começou a raiar.

Quando o primeiro aniversário da chegada deles a Belsairath chegou e passou, mesmo a folhagem morta de inverno pareceu celebrar, cedendo lugar a um verde muito vivido, enchendo o mundo de uma suavidade que parecia pairar no ar. Os ciclos do sol, que em sua terra natal só haviam sido medidos e perceptíveis para os sacerdotes, eram a própria essência da religião nativa naquela terra do norte. Certamente nunca antes Micail teve tamanha consciência do prolongamento dos dias. Atarefado com os preparativos para a expedição à região dos Air-Zir, viu-se ocupado demais para se entregar muito a pensamentos tristes, mas não era aquele o único motivo.

Seu pesar pela perda não havia desaparecido, mas tinha se tornado distante. Estava começando a aceitar o fato de que Tiriki estivesse perdida para ele. Tinha conversado com comerciantes que vinham à cidade e até persuadido o príncipe Tjalan a enviar um navio para fazer uma jornada ao redor de Beleri’in para examinar os mais prováveis locais de desembarque, mas não houve qualquer notícia. Embora Micail pranteasse a perda da forma carnal em que a havia amado, dizia a si mesmo que em uma outra vida eles voltariam a estar juntos mais uma vez. E, por vezes, até acreditava nisso.

O dia da partida chegou, e Micail permaneceu no cais com sua veste e manto cerimoniais brancos cintados e puxados para cima para facilitar o andar, os pés calçados com sandálias robustas, e um bastão na mão que podia ser usado para mais do que magia. Às suas costas podia ouvir uma confusão de vozes à medida que a coluna se formava; as vestes brancas dos acólitos que tinham sido selecionados para vir com eles contrastavam pálidas com as túnicas verdes que os soldados vestiam. As ondas estavam azuis naquele dia, com cintilações de espuma. Seu olhar avistou um rebrilhar de ouro avermelhado e ele se empertigou por um momento, certo de que via um veleiro com cutelos e varredouras nos dois bordos passar safo e ir além da ponta, vindo em direção à entrada do porto. Mas o vento virou e alisou as ondas. Tinha sido apenas uma miragem criada pela luz do sol.

“Não confunda o poste itinerário com a destinação”, murmurou o velho Rajasta em sua memória.

- Micail! Venha logo, homem. Nós não podemos partir sem você! - a voz de Jiritaren o despertou.

- Até a vista - sussurrou, levantando as mãos numa saudação ao rebrilhar da luz nas ondas. Então fez meia-volta e saiu do porto caminhando a passadas largas para assumir seu lugar na coluna ao lado do príncipe Tjalan.

Durante a primeira hora daquele primeiro dia de viagem, a estrada sulcada foi tudo que Micail viu, e ele prestou muito pouca atenção a qualquer coisa até que ouviu alguém atrás dele exclamar de surpresa. Micail levantou o olhar e viu uma barragem terraplenada coberta de turfa ao longo da face lateral de uma colina do lado esquerdo da estrada.

- Os nativos daqui construíram aquilo? - perguntou ele a Tjalan. - Eu não imaginava que fossem capazes disso.

- Sim, construíram - respondeu Tjalan -, ou melhor, foram os ancestrais deles. E viveram nela, até que nós viemos. Meu bisavô fundou o porto. - Ele gesticulou com o polegar sobre o ombro. - Meu pai considerava os portos da Ilha do Estanho um total desperdício mas, em termos locais, eles se saíram bem. De fato, Domazo, que administra a estalagem de que você tanto gosta, é descendente direto daquele chefe. Não ficaria nada surpreendido se ele tivesse tanta autoridade por aqui quanto eu tenho! De todo modo, como pode ver, ninguém vive aqui agora. Isto nos dá espaço de sobra para expansão.

- Impressionante! - comentou Micail finalmente.

- Sim, de fato é. Nós não deveríamos esquecer de que, quando adequadamente liderado e motivado, este povo é capaz de realizar muita coisa.

Micail lhe lançou um olhar penetrante, mas Tjalan apenas continuou caminhando, enquanto os olhos atentos vasculhavam o horizonte. Com certeza, Tjalan não quis dizer realmente o que pareceu estar sugerindo, que o povo nativo só precisava de um líder forte. Ele próprio, talvez? Quando fizeram os planos de viagem, debateram apenas fazer um reconhecimento das terras dos Air-Zir e pedir permissão ao rei nativo para construir nelas. Micail não se recordava de um império atlante construído com o trabalho braçal de povos submetidos como sendo parte das profecias de Rajasta.

Na manhã do segundo dia, Micail deixou-se ficar para trás na coluna o suficiente para se juntar aos membros mais jovens da expedição. Estava longe de ter certeza do tipo de acolhida que deveria esperar, eles com freqüência ficavam muito formais e pouco à vontade na presença dele, mas naquele dia todos pareceram ficar satisfeitos ao vê-lo.

Depois de sua recente experiência de exposição às vaidades irritadiças de seus companheiros sacerdotes, ele ficou satisfeito ao ver que os acólitos não estavam fazendo qualquer tentativa de dar ordens e se fazer de superiores com os cheias que eram criados dos outros sacerdotes e sacerdotisas. Li’ija e Karagon estavam sendo tratados como nada menos que pares pelos outros, e nem a posição de semi-realeza de Galara nem o fato de que fosse cunhada de Micail haviam-lhe conquistado quaisquer favores. Mas o rapaz, Lanath, o preocupava. Ele continuamente retardava-se, ficando um pouco para trás dos outros com os olhos vagos, como se recordando um sonho maligno. Micail saiu para o acostamento da estrada sulcada e se abaixou, fingindo reamarrar as sandálias.

- Você parece cansado - observou, levantando-se quando Lanath começou a passar por ele. - Não dormiu bem?

Surpreendido, Lanath o olhou fixamente.

- Ba-bastante bem - gaguejou, levando a mão ao queixo no hábito nervoso que adquiriu desde que sua barba finalmente começou a aparecer. - Pelo menos na noite passada...

Micail assentiu.

- Todos nós sonhamos com o que perdemos. Mas temos de seguir adiante - declarou, sabendo que também estava falando consigo mesmo. - Eu sonho com minha esposa, que perdi. Na noite passada eu a vi como se estivesse aqui, diante de mim.

- Quando não estou tendo pesadelos, nunca me lembro deles, graças aos deuses! -disse Lanath, em tom hesitante. - Eu sonho com Kanar - o astrólogo do Templo, em Ahtarrath. O senhor sabe quem.

- É mesmo? - perguntou Micail, levantando as sobrancelhas de maneira encorajadora.

- Bem, eu havia acabado de começar a trabalhar como seu aprendiz, sempre fui bom com números. Mas nos sonhos, eu... não é nada de estranho demais no início, quero dizer, eu apenas o vejo em seu observatório ou caminhando na praia. Mas então ele fica... é como se ele estivesse tentando me dizer alguma coisa, mas não consigo compreender...

- Sim, mas não são as estrelas normalmente incluídas entre as coisas que ninguém pode realmente compreender? - retrucou Micail. Subitamente a mente dele começou a girar num turbilhão, com uma centena de dúvidas pessoais que não eram suas. Lanath lhe estava transmitindo seus sentimentos. Não era de espantar que os outros parecessem incomodados sempre que ele estava por perto.

O garoto precisava de treinamento. Micail pigarreou.

- Bem, Lanath, se estudar e conhecer o saber das estrelas é a sua vocação, você realmente deveria falar com Ardral - ou com Jiritaren - prosseguiu, quando Lanath se encolheu assustado. - Você não deve temer o Sétimo Guardião. As brincadeiras dele podem lhe ensinar mais do que a sabedoria sóbria de muitos, mas suponho que considere Jiri mais acessível. Mas agora, neste momento, há uma outra coisa que precisa aprender. Sua voz finalmente parou de mudar, não é verdade?

- Sim, vou ser um tenor, pelo que dizem - Lanath enrubesceu -, como o senhor.

- Ótimo - disse Micail - e isso não é apenas uma gentil palavra de encorajamento. Quando chegar a hora de construir o novo Templo, precisaremos de cantores bem preparados, por isso, penso que deveria começar a trabalhar nisso comigo agora. Que acha?

- Agora mesmo? Quero dizer, tenho muita dificuldade de me concentrar - Lanath enrubesceu de novo -, especialmente assim, em público. Mas... mas eu gostaria muito de tentar!

Micail assentiu.

- Isso é só o que peço. Vamos começar com um exercício básico de centralização. Você pode entoar a quinta nota e sustentá-la? Sim, sim, está bom assim, mas agora escute, muito cuidadosamente.

- Isto é tão bonito! - comentou Elara. A estrada pela qual o comerciante nativo Heshoth os conduzia serpenteava em direção ao nordeste. À esquerda erguia-se uma fileira de colinas baixas cobertas de árvores. Mesmo a turfa entre os profundos sulcos cortados por rodas estava vivamente verdejante, toda estrelada com flores de primavera. - Nossa jornada deve ter sido abençoada pelos deuses!

- Que deuses? - resmungou Lanath. - Os nossos ou os deles? Ainda estou dolorido da caminhada de ontem! - Galara e Li’ija gemeram em uníssono.

- Se você tivesse mexido seu traseiro com mais freqüência quando estávamos em Belsairath, agora estaria em melhor forma - retrucou Elara com aspereza, examinando-o com desagrado.

Quase sem aviso, Lanath tinha crescido e ficado mais alto do que ela, mas qualquer músculo que ainda tivesse estava recoberto por uma camada do que ela só podia descrever como “banha”. Os cabelos castanhos escuros ainda lhe caíam frouxos sobre os olhos como os de uma criança, mas ele tinha, finalmente, um princípio de barba. Elara estava resignada com o noivado deles, mas sem pressa alguma para se casar, não quando havia tantos outros homens interessantes ao redor.

- Lorde Ardravanant me manteve mais do que bastante ocupado - estava dizendo Lanath com exagerada virtuosidade.

- Estudar as estrelas exige principalmente que se fique sentado imóvel.

- E que se durma até tarde - acrescentou Cleta, melancolicamente. Ela tinha compleição robusta, era séria e esperta, e quando conseguia dormir bem uma noite inteira, também era bastante bem-humorada.

- Imagino que a viagem nos vá tornar mais fortes - disse Li’ija alegremente.

Karagon, que se havia juntado à expedição com seu mestre Valadur, fungou com desdém.

- É apenas uma agradável caminhada para você, não é?

- Mas é claro. Se não estivéssemos amarrados ao ritmo lento dessas carroças puxadas por bois dos Air-Zir - prosseguiu Li’ija, com um sorriso que sugeria que poderia não estar falando inteiramente sério -, poderíamos avançar duas vezes mais depressa!

Lanath gemeu só de pensar naquilo, mas os outros caíram na gargalhada. Ardral estava viajando numa daquelas carroças de boi com os suprimentos e a bagagem deles, e Valadur, para fazer-lhe companhia. De resto todos andavam a pé, como de fato teriam feito em sua terra natal, onde só os poderosos ou os idosos e debilitados andavam de liteira.

Considerando as condições da estrada, ela ficou a se perguntar quanto tempo levaria antes que o Sétimo Guardião estivesse andando junto com todos os outros, a despeito de seus muitos anos de idade, pouco importava quantos pudessem ser.

Elara havia perguntado mais de uma vez, mas ninguém sabia quantos anos Ardral tinha. “Sou velho o suficiente para saber que não deveria ter esperanças de que fosse diferente - e como eu gostaria de que fosse!” - era a resposta habitual dele para qualquer um que tivesse a ousadia de perguntar. E havia outros rumores mais misteriosos a respeito dele. Alguns diziam que Ardral havia usado seus poderes para matar. Ele próprio negava isso, ou melhor, dizia que não, que apenas seus inimigos tinham ficado loucos e saído correndo... algo que não era exatamente tranqüilizador. Contudo, as colinas cobertas por densas florestas por onde estavam passando poderiam esconder um número infinito de perigos, de animais selvagens a bandidos. Estava satisfeita por viajar com um mago, não importava de que tipo.

É claro que também havia os soldados. Metade deles vinha na retaguarda, enquanto os outros formavam uma vanguarda de proteção ao redor de Heshoth, um par de nativos e do príncipe Tjalan. Micail por vezes caminhava com o príncipe e seus guarda-costas, mas não com menos freqüência com os outros sacerdotes. Havia os engenheiros Naranshada e Ocathrel, e Jiri-taren, cujo trabalho, Elara suspeitava, era em parte servir de ama-seca para Micail, mas principalmente auxiliar Ardral em seus cálculos astronômicos.

Elara estava muito menos segura com relação ao que a sacerdotisa Kyrrdis fazia ali. Se eles queriam uma cantora, ela é boa, mas Mahadalku é melhor, e se eles queriam apenas estar acompanhados por uma mulher, poderiam ter trazido uma das sajis... Ela enrubesceu.

Depois havia Valadur. Estava muitíssimo intrigada com qual seria a função dele. A Ordem Cinza tinha uma reputação muito contraditória... Ardral o manterá na linha, concluiu ela. E com isto fica faltando... Valorin. E claro.

Elara reduziu a marcha de seus passos, olhando ao redor, mas mesmo assim não viu Valorin em lugar algum. Sacerdote de Alkonath que havia sido selecionado por causa de seu vasto conhecimento de cultivar coisas, Valorin continuamente deixava a trilha batida para investigar algum arbusto ou flor desconhecidos.

- Olhe... aquilo ali adiante é uma aldeia! - exclamou Galara, apontando para uma coleção irregular de canteiros de terra cuidadosamente dispostos de forma radiada para fora, a partir de uma choupana redonda, com teto de turfa verde. Numa das extremidades do campo um longo monte verde parecia montar guarda.

- É no mínimo uma fazenda - aventurou Cleta -, embora não pareça em nada com as de nossa terra.

- Várias fazendas - observou Karagon quando chegaram à crista da estrada e mais campos e construções tornaram-se visíveis. Os canteiros eram pequenos, divididos por cercas vivas ou por valas, e à medida que se aproximaram mais viram os dorsos marrons empoeirados de um rebanho de ovelhas sendo conduzidas por um garotinho de túnica marrom com uma vara e um cachorro que latia.

- Há água nas valas! - disse Lanath, surpreso. - Simplesmente parada lá.

Quando eles se aproximaram, um homem cavando com uma enxada entre as fileiras de cereais ainda em broto, gritou uma saudação na língua local e Greha, um dos guias nativos de aspecto feroz, respondeu. Ambos os nativos tinham os cabelos castanhos encaracolados e os olhos cinzentos típicos daquele povo, embora Greha fosse ao mesmo tempo especialmente corpulento e alto.

- Você aprendeu algumas palavras do patoá local, não é Cleta? - perguntou Galara. - O que eles estão dizendo?

- Alguma coisa a respeito de pastores e ovelhas. Acho que estão falando de nós! - O rosto redondo de Cleta ficou ligeiramente ruborizado. - Ah, que horror! Espero que o príncipe não tenha ouvido aquilo!

Com os guarda-costas rondando ao seu redor, o príncipe Tjalan seguiu adiante em passadas largas, bravo e arrojado como os falcões que ondulavam em seus estandartes.

Vejam o grande senhor de Atlântida, tomando posse da nova terra, pensou Elara, mas o que a nova terra tomará dele?

A jornada assumiu ritmo próprio à medida que os dias se passaram. Eles acordavam cedo e caminhavam, com paradas ocasionais, até o meio da tarde, quando a vanguarda saía em busca de um local para montarem acampamento, onde houvesse água de qualidade. Certa noite, foram perturbados pelo uivar de lobos e em mais de uma ocasião Lanath os acordou com seus pesadelos mas, de maneira geral, tudo estava pacífico. Os acólitos e cheias logo se acostumaram ao exercício e depois que perderam o medo de territórios desconhecidos, mostraram-se ávidos para sair em explorações.

Micail não queria que saíssem desacompanhados, mas o comerciante Heshoth garantiu que a gente das redondezas não só era pacífica, mas também tímida. Quando os nativos viam os atlantes vindo, com suas reluzentes túnicas brancas e mantos de cores vivas, para não mencionar os estandartes, lanças e espadas, os guardadores de porcos e lenhadores da floresta saíam correndo ainda mais rapidamente do que o tinham feito os rapazinhos que cuidavam das ovelhas ou do gado nas pradarias.

No dia seguinte a expedição gradualmente virou em direção ao norte, tediosamente seguindo a estrada ao redor da extremidade de uma fileira de colinas densamente cobertas de mata cerrada. Ao final da tarde os viajantes se aproximaram de uma colina solitária com a corcova oblonga de um velho dólmen no topo, dominando do alto a paisagem.

- Provavelmente deveríamos parar aqui - Heshoth apontou para uma ampla clareira entre a estrada e o riacho. - Outrora as pessoas vinham aqui a esta colina para a cerimônia do fim do verão, mas então houve uma guerra. Não restou ninguém para vir aqui senão nós.

O dia foi bonito e a longa tarde cedeu lugar a um demorado e vagaroso pôr-do-sol, enquanto os criados do príncipe Tjalan preparavam as tendas e juntavam lenha para cozinhar a refeição da noite. Até que tivessem acabado haveria muito pouco para os acólitos e cheias fazerem. Nesse meio tempo, a colina os atraía, com suas encostas de folhagem verdejante e misteriosas alusões a antigas tragédias.

- Vamos escalá-la - sugeriu Karagon. - Do topo devemos ter uma belíssima vista dos campos.

- Você já não andou o suficiente hoje? - resmungou Elara, mas exceto por Lanath, que balbuciava alguma coisa a respeito de fantasmas, os outros estavam ávidos pela aventura. Li’ija e Karagon logo encontraram um caminho que seguia quase em linha reta subindo pela encosta até o cume e eles avançaram rapidamente. Pouco depois chegaram a uma vala e a uma barragem baixa, ambas bastante tomadas pelo mato alto. De maneira bastante estranha, a vala havia sido escavada em segmentos, com uma passagem sólida de terra firme deixada entre eles.

- Nem a vala nem a barragem parecem muito defensáveis - observou Karagon -, aqui deve haver algum outro propósito que não seja fortificação.

Na face norte eles encontraram os pilares grossos de madeira de um portal com uma guarita, ainda apoiados um no outro, embora o teto devesse ter desabado há muito tempo.

- Se não era um forte - perguntou Li’ija -, então para que servia?

- Parece-me estranho... - Lanath estremeceu com um calafrio e se apressou em acrescentar: - Não estranho de maneira hostil, apenas muito antigo. Há um eco de muitas vozes.

- Sim - concordou Li’ija -, eu também posso ouvi-las.

- E o vento. Mas alguma coisa andou cavando dentro de uma dessas fossas - observou Cleta. Ela se aproximou e se agachou, afastando a terra solta com a mão. - Há um moinho de mão aqui, como os que as mulheres nativas usam para moer grãos. Mas está quebrado.

- Despedaçado - contribuiu Elara.

- Sacrificado - sussurrou Karagon dramaticamente.

- Aquilo é um pote? - Galara se abaixou, inclinando-se para ver.

- É um crânio - respondeu Elara. - Talvez da mulher que usava a moenda.

- Vamos ver o que existe lá dentro - sugeriu Karagon, caminhando com cuidado em meio às ruínas do portal. Lanath e Galara protestaram de novo, mas depois deram de ombros e seguiram os outros.

- É um círculo de pedras! - exclamou Elara, e parou depois de apenas alguns passos no interior, examinando aquela quietude prometedora como foi treinada a fazer, mas não havia qualquer altar, só relvas oscilando sob a brisa iluminada pelo crepúsculo e alguns pés ainda pequenos de aveleiras.

- Eu acho - disse Galara com a voz trêmula - que encontramos o cemitério deles.

- Então por que aquele corpo não foi enterrado? - Li’ija apontou para o interior do círculo, onde ossos esbranquiçados jaziam espalhados em meio à relva. .- Poderia ter sido cremado - refletiu Cleta. Isso era feito em Atlântida na esperança de afrouxar os laços do carma que aprisionavam o espírito e libertá-lo para buscar um caminho mais evoluído, mas não havia quaisquer marcas de carbonização naqueles ossos.

- Eles deixaram os ossos aqui para que os pássaros e animais pudessem receber a carne - disse então Lanath, numa voz estranha e baixa. - O crânio foi colocado na cova da família com as oferendas.

Elara olhou para seu noivo com surpresa. Lanath nunca antes havia sido capaz de interpretar a história de um lugar daquela maneira. Ela lançou um olhar rápido para Li’ija, como se para dizer, pensei que fosse você que tivesse talento para esse tipo de coisa.

A filha de Ocathrel deu de ombros e ficou de costas.

- Está ficando realmente tarde - disse Galara, com um arrepio exagerado. - Não deveríamos tratar de voltar? Aquela encosta vai ser mais difícil na hora de descer.

Uma vez do lado de fora do portal, todos se sentiram melhor, mas o caminho que seguiram para descer a colina não levava de volta ao acampamento. Em vez disso, viram-se entrando no que era evidentemente uma outra área cercada, muito maior do que a primeira. Um emaranhado de vegetação cobria pilares de casas tombados, e uma série de cercas-vivas excessivamente grandes marcavam padoques de animais e campos onde alguns talos dispersos do trigo nativo ainda cresciam.

- Esta aqui parece apenas abandonada - comentou Lanath -, como se alguém estivesse pronto para voltar a qualquer momento. Mas ao mesmo tempo - é como se nunca alguém tivesse realmente vivido aqui.

- Talvez tenham sido moradias temporárias - sugeriu Elara. - O guia disse que as pessoas vinham aqui para um festival.

- Elas deveriam ter ficado longe daqui, se queriam viver

- observou Li’ija numa voz estranha. Elara viu que ela estava parada, absolutamente imóvel, olhando fixo para alguma coisa em sua mão.

- Você encontrou uma ponta de flecha! - exclamou Karagon. - Olhe, eu não sabia que era uma sensitiva. O que mais consegue captar a partir dela?

- Sangue - respondeu a garota - e ódio. Gado. Um ataque repentino... homens correndo... paredes de chamas...

- Estes pilares de fato parecem carbonizados - comentou Galara em tom assustado.

- E aquilo - indicou Cleta apontando - não é uma velha pilha de lenha. São ossos...

Elara pôs delicadamente os braços ao redor de Li’ija e virou a mão da cheia de modo que o pedacinho de pedra-de-fogo caísse no chão. A garota de Alkonath estremeceu e relaxou, apoiando-se nela com um suspiro.

- Você está bem?

- Vou ficar. - Li’ija estremeceu de novo. - Aquilo foi estranho. - Ela se endireitou, afastando-se um pouco de Elara.

- Eu me lembrei de meu pai me dizendo que havia um lugar perto de Belsairath que costumava ser uma famosa mina de pedra-de-fogo, e pensei na estrada em que estivemos, e naquela ponta de flecha... foi como se tivesse surgido de repente da terra, piscando para mim. De modo que a apanhei e ela simplesmente...

- Estava chamando por você. Há muitos espíritos por aqui. - Lanath olhou ao redor, com visível inquietação. - Os crânios não foram enterrados. Ninguém fez as oferendas. Eles ainda estão esperando.

Todos haviam se chegado mais perto uns dos outros. O sol que se punha coroava as árvores de fogo, e acima do solo, barras de luz vermelha cor de sangue estendiam-se enviesadas, criando linhas tremeluzentes na semi-obscuridade do ar.

- Sim - respondeu Cleta inesperadamente -, até eu posso sentir isso. Nossa! Detesto este tipo de coisa. Vamos tratar de sair daqui! - exclamou ela, pegando Li’ija pela mão.

Quando afinal todo mundo saiu da área cercada, as primeiras estrelas começavam a aparecer. Li’ija se recuperou rapidamente, mas Cleta e Lanath continuaram a resmungar a respeito de espíritos. Todo mundo parecia esperar que Elara soubesse o que fazer. Ligar a energia deles à terra poderia não ser o melhor remédio - afinal, era da terra que emanava o problema. A outra face de Caratra, refletiu Elara, e estremeceu, com mais um calafrio.

A solução óbvia era sair completamente da colina, mas isso demonstrou ser mais difícil do que se esperava. Embora o céu estivesse bastante límpido, não havia lua. Debaixo das árvores estava ainda mais escuro, enquanto todos os caminhos possíveis serpenteavam em curvas ora para cá ora para lá, como se tentando fazer com que eles se perdessem. No final, tudo o que puderam fazer foi descer abrindo passagem à força, em meio a moitas de arbustos espinhosos e emaranhados de árvores ainda novas até sentirem o cheiro de fumaça de madeira queimando e ouvirem os criados de Tjalan tagarelando enquanto cozinhavam a refeição da noite.

A maioria dos exploradores desceu o resto do caminho de volta ao acampamento aos tropeções, o mais rápido que pôde, mas Lanath ficou para trás, e depois de um instante, Elara subiu de volta para se juntar a ele.

- Ande, venha - disse baixinho -, já acabou.

- Não. Nós não escapamos... - sussurrou Lanath. - A que está no dólmen na colina. Ela é muito velha, a Mãe de toda a sua tribo. E não quer ninguém aqui...

O que não é de espantar, pensou Elara, depois da maneira como entramos, como trapalhões desajeitados, em meio aos ossos! Ela deu um ligeiro empurrão em Lanath em direção ao acampamento.

- Vai ficar tudo bem - disse de novo. Depois que ele se foi, Elara se virou de volta para a floresta e levantou as mãos numa saudação.

- Avó, aceite nossas desculpas. Queremos apenas fazer bem à senhora e a seu povo, respeitar igualmente os mortos e os vivos. Permita-me deixar uma oferenda em sua intenção na floresta, e pela manhã partiremos daqui. Por esta única noite peço a sua proteção. Não nos envie sonhos ruins!

 

Ao longo do dia seguinte os acólitos e os cheias permaneceram juntos uns dos outros de maneira incomum, mas na maior parte do tempo caminharam em silêncio. Um dia depois, os viajantes se viraram para o leste mais uma vez. Micail se descobriu estranhamente relutante de rumar naquela direção, pois naquela noite, no acampamento abaixo da colina coroada pelo dólmen, Micail havia sonhado com Tiriki e em como a moça poderia ter-se tornado se tivesse chegado àquela terra fria. Pela primeira vez em um ano, ele acordou sorrindo. Tão clara fora a imagem que parecia quase ainda vê-la, coroada de flores de espinheiro-alvar, emoldurada por viçosas colinas verdejantes.

Mas, à medida que eles avançavam em direção ao sol nascente, aquela percepção de Tiriki começou a se apagar. O que você espera? Foi apenas um sonho, censurou-se severamente.

Naquela noite, acamparam na extremidade da orla das colinas. Diante deles descortinava-se uma nova paisagem campestre cujas suaves ondulações se nivelavam até formar uma larga planície que se estendia a perder de vista num horizonte enevoado. A região de campos parecia ser mais densamente povoada do que qualquer outra que tivessem visto antes, mas o mesmo sistema de cercas-vivas e valas definia os campos onde o trigo novo se elevava espesso e verde. Além deles havia pastagens mais vastas onde pastavam pequeninas ovelhas marrons ou cabeças de gado de chifres largos. As casas de fazenda redondas, muito maiores do que as que tinham visto perto da costa, eram cobertas por telhados de maços de palha, em vez de relva de turfa.

- Isto é Azan - o Curral de Touros -, onde o rei Khattar é soberano! - proclamou Heshoth. O mercador visivelmente orgulhava-se de seu governante. - Na refeição do meio-dia faremos uma parada e poderão vestir suas roupas de festa para homenageá-lo.

Tjalan trocou um olhar com Micail e sorriu divertido, mas francamente achou bom o conselho.

- Vamos começar - murmurou o príncipe - tratando de impressionar esse grande chefe de tribos nativas, mas brevemente, creio, ele vai nos prestar mais homenagens.

- Sabe de alguma coisa a respeito desse rei? - perguntou Micail, em tom igualmente baixo.

- Pelo que Heshoth tem dito, Khattar é soberano de muitos dos chefes de tribos cujas terras cercam esta planície. Eles guerreiam entre si por direitos de pastagem, depois se reúnem num santuário central para os grandes festivais, que são presididos pelo rei. Dizem que ele fugiu e se casou com a mulher que é agora a alta sacerdotisa do povo do Touro. Ao que parece, sua reputação de guerreiro era notável o suficiente para desencorajar retaliação. - Ele deu de ombros. - Mas Heshoth me diz que não é sua esposa e sim sua irmã que é chamada de rainha. O nome dela é Khayan-e-Durr, e seu filho será o herdeiro dele. É tudo bastante complexo e primitivo, e como digo, eu não compreendo inteiramente. Mas, sabe como se costuma dizer, quando em Khem, ande de lado.

- Como acha que ele nos vai receber? - Micail lançou um olhar curioso para seu velho amigo. - Como aliados ou como uma ameaça à sua supremacia?

- Ah, bem, isso vai depender de como conduzirmos esta missão diplomática - respondeu Tjalan, com uma gargalhada. - Espero que tenha trazido seus melhores braceletes, Micail.

 

Eles chegaram a Azan-Ylir, o lar e a fortaleza do grande rei, na hora em que as fogueiras de cozinhar foram acesas e o aroma de carne assada começava a perfumar o ar. A aldeia ficava situada numa elevação acima de margens cobertas por salgueiros onde o rio Aman fluía suavemente em direção ao norte, em meio às folhas novas. O feroz guarda-costas de Heshoth, Greha, havia desaparecido durante a pausa para repouso do meio-dia, de modo que Micail não ficou surpreendido ao descobrir que eram aguardados.

Greha esperava com uma fileira de guerreiros vestidos como ele, de couros e peles curtidas, portando armas de bronze. Estavam postados em dois grupos, um de cada lado dos postes de portal, feitos de gigantescos troncos de árvores, que se elevavam muito acima das estacas da paliçada, com duas vezes a altura de um homem. À medida que os atlantes passavam em marcha pelo portão, os guardas posicionavam-se logo atrás, seguindo-os.

Serão uma ameaça ou uma proteção? - perguntou-se Micail. E então, recordando-se de sua conversa com Tjalan. E nós, o que somos?

A aldeia consistia em um conjunto de casas redondas cujos telhados cônicos eram cobertos de palha, intercalados com construções de armazenagem e pequenos cercados para animais mais valorizados. Mas um único prédio central dominava - uma enorme rotunda cujo teto era construído em duas seções, o cone interno erguido sobre pilares acima do círculo externo de modo que a fumaça pudesse filtrar-se para fora abaixo dele. No interior, a luz que penetrava descendo vinda do alto se somava à iluminação fornecida pela lareira acesa no centro.

O salão estava cheio de gente, mas naquele primeiro momento, Micail viu apenas o homem que se recostava no grande espaldar de uma espécie de trono elevado, posicionado entre os pilares mais altos e mais perto do fogo. Ele era largo como um barril, mas a forma de seus ombros sugeria que a maior parte de sua circunferência também fosse de músculos. O pescoço tinha de ser forte para sustentar o ornato que lhe cingia a cabeça, coroado pelos chifres de um touro. Mas os olhos cinzentos do homem eram límpidos e inteligentes.

Quando os recém-chegados se detiveram diante da lareira, o rei disse alguma coisa na língua gutural das tribos.

- Khattar, filho de Sayet, herdeiro de heróis, Grande Touro de Azan, e Rei dos Reis, vos dá as boas-vindas ao seu salão - traduziu Heshoth.

Tjalan murmurou um agradecimento polido, apresentando-se e a seu séquito para o comerciante, que por sua vez traduziu o que ele disse. Era uma forma cortês de permitir que todos os outros soubessem o que estava sendo dito. Tjalan estivera estudando a língua nativa desde a sua primeira viagem àquela terra, muitos anos antes. Perdi meu tempo, Micail se deu conta. Também deveria ter passado este último ano aprendendo os costumes nativos. Mas o pouco que, de fato, conhecia da conduta nativa sugeria que só muito mais tarde é que eles debateriam a questão do propósito que trazia os atlantes ali.

Houve uma outra troca de palavras e Heshoth gesticulou para os homens no grupo de bancos disposto diante de mesas montadas em cavaletes do lado sul do salão. Só então Micail se deu conta de que, exceto pela sombra fiel de Tjalan, Antar, a escolta militar deles foi mantida do lado de fora.

As mulheres atlantes foram delicadamente escoltadas para uma seção separada a leste, próxima de uma espécie de trono menor, onde uma mulher envolta em um xale drapejado salpicado de pequenos apliques de ouro costurados sentava-se de frente para o rei. Agora que tinha tempo para olhar melhor, Micail viu um losango de ouro costurado na frente da túnica sem mangas do rei e braceletes de ouro que faiscavam em seus braços. Alguns dos homens nativos que se sentavam em outros bancos também usavam ouro ou bronze, mas, em sua maioria, os ornamentos eram feitos de azeviche, ou de chifre ou osso finamente trabalhados. Só então Micail compreendeu por que Tjalan insistira em que ele mandasse fazer um novo conjunto de braceletes e diadema com a insígnia real do dragão, em Belsairath. Evidentemente, esses não eram tão magníficos quanto suas próprias verdadeiras insígnias reais, mas essas tinham perecido com Ahtarrath...

Mais cumprimentos foram trocados, e então enormes fatias e quartos fumegantes de carne de boi e de carneiro foram servidos, dispostos sobre leitos de cereais fervidos em bandejas de madeira. Também havia bebida, uma espécie de cerveja bem fermentada e espumante com um leve toque de mel, servida em copos grandes e altos, de boca larga, de cerâmica finamente trabalhada num padrão canelado. O rei Khattar, reparou Micail, bebia de um copo de ouro.

Os bardos do rei cantaram canções sobre suas vitórias em combate, e um homem em trajes cerimoniais de couro chamado Droshrad, que Micail reconheceu como sendo algum tipo de sacerdote, jactou-se de como os deuses tinham dado poder a Khattar.

Quando afinal escureceu, Micail começou a suspeitar de que o plano do rei fosse deixá-los entorpecidos com comida e bebida. A situação deles não parecia segura o suficiente para permitir-lhe tomar, confortavelmente, mais do que alguns pequenos goles polidos da bebida, mas as exigências da cortesia impunham que ele comesse mais carne do que estava habituado a consumir em um mês. Tjalan, contudo, estava em esplêndida forma, gracejando com Heshoth e manifestando simpatia pelas dificuldades do rei com relação a safras e vizinhos, exatamente o tipo de conversas que haviam deixado Micail à beira da loucura de tédio em Ahtarrath, e que não achava nem um pouco mais interessantes traduzidas. Mas a provação, finalmente, chegou ao fim. Individualmente e em grupos os convivas começaram a se retirar da corte.

O rei e a rainha, entretanto, permaneceram em seus lugares, com alguns assistentes ao redor. O xamã Droshrad e seus companheiros também ficaram para trás. Micail atraiu o olhar de Ardral e viu que o velho sacerdote observava a situação com seu sorriso irônico habitual.

- Sim, é claro que temos mão-de-obra para construir dólmenes para nossos honrados chefes de tribo - Heshoth traduziu as palavras mais recentes ditas pelo rei -, mas nos velhos tempos muitas tribos se reuniam para fazer monumentos mais imponentes. Construir um novo, com pedras imensas, sem dúvida provaria meu poder!

- Existiam muitos monumentos desse tipo em meu país - respondeu Tjalan - e eles têm utilidades que o senhor jamais sonhou...

- Talvez sim - o rei retribuiu o sorriso -, mas seus trabalhadores braçais jazem sob as águas do mar e com eles, seus poderes.

- Não, milorde, os homens que detêm a magia para levantar as pedras para o senhor estão aqui. - Tjalan falou em tom muito suave, demoradamente cravando o olhar firme nos olhos de Khattar.

Naquele instante, Micail ficou plenamente alerta, observando seu primo com a maior atenção. Eles haviam conversado sobre pedir permissão a esse rei para investigar o local identificado através dos cálculos e depois, talvez, para construir lá. Que tipo de jogo Tjalan estava fazendo?

- Os homens de minha raça têm muitos poderes - prosseguiu o príncipe -, mas, como o senhor disse, nosso povo, no momento, está reduzido a poucos. O seu povo tem muitos homens e, se trabalharmos juntos, o senhor se tornará muito mais poderoso. O Povo do Touro governará esta terra para sempre.

Khattar puxou de leve a barba, os olhos se estreitando, enquanto o xamã sussurrava em seu ouvido. Micail os observou, e só se deu conta da força com que estivera apertando o copo quando o largou e viu o padrão de listas salientes marcado em sua mão.

- Que vantagem há para o senhor nessa oferta? - perguntou Khattar finalmente.

Tjalan lhe retribuiu o olhar firme com grave sinceridade. Quando ele e Micail eram meninos disputando uma partida do jogo de Plumas, aquele olhar geralmente significava que o príncipe de Alkonath estava prestes a fazer uma manobra decisiva, ou possivelmente enganadora.

- Os Reinos do Mar não mais existem. Precisamos de um lugar onde nossas artes possam florescer. Nós precisamos de uma pátria...

- Droshrad pode chamar espíritos e submeter os corações de homens - respondeu Khattar evasivamente -, mas só o suor dos homens pode mover pedra.

- Ou a canção deles... - retrucou Tjalan baixinho. Ele se virou na direção de Ardral e Micail. - Mover coisas de grande tamanho exige um grupo completo de cantores, mas os grandes cantores dentre os nossos sacerdotes podem trabalhar sozinhos. Poderiam mostrar-lhes, meus amigos, do que o poder de Atlântida é capaz?

Aquele sorriso sedutor foi endereçado a eles. Micail lançou um olhar furioso, mas a risadinha seca de Ardral desarmou sua raiva.

- Por que não? - respondeu o Sétimo Guardião, levantando a taça num brinde para saudar o rei e esvaziando-a. Ele se virou para Micail e sussurrou: - O velho Touro deveria nos brindar em agradecimento, não acha? - ele lançou um olhar expressivo para o copo de ouro e então, sem esperar pela resposta de Micail, começou a cantar.

A voz de barítono de Ardral era, ao mesmo tempo, grave e ressonante, pouco importava qual fosse sua idade. A nota que ele vocalizou era sem palavra, mas focalizada de maneira muito precisa. Khattar largou o copo de ouro apressadamente quando esse começou a vibrar em sua mão. Um olhar de esguelha de Ardral convidou Micail a entrar no jogo.

Por que não? - pensou ele de repente. Quem são esses bárbaros para zombar do filho de cem reis? Micail respirou fundo e, com igual precisão, vocalizou uma segunda nota um semitom mais alta do que a de Ardral, dirigida para o mesmo alvo. O copo chocalhou, dançou sobre a madeira da mesa, então se elevou e, por longo momento, pairou suspenso no ar, girando bem devagar sobre o próprio eixo, até que, finalmente, com igual deliberação, tornou a descer até pousar ao lado da mão trêmula do grande rei.

Por um instante Khattar simplesmente ficou parado olhando fixamente. Depois bateu com força a palma da mão sobre a mesa. Enquanto o copo caía, ele começou a gargalhar numa voz estrondosa que pareceu ribombar e se tornar mais alta, cada vez mais alta, até que os ouvidos de Micail mal pudessem suportar o som.

Onze

o arqui-sacerdote Bevor pela primeira vez me disse que eu deveria tornar-me uma acólita, no ano anterior ao Afundamento... - observou Selast. - Você consegue acreditar que isso tenha sido há três anos? Bem, de todo modo, ele disse que me seria exigido disciplinar a mente e o corpo muito além de qualquer coisa que eu jamais tivesse conhecido... Mas pensei que fazer jejuns fosse voluntário!

Damisa assentiu, mas manteve os olhos cravados nas três mulheres do Lago que ela e Selast estavam seguindo pela trilha estreita ladeada por ervas espinhosas.

- Passar fome por vontade própria é apenas uma provação „ da carne - declarou ela, sem qualquer ironia citando o ensinamento. Damisa realmente pensava que se estava tornando quase acostumada com a sensação de sentir um vazio na barriga

e com a maneira como suas roupas pendiam largas em seu corpo outrora robusto... - Disciplinar o espírito de modo a resistir às exigências do corpo - ela concluiu a citação -, é a única certeza contra as ilusões da riqueza e da segurança.

- Muito bem, maravilhoso! - resmungou Selast. - Mas é outra coisa entender como a gente do pântano vive, sem nunca saber se os suprimentos serão suficientes, confiando nos deuses...

- Ela olhou de relance para Damisa e deu uma risada forçada.

- Mas eu pensei que nós já tivéssemos feito isso no navio. Além disso, já obtivemos resultados muito melhores do que o deste ano. Tivemos uma colheita melhor do que essa última no ano em que chegamos aqui! Naquela época havia comida de sobra.

- Psiu, chega - aconselhou Damisa -, você está se irritando por nada. De todo modo, cada ano é sempre mais difícil do que o ano que passou, ainda não reparou? E você está sempre com fome. Todos os anos.

A outra garota fez uma careta, mas não negou. Mesmo em sua terra natal, Cosarrath, onde sempre pôde comer quando quisesse e tudo o que quisesse, nunca houve um pingo de gordura em Selast. Enquanto caminhava à espreita pela trilha, vestida numa curta túnica azul, ela parecia em cada polegada de seu corpo uma criatura da floresta, sempre cautelosa, os músculos ondulando sob a pele morena rija.

Contudo, recentemente, ouviu um dos rapazes comentar que ela parecia tão gostosa de abraçar quanto um coelho esfolado, refletiu Damisa com um sacudir da cabeça. Isso não pode estar certo.

Nos velhos tempos, ou pelo menos, assim ela ouviu dizer, mesmo uma acólita prometida em casamento era livre para ter um amante, por vezes até mais de um. Aqui, aparentemente, ninguém o fizera. Mas também não ajudava o fato de que quase não houvesse homens disponíveis, pelo menos não da casta dos sacerdotes. Há Kalaran, que simplesmente não é assim tão atraente, e Rendano, que de maneira muito evidente não está interessado e, é claro, Mestre Chedan, mas, bem...

Sem convite, uma imagem de Reidel lhe surgiu na mente, com seus olhos expressivos e calorosos, os ombros fortes... Damisa afastou o pensamento com uma sacudidela de cabeça. Em Atlântida, os genealogistas do Templo teriam ficado horrorizados com a simples idéia de uma ligação desse tipo, e ela concordava. Mas ultimamente Tiriki havia mencionado a possibilidade de convidar alguém, dentre os marinheiros ou mercadores, para entrar para o sacerdócio. É claro que, como Damisa sabia, nos tempos conturbados antes da ascensão dos Reis do Mar, um número considerável de pessoas das outras castas tinha sido aceito. Ela própria descendia da realeza de Alkonath, e Selast também era de pura linhagem nobre, mas a maioria dos acólitos tinha ancestrais de origens mais humildes.

Não que aquilo ainda tivesse alguma importância. Damisa suspirou. Nós, moças, teremos simplesmente de deitar umas com as outras, como dizem que as mulheres guerreiras fazem nas planícies da Terra Antiga. Ela conteve uma gargalhada, mas seu olhar se voltou curioso para Selast. Quase inconscientemente, começou a copiar o andar silencioso e furtivo da moça de Cosarrath, até que se apanhou fazendo isso, enrubesceu e tropeçou nas próprias sandálias.

Logo além da curva no caminho, as mulheres do pântano pararam para fazer uma oferenda num dos santuários da floresta, um arranjo primitivo de palha trançada e penas colocado na concavidade de um carvalho. Damisa sentiu uma pontada renovada de fome quando viu, de relance, os bulbos de cebola silvestre dispostos ali. Como era estranho se dar conta de que ali algumas raízes eram um sacrifício mais precioso que incenso... Mas, se os santuários à beira dos caminhos eram mais modestos que as pirâmides e torres de Atlântida, tinha de admitir que os poderes locais eram bem servidos, pois eles pareciam recompensar aquela simplicidade.

Até onde Damisa podia dizer - embora toda a caça e a coleta de forragens limitassem severamente o tempo disponível para análise teológica - os espíritos daquela terra eram muito mais acessíveis que os deuses de Atlântida, que eram, em essência, forças inumanas que residiam além da esfera mortal. A despeito de todos os seus lendários ardis e disputas, Manoah e Ni-Terat pareciam ser menos indivíduos e mais símbolos, representantes dos poderes incomensuráveis que moviam o sol e as estrelas.

Embora os marinheiros rezassem para o Formador de Estrelas porque ele era o Senhor do Mar, e as crianças rezassem para o Grande Criador porque isso as ajudava a dormir à noite, nem mesmo Ni-Terat, a Grande Mãe Obscura de Todos, havia intercedido para salvar uma única vida humana. Tradicionalmente, acreditava-se que só Caratra, a Nutridora, a Criança Que se Torna a Mãe, demonstrava interesse genuíno por pessoas comuns, e isso era apenas algumas vezes por ano.

Em contraste, o povo do Lago reverenciava os espíritos simples do campo e da floresta, mas não os tratava como grandes deuses; eles não eram seres magníficos que poderiam um dia finalmente conceder um favor, e sim... Os deuses do Lago parecem mais com bons vizinhos, concluiu Damisa, inclinados a serem prestativos quer prestem atenção em você ou não...

Ela estremeceu um pouco à medida que se aproximou da árvore, perguntando-se como sempre se o que sentia diante de santuários tão rústicos era uma ilusão de algum modo criada pelas crenças do povo do pântano, ou alguma coisa mais genuína - a presença real de um espírito de verdade.

- Ser Que Brilha, aceite minha oferenda - balbuciou enquanto enfiava um ramo de flores de espinheiro-alvar na palha. - Ajude-nos a encontrar comida para nossa gente. - Ela recuou um pouco para permitir que Selast se ajoelhasse e acrescentasse algumas prímulas. Enquanto olhavam para os galhos onde as folhas novas filtravam a luz do sol tingindo-a de um verde-claro luminoso, o ar pareceu tremeluzir e dançar.

Então, por um momento, Damisa sentiu o toque de uma presença em sua alma - curiosa, divertindo-se um pouco, mas não inamistosa. Instintivamente ela se pôs de joelhos, espalmando as mãos sobre o solo úmido. Alguém estava ouvindo, e isso era mais do que ela jamais sentira em quaisquer dos esplêndidos templos de Alkona ou Ahtarra.

- Ser Luminoso! Ajude-me! Tenho tanta fome aqui! - gritou seu coração e, naquele instante, ela se deu conta de que o vazio que sentia não era do corpo, mas da alma.

Selast já tinha ido atrás das mulheres do Lago. Damisa se levantou, satisfeita pelo fato de a outra moça não ter visto seu momento de fraqueza. Sua obrigação imediata era apenas encontrar alimento para seus corpos e enquanto isso não estivesse feito, seu espírito precisaria se defender sozinho.

No primeiro ano, os refugiados haviam desmatado e limpado a terra próxima das nascentes e plantado as sementes que tinham trazido, mas talvez não tivessem feito isso na época certa, pois a primeira colheita fracassara inteiramente. Sem a farinha de nozes que as mulheres sajis faziam, as conservas de frutas, a boa sorte dos marinheiros em suas caçadas incessantes e a cooperação generosa de todos, os refugiados poderiam ter tido de lutar contra uma fome mais consumidora do que jamais haviam conhecido.

Eles se saíram melhor sob alguns aspectos no ano seguinte, mas a quantidade de alimentos maduros.o suficiente para serem colhidos foi realmente muito pequena. Se Elis não tivesse um verdadeiro talento para cultivar coisas, a sobrevivência deles teria sido ainda mais duvidosa. Embora dificilmente pudesse fazer “uma rocha dar fruto”, como Liala com freqüência observava, ainda assim, cada semente que Elis pessoalmente plantara, havia criado raízes e vivido. Ela até conseguira persuadir a maltratada árvore de plumas, que outrora pertencera a lorde Micail, a vicejar.

De acordo com o povo do pântano, existiam tribos mais para o interior que semeavam cereais e criavam gado. O povo do pântano vivia dos frutos da terra porque o solo era inadequado para o cultivo. Mesmo assim os nativos nunca hesitavam em compartilhar o que tinham e estavam sempre dispostos a levar os atlantes com eles para caçar ou forragear em busca de plantas comestíveis e aves aquáticas, peixes e mariscos, e uma fartura de outros recursos para aqueles que sabiam onde encontrá-los. Afinal, aquele era o motivo pelo qual a tribo de Heron ia para aquele local.

Mas a vida às margens do lago não é tão farta quando a estação do calor chega ao fim! Eles provavelmente pensam que somos todos uns idiotas porque ficamos aqui, Damisa deu uma risada, depois apressou o passo para alcançar as outras. Fez uma careta, invejando a maneira eficiente que tinha Selast de acompanhá-las. Talvez ela pudesse alcançá-las se seguisse pelo atalho que cruzava a campina. Mas o solo abaixo da relva macia era em parte pantanoso. Ao dar o passo seguinte, seu pé afundou e atravessou a superfície frágil; com um grito, ela caiu. Tinha acabado de conseguir se soltar, com a perna coberta de lama até o joelho, quando Selast veio correndo.

- Não tente levantar-se - falou asperamente a moça mais jovem. - Onde dói? Deixe-me ver! - Seus dedos experientes apalparam o tornozelo de Damisa e depois seu joelho.

- Estou bem, só um pouco enlameada... - insistiu Damisa, embora, na verdade, fosse bastante agradável sentir o calor daqueles dedos sobre sua pele. Ela arrancou um punhado de relva e tentou limpar a perna.

Com um suspiro de alívio, Selast sentou-se ao lado dela.

- Obrigada! - Um sentimento de afeição repentina encheu Damisa e ela se inclinou para dar um abraço de gratidão na outra moça. Selast era toda músculos e ossos; abraçá-la era como segurar um animal bravio, fogoso e flexível. Por um instante tudo ficou imóvel e silencioso, mas então Selast retribuiu o abraço com força, mas não de maneira rude...

- É melhor descansarmos até termos certeza de que seu pé conseguirá sustentar seu peso - disse Selast alguns momentos depois. Mas Damisa, espantada com o fato de como era agradável sentir a outra em seus braços, não a soltou.

- Você se lembra da loja em Ahtarra - perguntou saudosamente -, bem ao lado do pilone, onde vendiam aqueles deliciosos bolinhos salpicados de mel? - Ela se inclinou para trás e deitou-se na relva macia e Selast foi junto, aconchegando-se na curva de seu braço.

- Ah, claro - respondeu Selast, de olhos semi-errados. - Eu seria capaz de morrer só por um! Neste ano é melhor as idiotas das sementes de trigo e de cevada descobrirem um jeito de crescer! Nozes rendem uma boa farinha quando se está em dificuldade, mas não é a mesma coisa.

Damisa suspirou, enquanto num gesto semi-consciente acariciava os ombros fortes de Selast.

- Quando eu era menina em Alkona, no verão costumavam trazer carroças cheias de uvas e de bagos de ila dos vinhedos nas montanhas, tantas que não se importavam se elas se derramassem pelas bordas da carroça. E mais e mais delas iam caindo, ficando esmagadas nas pedras de pavimentação, até que as sarjetas pareciam estar quase derramando vinho.

- Nunca seremos capazes de cultivar boas uvas aqui. Não há sol suficiente... - Mas havia luz suficiente para tornar a pele de Selast dourada, reluzindo cálida contra a relva ondulada pelo vento.

Damisa se soergueu sobre um braço e baixou o olhar para ela.

- Seus lábios são da mesma cor que aquelas uvas - sussurrou.

Selast levantou o olhar, encarando-a, o rosto cheio de luz.

- Então prove o gosto deles - desafiou e sorriu.

Quando afinal elas se juntaram com as outras era mais de meio dia. As mulheres do pântano estavam agrupadas, tagarelando baixinho, enquanto reviravam o denso emaranhado de canas de juncos ao redor da beira do lago. Ao ouvir Damisa e Selast se aproximarem, uma das mulheres, animadamente, disse alguma coisa incompreensível e apontou; como era visível que as duas moças não compreendiam, a mulher abanou as mãos, depois as juntou em taça, como se estivesse ninando alguma coisa entre as palmas.

- Ovos? - perguntou Damisa. Depois de dois anos, todos os acólitos tinham feito algum progresso em aprender a língua do povo do pântano, mas Iriel e Kalaran eram os únicos que realmente sabiam falar. A própria Damisa ainda não havia avançado além de um vocabulário bastante limitado. A mulher pequenina sorriu e simplesmente curvou a mão num gesto que pedia que a acompanhasse.

Enquanto a seguia, Damisa teve a precaução de levantar as saias, e ficou satisfeita por tê-lo feito: a destinação delas era o ninho de um estranho tipo de pata, que evidentemente havia imaginado estar bem escondido em meio aos juncos.

Teria sido difícil dizer quem ficou menos contente com o encontro, a pata ou a acólita, uma vez que provocou furiosa mistura de pragas e de grasnados. Ela deixou que cada pata ficasse com pelo menos um ovo para chocar, mas isso não pareceu acalmá-las, Damisa não teria imaginado que uma pata pudesse morder, mas tinha pequenos cortes e arranhões nas duas mãos antes de partirem para terreno mais alto em busca de verduras da primavera.

As folhas novas e tenras de morrião-dos-passarinhos, quenopódio e mostarda podiam ser comidas cruas, e havia lírios cujos bulbos forneceriam alimento mais consistente. As urtigas também eram comestíveis, cozidas como verduras ou fervidas para fazer chá, mas as mulheres nativas sempre riam quando as acólitas tentavam colhê-las, pois não havia como deixar de levar espetadelas, que faziam as moças praguejarem de maneira nada apropriada para futuras sacerdotisas.

Selast chupou os dedos doloridos e ficou de cara amarrada, mesmo depois de terem tomado o rumo de casa.

- Poderia ter sido pior - disse Damisa, pegando a mão da outra garota e beijando-lhe os dedos avermelhados -, Kalaran teve de sair com os caçadores. Urtigas espetam e picam, mas você não tem de correr atrás delas. E também não vêm sorrateiras atrás de você. E elas não têm garras nem dentes!

- Eu preferiria estar caçando - resmungou Selast - só que aí teria de estar com Kalaran.

Damisa suspirou, dividida por emoções conflitantes. Já havia muito, muito tempo se conformara com o fato de que o que sentia por ter perdido o marido que antes lhe havia sido destinado era, principalmente, alívio. Mas Selast e Kalaran ainda estavam oficialmente noivos e esperava-se que um dia se casassem, muito embora tivessem tanto interesse um pelo outro quanto um par de rochas. Por que será, pensou ela, que por mais que alguém nos diga que as regras mudaram e que aqui as coisas são diferentes - ela sentiu o rosto enrubescer ao se lembrar dos acontecimentos daquela tarde -, por que será que ainda temos de continuar fazendo quase exatamente o que teríamos feito em Atlântida? Se pudessem ter continuado a manter o esplêndido estilo de vida e os costumes da velha Atlântida, não se teria importado, mas eram as regras e não as recompensas que pareciam ter sobrevivido.

- Mas há tão poucos de nós - respondeu afinal. - Você pode dizer honestamente que não se importaria se alguma coisa acontecesse com ele?

- Ele tem uma sorte extraordinária! - zombou Selast. - Nunca sofre um ferimento, exceto em seus sentimentos. Além disso, ataques de animais nunca foram nossa preocupação.

Damisa franziu o cenho, mas sabia a respeito de que a outra moça estava falando. No princípio do verão anterior, dois marinheiros desapareceram. O povo do pântano mandou rastreadores, que não encontraram qualquer sinal deles. Fervilhava de histórias a área de choupanas esparsas e bem separadas umas das outras onde os marinheiros que se tinham casado com mulheres nativas moravam com os mercadores e outros que não eram da casta dos sacerdotes. Alguns afirmavam que os marinheiros desaparecidos haviam se cansado de esperar que o Serpente Carmesim tornasse a fazer-se ao mar, e tinham voltado para a costa, onde haviam sido recolhidos por um navio de passagem, mas poucos levavam a sério essa história. Quer o admitissem ou não, a maioria acreditava que os marinheiros simplesmente haviam caído num brejo e sido engolidos pelo pântano.

Com relação à morte de Malaera, havia menos ambigüidade. Mergulhada na melancolia desde o princípio, a idosa sacerdotisa da Veste Azul finalmente tinha conseguido se afogar no lago. Damisa suspeitava que Liala a responsabilizasse pessoalmente por ter deixado a mulher mais velha morrer. Nem sequer era a minha vez de ficar de serviço como acompanhante dela, dizia a si mesma, com uma pontada de culpa, embora fosse verdade que ela tivesse sido a pessoa designada para isso com mais freqüência.

- Isto é cruel - exclamou Damisa, de repente. - Você realmente não sentiria falta alguma de Kalaran, não é?

- Depende - respondeu Selast em tom sombrio. - Eu receberia a ração de comida dele?

- Você é terrível - declarou Damisa, sem nem sequer reparar na lágrima que aflorou em seu olho. - Você não sentiria falta nem de mim, imagino!

- O quê? Ah, não seja idiota - Selast começou a responder, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, elas saíram da floresta e encontraram o acampamento fervilhando de atividade como uma colméia.

- Um navio vem chegando! - Iriel vinha correndo na direção delas. - Reidel e seus homens saíram num barco para guiá-los na entrada!

- Eles partiram horas atrás - acrescentou Elis, aproximando-se delas. - Não devem demorar muito mais.

Todo mundo se virou quando Tiriki saiu de sua choupana, acenando e falando baixinho, murmurando despedidas para seu bebê, embora a pequenina Domara parecesse completamente absorta nos braços de Metia, a mulher saji. O nascimento e o crescimento saudável da criança pareciam ter feito da suma sacerdotisa uma pessoa muito mais alegre, mas quando Tiriki se virou para elas e sorriu em saudação, Damisa viu que a velha e familiar expressão de sofrimento havia retornado aos olhos de Tiriki.

- Ela tem esperança de que tragam notícias de Micail - disse Elis em voz baixa.

- Depois de todo esse tempo? Não é provável - zombou Selast.

- Para você, não importa ficar zombando dos outros! - retrucou Elis com aspereza. - Seu noivo ainda está vivo e vai bem. E eu pelo menos sei o que aconteceu com Aldel... eu posso pranteá-lo apropriadamente. Mas não saber... - Ela sacudiu a cabeça; os olhos estavam marejados de lágrimas de compaixão - deve ser pior que tudo.

Damisa sentiu o rosto se crispar com o comentário, mas ela e seu noivo só tinham se conhecido por um ano. Mal conseguia se lembrar de como era Kalhan depois de todo aquele tempo.

Do lago veio o grito alto e claro do vigia.

- Finalmente! - exclamou Iriel e começou a correr pelo caminho que levava ao rio. Rindo alto, as outras a seguiram.

Chegaram bem a tempo de ver o Serpente Carmesim lançar âncora lado a lado de uma outra embarcação menor, não um navio de guerra, mas um barco de pesca de tamanho médio, com apenas um mastro, e o que parecia ser um tosco abrigo dentro do navio. Sua pintura, outrora azul vivo e cobre, havia sido desbotada pelo vento e pelas ondas. Ao lado do veleiro com cutelos e varredouras de Reidel, o barco parecia uma mula ao lado de um cavalo de corridas, mas mulas são animais robustos. Aquela embarcação não só havia sobrevivido ao Afundamento, mas também tinha conseguido chegar ali.

- Quantos serão eles? Gostaria de saber - murmurou Damisa.

Selast declarou:

- Espero que tenham trazido algo realmente bom para comer.

- Lá vai você começar de novo - censurou Elis. - É muito provável que estejam mais famintos do que nós, e teremos de fazer um sorteio para cada pedacinho.

- Ótimo - resmungou Selast. - Estou me sentindo com muita sorte!

Aquela altura, todo mundo que vivia a léguas ao redor já devia ter tido notícia da chegada e, a todo instante, mais alguém vinha se juntar à multidão, até que a costa lamacenta ficou repleta de gente do pântano e atlantes, acotovelando-se e tagarelando animadamente.

Enquanto o navio de Reidel se acomodava em sua posição ao lado do outro, alguns homens na costa lançaram pranchas de madeira aplainada até a amurada; dois grupos de marinheiros saltaram e desceram agilmente para concluir o trabalho de amarração dos navios ao toco de árvore que servia de pilar de atracação. Damisa se descobriu prendendo a respiração à medida que o amontoado de vultos no convés se separou o suficiente para que vissem o primeiro passageiro, um homem de constituição forte com uma barba preta grisalha. Cautelosamente, desceu pela prancha, carregando no colo uma garotinha que parecia ter cerca de cinco anos. Quando ele finalmente pisou no passeio estreito, a criança afrouxou os braços ao redor do pescoço e ombros do homem e olhou em volta, permitindo que Damisa tivesse um rápido vislumbre de seu rosto: sobrancelhas bem desenhadas, nariz afilado de traço nobre, e boca em forma de coração. O homem grande e alto se virou e observou ansioso enquanto os marinheiros ajudavam certa mulher esguia a descer da prancha. Ela contemplou a multidão que a observava e então, chorando agradecida, correu para os braços do homem de barba.

- Uma família! - sussurrou Iriel. - Uma família de verdade!

- E não uma falsa família? - zombou Selast.

Mas Damisa compreendeu, ou pensou que compreendia. Casados ou não, os membros do sacerdócio nem sempre escolhiam viver juntos em unidades familiares; dentre os que escaparam a bordo do Serpente Carmesim não houve casal algum como aquele. É claro que existiam muitas famílias do povo do Lago, mas aquela era atlante e, possivelmente, até da casta dos sacerdotes. Damisa se deu conta de que o ardor em seus olhos era causado por lágrimas. Furtivamente ela as enxugou enquanto Tiriki se encaminhava apressada em direção aos recém-chegados e lhes estendeu as mãos.

Damisa saiu correndo atrás dela com um sobressalto de ressentimento. A suma sacerdotisa aparentemente tinha se esquecido de como formar uma escolta apropriada. Mas será que aquelas pessoas sequer se dariam conta de que Tiriki era uma sacerdotisa? Damisa pestanejou, tentando reconciliar sua lembrança da figura etérea que havia recepcionado o Príncipe de Alkonath em Ahtarrath há tanto tempo, com aquela mulher cujos cabelos louros finos já se estavam soltando de uma trança simples. Contudo, mesmo se a veste e o manto grosseiros de Tiriki eram mal tecidos, se estavam esfarrapados na bainha e manchados de lama, ela se dirigiu aos desconhecidos com toda a seriedade e postura elegante formal de uma Guardiã da Luz.

Aquela altura Chedan também havia se juntado à escolta. Damisa reparou com orgulho que, pelo menos ele, usava o cordão de ouro da Cerimônia da Veste, embora esse estivesse cintado ao redor de uma túnica desbotada. É claro, pensou ela, estas novas pessoas também têm aparência um bocado maltratada. Mas elas têm uma desculpa para isso, estiveram no mar!

De algum modo, sem nunca de todo soltar a mulher nem a garotinha, o homem barbado se inclinou numa mesura.

- Reverendíssimos Senhores! - disse ele numa voz calorosa que podia ser ouvida até pelos que estavam mais atrás na multidão. - Eu sou Forolin, mercador da cidade de Ahtarra. E esta é Adeyna, minha adorada esposa, que também os saúda com o maior respeito - e minha filha, Kestil. Nós... também houve um outro, nascido logo depois do Afundamento, mas... - Dando-se conta de que se estava perdendo em rodeios, Forolin se calou e seu queixo estremeceu ligeiramente. - Nós agradecemos aos deuses - ele tocou no coração e estendeu a mão para o céu - por termos encontrado os senhores!

- E são muitíssimos bem-vindos aqui! - disse Tiriki, enquanto mais uma vez concedia outras bênçãos ao trio. - Forolin, Adeyna, e que estas boas-vindas sejam também pessoais de minha parte, pois tenho uma filha pequena, de pouco mais de um ano. Será que Kestil gostaria de brincar com Domara?

- Realmente, são muito bem-vindos - disse Chedan. - Mas permitam-me perguntar, de onde vêm? Por favor, digam-me que não passaram dois anos no mar naquele barquinho!

- Não! Na verdade, não... - O rosto de Forolin ficou novamente sombrio, enquanto ele passava a filha para os braços de sua mulher. - Buscamos refúgio no continente, em Olbairos, onde minha casa comercial outrora mantinha um posto de abastecimento de mercadorias. Encontramos o lugar praticamente abandonado, mas esperávamos começar de novo lá, mas éramos tão poucos... E então veio a peste. Nós somos os únicos que sobreviveram.

- Mas como souberam onde nos procurar? - perguntou Chedan.

- Como já disse, Olbairos costumava ser um entreposto comercial muito conhecido. A frota mercante há muito deixou de existir, é claro, mas os nativos ainda passam por lá, de tempos em tempos, inclusive alguns destas ilhas. Ouvimos mais de um relato dando conta que de outros de nossa raça haviam estabelecido colônias por aqui.

- Mais de uma? - Tiriki se virou para ele com uma intensidade nova em sua voz. - Sabe de outras?

- Bem, minha senhora, eu não as vi pessoalmente. E, é claro, meus informantes em sua maioria faziam seus negócios com as colônias costeiras. Dizem que as tribos que residem no interior são fortes e hostis. Mas ouvimos relatos de que vários veleiros com cutelos e varredouras foram avistados em Beleri’in, de modo que fomos para lá; estava completamente deserta, por isso não resistimos muito quando a tempestade nos empurrou de novo para mar aberto. Fomos obrigados a virar para oeste e para norte, e quando afinal conseguimos desembarcar, encontramos um grupo de caçadores nativos que nos contou que estavam aqui. Enquanto os procurávamos, seu capitão veio nos conduzir em seu navio. Por favor, agradeça-lhe por mim! Seremos eternamente gratos a ele e à senhora.

- Também foram ventos de tempestade que nos trouxeram para cá - ruminou Chedan para consigo mesmo. - Talvez ninguém possa encontrar este lugar, exceto aqueles que são chamados pelos deuses... .- O que temos a lhes oferecer é realmente muito pouco - disse Tiriki -, mas tivemos um aviso prévio de sua chegada, de modo que uma refeição quente os espera, e também alojamentos secos e aquecidos para descansarem. Agora venham, vamos dar início à nossa amizade. - Ela conduziu o mercador e sua família em direção à trilha de pranchas de madeira que levava ao povoado abaixo do Tor.

- Suponho - resmungou Selast - que isso signifique que nós teremos de ir para a cama com fome...

Mas ninguém estava ouvindo. Iriel agarrou o braço de Damisa e apontou para uma figura estranha que naquele instante atravessava a prancha de desembarque do barco pesqueiro.

- Quem é aquele?

Alto e esquálido, o desconhecido usava uma veste branca, muito suja e esfarrapada que, depois de um minuto de exame, identificou-o como um sacerdote do Templo da Luz. Em cada mão, trazia bem segura uma grande sacola de couro. Franzindo a testa, o homem parou no meio da prancha, examinando nervosamente a aglomeração de gente, mas seu rosto se desanuviou quando reconheceu Chedan.

- Ó Sábio! - Ele se inclinou numa reverência o mais que pôde sem deixar as bolsas caírem na lama do ancoradouro.

- Sou Dannetrassa de Caris. Duvido que se vá lembrar de mim, mas em Ahtarra eu trabalhava com o Guardião Ardravanant nos Arquivos da Biblioteca.

- Ardral! - exclamou Chedan. - Teve notícias dele? Sabe se escapou?

- Ah, quem me dera eu soubesse - respondeu Dannetrassa pesarosamente -, mas se o conhecia...

- Ele era meu tio.

- Então sabe que não há motivo algum para crer que não tenha escapado! Ele, mais do que qualquer um, estava preparado... - Dannetrassa mais uma vez fez uma pausa e levantou suas sacolas. - Com certeza deve saber que era nosso dever salvar tudo o que pudéssemos. E ainda tenho comigo um bom número de mapas, vários tratados sobre as estrelas e mais algumas coisas que podem ser úteis... - Dannetrassa se calou de novo, enquanto alguma triste recordação parecia passar diante de seus olhos.

A expressão de Chedan tornou-se preocupada.

- Venha comigo, amigo. Posso ver que passou por terríveis experiências. Permita-nos oferecer-lhe uma boa acolhida. Primeiro deve participar do banquete, por modesto que seja, e depois poderá me mostrar os tesouros que traz nessas suas sacolas.

- Muitas coisas - repetiu Dannetrassa, com o semblante crispado -, mas infelizmente não trouxe quaisquer textos sobre a arte da cura. Apesar disso, é possível que não tivessem ajudado. A doença que nos fez fugir de Olbairos era diferente de qualquer coisa que tivéssemos conhecido.

A despeito do sol ainda forte e claro, Damisa estremeceu com um calafrio, ao mesmo tempo sentindo-se satisfeita por não ter de ouvir os detalhes adicionais da conversa enquanto os dois homens se afastavam. Ela observou que Reidel assumiu a responsabilidade de organizar uma acolhida adequada para a tripulação do barco pesqueiro. Era estranho como ela se sentiu aliviada ao vê-lo retornar em segurança.

- Uma família inteira de sobreviventes! - balbuciou Iriel. - E o homem disse que também havia outras. Talvez não estejamos condenados a viver para sempre tão isolados aqui! Mas você viu aquela garotinha!? Que incríveis olhos brilhantes! Eu espero que...

- Mas não podemos dizer que já não tenhamos uma família - argumentou Damisa de repente, mas só se deu conta de que tinha falado em voz alta quando as outras duas se viraram para ela. Selast franziu o cenho, e Iriel curiosa. - De certo modo, nós temos - insistiu Damisa. - Chedan é nosso pai e Tiriki nossa mãe. E eles não estão sempre dizendo que aqui somos todos irmãos e irmãs?

- Então venham, irmãs - disse Iriel com um largo sorriso, enquanto dava os braços para as duas. - Otter, o filho do chefe, me prometeu algumas fatias da carne daquele cervo que ele matou ontem, e com muito prazer eu as dividirei com vocês.

- Doce Iriel! - disse Selast alegremente. - Por que eu não podia estar noiva de você!

No dia depois da chegada do novo navio ao Tor, Chedan se reuniu com as sacerdotisas debaixo do salgueiro à beira do córrego para debater as implicações da vinda de seus passageiros. Era um daqueles dias de primavera em que o sol e as nuvens ficavam a se intercalar misturados, num momento fazia calor quase como no verão, no seguinte ameaçava chuva. De início a conversa se concentrou em comida e alojamento, porém durante as reflexões do mago à meia-noite, outras questões haviam-lhe ocorrido.

- Vamos deixar essas considerações de lado por um momento - disse ele afinal. - É evidente que elas são importantes, e exatamente por isso, é improvável que sejam esquecidas. Despendemos tanta de nossa energia nos preocupando com a sobrevivência física que nos esquecemos do motivo pelo qual desafiamos os mares em vez de ficar para morrer com nossa terra.

- Fomos enviados para salvar a antiga sabedoria - disse Tiriki lentamente, como se estivesse repetindo uma lição quase esquecida. - Deveríamos criar um Templo da Luz na nova terra. - Como se em resposta a luz do sol surgiu entre as nuvens e rebrilhou em seus cabelos claros.

- E não nos saímos muito bem nessa tarefa, não é? - Liala suspirou.

- Como poderíamos, quando apenas sobreviver tem consumido a maior parte de nosso tempo e energias? - exclamou Tiriki. - Mas não posso imaginar construir aqui o mesmo tipo de Templo que existia em Ahtarrath. Mesmo se tivéssemos os recursos, seria... errado. - Tiriki suspirou. - Existe tanta coisa que não sabemos, que eu não me dei ao trabalho de aprender. Como podemos construir um novo Templo a partir de áureas recordações, quando a própria memória está falha e dispersa pelos mares?

Chedan as sentiu.

- Este lugar tem um poder próprio, e isso é o que torna a situação tão complicada. Essas novas caras me fizeram recordar de questões que já deveríamos estar tentando abordar desde o início. Tiriki, pelo menos, conhece a história do que aconteceu quando Reio-ta e seu irmão, o pai de Micail, foram capturados pelos Vestes Negras. Micon não se podia permitir morrer sob a tortura deles porque ainda não tinha gerado um filho para herdar o poder da tempestade. Ele não podia permitir que este poder passasse para um dos Vestes Negras que por acaso era seu parente. E, no entanto, o poder de Micail não era o único que se podia desviar de seu detentor hereditário.

Alyssa, brincando com uma pinha, subitamente deu uma risadinha.

- O sol não raiou, o filho não nasceu. O poder está escondido, o Rei do Mar desamparado. - Ao longo dos últimos meses, o estado mental da pitonisa se tornara cada vez mais instável.

Ficaram a olhar para ela de testa franzida, querendo saber se teria mais a dizer, mas a pitonisa continuou a brincar com a pinha. Liala se virou de volta para Chedan e perguntou:

- Que está querendo dizer? O mago hesitou antes de falar.

- Receio que os dons latentes em nós, em nossos acólitos, mesmo nos marinheiros e mercadores, possam ser despertados pelos poderes que existem nesta terra.

- Não malignos! - exclamou Liala.

- Pouquíssimos poderes são malignos em si mesmos - recordou-lhe o mago. - Mas um possuidor de dons sobrenaturais que não foi instruído sobre como usá-los é um perigo para si mesmo e para todos que o cercam.

- Temos de concluir as iniciações dos acólitos - disse Tiriki lentamente. - Eles estarão mais bem capacitados para lidar com esse tipo de energias quando tiverem sido ensinados a usar as práticas avançadas e recebido os sinetes, e quando tiverem sido confirmados por juramento solene aos regentes de seus graus indicados.

- As iniciações por si próprias poderiam incluir a ameaça de desencadear forças malignas - observou Liala. - Mas concordo que precisamos tentar. O progresso de Damisa é... adequado. Ela, porém, é acólita de Tiriki. Nós deveríamos estar dando a cada um deles treinamento individual.

O mago sorriu para ela.

- Está absolutamente certa, Lady Atialmaris - disse ele então, usando seu nome completo formal. - Adiamos por tempo suficiente, na esperança de que outros chegassem e tirassem de nossos ombros parte do peso dessas responsabilidades. Mas está claro que não chegarão quaisquer outros membros da casta „ sacerdotal. Suponho que Kalaran deva ser colocado como meu aprendiz. Eu examinei sua astrologia e sua história pessoal, e creio que o rapaz está à altura do desafio.

Ele também aprendeu algumas ciências úteis e a disciplina para aplicá-las. Creio que ele se conhece bem o suficiente e que receberá de bom grado mais conhecimentos. Eu só receio... - Ele se interrompeu, e as duas mulheres o olharam interrogativamente.

- Receio que vá olhar para mim e ver um velho, um fantasma do passado, incapaz de dizer a ele o que mais quer saber, que é como criar um futuro a partir de tanta incerteza.

- Será que algum de nós sabe como ensinar isso? - perguntou Tiriki, tocando na mão dele.

- Bem... - Chedan pigarreou - é isso. Eu falarei com ele amanhã, e farei um planejamento. E se ele tiver o potencial que suspeito tenha, também lhe ensinarei como se manter vigilante para sinais de que os marinheiros ou quaisquer outros possam estar despertando para poderes espirituais.

- Acha que isso vai acontecer?

- Pode já ter acontecido - observou Tiriki. - Todos nós sabemos que Reidel está interessado em Damisa. Ela o ignora, mas já percebi que ele tem um dom para prever não só as necessidades de Damisa, algo que poderia ser o resultado do amor, mas também as minhas, de Domara ou de qualquer pessoa de quem esteja próximo. Quando alguma coisa cai, lá está ele para pegá-la no ar, e quando não é necessária ação alguma, sabe manter-se imóvel.

- Isso é verdade - concordou Chedan. - Observei isso na viagem. Eu falarei com ele. Se estudassem juntos também poderia ser bom para Kalaran.

- Então isso deixa as garotas por nossa conta - disse Liala rapidamente. Ela lançou um olhar para Alyssa, mas a pitonisa estava apoiada no tronco do salgueiro, de olhos fechados, aparentemente dormindo. Liala prosseguiu.

- Elis está pronta para ser iniciada como sacerdotisa de Caratra. Ela tem o dom do cultivo, de fazer crescer as coisas que planta e vocês já viram como é boa com Domara ou com qualquer criança. E é uma cantora. Quero dizer, ela poderia ser uma verdadeira cantora. O Templo havia planejado colocá-la como aprendiz da cantora Kyrrdis. Não sou grande cantora, confesso, mas sei o suficiente para iniciar Elis nesse caminho, se ela estiver disposta a percorrê-lo.

- Essa pelo menos é uma excelente notícia—disse Tiriki. - Damisa e eu temos tentado assegurar que elas mantenham a prática dos exercícios básicos.

- Uma coisa de cada vez! - interveio Liala - Primeiro ela terá de descobrir seu registro de voz interior. Mas no que diz respeito à Iriel e Selast... Bem, eu francamente não sei. Selast, na verdade, só fala comigo se for inevitável e Iriel, bem, ela fala tanto que, às vezes, mal consigo acompanhar o que diz!

- Eu costumo ter essa mesma sensação - concordou Chedan. - Elas por vezes ainda parecem extremamente jovens, a despeito de tudo que já passaram.

- Jovens - repetiu Tiriki -, mas não tolas. Iriel é perspicaz na avaliação de pessoas e só muito raramente abusa de sua sensibilidade diante delas. Talvez pudéssemos simplesmente pô-la para trabalhar junto com Selast mais do que temos feito.

Selast é pequena para sua idade, mas é tão forte quanto um cavalinho, e de maneira geral demonstra ter bom senso...

- Não seria favorável para elas... - Os olhos de Alyssa se abriram subitamente e, por um momento, ela voltou à companhia deles, plenamente desperta e consciente. - Os espíritos cantam a partir de essências diferentes. Selast só seguirá Damisa, até que o sangue a chame para seu homem. Deixem que Iriel fique em companhia de Taret por algum tempo, menos para estudar que para aprender que a paciência não é apenas para os filhos de Atlântida, e que ser sábia é não se afastar da alegria, mas sim ver suas muitas faces.

Os recém-chegados na verdade tinham trazido alguma comida, mas logo se revelou que tinham feito uma outra contribuição, que demonstrou ser muito menos bem-vinda, e punha em risco a sobrevivência física de todos. Poucos dias depois da chegada deles, Heron, o chefe da aldeia, foi procurar Chedan queixando-se de músculos doloridos e dor de cabeça. O povo do pântano podia ser imune às intempéries do clima ali, mas não tinha qualquer resistência contra os espíritos de doença que o navio havia trazido do continente.

Malária foi como Chedan a denominou, e disse que havia encontrado febres daquele tipo mais de uma vez em suas viagens. Antes que alguém pudesse sequer pedir-lhe, Metia foi consultar Taret sobre o preparo de uma infusão de ervas curativas.

Era estranho, pensou Chedan, enquanto a observava sair com a tagarela Iriel a seu lado, como todos eles tinham, sem sequer perceber, passado a aceitar a mulher saji como membro da comunidade. Na velha terra natal, as sajis nunca teriam tido permissão de falar com uma sacerdotisa da Luz, mas Metia foi uma ama devotada para a pequenina Domara e suas irmãs, de maneira muito natural, assumiram a responsabilidade de cuidar de Alyssa. Nos Reinos do Mar, os descendentes da casta dos sacerdotes viam as criadas do Templo apenas de longe, andando apressadas por um pátio ou corredor como um bando de pássaros de asas de cores vivas.

Os rumores haviam afirmado que eram, na melhor das hipóteses, libertinas e impuras, recrutadas exclusivamente entre párias, bebês abandonados das cidades mercantes ou pior. E isso em parte era verdade. Mas mesmo depois que o Templo Cinza foi dissolvido, a crença popular era de que as sajis eram usadas para os mais ultrajantes dos rituais semi-ilícitos. E aquilo era intolerância do pior tipo.

Somente depois que observou a paciência com que as sajis suportavam a viagem no Serpente Carmesim, que Chedan lhes dedicou alguma reflexão, e arrancou dos recônditos da memória uma história segundo a qual, muito tempo atrás, os ancestrais delas tinham sido devotos de uma disciplina não menos respeitável que a sua. A própria palavra saji era simplesmente a contração de uma palavra muito arcaica que significava “estrangeiro refugiado”.

Mas, não importava de onde tivessem vindo, Chedan estava realmente muito satisfeito com o fato de que as mulheres sajis estivessem com eles agora, pois eram especialistas no preparo de remédios naturais.

A doença trazida pelos refugiados se propagou rapidamente tanto entre o povo do pântano quanto entre os marinheiros. Damisa e Selast eram enviadas com freqüência para sair em busca não de comida, mas de ervas, enquanto as sajis, ou Liala e Elis, mantinham-se ocupadas indo de leito em leito cuidar dos doentes. Com o rosto coberto por véus para se proteger de espirros, elas pacientemente aplicavam compressas frias nas frontes que ardiam de febre e administravam-lhes um chá feito com casca de salgueiro e outros ingredientes. Contudo, a doença continuou a se disseminar.

Certa manhã cinzenta, Chedan saiu da choupana do chefe da tribo e encontrou Tiriki à espera, com a filha nos braços. A bruma pairava baixa ao redor do Tor, encobrindo as copas das árvores, mas em algum lugar acima das nuvens havia luz do sol, pois ao longe ele podia ouvir o grito de caça de um falcão.

- Heron está se recuperando - disse Chedan em resposta à pergunta nos olhos de Tiriki -, bem como muitos dos outros. Mas o filho dele, Otter, foi duramente atingido pela doença.

- Por que ele é tão vulnerável? - O rosto de Tiriki se crispou numa expressão preocupada. - Otter é o menino mais forte por aqui.

Chedan suspirou.

- Os jovens e fortes, se porventura são afligidos, demonstram ter menos resistência do que aqueles mais acostumados a doenças.

- Mas ele vai sobreviver? - Ela passou a inquieta criança de cabelos ruivos dos braços para o quadril. Por um momento a visão do rosto da garotinha aliviou o coração de Chedan, mas ele sacudiu a cabeça.

- Só os deuses sabem como isso acabará. Em todo caso, não quero que você e Domara - nem Kestil, já que estamos falando nisso - se aproximem dos doentes.

- Do mesmo modo que a arte da cura faz parte de seu dever, também faz do meu! - Tiriki falou baixinho, de maneira a não sobressaltar a filha, mas não tentou ocultar seu olhar rebelde furioso. Por um instante o mago a fitou fixamente. Ante um olhar de leigo, ela não era mais que uma mulher jovem e esguia, contudo, agora havia uma nova maturidade nela, um esplendor que veio com o nascimento da criança. De fato, pensou ele com um sorriso, me parece que o ar desta terra do norte lhe faz bem - embora suponha que ela não apreciaria se eu dissesse isso.

- E Domara? - perguntou ele em voz alta e séria. - Você também a poria em risco?

Os braços de Tiriki se estreitaram ao redor da filha.

- O senhor não pegou a doença - observou ela.

- Ainda não, pelo menos por enquanto - respondeu o mago, em tom mais gentil. - Desconfio de que essa possa ser uma nova forma de uma doença contra a qual, em minhas viagens, posso ter adquirido alguma resistência, mas talvez não. Agora, deixe-me acrescentar, há bons motivos para ter esperanças ! Estou satisfeito que Dannetrassa estivesse naquele navio - ele e as sajis têm sido inestimáveis! E Alyssa estava absolutamente certa a respeito de Iriel e Taret. Não, eu não creio que venhamos a sofrer a mesma sina de Olbairos, mas, realmente, apenas uma coisa pode ser dita com certeza: tudo que pode ser feito está sendo feito. Você nos dará maior ajuda se mantiver as crianças e a si mesma bem longe do perigo. Sei que está habituada a ter a ajuda de Metia, mas creio que se está saindo muito bem sem ela. Não é verdade?

Emoções conflitantes entraram em combate no semblante de Tiriki, mas finalmente, ainda que com muita relutância, ela assentiu.

- Que os deuses estejam com o senhor - sussurrou ela - e ofereceu a ele a saudação formal devida a seu grau, como se estivessem concluindo algum ritual.

- Recebam minhas bênçãos, filhas - disse ele em voz baixa, saudando-a e à criança em resposta. Quando ia baixando as mãos, essas roçaram numa forma dura guardada na bolsa que trazia pendurada na cintura.

- Espere! Aqui estou eu decidido a mandar você embora, mas também, por acaso, tenho aqui algo que venho querendo lhe dar. - Ele tirou a pequena caixa de cedro e a estendeu para ela.

- Mas... ela é minha! - exclamou Tiriki, os olhos luminosos movendo-se da caixa para o rosto dele. - Como a encontrou?

- Estava revirando uma de minhas bolsas de viagem, procurando um pacote de ervas e lá estava ela. Micail me deu a caixa. Foi no dia antes... - Ele deixou a frase inacabada, sabendo que ela compreenderia. - Com todo o tumulto, me esqueci completamente. Tínhamos parado para comer alguma coisa enquanto examinávamos as listas e, de repente, Micail simplesmente me entregou a caixa, dizendo... o que foi mesmo que ele disse?

Chedan sacudiu a cabeça ligeiramente, para trazer de volta a lembrança de ar quente e claro, e do gosto de medo que acompanhava as palavras.

- Micail disse que você deveria tê-la consigo, mas que estava arrumando suas coisas com tamanha eficiência que apenas diria que era melhor deixá-la ficar. Ele... - Chedan sorriu tristemente - ele disse que estava praticamente certo de que você também não deixaria que ele a guardasse.

- Isso é bem típico dele - Tiriki deu uma risada. - Discutimos várias vezes sobre o que deveríamos levar e deixar. - Os olhos dela ficaram embaçados pelas lágrimas e, procurando ocultar suas emoções, abriu o fecho da caixa e olhou para dentro dela. Estava repleta, entupida de vários pequenos objetos, uma mistura de brincos, pendentes enfiados em cordões, diversos anéis. - Príncipes têm estranhas prioridades. - Ela começou a fechar a caixa de novo e então, abruptamente, seus olhos recuperaram o foco.

- Mãe da Noite - murmurou -, que ela o abençoe, Chedan. Que abençoe vocês dois

O mago espichou o pescoço, tentando ver.

- O que é?

Ela abriu a mão e ele viu o brilho de um anel, uma jóia pequenina, inacreditavelmente composta de numerosas superfícies escamadas e lisas, ao mesmo tempo entalho e camafeu, uma filigrana de sombras e brilhos.

- Éramos pouco mais que crianças quando ele me deu isto. Provavelmente era uma quinquilharia antiga, herança de família, tirada das insígnias reais de sua avó.

Chedan assentiu, reconhecendo a representação dos dragões imperiais, um vermelho e um branco presos em seu perpétuo combate, corpo a corpo, do bom contra o melhor. Mas também podia ver que para Tiriki não era um emblema dos Reinos do Mar, mas o primeiro e melhor testemunho do amor de Micail.

- Será que ainda me servirá? Gostaria de saber - murmurou ela, com voz trêmula. - Faz tanto tempo... - Tiriki enfiou o anel no dedo, fez uma careta quando prendeu na articulação, mas forçou-o até passar.

- Veja só - disse Chedan delicadamente. - Não importa o que acontecer, o amor de Micail ainda a sustenta.

O olhar surpreendido dela virou-se rapidamente para o dele antes que Chedan pudesse esconder o pensamento que lhe havia ocorrido, de que ela precisaria de qualquer conforto que pudesse encontrar se a peste se tornasse pior, e ele não sobrevivesse...

Uma sombra adejou sobre a relva. Ele levantou a cabeça, o coração se animando a despeito de sua ansiedade quando viu de relance a forma graciosa de um falcão recortada contra o sol.

Doze

O falcão flutuou acima da planície; era uma partícula de vida contra a imensidão cinza do céu. Para o olho do falcão, não havia diferença entre sacerdote e camponês, entre os humanos que aravam os campos e aqueles que trabalhavam pesado para mover os grandes blocos de arenito pela planície. O falcão observava todas as atividades dos homens com o mesmo distanciamento senhoril. Micail, esforçando-se para unir sete cantores num instrumento capaz de levitar pedra, desejou poder sentir o mesmo.

Na noite anterior, sonhou que estava sentado com Chedan na pequena taverna em Ahtarra, logo abaixo da biblioteca, bebericando rafnViri e deixando que a conversa deles vagueasse, como às vezes acontecia com Ardral. Na verdade, ele estava bastante surpreendido com o fato de que não tivesse sido Ardral, e ficou pensando se por algum motivo não estaria projetando a imagem do rosto de um homem no do outro. Embora Micail tivesse respeitado o mago de Alkonath, nunca o conhecera bem o suficiente para que se tornassem amigos íntimos. Mas, sem dúvida, aquilo não passava de uma cena induzida por sua atual preocupação, sem nenhum significado. Pelo que se lembrava, eles tinham estado conversando sobre a instrução e treinamento dos cheias, e os vários usos da canção.

- Muito bem, agora... - Com um esforço, trazendo seus pensamentos de volta para o presente, ele apontou para uma pedra que havia colocado sobre um toco de árvore a cerca de dez palmos de distância. - Modulem suas notas, primeiro baixinho e, ao meu sinal, concentrem a vibração na pedra.

Ele havia trazido seu grupo de cantores inexperientes para um pequeno arvoredo entre a planície e o agrupamento de choupanas que os Ai-Zir construíram para abrigar seus hóspedes. Agora já fazia mais de um ano que estavam ali e, se ainda não conseguia chamar aquele local de lar, pelo menos era um refúgio.

- Está bem, basta - disse Micail, à medida que as vozes vibravam e beiravam a desarmonia. - É melhor começar com os cantores mais experientes. - Ele gesticulou para o sacerdote de Alkonath, Ocathrel, que até a véspera estivera na planície com Naranshada e os engenheiros estagiários, selecionando e cortando blocos de arenito para fazer a formação do grande anel. A rocha local era uma espécie de arenito, mas forças que nem mesmo Ardral conseguia explicar inteiramente, em alguma era distante, haviam-no comprimido de tal forma que era mais duro e mais denso que qualquer rocha natural que os atlantes jamais tivessem visto. Se as formações não tivessem estado dispostas entre faixas de pedra mais leve não teria sido possível extrair blocos tão grandes. Mas aquela mesma compressão tinha alinhado as partículas cristalinas mescladas na pedra, e o martelar as havia despertado.

Aquilo não era o Templo prometido, mas o material para construí-lo, um construtor que não só lhes permitiria calcular os movimentos dos céus, mas também aumentar e concentrar o poder.

Naquela manhã, Ocathrel se ofereceu para ajudar a ensinar aos acólitos, em parte porque ele próprio tinha três filhas e acreditava saber melhor como motivá-los. Micail de início duvidou, mas logo se evidenciou que o sacerdote mais velho tinha falado apenas a verdade.

Ocathrel sorriu, alisou os cabelos ralos e encheu os pulmões. Então emitiu uma nota tão grave e ressonante que Micail sentiu sua vibração se propagar lentamente pelos ossos. Ele próprio era um tenor, mas podia alcançar o registro de barítono e chegou, na nota seguinte, a quatro intervalos acima.

Lanath já estava transpirando devido ao esforço e seu tom vacilava, mas Micail lançou-lhe um olhar de comando e, depois disso, o trêmulo do rapaz adquiriu limpidez e se manteve constante. No mesmo instante Kyrrdis introduziu Elara, quatro notas mais acima no registro de contralto, e então por sua vez Cleta e Galara, que haviam, de maneira bastante inesperada, demonstrado ter belas vozes de soprano, ainda que não especialmente potentes.

De cenho franzido com concentração, os cantores mantiveram a canção em andamento por meio de respiração circular até que os sete tons se uniram em uma única nota grave prolongada e embora não se tornasse mais alta, as vibrações alteraram-se perceptivelmente em qualidade. Micail conteve o entusiasmo e redirecionou o foco dos cantores para o pedaço de pedra esperando no toco. A harmonia subiu e desceu ligeiramente, criando uma unidade que pareceu um dedilhar através do arvoredo sombreado em uníssono com o vento, até que a pedra começou lentamente a se erguer, suspensa no alto e então ainda mais alto. Com um arquejo, Lanath perdeu seu lugar no ritmo. O coro tornou-se desordenado e a rocha oscilou e caiu ao chão.

- Quando um fracassa, todos fracassam - repreendeu Micail asperamente. - Agora recolham suas energias e liguem-se com a terra. - Os sete fecharam os olhos, conscientemente regularizando a respiração.

- Sinto muito! - sussurrou Lanath, o rosto vermelho de vergonha. - Eu consigo fazê-lo perfeitamente bem quando estou sozinho.

- Eu sei, rapaz. E se saiu muito bem, até quase o final. - Micail se obrigou a falar com gentileza. Os olhares furiosos que as mocinhas estavam lançando para o garoto eram reprovação suficiente naquele momento. - Você apenas perdeu a concentração; isso não é um defeito fatal. Mas de agora em diante quero que ensaie quando estiver em companhia dos outros até conseguir sustentar aquela nota, não importa o que estiver acontecendo! - Ele se virou para os outros. - Ocathrel, Kyrrdis, obrigado pela ajuda. Sei que têm outras tarefas a realizar. Assim como nós todos. - Ele franziu o cenho para os outros. - Podem ir. Espere Galara, Ardral quer que você copie um texto. Venha comigo.

 

- Mas por que precisamos de mais uma cópia de A luta de Ardath? - resmungou Galara, enquanto caminhavam de volta em meio à floresta. - Pode muito bem ter acontecido um milhão de anos atrás...

- É mais provável que tenha sido há oitocentos anos. E garanto que descobrirá que é mais do que apenas uma velha lenda - respondeu Micail com uma paciência arduamente aprendida. De início, havia temido que o fato de trabalhar com a meia irmã de Tiriki fosse apenas recordá-lo de forma por demais dolorosa tudo que ambos haviam perdido. Em vez disso, pareciam encontrar um estranho consolo juntos.

Galara demonstrou ter muito pouco em comum com Tiriki que, Micail podia afirmar com a certeza dos anos de conhecimento, jamais, nem aos quinze anos de idade, havia exibido nada que se assemelhasse aos humores voláteis da garota que, de maneira tão indulgente para consigo mesma, oscilavam entre atitudes emburradas e franca rebelião. Ele era obrigado a se recordar de quanto a garota era tão mais jovem. Elas não tinham sido criadas como irmãs; por que deveriam ser parecidas?

- O que quero dizer é, por que alguma coisa daquilo importa? - prosseguiu Galara furiosa. - Quero dizer... O que foi que me disse, praticamente a primeira coisa, quando afirmou que teríamos de partir? Que haveria recursos muito limitados „ na nova terra! E estava certo! Por isso, por quê, exatamente, a primeira coisa que todo mundo quer fazer é construir um outro Templo para os mesmos deuses que não fizeram nada por nós quando mais precisávamos deles?

Micail parou imóvel onde estava e a olhou furioso.

- Agora basta, Gallie, cale-se - murmurou, com um olhar rápido ao redor para ver se alguém a ouvira. Manter o moral alto entre os atlantes era quase tão importante quanto apresentar uma fachada de união aos Ai-Zir. - Quem senão os deuses nos preservaram? Eles não precisavam nos enviar mensageiro algum para nos avisar, mas, na verdade, enviaram muitos, aos quais nem sequer realmente ouvimos. Eles nos salvaram para recriar nosso Templo.

- Você realmente acredita nisso? - Galara pôs a mão no braço dele, encarando-o com intensidade. - Eu não consigo... não quando se tem de fazê-lo com bobalhões idiotas como Lanath e aquela mal-humorada da Cleta! Se os deuses realmente queriam o Templo reconstruído, por que não salvaram Tiriki em vez deles?

- Não diga isso! Nunca mais me diga isso! - Uma raiva repentina se apoderou dele e Micail a empurrou para longe.

Galara deu um passo rápido para recuperar o equilíbrio, o rosto ficou subitamente pálido.

- Eu sinto muito... não quis dizer...

- Você não pensou! - Micail conseguiu dizer entre dentes cerrados. Ele tinha acreditado que sua dor pela perda estava curada. Agora, era capaz de passar semanas, às vezes até meses seguidos, sem sonhar com Tiriki, mas então alguma lembrança de um golpe reabria o ferimento.

- Vá! Você conhece o caminho. Deixe-me em paz! Vá atormentar Ardral com suas perguntas intermináveis, se tiver coragem - conseguiu dizer finalmente. - Não sei por que os deuses nos escolheram para viver. Eu nem sei mais se salvar alguma coisa de Atlântida é a coisa certa a fazer! Mas a profecia não disse que você ou eu iria governar a nova terra, apenas que eu fundaria o novo Templo aqui. E isso, por todos os deuses, é o que vou fazer!

- Lorde Micail, dizem vocês, era também um príncipe da realeza? - Khayan-e-Durr, Rainha dos Ai-Zir, inclinou a cabeça enquanto Micail passava pelo guarda-sol sob o qual as mulheres estavam sentadas fiando. - Intranqüila é a terra com tantos governantes - observou a rainha, em tom reflexivo - contudo, ele é bem atraente.

Elara trocou olhares com Cleta e reprimiu um sorriso. Elas tinham levado alguns meses para aprender a língua o suficiente para serem aceitas e só agora a comunicação verdadeira estava começando a se tornar possível. Micail é realmente um homem que atrai os olhares das mulheres, pensou ela, enquanto ele reduzia a marcha por um momento e retribuía o cumprimento. Elara duvidava, contudo, de que tivesse realmente registrado a saudação da rainha em nível consciente. O gesto fora apenas uma resposta automática, fruto do treinamento entranhado que recebera na corte de Mikantor em Ahtarrath.

- Sim, ele era o herdeiro do filho mais velho - respondeu Elara afinal. - Nos Dez Reinos, e na Terra Antiga antes deles, havia poderes que passavam por direito de sucessão principalmente pela linhagem masculina da casa real. Mas a preferência de meu senhor sempre foi pelo sacerdócio. Era seu tio, Reio-ta, quem realmente governava.

- De modo que o príncipe não assumiu seu trono, e a terra se perdeu - replicou a rainha. - Temos uma história semelhante aqui que as pessoas às vezes contam. Mesmo assim, o sangue de reis sempre vale alguma coisa. É uma pena que o homem não tenha gerado um filho. Nosso xamã, Droshrad, diz que vocês, estrangeiros, vieram com o vento e que logo partirão, mas não tenho tanta certeza. - Ela fez uma pausa, refletindo, e Elara ergueu uma sobrancelha, surpreendida, diante dessa insinuação de conflito entre os xamãs e as mulheres da tribo.

Cleta franziu o cenho.

- Eu ouvi dizer que Droshrad se opôs à sua decisão de nos receber - disse ela em tom cauteloso -, mas pensei que ele tivesse começado a apreciar os conhecimentos que trazemos... pelo menos, não houve qualquer dificuldade em luas recentes.

- Tema o lobo que ronda à espreita, não o que uiva - respondeu a rainha. - Aquele velho vai para o meio da floresta para urdir intrigas e balbuciar feitiços. Seria melhor se seu povo fizesse laços de sangue com nossa tribo. Talvez a procriação fora de sua raça melhore a fertilidade do Príncipe Micail, como costuma fazer entre os rebanhos. Sim - Khayan-e-Durr deu uma risadinha baixa -, teremos de encontrar uma esposa de boa família para seu senhor pouco maduro, alguém de um clã real.

Elara obrigou seu semblante a esconder o choque, tanto diante do conteúdo quanto ao caráter calculista e sagaz dessas palavras. Quase igualmente medonho foi o rubor de fúria possessiva que lhe incendiou as faces. A rainha tinha um bom argumento - seria uma pena deixar se perder a descendência direta de Micail. Mas seu sêmen pertencia à linhagem sagrada do Templo. Se uma companheira sem parentesco devesse ser encontrada, havia outras que se qualificavam - Cleta ou - seu pulso se acelerou inesperadamente - ela própria poderiam com certeza lhe dar um filho.

Mas controlou sua reação e olhou para a rainha com um suspiro.

- O meu senhor ainda está enlutado pela esposa, que se perdeu durante a fuga - disse a acólita em tom solene. - E não creio que ele esteja pronto para ouvir falar desse tipo de coisas.

Mas eu estou, não se pôde impedir de pensar, e não com Lanath! Elara lançou outro olhar rápido para Cleta e se deu conta de que ela, também, observava Micail enquanto ele finalmente desaparecia em meio a um grupo de Ai-Zir. Era estranho. Elara sempre pensara em Micail como o marido da suma sacerdotisa. Era estranho vê-lo subitamente como... um homem, e não só isso, mas um homem disponível.

- Bem, ainda não há urgência alguma - disse a rainha agradavelmente, enquanto punha seu fuso a girar -, mas a aliança entre nossos povos seria reforçada por um casamento.

Elara estava em Azan-Ylir por tempo suficiente para compreender que, de acordo com a tradição, quase todas as uniões eram acertadas pelas matriarcas do clã. Insegura, observou atentamente a rainha mais uma vez. Sob a luz quente do sol ela havia tirado seu manto real de pele de corça esmeradamente curtida, pintada com os símbolos de sua dignidade e tribo. As mangas à altura do cotovelo e a bainha da parte de cima de seu traje de duas peças de lã verde-acinzentada eram orladas num padrão trançado rebordado com discos de osso, um pouco justa na altura do busto amplo sobre o qual descansavam colares de âmbar e azeviche. Uma saia volumosa com listras entretecidas de cores diferentes lhe caía em pregas ao redor dos pés. Os cabelos castanhos de Khayan-e-Durr, presos numa rede de cordão torcido, estavam entremeados de fios grisalhos, mas a rainha possuía uma majestade de presença que não dependia em nada do requinte de seus trajes.

Ao longo dos meses anteriores tornou-se claro que o Lado das Mulheres detinha um tipo de poder muito concreto, se bem que diferente. De acordo com o costume, a rainha não era a esposa de Khattar e sim sua irmã mais velha, e por vezes parecia considerá-lo como se ainda não fosse realmente adulto. Era o filho dela, Khensu, e não dele que seria o herdeiro de Khattar, além do quê, ela e as matriarcas do clã tinham o direito de tomar a decisão final de ir à guerra.

Elas registravam os acasalamentos dos animais e os de homens, e antes que os homens pudessem fazer a guerra, as mulheres tinham de concordar que tivessem recursos para fazê-lo. Na casta sacerdotal de Atlântida, certos poderes eram herdados pelos homens ou pelas mulheres; não obstante, no Templo ou no palácio o gênero não era obstáculo para a liderança. Afinal, a alma mudava de sexo de uma vida para a outra. Mas ninguém esperava encontrar esse tipo de sabedoria entre primitivos sem instrução.

- O rei tem uma filha chamada Anet - disse Khayan naquele momento. - Ela está pronta para o leito nupcial. Ela está no santuário da Deusa em Carn Ava com a mãe, mas voltará antes do inverno. Veremos se ela gosta dele... essa união poderia dar muito certo...

Cleta inclinou a cabeça para sussurrar:

- Mas será que Micail gostará dela? E que dirá Tjalan? Khayan, evidentemente, se preocupava com o bem-estar de seu povo, mas será que apoiava o sonho do rei de fazer de sua tribo a tribo suprema? Durante os últimos meses ela havia tratado Elara como uma espécie de mascote preferida, e Tjalan, em sua visita mais recente a Azan, a incentivara a conquistar a confiança da rainha. Contudo, Elara não achava que estivesse mais próxima de algum dia descobrir os verdadeiros pensamentos de Khayan.

- E vocês, jovens - disse a rainha subitamente -, também devem pensar em seus futuros maridos.

- Ah, Cleta tem um noivo que ainda está em Belsairath. E eu sou noiva de Lanath - respondeu Elara, com uma ponta de amargura.

- Você disse que não eram casadas. Elara deu de ombros.

- Há muito... muito que fazer primeiro. Temos de concluir nossos estudos.

- Sei... - a rainha deu um largo sorriso. - Donzelas pensam que serão jovens para sempre. Mas é verdade, as sacerdotisas de nascimento são diferentes. - Houve breve pausa, mas antes que qualquer outra pessoa pudesse falar, Khayan prosseguiu. - Sua mestra, Lady Timul, está muito longe, mas vocês estão aqui. Talvez eu deva mandá-las para Ayo.

Cleta franziu a testa, tentando entender.

- Ayo? A esposa do rei?

- Mas também é uma Sagrada Irmã, que reside no Santuário - Khayan balançou a cabeça e sorriu. - As mulheres das tribos trocam informações de que os homens por vezes não têm conhecimento. Uma nos foi enviada da aldeia de vocês no litoral. Ela diz que as sacerdotisas da Veste Azul que lá construíram o Templo da Mãe conhecem parte de nossos Mistérios. E isso, isso não é assunto para os xamãs. Sim, creio que a irmandade desejará conversar com você.

Eu tenho de contar a Ardral - Elara olhou fixamente para a rainha, com a mente em turbilhão. Mas, será que devo? Khayan talvez fosse apenas uma Ai-Zir, mas estava certa. Aqueles eram mistérios de mulheres, que não deveriam ser contados a homem algum. De alguma forma ela precisaria enviar uma mensagem para Timul.

Afinal, Elara conseguiu recuperar a voz.

- Eu ficaria muito interessada em ter um encontro com elas.

Micail inspirou longa e profundamente, inalando o vento agradável que acariciava a planície. Tinha caminhado até o local onde o círculo de pedras seria construído bem cedo naquela manhã, quando o sol nascente havia apenas começado a prometer um dia escaldante. Agora, ao seu final, o perfume da relva madura era como incenso - um incenso da terra, temperado pelos odores mais pungentes do gado que comia a relva. À meia distância um dos pequenos rebanhos, mantidos na planície para a ordenha no verão, estava seguindo a vaca líder em direção ao lar, o pêlo marrom de seus couros reluzia como cobre à luz oblíqua do crepúsculo.

Lentamente, ele começava a compreender a importância deles para o povo dali. Uma refeição comum atlante consistira em frutas, verduras e cereais cozidos com, talvez, alguns pequeninos peixes para dar sabor e tempero.

Em Azan, o gado era a vida da nação, sua saúde e o número de cabeças, a medida do poder de uma tribo, seu couro e ossos usados como roupas e ornamentos, ou utilizados para uma miríade de outros propósitos. Cereais eram comidos como mingau ou pão achatado, e folhas silvestres na estação, como salada verde, mas em todas as estações do ano, de preferência as pessoas se alimentavam da carne e do leite de suas vacas.

De início, a maioria dos atlantes achou difícil digerir a dieta rica em proteína, e mesmo depois de se acostumar a ela, achou ainda mais difícil assimilá-la de maneira eficiente por meio do metabolismo. Todos nós, pensou ele, pesaroso, enquanto dava uma palmadinha no abdome, estamos mais corpulentos, exceto por Ardral O velho guardião parecia sobreviver apenas à base de ar e da cerveja nativa, embora continuamente declarasse que essa última era uma substituta medíocre para bebidas alcoólicas decentes. Apesar disso, fosse lá o que fosse que Ardral estivesse comendo ou não, estava lhe dando energia de sobra. Ele nunca parava de se mover de um lugar para outro no canteiro de obras, observando, dando ordens, corrigindo, enquanto a veste e o manto esvoaçavam ao seu redor como as asas de grandes garças azuis que ficavam à espreita caçando no rio e nas ruínas.

Fora da fileira de varas que haviam sido fincadas no solo para marcar o círculo, os homens estavam moldando dois grandes blocos de arenito com os malhos grandes feitos da mesma pedra dura. A canção dos cantores teve sucesso em cortar e extrair os grandes blocos ao abrir fendas nos pedregulhos maiores que se encontravam espalhados por toda a planície, mas a configuração na forma definitiva tinha de ser feita por mãos humanas. O bater de malhos criava uma música surda no ar que se tornava mais fresco.

- Pode vir até aqui, por favor? - o chamado de Ardral despertou Micail de sua abstração. - Traga Lanath. Preciso de uma segunda verificação neste alinhamento.

Micail olhou ao redor e viu seu acólito parado, ao lado de um dos buracos deixados por uma pedra-lipes extraída, contemplando a extensão da planície, o olhar perdido em direção ao desaparecimento gradual da luz.

- Lanath, estão precisando de nós - disse em voz baixa. - Vamos, rapaz, não há nada para ver por lá.

- Apenas as Estrelas Arautas - respondeu Lanath pesadamente. - Mas qualquer coisa poderia estar se esgueirando sem ser vista sob o manto da escuridão. Essa região de campos inteira é infestada de fantasmas... - ele gesticulou em direção às corcovas arredondadas dos dólmenes na planície. - Quando cai a noite toda ela lhes pertence. Talvez seja isso que Kanar me esteja dizendo.

- Kanar! - exclamou Micail. - Seu antigo mestre? Isso é mais um de seus sonhos?

- Ele fala comigo - respondeu Lanath na mesma voz estranha e baixa.

- Fantasmas são notórios por serem mensageiros pouco dignos de confiança, especialmente quando você não sabe as perguntas certas a fazer - respondeu Micail, em tom mais áspero do que pretendia. - Não falemos mais a respeito disso agora; os relatos dos xamãs já deixaram os homens nervosos o suficiente sem que se contribua para suas fantasias! Nós precisamos do trabalho braçal deles, rapaz - não podemos fazer todo o trabalho por meio de canções! - Ele agarrou o ombro de Lanath e o arrastou de volta para o centro do círculo, onde Ardral contemplava as estacas de madeira que estavam posicionadas para marcar o nascer e o pôr-do-sol do solstício de verão.

- Olhe ali... - ordenou, apontando para o oeste. - Lá está a luz!

As nuvens que vinham movendo-se para o interior, trazidas pelo vento do mar distante, agora se incendiavam tingidas de chamas pelo sol poente. Enquanto ele observava, um longo feixe de luz fulgurou cortando o céu, riscando uma linha dourada que atravessou a planície que escurecia. Ardral balbuciou alguma coisa e rapidamente entalhou uma fileira de hieróglifos em sua tabula de cera.

Micail fechou os olhos, ofuscado pelo clarão, e teve a sensação de que era como se a luz do sol estivesse se tornando uma corrente de energia, como se ele estivesse parado em meio à correnteza de um córrego que fluía, ou na confluência de muitos córregos. Havia um que fluía do oeste, onde o sol se punha no equinócio, um outro cuja origem era mais distante ao sul. O novo círculo de pedras iria estar centrado em um alinhamento de nordeste para sudoeste, de modo a capturar o nascer do sol do solstício de verão, amplificando o fluxo de energia.

- Você ainda não esteve aqui no final do dia, não é? - ouviu Ardral lhe perguntar. - Quando o sol está nascendo ou se pondo, você pode sentir as correntes com bastante intensidade. Foi por isso que os sensitivos nos indicaram este lugar. Se posicionarmos as pedras corretamente, este lugar será um enorme foco de poder.

Micail abriu os olhos e se deu conta de que os pedreiros haviam ficado em silêncio.

- Se a Pedra Omphalos tivesse sido salva, Tjalan a teria instalado aqui - acrescentou Ardral. - Bem, talvez até seja melhor que... - O que quer que ele estivesse a ponto de acrescentar se perdeu quando alguém deu um grito de terror.

Lanath estava parado, de novo olhando fixamente para os dólmenes. Os pedreiros o observavam.

- Vejam, alguma coisa acabou de sair do dólmen! - Os murmúrios tornaram-se mais altos. - O jovem sacerdote vê! O velho sacerdote está zangado porque movemos as pedras! Droshrad estava certo! Não deveríamos estar aqui.

Micail franziu os olhos, esforçando-se para enxergar no lusco-fusco indistinto à meia distância, e ao ver uma grande cabeça chifruda, começou a rir.

- Vocês por acaso são crianças, para deixar que uma velha vaca os assuste? - Seguiu-se um momento de silêncio tenso, quebrado por um mugido queixoso.

- Ela poderia assumir a forma de uma vaca - sussurrou alguém, e então todo mundo desatou a rir.

- E se houvesse um demônio aqui - a voz de Ardral exigia a atenção deles. - Vocês acham que eu não poderia protegê-los? - Sob a luz que enfraquecia, todos podiam ver o tremeluzir de radiância que rodopiava ao redor dele.

Micail sabia que era apenas um truque de mágico, e o tipo de exibição que os iniciava e os adeptos que o haviam instruído tinham considerado indigno, abaixo de sua posição... mas não fora do alcance deles. Respirando fundo, Micail permitiu que sua própria percepção se alterasse, transferindo energia para sua aura até que ele também começou a brilhar.

Será que Droshrad tem capacidade para fazer isso? perguntou-se com um rompante de orgulho que rapidamente se transformou em vergonha à medida que os trabalhadores recuaram,fazendo sinais para se proteger. A profecia dissera que, com seus esforços, Micail fundaria o novo Templo, mas seria aquela estrutura que eles estavam construindo um lugar para servir aos poderes da Luz, ou para uma ambição mais mundana?

O inverno era quando os atlantes mais ansiavam por seu lar perdido. Depois de quase três anos, os ossos de Micail ainda doíam quando os ventos do norte traziam neve. Deus do Inverno, com freqüência costumava praguejar, com este frio, até mesmo Banur das Quatro Faces poria mais lenha na fogueira! Mas por enquanto, a fogueira que rugia no centro da rotunda real e o simples calor dos corpos das pessoas reunidas ali para o banquete do solstício de inverno tinham feito a temperatura subir o suficiente para que Micail se sentisse quase disposto a retirar o manto de pele de ovelha.

À esquerda de Khattar sentavam-se Droshrad e os xamãs das demais tribos, e à direita os sacerdotes atlantes, numa incômoda simetria. Do outro lado da fogueira, os chefes principais das outras cinco tribos há muito tinham despido os mantos e barretes cônicos e se reclinavam em seus bancos vestindo túnicas de lã com desenho decorativo em padrões. Droshrad ainda estava envolto em seus trajes de pele de cervo, pintada e rebordada com muitos pedacinhos de osso que tiniam ao bater uns nos outros.

Micail se perguntava se deveria ter mandado Jiritaren, Na-ranshada e os acólitos de volta para Belsairath para passar o inverno junto com Ardral e os outros, mas a vida social da nova capital de Tjalan parecia-lhe mais dura do que aquela vida de exílio entre os selvagens. No último outono, permanecer ali havia demonstrado ser uma escolha sábia. Ele e Lanath tinham conseguido fazer a sintonia fina da calibragem usada para posicionar as pedras. Mas neste ano, Droshrad parecia estar observando-os com algo mais do que seu desdém habitual.

- Não se parece muito com a celebração formal da Passagem da Administração de Nar-Inabi, não é? - perguntou Jiritaren, na língua formal do Templo da Luz. As palavras formais soaram estranhamente incongruentes enquanto Jiri quebrava e abria uma fileira de costelas assadas. Entre as tribos, a carne de porco cevado à base de espigas de milho era o alimento favorito para banquetes realizados no inverno; a carne gordurosa prevenia o frio, assim como a cerveja. Micail levantou seu copo alto e tomou mais um gole.

Naranshada franziu o cenho e, cofiando a barba, disse numa forma menos refinada da língua do templo.

- Devo admitir que não me agrada. Não vejo a hora de chegar o dia em que esse trabalho estará concluído e não precisaremos viver aqui. Mas acabei de saber que só teremos mão-de-obra para as outras pedras quando a semeadura estiver terminada na primavera.

- O quê? - disse Jiritaren. - Isso é verdade, Micail?

- E então, estão gostando de nosso banquete? - interrompeu o rei Khattar, falando um atlante de sotaque carregado, mas bastante fluente e compreensível.

Ele aprende depressa, refletiu Micail, com um sorriso pensativo. Um bom lembrete de que, embora possamos usar os mais misteriosos dialetos do Templo, temos de tomar cuidado com o que dizemos.

- A carne é gorda e a cerveja é forte, Grande Rei - respondeu Naranshada educadamente. Micail lhe fez eco, observando que os círculos e losangos entalhados nos pilares da casa já estavam começando a se retorcer e ficar borrados. Talvez fosse melhor ele ir devagar com a bebida por algum tempo.

- Foi uma boa colheita! - O olhar furioso do rei desafiava qualquer um a discordar. - Os Ancestrais estão satisfeitos. Logo terão seu novo Templo!

- Somos afortunados pelo fato de que os ancestrais tenham a paciência da eternidade. Mas o trabalho tem progredido bem. - Não pela primeira vez Micail teve vontade de saber em que medida Khattar realmente compreendia as explicações que eles davam sobre o propósito a ser servido pelo alinhamento das pedras.

E quê, perguntou-se, significam essas pedras para mim? O primeiro passo ao criar o Templo que eu estava destinado a construir ou simplesmente um motivo para viver mais um dia?

- Ótimo - aprovou o rei. - Quanto tempo?

- Os blocos de arenito para os trilitos no pátio interno já foram transportados para o local - respondeu Naranshada, enumerando os itens nos dedos. - Isso significa quinze pedras. A maioria delas ainda precisa ser esculpida, mas uma equipe de trabalhadores pode cuidar disso até mais pedras chegarem. Pouco mais de dez blocos de arenito foram cortados para o círculo externo - o que nos deixa mais quarenta suportes por encontrar - suponho que poderíamos fazer com que um número menor bastasse, mas subestimamos antes e talvez tenhamos de rejeitar algumas das pedras novas também. Eu preferiria errar para mais. É claro que isso não inclui os lintéis para uni-las.

Khattar franziu o cenho.

- Serão necessários muitos homens para carregar tantas.

- É verdade - concordou Jiritaren -, mas se tudo correr de acordo com os planos, deveremos ter condições de erguer os trilitos... - Ele olhou para Naranshada.

- Ah, com certeza no ano que vem - Ansha sorriu, ligeiramente bêbado. - Mas quando alguma coisa ocorre de acordo com os planos?

- É por isso que o lugar de fazendeiros é nos campos, não puxando pedras. - A voz gutural de Droshrad soou vinda de algum lugar atrás do rei. - Os deuses reduzem a colheita de cereais quando não são bem servidos. Eu o adverti antes, Rei Khattar - as reclamações do povo soam altas demais.

Micail lançou um olhar na direção do sobrinho do rei Khensu, que estava sentado com os jovens guerreiros do lado norte do salão e viu uma avaliação semelhante nos olhos que saltaram para encarar os dele. Como nos Reinos do Mar, um príncipe era a alma de sua terra. O pai de Micail havia preferido suportar tortura a trair essa confiança sagrada. Mas ali, Micail começava a se dar conta, o relacionamento entre o rei e a terra de um povo era ainda mais básico. A rainha servia à deusa sem nome da terra, que era eterna, mas o deus que a tornava fértil era representado pelo rei. Se as colheitas fossem escassas com demasiada freqüência, um homem mais viril teria de ser escolhido, e o velho rei precisaria morrer.

Ignorando o xamã, Khattar levantou uma das mãos, com os dedos bem separados.

- Vocês fazem cinco grandes pedras para as tribos mães, e o círculo exterior para os clãs.

- Bem, isso não é exatamente... - Naranshada começou a dizer, mas Jiritaren o cutucou com força.

A expressão de desdém de Droshrad se acentuou.

- Vocês trazem o poder do sol para dentro do círculo - Khattar começou a dizer, mas o resto de suas palavras foi apagado por gritos de vivas e os primeiros rufos destacados, breves e secos dos tambores foram ouvidos.

No princípio do banquete, a fogueira estava tão quente que um amplo espaço foi deixado ao seu redor. Mas à medida que as horas se passavam, as achas de madeira se consumiam, reduzindo-se à incandescência suave de brasas; seu calor residual bastava para manter o salão agradavelmente aquecido. Agora os batedores de tambor estavam se reunindo ao redor da fogueira, alguns ainda virando seus tambores em direção ao calor para retesar as peles, enquanto outros começavam a intensificar as batidas suaves e rítmicas que exigiam atenção. Todas as conversas se calaram quando o rufar começou.

O sobrinho do rei se levantou, gesticulando para chamar seus amigos, e aqueles que ainda estavam sóbrios o suficiente se juntaram a ele ao redor da fogueira. Com as mãos nos ombros uns dos outros, dançaram em volta da fogueira, inclinando-se e saltando em ritmo perfeito. E à medida que aceleravam o compasso, iam acrescentando número maior e mais complexo de movimentos com as pernas. Até que, primeiro um, depois outro tropeçou e saiu da fileira às gargalhadas. Micail não ficou surpreso ao ver que o último a continuar dançando era Khensu. Movia-se com mais força do que graça, mas a energia dele era impressionante. Com cabelos castanhos cacheados e um corpo musculoso, dava uma idéia de como o rei Khattar deveria ter sido na juventude. Qualquer um dos dois seria formidável numa luta, refletiu Micail, e ficou a se perguntar por que uma dança o lembrava de guerra. Então Khensu também parou, levantando as mãos para aceitar a aclamação do povo, enquanto o rei observava com uma expressão que sugeria que teria preferido que seu sucessor fosse recebido com um pouco menos de entusiasmo.

- Vocês levantam pedras depressa, minha primeiro. - resmungou Khattar. - Então ancestrais me dão poder. - Ele estendeu seu copo para ser servido novamente.

Micail suspirou e não disse nada, na esperança de que o questionamento se encerrasse ali. Tudo se resumia no poder, mas para que propósito e para quem? Khattar queria as pedras de maneira a se tornar preeminente entre as tribos locais. Tjalan as queria como um ponto central ao redor do qual pudesse reconstruir os Reinos do Mar, ou até o Império. Naranshada e Ocathrel e a maioria dos outros sacerdotes queriam-nas, se é que as queriam, como uma oportunidade para demonstrar sua capacidade e qualificações, uma prova de que houve algum propósito na sobrevivência deles... Eu me sentia assim, no início, pensou Micail, e talvez ainda me sinta. O que disse Ardral no outro dia? É como escultores fazendo uma estátua de um deus, só para ver se pode ser feita.

E para que eu quero o novo Templo? Era uma pergunta que só muito recentemente pensou em fazer a si mesmo; e agora havia se tornado uma inquietação constante em sua consciência.

- Ah! - suspirou Khattar roucamente, pondo a mão manchada de gordura e pegajosa de cerveja no ombro de Micail. - Disso você vai gostar! Olhe!

Houve um farfalhar de tecidos e murmúrios do Lado das Mulheres enquanto vários de seus bancos ficavam vazios. Os rapazes começaram a assobiar enquanto uma fileira de moças seguia para o clarão da lareira, com xales e saias de lã e couro com longas franjas que balançavam enquanto seus corpos ondulavam. Colares de madeira e osso entalhados de azeviche e âmbar oscilavam suavemente sobre os seios jovens. De olhos baixos e mãos dadas elas giraram numa roda, com os pés tecendo um padrão tão complexo quanto o compasso do bater dos tambores, enquanto uma flauta de osso trinava e cantava. Os corpos esguios se curvavam e se endireitavam como jovens bétulas na orla da floresta, como salgueiros nas margens de um riacho de águas encrespadas. Mesmo Micail não pôde deixar de sorrir.

- Você gosta de nossas garotas, não é? - O rei limpou a cerveja de seu bigode e sorriu.

- Elas são tão bonitas quanto jovens novilhas num campo verdejante... - respondeu Micail, e o rei se sacudiu em grandes gargalhadas.

- Ainda vamos fazer de você um touro, forasteiro!

Os criados circularam em meio à aglomeração de gente com cestas de nozes e bagas secas, as últimas da abundância do outono, e muitas esferas duras de queijo. Micail limpou as mãos engorduradas na túnica, pegou um punhado de nozes, e depois várias bagas, recordando-se tristemente das incontáveis tigelas filigranadas, cheias de água perfumada que em casa também teriam estado circulando para que os convidados lavassem seus dedos. Ele também sentia falta dos copos finos cheios até a borda dos vinhos mais fragrantes. Em vez disso, evidentemente, teria de beber ainda mais da cerveja nativa que já o estava fazendo sentir-se meio tonto. Mas aquele parecia ser o costume ali - os homens nos bancos mais afastados já estavam visivelmente bêbados - e quando a próxima jovem criada veio encher seu copo, Micail não recusou.

As donzelas dançando ondularam de volta para o setor delas no salão, mas os tambores não cessaram a cadência latejante. Os convivas, em vez de relaxar dedicando-se às conversas que assinalariam o fim de uma cerimônia formal, sentaram-se ainda mais empertigados em seus bancos e esperaram, num silêncio carregado de excitação.

Afinal, o rufar dos tambores cessou e a larga porta de entrada se abriu. Seu ranger alto soou desagradavelmente audível na quietude do salão, e alguém entrou. Ninguém reparou na porta se fechar enquanto um vulto esguio avançava em direção à fogueira - uma moça envolta numa capa longa de pele de urso, com os cabelos castanho-acinzentados presos em um nó no alto da cabeça, e as pontas descendo em cascata por suas costas num rabo reluzente.

O rei se levantou, deu um passo adiante e olhou para ela com uma expressão indecifrável.

- Meu pai, eu o saúdo. - O braço fino da moça, coberto de braceletes de âmbar, emergiu das dobras da capa de pele para tocar-lhe a testa, os lábios e o peito.

- Minha filha, eu dou a você minhas boas-vindas - respondeu o rei. - Traz a bênção de sua mãe para nosso festival?

- Trago... e trago também a da Mãe! - respondeu ela. dando um passo adiante com uma graça centrada que Micail reconheceu, com surpresa, como a marca de uma disciplina espiritual. Aquela, então, devia ser Anet, a filha do rei a respeito de quem Elara lhe havia falado, cuja mãe era suma sacerdotisa no lugar.

O rei Khattar tornou a sentar-se.

- Então conceda-as - disse ele baixinho.

A moça sorriu de novo e, virando-se para os tocadores de tambor, afrouxou o punho que segurava a pele reluzente da capa e a deixou cair. Os olhos de Micail se arregalaram, pois debaixo dela a moça usava apenas uma quantidade de jóias de azeviche e âmbar, e uma saia curta de mechas de fios torcidos de lã amarrada no alto e na barra, com tiras trançadas. O sussurro que percorreu o salão foi de prazer. Evidentemente, aquilo era esperado, fazia parte da cerimônia, e por que haveria de surpreender Micail, que tinha visto as jovens sajis da Terra Antiga dançarem vestidas apenas com seus véus cor de açafrão?

Os tambores mais tesos ressoaram alto e brevemente uma vez, duas vezes, e de novo quando Anet penetrou no espaço vazio diante da fogueira, com os braços bem torneados erguidos bem ao alto. Então os outros tambores irromperam com suas próprias exclamações, numa interação sem palavras de pergunta e resposta que fez o pulso de Micail bater acelerado numa resposta fogosa em suas veias - e, no entanto, a dançarina nem sequer tinha se movido. Só quando a estatueta de âmbar polido que repousava entre seus seios jovens fulgurou com luz foi que ele se deu conta de que cada centímetro da pele dela estava cintilando, em tremores controlados que a percorriam subindo dos joelhos ao peito e descendo de volta.

- Ela canaliza poder - disse Naranshada numa voz baixa, respeitosa, e Jiritaren assentiu, bêbado.

- Se isso é o que eles ensinam a elas em Carn Ava, deveríamos mandar nossas garotas para lá! - respondeu Jiritaren.

Micail os ouviu, mas não conseguia falar. Era demasiado difícil respirar e sua pele latejava. Ele tinha consciência de cada fio de cabelo na nuca - e o próprio ar parecia crepitar de tensão. Aquela moça não era em nada parecida com sua amada, mas mesmo assim havia um foco, uma graça em sua postura, que estranhamente o faziam lembrar de Tiriki quando fazia suas preces.

Quase imperceptível mente ela começou a dobrar os joelhos, os braços gradualmente serpeando para baixo ao seu redor, para cima de novo, num movimento sinuoso contínuo que a levou adiante para mover-se em espiral ao redor dos altos pilares que sustentavam os telhados. A luz da fogueira clareava e fazia rebrilhar seus cabelos castanhos de modo que eles adquiriram o mesmo dourado malhado da relva seca nas colinas, quando tocada pelo sol. Aos olhos de Micail era como se ela brilhasse com o próprio esplendor de Manoah, e ele pensou, Ela está dançando Luz para trazê-la de volta ao mundo...

Quatro vezes ela passou, traçando um trançado de idas e vindas, entre o círculo de pilares de sustentação da casa. A cada vez fez uma pausa, deteve-se voltada bem de frente para uma direção diferente, caiu de joelhos e arqueou o corpo para trás, desdobrou e esticou ao mesmo tempo pernas e braços, enquanto suas costas se mantinham curvadas para trás como um arco até que com uma súbita virada, ficou de novo bem ereta, „ de braços erguidos ao alto, para começar de novo. Com um passo rodopiante lateral, ela fez um último círculo, recolheu sua capa de pele de urso e a atirou ao redor do corpo. Foi como se a luz tivesse desaparecido do aposento. Ela ficou parada, sorrindo ligeiramente, enquanto a platéia soltava a respiração num suspiro coletivo, então virou-se e saiu rapidamente em meio à multidão rumo à porta aberta.

Por um breve instante, quando ia passando, seu olhar encontrou o de Micail. A moça tinha olhos verdes.

- Que moça espantosa! - exclamou Jiritaren, com um fervor um tanto excessivo.

- É verdade. Exatamente como a mãe dela quando era jovem, e na primeira vez em que a vi, fugi com ela. - O rei sorriu com expressão saudosa, os dentes ruins aparecendo em meio à barba grisalha. - Tenho de encontrar um bom marido para Anet antes que algum sangue quente com mais colhões que bom senso decida me imitar! - O olhar perspicaz dele capturou o de Micail. - Khayan-e-Durr diz que eu deveria casá-la com o senhor, homem santo estrangeiro. O que o senhor me diz disso?

Micail o encarou, chocado. Mas eu sou casado com Tiriki, pensou e ao mesmo tempo, deu-se conta de que simplesmente não ousava responder. Foi Naranshada quem o salvou.

- Grande Rei, apreciamos a honra que nos concede, mas suplico que se recorde de que Milorde Micail pertence à família real de nosso povo - e não pode fazer qualquer aliança sem consultar o príncipe Tjalan - concluiu Ansha, quase com a mesma calma e naturalidade com que falaria se soubesse, antes, o que iria dizer.

Mais atrás, além dos ombros corpulentos de Khattar, Micail viu Droshrad fazer uma careta de desdém, se possível mais acentuadamente do que já fizera antes. Aquela proposta também havia sido um choque para o xamã. A percepção de que poderia haver mais motivos do que a sua própria confusão para evitar uma resposta imediata se apoderou de Micail com uma clareza fria.

- É verdade... - gaguejou, e observou a expressão do rei se fechar, com fúria.

- Então leve um conselho para seu outro príncipe, de minha parte - rosnou Khattar, falando em seu atlante de sotaque carregado. - Vocês, Povo do Mar, dizem que querem me servir, me tornar importante entre as tribos. Mas sem a Mulher Real, eu não tenho poder algum! Estudem a resposta como quiserem, mas não demorem muito. Sem laço de sangue, vocês perderão sua mão-de-obra, suas pedras e tudo mais que está aqui.

Treze

- Mamãe! Bonito! Viu? - Domara saltitou adiante apontando para os melros que pontilhavam a relva, as penas lisas e lustrosas iridescentes ao sol. Na noite anterior a chuva tinha sido pesada e os passarinhos estavam se banqueteando com as minhocas boiando na terra alagada. Tiriki tentou agarrar a criança e, sem conseguir, se endireitou, com um sorriso. Domara tinha festejado seu terceiro aniversário na última primavera e vivia em constante movimento, seus cabelos ruivos claros chamejavam ao redor do Tor como uma pequenina chama.

A filha de Forolin, Kestil, caminhava com a devida dignidade de seus sete anos.

- Por que você corre atrás deles? Assim eles fogem voando... Domara olhou para trás por cima do ombro.

- Bonito! - disse novamente, batendo os braços roliços. Tiriki a tomou entre as mãos e a levantou bem alto.

- Voa, passarinho! - cantou ela. - Mas nunca vá tão alto que se esqueça do ninho. Suas amiguinhas Mudlark, Turtle e Linnet estão esperando para brincar com você, sabia? - Ela acomodou a criança no quadril e começou a seguir pelo caminho de pranchas que conduzia à antiga aldeia de verão que já há mais de ano o povo do pântano estava reconstruindo de modo a torná-la seu lar permanente. Ela sentiu de novo uma pequena vibração de orgulho, enquanto recordava o primeiro ano que haviam passado naquela terra, quando se tornara claro que os nativos pensavam que os atlantes eram loucos de quererem tentar viver nos pântanos o ano inteiro.

Contudo, ao mesmo tempo sabia que se eles a respeitavam, veneravam Chedan, que pessoalmente tratou e cuidou de tantos deles durante a peste. Quando Chedan caminhava pela aldeia, eles traziam seus filhos para receber sua bênção, e estavam catando penas de falcão para fazer-lhe um manto cerimonial. Era por causa dele, não por Tiriki, que tinham concordado em viver ali durante o inverno, e também para desenterrar e colocar em posição os pedregulhos que o mago usava para erigir a primeira construção de pedras da comunidade.

Tiriki suspirou e concluiu que não estava sendo ciumenta e sim apenas um pouco conservadora. A noção de um homem como praticante da arte da cura lhe era perturbadora, tão estranha quanto a idéia de uma mulher, mesmo ela própria, ser a líder e celebrante das cerimônias formais. Entretanto, na Terra Antiga, seu próprio pai havia sido um mestre da arte da cura, cujos tratados sobre o tema poderiam até ser considerados pelos Senhores do Carma uma reparação para seus pecados.

“Novos costumes para novas terras”, seu velho professor, Rajasta, o Sábio, costumava dizer. Tiriki permitiu que seus pensamentos vagassem. Talvez se eu tivesse prestado mais atenção às suas profecias, achasse mais fácil me adaptar. Mas talvez não seja de esperar que seja fácil.

Ao alto, o sol ardia intenso em meio às nuvens e às brumas do pântano, deixando apenas um levíssimo véu de vapor a encobrir o céu. Ela e Domara caminhavam em meio a um círculo de claridade cujas bordas ficavam borradas na incerteza. Vista de longe a aldeia parecia tremeluzir, ora surgindo, ora desaparecendo de vista; mesmo assim, quando se aproximaram, viram mulheres moendo grãos, partindo favas que continham feijões ou cortando tubérculos diante de suas portas, e homens remendando redes ou revestindo de penas suas flechas.

Muitos aldeões levantaram uma das mãos em saudação e Domara tagarelou retribuindo o cumprimento. Tiriki com freqüência a deixava brincar com as crianças da aldeia e, como resultado, Domara dominava, sem sotaque e com a mesma fluência, o gutural dialeto local e a cadenciada gramática sutil dos Reinos do Mar.

- Morgan, está atrasada. Feliz que está bem - disse a esposa de Heron, uma mulher alegre e bem disposta com o nome desconcertante de Nettle, que significava urtiga.

Os nativos tinham feito muito mais progressos no aprendizado de línguas estrangeiras do que Tiriki; ela, porém, de maneira geral conseguia decifrar o significado da maioria dos nomes do povo do Lago. Morgan, ela repetiu silenciosamente. Chedan dissera-lhe que a palavra descrevia um espírito do mar em várias lendas de Leran, mas depois dera uma gargalhada e não falara mais no assunto.

Agora, como é mesmo que eles chamam Chedan? Ela tentou se lembrar. Gritador do Céu? Asa-de-Luzl

- Falcão do Sol! - exclamou ela. - Você viu Falcão do Sol hoje?

- Ele ir para nova casa de espírito. - Nettle partiu com um estalo mais um punhado de favas-dos-pântanos. - Eles discutir sobre pedras. Homens são assim mesmo... - ela deu de ombros.

Tiriki assentiu simpaticamente, mas foi distraída pelo mesmo ligeiro tremor de emoção que sempre sentia ao pensar no novo Templo - ao mesmo tempo uma restauração do esplendor tradicional e um compromisso com a nova terra. Forolin havia demonstrado ser especialmente útil, pois vinha de uma família que havia gerado mais construtores que mercadores. Sua experiência prática supria o conhecimento teórico de Chedan tão bem que Tiriki estava começando a pensar que o projeto realmente pudesse dar certo.

E por que não? - perguntou-se. Já conseguimos fazer muitíssimas outras coisas. Nos quatro anos desde que eles haviam chegado, as primeiras choupanas toscas tinham sido substituídas por estruturas sólidas de toras de madeira, calafetadas e revestidas de argamassa para protegê-los das intempéries. Além dos telhados de colmo da aldeia Tiriki via ovelhas pastando nos prados e, em terreno mais alto, campos de trigo e cevada ondulavam verdes e prateados sob a brisa.

Ela supunha que não só as construções, mas as próprias pessoas tivessem mudado, embora a transformação tivesse sido gradual. Restavam apenas uns poucos dos gloriosos e reluzentes trajes cerimoniais de Atlântida, mas raramente eram usados e, à medida que as vestes comuns de linho se desfizeram em pedaços, muitos dos refugiados começaram a usar roupas simples feitas de pele de cervos, como o povo do pântano.

Mas isso pode não durar, disse a si mesma, avistando uma das mulheres da aldeia, de maneira desajeitada, penteando lã com a carda. Agora que os mapas do sacerdote Dannetrasa tinham permitido que os marinheiros de Reidel encontrassem mais ovelhas para importar, roupas de fio tecido se tornavam mais apreciadas e Liala e as mulheres sajis começavam a beneficiar a fibra extraída do linho bravo local, tingindo-a com uma erva nativa que lhe dava um belíssimo tom azul.

E, se não tomarmos muito cuidado, os homens acabarão também vestindo azul, pensou, com um calafrio involuntário de repulsa. Para ela, o azul seria sempre a cor de Caratra, sagrada para suas sacerdotisas.

Quando se aproximaram do limite da aldeia, um bando de crianças saiu correndo de uma das casas; as vozes delicadas pipilavam como passarinhos. Domara respondeu na mesma língua e Tiriki soltou a filha para ir se juntar a elas. Certa mulher esguia e morena as seguia e Tiriki a saudou.

- Receba a bênção do Dia, Redfern. Posso deixar Domara com você de novo? Vou dar aulas na pequena ilha, mas voltarei ao pôr-do-sol.

Redfern as sentiu sorrindo.

- Vamos cuidar. Kestil - acrescentou ela, virando-se para a filha de Forolin -, você ajuda? Manter Domara longe da água assim ela não cai nela?

- Ajudo! - respondeu Kestil alegremente na língua do povo do pântano, antes de sair correndo atrás dos filhos de Net-tle, Mudlark e Linnet.

Pelo menos, pensou Tiriki com resignação, Domara sabe nadar.

O pequeno morro rochoso, situado no final do caminho de pranchas, ficava cercado de água com tanta freqüência que, de maneira geral, era chamado de ilha. Tiriki havia acabado por se dar conta de que ali, naquele cenário primitivo e desconhecido, terra, ar e água não tinham as mesmas identidades claras e distintas que em Ahtarrath. Em meio às brumas todas tinham a tendência de se confundir umas com as outras e perder a nitidez, exatamente como as distinções de casta entre sacerdote e marinheiro e nativo haviam começado a se apagar.

Os acólitos e outros que eram seus alunos estavam esperando na clareira que haviam entalhado e aberto no emaranhado de samambaias e amieiros no meio da ilha. A energia daquele lugar possuía certa qualidade juvenil que o tornava apropriado para o ensino dos jovens. Não que seus alunos fossem assim tão jovens. Por equilibrar a proporção de sacerdotes e sacerdotisas, eles haviam incluído Reidel nas fileiras do noviciado do sacerdócio e, depois de longos debates, também o marinheiro Cadis.

Tiriki não duvidava de que tivessem feito bem em admitir Reidel. O mar lhe havia ensinado a prever as correntes de força e todo capitão precisava aprender a ter o controle e o comando de si mesmo antes de poder comandar homens. A firmeza de sua colaboração já demonstrava ser valiosa nos rituais. Os motivos pessoais de Reidel para aceitar o treinamento eram menos claros, embora Tiriki desconfiasse de que Damisa fosse um deles. Ela balançou a cabeça num cumprimento e, vendo um sorriso suavizar suas feições fortes, observou que Reidel era realmente um homem muito bonito.

- Hoje, nosso tema é o Outro Mundo - começou ela. - Nossas tradições ensinam que existem muitos planos de existência, dos quais o plano físico é apenas o mais evidente. Os Adeptos já se aventuraram nos mundos do espírito e os mapearam, mas será que estes mapas são sempre os mesmos?

Ela deixou o olhar vagar ao redor do círculo. Pelo menos naquele dia, a vigorosa Selast, que parecia tremer de energia mesmo quando imóvel, estava sentada ao lado do noivo Kalaran. Desde que ele havia começado a trabalhar regularmente com Chedan, a carranca que outrora costumava desfigurar suas feições de traços finos se havia abrandado, mas Tiriki desconfiava de que ele provavelmente achasse mais difícil aceitar Cadis e Reidel porque ainda sentia falta de seus velhos companheiros, os jovens acólitos que se tinham perdido. Ao lado dele, com expressão meditativa, Elis corria os dedos pela terra escura, mas nem Damisa nem Iriel estavam presentes.

A ausência de Damisa não era intencional. De fato, era culpa de Iriel. Se Liala não tivesse pedido a Damisa que levasse um recado a Iriel, Damisa teria ido direto para a aula e jamais teria precisado se preocupar com a moça mais jovem. Mas, quando Damisa finalmente chegou ao abrigo de folhagem que Iriel fez para si mesma em meio aos salgueiros, a garota não lhe deu mais do que um olhar rápido antes de voltar a cravar os olhos no emaranhado de arbustos espinhosos de amoras-pretas para onde olhou fixamente antes.

- Liala diz que Alyssa continua a se sentir mal - disse Damisa rapidamente -, de modo que quer que você colha mais daquelas flores secas de milefólio da próxima vez em que subir a colina.

Iriel não falou nem se moveu.

- Você pode levá-las para ela depois da aula que, a propósito, é onde deveria estar. O que você está fazendo! Não estamos na estação de amoras.

- Psiu, calada. - Por mais gentilmente que a palavra tivesse sido dita, era uma ordem e Damisa viu-se obedecendo antes de ter tido tempo para questioná-la. Instintivamente, pôs-se de joelhos ao lado da garota mais jovem. Um momento se passou... e depois outro. Não havia qualquer som, exceto o do vento que sussurrava nos salgueiros e o borbulhar das águas do córrego que passavam devagar. Ela não conseguia ver nada que explicasse o olhar paralisado de Iriel.

- Francamente, Iriel, está passando tempo demais com Taret... Anda vendo coisas! - resmungou Damisa. - Agora ouça. Este lugar é muito bonito, mas temos de...

- Calada! - Desta vez havia uma clara insinuação de medo na palavra e, percebendo-a, Damisa se calou de novo. Abalada, começou a se afastar de Iriel, meio que esperando, a qualquer instante, que a outra garota fosse agarrá-la de repente e cair na gargalhada.

- Por favor! - insistiu Iriel. - Não se mexa! - Não havia qualquer som nas palavras, apenas o movimento dos lábios da garota, e o tempo todo, em momento algum Iriel nem sequer piscou, nem tampouco desviou o olhar de fosse lá o que fosse que estivesse observando tão fixamente - uma escuridão mais profunda em meio aos arbustos e vegetação rasteira na qual Damisa ainda não havia reparado.

E então houve um ruído, uma espécie de rasgar molhado e um farfalhar nos galhos espinhosos das amoreiras-silvestres. Inesperadamente, Iriel relaxou.

- Que é? - Damisa não conseguiu impedir-se de perguntar.

- Um espírito da floresta - sussurrou Iriel com um sorriso estranho -, mas agora ele parou de ouvir. Se você se mover muito silenciosamente e bem devagarzinho, também poderá vê-lo.

Damisa saiu um pouco de sua imobilidade, mas antes que pudesse sequer contrair o ombro, Iriel sibilou de novo:

- Eu disse devagar! Está quase no fim. Quando realmente tiver acabado, irá embora e aí nós poderemos ir.

Com os cabelos da nuca arrepiados, Damisa se moveu centímetro por centímetro até conseguir concentrar o foco da visão na sombra em meio aos arbustos. De início, parecia exatamente com uma centena de outros lugares na floresta dos pântanos, mas o vento se deslocou e ela sentiu cheiro de sangue e de mais alguma coisa: um cheiro rançoso, selvagem.

Ou nós duas ficamos inteiramente loucas, concluiu Damisa, ou tem alguma coisa lá.

Mais uma vez, examinou com atenção o cenário silencioso, concentrando-se ferozmente em cada cogumelo, cada tufo de relva, até que reparou num galho grosso marrom, na borda da escuridão, um galho peludo que terminava num casco fendido preto e reluzente. Àquela altura, Damisa já havia tirado a pele de um número suficiente de veados para reconhecer que era disso que se tratava, mas por que estava deitado ali daquele jeito?

A perna do veado estremecia espasmodicamente, e a moça ouviu de novo o estranho som de rasgar e de trituração.

Talvez com o choque ela tenha feito algum ruído, pois os galhos espinhosos se moveram e, de repente, viu claramente uma cabeça maciça, de queixo pesado, o focinho ensopado, gotejando sangue, e o rebrilhar de olhos cor de âmbar-escuro. Os galhos dos arbustos se ergueram de novo quando a criatura, com um balanço brusco, pôs-se de pé, os maxilares ainda cerrados ao redor da perna do veado, e começou a arrastá-la consigo.

Por um momento Damisa viu o animal inteiro, uma silhueta escura contra a luz do dia, a forma era a de um homem vestido numa pele grossa marrom escura. Um instinto forte que não tinha nada a ver com seu treinamento de templo a manteve absolutamente imóvel, cheia de respeito e temor por uma força mais antiga que a própria Atlântida.

- Uma ursa! - exclamou Iriel, quando o estalar de galhos se partindo aos poucos desapareceu. - Você viu as tetas inchadas? Ela deve ter filhotes escondidos por perto!

- Uma ursa... - Aquela parecia ser uma palavra pequena para conter uma força daquelas proporções. Damisa certa vez tinha visto um urso, no Grande Zoológico de Maravilhas Alkonath, mas ele era consideravelmente menor e de cor diferente, e tinham-lhe garantido que só comia plantas e frutas. Entretanto, houve muito poucos animais nos Reinos do Mar, exceto por aqueles que serviam aos homens.

- Isso é tudo de que precisamos. - Damisa tentou recuperar a compostura. - Mas Otter não disse que não havia animais perigosos neste vale?

- Não há, pelo menos não costuma haver. É por isso que isto é tão maravilhoso - declarou Iriel, seu rosto iluminado pelo entusiasmo. - Taret diz que a Mãe Ursa é o mais antigo dos espíritos, mãe de todos os poderes animais. É sinal de boa sorte vê-la!

Damisa não estava muito certa com relação à sorte, mas não duvidava do poder. Ao olhar para dentro daqueles olhos dourados, havia sentido, nas profundezas de seu espírito, um frêmito de reverência e temor diferente de qualquer coisa despertada por um ritual.

Iriel prosseguiu:

- Taret diz que as Ancestrais que viviam aqui a reverenciavam. Que tinham cavernas onde faziam magia. Algumas delas podem ainda existir! Não as Ancestrais, mas as cavernas. Talvez a ursa tenha descoberto uma e agora viva nela! Seria um lugar de enorme poder...

- Isto é um pântano, Iriel! - Damisa rangeu os dentes, exasperada. - Como poderia haver cavernas aqui?

Iriel se virou; os olhos se estreitaram.

- Existem cavernas no Tor - retrucou, como se aquilo decidisse a questão. - Vamos - acrescentou, finalmente se levantando. - Você não disse que estavam esperando por nós?

Um costume de Atlântida que os imigrantes tinham conseguido recriar era o de se reunirem para a refeição da noite. Em Ahtarrath, os acólitos jantavam numa câmara quadrada iluminada por lamparinas pendentes e pintada com afrescos de imagens entrelaçadas dos polvos cuja carne macia era um ingrediente básico da cozinha de Atlântida.

Ao contrário das habitações nativas, o salão de jantar que os atlantes construíram no Tor era retangular, com portas dispostas ao longo das paredes em intervalos regulares, que podiam ser abertas quando o tempo permitia. Ali, a comunidade inteira - exceto por alguns marinheiros que se haviam casado com mulheres nativas e viviam com elas na aldeia, reunia-se ao redor de longa lareira central cuja fumaça subia em espirais pelo colmo do teto pontiagudo.

Numa extremidade, ficava a pequena estátua de Caratra sobre um plinto feito com uma robusta tora de madeira. Tiriki reparou com um sorriso que alguém já havia colocado um ou dois ramalhetes de ásteres com flores de cor púrpura diante da deusa. Ficou a se perguntar quem teria sido e que palavras, se é que houve alguma, teriam sido usadas.

Os refugiados ainda falavam de Caratra como Ni-Terat, enquanto os nativos a chamavam de Mãe da Lareira, mas todos encontravam conforto diante de Seu olhar gentil. Naquele dia, contudo, Tiriki se descobriu sentindo-se um pouco mais deslocada do que de hábito. Em sua terra, ela havia servido à Luz sob a forma poderosa, mas distante, de Manoah, cuja presença só era vivenciada nos êxtases mais rarefeitos do transe. Mas no Tor eles viviam muito próximos da terra e parecia mais apropriado que a Mãe que nunca abandona Seus filhos devesse ter Seu lar ali, no centro da comunidade.

Tiriki olhou de novo ao redor para o salão de jantar repleto e sorriu, recordando-se das palavras de seu mestre Rajasta: “Mas é o homem, não Manoah, quem necessita de homenagens e testemunhos de estima de pedra. Ele nunca pode ser esquecido. O Sol é Seu próprio monumento...” E além do mais, ela se deu conta, este é um lugar de Luz.

E era mesmo. No verão, como se para compensar sua falta de força pela duração da luz, o sol se mantinha a brilhar até quase tarde da noite, seus longos raios penetravam oblíquos pelas portas voltadas para o oeste, enchendo o ambiente de uma incandescência dourada. A luz cor de mel escondia as deficiências das roupas que vestiam, transformando a infinidade de manchas e remendos em enfeites sutis. Tiriki sentiu um inesperado ímpeto de orgulho. Embora ainda pudesse reconhecer a mesma orgulhosa casta de sacerdotes que havia governado a Terra Antiga, os semblantes que agora se viravam para dar-lhe boas-vindas estavam marcados por rugas de persistência e iluminados por um esplendor que ela nunca tinha visto no Templo de Ahtarrath, e parecia-lhe que uma nova sabedoria brilhava até nos olhos sábios do velho Chedan.

Enquanto Tiriki ocupava seu assento à cabeceira de uma das mesas compridas, com Domara bem perto a seu lado, começou a fazer uma lista de chamada mental. Reidel e os marinheiros solteiros sentavam-se juntos a uma mesa, mantendo a disciplina de bordo. Chedan encabeçava outro grupo, com Forolin e sua família de um lado e os sacerdotes Rendano e Dannetrasa do outro. As mulheres sajis não estavam presentes - geralmente faziam suas refeições em separado com Liala e Alyssa - mas a mesa de Tiriki estava longe de ser tranqüila porque os acólitos se sentavam com ela.

Damisa e Selast estavam sentadas juntas, como faziam ultimamente, e Elis discutia com Kalaran, também uma ocorrência comum. Mesmo agora, Kalaran não parecia dar-se bem com qualquer um dos outros, como se o luto pelos companheiros que havia perdido ainda o impedisse de encontrar satisfação na companhia dos que restavam. Tiriki franziu o cenho ao reparar que o lugar ao lado dele estava vazio.

- Onde - perguntou em voz alta - está Iriel?

Os acólitos olharam para ela e depois uns para os outros.

- Eu não a vejo desde a aula de hoje à tarde - disse Elis. - Você afinal não nos contou por que as duas chegaram tão tarde, Damisa. Ela por acaso estava trabalhando em algum projeto que possa ter retomado e de novo se esquecido da hora?

Damisa sacudiu a cabeça jogando para trás os cabelos acaju, as sobrancelhas se franzindo pensativamente.

- Não é um projeto - respondeu ela afinal. - Mas eu tinha a intenção de contar, nós nos atrasamos porque vimos um urso. - A voz dela se elevou e as pessoas das outras mesas se viraram para olhar.

- Um quê?!. - exclamou Reidel. - Existem ursos por aqui?

- Pelo que entendi, por muito tempo não existiram - respondeu Damisa. - Iriel ficou radiante. Aparentemente a Mãe Ursa é um poder imenso por aqui e o povo do pântano costumava realizar rituais para ela em cavernas sagradas. - Ela revirou os olhos, ainda não convencida com relação à última parte.

- Ela não teria saído à procura do urso? - Elis deu voz ao pensamento que preocupava a todos. Os olhos de Tiriki encontraram os de Chedan alarmados.

- Temos de encontrá-la! - Reidel empurrou o banco e se levantou, reassumindo a autoridade de comando. - Os pântanos podem ser traiçoeiros e não queremos perder mais ninguém. Vamos nos dividir em equipes para fazer grupos de busca. Tiriki e Chedan podem coordenar daqui, e Elis também deveria ficar, para o caso de precisarem de um mensageiro. Cadis, quero que você procure ao redor do povoado; assegure-se de que ela não esteja lá. Teiron, faça uma busca na área ao redor do lago, e depois corra até a aldeia e peça a Heron para mandar caçadores procurarem os rastros do urso. Otter vai querer ajudar, ele parece „ ter afeição por Iriel. Damisa, você, Selast e Kalaran venham comigo. Temos de fazer uma busca no Tor e os aldeões não vão lá...

Damisa se agarrou num outro galho quando seu pé escorregou de novo e ficou pendurada nele, recuperando o fôlego arquejando roucamente. Acima dela a encosta do Tor se avolumava imensa como a Montanha Estrela delineada contra o céu noturno. Ela deixou escapar um grito quando dedos ásperos se fecharam ao redor de seus braços.

- Sou só eu - murmurou Reidel em seu ouvido. Ela relaxou apoiada em seu braço forte com um suspiro, um pouco surpreendida com a sensação de segurança que o apoio dele lhe dava. As tochas que trouxeram tinham se apagado há algum tempo, e o mundo havia mergulhado de novo numa confusão de sombras; o braço de Reidel era o único ponto de certeza em todo o mundo inóspito.

- O Tor ficou maior ou será que estamos cobrindo o mesmo terreno sem parar? - perguntou ela quando conseguiu falar de novo.

- Parece isso mesmo - concordou Reidel tristemente. - Todas estas árvores me deixam nervoso. Quase me fazem desejar que estivéssemos de volta ao mar!

- Pelo menos podemos ver as estrelas. - Ela não conseguia perceber qualquer tremor no braço dele. - Elas não nos vão guiar tão bem em terra quanto no mar?

- Isso é fato. - Ele inclinou a cabeça para o céu, onde um entrelaçamento de galhos parecia envolver numa rede o brilho intenso da Roda. - Na verdade... - ele se calou por um momento, e quando falou de novo havia um acanhamento em sua voz antes ausente. - Na verdade, não desejaria estar em qualquer outro lugar senão aqui. - Muito delicadamente, ele a soltou. - Espero que Selast e Kalaran tenham tido mais sorte do que nós - acrescentou ele, e olhou para o alto mais uma vez, sem dar a Damisa oportunidade de responder.

O que eu deveria ter dito ? - perguntou-se ela. Como posso perguntar a ele o que quer dizer, se eu já sei? No mundo antigo, mesmo se ela não tivesse sido destinada ao Templo da Luz, uma moça de sua posição poderia nunca falar com alguém como Reidel, muito menos imaginar como seria deitar-se cingida por aqueles braços fortes. Damisa sentiu de novo o calor do corpo dele quando Reidel parou para ajudá-la a passar sobre uma árvore caída. Ela temia a necessidade da união com um homem, mas pela primeira vez lhe ocorreu que, afinal, talvez não fosse tão terrível. Sorrindo na escuridão, ela seguiu Reidel na subida da encosta.

- Pobre da velha Alyssa... - Sim, eu sei o que está pensando!

- A pitonisa afastou os cachos encaracolados de cabelos maltratados que lhe cobriam o rosto e observou atentamente Tiriki com um sorriso enviesado. - Porém, se eu sou louca, por que perguntar a mim se você perdeu mais uma acólita? E se sou lúcida, por que esperar até a meia-noite para me perguntar?

Tiriki não conseguiu encontrar uma resposta. Seu olhar espantado buscou Liala, que apenas deu de ombros e sacudiu a cabeça. A pitonisa geralmente estava limpa e penteada quando Liala a trazia para qualquer reunião, mas aparentemente o controle de Liala não se estendia à casa da própria Alyssa, que era uma bagunça de alimentos comidos pela metade, com um amontoado de estranhos fragmentos e peças desencontradas de recordações da Terra Antiga dispostos ao lado de pedras de formatos singulares e estranhas construções de gravetos e pinhas.

- A sanidade não está em questão no momento - eu preciso de sua visão! - Tiriki se calou subitamente, ao se dar conta de que a ansiedade a havia traído. De maneira geral, pesava suas palavras muito cuidadosamente. Relaxou um pouco quando Alyssa começou a rir.

- Ah, sim. A loucura vê mais claro quando o destino custa mais caro. E uma vez que a Pedra Omphalos nunca pára de falar comigo... - Ela gesticulou em direção à parede, além da qual a Pedra repousava envolta em sedas no armário de madeira na choupana construída para abrigá-la.

Aquela era uma outra coisa, Tiriki se deu conta com um calafrio, a respeito da qual ela não pensava fazia tempo demais. Sustentou o olhar de Alyssa com o seu e esperou.

Alyssa fechou os olhos e virou o rosto.

- A garota não está ferida, mas se está em segurança não sei dizer.

- Quê? Onde?

- Encontre o coração do outeiro. Vai ter revelações a mais não poder. - Os cabelos balançaram para a frente e lhe cobriram o rosto mais uma vez, enquanto ela recomeçava a se balançar lentamente para trás e para frente em seu banquinho.

- Que quer dizer? O que a senhora vê? - perguntou Tiriki, mas a resposta de Alyssa foi um cantarolar sem palavras.

- Espero que tenha sido útil - disse Liala com um suspiro - porque não vai arrancar mais nada dela esta noite.

- Isso me dá uma idéia - respondeu Tiriki depois de um momento. - Os outros já procuraram nas cavernas, mas talvez eu veja sinais que eles não tenham podido ver. - Ela arquejou quando seu olhar mais uma vez foi atraído pelo estranho arranjo de pedras, gravetos e outros objetos no chão de Alyssa. Ela compreendeu subitamente que aquilo era um modelo de como o Tor deveria ser visto do alto. - Se alguém já não os tiver visto - acrescentou com a confiança renovada.

- Eu vou com você. - Liala se levantou e apanhou um xale. - Felizmente, a saji Teviri está aqui e pode ficar de olho nela. Geralmente, Alyssa passa deste estado para um sono profundo e só acorda depois do meio-dia.

À medida que Tiriki e Liala se aproximavam, as chamas das tochas tremulavam intensamente sob a corrente de ar frio que saía da boca da caverna. Taret tinha-lhe contado muitas coisas a respeito daquele lugar, mas Tiriki sempre se via ocupada demais para tirar algum tempo para explorá-lo. Ou talvez ela tivesse tido medo. Atentamente observou a escuridão, com uma mescla de excitação e apreensão.

- Talvez devêssemos deixar isto aqui para alguns de nossos jovens. - Liala examinou o solo irregular da passagem com indecisão.

- Você amoleceu! Além disso - Tiriki acrescentou em tom mais sério -, se Iriel precisa de nós, ela não poderá esperar até que os encontremos. - Sem esperar para ver se Liala a seguia, começou a avançar pela beira do riacho.

As pedras, embranquecidas pelas águas ricas em cal, reluziam sob a luz das tochas. Em alguns lugares os minerais tinham se cristalizado a meio caminho e pendiam do teto do túnel numa série de pirâmides de cabeça para baixo. Em suas pontas, gotas d’água se formavam e caíam. Quando ela estendeu a mão para se apoiar na parede inclinada, sentiu a pedra úmida sob a palma da mão.

Seria aquela passagem natural ou teria sido criada por homens? Na maioria dos pontos a pedra havia sido desgastada pela água até ficar lisa, mas havia lugares acima que pareciam ter sido cinzelados. Curiosa, Tiriki acelerou o passo, de alguma forma mantendo o equilíbrio sobre as pedras escorregadias. Foi somente quando uma curva fechada subitamente a deteve que ela se deu conta de que Liala não estava mais atrás dela. Baixinho, ela chamou o nome da mulher, mas o som logo foi engolido pelo sussurrar de água sobre pedra.

Por um momento ficou parada, refletindo. Não tinha havido qualquer desvio nas galerias, de modo que Liala não teria podido se perder, e ela teria ouvido o ruído de esguichar de água se a outra tivesse caído das rochas escorregadias. O mais provável era que a sacerdotisa mais velha simplesmente tivesse desistido e voltado para a saída. Apertando o xale ao redor do corpo, Tiriki começou a avançar mais uma vez. Não estava mais sozinha do que antes, é claro, mas depois de alguns passos, deu-se conta de que saber que Liala não estava logo atrás dela a tornou mais cautelosa. Ela reparou que havia uma galeria secundária do outro lado do riacho, que seguia para a sua esquerda. Quando levantou o archote, pôde ver as curvas sensuais de uma espiral fluindo entalhada a bico fino na pedra logo depois da abertura. Damisa dissera que Iriel poderia estar procurando um templo escondido em uma antiqüíssima caverna. Decidida, cerrando os lábios com determinação, Tiriki se abaixou e desenhou uma seta na lama apontando para a esquerda, para mostrar para onde estava indo e então atravessou o riacho cintilante.

Para o olhar, havia muito pouca diferença entre aquela galeria e a que ela estivera seguindo, mas Tiriki podia sentir uma mudança bem definida. Franzindo o cenho ligeiramente, pôs a ponta do dedo no entalhe e começou a traçar a espiral para dentro em direção ao centro e depois de novo para fora.

Ficou parada, pasma diante do desenho, até que subitamente se deu conta de que seu braço havia caído ao lado do corpo e que a tocha estava chamejando perigosamente próxima de suas saias. Sobressaltada, ela a afastou e olhou atentamente ao redor.

Quanto tempo o desenho a manteve em transe? Que distância percorreu? Tiriki sacudiu a cabeça; deveria saber que não devia tocar na espiral. Taret a advertira de que, em algum lugar na ilha, havia um labirinto que conduziria ao Outro Mundo se alguém o percorresse até o fim.

A galeria em curva diante dela parecia menos sombria, mas não podia ver nem muito longe para a frente nem para trás por onde viera. Eu não estou perdida, disse a si mesma com firmeza. Tinha apenas de seguir a espiral de volta para trás para encontrar o riacho. Com essa certeza, pôs a mão na pedra e mais uma vez seguiu adiante.

Na curva seguinte ela se descobriu sob céu aberto.

A luz do archote subitamente pareceu empalidecer e ela piscou os olhos por causa da luz ao seu redor. Já teria amanhecido? O céu tinha toda a palidez prateada da alvorada, mas brumas envolviam a base do Tor e sua encosta escondia o horizonte.

Tiriki continuou a subida, mas quando chegou ao que parecia ser o topo viu apenas o círculo de pedras, mais altas do que se recordava, e reluzindo como se com luz própria. O sol não era a fonte daquela iluminação, pois o céu a leste não estava mais claro que a oeste. O ar não estava frio, mas um calafrio a sacudiu enquanto ela examinava o horizonte. Eu não estou mais no mundo que conheço.

Véus ondulantes de bruma flutuavam sobre a terra, mas não a fumaça das fogueiras acesas do povoado ao amanhecer; de fato, não havia qualquer sinal de absolutamente habitação alguma; no entanto, as próprias brumas eram luminosas, como se lá o que fosse que elas escondiam estivesse iluminado por dentro. Prendendo a respiração, Tiriki se esforçou para focalizar os olhos.

- Você se esforça demais - disse uma voz suave, em tom divertido, atrás dela. - Já se esqueceu de seu treinamento? Eilantha... expire... e inspire... abra sua visão interior e veja...

Nunca, desde a sua infância, alguém tivera o poder de comandar suas percepções, mas antes que Tiriki pudesse pensar em resistir, obedeceu e, em vez de árvores e campinas, viu treliças luzentes de resplendor. Ofuscada, ela se virou e viu o próprio Tor como uma única estrutura cristalina através da qual as correntes de energia, subindo em espiral ao redor do pico do Tor, formavam um círculo deslumbrante ascendendo até o céu. Tiriki levantou a mão e viu, em vez de um braço humano, uma dança de dragão de resplendor que retratava e interagia com todo o resto, tão intricadamente interconectada quanto as serpentes em seu anel.

“Por que está surpreendida?” Ela não sabia mais dizer se o pensamento vinha de fora ou de dentro. “Você não sabia que também faz parte deste mundo? “

A verdade era evidente. Tiriki estava consciente, simultaneamente, do próprio ser e de uma miríade de treliças de luz interconectadas, sobrepostas em camadas de uma dimensão para a seguinte, e contendo todas as entidades de puro espírito à pedra e poeira. Tinha a percepção do espírito confuso de Alyssa como uma dispersão de fagulhas, o brilho constante de fé e poder era o de Chedan e o chamejar luminoso que era Iriel, sua centelha-alma tão próxima da de Otter que eram quase uma única. O poder do Tor ondulou através da paisagem em rios de luz. Seu entusiasmo aumentou quando Tiriki ampliou suas percepções, pois ali, onde todos os planos de existência eram um só, ela poderia com certeza encontrar Micail.

Por um momento, então, ela tocou o espírito dele. Mas a onda de emoção foi grande demais, e Tiriki mergulhou de volta estonteada em seu corpo - ou melhor, para qualquer que fosse a forma que seu corpo tivesse ali, pois sua própria carne reluzia como a da mulher que viu parada diante de si, vestida em um manto de luz, coroada de estrelas.

- Micail vive! - exclamou Tiriki.

- Todas as coisas vivem - veio a resposta -, passado, presente e futuro, cada qual em seu próprio plano.

Sob as folhas coriáceas de plantas desconhecidas, formas monstruosas se moveram, mas o gelo também cobria o mundo, e nada crescia. Ela viu o Tor ao mesmo tempo coberto de árvore e desmatado, uma encosta de relva aparada curta coroada com pedras postas de pé, e também uma estranha construção de pedra que no mesmo instante desmoronou, deixando apenas uma torre. Ela viu pessoas vestidas de peles, de vestes azuis, de roupas de muitas cores e construções, campos, e pastos recobrindo os pântanos que conhecia. Suas percepções a dominaram e ela se sentiu como se não soubesse de absolutamente nada.

“Todas elas são reais”, explicou a voz em sua mente. “Cada vez. que você faz uma escolha, o mundo muda, e um outro nível é revelado.”

- Como poderei encontrar Micail? - gritou o espírito de Tiriki. - Como encontrarei a senhora!

“Apenas siga a Espiral, para cima ou para baixo...”

- Milady, a senhora está bem? - perguntou uma voz de homem.

- Tiriki! Que está fazendo aqui?

As vozes convergiam distintas, mas com uma harmonia subjacente. Tiriki abriu os olhos e se deu conta de que estava deitada bem no interior do círculo de pedras no alto do Tor. Ela se esforçou para se pôr sentada, franzindo os olhos por causa da luz do sol nascente.

- Também esteve fora caminhando sem rumo a noite inteira? - Um vulto robusto que ela reconheceu como Reidel estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.

- Estive a caminhar sem dúvida - respondeu Tiriki estonteada -, mas por onde?

- Como, Milady?

- Não tem importância. - Ela sentia todas as articulações enrijecidas, mas embora a relva espessa estivesse úmida de orvalho, suas roupas estavam quase inteiramente secas. Piscando, olhou ao redor de novo, comparando o que via com suas lembranças.

- Ela parece atordoada - disse Damisa com um leve toque de exasperação. - É melhor levá-la lá para baixo assim que pudermos.

- Então venha, Milady - disse Reidel baixinho. - Apóie-se em mim. Podemos não ter localizado Iriel, mas pelo menos encontramos a senhora.

- Iriel está bem... - A voz de Tiriki soou baixa e rouca e ela tentou de novo. - Levem-me até Chedan. O que eu vi... ele precisa saber.

Catorze

Um pilar de poeira se movia pela planície, marcando o progresso de mais um imenso bloco de pedra. Micail subiu na barragem que circundava o círculo e olhou para o norte para além da vala, sombreando os olhos com a mão para distinguir a fileira de homens suarentos que o arrastavam. Outros corriam mais à frente, prontos para entrar rapidamente e substituir qualquer um cuja força se extenuasse, limpando a trilha adiante para os dispositivos arredondados de madeira que carregavam o fardo.

Um grupo de cantores podia levantar uma pedra dessas por pouco tempo; sete vezes aquele número poderia até transportá-la acima da terra se a distância não fosse grande demais, mas não havia número suficiente de cantores vivos no mundo inteiro que pudessem fazer levitar os imensos blocos de arenito pela planície. E levantar as pedras depois que tivessem sido trazidas ao círculo iria exigir a habilidade de todos os cantores treinados que restavam.

Eles tentaram transportar as pedras com bois, mas homens trabalhavam melhor e por mais tempo, e eram mais fáceis de ensinar. O rei Khattar era incapaz de compreender por que Micail achava que isso fosse um problema. Ao longo de gerações, quando o trigo e a cevada estavam bem crescidos, as espigas e talos altos e o gado levado para os pastos nas colinas sob os cuidados de meninas e rapazes, o rei fazia a convocação para o pagamento do tributo. Um homem robusto de cada fazenda ou aldeia deveria se apresentar para prestar serviços comunitários. Era assim que os cercados de tapumes e fossos dos grandes terrenos tinham sido feitos, bem como os dólmenes e os círculos concêntricos de pilares de madeira e, provavelmente também, os círculos mais antigos de pedras postas de pé.

Ainda há tanta coisa que nós não sabemos, pensou Micail, só espero não venhamos a lastimar as lacunas em nosso conhecimento. Virando-se, examinou os cinco pares de blocos de arenito que já estavam de pé dentro do círculo. A despeito de suas apreensões, sentiu um frêmito de alegria com a visão daquelas formas talhadas pontiagudas se destacando contra o céu. A magia atlante não podia fazer todo o trabalho, mas certamente ajudou a torná-lo mais rápido. Estava começando a parecer que uma tarefa que a mão-de-obra inteira de todas as tribos dominadas pelo rei Khattar teria levado quase dez anos para realizar iria ser concluída em menos de três. Em um único ano eles prepararam cinco pares de monólitos para o semicírculo interno. Os imensos lintéis também estavam prontos e posicionados esperando.

Quando os cantores restantes chegassem de Belsairath e os lintéis fossem erguidos para seus lugares nas asas de som, os xamãs compreenderiam a necessidade de trabalhar em colaboração, em vez de trabalhar contra, aquele novo poder. E depois disso, poderemos concluir o novo Templo sem que haja mais interferência. Ocorreu a Micail que estivera tão concentrado na construção do círculo de pedras ao longo dos últimos dois anos e meio, que estava achando difícil prever o trabalho que se seguiria.

- Milorde? - Um toque em seu cotovelo o despertou de seus devaneios e ele viu Lanath ali parado à espera.

- Que é?

- O senhor gostaria de inspecionar a terceira pedra agora? - A pele bronzeada do acólito tinha um brilho saudável sob o sol do verão, e o trabalho rigoroso fizera do garoto um homem. Já fazia um bocado de tempo, refletiu Micail, enquanto seguia Lanath de volta para o semicírculo de pedras, desde que pela última vez precisara despertar o rapaz de um pesadelo.

A terceira pedra estava cercada por uma estrutura de madeira e do alto dela um trabalhador nativo sorria, olhando para baixo.

- Está como o outro lado, certo? Olhe e veja.

Micail andou ao redor da pedra uma vez, depois mais uma outra, comparando as faces laterais umas com as outras e também com a segunda pedra. Todos os monólitos haviam sido toscamente desbastados e polidos antes de serem erguidos, e cada um tinha um lado trabalhado de maneira a ficar especialmente liso e ligeiramente côncavo. Mas só depois que uma dessas pedras tivesse sido posta de pé é que o estreitamento de topo e base que fazia as faces parecerem retas poderia ser ajustado com perfeição.

- Sim, está bom. Pode descer agora. Diga-lhes que mandei dar a você uma ração extra de cerveja. - Ele sorriu cordialmente.

Micail encostou a mão aberta na superfície áspera. Sempre que tocava em um bloco de arenito polido podia sentir o dedilhar sutil da energia em seu interior. Achava que quando a construção ficasse pronta, poderia sentir seu poder sem tocá-la.

As pessoas comuns podem julgar que pedras são coisas sem vida, mas dentro daquelas pedras ele percebia um potencial para um poder cumulativo muito maior. Esse já podia ser percebido, em certa medida, ao raiar do dia e ao pôr-do-sol. Muitos dos trabalhadores nativos se recusavam a entrar no local nessas horas. Diziam que as pedras tinham começado a falar umas com as outras, e Micail meio que acreditava.

- Logo todos o ouvirão - murmurou ele para o monólito.

- Quando estiver unido ao seu irmão e outros estiverem de pé ao lado de vocês, nós invocaremos seus espíritos e todos compreenderão... - E por um momento, a vibração subliminal tornou-se um zumbido audível. Ele se sobressaltou, e reparou que Lanath também havia ouvido.

- É fácil neste lugar brutal e inculto esquecer todas as glórias que se foram - disse ao rapaz -, mas nosso verdadeiro tesouro sempre foi a sabedoria das estrelas. Nós faremos neste lugar um monumento que, quando até o próprio nome de Atlântida tiver sido esquecido, ainda proclamará que estivemos aqui.

- Lá está! - El ara apontou além da fileira de árvores que assinalava o curso serpenteante do rio Aman. - Já pode avistar as toras de madeira da paliçada.

Timul sombreou os olhos com a mão.

- Ah, sim. Num primeiro momento pensei que aquelas estacas fossem mais árvores... O que há no topo delas? Chifres de touros? Ah! Cruel, mas eficaz.

Os outros também estavam tagarelando com alívio e curiosidade quando o resto da aldeia dos Ai-Zir surgiu à vista. Micail enviou uma mensagem dizendo que o trabalho no círculo de pedras estava chegando a um estágio em que a presença de todos seria necessária e mesmo aqueles que até então tinham permanecido em Belsairath haviam respondido a seu chamado.

Elara lançou um olhar rápido para a fileira atrás. Ocathrel tinha voltado dessa vez com as três filhas e também com a prima de Micail, Galara. Lá estavam os grandes cantores Sahuru-sartha e seu marido Reualen, junto com Aderanthis, Kyrrdis, Valadur e Valorin com seus vários cheias, a maioria dos quais já tinha estado ali pelo menos uma vez. Mas agora os Guardiões mais graduados estavam com eles - o austero Haladris e a severa Mahadalku, e até mesmo, carregados em liteiras, a frágil Stathalkha e o velho Metanor - e lá estava Vialmar, quase no final da fila, olhando ao redor nervosamente, como se esperasse a qualquer momento ser atacado por alguma coisa, a despeito da presença dos soldados de Tjalan.

Quase todos os sacerdotes e sacerdotisas que tinham vindo para Belsairath estavam presentes, pelo menos os que sobreviveram à doença da tosse do inverno passado. A esposa do príncipe Tjalan e dois de seus filhos estavam entre os que tinham morrido. Elara estava em Belsairath quando a epidemia começou e Timul imediatamente a pôs para trabalhar como praticante de cura. Por um tempo muito longo, pensou a acólita, parecia-lhe que estivera enfrentando sofrimento e morte; ela se descobriu surpreendentemente ávida para ver de novo o vilarejo de Azan. Pobre Lanath, deve ter ficado insuportavelmente entediado. Gostaria de saber se afinal conseguiu convencer Micail a aprender a jogar Plumas.

- Eu sei que parece pequeno se comparado com Belsairath - comentou Elara -, mas os outros centros tribais não são mais que um punhado de casas perto dos dólmenes, embora as tendas e choupanas de juncos apareçam por toda a parte nas colinas durante os festivais. Azan é o único lugar que pode sequer se qualificar como um vilarejo.

- Pare de tagarelar, menina, eu compreendo. - Os olhos escuros de Timul continuaram a dardejar atentos por todo o cenário.

A carta de Micail havia convocado todos os cantores para ajudarem-no a concluir, consagrar e ativar a Roda do Sol. Aparentemente, aquilo havia se tornado um acontecimento de alguma importância também para a tribo. Ela se perguntou se a rainha estaria lá. Na ocasião da partida de Elara, Micail postergou qualquer conversa a respeito de casamento, afirmando que deveria manter o celibato de maneira a trabalhar com as pedras. Elara gostaria de saber se alguém, algum dia, conseguiria partilhar a cama de Micail.

Micail examinou os sacerdotes e sacerdotisas reunidos sentados esperando sob os salgueiros à margem do rio. Como é possível que nos tenhamos tornado estranhos uns para os outros? - suspirou. Ou será que fui só eu quem mudou?

Houve uma época em que presidir aquele tipo de reuniões tinha sido parte de sua rotina diária. Ele se descobriu ensaiando mentalmente as saudações tradicionais, os pequenos cumprimentos e discretas formalidades que foram suas melhores ferramentas para administrar o Templo e a cidade de Ahtarrath, e então se contraiu, como se as lembranças fossem músculos que se tivessem enrijecido pela falta de uso. Ultimamente, estava mais acostumado com as cortesias rudes dos Ai-Zir, ou a camaradagem simples de Jiri e Ansha.

Tomou fôlego mais uma vez e começou:

- Agradeço a todos os senhores por terem respondido a meu chamado. Na verdade, eu não sabia quantos teriam condições de fazer essa viagem, mas é de extrema importância que nós demonstremos com sucesso nossa capacidade de mover as pedras. - Ele se virou para Ardral. - Senhor, há alguma coisa que deseje acrescentar?

O velho adepto arqueou uma sobrancelha e sacudiu a cabeça.

- Na verdade não, caro rapaz. Agora que estamos no estágio de manipulações físicas, fico contente em deixar as coisas por sua conta.

Micail conteve mais um suspiro. A outra coisa que ele realmente não levou em consideração quando enviou sua mensagem foi que, de maneira geral, Guardiões só atingiam sua posição depois da meia-idade. A maioria dos homens e mulheres que estavam sentados diante dele era velha. Felizmente, as disciplinas do Templo os haviam mantido relativamente saudáveis, e uma boa noite de descanso tinha amenizado parte do cansaço deles. Ardral, é claro, evidentemente não envelheceria, mas o velho Metanor estava mais pálido do que de hábito - eles teriam de tomar cuidado com seu coração se o trabalho se tornasse pesado. Stathalkha também parecia estar a meio caminho rumo ao Outro Mundo, mas, ocorria que ela era vidente. Haladris de Alkonath e Mahadalku de Tarisseda, por outro lado, apresentavam uma fachada curiosamente sólida que o fazia recordar os blocos de arenito, embora por que aquela comparação lhe ocorresse Micail não sabia, uma vez que não se haviam mostrado especialmente teimosos, obstinados, ou inflexíveis. “Há tanta coisa que eu desconheço...” - repetiu para si mesmo, com um sorriso enviesado. Mas mesmo grandes guardiões nem sempre seguravam a língua quando estavam na companhia de sacerdotes principiantes. Ele fez uma anotação mental para perguntar a El ara o que havia escutado; ou a Vialmar, que estava em Belsairath desde a chegada deles à nova terra.

- É claro que tínhamos de vir - disse Mahadalku naquele momento; sua postura era tão majestosa quanto se ela lhes estivesse falando protegida pelo pórtico do Templo da Luz de Tarisseda, não por um pára-sol de colmo em Azan. - A cidade mercante oferece apenas... sobrevivência. Aqui é onde estão construindo o nosso futuro. Não devemos desejar estar em qualquer outro lugar.

- Sim, bem... - Micail se esforçou para se recordar das palavras rituais do grande templo para o que queria dizer, mas não conseguiu se lembrar. Mordeu o lábio e acabou por se resumir a fazer um gesto que significava falta de tempo para uma apresentação mais minuciosa. Isso abriria o tema para debate coletivo mas, de todo modo, ele esperava isso.

- Se todos nós nos reunirmos, junto com os acólitos e os cheias, devemos conseguir formar três grupos de cantores, o que deverá ser mais do que suficiente para levantar os lintéis para os trilitos. Milorde Haladris será o diretor.

- Ah, Haladris provavelmente conseguiria levantar a pedra sozinho - acrescentou Ardral.

Haladris sacudiu a cabeça, as pálpebras lhe velaram os olhos quando franziu o cenho.

- Não. Eu consigo fazer levitar plenamente um pedregulho com o peso de uma mulher pequena, não mais que isso, e devo confessar que depois disso fico exausto. Terei grande satisfação se tiver ajuda, asseguro-lhes.

Micail franziu os lábios, pensativo. Ele se lembrou do talento do Primeiro Guardião de Alkonath para a telecinesia. Esquecera-se, porém, de que o homem não tinha absolutamente senso de humor.

- Primeiro completaremos o trilitos mais alto, que representa a tribo do rei Khattar - prosseguiu Micail.

- Que o rei acredita que represente a sua tribo - corrigiu Mahadalku, numa voz macia como seda.

- Algo que não afeta o resultado - interrompeu Micail.

- Rogo que perdoe minha impertinência, Reverendíssima Senhora, mas nos seria útil lembrar como eles pensam. Não estamos mais nos Reinos do Mar...

- Como se alguém pudesse esquecer - exclamou Mahadalku que, furiosa, virou-se para olhar para a outra margem do rio, onde as pradarias se estendiam na distância até desaparecer numa névoa dourada... - Mas a Roda gira.

Então houve breve silêncio, interrompido apenas por uma tossidela pesarosa de Ardral.

- Concordo que não devemos de modo algum desconsiderar as crenças de Khattar - disse Naranshada finalmente.

- Nós somos poucos e eles são muitos. Esta é a terra deles, e construímos usando a mão-de-obra deles, as pedras deles...

- Tecnicamente sim, é claro - respondeu Haladris em tom frio. - Não estou sugerindo que o deixemos de lado. Ele parece ser um aliado útil, não há necessidade de insultá-lo. Mas com certeza esses guerreiros bárbaros não seriam adversários à altura dos chuceiros de Tjalan. Contudo, o senhor está correto, milorde Micail. Não importa o que o povo nativo pense, ainda assim o círculo será um instrumento para amplificar e direcionar as vibrações de som. Depois que a Roda do Sol tiver sido concluída, poderemos usar seu poder da maneira que nos aprouver.

Haladris falou como se não pudesse haver qualquer objeção possível à sua análise da situação. Micail buscou o olhar de Ardral, suplicando que ele interviesse, mas o mestre iniciado fez que não com a cabeça.

Em todo caso, suspirou Micail, precisamos de Haladris para mover as pedras. Ninguém é capaz de igualar a capacidade dele de focalizar. A questão de quem estava usando quem e para que propósito poderia esperar até depois do trabalho estar feito.

- De quanto tempo dispomos - perguntou Mahadalku em voz baixa - até esse... festival do rei... quando pretende levantar as pedras?

- Eu confio nos cálculos de milorde Ardravanant, que sempre verifiquei serem precisos. O festival terá início dentro de meia lua, quando os rebanhos serão trazidos de volta das colinas. É costume das tribos se reunirem nos platôs com círculos concêntricos nessa ocasião. Acontecem uma exposição de gado e corridas, e fazem-se oferendas aos ancestrais. Todos os xamãs deles estarão presentes - Bem como as Sagradas Irmãs de Carn Ava, pensou Micail apreensivo. Ele havia se encontrado com a mãe de Anet em mais de uma ocasião, mas até o momento havia evitado qualquer coisa além de conversa superficial. Desde o jantar em que Micail viu Anet pela primeira vez, ela o deixava inquieto.

- De modo que nós não somente levantaremos a pedra, seremos observados quando o fizermos... - O sorriso de Mahadalku não revelava qualquer sombra de calor. - Isso me agrada - declarou ela. - Deverá nos ser muito útil.

 

Timul observou com interesse as pessoas que se aglomeravam na grande feira que era realizada ali no final do verão de todo ano.

- Creio que compreendo um pouco melhor a gente que visita o Templo de Belsairath - comentou ela -, agora que as vejo em seu habitat natural, por assim dizer.

Elara sorriu atenciosamente, enquanto pensava que sempre gostou bastante das várias celebrações tribais, muito embora o barulho e o movimento a fizessem sentir saudades de Ahtarra, no dia de feira-livre. Para todos eles, supunha Elara, as inevitáveis lembranças dos Reinos do Mar estavam se tornando menos pungentes. Um súbito aroma ou uma cena repentina ainda tinham o poder de traspassar seu coração com sua familiaridade enganadora, mas esses momentos ocorriam com menos freqüência. E naquele dia havia muitas cenas, sons e cheiros de um tipo que ela estava certa de nunca ter encontrado antes.

A planície solitária além dos anéis concêntricos de pedras, barragem e valas havia sido transformada pelo influxo de gente. As cinco tribos tinham levantado seus círculos de tendas de peles e feito barracas de galhos entrelaçados, cada uma identificada por um poste encimado pelo crânio armado de chifres de um touro, e pintado com as cores da tribo: vermelho, azul, negro, amarelo-ocre ou branco, que lhe pareceram redundantes até que as viu. O povo do rei Khattar venerava o touro vermelho, e seu estandarte, como os pilares do trilítero por ele escolhido, erguia-se bem mais alto que os outros.

- Para onde estamos indo? - perguntou Timul, enquanto Elara a conduzia em meio às hordas tagarelas que se reuniam onde os artesãos exibiam suas obras: canecas, tigelas e copos, altos de cerâmica, peças de couro finamente trabalhadas, tosões e fardos de lã cardada, machados e pontas de flechas e lâminas para arados de pedra. Mas não havia nada de bronze. As armas de metal, altamente apreciadas, eram de propriedade e distribuição exclusiva de reis.

- Para o Touro Azul - Elara apontou em direção ao crânio tingido com o corante extraído da ísatis, que mal se avistava acima das cabeças da multidão. De sua base pendiam meadas de lã tingidas de azul, erguendo-se suavemente sob a brisa. Os chifres estavam entremeados por um trançado de flores de verão. - A deles é a tribo dos Ai-Zir que vive mais ao norte. O centro sagrado deles é Carn Ava.

- Ah, onde vive a sacerdotisa. - Timul assentiu, contendo com dificuldade o entusiasmo. - Eu esperava que ela estivesse aqui. Vamos lá.

A tenda de Ayo foi fácil de encontrar - era tão grande quanto a de um chefe de tribo. Os postes de sustentação eram ricamente entalhados e a cobertura de couro, pintada com símbolos sagrados em azul com o corante da ísatis. Os olhos da Deusa acima da entrada observaram à medida que elas se aproximaram.

Uma jovem que estava triturando cereais num moinho de mão ao lado do vão da porta se levantou.

- Entrem, Reverendíssimas. Minha senhora as espera.

O dia estava quente e as laterais da tenda tinham sido amarradas ao alto de modo a permitir a entrada de luz e ar. A moça que as recebeu convidou-as a sentar em almofadas de couro, com enchimento de relva, e lhes ofereceu água fresca em copas de argila imprimidas com marcas de cordões, que as tornavam fáceis de segurar. Quando ela voltou a se retirar, a cortina que separava a parte fronteira da tenda da área reservada foi afastada para o lado e a própria Ayo apareceu.

Como sua atendente, a sacerdotisa vestia um traje simples de tecido azul, sem mangas, preso nos ombros com alfinetes de osso. O cabelo estava enroscado numa rede presa no meio da testa por uma fita. Ao contrário de todas as outras mulheres de sua posição, Ayo não usava quaisquer colares. Ela na verdade não precisava deles - era naturalmente dotada de um manto de poder que fazia Elara lembrar-se de Mahadalku ou mesmo Timul. A esposa de Micail, Tiriki, tinha o mesmo porte e aparência quando conduzia um ritual, recordou-se Elara com tristeza.

Timul ofereceu à mulher a saudação devida a uma suma sacerdotisa de Caratra e, sorrindo, Ayo deu a resposta apropriada.

- É verdade o que dizem. A senhora pertence à irmandade das terras distantes. - Ayo era mais velha do que inicialmente pareceu, mas ocupou seu assento com uma graça flexível que fez lembrar à Elara sua filha Anet.

- Mas nossa terra não mais existe - respondeu Timul em tom frio e desapaixonado. - Temos de descobrir a face que a Senhora usa nesta, caso contrário Ela poderá nos esquecer.

- Isso é bom - Ayo sorriu. - Fala bem a nossa língua, mas com um sotaque da tribo do Touro Preto. Eu tinha ouvido falar que alguém estava oferecendo ajuda a nossas irmãs quando visitam as estranhas casas de pedras à beira-mar. É um prazer conhecê-la. Mas gostaria de saber por que veio para cá.

- Os sacerdotes de meu povo vão realizar uma grande magia amanhã. Fui convocada para participar.

- E você, criança? É versada na arte da cura, pelo que soube. - Os olhos cinzentos de Ayo se voltaram para ela e Elara achou difícil desviar o olhar.

- Também sou cantora - respondeu Elara. - E vou ajudar a construir o círculo de pedras,

- Ah! E a que propósitos servirá essa magia?

Elara mordeu o lábio, sem saber o que responder. Os acólitos e cheias não tinham sido informados de tudo, mas ela ouvira o suficiente para saber que os Guardiões não acreditavam que o rei Khattar compreendesse o objetivo que o círculo visava a atingir e que preferiam que as coisas permanecessem assim. E essa era a esposa de Khattar, por mais independente dele que pudesse ser. Elara não gostava de mentir, de modo que teria de escolher suas palavras com cuidado.

- Sou uma serva da Luz - respondeu - e creio que quando o círculo estiver pronto, as pedras trarão Luz brilhante para o interior da terra.

- A Luz já está dentro da terra. Ela flui como um rio. As almas dos ancestrais cavalgam suas correntezas para o Outro Mundo e depois retornam aos ventres de nossas mulheres mais uma vez. - Ayo franziu a testa pensativamente.

- Ouvi dizer que os xamãs não estão satisfeitos com o que fazemos - comentou Timul subitamente - e por eles interromperiam o trabalho, só que nossos sacerdotes são apoiados pelo rei. Também acredita que estejamos... errados?

- Talvez sim. Talvez não. Mas vocês são poucos - respondeu Ayo - e existem muitas coisas que não compreendem.

- Que quer dizer? - Elara encarou com incerteza.

- Se eu pudesse lhe dizer, não precisaria fazê-lo. - Ayo sorriu. - Mas, com o tempo, todos nós nos tornaremos um único povo.

- Está falando de um casamento entre sua filha e Lorde Micail?

Ayo deu uma gargalhada.

- Khattar e a rainha Khayan é que querem esse casamento. Mas minha filha não está destinada ao lar de homem algum. Ela vai se entregar como a Deusa ordenar, não o rei. Não é assim com vocês?

Timul assentiu.

- Na minha ordem, sim, somos livres.

- Khattar deseja apenas criar laços que unam seu povo a ele - disse Ayo. - Se não for pelo leito nupcial, buscará atingir seu objetivo por outros meios. As esperanças dele podem ser demasiado ambiciosas, mas vejam só as de vocês - comentou ela, sorrindo. Isso é uma ameaça ou uma advertência? - pensou Elara, chocada.

Naquele momento, a assistente entrou com uma cesta de bolos de tabuleiro com cobertura de mel cristalizado e a conversa tornou-se constrangidamente social. Mas depois, enquanto Elara acompanhava Timul de volta ao acampamento dos atlantes, as duas ainda estavam quebrando a cabeça com relação ao significado do sorriso enigmático de Ayo.

No dia escolhido para levantar as pedras, as pessoas se reuniram ao redor da parte externa da vala que circundava a aldeia, zumbindo como uma gigantesca colméia. De frente para a entrada, um banco foi posicionado para o rei Khattar.

Para Micail, era triste e doloroso ver e cumprimentar os grandes cantores que esperavam dentro do círculo como tantos fantasmas de sua vida passada, seus finos trajes cerimoniais brancos ainda perfumados pelas especiarias tão tipicamente atlantes com que tinham sido embalados. Sua própria roupa, um belo e muitíssimo bem-feito traje cerimonial, mas bastante grande que pegou emprestado de Ocathrel, arrancou exclamações de admiração dos outros e até algumas lágrimas de recordação. Mas logo a maioria dos cantores se acomodou em seus lugares, posicionados de acordo com a potência de voz.

Quando o silêncio foi total, Micail balançou a cabeça e atirou um punhado de olíbano em cada um dos potes de incenso colocados no lugar de Nar-Inabi, no quadrante leste. Os carvões em brasa piscaram como estrelas vermelhas à medida que a resina começou a derreter, liberando a fumaça perfumada para elevar-se enquanto se avolumava no ar. A fragrância familiar, doce e pesada, encheu-lhe a garganta e, por um instante, Micail estava novamente no Templo da Luz em Ahtarrath, mas no mesmo momento, Jiritaren, postado no quadrante sul, sussurrou a outra Palavra de Fogo e sua tocha negra irrompeu em luz.

Sahurusartha se ajoelhou diante de uma pequena tigela de mármore colocada sobre um altar baixo a oeste, e entoou a versão de Alkonath do Hino de Apaziguamento a Banur das Quatro Faces, Destruidor e Preservador, Deus do Inverno e da Água, enquanto o sacerdote de Tansseda, Delengirol, duas vezes levantou e depois baixou uma travessa filigranada cheia de sal em direção ao norte, pois Ni-Terat era venerada sem palavras.

Micail caminhou em passadas largas até a borda sul do platô, cercado pela barragem, seu bastão erguido alto. O punho de auricalco em sua ponta fulgurou como uma estrela ao sol do meio-dia.

- Pelo poder da Luz Sagrada, que este lugar seja purificado! - exclamou ele. - Pela sabedoria da Luz Sagrada que seja protegido! Pela força da Luz Sagrada, que seja seguro!

Ele se virou para a direita e lentamente começou a andar ao redor do círculo enquanto os outros três o seguiam, purificando cada quadrante com os quatro elementos sagrados. Enquanto faziam isso, os outros sacerdotes e sacerdotisas começaram a cantar baixinho:

“Ao nascer Manoah o mundo se liberta

Da noite mais escura; No correr das eras renascemos, E saudamos a Luz!

Micail pôde sentir o deslizamento e a alteração familiares de gravidade que lhe diziam que a proteção ao redor deles estava se erguendo. Não era apenas a fumaça copiosa do incenso que fazia com que tudo fora do círculo tremeluzisse como se visto através de água. Os cantores estavam separando as pedras do mundo natural.

“Dentro deste sagrado santuário vemos

Com a visão do espírito - Vós, Senhores de Fé e Sabedoria, vinde Para abençoar nosso rito! “

Ele completou o circuito quando o cântico chegou ao fim e se deteve por um momento, escutando. Eles tinham entalhado e configurado bem as pedras de maneira a conter tanto som quanto energia. Qualquer ruído que os Ai-Zir pudessem estar fazendo do lado de fora do círculo era menor do que o sussurro do vento nas árvores. Micail deixou escapar um suspiro de alívio. Ao conversar com os trabalhadores nativos havia se habituado a pensar nas pedras como uma Roda do Sol, mas o que eles haviam projetado deveria funcionar como um ressonador, amplificando as ondas de som para transformá-las numa força que podia ser direcionada através das linhas de energia que fluíam através da terra. Com esse poder à disposição eles poderiam construir um novo Templo capaz de rivalizar com o antigo. Falando de modo preciso, uma proteção tão poderosa não deveria ser necessária para aquele tipo de Trabalho, mas ele tinha respeito suficiente pela força dos xamãs de Droshrad para tomar precauções contra qualquer possibilidade de interferência mágica.

Depois que os elementos sagrados foram trazidos de volta para seus altares, Micail e outros hierarcas removeram as próprias máscaras e se juntaram às fileiras dos cantores. Ele dedicou um momento a examinar cada um, à medida que passava: os sacerdotes mais experientes, já em plena concentração, tinham o semblante inexpressivo, os mais jovens estavam de olhos arregalados de nervosismo de última hora.

Haladris assumiu sua posição e, naquele momento, dirigiu-se a todos.

- Todos sabem o que devem fazer... - ele fitou, um por um, cada líder de grupo com seu olhar fixo e velado. - Eu lhes darei as notas fundamentais e os cantores com voz de baixo projetarão o som em direção à pedra. A medida que a sonoridade da nota grave se prolongar e crescer ela subirá, e eu a direcionarei. Lembrem-se! É foco, não volume, o que é necessário. Vamos começar. - Bem baixinho, ele vocalizou a seqüência curta e aparentemente inócua de notas que vinham ensaiando nos últimos dias.

Haladris levantou a mão, e os três baixos, Delengirol, Imma-miri, e Ocathrel emitiram uma vocalise, sem palavras, tão grave que parecia vibrar de dentro da própria terra. A pedra não se moveu ainda, é claro, mas os primeiros movimentos de resposta das partículas dentro dela foram visíveis para o olho interior de Micail.

Os barítonos começaram a cantar. Ardral e Haladris dominaram até que eles modulassem suas vozes, harmonizando-as com as de Metanor, Reualen e os outros daquele registro de voz, até que as gargantas de todos emitiam a mesma nota melodiosa. A energia tremeluzente ao redor da pedra alvo tornou-se quase perceptível para a visão natural comum à proporção que Micail e os outros tenores, devagar e cuidadosamente, acrescentaram suas vozes ao coro de crescente ressonância, equilibrando o registro médio.

O bloco de arenito estremecia; sua face côncava cintilava estranhamente com uma luz interior. Agora era o momento em que era preciso ter cuidado para que não despedaçassem a pedra, em vez de levantá-la.

As vozes de contralto juntaram-se à harmonia crescente e depois entraram as sopranos, dobrando o volume; a canção tornou-se um arco-íris deslumbrante de sons. A pedra se moveu - o espaço vazio podia ser visto abaixo dela.

Suavemente, os cantores modularam a grandiosa nota grave para o tom vizinho mais acima. O bloco de arenito se elevou acima de seus joelhos, depois até a altura da cintura, movendo-se para cima com a música até estar na altura de seus ombros, e depois ultrapassá-la. Micail podia sentir o poder maciço fluindo ao redor e por meio de Haladris, ao mesmo tempo em que usava seu próprio dom para aumentá-lo e refiná-lo.

Os pilares verticais de suporte do trilítero tinham três vezes a altura de um homem. Enquanto o bloco de arenito destinado a ser o lintel flutuava para sua destinação, as cabeças dos cantores se inclinaram para trás para mantê-lo à vista.

Mais uma vez a vontade rígida de Micail controlou suas emoções enquanto, lentamente, o erguer dos braços do arqui-sacerdote elevava suas vozes e com elas a grande pedra de arenito. Vendo-a cavalgar a onda de som, Micail sentiu seu espírito se expandir com uma alegria inteiramente pura. Isto - o pensamento passou num lampejo por sua consciência - é o que estamos buscando. Não poder, mas harmonia...

A pedra hesitou, pairando paralelamente aos topos dos suportes. Haladris a levantou uma minúscula de fração mais para o alto de modo que pudesse passar acima das juntas dos encaixes no centro de cada uma, então a moveu lentamente para a frente até que os buracos na face inferior do lintel estivessem bem acima dela; baixando um pouco as mãos, modulou o volume do canto e permitiu que a pedra se acomodasse no lugar certo. Micail se empertigou e deixou escapar o ar num longo suspiro. Tinham conseguido! Ele meneou a cabeça para os cantores, cujas faces estavam radiantes de orgulho silencioso, mas os ombros deles estavam curvados e Micail sabia que sentiam a mesma exaustão que ele. Mais uma vez pôde ouvir o murmúrio da multidão lá fora, estridente de espanto. O rei Khattar sorria como se tivesse vencido uma batalha. Já se ouvia o rufar dos tambores. Micail se contraiu a cada batida, como se os golpes fossem desferidos contra sua própria carne, mas sabia que não se calariam. Desejar isso seria o mesmo que pedir que gansos selvagens não voassem.

Radiante com o sucesso do Trabalho, o rei Khattar estava determinado a celebrá-lo como se ele próprio tivesse levantado a pedra. Os outros sacerdotes e sacerdotisas já tinham recebido permissão para se retirarem para seus alojamentos, mas o rei insistira para que Micail ficasse para representá-los no banquete. Ele bocejou e tentou focalizar seus olhos remelentos. A noite estava bonita e quase sem vento, e as fogueiras ao redor das quais os chefes tribais de cada clã realizavam seus banquetes luziam como estrelas salpicadas. As tendas do rei Khattar eram as mais próximas do platô do círculo. Ele estava entronado num banco alto de formato estranho sobre o qual seus homens tinham atirado uma pele vermelha de couro de vaca. Seu sobrinho e herdeiro, Khensu, estava sentado num tamborete a seus pés. Para os convidados importantes havia outros bancos, mas os guerreiros do rei reclinavam-se à vontade em peles estendidas no solo. Tjalan e Antar e seus oficiais estavam acomodados um pouco mais afastados, ao lado dos filhos dos chefes de outras tribos.

Archotes haviam sido erguidos diante do trilítero concluído, de modo que o rei pudesse continuar a contemplá-lo embevecido. A luz vermelha tremulava sobre os dois maciços suportes e o pesado lintel que os coroava, sólidos contra a limpidez das estrelas, e Micail subitamente teve a estranha impressão de que se havia tornado um gigantesco portal para o Outro Mundo. E o que eu descobriria se passasse entre eles? Será que Tiriki me espera do outro lado?

Ao estender o copo alto para ser de novo servido, tarde demais ele se deu conta de que a graciosa donzela carregando o cântaro era Anet.

- Sua magia de fato é impressionante - disse ela, enquanto se inclinava mais perto dele do que era necessário apenas para servir a cerveja. Pelo menos, dessa vez estava completamente vestida, mas mesmo assim Micail recuou um pouco, atordoado e tonto com o perfume de seu cabelo. Diante disso, ela riu baixinho e, passando o cântaro para uma das outras moças, sentou-se no banco ao lado dele.

- Agora que a pedra foi erguida, o senhor não precisa mais dormir sozinho, não é?

- Sabe que meu príncipe não permitirá que eu me case.

Ela sacudiu a cabeça, os olhos faiscando.

- Não me faça rir! Estas são as palavras para dizer a meu pai, não a mim. Eu sei que são pares, são iguais em termos de posição. Mas não precisa ficar receoso. Casamento foi idéia de meu pai, não minha. - Ela pressionou o corpo contra o dele com um sorriso sedutor, Micail sentiu o calor da carne da moça mesmo através de sua grossa túnica.

Micail levantou uma das mãos para afastá-la, mas, de alguma forma, em vez disso foi parar sobre os cabelos sedosos de Anet. Confuso, franziu as sobrancelhas.

- Então por quê? Por que você... - O que você está fazendo? Era o que ele teve intenção de perguntar, mas sua língua se recusou a obedecê-lo.

- O senhor serve à verdade - disse ela então. - Pode realmente afirmar que não me quer?

Micail sentiu o sangue subir-lhe ao rosto e a outro lugar também e, sem uma decisão consciente, puxou-a para junto de si e seus lábios encontraram os dela. A boca de Anet era muito doce e ele se sentiu dolorosamente consciente de quanto tempo havia se passado desde que tivera uma mulher nos braços.

- O senhor me respondeu - declarou ela quando ele a soltou. - Agora vou lhe responder. Não quero ser sua esposa, ó príncipe das terras distantes. Mas quero ter um filho seu.

A mão dela flutuou mais para baixo. Ele certamente não podia negar que a desejasse naquele momento.

- Não aqui, ainda não - disse roucamente. - Seu pai está observando. - De fato, um momento depois ele ouviu o rei Khattar chamar seu nome.

Micail se virou de supetão. O rei sorria. Será que tinha visto?

- Agora as pedras estão de pé, hein? Agora o mundo inteiro vê meu poder! - A gargalhada do rei ecoou nas paredes. - Agora está na hora de usá-lo!

Micail se empertigou, alarmado.

Khattar se inclinou para a frente; seu hálito recendia a vinho e carne.

- Nós vamos mostrar a eles! A todos os povos que não seguem o Touro! Aos povos da Lebre, os Ai-Akhsi que vivem na terra que vocês chamam de Beleri’in... eles nos desafiam. E aos Ai-Ilf, a Tribo do Javali ao norte, eles roubam nossas vacas! Nós vamos atacá-los agora, não para pilhar, mas para conquistar, pois temos espadas que não entortam nem quebram na batalha! Espadas que cortam madeira e couro e osso!

Micail sacudiu a cabeça, tentando clareá-la do efeito duplo de excitação sexual e do álcool, enquanto Anet se esgueirava para longe de seu lado e desaparecia em meio à multidão. O príncipe Tjalan também estava sentado empertigado; seus olhos se estreitavam enquanto tentava ouvir o que acontecia do outro lado da fogueira.

- Seu povo tem boas espadas de bronze forte - Micail tentou contemporizar, mas o rei socou o joelho.

- Não! Eu vi as lâminas de vocês com os gumes brancos cortar madeira com a mesma facilidade que nossas facas cortam relva! - Khattar bateu a palma da mão contra o punhal embainhado pendurado ao redor do pescoço por uma tira trançada, fazendo os pregos minúsculos que cravejavam seu punho lampejar à luz da fogueira. Khensu se levantou e assomou atrás do tio, a mão no punho da própria espada.

Micail conteve um gemido. Ele aconselhara Tjalan a não permitir aos seus homens demonstrar o gume daquelas lâminas de maneira tão casual.

- Não temos um número suficiente delas para armar seus guerreiros - começou a dizer, mas Khattar se recusou a parar de berrar.

- Mas vocês são os grandes xamãs previstos por nossas lendas! Nós vimos isso! Vocês vão fazer mais espadas!

Micail sacudiu a cabeça, perguntando-se se ousaria admitir que eles não poderiam fazer mais, mesmo se quisessem. Com o tempo, mesmo o auricalco que recobria o gume das espadas começaria a se desfazer em flocos, até finalmente se dissolver em seus componentes minerais, e dentre todos os sacerdotes e magos que haviam escapado ao Afundamento, não havia um único - de que ele tivesse conhecimento - com talento necessário para forjar o metal sagrado.

- Vai me jurar que fará isso. - O sussurro rouco de Khensu soou na orelha de Micail, enquanto um braço forte lhe apertou os braços, prendendo-os contra seu corpo e ele sentia o beijo „ frio de metal contra garganta. - Ou vai sentir o gosto disso.

Micail lançou um olhar frenético na direção de Tjalan, mas o príncipe de Alkonath não estava à vista em lugar algum. Se Tjalan conseguisse alcançar seus homens, pelo menos eles poderiam proteger os outros. Ele respirou fundo uma vez, e depois outra, e, à medida que sua pulsação acelerada se tornou mais calma, teve a impressão de ouvir gritos vindos do outro lado da fogueira. Grande Criador, suplicou fervorosamente, não permita que eles capturem Tjalan!

Um apinhado de homens avançou à força e Micail reconheceu os dois chefes principais das outras tribos, com guerreiros acompanhando-os.

- Por que o rei Khattar quer matar o xamã estrangeiro antes que ele acabe de levantar as pedras? - perguntou uma voz jovem de mulher, provocadoramente familiar. Seria Anet? Ele se esforçou para vê-la, lutando para compreender.

- O senhor é o grande rei, Touro Vermelho, mas não está sozinho! - gritou o homem que era soberano das terras onde ficava Carn Ava. - Liberte o sacerdote forasteiro!

O braço de Khensu apertou mais; os músculos eram duros como cordas sob a pele, e Micail sentiu um gotejar morno de sangue lhe escorrer pelo pescoço. O homem mais jovem cheirava a fumaça de madeira e medo.

- Se deseja ser rei depois de seu pai, deveria obedecer-lhe agora - disse Micail, mas Khensu não estava ouvindo. Mesmo em meio ao tumulto e à gritaria, o tropel de passos podia ser ouvido. Tjalan tinha retornado com seus soldados.

Micail não sabia se deveria se sentir satisfeito ou pesaroso, mas não teve tempo para pensar. Numa investida disciplinada, os chuceiros abriram caminho à força em meio a aliados e inimigos - e uma única azagaia riscou um arco no ar.

Mais tarde, Micail concluiu que o lançamento do soldado do corpo da guarda visou apenas a assustar o rei. Porém Khattar, ao levantar-se do assento como um urso enfurecido, foi apanhado em cheio no ombro direito. Com um grito surdo, girou sobre si e tombou. O aperto do braço de Khensu afrouxou e a faca se afastou da garganta de Micail. Aproveitando a oportunidade, Micail agarrou a mão da faca de seu captor, torceu-a para longe e, de um salto, libertou-se mas subitamente os soldados estavam em toda a parte ao seu redor.

Uma engolida de saliva cuidadosa assegurou a Micail que sua garganta não havia sido cortada. Viu Khensu lutar com um dos soldados, enquanto Khattar jazia enrascado no chão, praguejando e apertando o ombro trespassado. Micail abriu caminho pelo círculo protetor de soldados e se ajoelhou ao lado do rei, afastando os dedos ensangüentados do homem para examinar a gravidade do ferimento. Sem compreender, Khattar levantou o olhar furioso para ele, enquanto Micail pressionava a base da mão contra o ferimento, para controlar o sangramento. Viran-do-se, respirou fundo.

- Todos parados! - Aquela era a voz que havia ajudado a levantar a pedra, e fez a multidão se calar, em estado de choque. - O rei Khattar está vivo!

- Voltem para junto de suas fogueiras! Realizaremos um conselho pela manhã. - A voz de Tjalan fez eco à dele e, ainda que fosse destituída de coerção, todos reconheceram o tom de comando. Lentamente, a multidão começou a se dispersar. Tjalan se inclinou e pôs a mão no ombro de Micail.

- Você está bem?

- Eu viverei - respondeu Micail em tom tenso - e ele também. Arranje-me uma tira e um chumaço de pano. - Só depois de ter acabado de enfaixar o ferimento de Khattar, Micail levantou o olhar para o primo. - Isso foi um ato de maldade.

Tjalan apenas sorriu.

- O quê, está lamentando que eu tenha vindo salvá-lo?

- O garoto já estava entrando em pânico. Mais um instante, e eu o teria convencido, com palavras, a me libertar.

- Talvez... - O olhar de falcão do príncipe se deteve por um momento sobre seus guardas, que se haviam posicionado ao redor deles. - Mas esse momento estava fadado a acontecer. Antes cedo do que tarde, não acha?

Não, pensou Micail com uma careta, melhor que nunca tivesse acontecido. A profecia de Rajasta não previu este dia... mas um sinal de alarme interno o advertiu a se manter em silêncio...

Quinze

Durante o auge do verão nos pântanos, os céus por vezes se mantinham límpidos e sem nuvens por até uma semana. Parada em plena luz do sol, Damisa quase podia se imaginar aquecendo-se ao calor radiante do sol de Ahtarrath. Mesmo à sombra do recinto fechado que eles haviam construído para que Selast se abrigasse em reclusão durante o mês que precedia o casamento, estava quente.

Quente demais, pensou ela, abanando as faces com a mão. Acabei por me habituar a viver em meio às brumas e depois, faz tempo demais que vivo nesta terra. Entretanto, mesmo se estivessem nos Reinos do Mar, ela não teria Selast para si para sempre.

Enquanto Iriel e Elis despiam a túnica que Selast usou para o banho ritual na Nascente Vermelha, a luz do sol, penetrando através dos galhos que cobriam o recinto fechado, lhe salpicava a pele como o pêlo de uma corça. Cinco anos passados nas neblinas da nova terra tinham clareado sua pele de bronze para cor de ouro, e o trabalho físico incessante dera ao corpo magro e ossudo uma força musculosa e uma graça de movimentos que mais uma vez fizeram Damisa recordar um tipo de criatura mais graciosa que a humanidade. Mas Selast não era uma corça, pensou ela com súbita tristeza; era uma jovem égua, com uma basta juba de cabelos negros ondulados e fogo nos olhos escuros.

- E agora a veste... - disse Iriel, levantando as pregas de linho azul nos braços - e depois vamos coroar você com flores! - Ela olhou ao redor e franziu o cenho quando se deu conta de que a cesta estava vazia. - Kestil e as outras crianças deveriam ter colhido as flores hoje de manhã! Se elas esqueceram...

- Vou dar uma corrida até a aldeia - disse Elis, dirigindo-se à porta.

- Se vocês duas forem, poderão cobrir terreno mais rapidamente - sugeriu Damisa. - Eu ficarei para cuidar de nossa noiva.

Depois que elas se foram. Selast andou de um lado para outro no recinto fechado por tapumes. Pegou a muda de roupas de linho branco, depois o manto cerimonial azul, feito com a fibra do linho cujas sementes elas mesmas tinham plantado e tingido com o corante da ísatis nativa. Não era exatamente o tom de azul usado pelas sacerdotisas de Caratra nos Reinos do Mar, mas era próximo o suficiente para deixar Damisa pouco à vontade. Vestir aquele azul era se oferecer ao serviço da Mãe. Damisa se sentiu meio nauseada diante da idéia de ver o corpo esguio de Selast inchado pela gravidez.

- Está nervosa?

- Nervosa? - respondeu Selast com a virada rápida de cabeça que Damisa havia aprendido a amar. - Um pouco, imagino. E se eu esquecer minhas falas?

Damisa não achava aquilo muito provável. Elas haviam recebido treinamento de memorização desde que foram escolhidas para o Templo quando crianças.

- Nervosa pelo fato de se casar, foi o que eu quis dizer.

- Com Kalaran? - Selast deu uma gargalhada. - Eu o conheço desde os nove anos de idade, mesmo antes de termos sido escolhidos como acólitos, embora deva admitir que não tivesse muita admiração por ele até aquela noite, no ano passado, quando procuramos Iriel. Ele sempre parecia ter tanta raiva de todo mundo... Só então me dei conta de quanto ele ainda se sente culpado por ter sobrevivido quando Kalhan e Lanath e os outros se perderam. É por isso que é tão... sarcástico em certas ocasiões. Está tentando esconder seu sofrimento.

- Ah, é esse o motivo? - Damisa percebeu a ironia na própria voz e tentou sorrir. - Então você está se casando com ele por pena, em vez de por obrigação?

Selast finalmente se imobilizou e a encarou com o cenho franzido.

- Talvez seja um pouco dos dois. E, pelo menos, somos amigos. Isso tem alguma importância? Este dia tinha de chegar.

- Em Ahtarrath, sim, mas aqui? - Damisa se levantou subitamente e agarrou os ombros magros de Selast. - Não temos

Templo algum, e restam muito poucos de nossa casta de sacerdotes. Por que deveríamos arruinar nossas vidas de modo a conceber mais?

Os olhos de Selast se arregalaram, e ela levantou a mão para tocar no cabelo de Damisa.

- Você está com ciúmes de Kalaran? Não vai mudar nada entre mim e você...

Mas já mudou, pensou Damisa, olhando fixa e raivosamente para a amiga.

- Você vai dormir ao lado dele, cuidar da casa dele e parir os filhos dele, e pensa que não vai mudar? - Ela se deu conta de que estava gritando, enquanto Selast recuava e se encolhia. - Você não precisa fazer isso! - suplicou. - Lembra-se das histórias de Taret sobre a ilha ao norte onde as mulheres guerreiras são criadas? Poderíamos ir para lá e ficar juntas...

Selast sacudiu a cabeça com violência e, com um movimento abrupto, se soltou das mãos de Damisa.

- E pensar que eu era sempre a rebelde, e você a sacerdotisa bem comportada de nariz empinado! Você não está falando sério quando diz isso, Damisa, você é a acólita de Tiriki!

E Kalaran precisa de mim - prosseguiu Selast. - Naquela noite na montanha ele me contou que depois do Afundamento, perdeu toda a fé - não conseguia mais sentir os poderes invisíveis. Mas quando ficamos juntos abraçados, perdidos e tremendo de frio, ele se deu conta de que não estava sozinho.

- Eu preciso de você! - exclamou Damisa, mas Selast sacudiu a cabeça.

- Você me deseja, mas é forte o bastante para viver sem mim. Você acha que foi para que pudéssemos buscar a satisfação de nossos próprios prazeres que fomos poupados, quando tantos outros morreram?

- Malditos sejam os que morreram e maldita seja Tiriki, também! - resmungou Damisa. - Selast, eu amo você - ela estendeu as mãos para tomar a outra moça nos braços de novo; o coração estava cheio de palavras que não podia dizer. Damisa a soltou rapidamente quando o portão se abriu e Iriel e Elis passaram com os braços cheios de flores. Com o rosto vermelho de vergonha, sem conseguir falar, Damisa saiu correndo da casa da noiva e só o som de risadas a seguiu.

A procissão de casamento estava se aproximando, fazendo as curvas em meio à floresta e começando a entrar no caminho que levava à subida da encosta leste do Tor. Tiriki vislumbrava suas vestes claras através das árvores enquanto o repicar de sinos era trazido pelo vento. Cuidadosamente Chedan acendeu uma tira fina de madeira embebida em cera na chama da lamparina e a enfiou na lenha colocada sobre a pedra do altar.

O vento fez saltar a centelha, rapidamente transformando-a em chama e ondulou as dobras das vestes dos sacerdotes e sacerdotisas que esperavam dentro do círculo de pedras. O peso da gargantilha e do diadema parecia estranho a Tiriki, que por muito tempo não havia usado qualquer ornamento, e o drapejado de dobras de seda, curiosamente macias para alguém que se havia habituado ao couro e à lã áspera.

Eu vou recordar, pensou Tiriki, enquanto o cortejo nupcial chegava ao alto da crista da borda da montanha, mas não vou chorar. Não lançarei sombra alguma sobre o dia de Selast e Kalaran.

Tiriki e Micail tinham se casado no templo que coroava a Montanha Estrela, o santuário mais sagrado de Ahtarrath. A união deles fora testemunhada por Deoris e Reio-ta, pelos sacerdotes e sacerdotisas superiores do Templo e abençoada pelo velho Guardião, Rajasta, em um dos últimos ritos que havia celebrado antes de morrer.

Agora era Chedan que estava ali para dar as boas-vindas ao casal de noivos com os símbolos sagrados que adornavam seu tabardo reluzindo ao sol. Em vez da Montanha Estrela, o templo deles era um tosco círculo de pedras no cume do Tor. Mas embora aquele santuário no pântano não possuísse a majestade de Ahtarrath, Tiriki havia descoberto o suficiente, ao longo dos últimos cinco anos, para suspeitar que pudesse igualar-se em poder.

Micail estivera esplendoroso, todo de branco, a tira de ouro cingindo-lhe a testa não mais reluzente que seus cabelos, e ela havia, pela primeira vez, vestido o manto cerimonial azul e a faixa de Caratra, embora ela própria fosse pouco mais que uma criança. Será que tentei engravidar cedo demais? - começou a conjeturar para consigo mesma naquele momento. Terá sido por isso que não consegui dar à luz uma criança viva ? Até virmos para cá, acrescentou, enquanto Kestil e Domara apareceram dançando na frente da procissão, cobrindo o caminho de flores. Mas Selast havia completado seu vigésimo ano, e a vida ali, em meio à natureza naquele lugar selvagem a deixara saudável e forte. Seus bebês iriam vicejar.

Domara esvaziou sua cesta de flores e veio correndo para o lado da mãe. Tiriki a levantou no colo satisfeita, deleitando-se com o peso, o calor do corpo da criança e o perfume de flores silvestres de seus cabelos vermelhos. Micail pode estar perdido para mim, mas em sua filha, uma parte dele ainda. vive...

Suas reflexões a impediram de ouvir as palavras de boas-vindas de Chedan. Ela havia estado tão excitada na ocasião do próprio casamento, tão completamente concentrada em Micail, que mal as ouvira naquela primeira ocasião. O mago já estava atando o pulso direito de Kalaran ao pulso esquerdo de Selast e passando-os, ainda presos, sobre a chama tremeluzente. Então, ainda atados um ao outro, os dois seguiram em procissão na direção do movimento do sol ao redor da pedra do altar.

Chedan os conduziu ao longo dos juramentos formais nos quais prometiam criar seus filhos a serviço da Luz, e a agir como sacerdote e sacerdotisa um para o outro. Não havia palavras de amor, Tiriki agora se deu conta, mas para ela e Micail o amor já existia quando se uniram.

As próprias estrelas predisseram nosso enlace! - gritou seu coração, liberado pela tensão do momento do controle que havia permitido que ela sobrevivesse. Então por que fomos separados com tanta violência e tão cedo?

A voz de Kalaran hesitou, mas as respostas de Selast soaram altas e firmes. Eles tinham respeito um pelo outro, e talvez com o tempo o amor pudesse crescer. Quando os longos juramentos chegaram ao fim, Chedan levantou as mãos numa bênção e os encarou de sua posição do outro lado da fogueira.

- A esta mulher e este homem, concedei sabedoria e coragem, O Grandioso Desconhecido! Concedei pureza de propósito e verdadeiro conhecimento às duas almas aqui diante de ti. Dai-lhes abundância de acordo com suas necessidades, e fortaleza para cumprirem ao máximo e plenamente seu dever. Ó Tu, Que És ao mesmo tempo fêmea e macho e mais do que qualquer dos dois, permiti que estes dois vivam em Ti e para Ti.

Dessa parte, Tiriki se lembrava. Atados, um pulso colado ao do outro, ela havia sentido o calor de Micail como se fosse o seu, e na invocação, alguma coisa a mais, uma terceira essência que envolvia ambos num poder que os unia ao mesmo tempo em que transcendia. Ela podia sentir aquela esfera de energia agora, mesmo a despeito de estar em suas margens, consciente por um momento não só do laço entre Selast e Kalaran, mas da teia de energia que ligava todo mundo no círculo, e além dele, a terra ao redor deles, a ressoar no interior de reinos que Tiriki agora sabia existir dentro da terra e além dela, mas não podia ver.

“Ó Tu Que és”, clamou o coração de Tiriki, ainda pensando em Micail. “Permiti que todos nós vivamos em Ti!”

Era estranho, refletiu Chedan ao largar a costela de veado que estava roendo, como a escassez mudava nossa atitude com relação à comida. Observando Tiriki e os outros se regalando com o banquete que o povo da Aldeia do Lago preparou para homenagear os recém-casados, ele se recordou de como, na Terra Antiga, os membros da casta sacerdotal consideravam a comida uma distração nociva para o cultivo da alma. Mas nos Reinos do Mar, tudo de que a terra pudesse carecer os navios mercantes podiam fornecer. Em Alkonath, não muito tempo atrás, Chedan era quase corpulento. Agora, podia contar as próprias costelas. Houve ocasiões, especialmente durante os meses de inverno, quando só restava para comer mingau de painço, em que Chedan se perguntou por que lutava tão desesperadamente para manter vivo o corpo. Mas mesmo o Templo havia reconhecido que os prazeres da mesa e do leito nupcial ajudavam a reconciliar os homens à reencarnação em corpos físicos, cujas lições eram necessárias à evolução da alma. De modo que ele mastigou lentamente, saboreando a interação de sal e gordura e os sabores das ervas com as quais o assado foi temperado, e a carne vermelha suculenta do veado.

- Foi uma bela cerimônia - comentou Liala. - E o poder no Tor é bem maior do que tínhamos imaginado. Não é verdade? - Ela esteve doente durante a maior parte da primavera, mas se recusou a perder aquela celebração.

- Suponho que alguém deve ter sabido disso, mesmo aqui, porque eles construíram o círculo de pedras para focalizar o poder - observou Rendano, sentado do outro lado da mesa. Ele franziu o cenho como se duvidando de que aqueles primitivos pudessem ter realizado tal façanha.

- Nós não somos os primeiros de nossa raça a vir para este lugar - declarou Alyssa numa voz monótona. - O Templo do Sol que ficava junto do rio Naradek na costa desta terra hoje está em ruínas, mas a mulher de saber deste povo é uma espécie de iniciada.

- Uma espécie de iniciada! - retrucou Rendano em tom desdenhoso. - Será que isso é tudo o que deixaremos como sinal de nossa passagem? O que os filhos dela saberão da grandeza de Atlântida? - Ele fez um gesto na direção de Selast, que tentava pôr na boca de Kalaran, que ria às gargalhadas, um pedaço de pão achatado de centeio.

- A Atlântida está perdida - disse Chedan em voz baixa -, mas os Mistérios sobrevivem. Ainda temos muito que fazer por aqui.

- É verdade. Vocês se lembram do labirinto subterrâneo que existia abaixo do templo na Montanha Estrela? - perguntou Tiriki. - Não foi projetado para ensinar o caminho de passagem entre os mundos?

- Só nas lendas - desdenhou Rendano - invenções desse tipo são um treinamento para a alma.

- Na noite em que Iriel se perdeu - ela se esforçou para encontrar as palavras corretas - caminhei pelo labirinto no coração do outeiro e cheguei a um lugar que não era este mundo.

- Foi seu espírito que vagou enquanto dormia na encosta da montanha, Tiriki - disse Rendano, com leve sorriso.

- Não, eu acredito nela - objetou Liala. - Eu a segui pelo interior da galeria criada pelas águas da Nascente Branca e voltei para a entrada quando meu quadril começou a doer. Ela não saiu por aquele caminho e nós a encontramos no alto do Tor.

- Então havia uma outra saída...

- Os acólitos vasculharam aquela colina durante o dia e não encontraram saída alguma - observou Chedan. - Eu mesmo explorei a galeria que leva à nascente sem encontrar o túnel; contudo, creio que esteja lá, embora não encontre base lógica para isso.

Esteve conversando muito com Taret, ultimamente... - Chedan se virou para Alyssa. - O que diz ela? - Banhada, penteada e vestida em seus trajes cerimoniais, a pitonisa parecia ter recuperado uma parcela da estabilidade mental e emocional. Eles poderiam muito bem aproveitar seus momentos passageiros de lucidez.

- Muita coisa de que não posso falar - respondeu Alyssa com um sorriso que os recordou da mulher que conheceram em Ahtarrath. - Mas eu vi... - a voz dela vacilou, e Liala lhe estendeu a mão para acalmá-la -, eu vi uma colina de cristal com um desenho igual ao do labirinto que rebrilhava com luz. - Ela estremeceu e olhou ao redor como se a se perguntar o que estava fazendo ali.

Liala lançou um olhar de censura para Chedan e deu a Alysa uma caneca de barro de água.

- Obrigada, Alyssa - disse Tiriki baixinho, batendo de leve em seu ombro. - Isso era o que eu estava tentando dizer. - Ela se virou para os outros. - Talvez tenha sido alguma rara conjunção das estrelas que abriu o caminho, ou talvez fosse destinado só para mim. Mas eu tenho estado pensando que se entalhássemos o desenho do labirinto nas faces externas da encosta da colina, de alguma forma, tenho a impressão de que talvez pudéssemos descobrir como chegar ao Outro Mundo andando por ele. E quem sabe o que poderíamos descobrir?

- Fantasias e idéias - resmungou Rendano, em voz não muito baixa.

Mas Chedan franziu a testa pensativamente.

- Por muito tempo nosso trabalho aqui foi direcionado apenas à mera sobrevivência. Será que não está na hora de construirmos sobre essa base, de reunirmos nossos cantores e criarmos algo novo?

- Quer dizer que deveríamos levantar pedras e construir uma grande cidade ao redor do Tor? Não creio que o povo do pântano fosse se sentir muito à vontade por lá... - observou Liala em tom de dúvida.

- Não - murmurou Chedan. - Cidades surgem por motivos concretos. Creio que este lugar nunca será capaz de sustentar uma população dessas proporções, nem deveria. Estou começando a vislumbrar algo diferente. Talvez... Vamos começar por simplesmente traçar o labirinto sobre a superfície da colina e depois aprender a caminhar por esse caminho em espiral. Creio que o que nos foi concedido é uma oportunidade de criar neste lugar o tipo de harmonia espiritual que existia na Montanha Estrela.

- Um novo Templo? - perguntou Rendano com ceticismo.

- Sim, mas será completamente diferente de qualquer coisa que já se tenha feito antes.

 

“O jovem Otter é uma cobra peluda - Ei, iá, ei iá iá! Que caçador ele um dia será, Ei, iá, iá...”

Uma dúzia de vozes cantou em uníssono quando Otter se levantou do banco e começou a dançar girando ao redor do círculo, fingindo lançar-se sobre um ou outro dos convivas enquanto passava.

Em homenagem ao casamento, o povo do pântano preparou pequena quantidade de uma bebida fermentada a que chamava de cerveja de urze. Era apenas moderadamente alcoólica, mas como os atlantes, de maneira geral, se abstinham de beber álcool e os nativos só bebiam em festividades, mesmo um pouquinho logo fazia efeito. Embora, de início, tivesse feito uma careta de desagrado ao provar a mistura de sabores herbóreos só muito ligeiramente suavizados por uma pitada de mel, Damisa gradualmente atingiu um estado de alegria expansiva que a fez voltar sem parar para o odre pendurado no tronco de carvalho para beber mais. Depois da taça número quatro, ela parou de contar.

“Elis que vive cavando na lama - Ei, iá, ei iá iá!

Diga-nos se encontrar comida! Ei, iá, iá... “

Ela reparou sem surpresa que os cantores tinham esgotado os aldeões de quem podiam caçoar e estavam começando com os atlantes. Aquele tipo de tolice nunca havia sido tolerado nos Reinos do Mar. Tampouco teria havido uma celebração tão pública depois de um simples casamento. Uma idéia do nível em que os novos e os antigos habitantes do Tor se haviam tornado uma comunidade era o fato de que os aldeões se tivessem oferecido para preparar um banquete para os recém-casados na ampla campina à beira da costa. Tiriki e Chedan só aceitaram depois de algumas conversas sérias com os outros. Em Atlântida, os casamentos da casta sacerdotal eram ocasiões de grande cerimônia, não de brincadeiras de mau gosto e bebidas fortes.

Mas por que eu haveria de me importar com isso? - Damisa se perguntou, à medida que o zumbido em seus ouvidos se tornou mais alto. Nem de acordo com os antigos costumes nem com os novos haverá um companheiro para mim...

Liala que veste o manto azul - Ei, iá, ei iá, iá! Não vai nos dizer o que fazer?

Ei, iá, iá...”

A brincadeira exigia que a pessoa sendo “homenageada” se levantasse e dançasse ao redor do círculo. Liala, com as faces coradas e os olhos brilhantes, fez um círculo lento e depois, com um acompanhamento de vivas e aplausos entusiasmados, deu um beijo caloroso no líder dos cantores, um ancião de barbas grisalhas que era a coisa mais próxima que os aldeões tinham de um bardo.

Selast, que corre como o vento – Ei, iá, ei iá, iá! Não vai parar e vir brincar um momento?

Ei, iá, iá...”

Não virá mais... pensou Damisa, tristemente. Ela agora vai titubear, à disposição de Kalaran.

A claridade intensa do longo dia de verão começou a se suavizar transformada num crepúsculo luminoso. As copas das árvores orlavam a clareira com um entrelaçado de galhos, negro em contraste com o tom rosa perolado do céu do poente, mas ao leste, a encosta alongada do Tor ainda refletia a luz. Por um momento pareceu a Damisa que a incandescência vinha de dentro. Ou talvez fosse apenas a bebida, disse a si mesma naquele momento, pois quando piscou e olhou de novo, tudo que podia ver era certa massa obscura acima das árvores.

Kalaran nos ensinou a remar - Ei, iá, ei iá iá! Vamos lhe ensinar como sua gama fecundar!

Ei, iá, iá...”

Alguém gritou na língua do povo do pântano e recebeu vivas e gargalhadas em resposta. Damisa levou alguns instantes para se dar conta de que eles estavam convocando voluntários para acompanhar em cortejo o casal de noivos até o leito. Ela se permitiu olhar para sua amada. A coroa de flores de Selast estava torta, e seus olhos brilhavam com uma mescla de excitação e apreensão.

- Vá com seu marido... - resmungou ela, levantando a taça numa saudação irônica - e quando estiver nos braços dele, que você deseje ainda estivesse nos meus.

O cortejo retornou e a dança recomeçou mais uma vez. Reidel assumiu o comando de um dos tambores. Seus dentes faiscavam muito brancos no rosto moreno quando sorria; os dedos se moviam rápidos sobre o couro bem esticado. Damisa observou, um pouco ressentida, que ele parecia estar se divertindo. Alguns dos marinheiros passaram junto dela, rodopiando de mãos dadas com moças da aldeia. Iriel estava sentada com Elis num tronco na orla da clareira. Otter estava ao lado delas e, enquanto Damisa observava, Iriel riu de alguma coisa que ele disse e permitiu que a tirasse para dançar.

Quando Damisa se levantou para encher de novo sua taça, cruzou com Tiriki, que se preparava para ir embora da festa, levando a sonolenta Domara pela mão.

- Já passou muito da hora dela ir para a cama - disse Tiriki com um sorriso -, mas queria ver as danças.

- Sem dúvida é diferente da maneira como celebrávamos as coisas no Templo - respondeu Damisa em tom azedo, recordando-se das refeições preparadas com requinte e dos bailes grandiosos.

- Mas você pode ver por quê. A sobrevivência é muito incerta aqui. Não é de admirar que quando as pessoas têm comida e fogo em abundância, se regozijem com isso. É uma afirmação de vida para eles, e para nós também. Mas agora está na hora de dormir, não é, minha querida? - acrescentou Tiriki quando Domara bocejou. - Vai nos acompanhar na caminhada de volta para o Tor?

Damisa fez que não.

- Ainda não estou pronta para ir dormir.

Tiriki olhou para a taça na mão de Damisa e franziu a testa, como se refletindo se deveria ou não exercer sua autoridade.

- Não fique aqui pensando e se entristecendo. Sei que você e Selast eram muito unidas, mas...

- Mas é possível viver sem um companheiro, a senhora me diria? Como a senhora? - Ao mesmo tempo que falava, ela sabia que a cerveja a havia traído.

- Como eu? - Tiriki falou com intensidade contida. - Rogue aos deuses que você jamais conheça a felicidade que eu tive, para que também, um dia, não sinta meu sofrimento. - Ela se virou abruptamente e se afastou a passadas largas, e deixou Damisa olhando estupidamente.

Os acontecimentos depois disso tornaram-se meio nebulosos. A certa altura, ela levantou a cabeça e viu Otter e Iriel se encaminhando para os arbustos, de braços dados. Ela se levantou, piscando os olhos. Restavam apenas algumas pessoas ao redor da fogueira. Reidel era uma delas.

- Milady, está se sentindo bem? - Ele veio rapidamente em sua direção. - Posso ajudá-la a voltar para a Casa das Donzelas?

- Bem? Muito bem... - Damisa deu uma risadinha e se apoiou no ombro dele. Ele cheirava a cerveja de urze e a suor. - Mas estou... um pouco bêbada. - Ela deu um soluço e riu de novo. - Talvez fosse melhor nós esperarmos um pouco.

- Uma caminhada vai ajudar - disse ele em tom firme, enfiando o braço dela no dele. - Vamos seguir pelo caminho que dá a volta pelo Tor.

Damisa não estava muito segura de que se quisesse livrar da tonteira e do calor agradável da cerveja. Mas já havia notado que o braço de Reidel era forte e confortador. Apoiar-se contra o corpo dele, de fato, fazia com que se sentisse melhor e, quando eles se sentaram para descansar um pouco numa margem relvada com uma vista do luar sobre a água, pareceu natural descansar a cabeça no ombro dele. Gradualmente, a tonteira começou a ceder.

Levou algum tempo para ela perceber que ligeiros tremores sacudiam os músculos rijos em que sua face estava apoiada. Ela se endireitou, sacudindo a cabeça.

- Você está tremendo: está com frio, ou fui pesada demais?

- Não. - A voz dele parecia tensa. - De forma alguma. Eu fui tolo em pensar que pudesse... que não saberia...

- Que não saberia o quê?

Ele a soltou abruptamente e deu-lhe as costas; o corpo dele era uma forma escura contra o céu estrelado.

- Como é difícil para mim segurá-la e não fazer mais que isso...

A cerveja de urze também afrouxou o seu controle, pensou ela naquele instante, ou não ousaria dizer isso! Mas por que deveria ela se negar a Reidel, perguntou-se em seguida, uma vez que Selast estava perdida para ela?

- Então faça... - respondeu, agarrando o braço dele e puxando-o de modo que a encarasse.

Reidel se aproximou num único movimento suave que a apanhou de surpresa, um braço lhe apertou a cintura enquanto o outro se erguia para se enredar em seus cabelos. Um instante depois ele a puxou contra si e seus lábios procuraram os dela, de início, hesitantes, depois com firmeza, à medida que o desejo dela correspondia ao dele. As estrelas rodopiaram acima quando ele a deitou na relva, suas mãos, primeiro, questionadoras, depois exigentes, enquanto laços e alfinetes se abriam.

A respiração dela se tornou mais acelerada à medida que um fogo que não tinha nada a ver com a cerveja de urze começou a arder sob sua pele. Nos momentos em que os lábios dele não estavam ocupados com outra coisa, a voz de Reidel tornou-se um acompanhamento sussurrado de deslumbramento e adoração.

Isto não é correto, pensou Damisa num momento de reflexão lúcida quando ele a soltou para despir a túnica. Estou aqui impelida apenas pela luxúria, e ele por amor...

Mas então Reidel tornou a abraçá-la e sua mão irrequieta encontrou o santuário entre as coxas de Damisa. O desejo se apoderou de Damisa como a chegada de uma deusa, dissolvendo todos os pensamentos a respeito de tentar se controlar, e ela acolheu calorosamente a força rija de Reidel enquanto o corpo dele cobria o dela.

 

Tiriki estava deitada acordada na cama estreita, mas o sono se recusava a vir. Podia ouvir o rufar dos tambores do círculo ao redor da fogueira como o pulso latejante de um homem e uma 317 mulher nos espasmos do amor. Seus lábios se contraíram num sorriso divertido que não pôde conter. Tinha havido gemidos e risadas vindo do meio dos arbustos enquanto ela carregava Domara de volta para a cama, e se sentira grata pelo fato de a menina não estar acordada para perguntar o que estava causando aquele barulho. Casamentos eram celebrados em ocasiões propícias para o acasalamento, de modo que não era de espantar que os outros também se sentissem impelidos pelas mesmas energias.

Infelizmente, ela também podia sentir aquele anseio tanto quanto qualquer outra pessoa, e estava sozinha. Podia se imaginar nos braços de Micail, mas o estímulo da memória não era substituto para a troca de magnetismo que ocorria com um parceiro físico.

Ah, meu amado! Não é somente meu corpo que anseia pelo seu. Quando nossos espíritos se tocavam, nós refazíamos o mundo.

Do outro lado da cortina Tiriki podia ouvir a respiração regular de Domara e de vez em quando um ronco de Metia, que ainda trabalhava como ama da criança. Movendo-se com cuidado para não acordá-las, Tiriki se levantou e pôs um xale sobre a túnica que usava para dormir.

Ela sairia para ver se Taret, que habitualmente ficava de pé até tarde, também estava acordada. A sabedoria da mulher mais velha a havia sustentado durante várias crises - talvez Taret pudesse ensinar-lhe como sobreviver à solidão interminável dos anos por vir.

- Será que permitirão... você acha que eles deixarão que nos casemos?

Damisa recuperou a plena consciência com um sobressalto quando se deu conta de que Reidel estava falando com ela. Ele estava falando já há algum tempo, na verdade, palavras de amor que ela havia ignorado enquanto tentava compreender o que havia acontecido entre eles e por quê.

- Casamento? - ela olhou para ele com surpresa. Reidel sempre tinha parecido tão senhor de si. Quem poderia ter suspeitado que tivesse tanta paixão contida em seu íntimo?

- Acha que eu teria ousado tocar em você se minhas intenções fossem desonrosas? - Ele se sentou, chocado.

Você acha que se as minhas tivessem sido honrosas eu teria permitido que me tocasse? Damisa conteve as palavras amargas, recordando-se de que quisera aquilo tanto quanto ele, ainda que por motivos diferentes. Também se sentou, estendendo a mão para sua veste.

- Os casamentos entre acólitos são ordenados pelas estrelas...

- Mas eu agora também sou sacerdote, de modo que com certeza...

- Nada é certo! - retrucou Damisa com aspereza. - E menos que tudo eu! Você considera o que acabamos de fazer um compromisso? Sou descendente dos príncipes de Alkonath e não posso misturar meu sangue com qualquer raça inferior!

- Mas se deitou comigo... - repetiu ele, sem compreender.

- Sim. Deitei. Tenho necessidades, exatamente como você...

- Não como eu... - Reidel respirou fundo, num suspiro trêmulo. Ela sentiu uma ponta de remorso quando percebeu que ele afinal a compreendera. - Eu amo você.

- Bem - disse ela depois que o silêncio se havia prolongado demais. - Eu lamento.

Reidel agarrou a túnica e o cinto e se levantou, atirando-os por cima do ombro, como se desdenhando esconder sua nudez.

- Lamenta! Eu poderia encontrar uma palavra mais grosseira. - Mas não disse a palavra e, por causa disso, Damisa compreendeu que o que ele sentia por ela realmente era amor. Por um momento observou, em silhueta contra as estrelas, o desenho gracioso de ombro musculoso e quadris esguios nus, então ele lhe deu as costas e saiu a passadas largas pelo caminho, deixando-a sozinha.

Eu falei a verdade, disse Damisa a si mesma, eu não o amo! Então por quê, perguntou-se, o último vislumbre que teve daquele vulto que partia subitamente foi toldado pelas lágrimas?

 

Dezesseis

A noite está fria e o vento repuxa-lhe os cabelos e as roupas como uma criança travessa, mas a capa larga de viagem de Chedan o mantém aquecido. Seu corpo está jovem de novo, respondendo a cada comando de sua vontade. Sorrindo, ele segue aos arrancos em meio às cercas altas de folhas ásperas, e segue uma trilha de cervo descendo a encosta.

O grito súbito de uma ave de rapina rasga o silêncio - “Squiriiiiii!” - o falcão está ao mesmo tempo atrás e acima dele. Instintivamente, Chedan se agacha, mas não há qualquer ataque.

Depois de um momento, ele segue adiante em direção ao círculo de pedras erguidas de brilho incandescente esmaecido. Cinco grandes trilitos assomam em meio à neblina, e em seu desenho ele reconhece o toque de Atlântida. Mas a estátua de um dragão se levanta entre ele e as pedras. Ele pára um instante, à escuta, enquanto uma voz enfraquecida pela dor, mas estranhamente familiar, geme:

- Tiriki, Tiriki.

- Você está aí? - indaga Chedan. - Micail? É você? Mas o dragão tornou-se um falcão com o rosto de Micail, bordejando contra a neblina cinzenta com asas escuras reluzentes.

- Osinarmen? Precisa se disfarçar? Aqui?

- Squiriiiiii! - o mesmo grito selvagem é sua única resposta.

- Espere! - grita Chedan, mas o espírito de Micail voou para uma terra de sonhos mais misteriosa e sombria, e embora Chedan seja mago, e de grande poder, ele não ousa segui-lo.

- É por isso que você não conseguiu encontrá-lo.

Chedan se vira, mas vê apenas o círculo de pedras incandescentes.

- Ele não o reconhecerá. Embora precise de seus conselhos como nunca antes, você não pode mais orientá-lo. Especialmente não aqui! Ele crê que você esteja morto. Receia que traga uma mensagem que ele não quer receber. Mas isso não importa, a prova é para Micail. Por seus próprios atos, ele deverá resistir ou cair. Você não pode impedi-lo de cumprir seu destino.

- Quem és tu? - pergunta Chedan, em tom de comando. - Revela a tua verdade!

- Infelizmente, eu não posso ser revelado para alguém que se recusa a ver. Quando você puder ver - murmura a voz -, verá. Mas os homens nunca ficam tão enredados no passado como quando vislumbram o futuro. - A voz se torna um furacão, arremessando-o de cabeça para baixo para longe do círculo de pedras.

- Volte, Chedan - ordena a voz. - Quando chegar a hora de você transmitir seu legado, o caminho se abrirá. Você não perguntará quem ou quando ou por quê - você saberá. Mas até essa hora chegar, volte. Conclua o trabalho que deve fazer.

Chedan acordou transpirando em meio a seus cobertores ásperos, a mente ainda girava atordoada com as imagens de pedras erguidas dançando loucamente, rodopiando para longe em meio à neblina.

Micail! - gritou seu espírito. - Onde está você?

Desde que veio para o Tor, com freqüência ele sonhou com Micail. Por vezes estavam de volta a Ahtarrath ou mesmo na Terra Antiga. Caminhavam juntos ou estavam sentados tomando um jarro de vinho helênico, dedicando-se às conversas de temas amplos e variados de que ambos tanto gostavam. Chedan tinha uma percepção parcial de que as conversas eram uma espécie de ensinamento, como se durante o sono estivesse tentando passar todo o conhecimento que não tivera tempo para transmitir no mundo desperto.

Para onde, perguntou-se, estariam indo todas aquelas informações? Ele sabia que Tiriki, nos recônditos do coração, acreditava que seu amado ainda estivesse vivo em algum lugar naquele mundo. Mas Chedan sabia que era igualmente possível que tivesse estado se encontrando com Micail em seus sonhos para preparar o espírito de Micail para o renascimento naquela nova terra. Contudo, aquela última visão, se é que fora uma visão, tinha sido diferente. Ele sentia a mesma sensação de liberação que sempre seguia o transe. E embora Micail tivesse fugido dele, Chedan tinha conseguido contatá-lo.

Mas eu era jovem de novo. A lembrança daquele vigor ainda enchia sua consciência e, no entanto, a cada momento, seu corpo lhe recordava mais dolorosamente que havia servido à sua alma por mais de setenta anos. E os cinco anos que se haviam passado desde que eles haviam chegado ao Tor tinham sido anos duros. Não lamentaria deitar e descansar as carnes doloridas e partir para os Corredores do Carma, mesmo que isso significasse ter de enfrentar julgamento.

Ele sacudiu a cabeça com pesar. “Conclua o trabalho que deve fazer”, dissera a voz. Naquele momento Chedan estaria fazendo muito só em sair da cama. Talvez aquilo tenha sido uma promessa, pensou esperançoso.

Um vento duro soprava em lufadas inconstantes na planície, achatando a relva nova abaixo dos talos esbranquiçados pelo inverno e depois deixando as folhas se levantarem de volta uma a uma - verde, prateada, e verde de novo.

O sol da tarde havia aquecido o ar, mas o dia estava aos poucos se apagando, e a esperança que havia animado o coração de Micail se contraiu como uma flor enregelada pelo inverno. Uma lembrança do sonho que o trabalho havia afastado de sua cabeça retornou - ele tinha sido um dragão, ou um falcão - alguma criatura feroz e selvagem - lutando violentamente para escapar das pedras. E, mais uma vez, Chedan estivera lá.

Micail observou os homens trabalhando diante dele pesarosamente. O sonho de Tjalan era, agora se dava conta, simplesmente criar algo que iria viver mais que todos eles, mas havia ocasiões em que os cinco enormes trilitos pareciam projetar uma arrogância maior até do que as idéias de um príncipe...

O círculo de blocos de arenito ainda não concluído era menos assustador, pelo menos para Micail, talvez porque não estivesse completo. Vinte e quatro suportes tinham sido erguidos ao redor dos trilitos, inclusive uma pedra mais baixa que permitia que, mesmo usuários acidentais avistassem, ao olhar em direção ao final da Avenida, o ponto do nascer do sol do solstício de verão. As seis pedras que faltavam seriam trazidas no verão seguinte por recrutas que provavelmente seriam convocados entre os homens da tribo do Touro Azul.

Graças, em grande medida, aos esforços de Timul e Elara, o rei havia sobrevivido à febre causada pelo ferimento, mas o golpe de azagaia havia danificado permanentemente seu ombro. Khattar nunca mais empunharia qualquer machado de guerra, de bronze ou de auricalco. Havia comentários, especialmente por parte dos guerreiros mais jovens, de que ele deveria abdicar do trono como grande rei e permitir que Khensu assumisse seu lugar. Mas somente as matriarcas podiam tomar aquela decisão e o Lado das Mulheres havia conspicuamente se recusado a decidir.

Será que elas também temiam os chuceiros de Tjalan? Havia ocasiões em que o próprio Micail se sentia pouco à vontade com a exibição contínua de poder dos alconantes, no entanto, „ ele tinha de admitir que a demonstração de força talvez fosse necessária. Até que a capacidade de Khattar de governar ficasse comprovada, a tribo do Touro Vermelho havia declarado que não forneceria mais ajuda alguma. Até o momento as outras tribos não haviam aderido à rebelião, mas Micail sabia que não podiam contar com o pleno apoio delas.

Eles acham que temos apenas cem espadas para nos defender e isso é verdade - por enquanto. Por sorte para nós, as tribos também querem ver o círculo de pedras pronto. Quando a última pedra for posicionada, eles farão sua jogada, mas para eles será o pior momento para fazer isso! Não podem nem sequer começar a imaginar os poderes que nós teremos condições de utilizar depois que o circuito de força estiver fechado.

- Príncipe, a escuridão está chegando - disse o velho que trabalhava como capataz da equipe de trabalhadores da tribo do Touro Branco. - Podemos voltar para nossas fogueiras?

- Sim, está na hora - concordou Micail.

Ele se sentou apoiado contra uma das pedras semi-polidas e observou os homens se afastarem um por um em direção ao acampamento na margem do rio. Ele também não precisaria ir longe para encontrar comida e abrigo e a companhia de gente de seu povo, mas sentia-se relutante em sair dali. Falatório demais - esse era o problema -, brigas mesquinhas e manobras constantes em busca de status o estavam enlouquecendo.

Continuou sentado, em parte observando o movimento misterioso do crepúsculo e das nuvens, pensando que se voltasse bastante tarde, talvez pudesse convencer Cleta ou Elara a trazer-lhe algo de comer em sua choupana, longe dos outros. Ocorreu-lhe que raramente sentia necessidade de estar em guarda com as acólitas - nem mesmo depois que Elara lhe disse que se o rei se tornasse insistente demais para que ele aceitasse uma companheira, ela própria estava disposta a dar-lhe um filho. Ela, porém, não o havia pressionado e agora, enquanto estava ali sentado sozinho, descobriu-se começando a realmente considerar a oferta, ainda que apenas porque o distraía da lembrança perturbadora de ter Anet em seus braços.

O simples fato de pensar a respeito de seu corpo esguio de dançarina acendia um fogo na carne de Micail. Ele franziu o cenho; as visões semi-ilícitas foram tragadas pela recordação súbita de uma lenda nativa que tinha ouvido recentemente, segundo a qual se dizia que as pedras em alguns dos círculos mais antigos despertavam com a escuridão e até dançavam nas ocasiões dos grandes festivais. As pedras alija se estavam movendo rumo à consciência, diziam os boatos sussurrados.

O anel de pedras original obviamente tinha sido parte de um simples cemitério de cremação, como a fortificação terraplenada que tanto havia assustado os acólitos durante a viagem para cá. A maioria dos outros círculos aparentemente também tinha sido construída com o mesmo propósito. Contudo, não havia como negar que o cair da noite sempre fazia esse lugar parecer um pouco mais distante, e ao mesmo tempo um pouco maior, transformando-o numa presença difusa e assustadora que tornava difícil pensar a respeito de outras coisas. Com um suspiro, Micail se pôs de pé e, tentando não pensar em nada, começou a longa caminhada de volta pela planície.

Naquela noite, o sono demorou a chegar. Mas na hora silenciosa antes da alvorada seus sonhos perturbadores cederam lugar a uma visão de colinas verdes distantes e um caminho dourado no qual ele viu Tiriki se aproximar, envolta em luz azul.

A primavera era sempre uma época de esperança nas terras dos pântanos, quando a terra se tornava verdejante e o céu se enchia de alarido com os gritos dos pássaros migr