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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA / Campbell Black
OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA / Campbell Black

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

INDIANA JONES

Os Caçadores da Arca Perdida

 

Indiana Jones, professor de arqueologia e aventureiro intrépido, já descobriu muitos tesouros. Agora o futuro depende da descoberta de um objeto especial. Munido de um chicote e acompanhado por uma bela jovem, Indiana Jones viaja pelo Nepal e Egito, esquivando-se de venenos, armadilhas e cobras mortíferas, combatendo rivais antigos e recentes em busca de um objeto que é suposto dar um poder incrível a quem o possuir.

Subitamente a noite se encheu de disparos luminosos que saíam estridentemente da Arca, pilares de chamas que troavam na escuridão, línguas de fogo que queimavam os céus. Um círculo branco de luz formou um anel cintilante em redor da ilha, torrentes de espuma, forçando um maremoto a erguer-se no escuro. A luz era a luz do primeiro dia do universo, a luz do início, das coisas nascidas há pouco, era a luz de Deus: a luz da criação...

 

                                       

 

AMÉRICA DO SUL, 1936

A selva era uma mancha verde-escura, sombria e ameaçadora. A réstia de sol que passava entre altas barreiras de ramos e trepadeiras torcidas era pálida, esbranquiçada. O ar, quente e abafado, criava um muro de umidade. Pássaros gritavam em pânico, como se tivessem sido apanhados subitamente numa gaiola gigantesca. Insetos cintilantes corriam debaixo dos pés, animais agitavam-se e guinchavam na folhagem.

Primitivamente o lugar devia ter sido um terreno perdido, um ponto não assinalado no mapa, inexplorado - o confim do mundo.

Oito homens avançavam lentamente ao longo de uma trilha, parando de vez em quando para cortar uma liana pendente ou decepar um ramo suspenso. À frente deste grupo seguia um homem alto com um casaco de couro e um chapéu de feltro com abas.

Atrás dele iam dois peruanos, que observavam a selva com prudência, e cinco índios Quechua, nervosos, que se esforçavam por dominar um par de burros que transportavam o material e os mantimentos.

O homem que chefiava o grupo chamava-se Indiana Jones. Era musculoso, quase como um atleta que ainda está no seu auge.

Tinha uma barba loira e suja de vários dias e riscas de suor escuro num rosto que devia ter sido belo com uma expressão dócil, fotogênica. Já havia porém pequenas rugas em volta dos olhos, dos cantos da boca, transformando a beleza quase suave numa expressão de caráter, gravidade. Era como se os contornos da sua experiência tivessem começado, lentamente, a definir o seu aspecto.

Indy Jones não andava com a mesma cautela dos dois peruanos - a sua confiança fazia parecer que ele era o nativo, e não eles. Mas a sua arrogância não diminuía o sentido de alerta.

Conhecia o suficiente para olhar ocasionalmente, quase imperceptivelmente, de um lado para o outro, na expectativa de a selva revelar uma ameaça, um perigo, de um momento para o outro. O afastar súbito de um ramo ou o estalido de madeira apodrecida - esses eram os sinais, os pontos na sua bússola de perigo. Às vezes parava, tirava o chapéu, limpava o suor da testa e perguntava a si mesmo o que o incomodava mais - se era a umidade ou o nervosismo dos Quechuas. Muitas vezes falavam acaloradamente uns com os outros em explosões naquela língua estranha, uma língua que fazia lembrar a Indy os sons das aves da selva, criaturas da folhagem impenetrável, das névoas recorrentes.

Ele virou-se e olhou para os dois peruanos, Barranca e Satipo, e compreendeu que depositava pouca confiança neles e que no entanto, era obrigado a depender deles para tirar daquela selva aquilo que queria.

"Mas que grupo", pensou. "Dois peruanos furtivos, cinco índios aterrorizados e dois burros obstinados. E eu sou o chefe, que teria melhores resultados com um grupo de escoteiros.”

Indy virou-se para Bananca e, embora soubesse qual seria a resposta,perguntou:

- O que os índios estão dizendo?

Bananca parecia irritado.

- O mesmo de sempre, Senhor Jones. A maldição. Sempre a maldição.

Indy encolheu os ombros e fitou os índios. Indy compreendia as suas superstições, as suas crenças, e, de certo modo, aceitava-as. A maldição - antiga maldição do templo dos Guerreiros Chachapoyan. Os Quechuas tinham sido criados com ela; era intrínseca ao seu sistema de crenças.

Ele disse:

- Diz para eles se calarem, Barranca. Diz que não acontecerá nada de mau a eles.

O bálsamo das palavras. Sentia-se como um curandeiro a administrar uma dose de um soro não experimentado. Como diabo podia saber que nada de mau lhes aconteceria?

Barranca observou Indy por instantes, depois falou com dureza aos índios e estes ficaram calados por algum tempo - um silêncio de medo reprimido. Mais uma vez, Indy sentiu pena deles. Palavras vagas de consolo não podiam fazer desaparecer séculos de superstição. Pôs de novo o chapéu e avançou devagar pela trilha, infestada dos odores da selva, dos cheiros das coisas que cresciam e de outras que apodreciam, carcaças antigas cheias de moscas varejeiras, madeira em putrefação, vegetação quase morta.

"Podia pensar em melhores lugares que este.", pensou "Podias pensar em lugares mais agradáveis." E então começou a se interrogar sobre Forrestal, imaginando-o caminhando ao longo daquela mesma trilha há anos, imaginando a febre no sangue de Forrestal quando este se aproximou do Templo. Mas Forrestal, um excelente arqueólogo, não voltara da viagem àquele lugar. Fossem quais fossem os segredos que estivessem encerrados naquele Templo ainda estavam lá por desvendar.

Infeliz Forrestal. Morrer naquele lugar isolado era um terrível epitáfio. Não era esse que Indy queria.

Recomeçou a caminhada ao longo da trilha, seguido pelo grupo. Naquele ponto a selva estendia-se num vale profundo e a trilha atravessava o desfiladeiro como uma antiga cicatriz. Névoas já se erguiam do solo, vapores que ele sabia que se tornariam mais cerrados, mais densos, à medida que as horas passassem. As névoas ficariam presas naquele desfiladeiro como se fossem teias de aranha tecidas pelas próprias árvores.

Uma enorme arara, colorida como um arco-íris, saiu da vegetação rasteira soltando um grito e desaparecendo no meio das árvores, assustando-o momentaneamente. Então os índios recomeçaram a tagarelar, a gesticular freneticamente com as mãos, agitando-se. Barranca se virou e os silenciou com uma ordem violenta, mas Indy sabia que seria cada vez mais difícil mantê-los sob qualquer tipo de controle. Sentia a ansiedade com a mesma certeza com que sentia a umidade fazendo pressão na carne.

Além disso, os índios preocupavam-no menos que a crescente desconfiança nos dois peruanos. Sobretudo Barranca. Era um instinto profundo, aquele em que sempre confiava, uma intuição que sentira quase durante toda a viagem. Mas agora era mais forte: Sabia que lhe cortariam a garganta por alguns amendoins salgados.

"Já não falta muito", disse para si mesmo.

E quando percebeu que estava próximo do templo, quando entendeu como estava perto do ídolo dos Chachapoyans, sentiu uma vez mais a adrenalina a subir: a concretização de um sonho, um juramento antigo que fizera a si mesmo, um compromisso que assumira quando era um principiante em arqueologia. Era como se recuasse quinze anos ao passado, ao sentido de admiração familiar, ao impulso obsessivo de compreender os lugares obscuros da História, que a princípio o tinham entusiasmado em relação à arqueologia. "Um sonho", pensou. "Um sonho que tomava forma, deixando de ser uma coisa nebulosa para se tornar tangível. E agora podia sentir a proximidade do Templo, senti-la nos ossos."

Ele parou e escutou os índios a tagarelar de novo. “Eles também sabem. Sabem que já estamos perto." E isso os atemoriza.

Entre as árvores havia uma fenda na barreira do desfiladeiro. A trilha mal se via: ficara tapada com plantas trepadeiras, abafada por ervas bulbosas que rastejavam sobre raízes, raízes que tinham o aspecto de ramificações de esporos flutuantes que andavam à deriva no espaço, fixando-se ali por simples capricho.

Indy cortou-as num movimento amplo do braço, para que a faca de lâmina larga derrubasse os obstáculos como se fossem apenas folhas fibrosas. "Maldita selva. Não devia permitir que a natureza, mesmo nos seus aspectos mais perversos, mais selvagens, te vencesse." Quando parou estava encharcado de suor e os músculos doíam. Mas sentiu-se bem quando olhou para as trepadeiras cortadas, as raízes rachadas. E então percebeu a neblina que ficava mais cerrada, não era uma neblina fria, gélida, mas qualquer coisa proveniente do suor da própria selva. Conteve a respiração e atravessou a passagem.

Vislumbrou-o quando chegou ao fim da trilha. Lá estava ele. Lá ao longe, oculto por árvores densas, o Templo.

Sentiu-se arrebatado durante um segundo por estranhos laços da história; era uma sensação de permanência, um contínuo que tornava possível que alguém chamado Indiana Jones estivesse vivo no ano de 1936 e visse uma construção que fora erigida há dois mil anos. Receoso, Dominado, Uma sensação de humildade.

Nenhuma daquelas descrições era realmente correta. Aquela excitação era indescritível.

Durante algum tempo foi incapaz de proferir uma palavra.

Contemplou o edifício e maravilhou-se com a energia que fora necessária para construir uma estrutura como aquela no coração de uma selva implacável.

Então foi despertado para o presente pelos gritos dos índios, virou-se e viu os índios fugindo pela trilha abaixo, deixando os burros para trás.

Barranca tirara a pistola do coldre e apontava para os índios em fuga, mas Indy agarrou o pulso do homem, torceu-o um pouco, rodou o peruano para o olhar de frente.

- Não – ele disse.

Barranca olhou-o com ar acusador.

- São uns covardes, Senhor Jones.

- Não precisamos deles - disse Indy. - E não temos necessidade de os matar.

O peruano baixou a pistola, lançou um olhar ao companheiro, Satipo, e olhou novamente Indy.

- Sem os índios, senhor, quem transportará os mantimentos? Não ficou estipulado no nosso acordo que Satipo e eu fizéssemos trabalho subalterno, não é?

Indy observou o peruano, vendo a frieza no centro dos olhos negros do homem. Nem conseguia imaginá-lo a sorrir. Não era capaz de imaginar que a luz do dia alcançasse a alma de Barranca. Indy lembrou-se de que já vira uns olhos mortos como aqueles: num tubarão.

- Deixamos os mantimentos. Assim que tivermos aquilo que nos trouxe aqui, podemos regressar ao avião ao anoitecer. Agora não precisamos de mantimentos.

Barranca abanava a pistola com nervosismo. "Um tipo que gosta de puxar o gatilho.", pensou Indy. "Para ele, três índios mortos não faziam qualquer diferença.”

- Guarde a arma - disse Indy. - As pistolas não contam comigo, Barranca, a menos que tenha o dedo no gatilho.

Barranca encolheu os ombros e olhou para Satipo; estabeleceu-se entre eles uma espécie de comunicação silenciosa. Indy sabia que escolheriam o momento. Agiriam no momento certo. - Meta-a no cinto, está bem? - ordenou Indy.

Lançou o olhar para os dois índios, colocados nos seus lugares por Satipo. Tinham expressões patéticas de medo nos rostos; pareciam embrutecidos.

Indy virou-se na direção do Templo, contemplando, saboreando o momento. As névoas adensavam-se no local, uma conspiração da natureza, como se a selva tencionasse guardar para sempre os seus segredos.

Satipo abaixou-se e arrancou alguma coisa da casca de uma árvore. Estendeu a mão a Indy. No centro da palma estava uma flecha minúscula.

- Hovitos - disse Satipo. - O veneno ainda está fresco... Três dias, Senhor Jones. Devem estar nos seguindo.

- Se soubessem que estamos aqui, já teriam nos matado. - disse Indy calmamente.

Ele pegou a flecha. Tosca mas eficaz. Lembrou-se dos Hoviis, da sua lendária ferocidade, da sua ligação histórica ao Templo. Eram suficientemente supersticiosos para se manterem afastados do próprio Templo, mas indubitavelmente invejosos para matarem quem quer que lá fosse.

- Vamos. - disse ele. - Acabemos com isto.

Tiveram que golpear e dar cutiladas de novo, cortar e fender as trepadeiras elaboradamente emaranhadas, arrancar as plantas que se erguiam do chão como elos de correntes à espera da presa. Suando, Indy parou; largou a faca e a deixou balançando junto ao ventre. Percebeu pelo canto do olho que um dos índios erguia um ramo grosso. Foi o grito que o fez rodar subitamente, já com a faca no ar. Foi o grito estridente do índio que o fez correr para o ramo no momento em que o Quechua, ainda berrando, fugia e desaparecia na selva. O outro índio seguiu depois, tropeçando, tomado de pânico, nos ramos cheios de farpas e trepadeiras cortantes. Ambos desapareceram. Indy, com a faca em riste, levantou o ramo que tanto assustara os índios. Estava pronto para saltar sobre aquilo que os aterrorizara, pronto para atacar com a lâmina.

Afastou o ramo. Este caiu na névoa rodopiante.

Esculpida em pedra, sem tempo, era um rosto, a ficção de um pesadelo tenebroso, era uma escultura de um demônio Chachapoyan. Observou-o um segundo, consciente da malevolência do rosto imutável, e compreendeu que fora ali colocado para guardar o templo, para afugentar quem pudesse passar por lá.

"Uma obra de arte.", pensou, e interrogou-se por instantes sobre os seus criadores, o seu sistema de crenças, sobre o tipo de temor religioso que poderia ter inspirado algo tão horrível como aquela estátua. Fez um esforço para estender a mão e tocar no ombro do demônio de leve.

Então percebeu outra coisa, uma coisa que era mais perturbadora que o rosto de pedra. Mais arrepiante.

O silêncio.

O silêncio arrepiante.

Nada. Nem pássaros. Nem insetos. Nem uma brisa para vibrar os sons das árvores. Nada. Como se tudo naquele lugar estivesse morto. Como se tudo tivesse sido acalmado, silenciado por uma mão terrível, destrutiva. Tocou na testa.

Suor frio, muito frio. "Espectros", pensou. "O lugar está cheio de espectros." Aquele era um silêncio que se poderia imaginar antes da criação.

Ele afastou-se da figura de pedra, seguido pelos dois peruanos, que pareciam estranhamente dominados.

- Pelo amor de Deus, o que é? - perguntou Barranca.

Indy encolheu os ombros.

- Ah, alguma bugiganga antiga. Que mais poderia ser? Cada casa Chachapoyan devia ter uma, não sabia?

Barranca estava com ar carregado.

- Às vezes parece levar isto na brincadeira, Senhor Jones.

- Existe outra forma?

A névoa arrastava-se, rolava, prendia, dando a impressão que vergava os três homens. Indy espreitou por entre os vapores olhando fixamente para a entrada do templo, para os frisos elaboradamente primitivos que cederam à vegetação com a passagem do tempo, ao emaranhado de arbustos, folhas, trepadeiras. Mas aquilo que mais o surpreendeu foi a entrada escura, redonda e aberta, como a boca de um cadáver.

Lembrou-se de Forrestal entrando naquela abertura escura, indo de encontro à morte. Pobre homem.

Barranca olhou fixamente para a entrada.

- Como podemos confiar em você, Senhor Jones? Nunca saiu daqui uma pessoa com vida. Por que é que devemos depositar a nossa confiança em você?

Indy sorriu ao peruano.

- Barranca, Barranca... Tem de aprender que até um americano miserável por vezes diz a verdade, hein?

Tirou um pergaminho dobrado do bolso da camisa. Fitou os rostos dos peruanos. As suas expressões eram transparentes, expressões de desmesurada cobiça. Indy perguntou a si mesmo de quem tinham cortado as gargantas para que aqueles dois vilões conseguissem ficar com outra metade.

- Isto, Barranca, deverá tomar conta da vossa parte. - e estendeu o pergaminho no chão.

Satipo tirou um pedaço de pergaminho semelhante do bolso colocou-o ao lado daquele que Indy apresentara. As duas partes encaixavam perfeitamente. Durante algum tempo ninguém falou; chegaram ao limiar da prudência, Indy sabia - e esperou, tenso, que algo acontecesse.

- Então, amigos - disse ele. - Somos sócios. Temos aquilo que poderíamos chamar necessidades mútuas. Nós temos um mapa completo do plano do pavimento do Templo. Temos aquilo que jamais ninguém teve. Agora, partindo do princípio de que aquele pilar assinala o canto...

Antes que ele pudesse concluir a frase, viu, como se fosse um filme em câmera lenta, Barranca colocando a mão na pistola. Viu a mão pequena e morena agarrando a coronha da arma prateada. Depois ele pôs-se em movimento. Indiana Jones moveu-se com uma rapidez que o peruano não poderia acompanhar; os seus movimentos eram uma mancha, afastou-se de Barranca e, metendo a mão na parte de trás do casaco de couro, tirou um chicote enrolado, com a mão presa ao cabo. Os movimentos tornaram-se líquidos, uma exibição fluida e graciosa de músculo, prumo e equilíbrio, dando a impressão de que o braço e o chicote eram uma coisa só, extensões um do outro. Agitou o chicote, rasgando o ar, vendo-o enrolar-se ao pulso de Barranca. Em seguida deu um puxão para baixo, apertando mais, e a arma soltou-se caindo no chão. O peruano ficou imóvel por instantes, num misto de confusão, dor e ódio, detestando o fato de ter sido superado, humilhado. E então, quando o chicote em redor do pulso ficou lasso, Barranca virou-se e correu, fugindo atrás dos índios e desaparecendo na selva.

Indy virou-se para Satipo. O homem ergueu as mãos no ar.

- Senhor, por favor - disse ele. - Eu não sabia de nada, nada deste plano. Ele é louco. É um louco. Por favor, Senhor.

Acredite em mim.

Indy observou-o por instantes, depois acenou com a cabeça e pegou nas partes do mapa.

- Pode baixar as mãos, Satipo.

O peruano parecia aliviado e baixou os braços sem graça. - Temos a planta do pavimento - disse Indy. - Por que esperamos?

E virou-se na direção da entrada do Templo.

O odor era o do cheiro dos séculos, os cheiros presos de animais, de silêncio e escuridão, da umidade da floresta que se infiltrava, do apodrecimento de plantas. Gotejava água do teto, deslizava por entre os musgos que lá tinham brotado. A passagem sussurrava com a fuga das garras de animais roedores.

E o ar - o ar era surpreendentemente frio, intocado pela luz do sol, ensombrado para sempre. "Sons estranhos", pensou ele.

Uma agitação dos mortos. Por momentos, teve a sensação de estar no lugar errado no tempo errado, como um saqueador, um espoliador, alguém decidido a danificar coisas que estavam em paz há tempo demais.

Ele conhecia bem a sensação, uma percepção de maldade.

Não era o tipo de emoção que gostava de sentir porque era como ter um convidado enfadonho num jantar de festa decente. Viu a sua sombra mover-se à luz do archote que Satipo empunhava.

A passagem tornava-se mais sinuosa à medida que se avançava no interior do Templo. De vez em quando Indy parava e olhava para o mapa, à luz do archote, procurando lembrar-se dos pormenores da planta. Queria beber, a garganta estava seca, a língua ressequida - mas não queria parar. Ouvia um tique-taque no crânio, e cada batida lhe dizia, "não tens tempo, não tens tempo...”

Os dois homens passaram por saliências talhadas nas paredes.

Aqui e ali Indy parava e examinava artefatos que estavam colocados nas saliências. Observava-os excluindo alguns com perícia, metendo outros nos bolsos. Moedas pequenas, minúsculos medalhões, peças de barro suficientemente pequenas para as transportar. Sabia o que era valioso e o que não era.

Mas não eram nada comparados com aquilo que realmente o levara ali - o ídolo.

Passou a caminhar mais depressa com o peruano a correr atrás dele, ofegante, enquanto procurava acompanhar a passada.

E então Indy deteve-se subitamente.

- Por que paramos? - perguntou Satipo, com um tom de voz como se tivesse os pulmões a arder.

Indy não respondeu, ficou imóvel, quase sem respirar.

Satipo, confuso, deu um passo na direção de Indy, ia tocar-lhe no braço, mas também parou e ficou com a mão no ar.

Uma enorme tarântula preta rastejava pelas costas de Indy.

Exasperadamente devagar, Indy sentiu as patas aproximarem-se da pele do pescoço descoberto. Esperou, o que parecia ser uma eternidade, até sentir a horrível criatura parar no ombro.

Sentiu o pânico de Satipo, sentiu o desejo do homem de gritar e saltar.

Sabia que tinha de ser rápido, mas certeiro para que Satipo não fugisse. Indy, com um movimento suave, deitou a mão ao ombro e fez saltar a criatura que desapareceu nas sombras.

Aliviado, começou a avançar mas ouviu o gemido de Satipo e, ao virar-se, viu mais duas aranhas caindo no braço do peruano.

Instintivamente, o chicote de Indy saiu rapidamente das sombras, atirando as criaturas ao chão. Sem demora, Indy atacou as aranhas em fuga, esmagando-as com a bota. Satipo empalideceu, prestes a desmaiar. Indy agarrou, segurando-o pelo braço até ficar firme. E então o arqueólogo apontou na direção do corredor para uma pequena câmara em frente, uma câmara que estava iluminada por um único raio de sol que entrava por um buraco no teto. Esqueceram-se das tarântulas;

Indy sabia que mais perigos o esperavam.

- Já chega, Senhor - disse Satipo, ofegante. - Voltaremos.

Mas Indy não disse nada. Continuou a contemplar a câmara, com o espírito já trabalhando, idealizando, a imaginação ajudando-o a entrar no espírito das pessoas que tinham construído aquele lugar há tanto tempo. "Eles queriam proteger o tesouro do templo", pensou. "Queriam erguer barricadas, armadilhas, para terem a certeza de que nenhum estranho jamais atingiria o centro do templo.", Aproximou-se da entrada, movendo-se com a prudência instintiva do caçador que sente o perigo no vento, que sente o perigo antes de poder ver sinais dele. Baixou-se, tateou no chão, descobriu a haste de uma planta, levantou-a - depois esticou o laço e atirou a haste para dentro da câmara. Numa fração de segundo nada aconteceu.

E depois ouviu-se um zumbido fraco, e as paredes da câmara abriram-se bruscamente como gigantescos espigões de metal, como as mandíbulas de um tubarão incrível, que se juntaram com estrondo no centro da câmara. Indiana Jones sorriu, apreciando os esforços dos autores do Templo, a astúcia daquela horrível armadilha. O peruano praguejou, ofegante, estarrecido. Indy preparava-se para dizer uma coisa quando notou um objeto empalado nos enormes espigões. Levou apenas um instante para perceber a natureza daquilo que fora trespassado pelo metal cortante.

- Forrestal.

Metade esqueleto. Metade carne. O rosto grotescamente preservado pela temperatura da câmara, a surpresa e o sofrimento ainda visíveis, como se tivesse sido deixado intacto como um aviso para quem quisesse entrar na sala.

Forrestal, com o peito e a virilha trespassados, sangue escurecido na roupa caqui, manchas de morte. "Meu Deus!", pensou Indy. "Ninguém merecia uma morte como aquela. Ninguém.”

Sentiu um segundo de tristeza.

"Foi cair nela, companheiro. Estava sozinho. Devia ter ficado na sala de aula." Indy fechou os olhos por instantes, depois entrou na câmara e arrancou os restos do homem das pontas dos espigões, colocando o cadáver no chão.

- Conhecia esta pessoa? - perguntou Satipo.

- Sim, conhecia.

O peruano fez de novo o sinal da cruz.

- Creio, Senhor, que não devíamos avançar.

- Não deixaria que uma coisa insignificante como esta o desencorajasse, não é, Satipo? - então Indy não falou durante algum tempo. Observou os espigões de metal que começavam a encolher-se lentamente, deslizando novamente para as paredes de onde tinham saído. Admirou-se com os mecanismos simples da engrenagem - simples e fatais.

Indy sorriu ao peruano, tocando-lhe momentaneamente no ombro. O homem suava muito, tremia. Indy entrou na câmara, atento aos espigões, vendo as pontas horríveis encaixando-se nas paredes. Passado algum tempo o peruano, resmungando, falando com os seus botões em voz baixa, avançou. Atravessaram a câmara e entraram num corredor direito com cerca de quinze metros de comprimento. Ao fundo do corredor havia uma porta, iluminada pelo sol que entrava por cima.

- Estamos perto, - disse Indy - muito perto.

Estudou de novo o mapa antes de o dobrar, memorizando os detalhes. Mas não se moveu de imediato. Os olhos perscrutaram o local em busca de mais armadilhas, mais ciladas.

- Parece seguro - disse Satipo.

- É isso que me assusta, amigo.

- É seguro - repetiu o peruano. - Avancemos.

Satipo, repentinamente impaciente, avançou.

E então deteve-se quando o pé direito escorregou no pavimento. Foi projetado para a frente, soltando gritos. Indy correu e agarrou o peruano pelo cinto e içou-o. Satipo caiu no chão exausto.

Indy olhou para o pavimento em que o peruano colocara os pés. Teias de aranha, uma extensão elaborada de antigas teias de aranha, sobre as quais havia uma camada de pó, criando a ilusão de um soalho. Abaixou-se, pegou numa pedra e atirou-a na superfície das teias. Nada, nem um som, nem um eco se ouviu.

- É uma longa descida - murmurou Indy.

Satipo, sem fôlego, não disse nada.

Indy seguiu a superfície das teias com os olhos na direção da porta iluminada pelo sol. Como atravessar o espaço, o poço, se não existia pavimento?

Satipo disse:

- Acho que agora voltamos para trás, Senhor. Não é?

- Não - respondeu Indy. - Acho que avançamos.

- Como? Com asas? É nisso que está pensando?

- Não precisa de asas para voar, amigo.

Tirou o chicote e olhou para o teto. Havia várias vigas fixas no telhado. "Talvez estejam podres", pensou ele. Por outro lado, podiam ser suficientemente fortes para agüentarem o seu peso. De qualquer maneira valia a pena tentar. Se não resultasse, teria de desistir do ídolo. Levantou bruscamente o chicote, vendo-o enrolar-se numa viga, em seguida deu um puxão ao chicote e testou a solidez.

Satipo abanou a cabeça.

- Não. Está louco.

- Vê uma solução melhor, amigo?

- O chicote não vai agüentar conosco. A viga rachará.

- Salve-me dos pessimistas. - disse Indy - Salve-me dos descrentes. Confie em mim. Faça apenas aquilo que eu fizer.

Indy agarrou o chicote com as mãos, puxou uma vez mais para o testar, em seguida içou-se lentamente no ar, sempre consciente do pavimento ilusório por baixo dele, da escuridão, do poço que ficava muito abaixo das camadas de teias de aranha e pó, consciente da possibilidade de a viga rachar, de o chicote se soltar, e então... Mas não tinha tempo para ponderar essas hipóteses. Jogou-se, agarrando com força o chicote, sentindo o ar a fustigá-lo. Balançou até ter a certeza de que estava fora das bordas do poço e depois começou a descer, pousando em solo firme. Atirou o chicote ao peruano que estava no outro lado, que murmurou qualquer coisa em espanhol, algo que Indy sabia que tinha um significado religioso. Perguntou a si mesmo se haveria, em algum lugar nas abóbadas do Vaticano, um santo padroeiro para aqueles que tinham uma oportunidade de viajar num chicote.

Viu o peruano pousar ao seu lado.

- Eu disse, não disse?

Satipo não disse nada. Mesmo na luz fraca Indy pôde ver que o rosto dele estava pálido. Indy encostou então o cabo do chicote na parede.

- Para a viagem de regresso - disse ele. - Nunca vou definitivamente para um lugar, Satipo.

O peruano encolheu os ombros quando passaram pela porta iluminada pelo sol e entraram num compartimento coberto com uma cúpula, cujo teto tinha clarabóias que deixavam entrar feixes de luz solar que se projetavam no pavimento de ladrilhos brancos e pretos. E então Indy notou uma coisa no outro lado da câmara, algo que lhe tirou a respiração, o encheu de pavor, de um prazer que mal podia definir.

O ídolo.

Colocado numa espécie de altar, com uma expressão feroz e doce, a forma dourada que cintilava à luz do archote, brilhava à luz do sol que passava através do telhado - o ídolo.

O ídolo dos Guerreiros Chachapoyan.

Naquele momento aquilo que sentiu era a excitação de um desejo esmagador, o desejo de atravessar a sala a correr e tocar na sua beleza - uma beleza rodeada de obstáculos e armadilhas. que tipo de armadilha estúpida tinham guardado para o fim? Que espécie de armadilha cercava o próprio ídolo?

- Vou entrar - disse ele.

O peruano também viu o ídolo e não disse nada. Fitou a estatueta com uma expressão de avareza que sugeria que se sentia repentinamente tão dominado pela cobiça que nada mais importava a não ser deitar-lhe a mão. Indy observou por instantes, e pensar: "Ele viu. Viu a sua beleza. Não se pode confiar nele."

Satipo preparava-se para entrar quando Indy o deteve.

- Lembra-se de Forrestal? - perguntou Indy.

- Lembro.

Olhou fixamente para o desenho intrincado dos ladrilhos pretos e brancos, a pensar na precisão da disposição, no padrão. Ao lado da porta havia dois archotes antigos em suportes de metal cobertos de ferrugem. Ergueu a mão, tirando um, tentando imaginar o rosto da última pessoa que poderia ter empunhado aquele mesmo archote; o intervalo de tempo - nunca deixava de o surpreender que o mais insignificante dos objetos agüentasse séculos. Acendeu-o, olhou rapidamente para Satipo, depois baixou-se e fez pressão com a ponta apagada num dos ladrilhos brancos. Bateu-lhe. Sólido. Nenhum eco, nenhuma ressonância. Muito sólido. Em seguida bateu num dos ladrilhos pretos.

Aconteceu antes de poder afastar a mão. Um ruído, o som de uma coisa a atravessar velozmente o ar, uma coisa que sibilava com a velocidade do seu próprio movimento, e uma pequena seta enterrou-se na haste do archote. Afastou rapidamente a mão.

Satipo expirou devagar, em seguida apontou para o interior da sala.

- Veio dali - disse ele. - Vê aquele buraco? A seta veio de lá.

- Também vejo centenas de buracos - disse Indy.

O local estava repleto de teias de aranha com recantos sombrios, contendo cada um uma seta, cada um soltaria o seu míssil sempre que fizesse pressão num ladrilho preto.

- Fique aqui, Satipo.

Lentamente, o peruano virou a cara.

- Se insiste.

Indy, empunhando o archote aceso, entrou cautelosamente na câmara, evitando os ladrilhos pretos, passando por cima deles para alcançar os brancos que eram seguros. Apercebeu-se da sua sombra projetada nas paredes da sala à luz do archote, consciente dos buracos perigosos, perceptíveis na penumbra, que continham as setas. Todavia era sobretudo o ídolo que atraía a sua atenção, a beleza simples que se torna mais evidente à medida que se aproximava dele, o brilho hipnótico, a expressão enigmática do rosto. "Estranho", pensou: "quinze centímetros de altura, dois mil anos, uma massa de ouro no rosto." dificilmente se poderia dizer que fosse belo - era estranho que homens perdessem a cabeça por aquilo, matassem por aquilo. E, no entanto, hipnotizava-o e viu-se obrigado a desviar o olhar. "Concentra-te nos ladrilhos", disse para si mesmo. "Apenas nos ladrilhos. Nada mais. não percas aqui o teu instinto apurado." Sob os pés, estendido sobre um ladrilho branco e crivado de setas, estava um pequeno pássaro morto.

Olhou fixamente para ele, sentindo-se mal-disposto por instantes, dominado pela percepção de quem construíra aquele Templo, de quem concebera aquelas armadilhas, seria demasiado sagaz para as colocar apenas nos ladrilhos pretos: como uma carta perdida num baralho, pelo menos um ladrilho branco teria sido envenenado. Pelo menos um. E se houvesse outros? Ele hesitou, já a transpirar, sentindo a luz do sol vinda de Cima, sentindo o calor da chama do archote no rosto. Prudentemente, contornou o pássaro morto e olhou para os ladrilhos brancos que ficavam entre ele e o ídolo como se cada um fosse um potencial inimigo. "às vezes", pensou, "não é apenas a prudência que nos torna vitoriosos. Às vezes não se recebe o prêmio quando se hesita, quando não se arrisca uma última vez. A prudência tem de estar ligada ao acaso... mas nesse caso é preciso saber de alguma forma que a vantagem é nossa." A visão do ídolo arrebata-o de novo. Magnetizou-o. E percebeu que Satipo estava atrás dele, observando da entrada, certamente planejando a sua traição. "Não." disse para si mesmo. "Não importa. Faz isso e que se dane a prudência.”

Moveu-se com a graciosidade de um bailarino. Moveu-se com a estranha elegância de um homem que avança serpenteando pelo meio de lâminas de navalha. Cada ladrilho era uma mina possível, uma bomba de profundidade.

Avançou cuidadosamente e passou por cima dos quadrados pretos, à espera que a pressão do seu peso acionasse o mecanismo que faria vibrar o ar com setas. E já estava mais próximo do retíbulo, mais próximo do ídolo. Do prêmio. Do triunfo. E da última armadilha.

Parou uma vez mais. O coração palpitava, o pulso acelerou, o sangue ardia nas veias. Caía-lhe suor da testa e deslizava pelas pálpebras, cegando-o. Limpou-o com as costas da mão.

"Mais alguns passos", pensou. "Mais alguns passos. E mais alguns ladrilhos.”

Moveu-se de novo, levantando as pernas e baixando-se suavemente. se alguma vez precisava de equilíbrio era nesse momento. O ídolo parecia piscar-lhe os olhos, seduzi-lo.

Outro passo.

Outro passo.

Estendeu a perna direita, tocando no último ladrilho branco antes de chegar ao altar.

Conseguira. Conseguira. Tirou um frasco com uma bebida alcoólica do bolso, tirou-lhe a tampa, engoliu um trago. "E que mereces", pensou. Em seguida guardou o frasco e fitou o ídolo.

"Última armadilha. Qual será a última armadilha?", perguntou a si mesmo. "O último risco.", Pensou durante muito tempo, tentou imaginar-se no espírito daqueles que tinham criado aquele lugar, que tinham construído aquelas defesas. “Muito bem, alguém vem tirar o ídolo, que significa que tem de ser levantado, tem de ser retirado da pedra polida, tem de ser tirado fisicamente. E depois?”

"Algum tipo de mecanismo debaixo do ídolo detecta a ausência de peso do objeto, e isso aciona o quê? Mais setas? Não seria algo ainda mais destrutivo que isso? Algo mais mortífero?"

Pensou uma vez mais; o pensamento corria, os nervos vibravam. Abaixou-se e olhou em volta da base do altar.

Havia pedaços de pedra, pó, cascalho, a acumulação de séculos.

"Talvez", pensou "Talvez." Tirou do bolso um pequeno saco que estava fechado com um fio, abriu, retirou as moedas que continha, em seguida começou a encher o saco com terra e pedras.

Tomou-lhe o peso na palma da mão por instantes. "Talvez", pensou de novo. "Se conseguires fazer isso com rapidez suficiente. Conseguias fazer isso com uma rapidez que vencesse o mecanismo, se for de fato esse o tipo de armadilha aqui envolvida.”

Se, se, se. Demasiadas hipóteses. Ele sabia que em outras circunstâncias se afastaria, evitaria as conseqüências de tantas incertezas. Mas não naquele momento, naquele lugar.

Endireitou-se, sentiu de novo o peso do saco, perguntou a si mesmo se pesava o mesmo que o ídolo, esperou que sim. Em seguida agiu rapidamente, pegando no ídolo e colocando o saco no seu lugar, colocando-o na pedra polida. Nada. Durante um longo momento, nada. Olhou fixamente para o saco, depois para o ídolo na mão, e então percebeu um estranho e distante ruído, um estrondo como o de uma enorme máquina que se põe em movimento, um som de coisas que despertam de um longo sono, bramindo, dilacerando, e rangendo nos espaços do Templo. O pedestal de pedra polida baixou repentinamente - doze, treze centímetros. E depois o som tornou-se mais forte, ensurdecedor, e tudo começou a abanar, a tremer, como se as fundações se estivessem a separar, a fender, a abrir, os tijolos e a madeira a lascar e a rachar. Virou-se e retrocedeu rapidamente por cima dos ladrilhos o mais depressa possível em direção ä porta. E, no entanto, o barulho, como um trovão desesperado, aumentou e rolou e ecoou através dos velhos corredores e passagens e câmaras. Dirigiu-se para Satipo, que estava parado na entrada com uma expressão de terror estampada no rosto. Tudo tremia, tudo se movia, caíam tijolos, desabavam paredes, tudo. Quando chegou à porta virou-se e viu uma rocha a cair no soalho coberto de ladrilhos, fazendo saltar as setas, que voavam aos milhares em todas as direções na câmara que desmoronava, Satipo, respirando com dificuldade, aproximara-se do chicote e atravessava o poço.

Quando alcançou o outro lado fitou Indy por instantes. "Sabia o que ia acontecer", pensou Indy. "Sentia, sabia, e agora que está prestes a acontecer, que posso fazer?" Viu Satipo arrancar o chicote da viga e enrolá-lo na mão.

- Um acordo, Senhor. Uma troca. O ídolo pelo chicote. Atira o ídolo, eu atiro o chicote.

Indy ouviu o estrondo da destruição atrás dele e observou Satipo.

- Sabe que hipóteses tem, Senhor Jones? - perguntou Satipo.

- E se eu deixar cair o ídolo no poço, meu amigo? Tudo o que resta depois de tantos problemas é um chicote, certo?

- E o que lhe resta depois de tantos problemas, Senhor?

Indy encolheu os ombros. O barulho atrás dele tornava-se mais forte; sentia o Templo a tremer, o soalho começando a oscilar. "O ídolo," pensou "não podia deixar que aquilo caísse assim no abismo".

- Está bem, Satipo. O ídolo pelo chicote. - E atirou o ídolo na direção do peruano. Viu Satipo agarrar a relíquia, enfiá-la no bolso e depois atirar o chicote ao chão.

Satipo sorriu.

- Lamento profundamente, Senhor Jones. Adios. E boa sorte.

- Não lamenta mais que eu. - gritou Indy quando viu o peruano desaparecer no corredor. Toda a estrutura, como uma divindade vingativa da selva, tremeu ainda mais.

Ouviu o som de pedras caindo, de pilares desabando. "A maldição do ídolo.", pensou ele. Era um filme da seção da tarde, era o tipo de filme que os jovens viam arrebatados nas tardes de sábado em cinemas escuros. Havia apenas uma coisa a fazer - uma coisa, nenhuma alternativa. "Tenho que saltar.", decidiu. "Tem que arriscar e transpor o poço. Esperar que a gravidade esteja do seu lado. O Inferno está à solta atrás de você e à sua frente há um abismo terrível. Por isso salta, voa para a escuridão e torce. Salta!”

Respirou fundo, pulou no ar por cima do poço, balançou o mais que pôde, escutou o zumbido do ar à sua volta quando se moveu. Teria rezado se fosse pessoa para rezar, rezado para que não fosse tragado pelo vazio e pela escuridão.

Descia. O ímpeto abandonara o salto. Caía. Esperou que estivesse a cair no outro lado do poço.

Mas não estava.

Sentia a escuridão, o cheiro desagradável e a umidade, que subiam vindas do fundo, e estendeu os braços, procurando um apoio, um rebordo, algo a que se pudesse agarrar. Sentiu as pontas dos dedos que se enterraram na borda do poço, tentou içar-se enquanto a borda cedia e deixava cair pedras no abismo. Balançou as pernas, agarrou-se com força, debateu-se como um peixe que ficou preso no areal para se erguer, sair, alcançar qualquer coisa que o salvasse.

Esforçando-se arduamente, gemendo, batendo com as pernas na parede interna do poço, lutou para se erguer. Não podia permitir que o peruano traiçoeiro fugisse com o ídolo.

Balançou de novo as pernas, deu pontapés, procurou uma espécie de braço de alavanca que o ajudasse a sair do poço, uma coisa, qualquer coisa, fosse o que fosse. E o templo continuava a desabar como uma patética cabana de palha fustigada por um furacão. Gemeu, enterrou os dedos na borda, puxou até ter a impressão de que os músculos rebentariam, as veias estourariam, içou-se mesmo quando ouviu o som de unhas a partir com o peso do corpo.

"Mais força", pensou ele. "Mais um esforço".

Com mais força, o suor cegava-o, os nervos começaram a ceder. "Alguma coisa vai quebrar.", pensou. "Alguma coisa vai e então verás onde fica o fundo deste poço." Parou, tentou ganhar forças, recuperar a energia que desaparecia, em seguida içou-se uma vez mais, centímetro a centímetro, com esforço e finalmente conseguiu levantar a perna acima, arrastar-se até a borda e para a relativa segurança do pavimento, um pavimento que abanava, ameaçando partir-se a qualquer momento.

Conseguiu ficar em pé vacilando e olhou para o corredor por onde saíra Satipo. Ele dirigira-se para o compartimento onde tinham sido encontrados os restos mortais de Forrestal. A sala dos espigões. A câmara da tortura. E, subitamente, Indy tomou consciência daquilo que aconteceria ao peruano, percebeu repentinamente o destino do homem mesmo antes de ouvir o som estridente e terrível dos espigões, mesmo antes de ouvir o grito horrível do peruano ecoar no corredor. Prestou atenção, abaixou-se para apanhar o chicote e em seguida correu para a câmara. Satipo estava pendurado de lado, empalado como uma borboleta grotescamente grande na coleção de um louco.

- Adios, Satipo. - disse Indy.

Depois arrancou o ídolo do bolso do homem morto, abriu caminho por entre os espigões e correu para o corredor do outro lado. Em frente, viu a saída, a clareira de luz, o maciço de árvores mais longe. E no entanto o ruído aumentava, enchendo os ouvidos, penetrando no corpo.

Virou-se e viu, estupefato, um enorme bloco de pedra rolar pelo corredor em direção a ele, adquirindo velocidade à medida que avançava. "A última armadilha.", pensou. "Quiseram ter a certeza de que mesmo que entrasse no templo, mesmo que conseguisse esquivar-se de tudo o que fosse atirado contra si, não irias sair daqui com vida." Ele correu. Correu como um louco para a saída enquanto a enorme pedra se precipitava pelo corredor atrás dele. Atirou-se para a clareira de luz e caiu na erva espessa no exterior precisamente no momento em que o bloco batia na saída, selando o templo para sempre. Exausto, ofegante, ficou deitado de costas.

"Perto demais!", pensou. "Perto demais para qualquer forma de conforto." Queria dormir. Queria apenas a possibilidade de fechar os olhos, transportar-se para a escuridão que dá alívio, um alívio profundo e sem sonhos.

"Podia ter sofrido uma centena de mortes ali dentro.", compreendeu. "Podia ter sofrido mais mortes que qualquer homem poderia esperar numa vida inteira.”

E então sorriu, sentou, rodou várias vezes o ídolo na mão.

"Mas valeu a pena.", pensou. "Valeu tudo o que passei.”

Olhou a peça de ouro.

Ainda olhava fixamente para ela quando viu uma sombra baixar sobre ele.

A sombra surpreendeu-o numa posição sentada. Mantendo os olhos semicerrados, olhou para cima. Lá estavam dois guerreiros Hovitos olhando-o, com os rostos pintados com as cores vivas da guerra, as longas azagaias de bambu erguidas como se fossem lanças. Mas não era a presença dos índios que preocupava Indy naquele momento; era a visão do homem branco que estava no meio deles com uma roupa de safári e um capacete de palha. Indy não disse nada durante muito tempo, deixando despertar o sentido do reconhecimento. O homem com o capacete de palha sorriu, o sorriso foi frio, letal.

- Belloq. - disse Indy.

Justamente Belloq.

Indy desviou o olhar do rosto do francês por instantes, lançou um olhar ao ídolo na mão, em seguida olhou fixamente para longe, para a orla do arvoredo atrás de Belloq, onde estavam alinhados cerca de trinta guerreiros Hovitos. E ao lado dos índios estava Barranca. Barranca, que não fitava Indy, tinha um sorriso de cobiça estampado no rosto. Um sorriso que se transformou lentamente numa expressão de perplexidade e depois, mais rapidamente, numa expressão fria, vaga, que Indy identificou como um sinal de morte.

Os índios de cada um dos lados do peruano traidor soltaram os braços e Barranca caiu de borco. As costas estavam crivadas de setas.

- Meu caro Dr. Jones - disse Belloq. - Tem um dom de escolher os amigos errados.

Indy não disse nada. Viu Belloq abaixar-se e tirar o ídolo da sua mão. Belloq apreciou a relíquia durante algum tempo, revirando-a, com uma expressão de profunda apreciação.

Belloq inclinou um pouco a cabeça, um gesto breve que sugeria uma delicadeza incongruente, um sentido de civilidade.

- Pode ter pensado que eu desistiria. Mas vemos uma vez mais que não existe nada que possa possuir que eu não possa tirar.

Indy olhou na direção dos índios.

- E os Hovitos esperam que lhes devolva o ídolo?

- Exatamente - disse Belloq.

Indy riu-se.

- Como são ingênuos.

- Como você diz. - comentou Belloq. - Se você ao menos falasse a língua deles, poderia dar-lhes outro conselho, claro.

- Claro - replicou Indy. Observou Belloq enquanto este se virava na direção dos guerreiros agrupados e ergueu o ídolo no ar; e então, numa extraordinária exibição de movimento sincronizado que podia ter sido coreografado, ensaiado, os guerreiros deitaram-se de borco no chão. Um momento de súbita quietude, de terror religioso, primitivo.

"Noutras circunstâncias", pensou Indy, "poderia ficar bastante impressionado para ficar observando." Noutras circunstâncias, mas não naquele momento.

Levantou-se devagar, pondo-se de joelhos, olhou para as costas de Belloq e lançou uma vez mais um olhar aos guerreiros listrados - e depois afastou-se, andando depressa, correndo para as árvores, esperando pelo momento em que os índios se levantariam e o ar ficaria cheio de setas atiradas com as azagaias. Atirou-se para o meio das árvores quando ouviu Belloq gritar atrás, berrando numa língua que presumivelmente era a dos hovitos e desatou a correr por entre a folhagem, em direção ao lugar do hidroavião. "Corre. Corre mesmo quando não reste um pouco de energia. Procura alguma reserva, não pare."

E então ouviu as setas. Ouviu-as rasgar o ar, silvando, zumbindo, criando uma teia de morte. Correu em zigue-zague, serpenteando entre a folhagem. Atrás dele ouvia o estalido dos ramos que se partiam, plantas que se esmagavam, enquanto os Hovitos o perseguiam. Sentiu-se estranhamente desligado do seu próprio corpo; via sem sentir o eu físico, sem as exigências absurdas dos músculos e tendões, arrastando-se pelo terreno de uma forma automática, num reflexo primitivo. Ouvia de quando em quando a seta que batia numa casca de árvore, o esvoaçar assustado das aves da selva que abandonavam os ramos, o guincho de animais que fugiam dos Hovitos.

"Corre", continuava a pensar. "Corre até não poder correr mais, depois corre um pouco mais. Não vacile, não pare." "Belloq", pensou. "A minha hora chegará. Se escapar desta." Corria não sabia há quanto tempo. Começava a anoitecer.

Parou, olhou para cima, para a luz fraca que passava através das árvores densas, depois foi na direção do rio.

Aquilo que mais desejava ouvir naquele momento era o som vital da água impetuosa, aquilo que desejava ver era o avião que o esperava.

Virou-se uma vez mais e atravessou uma clareira onde ficou repentinamente exposto devido à ausência de árvores. Por instantes, a clareira era ameaçadora, o silêncio súbito do crepúsculo inquietante.

Então ouviu os gritos dos Hovitos e a clareira pareceu o centro de um alvo bizarro. Rodou, apercebeu o movimento de dois vultos, sentiu o ar vibrar quando duas setas passaram por ele rodopiando e depois disso desatou a correr de novo, precipitando-se para o rio. Pensou, enquanto fugia, "não ensinaram técnicas de sobrevivência em Arqueologia, não fornecem os manuais de sobrevivência juntamente com a metodologia de escavação." E certamente não avisam da sagacidade de um francês chamado Belloq." Parou uma vez mais e escutou os índios atrás dele. Então ouviu outro som, um que o alegrou, que o exaltou: o movimento da água que corria veloz, da torrente ondulante. "O rio! A que distância ficaria ainda?”

Escutou de novo para se certificar e em seguida caminhou na direção do som, com as energias recobradas, com as baterias revitalizadas. "Agora com mais rapidez, mais esforço e destreza. Abrindo caminho através da folhagem que fustiga, ignora os golpes e as escoriações. Mais rapidez, mais esforço e mais destreza.", O som tornava-se mais claro. A água corria.

Deixou para trás as árvores.

Na base da encosta, no outro lado da vegetação, da vegetação hostil, o rio.

O rio e o hidroavião flutuando na ondulação. Não poderia imaginar nada mais acolhedor. Desceu a encosta e então percebeu que não havia uma maneira simples de passar através da folhagem até alcançar o avião. Também não havia tempo para encontrar uma. "Teria que subir à encosta até ao ponto em que se forma um rochedo sobre o rio e terias que saltar. Saltaria. Que importa: que é mais um salto?”

Subiu, consciente da forma de um homem que estava sentado numa asa do avião lá no fundo. Indy atingiu um ponto quase sobre o avião, olhou por instantes e depois fechou os olhos e transpôs a borda do rochedo com um salto.

Caiu na água tépida junto à asa do avião, mergulhou quando a corrente o arrastou, veio à superfície sem ver e nadou na direção do avião. O homem sobre a asa levantou-se quando ele agarrou um suporte e se içou.

- Põe isso para trabalhar, Jock! - gritou Indy. - Põe isso para trabalhar!

Jock correu ao longo da asa e subiu para o interior da cabine no momento em que Indy se jogou, ofegando, no compartimento do passageiro e caiu no banco.

Fechou os olhos e sentiu o rumor dos motores quando o avião deslizou pela superfície da água.

- Não esperava que viesse tão de repente. - disse Jock.

- Me poupa desse deboche, está bem?

- Alguma confusão, rapaz?

Indy teve vontade de rir.

- Me lembra de contar um dia.

Encostou-se e fechou os olhos, desejando que o sono viesse. Mas então percebeu que o avião não se movia. Endireitou-se e inclinou-se na direção do companheiro.

- O motor deixou de trabalhar. - disse Jock.

- Deixou de trabalhar! Por quê?

Jock sorriu.

- Eu apenas piloto este maldito aparelho. As pessoas têm a mania de que todos os escoceses são mecânicos, Indy.

Através da janela, Indy pôde ver os Hovitos começarem a avançar, passando os baixios do rio. Nove, sete metros já.

Eram como fantasmas grotescos do leito do rio ressuscitados para se vingarem de uma transgressão histórica.

Ergueram os braços; a chuva de setas voou na direção da fuselagem do avião.

- Jock...

- Estou tentando, Indy. Estou tentando.

Indy disse, calmamente:

- Acho que devia se esforçar mais.

As setas atingiram o avião, bateram ruidosamente nas asas, bateram na fuselagem com o som de enormes pedras de sal.

- Consegui! - disse Jock.

Os motores começaram a trabalhar com algum esforço precisamente no momento em que dois dos Hovitos alcançavam a ponta da asa e começavam a subir.

- Está andando! - disse Jock. - Está andando.

O avião avançou mais uma vez e depois começou a subir, com alguma dificuldade, sobrevoando o rio.

Indy viu os dois índios perderem o equilíbrio e caírem na água, como estranhas criaturas da selva. O avião rasava os topos das árvores e a corrente de ar balançava os ramos, e espantava as aves em pânico que desapareciam na luz crepuscular.

Indy riu e fechou os olhos.

- Pensei que talvez não conseguisse, - disse Jock. - para dizer a verdade.

- Nunca duvidei. - replicou Indy, e sorriu.

- Agora descontrai, homem. Dorme um pouco. Esquece esta maldita selva.

Indy descontraiu-se por instantes. Alívio. O relaxamento dos músculos. Uma sensação agradável. Podia entregar-se àquela sensação por muito tempo.

Então uma coisa deslizou na sua coxa. Lenta e pesada.

Abriu os olhos e viu uma jibóia enroscar-se ameaçadoramente na coxa. Endireitou-se rapidamente.

- Jock!

O piloto virou-se, sorriu.

- Não te fará mal. É a Reggie. Não faz mal a ninguém.

- Afasta de mim, Jock.

O piloto estendeu a mão, acariciou a cobra, em seguida meteu-a na cabine ao lado dele. Indy viu a cobra afastar-se lentamente. Uma repulsa antiga, um terror inexplicável. Para umas pessoas eram as aranhas, para outras os ratos, para outras espaços fechados. Para ele era a visão repulsiva e o toque de uma cobra. Limpou o suor que se formara na testa, tiritando quando a água que ensopava a roupa se tornou repentinamente gelada.

- Segura perto de ti - disse ele. - Detesto cobras.

- Vou-te revelar um pequeno segredo. - disse Jock. - A cobra vulgar é mais afável que a maioria das pessoas.

- Eu acredito na tua palavra, - replicou Indy. – mas não a deixe se aproximar de mim.

"Penso que estou a salvo e uma jibóia resolve aquecer-se no meu corpo. Tudo num dia de trabalho.", pensou.

Olhou através da janela por instantes e viu cair a escuridão sobre a imensa selva com uma certeza inescrutável. "Pode guardar os seus segredos.", pensou Indy. "Pode guardar todos os seus segredos".

Antes de adormecer, embalado pelo ruído dos motores desejou não cruzar tão cedo com aquele francês.

 

 

BERLIM

Num gabinete na Wilhelmstrasse, um oficial com o uniforme preto das SS - absurdamente pequeno, chamado Eidel - estava sentado na escrivaninha, olhando fixamente para montes de pastas de papel castanho empilhadas na frente dele. Foi evidente para o visitante de Eidel, que se chamava Dietrich, que o homem usava as pilhas de pastas de um modo compensatório: faziam-no sentir-se maior, mais importante. "Hoje em dia é o mesmo em toda a parte.", pensou Dietrich. "Se avalia um homem e o seu valor pela quantidade de papelada que consegue juntar, pelo número de carimbos de borracha que é autorizado a usar." Dietrich, que gostava de se considerar um homem de ação, suspirou interiormente e olhou para a janela, onde fora colocado uma persiana castanho-clara. Esperou que Eidel falasse, mas o oficial das SS ficou calado durante algum tempo, como se até os seus silêncios se destinassem a comunicar alguma coisa daquilo que ele considerava como a sua própria importância.

Dietrich olhou para o retrato do Führer pendurado na parede.

Quando chegasse o momento, não importava aquilo que se podia pensar de uma pessoa como Eidel, - brando, preso à escrivaninha, pomposo, fechado em gabinetes miseráveis - porque Eidel tinha uma linha direta de acesso a Hitler. Por isso prestava atenção, sorria, e fingia que tinha uma categoria inferior. Eidel, afinal, era membro do círculo interno, do corpo de elite da guarda privada de Hitler. Eidel alisou o uniforme, que parecia ter sido passado a ferro há pouco. Ele disse:

- Espero que lhe tenha feito entender a importância deste caso, Coronel?

Dietrich acenou com a cabeça. Sentia-se impaciente.

Detestava gabinetes.

Eidel levantou-se, ficou na ponta dos pés como um homem tenta agarrar uma alça no metrô e sabe que não conseguirá. Em seguida encaminhou-se para a janela.

- O Führer está decidido a obter esse objeto. E quando decide uma coisa, claro... - Eidel fez uma pausa, virou-se, olhou Dietrich. Fez um gesto com as mãos, indicando que tudo aquilo que passava pelo espírito do Führer era incompreensível para homens inferiores.

- Compreendo. - replicou Dietrich, batendo com as pontas dos dedos na pequena mala para documentos.

- O significado religioso é importante. - disse Eidel. - Não que o Führer tenha um interesse especial por relíquias judaicas em si, naturalmente. - E fez outra pausa, rindo de uma forma estranha, como se o pensamento fosse muito divertido. - Tem mais interesse no significado simbólico do artigo, se me compreende.

Ocorreu a Dietrich que Eidel mentia, ocultando alguma coisa: era difícil imaginar que o Führer estivesse interessado em qualquer coisa pelo seu valor simbólico. Olhou atentamente para o telegrama banal que Eidel lhe deixara ler há alguns minutos.

Em seguida lançou de novo um olhar ao retrato de Hitler, que era sério,sinistro.

Eidel, com os modos de um professor universitário de uma cidade pequena, disse:

- Temos agora que tratar da questão do conhecimento de peritos.

- Exatamente. - disse Dietrich.

- Vamos tratar, especificamente, da competência de peritos em arqueologia.

Dietrich não disse nada. Viu onde aquilo ia dar. Viu aquilo que exigiam dele.

Ele replicou:

- Receio que isso não esteja ao meu alcance.

Eidel esboçou um sorriso.

- Mas tem ligações, segundo me informaram. -Tem relações com as maiores autoridades nesse campo, não é verdade?

- É ema questão a se debater.

- Não há tempo para esse tipo de debate, - disse Eidel - não estou aqui para discutir o que constitui a competência dos peritos, Coronel. Estou aqui, como o senhor, para obedecer a uma ordem importante.

- Não precisa me lembrar disso. - replicou Dietrich.

- Eu sei - disse Eidel, encostando-se na escrivaninha - E sabe que estou falando de um certo perito que é conhecido seu e cujos conhecimentos neste campo de interesse particular serão muito valiosos para nós. Correto?

- O francês? - disse Dietrich.

- Evidentemente.

Dietrich ficou calado durante algum tempo. Sentia-se um pouco constrangido. Era como se o rosto de Hitler o censurasse pela sua hesitação.

- É difícil encontrar o francês. Como qualquer mercenário, ele considera o mundo como lugar de emprego.

- Quando teve notícias dele pela última vez?

Dietrich encolheu os ombros.

- Na América do Sul, suponho.

Eidel examinou as costas das mãos, magras e claras, mas grosseiras, como as mãos de alguém que não fora capaz de concretizar a ambição de se tornar pianista de concertos. Ele disse:

- Tem que encontrá-lo. Percebe o que estou dizendo? Sabe de onde vem esta ordem?

- Tenho que encontrá-lo. - disse Dietrich - Mas já aviso...

- Não me avise, Coronel.

Dietrich sentiu a garganta a ficar seca. Este secretário imbecil e feito às pressas. Adoraria estrangulá-lo, enfiar-lhe aquelas pastas de cartão pela goela abaixo até sufocar.

- Muito bem, estou prevenindo... o preço do francês é alto.

- Não tem importância - disse Eidel.

- E a sua honestidade é duvidosa.

- Isso é uma coisa de que deverá tratar. A questão, coronel Dietrich, é que terá que encontrá-lo e levá-lo à presença do Führer. Mas isso deverá ser feito com rapidez. Deveria ter sido feito ontem, se me entende.

Dietrich olhou a persiana da janela. Às vezes ficava cheio de medo porque o Führer estava rodeado de lacaios e loucos como Eidel. Quando estavam envolvidos seres humanos, isso implicava uma certa obscuridade de julgamento.

Eidel sorriu, como se estivesse divertido com o embaraço de Dietrich. Em seguida disse:

- A rapidez é importante, claro. Obviamente que outros partidos estão interessados. Esses partidos não representam os melhores interesses do Reich. Faço-me entender?

- Entendido. - replicou Dietrich. Dietrich pensou por instantes no francês; sabia, apesar de não ter dito a Eidel, que Belloq se encontrava no sul de França naquele preciso momento. A perspectiva de fazer negócio com Belloq era aquilo que o aterrava. Havia uma certa brandura no homem que encobria uma crueldade profunda, um egoísmo, um desrespeito por filosofias, crenças, política. Se servisse os interesses de Belloq, era, portanto, válido.

- Terá que tratar de outros grupos, se emergirem, - dizia Eidel - não deve se preocupar com eles.

- Então será assim que os tratarei. - disse Dietrich.

Eidel pegou o telegrama e deu uma olhada.

- Aquilo de que falamos não sai destas quatro paredes, Coronel. Não preciso dizer, não é?

- Não precisa dizer. - repetiu Dietrich, irritado.

Eidel sentou-se de novo e olhou fixamente para o outro homem do outro lado do monte de pastas. Ficou calado por instantes.

E depois fingiu-se surpreendido quando viu Dietrich sentado na frente dele.

- Ainda aqui está, Coronel?

Dietrich agarrou na pasta de documentos e levantou-se. Era difícil não sentir ódio por aqueles palhaços de uniforme preto. Agiam como se fossem os donos do mundo.

- Ia sair agora mesmo. - disse Dietrich.

- Heil Hitler! - exclamou Eidel, erguendo a mão com o braço rígido.

Junto à porta Dietrich respondeu com as mesmas palavras.

 

CONNECTICUT

Indiana Jones estava sentado no seu gabinete no Marshall College.

Concluíra há pouco a primeira palestra do ano para Arqueologia, e correu tudo bem. Corria sempre bem. Adorava ensinar e sabia que era capaz de transmitir a sua paixão pela matéria aos seus alunos. Mas naquele momento estava inquieto e a sua inquietação perturbava-o. Porque tinha consciência daquilo que desejava fazer.

Indy colocou os pés em cima da escrivaninha, derrubou deliberadamente alguns livros, em seguida levantou-se e andou de um lado para o outro no gabinete - vendo-o não como o lugar íntimo que era habitualmente, o seu refúgio, o seu esconderijo, mas como a cela de um desconhecido.

"Jones." disse para si mesmo.

"Indiana Jones, toma juízo.”

Os objetos à sua volta pareceram espalhar o seu significado por algum tempo. O enorme mapa de parede da América do Sul tornou-se uma mancha surrealista, a concepção dadaísta de um artista. Repentinamente a réplica do ídolo em barro pareceu ridícula, horrível. Pegou-a e pensou: "Por uma coisa como esta você arriscou a vida? Deve ter um parafuso essencial solto, um parafuso fora do lugar.”

Segurou a réplica do ídolo, olhando-a com o pensamento distante.

Aquela paixão louca pela antiguidade apoderou-se dele como algo profano, antinatural. Uma paixão insana, com o sentido da história - mais que o sentido, a necessidade de estender a mão e de lhe tocar, de a segurar, de a compreender através das relíquias e artefatos, ver-se perseguido pelos rostos de artesãos e artífices há muito falecidos, assombrado pela idéia das mãos que criaram esses objetos, por dedos que há muito se transformaram em esqueletos, em pó. Mas nunca esquecidos, nunca verdadeiramente esquecidos, desde que se exista essa paixão irracional.

Por instantes os sentimentos antigos apoderaram-se de novo dele, diversos, assaltaram-no, numa excitação que jamais sentira desde que fora estudante. Quando? Há quinze anos? Dezesseis? Vinte?

Não tinha importância: o tempo tinha um significado diferente para ele do que tinha para a maioria das pessoas. O tempo era algo que se descobria através dos segredos que enterrara - em templos, em ruínas, sob rochas, pó e areia. O tempo estendia-se, tornava-se elástico, criando aquela sensação extraordinária de que tudo aquilo que existiu estava ligado a tudo aquilo que existia naquele momento; e a morte era fundamentalmente desprovida de significação por causa daquilo que se deixava para trás.

Desprovida de significação.

Lembrou-se de Champollion trabalhando na pedra Rosetta, da admiração de decifrar finalmente hieróglifos antigos. Lembrou-se de Schliemann que descobriu o lugar onde existiu Tróia. Flinders Petrie que fizera escavações no cemitério pré-dinástico em Nagada. Wooley que descobrira o cemitério real em Ur no Iraque. Carter e lorde Carnarvon que encontraram por acaso o túmulo de Tutankhamon.

Foi aí que tudo começou. Naquela consciência da descoberta, que era como o centro de um furacão. E era arrastado, levado, transportado ao passado naquela máquina do tempo que os escritores da fantasia não conseguiam compreender: a nossa máquina do tempo, a nossa linha privada que nos ligava ao passado vital.

Equilibrou a réplica do ídolo no centro da mão e olhou-a como se fosse um inimigo pessoal. "Não," pensou ele, "você é o seu pior inimigo, Jones. Foi levado porque teve acesso à metade de um mapa que se encontrava nos papéis de Forrestal e porque quis confiar desesperadamente nos dois encrenqueiros que tinham a outra metade.”

"Moron." pensou.

“E Belloq.” Belloq era provavelmente o mais astuto. Belloq tinha astúcia para aproveitar as oportunidades. Belloq sempre teve essa qualidade - como as cobras pelas quais tem uma fobia. Saindo, sem ser visto, de debaixo de uma pedra, o predador que desliza, agarrando sempre aquilo que não procurara.

Naquele momento tudo o que se formou no centro do espírito foi uma imagem de Belloq - aquele rosto delicado, belo, o tom escuro dos olhos, o sorriso que ocultava a astúcia.

Recordou outros encontros com o francês. Lembrou da licenciatura, quando Belloq se candidatou ao Prêmio da Sociedade de Arqueologia, apresentando um trabalho sobre estratigrafia, em cuja base Indy reconheceu uma obra sua. E de alguma forma Belloq plagiara-o, conseguira acesso a ela de qualquer maneira. Indy não podia provar nada porque teria sido um caso de maledicência, um ataque de inveja.

1934. Verão negro. Passara meses a planejar uma escavação no Deserto al Khali, na Arábia Saudita. Meses de trabalho, de preparação e a pedir fundos, juntando as peças, argumentando que os seus instintos em relação à escavação estavam certos, que iriam descobrir os vestígios de uma cultura nômade naquele lugar árido, uma cultura anterior à era de Cristo. E depois?

Ele fechou os olhos.

Mesmo naquele momento a recordação encheu-o de amargura.

Belloq esteve lá antes dele.

Belloq escavou o lugar.

Era verdade que o francês descobriu pouca coisa de significado histórico nas escavações, mas não era essa a questão.

A questão era que Belloq o roubou uma vez mais. E uma vez mais não sabia ao certo como poderia provar o roubo.

E depois o ídolo.

Indy levantou os olhos, interrompido no seu devaneio, quando a porta do gabinete se abriu lentamente.

Apareceu Marcus Brody, com uma expressão de prudência estampada no rosto, uma prudência que era parte preocupação.

Indy olhou atentamente para Marcus, conservador do National Museum, o seu melhor amigo.

- Indiana. - disse ele numa voz branda.

Ergueu a réplica do ídolo, como se fosse oferecê-la ao outro homem, depois, repentinamente, deitou-a na lata do lixo que estava no chão.

- Tive o original na minha mão, Marcus. O original. - Indy recostou-se, com os olhos fechados, massageando vigorosamente as pálpebras com os dedos.

- Você contou, Indiana. Já me contou. - disse Brody. - Assim que regressou. Lembra?

- Eu posso recuperá-lo, Marcus. Posso recuperá-lo. Pensei nisso. Belloq tem que vendê-lo, certo? Por isso, onde vai vendê-lo? Hein?

Brody olhou para ele com uma expressão de tolerância.

- Onde, Indiana?

- Marraquexe, Marraquexe é aí. - Indy levantou-se, indicando diversas figuras que estavam em cima da escrivaninha.

Aqueles eram os artigos que tirou do Templo, os fragmentos e as peças que juntara rapidamente. - Olha. Devem valer alguma coisa, Marcus. Devem render o dinheiro suficiente para poder ir a Marraquexe, certo?

Brody mal olhou para os artigos. Em vez disso, estendeu a mão e pousou-a no ombro de Indy, um toque de amizade e preocupação.

- O museu irá comprá-los, como sempre. Incondicionalmente. Mas falaremos do ídolo mais tarde. Neste momento quero que conheça umas pessoas. Vieram de muito longe para te verem, Indiana.

- Que pessoas?

Brody replicou:

- Vieram de Washington, Indiana. Só para falarem contigo.

- Quem são? - perguntou Indy com ar triste.

- Dos serviços secretos do exército.

- O quê? Estou metido em alguma confusão?

- Não. Pelo contrário. Parece que precisam da tua ajuda.

- A única ajuda em que estou interessado é em obter o dinheiro para ir a Marraquexe, Marcus. Estes objetos devem valer alguma coisa.

- Mais tarde, Indiana. Mais tarde. Primeiro quero que receba essas pessoas.

Indy parou junto ao mapa da América do Sul.

- Sim. - disse ele - Eu recebo.

- Estão à espera na sala de conferências.

Saíram para o corredor.

Uma moça bonita apareceu na frente de Indy. Trazia uma pilha de livros e fingia ser estudiosa, eficiente. Indy animou-se quando a viu.

- Professor Jones. - dizia ela.

- Uh...

- Estava contando que pudéssemos ter uma conversa. - disse ela timidamente, lançando um olhar a Marcus Brody.

- Sim, claro, Susan, sei que disse que conversaríamos.

Marcus Brody disse:

- Agora não. Agora não, Indiana. - E virou-se para a moça. - O professor Jones tem de ir a uma conferência importante, minha cara. Por que não lhe telefona mais tarde?

- Sim. - murmurou Indy - Regressarei ao meio-dia.

A moça sorriu, desapontada, depois afastou-se seguindo pelo corredor. Indy viu-a ir embora, admirando as pernas, as barrigas das pernas torneadas, os tornozelos magros. Sentiu Brody puxar-lhe a manga.

- Bonita. Superior aos teus padrões habituais, Indiana. Mas mais tarde, está bem?

- Mais tarde. - disse Indy, desviando o olhar da moça com relutância.

Brody abriu a porta da sala de conferências. Sentados junto do estrado estavam dois oficiais do exército uniformizados.

Viraram a cara ao mesmo tempo quando a porta se abriu.

- Se esta é a comissão da inspeção, já fiz o serviço militar. - disse Indy.

Marcus Brody conduziu Indy a uma cadeira no estrado.

- Indiana, gostaria de apresentar o coronel Musgrove e o major Eaton. São as pessoas que vieram de Washington para falar com você.

Eaton disse.

- Prazer em o conhecer. Ouvi falar muito em você, professor Jones. Doutor em Arqueologia, perito em ciências ocultas, possuidor de antiguidades raras.

- É uma forma de colocar a questão - disse Indy.

- O possuidor de antiguidades raras parece intrigante. - comentou o major.

Indy lançou um olhar a Brody, que disse:

- Tenho a certeza de que tudo aquilo que o professor Jones faz para o nosso museu respeita rigorosamente as linhas gerais do Tratado para a Proteção de Antiguidades.

- Oh, tenho a certeza disso. - comentou o major Eaton.

Musgrove disse:

- É um homem de muitos talentos, Professor.

Indy fez um gesto de protesto, acenando com uma mão. Que queriam aqueles indivíduos? O major Eaton disse:

- Sei que estudou sob a orientação do professor Ravenwood na Universidade de Chicago?

- Sim.

- Tem alguma idéia do lugar onde ele se encontra presentemente?

Ravenwood. O nome trouxe-lhe recordações com uma violência que não agradou a Indy.

- Rumores, nada mais. Creio que ouvi dizer que estava na Ásia. Não sei.

- Disseram-nos que era amigo íntimo dele - disse Musgrove.

- Sim. - Indy coçou o queixo. - éramos amigos... Porém não nos falamos durante anos. Receio que tivemos o que se poderia chamar de uma desavença. - "Uma desavença," pensou era uma maneira de colocar a situação. Uma desavença. Parecia mais um corte total". E então lembrou-se de Marion, uma recordação indesejada, algo que ainda tinha que arrancar do estrato mais profundo do espírito. Marion Ravenwood, a moça com os olhos maravilhosos.

Os oficiais trocavam palavras em voz baixa, decidindo alguma coisa. Em seguida Eaton virou-se e ficou com um ar solene e disse:

- Aquilo que vamos dizer é estritamente confidencial.

- Com certeza. - disse Indy. Ravenwood... onde se encaixava o velho naquele frágil enigma? E quando é que alguém iria direto ao assunto?

Musgrove disse:

- Ontem, uma das nossas bases européias interceptou um comunicado alemão enviado do Cairo para Berlim. A notícia que continha era obviamente excitante para os agentes alemães no Egito. - Musgrove olhou para Eaton, esperando que este continuasse a narrativa, como se cada um fosse capaz de transmitir apenas certas informações de cada vez.

Eaton disse:

- Não sei bem se estou dizendo uma coisa que já sabe, professor Jones, quando menciono o fato de os Nazis terem equipes de arqueólogos que percorrem o mundo nestes dois últimos anos...

- Não me passou despercebido.

- Claro. Parece que procuram freneticamente qualquer tipo de artefato religioso que possam obter. Hitler, segundo os relatórios dos nossos serviços secretos, tem até um adivinho, se o que dizem for verdade. E parece que neste momento está em curso uma espécie de escavação arqueológica, ultra-secreta, no deserto próximo a Cairo.

Indy acenou com a cabeça. Aquilo estava dando sono.

Tinha conhecimento da preocupação aparentemente infinita de Hitler em adivinhar o futuro, extrair ouro do chumbo, em busca de elixir, ou o que quer que fosse. "É só dizerem," pensou "e se for suficientemente estranho, então com certeza que o homenzinho louco de bigode ficará interessado."

Indy viu Musgrove tirar uma folha da pasta. Segurou-a por instantes, depois disse:

- Este comunicado contém algumas informações relacionadas com a atividade no deserto, mas não sabemos que conclusão podemos tirar. Pensamos que talvez lhe dissesse alguma coisa.

E entregou a folha a Indy. A mensagem dizia:

ATIVIDADE DE DESENVOLVIMENTO TANIS. CONSIGAM O FLORÃO, BASTÃO DE RÁ, ABNER RAVENWOOD, E. U.

Ele leu uma vez mais as palavras, com o espírito repentinamente lúcido, repentinamente vivo. Levantou-se, olhou para Brody e disse, com uma expressão de incredulidade:

- Os Nazis descobriram tânis.

O rosto de Brody ficou sério e pálido.

Eaton replicou:

- Desculpe. Agora me confundiu. Que significa tânis para vocês?

Indy atravessou o estrado em direção à janela, já com o espírito agitado. Abriu bruscamente a janela e inspirou o ar frio da manhã, sentindo-o agradavelmente fresco nos pulmões.

"tânis. O Bastão da Rá. Ravenwood". Vieram-lhe ao pensamento as antigas lendas, as fábulas, as histórias. Foi atacado por uma montanha de conhecimentos, informações que armazenou no cérebro durante anos - tantas que quis tirar rapidamente, deixá-las para trás. "Tem calma." pensou. "Conta devagar para que compreendam". Virou-se para os oficiais e disse:

- Vão ter dificuldade em perceber muitas coisas. Talvez, não sei. Dependerá das vossas crenças pessoais, desde já é o que posso dizer. Está bem? - Fez uma pausa, olhando para os rostos sem expressão.

- A cidade de tânis é um dos possíveis lugares onde está a Arca Perdida...

Musgrove interrompeu:

- Arca? Como a de Noé?

Indy abanou a cabeça.

- Não é a de Noé. Estou falando da Arca da Aliança. Estou falando da arca que os Israelitas usaram para transportar os Dez Mandamentos.

Eaton disse:

- Dá uma ajuda. Refere-se aos Dez Mandamentos?

- Refiro-me às placas de pedra gravadas, as originais que Moisés trouxe do Monte Horeb. Aquelas que disse que partiu quando viu a decadência dos Judeus. Enquanto ele estava no cume da montanha comunicando com Deus e Este lhe revelava a lei, o resto do seu povo fazia orgias e construía ídolos. Por isso ficou furioso e despedaçou as placas, certo?

Os rostos dos militares estavam impávidos. Indy sentiu vontade de lhes incutir o entusiasmo que ele próprio começava a sentir.

- Então os Israelitas colocaram os pedaços na Arca e levaram-na para onde quer que fossem. Quando se instalaram em Canaã, a Arca foi colocada no templo. Ficou lá durante anos... depois desapareceu.

- Onde? - perguntou Musgrove.

- Ninguém sabe quem a levou nem quando.

Brody, falando com mais paciência que Indy, disse:

- Um faraó egípcio invadiu Jerusalém cerca de 926 a. C. Shislak era o seu nome. Pode tê-la levado de novo para a cidade de tânis...

Indy interrompeu-o:

- Onde pode ter escondido numa câmara secreta, a que chamavam Poço das Almas.

Fez-se silêncio no salão.

Então Indy disse:

- Seja como for, é um mito. Mas parece que aconteciam sempre coisas más aos forasteiros que mexiam na Arca. Pouco tempo depois de Shislak ter regressado ao Egito, a cidade de tânis foi consumida por uma tempestade de areia que durou um ano.

- A maldição obrigatória. - comentou Eaton.

Indy ficou aborrecido com o cepticismo do homem.

- Se prefere assim. - disse ele, tentando não perder a paciência. - Mas, durante a Batalha de Jericó, os padres hebreus transportaram a arca pela cidade sete dias antes de as muralhas ruírem. E, quando os Filisteus supostamente se apoderaram da Arca, fizeram com que tudo se abatesse sobre eles... incluindo pragas de erupções e pragas de ratos.

Eaton disse:

- Isto é tudo muito interessante, suponho. Mas por que razão seria mencionado um americano num telegrama nazi, se conseguimos decifrar o essencial?

- Ele é o perito em tânis. - replicou Indy. - tânis era a obsessão dele, até colecionou algumas das suas relíquias. Mas nunca encontrou a cidade.

- Por que razão os Nazis se interessariam por ele? - perguntou Musgrove.

Indy fez uma curta pausa.

- Parece que os Nazis procuram o florão do Bastão de Rá.

E pensam que está em posse de Abner.

- O Bastão de Rá. - disse Eaton. - É tudo um pouco complicado.

Musgrove, que parecia mais interessado, curvou-se na cadeira.

- O que é o Bastão de Rá, professor Jones?

- Eu faço um desenho. - disse Indy. Dirigiu-se ao quadro e começou a fazer rapidamente um esboço. Quando fez um traço de um lado ao outro com o giz, disse:

- Supõe-se que o Bastão de Rá seja a chave para a localização da Arca. Uma pista muito engenhosa neste caso. Era basicamente um bastão comprido, talvez com um metro e oitenta e dois de altura, ninguém sabe ao certo.

Em todo o caso, encimado por um florão elaborado com a forma do sol e com um cristal no centro. Era preciso levar o bastão para uma sala de mapas na cidade de tânis... esta continha a planta completa da cidade em miniatura. Quando se colocava o bastão num determinado lugar nessa sala a certa hora do dia, o sol incidia no cristal do florão e projetava um raio de luz no mapa, dando a localização do Poço das Almas...

- Onde esconderam a Arca. - disse Musgrove.

- Exatamente. Deve ser por isso que os Nazis querem o florão. O que explica o nome de Ravenwood no telegrama.

Eaton levantou-se e começou a andar em voltas cheio de nervosismo.

- Afinal qual é o aspecto da Arca?

- Eu mostro. - disse Indy. Foi rapidamente para o fundo do salão, encontrou um livro, folheou-o até encontrar uma gravura grande e colorida. Mostrou-a aos dois oficiais.

Olharam a ilustração, que representava uma cena da batalha bíblica, em silêncio. O exército dos Israelitas vencia o inimigo; na primeira fila das tropas israelitas estavam dois homens que transportavam a Arca da Aliança, uma arca de ouro, alongada, coroada com dois querubins de ouro. Os Israelitas transportavam a arca com varas compridas enfiadas em argolas especiais nos cantos. Um objeto de extraordinária beleza, mas mais impressionante que o seu aspecto era o feixe de luz branca muito forte que saía das asas dos anjos, um feixe luminoso que penetrava nas fileiras do exército em retirada, parecendo criar terror e devastação.

Musgrove disse, impressionado:

- Que é aquilo que parece sair das asas?

Indy encolheu os ombros.

- Quem sabe? Um raio. Fogo. O poder de Deus. Seja do que for que chamemos, parece que era capaz de arrasar montanhas e destruir regiões inteiras. Segundo Moisés, um exército que transportasse a Arca na fila da frente ficava invencível. - Indy olhou para o rosto de Eaton e concluiu:

"Este tipo não tem imaginação. Nada inflamará este indivíduo.”

Eaton encolheu os ombros e continuou a olhar a ilustração.

"Descrença." pensou Indy "Ceticismo militar.”

Musgrove disse:

- Qual é a sua opinião relativamente a isto... ao suposto poder da Arca, Professor?

- Como disse, depende das nossas crenças. Depende de aceitarmos o mito como tendo uma base na verdade.

- Está esquivando-se - disse Musgrove e sorriu.

- Tenho um espírito aberto. - respondeu Indy.

- Um louco como Hitler, porém... Talvez acreditasse realmente nesse poder, certo? Talvez comprasse tudo.

- Possivelmente. - disse Indy. Observou Eaton por instantes, subitamente dominado por uma sensação de antecipação familiar, pela subida da temperatura. “A cidade perdida de tânis. O Poço das Almas. A Arca." Havia uma melodia alusiva, e atraía-o como o canto sedutor de uma sereia.

- Podia pensar que se possuísse a Arca a máquina militar seria invencível. - disse Eaton, mais para ele mesmo que para qualquer outra pessoa. - Estou vendo, se engolir o conto de fadas, pelo menos sentiria a vantagem psicológica.

Indy disse:

- Há uma outra coisa. Segundo a lenda, a Arca será recuperada no momento da vinda do verdadeiro Messias.

- O verdadeiro Messias - repetiu Musgrove.

- Provavelmente é isso que Hitler pensa que é. - comentou Eaton.

Fez-se silêncio no salão. Indy olhou uma vez mais para a ilustração, para a intensidade da luz que irradiava das asas dos anjos e queimava os inimigos em fuga. Um poder acima de todos os poderes. Indefinível. Fechou os olhos um segundo. E se fosse verdade? Se esse poder existisse mesmo? "Muito bem, tenta ser racional, tenta pensar como Eaton, atribuindo aquilo a uma lenda antiga, posta a circular por um bando de Israelitas invejosos. Uma tática intimidatória contra os inimigos, uma espécie de guerra psicológica. Mesmo assim, havia qualquer coisa que não podia ser ignorada, ser posta à parte.”

Ele abriu os olhos e ouviu Musgrove suspirar e dizer:

- Ajudou-nos muito. Espero que possamos visitá-lo de novo se precisarmos.

- A qualquer hora, senhores. Sempre que queiram. – disse Indy.

Despediram-se com um aperto de mão e em seguida Brody acompanhou os oficiais até a porta. Só, no salão deserto, Indy fechou o livro. Pensou por instantes, procurando ao mesmo tempo reprimir a excitação que sentia. "Os Nazis descobriram tânis", e aquelas palavras rodopiaram no seu cérebro.

Susan, a moça, disse:

- Espero sinceramente não o ter embaraçado quando estava com Brody. Fui tão... clara.

- Não foi clara - disse Indy.

Estavam sentados na sala de estar desarrumada dele. Na casa pré-fabricada de Indy. A sala estava cheia de recordações de viagens, de escavações, vasilhas de barro restauradas, minúsculas estátuas, fragmentos de porcelana, mapas e globos - "tão desarrumada", pensava ele às vezes, "como a minha vida".

A moça levantou os joelhos, apertando-os com as mãos, encostando o rosto neles. "Como um gato," pensou ele "um gatinho satisfeito.”

- Adoro esta sala - disse ela. - Adoro a casa toda... mas sobretudo esta sala.

Indy levantou-se do sofá e, com as mãos nos bolsos, andou de um lado para o outro na sala. A moça, por qualquer motivo, era uma intrusa, ao contrário do que se passava noutros tempos. Às vezes, quando ela falava, deixava de ouvi-la.

Escutava apenas o som da sua voz e não apreendia o significado das palavras. Serviu-se de uma bebida, bebeu lentamente, engoliu; ardeu no peito - uma sensação de ardor agradável, como o calor de um pequeno sol a brilhar bem no fundo.

Susan disse:

- Esta noite parece tão distante, Indy.

- Distante?

- Está preocupado com alguma coisa. Não sei. - Ela encolheu os ombros.

Ele caminhou na direção do rádio, ligou, quase sem ouvir o rumor de alguém que fazia um relato em voz alta para Maxwell House. A moça mudou a estação e depois ouviu-se música de dança tocada por um conjunto. "Distante." pensou ele. "Muito mais longe do que poderia imaginar. A milhas de distância, oceanos, continentes e séculos.”

Repentinamente pensava em Ravenwood, na última conversa que tinham tido, na fúria terrível do velho, na sua ira. Quando escutava os ecos daquelas vozes, sentia-se triste, desapontado com ele mesmo; aceitara uma confiança frágil e despedaçara-a.

"A Marion está apaixonada por você, e você aproveitou-se disso."

"Tem 28 anos, provavelmente um homem adulto e tirou partido do entusiasmo louco de uma moça e aproveitou-se dele para satisfazer os seus próprios interesses só porque ela pensa que está apaixonada por você.”

Susan disse:

- Se quer que eu vá embora, Indy, eu vou. Se quiser ficar só, eu compreendo.

- Não tem importância. Sério. Fique.

Ouviu-se um toque na porta; a varanda rangeu.

Indy saiu da sala e dirigiu-se ao pátio de entrada e viu Marcus Brody. Tinha um sorriso estranho, como se tivesse notícias que desejava guardar, saborear enquanto pudesse.

- Marcus, - disse Indy - não contava com sua vinda.

- Acho que contava. - disse Brody, empurrando a porta dupla.

- Vamos para o gabinete - disse Indy.

- Por que não vamos para a sala de estar?

- Porque tenho companhia.

- Ah. E que mais?

Entraram no gabinete.

- Preparou aquilo, não foi? - Perguntou Indy.

Brody sorriu.

- Querem que encontre a Arca antes dos Nazis.

Por algum tempo Indy não conseguiu dizer nada. Teve uma sensação de exaltação, uma consciência do triunfo. A Arca.

Respondeu:

- Creio que tenho esperado toda a vida para ouvir uma coisa como essa.

Brody olhou para o copo com bebida na mão de Indy por instantes.

- Falaram com os superiores em Washington. Depois consultaram-me. Precisam de você, Indiana. Querem que seja você.

Indy sentou-se na escrivaninha, olhou para dentro do copo, em seguida lançou um olhar pela sala. Subitamente uma estranha sensação apoderou-se dele; aquilo era mais que livros, artigos e mapas, mais que especulação, argumento acadêmico, discussão, debate - uma sensação de realidade substituiu todas as palavras e imagens.

Brody disse:

- Claro, tendo em conta o espírito militar, não acreditam inteiramente no poder da Arca e etc. Não pretendem aceitar essas mitologias. Afinal, são soldados, e os soldados gostam de pensar que são realistas de linha dura. Querem a Arca... e passo a citar - "se for capaz... por causa do seu significado histórico e cultural, e porque um objeto tão valioso não pode ser propriedade de um regime fascista." Ou palavras com esse significado.

- Os seus motivos não interessam. - disse Indy.

- Além disso, pagarão bem...

- Não quero saber do dinheiro, Marcus. - Indy levantou uma mão, apontando rapidamente para a sala. – A Arca representa o aspecto elusivo que eu sinto em relação à arqueologia... Você sabe, a história que esconde os seus segredos. Coisas que esperam por ser descobertas. Não troco isso pelos motivos deles nem pelo dinheiro. - E fez estalar os dedos.

Brody acenou com a cabeça, concordando.

- O museu, claro, ficará com a Arca.

- Evidentemente.

- Se existir... - Brody calou-se por instantes, em seguida acrescentou. - Não devemos ter muitas esperanças.

Indy levantou-se.

- Primeiro tenho que encontrar Abner. Esse seria o passo lógico. Se Abner tiver o florão, então terei de lhe deitar a mão antes que a oposição o faça. Faz sentido, não faz? Sem o florão, voilá, não há Arca. Por isso onde encontrarei Abner?

Calou-se, percebendo que falou muito depressa. - Creio que sei onde devo começar a procurar...

Brody disse:

- Passou muito tempo, Indiana. Tudo muda.

Indy olhou o outro homem um segundo. Considerou o comentário enigmático: "Tudo muda." E então compreendeu que Marcus Brody estava falando de Marion.

- Talvez não esteja tão irritado com você. - disse Brody - Por outro lado, pode sentir ainda ressentimento. Nesse caso, é razoável pensar que não quererá dar o florão. Se de fato o tiver.

- Esperemos que as coisas corram pelo melhor, meu amigo.

- Sempre otimista, não?

- Nem sempre. - disse Indy. - O otimismo pode ser fatal.

Brody calou-se, andando de um lado para o outro na sala, folheando as páginas dos livros. Em seguida olhou para Indy com um ar sério.

- Quero que tenha cuidado, Indiana.

- Eu tenho sempre cuidado.

- Às vezes é bastante imprudente. Sabes isso tão bem quanto eu. Mas não procuraste nada semelhante à Arca. É mais importante. Mais perigoso. - Brody fechou bruscamente um livro, como se fosse para realçar esse ponto. - Não sou cético, como esses militares... acho que a Arca encerra segredos. Creio que tem segredos perigosos.

Durante um segundo Indy teve vontade de dizer algo irreverente, algo sobre o tom melodramático da voz do outro homem. Mas viu pela expressão no rosto de Brody que o homem estava falando a sério.

- Não quero perder você, Indiana, por maior que seja o prêmio. Entende?

Os dois homens deram um aperto de mão.

Indy notou que a pele de Brody estava cheia de suor.

Sozinho, Indy ficou em pé até altas horas da noite, sem conseguir dormir, sem conseguir deixar de pensar. Percorreu os compartimentos da casa, abrindo e fechando as mãos. "Passados tantos anos," pensou "tanto tempo depois... Ravenwood o ajudaria? Se ele tivesse o florão, viria Ravenwood em seu auxílio?" E por trás daquelas perguntas ainda havia outra.

"Marion ainda viveria com o pai?", Continuou andando de sala em sala até que se sentou por fim no gabinete e pôs os pés em cima da escrivaninha, olhando para os diversos objetos espalhados na sala. Em seguida fechou os olhos por instantes, tentando raciocinar, e levantou-se. Tirou um exemplar da velha revista de Ravenwood de uma estante, um presente do velho dos tempos em que ainda eram amigos. Indy folheou-a, reparando numa lista de desilusões, uma escavação que se gorara, outra que revelara apenas as pistas mais tênues, mais desesperadoras do paradeiro da Arca. As linhas gerais de uma obsessão naquelas páginas; a procura dilacerante de um objeto perdido da história. Mas a Arca corria-lhe no sangue e enchia o ar que respirava. E compreendeu a sinceridade do velho, a sua devoção, a ânsia que o levou a andar de país em país, de esperança em esperança. As páginas revelavam tudo isso, mas não havia referência ao florão em parte alguma. Nada.

O último artigo da revista mencionava o Nepal, a perspectiva de outra escavação. "Nepal." pensou Indy; "Os Himalaias, a região mais inóspita da terra. E muito distante daquilo que os Alemães realizavam no Egito. Talvez Ravenwood tivesse encontrado lá alguma coisa por acaso, uma pista para descobrir a Arca. Talvez tudo o que se dizia de tânis estivesse mal. Talvez".

"Nepal. Teria de começar por lá".

Era um começo.

Folheou a revista mais algum tempo, depois largou-a, desejando saber como Abner Ravenwood reagiria com ele.

E como reagiria Marion.

 

BERCHTESGADEN, ALEMANHA

Dietrich sentia-se constrangido na companhia de René Belloq.

Não era tanto a falta de confiança que sentia no francês, mas a sensação que tinha de que Belloq tratava quase tudo com igual cinismo; era mais o estranho carisma de Belloq que preocupava Dietrich, a idéia de que de certa forma sentisse vontade de simpatizar com ele, que o atraia contra a sua própria vontade.

Estavam sentados na antecâmara em Berchtesgaden, o refúgio do Führer na montanha, um lugar que Dietrich nunca visitara e que o apavorava. Mas reparou que Belloq, recostando-se à vontade, com as pernas compridas estendidas, não evidenciava nenhum sentimento semelhante. Muito pelo contrário - Belloq parecia estar sentado descontraidamente num café francês vulgar, num lugar como aquele em que Dietrich o encontrara em Marselha. "Sem respeito", pensou Dietrich. "Sem sentido da importância das situações." Estava irritado com a atitude do arqueólogo.

Ouviu o tique-taque de um relógio, os sons suaves dos carrilhões. Belloq suspirou, rodou as pernas e olhou para o relógio de pulso.

- Por que esperamos, Dietrich? - perguntou ele.

Dietrich não pôde evitar falar em voz baixa.

- O Führer nos receberá quando estiver pronto, Belloq. Deve pensar que não tem nada melhor para fazer que conversar com ele sobre uma peça de museu.

- Uma peça de museu. - Belloq falou com evidente desprezo, olhando para o alemão do outro lado da sala. "Como sabem tão pouco", pensou. "Como sabem tão pouco de história. Acreditam em todas as coisas erradas: constroem os arcos monumentais e exibem os exércitos com andar altivo... sem perceberem que não se pode criar deliberadamente o temor da história. É algo que já existe, algo que não se pode aspirar a fabricar com o aparato do fausto." A Arca: só de pensar na possibilidade de descobrir a Arca ficou impaciente. Afinal por que razão tinha que falar com aquele miserável pintor de casas alemão?

Por que era obrigado a assistir a uma reunião com o homem se a escavação já se iniciara no Egito? Afinal que poderia aprender com Hitler?

"Nada", pensou. "Absolutamente nada. Talvez fosse uma palestra pomposa. Uma crítica áspera. Alguma coisa sobre a grandeza do Reich. Quais seriam os motivos que justificariam a posse da Arca por parte dos Alemães, se ela existisse?”

"O que eles sabiam?", perguntou-se ele.

A Arca não pertencia a lugar nenhum. Se tinha segredos, se continha o poder que diziam possuir, então queria ser o primeiro a descobri-la - não era uma coisa que se confiasse de ânimo leve ao maníaco que estava naquele momento noutra sala daquela casa da montanha e o fazia esperar.

Suspirou cheio de impaciência, mexendo-se na cadeira.

Em seguida levantou-se, encaminhou-se para a janela e olhou as montanhas, sem as ver, fitando-as distraidamente.

Pensava no momento de abrir a caixa, de espreitar e contemplar as relíquias das placas de pedra que Moisés trouxera do Monte Horeb. Era fácil imaginar a mão levantando a tampa, o som da sua própria voz - depois o momento da revelação.

O momento de uma vida inteira; não havia prêmio mais valioso que a Arca Bíblica.

Quando se afastou da janela, Dietrich observava. O alemão reparou na expressão estranha dos olhos de Belloq, o sorriso tênue na boca que parecia interiorizar-se, como se estivesse a apreciar uma enorme piada, um pensamento profundo e divertido.

Compreendeu então até onde podia ir a falta de confiança - mas era um negócio do Führer, fora o Führer que pedira René Belloq.

Dietrich ouviu bater o quarto de hora no relógio. De um corredor em algum lugar no interior do edifício, ouviu o ruído de passos. Belloq virou-se para a porta na expectativa. Mas os passos deixaram de se ouvir e Belloq praguejou em francês e em voz baixa.

- Quanto tempo vamos ter de esperar? - perguntou o francês.

Dietrich encolheu os ombros.

- Não me diga - comentou Belloq. - O Führer vive de acordo com um relógio ao qual nós, homens comuns, não temos acesso, certo? Talvez tenha visões do seu próprio tempo, não é? Talvez pense que tem um conhecimento profundo da natureza do tempo? - Belloq fez um gesto de desdém com uma mão, depois sorriu.

Dietrich mexeu-se, constrangido, obcecado pela idéia de que a sala estava sob escuta, que Hitler escutava aquela conversa disparatada. Ele retorquiu:

- Não tem medo de nada, Belloq?

- Podia responder-lhe, Dietrich, só que duvido que compreendesse aquilo de que falei.

Ficaram em silêncio. Belloq voltou para junto da janela.

"Cada momento preso aqui é um momento a menos que passo no Egito", pensou. E percebeu que o tempo era importante, que a notícia das escavações se espalharia, que não poderia ser guardada em segredo indefinidamente. Só esperava que a segurança alemã fosse boa.

Olhou de novo para o alemão e disse:

- Não me explicou como vai conseguir o florão. Preciso saber.

- Estão tratando do caso - disse Dietrich. - Foram enviadas pessoas...

- Que tipo de pessoas, Dietrich? Há algum arqueólogo?

- Não...

- Assassinos, Dietrich? Alguns dos seus capangas?

- Profissionais.

- Ah, mas não são arqueólogos profissionais. Como vão saber se descobriram o florão? Como vão saber se não é uma falsificação?

Dietrich sorriu.

- O segredo está em saber onde procurar, Belloq. Não depende inteiramente de se saber aquilo que se procura.

- Um homem como Ravenwood não se força com facilidade - disse Belloq.

- Falei em coerção?

- Não precisava - replicou Belloq. - Aprecio a necessidade dela, é o que basta. Em certas áreas creio que constatará que não sou um homem escrupuloso. Na verdade, muito pelo contrário.

Dietrich acenou com a cabeça. Ouviram-se uma vez mais passos do lado de fora da porta. Esperou. Abriram a porta. Entrou um ajudante-de-campo de uniforme, com aquela túnica preta que Dietrich tanto detestava. Não disse nada, apenas indicou com um aceno de cabeça que o deveriam seguir.

Belloq dirigiu-se para a porta. "O santuário secreto", pensou. "O quarto privado do pintorzinho de casas que sonhava em se tornar o espírito da história, mas que não era capaz de se aperceber da verdade". A única história em que Belloq estava interessado, a única história que fazia sentido, estava enterrada nos desertos do Egito. "Com sorte", pensou Belloq. "Com alguma sorte.”

Viu Dietrich adiantar-se. Um homem nervoso, com o rosto tão pálido como o de alguém que vai para a execução com a dignidade que consegue reunir.

A idéia divertiu Belloq.

 

NEPAL

O DC-3 sobrevoou as colinas brancas das montanhas, rasando de vez em quando bancos de nevoeiro, bancos de nuvens cerradas. Os picos da cordilheira quase não se viam, escondidos nas nuvens geladas, nuvens que pareciam imóveis e sólidas, como se nenhum vento invernoso jamais pudesse dispersá-las.

"Uma rota tortuosa", pensou Indy, olhando através da janela, "e muito longa": através dos Estados Unidos até são Francisco, depois seguindo no China Clipper da Pan Am, chegando a Hong Kong depois de muitas paradas; outro avião pouco firme até Xangai e, finalmente, aquele aparelho velho até Katmandu.

Indy tremeu quando imaginou a deslocamento e o frio glacial dos Himalaias. As fendas incríveis, as ravinas e os vales não assinalados nos mapas, a neve alta que cobria tudo. Um ambiente inconcebível, e, no entanto, a vida florescia lá, as pessoas sobreviviam, trabalhavam e amavam. Fechou o que estava lendo - a revista de Abner Ravenwood - e seguiu a parte lateral do avião com o olhar. Colocou a mão no bolso de trás do casaco e apalpou o maço de notas, aquilo a que Marcus Brody chamara "um adiantamento do Exército dos E. U." Tinha mais de cinco mil dólares, que começara a considerar como dinheiro de persuasão se Abner Ravenwood não tivesse mudado de atitude em relação a ele. Um toque de chantagem, de lá mordida. Talvez o velho estivesse precisado de dinheiro, visto que não aceitara nenhum cargo de ensino oficial durante anos, tanto quanto Indy sabia. Teria que passar por aquele enorme flagelo de qualquer disciplina acadêmica - o tormento de angariar fundos. O parto das esmolas que era necessário abanar a toda a hora. Indy tomou consciência de que cinco mil dólares era uma quantia que jamais transportara consigo. Uma pequena fortuna, na verdade. E isso fazia com que se sentisse constrangido. Sempre encarara o dinheiro com uma atitude de cavalheiro, gastando-o assim que o ganhava.

Fechou os olhos por instantes, perguntando a si mesmo se ainda encontraria Marion com o pai. Concluiu que era pouco provável. Ela cresceu, partiu, talvez até tivesse casado nos Estados Unidos. E se ainda estivesse com o pai? E ele se viu subitamente sem vontade de enfrentar Ravenwood.

Entretanto tinham passado tantos anos. Certamente tudo mudou.

Talvez não, talvez não com pessoas tão ingênuas como Abner.

Rancor era rancor e se um colega tivesse uma relação com a filha dele, então o rancor seria longo e profundo. Indy suspirou. "Uma fraqueza", pensou. "Por que não conseguiu ser forte nessa hora? Por que se deixou envolver tanto? Se envolver tanto com uma garota? Mas nesse tempo não pareceu uma criança, mas sim uma mulher-criança, com algo nos olhos e na expressão que revelava mais que uma moça em plena adolescência.”

"Deixa isso, esquece", pensou.

"Agora tem outras coisas em que pensar. E o Nepal é apenas uma etapa no caminho para o Egito. Uma longa etapa." Indy sentiu o avião começar a baixar quase imperceptivelmente ao princípio, depois nitidamente, quando mergulhou em direção ao lugar de aterrissagem. Podia ver emergir dos desertos brancos de neve as luzes fracas de uma cidade. Fechou os olhos e esperou pelo momento em que as rodas tocaram no solo e o avião soltou sons estridentes ao longo da pista quando parou. Em seguida o avião dirigiu-se ao terminal - apenas um enorme hangar que parecia ter sido convertido num ponto de chegadas e partidas. Levantou-se do banco, reuniu os papéis e os livros, tirou o saco de debaixo do banco e começou a passar pelo corredor.

Indiana Jones não reparou no homem com um impermeável que estava mesmo atrás dele. Um passageiro que embarcara em Xangai e que durante a última parte da viagem o observou quando percorreu o corredor.

O vento que fustigava o campo de aviação era cortante, açoitando Indy. Curvou a cabeça e correu para o hangar, segurando o chapéu de feltro com uma mão e o saco de lona com a outra. E entrou sem demora no edifício, onde não estava muito calor, onde o calor parecia ser apenas o dos corpos amontoados lá dentro. Passou rapidamente pela alfândega, sujeitando-se às formalidades, mas depois foi assaltado por pedintes, crianças com pernas estropiadas, garotos cegos, dois paralíticos, alguns seres ressequidos cujo sexo não conseguiu determinar. Agarraram-no, imploraram-lhe, mas uma vez que conhecia a natureza dos pedintes de outras partes do mundo, também sabia que era melhor não aceitar presentes. Passou por eles à força, admirado com o aspecto do lugar. Era mais um bazar que um aeroporto, atulhado de tendas, animais, com a atividade frenética do mercado. Homens queimavam vísceras em fogareiros, outros jogavam com excitação com uma espécie de dados, e outros ainda pareciam envolvidos num leilão de macacos - os animais presos com uma corda em fila, só pele e osso, olhos sem expressão e o pêlo estragado. Os pedintes continuaram a segui-lo. Começou a caminhar mais depressa, passando pelas tendas que pertenciam a cambistas, a comerciantes, que vendiam peças de fruta e vegetais irreconhecíveis, pelos mercadores de tapetes e lenços e roupas feitas de pele de iaque, pelas barracas primitivas de comida e os balcões de bebidas frias, assaltado sempre por cheiros, pelo cheiro de gordura quente, pela baforada de perfume, dos aromas de estranhas especiarias. Ouviu alguém gritar o seu nome no meio da multidão e Indy estacou, oscilando o saco de lona para afastar os pedintes.

Olhou fixamente na direção da voz. Viu o rosto de Lin-Su, ainda familiar apesar de tantos anos passados. Aproximou-se do chinês de baixa estatura e deram um aperto de mão vigoroso.

Lin-Su, com o rosto enrugado com um sorriso rasgado que revelou uma boca quase sem dentes, segurou Indy pelo cotovelo e acompanhou-o até a saída e de lá para a rua - onde o vento, uma coisa selvagem, louca, soprava vindo das montanhas e varria a rua como se estivesse decidido a pôr em prática uma vingança antiga. Recolheram-se numa entrada, com o chinês pequeno segurando Indy pelo braço.

- Estou contente de vê-lo outra vez - disse Lin-Su num inglês que era estranho, compassado e rude pela falta de prática.

- Passaram muitos anos.

- Demais - comentou Indy. - Doze? Treze?

- Como diz, doze... - Lin-Su fez uma pausa e olhou para a rua. - Recebi o seu telegrama, claro. - O tom de voz baixou quando a sua atenção foi atraída por um movimento na rua, uma sombra que atravessava uma entrada. - Perdoe esta pergunta, meu velho amigo: está sendo seguido?

Indy ficou com uma expressão de perplexidade.

- Que eu saiba, não.

- Não tem importância. Os olhos enganam.

Indy olhou para a rua. Não viu nada a não ser as fachadas das lojas pequenas com as cortinas baixes e uma luz fraca, a cor da chama de querosene que saía da porta aberta de um café.

O chinês baixo hesitou por instantes e depois disse:

- Como me pediu, fiz umas investigações.

- E?

- É difícil obter rapidamente informações num país como este. Compreende. A falta de linhas de comunicação. E o tempo, claro. A maldita neve dificulta tudo. O sistema de telefones é primitivo, isto é, onde existe. - Lin-Su riu. - Entretanto, posso dizer que a última vez que se soube de Abner Ravenwood, estava na região, nos arredores de Patan. Isso posso garantir. As outras coisas que soube são rumores e quase não merecem ser discutidas.

- Patan, huh? Há quanto tempo?

- É difícil dizer. Com segurança, há três anos. - Lin-Su encolheu os ombros. - Lamento muito não poder ajudar mais, meu amigo.

- Fez um excelente trabalho - disse Indy. - Há alguma hipótese de ele ainda estar lá?

- Posso dizer que ninguém tinha conhecimento de ele ter saído deste país. Além disso... - Lin-Su tremeu e levantou a gola do casaco pesado.

- Ajuda - replicou Indy.

- Naturalmente que gostaria de ajudar mais. Não me esqueci da ajuda que me deu quando estive a última vez no seu grande país.

- Tudo o que fiz foi interceder junto do Serviço de Imigração, Lin-Su.

- Mesmo assim. Mas informou-os de que eu estava empregado no seu museu quando realmente não estava.

- Uma mentira inocente - disse Indy.

- O que é a amizade se não a soma de favores?

- É como você diz - comentou Indy. Nem sempre ficava à vontade com os lugares-comuns orientais, com aquele tipo de comentário que podia ter sido retirado das obras de terceira categoria de Confúcio. Mas percebeu que a atuação chinesa de Lin-Su fora quase profissional, como se falasse como os Ocidentais esperavam que fizesse.

- Como posso ir para Patan?

Lin-Su ergueu um dedo no ar.

- Aí posso ajudá-lo. Já tomei a liberdade. Venha por aqui.

Indy seguiu o homenzinho pela rua abaixo durante algum tempo. Estacionado na frente de um prédio estava um carro preto de uma marca desconhecida. Lin-Su apontou para ele com orgulho.

- Coloco o meu automóvel à sua disposição.

- Tem a certeza?

- Absoluta. Lá dentro encontrará o mapa necessário.

- Estou surpreso.

- Uma coisa insignificante - disse Lin-Su.

Indy contornou o carro. Espreitou pela janela e olhou para o estofamento de couro rasgado e o aspecto das molas.

- De que marca é? - ele perguntou.

- Receio que seja uma mistura - respondeu Lin-Su. - Foi montado por um mecânico na China e enviado de barco com alguma despesa. Uma parte é Ford, outra Citroën. Suponho que também deve ter peças de um Morris.

- Como diabo conseguiu que o consertassem?

- Isso posso responder. Torço para que nunca avarie. - O chinês riu e entregou um conjunto de chaves a Indy. - E até agora não falhou. O que é bom, porque as estradas são muito más.

- Fale-me das estradas para Patan.

- Más. No entanto, com alguma sorte não apanhará as nevascas.

Siga a rota que marquei no mapa. Não terá problemas.

- Não sei como agradecer-lhe - disse Indy.

- Não passa a noite aqui?

- Acho que não.

Lin-Su sorriu.

- Tem... qual é a palavra? Ah, sim. Um prazo?

- Certo. Tenho um prazo.

- Americanos - disse ele. - Tem sempre prazos. E tem sempre úlceras.

- Por enquanto não há úlceras - disse Indy, e abriu a porta do carro. Esta rangeu nas dobradiças.

- A embreagem está gasta - disse Lin-Su. - A direção é fraca. Mas levará ao destino e irá trazê-lo de volta.

Indy atirou o saco para o banco do passageiro.

- Que mais podia um homem exigir de um carro, huh?

- Boa sorte, In-di-an-a. - O modo como Lin-Su o pronunciava fazia-o parecer um nome chinês.

Deram um aperto de mão e em seguida Indy fechou a porta do carro. Rodou a chave na ignição, ouviu o gemido do motor e depois o carro começou a andar. Acenou com a mão ao chinês baixo, que já descia a rua, radiante, como se estivesse orgulhoso por ter emprestado o carro a um americano. Indy olhou rapidamente para o mapa e desejou que estivesse correto porque não podia esperar tabuletas de sinalização num lugar como aquele.

Conduziu durante horas nas estradas cheias de sulcos que Lin-Su assinalara no mapa, atento, enquanto a escuridão descia das montanhas surgindo como enormes fantasmas à sua volta.

Ficou contente por não poder ver os diversos desfiladeiros que se estendiam abaixo dele. Aqui e ali, onde a neve bloqueava a estrada, teve de fazer passar o carro devagar, removendo e limpando por vezes tanta neve quanto podia do caminho. Uma região desolada. Incrivelmente erma. Indy perguntou a si mesmo como seria viver ali, naquilo que parecia um Inverno interminável. Chamavam-lhe o teto do mundo. E ele acreditava, só que era um teto muito triste. Aparentemente Lin-Su suportava-o, mas provavelmente era um bom lugar para a atividade do chinês, a importação e exportação de mercadorias que às vezes eram de natureza duvidosa. Nepal - era por lá que passava o contrabando de todo o mundo, ou objetos de arte roubados, antiguidades ou narcóticos. Era lá que as autoridades desviavam os olhos que eram oficialmente cegos e que tinham sempre as palmas estendidas para serem untadas às escondidas.

Indy conduziu cheio de sono, bocejando, desejando um pouco de café para lhe dar força. Milha após milha enfadonha ouvia as molas do carro híbrido que rangiam e chiavam, o som abafado dos pneus na neve. E então, inesperadamente, antes de poder verificar o destino no mapa, viu-se nos arredores de uma vila, uma vila que não tinha designação, tabuleta, nem nome.

Encostou o carro na beira da estrada e abriu o mapa. Acendeu a luz interior e percebeu que devia ter chegado a Patan porque não havia mais nenhuma comunidade bastante grande assinalada no mapa de Lin-Su. Atravessou lentamente os arredores dispersos da povoação, cabanas escuras, construções de choupanas de barro e sem janelas. E então chegou àquilo que parecia ser a estrada principal, uma rua estreita - pouco maior que uma viela - com lojas minúsculas, passagens que começavam em ângulos sinistros e desapareciam nas sombras.

Parou o carro e olhou à sua volta. Uma rua estranha - silenciosa demais.

De repente Indy percebeu que outro carro passava atrás dele. Passou, desviou-se como se fosse para o evitar, acelerou progressivamente. Quando desapareceu, lembrou-se de que era o único carro que vira durante toda a viagem. "Que lugar desolado", pensou, tentando imaginar Abner Ravenwood vivendo ali. Como é que alguém podia suportar aquilo?

Alguém caminhava ao longo da rua, dirigindo-se para ele. Um homem, um homem forte com um casaco de pele, que cambaleava como um ébrio. Indy saiu do carro e esperou até o homem com o casaco de pele se aproximar dele antes de falar. O hálito do homem cheirava a bebida alcoólica, era um cheiro tão forte que Indy teve de virar a cara.

O homem, como alguém que esperava ser atacado, desviou-se desconfiado. Indy estendeu os braços, com as mãos viradas para cima, num gesto de inocência. Mas o homem não se aproximou.

Observou Indy atentamente. Um homem de raça mista, a forma dos olhos sugeriam o Oriente, os malares largos talvez revelassem uma mistura eslava. "Tenta uma língua", pensou Indy. "Tenta o inglês para começar.”

- Procuro Ravenwood - disse ele.

"Isto é absurdo", disse para os seus botões: "O silêncio da noite num lugar deserto e anda à procura de uma pessoa numa língua que possivelmente não faz sentido.", - Um homem chamado Ravenwood.

O homem arregalou os olhos, sem compreender. Abriu a boca.

- Você. Conhece. alguém. Chamado. Ravenwood? - Devagar. Como se falasse com um idiota.

- Raven-wood? - disse o homem.

- Percebeu, companheiro - disse Indy.

- Raven-wood. - O homem parecia chupar a palavra como se fosse um pirulito com um sabor exótico.

- Sim. Certo. Agora ficamos aqui toda a noite a falar por entre dentes, supondo - disse Indy, gelado de novo, dominado pelo cansaço.

- Ravenwood. - O homem sorriu em sinal de reconhecimento e virou-se, apontando para o fundo da rua. Indy olhou e viu uma luz ao longe. O homem pôs uma mão em concha e levou-a à boca, o gesto de um bebedor.

- Ravenwood - disse ele várias vezes, apontando ainda.

Começou a abanar violentamente a cabeça. Indy percebeu que devia seguir na direção da luz.

- Muito obrigado - disse ele.

- Ravenwood - repetiu o homem.

- Sim, isso mesmo, isso mesmo - e Indy voltou para o carro.

Entrou e desceu a rua, parou perto da luz que o homem indicara e apenas nesse instante percebeu que esta saía de uma taberna, que tinha uma tabuleta pendurada escrita em inglês e que destoava: THE RAVEN. O Corvo (the raven), pensou Indy. "O homem se enganou. Estava confuso e embriagado". Entretanto, se era a única taberna aberta naquele burgo primitivo, podia ir ver se alguém sabia alguma coisa. Saiu do carro, percebendo o barulho que se ouvia no interior da taberna, o som estridente gerado por um grupo qualquer de bebedores que passaram as últimas horas dedicados à tarefa de se consumirem.

Era um barulho que apreciava, a que estava acostumado, e nada lhe agradaria mais que juntar-se aos folgados. "Nem pense", disse para si mesmo. "Não fez esta viagem para se encher como um turista perdido que procura conhecer a zona pobre local. Vieste com um objetivo. Um objetivo bem definido.", Dirigiu-se para a porta. "Tem estado em lugares estranhos", disse para os seus botões. "Mas este bate a todos." Aquilo que viu à sua frente quando entrou foi um grupo bizarro de bêbados, uma enorme variedade de nacionalidades. Era como se alguém tivesse pegado numa pá, a tivesse enterrado num vaso cheio de diversos tipos étnicos e o tivesse despejado ali na escuridão louca, solitária do deserto. Este realmente leva a palmas". Indy riu interiormente. Guias da montanha Sherpa, nativos do Nepal, Mongóis, Chineses, Indianos, montanhistas de barba que pareciam ter caído de um escadote no estado em que se encontravam, vários tipos furtivos de nenhuma nacionalidade evidente. "Isto é mesmo o Nepal", pensou, "e estes são os passadores do tráfico de droga internacional, contrabandistas, bandidos." Indy fechou a porta, depois reparou num enorme corvo empalhado, com as asas abertas, ameaçadoras, colocado atrás do balcão comprido. "Um elemento sinistro", pensou. E ficou perturbado; a estranha semelhança entre o nome de Abner e o nome daquele bar. Coincidência? Deu mais uns passos na sala, que cheirava a suor, a álcool e a fumo de tabaco. Sentiu o aroma suave do haxixe no ar.

Acontecia alguma coisa no bar, onde estava reunida a maioria da clientela. Uma espécie de concurso de bebidas.

Estava alinhada no balcão uma série de copos com bebidas. Um homem forte, gritando com sotaque australiano, cambaleava encostado ao balcão mesmo quando levantou a mão e procurou às cegas a bebida seguinte. Indy aproximou-se. Um concurso de bebidas. E perguntou a si mesmo qual seria o rival do australiano. Abriu caminho, tentando ver.

Quando viu, quando reconheceu o rival no concurso, sentiu um momento de tontura, uma vertigem que lhe apertou o peito, uma punhalada, uma dor rápida. E durante um segundo a passagem do tempo alterou-se, mudou como uma paisagem pintada há muito tempo e abandonada. Uma ilusão. Uma miragem. E abanou a cabeça como se esse movimento o pudesse trazer de novo à realidade.

Marion.

"Marion", pensou ele.

O cabelo negro que lhe caía nos ombros em ondas soltas e suaves; os mesmos olhos grandes, castanhos e inteligentes que observavam o mundo com um certo ceticismo, uma incredulidade por aquilo que passava por comportamento humano - uns olhos que pareciam sempre perscrutar uma pessoa, como se pudessem notar a motivação mais íntima; a boca - talvez apenas a boca estivesse um pouco diferente, um pouco mais dura, e o corpo mais cheio. Mas era a Marion, a Marion que recordava.

E ali estava ela envolvida num louco concurso de bebidas com um australiano grosseiro. Ficou observando, quase sem se atrever a mexer-se, enquanto a multidão em redor do balcão fazia apostas. até para o espectador mais inocente deveria parecer muito pouco provável que o australiano fosse batido por uma mulher que pouco mais tinha que metro e meio de altura. Mas bebia rapidamente, igualando o homem no número de copos. Qualquer coisa dentro dele, qualquer coisa que estava dura no seu íntimo, tornou-se subitamente mole. Teve vontade de a arrastar para fora daquele lugar de loucos. "Não", disse para si mesmo. "já não é uma criança, já não é a filha de Abner... é uma mulher, uma bela mulher. E sabe o que está fazendo. Pode tomar conta dela... aqui, mesmo no meio desta multidão heterogênea de casos perdidos, bandidos e bêbados." Bebeu outro copo. A multidão bradou. Atiraram mais dinheiro para o balcão. Outro berro. O australiano cambaleou, pegou outra bebida, falhou e caiu para trás como uma árvore cortada. Indy estava impressionado. Observava quando ela atirou o cabelo preto para trás, pegou o dinheiro que estava em cima do balcão e gritou aos bebedores em nepali; e embora ele não conhecesse a língua, era evidente pelo tom da voz que lhes dizia que o divertimento da noite tinha terminado. Mas ainda havia um copo no balcão e eles não se afastariam enquanto ela não o bebesse.

Ela fitou-os, depois disse:

- Mandriões. - E bebeu de um trago.

A multidão gritou uma vez mais, em seguida Marion agitou os braços no ar e a turba começou a dispersar, resmungando, encaminhando-se para a porta. O empregado do bar, um nepalês alto, certificava-se de que eles saíam, empurrando-os para a noite. Tinha um cabo de machado na mão. "Numa espelunca como esta", pensou Indy, "pode ser preciso mais que um cabo de machado para fazer cumprir a hora do fecho.” Então o bar ficou deserto, tendo ido embora os últimos retardatários.

Marion foi para trás do balcão, levantou o rosto e olhou para Indy.

- Eh, não ouviu o que disse? É surdo ou quê? Acabou. Percebe? Bairra chuh hayho?

Ela começou a caminhar em direção a ele. E então surgiu no seu rosto a expressão do reconhecimento e parou.

- Olá, Marion - disse ele.

Ela não se mexeu.

Ficou a olhar fixamente para ele.

Procurava vê-la naquele momento como estava, sem a recordá-la como foi, e de repente o esforço tornou-se maior. Sentiu-se de novo tenso, desta vez com um aperto na garganta, como se algo tivesse congelado.

- Olá, Marion - repetiu. Sentou-se num banco junto ao balcão.

Durante um segundo pensou ter visto uma emoção antiga nos olhos dela, qualquer coisa presa no olhar - mas aquilo que ela fez a seguir surpreendeu-o. Cerrou o punho, girou o braço com grande rapidez e atingiu-o em cheio no maxilar. Tonto, caiu do banco e ficou estendido ao comprido no assoalho, a olhar para ela.

- Também tenho muito gosto em te ver - disse ele e, passando a mão no queixo, sorriu.

Ela replicou:

- Levante-se e saia.

- Espera, Marion.

Ela estava parada junto dele.

- Posso fazer uma segunda vez com a mesma facilidade - disse, cerrando o punho de novo.

- Acredito - disse ele. Ajoelhou-se. O maxilar doía. "Onde aprendeu a bater assim? Onde aprendeu a beber tão bem, a propósito? Surpresa, surpresa", pensou. "A moça torna-se mulher e a mulher é afinal um terror".

- Não tenho nada para lhe dizer.

Então levantou-se e limpou o pó da roupa.

- Está bem, está bem - disse ele. - Talvez não queira falar comigo. Eu compreendo.

- Que perspicácia.

"Aquela amargura", pensou Indy. Ele merecia aquele azedume?

Sim, talvez, percebeu.

- Vim visitar o teu pai - disse ele.

- Vem com dois anos de atraso.

Indy notou que o empregado do bar empunhava o cabo do machado. Era também um indivíduo ameaçador.

- Não há problema, Mohan. Eu trato disto. - Ela fez um gesto de desdém a Indy. - Pode ir para casa.

Mohan colocou o cabo do machado em cima do balcão. Quando acenou com a cabeça, ele encolheu os ombros e saiu.

- Que quere dizer com dois anos de atraso? - perguntou Indy pausadamente. - Que aconteceu a Abner?

Pela primeira vez algo se suavizou em Marion. Expirou lentamente, deixando sair uma tristeza antiga.

- O que acha que quero dizer? Foi apanhado por uma avalanche. Que mais poderia apanhá-lo? Foi apropriado... passou a vida inteira fazendo escavações. Pelo que sei ainda deve estar naquela encosta da montanha, preservado na neve.

Afastou-se dele e encheu um copo. Indy sentou-se novamente no banco do bar. Abner morto. Era inconcebível. Sentia-se como se tivesse sido socado uma vez mais.

- Convenceu-se de que a Arca adorada estava enterrada a meia encosta de uma montanha. - Marion bebeu lentamente.

Ele via parte da sua dureza, parte daquela concha exterior, começando a estalar. Mas combatia, combatia a revelação da fraqueza.

Ela disse:

- Ele me arrastou, uma criança, quase pelo mundo inteiro por causa das suas loucas escavações. Depois morre. Me deixa sem um centavo. Adivinha como vivi, Jones? Trabalhei aqui. E não era propriamente a empregada do bar, entendes?

Indy olhou fixamente para ela. Perguntou a si mesmo o que sentia naquele momento, que sensações estranhas o dominavam.

Eram desconhecidas, estranhas. De repente ela ficou com um ar de extrema fragilidade. E extrema beleza.

- O tipo que possuía o bar enlouqueceu. Aqui, mais cedo ou mais tarde toda a gente enlouquece. Então, quando o levaram, adivinha o que aconteceu? Me deixou esta casa. Tudo para o resto da minha vida. Pode imaginar uma maldição pior?

Era demais para Indy absorver imediatamente, demais para compreender. Queria dizer qualquer coisa que a confortasse. Mas sabia que não havia palavras.

- Lamento - disse ele.

- Grande coisa.

- Lamento sinceramente.

- Pensava que estava apaixonada por ti - replicou ela. - E vê o que fez com essa informação sagrada.

- Não queria lhe magoar.

- Era uma criança!

- Fiz o que fiz. Não me sinto satisfeito, não sei explicar. E também não espero que te sintas satisfeita.

- Estava enganada, Indiana Jones. E tu sabias que estava errado.

Indy ficou calado, sem saber como poderia pedir desculpa por acontecimentos do passado.

- Se pudesse recuar dez anos, se pudesse remediar tudo, acredita em mim, Marion, teria feito.

- Eu sabia que um dia ia aparecer por aquela porta. Não me pergunte porquê. Sabia - disse ela.

Ele colocou as mãos em cima do balcão.

- Afinal por que não regressaste aos Estados Unidos? - perguntou ele.

- Dinheiro. É muito simples. Quero regressar com algum estilo - replicou ela.

- Talvez eu possa ajudar. Talvez possa começar a fazer alguma coisa por ti.

- Foi por isso que voltou?

Ele abanou a cabeça.

- Preciso de uma das peças que acho que o teu pai possuía.

A mão direita de Marion ergueu-se rapidamente, mas dessa vez Indy estava preparado e agarrou-lhe o pulso.

- Filho da mãe - disse ela. - Gostaria que deixasse em paz aquele velho louco. Só Deus sabe o quanto o fizeste sofrer quando era vivo.

- Pagarei - disse ele.

- Quanto?

- O bastante para fazer com que regresses aos Estados Unidos em grande estilo.

- Sim? O problema é que vendi todo o material dele. Velharias. Tudo. Desperdiçou a vida inteira com velharias.

- Tudo? Vendeu tudo?

- Parece desapontado. Qual é a sensação, Mr. Jones?

Indy sorriu. O segundo de triunfo agradou de certa forma. E então perguntou a si mesmo se era verdade que tinha vendido o material de Abner, se realmente não tinha nenhum valor.

- Gosto de ver quando fica abatido - disse ela. - Te pago uma bebida. Diz lá.

- Seltzer - replicou ele, e suspirou.

- Seltzer, huh? Os tempos mudaram, Indiana Jones. Eu prefiro uísque. Gosto de Bourbon, vodca e gim também. Não aprecio muito brande. Deixei disso.

- Agora é uma moça dura, não é?

Ela sorriu de novo.

- Isto não é propriamente Schenectady, amigo.

Ele passou a mão uma vez mais pelo queixo. De repente sentiu-se farto de se proteger.

- Quantas vezes preciso de dizer que lamento? Será o suficiente?

Empurrou um copo de soda e ele bebeu-a com um sorriso.

Depois ela encostou-se no balcão, apoiada nos cotovelos.

- Pode pagar a dinheiro, não podes?

- Sim.

- Fala desse objeto que procura. Quem sabe? Talvez possa localizar a pessoa a quem vendi o objeto.

- Uma peça de bronze com a forma do sol. Tem um orifício, um pouco afastado do centro. lá dentro está um cristal vermelho. Pertence à parte superior de um bastão. Já ouviu falar nela?

- Talvez. Quanto?

- Três mil dólares.

- Não chega.

- Está bem. Posso ir até cinco mil. Recebe mais quando regressar aos Estados Unidos.

- Parece importante.

- Poderia ser.

- Tenho a tua palavra?

Ele acenou com a cabeça.

Marion disse:

- Já me deu a tua palavra, Indy. A última vez que estivemos juntos prometeu que voltaria. Lembra?

- Eu voltei.

- O mesmo safado - disse ela.

Ficou calada durante algum tempo, saindo de trás do balcão até estar perto dele.

- Dá agora os cinco mil e volta amanhã.

- Porque amanhã?

- Porque eu disse. Porque chegou o momento de lhe dizer umas verdades.

Ele tirou o dinheiro, deu a ela.

- Está bem - disse ele. - Confio em ti.

- É um idiota.

- Sim - disse ele, suspirando. - Já ouvi.

Desceu do banco. Perguntou a si mesmo onde iria passar a noite. Pensou que seria num monte de neve. Se era a vontade de Marion. Virou-se para se ir embora.

- Faz uma coisa - disse ela.

Virou-se para olhar para ela.

- Me beija.

- Beijar?

- Sim. Vai. Me refresca a memória.

- E se eu recusar?

- Então não volte amanhã.

Ele soltou uma gargalhada. Inclinou-se, surpreendido com a sua própria ansiedade, depois pelo ardor súbito do beijo, pelo modo como ela lhe puxou o cabelo, pelo modo como a língua pressionou os seus lábios e se encostou rapidamente ao céu da boca. O beijo da criança desapareceu; aquele era diferente, era o beijo de uma mulher que aprendera a natureza do jogo do amor.

Ela afastou-se, sorriu, pegou o copo.

- Agora sai daqui - disse Marion.

Viu ele sair, viu a porta se fechar. Não se mexeu; em seguida desatou o lenço que trazia no pescoço. Tinha um fio pendurado entre os seios. Puxou o fio, em cuja extremidade estava um medalhão de bronze com a forma do sol com um cristal incrustado.

Friccionou pensativamente com o polegar e o dedo indicador.

Indy tiritou no ar gélido da noite quando se dirigiu para o carro. Ficou sentado durante algum tempo. Que iria fazer?

Andar de um lado para o outro naquele buraco até de manhã? Era pouco.

- Creio que compreendo o seu ponto de vista - disse ela. - Olhe, posso ser razoável...

- Tenho certeza, tenho certeza. - Toht suspirou como se fosse um homem cansado de violência, mas aquele som era enganador. avançou para ela, segurando o atiçador perto do seu rosto. Sentia o calor na pele. Virou o rosto e tentou libertar-se das mãos do mongol, mas ele era forte de mais.

- Espere, eu lhe mostro onde está!

Toht disse:

- Teve oportunidade para isso, minha cara.

"Um sádico da velha escola", pensou ela. "O medalhão não significa nada para ele, apenas a visão daquele atiçador queimando o minha rosto.”

Debateu-se uma vez mais, mas foi em vão. "Muito bem", concluiu, "perdeu tudo, também pode ficar desfigurada." Tentou morder o braço do homem corpulento, mas este esbofeteou-a, ferindo-a com a palma da mão que cheirava a cera.

Ela olhou fixamente para o atiçador. Perto demais. Treze centímetros. Dez. Oito. O cheiro nauseante do metal quente.

E depois...

Depois tudo aconteceu com rapidez demais para que pudesse seguir durante um momento, uma série abrupta de acontecimentos que ocorreu com imprecisão, como um desenho a tinta molhado pela chuva. Ouviu um estalido, um estalido forte, e aquilo que viu foi a mão do europeu erguer-se subitamente, o atiçador voando pela sala até a janela, onde se prendeu nas cortinas e começou a arder. Sentiu o mongol a soltá-la e então percebeu que Indiana Jones voltou, que estava parado na entrada com o velho chicote numa mão e uma pistola na outra. "Indiana Jones, tal como a cavalaria que surge quando menos se espera. Que diabo te deteve?", quis gritar. Mas naquele momento queria mover-se, tinha que mover-se, a sala estava impregnada com todo o tipo de violência, o ar estava carregado como a atmosfera de uma tempestade elétrica. Saltou por cima do balcão e agarrou uma garrafa no momento em que Toht disparava uma arma na sua direção, mas as balas foram disparadas à toa e ela rolou no chão atrás do balcão numa fúria de vidro estilhaçado. Disparos ensurdecedores, fortes, que lhe furavam os ouvidos.

O mongol, pesado, fez pontaria com a metralhadora. Ela percebeu que estava apontada para Indy, para o atingir em cheio.

"Alguma coisa com que lhe bater", pensou. Agarrou instintivamente o cabo do machado do empregado do bar e bateu no crânio do mongol com quanta força tinha e este caiu. Mas depois apareceu outra pessoa no bar, alguém que atravessou a porta como se esta fosse feita de papelão. Levantou a cabeça e viu uma pessoa que reconheceu, um sherpa, um dos habitantes, um homem gigantesco que podia ser comprado por qualquer um em troca de uns copos. Entrou como um furacão, atacando Indy pela retaguarda, atirando-o ao chão.

E então Toht gritou:

- Mata! Mata os dois!

O homem com a venda nos olhos recobrou a consciência com a ordem de Toht. Tinha um revólver na mão e era evidente que ia seguir Toht ao pé da letra. No momento em que ela entrava em pânico, aconteceu uma coisa estranha: numa impossível conspiração de sobrevivência, Indy e o sherpa tentaram agarrar simultaneamente a arma caída, prendendo-a. Em seguida viraram-na contra o assaltante e a arma disparou, atingindo o Homem da Venda no Olho, um tiro certeiro na garganta com uma força que o atirou de um lado ao outro da sala. Cambaleou para trás até cair de encontro ao balcão com uma expressão no rosto que fazia lembrar a de um pirata que é obrigado a passar debaixo da quilha durante uma confusão.

Então a luta recomeçou, a estranha junção de forças, a trégua incompreensível, chegou ao fim. O revólver caiu das mãos de Indy e do sherpa, e eles rolavam sem parar enquanto tentavam agarrar a arma. Mas Toht já podia acertar em Indiana. Ela pegou a metralhadora que caiu do ombro do mongol e procurou entender como funcionava. "Como poderá funcionar", pensou, , "se não se apartar o gatilho!", Disparou, mas a arma deu um coice e saltou. As balas passaram ao lado de Toht, sibilando.

Depois a sua atenção foi atraída pelas chamas das cortinas que se espalhavam pelo resto do bar. "ninguém vai vencer isto", pensou.

Este fogo é a única coisa que talvez leve a melhor.

Viu, pelo canto do olho, Toht acocorar-se no fundo do bar enquanto as chamas o cercavam, queimando o bar. "Ele viu", pensou ela. "Viu o medalhão.”

Viu a mão deslizar em direção a ele, viu a expressão de prazer no rosto dele, e então, repentinamente, gritava quando o medalhão escurecido pelo fogo lhe queimou a palma da mão, gravando a forma e desenho, as palavras antigas, profundamente na carne. Não pôde segurá-lo. A dor era atroz. Rastejou na direção da porta, apertando a mão queimada.

E então Marion olhou para trás, para Indy. Bateu na metralhadora, mas a arma não funcionava. então lembrou-se do revólver.

O revólver atrás do corvo empalhado. Colocou a mão entre as chamas e o calor, voltou-se, ouviu as garrafas explodindo à sua volta como cocktails Molotov, apontou para o nepalês. "Um tiro certeiro", pensou. "Um tiro bom e certeiro." O danado não estava quieto.

A fumaça já a cegava, sufocava-a.

Indy deu um pontapé no sherpa, afastando-se dele, rolando, e nesse momento o nepalês ficou com um alvo perfeito - o crânio de Indy. "Agora! Dispara agora!", Ela pressionou o gatilho.

O nepalês ergueu-se no ar, projetado para cima e para trás pela força do disparo. E Indy, grato, olhou para ela por entre a fumaça e as chamas, sorrindo.

Ele agarrou o chicote e o chapéu e gritou:

- Vamos sair daqui!

- Não sem aquela peça que tu querias.

- Está aqui?

Marion correu para o lugar onde Toht deixara cair o medalhão. Tossindo, tentando não respirar, com os olhos ardendo e lacrimejando da fumaça preta, abaixou-se e pegou o medalhão com o lenço solto que trazia no pescoço. E em seguida procurou a caixa de madeira em que pôs o dinheiro.

- Inacreditável! Cinzas. Cinco mil dólares envoltos em fumaça.

Indiana Jones agarrou-a pelo pulso, arrastando-a entre o fogo até a porta.

- Vamos! Vamos! - ele gritou.

Saíram para o ar gélido da noite precisamente no momento em que a casa começava a ruir, enquanto a fumaça e as labaredas subiam na escuridão numa violenta exibição de destruição.

Cinzas, brasas incandescentes, vigas em chamas - atravessavam o telhado ardendo numa dança em direção à lua.

No outro lado da rua, Indy e Marion ficaram parados observando.

Ela notou que ele ainda lhe prendia o pulso. Aquele toque.

Foi há tanto tempo, e no entanto recordava o contacto, a fricção da pele dele na dela; tentou apagar a recordação.

Ela olhou uma vez mais, fixamente; a enorme fogueira, e ficou calada durante algum tempo. As vigas estalavam com o som de porcos a serem queimados nos espetos.

- Creio que está em dívida comigo - disse ela por fim.

- Creio que me deve muito.

- Para principiantes?

- Para principiantes, isto - e mostrou-lhe o medalhão. - Sou tua sócia, senhor. Porque este pequeno objeto ainda me pertence.

- Sócia? - perguntou ele.

- Justamente.

Ficaram vendo o incêndio durante mais algum tempo, sem repararem que Arnold Toht se esgueirava pelas vielas que saíam da rua principal - que se esgueirava como um rato que avançava num labirinto.

No carro Marion disse:

- E agora?

Indy ficou calado por instantes antes de responder.

- Egito.

- Egito? - Marion olhou para ele enquanto o carro avançava na escuridão. - Me leva aos lugares mais exóticos.

Surgiram os contornos das montanhas; uma lua pálida rompeu o céu da noite. Indy viu as nuvens dispersando. Perguntou a si mesmo por que sentiu uma súbita apreensão, uma sensação que desapareceu quando ouviu Marion rir.

- Qual é a piada?

- Tu - disse ela. - Tu e aquele chicote.

- Não faça gozação, garota. Salvou a sua vida.

- Nem queria acreditar quando te vi. Tinha me esquecido daquele velho chicote. Lembro como costumava praticar com ele todos os dias. Aquelas garrafas velhas no muro e tu lá com o chicote. - E riu novamente.

"Uma recordação", pensou Indy. Recordou o estranho fascínio que tivera com o chicote desde que vira um número com um chicote num circo itinerante quando tinha 7 anos. Com os olhos arregalados de surpresa, vendo o artista do chicote desafiar toda a lógica. E depois as horas de treino, uma devoção que ninguém, nem mesmo ele, sabia explicar verdadeiramente.

- Vai a algum lugar sem ele? - ela perguntou.

- Nunca o levo para as aulas quando tenho que ensinar - ele respondeu.

- Aposto que dorme com ele, huh?

- Bem, depende - disse ele.

Ela calou-se, olhando a noite nos Himalaias. Depois disse:

- Depende de quê?

- Tenta descobrir - disse Jones.

- Creio que entendo.

Olhou uma vez para ela, depois voltou a olhar para a estrada esburacada.

 

AS ESCAVAÇÕES EM TÂNIS, EGITO

Um sol escaldante queimava a areia, cauterizando o deserto que se estendia de um horizonte ao outro. "Num lugar como este", pensou Belloq, "se poderia imaginar o mundo inteiro como um deserto escaldante, um planeta sem vegetação, sem prédios, sem pessoas. Sem pessoas.", Algo naquele pensamento lhe agradava. Sempre achara a deslealdade a moeda mais comum entre os seres humanos - conseqüentemente, ele mesmo negociara com essa moeda. E se não era a traição que as pessoas melhor compreendiam então a alternativa era a violência. Protegeu os olhos do sol e avançou, observando a escavação que estava em curso. Uma escavação elaborada - mas era assim que os Alemães gostavam. Elaborada, com circunstância e pompa desnecessárias.

Enfiou as mãos nos bolsos, vendo os caminhões e os bulldozers, os escavadores árabes, os supervisores alemães. E o ridículo Dietrich, que parecia considerar-se senhor de tudo, dando ordens, correndo de um lado para o outro como se fosse perseguido por um tufão.

Parou, observando mas já sem ver, com uma expressão vaga nos olhos. Recordava o encontro com o Führer, lembrando-se da afetação constrangedora que este mostrara. "Você é um perito mundial nesta matéria, segundo me disseram, e eu quero o melhor". Bajulador e ignorante. Elogios falsos tendendo para uma retórica teutônica confusa, o Reich com mil anos, o plano histórico grandioso que só podia ter sido concebido por um lunático. Belloq deixou de prestar atenção, olhando o Führer, assombrado, espantado com o fato de o destino de qualquer país poder cair em mãos tão desastradas. "Claro que quero a Arca". A Arca pertence ao Reich. O lugar de uma antiguidade como essa mesma Alemanha.

Belloq fechou os olhos por causa do sol forte. Abstraiu-se dos ruídos das escavações, dos gritos dos Alemães, dos sons ocasionais dos árabes. "A Arca", pensou, "não pertence a nenhum homem, a nenhum lugar, a nenhuma época. Mas os seus segredos são meus, se existem realmente segredos.”

Abriu de novo os olhos e olhou fixamente para o buraco, para as enormes crateras sem areia, e sentiu uma certa vibração, uma intuição positiva, de que o grande prêmio estava ali perto. Sentia, sentia o seu poder, ouvia o sussurro daquilo que em breve se transformaria num estrondo. Tirou as mãos dos bolsos e olhou o medalhão que estava no meio da palma. E aquilo que percebeu quando olhava fixamente para ele foi uma estranha obsessão - e o medo de poder acabar por ceder a ela.

"Anseia por uma coisa durante bastante tempo, como ele ansiou pela Arca, e começa a sentir as raias de uma certa loucura que é quase... quase o quê?”

Divina.

Talvez fosse a loucura dos santos e fanáticos.

A sensação de uma visão tão medonha que toda a realidade se dissipava.

Uma percepção de um poder tão inexprimível, tão cósmico, que a frágil estrutura daquilo que se supunha ser o mundo real se rompia, desintegrava, e ficava-se apenas com uma compreensão que, como a de Deus, suplantava todas as coisas.

Talvez. Ele sorriu interiormente.

Contornou os limites das escavações, passando pelos caminhões e bulldozers. Apertou com força o medalhão na mão. E então pensou na forma como os capangas enviados ao Nepal por Dietrich tinham estragado tudo. Sentiu repugnância.

Porém aqueles anormais tinham trazido uma coisa que servia os seus fins.

Fora o Toht choroso que mostrara a Belloq a palma da mão, num gesto que Belloq pensava ser um pedido de compaixão. Sem se aperceber de que tinha, gravada na carne, uma cópia perfeita do objeto que ele não conseguiu recuperar.

Fora divertido ver Toth sentado com impaciência durante horas, dias, enquanto ele, Belloq, fazia meticulosamente uma cópia perfeita. Trabalhava cuidadosamente, procurando recriar o original. Mas não era o verdadeiro, o objeto histórico. Era suficientemente fiel para os cálculos relacionados com a sala dos mapas e o Poço das Almas, mas queria o original a todo o custo.

Belloq meteu de novo o medalhão no bolso e aproximou-se do lugar onde estava Dietrich. Não disse nada durante muito tempo, satisfeito com a sensação de que a sua presença constrangia um pouco o alemão. Dietrich disse por fim:

- Está correndo bem, não acha?

Belloq acenou com a cabeça, protegendo uma vez mais os olhos. Naquele momento pensava noutra coisa, numa coisa que o perturbava. Era a informação que tinha sido trazida do Nepal por um dos lacaios de Dietrich. Indiana Jones.

Era de prever que Jones apareceria mais cedo ou mais tarde.

Jones era maçante, mesmo que a rivalidade entre eles acabasse sempre na sua derrota. "Ele não tem a astúcia", pensou Belloq.

"O instinto. O instinto assassino.”

Mas ele já foi visto no Cairo com a moça que era filha de Ravenwood.

Dietrich virou-se para ele e disse:

- Decidiu alguma coisa em relação ao outro assunto que discutimos?

- Acho que sim - replicou Belloq.

- Presumo que seja a decisão a que imaginei que chegaria?

- As suposições são muitas vezes arrogantes, meu amigo.

Dietrich olhou para o outro homem em silêncio.

Belloq sorriu.

- Neste caso, porém, provavelmente está certo.

- Quer que eu trate disso?

Belloq acenou com a cabeça.

- Creio que posso deixar os detalhes por sua conta.

- Naturalmente - disse Dietrich.

 

CAIRO

A noite estava quente e calma, o ar como um vácuo. Estava seco, custava respirar, como se toda a umidade se tivesse evaporado no calor do dia. Indy estava sentado com Marion num café, quase sem tirar os olhos da porta. Há horas que percorriam ruelas e becos, mantendo-se afastados das ruas centrais - e, no entanto, ele tivera sempre a sensação de que estava sendo vigiado. Marion parecia exausta, esgotada, com o cabelo comprido e úmido de suor. E Indy percebeu que estava cada vez mais impaciente com ele: naquele momento olhava-o por cima da borda da xícara de café com um ar acusador. Ele observava a porta, examinava os clientes que entravam e saíam, e por vezes levantava o rosto para apanhar a brisa que soprava do ventilador que chiava suspenso no teto.

- Podia ter a delicadeza de me dizer quanto tempo vamos andar de um lado para o outro - disse Marion.

- É isso que andamos fazendo?

- Seria óbvio para um cego que nos escondemos de alguma coisa, Jones. E começo a me perguntar por que parti do Nepal. Não se esqueça de que tinha um negócio próspero. Um negócio que você reduziu a cinzas.

Ele olhou para ela e sorriu e pensou como ela ficava vibrante quando estava prestes a enfurecer-se. Estendeu-se por cima da mesa pequena e tocou-lhe as costas da mão.

- Nos escondemos de tipos como aqueles que defrontamos no Nepal.

- Muito bem. Acredito. Mas por quanto tempo?

- Até ter a impressão de que não há perigo para irmos embora.

- Não há perigo para irmos para onde? O que tem em mente?

- Não estou propriamente sem amigos.

Ela suspirou e acabou de beber o café, depois recostou-se na cadeira e fechou os olhos. -Me acorda quando tiver decidido, está bem?

Indy levantou-se e a acordou.

- Está na hora - disse ele. - Podemos ir agora.

- Que pena - disse ela. - Precisamente no momento em que estava dormindo o meu primeiro sono.

Saíram para a viela, que estava praticamente deserta. Indy parou, olhando para todos os lados. Em seguida pegou a mão dela e começou a andar.

- Quer dar-me uma idéia do lugar para onde nos dirigimos.

- Para a casa de Sallah.

- E quem é Sallah?

- O melhor pesquisador do Egito.

Só esperava que Sallah ainda vivesse na mesma casa. E, além dessa, existia outra esperança, uma mais profunda, que Sallah estivesse trabalhando na escavação de tânis.

Parou na esquina, um cruzamento onde bifurcavam duas ruas estreitas.

- Por aqui - disse ele, ainda puxando o braço de Marion.

Ela suspirou, depois bocejou. Seguiu-o.

Algo se mexeu nas sombras atrás deles, algo que poderia ser humano. Movia-se sem ruído, deslizando rapidamente; apenas seguia as duas pessoas que caminhavam a sua frente.

Indy foi bem recebido na casa de Sallah, como se tivessem passado apenas algumas semanas desde a última vez que tinham estado juntos. Mas tinham passado anos. Mesmo assim, Sallah mudara pouco. Os mesmos olhos inteligentes no rosto moreno, a mesma jovialidade enérgica, o ardor hospitaleiro. Abraçaram-se quando a esposa de Sallah, uma mulher forte de nome Fayah, os fez entrar em casa.

O calor do acolhimento emocionou Indy. O conforto da casa também o fez sentir-se imediatamente à vontade. Quando se sentaram à mesa na sala de jantar, apreciando a comida que Fayah preparara com a rapidez de um milagre de culinária, ele olhou para a outra mesa no canto, onde estavam os filhos de Sallah.

- Afinal mudaram algumas coisas - comentou ele. Meteu um pequeno cubo de cordeiro na boca e acenou com a cabeça na direção das crianças.

- Ah - disse Sallah. A esposa sorriu toda orgulhosa. - Da última vez não eram tantos.

- Só me lembro de três - disse Indy.

- Agora há nove - replicou Sallah.

- Nove - e Indy abanou a cabeça admirado.

Marion levantou-se da mesa e aproximou-se do lugar onde estavam as crianças. Falou com cada uma delas, tocou-lhes, brincou com elas por instantes, e depois afastou-se. Indy pensou ter visto uma certa expressão, algo indeterminado, no entanto nitidamente relacionado com uma paixão por crianças, passar entre Marion e Fayah. Da sua parte nunca teve tempo na vida para crianças; constituíam o tipo de confusão de que não precisava.

- Decidimos parar nos nove - disse Sallah.

- Eu diria que foi uma decisão sensata - disse Indy.

Sallah pegou uma tâmara, mastigou-a silenciosamente por instantes e depois disse:

- É bom voltar a vê-lo, Indiana. Tenho pensado muitas vezes em ti. Até pensava em escrever, mas quase nunca escrevo. Suponho que contigo ainda é pior.

- Acertou. - Indy também pegou uma tâmara. Era suculenta e deliciosa.

Sallah sorria.

- Não te perguntarei já, mas suponho que não veio ao Cairo só para me visitar. Estou certo?

- Certo.

Sallah ficou subitamente com uma expressão viva, maliciosa.

- Na realidade, era capaz de apostar em como sei o motivo que te leva a estar aqui.

Indy fitou o amigo e não disse nada.

Sallah disse:

- Claro que não sou homem de apostas.

- Claro - disse Indy.

- Não falamos de negócios à mesa - comentou Fayah, com ar majestoso.

- Mais tarde - disse Indy. lançou um olhar a Marion, que parecia já meio adormecida.

- Mais tarde, quando tudo estiver calmo - disse Sallah.

Durante um segundo fez-se silêncio na sala, e em seguida a casa encheu-se repentinamente de barulho, como se tivesse surgido alguma coisa na mesa onde estavam as crianças.

Fayah virou-se e tentou acabar com o pandemônio. Mas as crianças não ouviam a sua voz, porque estavam ocupadas com outra coisa. Ela levantou-se, dizendo:

- Temos convidados. Que modos são esses?

Mas continuavam a não lhe prestar atenção. Foi só quando se aproximou da mesa que elas se calaram, deixando ver no meio um pequeno macaco sentado direito no centro da mesa, mastigando um pedaço de pão.

Fayah disse:

- Quem trouxe para aqui esse animal? Quem foi?

As crianças não responderam. Estavam entretidas rindo das palhaçadas do animal, que andava de um lado para o outro pavoneando-se com o pão nas patas. Deu saltos, pulou numa pata com perfeição e em seguida saltou da mesa e atravessou o chão aos pulos na direção de Marion. Subiu no colo dela e beijou-a rapidamente na face. Ela soltou uma gargalhada.

- Um macaco que dá beijos, huh? - disse ela. - Eu também gosto de ti.

Fayah disse:

- Como é que ele entrou aqui?

Durante algum tempo nenhuma das crianças falou. E depois aquela que Indy reconheceu como sendo a mais velha disse:

- Não sabemos. Apareceu.

Fayah fitou os filhos com ar incrédulo. Marion disse:

- Se não querem o animal aqui...

Fayah interrompeu:

- Se gosta dele, Marion, então é bem-vindo na nossa casa, como você é.

Marion segurou o macaco mais algum tempo antes de o colocar no chão. Este olhou-a com ar sinistro e saltou de novo a toda no colo dela.

- Deve gostar de ti - comentou Indy. Considerava os animais um pouco mais maçantes que as crianças, e não tão espertos.

Ela abraçou o pequeno animal e afagou-o. Enquanto observava aquele comportamento, Indy perguntou a si mesmo: "Quem poderia abraçar assim um macaco?" Virou a cara na direção de Sallah, que se levantava da mesa.

- Podemos ir para o pátio - disse Sallah.

Indy transpôs a porta atrás dele. Havia um calor abafado no pátio murado; começou a sentir-se logo letárgico, mas sabia que tinha que combater o cansaço por mais algum tempo.

Sallah indicou uma cadeira de palha e Indy sentou-se.

- Quer conversar sobre tânis - disse Sallah.

- Acertou.

- Imaginei - disse Sallah.

- Então está trabalhando lá?

Sallah ficou calado, olhando o céu da noite durante algum tempo.

- Indy - disse ele. - Esta tarde entrei na Sala dos Mapas em tânis.

Essa notícia, embora de certo modo esperasse por ela, abalou-o. Por algum tempo o espírito ficou vazio, sem pensamentos, como se todas as percepções, todas as recordações, tivessem escapado para um vácuo sombrio. A sala dos Mapas em tânis. E passado algum tempo, lembrou-se de Abner Ravenwood, de uma vida inteira passada à procura da Arca, de uma morte dominada pela loucura porque a Arca o obcecara.

Depois pensou nele próprio e na estranha reação de inveja que começara a sentir; quase como se devesse ser ele o primeiro a entrar na Sala dos Mapas , como se tivesse esse direito, como uma herança que Ravenwood lhe tivesse passado de uma forma obscura. "Juízo irracional", disse para os seus botões.

Olhou para Sallah e disse:

- Estão andando depressa.

- Os Nazis estão bem organizados, Indy.

- Sim. Pelo menos são bons em alguma coisa, mesmo que seja apenas em cumprir ordens.

- Além disso, têm o francês chefiando.

- O francês?

- Belloq.

Indy ficou calado, sentado direito na cadeira. Belloq.

Haveria algum lugar no mundo onde o desgraçado não aparecesse?

A princípio sentiu-se furioso, depois sentiu uma outra coisa, uma sensação que começou a gozar lentamente, um sentido de competição, a emoção calma de antever a oportunidade de se vingar. Sorriu pela primeira vez. "Belloq, desta vez apanho você." E havia uma forte determinação na perspectiva.

Tirou o medalhão do bolso e entregou-o a Sallah.

- Eles podem ter descoberto a Sala dos Mapas - disse ele - Mas não irão muito longe sem isto, não é?

- Suponho que isto é o florão do Bastão de Rá?

- Exatamente. As marcas que tem são desconhecidas. Qual é a sua interpretação?

Sallah abanou a cabeça.

- Pessoalmente, nada. Mas conheço uma pessoa que poderá saber. Posso levar você amanhã para conhecê-la.

- Agradeceria - disse Indy.

Tirou o medalhão de Sallah e colocou-o no bolso. "Em segurança", pensou. Sem isto, Belloq não terá saída. "Uma delicada sensação de triunfo", disse para si mesmo. "René, este me pertence. Se conseguir descobrir um meio de levar os Nazis.”

Perguntou:

- Quantos alemães trabalham na escavação?

- Mais ou menos uns cem - respondeu Sallah. - também estão muito bem equipados.

- Também pensei nisso. - Indy fechou os olhos e recostou-se.

Sentia-se dominado pelo sono. "Pensarei em alguma coisa", disse para os seus botões. "Em breve.”

- Isso me preocupa - disse Sallah.

- O quê?

- A Arca. Se estiver em tânis... - Sallah calou-se, com uma expressão de angústia reprimida no rosto. - é uma coisa que o homem não deveria perturbar. A morte sempre esteve associada a ela. Sempre. Não é deste mundo, entende?

- Entendo - replicou Indy.

- E o francês... está nitidamente obcecado com o objeto. Olho nos olhos dele e vejo uma coisa que não sei descrever. Os Alemães não gostam dele. Ele não se importa. Até parece que não percebe nada. Ele só pensa na Arca. E o modo como observa tudo... não deixa passar nada em branco. Quando entrou na Sala dos Mapas... como poço descrever o rosto dele? Foi transportado para um lugar para onde eu não desejaria ir.

Subitamente, sacudido da escuridão quente, levantou-se um vento que fez saltar pó e areia - um vento que desapareceu com a mesma rapidez com que surgiu.

- Agora tem de dormir - disse Sallah. - A minha casa é tua, claro.

- E eu estou grato.

Os dois homens entraram em casa, onde Marion dormia; ele parou em frente da porta fechada, escutando o som fraco da sua respiração. "A respiração de uma criança", pensou - e teve uma visão de Marion anos atrás, quando tinham tido uma relação, se assim se podia chamar. Mas o desejo que sentia agora era algo diferente também; era um desejo da mulher que ela já era.

Agradou-lhe a sensação.

Percorreu o corredor, seguido por Sallah.

"A criança está enterrada", pensou ele. "Agora vive apenas a mulher.", Sallah perguntou:

- Resistes à tentação, Indy?

- Não conhecia o meu lado puritano?

Sallah encolheu os ombros, fez um sorriso misterioso quando Indy fechou a porta do quarto de hóspedes e se dirigiu à cama.

Ouviu Sallah afastar-se no corredor, depois a casa ficou em silêncio. Fechou os olhos, à espera que o sono viesse depressa, mas não veio. Manteve-se uma sombra elusiva além do alcance do espírito.

Virou-se com impaciência. Por que não se deixava vencer pelo sono? "Resiste à tentação, Indy?”

Comprimiu as pálpebras com os nós dos dedos: virou-se mais algumas vezes, mas aquilo que não deixava de ver no interior da cabeça era uma imagem de Marion dormindo tranqüilamente no quarto. Levantou-se e abriu a porta. "Volta para a cama, Indy", disse para si mesmo. "Não sabe o que está fazendo.", Saiu para o corredor e caminhou devagar - "um ladrão na ponta dos pés", pensou - na direção do quarto de Marion.

Parou junto à porta. "Dá meia volta. Volta para a tua insônia." Rodou o puxador da porta, entrou no quarto e viu-a deitada em cima da colcha. O luar inundava o quarto com um reflexo prateado projetado pelas asas de uma gigantesca borboleta noturna. Ela nem se mexeu. Estava com a cara virada para o lado, os braços sob o estômago; a luz fazia sombras suaves em volta da boca. "Vai embora", pensou. "Vai já embora." Bela. Estava tão bela, tão vulnerável. Uma mulher dormindo e o toque da lua - uma combinação estonteante. Deu por si aproximando-se da cama, sentando-se depois na beira do colchão. Olhou fixamente para o seu rosto, levantou a mão, colocou as pontas dos dedos ao de leve numa face. Quase imediatamente ela abriu os olhos.

Ficou calada durante algum tempo. No quarto os olhos pareciam pretos. Ele pôs um dedo nos lábios dela.

- Quer saber por que estou aqui sentado, certo? - perguntou ele.

- Mal posso adivinhar - disse ela. - Veio explicar as complexidades do Novo Acordo de Mr. Roosevelt? Ou talvez espera que eu desmaie ao luar.

- Não espero nada.

Ela riu.

- Todo mundo conta com alguma coisa. É uma pequena canção que aprendi ao longo da vida.

Ele levantou-lhe a mão, sentiu-a tremer um pouco.

Ela não disse nada quando ele baixou o rosto e a beijou na boca. O beijo que recebeu em troca foi rápido, duro e sem emoção. Afastou o rosto e olhou para ela durante algum tempo.

Ela sentou-se, tapando-se com um lençol. A camisola era transparente e viam-se os seios - uns seios firmes, já não eram de uma criança.

- Gostaria que saísse - disse ela.

- Porquê?

- Não preciso dar justificativas.

Indy suspirou.

- Me odeia tanto assim?

Ela olhou fixamente para a janela.

- Que lua linda - disse ela.

- Fiz uma pergunta.

- Não pode entrar de novo na minha vida, assim sem mais nem menos, Indy. Não pode derrubar as defesas que criei e esperar que junte os fragmentos do passado. Não entende?

- Entendo - replicou ele.

- É a minha escolha. Agora preciso de dormir. Por isso vai embora.

Ele levantou-se devagar.

Quando chegou à porta ouviu-a dizer:

- Também te desejo. Pensas que não? Deixa passar algum tempo, está bem? Vamos ver o que acontece.

- Claro - e depois saiu para o corredor, incapaz de silenciar o eco de desapontamento que parecia ressoar-lhe na cabeça. Ficou parado à luz da lua que passava sem fios prateados através da janela no fundo do corredor, e perguntou a si mesmo... quando o desejo começou a dissipar-se... se fizera figura de urso. "Não seria a primeira vez", pensou.

Não conseguiu dormir depois de ele sair. Sentou-se perto da janela e olhou fixamente para o contorno da cidade, para as cúpulas, os minaretes, os telhados planos. Por que havia de tentar tão depressa? O desgraçado nunca aprendeu a ser paciente. Era tão temerário em questões do coração como em tudo o resto. Não percebia que as pessoas precisavam de tempo; talvez isso fosse um bom remédio, mas era muito melhor que o iodo. Não ia abandonar o passado e a terra, como uma criatura de uma galáxia distante, no despertar súbito do presente de Indiana Jones. Tinha de ser planeado mais devagar.

Se houvesse alguma coisa a descobrir; se houvesse alguma coisa a planejar.

O vulto atravessou rapidamente o vestiário onde Indy e Marion tinham deixado as malas e tudo o que lhes pertencia.

Movia-se de um modo estranhamente furtivo, abrindo caixas, remexendo roupas, pegando em pedaços de papel, examinando-os com uma lentidão surpreendente. Não descobriu aquilo que o tinham ensinado a encontrar. Sabia que tinha que procurar uma determinada forma - um desenho, um objeto, não interessava desde que tivesse a forma. Como não descobriu nada, percebeu que o dono ficaria desapontado. E isso implicaria falta de comida. até podia significar castigo. Visualizou uma vez mais a forma: a forma do sol, pequenas marcas à volta, um orifício no centro. Recomeçou a busca minuciosa. E, uma vez mais, não descobriu nada. O macaco entrou sorrateiramente no corredor, tirou alguns restos de comida da mesa onde brincou com a mulher bonita, saiu por uma janela aberta e desapareceu na escuridão.

 

CAIRO

A tarde estava abafada, o céu quase branco. Tudo refletia brancura, as paredes, a roupa, o vidro, como se a luz tivesse se transformado numa geada que cobria todas as superfícies.

- Precisávamos do macaco? - perguntou Indy. Atravessaram rapidamente a rua apinhada de gente, passando pelos bazares, pelos mercadores.

- Seguiu-me, não fui eu que o trouxe - replicou Marion.

- Deve gostar de ti.

- Não gosta tanto assim de mim, Indy. Pensa que sou o pai dele, percebe? Até é um pouco parecido contigo.

- É parecido comigo e esperto como tu.

Marion ficou calada durante algum tempo antes de perguntar:

- Por que não arranjou uma moça simpática para assentar e criar nove filhos?

- Quem diz que não arranjei?

Ela lançou um olhar. Agradou-lhe a idéia de ter visto um momento de pânico no rosto dela, de inveja.

- Não seria capaz de assumir a responsabilidade. O meu pai tinha realmente uma opinião a teu respeito, Indy. Dizia que era um vadio.

- Estava sendo generoso.

- O vadio mais talentoso que jamais ensinou, mas apesar de tudo um vadio. Te amei, sabe? Foi preciso muito para afastar tudo.

Indy suspirou.

- Não pretendo apresentar outra versão, Marion.

- Eu também não a quero - disse ela. - Mas às vezes gosto de te recordar isso.

- Uma injeção emocional, é isso?

- Um corte, sim. Precisa, para saber ocupar o seu lugar.

Indy começou a caminhar mais depressa. Havia horas em que, apesar das suas próprias defesas, ela conseguia tocar-lhe no fundo. Era como o desejo inesperado que sentira na noite anterior. "Não preciso", pensou. "Não preciso disso na minha vida. O amor implica um certo tipo de ordem, e não se deseja ordem quando já se acostumou a ser bem sucedido no caos.”

- Ainda não me disse para onde vamos - disse Marion.

- Nos encontraremos com Sallah, depois vamos visitar o perito de Sallah, Imam.

- O que aprecio é o modo como me arrasta por todo o lado - disse Marion. - Às vezes, me lembra o meu pai.

Arrastou-me à volta do globo como se eu fosse um trapo.

Chegaram a uma bifurcação na rua. Imediatamente o macaco libertou-se da mão de Marion e correu pelo meio da multidão com movimentos rápidos e largos.

- Hey! - gritou Marion. - Volta aqui!

Indy disse, aliviado.

- Deixa ir.

- Começava a habituar-me a ele.

Indy lançou um olhar de desprezo, segurou-a pela mão e obrigou-a a acompanhá-lo.

O macaco esgueirava-se, deslizando pelo meio da multidão que apinhava a rua. Esquivava-se às mãos estendidas das pessoas que queriam tocar-lhe, depois dobrou uma esquina e entrou numa porta. lá, saltou para os braços do homem que o adestrara. Treinara-o muito bem. Encostou-o ao corpo, meteu-lhe um doce na boca e depois afastou-se da entrada. O macaco era melhor que um cão de caça, e cem vezes mais esperto.

O homem examinou a rua estreita, erguendo o rosto na direção do cimo dos telhados. Acenou com a mão.

De um telhado próximo uma pessoa acenou também.

Depois acariciou o animal. Fizera bem o seu trabalho, seguindo os dois que iriam ser mortos, descobrindo o rasto com a diligência de um predador, mas com muito mais encanto.

"Bem", pensou o homem. "Muito bem.”

Indy e Marion chegaram a uma pequena praça, um lugar repleto de barracas de vendedores, as multidões de compradores. Indy parou de repente. Já sentia aquele velho instinto dominando-o, mexendo com os nervos, pondo-o tenso. "Vai acontecer alguma coisa", pensou.

Perscrutou a multidão. "O quê será?”

- Por que paramos? - perguntou Marion.

Indy não respondeu.

Aquela multidão. Como podia adivinhar no meio daquele grupo de pessoas? Colocou a mão no casaco, prendeu o cabo do chicote e olhou de novo a multidão. Havia um grupo que caminhava em direção a eles com mais determinação que qualquer um dos compradores habituais.

Uns árabes. Alguns que eram europeus. Com a visão apurada, Indy viu o clarão de um objeto metálico e pensou, "um punhal.”

Viu-o brilhar na mão de um árabe que se aproximava rapidamente deles. Indy tirou o chicote, agitou-o, ouviu quando este rasgou o ar com o som de uma melodia ameaçadora: Enrolou-se na mão do árabe e o punhal caiu em algum lugar sem fazer mal. Mas depois surgiram mais pessoas avançando para eles e ele tinha que pensar sem demora.

- Sai daqui - disse a Marion, e deu-lhe um empurrão. - Corre!

Mas Marion não fugia. Em vez disso, agarrou numa vassoura que estava numa barraca próxima e agrediu outro árabe na garganta.

- Vai - repetiu Indy. - Vai!

- O diabo é que vou - replicou ela.

"Eram muitos", pensou Indy. Era impossível enfrentá-los mesmo com a ajuda dela. Viu oscilar a lâmina de um machado. Atacou de novo com o chicote, desta vez enrolando-o no pescoço do árabe. Puxou com força e o homem gemeu antes de cair. E depois um dos europeus o agredia, tentando arrancar-lhe o chicote da mão. Indy levantou a perna, caindo numa barraca de fruta no meio de legumes espalhados e esmagados que parecia uma natureza morta estranha. Indy reparou num portão e num muro. Agarrou Marion, fazendo-a entrar, colocando em seguida o ferrolho para que ela não pudesse sair apesar dos seus gritos e protestos. lançou um olhar pela praça, fazendo estalar o chicote, derrubando os suportes das barracas. Caos, o caos total, e ele adorou. Uma lâmina oscilou à sua frente e ele abaixou-se mesmo no momento em que ouvia o aço silvar por cima da cabeça. Em seguida deu um estalo com o chicote e enrolou-o nos tornozelos do árabe, fazendo-o cair num monte de vasos espalhados e jarras partidas, enquanto o comerciante gritava cheio de raiva.

Ele examinou os estragos. Perguntou a si mesmo se haveria mais assaltantes. O desejo de ação que sentia era intenso.

Ninguém se mexeu a não ser os negociantes que tinham visto as suas barracas destruídas por um lunático com um chicote.

Ele começou a recuar, dirigindo-se para a porta no muro, colocando a mão ao ferrolho. Ouvia Marion batendo na madeira.

Mas, antes que pudesse levantar o ferrolho, um vulto com um albornoz precipitou-se em direção a ele com um sabre. Indy levantou o braço para desviar o golpe, pegando o homem pelo pulso e lutando com ele.

Marion deixou de bater e afastou-se da porta, procurando outro acesso à praça. "Maldito Indy", pensou, "por achar que tem um direito dado por Deus de me proteger! Diabos o levem por um comportamento que pertence à Idade Média!”

Desceu a rua estreita em que se encontrava e depois parou:

Um árabe caminhava na sua direção, com passos rápidos e ameaçadores. Esgueirou-se pela ruela mais próxima, ouviu o homem aproximar-se.

Um beco sem saída.

Subiu para cima do muro, ouvindo o árabe resmungar enquanto a perseguia. Passou por cima do muro para o outro lado, escondeu-se num recanto entre prédios. O árabe, sem desconfiar, passou por ela e, algum tempo depois, Marion espreitou. Voltou atrás, dessa vez na companhia de um dos europeus. Recuou para o interior do recanto, respirando com dificuldade mesmo no momento em que tentava desesperadamente acalmar os pulmões, fazer parar o barulho do coração. "O que devo fazer numa situação como esta?", pensou ela. "Me esconder, não é? Simplesmente me esconder." Se encolheu mais no recanto, procurando as sombras, os lugares escuros, quando deparou com um cesto de junco. "Muito bem", pensou, "me sinto como um dos Quarenta Ladrões, mas havia um velho ditado que falava de um porto na tempestade, certo?”

Entrou no cesto, colocou a tampa e ficou lá dentro acocorada. "Fica quieta. Não se mexe.”

Ela ouvia através das aberturas no junco o som dos dois homens andando furtivamente de um lado para o outro. Falaram um com o outro em inglês.

- Procura aqui.

- Já procurei aqui.

Ela ficou muito quieta.

Aquilo que não viu, aquilo que não podia ver, era o macaco sentado num muro que dava para o recanto; ouviu-o tagarelar subitamente, violentamente, pouco tempo depois percebeu o que era o barulho. "Aquele macaco", pensou. "Me seguiu. A traição afetuosa. Por favor, macaco, vai embora, me deixa em paz." Mas sentiu que a levantavam, que levantavam o cesto.

Espreitou pelas tiras estreitas do cesto e viu que eram o árabe e o europeu que o erguiam, que estava sendo levada, como lixo, nos ombros. Ela procurou libertar-se, bateu com os punhos na tampa, que já estava presa.

No bazar, Indy afastou o homem com o sabre; mas já reinava a confusão, os negociantes árabes, furiosos, moviam-se com impaciência, gesticulando violentamente na direção do louco com o chicote. Indy recuou até bater na porta, procurou o ferrolho, viu o sabre vir de novo direto a ele. Desta vez atacou com o pé, derrubando o homem que caiu de costas no meio da multidão. Depois conseguiu abrir a porta e escapou para a rua estreita, procurando qualquer vestígio dela. Nada. Apenas dois indivíduos no outro lado da rua que transportavam um cesto.

"Para onde ela foi?" E então, sem saber de onde, ouviu a voz dela chamar o seu nome, e o eco foi estranhamente arrepiante.

O cesto.

Viu mexer a tampa quando os dois homens que o carregavam dobraram a esquina. Por instantes, um estranho ruído desviou a sua atenção do cesto, e ele olhou para cima e viu o macaco empoleirado no muro. Devia estar zombando dele. Sentiu um desejo enorme de sacar da pistola e matar o animal com um tiro certeiro. Em vez disso, desatou a correr na direção dos dois homens. Fez o mesmo desvio que os homens tinham feito, vendo a rapidez com que corriam à frente dele com o cesto balançando no meio deles. "Como aqueles caras podiam andar tão depressa enquanto suportavam o peso de Marion?", interrogou-se.

Viravam sempre uma esquina antes dele, tinham sempre um passo de avanço. Seguiu-os ao longo de ruas movimentadas, cheias de compradores e mercadores, onde tinha de abrir caminho freneticamente. Não podia perder de vista aquele cesto, não podia deixá-los escapulir assim. Deu empurrões, afastou pessoas com violência, ignorou queixas e clamores. "Não pare. Não a perca de vista.”

E então percebeu um barulho estranho, um som melodioso que tinha meios tons tristes, com uma certa melancolia. Não conseguiu localizá-lo, mas o fez parar; estava desorientado Quando recomeçou a andar, percebeu que a perdeu.

Já não via o cesto.

Desatou a correr de novo, abrindo caminho através da multidão. E o estranho som de lamentação, como se fosse isso, tornou-se mais forte, mais agudo.

Parou na esquina de uma rua estreita.

À frente dele estavam dois árabes que transportavam um cesto de junco.

Imediatamente, sacou do chicote e derrubou um, afastou o chicote, e fez estalar outra vez. Bateu com um ruído seco na perna do outro árabe, rodeando-a, enlaçando-a como um réptil. O cesto tombou e ele aproximou-se.

Nem sinal de Marion. Confuso, olhou para aquilo que caiu do cesto.

Espingardas, carabinas, munições.

O cesto errado! Saiu da viela e continuou a subir a rua principal dos bazares e o estranho som dolente tornou-se ainda mais forte.

Entrou numa grande praça, confundido com a súbita visão de miséria à sua volta: uma praça de mendigos, os mutilados, os cegos, os abortos, que exibiam cotos de braços numa procura de ajuda, descuidada e hesitante. Sentia-se o cheiro de suor, urina e excremento, um cheiro penetrante que enchia o ar com a tangibilidade de um objeto sólido.

Ele atravessou a praça, evitando os pedintes.

E teve de parar em seguida.

Já conhecia a natureza do som dolente.

No extremo da praça passava um cortejo fúnebre. Grande e comprido, obviamente o funeral de um cidadão importante.

Cavalos sem cavaleiro transportavam o caixão, padres entoavam cânticos do Corão, mulheres que carpiam iam à frente com as cabeças envoltas em lenços, criados iam atrás, e na retaguarda, pesado e desajeitado, seguia o búfalo sacrificial.

Olhou fixamente para o cortejo durante algum tempo. Como diabo iria atravessar aquele cortejo?" Olhou para o caixão, ornado, rico, erguido; e depois viu, entre uma pequena abertura, o cesto que era transportado pelos dois homens em direção a um caminhão com uma cobertura de lona estacionado na esquina mais distante da praça. Era impossível identificar o som por causa do barulho feito pelos que tomavam parte no funeral, mas pareceu-lhe ouvir Marion gritar lá dentro.

Preparava-se para avançar e abrir caminho através do cortejo quando tudo aconteceu.

Do interior do caminhão uma metralhadora começou a disparar, varrendo a praça, dispersando a fileira do cortejo fúnebre e a multidão de pedintes. Os padres continuaram a entoar os cânticos até as rajadas atravessarem o próprio caixão, atirando ao ar lascas de madeira, fazendo com que o cadáver mumificado passasse pela tampa partida e caísse no chão. As pessoas gemeram com renovado interesse. Indy correu em zigue-zague na direção de um poço no extremo da praça, aproximando-se do caminhão. Escondeu-se atrás do poço, espreitando, precisamente no momento em que atiravam o cesto de junco para a parte de trás do caminhão. Quase nessa ocasião, quase fora da sua linha de visão, quase despercebido, arrancava um sedan preto. O caminhão também se pôs em movimento.

Afastou-se da praça.

Antes de desaparecer, Indy fez pontaria com cuidado, com uma precisão como nunca fizera antes, e pressionou o gatilho. O condutor caiu em cima do volante. O caminhão guinou, bateu num muro, capotou.

Quando se preparava para se dirigir a ele, parou horrorizado.

Compreendeu então que jamais poderia sentir de novo coisa tão intensa, um sofrimento tal, uma angústia tal, ter sensação de entorpecimento tão terrível e profunda.

Compreendeu tudo isso quando viu o caminhão explodir, deitando chamas dele, lançando fragmentos no ar, destruindo-se e também percebeu que o cesto fora atirado para a parte traseira de um caminhão que transportava munições.

Que Marion estava morta.

Morta com uma bala da sua própria arma.

Como foi possível? Fechou os olhos, já sem ouvir, consciente apenas do sol a bater-lhe nas pálpebras fechadas.

Caminhou sem saber por quanto tempo, indiferente, recordando o momento em que apontara a arma e atingira o condutor.

Porquê? Por que não pensou na possibilidade de o caminhão poder transportar alguma coisa perigosa?, "Arruinou a vida quando era uma rapariga. Agora acabaste com ela quando era uma mulher.”

Percorreu as ruas estreitas, as vielas apinhadas de gente, e culpou-se vezes sem conta da morte de Marion.

Era um sofrimento inimaginável, insuportável. E ele só conhecia um remédio. Conhecia apenas uma forma segura de automedicação. Por isso deu por si dirigindo-se a um bar onde, previamente, combinara encontrar-se com Sallah. Isso já parecia encerrado num passado distante, noutro mundo, numa outra vida.

Ele era até um outro homem.

Viu o bar, um lugar miserável. Entrou e foi envolvido por uma fumaça espessa de tabaco, pelo cheiro de bebidas entornadas.

Sentou-se num banco junto ao balcão. Pediu uma garrafa de uísque e bebeu monotonamente um copo após outro, perguntando a si mesmo - à medida que ficava mais embriagado - o que fazia com que algumas pessoas se comportassem assim enquanto outras estavam animadas como relógios avariados; que mecanismo era esse tão necessário para relações bem sucedidas que umas pessoas possuíam e outras não.

Deixou rodopiar a pergunta no espírito até ocultar o sentido, flutuando através de percepções alcoólicas como um navio fantasma.

Pegou outro copo. Sentiu um toque no braço e virou devagar a cara e viu o macaco em cima do balcão. Aquele primata estúpido ao qual Marion se afeiçoou de forma tão insensata.

Então recordou-se que aquele animal idiota dera um beijo na face de Marion: "Está bem, Marion, simpatizou contigo, tolero.”

- Queres uma bebida, babuíno?

O macaco inclinou a cabeça para um lado, observando-o.

Indy apercebeu-se de que o empregado do bar o observava como se fosse um fugitivo de um asilo próximo. E depois também percebeu outra coisa: três homens, europeus - supôs que fossem alemães por causa do sotaque -, tinham-se juntado ao redor dele.

- Uma pessoa deseja a sua companhia - disse um deles.

- Estou bebendo aqui com o meu amigo - respondeu Indy.

O macaco mexeu-se.

- A sua companhia não é solicitada, Mr. Jones. É exigida.

Levantaram-no do banco e empurraram-no para uma sala nos fundos. O macaco foi atrás guinchando. A sala estava escura e os olhos arderam da fumaça.

Alguém estava sentado numa mesa no canto.

Indy compreendeu que aquele confronto era inevitável.

René Belloq bebia um copo de vinho e oscilava uma corrente da qual pendia um relógio.

- Um macaco - disse Belloq. - Vejo que continua a ter um gosto admirável na escolha dos amigos.

- Tem muitas piadas, Belloq.

O francês fez uma careta.

- A sua capacidade de dar respostas vivas e espirituosas consterna-me. Acontecia o mesmo quando éramos estudantes, Indiana. Falta-lhe bravata.

- Devia matá-lo já...

- Ah, entendo o seu desejo. Mas devo lembrar-lhe que não fui eu que envolvi Miss Ravenwood neste caso um tanto sórdido. E aquilo que o consome, meu velho amigo, é a consciência de que você é responsável por isso. Não é?

Com os olhos raiados de sangue, Indy fitou Belloq.

- Não é preciso ser desagradável.

- Pense nisto - disse Belloq. - A arqueologia sempre foi a nossa religião, a nossa doutrina. Ambos nos afastamos de certo modo do chamado verdadeiro caminho, notoriamente. Ambos nos dedicamos ocasionalmente a... transações... duvidosas. Os nossos métodos não são assim tão diferentes como você afirma.

Eu sou, se quiser, um reflexo vago de si próprio. Que seria preciso para o tornar igual a mim, Professor? Um gume? Uma afiação do instinto assassino?

Indy não disse nada. As palavras de Belloq chegaram aos ouvidos dele como ruídos abafados por um nevoeiro. Dizia disparates, puros disparates, que pareciam esplêndidos e verdadeiros porque eram ditos com um sotaque francês que poderia descrever-se como bizarro, encantador. O que Indy ouviu foi o silvo de uma cobra escondida.

- Duvida de mim, Jones? Pense: que o trás aqui? O desejo de encontrar a Arca, estou certo? O velho sonho da antiguidade. A relíquia histórica, a procura... poderia ser um vírus no seu sangue. Sonha com coisas que passaram. - Belloq sorria, oscilando um relógio suspenso numa corrente. Disse: - Olhe para este relógio. Barato. Nada. Leve-o para o deserto e enterre-o durante mil anos e ficará com um valor incalculável.

Homens matarão por causa dele. Homens como você e eu, Jones.

Admito que a Arca é diferente. Claro que a questão do lucro está posta um pouco de lado. Compreendemos, você e eu. Mas a cobiça ainda está no coração, meu amigo. O vício que temos em comum.

O francês deixou de sorrir. Havia uma expressão vítrea nos olhos, um distanciamento, um isolamento. Podia estar conversando com ele mesmo.

- Compreende o que é a Arca? É como um transmissor. Como um rádio através do qual se pode comunicar com Deus. E eu estou muito perto dela. Mesmo muito perto. Esperei anos para chegar tão perto. E aquilo de que falo está para além do lucro, para além do desejo da simples aquisição. Falo de comunicar com aquilo que está encerrado na Arca.

- Compra isso, Belloq? Compra o misticismo? O poder?

Belloq parecia indignado. Recostou-se. Juntou as pontas dos dedos.

- Você não?

Indy encolheu os ombros.

- Ah, não tem certeza, não é? Até você não tem certeza. - Belloq baixou a voz. - Eu tenho mais que certeza, Jones. Tenho certeza absoluta. Já não tenho a menor dúvida. As minhas pesquisas levaram-me sempre nessa direção. Eu sei.

- Está louco - disse Indy.

- É uma pena que acabe assim - disse Belloq. - Às vezes estimulou-me, uma coisa rara num mundo tão aborrecido como este.

- Esse pensamento faz-me feliz, Belloq.

- Ainda bem. Sério. Mas tudo acaba.

- Não é um lugar muito retirado para cometer um assassinato.

- Raramente tem importância. Estes árabes não interferirão no assunto de um branco. Não se importam que nos matemos.

Belloq levantou-se sorrindo. Acenou com a cabeça bruscamente.

Indy, tentando ganhar tempo, qualquer coisa, disse:

- Espero que aprenda alguma coisa com a sua pequena conversa com Deus, Belloq.

- Naturalmente.

Indy encheu-se de coragem. Não havia tempo para se virar rapidamente e sacar a pistola, e ainda menos tempo para pegar no chicote. Os assassinos estavam mesmo atrás dele.

Belloq olhava para o relógio.

- Quem sabe, Jones? Talvez exista uma vida futura onde almas como você e eu voltem a se encontrar. Diverte-me pensar que eu também o vencerei lá.

Ouviu-se então um som no exterior. Era um som inarmônico. A tagarelice coletiva de crianças animadas, um som alegre que Indy associou a uma manhã de Natal. Não era o que esperava ouvir na câmara da morte.

Belloq olhou para a porta, surpreendido. Os filhos de Sallah, os nove, entravam em grupo na sala, gritando o nome de Indy. Indy arregalou os olhos quando eles o cercaram, enquanto os mais pequenos lhe trepavam para os joelhos e os outros formavam um círculo como se fossem frágeis escudos humanos.

Alguns começaram a trepar-lhe para os ombros. Um conseguira agarrar-se ao pescoço de Indy como se fosse andar à cavalo, e outro ainda apertava-lhe os tornozelos.

Belloq franzia as sobrancelhas.

- Pensa que pode sair daqui, não pensa? Pensa que esse círculo humano insignificante o protegerá?

- Não penso nada - replicou Indy.

Já o puxavam para a porta, arrastavam-no ao mesmo tempo que o protegiam. Sallah! Devia ter sido Sallah quem planejara tudo, pondo em perigo os filhos e enviando-os para aquele bar, e maquinara tirá-lo dali de qualquer maneira. Como era possível que Sallah tivesse corrido um tal risco?

Belloq sentara-se outra vez, com os braços cruzados. A expressão do seu rosto era a de um pai relutante numa festa de escola. Abanou a cabeça.

- Me alegrarei na próxima reunião da Sociedade Internacional de Arqueologia com a denúncia do seu desrespeito pelas leis que regulam o trabalho infantil, Jones.

- Nem sequer é membro.

Belloq sorriu, mas apenas por breves instantes. Continuou a olhar as crianças e depois, como se estivesse tomando uma decisão, virou-se para os cúmplices. Levantou a mão, um gesto que indicava que deviam guardar as armas.

- Tenho um lugar agradável para cães e crianças, Jones. Pode expressar a sua gratidão de uma forma simples, de uma forma que lhe agrade. Mas crianças não o salvarão quando voltarmos a nos encontrar.

Indy recuava rapidamente. E, em seguida, esgueirou-se, com os pequenos agarrados a ele como se fosse um brinquedo valioso.

O caminhão de Sallah estava estacionado na rua - uma visão que encheu Indy de alegria, o primeiro acontecimento do dia que o animou um pouco.

Belloq acabou de beber o copo de vinho. Ouviu o caminhão afastando-se. Quando o som deixou de se ouvir pensou, com uma perspicácia que o surpreendeu vagamente, que ainda não estava preparado para matar Indy. Que ainda não chegou a hora. Não foi a presença das crianças - quase não tinham importância. Era antes o fato de preferir, em algum lugar que ainda não sondara, um canto remoto do entendimento, poupar Jones, deixar que o homem vivesse mais algum tempo.

"Afinal há outras coisas piores que a morte", pensou ele.

E divertiu-o pensar na agonia, na angústia, por que passaria

Jones: pelo menos havia a rapariga - isso seria o castigo suficiente, a tortura. Mas também havia o fato, igualmente punidor, talvez ainda mais forte, de que Jones viveria para ver a Arca passar-lhe por entre os dedos.

Belloq inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada; e os cúmplices alemães olharam-no confusos.

No caminhão, Indy disse:

- Os teus filhos têm um sentido de oportunidade que venceria os Fuzileiros dos E. U., Sallah.

- Percebi a situação. Tinha que agir prontamente - disse Sallah.

Indy olhou para a estrada: escuridão, luzes fracas, pessoas que se afastavam do caminhão. Os pequenos iam atrás, cantando e rindo. "Sons inocentes", pensou Indy, recordando aquilo que queria esquecer.

- Marion...

- Eu sei - disse Sallah. - Soube antes. Estou triste. Mais que triste. Que posso dizer para te consolar? Como posso minorar o teu sofrimento?

- Nada faz diminuir o sofrimento, Sallah.

Sallah acenou com a cabeça.

- Compreendo perfeitamente.

- Mas podes ajudar-me de outro modo. Podes ajudar-me a vencer aqueles safados.

- Podes contar com a minha ajuda, Indiana - disse Sallah.

- Em qualquer hora.

Sallah ficou calado durante algum tempo, guiando o caminhão e percorrendo a distância que faltava para chegar em casa.

- Tenho mais notícias para te dar - disse ele passado algum tempo. - Uma não é uma boa notícia. Mas diz respeito à Arca.

- Diga - disse Indy.

- Em breve. Quando chegarmos a minha casa. E mais tarde, se quiseres, podemos ir na casa de Imam, que te explicará as marcas.

Indy caiu num silêncio de morte. Já tinha uma sensação desagradável, um latejo forte na nuca. E se os sentidos estivessem mais apurados, a intuição menos embotada pelo álcool, talvez tivesse reparado na moto que seguira o caminhão desde o bar. Mas, mesmo que a tivesse visto, não reconheceria o condutor, o homem que se especializara em treinar macacos.

Quando as crianças foram para dentro de casa, Indy e Sallah saíram para o pátio murado. Sallah andou de um lado para o outro no pátio durante algum tempo antes de parar junto ao muro e dizer:

- Belloq tem o medalhão.

- O quê? - Indy meteu imediatamente a mão no bolso e os dedos tocaram no florão. - Está enganado.

- Ele tem uma cópia, um florão como o teu, com um cristal no centro. E a peça tem as mesmas marcas da tua.

- Não entendo - disse Indy, consternado. - Sempre me convenci de que não havia gravuras. Nenhum duplicado: Não entendo.

Sallah disse:

- Há outra coisa, Indiana.

- Sou todo ouvidos.

- Belloq entrou na Sala dos Mapas hoje de manhã. Quando saiu disse-nos onde devíamos escavar. Um outro lugar, afastado da primeira escavação.

- O Poço das Almas - disse Indy num tom de resignação.

- Creio que sim, se ele fez os cálculos na Sala dos Mapas.

Indy começou a bater com as palmas das mãos. Virou-se uma vez mais para Sallah, tirando o medalhão do bolso.

- Tem certeza de que era como este?

- Eu vi.

- Olha outra vez, Sallah.

O egípcio encolheu os ombros, pegou no florão e olhou fixamente para ele durante algum tempo, virando-o na mão.

Disse:

- Talvez haja uma diferença.

- Não me escondas nada.

- Creio que o medalhão de Belloq tinha apenas marcas num lado.

- Tem certeza?

- Tenho quase certeza absoluta.

- Então - disse Indy - só preciso saber qual é o significado das marcas.

- Então deveríamos ir na casa de Imam. Devíamos ir já.

Indy não disse nada. Seguido por Sallah, saiu do pátio para a rua estreita. Já sentia a urgência. A Arca, sim - mas era algo mais que a Arca. Era por causa de Marion. Para que a morte dela tivesse explicação teria de chegar ao Poço das Almas antes de Belloq." "Como se a morte tivesse explicação", pensou ele.

Subiram no caminhão de Sallah, e nesse preciso momento Indy viu o macaco na parte de trás. Olhou-o. Alguma vez seria possível deixar de ver o animal? Em breve aprenderia a linguagem humana e o chamaria papai. Um eco o fez sofrer: a piada de Marion sobre a semelhança do animal com ele.

O macaco fez uns ruídos estridentes e esfregou as patas dianteiras.

Depois de o caminhão ter percorrido alguns metros, a moto saiu da escuridão e seguiu-o.

A casa de Imam ficava situada nos arredores da cidade do Cairo, construída numa colina; era uma construção invulgar, fazendo lembrar a Indy um pequeno observatório. Na realidade, quando ele e Sallah, seguidos pelo macaco, se encaminharam para a entrada, reparou numa abertura no telhado da casa da qual saía um enorme telescópio.

Sallah disse:

- Imam tem muitos interesses, Indiana. Padre. Intelectual.

Astrônomo. Se existe alguém que pode explicar as marcas, essa pessoa é ele.

Abriram a porta da rua. Estava lá um jovem, acenando com a cabeça quando entraram.

- Boa noite, Abu - disse Sallah. - Este é Indiana Jones. - Uma apresentação breve e cortês. - Indiana, este é Abu, o aprendiz de Iman.

Indy acenou com a cabeça, sorriu, impaciente por conhecer o intelectual - que apareceu naquele momento no fundo do corredor. Um homem de idade com uma túnica colorida, as mãos deformadas e cheias de manchas castanhas da idade; os olhos, porém, estavam brilhantes de curiosidade e vida. Curvou a cabeça numa saudação silenciosa. Seguiram-no até ao gabinete, uma grande sala repleta de manuscritos, almofadas, mapas, documentos antigos.

"Sente-se aqui", pensou Indy, "uma vida inteira de dedicação ao estudo. Cada momento de cada dia é uma experiência enriquecedora. Nada desperdiçado.”

Indy entregou o medalhão a Imam, que pegou-o em silêncio e o levou para uma mesa no extremo da sala onde estava aceso um pequeno candeeiro. Sentou-se, virando o objeto nos dedos, olhando para ele. Indy e Sallah sentaram-se numas almofadas, com o macaco no meio deles. Sallah afagou o pescoço do animal.

Silêncio.

O velho bebeu um golo de vinho, em seguida escreveu rapidamente qualquer coisa num pequeno pedaço de papel. Indy torceu-se, olhando com impaciência. Parecia que Imam examinava o florão como se não tivesse nenhum interesse para ele.

- Paciência - disse Sallah.

"Depressa", pensou Indy.

O homem parou a moto a alguma distância da casa.

Contornou sorrateiramente a casa até os fundos, espreitando pelas janelas até descobrir a cozinha. Encostou-se na parede, observando o rapaz, Abu, que passava lavava umas tâmaras na pia. Esperou. Abu colocou as tâmaras numa taça, em seguida largou a taça em cima da mesa. O homem continuou imóvel, já era mais uma sombra que uma substância. O rapaz pegou uma garrafa de vinho de cristal e vários copos, colocou-os numa bandeja, em seguida saiu da cozinha. Só então é que o homem saiu das sombras. Tirou uma garrafa de debaixo da capa, abriu-a e, depois de fazer uma busca na cozinha, deitou algum líquido da garrafa sobre a taça de tâmaras. Parou um segundo.

Ouviu o som do rapaz que voltava, e rapidamente, silenciosamente como entrara, esgueirou-se novamente.

Imam ainda não falou. Indy olhava de vez em quando para Sallah, cuja expressão era a de um homem habituado a períodos de enorme paciência, períodos de espera. A porta abriu-se. Abu entrou com uma garrafa de cristal com vinho e copos e pousou a bandeja na mesa. O vinho era tentador, mas Indy não lhe tocou.

Achou o silêncio constrangedor. O rapaz saiu e quando voltou trazia comida - pratos de queijo, fruta, uma taça de tâmaras.

Sallah pegou distraidamente num bocado de queijo e comeu com ar pensativo. As tâmaras tinham bom aspecto, mas Indy não sentia fome. O macaco afastou-se, acomodando-se debaixo da mesa. Reinava ainda o silêncio. Indy curvou-se e pegou uma tâmara.

Inclinou a cabeça para trás, atirou a tâmara ao ar e tentou apanhá-la com a boca quando caiu, mas ela bateu na ponta do queixo e deslizou no soalho. Abu lançou-lhe um olhar estranho - como se aquele costume ocidental fosse demasiado louco para ser aprofundado -, depois apanhou a tâmara e colocou-a no cinzeiro.

"Diabo", pensou Indy. "A minha coordenação deve estar afetada".

- Vejam. Aproximem-se e vejam - disse Imam subitamente.

A voz estranha e rouca quebrou o silêncio com a autoridade solene de um pregador. Era o tipo de voz ao qual uma pessoa respondia sem pensar duas vezes.

Por cima do ombro, Indy e Sallah viram Imam apontar para as marcas em relevo.

- Isso é um aviso... para não se tocar na Arca da Aliança.

- Só me faltava isso - disse Indy.

Curvou-se, quase tocando nos ombros frágeis de Imam.

- As outras marcas dizem respeito à altura do Bastão de Rá ao qual se deve ligar este florão. Caso contrário, o florão não tem qualquer utilidade. - Indy notou que os lábios do velho estavam um pouco enegrecidos, que os lambeu várias vezes.

- Então Belloq conseguiu saber a altura do Bastão por esta cópia do medalhão - disse Indy.

Sallah acenou com a cabeça.

- O que dizem as marcas? - perguntou Indy.

- Esta era a maneira antiga. Isto significa seis kadam de altura.

- Cerca de cento e oitenta e três centímetros - disse Sallah.

Indy ouviu o macaco a andar em volta da mesa, apanhando um pouco de cada coisa.. Ele aproximou-se e pegou uma tâmara, agarrando-a antes que o macaco a apanhasse.

- Ainda não terminei - disse Imam. - No outro lado do florão há mais. Eu leio. - "E devolvam um kadam para honrar o Deus hebreu ao qual pertence esta Arca.", A mão de Indy parou quase ao chegar à boca.

- Tem certeza de que o medalhão de Belloq tem marcas apenas num lado? - perguntou ele a Sallah.

- Absoluta.

Indy desatou a rir.

- Então o bastão de Belloq tem mais trinta centímetros de comprimento! Estão escavando no lugar errado!

Sallah riu também. Os homens abraçaram-se enquanto Imam os observava, sisudo.

O velho disse:

- Não sei quem é Belloq. Só posso dizer que o aviso sobre a Arca é grave. Também posso dizer que está escrito... "aqueles que abrirem a Arca e deixarem sair a sua força morrerão se olharem para ela. Se ficarem frente a frente com ela". Meus amigos, eu prestaria atenção a estes avisos.

Deveria ter sido um momento solene, mas Indy sentiu-se subitamente entusiasmado demais ao perceber o erro do francês para absorver as palavras do velho. "Um triunfo!", pensou. "Maravilhoso.", Gostaria de ver a expressão do rosto de Belloq quando não conseguisse descobrir o Poço das Almas.

Atirou uma tâmara ao ar, abrindo a boca.

"Desta vez", pensou ele.

Mas a mão de Sallah agarrou a tâmara no ar antes de esta entrar na boca de Indy.

- Então!

Sallah apontou para o soalho por baixo da mesa.

O macaco estava estendido numa posição de morto. Estava rodeado de pevides de tâmara. Uma pata tremeu um pouco, depois os olhos fecharam-se devagar. Depois disso não se mexeu mais.

Indy virou a cara para Sallah.

O egípcio encolheu os ombros e disse:

- Tâmaras estragadas.

 

AS ESCAVAÇÕES DE TÂNIS, EGITO

A manhã no deserto era escaldante, as extensões de ar lançavam reflexos. "Uma paisagem", pensou Indy, "em que o homem teria todo o direito de afirmar que vira miragens.", Olhou para o céu enquanto o caminhão percorria a estrada ruidosamente.

Sentia-se mal com o albornoz que lhe emprestara Sallah, e não estava inteiramente convencido de que conseguiria fazer-se passar por árabe - mas tudo valia a pena. Virava-se para trás de vez em quando para olhar para o outro caminhão. O amigo de Sallah, Omar, conduzia o segundo caminhão; na parte de trás iam seis cavadores árabes. Iam outros no caminhão de Sallah.

"Esperemos", pensou ele, "que sejam de confiança como afirma Sallah".

- Estou nervoso - disse Sallah. - Não me importo de confessar.

- Não se preocupes demais.

- Está correndo um enorme risco - disse Sallah.

- É o nome deste jogo - comentou Indy. Olhou de novo para o céu. O sol da manhã batia nas areias com a força de um martelo poderoso.

Sallah suspirou.

- Espero que tenhamos cortado o bastão com o tamanho certo.

- Medimos muito bem - disse Indy. Pensou no bastão de um metro e meio de comprimento que estava naquele momento na parte de trás do caminhão. Tinham passado várias horas na noite anterior, cortando-o, afiando a ponta para que o florão encaixasse. "Uma sensação estranha", pensou Indy, colocando o medalhão no bastão. Nessa altura sentira uma profunda afinidade com o passado, imaginando outras mãos colocando o mesmo medalhão do mesmo modo há tantos anos.

Os dois caminhões pararam. Indy saiu e dirigiu-se ao caminhão conduzido por Omar; o árabe desceu, erguendo o braço numa saudação. E, em seguida, apontou para um lugar ao longe, um lugar onde o terreno era menos plano, onde as dunas ondulavam.

- Esperaremos lá. - disse Omar.

Indy passou as costas da mão nos lábios secos.

- E boa sorte - disse o árabe.

Omar voltou para o caminhão e afastou-se, deixando para trás uma tempestade de pó e areia. Indy viu-o partir. Regressou para o lugar onde Sallah estacionara, entrou; o caminhão andou devagar durante uma milha, depois parou de novo. Sallah e Indy desceram, atravessaram uma faixa de areia, depois deitaram-se e olharam para o outro lado de uma depressão no terreno por baixo deles.

As escavações de tânis.

Era elaborada, extensa; era evidente, pela quantidade de equipamento lá embaixo, pelo número de trabalhadores, que o Führer queria a Arca a todo o custo. Havia caminhões, bulldozers, tendas. Havia centenas de escavadores árabes e, parecia, outros tantos inspetores alemães, um tanto deslocados com os seus uniformes, como se procurassem deliberadamente desconforto ali no deserto. A terra fora escavada; tinham aberto buracos, depois foram abandonados, desenterradas fundações e passagens e depois abandonadas. E no outro lado das escavações principais estava uma coisa que parecia ser uma pista de aterragem improvisada.

- Nunca vi uma escavação com estas dimensões - disse Indy.

Sallah apontava para o centro da atividade, indicando um enorme monte de areia, com um buraco no meio; tinham colocado uma corda à volta dele, suspensa entre postes.

- A Sala dos Mapas - disse ele.

- A que horas o sol incide lá?

- Logo depois das oito.

- Não temos muito tempo. - Olhou para o relógio de pulso que pediu emprestado a Sallah. - Onde é que os alemães estão escavando para descobrirem o Poço das Almas?

Sallah apontou uma vez mais. A alguma distância do centro da atividade, no meio das dunas, estavam vários caminhões e um bulldozer. Indy observou durante algum tempo. Depois levantou-se.

- Trouxeste a corda?

- Claro.

- Então vamos.

Um dos escavadores árabes sentou-se ao volante do caminhão e conduziu-o lentamente na direção das escavações. Indy e Sallah desceram no meio das tendas. Encaminharam-se furtivamente para a Sala dos Mapas, Indy levava o bastão de metro e meio e perguntava a si mesmo durante quanto tempo seria capaz de passar despercebido com uma vara tão comprida na mão. Passaram por vários alemães de uniforme, que mal olhavam para eles: estavam agrupados, fumando e conversando ao sol da manhã. Quando estavam a uma certa distância, Sallah indicou que deveriam passar: tinham chegado à Sala dos Mapas.

Indy olhou ao redor durante algum tempo e depois caminhou, com tanta calma quanto possível, em direção à borda do buraco - o teto da antiga Sala dos Mapas. Espreitou, susteve a respiração e depois olhou para Sallah, que tirou uma corda de debaixo da túnica e amarrou uma ponta à volta de um barriu de óleo, que estava ali perto. Indy fez descer o bastão no buraco, sorriu a Sallah e pegou numa ponta da corda. Sallah ficou a ver com um ar carregado e o rosto coberto de suor.

Indy começou a descer para o interior da Sala dos Mapas.

"A Sala dos Mapas em tânis", pensou ele. Noutra sala talvez receasse pensar no dia em que estaria naquele lugar; noutra hora talvez tivesse parado para dar uma vista de olhos, talvez tivesse desejado demorar-se ali - mas não naquele momento. Atingiu o chão e deu um puxão na corda, que foi içada imediatamente. "É muito difícil", pensou, "não ficar excitado com este lugar". Uma sala com frescos elaborados iluminada pelo sol que entrava por cima. Dirigiu-se para o lugar onde foi colocado o modelo em miniatura da cidade de tânis: um mapa extraordinário talhado em pedra, com detalhes perfeitos, tão bem construído que quase se podia imaginar pessoas em miniatura a vivendo naqueles prédios ou andando naquelas ruas. Não pôde deixar de se surpreender com o trabalho da planta, com a paciência que devia ter exigido a construção.

Ao lado da planta estava uma linha criada por mosaicos fixos. Havia fendas com espaços regulares nessa linha, cada uma acompanhada por um símbolo para a época do ano. As fendas tinham sido feitas para se encaixar a base do bastão. Tirou o florão de debaixo da túnica, deitou a mão no bastão e olhou para a luz do sol refletida que começou a deslocar-se lentamente através da cidade em miniatura aos seus pés.

Eram sete e cinqüenta minutos. Não tinha muito tempo.

Sallah recolheu a corda, enrolou-a nas mãos e começou a caminhar de novo na direção do bidão de óleo. Quase não ouviu o jipe que parou ao lado dele, e a voz alta do alemão assustou-o.

- Eh! Você!

Sallah forçou um sorriso de inocente.

O alemão disse:

- Você, sim. Que está fazendo aí?

- Nada. Nada. - Inclinou a cabeça num gesto de inocência.

- Traga a corda - ordenou o alemão. - Este maldito jipe está atolado.

Sallah hesitou, depois desamarrou a corda e levou-a para o pé do jipe. Já apareceu outro veículo, um caminhão; parou a alguns metros do jipe.

- Prenda a corda do jipe ao caminhão. - disse o alemão.

Sallah assim fez a transpirar. "A corda", pensou ele, a corda preciosa estava sendo levada. Ouviu os motores dos dois veículos, vendo os pneus a derrapando na areia. A corda estava sendo esticada. Que faria para tirar Indy da Sala dos Mapas sem uma corda? Ele seguiu o jipe durante algum tempo caminhando na areia, sem reparar que estava ao lado de uma caldeira de comida quente que fervia em cima de uma chama descoberta.

Havia vários soldados alemães sentados à volta de uma mesa e um gritava-lhe para que trouxesse mais comida. Impotente, ficou a olhar para o alemão.

- É surdo?

Ele fez uma vênia, subserviente, e pegou na caldeira pesada, levando-a para a mesa. Pensava em Indy que estava preso na Sala dos Mapas; perguntava a si mesmo como é que ele conseguiria tirar o americano sem uma corda.

Começou a servir, procurando ignorar os insultos dos soldados. Serviu apressadamente. Derramou comida na mesa e foi socado na cabeça pelos seus esforços.

- Desastrado! Olha a minha camisa. Olha o que deitaste na camisa.

Sallah baixou a cara. Falsa vergonha.

- Vai buscar água. Depressa.

Ele correu para ir à procura de água.

Indy tirou o florão e colocou-o cuidadosamente em cima do bastão. Introduziu a base do bastão numa das fendas nos mosaicos e ouviu o som da madeira a estalar no mosaico antigo.

A luz do sol incidiu no topo do florão e o feixe amarelo moveu-se um pouco no minúsculo buraco no cristal. Esperou.

Ouviu gritos que vinham de cima. Ignorou-os. Mais tarde, se fosse preciso, preocupar-se-ia com os alemães. Mas não naquele momento.

O sol atravessou o cristal, lançando uma linha brilhante através da cidade em miniatura. A linha de luz foi alterada e partida pelo prisma do cristal-e então, naqueles prédios e ruas em miniatura, incidiu num lugar. Uma luz vermelha, cintilando num prédio pequeno, que, por alguma química antiga, por alguma arte remota, começou a brilhar. Viu este efeito extasiado, vendo já umas marcas de tinta vermelha no meio de outros prédios, marcas que eram recentes e claras. Os cálculos de Belloq.

Ou cálculos errados: o prédio iluminado pelo florão estava quarenta e seis centímetros mais próximo do que a última marca vermelha deixada pelo francês.

"Ótimo. Perfeito. Não podia ter esperado nada melhor". Indy ajoelhou-se ao lado da cidade em miniatura e tirou uma fita métrica de debaixo da túnica. Esticou a fita entre a última marca de Belloq e o prédio que brilhava à luz do sol. Fez rapidamente os cálculos, escrevendo num pequeno bloco de apontamentos. O rosto ardia-lhe do suor, caia em gotas nas costas das mãos.

Sallah não foi buscar água. Correu pelo meio das tendas, esperando que nenhum dos alemães o fizesse parar outra vez. Em pânico, começou a procurar uma corda. Não descobriu nenhuma.

Nenhuma corda, nada à vista. Correu de um lado para o outro, escorregando e deslizando na areia, rezando para que nenhum alemão percebesse o seu estranho comportamento ou o chamasse para executar algum trabalho de criado. Tinha de fazer alguma coisa sem demora para tirar Indy. Mas o quê?

Parou. No meio de duas tendas estavam várias cestas com as tampas levantadas.

"Nenhuma corda", pensou ele, "por isso numa situação como esta improvisa-se." Quando se certificou de que não estava sendo observado, dirigiu-se para as cestas.

Indy partiu o bastão de madeira ao meio e meteu de novo o florão debaixo da túnica. Escondeu os bocados de madeira num canto da Sala dos Mapas, em seguida encaminhou-se para um lugar mesmo por baixo do buraco e olhou para o céu brilhante.

O azul brilhante cegou-o momentaneamente.

- Sallah! - gritou ele, preso entre um berro e um sussurro.

Nada.

- Sallah.

Nada.

Lançou um olhar à sala à procura de uma saída alternativa, mas não conseguiu ver nenhuma. Onde estava Sallah?

- Sallah!

Silêncio.

Observou a abertura; pestanejou por causa da luz intensa, mas Alguma coisa se mexeu por cima. Depois começou a cair qualquer coisa do buraco e por um segundo pensou que era a corda, mas não era: o que viu descer foi um punhado de roupas presas umas às outras, com nós grosseiros para formarem uma corda de emergência - camisas, túnicas, calças, mantos e - surpreendentemente - uma bandeira suástica.

Deitou a mão à corda, puxou-a, e depois começou a subir.

Chegou à superfície, caindo de estômago no chão quando Sallah começou a içar a corda feita de roupa. Indy sorriu e o egípcio enfiou a corda improvisada no bidão de óleo. Em seguida Indy levantou-se e seguiu Sallah rapidamente pelo meio de algumas tendas.

Não viram o alemão que andava de um lado para o outro com uma expressão de grande impaciência estampada no rosto.

- Tu! Ainda estou à espera daquela água!

Sallah estendeu as mãos como quem pede desculpa.

O alemão virou-se para Indy.

- Tu és outro preguiçoso. Por que não está escavando?

Sallah dirigiu-se ao alemão enquanto Indy, fazendo uma vênia num gesto de subserviência, se afastava rapidamente na direção oposta.

Caminhava mais depressa, com a túnica a ondular enquanto corria por entre as tendas. E de trás, como se tivesse surgido inesperadamente uma suspeita, uma suspeita de crime, ouviu o alemão gritando por ele.

- Espera. Volta aqui.

Indy pensou, "A última coisa que tenciono fazer é voltar, a dummkopf". Passou rapidamente pelas tendas, apanhado entre a relutância em parecer suspeito e o desejo ardente de começar a escavar em busca do Poço das Almas, quando surgiram dois alemães à frente dele. "Diabo", pensou, parando, vendo-os parar para conversar, acender cigarros. A passagem estava bloqueada.

Esgueirou-se, passando rente às tendas, sem se afastar das sombras que encontrava, e depois atravessou uma abertura, uma entrada, e entrou numa das tendas. Ali poderia esperar pelo menos alguns minutos até o caminho estar livre. Aqueles dois krauts dificilmente ficariam lá fora todo o dia fumando e conversando.

Limpou o suor da testa, esfregou as palmas úmidas das mãos na túnica. Pela primeira vez, desde que entrou naquele lugar, pensou na Sala dos Mapas: pensou na estranha sensação de perenidade que tivera, uma experiência de estar sendo suspenso, flutuando - como se se tivesse transformado também num objeto preso no frasco da História, preservado, perfeito, intacto. A Sala dos Mapas em tânis. De certa forma era como se se descobrisse que um conto de fadas se baseava na realidade - a lenda com um fundo de verdade. O pensamento tocou-o de um modo que considerou um pouco humilhante: Vive no ano de 1936, com os aviões, os rádios e as grandes máquinas de guerra - e então encontra por acaso uma coisa tão simplesmente intrincada, tão primitivamente elaborada, como uma planta em miniatura com um determinado prédio concebido para brilhar quando iluminado de uma certa forma pela luz. Chamem-lhe alquimia, arte ou até magia - seja qual for a designação que se dá, a passagem dos séculos não melhorara nada significativamente. Os movimentos do tempo tinham batido contra as raízes de um profundo sentido do cósmico, do mágico. E naquele momento estava próximo do Poço das Almas.

Da Arca.

Limpou uma vez mais a testa com a ponta da túnica. Espreitou pela fenda da tenda. Ainda estavam lá fumando, conversando.

"Quando é que decidiriam afastar-se?" Pensava numa saída, tentando imaginar um meio de fugir, quando ouviu um ruído no outro canto da tenda. Um grunhido estranho, um som abafado. Virou-se e examinou a tenda, que imaginou que estava deserta.

Por um momento, um momento de incredulidade, intensa incredulidade, sentiu palpitações que depois se dissiparam.

Ela estava sentada numa cadeira, atada a ela com cordas entrecruzadas, um lenço amarrado em volta da boca. Estava ali com os olhos implorando-lhe, a enviando-lhe mensagens, e esfoçava-se por falar com ele através das pregas do lenço que lhe apertava os lábios. Ele atravessou rapidamente a tenda, soltou a mordaça e deixou-a cair da boca. Beijou-a e o beijo foi ansioso, longo, profundo. Quando afastou o rosto, encostou a palma da mão na face dela.

Quando falou a voz tremeu.

- Tinham dois cestos... dois cestos para te confundirem.

Quando pensou que eu estava no caminhão, estava num carro...

- Pensei que tinha morrido - disse ele. Que sensação era aquela... um alívio incomensurável? O dissipar da culpa? Ou era puro prazer, gratidão, por ela estar viva?

- Ainda dou pontapés - disse ela.

- Lhe fizeram mal?

Ela parecia debater-se com uma ansiedade secreta.

- Não... não me fizeram mal. Apenas perguntaram por ti, queriam descobrir aquilo que sabia.

Indy coçou o queixo e perguntou a si mesmo por que detectara uma estranha hesitação em Marion. Mas ainda estava excitado demais para parar e pensar.

- Indy, por favor, tira-me daqui. Ele é perverso...

- Quem?

- O francês.

Preparava-se para desamarrar a corda mas parou.

- Qual é o problema? - perguntou ela.

- Nunca perceberás como me sinto neste momento. Nunca poderei expressar isso. Mas quero que confie em mim. Vou fazer uma coisa que não gosto de fazer.

- Solta-me, Indy. Solta-me, por favor.

- Esse é o problema. Se eu lhe soltar, então irão revirar cada partícula de areia para te encontrarem e neste momento não posso dar-me a esse luxo. E, uma vez que sei onde está a Arca, é importante que lhe deite a mão antes deles, depois posso vir buscá-la...

- Indy, não.

- Só precisas de ficar quieta mais algum tempo.

- Safado. Solta-me!

Colocou-lhe de novo a mordaça e apertou-a. Em seguida, beijando-a uma vez mais na testa, ignorando os protestos, os resmungos, endireitou-se.

- Fica quieta - disse ele. - Eu volto.

"Eu volto", pensou ele. Naquilo havia um eco muito antigo, um eco que recuava dez anos no tempo. E viu dúvida nos olhos dela. Beijou-a outra vez, em seguida dirigiu-se para a abertura na tenda.

Ela bateu com a cadeira no chão.

Ele saiu; os soldados alemães tinham ido embora.

O sol já escaldava. Abrasava.

"Viva", pensou ele, "ela está viva." E o pensamento ficou a pairar na sua cabeça. Começou a correr, afastando-se das tendas, das escavações, penetrando nas dunas escaldantes, até o lugar onde tinha um encontro com Omar e os escavadores.

Ele tirou o instrumento de agrimensura da parte de trás do caminhão e montou-o nas dunas. Alinhou com a sala dos Mapas ao longe e, consultando os cálculos que fez, estabeleceu uma posição a algumas milhas no interior do deserto, numa duna intacta muito mais perto que o lugar onde Belloq escavava erradamente em busca do Poço das Almas. "Lá", pensou. "O lugar exato!”

- Consegui! - exclamou ele, e desmontou o instrumento e colocou-o de novo no caminhão. O lugar estava bem escondido da escavação de Belloq, oculto pela elevação das dunas. Podiam escavar sem serem vistos.

Quando subia para o caminhão, Indy divisou um vulto sobre as dunas. Era Sallah, com a túnica a batendo, correndo em direção ao caminhão.

- Pensei que nunca mais vinhas - disse Indy.

- Quase não consegui - disse Sallah, subindo.

- Vamos - disse Indy ao condutor.

Quando tinham se embrenhado nas dunas, estacionaram o caminhão.

Era um lugar isolado para se procurar algo tão excitante como a Arca. No céu o sol estava incandescente, com a cor de uma rosa amarela que explodia; e era isso que sugeria a sua intensidade, algo que estava prestes a desprender-se do céu.

Encaminharam-se para o lugar que Indy calculara. Ele ficou parado pouco tempo olhando para ele - areia seca. Era impossível imaginar alguma coisa crescendo ali. Era impossível imaginar aquele solo cedendo a alguma coisa. E muito menos à Arca.

Indy dirigiu-se ao caminhão e tirou uma pá. Os escavadores já caminhavam na direção do lugar. Tinham rostos semelhantes a couro, rostos queimados. Indy perguntou a si mesmo se conseguiriam viver além dos quarenta num lugar como aquele.

Sallah, levando uma pá, caminhou ao lado dele.

- Creio que só virão aqui se Belloq perceber que está a trabalhando no lugar errado. Caso contrário não haveria um bom motivo.

- Alguma vez ouviu dizer que um nazi precisa de um bom motivo?

Sallah sorriu. Virou-se e olhou para lá das dunas; apenas se via deserto. Ficou calado durante algum tempo. Depois disse:

- Até um nazi precisaria de um bom motivo para vaguear neste lugar.

Indy bateu no solo com a ponta da pá.

- Mesmo assim precisaria de um requerimento e que fosse assinado em triplicado em Berlim. - Olhou os escavadores.

- Vamos - disse ele. - Vamos ao trabalho.

Começaram a escavar, amontoando areia, trabalhando arduamente, furiosamente, parando apenas para beber água que já estava quente nos sacos de pele de camelo. Escavaram até a luz no céu desaparecer; mas o calor mantinha-se preso à areia.

Belloq estava sentado na tenda, batendo com as pontas dos dedos na mesa que tinha mapas, desenhos da Arca, folhas de papel cobertas de hieróglifos dos cálculos. Sentia-se profundamente frustrado; estava irritável, nervoso - e a presença de Dietrich e do lacaio, Gobler, não ajudou muito o seu estado de espírito. Levantou-se, aproximou-se de uma bacia, salpicou água no rosto.

- Um dia perdido - disse Dietrich. - Um dia perdido...

Belloq limpou o rosto com uma toalha, depois encheu um copo de Conhaque. Olhou o alemão, depois o subordinado, Gobler, que parecia existir apenas como uma sombra de Dietrich.

Dietrich, decidido, prosseguiu:

- Os meus homens escavaram todo o dia... e para quê? Diga-me, para quê?

Belloq bebeu lentamente, depois disse:

- Com base nas informações em meu poder, os meus cálculos estavam certos. Mas a Arqueologia não é uma das ciências mais exatas, Dietrich. Não creio que compreenda muito bem esse fato. Talvez a Arca se encontre numa câmara contígua. Talvez ainda nos escape alguma prova vital. - Ele encolheu os ombros e terminou a bebida. Geralmente odiava o modo como os alemães davam importância demais a coisas insignificantes, o modo como pareciam sempre andar em volta dele como se esperassem que fosse um vidente, um profeta. Naquele momento, porém, compreendia a mudança de estado do espírito.

- O Führer exige relatórios de progresso constantes - disse Dietrich. - Não é um homem paciente.

- Pode relembrar a minha conversa com o Führer de vocês, Dietrich. Também pode recordar que não fiz promessas. Apenas disse que a situação parecia favorável, nada mais.

Fez-se silêncio. Gobler mexeu-se em frente à lâmpada de querosene, projetando uma sombra enorme que Belloq achou estranhamente ameaçadora. Gobler disse:

- A moça podia ajudar-nos. Afinal, ela teve em seu poder a peça original durante anos.

- De fato - replicou Dietrich.

- Duvido que saiba alguma coisa - disse Belloq.

- Vale a pena tentar - disse Gobler.

Perguntou a si mesmo por que o perturbava o modo como eles tratavam a moça. Tinham-na usado de uma forma bárbara - tinham-na ameaçado com uma série de torturas, mas parecia-lhe que ela não tinha nada para dizer. Seria aquilo algum ponto fraco, alguma fraqueza terrível, que tinha em relação a ela. A idéia apavorou-o. Olhou Dietrich por instantes. "Como vivem aterrorizados por causa do Führer miserável", pensou. "Deve povoar os sonhos deles à noite... se é que sonham", uma idéia em que mal podia acreditar. Eram homens desprovidos de imaginação.

- Se não quiser preocupar-se com a rapariga, Belloq, tenho alguém que pode encarregar-se de descobrir aquilo que ela sabe.

Não era o momento para ostentar uma fraqueza, uma preocupação com a mulher. Dietrich dirigiu-se para a abertura da tenda e gritou. Pouco tempo depois apareceu um homem chamado Arnold Toht, estendendo o braço numa saudação nazi. No centro da mão estava a cicatriz, o tecido queimado, com a forma perfeita do florão.

- A mulher - disse Dietrich. - Creio que a conhece, Toht. Toht respondeu:

- Tem que ajustar contas antigas comigo.

- E cicatrizes antigas - disse Belloq.

Toht, constrangido, baixou a mão.

Quando escureceu e surgiu no horizonte uma lua pálida do deserto, uma lua azul suave, Indy e os árabes pararam de cavar. Tinham acendido archotes e observavam a lua que começava lentamente a escurecer enquanto passavam nuvens pela frente. Em seguida viram-se relâmpagos no céu, relâmpagos estranhos que apareciam por instantes com a forma de garfos e clarões; dava a impressão de que se formava uma tempestade elétrica não se sabia onde.

Os homens tinham aberto um buraco que revelou uma pesada porta de pedra que estava ao mesmo nível do fundo da cova.

Ninguém falou durante muito tempo. Retiraram-se ferramentas do caminhão e os escavadores abriram a porta de pedra à força, resmungando enquanto se debatiam com o peso da mesma.

A porta de pedra foi puxada para trás. Debaixo da porta havia uma câmara subterrânea. O Poço das Almas. Estava a cerca de nove metros de profundidade, uma enorme câmara cujas paredes estavam cobertas de hieróglifos e gravuras. O teto do compartimento era sustentado por gigantescas estátuas, guardiãs do sepulcro. Era uma construção terrível, e criava, à luz dos archotes, uma sensação de abismo, um abismo em que a própria História ficou presa. Os homens deslocaram os archotes enquanto espiavam.

A extremidade da câmara avistou-se, mal iluminada. Havia um altar de pedra sobre o qual estava um cofre; um soalho com um revestimento escuro, estranho.

- O cofre deve conter a Arca - disse Indy. - Não sei o que é aquele revestimento cinzento do soalho.

Mas então, com o clarão de outro relâmpago, viu; tremeu, deixou cair o archote no Poço, ouvindo o silvo de centenas de cobras.

Enquanto o archote ardia, as cobras afastaram-se da chama.

Não eram centenas, mas milhares de cobras, áspides egípcias, que tremiam e ondulavam e se enroscavam no soalho enquanto reagiam à chama com o silvo estridente. O pavimento parecia mover-se com a luz trêmula do archote - mas não era o pavimento, eram as cobras, saltando para trás e fugindo da chama. Somente o altar não era tomado pelas cobras. Somente o altar de pedra parecia imune a elas.

- Por que tinham que ser cobras? - perguntou Indy. - Podia ser outra coisa qualquer e não cobras. Podia imaginar tudo menos isto.

- Áspides - disse Sallah. - Muito venenosas.

- Obrigado pela informação, Sallah. - Como vê, mantêm-se afastadas da chama.

"Se recompõe", pensou Indy. "Está tão próximo da Arca que pode sentir, por isso enfrenta a sua fobia, se mantém calmo e faz alguma coisa. Milhares de cobras... e daí? E daí?", O pavimento com vida era a personificação de um pesadelo antigo.

As Cobras perseguiam-no nos sonhos mais sombrios, fixando-se aos receios mais profundos. Virou-se para os escavadores e disse:

- Muito bem. Muito bem. Umas cobras. Grande coisa. Quero muitos archotes. E petróleo. Quero fazer uma pista lá em baixo.

Passado algum tempo, atiraram archotes acesos para o interior do Poço. Foram derramadas várias latas de petróleo nos espaços onde tinham se arrastado as cobras para fugirem das chamas. Em seguida os escavadores começaram a baixar uma enorme grade de madeira, com cordas presas em cada um dos cantos, para a introduzirem no buraco. Indy ficou observando, perguntando a si mesmo se uma fobia era algo que se podia repelir, algo que se podia ignorar como se fosse a dor intensa de uma indigestão passageira. Apesar da sua determinação em descer, tremeu - e as áspides, enroscando-se e desenroscando-se, envolviam a escuridão com o som sibilante, um som mais ameaçador de qualquer um que já tinha ouvido. Fizeram descer uma corda: endireitou-se, engoliu em seco, em seguida pendurou-se na corda e desceu até ao Poço. Pouco depois Sallah seguiu-o. No outro lado da porta e das chamas as cobras deslizaram, cobras empilhavam-se sobre cobras, montanhas de répteis, ovos de cobra que chocavam, cascas que se partiam deixando ver áspides minúsculas, cobras que devoravam outras cobras. Ficou suspenso durante algum tempo, a corda balançava, Sallah estava pendurado mesmo por cima dele.

- Creio que chegou a hora - disse ele.

Marion viu Belloq entrar na tenda. Caminhou devagar e observou-a durante algum tempo, mas não fez nenhum movimento para lhe desapertar a mordaça. O que tinha aquele homem? O que era aquilo que provocava uma sensação, algo semelhante a pânico, dentro dela?" Ouvia o coração palpitando. Olhou fixamente para ele, desejando poder fechar os olhos e virar a cara. Quando o viu pela primeira vez, depois de ter sido capturada, não lhe disse quase nada - limitara-se a examiná-la como fazia naquele momento. O olhar era frio e no entanto parecia capaz, embora não soubesse ao certo, de ceder a uma cordialidade ocasional. Era também perspicaz, como se tivesse penetrado num segredo profundo, como se tivesse testado a realidade e a tivesse considerado pobre. O rosto tinha uma beleza que ela talvez associasse às gravuras em revistas românticas de Europeus que envergavam trajes brancos e bebiam bebidas exóticas nas varandas de casas de campo. Mas esses não eram os atributos que atraíam.

Era outra coisa.

Uma coisa em que não queria pensar.

Fechou então os olhos. Marion não suportava que a olhasse de tão perto, não suportava ver-se como um objeto de exame talvez como um fragmento arqueológico, um pouco de barro solto de uma peça antiga de porcelana. Inanimado, um objeto que tem de ser classificado.

Quando o ouviu mexer abriu os olhos.

Continuou sem dizer uma palavra. E a sua inquietação aumentou. Atravessou a tenda até ficar ao lado dela, em seguida estendeu a mão muito devagar e tirou-lhe a mordaça dos lábios, fazendo-a deslizar suave e provocantemente da boca.

Teve uma visão súbita, uma visão que não queria reter, da mão dele acariciando-lhe a curva da anca. "Não", pensou ela. "Não é nada disso." Mas a imagem continuava na cabeça. E a mão de Belloq, com a certeza do amante bem sucedido, retirou lentamente a mordaça da boca e baixou-a até o queixo e depois desfez o nó - tudo executado devagar, com a elegância casual de um sedutor que pressente, de uma forma predatória, o ceder da presa.

Ela virou o rosto para o lado. Queria fazer desaparecer aqueles pensamentos, mas parecia incapaz de fazê-lo. "Não quero ser seduzida por este homem"; pensou. "Não quero que me toque." Mas então, quando ele passou os dedos por baixo do queixo e começou a acariciar-lhe a garganta, compreendeu que era incapaz de oferecer resistência. "Não deixarei que veja isso nos meus olhos", disse para si mesma. "Não deixarei que veja isso no meu rosto.”

Contra a sua vontade, começou a imaginar as mãos passarem de leve no seu corpo, umas mãos que eram estranhamente suaves, delicadas no toque, íntimas e excitantes nas promessas. E, subitamente, compreendeu que aquele homem seria um amante de extraordinária generosidade, que lhe provocaria os prazeres que jamais sentira. "Ele sabe", pensou. "Também sabe.”

Aproximou mais o rosto. Ela sentiu o cheiro doce do seu hálito. "Não, não, não", pensou. Mas não falou. Percebeu que se inclinava ligeiramente para a frente, esperando o beijo, com o espírito rodopiando, o desejo intenso. Não aconteceu. Não foi um beijo. Se abaixou e começou a desapertar as cordas, agindo do mesmo modo, deixando cair as cordas no chão como se fossem as roupas mais eróticas. Ele não disse uma palavra. Olhava para ela. Havia um brilho nos olhos, o vislumbre de dor que imaginara antes - mas não podia dizer se era verdadeiro ou se era algo que utilizava, um apoio no seu repertório de francês. Depois disse:

- É muito bonita.

Ela abanou a cabeça.

- Por favor... - Mas não sabia se suplicava que a deixasse em paz ou se lhe pedia que a beijasse, e compreendeu que nunca sentira uma emoção tão confusa em toda a vida. Por que é que Indy não a libertou? Por que a deixou assim?" Repelida, atraída - por que não havia uma fronteira definida entre as duas? - Sinais que pudesse ler? Não importava: havia na fusão de distinções nos seus pensamentos. Viu a contradição e percebeu, com uma sensação de pavor, que desejava que aquele homem fizesse amor com ela, que lhe explicasse que aquilo que sentia era a compreensão profunda do amor físico; e, para exemplo disso, existia a sensação de que ele podia ser cruel, uma percepção que repentinamente deixou também de ter importância para ela. Aproximou de novo o rosto. Ela olhou para os seus lábios. Os olhos estavam cheios de entendimento, uma compreensão que jamais vira no rosto de um homem. Mesmo antes de a beijar, já conhecia, podia ver o seu íntimo. Nunca se sentiu tão nua. Até aquela vulnerabilidade a excitava. Aproximou-se mais. Beijou-a. Quis afastar-se outra vez.

O beijo - fechou os olhos e entregou-se ao beijo, e foi diferente de qualquer outro beijo. Ultrapassou os limites estreitos dos lábios e das línguas. Criou espaços de luz brilhante na cabeça dela, cores, teias de ouro; prata, amarelo e azul, como se estivesse contemplando um pôr do Sol impossível. Lento, paciente, generoso. Nunca ninguém lhe tocou assim. Não daquele modo. Nem mesmo Indy.

Quando ele afastou o rosto, percebeu que o segurava com força. Cravava as unhas no seu corpo. E a consciência disso foi choque para ela, um choque que provocou uma súbita sensação de vergonha. O que estava fazendo? O que se apoderou dela?" Afastou-se dele.

- Por favor - disse ela. - Não mais.

Ele sorriu e falou pela primeira vez:

- Eles querem lhe fazer mal.

Era como se o beijo não tivesse existido. Era como se tivesse sido manipulada. A desilusão inesperada que sentiu foi a de queda abrupta numa montanha-russa.

- Consegui convencê-los a me darem um tempo para estar a sós com você, minha cara. Afinal é uma mulher muito atraente E não quero que lhe façam mal. São bárbaros.

Aproximou-se uma vez mais dela. "Não", pensou ela. "Outra vez, não.”

- Tem que me contar alguma coisa que os acalme. Alguma informação.

- Não sei nada... quantas vezes tenho que lhes repetir? - sentia-se tonta, precisava se sentar. "Por que não a beijava de novo?”

- E em relação a Jones?

- Não sei nada.

- A sua lealdade é admirável. Mas tem que me dizer aquilo que Jones sabe.

Indy veio-lhe de novo ao espírito.

- Só tem me causado problemas...

- Concordo - disse Belloq. Estendeu o braço, segurou o rosto dela entre as mãos, examinou os seus olhos. - Creio que desejo acreditar que não sabe nada. Mas não posso controlar os alemães. Não posso contê-los.

- Não deixe que me façam mal.

Belloq encolheu os ombros.

- Então diga-me qualquer coisa!

A porta da tenda abriu-se. Marion olhou para o vulto de Arnold Toht. Atrás dele estavam os alemães que conheceu como sendo Dietrich e Gobler. O medo que sentiu foi como um sol que lhe queimava a cabeça.

Belloq disse:

- Lamento.

Ela não se mexeu. Limitou-se a olhar Toht, lembrando-se da enorme vontade que tivera de lhe bater com o atiçador.

- Frizulein - disse Toht. - Percorremos uma longa distância desde o Nepal, não foi?

Recuando, ela abanou a cabeça, apavorada.

Toht avançou para ela. Lançou um olhar a Belloq, como se ele fosse fazer um último apelo, mas ele já saía da tenda para a noite. Lá fora, Belloq parou. Era estranho sentir-se atraído pela mulher, era estranho desejar fazer amor com ela apesar do fato ter sido provocado pelo desejo de lhe arrancar informações. Mas depois disso, depois do primeiro beijo...

Enfiou as mãos nos bolsos e hesitou no lado de fora da tenda.

Queria entrar novamente e impedir aqueles vermes de concretizarem aquilo que estavam prestes a fazer, mas a sua atenção foi subitamente atraída para o horizonte. Um relâmpago - um relâmpago estranhamente concentrado num lugar, como se tivesse se formado deliberadamente lá, dirigido por uma consciência meteorológica. Uma congregação de relâmpagos, espigões, forquilhas e clarões que chispavam num só lugar.

Mordeu o lábio inferior, absorto em pensamentos, e depois entrou de novo na tenda.

Indy encaminhou-se para o altar. Tentou ignorar o som das cobras, um barulho louco que se tornava mais perturbador com as sombras fantasmagóricas projetadas pelos archotes.

Salpicou o chão com o petróleo das latas e colocou fogo, abrindo um caminho no meio das cobras; e então aquelas chamas, agigantando-se no ar, eclipsaram o relâmpago. Sallah estava atrás dele. Juntos tentaram levantar a tampa do cofre até esta se soltar; no interior, mais bela do que ele imaginou, estava a Arca.

Ficou imóvel algum tempo. Olhou fixamente para os anjos dourados e brilhantes que estavam virados de frente um para o outro por cima da tampa, o ouro que revestia a madeira de acácia. As pegas de ouro em forma de anel presas aos quatro cantos cintilaram à luz do archote. Olhou para Sallah, que examinava a Arca em silêncio respeitoso. Naquele momento Indy sentia um enorme desejo de estender a mão e tocar a Arca, mas quando pensava nisso, Sallah estendeu a mão.

- Não toque - exclamou Indy. - Nunca toque nela.

Sallah afastou a mão. Voltaram para junto da grade de madeira e retiraram as estacas que estavam presas aos cantos.

Meteram as estacas nos anéis da Arca e levantaram-na, gemendo com o seu peso, retirando-a do cofre de pedra e colocando-a na grade. Os fogos começavam a extinguir-se e as cobras, cujo silvo começava a parecer mais com uma voz alta, isolada, deslizavam na direção do altar.

- Depressa - disse Indy. - Depressa.

Ataram as cordas à grade. Indy puxou uma das cordas e a grade foi içada e retirada da câmara. Sallah agarrou-se à corda ao lado e subiu rapidamente. Indy colocou a mão na corda, dando um puxão para verificar se estava bem segura - e ela caiu, como uma cobra, da abertura de cima para o interior da câmara.

- Que diabo.

De cima a voz do francês soou clara.

- Então, Dr. Jones, o que faz nesse lugar sórdido?

Ouviu-se uma gargalhada.

- Está transformando isto num hábito, Belloq - disse Indy. As cobras silvaram mais perto. Ouvia os corpos deslizando no pavimento.

- Um mau hábito, concordo - disse Belloq espreitando. - Infelizmente, não preciso de você, meu velho amigo. E acho irônico que esteja prestes a tornar-se um suplemento permanente desta descoberta arqueológica.

- Morro de rir - gritou Indy.

Continuou tentando olhar para cima, procurando descobrir se havia alguma saída... e ainda se interrogava quando viu Marion sendo empurrada da beira do buraco, caindo. Correu e amorteceu a pancada com o corpo, atirando-se no chão quando bateu nele. As cobras aproximaram-se lentamente. Ela agarrou-se freneticamente a Indy, que conseguiu ouvir Belloq a discutindo lá em cima.

- Ela era minha!

-Agora já não tem utilidade para nós, Belloq. Só interessa a missão do Führer.

- Tinha planos para ela!

- Os únicos planos são os que dizem respeito a Berlim - respondeu Dietrich a Belloq.

Em cima, fez-se silêncio. E, então, Belloq olhou para a câmara, para Marion.

A voz dele soou baixa.

- Não era para ser assim - ele disse. Em seguida acenou a Indy. - Indiana Jones, Adieu!

De repente a porta de pedra que dava para a câmara foi fechada por um grupo de soldados alemães. O ar foi extraído do Poço.

Os archotes apagaram-se e as cobras deslocavam-se para as cavernas escuras.

Marion agarrou-se com força a Indy. Ele desenredou-se, pegando em dois archotes que ainda estavam acesos, entregando- lhe um.

- Abana o archote quando vires alguma coisa movendo-se - disse ele.

- Tudo se move - replicou ela. - Tudo está resvalando.

- Não me lembre disso.

Ele começou a tatear na escuridão, descobriu uma das latas de petróleo, derramou petróleo junto à parede e botou fogo. Olhou uma das estátuas por cima, sentindo as cobras aproximando-se cada vez mais dele.

- O que está fazendo? - perguntou Marion.

Jogou o resto do petróleo num círculo à volta deles e incendiou-o.

- Fica aqui.

- Por quê? Onde você vai?

- Eu volto. Fique vigilante e se prepara para correr.

- Correr para onde?

Ele não respondeu. Recuou entre as chamas até o centro da sala. As cobras contorciam-se à volta dos pés, e ele agitava desesperadamente o archote para não deixá-las aproximarem-se. Levantou os olhos para a estátua, que chegava quase ao teto. Tirou de debaixo da túnica o chicote e o fez estalar na penumbra, vendo-o enrolar-se na base da estátua.

Puxou para testar a resistência, em seguida começou a subir com uma mão, com o archote na outra. Içou-se e torceu-se uma vez para olhar para Marion lá embaixo, que estava atrás do muro de chamas que ficava mais baixo. Parecia perdida, desamparada e desesperada. Subiu até o topo da estátua quando surgiu uma cobra em volta do rosto da estátua - silvando mesmo à frente dos olhos de Indy. Indy atirou-lhe o archote na cabeça, sentiu o cheiro da carne queimada do réptil, viu a cobra deslizar na pedra lisa e cair. Firmou-se, com os pés fixos entre a parede e a estátua. "Espero que resulte", pensou. Subiam cobras pela estátua, enroscando-se, e o archote - muito fraco - não as manteria afastadas por muito tempo. Agitou-o, batendo aqui e ali, ouvindo cobras cedendo e caindo na câmara. Então o archote escorregou-lhe da mão e apagou-se ao cair: "Agora que precisas de uma luz, não tens nenhuma", pensou. E qualquer coisa rastejou na sua mão. Ele gritou surpreendido. Nesse preciso momento, a estátua cedeu, soltou-se da base e balançou, tremeu, inclinando-se, formando um ângulo terrível com o teto da câmara. "Aqui vamos nós", pensou Indy, agarrando-se àquela estátua como se fosse uma mula selvagem. Mas mais parecia que se agarrava a um cepo num mar revolto - e ia, caía enquanto ele procurava manter-se seguro, ganhando velocidade, passando pela Marion assustada, que estava no meio das chamas que se extinguiam, passando por ela silvando como na árvore derrubada por um lenhador, atravessando o pavimento do Poço e esmagando-se na escuridão.

Então a viagem sobre a estátua parou abruptamente quando a estátua partida bateu no fundo e ele escorregou, atordoado, passando a mão pelo lado da cabeça. Apalpou na escuridão por instantes, percebendo uma luz fraca que se infiltrava no buraco irregular do Poço. Marion chamava-o em voz alta.

- Indy! Onde você está?

Meteu o braço no buraco quando ela espiou.

- Nunca viaje numa estátua - disse ele. - Segue o meu conselho.

- Não me esquecerei.

Agarrou a mão dela e ajudou-a a entrar. Ela segurou o archote por cima da cabeça. Já era uma luz fraca - mas a suficiente para verem que estavam num labirinto de câmaras interligadas, esquinadas, que se sucediam por baixo do Poço, catacumbas que abriam túneis na terra.

- Então, onde estamos agora?

- O seu palpite seria tão bom quanto o meu. Talvez tenham construído o Poço por cima destas catacumbas por algum motivo, Não sei. É difícil dizer. Mas sempre é melhor que as cobras.

Um bando de morcegos aflitos saiu da escuridão, voando em volta deles, agitando o ar como loucos. Curvaram-se e entraram noutra câmara. Marion agitou as mãos por cima da cabeça e gritou.

- Não faça isso - disse ele. - Me assusta.

- E o que acha que eu sinto?

Percorreram câmara após câmara.

- Tem de haver uma saída - ele disse. - Os morcegos são um bom sinal. Têm de encontrar o céu para irem em busca de alimento.

Outra câmara, e lá o cheiro era nauseante. Marion levantou o archote.

Havia múmias apodrecidas com as faixas meias soltas, carne putrefata que pendia de ligaduras amareladas, montes de caveiras, ossos, alguns com carne quase intacta presa à superfície. Uma parede em frente a elas estava repleta de escaravelhos reluzentes.

- Não suporto este cheiro - disse Marion.

- Está se queixando?

- Acho que vou ficar enjoada.

- Ótimo - disse-lhe Indy. - Isso seria um remate excelente para esta experiência.

Marion suspirou.

- Nunca estive num lugar tão horrível.

- Não, lá dentro foi o lugar mais horrível em que esteve.

- Sabe o que mais, Indy? - disse ela. - Se tivesse que ficar aqui com alguém...

- Te peguei! - interrompeu-a. - Te peguei!

- É verdade. Me pegou.

Marion beijou-o suavemente nos lábios. A suavidade do toque surpreendeu-o. Ele afastou o rosto, quis beijá-la outra vez mas ela apontava com excitação para alguma coisa, e, quando virou o rosto, viu, a alguma distância, a cena abençoada do sol do deserto, um sol da aurora, branco, maravilhoso e promissor.

- Graças a Deus - disse ela.

- Agradece a quem quiser. Mas ainda temos que trabalhar.

 

AS ESCAVAÇÕES DE TÂNIS, EGITO

Atravessaram as escavações abandonadas mais próximas da pista que foi aberta no deserto pelos alemães. Na pista estavam dois caminhões de combustível, uma tenda que servia de armazém de mercadorias, e uma pessoa - nitidamente um mecânico, avaliando pelo macacão - parado na extremidade da pista com as mãos na cintura, o rosto virado para o céu. Marion reconheceu-o como sendo o ajudante de campo de Dietrich, Gobler.

Subitamente, ouviu-se um barulho ensurdecedor no céu, e na posição por trás da escavação abandonada, Marion e Indy viram um Flying Wing aproximando-se para aterrissar.

Gobler gritava ao mecânico:

- Encha o tanque imediatamente! Tem que estar pronto para decolar sem demora com uma carga importante!

O Flying Wing aterrissou, deslocando-se aos solavancos na pista.

- Vão colocar a Arca naquele avião - disse Indy.

- Então o que fazemos? Dizemos adeus com a mão?

- Não. Quando a Arca for carregada, já estaremos no avião.

Ela lançou-lhe um olhar irônico.

- Outro dos teus planos?

- Chegamos até aqui... continuemos. - Correram precipitadamente para um lugar atrás da tenda das mercadorias.

O mecânico já colocava blocos à frente dos pneus do Flying Wing.

O alemão ajustou a mangueira do combustível no avião. As hélices rodavam, o motor fazia um barulho ensurdecedor.

Aproximaram-se ainda mais da pista, sem verem o mecânico alemão, um jovem de cabelo louro com os braços tatuados, aparecendo por trás deles. Dirigiu-se para eles com a chave inglesa no ar, e o alvo era a base do crânio de Indy. Foi Marion quem viu a sombra, viu-a cair vagamente à sua frente; gritou. Indy virou-se quando a chave inglesa baixava. Levantou-se num salto, agarrou o braço que se agitava e atirou o homem ao chão enquanto Marion se escondia atrás de umas grades, observando, pensando naquilo que poderia fazer para ajudar.

Indy e o homem rolaram na pista. O primeiro mecânico afastou-se do avião, estacou junto aos homens que lutavam e esperou pela oportunidade de dar um pontapé em Indy - mas Indy levantou-se de repente, ágil, atacando o primeiro homem e derrubando-o com os dois punhos. Mas o homem com os braços tatuados ainda estava ansioso por lutar, e engalfinharam-se de novo, rolando para a parte traseira do avião, onde as hélices rodopiavam violentamente.

"De um momento para o outro pode ficar reduzido a carne picada", pensou Indy.

Sentia as lâminas terríveis cravando-se no ar à sua volta como facas cortando manteiga.

Tentou afastar o jovem das hélices, mas o rapaz era forte.

Gemendo, Indy agarrou o rapaz pela garganta e apertou com força, mas o alemão libertou-se e atacou novamente com força renovada. Marion, observando atrás das grades, viu o piloto saindo da cabine e pegando uma Luger, fazendo pontaria, para atingir Indy em cheio. Ela correu pela pista, levantou com esforço um dos blocos que estava por baixo das rodas e atirou-o na cabeça do piloto, e este tombou, caindo de novo para dentro da cabine, batendo na alavanca e aumentando assim as rotações do motor.

O avião começou a rodar, girando, como se estivesse frustrado, em torno dos únicos pneus que ainda estavam bloqueados. Marion tentou agarrar-se à ponta da cabine para não deslizar para dentro das hélices, em seguida entrou, curvando-se, e procurou afastar o piloto inconsciente da alavanca.

Nada. Era pesado demais. O avião ameaçava ficar descontrolado e virar-se, provavelmente esmagando Indy, ou reduzindo-o a tiras. "As coisas que faço por ti, Indy", pensou ela. E entrou para a cabine, batendo na proteção de fibra de vidro, fazendo-a fechar por cima dela. O avião continuava a oscilar, com a asa movendo-se perigosamente por cima do lugar onde Indy lutava com o alemão. Em pânico, viu-o derrubar o homem, e logo depois este levantou-se para Indy o atirar para trás com um soco...

Para dentro das hélices.

Marion fechou os olhos. Mas não antes de ver as lâminas dilacerarem o jovem alemão, lançando no ar um jato de sangue. E o avião continuava rodando. Abriu os olhos, tentou sair da cabine, percebeu que estava encurralada. Bateu com força na cobertura, mas não aconteceu nada. "Primeiro um cesto, agora uma cabine", pensou. "Onde vai parar isto?", Indy correu para o avião, vendo-o inclinar, preocupado ao ver Marion batendo violentamente no interior da cabine. Então a asa, partindo-se, tombando, enfiou-se no caminhão do combustível, rasgando-o com a autoridade final do bisturi de um cirurgião, derramando gasolina ao longo da pista como sangue de um doente anestesiado. Indy começou a correr, escorregou na gasolina.

Tentou equilibrar-se, escorregou, levantou-se e começou de novo a correr. Trepou para a asa e dirigiu-se para a cabine.

- Sai! Isto vai explodir! - gritou-lhe.

Procurou agarrar a manivela que abriria a carlinga do exterior.

Forçou-a, tentou tudo, assaltado pelo cheiro forte da gasolina que saía do caminhão.

Encurralada, Marion lançou-lhe um olhar de súplica.

A grade de madeira, cercada por três soldados alemães armados, estava junto à entrada da tenda de Dietrich. Lá dentro, numa grande agitação, empacotavam-se documentos, dobravam-se mapas, desmontavam-se aparelhos de rádio. Belloq, de pé no interior da tenda, assistia à preparação da partida com um olhar vago, distante. O seu pensamento estava completamente concentrado naquilo que estava na grade, o objeto que desejava examinar. Era difícil refrear a impaciência, manter-se controlado. Recordava naquele momento os preparativos rituais que tinham que ser observados quando se abrisse a Arca. Era estranho como se preparara ao longo dos anos para aquele momento - e estranha também a forma como aprendeu a conhecer os feitiços. Os Nazis não iriam gostar, claro - mas poderiam fazer o que quisessem com a Arca depois de a ter examinado. Podiam despachá-la e guardá-la num museu qualquer que não teria a menor importância para ele.

Feitiços hebraicos; não iriam gostar nada disso. E a idéia deu-lhe algum prazer. Mas o prazer não durou muito porque o conteúdo da grade chamou uma vez mais a sua atenção. Se tudo aquilo que aprendeu sobre a Arca era verdadeiro, se todas as histórias antigas relativas ao seu poder fossem corretas, seria o primeiro homem a comunicar diretamente com aquilo que tinha a sua origem num lugar - um lugar infinito - além do entendimento humano.

Ele saiu da tenda.

Ao longe, flamejando como uma coluna de fogo que podia vir do céu, deu-se uma enorme explosão.

Começou a correr, levado pela ansiedade, para a pista.

Dietrich apareceu atrás dele, seguido por Gobler, que esteve na pista vários minutos antes.

Os caminhões do combustível tinham explodido e o avião estava completamente destruído e em chamas.

- Sabotagem - disse Dietrich. - Mas quem?

- Jones - disse Belloq.

- Jones? - Dietrich parecia desorientado.

- O homem tem mais vidas que o gato - disse Belloq. - Mas vai chegar a hora em que as esgotará, não é?

Observaram as chamas em silêncio.

- Temos de tirar a Arca daqui imediatamente - comentou Belloq. - Temos que colocá-la num caminhão e ir para o Cairo. De lá podemos ir de avião.

Belloq olhou mais algum tempo para os destroços, admirado com o sentido de objetivo de Indiana Jones, com o dom pródigo de sobrevivência. Uma pessoa tinha que admirar o apego tenaz do homem à vida. E uma pessoa tinha de ter cuidado com a astúcia, e fortaleza de espírito subjacentes a tudo. "Era quase impossível", pensou Belloq, "menosprezar a oposição." E talvez tivesse menosprezado sempre Indiana Jones.

- Precisamos de muita proteção, Dietrich.

- Claro. Eu trato disso.

Belloq virou-se. O vôo do Cairo era uma mentira, claro - já havia dado instruções pelo rádio para a ilha, sem o conhecimento de Dietrich. Era uma ponte que atravessaria quando chegasse lá.

A única coisa importante naquele momento era que ele deveria abrir a Arca antes de ela ser enviada para Berlim.

Já reinava uma grande confusão nas tendas. Soldados alemães tinham corrido para a pista e regressado muito perturbados.

Outro grupo de homens armados, com os rostos enegrecidos da fumaça do acidente, tinha começado a carregar a Arca para o caminhão com uma cobertura de lona: Dietrich fiscalizava-os, dando ordens em voz alta, nervosa e estridente. Se sentiria aliviado e contente quando aquela grade em mau estado estivesse finalmente a salvo em Berlim, mas até lá não confiava em Belloq - notou uma forte determinação, uma determinação tortuosa, nos olhos do francês. E por trás dessa determinação, algo que parecia louco, distante, como se o arqueólogo se dedicasse mais profundamente a comunicar consigo mesmo. "Era um olhar de loucura", pensou ele, um pouco alarmado quando percebeu que vira um olhar algo semelhante no rosto do Führer quando esteve na Baviera com Belloq. Talvez fossem semelhantes, o francês e Adolf Hitler.

Talvez a sua força, assim como a sua loucura, fosse aquilo que os separava das pessoas comuns. Dietrich limitava-se a conjecturar. Olhou fixamente para a grade que ia ser colocada no caminhão e questionou-se sobre Jones - mas Jones não podia estar vivo, tinha que estar sepultado naquela câmara sinistra.

Mesmo assim, o francês parecia convencido de que o americano estivera por trás da sabotagem. Talvez aquela animosidade, aquela rivalidade, que existia entre os dois fosse outro aspecto da loucura de Belloq.

Talvez.

Não havia tempo para meditar sobre o estado de espírito do francês. Havia a Arca e a estrada para o Cairo e a terrível perspectiva de mais sabotagens pelo caminho. Transpirando, odiando aquele deserto lúgubre, aquele calor, gritou mais uma vez aos homens que carregavam o caminhão - sentindo alguma pena deles - Como ele, estavam muito longe da Fatherland (Alemanha).

 

Marion e Indy esconderam-se atrás de uns barris, vendo os árabes correndo de um lado para o outro muito desorientados, vendo os alemães carregando o caminhão. Os rostos estavam negros das sucessivas explosões e Marion, visivelmente pálida mesmo por baixo da fuligem, parecia extremamente cansada.

- Demorou muito - queixou-se ela.

- Tirei você de lá, não tirei?

- No último minuto - disse ela. - Como pode deixar sempre tudo para a última hora?

Ele lançou-lhe um olhar, passou as pontas dos dedos no rosto, olhou fixamente para a fuligem incrustada nas espirais das pontas dos dedos, depois voltou-se para espiar para o caminhão.

- Vão levar a Arca para algum lugar... Neste momento, é aquilo que mais me interessa.

Um grupo de árabes passou correndo. No meio deles, para seu prazer e sua surpresa, Indy viu Sallah. Estendeu o pé, rasteirando o egípcio, que tropeçou e se levantou com uma expressão de alegria no rosto.

- Indy! Marion! Pensei que os tinha perdido.

- Nós também - disse Indy. - Que aconteceu?

- Quase não prestam atenção aos árabes, meu amigo. Pensam que somos tolos, ignorantes... além disso, quase não nos conseguem distinguir. Escapei, e eles não estavam prestando grande atenção.

Escondeu-se atrás dos barris, respirando com dificuldade.

- Imagino que foi você quem provocou a explosão?

- Acertou.

- Não sabes que tencionam levar a Arca para o Cairo no caminhão?

- Cairo?

- Talvez depois para Berlim.

- Quanto a Berlim, duvido - disse Indy. - Não consigo imaginar Belloq deixando que a Arca chegue à Alemanha antes de a examinar.

Um carro do estado-maior, conversível, parou ao lado do caminhão. Belloq e Dietrich entraram com um motorista e um guarda armado. Ouviram o som de pés que se arrastavam na areia; cerca de dez soldados armados subiram para o caminhão com a Arca.

- É impossível - disse Marion.

Indy não respondeu. "Observa", disse para si mesmo. "Observa e se concentra. Pensa." Já estava lá um segundo carro do estado-maior, conversível, com uma metralhadora montada na retaguarda; um atirador estava sentado com impaciência atrás dela. Na frente deste carro estava Gobler ao volante. Ao lado de Gobler estava Arnold Toht.

Marion prendeu bruscamente a respiração quando viu Toht.

- Ele é um monstro.

- São todos monstros - disse Sallah.

- Monstros ou não - replicou ela -, neste momento tudo parece cada vez mais impossível.

"Metralhadora, soldados armados", pensou Indy. "Talvez fosse possível alguma coisa. Talvez não precisasse aceitar o desespero como a única resposta". Viu aquele comboio começar a se mover, oscilando sobre as areias.

- Vou segui-los - disse ele.

- Como? - perguntou Marion. - Consegue correr tão rápido?

- Tenho uma idéia melhor. - Indy levantou-se. - Vocês regressam ao Cairo o mais depressa possível e providenciam qualquer tipo de transporte para Inglaterra... qualquer coisa, um barco, um avião, tanto me faz.

- Porquê Inglaterra? - perguntou Marion.

- Não há barreiras lingüísticas nem Nazis - respondeu Indy.

Olhou para Sallah. - Onde podemos nos encontrar no Cairo?

Sallah ficou com um ar pensativo durante algum tempo.

- Há a garagem de Omar, onde ele guarda o caminhão. Conhece o Largo das Cobras?

- Horrendo - disse Indy. - Mas não me podia esquecer dessa morada, não é?

- Na parte antiga da cidade - disse Sallah.

- Estarei lá.

Marion levantou-se.

- Como é que sabe que chegará lá inteiro?

- Confia em mim.

Beijou-a quando ela lhe prendeu o braço. Disse:

- Gostaria de saber quando chegará o dia em que não me deixará mais.

Ele esgueirou-se, passando pelo meio dos barris.

- Podemos utilizar o meu caminhão - disse Sallah a Marion depois de ele ter ido embora. - Lento, mas seguro.

Marion olhou fixamente para o espaço. Afinal o que é que Indy tinha que a afetava tanto? Não era propriamente um amante meigo, se é que poderia chamá-lo amante. Entrava e saía repentinamente da sua vida como um feijão saltador. Afinal o que era? "Há mistérios que não se pode desvendar", pensou. "Há alguns que nem sequer queremos desvendar.”

Indy viu os garanhões presos a postes num lugar situado entre a pista abandonada e as escavações; dois deles, um árabe branco e um preto, protegidos do Sol por uma lona verde. Tendo deixado Marion e Sallah, correu na direção dos garanhões, na esperança de que ainda estivessem lá. Estavam. É o meu dia de sorte", pensou ele.

Aproximou-se deles cautelosamente. Há anos que não montava e perguntou a si mesmo se andar a cavalo, como andar de bicicleta, era uma coisa que nunca se esquecia depois de se ter aprendido. Ele assim esperava. O garanhão preto, resfolegando, batendo na areia com os cascos, empinou quando ele se aproximou; o cavalo branco, por outro lado, olhou-o com uma expressão dócil. Saltou para a garupa do branco, puxou a crina, e sentiu-o arquear um pouco, movendo-se depois na direção do puxão. "Vai", pensou ele, e levou o cavalo para fora do abrigo de lona, cravando-lhe os calcanhares nos flancos.

Fez com que o cavalo andasse a galope, obrigando-o a atravessar as dunas, a descer barrancos, a subir declives.

Movia-se lindamente, respondendo aos seus gestos sem protestar. Tinha que apanhar o comboio nas estradas montanhosas em algum lugar antes de chegar ao Cairo. Depois disso, que aconteceria?

Teria que haver muita espontaneidade.

E a excitação da perseguição seria imensa.

O comboio avançava penosamente através da estrada estreita e montanhosa que subia cada vez mais, através de curvas muito pronunciadas que davam para desfiladeiros cuja profundidade causava vertigens. Indy, montado no garanhão, viu-o afastar-se; subia penosamente a alguma distância abaixo dele.

E os homens nos caminhões, que mais pareciam zumbis de uniforme, ainda empunhavam espingardas, e era preciso respeitar, com grande precaução, qualquer homem armado.

Sobretudo se era componente de um pequeno exército e ele - com mais intrepidez que bom senso - seguia sozinho num cavalo árabe. Estimulou o corcel a descer uma ladeira, uma ladeira de vegetação rasteira, xisto e terra solta, e os cascos provocavam pequenas avalanches. Depois atingiu a estrada estreita, ficando perto do último carro do estado maior; uma vez mais com esperança de que não o vissem. "Poucas probabilidades", pensou. Obrigou o cavalo a avançar precisamente no momento em que um atirador no carro da retaguarda abriu fogo, crivando a superfície mole da estrada de balas que fizeram com que o cavalo partisse. As balas bateram nas vertentes da montanha fazendo eco. Forçou mais o cavalo, quase rebentando o animal, e depois passava pelo carro do estado-maior, vendo os rostos de surpresa dos alemães que nele seguiam. O atirador rodou a metralhadora e esta disparou ininterruptamente, deu coices, ficando sem munição enquanto abria fogo ao acaso para atingir o homem a cavalo. Toht, sentado ao lado do motorista, sacou uma pistola, mas Indy já estava protegido do carro do estado-maior pelo caminhão, seguindo encostado a ele. O alemão disparou mesmo assim a pistola. As balas atravessaram a lona do caminhão.

"Aproveita agora", pensou Indy. Saltou do animal, rodopiou no ar, agarrou a parte lateral do caminhão e abriu a porta quando o guarda armado que seguia ao lado do condutor tentou erguer a espingarda. Indy lutou com ele para lhe arrancar a espingarda, torcendo-a enquanto o guarda resmungava devido ao esforço de um combate em que não tinha o privilégio de se servir da arma. Indy torceu com força; subitamente ouviu o ruído repugnante de um pulso que se partia, o grito de dor do homem, e em seguida Indy empurrou o guarda do caminhão e este caiu na estrada.

"Agora o motorista." Indy lutou com ele, um homem possante com dentes de ouro, enquanto o volante girava e o caminhão ia na direção do precipício. Indy colocou a mão ao volante, endireitando o caminhão, e o motorista atingiu-o em cheio e com força no rosto.

Indy ficou aturdido por instantes. O motorista tentava frear. Indy afastou o pé com um pontapé. E então envolveram-se de novo numa luta enquanto o volante rodava descontrolado e o caminhão guinava. No carro do estado-maior, que seguia atrás, Grobler teve de virar o volante para desviar do caminhão - um movimento tão forte e tão brusco que o atirador foi projetado do carro e atirado para um rochedo. Caiu como uma pipa com pesos de chumbo, braços esticados e o cabelo ondulando com o vento, e o som do seu grito ecoou na ravina.

No primeiro carro do estado-maior, Belloq virou-se para ver o que se passava. "Jones", pensou. "Tinha de ser Jones, ainda tentava apoderar-se da Arca. O prêmio nunca será seu, amigo.", pensou. Olhou Dietrich e em seguida olhou para trás mais uma vez, mas a luz do sol não deixava ver o interior da cabine do caminhão que ia atrás.

- Creio que existe um problema - disse Belloq distraidamente.

O carro atingiu um pico, fez uma curva apertada, bateu na fraca proteção e amassou-a. O condutor conseguiu endireitar o carro, enquanto o guarda armado, sentado na retaguarda do carro, apontava a metralhadora, e testou-a na janela da cabine.

Belloq deteve-o.

- Se disparar, pode matar o motorista. Se matar o motorista, é muito provável que o premiozinho egípcio do Führer de vocês seja atirado pela borda fora. O que ele lhes diria em Berlim?

Parecendo preocupado, Dietrich conseguiu acenar com a cabeça de um modo severo.

- É mais uma das habilidades do seu amigo americano, Belloq?

- Não compreendo o que pretende alcançar numa situação de desvantagem como esta - respondeu Belloq. - Mas também me assusta.

- Se acontecer alguma coisa à Arca... - Dieterich não completou a frase, mas parecia passar um dedo indicador, como uma lâmina, na laringe.

- Não acontecerá nada à Arca - disse Belloq.

Indy apertava o pescoço do motorista e o caminhão ficou mais uma vez descontrolado, rodando na direção da proteção partida, batendo em cheio, levantando uma nuvem de pó antes de Indy agarrar volante e afastar o caminhão do perigo. No carro do estado-maior que seguia na retaguarda, o pó cegou Gobler e Toht - Toht, que ainda empunhava a arma, mas em vão.

Gobler, com a garganta cheia de poeira, tossiu. Tentou tirar o pó dos olhos, pestanejando: Mas pestanejou tarde demais. A última coisa que viu foi a proteção partida, a última coisa que ouviu foi o grito terrível, inesperado, de Toht. O carro do estado-maior, arrastado inexoravelmente para a beira do desfiladeiro como um ferro atraído por um ímã, transpôs a proteção e caiu no espaço, parecendo pairar um segundo antes de cair, sem parar, explodindo irrompendo em chamas quando descia aos saltos pela encosta do desfiladeiro.

"Diabo", pensou Indy. "Sempre que agarro o motorista, o caminhão quase nos levava a uma morte certa. E o indivíduo é forte.”

Pelo canto do olho, Indy percebeu outra coisa. Lançou um olhar ao espelho lateral - trepavam soldados pelos lados do caminhão, mantendo-se firmes devido ao medo e à determinação, tentando alcançar a cabine. Numa súbita explosão de energia, Indy afastou o motorista com um empurrão, abriu a porta do lado do volante e atirou-o para fora da cabine com um pontapé. O homem caiu envolto em pó e aos gritos, esbracejando.

"Lamento", pensou Indy.

Agarrou volante e apertou o acelerador, aproximando-se do carro da frente. Depois, subitamente, tudo ficou escuro, era um pequeno túnel aberto na vertente da montanha. Fez oscilar o caminhão de um lado para o outro, raspando nas paredes, ouvindo os gritos dos soldados enquanto eram esmagados contra as paredes, enquanto largavam os lados do caminhão. Indy perguntou a si mesmo quantos soldados ainda estariam na retaguarda do caminhão. Era impossível contar. Já fora do túnel, de novo em plena luz do dia, intensa, dirigiu o caminhão na direção do carro do Estado-maior, batendo nele, e viu o rosto do guarda armado quando este olhou para cima - apontava para o forro do caminhão.

"Estragou tudo", pensou Indy. "Se há mais soldados em cima do caminhão, aquele cara acabou de estragar o plano. Melhor ileso que arrependido.", Disse para os seus botões, apertando subitamente os freios, bloqueando as rodas, obrigando o caminhão a parar. Viu os dois soldados sendo projetados da cobertura do caminhão de encontro à base da montanha.

Já desciam a estrada íngreme na montanha. Indy pôs o pé no acelerador, pressionando o carro do estado-maior, batendo nele. "uma sensação agradável", pensou, "saber que não se arriscarão a me matar por causa da carga preciosa". Deleitou-se com a súbita sensação de liberdade, batendo várias vezes no pára-choques posterior do carro, vendo Belloq e os amigos alemães a serem abalados, sacudidos. Mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que ultrapassá-los.

Atirou uma vez mais o caminhão, batendo no carro do estado- maior. A estrada começava a ficar plana à medida que se descia pelos pontos mais elevados da montanha; ao longe, fraca mas delineada, viu a neblina que cobria a cidade. A parte perigosa, a parte pior; se não corriam nenhum perigo de vê-lo mergulhar juntamente com o caminhão e a carga num desfiladeiro, então iriam certamente tentar matá-lo, ou pelo menos atirá-lo para fora da cabine. Como se fosse impelido pelo pensamento, uma forma de telepatia traiçoeira, o guarda armado abriu fogo. As balas da metralhadora estilhaçaram o vidro, rasgaram a lona, cravaram-se na parte principal do caminhão. Indy ouviu-as passar ao lado, silvando, mas desviou-se, instintivamente. Era preciso ultrapassar. A estrada ainda tinha muitas curvas, mesmo em frente havia uma muito apertada. "Se segura", disse para si mesmo. "Se segura para conseguir." Acelerou o caminhão o mais que pôde e fez com que o veículo passasse o carro do estado-maior, ouvindo outro silvo de balas. Nesse momento, chocou com o carro e viu este sair da estrada, descendo um pequeno talude.

Concluída uma fase. Mas sabia que voltariam à estrada e voltariam a persegui-lo. Olhou pelo espelho lateral; já não havia dúvida. Subiam de novo a rampa, derrapando, endireitando o carro, seguindo no seu encalço. Carregou a fundo no acelerador.

"Dê-me tudo o que tem para dar", pensou. E pouco depois estava nos arredores da cidade, seguido de perto pelo carro do estado-maior. Ruas de cidade: um jogo diferente.

Ruas estreitas. Atravessou-as a grande velocidade, atirando ao ar animais e pessoas, derrubando bancas, cestos, frutas, comerciantes e vendedores, espalhando pedintes que se atravessavam no seu caminho. Os peões corriam para as soleiras enquanto o caminhão passava; depois percorreu ruas e becos mais estreitos, procurando a praça onde Omar tinha a garagem, lembrando a geografia do Cairo. Um pedinte cego subitamente capaz de ver - um milagre - apareceu de repente, atirando ao chão a taça das esmolas e levantando os óculos escuros para olhar para o caminhão.

Forçou mais o caminhão. O carro do estado-maior ainda avançava.

Deu uma guinada no volante. Outra viela. À passagem do caminhão, saltaram macacos, um homem caiu de uma escada, um bebê nos braços da mãe começou a gritar. "Desculpem", pensou Indy. "Ficaria e pediria desculpa pessoalmente, mas não acho que seja conveniente." Entretanto não tinha conseguido livrar-se ainda do carro do estado-maior.

Encontrou a praça. Viu a tabuleta da garagem de Omar, com a porta escancarada, e conduziu rapidamente o caminhão para lá. A porta foi trancada imediatamente quando parou. Em seguida vários rapazes árabes com vassouras e escovas começaram a limpar as marcas do veículo enquanto Indy, perguntando a si mesmo se conseguira livrar-se, ficou encostado ao volante na escuridão da garagem.

O carro do estado-maior abrandou, atravessou a praça e continuou a sua marcha, com Belloq e Dietrich examinando as ruas com expressões de angústia e derrota.

Na retaguarda do caminhão, a salvo da grade, a Arca começou a fazer um ruído surdo quase inaudível. Era como se dentro dela, fechada e segura, um mecanismo tivesse começado espontaneamente a funcionar. Ninguém ouviu o som.

Já estava escuro quando Sallah e Marion chegaram à garagem.

Indy adormecera por instantes numa rede que Omar lhe dera, acordando sozinho e esfomeado no silêncio e na escuridão. Esfregou os olhos quando acenderam uma lâmpada suspensa no teto. Marion lavara e escovara o cabelo em algum lugar e "estava com um aspecto assombroso", pensou Indy. Estava perto dele quando abriu os olhos.

- Parece muito machucado - disse ela.

- Uns golpes superficiais - respondeu ele, sentando-se, gemendo, sentindo dores no corpo.

Mas nesse instante Sallah entrou no compartimento e Indy pôs de lado o cansaço e as dores.

- Arranjamos um barco - disse Sallah.

- De confiança?

- Os homens são piratas, se posso usar essa expressão. Mas pode confiar neles. O capitão, Katanga, é um homem honesto... independentemente dos seus negócios mais duvidosos.

- Leva a nós e à carga?

Sallah acenou com a cabeça.

- Por um preço.

- Que mais? - Indy, com grande esforço, levantou-se.

- Vamos levar o caminhão para o porto.

Lançou um olhar a Marion, depois disse:

- Tenho um pressentimento de que o nosso dia ainda não terminou.

No edifício ornamentado que albergava a Embaixada da Alemanha no Cairo, Dietrich e Belloq sentaram-se numa sala que costumava ser utilizada pelo embaixador, um diplomata de carreira que sobrevivera às expurgações de Hitler e que, de bom grado, tinha cedido a sala para os seus fins. Já estavam sentados em silêncio há algum tempo, Belloq olhando para o retrato de Hitler e Dietrich fumando com impaciência cigarros egípcios.

O telefone tocava de vez em quando, Dietrich atendia, voltava a colocá-lo no lugar, depois abanava a cabeça na direção de Belloq.

- Se perdemos a Arca... - Dietrich acendeu outro cigarro.

Belloq levantou-se, deu uma volta pela sala, acenou com uma mão, com indiferença.

- Eu não aceito essa possibilidade, Dietrich. Que aconteceu à sua maravilhosa rede de espiões egípcios? Por que não conseguem encontrar aquilo que os seus homens perderam?

- Encontrarão. Estou esperançoso.

- Esperança. Quem me dera ter alguma.

Dietrich fechou os olhos. Estava cansado da mordacidade de Belloq; e ainda mais receoso de regressar a Berlim de mãos vazias.

- Não posso conceber tamanha incompetência - disse Belloq. - Como é que um homem, agindo sozinho... sozinho, não se esqueça... destrói praticamente um comboio inteiro e desaparece? Estupidez. Custa-me crer.

- Já ouvi isso - disse Dietrich, irritado.

Belloq aproximou-se da janela e olhou para a escuridão.

Em algum lugar, escondido na noite impenetrável do Cairo, estava Jones; e Jones tinha a Arca. Maldito."Não podia perder a Arca"; até a perspectiva o arrepiou, provocou uma sensação de algo que se afundava dentro dele.

O telefone tocou outra vez. Dietrich atendeu, escutou e em seguida o seu estado de espírito mudou. Quando desligou olhou para o francês com uma expressão vaga de vingança no rosto.

- Eu disse-lhe que a minha rede descobriria alguma coisa.

- Descobriram?

- Segundo um vigia nas docas, um egípcio chamado Sallah, o amigo de Jones, fretou um navio a vapor de mercadorias com o nome Bantu Wind.

- Pode ser um ardil - disse Belloq.

- Pode ser. Mas vale a pena averiguar.

- Também não temos mais nada - retorquiu Belloq.

- Vamos então?

Deixaram às pressas a Embaixada, chegando às docas apenas para descobrirem que o navio de carga partira há uma hora. O destino era desconhecido.

 

MEDITERRÂNEO

Na cabine do capitão do Bantu Wind, Indy despiu-se até a cintura e Marion tratou-lhe os diversos golpes e ferimentos com ataduras e um frasco de iodo. Olhou fixamente para ela enquanto trabalhava, reparando no vestido que trazia. Era branco, com gola alta, um pouco extravagante. Achou-o atraente.

- Afinal onde arranjou isso? - perguntou ele.

- Há um guarda-roupa completo no armário - ela respondeu. - Tenho a impressão de que não sou a primeira mulher a viajar com estes piratas.

- Gosto dele - disse ele.

- Sinto-me como uma... uma virgem.

- Creio que te pareces com uma.

Olhou para ele durante algum tempo, pondo iodo num ferimento.

Depois disse:

- A virgindade é uma coisa elusiva, querido. Quando deixa de existir já não há remédio. Pagou bem a tua conta.

Deixou de tratá-lo, encheu um copo pequeno com rum que estava numa garrafa. Bebeu-o lentamente, observando-o ao mesmo tempo, parecendo zombar dele por cima da borda do copo.

- Alguma vez pedi desculpa por colocar fogo na tua taberna? - perguntou ele.

- Não posso dizer se sim. Alguma vez te agradeci por me teres tirado daquele avião em chamas?

Ele abanou a cabeça.

- Estamos quites. Talvez devêssemos pôr uma pedra sobre o passado, que diz?

Ficou calada por muito tempo.

- Onde sente dores? - perguntou com ternura.

- Em todo o corpo.

Marion beijou suavemente o ombro esquerdo.

- Aqui?

Indy deu um pequeno salto em resposta.

- Sim, aí.

Marion curvou-se, aproximando-se dele.

- Onde não tens dores? - E beijou-lhe o cotovelo. - Aqui?

Ele acenou com a cabeça. Beijou-lhe a cabeça. Depois ele apontou para o pescoço e ela beijou-o. Depois a ponta do nariz, os olhos. Depois tocou nos seus próprios lábios e ela beijou-o, com a boca devorando suavemente a dele.

Estava diferente; mudou. Já não era o toque violento que sentiu no Nepal.

Alguma coisa a tocara, a tornara mais meiga.

Gostaria de saber o que tinha sido.

Admirou-se com a mudança.

A Arca, protegida com a grade, estava no porão do navio. A sua presença agitava os ratos do navio: corriam para trás e para a frente, atordoadadamente, tremendo, com os bigodes abanando. Ainda baixo como um sussurro, o mesmo som fraco, sussurrante saiu da grade. Somente os ratos com a audição muito sensível captaram o som; e isso obviamente assustou-os.

Na ponte, quando a primeira luz da aurora brilhou no oceano, o capitão fumava o cachimbo e observava a superfície da água como se tentasse distinguir alguma coisa que seria invisível para pessoas confinadas à terra. Deixou que o sol e os salpicos de sal lhe batessem no rosto, listas de sal que deixavam traços de branco cristalino na pele negra. Havia alguma coisa, qualquer coisa que emergia da escuridão, mas não sabia ao certo o que era. Semicerrou os olhos, olhou fixamente, não viu nada. Escutou o chocalhar, um pouco reconfortante, dos motores cansados do navio e pensou num coração fraco tentando irrigar sangue num corpo debilitado.

Pensou por instantes em Indy e na mulher. Simpatizava com os dois, e além disso eram amigos de Sallah.

Mas havia alguma coisa na carga, qualquer coisa na grade que o preocupava. Não sabia o que era; apenas sabia que ficaria contente de se livrar dela quando chegasse a hora. Era a mesma preocupação que sentia enquanto o olhar perscrutava o oceano. Uma palpitação vaga. Algo em que não podia pôr o dedo.

Mas havia algo semelhante lá, algo que se movia.

Percebeu mesmo antes de conseguir ver.

Sentia o cheiro, com a mesma certeza com que sentia os salpicos salgados no ar, o odor inconfundível do perigo.

Continuou observando, com o corpo na posição de alguém que está prestes a saltar de uma prancha de saltos muito alta: Alguém que não sabe nadar.

Quando Indy acordou, ficou olhando para Marion durante algum tempo. Ainda dormia, ainda tinha o ar virginal com o vestido branco. Tinha o rosto virado para o lado, e a boca um pouco aberta. Passou os dedos nas ataduras onde a pele começava a ficar irritada. Sallah tivera o bom senso de ir buscar a roupa, assim vestiu a camisa, verificou se o chicote estava bem seguro nas costas, em seguida colocou o casaco de couro e entreteve-se com a aba do chapéu velho de feltro.

"Um chapéu da sorte", pensou ele algumas vezes. Sem ele teria se sentido despido.

Marion mexeu-se e abriu os olhos.

- Que vista agradável - disse ela.

- Não me sinto agradável - ele respondeu.

Ela olhou para as ataduras e perguntou:

- Por que se mete sempre em confusão?

Sentou-se, alisando o cabelo, olhando para a cabine.

- Fico contente por ver que mudou de roupa. Receio que não convencesse ninguém de que era árabe.

- Fiz o melhor que pude.

Ela bocejou, espreguiçou-se e levantou-se da rede.

Pareceu-lhe que havia algo de encantador no movimento, uma qualidade que o tocava - que o tocava obliquamente, indiretamente. Pegou-lhe a mão, beijou-a, depois deu uma volta pela cabine.

- Quanto tempo vamos estar no mar? - perguntou ela.

- É uma pergunta direta ou metafórica?

- Entende como quiser, Jones.

Ele sorriu-lhe.

E então compreendeu que aconteceu alguma coisa: enquanto esteve tão ocupado fazendo introspecção, os motores do navio tinham parado e o veleiro já não se movia.

Levantou-se e correu para a porta, dirigindo-se rapidamente para o convés e de lá para a ponte, onde Katanga olhava fixamente para o oceano. O cachimbo do capitão estava apagado, o rosto com um ar solene.

- Parece que tem amigos importantes, Mr. Jones - disse o homem.

Indy arregalou os olhos. Ao princípio não percebeu nada. Mas depois, seguindo a direção da mão do capitão, viu que o Bantu Wind, como uma solteirona cortejada por um grupo de pretendentes, indesejados e insaciáveis, estava cercado por uma dúzia de submarinos Wolf alemães.

- Diacho! - exclamou ele.

- É também o que eu penso - disse Katanga. - Você e a moça têm de desaparecer rapidamente. Temos um lugar no porão onde podem se esconder. Mas tem de ser depressa. Vá buscá-la!

Era tarde demais: os dois homens viram cinco jangadas com grupos armados de abordagem a cercando o navio a vapor. Os primeiros nazis já subiam pelas escadas de corda que tinham sido baixadas. Ele virou-se, correu. Marion estava em primeiro lugar naquele momento. Primeiro tinha que ir buscá-la. Tarde demais - o ar estava cheio do som de botas, palavras, ordens em alemão. À sua frente viu Marion sendo arrastada para fora da cabine por dois soldados. Os outros soldados, fazendo rapidamente a abordagem, cercaram a tripulação no convés, com as armas apontadas. Indy desapareceu nas sombras, esgueirando-se por uma porta para o labirinto do navio.

Antes de desaparecer, com o pensamento tentando encontrar desesperadamente uma saída, ouviu Marion rogando pragas aos atacantes; e, apesar da situação, achou graça do seu jeito.

"Uma excelente mulher", pensou ele, e impossível de se dominar por completo. Gostava dela por isso. Gostava muito dela".

Dietrich subiu a bordo, seguido por Belloq. O capitão já havia feito sinal à tripulação para não oferecer resistência. Era evidente que os homens queriam lutar, mas estavam em desvantagem.

Por isso alinharam-se com uma expressão taciturna sob as armas alemãs enquanto Belloq e Dietrich passavam revista, dando ordens em voz alta, mandando os soldados esquadrinhar o navio até encontrarem a Arca.

Marion viu Belloq aproximar-se dela. Sentiu quase as mesmas vibrações, mas daquela vez estava decidida a combatê-las, decidida a não ceder a qualquer sensação que o homem pudesse provocar nela.

- Minha cara - disse Belloq -, tem que me presentear com a história... sem dúvida épica... de como conseguiram sair do Poço. Porém, isso pode esperar.

Marion não disse nada. Não havia nenhum final à vista para aquela seqüência de acontecimentos? Aparentemente Indy tinha um talento maravilhoso para semear a destruição maciça.

Observou Belloq, que lhe tocou ao de leve por baixo do queixo. Ela afastou o rosto. Ele sorriu.

- Mais tarde - disse ele, encaminhando-se para o lugar onde se encontrava Katanga.

Preparava-se para dizer alguma coisa quando um som lhe chamou a atenção e virou-se, vendo um grupo de soldados a içar a Arca do porão. Refreou a impaciência que sentiu. O mundo, com todos os seus detalhes mundanos, sempre controlava a sua ambição. Mas isso acabaria muito em breve. Lentamente, relutantemente, desviou os olhos da grade quando Dietrich ordenou que a colocassem num dos submarinos.

Ele olhou para Katanga.

- Onde está Jones?

- Morreu.

- Morreu? - disse Belloq.

- Para que nos servia ele? O atiramos borda fora. A moça tem mais valor no tipo de mercado a que eu me dedico. Um homem como Jones não tem qualquer valor para mim. Se era a carga dele que queriam, apenas lhes peço que a levem e nos deixem a moça. Reduzirá o prejuízo desta viagem.

- Está me deixando impaciente - disse Belloq. - Espera que eu acredite que Jones morreu?

- Acredite naquilo que quiser. Só peço que nos deixem partir em paz.

Dietrich já havia se aproximado.

- Não está em posição de pedir seja o que for, Capitão. Decidiremos aquilo que quisermos e depois pensaremos na possibilidade de fazer ir pelos ares este barco antigo.

- A moça vai comigo - disse Belloq.

Dietrich abanou a cabeça.

Belloq prosseguiu:

- Considere-a como parte da minha compensação. Tenho a certeza de que o Führer aprovaria. Uma vez que recuperamos a Arca, Dietrich.

Dietrich parecia hesitante.

- Claro, se ela deixar de me agradar, por mim pode atirá-la aos tubarões.

- Muito bem - disse Dietrich. Notou, por instantes, uma expressão de dúvida no rosto de Belloq, depois fez sinal para que levassem Marion para o submarino.

Indy observava do seu esconderijo num ventilador, com o corpo encolhido e desconfortável. As botas batiam violentamente no convés, muito perto do seu rosto - mas não foi descoberto. A mentira de Katanga pareceu-lhe fraca, um gesto desesperado mas bondoso. Mas resultara. Espiou, perscrutando o convés, pensando. Tinha que seguir no submarino, tinha de ir com Marion, com a Arca. Como? Como?

132 133

Belloq observava o capitão com muita atenção.

- Como posso saber se o que diz a respeito de Jones é verdade?

Katanga encolheu os ombros.

- Eu não minto. - Olhou o francês; não gostava nada dele.

Sentiu pena de Indy por ter um inimigo como Belloq.

- Os seus homens encontraram-no a bordo? - perguntou o marinheiro.

Bello pensou; Dietrich abanou a cabeça.

O alemão disse:

- Vamos partir. Temos a Arca. Vivo ou morto, Jones já não tem importância.

O rosto e o corpo de Belloq ficaram tensos por instantes; depois pareceu descontrair-se, seguindo Dietrich ao longo do convés do navio de carga.

Indy ouviu as jangadas afastando-se do Bantu Wind. Em seguida agiu rapidamente, saindo do esconderijo e correndo no convés.

A bordo do submarino, Belloq entrou na sala de comunicações.

Colocou os auscultadores, pegou no microfone e murmurou um sinal de chamada. Passado algum tempo ouviu uma voz entrecortada por ruídos. O sotaque era alemão.

- Capitão Mohler, daqui fala Belloq.

A voz era muito fraca. Distante.

- Preparou-se tudo de acordo com o seu último comunicado, - disse Belloq, - ótimo. - Belloq tirou os auscultadores. Em seguida saiu da sala de comunicações, dirigindo-se para a cabine da frente, onde estava presa a mulher. Entrou no compartimento. Ela estava sentada num beliche, com uma expressão sombria. Não levantou os olhos quando se aproximou dela. Estendeu a mão, tocou-lhe ao de leve por baixo do queixo, levantou-lhe o rosto.

- Tem uns lindos olhos - disse ele. - Não os devia esconder.

Ela virou a cara para o lado.

Ele sorriu.

- Pensei que podíamos continuar o assunto que não terminamos.

Ela levantou-se do beliche, atravessou o quarto.

- Não temos nenhum assunto por concluir.

- Creio que temos. - Estendeu a mão e tentou segurar-lhe as mãos; ela soltou o braço. - Resiste? Por que não resistiu antes, minha cara? A que se deve a mudança de atitude?

- A situação é um pouco diferente - respondeu ela.

Observou-a em silêncio durante algum tempo. Depois disse:

- Sente alguma coisa por Jones? É isso?

Ela desviou o olhar, olhando para o quarto com uma expressão vaga.

- Pobre Jones - disse Belloq. - Receio que esteja destinado a perder sempre.

- O que é que isso significa?

Belloq encaminhou-se para a porta. Ao sair, virou-se para trás.

- Nem sequer sabe, minha cara, se ele está vivo ou morto.

Em seguida fechou a porta e passou ao corredor estreito.

Passaram por ele vários marinheiros. Atrás deles seguia Dietrich, cujo rosto estava irado, sombrio. Belloq sentiu prazer ao ver aquela expressão; com a raiva, Dietrich parecia ridículo, como um mestre-escola furioso sem poder castigar um aluno rebelde.

- Talvez não fosse mau explicar-se, Belloq.

- Que há para explicar?

Dietrich parecia debater-se com o desejo de agredir o francês.

- Deu ordens específicas ao capitão desta embarcação para se dirigir a uma determinada base de abastecimento... numa ilha situada ao largo da costa africana. Percebi que regressaríamos ao Cairo e depois seguiríamos para Berlim com a Arca no primeiro avião disponível. Por que tomou a liberdade de alterar o plano, Belloq? Sentiu-se de repente um almirante da marinha alemã? É isso? As suas ilusões de grandeza chegaram a esse ponto?

- Ilusões de grandeza? - disse Belloq, ainda divertido com Dietrich. - Não me parece, Dietrich. Na minha opinião deveríamos abrir a Arca antes de a levarmos para Berlim. Se sentiria bem, meu amigo, se o Führer de vocês descobrisse que a Arca estava vazia? Não quer ter a certeza de que a arca contém relíquias sagradas antes de regressarmos à Alemanha? Tento imaginar o terrível desapontamento no rosto de Adolf se vir que não há nada na Arca.

Dietrich olhou o francês; a raiva desapareceu, foi substituída por uma expressão de dúvida, incredulidade.

- Não confio em você, Belloq. Nunca confiei em você.

- Obrigado.

Dietrich fez uma pausa antes de continuar.

- Acho estranho que queira abrir a Arca numa ilha distante em vez de seguir o caminho mais conveniente... nomeadamente o Cairo. Por que não pode examinar a sua abençoada caixa no Egito, Belloq?

- Não seria conveniente - respondeu Belloq.

- Pode explicar isso?

- Podia... mas receio que não compreendesse.

Dietrich ficou furioso; sentiu que a sua autoridade fora uma vez mais destruída - mas o francês tinha o Führer como aliado.

Que podia fazer em face daquele fato?

Ele virou-se rapidamente e afastou-se. Belloq o viu retirar-se. O francês não se mexeu durante muito tempo. Sentiu imediatamente uma profunda sensação de antecipação, pensando na ilha. A Arca podia ter sido aberta praticamente em qualquer lugar - nesse ponto Dietrich tinha razão. "Mas seria apropriado", pensou Belloq, que se abrisse na ilha. Deveria ser aberta num lugar cuja atmosfera estivesse carregada do passado distante, um lugar com alguma importância histórica.

"Sim", pensou Belloq. O ambiente devia estar de harmonia com o momento. Tinha de haver uma correspondência entre a Arca e o ambiente. Nada mais serviria.

Dirigiu-se para a pequena cabine de abastecimento onde se encontrava a grade.

Olhou para ela por instantes, com o espírito vazio. "Que segredos? O que pode me revelar?”

Estendeu a mão e tocou na grade. Imaginou ter sentido uma vibração na caixa? Imaginou ter ouvido um som fraco? Fechou os olhos, com a mão ainda pousada na superfície de madeira. Um momento de terrível pavor: viu um enorme vazio, uma escuridão sublime, uma fronteira que transporia até um lugar além da linguagem e do tempo. Abriu os olhos; tinha uma sensação de formigamento nas pontas dos dedos.

"Em breve", disse para si mesmo.

"Em breve.”

O mar estava frio, redemoinhando à sua volta em pequenos vértices provocados pelos movimentos do submarino. Indy pendurou-se à amurada, com os músculos doendo, o chicote molhado contraindo-se na água e agarrando-se cada vez mais ao corpo.

"Podia morrer afogado", pensou, e tentou recordar se morrer afogado era uma boa maneira de morrer. Talvez fosse melhor que ficar pendurado na amurada de um submarino que podia mergulhar repentinamente a grande profundidade. A qualquer momento, também. Gostaria de saber se os heróis tinham direito a pensão.

Içou-se, puxando o corpo para o convés. Depois lembrou-se de uma coisa.

O chapéu. O chapéu desapareceu.

"Não seja supersticioso agora. Não tem tempo para chorar o desaparecimento de um chapéu da sorte.”

O submarino começou a submergir. Perceptivelmente, mergulhava como um gigantesco peixe metálico. Atravessou o convés correndo já com água pela cintura. Alcançou a torre de comando, em seguida começou a subir a escada. No topo olhou para baixo; o submarino continuava submergindo.

A água agitava-se violentamente, fazendo redemoinhos de espuma em direção a ele. A torre estava sendo coberta pela água que subia, e depois recolheram também o mastro do rádio.

Dirigiu-se ao periscópio, abrindo caminho na água.

Agarrou-se a ele enquanto a embarcação continuava submergindo.

Se ele submergisse totalmente então estaria perdido. O periscópio começou a descer também. Descia, descia enquanto ele se agarrava. "Por favor", pensou, "por favor não desça mais. Isto é o que acontece quando alguém tenta ir a reboque num submarino alemão. não se pode contar com o antigo tratamento da passadeira vermelha, não é?”

Gelado, tiritando, manteve-se agarrado ao periscópio; e, a certa altura, como se uma divindade misericordiosa do oceano tivesse escutado as suas preces silenciosas, a embarcação interrompeu o mergulho. À esquerda, apenas ficaram noventa e um centímetros do periscópio fora d'água. Abençoados noventa e um centímetros. Noventa e um centímetros eram tudo o que precisava para sobreviver. "Não mergulhe mais", pensou. Então percebeu que estava falando em voz alta e não pensando.

"Em outras circunstâncias poderia ser divertido - tentar manter uma conversa racional com várias toneladas de metal alemão de boa qualidade. Metal alemão. Estou louco. É isso. E tudo isto não passa de uma alucinação. Uma loucura náutica".

Indy pegou o chicote e prendeu-se ao periscópio, esperando que se adormecesse não acordaria para se ver no fundo escuro do oceano, ou pior - transformado em alimento para os peixes.

O frio infiltrava-se no corpo. Tentou parar os dentes que batiam. E o chicote, pesado da água, cortava-lhe a pele.

Esforçou-se por se manter desperto, preparado para qualquer eventualidade - mas o cansaço já fazia sentir o seu peso e o sono parecia a perspectiva mais prometedora.

Fechou os olhos. Tentou pensar em alguma coisa, em qualquer coisa que o impedisse de adormecer - mas era difícil. Gostaria de saber para onde se dirigia o submarino. Cantou, mentalmente, pequenas canções. Tentou lembrar-se de todos os números de telefone que sabia. Pensou numa moça chamada Rita com quem chegou quase a cantar: onde estaria naquela hora? "Uma bela fuga", pensou.

Mas sentia-se exausto e os pensamentos andavam em círculo, sem objetivo.

E adormeceu, apesar do frio, apesar do desconforto.

Deixou-se levar por um sono sem sonhos e profundo.

Quando acordou já era dia e não sabia ao certo quanto tempo dormiu, se passou um dia. Já não sentia o corpo: um entorpecimento total. E a pele estava enrugada da água, as pontas dos dedos macias e encarquilhadas. Ajustou o chicote e olhou ao redor. Em frente havia uma porção de terra, uma ilha, uma zona subtropical- "Alcione", pensou. Olhou fixamente para a folhagem rica. Verde, maravilhosa, carregada e calmante. O submarino aproximou-se da ilha, entrando naquilo que parecia ser uma gruta. Lá dentro, os alemães tinham construído uma base de abastecimento completa, subterrânea, e um abrigo para submarinos. E havia mais nazis uniformizados naquela doca do que se poderia encontrar numa das extravagâncias de Hitler em Nuremberga.

Como poderia passar despercebido?

Libertou-se rapidamente do chicote e deslizou para dentro da água. Imergiu, percebendo que deixara o chicote preso ao periscópio. O chicote e o chapéu: era sem dúvida um dia para despedidas tristes de objetos de estimação.

Nadou em direção à ilha, tentando permanecer debaixo d'água o mais que podia. Viu o submarino subir enquanto se dirigia para a doca. Em seguida alcançou a praia, cambaleando, satisfeito por voltar a sentir terra firme, apesar de ser a terra de um paraíso nazi. Caminhou através da areia até um ponto elevado onde tinha uma boa vista da doca. A grade foi içada do interior do submarino, sob a supervisão de Belloq, que parecia viver na expectativa e ansiedade que alguém deixasse cair a sua preciosa relíquia. Girava em volta da grade como um cirurgião em volta de um doente à beira da morte.

E depois viu Marion, rodeada por um grupo de idiotas de uniforme que a faziam avançar.

Sentou-se na areia, escondido no meio de juncos que cresciam na beira das dunas.

"Inspiração", pensou ele. "é disso que preciso agora.", Numa boa dose.

 

UMA ILHA NO MEDITERRÂNEO

Era quase noite quando Belloq se encontrou com Mohler. Não estava muito satisfeito com a idéia de Dietrich participar da conversa. O desgraçado iria certamente fazer perguntas, e a sua impaciência já começava a enervar Belloq, como se fosse contagiosa.

O capitão Mohler disse:

- Tudo foi preparado de acordo com as suas ordens, Belloq.

- Não descuidaram de nada?

- Nada.

- Então a Arca deve ser levada agora para aquele lugar.

Mohler olhou por instantes para Dietrich. Depois virou-se e começou a fiscalizar um grupo de soldados enquanto colocavam a grade num jipe.

Dietrich, que estivera calado, ficou irritado.

- O que ele quer dizer? De que preparativos está falando?

- Isso não lhe diz respeito, Dietrich.

- Tudo o que se relaciona com esta maldita Arca me diz respeito.

- Vou abrir a Arca - disse Belloq. - No entanto, há certas... condições prévias relacionadas com a ação.

- Condições prévias? Tais como?

- Não creio que se deva preocupar, meu amigo. Não quero ser um dos responsáveis pela sobrecarga do seu cérebro já cansado.

- Pode me poupar do sarcasmo, Belloq. Às vezes me parece que se esquece de quem manda aqui.

Belloq olhou fixamente para a grade durante algum tempo.

-Tem de compreender... não se trata apenas da abertura de uma caixa, Dietrich. Existe um certo ritual. Não estamos propriamente lidando com uma caixa de granadas de mão, como deve entender. Não é uma tarefa comum.

- Que ritual?

- Verá no devido tempo, Dietrich. Entretanto, não precisa se alarmar.

- Se acontecer alguma coisa à Arca, Belloq, alguma coisa, eu mesmo puxarei a corda no cadafalso. Entende o que estou dizendo?

Belloq acenou com a cabeça.

- A sua preocupação com a Arca é comovente. Mas não precisa se preocupar. Ficará em segurança e será entregue em Berlim, e o Führer de vocês pode acrescentar outra relíquia à sua bela coleção. Certo?

- Espero que seja tão bom nos atos quanto nas palavras.

- Serei. Serei.

Belloq olhou para a grade que continha a Arca antes de olhar para a selva do outro lado da zona das docas. Era lá que a Arca seria aberta.

- A moça - disse Dietrich. - Também detesto situações dúbias. Que faremos com a moça?

- Creio que posso deixar isso por sua conta - disse Belloq.

- Para mim não tem qualquer importância.

"Nada tem", pensou ele, "agora nada tem importância a não ser a Arca. Por que se deu ao trabalho de nutrir qualquer tipo de sentimento pela moça? Por que se incomodou, ainda que vagamente, em protegê-la? Os sentimentos humanos eram inúteis em comparação com a Arca. Toda a experiência humana se transformou em nada. Que importava se ficaria viva ou morreria?", Sentiu a mesma sensação agradável de antecipação que havia sentido antes: era difícil, muito difícil, desviar os olhos da grade. Estava na parte de trás de um jipe, magnetizando-o. "Conhecerei os seus segredos", pensou ele.

"Conhecerei todos os seus segredos.”

Indy contornou as árvores que ladeavam a zona das docas.

Viu Marion, acompanhada por escoltas nazis, entrar num jipe.

Em seguida o jipe arrancou e penetrou na selva. Belloq e o alemão subiram em outro jipe e, seguindo de perto o veículo que transportava a Arca, seguiram na mesma direção de Marion.

"Para onde vão?", interrogou-se Andy. Começou a caminhar silenciosamente entre as árvores.

O alemão apareceu-lhe à frente, uma materialização que se ergueu ameaçadoramente. Colocou a mão no coldre, mas antes que pudesse tirar a pistola Indy apanhou um ramo de uma árvore, um pau de madeira apodrecida, e atingiu-o em cheio na garganta. O alemão, um jovem, botou as mãos na laringe como se estivesse surpreendido, e começou a sair sangue pela boca. Os olhos reviraram, depois caiu de joelhos. Indy bateu-lhe pela segunda vez na cabeça e ele tombou. "Que fazer com um nazi inconsciente?", interrogou-se.

Olhou o homem durante algum tempo antes de ter uma idéia.

"Por que não? Mas por que não?”

O jipe que transportava Belloq e Dietrich atravessou lentamente um desfiladeiro.

Dietrich disse:

- Estou descontente com este ritual.

"Ficará ainda mais descontente muito em breve", pensou Belloq. "O aparato daquilo que chama de ritual com tanta superficialidade dará um nó no seu cérebro de madeira, meu amigo.”

- É essencial?

- É - respondeu Belloq.

Dietrich limitou-se a olhar para a grade no jipe que seguia à frente.

- Talvez o console pensar que amanhã a Arca estará nas mãos do Führer de vocês.

Dietrich suspirou.

O francês era louco, estava convencido disso. Em algum lugar ao longo do caminho a Arca deformou o discernimento que poderia ter tido. Se via nos olhos dele, ouvia-se no modo como omitia algumas sílabas quando falava nos últimos dias, e sentia-se nos gestos estranhamente nervosos que fazia constantemente.

Dietrich só ficaria satisfeito quando regressasse a Berlim com a missão cumprida.

O jipe entrou numa clareira, uma clareira repleta de tendas e abrigos camuflados, barracas, veículos, antenas de rádio; uma grande estrutura, soldados que corriam de um lado para o outro. Dietrich examinou com orgulho o entreposto, mas Belloq estava alheio a tudo. O francês olhava para uma elevação de pedra no outro lado - um pináculo com cerca de noventa e um metros e uma laje no topo. Nos lados do talude alguma tribo antiga, alguma espécie extinta, esculpiu degraus toscos.

Parecia um altar - e foi aquele fato que trouxe Belloq ali. Um altar, uma disposição natural da rocha que poderia ter sido destinada por Deus para a abertura daquela Arca.

Não conseguiu falar durante algum tempo. Olhou fixamente para o rochedo até o capitão Mohler se aproximar e lhe tocar no ombro.

- Deseja preparar-se agora? - perguntou o alemão.

Belloq acenou com a cabeça. Seguiu o alemão até uma tenda.

Pensava na tribo extinta que cortou aqueles degraus, que deixou ali as suas relíquias espalhadas, na forma de estátuas partidas que sugeriam divindades esquecidas, por toda a ilha.

As conotações religiosas do lugar eram precisas: a Arca encontrou um lugar que estava em harmonia com o seu próprio esplendor.

Não havia dúvida: nenhum lugar seria melhor.

- A tenda de seda branca - disse Belloq. Tocou no tecido macio.

- Como pediu - disse Mohler.

- Ótimo, ótimo. - E Belloq entrou. Uma caixa estava no meio do chão. Levantou a tampa e espiou. A túnica cerimonial tinha um bordado primoroso. Maravilhado, inclinou-se para tocar. Em seguida olhou para o alemão.

- Seguiu à risca as minhas ordens. Estou satisfeito.

O alemão tinha algo na mão: um bastão de marfim com cerca de um metro e meio de comprimento. Passou-o a Belloq, que tocou com os dedos nas incrustações da peça.

- Perfeito - disse Belloq. - A Arca tem de ser aberta, segundo os ritos sagrados, com um bastão de marfim. E aquele que abrir a Arca deve envergar esta túnica. Saiu-se muito bem.

O alemão sorriu.

- Não se esqueça do nosso pacto.

- Prometo - retorquiu Belloq. - Quando regressar a Berlim falarei pessoalmente com o Führer a seu respeito nos termos mais elogiosos.

- Obrigado.

- Eu é que lhe agradeço - disse Belloq.

O alemão examinou a túnica por instantes.

- Sugere um certo sionismo, não sugere?

- Deveria sugerir, meu amigo. É judia.

- Vai ficar muito popular por aqui com essa vestimenta.

- Não estou interessado num concurso de popularidade, Mohler.

Mohler ficou vendo enquanto Belloq vestia a túnica pela cabeça, viu quando o brocado ornamentado cobriu o corpo dele.

Era uma transformação total: o homem começou a ficar até com um ar santo. "Bem", pensou Mohler, "serve a todos os tipos. Além disso, mesmo que Belloq estivesse louco, Belloq ainda tinha acesso a Hitler, e isso é que importava.”

- Está escuro lá fora? - perguntou Belloq. Sentia-se estranho, distante de si mesmo, como se a identidade tivesse começado a desintegrar-se e ele se tivesse tornado um estranho num corpo que era apenas vagamente familiar.

- Dentro em breve - retorquiu o alemão.

- Temos de começar ao pôr do Sol. É importante.

- Levaram a Arca para a laje, como queria, Belloq.

- Ótimo. - Tocou na túnica, nos bordados em relevo do tecido. Belloq: até o nome lhe parecia estranho. Era como se algo espiritual, imaterial tivesse começado a consumi-lo.

Flutuava fora de si mesmo - uma percepção que tinha não só a intensidade mas também a imprecisão da reação a um narcótico.

Pegou o bastão de marfim e saiu da tenda.

Em praticamente todo o lado, os soldados alemães interromperam as atividades e viraram-se para olhar para ele.

Sentiu vagamente as vibrações de repulsa, a animosidade provocada pela túnica. Mas, uma vez mais, essa impressão atingiu-o de longe. Dietrich caminhava ao lado dele, calado. E Belloq teve que se concentrar para compreender.

- Um ritual judeu? Está doido, homem?

Belloq não disse nada. Encaminhou-se para a base dos degraus antigos; o sol era uma explosão de cor enquanto declinava, ao longe, tocando em tudo com uma paleta estonteante de laranjas, vermelhos e amarelos.

Dirigiu-se para o primeiro degrau, lançando um olhar aos soldados alemães que o rodeavam. Tinham sido instalados holofotes, que iluminavam as escadas, a Arca. Belloq teve certeza, assim que olhou para ela, de que ouviu um murmúrio. E tinha quase certeza de que ela começou a emitir uma espécie de luz. Mas então algo aconteceu, algo o distraiu, o trouxe de novo à terra; um movimento, uma sombra, não sabia o que era ao certo. Virou-se e viu um dos soldados comportar-se de um modo estranho, movendo-se com as costas arqueadas. Trazia o capacete torto, como se procurasse esconder o rosto. Mas não foi apenas aquilo que distraiu Belloq, foi uma estranha sensação de familiaridade.

"O quê? Como?" Olhou fixamente - percebendo que o soldado segurava a custo um lança-granadas, que não tinha visto ao princípio com a luz fraca. Mas aquela sensação estranha, aquela inquietação - o que significava? Teve um pensamento sombrio. Uma escuridão que foi iluminada apenas quando o soldado tirou o capacete e apontou o lança-granadas para a Arca - a Arca, que havia sido retirada da grade e parecia vulnerável sobre a laje.

- Alto - gritou Indy. - Se alguém se mexer faço voltar aquela caixa para ao pó de Moisés.

- Jones, a sua persistência me surpreende. Vai dar má reputação aos mercenários - disse Belloq.

Dietrich interrompeu.

- Dr. Jones, certamente não pensa que pode fugir desta ilha.

- Isso depende, se estivermos dispostos a ser razoáveis. Só quero a moça. Ficaremos em posse da Arca até termos um transporte seguro para a Inglaterra. Depois é toda de vocês.

- Se recusarmos? - Dietrich quis saber.

- Então a Arca e alguns de nós iremos pelos ares. E não me parece que Hitler gostaria disso.

Indy começou a caminhar na direção de Marion, que tentava libertar-se.

- Fica bem com um uniforme alemão, Jones - disse Belloq.

- Você também fica muito bem com essa túnica.

Mas nesse momento alguém se mexeu, aproximando-se de Indy pela retaguarda. E, mesmo quando a moça começou a gritar para o avisar, Belloq reconheceu Mohler. O capitão atirou-se a Indy, arrancando-lhe a arma da mão e derrubando-o. Jones - "um homem corajoso", pensou Belloq, "uma coragem sem limites", - atacou o soldado com o punho, em seguida cravou o joelho na virilha de Mohler. O capitão gemeu e rolou, mas Indy já estava cercado por soldados, e embora os combatesse, embora caísse, dando pontapés no meio de capacetes e botas de montar, estava em desvantagem. Belloq abanou a cabeça e forçou um sorriso.

Olhou para Indy, que estava sendo preso por soldados.

- Uma excelente tentativa, Jones. Um bom esforço.

E nesse momento Dietrich passava pelo meio dos soldados.

- Uma loucura, uma verdadeira loucura - disse ele. - Não posso acreditar na sua imprudência.

- Estou tentando acabar com ela - replicou Indy. Lutou com os soldados que o seguravam: em vão.

- Tenho a cura para isso - disse Dietrich. Tirou a pistola do coldre, sorrindo.

Indy olhou para a arma, depois lançou um olhar a Marion, que tinha os olhos fechados e soluçava.

Dietrich levantou a pistola, fez pontaria.

- Espere!

A voz de Belloq soou ameaçadora, terrível, e o rosto tinha uma expressão perversa à luz intensa dos holofotes. A arma na mão de Dietrich foi baixada.

Belloq disse:

- Há anos que este homem me irrita, coronel Dietrich. Às vezes, admito, divertiu-me. E, embora eu gostaria de assistir à sua morte, gostaria que ele sofresse uma última derrota.

Deixe-o viver até abrir a Arca. Deixe-o viver até esse momento. Sejam quais forem os tesouros que a Arca encerre, lhe serão negados.

O conteúdo não será visto por ele. A idéia me agrada. É um prêmio com que sonhou durante anos... e agora não se aproximará mais dele. Depois de eu abrir a Arca, pode livrar-se dele. Por agora, sugiro que o prenda ao lado da moça. - E Belloq soltou uma gargalhada, uma gargalhada surda que ecoou na escuridão.

Indy foi arrastado até a estátua e amarrado, ombro a ombro com Marion.

- Tenho medo, Indy - disse ela.

- Nunca houve um momento melhor para se sentir medo.

A Arca começou a fazer um ruído surdo e Indy virou-se para ver Belloq subindo os degraus que iam dar no altar.

Exasperava-o pensar nas mãos de Belloq sobre a Arca, em Belloq a abrindo-a. O prêmio. E ele não o veria. Passava-se uma vida inteira com a ambição de atingir um objetivo, e depois, quando se encontrava, quando estava frente a frente - só restava o sabor amargo da derrota. Como podia ver o francês louco, vestido como um rabino da Idade Média, subir os degraus até a Arca?

Como podia evitar olhar?

- Creio que vamos morrer, Indy - disse Marion. - A menos que encontre uma saída.

Indy, quase sem a ouvir, não disse nada: alguma coisa acontecia, algo que começava a vir-lhe ao pensamento - o murmúrio, baixo e constante, que parecia sair da Arca. Como era possível? Olhou Belloq enquanto o vulto de túnica subia para a laje.

- Então como saímos desta? - perguntou Marion outra vez.

- Só Deus sabe.

- É algum jogo de palavras? - ela disse.

- Talvez.

- É o momento errado para piadas de mau gosto, Jones. - Virou-se para ele; havia círculos de fadiga por baixo dos olhos dela. - Mesmo assim amo você por isso.

- Ama?

- Se amo? Claro.

- Acho que é recíproco - disse Indy, um pouco surpreendido com ele próprio.

- Também está um pouco confuso - disse Marion.

- Veremos.

Belloq, recordando as palavras de um antigo cântico hebraico, palavras que recordara do pergaminho que tinha a gravura do florão, começou a cantar num tom baixo, monótono.

Cantou enquanto subia os degraus, ouvindo o som da Arca acompanhando a sua voz, um murmúrio. Aumentava de intensidade, ressoante, enchendo a escuridão. O poder da Arca, o forte poder da Arca. Movia-se no sangue de Belloq, estonteante, exigindo que o compreendessem. O poder. O conhecimento. Parou quase no último degrau, ainda cantando mas incapaz de ouvir a sua própria voz. O murmúrio aumentava, cortando a noite, enchendo todos os silêncios. Depois subiu mais, atingiu o topo, olhou fixamente para a Arca. Apesar do pó de séculos, apesar do abandono, era a coisa mais bela que Belloq já tinha visto.

E brilhava, brilhava, fraca a princípio mas depois com mais intensidade, enquanto olhava para ela. Estava maravilhado, contemplando os anjos, o ouro cintilante, o brilho interior. O ruído, também, soava dentro dele, abalava-o e surpreendia-o.

Sentiu-se começando a vibrar, como se o tremor pudesse desintegrá-lo e lançá-lo no espaço. Mas não havia espaço, não havia tempo: o seu ser era definido pela Arca, delineado por aquela relíquia da comunicação do homem com Deus.

"Fala comigo".

"Conta o que sabe, diz quais são os segredos da existência".

A sua própria voz parecia sair já de todas as partes do corpo, pela boca, pelos poros, pelas células sanguíneas. E ele levantava-se, flutuando, distinto do mundo rígido da lógica que o rodeava, desafiando as leis do universo. "Fala comigo. Me diz". Ergueu o bastão de marfim, colocando-o debaixo da tampa, em seguida tentou levantar a todo o custo a tampa. O murmúrio já era mais forte, consumindo tudo. Não ouviu explodir os holofotes em baixo, as saraivadas de vidro partido que caíam como diamantes sem valor na escuridão. O murmúrio - "a voz de Deus", pensou ele. "Fala comigo. Fala comigo". E então, quando manejava o bastão, sentiu-se subitamente vazio, como se não tivesse existido até aquele momento, como se todas as recordações tivessem sido apagadas, vazio e estranhamente calmo, experimentando uma sensação de harmonia com a noite que o cercava, ligado ao universo por toda a espécie de elos. Ligado ao cosmo, a toda a matéria que flutuava, se expandia e se contraía nos estuários mais longínquos do espaço, às estrelas que explodiam, aos planetas que giravam, e até à escuridão incognoscível do infinito. Deixou de existir. Quem quer que Belloq tivesse sido, deixou de ser. Já não era nada: existia apenas como o som que saía da Arca. O som de Deus.

- Ele vai abri-la - disse Indy.

- O barulho - disse Marion. - Quem me dera poder tapar os ouvidos. Que ruído é aquele?

- A Arca.

- A Arca?

Indy pensava numa coisa, numa recordação eclipsada, numa coisa que andava solta no seu espírito. O quê? Que era? Algo que ouviu recentemente. O quê? A Arca. Algo relacionado com a Arca. O quê, o quê, o quê?

"A Arca, a Arca... tenta lembrar!”

Sobre a laje, no topo dos degraus toscos, Belloq tentava levantar a tampa. Explodiam lâmpadas projetando violentamente vidro estilhaçado. Mesmo a lua, já visível no céu da noite, parecia uma esfera prestes a entrar em erupção e a desintegrar-se. A noite, a noite inteira, era como uma enorme bomba presa à ponta de um pavio curto - "um pavio aceso", pensou Indy. "O que é? O que tento lembrar?”

A tampa cedia.

Belloq, suando, transpirando com a túnica pesada, serviu-se do bastão de marfim enquanto entoava o cântico que era abafado pelo ruído da Arca. O momento. O momento da verdade. A revelação. As misteriosas redes do divino. Gemeu e levantou a tampa. Esta abriu-se imediatamente e a luz que saiu do interior cegou-o. Mas ele não recuou, não se afastou, não se mexeu. A luz hipnotizou-o com a mesma intensidade com que o som o mesmerizou. Não podia se mover. Os músculos ficaram presos. O corpo deixou de funcionar. A tampa.

Foi a última coisa que viu.

Porque os foguetões, que saíam da Arca com sons estridentes, as colunas de chamas, que iluminaram a escuridão, as labaredas de fogo que rasgaram os céus, encheram então a noite. Um círculo branco de luz fez um anel cintilante à volta da ilha, uma luz que fez brilhar o oceano e provocou correntes de água, obrigando uma vaga a erguer-se na escuridão. A luz, era luz do primeiro dia do universo, a luz do início, das coisas recém-nascidas, era a luz que Deus criou: a luz da criação. E penetrou em Belloq com o brilho ofuscante de um diamante inconcebível, uma luz além das limitações dolorosas de qualquer pedra preciosa. Cravou-se no coração, despedaçou-se.

E era mais que uma luz - era uma arma, uma força, que trespassou Belloq e o iluminou com a intensidade de um bilhão de velas: estava branco, cor de laranja, azul, atacado pela eletricidade que jorrava da Arca.

E ele sorriu.

Sorriu porque, por um instante, ele foi o poder. O poder absorveu-o. Não havia diferença entre o homem e a força.

Depois, esse momento dissipou-se. Então os seus olhos desintegraram-se nas órbitas, deixando buracos pretos, sem vista, e a pele começou a desprender-se do osso, enrolando-se como se tivesse sido atacada subitamente por lepra, apodrecida, queimada, cauterizada, escurecida. E mesmo assim continuava sorrindo. Sorriu mesmo quando começou a mudar de uma coisa humana para outra tocada por Deus, tocada pela raiva de Deus, uma coisa que se transformou, silenciosamente, numa camada de pó.

Quando as luzes começaram a iluminar a escuridão, quando o céu se enchia com a força da Arca, Indy fechara involuntariamente os olhos - cego pela energia. E então, instantaneamente, lembrou-se daquilo que lhe escapara, da noite que passara na casa de Imam: "Aqueles que abrirem a Arca e libertarem a sua força morrerão se olharem para ela..." E abafado pelo barulho, envolto pelas colunas brancas, ofuscantes que tinham extinguido as estrelas, gritou a Marion:

- Não olhe! Não abra os olhos!

Ela havia virado para não ver o primeiro clarão, a erupção de fogo, e depois, apesar de aquilo que ele disse tê-la confundido, fechou os olhos com esforço. E, no entanto, queria olhar. Ainda se sentia atraída pelo gigantesco fogo celestial, pela louca destruição da noite.

- Não olhe - repetia ele enquanto ela se sentia desfalecer.

Repetia constantemente. Gritava.

A noite, como um dínamo, murmurava, gemia, bramia; as luzes que cauterizavam a noite pareciam uivar.

- Não olhe, não olhe, não olhe!

A torre erguida de chamas devastou tudo. Pairou no céu como a sombra de uma divindade, uma sombra ardendo e movendo-se, composta não de escuridão mas de luz, luz imaculada. Pairou lá, bela e monstruosa, e cegava aqueles que a olhavam.

Arrancou os olhos dos rostos dos soldados. Transformou os homens em esqueletos de uniforme, cobrindo o chão de ossos, as marcas pretas de queimaduras, cobrindo tudo de restos humanos.

Queimou a ilha, abateu árvores, virou barcos, esmagou a própria doca. Mudou tudo. Fogo e luz. Destruiu como se fosse uma ira que talvez nunca fosse aplacada.

Partiu a estátua à qual tinham amarrado Indy e Marion: a estátua esboroou-se até deixar de existir. E depois a tampa da Arca baixou-se com um estrondo sobre a laje e a noite voltou a ficar escura e o oceano silencioso. Indy esperou muito tempo até abrir os olhos.

A Arca cintilava lá no alto.

Brilhava com uma intensidade que sugeria um silêncio de satisfação; e de aviso, um aviso cheio de ameaça.

Indy olhou Marion.

Ela olhava à sua volta, atônita, olhando para aquilo que a Arca provocara. Destruição, escombros, morte. Abriu a boca, mas não falou.

Não havia nada para dizer.

Nada.

A terra à volta deles não foi queimada. Estava intacta.

Levantou o rosto na direção da Arca.

Procurou muito lentamente a mão de Indy e agarrou-a com força.

 

WASHINGTON, D. C.

O sol entrava pelas janelas do gabinete do coronel Musgrove.

Lá fora, do outro lado de um relvado basto, havia uma linha de cerejeiras, e o céu da manhã estava claro, com um azul-pálido.

Musgrove estava sentado à escrivaninha. Eaton estava numa cadeira ao lado da escrivaninha. Estava lá um outro homem, um homem encostado à parede e que não disse uma palavra; tinha a animosidade sinistra de um burocrata. "Bem podia ter um carimbo de borracha", pensou Indy. Funcionário Público Poderoso em letras grossas e pretas na testa.”

- Agradecemos o seu serviço - disse Musgrove. - E o reembolso... achamos que seja satisfatório?

Indy acenou com a cabeça e olhou primeiro para Marion, depois para Marcus Brody.

Brody disse:

- Ainda não entendo por que é que o museu não pode ficar com a Arca.

- Está num lugar muito seguro - respondeu Eaton evasivamente.

- É uma força poderosa - disse-lhe Indy. - Tem que ser compreendida. Analisada. Como sabe, não é nenhuma brincadeira.

Musgrove acenou com a cabeça.

- Temos os nossos peritos examinando-a neste exato momento.

- Diga os nomes deles - disse Indy.

- Não posso por razões de segurança.

- A Arca estava destinada ao museu. Concordou com isso.

Agora vem com essa conversa de peritos. Ali o Brody... é um dos melhores neste campo. Por que não lhe dão a oportunidade de trabalhar com os seus peritos?

- Indy - disse Brody. - Não toque mais nesse assunto. Esqueça.

- Nem pensar - replicou Indy. - Para começar, este caso custou-me o meu chapéu favorito.

- Garanto-lhe, Jones, que a Arca está bem protegida. E o seu poder... se podemos aceitar a sua classificação... será analisado no devido tempo.

- Devido tempo - repetiu Indy. - Me faz lembrar as cartas que recebo dos meus advogados.

- Olhe - disse Brody, parecendo tenso -, só queremos a Arca para o museu. Também queremos algumas garantias de que não será danificada enquanto estiver em poder de vocês...

- Já as têm - replicou Eaton. - Quanto à ida da Arca para o museu, receio que tenhamos de rever a nossa posição.

Silêncio. Um relógio fez tique-taque. O burocrata sem rosto brincou com os botões do punho.

Indy disse calmamente, finalmente:

- Não sabem o que estão investigando, não é?

Ele levantou-se e ajudou Marion a sair da cadeira.

- Entraremos em contato, claro - disse Eaton. - Foi uma gentileza da sua parte ter vindo. Os seus serviços são apreciados.

Já ao sol quente, Marion pegou o braço de Indy. Brody caminhava ao lado deles arrastando os pés. Marion disse:

- Bem, não nos dirão nada, por isso talvez fosse melhor esquecer a Arca e tocar a vida para a frente, Indy.

Indy lançou um olhar a Brody. Sabia que foi espoliado de uma coisa que deveria ser dele.

Brody disse:

- Creio que devem ter bons motivos para não se desfazerem da Arca. Porém é um profundo desapontamento.

Marion parou, levantou a perna e coçou o calcanhar por instantes. Disse a Indy:

- Pensa em outra coisa para variar.

- Em quê?

- Nisso - respondeu ela, e beijou-o.

- Não é a Arca - disse ele e sorriu. - Mas terá que servir.

A grade de madeira tinha uma inscrição do lado:

UlTRA-SECRETO, SERVIÇOS SECRETOS DO EXÉRCITO, 9906753, NÃO ABRIR. Estava colocada num carrinho, que o guarda do armazém empurrava. Mal prestou atenção à grade. O seu mundo estava cheio de grades como aquela, todas com marcas sem significado.

Números, números, códigos secretos. Tornara-se imune àqueles hieróglifos. Ansiava apenas pela verificação semanal. Estava velho, corcovado, e poucas coisas na vida o absorviam. não era certamente nenhuma daquelas grades. Havia centenas que enchiam o armazém e não sentia curiosidade por nenhuma. Parecia que ninguém sentia. Tanto quanto sabia ninguém se dera ao trabalho de abrir qualquer uma delas. Eram empilhadas até irem do chão ao teto. Grades e grades, centenas e centenas de grades.

Juntando poeira, ficando cobertas de teias de aranha. O homem empurrou o carro e suspirou. Agora que diferença fazia mais uma grade? Descobriu um espaço para esta, colocou-a no lugar, depois parou e colocou um dedo no ouvido, agitando violentamente o dedo. "Diabo", pensou ele. "Tenho de ir ao médico por causa dos ouvidos.”

Estava convencido de que ouviu um som baixo, um murmúrio.

 

                                                                                            Campbell Black

 

 

                      

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