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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS ASSASSINOS DE SET / Paul Doherty
OS ASSASSINOS DE SET / Paul Doherty

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS ASSASSINOS DE SET

 

Um dia hostil para o poder do Egipto, o terceiro do segundo mês de Perit, a estação da saída, em que o ruivo, travesso e malévolo Set se opusera a que o deus Chu velejasse na sua barca. A maior parte das pessoas da cidade de Tebas tivera um dia calmo. As grandes antessalas do templo encontravam-se vazias; os mercados tiveram pouco movimento. As pessoas tendiam a ficar em casa, a oferecer orações e encantamentos contra o azar. Quando o Sol começou a pôr-se, colorindo com matizes brilhantes a elevação rochosa sobranceira à necrópole no lado ocidental do Nilo, elevou-se no ar um suspiro de alívio colectivo. Foram feitas libações aos deuses. Algumas pessoas até foram para a rua ver os últimos raios de sol reflectir-se no electro, a liga de ouro e prata que cobria os obeliscos, pilares altos de granito que se elevavam no céu diante das Grandes Casas do Divino: o sol transformou essas camadas em raios tremeluzentes de luz. O dia estava a chegar ao fim e, com ele, a hostilidade ameaçadora do ruivo Set, o deus da guerra. Ele iria agora deixar as Terras Negras, o local banhado pelo grande Nilo. Fugiria de Kemet, a terra ricamente nutrida pelo rio, para viver com o seu cortejo militar de demônios no calor abrasador do Deserto, as Terras Vermelhas a leste e a oeste de Tebas. As Terras Vermelhas eram um local de caos: saliências rochosas secas, um calor abrasador, lar do leão, da pantera, da hiena e do assassino de almas.

 

Num dia como aquele, a influência malévola das Terras Vermelhas fazia-se sentir. Os Tebanos ficaram bastante aliviados quando a escuridão surgiu e Ré deu início à sua viagem nocturna pelo mundo subterrâneo. No entanto, o dia não estava completo: o azar, actos cruéis e até homicídios ainda podiam ocorrer. O deus Set, que assassinara o seu meio-irmão e estava em conflito constante com Hórus, o seu sobrinho, poderia, como assassino que era, regressar sorrateiramente pelas vielas estreitas ou pelas largas avenidas cobertas de basalto da grande cidade da rainha-faraó. Esgueirar-se-ia como uma raposa à caça ou uma ratazana no saque, pronta a lançar a sua sombra agoirenta e a incitar as almas dos homens a levantar os punhais ou os maços contra os da sua espécie.

 

No Templo de Set, no local sagrado reservado aos sacerdotes, erguia-se uma capela de tijolo vermelho. Aquele era o altar privado ou local de adoração para os nakhtu-aa, os guerreiros do faraó, os heróis da grande guerra contra os Hicsos, invasores cruéis que se tinham vangloriado do seu título ”o Fôlego de Deus”. A partir de Auaris, a sua cidade no Norte, os Hicsos haviam levado a estação da hiena aos dois reinos do Egipto. Os Hicsos tinham acabado por ser derrotados por Ahmés, o avô do actual faraó, Hatusu. Ele liderara os seus esquadrões de quadrigas pelo Norte e, com a ajuda dos deuses, expulsara aqueles invasores cruéis das Terras Negras para o deserto. Alguns haviam perecido no inóspito Sinai. Outros haviam apanhado barcas e percorrido o Grande Verde. Os restantes haviam fugido para oeste, para a Terra do Esquecimento, ou para sul, para lá da Terceira Catarata.

 

Os Hicsos haviam partido, mas os feitos maravilhosos do exército do faraó não tinham sido esquecidos. O Regimento de Set desempenhara um papel preponderante nesta vitória. Set podia ser hostil para com os homens, mas continuava a ser temido pelo faraó e seus súbditos. Consequentemente, era normal que o Regimento de Set tivesse desempenhado um papel tão crucial na expulsão dos invasores estrangeiros. Os nakhtu-aa desse regimento, um grupo de jovens oficiais, não mais do que dez, haviam exibido tal ferocidade e coragem que tinham ganho a alcunha de ”Panteras do Sul” ou ”Assassinos de Set”. Agora os anos haviam passado. Ahmés, avô de Hatusu, tinha sido seguido, rumo ao Horizonte Longínquo, pelo pai dela e em seguida pelo meio-irmão. Hatusu, que ainda não completara os vinte anos mas já exibia a sabedoria e a coragem de uma rainha guerreira experiente, usava agora a dupla coroa do Egipto e o manto sagrado, ou nenes, enquanto as suas mãos macias e bem tratadas seguravam o ceptro e o mangual, símbolos do império.

 

Os tempos podiam mudar, mas as façanhas das Panteras do Sul, dos Assassinos de Set, não haviam sido esquecidas. No templo, Balet, um elemento das Panteras do Sul, antigo membro do Regimento de Set, ajoelhava sobre uma almofada e olhava para o nãos, ou tabernáculo, com a estátua do temido deus do seu regimento. Balet já completara cinqüenta anos e ir ali, adorar o seu patrono, trazia-lhe sempre recordações. O passado estava por todo o lado. A capela era bastante grande, iluminada por janelas altas de clerestório. A Capela Vermelha fora feita de tijolo especialmente importado para reflectir a cor do cabelo de Set. As colunas dos transeptos eram de pórfiro púrpura; na base e no topo havia desenhos de romãs sumarentas com folhas escarlates, salpicadas por pequenas pepitas de ouro. O chão era de grés, ao passo que o tecto fora pintado de azul brilhante com um sol vermelho e estrelas escarlates. Balet conhecia cada centímetro daquela capela. Na extremidade mais afastada, atrás do nãos, estavam pendurados os troféus

- os escudos e as espadas dos seus companheiros, as suas couraças de cabedal, capacetes e grevas. Os objectos não haviam sido limpos, mas levados directamente da batalha e dedicados ao deus da guerra. Balet semicerrou os olhos. Procurava sempre aquilo... Ah, sim, era ali que estava: o escudo, o punhal largo e, por cima, o seu próprio capacete. Há quantos anos havia sido? Pelo menos há vinte e cinco. Sim, iria sempre recordar-se daquela noite em que a fama e a fortuna lhe tinham batido à porta e os deuses se haviam curvado para o abençoar.

 

Balet levou os dedos à cara, um gesto de devoção e deferência. Sentiu o vago aroma do natrão com o qual lavara as mãos ao entrar na capela, bem como o suave odor a perfume que pusera em cada um dos pulsos. Balet era rico e bastante gordo porque gostava de carne macia e bebia muitos dos vinhos que importava especialmente. No entanto, naquela noite memorável, a Noite das Panteras, ele era magro, musculado, decidido, ansioso por trazer a glória ao nome do Egipto e receber o sorriso do faraó.

 

Ele e os seus oito companheiros, juntamente com o seu chefe, Karnac, e o servo deste, Nebamum, haviam-se reunido na tenda do faraó. Ahmés, o avô da actual rainha-faraó, estava sentado na sua cadeira de campanha em cabedal, a armadura empilhada no chão, os cavalos preferidos para a quadriga a pastar lá fora. O faraó olhara para eles com uma expressão de súplica.

 

- Para norte - começara -, estende-se o acampamento dos Hicsos. No seu centro, num pavilhão especialmente construído, os Hicsos colocaram a sua grande feiticeira, Meretseger, a encarnação do deus-escorpião. De acordo com os meus espiões... - O receio do faraó fora evidente. - ... Meretseger faz sacrifícios de sangue e invoca todos os demônios da cidade de Auaris para dificultar a nossa marcha.

 

Balet, apenas com vinte e cinco anos, ouvira atentamente. Já era um combatente experiente. Recebera medalhas - a abelha de ouro e a águia de prata como recompensa por ter morto corajosamente os inimigos do Egipto em combate corpo a corpo. Mas feiticeiras, bruxas e bruxos eram outra coisa. Enquanto o faraó falava, Balet apercebera-se a pouco e pouco dos horrores que aquela criatura, o demônio dos Hicsos, poderia invocar.

 

- Quando os nossos exércitos se encontrarem - explicara o faraó -, Meretseger irá sair numa grande quadriga puxada por cavalos, ajaezados com mantas empapadas em sangue egípcio. Atrás desta quadriga serão arrastados prisioneiros de guerra que ela irá sacrificar num altar improvisado.

 

Balet olhara rapidamente para o chefe, Karnac, um oficial corajoso e atarracado, um homem nascido para a guerra. Também Karnac parecera preocupado - não por causa dos feitiços, amuletos ou sacrifícios de sangue, mas por causa do efeito que Meretseger poderia ter no exército egípcio.

 

- Então, Majestade... - Karnac levantara as mãos e inclinara ligeiramente a cabeça. - Os Hicsos tencionam assustar as nossas almas antes de atacar os nossos corpos?

 

- Sim. - O faraó virara-se e tocara levemente na sua coroa de guerra, pousada no respectivo suporte.

 

- Os nossos soldados não vão estar à espera disto. Talvez os deuses nos ajudem. Se eu escorregar, tropeçar ou cometer um erro depois de Meretseger ter desempenhado o seu papel...

 

- Ou pior ainda - interrompera Karnac, esquecendo-se do protocolo da corte. - Os Hicsos são matreiros. Os nossos batedores falam da aproximação de tempestades de areia. Se ocorrer alguma no dia da batalha, se o Sol desaparecer dos céus ou for ocultado por uma nuvem...

 

- Então, irão gritar o nome de Meretseger. - O faraó concluíra a frase por ele. - Mas, meus guerreiros - proferiu a sorrir -, minhas panteras, meus nakhtu-aa, sempre próximos - prosseguiu, batendo no peito - do meu coração... tendes a oportunidade de fazer desaparecer este mal e de trazer ao faraó uma grande glória.

 

Olhara em volta para a tenda, guardada pelos seus mariannou, os ”bravos do rei”. Ninguém poderia aproximar-se enquanto o faraó partilhasse este tipo de informação com aquela unidade especial do Regimento de Set, o orgulho e a glória do Egipto.

 

- Vocês levam o estandarte de Set. - O faraó apontara para o local onde ele jazia no chão, a cruel cabeça de Set, o seu cabelo ruivo aparecendo por trás de uma máscara canina.

- Set estará convosco. A sua sombra, tal como o anjo da morte, irá diante de vós e, com asas de penas negras, aterrorizará os corações e as almas dos Hicsos.

 

Balet ajoelhara-se, mal ousando respirar, perguntando-se até onde os conduziria aquele grande faraó.

 

- Amanhã à noite - declarara -, a Lua estará encoberta: um baço disco prateado num céu escuro. Irão ao acampamento dos Hicsos, matar Meretseger e trazer a cabeça dela e as dez Taças do Escorpião que ela encheu com o sangue das vítimas.

 

Balet sustivera a respiração.

 

- Matar Meretseger! - exclamara Karnac. - Trazer a cabeça dela! As Taças do Escorpião!

 

Balet ficara fascinado. Já ouvira falar naquelas dez taças de ouro, cada uma com um escorpião de prata esculpido de lado com rubis no lugar dos olhos, todas dispostas num tabuleiro de ouro.

 

Balet despertou do seu devaneio do passado e olhou para o parapeito ao lado do nãos. Pôs-se de pé, curvou-se diante do tabernáculo e avançou naquela direcção.

 

- Não é sacrilégio - murmurou.

 

Olhou para o tesouro, que brilhava à luz suave dos candeeiros de alabastro a óleo dispostos nos nichos das paredes. Tocou no tabuleiro de ouro puro: já ali se encontravam três taças. Pegou numa delas. Não tinha pega, parecendo mais um copo de boca larga: com cerca de vinte centímetros de altura, ligeiramente mais estreita na base, e doze centímetros de diâmetro. A taça era pesada, o escorpião de prata gravado com a sua cauda cruel pronta a ferrar. Os rubis vermelhos brilhavam, conferindo ao • temível aracnídeo uma aparência macabra e muito real. Balet pousou a taça. Quando morresse, também a sua seria colocada naquele tabuleiro.

 

Balet regressou às almofadas e, resmungando e queixando-se por causa da dor na sua perna direita, ajoelhou-se. Olhou para os cestos de fruta, para os pratos com comida, os jarros de vinho colocados diante do tabernáculo dos deuses. Não houvera flores, fruta ou vinho forte naquela fatídica noite...

 

Depois da conversa com o faraó, Karnac mostrara-se bastante insistente. Iriam jejuar, untar os corpos com óleo cobrir as armas de pó para que o seu reflexo não pudesse ser visto.

 

Na noite seguinte, Karnac conduziu os seus nove companheiros para fora do acampamento do faraó. Como panteras a caçar, esgueiraram-se na escuridão até ao acampamento dos Hicsos. Pelo caminho encontraram e mataram guardas inimigos e batedores. Karnac era, em tudo, um soldado brilhante, um homem que parecia pressentir o perigo antes de este surgir

- um homem cujos seguidores acreditavam ter sido tocado divinamente pelo próprio Set, um verdadeiro assassino: o único homem que Balet temera.

 

Por fim chegaram à formação rochosa sobranceira ao acampamento inimigo. Agachados como uma matilha caçadora, observaram as fogueiras. Karnac acocorou-se como um predador, procurando fraquezas, falhas na defesa da pedreira. O barulho de festa chegava-lhes trazido pelo frio vento nocturno, de vez em quando intercalado por gritos horrendos.

 

- Os Hicsos estão a divertir-se com os prisioneiros murmurou Karnac. Virou-se, o seu rosto enegrecido com cinzas. - Não se deixem apanhar vivos. Os homens do Regimento de Set não devem ser amarrados a estacas e exibidos diante do exército dos Hicsos como troféus. Se um de nós for ferido e não puder andar, têm de lhe cortar a garganta num gesto de misericórdia. Se falharmos, lutem até à morte! Os Hicsos são impiedosos. Em breve Meretseger irá descobrir porque estamos aqui. É hedionda e abominável. Os Hicsos sabem como matar um homem. Enterram-no vivo nas areias quentes ou untam-no com mel e abandonam-no nas Terras Vermelhas. - Olhou em volta. - Não se deixem fazer prisioneiros!

 

Estavam de acordo quanto a isso. As atrocidades dos Hicsos eram bem conhecidas por todo o Egipto do Sul: homens sacrificados em altares; mulheres violadas, espancadas, as mãos e os pés atados com fio vermelho antes de serem atiradas para o Nilo como isco para os crocodilos. Karnac nada mais disse. De vez em quando virava ligeiramente a cabeça, como se tentasse perceber que a pândega chegava ao fim. Os batedores e espiões egípcios estavam de acordo numa coisa: os Hicsos tinham marchado para sul desde a sua cidade de Auaris, falange após falange de infantaria, a terra estremecendo sob o ribombar dos carros de rodas grandes e dos cascos dos cavalos de guerra. Confiavam na vitória. Não haviam esmagado os exércitos egípcios uns após os outros? Eram tão descarados que tinham enviado mensagens impudentes ao faraó, ordenando-lhe que mantivesse os hipopótamos em silêncio entre os papiros nas margens do rio no exterior de Tebas! O príncipe dos Hicsos alegava que os seus rugidos lhe perturbavam o sono e, como o faraó era incapaz de os controlar, ele marcharia para sul, a fim de se encarregar pessoalmente do assunto. Ahmés não tinha qualquer alternativa senão lutar, mas era um faraó forte e determinado. Acreditava que os Hicsos estavam demasiado confiantes. Dependiam de mercenários, vadios do deserto, a escória da orla marítima. Ahmés, entretanto, tinha treinado em segredo o seu próprio exército, organizando-o por regimentos, construindo novos carros mais rápidos, mais fáceis de manobrar do que as carruagens pesadas dos Hicsos. Mas o inimigo dispunha de duas vantagens; a sua reputação de ferocidade implacável e o poder da feiticeira Meretseger.

 

- Eles hão-de comer e beber bem - murmurou Karnac -, e dormir como porcos saciados.

 

Oh, como as Panteras aguardaram! Aquelas horas pareceram estender-se como a eternidade. Os corpos suados dos nakhtu-aa foram fustigados pelo frio vento do deserto. Os braços haviam ficado hirtos, as gargantas secas, as bocas cheias de pó. Abaixo deles, as fogueiras começaram a apagar-se, o som dos folguedos amainou. Karnac deu o sinal. A semelhança de um animal selvagem, detectara uma brecha nas defesas dos Hicsos. Abriu o saco que transportava e tirou lá de dentro pequenos frascos de tinta e trapos garridos. Os companheiros olhavam, espantados e sem perceber, até Karnac os elucidar.

 

- Vamos entrar por ali adentro a pé. - Tirou um pedaço de cordel do saco e ordenou ao seu servo, Nebamum, que se virasse.

 

- Vamos fingir ser Hicsos? - perguntou Balet.

 

- Sim, meu falcão do Egipto de olhar penetrante. Tenho estado a observar o campo; as sentinelas são descuidadas. Vamos fingir ser um grupo de mercenários fanfarrões que regressa com um prisioneiro.

 

- Mas será que não vão pedir uma senha? Exigir uma prova?

 

- Isso temos nós. - Karnac bateu ao de leve no ombro de Nebamum. - Estás pronto?

 

Nebamum, magro e musculado, o mais jovem do grupo, sorriu e assentiu. Antes de terem saído do acampamento do faraó, o seu senhor havia-lhe explicado o que estava prestes a acontecer. Karnac esbofeteou com força o servo na cara e na boca. Apesar da pouca luz, Balet viu o lábio inferior de Nebamum fender-se, o sangue começar a jorrar.

 

- Desculpa - sussurrou Karnac. Fez um golpe com o punhal no ombro de Nebamum para provocar mais sangue. Nebamum fez um esgar, mas não protestou. - A partir de agora vamos desempenhar o nosso papel - ordenou Karnac.

 

- Ninguém fala. Eu sei um pouco de hitita. Os guardas estão cansados, meio embriagados de cerveja e vinho.

 

Abandonaram o esconderijo. Karnac colocou uma corda em volta do pescoço de Nebamum e puxou-o como a um cão. Os restantes homens colocaram-se à volta deles. Balet teve a sensação de caminhar entre o céu e a terra. Tinha apenas consciência do solo rochoso, dos grunhidos dos companheiros e das luzes e do fedor cada vez mais próximos do acampamento dos Hicsos. Os nakhtu-aa avançaram por um dos carreiros que se dirigia para lá. Passaram por prisioneiros pregados a postes. Nas palmeiras, a pouca distância, avistaram cadáveres pendurados pelo pescoço, balançando suavemente no ar da noite, silhuetas negras recortadas contra o céu nocturno.

 

Balet pousou a mão nas armas. Os Hicsos haviam montado uma linha defensiva - carros e quadrigas. Nos intervalos destes, os soldados aglomeravam-se à luz dos archotes. À medida que se foram aproximando, viram um hicso obrigar uma mulher a ajoelhar-se na terra, com uma faca encostada à garganta, e a executar um acto obsceno para gáudio dos seus companheiros. Nem olharam quando Karnac e os companheiros, arrastando Nebamum atrás, passaram por eles. Balet nunca esqueceria aquela visão. Os hicsos, com o cabelo pelos ombros, os rostos cruéis com pinturas de guerra, as armas uma colecção díspar arrancada aos mortos ou pilhada dos portos e cidades por eles vandalizados. A jovem egípcia, que não tinha mais de quinze Verões, estava ajoelhada nua, o oficial hitita, com a saia levantada, o pénis erecto encostado à cara dela. Um dos guardas gritou-lhes. Karnac respondeu numa língua gutural. O homem riu-se.

 

Os egípcios foram penetrando no campo. O fedor das latrinas misturava-se com o aroma intenso de perfume e o odor das panelas. Havia soldados hicsos deitados por todo o lado - alguns em unidades ordeiras, outros esparramados no chão, odres de vinho e taças ao lado. Os egípcios desviaram-se quando um carro passou por eles: dois prisioneiros haviam sido amarrados a ele e eram arrastados pelo chão, demasiado fracos e feridos para conseguirem sequer gritar. Passaram por mais cenas brutais: uma panela cheia até acima com cabeças decapitadas, o sangue a escorrer pelos lados. Um prisioneiro amarrado a um poste, a corda em volta do seu pescoço a sufocá-lo lentamente ao som da música macabra de gemidos. A corda encolheria e o prisioneiro sufocaria lentamente. Por aqui e por ali erguiam-se os pavilhões e as tendas dos oficiais e da nobreza. Balet mal podia acreditar na sorte que o grupo estava a ter ao avançar por ali incólume.

 

Foram penetrando cada vez mais no acampamento. Karnac tivera razão. Eram tomados por aquilo que pareciam: mercenários hicsos a regressar com um prisioneiro. Chegaram a uma vedação tosca. O oficial que ali se encontrava estava mais composto, embora as suas pálpebras pesassem devido ao sono. Parou à frente deles, a mão levantada. Karnac respondeu em hitita. O oficial, satisfeito, desviou-se para os deixar passar. Balet percebera a palavra ”Meretseger”. Karnac fingia estar a levar um prisioneiro à feiticeira.

 

Por fim chegaram ao centro do acampamento hicso que Karnac avistara do cimo da formação rochosa. Aquele era o círculo real, rodeado por archotes presos a postes; as chamas, alimentadas por pez e alcatrão, erguiam-se fortes contra o vento. Mais guardas, alguns envergando a armadura de cerimónia. À direita ficava o pavilhão do príncipe hicso, à esquerda uma tenda de aspecto estranho, os seus panos drapeados sobre as traves de madeira para dar a impressão de um templo. No exterior uma carruagem enorme com um altar. À luz dos archotes Balet viu vestígios de sangue num dos lados. Era ali que Meretseger fazia os sacrifícios. Karnac parou. Balet olhou para baixo. A terra estava mole e molhada devido ao sangue que escorria da carruagem.

 

Havia soldados por todo o lado; oficiais com os seus mantos caros, as bainhas e os cinturões de guerra decorados com jóias que brilhavam à luz das chamas. Balet acreditava que os deuses haviam caminhado com eles nessa noite. Ninguém os deteve.

 

Karnac, empurrando Nebamum, avançou até ao pavilhão que servia de templo e afastou o pano da entrada. Balet e os outros seguiram-no. Lá dentro, um soldado, possivelmente um guarda-costas, levantou-se de um pulo. Karnac, rápido como uma cobra-capelo no ataque, cravou a espada na garganta do homem. Amparou-o pelo ombro e deitou-o silenciosamente no chão. Outro membro do grupo tapou-lhe a boca com a mão para abafar o estertor da morte.

 

A feiticeira Meretseger estava acocorada numa pilha de almofadas na outra extremidade da tenda. Balet reparou no rosto queimado do sol, nas rugas em torno dos olhos e da boca, no cabelo grisalho caído pelos ombros. Os olhos da feiticeira eram horrendos, manchas escuras de ódio e malícia, mas nos seus lábios exangues havia um ligeiro sorriso.

 

- Eu tinha razão. - Ela levantou a cabeça. - Achei que a minha morte iria ser esta noite. Foi profetizada, mas morrerei em boa companhia. Vocês, escória do deserto, irão morrer como eu.

 

Pegou numa trompa de guerra para soprar um aviso. Karnac foi mais rápido. Afastou Nebamum da frente com um empurrão e saltou na direcção da feiticeira. Ela atirou-lhe a trompa. Karnac deu-lhe uma pancada, desviando-a. De pé, agarrando na espada com as duas mãos, desferiu um golpe certeiro. A cabeça da feiticeira caiu como uma flor cortada, o sangue jorrando como água de uma fonte. O tronco ficou imóvel enquanto a cabeça rolava para um canto. Karnac parecia alheado dos perigos, não parando para pensar nem sequer para dar ordens. Empurrou com os pés o corpo sem vida para um lado e, agarrando na cabeça pelos cabelos, enfiou-a num saco de cabedal.

 

Nas sombras por trás das almofadas havia uma mesa com o tabuleiro onde se encontravam as dez Taças do Escorpião. Como um servo a arrumar uma sala depois de um banquete, Karnac pegou no tabuleiro e enfiou-o, juntamente com as taças, no saco ensangüentado.

 

Do exterior veio barulho. Karnac fez sinal aos outros para que se colocassem dos dois lados da entrada. Apareceram dois soldados. Balet e os outros rodearam-nos. Houve um confronto rápido e cruel, punhais e espadas em acção, depois os corpos foram arrastados para o lado. Karnac, com o saco na mão, dirigiu-se para a entrada do pavilhão. No seu rosto salpicado de sangue surgiu um sorriso.

 

- Se conseguirmos sair daqui tão depressa e silenciosamente como entrámos é porque fomos de facto abençoados.

 

Saíram, atravessando o círculo de luz, pelo caminho por que tinham vindo. Karnac avançava à frente com determinação, o saco horrendo numa mão, a outra no punho da espada. A certa altura foram detidos por um soldado que julgou ver algo de estranho no saco. Karnac disse uma piada e o homem afastou-se. Tinham quase chegado junto dos cavalos e das quadrigas quando o ar da noite foi fendido pelo som de trompetas de guerra. Fora dado o alarme. Mais adiante os egípcios viram barreiras de espinhos serem levantadas nas estradas do acampamento. Em volta deles, os soldados começavam a despertar. Um homem passou por eles a correr com mensagens para as linhas de defesa.

 

- Não temos alternativa! - gritou Karnac. - Corram! Muito juntos, os egípcios desataram a correr freneticamente para a entrada escolhida por Karnac. Ali, os soldados, molengões ou embriagados, foram incapazes de agir suficientemente depressa. O portão de saída continuava aberto. A princípio os homens de Karnac foram tomados por hicsos, alertados pelo alarme. Contudo, um oficial, mais perspicaz que os outros, ficou desconfiado e, gritando aos seus homens, tentou empurrar o grupo para uma barreira antes do portão. As espadas e os punhais foram desembainhados. Karnac, Balet e os outros colidiram com a linha inimiga. Seguiu-se um combate feroz e sangrento.

 

Balet nunca o esqueceria: punhal e espada a brilharem na luz tênue; dedos a tentarem agarrá-lo. Uma lâmina feriu-lhe o ombro direito. Nebamum recebeu um golpe na perna esquerda e tombou. A corda em redor do seu pescoço salvou-o; Karnac puxou-o.

 

Por fim atravessaram, e, para além de Nebamum, o grupo não sofreu ferimentos graves, apenas alguns cortes. Karnac gritou-lhes que corressem o mais depressa possível. Afastaram-se rapidamente do campo, protegidos pela escuridão. Os hicsos, já completamente despertos, seguiram-nos. Contudo, Karnac conhecia o terreno: as valas e os caminhos. Mesmo assim de vez em quando os hicsos apanhavam-nos e havia confrontos sangrentos. O terreno irregular e mergulhado nas trevas impediu os hicsos de enviarem os seus esquadrões atrás deles.

 

Balet acreditou estar a atravessar o mundo inferior: a escuridão do deserto; os gritos horrendos dos seus perseguidores a farejarem sangue e a aproximarem-se. De vez em quando um grupo de batedores hicsos aproximava-se. Karnac ordenava aos seus homens que parassem e se voltassem para trás. O confronto era breve. Mais corpos de hicsos que ficavam para as hienas. Continuaram a correr, procurando desesperados as sentinelas egípcias, rezando para que a alvorada não os apanhasse expostos e vulneráveis. Haviam tido tanta sorte. Apenas Nebamum, à medida que as dores o invadiram, começou a gemer e a abafar os gritos.

 

Karnac agarrou num pano e enfiou-o na boca do servo.

 

- Silêncio! - sibilou.

 

Avançaram rapidamente, os sons da perseguição ecoando atrás deles. Mas a salvação estava próxima. O faraó enviara batedores e estes cobriram a retirada do grupo. Atingiram finalmente o acampamento egípcio. O faraó recebeu-os como se fossem mensageiros de Ré. Foram alimentados e aclamados, e os médicos do faraó trataram dos seus ferimentos e da perna de Nebamum. As notícias espalharam-se como fogo e, quando o Sol nasceu, eram saudados como heróis.

 

O faraó reuniu todo o Exército egípcio e, encarando-o, sentado no trono, o ar à sua volta perfumado pelos leques de penas de avestruz, Ahmés ordenou que os nomes dos nakhtu-aa fossem inscritos no Livro da Vida. Também mandou que os seus títulos fossem gravados nos pórticos e portões do seu palácio, a Casa do Milhão de Anos.

 

Foram distribuídas medalhas. Cada um dos heróis recebeu o título de ”Amigo do Faraó”. A cabeça de Meretseger, juntamente com o tabuleiro das Taças do Escorpião, foi exibida no acampamento ao som de trombetas.

 

Três dias mais tarde, o exército dos Egípcios e o dos Hicsos defrontaram-se numa batalha sangrenta. O faraó obteve uma vitória esmagadora. Os esquadrões de guerra hicsos foram aniquilados de uma vez por todas. Os milhares de prisioneiros foram enviados para as minas do Sinai. Dois anos mais tarde, os príncipes hicsos pediram a paz incondicional e foram para sempre banidos das fronteiras egípcias...

 

Balet foi desperto dos seus sonhos do passado por uma pancada na porta, que se abriu. Descontraiu-se. Era apenas o sacerdote, Chichnak, e a esposa, Neferta. Chichnak era alto, tinha mais ou menos a idade de Balet, e fora soldado. Ainda exibia um porte militar: os seus ombros eram ligeiramente curvos, embora o rosto barbeado lhe conferisse um ar jovem. Ao seu lado, Neferta parecia mais sua filha do que esposa. Envergava uma elegante túnica plissada, tinha na cabeça uma peruca ensopada em perfume e o seu rosto doce estava pesadamente maquilhado com círculos escuros de ocre sob os olhos escuros.

 

- Já estás aqui há muito tempo - murmurou Chichnak. Fez um sinal com a mão. Um servo entrou com um prato de pão, fatias de ganso assado e um pequeno jarro de cerveja.

 

- Tenho estado a recordar. - Balet levantou-se.

 

- A noite do vosso grande triunfo? - perguntou Chichnak, ajeitando a túnica nos ombros. - Uma grande vitória, meu senhor!

 

Balet assentiu. Viu o servo colocar o prato de comida sobre uma pequena mesa logo a seguir à porta e sair em silêncio.

 

- Eu também lá estive - prosseguiu Chichnak. - Era soldado.

 

- Sim, sim, claro.

 

Balet só queria que o sacerdote se fosse embora e levasse com ele a mulher, que mais parecia uma boneca. Todos os soldados velhos afirmavam agora terem estado presentes naquela grande batalha. Balet já estava farto de ouvir as recordações dos outros. O sacerdote apontou para o tabuleiro com as Taças do Escorpião.

 

- Gosto de lhes tocar. São objectos de heróis - acrescentou.

 

- Sim - concordou Balet distraído: o faraó decretara que cada um dos seus heróis recebesse uma Taça do Escorpião, enquanto ele próprio ficava com o tabuleiro. Ahmés mandara construir aquela capela propositadamente, e colocara lá o tabuleiro. Quando uma das Panteras morria, a sua taça ficava ali, como um legado.

 

- Tantas maravilhas - sussurrou Chichnak olhando em volta.

 

Queria deixar Neferta sozinha com aquele oficial veterano. Ela aguardava com recato afectado, olhando para Balet sob as pestanas compridas. Balet tossiu com nervosismo e recuou. Já ouvira boatos. Chichnak era um sacerdote ambicioso. Era hábito os oficiais do Regimento de Set irem ali rezar, fazer as suas devoções em privado, como ele fazia naquele momento. Constava que Chichnak trazia a mulher e, se alguns oficiais o desejassem, ela ajoelhava ao lado deles e, com a mão, ajudava-os a descontrair. Balet não queria nada disso! Não precisava de ficar em dívida para com Chichnak. Se precisasse de se descontrair, havia suficientes raparigas do templo. Chichnak olhava para as Taças do Escorpião. Balet voltou a ajoelhar-se na almofada como se estivesse ansioso por rezar.

 

- Queres que te deixemos? - A voz de Neferta era suave, sedutora.

 

- Sim, sim, se não se importam.

 

O sacerdote e a sacerdotisa saíram, deixando uma nuvem de perfume e fechando a porta em silêncio. Balet ignorou a comida. Iria falar daquilo a Karnac. Ia ali para rezar e dar graças, não para ser entretido por aqueles dois! Levantou-se e ajeitou as almofadas para se ajoelhar com maior cuidado, de ouvido atento. O templo ficara em silêncio. Porque estava ele ali? Sim, para dar graças. O pai de Balet fora um agricultor mas, desde o ataque ao acampamento dos Hicsos, Balet conhecera apenas honras, esplendor e riquezas. A história fazia agora parte do folclore de Tebas. Para todo o lado que ele e os seus companheiros se deslocassem eram tratados como se fossem sagrados para o faraó. Até aquela sirigaita matreira, Hatusu, que conseguira eliminar os inimigos para ser aclamada faraó, sempre os tratara com a maior cortesia e respeito. Em todos os festivais militares importantes, banquetes ou comemorações, as Panteras do Sul sobreviventes estavam sempre presentes e eram aclamadas.

 

Balet e os companheiros haviam enriquecido e prosperado. Possuíam quintas; barcas, que deslizavam pelo Nilo rumo ao Grande Verde. Tinham tesouros depositados na Casa da Prata, propriedades férteis e grandes mansões para lá dos muros da cidade. Balet casara, gerara dois filhos e três filhas. Fora apelidado de ”braço direito do faraó”. Estava a ser construído um túmulo esplêndido para ele e para os outros na necrópole do outro lado do rio. Na noite da grande vitória sobre Meretseger, Balet acreditara piamente que atingira o ponto alto da sua vida. Nunca mais voltaria a enfrentar tamanho perigo. Nunca mais alcançaria tamanha glória. Parecia ter sido levado até ao Horizonte Longínquo e deixado a vaguear pelos Campos dos Bem-Aventurados. Tudo o que viera depois parecia de segunda categoria. As Panteras haviam conseguido grandes feitos na derrota dos Hicsos, mas Balet nunca haveria de esquecer a noite do triunfo. Sim, seria isso errado? Balet vinha sempre ali para tentar descobrir.

 

Levantou-se e caminhou até à parede onde um artista, um pintor hábil da corte do faraó, desenhara o grande feito das Panteras em cenas dramáticas e realistas. Balet sorriu. Claro, tal como os poetas, os pintores tomavam várias liberdades. Segundo o artista, Karnac e os seus companheiros envergavam armaduras de ouro e prata, calçavam elegantes botas de guerra. Até levavam quadrigas. Balet seguiu com o olhar a pintura, como já fizera inúmeras vezes. Cada cena contava uma parte da história: o assassínio de Meretseger, ali representada como um monstro, um demônio ou um sorvedor de sangue das salas escuras do mundo inferior. Ali a retirada deles: não em fuga no escuro, mas a recuarem lentamente, os escudos unidos, as lanças apontadas.

 

Balet ouviu a porta da capela abrir-se e fechar-se, mas não olhou em volta. Fechou os olhos e rezou para que Chichnak ou a mulher não tivessem regressado. Na verdade não tinham. Se Balet se houvesse voltado teria contemplado uma visão verdadeiramente horrenda: um vulto encapuzado, vestido de vermelho, a cor do temido deus Set; numa mão um punhal, na outra um maço de guerra, os pés envoltos em sandálias confortáveis. Avançou tão silenciosamente que já estava mesmo em cima de Balet quando este decidiu virar-se...

 

A morte do escriba Ipumer, que trabalhava na Casa de Guerra, foi bem testemunhada. A mulher que lhe dava alojamento, na sua bela casa de tijolo perto do Mercado dos Perfumes, foi despertada do sono muito antes da alvorada por pancadas fortes na porta do rés-do-chão. Lamna, viúva de um soldado, fabricante de cosméticos e perfumes, abriu os olhos e gemeu. Virou-se de barriga para cima, a cabeça no apoio, e olhou para o tecto com traves de cedro. Era uma mulher bastante rica, mas recebera Ipumer porque ele vinha recomendado e tivera pena dele. Não, não, isso não era completamente verdade. O rosto de Lamna enrugou-se num sorriso e as suas mãos deslizaram por entre as suas pernas nuas. Ipumer era um jovem atraente e bem apessoado e ela esperava um dia, bem... talvez um pequeno namorico no jardim? Uma taça de vinho charou partilhada no pavilhão com grinaldas de flores?

 

De novo as pancadas. Lamna fechou os olhos e gemeu. As aprendizas e servas dormiam nos seus aposentos na outra extremidade da casa, e a velha porteira era surda como uma porta. Afastou os lençóis de gaze de linho e a cortina fina pendurada em volta da cama para a proteger das moscas e mosquitos. Enfiou os pés em sandálias simples de junco e tirou uma túnica espessa de um gancho na parede. Envolveu-se nela e atou o cinto com cuidado. Apressou-se até à mesa-de-cabeceira, salpicou o pescoço com perfume e colocou a sua melhor peruca ensopada em óleo. Não tinha tempo para pintar o rosto nem para colocar jóias, mas se ficasse na sombra Ipumer poderia não reparar nas suas rugas.

 

De novo as pancadas na porta. Lamna acendeu o candeeiro a óleo e viu-se rapidamente na chapa de bronze polido que servia de espelho. Estava suficientemente atraente e, afinal de contas, aquele era o seu bairro. Devia recordar-se de que tinha uma reputação a manter e a sua aparição à porta a uma hora tão tardia não passaria despercebida.

 

Agarrou no candeeiro, tirou um molho de chaves da gaveta, saiu do quarto e desceu dois lanços de escadas. No pequeno corredor em baixo havia candeeiros a óleo em recipientes de alabastro com pequenas tampas de bronze por cima para que a chama não se apagasse. Lamna ocultou a sua irritação provocada pelas pancadas contínuas. Respirou fundo.

 

- Quem está aí? - perguntou, sabendo perfeitamente quem seria.

 

- Senhora, sou eu!

 

Lamna foi até à porta e espreitou pela fenda na madeira.

 

- O que foi? - insistiu.

 

- Senhora, por favor, abri a porta. Não me sinto bem.

 

Lamna pousou o candeeiro numa pequena mesa e destrancou a porta. Todos os seus devaneios desapareceram. Ipumer estava encostado à parede do alpendre, uma mão sobre o estômago, a outra a limpar a saliva e o vômito de um canto da boca. Outrora um rapaz atraente, Ipumer estava agora pálido, com olheiras fundas; a sua cabeça e o seu rosto magro e bronzeado encontravam-se cobertos de suor.

 

- Senhora, não me sinto bem.

 

Cambaleou para a frente. Lamna agarrou-o pelo braço. Sentiu um cheiro estranho, doentio. Lamna iria sempre recordar-se disso quando abordasse o assunto com os vizinhos.

 

- Ah, sim - diria ela -, percebi imediatamente que alguma coisa estava errada, não apenas o aspecto dele. Já vi antes jovens que beberam demasiado. O meu próprio marido às vezes descuidava-se um pouco com a bebida, mas o Ipumer tinha um cheiro muito desagradável.

 

- Um cheiro a quê? - A pergunta era sempre a mesma.

 

- Um cheiro agridoce, semelhante ao da sala de mumificação.

 

Lamna ajudou o jovem escriba a subir as escadas. O quarto dele não era muito distante do seu.

 

- Que os deuses me ajudem! - balbuciou o escriba. Sinto-me muito mal. Acho que vou vomitar.

 

Lamna apressou-o. Aquilo já acontecera antes. Ela lembrava-se daquele vômito: bílis, um líquido verde-escuro que tresandava e exigia uma aplicação intensa de água e cinza.

 

- Tens de ser visto por um médico - insistiu ela enquanto o ajudava a entrar no quarto. Tentou deitá-lo na cama estreita, mas ele recusou.

 

- vou sentar-me na minha cadeira.

 

Lamna ajudou-o a caminhar para a cadeira, que ocupava um lugar de destaque no quarto. Tinha o assento e as costas em cabedal acolchoado; pertencera outrora ao seu marido. Ipumer sentou-se. Lamna apressou-se a acender os candeeiros. O escriba encontrava-se num estado lastimoso. Perdera uma sandália e a túnica, que estivera tão alva quando ele saíra, encontrava-se agora manchada de vômito e lama. Lamna saiu do quarto, regressou com uma bacia e colocou-a aos pés dele.

 

- Queres comer ou beber alguma coisa? - perguntou.

 

Ipumer abanou a cabeça, fechando e abrindo a boca. Dobrou-se para a frente, vomitando ruidosamente na bacia antes de se inclinar para trás e fitar de olhos esgazeados o tecto. Lamna estava parada junto à porta e tentava ignorar o fedor.

 

- Ipumer, onde estiveste? - perguntou, ansiosa. - Já não é a primeira vez que isto acontece. Queres que chame Intef, o médico?

 

O jovem abanou a cabeça.

 

- Daqui... daqui a pouco estou melhor.

 

Dobrou-se para vomitar. Lamna encheu um copo com água de um jarro e colocou-o ao pé dele. Observou-o com ansiedade. Durante o último mês fora ali duas vezes, entre a oitava e a nona hora da manhã, e encontrara o jovem escriba a contorcer-se de dores no chão. Nas duas ocasiões ele contara-lhe que, a caminho de casa, sentira dores violentas na barriga. Os ataques passavam sempre. Ipumer visitara o médico Intef, comprara remédios e os vômitos tinham passado. Naquele momento ele inclinou a cabeça para a frente e lançou a Lamna um olhar esgazeado.

 

- Senhora, lamento o incómodo que causei. Se puder dormir um pouco fico melhor.

 

- Tens a certeza? Queres que chame a tua amiga? - insistiu Lamna.

 

- Não, não. - Ipumer abanou a cabeça. - Não quero que ela me veja neste estado. Talvez mais tarde.

 

”Não, claro que não havias de querer”, pensou Lamna com amargura. Ipumer, quando estava bem, era bastante atraente, de estatura mediana, feições agradáveis, sempre limpo e apresentável; perfumado, as suas túnicas e sandálias eram sempre de boa qualidade. Lamna reflectira bastantes vezes na relação dele com a outra viúva que vivia ali perto. Ela ficara com bastante dinheiro, tinha uma pequena casa com jardim, mas estava longe de ser uma beldade: Felima era muito baixa e magra. Só o astuto deus Bes poderia dizer o que Ipumer vira nela. Lamna encontrava-se junto à porta. Que pena! Que desperdício! Fora Felima que implorara a Lamna que albergasse Ipumer.

 

Ocorreu-lhe algo terrível. Ipumer comia nas melhores tabernas, e as refeições que ela lhe dava eram sempre saborosas e acabadas de preparar. E se a doença de Ipumer tivesse sido provocada por outra coisa? Tebas estava cheia de envenenadores. Junto ao rio, os homens dos escorpiões e outros embusteiros vendiam poções e pós que podiam arrebatar a vida a um homem e expulsar o ka do seu corpo.

 

Seria a viúva Felima uma envenenadora? Ela até fora ali e partilhara um jarro de cerveja com Ipumer no pequeno pátio sob as palmeiras de que Lamna tanto se orgulhava. Teria o jovem escriba prometido casamento à viúva e depois rejeitara-a?

 

”E eu?” À agitação de Lamna aumentou. Afinal de contas, produzia cosméticos, tintas faciais e pós para as senhoras de Tebas. A sua pequena oficina no rés-do-chão continha poções e mistelas capazes de matarem um homem. Iria o dedo de Felima apontar na direcção dela?

 

- Por favor, deixe-me - pediu Ipumer com voz fraca, fazendo um gesto com a mão. - Depois de dormir um pouco fico melhor.

 

Lamna obedeceu, fechando a porta atrás de si. Regressou ao quarto espaçoso que considerava também elegante, com o colchão de penas de ganso sobre ripas de junco, o apoio para a cabeça com cabeças de patos esculpidas em cada uma das extremidades, as cadeiras com encostos de cabedal, mesas de acácia e aquelas arcas de aspecto dispendioso que continham as suas túnicas. Lamna ignorou tudo aquilo enquanto acendia mais candeeiros.

 

Um jovem escriba como Ipumer não devia adoecer misteriosamente com tanta gravidade. Lamna aproximou-se da clepsidra sob a janela. Levou um candeeiro, olhou para ela e calculou que devia estar na segunda ou na terceira hora depois da meia-noite. Lamna sentou-se na beira da cama e tentou acalmar-se.

 

Os vizinhos consideravam-na caseira e decorosa: era assim que ela gostava de parecer porque era assim que era! Desde que o marido rabugento e gordo partira para o Horizonte Longínquo, Lamna levava, pelo menos aos olhos dos outros, uma vida respeitável. Tagarelava com os vizinhos, visitava os templos, rezava e fazia oferendas. Vendia os seus perfumes no mercado e, todas as semanas, atravessava o Nilo de esquife para visitar o pequeno túmulo que ela e o marido haviam comprado na necrópole. Às vezes levava comida e bebida e convidava as amigas para um piquenique na frescura da entrada do túmulo. Depois entravam para admirar o sarcófago que continha o corpo mumificado do marido e os outros objectos de ambos: estátuas, arcas e roupas para quando ela morresse e fizesse a sua viagem para o Ocidente infinito.

 

Lamna agia como uma mulher devota. Fazia oferendas aos deuses na necrópole e detinha-se sempre, de cabeça baixa e mãos erguidas, diante da grande estátua de Osíris, o Primeiro dos Seres do Ocidente, que dominava a estrada para a Cidade dos Mortos. De resto, tentava dirigir o seu negócio, alugando um dos quartos a uma sucessão de homens jovens, embora dissesse às vizinhas que cuidava deles como uma mãe. Lamna ouvia as suas novidades, festejava os seus triunfos e partilhava com eles a sua sabedoria simples. Ipumer não era diferente dos outros. É verdade, vinha da cidade de Auaris a norte, e tinha mais encantos e dotes oratórios do que a maioria. Não demorara muito a arranjar trabalho como escriba na Casa de Guerra e adquirira uma reputação de popularidade entre as hesets do templo, mas era suficientemente respeitável. Gostava era de dourar o seu passado. Lamna escutara, ocultando as suas suspeitas sobre como ele servira nos regimentos do faraó quando Hatusu atacara o Norte e os Mitânios.

 

A viúva tentou ignorar as dúvidas que começavam a invadi-la.

 

Tagarelava bastante com toda a gente, inclusive consigo própria mas, agora que estava sozinha, tinha de reflectir. Numa coisa o jovem Ipumer era diferente dos outros jovens, e isso Lamna não conseguia esquecer, embora tal facto a deixasse apreensiva. A noite estava bastante quente, mas a viúva apertou a túnica em redor dos ombros roliços. Guardara aquele segredo, ou pelo menos tentara. Ipumer, embriagado, o hálito quente no rosto dela, confidenciara-lhe havia vários meses a verdadeira razão para as suas escapadelas à noite e o seu regresso às primeiras horas da manhã. Lamna teria adorado espalhar a notícia, mas até ela tinha de ser cuidadosa. Conhecia o seu lugar na cidade de Tebas. Os grandes governavam ali: Hatusu, a reencarnação de um deus; Senenmut, o seu primeiro-ministro e, murmuravam alguns, o seu amante; os sacerdotes do templo; os juizes e, acima de tudo, os comandantes. A Casa de Guerra tinha cada vez maior importância. Hatusu exigira explicações aos seus inimigos, mas dependia do apoio dos regimentos à volta de Tebas que guardavam as fortificações desde o delta à Terceira Catarata. A divina Hatusu também louvara o glorioso passado militar do Egipto. Toda a gente conhecia as histórias do Regimento de Set e do seu grupo de heróis, as Panteras do Sul, soldados veteranos que, graças à sua coragem, ferocidade e audácia, haviam trazido a glória ao avô da rainha. Quando ouvira pela primeira vez a história de Ipumer, Lamna mal pudera acreditar. Ipumer apaixonara-se pela filha de um desses heróis, uma rapariga de olhos negros. Como se chamava ela? Ah, sim, Nechratta, a filha mais velha do comandante Pechedu.

 

- Que Tot na sua sabedoria a guie.

 

Lamna ergueu as mãos e o olhar. Pechedu! Um dos favoritos da rainha, rico e poderoso, com uma grande mansão fora dos muros de Tebas, com jardins luxuriantes, pavilhões, as suas portas de cedro do Líbano guardadas por criados. Contudo, aquilo acontecera. Os encontros clandestinos entre Ipumer e Nechratta haviam durado vários meses: encontros nocturnos, cartas para trás e para a frente.

 

Lamna chupou os dentes. Verdade fosse dita, a curiosidade levara a melhor sobre ela. Havia pouco tempo entrara secretamente no quarto de Ipumer. Ele fora descuidado e deixara o seu cofre metálico destrancado. Nechratta escrevera-lhe cartas de amor inflamadas. Lamna ficara chocada e surpreendida com a intensidade da rapariga: até compusera poemas de amor. Como era um deles? Lamna decorara as primeiras linhas:

 

O meu amor provoca danos.

 

A sua voz consome-me o coração.

 

O seu toque transtorna-me o corpo.

 

Os seus beijos torturam-me a alma.

 

Conduzo-o para os meus lugares secretos e detenho-o lá.

 

Lamna suspirou. Até uma heset, uma serva do templo ou uma cortesã da cidade coraria com tais palavras. Há alguns meses, pouco depois da inundação, Nechratta, juntamente com o pai, a mãe e a irmã mais nova, havia viajado até Mênfis, a norte. Nechratta escrevera a Ipumer, pedindo desculpa pela sua ausência e implorando-lhe que não a seguisse. Lamna interceptara o bilhete.

 

”Oh, por amor do prazer”, dizia ela, ”por favor não me sigas. O meu pai diria que fui eu que te levei. Tenho muita pena, meu amor de lódão, de não poder sequer ver-te no local para onde vou. Prometo que a primeira coisa que farei após o meu regresso será ver-te e partilhar contigo prazeres nem sequer experimentados nas Casas da Eternidade.”

 

Lamna empalidecera ao ler aquelas palavras. Então Pechedu desconfiava da filha, suspeitava daquele jovem escriba enamorado? Lamna ficara assustada. Afastara tudo aquilo para um canto da sua mente, tentando não pensar no assunto. Pechedu era poderoso. Podia facilmente arranjar um assassino. Tebas estava cheia de antigos soldados, e a morte poderia surgir depressa. Fora isso que acontecera a Ipumer? Estaria ele a ser castigado pela sua arrogância? E o castigo estender-se-ia até ela?

 

- ”És mais saboroso que o melhor vinho, mais doce que o melhor mel” - murmurou Lamna.

 

Era outro verso de um poema que Nechratta escrevera. A sua relação com Ipumer não fora um mero namorico. Deviam ter-se deitado sob os céus estrelados e tornado um só,

 

Lamna fizera algumas perguntas discretas nas entradas dos templos e no mercado. Claro, os vendedores de perfume e os fabricantes de cosméticos tinham facilidade em conhecer os boatos sobre os grandes, aqueles que viviam na sombra da Casa do Milhão de Anos. As mulheres dos generais, sacerdotes e escribas principais andavam sempre à procura de novas formas de se embelezarem. A jovem Hatusu iniciara a moda da beleza elegante; as mulheres da sua corte faziam os possíveis por imitá-la. A princípio Lamna nada soubera mas, por fim, ouvira dizer que Nechratta estava envolvida num escândalo: um romance que provocara mexericos, boatos sobre algumas deliciosas travessuras sexuais.

 

Lamna ouviu um som e virou-se. Embora a sua cama estivesse no segundo andar da casa, tomara precauções contra as cobras e os ratos. Untara com gordura de gato o lintel e fumigara o quarto, tal como fizera com o do jovem escriba, com carne de gazela misturada com terebintina e incenso.

 

- vou ter de repetir a fumigação - murmurou.

 

Ajeitou-se melhor na cama. O seu pensamento regressou ao jovem que tanto a preocupava. Ipumer desaparecia freqüentemente à noite. Era já a terceira vez que regressava adoentado, queixando-se de espasmos violentos na barriga e nos intestinos. Não podia ser um acaso ou uma coincidência. Lamna enrolou-se ainda mais. Mexeu as pernas gordas e encostou o rosto à cabeceira. Ainda pensou em ir ver se estava tudo bem, mas acabou por cair num sono agitado.

 

Foi acordada três horas mais tarde pela serva com uma taça de cerveja diluída com sumo de junípero e pão acabado de sair do forno. Bebeu e comeu à pressa, lavou-se na bacia com água perfumada que a criada lhe levou, enfiou uma túnica velha, calçou as sandálias resistentes que costumava levar ao mercado e saiu do quarto. A porta de Ipumer não estava trancada. Quando a abriu ficou aliviada por vê-lo na cama, os joelhos erguidos, uma mão sobre a barriga. O quarto cheirava muito mal, mas pelo menos o rapaz tivera a presença de espírito de levar a bacia para junto da cama. Lamna aproximou-se.

 

O rosto de Ipumer estava coberto por uma película de suor, os olhos entreabertos.

 

- Ipumer, como estás? Queres que mande chamar o médico?

 

- Não, não - gemeu o escriba. - Ainda é demasiado cedo.

 

Lamna saiu do quarto em bicos de pés, avançou pelo corredor e subiu as escadas até ao terraço da casa. A sua agitação era cada vez maior. Olhou em volta. O Sol começava a nascer, um disco dourado intenso, os raios incidindo nos obeliscos dourados e prateados dos diferentes templos e palácios. Ouviu um burro zurrar lá em baixo. Um condutor de camelos gritou impropérios para uma carroça que lhe bloqueava o caminho. O burburinho tornou-se mais intenso. Lamna ajoelhou-se no tapete das orações e, fechando os olhos, pediu a protecção de todos os deuses. Seria aquele um dia auspicioso? Sim, era o festival de Bes, o horrendo deus anão! Na véspera Lamna esquecera-se de rezar. Levou nervosamente os dedos aos lábios: não fora um dia amaldiçoado por Set? Lamna apercebeu-se de que iria precisar de toda a ajuda que conseguisse arranjar e, virando-se para norte, tentou sentir a brisa fresca da manhã, o hálito de Amon, mas não conseguia concentrar-se.

 

Voltou para baixo e foi ver o rapaz doente. Parecia estar pior. Lamna decidiu que já esperara tempo de mais. Colocou a peruca que usava durante a semana, pegou no pequeno guarda-sol, num cesto de malha de junco e saiu para a rua. Já se viam vários vendedores ambulantes e mercadores; rapazes e raparigas apressavam-se para uma das praças onde um escriba errante poderia ensiná-los. Na esquina dois barbeiros lutavam pelo melhor lugar para a sua banca. Lamna desceu uma viela, atravessou um portão, subiu por um jardim pouco cuidado e bateu a uma porta.

 

Intef, o médico, abriu-a. O seu rosto mirrado e amacacado fitou Lamna. Percebeu que ele estivera a beber: a túnica tinha nódoas vermelhas e a cara e o queixo não haviam sido barbeados. O homem obrigou-se a sorrir. Lamna vendia-lhe pós abaixo do preço de mercado e às vezes partilhavam uma taça de vinho. Lamna sabia como ajudá-lo a descontrair-se.

 

- O que posso fazer? O que se passa?

 

Lamna descreveu rapidamente os sintomas de Ipumer. O médico fechou a porta, regressou e, pouco depois, Lamna voltava para casa com algumas drageias de papoila e um emplastro de ervas. Ipumer, contudo, recusou ambos. Restava a Lamna assistir aos contínuos gemidos do escriba.

 

- Vai buscar o médico Intef! - acabou Lamna por ordenar à serva.

 

Pouco depois chegou o médico, ligeiramente mais asseado que antes. Dirigiu-se ao quarto do escriba, olhou para o doente e praguejou baixinho. Arregaçou as mangas da túnica e destapou a cesta que trouxera consigo. Colocou uma pequena estátua do deus Tot, esculpida como um íbis, na mesa. Murmurou alguns encantamentos e pediu a Lamna e à criada que o ajudassem a preparar uma mistura de sementes de papoila, fezes de mosca, resina e mel envoltos com cera de abelha. Acrescentou algumas gotas de óleo à mistura e desfez tudo no almofariz. O ganso de estimação de Lamna entrou no aposento. O médico enxotou-o.

 

- Não quero aqui animais - resmungou ele. - O meu remédio exige-o.

 

Ipumer ora desmaiava ora acordava. A sua cara tinha um aspecto horrendo - pálida, com tênues marcas azuis nas faces. Quanto mais Intef trabalhava, tentando forçar o escriba a engolir diferentes misturas, mais doente ele ficava. Intef perdeu a paciência.

 

- Não acredito nisto!

 

Quando Intef afastou a roupa do jovem escriba, Lamna viu as manchas no peito e. na barriga. Também reparou nos lençóis onde Ipumer se aliviara. Intef voltou a tapá-lo. Endireitou-se e observou. O corpo de Ipumer começou a tremer. Lamna sabia o suficiente para reconhecer o estertor da morte na garganta do rapaz.

 

- Não posso fazer nada! - gemeu Intef.

 

- Ele foi envenenado - declarou Lamna.

 

- com que poção? - perguntou Intef.

 

- Não sei - respondeu Lamna com voz rouca. - Mas isto não é nenhuma doença dos pântanos, nem provocada por comida infectada ou água salobra. Ele foi envenenado e vai morrer.

 

Ipumer estava agora com convulsões, inspirava e expirava com força, revirava os olhos. Tentava dizer uma palavra. - Nechratta!

 

O seu corpo estremeceu mais uma vez, depois imobilizou-se quando a cabeça tombou para o lado, os olhos e a boca abertos. Intef cobriu-o totalmente e Lamna começou a chorar, embora não soubesse se com pena de si própria se pelo jovem cuja morte horrenda acabara de presenciar. Intef agarrou-a pelo ombro.

 

- O que vai acontecer agora? - perguntou com rispidez.

 

- Temos de mandar chamar o guardador de cadáveres respondeu Lamna. - Ipumer vai ser levado para as câmaras de mumificação, para a Casa de Morte sob o Templo de Set.

 

Intef concordou, relutante. A lei era bastante explícita: todas as vítimas suspeitas de envenenamento tinham de ser examinadas pelos médicos da Casa de Morte no Templo de Set.

 

- Tenho medo - murmurou ela.

 

Intef deu-lhe umas palmadinhas no ombro.

 

- Nada temos a temer.

 

Lamna percebeu pelo olhar dele que o médico não dizia a verdade.

 

- Ouviste o que ele disse - protestou ela. - Ele mencionou Nechratta.

 

- Quem é? - perguntou Intef.

 

Lamna achou que ele sabia, mas mesmo assim explicou-lhe, de modo apressado. De vez em quando olhava receosa para o cadáver que ia ficando hirto sob o lençol de linho manchado. Intef escutou-a, tentando ocultar a sua agitação.

 

- Alguém há-de morrer por causa disto! - concluiu Lamna num tom sombrio. - É, sabes qual a sentença para os envenenadores? São enterrados vivos nas Terras Vermelhas!
O Animal de Set: uma criatura estranha com o corpo de um galgo. Tem um focinho curvado, orelhas espetadas e olhos amendoados.

 

- Ela merece a morte, meu senhor.

 

Ualu, ”os olhos e ouvidos do faraó”, delegado real na cidade de Tebas, mexeu um pouco os joelhos assentes na almofada, os olhos frios e negros observando o juiz sentado na cadeira semelhante a um trono. Diante desta havia uma mesa de sândalo belamente esculpida com os livros e os rolos que continham as leis e os decretos do faraó. Baixo e corpulento, Ualu manteve uma expressão sisuda, os lábios comprimidos, as mãos sobre os joelhos, as unhas a rasparem a elegante túnica de gaze. Ao pescoço, exibia a corrente de ouro indicativa do cargo, numa orelha um brinco de prata, e nos pulsos e dedos brilhavam pulseiras e anéis dispendiosos.

 

Preparara-se bem para aquele caso. A justiça do faraó iria prevalecer. Ualu sentiu a barriga a roncar, mas ignorou-a. Na porta atrás dele estavam os seus servos: o médico com o medicamento que lhe aliviava as dores; e o seu ”guardião da privada”, a latrina portátil que acompanhava sempre o delegado. O estômago de Ualu e as suas entranhas eram uma fonte de preocupação constante para ele e para a família, por vezes até um embaraço, sempre tema de conversa. No entanto, a preocupação com aquela doença menor não toldava a argúcia de Ualu nem lhe prendia a língua aguçada e certeira como a de uma cobra-capelo. com pouco mais de trinta anos, Ualu não tinha grande consideração pelo homem ajoelhado ao lado direito da arguida. Meretel era um escriba esperto; podia conhecer a lei, ser elogiado como um grande erudito na Casa de Vida, mas era ali no tribunal, no campo de batalha, que tinha de mostrar a sua intrepidez.

 

Ualu estudou o seu verdadeiro opositor: Amerotke, o juiz supremo da Sala das Duas Verdades. Amerotke era um adversário de valor. Sentava-se imóvel como uma estátua. com a mesma idade de Ualu, Amerotke tinha um rosto sisudo, olhos encovados com uma expressão pensativa, nariz fino sobre lábios que podiam ser generosos e sorridentes mas também podiam comprimir-se rapidamente numa expressão de desaprovação. Reservado, pensava Ualu, sim, era essa a melhor descrição para Amerotke, amigo da rainha-faraó, confidente de Senenmut, o grão-vizir e primeiro-ministro do Egipto. O juiz envergava uma túnica de linho alvo com borlas de ouro na franja. Tinha a cabeça rapada, exceptuando o tufo de cabelo escuro que lhe tombava junto à orelha direita. Uma corrente dourada com a insígnia de Maet, a deusa da verdade, uma oferta pessoal da rainha, pendia-lhe em volta do pescoço; o seu medalhão de filigrana dourada, com a forma de um disco solar, mostrava Maet a segurar a pena da verdade, ajoelhada diante do pai. Uma pulseira de ouro acima do pulso esquerdo de Amerotke continha um desenho semelhante, nos seus dedos os anéis do cargo exibiam as imagens de Tot, deus dos escribas, Maet, da verdade, e Anúbis, do julgamento das almas. Ualu esteou aquelas jóias com inveja mal dissimulada. Um dia seria juiz - talvez até se sentasse ali e pronunciasse as palavras saídas da boca do faraó. Só desejava que Amerotke intendesse: Ualu precisava de uma pista sobre o que pensava o juiz acerca daquele caso escandaloso de envenenamento que dera origem a tantos rumores deliciosos nos templos, mansões e mercados de Tebas.

 

Ela merece a morte - repetiu Ualu, inclinando-se para a frente e baixoo um pouco a cabeça.

 

Todos merecemos a morte, Ualu: esse é o fim de todos nós. Estamos aqui para aplicar a justiça do faraó.

 

Amerotke dera início ao ritual, aquela dança lenta que conduziria a argumentos desenfreados, contra-argumentos, provas e contraprovas. Ualu assentiu. Amerotke não iria dar a entender nada.

 

- Meu senhor juiz... - Ualu arregaçou as mangas da sua túnica. - O caso é bastante simples. Os nossos argumentos são claros, as provas convincentes. No terceiro dia do quarto mês desta estação, Ipumer, um funcionário militar na Casa de Guerra, deixou os seus aposentos e regressou às primeiras horas do dia queixando-se de dores fortes na barriga e no estômago. Apesar dos cuidados e da atenção da sua hospedeira e do tratamento de um médico, Ipumer morreu em agonia. Ualu fez uma pausa para criar mais efeito. - O seu corpo foi levado para a Casa de Morte no Templo de Set onde, segundo a lei, os médicos da Escola de Vida o examinaram. Estes concluíram que Ipumer fora morto por uma infusão, um veneno raro nesta cidade, extraído de um peixe.

 

Ualu calou-se e olhou para a direita. O chefe de gabinete de Amerotke, guardião das petições e os seus escribas, incluindo Prenhoe, parente de Amerotke, estavam ajoelhados sobre almofadas, com os tabuleiros de escrita no colo. Anotavam atarefados todas as palavras, mantendo um registo fiel do que era dito e feito.

 

- Também podemos provar - prosseguiu Ualu, elevando a voz, virando-se e apontando para Nechratta, ajoelhada numa almofada ao lado do advogado Meretel - de que forma a acusada comprou o mesmo veneno várias vezes a um homem dos escorpiões no Mercado das Ervas perto do Grande Ancoradouro no Nilo. - Ualu virou-se para trás, abrindo as mãos. - Meu senhor Amerotke: a causalidade é evidente. Ualu utilizou as mãos para enfatizar ainda mais o que dizia.

- Ipumer foi morto pelo veneno. Tinha o hábito de sair à noite. Sabemos que mantinha uma relação com esta jovem. Sabemos que esta jovem estava farta dele. Sabemos que ela comprou o veneno que o matou. Meu senhor juiz, o nosso caso é bem claro. A acusada, Nechratta, é culpada de homicídio por envenenamento. Maquinou a morte do jovem escriba. Merece sentir o rigor da lei, a execução! Ser enterrada viva nas Terras Vermelhas!

 

As palavras dramáticas de Ualu suscitaram gritos e gemidos, não só dos guardas aglomerados junto à porta atrás dele, mas também dos espectadores sentados no transepto à esquerda de Amerotke, para lá dos pilares estriados e decorados da Sala das Duas Verdades. Ualu olhou para o rosto preocupado de Pechedu, pai de Nechrátta. Encheu-se de vaidade. Era filho de um agricultor e tinha subido nos tribunais porque os deuses haviam tocado o seu coração, tendo-o feito tão dotado na lei e na argumentação que se tornara protegido de Senenmut. Ualu, como delegado real, podia apresentar um caso contra qualquer pessoa em Tebas. Era o chicote da justiça do faraó, mas, como homem, sentia um enorme prazer naquela oportunidade que se lhe apresentara para atacar os grandes, poderosos e ricos.

 

- Estou a ouvir o que dizes, meu senhor Ualu.

 

O delegado voltou a si. Amerotke, com as mãos nos joelhos, inclinara-se ligeiramente para a frente.

 

- Estamos aqui para aplicar a justiça do faraó, pelo que todos devem manter-se em silêncio. Do que precisamos, meu senhor Ualu, é de provas.

 

- Provas? - Ualu tentou ocultar o seu desdém.

 

- Sim, delegado Ualu, provas. Não é assim, Meretel? Amerotke olhou para o jovem advogado, que acenava vigorosamente.

 

- Meu senhor, não negamos - respondeu Meretel que a senhora Nechrátta, hum... manteve um namorico...

- Deteve-se devido às gargalhadas abafadas. - bom, teve uma relação com o escriba morto. Não negamos que o rapaz morreu devido a um determinado veneno. Nem contestamos a afirmação do delegado Ualu de que a senhora Nechrátta comprou o veneno a um homem dos escorpiões. - Meretel fez uma pausa. - No entanto, afirmamos, sob juramento sagrado, que em nenhum momento a senhora Nechrátta administrou, quer directa ou indirectamente, o veneno ao escriba conhecido como Ipumer.

 

Amerotke olhou directamente para Nechrátta. Estava ajoelhada na almofada, vestida com uma bela túnica branca, um colar de cornalina ao pescoço e outras jóias nos pulsos e nos dedos. Trazia uma espessa cabeleira preta que emoldurava o seu bonito rosto com caracóis cheios de óleo e lhe dava pelos ombros. com um aspecto encantador, feições delicadas, expressivos e oblíquos olhos negros e uma boca que qualquer homem quereria beijar, não parecia uma envenenadora. O juiz sorriu-lhe. Tinha pena dela. Possuía a mesma elegância tranqüila da sua mulher, Norfret, um porte, uma serenidade que provavelmente ocultavam um carácter forte e determinado. Amerotke investigara cuidadosamente antes de o caso começar. Debatera-o com Norfret, uma vez que toda a Tebas falava do escândalo. Sentia pena da acusada; quando aquele caso chegasse ao fim, quer ela fosse ou não culpada, a sua reputação estaria arruinada e a honra da sua nobre família manchada.

 

- Meu senhor? - Nechratta falou, a sua voz pouco mais forte que um suspiro.

 

- O Ipumer visitou-te na noite em que morreu? - perguntou Amerotke. - Encontrastes-vos com ele?

 

- Não, meu senhor.

 

- Fizestes um juramento - recordou Amerotke -, sobre estes rolos sagrados, testemunhado pela deusa. O castigo para o perjúrio é horrendo, para as mulheres e homens, nobres ou plebeus.

 

- Não me encontrei com ele. - A voz de Nechratta tornou-se mais forte. - Antes de ele morrer já não o via há cinco semanas.

 

- Sabes onde ele foi nessa noite e nas outras noites?

 

- Não, meu senhor.

 

- Mas ele escreveu-te?

 

- Escrevia-me constantemente, meu senhor, pedindo um encontro, assegurando-me do seu amor. - A voz de Nechratta permaneceu calma. - Umas vezes respondia-lhe, outras vezes não.

 

- E este veneno? - perguntou Amerotke. - Porque haveria uma jovem da nobreza de necessitar de uma substância tão terrível?

 

- Ela tem várias utilidades, meu senhor, como qualquer homem dos escorpiões lhe dirá. Pode ser utilizado na preparação de produtos de beleza bem como na limpeza de tecidos valiosos.

 

- Silêncio!

 

Amerotke levantou a mão por causa das gargalhadas que quase abafavam as palavras de Nechratta. Também aproveitou a oportunidade para olhar para a extremidade da sala onde o seu servo, Chufoi, se encontrava, segurando o guarda-sol de Amerotke, os seus olhos vivos tentando atrair a atenção do seu senhor. De facto, dava tamanhos saltos que Asural, capitão da guarda do templo, parente afastado de Amerotke, tivera de pousar uma mão no ombro do pequeno homem para o manter quieto. Amerotke mandara-o falar com os vendedores de poções e de ervas de Tebas, a fim de descobrir que utilidades o veneno tinha. Segundo parecia, Nechratta dizia a verdade.

 

- Meu senhor - interveio Ualu -, não contestamos isso. Muitos venenos têm diversos usos, para além de matarem um homem, mas não é estranho que a senhora Nechratta, que desejava ver-se livre do escriba Ipumer, tenha comprado essa mesma substância diversas vezes e, em várias ocasiões, ele tenha regressado dos seus passeios nocturnos aos vômitos?

 

Amerotke gesticulou a pedir silêncio. Estava satisfeito com o facto de o caso ter sido apresentado. Tudo se baseava nas provas. Se Ualu pudesse provar que, na noite em que Ipumer adoecera, se encontrara com a senhora Nechratta, ela poderia ser condenada. E se tal não tivesse acontecido?

 

Amerotke autorizou que as testemunhas de ambas as partes avançassem e falassem: médicos da Casa de Morte; o homem dos escorpiões que vendera o veneno; Lamna, em cuja casa Ipumer se encontrara hospedado; Felima, a confidente do jovem escriba. Meretel tinha uma longa lista de testemunhas, incluindo servas da casa de Nechratta, mas a situação desta não era famosa. Não havia dúvidas quanto à existência de uma relação prolongada entre a acusada e o morto, mas nada a ligava directamente ao homicídio.

 

Amerotke permitiu que tanto Ualu como Meretel interrogassem as testemunhas. Às vezes exigia silêncio, outras vezes ele próprio intervinha. No final, teve a sensação de que o tribunal parecia um cão às voltas a tentar morder a própria cauda, com dois tipos de argumentos, avançando como exércitos em estradas paralelas, mas nunca se encontrando nem colidindo.

 

Amerotke observou Ualu. O delegado real era determinado e fugidio como um mangusto. Amerotke desconfiava que Ualu queria provar que Ipumer e Nechratta tinham sido amantes e que ela comprara o veneno que o matara. Amerotke olhou para a esquerda, para lá do pórtico de pilares, na direcção dos jardins do templo, a sua relva verde luxuriante regada pelos canais do Nilo. Avistou uma fonte borbulhante, uma meiga corça a alimentar-se de erva sob os ramos de um sicômoro. Aquela visão acalmou-o.

 

- Meu senhor Amerotke.

 

O juiz não gostou do sorriso no rosto do delegado real.

 

- Tenho outra testemunha.

 

- Calculo que sim - respondeu Amerotke com secura.

- Então é melhor chamá-la!

 

Os servidores do templo acompanharam um homem bastante sujo e com ar desleixado. Tinha a túnica manchada e atada com uma corda simples, mas as sandálias nos seus pés eram de boa qualidade. A sua postura e o facto de se apoiar a um cajado de freixo indicavam que era um viandante, provavelmente um vendedor ambulante ou um bufarinheiro que trocava géneros e os vendia nas aldeias à porta de Tebas. Era alto, de rosto fino queimado do sol mas com olhos vivos e expressivos. Um funcionário do tribunal fê-lo prestar o juramento e o vendedor ambulante ajoelhou-se nas almofadas fornecidas. Ualu fez as apresentações.

 

- Diz ao meu senhor juiz - concluiu o delegado - onde estiveste e o que viste na noite em que o Ipumer morreu.

 

- Trabalhei até tarde. - A voz do vendedor ambulante ecoou pelo tribunal. - E por causa disso não consegui chegar à cidade antes do fecho dos portões. Não possuía um mandado nem uma autorização, por isso, meu senhor, decidi aguardar do lado de fora.

 

Amerotke assentiu. Aquelas coisas eram comuns. Assim que era dado o sinal de recolher pelo som das trompas, os portões da cidade eram fechados. Viajantes como o vendedor ambulante tinham de se desenvencilhar sozinhos.

 

- Voltei para trás pela estrada - declarou o homem. A noite estava linda, com lua cheia. As estrelas...

 

- Obrigado - interrompeu Amerotke.

 

- Andava à procura de uma pequena mata - continuou o vendedor ambulante, sem reparar no sarcasmo de Amerotke

- onde pudesse dormir. O meu saco estava a ficar pesado. Conheço as mansões para lá dos muros: os seus portões encontram-se sempre trancados mas, nas sombras, um viajante como eu pode encontrar uma cama macia debaixo de uma árvore, a salvo dos salteadores e dos ladrões. Encontrei um local desses.

 

- Onde? - perguntou Amerotke.

 

- Perto da casa do general Pechedu. - Como sabes que era a casa dele?

 

- Conheço muito bem a casa, meu senhor, como a palma das minhas mãos. Chamo-lhe, como muitos, ”Casa da Gazela Dourada”, por causa dos emblemas pintados no portão.

 

- Também a conheço - concordou Amerotke. Passara várias vezes por aquela mansão opulenta nas suas caminhadas.

 

- Bem, meu senhor, os portões vêem-se da estrada. Segui à volta do muro, descendo por um pequeno carreiro. Passa ali um canal; leva água do rio para a casa. Algumas tamareiras e palmeiras dão sombra. A erva é macia, não queimada pelo sol. Os viajantes acomodam-se sempre ali, mas nessa noite o local encontrava-se vazio. Pousei o saco no chão e instalei-me. Ouvi passos no carreiro e levantei a cabeça.

 

- Que horas eram?

 

- Meu senhor, os portões da cidade tinham acabado de ser fechados, por isso devia passar pouco da meia-noite.

 

- E quem viste?

 

- Um jovem, o escriba Ipumer. Mostraram-me o seu cadáver. Ele andava muito depressa. Tinha um cajado numa mão e um odre de vinho e um saco de cabedal ao ombro. Oh, pensei, ali vai um amante. Avistei o seu rosto ao luar. Parecia feliz e saudável; cantarolava baixinho. Cheio de curiosidade, vi-o descer o carreiro. Bem, nas traseiras havia um portão no muro. Os criados chamam-lhe ”buraco da agulha” por ser muito estreito. Esse portão abriu-se e um vulto saiu.

 

- Viste quem era?

 

- Não, meu senhor. O Ipumer cumprimentou essa pessoa. Ouvi o murmúrio de vozes.

 

- Masculinas ou femininas?

 

- Não sei, senhor, mas eles beijaram-se. Amerotke fez calar o tribunal. - Mas podia ter sido um homem?

 

- Ora, sim, meu senhor.

 

- Olha para a acusada - ordenou Amerotke. - Podes afirmar que era ela? Lembra-te de que estás sob juramento. A vida desta jovem pode depender disso.

 

Amerotke olhou para Ualu. Não confiava no delegado no que dizia respeito a truques e artimanhas, mas Ualu era um homem íntegro. Não colocaria palavras na boca de uma testemunha.

 

- Não sei dizer. - O vendedor ambulante olhou com uma expressão suplicante para Amerotke. - Meu senhor, não posso mesmo. Parecia uma mulher, e eles caminharam de mão dada.

 

- E depois?

 

- Regressei para junto dos meus haveres e da cama improvisada, meu senhor. Não fui capaz de dormir. Já passou muito tempo desde... - O vendedor gaguejou. - ... que estive com uma mulher pela última vez. Tinha a garganta seca, a barriga vazia. Invejei a boa sorte do escriba.

 

- Então mantiveste-te acordado?

 

- Sim, meu senhor.

 

- E os amantes regressaram?

 

- Cerca de uma hora mais tarde. Ouvi o murmúrio de vozes. O portão abriu-se e Ipumer surgiu no carreiro.

 

- E como estava ele nessa altura?

 

- Parecia animado e satisfeito.

 

Amerotke encostou a cabeça às costas altas da cadeira.

 

- Meu senhor... - A voz de Ualu era suave, contudo ameaçadora. - Na noite em que morreu, o Ipumer visitou a casa da acusada. Ela encontrou-se com ele como já acontecera antes.

 

- Isso não é verdade! - exclamou Nechratta. - O meu senhor juiz ouviu o depoimento da minha criada bem como o do porteiro.

 

- Sim, sim, ouvi - concordou Amerotke. Olhou para a testemunha. - A acusada mantém, e a sua afirmação foi corroborada pela criada e pelo porteiro, que não saiu do quarto e muito menos de casa.

 

O vendedor ambulante fez uma careta e abriu as mãos. Nechratta sussurrava algo a Meretel.

 

- Meu senhor, também conseguimos arranjar uma testemunha.

 

- Ainda não acabei! - protestou o vendedor.

 

- Continua!

 

- Ipumer passou por mim. Pouco depois o portão estreito voltou a abrir-se. Surgiu um vulto que seguiu na mesma direcção dos outros dois, mas depois regressou.

 

Amerotke apoiou os cotovelos na cadeira semelhante a um trono e coçou a cara.

 

- Viste essa pessoa?

 

- Não, meu senhor, mas era com certeza uma mulher. Senti um perfume intenso no ar da noite. Também vislumbrei uma peruca embebida em óleo.

 

- E não viras isso antes? com um vulto anterior?

 

- Não, senhor, mas a escuridão começara a diminuir; levantara-se uma brisa.

 

- Diz-me - pediu Amerotke inclinando-se para a frente -, o Ipumer morreu envenenado. Por isso devem ter-lhe dado algo para comer ou beber. Achas que ele levava comida?

 

- Vi um odre de vinho.

 

- E o primeiro vulto? - insistiu Amerotke. - Ele ou ela transportava copos, comida ou um tabuleiro?

 

- Meu senhor, tal não seria possível. Os dois abraçaram-se e beijaram-se imediatamente.

 

- Mas isto é estranho - insistiu Amerotke. - O Ipumer foi até à Casa da Gazela Dourada encontrar-se com alguém. Admito que aquela pessoa misteriosa pode tê-lo envenenado mas, para o fazer, não teria de haver comida, um copo, um prato?

 

Fez-se silêncio.

 

- É um mistério - prosseguiu Amerotke. - Dois vultos saíram da Casa da Gazela Dourada: um para se encontrar com Ipumer, outro depois. - Apontou para Nechratta. - Lembro-te de que estás sob juramento. Diz-me de novo o que fizeste naquela noite.

 

- Fiquei no meu quarto, no segundo andar. A minha serva dormiu até tarde numa enxerga. O meu senhor juiz já ouviu o depoimento dela e o do porteiro que guarda a porta principal dessa parte da casa...

 

- Há uma janela - interrompeu Ualu.

 

- Não sou nenhuma cobra - contrapôs Nechratta. Meu senhor, há muitas janelas, mas todas têm grades.

 

- Então, para saíres do teu quarto tens de passar pela criada? - perguntou o juiz.

 

- Que tem o sono leve.

 

- E descer as escadas sem ser vista pelo porteiro? Amerotke uniu as pontas dos dedos. Tanto a criada como o porteiro tinham sido chamados e feito o juramento. Como todos os cidadãos comuns ali presentes para depor, haviam-se sentido apavorados. Amerotke tinha a certeza de que tinham dito a verdade.

 

- Então, quem eram aqueles dois vultos misteriosos que se encontraram com Ipumer?

 

Amerotke olhou para a direita. Pechedu estava sentado num banco a seguir às colunas tendo ao lado a mulher, de rosto roliço, e a irmã mais nova de Nechratta, uma rapariga alta e donairosa que não devia ter mais de catorze anos.

 

- Delegado Ualu, tenho uma pergunta a fazer-te prosseguiu o juiz. - Levaste a cabo uma investigação cuidadosa antes de este caso ter sido presente a tribunal. O Ipumer era amigo ou dava-se com mais alguém da casa do general Pechedu?

 

Ualu abanou a cabeça.

 

- Todos o conheciam, mas ele era odiado.

 

O murmúrio de assentimento saiu dos lábios do general Pechedu e daqueles que o rodeavam.

 

- Então, é pouco provável que outra pessoa saísse da casa e o saudasse de forma tão afectuosa?

 

- É a minha opinião. Para além disso, a senhora Nechratta não tem sido sincera numa coisa. Eu também estive na Casa da Gazela Dourada. O opulento quarto dela está voltado para norte. É verdade, as janelas têm grades, mas uma tem uma grade de madeira que pode ser facilmente retirada. Ualu ignorou o protesto de Nechratta.

 

- A senhora Nechratta é... - Escolheu as palavras com cuidado. - ... É jovem e atlética. Há sempre uma escada de corda no seu quarto para o caso de haver um incêndio.

 

Nechratta mostrou-se agitada. Ualu sabia aquilo há muito mas decidira ocultar a informação. Amerotke já o vira fazer o mesmo antes: Ualu provocava um adversário, fazia-o pensar que estava em segurança e depois atacava.

 

- Meu senhor - Meretel, o advogado, levantou a mão.

- A senhora Nechratta esqueceu-se de falar da grade de madeira. No entanto, ouvimos as testemunhas. A serva dela tem o sono leve. O retirar de uma grade de madeira e a colocação da escada de corda na janela teriam sido ouvidas. A terra do jardim é macia. As sandálias e os pés da senhora Nechratta teriam ficado manchados de terra. Mais ainda, ela podia ter sido vista...

 

- Disparate! - interrompeu Ualu. - A senhora Nechratta é capaz de lavar os pés e as sandálias, não é? E, quanto ao depoimento dos empregados da família... - Ualu tornou-se carrancudo.

 

Os escribas estavam muito atarefados a escrever; especialmente Prenhoe. Amerotke iria rever atentamente e inúmeras vezes tudo o que fora dito no tribunal. Prenhoe levantou a cabeça, uma expressão desolada no rosto. Amerotke desviou o olhar. Prenhoe e os sonhos dele! Quando se haviam reunido todos na pequena capela atrás do tribunal, nos aposentos pessoais de Amerotke, Prenhoe não parara de falar nos sonhos da noite anterior.

 

- Meu senhor, estava a pairar sobre as Terras Vermelhas, montado num enorme abutre, as suas asas espessas e cobertas de penas. Por baixo de mim rugia um esquadrão de quadrigas, o electro cor de púrpura, os quatro cavalos negros como a noite. O condutor envergava uma armadura como eu nunca vira. O abutre guinchou e o condutor olhou para cima. Um esqueleto, mestre! A morte conduzia a sua quadriga rumo a Tebas. O tempo de Set, da grande mortandade, chegou até nós!

 

Amerotke, lavando as mãos numa mistura de natrão e mirra, assentira com ar ausente.

 

- Eu também tive um sonho - interviera Chufoi. Estava sob um salgueiro na margem do Nilo, com duas raparigas lindas ao meu lado, nuas, com excepção de belos colares de safiras, rubis e pedras preciosas...

 

- Isso é perigoso - interrompera Prenhoe.

 

Amerotke esboçou um sorriso. Os sonhos de Chufoi incluíam sempre raparigas. O juiz não acreditava em sonhos, mas, naquela manhã, ao percorrer a Avenida das Esfinges rumo ao Templo de Maet, um mensageiro de Senenmut falara-lhe do crime horrendo no Templo de Set. Um dos grandes heróis de Tebas, o general Balet, fora encontrado assassinado, a cabeça esmagada com um maço de guerra, os olhos arrancados. E não fora uma heset encontrada meio comida pelos crocodilos? Teria o sonho de Prenhoe alguma razão de ser?

 

- Meu senhor Amerotke?

 

O juiz despertou do seu devaneio.

 

- Se Vossa Excelência estiver cansada... - sugeriu Ualu.

 

- O juiz não está cansado! - retorquiu Amerotke.

 

- Tenho outras testemunhas... - disse Ualu.

 

- Oh, não duvido! Vamos ouvi-las.

 

O vendedor ambulante levantou-se, fez uma vénia e dirigiu-se para o fundo da sala. O seu lugar foi ocupado por um jovem escriba. Este pronunciou o juramento com nervosismo, purificando os lábios na bacia de natrão erguida por um dos funcionários do tribunal.

 

- O meu nome é Hepel - começou ele. - Sou escriba na Casa de Guerra. Era amigo do Ipumer, ou melhor, colega.

 

O jovem escriba estava bastante agitado. Amerotke fez um gesto com a mão; foi oferecida a Hepel uma taça com água que ele bebeu com avidez.

 

- Diz-me - começou Amerotke -, esse amigo, esse colega Ipumer, como era ele? - Amerotke abrangeu a sala com um gesto. - Não vejo familiares.

 

- Ele era de Auaris, meu senhor. Estudou lá e veio para Tebas com cartas de recomendação. Estas encontram-se nos arquivos.

 

- Como era ele?

 

- O Ipumer era um homem solitário; reservado. - O escriba pesava cuidadosamente as palavras. - Nunca falava da família. Nunca ninguém de Auaris veio visitá-lo.

 

- E o trabalho dele?

 

- Era bom, senhor. Cumpria os seus deveres. Também gostava da companhia de mulheres.

 

- Qualquer mulher? - perguntou Amerotke.

 

Hepel olhou para Ualu, que assentiu e lhe fez sinal para continuar.

 

- Visitava regularmente o cais, meu senhor. Ia às cervejarias e...

 

- E às cortesãs? - inquiriu Amerotke.

 

- Sim, meu senhor.

 

- E a senhora Nechratta?

 

- A princípio ele nada me contou, mas acabou por confessar que estava profundamente apaixonado por ela e esperava que ficassem noivos. Era bastante ambicioso. Achava que um grau de parentesco com uma família tão poderosa como a do general Pechedu lhe permitiria ascender socialmente. Às vezes apanhava-o a escrever cartas para ela. De vez em quando, ele ia até ao mercado comprar uma prenda. Perguntei-lhe como pudera escolher uma senhora tão bem-nascida. Parece que a vira pela primeira vez num banquete; uma coisa levara à outra e...

 

- E esses encontros? - insistiu Amerotke.

 

- Próximos da Casa da Gazela Dourada à noite. Amerotke silenciou o murmúrio de espanto.

 

- Onde, precisamente?

 

- Num pequeno carreiro paralelo à casa e a um canal de irrigação do Nilo. Há um pequeno portão. O Ipumer vangloriava-se de que a senhora Nechratta se encontrava com ele lá fora. Ele levava um odre de vinho e ela copos. Comiam, bebiam e... - Hepel lambeu os lábios com nervosismo.

 

Ualu exibia um sorriso satisfeito.

 

- Diz ao senhor juiz - murmurou - como a senhora Nechratta conseguia encontrar-se com o seu amigo.

 

Hepel respirou fundo.

 

- Ele explicou-me que uma das janelas do quarto dela tinha uma grade de madeira. Ela oleara as extremidades para poder tirá-la facilmente e sem fazer barulho. Também oleara a escada de corda, que podia ser baixada. Tinha umas sandálias especiais escondidas sob um arbusto no chão, bem como uma capa.

 

- E que tipo de relação era a deles? - insistiu Amerotke.

 

- O Ipumer era um gabarola. - Hepel corou, olhando nervoso na direcção do general Pechedu.

 

- Ele vangloriava-se de ter dormido com ela? - insistiu Amerotke.

 

- Sim, meu senhor, vangloriava-se.

 

Nechratta baixou a cabeça, os ombros a tremer ligeiramente mas, quando olhou para cima, Amerotke viu nos olhos dela uma expressão de desafio. Gritou para que no tribunal se fizesse silêncio e Asural saiu das sombras ao fundo com ar ameaçador. Nechratta sussurrou rapidamente algo a Meretel, que levantou a mão indicando que queria tomar a palavra.

 

- Meu senhor juiz, podemos contrapor o depoimento desta testemunha. Mais ainda, temos apenas a palavra de Hepel. O que ele disse não passa de boatos ouvidos no mercado. Não existem provas.

 

- A vossa vez há-de chegar - retorquiu Amerotke. Hepel, escuta. - Amerotke estava decidido a aproveitar ao máximo a testemunha. - Foste amigo do Ipumer... Ele alguma vez se queixou de dores na barriga e no estômago?

 

O sorriso de Ualu alargou-se.

 

- Sim, meu senhor.

 

- E quando ocorriam essas dores?

 

- Depois dos encontros dele com a senhora Nechratta. Toda a gente no tribunal susteve a respiração.

 

- Tens a certeza disso? Porque é que ele não foi ao médico?

 

- Mas, meu senhor, ele foi. Ao médico que vivia perto da sua casa: aquele que tentou tratá-lo antes de ele morrer.

 

Amerotke uniu os lábios, aborrecido. Intef havia sido interrogado; ocultara aquilo do tribunal.

 

- E o que disse o nosso nobre médico?

 

- Que eram cólicas, provocadas por qualquer coisa que ele comera.

 

- Mas com certeza que o escriba era um homem inteligente - observou Amerotke. - Seria capaz de se aperceber da relação entre as duas coisas.

 

- É verdade, meu senhor. Às vezes desconfiava que a senhora Nechratta tentava envenená-lo.

 

- E porque haveria ela de fazer isso?

 

- Porque começava a ficar farta dele!

 

O ruído no tribunal aumentou. Asural andou à volta pela sala, exigindo silêncio.

 

- E mesmo assim ele voltou lá! Quero dizer... - Amerotke brincou com a corrente em torno do pescoço. - Se fosses a minha casa e, depois de teres jantado comigo duas vezes, sentisses dores fortes na barriga, não começarias a ficar desconfiado?

 

- Do meu senhor juiz, não.

 

Amerotke juntou-se às gargalhadas. Hepel descontraiu-se.

 

- Porque havia ele de pensar que Nechratta estava a envenená-lo? Ipumer sabia que ela comprara esse veneno?

 

- Oh, sim, meu senhor, ela contou-lhe tudo. E ele... Hepel mordeu o lábio.

 

- Ele o quê?

 

- Ele também o comprou.

 

O sorriso desapareceu do rosto de Ualu. Amerotke pôs-se de pé.

 

Hepel continuou a falar.

 

- Contou-me que ela comprara aquele veneno porque era útil para a preparação dos seus produtos de beleza, bem como para outras coisas. Ele provocou-a, dizendo que ela andava a tentar envenená-lo. Segundo ele, ela limitou-se a rir.

 

- Porque é que o Ipumer comprou esse veneno?

 

- Começou a ficar nervoso. Disse que, se a Nechratta não casasse com ele, se mataria, respondendo por isso no mundo inferior. O sangue dele mancharia as mãos dela.

 

Amerotke assentiu na direcção de Meretel, que estava ansioso por interrogar a testemunha.

 

- Achas que Ipumer seria capaz de tirar a própria vida? - perguntou o advogado.

 

- É possível - respondeu Hepel. - Ele era normalmente um homem calmo, mas relativamente ao assunto da senhora Nechratta, costumava ficar bastante alterado.

 

Amerotke olhou em volta. Chufoi escutava aquela história de amor e morte, a boca ligeiramente aberta, o seu rosto desfigurado ligeiramente de lado para poder ouvir melhor.

 

- Deixa-me fazer-te uma pergunta. - Meretel decidiu aproveitar a vantagem. - Achas que é possível que o Ipumer, tendo sabido que o amor da sua vida comprara um pouco de veneno, tenha também adquirido a mesma substância a um homem dos escorpiões? Que, por despeito, se tenha envenenado para impedir que ela pudesse casar-se com outro? Esperaria ele desgraçá-la fazendo-a enfrentar a acusação de envenenadora e assassina?

 

Hepel olhou com ansiedade para o delegado real, que fitava o vazio com uma expressão empedernida.

 

- Responde à pergunta - interveio Amerotke.

 

- É possível e...

 

Amerotke incitou-o a continuar.

 

- O Ipumer tinha um estômago fraco. Queixava-se muitas vezes de dores.

 

- Meretel - começou Amerotke, decidindo desequilibrar um pouco as coisas -, a senhora Nechratta poderia sair do seu quarto sem que ninguém desse por isso?

 

A jovem estava agora sentada muito direita, um ligeiro sorriso nos lábios.

 

- Impossível! - Meretel apontou para o general Pechedu. - De acordo com a testemunha do senhor delegado, o Ipumer foi visto junto à casa pouco depois da meia-noite. com certeza antes da primeira hora.

 

Amerotke olhou para Prenhoe, que assentiu.

 

- O meu senhor juiz pode querer interrogá-la mas, pouco antes da meia-noite, a irmã da senhora Nechratta acordou devido a um pesadelo. Foi ter ao quarto da irmã.

 

- Porque não ouvimos isto antes? - perguntou Amerotke.

 

- Peço desculpa, meu senhor. Achei por bem guardar esse depoimento para o fim.

 

- E a serva nunca foi interrogada a esse respeito? - redarguiu Amerotke.

 

- Não, não foi. Nunca lhe perguntaram se alguém se aproximou da porta do quarto.

 

No grupo de Pechedu, a irmã mais nova sentara-se muito encostada ao pai, que lhe colocou um braço sobre os ombros, Amerotke reparou que ela se encolheu quando isso aconteceu.

 

- Ela pode prestar juramento - acrescentou Meretel -, e a serva pode voltar a ser chamada.

 

Amerotke concordou. A irmã mais nova foi tratada com delicadeza. Falava num murmúrio, mas a sua história coincidia com a da criada. Fora ao quarto da irmã por causa de um pesadelo sobre um morcego de asas vermelhas que pairava por cima da Casa da Gazela Dourada.

 

Amerotke baixou a cabeça. Prenhoe devia estar a adorar aquela história. Tratou a serva com um pouco mais de aspereza, mas a história dela parecia verdadeira. A jovem senhora aparecera e passara o resto da noite na cama da irmã, durante o período em que esta supostamente se encontrava com Ipumer naquele carreiro solitário e banhado pelo luar.

 

Ualu, claro, objectou. Amerotke concordou que tanto a serva como a irmã mais nova podiam ter ensaiado aquela história. Contudo, a menos que houvesse provas em contrário... Amerotke decidiu regressar ao assunto que tinha pendente.

 

- Então - sorriu a Hepel -, eras amigo do Ipumer, ele confessou o seu amor pela senhora Nechratta, e estava tão obcecado que se não pudesse tê-la escolheria a morte. Ele tinha mais algum amor na vida?

 

- Não sei, senhor. Havia noites em que ele não ia à Casa da Gazela Dourada e se encontrava com outra pessoa.

 

- com outra pessoa? - perguntou Amerotke.

 

- O Ipumer vivia com a viúva Lamna. E era amigo de Felima, outra viúva.

 

- Meu senhor juiz - interveio o delegado -, se pudéssemos regressar aos acontecimentos da noite em que o escriba morreu...

 

- Sim, continuemos.

 

- Nessa noite - prosseguiu Hepel -, encontrei-me com o Ipumer na Avenida dos Carneiros. Ele visitou uma casa de comida.

 

- A que horas foi isso?

 

- Por volta da sétima hora depois do meio-dia.

 

- Ele tinha ido a casa?

 

- Sim, senhor. Vinha de lá. Disse-mo.

 

- E que mais disse ele?

 

- Que tencionava visitar a Casa da Gazela Dourada. Perguntei-lhe se a senhora Nechratta acederia a vê-lo. ”Oh, acho que sim”, respondeu ele. ”É melhor que aceda!” Estava bastante agitado. Comeu e bebeu muito pouco.

 

- Já tinha comido antes?

 

- Sim, meu senhor. A sua hospedeira tinha-lhe preparado comida, e ele trazia um pouco num pano de linho; acho que acabou por deitá-la fora.

 

- E o vosso encontro foi demorado?

 

- Não, meu senhor, ele partiu pouco depois disso. Amerotke ergueu uma mão.

 

- Então, o que aconteceu durante as quatro horas que se passaram desde que o Ipumer te deixou até ser visto pelo vendedor ambulante a aproximar-se da casa do general Pechedu?

 

Hepel limitou-se a encolher os ombros. Amerotke mandou vir mais almofadas: as duas viúvas tinham voltado. Ocuparam os seus lugares com algum nervosismo. Lamna era rouca e tinha uma certa beleza, o tipo de mulher capaz de se exibir. Felima era diferente, bastante pequena, de rosto estreito; possuía uma beleza discreta, elegante nos seus maneirismos.

 

- Se um jovem vai visitar o amor da sua vida - declarou Amerotke -, lava-se, barbeia-se, muda de roupa, esfrega a pele com unguentos. Mas ele não fez isso na tua casa, pois não?

 

Lamna abanou a cabeça.

 

- Então foi visitar-te a ti. Felima limitou-se a olhar para ele.

 

- Foi, não foi? - continuou Amerotke com uma expressão bondosa. - Visitou-te na noite em que morreu. Que preparativos fez para o encontro com a amada? Estás sob juramento - recordou Amerotke. - Estas perguntas ainda não te foram feitas. Agora tens de responder. Ele tomou banho na tua casa, não tomou? Deste-lhe comida, bebida e roupa lavada.

 

A viúva estava nervosa, mas susteve o olhar de Amerotke.

 

- Sim, sim, fiz isso. - A sua voz era surpreendentemente forte. - Sabia que a verdade acabaria por vir a lume. Eu própria lhe dei banho. Fui eu que o ajudei a fazer a barba e lhe levei o óleo para a pele.

 

- Eras amante dele? - perguntou Amerotke.

 

- Hum, não era amante dele, não nesse sentido. Era serva dele.

 

Amerotke olhou em volta para silenciar as risadas.

 

- Então, ajudaste-o no banho, acalmando-o, e deste-lhe de comer?

 

Felima assentiu, mordendo nervosamente o lábio. Amerotke olhou para a esquerda. O Sol devia estar no zénite e ele imaginava o calor que devia fazer na rua e no mercado. Também reparou que um dos funcionários começava a cabecear de sono. Aquele caso não era, reflectiu, tão simples como o delegado o descrevera. Amerotke levantou as mãos, imitando o faraó, para indicar que a sessão chegara ao fim. Depois, pegou no bastão e no mangual, os símbolos do seu cargo, que haviam estado em cima dos livros na mesa diante dele. O tribunal ficou em silêncio.

 

- Esta sessão fica adiada! - declarou Amerotke. Ualu fez menção de protestar. Amerotke fitou-o.

 

- É o desejo do faraó - insistiu o juiz. - Eu sou a palavra que sai da boca do faraó.

 

Ualu calou-se. Amerotke pôs-se de pé. Virou-se e fez uma vénia à estátua de Maet, a deusa da verdade, que estava atrás dele.

 

- Meu senhor juiz.

 

Ele voltou-se. Ualu tinha a cabeça baixa.

 

- O que foi?

 

- Invejo a indulgência do tribunal. - O delegado levantou a cabeça. - No entanto, a senhora Nechratta devia ser detida. Existem masmorras sob a Casa de Morte, não é verdade?

 

- Sim, e esta é a Casa de Vida - retorquiu Amerotke.

- A senhora Nechratta ficará detida, mas na casa do pai. A sua culpa não foi demonstrada. - Esboçou um ligeiro sorriso. - Pelo menos, por agora. Esta sessão chegou ao fim!

 

Set: Geb, o deus da Terra, entregou o Egipto do Sul a Set.

 

- Meu senhor juiz, tenho de protestar!

 

- Então protesta.

 

Amerotke, sentado numa cadeira da pequena capela, tentou mostrar-se absorto olhando em volta para a sala de pedras douradas. Em todas as paredes belas pinturas em azul, vermelho, dourado e ocre representavam os feitos e a justiça de Maet. Na extremidade mais afastada encontrava-se o nãos, as suas portas abertas revelando a estátua sagrada: Maet, como jovem donzela, a pena da verdade num halo em torno da sua cabeça. O escultor representara na perfeição o seu belo rosto e o corpo, naquele momento coberto com uma túnica de linho branco. Os cestos aos pés da estátua estavam cheios de pão, fruta e outras oferendas que Amerotke iria distribuir pelos escribas da Sala das Duas Verdades. Encostadas às paredes havia pequenas mesas de sândalo precioso, com incrustações de ouro e prata. De ambos os lados encontravam-se os armários pessoais de Amerotke, onde os seus anéis, o peitoral, o bastão e o mangual haviam sido guardados pelo seu ajudante.

 

Ualu e Meretel estavam ajoelhados em almofadas diante do juiz. À esquerda de Amerotke encontrava-se Chufoi, a respirar ruidosamente, demonstrando assim o seu desprezo por aquele delegado que ousava incomodar o amo nos seus aposentos. O moreno Prenhoe também estava presente, examinando atentamente um calo no dedo causado pelo estilete. Asural, o capitão da guarda do templo, encostara-se à porta da capela de braços cruzados. Envergando as caneleiras de bronze, a saia de guerra em cabedal, botas e couraça, Asural parecia a reencarnação de Montu, o deus da guerra.

 

- Tenho de protestar - repetiu Ualu. - O julgamento devia ter prosseguido. A senhora Nechratta devia ser detida. Foste parcial...

 

Amerotke pegou no pano de linho húmido ligeiramente perfumado e limpou com ele o suor do pescoço.

 

- Não fui parcial - retorquiu. - Este caso não é simples. Aceito que Ipumer e Nechratta devem ter sido amantes. Aceito que ela se fartou dele, que comprou o veneno a um homem dos escorpiões. Aceito que Ipumer visitou a Casa da Gazela Dourada na noite em que foi envenenado. Mas tens de provar que ela o envenenou... que é culpada de homicídio. Nada sei a respeito deste escriba, mas irei interrogar novamente as testemunhas quando a sessão recomeçar. Em primeiro lugar, o Ipumer encontrou-se com o amigo - prosseguiu Amerotke, contando os argumentos com os dedos. - Depois recebeu comida de Lamna. Visitou Felima. Qualquer um deles podia tê-lo envenenado naquela noite. Não sei a que horas ele saiu da casa de Felima: é um ponto que temos de verificar. Pode ter ido a outro lado. Mais importante ainda, não vi nada que provasse que a senhora Nechratta lhe administrou veneno. Bem, podem dizer-se mentiras. - Amerotke apontou para a estátua de Maet. - Mas eu sou a peneira da deusa. Hei-de separar o trigo do joio e declarar a sentença. Quanto à detenção da senhora Nechratta... - Amerotke apontou para Meretel. - Ela não deve sair de casa do pai sem a minha autorização escrita. Se o fizer, será detida na Casa de Morte.

 

Ualu achou que já provocara o juiz o suficiente. Suspirou e, com os intestinos a borbulhar, pôs-se de pé, piscou o olho a Amerotke, fez uma vénia e saiu, seguido por Meretel.

 

Asural fechou a porta atrás deles.

 

- Achas que ela é uma assassina? - perguntou Chufoi.

 

Aproximou-se do amo. Amerotke beijou um dedo e encostou-o à pequena testa de Chufoi. O seu criado era anão. Anos antes havia-lhe sido cortado o nariz por causa de um crime que não cometera. De cada vez que Chufoi o olhava de frente, Amerotke sentia uma onda de compaixão. Um pequeno
homem com um grande coração e uma alma ainda maior, era assim que ele descrevia o criado a Norfret. Chufoi era um apaixonado pela vida. Naquele momento os seus olhos brilhavam de excitação.

 

- Ela é uma mulher muito bonita, meu amo. Oh, pensa naqueles seios, naquelas pernas, naquele corpo lascivo enterrado na areia!

 

- Pareces um bode no cio! - resmungou Asural.

 

- Sim, e igualmente rápido! - exclamou Chufoi.

 

- Cheiras como um deles - acrescentou Prenhoe, chupando o calo.

 

Chufoi ajeitou a túnica cinzenta nos ombros. Amerotke estendeu a mão e agarrou na madeixa de cabelo grisalho que tombava sobre os ombros de Chufoi.

 

- Porque não cortas isto? E, se és o meu arauto, pelo menos devias trajar como tal.

 

Chufoi sorriu, exibindo os seus belos dentes brancos.

 

- Porque tens de ter o aspecto de um mendigo? - continuou Amerotke.

 

- As pessoas apiedam-se, especialmente as mulheres. Meu amo, achas que ela é culpada?

 

- Aqui, entre amigos e familiares - começou Amerotke -, posso dizer que não tenho dúvidas de que o Ipumer foi envenenado naquela noite. Mas pode ter-se envenenado a si próprio. Seja como for... - Pôs-se de pé.

 

Chufoi pegou nas sandálias do juiz, que se encontravam debaixo de uma mesa. Amerotke calçou-as, pegou no manto e colocou-o aos ombros.

 

- Asural, manda toda a gente embora da Sala das Duas Verdades. Prenhoe, quero os teus registos levados a minha casa. Chufoi, anda comigo.

 

Amerotke começou a andar rapidamente antes que alguém pudesse fazer mais perguntas. Saiu pela porta e percorreu o corredor que conduzia a uma entrada lateral. O templo estava agora a preparar-se para a hora do sacrifício. Sacerdotes de túnicas brancas, cabeças rapadas, traços negros de khol em redor dos olhos, avançavam em procissão entre as grandes nuvens de incenso destinadas a purificar o ar bem como eles próprios.

 

Os címbalos tocaram. As servas do templo, com as suas pesadas perucas pretas, túnicas pregueadas de bom linho, sandálias prateadas nos pés, seguiam atrás. Os seus dedos pintados e com anéis seguravam os sistros, aros de metal presos a uma pega de madeira; quando sacudidos, estes instrumentos emitiam um som sobrenatural, discordante. Amerotke e Chufoi pararam num pequeno pórtico enquanto aqueles servos do templo avançavam até à Sala das Colunas e ao Altar Divino.

 

- Onde vamos? - perguntou Chufoi.

 

- Ao Templo de Set, ver o guardião dos mortos - respondeu Amerotke. - O meu senhor Senenmut exigiu a minha presença.

 

Chufoi gemeu e revirou os olhos. Saíram do templo e avançaram pela rua com chão de basalto até à avenida principal, onde os mercadores se atarefavam. Barbeiros, armados com lâminas curvas, aglomeravam-se em torno das bancas improvisadas sob as tamareiras e palmeiras. Estavam muito ocupados a ajudar as pessoas a purificarem-se, rapando-lhes as cabeças até ficarem tão macias como seixos, antes de entrarem no templo ou apresentarem as suas petições aos tribunais menores. Um grupo de soldados, ligeiramente embriagado com cerveja barata, avançava aos tombos, procurando uma casa de prazer, os homens desejosos de evitar as clavas grossas da guarda do mercado que vigiava todos os seus passos.

 

Algumas bancas estavam vazias e eram lavadas com baldes de água. Os talhantes e os vendedores de carne tinham de parar a sua actividade por volta do meio-dia. A essa hora o calor já apodrecera a sua mercadoria. Os restantes mercadores ainda aguardavam mais clientes antes de as pessoas irem abrigar-se do calor abrasador nas sombras frescas. A multidão estava animada e barulhenta agora que o malfadado dia de Set passara. As crianças corriam a gritar e a brincar, incomodando um poderoso mercador instalado na sua liteira improvisada sobre dois burros. Ele levantou o enxota-moscas e gritou às crianças, mandando-as desviarem-se. Músicos ambulantes, cantores, contadores de histórias erguiam-se sobre plintos tentando atrair a atenção dos transeuntes com histórias cativantes sobre o que poderia existir para lá do Grande Verde, ou sobre os demónios horrendos que percorriam as Terras Vermelhas. Estrangeiros de Cuche e da Núbia, com os seus estranhos toucados de penas e trajes de pele de pantera, cruzavam-se com semitas nas suas túnicas de motivos alegres, e líbios, de vozes agudas, troncos nus a brilharem devido ao suor e ao óleo, as saias escuras chegando abaixo dos joelhos. Estes haviam descalçado as sandálias e levavam-nas às costas.

 

Amerotke agarrou no ombro de Chufoi quando o anão se distraiu com uma contorcionista ostentando pequenos guizos de prata presos aos pulsos. Ela contorcia-se e revirava-se, mexendo-se, sedutora, ao som da música tocada por dois rapazes, um com um tambor, o outro com uma flauta de cana. Amerotke não sabia qual era o grande interesse de Chufoi naquele dia. O anão desempenhava vários papéis: adivinho, poeta romântico, vendedor de amuletos, até homem dos escorpiões ou médico, com uma grande variedade de remédios que, afirmava Amerotke, matavam mais do que curavam. Chufoi teria adorado ficar por ali, mas Amerotke não o permitiu. O anão suspirou e abriu o guarda-sol. Este devia destinar-se a fazer sombra ao amo, mas Chufoi era tão pequeno que Amerotke desistira de o chamar a atenção: o juiz consolava-se com o facto de o seu servo nunca poder vir a morrer com uma insolação. A multidão avançava. Chufoi decidiu dar a conhecer a sua presença. Tinha uma voz grave e sonora.

 

- Abram caminho para o senhor juiz Amerotke! anunciou. - O juiz supremo do faraó da Sala das Duas Verdades! Guardião da lei! Detentor da Pena Divina! Amigo do faraó! Amado pelos deuses!

 

Amerotke fez uma careta. Quanto mais tentava calar Chufoi, mais o anão gritava, mas pelo menos o objectivo fora conseguido. A multidão afastou-se. Atravessaram o mercado ao longo da avenida pavimentada a basalto que conduzia ao Templo de Set. A grande praça diante dele também estava cheia de gente, mas Chufoi abriu caminho à força. Passaram pelos obeliscos cobertos de ouro, pelos enormes pilones que guardavam o grande portão, os torreões enfeitados com estandartes vermelhos, brancos e verdes.

 

Amerotke deteve-se, a fim de olhar para as esteias – proclamações jactanciosas enaltecendo o poder e a força do Regimento de Set, particularmente das Panteras do Sul, na sua grande guerra contra os Hicsos durante a estação da hiena. Os dedos de Amerotke tocaram nas inscrições enquanto recordava a mensagem sussurrada de Senenmut. Um destes heróis fora brutalmente assassinado e a própria rainha-faraó Hatusu decidira intervir.

 

Chufoi saltitava, olhando apreensivo para o outro lado do átrio do templo, onde um homem dos escorpiões vendia curas para mordidelas de cobra. A multidão empurrava e dava encontrões. Amerotke continuou a andar, subindo os degraus íngremes e entrando pelo pórtico sombreado diante da principal entrada do templo. Ali estava mais fresco, embora a luz incidisse nas pinturas coloridas das paredes de forma a que as cenas chamassem a atenção pelas suas tonalidades vivas: Set em conflito com Hórus; Isis à procura do corpo de Osíris.

 

Um guarda do templo reconheceu Amerotke e aproximou-se. Os visitantes foram conduzidos para o interior do templo ao longo de um corredor com colunas reservado aos sacerdotes, na direcção oposta dos peregrinos que rumavam para a Sala das Colunas. Quanto mais penetravam no templo, mais escuro ficava; as janelas bastante elevadas forneciam pouca luz.

 

Chufoi estremeceu. Raramente visitava o Templo de Set, o deus do mal. Ali tudo era bastante diferente dos outros templos. As paredes não proclamavam os grandes feitos do faraó, mas sim as actividades sangrentas de Set. A morte e as criaturas negras do mundo inferior estavam representadas em todas as paredes. Faltavam as cores vivas dos outros templos: não havia colunas douradas nem mosaicos orlados a prata. A cor dominante era o ocre escuro, salpicado aqui e ali de vermelho-vivo. Os sacerdotes que encontraram usavam estranhas perucas vermelhas com estolas da mesma cor sobre os ombros.

 

Chegaram a uma porta ao fundo do corredor. O guarda do templo abriu-a e fez sinal aos visitantes para que avançassem. Eles desceram alguns degraus. Amerotke teve a sensação de entrar nas regiões inferiores. Aquele não era um mundo de sol, de colunas estriadas, de fontes frescas. Contrastava bastante com a Sala das Duas Verdades, com os seus apetrechos elegantes, colunas largas - o mundo de Tot, o deus da escrita, com papiros, tinta vermelha e preta, estiletes, recipientes com água. Ali, archotes de pez revelavam o deus das trevas, em torno do qual criaturas grotescas, os devoradores, dançavam ao som de música macabra. O ar cheirava a natrão e a outros líquidos utilizados na mumificação.

 

Ao fundo das escadas, Amerotke e Chufoi viram-se numa caverna subterrânea, com um tecto de madeira escurecida. Amerotke semicerrou os olhos na penumbra sombria. Sentinelas com as máscaras de carneiro, as coxas protegidas por saias de cabedal pretas, montavam guarda, empunhando escudos e lanças. Um vulto emergiu da nuvem de vapor. Era um funcionário com um cinto de cabedal preto com cravos de bronze embutidos, o capacete com a forma de uma cabeça de carneiro. com uma voz áspera e gutural perguntou o que faziam ali e recuou rapidamente quando Chufoi anunciou aos gritos quem era o seu amo. O homem fez-lhes sinal para que avançassem. Amerotke prosseguiu devagar; o chão estava molhado e escorregadio. Na extremidade da caverna uma enorme estátua do deus Anúbis com cabeça de chacal fitava a escuridão, onde alguns cadáveres cobertos por lençóis de linho jaziam sobre lajes de pedra. No centro da sala, um caldeirão enorme borbulhava sobre brasas incandescentes - à sua volta havia estantes de madeira com tabuleiros cheios de frascos e jarros, potes de unguentos, de pastas e vasos de natrão líquido.

 

- Posso ajudá-lo?

 

Um vulto pareceu surgir do nada. Estava em tronco nu, uma saia branca a cobrir a metade inferior do corpo, e segurava uma máscara de carneiro num pau que lhe cobria o rosto.

 

- Isso é para assustar os visitantes? - perguntou Amerotke.

 

O homem baixou a máscara. Tinha um rosto magro e jovem, com olhos encovados e maçãs do rosto salientes. Virou a máscara e estendeu-a a Amerotke. O juiz pegou nela e cheirou o pequeno saco perfumado.

 

- Chamo-me Chula - declarou o homem -, e sou um sacerdote ao serviço de Set.

 

- Também conhecido como guardião dos mortos acrescentou Amerotke.

 

- Um título sombrio - observou Chula -, mas bastante imponente.

 

Amerotke olhou em volta: o local era horrendo. Agora que os seus olhos se haviam acostumado à penumbra, conseguiu ver que as paredes estavam decoradas com cenas d’O Livro dos Mortos, representando Amduat, o mundo inferior, pelo qual todas as almas tinham de passar e responder às perguntas feitas pelas quarenta e duas divindades. Cada alma teria de confessar se tinha mentido, morto, roubado ou estado envolvido em desvios sexuais.

 

- Reconheceis a vossa deusa? - perguntou Chula apontando para uma cena onde o coração de um morto era colocado num prato duma balança, a pena da verdade no outro. O artista captara o ar de antecipação aterrorizada do homem que estava a ser julgado. Se fosse um homem justo teria autorização de continuar até ao Campo dos Sonhos e ao calor acolhedor de Osíris. Caso contrário, o seu coração seria atirado à deusa-monstro, Aueuet, parte leão, crocodilo e hipopótamo. Ela devoraria o coração e mandaria a alma para o esquecimento, a segunda morte eterna.

 

- Este ambiente é bastante característico - concordou Amerotke. Estendeu a mão e Chula apertou-a. - Este sítio assusta-me sempre!

 

Pressentindo movimento atrás de si, Amerotke voltou-se.

 

- Meu senhor Senenmut!

 

O primeiro-ministro, grão-vizir e amante de Hatusu surgiu no meio do fumo. Trajava com simplicidade uma túnica branca. Já devia ali estar há algum tempo; o seu rosto forte de feições marcadas estava coberto de suor. Também tirara os anéis e as pulseiras e guardara-os numa pequena sacola pendurada na faixa em volta da cintura. Amerotke fez uma vénia e Senenmut deu-lhe palmadinhas no ombro.

 

- Esperava-te mais cedo, mas já sei... - Esboçou um sorriso. - O caso da senhora Nechratta. Toda a Tebas o segue atentamente. Vem! Quero mostrar-te uma coisa.

 

Escoltados por Chula avançaram por aquela autêntica câmara da morte. Chufoi recordou-se de que aquele era o lugar para onde os cadáveres de possíveis vítimas de homicídio eram levados, não apenas para mumificação mas para se poder diagnosticar a causa da morte. Chufoi visitara várias vezes as lojas dos embalsamadores e dos construtores de caixões na necrópole, mas aquele local dava-lhe volta ao estômago. Aqui e ali um lençol escorregara, revelando um homem, a cabeça para um lado, a garganta cortada de orelha a orelha. Outro tinha a parte superior do corpo esmagada, provavelmente por uma carruagem grande ou uma quadriga; uma rapariga, cujo rosto era apenas uma massa ensangüentada; um negro, com ambos os braços cortados acima do cotovelo, os olhos ainda abertos. À volta circulavam médicos, embalsamadores, escribas, os sacerdotes daquele local. Cada cadáver era examinado, era feito um registo fidedigno antes de os embalsamadores meterem mãos à obra, preparando o corpo e a alma para a última viagem. A maior parte daqueles cadáveres seria sepultada num local destinado aos mendigos ou aos desconhecidos. A certa altura, Chufoi alheou-se de tal maneira que se perdeu. Viu-se envolvido por uma nuvem de vapor e teve de gritar pelo amo, que voltou atrás rapidamente e lhe pegou na mão.

 

Chula e Senenmut aguardavam-nos a um canto perto de três lajes mortuárias, cada uma coberta por um pano com hieróglifos. Senenmut estalou os dedos. Chula afastou o pano que cobria o cadáver mais próximo. Amerotke tapou instintivamente a boca.

 

- Eis Ipumer - declarou Chula.

 

Apesar do trabalho dos embalsamadores e dos médicos, o corpo do escriba começara a apodrecer, não apenas devido à passagem do tempo mas também ao veneno que ele devia ter ingerido.

 

- O veneno continuou a actuar nos órgãos vitais, mesmo depois da morte! - exclamou Chula. - A interrupção do fluxo sangüíneo aumentou apenas o seu efeito nocivo.

 

Amerotke olhou para o rosto inchado de Ipumer: o tom verde-escuro da sua palidez, um olho aberto. A pele do tronco estava deteriorada pelo corte fundo e avermelhado que o abrira do pescoço às virilhas para que os órgãos pudessem ser retirados e colocados nos vasos canópicos.

 

- Um veneno pode ter tamanho efeito? - perguntou Chuíbi, engolindo em seco.

 

- Oh, sim. Cada veneno é único - explicou Chula. Este veneno apodrece o cadáver. Outros, feitos a partir de minerais, conservam-no. Este rapaz foi mesmo envenenado. Não há dúvida quanto a isso.

 

O segundo cadáver era igualmente horrendo. O corpo do general Balet jazia numa laje. Novamente os embalsamadores haviam feito o seu melhor. As órbitas vazias estavam cobertas por um pano branco e um barrete justo de cabedal ocultava a maior parte dos estragos no lado esquerdo do crânio.

 

- Já vi o suficiente - declarou Amerotke. - Como é que isto aconteceu?

 

- O Balet pertencia às Panteras do Sul - explicou Senenmut. - Têm uma capela privada neste templo dedicada aos seus extraordinários feitos. Tu e eu, Amerotke, quando éramos rapazes, ficávamos maravilhados com o heroísmo deles.

 

O juiz assentiu.

 

- O dia em que ele foi assassinado - prosseguiu o grão-vizir - era um dos dias amaldiçoados por Set. Como é natural, poucos peregrinos vieram ao templo - acrescentou com secura. - Balet decidiu visitar a Capela Vermelha, como é conhecida, parece que para rezar, mas talvez mais para reflectir sobre os grandes feitos dos companheiros. Era um motivo bastante plausível e comum.

 

- Ele tinha inimigos em Tebas? - perguntou Amerotke.

 

- Não. Era viúvo, com dois filhos adultos. Tinha bastante dinheiro, mas continuava a viver no passado. Era taciturno, bastante metido consigo mesmo. Segundo Chichnak e a mulher, Neferta, estava sozinho na capela; não havia mais ninguém. Quando voltaram, por volta da hora do sacrifício, encontraram a porta semiaberta e entraram. Eu depois mostro-te o local. A capela parecia um campo de batalha. O corpo jazia numa poça de sangue, com um golpe terrível na cabeça.

- Apontou para os cortes e outros ferimentos já cheios com cera e cobertos por uma pasta. - Mas não perdeu a vida sem oferecer resistência. Tentou defender-se. - Agarrou no pulso do morto e levantou-o.

 

Amerotke viu os cortes na palma da mão onde Balet tentara agarrar o punhal do atacante.

- Roubaram alguma coisa?

 

- Não. O sacerdote Chichnak achou que as famosas Taças do Escorpião, parte da lenda, podiam ter desaparecido, mas ainda lá se encontravam as três. Cada uma tinha um pouco do sangue de Balet, como se o assassino tivesse feito uma oferenda a Set.

 

- Um assassinato ritual? - murmurou Amerotke.

 

O juiz reparou numa pintura na parede mais próxima, tirada d’O Livro do Dia e da Noite: os devoradores do mundo inferior cuspiam chamas para os túmulos dos pecadores enquanto Hórus, apoiado ao bastão, os observava. Sob a imagem lia-se: ”Ele que queima milhões!”

 

- Em que estás a pensar, meu senhor Amerotke?

 

- Os assassinatos rituais são tão comuns em Tebas como os furtos - observou o juiz. - Tenho a certeza, meu Senhor Senenmut, que o guardião dos mortos concordará comigo.

 

- É verdade - declarou Chula. - Alguns homicídios são passionais: uma luta numa cervejaria ou um marido que descobre que a mulher lhe foi infiel. - No seu rosto estreito surgiu um sorriso. - Ou vice-versa. Sim, é comum darem aqui entrada cadáveres com características estranhas: sem certas partes do corpo ou com uma maldição, escrita num pedaço de papiro, enfiada à força entre os lábios.

 

- E a remoção dos olhos? - perguntou Senenmut.

 

- Isso é raro - respondeu Chula. Viu a expressão intrigada de Amerotke. - Posso destapar-lhe os olhos...

 

O juiz abanou a cabeça.

 

- Bem - prosseguiu Chula, como se estivesse a conversar sobre a preparação de uma refeição -, a remoção dos olhos do morto é bastante difícil. É preciso cortar com precisão. Foi isso que aconteceu neste caso. Quem o fez percebia um pouco de medicina. O que é estranho - acrescentou - é que durante a estação da hiena, quando os Hicsos governaram o Egipto a partir da cidade de Auaris, efectuavam bastantes sacrifícios humanos com prisioneiros de guerra ou escravos.

 

- E removiam sempre os olhos?

 

- Sim - confirmou Chula. - Acreditavam que quando o ka de uma vítima abandonava o corpo, este estaria também cego e se veria impossibilitado de viajar pelo mundo inferior.

 

- Mas os Hicsos foram expulsos do Egipto há mais de trinta anos.

 

- Alguns ainda sobrevivem - retorquiu Senenmut.

 

- Sim, mas no caso do general Balet - insistiu Amerotke -, é uma coincidência espantosa. Um soldado cujos feitos contribuíram para a queda dos Hicsos. Se bem me recordo das lições de história, ele e outros oficiais do faraó invadiram o acampamento dos Hicsos e mataram a grande feiticeira Meretseger.

 

- Será isto uma espécie de vingança? - perguntou Chula.

 

- É possível.

 

Senenmut aproximara-se do terceiro cadáver e afastou o pano. Chufoi gemeu e desviou o olhar. Amerotke sentiu o estômago às voltas. O cadáver da rapariga que ali jazia ainda não recebera os cuidados dos embalsamadores; continuava coberto pela viscosidade verde do rio Nilo. Os terríveis ferimentos e a carne viva indicavam que o corpo fora atacado por crocodilos.

 

- Encontrada no meio dos juncos - explicou Chula. Quando os crocodilos descobrem um cadáver, o seu frenesi desperta sempre a atenção dos pescadores. Foi o que aconteceu neste caso.

 

A mulher jazia de barriga para baixo. Amerotke proferiu uma pequena oração. A maior parte do rosto desaparecera, não passando de uma polpa ensangüentada. A morte surpreendia-o sempre com as suas crueldades subtis. Um fio com guizos ainda se encontrava à volta do pescoço da rapariga e, a julgar pelas suas unhas pintadas com hena, devia ter sido uma heset do templo, uma dançarina ou cantora. Essas raparigas costumavam alugar o corpo aos homens interessados por uma soma considerável. Amerotke reparou também no cordel vermelho que prendia os pulsos, idêntico ao dos tornozelos, embora este tivesse sido cortado.

 

- Examinei este corpo com bastante atenção - declarou Chula. - Meu senhor Amerotke, estamos perante a vítima de um homicídio horrendo. A rapariga ainda estava viva quando lhe amarraram as mãos e os pés. Os seus olhos também foram arrancados e ela foi atirada ao rio consciente ou semi-inconsciente. Foi encontrada num maciço de papiros, onde deve ter morrido. Pode ter ali estado duas ou três horas antes de os crocodilos a encontrarem. Como sabes, eles são lentos durante a noite, mas à medida que o calor do sol aumenta... Amerotke percebeu. Em algumas partes do Egipto, os crocodilos eram animais sagrados. No entanto, tinha uma certa dificuldade em acreditar nesses deuses, e desconfiava que Senenmut era da mesma opinião. Maet, símbolo da verdade do pai, era divina, sem sombra de dúvida, muito diferente daqueles dragões do rio traiçoeiros, de focinho comprido, com as suas mandíbulas escancaradas e dentes afiados. Amerotke atravessara o rio centenas de vezes e nunca perdera o medo que sentia deles. Ainda há duas estações, ele e Chufoi se encontravam numa barca que, sabotada por um assassino desconhecido, escorrera sangue, provocando um ataque de crocodilos. As recordações do incidente ainda lhe provocavam pesadelos e suores frios.

 

- Esqueci-me de te dizer uma coisa - declarou Senenmut. - As mãos e os tornozelos de Balet também foram amarrados com um pedaço de cordel vermelho. Primeiro foi assassinado, depois devem ter-lhe amarrado os pulsos e os tornozelos e arrancado os olhos.

 

- Então, foi o mesmo assassino? - perguntou Amerotke.

 

- Possivelmente.

 

- Sou capaz de compreender que o general Balet tenha sido morto por causa de algum ressentimento ou agravo, uma antiga recordação amarga da guerra com os Hicsos - disse Amerotke, gesticulando na direcção do corpo ainda destapado -, e mesmo isso é um pouco estranho. Mas porquê uma rapariga? Uma bailarina?

 

- Os Hicsos costumavam fazer esse tipo de sacrifícios.

 

- Não sei - retorquiu Amerotke, abanando a cabeça. Desconfio de que o Balet foi morto por um motivo, um ressentimento, um agravo. A sua morte foi executada de modo a parecer obra de um guerreiro hicso, que provavelmente não existe. Mas esta jovem bailarina...? De que templo era?

 

- Do templo de Anúbis - respondeu Senenmut. - Era serva, bailarina, membro do coro do templo, parece que bastante atraente, com um grande número de admiradores, embora muito reservada. Na noite antes de ser assassinada, desapareceu do templo.

 

Amerotke estremeceu. Estava farto daquela câmara que tresandava a morte. Teve a sensação de que os fantasmas tristes dos cadáveres que jaziam sob os panos se aglomeravam à sua volta. Na outra extremidade da cave um sacerdote cantava baixinho o hino dos mortos; outro, mais próximo, rezava em voz alta quando chegou à parte do processo de mumificação conhecido como ”A Abertura da Boca”. O vapor rodopiava no ar. Os desenhos na parede eram iluminados pelos archotes e aquelas cenas terríveis pareciam ganhar vida.

 

- Meu senhor Senenmut, já vi o suficiente!

 

Agradeceram a Chula. O grão-vizir conduziu-os para o exterior da Sala da Morte, escadas acima. Amerotke sentiu-se aliviado: aquela parte do templo ainda era bastante sombria mas, pelo menos, já não tinha de suportar o vapor, o cheiro estranho e os cadáveres assustadores com o seu misterioso séquito. Senenmut levara consigo uma veste do género das utilizadas pelos caminhantes do deserto. Vestiu-a e colocou o capuz de forma a tapar a cabeça e a ocultar o rosto.

 

- Estou aqui por ordem do faraó - explicou. - Não quero ser incomodado pelos peticionários.

 

Regressaram à Sala das Colunas. Atravessaram-na e desceram pelos corredores cheios de sol. Ali as janelas eram mais largas e colocadas de forma a apanhar os raios do sol, que jorravam, gloriosos. O templo estava cheio de gente: escribas e sacerdotes caminhavam tranqüilamente; os comerciantes trazendo os seus produtos; o ocasional peticionário peregrino que se perdera e parara a olhar em volta, espantado.

 

Amerotke pouco tinha a ver com o culto de Set. No entanto, maravilhava-se com a argúcia dos seus sacerdotes. A parte da frente do templo não diferia das outras mas, tal como o mundo inferior, quanto mais se avançava, mais escuro e sombrio se tornava, manifestando a verdadeira natureza daquele deus assassino. Chufoi mostrava-se estranhamente silencioso.

 

Amerotke calculou que devia estar incomodado após a visita. Isso surpreendeu-o porque normalmente o servo não se deixava afectar por cenas daquelas. Olhou para baixo: o rosto do homenzinho denotava grande concentração.

 

- O que foi? - perguntou Amerotke.

 

- Nada, meu amo, apenas uma idéia. Amerotke gemeu.

 

Por fim chegaram à Capela Vermelha, construída na parte lateral do templo. A sala exterior tinha grandes janelas quadradas que iluminavam o corredor abaixo, e a pedra vermelha, especialmente importada, brilhava como se contivesse um fogo secreto. A parede da capela do outro lado do corredor era feita da mesma pedra vermelha, especialmente polida. Tinha representados, a preto e verde, os gloriosos feitos do Regimento de Set.

 

Um sacerdote acocorado dormitava encostado à porta da capela. Levantou-se de um pulo quando Senenmut se aproximou.

 

- Este é Chichnak - explicou Senenmut. - Meu senhor Amerotke, juiz supremo da Sala das Duas Verdades.

 

O sacerdote fez uma vénia, os olhos matreiros atentos, os lábios retorcidos num sorriso insinuante.

 

- Meus senhores, a capela foi limpa e purificada. Abriu a porta e entraram todos.

 

- O orgulho do Regimento de Set - anunciou Senenmut.

 

Amerotke percebeu porquê. As paredes, o chão e o tecto eram da mesma pedra vermelha brilhante, a cor favorita de Set. Olhou para as Taças do Escorpião e para o tabuleiro dourado numa prateleira especialmente construída. A parede encontrava-se coberta por pinturas e esteias, mas de resto havia poucas diferenças em relação à sua câmara no Templo de Maet: o nãos, com as portas naquele momento fechadas; cestos de flores; almofadas com borlas; e candeeiros a óleo que conferiam à capela uma luminosidade especial.

 

Amerotke caminhou em volta. Percebia por que motivo um velho guerreiro como Balet regressara ali. As cenas e as pinturas descreviam graficamente os feitos do avô de Hatusu contra os Hicsos, especialmente o triunfo do Regimento de Set, com um grupo de prisioneiros à frente, as mãos atadas por cima da cabeça, obrigados a ajoelhar-se diante do faraó no seu trono glorioso. Por fim, os vários feitos das Panteras do Sul, incluindo a invasão do acampamento hicso, a execução de Meretseger e o regresso a salvo para junto do faraó.

 

- Onde foi encontrado o corpo do Balet? - perguntou. Chichnak apontou para a parede mais afastada próxima

 

das Taças do Escorpião. Amerotke dirigiu-se para lá e observou-as.

 

- Posso?

 

O sacerdote assentiu. Amerotke examinou o tabuleiro. Era de ouro maciço, tal como as taças. Cada uma tinha um escorpião de prata: estavam ali quatro.

 

- O filho do Balet devolveu a do pai - explicou Chichnak. - O faraó assim o decretou.

 

Amerotke pegou na taça. Aquela capela e as suas taças faziam parte da história e da lenda do Egipto. Ensinava-se na escola aos rapazes a guerra gloriosa contra os Hicsos e os triunfos maravilhosos daqueles guerreiros. Há muitos anos o pai levara-o ali para rezar. Amerotke sentiu uma enorme tristeza e pousou a taça.

 

- O general Balet foi morto aqui. Foste tu que encontraste o corpo. Descreve-me a cena - ordenou ele a Chichnak.

 

- Por volta da hora do sacrifício - começou o sacerdote -, perguntei-me se o general Balet precisaria de mais vinho ou comida. Tinha-lhos oferecido antes, mas ele estava taciturno e um pouco mal-humorado.

 

- Costumava estar assim?

 

- Oh, sim. Vinha aqui muitas vezes rezar. Os outros, incluindo o comandante Karnac... bem, sempre beberam muito. Balet era o mais calado e solitário.

 

- Já o tinhas visto nesse dia?

 

- Sim, eu e a minha mulher entrámos aqui. Percebemos que ele não queria ser incomodado, por isso fomo-nos embora.

 

- Ele não parecia diferente?

 

- Não. Apenas um velho soldado a recordar o passado.

- O sacerdote encolheu os ombros. - Nada de invulgar.

 

- E regressaram?

 

- Eu e a minha mulher temos uma pequena câmara ao fundo do corredor. Ficámos lá. No entanto, antes que nos seja perguntado, meu senhor Amerotke, não vimos nem ouvimos nada estranho. Quando voltámos a porta estava entreaberta. A cena aqui dentro era horrenda. Almofadas, potes, até os candeeiros a óleo tinham sido destruídos. O general Balet jazia numa poça de sangue. Percebi que fora morto com uma pancada na cabeça. Aproximei-me a correr e virei o cadáver. A minha mulher começou a gritar... aqueles horríveis buracos negros. - Chichnak tapou a cara com a mão. - Pensei que estava a ter um pesadelo, a ser visitado pelos devoradores. Um roubo, pensei, mas o tabuleiro com as taças estava aqui, embora salpicado de sangue.

 

- Isto é um mistério - declarou Amerotke. - O general Balet já não era jovem mas ainda era um homem cheio de vigor, um guerreiro condecorado pelo faraó por ter morto os seus inimigos em combate corpo a corpo. Contudo foi assassinado, e as mãos e os pés amarrados.

 

- Oh, sim!

 

- E os olhos arrancados. A capela estava virada do avesso, mas ninguém ouviu um barulho, um grito, nada?

 

O sacerdote olhou em volta com uma expressão receosa.

 

- Concordo, meu senhor juiz, que é estranho, estou na disposição de jurar que eu e a minha mulher nada tivemos a ver com esta blasfêmia. Não vimos nem ouvimos nada.

 

- Podes retirar-te. - Senenmut, que estivera a escutar a conversa enquanto observava uma das pinturas na parede, aproximou-se. Deu uma palmadinha no ombro de Chichnak.

- Tu e a tua mulher nada têm a temer. Fechem a porta e fiquem atentos.

 

O sacerdote foi-se embora. Senenmut puxou para trás o capuz do manto e acocorou-se no chão, de costas para a parede. Amerotke ajoelhou-se numa das almofadas. Chufoi, incapaz de conter o nervosismo, foi dar uma espreitadela às taças preciosas.

 

- Hatusu está preocupada - declarou Senenmut. O Regimento de Set era tido em grande conta pelo avô dela, pelo pai e pelo meio-irmão e agora também por ela. As Panteras do Sul são heróis acarinhados. Não lhe agrada o que está a acontecer.

 

Calou-se e olhou para Amerotke. O juiz percebeu onde Senenmut queria chegar: ainda não havia dois anos que Hatusu estava no poder. Graças às suas vitórias contra os Mitânios, devia grande parte do seu êxito na conquista implacável do poder aos melhores regimentos do Egipto, particularmente ao de Set.

 

- Ahmés expulsou os Hicsos - prosseguiu Senenmut -, e eles continuam expulsos. Este homicídio... ou melhor, este sacrifício sangrento... de um dos nossos heróis parece sugerir que os Hicsos regressaram.

 

- Que teoria mais rebuscada! - retorquiu Amerotke.

 

- Não é, não. - Senenmut levantou-se. - Mas enfim, está a fazer-se tarde e o faraó, a rainha Hatusu, aguarda-nos.

 

- Do que é que ela desconfia?

 

- Ela considera este homicídio apenas o começo - declarou Senenmut. - Outros heróis do Egipto podem ter sido marcados para morrer.

Set: deus dos desertos, o Deus Vermelho, associado a todos os fenómenos assustadores.

 

A sala das flores de lódão na Casa do Milhão de Anos, o principal palácio da rainha-faraó Hatusu em Tebas, era extraordinariamente bela. Tecto, chão e paredes em mármore branco decorado com belos motivos a ouro que representavam flores de lódão. Janelas altas davam para os jardins imperiais, que tinham árvores de todas as partes do império, plantadas em terra negra especialmente importada de Canaã. O perfume das diversas flores entrava por elas, um perfume inebriante que se misturava ao das flores nas taças de prata e ouro. Um pequeno lago ornamental brilhava na extremidade mais afastada da sala, onde carpas douradas e gordas nadavam por entre as folhas de nenúfar. Uma sala arrebatadora: estátuas de ouro e prata, com pedras preciosas incrustadas, erguiam-se em nichos especialmente construídos. Só numa das paredes faltava o motivo do lódão. Hatusu contratara os melhores pintores para retratar, num conjunto deslumbrante de cores, a sua grande vitória contra os Mitânios.

 

Amerotke, sentado à mesa, sorriu quando viu aquilo. Os hieróglifos sob a imagem declaravam: ”Hatusu, amada de Ré, despedaça os inimigos com o poder do seu braço.” Hatusu fora representada com capacete e armadura, uma mão a agarrar as rédeas do seu veloz carro, a outra a lança, prestes a trespassar um chefe mitânio. À volta dela havia vários comandantes e soldados, embora, claro, não tão grandes ou impressionantes como a rainha-faraó.

 

Amerotke olhou para a mesa. Hatusu convocara aquela reunião. Estava sentada a uma das pontas, numa cadeira semelhante a um trono. Na cabeça ostentava uma peruca elaborada embebida em óleo perfumado e vestia uma túnica fluida de linho alvo orlada com uma fita escarlate. Sobre a peruca, uma coroa ornamental consistindo num disco, dois chifres, plumas e serpentes a contorcerem-se, tudo em ouro e prata. Um colar de cornalina rodeava o seu belo pescoço, e o rosto fora elaboradamente maquilhado. À sua esquerda estava sentado o escriba principal; à direita, Senenmut, que, desde o seu regresso do Templo de Set, mudara de roupa e tinha agora ao pescoço, nos pulsos e nos dedos as belas insígnias do seu cargo.

 

Hatusu olhou para Amerotke. Esboçou um sorriso quase imperceptível e piscou o olho. O servidor do vinho aproximou-se. Provou-o e estendeu uma taça à rainha. Hatusu bebeu um gole. Fez lembrar a Amerotke um gato a lamber leite, os seus olhos a observarem os homens poderosos que convocara. O juiz estava fascinado. Hatusu ainda não completara vinte anos, mas sabia representar e desempenhar um grande número de papéis. Amerotke vira-a a dançar nua no lago do outro lado da sala. Encontrara-a nos jardins lá fora com uma túnica, um chapéu de palha na cabeça, atarefada com uma pequena pá entre os canteiros. Vira-a de armadura a conduzir uma quadriga, a praguejar e a gritar para grande espanto das suas tropas. Nascera para representar, concluiu Amerotke. Naquela noite, com aqueles heróis de Tebas, desempenharia o papel da rainha meiga mas misteriosa.

 

Amerotke regressara ao Templo de Maet, lavara-se, comera e mudara de roupa. Acompanhado por Chufoi, dirigira-se ao palácio real. Chufoi estava naquele momento sentado na antessala. Amerotke fechou os olhos e rezou para que o servo não andasse a tramar nada. Senenmut pigarreou.

 

- O Ser Divino vai falar!

 

O murmúrio da conversa entre os companheiros de Amerotke cessou de imediato. O juiz olhou em volta. As Panteras do Sul pareciam irmãos: homens rijos e robustos, as cabeças completamente rapadas, as faces cuidadosamente untadas, os olhos envoltos por traços negros de kohl. Alguns tinham pulseiras, peitorais e colares. Emanavam um agradável aroma a perfume. Contudo, não eram cortesãos de pele macia. Os seus rostos duros, os braços e pulsos musculados, uma tendência para não estarem quietos e uma brusquidão na fala caracterizavam-nos como soldados veteranos. Não veneravam Hatusu como os homens que viviam constantemente à sombra da rainha-faraó e desfrutavam dos seus sorrisos e favores.

 

Karnac, o comandante, era o que estava sentado mais perto de Hatusu. Tinha o rosto de um falcão, nariz proeminente sobre lábios finos, olhos semicerrados como se incapazes de se abrirem devido aos anos passados nas campanhas das Terras Vermelhas. Tal como os restantes, exibia um anel com a insígnia do Regimento de Ser. uma prenda do pai de Hatusu. Ao seu lado estava Pechedu. Parecera embaraçado ao deparar-se com Amerotke. Era um homem baixo, bastante roliço e parecia ter tido uma boa vida. Os seus três companheiros, Heti, Turo e Ruah, eram homens de aspecto rijo. Desde que Amerotke entrara na sala mal se tinham dignado olhar para ele.

 

O homem sentado ao lado de Amerotke era diferente. Levantara-se para cumprimentar o juiz supremo. Chamava-se Nebamum e era o ajudante de Karnac. Envergava uma túnica de samito, e tinha uma pérola brilhante numa corrente de prata em redor do pescoço. Possuía olhos vivos, um rosto um pouco efeminado e movia-se desajeitadamente. Amerotke, que se informara sobre a história do regimento, sabia que isso era devido a uma inflamação do ferimento que Nebamum sofrera quando as Panteras do Sul haviam atacado Meretseger.

 

Hatusu pigarreou. Estava prestes a falar.

 

- Convidei-vos a vir até aqui - começou numa voz suave mas simultaneamente forte - por causa do horrendo assassínio do general Balet na Capela Vermelha do Templo de Set. O juiz supremo Amerotke foi convocado porque irá investigar essa morte. Creio - acrescentou com um sorriso travesso que o general Pechedu já lhe foi apresentado.

 

Hatusu mexeu no papiro à sua frente e virou-se um pouco para se dirigir a Pechedu num gesto de cortesia. A rainha falava sempre como se, do outro lado da mesa, um deus, invisível para os outros, estivesse sentado a observá-la.

 

- Lamento o que aconteceu à tua filha - declarou. Digo-o agora. A justiça deve seguir o seu caminho. A reputação do juiz supremo Amerotke é bastante conhecida.

 

Pechedu abriu a boca para responder. Hatusu ergueu a mão, os dedos afastados.

 

- Se for necessário misericórdia - acrescentou quase num murmúrio -, então vamos pelo menos esperar até que seja caso disso.

 

Pechedu assentiu e fez uma ligeira vénia de agradecimento.

 

- O assassinato do general Balet... - a voz de Hatusu tornou-se mais forte - ... chocou toda a Tebas e, apesar da nossa censura, os boatos abundam. - Olhou para Amerotke, convidando-o a fazer perguntas.

 

- Que boatos são esses, minha senhora?

 

A pergunta pertencia ao ritual. Hatusu não gostava de fazer discursos: apresentava-se como um chefe dos comandantes, preparada para abordar e debater assuntos. Fora cuidadosamente instruída por Senenmut, que a aconselhara quanto à forma de tratar aqueles heróis guerreiros tebanos.

 

- Minha senhora, se me permites responder a isso...? interveio Karnac.

 

Hatusu assentiu. O comandante virou-se na cadeira de costas de cabedal.

 

- Não estou aqui para me vangloriar - começou Karnac. - O juiz Amerotke conhece os pormenores do nosso ataque ao acampamento dos Hicsos. Apanhámos a feiticeira Meretseger no seu pavilhão e cortamos-lhe a cabeça. Ninguém sabe o verdadeiro nome da feiticeira. Meretseger não pertencia aos Hicsos; era uma vira-casacas egípcia que se passara para o lado dos invasores. Nunca me hei-de esquecer daquela noite. A feiticeira aguardava a morte e gritou obscenidades e ameaças. As suas últimas palavras foram que cada um de nós teria uma morte violenta. - Fez uma pausa. - Alguns dias mais tarde, o exército dos Hicsos foi completamente aniquilado. Fizeram-se muitos prisioneiros, incluindo os guarda-costas de Meretseger. Quando interrogados, confessaram que Meretseger já esperava a morte; chegara a profetizá-la e avisara o príncipe dos Hicsos. Informara os guarda-costas de que a sua morte significaria a derrota dos Hicsos, mas que os últimos anos dos seus assassinos seriam ensombrados pelos devoradores do mundo inferior. - No rosto severo de Karnac surgiu um sorriso. - Não nos importámos com isso. Éramos os jovens bravos do faraó, os seus guerreiros, as Panteras do Sul, os Assassinos de Set. Os anos passaram. O faraó continuou a agraciar-nos. Três dos nossos companheiros morreram, e agora o general Balet. Segundo o decreto do faraó, as suas Taças do Escorpião foram devolvidas e colocadas no tabuleiro de ouro na Capela Vermelha.

 

- Diz-me: o Balet foi a primeira vítima de assassínio? interveio Amerotke.

 

Karnac uniu as mãos.

 

- Os outros três morreram de uma infecção - respondeu ele. - Doença da cabeça, do coração ou do estômago.

 

- Estás a dizer que foram envenenados?

 

- É possível - respondeu Karnac -, embora nada tivéssemos suspeitado nem detectado. Foram para o Horizonte Longínquo; os seus restos encontram-se no nosso túmulo na necrópole. Temos um túmulo para todos - explicou Karnac.

 

- Unidos na vida, unidos na morte... foi esse o nosso desejo.

 

- Mas não há provas de que tenham sido assassinados?

 

- insistiu Amerotke. - Não houve violência nem lhes arrancaram os olhos?

 

Karnac abanou a cabeça.

 

- Como é que sabemos que este ataque não passou de um agravo particular contra o general Balet? - perguntou Amerotke.

 

- Em primeiro lugar, o Balet não tinha inimigos - respondeu Karnac. - Nas semanas que antecederam a sua morte não se referiu a nada de estranho, a ameaças, a animosidades. Em segundo lugar, se alguém o queria matar, porquê fazê-lo na Capela Vermelha? Porque retirar-lhe os olhos? Salpicar as taças com o seu sangue? Em terceiro... - Karnac abriu a pequena bolsa de cabedal que estava na mesa diante de si. Tirou de lá o que parecia ser uma moeda e lançou-a para cima da mesa.

 

Amerotke apanhou-a: um disco de prata com cerca de dois centímetros de diâmetro, numa das faces um escorpião muito semelhante aos que ele vira nas taças douradas. Virou-a. A outra face tinha um hieróglifo estranho. Sopesou o disco na mão.

 

- Isto não é uma moeda. Não reconheço o símbolo.

 

- É dos Hicsos - explicou Nebamum. - Este mês... creio que por volta do segundo dia, não foi, meu amo?... todos recebemos um.

 

Amerotke tornou a examinar o disco.

 

- Não são moedas dos Hicsos - explicou Senenmut -, mas sim medalhões... amuletos dados por Meretseger aos guarda-costas. Foram encontrados no acampamento dos Hicsos depois da batalha, mas em seguida desapareceram.

 

- Sempre pensámos que o avô da divina Hatusu os tinha levado como parte do saque e os havia derretido - acrescentou Karnac. - Como disse o meu ajudante, não foi encontrado sinal deles no Egipto até ao princípio deste mês, quando todos nós, incluindo Nebamum, recebemos um.

 

- E consideram isso uma ameaça?

 

- Claro que sim! - respondeu Karnac. - Encontramo-nos muitas vezes nas casas uns dos outros ou na Capela Vermelha. A princípio achámos que era uma piada, uma idéia de um de nós para assustar os outros. Só quando o Balet foi assassinado é que percebemos o seu significado mortal.

 

- Houve outros ataques? - perguntou Amerotke.

 

- Sim - interveio Nebamum. - Há três dias. O meu amo mandou-me encomendar vinho no cais. Já passava bastante da hora do sacrifício. Começava a anoitecer. Regressei por uma viela. Queria estar na estrada que sai de Tebas antes de a trompa soar. Um vulto surgiu de uma das portas, com um maço numa mão e uma faca na outra. Estava escuro, mas ele parecia um sacerdote do Templo de Set, usando aquilo que me pareceu ser uma peruca vermelha. Atacou-me tão depressa que deixei cair o meu bastão e escorreguei. O maço silvou no ar acima de mim. Consegui fugir. O vulto virou-se. Desequilibrara-se, e depois fez menção de querer atacar-me. Gritei por socorro. - Nebamum esboçou um sorriso envergonhado. Não me portei como um grande herói! Uma porta abriu-se.

 

Saiu uma mulher, seguida do marido e dos filhos. O meu atacante fugiu. Eles ajudaram-me a levantar. O homem ofereceu-se para me acompanhar.

 

- O Nebamum chegou a casa num estado deplorável interveio Karnac. - Recompensei o homem que o protegera.

 

O sorriso de Karnac alargou-se. Amerotke percebeu que havia entre eles a mesma relação entre amo e ajudante que havia entre ele próprio e Chufoi.

 

- Bem, então cada um de vós, incluindo o Balet, recebeu um disco de prata - resumiu o juiz. Colocou o disco na mesa. - E só acharam isso estranho quando o Nebamum foi atacado e o Balet assassinado? Quer-me parecer... - Escolheu as palavras cuidadosamente. - Quer-me parecer que um velho ressentimento ou agravo, qual ferimento de guerra, foi aberto. Alguém voltou a Tebas para ajustar contas.

 

Hatusu abanou a cabeça como se não compreendesse.

 

- Existem várias possibilidades - continuou Amerotke.

 

- Primeira, Meretseger era uma feiticeira poderosa. Tinha o seu próprio séquito, talvez até um culto. Tanto quanto sabemos, pode até ter tido filhos. Comandante Karnac, Meretseger era uma mulher velha?

 

- Observei a cabeça e o corpo dela depois da derrota dos Hicsos. Parecia mais velha do que era. Naquela noite, lá no pavilhão, achei que ela tinha cabelos grisalhos, mas isso foi por causa da cinza da fogueira dos sacrifícios. Diria que não tinha mais de trinta anos - respondeu, de olhos semicerrados.

 

- Quando Auaris, a capital dos Hicsos, foi tomada, a família e os servos dela foram presos? - perguntou Amerotke.

 

- O atacante pode estar a executar um plano de vingança.

 

- Não consegui encontrar ninguém - respondeu Karnac. - Recordo-me de que o avô da divina Hatusu ordenou uma busca especialmente cuidadosa. Nessa altura, os Hicsos e os que colaboravam com eles já haviam fugido ou estavam escondidos.

 

- Referistes outras possibilidades? - indagou Hatusu.

 

- Sim, minha senhora. A segunda é alguém em Tebas ter algo contra estes heróis, por inveja ou ciúme. Por razões que só ele conhece, o assassino ou assassina decidiu pôr tudo em pratos limpos, embora porquê agora ou por que motivo, eu não saiba dizer.

 

- E a terceira possibilidade? - Hatusu sorriu. - Há outra, não há?

 

Amerotke baixou o olhar e brincou com o anel no dedo. A divina rainha era sempre lisonjeadora. Olhou para cima. O rosto de Hatusu mantinha-se impassível; ela pestanejou, um gesto infantil.

 

- Fala, meu senhor!

 

- O assassino pode ser um membro deste grupo. Amerotke ficou em silêncio enquanto Karnac e os outros

 

protestavam ruidosamente. Deram murros na mesa e olharam-no com descrença.

 

- Somos um grupo de irmãos! - protestou Pechedu. Os deuses sabem que eu, pelo menos, já tenho problemas que cheguem na vida. Porque haveria um de nós de ter algo contra outro? Se bem entendo o raciocínio, meu senhor, este assassino pretende eliminar-nos a todos.

 

- Pode ser um de vós - retorquiu Amerotke -, ou alguém ligado a vós.

 

- Apresenta-nos as tuas razões - exigiu Senenmut.

 

- Não tenho provas - declarou Amerotke. - Mas ouvi com atenção. - Utilizou os dedos para dar ênfase aos vários pontos apresentados. - Primeiro, quantas pessoas têm conhecimento das pragas que Meretseger vos rogou? Segundo, quantas pessoas sabem o que o guarda-costas dela confessou? Terceiro... - Gesticulou na direcção de Heti, que levantara a mão para protestar. - Terceiro, estes medalhões. Deve ser alguém que assistiu à grande vitória do faraó e roubou alguns para os utilizar mais tarde. Quarto, quem quer que seja é forte, um guerreiro. Nebamum, apesar da sua queda e do ferimento, é um veterano, tal como era o general Balet: nenhum perderia a vida sem lutar. Por fim, chegamos ao assassínio do general. Não foi um salteador, uma seta perdida na escuridão, mas um assassino que pode entrar facilmente no Templo de Set e esgueirar-se para a capela. Mais ainda, quantas pessoas sabiam que o Balet ia ali rezar?

 

- Ele ia lá muitas vezes - retorquiu Heti. - O Balet era bastante conhecido pelos seus hábitos solitários. Era um freqüentador assíduo do templo. Talvez o assassino se tenha limitado a esperar pela oportunidade. Quanto aos outros pontos, meu senhor, as histórias das pragas de Meretseger e das confissões do guarda-costas são bem conhecidas em Tebas.

 

Os outros soldados juntaram-se-lhe, discutindo acaloradamente com Amerotke até este confessar que podia estar enganado.

 

- Foi apenas uma possibilidade - explicou -, mas peço a cada um de vós que tenha cuidado. Se estes medalhões forem um símbolo de morte, o assassino voltará a atacar.

 

- Ele tem de ser detido! Tem de ser apanhado! - exclamou Hatusu. Abriu os braços, como se quisesse abraçar aqueles grisalhos veteranos de guerra. - O regimento deles, o exército, todos reclamam justiça e vingança. O assassino do general Balet... - Hatusu fez uma pausa, os olhos a brilharem de fúria. - Fiz uma promessa: vê-lo-ei crucificado nos muros de Tebas ou enterrado vivo no deserto! - Inspirou. Tenho de ser franca, meu senhor Amerotke. Não estou apenas preocupada com as vidas destes soldados, por muito preciosas que sejam. Comecei a nossa conversa referindo-me aos boatos. Os cabeças-de-vento que gostam de dar à língua e atiçar o lume da superstição já dizem que Set se zangou com Tebas e veio até cá para se vingar. - Fez um gesto lânguido com a mão. - Não estou aqui para repetir mexericos, mas creio que o senhor juiz Amerotke já percebeu onde quero chegar.

 

A rainha-faraó olhou em volta. Amerotke percebera: os sacerdotes do templo, particularmente, não eram tão aplicados no seu apoio à jovem rainha como deveriam. Adoravam remexer o caldeirão sujo da política à procura de sinais e augúrios que indicassem que Hatusu não era abençoada pelos deuses. O sacrilégio horrendo cometido no Templo de Set, remetendo para a crueldade e vingança dos Hicsos, não demoraria muito a provocar os seus efeitos na imaginação do povo.

 

- Meretseger está morta - retorquiu Amerotke. - O comandante Karnac cortou-lhe a cabeça. Onde é que ela está sepultada?

 

- Para lá do oásis de Assiua - respondeu Karnac. A cerca de...

 

Amerotke assentiu.

 

- Eu sei onde fica, comandante. Dezasseis quilômetros a nordeste de Tebas, nas Terras Vermelhas, junto ao local onde os Hicsos foram derrotados.

 

- Depois da batalha, o avô da divina rainha mandou os sacerdotes amaldiçoar a cabeça e o corpo de Meretseger e enterrá-los em local secreto - explicou Karnac. - Amanhã de manhã, todos nós, acompanhados por um esquadrão de quadrigas, tencionamos lá ir.

 

- Porquê? - perguntou Amerotke.

 

- Por causa de outra coisa que o guarda-costas dela confessou. - Karnac esboçou um sorriso funesto. - Meretseger jurou vingar-se dos seus assassinos. Declarou que mesmo que tivesse de regressar do mundo inferior para o fazer, regressaria.

 

- Isso é uma superstição disparatada! - retorquiu Amerotke.

 

- Talvez, meu senhor - respondeu Hatusu, com voz melíflua. - Mas o comandante Karnac vai até lá e tu acompanhá-lo-ás!

 

Chufoi percebeu que o amo estava furioso pela forma como este caminhava ligeiramente à sua frente, os ombros muito direitos e uma expressão carrancuda. Chufoi tinha a certeza de que o ouvira dizer ”sirigaita” e ”astuta como uma raposa”. Acontecera alguma coisa bastante grave naquela reunião do Conselho Real. Amerotke entrara de rompante na antessala. Senenmut, atrás dele, fizera uma carranca e apontara na direcção de Chufoi. O juiz ficara calado, mas mandara Chufoi segui-lo e agora avançavam pelos jardins do palácio, banhados pelo luar.

 

As braseiras, abanadas com um leque por criados, aqueciam o frio ar nocturno. Archotes de alcatrão e pez brilhavam no cimo de estacas cravadas no solo, fazendo as sombras das estátuas, das gravuras e das fontes dançar e bruxulear. Chufoi não sabia para onde se dirigiam. Sabia que continuavam nos jardins imperiais, com os seus lagos de peixes, tendas e pavilhões decorados. Árvores de fruto, camareiras, palmeiras e sicômoros ensombravam a água. Nos papiros, os patos grasnavam e lutavam entre si. Aves, manchas escuras recortadas no céu nocturno, pairavam sobre as vinhas para se aninharem nas árvores ou se empoleirar nas estátuas e nos caramanchões de pontas douradas construídos em todos os pequenos bosques. Alguns criados passaram por eles com cestos e jarros de água aos ombros. Soldados, a guarda pessoal de Hatusu, encontravam-se sob as árvores e nos alpendres em silêncio, empunhando lanças e azagaias. Várias luzes na extremidade mais afastada indicavam que o capitão da guarda efectuava a sua patrulha nocturna. Chufoi sobressaltou-se quando um macaquinho amestrado se aproximou, a coleira em torno do seu pescoço a tilintar, perseguido por um galgo ainda pequeno que, por seu turno, era perseguido por um dos pajens do palácio.

 

- Onde é que vamos?

 

Chufoi estugou o passo e apertou a mão do amo, servindo-se da outra para agarrar no guarda-sol. Reparou que Amerotke tirara o leque da bolsa que usava à cintura e o abanava com força, como se não desse pela frescura da noite.

 

- Estás afogueado e com calor - observou Chufoi.

 

Ficou admirado com a reacção do amo. Amerotke era normalmente bastante taciturno e calmo. O juiz parou e sorriu a Chufoi.

 

- Desculpa.

 

Conduziu o servo para um banco de pedra. Sentaram-se ambos. Amerotke esticou as pernas e olhou para as estrelas.

 

- Amanhã de madrugada, Chufoi, vamos às Terras Vermelhas: ao oásis de Assiua.

 

Chufoi fechou os olhos e no seu rosto mutilado surgiu uma careta. Amerotke era um hábil condutor de quadrigas, um soldado que combatera nos esquadrões de guerra. Uma viagem como aquela já seria bastante aborrecida, e, para mais, Assiua trazia recordações amargas a Amerotke. Havia muitos anos - e Chufoi conseguira apenas juntar alguns pormenores -, quando Amerotke era uma criança, o seu irmão mais velho sofrera uma emboscada e fora morto pelos chamados vagabundos da areia no que não era mais que uma rotineira patrulha nocturna. Certa vez, embriagado, no dia em que honrava a memória do irmão, Amerotke contara-lhe de que forma a notícia chegara a Tebas. Os pais tinham ficado histéricos quando o corpo mutilado do filho fora levado para casa.

 

- Lamento, meu amo. - Chufoi fez uma festa na perna de Amerotke. - Mas será por pouco tempo. Rapidamente estaremos de volta.

 

- Oh, não é só isso. - Amerotke passou com o dedo pela cara. - A rainha às vezes é tão imperiosa! - Estalou os dedos como que a imitá-la. - ”Vai aqui! Vai ali!” Como se eu não tivesse assuntos importantes a tratar em Tebas!

 

- A senhora Nechratta?

 

- Sim, a senhora Nechratta, e é por isso que aqui estamos!

 

Amerotke pôs-se de pé. Guardou o leque e começou a andar com mais calma. A determinada altura parou e inspirou o perfume agradável do pomar de romãzeiras. Desceram alguns degraus e atravessaram um relvado onde uma gazela e um ibex acorrentados pastavam tranqüilamente.

 

Amo e servo entraram num pátio fronteiro a um edifício de três andares com telhado preto, atravessaram-no e transpuseram uma porta. Um guarda mandou-os parar, perguntou-lhes ao que vinham e acompanhou-os. Passaram por um corredor espaçoso, com o tecto decorado suportado por colunas de cedro, enfeitadas em cima e em baixo com flores de lódão abertas. Escribas e sacerdotes andavam de um lado para o outro, alguns transportando manuscritos, outros tabuleiros para escrever ou sacolas. Um porteiro aproximou-se e perguntou-lhes o que queriam. Assim que Amerotke se apresentou, o homem fez uma vénia e conduziu-os ao interior.

 

Chufoi reconheceu a mansão dos ”olhos e ouvidos do faraó”, o delegado real Ualu, que não só regulamentava os assuntos da guarda como também controlava uma rede de informadores e de espiões em Tebas e arredores. O aposento de Ualu era de uma grande simplicidade: paredes brancas sem qualquer decoração. Encostados a elas encontravam-se armários, arcas e cofres. Ualu estava sentado de pernas cruzadas sobre almofadas num estrado, uma folha de velino sobre os joelhos. Ditava algo a um escriba sentado da mesma forma abaixo do estrado. As portadas da janela tinham sido abertas. A sala estava bastante fresca, mas bem iluminada por candeeiros a óleo sobre bases de madeira. O porteiro anunciou Amerotke. Ualu levantou o olhar e mandou embora o escriba com um estalar dos dedos.

 

- Meu senhor Amerotke, sé muito bem-vindo! Indicou uma mesa afastada onde um jarro de vinho arrefecia. Amerotke abanou a cabeça.

 

- Meu senhor, isto não é uma visita social. Ualu suspirou e pôs-se de pé.

 

- Também achei que não. Tiveste sorte em apanhar-me aqui. Os meus médicos dizem que a luz fraca irá dar-me cabo dos olhos. Normalmente trabalho nos jardins. - Ualu sorriu, embora os seus olhos permanecessem vigilantes. - Acho o perfume das flores calmante quando o cérebro fervilha.

 

- Quando o Ipumer morreu, mandaste confiscar todos os bens dele? - perguntou Amerotke.

 

- Sim, encontram-se agora guardados sob o meu selo. Queres inspeccioná-los?

 

- Sabes que tenho direito a isso - retorquiu Amerotke.

 

- O que procuras?

 

Amerotke hesitou. Algures no andar de cima, um cantor dedilhava uma lira e cantava uma balada de amor melodiosa, calmante.

 

- Uma idéia minha - explicou Ualu. - Após um dia de trabalho árduo, deitarmo-nos sobre almofadas, comer e beber enquanto o espírito se deleita com música divina é uma delícia! Mas quanto à minha pergunta...?

 

- Eu digo-te quando encontrar alguma coisa - retorquiu Amerotke.

 

Ualu assumiu uma expressão sisuda, foi até à porta, voltou a chamar o escriba e murmurou-lhe algumas ordens. Fez sinal a Amerotke para que seguisse aquele mensageiro.

 

- Encontrarás tudo lá.

 

Amerotke agradeceu-lhe com frieza e seguiu o escriba por umas escadas que conduziam ao que parecia ser uma pequena cave. Havia archotes e candeeiros a óleo acesos e, pegando numa faca para cortar papiro, o escriba dirigiu-se a um dos cestos grandes, cortou o selo e empurrou a tampa para trás.

 

- Os haveres de Ipumer - declarou o escriba na Casa de Guerra. Espero por vós lá fora, meu senhor.

 

Amerotke, auxiliado por Chufoi, tirou tudo do cesto. Encontraram pouca coisa: uma bolsa, uma carteira, um cinto, anéis, uma faixa de brocado, peças de roupa. Uma sacola de escrita com estiletes, frascos de tinta, um rolo de papiro em branco, pulseiras e outras jóias. Amerotke observou-as.

 

- Para um escriba com um bom posto de trabalho, seria de esperar mais.

 

Um disco de prata despertou-lhe a atenção e pegou nele.

 

- Divina Maet! - exclamou, entregando-o a Chufoi. É um medalhão de prata dos Hicsos. O general Balet recebeu um igual mesmo antes de morrer. Porque havia o Ipumer de andar com isto?

 

Contou-lhe o que acontecera na câmara do conselho de Hatusu.

 

Chufoi assobiou baixinho.

 

- Mas isso não...

 

- Isso não o quê?

 

- Isso não faz sentido, meu amo. O Ipumer veio de Auaris, outrora capital dos Hicsos. Trazia este medalhão. Se ainda estivesse vivo, poderias prendê-lo por ser o possível assassino mas, pelo que ouvi no tribunal, o escriba estava mais preocupado com a bela filha do Pechedu do que com vinganças. No entanto, a posse deste medalhão estabelece uma ligação entre o morto e, se bem entendi, o assassino misterioso que jurou vingança contra as Panteras do Sul.

 

Amerotke concordou e continuou a vasculhar as coisas, mas não encontrou mais nada suspeito. Ipumer revelava ser praticamente um pobre diabo, um homem sem passado, sem verdadeiros amigos. Não comprara nenhuma das coisas dispendiosas que os escribas adquiriam: estátuas, jarros, até peças de mobiliário. Parecia que chegara a Tebas, se instalara com a viúva Lamna e vivera uma existência precária enquanto corria atrás da senhora Nechratta.
Bateram à porta. Ualu entrou na câmara.

 

- Encontraste qualquer coisa, não foi?

 

Amerotke falou-lhe do medalhão. Ualu pareceu admirado.

 

- Já me tinha perguntado o que estaria a acontecer disse com um ligeiro sorriso. - A divina rainha enviou-me uma mensagem: eu não devia investigar o assassínio do Balet. Parece que o reservou para ti. - Tirou o medalhão das mãos de Amerotke.

 

- O que mais sabes a respeito de Ipumer, meu senhor delegado? És ”os olhos e os ouvidos do faraó”.

 

Ualu foi sentar-se num banco ao lado da porta. Levantou a túnica, coçou um joelho ossudo e fez uma careta devido a um espasmo no estômago.

 

- Começo a desejar nunca ter pegado neste caso adiantou ele. - Julguei que era claro como água. O Ipumer era o amante perdido de amores, e Nechratta a mulher cúmplice, traiçoeira, que se fartou dele e decidiu acabar-lhe com a vida.

 

- E agora?

 

- Agora, meu senhor juiz, já não tenho assim tanta certeza. O Ipumer veio de Auaris. Deve ter trazido referências, credenciais, cartas de recomendação. Deve ter sido entrevistado e a sua candidatura a escriba teve de ser aprovada. Contudo, quando fui à Casa de Guerra e pedi ao guarda...

 

- As referências ao Ipumer tinham desaparecido? Ualu assentiu.

 

- Fiz uma busca minuciosa, mas o guarda nada conseguiu encontrar nos arquivos. Alguém as tirou de lá. Quanto mais o guarda pensava, mais ficava com a certeza de que devia ter sido o próprio Ipumer. - Ualu fez uma pausa. - Apesar dos seus problemas de estômago e da sua vida amorosa, o Ipumer revelou-se um escriba exemplar. Raramente estava ausente dos seus deveres, nunca chegava tarde, nunca aparecia bêbedo ou era insubordinado.

 

- E, claro, deixavam-no ir onde queria...

 

- Precisamente.

 

- Então, ele veio para Tebas só os deuses sabem por que motivo - continuou Amerotke. - É bem-sucedido e consegue trabalho. Lisonjeia os seus superiores provavelmente numa noite como esta, quando todos estão cansados e distraídos; esgueira-se até à Sala dos Arquivos e tira de lá todas as pistas sobre si próprio.

 

- Não encontrei nada - concordou Ualu. - Sabes como são nomeados os escribas, meu senhor? Todos os pormenores acerca deles são descritos em papiros que em seguida são arquivados, por ano, em grandes cestos de junco. Uso o mesmo sistema, como é habitual. A menos que algo de extraordinário aconteça, ninguém se preocupa. Os pormenores acerca de um escriba da Casa de Guerra não interessam ao faraó ou ao Conselho Real. Pouco mais importância têm do que traças a dançar ao sol.

 

- Mas, se ele veio de Auaris, deve ter trazido cartas de recomendação de uma Casa de Vida de lá - salientou Amerotke.

 

- Pois deve. - Ualu levantou-se e arrotou baixinho. No entanto, a minha barriga chama-me. Enviarei um mensageiro a Auaris. Sou ”os olhos e os ouvidos do faraó”. Se não for capaz de descobrir quem é este Ipumer, ninguém será! Apontou para os haveres do homem. - O meu escriba guardará isto. Desejo-te boa noite.

 

Pouco depois, Amerotke e Chufoi saíram da Casa do Milhão de Anos e desceram a grande calçada. Ali, os mercenários abundavam, envergando a sua armadura característica: os chaduana com os seus grotescos capacetes de cornos; os dakkari com toucados às riscas, escudos redondos de bronze atrás das costas; cuchitas com mantos compridos e cintos bordados, a pele escura coberta de tatuagens azuis e vermelhas; núbios, negros como a noite, com saias de pele de leopardo e toucados de penas, as armas empilhadas ao lado. Eram os homens de Ualu, a sua escolta e, se necessário, a sua guarda. Responderiam apenas perante ele. Se ele quisesse prender alguém, despertá-lo a meio da noite, aqueles mercenários sabiam como fazê-lo. Viram Amerotke passar. Chufoi sossegou-os anunciando na sua voz ribombante de quem se tratava.

 

Os visitantes saíram por um portão que dava para o mercado. Algumas bancas ainda se encontravam montadas e as lojas de comida estavam à cunha, vendendo comida e bebida a quem trabalhara todo o dia. O ar da noite transportava o cheiro a gazela e ibex frescos trazidos naquele dia pelos caçadores, a fim de serem esventrados, limpos e dispostos em grelhas sobre carvão incandescente. O perfume da comida atraiu a legião de pedintes que assolava a cidade. Estavam sentados, as mãos magras estendidas, a pedir sustento e esmola. Ali perto um grupo de cantores embriagados entoava um hino a Amon, ”Aquele Que Escuta”. Um médico, um especialista, um guardião do ânus, apareceu a correr, anunciando que tinha uma cura infalível para furúnculos internos e hemorróidas. Chufoi levantou o guarda-sol de forma ameaçadora e o homem afastou-se.

 

Amerotke agarrou no ombro de Chufoi, abrindo caminho entre a multidão, em direcção à avenida larga com pavimento de basalto que serpenteava até aos portões da cidade, os seus dois pilares dominados por torres de vigia. Uma unidade do Regimento de ísis montava guarda, as caneleiras de cabedal polido e os peitorais brilhando à luz dos archotes. De uma das torres veio o som de uma trompa a ser soprada, anunciando que dali a uma hora os portões da cidade seriam fechados durante toda a noite.

 

Amerotke e Chufoi atravessaram-nos e viram-se numa calçada ladeada por árvores que seguia paralelamente ao muro da cidade. À direita de Amerotke, o Nilo serpenteava e brilhava como uma cobra imensa, sobre o qual se avistavam as luzes dos barcos dos mercadores, desesperados por chegar a bom porto. À noite, o Nilo era um local diferente. No meio dos papiros, pequenas barcaças de piratas ocultavam-se por entre a vegetação luxuriante, à espera dos incautos.

 

Chufoi parou para escutar não apenas o piar dos pássaros da noite, mas procurando outros sons mais graves e ameaçadores. Nada ouviu exceptuando o rugido do hipopótamo e de vez em quando o latido dos chacais.

 

- O que foi?

 

Amerotke, mergulhado nos pensamentos, percebeu que deixara Chufoi para trás e recuou.

 

Chufoi agarrou na mão do amo e olhou para cima.

 

- Concordo com a senhora Norfret. Meu amo, devíamos ser escoltados quando caminhamos a meio da noite. Que te parece Asural, o ”deus da guerra”, hum? Ele era capaz de assustar um crocodilo.

 

- Estás nervoso? - perguntou Amerotke. Chufoi olhou para trás.

 

- Sinto-me nervoso, amo, sempre que vimos até aqui a meio da noite.

 

- Não há motivo para preocupações.

 

Amerotke recomeçou a andar. Entraram na Aldeia dos Impuros; os seus habitantes consistiam em camponeses que haviam migrado para a cidade. Eram demasiado pobres para comprar terra, por isso retiravam lama das margens do Nilo, secavam-na e construíam o seu labirinto de habitações térreas. Estas alojavam não só trabalhadores das pedreiras mas também fugitivos da lei. Chufoi odiava o local. No entanto, Amerotke insistia em fazer sempre o mesmo caminho e, por aquela altura, já ninguém estranhava vê-lo ali. As pessoas sentadas à porta estavam atarefadas com as fogueiras, o ar carregado do cheiro do peixe salgado, da cerveja barata e do pão desagradável ao paladar que aquelas pessoas coziam. Alguns olharam para cima e proferiram o nome de Amerotke, levantando a mão num cumprimento. Amerotke respondeu alegremente. Pelo caminho, como de costume, passara por uma série de crianças sujas e nuas que o seguiram para receber a recompensa habitual.

 

- Apareçam amanhã às dez horas junto ao portão lateral da minha casa - disse ele, sorrindo-lhes. - Irão receber comida e fruta.

 

Amo e servo subiram a pequena colina com vista para o Nilo. Amerotke deteve-se no cimo para saborear o ar fresco e puro da noite. Olhou para as luzes trêmulas da aldeia. Já várias vezes, nas reuniões do Conselho Real, insistira para que se fizesse algo em relação à Aldeia dos Impuros.

 

- Cresce a cada semana que passa e é refúgio para todos os malfeitores e criminosos de Tebas!

 

Era um assunto sobre o qual ele e o delegado Ualu concordavam.
Amerotke olhou para o rio. Os criminosos da Aldeia dos Impuros acabavam muitas vezes na Sala das Duas Verdades.

 

No entanto, verdade fosse dita, pessoas como a dama Nechratta e Ipumer causavam a Amerotke uma preocupação ainda maior. Apesar da compaixão que pudesse sentir, estava determinado a descobrir a verdade. Se Nechratta matara Ipumer, se o envenenara barbaramente, então teria de ser castigada. Tebas estava a ficar mais rica, mais poderosa; ouro, prata e pedras preciosas das minas do Sinai eram cada vez mais abundantes na cidade. Os barcos mercantes de Hatusu iam cada vez mais longe. Os Núbios, os Líbios, os Cuchitas e até os poderosos Mitânios do outro lado do Sinai pagavam-lhes enormes tributos. Aquela riqueza tinha os seus inconvenientes. O crime aumentara, não apenas entre os ladrões e vagabundos que tinham migrado para a cidade, mas também entre os ricos e poderosos. Aqueles assassinos profissionais, a temida Corporação dos Amemets, tinham um negócio próspero.

 

Amerotke contemplou a Cidade dos Mortos na outra margem. Se Nechratta fosse culpada, tinha de servir de exemplo. Contudo, seria o caso assim tão simples? Pechedu era um homem muito rico: a sua filha tinha tudo aquilo que queria. Um homem como Ipumer estava abaixo deles e, se Nechratta tivesse querido matá-lo, porquê correr ela própria o risco? E Pechedu? Devia saber o escândalo que a forma como o escriba morrera causaria. Um simples passeio ao longo do cais e Pechedu encontraria uma mão-cheia de assassinos que, por uma moeda de prata, cortariam a garganta a Ipumer. Porque correra Nechratta tamanho risco? Sem dúvida Ipumer fora envenenado depois da sua visita à Casa da Gazela Dourada. Alguém de lá se encontrara com ele. Mas quem?

 

- E porquê correr esse risco? - murmurou Amerotke.

 

- Estamos a correr um risco - gemeu Chufoi. - Amo, quero ir para casa. A minha barriga julga que a garganta foi cortada.

 

Amerotke olhou para baixo. - E tenho um plano.

 

- Oh, não! - exclamou Amerotke. - Era isso que eu temia. Vá lá, Chufoi. Podes contar-me enquanto caminhamos.

 

Puseram-se a caminho. Chufoi, pairando ininterruptamente e ignorando a crescente descrença do amo, explicou-lhe de que forma planeava explorar o culto de Set e fazer uma fortuna.
Set: um deus da guerra, adorado pelos Hicsos.

 

Hepel, escriba na Casa de Guerra e confesso amigo do falecido Ipumer, acordou e olhou em volta, horrorizado. Não compreendia por que motivo o seu corpo nu se encontrava de pernas e braços amarrados pelos pulsos e tornozelos a cavilhas cravadas no chão. Hepel tentou falar enquanto olhava aterrorizado para o céu estrelado acima dele e o seu corpo banhado em suor gelava devido ao vento frio do deserto. Tentou combater os vapores do vinho e o opiáceo que devia ter toldado a sua mente. Gemeu baixinho e olhou na direcção de uma pequena fogueira. Um vulto encapuzado estava acocorado junto dela.

 

- Onde estou? - perguntou, engasgado pelo vômito de vinho e bílis que ameaçava subir-lhe à boca. - O que faço aqui?

 

O vulto não se mexeu. Hepel tremeu de frio. Achou que ia vomitar e deixou a cabeça tombar, magoando-se no chão pedregoso. Ouviu, trazidas pelo vento, as risadas escarninhas das hienas, aqueles predadores às riscas que erravam pelas formações rochosas para lá das terras verdejantes do Nilo. Fechou os olhos. Aquilo devia ser um pesadelo.

 

Recordava-se de ter ido a uma casa de prazer, perto do Templo de fsis, logo a seguir à calçada que partia do rio. A rapariga a quem ele pagara esforçara-se por lhe dar prazer, contorcendo-se sob ele como uma cobra coberta de óleo. Ele bebera do seu amor e cambaleara com uma grinalda de flores na cabeça até uma loja de vinho próxima. Aí, decorria uma festa, um festival associado a Hórus. Homens e mulheres faziam cabriolas, os seus rostos cobertos por máscaras de falcão. Fora convidado a juntar-se-lhes. Recordou-se do homem, olhos a brilhar atrás da máscara, o aroma doce do perfume. Uma heset aproximara-se e sentara-se ao seu colo enquanto ele observava outras duas a executar uma dança sinuosa ao som das palmas, dos sistros e da melodia inebriante do alaúde e da lira. A taça circulara, cheia de vinho espesso, sem água adicionada. Hepel recordou-se de que a taça lhe fora estendida. Depois sentira-se tonto, as pernas pesadas, os risos retinindo nos ouvidos. Acabara por se ir embora, tendo sido ajudado pelo seu novo amigo. Recordava-se de ter cambaleado ao longo do cais, dos gritos escarninhos de alguns marinheiros e agora aquilo.

 

Hepel abriu os olhos e contemplou o corpo. De cada vez que se mexia, as pedras arranhavam-no.

 

- Ajuda-me, por favor! - implorou.

 

O vulto afastou-se da fogueira e aproximou-se devagar, acocorando-se ao seu lado. Sob o manto às riscas usava uma túnica branca cara; a máscara de falcão continuava a cobrir-lhe o rosto.

 

- Chamas-te Hepel? - A voz era suave. O escriba assentiu vigorosamente.

 

- E eras amigo do Ipumer? Ele assentiu de novo.

 

- Foste pago para o espiar, não foste?

 

Hepel, sem tirar os olhos da máscara, abanou a cabeça. Uma faca apareceu e desferiu um golpe na parte carnuda do braço. Hepel inclinou a cabeça para trás e gritou.

 

- Quando te faço uma pergunta, respondes sempre a verdade. - A voz parecia o sibilar de uma cobra. - Olha para ali, Hepel. O que vês?

 

- Vejo uma fogueira - murmurou Hepel. - E para lá dela?

 

- Uma formação rochosa.

 

- Exacto, Hepel. Estamos nas Terras Vermelhas, num carreiro empoeirado por cima do Vale dos Reis, um local de fantasmas e demônios. Agora, olha para a direita da fogueira. O que vês?

 

O vulto obrigou a cabeça de Hepel a virar-se, carregando nela com força, pelo que a sua face esquerda foi arranhada pelas pedras.

 

- Olha! - ordenou.

 

- Vejo... vejo uma caixa e um tubo de barro.

 

- Sabes alguma coisa acerca dos Hicsos, Hepel? - continuou a voz. - Eles costumavam levar os prisioneiros para o deserto e amarrá-los como eu te amarrei. Levavam uma peça de barro, uma jarra sem a parte de baixo, e prendiam-na ao tronco do prisioneiro. Colocavam uma ratazana lá dentro, a que haviam obrigado a passar fome, tornada tão feroz que atacaria e comeria qualquer coisa. Esta noite trouxe uma ratazana parecida. Não, não... - O homem tapou a boca de Hepel. Não grites: aqui ninguém te ouve. O lume não vai ser visto. Mas não queremos atrair as hienas e os leões! Agora, se continuares a mentir, farei o que os Hicsos faziam: amarro o tubo ao teu tronco, coloco a ratazana lá dentro e faço lume numa das extremidades. Só haverá uma saída. - O carrasco de Hepel encostou a mão à barriga do escriba. - Percebes?

 

Hepel assentiu.

 

- Óptimo! - O carrasco retirou a mão. - Agora, vou começar outra vez. - O Ipumer era teu amigo?

 

- Sim.

 

- E a viúva Felima pagava-te... - A voz dele transformou-se num riso meio reprimido. - Felina pagava-te, só os deuses sabem o quê, para espiar o homem que amava, o Ipumer, não era?

 

- Sim. Felima é mais rica do que parece.

 

- Muito bem! Muito bem! - tranquilizou-o a voz. E na noite em que morreu ele saiu da loja do vinho e tu seguiste-o, não foi?

 

De novo um aceno vigoroso.

 

- De regresso à casa de Felima e depois para onde?

 

- Para uma casa na Rua das Lamparinas a Óleo. Ele entrou e depois saiu.

 

- Muito bem! Muito bem! - O carrasco deslocou-se, acocorado, e as suas sandálias rasparam na areia. - E depois?

 

- Ele foi a uma loja de cerveja. Tinha um odre ao ombro. Acho que o encheu e foi à Casa da Gazela Dourada encontrar-se com a senhora Nechratta.

 

Hepel gritou quando o carrasco lhe golpeou de novo o braço com a faca aguçada.

 

- Quero a verdade, Hepel, não quero palpites. Seguiste-o até lá?

 

- Sim, mas não sei ao certo com quem é que ele se encontrou. Vi o vendedor ambulante, o que prestou juramento em tribunal, deitado junto ao muro sob o sicômoro. Não percebi o que estava a acontecer.

 

- Isso não me interessa.

 

O carrasco calou-se devido ao rugido de um leão, seguido da gargalhada sobrenatural de uma hiena. Na imaginação febril de Hepel, ambos pareciam mais próximos.

 

- Então, estás a dizer a verdade. Vamos deixar a senhora Nechratta e regressar ao Ipumer. O que raio é que ele te contou?

 

Hepel começou a tremer; os golpes no braço latejavam. Virou-se, fazendo esforço para vomitar. Quando voltou a olhar, o homem levantara-se. Regressou e atirou um manto para cima do corpo suado de Hepel.

 

- Vês? - tranquilizou-o a voz atrás da máscara. - Nada tens a temer, Hepel. Conta apenas a verdade. Ele alguma vez te falou do tempo em que viveu em Auaris?

 

- Ele afirmava vir de uma família nobre. Vangloriava-se muitas vezes do cargo elevado que tivera. - Hepel engoliu e gemeu ao sentir o gosto ácido na garganta. Se conseguisse escapar àquela situação, jurou em silêncio, nunca mais visitaria uma casa de prazer nem beberia com desconhecidos. Fechou os olhos e amaldiçoou Ipumer.

 

- Se ele era tão poderoso em Auaris - continuou o carrasco -, por que motivo veio para Tebas?

 

- Perguntei-lhe isso uma vez quando ele estava bêbedo. Respondeu que se encontrava em Tebas havia dois anos e desejava não ter vindo, mas que não havia nada a fazer.

 

- E explicou porquê?

 

- Só se vangloriava quando estava embriagado. - Hepel pestanejou quando lhe entrou areia nos olhos. - Disse que estava em Tebas para fazer grandes coisas. Disse que fora trazido para cá pelas Panteras do Sul...

 

- Ah! - interrompeu o carrasco. - Os nossos autoproclamados heróis do Regimento de Set.

 

- Sim, sim, é isso.

 

- Ele disse por quem?

 

- Um dos generais, um dos que já morreram.

 

- Muito bem! - O carrasco olhou para as estrelas. Agora, Hepel, pensa e pensa com clareza. Ele disse mais alguma coisa interessante?

 

- Não me lembro. Ele andava fascinado pela Nechratta. A maior parte das vezes não falava de outra coisa. Uma vez, encontrei-o a chorar numa loja de vinho perto do cais. Disse-me que desejava nunca ter vindo, que queria ver o general Pechedu, o pai dela. - Hepel fechou os olhos. - Não posso dizer-te mais nada porque não sei mais nada.

 

- Muito bem!

 

A figura mascarada parecia distraída com os sons horripilantes dos predadores da noite.

 

- Por favor! - implorou Hepel. - Por favor, solta-me. Contei-te a verdade.

 

- Pois contaste - retorquiu o homem. - Diz-me mais uma coisa. Hepel, achas que o nosso amigo Ipumer, que foi para o Ocidente antes de ti, foi assassinado pela senhora Nechratta?

 

- Não sei.

 

- Eu também não. Mas vou dar-te uma boa notícia - declarou o carrasco. - Não trouxe nenhuma ratazana para aqui. Foi uma piada cruel, não foi, Hepel?

 

O jovem escriba acenou vigorosamente.

 

- vou libertar-te.

 

Hepel deixou tombar a cabeça e fechou os olhos, suspirando de alívio. Estava prestes a prometer por todos os deuses que iria ficar de bico calado, mas o carrasco já tomara outra decisão. com um golpe rápido cortou a garganta de Hepel de orelha a orelha. Ficou a ver o jovem estremecer e tossir sangue. Pegou no manto com que o cobrira e esperou até que o corpo se imobilizasse, os olhos a fitarem cegos o céu nocturno.

 

Cortou as cordas que lhe prendiam os tornozelos e os pulsos, desenterrou as estacas de madeira e guardou-as no manto juntamente com a corda. Apagou a fogueira com os pés e atirou-lhe areia para cima. A brisa fez-lhe chegar ao nariz um cheiro fétido. Os predadores aproximavam-se. Dariam pelo cheiro do sangue e, de madrugada, todos os vestígios do escriba Hepel teriam desaparecido. O assassino não se importava. Olhou em volta de novo e dirigiu-se para a grande formação rochosa que tinha vista para a Cidade dos Mortos, a casa de Meretseger, a deusa-escorpião. Murmurou uma pequena oração e pôs-se a caminho.

 

Distanciou-se o mais depressa possível do cadáver da vítima antes de parar para beber um gole do odre. Aos seus pés estendia-se a Cidade dos Mortos e o Nilo brilhava ao luar. O assassino, ainda com a máscara de Hórus, olhou para o céu. Queria vingar-se do pai de Nechratta, daqueles heróis, as Panteras do Sul. Rangeu os dentes de fúria e pôs-se a caminho.

 

Norfret pintara-se e pusera kohl nos olhos. Estava deslumbrante. A sua peruca embebida em óleo libertava perfume e, de cada vez que ela se mexia, a sua túnica fina também soltava uma nuvem perfumada. Amerotke fitou-a. Ela pintara as unhas de vermelho-escuro; no pescoço exibia uma gargantilha de jaspe com ouro e prata; nas orelhas usava brincos a condizer. De cada vez que Norfret mexia as suas belas mãos, as pulseiras de prata nos seus pulsos tiniam. Entre ela e Amerotke encontrava-se uma mesa com bastante comida: peixe, codorniz, ganso e carne de vaca suculenta, todos com os seus molhos especiais; frascos com manteiga e natas, um jarro especial de charou, vinho branco gelado no pequeno lago especialmente criado para o efeito.

 

Amerotke e a mulher jantavam no terraço da casa. Os candeeiros a óleo haviam sido acesos. Grandes pratos de bronze com carvão, salpicado de incenso e grão de sândalo, aqueciam o ar e mantinham afastadas moscas e borboletas nocturnas. Amerotke olhou para a esquerda. Dali conseguia ver as luzes da cidade, o brilho do Nilo, e ouvir os sons da noite nos jardins mais abaixo. Chufoi e os seus dois filhos, Ahmes e Curfay, brincavam no corredor. Percebeu pelo tom queixoso da voz do servo que ele queria juntar-se ao amo e ouvir o que estava a ser dito.

 

- És tão má como Hatusu! - acusou Amerotke, mantendo uma expressão severa. - És uma sirigaita, uma raposa e uma vivaça! Enfeitaste-te para ficar bonita como a noite, preparaste um banquete que não desmereceria os Campos dos Bem-Aventurados e agora olhas para mim com uma inocente expressão de espanto.

 

- Sou pior do que Hatusu! - murmurou Norfret, deitando a língua de fora. - A noite ainda é uma criança, meu senhor juiz, e os prazeres que podem esperar-te são infinitos.

 

- Nechratta - proferiu Amerotke, pegando num pedaço de peixe grelhado e metendo-o na boca. - Em toda a Tebas só se fala de Nechratta. Tu queres saber aquilo que eu sei. Por isso, amanhã, em vez de trabalhares com o administrador e outros funcionários, de supervisionar as contas deles ou de inspeccionar a adega, estarás distraída. Todas as tuas amigas irão chegar, com um ou outro pretexto, apenas com um objectivo em mente. O que sabe Norfret sobre o caso da senhora Nechratta? Será ela uma envenenadora? Irá morrer? Que outros pormenores se saberão?

 

- Isso nunca me passou pela cabeça - declarou Norfret, fazendo beicinho e arvorando uma expressão magoada. Amerotke percebeu pela forma como ela esticava os lábios que estava prestes a desatar a rir. - Se não quiseres falar do assunto, não temos de o fazer - acrescentou, tocando ao de leve na boca com o guardanapo. - Amanhã vais sair com o Karnac?

 

- De madrugada - confirmou Amerotke com ar cansado.

 

- E Chufoi parece pensativo.

 

- Visitámos o Templo de Set - explicou Amerotke. Contei-te porquê. Chufoi teve aquilo a que chamou uma idéia brilhante: vender recordações da deusa Maet. Vai dizer que foram especialmente abençoadas por mim, mergulhadas no Lago da Pureza no Templo de Maet e, se colocadas no túmulo de um ente querido, protegê-lo-ão na Sala do Julgamento.

 

- Nunca se fez nada assim - comentou Norfret. - Porque é que Chufoi...

 

- Ele tem ouro e prata com fartura - confirmou Amerotke -, mas acalenta um grande sonho. Quer tornar-se um mercador rico e poderoso. O seu cérebro fervilha como um fosso cheio de cobras: remédios, amuletos, escaravelhos, curas engenhosas, poções de amor... - Amerotke expirou, exasperado. - A lista é infindável.

 

- E o Templo de Set? - Norfret estava decidida a não desistir.

 

Amerotke bebeu um gole de vinho, os dedos tacteando as gravuras da taça: cobras a retorcerem-se, abrindo caminho por uma vinha. As taças eram de prata e ouro gravado, com esmeraldas incrustadas, e haviam sido prenda de casamento do irmão de Norfret. Quando a mulher as punha na mesa, Amerotke sabia sempre que ela estava a tramar qualquer coisa. Aquelas eram as taças em que, na noite de núpcias, haviam trocado os seus votos de amor. Amerotke olhou para a sua mesa de trabalho. Uma noite que nunca esqueceria! Contudo, naquele momento, faziam-no lembrar-se das Taças do Escorpião na Capela Vermelha.

 

- O Templo de Set... - Norfret bateu ao de leve na taça do marido com a sua. - Lembro-me de ter visto uma vez as Panteras do Sul desfilarem por Tebas com as suas armaduras. À frente iam arautos a gritar os seus feitos, raparigas bonitas atiravam pétalas de rosas, plumas de avestruz de cores alegres eram abanadas à volta deles. Agora um foi assassinado. Porquê, Amerotke? - perguntou num tom gelado.

 

- Não sei - respondeu o marido. - A guerra contra os Hicsos foi há trinta anos. Ao regressar a casa, vinha a pensar nas duas prováveis conclusões a que cheguei sobre o assassino. Primeira, pode ser alguém de Auaris, que viajou até sul para resolver um agravo ou uma ofensa antigos. Talvez Meretseger tivesse um filho ou uma filha. Alguém jovem com desejo de vingança, que tivesse planeado tudo. Mas não consigo perceber quem.

 

- E a segunda?

 

- Alguém próximo do Regimento de Set e dos seus famosos assassinos, as Panteras do Sul.

 

- Não podias ter-lhes perguntado onde se encontravam todos quando o Balet foi morto?

 

- Irei fazê-lo amanhã, mas tu conheces aqueles homens. Andam sempre muito ocupados e são poderosos. O assassino teria ocultado cuidadosamente todas as pistas. Estás a ver... Amerotke mudou de posição na cadeira almofadada, os seus dedos tocando no braço adornado de Norfret. - Também desconfio do sacerdote que encontrámos, Chichnak, matreiro como um gato. Não percebo como é que o Balet foi morto de forma tão silenciosa. Segundo os relatórios, a capela parecia um campo de batalha.

 

- E a divina Hatusu está preocupada?

 

- Sim, está nervosa como um mangusto.

 

- Que descrição tão adequada - observou Norfret com uma risada.

 

- Hatusu quer manter o exército feliz - respondeu Amerotke. - As pessoas dizem que durante trinta anos nada aconteceu aos nossos heróis de Tebas, até ela ter assumido a dupla coroa. Nada pode perturbar a sua harmonia.

 

- Excepto o senhor Senenmut?

 

Amerotke inclinou-se para a frente e encostou um dedo aos lábios de Norfret.

 

- Podes falar assim comigo - murmurou ele -, mas nunca com as tuas amigas.

 

- Faraó ou não - retorquiu Norfret -, a divina Hatusu não me mete medo.

 

Amerotke baixou os olhos na direcção da mesa. A sua mulher tinha as maiores reservas em relação à governante do Egipto.

 

- Ela pode ser faraó, a filha divina de Ré, a ”palavra da boca dele”, a ”encarnação da sua vontade”, mas não deixa de ser exímia em ardis - zombou Norfret.

 

Amerotke encheu a sua taça e a da mulher.

 

- Então, amanhã vais às Terras Vermelhas?

 

- Sim.

 

- E a senhora Nechratta? Amerotke sorriu e suspirou.

 

- Persistente como um mangusto!

 

- E igualmente tenaz - concordou Norfret.

 

- Amanhã de manhã, Ualu chegará ao tribunal, o meu chefe de gabinete dirá que a sessão ficou adiada e não terão outro remédio senão esperar.

 

- Ela é culpada? Vá lá... - Norfret inclinou-se sobre a mesa. - Prometo-te que a brisa não é uma espia. Não levarei as tuas palavras até ao delegado real.

 

Amerotke sabia que não iria ter descanso. Também sabia que Norfret era astuta. Não daria com a língua nos dentes. Aquilo que lhe contasse permaneceria na maior confidencialidade, embora ela provocasse as amigas e as conhecidas dizendo que sabia mais do que elas.

 

- É um homicídio bastante curioso. - Amerotke recostou-se na cadeira, embalando a taça nas mãos. - De um lado temos Pechedu, a sua recatada e roliça mulher e as duas filhas. Parece que Ipumer os conheceu num banquete e, se acreditarmos nos boatos, ele e Nechratta apaixonaram-se de imediato. Nechratta leva uma vida muito recatada. É tudo o que sabemos a seu respeito.

 

- E quanto ao Ipumer?

 

- Esse é um mistério. É também um pobre diabo, um desconhecido de Auaris. Chega a Tebas e, graças a apoios misteriosos, torna-se escriba na Casa de Guerra. Claro, não podemos esquecer-nos de que a sua língua de prata teve bastante êxito junto das mulheres. Era bem conhecido das hesets e das bailarinas, das prostitutas e das cortesãs. Também era bastante estimado por Felima. A sua hospedeira, Lamna, parecia igualmente estimá-lo.

 

- O que estás a insinuar? - Norfret tirou uma uva da tigela e encostou-a com firmeza aos lábios do marido. - Que o encontro de Ipumer e Nechratta foi planeado?

 

- Creio que sim. Mas por que motivo haveria ele de a procurar? O mistério é esse.

 

Amerotke pigarreou.

 

- Há ainda outro mistério - disse Norfret. - A própria Nechratta. Uma jovem princesa da cidade, muito abastada, provavelmente destinada a um casamento rico. Em vez disso, entrega-se a um escriba que devia conhecer muito pouco.

 

- Sim - concordou Amerotke com um sorriso. - Talvez tenha de te fazer juiz assistente na Sala das Duas Verdades.
Da próxima vez que o tribunal se reunir vou fazer essa pergunta. Claro, ela pode tê-lo desejado, pode ter-se apaixonado. Ou, então, o Ipumer representou o ensejo de ela se rebelar contra os pais e os seus desejos.

 

- É possível - concordou Norfret. - Mas... e depois? Amerotke olhou para o céu. A conversa agradava-lhe. Ajudava-o a arrumar as idéias.

 

- A Nechratta é provavelmente a menina dos olhos do pai: rica e mimada. Divertiu-se, namoriscou, mas depois decidiu que bastava.

 

- Então, se os boatos são verdadeiros, a senhora Nechratta disse ao Ipumer que ele já não era bem-vindo.

 

- Ele insistiu.

 

- E então? - Norfret esboçou um sorriso endiabrado.

- No meu tempo, senhor juiz Amerotke, tive vários pretendentes. Posso até dizer admiradores. Eles podem insistir quanto queiram, mas eu sei a quem pertence o meu coração.

 

Amerotke ergueu a taça numa saudação.

 

- Já havia pensado nisso. Tudo o que Nechratta tinha a fazer era manter a janela do quarto fechada, o portão lateral trancado e o Ipumer percebia a mensagem. Tenho a certeza de que o pai dela teria tido todo o gosto em lançar os guardas e os cães atrás dele.

 

- Ou pior?

 

- Ou pior - concordou Amerotke. - É possível contratar um rufia por uma moeda de prata. Há homens e mulheres em Tebas capazes de matar o irmão ou a irmã por uma boa refeição.

 

- E talvez tenha acontecido isso?

 

- Não.

 

Amerotke contou-lhe sucintamente o que fora nessa manhã apurado no tribunal.

 

- Sabemos que o Ipumer foi até à Casa da Gazela Dourada. Sabemos que alguém saiu daquela casa para se encontrar com ele e que foi provavelmente nesse local que o envenenaram. Não o estou a ver a bater ao portão, o assassino a vir cá fora e o escriba a ir dar um passeio com ele.

 

- Então deve ter sido a senhora Nechratta.

 

Amerotke ponderou cuidadosamente as palavras.

 

- O Ualu terá de provar que o Ipumer, na noite em que morreu, ingeriu veneno dado por Nechratta ou por alguém a agir sob as suas ordens. Se não conseguir provar isso terá de demonstrar que, das outras vezes em que o Ipumer se sentiu doente, em primeiro lugar, a doença foi causada por envenenamento e, em segundo lugar, que isso foi obra de...

 

- Nechratta ou de alguém a agir sob as suas ordens. Norfret concluiu a frase por ele.

 

- Agora - continuou Amerotke entusiasmado -, se o advogado de Nechratta for bom, tentará lançar alguma confusão sobre o assunto. Creio que é o que anda a tentar fazer. Porque haveria Nechratta de matar o Ipumer? Talvez alguém tivesse ciúmes do amor dele por ela? O general Pechedu? Outro membro da família? Ou terá sido uma das viúvas ciumentas, Lamna ou Felima? Ou algum desconhecido misterioso cujo nome desconhecemos?

 

- Chantagem - sugeriu Norfret. - O Ipumer pode ter passado da sedução à chantagem.

 

- É possível - concordou Amerotke.

 

- É possível - repetiu Norfret. - O rapaz achou que, se não a podia ter, pelo menos seria compensado pelo seu sofrimento. A pessoa com que ele se encontrou poderá ter sido a mãe de Nechratta, o pai? Ou um seu representante? É fácil imaginar as ameaças de Ipumer: ”Encham a minha bolsa de ouro ou toda a Tebas saberá que a senhora Nechratta foi seduzida por um plebeu.”

 

- Talvez. Mas uma coisa o Ualu conseguiu estabelecer: Nechratta comprou o veneno que matou Ipumer - afirmou Amerotke. - O Ualu é rápido e astuto. Tem as duas extremidades de uma corrente... - Amerotke levantou a mão - ... e está a tentar uni-las. Desconfio que vai aproveitar o adiamento de amanhã para continuar a escavar como um chacal escava um buraco.

 

- Podes interrogar Nechratta?

 

- Antes de o caso ter começado, sim. Agora... - Amerotke abanou a cabeça. - O Ualu levantaria objecções. O assunto foi presente a tribunal. Tem de ser resolvido lá a menos que as circunstâncias se alterem.

 

- E se ela for culpada? - Norfret já não estava com vontade de brincar.

 

Amerotke ficou carrancudo.

 

- A lei do faraó é bem conhecida. Uma pessoa que envenena deliberada e maldosamente outra tem de sofrer a pena: ser enterrada viva nas Terras Vermelhas. - Viu a expressão horrorizada de Norfret. - Mas tenho a certeza de que não chegaremos a tanto. O Meretel parece um bom advogado.

 

- Tal como o delegado Ualu.

 

Amerotke estava prestes a falar quando ouviu Chufoi gritar e subir as escadas a correr.

 

- Senhor, tens uma visita.

 

Amerotke olhou para Norfret, que assentiu.

 

- É o sacerdote Chula do Templo de Set.

 

Chufoi surgiu no cimo das escadas seguido de Chula. Pusera um lenço bordado nos ombros e o seu pequeno capuz tapava-lhe a cabeça. Puxou-o para trás, fez uma vénia a Norfret e fitou Amerotke com olhos inexpressivos.

 

- Lamento incomodar-te, meu senhor juiz, mas as ordens da divina rainha quanto a este assunto são bastante claras.

 

Norfret bateu palmas e pediu a Chufoi que trouxesse mais uma cadeira para junto da mesa. Agarrou na mão do sacerdote e instou-o a sentar-se. Adulou-o ainda mais, insistindo para que comesse e bebesse primeiro. Chula não precisava que lho dissessem duas vezes e pegou delicadamente num pedaço de pato assado. Amerotke e Norfret fingiram continuar a refeição. Chula bebeu um gole de vinho e pigarreou.

 

- Que Aquele que tudo ouve e tudo vê estenda a Sua sombra sobre vós. - Chula virou-se, um ligeiro sorriso no rosto duro. - E que Ele vos mantenha na sombra da Sua asa.

 

Norfret agradeceu ao sacerdote a sua bênção.

 

- Meu senhor, peço novamente desculpa - disse Chula, indo directo ao assunto -, mas trago novidades interessantes. Em primeiro lugar, a heset que foi morta com um golpe e atirada manietada ao Nilo. Estava grávida!

 

Ignorou a expressão horrorizada de Norfret. Matar uma grávida era um pecado horrendo pelo qual os devoradores de almas exigiriam retribuição eterna.

 

- Tens a certeza? - perguntou Amerotke.

 

- Sou médico. Quando comecei a mumificação descobri... - Os olhos do sacerdote encheram-se de lágrimas. Talvez com pouco mais de dois meses, meu senhor. Rezei a pedir vingança diante da estátua de Anúbis. A minha mulher e eu daríamos anos da nossa vida para poder ter um filho. Agora, como é sabido - prosseguiu o sacerdote -, o cadáver da heset deverá ser entregue para o funeral ao Templo de Anúbis. Ela dançava perante esse deus. Fui lá esta tarde e fiz mais descobertas. Parece que esta heset era bastante discreta e introvertida. Normalmente não falava com ninguém, mas tinha um segredo.

 

- Um amante?

 

- Sim, meu senhor, mas ninguém sabe quem ele era. Parece que a rapariga se escapulia para ir ter com ele num local combinado. Como a relação era mantida em segredo, o homem devia ser casado.

 

Amerotke assentiu.

 

- No entanto, em certa ocasião, a rapariga confessou que o amante, possivelmente o pai da criança, era um oficial do exército da divina Hatusu. A amiga dela no templo pediu-lhe provas e acusou-a de mentir. A heset repetiu acaloradamente que ele era um general e, ainda mais, um herói do Egipto, um Assassino de Set, uma das Panteras do Sul.

 

- Tens a certeza?

 

Chula assentiu e bebeu outro gole de vinho sem tirar os olhos de Amerotke.

 

- Sou o guardião dos mortos, dedicado ao culto de Anúbis. Ninguém ousaria mentir-me. Interroguei várias vezes a rapariga e ela repetiu a mesma história. Não creio que estivesse a faltar à verdade.

 

Amerotke assobiou baixinho.

 

- Mas que grandes novidades - murmurou. - E podem explicar o homicídio dela. - Olhou para Norfret. Uma jovem rapariga do templo fica grávida. Pode tornar-se insistente, talvez até ameaçadora. Por isso é morta e a criança dentro dela também morre. Não duvido do que disseste, guardião dos mortos, mas a heset foi morta como se se tratasse da vítima de um sacrifício de um guerreiro hicso.

 

Amerotke olhou para o céu. As estrelas pareciam mais próximas naquela noite. Seria um truque da luz, ou teria ele bebido demasiado vinho? Ou seria algo que os estudantes dos céus na Casa de Vida conseguiriam explicar? Fechou os olhos e meditou naquilo que o guardião dos mortos lhe dissera. Uma jovem heset, enamorada de um herói de guerra, foi adulada e seduzida. Entusiasmada com a situação, ignorara as técnicas habituais para evitar a concepção. Ou teria tencionado encurralar o amante, que sempre exigira sigilo absoluto acerca da relação? Devia ter havido um confronto, o amante descontrolara-se e matara-a selvaticamente. E estaria o assassínio de Balet relacionado com aquele?

 

- Meu senhor, tenho mais novidades. Amerotke esfregou os olhos.

 

- O escriba Ipumer está pronto para o funeral. As suas exéquias serão pagas pela Casa da Prata. No entanto, quando estava a preparar o cadáver... - O guardião dos mortos mexeu-se na cadeira. - bom... reparei numa tatuagem com a pigmentação ligeiramente desbotada. Usei tintas para realçar os contornos.

 

- E então?

 

- Duas clavas cruzadas. - Chula sorriu ao ver a expressão de Amerotke.

 

- Mas esse é o símbolo de um nobre hicso! Então, o nosso escriba não era egípcio?

 

- Possivelmente - concordou o guardião dos mortos.

- Talvez fosse filho de um chefe dos guerreiros hicsos e de uma egípcia. Depois de Auaris ser tomada pelos exércitos do faraó devem ter aparecido bastantes órfãos.

 

- Sim - concordou Amerotke. - E alguém com juízo tentaria esconder uma tatuagem como essa.

 

- Foi o que aconteceu neste caso - declarou Chula. - i; Pelo que sei, a tatuagem deve ter sido feita pouco depois do nascimento. Quando a criança tinha cerca de um ano alguém tentou apagá-la. Ipumer tinha cerca de trinta Verões, o que coloca o nascimento por volta da altura da grande derrota dos Hicsos.

 

Amerotke esticou a mão sobre a mesa e tocou na taça de Chula.

 

- Fizeste muito bem, meu amigo. Apesar do seu ar austero, Chula corou.

 

- Foi um grande transtorno para ti trazer-me estas notícias - continuou Amerotke. - Insisto que passes aqui a noite como nosso convidado. O Templo de Set continuará no mesmo lugar pela manhã. Tens mais novidades?

 

- Sobre a heset, não. Mas fiquei fascinado com o Ipumer. Todas as pessoas de Tebas têm uma teoria acerca do seu homicídio. Agora, como é sabido, meu senhor, durante o processo de mumificação removemos os órgãos internos. Eles são limpos e colocados em jarros canópicos. Neste caso, estudei-os atentamente. Penso que... - Olhou para Norfret, que escutava fascinada. - Bem, disponho de poucas provas, mas acho que o Ipumer consumia opiáceos.

 

- Opiáceos?

 

- Por que razão, meu senhor, não sei. Para dormir, para sonhar? Suco de papoila ou outras ervas? Elas podem alterar a consciência, tornar-nos felizes. Mas isto talvez possa ser útil para o julgamento.

 

- Como? - perguntou Norfret.

 

- Uma teoria que não referi - explicou Amerotke - é que o Ipumer às vezes era bastante excitável, especialmente com a senhora Nechratta. Não vou revelar segredos, mas o Meretel podia argumentar que o escriba se suicidou, que ingeriu deliberadamente o veneno para que a sua morte pudesse ser imputada à rapariga. Ele esperava que o seu ka a atormentasse.

 

- Que estupidez! - exclamou Norfret.

 

- Para ti, para mim e para o nosso convidado, sim - retorquiu Amerotke -, mas para um homem cuja mente está transtornada e ingere drogas sabe-se lá por que motivo... Amerotke pegou na taça do vinho. - O que vou dizer é segredo, mas quanto mais coisas descubro acerca do Ipumer, mais desconfio de que a morte dele e a do general Balet estão relacionadas, embora não perceba como ou porquê. Surgiu um elemento novo. O escriba tinha sangue hicso. Não creio que tenha sido coincidência ele ter vindo para Tebas fazer a corte à filha de um guerreiro que ajudou a destruir o seu povo! - Amerotke sorriu para o guardião dos mortos. - O que quero saber é se veio de livre vontade ou se alguém o trouxe. Diz-me... - Encheu a taça do sacerdote. Como médico deves saber: há muitos hicsos na cidade? Chula ficou muito sério.

 

- A palavra hicso abarca várias tribos. Algumas eram de origem hitita e vinham de além do Sinai. Durante a estação da hiena casaram uns com os outros, alguns egípcios tornaram-se seus aliados. É possível. Há trinta anos florescia em Tebas uma sociedade secreta, apoiante dos Hicsos, que afirmava travar uma guerra secreta contra os conquistadores egípcios.

 

- Nunca ouvi falar nela.

 

- Era secreta - salientou Chula com uma gargalhada -, mas não muito perigosa. Os seus membros habitavam aqui e em Mênfis. Graças à guarda do faraó, já para não falar na passagem do tempo, desapareceram como o orvalho sob o sol. Por que motivo pensas que uma sociedade destas voltou a emergir, meu senhor?

 

Amerotke abanou a cabeça.

 

- Leio todos os relatórios da guarda. Falam de assassinos, de contrabandistas, de homens matreiros mas não de hicsos. Eles fazem parte da história, tão secos e mortos como a areia do deserto. - Amerotke levantou-se. - Mas amanhã é outro dia. - Olhou para Chula. - Não vou ao tribunal. vou ao oásis de Assiua. - Lançou um olhar à mulher. - Sabes o que aquele local me reserva? - Inclinou-se e agarrou-lhe na mão.

 

- O oásis de Assiua - repetiu Chula, já sem o mínimo resquício de bom humor. - Será seguro, meu senhor?

 

- Ora, fica apenas a dezasseis quilômetros a noroeste de Tebas. Um enclave de água num deserto de pó e calor abrasador. Porque perguntas?

 

- Ao fim da tarde chegou um cadáver ao templo - informou Chula. - Um mercador foi atacado e gravemente ferido junto ao oásis. Foi encontrado por batedores, mas morreu pouco depois. Afirmava que um bando de vagabundos da areia o atacara não muito longe do oásis.

 

Norfret apertou a mão de Amerotke com mais força.

 

- Podem atacar um mercador solitário, mas e quanto a um esquadrão de carros de guerra? - tranquilizou-os Amerotke.

 

Libertou a mão de Norfret, aproximou-se da beira do terraço e olhou para os jardins. Ataques e emboscadas eram comuns nas Terras Vermelhas. As grandes preocupações de Amerotke eram os dois mistérios com que se via confrontado. Perguntou de si para si o que encontraria no oásis de Assiua. Jurou que, quando o tribunal voltasse a reunir-se, tomaria nas suas mãos o interrogatório. A chave para o assassínio de Ipumer podia também resolver o mistério daqueles que estavam decididos a matar os Assassinos de Set.
Set: a sua mulher era Anat, uma deusa da guerra, armada com escudo e machado de guerra.

 

Tu brilhas e és visto todos os dias.

 

És o Senhor até ao limite.

 

Velejas pela noite na tua barca.

 

És o Senhor das Águas a atravessar o Céu.

 

Abaixo de ti está o horizonte e vives atrás dele.

 

Toda a vida é tua.

 

És o Senhor da Luz.

 

O ceptro não será arrancado das tuas mãos.

 

Vives nas Mansões do Milhão de Anos.

 

Envias os Quatro Ventos para que possamos respirar e viver.

 

És o Senhor do Fogo que vive na verdade.

 

És o Senhor da Eternidade, o criador da alegria.

 

És o Deus no teu altar, o Senhor das Festas.

 

O Senhor da Carnificina que acalma as tempestades.

 

A voz do sacerdote soava forte e reverberante. Era transportada até ao céu azul agora atravessado por ouro líquido enquanto o Sol se elevava no seu magnífico esplendor, os raios transformando as rochas escuras das Terras Vermelhas em cores fulgurantes. Amerotke e os restantes ajoelhavam-se em esteiras de oração, de cabeça baixa, as mãos estendidas enquanto adoravam o deus Ré a elevar-se da sua viagem nocturna pelo mundo inferior, um momento solene e silencioso. Os gritos do deserto esmoreceram; o céu estava até livre de abutres: as galinhas do faraó. Amerotke murmurou as suas preces levantando a cabeça, protegeu os olhos da luz. Olhou para a esquerda e rezou a Amon-Ré, que enviava o seu bafo, o doce vento norte, que surgia sempre de madrugada e acabava por desaparecer no calor abrasador do dia.

 

O esquadrão de quadrigas estava pronto. As suas armaduras polidas brilhavam à luz da alvorada. Os cavalos, magníficos exemplares dos estábulos do faraó, estavam presos com peias, e os condutores falavam-lhes baixinho. No total eram trinta carros, um pequeno esquadrão de guerra. Cada um levaria um condutor e um soldado, este armado com arco e setas bem como com lanças na bainha brocada presa a um dos lados do carro.

 

Karnac pôs-se de pé; a oração terminara. A pequena fogueira, acesa à sombra de umas tamareiras, foi apagada em silêncio. Encheram-se os odres de água. Os tedjens, ou condutores, verificavam os carros, as suas rodas, eixos, arreios e rédeas. O ataque recente dos vagabundos da areia já era conhecido. Karnac decidira não correr riscos. O comandante subiu para o carro da frente puxado por duas magníficas éguas negras.

 

Amerotke prendeu o barrete de cabedal com a parte de cima endurecida para protecção, não por causa de um eventual ataque, mas para o caso de ser projectado do carro. Subiu para o seu, conduzido por um rapaz de rosto liso que sorriu e lhe piscou o olho. Amerotke agarrou-se à barra de bronze, abrindo as pernas e firmando os pés no chão de cabedal. O condutor pegou nas rédeas, estalando a língua para os cavalos. O esquadrão começou a deslocar-se, numa longa fila.

 

A calma da manhã foi interrompida pelo raspar áspero das rodas, pelo relinchar dos cavalos e os gritos dos condutores. O esquadrão era magnífico, cada carro puxado por cavalos iguais decorados com plumas vermelhas cor de sangue, as insígnias do Esquadrão do Abutre, ligado ao Regimento de Set. O condutor de Karnac, Nebamum, desfraldou o estandarte do regimento, com Set de cabelos vermelhos num fundo negro, adejando na brisa da manhã. Amerotke sabia o que iria acontecer: aquele esquadrão era uma unidade de elite que se orgulhava da sua velocidade e perícia. Como Amerotke dissera a Chufoi quando tinha saído para a cidade, a viagem até Assiua não seria uma procissão. Mostrou-se relutante a que o servo o acompanhasse. Chufoi era tão pequeno que não era a primeira vez que caía de um carro em andamento. Ele e Prenhoe haviam sido incumbidos de tarefas que, esperava Amerotke, os manteriam ocupados e longe de perigos.

 

O condutor fez estalar as rédeas. O carro avançou mais depressa, alinhado com os outros. Amerotke obrigou-se a descontrair. Recordou por breves momentos o banquete da noite anterior. Sorriu ao recordar a doçura de Norfret quando tinham dado as boas-noites ao guardião dos mortos e se haviam retirado para os seus aposentos.

 

- Haida! - O condutor estalou as rédeas com maior vigor.

 

Algures ao longo da fila, um sacerdote entoou o hino do regimento a Set.

 

- Quem repele as serpentes?

 

- O deus Set! - surgiu a resposta.

 

- De quem é o rosto que não pode ser visto por receio da morte?

 

- Do deus Set! - gritaram as vozes em coro.

 

- Quem é implacável na batalha?

 

Amerotke permaneceu calado enquanto Karnac e as outras Panteras do Sul guiavam o esquadrão no seu cântico de louvor ao deus patrono. O condutor do seu carro exibia naquele momento um chicote na mão direita, as rédeas na esquerda, o corpo retesado de excitação. A fila descontraída transformara-se sob o estalar do chicote, o estrondo das rodas e o bater dos cascos dos cavalos semelhante a tambores.

 

O Sol ia subindo. A frescura desaparecera. O deserto rochoso adquiria uma luminosidade avermelhada. O vento já não era fresco, mas vinha carregado de grãos de areia. Amerotke pegou no grosso lenço branco que levava ao pescoço e tapou com ele o nariz e a boca; o condutor fez o mesmo. Durante todo o tempo a música funesta do esquadrão - o estalar dos chicotes, o barulho das rodas, os cavalos acelerados

- fez o coração de Amerotke quase parar. Sentiu um fervilhar de excitação e recordou as vezes que correra numa fila de carros.

 

Já o fizera muitas vezes, mas o efeito era sempre o mesmo.

 

O carro de Karnac seguia à frente, como um pássaro a esvoaçar rente ao solo do deserto. O resto do esquadrão seguia-o, cada condutor decidido a mostrar que era o mais habilidoso, os seus cavalos os mais rápidos. Amerotke agarrou-se com mais força à barra de apoio. Sentia-se ligeiramente alarmado, mas sabia que o homem ao seu lado estava apenas a testar a sua coragem. Qualquer sinal de nervosismo, de medo, qualquer palavra de repreensão tornaria o juiz alvo de piadas em redor das fogueiras do acampamento. O mundo de Amerotke reduziu-se aos cavalos que retumbavam à sua frente, ao ribombar das rodas dos carros. Apercebia-se das rochas e dos arbustos do deserto que passavam ao lado. As nuvens de areia levantadas afastavam os carros uns dos outros naquela viagem apressada sob o céu empoeirado.

 

Amerotke suspirou de alívio quando a trompa se fez ouvir. O condutor, estalando a língua, abrandou os cavalos. Aos poucos estes obedeceram. Amerotke olhou em volta. Havia carros à frente e atrás. Karnac parara. O terreno alterara-se já não era o solo liso ideal para o galope tão apreciado pelos condutores, mas um terreno rochoso, irregular, de areias mais finas.

 

Por fim, o resto do esquadrão aproximou-se do seu chefe. Houve exclamações de congratulação, algumas provocações. Karnac, vestido como um vulgar soldado, ordenou-lhes que seguissem o trilho, se mantivessem juntos e atentos a qualquer sinal dos vagabundos da areia. Amerotke destapou a cara. O gozo da velocidade evaporara-se. O andar lento dos cavalos e dos carros tornou-se uma irritação crescente à medida que o calor do deserto começava a fazer-se sentir. Amerotke não teve alternativa senão suportar o tagarelar do condutor. Contemplou as Terras Vermelhas, um local inóspito, sem alma, sem água, sulcado por fendas rochosas, arbustos ressequidos e uma neblina de calor capaz de pregar partidas a olhos e mentes cansados. Por cima deles os abutres voavam em círculos como se já soubessem que aonde os esquadrões de guerra iam ficava sempre para trás um trilho de cadáveres.

 

- Um sinal de boa sorte! - gracejou o condutor, seguindo o olhar de Amerotke.

 

O juiz concordou. Fez votos para que a viagem decorresse sem incidentes. De vez em quando paravam para comer as rações e beber água dos odres. Deviam ter avançado durante duas ou três horas antes de as tamareiras e palmeiras de Assiua ficarem à vista. Apesar do calor, Amerotke sentiu um suor gelado nas costas. Sempre detestara aquele local. Fora ali em novo para prestar homenagem ao ka do irmão. O oásis de Assiua não passava de um maciço denso de palmeiras com erva a despontar em redor de um lago fundo. No entanto, era um importante entreposto para os mercadores e para o exército do faraó. Para Amerotke, o local não se alterara desde a sua última visita havia quinze anos: a erva áspera, as palmeiras antigas retorcidas, as formações rochosas numa das extremidades e o lago brilhante e convidativo ao centro. O esquadrão de carros descansou à sombra das árvores: os cavalos foram soltos, vagueando sob o olhar atento dos condutores.

 

Karnac, Amerotke e as Panteras do Sul sentaram-se à sombra de uma palmeira. Parecia que os seis guerreiros estavam a divertir-se. Para além das pulseiras valiosas, envergavam as couraças simples de cabedal e as saias dos soldados, embora tivessem também mantos de gaze branco para protegerem as cabeças e os ombros do sol. Tal como Amerotke, usavam sandálias de sola grossa e tiras de couro pesadas com uma guarda de cabedal a proteger o tornozelo e o calcanhar. Nebamum destoava: calçava umas estranhas botas de cabedal até ao joelho. Sentado junto dos outros, o ajudante de Karnac reparou que Amerotke o observava.

 

- Para proteger o músculo - explicou, tocando nas botas -, e para apoiar a perna.

 

- Como está o teu ferimento? - perguntou Amerotke, passando-lhe o odre. Os outros continuavam a falar do oásis e das recordações que lhes trazia.

 

- Há dois anos... - O servo coçou a cabeça - ... estava praticamente sarado, mas caí. Os médicos disseram que o ferimento era profundo, e afectara o músculo, o osso e a carne. Comecei a fazer mais força na perna direita, o que também causou problemas. Ora! - Nebamum levantou o odre e verteu o conteúdo para a boca, deixando que a água lhe salpicasse também a cara. - A vida de um soldado é assim, meu senhor.

 

Karnac pediu silêncio. Ergueu no ar um rolo de papiro.

 

- Depois da nossa grande vitória sobre os Hicsos - começou ele, dirigindo-se a Amerotke -, atacámos o acampamento deles e recolhemos todos os seus valores. Que dia! Os seus olhos tinham uma expressão ausente. - Ao contrário de agora, hem? Éramos magros e esfomeados como lobos. Ficámos com o nosso quinhão do saque; foi assim que encontrámos os medalhões. - Sorriu.

 

Amerotke reparou que os dentes de Karnac haviam sido propositadamente afiados. ”Um assassino”, pensou Amerotke, ”um homem nascido para matar, um guerreiro no seu íntimo.” Observou os olhos escuros de Karnac: aquele homem podia ser cruel e implacável. Amerotke olhou em volta para os outros. Eram todos iguais, incluindo Nebamum, sem um pingo de brandura. Apesar do suor e das pregas de carne, aqueles homens viam-se como assassinos - não soldados a executar a sua tarefa mas guerreiros que exultavam com a glória da batalha, o sangue quente derramado e a divisão dos despojos. No seu íntimo, o juiz concluiu que nenhum deles pensaria duas vezes antes de matar alguém que o ameaçasse.

 

Desviou o olhar para o deserto. Agradeceu a sombra da palmeira: a verdadeira viagem ainda estava para começar. Contudo, Karnac continuava a fixar o mapa como se perdido em recordações. Os seus companheiros pareciam lobos a olhar em silêncio para o chefe da matilha.

 

- Continua, meu senhor - urgiu Nebamum com suavidade.

 

O comandante levantou a cabeça.

 

- Isto, Amerotke, é um mapa desenhado por um dos escribas do faraó que já foi para o Horizonte Longínquo. Como disse há pouco, encontrámos os medalhões de Meretseger bem como o seu cadáver. O faraó entregou-os a mim e aos meus companheiros. - Fez um gesto na direcção do Ocidente. O campo de batalha fica a meio dia de caminho. Decidimos trazer o corpo de Meretseger para aqui.

 

- Para o oásis? - perguntou Amerotke.

 

- Não. Comemos, bebemos e refrescámo-nos em Assiua, mas decidimos que o cadáver da feiticeira nojenta devia apodrecer na terra do deserto.

 

Karnac pôs-se de pé, gritando aos condutores que trouxessem arcos, setas e dardos dos carros, os quais foram distribuídos pelas Panteras do Sul.

 

- Vamos sozinhos? - perguntou o juiz.

 

Os olhos sombrios de Karnac fitaram os seus.

 

- Claro, meu senhor juiz. O local da sepultura de Meretseger é segredo. Não estás com medo, pois não? - perguntou com um sorriso. - Temos de fazer isto. Temos de ver se o túmulo de Meretseger foi violado. Se o assassino for um hicso não iria ignorar um local como aquele. Há que marchar e não ter receio.

 

- É muito longe? - Amerotke decidiu ignorar o comentário.

 

- A cerca de uma hora de caminho. - Karnac apontou para as armas e para o odre que Amerotke trazia. - Se quiseres, podes ficar aqui com o resto dos rapazes.

 

- A divina Hatusu enviou-me, por isso irei convosco retorquiu Amerotke. - Mas confesso, comandante... - O juiz agarrou no dardo, que empunhava como um cajado. - As Terras Vermelhas aterrorizam-me.

 

- Foi por isso que a enterrámos aqui. - Karnac sorriu para os companheiros. - Estás em boa companhia, meu senhor juiz. Só um idiota viria até aqui sem preocupações na alma.

 

Karnac conduziu-os para fora do oásis. Amerotke pôs o capuz, verificou se o odre estava a salvo e seguiu atrás dos outros. Subiram uma pequena colina e, embora tivessem apenas dado alguns passos, Amerotke sentiu de imediato os efeitos do calor abrasador. Encontravam-se já no deserto propriamente dito - dunas de areia interrompidas por uma rocha ocasional que reflectia o calor e o brilho do sol. Amerotke manteve a cabeça baixa. Apoiando-se no dardo, seguia os passos mancos de Nebamum. Karnac e os companheiros não falavam, uma fila silenciosa de homens a avançar sob o calor do sol. O único sinal de vida residia nos abutres a pairar no céu, expectantes. De vez em quando, a fila parava. Amerotke recordou o seu treino de soldado. Usava a água com moderação para humedecer a garganta e os lábios; molhou a testa e a parte de trás do pescoço. O calor era asfixiante. Amerotke apercebeu-se de que os únicos pontos de referência eram os rochedos que apareciam de vez em quando. Rezou para que Karnac não tivesse perdido a noção de direcção nem o discernimento com o passar dos anos.

 

Tentou distrair-se a pensar em Norfret e nos filhos. comparou aquela viagem pelas areias escaldantes com a elegância fresca e calma da Sala das Duas Verdades.

 

De vez em quando Nebamum, apoiado ao bordão, parava, virava-se e fazia a mesma pergunta:

 

- Está tudo bem, meu senhor?

 

Amerotke tranquilizava-o, o ajudante de Karnac virava-se para a frente e continuavam a marcha. Amerotke tinha a sensação de se encontrar num pesadelo, a caminhar para sempre sob- o sol implacável, a areia quente a queimar-lhe a pele dos pés. O arco e a aljava com as setas pareciam cada vez mais pesados. De vez em quando o dardo fugia-lhe das mãos suadas. Amerotke sentia-se cansado e um pouco nauseado. Bebeu outro gole de água.

 

Nebamum virou-se.

 

- Louvado seja Ré, meu senhor juiz! Depois de termos sepultado Meretseger, ficámos presos numa tempestade de areia. Pelo menos, desta vez estamos livres disso!

 

Amerotke esboçou um sorriso fraco. Estava prestes a perguntar a Nebamum se ainda faltava muito quando Karnac gritou, apontando com o dedo. Amerotke protegeu os olhos do sol com uma mão e olhou para uma formação rochosa no meio das dunas. Karnac conduziu-os até lá, os seus companheiros avançando a tagarelar. O comandante caminhava rapidamente e, antes mesmo de chegarem junto dele, Amerotke ouviu-o praguejar. A subida até à formação rochosa era escorregadia. Karnac trepara e estava acocorado à sombra. As rochas formavam uma pequena caverna, outrora bloqueada com um rochedo. Este fora empurrado para o lado e a caverna escura parecia estar vazia.

 

- Foi aqui que a pusemos! - murmurou Nebamum. O resto do grupo estacou em semicírculo, olhando para o rochedo que fora afastado.

 

- Não pode ser! - exclamou Heti, acocorando-se e espreitando lá para dentro.

 

Karnac, agarrando no dardo, puxou Heti para trás e enfiou-se na abertura.

 

Amerotke teria achado aquilo ridículo se o homem fosse diferente, mas Karnac fazia-lhe lembrar um animal selvagem determinado a apanhar a presa.

 

Karnac, a praguejar baixinho, recuou com um rolo nas mãos.

 

- O corpo desapareceu! - anunciou. - Só resta isto! Abriu-o e leu-o, depois atirou-o irritado ao juiz. - Meretseger elevou-se do túmulo! - exclamou.

 

- Os mortos não andam - retorquiu Amerotke. - Talvez o corpo se tenha decomposto.

 

- Não nesta gruta - respondeu Karnac.

 

- Isto foi sepultado com ela?

 

- Lê!

 

Amerotke assim fez. O papiro era grosso, de boa qualidade. Os desenhos e hieróglifos que continha deviam ser obra de um escriba itinerante. Estudou-os rapidamente, afastando as mãos dos outros.

 

- Em voz alta! - ordenou Karnac.

 

- ”Serão apanhados na rede que prende os mortos.” Amerotke levantou a cabeça. - Comandante, isto é uma maldição. A tinta é vermelha, provavelmente o sangue de um animal.

 

- Continua! - exigiu Karnac.

 

- ”Os devoradores de almas irão apanhar-vos” - leu Amerotke. - ”Falharão o teste perante Osíris na Sala da Verdade. Serão comidos vivos pelos devoradores de almas. Serão decapitados e amontoados, queimados como sacrifícios! Meretseger regressou!” Que disparate! - Amerotke atirou a maldição para as mãos de Karnac. - O meu servo, Chufoi, era capaz de comprar uma maldição semelhante em qualquer mercado de Tebas. Meretseger está morta e assim há-de continuar.

 

Quem levou o corpo veio até aqui para vos assustar, para evocar memórias. Às primeiras horas do dia, ou quando estiverem na cama à noite, irão recordar a morte dela e tremer. Mas vós sois guerreiros - continuou Amerotke. - Estas maldições não vos assustam.

 

Olhou em volta para os homens de rosto curtido. Na verdade, estavam assustados... Guerreiros capazes de deter a carga das quadrigas dos Hicsos ou entrar corajosamente no acampamento inimigo à noite. No entanto, eram bastante supersticiosos e tinham mais medo daquilo que não podiam ver do que de qualquer inimigo visível.

 

- Quem levou daqui os restos mortais? - perguntou Nebamum quebrando o silêncio. - Meu amo, quantas pessoas em Tebas sabiam onde Meretseger estava sepultada?

 

Karnac soprou o ar que tinha na boca e limpou o suor da cara com as costas da mão.

 

- Sabemos nós - disse, esboçando um sorriso tênue -, e as pessoas a quem possamos ter contado ao longo dos anos.

 

A sua afirmação foi recebida com protestos e desmentidos.

 

- Alguém veio até aqui - declarou Amerotke -, e a nossa viagem não foi em vão. Meretseger não passa de um monte de ossos. Pelo menos isto prova que o assassínio do general Balet, bem como o envio daqueles medalhões a cada um de vós, estão de alguma forma relacionados com os vossos gloriosos feitos de há trinta anos.

 

- Onde poderão estar os restos dela? - perguntou Heti. Amerotke olhou para a areia escaldante. Asural costumava perseguir os homens dos escorpiões, as criaturas da noite que se dedicavam às artes negras, escreviam textos para amaldiçoar inimigos e devastar o mundo dos homens. Um dos grandes poderes que essas criaturas diziam ter era a sua capacidade de invocar os akh, os fantasmas dos mortos. Um fantasma de mulher, como o de Meretseger, seria considerado bastante poderoso e maligno. Quem estava por trás daqueles assassínios, reflectiu Amerotke, conhecia bem os guerreiros: a sua superstição, o seu medo do desconhecido, a sua aceitação das forças invisíveis e malignas capazes de intervir nas suas vidas.

 

- Talvez já tenha começado. - Nebamum tocava na perna ferida. - Isto estava a melhorar; agora piorou.

 

Karnac agarrou no ombro do ajudante.

 

- Foi corajoso da tua parte teres vindo, Nebamum. Era a primeira vez que Amerotke via o comandante daqueles guerreiros mostrar simpatia e compaixão.

 

- Tens a certeza de que não está escondida noutro local?

 

- perguntou Turo, olhando para Amerotke. - Pareces saber muito sobre estas coisas, meu senhor juiz.

 

- Sei muito pouco - retorquiu Amerotke. - Mas sei que tenho calor, que estou suado e sedento, e que a areia do deserto parece ter entrado em todos os orifícios do meu corpo.

 

As suas palavras foram saudadas por uma gargalhada geral, O Sol estava agora no zénite, abatendo-se sobre a rocha como uma espada sobre um escudo. Amerotke sentia-se ligeiramente tonto. Recuou um pouco e, ao fazê-lo, detectou um movimento junto a uma duna. Seria um homem? Agarrou no odre e bebeu rapidamente. Nebamum seguiu o seu olhar.

 

- Acho que vi qualquer coisa - murmurou Amerotke.

 

- Aliás, tenho a certeza.

 

- Que disparate! - exclamou Ruah. - O sol do deserto costuma pregar essas partidas.

 

Amerotke não ficou convencido. Sentia-se apreensivo. O seu irmão mais velho fora morto ali: o juiz teve uma premonição sinistra de perigo.

 

Karnac estava muito atarefado a revistar a formação rochosa para se certificar de que os restos de Meretseger não se encontravam próximos. Amerotke continuou a olhar para as dunas. Fechou os olhos e rezou em silêncio ao ka do irmão e ao seu patrono, Maet, implorando para não ter sido atraído para uma emboscada com aqueles veteranos. Ficou aliviado quando Karnac deu ordem para regressarem. O túmulo foi revistado mais uma vez e depois iniciaram o caminho de volta.

 

Amerotke sentia-se melhor agora que estava em movimento, embora o calor fosse intenso e a luminosidade da areia lhe ferisse os olhos. Tentou descontrair-se pensando na serenidade fresca do seu jardim: o rosto matreiro de Norfret, os rapazes a correrem atrás de Chufoi junto ao lago. Ouviu um som e olhou para cima. Os abutres haviam voltado a reunir-se. Nebamum caminhava à sua frente; o horizonte de dunas estava vazio. Ouviu um grito e tornou a olhar. Tinham surgido vários vultos. Amerotke praguejou. Os dromedários ao longe faziam os vultos sinistros vestidos de preto parecer figuras grotescas erguidas do mundo inferior. Formavam uma longa linha silenciosa.

 

Habitantes do deserto? Vagabundos da areia?, interrogou-se Amerotke. Talvez um grupo pacífico de beduínos à procura de um local para acampar? Amerotke recordou-se do velho provérbio: ”Nunca se encontra um amigo nas Terras Vermelhas, só um inimigo.”

 

Os vultos moveram-se. Karnac gritou ordens. Amerotke e os outros atiraram-se para a areia quente quando os seus atacantes fizeram aparecer arcos. As setas voaram rente às suas cabeças. Karnac gritava para Nebamum. Amerotke esqueceu o medo. Como estavam em cima dos dromedários, a pontaria dos vagabundos da areia não era muito boa, e os seus arcos não eram tão fortes como os que Amerotke e os companheiros levavam. O juiz agarrou no seu. Preparou uma seta estreita com ponta de bronze e penas de abutre na parte de trás. Escolheu um alvo e, apoiado num joelho, disparou ao mesmo tempo que os companheiros. Três, quatro vultos tombaram das montadas. Karnac incitou-os a avançar. Amerotke agarrou no arco e seguiu-os. As setas assobiaram junto às suas cabeças.

 

Os vagabundos da areia estavam agora em movimento, rastejando como aranhas negras pelas dunas na direcção deles. Felizmente, o solo que pisavam, espesso e pesado, evitava o ataque. Karnac e Nebamum eram archeiros exímios: mais atacantes tombaram das montadas. A formação dos vagabundos da areia desfez-se confusamente.

 

Karnac gritou aos companheiros para que o seguissem. Esqueceram o calor, o vento abrasador do deserto, e atacaram. Ao olhar para os rostos deles, Amerotke percebeu que as Panteras do Sul como que tinham regredido no tempo. Não consideravam aquilo um mero ataque de bandidos. Estavam a reviver, a reconstituir os seus feitos heróicos contra os Hicsos. Mantos e túnicas foram atirados para o chão. De vez em quando paravam, um grupo de archeiros, os seus arcos tensos, as setas a voarem. Os vagabundos da areia estavam cada vez mais próximos. Amerotke olhou para a direita. Via as copas distantes do oásis.

 

- com certeza alguém há-de ver-nos! - gritou ele para Nebamum.

 

Este sorriu. Recuou quando uma seta o atingiu na parte carnuda do ombro. Fez um esgar de dor, mas agarrou na trompa que tinha aos ombros presa a uma fita de cabedal e soprou, emitindo um som grave. Soprou várias vezes. Amerotke tentou ajudar. Ouviu gritos. Colocou-se à frente de Nebamum e disparou uma seta. Deixara para trás o dardo, por isso usou o arco como lança. Os atacantes abateram-se sobre eles.

 

Um dromedário avançou com passos desajeitados, o seu condutor balançando de um lado para o outro. Amerotke observava-o, atento. O homem estava vestido de preto, nariz e boca tapados, olhos a brilhar. Ergueu uma espada curva mas tombou da sela quando uma seta o atingiu em cheio no peito. Amerotke agarrou-se ao pescoço do animal. Este soltou um grito e caiu de joelhos. Amerotke deu alguns passos rápidos; o homem ficara preso debaixo do dromedário. Tirou-lhe a espada e virou-se quando outro desmontou da sela alta e veio a correr na sua direcção. Enfrentaram-se com as espadas. O oponente de Amerotke vacilava no chão, depois de tanto tempo sujeito ao movimento oscilante do dromedário. Escorregou e caiu, desistiu do combate e fugiu.

 

À volta de Amerotke decorriam ataques semelhantes. As Panteras do Sul aguentavam-se com as espadas, os punhais e outras armas a que conseguiam deitar a mão. Amerotke ouviu a fanfarra das trombetas, o estrondo dos carros. O poderoso esquadrão avançava em direcção a eles. Os vagabundos da areia bateram em retirada, deixando o chão pejado de mortos e feridos, tanto homens como animais. As quadrigas avançavam com dificuldade por causa da areia. Karnac ordenou-lhes que não continuassem.

 

- As rodas vão enterrar-se! - gritou ele. - Eles depois voltam para trás e matam-vos um a um.

 

Durante algum tempo o campo de batalha tornou-se uma confusão. Amerotke caiu de joelhos. Apercebeu-se de que o seu condutor lhe estendia um odre. Pegou nele e despejou o resto da água sobre a cabeça e a nuca.

 

- Não há problema, meu senhor. - O condutor, com um sorriso matreiro no rosto, acocorou-se ao seu lado. Sentes-te bem?

 

Amerotke pestanejou e tentou não vomitar. Para dizer a verdade, estava apavorado. Tinha vontade de se levantar de um salto e de clamar contra os vagabundos da areia, Karnac e até Hatusu, por tê-lo mandado até ali.

 

- Sou um juiz, não sou um guerreiro - murmurou.

 

- Bem, isso não sei - retorquiu o rapaz. - É melhor ir para o carro. O tempo ao sol foi demasiado.

 

Ajudou Amerotke a subir para o carro. O juiz olhou em volta. Os outros rodeavam Karnac, gritando e rindo como um grupo de rapazes depois de uma traquinice.

 

- Para além de Nebamum - o condutor apontou com o chicote -, não há feridos. O comandante Karnac e os outros vão comemorar durante vários dias.

 

O condutor estava certo. Karnac e os seus homens começaram a celebrar assim que chegaram ao oásis. Montou-se guarda, e trataram-se os golpes e ferimentos. Despiram-se e lavaram a areia e o suor dos corpos. Um curandeiro do templo observou-os mais uma vez. Disse que, para além do ferimento de Nebamum, que deveria sarar dali a uns dias, tudo estava bem. Depois de se terem vestido, Karnac insistiu para que o sacerdote os guiasse numa oração de graças a Set. Os mantimentos foram abertos e feita uma oferenda de pão, vinho e fruta a Amon.

 

- Vamos ficar aqui até anoitecer - declarou Karnac, ignorando o olhar de protesto de Amerotke. - Iremos festejar.

 

Amerotke não tinha alternativa senão concordar. Embora se houvesse refrescado, sentia-se exausto. Karnac tinha razão: tinham agüentado o calor do dia e o embate da batalha; seria melhor voltarem à cidade pela fresca. Os restantes heróis congratularam-se, recordando pormenores da batalha. Só quando se sentaram em volta de uma fogueira e a comida e o vinho foram partilhados, é que Karnac bateu palmas a pedir silêncio.

 

- Aquilo não foi um acaso, pois não, meu senhor juiz? Amerotke olhou para o copo de bronze e fez rodar o vinho.

 

- Não foi um acaso - concordou.

 

- O que queres dizer? - perguntou Heti, já meio embriagado.

 

- Era um grupo de vagabundos da areia à procura de presas fáceis. - Karnac socou-o devagar junto ao ouvido.

 

- Pelas mamas de uma donzela! - exclamou Heti na brincadeira. - Que presas? Um grupo de velhos soldados e um juiz?

 

- Tínhamos as nossas pulseiras e as armas - respondeu Turo.

 

Ruah fitava Amerotke, que semicerrara os olhos. Os risos e as conversas esmoreceram quando todos compreenderam as palavras de Karnac.

 

- Queres dizer que eles estavam à nossa espera? - perguntou Ruah.

 

- Claro que estavam.

 

Amerotke tentou ocultar o sarcasmo da sua voz. Estava cansado e de mau humor. Não gostava da companhia daqueles homens. Cheios de segredos, irmãos de sangue, com o seu próprio código; um grupo fortemente unido a quem não agradava a presença de estranhos. Olhou em volta. Apesar de ter participado na batalha, ninguém o considerava um camarada. Não era de admirar que Hatusu tivesse intervido. Aqueles homens eram bastante perigosos, guerreiros poderosos que possuíam uma influência considerável nos vários regimentos do exército. A morte de Balet não fora apenas um assassínio, fora também um grande insulto para eles. Iriam exigir vingança e justiça. Esperavam que Hatusu lhes desse isso.

 

Amerotke bebeu um gole de vinho.

 

- Não sou um soldado - confessou, ignorando os grunhidos sarcásticos de aprovação -, mas o túmulo de Meretseger fica num local isolado, quente e empoeirado, no deserto. Devem tê-lo escolhido há trinta anos por causa disso mesmo. Não é uma coincidência o facto de, no preciso momento em que aqui chegamos e descobrimos que os restos mortais de Meretseger foram levados, um bando poderoso de vagabundos da areia, habitantes do deserto, ou lá quem eram... de bandidos líbios ou até assassinos contratados... ter aparecido subitamente do nada. Estavam à nossa espera.

 

- Claro que estavam - interrompeu Karnac. - E escolheram a hora certa para o ataque. Fomos até ao túmulo, descobrimos aquilo que descobrimos. Estávamos de regresso, num local exposto.

 

- É verdade - concordou Ruah. - Se nos tivessem atacado enquanto nos encontrávamos junto ao túmulo de Meretseger, podíamos tê-los mantido afastados ali das rochas. - Ergueu o copo na direcção de Amerotke com uma expressão de gozo. - Concordo com o nosso sábio juiz. Foi uma emboscada bem planeada.

 

- Não sejam severos para com ele, meus senhores - interveio Nebamum. - O que o juiz diz está certo.

 

Olhou para Karnac, que fez sinal a Amerotke para falar e mandou calar os outros.

 

- Não foi uma coincidência. - Amerotke mantinha a voz firme. - Sabiam onde estávamos, perceberam que éramos Vulneráveis. Alguém os contratou para desencadear aquele ataque...

 

Karnac gritou a ordenar silêncio quando os outros protestaram.

 

- Continua.

 

- Claro, tenho de perguntar quem terá sido. - Amerotke sorriu olhando em volta. - Mas, para ser justo com todos nós... - Indicou a extremidade do acampamento, onde o resto da escolta cuidava dos cavalos ou repousava. - ... O nosso destino não era segredo. No entanto, contratar um inimigo como aquele... Seriam quantos, meus senhores? Cerca de cinqüenta, sessenta homens?... Deve ter custado muito ouro e muita prata. Mas uma coisa não lhes disseram - acrescentou, sorrindo com tacto. - Foi que as suas potenciais vítimas eram as formidáveis Panteras do Sul.

 

Acenos e grunhidos de aprovação acolheram aquelas palavras. Lisonja, reflectiu Amerotke: aqueles heróis adoravam-na como um gato adora leite.

 

- Explica-te! - insistiu Karnac.

 

- Em Tebas temos um grande porto. Toda a gente, mais tarde ou mais cedo, lá vai ter: núbios, hititas, viajantes de Punt, líbios, vagabundos da areia, habitantes do deserto. Toda essa gente ruma para lá, vinda das Terras Vermelhas. Vai comprar mantimentos, ver o que pode roubar ou, como neste caso, se alguém a contrata.

 

- Foi uma pena não termos feito prisioneiros - interveio Nebamum.

 

- Mesmo que tivéssemos - retorquiu Amerotke -, duvido que soubessem quem lhes pagou. Um canto escuro numa loja de vinho! Ouro e prata oferecidos, e mais algum prometido depois de a coisa estar feita!

 

- Mas porque é que eles não se limitaram a receber o dinheiro e ir-se embora?

 

- Ah! - Amerotke levantou o copo para que fosse cheio.

- Quem os contratou deve tê-los enganado. Descreveu-nos como homens de meia-idade, provavelmente nobres poderosos em alguma missão secreta em nome do faraó. Talvez não tencionassem matar-nos, mas fazer-nos reféns... Meus senhores, é uma coisa bastante comum.

 

Daquela vez ninguém discordou.

 

- Agora que consegui a vossa atenção - declarou -, deixem-me continuar a minha exposição. O que descobrimos?

 

Todos os olhares estavam pousados nele.

 

- Os medalhões tirados a Meretseger há cerca de trinta anos devem ter sido roubados por algum dos presentes, um comandante do exército ou um membro do Conselho Real. Não é verdade?

 

Ninguém discordou.

 

- Em segundo lugar, o homicídio do general Balet. Ele estava sozinho na Capela Vermelha do Templo de Set. Muito poucas pessoas... e a maior parte delas está aqui... conhecia a rotina do vosso camarada e o seu agrado por visitar a capela sozinho. Em terceiro, quem entrou na capela não era um desconhecido. Ninguém disse ter visto um estranho no Templo de Set. Qualquer um de vós podia ter lá entrado e ninguém teria achado estranho. Em quarto lugar, o Balet era um guerreiro, experiente no manejo de armas, embora não tão exímio como o seu atacante. Em quinto lugar, não foi apenas um assassínio vulgar, mas um ritual blasfemo. O corpo foi deliberadamente mutilado. Em sexto... - Amerotke estava a divertir-se. Sentia-se como um professor diante de um grupo de jovens escribas.

 

- O cadáver de Meretseger era um assunto para a Casa dos Segredos. Poucas pessoas sabiam a sua localização. Eu desconhecia-a até hoje, mas os senhores conheciam-na. Alguém veio até cá e fez desaparecer o cadáver. Finalmente, o ataque. Quem o planeou é consideravelmente abastado, mas isso não é tudo. - Apontou para Pechedu, que, durante toda a viagem, estivera muito calado. - General Pechedu, conheces as convenções. Durante esta viagem não te falei do caso que me foi apresentado na Sala das Duas Verdades. Falo apenas nele agora e na presença de testemunhas. Também te encontras sob suspeita. A tua filha é acusada de homicídio.

 

- O que estás a dizer? - perguntou Karnac. Apontou na direcção de Pechedu. - Todos nós estamos solidários com o nosso camarada. Estás a dizer que estes assuntos estão relacionados como uma trepadeira em volta de uma videira? Que a morte do escriba Ipumer está relacionada com a do general Balet? - A sua voz adquiriu um tom zombeteiro. - Que provas tens?

 

- Sabes que o Ipumer... se é que este era o seu verdadeiro nome... pode ter sido um príncipe hicso? - retorquiu Amerotke.

 

Os outros fitaram-no, emudecidos.

 

- Impossível! - exclamou Pechedu.

 

- Estou a tentar ser imparcial - declarou Amerotke. Isto virá a público. Mais importante ainda, sabes que inspeccionei os haveres do Ipumer? Descobri um dos medalhões que vos foram enviados.

 

Pechedu levantou-se de um pulo.

 

- Não acredito nisto! - Afastou-se do grupo, depois deu meia volta e voltou para trás. - Ele era um escriba! - gritou.

 

- Um mísero verme que tentou seduzir a minha filha!

 

- Senta-te! - ordenou Karnac. - Fala baixo.

 

- Acho que ele era mais do que isso - declarou Amerotke com suavidade. - Bem, tenho duas perguntas a fazer-vos, meus senhores. Para além do general Pechedu, o Ipumer abordou algum de vós?

 

A pergunta foi um coro de negações.

 

- Conheciam-no?

 

Amerotke recebeu a mesma resposta.

 

- Então, e por fim... - Bebeu mais um gole. - ... Algum de vós, de alguma forma, sugeriu que ele recebesse um posto na Casa de Guerra? Pergunto isto porque fomos à Sala dos Arquivos. As referências ao escriba desapareceram... ou foram levadas por ele ou pela pessoa que o contratou, que lhe abriu as portas na cidade de Tebas.

 

- Meu senhor... - Karnac parecia pensativo, estudando o juiz como se estivesse a vê-lo pela primeira vez. - Meu senhor, tinha-me enganado a teu respeito. Claro que ouvi falar das tuas proezas com o exército da divina Hatusu, mas achei que tinhas apenas sorte, que eras um homem de pele macia bom para fazer perguntas na Sala das Duas Verdades. No entanto, és capaz de marchar e combater, embora não o faças com devoção. - O seu sorriso alargou-se. - Mais importante ainda, és astuto como um mangusto.

 

Amerotke fez uma vénia ao ouvir aquele elogio inesperado.

 

- vou ter de perguntar a todos onde estavam na altura em que o Balet foi morto. No entanto, a minha teoria é a seguinte. O Ipumer era hicso de origem, há qualquer ligação entre ele e o culto de Meretseger. Veio para Tebas para vos prejudicar a todos. De alguma forma - prosseguiu, abanando a cabeça -, ele desviou-se um pouco do seu objectivo, possivelmente por causa da senhora Nechratta. Este é um caso à parte. O que me interessa... e isto é bastante perigoso para todos vós... não é tanto Ipumer... que já morreu... mas a pessoa que o contratou. Agora, meus senhores, estamos a lidar com uma alma tão negra como a noite, tão maliciosa como uma víbora. Tanto pode ser um homem como uma mulher. No entanto, esta pessoa que o controlava e lhe arranjou trabalho em Tebas tenciona vingar-se de todos vós de uma forma terrível. Tentou primeiro fazê-lo através dele, mas não conseguiu. Desconfio que ele, ou ela, decidiu agora agir sozinho. A morte do Balet foi o primeiro golpe. O ataque ao Nebamum o segundo. Hoje, o terceiro. Acreditem em mim, senhores, esta víbora voltará a atacar uma e outra vez!

 

Set: deus da violência e do tumulto, que entrou no mundo rasgando a barriga da mãe.

 

Chufoi e Prenhoe encontravam-se sentados como dois rapazinhos no banco de mármore da Sala das Colunas na Mansão do Ibex de Prata, logo a seguir às muralhas de Tebas. Prenhoe estava furioso. Esperara em casa do juiz Amerotke por Chufoi, que, segundo Norfret, desaparecera muito antes da alvorada para fazer um recado misterioso ao amo. O homenzinho só regressara muito depois do meio-dia.

 

- Detesto quando fazes isso. Vagueias por Tebas como alguém da Casa dos Segredos - acusara o escriba. Puxou o lenço brocado que Chufoi colocara aos ombros, o capuz ocultando a pequena cabeça. Prenhoe dobrara-se pela cintura. Tenho estado à espera, Chufoi!

 

- E eu tenho estado a trabalhar. - Os olhos do anão reluziam.

 

- A fazer o quê? - perguntara Prenhoe. - À procura do teu nariz?

 

Arrependera-se de imediato: os olhinhos de Chufoi tinham adquirido uma expressão triste, bem como todo o seu rosto astuto e simiesco.

 

- Desculpa - dissera Prenhoe.

 

Chufoi esboçara um sorriso travesso e agarrara no nariz de Prenhoe.

 

- Posso sempre arrancar-te o teu. Mas vem, quero que venhas comigo.

 

Os remorsos de Prenhoe evaporaram-se de imediato quando a sua fúria regressou. Chufoi, sempre enigmático, agarrando no guarda-sol como se este fosse um ceptro, despedira-se de Norfret e caminhara com ar pomposo pelo carreiro de terra batida: as mansões dos nobres à direita, o Nilo vagaroso à esquerda. Prenhoe fizera perguntas. Chufoi, imitando o amo, limitara-se a abanar a cabeça e a murmurar:

 

- Já vais ver. Já vais ver.

 

Prenhoe julgara que se dirigiam à cidade. Em vez disso, Chufoi detivera-se junto ao portão de uma das mansões.’ O guarda fora bastante brusco.

 

- A senhora Aneta não está a receber visitas - declarara. Chufoi fizera aparecer a carteia de Amerotke e encostara-a à cara do homem. Depois disso, não encontraram mais obstáculos. Foram conduzidos até à casa, passando pelos lagos ornamentais, com os seus pavilhões e tendas, ao longo dos degraus largos e majestosos que terminavam no pórtico da entrada. Um criado levara-os até àquela bela sala com os seus pilares de madeira vermelho-escuros, as suas extremidades esculpidas como caules de papiro verdes e dourados. As paredes eram amarelo-claras com um friso junto ao tecto com patos e gansos a levantarem vôo dos papiros. De cada um dos lados da porta que dava para o interior da casa, havia uma gravura do deus de cabelos vermelhos e, por cima dela, um escudo cerimonial com as armas do Regimento de Set.

 

- Porque estamos aqui? - perguntou Prenhoe depois de o criado lhes ter lavado as mãos e untado as testas com óleo. Também lhes servira taças com cerveja e pequenos bolos de tâmara cobertos de amêndoas. Prenhoe mordiscara o seu, mas Chufoi comera os restantes.

 

- Ordens do meu amo Amerotke - declarou Chufoi.

 

- A senhora Aneta - anunciou o criado.

 

Os visitantes levantaram-se de um pulo. Prenhoe teve de fazer um esforço para ficar sério ao ver a mulher que entrava: lembrava-lhe um hipopótamo. Era pequena, bastante gorda, e bamboleava-se em vez de andar. Apesar dos esforços, a cabeleira preta estava ligeiramente torta. O rosto tinha mais pintura que as paredes da casa, enquanto que a túnica transparente que envergava se enfunava como velas de um barco. Prenhoe sentiu-se tonto devido à nuvem de perfume que o envolveu.

 

- Visitas - arrulhou ela, os seus olhinhos pretos estudando Prenhoe da cabeça aos pés. Passou a língua pelos lábios e olhou para Chufoi com desagrado. - Dizem que vêm da parte do juiz Amerotke? Vi-o uma vez, é um homem muito bem-parecido. - Olhou para baixo e fungou. - Acho que é melhor ficarem aqui. Tragam-me uma cadeira!

 

O criado regressou, murmurando e gemendo devido ao peso da cadeira com costas de cabedal que colocou diante do banco de mármore. A viúva Aneta deixou-se cair nela. Chufoi soltou uma risada, e Prenhoe deu-lhe um pontapé no tornozelo. Contudo, o escriba teve dificuldade em manter uma expressão séria. Aneta usava tantas jóias nas mãos, pulsos e dedos que era um milagre não tombar para a frente.

 

- Muito bem, sentem-se! Sentem-se! - exclamou ela, fazendo sinal ao criado. - Traz-me vinho e bolo de tâmaras. Ah, sim, e algumas cerejas. Depois de as trazeres fecha a porta e não fiques à escuta.

 

Chufoi e Prenhoe sentaram-se, as mãos no regaço, até o criado regressar com uma mesinha e um tabuleiro onde colocou a comida e a bebida. A viúva Aneta pegou numa das cerejas, enfiou-a na boca e chupou ruidosamente. As portas fecharam-se. Aneta exigiu ver novamente a carteia de Amerotke. Bebeu um grande gole de vinho, estalou os lábios e olhou para Chufoi.

 

- Não posso levar-vos para o interior da casa - mentiu.

- As salas estão a ser pintadas. Já comecei a preparar-me para o festival de Opet. Ora bem, o que deseja o senhor juiz?

 

- O falecido marido da senhora...?

 

Chufoi tinha alguma dificuldade em falar. Só lhe apetecia imitar a mulher que estava diante de si: antipatizara tanto com ela como ela com ele.

 

- Bem, ele foi para o Ocidente Abençoado - suspirou Aneta. - Morreu há quase um ano, na estação do plantio.

 

- De quê, minha senhora?

 

- Falta de ar. - A viúva Aneta parecia aborrecida com aquelas perguntas.

 

- O juiz Amerotke pode convocar a senhora para ir depor ao tribunal - retorquiu docemente Chufoi.

 

- A viúva de uma das Panteras do Sul! - exclamou ela.

 

- A filha do general Pechedu já lá está.

 

Aneta quase se engasgou com a cereja. Bebeu outro grande gole de vinho.

 

- O meu marido, o general Kamun - começou ela, parecendo recompor-se -, era um soldado nato. Depois da grande vitória contra os Hicsos, esteve no delta. Apanhou malária, o que o enfraqueceu, uma vez que tinha ataques recorrentes. Foi piorando ao longo dos anos. - Encolheu os ombros. - Morreu... - Olhou para Prenhoe. - E agora eu sou uma pobre viúva.

 

- E os companheiros do marido da senhora?

 

- Oh, os outros bravos heróis do faraó. O general Pechedu pode contar-vos tudo: este festival, aquele festival, aquele desfile, este desfile. - Moveu as mãos para um lado e para o outro.

 

- O nome Ipumer diz-lhe alguma coisa?

 

Ela abriu a boca para responder. Os seus olhos pretos pestanejaram. Chufoi apercebeu-se da mudança de disposição.

 

- Minha senhora, estou aqui numa missão para a Sala das Duas Verdades. Mentir-me - acrescentou Chufoi, com ar pomposo - é o mesmo que mentir a Amerotke, que é ”a palavra que brota da boca do faraó”.

 

- Eu... eu... hum - gaguejou ela. - Sim. Já ouvi falar do caso da senhora Nechratta. O Ipumer costumava visitar esta casa.

 

- Antes da morte do marido da senhora?

 

- Claro, não haveria de ser depois!

 

- E porque vinha ele?

 

- Não sei. O meu marido costumava recebê-lo num dos pavilhões do jardim. Calculo que falavam sobre a única coisa que interessava ao meu marido: combates! O Ipumer era escriba na Casa de Guerra.

 

- Mas como é que eles se conheceram?

 

- Não sei. Uma vez perguntei ao meu marido. Claro que ele nunca se dignou responder-me. Ficava sempre muito satisfeito quando ele vinha, e o escriba era bem-apessoado.

 

- Ele alguma vez trouxe presentes ao marido da senhora?

 

- Oh, claro... um jarro de vinho, uma coisa especial trazida do cais. Depois o meu marido...

 

- Adoeceu e morreu.

 

- Ele estava sempre doente. Teve uma crise pior que as outras.

 

- O que faz aqui, minha senhora? - A porta da sala fora aberta. Um jovem encontrava-se à entrada. Chufoi percebeu pelo olhar de Aneta que ele não era um simples criado.

 

- Já vou ter contigo - disse ela.

 

O jovem espetou os lábios e retirou-se de modo brusco, batendo com a porta.

 

- O meu servo - explicou ela. - Dá-se muitos ares. Ora bem, Chitai...

 

- Chufoi! - exclamou o anão.

 

- Ah, sim, Chufoi. Há mais perguntas?

 

- Então, o marido da senhora morreu e o corpo dele foi...?

 

- Levado para o túmulo do outro lado do rio. Tenho de ver o lado bom das coisas - continuou ela. - Desde o falecimento dele, as Panteras do Sul deixaram de me incomodar. Eu de certeza que não as incomodo. Bem... - Ergueu-se da cadeira. - Se não há mais nada...

 

Assim que saíram por uma porta lateral no muro, Chufoi e Prenhoe desataram a rir.

 

- Já viste isto? - Prenhoe limpou os olhos com as costas da mão. - Pouco lhe importa se o marido está vivo ou morto.

 

- Acho que está mais interessada no rabo do senhor boquinhas.

 

- Mas o que viria o Ipumer fazer aqui?

 

Chufoi limpou as lágrimas do rosto com a bainha da túnica. Não respondeu a Prenhoe, mas começou a imitar aquilo a que chamou o ”hipopótamo sagrado”, fazendo Prenhoe desempenhar o papel do servo. Rindo e brincando, voltaram para trás e pararam uns momentos para admirar o Nilo.

 

- Porque não me deixaste ir contigo esta manhã? - perguntou Prenhoe.

 

- Ontem à noite, o meu amo ofereceu-me vinho num dos pavilhões do jardim, pouco antes de ele e a senhora Norfret se terem retirado. - O rosto de Chufoi adquirira uma expressão solene. Agarrou no guarda-sol como se ele fosse a fonte do poder. - Ele abriu-se comigo. Concordei com as suas suspeitas.

 

- Oh, boi sagrado! - gemeu Prenhoe. - Porque não vais directo ao assunto?

 

- Pelos tomates do boi sagrado, já vou! - Chufoi agarrou no braço de Prenhoe e conduziu-o na direcção da mansão de Amerotke. - O nosso amo tem de ser matreiro e astuto. Não pode interrogar abertamente as pessoas envolvidas no caso que tem perante ele no tribunal, mas pode fazer uma investigação discreta. O Ipumer era hicso de origem. Há cerca de um ano mandaram-no vir para Tebas e arranjaram-lhe trabalho como escriba na Casa de Guerra.

 

- Por que motivo?

 

- Para fazer guerra contra as Panteras do Sul. O juiz Amerotke e eu - continuou ele entusiasmado - acreditamos que o Ipumer conseguiu este trabalho devido à influência de alguém bem colocado. Quem melhor que uma das Panteras do Sul?

 

- Referes-te ao falecido general Kamun? - Precisamente. Deixa-me explicar. - Chufoi passava o guarda-sol de uma mão para a outra. - O Kamun era apenas um joguete. Sabes como é, Prenhoe. Alguém vai ter com um velho veterano como ele e diz que um amigo precisa de trabalho. O general concorda e o Ipumer, fosse ele quem fosse, chega a Tebas. Depois faz duas coisas. Primeiro, tem de silenciar o general Kamun, por isso vai agradecer-lhe. O velho soldado está adoentado, desejoso de companhia. O Ipumer tem uma língua de prata: farta-se de elogiar o nosso herói. Torna-se uma visita regular. Um dia traz um jarro de vinho envenenado e o Kamun morre. Segunda, o Ipumer rouba as suas referências da Casa de Guerra, para que o envolvimento de Kamun na sua nomeação não venha a ser conhecido.

 

- Mas não fez isso por sua alta recreação?

 

- Oh, não, havia alguém a dar-lhe ordens. Essa pessoa é o assassino.

 

- Esse assassino pode ter morto o Ipumer? - Possivelmente. - Chufoi abandonou o ar pomposo.

- Muito embora, a acreditar nas provas, o Ipumer tenha sido envenenado por alguém da casa do general Pechedu.

 

- Isto é um verdadeiro quebra-cabeças - murmurou Prenhoe. - Se bem percebi, Chufoi, o juiz Amerotke segue duas pistas que podem estar relacionadas: por um lado, o assassínio de Ipumer; por outro, o escriba morto esteve de alguma forma relacionado com o homicídio do general Balet.

 

- Sim, percebeste bem.

 

- Ora, mas isso é estranho. Porque... Antes de poder continuar tiveram de desviar-se, pois a seguir à curva surgiram algumas quadrigas e, atrás delas, um carro com jarros de água, caixas e cestos puxado por um boi. O intendente de uma das propriedades conduzia os seus trabalhadores, seguidos das mulheres e crianças: um grupo ruidoso de trabalhadores e criados com túnicas de manga curta sobre as tangas. Iam para um dos campos e o intendente estava muito atarefado a gritar instruções. Chufoi e Prenhoe aguardaram sob uma palmeira até os outros desaparecerem numa nuvem de poeira. Enxames de moscas pairavam, atraídos pela comida. Chufoi viu-os afastarem-se. Pensou com os seus botões que, se não tivesse sido falsamente acusado, a sua vida seria aquela: um bando de filhos e trabalho numa propriedade qualquer.

 

- Isto interrompeu o meu sonho - declarou Prenhoe. Chufoi fechou os olhos: os sonhos de Prenhoe eram famosos.

 

- Estava junto ao Nilo e uma multidão de agricultores passou por mim. Levantaram bastante pó, que avançou na minha direcção. Dele saiu uma bela heset. Estava nua com excepção de uma tanga, um colar de contas grosso ao pescoço. Tinha uma cabeleira comprida embebida em perfume que emoldurava o rosto mais belo que já vi nos meus sonhos.

 

- Alguém que eu conheça? - perguntou Chufoi.

 

- Ela chamou-me e, antes de dar por mim, estava nas Terras Vermelhas. Levou-me para um pequeno oásis. Deitámo-nos na erva macia à sombra, mas, quando me aproximei, ela transformou-se num escorpião. Acordei a gritar. O que achas que isso significa, Chufoi?

 

- Não comas queijo antes de ires para a cama - resmungou Chufoi, puxando a manga do companheiro. - Temos de ir andando! São quatro horas, não são?

 

Prenhoe não se deixou esmorecer. Começou a contar outros sonhos e continuava a tagarelar quando chegaram a casa de Amerotke. Chufoi não lhe prestou muita atenção enquanto descalçavam as sandálias e lavavam as mãos e os pés. Os rapazes estavam a nadar no lago, com Norfret. Chufoi e Prenhoe calçaram as sandálias de casa.

 

- Anda - chamou Chufoi com um sorriso, interrompendo a narração de outro sonho -, estamos à espera de uma visita, e, por favor, cala-te!

 

Percorreram o longo e fresco corredor até à sala de trabalho de Amerotke, nas traseiras da casa. A porta não estava trancada. Chufoi abriu-a e arrastou Prenhoe lá para dentro.

 

- Podemos estar aqui? - perguntou o escriba, olhando em volta, de olhos muito abertos.

 

Aquele era um dos santuários de Amerotke: almofadas em pilhas altas no estrado mais afastado onde o juiz podia sentar-se e descontrair-se; uma grande secretária de carvalho com tiras de prata engastadas; uma confortável cadeira acolchoada; bancos; uma escrivaninha cor de marfim e cestos onde estavam arquivados os rolos de papiro. Chufoi deu alguns passos e abriu o estore da janela grande que dava para a horta. O aroma doce das alfaces e dos rabanetes entrou na sala, bem como o da fresca terra negra, especialmente seca a partir da lama negra do Nilo, na qual qualquer planta florescia. Chufoi sentou-se num banco, Prenhoe na extremidade do estrado. O anão pousou o guarda-sol no chão ao seu lado.

 

- O que estamos aqui a fazer? - insistiu o escriba.

 

- Já te disse, à espera de uma visita. Prenhoe fitou-o.

 

- Achas que a senhora Nechratta é culpada?

 

- Não sei - respondeu Chufoi, com ar ausente. Qualquer pessoa podia ter morto o Ipumer: a pessoa que o trouxe de Auaris, uma das suas amigas viúvas, o pai da Nechratta.

 

Seja como for, cabe ao juiz Amerotke decidir. O que se passa?

 

Prenhoe ostentava uma expressão horrorizada. Já não estavam sozinhos. Junto à janela encontrava-se um vulto. Prenhoe levantou-se de um pulo. Chufoi soltou uma gargalhada.

 

- Como te atreves?! - exclamou Prenhoe, avançando com ar ameaçador.

 

O vulto saiu das sombras.

 

- Senta-te - ordenou Chufoi. - Esta é a nossa visita. Prenhoe ainda não estava convencido. O desconhecido era de estatura média, magro e musculado, a cabeça completamente rapada, a cara comprida e magra, maçãs do rosto salientes e faces encovadas, lábios finos e exangues e olhos reluzentes e vivos. Envergava uma camisa de linho tingido, sem mangas, sobre a saia de cabedal, sandálias e umas tiras enroladas nas pernas semelhantes às que os camponeses usavam para não se cortarem nas folhas de erva. A sua postura era tensa e vigilante, a mão no punhal enfiado no cinto de cabedal. Virou a cabeça; faltava-lhe uma orelha. Não trazia jóias, apenas uma bolsa de cabedal presa ao pescoço por um cordel.

 

- Chufoi, o teu amigo vai atacar-me? - A voz do indivíduo era suave, educada.

 

- Não, não vai. - Chufoi pôs-se de pé. - Prenhoe...

 

- Bateu no peito do escriba. - Senta-te. Cumprimenta o meu amigo. - Trouxe um banco e indicou à visita que se sentasse. - Queres vinho?

 

O homem abanou a cabeça. Admirou a sala, e o seu olhar foi atraído pelos belos estojos de cabedal que se encontravam na mesa de trabalho de Amerotke e continham o seu estilete e os outros instrumentos para escrever.

 

- O teu amo não se opõe?

 

- Desde que não toques em nada - respondeu Chufoi.

 

- Prenhoe, posso apresentar-te um colega meu? - Como é que ele se chama?

 

- Não sei. Tratamo-lo por Mangusto.

 

Mangusto deslocou-se no banco para poder olhar directamente para Prenhoe.

 

- Quem eu sou e de onde venho não te diz respeito.

 

- Tratamo-lo por Mangusto - interveio rapidamente Chufoi, antes de Prenhoe ficar ofendido -, por causa da sua astúcia e da forma como é capaz de entrar ou sair de um local sem ninguém reparar. É bastante conhecido dos majidou, os guardas do mercado. Também é procurado para interrogatórios em vários nomos, desde o delta à Terceira Catarata. No entanto, passa a maior parte do tempo escondido em Tebas.

 

- Amerotke sabe que ele aqui está?

 

- O meu senhor Amerotke tem sempre o Mangusto à mão, para poder utilizá-lo para fins especiais - respondeu Chufoi.

 

- Ele é um ladrão - declarou Prenhoe, sustentando o olhar de Mangusto.

 

- Não diria tanto - retorquiu Chufoi. - Ele tem é dificuldade em distinguir os seus haveres dos das outras pessoas. Também reúne informações. O nosso amo - preveniu Chufoi num tomameaçador - nunca recebeu uma queixa contra o meu amigo.

 

- O que é que ele tem ao pescoço? Mangusto bateu de lado na cabeça.

 

- A minha orelha. Um tipo arrancou-ma uma vez à dentada. Não pode voltar a ser cosida e é demasiado preciosa para ser deitada fora.

 

- Porquê tanto secretismo? - perguntou Prenhoe.

 

- Porque quero convencer-te, a ti e ao senhor juiz Amerotke, de que o Mangusto é tão sério como a sua palavra. Então, o que descobriste?

 

Mangusto piscou o olhou a Prenhoe e virou-se para Chufoi.

 

- Fui até à Casa da Gazela Dourada. O general Pechedu não está lá, mas a mulher e as duas filhas estavam à sombra do jardim.

 

- E subiste até ao quarto da dama Nechratta? - perguntou Chufoi, saboreando o espanto de Prenhoe.

 

- Oh, sim, é uma verdadeira casa do tesouro. Não tirei nada. A grade de madeira pode ser removida e há uma escada de corda. - Fez uma expressão séria. - Para uma mulher jovem e vigorosa como a senhora Nechratta seria fácil tirar a grade e descer. No chão, rente à parede, existem uns arbustos que podem ocultar pegadas, e da parede até ao portão o caminho é fácil. Vim por aí até ao carreiro. Há árvores, uma pequena mata. Só tem de se ter cuidado com um canal de irrigação próximo.

 

- E o que encontraste na casa do Pechedu? Mangusto sorriu; os seus caninos haviam sido limados,

 

conferindo-lhe um ar famélico, predador.

 

- Ouvi as conversas dos criados. Discutiam, claro, o caso da senhora Nechratta. Tomei conhecimento de uma coisa. Sabias, ou sabia o teu amo, que na noite em que a senhora Nechratta se encontrou com o amante, o general Pechedu estava ausente?

 

Viu a expressão de surpresa de Chufoi.

 

- Não há nisso mal algum! - exclamou Prenhoe. O Pechedu não está a ser julgado.

 

- Ah, sim. - Mangusto fitou-o. - Mas sabias também que o Pechedu tem um fraco por hesets, as dançarinas do Templo de Anúbis? É um facto que é do conhecimento geral, na casa dele.

 

Chufoi inclinou-se para a frente, os olhos a brilhar.

 

- Estiveste muito bem, Mangusto. E que mais?

 

- Visitei o Templo de Set. É fácil entrar na Capela Vermelha por um jardim adjacente, deserto. Seria difícil detectar um assassino cauteloso.

 

- E mais?

 

- Também conversei com os meus amigos da taberna, incluindo um guarda que faz um turno na Casa de Guerra. O Ipumer era um escriba consciencioso. - Olhou de lado para Prenhoe. - Um pouco como o teu bom amigo. Também gostava de mulheres.

 

- Como sabes isso?

 

- Começava a trabalhar pouco depois da alvorada, mas saía sempre por volta das onze.

 

- E então? - perguntou Prenhoe.

 

- E a hora em que as senhoras da cidade vão ao mercado

- observou Chufoi.

 

- Mais estranho ainda - continuou Mangusto -, Hepel, o amigo, jamais o acompanhava. Ah, a propósito, o Hepel nunca mais foi trabalhar.

 

Chufoi esfregou as mãos. O amo iria ficar satisfeito com as novidades: Mangusto era bom no que fazia.

 

- Continua! - incitou Prenhoe. - Estavas a falar-nos dos teus amigos.

 

- Bem, o Ipumer nunca tomava o pequeno-almoço com ninguém, nem visitava as casas de comida, a barbearia ou as casas de vinho.

 

- A única explicação para isso, meu sábio escriba - disse Chufoi, todo inchado - é o nosso bom amigo Ipumer encontrar-se em segredo com alguém quase todos os dias ou, pelo menos, durante os meses anteriores à sua morte.

 

- E os Hicsos? - perguntou Prenhoe. - O meu amo falou de uma sociedade secreta ligada aos Hicsos!

 

- Isso é um disparate! - exclamou Mangusto, chupando os dentes. - Tebas tem tantas sociedades secretas como um cão tem pulgas. É verdade que há trinta anos havia pessoas em Tebas com muito a esconder, pois tinham colaborado com os invasores, mas agora já morreram todos. Os Hicsos passaram à história.

 

- O general Balet não haveria de concordar com isso declarou Prenhoe.

 

- Desapareceram, digo-te eu! Não são mais que areia no vento, nada mais. - Mangusto pôs-se de pé. - Já estou há muito tempo nesta sala. Quero mostrar-vos uma coisa.

 

- E quanto à Rua das Lamparinas a Óleo? - perguntou Chufoi.

 

- Oh, sim, isso também.

 

Chufoi e Prenhoe calçaram as sandálias da rua e o anão pegou no guarda-sol. Ajudava-o a manter-se a par com os outros e, se surgissem problemas, a ponta aguçada era tão boa como um punhal oculto sob as pregas da túnica. Mangusto insistiu em sair por onde tinha entrado. Os outros encontraram-se com ele junto ao portão principal e apressaram-se na direcção da cidade. De vez em quando, Mangusto parava e olhava em volta para se orientar.

 

Por fim chegaram a um carreiro que passava ao lado de uma das grandes mansões. Prenhoe olhou mais para diante, para o muro. Viu um portão de madeira polida e o brilho das gazelas douradas cuidadosamente pintadas nele.

 

- Pois muito bem. - Chufoi parou no cimo do carreiro e olhou para baixo. - Sim, estou a ver a árvore onde o vendedor ambulante ficou, a erva e os arbustos.

 

Prenhoe seguiu o seu olhar.

 

- Ele teria de ser cuidadoso - avisou Chufoi, apontando para o canal que serpenteava ao meio, quase escondido pela erva e pelos arbustos.

 

- Vai à frente!

 

Mangusto, mantendo-se rente ao muro, começou a descer. Chegaram ao portão; o chão naquela zona estava bastante pisado.

 

- Parece que é usado muitas vezes - brincou Chufoi.

 

Olhou para a direita, onde uma ponte temporária atravessava o canal até uma mata de palmeiras. Avistou terebintos e sicômoros, erva e arbustos: um local fresco e convidativo. Ele e Prenhoe seguiram Mangusto. O carreiro obrigava-os a seguir em fila indiana. Por fim chegaram a uma pequena clareira com um pequeno lago esverdeado rodeado de salgueiros.

 

- Tenham cuidado com as cobras - preveniu Prenhoe. Mangusto ignorou-o e conduziu-os até um salgueiro.

 

O solo à sua volta era macio e plano.

 

- Não te parece, Chufoi, que se fosses encontrar-te com a tua amada a meio da noite este seria o melhor local para descansar? - perguntou ele. - Atrás de ti só há terrenos baldios e o muro da mansão vizinha, e daqui consegues ver toda a gente que se aproximar.

 

Chufoi concordou.

 

- Olhem! - Mangusto pôs-se de pé. As raízes do salgueiro elevavam-se um pouco do chão; uma delas estava bastante manchada por gordura de uma lanterna a óleo. E aqui. - Mangusto tirou qualquer coisa de debaixo de um arbusto: um pano quadrado, sujo e cheio de terra, do género utilizado para cobrir comida.

 

- Se bem me recordo - declarou Chufoi -, na noite em que o Ipumer foi assassinado, alguém saiu da casa do general Pechedu depois de o escriba se ter ido embora; foi a mesma pessoa que se encontrou com ele, ou outra. - Olhou para trás na direcção da Casa da Gazela Dourada. - Realmente parece que as coisas não estão muito famosas para a senhora Nechratta. Alguém veio até aqui durante o dia com um cesto de comida. Nechratta esgueirou-se mais tarde para se encontrar com o Ipumer. Deitaram-se ao luar, comeram e beberam. Nessa altura, o escriba foi envenenado. Depois disso, a senhora Nechratta veio até aqui para levar as taças e os pratos ou... - Chufoi apontou para o lago. - Ou atirou-os para ali.

 

- Porque estás a fazer isto tudo? - perguntou Prenhoe. Mangusto abraçou Chufoi e apertou-o com força.

 

- Alguns dias são afortunados, meu amigo, outros nem por isso. Nunca se sabe quando um homem como eu terá de implorar a misericórdia do faraó. Mas venham, tenho outras coisas para vos mostrar. Temos de ir até à cidade.

 

Chufoi e Prenhoe seguiram-no. O calor começava a diminuir à medida que o Sol descia, mudando a cor das pedras, das árvores e até do Nilo. Camponeses e negociantes abandonavam a cidade, tagarelando ruidosamente, repreendendo os filhos, batendo nos bois preguiçosos para os obrigar a andar um pouco mais depressa. Chufoi gostava sempre de ver aquelas coisas. Mantinha-se atento aos homens dos escorpiões, aqueles vendedores ambulantes que eram para ele uma fonte constante de novas idéias. Continuava animado com os planos para vender amuletos e estátuas sagradas, particularmente aos devotos do Templo de Set. Entretanto, Mangusto avançava rapidamente, como se estivesse desejoso de pôr fim àquele assunto.

 

Transpuseram os portões, abrindo caminho por entre a multidão. As senhoras da noite começavam já a reunir-se, esperando aliciar os soldados. Usavam cabeleiras embebidas em óleo. Pequenos sinos pendiam dos seus mamilos; tatuagens vermelhas e azuis decoravam os braços e as coxas; tachas de prata brilhavam nos umbigos por cima dos panos coloridos que cobriam as suas virilhas. Estavam à sombra e chamavam baixinho os transeuntes. Ao lado delas, num contraste chocante, um carregador de corpos da necrópole montara uma banca improvisada e oferecia aos gritos o seu produto:

 

- Posso mostrar-vos os túmulos dos grandes, bem como a misteriosa gruta escura onde há muito tempo um homem foi sepultado vivo!

 

Ao lado dele, um contador de histórias itinerante achara que as pessoas atraídas pelo funcionário da necrópole poderiam pagar para ouvir a sua história da travessia do Sinai, das criaturas exóticas que viviam nas montanhas ou das tribos selvagens que as caçavam.

 

Chufoi teria adorado ficar ali, mas Prenhoe puxou-o pelo braço. Viraram à esquerda, saindo da estrada principal, passando por templos e palácios e rumando ao cais. Dirigiam-se para ali magotes de pessoas, quer procurando atravessar o Nilo, quer tentando fazer negócio no mercado improvisado que surgia sempre ao anoitecer. O ar estava impregnado de diferentes aromas e sabores: ganso grelhado na brasa; gazela assada no espeto à porta de uma loja de vinho; as fragrâncias irresistíveis das bancas de perfumes e, enquanto avançavam pelas viêlas estreitas, o fedor das pilhas de estrume e das latrinas a céu aberto.

 

Mangusto avançava com determinação. A única vez que parou foi para subir o degrau de uma porta, desviando-se da guarda do mercado, que avançava balançando os cacetes.

 

Os três atravessaram várias zonas: dos tintureiros e pisoeiros, dos fabricantes de linho, dos oleiros e dos carpinteiros. Por fim, chegaram ao pequeno mercado de óleo na extremidade sul de Tebas. Mangusto conhecia bem o caminho. Desceram por uma rua larga, ladeada por casas, e pararam frente a uma banca erguida sob uma grande janela aberta que dava para a casa. A banca estava coberta por diversos tipos de candeeiros: bronze, cobre, alabastro, pedra. Alguns tinham desenhos alegres e gravuras de patos, gansos ou veados em repouso. Mangusto agarrou no braço de um dos aprendizes.

 

- Posso ver o teu patrão? Temos assuntos a tratar.

 

O rapaz correu para dentro de casa e regressou com um homem baixo e gordo que limpava a cara transpirada com um trapo.

 

- Temos assuntos a tratar, senhor?

 

Mangusto olhou para Chufoi. O anão abriu a bolsa oculta sob as pregas da túnica e tirou de lá um pequeno deben de cobre. Olhou para a casa de dois andares, para a sala do primeiro andar onde se chegava por uma escada construída na parede. - Conheces o escriba Ipumer?

 

- Claro que sim, ele tem aqui um quarto alugado. O quarto para onde estás a olhar.

 

- Podemos vê-lo?

 

O mercador coçou a parte de baixo do queixo, indicando que estava impaciente para fazer negócio. Chufoi voltou a mostrar-lhe o deben de cobre.

 

- Só queremos vê-lo e fazer algumas perguntas.

 

Os olhos astutos do mercador observaram Chufoi. Depois, fitaram rapidamente Mangusto.

 

- Já te vi antes, não vi? Andavas a fazer perguntas. - Bateu no molho de chaves pendurado à cintura com um sorriso matreiro no rosto. - Eu mostro-vos: dois deben de cobre.

 

Chufoi concordou. O mercador agarrou nas moedas. Resfolegando, foi subindo as escadas. Quando chegou ao cimo abriu a porta e fez-lhes sinal que entrassem. Chufoi olhou em volta, espantado. O quarto estava vazio. Ali não havia nada com excepção do chão de pedra duro, do tecto de madeira e gesso e das paredes caiadas.

 

- O Ipumer alugou isto?

 

- Sim - respondeu o homem com um sorriso.

 

- Então, onde estão as coisas dele?

 

- Ele levou-as daqui.

 

- Quando?

 

- Oh, há cerca de oito dias.

 

Chufoi olhou para Prenhoe. - Isso foi depois de ele ter sido assassinado. - Assassinado! O Ipumer não foi assassinado! Teve lugar um debate aceso. Chufoi achava que o mercador estava a enganá-lo, mas o homem foi categórico.

 

- Já vos disse - quase gritou ele -, o Ipumer veio cá e levou todas as suas coisas.

 

- Mas isso não é possível - ripostou Chufoi. - O Ipumer foi assassinado há dez dias, e estás a dizer-nos que dois dias depois de o seu cadáver ter sido levado para a Casa dos Mortos, ele veio cá esvaziar o quarto. Qual era o aspecto desse Ipumer?

 

- Não sei.

 

Chufoi levantou o guarda-sol com uma expressão ameaçadora.

 

- Não tentes enganar-me! O homem recuou.

 

Chufoi fechou a porta com um pontapé. Mangusto avançou de lado, com uma navalha fina e ameaçadora na mão.

 

- O meu amigo tem razão. Pagámos uma boa quantia para ouvirmos informações úteis - proferiu com uma expressão feroz.

 

- Está bem, está bem.

 

O mercador foi sentar-se a um canto, fazendo sinal aos outros para se aproximarem.

 

- Há cerca de um ano - começou ele -, um homem chamado Ipumer... disse que era escriba na Casa de Guerra... apareceu aqui na rua. Eu tinha anunciado que o quarto do primeiro andar estava vago. O comércio é bom: somos donos da casa ao lado e usamos o andar de baixo como armazém e loja. Ele disse que precisava de um sítio para se encontrar com certas senhoras. - No rosto gordo do mercador surgiu um sorriso que o encheu de rugas. - Por isso o melhor era eu saber o menos possível...

 

- Mas ele tinha um rosto! - interveio Prenhoe.

 

- Não tinha, não. Trazia uma túnica branca com folhos e mangas compridas. Usava um lenço branco com capuz e uma daquelas máscaras de Hórus muito populares entre os rapazes.

 

- Não ficaste desconfiado? - perguntou Prenhoe.

 

- Porque haveria de ficar? Ele pagou bem. Disse que não causaria qualquer incómodo, e que quanto menos eu soubesse melhor. Cuspimos nas mãos, apertámo-las, ele pagou o que eu pedi e ainda mais alguma coisa. Por isso, entreguei-lhe a chave.

 

- Ele vinha cá muitas vezes? - Não. - O mercador abanou a cabeça. - Aliás, isso surpreendeu-me. Devolveu-me a chave porque contratou um ferreiro para fazer outra. Creio que não confiava em mim. Comprou alguns móveis, poucos. Raramente o via.

 

- E as amigas dele vinham visitá-lo?

 

- Nunca vi nenhuma. Nas poucas ocasiões em que ele cá apareceu, foi sempre ao anoitecer e trazia sempre aquela máscara. Nunca sabíamos quando ele lá estava. A minha mulher não gostava da situação, mas ele pagava bem e não causava problemas.

 

- Veio cá mais alguém?

 

- Um rapaz. Percebi pelos dedos dele que devia ser um escriba... sabem, manchados de tinta. Parecia sempre um pouco ansioso. Nas poucas ocasiões em que o vi, tinha a cabeça e o rosto ocultos por um capuz.

 

Chufoi mantinha-se sentado e balançava-se para trás e para a frente.

 

- Já contei tudo o que vi - anunciou o mercador, pondo-se de pé. - Nada mais posso dizer. - Abriu caminho por entre eles e dirigiu-se à porta. - Creio que é melhor irem-se embora.

 

Chufoi fez sinal aos outros para o seguirem. Desceram as escadas e atravessaram a rua, entrando numa pequena cervejaria. O local estava vazio, com excepção de dois carregadores que haviam pousado os seus fardos no chão e pediam, irritados, jarros de cerveja. Chufoi mandou-os calar. Pediu bebidas para os amigos e depois foram sentar-se num banco nas traseiras.

 

- Fiz o que pediste - disse Mangusto. Pegou no jarro de pedra e bebeu um gole de cerveja. - E mais do que isso.

- Deu uma palmadinha na cabeça de Chufoi e desapareceu pela porta.

 

- Aquilo não foi lá muito bom - opinou Prenhoe.

 

- Pois não.

 

Chufoi mexeu-se inquieto e fitou, abstraído, uma abelha a zumbir entre as flores. Ouviam-se os sons da rua, os gritos dos vendedores.

 

- O meu amo achava que o Ipumer tinha outro quarto algures na cidade. Creio que aconteceu o seguinte: ele foi trazido para Tebas por um homem que planeava assassinar o máximo possível das Panteras do Sul, só Maet sabe por que razões. Agora, este assassino... - Chufoi bebeu um pequeno gole de cerveja. - Este assassino ia usá-lo. Por isso alugou um quarto em nome do escriba, mas fê-lo mascarado e disfarçado. Como viste, o mercador de candeeiros nem pensou duas vezes. O quarto era utilizado para que o assassino pudesse encontrar-se com o Ipumer. Depois de o escriba ter morrido, o quarto foi limpo, tudo o que havia dentro dele levado e aquele assassino com máscara de Hórus desaparece.

 

- Bem, quem poderá ser?

 

- Não sei. - Chufoi contemplou a tonalidade vermelho-dourada do céu. - Espero que o meu amo esteja bem. Disse que voltaria ao fim da tarde. Ele há-de perceber tudo isto.

 

- Mas ouve a minha teoria. - Prenhoe encheu o peito de ar. - O Ipumer não passava de um cão amestrado. Veio para Tebas mas não era o mais indicado para o trabalho. Foi apresentado ao general Pechedu e decidiu que valia mais a pena cortejar a senhora Nechratta. A pessoa que o contratou fartou-se, assassinou-o e começou a sua própria campanha.

 

- Sim, mas o Ipumer morreu imediatamente após ter visitado a senhora Nechratta?

 

- Ouviste o Mangusto - retorquiu Prenhoe. - O homem que alugou o quarto podia ter estado à espera do Ipumer na Casa da Gazela Dourada.

 

- Mas o vendedor ambulante viu-os beijarem-se.

 

- Talvez o Ipumer pendesse para os dois lados - brincou Prenhoe. Viu a descrença nos olhos de Chufoi. - Está bem, é um bocado rebuscado - admitiu -, mas então... e se o Ipumer e a Nechratta se tivessem deitado na erva, comido e bebido, mas o rapaz, a caminho de casa, tivesse estado com outra pessoa que lhe administrou o veneno?

 

Chufoi esvaziou o jarro de cerveja e pôs-se de pé.

 

- É demasiado simples - murmurou. - Mas acho que acertaste, Prenhoe. O tribunal irá ter de decidir, ou descobrir, se o nosso estranho escriba, depois de ter deixado a Casa da Gazela Dourada, visitou mais alguém.

 

Voltaram a entrar na cervejaria, despediram-se do proprietário e saíram para a rua. Prenhoe reparou que Chufoi estava agitado. O anão agarrou no guarda-sol e caminhou rapidamente rua abaixo; dobrou uma esquina, agarrou no braço de Prenhoe e puxou-o para uma porta.

 

- Cala-te e espera! - murmurou.

 

Prenhoe estava prestes a admoestar Chufoi quando um homem pequeno e engelhado apareceu. Deteve-se junto à porta, a olhar em volta com ar expectante.

 

- Estamos aqui - disse Chufoi.

 

O homem sobressaltou-se; teria fugido, mas Chufoi foi mais rápido. Avançou uns passos e agarrou no pulso do homem com firmeza. O homem tentou libertar-se, mas Chufoi não o largou e empurrou-o contra a parede, apontando a ponta afiada do guarda-sol ao queixo dele, obrigando-o a encostar a cabeça à parede.

 

- Seguiste-nos o tempo todo, não foi?

 

O homem estendeu a mão. Chufoi viu um pequeno anel com sinete, um círculo de cobre com o olho de Hórus gravado.

 

- Então vens da parte do delegado Ualu, ”os olhos e ouvidos da rainha” - gozou Chufoi. - E por que motivo achas os criados do senhor juiz Amerotke tão interessantes? És muito habilidoso - continuou o anão -, mas vi-te perto da Casa da Gazela Dourada, a fingir que ias noutra direcção. Depois, tornei a ver-te na rua, perto do contador de histórias.

 

- Ouvi o que disseste na cervejaria - retorquiu o homem.

 

Chufoi baixou o guarda-sol.

 

- Muito bem, e deixo-te ir sem te dar uma tareia se nos contares aquilo que sabes.

 

Set. muitas vezes associado ao porco, que, por sua vez, era considerado impuro.

 

Durante os anos seguintes, no Bairro dos Perfumes de Tebas, as pessoas iriam recordar-se daquela noite! Foram tempos de incêndios e de assassínios brutais! Alguns dos velhos diziam que o deus Set do cabelo vermelho vagueava pelas vielas, com um machado de guerra na mão, a espada do julgamento na outra. Outros consideraram isso um disparate.

 

A noite em questão começou bastante calma - um céu azul-escuro, as estrelas e a lua cheia sobre a cidade. O médico Intef esperara pelo cair da noite. Vestido com a sua melhor túnica, saiu de casa em silêncio, avançou pelo jardim cheio de vegetação a precisar de ser cortada e saiu pelo portão das traseiras. Atravessou a praça onde se situava o Mercado do Perfume e manteve-se rente à parede como uma sombra até chegar à casa da sua boa amiga e colega, a viúva Felima. Entrou pelo portão de vime e bateu à porta de trás, como havia sido combinado. As trancas foram corridas e a luz surgiu. Felima, envergando uma túnica branca e uma faixa bordada, sandálias nos pés, saudou-o de braços abertos. Intef entrou e ela fechou e trancou a porta.

 

- Estamos sozinhos? - perguntou ele na brincadeira.

 

- Os criados já saíram todos - respondeu ela com um sorriso -, e está tudo pronto.

 

Conduziu-o por um longo corredor até à sala central da casa, um aposento espaçoso com pilares de madeira pintados com cores alegres, no centro uma plataforma de pedra elevada onde ardia uma braseira. O estrado na outra extremidade já fora decorado. Cortinas bordadas cobriam a parede. Tinham sido dispostas carpetes e almofadas em torno de duas mesas pequenas com taças e pratos de fruta, carne, peixe seco salgado e fundas taças de vinho.

 

Intef gemeu de prazer. Deixou que Felima o despisse e fez-lhe o mesmo. Nus, subiram para o estrado e sentaram-se nas almofadas, tocando-se, beijando-se, enquanto trocavam comida e bebida. Era sempre assim - aquilo a que Intef chamava as suas ”noites secretas de prazer” com aquela viúva de aspecto respeitável, mais hábil nas artes do amor do que qualquer heset ou cortesã. Intef bebeu alguns goles de vinho e reparou no macaco de estimação de Felima vagueando pela sala. Virou-se e admirou a tinta verde-pálida dos frisos da parede, os pilares de madeira, acabados de pintar de preto e vermelho, os belos jarros de vinho.

 

- Tens andado a gastar dinheiro - murmurou ele. Felima aproximou-se, a mão a acariciar a barriga de Intefe deslizando provocadora até às suas virilhas.

 

- Os lucros são altos - retorquiu ela. O seu rosto adquiriu uma expressão séria. - Mas estamos a salvo?

 

- Ah, referes-te à cadela da Nechratta? - Intef ergueu a sua taça. - Ela há-de pagar pelos crimes que cometeu.

 

Acariciou um dos seios de Felima e inspirou o perfume quente que emanava da sua peruca. Felima afastou-o e, virando-se para uma pequena taça, pegou num frasquinho de perfume. Depois começou a esfregá-lo na cabeça, nos olhos, nas faces e no queixo dele.

 

- Achas que irão descobrir? - perguntou ela, afastando-se.

 

- Descobrir o quê?

 

- Que o Ipumer visitou a tua casa antes de regressar para a da gorda Lamna?

 

- O que poderão eles dizer? - retorquiu o médico. Se me chamarem para depor, direi apenas que ele se sentia mal, o que é verdade. - Bebeu outro gole. - Mas o que acontece se eles te fizerem perguntas?

 

- Que perguntas? - inquiriu Felima.

 

- Bem... - Intef envolveu a taça com as mãos, divertido. - Podem começar a perguntar como é que conheceste alguém que estava em Tebas há menos de um ano. Por que motivo eras tão generosa com o teu dinheiro e os teus favores para com um desconhecido.

 

- Isso não será problema.

 

Felima fez uma expressão amuada e levantou-se aborrecida para ir buscar outro jarro de vinho.

 

- Ele era novo e bem-parecido. Conheci-o no mercado.

- Soltou uma risada, olhando para Intef a pestanejar. - Era um belo garanhão e tu não objectaste, pois não? Gostavas de ouvir-me a contar as minhas conquistas. Ele veio à procura de alojamento e recomendei-lhe a viúva Lamna.

 

- O Amerotke é esperto - contrapôs Intef. - Há-de perguntar por que razão não o acolheste.

 

- Não aceito hóspedes, como é do conhecimento geral. Se a Lamna não lhe tivesse alugado um quarto talvez eu tivesse reconsiderado.

 

Intef não parecia convencido. De olhos semicerrados, fitou a braseira que crepitava ruidosamente e libertava pequenas espirais de fumo.

 

- Não sei... - murmurou ele. As sombras dançavam na parede e ele sentiu um arrepio. Amerotke preocupava-o. A princípio Intef julgara que o assunto ficara encerrado. Ualu apresentaria o seu caso, e Nechratta seria condenada. Não que o médico se importasse. O assassínio de Ipumer nada tinha a ver consigo. Mas... Não era bem assim... E se Amerotke continuasse a fazer perguntas...? Intef suspirou e bebeu outro gole de vinho. Ele e aquela viúva tinham muito a esconder.

 

- Porque é que o Ipumer veio ter contigo? - perguntou ele.

 

- Já te disse, foi um encontro fortuito.

 

- Achas que a Nechratta irá falar?

 

- Como é que isso é possível? - retorquiu Felima com uma gargalhada. - Um assunto daqueles! Vai ficar de bico calado. Seja como for, não tem provas.

 

Intef estava prestes a continuar a conversa quando ouviu uma trompa ser soprada não muito longe dali. O alarme soara.

 

Levantou-se, foi até à janela e viu o clarão vermelho recortado no céu.

 

- Deflagrou um incêndio - disse ele. - Daqui vêem-se as chamas.

 

- Bem, não é cá em casa, pois não? - ronronou Felima.

- Volta para aqui!

 

Intef obedeceu com relutância. Já bebera bastante; no entanto, tinha a certeza de que o incêndio era na direcção da sua casa. Mas esta estava isolada e ele apagara todos os candeeiros.

 

Felima tornou-se mais insistente. Aproximou-se dele nas almofadas, de olhos semicerrados, os lábios a babarem-se, a peruca ligeiramente torta.

 

- Vamos brincar? Vamos?

 

Reparou que o macaco correu até ao fim do estrado e começou a chiar.

 

- Cala-te! - gritou ela e, pegando numa almofada, atirou-a, irritada, na direcção do animal. O macaco fugiu. Felima olhou para as sombras na outra extremidade da sala. Estaria ali alguém? O macaco só se mostrava agitado quando alguém se aproximava.

 

- Deixa lá - murmurou Intef. Já excitado graças aos dedos de Felima, puxou-a para si. - Vamos brincar - disse com um sorriso. - Vamos comer e beber.

 

- E depois morrer!

 

Intef e Felima endireitaram-se tão depressa que tombaram uma das mesas; o jarro caiu no chão, entornando o vinho. Olharam horrorizados: um movimento nas sombras. Um vulto avançou silenciosamente, como se deslizasse pelo chão polido. Contudo, aquilo não era produto da imaginação. O vulto envergava uma saia de cabedal e a túnica de guerra dos soldados, sandálias nos pés, protecções de cabedal nos pulsos. O cinto de guerra sustinha a espada e o punhal, e nas mãos o homem tinha um arco e às costas a aljava. Ergueu a cabeça, mas Intef e Felima só conseguiram ver uns olhos a brilhar por detrás da máscara de Hórus.

 

- Quem és tu? O que estás a fazer? Porquê?

 

- Vim para vos julgar! - declarou a figura mascarada.

 

- Julgar! O que fizemos nós?

 

- Isto!

 

O arco levantou-se e uma seta foi preparada. Felima levantou-se a cambalear. Tentou correr, mas o assassino foi mais rápido. A seta voou. Apanhou-a em cheio na garganta e fê-la recuar até à parede. Intef, de gatas, avançou até àquela horrenda figura da morte enquanto o assassino se preparava para disparar outra seta.

 

- Levanta-te! Intef obedeceu.

 

- Morre como um homem - continuou o intruso -, com o rosto voltado para o inimigo!

 

O arco disparou de novo. A seta perfurou o coração de Intef, tão aguçada e penetrando tão fundo que o médico estava morto antes de a sua cabeça bater no chão. O assassino, ainda com o arco na mão, aproximou-se dos dois corpos para verificar se estavam mortos. Soltou um grunhido de satisfação e, atravessando a sala, pegou nos odres cheios. Destapou-os e verteu o óleo. Este espalhou-se por todo o lado. O assassino pegou no segundo odre e fez o mesmo no corredor. Abrindo a porta que dava para a cave, atirou os odres para lá. com cuidado e sem fazer barulho, tirou os candeeiros dos seus nichos. Atirou alguns para as almofadas e, quando se sentiu satisfeito, arrancou uma tapeçaria da parede. Encharcou-a em óleo e lançou-a para a sala de jantar, o chão brilhante devido ao óleo e ao sangue das vítimas. As chamas surgiram. Um lençol de fogo espalhou-se pelo chão. O assassino deteve-se para observar o seu trabalho, antes de sair pela porta das traseiras rumo aos jardins.

 

A viúva Lamna encontrava-se na sua sala das contas. Decidira distrair-se revendo mais uma vez os seus ganhos e despesas, e alegrar-se com os lucros que fizera. Receava voltar a ser chamada à Sala das Duas Verdades. Como confiara às vizinhas, nunca tivera tanto medo na vida: o delegado Ualu, de olhar arguto; o advogado Meretel atento a todas as suas palavras; a jovem Nechratta imóvel como uma estátua e, por cima de todos, aquele juiz de olhar intenso que a observava, pesando todas as frases e palavras que ela proferia.

 

Lamna puxara realmente pela memória. Teria alguma coisa a temer? Não fizera nada de errado, excepto ter oferecido um quarto a Ipumer. Lamna, apesar do seu ar atarracado e do seu vagar, continuava a ser suficientemente perspicaz para reconhecer perigos ocultos. A viúva Felima estivera muito pouco à vontade, ao passo que o médico Intef parecia conhecer Ipumer melhor do que ela pensava. Lamna mordeu o lábio. O que tinha ela a ver com assassínios, com encontros amorosos secretos? Teria sido usada? Ipumer fora bater-lhe à porta por indicação de Felima. Lamna aproximou o candeeiro.

 

Ouviu o som da trompa e perguntou a si mesma onde teria deflagrado o incêndio. Os incêndios eram comuns e não havia vento. A guarda do mercado encarregar-se-ia dele. Lamna olhou para os unguentos e perfumes e, por cima deles nas prateleiras, para os pequenos cestos com ervas e pó que constituíam os ingredientes. Lamna lamentava a morte de Ipumer, mas queria esquecê-lo.

 

Ouviu um barulho lá fora e empurrou o banco para trás, levantando-se e indo espreitar. O corredor estava vazio. Voltou a sentar-se. Estava prestes a enrolar o papiro quando ouviu alguém chamá-la. Endireitou a cabeça, surpreendida, e, ao fazê-lo, a corda do estrangulador foi apertada em torno da sua garganta. Lamna lutou, mas o atacante era mais forte. A corda enterrou-se na sua carne e, passado pouco tempo, Lamna imobilizou-se. Só nessa altura o assassino a deitou devagar no chão.

 

Amerotke continuava na Sala da Prata, uma pequena antessala na Casa do Milhão de Anos, perto do Grande Ancoradouro no Nilo. Estava sentado num banco de mármore encostado à parede e tinha na mão um cálice de sumo de uva gelado que um camareiro lhe levara. Sentia-se cansado. Apesar de ter tomado banho e repousado um pouco, continuava dorido da viagem de regresso à cidade. Alegrava-se por já não estar com as Panteras do Sul. Os antigos soldados haviam-no aceitado com relutância, mas ele fizera poucos progressos. Uma e outra vez, antes de terem saído do oásis de Ássiua, tentara perceber se havia algum azedume entre eles, algum ressentimento, rancores ocultos. Nada conseguira descobrir.

 

- Somos um grupo de irmãos. Ficámos lado a lado na linha de batalha e enfrentámos a fúria dos inimigos do faraó declarara Karnac. - Porque haveríamos de matar um camarada? Não, não, meu senhor Amerotke. - Karnac levantara a mão como se estivesse a fazer um juramento. - O assassino do general Balet, o assassino que nos persegue, não é nenhum de nós.

 

Os outros tinham-no apoiado; contudo, o mistério permanecia. Quem contratara aqueles vagabundos da areia para os atacar? Quem fizera desaparecer os horrendos restos mortais de Meretseger? E, mais importante que tudo, quem ameaçara aqueles soldados e depois cumprira a ameaça levando a cabo a execução sangrenta de Balet?

 

Na curta mas furiosa viagem de regresso, Amerotke tentara ordenar as idéias. Chegara a casa cansado e irritado. Tivera de pedir desculpa a Norfret, que o repreendera com suavidade pela forma como ralhara com os filhos. Tomara banho, untara o corpo com óleo e descontraíra-se num banco do terraço até Chufoi ter aparecido. Amerotke ouvira atentamente o relato das descobertas do servo, e o seu humor suavizara-se ao ver a excitação nos olhos do anão.

 

- Saímo-nos bem, não saímos, meu amo?

 

Chufoi olhara por cima do ombro para Prenhoe; um sorriso radiante transformara o rosto do jovem escriba.

 

- Saíram-se muito bem - concordara Amerotke. - Temos mais peças do quebra-cabeças, mas continuamos sem conseguir encaixá-las.

 

Regressara aos seus pensamentos. Até tentara anotá-los, mas as descobertas de Chufoi, bem como as coisas que ele soubera pelos ”olhos e ouvidos” de Ualu, eram interessantes e relevantes, mas só adensavam o mistério. Amerotke estava prestes a ir para a cama quando chegara o mensageiro com a carteia de Hatusu.

 

- O Ser Divino - declarara o enviado, estendendo-lhe o selo - dignou-se mostrar o Seu rosto e sorrir. Exige a presença do meu senhor juiz na Sala Ametista na Casa do Milhão de Anos.

 

Amerotke soltara um gemido, mas uma convocatória era uma convocatória. Hatusu e o grão-vizir Senenmut já deviam ter sido informados do que acontecera em Assiua. Se a divina Hatusu queria debater o assunto, fá-lo-ia, independentemente da hora do dia ou da noite. Amerotke pedira novamente desculpas a Norfret, beijara-a e, acompanhado por Chufoi e Prenhoe, voltara à cidade.

 

O recolher ainda não fora anunciado; os guardas andavam preocupados com um incêndio que deflagrara no Bairro dos Perfumes.

 

- Não era lá que morava o Ipumer? - perguntara Chufoi.

 

Amerotke não tivera tempo de responder. Um contingente de archeiros do Regimento de íbis aguardava impaciente e escoltou-os prontamente até à Casa Divina. Chufoi e Prenhoe rumaram às cozinhas enquanto Amerotke esperava pelo faraó.

 

O juiz olhava para o corredor pela porta entreaberta e perguntava a si mesmo se o palácio chegaria alguma vez a dormir. Camareiros e funcionários corriam de um lado para o outro; criados com tabuleiros de comida e vinho, de aroma tão delicioso que Amerotke ficou com água na boca. O corrupio de servos era constante: os guarda-perfumes do Ser Divino, o chefe do seu gabinete, aquele que segurava o seu leque, o porta-sandálias imperial, todos passaram por ali, tagarelando, muito animados. Amerotke ouviu ao longe o coro imperial a ensaiar um hino, um dos favoritos de Hatusu.

 

A voz da andorinha persegue-me.

 

As terras brilham quando estás longe!

 

Não, passarinho, não podes seduzir-me, sigo o caminho do único. - Espreito pela névoa da manhã e procuro o seu rosto dourado.

 

Viro o meu rosto quente para sentir o seu hálito fresco.

 

Os olhos de Amerotke começaram a fechar-se. Endireitou-se sobressaltado, e rezou para não passar pela vergonha de adormecer. Perguntou a si mesmo qual seria a disposição da imperial senhora. Ela exigiria respostas. Devia já saber que Amerotke informara o grupo de Karnac de que a morte de Ipumer estava relacionada com a de Balet e que talvez tivessem de ser todos interrogados em tribunal. Eles não haviam gostado; nem Hatusu iria gostar.

 

- Há muito tempo à espera, meu senhor?

 

Amerotke levantou a cabeça. O promotor Ualu encontrava-se à porta, a cabeça e o rosto reluzentes devido ao óleo. Envergava elegantes vestes brancas com sandálias prateadas nos pés. Pintara os olhos e os lábios; as unhas das mãos e dos pés estavam vermelho-escuras.

 

- Também fui convocado.

 

Ualu aproximou-se e sentou-se ao lado dele com uma expressão divertida.

 

- Pareces cansado, Amerotke. Amanhã, quando te enfrentar no tribunal, estarás atento?

 

- Naquilo que te diz respeito, delegado Ualu, sou todo ”olhos e ouvidos”.

 

Ualu soltou uma gargalhada.

 

- Sei que os teus criados e os meus têm andado muito atarefados - declarou Ualu. - Sabes o que descobri? Uma boa testemunha, um soldado que deteve o Ipumer no seu regresso à cidade naquela noite. Parece que foi admitido por um dos portões mais pequenos. O escriba afirmou não se sentir bem. Gracejou dizendo que não sabia que os prazeres do amor podiam afectar-lhe o estômago. O soldado achou que ele estava bêbedo, ou pelo menos tocado. ”Onde estiveste, senhor?”, perguntou ele. ”Na Casa da Gazela Dourada”, respondeu o Ipumer.

 

- Isso continua a não provar que a senhora Nechratta seja uma assassina! - ripostou Amerotke.

 

O debate teria continuado, mas as portas de cedro foram abertas.

 

- O Ser Divino - anunciou um pomposo camareiro dignou-se brindar-vos com o seu sorriso. Podeis entrar na Casa da Adoração!

 

Ualu olhou para Amerotke e revirou os olhos. Seguiram o camareiro. A Sala Ametista era circular, com pilares à volta, no meio dos quais havia janelas com vista para o jardim privado do faraó. As paredes, tecto e chão eram de uma pedra brilhante muito rara, que refulgia como a ametista. Ouro e prata decoravam o topo e a base dos pilares. Os candeeiros a óleo, escondidos atrás de painéis transparentes nas paredes, davam a impressão de que a sala estava a ser aquecida e iluminada por um fogo misterioso.

 

Hatusu esperava-os no trono de ouro e prata sobre o estrado, na outra ponta da sala. Amerotke e Ualu avançaram até meio, ajoelharam-se e encostaram as testas ao chão, que, com motivos de ouro e prata, estava frio. Amerotke olhou rapidamente para a direita. Fora preparado um local para comerem sob uma janela: um círculo de almofadas com mesas cheias de fruta, carne, pão, taças e jarros de vinho. O camareiro pigarreou.

 

- Regozijamo-nos - entoou Ualu, lembrando-se do protocolo - por termos sido convocados para a vossa presença, pois o vosso sorriso, ó Ser Divino, é melhor que mil dias de prazer. A vossa presença aquece-nos como o Sol.

 

- Ámen! - acrescentou Amerotke à pressa.

 

As portas fecharam-se atrás deles quando o camareiro saiu.

 

- Podem aproximar-se - disse Senenmut, de pé ao lado de Hatusu.

 

Amerotke suspirou e pôs-se de pé. Hatusu estava mal-humorada! Avançando até aos degraus cobertos de almofadas, prostraram-se novamente e beijaram as sandálias prateadas com rosetas bordadas a ouro.

 

- O vosso rosto é belo... - entoou Ualu.

 

- Acho que já chega dessas coisas! - retorquiu Hatusu.

- Podem levantar-se os dois.

 

Amerotke e Ualu obedeceram. Hatusu sorriu-lhes. Envergava uma túnica vermelho-escura, uma gargantilha de ouro com várias jóias incrustadas. Nas suas orelhas e nos seus dedos brilhavam ametistas; as suas pulseiras eram de marfim.

 

- Gostam do meu rosto? Usei diferentes tintas e pós. Olhou rapidamente para Senenmut de pé atrás do trono, uma mão pousada no leão de ouro. - Senenmut acha que pus demasiado vermelho e que devia usar kohl verde e não preto em redor dos olhos.

 

- Estais muito bela - prosseguiu Ualu no mesmo tom.

 

- És um lisonjeador. - Hatusu levantou-se e pôs-se em bicos de pés, olhando para o fundo da sala. - Óptimo, fecharam a porta.

 

Avançou, e Amerotke sentiu o aroma agradável do seu perfume.

 

- É uma mistura - explicou ela, como se o tivesse ouvido cheirar. - Canela, amêndoas amargas, incenso e mirra. Pareces cansado, meu senhor. Como estão as Terras Vermelhas?

 

- Melhores, agora que já me vim embora de lá.

 

- Acho que foi uma pergunta estúpida - comentou a rainha com um suspiro.

 

Agarrou numa das mãos de Ualu e de Amerotke e conduziu-os pelos degraus abaixo. Tropeçou ao chegar ao chão e praguejou entre dentes.

 

- Se estivesse a dar uma audiência não podia ter feito isto, pois não? - Virou-se e deu um pontapé na almofada em que tropeçara. - Lembrei-me de me vestir a condizer com a sala. O meu pai costumava encontrar-se aqui com os seus cortesãos. As gargalhadas ecoavam por todo o palácio.

 

Conduziu-os até às mesas agrupadas no centro, batendo nas almofadas, cruzando as pernas e servindo-se de comida e bebida.

 

- Vem! - disse para Senenmut. - Ainda não disseste uma palavra, meu senhor. Estou esfomeada e Amerotke parece prestes a adormecer. Não há nada como um embaixador estrangeiro a falar durante horas para nos deixar com fome.

 

Hatusu distribuiu a comida, partiu o pão e colocou alguns pedaços em pratos de prata com jóias incrustadas. Servindo-se de um garfo de ouro tirou carne de vaca cozida em molho de vinho e acabou de encher os pratos com pepino, alface e outros legumes.

 

- Vamos comer com os dedos - anunciou com um sorriso, olhando em volta. - E... delegado Ualu, deixemo-nos de cortesias. Quero nadar no Lago da Purificação antes de me retirar... - Sorriu para Senenmut. - Antes de nos retirarmos. Amerotke pôs-se à vontade. Senenmut parecia taciturno. O juiz apercebeu-se pela forma como a rainha se mostrava sedutora com ele próprio e com Ualu de que ela e o amante deviam ter discutido. Hatusu comia com delicadeza, sorrindo sempre que tinha a boca vazia.

 

- Admiro imenso a cor das tuas unhas - arruinou Hatusu para Ualu. - Quero ver se a arranjo para mim.

 

- É uma mistura pessoal, minha divina senhora.

 

- Vai deixar de o ser - retorquiu a rainha com uma gargalhada. - Bem, bem, bem. - Levantou a taça. - Este vinho é do outro lado do Sinai, da melhor vinha de Canaã. Meus senhores, façamos um brinde: à Casa da Adoração e à glória de Ré!

 

- Que viva por um milhão de anos! - acrescentou Ualu.

 

- Muito bem! - Hatusu pousou a taça e deu uma palmadinha na barriga. - Estou a ver que vou ser a alma desta festa. Amerotke - inclinou-se para a frente e tocou-lhe no ombro -, não ouses adormecer. - O sorriso desapareceu do seu rosto. - Já me contaram o que aconteceu no oásis de Assiua. Já o disse ao meu senhor Senenmut: uma escolta militar devia ter-vos acompanhado.

 

- Mas o Karnac insistiu e tu concordaste! - retorquiu Senenmut irritado.

 

Hatusu virou-se e pestanejou.

 

- Não me recordo disso. Senenmut fitou-a furioso e pegou na taça.

 

- Amerotke, estamos à espera - continuou a rainha. O que é que o teu espírito sagaz descobriu? Que o general Pechedu é suspeito? Vamos interrogá-lo em tribunal?

 

- Minha senhora, esqueçamos o Pechedu por um momento. O que vou dizer-te agora não passam de conjecturas. Não disponho de provas. As Panteras do Sul são heróis de Tebas. É verdade, minha senhora, podiam ter sido mortos e capturados juntamente com este teu juiz sem valor.

 

- Nesse caso eu ter-me-ia transformado em alvo de chacota. - Os olhos de Hatusu brilhavam de fúria. - vou mandar arrancar os testículos ao responsável!

 

- As Panteras do Sul - prosseguiu Amerotke - são heróis.

 

São a glória de Tebas. Durante trinta anos viveram à grande. Agora há um assassino entre eles. vou chamar-lhe o ”setiano”, porque é um verdadeiro devoto do deus Set. Desconfio que, há coisa de dezoito meses ou dois anos, houve uma mudança naquele nobre grupo de heróis: uma terrível brecha que nenhum deles reconheceu ou sobre a qual decidiram calar-se. Um deles é o setiano. Acredito realmente nisso.

 

- Mas, meu senhor Amerotke... - Ualu fez um gesto com a taça na mão. - Todos eles estavam nas Terras Vermelhas em Assiua. Se os vagabundos da areia, os atacantes, tivessem sido bem-sucedidos, também ele teria sido capturado.

 

Amerotke limpou o rebordo da taça.

 

- A minha conclusão é de que ele não se importa. Como um guerreiro que se lança para a batalha, não lhe interessa ganhar ou morrer...

 

- Desde que o seu inimigo perca. - Hatusu concluiu a frase.

 

- Precisamente, minha senhora: esse é o verdadeiro indicador da maldade. O seu coração tornou-se mau, a sua mente pensa apenas em vingança, por razões que desconheço. Decide atacar o cerne deste grupo de heróis. Esteve presente na grande vitória do faraó sobre os Hicsos. Sabe tudo acerca de Meretseger. Conseguiu alguns dos seus medalhões e sabe onde o corpo dela estava sepultado. Na verdade, pode ter sabido mais sobre a família de Meretseger do que qualquer um de nós. Planeou uma vingança subtil e cruel. Acabou por descobrir que o escriba conhecido como Ipumer, filho ou familiar de Meretseger, está vivo em Auaris. O Ipumer era hicso, provavelmente filho de um príncipe.

 

- Poderia ter sido filho de Meretseger? - perguntou Hatusu.

 

- Possivelmente - respondeu Amerotke. - Se tivesse nascido pouco antes de ela morrer, tinha a idade certa. Pelo menos, possuía a tatuagem sagrada dos nobres hicsos. O setiano subornou, encorajou, motivou Ipumer a vir para Tebas. O escriba será o instrumento com que o setiano atacará os seus companheiros.

 

- Porque haveria o Ipumer de concordar? - perguntou Senenmut. - Era uma tarefa perigosa.

 

- Talvez ele quisesse vingar-se, causar estragos... O Ipumer era um homem venal. Talvez o valor do suborno fosse tão aliciante que ele tenha sido incapaz de resistir.

 

- Mas o Ipumer não descobriria a identidade do setiano?

- indagou Ualu.

 

- Não, acho que eles se encontravam em sítios pouco iluminados a meio da noite e que o setiano ocultava o rosto com uma máscara de Hórus. - Amerotke encolheu os ombros. - Isso não é nada de extraordinário. Qualquer pessoa que passeie por Tebas pode encontrar muitos devotos de determinado culto ou membros de uma certa sociedade envergando máscaras do seu deus.

 

Hatusu meteu a mão debaixo das almofadas e tirou de lá um espelho com cabo de madrepérola. Observou-se atentamente.

 

- Tenho sempre um junto de mim - murmurou ela. E, a propósito, Amerotke, tens razão. O meu senhor Senenmut e eu usamos sempre máscaras quando passeamos por Tebas à noite. - Sorriu ao ver o espanto de Ualu. - Esse setiano intriga-me.

 

Agarrou na coroa branca com a uraeus dourada, a cobra-capelo a atacar, levantou-a com cuidado da peruca perfumada e pousou-a na almofada ao lado.

 

- Está demasiado apertada - explicou. - vou ter de dizer ao guardião do diadema que lhe dê uma olhadela. Continua, Amerotke.

 

- O setiano aluga um quarto na Rua das Lamparinas a Óleo. Utiliza o nome do Ipumer, mas o quarto é para ele. Irá encontrar-se ali com o escriba. Simultaneamente, o setiano persuade o general Kamun a arranjar trabalho para o rapaz na Casa de Guerra. Isso pode ser facilmente feito. Kamun não desconfia de nada. Esse mecenato é bastante comum. O setiano pede a Kamun para guardar segredo, contudo nada tem a temer. Uma das primeiras tarefas de Ipumer é visitar o general Kamun, agradecer-lhe, lisonjeá-lo e envenená-lo.

 

- Acreditas nisso? - perguntou Senenmut.

 

- Sim. O setiano, ou o próprio Ipumer, retira depois os documentos da Sala dos Arquivos. Ninguém sabe quem trouxe o Ipumer para Tebas. Ninguém sabe nada sobre o seu passado.

 

- Mandei os meus espiões a Auaris - interrompeu Ualu. - Podem levar semanas...

 

- E nessa altura - continuou Amerotke -, as Panteras do Sul terão sido assassinadas. Bem, o setiano apresenta o rapaz num banquete ou numa festa. Mais uma vez, isso não é difícil. O Ipumer trabalhava na Casa de Guerra. Porque não haveria de assistir a uma confraternização militar? - Amerotke fez uma pausa. - Posso apenas conjecturar, mas é aqui que o plano do setiano corre mal. Talvez o Ipumer tivesse de seduzir e denegrir a senhora Nechratta, provocar escândalo, manchar o nome da família dela. Ou podia até ter sido uma coisa mais simples...

 

- O Ipumer apaixonou-se por ela?

 

- Sim. A certa altura, torna-se distraído. Talvez se tenha fartado da missão... tenha objectado, levantado obstáculos. Possuía uma coisa em mente: Nechratta. Tudo o resto foi ignorado.

 

- Porque é que o setiano não se limitou a matá-lo? perguntou Ualu.

 

- Talvez o tenha feito - disse Amerotke com um sorriso. - É isso que estou a procurar resolver na Sala das Duas Verdades. Ou talvez o setiano se tenha contentado em ver a senhora Nechratta a fazer figura de idiota. Um romance daqueles só podia terminar mal e com muitas lágrimas à mistura.

 

- Concordo - declarou Senenmut. - O Pechedu tornou-se alvo de chacota, com a filha a comportar-se como uma heset, a sair de casa a meio da noite para se ir deitar com o amante no meio da lama.

 

- Mas há mais. - Amerotke bebeu um gole da sua taça.

- Agora que o Ipumer está morto, em circunstâncias misteriosas, a família do Pechedu e todos os seus segredos estão expostos ao olhar público. A preferência do general Pechedu por hesets e cortesãs em breve se tornará do conhecimento geral. Será uma vergonha, também para a sua mulher. E ainda temos de descobrir que segredos ela guarda.

 

- Ah, a heset que foi assassinada! - èãíclamou Ualu. Oh, sim, Amerotke, também eu tenho espiões na Casa de Morte. Aquela que estava grávida.

 

- Grávida? - repetiu Hatusu.

 

Amerotke contou-lhe rapidamente o que sabia.

 

- O que estás a dizer? - perguntou a rainha. - Será que o Pechedu podia ter morto aquela rapariga do templo? Talvez esteja envolvido no assassínio do Ipumer. - Soltou um gemido. - Seja o que for, percebo o teu raciocínio, meu senhor. O Pechedu vai ser desonrado, gozado por toda a Tebas. O dedo acusador ser-lhe-á apontado. Pode ser ele o setiano?

 

- Qualquer um deles o pode ser. Mas... - Amerotke abanou a cabeça. - Ainda não consegui entrar na mente do assassino. Acredito que ele se fartou dos joguinhos do Ipumer e decidiu tomar o assunto nas suas próprias mãos. Tentei descobrir o paradeiro de todos na altura em que o general Balet foi morto, mas é quase impossível. O setiano devia saber isso: os heróis têm criadagem diferente. Não posso determinar se o que me disseram era verdadeiro ou falso.

 

- Como é que o assassino do Balet entrou na Capela Vermelha sem fazer barulho? - perguntou Senenmut.

 

- Entrou por uma janela de um jardim. Um homem que conheço - Amerotke sorriu -, um dos amigos de Chufoi, descobriu que é possível entrar no jardim, subir por uma janela e atravessar o corredor que dá para a Capela Vermelha. Foi capaz de o fazer antes de o sacerdote ou a mulher darem por isso.

 

- E não fez barulho? - perguntou Senenmut. - O alarme não soou? Disseste que o Balet não desistiria da vida com muita facilidade.

 

- Foi atacado por trás; morreu antes de perceber o que estava a acontecer. Acho que o assassino virou bancos e desarrumou tudo para fazer parecer que ali ocorrera uma luta. Isso só adensou o mistério; aumentou a impressão de que o assassínio do Balet teve mais a ver com a vingança do mundo inferior do que com a maldade dos homens. Realçou essa idéia arrancando os olhos do Balet, atando-lhe os tornozelos e pulsos com cordel vermelho e salpicando as taças com o sangue do pobre homem. Depois saiu rapidamente e em silêncio. O sacerdote devia estar a dormir, com a mulher. Pelo que me apercebi, são um par caricato, mais preocupado com os seus prazeres do que com rezar e fazer sacrifícios...

 

Hatusu disse qualquer coisa acerca de os despedir.

 

- E o cadáver de Meretseger? - perguntou Senenmut.

 

- Oh, isso foi bastante fácil. As Panteras do Sul têm carros. O setiano foi até ao oásis de Assiua. É um local isolado. O túmulo foi aberto, os ossos, ou o que restava, foram colocados numa urna e trazidos para Tebas. A todas as horas do dia saem desta cidade inúmeros carros. Pode ter sido há meses.

 

- Onde estarão esses restos mortais? - perguntou Hatusu com ar pensativo.

 

- Nalgum esconderijo no deserto. Talvez o setiano lhe tenha construído um altar. Já percebemos que é uma pessoa cheia de ódio. Percebeu, assim que os assassínios começaram, de que o túmulo de Meretseger seria visitado e, claro, as únicas pessoas que conheciam a sua localização eram os companheiros. É fácil contratar bandidos, foras-da-lei e mercenários. Um ataque brutal repentino e as Panteras do Sul seriam raptadas, mortas ou humilhadas; assim ele ficaria vingado. Mas descurou uma coisa: independentemente da opinião que tem sobre Karnac e os companheiros, eles são tão bons a matar quanto ele. Acredita nisto, minha senhora rainha, que passei um dia com eles: aqueles homens nasceram para combater. Têm prazer nisso.

 

- E agora? - perguntou Senenmut.

 

- O setiano está frustrado; por isso, tentará matar os companheiros um a um. Atacará rápida e impiedosamente.

 

- Mas porquê? - inquiriu Ualu.

 

- Se eu soubesse, senhor delegado, apanharia o assassino.

 

- E tens de interrogar o Pechedu? - perguntou Senenmut. O grão-vizir inclinou-se para a frente e encheu as taças de vinho.

 

- Sim, tenho.

 

- Concordo - interveio Ualu. - Temos de estabelecer o que aconteceu exactamente na Casa da Gazela Dourada na noite em que o Ipumer morreu.

 

- Mas, meu senhor Amerotke - brincou Hatusu -, andas às voltas e não chegas a conclusão nenhuma... Haverá mais alguma coisa?

 

- Tenho curiosidade em saber como é que o Ipumer conseguiu alugar um quarto em casa da viúva Lamna - retorquiu Amerotke. - E por que motivo se tornou tão íntimo da outra, Felima, e ainda que tipo de relação tinha com o médico Intef. Delegado Ualu, como sabes, o Ipumer chegou a casa certa manhã adoentado. Todos confirmaram isso. Porque não foi ele a casa de Intef) Deve ter passado por ela no caminho.

 

Ualu emitiu um estalo com a língua.

 

- Se ao menos Nechratta tivesse confessado - retorquiu ele, pesaroso. - Se conseguíssemos descobrir com quem se encontrou o Ipumer naquela noite. Contudo, a criada e a irmã mais nova dela são peremptórias: naquela noite Nechratta não saiu do quarto.

 

Ia continuar quando bateram à porta. Um camareiro de expressão ansiosa entrou e prostrou-se, a testa encostada ao chão.

 

- O que foi? - perguntou Hatusu.

 

- Uma mensagem urgente para o delegado Ualu, ó Ser Divino!

 

A rainha fez sinal com os dedos a Ualu que podia retirar-se. Depois de ele ter saído, inclinou-se para a frente.

 

- Deverá o caso da Nechratta ser encerrado, Amerotke? Porque não o ignoramos?

 

O juiz susteve o seu olhar.

 

- Minha senhora, sabes bem o que iria acontecer. A justiça do faraó é para todos ou só para alguns? Iriam dizer que sou o teu pau-mandado, um juiz comprado e vendido como um boi no mercado.

 

- Valeu a pena tentar. - Hatusu suspirou, exasperada.

- Mas conheces aquela velha canção, Amerotke. Não repetirei as palavras. Karnac e os outros são bastante estimados. Têm uma grande influência no exército. A morte sacrílega do Balet já foi o que foi, mas ver um dos companheiros ficar com a reputação arruinada... - Calou-se quando Ualu regressou.

 

O delegado tornou a sentar-se nas almofadas.

 

- Eu tinha as minhas suspeitas - murmurou ele.

 

- O que foi? - perguntou Hatusu.

 

- Ora, boatos ouvidos pelos meus espiões de que a viúva Felima e o médico Intef não eram o que pareciam.

 

- Sé mais preciso! - ordenou a rainha.

 

- Adoraria sê-lo, minha senhora. - A voz de Ualu era mordaz. - E, daqui a uns tempos, poderia sê-lo. Houve mais mortes: encontraram a viúva Lamna estrangulada no quarto. Os restos mortais de Intef e Felima foram descobertos na casa incendiada desta... parece que ambos misteriosamente assassinados por um archeiro. As setas continuavam cravadas nos corpos carbonizados. O assassino pegou fogo à casa; também destruiu a de Intef da mesma forma.

 

Amerotke fechou os olhos. Uma possível resolução de tudo aquilo acabava de se desfazer.

 

- Mas porquê? - perguntou Senenmut.

 

- O setiano está a proteger-se - declarou Amerotke. O Ipumer morreu e ele quer ter a certeza de que todas as pistas que apontem na sua direcção são destruídas. - Olhou para Ualu. - Disseste que a viúva Felima e o médico Intef eram suspeitos?

 

Ualu mostrou-se carrancudo.

 

- São apenas boatos. Viviam como se tivessem pouco dinheiro, no entanto eram relativamente abastados. bom linho sob mantos sujos - explicou. - Mas qual seria a fonte da sua riqueza oculta? - Abanou a cabeça. - Meu senhor juiz, o teu palpite é tão bom como o meu. Poções, pós, drogas para proporcionar sonhos? E que mais?

 

- Uma coisa é certa: foram assassinados pelo mesmo motivo que aquela pobre heset - murmurou Amerotke. - O setiano é implacável. Está a tentar distanciar-se o mais possível do escriba.

 

- Se for esse o caso - observou Ualu - pode haver outra vítima cujo cadáver ainda não foi descoberto. O Ipumer tinha um amigo, um colega da Casa de Guerra, o escriba Hepel, um homem consciencioso. Não foi trabalhar hoje e não está no quarto. Foi visto pela última vez nas casas de vinho junto ao cais.

 

Amerotke agarrou na taça.

 

- Ele voltará a matar em breve - garantiu. - Digo-te uma coisa, minha senhora: antes de a Lua voltar a subir no céu o setiano terá reclamado mais uma vítima.
Set: oponente de Hórus, o deus da Luz.

 

O assassino a quem Amerotke chamava setiano não tinha paz. Atravessara o Nilo, encapuzado, e parara algum tempo diante da estátua de Osíris, o supremo ser do Ocidente. O templo fê-lo pensar, tocou-lhe o coração e a consciência e fez surgir recordações de dias mais felizes. Embora a escuridão já tivesse caído, o ar continuava pesado com os aromas pungentes das lojas e casas de mumificação, o cheiro agridoce da mirra e do incenso misturado com o aroma salgado do natrão, recordando-lhe os dias que passara no delta junto ao Grande Verde. Olhou para o céu e viu a Lua, tão luminosa, tão próxima, que teve a sensação de poder tocar-lhe se estendesse o braço. Os visitantes da necrópole apressavam-se. Não ligaram importância ao setiano. A maior parte deles fora comprar urnas, frascos e outros objectos funerários. Outros tinham ido visitar os túmulos da família, apreciando a noite quente enquanto comiam e bebiam com amigos e falavam sobre os entes queridos que tinham partido para o Horizonte Longínquo.

 

Nas portas e janelas havia velas e lamparinas a óleo. Archotes de pez e alcatrão haviam sido acesos e as chamas combatiam corajosamente a escuridão. Ao longo do largo cais avançava um carro: pertencia aos esquadrões que regressavam da patrulha às Terras Vermelhas. Um vagabundo da areia, de mãos amarradas, preso à parte de trás de um carro, cambaleava, gemendo e gritando por causa dos ferimentos. As crianças atiravam pedaços de terra ao malfeitor, que poderia passar o dia seguinte na Casa de Morte antes de ser executado. Um grupo de guardas da necrópole, vestidos de cabedal preto, os rostos ocultos pelas máscaras de chacal, avançavam pela estrada principal, precedidos por dois rapazes com archotes na mão.

 

O setiano colocou a sua máscara de Hórus. Avançou pelas ruas estreitas e curvas. Mendigos, com os seus olhos cegos brancos e leitosos, pediam esmola nas esquinas. Aleijados e idiotas de rostos deformados rastejavam nos montes de lixo envoltos por nuvens negras de moscas. Duas prostitutas de braço dado nuas com excepção das tangas desbotadas, os corpos reluzentes do óleo e a cheirar a perfume barato, apontaram os seus leques na direcção do setiano, incitando-o a aproximar-se. O assassino continuou a andar. Um cão perseguiu-o a ladrar. Ele levantou o bastão: o animal fugiu. Crianças dançavam e brincavam nas ruas junto às portas abertas. Lá dentro, os pais, trabalhadores na Cidade dos Funerais, preparavam-se para fechar as lojas, contando os lucros e guardando a mercadoria. Mulheres nos terraços conversavam umas com as outras. Ouviam-se vindos de algures um alaúde e a voz de uma criança, surpreendentemente forte, que cantava as maravilhas do Nilo e uma viagem à Terceira Catarata. O setiano continuou a andar, balançando o bastão; a sua máscara não chamava a atenção. Estava na Cidade dos Mortos. A noite caíra. Criaturas estranhas povoavam as ruas. Tapou a boca ao passar por uma cabana de mumificação. Nuvens de vapor saíam lá de dentro e os corpos dos trabalhadores, banhados em suor, continuavam debruçados sobre os cadáveres, preparando-os para o funeral, logo após a alvorada.

 

Por fim o setiano deixou a cidade para trás. Avançou por um caminho empedrado cheio de areia, sob os penhascos que davam para a Cidade dos Mortos. Poucas pessoas iam até ali. Era a orla das Terras Vermelhas. Os caminhos conduziam todos ao deserto ou as suas curvas e contracurvas acabavam em vales sombrios. O setiano parou para se certificar de que ia na direcção correcta. Era um local solitário; contudo, devido à proximidade do Vale dos Reis, era patrulhado e guardado pelas tropas do deserto do faraó.

 

O setiano subiu devagar. Parou e olhou em volta. As luzes da necrópole brilhavam como uma miríade de pirilampos; para lá delas, o Nilo reflectia o luar.

 

O setiano chegou ao local onde Hepel morrera, Acocorou-se, juntou giestas secas e fez uma fogueira. Examinou o chão e grunhiu de satisfação. Não havia vestígios do cadáver de Hepel: os predadores da noite haviam tratado disso. Atirou terra para a fogueira e continuou a subir.

 

Entrou numa ravina estreita e dirigiu-se para a entrada de uma pequena caverna, uma das muitas na rocha. Penetrou rapidamente na escuridão. Como um animal, agachou-se à entrada e escutou os sons da noite. Reconheceu o perigo dos leões: desesperados por alimento, aqueles enormes felinos saíam das Terras Vermelhas para caçar e chegavam a atacar os mais incautos na orla da necrópole. Ainda mais temíveis eram as matilhas de hienas famintas, que farejavam a presa a quilômetros de distância. Contudo, para além do piar de uma ave nocturna, o setiano não pressentiu perigo. Tacteou no escuro à procura de madeira e acendeu um dos archotes escondidos na entrada. Meteu-o numa fenda e penetrou mais na caverna.

 

O esqueleto de Meretseger encontrava-se ao fundo, enegrecido pelo passar dos anos. Ele encostara-o a uma rocha. A caveira cortada, presa com um cordel, transformava o conjunto de ossos escuros em algo assustador e grotesco. O setiano, com uma ironia macabra, colocara os olhos do comandante Balet nas órbitas vazias, mas estes haviam caído. O setiano acocorou-se diante do esqueleto e tirou a máscara de Hórus para melhor observar aquela monstruosidade. Não tinha medo dos restos patéticos de uma feiticeira morta: só precisava dos poderes dela, da sua maldade. Afinal de contas, fora ela que começara tudo aquilo. Sentiu de novo uma onda de compaixão. Lembrou-se da noite gloriosa em que tinham entrado no acampamento dos Hicsos e haviam levado aquele cadáver. Agora, outras sombras mais escuras lhe aprisionavam a alma. Nunca perdoaria o pecado cometido. Pegou na pequena bolsa de cabedal que trazia à cintura e deixou cair as peças de senet para a palma da mão. Deixou-as cair no chão, fechou os olhos e pegou numa. Tacteou o hieróglifo e sorriu. Escolhera a vítima seguinte.

 

O dia começava a nascer quando, como de costume, o general Ruah se levantou. Apesar da viagem às Terras Vermelhas, do combate com os vagabundos da areia e dos perigos que agora o ameaçavam, o militar estava decidido a não permitir que lhe alterassem a rotina diária. Dirigiu-se à casa de banho, onde o seu escravo lhe deitou jarros de água fria para cima. Em seguida sentou-se num banco enquanto o mesmo criado o barbeava e lhe rapava a cabeça, massajando-o depois com óleo e com os suaves perfumes de que Ruah tanto gostava. Depois, vestiu uma túnica branca com uma faixa que tinha bordado o emblema do Regimento de Set, calçou umas sandálias e foi até ao terraço da sua mansão. Ajoelhou-se numa almofada e virou-se para este, de mãos estendidas, cabeça baixa, a rezar ao sempre vitorioso, sempre eterno, sempre sagrado e supremo Amon-Ré. Virou-se para norte e sentiu a fresca brisa refrescante que soprava sempre que o Sol nascia. O comandante fechou os olhos e endireitou-se. Murmurou a oração do regimento ao ruivo Set. Invocou todos os guardiães daquela casa e do regimento para que o protegessem a ele e à família naquele dia.

 

Abriu os olhos e observou aquele milagre do céu a transformar-se numa estonteante variedade de cores enquanto o Sol ia subindo no horizonte. Diferentes tonalidades de vermelho-dourado como luz líquida do Sol jorravam sobre o Horizonte Longínquo. Um dia Ruah faria aquela viagem, mas estava preparado. Lera O Livro dos Mortos e O Livro das Portas. Sabia como responder aos diferentes deuses que encontraria à entrada do mundo inferior. Quando chegasse à Sala do Julgamento, tinha a certeza de que a sua alma seria pesada com justiça na balança de Maet. Entraria nos belos campos, na terra do dia eterno. Fora fiel ao faraó. Juntar-se-ia aos seus companheiros.

 

Ruah sentiu-se invadido por uma grande tristeza. Amara o general Balet mais do que um irmão. Quem podia tê-lo morto de forma tão horrenda e grotesca? Quem violara o túmulo de Meretseger e roubara os restos daquela mulher malévola? Não gostava do perspicaz juiz Amerotke, com as suas perguntas astutas e silêncios atentos. Quem era ele para julgar as Panteras do Sul? Que provas tinha de que um deles era o assassino? Ruah conhecia aqueles homens desde que eram adolescentes. Como confessara à mulher, bem como ao sacerdote da sua capela, não se recordava de nenhum agravo que pudesse provocar actos tão horrendos.

 

Ruah suspirou. Adorava aquela altura do dia; não iria permitir que pensamentos tão negros o influenciassem. Desceu em silêncio as escadas, comeu pão, vinho e fruta e dirigiu-se ao seu espaçoso jardim. Aquele era o seu paraíso. Ruah aproveitara o seu dinheiro para importar árvores e plantas de todas as partes do império: salgueiros, romãzeiras, sicômoros, bem como flores raras como papoilas. Gostava especialmente da tamargueira dedicada à deusa do céu Nut, bem como daquelas plantas e ervas medicinais que vendia aos médicos do exército.

 

Ruah avançou pela relva, o servo e os guarda-costas a segui-lo até à beira do lago. Aquele era o grande orgulho de Ruah. Feito pela mão do homem, aquele lago artificial estendia-se até uma pequena ilha na outra extremidade. Ruah inspirou profundamente. Ah, o aroma dos papiros! A superfície espelhada do lago ondulava de vez em quando devido a uma carpa que ia mordiscar as delicadas flores de lódão. Ruah trouxera os melhores arquitectos de Tebas. Haviam desviado água do Nilo e a ilha cobrira-se de relva e flores. No centro da ilha erguia-se um pavilhão muito bonito onde Ruah podia abrigar-se para escrever as suas memórias, beber vinho e reflectir sobre as glórias do passado.

 

O lago ganhava vida. As aves desciam até à sua superfície, os lódãos abriam-se para saudar o Sol. A própria água estava a mudar, reflectindo a luz brilhante do sol-nascente.

 

- Vais atravessar, meu amo? - vou atravessar agora.

 

O servo estalou os dedos. Os guarda-costas dirigiram-se aos seus postos em torno do enorme lago. Fora Ruah quem o decidira. Se um assassino andava a persegui-lo, que lugar mais seguro que a sua ilha, vigiada e guardada por homens de confiança? Ajudado pelo servo, Ruah subiu para a barcaça comprida e estreita e pegou na vara. Deu uma ordem e o servo empurrou-a. Ruah, servindo-se da vara com destreza, viu a proa da barcaça abrir caminho por entre as flores de lódão em direcção ao seu paraíso privado. A embarcação deslizava sem esforço, e Ruah continuava a impulsioná-la. Chegou à margem, subiu para terra, agarrou na corda e amarrou-a ao ancoradouro, subindo em seguida até ao pavilhão por um carreiro.

 

Feito de madeiras preciosas sobre uma base de pedra, o pavilhão era circular, a madeira pintada de verde e dourado com um pequeno telhado em forma de pirâmide. As janelas, protegidas por gelosias, abriam-se para que Ruah pudesse saborear todos os aspectos da sua ilha. O comandante subiu os degraus, abriu a porta e entrou. Estava tudo em ordem: as mesas, as cadeiras, os cofres, o diva ornado com uma cabeça de pantera, onde ele costumava repousar. Ruah inspirou o doce aroma do sândalo. Sim, iria escrever primeiro...

 

Mal tinha dado três passos quando ouviu o som; virou-se, mas era tarde de mais. O maço de guerra caiu sobre o lado da sua cabeça, esmagando carne e osso. O general Ruah cambaleou e, com um gemido, caiu ao chão.

 

À beira do lago, o servo e os guardas não se tinham apercebido de nada. Dedicavam-se às tarefas habituais. Alguns haviam trazido comida e vinho; outros, jogos, disputando sozinhos partidas de senet, lançando os dados. Outros limitavam-se a observar e esperar. O comandante passava sempre as primeiras três horas do dia na ilha e regressava para cumprimentar a mulher e a família. A rotina era sempre a mesma. Quase que podia saber-se as horas do dia observando-o, pelo que o servo ficou alarmado ao ver os primeiros sinais de fumo cinzento erguerem-se acima das árvores. As outras sentinelas viram o mesmo e levantaram-se de um salto, sem saberem o que fazer. O general Ruah era excêntrico. As vezes gostava de desempenhar o papel do velho soldado e acender uma fogueira. Outras vezes arrancava as ervas daninhas do jardim e da horta e queimava-as. Contudo, o servo percebeu que havia qualquer coisa de estranho. O suor nas suas costas gelou: o fumo era mais denso do que devia ser. E pior, trazido pelas águas do lago vinha o som de madeira a crepitar.

 

- Há qualquer coisa que não está bem! - gritou ele.

 

Acompanhado pelos outros, desceu até ao pequeno ancoradouro, onde se encontravam mais barcaças. Os homens subiram rapidamente para elas e começaram a remar. Quando chegaram à ilha, cheiraram e ouviram o fogo. Correram pelo carreiro acima e estacaram horrorizados. O belo pavilhão do general Ruah fora transformado num inferno. As chamas irrompiam do telhado ornamentado, que tombou no meio de uma chuva de fagulhas. As paredes começaram a inclinar-se. O servo, protegendo os olhos, tentou aproximar-se, mas o calor era demasiado intenso.

 

- General Ruah! General Ruah!

 

Talvez não estivesse lá dentro... O servo ordenou uma busca. Os criados espalharam-se, agarrando-se à esperança de que o incêndio tivesse sido um acidente e de que o amo estivesse noutro local. Reinavam a confusão e o caos. Alguns criados observavam a cena, especados, outros continuavam a busca infrutífera. Alguns regressaram rapidamente às barcaças ansiosos por avisar do ocorrido as outras pessoas da casa. Mas o servo de Ruah recusava-se a abandonar o local. Tentou organizar um grupo de homens para trazerem água do lago, mas isso não passava de uma idéia vã. O fogo começou a abrandar. Para além dos degraus e da base de pedra, o belo pavilhão deixara de existir. O criado soube que o seu amo morrera lá dentro.

 

- Uma morte terrível! - murmurou.

 

Nem cadáver, nem funeral cheio de pompa, nem preparativos para a viagem do general pelo mundo inferior. O servo tapou o rosto com as mãos e soluçou amargamente enquanto as chamas, sem mais nada para destruir, começavam a extinguir-se.

 

Amerotke encontrava-se na sala de trabalho quando recebeu a notícia. Ele e Ualu haviam saído da Casa do Milhão de Anos às primeiras horas da manhã. Tinham concordado que o tribunal só poderia reunir-se no dia seguinte. Quando o mensageiro lhe contou o que acontecera. Amerotke percebeu que a sua profecia estava certa: o setiano atacara e atacaria de novo até estar satisfeito.

 

O juiz e Chufoi chegaram à mansão de Ruah e encontraram-na em alvoroço. A viúva do general tomara um sedativo dado pelo médico enquanto as duas filhas e o filho se abraçavam, chorosos, no vestíbulo. Os criados corriam de um lado para o outro. Asural já lá se encontrava, tendo sido convocado por Amerotke.

 

- É um mistério - declarou ele enquanto atravessavam o jardim rumo ao lago.

 

O Sol já ia bem alto, reflectindo-se na superfície do lago. Amerotke olhou para a ilha. Do meio das árvores continuava a elevar-se fumo cinzento. O vento transportava o aroma de madeira queimada e de algo mais, semelhante ao odor de óleo a queimar numa caçarola. Amerotke tapou a cabeça com o capuz e protegeu os olhos do sol. Doíam-lhe os músculos da parte de trás das pernas e o seu estômago estava um pouco sensível depois do banquete tardio no palácio. Ao acordar tencionara ensinar Curfai a tocar alaúde e examinar os peixes exóticos que Norfret comprara para o lago.

 

- É um mistério - repetiu Asural.

 

- Eu sei... eu sei. - Amerotke humedeceu os lábios. bom, anda daí, Chufoi. Asural, consegues manobrar uma barcaça, não consegues?

 

Subiram os três para a embarcação. Esta inclinou-se perigosamente, mas Asural afastou-a da margem e manejou a vara com perícia. Quando chegaram à ilha o cheiro a queimado era bastante intenso. Os criados ainda andavam por ali, a falar baixinho uns com os outros, observados pelos membros da guarda do templo dirigida por Asural. Do pavilhão restavam apenas as paredes. A maior parte da madeira tombara para dentro; certas tábuas ainda brilhavam no meio do fumo. Alguns homens tentavam puxá-las, caminhando com cautela à medida que as fagulhas saltavam, até o fumo os obrigar a largar tudo e a fugir com ataques de tosse.

 

- Andam à procura do que resta do corpo do Ruah disse Asural.

 

- Tens a certeza de que ele morreu aqui? - perguntou Amerotke.

 

- Bem, não o encontrámos em mais lado nenhum.

 

Amerotke esboçou um sorriso triste. Parou junto a um jarro de água, humedeceu a boca e a cara, improvisou uma máscara com o xaile de linho e subiu os degraus.

 

- Eu disse-lhes para terem cuidado! - gritou Asural. O fogo fora tão intenso que o pavilhão e tudo o que havia dentro dele tinha sido consumido, reduzido a cinzas, pelo que era difícil perceber o que fora um cofre, uma cadeira ou uma mesa. Amerotke afastou-se. Asural tinha agora ao lado o servo de Ruah. O homem continuava a soluçar. De olhos vermelhos, era incapaz de se exprimir de forma coerente mas, após um ror de perguntas feitas com suavidade, Amerotke ficou a saber o que acontecera.

 

- Foi um assassínio, não foi? - soluçou o homem.

 

- Creio que sim - respondeu Amerotke. - Se bem percebi o que me disseste, o general Ruah tinha entrado havia pouco no pavilhão quando o incêndio deflagrou. Desconfio que foi morto imediatamente. Um fogo de tal intensidade deve ter sido provocado.

 

- Mas como? - perguntou Asural. Amerotke olhou para os restos ainda fumegantes.

 

- A ilha era vigiada assim que o general Ruah atravessava o lago - explicou. - O assassino já cá devia estar. Provavelmente saltou o muro do jardim e nadou até lá. Um dos meus filhos poderia fazê-lo facilmente. Não seria um obstáculo para um adulto, em particular um soldado treinado.

 

- E a fuga? - perguntou Asural.

 

- Olha em volta. Diz-me, consegues distinguir um criado do outro?

 

Asural concordou. Cada um dos criados envergava uma simples túnica branca orlada a vermelho que lhes chegava abaixo do joelho.

 

- Imagina a confusão - prosseguiu Amerotke. - O pavilhão está a arder. O general Ruah desapareceu. Alguns criados procuram apagar as chamas, outros tentam encontrar o amo...

 

- E uns quantos - interrompeu Chufoi - pegam nas barcaças e atravessam o lago para dar o alarme.

 

- E foi precisamente isso que o nosso assassino fez.

 

Estava prestes a continuar quando ouviram gritos dos homens que andavam de volta do pavilhão. Asural estugou o passo nessa direcção.

 

- É o cadáver do general Ruah! - gritou. - O que resta dele!

 

Trouxeram lençóis. Alguns criados, calçando as luvas grossas utilizadas pelos jardineiros, pegaram nos restos mutilados e colocaram-nos sobre eles, entre gritos e lamentos. Levaram os lençóis até Amerotke.

 

- Sentimos o cheiro do óleo. - Um dos criados que estivera no pavilhão baixou a máscara que lhe cobria o nariz e a boca, - Meu senhor juiz, o lugar tresanda a óleo.

 

Amerotke apontou para o orifício na caveira carbonizada.

 

- O general Ruah foi morto pelo assassino, que depois ensopou o seu corpo em óleo. - Amerotke afastou com a mão as moscas. - Daí a intensidade do fogo.

 

Pousou a mão na caveira; ainda estava quente. com o dedo desenhou um ankh, o símbolo da vida eterna. Ouviu gritos do outro lado do lago e, virando-se, avistou Karnac e as outras Panteras do Sul reunidas no pequeno embarcadouro de madeira. Deixou Asural a supervisionar uma outra busca ao pavilhão e atravessou o lago com Chufoi.

 

As Panteras do Sul tinham-se colocado à sombra de um velho sicômoro. Estavam todos sentados no chão, Nebamum um pouco atrás do seu amo. Karnac tinha a expressão empedernida de sempre. Heti e Turo, no entanto, pareciam tão agitados como Nebamum, e arrancavam relva do chão, enquanto olhavam para a ilha.

 

- Onde está o general Pechedu? - perguntou Amerotke, sentando-se.

 

- Ele ainda não sabe - respondeu Karnac, os olhos negros observando Amerotke. - De manhã vai sempre caçar junto ao rio. Já enviei um mensageiro.

 

- Eu disse-vos para terem cuidado - comentou o juiz. Olhou para os rostos casmurros daqueles veteranos. - Julgam que por serem Panteras do Sul são invulneráveis? - perguntou, tentando não deixar transparecer na voz o sarcasmo.

 

- O que está ele a fazer aqui? - Karnac apontou com ar insolente para Chufoi, que se encontrava atrás do juiz. - Já ouvi falar no vosso criado desfigurado. Ele é de confiança?

 

Amerotke ouviu Chufoi respirar fundo. Levantou a mão.

 

- Eu respondo por Chufoi. Confiar-lhe-ia a minha vida. O problema, comandante Karnac, é que um dos senhores é que não é de confiança!

 

- Ridículo! - retorquiu este.

 

- Chamarei ”setiano” ao assassino - continuou Amerotke -, porque ele é um verdadeiro filho de Set. Alguém entrou na propriedade do general Ruah antes do nascer do dia e nadou até àquela ilha. Esperou por Ruah no pavilhão, matou-o com uma pancada na cabeça e pegou fogo ao pavilhão e ao cadáver do general. Os embalsamadores vão ter bastante dificuldade em prepará-lo para a viagem até aos Campos dos Bem-Aventurados. Não percebem o que está a acontecer? insistiu Amerotke. - Os vossos companheiros não só foram assassinados como deliberadamente desfigurados, privados não só da vida mas também de uma boa morte.

 

Karnac permaneceu impassível. Nebamum e os restantes mostravam-se agitados.

 

- Os senhores têm de se armar - continuou Amerotke -, transformar as vossas mansões em fortalezas. Não devem ir sozinhos a lado nenhum. vou perguntar mais uma vez: têm conhecimento de algum ressentimento ou motivo de rancor contra um dos senhores ou contra todos?

 

A resposta que obteve foi o silêncio. Amerotke fechou os olhos. O sol começava a aquecer. Ignorou o canto da ave num ramo acima da sua cabeça, as abelhas a zunirem nos canteiros próximos, os gritos dos criados e o ondular da água do lago. Tentou concentrar-se. Trazido pela brisa veio um hino de lamento enquanto os restos do general Ruah eram levados para a mansão.

 

Oh Anúbis, senhor do mundo inferior!

 

Todos saúdam a tua grande sombra!

 

sob a qual todas as almas tombam! Todos saúdam o teu rosto secreto para o qual todas as almas têm de olhar!

 

Todos saúdam as tuas mãos sagradas que pesam a alma de cada homem!

 

Amerotke abriu os olhos.

 

- Todos saúdam o grande Anúbis! Se estes assassínios continuarem, meus senhores, garanto-vos que dentro de uma semana ouviremos semelhantes hinos de lamento em cada uma das vossas mansões. - Uniu as mãos em súplica. - Tenho de pedir que reflictam. Estou aqui para os proteger.

 

- Somos as Panteras do Sul - murmurou Karnac com aspereza. - Sabemos proteger-nos. Também contamos que o faraó estenda a sua mão e proteja os homens que tanta glória trouxeram à sua casa.

 

Amerotke percebeu a ameaça.

 

- A divina Hatusu está bastante preocupada com este assunto - retorquiu ele. - vou encontrar-me hoje com o delegado Ualu. Iremos ambos interrogar a senhora Nechratta sobre aquilo que ela sabe a respeito do escriba Ipumer. Foi com ele que esta mortandade teve início. Mas tenho de fazer uma pergunta a todos antes de partirem - acrescentou quando Karnac fez menção de querer levantar-se. - Onde se encontravam esta manhã?

 

- Eu dormi até tarde - declarou Karnac. - Tal como o meu ajudante, Nebamum. Foi ele quem me acordou com a notícia do assassínio do general Ruah.

 

Amerotke olhou para Nebamum. O seu rosto magro não fora untado com óleo nem barbeado, e tinha os olhos ainda ligeiramente avermelhados da viagem apressada pelo deserto na noite anterior.

 

- O meu amo respondeu por mim - disse Nebamum, fazendo eco das palavras de Amerotke a respeito de Chufoi.

- O meu quarto fica perto do dele. O meu senhor pode perguntar aos outros criados. Um mensageiro da casa do general Ruah acordou-me e eu fui acordar o meu amo.

 

Os outros contaram histórias semelhantes, fazendo notar que as suas casas ficavam bastante próximas daquela. Amerotke percebeu que ainda não admitiam que um deles podia ser o assassino.

 

- Juiz Amerotke! - Karnac pôs-se de pé, apertando a faixa colorida do regimento à cintura. - Vejo que estás realmente preocupado connosco. - Virou-se e agarrou no braço de Nebamum. - Depois do dia de ontem, decidi que Nebamum irá contar-te tudo a nosso respeito. Explicará tudo... A história do nosso regimento, as Panteras do Sul. Irá contigo à Capela Vermelha e mostrar-te-á as imagens que reproduzem a nossa história. Mais alguma pergunta que queiras fazer, podes fazê-la a ele!

 

E, virando-se, Karnac e os dois camaradas dirigiram-se à mansão.

 

- Ele é sempre assim tão difícil? - perguntou Amerotke. No rosto de Nebamum surgiu um sorriso preguiçoso.

 

- Ladra mais do que morde.

 

- E tu és ajudante dele...?

 

- Há muitos anos, meu senhor juiz.

 

Amerotke estudou Nebamum. O homem vestia-se de forma semelhante ao seu amo, exceptuando as botas de cabedal e a faixa à cintura.

 

- Eu era um simples adolescente - continuou enquanto avançavam pelo jardim rumo ao portão principal -, um pajem na casa de Karnac. Crescemos como irmãos. Quando ele se alistou no exército nada mudou.

 

- Mas és um homem livre? - perguntou Amerotke.

 

- Quem é que é livre, meu senhor juiz?

 

- E nunca te casaste?

 

- Nunca o desejei. - Nebamum deteve-se para proteger os olhos do sol, observando um pássaro de cores alegres mergulhar sobre os canteiros.

 

- Mas o teu amo recompensa-te bem?

 

- Tenho tudo o que quero: as minhas necessidades são poucas. - Apontou para Chufoi, que vinha atrás deles, perdido nos seus pensamentos. - O mesmo poderá ser dito a respeito do teu servo? Um serviço fiel é um luxo. Mas vem, meu senhor juiz, deixa-me falar-te do regimento.

 

Saíram dos jardins e meteram por uma rua movimentada que os conduziria à cidade. Nebamum tinha uma excelente memória e era bom conversador. Explicou como, após a grande vitória contra os Hicsos, Karnac e os companheiros haviam sido rapidamente promovidos. Tinham combatido com bravura os invasores, dominando-os. Depois, contra os Líbios, os Núbios, até mesmo contra o estranho povo marinheiro que vinha do Grande Verde para atacar as cidades do delta.

 

- Nunca tinha visto ninguém como eles - declarou Nebamum. - Fizemos prisioneiros. Alguns tinham cabelo claro e olhos azuis.

 

- Já ouvi falar neles - interveio Chufoi. Escutava avidamente a história de Nebamum e jurara que, se algum dia se tornasse um contador de histórias, iria recordar-se daquela narrativa.

 

- A certa altura - prosseguiu Nebamum -, o faraó mandou-nos para o Grande Verde. Atacámos piratas, descobrimos os seus antros e queimámo-los. Uma vez, um vento forte empurrou a nossa galé para as ilhas a norte. Um povo estranho... - comentou, abanando a cabeça.

 

- É possível que as Panteras do Sul estejam a ser perseguidas por sobreviventes dos clãs e das tribos que destruíram? - interveio Amerotke.

 

Nebamum abanou a cabeça. Tinham chegado ao portão de Tebas.

 

- Éramos soldados, meu senhor juiz - respondeu ele.

 

- Lutámos pelo faraó e obedecemos às suas ordens. Para responder à tua pergunta, para além da feiticeira Meretseger, não me recordo de outro incidente que pudesse provocar uma coisa destas.

 

- Achas que um dos vossos companheiros é o setiano? - perguntou Amerotke.

 

- Não. - A resposta de Nebamum foi rápida e vigorosa; o seu rosto adquirira uma expressão de teimosia semelhante à do amo. - Esqueces-te, meu senhor Amerotke, que formamos um grupo há várias décadas. Porquê agora?

 

Amerotke não foi capaz de responder à pergunta. Entraram na cidade fervilhante pelo portão. Decidiram ir por ruas secundárias para escaparem à multidão. De vez em quando eram rodeados por pedintes ou tinham de parar e abrigar-se junto a uma porta para se desviarem de uma carroça puxada por bois enormes e fortes. Estas eram manobradas pelos predadores, que limpavam as ruas todas as semanas e recolhiam as pilhas de lixo. Vestidos de preto da cabeça aos pés, os predadores também transportavam mangustos em grades para caçar as ratazanas que enchiam aquelas vielas estreitas.

 

Amerotke viu passar aquele desfile ruidoso: a carroça cheia até acima e uma nuvem de moscas a sobrevoá-la.

 

- O que se passa, meu senhor juiz? - perguntou Nebamum.

 

Amerotke apontou para um cão morto na parte de trás da carroça.

 

- Morte - declarou ele. - Surge de muitas formas: um cão morto de fome ou esmagado por rodas. - Apontou para um mendigo que dormia à sombra. - Doença ou infecção.

 

Saíram da viela e entraram na Avenida dos Carneiros. Amerotke deteve-se à sombra de uma daquelas enormes estátuas.

 

- Meu senhor? - A voz de Nebamum era impertinente.

 

- Nunca perguntei uma coisa ao comandante Karnac observou Amerotke com ar pensativo. - Este setiano, o assassino, está determinado a matar-vos a todos. Mas a morte em Tebas surge de diversas formas. O homicídio é igualmente variado.

 

Chufoi saltitava de exasperação.

 

- O que quero dizer - prosseguiu Amerotke, continuando a andar - é que os generais Balet e Ruah podiam ter sido mortos de forma menos dramática. Uma taça de veneno. Uma seta. Um assassino a atacar no escuro. Mas não foi isso que aconteceu. - Amerotke parou, levando os dedos aos lábios. - Este assassino correu grandes riscos. Atacou o Balet e o Ruah com rapidez, de forma implacável, mas se tivesse havido um ligeiro deslize, um pequeno erro, o desfecho podia ter sido diferente. Ele podia ter sido visto na Capela Vermelha ou na ilha, e capturado. Então, porquê expor-se? Porquê correr tais riscos? Nenhuma das Panteras do Sul é propriamente um cordeiro pronto para o sacrifício.

 

Nebamum, intrigado, abanou a cabeça.

 

- Meu senhor, não sou capaz de responder a isso.

 

Entraram no portão do templo, atravessaram o átrio principal e subiram pelo pórtico da entrada. Amerotke continuava mergulhado nos seus pensamentos. Apesar dos protestos de Karnac, tinha a certeza de que já conhecera o setiano. Talvez fosse Pechedu? Teria ele ido andar de barco no Nilo? Ou teria primeiro ido a casa do velho amigo e aguardado por ele naquela ilha isolada?

 

Percorreram os corredores e as galerias silenciosas. Amerotke reparou nos sacerdotes que passavam por eles cheios de pressa, nas multidões de devotos, no ar que cheirava a incenso, a comida e ao sangue dos animais mortos. De vez em quando parava e olhava para as imagens que cobriam as paredes, relatos visuais dos feitos maravilhosos do grande deus Set. Chufoi mostrava-se bastante ansioso, a olhar para todo o lado, pensando que, quando tivesse mais tempo, pediria ao seu amigo que fazia amuletos para lhe esculpir umas estátuas especiais que ele venderia aos fiéis daquele deus irado e temível.

 

Chegaram ao corredor que passava ao lado da capela. Amerotke deteve-se e olhou para as janelas. Trepou para um banco e, pondo-se em bicos de pés, olhou para o pequeno jardim quadrado - um local solitário e silencioso. Voltou para o chão e pousou uma mão no ombro de Chufoi.

 

- O teu amigo Mangusto tem razão - murmurou. O assassino do general Balet podia ter-se escondido atrás disto. - Amerotke tocou na parede. - Ouviria a vítima chegar, o sacerdote vir e ir-se embora, e depois atacaria.

 

- Posso ajudá-los?

 

Amerotke voltou-se. Chichnak, com um sorriso servil no rosto, avançava pela galeria. Parou, as mãos unidas, e fez uma vénia.

 

- Juiz Amerotke, sé muito bem-vindo. Posso ajudar-te? O juiz apontou para a janela.

 

- No dia em que o general Balet foi morto, o assassino entrou por aqui. Onde estavas tu?

 

A pestanejar, Chichnak apontou na direcção de onde viera.

 

- Temos os nossos próprios aposentos, eu e a minha mulher, e depois de termos cumprido os nossos deveres...

 

- Estavas a dormir? - perguntou Amerotke com rispidez. - Estavas, não é verdade? O general Balet não precisava de ti. Por isso, tu e a tua mulher beberam um pouco de vinho e adormeceram, como todos os dias.

 

Chichnak arregalou os olhos.

 

- Como é que...

 

- É uma questão de lógica e rotina - retorquiu Amerotke. - Tenho a certeza de que, se estudasse os vossos movimentos, iria descobrir isso, e foi o que fez o assassino do general Balet. Não preciso de ti - declarou -, mas não te afastes muito, pelo sim pelo não!

 

Amerotke abriu a porta da Capela Vermelha. Nebamum soltou uma gargalhada ao segui-lo.

 

- Peço desculpa, meu senhor juiz. - O ajudante de Karnac fechou a porta atrás de si. - Nunca vi um sacerdote tão assustado. Deve pensar que consegues ler os pensamentos: o olho omnisciente do faraó!

 

Amerotke olhou em volta. As portas do nãos estavam fechadas. O sacrifício matinal de pão, vinho e comida fora levado.

 

- Já antes afirmei que o Balet e o Ruah não eram vítimas fáceis - disse Amerotke apontando para os desenhos na parede -, e contudo, eram simultaneamente soldados típicos com uma determinada rotina. O assassino limitou-se a observar isso mesmo.

 

Nebamum conduziu-os até à parede mais afastada. Amerotke ignorou as lendas de Set, mas ouviu atentamente Nebamum contar o ataque ao acampamento dos Hicsos e os outros grandes feitos das Panteras do Sul. Chufoi começou a aborrecer-se e sentou-se numa almofada a dormitar. Nebamum falava das glórias do regimento, recordando acontecimentos e datas. Amerotke estudava os desenhos. Não eram representações fiéis: as Panteras do Sul tinham a peruca vermelha de Set, os seus rostos eram idênticos e estavam todos vestidos da mesma maneira, com excepção de Karnac, que levava o bastão imperial. Quanto mais Amerotke ouvia, mais ficava convencido.

 

- Não percebes? - perguntou ele interrompendo a narrativa de Nebamum. - O assassino está a imitar os vossos grandes feitos na sua campanha assassina. Olha!

 

Aproximou-se do desenho que representava o ataque ao acampamento dos Hicsos.

 

- Segundo isto, o Karnac entrou no acampamento de Meretseger e cortou-lhe a cabeça. Foi isso que o assassino fez: entrou no vosso local sagrado e matou o Balet à pancada, não lhe cortando a cabeça mas arrancando-lhe os olhos. E aqui...

- Amerotke deu mais alguns passos. - Aqui, está a campanha contra o Povo do Mar. As Panteras do Sul foram até às ilhas no delta, chacinaram o inimigo e deitaram fogo ao seu acampamento. Sim? E aqui. - Amerotke apontou para uma terceira imagem. - Vê, este é o Nilo, aqui estão os navios de guerra inimigos. Que história é esta?

 

- Foi depois da nossa grande vitória sobre os Hicsos explicou Nebamum. - Expulsámo-los de Auaris. Alguns fugiram para o deserto, outros refugiaram-se nas galés de guerra e tentaram subir o Nilo.

 

- E as Panteras do Sul não foram atrás deles?

 

- Sim. O Karnac liderou o combate. Matámos o almirante deles e capturámos a maior parte dos capitães, uma grande vitória. Nessa altura os Hicsos já tinham perdido a vontade de lutar. Procuravam apenas uma coisa: distanciar-se o mais possível dos esquadrões de guerra do faraó. Mas, se tiveres razão...?

 

Amerotke recuou e apontou para os desenhos que cobriam as paredes de cima a baixo.

 

- Se tiver razão... e podes dizer isto ao comandante Karnac... ele e os companheiros têm os seus assassínios descritos aqui, nas paredes da sua capela sagrada!

 

Amerotke aproximou-se da parede. Apontou para o desenho de uma casa. Nos seus degraus encontrava-se um guerreiro hicso com bigode e barba, o cabelo comprido preso atrás. Segurava numa mão um jarro de vinho e na outra uma taça. No desenho seguinte, o hicso estava deitado nos degraus, a taça tendo rolado para longe. Em vez de vinho a derramar-se, o desenho mostrava um líquido verde-escuro que indicava veneno.

 

- Mas ninguém foi envenenado - declarou Nebamum.

 

- Onde foi isto? - insistiu Amerotke.

 

- Numa fortificação dos Hicsos perto da Segunda Catarata, um posto avançado. O comandante Karnac tomou-o com um subterfúgio - explicou ele cheio de orgulho. - Ele e eu fingimos ser mercadores a fugir do faraó. Levámos vinho envenenado. Os guardas hicsos mostraram-se ansiosos por bebê-lo. Estavam fechados no forte havia semanas. - Apontou para outra imagem. - O resto já sabes. Ficaram drogados ou bêbedos. Antes de se terem apercebido do que acontecera, Karnac e eu tínhamos aberto os portões. - Encolheu os ombros. - O forte foi tomado.

 

Amerotke pensou para consigo se a morte de Ipumer reflectiria aquela história. Tornou a olhar para a cena que representava o ataque aos barcos de guerra dos Hicsos e pensou no general Pechedu, que nessa manhã fora caçar junto ao rio.
Set: o rosto do céu à noite, uma divindade de escuridão e terror.

 

Amerotke e Nebamum, com Chufoi a alguma distância, saíram da cidade pelo Portão dos Leões e avançaram pela estrada. Amerotke explicou-lhe que, depois do meio-dia, iria encontrar-se com o delegado Ualu na Casa da Gazela Dourada; ficava na mesma direcção que a casa do comandante Karnac, pelo que Nebamum o acompanhou. Amerotke estava bastante animado com o que descobrira na Capela Vermelha.

 

- Embora os feitos do Regimento de Set tenham sido tantos, pode ser pura coincidência - confiou ele a Nebamum. - No entanto, há uma certa semelhança entre o assassínio dos membros do teu grupo e alguns dos feitos das Panteras do Sul.

 

- Talvez, meu senhor juiz.

 

- O teu amo é casado? - perguntou Amerotke a Nebamum, desejoso de saber mais sobre o comandante de rosto empedernido. De todos, Karnac parecia o menos abalado pelos horrendos assassínios dos seus companheiros.

 

- O comandante Karnac é viúvo - respondeu Nebamum. - A mulher dele morreu com uma febre há seis anos.

 

Amerotke saltou para a berma da estrada, puxando Nebamum, quando duas quadrigas passaram a grande velocidade numa nuvem de pó. Esperou até que este tivesse assentado para continuar.

 

- Ele é um homem robusto e saudável - insistiu Amerotke. - Não pensou em voltar a casar?

 

- O meu amo é um homem que precisa de muito pouco.

 

- Nebamum limpou o suor do rosto. - Já viste o comandante Karnac em combate, é disso que ele gosta. Em teoria, aposentou-se do exército; na prática, do que mais gosta é de conduzir um esquadrão de guerra pelo deserto a perseguir os inimigos do faraó.

 

- E o general Pechedu? - perguntou Amerotke.

 

- Estou aqui para falar do regimento - retorquiu Nebamum. - O general Pechedu é senhor de si próprio e os seus assuntos pessoais só a ele dizem respeito.

 

Amerotke aceitou a chamada de atenção. Pelo menos a resposta evasiva de Nebamum dera-lhe uma idéia. Pechedu era um homem sombrio que adorava esconder-se e talvez não fosse estimado pelos outros, especialmente depois do romance da filha com um simples escriba.

 

Olhou por cima do ombro. Chufoi baixara o guarda-sol mas parara, olhando para trás.

 

- O que foi? - perguntou Amerotke. Não via nada de estranho, apenas alguns carros, pessoas a entrarem e a saírem da cidade. O sol estava muito forte, pelo que a maior parte das pessoas procurava a sombra e um local para se abrigar do calor do dia. - O que se passa, Chufoi?

 

O servo limitou-se a abanar a cabeça e escarrou.

 

Amerotke encolheu os ombros e continuaram viagem. Segundo a clepsidra no Templo de Set, faltava pouco para o meio-dia. O delegado Ualu devia aguardá-lo com impaciência. Chegaram a um cruzamento onde a estrada se dividia em vários caminhos, o início de cada um protegido por tamareiras, sicômoros e erva alta. Nebamum ofereceu-se para acompanhá-los um pouco mais. Amerotke estava prestes a responder quando uma seta fendeu o ar por cima da cabeça de Nebamum. O servo atirou-se imediatamente para cima da erva ao lado da estrada. Amerotke e Chufoi entreolharam-se, perplexos.

 

- Meu senhor juiz - sussurrou Nebamum. Amerotke e Chufoi juntaram-se a Nebamum à sombra de uma árvore e nesse momento outra seta cravou-se no tronco.

 

- Um fora-da-lei? - perguntou baixinho o juiz.

 

- Não tão perto de Tebas - retorquiu Nebamum. A primeira seta era-me destinada.

 

Chufoi praguejava: o guarda-sol partira-se. Murmurou algumas ameaças ao misterioso archeiro. Amerotke sentia-se pouco à vontade e ligeiramente ridículo. Ali estava ele, como uma criança, oculto no meio das ervas, não muito longe de casa. Afastou a erva. O intervalo entre as setas indicava que havia apenas um archeiro. Nebamum também se levantou um pouco, depois voltou a baixar-se. Outra seta assobiou por cima da erva, de encontro à folhagem atrás dele.

 

- Quem será? - perguntou Nebamum. - As Panteras do Sul são conhecidas pela sua perícia com o arco. - Inclinou-se na direcção do juiz. - Estás a pensar que isto está reflectido naquelas pinturas da Capela Vermelha, não é?

 

- Não podemos ficar aqui - sussurrou Chufoi, com voz rouca.

 

- Vamos fazer o seguinte - declarou Nebamum. O archeiro anda atrás de mim. Se eu me levantar e fugir...?

 

Amerotke recordou o andar desajeitado do homem, as estranhas botas de cabedal que ele usava. Nebamum pareceu ler-lhe o pensamento.

 

- Não sou veloz como uma gazela, mas conheço este local. Meu senhor, é a única coisa que podemos fazer. Se ele anda atrás de mim, irá seguir-me.

 

E, antes que Amerotke pudesse objectar, Nebamum levantou-se de um pulo. Mostrou-se um pouco, depois fugiu dobrado para frente. Algumas setas voaram na sua direcção. Nebamum desapareceu de vista.

 

- Queres que o siga, meu amo?

 

Amerotke levantou-se. Viu um vulto deslizar como uma sombra. Nebamum tivera razão. O assassino ignorava-os, determinado na perseguição da sua presa. Para além do piar ocasional das aves e do grito distante de alguém a passar na estrada, o juiz não detectou nada de estranho.

 

Por fim, o ranger das rodas de uma carroça interrompeu o silêncio. Um rapaz aproximou-se, conduzindo um boi gordo e suado que puxava a carroça onde vinha sentado o pai do rapaz, o comprido chicote esticado, as panelas a baterem umas nas outras. O rapaz parou quando Amerotke e Chufoi saíram subitamente do meio da vegetação. Chufoi ergueu a mão num gesto de paz. O rapaz fitou-os de olhos muito abertos, o pai gritou qualquer coisa, mas Amerotke e Chufoi ignoraram-no. Utilizando a carroça como protecção, continuaram a andar pela estrada. Só nessa altura, quando se sentiram protegidos pelos outros viajantes, é que Amerotke olhou para o servo.

 

- Estavas desconfiado, não estavas, Chufoi?

 

O homenzinho, agarrando ao guarda-sol partido, assentiu.

 

- Senti isso na cidade - respondeu. - Sou o teu cão, meu amo - acrescentou com um sorriso. - Virei-me uma ou duas vezes e avistei um vulto vestido de castanho-escuro ou preto.

 

- A cara dele?

 

- Apenas uma sombra. Quando deixámos a cidade, achei que era fruto da minha imaginação. Espero que Nebamum esteja bem...

 

- Hei-de comprar-te um guarda-sol novo, Chufoi. Mas primeiro temos de nos encontrar com o delegado Ualu.

 

”Os olhos e os ouvidos do faraó” já se encontrava na sala das visitas da Casa da Gazela Dourada, a andar de um lado para o outro, vigiado por dois dos seus escribas receosos, sentados agarrados às sacolas. O camareiro que acompanhou os recém-chegados até ali ofereceu-se para lhes lavar os pés e as sandálias. Amerotke decidiu prescindir daquelas cortesias.

 

- Delegado Ualu, as minhas desculpas.

 

Ualu apontou para o corredor alegremente pintado.

 

- A senhora Nechratta já está à nossa espera - retorquiu. - E, antes que me digas, já sei do assassínio do Ruah. Sabes uma coisa? - A voz de Ualu transformou-se num murmúrio. - Acredito mesmo que a senhora Nechratta é culpada da morte do Ipumer. - Fez um gesto com as mãos. - Tenho dois pedaços de corda, Ipumer e Nechratta. Se pudesse uni-los...

 

- O general Pechedu já regressou do rio? - perguntou Amerotke. Ualu arqueou as sobrancelhas.

 

- O paradeiro do general só a ele diz respeito. Estou mais interessado na filha dele.

 

- Não, não - discordou Amerotke -, precisamos de saber um pouco mais a respeito do Pechedu. Em primeiro lugar, foi ele a trazer o Ipumer para Tebas? Onde esteve ele na noite em que o escriba morreu? A propósito, já conheceste a mulher do general? Ualu abanou a cabeça.

 

- Fui recebido por Nechratta. Aquela rapariga é muito senhora de si. Expliquei-lhe que estávamos aqui por ordem da divina Hatusu: que devia responder às nossas perguntas como se estivesse sob juramento no tribunal.

 

- E o que respondeu ela?

 

- Não quis saber. - Ualu olhou para as pinturas. - Até parece que a honra dela e a da família são assuntos de pouca importância.

 

Calou-se quando o camareiro regressou.

 

- A senhora Nechratta irá receber-vos agora. Amerotke disse a Chufoi para esperar com os escribas, e seguiu o camareiro pelo corredor. Pechedu era um homem bastante abastado. Pinturas bonitas cobriam as paredes, a maior parte delas cenas de caça e não os feitos do Regimento de Set. Havia delicadas peças de mobiliário em acácia com engastes de ébano, marfim, prata e ouro: estatuetas e jarras preciosas nos nichos e parapeitos. A sala onde entraram parecia uma caixa, mas era espaçosa e arejada. As suas portas estavam abertas para deixar entrar o calor e os perfumes do jardim. O tecto era sustentado por colunas de cedro pintadas de cores alegres, as paredes cobertas com desenhos de cenas familiares: um homem sentado numa cadeira de costas altas muito ornamentada, sob ela um gato e um ganso sentados lado a lado enquanto um macaco dormitava no tamborete.

 

Nechratta estava a olhar para tudo aquilo quando o camareiro os trouxe. Avançou rapidamente na direcção deles. Ualu tinha razão: parecia calma e senhora de si. Estava vestida de branco, uma túnica sem mangas, um colar simples de ouro e brincos e pulseiras a condizer. Tinha uma expressão serena, o rosto pintado, o olhar calmo. Uma mulher implacável, concluiu Amerotke. Nechratta não parecia minimamente comprometida, apontando para as três cadeiras colocadas no centro da sala, como se estivesse a escarnecer do tribunal onde fora presente. Sentou-se e fez sinal ao camareiro para se retirar.

 

- Serve assim, senhor delegado? - murmurou ela. Ualu tossicou e mexeu-se, pouco à vontade. Amerotke olhou para ela.

 

- Não colocas objecções? - perguntou Ualu.

 

- Porque haveria de o fazer? - Os olhos negros de Nechratta adquiriram uma expressão divertida. - Já estava à espera.

 

- A espera?

 

- Bem, a divina Hatusu não deve ter muita vontade de ver um dos seus queridos generais ser desonrado em tribunal. Na verdade, este interrogatório deveria ter lugar na Sala das Duas Verdades, na presença do meu advogado.

 

- Isso ainda pode vir a acontecer - respondeu Ualu. Mas a morte do Ipumer oculta outros assuntos, tal como os assassínios dos companheiros do teu pai.

 

- Claro - foi a resposta calma. - E as Panteras do Sul não podem ser envergonhadas. - Olhou para Amerotke. Meu senhor juiz, não achas que o meu advogado, Meretel, devia estar presente?

 

- Se o desejares, podemos tratar disso. Mas não estamos aqui para discutir o caso, e sim a personalidade da vítima. Nechratta, se o teu pai estivesse presente confirmaria isto: a justiça do faraó não se limita à Sala das Duas Verdades. Temos todo o direito de te interrogar sozinha. com uma condição: o que for dito aqui por um de nós só constituirá prova quando for repetido em tribunal.

 

- Então, eu poderia confessar o assassínio do Ipumer, mas teria de voltar a fazê-lo na Sala das Duas Verdades?

 

- Precisamente.

 

Nechratta inclinou ligeiramente a cabeça, brincando com uma madeixa da peruca embebida em perfume.

 

- Mas a divina Hatusu está a proteger o meu pai. - De novo o sorriso. - E ele tem muito a esconder.

 

- Como por exemplo?

 

Nechratta encolheu os ombros. Amerotke observou o seu rosto bonito. Reparou novamente na semelhança entre ela e Norfret: a mesma pele macia, as maçãs do rosto salientes, os olhos expressivos; acima de tudo a postura e a aparência calma que, desconfiava ele, ocultavam um temperamento irascível e uma enorme teimosia.

 

- Amas o teu pai?

 

- Sou, em todas as coisas, meu senhor juiz, uma boa filha.

 

- O teu pai estava aqui na noite em que o Ipumer visitou a Casa da Gazela Dourada?

 

- O Ipumer visitou esta casa? - Ela arqueou as sobrancelhas. - Não o vi. Já ouviste o meu depoimento - continuou. - Tanto a minha criada como a minha irmã mais nova, Kheai, o juraram. Retirei-me cedo, dormi bem, mas não antes da meia-noite, quando a minha irmã se me juntou. Disse-o sob juramento: não saí do meu quarto.

 

- Podes ser interrogada mais minuciosamente - retorquiu Ualu, inclinando-se para a frente. - Segundo a lei, a tua criada pode ser torturada.

 

- Então tortura-a, senhor delegado, e o meu advogado, Meretel, considerará forjado o seu depoimento. Na verdade, podiam também torturar-me. Eu continuaria a dizer a verdade.

 

- O teu pai estava em casa nessa noite? - perguntou Amerotke com brusquidão.

 

- Claro que não estava, meu senhor juiz. Provavelmente já sabes onde é que ele se encontrava... com as suas putas! É para lá que vai muitas vezes, beber vinho e dançar com elas; copular como um bode. - A expressão nos seus olhos era dura.

 

- E a tua mãe?

 

- Oh, estava aqui, provavelmente a beber e a chorar, como é costume.

 

Amerotke desviou o olhar. Teria Ipumer vindo encontrar-se com a mãe de Nechratta? Como se chamava ela? Ah, sim! Uemsit. Era possível. Seria ela a pessoa com quem Ipumer se encontrava durante as horas de trabalho na Casa de Guerra? O lar de Pechedu era bastante estranho. Ipumer parecia ter sido um mulherengo nato. Amerotke já ouvira falar de histórias em que mãe e filha haviam sido conquistadas pelo mesmo sedutor.

 

- A tua mente fervilha como um ninho de serpentes, meu senhor juiz. - Nechratta inclinou-se para diante. A parte da frente da sua túnica deixou entrever um peito generoso.

 

- Estamos intrigados - respondeu Amerotke. - O delegado Ualu conhece uma sentinela dos portões que jura que o Ipumer lhe disse que tinha estado na Casa da Gazela Dourada e provara a taça do amor.

 

- Temos muitas criadas - foi a resposta. - Talvez o Ipumer se tenha apaixonado por uma delas?

 

- Vamos começar do início - declarou Amerotke. - O Ipumer interessa-nos.

 

- Porquê?

 

- Porque, minha senhora, ele não era aquilo que afirmava ser.

 

- Oh, eu podia ter-vos dito isso!

 

- Então, diz. O que sabes a respeito dele? - Bem, ele contou-me uma vez...

 

- Não, do princípio - interrompeu Amerotke.

 

- Muito bem, meu senhor juiz - disse ela, com um suspiro. - Irei repetir-me. Sabes que o general Pechedu e as corajosas Panteras do Sul se encontram muitas vezes. Se há um festival militar ou o banquete de um regimento temos de ir todos para ouvir contar as suas façanhas e os seus feitos. Ela olhou para o tecto. - Já assististe alguma vez a essas coisas, meu senhor juiz? Não sentiste as pernas doridas, o maxilar dormente por disfarçar tantos bocejos?

 

Amerotke foi incapaz de reprimir um sorriso. Ela sorriu também.

 

- Se eu não tivesse protestado - continuou ela com um gesto que indicava as paredes -, todas as salas e quartos desta casa contariam as glórias das Panteras do Sul.

 

- O teu pai foi um homem corajoso - interrompeu Ualu -, um herói de guerra.

 

- Sim, delegado Ualu, mas também eu devia receber do divino faraó a abelha dourada da bravura. Porque já cumpri dezanove Verões. Ouvi as histórias das Panteras do Sul de manhã, à tarde e à noite desde que me lembro. Não sou eu também uma pessoa? Ah, não! - O seu rosto ruborizou-se devido à ira; os seus olhos faiscaram. - Tenho de me lembrar, a minha mãe tem de se lembrar, a minha irmã tem de se lembrar e os criados têm de se lembrar dos gloriosos feitos do passado. Por amor de Set! - exclamou. - Há mais na vida do que isso! No entanto, ali estou eu, sentada com as outras senhoras num banquete, com cãibras nas coxas, quando um atraente e jovem escriba se apresenta. - Amava-lo? - Achava-o bastante divertido. - Porquê ele? - interrompeu Ualu.

 

- Vós sois ”os olhos e os ouvidos do faraó” - escarneceu ela. - Devias saber que todos os rapazes bonitos têm medo! Que os deuses ajudem o jovem que tiver a coragem de abordar a filha do grande Pechedu!

 

- Mas o Ipumer não teve esses escrúpulos?

 

- Nem nada que se pareça. Tinha o desplante de um macaco. Fui incapaz de resistir.

 

- O teu pai deve ter objectado...

 

- Ele só descobriu quando já era tarde de mais. Tentou dar-me um sermão sobre moral; referi-me às putas dele.

 

- E que respondeu o teu pai? - Amerotke tinha dificuldade em ocultar a sua admiração.

 

- Ora, meu senhor juiz, deu-me uma bofetada com toda a força como se eu fosse um soldado rebelde. E eu disse-lhe que, se voltasse a bater-me, eu...

 

- O quê?

 

- Arranjaria forma de humilhá-lo muito.

 

- Então, continuaste a tua relação com o Ipumer?

 

- Claro. Às vezes encontrávamo-nos quando eu ia a Tebas. De vez em quando deixam-nos sair de casa para fazer compras e para passear, para rezar no templo.

 

- Nesse caso, a tua criada pode ser facilmente subornada?

 

- perguntou Ualu num tomsarcástico.

 

- A minha criada não ia, só eu e Kheai. No entanto, isso começou a ser demasiado perigoso - acrescentou ela à pressa.

 

- Assim, o Ipumer começou a vir cá à noite. Eu fugia do quarto e encontrava-me com ele ao pé das árvores do lado de fora do muro. - Esboçou um ligeiro sorriso. - Tenho a certeza de que encontraram o local exacto.

 

- Eram amantes?

 

- Oh, sim! O Ipumer era um homem viril. Acho que ele apreciava bastante o facto de estar envolvido com a filha de um dos grandes de Tebas. - Respirou fundo e colocou as mãos no regaço. - Fui amante do Ipumer. - Falava como se estivesse a entoar um cântico. - E ele foi meu amante.

 

Tão casual, tão maquinal, que Amerotke perguntou a si mesmo se ela estaria a dizer a verdade.

 

- E depois fartaste-te dele?

 

- Claro. Quero dizer, ele era suficientemente galante, mas para o fim...

 

- E compraste o veneno? Para uso doméstico? - acrescentou Amerotke de imediato.

 

- Sim, para uso doméstico.

 

- E por nenhuma outra razão?

 

- Ouviste a minha resposta no tribunal. Mas não contei toda a verdade. - Nechratta fez uma pausa. - Ele tornou-se inconveniente. Ameacei-o, Disse-lhe que se não me deixasse em paz eu me suicidaria.

 

- Porque não nos disseste isso no tribunal? - perguntou Ualu. - Os suicídios são blasfêmia.

 

- Não estava a falar a sério. Só queria assustá-lo.

 

- Ah! E foi por isso que ele comprou o mesmo veneno?

 

- Claro, meu senhor juiz. Disputávamos um jogo parecido com o senet. Eu fiz avançar uma peça e ele fez o mesmo.

 

- Contudo, ele adoeceu. Segundo algumas provas... Ualu escolhia as palavras com cuidado. - Parece que o Ipumer veio até aqui noutras ocasiões. Encontrou-se contigo, partilhou comida e bebida e depois adoeceu.

 

- Como sabes isso, senhor delegado? Podia tê-lo ingerido sozinho. Tinha um estômago fraco e...

 

- E o quê?

 

- O Ipumer era como muitos outros homens, um bode com cio. Pode ter tido outras amantes espalhadas por Tebas, já para não falar nas cortesãs e nas bailarinas, as hesets dos templos.

 

- O Ipumer dava-se bem com elas? - Oh, sim.

 

- Podia ter assassinado uma delas? - perguntou Amerotke. - Sabes se ele tinha a mente de um assassino?

 

- Ele era duas pessoas. Excitável, volúvel... mas lá no fundo só se preocupava consigo mesmo.

 

- E tu...?

 

- Senhor juiz, o meu pai é um homem muito rico. O Ipumer tinha muitas esperanças, sonhos de um bom casamento.

 

- Mas o teu pai descobriu?

 

- Claro. Numa casa como esta, os criados estão dispostos a trair por uma recompensa. O general Pechedu - acrescentou ela num tomsardónico - ficou furioso. Ameaçou bater-me, expulsar-me ou encarcerar-me num dos templos. ’’

 

- E depois?

 

- Eu disse-lhe que não punha objecções. Amerotke olhou-a nos olhos. Nechratta era uma rapariga tranqüila e com uma enorme força de vontade. Uma filha que se ressentia intensamente do pai e que por esse motivo não se importava de usar um homem como Ipumer contra ele.

 

- Negas que o Ipumer veio até aqui na noite em que morreu? - perguntou Ualu.

 

- Pode ter vindo. Há pelo menos quarenta criadas a trabalhar nesta casa. Ele pode ter seduzido qualquer uma delas, a fim de saber o que estava a acontecer.

 

- E achas que foi isso que aconteceu?

 

- Talvez.

 

- Disseste ter completado dezanove Verões? - Amerotke indicou com um gesto as cenas domésticas pintadas na parede.

- Nunca ninguém pediu a tua mão em casamento? Nunca te apaixonaste? com certeza nunca devem ter faltado pretendentes. Por aquilo que acabaste de admitir... - Amerotke hesitou; durante segundos detectara uma alteração nos olhos de Nechratta, um pestanejar, um momento de tristeza. - Pelo que acabaste de admitir - prosseguiu -, és uma mulher abastada, filha de um dos grandes heróis de Tebas.

 

- O comandante Karnac pediu a minha mão.

 

- O quê? - perguntou Ualu inclinando-se para a frente. - Oh, sim, há cerca de dois anos. - E o que aconteceu? Nechratta ficou carrancuda.

 

- As negociações, como o meu pai lhes chamou, não deram em nada. Não é de admirar, juiz Amerotke. Se já conheces o comandante Karnac, sabes que ele acha que as únicas pessoas com quem vale a pena falar são as Panteras do Sul ou os soldados do regimento dele.

 

- Ficaste triste, senhora?

 

- Por não ter caído do tacho para o lume? - brincou Nechratta. - Outra vida cheia com as glórias do Regimento de Set? Preferia ter ingerido o veneno.

 

Ualu soltou uma gargalhada.

 

- E onde está o teu pai esta manhã?

 

- A caçar com um criado. Tem um esquife num ancoradouro perto das ruínas do Templo de Bes. Quando tiver morto animais em número suficiente, volta para casa. Não, não, enganei-me: irá a uma loja de vinho e, inebriado com as suas vitórias, visitará uma das suas raparigas do templo.

 

- O teu pai seria capaz de matar? - perguntou Amerotke.

 

- Sem pestanejar, meu senhor juiz. Todos eles gostam de matar. Faz parte da sua natureza.

 

- Então por que motivo não matou ele o Ipumer logo no início? Afinal de contas, Tebas está cheia de assassinos. Amerotke quase acrescentou que tinha encontrado um naquela manhã, mas decidiu ficar calado.

 

- Oh, mas ele tentou, não sabias? - Riu-se ante a surpresa deles. - Ameaçou várias vezes o Ipumer. Pelo menos em duas ocasiões ele escapou por pouco a ser atacado no caminho de regresso.

 

- Por que motivo o teu pai não foi bem-sucedido nisso?

 

- O Ipumer tinha um raciocínio rápido e pés ainda mais velozes. Acho que o meu escriba da Casa de Guerra estava bem protegido.

 

- Ah, já vamos a isso. Fez-te a corte durante quase um ano. Partilharam comida e bebida. Deves ter sabido mais coisas a respeito dele.

 

- Sim, ele disse que vinha de Auaris e que alguém importante lhe arranjara aquele cargo. Talvez tenha sido por isso que o meu pai não chegou a mandar apunhalá-lo, estrangulá-lo ou afogá-lo.

 

Nechratta fazia rodar um dos anéis que tinha nos dedos. Amerotke reparou que este possuía a forma de duas serpentes entrelaçadas, com uma pequena ametista no centro.

 

- O Ipumer era um gabarolas - prosseguiu ela, escolhendo as palavras. - Dizia ter sangue nobre, da parte dos Hicsos, que tinha antepassados guerreiros tão poderosos como as Panteras do Sul.

 

- Ele contou-te alguma coisa acerca da família?

 

- Nada, a não ser que outrora a mãe fora poderosa.

 

- Já ouviste falar em Meretseger? - perguntou Amerotke. - Ficarias admirada se te dissessem que o Ipumer podia ser filho dela?

 

Nechratta inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.

 

- Ele falou uma vez no culto de Meretseger. Claro que conheço a história. Comecei a ouvi-la assim que tive idade para ouvir histórias. Ele referiu o nome algumas vezes, mas era um inventor de histórias, um alcoviteiro. Parecia mais interessado em meter-se entre as minhas pernas do que em qualquer outra coisa.

 

- E os amigos dele?

 

- Oh, ele falava do Hepel...

 

- Sabes que ele desapareceu? - interrompeu Ualu.

 

- Ai sim? Talvez tenha fugido.

 

- E ouviste falar nas mortes de Lamna, do médico Intef e da viúva Felima?

 

Nechratta ficou séria.

 

- Dizia que a Lamna era gorda e devassa. Acho que ele estava apaixonado por Felima. Até tentou usá-la contra mim; não que eu me importasse.

 

- Mais alguém?

 

- Ninguém, Perguntei-lhe se tinha um patrono em Tebas, mas ele respondeu que não.

 

- Mas tinha - retorquiu Amerotke. - Encontrava-se com alguém na Rua das Lamparinas a Óleo. Um homem que usava a máscara de Hórus.

 

- Mas isso era eu! Amerotke empurrou a cadeira para trás.

 

- Minha senhora, isso é mentira!

 

- Meu senhor juiz - proferiu Nechratta imitando a voz de um homem -, posso ter um corpo bonito... - Os seus olhos brilhavam divertidos. - Mas ouvi o meu pai inúmeras vezes. - A sua voz permanecia grave. - E se usar uma túnica, uma máscara, se tirar a peruca e cobrir a cabeça, por que razão não posso ser tomada por um homem? - Inclinou-se para a frente. - Consigo ser mais homem do que muitos homens que conheci. Oh, sim, delegado Ualu! - O olhar de Nechratta deteve-se nas longas unhas pintadas do delegado real.

 

- Porque havias de alugar um quarto na Rua das Lamparinas a Óleo?

 

- Ora, para me encontrar com o meu amante, claro. Não é difícil. Vejam as pessoas cá de casa. A minha mãe está na cama com pelo menos meio jarro de vinho no bucho. O general Pechedu está à caça de todos os pássaros que passarem perto dele. Quem dará pela minha falta se me ausentar uma hora ou duas?

 

Amerotke pôs-se de pé para aliviar a cãibra na perna. Caminhou até às portas abertas que davam para o jardim. Alguns criados andavam a regar os canteiros. Outros, atarefados juntos das romãzeiras. Fechou os olhos e inspirou o perfume do jardim.

 

- Meu senhor juiz!

 

Amerotke ignorou Ualu. Olhou para o céu azul. E se, pensou ele, aquela jovem, que odiava o pai e tudo o que tinha a ver com a sua vida militar, fosse responsável por aqueles assassínios? Nechratta era determinada, inventiva. Podia ter atacado Nebamum naquela viela, ter-se esgueirado até à Capela Vermelha ou atravessado a nado o lago do general Ruah. Podia até ter vestido uma túnica preta e um capuz e ter sido aquele archeiro misterioso. Segundo ela própria admitira, podia entrar e sair de casa sempre que lhe apetecia. Podia ter morto Ipumer porque estava farta dele. Mas porquê matar Balet e Ruah? Por algum ressentimento secreto? Detestava o pai e ficava aliviada pelo facto de as negociações do casamento com Karnac não terem dado em nada, mas porquê? Amerotke voltou-se e dirigiu-se lentamente para a sua cadeira,

 

- Encontraste-te com o teu amante naquele quarto alugado por cima da loja de candeeiros, ou entre as árvores a meio da noite. De que é que o Ipumer falou?

 

- Daquilo que os homens falam sempre. De como era bom! De como era um amante maravilhoso! A princípio achei graça àquela conversa. Ele foi até suficientemente arrogante e estúpido para falar do nosso futuro juntos... da forma como iria abordar o meu pai. Eu disse-lhe que não fosse idiota.

 

- Então, ele deve ter ficado bastante chocado quando decidiste rejeitá-lo? - perguntou Ualu, batendo com as mãos no regaço.

 

- Claro que ficou.

 

- Deve ter-te ameaçado, chantageado..

 

- Claro que sim. - A resposta foi mordaz. - Ri-me na sua cara. Quem é que ele iria chantagear? O meu pai, que sabia de tudo?

 

- Mas continuou a vir ter contigo?

 

- Claro, delegado Ualu! Achava que eu iria mudar de idéias.

 

”Não tinhas motivos para o envenenar”, pensou Amerotke. ”Para ti, nada tinha importância.”

 

Sentada na cadeira, Nechratta brincava com um fio solto da túnica.

 

- As ameaças do Ipumer... recebeste-as bem, não recebeste? - perguntou Amerotke.

 

Nechratta levantou a cabeça e piscou o olho a Amerotke.

 

- Claro. Tudo para embaraçar o meu pai.

 

- Voltemos ao escriba. Ele contou-te alguma coisa da sua vida passada?

 

- Muito pouco, para além das gabarolices: que fora escriba, que os pais tinham morrido e que viera para Tebas em busca de fortuna.

 

- Mas devem ter falado de outros assuntos! O Ipumer era escriba na Casa de Guerra, o teu pai era um militar famoso.

 

- Oh, sim, ele falou das Panteras do Sul - zombou ela.

- O que pensas daqueles homens, meu senhor Amerotke? Sabes que o meu pai não simpatiza contigo. Não lhe agrada nada a tua intrusão, nem aos outros. Acham que a divina Hatusu... - proferiu, cuspindo as palavras - nunca devia ter permitido que a morte do Ipumer fosse levada para a Sala das Duas Verdades.

 

- Eles não estão acima da lei.

 

- Mas pensam que estão. - Ela inclinou-se para a frente. - Queres que te diga uma coisa, meu senhor Amerotke? Eles odeiam ser governados por uma mulher!

 

Amerotke ignorou a reacção de Ualu, que ficara boquiaberto. Nechratta encaminhara-os para uma possível traição.

 

- Sabiam isso, não sabiam? - No seu rosto surgiu uma expressão zombeteira. - Homens como Karnac terem de se prostrar e de beijar os bonitos dedos dos pés de Hatusu? Não foram muito entusiastas no seu apoio quando ela subiu ao trono na Casa de Adoração.

 

- Algumas secções do exército reagiram assim - retorquiu Amerotke -, mas a divina Hatusu mostrou-lhes que era tão boa guerreira como o pai.

 

- Oh, sim, e foi isso que a safou. Uma das maiores vitórias contra os Mitânios. Mesmo assim, continuam a não gostar dela.

 

- São súbditos leais - contrapôs Ualu.

 

- Hum... - Nechratta inclinou a cabeça para um lado e para o outro, indicando ambivalência. - Também não são o bando de irmãos que fingem ser. Já ouvi as discussões deles. Sabiam que jantam todos os meses em casa de um deles? O vinho jorra e as línguas soltam-se. Ouviram falar na lenda, não ouviram?

 

Amerotke abanou a cabeça.

 

- Minha senhora, o que tem isso a ver com o Ipumer?

 

- Oh, tudo! Há uma lenda sobre as Taças do Escorpião que foram roubadas do acampamento dos Hicsos. Bem, quando o meu pai morrer a taça dele volta para o Templo de Set.

 

No entanto, existe uma profecia que diz que todas as taças serão reunidas e devolvidas ao faraó quando uma mulher poderosa governar Tebas.

 

- Nunca ouvi falar nisso!

 

- É natural que não, mas o Ipumer ouviu, pois era escriba na Casa de Guerra. Sabias que o comandante Karnac queria que a tradição terminasse? Que quando o Balet foi assassinado julgaram que a mão da divina Hatusu estava por trás de tudo?

 

Amerotke ocultou a sua surpresa e o seu aborrecimento. Agora percebia por que motivo Hatusu estava tão interessada naquele caso. Se as mortes continuassem, surgiriam os dedos acusadores e os sacerdotes linguarudos começariam a falar do assunto. Por que motivo se permitira que aqueles heróis de Tebas vivessem e morressem com dignidade durante os reinados do avô, do pai e do meio-irmão de Hatusu, perguntariam eles, mas, assim que a rainha lhes sucedeu, tivessem começado a ser assassinados? - Como sabes tudo isso? - perguntou Amerotke.

 

- O Ipumer viu algumas cartas, relatórios confidenciais. Era metediço, o meu escriba. Parece que o comandante Karnac escreveu à divina Hatusu a pedir que as taças fossem devolvidas às famílias dos heróis.

 

- E presumo que o Ipumer tenha lido a resposta da divina...

 

- bom, não a dela, mas a do amante, o pedreiro Senenmut. i,;

 

- Cuidado com a língua! - interrompeu Ualu, irritado. Nechratta mostrou-se carrancuda.

 

- Porquê, delegado Ualu? Irei meter-me em sarilhos? Inclinou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.

 

- O Ipumer alguma vez falou das Panteras do Sul, dos feitos do Regimento de Set?

 

- Sim, disse uma vez que os feitos deles tinham por base a morte de uma mulher.

 

- Antipatizava com eles?

 

- Por vezes falava em tomde chacota, mas nada de muito sério. Não era um espião nem se opunha à divina Hatusu.

 

Era um homem que apreciava as coisas boas, um macaco à procura de sarilhos. Falou-me de Chichnak, o sacerdote da Capela Vermelha... de como ele gostava de oferecer a mulher aos visitantes; que alguns dos nossos grandes heróis aproveitavam a sua oferta. O meu pai foi um deles. Por isso, meu senhor juiz... - Nechratta passou com os dedos pela testa. Nada mais posso dizer-te. O Ipumer amou-me. Tivemos um romance e ele morreu.

 

Amerotke teve a sensação de que a jovem os fazia andar em círculos. Contara-lhes a melhor mentira, uma mentira misturada com uma boa dose de verdade. Como conseguiria ele separar o trigo do joio? Olhou de esguelha para Ualu: os olhos e os ouvidos do faraó pareciam igualmente perplexos.

 

- Senhor delegado, estou a pensar em fazer um apelo directo ao faraó - declarou Nechratta. - O Ipumer pode ter vindo até aqui, pode ter-se encontrado com uma das criadas, mas não há nada que prove que estive com ele, que o beijei ou que lhe dei veneno a comer ou a beber. Ele tinha outros amigos em Tebas. Como é que podemos saber que ele não visitou o médico Intef ou... - Fez uma pausa, mordendo o lábio - ... ou a viúva Felima?

 

Amerotke tinha a certeza de que ela quase chamara cadela a Felima, e que se refreara a tempo. Perguntou de si para si qual seria a causa daquele ressentimento.

 

- Alguma vez estiveste com Felima? - perguntou ele abruptamente.

 

- Nunca.

 

- Ou com o médico Intef?

 

- Porque haveria de ter estado? Amerotke pôs-se de pé.

 

- Será que podias deixar-nos a sós por um momento? perguntou ele a Nechratta.

 

- Com todo o gosto - respondeu ela.

 

Levantou-se, fez uma vénia a ambos e saiu pela porta que dava para o jardim.

 

Ualu respirou fundo.

 

- Vamos ter de desistir deste caso. Ela é uma atrevida, com uma língua tão afiada como a de uma cobra-capelo. Não conseguimos ligá-la à morte do Ipumer. Segundo admitiu, tanto lhe fazia que o escriba vivesse ou morresse. Só parece interessada em humilhar o pai.

 

- Ela está a mentir - declarou Amerotke. - Não podemos provar nada do que disse. Tanto quanto sabemos acrescentou, baixando a voz -, pode ter sido ela a trazer o Ipumer para Tebas. Que melhor forma de humilhar o Pechedu e os outros do que entregar-se ao filho da grande inimiga deles? E o que ela diz tem lógica. O Ipumer era um homem atraente com uma língua de veludo. Veio a esta casa durante quase um ano. Uma das criadas pode ter-se apaixonado por ele. O escriba aceitou a oferta, o que era uma excelente forma de Nechratta espiar o antigo amante.

 

- Veremos. Veremos. - A voz de Ualu revelou irritação.

- Meu senhor Amerotke, é melhor revermos as provas. Chamemos a criada.

 

Amerotke dirigiu-se ao jardim. Nechratta estava sentada sob o caramanchão coberto de flores. Concordou de imediato com o seu pedido. A jovem criada foi chamada e levada até à sala. Amerotke sentou-se e assistiu ao interrogatório feito por Ualu. A rapariga parecia apavorada, mas manteve a história. Subornos, adulações e ameaças falharam: a ama não saíra do quarto naquela noite. A irmã mais nova, que tivera um pesadelo, fora deitar-se na cama dela. A criada abrira a porta várias vezes e trancara-a. Nechratta dormia profundamente no lado da cama mais próximo da porta. Ualu teve de desistir e a rapariga foi dispensada.

 

- Mais alguma coisa?

 

- Está na altura de falarmos com a senhora Uemsit e com a irmã mais nova de Nechratta, Kheai.

 

Nechratta voltou a concordar mas, quando estava prestes a sair da sala, um camareiro bateu à porta e entrou cheio de pressa, anunciado a chegada do comandante Karnac.
Set: o deus que, auxiliado pelas sete estrelas que formam a Ursa Maior, atacou Hórus.

 

O general Pechedu ia morrer. Não o sabia, e talvez tenha sido por isso que os deuses lhe concederam um breve momento de felicidade, antes de o seu ka iniciar a conturbada viagem para o Ocidente. Não havia nada de que Pechedu gostasse mais que vestir uma túnica simples e calçar umas sandálias e ir caçar num esquife ao longo dos braços solitários do Nilo. O esquife era largo, baixo e manobrado pelo criado sentado à proa. Pechedu estava ao meio, rodeado de redes, de cestos e das lanças curvas e achatadas com inscrições de orações a Set, Osíris e outros deuses que abençoariam a caçada. Pechedu saboreara a manhã. O esquife percorrera um longo caminho a partir da cidade até chegar ao local favorito do general em frente às ruínas do Templo de Bes. O silêncio era interrompido pelo rugido ocasional de um hipopótamo oculto no meio dos papiros, pelos sons da água e pelo chapinhar raro dos crocodilos. Estes saíam do Nilo para gozar o calor nas suas margens e, depois de aquecidos, rastejavam até à sombra dos salgueiros.

 

Pechedu recordou a infância, como o pai costumava levá-lo até ali e o ensinava a arremessar a lança. Até tinham um gato, treinado para ir buscar as aves tombadas. Pechedu fechou os olhos. Dias longos e soalheiros! Verdade fosse dita, ele preferia a harmonia e a calma da sua juventude à turbulência gloriosa da sua vida adulta. Agarrou na lança e semicerrou os olhos por causa do sol. Devia ter-se dirigido à margem e procurado abrigo. No entanto, estava a divertir-se bastante, longe da esposa chorosa, das admoestações silenciosas dos camaradas e, acima de tudo, daquela temível raposa, a sua implacável filha Nechratta. Se Pechedu amaldiçoava alguma coisa, era o dia em que ela nascera. Encontravam-se em conflito aberto desde que ela era criança: obstinada, rebelde, a escarnecer constantemente dos feitos dele. As glórias do Regimento de Set, os triunfos das Panteras do Sul nada significavam para ela. Desde que lhe tinham aparecido as regras que provara ser uma influência perniciosa e um incómodo. Namoriscava com um, provocava outro, fazia olhinhos a todos os maus partidos que conhecia. Karnac tê-la-ia posto na linha. Tê-la-ia submetido mas, claro, houvera aquele grande escândalo, a humilhação, as promessas de sigilo e, finalmente, aquele maldito Ipumer. Pechedu afastou com a mão as moscas que esvoaçavam à sua volta, ansioso por se banquetear com as aves que já caçara.

 

- Meu amo?

 

O criado interrompeu-lhe os devaneios. Apontava para o meio dos papiros, os seus arbustos elevando-se da água, as extremidades emplumadas ligeiramente inclinadas com a brisa. Aquilo fazia sempre recordar a Pechedu uma floresta flutuante.

 

- O que foi? - perguntou o general.

 

- Devemos aproximar-nos mais?

 

Pechedu concordou. Firmou os pés no fundo do esquife feito de folhas de papiro unidas muito juntas. Viu um bando de aves levantar vôo. O seu olhar pousou numa que perseguia as grandes borboletas que esvoaçavam sobre as plantas, mas foi distraído por outra, uma ave com um bico comprido enfiado na corola de uma flor.

 

- O que as terá assustado, senhor?

 

- Provavelmente uma doninha - resmungou Pechedu. Perseguiu a presa e atirou a lança. Esta acertou em cheio no corpo da ave e regressou com uma curva graciosa. Pechedu’ orgulhava-se da sua perícia. O criado fixaria o local onde a ave tinha caído, e ele gemeu de prazer ao apanhar a lança com a mão esquerda. O criado impulsionou o esquife com a vara e, com uma rede grande, apanhou o corpo da ave. Entregou-a a Pechedu, que a examinou, admirando as suas penas brilhantes antes de a colocar junto das outras.

 

- Devo dirigir o barco para o meio do rio, meu amo?

 

- Daqui a pouco.

 

Pechedu esboçou um ligeiro sorriso. O criado parecia nervoso, provavelmente apercebera-se dos hipopótamos que se encontravam no meio dos papiros, bem como dos enormes crocodilos de focinho comprido. Estes haviam comido bem e só regressariam ao rio quando estivessem suficientemente quentes ou fossem atraídos por uma presa. No meio dos papiros, estava mais fresco.

 

Pechedu equilibrou-se com cuidado. Seria capaz de ficar ali todo o dia. Talvez devesse ficar? Quem poderia ameaçá-lo ali? Estava bem armado, era forte e corajoso. Recordou os avisos de Amerotke; os seus lábios contorceram-se numa expressão escarninha. Não aceitaria ordens de um burocrata. Para descansar um pouco as pernas, acocorou-se. Numa coisa concordara com Amerotke, ou quase. O assassino que andava a persegui-los devia estar ligado ao Regimento de Set, embora Pechedu tivesse alguma dificuldade em aceitar isso. Colocou o chapéu de palha na cabeça rapada para se proteger do sol. Sim, ficaria ali todo o dia, depois subiria o rio e visitaria o Templo de Anúbis. Estava interessado numa heset jovem, ágil: tinha pernas compridas, uma cintura estreita e seios maravilhosamente esculpidos! Sim, tomaria banho e mudaria de roupa e ela iria ajudá-lo. Partilhariam um jarro de vinho numa daquelas pequenas casas de comida junto ao templo.

 

O rugido de um hipopótamo sobressaltou o comandante. Houve uma certa agitação no meio dos papiros. O criado olhou alarmado por cima do ombro.

 

- General Pechedu, devíamos voltar para o meio do rio. Pechedu concordou. O criado manobrou habilmente o esquife; este deslizou pela água. O homem impulsionava a vara com vigor. Afastaram-se dos papiros. Pechedu olhou para a esquerda e a sua pele gelou. Outro esquife avançava pela água paralelamente ao seu, apenas a alguns metros. Um homem remava, outro estava ajoelhado virado na sua direcção. Pechedu viu horrorizado o homem levantar o arco. A seta foi disparada e rasgou o ar entre ele e o criado. Pechedu atirou-se para o fundo do esquife. Agarrou no seu arco e levantou a cabeça. Aqueles dois vultos negros assemelhavam-se aos devoradores do mundo inferior. Outra seta rasgou o ar e cravou-se na garganta do criado. As convulsões do homem fizeram balouçar o esquife. Pechedu tentou arrancar a vara dos dedos inertes do homem. Demasiado tarde. A vara caiu ao rio e o criado tombou para trás, os olhos sem vida virados para o céu.

 

Pechedu agarrou no arco, mas a seta seguinte acertou-lhe em cheio no peito com uma força tal que o atirou para o rio. A dor era muito forte. Viu o seu próprio sangue manchar a água, a sua boca encheu-se de água, e os seus braços e pernas perderam a força. Tentou virar-se de barriga para baixo e avistou os crocodilos, que haviam sido atraídos pelo barulho e pelo cheiro do sangue. Já deslizavam pelas margens, mergulhando silenciosamente nas águas do Nilo.

 

Amerotke e Ualu receberam o comandante Karnac e Nebamum na sala onde tinham interrogado Nechratta.

 

- Soube do ataque de que foste alvo. - Karnac sentou-se numa cadeira e fez sinal a Nebamum para que trouxesse um banco para si próprio. - Quem poderia ter sido?

 

- O quê? - perguntou Ualu.

 

- Fomos atacados quando vínhamos para cá - explicou Amerotke. - Por um assassino escondido. Ele disparou três ou quatro setas.

 

- Na tua direcção?

 

- Não, meu senhor delegado, na direcção de Nebamum.

- Amerotke sorriu quando o ajudante se sentou junto a Karnac. - Ele escapou ileso.

 

- Não foi difícil - retorquiu Nebamum. - A vegetação rasteira escondeu-me, as árvores estavam muito juntas; escapei facilmente sem ver ou ouvir o nosso atacante.

 

- Quem poderia ter sido? - repetiu Karnac.

 

- Não sei - respondeu Amerotke, exasperado.

 

- Bem, isto só prova uma coisa. - Karnac brincava com a borla de uma faixa. - Eu, Heti e Turo estávamos em minha casa quando isso aconteceu. Nebamum encontrava-se com o senhor juiz... - Calou-se. O seu olhar acusava Amerotke. - Falta o general Pechedu.

 

- Ele anda a caçar no rio - respondeu Karnac. - O idiota foi para tão longe que não conseguimos encontrá-lo.

 

- Há ainda a filha dele - interveio Ualu. Karnac emitiu um som rude.

 

- A divina Hatusu é uma guerreira - acrescentou o delegado.

 

- Vim aqui à procura do Pechedu, mas desejas interrogar-me novamente, juiz Amerotke?

 

- Fá-lo-ei as vezes que forem necessárias até que se descubra a verdade. Estiveste noivo da senhora Nechratta, não é verdade?

 

- Pensei nisso.

 

- E então?

 

- Mudei de idéias.

 

- Porquê?

 

- Não gostava dela.

 

- Porque não? Karnac sorriu.

 

- Sou capaz de avaliar um bom cavalo e uma boa mulher: nunca me engano. Ela depois envolveu-se com o Ipumer...

 

- E isso incomodou-te, comandante Karnac?

 

- Claro. As mulheres ou são senhoras ou hesets. Toda a gente tem de fazer opções, Amerotke. - Karnac abriu as mãos. - Ela envolveu-se com o escriba, não foi? Dormiu com ele. É ou não é verdade, ”olhos e ouvidos do faraó”? perguntou, virando-se para Ualu.

 

- Tal como ela própria admitiu - respondeu o delegado com tacto. - Encontrou-se com ele aqui e disfarçou-se, fingindo ser um homem, ocultando o rosto com uma máscara de Hórus.

 

Karnac fungou, indignado.

 

- O Pechedu devia tê-la mantido com rédea curta. Ela merece ser enterrada nas Terras Vermelhas. Não é, Nebamum?

 

O ajudante, que aguardava pacientemente de pé ao lado dele, assentiu.

 

- Avisei-te na altura, senhor, uma mulher daquelas não serve para ti.

 

- E a divina Hatusu? - Amerotke mudou de táctica.

 

- O que tem? Regozijo-me quando o seu rosto me sorri. A resposta, que seguia a etiqueta, saiu dos lábios de Karnac, mas os seus olhos tinham uma expressão trocista. A forma como estava reclinado na cadeira era mais eloqüente a respeito dos seus verdadeiros sentimentos em relação à rainha.

 

- Alguma vez...? - Amerotke olhou para o tecto, decorado com raios de sol vermelhos e estrelas prateadas.

 

- Vá lá, homem, desembucha!

 

- Alguma vez falaste com a divina Hatusu? A propósito das Taças do Escorpião?

 

- Sim. As taças deviam ser devolvidas às famílias dos heróis. É um tributo mais adequado.

 

- Então, não foi por causa da lenda? - insistiu Amerotke. - Aquela que diz que, quando todas as taças tiverem sido entregues, Tebas será governada por uma poderosa rainha-faraó?

 

- Não ligo a lendas, Amerotke, mas sim a factos concretos. As taças foram entregues aos heróis pelo avô da divina Hatusu. É mais lógico que continuem com eles. - Karnac endireitou-se na cadeira. - Também tentei explicar o erro...

- Karnac conteve-se a tempo. - Tentei persuadir a divina Hatusu de que devia ser construído em Tebas um tributo mais adequado ao exército, ao Regimento de Set e às Panteras do Sul.

 

”Aí está!”, pensou Amerotke; Karnac era um guerreiro corajoso mas igualmente um homem implacável e arrogante. Não lhe agradava ser governado por uma jovem como Hatusu. Aproveitaria todas as oportunidades para embaraçá-la ou para exigir mais honras e triunfos em troca do seu apoio. Estava sentado como um faraó, respondendo apenas às perguntas de Amerotke porque, se não o fizesse, Hatusu chamá-lo-ia à Casa do Milhão de Anos e insistiria na sua colaboração.

 

- O general Pechedu é bastante estúpido – declarou Amerotke, empurrando a cadeira para trás. - Avisei-o no oásis de Assiua, tal como estou a avisar-te agora, comandante: o setiano só estará satisfeito quando tiver todas as vossas cabeças.

 

- Então, vai ter de me arrancar a minha, não é verdade, Amerotke?

 

E, levantando-se, saiu da sala. Nebamum sorriu, pedindo desculpas, fez uma vénia e seguiu-o rapidamente.

 

- Acabastes de arranjar um inimigo. - Ualu esboçou um sorriso travesso.

 

- Não me importa. - Amerotke olhou para a porta. O Karnac deve ter bastante dificuldade em beijar os dedos dos pés da rainha. Se eu fosse a ti, ”olhos e ouvidos do faraó”, ficava atento ao comandante Karnac.

 

O sorriso desapareceu do rosto de Ualu.

 

- Achas que ele é um traidor?

 

- Não, é um homem que odeia toda a gente. Isso torna-o perigoso.

 

- Achas que ele pode ser o assassino? - perguntou Ualu.

 

- De quem? Do Ipumer? Eu diria que ele ficou ofendido com o êxito dele, mas, uma vez que não gostava da senhora Nechratta, por que motivo havia de dar-se a esse trabalho?

 

- E dos generais Balet e Ruah?

 

- Talvez! - Amerotke bateu com o punho na coxa. Mas a verdadeira questão é: porquê?

 

Ualu baixou a cabeça e arrastou um pouco os pés.

 

- Tens alguma coisa a dizer-me?

 

O delegado lançou-lhe um olhar envergonhado.

 

- Tenho um recado da divina Hatusu. Duvido que este caso volte a tribunal.

 

- Ai volta, volta - retorquiu Amerotke. - Costumo acabar as coisas que começo. Se a divina Hatusu deseja estar presente, está no seu direito.

 

- É essa a tua resposta?

 

- É a minha única resposta, delegado Ualu. Agora acho que devíamos interrogar a mãe de Nechratta, a senhora Uemsit.

 

Ualu, mergulhado nos seus pensamentos, perguntando de si para si como iria apresentar a resposta de Amerotke à rainha-faraó, levantou-se e dirigiu-se à porta. Murmurou qualquer coisa ao camareiro e depois voltou a sentar-se ao lado do juiz.

 

- Isto vai ser estranho - sussurrou.

 

- O que queres dizer?

 

- Aguarda e verás - respondeu Ualu, enigmático. Uma coisa te digo, meu senhor Amerotke: se tu e a senhora Norfret têm segredos, é melhor que os mantenham assim. É espantoso o que se sabe pela conversa dos criados.

 

A porta abriu-se e a senhora Uemsit entrou. Mal os cumprimentou, lançou-se para uma cadeira. Era uma mulher roliça e bochechuda, o rosto coberto de pintura, jóias em redor do pescoço e dedos cheios de anéis. Tinha um xaile em brocado bastante vistoso sobre a túnica branca, muito diáfana e decotada, revelando seios roliços a que ela encostava constantemente uma pequena saqueta perfumada. Estava afogueada e ainda não parara de se mexer como se à procura de uma posição confortável, batendo com as sandálias prateadas no chão, impaciente por ir-se embora.

 

- Eu... eu não sei realmente o que desejam - disse por fim, os seus olhos negros fitando Amerotke e Ualu. - Realmente, acho que devia ser interrogada na presença do meu marido. Quem me dera que ele regressasse. Tem problemas de sobra, mas não deixa de só fazer sempre o que quer.

 

- Isso inclui a noite em que o Ipumer veio a esta casa e foi assassinado? - perguntou Amerotke.

 

O corpo de Uemsit ficou inerte. Olhou para Amerotke.

 

- O que tem isso a ver? Ele só se aproximou desta casa. Não foi autorizado a entrar.

 

- Exerce um grande controlo sobre a senhora Nechratta?

- insistiu Amerotke.

 

- Nenhum. - Uemsit esticou os lábios, aborrecida. Teimosa e de idéias fixas - queixou-se. - Vai ser a nossa morte!

 

- E a noite em que o Ipumer morreu? O general Pechedu?

 

- O general - Uemsit desviou o olhar. - O meu marido estava ausente em serviço. Só regressou ao nascer do dia. Fá-lo muitas vezes.

 

- E a senhora Uemsit encontrava-se no quarto?

 

Ela ergueu a cabeça. Parecia assustada, como um gato tímido encolhido numa cadeira.

 

- Saiu do quarto durante aquela noite? - insistiu Amerotke.

 

- O senhor está a sugerir que me encontrei com o Ipumer?

 

- É possível - zombou Ualu. - O Ipumer tinha uma língua de prata. Podia ter um fraco por mulheres bonitas e maduras - acrescentou com um sorriso.

 

Uemsit reclinou-se na cadeira. Amerotke pressentiu que o delegado sabia muito a respeito daquela mulher.

 

- Responda à pergunta do juiz Amerotke - ronronou Ualu. - Saiu do quarto? Quero dizer, a senhora estava lá sozinha?

 

- Tenho uma testemunha - murmurou Uemsit, recusando-se a levantar a cabeça. - Mas peço-vos, senhores, não me envergonhem.

 

- E quem é essa testemunha?

 

- A minha criada, Ita; é a minha aia - continuou Uemsit rapidamente. - O general Pechedu está fora muitas vezes. Comecei a ficar com medo...

 

Amerotke manteve uma expressão impassível. A resposta de Uemsit era bastante eloqüente. Já ouvira muitas vezes que aquelas práticas eram comuns entre as senhoras abastadas de Tebas. Norfret aflorara o escândalo delicioso que borbulhava sob o verniz da sociedade.

 

Uemsit tinha os ombros curvados.

 

- Por favor! - implorou num murmúrio. - Estou disposta a jurar o que quiserem, bem como a Ita! Estivemos juntas toda a noite. É difícil... - Soluçou. - O general Pechedu é um homem muito difícil. As minhas filhas vivem no seu próprio mundo. Sentia-me sozinha, assustada.

 

Amerotke inclinou-se para a frente e agarrou-lhe na mão roliça. Sabia no seu íntimo que a mulher contava a verdade. Não a imaginava a esgueirar-se a meio da noite até à rua para fazer amor com alguém como Ipumer. Uma mulher que já se fartara do mundo dos homens.

 

- Minha senhora, tente acalmar-se. Aquilo que nos contou não será repetido em tribunal, nem registado em parte alguma. Está preocupada com o seu marido?

 

Uemsit levantou a cabeça. As lágrimas tinham transformado o kohl em riscos negros que lhe escorriam pela cara.

 

- Ele vai regressar não tarda - confortou-a Amerotke -, e tem de a encontrar bonita. Agora, gostaria de falar com a sua filha mais nova, Kheai.

 

- Ela é uma inocente - gemeu Uemsit.

 

- Eu sei. Mas temos de a interrogar ainda assim. Uemsit suspirou. Levantou-se e saiu da sala como uma sonâmbula.

 

- Eu tinha-te dito - murmurou Ualu. - As conversas dos criados às vezes são mais valiosas do que pérolas. Acreditas nela, não acreditas, Amerotke?

 

- Que os deuses a protejam! Acho que é uma mulher que se esconde da família.

 

Amerotke deteve-se quando a porta se abriu e Kheai entrou. Era diferente da mãe e da irmã, uma rapariga elegante e meiga, o cabelo preso na nuca com uma fita. Tinha olhos grandes e expressivos e um rosto doce. A forma como andava e se sentou fez lembrar a Amerotke uma corça. Parecia não ter medo e fitou os dois homens de olhos muito abertos. Estava vestida com simplicidade: envergava uma túnica, tinha uma pulseira de ouro e não usava anéis.

 

- O teu nome é Kheai? - perguntou Amerotke.

 

- Sim senhor.

 

- Que idade tens?

 

- Catorze verões, senhor.

 

- Amas a tua mãe?

 

Um ligeiro sorriso.

 

- E o general Pechedu? O sorriso esmoreceu.

 

- E a tua irmã Nechratta? Ela esboçou um grande sorriso. Amerotke obtivera a resposta.

 

- A Nechratta é muito corajosa - murmurou ela. Protege-me sempre do pai. Empresta-me as jóias dela e ouve-me sempre. Não é tão teimosa como parece. Foi magoada.

- Kheai mordeu o lábio, como se tivesse falado de mais. - Magoada? - perguntou Amerotke. - Oh, nada de especial, apenas em assuntos do coração.

 

- Ela amava o Ipumer?

 

- Não. Achava-o interessante. Creio que o seu objectivo era aborrecer o pai.

 

A resposta fora dita com tanta naturalidade que Amerotke soltou uma gargalhada.

 

- E ela saía para se encontrar com o Ipumer na cidade?

 

- As vezes, quando andávamos às compras.

 

- E à noite?

 

- De vez em quando, mas depois deixou-se disso. Disse que ele a enfadava, que estava a tornar-se rapidamente um aborrecimento. Por vezes parecia perturbada.

 

- Perturbada?

 

- Não sei porquê. Cansou-se e não gostava das ameaças dele.

 

- Alguma vez viste o Ipumer?

 

- Sim, quando ela e eu íamos à cidade. Encontrávamo-nos numa das pequenas lojas de vinho, longe dos olhares indiscretos.

 

- E falavam de quê?

 

- Oh, eu não os ouvia. Eles sentavam-se no jardim à sombra das árvores. Eu fingia ir ver os peixes ou as flores. Ele ia-se embora e continuávamos as nossas compras.

 

- E na noite em que ele veio cá? - inquiriu Ualu. A tua irmã é acusada de tê-lo envenenado.

 

- Isso não é possível. - No rosto de Kheai surgiu a mesma expressão teimosa da irmã. - Eu tive um pesadelo com o grande morcego vermelho e um homem-crocodilo que saía do pântano e vinha para o nosso jardim. Acordei aos gritos. O meu pai tinha saído e a minha mãe... bem... Encolheu os ombros. - Por isso fui para o quarto dela. A criada estava à porta, a dormir num catre. Abri a porta e entrei.

 

- Que horas eram?

 

- Oh, meus senhores, ainda não era meia-noite! A minha irmã é bondosa. Meti-me na cama. Ficámos deitadas a conversar durante um bocado. Acordei várias vezes. Apercebi-me de que a criada abria a porta de vez em quando para ver se tudo estava em ordem.

 

- E a tua irmã não saiu do quarto?

 

- Como podia tê-lo feito, senhor? O meu sono foi bastante leve por causa de um problema de estômago.

 

Ualu levou as mãos à barriga como se a menção daquele problema o tivesse feito recordar o seu.

 

- Não sei mais nada. - Ela fitou-os muito séria. Meus senhores, não posso dizer-vos aquilo que eu própria desconheço.

 

Amerotke olhou para Ualu, que abanou a cabeça.

 

- A tua irmã costumava falar do Ipumer? Sabes alguma coisa sobre o escriba?

 

De novo o vigoroso aceno de cabeça.

 

- Muito bem.

 

Amerotke mandou-a embora. Durante algum tempo ele e o delegado ficaram em silêncio.

 

- A divina Hatusu tem razão - murmurou Ualu. A senhora Nechratta pode ser suspeita, mas não há provas. Não há nada que possa condená-la pelo assassínio do Ipumer, embora toda a gente vá pensar que ela é a culpada.

 

Amerotke estava sentado a olhar para o jardim. Intrigado, confuso, levantou-se e dirigiu-se à porta. Pediu ao camareiro que chamasse Chufoi.

 

- O que vais fazer? - perguntou Ualu.

 

- vou à Sala dos Arquivos e à Casa de Guerra. - Amerotke coçou a testa. - Quero descobrir tudo o que puder sobre as Panteras do Sul e sobre o Ipumer. Já fizemos demasiadas perguntas. Parecemos cães a morder a cauda. Assim não descobrimos nada. Ah, Chufoi!

 

O anão entrou na sala e olhou para Amerotke.

 

- Já estou à espera há imenso tempo. Nem sequer me ofereceram comida ou bebida.

 

- E pareces cheio de fome - brincou Amerotke. - Tenho uma tarefa para ti. Quero que vás à casa do predador, o do Bairro dos Perfumes.

 

- Porquê?

 

- Cala-te que eu já explico. As casas do médico Intef e de Felima foram incendiadas. Por isso o assassino está a tentar ocultar alguma coisa ao destruí-las. Quero que saibas se o predador descobriu alguma coisa. Tens o meu selo?

 

Chufoi assentiu.

 

- Alguma coisa em especial, meu amo?

 

- Saberás quando a vires. Também quero que vás à sala de trabalho do senhor delegado, a casa dos ”olhos e ouvidos do faraó” - acrescentou Amerotke. - Mais uma vez, quero que passes revista aos objectos do Ipumer, que faças uma lista e vejas se há alguma coisa fora do vulgar.

 

- Não há-de servir de muito, mas... - O delegado levantou-se, com uma mão sobre a barriga. - A natureza chama-me, meu senhor Amerotke. Tenho de aliviar as dores. Sou, como sempre, um mero servo das minhas entranhas.

 

O delegado dirigiu-se para a porta e acenou.

 

- Vi uma coisa estranha - murmurou Chufoi assim que o delegado fechou a porta. - Estava no vestíbulo da entrada e a senhora Nechratta passou por mim cheia de pressa. Parecia ter estado a chorar, mas não posso ter a certeza.

 

- A senhora Nechratta - confiou Amerotke - é a chave de todo este mistério. Tenho a certeza. Chufoi, põe-te a andar. Se encontrares o delegado pergunta-lhe se ele se recorda de alguma coisa suspeita sobre a viúva Felima ou sobre o Intef.

 

Chufoi foi-se embora. Amerotke olhou em volta. Tanta riqueza, tantas facilidades, e contudo tanta miséria. Perguntou a si mesmo onde estaria Pechedu. Recordou as pinturas que vira na Capela Vermelha no Templo de Set e esperava que elas não contivessem pormenores de outro assassínio. Saiu para o corredor.

 

- O senhor juiz vai-se embora? - perguntou o camareiro.

 

- O senhor juiz vai-se embora daqui a pouco - retorquiu Amerotke, com um sorriso. - Primeiro gostaria de visitar o quarto da senhora Nechratta.

 

O homem franziu o sobrolho.

 

- Gostaria de inspeccioná-lo - declarou Amerotke.

 

O homem conduziu Amerotke para o interior da casa e escadas acima por aquilo a que chamou as Escadas da Pantera. Amerotke percebeu por que motivo lhe chamavam aquilo. As paredes estavam cobertas de desenhos de caça representando um membro do Regimento de Set a enfrentar corajosamente panteras de aspecto muito feroz. A galeria em cima era de madeira polida. Amerotke percebeu que era uma ala da casa; o quarto de Nechratta ficava um pouco mais à frente. À porta havia um catre de junco. O camareiro abriu a porta. O quarto era bonito, espaçoso e arejado, com uma enorme cama de dossel ao meio, mesas elegantes, bancos e estantes junto às paredes. A cama estava oculta por cortinas de linho branco que mantinham afastado o calor, bem como os insectos e as moscas. Havia cadeiras de braços e bancos para os pés, mesas e estantes de madeira para as lavagens, jarros e taças. Um enorme leque de penas de avestruz fora encostado a um canto. Amerotke reparou que o motivo da pantera e a insígnia do Regimento de Set pareciam estar em todo o lado. Não eram de admirar as objecções de Nechratta!

 

Deixou o camareiro à porta e contornou a cama. Havia duas janelas grandes na parede mais afastada. Uma tinha portadas de cores alegres, a outra uma grade de madeira trabalhada. Amerotke agarrou nela e reparou como saía facilmente. Ignorou a expressão atarantada do camareiro, pousou no chão a grade e olhou para fora. À esquerda viu dois rebites de bronze cravados na parede. Fora ali que Nechratta prendera a escada de corda que devia guardar na arca sob a cama. A altura era de cerca de dois homens e lá em baixo havia um pequeno jardim murado com arbustos em volta. Amerotke observou o carreiro na relva que conduzia a um pequeno portão. Satisfeito, o juiz repôs a grade no lugar e juntou-se ao camareiro. Reparou que, ao andar, as tábuas de madeira rangiam.

 

Deixou a casa tão perplexo como entrara e, durante algum tempo, ficou parado à sombra do portão. Ipumer fora realmente ali na noite em que morrera. Entrara por aquele portão e encontrara-se com alguém. Mas quem? Nechratta não saíra do quarto. Amerotke estava convencido de que, pelo menos quanto àquele assunto, ela dizia a verdade, mas isso era apenas uma parte.

 

Encostou-se ao portão de madeira e olhou para as barcaças a meio do rio. Amerotke perguntou a si mesmo se alguma vez descobriria a verdade. Se não solucionassem o assassínio de Ipumer tudo o resto permaneceria oculto nas sombras. Olhou para o céu, protegendo os olhos do sol. Adoraria ir para casa, desfrutar do seu jardim luxuriante, talvez ensinar os filhos a pescar. Depois recordou-se da Casa de Morte, das almas daqueles corpos mutilados que exigiam justiça, uma justiça que não deveria tardar muito mais.