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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS CADÁVERES DE CALLANDER SQUARE / Anne Perry
OS CADÁVERES DE CALLANDER SQUARE / Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Em cadáveres do Callander Square, segunda novela da série do inspetor Pitt, este e Charlotte Ellison formam um casal, tanto na vida como nas investigações policiais. O novo caso do Pitt se inicia com o achado de dois recém-nascidos enterrados em uma elegante praça londrina.

Pitt se choca com o rechaço da distinta vizinhança, resistente a arejar seus escuros segredos ante um simples policia, e é Charlotte quem, aproveitando sua aristocrática origem, deve procurar sob a carapaça de respeitabilidade das classes altas.

 

 

 

 

Soprava uma suave brisa outonal e no ar flutuava uma ligeira bruma. A grama do Callander Square, salpicada de amarelo pelas folhas caídas, reluzia sob a luz crepuscular. No pequeno jardim do centro do lugar dois homens providos de pás observavam uma fossa não muito profunda. O mais alto dos dois se inclinou e afundou as mãos na terra úmida. Extraiu cuidadosamente o objeto que procurava, um osso pequeno e ensangüentado.

Seu companheiro suspirou ostensivamente.

—Que diabos acha que é isto? Muito grande para ser de um pássaro.

—Será de um animal doméstico - replicou o primeiro-. Alguém deve ter enterrado seu cão ou algo parecido.

O homem de menor estatura negou com a cabeça.

—Não deveriam fazer coisas assim. - O homem lançou um olhar depreciativo às pálidas fachadas de estilo georgiano que se erigiam com severa elegância além das tílias e das translúcidas folhas de abeto. - Se tiverem que enterrar animais, que utilizem seus próprios jardins. Deveriam ter mais consideração.

—Certamente era um cão pequeno - comentou o homem mais alto, fazendo virar o osso entre seus dedos-. Ou possivelmente um gato.

—Um gato? Vamos, homem! Os cavalheiros não têm gatos e as damas não vão escavando pelos jardins. Essas senhoritas pensam que as pás mordem.

—Deve ter sido um criado. Certamente um cozinheiro.

—Um criado tampouco deveria fazer estas coisas - disse o outro, negando com a cabeça para dar maior ênfase a suas palavras-. gosta dos animais. Um mascote que emprestou seus serviços na casa como Deus manda deve ser enterrado mais dignamente. Não em um lugar ao que pode vir alguém e desenterrar o animal por acidente, como aconteceu agora.

—Talvez não lhes ocorresse pensar que alguém poderia escavar aqui. Faz anos que não plantávamos nada novo nesta parte. Tampouco o teríamos feito agora se não nos tivessem dado este arbusto.

—Possivelmente deveríamos plantá-lo em algum outro lugar. Um pouco mais à esquerda, por exemplo. Deixemos que o pobre animalzinho descanse em paz. Não temos direito a perturbar a morte de ninguém, nem sequer a de um animal como este. Talvez alguém cuidasse dele. Com certeza que deixava bem limpo de ratos a cozinha de alguma casa.

—Mas não podemos plantá-lo à esquerda, sou estúpido! Mataríamos as flores!

—Ouça, cuide de sua língua! Então ponha mais à direita.

—Não posso. Esse maldito rododendro se está fazendo enorme, o condenado! Terá que pô-lo aqui.

—Então ponha o gato debaixo do rododendro. Desenterra-o de tudo e já me ocuparei eu de enterrá-lo outra vez.

—Muito bem.

O homem colocou a pá no lugar onde achou que poderia tirar o corpo inteiro e se apoiou nela com todo seu peso. A terra se levantou com facilidade, junto com marga e folhas mofadas, caindo a um lado em um só torrão. Os dois homens ficaram atônitos.

—Santo céu! -exclamou o primeiro jardineiro, deixando cair à pá de suas mãos-. Que Deus nos proteja!

—O que... o que... demônios é isso?

—Não é um gato. Acredito... acredito que é um bebê.

—Pelo amor de Deus! O que fazemos agora?

—Será melhor que avisemos à polícia.

—Sim, vamos.

O primeiro jardineiro deixou a pá no chão pouco a pouco, com cuidado, como se de algum modo tivesse ainda importância.

—Vai você? -inquiriu o outro, olhando-o fixamente.

—Não. Eu ficarei aqui. Vá você e volta com um policial. E se apresse! Logo se fará de noite.

—Bem, já vou!

O homem não vacilou nem um instante mais, visivelmente aliviado por ter um encargo concreto que levar a cabo, um encargo que ia afastá-lo daquela fossa e da pequena massa ensangüentada que tinha visto na pá de seu companheiro.

O agente de polícia era um homem jovem e estava há pouco tempo na ronda.

As longas avenidas de moda ainda lhe impunham respeito, com suas formosas carruagens, seus pares de lacaios em libré e seus exércitos de criados. Inclusive se sentia bastante coibido quando tinha que falar com aqueles severos mordomos, irascíveis cozinheiros e amáveis criadas. Sentia que os engraxates, as criadas e as aprendizes de criada eram mais próximos a sua classe.

Quando viu a fossa no chão e o achado dos jardineiros, soube em seguida que o caso lhe era grande e, com um sentimento simultâneo de horror e alívio, disse-lhes que esperassem onde estavam, sem tocar nada, e correu toda à pressa que lhe permitiram seus pés à delegacia de polícia para informar do assunto ao inspetor.

Irrompeu no escritório, preso da maior excitação.

—Inspetor Pitt! Aconteceu algo terrível, senhor, algo verdadeiramente espantoso!

Pitt estava de pé junto à janela. Era um homem alto de nariz grande e aquilino e de expressão divertida. Até certo ponto podia considerar um homem bem vulgar e bastante desalinhado, mas havia inteligência e sagacidade em seu rosto. Arqueou as sobrancelhas ante a irrupção precipitada do agente e, com a formosa voz que o caracterizava, perguntou:

—Que tipo de coisa espantosa, McBeat?

O agente ainda ofegava; sua falta de fôlego lhe impedia de pronunciar uma frase coerente.

—Um cadáver... senhor! No Callander Square. Algo lamentável, senhor... Seriamente. Acabam de encontrá-lo-os jardineiros... Desenterraram-no. No próprio centro, ao plantar uma árvore, ou algo...

O rosto do Pitt expressou surpresa.

—No Callander Square? Tem certeza? Não se confunde outra vez?

—Sim, senhor. Não, senhor, bem no meio. Callander Square, senhor. Tenho certeza. Será melhor que venha e o veja com seus próprios olhos.

—Enterrado? -Pitt estremeceu-. Que classe de cadáver?

—Um bebê, senhor. -McBeat fechou os olhos e de repente pareceu sentir-se indisposto-. Um bebê muito pequeno, senhor; um recém-nascido, acredito.

Lembra minha irmã pequena quando nasceu.

Pitt exalou ar lentamente, em uma espécie de velado suspiro.

—Sargento Batey! -chamou.

Abriu-se a porta e apareceu um homem uniformizado na soleira.

—Senhor?

—Chame uma ambulância e ao doutor Stillwell e logo vá ao Callander Square.

—Atacaram a alguém, senhor? -Seu rosto se iluminou.

—Não. Ao que parece se trata de uma tragédia doméstica.

—Uma tragédia doméstica? -McBeat ergueu a voz, escandalizado-. É um assassinato!

Batey lhe olhou com surpresa.

—Provavelmente não - disse Pitt-. Possivelmente se trata de uma pobre criada seduzida que preferiu dar a luz sozinha, perdendo ao menino durante o parto. Certamente enterraria o cadáver e não o diria a ninguém. Guardaria-se a pena para si para não acabar de quatro na rua, sem emprego e sem forças para conseguir um novo. Só Deus sabe quantas vezes aconteceu algo assim.

McBeat estava pálido e gasto.

—Você acha, senhor?

—Pois sim - respondeu Pitt, dirigindo-se para a porta-. E não será a última vez. Será melhor que vamos ali.

Para Pitt levou a última meia hora de luz diurna dar uma olhada ao corpinho e escavar entre os torrões de terra em busca de algo que ajudasse a identificar ao pequeno. Então achou o segundo corpinho, disforme e frio.

Deixou que a ambulância e o médico os levassem e enviou ao trêmulo e pálido McBeat de volta a sua casa. Ordenou a Batey e seus homens que fizessem guarda no parque.

Não havia nada mais que fazer essa noite até que o forense lhe proporcionasse certa informação: a idade das criaturas, o tempo aproximado que estavam mortas e, na medida do possível, o que podia ter acontecido ao segundo cadáver, enterrado em maior profundidade, para lhe ocasionar essa deformidade no crânio.

Teria sido muito otimista esperar que, além disso, o doutor soubesse lhe dizer as possíveis causa de sua morte.

Pitt chegou a sua casa quando já tinha escurecido por completo e com a fina e persistente umidade da névoa. As luzes de gás eram reconfortantes, proporcionando calor não só ao corpo, mas também à mente e sentimentos.

Entrou na casa com uma intensa sensação de gozo que quase dois anos de matrimônio não tinham sido capazes de suavizar. Na primavera de 1881 lhe tinham chamado para resolver o espantoso caso do estrangulador do Cater Street, o assassino em série de mulheres jovens que estrangulava na escuridão das ruelas. Em tão lamentáveis circunstâncias tinha conhecido Charlotte Ellison. É claro, naquela época lhe tratava com essa classe de frieza respeitável que uma mulher bem educada sempre empregaria ao tratar com um policial, cujo escalão social apenas se equiparava ao de um mordomo medianamente bom.

Mas Charlotte era uma mulher de incrível honestidade, não só com outros, o que sempre provocava mal-entendidos, mas também com ela mesma. Soube reconhecer o amor que sentia por ele e achar a coragem de desafiar as convenções e aceitá-lo em matrimônio.

Eram pobres em comparação às comodidades de que dispunha em casa de seus pais, mas com certa ingenuidade e com sua habitual energia tinha sabido prescindir da maioria de pequenos símbolos de status sem os quais seus antigos amigos teriam sentido-se nus. Nas contadas ocasiões em que se sentia um pouco doída por tantas renúncias brincava dizendo que para ela era um prazer ver-se livre de simulações. E talvez em parte o dissesse seriamente.

Nesse momento Charlotte saía do pequeno salão de sua casa, equipado com poucos, mas bem polidos móveis, e sempre decorado com flores frescas de outono arrumadas em um vaso de cristal.

Levava o vestido que havia trazido consigo ao casar-se, de cor vinho, agora um pouco passado de moda, mas seu rosto resplandecia e o abajur fazia reluzir os reflexos cor mogno de seu cabelo.

Ao vê-la, Pitt sentiu uma repentina alegria, quase excitação, e se aproximou dela para estreitá-la entre os braços e beijá-la.

Ao cabo de um instante olhou nos seus olhos.

—O que se passou? -perguntou-lhe, com um matiz de ansiedade na voz.

Na repentina calidez de seu encontro com ela, Pitt tinha conseguido esquecer Callander Square. Agora, entretanto, a lembrança foi a ele. Mas não ia contar mesmo se certamente, depois do Cater Street, ficavam muito poucos horrores aos que ela não fosse capaz de enfrentar, mas não queria preocupá-la com um particularmente desagradável.

Os dois corpinhos, se se tratasse de um crime ou de uma simples tragédia, disparariam sua imaginação e a fariam compadecer-se de toda a dor, solidão e medo da mãe, dos pensamentos terríveis que teriam assaltado à desventurada.

—O que aconteceu? -repetiu ela.

Pitt lhe passou o braço pelos ombros e a levou de novo ao salão, embora em uma casa tão pequena "saguão" tivesse sido um qualificativo mais realista.

—Um caso no Callander Square - respondeu ele-. Provavelmente se trate de algo tedioso e sem importância. O que temos para jantar? Estou faminto.

Charlotte não insistiu mais, e Pitt passou uma noite repousada e cálida junto ao fogo, contemplando o belo rosto de sua esposa, concentradamente inclinado sobre seu trabalho, uma roupa que tinha sido usada longamente e que tratava de renovar. Nos seguintes anos haveria cada vez mais cerzidos e costuras e mais comidas sem carne; e, quando nascessem os filhos, muitas roupas usadas que deveria remendar; mas o que Charlotte tinha agora entre mãos não parecia nada mais que um grato trabalho de costura. Pitt se surpreendeu a si mesmo esboçando um amplo sorriso.

Pela manhã todo foi diferente. Pitt se levantou cedo, à hora em que a névoa de outubro ainda se aderia às folhas úmidas e ainda não soprava o vento. Foi em primeiro lugar à delegacia de polícia para ver se o doutor Stillwell tinha algo que lhe informar.

O severo rosto do Stillwell mostrava uma expressão ainda mais abatida do que o habitual. Dedicou ao Pitt um olhar azedo, contribuindo só com sua presença uma lembrança imediata da morte e tragédia humana.

A sensação de calidez e conforto que ainda embargava ao Pitt desapareceram como por encanto.

—Bem? -perguntou.

-O primeiro bastante normal, na medida em que posso afirmá-lo - respondeu Stillwell com calma-. O que não é muito, dado que esta pobre criatura deve estar morta há uns seis meses. Não posso lhe dizer se nasceu morta ou se morreu um ou dois dias depois do parto. Seu estômago está vazio. -Ao dizê-lo o médico suspirou-. Nem sequer posso lhe dizer se morreu de morte natural ou se foi assassinado. Pôde morrer asfixiado, o que não teria deixado nenhum rastro no corpo. Tratava-se de uma menina, por certo.

Pitt inalou profundamente.

-E o que há do segundo, que estava enterrado mais abaixo?

-Está morto bastante mais tempo; perto de dois anos, acredito. Mas não são mais que hipóteses. Tampouco neste caso sei se nasceu morto ou se morreu uns dias depois. Tratava-se de um bebê disforme, isso posso afirmar com toda certeza...

—Vi-o por mim mesmo. O que lhe causou a deformidade?

—Não sei. Parece uma má formação congênita e não de uma lesão ao nascer.

—Poderia haver algo no histórico clínico de seus pais...?

—Não necessariamente. Não sabemos o que ocasiona esta classe de más formações. Um menino assim poderia ter nascido a qualquer um, inclusive nas melhores famílias; só que normalmente estas preferem mantê-lo em segredo.

Pitt refletiu. Poderia ter consistido tudo no que ao fim e ao cabo era, em desembaraçar-se de um motivo de opróbrio social?

—E o outro? -inquiriu finalmente Pitt, erguendo o olhar para o doutor-.

Também tinha alguma deformidade? Algum defeito no cérebro?

Stillwell negou com a cabeça.

—Não pelo que pude ver, embora, claro está, em tão tenra idade é impossível saber se a criatura vai sofrer um atraso mental.

Não teria mais de uns dias de idade, no máximo. Inclusive poderia ter nascido morto.

-O doutor estremeceu-. Embora não acredito. Não apreciei nada que pudesse lhe haver causado a morte. O coração, os pulmões e os intestinos oferecem um aspecto normal. Embora, logicamente, apresentam um estado de decomposição considerável. Realmente não sei, Pitt. Terá que fazer suas próprias pesquisas e ver se consegue averiguar isso.

—Estou-lhe muito agradecido.

Não havia mais que dizer. Pitt chamou o Batey e os dois saíram em silencio na úmida manhã, com as ruas ladeadas por fileiras de árvores que cheiravam a folhas podres e umidade.

A elegante Callander Square estava deserta. Não havia sinais de vida nas grandes mansões do entorno, salvo o som rítmico de uma vassoura em uma zona de passagem do ruído surdo de um criado transportando. Era muito cedo para os mensageiros; os cozinheiros e as criadas mal teriam terminado de servir o café da manhã aos senhores menos madrugadores.

Pitt se dirigiu a casa mais próxima, subiu a escadaria e bateu na porta, que logo foi aberta por um criado corpulento e de aparência agradável. Olhou ao Pitt com olhos semicerrados e arrogantes. Anos de treinamento lhe tinham ensinado a medir a um homem antes que este abrisse a boca. Soube imediatamente que Pitt era alguém apenas melhor que um lojista, mas não absolutamente um homem de bom berço e ainda menos um cavalheiro.

—Sim? -inquiriu, erguendo levemente a voz.

—Polícia, inspetor Pitt. -Olhou-o diretamente nos olhos-. Gostaria de falar com a senhora da casa.

O rosto do criado permaneceu impertérito.

—Não me comunicou que tenhamos sofrido nenhum roubo. Talvez se confundiu de casa? Esta é a residência do general Balantyne e de Lady Augusta Balantyne.

-Muito bem. Mas é a localização da casa a que faz que seja de meu interesse. Posso entrar?

O criado vacilou e Pitt se manteve firme.

—Verei se Lady Augusta pode recebê-lo - concedeu finalmente a contragosto-. Passe. Pode esperar no saguão matutino. Irei ver se a senhora terminou de tomar o café da manhã.

Transcorreu meia hora longa e irritante antes que a porta do saguão matutino desse passo a Lady Augusta Balantyne. Era uma mulher atraente, de traços de porcelana, e vestia roupas elegantes e caras. Olhou ao Pitt inexpresivamente.

—Max me disse que deseja ver-me, senhor...

—Pitt. Sim, senhora, se não se importar.

—Com que motivo?

Pitt a contemplou. Não era a classe de mulher com a que conviesse andar-se com introduções, assim foi ao ponto.

—Ontem de noite descobriram dois cadáveres enterrados no jardim que há no centro da praça...

As sobrancelhas de Lady Augusta se elevaram com incredulidade.

-No Callander Square? Cadáveres de quem, senhor...?

—Pitt. Bebês, senhora. Acharam-se os corpos de dois recém-nascidos enterrados no jardim. Um deles estava ali há uns seis meses, e o outro perto de dois anos.

—Santo céu! -disse a dama, repentinamente aflita-, Que tragédia!

Suponho que alguma criada... Pelo que sei nenhuma de meu serviço teria podido... Embora, é claro, pode fazer averiguações se o preferir.

—Obrigado, senhora; com sua permissão. -Pitt converteu estas palavras em uma afirmação, assegurando-a conformidade da dama em lugar de limitar-se a solicitar sua aprovação-. Naturalmente, acudirei também com o mesmo fim às restantes casas da praça...

—É claro. Meu oferecimento é um gesto de obrigada cortesia com as autoridades. Não obstante, se descobrisse você um algo com minha casa, agradecer-lhe-ei me mantenha informada.

Aquela dama desprendia autoridade com naturalidade, como se se tratasse de uma atitude longo tempo arraigada na família e não tivesse necessidade de esforçar-se em manifestá-la.

Pitt sorriu em sinal de vaga conformidade, mas se absteve de comprometer-se verbalmente.

Lady Balantyne pegou uma campainha e a fez soar. Ao cabo de um instante apareceu o mordomo.

—Hackett, o senhor Pitt é da polícia. Acharam a dois bebês enterrados nos jardins da praça. Vai interrogar aos criados de todas as casas. Teria a amabilidade de conduzi-lo a uma sala tranqüila em que possa falar com todos os membros do serviço que deseje? E procure que todos estejam disponíveis para ele.

—Sim, senhora. -Hackett olhou ao Pitt com desagrado, mas obedeceu com toda exatidão.

—Agradeço sua colaboração, Lady Augusta, -disse Pitt, inclinando cortesmente a cabeça antes de seguir o mordomo para um pequeno quarto na parte posterior da mansão e que supôs se tratava da sala de estar da governanta.

Obteve uma lista completa dos membros femininos do serviço e os dados básicos de cada uma delas. Nesta ocasião decidiu limitar-se a lhes contar o ocorrido. Todas mostraram estupor, consternação e compaixão; e todas negaram saber algo do assunto. Era exatamente o que Pitt esperava.

Pitt retornou ao salão, em busca do mordomo ou de um dos criados para informá-lo que tinha terminado, ao menos de momento, quando viu outra moça sair de uma porta. Sem dúvida não se tratava de uma criada: além do vestido de seda que levava e seu cabelo belamente penteado e recolhido, o leve rebolado de seu andar, o leve sorriso de sua pequena boca de turgentes lábios e a segurança e vivacidade que mostravam seus olhos azuis e de longas pestanas eram reveladores de um elevado status social.

—OH! -exclamou com fingida surpresa-. Quem é você? -Examinou ao Pitt de cima abaixo com um olhar divertido-. Não pode ser que tenha vindo visitar uma das criadas a esta hora! Veio ver papai? É um velho ordenança ou algo assim?

Só Charlotte tinha conseguido fazer cambalear a compostura do Pitt em certas ocasiões, e foi porque a amava, de modo que esta vez não vacilou em devolver o olhar à moça com firmeza.

—Não, senhora. Sou da polícia. Estive falando com alguns de seus criados.

—Da polícia! -disse a jovem, levantando encantada a voz-. Que maravilhosamente espantoso! A que veio?

—Em busca de informação. -Pitt sorriu-. Isso é o que a polícia sempre solicita quando fala com as pessoas.

—Temo que esteja zombando de mim. -Seus olhos resplandeciam- Senhor... ?

—Inspetor Pitt.

—Bem, inspetor Pitt, meu nome é Christina Balantyne; mas imagino que já sabe. Sobre que assunto está solicitando informação? Cometeu-se um crime?

Pitt se salvou de ter que inventar uma resposta adequada, ao mesmo tempo cortês e pouco explícita, pois a porta da saleta do café da manhã se abriu de repente, deixando passagem a um homem que Pitt supôs era o general Balantyne. Era um homem alto, quase tanto como o próprio Pitt, mas mais enxuto e de porte severo. Seu rosto tinha traços marcados, magros e aquilinos.

Sua cabeça gotejava muita arrogância para ser formosa, e apertava a mandíbula e a dentadura com excessiva rigidez.

—Christina! -exclamou severamente.

A moça deu a volta.

—Sim, papai?

—O assunto que o inspetor tenha que tratar com os servidores não é assunto de seu interesse. Não tem cartas que escrever ou trabalhos que terminar?

A pergunta era meramente retórica, destinada a se despedir da jovem, que obedeceu com as costas enrijecida e os lábios tensos.

Pitt ocultou um sorriso e baixou a cabeça fugazmente.

—Obrigado, senhor - disse ao general depois que ela se retirou-. Não saberia como lhe responder sem angustiá-la com detalhes pouco agradáveis. -Aquelas palavras não correspondiam exatamente com a verdade, mas o ajudaram a sair da situação.

O general emitiu um grunhido.

—terminou?

—Sim, senhor. Estava procurando um criado para comunicar-lhe-.

—Descobriu algo? -quis saber o general, estudando ao Pitt com olhar agudo e inteligente.

—Ainda não, mas acabo de começar. Quem vive na porta do lado? - perguntou Pitt, fazendo um gesto em direção ao extremo sul da praça.

—Reggie Southeron é nosso vizinho mais imediato - respondeu o general. - Ao final desta calçada, o jovem Bolsover. Garson Campbell no extremo oposto. Leatitia Douram frente à Southeron. A mansão que está frente à nossa do outro lado da praça continua vazia de momento; esteve-o durante vários anos. Sir Robert Carlton reside no extremo mais afastado, assim como um tipo de avançada idade chamado Housmann, um lobo solitário, não há mulheres em sua casa, não as suporta; todo seu pessoal de serviço é de sexo masculino.

-Obrigado, senhor, foi de grande ajuda. Vou tentar a sorte com o senhor Southeron.

Balantyne aspirou ar e o soltou ao cabo de um momento. Pitt esperou, mas o general não acrescentou nada mais.

A casa dos Southeron era mais animada. Pitt o percebeu nas alegres gargalhadas de crianças inclusive antes de ter feito soar a campainha. Abriu-lhe uma das criadas mais formosas que jamais tinha visto.

—Sim, senhor? -perguntou a jovem com perfeitas maneiras.

—Bom dia. Sou o inspetor Pitt da polícia; poderia falar com o senhor ou a senhora Southeron?

A jovem se afastou da soleira.

—Entre, senhor, verei se os senhores podem recebê-lo.

Pitt a seguiu através de um vestíbulo belamente mobiliado, mas em um estilo menos espartano que o dos Balantyne. As cortinas eram bordadas e as cadeiras ricamente estofadas; havia inclusive uma boneca posta descuidadamente em uma pequena mesinha lateral. Pitt contemplou a erguidas costas da garçonete e o suave e discreto balanço de sua saia ao caminhar. Sorriu ao vê-la partir, e de repente desejou, com um repentino acesso de compaixão, que não fosse ela, que o que tinha jazido tanto tempo sob as árvores não tivesse sido o resultado de sua sedução.

A moça o conduziu ao saguão matutino e o deixou só. Pitt ouviu o ruído de uns passos precipitados descendo as escadas.

Uma aprendiz ou um menino da casa? Provavelmente isso não supunha uma grande diferença de idade. Algumas moças eram empregadas no serviço doméstico sem ter completado sequer os onze ou doze anos.

A porta se abriu bruscamente e um pequeno rosto magro e de olhos azuis apareceu com curiosidade. Sua absoluta serenidade a delatou como filha dos senhores. Usava o cabelo preso em caracóis e o rosto limpo e enrubescido.

—Bom dia - disse Pitt com solenidade.

—Bom dia - replicou a pequena, deixando que a porta se abrisse um pouco mais e mantendo o olhar fixo nos olhos do inspetor.

—Você tem uma casa muito elegante - disse cortesmente à menina, como se estivesse falando com um adulto e a casa fosse sua. - É você a senhora?

A menina emitiu um risinho sufocado, embora esticasse imediatamente as feições para recuperar sua compostura de senhorita.

-Não. Sou Chastity Southeron. Vivo aqui desde que mamãe e papai morreram. Papai era o irmão de tio Reggie. E você quem é?

—Meu nome é Thomas Pitt e sou inspetor de polícia.

A pequena deixou escapar um prolongado suspiro.

—Roubaram-nos algo?

-Não, que eu saiba. Perdeu você algo, senhorita?

—Não. Mas pode me interrogar - disse circunspecta, entrando na sala-. Talvez possa lhe dizer algo interessante.

Pitt sorriu.

—Tenho certeza de que poderá me explicar muitas coisas muito interessantes, mas ainda não sei muito bem que perguntas teria que lhe fazer.

—OH!

A menina fez gesto de tomar assento, mas a porta se abriu de novo e Reginald Southeron entrou na sala. Era um homem roliço, de feições flácidas e aspecto amigável.

—Chastity? -exclamou com afabilidade-. Jemima está procurando-a. Deveria estar ocupada em suas lições. Sobe acima imediatamente!

—Jemima é minha preceptora - explicou Chastity ao Pitt-. Tenho que tomar lições. Voltará?

—Chastity! -repetiu Southeron.

A pequena fez uma graciosa reverência ao Pitt e correu escada acima.

Uma vez a sós, a atitude de Southeron se tornou um pouco mais severa, mas sem

chegar a perder a afabilidade.

—Mary Ann me disse que é policial. - Seu tom soava ligeiramente cético-. É isso assim?

—Sim, senhor.

Tampouco esta vez parecia haver motivos para andar-se com rodeios, e Pitt explicou a causa de sua visita com toda a simplicidade de que foi capaz.

—Ah!Por Deus. - Reggie Southeron se sentou com um véu de palidez em seu rosto bem rosado- Miúdo...! Quero dizer... -Southeron o tentou de novo-: Um assunto muito desagradável! -disse desta vez, com melhor compostura-. Verdadeiramente lamentável. Asseguro-lhe que não sei nada que possa lhe ser de ajuda.

—Naturalmente - corroborou Pitt com cinismo. Por uns segundos contemplou a ampla boca do dono de casa, suas sensuais faces e suas mãos pequenas e submetidas à impecável manicura. Certamente não sabia nada dos corpinhos achados na praça-. Entretanto, eu gostaria de interrogar a seus criados.

—Meus criados?

O rosto do Southeron voltou a transtornar-se momentaneamente.

—Às vezes os falatórios dos criados podem ser muito valiosos - disse Pitt.

— Inclusive os que não estejam envolvidos poderiam saber algo, uma palavra ouvida

aqui ou lá...

—É claro. Claro, imagino. Bem, se for preciso... Mas lhe agradecerei que se limite ao estritamente necessário; é tão difícil conseguir bons criados nestes tempos! Tenho certeza de que o compreenderá... OH... Não... provavelmente não possa compreender. -Por um momento Southeron tinha esquecido a diferença de classe que o afastava do Pitt-. Muito bem. Suponho que é algo inevitável. Meu mordomo se ocupará de tudo.

Mr. Southeron se endireitou agilmente e partiu sem dizer nada mais.

Pitt falou com todos os membros do serviço, avisou ao mordomo e se despediu. Tinha transcorrido a maior parte da manhã e já era hora de almoçar.

Pela tarde retornou à praça. Eram duas em ponto quando bateu à terceira porta, que, segundo o general Balantyne, pertencia ao doutor Frederick Bolsover e senhora. Durante o almoço tinha visto o Stillwell de novo e teve ocasião de lhe perguntar se conhecia o Bolsover profissionalmente.

—É difícil, dada minha categoria - havia dito Stillwell com cenho-. Provavelmente ganha mais em um mês do que eu ganho em todo um ano. É natural, vivendo no Callander Square... Um médico da alta sociedade, reconfortando a um montão de damas hipocondríacas que não têm nada mais interessante que fazer que inventar-se doenças e enfermidades. Um bonito exercício da profissão, se tiver a paciência e os bons modos necessários, condições que, pelo que sei, o doutor Bolsover satisfaz à perfeição. Boa família, bom começo e todos os contatos que é preciso.

—É bom médico? -perguntou Pitt.

—Não tenho nem idéia. -As sobrancelhas do Stillwell se arquearam-.Acaso importa?

—Não acredito.

Pitt foi atendido por uma criada que adotou uma expressão de surpresa; era de compleição pequena e sem dúvida de aspecto impertinente, mas a sua maneira quase tão atraente como a anterior. Às criadas eram escolhidas por seu aspecto... Olhou Pitt com gesto de consternação. O inspetor não era da classe de pessoas que costumavam admitir-se na porta principal, e a essa hora não se recebiam visitas. Se se tratava de um paciente chegava pelo menos com uma hora de antecedência, mas costumavam ser mulheres quem ia ao ritual social de todas as tardes.

—Sim? -perguntou ao cabo de um momento.

—Boa tarde. Queria falar com o Mrs. Bolsover, se se achar em casa. Meu nome é Pitt; sou da polícia.

—A polícia!

—Permite-me?

Pitt avançou com intenção de entrar e a jovem se afastou com nervosismo.

—A senhora Bolsover espera visitas -disse rapidamente-. Não acredito que...

—É importante - insistiu Pitt-. Por favor, lhe avise de minha presença.

A moça vacilou. Pitt sabia que a preocupava que ele continuasse ali quando chegassem às visitas femininas, o que poria à senhora em um apuro; ao fim e ao cabo, a gente respeitável não está acostumada a ter à polícia em casa por nenhum motivo, e menos na porta principal.

—quanto antes a avise, antes terminarei com minhas obrigações - explicou Pitt.

A jovem entendeu a indireta e partiu a toda pressa, deixando ao Pitt confinado à soleira da porta.

Sophie Bolsover era uma mulher formosa, não muito diferente de sua própria criada se esta fizesse um pouco de dieta, vestisse com um traje de seda e levasse o cabelo encaracolado e recolhido.

—Boa tarde - disse a dama-. Polly me disse que é da polícia.

—Sim, senhora.

Pitt compreendeu o desconforto que ela devia sentir e lhe explicou o assunto com a maior brevidade antes de pedir para falar com os criados, igual a que tinha feito nas casas anteriores. A permissão foi concedida no ato e Pitt foi quase literalmente empurrado para a sala de visitas da governanta para que pudesse levar a cabo suas pesquisas com discrição. Começou com a garçonete Polly com o fim de que pudesse atender suas obrigações com a anunciada visita.

Não averiguou nada salvo nomes e rostos; ia ter que armazená-los todos na memória, avaliá-los, descartar e selecionar... Podia ser que a pura tensão, a mera presença de um policial na casa, chegasse a intimidar a alguém o suficiente para que incorresse em indiscrições ou cometesse algum engano. Embora também podia ser que Pitt não conseguisse averiguar nunca que classe de sórdido assunto ou tragédia privada de amor e engano se ocultava atrás da morte dos dois pequenos.

Tal como lhe havia dito o general Balantyne, os Campbell e os Douram não se achavam em casa.

Passou por diante da casa vacante para constatar que, com efeito, o solitário Housmann unicamente empregava a criados de sexo masculino.

Já quase eram quatro horas quando bateu na última porta: a de Sir Robert Carlton e esposa.

Abriu-lhe uma criada que pôs expressão de desconcerto.

—Sim, senhor?

—Inspetor Pitt, da polícia.

Pitt sabia que aquela era à hora menos conveniente para apresentar-se: a hora em que a rígida etiqueta social era observada ao pé da letra em função das complexidades da hierarquia, de se alguém tinha anunciado previamente a visita ou unicamente deixava o cartão, em que as visitas eram acusadas ou devolvidas, em que se decidia quem falava com quem e em que termos... Ter tido à polícia em casa em um momento assim era difícil de esquecer. Pitt se esforçou para que sua presença fosse o menos molesta possível. Sem dúvida não os tomaria de surpresa. Com certeza, os falatórios faziam tempo que tinham chegado até eles, especificando qual era o propósito do Pitt, a quem tinha visitado e que perguntas tinha formulado. Provavelmente inclusive uma descrição minuciosa de sua pessoa e uma análise precisa de seu status social. A criada suspirou.

—Entre - disse, voltando sobre seus passos e estudando ao Pitt com desaprovação, como se o crime o acompanhasse como uma enfermidade-. Acompanhe-me até a parte de trás. Trataremos de achar um lugar para você. A senhora não pode recebê-lo, é claro. Está atendendo às visitas. A Lady Townshend - acrescentou orgulhosa a jovem. Pitt desconhecia a importância de Lady Townshend, mas se esforçou em parecer devidamente impressionado. A criada o percebeu e suavizou sua atitude-. Irei procurar o senhor Johnson - acrescentou-. É o mordomo.

—Obrigado.

Pitt tomou assento no lugar que lhe indicou e a viu sair a toda pressa.

Charlotte Pitt tinha estado ocupada nos trabalhos da casa, para o que não necessitou mais de uma hora. Depois enviou a sua única criada comprar um jornal para inteirar-se por si mesma daquilo que Pitt não ia contar lhe. Antes de seu matrimônio, seu pai lhe proibia que lesse esse tipo de coisas.

Assim como a maioria de homens de bom berço, considerava que tais informações eram vulgares e inapropriadas para mulheres. Além de tudo, continham pouco mais que crimes e escândalos, e semelhantes aspectos da vida eram pouco recomendáveis para a boa educação de uma mulher e, é claro, achavam-se fora de seu limitado alcance intelectual. Charlotte sempre tinha tido que satisfazer seu interesse por essas notícias subornando ao mordomo ou com a conivência de seu cunhado, Dominic Corde. Agora não podia menos que sorrir ao recordar quanto tinha amado ao Corde naqueles dias, ainda em vida do Sarah. Seu sorriso logo se desvaneceu. A trágica morte de Sarah continuava lhe sendo dolorosa, enquanto que sua paixão pelo Dominic fazia tempo que se converteu em uma mera amizade. A vida do Charlotte tinha sido profundamente comocionada ao descobrir que estava apaixonada por aquele inoportuno e impertinente polícia que lhe falava de modo tão perturbador de um mundo que ela nunca tinha conhecido, um mundo de horríveis crimes e da mais absoluta e desesperada miséria.

O despreocupado conforto no que sempre tinha vivido se tornou ofensivo para ela.

Seus julgamentos de valor mudaram para sempre.

Seus pais se entregaram a uma funda consternação quando lhes disse que pretendia casar-se com um inspetor de polícia, mas terminaram por aceitá-lo do melhor aspecto possível. Além de tudo, no mercado matrimonial ela era um risco considerável devido a sua intransigente franqueza. Embora fosse muito atraente - Pitt a considerava inclusive formosa-, não tinha dinheiro suficiente para compensar sua rebeldia e sua indisciplinada língua, que constituíam defeitos irreparáveis a olhos de qualquer cavalheiro de seu nível social.

Sua avó tinha perdido toda esperança e estava tristemente convencida de que a pobre Charlotte estava predestinada a converter-se em uma solteirona amargurada. Não obstante, sempre ficaria o consolo de Emily, que tinha contraído matrimônio com um lorde. Por outro lado, com o estigma social de ter sofrido um assassinato em sua família, os Ellison já não eram um sobrenome recomendável para estabelecer de bom grado uma aliança.

Pitt se mostrou mais firme com Charlotte do que esta teria.

Apesar de estar profundamente apaixonada por ele, Pitt era quase tão insuportável mandão como todos os homens que tinha conhecido.

A princípio ficou um pouco assombrada, e inclusive opôs certa resistência, mas no fundo de seu coração se alegrava de que fosse assim. Mal se atrevia a reconhecê-lo, mas tinha temido que Pitt, devido à devoção que sentia por ela e a sua inferior situação social, tivesse-lhe permitido dominá-lo ou tivesse submetido sua vontade a dela. No fundo, estava encantada de comprovar que Pitt não tinha pretendia fazer nada disso. É claro que, em sua primeira disputa, Charlotte chorou com desconsolo, fez uma exibição de temperamento e se mostrou profundamente ofendida, mas sentiu uma sensação de secreta alegria quando, horas depois, Pitt se aproximou docemente a ela e a estreitou entre seus braços enquanto ela fingia dormir, embora nem por isso deixasse de estar decidido a impedir que sua esposa fizesse das suas.

Apesar de tudo, Pitt nunca lhe tinha posto nenhuma objeção a que lesse os jornais, e assim que a criada retornou com o exemplar do dia, procurou com avidez alguma referência a um crime no Callander Square. A princípio não o achou, e teve que procurar com minuciosidade até descobrir uma estreita coluna, de só sete ou oito linhas, que se limitava a informar do achado dos corpos de dois bebês nos jardins da praça e que se suspeitava de uma tragédia doméstica entre as criadas da zona.

Deduziu imediatamente o motivo pelo que Pitt lhe tinha ocultado a notícia.

Charlotte estava esperando desde há pouco seu primeiro filho. Só a idéia de que uma pobre criada se desesperasse por perder seu sustento, ou abandonada por um amante, visse-se arrastada a... O assunto era verdadeiramente espantoso.

Sentiu um calafrio só de imaginar. Entretanto, ao deixar o jornal sobre a mesa decidiu tomar parte no assunto. Talvez pudesse ajudar à garota se esta fosse despedida ao descobrir o assunto. Era uma possibilidade: não ela mesma, é claro, pois não estava em situação de oferecer nada. Mas sua irmã.

Emily era rica... Charlotte intuía que se sentia aborrecida. Tinham transcorrido já dois anos desde que contraíra matrimônio, e já tinha tido ocasião de conhecer todos os amigos do George Ashworth de certa importância; já a tinham visto impecavelmente vestida em todos os lugares de moda. Talvez um assunto assim levasse uma renovada corrente de ar a sua monótona vida.

Nessa mesma tarde ia fazer uma visita à Emily; fá-la-ia cedo, para não interferir com seus visitantes de maior status social e antes que a própria Emily pudesse partir de casa.

Às duas em ponto Charlotte se apresentou na porta principal da casa londrina de Emily, no Tavistock Square.

A criada a conhecia e a deixou entrar de bom grado. Foi conduzida até o salão, onde já se acendera a lareira. Uns instantes depois fez sua entrada Emily, já vestida para receber a suas visitas da tarde; oferecia um aspecto magnífico com seu vestido de seda verde com cós de veludo marrom escuro. Sem dúvida havia custado mais do que Charlotte podia gastar em roupa em meio ano. O rosto do Emily resplandecia de alegria. Beijou a sua irmã com delicadeza, mas com sincero afeto.

—Santo céu, Charlotte, se for começar a fazer visitas de cortesia terei que informá-la das horas adequadas! Está mal visto chegar antes das três, e isso já é muito cedo. As mulheres de boa posição, é claro, chegam mais tarde.

—Não se trata de uma visita de cortesia - respondeu Charlotte rapidamente-.

Nem me ocorreria. Vim pedir sua ajuda, se é que me pode dar isso e, é claro, se estiver interessada...

As sobrancelhas de Emily se arquearam, mas seus olhos continuavam resplandecentes.

—Que tipo de ajuda? Caridades não, por favor!

Charlotte conhecia sua irmã muito bem para ir a ela com um propósito semelhante.

—É claro que não! Trata-se de um crime...

—Charlotte!

—Não para cometê-lo, tola; para me ajudar quando estiver resolvido.

Nem sequer a recente aura de sofisticação do Emily podia ocultar a excitação que revelaram seus olhos.

—E não podemos resolvê-lo? Não poderíamos ajudar? Se...

—Não se trata de um crime agradável, Emily. Não é um roubo nem nada limpo -disse Charlotte.

—Pois bem, do que se trata? -Emily não se arredou.

Charlotte tinha esquecido quão serena era e a facilidade com que sabia adaptar-se aos aspectos desagradáveis da vida. Com efeito, desde o dia em que decidiu casar-se com o George Ashworth, tinha assumido que seu marido tinha defeitos e que talvez nunca conseguisse erradicar de sua pessoa mais que uns poucos, mas tinha tomado uma decisão e a tinha aceito com seus prós e contra.

Nunca se tinha queixado. Embora, para falar a verdade, Charlotte tampouco sabia se tinha motivos para fazê-lo.

—Pelo amor de Deus, Charlotte! -apressou-a Emily-. É tão terrível que não pode dizê-lo? Nunca a vi tão falta de palavras.

—Não. É só que se trata de algo muito triste. Foram descobertos os cadáveres de dois bebês enterrados no jardim do Callander Square.

Para surpresa do Charlotte, Emily pareceu visivelmente afetada.

—Bebês?

—Sim.

—Mas quem quereria matar a um bebê? É demencial.

—Uma criada que não estivesse casada, é claro.

Emily estremeceu.

—E você quer descobrir quem foi? Por quê?

—Não quero descobrir quem foi - replicou Charlotte-. Mas se nasceram mortos, como parece muito possível, talvez você pudesse lhe conseguir um novo emprego, se a despedirem...

Emily a olhou fixamente, com os pensamentos refletindo-se em seu rosto quase com tanta transparência como cruzavam por sua mente.

Charlotte se manteve a espera.

—Conheço alguém que vive no Callander Square - disse Emily finalmente-. Em realidade quem o conhece é George... Chama-se Brandy Balantyne. Seu pai é general ou algo assim, e tem uma irmã, Christina. Talvez consiga que George nos apresente; já me ocorrerá uma maneira de consegui-lo.

Depois poderia lhe fazer uma visita... -A voz de Emily começava a encher-se de excitação. Uma leve coloração tingia suas faces e uma impulsiva resolução sua mente-. Temos que descobrir a verdade. Posso averiguar coisas que a polícia nunca conseguiria saber, pois me movo nos círculos adequados. Falarão comigo e você poderá falar com os criados. OH, refiro aos de maior categoria, é claro! Mordomos, preceptoras e similares. Não deverá revelar que é a esposa de um policial, naturalmente. Podemos começar em seguida. Tão logo George retorne a casa falarei com ele para que me apresente aos Balantyne!

—Emily...

—O que? Pensava que queria minha ajuda. Possivelmente não saibamos o que é o melhor até que conheçamos a verdade. É melhor saber a verdade, para poder decidir se a garota merece nossa ajuda. Se não conhecermos a verdade podemos cometer desafortunados enganos.

Charlotte olhou os inquietos olhos de Emily, e o bom senso a fez duvidar da colaboração de sua irmã.

—Mas teremos que ser muito discretas... -disse finalmente, hesitante.

—É claro! -Emily estava arrolladora. Minha querida Charlotte, provavelmente não teria sobrevivido nesta sociedade dois anos se não tivesse aprendido a dizer algo menos o que verdadeiramente estou pensando. Sou a viva imagem da discrição. Bem, começaremos pelo princípio. Vá a casa e averigua tudo o que possa. Não acredito que você possa ser discreta; nunca o foi. Mas pelo menos não revele nossos planos. Seu marido poderia desaprová-los...

Isto foi um verdadeiro alarde de arrogância por parte do Emily. Não obstante, Charlotte se levantou disposta a obedecer, com um comichão de medo e sentindo a excitação que sua irmã lhe tinha contagiado.

 

Ao dia seguinte Pitt retornou ao Callander Square com a esperança de interrogar aos criados das duas últimas mansões, mas os senhores não retornavam até depois do meio-dia de seus longos fins de semana no campo. Em conseqüência, eram quase três da tarde quando foi conduzido pelo mordomo dos Campbell até a saleta de trás e quando, um por um, pôde entrevistar ao resto dos criados. É claro, todos conheciam de antemão suas perguntas: as novas tinham estado virtualmente esperando-os na soleira da porta em forma de criada, aprendiz ou engraxate, enfeitadas com as mais variadas interpretações.

Pitt não averiguou nada de novo, e já se dispunha a partir quando quase se deu de bruços com a senhora da casa. O honorável Garson Campbell era um jovem filho de uma família abastada e de boa posição, e mantinha um nível de vida em consonância. Mariah Campbell era uma mulher de aspecto agradável entrada nos trinta, de rosto largo e afável e pequenos olhos amendoados. Tinha estado ocupada desfazendo a bagagem e organizando a sua família, explicou-lhe com rapidez, família que compreendia a um filho, Albert, e a duas filhas, Vitória e Mary. Mostrou aflição ao escutar o propósito do interrogatório. Ao que parecia, os falatórios não tinham chegado a seus ouvidos, e suplicou ao Pitt que fosse discreto para que os meninos não se inteirassem.

—Asseguro-lhe, senhora, que não me ocorrerá informar uma criança de um assunto tão perturbador - disse Pitt honestamente, embora evitasse dizer que, em caso de que se alguma criança mencionasse o assunto a ele, não teria inconveniente de escutá-lo. Habitualmente Pitt comprovava que muitos meninos se sentiam menos afetados pela morte que os adultos. E era estranho achar a um menino que não fosse um intrometido incorrigível e não tivesse procurado surrupiar aos criados até o último detalhe de algum assunto, inclusive inventando-os ou exagerando-os se fosse necessário.

—Obrigado, inspetor - disse ela-. Os meninos podem ser facilmente...feridos ou atemorizados -acrescentou ao mesmo tempo em que olhava pela janela-. Há tantas coisas desagradáveis no mundo! O menos que podemos fazer é protegê-los até onde nos seja possível.

Pitt defendia uma opinião totalmente diferente. Achava que quanto mais tempo fosse oculta a verdade a alguém, mais dificuldades teria para enfrentar a ela uma vez que tivesse quebrado as barreiras, como a enchente de um rio, levando-se com ela a frágil estabilidade de toda uma vida. Dispôs-se a dizer que um pouco de sinceridade no momento adequado permitia certa compreensão com as misérias da vida, certo equilíbrio, mas em seguida recordou qual era seu lugar. Os policiais não deviam dar conselhos sobre a educação das crianças às damas residentes no Callander Square. De fato, de um policial não se esperava que filosofasse absolutamente.

—Temo, senhora, que o assunto chegará provavelmente a seus ouvidos através dos criados - advertiu com diplomacia.

A dama o olhou franzindo o sobrecenho.

-Advertirei aos criados - respondeu-. Qualquer criado que mencione um assunto tão detestável perderá imediatamente seu posto.

Pitt pensou em uma pobre criada que, em um momento irrefletido e loquaz, pudesse render-se ante a insistência infantil ou inclusive ante uma pequena chantagem, com a conseqüência de perder simultaneamente lar e emprego. À infância não lhe teria proporcionado semelhante amparo frente às cruas realidades da vida.

—Naturalmente - corroborou Pitt-. Mas há outros criados na praça, e também outras crianças.

Em lugar da irritação que Pitt esperava, a senhora Campbell se limitou a parecer repentinamente cansada.

—É claro, senhor... Pitt? E os meninos não vacilam em explicar a outros histórias de horror. Ainda assim, estou certa de que você não assustará desnecessariamente a nenhum deles. Tem filhos, senhor Pitt?

—Ainda não, senhora. Minha mulher está esperando ao primeiro. -Pitt o disse com uma ridícula sensação de orgulho e esperando sua aprovação.

—Espero que tudo vá bem a sua esposa. -Não havia alegria alguma em seu rosto-. Há algo mais que necessite de mim?

Pitt se sentiu perplexo, quase humilhado ante sua frieza.

—Não, obrigado. Mas certamente terei que voltar; levará-nos um tempo considerável resolver o caso, se é que alguma vez o conseguiremos. Mas de momento foi tudo por hoje.

—Boa tarde, inspetor. Jenkins lhe mostrará a saída.

—Boa tarde, senhora.

Pitt se inclinou levemente e saiu da sala. O mordomo estava esperando-o e o conduziu até a porta principal, que se abria à frondosa praça.

Foi uma criada de meia idade quem atendeu a porta da mansão dos Douram. Isto constituía uma exceção ao resto das mansões: nem por sombra tinha sido escolhida por seu aspecto; o único destacável dela era uma dentadura perfeita e uma voz cálida e suave.

—Estávamos esperando-o - disse a criada com calma, com uma leve distorção das vocais próprias do sudoeste-. A senhorita Laetitia e a senhorita Georgiana estão tomando o chá. Não me cabe dúvida de que desejará falar primeiro com elas.

A mulher não esperou resposta e se virou, deixando que fosse Pitt quem fechasse a porta, e o conduziu ao interior.

A mansão dos Douram era marcadamente diferente das demais do Callander Square. Seu salão estava abarrotado de fotografias, bordados e flores secas encerradas em sinos de vidro, imprensadas, no Ramos, e também de algumas flores frescas dispostas em vasos de cores. Além disso, havia pelo menos três pássaros encerrados em gaiolas decoradas com orlas e campainhas.

Com efeito, Laetitia e Georgiana estavam tomando o chá. Georgiana jazia indolente em uma chaise-longue, ossuda como um coelho esquálido, e vestida com seda de tonalidades malva e cinza. O bule repousava sobre uma mesinha de intrincado desenho à altura de seu cotovelo. Contemplou ao Pitt com interesse.

—De maneira que é você o policial, não é? Tem que ser uma criatura muito desagradável, tenho certeza. Procure não ser vulgar comigo. Sou extremamente delicada. Sofro.

—Lamento ouvir isso. -Pitt fez um verdadeiro esforço para controlar-se-.

Espero incomodá-la-o menos possível.

—Já me incomodou, mas não terei mais remédio que aceitá-lo de boa vontade em nome da necessidade. Sou Georgiana Duff. Essa daí -disse, apontando uma versão de si mesma mais jovem e mais roliça que repousava na outra poltrona- é minha irmã, Laetitia Douram. Ela é quem tem a desgraça, ou a imprudência, de possuir uma casa em um lugar tão desastroso como este; assim, convém-lhe dirigir-se diretamente a ela.

Pitt se voltou para a Laetitia.

—Me permita, senhorita Douram, que expresse uma vez mais minhas mais sinceras desculpas. Pelo que respeita ao trágico descobrimento realizado no jardim da praça, tenho certeza de que compreenderá que nos é necessário interrogar o serviço, especialmente às criadas jovens, de todas as mansões que rodeiam a praça.

Laetitia piscou.

—É claro - interveio Georgiana bruscamente-. Isso é tudo o que veio dizer?

—Minha única intenção é solicitar autorização para falar com seus criados - ratificou Pitt.

Georgiana soltou um grunido.

—Teria feito isso de qualquer modo!

—Mas prefiro fazê-lo com sua permissão, senhora.

—Não continue me chamando "senhora". Eu não gosto. E não fique aí de pé, me olhando por cima do ombro. Faz-me sentir enjoada. Sente-se de uma vez ou terei que desmaiar!

Pitt tomou assento, forçando um sorriso.

—Obrigado. Assim, disponho de sua permissão para entrevistar a seus criados? -perguntou a Laetitia.

—Sim, suponho que sim - respondeu ela, desconfortável -. Por favor, procure não assustá-los muito. Nestes tempos é difícil substituir satisfatoriamente um criado. E a pobre Georgiana precisa cuidados especiais.

Pitt pensou que a "pobre" Georgiana já se encarregaria por seus próprios meios de conseguir alguém que lhe dispensasse cuidados "especiais".

—É claro - disse Pitt endireitando-se e dirigindo-se para a porta antes que Georgiana tivesse tempo de ver-se afetada uma vez mais por sua estatura.

—Despediu a alguma criada durante o último meio ano? Há alguma moça que tenha abandonado a casa?

—Absolutamente - respondeu Laetitia com presteza-. Estamos há muitos anos exatamente como estamos agora. Anos e anos!

—Não tem filhos, senhora? Alguma filha que se casou e levou consigo uma criada?

—Absolutamente.

—Agradeço-lhes sua colaboração. Não acredito que volte a importunar - disse Pitt ao mesmo tempo que saía da sala e fechava a porta com suavidade.

Permaneceu ainda duas horas mais em casa dos Douram, mas tampouco ali não pôde averiguar nada.

Charlotte tinha toda a razão: Emily começava a sentir falta de um pouco de emoção em sua maravilhosa vida. Ainda assim, não havia dúvida de que desfrutava de seu estilo de vida. Para ela era uma existência ideal. Anos atrás, quando Emily ainda vivia na casa paterna do Cater Street, com Charlotte, seus pais e a pobre Sarah, a jovem já era consciente do que lhe convinha. Pouco depois de conhecer lorde George Ashworth decidiu que ia casar se com ele e, com efeito, sua família conseguiu consertar uma aliança muito satisfatória.

Claro que George tinha seus defeitos, mas que homem não os tinha? Sua virtude mais destacada era que a apreciava, mostrando por ela uma atitude sempre educada e generosa; além disso, era um homem atraente e engenhoso. Tudo seria maravilhoso se não jogasse tanto... Gastava no jogo enormes somas de dinheiro.

Mas, se flertava com outras, o fazia sempre com tato e discrição, e muito poucas vezes saía sem levar Emily com ele. E não criticava suas ocupações nem suas amizades femininas, o que era um ponto mais que considerável a seu favor.

Emily conhecia um grande número de esposas condenadas a permanecer confinadas em casa enquanto seus maridos iam a lugares totalmente inapropriados para uma mulher medianamente decente, e que ainda assim criticavam os costumes de suas mulheres ou as reuniões vespertinas que estas se permitiam celebrar.

Mas para Emily faltava um pouco de emoção em sua vida cotidiana.

Desde que se convertera em Lady Ashworth tinha desfrutado de uma fácil e fulgurante atividade social, com todas as ascensões que tivesse podido desejar, pelo menos até o momento. O desagradável mistério que lhe proporcionava Charlotte podia converter-se na diversão que necessitava, com o estímulo de que, em caso de que chegassem a achar alguma vez à desventurada moça, Emily poderia ser verdadeiramente útil a alguém.

Além disso, tinha - muito carinho a sua irmã, por mais que Charlotte fosse uma criatura impossível em sociedade. Seria inimaginável introduzi-la nos jantares, bailes e serões para tomar o chá que ela mesma organizava...

Embora é certo que em algumas ocasiões pomposas se surpreendeu a si mesma especulando sobre o que Charlotte teria dito se tivesse estado presente nessas celebrações. O assunto dos bebês lhe proporcionaria uma oportunidade para empreender novamente um projeto comum com ela, perspectiva que já de por si lhe resultava grata.

Quando George retornou, a tempo de trocar-se para o jantar, Emily abandonou sua habitual dignidade de porte e subiu correndo as escadas atrás dele.

Já no patamar, George se virou, surpreso.

—O que acontece?

—Quero conhecer a Christina Balantyne - replicou Emily sem mais.

—Esta noite? -George se mostrou surpreso, esboçando um sorriso de perplexidade-. Não é uma moça divertida, asseguro-lhe!

—Não quero que me divirta, mas sim convide a sua casa. Ou pelo menos poder ir aos serões que oferece sem que pareça uma intrometida.

—E para que? -As sobrancelhas do George se arquearam por cima de seus escuros olhos-. É a Augusta a quem quer conhecer? Augusta é muito distinta. Seu pai foi um duque, e ela viveu sempre segundo os cânones da nobreza; embora não acredito que isso lhe suponha um grande esforço...

Não era a razão, mas para Emily pareceu uma explicação perfeita.

—Sim, eu gostaria muito conhecê-la. Por favor, George! -implorou-lhe, sorrindo-lhe com bajulação.

—Decepcioná-la-á. Não acredito que goste dela - observou ele, franzindo o sobrecenho.

—Não me importa que eu não goste. Só quero poder ir a seus serões!

—Por quê?

—George, eu não lhe faço perguntas sobre seus amigos do White, ou Boodle, ou de onde seja; permite que me entretenha indo aos serões de quem me agrade.

Emily lhe sorriu com uma mescla de encanto -porque realmente apreciava a seu marido- e de malícia, já que a aparente afetação que havia entre eles se devia exclusivamente a uma questão de boas maneiras.

George lhe deu um tapinha na face e a beijou afetuosamente.

—Será fácil ir visitar o Brandy Balantyne. É um tipo amistoso, sem dúvida o melhor de sua família, com distinção. Os outros a decepcionarão, advirto-lhe!

—Talvez - replicou Emily, sorrindo com satisfação-. Mas eu gostarei de averiguá-lo por mim mesma.

Tiveram que transcorrer três dias antes que os planos de Emily dessem seu fruto e ela pudesse vestir-se apropriadamente com tons marrom apagado, orlas douradas e um abrigo de peles para proteger-se do frio, para ir ao serão em casa de Christina Balantyne. Pareceu-lhe que seu traje tinha a mescla adequada de dignidade e aprumo que lhe permitiria receber a classe de cordialidade que uma mulher de título podia dispensar a alguém muito próximo a sua própria posição social.

Teve o trabalho de assegurar-se de que Christina ia estar em casa essa tarde: e isso tinha requerido certo delicado trabalho detetivesco através de sua criada, que acabava de conhecer a criada de uma tal Susanna Barclay, dama que tinha por costume ir aos serões do Callander Square. De fato, havia mais pontos em comum entre Emily e Pitt do que este poderia imaginar.

Quando chegou a hora, Emily ordenou esperar a sua carruagem e seus lacaios e bateu na porta da mansão dos Balantyne às quatro menos quarto.

Recebeu-a uma criada, tal como era costume às tardes. Emily sorriu encantadora, tirou um cartão de seu estojo de marfim e o estendeu à moça com sua pequena mão elegantemente enluvada. Estava muito orgulhosa de suas mãos.

A criada tomou o cartão, leu-o rapidamente e devolveu o sorriso.

—Se a senhora tiver a bondade de entrar, Lady Augusta e a senhorita Christina estão recebendo no salão.

Tratou-se de um recebimento não usualmente loquaz, que unicamente podia dever-se à circunstância de que Emily era uma viscondessa e não tinha anunciado previamente sua visita, de modo que o fato de que fizesse uma visita em pessoa, em lugar de limitar-se a deixar seu cartão, devia ser considerado uma honra; e uma boa criada devia ser tão versada nas complexidades dê distinções sociais como sua senhora.Não bateu na porta, gesto que teria podido considerar-se vulgar, mas sim a abriu com suavidade e anunciou Emily.

—Lady Ashworth.

Emily morria de curiosidade, mas naturalmente a camuflou atrás de um porte de dignidade magnífico. Entrou na sala sem olhar a direita nem esquerda, mantendo estendida a mão. Percebeu uma leve agitação entre a meia dúzia de damas pressentes, fruto do natural interesse só abafado pelo protocolo.

Não era de bom tom mostrar abertamente uma emoção tão pouco sofisticada.

Lady Augusta permaneceu sentada.

—Que encantadora surpresa! -disse com uma leve elevação em sua voz-.

Rogo-lhe tome assento, Lady Ashworth. É muito amável de sua parte que tenha vindo...

Emily tomou assento, arrumando-as dobras da saia com atitude quase ausente, mas meticulosamente estudada para mostrar seu lado mais favorável.

— Tenho certeza de que temos vários amigos comuns - disse Emily com expressão evasiva-. Certamente foi mera casualidade que não tenhamos tido ocasião de nos conhecer antes.

—E com efeito. -Tampouco Augusta queria comprometer-se-. Sei que conhece a minha filha Christina.

Era uma afirmação. Emily percorreu a sala com o olhar até fixar seus olhos no atraente rosto de Christina, com seu pequeno e suave queixo e seus turgentes lábios.

Era um rosto pouco habitual; refletia certa individualidade, um aspecto mais importante que a mera beleza, e um considerável ar de altivez.

Os homens a achariam muito atraente, já que prometia tanta paixão como submissão; mas os nomes eram incrivelmente néscios no que a mulheres respeitava. Emily percebeu de uma olhada a dureza que havia no equilíbrio de seu nariz e na curva de seus lábios. Uma pessoa acostumada a tomar, não a dar, julgou.

Gravou esta idéia em sua mente antes de dirigir-se para outra mulher que Augusta lhe estava apresentando.

—Lady Carlton -disse Lady Augusta-. Como saberá você, Sir Robert está no governo. Ministério de Assuntos Exteriores.

Emily esboçou um leve sorriso. Essa mulher era totalmente diferente da anterior. Sua boca era mais ampla, menos formosa, mas mais cálida. Agora tinha as mãos dobradas sobre a saia e uns sulcos muito finos marcavam seus olhos e lábios. Era de mais idade que Christina; uns trinta e cinco anos. Havia certo nervosismo, certa tensão oculta sob sua aparente amabilidade. Ambas trocaram uma inclinação de cabeça e um cortês reconhecimento. As restantes damas também lhe foram apresentadas e por fim a conversa pôde começar.

O primeiro tema da reunião foi o tempo, que estava sendo não usualmente suave para meados de outubro. Depois falaram de moda e, por fim, transladaram-se ao interessante tema dos falatórios. Tomou o chá as quatro em ponto, levado pela criada e servido por Lady Augusta.

Emily conseguiu travar conversa com Christina e Euphemia Carlton.

Não foi difícil introduzir o tema dos cadáveres da praça.

—Realmente espantoso - disse Euphemia estremecida-. Pobrezinhas almas! -Uma expressão de profunda tristeza cruzou seu rosto.

—Imagino que eles não se inteirariam de nada - respondeu Christina com realismo-. Soube que eram recém-nascidos. De fato, inclusive poderiam ter nascido mortos.

—Mesmo assim, tinham alma - replicou Euphemia com olhar ausente.

Emily sentiu uma pontada de decepção. Poderia ser que só tivesse acontecido isso? Algo tão normal e comum? Os bebês tinham nascido mortos? Era culpa o que refletia o rosto da Euphemia Carlton?

Deveria averiguar mais coisas sobre ela. Mas que motivos poderiam ter induzido a uma mulher como ela a fazer algo tão espantoso? De fato por que ia fazê-lo qualquer mulher casada, distinta e rica? Tinha que pedir ao Charlotte mais dados sobre os bebês. Teriam sido negros ou teriam tido alguma outra peculiaridade que delatasse uma infidelidade?

—Imagino que você não saberá nada de nossa pequena história de horror, não é verdade?

—Perdão? -disse Emily, olhando-a com expressão de inocência.

—De nosso horror particular - repetiu Christina-. Dois corpos enterrados na praça.

—Unicamente os que mencionaram vocês - mentiu sem o menor remorso-. Entretanto, rogar-lhe-ia que, se não a afligir muito, pusesse-me um pouco mais ao corrente.

Obviamente não se tratava de que Emily supusesse que Christina sabia algo que não lhe houvesse dito já Charlotte, mas justamente o contrário. Mas desejava observar a reação da Euphemia ao ser obrigada a escutar de novo o acontecido. E, é claro, também a da Christina, se é que mostrava alguma.

—Há pouco que contar - começou Christina-. Os jardineiros estavam cavando para plantar uma árvore ou algo parecido quando descobriram os corpos de dois bebês.

Naturalmente, em seguida foram procurar à polícia...

—Como sabe?

—Pelos criados, é claro! Como, se não, pode alguém averiguar todas as coisas interessantes que acontecem? E então apareceu o policial mais estrambótico do mundo. Seriamente, você não pode imaginar-lhe! Era todo pernas, braços e cabelo! Juraria que nunca um barbeiro pôs as mãos sobre ele, e ainda menos um pente ou uma tesoura. Ou talvez as classes trabalhadoras não tenham barbeiros... Além disso, era um homem enorme!

Emily sorriu para si mesma ante semelhante descrição de seu cunhado, não de todo desacertada. Poderia havê-lo reconhecido sem vacilar a partir dela.

—Imagine minha surpresa -prosseguiu Christina- quando abriu a boca e se dirigiu para mim com perfeita educação.

Se não o tivesse visto, teria acreditado que se tratava de um cavalheiro.

—Suponho que não se atreveu a interrogá-la! -exclamou Emily com atitude oportunamente escandalizada, com o fim de poder expressar uma emoção bastante intensa para ocultar quanto se estava divertindo.

—É claro que não! Tão somente me encontrei com ele no vestíbulo de forma gratuita. Estava interrogando à criadagem das mansões que rodeiam a praça.

Imagino que a culpada será alguma criada desgraçada que não foi capaz de controlar-se. -Por uns instantes desceu o olhar, como repentinamente envergonhada. Depois ergueu a cabeça de novo e o fulgor tinha voltado para seus olhos. - É emocionante ter detetives na praça.

Claro que mamãe pensa que tudo isto é muito macabro e prefere manter certa reserva com respeito à vizinhança. Mas eu acredito que as pessoas o entenderão. No fim de contas, todos temos criadas. Estes problemas podem acontecer. Só que o nosso é um pouco mais macabro, nada mais.

Euphemia estava pálida e era claro que não desejava continuar com esse tema. Emily foi em seu resgate.

—Tenho certeza de que o entenderão - corroborou-. Lady Carlton, Lady Augusta me disse que seu marido está no governo. Imagino que deverá ser especialmente cuidadosa com seus criados e que aceitará só aos mais discretos.

Euphemia sorriu.

—É muito pouco freqüente que Sir Robert traga para casa trabalho de natureza confidencial. Mas, com efeito, é muito importante que os criados sejam discretos com as conversas que pudessem escutar durante as refeições e em outras ocasiões.

—Que emocionante! -Emily fingiu interesse e prosseguiu com o tema até terminar sua xícara de chá e considerar que tinha chegado o momento de partir.

Tinha que fazer outras visitas de cortesia, ou do contrário daria lugar a comentários. Uma dama da alta sociedade nunca se limitava a uma só visita.

Tinha que ir visitar pelo menos uma casa mais e deixar seu cartão em outras duas.

 

De modo que Emily se desculpou ao mesmo tempo em que procurava alguma desculpa que lhe permitisse retornar ao Callander Square, se pudesse durante a semana.

—Foi uma reunião encantadora - disse a Lady Augusta-. George falou tão bem de você que conhecê-la foi um verdadeiro prazer para mim.

O objetivo destas palavras era recordar a Lady Augusta que George era um amigo do Brandy Balantyne e que pertenciam ao mesmo círculo social.

—Muito amável de sua parte - respondeu Augusta com ar distante-. Vamos oferecer uma pequena festa esta sexta-feira pela tarde. A não ser que tenha já um compromisso, estaríamos encantados de contar com sua presença.

—Obrigada - respondeu Emily com idêntica amabilidade-. Tratarei de vir.

Emily abandonou o lugar absolutamente satisfeita.

Na tarde seguinte Emily colocou um simples vestido verde e se fez acompanhar por um único lacaio sem libré a casa do Charlotte. Era mais fácil que esperar que sua irmã fosse visitá-la. Charlotte não dispunha de carruagem e tinha que recorrer ao aluguel de um cabriolé; e, além disso, Emily não tinha paciência para esperar.

Entrou e acudiu precipitadamente ao encontro do Charlotte, que estava ocupada cerzindo roupa.

—Que diabos está fazendo? -praguejou-a Emily-. Deixa isso e me escute!

Charlotte interrompeu seu trabalho e a olhou.

-Eu pensava que as damas não faziam visitas de cortesia antes das três.

Apenas são duas e quinze - replicou com um sorriso.

Emily lhe arrebatou o trabalho e o jogou sobre o sofá.

—Tenho notícias muito excitantes! -exclamou-. Fui ver os Balantyne e conheci a Christina e Lady Augusta. E, o que é imensamente mais interessante, a Lady Euphemia Carlton, quem se sentiu perturbada quando falamos dos bebês da praça. Estou convencida de que sabe algo. Juraria que se sente culpada de algo!

Charlotte, acha que terei resolvido já?

Charlotte a olhou com cenho.

—Lady Carlton não é casada?

—É claro que sim! -replicou Emily-. Mas possivelmente está tendo uma aventura. Talvez os meninos, os bebês, tivessem-na traído! Tinham alguma aparência incomum, como a pele escura, o cabelo vermelho ou algo parecido? -Emily tomou fôlego e prosseguiu antes que Charlotte tivesse ocasião de responder a pergunta-. Seu marido está no governo. Talvez tenha um amante estrangeiro, um grego, um índio ou algo assim. Talvez haja algum segredo de Estado em tudo isto. Charlotte, o que opina? Ela é muito atraente, já sabe; não precisamente formosa, mas sugestiva. Por seu olhar diria que é uma mulher que poderia apaixonar-se facilmente e atuar de maneira irresponsável.

Charlotte olhou a sua irmã com expressão de infinita paciência.

—Deveria perguntar, mas duvido que Thomas me queira dizer isso

—OH, não me venha com essas! -replicou Emily com exasperação-. Não me diga que não é capaz de persuadi-lo! Esse homem baba por você. Invente alguma desculpa! Preciso saber. Se não for pelo motivo que lhe digo, por que deveria tê-lo feito? Uma mulher não assassina a seus próprios filhos, nem sequer enterra aos que tenham nascido mortos, se não tem uma razão de peso para fazê-lo.

—Claro que não - confirmou Charlotte razoavelmente-. Mas Thomas suspeitará se o crivar de perguntas por pura curiosidade. Ele não é tão aberto como George, já sabe... Não tem nenhum fio de cabelo de inocente - acrescentou.

Emily nunca tinha pensado no George Ashworth como em alguém inocente, mas depois de refletir um momento entendeu a que se referia Charlotte; mas no caso do George provavelmente não se tratava de falta de astúcia, mas sim de interesse. Ele achava que sabia tudo o que Emily podia fazer em cada situação concreta e tinha uma confiança absoluta em seu bom senso. Pitt, em troca, era muito esperto para confiar em algo tão mutável como o bom senso de uma mulher.

—Seja como for, tem que tentar - insistiu.

Charlotte sorriu, guardando para si seus pensamentos.

—Sossegue. Sempre demonstrei interesse por seu trabalho. Parecerá que quero ajudá-lo - seu sorriso se alargou-, com o ponto de vista de uma mulher, algo que sem dúvida não pode obter de seus colegas de trabalho.

Emily deu tal suspiro de alívio que Charlotte não pôde menos que rir de boa vontade.

Quando Emily chegou ao Callander Square na sexta-feira pela tarde, Charlotte já lhe tinha dado a decepcionante notícia de que não havia nada destacável no segundo bebê, e no primeiro, que estava enterrado a maior profundidade, só uma deformidade na cabeça. Mas seu coração deu um salto quando Charlotte observou que, como os desafortunados corpinhos tinham sido enterrados tanto tempo, era impossível dizer se se no momento de seu nascimento tinham tido a pele ou o cabelo de alguma cor incomum.

Emily não tinha tido em conta o fator da decomposição, e o mero fato de pensar nele conseguiu afligi-la profundamente. Claro, a carne não podia perdurar! De fato, Charlotte acrescentou que, segundo Pitt, tinha sido a natureza argilosa do lugar o que os tinha preservado durante tanto tempo. E esta era uma consideração extremamente desagradável.

Emily já tinha afastado tão sombrios pensamentos de sua mente quando chegou à porta dos Balantyne. Foi admitida imediatamente e conduzida do vestíbulo a grande sala de recepção onde já havia um grupo de homens e mulheres. Um formoso e reluzente piano repousava no centro da sala, com as pernas discretamente embainhadas. Emily reconheceu Christina, Euphemia Carlton, Lady Augusta e várias outras pessoas que conhecia de seu próprio círculo social. Também reconheceu Brandy Balantyne, alto, esbelto e sombrio como sua mãe e sua irmã, com um rosto mais afável e olhar ausente. Brandy voltou à cabeça ao entrar Emily e seu rosto se iluminou com um sorriso.

—Lady Ashworth! É um prazer vê-la aqui - disse, enquanto ia para ela para lhe dar as boas-vindas. - Conhece Alan Ross? Não? Que má sorte para ele!

—Senhor Ross... -saudou Emily com graça.

Alan Ross se inclinou com formalidade um tanto excessiva. Teria uns trinta anos, de figura frágil, mas dotada de um rosto varonil e esquisitamente intenso.

—Muito honrado de conhecê-la, Lady Ashworth - respondeu sem maiores cumprimentos.

Emily agradeceu sua simplicidade, pois um excesso de lisonjas podia ser aborrecido. Além de tudo, na boca da maioria dos homens não eram mais que fórmulas pronunciadas tão maquinalmente como "Bom dia" ou "adeus".

Começaram a discutir sobre temas corriqueiros que só requeriam atenção superficial. de vez em quando, Emily desviava seus olhos em direção a Euphemia Carlton. Sentiu-se decepcionada ao constatar que a mulher oferecia um aspecto extraordinário. Acaso a tensão e a culpa que Emily tinha visto antes nela não eram mais que produto de alguma leve indisposição? Emily rechaçou essa idéia; era muito cedo para aceitá-la.

Emily pegou um refresco das mãos de uma criada de avental engomado. Havia um criado junto à porta: um homem atraente de grossas pálpebras e aspecto sensual. Emily tinha visto traços muito parecidos nos dandies e esbanjadores que abandonavam os clubes de George depois de ganhar fortunas ou perdê-las em um instante.

Esse homem teria sido um deles se seu nascimento tivesse sido mais propício. Agora estava apoiado contra a parede da mansão de um general, vestido com libré e esperando às damas e os escassos cavalheiros que não tinham nada melhor que fazer essa tarde. Viu Christina Balantyne passear diante dele, rindo, como se ele não fosse mais que uma peça do mobiliário, uma escultura ornamental.

A festa começou com a interpretação de uma valsa do Chopin, executado com mais técnica que lirismo; depois interveio uma contralto, mas, bem vacilante que entoou três baladas. Emily fingiu uma expressão de viva atenção enquanto deixava que seus pensamentos seguissem seu curso.

Não a tinham apresentado ao Sophie Bolsover, mas tinha tido ocasião de ouvir seu nome em uma conversa próxima e soube que ela também residia no Callander Square. Agora Emily a olhava de soslaio, em parte por interesse e em parte porque era mais fácil manter o olhar no que tinha diante e assim não ter que olhar diretamente ao Sophie Bolsover, um tipo de mulher com o qual Emily se familiarizara durante os últimos dois anos; ainda muito jovem, era bastante formosa e dispunha do dom acrescentado de saber atrair a atenção em seus traços mais favorecedores e ocultar os outros.

Tinha nascido no seio de uma boa família com dinheiro suficiente para lhe assegurar um matrimônio satisfatório. Nunca precisou temer converter-se em uma solteirona dependente de alguém, nem que defender sua própria posição entre as numerosas irmãs de uma casa pouco pródiga em varões. Emily pôde deduzir tudo isso da calma e aparente segurança que se refletia em seu rosto.

Ao terminar a música, que foi aplaudida como é devido, Emily deu os passos necessários para conhecê-la. Emily era encantadora, hábil e quase implacável no manejo das manhas sociais. antes de cinco minutos já estava conversando com Sophie sobre moda, amigos comuns e especulações sobre quem ia casar se com quem. Emily guiou suas considerações para sua residência no Callander Square, começando com um elogio dedicado a Christina.

—É tão formosa! -corroborou Sophie com um sorriso.

Emily poderia ter discutido tal opinião; Christina era uma mulher elegante, sem dúvida atraente para os homens, mas não formosa.

—Sem dúvida - aprovou Emily com afetado tom confidencial-. Com certeza terá pretendentes para escolher...

—Uma vez pensei que poderia haver-se casado com o senhor Ross - disse Sophie, inclinando quase imperceptivelmente o queixo em direção a Alan Ross, que se achava falando com a Euphemia Carlton-. Mas, claro está, ele nunca pôde superar a pobre Helena - acrescentou Sophie.

O interesse de Emily disparou.

—Helena? -perguntou com perfeita indiferença-. Aconteceu-lhe algo?

—Nunca ninguém falou sobre o assunto - disse Sophie com certa incongruência.

O interesse de Emily aumentou ainda mais.

—OH, querida, que interessante! E por que nunca se falou disso?

—Pela Laetitia Douram, certamente. -Sophie abriu os olhos ao acrescentar-: Helena era a única filha da Laetitia. Naquela época Georgiana não vivia com ela, claro.

—Ela veio... depois? -Emily começava a reunir as peças do quebra-cabeças.

—Sim, para consolá-la.

—Para consolar a do que? -sorriu como se o assunto não a aborrecesse.

—Depois de Helena ir embora de casa. Fugiu com alguém, conforme dizem.

— Ah, que irresponsabilidade! Uma verdadeira loucura. E, além disso, um motivo de

vergonha para sua pobre mãe...

—Fugir com alguém? Por que não se casou com ele? Era um criado ou algo assim?

—Quem sabe. Nunca o viu ninguém.

—Não o dirá a sério? -Emily arqueou as sobrancelhas com cepticismo-. Era alguém tão espantoso que ela não se atreveu...? OH! Não estaria já casado, não é verdade?

Sophie empalideceu.

—OH, espero que não! Não deveria pensar isso. Helena era muito formosa, sabe? Poderia ter escolhido entre... entre muitos homens! O pobre senhor Ross ficou muito afetado quando ela se foi.

—Ele sabia?

—Claro. Ela deixou uma carta dizendo que se ia de casa. E, obviamente, todas as que possuímos certa perspicácia sabíamos perfeitamente que tinha um admirador. As mulheres sabem esse tipo de coisas. Lembro que no momento me pareceu inclusive muito romântico. Nunca imaginei que o assunto terminaria de uma maneira tão horrível.

—Eu não o considero tão horrível - replicou Emily franzindo levemente o sobrecenho-, sempre desde que fugisse para casar-se com outro. Talvez era alguém que não contava com a aprovação de sua mãe, mas que ainda assim a amava. Foi uma insensatez, sem dúvida, especialmente se ele não tinha dinheiro; mas não um desastre. Os amores românticos não são muito práticos quando se trata de viver dia a dia, tendo que pagar ao cozinheiro e a costureira, e tudo isso, mas se se tem bom senso pode ser mais ou menos suportável.

Uma de minhas irmãs contraiu matrimônio com alguém de um nível grandemente mais baixo que o dela e, entretanto, parece bastante feliz. Embora também é certo que ela é uma criatura incomum, asseguro.

—Seriamente é feliz? -inquiriu Sophie erguendo as sobrancelhas com surpresa.

—OH, certamente! -assegurou-lhe Emily-. Mas a você e eu nos pareceria bastante terrível. Talvez Helena fosse como ela, mas temesse as objeções de sua mãe, de modo que optou pelo caminho mais fácil.

O rosto de Sophie se iluminou.

—Que idéia tão emocionante! Talvez agora esteja na Itália, casada com um pescador, um gondoleiro...

—Há muitos gondoleiros que costumam fazer visitas de cortesia no Callander Square? -perguntou Emily.

Sophie soltou uma repentina gargalhada e depois olhou a Emily, consternada ante seu deslize social - consistente na gargalhada espontânea, claro está, não em sua estúpida pergunta.

—Que deliciosamente refrescante é você, Lady Ashworth! -disse Sophie com a boca ainda vergonhosamente oculta atrás de seus dedos-. Nunca conheci ninguém tão criativa.

Emily sentiu ir a seus lábios uma arroladora réplica à gargalhada de sua amiga, mas soube conter-se e conseguiu convertê-la em um beatífico sorriso.

—Pobre senhor Ross! -disse Emily para resolver a questão-. Deve ter gostado muito dela. Faz muito que aconteceu?

—OH, mais de um ano, talvez dois. A intuição do Emily experimentou uma caída. Por um momento Helena Douram tinha parecido a suspeita ideal.

Entretanto, com a resposta de Sophie sua culpa resultava muito improvável. Percorreu o salão com o olhar em busca da Euphemia. Havia um enorme homem com ela que Emily não conhecia. Um homem de considerável distinção, de uns sessenta anos de idade.

—Quem é esse homem tão elegante que acompanha a Lady Carlton? - perguntou.

O olhar de Sophie seguiu o seu.

—OH, é Sir Robert! Não o conhece?

—Não - respondeu Emily, negando levemente com a cabeça. Tinha que ser pelo menos vinte anos mais velho que sua esposa... uma circunstância muito interessante-. Acredito que me sentiria um pouco coibida com um marido assim-acrescentou Emily com tato-. Parece tão... importante. Está no governo, não é assim?

—Sim, com efeito. Acredito que eu também estaria coibida. Você é muito perceptiva. Sabe expressar com palavras exatamente o que há em minha mente inclusive antes que eu me tenha dado conta.

Emily acreditou estar sobre uma pista firme.

—Imagino que não deve ser um homem muito divertido - prosseguiu.

—Não, não o é.

Sophie a olhou significativamente e se aproximou um pouco mais a ela.

Emily soube em seguida que se avizinhava uma confidência e sentiu como seu sangue corria com maior excitação por suas veias. Sorriu a sua interlocutora, animando-a.

—Ela se sente muito... -Vacilou um instante-. Muito... atraída pelo Brandy Balantyne. Brandy é tão encantador! Juraria que se eu não apreciasse tanto Freddie também estaria apaixonada por ele!

Emily tomou fôlego, com o coração lhe palpitando.

—Quer você dizer... -perguntou Emily com incredulidade- que tem uma aventura com Brandy?

Sophie levou um dedo aos lábios, mas seus olhos refulgiam inquietos.

—E, além disso, espera um filho! -acrescentou-. Está mais ou menos no terceiro mês!

 

Transcorreram três dias antes que Emily pudesse visitar Charlotte para informá-la de sua participação à festa da sexta-feira à tarde e das incríveis informações solicitadas. O fim de semana não entrou sequer em consideração a tal efeito, dado que George tinha feito diversos compromissos aos quais tinham que ir juntos: no sábado as corridas, depois um jantar com amigos, e no domingo umas bodas de sociedade no meio da tarde e o inevitável banquete posterior. Mas também, claro está, porque Pitt estava em casa. Como inspetor não era obrigado a trabalhar sábados e domingos, a não ser que se tratasse de um caso de urgência. As mortes de dois bebês, provavelmente filhos ilegítimos de alguma criada, não caíam nessa categoria.

Emily não se sentia envergonhada do que estava fazendo, mas preferia que Pitt não estivesse ao corrente, ao menos de momento.

Em qualquer caso, na segunda-feira pela manhã já não pôde conter-se e deu o passo sem precedentes de fazer preparar a carruagem para as dez em ponto e ir diretamente à casa de Charlotte.

Charlotte se mostrou tão desconfiada como divertida. Abriu a porta, em um simples vestido de pano e com o avental posto.

—Emily! Pode-se saber que diabos faz aqui? Não era necessário perguntar se tinha acontecido algum desastre, já que seu rosto ardia de excitação; de fato, Charlotte não pôde recordar ter visto anteriormente semelhante olhar de satisfação no rosto de sua irmã desde que lhe anunciou que ia contrair matrimônio com o George Ashworth (quem, por certo, ainda não sabia).

—Trago as notícias mais incríveis! -disse Emily, quase afastando Charlotte para entrar-. Não acreditará quando lhe contar isso.

Charlotte deduziu sem vacilar a natureza de suas notícias.

—Investigar a faz sentir-se melhor do que imaginava - respondeu com olhos muito abertos-. Possivelmente deveria ser você quem se casasse com Thomas, não eu!

Emily a olhou com cenho. Tiveram que passar uns instantes antes que compreendesse que Charlotte só brincava.

—OH, Charlotte, é...!

Não ocorreu palavra alguma à Emily que pudesse descrever seus sentimentos e que ao mesmo tempo fosse apropriada para a dama que ela presumia ser. Charlotte riu de boa vontade.

—Anda, sente-se e me conte o que averiguou antes que comece a arder!

Emily se tinha proposto subministrar sua informação a conta-gotas, alongando ao máximo a tensão, mas não pôde conter-se.

—Euphemia Carlton tem uma aventura! -soltou com orgulho, esperando com expectativa a reação de Charlotte.

Charlotte a gratificou abrindo muito os olhos e deixando cair o pano de chão que levava na mão.

—Sim, senhora! -arrebitou Emily, resplandecente-. Pitt não o averiguou ainda, verdade? Tem uma aventura com o Brandy Balantyne, mas isso não é tudo!

Depois de dizer isto, Emily guardou silêncio para enfatizar a espera.

Charlotte sentou-se.

—Bem? -inquiriu.

—Está esperando um filho dele! Está no terceiro mês!

Charlotte se sentiu verdadeiramente impressionada. Pitt não sabia nada de tudo isso, tanto se fosse relevante para o caso como se não.

—Como sabe? -perguntou a sua irmã. Parecia a informação mais insólita que alguém pudesse obter depois de conhecer alguém só umas horas.

—Disse-me Sophie Bolsover. É uma criatura um pouco boba e inofensiva e não parece ter nem a menor idéia do que tudo isto significa.

—Ou é porque sabe que não significa nada.

Charlotte não queria romper a borbulha de feliz excitação do Emily, mas a verdade sempre ia a sua boca com a mesma rapidez com que lhe vinha à mente, e ainda não tinha desenvolvido a habilidade para controlá-la. Além disso, neste caso era mais correto não permitir que a hipótese crescesse sem antes examiná-la a fundo.

—Como podia saber ela algo assim? -perguntou-se Emily-. Se Euphemia está tendo uma aventura com o Brandy Balantyne, o filho será dele! Ah, há outra coisa que não lhe contei ainda: vi Sir Robert Carlton.

É um homem de considerável idade. Muito importante e diferente, mas de porte terrivelmente severo.

E tanto seu cabelo como seus olhos são claros. Brandy, em troca, é muito moreno; tem cabelo negro e olhos castanho escuro.

Charlotte seguiu sem deixar-se convencer.

—Euphemia é loira! -estalou Emily, exasperada-. Tem o cabelo muito bonito, loiro dourado! Se o cabelo do menino for negro, produzir-se-ia um escândalo! Não estranho que esteja assustada. -Emily piscou um olho antes de acrescentar-: Graças a Deus, George é moreno e eu sou loira.

Saísse meu filho como saísse, nunca daria pé a comentários. -Emily o disse de forma quase casual, como uma idéia que lhe tivesse ocorrido de passagem. Emily era uma mulher eminentemente prática para toda classe de assuntos.

Charlotte o aceitou como tal.

—Isso sim parece algo importante - disse a sua irmã com seriedade-. Isso da Euphemia e Brandy Balantyne, quero dizer.

Emily se encheu de satisfação. Era mais pragmática e mais segura que Charlotte, e ainda assim havia algo em Charlotte, talvez uma segurança íntima em suas próprias convicções, que fazia de sua irmã uma pessoa muito valiosa para ela.

—Vai contar a Pitt? -perguntou-lhe.

—Acredito que tenho que fazê-lo! Há alguma razão pela qual não deveria?

—Não, claro que não. Por que, se não, lhe diria isso ? Equivoca-te se pensar que ia confiar-lhe um segredo!

Charlotte se sentiu ferida, e assim o manifestou claramente seu rosto.

—Não é que não ira lhe contar - retificou Emily com rapidez-, É só que você nunca mentiria, ou pelo menos não o faria bem. Delataria que sabe algo por se sentir desconfortável, de modo que teria que jurar silêncio. Todo o assunto seria muito desagradável e cresceria até fazer-se mais importante que o segredo propriamente dito.

Charlotte a olhou.

—Eu, em troca, minto muito bem - acrescentou Emily-. Acredito que isso é importante para um bom detetive, especialmente se não for da polícia e, portanto o assunto não é diretamente de seu interesse.

Assim que descubra algo mais, contar-lhe-ei.

Charlotte refletiu por uns instantes e a seguir mediu suas palavras:

—Possivelmente seria interessante que averiguasse quanto tempo faz que dura esta aventura. Mas Emily... por favor, tome cuidado! Não te exalte muito com seus êxitos. Se a descobrem poderiam gerar muitas antipatias. – Charlotte aspirou profundamente-. Inclusive mais que antipatias. Conforme diz, isto poderia desencadear um escândalo espantoso. Sir Robert está no governo. Se Euphemia realmente foi capaz de enterrar a seus próprios filhos mortos sem seguir os ritos cristãos ou, ainda pior, inclusive de matá-los para proteger sua reputação, não acredito que tolere facilmente que você traga tudo isso à luz de qualquer jeito.

Emily ainda não tinha considerado a possibilidade de correr algum perigo pessoal. E mais, não lhe tinha ocorrido que algum aspecto do assunto pudesse chegar a roçá-la. Agora, de repente sentiu um calafrio. De repente o jogo dos detetives se converteu em realidade.

Charlotte viu a palidez surgida em seu rosto. Sorriu e apoiou docemente a mão no ombro de sua irmã.

-Simplesmente tenha a cuidado tranqüilizou-. Investigar não é só um exercício da mente, sabe? A gente é real e o amor e o ódio são perigosos.

Quando Pitt retornou de noite, Charlotte o recebeu na soleira da porta.

Tinha estado lhe dando voltas às notícias de Emily durante todo o dia, e ao ouvir os passos do Pitt sobre o pavimento já não podia conter-se mais, assim quando entrou o pegou pelas lapelas e o beijou a toda pressa para poder falar quanto antes.

—Emily veio esta manhã! -disse Charlotte-. Descobriu algo terrível.

Entre e lhe explicarei isso.

Era quase uma ordem. Charlotte escapou do abraço que Pitt tentava lhe dar e se escapou em direção ao salão, onde permaneceu em pé para ver melhor sua expressão quando lhe contasse tudo.

Pitt entrou vacilante, manifestando certa apreensão.

—Emily averiguou que Euphemia Carlton tem uma aventura com o jovem Brandon Balantyne! -replicou sua esposa com dramatismo-. E está esperando um filho!

Se o que Charlotte desejava era deixá-lo atônito, deu no alvo. O rosto do

Pitt empalideceu subitamente ao assimilar a informação; depois se escureceu um pouco com as primeiras dúvidas.

—Tem certeza que não estará... -inquiriu, arqueando as sobrancelhas- repetindo certos falatórios sem fundamento?

—Claro que está repetindo os falatórios! -respondeu Charlotte com agitação-. Como não ia alguém a obter semelhante informação? É você quem tem que determinar se os falatórios correspondem à verdade. Este é o motivo que induziu a Emily a me visitar: que lhe comunicasse a notícia. Não seria difícil... - Charlotte se interrompeu ao observar que Pitt se se pôs a rir-. O que te diverte tanto?

—Você me diverte, carinho! Onde obteve Emily essas inestimáveis mostra de... falatórios?

Pitt se aproximou da lareira e tomou assento em sua poltrona.

Charlotte lhe seguiu e se sentou no chão frente a ele para reclamar sua atenção.

—Da Sophie Bolsover, que não parecia ter muita consciência de sua importância. E isso não é tudo! Ao que parece Sir Robert é um homem muito mais velho que Euphemia, e muito importante e severo. Além disso, tem o cabelo loiro.

—O cabelo loiro? -repetiu Pitt, contemplando-a; mas agora seus olhos se mostraram mais incisivos.

Charlotte soube que tinha conseguido despertar seu interesse.

—Sim, loiro!

—E imagino que Brandon Balantyne tem o cabelo castanho...

—Exato. Compreende?

—Claro que o compreendo. Euphemia tem uma muito formosa cabeleira acobreada e a pele muito branca. Você não podia sabê-lo, mas imagino que Emily lhe disse isso!

Charlotte sorriu com satisfação.

Pitt roçou docemente sua face com a mão, brincando com uma mecha solta de seu cabelo; mas a expressão de seu rosto era gravemente séria.

-Charlotte, tem que advertir a Emily que tome cuidado. A gente da alta sociedade aprecia muito sua boa reputação; importa-lhes mais do que nós poderíamos imaginar. Poderia deixá-los muito nervosos que Emily se entremetesse e...

—Sei -lhe assegurou com rapidez-, e o disse. Mas ela quer averiguar quanto tempo faz que tem essa aventura e se tinha iniciado já quando os bebês morreram.

—Não. Isso o fará eu. Tem que ir vê-la amanhã e dizer-lhe. Pitt apoiou a mão no ombro do Charlotte quando percebeu que a apreensão a havia posto tensa-.

Não há motivos para que ninguém pense nada dela, salvo que se trata de uma mulher bisbilhoteira que não tem nada melhor que fazer que entreter-se com falatórios, mas se Robert Carlton é tão poderoso...

—Sir Robert? -repetiu Charlotte, surpreendida, sem compreender.

—Claro que Sir Robert, carinho. Se lhe puseram os chifres três vezes, não acredito que queira que saiba o resto do mundo! Ser objeto de escândalo é uma coisa, e que zombem de você é outra. Certamente Emily também lhe diria isso!

—Não o tinha pensado.

De repente Charlotte se sentiu desiludida. Podia ver a glória recém conquistada do Emily eclipsada em uma manobra única e perigosa. Que idiotas tinham sido, brincando de detetives como duas meninas!

—Irei vê-la manhã pela manhã. Se não me escutar, recorrerei ao George. Ele saberá convencê-la.

Pitt lhe dedicou um leve sorriso que ela não soube interpretar.

—Mas a informação é útil? -insistiu Charlotte, voltando para seu triunfo.

—OH, sim, muitíssimo! -Pitt foi sincero em sua apreciação-. Inclusive é possível que nos conduza à resposta. Agora o problema consiste em descobrir a duração dessa aventura e se Euphemia já deu a luz a outros meninos.

Pitt mergulhou em seus pensamentos, mostrando uma expressão preocupada.

—Isso é fácil. -Charlotte se levantou do chão ao comprovar que lhe tinham adormecido as pernas-. Fala com a criada da Euphemia...

-As criadas das damas são zelosamente leais - respondeu Pitt-, dado que lhes interessa conservar seu emprego. Não é provável que queira me contar que sua senhora tem uma aventura e que deu a luz dois bebês que desapareceram misteriosamente.

Charlotte retornou à mesa, movendo os pés para despertá-los.

—Claro que não! -confirmou com certa decepção-. Não dessa maneira!

Averigua que tipo de vestido usa, se ultimamente aumentou seu talhe, e se passou o mesmo há dois anos e seis meses. Averigua se as costuras das blusas foram alongadas. Se eu pudesse vê-los saberia imediatamente!

Pitt sorriu.

—Acaso investigar não é isso? -perguntou-lhe acalorada-. E pergunta se tiver passado uns meses no campo... -Charlotte se estremeceu-. Embora se os corpos foram enterrados no Callander Square, isso não parece provável. –Seu rosto se iluminou de novo-. Descobre se tiver estado doente, se tiver sentido náuseas ou debilidade. E se tiver bom ou mau apetite. Se tiver estado comendo muito e ganhou peso, já tem a resposta! Especialmente se tiver desejos por determinados mantimentos que normalmente não aprecia tanto. Olhe você mesmo sua roupa e não pergunte a sua criada por seu apetite ou seus enjôos, ou do contrário saberá muito bem o que está pensando. Pergunta à criada da cozinha pela comida, e a uma criada qualquer por sua saúde.

Pitt seguia sorrindo.

Charlotte olhou-o antes de começar a duvidar. A princípio, suas sugestões lhe tinham parecido excelentes.

—Não lhe parece a melhor maneira? -perguntou, pestanejando.

—Absolutamente profissional - aprovou Pitt-. Faz que me pergunte como conseguimos resolver tantos crimes sem mulheres que nos apóiem.

—Está zombando de mim outra vez!

—Em parte sim. Mas é certo que suas sugestões me parecem excelentes e acredito que devo segui-las.

—Magnífico! -exclamou Charlotte lhe dedicando um deslumbrador sorriso-. Eu gosto de pensar que lhe sou de ajuda.

Pitt soltou uma gargalhada.

Na manhã seguinte, Charlotte foi visitar Emily. Advertiu-lhe solenemente da possível vingança que poderia cair em cima tanto a ela como ao George se reincidiam nos falatórios sobre a Euphemia Carlton, embora fosse involuntariamente.

Emily a escutou com atenção e lhe jurou que abandonaria o assunto e se limitaria a prosseguir com suas habituais ronda sociais. Charlotte se sentiu aliviada, mas depois partiu com a estranha sensação de ter falhado em algo. Por uma parte, convencê-la tinha sido muito fácil. Não tinha visto nos olhos de Emily o medo que teria podido justificar tão rápida capitulação, mas não podia lhe pedir mais que uma promessa.

De modo que Charlotte retornou a casa e se dedicou a uma enérgica limpeza primaveril do salão... embora ainda estivessem na primeira semana de novembro e tinha começado a chover.

Pitt retornou ao Callander Square. As dez e quinze bateu na porta dos Carlton e perguntou se podia falar de novo com os criados. Foi conduzido à saleta de visitas da governanta e fez chamar à criada.

—Entre. -Pitt se tinha sentado em uma das grandes poltronas a fim de não incomodar à moça observando-a do alto de sua estatura-. Sente-se. Espero que este assunto não a tenha afligido muito.

A jovem lhe olhou com certo temor reverencial.

—Não; obrigado, senhor. -Embora ao ponto o pensou melhor-: Bom, quero dizer, sim, é lamentável, não lhe parece? Mas não imagino quem pôde ser!

—E sua senhora? Suponho que também a terá transtornado a ela?

—Não muito... Só sentiu a piedade que alguém pode esperar em um caso assim -replicou-. Está muito bem. Nunca a vi com tão bom aspecto.

—Não afetou a seu apetite? A algumas pessoas acontece, já sabe; sobretudo às mulheres de saúde delicada.

-Lady Carlton não é nada delicada, senhor, é forte como um carvalho, se me permitir à expressão. Nada de desmaios e sai, salvo...

Pitt arqueou as sobrancelhas simulando interessar-se por mera cortesia.

—Bem, sim, ficou um pouco má algumas vezes, mas suponho que era por seu estado, se é que me entende...

—OH, raios! -exclamou levando-a mão aos lábios e lhe olhando com olhos muito abertos-. Contei!

—Não se preocupe - a tranqüilizou Pitt-. Além disso, interessa-me o passado, não o futuro.

Pitt dissimulou sua contrariedade. Agora seria impossível obter mais informação da moça sem que ela soubesse o que lhe interessava saber. Seria melhor falar em seguida com outros antes que a jovem disparasse o alarme, embora fosse involuntariamente.

Subiu ao piso de cima para ver a criada pessoal da senhora, apesar das objeções da carrancuda governanta, porque queria ver os vestidos da senhora com seus próprios olhos... embora ainda não sabia que desculpa ia dar para consegui-lo.

Encontrou à criada de Lady Euphemia escovando um traje de montar e passando uma esponja pelas partes do vestido manchadas pelo lodo outonal.

Deixou-o cair com surpresa quando viu entrar Pitt.

—Por favor, não interrompa sua tarefa, senhorita - lhe disse Pitt, e cruzou a habitação para recolher o vestido e examinar seu toque com os dedos-. Um excelente objeto de pano. -Deu-lhe a volta de modo que a cintura ficasse entre suas mãos-. E de magnífica feitura. -Pitt apalpou rapidamente as costuras.

Nada. Deu uma olhada a cintura, tal como Charlotte lhe tinha recomendado.

Encontrou-o imediatamente: uma extensão da fita, com uma parte apanhada no interior. Devolveu-o à criada com absoluta naturalidade, ao mesmo tempo em que lhe dedicava um sorriso-. Eu gosto de ver uma mulher bem vestida. É algo que agrada a qualquer um.

—OH, pois este é do ano passado! -observou a garota-. De fato, está bastante velho. Lady Euphemia tem vestidos muito melhores que este!

—Seriamente? Eu gostaria de ver um melhor que este - acrescentou Pitt, como se não acreditasse possível-. Este é de um tecido magnífico.

A camareira não vacilou em dirigir-se para um enorme guarda-roupa e o abriu para mostrá-lo a Pitt. De seu interior surgiu um verdadeiro arco íris luminoso de sedas púrpura, vinho, verde e outros tons.

—Que maravilha! -disse ele com sinceridade.

Aproximou-se do guarda-roupa e tocou a suave e reluzente malha com os dedos, esquecendo por um momento seu propósito. Havia um vestido âmbar que adquiria um reflexo quase dourado nas zonas em que incidia a luz e um tom avermelhado nas zonas sombreadas. Tinha que oferecer um aspecto magnífico sobre a esbelta figura da Euphemia Carlton, mas ele preferiu imaginá- lo em Charlotte. Por um instante sentiu uma pontada de dor ao pensar que ele não podia comprar a sua esposa vestidos como esse. Por um momento esqueceu à criada e ao Callander Square e sua mente divagou em busca de alguma outra ocupação em que pudesse ganhar uma boa soma de dinheiro.

—Belos vestidos, não é verdade?

Também na voz da mulher havia certa nota de desejo. Ouvi-la fez que Pitt voltasse para a realidade. Por um momento observou a espigada figura da garota em seu vestido negro e seu avental branco.

—Sim - corroborou-. Sim, certamente. -Rapidamente procurou com os dedos as costuras alongadas e os flancos em que pudesse perceber uma antiga intervenção-. Imagino que estes vestidos necessitarão constantes repasses.

Pitt ainda não tinha encontrado nada-. Deve ser você muito hábil com a agulha.

A criada sorriu ante o elogio.

—Não há muitos homens que prestem atenção a estas coisas. Sim, eu trabalho muito, mas a senhora está muito bonita quando sai daqui, e não é porque eu o diga... Nunca deixo que saia de casa se não estiver perfeita.

Pitt se decidiu a correr o risco e olhou abertamente os diminutos pontos.

Não havia dúvida: a cintura tinha sido alongada pelo menos um par de polegadas.

—É você uma artista! -disse sem faltar de todo à verdade.

O que tinha que passar a cabeça de uma mulher para pôr todo seu empenho e seu amor em embelezar a outra, sem mais recompensa que ficar em casa e contemplar como aquela vai a festas e recepções, não deixa de dançar toda a noite e de ser admirada, e depois sobe as escadas até onde ela se encontra e espera receber sua maravilhosa roupa perfeitamente engomada e arrumada de novo para a seguinte ocasião?

—Tem todos os motivos para sentir-se orgulhosa - lhe disse. A seguir deixou cair os babados de seda que segurava entre as mãos e fechou a porta do guarda-roupa.

A criada sorriu vivamente agradada.

—OH, obrigada, é muito amável - respondeu.

Agora tinha que lhe perguntar algo, ou do contrário poderia suspeitar. A mente do Pitt procurou uma pergunta acertada.

—Sua senhora costuma dar de presente seus vestidos velhos às criadas que o tenham merecido?

Pitt conhecia a resposta de antemão: nenhuma senhora deseja ver suas criadas vestidas com o estilo e a qualidade de seus próprios vestidos, não importa quão velhos estejam ou o muito que elas o mereçam.

—OH, não, senhor! Lady Euphemia os envia ao campo, a casa de alguma de suas primas, que não sabem o que está na moda ou não. A senhora é muito amável.

—Já vejo. Muito obrigado - disse Pitt, sorrindo e encaminhando-se para a cozinha.

Nem o cozinheiro e as ajudantes de cozinha disseram nada definitivo, mas ao que parece Euphemia tinha tido épocas nas que repentinamente se decidia a comer muito, aumentando visivelmente de peso, para depois ficar de dieta de novo.

Eles atribuíam a primeira circunstância a um apetite saudável e à afeição pelos doces, enquanto que a segunda achavam devida a um repentino renascer de sua vaidade e sua submissão aos ditados da moda. Não havia nada que permitisse demonstrar se estes argumentos eram certos ou não. Pitt lhes agradeceu e abandonou a mansão.

Ocupou seu tempo com outras coisas até a tarde, momento em que esperava achar a Sir Robert Carlton e a Lady Euphemia em casa e falar com eles pessoalmente.

Retornou à mansão pouco depois das seis. Sabia que não era um momento conveniente, mas ao fim e ao cabo não existia momento conveniente para a classe de perguntas que ele ia formular.

O criado o recebeu com frieza e o conduziu à biblioteca. Transcorreram vários minutos antes que a porta se abrisse e deixasse passagem a Sir Robert Carlton, quem a fechou suavemente atrás de si. Era um homem esbelto e enrijecido, cuja estatura superava um pouco a média.

Tal como lhe havia dito Charlotte, seu rosto mostrava uma extrema distinção, mas a doçura de sua expressão lhe tirava a arrogância.

—Soube que deseja ver-me? -perguntou ao Pitt. Sua voz, clara e bonita, continha um leve tom de surpresa.

—Sim, senhor - respondeu Pitt-, se não se importar. Rogo desculpe minha intromissão a esta hora da tarde, mas queria ter certeza de achá-lo em casa. - Carlton esperou cortesmente que Pitt continuasse-. Receio que tenho motivos para supor que a mãe dos bebês encontrados na praça poderia ser um membro de sua ilustre casa.

Pitt se preparou para ouvir uma resposta irada ou inclusive insultante. Mas a única coisa que percebeu foi certa tensão nas faces de Sir Carlton, como prevendo uma má notícia. Pitt se perguntou se conheceria já a conduta de sua esposa ou, ao menos, suspeitaria dela. Seria possível que tivesse chegado a aceitar esta situação?

—Lamento-o -respondeu Sir Carlton com calma-. Pobre mulher.

Pitt olhou-o fixamente.

Carlton lhe sustentou o olhar por sua vez, com ansiedade e compaixão. E também com algo que Pitt não compreendeu, mas que acreditou imaginar e lamentou profundamente. Sentiu um velado arrebatamento de ira contra Euphemia e contra o jovem Brandon Balantyne, a quem ainda não conhecia.

Carlton falou de novo:

—Tem idéia de quem pode ser, senhor Pitt? Ou do que pode acontecer a ela?

—Isso depende das circunstâncias, Sir Robert. Se os meninos nasceram mortos não haveria causa criminosa contra ela. Mas perderá sua reputação e, a menos que fora extraordinariamente afortunada, também seu emprego e as referências necessárias para obter outro.

—E se não tivessem nascido mortos?

—Nesse caso teria que enfrentar-se a uma acusação de assassinato.

—Entendo. Suponho que é inevitável. E à desgraçada mulher a enviarão à forca.

Pitt se deu conta muito tarde de que não deveria haver-se comprometido com suas palavras e ter deixado a Sir Carlton na dúvida. Só por culpa desta pequena estupidez poderia ter perdido sua ajuda.

—Não necessariamente - respondeu tratando de arrumar a situação. - Pode haver muitas causas atenuantes, é claro.

Ao Pitt lhe ocorriam muitas, mas sabia que nenhuma delas teria servido para convencer a um tribunal.

—Disse "alguém de minha casa" - continuou Carlton como se Pitt não tivesse falado-. Devo deduzir que ainda não sabe de quem se trata?

—Não, senhor. Pensei que talvez Lady Carlton, ao conhecer os criados melhor que eu, poderia me ajudar a averiguá-lo.

-Suponho que não há outro remédio que envolvê-la nisto...

—Temo que assim é.

—Muito bem - disse Carlton, e se dirigiu à campainha e a fez soar.

Quando apareceu um criado, deu-lhe instruções para que fizesse vir Euphemia. Esperaram em silêncio até que ela chegou. Quando o fez, fechou a porta e se dirigiu aos pressentes. Sua expressão era doce e extremamente inocente, inclusive ao ver Pitt. Em caso de que tivesse algum sentimento de culpa, Euphemia devia ser daquelas estranhas criaturas incapazes de ver mais interesse que o seu próprio. Ou se tratava de uma consumada atriz...

—Querida, o inspetor Pitt é da opinião de que a mãe dessas desgraçadas criaturas poderia ser alguém de nossa casa - explicou seu marido-. Receio que será necessário que faça um esforço para lhe ser de ajuda.

O rosto da Euphemia empalideceu um pouco.

—OH, quanto o sinto! Claro que não posso estabelecer distinções, mas odeio pensar que possa tratar-se de alguém desta casa. Tem certeza, inspetor?

Voltou-se para ele. Embora fosse uma mulher muito atraente, ainda mais atraente que sua beleza era a calidez que desprendia.

—Não, senhora, mas tenho motivos para acreditar.

—Por que razão? -inquiriu.

Pitt tomou fôlego e se arriscou:

—Ao que parece há alguém desta casa que tem uma aventura. Uma aventura amorosa...

Pitt estudou seu rosto. Por um momento, Lady Euphemia permaneceu impassível, sem mostrar emoção alguma salvo a de mera cortesia. Mas ao cabo de uns instantes suas mãos, apoiadas sobre a seda escura de seu vestido, contraíram-se quase imperceptivelmente. Uma leve coloração foi a sua garganta. Pitt olhou então ao Carlton, quem pelo contrário se mostrava indiferente e distraído.

—Bem? -acrescentou ela depois de uma leve vacilação. Pitt prosseguiu.

—Há uma grande probabilidade de que, como resultado de suas relações, a mulher em questão tenha ficado em estado...

O rubor da dama aumentou penosamente. Euphemia voltou à cabeça para ocultá-lo.

—Entendo.

Carlton continuava parecendo alheio a tudo o que não fosse uma sincera preocupação por suas criadas.

—Talvez seja melhor que faça algumas perguntas entre a criadagem, querida. É

isso o que quer, inspetor?

-Se Lady Carlton acreditar que assim pode chegar a descobrir algo... – disse Pitt olhando a de frente e escolhendo deliberadamente as palavras de modo que ela pudesse compreender seu sentido, apesar de sua aparente trivialidade.

Euphemia afastou o rosto.

—Que deseja saber, senhor Pitt?

—Queria averiguar quanto tempo leva esta... aventura -respondeu Pitt com calma.

Lady Euphemia tomou fôlego.

—Talvez não seja da... -disse, procurando desesperadamente as palavras mais adequadas- da natureza ou de... das emoções que você pressupõe.

—As emoções que podem estar envolvidas não nos concernem, querida - disse Carlton com impassibilidade-. E a natureza das mesmas dificilmente pode ser posta em dúvida, dado que se acharam a dois bebês enterrados na praça.

A dama virou sobre os calcanhares para olhá-los cara a cara, com o horror refletido no rosto e olhos muito abertos.

—Você não pode supor... quero dizer... você não pode concluir que só porque alguém... tenha uma aventura é responsável por essas mortes! Pode haver muita gente na praça que tenha alguma relação ou alguma...

—Há uma enorme diferença entre um simples flerte e uma aventura que produz dois filhos, Euphemia. -Carlton não perdeu sua cortesia nem seu ar de sensatez, quase de indiferença-. Não estamos falando de uma mera admiração.

—Sei! -replicou ela bruscamente.

Quando a tensão de seu rosto se suavizou um pouco, Lady Euphemia recuperou o controle de si mesma com um esforço. Pitt, de pé a seu lado, pôde ver como se contraíam os músculos de sua garganta e se esticava o tecido de seu vestido ao conter o fôlego. perguntou-se se Carlton era tão indiferente ao transtorno de sua esposa como aparentava. Parecia tratar-se de um casal totalmente distanciado ao longo dos anos.

Tinha sido Euphemia uma jovem obrigada por pais ambiciosos ou pouco abastados a contrair um matrimônio de conveniência? Da conveniência deles, claro está... perguntou-se o que teria pensado Charlotte ou inclusive o que teria feito se tivesse encontrado em um caso assim. Decidiu conhecer o jovem Brandon Balantyne o antes possível.

—Tratarei de averiguar o que puder, senhor Pitt - disse Euphemia, olhando-o nos olhos com suas maravilhosas pupilas ladeadas de cor castanha dourada-. Mas se houver alguém em minha casa que tenha uma aventura ou uma relação do tipo que você sugere, asseguro-lhe que não sei nada a respeito.

—Agradeço sua colaboração, senhora - disse Pitt com amabilidade.

Ele sabia o que ela tentava lhe dizer: que tinha captado o que ele estava pensando, mas que não estava envolvida até tal ponto. Entretanto, não podia arriscar-se a acreditar nela sem mais prova. Pitt se despediu e abandonou a casa com a mesma sensação de tristeza que havia sentido cada vez que começava a vislumbrar a verdade de uma tragédia que se convertera em crime.

Emily não tinha intenção de cumprir a promessa feita à Charlotte de modo algum, salvo na medida em que teria uma maior precaução que a mantida até o momento. Já não ia expor perguntas diretas a ninguém, embora, para falar a verdade, Sophie Bolsover o tinha pedido a gritos. Em seu lugar ia cultivar amizades. Com este propósito, foi a sua ronda de visitas ao Callander Square, nesta ocasião para ver a Christina. Tinha obtido uma informação relativa a um modista que ela sabia seria do interesse da Christina, e se tomou a liberdade de lhe fazer uma visita de cortesia pela manhã, em um momento em que ainda não estaria ocupada no ritual social da tarde.

Na porta a recebeu o criado Max.

—Bom dia, Lady Ashworth - a saudou, mostrando uma leve surpresa.

Os escuros olhos do criado deslizaram pelo belo vestido do Emily com expressão apreciativa antes de subir de novo até seu rosto.

Emily lhe devolveu o olhar com frieza.

—Bom dia. Está à senhorita Balantyne em casa?

—Sim, senhora. Se tiver a amabilidade de entrar lhe comunicarei sua chegada.

Max deu a volta e abriu de todo a porta. Emily lhe seguiu ao vestíbulo e depois até a saleta das manhãs, em cuja lareira já ardia um acolhedor fogo.

—Deseja tomar algo, senhora? -perguntou Max.

—Não, obrigada - replicou ela sem olhá-lo.

O criado sorriu levemente, inclinou a cabeça e a deixou sozinha.

Emily teve que esperar dez minutos; já começava a impacientar-se quando entrou Christina.

Emily se voltou para saudá-la e se surpreendeu de ver que apresentava um aspecto quase desalinhado. Levava o cabelo mau penteado, com cachos escuros e desmesurados sobre sua nuca, e parecia excessivamente pálida.

—OH, querida! Visito-a em um momento inoportuno?

Emily tinha estado a ponto de lhe perguntar se se achava mau, mas reparou que dizer a alguém que oferecia aspecto doente não era nada amável, e Emily não desejava pôr tão cedo em perigo a tênue amizade que começava a uni-la com a Christina.

—Devo admitir - disse Christina apoiando a mão no espaldar da poltrona e sustentando-o firmemente- que não me encontro muito bem esta manhã. É algo bastante incomum em mim.

-—OH, sente-se, o rogo! -disse Emily aproximando-se dela e tomando a mão-. Espero que não seja mais que uma indisposição passageira! Um leve resfriado, possivelmente! Além de tudo, qualquer mudança de tempo pode provocar estas coisas muito facilmente.

Entretanto, Emily tinha suas dúvidas de que fosse assim: Christina era uma moça saudável e não mostrava nenhum dos sintomas habituais de um resfriado.

Não tinha aspereza na voz, não parecia ter febre e não lhe gotejava o nariz.

Christina se deixou cair pesadamente na poltrona. Além de sua palidez, um muito leve véu de suor perolava sua fronte.

—Talvez devesse tomar uma infusão - sugeriu Emily-. Chamarei o criado.

Christina negou com a cabeça, mas Emily já tinha feito soar a campainha.

Desta vez esteve alerta, de modo que quando Max apareceu, Emily lhe falou por cima da cabeça da Christina.

—A senhorita se sente um pouco indisposta. Teria a amabilidade de lhe preparar uma infusão e de fazê-la subir?

Os pesados olhos do homem se fixaram na Christina, e Emily captou esse olhar. Max levantou a vista em seguida e se apressou a obedecer.

—Não sabe quanto lamento havê-la encontrado assim - disse Emily com a melhor combinação de bom humor e simpatia que foi capaz de expressar.

Unicamente vim lhe dizer o nome da costureira que você me perguntou. Tentei persuadi-la de que atenda as duas, mas tem muitíssimos encargos.

É tão hábil para a costura que é capaz de conseguir que as criaturas mais feias pareçam atraentes - disse a Christina, sorrindo. - E muito meticulosa nos acabamentos. Nada de fios esquecidos ou de botões mal costurados. E é tão acertada nos desenhos que pode ocultar uns centímetros de mais de modo que ninguém se dê conta de que se aumentou de peso.

Christina se ruborizou repentina e intensamente.

—O que está sugerindo? Não aumentei de peso! -exclamou apoiando as mãos sobre o ventre.

A sagacidade de Emily disparou.

—É você afortunada... -disse-lhe. - Receio que eu engordo um pouco no inverno. -O qual, é claro, era mentira-. Acontece-me sempre. Tem que ser culpa desses endiabrados pudins quentes e demais guloseimas. Além disso, sinto fraqueza pelo molho de chocolate!

—Se me desculpar - disse Christina, ficando trabalhosamente em pé e com as mãos ainda duras-. Acredito que será melhor que suba. A menção da comida me fez me sentir doente. Agradecer-lhe-ia que não o diga ao Max. Você mesma beba a infusão, se quiser.

—OH, querida! -disse Emily lhe passando o braço pela cintura-. Quanto o sinto. Permita que a ajude. Não está em condições de subir sozinha. Pelo menos deveria acompanhá-la até seus aposentos e sua criada poderá ocupar-se de você. Deseja que faça chamar um médico?

—Não! -replicou Christina, com olhos coléricos-. Encontro-me perfeitamente bem! Não é nada. Talvez comi algo que não me assentou bem. Rogo que não volte a mencionar o assunto. Considerá-lo-ia uma verdadeira amostra de amizade que tivesse a amabilidade de tratar todo este episódio com extrema confidencialidade -pediu Christina, agarrando fortemente Emily pelo braço com uma mão pequena e fria.

—É claro -lhe assegurou Emily-. Não o mencionarei. Ninguém gosta que se vão comentando por aí as próprias indisposições. Trata-se de um assunto inteiramente privado.

—Agradeço. -Mas agora será melhor que suba. Emily a conduziu através do vestíbulo e depois a ajudou a subir a ampla escada até o patamar superior, onde já a esperava sua criada para tomar conta dela.

Emily tinha descido de novo e tinha chegado já ao vestíbulo quando quase foi empurrada a um lado por um homem alto, de ombros largos, que passou rapidamente.

—Perkins! -exclamou ele com zango-. Perkins, maldição!

Então se virou e a viu. Tinha aberto já a boca para exclamar algo outra vez, quando comprovou que Emily não era o escorregadio Perkins. Tinha um rosto impressionante, de feições muito marcadas, que agora se ruborizaram levemente ao constatar que se pôs em evidência. Ergueu a cabeça ainda mais.

—Bom dia, senhora. Posso ajudá-la? A quem está procurando?

—General Balantyne? -perguntou Emily com magnífica compostura.

—A seu serviço - respondeu ele com rigidez, seu temperamento mal controlado pela cortesia.

Emily sorriu com irresistível encanto.

—Emily Ashworth - se apresentou, estendendo-lhe a mão-. Vim ver a senhorita Balantyne, mas se encontra levemente indisposta, de modo que decidi partir. Perdeu seu mordomo? Acho que o vi sair nessa direção - disse, assinalando vagamente para trás. Tinha inventado isso, mas desejava parecer serviçal e, se fosse possível, inclusive manter uma breve conversa.

—Não. À criada. Essa maldita mulher sempre está removendo meus papéis. Agora mesmo não posso recordar se seu nome é Perkins ou não, mas Augusta sempre chama "Perkins" a todas as criadas do piso inferior.

—Disse "papéis"? -Uma idéia brilhante surgiu na mente de Emily-.

—Está escrevendo um livro?

—Uma história familiar, senhora. Os Balantyne participaram de todas as grandes batalhas que nossa nação manteve nos últimos duzentos anos.

Emily conteve o fôlego e, empregando suas nada desdenháveis habilidades como atriz, tratou de imprimir um grande interesse a todos seus gestos.

Em realidade, a historiografia militar a aborrecia até a exasperação, mas era necessário que fizesse alguma observação inteligente.

—É algo verdadeiramente importante -aprovou com fingida admiração-.

A história de nossos militares é a história de nosso povo. -Emily se sentiu orgulhosa daquela observação, que pareceu excelente.

Ele a olhou com surpresa.

—É a primeira mulher que conheço que pensa assim.

—É devido a minha irmã - se apressou a indicar-. Ela sempre sentiu um vivo interesse por esta classe de coisas. Foi ela quem me fez entender sua enorme importância. Eu não me tinha dado conta até então... OH, mas estou afastando-o de seu trabalho! Já que não posso ajudar, ao menos devo procurar não lhe estorvar. Sem dúvida necessitará de alguém que lhe atira e que mantenha seus papéis em ordem, alguém que entenda destas coisas, que se preocupe de suas investigações e que talvez inclusive tome notas, não é verdade? Mas já disporá de alguém assim...

—Se o tivesse, senhora, agora mesmo não estaria procurando certa criada para ver que diabos fez com meus papéis!

—Acredita que alguém assim poderia lhe ser útil?

Emily pôs seu máximo esforço em tirar transcendência ao tom de sua voz.

—Encontrar a uma mulher com sensibilidade pela história militar não só seria uma grande sorte, senhora, mas também altamente improvável.

—Minha irmã é da máxima competência, senhor - lhe assegurou Emily-, e, como disse, tem um inesgotável interesse pelos assuntos de temática militar.

Meu pai, naturalmente, nunca aprovou, por ser desaconselhável para sua natureza feminina, de modo que não teve ocasião de dedicar-se a isso. Ainda assim, tenho certeza de que papai não desaprovaria que ela dedicasse uma pequena parte de seu tempo a prestar assistência a alguém como você.

Logicamente, Emily não pensava lhe dizer que Charlotte estava casada com um policial.

O general Balantyne a olhou fixamente. Uma mulher de um status inferior ao do Emily se amedrontaria facilmente.

—Com efeito. Bem, se posso contar com a aprovação de seu senhor pai, poderíamos tentar que sua irmã me prestasse sua assistência. Rogo-lhe tenha a amabilidade de informar disso a seu senhor pai e de ver se ela está de acordo.

Se for assim, talvez queira me fazer uma visita e estabeleceríamos condições satisfatórias para ambos. Estou-lhe muito agradecido, senhorita...

O general tinha esquecido seu nome.

—Ashworth -completou Emily, sorrindo de novo-. Lady Ashworth.

—Lady Ashworth -repetiu o general, inclinando levemente a cabeça-. Desejo-lhe um Bom dia, senhora.

Emily fez uma pequena reverência de despedida e saiu a toda pressa imersa em um êxtase de felicidade.

Subiu à carruagem e deu instruções ao cocheiro para que a levasse a toda pressa a casa de Charlotte. Não importava um nada à hora da manhã que fosse. Emily tinha que pôr em prática seus planos e informar detalhadamente ao Charlotte do futuro papel que lhe correspondia neles.

Tinha esquecido por completo a advertência do Charlotte e a promessa subseqüente.

—Estive no Callander Square esta manhã! -exclamou no mesmo instante em que Charlotte abria a porta, e se dirigiu como uma ventania ao salão, dando-se então à volta para olhar a sua irmã de frente-. Averigüei as coisas mais incríveis que possa imaginar! Para começar, Christina Balantyne está indisposta e sofre náuseas a estas horas da manhã! E quase me mata quando lhe sugeri que possivelmente tinha aumentado de peso. Rogou-me que não dissesse nada a ninguém de sua indisposição! Seriamente, implorou-me isso! O que lhe parece, Charlotte? Verdade ou não, seja como for, sei do que tem medo! Só pode tratar-se de uma coisa. Além disso, não me permitiu que chamasse um médico.

Charlotte tinha empalidecido. Estava em pé na soleira da porta, com os olhos arregalados.

—Emily, prometeu-me isso! -exclamou.

Emily não tinha nem idéia do que se referia sua irmã.

—Prometeu-me isso! -repetiu Charlotte com raiva-. O que imagina que farão os Balantyne se descobrirem que sabe algo assim?

O que diria Lady Augusta? Duvido que fique sentada contemplando como a arruína!

Perdeu a sensatez? Terei que falar com o George e talvez ele seja capaz de evitar que se comporte como uma estúpida!

Emily lhe indicou que se sentasse a seu lado.

—OH, pelo amor de Deus, Charlotte! Acha que não sei como me comportar em sociedade? Cheguei muito mais longe do que você nunca chegará.

Tecnicamente, claro está, porque você nunca fez o menor esforço. Mas acha que porque você não seja capaz de guardar suas opiniões, eu tampouco posso fazê-lo? Posso mentir de tal maneira que Pitt não chegaria, a saber, nunca, e menos ainda Augusta Balantyne. Não tenho intenção de me arruinar a mim mesma nem ao George.

—"E agora faz o favor de pôr atenção ao que te contei que a Christina! Ignoro quem pode ser seu amante, mas enquanto estive ali surgiu uma oportunidade e tive uma idéia brilhante. Naturalmente, vali-me dela sem vacilar. O general Balantyne está escrevendo uma história militar de sua família, da qual parece sentir-se muito orgulhoso. Necessita a alguém que lhe ajude a organizar-se, tome notas, etcétera.

Emily se interrompeu para tomar fôlego com o olhar fixo em Charlotte, e chegou a considerar a possibilidade de que Charlotte se negasse.

—E então? -inquiriu Charlotte franzindo o sobrecenho-. Não compreendo o que têm que ver as memórias militares do general Balantyne com os temores da Christina.

—Pois bem, aí mesmo tem a resposta! -Emily golpeou o regaço com a mão, frustrada ante a estreiteza de olhar de Charlotte-. Ofereci você como voluntária para que vá e o ajude a pôr em ordem seus escritos! Você é a pessoa ideal.

Inclusive você gosta dos assuntos militares... Sempre conseguiu recordar quem lutou contra quem e em que batalha quando a maioria de nós nem sequer pode recordar por que, e certamente tampouco lhe importa. Tem que ir e...

O rosto do Charlotte expressava uma absoluta incredulidade.

—Emily! Perdeu o juízo? Não posso ir simplesmente ali e... me pôr a trabalhar para o general Balantyne! Seria ridículo! -Mas enquanto pronunciava estas palavras, a voz do Charlotte baixava paulatinamente de tom, perdendo pouco a pouco a irritação que continha.

Emily sabia que, apesar do que havia dito, não desagradava à idéia à Charlotte e que, de fato, ao mesmo tempo em que tratava de convencer-se a si mesma do ridículo que esta era, estava lhe dando voltas na cabeça à possibilidade de aceitá-la.

—Thomas nunca o permitiria - acrescentou Charlotte com uma careta.

—por que não?

—Seria... impróprio de uma dama casada.

—Por quê? Não precisa aceitar nenhum dinheiro se a dignidade de seu marido lhe impede isso. Tudo o que ele precisa saber é que está ajudando a um cavalheiro e que ao mesmo tempo satisfaz seus próprios interesses. e... quem sabe o que poderia chegar a descobrir? Estaria em casa dos Balantyne todos os dias!

Charlotte se dispôs novamente a protestar, mas seus olhos não olhavam a Emily, mas sim vagavam perdidos pelo horizonte de sua imaginação. Havia um profundo resplendor neles.

Emily soube que tinha ganho e que não havia tempo para desfrutar da vitória.

—Passarei para recolhê-la amanhã pela manhã às nove e meia. Ponha seu melhor vestido escuro. Possivelmente essa de cor vinho que está bastante novo.

Essa cor lhe assenta muito bem...

—Não irei com o fim de atrair sua atenção, Emily! -replicou Charlotte, fazendo um último e automático protesto.

—Não seja néscia, Charlotte. Qualquer mulher, quando triunfa em algo, faz isso por ter atraído a atenção de um homem. Em qualquer caso, sejam quais forem seus fins, nunca vem mau!

—Emily, é uma criatura terrivelmente perversa.

-Você também, o que acontece é que não se atreve a reconhecê-lo. –Emily se endireitou. - Tenho que ir. Tenho outras visitas que fazer. Por favor, fique preparada às nove e meia. Conte ao Pitt o que lhe aconteceu.

Piscou-lhe um olho.Como certo, obviamente não disse ao general Balantyne que está casada com um policial, e muito menos com o que está investigando o caso do Callander Square.

Disse-lhe que era minha irmã, assim será melhor que volte a ser a senhorita Ellison.

Emily se escapou antes de que Charlotte pudesse replicar. De qualquer modo, estava muito agradada com a idéia para procurar objeções, assim já tinha a mente ocupada em achar a explicação mais judiciosa que pudesse oferecer ao Pitt e a melhor maneira em que poderia satisfazer ao general Balantyne no transcurso de suas investigações.

Na manhã seguinte, enquanto Charlotte se contemplava no espelho, ajustando o vestido pela décima vez e assegurando-se novamente de que os pregue estavam bem recolhidos e dispostos da maneira mais favorecedora, Augusta Balantyne estava olhando com dureza a seu marido por cima da mesa do café da manhã.

—É certo o que entendi, Brandon, que contratou a certa moça de educação indeterminável e de limitados recursos para que venha a esta casa e se atire nessas memórias familiares em que está... -sua voz tremeu um pouco- ocupado?

—Não, Augusta, não me entendeu - replicou ele olhando-a por cima de sua xícara de café-. Lady Ashworth, de quem soube é amiga sua, recomendou a sua irmã como a uma mulher de grande inteligência e propriedade, que estaria disposta a pôr em ordem meus papéis e tomar algumas notas se desejo ditar-lhe.

Não espero que a entretenha socialmente, embora não entendo por que isso teria que importar-lhe: dificilmente será uma mulher feia ou mais néscia que a maioria das que costuma receber aqui.

—Há vezes, Brandon, acredito que diz coisas como esta unicamente com a intenção de me provocar. Não se pode escolher a suas amizades em função de seu bom aspecto ou, infelizmente, de sua inteligência.

—Pois eu acredito que seriam critérios bastante mais satisfatórios que seu nascimento ou seu dinheiro - opinou Brandon.

—Não seja inocente -replicou ela-. Sabe perfeitamente o que conta em sociedade. Espero que não pretenda que essa jovenzinha almoce na sala de jantar...

Brandon arqueou as sobrancelhas com surpresa.

—Não considerei a possibilidade de que comesse aqui absolutamente. Mas, já que o diz, possivelmente o cozinheiro poderia lhe preparar algo. A senhorita Ellison poderia comer na biblioteca, como costumava fazer a preceptora.

—A preceptora comia no quarto de estudo.

—A diferença é meramente acadêmica. -O general se levantou da mesa. - Diga ao Max que a conduza à biblioteca quando vier. Já sabe, desagrada-me muito esse homem. Uma chamada à ordem faria muito bem.

—É um excelente criado, e uma "chamada à ordem" seria sua ruína. Por favor, não se intrometa no controle dos criados da casa. Já contratamos ao Masters para esse fim; por outra parte, você não tem nem idéia.

O general lhe dedicou um olhar azedo e saiu pela porta, fechando com uma sonora portada.

Augusta fez o possível para estar no vestíbulo às dez em ponto, justo no momento em que Charlotte chegava pontualmente. Viu o Max abrir a porta e esperou com vivo interesse. Sentiu uma estranha mescla de superioridade e relutante aprovação quando viu entrar Charlotte. Tinha esperado contemplar um vestido pouco elegante e um rosto apurado e submisso; em troca, viu uma saia de tom vinho, um pouco passada de moda, mas ainda favorecedora, e um rosto que expressava tudo menos submissão.

De fato, era um dos rostos mais interessantes e decididos que jamais tinha visto , mas que ao mesmo tempo continha uma surpreendente doçura na boca e na suave curva das faces e garganta.

Decididamente, não era uma mulher a que desejasse ver em sua casa. Não se tratava de uma mulher que pudesse chegar a gostar ou a que pudesse compreender. Não era a classe de mulher que se deixasse governar facilmente pelas normas sociais que tinham marcado a Augusta durante toda sua vida, debaixo de cuja lei tinha lutado e cujas intrincadas batalhas tinha sabido ganhar sempre.

Lady Augusta avançou para ela da maneira mais fria e distante.

—Bom dia, senhorita... -inquiriu, arqueando as sobrancelhas.

Charlotte a olhou de frente.

—Senhorita Ellison, Lady Augusta - mentiu Charlotte com desfarçatez.

—Bem. -O desagrado crescia em seu interior a cada momento. Dedicou à Charlotte um sorriso forçado-. Acredito que meu marido a está esperando.

Bastou que dirigisse ao Max um olhar fugaz para que este acudisse obedientemente a abrir a porta da biblioteca-.

Soube que veio para lhe prestar certa ajuda de empregado de escritório. -Melhor lhe fazer saber sem rodeios qual ia ser sua posição na casa, pensou.

—Senhorita Ellison, entre, por favor - disse Max. Seus olhos, semiocultos sob umas sensuais pálpebras, percorreram as costas do Charlotte, detendo-se em seus ombros e sua cintura.

A porta se fechou atrás dela e Charlotte permaneceu imóvel, esperando que o general se sentasse na escrivaninha. Já não sentia nenhuma vacilação. A rabugice de Lady Augusta tinha conseguido converter seu temor em ira.

O general Balantyne se sentou atrás de uma escrivaninha de enormes dimensões. Charlotte contemplou sua atraente cabeça e seu perfil inclinado. O interesse que sentiu foi imediato. Em sua imaginação viu a longa sucessão de batalhas históricas que esse homem levava a suas costas: Crimea, Waterloo, Corunna, Plassey, Malplaquet...

O general ergueu o olhar. A cortesia desapareceu de seu rosto e se limitou a olhá-la fixamente. Lhe devolveu o olhar sem alterar-se.

—Como está você, senhorita?

—Encantada de conhecê-lo, general Balantyne. Minha irmã, Lady Ashworth, considera que poderia lhe ser de alguma ajuda. Espero que assim seja.

—Bem. -O general se endireitou, piscando, ainda olhando-a com atenção, franzindo um pouco o sobrecenho-. Me disse que você sentia certo interesse pelos assuntos militares. Estou pondo em ordem a história de minha família, que serviu com honra em todas as grandes batalha da Inglaterra desde tempos do duque do Marlborough.

Distintas opções sobre a melhor maneira de responder cruzaram a mente de Charlotte.

—Sem dúvida estará orgulhoso -respondeu-. É uma boa idéia que se dedique a registrar tudo para que a posteridade o recorde; especialmente no futuro, quando os homens que ainda podem nos explicar nossas grandes batalhas nos tenham abandonado.

O general não respondeu, mas seus ombros se retesaram enquanto meditava nas palavras de Charlotte e um leve sorriso apareceu nas comissuras de sua boca.

No resto da casa, o agitação habitual das manhãs seguia seu curso. As criadas de ambos os pisos e as camareiras estavam terrivelmente ocupadas. Augusta fiscalizava todas as operações, pois esperava a hóspedes de grande categoria social para jantar, e também porque não tinha outra coisa que fazer. Às dez e meia não conseguiu achar a aprendiz. Essa desventurada tinha deixado uma borda de pó nas molduras dos quadros do patamar (como o creditava uma visível mancha cinza no dedo de Augusta) e ainda por cima não aparecia por nenhuma parte.

Augusta conhecia desde há tempo o refúgio favorito dos criados folgazões, situado entre a adega e a despensa do mordomo, e agora se dirigiu para ele com determinação. Se a moça estivesse vagabundeando em companhia dos criados ou dos limpadores, ia lhe dar uma reprimenda que demoraria para esquecer.

Uma vez chegada à adega, Lady Augusta vacilou, consciente de que havia alguém no pequeno quarto de trás. ouvia-se uma voz sussurrante cujas palavras não conseguia discernir; depois percebeu o rangido de um vestido de...seda? Seda em uma criada?

Abriu sigilosamente a porta até ver uns braços vestidos de negro abraçando uma blusa de tafetá, e sobre o esbelto ombro feminino que sobressaía dele os olhos pesados e o rosto sensual do Max, seus lábios apoiados na branca nuca da mulher. Augusta reconheceu a nuca e os elegantes cachos de cabelo negro. Era Christina.

Santo céu! OH, Deus, que nenhum dos dois a tivesse visto! Augusta sofreu um sufoco e sentiu como o coração lhe disparava, palpitando dolorosamente. Afastou-se bruscamente da porta. Sua própria filha, rindo bobamente entre os braços de um criado! O horror gelou o funcionamento, normalmente ágil, de sua mente. Transcorreram uns minutos gélidos e paralizantes antes que pudesse sequer começar a pensar no que fazer ante algo tão monstruoso: em como anulá-lo, como apagar toda rastro de sua existência... Custaria-lhe trabalho e muita habilidade, mas tinha que fazê-lo! Do contrário, Christina estaria arruinada. Que homem de bom berço em seu são julgamento quereria casar-se com ela depois daquilo, se é que algum dia deveria confrontar o opróbio de que se fizesse público?

 

Reggie Southeron estava sentado na biblioteca de sua casa contemplando as árvores nuas que se divisavam de sua janela do Callander Square. O céu cinza de novembro avançava carregado de nuvens por cima de suas espigadas silhuetas e as primeiras gotas de chuva começavam a golpear os vidros, pesadas como gudes. Uma taça de brandy repousava na mesinha que havia a seu lado e a garrafa de cristal refletia agradavelmente o resplendor do fogo. Em outras circunstâncias Reggie se teria sentido completamente feliz, mas esse miserável assunto dos jardins da praça lhe provocava uma ansiedade muito perturbadora.

É claro que não tinha nem a menor ideia sobre o responsável. Poderia ter sido qualquer um! Há poucos motivos de distração na vida de uma criada, e todo mundo sabe que à maioria das garotas, especialmente às que procedem do campo para melhorar sua situação, gostam de divertir-se um pouco: pelo menos sabe qualquer um que mantenha uma casa de certa categoria.

Mas podia ser que alguém como a polícia, cujos membros, depois de tudo, não eram melhores que os comerciantes ou os próprios criados, tivessem um ponto de vista diferente.

Certos agentes, como os policiais locais que trabalhavam nas zonas rurais, por exemplo, sabiam ser discretos; mas os da polícia londrina, acostumados a lutar com as classes criminosas em geral, eram muito diferentes. A maioria das vezes não tinham nenhum conceito de categoria social ou de refinamento.

Era esta questão que preocupava Reggie. Assim como , em sua opinião, a maioria dos homens, também ele se abandonava ocasionalmente aos prazeres da carne com alguma criada de bom ver. Depois de tudo, que homem de boa saúde que fosse despertado todas as manhãs por uma moça jovem de pele branca e volumosas curvas inclinando-se sobre ele não sucumbiria à tentação? E se ela estivesse disposta, como costumava ser o caso, por que resistir? Sua esposa Adelina se conservava bastante bem e lhe tinha dado três filhos, embora desgraçadamente o moço tinha morrido. Mas nunca tinha desfrutado com esta classe de prazeres. Tinha suportado os ataques de seu marido com resignação e cumprindo com o que considerava seu dever. Em troca, as criadas desfrutavam e riam ao fazê-lo, respondendo às carícias de uma maneira impensável em uma mulher distinta.

Naturalmente, um cavalheiro não se casa com uma criada. Todo mundo sabe que tais relações se produzem, mas todo mundo procura atuar com discrição. Ninguém quer ser objeto de falatórios nem pôr em um apuro a sua esposa. O que se supõe e o que se sabe são duas coisas nitidamente distintas.

Mas, como Reggie já tinha tido ocasião de comprovar, era muito possível que a polícia não fosse capaz de compreender a maneira em que tais assuntos se desenvolviam para satisfação de todos. Reggie se acharia em uma situação difícil se esse Pitt descobrisse sua atual afeição pela criada Mary Ann. Poderia tergiversar o assunto por completo. A moça era extraordinariamente atraente, talvez a mais formosa que Reggie podia recordar, e já levava três anos servindo no Callander Square.

Maldita seja! Não era possível que ela... Reggie ficou coberto de um véu de suor frio, a pesar do calor da lareira. Deu um bom gole a sua taça de brandy e se serviu de outra. "Pelos pregos de Cristo, se acalme, homem! Recorda sua esbelta cintura, seu coquete traseiro. Não é possível que tenha estado grávida nesta casa!" Era impossível que ele tivesse estado tão pouco atento e não se dera conta... Tinha que admitir que lhe tinha dedicado cuidados bem intermitentes. Às vezes tinha estado de viagem durante semanas... Mas era ridículo pensar isso! Alguém teria que haver-se dado conta! estava se preocupando inutilmente.

Unicamente era questão de assegurar-se de que a polícia não chegasse a conclusões estúpidas e desatinadas. Era inteligente esse Pitt? Era um homem de mundo? Alguns membros das classes trabalhadoras podiam chegar a ser obtusamente intolerantes: de vulgaridade inaudita em sua fala e em seu modo de comer, para não falar de sua roupa, mas insuportavelmente dissimulados quando se tratava de sua liberdade pessoal. Podia chegar a ser muito perturbador tratar com eles. Uma lástima que esse homem não fosse um cavalheiro, em cujo caso tivesse sabido compreender a situação; e mais, nem sequer teria pedido mais explicações.

Melhor evitar de antemão todo o assunto indo ver os restantes habitantes da praça que pudessem ver-se afetados e chegar a alguma classe de acordo com eles. Entre eles talvez fossem capazes de afastar discretamente a esse tal Pitt da pista perigosa.

     Uma vez Reggie chegado a esta conclusão e começasse a sentir um alívio considerável, bateram na porta. Aquilo o surpreendeu. Os criados não costumavam bater. Se tinham algo que fazer, simplesmente entravam e o faziam.

—Entre-respondeu, dandoa volta para encarar o visitante.

A porta se abriu dando passagem a preceptora Jemima, quem permaneceu de pé

na soleira.

Reggie se endireitou com um sorriso. Uma mulher atraente essa Jemima, embora um pouco magra. Ele preferia os seios volumosos e os ombros carnudos. Mas tinha um indubitável encanto, certo brio na maneira em que erguia a cabeça, certa delicadeza nas feições... mais de uma vez tinha estado a ponto de lhe passar o braço pela cintura em resposta à sugestiva feminilidade de seu esbelto traseiro. Mas ela sempre tinha conseguido escapulir-se discretamente ou tinha aparecido alguma outra pessoa.

Agora a tinha frente a ele.

—Sim, Jemima? -perguntou-lhe afavelmente.

-A senhora Southeron disse que falasse com você sobre a afeição musical da senhorita Faith, senhor. À senhorita Faith gostaria de aprender a tocar o violino em lugar do piano...

—Pois então que o faça, por todos os diabos! Você toca bem o violino, não é assim?

—Por que diabos Adelina o fazia importunar por semelhantes trivialidades?

—Sim, senhor Southeron. Mas dado que a senhorita Chastity já toca o violino, teríamos dois violinistas e um violoncelo. Há muito pouca música composta para um trio semelhante.

—Já. Bem, talvez Chastity gostasse de aprender a tocar o piano?

—Não, não gosta -respondeu com um sorriso. Jemima tinha um sorriso absolutamente sedutor. Teria tido o tipo apropriado para ser uma excelente criada se apenas fosse um pouco mais robusta.

—Envie-me ela. Farei-a trocar de opinião -disse Reggie reclinando-se em sua poltrona e aproximando os pés ao fogo.

—Sim, senhor -disse Jemima antes de lhe voltar as costas e partir.

Jemima tinha uma maneira muito atraente de caminhar, com as costas tensa e a cabeça em alto. Era uma dessas moças do campo com andar sinuante. Ao Reggie sugeria céus abertos e limpas praias varridas pelo vento: coisas que gostava de contemplar de uma poltrona invernal ou ver representados em um bom quadro. Sim, Jemima era uma moça encantadora.

Passaram cinco minutos antes que chegasse Chastity.

—Entre-disse Reggie sorrindo e endireitando-se um pouco.

A pequena obedeceu, com uma expressão solene no rosto e o cabelo penteado para trás, o que destacava seus olhos.

—Sente-se-se ofereceu Reggie, apontando a poltrona que havia frente a ele.

Em lugar de sentar-se no bordo, como outros meninos, se arriou no mais profundo da poltrona, como um gato, sentando-se com as pernas dobradas sob seu corpo. Sempre conseguia parecer afetada. Esperou em silêncio a que seu tio lhe dirigisse a palavra.

—Você não gostaria de aprender a tocar o piano, Chastity?

—Não, obrigado, tio Reggie.

—Tocar o piano é uma arte mais útil que outros. Pode cantar ao mesmo tempo que tocas. Em troca, não pode cantar enquanto toca o violino - indicou ele.

A pequena ergueu levemente o queixo e olhou nos olhos.

—Mas não sei cantar - lhe respondeu com honestidade-. Não importa o instrumento que toque. -Vacilou antes de acrescentar-: Faith sim sabe. Ela canta muito bem.

Seu argumento derrotou ao Reggie, que constatou no olhar dela de que se dera conta de como era pequena.

—Por que Faith não toca o violoncelo? -acrescentou a menina, aproveitando sua momentânea vantagem.-. Então Patience poderia aprender a tocar o piano. Ela também sabe cantar.

Reggie a olhou com decepção.

—E se lhe dissesse que quero que seja você quem aprenda a tocar o piano?

—Não seria boa tocando -respondeu com determinação-. E então não formaríamos um trio, e isso seria uma vergonha em sociedade.

Reggie entreabriu os olhos e se serviu de outro brandy, admirando a riqueza de colorido do líquido que resplandecia frente às chamas como um topázio.

—Isso seria uma pena - prosseguiu Chastity, que seguia olhando a seu tio com deliberada intensidade-, porque a tia Adelina gostaria que tocássemos de vez em quando para os hóspedes em suas reuniões vespertinas.

Reggie se rendeu. Estava a ponto de tentar suborná-la quando um criado abriu a porta e anunciou o inspetor Pitt.

Reggie blasfemou entre dentes. Ainda não tinha pensado em sua possível defesa. Chastity se afundou ainda mais na poltrona.

—Será melhor que vá, Chastity. Discutiremos este assunto outro dia.

—Mas esse senhor que vem é o policial despenteado, tio Reggie, e gosto dele.

—O que? -inquiriu atônito.

—Eu gosto. Não posso ficar e falar com ele? Possivelmente poderia lhe contar algo interessante!

—Não, não ficará. Nada do que você possa saber poderia ser nunca de seu interesse. Agora sobe acima e toma o chá. Já deve ser a hora do chá. Está escurecendo.

A pequena saltou da poltrona com dificuldade e a contra gosto avançou lentamente até a porta, em cuja soleira já se achava Pitt, quem cedeu o passo galantemente à pequena dama. A menina se deteve, erguendo muito a cabeça para olhá-lo.

—Boa tarde, senhorita Southeron - disse Pitt com solenidade.

Chastity fez uma pequena reverência e as comissuras de sua boca não puderam conter um sorriso.

—Boa tarde, senhor.

Parecia disposta a atrasar-se, de modo que Reggie teve que lhe falar com dureza. Com expressão de dignidade ofendida no olhar, a menina saiu da sala com passo majestoso, o que não deixava de ter mérito, dado que a pequena levava uma faldita curta com um avental infantil. Pitt fechou a porta atrás dela.

—Rogo-lhe me desculpe -disse Reggie com afabilidade-. Esta menina é uma verdadeira ameaça. -Olhou ao Pitt e contemplou seu traje bastante desalinhado.

Tomou a decisão instantânea de assumir um ar de franqueza e tentar enganá-lo mostrando-se como um aliado ou, pelo menos, como um confidente-. Às crianças se compreende tão pouco... -acrescentou com um sorriso-. Ao igual à muita gente. Contudo, imagino, como homem de certa experiência, que você terá tido ocasião de ver toda classe de coisas e que saberá distinguir a verdade da mentira ao enfrentá-las . Quer uma taça de brandy?

Era uma pena oferecer seu melhor brandy a um policial que provavelmente não saberia distinguir o da sujeira que vendiam nas cervejarias. Mas talvez fosse um bom investimento ao longo.

Pitt vacilou uns instantes mas finalmente aceitou.

—Sente-se -disse Reggie com cordialidade-. Um assunto muito desagradável. me acredite, não o invejo. Deve ser terrivelmente difícil distinguir a verdade de entre tantas mentiras.

Pitt sorriu lentamente, pegando a taça de brandy que lhe estendia.

— As criadas costumam a inventar um montão de disparates – prosseguiu Reggie-. É natural. Lêem muitas novelas de brechó e a imaginação sei lhes esquentar. Nunca se dão conta do dano que podem causar.

Pitt ergueu as sobrancelhas com expressão inquisitiva e bebeu um gole de brandy.

Reggie decidiu levar a conversa para seu terreno, já que o tipo parecia bem disposto. Era melhor fazê-lo desconfiar de qualquer falatório que pudesse ouvir no andar de serviço, a que sem dúvida se dirigiria breve.

—É fácil compreender - prosseguiu, tratando de adotar um ar jocoso sem que parecesse muito condescendente-. As pobres criaturas não tem muitos motivos de excitação, precisamente. Imagino que um homem inteligente se aborreceria mortalmente com uma vida assim. Têm que adornar um pouco sua realidade, não lhe parece?

—Poderia ser compreensível - aprovou Pitt com seus claros olhos devolvendo o sorriso a Reggie.

Um tipo simpático, pensou Reggie. Não deveria ser muito difícil fazê-lo desconfiar de qualquer possível historia desagradável que pudessem lhe contar por aí.

—Com efeito - corroborou-. Já vejo que você me entende. Com certeza já se achou antes com um caso assim. Acontece freqüentemente esta classe de coisas?

Pitt tomou outro gole de brandy.

-Não exatamente como neste caso. Não em uma praça desta... categoria.

-Não... Claro, suponho que não. Graças a Deus, não é? Mesmo assim, imagino que terá falado com criadas que se viram metidas em problemas deste tipo antes de hoje, não é assim? -disse e riu jovialmente.

Pitt lhe devolveu um olhar neutro; para um homem com o rosto tão expressivo como o seu, neste instante suas feições não revelavam virtualmente nada.

—Todo mundo tem problemas -concordou.

—Ah, mas você saberá a que tipo de problemas me refiro eu... -Reggie se perguntou por um instante se seria um pouco idiota. Talvez fosse preciso que se mostrasse mais explícito-. Quero dizer que os bebês deveram ser de alguma criada que ficou grávida e cujo amante não quis casar-se com ela; ou talvez nem sequer soubesse quem era o pai, né?

Pitt abriu os olhos um pouco mais.

—Empregou a alguma moça dessa classe em sua criadagem, senhor?

—OH, Deus me proteja, de maneira nenhuma! -Reggie se endireitou com certa indignação antes de constatar que acabava de fracassar em seu objetivo-.

Quero dizer, não que eu saiba, é claro. Mas basta cometer um único engano!

Talvez uma moça um tanto predisposta ao romantismo, ou que pretendesse melhorar sua situação...

Reggie se interrompeu, não muito seguro do que sugerir a seguir.

—E você acredita que uma moça assim poderia... -Pitt escolheu a frase mais acertada- pôr seus sonhos em palavras e provocar algum prejuízo voluntariamente?

—Isso! -Reggie deu um pulo de entusiasmo. O tipo parecia ter captado por fim suas múltiplas indiretas-. Exatamente! soube me compreender com toda precisão. Poderia ser grave, vê-o você?

—OH, claro! -confirmou Pitt-. E além disso muito difícil de refutar - acrescentou sorrindo com inocência.

Reggie começou a sentir-se incômodo. Havia uma grande verdade nesse

último.

—Tem que haver leis contra essa classe de... irresponsabilidades! –exclamou com veemência-. Uma pessoa decente tem que dispor de meios para proteger sua honra!

—OH, eles existem afirmou Pitt tranqüilamente-. Denuncia por difamação e tudo isso. Sempre conduz aos tribunais.

—Tribunais! Não seja ridículo, homem! Quando se viu que um cavalheiro leve aos tribunais a sua criada só porque ela afirma que ele se deita com ela! Converterá-se no bobo da sociedade!

—Provavelmente porque em muitos casos seria verdade. -Pitt contemplou o brandy de cor brônzea que ficava em sua taça-. E ninguém acreditaria que alguém é inocente; mas como, suponho, seria muito inquietante.

Reggie sentiu como um suor frio umedecia sua pele.

—Tem que haver uma lei para evitar isso! É monstruoso! Não se pode arruinar assim a um homem! -disse fazendo estalar com fúria seus dedos, mas sua gordura impedia que emitissem algum som-. Maldita seja! -jurou com indignação.

—Estou de acordo - acrescentou Pitt, acabando o brandy e deixando a taça sobre a mesinha-. Ceve-se ser muito cauteloso quando está em jogo o bom nome de outra pessoa. O dano que pode fazer-se é incalculável e, embora se indenize economicamente, não há modo de evitar o prejuízo moral.

Reggie recuperou pouco a pouco o autodomínio, ou pelo menos isso parecia.

-Certamente, terei que despedir sem referências nem recomendações a toda criada que encontre conversando com ligeireza ou difundindo falatórios maliciosos -afirmou com decisão.

—Sem recomendações... -repetiu Pitt com uma amargura no gesto que Reggie não soube interpretar. Um tipo peculiar e bastante pouco confiável.

— Com efeito -insistiu-. Qualquer homem ou mulher que se comporte assim constitui uma séria ameaça, não sendo apto para obter um emprego.

Imagino que você já saberá. Deve ter se visto antes com acusações por difamação, verdade? Ao fim e ao cabo, trata-se de um crime, e o crime é sua fonte de sustento, não é assim?

Pitt não o discutiu. Em seu lugar pediu permissão para falar de novo com as criadas e, assim que foi concedido, despediu-se.

Não ocorreu a Reggie perguntar-se até a noite, horas depois que Pitt tinha abandonado a casa, por que motivo tinha querido vê-lo ele antes que a ninguém. Talvez esse tipo tivesse farejado o brandy e o calor do fogo e desejava relaxar-se um pouco. As classes trabalhadoras sempre se comportavam igual: lhes dava uma oportunidade para vadiar e não vacilavam em apanhá-la no ar. Em qualquer caso, não podia reprová-lo de todo. Sua vida já devia ser bastante cinza. Ele em seu lugar teria feito o mesmo.

Depois de jantar, entretanto, a pergunta começou a preocupá-lo. Que diabos tinha passado pela cabeça desse miserável polícia? Acaso tinha ouvido já certos falatórios? Tinha que liquidar esse assunto antes que saisse das mãos. Uma acusação semelhante, em um marco inadequado, podia lhe pôr em ridículo e convertê-lo em alvo de toda classe de brincadeiras. Fazer uma farra com uma criada de vez em quando era um comportamento perfeitamente aceito; provavelmente meio Londres o fazia. Mas que se convertesse em tema de conversa era outra coisa.

A discrição e o bom gosto supunham a base da conduta de um cavalheiro. Havia uma série de atividades que todo mundo conhecia e ninguém discutia. Aliviar os apetites da carne com as criadas era uma delas. Agir assim era perfeitamente normal, fazia parte da natureza do homem. A hipótese de que alguém o faz não era senão uma coisa indigna de maiores comentários. Mas saber isso de alguém como ciência certa graças a fontes alheias às próprias insinuações jocosas do afetado supunha converter-se no centro de brincadeiras e sarcasmos e em vítima do desprezo e escárnio.

E ainda pior: era uma evidente amostra de mau gosto.

Assim era melhor cortar esse assunto pela raiz.

Era uma noite aprazível de finais de novembro. Reggie decidiu cruzar a praça e ir ver Freddie Bolsover. Um bom tipo, esse Freddie; um homem sensato.

Claro que se supõe que os médicos sempre o são; que conhecem a realidade das coisas e o interior do ser humano e não têm necessidade de disfarçar a verdade, não é assim?

Encontrou Freddie sentado no salão escutando Sophie tocar piano.

Levantou-se agilmente, sorrindo quando viu entrar Reggie. Era um homem alto e jovem de formoso rosto e feições bem moldadas. Ele e Sophie formavam um casal esplêndido.

—Reggie, me alegro de vê-lo! Espero que não venha por motivos de saúde. Tem aspecto muito bom.

—OH, estou muito bem. -Reggie lhe estreitou brevemente a mão-. Boa noite, Sophie, querida -disse lhe beijando o braço, que estreitou um pouco. Uma boa peça, a sua maneira. Bonito cabelo, melhor que o da Adelina, embora seu corpo fosse muito magro na zona dos ombros e não tinha peito suficiente para o gosto de Reggie-. E você que tal está? -acrescentou com muita demora.

—OH, muito bem -respondeu Sophie e Freddie assentiu em sinal de que também ele o estava.

-Meu probleminha é de outra classe, velho amigo -disse Reggie, e dirigiu um olhar de esguelha à Sophie para dar a entender que se tratava de um assunto de homens e que devia desaparecer discretamente.

Freddie a olhou também e Sophie se desculpou alegando uma tarefa repentina.

Freddie se sentou de novo, estendendo os pés em direção ao fogo. Era uma sala formosa; e Reggie sabia, porque Adelina o havia dito, que todo o mobiliário e cortinados eram novos e na última moda. Aceitou a taça de Porto que Freddie lhe ofereceu. Também essa beberagem era de primeira, endiabradamente antiga.

—E então? -inquiriu Freddie.

Reggie franziu o sobrecenho, tratando de pôr em ordem seus pensamentos sem trair-se muito.

Freddie era um bom tipo, mas não havia necessidade de lhe contar nada desnecessário.

—Esse maldito agente de polícia esteve farejando por aqui outra vez? - perguntou.

As sobrancelhas do Freddie se arquearam com perplexidade.

—Não sei. Suponho que sua intenção será só a de interrogar aos criados e tudo isso. Eu não o vi, mas também não sei nada que possa lhe ser de utilidade. Não costumo estar em dia das confusões amorosas de minha criadagem! - sorriu.

—Claro que não! -concordou Reggie-. Ninguém o está. Mas pensou no dano que poderiam causar os criados com uns poucos falatórios maliciosos ditos no lugar equivocado? estive falando com esse tipo. É bastante educado, mas não é um cavalheiro, é claro. Bastante dado a ter idéias próprias sobre a classe trabalhadora. Em sua casa não deve ter criados, a não ser alguma mulher que lhe faça o trabalho mais duro... -Reggie se interrompeu, não muito seguro de que Freddie o compreendesse.

—Dano? -inquiriu Freddie com expressão de desconcerto-. Refere-se a que os criados digam alguma estupidez a esse tipo ou lhe contem alguma mentira?

—Isso -concordou Reggie-, O... Vamos, Freddie! A maioria de nós beliscou algum ou outro traseiro de vez em quando, ou deu algum beijo a alguma criada bonita e se divertiu um pouco com ela, não?

Freddie fez expressão de esforçar-se em recordar algo.

—Agora entendo! Está preocupado por Dolly? Chamava-se assim, não é?

Reggie se sentiu desconfortável. Achava que Freddie teria esquecido aquele incidente. Agora Dolly tinha morrido e todo o assunto era água passada.

Claro que tinha sido algo bastante triste... A pobre moça não deveria ir a um abortista de ruas. Ele se teria ocupado dela, encontrando-lhe algum lugar no campo onde ninguém a conhecesse... algum lugar bastante afastado do Callander Square. Essa moça não deveria ter se deixado dominar assim pelo pânico. Em qualquer caso, dificilmente poderia alguém afirmar que tinha sido culpa do Reggie! Ainda assim, teria preferido que Freddie o tivesse esquecido.

Na época se viu obrigado a ir a ele. A moça tinha morrido em casa do Reggie e não houve tempo para chamar um médico comum. Freddie era o que estava mais à mão. Esteve a sós com ela durante um bom tempo antes de que a jovem morresse. Reggie não tinha nem idéia das tolices que lhe tinha choramingado naquele momento. Tomara Freddie não tivesse acreditado nenhuma palavra do que fosse.

—Sim-disse Reggie, voltando para a realidade. Freddie estava há um tempo esperando sua réplica-. Sim, Dolly. Mas isso não teve nada que ver com este caso.

Já faz muitos anos daquilo, pobre moça. Faz vários anos que está morta. Mas já conhece os criados: gostam de inventar histórias românticas.

Se a esse tipo lhe ocorresse perguntar às criadas, alguma boba poderia bater a língua. Poderia lhe dizer que sinto alguma predileção especial por ela, e a polícia ver em suas palavras mais do que verdadeiramente há.

—OH, claro! -concordou Freddie-. Não se pode esperar que tipos como esse Pitt sejam capazes de compreender algo.

—Não nos faria nenhum bem -prosseguiu Reggie-. Daria lugar a um escândalo e a muitas coisas. Dê uma má reputação à praça e verá como nos afeta a todos! Isso acaba tendo conseqüências. O lodo termina por sujar tudo, compreende?

—Certamente... -O rosto do Freddie se escureceu assim que compreendeu o que Reggie queria dizer e as desvantagens que o assunto podia implicar-. Sim, compreendo.

Reggie se perguntou se Freddie tinha pensado no prejuízo que todo esse assunto causaria a sua florescente corrida profissional, que tanto dependia de sua irrepreensível reputação de honradez e discrição. Seria necessário mencioná-lo?

Decidiu sugeri-lo com delicadeza.

—O problema é que toda pessoa importante conhece sempre a todas as demais. Essas malditas mulheres que passam toda a tarde falando...

—Sim. -Freddie estava carrancudo-. Já. Será melhor acautelar antes que ocorra algo. Qualquer indiscrição ou palavra de mais, e as garotas serão despedidas imediatamente. Possivelmente fosse boa idéia dar alguma bonificação ao mordomo e procurar que no futuro acompanhe sempre durante os interrogatórios a qualquer criada com a que queira falar esse Pitt.

Reggie suspirou com alívio.

—Boa idéia, Freddie, velho amigo! encontrou a solução. Terei umas palavrinhas em privado com o bom do Dobson para que procure que todas as mulheres estejam um pouco... -disse sorrindo levemente- preocupadas, não é? Obrigado, Freddie, é um bom tipo!

—Absolutamente - replicou Freddie sorrindo do espaldar de sua poltrona-. um pouco mais de Porto?

Reggie se reclinou aliviado na sua e encheu sua taça.

Na noite seguinte Reggie pensou que também seria boa idéia manter uma conversa discreta com Garson Campbell para afiançar ainda mais sua posição.

Além de tudo, Campbell era um homem de mundo, um homem de negócios, e sabia como levar assuntos como este. Era uma noite muito fria e caía água a torrentes. Reggie olhou várias vezes pela janela para contemplar a turbulenta escuridão do exterior, a chuva, as folhas varridas pelo vento e o pavimento reluzindo sob o sistema de iluminação de gás, para a seguir dirigir o olhar para a cálida luz do fogo e chegar à conclusão de que amanhã também seria um Bom dia para falar com o Campbell.

Mas então recordou que no dia seguinte viria outra vez aquele maldito polícia para farejar nas dependências da criadagem, e só Deus sabia o que os criados poderiam chegar a lhe dizer, e talvez então já fosse muito tarde.

Com um último e lastimoso olhar à comodidade de sua poltrona, Reggie sorveu os últimos dois dedos de brandy, deixou que seu criado lhe ajudasse a vestir o casaco e saiu à rua. O trajeto que tinha que percorrer era breve, mas no momento em que fez soar a campainha da porta dos Campbell já estava tremendo, embora possivelmente mais pela consciência do frio que pelo que sentia de verdade.

O criado dos Campbell abriu a porta e Reggie entrou com ar diferente, deixando que o casaco se deslizasse de seus ombros quase antes de que o criado tivesse tempo de agarrá-lo no ar.

—Está o senhor Campbell? -perguntou.

—Irei ver, senhor.

Era a resposta habitual. É claro que o criado sabia perfeitamente se seu senhor estava ou não em casa. O que tinha que averiguar em realidade era se desejava receber ao Reggie. Foi conduzido à saleta matutina onde ainda ardiam os rescaldos de um fogo anterior e permaneceu em pé com as costas para ele, esquentando-as pernas, até que o criado retornasse e lhe dissesse que Campbell lhe receberia.

Fez isso no salão principal. Campbell estava em pé junto a um fogo tão grande que quase se sobressaía da lareira; era um homem corpulento com um nariz muito grande. Não se podia dizer que fora fisicamente feio, mas certamente tampouco era um homem bonito. Seu encanto residia na dignidade de seu porte e na meticulosidade tanto de suas maneiras como de sua pessoa.

—Boa noite, Campbell -saudou-o cordialmente-. Tem que tratar-se de algo muito urgente para que tenha abandonado sua poltrona junto ao fogo em uma noite como esta. Do que se trata? Ficou-te sem Porto?

—Despediria meu mordomo se me acontecesse isso –replicou Campbell, unindo-se a ele frente ao fogo-. Uma noite espantosa. Odeio o inverno em Londres, embora ainda seja muito pior no campo. A gente civilizada deveria ir a França ou a algum lugar assim, se não fosse porque os franceses são um rebanho de bárbaros. Não sabem como comportar-se. Em Paris o tempo é tão mal como aqui, e no sul não há nada a fazer!

—Considerou a possibilidade de entrar em hibernação? –observou Campbell, arqueando as sobrancelhas sarcásticamente.

Reggie se perguntou por um momento se se estaria zombando dele, mas tampouco isso lhe preocupava muito. Campbell tinha o costume de zombar de quase tudo. Fazia parte de suas peculiares maneiras. Quem sabia por que? A pessoa cultivava suas próprias maneiras a partir de um amontoado de circunstâncias, e Reggie era uma pessoa difícil de ofender.

—OH, sim, muitas vezes! -respondeu Reggie em brincadeira com um sorriso-. Desgraçadamente as coisas tendem a empurrá-lo e a tentá-lo tantas vezes que... Já sabe, como esse maldito assunto dos bebês enterrados na praça; uma imunda confusão.

—Com efeito -concordou Campbell-. Mas dificilmente tem que nos preocupar. Não há nada que possamos fazer a respeito salvo ser mais cuidadosos com os criados no futuro. No máximo prestar à moça algum tipo de ajuda, imagino, se no final o bebê nasceu morto.

Achar-lhe um emprego no campo, onde ninguém saiba nada do assunto. Veio por isso? Tenho dezenas de parentes a quem poderia persuadir de que a aceitassem em seu serviço.

—Não exatamente - disse Reggie, deslizando um pouco mais perto do fogo.

Por que diabos esse estúpido não lhe oferecia uma taça? Contemplou o irônico rosto do Campbell e viu seus olhos azuis. Esse maldito bastardo sabia perfeitamente que precisava tomar uma taça e não a oferecia deliberadamente.

"Horrível senso de humor o teu, honorável e horrível Garson Campbell!"

—E então? -Campbell seguia esperando a resposta.

—Estou um pouco nervoso por esse polícia. -Reggie evitou seu olhar e adotou uma atitude de concentração, como se soubesse algo que Campbell ignorasse-. Se passeia por aí, farejando nos aposentos da criadagem, já sabe. De fato, não sei até que ponto têm sentido da responsabilidade esses vagabundos.

Normalmente são uma espécie de pássaros indesejáveis, gente de classe baixa, naturalmente. Poderiam chegar a acreditar-se toda classe de sujos falatórios, sem dar-se conta do dano que podem fazer. Freddie está de acordo comigo.

Campbell voltou a cabeça para vê-lo mais de perto.

—-Freddie?

—Vi-o ontem -disse Reggie-, sem dar importância-. Dei-lhe a entender o desconforto que poderia supor para todos nós que a praça adquirisse reputação de certa ligeireza de comportamento, de albergar a criados imorais, de mau gosto geral, etcétera. Não nos convém, já sabe. Não queremos ser o alvo de um montão de falatórios, embora todos sejam infundados.

As comissuras da boca do Campbell desceram ostensivamente.

—Entendo -disse com um leve pigarro-. Poderia dar lugar a uma situação difícil. Embora a gente não acreditasse nas intrigas, terminaria por tragar-nos.

Poderiam nos desprezar nos clubes e nos fazer objeto de brincadeiras. -O rosto do Campbell se escureceu definitivamente-. Maldita chateação! Alguma estúpida moça que... -Sua ira se apagou com a mesma rapidez com que se acendeu-.

Embora, que diabos! Pobre criatura... Enfim, a que veio além de sentir comiseração?

Reggie aspirou profundamente.

—A comiseração não serve de muito...

—Para nada absolutamente - concordou Campbell.

—É melhor acautelar antes de que aconteça algo pior.

O rosto do Campbell manifestou certo interesse pela primeira vez desde a chegada de Reggie.

—O que está sugerindo, Reggie?

—Uma palavra discreta dita ao mordomo ou à governanta para que falem com o resto da criadagem. Procurar que um ou outra estejam sempre presente cada vez que o policial interrogue a um deles. Fazer que se assegurem de que ninguém diga nenhuma... tolice. Algo bastante natural, não lhe parece? Não permitir que uma jovem criada seja intimidada. Seria um modo de protegê-las... compreende?

Campbell sorriu com áspero regozijo.

—Caramba, Reggie, nunca pensei que fosse capaz de tanta sutileza... ou de tanto bom senso.

—Então, fá-lo-á?

—Meu querido idiota, minha criadagem já sabe muito bem que os falatórios poderiam chegar a lhes custar seu sustento; mas admito que suporia um amparo acrescentado assegurar-se de que um mordomo ou uma governanta se encontre presente quando esse... como se chama...? Pitt? Quando esse Pitt se passe por aqui outra vez. Pessoalmente acredito que esse polícia esquecerá todo o assunto depois de nos demonstrar durante um período razoável que tratou que resolvê-lo.

Além de tudo, a quem importa que uma criada tenha dado a luz dois filhos mortos? Dificilmente valerá a pena armar animação em um bairro como este. Ele deve saber que não averiguará a não ser desgraças e que ofenderá a muita gente que poderia lhe pôr a vida endiabradamente difícil se lhe der motivos.

Não deixe que isto o aflija, Reggie. Esses policiais não farão mais que passear-se por aqui e dar a impressão de que se interessam pelo caso, para depois deixá-lo correr pouco a pouco. Quer uma taça de Porto?

Por um momento Reggie pensou em lhe manifestar o profundo alívio que sentia de ouvi-lo dizer isso; mas então caiu na conta de que finalmente Campbell lhe tinha oferecido essa maldita taça de Porto.

—Sim - aceitou de boa vontade-. Muito obrigado, é muito amável de sua parte.

—Não há de que - respondeu Campbell, sorrindo para si mesmo e dirigindo-se para a mesinha para lhe encher a taça.

Augusta se tinha dado conta da indisposição de Christina. A princípio não lhe tinha dado maior importância, salvo a simpatia habitual de uma mãe para com sua filha indisposta. Era fácil que tivesse comido ou bebido algo que não lhe tivesse assentado bem. Mas ao cabo de um tempo, depois do espantoso descobrimento da Christina nos braços desse miserável lacaio, a indisposição da jovem voltou à sua memória lhe causando uma ansiedade muito superior.

Quando sua filha voltou a se indispor uma semana depois e pôde ouvir de lábios de sua criada que Christina tinha previsto passar toda a manhã na cama, sentiu algo mais que alarme.

Augusta não queria que o general Balantyne soubesse nada de todo o assunto. Ele não seria de nenhuma ajuda se, com efeito, produzia-se uma crise como a que Augusta temia e, se não era o caso, não havia motivo para alarmá-lo.

Augusta estava na mesa do café da manhã quando foi informada da intenção da Christina de permanecer na cama e, depois de uns instantes de pânico silencioso, agradeceu à criada e insistiu que retornasse junto à Christina e cuidasse dela. A seguir pediu ao general que lhe passasse a geléia de laranja para estendê-la sobre uma torrada.

—Lástima - disse o general com calma, ao mesmo tempo que lhe passava o bote-. Pobre moça. Espero que não seja nada sério. Quer que faça chamar o doutor? Posso pedir ao Freddie que passe um momento por aqui, se não quiser fazer muitos trâmites.

—O médico não poderá fazer nada contra um resfriado - replicou Augusta com incomum doçura. Santo céu, a última coisa que precisava era a presença de um médico!-. Por muito encantador que seja Freddie, não pode trocar o mau tempo.

Em outono sempre há enfermidades de uma ou outra classe correndo por aí. Já disse à cozinheira que lhe prepare uma infusão de ervas. Isso talvez a reconforte. De qualquer modo, com certeza em um ou dois dias se recuperará.

O general a olhou com certa surpresa, mas em lugar de discutir preferiu continuar com seu bacon, seus ovos mexidos e sua torrada.

Augusta não subiu para ver Christina até que terminou de tomar o café da manhã, para não piorar as coisas. Se não havia motivo de alarme, tanto melhor, mas se seus piores temores eram fundados... Então recordou uma vez mais com um calafrio o último contato de sua filha com o Max no pequeno quarto detrás da adega, a liberdade com que aquelas mãos masculinas tinham acariciado sua blusa de seda sob seus seios... Pois bem, se seus temores eram fundados era preciso que Augusta pensasse imediatamente no que fazer. Se ainda havia alguma esperança de salvar a situação, devia agir imediatamente. Um dia a mais faria com que as coisas ficassem ainda mais difíceis.

E se não tivesse êxito (outra mulher se teria amedrontado só ante a idéia do que lhe estava acontecendo, mas inclusive seus inimigos, e Augusta tinha muitos, (nunca negariam que se tratava de uma mulher de coragem excepcional), não ficaria a não ser contemplar a infelicidade infinita da Christina.

Ter um filho ilegítimo era um pecado nunca completamente perdoado pela sociedade em que Christina se movia habitualmente, em que tinha crescido e tinha a todos seus amigos, em definitivo, a única sociedade em que podia levar a única vida para a qual estava preparada.

Com discrição e gastando dinheiro nos lugares apropriados, podia criar-se algum tipo de ficção que a separasse de Londres durante o tempo necessário e deixar que o filho crescesse no campo, adotado por alguma boa criada. Fazê-lo sem levantar suspeitas requereria uma considerável habilidade, mas não seria de todo impossível: Muitas o tinham feito! Christina não era a primeira nem seria a última mulher que tinha que passar por esse apuro.

Tomara esse fora o único problema!

Mas aí estava Max: um homem ambicioso e desumano. Claro que Augusta o tinha percebido no mesmo dia em que o empregou: só pretendia melhorar sua situação acima de todas as coisas, mas pensou que isso o converteria em um excelente criado. Os homens ambiciosos costumavam ser bons empregados; e assim tinha sido, por isso respeitava à execução de seu trabalho. Sempre levava o uniforme imaculado, sempre era pontual, sempre se mostrava extraordinariamente educado. De fato, Augusta tinha recebido muitos elogios sobre as excelentes aptidões de seu criado.

Mas agora se culpava por não ter sabido dar-se conta que essa mesma ambição ia induzi-lo a empregar todos os meios para fazer carreira, incluído o de deitar-se com a filha de sua senhora.

Augusta não tratou de enganar-se em nenhum momento pensando que pudesse haver algum afeto no assunto, tanto por parte dela como dele. Deveria ter conhecido melhor a sua filha. Deveria ter sabido ver a debilidade que havia nela e protegê-la de seu próprio desejo. Para que, se não, estavam às mães?

Max tinha criado seu próprio escudo defensivo. Se decidisse fazer uso dele, faria correr os falatórios, pouco a pouco, como um veneno de efeito retardado.

Nenhum homem de sua classe quereria casar-se com a Christina, não importava o dote que a jovem pudesse contribuir ao matrimônio. Sempre havia um excesso de jovens mulheres casadouras no mercado matrimonial, e Christina não possuía nenhuma vantagem especial frente a suas competidoras. Ou, pelo menos, nenhuma capaz de compensar sua reputação de puta. Ser uma pessoa fogosa era uma coisa, mas ser uma prostituta e ter dado a luz ao filho de um criado era outra bem diferente. O único mundo que Christina conhecia ou no que sabia mover ficaria tão fechado para ela como o próprio Banco da Inglaterra.

Terei que silenciar ao Max, mas não mediante um suborno. Bastava fazê-lo uma só vez para que se convertesse em seu parasita durante o resto de suas vidas.

Tinha que ser mediante uma contrapartida de igual magnitude. Não só pelo bem da Christina, mas também pelo de toda a família: pelo general, pelo jovem Brandy e por ela mesma. Se Brandy se apaixonasse ou encontrasse agradável a alguma moça de boa posição, que pais iriam permitir que sua filha se unisse em matrimônio a uma família cujo sangue tinha dado nascimento a alguém como Christina?

Augusta já se achava no patamar, com a mão disposta a bater na porta de sua filha, quando a assaltou o pior pensamento. Quase se desvaneceu só ante a idéia de algo tão horrível. Max estava há seis anos empregado em seu lar.

Augusta achava sinceramente que se um assunto tão desagradável teria acontecido em sua casa com antecedência, ela o teria sabido, mas... e se não tinha sido assim? Em qualquer caso, ia esse polícia a acreditar o contrário?

Podiam sequer lhe permitir um indício de dúvida? A não ser que estivesse muito equivocada, esse jovem Pitt era um homem de incomum inteligência. Sem dúvida ia seguir no assunto, interrogando a Christina, talvez inclusive descobrindo que o pai da futura criatura era Max, e obter finalmente dele toda a sórdida verdade. O que pensaria então dos corpinhos achados na praça? O que acreditaria a própria Augusta?

Deixou ao fim que sua mão golpeasse a porta e entrou antes de que Christina tivesse tempo de dizer algo.

A jovem jazia na cama, pálida e com olheiras, as feições duras, seu escuro cabelo estendido sobre o travesseiro.

Por uns instantes Augusta sentiu compaixão por ela, mas logo concentrou sua atenção em impedir que a dor se apoderasse dela.

—Doente? -limitou-se a perguntar.

Christina assentiu com a cabeça.

Augusta fechou a porta. Não havia necessidade de empregar termos afetados para enfrentar à verdade. sentou-se na beira da cama e olhou a sua filha nos olhos.

—Trata-se de uma enfermidade que lhe contagiou Max? -disse, sem afastar a vista dos olhos de sua filha.

Christina tratou de afastar o olhar, sem êxito. Estava acostumada a fazer o que tinha vontade, a deslumbrar ou dominar a qualquer um, mas em toda sua vida nunca o tinha conseguido com sua mãe.

—O que...? O que quer dizer, mamãe? -replicou com afetação.

—Não tem sentido que procure evasivas, Christina. Se estiver grávida temos que tomar medidas em seguida. Não quero assustá-la desnecessariamente, mas não acredito que se tenha dado conta da gravidade de sua situação, se é que o está.

Christina abriu a boca para replicar, mas a fechou de novo.

Augusta se manteve à espera.

—Não sei -disse Christina com forçada calma.

Havia um evidente tremor em sua voz e a jovem teve que fazer um esforço para não romper em soluços. Tão somente o impedia seu orgulho e o saber que sua mãe, em igual situação, nunca teria chorado.

Augusta decidiu expor a pergunta que mais temia, pois não queria evitar nada. Precisava saber toda a verdade.

—É a primeira vez?

Christina a olhou atônita, com seus enormes olhos expressando incredulidade e depois horror ao cair na conta do que Augusta estava sugerindo e pensando. Sua cútis estava tão pálida como os lençóis.

—OH, mamãe! Não pode pensar que eu... OH, não!

—Bem. Eu não pensava que você pudesse. Mas não importa o que eu possa pensar, mas o que pense a polícia, ou que esta tenha motivos suficientes para considerar que existe a possibilidade de que você...

—Mãe!

—Eu me ocuparei de tudo. Não voltará a ver o Max. Até que me tenha assegurado de seu silêncio permanecerá na cama. Tem uma gripe. Fica claro?

—Sim, mamãe. - Christina estava muito perplexa e assustada para objetar algo. - Você acha que... a polícia... ? Quero dizer...

—Pretendo que não cheguem a saber nada que possa induzi-los a pensar de um ou outro modo. E com este fim você vai fazer exatamente o que eu lhe diga.

Christina assentiu em silêncio e Augusta contemplou a palidez de seu rosto, recordando como se sentiu ela nas primeiras semanas de gravidez, quando estava no estado da própria Christina. Parecia ter passado um século depois.

Brandy ainda era um menino em fraldas, e seu pai tinha sido mais jovem, o rosto menos ossudo, seu corpo com uns quilos a menos, mas igualmente forte e com os ombros igualmente largos e rígidos. Como podia ser que um homem mudasse tão pouco? Sua voz, suas maneiras, inclusive suas idéias continuavam sendo as mesmas.

—Já passará -lhe disse com doçura-. Só se encontrará assim nas primeiras semanas, depois se sentirá melhor. Direi à cozinheira que lhe prepare um caldo de carne.

—Obrigado, mamãe -sussurrou Christina e pouco depois fechou os olhos.

Augusta espremeu os miolos para achar um modo de assegurar o silêncio do Max sem lhe proporcionar ao mesmo tempo uma arma que pudesse empregar em tempos futuros.

Mas na manhã seguinte não tinha conseguido mais que eliminar todos os sistemas impossíveis e ficar com uns poucos viáveis. Estava do pior humor para receber a alguém quando às dez e quinze se apresentou Pitt.

Quando Augusta soube que tinha sido Max quem o tinha feito entrar, viu-se sacudida por um instante de pânico, mas em seguida compreendeu que a ambição do Max nunca lhe permitiria desperdiçar seus valiosos conhecimentos do assunto com o Pitt, que não ia lhe dar nada por eles, em lugar de oferecê-los a Augusta, quem poderia lhe pagar de mil maneiras distintas, desde com dinheiro ou ascensões sociais até quem sabe o que outras valiosas recompensas.

Recebeu Pitt no salão matutino. Surpreendeu-o esquentando-as mãos frente ao fogo. Era outro dia de cães, com um intenso vento do este carregado com nevasca procedente do mar do Norte, e não podia reprovar a nenhuma criatura vivente que tratasse de esquentar-se, embora lhe ofendia ver aquele polícia aproveitando-se assim de seu fogo. Pitt não se moveu porque não a tinha ouvido entrar.

—Bom dia, senhor Pitt - o saudou com frieza-. Do que se trata desta vez?

Pitt se sobressaltou e necessitou de um momento para recuperar a compostura antes de lhe dirigir o olhar.

—Bom dia, senhora. Temo que ainda não descobrimos a verdade com respeito aos cadáveres achados na praça...

—E você crê seriamente, inspetor, que a descobrirá algum dia? –inquiriu Augusta, arqueando as sobrancelhas com ceticismo.

—Talvez não, senhora. Mas ainda vou ter que trabalhar duro algum tempo antes de renunciar.

—Já o vejo. Entretanto, me parece um esbanjamento do erário público.

—Talvez se trate de um grande esbanjamento de vidas humanas, que me parecem mais valiosas.

—E, entretanto, dispomos de muitas mais vidas humanas que de dinheiro público -respondeu ela com secura-. Mas como imagino que deverá cumprir com o que considera seu dever, o que lhe ocorreu esta vez que posso fazer para ajudá-lo?

—Me conceder sua permissão para falar novamente com sua criadagem, senhora. E talvez com a senhorita Christina Balantyne. Possivelmente ela tenha observado algum comportamento especial ou percebido algum pequeno indício que a senhora estivesse muito ocupada para constatar.

Augusta notou uma repentina tensão em seu estômago. Era possível que já tivesse ouvido algum rumor? Poderia ser que Max tivesse sido tão... Não, sem dúvida não! Max era, acima de tudo, um homem ambicioso. Queria estar em vantagem para fazer uso dela, não para esbanjá-la.

-Sinto muito. Poderá falar com os criados, é claro; embora deva insistir uma vez mais em que não deve distraí-los desnecessariamente. Manterei uma pessoa de responsabilidade junto a você para este fim. Mas lamento ter que lhe dizer que minha filha não se encontra bem e tem que guardar cama.

Naturalmente, ela não pode ver ninguém.

—OH, quanto o lamento! -disse Pitt, com suas expressivas feições adotando um ar de simpatia que Augusta não tinha nem idéia de se era sincero ou não-. Espero que se trate unicamente de uma indisposição passageira.

—Assim acreditam - replicou-. É devido ao mau tempo desta estação do ano. É fácil ver-se afetado por um tempo assim. Bem, a que criados deseja você ver? Às de sexo feminino, imagino.

—Por favor.

Augusta fez soar a campainha.

—Farei que o acompanhe o mordomo.

—Preferiria falar com elas a sós. Sua presença poderia inibi-las, fazê-las sentir-se menos livres para...

—Para o amparo de minhas criadas, o mordomo permanecerá junto a você. Não quero que jovens que se acham sob minha responsabilidade sejam intimidadas, embora seja involuntariamente, para dizer coisas de que depois poderiam arrepender-se. Talvez você não se dê conta de como são jovens e ignorantes algumas delas; deixam-se sugestionar facilmente e são muito influenciáveis.

—Lady Augusta...

—Estas são as condições com as quais poderá falar com elas, senhor Pitt.

Acredito que são bastante razoáveis.

Não havia mais argumentos que Pitt pudesse apresentar sem delatar que já sabia algo ou mostrar certo ar de culpa, e Augusta virtualmente o estava desafiando a agir assim.

—Senhora - se despediu Pitt com um leve sorriso que manifestava seu reconhecimento da superioridade momentânea das habilidades estratégicas da dama. Se Pitt fosse um cavalheiro, a Augusta poderia inclusive ter gostado por um instante.

Em troca, Augusta não sentiu nada equiparável por Charlotte Ellison quando esta chegou pouco antes de meio-dia para assistir ao general na redação de seus escritos. A senhorita Ellison era uma moça que não lhe agradava. Havia certa emoção nela, certa imprevisibilidade, que Augusta intuía perigosa.

Não se podia predizer o comportamento que ia ter essa jovem porque parecia escapar a todas as regras. Entretanto, parecia bastante inofensiva. Entrava e saía em silêncio e não havia dúvida de que não só era cortês, mas também, pelo menos na aparência, educada e culta. Mas que razões poderia ter uma moça para ajudar a um general de meia idade a pôr em ordem uns papéis relativos a batalhas e regimentos, em lugar de buscar um marido? tratava-se de uma pergunta para a qual Augusta, em outra época de sua vida menos embargada pelas preocupações, não teria duvidado em procurar uma resposta.

Entretanto, tal e como estavam às coisas, contentou-se perguntando ao Brandon durante o almoço que classe de criatura era Charlotte e se cumpria satisfatoriamente com as habilidades de empregado de escritório que lhe tinham dado.

—Sim -respondeu com uma leve surpresa-, é de uma inteligência pouco comum em uma mulher.

—Quererá dizer que sente um interesse pouco comum pelas coisas que interessam a você... para ser mulher -replicou Augusta com aspereza.

—Não é isso mais ou menos o que lhe disse?

—Não, não o é. A maioria das mulheres têm uma grande inteligência para as coisas que importam, como ocupar-se de conduzir sua vida diária como é devido.

Mas não desejam dedicar-se a descrição de batalhas que concernem a gente de outros países e outros tempos.Eu considero que um interesse assim é bastante excêntrico e muito pouco natural em uma moça de boa educação.

—Tolices! -replicou ele-. Qualquer pessoa inteligente teria que saber apreciar a grande historia de nossa nação. Somos a maior nação militar do mundo; estendemos nossa civilização a todas as terras e todos os climas criados.

Por Deus. Criamos um império e uma paz que são a inveja e a bênção do mundo.

Qualquer mulher de sangue britânico deveria estar orgulhosa disso.

—Orgulhosa sim, é claro - concordou Augusta com zanga ao mesmo tempo que estendia a mão em busca do patê de anchovas-. Mas não interessada nos detalhes!

Foi depois desta conversa que Augusta dedicou seus pensamentos à questão do silenciamento do Max; e finalmente deu com a resposta adequada.

Durante a hora tranqüila que costumava preceder ao jantar decidiu abordar sua posta em prática. Foi ao salão pequeno, onde ninguém ia incomodá-los, e fez chamar o Max.

Sentiu uma repulsão entristecedora, quase sufocante, quando o viu entrar com soltura, como se esperasse tratar meramente de algum assunto doméstico com ela. Augusta nunca se deu conta antes do quão insolentes e pouco confiáveis que eram seus olhos. Teve que esforçar-se para não perder o controle.

—Boa noite, Max -lhe disse com frieza.

—Boa noite, senhora.

—Não há motivo para que nos andemos com evasivas. Fiz chamá-lo para discutir um assunto no que acredito deveríamos chegar a um acordo que, se não chegar a ser vantajoso para os dois, pelo menos não nos seja prejudicial. De você depende que assim seja.

—Muito bem, senhora. -Seu rosto não revelou emoção alguma.

—Foi bastante estúpido para iniciar uma relação com minha filha.

Deixará imediatamente de lhe dedicar cuidados de qualquer tipo. Abandonará este emprego e aceitará um trabalho na Escócia que eu arrumarei para você e para o qual lhe darei as referências necessárias...

—Não tenho nenhum desejo de ir trabalhar na Escócia, senhora.

Max permanecia de pé frente a ela, os olhos reluzindo com leve regozijo.

—Provavelmente não, mas isso me traz sem cuidado. Tenho relações no Stirlingshire que sem dúvida me assistirão na tarefa de lhe achar emprego. A alternativa da que dispõe é o cárcere, que acredito é ainda mais fria e desolada que a Escócia.

—O cárcere, senhora? -inquiriu com surpresa, arqueando as sobrancelhas-. Deitar-se com uma dama de bom berço, especialmente se tal dama está mais que disposta a isso, talvez seja indiscreto, inclusive socialmente ofensivo para alguns, mas certamente não é um crime. E embora o fosse, duvido que desejaria me acusar dele. -Esboçou um sorriso sarcástico.

—Não, claro que não. Mas roubar a prata da casa que o acolhe é um crime. -Augusta sustentou seu olhar com igual resolução.

O rosto do Max vacilou um instante. A compreensão de sua situação começava a surgir ante seus olhos.

—Eu não roubei sua prata, senhora.

—Não. Mas se de repente acontecesse que faltasse algum objeto de prata e se acontecesse que o encontrássemos entre seus pertences, seria extremamente difícil provar sua inocência.

—Isso é chantagem.

—É muito perceptivo, Max. Supus a bom princípio que iria compreender me facilmente.

—Se me acusasse de algo assim, logicamente teria que alegar, em minha própria defesa, os motivos que teve você para me acusar -replicou, observando- a em busca de algum sintoma de fraqueza.

Mas Lady Augusta não lhe deu nenhum.

—Possivelmente - respondeu com frieza-. Mas isso seria uma tolice, porque então também lhe acusariam de calúnia. E a quem pensa que iriam acreditar? A Lady Augusta Balantyne, obrigada a tratar com um criado desonesto e arrogante, ou ao criado, rancoroso por ter sido descoberto? OH, vamos, Max! Afinal de contas, não é um estúpido.

Max a olhou fixamente com um ódio malicioso refletido em suas sensuais feições.

Augusta não baixou a vista, mas sim a manteve imperturbável com idêntica firmeza.

 

O general Balantyne estava muito satisfeito do modo em que progrediam suas memórias. A história militar de sua família era realmente destacada, e quanto mais punha em ordem seus papéis, mais relevante lhe parecia. Havia uma herança de disciplina e sacrifício da qual qualquer um se sentiria orgulhoso. Mas, muito mais que isso, havia uma imperiosidade, uma excitação que era mais real que a insignificante cotidianidade do Callander Square.

As primeiras chuvas do inverno londrino empapavam os cinzas paralelepípedos da praça, mas em sua imaginação achava ver a chuva do Quatre Bras e do Waterloo que tinha caído perto de setenta anos antes, em que seu avô tinha perdido um braço e uma perna arrastando-se pelo lodo dos campos belgas seguindo ao duque do Wellington; escudo escarlate e azul, a carga dos Cinzas Escoceses, o final de um império e o início de uma nova época.

Enquanto o calor da lareira abrasava suas pernas, o general se sentiu estendido sob o sol implacável da Índia. Pensou no sultão Tipoo, no Buraco Negro de Calcutá, onde seu avô morreu como um herói. Ele mesmo também tinha tido ocasião de saber o que era o calor de um sol implacável. A ferida de lança recebida na perna durante a guerra com os zulus, fazia só três anos, ainda não se tinha curado de todo.

Nos dias frios ainda lhe doía para lhe recordar que não tinha sido um pesadelo. Talvez aquela tivesse sido sua última batalha, enquanto que o inferno da Crimea foi a primeira. Nos rincões mais recônditos de sua memória ainda sentia medo ao recordar o frio espantoso e a matança do Sebastopol, a morte estendida por todo o lugar, corpos consumidos pela cólera, destruídos pelos disparos, congelados até morrer em posições grotescas, alguns deles acocorados como meninos adormecidos. E os cavalos! Só Deus sabe quantos cavalos morreram naquela ocasião, pobres bestas. Embora fosse estranho que os cavalos o preocupassem tanto...

Na Balaklava tinha só dezoito anos. Tinha chegado com uma mensagem de seu comandante destinado a lorde Carrington bem a tempo para contemplar aquela carga inaudita.

Recordou o açoite do vento no rosto, o aroma do sangue e pólvora, e o pó formando redemoinhos- quando 673 homens com seus respectivos cavalos galoparam contra as armas entrincheiradas da forte posição russa. Balantyne colocava seu cavalo atrás daquele ancião de feições marcadas, aturdido pelo tumulto, furioso, enquanto debaixo deles, no vale, 250 homens e 600 cavalos obedeciam suas ordens e se lançavam a uma morte certa.

Seu pai estava entre os Onze Hussardes e foi um dos que nunca retornaram.

Seu tio tinha estado no 93° Regimento do Highlanders e tinha defendido a "fina linha vermelha", 550 homens ante 30.000 russos, e à própria Balaklava.

Como tantos outros soldados de seu regimento, também ele morreu no mesmo posto que estava defendendo. Tinha sido ele, Brandon, quem se acomodou no frio glacial de uma trincheira para escrever a sua mãe e lhe comunicar que seu marido e seu irmão tinham morrido. Ainda podia sentir a agonia que teve ao procurar as palavras adequadas para expressar algo tão terrível. Depois tinha ido lutar em Inkerman e viveu a queda do Sebastopol. Naqueles momentos lhe tinha parecido que a Ásia inteira se jogava sobre eles com o fantasma da metade da terra correndo atrás deles.

Podia permitir que todos os cidadãos ingleses que ainda não tinham nascido nunca chegassem a ouvir em seu coração os disparos daquelas batalhas e não sentissem o orgulho e a dor, as confusões... e os avatares da história? Podia Brandon ser tão incapaz de expressar-se para limitar-se a viver tudo para si mesmo, incapaz de transmitir a outros o estranho sabor que sente um soldado na boca, o batimento do coração do sangue, as lágrimas que verte depois da batalha?

Essa jovem, a senhorita Ellison, parecia competente e bastante agradável.

Embora talvez "agradável" não fosse a palavra ideal... De fato tinha atitudes e opiniões muito definidas para lhe ser definidas para lhe ser grata de todo. Mas era inteligente, isso não havia dúvida. Com ela se via exonerado da fastidiosa tarefa de ter que explicar tudo mais de uma vez. Em algumas ocasiões inclusive se deu conta de que essa jovem tinha sabido captar sua idéia mesmo antes que ele terminasse de lhe dar as primeiras instruções. Por outra parte, a senhorita Ellison tinha boas intenções e não se dava ares de nenhum ripo.

E mais, inclusive parecia mais que contente de poder comer no refeitório dos criados em lugar de lhe criar dificuldades acrescentadas ao cozinheiro fazendo preparar uma bandeja especial para ela.

Inclusive mais de uma vez lhe tinha feito sugestões sobre possíveis modos de proceder que ao general lhe foi difícil aceitar de bom grado. Mas tinha que admitir que suas idéias eram bastante boas; e mais, a ele não lhe teria ocorrido nenhuma melhor. Agora, enquanto permanecia sentado na poltrona de sua biblioteca, refletia sobre o seguinte tema sobre o que ia escrever e que opinião merecia a senhorita Ellison.

Sentiu-se aborrecido quando Max entrou e o interrompeu anunciando que o senhor Southeron se achava no salão matutino e que desejava vê-lo.

Podia lhe dizer que se achava em casa?

O general vacilou uns instantes. a última coisa que gostava nesse momento era que Reggie Southeron lhe aborrecesse com suas bobagens, mas, ao fim e ao cabo, Reggie era um vizinho e deveria ser tolerante com estas coisas. Não agir assim provocaria uma interminável reação em cadeia e implicaria toda classe de pequenos desconfortos.

Max esperou em silêncio sua resposta. Sua imaculada figura e seu tranqüilo sorriso chateavam ao general quase tanto como a questão que lhe acabava de expor. Tomara Augusta se fartasse por fim dele e encontrasse a algum outro.

—Sim, claro -disse asperamente-. E será melhor que traga algo para beber... O madeira, por exemplo, mas não o melhor.

—Não, senhor - disse Max antes de virar-se e partir.

Um momento depois entrou Reggie, volumoso, afável, a roupa já marcada por cômodas rugas apesar de não ser possível que a levasse posta mais de algumas horas.

—Bom dia, Brandon - saudou Reggie alegremente, com os olhos examinando a sala, percebendo o calor do fogo, as cômodas e macias poltronas de couro e procurando a jarra e as taças.

—Bom dia, Reggie - replicou Balantyne-. O que o traz por aqui um sábado pela manhã?

—Pensava que já me tocava vir lhe fazer uma visita. -Reggie tomou assento na poltrona mais próxima ao fogo-.

Até hoje não tive a oportunidade apropriada para vir vê-lo.

Sempre há algo do que alguém tem que ocupar-se, não é? Além disso, ultimamente esta praça parece uma colméia...

Até esse momento Balantyne só tinha dedicado uma atenção superficial a seu vizinho, mas agora começava a perceber uma nota de tensão na voz do Reggie, e isso apesar de sua aparente afabilidade. Aparentemente tinha ido a ele para tratar algum assunto específico que lhe provocava uma ansiedade que precisava compartilhar. Max ia retornar em seguida com o madeira, e não tinha sentido iniciar nenhum tema sério até que ele se fosse.

—Lamento que tenha estado tão ocupado -respondeu em tom familiar.

—Em realidade, eu não - replicou Reggie-, mas esses malditos policiais espalhados por toda a ditosa praça. Esse tal Pitt, ou como se chamo, perambulando por entre as dependências dos criados, controlando tudo...

Maldita seja, não sabe quanto odeio que se produzam transtornos na casa! Todos os criados estão inquietos. Por todos os diabos, já tem que saber quão difícil é conseguir bons criados e treiná-los como se gosta, ensiná-los a que conheçam suas preferências pessoais e saibam como as atender... Tudo isso leva muito tempo. E uma vez treinados, tem que descobrir um maldito assunto como este e antes que perceba já os tem a todos revoltos. Sempre é difícil conseguir um bom criado. De repente lhes pode ocorrer melhorar sua posição.

Veêm à sua cabeça fantasias de que gostariam de ser um duque ou um conde, ou algo do tipo . Lhes ocorre fazer uma viagem ao estrangeiro. Pensam que as coisas vão muito mal se não puderem passar parte do ano em Londres, o verão no campo e a pior parte do inverno no sul da França! Essas ditosas criaturas se ofendem por pouco e antes que se dê conta já se foram. A metade das vezes nem o demônio sabe por que. Não sabem o que é a lealdade. Não é preciso ser muito preparado para saber que em uns dias vão se embora todos se esse maldito Pitt continua fazendo perguntas sobre sua vida privada e sua moralidade, interferindo nelas e sugerindo toda classe de coisas incríveis.

A voz do Reggie tinha ido subindo de tom devido à exasperação ante a perspectiva de passar um inverno inteiro treinando a criados recém chegados e pouco satisfatórios:

Aposentos frios, comidas queimadas, roupa sem engomar...

Balantyne não tinha pensado nessa eventualidade, o que era bastante lógico pois ele não valorizava especialmente essa classe de comodidades tão caras a seu interlocutor. Por outra parte, sim valorizava sua própria tranqüilidade de ânimo. O conflito doméstico que semelhante crise poderia provocar era verdadeiramente espantoso de imaginar. Balantyne não apreciava muito ao Reggie, já que eram de todo tão diferentes quanto dois homens podem chegar a ser.

Mas, lamentava os evidentes temores de seu vizinho, os quais, embora a seu julgamento carentes de fundamento, podiam converter-se em um perigo real.

—Não deve preocupar-se por isso - disse tirando importância ao assunto.

Max entrou com a jarra de vinho e as taças, colocou-as na mesinha e partiu, fechando depois a porta silenciosamente. Reggie se serviu sem que ninguém lhe desse permissão.

—Você não quer? -perguntou com uma mescla de ansiedade e brutalidade na voz.

—Agora não quero. -Balantyne declinou o madeira. Não gostava muito dessa mistura e ainda era muito cedo-. Nenhuma boa criada demitiria só porque lhe tivessem feito umas quantas perguntas, a não ser que já dispusesse de outro lugar aonde ir. E esse tal Pitt é um tipo muito educado. Não se queixou dele nenhum membro de minha criadagem.

—Pelo amor de Deus, homem! Acaso se inteiraria se o fizessem? -Pouco a pouco Reggie começava a perder a paciência-. Augusta leva sua casa como se se tratasse de um regimento. Não lhe diria isso embora o serviço inteiro estivesse amotinado! Ela saberia como enfrentar-se a isso, e você continuaria tendo o jantar preparado a tempo.

Balantyne não gostou da sugestão de que ele não era mais que um apêndice inútil no funcionamento de sua própria casa, mas se recordou que o homem que tinha frente a ele estava realmente assustado, embora ignorasse o motivo; assim se mostrou indulgente.

—Ainda assim, seria muito pouco provável que alguma criada quisesse fazer-se notar precisamente agora - replicou com calma-.

Isso daria à polícia a sensação de que se sente culpada, e não há dúvida de que isso lhe faria as coisas mais difíceis que se continuasse aqui com tal coisa, fazendo vida normal.

Era estranho: nem sequer este argumento, apesar de sua lógica implacável, parecia tranqüilizar ao Reggie. Continuava aninhado na poltrona, contemplando fixamente sua taça.

—Ainda assim, mau assunto - disse lugubremente . - Não acha que alguém vai averiguar quem o fez. Tudo isto é uma perda de tempo. Quão único conseguem é trazer à tona um montão de especulações e falatórios. –Reggie ergueu a vista uns instantes. - Tudo isto poderia nos fazer muito dano, Brandon, já sabe. Não nos convém ter à polícia farejando por aqui. As pessoas acabarão pensando que algo marcha mal.

Balantyne podia entender o que Reggie dizia, mas não via nada que ele pudesse fazer para evitá-lo, e se sentia inclinado a pensar que Reggie exagerava.

-Com certeza queira que Carlton esteja de acordo - disse Reggie com rapidez, erguendo levemente a voz-. "Evita a suspeita", já sabe. "A mulher do César", etcétera, etcétera. Os estrangeiros costumam ser divertidos. Interessa que mantenhamos nossa reputação imaculada.

O que Reggie estava dizendo provavelmente fosse certo. Balantyne franziu o sobrecenho, esquadrinhando a seu interlocutor, quem se tinha servido de outra taça mais e, se Balantyne não se equivocava, já era a terceira ou a quarta que tomava hoje. Do que tinha medo em realidade?

—O que opina ele? -pressionou Reggie.

—Não falei com ele -respondeu Balantyne com franqueza.

—Talvez fosse boa idéia que o fizesse - disse Reggie, tratando de sorrir, mas plasmando uma careta que recordava a uma hiena mostrando a dentadura. – O faria eu mesmo, mas não o conheço tão bem como você. Talvez ele seja capaz de fazer com que a polícia entre em razão. Nunca averiguarão que mulher o fez, é absolutamente impossível. Certamente foi alguma criada que se mudou aqui faz tempo. Se tivesse matado a dois bebês não teria ficado por aqui como se nada acontecesse.

—A polícia já teria pensado nisso -respondeu Balantyne-. Não despedimos nenhuma criada nem deixamos partir a nenhuma nos últimos dois anos. Você sim? -De repente começava a compreender. E mais, agora todo o assunto lhe parecia surpreendentemente claro-. Quanto tempo faz que morreu Dolly? -inquiriu.

O sangue abandonou o rosto do Reggie até o ponto de que Balantyne temeu que se desvanecesse. Tinha a pele completamente cinza.

—Foi seu filho o que a matou, Reggie? -continuou perguntando.

A boca de Reggie se abriu como a de um peixe, para fechar-se de novo silenciosamente. Não conseguia achar nenhuma mentira que o tirasse do apuro.

—De qualquer modo acredito que isso faz mais de dois anos – prosseguiu Balantyne.

—Claro que sim! -Reggie por fim conseguiu articular palavra, mas com os lábios ainda rígidos-. Já faz quatro anos. Não poderia ter nada que ver com este desagradável assunto! Mas já sabe como é a gente. Gosta de procurar pêlo em ovo. Pensarão que só porque... -prosseguiu Reggie, apoiando-se em sua mentira e servindo-se de outra taça de madeira.

Não era preciso pressionar Reggie com respeito à presente; a verdade era muito óbvia, assim como a razão pela qual desejava ver a polícia longe da praça, assim como aos os criados muito faladores. Pobre diabo!

—Espero que a polícia renuncie por própria iniciativa - disse Balantyne com uma compaixão que lamentava sentir-. Mas irei ver o que opina Carlton assim que disponha de um momento. Não acredito que esse Pitt vai dedicar mais tempo de que dispõe para resolver um beco sem saída. Não seria bom para sua carreira.

—Não. -Reggie cobrou ânimos-. Não acredito que precisemos dar a entender. -Suas palavras começavam a soar pouco nítidas por efeito do madeira-. Mas fala com o Carlton igualmente. Sem dúvida ele conhece muita gente; algumas palavras pronunciadas nas instituições adequadas, faria que o caso se fechasse um pouco antes. Economizar-nos-ia um montão de sujos falatórios, e também bastante dinheiro público. Todo este assunto não é mais que uma enorme perda de tempo e dinheiro. -Reggie se levantou com movimentos vacilantes-. Obrigado, homem! Achei que o compreenderia.

Christina não desceu para almoçar, e o jovem Brandy estava passando a semana no campo junto a uns amigos, assim o general ia estar a sós com Augusta durante a refeição.

—Christina ainda não se encontra bem? -inquiriu com um tom de ansiedade-. por que não veio um médico? Diga ao Freddie que lhe dê uma olhada se é que Meredith não pode vir.

—Não é necessário - replicou Augusta, estendendo o braço em busca do salmão frio-. Só é um resfriado. O cozinheiro já lhe preparou uma bandeja para almoçar. Toma um pouco de salmão. É um dos que Brandy pescou no Cumberland o fim de semana passado. É muito bom, não lhe parece?

Balantyne tomou um pouco para prová-lo.

—Delicioso. Tem certeza de que não se trata de nada sério? Está há muito tempo na cama.

—Completamente certa. Passar umas semanas em cama não lhe fará nenhum dano. Ultimamente se excedeu um pouco. Muitas festas. O que, por certo, faz-me pensar... recorda que esta noite temos um jantar em casa dos Campbell?

Não, Balantyne não se lembrava. De qualquer modo, poderia ser pior.

Garson Campbell era um tipo interessante, embora com um senso de humor algo seco, mas bem cínico. E Mariah era uma mulher mais sensível do que o habitual. Poucas vezes a tinha podido ouvir dando alimento aos falatórios ou com os intermináveis flertes com que tantas outras mulheres pareciam precisar manter ocupadas suas emoções.

—A que veio Reggie Southerton esta manhã?

—Em realidade a nada. Está preocupado por ter à polícia inquietando aos criados com um montão de perguntas e insinuações.

—Inquietando aos criados? -perguntou desconfiada.

Balantyne olhou a sua esposa por cima da bandeja do salmão.

—Sim. por que não?

—Não seja ridículo, Brandon. Ao Reggie os criados nunca importaram nada; nem os seus nem os de outros. De qualquer modo, o que pretende que você faça?

Balantyne sorriu a seu pesar.

—O que a faz pensar que Reggie pretende algo de mim?

—Não veio aqui para beber seu madeira. Você sempre lhe dá o pior, e ele sabe. O que queria?

—Sugeriu-me que fale com o Robert Carlton para ver se ele pode persuadir à polícia de que esqueça o assunto. De qualquer modo, o mais provável é que nunca descubram a verdade. A única coisa que conseguiriam é perder seu tempo e levantar um montão de rumores. Pode ser que, além de tudo, Reggie tenha razão.

—Tem-na -concordou Augusta asperamente-. Mas duvido que seja isso o que seriamente o preocupa. E estaria muito surpreendida se esse estranho jovem, Pitt acredito que se chama, esquecesse o caso antes de ter aprofundado muito mais do que já tem feito. Mas se quer pode tentá-lo. Não permita que Reggie fique em ridículo. Isso afetaria a todos, além do desconforto que sentiria Adelina, pobre criatura.

—Por que ia Reggie ficar em ridículo?

Balantyne não tinha intenção de falar de Dolly a sua esposa. Não era um assunto que devesse conhecer uma mulher decente.

Augusta suspirou.

—Às vezes, Brandon, me pergunto se se faz de idiota só para me incomodar. Reggie quer impedir que a polícia interrogue muito a seus criados por algo que você sem dúvida sabe tão bem como eu.

—Não tenho nem idéia do que está falando.

Balantyne não queria explicar a sua esposa algo que a transtornaria tanto como a distrairia. Sem dúvida lhe pareceria sórdido; de fato provavelmente o fosse, mas a do Reggie não deixava de ser uma fraqueza humana muito comum que as mulheres eram propensas a ver de outro modo, já que em parte a ofensa podia ir contra elas, e não costumavam mostrar a compreensão que um homem pode chegar a sentir ante tais apetites.

Augusta emitiu um leve grunhido e afastou a um lado o prato vazio. Uma criada entrou com o pudim e o serviu. Assim que estiveram a sós de novo, Augusta lhe olhou friamente.

—Nesse caso talvez seja melhor que lhe explique, antes que involuntariamente diga alguma estupidez e nos ponha em um apuro a todos.

Reggie se deita com todas suas criadas, e não há dúvida de que teme que a polícia descubra e não guarde a discrição suficiente. Inclusive poderia ser que a polícia pensasse que foi bem mais longe.

Balantyne ficou atônito. Augusta estava falando daquilo como se mal tivesse importância!

—Como diabos sabe você isso? -exclamou com voz rouca.

—Meu querido Brandon, todo mundo sabe. Ninguém fala disso, é claro, mas todo mundo sabe.

-Adelina?

—Claro que ela também sabe. Tem-na por tola?

—E não o... importa?

—Não sei. É algo que não se deve perguntar e, naturalmente, ela não o menciona.

Balantyne estava completamente aturdido. Não lhe ocorria nenhuma explicação adequada para dissimular sua confusão. Sempre tinha sabido que a mente e as emoções das mulheres seguiam caminhos dificilmente compreensíveis para os homens, mas nunca se deu tanta conta disso como agora.

Augusta continuava olhando-o.

—Tomara houvesse algum modo de manter longe daqui a esse polícia, pelo bem da Adelina - prosseguiu-, mas não me ocorreu nenhum. Por isso acredito que poderia ser boa idéia que passasse por casa do Robert Carlton e visse se há maneira de que interrompa esta investigação.

De qualquer modo, dificilmente ia servir para algo, inclusive no improvável caso de que descobrissem a pobre moça responsável.

—Aqui vemos a pouca importância que tem a justiça! -replicou Balantyne com indignação, novamente surpreso. Como diabos era possível que sua mulher falasse desse assunto como se não tivesse a menor importância, como se não tivessem sido bebês humanos os que tinham morrido, possivelmente assassinados?

—De verdade, Brandon, às vezes me desespera -replicou Augusta enquanto lhe passava o molho de caramelo-. É o homem com menos prática que conheci. Por que os soldados são tão sonhadores?

Se pensasse que está ao comando de um regimento pelo menos trataria de ser prático.

Ou não? -suspirou-. Embora esteja convencida de que a guerra é a empresa mais ridícula do mundo, talvez tampouco então fosse.

Balantyne esquadrinhava a sua esposa como se se tratasse de uma criatura totalmente alheia a este mundo, como se seu corpo se transformasse no de um completo desconhecido para ele.

—Você não compreende no que consiste a guerra - respondeu, deixando diplomaticamente a um lado este último tema-. Mas embora a própria justiça seja um conceito muito abstrato para você como mulher, dado que deu a luz a duas crianças, não sente compaixão?

Augusta deixou a colher e o garfo na mesa e se inclinou para frente.

-As crianças estão mortas, Brandon. Tanto se tiverem nascido mortas, como se os mataram, já não podemos fazer nada por eles. A mãe já teria passado por um inferno muito maior de que pode imaginar. Talvez nem sequer eu possa imaginar o Independentemente da classe de mulher que tenha sido, já teria pago sua culpa nesta vida, e terá que responder ante Deus na próxima. Que mais quer dela? Seu exemplo não impedirá que isto ocorra de novo, asseguro-lhe, pelo menos enquanto continue havendo homens e mulheres no mundo.

—"Sim, sua idéia de justiça é muito abstrata para mim. É uma palavra que lhe soa bem; mas não tem nem idéia do que significa na vida cotidiana. Você já satisfez seus ideais e agora é outra pessoa que tem que viver a realidade.

—"Este assunto é melhor esquecer. Inclusive foi uma pena que esses dois homens fossem ao jardim plantar essa ditosa árvore. Se pode persuadir ao Robert Carlton de que exerça certa influência para que a polícia nos deixe em paz de uma vez, seria a melhor obra de caridade que teria feito em muito tempo.

—"E agora, se tiver intenção de comer seu pudim é melhor que o faça antes de que se esfrie, ou do contrário sofrerá uma indigestão. Eu subirei para ver como se encontra Christina.

Depois de dizer isto, Augusta se levantou e partiu, deixando que Balantyne a visse partir, absolutamente incapaz de articular palavra.

Pela tarde Balantyne seguiu trabalhando em seus escritos militares, já que eles constituíam o único pilar de sua vida do qual ainda se sentia seguro. Talvez algum dia Augusta lhe desse alguma explicação, ou talvez o assunto fosse parar a algum rincão de sua memória e deixasse de ser importante.

Já tinha começado a escurecer e a fazer um frio considerável quando entrou Max para anunciar Robert Carlton. Balantyne sempre tinha gostado de Carlton. Era um homem cuja tranqüila confiança e dignidade nunca tinham deixado de lhe agradar. Era um esplêndido exemplo da classe de cavalheiro inglês que seguia aos grandes militares da nação até os mais recônditos rincões do império para governar e estender a civilização em lugares onde até então tinha sido desconhecida. Eram como dois sócios perseguindo um mesmo objetivo e ao Balantyne parecia que conseguiam compreender-se de forma quase instintiva,com um sentimento inato do dever e da justiça.

Nessa noite se sentia especialmente contente de vê-lo, pois aquele montão de papéis já começava a aborrecê-lo. Era mais difícil continuar em seu trabalho sem a senhorita Ellison; e, para falar a verdade, trabalhar sem ela produzia-lhe menos satisfação. O general se levantou com um sorriso e a mão estendida.

—Boa noite, Robert. Sente-se e se aqueça. Temos um esplêndido fogo na casa. Quer um xerez, ou um uísque? Já deve ser hora de tomar uma taça... -acrescentou, dando uma olhada ao elegante relógio que havia no suporte da lareira. Como odiava o outro relógio similar, de bronze dourado, que havia na saleta, rodeado de rechonchudos querubins! Aquele nem sequer dava corretamente a hora.

—Não, obrigado. Ainda não.

Balantyne olhou-o com incredulidade. Então foi quando viu pela primeira vez com clareza o rosto de seu vizinho e amigo. Havia linhas cinzas sob seus olhos e um aspecto categórico e direto em toda sua aparência. Na mesma situação Augusta teria sabido ser sutil, mas ele era incapaz.

—Pelo amor de Deus, amigo, tome uma taça! Parece evidente que a necessita! O que lhe acontece?

Carlton continuava em pé junto ao fogo, sem saber como começar, e Balantyne se deu conta de que lhe tinha posto em uma situação grave ao perceber que seu interlocutor ainda não estava em situação de expressar-se com palavras.

O próprio Balantyne se sentiu desconfortável por culpa de sua própria estupidez. Por que não sabia ser mais perspicaz, mais instintivo? Balantyne sabia muito bem como atuar em uma crise, mas quase nunca sabia o que dizer nelas.

O silêncio se erigia como um muro cada vez mais infranqueável entre os dois.

Foi Carlton quem finalmente resolveu a situação.

—Sinto muito. Sim, eu gostaria de tomar um uísque. Estou um pouco transtornado esta noite... -Carlton se interrompeu sem olhar ao Balantyne, com o olhar fixo no fogo-. Estou impedindo-o de trocar de roupa para o jantar?

—Não, não. Tenho muito tempo. Vamos ver os Campbell.

—Ah, sim, claro. Nós também. Tinha-o esquecido.

Balantyne serviu dois uísques da garrafa que havia no aparador e lhe passou um. Certamente Carlton desejava discutir do tema que lhe afligia, fosse o que fosse. Do contrário, para que tinha ido vê-lo?

—Há algo em particular que vá mal? -perguntou-lhe.

—Esse polícia tornou a rondar por aqui.

Balantyne se dispôs a perguntar se seus criados estavam preocupados, mas se deu conta a tempo de que uma perturbação doméstica desse tipo dificilmente poderia provocar a aflição que via no rosto do Carlton. De modo que guardou silêncio, esperando que ele mesmo lhe desvelasse o que levava tão a flor da pele.

Passaram uns minutos antes de que falasse, mas desta vez Balantyne esperou com paciência.

—Acredito que suspeitam da Euphemia - disse Carlton finalmente.

Balantyne ficou estupefato. Não lhe ocorria nada coerente que dizer. Como podia alguém suspeitar da Euphemia Carlton? Era ridículo. Tinha que ter entendido mal... Especialmente porque quanto mais pensava nesse ditoso assunto mais honestamente achava que devia tratar-se de alguma farra de Reggie, e Reggie sabia, razão pela qual estava tão apurado.

De repente recordou que Reggie tinha insistido a acudir ao Carlton para que suprimisse a investigação! Era absurdo.

-Não pode ser -respondeu-. Isso não tem sentido absolutamente, e esse Pitt é um homem vulgar, mas nunca me pareceu tolo. Não teria chegado a inspetor se tivesse apresentado acusações tão amalucadas como esta. Deve ter interpretado mal algo. Além disso, Euphemia não teria nenhum motivo para fazer algo assim!

Carlton seguia contemplando o fogo, mantendo o rosto afastado da vista de seu amigo.

—Sim, tem, Brandon. Tem um amante.

Para muitos homens uma coisa assim teria significado bem pouco, desde que não fosse de domínio público, mas para o Carlton era um sacrilégio contra seu lar, contra o mais privado de sua pessoa. Balantyne o compreendeu em seguida, por muito que ele mesmo não fosse capaz de sentir o mesmo prejuízo interior à pureza e sua honra. Se Augusta lhe tivesse traído, antes que qualquer outra coisa Balantyne se surpreenderia; e , também se teria zangado, mas, se chegasse a sentir-se ferido, teria sido só levemente.

—Sinto muito - se limitou a responder.

—Obrigado. -Carlton aceitou o sentimento de seu amigo com a mesma cortesia com que teria aceito um cumprimento ou uma taça de vinho, mas Balantyne pôde ver a dor refletida em seu sombrio rosto. - Já vê -prosseguiu Carlton-, pensam que poderia ter se desembaraçado de seus filhos em caso de que... eles pudessem fazer patente sua situação.

—Sim, claro. Mas você sem dúvida o teria sabido... Quero dizer... uma mulher com com quem convive... Sua própria esposa! Se tivesse estado... grávida, você...

—Eu não pergunto muitas coisas a Euphemia - disse Carlton com os ombros rígidos, o rosto voltado para um lado-. Sou bastante mais velho que ela e... eu não gosto que... -Carlton não achava as palavras adequadas para terminar a frase, mas o significado era claro.

Balantyne nunca tinha sido muito delicado em seus sentimentos, e menos ainda Augusta, mas de repente viu a si mesmo como um caipira. Sentia vergonha de ser como era e começava a compartilhar inexplicavelmente a dor do Carlton.

Como podia ser que Euphemia, com um marido tão sensível como ele, que a amava tão profundamente, comportara-se assim? Mas nem sua ira nem seu desgosto iriam ser lhe agora de alguma ajuda a seu amigo.

—Sinto muito -disse de novo-. Sabe quem é?

—Não. Tudo é muito... discreto ainda. A polícia diz o menos que pode.

—Sabe se a ela importa ele?

—Não, não sei.

—Não o perguntou?

Carlton se voltou e, por uns instantes, uma clara expressão de surpresa compensou a pena de seu rosto.

—Claro que não. Não poderia falar com ela disto. Seria... -Carlton ergueu as mãos em um gesto de vulnerabilidade.

—Não, claro.

Balantyne não sabia por que se mostrava de acordo. Podia estar de acordo se ficasse na pele do Carlton, mas não na sua própria. Ele se teria limitado a armar um grande alvoroço. Mas não lhe era difícil ver que a esse homem tão aprazível, com quem tinha acreditado ter tantas coisas em comum, era muito diferente dele nesse aspecto.

—Não imagina quanto o sinto, Robert. Tomara soubesse que mais lhe dizer -

acrescentou.

Pela primeira vez, Carlton sorriu fracamente.

—Obrigado, Brandon. Realmente não há nada que dizer. De fato, nem sequer sei por que o aborreço com isto, salvo porque precisava falar com alguém.

—Sim. -De repente Balantyne se sentiu desconfortável de novo-. Sim, sim, é claro. Eu... isto...

Carlton bebeu o último gole de uísque e depositou o copo sobre a mesa.

—Será melhor que retorne a casa. Tenho que estar preparado a tempo para o jantar. Ainda tenho que me trocar. Saúda augusta de minha parte. Boa noite e obrigado.

—Boa noite... -despediu-se Balantyne com um suspiro. Não havia nada mais que dizer.

Balantyne se perguntou várias vezes se devia mencionar o assunto à Augusta, mas havia algo que lhe impedia de dar esse passo. Parecia um tema privado, de homem a homem. Se o tivesse sabido outra mulher não teria feito mais que aumentar o dano.

Mas a questão continuava no fundo de sua mente quando a senhorita Ellison chegou na segunda-feira pela manhã para continuar trabalhando em seus papéis.

Surpreendeu-se de alegrar-se tanto de vê-la. Talvez fosse porque ela era alheia à família e não sabia nada do Callander Square nem de seus trapos sujos. Além disso, era uma mulher alegre sem chegar por isso a coquete. À medida que se ia fazendo velho Balantyne achava às mulheres coquetes cada vez mais insuportáveis.

—Bom dia, senhorita Ellison -lhe sorriu sem pensar.

Era uma criatura agradável, de uma beleza nada convencional. Ainda assim, havia certo aprimoramento nela. Talvez fosse a abundância de seu cabelo cor mogno, a transparência de sua pele, a inteligência de seus olhos. Para uma mulher, dizia pouquíssimas tolices. Não deixava de ser divertido: a senhorita Ellison dificilmente seria mais de quatro ou cinco anos mais velha que Christina, quem entretanto raramente falava de algo que não fossem falatórios, novidades da moda ou sobre quem se casaria com quem.

De repente Balantyne se deu conta de que Charlotte estava esperando que lhe indicasse o que desejava que fizesse.

-Aqui tenho uma caixa cheia de cartas -disse finalmente-. São de meu avô. Seria você amável de separar as que façam referência a questões militares das que sejam puramente pessoais?

—Claro -respondeu Charlotte, tomando a caixa-. Deseja que as classifique?

—Que as classifique? -inquiriu Balantyne, que ainda não tinha conseguido concentrar-se.

—Sim. Separo as da guerra de Independência, as escritas antes do Quatre Bras e depois do Waterloo, e as do hospital militar durante os Cem Dias? Não lhe parece que também serão interessantes?

—Sim. Sim, por favor, isso seria excelente.

Balantyne a contemplou enquanto pegava os maços de cartas e ia sentar- se ao extremo mais afastado da sala, junto ao fogo, com a cabeça inclinada sobre os velhos papéis e a escritura juvenil e debilitada pelo passar do tempo.

Por um momento viu nela a sua própria avó quando devia ler essas mesmas cartas, sentada em uma Inglaterra em guerra contra o Imperador, uma moça com filhos pequenos. Balantyne não tinha nem idéia do aspecto de sua avó. Tinha tido a mesma curva da face e um pescoço igualmente esbelto, tão feminino, e finas mechas de cabelo dispersadas sobre a nuca?

Balantyne sacudiu essa idéia. Era ridículo: a senhorita Ellison não era mais que uma moça que sentia um incomum interesse pelas cartas velhas e era suficientemente competente para as classificar.

Charlotte, por sua parte, era bastante inconsciente da presença do general.

Esqueceu-o assim que leu a primeira frase de uma das cartas, escrita com essa letra redonda e debilitada. Sua imaginação a levou a países que nunca tinha visto, e Charlotte tratou de experimentar em sua própria pele as emoções que descrevia aquele jovem soldado, seu terror ante os homens apinhados nas filas, a quem sabia que devia proteger, sua amizade com o médico militar, seu temor reverencial ao conhecer duque do Wellington em pessoa... Havia sentido o humor refletido nelas, e às vezes um patetismo inconsciente, e um montão de coisas que o jovem soldado não contava sobre o frio e a fome, sobre pernas doloridas, sobre feridas e medos, sobre longos dias de monotonia seguidos da súbita confusão da ação.

Charlotte foi a almoçar imersa em um sonho, e a tarde chegou antes que se desse conta. Já tinha escurecido quando retornou a casa, e menos de meia hora depois Emily estava na porta, os cavalos de sua carruagem golpeando o chão com as patas pelo frio, acrescentando o vapor de sua respiração à névoa da noite.

—E então? -perguntou Emily a sua irmã assim que atravessou a soleira.

Charlotte ainda estava na Espanha e na guerra de Independência. Olhou Emily sem compreender.

Emily fechou a porta atrás de si e tomou fôlego.

—O que averiguou em casa dos Balantyne? -inquiriu-. Acaba de vir dali, imagino...

—OH, sim, claro. -Charlotte acabava de descobrir com certo sentimento de culpa que durante os seis dias que estava no Callander Square ainda não tinha feito nada que pudesse justificar a confiança que Emily tinha depositado nela-. Já estive várias vezes -acrescentou-. Começo a conhecer bastante bem a vários dos criados.

—Não me fale dos criados! -respondeu Emily-. O que passa com a Christina? Está grávida? E, tanto se o está como se não, por que ela acha que o está? Quem é o pai? E por que não se casa com ele em lugar de tolerar esta situação tão ridícula? É porque já está casado, noivo ou algo assim? –Por um momento seus olhos se arregalaram. - OH, claro! É um homem inadequado! Deve tratar-se de um matrimônio por amor! -Mas então seu rosto se escureceu de novo-. Não, não pode ser. Não com a Christina. -Suspirou-.OH, Charlotte, não descobriu nada absolutamente? -Emily mostrava uma expressão tão desgostosa que Charlotte chegou a senti-lo seriamente por ela.

—Tentá-lo-ei amanhã, seriamente. Mas desde que estou ali Christina guardou cama todo tempo. Eles dizem que tem um resfriado, mas não chamaram nenhum médico...

-Quais são "eles"? -perguntou Emily, cujo interesse se despertou de novo.

-Os criados, claro. Obviamente Lady Augusta não fala comigo exceto quando é imprescindível e por mera cortesia, e o general não fala nunca de nada que não sejam seus papéis. Mas os criados são muito inquisitivos, já sabe.

Nunca diriam nada que tivessem que admitir como falatórios, mas, a pouco que sua informação possa ser reconhecida como alguma outra coisa, dir-lhe-ão tudo o que sabem, embora em sua maioria não sejam senão conjeturas.

-E então? -inquiriu Emily com impaciência-. Que conjeturas são essas?

Pelo amor de Deus, diga-me antes que vá explodir!

—Pensam que a polícia nunca descobrirá a verdade, e que nem sequer se esforçará especialmente em tentá-lo, já que, seja quem for o culpado, não há dúvida de que neste assunto está envolvido algum cavalheiro, de modo que embora averiguassem a verdade, o caso nunca chegaria aos tribunais. Eu queria acreditar que o que dizem carece de sentido, mas temo que falam com a amargura própria da experiência.

—Mas a que cavalheiro?

Emily mal podia conter-se e suas palavras surgiam exasperadas entre seus dentes apertados.

-Quanto a isso, há tantas teorias como criados para as propor - respondeu Charlotte-. De fato, houve intercâmbios de idéias do mais suculento.

Uma das criadas tem certeza que não pode se tratar do jovem Brandon Balantyne porque ele nunca tentou ultrapassar-se com ela, enquanto que o cozinheiro me assegurava que sem dúvida o teria feito se tivesse tido a oportunidade. Outra criada está convencida de que foi ele precisamente pela mesma razão. Tampouco tentou ultrapassar-se com ela, portanto tem que estar guardando um espantoso segredo...

—Claro que sim! Euphemia Carlton! -exclamou Emily sem entusiasmo-.

Por alguma razão resisto a acreditar que tenha sido ela, talvez porque gosto dela.

Temo que não nasci para detetive. Mas logo poderei visitá-la de novo sem que seja inapropriado, quer dizer, sem que pareça que sou muito impetuosa tratando de conhecê-la. -Suspirou de novo-. Mas Charlotte, realmente tem que fazê-lo melhor! Nem sequer o está tentando! Como é possível que uma guerra que remonta a 1814 pareça mais interessante que um assassinato cometido faz uns meses?

—Ocorreu em 1815 -corrigiu Charlotte de forma automática-, e ainda não sabemos que se trata de um assassinato.

—OH, não seja tão minuciosa! Que importância tem isso? Em qualquer caso se trata do escândalo mais incrível do ano! E isso é mais do que você pode dizer de suas horríveis guerras! Faça o favor de serenar-se e aplicar sua inteligência como é devido!

—Fá-lo-ei, prometo-lhe. Farei todo o possível para ver pessoalmente a Christina, e pelo menos tratarei de começar a descobrir por que não se casa com seu amante e quem é ele.

—Obrigada - respondeu Emily com ar de paciente generosidade próprio de quem acaba de deixar passar uma terrível ofensa-. Inclusive poderia ter ocasião de falar com outros criados da praça. Obviamente, se a tem deverá aproveitá-la!

Charlotte tinha na ponta da língua o dizer a sua irmã que fizesse o favor de não ser mandona, mas teve em conta a paixão que Emily sentia pelo caso e a possibilidade de que se estivesse aborrecida devido à monotonia de seu círculo social, de modo que em lugar de lhe fazer recriminações se limitou a assegurar que faria o possível e que não deixaria nenhuma oportunidade sem explorar.

Quando Pitt chegou uns instantes depois, Emily estava saindo pela porta, com um amplo sorriso de emoção antecipada resplandecendo em seu rosto.

—Parece um gato que conseguiu apanhar ao canário em sua jaula - observou Pitt assim que a porta se fechou.

—Sim, está muito bem - respondeu Charlotte evasivamente.

—Sem dúvida -concordou Pitt-. Um gato com uma saúde magnífica. Quem é o desafortunado canário desta vez?

—Está sendo injusto.

Charlotte era contra a admitir que Pitt soubesse nada de seus planos, já que até agora ele só sabia que estava prestando assistência ao general Balantyne em certo trabalho de escrituraria pelo qual ela sentia um grande interesse que seu pai nunca tinha tolerado. Pitt não tinha idéia de que ela estivesse, ou fosse estar, envolvida na resolução do caso do Callander Square; e ainda menos de que Emily tivesse passado por cima sua promessa de esquecer todo o assunto.

—Unicamente veio a me comentar uns poucos falatórios -terminou por dizer Charlotte, na esperança de que estas palavras fossem bastante satisfatórias ao Pitt, e sem incorrer por isso em uma mentira.

—Sobre quem? -perguntou Pitt.

—Como diz?

—Vamos, Charlotte!

Pitt apoiou a mão sobre o ombro de sua esposa e voltou seu rosto para ele. A calidez e a força do Pitt continuavam emocionando-a. Charlotte ergueu o olhar para ele, em parte porque o amava e desejava que ele soubesse, e em parte para distraí-lo da questão.

Uns instantes depois, entretanto, Pitt voltou à carga:

—Charlotte, o que está fazendo Emily no Callander Square? E, ainda mais importante: o que está fazendo você... além de ordenar os papéis ao general Balantyne?

Charlotte considerou a possibilidade de mentir, mas, tal como Emily lhe havia dito, não se dava muito bem. Em seu lugar optou por uma retirada estratégica.

—Ultimamente Emily não visitara ninguém no Callander Square. Fazê-lo muito freqüentemente resultaria evidente e iria contra seu propósito. Perguntou- me se averiguei algo sobre a Christina Balantyne. É claro, não averigüei nada. Está na cama com um resfriado e eu nem sequer cheguei a conhecê-la.

Emily me persuadiu de que pelo menos devia averiguar quem foi seu amante e por que motivo não se casa com ele em lugar de guardar cama.

—Charlotte? -disse Pitt, franzindo o sobrecenho e em uma expressão de diversão e apreensão ao mesmo tempo.

Charlotte respondeu com cara de absoluta inocência.

—Sim?

— O que te faz supor que Christina tem um amante ?

—OH! -exclamou Charlotte, consciente de que acabava de ficar em evidência. Pitt estava esperando sua resposta e não havia maneira de evadi-la sem mentir, coisa que ela não poderia fazer-. Emily o averiguou e me disse isso; que Christina teme que possa estar grávida. Obviamente, isso quer dizer que tem um amante.

Pitt a olhou atônito, e Charlotte não soube que pensamentos lhe rondavam.

Seus olhos aumentaram ainda mais e suas sobrancelhas se elevaram ostensivamente. Pitt tinha os olhos mais claros e penetrantes que ela jamais tinha visto; sentiu-se como se o mais profundo da mente de seu marido surgisse deles para introduzir-se na sua. Mas então o humor do Pitt mudou subitamente.

-Que atitude tão temerária por parte do Emily! -Apesar de tudo, havia certo tom de admiração em sua voz, e Charlotte pareceu perceber inclusive certo regozijo. Isso explicaria por que Lady Augusta não me permite que a veja - prosseguiu Pitt-. Mas essa é uma questão muito interessante.

Por que não se casa simplesmente com ele, embora seja de forma um pouco precipitada? –O interesse se desvaneceu de sua expressão-. Charlotte, tem que dizer ao general Balantyne que já não pode assisti-lo mais.

Charlotte se sentiu horrorizada.

—OH, não! Não posso fazer isso! Nem sequer fiz a metade de...

—Charlotte. Se os Balantyne tiverem algo que ocultar...

—Não há perigo! -respondeu Charlotte rapidamente-. Em nenhum momento fiz nenhuma pergunta! Limito-me a escutar o que dizem os criados durante as refeições. Eu não sou como Emily, saberei ser muito discreta...

Pitt riu de boa vontade.

—Querida, não se parece com a Emily absolutamente. Comparada com você, ela é o vivo exemplo da discrição. Pode buscar alguma desculpa, dizer que não se encontra bem, ou que sua mãe está...

—Não! O que podem me fazer? Eu não tenho nenhuma posição social que perder. De fato, eles nem sequer pensam em mim como pessoa! Não suspeitarão nada!

Limitar-me-ei a escutar, prometo-lhe isso. -Outra idéia surgiu de repente na mente de Charlotte, que jogou seu trunfo imediatamente-. Se partisse agora, talvez se perguntassem por que o faço e se tomariam o trabalho de averiguar quem sou! -Charlotte conhecia seu marido o suficiente para não lhe recordar os possíveis perigos que isso poderia fazer para sua própria carreira; seria a última maneira que tentaria para detê-lo. - O melhor é continuar com toda normalidade, e então não pensarão nada estranho.

Charlotte sorriu com doçura, segura de si mesma.

Pitt vacilou, sopesando as possibilidades.

—Promete-me que não fará perguntas? -disse finalmente.

Charlotte se disse se estaria em situação de cumprir essa promessa. Ainda assim, deu o passo.

—Sim. Limitar-me-ei a escutar. Dou-lhe minha palavra.

Charlotte se levantou para lhe dar um beijo, mas Pitt continuou olhando-a com receio, tratando de assegurar-se de que sua esposa cumpriria com o prometido.

Foi uma promessa muito difícil de cumprir para Charlotte, já que no dia seguinte se ofereceu numerosas oportunidades para perguntar coisas, discretamente e sem aparentar mais que um cortês interesse.

Mas, obviamente, também tinha que cumprir a promessa feita a Emily. A oportunidade de fazer algo para cumprir com a segunda se deu durante o almoço, quando a criada de Lady Augusta estava ocupada com multidão de tarefas e Charlotte se ofereceu para levar a Christina sua bandeja com o fim de aliviar a pobre mulher ao menos de uma de suas ocupações.

—OH, você não tem por que fazer isso, senhorita. -Mas o rosto da moça se iluminou.

—Tolices. -Charlotte lhe arrebatou a bandeja sem mais preâmbulos-. Não me supõe nenhum problema. Além disso, meu almoço está muito quente para comê-lo agora.

—OH, muito obrigado, senhorita. Não permita que a senhora a veja!

—Não se preocupe - disse amavelmente a Charlotte o engraxate-, ela também está almoçando. Não deixará a mesa até que o general tenha comido quente seu pudim. Tem indigestão se o comer frio, e então fica de um humor de cães.

Charlotte lhe agradeceu e subiu correndo as escadas antes que alguém pudesse dissuadi-la. Teve que perguntar a uma aprendiz que achou no patamar onde se achava o dormitório da Christina.

Charlotte bateu na porta e um instante depois se achava dentro. Não se diferenciava muito do que tinha sido seu próprio dormitório no Cater Street; só era um pouco maior, e talvez com móveis um pouco mais caros. Por um instante Charlotte rememorou sua infância. Era uma lembrança doce, mas se alegrava de que não fosse mais que uma lembrança. Agora sentia uma felicidade bastante diferente do que então tinha sonhado, mas também mais profunda, de umas dimensões que então não tinha imaginado. Contemplou a Christina, sentada na cama, com seus negros cachos caindo em cascata sobre seus ombros e o pequeno e formoso rosto refletindo surpresa. Com que classe de felicidade sonhava essa moça, e com quem? Os sonhos de uma moça podiam ser muito inocentes... e muito ignorantes.

—Quem é? -inquiriu Christina com altivez.

—Charlotte Ellison. -Conseguiu recordar com muita dificuldade que devia apresentar-se com seu sobrenome de solteira-. Estou ajudando ao general Balantyne com certo trabalho de escrita e sua camareira tentava fazer três coisas ao mesmo tempo, de modo que me ofereci para lhe trazer o almoço. Espero que se encontre melhor.

Charlotte a olhou enquanto falava, esforçando-se em que o cuidadoso repasse visual ao que a estava submetendo fosse interpretado como mera cortesia.

A julgar pelas aparências externas, Christina tinha um aspecto inexorável. Sua pele mostrava um tom saudável, os olhos luziam brilhantes e não tinha as faces inchadas ou o nariz, como costuma acontecer quando alguém está com gripe ou sofre um resfriado.

—Sim, obrigada - replicou Christina com frieza, instantes antes de recordar sua situação-. Hoje me sinto melhor, mas desgraçadamente o mal-estar vem e vai.

—Lamento-o -disse Charlotte enquanto depositava a bandeja na mesinha de noite-. Provavelmente se deva ao mau tempo.

—Possivelmente. foi muito amável ao me trazer a bandeja. Já não necessito nada mais, obrigada. Pode partir.

Ao Charlotte lhe endureceram as feições; que alguém lhe desse ordens sempre tinha sido algo que a deixava fora dos eixos. Teve que fazer um esforço para controlar-se.

—Obrigada - disse-. Espero que se recupere logo. É horrível guardar cama, alguém se perde um montão de coisas. É incrível o rapidamente que alguém é deixado de lado em sociedade!

E com a satisfação de sua maliciosa observação de despedida, Charlotte abandonou o quarto, fechando a porta com suavidade.

Enquanto descia as escadas, seu temperamento se esfriou ao dar-se conta de que Emily nunca teria atuado assim: ela se teria mostrado encantadora, teria dissimulado, sabido conter-se e ganho uma amiga. Em troca, nesse momento Charlotte certamente já tinha uma inimizade mais. Mas por outro lado estava convencida de que Christina nunca teria chegado a gostar dela, de modo que não tinha feito a não ser reduzir a um só encontro um distanciamento que de outro modo teria terminado por produzir-se ao cabo do tempo.

No meio da tarde a situação mudou completamente. Pediu a título de favor se podia ir fazer um recado à porta do lado, à mansão dos Southeron, dado que a criada se sentia um pouco indisposta. Charlotte aceitou com prontidão: outra excelente oportunidade. E ao chegar à cozinha dos Southeron, conheceu a Jemima Waggoner, a preceptora. Charlotte gostou dela imediatamente, percebendo nela uma franqueza similar à sua e inclusive talvez certos sentimentos que o decoro e sua situação de dependência lhe proibiam expressar.

Charlotte imaginou tais coisas nos grandes olhos cinzas da Jemima e acreditou ver um toque de humor em sua boca.

—Quer tomar uma xícara de chá, senhorita Ellison? -ofereceu-lhe Jemima-. Já quase é a hora e estávamos preparando o nosso. Nós adoraríamos que nos acompanhasse.

-OH, obrigado. Parece-me uma idéia esplêndida - disse Charlotte, aceitando sem hesitações. O general ia ter que esperar. Sem dúvida ele também faria uma parada para tomar o chá. Em caso de que também lhe oferecesse uma xícara quando retornasse, teria que aceitá-la, embora não pudesse mais. Mas era pouco provável. Ele poucas vezes pensava nessa classe de coisas. Era uma pessoa de mente simples e muito embebida no pó das batalhas para pensar em xícaras de chá.

Uns instantes depois se achava a sós com Jemima em seu quarto, com a fumegante taça lhe esquentando as mãos, e comendo um sanduiche.

—Seriamente está ajudando ao general Balantyne com suas histórias de guerra? -perguntou Jemima-. Nunca consigo discernir se os falatórios são certos ou não.

—Ninguém o consegue -concordou Charlotte-. A não ser que os tenha iniciado a gente mesmo. Embora inclusive nesse caso dificilmente poderá reconhecê-los passada uma semana! Mas este em concreto é totalmente verdade.

—E lhe diverte? -perguntou Jemima como se esperasse uma resposta afirmativa.

—OH, sim, diverte-me. É muito interessante, especialmente a leitura das cartas antigas. As cartas dos soldados são tão diferentes... É difícil de imaginar! Em troca, as cartas das esposas e noivas... Como pouco mudamos! Sempre os mesmos assuntos: amores, enfermidades, crianças, um pouco de escândalo...

Charlotte estava exagerando um pouco, mas desejava voltar para o tema do Callander Square e intuiu que Jemima não era alguém com quem se pudesse mexericar facilmente.

—Imagino que os escândalos nunca mudam - respondeu Jemima com ar reflexivo, baixando o olhar para o chá que ainda se mexia na taça em que acabava de servi-lo-. Sempre são especulações sobre as loucuras de outros ou sobre pequenas ofensas.

Charlotte se dispôs a aproveitar a oportunidade e acrescentar algo em concreto sobre o Callander Square, mas se deu conta de que em realidade não desejava fazê-lo. Jemima tinha expressado uns pensamentos que também ela compartilhava; com efeito, os falatórios eram a perpetuação, exagero e regozijo dos pecados e desgraças de todos outros.

De modo que não disse nada, podendo ver um brilho de afabilidade nos olhos da outra jovem, e sentiu uma cálida simpatia por ela. surpreendeu-se a si mesma lhe devolvendo o sorriso.

—A quantas crianças instrui você? -perguntou finalmente.

—A maior parte do tempo só às três meninas desta casa, mas Vitória e Mary Campbell-vêm aqui três vezes por semana. Conhece você aos Campbell? Vivem no outro extremo da praça. -Jemima fez uma pequena careta irônica-. Não aprecio muito ao senhor Campbell. Às vezes é muito engenhoso, mas sempre parece haver uma espécie de desesperança em suas piadas, como se só pretendesse divertir-se um pouco embora soubesse que, no fundo, tudo carece de sentido. -Acho deprimente e me parece um pouco aterrador -acrescentou, olhando ao Charlotte para ver se a compreendia.

—Também me aterra o cinismo -concordou Charlotte-. É possível lutar contra muitas coisas, mas não se pode convencer a ninguém de que tenha esperança. E que tal é a senhora Campbell? Também é como seu marido?

—OH, não. Ela é muito diferente: tranqüila e competente. Até hoje é a melhor mãe para quem trabalhei. Não mima as crianças, mas tampouco é indiferente a eles nem muito severa. Acho que é uma mulher muito forte.

Jemima expressou esta última opinião com certo ar pensativo.

As duas mulheres conversaram uns minutos mais sobre outros residentes da praça e um pouco sobre os Balantyne e o trabalho de Charlotte.

Esta averiguou que Jemima tinha visto o jovem Brandon Balantyne em duas ou três ocasiões e, a julgar pelo leve rubor que coloriu seu semblante, deduziu que o achava atraente, embora é claro não ia dizer.

Não era próprio de uma preceptora expressar opiniões sobre os filhos de generais e os netos de duques.

Já tinham terminado a xícara de chá quando a porta se abriu bruscamente, dando passagem à criada mais formosa que jamais Charlotte tinha visto, com o rosto resplandecente de ira e o uniforme desarrumado.

—Um dia vou lhe dar uma bofetada bem dada, juro - isso! –exclamou furiosa-. Algum dia perderei o controle, como me chamo...! -Então a jovem reparou que Charlotte não era da criadagem. - OH, sinto muito, senhorita. Não a tinha visto. Rogo-lhe me desculpe.

—Não se preocupe - disse Charlotte tirando importância. Esqueceu a promessa feita ao Pitt e perguntou-: Alguém tomou alguma liberdade com você?

—Liberdade!? Sim, suponho que se pode chamar assim.

—Mary Ann -disse Jemima, rompendo o leve desconforto do momento-, apresento-lhe à senhorita Ellison, que está ajudando ao general Balantyne, da casa do lado, na redação de uns escritos.

Mary Ann inclinou a cabeça cortesmente, já que, como empregada, Charlotte não merecia nenhuma reverência.

—Imagino que vocês já teriam tomado o chá - respondeu a garçonete, dando uma olhada ao bule-. Espero que fique um pouco na cozinha – acrescentou, enquanto tratava de colocar novamente a saia em seu lugar.

—Talvez seja boa idéia que essa garota lhe dê uma "bofetada bem dada", depois de tudo -disse Charlotte assim que a porta esteve fechada de novo-.

Não convém que ninguém se adote o direito de fazer certas coisas.

—Dar uma bofetada? -disse Jemima rindo com certa melancolia-. O senhor Southeron tem bom aspecto, mas não acredito que perdoasse uma bofetada a nenhuma criada.

-O senhor Southeron! -Charlotte camuflou com êxito sua surpresa. Agora sim tinha interessantes notícias para contar à Emily, e nem sequer tinha necessitado fazer perguntas. Pelo menos só uma, e tinha sido simples.

Jemima lamentou ter falado com tanta ligeireza.

—Não deveria haver dito isso - se reprovou um pouco envergonhada-. É só uma conjetura surgida do que pude ouvir por aí e não tenho dados suficientes para chegar a essa conclusão. Talvez Mary Ann exagere um pouco.

—Não há dúvida de que está furiosa por algo - disse Charlotte com cautela-. Mas talvez não devamos especular muito sobre a causa. Confio que a você nunca...? -sugeriu Charlotte cuidadosamente.

Para sua surpresa, Jemima riu tratando de conter-se.

—Bem, uma ou duas vezes me pareceu que estava a ponto, mas pude me escapulir a tempo. Acredito que ficou um pouco vexado. Mas se uma só vez tolera certa familiaridade já não pode voltar atrás. Se o faz abandona sua posição, para dizê-lo de algum modo.

Jemima arqueou as sobrancelhas para perguntar à Charlotte se tinha compreendido o que queria dizer.

—OH, claro -concordou Charlotte. E embora só achava ter compreendido, sentiu uma viva simpatia por essa moça obrigada a trabalhar e viver nas casas de outros e que não podia correr o risco de ofendê-los.

Charlotte ficou um momento mais antes de despedir-se e retornar junto ao general Balantyne, a quem lhe surpreendeu ver passeando nervoso pela biblioteca, esperando-a. Em um primeiro momento lhe pareceu que ia repreendê-la por sua ausência, mas seu aparente aborrecimento se desvaneceu e pareceu contente de poder reatar o trabalho sem mais distrações que uma leve queixa.

Pitt retornou tarde a casa essa noite e Charlotte não teve ocasião de lhe contar o que tinha averiguado, e na manhã seguinte saiu muito cedo. Charlotte chegou ao Callander Square preparada para suas obrigações. Uma vez mais se apresentou uma oportunidade de fazer um recado em outro lugar da praça, e a aproveitou muito.

Justo às duas menos quarto Charlotte se achava em pé na sobrecarregada saleta dos Douram com um buquê de flores seca de inverno na mão, contemplando à senhorita Georgiana.

Georgiana estava literalmente inundada em uma gaze de cor cinza e rodeada de flores artificiais. Estava estendida no divã com um braço apoiado no espaldar, tão magra e pálida que, se não fosse por seus resplandecentes olhos, teria parecido para Charlotte um cadáver vestido com um sudário e artisticamente decorado com flores. uma espécie de Lady Shallot vinte anos depois! A idéia lhe deu vontade de rir e teve que fazer um esforço para manter a compostura. Ainda assim, pôde sentir como a gargalhada se agitava em seu interior; seu sentido do ridículo nunca tinha sido muito de confiar.

Georgiana à esquadrinhou uns instantes.

-Quem me disse que é você?

-Charlotte Ellison, senhora Duff. Lady Augusta me rogou que lhe entregasse isto. diz-se que estas flores são excelentes para a casa, com um perfume muito delicado -disse Charlotte, aproximando-as da diminuta mão similar a uma garra de Georgiana, quem pegou o ramo fazendo tilintar suas múltiplas jóias.

—Tolices - disse levando-as flores ao nariz-. Cheiram a pó. De qualquer modo, foi muito amável por parte de Augusta. Sem dúvida pensou que gostaria Laetitia, e provavelmente tenha razão.

Charlotte não pôde evitar dar uma olhada às rosas de veludo e felpa que decoravam o sofá, as almofadas e à própria Georgiana.

Os pequenos olhos penetrantes como diamantes desta captaram imediatamente essa olhada.

—Minha casa é diferente -se limitou a replicar-. Eu gosto da beleza. Sou uma mulher muito sensível. Sofro muito, sabe você? E ter flores junto a si ajuda a suportar.

—Tenho certeza disso.

Ao Charlotte não lhe ocorria nada sensato que replicar a semelhante observação. Permaneceu de pé no centro da sala, não muito certa se devia ficar ou despedir-se.

Georgiana a contemplava com curiosidade.

—Você não parece uma criada. Quem me disse que é?

—Estou ajudando ao general Balantyne na redação de suas memórias de guerra.

—Que desagradável! O que pretende uma moça como você dedicada a umas memórias de guerra? Dinheiro, imagino.

-Eu as acho muito interessantes -disse Charlotte, que não achava necessário dissimular ou tergiversar seus sentimentos-. Acredito que convém a todos conhecer a história de nosso país, assim como à vida e os sacrifícios de quem a fez possível.

Os olhos de Georgiana diminuíram ainda mais.

-Que criatura tão singular é você! Por favor, mais vale que se vá de uma vez ou que tome assento. É você alta, e elevar a cabeça para olhá-la faz que me doa a nuca. Sou muito delicada.

Charlotte sentiu vontade de ficar, mas era consciente de que o general a estaria esperando e pensava que devia cumprir com sua obrigação, tanto por uma questão de honra como porque do contrário poderia perder suas oportunidades ao abusar muito de sua paciência.

—Agradeço, senhora Duff - respondeu recatadamente-, mas devo retornar. Foi um prazer conhecê-la.

—Volte algum dia. É muito interessante. -Georgiana se reclinou um pouco mais no espaldar para vê-la melhor-. Não sei o que acontece com o mundo.

Agradeça a Augusta de minha parte. E não lhe diga que eu não gosto das flores nem que cheiram como casas desabitadas.

—Claro que não - disse Charlotte, deixando-a com o olhar ainda fixo na porta.

Quando chegou de novo à biblioteca, Balantyne a estava esperando.

-Georgiana a reteve para conversar com você? -perguntou-lhe com um sorriso, o primeiro que Charlotte recordava ter visto em seu rosto-. Pobre criatura. Não deve ser fácil viver ali com a Laetitia. Às vezes penso que a partida da Helena afetou um pouco a sua saúde mental.

—Helena?

Charlotte não conseguia localizar esse nome, embora recordava que Emily o tinha mencionado alguma vez.

—A filha da Laetitia - explicou Balantyne-. Essa desventurada moça fugiu com alguém fará uns dois anos. Nunca se soube quem era ele. A pobre Laetitia ficou muito transtornada. Depois disso nunca menciona o nome da Helena.

Afirma não ter filhos. Seu marido morreu faz anos e não tem a ninguém mais, de modo que Georgiana foi viver com ela.

—Que história tão triste! -Charlotte imaginou a perda e sua fantasia tratou de visualizar a solidão, o amor da Helena (ou sua tentação) e todo o remorso que devia sentir depois. Perguntou-se se o matrimônio da moça seria feliz-. Alguma vez se comunicou por carta com sua mãe depois?

—Não, que eu saiba. Claro que Laetitia também admira Ross, que passou igualmente mal.

—Quem é Ross?

—Alan Ross. Estava apaixonado pela Helena. Todos acreditávamos que era uma simples questão de tempo que contraíssem matrimônio. Isso demonstra as tolices que chegam a dizer-se! -Balantyne se sentou de novo atrás da escrivaninha e ao Charlotte pareceu que lhe dirigia um olhar levemente perturbador-. Nunca conseguiu superá-lo -acrescentou.

Ao Charlotte não ocorreu nada que dizer que não fosse terrivelmente corriqueiro.

—Sabemos tão poucas vezes o que sentem outros... -observou pegando de novo os papéis-. Aqui estão os diários de seu tio. Deseja que lhe numere as páginas que façam referência específica a assuntos de temática militar?

—Como diz?

Charlotte repetiu a pergunta, levantando um pouco os cadernos manuscritos para que pudesse vê-los.

—OH, sim, por favor... É você de grande ajuda... -acrescentou, vacilando uns instantes-, senhorita Ellison.

Charlotte lhe dedicou um sorriso fugaz e afastou o olhar.

—Me alegro. Asseguro-lhe que acho este trabalho altamente interessante -disse Charlotte, abrindo o caderno que segurava na mão e inclinando a cabeça para ler.

Assim que deram às cinco da tarde, fechou-o e deu boa noite ao general, lhe rogando ao Max que pedisse um cabriolé. Deu ao cocheiro o endereço de Emily e a carruagem se internou ruidosamente na escuridão. Charlotte sentia que as novidades lhe queimavam os lábios.

 

Quando só faltavam duas semanas para o Natal, Augusta decidiu resolver de uma vez o assunto da Christina e Max. Não podia passar toda a temporada de festas na cama; mas antes que se levantasse, Max deveria ter ido da casa. Augusta tinha recorrido a suas relações do Stirlingshire e lhe tinha conseguido um emprego.

Já não restava a não ser conseguir que o criado aceitasse o inevitável e encaixasse sua partida o melhor possível. Augusta inclusive tinha iniciado discretas averiguações relativas a sua futura substituição. Não ia ser fácil achar a um homem tão competente e de aparência tão agradável que além disso constituísse um companheiro satisfatório para Percy, o outro criado. Os lacaios se contratavam de dois em dois e sempre tinham que fazer bom par; mas esse era um assunto de menor importância.

Para informá-lo da iminência de sua partida, fez chamar Max ao salão matutino, onde o estava esperando. Ainda não havia dito nada ao general, mas já haveria tempo para fazê-lo quando o pesadelo tivesse acabado. E como ele já levava meses insistindo que se desfizesse do Max, não havia dúvida de que se sentiria satisfeito.

Max entrou e fechou a porta silenciosamente atrás de si.

Sim, senhora?

—Bom dia, Max.

—Bom dia, senhora.

—Já finalizei minhas gestões para lhe conseguir um novo emprego no Stirlingshire. Entrará no serviço de lorde e Lady Forteslain. Ela é minha prima.

Acredito que achará adequada sua nova situação, embora talvez ali não tenha oportunidade de demonstrar suas habilidades como tem feito em Londres. Em qualquer caso, essa é uma desgraça a qual terá que enfrentar.

—Estive refletindo sobre este assunto, senhora.

A boca do Max mostrava um sorriso pequeno e complacente. Augusta se perguntou como era possível que Christina o tivesse achado atraente, como podia ter desejado que essa boca a beijasse, que essas mãos a tocassem... A mera idéia lhe era repulsiva.

—E então? -inquiriu friamente.

—Não acho que deseje ir ao Stirlingshire, nem a nenhum outro lugar de Escócia, senhora.

Augusta arqueou levemente as sobrancelhas.

—Lamento ouvir isso, Max, mas não me interessa o que deseje ou não deseje fazer. Terá que aprender a enfrentar a sua nova situação.

—Acredito que não, senhora. Prefiro ficar em Londres. De fato, Callander Square me parece um lugar ideal.

—Não me cabe dúvida, mas isso não será possível. Achei que já tinha ficado bem claro este ponto.

—Me expôs sua postura, senhora. Mas, como já lhe disse, estive refletindo sobre o assunto e me ocorreu uma alternativa mais preferível.

—Mas essa alternativa não será aceitável para mim!

Augusta tentou intimidá-lo olhando-o fixamente nos olhos, mas a insolência do Max era inexpugnável.

—Lamento ser descortês, senhora, mas isso não é meu assunto. Tal como me indicou com tanta clareza na última vez que falou comigo, há certas coisas que alguém está obrigado a aceitar, tanto se gosta como se não.

—Não há nada que eu esteja obrigada a aceitar de você, Max. Já lhe disse o que teria que fazer se não estiver disposto a ir-se a Escócia e, além disso, a ir-se de boa vontade. E não há mais que falar.

—Se me acusar falsamente, senhora, arrepender-se-á - disse com olhar imperturbável.

A rigidez de Augusta aumentou instantaneamente.

—Está-me ameaçando, Max?

—Se deseja vê-lo assim, senhora, pois sim, estou-a ameaçando.

—Pois é uma ameaça inútil. Não há nada que possa fazer. Me acreditarão e a você não.

Max a contemplou impávido.

—Isso depende do que valorize mais, Lady Augusta. Efetivamente, se afirmo me haver deitado com sua filha, os tribunais sem dúvida acreditarão em você e não em mim, sempre e quando você afirme que faço essa acusação só por vingança.

Sabe que isso seria mentira - acrescentou, sorrindo levemente, com um matiz de sarcasmo e superioridade-. Mas, mesmo assim, não me cabe dúvida de que não teria inconveniente em afirmá-lo sob juramento.

Augusta se ruborizou por causa do desprezo de seu próprio criado, porque ela não era melhor que ele e lhe tinha permitido que o demonstrasse.

—Pois bem - prosseguiu-, eu não reivindicaria em nenhum momento me haver deitado com ela. Tenho um amigo que não é nenhum criado. Temo que é uma espécie de libertino... um jogador que conheceu tempos melhores, mas ainda é atraente a sua maneira, e ao que não lhe faltam amizades do sexo feminino.

A maioria delas são mulheres de mal viver, é claro, mas o acham de aparência agradável. Desgraçadamente - disse, alongando seu sorriso-, meu amigo padece uma enfermidade.

Max arqueou as sobrancelhas para ver se Augusta tinha captado o sentido de suas palavras.

Augusta estremeceu com repulsa.

—Eu diria -continuou Max- que foi ele quem seduziu à senhorita Christina; ou, para ser mais exatos, seria ele mesmo quem o diria. Então ninguém veria conexão alguma com minha desgraça e seria muito difícil para você provar o contrário, e nem sequer acredito que valesse a pena. O dano já pareceria.

Os clubes de cavalheiros e demais entidades fariam correr a voz; tudo com muita discrição, é claro. Ninguém diria nada abertamente, de modo que você tampouco poderia negá-lo... Se me acusar falsamente, juro-lhe que tudo isso acontecerá.

Augusta estava verdadeiramente assustada. Havia um grande poder nesse homem, e uma absoluta convicção em sua própria vitória. Tratou de achar algo que dizer, pois apesar de tudo não pensava render-se.

—E por que alguém ia acreditar que esse seu desagradável amigo viu alguma vez a minha filha -respondeu lentamente-, ou que ela quis sequer falar com ele, para não falar de lhe permitir que a toque?

—Porque ele saberá descrever esta casa com todo detalhe. Seu dormitório, inclusive as decorações de sua cama...

—Que você também conhece! -respondeu rapidamente-. Não lhe teria seria difícil obter toda essa informação de alguma criada. Isso não quer dizer nada.

Augusta recuperou por um momento a esperança.

Os olhos do Max eram penetrantes e incisivos.

-Ela tem um lunar sob seu peito esquerdo - disse Max, pronunciando claramente cada uma das palavras-; e uma cicatriz na nádega; na esquerda também, se não recorda mal. Você dirá que também eu sei isso, mas duvido que as criadas saibam. Entende-o, senhora?

Augusta necessitou o maior esforço de vontade para não jogar-se sobre ele, fora de si, liberando-se de toda sua raiva e frustração e ficando a gritar: —" Saia daqui, asqueroso! Afaste-se de minha vista rato mesquinho!"

Finalmente respirou profundamente e agradeceu toda uma vida de férrea disciplina.

—Sim, entendo-o -disse com calma e voz admiravelmente firme-. Pode ir-se.

Max se virou , mas vacilou uns instantes antes de partir.

—Informará você a seus parentes do Stirlingshire de que não vou, senhora?

—Sim. Agora vá-se.

Max inclinou a cabeça levemente, ainda sorridente.

—Obrigado, senhora.

Assim que a porta se fechou, Augusta se derrubou. Durante quase cinco minutos permaneceu sentada e permitiu que as ondas de desgosto e ira a sacudissem a seu desejo. Ser vencida por um criado, um criado de maneiras favela!

Nunca esqueceria esse ávido olhar fixo nela. E pensar que Christina se deitara voluntariamente com esse... rato! E que por cima agora estivesse grávida dele. Era intolerável. Mas tinha que sobrepor-se. Terei que fazer algo. De momento ainda não era capaz de pensar no modo de desfazer-se do Max, mas pelo menos devia assegurar-se de que nunca mais voltaria a tocar a Christina.

A partir deste momento, o comportamento da Christina tinha que ser impecável.

Max não ia empregar o ás que guardava na manga a não ser que alguém forçasse a isso ou que não tivesse nada que perder. Por outra parte, só dispunha de uma jogada: se arruinava a Christina se arruinaria a si mesmo, de modo que não ia pressionar Christina se o tratasse com o desinteresse mais absoluto a partir desse momento. E os dois podiam ter certeza de que Augusta faria o impossível para que assim fosse! Levantou-se e tentou tranqüilizar-se.

E não tinha sentido que Christina continuasse guardando cama. Estava perfeitamente recuperada. Podia levantar-se e reatar sua vida normal: de fato era melhor que o fizesse antes de que corressem muitas especulações sobre a condição que a mantinha se separada da vida em sociedade. Se desgraçadamente se demonstrava que estava grávida, Augusta procuraria que se casasse o antes possível e esperaria que o nascimento pudesse passar por prematuro.

Felizmente, Christina tinha o cabelo tão escuro como Max, de modo que se o menino saísse tão castanho como ela não ia suscitar comentários. Por outra parte, não seria má idéia que Christina se casasse de qualquer modo a menor oportunidade. Era evidente que padecia de uma debilidade que requeria uma solução, e só havia uma verdadeiramente satisfatória.

Sua mente começou a considerar distintas possibilidades enquanto cruzava o vestíbulo e subia as escadas. Teria que tratar-se de alguém a quem pudesse persuadir de casar-se a muito curto prazo e sem provocar muita surpresa em sociedade. portanto tinha que ser algum conhecido, de modo que pudesse dar-se é claro certo tempo de noivado. Mas era muito difícil que alguém de um encanto tão arrebatador para fazer acreditável um amor a primeira vista se casasse com uma mulher que não correspondesse plenamente a seus desejos.

E esperar que um homem assim se cruzasse no caminho da Christina nas seguintes semanas e se apaixonasse por ela instantaneamente era pedir muito ao destino.

Augusta repassou mentalmente a todos os jovens de boa posição que conhecia e obteve uma lista decepcionantemente curta. Além disso, a maioria não devia nada aos Balantyne, nem ambicionava nada que eles pudessem ter e pelo que valesse a pena contrair um matrimônio de conveniência.

A maioria dos homens se casavam por escolha de suas futuras esposas ou sogras, mas preferiam pensar que a decisão tinha sido sua. Neste caso semelhante façanha resultaria difícil de obter. Felizmente, Christina era bastante simpática, bonita, corajosa e de magnífico gosto no vestir. E tinha um senso de humor e a diversão que era especialmente atraente a muitos homens.

No momento em que Augusta chegou ao dormitório da Christina, sua lista já tinha ficado reduzida a três nomes, dos quais o mais apropriado parecia Alan Ross. Claro que era sabido que nunca se recuperara de todo de sua decepção com a Helena Douram, mas isso também queria dizer que não mantinha relações sentimentais e que, portanto, poderia estar disposto a aceitar o acordo.

Se o pressionavam podia ser uma pessoa intratável, pois era um homem de vontade firme, mas se alguém se aproximava dele com encanto, quer dizer, se Christina se esforçasse em atraí-lo, agradá-lo e cortejá-lo, mais uma leve pressão adicional por parte do general, podia chegar a converter-se em um homem bastante dócil.

Sem dúvida valia a pena tentá-lo. Haverá outros homens que podiam ser comprados mediante uma ascensão em sua carreira militar, gestão que sem dúvida poderia realizar-se; mas era mais improvável que chegassem a proporcionar a Christina a mínima felicidade.

Augusta bateu na porta e entrou. Surpreendeu-se ao achar Christina levantada e em pleno processo de vestir-se. Abriu a boca para manifestar seu aborrecimento por ter desobedecido suas instruções, mas logo a fechou ao dar-se conta de que sua filha não fazia senão pôr em prática os planos que igualmente ia propor lhe.

—Me alegro de ver que te encontra melhor -disse.

Christina se voltou com a surpresa refletida no rosto.

Realmente era uma criatura muito formosa, com seu escuro cabelo, sua branca pele, seus grandes olhos azuis, o nariz chato e o queixo arredondado. E quando o propunha suas maneiras podiam ser deliciosas. Sim, provavelmente não se tratasse de uma empresa impossível.

—Olá, mamãe!

—Vejo que decidiu se levantar. Me alegro, acredito que já é hora de que o faça.

A surpresa da Christina ante a reação de sua mãe se manifestou em seu rosto por um instante antes de que conseguisse dissimulá-la.

-Sim. Essa senhorita, como-se-chama a que empregou papai? Me fez compreender o muito que estou perdendo. E a gente começará a murmurar se não aparecer logo. Não é bom dar motivos se não for estritamente necessário. Por outra lado, poderia ser que nem sequer esteja grávida. Agora me sinto perfeitamente bem. Faz dias que não me encontro mau nem sinto náuseas.

Havia um leve matiz de desafio em sua voz.

—Não há nenhum motivo pelo qual devesse achar-se mal – concordou Augusta-. Estar grávida é um processo perfeitamente natural, não uma enfermidade. As mulheres estiveram grávidas desde Eva.

—Mas possivelmente eu não o esteja - respondeu Christina.

—Possivelmente não e possivelmente sim. É muito cedo para ter certeza.

—Se estou - disse Christina erguendo a cabeça deliberadamente-, iria ver Freddie Bolsover.

—Não o fará. O doutor Meredith estará perfeitamente capacitado para atendê-la quando chegar o momento.

—Não pretendo ter o filho do Max, mamãe. Refleti sobre o assunto enquanto guardei cama. Irei ver o Freddie. Ouvi que ele arruma este tipo de coisas...

Pela primeira vez desde sua própria adolescência, Augusta se sentiu verdadeiramente assombrada, tanto pela atitude de sua filha como por saber que Freddie Bolsover fazia abortos ou sabia quem os fazia.

—Não fará nada disso -respondeu quase com doçura-. Esse é um pecado imperdoável. Pode esquecer a partir de agora mesmo. Eu também sinto nenhum desejo de ter um neto que leve o sangue desse repugnante criado; mas você se colocou nesta confusão e agora temos que aceitá-lo...

—Mamãe, não quero! Acredito que não o compreende! Eu não amo ao Max, nunca o amei...

—E eu nunca supus o contrário - respondeu Augusta friamente.

Também estou convencida de que ele tampouco ama a você. Mas isso não tem importância. O que importa é que você não vai cometer um assassinato contra um filho que ainda não nasceu. Vai casar-te com alguém que cuide de você de uma maneira adequada e lhe dê um nome a seu filho...

—Não, não o farei! -O rosto da Christina resplandecia de furor. – Se pensar que vou suplicar a algum covarde que se case comigo só para dar um nome a meu filho equivoca-se por completo, mamãe! Seria intolerável! Far-me-ia pagar por isso durante o resto de minha vida! Chamar-me-iam... puta... e dificilmente quereria ao menino ou lhe daria um lar com algo que...

— Controle-se, Christina. Não tenho intenção de que faça nada disso. Casará- se com um homem apropriado e que não terá idéia de seu estado. Dirá que o menino, se é que o tem, é prematuro. Mas sob nenhuma circunstância irá ver o Freddie Bolsover nem a nenhum outro. O rosto da Christina expressava rebeldia e incredulidade.

—E em quem está pensando, mamãe? Por que ia alguém a casar-se comigo com a rapidez suficiente para nos ser útil? E se não acreditar nos bebês prematuros?

—Há várias possibilidades. De momento Alan Ross me parece a melhor opção. E se casará com ele imediatamente depois do Natal...

—Ele tampouco me ama!

—Você procurará que o faça. Quando quer sabe ser muito encantadora. Para seu próprio bem, querida, mais vale que procure gostar de Alan.

—E se não estiver grávida?

O queixo da Christina se ergueu em atitude desafiante.

—Quando tiver certeza de não estar já será muito tarde. Seja como for, o melhor é que esteja casada. -Augusta inalou antes de dizer lentamente :—Christina, talvez não se dê conta de sua situação. Se der à luz a um menino sem ter um pai para ele, não haverá lugar para você na alta sociedade.

E não pense que poderá superar isso. Outras o tentaram, com melhor berço e maior fortuna que a tua, e todas fracassaram. Nenhum homem de seu nível quererá casar-se com você.

Converterá-se no brancalvo de todas as brincadeiras. As mulheres decentes não falarão com você e todos os lugares aonde agora vai se fecharão para você. Eu não gosto de dizer isto, mas é preciso que o entenda.

Christina a olhava fixamente.

—Assim, querida - prosseguiu Augusta-, empregará todo seu encanto para deslumbrar Alan Ross até o ponto de que se sinta feliz de casar-se com você, e você dará em todo tempo a impressão de estar loucamente apaixonada por ele.

É um bom homem e a tratará bem se o permitir.

—E se não quiser casar-se comigo?

Nesse momento se produziu o primeiro tremor de pânico na voz da Christina e Augusta sentiu um arrebatamento de compaixão por ela, mas não era momento de mostrar-se indulgente.

—Acredito que quererá; mas se não for assim acharei a outro. Há outras possibilidades. Tem um pai influente...

—Não suportaria que ele soubesse! Nem sequer que o suspeitasse!

—Quem? Seu pai? -Augusta manifestou surpresa.

—Alan Ross! Ou quem fosse...

—Claro que não -respondeu Augusta bruscamente-. Não tenho a menor intenção de que saiba. Agora serene e se arrume da maneira mais favorecedora.

Vamos oferecer uma série de festas e não tenha dúvida de que será convidada a muitas outras. Quanto antes terminemos com tudo isto, melhor. Felizmente conhece o Alan faz tempo que, de modo que não haverá comentários se anunciarem uma data para as bodas.

—Como vai persuadir ao Alan de que é necessária tanta urgência?

—Não se preocupe por isso, já acharei o modo. Enquanto isso, é claro, ignorará Max por completo, salvo no que respeita à cortesia habitual de uma dama para com seu criado. Se tratar de convencê-la de algo mais, chamará alguém e o acusará de ultrapassar-se e será despedido.

—Eu gostaria que o despedisse de qualquer modo. Só pensar nele já me parece ofensivo.

—Compreendo-o. De fato, é difícil para mim conceber como antes pôde vê-lo de outro modo. Mas desgraçadamente não é tão fácil corrigir os próprios enganos. Max já deu os passos necessários para que não possa despedi-lo e ainda não encontrei a maneira de evitá-lo. Mas a acharei. Agora pensa em seu futuro e atua empregando todo seu encanto. No passado já se dedicou a deslumbrar aos homens com considerável êxito, por isso se vê. Mas não exagere.

Alan, como a maioria dos homens, quererá pensar que foi ele quem a escolheu para cortejá-la. Ajude-o a que persista nessa idéia. E vista-se de rosa sempre que puder. Assenta-lhe bem e os homens gostam.

—Sim, mamãe.

—Muito bem. Agora se acalme e façamos os esforços necessários para cumprir com este objetivo.

—Sim, mamãe.

Na manhã seguinte Augusta desceu tarde para tomar o café da manhã, o que era incomum nela. Tinha adormecido mal. Todo o assunto do Max a tinha transtornado mais do que esperava; talvez seu autodomínio não fosse tão perfeito como pensava. Às nove e meia continuava sentada na mesa do café da manhã quando o jovem Brandy retornou para tomar outra taça de chá. Sentou-se frente a sua mãe.

—Parece um pouco fatigada esta manhã, mamãe. De fato tem o mesmo aspecto que eu depois de passar uma noite no clube.

—Não seja impertinente - respondeu Augusta, embora sem dureza.

Tinha um carinho especial a seu filho. Para falar a verdade, era a quem mais queria de toda a família. Brandy possuía uma alegria inata mais benévola que a da Christina e mais cálida que a de seu pai.

Além disso, era uma das poucas pessoas capazes de fazê-la rir inclusive contra sua vontade.

Agora a contemplava de soslaio com ar pensativo.

—Espero que Christina não tenha lhe contagiado seu resfriado.

—Isso é bastante improvável -respondeu Augusta com um estremecimento.

—Não a imagino passando um dia na cama - observou seu filho ao mesmo tempo que pegava outra torrada e iniciava um segundo café da manhã. Isso suporia admitir uma leve fraqueza em você. Mas talvez não fosse má idéia. Não a descarte de tudo, mamãe! -exclamou sorridente-. Se quiser, jurarei que foi às corridas ou que está nas compras!

—Aonde diabos poderia ir a uma corrida nesta época do ano?

—Tem razão. Então direi que foi a uma briga de galos! -disse rindo.

—Seria mais fácil que acreditassem se deixasse uma nota em que escreva que fomos os dois -replicou sorrindo a seu pesar.

Brandy simulou um estremecimento.

—Não tenho estômago para os esportes sangrentos.

—E acha que eu sim?

—É claro. Você teria intimidado ao próprio Napoleão se tivesse chegado a conhecê-lo! Augusta suspirou.

—Acaba de se servir a última xícara de chá?

—Não me teria ocorrido! Seriamente, mamãe, parece um pouco fatigada.

Tome o dia livre. Faz bom tempo, um pouco frio, mas bastante seco. Levá-la-ei a passeio. Tiraremos nossos melhores cavalos!

Augusta se sentiu tentada. Não havia nada que gostasse mais que um passeio longe do Callander Square em companhia de Brandy. Refletiu uns instantes sobre a proposta.

—OH, vamos! -insistiu-seu filho-. Ar fresco, cavalos velozes, ranger de rodas sobre uma estrada nova. As últimas folhas das faias ainda estão vermelhas nas árvores...

Augusta contemplou seu doce rosto de pele cítrica e viu o menino que foi, do mesmo modo em que vinte anos antes tinha visto nele ao homem que agora era.

Antes de que pudesse aceitar o oferecimento se abriu a porta e entrou Max.

—O inspetor Pitt veio outra vez, senhora. Quer recebê-lo?

O ar fresco, os cascos dos cavalos ressoando contra o chão e as animadas risadas desapareceram de súbito.

—Suponho que não fica outro remédio - disse, afastando a cadeira e endireitando-se-. Se não for agora, será mais tarde. Faça-o entrar ao saguão das visitas matutinas, Max. Irei em cinco minutos.

Brandy continuava comendo.

—Ainda anda por aqui por causa desses desgraçados bebês? Não sei por que persistem nisso. Nunca averiguarão quem eram. O seu tem que ser um trabalho miserável, não acha? Quer que o atenda? Provavelmente só queira sua permissão para interrogar à criadagem de novo.

—Não, obrigado, mas lhe agradeço o oferecimento, querido. Eu adoraria sair para dar um passeio com você, mas não posso.

—Por que não? É bastante improvável que fuja com a prata!

—Não posso deixá-lo -repetiu Augusta. Não queria ter que dizer-lhe. Até que ponto conhece o Alan Ross, Brandy?

—O que? Surpreso, Brandy deixou cair à mão que segurava uma nova torrada.

—Até que ponto conhece o Alan Ross? Acredito que a pergunta é bastante simples...

—Pois é um bom tipo. Suponho que o conheço bem. Encerrou-se em si mesmo quando Helena fugiu; mas começa a relacionar-se de novo. Por que?

—Eu gostaria que se casasse com a Christina.

Brandy renunciou a todo esforço de seguir comendo e deixou a torrada no prato.

—Seu pai ainda não sabe - prosseguiu-, mas tenho excelentes razões para isso. Se pode fazer algo para este fim, eu gostaria que não duvidasse em pôr em prática. E agora será melhor que vá ver esse polícia.

Augusta deixou a seu filho atônito.

Pitt a estava esperando junto ao fogo, que começava a desprender suas primeiras chamas em uma churrasqueira ainda fria. Augusta fechou a porta e apoiou as costas contra a folha. Pitt ergueu a vista, sorrindo. Acaso não havia nada no mundo que o fizesse perder a compostura? Talvez carecesse do senso da conveniência e oportunidade. Era um homem grande e desalinhado, recoberto de camadas de roupa; saudou-a com uma cordialidade que Augusta não esperava nem sequer de seus amigos.

—Bom dia, Lady Augusta -disse amavelmente-. Estaria muito agradecido se pudesse responder a umas quantas perguntas.

—Eu? - havia se proposto tratá-lo com absoluta frieza, mas a surpresa a pegou de improviso-. Eu não sei nada deste assunto, asseguro!

Pitt se afastou do fogo para lhe dar lugar, e, sem motivo aparente, esta cortesia irritou a Augusta, possivelmente porque teria preferido achar só defeitos nele.

—Acredito que não é consciente de saber nada -replicou-, do contrário me teria dito já. Mas talvez haja coisas que observou sem perceber sua possível importância.

—Duvido-o, mas suponho que você deve...

—Muito obrigado. Está sendo muito difícil localizar à mulher que...

—Isso não me surpreende!

—Não. -As feições do Pitt adotaram uma expressão irônica-. A mim tampouco. Talvez tenhamos mais sorte enfocando o caso de outro ponto de vista... encontrando ao homem.

Por um momento Augusta pensou que essa seria uma oportunidade fantástica para desfazer-se do Max...

Ergueu a vista para achar os brilhantes olhos cinzas do Pitt fixos em seu rosto de um modo desconcertante. Augusta era muito consciente da inteligência do Pitt, que era algo desagradável para ela e quase desconhecido. Pitt era um homem a quem não poderia dominar.

—Pensou em algo? -Havia um leve sorriso nas comissuras de sua boca.

—Não - respondeu Augusta, mas na hora decidiu atenuar um pouco sua negativa se por acaso mais tarde lhe ocorria alguma idéia sobre o Max-. Não acredito.

—Mas é uma mulher perspicaz -Augusta temeu que Pitt conseguisse abrandá-la- e tem uma filha jovem e atraente. -Não havia nenhuma mutreta refletida no rosto do Pitt, o que já era bastante incomum. A sociedade funcionava a base de enganos mutuamente aceitos-. Sem dúvida formou alguma opinião sobre os hábitos e inclinações dos homens de seu círculo habitual... -continuou Pitt-. Os hábitos daqueles que considera adequados para que sua filha se relacionasse com eles e também dos outros; e, em especial, daqueles cuja moralidade não lhe parece aceitável.

Era uma afirmação que Augusta não podia contradizer de um modo razoável. Sua conclusão era inevitável.

—Claro que sim -concordou-. Mas vacilaria em indicar à polícia como motivo de suspeita minhas antipatias ou apreensões pessoais. Estas poderiam ser infundadas e eu provocaria involuntariamente uma injustiça – explicou arqueando levemente as sobrancelhas, interrogando a ele desta vez e lhe devolvendo a responsabilidade do assunto.

O sorriso do Pitt se alargou um pouco. Augusta teria desejado que não a olhasse com tanta franqueza. Se Christina se apaixonasse por esse homem teria compreendido mais facilmente. Mas nesse caso provavelmente já estivesse fazendo as malas! Augusta tratou de recuperar a compostura. Só a idéia era ridícula... e ofensiva.

—Aceitarei sua opinião unicamente como tal, senhora – disse amavelmente-. Uma opinião sólida poderia supor um ponto de partida para mim. Coincidirá comigo em que de momento fui extremamente discreto?

—Não me consta que você saiba nada com respeito ao qual pudesse ser indiscreto- respondeu Augusta com certa frieza.

O sorriso do Pitt se fez ainda mais amplo.

—E isso me dá razão.

—Ou justamente o contrário - replicou ela laconicamente-. Ainda está por demonstrar.

Pitt se bateu graciosamente em retirada, aborrecendo-a uma vez mais.

—Tem razão. De qualquer modo, quanto antes possa finalizar minhas investigações, antes ficará resolvido o caso ou definitivamente fechado por impossibilidade de resolver.

—Entendo. Que deseja saber de mim?

Antes que Pitt pudesse replicar se abriu a porta e entrou Brandy. Pitt nunca o tinha visto e Augusta reparou na fugaz expressão de interesse que cruzou suas feições.

—Meu filho, Brandon Balantyne - disse com secura.

Brandy parecia sentir igual curiosidade, a julgar por sua expressão.

—Não suspeitará de minha mãe, não é? -disse com tom jocoso-. Ou lhe está perguntando a respeito dos últimos falatórios?

—Você acha que seria uma boa idéia?

—OH, seria uma idéia excelente. Aparenta estar por cima de tais coisas, mas em realidade conhece-as melhor que ninguém.

—Brandon, este não é momento para ligeirezas - replicou Augusta asperamente-. Há dois bebês mortos e alguém é o responsável.

O humor do Brandon desapareceu imediatamente. Olhou ao Pitt com uma desculpa refletida nos olhos.

—Os falatórios costumam ser de muita utilidade - disse Pitt para abrandar o assunto.

Surpreender-lhe-ia saber quantas vezes a resolução de um crime radica em uma ninharia que já era conhecida pelos vizinhos a princípio, mas que não comunicaram à polícia por acreditar que era de domínio geral.

Brandy relaxou um pouco. Fez uma observação a modo de réplica, e antes que Pitt conseguisse reconduzir a conversa para seu interrompido interrogatório entrou Christina.

Augusta se sentiu aborrecida; sabia que tinha entrado movimento pela curiosidade e a sensação de estar-se perdendo algo. Sua prolongada prostração tinha feito sentir a Christina que o mundo passava ao longe junto a ela.

Estava meticulosamente vestida, os olhos resplandecentes, inclusive com rubor nas faces, como se estivesse esperando a um pretendente.

E estava sorrindo-lhe ao Pitt! Pondo em prática sua técnica! Mas essa garota carecia de bom senso?

—Bom dia, inspetor... Pitt? -vacilou Christina, simulando não estar segura do nome. A seguir se aproximou dele, quase como disposta a lhe oferecer a mão, mas recordou a tempo que se tratava de um simples polícias, de um nível social equivalente ao dos comerciantes ou artesãos, e se absteve. Seu gesto foi frívolo e um pouco arrogante, só salvo da mera grosseria pelo resplandecente sorriso da jovem.

—Bom dia, senhorita Balantyne - respondeu Pitt, inclinando levemente a cabeça-. Me alegra ver que se encontra tão recuperada. Aparenta uma saúde esplêndida.

—Obrigada.

—Possivelmente também possa me ajudar. Com certeza haverá cavalheiros de seu nível social cuja reputação não considere de todo honrada.

Imagino que saberá discernir muito bem em quem pode confiar e em quem não.

As jovens damas costumam comentar entre si este tipo de coisas para proteger-se mutuamente. -Pitt se voltou de improviso para Brandy-. Ou talvez você, senhor Balantyne. Algum de seus amigos mantém relações com alguma moça inapropriada para contrair matrimônio com ela?

—Santo céu, dúzias deles! Me deixe pensar... -Brandy parecia surpreso-.

Normalmente a gente tem o suficiente bom senso para não manter relações dessa classe às portas de sua própria casa...

Pitt não pôde evitar sorrir.

—Sem dúvida - concordou-. E o que me diz de seus criados? Esse seu criado parece um tipo muito vigoroso.

Pitt se virou pouco a pouco até que seus penetrantes olhos se fixaram na Christina.

Augusta sentiu como o sangue abandonava seu rosto ao mesmo tempo que um visível rubor se apoderava do da Christina. O golpe tinha chegado de forma totalmente repentina e a jovem não tinha a guarda alta. Augusta abriu a boca para objetar algo quando o ágil olhar do Pitt se fixou nela, com seus grandes olhos na expectativa, e não teve mais remédio que morder a língua.

O mero fato de falar a teria traído, denotando impaciência em uma situação em que só cabia demonstrar indiferença.

-Não é mais que um criado - respondeu Christina friamente, mas com a voz levemente alterada, como se lhe faltasse o ar-. Nunca tive o trabalho de considerar sua vida privada. Talvez você não possa compreender se não tiver criados próprios em sua casa, mas a pessoa de nosso nível não discute certas coisas com a criadagem. Estão aqui para trabalhar e fazer que a casa funcione. Esse é o único tema que pode chegar a ser motivo de conversa com eles. E o mesmo acontece com esse criado. Para isso estão.

Será melhor que fale com as criadas, que sem dúvida saberão algo a respeito desse criado, não lhe parece?

—Certamente - disse Pitt, sem permitir que a arrogância da jovem o afetasse. Seu rosto continuava afável e seu tom de voz, quente-. Mas talvez não seja de seu gosto.

-Como quer que conheça ou que meramente me interessem os gostos de meu criado! -exclamou Christina, exasperada.

Pitt grunhiu, aparentando dar voltas a essa consideração. Continuava sem afastar os olhos da jovem, que por sua parte evitava olhá-lo.

-Quanto tempo está trabalhando no Callander Square? -perguntou.

—Uns seis anos - respondeu Brandy com expressão de inocência.

Augusta considerou a possibilidade de dizer a seu filho que partisse com alguma desculpa apropriada; mas ao contemplar a expressão sagaz do Pitt soube que só conseguiria reforçar qualquer suspeita que já pudesse albergar.

—É um bom criado? -inquiriu Pitt.

—Excelente - respondeu Brandy-. Pessoalmente não me agrada, mas tenho que admitir que não comete nenhum engano. De qualquer modo, me acredite, se pudesse o poria de quatro na rua!

—E não poderia pô-lo de quatro na rua de qualquer modo? - perguntou Pitt, simulando ignorância.

—Suponho que sim - respondeu Brandy, ainda com atitude corriqueira-. Mas o certo é que não me incomoda o suficiente. E ao que parece satisfaz a todos outros.

—Não houve queixa por parte do pessoal feminino?

—Não, absolutamente.

— As criadas são complacentes com ele? Ou talvez procura o alívio de seus prazeres em algum outro lugar?

—Senhor Pitt! -interveio Augusta finalmente-. Em minha casa estão proibidos os comportamentos licenciosos, tanto se as criadas estão dispostas como se não! Independentemente dos apetites de meu criado, asseguro-lhe que os sacia sob outro teto!

Pitt observou a reação da Christina. Pelo amor de Deus! Não ia conseguir lhes surrupiar nada? Não havia maneira de... ou sim a havia?

—Se você suspeita do Max, inspetor - prosseguiu Augusta com toda a compostura de que era capaz e sem olhar a Christina-, sugerir-lhe-ia que fosse dar uma olhada à mulher que reside na casa de trás. O que lhe pareceria reatar seu interrogatório nos restantes estabelecimentos desta praça?

—Será mais fácil perguntar diretamente ao Max - se ofereceu Brandy-.

Essa pobre moça provavelmente não queira reconhecer nada, e menos agora.

Pressione ao Max um pouco, ponha-o nervoso. Averigue quem são seus amiguinhas, e...

Augusta aspirou fundo para dizer algo, mas Christina se adiantou.

—Não! -balbuciou-. Isso seria uma tolice. -Titubeou em busca de palavras-. E além disso, injusto! Você não tem motivo para supor que Max tenha que ver com este caso. Não quero que assuste a nossos criados. Mamãe, por favor...!

—Sim, parece injustificado interrogá-lo - disse Augusta, escolhendo cuidadosamente as palavras-. Tem algum motivo sério para suspeitar dele, inspetor? Do contrário terei que lhe denegar autorização para incomodar a minha criadagem. Retorne com provas e estarei encantada de lhe prestar toda minha ajuda.

Christina suspirou com alívio.

Nesse momento se abriu a porta e entrou o general, que se deteve surpreso na soleira.

—Bom dia, senhor -saudou Pitt.

—O que está fazendo aqui outra vez? -perguntou Balantyne-. Averiguou algo?

—Está procurando o homem que há detrás deste assunto – respondeu Brandy-. Acredita que poderia tratar-se do Max e deseja falar com ele.

—Boa idéia -disse Balantyne-. Resolva este assunto de um modo ou outro.

Depois de dizer isto avançou e, antes de que Augusta pudesse detê-lo, fez soar a campainha. Uns instantes depois entrou Max. Aparentemente estava esperando no vestíbulo.

Os olhos do Pitt enfrentaram os seus, esquadrinhando seu rosto escuro e sensual e seu imaculado uniforme.

—Senhor? -inquiriu Max.

—Sente você um interesse sentimental por alguma mulher? –inquiriu Balantyne com brusquidão, com o sentido do tato próprio de uma carga de cavalaria.

Augusta estremeceu. O rosto do Max, em troca, não se alterou.

—Perdão, senhor?

—Acaso não fui bastante claro? Tem alguma aventura amorosa? Cultiva amizades de sexo feminino, as chame como quer?

—Não tenho intenção de contrair matrimônio, senhor.

—Não é isso o que estou perguntando, maldito seja! Não se faça de idiota comigo.

—Minha relação amorosa mais recente acaba de terminar, temo-respondeu Max com um sorriso imperceptível e olhando dissimuladamente a Christina.

—Quem era ela?

—Com meus maiores respeitos, senhor, duvido que minha anterior relação possa ser do interesse da polícia. Trata-se de uma mulher respeitável e de muito boa família. -Sua voz delatava a íntima diversão que lhe produzia semelhante interrogatório.

Augusta não podia fazer nada salvo permanecer de pé e contemplar como se produzia a catástrofe. Talvez Max decidisse proteger seus próprios interesses, que por sua vez protegeriam a Christina. Era sua única esperança.

Pitt se limitou a esperar, deixando que as coisas corressem em sua presença.

—De boa família? -inquiriu o general com incredulidade.

—Sim, senhor.

—Quem é?

—Preferiria que não se revelasse, senhor. Não há necessidade de que seu nome seja pronunciado em presença da polícia.

Lady Augusta sabe, de modo que... -deixou cair Pitt a modo de magistral golpe final.

Christina estava pálida como a neve. As manchas do ruge reluziam artificialmente sobre sua branca pele como a maquiagem de um palhaço.

—Isso é tudo, senhor? -inquiriu Max.

Balantyne tinha seus atônitos olhos fixos em sua mulher.

Augusta recuperou a compostura.

—Sim, obrigado, Max. Se precisamos saber algo mais, voltaremos a chamá-lo.

—Obrigado, senhora - respondeu inclinando a cabeça, e partiu fechando silenciosamente a porta atrás dele.

—E então? -perguntou Balantyne.

—Max tem razão -replicou ela com brutalidade-. Não pode ser de nenhum interesse para a polícia.

Pitt falou cortesmente e com voz serena:

—Por que não me disse isso desde o princípio, senhora?

Augusta sentiu um súbito calafrio em sua coluna vertebral.

—Não o entendo - inquiriu Augusta para ganhar tempo, só uns segundos para pensar.

—Por que não me disse sobre a relação do Max quando falávamos do tema a princípio de nossa conversa, Lady Augusta?

—Eu... tinha-o esquecido. De qualquer modo, não é importante.

—Quem é essa mulher de tão boa família, Lady Augusta?

—Não tenho a liberdade nem o desejo de revelar seu nome.

—OH, venha já, Augusta! -exclamou Balantyne com exasperação-. Se essa mulher não está envolvida neste assunto, Pitt não a importunará. Será você discreto, não é? Além disso, sem dúvida o conceito que Max possa ter de "boa família" difere muito do nosso.

—Prefiro não dizer. -Augusta não podia mentir e culpar a qualquer mulher inocente... embora fosse possível, seria imoral.

Pitt se voltou para Christina, que estava rígida como uma estátua de sal.

—Senhorita Balantyne? Talvez você não se importe dizer-me isso...

Christina tinha ficado sem fala.

—Christina, o que tem? -Pela primeira vez começava a perceber um indício de dúvida na voz do general.

—Não importa - disse Pitt com calma-. De qualquer modo tenho que prosseguir com minhas investigações durante umas horas mais. Talvez retorne aqui mais tarde.

—Sim, é claro! -concordou Augusta, reparando na tensão que delatava sua voz e tentando camuflá-la aparentando não poder controlar o alívio que sentia.

Entendia muito bem o que Pitt lhe estava dizendo entre linhas: que sabia sobre Christina e Max e que ia procurar outros meios para descobrir se ela tinha dado a luz esses bebês.

Mas Augusta tinha certeza de que não era ela; Christina nunca teria tido o sangue-frio nem a habilidade para ocultar-lhe E agora que tinha disposto de certo tempo para pensar nisso, compreendia que tampouco tinha tido a oportunidade: sua filha não tinha desaparecido de sua vista o tempo necessário para que uma coisa assim pudesse ficar oculta.

Olhou ao Pitt com ar de cumplicidade-. Sem dúvida é o melhor que pode fazer.

Pitt lhe devolveu o olhar, com seus curiosos e penetrantes olhos cheios de idêntica cumplicidade. Os dois se compreenderam perfeitamente. Augusta não lhe estava lançando nenhuma fumaça; estava admitindo a verdade, e ele sabia.

—Excelente conselho - respondeu, inclinando levemente a cabeça-. Bom dia, Lady Augusta, senhorita Balantyne, general, senhor Balantyne...

Assim que Pitt se partiu, o general se voltou para Augusta com o sobrecenho franzido.

—O que significa tudo isto, Augusta? A que está jogando esse tipo?

—Não tenho idéia-mentiu ela.

—Não seja ridícula! Os dois sabiam muito bem do que estavam falando. O que está acontecendo? O que tem que ver Max em todo este assunto? Exijo saber!

Augusta refletiu uns instantes. Tinha esquecido a fortaleza que mostrava seu marido quando algo lhe tocava de perto. Recordou quanto o tinha amado vinte anos atrás, considerando-o maravilhosamente viril, nobre, poderoso...

Inclusive um pouco místico. Infelizmente, o passar dos anos a tinha familiarizado com ele e tinha aprendido que a fortaleza de seu marido era só circunstancial, enquanto que a sua própria era mais profunda e mais resistente, até o ponto de permitir enfrentar a tudo, dia após dia. A sua era a classe de fortaleza que permite ganhar guerras, não só batalha.

—Christina, será melhor que vá -disse com calma-. Não há motivos para preocupar-se com o Pitt, pelo menos de momento. Ocupe-se do que agora nos interessa e se prepare para o jantar desta noite. Brandy, será melhor que também vá.

—Preferiria ficar, mãe.

—Pois vai de qualquer modo.

—Mãe...

—Brandon! -disparou Balantyne secamente. Christina e Brandy abandonaram a sala em silêncio.

—E então? -perguntou Balantyne. Augusta lhe olhou sem confiança. Seu marido continuava sem ter se informado de nada.

—A mulher em questão é sua filha Christina -respondeu-. Teve uma aventura com o Max. Pensei que sabia, já que, certamente, Pitt sim sabe...

O general a olhou atônito.

—Mas o que diz...! Não pode ser!

—Não seja néscio! Acha que poderia me equivocar em algo assim?

Finalmente, Augusta tinha perdido a compostura. Tinha que perder os estribos ou pôr-se a chorar-. Não me olhe com essa expressão de alarme. Já me estou ocupando de tudo. -Não havia necessidade de mencionar sua possível gravidez-. Estou procurando que se case o antes possível, se puder com o Alan Ross...

—Mas... ele quer casar-se com ela?

—Ainda não, embora faremos que o queira. Isso depende de nós...

—De nós?

—Claro que de nós! Christina é incapaz de consegui-lo por si só. Eu o avisarei quando chegar o momento de falar com ele. Talvez seja pelo Natal.

—Não lhe parece um pouco precipitado? -perguntou o general.

—Sim. Mas me parece aconselhável.

As feições do Balantyne se endureceram.

—Já vejo. E se pode saber por que Max continua vivendo nesta casa? Christina não brincará com a idéia de casar-se com ele, verdade?

—Claro que não! Não sente nenhum interesse por ele, salvo... Dá no mesmo, já aconteceu tudo. Desfar-me-ei dele tão logo encontre um modo satisfatório. De momento o mais importante é guardar silêncio. E para isso devemos agüentá-lo aqui por uma temporada.

—Quer dizer até que Christina esteja casada.

—Mais ou menos.

—Augusta?

Sua esposa olhou-o nos olhos pela primeira vez.

—Não - se limitou a dizer ao cabo de uns instantes-. cometi um grave engano com respeito ao Max e não conhecia minha filha bastante bem, ou pelo menos não como deveria, mas ela não tem nada que ver com os bebês do jardim. Se fosse assim teria sabido.

Curiosamente Augusta se sentia envergonhada, vergonha que se refletiu em seus olhos ao fitá-lo. Tinha sido seu dever conhecer como é devido a sua própria filha e procurar que tudo isso não tivesse acontecido.

Balantyne não disse nada.

—Sinto-o - acrescentou.

O general apoiou a mão sobre o braço de sua esposa e o estreitou, soltando-o imediatamente, como se não soubesse por que o tinha feito.

—E o que se passa com a polícia? -perguntou.

—Acredito que Pitt e eu nos entendemos -replicou-. É um homem muito preparado. Sabe que eu sei que não foi Christina. Com isso terá suficiente, ao menos por um tempo. Pode pensar que Max tem outra... – Augusta estremeceu-. Em qualquer caso, Pitt não será um problema em um futuro imediato. Agora temos que pensar na Christina e no Alan Ross.

—Não sei como pode ser tão...

Balantyne a contemplou sem compreender e com um muito leve olhar de aversão.

Para sua surpresa, Augusta se sentiu ferida.

—O que teria feito você em meu lugar? -replicou friamente-. Chorar? Ou desmaiar? Do que nos teria servido isso? Temos que resolver o problema agora. Haverá tempo para nos abandonar a nossos sentimentos quando tudo tiver passado, quando Christina estiver casada como é devido.

—E se Ross não aceitar casar-se com ela?

—Conseguiremos que aceite. Do contrário terá que achar outra pessoa. Poderia começar a pensar em possibilidades, no caso de...

—Mas... Não sente nada? Sua filha esteve se deitando com um criado em sua própria casa e...

—O que importa onde o tenha feito! É claro que sinto algo, mas não trato de me deixar vencer por isso e permitir que um mero engano se converta em um desastre! Agora o melhor que pode fazer é retornar a seus papéis; essa ditosa senhorita não sei como-se-chama logo estará aqui.

Se quer ser de alguma utilidade, comece a pensar em bons partidos para a Christina, se por acaso o do Ross fracassar. Enquanto isso irei preparando minha agenda social para ela.

E antes que Balantyne pudesse objetar algo, Augusta abandonou a sala. Ainda ficavam muitas coisas por fazer.

Assim que chegou, Charlotte foi conduzida à biblioteca, onde se dispôs a continuar com as cartas que tinha estado classificando no dia anterior. Não se deu conta de que tinha transcorrido mais de meia hora quando o general apareceu.

—Bom dia, senhorita Ellison.

—Bom dia, general Balantyne - respondeu Charlotte, erguendo a vista tal como requeriam as normas de cortesia. Foi assim que se deu conta de que seu interlocutor estava enrijecido de forma não usual, como se se sentisse mal por algo.

Charlotte rebuscou mentalmente alguma possível causa.

—Rogo desculpe minha tardança -se desculpou-. Espero que não haja se sentido... ansiosa?

Charlotte sorriu para ajudá-lo a distender-se.

—Absolutamente, obrigado. Supus que teria que atender a alguma outra visita e continuei com as cartas.

-Com efeito. A polícia -explicou o general enquanto se sentava.

Charlotte se sentiu hipócrita, sabendo que devia tratar-se do Pitt e que Balantyne ignorava que ela fosse sua esposa. Estava ali precisamente para observar o tipo de coisas que eles não estavam dispostos a revelar a seu marido, e essa circunstância começava a inquietá-la.

Charlotte gostava de Balantyne e teria preferido conservar a avaliação que ele sentia por ela.

—Imagino que estão obrigados a tratar de resolver isso - acrescentou ela com doçura-. Não é um caso que possa ser ignorado de qualquer jeito...

—Tomara pudesse ignorar-se - respondeu ele com o olhar no vazio-. Este assunto não faz mais que gerar preocupações a todo mundo. Mas sem dúvida tem razão: tem que descobrir, não é verdade, independentemente de suas conseqüências. O problema é... que também descobrem muitas coisas mais.

Seja como for... -acrescentou, esticando os ombros-, temos trabalho a fazer.

Agradecer-lhe-ia que dispusesse estas cartas por ordem cronológica, sempre que for possível. Temo que nem todas levam data. Talvez você saiba...? - interrompeu-se para evitar mostrar-se depreciativo com respeito aos conhecimentos de história de Charlotte.

—OH, nessa vitrine há um livro excelente sobre as campanhas do Marlborough! -replicou ela-. Faz dois dias lhe perguntei se podia consultá-lo e permitiu amavelmente.

—Ah -respondeu Balantyne com expressão ausente; Charlotte percebeu que algo o tinha transtornado profundamente-. Ah - repetiu bobamente-, sim, tinha-o esquecido. É claro, você tem que saber...

Charlotte lhe dedicou um sorriso.

—Se tiver outro assunto de que ocupar-se, posso continuar trabalhando sozinha -se ofereceu-. Não tem por que me fiscalizar, se lhe for inoportuno.

—Obrigado, mas não tenho nada mais que... Ou ao menos não por agora.

Obrigado, de qualquer modo.

Dito isto, Balantyne voltou para seus papéis com a palidez refletida no rosto.

Só voltou a falar com Charlotte algumas vezes, e foram comentários irrelevantes. Por sua parte, ela procurou não lhe fazer muitas perguntas, sabendo que algo o preocupava. Tinha descoberto algo sobre Christina? Que a jovem tinha medo de estar grávida? Ou possivelmente algo mais profundo? A compaixão que sentia por ele impediu-a de fazer qualquer tentativa por descobri-lo.

Teria gostado de dizer ou fazer algo que o reconfortasse. E mais, seu instinto a animava a tocá-lo para mitigar a rigidez que o embargava. Sentir-se-ia mais recuperado se relaxasse uns instantes. Mas, certamente, isso seria algo absolutamente inapropriado. Não teria nenhum efeito reconfortante, mas justamente o contrário: seria grave e provocaria mal-entendidos e inclusive temores. Décadas de gélidas convenções sociais os afastavam.

Assim, Charlotte optou por simular não ter percebido nada estranho; ao menos assim podia lhe proporcionar intimidade e provavelmente ele o preferisse assim.

Faltava pouco para meio-dia quando entrou Max para dizer ao general que Garson Campbell estava na saleta matutina e desejava vê-lo, e para lhe perguntar se iria recebê-lo.

—O que?

Max repetiu a pergunta. Ao olhá-lo, pareceu para Charlotte o homem mais repulsivo do mundo. Havia uma repelente curva úmida em sua boca, como se Max não fizesse outra coisa que passar a língua pelos lábios, embora nunca o tivesse visto fazendo algo assim.

—OH, sim - aceitou Balantyne-. Faça-o entrar aqui. Prefiro não sair, ou do contrário pensará que disponho de todo o dia para perdê-lo com ele.

Garson Campbell entrou uns minutos depois. Charlotte o via pela primeira vez. Permaneceu imóvel no lugar, com o livro do Marlborough aberto diante do rosto, esperando que não percebesse sua presença. Limitou-se a olhá-lo de soslaio por cima da capa um breve instante para ver que aspecto tinha.

Campbell tinha um olhar inteligente, nariz largo, boca fina e risonha e olhos inquietos. Avançou com passo vigoroso, talvez devido ao frio.

—Bom dia, Balantyne.

—Campbell não parecia ter visto Charlotte, de modo que ela continuou imóvel, confiando em que também o general se esquecesse por um momento dela.

—Bom dia, Campbell.

—Ainda ressuscitando glórias passadas? Bem, imagino que as guerras são melhores que a atual apatia... Desde que não nos ocorra que podem ser um bom substituto.

—Dificilmente aprenderemos da história se preferirmos não recordá-la - replicou Balantyne um pouco na defensiva.

-Meu querido Balantyne -disse Campbell ao mesmo tempo que se sentava - no dia em que a humanidade se dedique a aprender uma só coisa dos enganos cometidos ao longo de sua história, eu estarei às portas do Julgamento Final.

Não obstante, parece-me um exercício inofensivo e muito possivelmente uma leitura interessante. Em qualquer caso, sem dúvida é menos perigosa que a política. Tomara alguns de seus colegas militares se ocupassem de coisas tão inócuas.

Por que há homens que acreditam que só por haver comprado a graduação de oficial e por ter tido sorte de não ser assassinados lhes é lícito ocupar também uma cadeira no Westminster e sobreviver às guerras imensamente mais sutis dos políticos?

—Não sei -respondeu Balantyne laconicamente-. Duvido de que eu seja a pessoa ideal para responder essa pergunta.

—Pelo amor de Deus, não era mais que uma observação de passagem. Não esperava que você tivesse a resposta! De fato, não espero respostas de ninguém.

Tudo o que me atrevo a esperar é que de vez em quando possa me topar com alguém que ao menos tenha tido o trabalho de expor a pergunta! Por certo, tornou a rondar por aqui esse maldito polícia?

Balantyne ficou tenso.

—Sim. por que?

—Já vai sendo hora de que renunciem ao caso. De qualquer modo, todo este assunto não deixa de ser um mero exercício, uma simples questão de imagem pública, e acredito que a estas alturas já devem ter satisfeito este objetivo. Nunca averiguarão quem o fez e, se ficar um ápice de senso comum, nem sequer terão suposto que o obteriam.

—Mas têm que tentá-lo. Trata-se de um crime muito sério.

—Não é mais que uma pobre desgraçada que pariu um filho já morto ou que o matou pouco depois. Pelo amor de Deus, Balantyne, há gente morrendo em todos os cantos do planeta! Tem idéia de quantas crianças indigentes morrem ao ano nas ruas de Londres? Ao menos esses dois bebês do parque nunca saberão o que isso significa. Por outro lado, que tipo de vida os teria esperado? E agora não comece a me soltar uma enxurrada de tolices sentimentais. Que diabos passava por sua cabeça no campo de batalha? Acaso lhe dava medo ordenar uma carga se por acaso alguém saísse ferido?

-Dificilmente pode comparar lutar em uma guerra em defesa de seus ideais ou sua pátria com assassinar bebês!

Balantyne tinha os nervos crispados. Charlotte podia apreciar o leve fulgor escarlate que percorria suas maçãs do rosto. O seu era um rosto mais forte que o do Campbell, mais enxuto, de ossos mais perfilados, mas havia uma linha muito suave na comissura de seus lábios, da qual Campbell carecia, que sugeria certa vulnerabilidade. Gostaria de estar no lugar do general e ser ela quem encarasse seu interlocutor, opondo ao ardiloso cinismo do Campbell sua própria frieza interior. Não o temia porque sabia de coração que uma vida sem otimismo e esperança era uma fatalidade que continha a própria semente da morte.

Campbell suspirou fazendo demonstração de sua paciência.

—Não podemos deixar que as coisas sigam assim, Balantyne. Pelo amor de Deus, salvemos o que ainda resta. Já deixei cair aqui e lá algumas palavras sobre a conveniência de convencer à polícia de que se retire, de lhes dizer que já fizeram um bom trabalho e terminar de uma vez com isto. Você tem suas amizades, e também Carlton. Olhe o que pode fazer. Tenho certeza de que Carlton também o fará. O pobre diabo descobriu um ninho de víboras em sua própria casa...

Embora não há dúvida de que ele é o único surpreendido. Não sei que outra coisa poderia esperar, com uma moça e vigorosa como Euphemia casando-se com um velho pássaro estirado como ele! Seja como for, é uma pena que o assunto venha à luz pública. Não seria necessário que fosse assim se a polícia se ocupasse de seus próprios assuntos.

O rosto do Balantyne estava branco como o papel.

—Não tem porque vir à luz a menos que você o deseje. E imagino que um cavalheiro como você não faria algo assim!

Balantyne se tinha endireitado pela metade na poltrona, como disposto a ameaçá-lo fisicamente.

Campbell estava mais divertido que assustado.

—Claro que não! Todos temos nossos trapos sujos. Ainda não conheci nenhum homem que não tenha algo do que envergonhar-se e que não dê algo por mantê-lo em segredo. Sente-se, Balantyne! Assim oferece um aspecto ridículo.

Pensa só no que lhe disse.

Nesse momento Campbell viu pela primeira vez Charlotte, que baixou os olhos imediatamente, mas não antes de ver o sorriso sarcástico e a apreciação dela como mulher refletida no rosto de Campbell. O que achava que ela tinha ido fazer ali? Quando a resposta mais óbvia foi a sua mente, Charlotte sentiu o sangue subir à cabeça. Albergou a esperança de que o general fosse muito inocente e afetado para ter pensado também nisso.

Em qualquer caso, assim que Campbell partiu, o general se dirigiu a ela com o rosto igualmente ruborizado.

—Charlotte, eu... Peço-lhe desculpas em nome do Campbell. Unicamente posso presumir que ele não se deu conta de sua presença aqui. Eu... asseguro-lhe que...

A jovem esqueceu sua própria confusão ao comprovar o alcance da qual ele sentia.

—Claro que não! -respondeu sorridente. -Asseguro que não lhe dou maior importância e que não pude apreciar mais que algum ou outro comentário desagradável. Rogo, não pense mais nisso.

Balantyne a olhou uns instantes antes de relaxar agradecido.

—Obrigado... Muito obrigado.

Transcorreu uma semana mais antes de que Augusta encontrasse ao fim uma solução satisfatória para desfazer-se de Max. Necessitou de ajuda e de inventar uma explicação adequada para justificá-la antes de ir a seus contatos mais longínquos e lhes oferecer uma troca de favores. Agora já estava tudo arrumado e só faltava informar Max da decisão.

Era uma semana antes do Natal. Augusta já se recuperara da horrível manhã da visita do Pitt. Enquanto isso, Christina tinha sabido dar o melhor de si mesma e Alan Ross parecia resignar-se a seu destino. Aquela tarde o tinha visto pela primeira vez acompanhar Christina para dar um passeio em sua própria carruagem.

Augusta estava casualmente na rua quando os viu partir. Também viu Brandy de pé na calçada, falando com a bonita e jovem preceptora dos Southeron. Uma criatura muito atraente; um pouco magra mas com uma graça peculiar e um sorriso encantador: a pessoa ideal para ocupar-se das crianças.

Augusta estava sozinha em casa. Brandy tinha ido ao clube, assim como o general, e a senhorita Ellison fora pra casa cedo, de modo que fez chamar o Max.

O lacaio se apresentou uns minutos depois.

—Sim, senhora? -inquiriu com sua habitual arrogância.

—Fiz algumas gestões para lhe conseguir outro emprego, Max...

—Senhora... -replicou olhando-a surpreso e com os olhos muito abertos.

—Em Londres -prosseguiu-, com Lorde Veitch. Dei-lhe excelentes referências, assim será seu criado e seu valete quando sair de viagem, coisa que faz com freqüência. Costuma passar o inverno em Londres e ir para o campo no verão, assim como quando vai caçar, é claro. Também faz freqüentes viagens a Paris e Viena. Você viajará com ele. Lorde Veitch lhe pagará um salário acima do que lhe pagamos nós. Estará de acordo em que se trata de uma boa ascensão...

—Sem dúvida, senhora - disse Max inclinando a cabeça com um sorriso-. Estou muito agradecido. Quando começo?

—Imediatamente. Amanhã pela manhã. Lorde Veitch passará o Natal no campo e o Ano Novo em Paris.

—Obrigado, senhora - repetiu Max, se inclinando novamente e virando-se para partir, sem deixar de sorrir.

Augusta mencionou o trato para Balantyne nessa mesma noite, enquanto se arrumava frente à penteadeira, a cabeleira solta caindo por cima dos ombros.

Sua criada a tinha escovado uns minutos antes, até que Augusta lhe pediu que partisse.

Balantyne, num roupão, olhou-a sobressaltado.

—Procurou a esse cafajeste uma posição melhor? E o que se passa com Bertie Veitch? O que lhe fez ele para merecer isto?

—Deve-me um favor - replicou Augusta.

—Augusta!

—Está advertido de tudo - respondeu com impaciência-. Além disso, eu pagarei a diferença de seu salário.

—Por quanto tempo? Por minha parte, nego-me a remunerar a esse porco por seu vil...

—Não poderá desfrutar muito tempo de sua situação, Brando. Bertie o levará fora do país, primeiro a Paris e depois a Viena. Em Viena achará alguma causa que alegar contra ele e o despedirá por desonestidade. Duvido que Max encontre em Viena algum cárcere de seu gosto.

Balantyne a olhou atônito, o rosto lívido.

—Como pôde fazer isso, Augusta? É desonesto!

—Ele não merece outra coisa - respondeu ela, sentindo um estremecimento ao sustentar por uns instantes o fulminante olhar de seu marido-. O que me sugere? Permitir que fique aqui e nos chantageie? Vivendo nesta mesma casa, junto à Christina e Alan Ross?

—Claro que não! Mas tampouco esta...!

—O que, então? Acaso lhe ocorreu algo melhor?

Balantyne guardou silêncio, tenso, o corpo trêmulo, sem deixar de olhá-la.

Augusta se levantou e se dirigiu à cama, o cabelo ainda caindo em cascata sobre seus ombros; sentia-se espantosamente vulnerável, como uma recém casada em uma quarto com um estranho.

 

O Natal passou com toda a pompa da tradição, com as decorações e os bailes, comida-opulentas e o vinho pesado, os flertes, os presentes e as campainhas, as canções de natal e inclusive, quando a ocasião o exigia, as cerimônias religiosas.

Naquela semana Charlotte não foi ao Callander Square, mas sim dedicou seus cuidados a seu lar. No ano anterior seu matrimônio era muito recente para sentir a calidez, a comodidade que comporta a sincera amizade, o pertencer o um ao outro sem ansiedade e sem o imperativo de prazer. Desta vez decorou o salão com lamparinas e com sianinhas de cores, comprou um pequeno abeto e o engalanou, dedicou-se a preparar caramelos, doces de açúcar, marzipã e hortelã para os meninos cantores de canções de natal, assim como pequenos presentes primorosamente envolvidos para sua família.

Em 2 de janeiro, o caso do Callander Square se intrometeu novamente em sua vida. Assim que Pitt partiu pela manhã à delegacia de polícia, Charlotte se apressou em acabar alguma tarefa doméstica pendente e se dispôs a ir à residência dos Balantyne, decidida a averiguar mais coisas do resto dos habitantes da praça, começando pelos Southeron.

Além de tudo, se era certo que Reggie Southeron acossava às criadas, talvez nem todas tivessem sido tão pouco complacentes com ele como tinha aparentado sê-lo Mary Ann. Por outra parte, não havia dúvida de que Mary Ann não se limitava só a falar para alimentar sua indignação.

Provavelmente seus protestos não fossem senão uma questão de forma, destinada basicamente a conservar a dignidade. Seria boa idéia averiguar quanto tempo estava Mary Ann no Callander Square e quem tinha sido sua predecessora.

Para este fim Charlotte se submeteu a sua inclinação natural pela Jemima Waggoner e aceitou um convite para almoçar juntas no dia seguinte. Assim, chegado o meio-dia em questão, Charlotte se desculpou na biblioteca ante o general e escapou sob a chuva até a entrada de serviço da residência dos Southeron.

A criada a fez entrar com um risinho tolo e a guiou pelas escadas até o quarto de estudos, onde naquele dia Jemima ia comer sozinha, pois Faith, Patience e Chastity estavam almoçando em casa dos Campbell por motivo do aniversário de Vitória Campbell.

Jemima se levantou agilmente ao ver Charlotte, o rosto iluminado por um sorriso resplandecente.

—OH, Charlotte, entre! Alegra-me que tenha aceito. Não se importou o general Balantyne?

—Não, claro que não, desde que esteja de volta lá pelas duas.

Além de tudo, ele também terá que almoçar e, para falar a verdade, já quase classificamos todos os papéis e acredito que não sabe muito bem o que posso fazer agora.

—É um homem intimidador, não lhe parece?

Foi mais uma opinião que uma pergunta. Enquanto falava, Jemima dispôs uma toalha e cobertos sobre uma pequena mesa e, quase no mesmo instante que terminou de fazê-lo, uma criada trouxe a bandeja que tinha preparado o cozinheiro para elas. Para um almoço era uma comida finamente elaborada, e Charlotte pensou que provavelmente aquilo refletisse o apego que sentia Reggie Southeron pela comida e comodidades.

Charlotte elogiou sinceramente o menu, o qual deu pé a falar da alimentação habitual e da administração doméstica dos Southeron. Continuando, assim que terminaram o segundo prato e começavam já com a sobremesa, Jemima voltou para o tema do general.

—Trata assuntos confidenciais? -perguntou.

—OH, não acredito! -replicou Charlotte-. E mais, acredito que quanto mais os conheça a gente e mais esteja interessada neles, maior será a alegria do general. Está muito orgulhoso de sua família, já sabe. E tenho que admitir que eu também o estaria se minha família se distinguisse como a sua. Houve um Balantyne em quase todas as grandes batalha desde tempos do duque do Marlborough.

Jemima sorriu, os olhos tristes e perdidos na distância.

—Com efeito, é uma grande herança. Tem que ser muito difícil para um homem ter nascido em uma família assim, com tantas expectativas que cumprir.

Pergunto-me se o jovem Balantyne lutará em alguma batalha e seguirá os passos de seu pai convertendo-se também em general.

—Bem, agora mesmo é pouco provável que estale alguma guerra - replicou Charlotte, que entretanto não tinha a mente posta em assuntos militares, mas sim do coração.

O olhar da Jemima a tinha afetado. Ao Charlotte o tema não lhe interessava do mesmo modo que a ela: o seu era um interesse impessoal. Consistia só na fascinação pela força, a coragem e a dor dos seres humanos que tinham vivido e morrido nas guerras. No caso da Jemima, em troca, Charlotte temia que consistia mais na fascinação de um sorriso, um peito esbelto e uma cabeleira escura que achava conhecer.

Jemima ainda não tinha encontrado as palavras adequadas para replicar e parecia algo confusa.

—Espero que não - disse finalmente, contemplando a colher que segurava-. É terrível pensar em todos os jovens que abandonam sua casa para lutar em batalhas que têm tão pouco a ver conosco e que depois ficam aleijados ou morrem nelas.

—Pergunto-me até que ponto têm pouco a ver conosco - respondeu Charlotte pensativa-. Vivemos com riqueza e segurança, com comércio marítimo por todo mundo, com negociados para nossas mercadorias e com bens exóticos que comprar ao lado de nossa própria casa unicamente graças a termos um império que chega quase a cada canto do globo. E muitos consideram seu dever -prosseguiu, olhando a Jemima nos olhos- estender a civilização, a fé cristã e o bom governo a aqueles povos e raças que ainda não conhecem tais coisas.

—Suponho que sim -concordou Jemima a seu pesar-. Mas acredito que o preço a pagar é muito alto. Há tantos homens que nunca retornam! Penso em todas essas viúvas e em todas as famílias que deixam atrás...

—Não há muitas coisas que possam adquirir-se sem pagar um preço muito alto -disse Charlotte, pensando naquelas que ela considerava realmente valiosas: compaixão, gratidão, tolerância-. Desgraçadamente, aos bens pelos que não temos que pagar um preço, seja da classe que for, não estamos acostumados a apreciá-los em seu justo valor.

Charlotte sorriu para suavizar o peso de suas palavras.

Jemima franziu o sobrecenho.

—E não acha que às vezes valorizamos algo unicamente porque tivemos que pagar por isso? -perguntou-. Talvez um preço excessivo. E que deste modo aferramos a isso e continuamos pagando acreditando que vale a pena?

Charlotte refletiu uns instantes. Ela se sentia vinculada a algo, comprometendo-se com isso só pelos muitos sacrifícios que lhe havia custado já esse compromisso. Talvez parte de sua anterior teimosia pelo Dominic tivesse algo que ver com uma espécie de hábito por emocionar-se.

Mas Jemima estava pensando no preço das posses, na guerra... Ou no temor de que Brandy Balantyne pudesse lutar em alguma batalha e perder a vida nela? Recordou outros fragmentos de conversas mantidas com antecedência e que sempre tinham incluído alguma menção aos Balantyne.

—Sim - concordou, voltando para a realidade-. OH, claro. Os homens tendem a fazer isso com a guerra e a política, e talvez as mulheres tendam a fazê- lo com os matrimônios.

Jemima relaxou emitindo um melancólico suspiro.

—E que outra possibilidade fica às mulheres? Uma mulher não pode renunciar ao matrimônio, por muito vácuo que este possa parecer-nos. Não fica mais remédio que pensar nele. Não há modo de escapar. Inclusive no caso de uma mulher já possuir dinheiro, ao casar-se este passa a formar parte das posses de seu marido.

Em troca, se decide abandoná-lo, tem que partir sem nada. E nenhum membro da sociedade quererá ajudá-la, pois o divórcio se considera inaceitável. Minha irmã mais velha... Enfim, esse é um tema bastante desagradável e estou certa de que não quererá ouvir falar dele. Me conte mais coisas do trabalho que está fazendo.

Disse-me que o general Balantyne teve ocasião de contemplar a carga da Brigada Ligeira com seus próprios olhos! Tomara nunca volte a haver um esbanjamento tão espantoso e inútil de vidas humanas como aquele. Como poderá perdoar uma mulher essas perdas e mortes, e todas tão inúteis! um pouco de bom senso poderia...

—O bom senso é o menos comum dos sentidos - interrompeu-a Charlotte-. Muitas vezes fui consciente com posterioridade de enganos que nunca teria admitido no momento de cometê-los.

Charlotte se perguntou se deveria mencionar algo sobre o Brandy Balantyne.

Era a relação que este tinha mantido com a Euphemia Carlton a que a preocupava, claro está. Se ele tinha sido capaz de ser seu amante é que se tratava de um homem carente de princípios que não proporcionaria a Jemima mais que dor. Era suficiente haver-se apaixonado uma única vez e haver-se sentido intimamente doída e vazia para vê-lo claramente em outros.

Agora Charlotte lamentava a dor que podia ver já em sua nova amiga. Não, era melhor não dizer nada. Teria se sentido humilhada de ter permitido que alguém mais soubesse como se sentiu no passado. Agora, é claro, amava ao Pitt, e já não tinha importância. Mas para a Jemima era uma situação presente e ainda não tinha conhecido a seu homem ideal.

De modo que Charlotte optou por tocar outros temas. Falaram das aulas de história que dava às crianças e Charlotte escutou um divertido anedotário que a fez rir alegremente. Ao cabo de um momento se despediu e retornou à biblioteca, resolvida a ocupar-se ela mesma do assunto.

Charlotte se sentiu preocupada com a Jemima durante toda a noite, até o ponto de que Pitt lhe perguntou o que lhe ocorria. Obviamente, ela foi incapaz de justificar-se, dado que se tratava de uma confidência exclusivamente feminina que ele não saberia entender, assim respondeu que a preocupava o romance de uma amiga, e Pitt pareceu bastante satisfeito para não insistir.

Por outra parte, a resposta do Charlotte se aproximava muito à verdade.

Passou em claro grande parte da noite, perguntando a sua consciência se devia intervir no assunto ou deixá-lo estar por medo a causar algum dano.

Finalmente, ainda insatisfeita, chegou à conclusão de que tinha agido corretamente ao não dizer nada a Jemima, mas tomou a decisão de falar com o Brandy Balantyne em um tom que teria preocupado terrivelmente ao Pitt, se soubesse, e que teria posto os cabelos em pé a seus pais. Só Emily poderia ter chegado a aprovar sua futura atuação, mas inclusive ela a teria considerado socialmente desaconselhável.

A oportunidade de Charlotte se apresentou nessa mesma tarde. Brandy entrou para esquentar-se um pouco frente ao fogo da biblioteca, consciente de que era o mais intenso da casa, depois de ter passado várias horas no exterior sob uma umidade e um frio terríveis. O general tinha saído a fazer um recado.

Brandy entrou alegremente, esfregando-as mãos e tremendo de frio.

Realmente era um homem encantador; Charlotte teria gostado de apreciá-lo. Entretanto, recordava-se que esse mesmo homem se mostrara desconsiderado com os sentimentos alheios e indiferentes à dor que causava.

Se não fosse assim, Brandy teria conseguido ganhar a pesar dele.

—Olá! Ainda trabalhando? -saudou-a, sorrindo sem o menor traço de condescendência-. Seriamente gosta disso que faz?

—Sim, acho-o extremamente interessante. Por um instante Charlotte se entusiasmou, e já estava a ponto de soltar-se a falar a respeito das pessoas cuja vida entrevia naquelas cartas, de sua ternura, sua vulnerabilidade, seus medos e pesares. Mas recordou a tempo que se havia proposto lhe falar da Jemima.

—Senhor Balantyne -lhe disse com firmeza.

Ele a olhou um pouco surpreso.

—Sim?

Charlotte ficou em pé.

—Tenho um assunto confidencial que discutir com você. Importa-lhe se fechar a porta?

—Comigo?

Brandy não pareceu sentir-se incomodado, contrariamente ao que Charlotte tinha temido.

Empurrou a porta até fechá-la de todo. Então se virou para olhar ao Brandy no rosto. Tinha que se apressar; o general podia retornar em qualquer momento e não era questão de deixar o assunto pela metade.

—Cheguei a sentir um respeito considerável pela senhorita Waggoner - começou, tratando de superar seu nervosismo e percebendo a secura paulatina de sua voz-. Devido a minha amizade com ela não desejaria sabê-la ferida...

—Claro que não -concordou Brandy-. O que lhe faz pensar que corre perigo de ser ferida? Sempre me pareceu que as coisas vão bem.

—Sempre? -respondeu Charlotte.

—Bem, ao menos sempre que a vi. -Brandy franziu o sobrecenho-. Do que tem medo, senhorita Ellison?

Não tinha sentido andar-se com rodeios - que pelo resto ao Charlotte não lhe davam nada bem-. Desejou que Emily estivesse ali para dizer o mesmo com maior delicadeza e sutilmente... Tomou fôlego antes de começar.

—Tenho medo de você, senhor Balantyne.

O rosto do jovem expressou estupefação. Teria sido fácil acreditar que não tinha idéia a respeito do que lhe falava.

—De mim? -perguntou desconfiado.

—Estou à corrente de sua relação com Lady Carlton. Na medida em que possa evitá-lo, não permitirei que faça o mesmo com a senhorita Waggoner. E não me diga que não se fixa nas criadas para tais fins. Não acredito que um homem que pode ter uma aventura com a esposa do vizinho sinta escrúpulos dessa classe.

Charlotte se sentia incapaz de lhe olhar no rosto e notava um estranho vazio interior por ter soltado tudo o que levava dentro.

—Pelo amor de Deus, não...! Quero dizer... por favor... -balbuciou Brandy.

Havia tal urgência em sua voz que Charlotte se surpreendeu erguendo o olhar para enfrentar a seus olhos. Sua preocupação parecia autêntica-. Olhe... - acrescentou, erguendo as mãos com ar desprotegido e deixando-as cair de novo ao comprovar que não lhe ocorria nenhuma explicação adequada-. Você não poderia compreender!

Charlotte se esforçou por manter o sangue-frio. Gostava de Brandy e desejava ter piedade dele mais que nenhuma outra coisa.

—Há algo mais que deva compreender, salvo que acha atraente à senhora Carlton e se aproveita da situação? -inquiriu Charlotte com frieza.

—Sim, há algo mais que compreender!

—Não é meu assunto, mas é evidente que não posso compreender algo que ignoro.

—E dado que o ignora, imagino que preferirá acreditar o pior e ir difundindo-o por aí.

Um desespero crescente embargava o rosto e a voz do Brandy.

—É claro que não vou difundindo-o por aí - replicou Charlotte mal- humorada. Era uma hipótese muito desagradável-. Mas quero me assegurar de que não vai ferir Jemima.

—Mas por que ia fazê-lo? Por que Jemima? -defendeu-se Brandy.

—Não seja inocente! Porque você gosta e ela não sabe que você é um...

Charlotte não achou nenhuma palavra que desejasse empregar para terminar essa frase.

—Muito bem - disse ao fim Brandy, afastando dela o rosto-. Embora duvide que você vá a me acreditar...

Charlotte esperou, contemplando a silhueta negra de sua cabeça ante a luz invernal da janela.

—Robert Carlton é um bom tipo, mas muito distante, indiferente...

—Isso não é desculpa...

—Não me interrompa! -exclamou Brandy com brutalidade-. O que Euphemia mais deseja é ter um filho. Tem trinta e seis anos. Não pode continuar esperando muito tempo mais. E se Robert insistir em tratá-la com cortesia e consideração, seja porque se sente confundido pela emoção, ou porque acredita erroneamente, que isso é o que ela deseja, nunca poderá ter nenhum.

Euphemia teme que seu marido não sinta interesse pelo amor físico e que a desprezaria se pensasse que ela sim o sente, assim prefere não lhe dizer nada.

"Sempre fomos amigos. Eu gosto de Euphemia; é uma mulher generosa, amável e com senso de humor. Mas se sentia cada vez mais desgraçada por algo.

Finalmente me confiou seu segredo. Tivemos um acerto de conveniência, com a única finalidade de conceber um filho. Agora você é livre de acreditar ou não, como prefiro. Mas lhe asseguro que é a verdade.

E seja o que for o que você pense de mim, pelo bem da Euphemia, ou pelo do Robert Carlton, não vá contando por aí. -Pela primeira vez, Brandy se virou e a olhou nos olhos.

Rogo-o.

Só a idéia era ridícula, e mais agora que Charlotte sabia tudo e acreditava em suas palavras. Prometeu-lhe seu silêncio sem vacilar.

—Acredito em você. Mas... não fale nem atue sem tomar em consideração à senhorita Waggoner. Pode ser muito doloroso apaixonar-se quando se sabe que nunca se será correspondido.

Brandy a olhou de perto, com seus olhos avelã empanados por uma súbita suscetibilidade para com ela.

—OH, não quero dizer agora... -respondeu Charlotte-. Mas no passado eu também o estive. Era o marido de minha irmã. Consegui tirá-lo da cabeça, vê-lo de outra forma. Mas na época foi muito doloroso para mim.

Brandy manifestou certo alívio.

—Por favor, não diga nada sobre Euphemia - lhe rogou Brandy de novo.

Charlotte pensou no Pitt e nos bebês do jardim.

—Prometo que não falarei, salvo que seja no interesse dela – assegurou solenemente.

Brandy não se sentiu satisfeito com a resposta, ao perceber certa atitude evasiva em suas palavras.

—O que quer dizer?

Ao Charlotte não ficava mais remédio que ser sincera.

—Estava pensando na polícia. Sabem que Euphemia está grávida e que o filho é de seu. Poderia ser que também suspeitassem dela por causa dos meninos do jardim, já sabe...

O rosto do Brandy ficou tão pálido de horror que era impossível pensar que tivesse considerado esta possibilidade em algum momento.

—Nesse caso, lhes dizer a verdade - acrescentou Charlotte com doçura- seria o mais vantajoso para a Euphemia, não acha?

—Nunca acreditariam - respondeu Brandy, ainda desconcertado.

—Acreditarão-.

—Como... Como sabem sobre a criança... minha...?

—São bastante espertos, sabe? E é provável que fossem em busca desse tipo de coisas.

—Suponho que sim. Mamãe diz que esse Pitt lhe pareceu ardiloso, e costuma ter razão. Não há muita gente cuja inteligência ela aprecie...

Charlotte não quis mencionar sua relação com o Pitt, e se perguntou se a sensação de orgulho que tinha experimentado era tão evidente para ele como para ela.

—Isso quero dizer - acrescentou cautelosamente-. Agora acredito que será melhor que deixemos esta conversa antes de que o general retorne, não lhe parece?

—OH... sim, acredito que sim. De verdade não vai a...?

—Não, claro que não! Unicamente estava preocupada com a Jemima.

Brandy esboçou um leve sorriso.

—Eu gosto de Jemima, sabe? Parece-se um pouco a você, de certa maneira.

Embora, por outro lado, você também se parece um pouco a minha mãe...

Charlotte sentiu um calafrio só de pensar nisso, embora não havia dúvida de que Brandy o considerava um elogio.

Agora seu sorriso se alargou notavelmente.

—Não me olhe assim! Mamãe tem mais coragem que qualquer outra pessoa que conheço. Poderia dar uma boa lição a todos os velhos generais do clube de papai! E ela também foi uma mulher muito formosa. Seu único problema é que nunca pôde flertar; não sabe como fazê-lo. Mas graças a isso tampouco sofreu jamais uma decepção.

Charlotte corou vivamente. O certo é que tinha ido à carga com Brandy e era evidente que ao fazê-lo não tinha feito demonstração de delicadeza precisamente. Depois de tudo, talvez se parecesse mais a Lady Augusta do que estava disposta a admitir. Ergueu o olhar para o Brandy tratando de achar algo com que desculpar seu comportamento anterior ou que a fizesse parecer mais doce a seus olhos, quando entrou o general.

Seu rosto manifestou surpresa ao ver Brandy.

—Este é o melhor fogo de toda a casa - respondeu rapidamente seu filho-. Sempre se gabou que o era.

-Mas isso não quer dizer que tolere que fique junto a ele toda a tarde, distraindo à senhorita Ellison de seu trabalho.

—Que pena. Não me ocorreria nenhuma opção melhor para passar uma insuportável tarde de inverno como esta. Não viu quão transbordantes estão as sarjetas?

—Então vá e tire as botas. Tenho que continuar com meu trabalho.

Seria bom que você também encontrasse algo para fazer.

—Não posso começar a escrever minhas memórias ainda; ainda não tenho nada que recordar.

Balantyne o olhou com certo receio, como se temesse que seu filho zombasse.

Entretanto, o rosto do Brandy expressava a mais absoluta inocência. O moço se dirigiu para a porta.

—Boa tarde, senhorita Ellison. Obrigado por me permitir que me esquentasse junto a seu fogo - acrescentou antes de sair.

—Meu filho a estava incomodando? -perguntou Balantyne um pouco bruscamente assim que se foi.

—Absolutamente - replicou Charlotte-. Não esteve aqui muito tempo. Por certo, acredito que já terminei que classificar estas cartas do Marlborough.

Importar-se-ia de dar-lhes uma olhada?

Emily tinha estado várias vezes no Callander Square desde sua última visita a Charlotte e tinha conseguido travar uma sólida amizade com a Christina.

Assim, não se surpreendeu quando esta lhe confiou no fim de janeiro que logo ia contrair matrimônio com o Alan Ross.

A confidência em si não surpreendeu ao Emily; toda a familiaridade surgida com ela estava destinada precisamente a receber confidências como essa.

Mas sob qualquer outra circunstância a escolha do noivo a teria surpreendido; a seu julgamento, Alan Ross e Christina Balantyne constituíam um casal muito pouco natural. Pelo que tinha visto do Ross, era um homem sério e bastante tenso, possivelmente de sentimentos profundos. Em troca, quando queria Christina era muito alegre, deliciosamente sofisticada e superficial. Seja como for, Ross era de boa família, rico e, o mais importante, aparentemente disposto a casar-se a muito curto prazo.

—Casaremos no final do mês - disse Christina, sentada junto ao fogo frente à Emily na saleta matutina.

—Meus parabéns - respondeu Emily, refletindo a possibilidade de que Christina pudesse saber já se estava grávida ou não. Teve o cuidado de não dirigir esta vez o olhar a reveladora cintura de sua interlocutora, já que uns minutos antes tinha passado um bom tempo admirando seu vestido com o fim de poder olhá-la tranqüilamente sem levantar suspeitas. Certamente não havia nenhum indício aparente de que estivesse grávida, embora ainda fosse cedo.

De fato, Charlotte já estava de quatro meses e continuava parecendo normal. Claro que Charlotte era uma mulher mais corpulenta que Christina, fator que também deveria ter em conta...

—Obrigado- disse Christina sem entusiasmo-. Estaria encantada que viesse ao casamento, se fosse possível...

—Claro que sim! Será maravilhoso. Que igreja escolheu?

—São Clemente. Já está tudo arrumado.

—Imagino que contará com uma boa costureira, não é? É tão desesperador levar uma decepção no último momento! Posso lhe dar nomes... a não ser que já disponha do vestido.

—OH, não, obrigado. A senhora Harrison é de toda confiança.

—Me alegro tanto por você! -Emily percebeu certas reservas na Christina.

Algo que lhe rondava a cabeça e que desejava contar a alguém mas que não se decidia a soltar-. Será uma noiva maravilhosa -prosseguiu Emily-. O senhor Ross é um homem muito afortunado.

—Assim o espero.

Emily simulou surpreender-se.

—Tem alguma dúvida a respeito? Acredito que será uma estupenda esposa para ele, se assim o desejar.

As delicadas feições da Christina se endureceram.

—Não tenho certeza de desejá-lo. Não tenho certeza de desejar renunciar a minha liberdade.

—Pelo amor de Deus, jovenzinha, não há necessidade de que renuncie a sua liberdade nem a nenhuma outra coisa...! Salvo ao dinheiro, claro está. Mas inclusive isso pode arrumar-se devidamente com um pouco de previsão.

Christina ergueu a vista, olhando-a com surpresa.

—O que quer dizer? Vou casar-me com um homem de quem não estou apaixonada. Que maior sacrifício que a própria liberdade pode haver?

Já ia sendo hora de que essa jovenzinha malcriada adquirisse um pouco de bom senso.

—Querida, há muito poucas mulheres que se casam com um homem de que estejam apaixonadas - disse Emily-. E inclusive as que assim o fazem costumam terminar afirmando que se tratou de um engano. O tipo de homem do que uma mulher costuma a apaixonar-se costuma ser um galã divertido, engenhoso e bonito; mas é igualmente freqüente que esse mesmo galã não disponha dos recursos suficientes para mantê-la, que seja pouco confiável e que, tanto se gostar como se não, em seu devido momento se deixa de estar enamorado dela para engraçar-se de outra.

Para casar-se é preciso dar com um homem de bom caráter e com bom senso para os negócios ou, do contrário, uma sólida fortuna pessoal; tem que ser pouco dado à bebida e não jogar em excesso, ter boas maneiras e uma aparência aceitável.

—Isso soa desesperadamente cinza - replicou Christina com aspereza-. Não recordo que George Ashworth seja assim!

—Possivelmente não, mas para consegui-lo tive que trabalhar mais duro do que imagina. Eu não dispunha de suas vantagens, de modo que tive que criar as minhas. Mas o senhor Ross parece um homem agradável e cortês; e pelo que soube, também possui recursos. E não há dúvida de que tem uma aparência corretamente agradável. Isso é tudo o que razoavelmente está em situação de esperar.

—Possivelmente sim, mas isso não é o que quero!

—Bem, nada a impede de se apaixonar por outro, desde que seja discreta. Mas enquanto isso, acredito que deveria procurar que este casamento saia o melhor possível. Não acredito que seja o tipo de mulher que pode chegar a ser feliz fugindo com algum jovem romântico que não tenha um penny.

E quanto antes aceite isso, antes começará a desfrutar do que tem. E não cometa nenhum engano, querida, ou terá que trabalhar nisso.

—Trabalhar nisso? Não sei do que me fala. Já trabalhei nisso. Anunciamos as bodas para antes do fim de mês. Agora ele já não pode me falhar. Fazê-lo-o poria em uma situação delicada.

Emily suspirou. Nunca tinha acreditado que uma garota pudesse chegar à idade da Christina com tanta ignorância nas costas. Em que diabos estaria pensando Lady Augusta? Ou possivelmente fosse porque os Balantyne já tinham suficiente dinheiro e influência social e consideravam a Christina bastante bonita para considerar desnecessário lhe tirar os pássaros da cabeça.

Embora também podia ser que Lady Augusta já tivesse feito a sua filha todas estas advertências mas que ela fosse muito arrogante para acreditar nela.

—Christina - disse Emily sopesando suas palavras-, se deseja ser feliz tem que compreender que isso depende em primeiro lugar de que o seja seu marido, para que assim seja agradável com você e lhe permita conduzir sua vida da maneira que prefira. Tem que ensiná-lo a querer o que você quer, e inclusive pense que o que você quer é idéia sua, já que se pensar que é ele quem fez uma sugestão, nunca lhe negará seu cumprimento, mesmo tenha mudado de idéia.

Tem que aprender a ser cortês com ele em todo tempo, ou em quase todos; não discutir nunca com ele nem desobedecê-lo em público; e se tiver que fazê-lo em privado, faça-o ou com um sorriso ou empregando as lágrimas. Não perca o tempo tratando de ser razoável, já que os homens nunca esperam isso de uma mulher e os desconcertaria. Nunca esqueça seu aspecto externo; mas tampouco seja extravagante além do que lhe permitam seus meios; e procura que seus criados levem a casa como é devido.

Nunca deixe que se convertam em motivo de transtorno doméstico, pois os homens não gostam de ter as coisas em desordem, e menos ainda ouvir disputas em sua própria casa.

—"E se tiver um admirador, pelo que mais queira, seja discreta; não o esqueça: aconteça o que acontecer e custe o que custar, tem que ser discreta. Embora, para lhe ser justa, querida, não imagino apaixonada por ninguém o suficiente para perder a cabeça. Seu coração talvez, durante algum tempo; ou seus desejos, se for incapaz de te conter, embora seria preferível que pudesse. Mas não esqueça o que o escândalo pode fazer com uma mulher. Seu marido tolerará toda classe de coisas se o tratar bem, mas nunca tolerará um escândalo.

Emily se interrompeu um momento para contemplar o rosto formoso, um pouco mal-humorado, da Christina.

-E, por último -prosseguiu-, se seu marido mostrasse um interesse indevido por outra mulher, aparenta não te dar conta. Faça o que for, nunca monte uma cena. Os homens odeiam as cenas. Manifestar ciúmes é o comportamento mais impróprio. Não perca os estribos e procura não chorar mais da conta. À longo prazo pode lhe tornar aborrecido e então já não funcionará quando verdadeiramente precisar convencê-lo de algo.

—"Surpreende-me que sua mãe não te tenha explicado já estas coisas.

Christina a olhou surpreendida.

—Claro que o tem feito! Faz anos que me explica isso, mas eu não faço conta. As mães sempre se empenham em dar conselhos.

Emily lhe devolveu o olhar com resolução. Tinha chegado o momento da verdade.

Por fim, os olhos da Christina baixaram.

—Não acredito que realmente deseje me casar - respondeu com calma-. Soa como se fora um trabalho muito duro.

—Acaso tem outra escolha? -A pergunta de Emily foi brutal.

Os olhos de Christina se encolheram, endurecendo-se suas feições.

—O que quer dizer? -perguntou com aspereza.

Emily aparentou inocência.

—Porque tem que se decidir - explicou suavemente-, e faça o que fizer tem que fazê-lo bem. Ninguém pode se permitir o luxo de fazer outra coisa.

Em sociedade todo mundo sabe o que faz o resto do mundo; sempre se fala disso e nunca chega a esquecer-se de todo.

Se cometer uma estupidez terá que viver com ela o resto de sua vida, de modo que é preferível refletir antes de agir.

Isso é tudo o que quero dizer.

Christina aspirou profundamente e exalou pouco a pouco.

—Que criatura tão asquerosamente prática é. Acredito que não conserva nem um ápice de romantismo em sua alma.

—Talvez não -concordou Emily-. Mas não confunda o romantismo com o amor. Eu sei como amar. -Dito isto, Emily ficou em pé-. E temo que em grande medida seu romantismo não é mais que uma autocomplacência, e a autocomplacência é uma classe de egoísmo pela que se paga um elevado preço.

—Não penso pagar se não tiver por que fazê-lo. Mas recordarei o que me disse, tanto se seguir seus conselhos como se não. Ainda pode assistir ao casamento, se quiser.

—Obrigada -respondeu Emily-. Estarei encantada.

Emily decidiu que, no que respeitava aos bebês da praça, Christina já não era objeto de seu interesse; por um lado, carecia do sangue-frio e da capacidade de decisão para levar a cabo uma ação assim. Lady Augusta sem dúvida os teria tido, embora em um caso assim -a não ser que Emily a tivesse julgado de um modo totalmente equivocado- também teria tido o bom senso para não ter permitido chegar a ter motivos para fazê-lo.

Assim, tinha chegado o momento de dedicar sua atenção às restantes mansões da praça. Charlotte lhe havia dito que Euphemia Carlton era uma possibilidade muito improvável, embora não podia lhe dizer o porquê, mas ao parecer também tinha conseguido convencer ao Pitt neste sentido. E, embora Emily considerasse que Pitt era uma criatura muito peculiar, sentia um grande respeito por ele.

Como policial que era, obviamente, constituía uma pessoa socialmente não apresentável; mas se ele estava convencido com respeito à inocência da Euphemia, também o estava ela.

Assim, se fazia necessário dar uma olhada às restantes famílias. Tinha averiguado pela Charlotte que Reggie Southeron parecia o mais prometedor, mas talvez também fosse útil cultivar a relação com Sophie Bolsover e tratar de averiguar algum dado mais sobre a Helena Douram.

Fugira mais ou menos pela a data da morte do primeiro bebê, algo mais de dois anos atrás. Podia haver alguma conexão? Por que nunca tinha escrito a alguém? Quem tinha sido esse amante que nunca alguém conseguiu ver? Talvez esse homem também tinha amado a outras... com diferentes resultados? Poderia ser que o tempo que o outro bebê estava enterrado, supostamente dois meses, em realidade tivesse sido mais longo? O bastante para ter sido concebido antes de que Helena e seu desconhecido amante desaparecessem? Essa tinha sido a razão de que a criança fosse assassinada: ser um legado de uma aventura amorosa finalizada com uma fuga e com ódio? Sem dúvida era um mistério muito interessante de resolver!

Com este objetivo, Emily se propôs visitar Charlotte dois dias mais tarde, já que à manhã seguinte se veria obrigada a ocupar-se da administração de seu lar devido a um recente problema com os criados, assim como a estar em casa à tarde para receber às visitas. Ao fim e ao cabo, alguém tinha certas obrigações sociais que cumprir.

Em qualquer caso, na manhã do segundo dia Emily se achou livre para dedicar-se aos assuntos que realmente lhe interessavam.

—Como diabos faz visitas de cortesia a estas horas? -inquiriu George, ainda sentado à mesa do café da manhã e olhando as páginas de sociedade do jornal.

Mostrava um aspecto muito elegante em seu roupão de seda. Uma vez mais, Emily pensou em como era afortunada por ter conseguido casar-se com um homem que podia lhe oferecer todas as vantagens sociais que desejava e a quem, além disso, amava de verdade.

Claro que ele tinha algumas asperezas que, uma vez se tivesse solucionado este maravilhoso caso do Callander Square, Emily teria que dedicar-se a limar. Mas um matrimônio no que não houvesse nada que melhorar se tornava rapidamente aborrecido, ao menos para a mulher.

—Só vou ver Charlotte -replicou-. Não importa a que hora vá.

—Ultimamente parece apegada à Charlotte de forma não usual - disse franzindo o sobrecenho-. O que tem entre mãos, Emily?

—Entre mãos? -perguntou Emily abrindo muito os olhos.

—Sim, entre mãos, querida. Vejo-a muito satisfeita com você mesma para não supor que tem algo entre mãos, e quero saber do que se trata.

Mas Emily já tinha previsto que algum dia George lhe ia formular esta pergunta, e tinha a resposta preparada.

—Estou apresentando Charlotte a umas quantas de minhas amizades, de um nível social no qual talvez se sinta a gosto -respondeu como se fosse verdade tal coisa.

Tampouco faltava de todo à verdade ao dizer isto, embora não o fazia pelo motivo implícito em sua resposta. Charlotte não sentia nenhum interesse pelo Callander Square, salvo pelo propósito de investigar. Claro que Emily também tinha nessa praça um interesse em nada diferente ao de sua irmã...

George a olhou de soslaio por cima das páginas do jornal.

—Surpreende-me. Não pensei que à Charlotte importasse algo conhecer alguém da alta sociedade. Recomendo-lhe que não a incentive a que se meta em nenhum lugar que ela não deseje só porque a diverte. Embora duvide que fosse capaz. Pelo que sei de Charlotte, acredito que é muito improvável que faça algo a não ser que queira fazê-lo. -George afastou o jornal do rosto.

— Mas se efetivamente gosta de colocar o nariz em sociedade, por que não a faz vir aqui? Daremos uma festa e a apresentaremos como é devido. É uma criatura bastante bonita; talvez não seja de corte muito tradicional, mas é de aparência agradável.

—Não seja ridículo -respondeu Emily com rapidez-. Não tem nada que ver com seu aspecto, a não ser com sua língua. Não pode levar Charlotte a nenhuma parte: diz tudo o que lhe vem à mente. Pergunte-lhe sua opinião sobre algo e em lugar de julgar o que é o mais apropriado que pode responder, dir-te-á o que realmente pensa. Ela nem sequer quereria fazê-lo, mas conseguiria arruinar-se a si mesma em menos de um mês, para não falar de nós. Pelo resto, deve-se mencionar que Pitt não é um cavalheiro. Para começar, é muito inteligente.

—Não há nenhuma razão pela qual um cavalheiro não possa ser inteligente, Emily - respondeu seu marido com aspereza.

—OH, claro que não, querido! -replicou Emily com um sorriso-. Mas ao menos deveria ter o bom gosto de não demonstrá-lo. Já sabe. Ser inteligente faz com que o resto das pessoas se sinta desconfortável, e, além disso requer um esforço por parte de outros, quando ninguém deveria fazer notar que se está esforçando por algo.

Acontece o mesmo com o entusiasmo. Deu-se conta de quantas mulheres jamais se mostram entusiasmadas por algo em público? O entusiasmo proporciona um ar espantosamente ingênuo! Embora reconheça que tampouco há muitas coisas pelas que alguém possa sentir entusiasmo... Por certo, estará em casa para o jantar?

—Estávamos comprometidos para jantar com o Hetty Appleby –lhe recordou, esquadrinhando-a com olhar penetrante-. Suponho que não o terá esquecido, não é?

—Por completo! -admitiu-. Agora tenho que ir, tenho um montão de coisas que dizer à Charlotte.

—Pode convidá-la para jantar aqui sempre que quiser! -gritou-lhe seu marido enquanto ela se afastava-. Eu gosto muito de Charlotte. Talvez não seja apropriada para a vida em sociedade, mas acho que seria bastante para mim!

Tal como esperava, à essa hora Emily achou Charlotte em casa.

Mostrou-se agradada ante a perspectiva de interromper suas tarefas domésticas durante umas horas, por muito que seu lar, tinha que admiti-lo, tinha ficado abandonado à vontade de Deus desde que começara a trabalhar como assistente do general Balantyne.

—Podemos descartar a Christina - disse Emily, entrando na casa ao mesmo tempo que tirava as luvas-. Examinei-a muito de perto e acredito que não teria suficiente sangue-frio.

Charlotte fez um esforço por dissimular um sorriso, mas fracassou.

—Me alegro.

—Por que? Não me irá dizer que Christina lhe era simpática, né?

—OH, não, absolutamente! Mas gosto do general; e acredito que também Brandy.

—Mas como? -perguntou Emily, surpreendida-. Como é que gosta do Brandy? Já lhe contei sobre Euphemia Carlton!

—Sei. Em que direção quer que investiguemos agora? Acho que teríamos que pensar no Reggie Southeron.

Não há dúvida de que dedica uma atenção excessiva a suas criadas, e não acredito que se trate de um hábito recente...

—Sem dúvida não. Mas também poderíamos considerar o mistério da Helena Douram.

—E isso por que, se se pode saber? Faz mais de dois anos que fugiu.

—Ah - respondeu Emily com impaciência-. Mas e seu amante? Quem era? Era ela a única? por que não a cortejou abertamente, se era um homem de honra? Por que ninguém soube alguma vez seu nome?

Charlotte compreendeu.

—Quer dizer que também poderia ter cortejado a outras e que os bebês poderiam ter sido seus? Thomas disse que a data de suas mortes era muito aproximativa. -Charlotte franziu o nariz-. Depende da natureza do chão, a umidade, etcétera. Parece-me horrível pensar em seres humanos desta maneira; embora imagine que a todos enterrarão alguma vez... Ao fim e ao cabo, quando nossa alma se vai não somos mais que pó. É incrível o apego que temos a nossos corpos... Falarei com a Jemima do assunto.

Emily conhecia o suficiente a sua irmã para dar-se conta que sua última frase fazia novamente alusão ao desaparecimento da Helena Douram, não à corrupção da carne.

—Como é essa Jemima? -perguntou.

—Muito agradável.

Charlotte o considerou uma brincadeira, já que supôs acertadamente que o que interessava ao Emily não eram precisamente suas qualidades de amabilidade e senso de humor.

—Ela não poderia ser, suponho... -disse Emily, olhando de esguelha a sua irmã.

—Não! -respondeu Charlotte com firmeza-. Ao menos eu diria que não, na medida em que através do caráter se pode julgar a alguém.

Emily refletiu sobre a questão.

—Não o é -decidiu finalmente-. Mas dá na mesma, concentraremo-nos primeiro na Helena. Não há dúvida de que aqui há um mistério encerrado.

Pergunte a Jemima e, pelo que mais queira, seja um pouco mais discreta do que costuma.

Por minha parte falarei com o Sophie Bolsover de novo. Ela sempre está mais que disposta a contar fofocas. Ainda tenho que pensar nas que sei para poder contar-lhe em troca...

Depois de permanecer um momento mais conversando agradavelmente com sua querida irmã, Emily retornou a casa e se preparou para empreender sua nova ofensiva. Primeiro faria uma visita de cortesia ao Sophie a uma hora em que houvesse a esperança de achá-la sozinha. A seguir procuraria ter ocasião de conhecer a última mulher da praça cuja residência achava um possível refúgio de segredos: Mariah Campbell.

Emily se sentiu decepcionada ao não achar ao Sophie em casa e, zangada, deixou seu cartão de visita ao mesmo tempo que punha em marcha seus recursos para dar com algo que pudesse dizer à Mariah Campbell, quer dizer, uma desculpa adequada para fazer uma visita inesperada a alguém a quem mal conhecia. Comunicar-lhe uma mensagem não serviria, já que os criados poderiam receber perfeitamente o recado. Assim tinha que lhe perguntar algo, mas... o que?

Emily já estava ante a porta. Seria estranho que permanecesse esperando sentada em uma carruagem imóvel, de modo que teve que apear-se e confiar em suas habilidades naturais para improvisar algo em caso de que Mariah Campbell se encontrasse em casa e estivesse em situação de recebê-la.

Perguntou à criada, que a atendeu cortesmente. Com efeito, a senhora Campbell estava em casa e, com efeito, sentiria se encantada de recebê-la.

A moça a conduziu até o pequeno salão familiar onde Mariah estava sentada em companhia de suas filhas. Ao que parecia ainda não tinham reatado as aulas depois das festas natalinas. As duas se levantaram e fizeram uma reverência assim que Emily foi anunciada, retirando-se discretamente a seguir.

Mariah Campbell era uma mulher de aspecto agradável, não exatamente formosa mas com uma distinção em sua pessoa que talvez fosse mais efetiva que a mera beleza. Usava um vestido muito favorecedor, mas sem concessão alguma às frivolidades da moda.

—Que amável de sua parte vir me fazer uma visita! -saudou enquanto ficava em pé para receber Emily tal como era regulamentar, dado que Emily era uma dama com título de nobreza e ela não.

Entretanto, não pretendeu simular nenhuma amabilidade especial; eram duas desconhecidas e as duas sabiam-.

Espero que aceite algum refresco. Talvez uma xícara de chá?

—Estaria encantada -aceitou Emily. Era evidente que não podia lhe dar a verdadeira razão de sua visita: curiosidade. De modo que teve que se apressar em inventar outra-. Lady Anstruther me disse - disse Emily, rogando a Deus que não existisse tal pessoa- que estiveram na Escócia, com os Taits -outra invenção-. Meu marido está bastante entusiasmado com a idéia de ir também visitá-los... Nos convidaram, sabe você? Mas ouvi que essa casa é muito desagradável! Fria como uma tumba, e com criados que sempre desaparecem quando se necessita deles e que nem sequer falam inglês. Esperava que pudesse me dizer se tudo isso é verdade.

Já saberá que a querida Marjorie tende a exagerar, a pôr um pouco de cor a tudo o que conta para fazê-lo mais interessante!

Mariah a olhou atônita. Evidentemente, tinha menos idéia do que Emily lhe estava dizendo do que tinha a própria Emily.

—Temo que não posso ajudá-la -admitiu-. Lady Anstruther... disse você? Não há dúvida de que me confundi com alguma outra pessoa. Campbell é um nome escocês, sem dúvida, mas bastante comum. E eu nunca estive em Escócia. Lamento-o, mas temo que não poderei orientá-la.

—OH, não importa! -disse Emily, erguendo a mão em atitude de esquecer o assunto antes de ver-se muito implicada nele e contradizer-se a si mesmo ao esquecer o que havia dito a princípio-. Acredito que poderei persuadir ao George de que não aceite o convite. De qualquer modo não gosta de muito de caça.

Emily nem sequer tinha idéia de quando era a temporada de caça, mas com um pouco de sorte tampouco saberia Mariah.

—Além disso, claro está - prosseguiu Emily com um repentino arrebatamento de inspiração-, devo estar aqui para o casamento!

Mariah piscou.

—Casamento?

—Christina Balantyne e o senhor Ross! -prosseguiu Emily com entusiasmo-. Me sinto tão feliz de que o pobre senhor Ross tenha conseguido finalmente superar a partida repentina da Helena Douram! Aquilo deve supor uma grande comoção para ele, pobre criatura.

—Acredito que foi uma comoção para todo mundo - respondeu Mariah-. Ou pelo menos uma surpresa. Certamente eu não tinha nem idéia.

—Mas saberia ao menos que tinha outro admirador? -inquiriu Emily, arqueando as sobrancelhas.

—Para falar a verdade, estou muito ocupada com minha própria família e só conheci a senhorita Douram levemente. De fato me acontece o mesmo com todas as restantes famílias da praça, à exceção da Adelina Southeron, claro está, graças a seus filhos.

Esta afirmação parecia pôr ponto final ao tema. Mas Emily não estava disposta a renunciar tão cedo.

—Tenho certeza de que o senhor Ross se sentirá satisfeito com Christina desde que ela se proponha.

—Satisfeito? -A voz de Mariah mostrou compreensão e compaixão ante uma emoção tão morna.

Mas Emily queria dizer exatamente o que havia dito.

—Isso, acredito eu. Sou da opinião de que isso é tudo o que uma pessoa pode aspirar a fazer por outra. A felicidade é algo que alguém tem que lavrar-se por si mesma e não depende de outros, não lhe parece?

Mariah contemplou a sua interlocutora com cautela, mas antes de que pudesse dar com uma réplica adequada se abriu a porta dando passagem ao Garson Campbell. Emily só o tinha visto uma vez e não lhe tinha parecido um homem muito agradável.

Ao que parecia, ele a recordava bem.

—Boa tarde, Lady Ashworth - lhe disse sem prestar atenção à Mariah.

—Boa tarde, senhor Campbell. -Emily esperou de todo coração que Mariah não lhe repetisse a ficção que inventara para justificar sua visita-. Se encontra bem?

—Bastante bem - respondeu-. É muito amável de sua parte vir nos visitar.

—Estávamos a ponto de tomar o chá -indicou Mariah com calma- Gostaria de nos acompanhar?

—Acho que não - respondeu ao mesmo tempo que esboçava um gesto azedo-.

Duvido que pudesse contribuir a seus falatórios. Prefiro um tema um pouco mais político.

—Como? -replicou Emily antes de ter tempo para pensar que talvez não lhe conviesse irritar ao senhor Campbell.

—Perdão?

—Prefere você algo mais político que o que, senhor Campbell?

—Ah, compreendo, Lady Ashworth. Com efeito, não tinha idéia do que falavam quando entrei na sala. Só me apoiei em experiências anteriores.

Ainda não conheci nenhuma mulher de bom caráter que tivesse o mínimo sentido da política. Só as rameiras parecem ter essa aula de perspicácia.

—Seriamente? -inquiriu Emily, erguendo as sobrancelhas e esforçando-se por conceder a sua voz um tom de humor-. Nunca discuti que política com uma rameira. Em troca sim tive ocasião de conhecer ministro Balfour.

—Rogo-lhe aceite minhas desculpas, Lady Ashworth -respondeu com um sorriso áspero-. Então devo supor que falavam de política quando as interrompi?

—Absolutamente. Estávamos falando do Mr. Ross e de quem pôde ser o admirador misterioso da Helena Douram.

Emily observou atentamente o rosto do Campbell. Às vezes os homens confiavam o um no outro. Não devia descartar a possibilidade de que ele soubesse algo. Em efeito, sua pele se escureceu, esticando um instante nas têmporas. Emily se sentiu vitoriosa. Campbell sabia algo!

—É muito amável de sua parte me haver devotado uma taça de chá, senhora Campbell -disse Emily ao mesmo tempo que ficava em pé-, mas temo que me apresentei em sua casa sem avisar e lamentaria importuná-la. Já foi suficiente prazer para mim ter tido ocasião de conhecê-la um pouco mais. Espero vê-la de novo.

Agora Emily só desejava achar-se fora dessa sala e o mais longe possível do Garson Campbell antes que tivesse tempo de perceber as suas intenções. Era um homem com quem não desejaria ter que trocar estratégias.

Mariah não pareceu surpreendida de sua súbita marcha.

—Assim o espero também - disse, fazendo soar a campainha-. Foi muito generosa ao vir me visitar. Lamento não havê-la podido ajudar com a Escócia.

—OH, rogo-lhe que não se preocupe por isso. -Emily já se dirigia até a porta, onde do outro lado ouviu aproximar os passos da criada através do vestíbulo-. Duvido que ao final nos decidamos a ir a algum lugar, especialmente se continuar este tempo tão mau.

—Continuará, Lady Ashworth - disse Campbell do centro da habitação-. Sempre faz mau tempo de janeiro a março, continuamente e sem exceção. Nunca o vi de outro modo. A única diferença que achará você em Escócia é que ali o tempo será ainda pior.

—Então não há dúvida de que não devemos ir - disse Emily, quase tropeçando com a criada que acabava de acudir-. Obrigado por seu conselho.

Emily deixou ao Campbell sorrindo desdenhosamente ante sua estupidez e se apressou em alcançar a rua. Subiu à carruagem com um suspiro de alívio ao sentir o ar frio no rosto. Pelo menos escapuliu da necessidade de livrar-se de uma conversa cada vez mais impossível. Que homem tão desagradável! Se havia algo ainda mais cansativo que a gente estúpida era a gente que achava saber tudo... e não gostava nada.

Na vez seguinte que foi visitar Sophie Bolsover achou a Euphemia e Adelina Southeron com ela, por isso não pôde dizer nada da Helena Douram nem esperar obter nenhuma resposta. Tiveram que transcorrer vários tediosos dias para que Emily, desesperadamente impaciente, pudesse visitá-la de novo sem que a freqüência de suas aparições parecesse imprópria. Desta vez teve mais sorte, embora a sorte não foi quão único a ajudou... Antes tinha tomado a precaução de explorar um pouco o terreno, de modo que, tal como esperava, achou Sophie satisfatoriamente sozinha.

—OH, Sophie, que alegria encontrá-la parada! -exclamou Emily, entrando como Pedro por sua casa sem dissimular o mínimo-. Tenho umas intrigas tão maravilhosas que lhe contar! Teria me sentido decepcionada se tivesse visto obrigada a falar unicamente de trivialidades!

O rosto do Sophie se iluminou. Nada lhe agradava mais que os falatórios, especialmente se estes procediam de uma dama com título de nobreza.

—Entre! -apressou-a-. Fique cômoda, Emily, querida, e me conte isso tudo! É sobre Lady Tidmarsh? Estava-morrendo por saber se de verdade fica com esse espantoso Joneses! Quase não posso resistir a incerteza...

Isso era precisamente o que Emily esperava que Sophie ia perguntar lhe, e

tinha tido que remover céu e terra para obter antes a resposta.

-claro que sim! -disse em atitude triunfante-. Mas tem que me jurar que não vai dizer isso a ninguém!

Esta última observação acrescentava ao assunto um interesse irresistível.

Sophie dissimulava com estupidez e não podia evitar que seus olhos resplandecessem de excitação. Quase empurrou literalmente ao Emily até o divã que havia junto ao fogo, sentando-se frente a ela com a agilidade própria de um felino.

Me conte! -me implorou-. Conte isso tudo!

Emily condesceu por fim, amadurecendo sua informação com algum outro detalhe inofensivo que talvez inclusive fosse certo e que não fazia senão proporcionar um pouco de cor à história.

Quando acabou, Sophie parecia ficar imersa em um verdadeiro êxtase. A informação do Emily a provia de histórias para semanas! Historia para as insinuar meramente a certas pessoas e para repetir com luxo de detalhes a aquelas a quem desejasse impressionar, uma por uma, com os respectivos juramentos de confidencialidade absoluta...

E, é claro, histórias que se negaria em redondo a explicar a aquelas pessoas a quem desejasse chatear um pouco, embora subministrando as indiretas necessárias para convencê-las do fascinante e exclusiva que era a informação que possuía e que sua discrição supostamente lhe impedia de divulgar. E não seria mais que um pecado venial deixar cair de vez em quando o comentário de que sabia ainda mais aspectos, mas que tinha prometido mantê-los em estrito silêncio. Em definitivo, Sophie estava fora de si de júbilo.

Agora tinha chegado o momento ideal de lhe perguntar pela Helena Douram, pois Sophie não se negaria a lhe contar tudo o que sabia ou suspeitava. Emily não vacilou em manifestar seu interesse.

—OH! -replicou Sophie ainda exultante-. Claro! -de repente franziu o sobrecenho-. Mas essa história já está um pouco passada de moda! De verdade, lhe interessa?

—OH, sim! -assegurou-lhe Emily-. Me parece uma história fascinante. Quem pôde ter sido ele?

Sophie enrugou a fronte em gesto de profunda reflexão.

—Helena era muito formosa, sabe? Uma autêntica beleza, poder-se-ia dizer.

Seu cabelo refletia todo o colorido de um pôr-do-sol invernal, como costumava dizer o pobre senhor Ross. Ficou terrivelmente transtornado quando fugiu, sabe?

"Espero que seja feliz com a Christina. É uma moça muito diferente da Helena. Tanto por seu aspecto, naturalmente, como por seu caráter.

—Como era Helena? -perguntou Emily com ar de inocência.

—OH - murmurou Sophie, refletindo de novo-. Era uma mulher tranqüila, não muito aficionada na moda. Claro que tampouco precisava sê-lo: era bastante formosa para impressionar qualquer um levando um vestido simples. E não tinha necessidade de ser engenhosa. Tocava muito bem o piano e também costumava cantar. Às vezes penso que também eu adoraria saber cantar.

Você sabe fazê-lo?

—Não muito bem. Era uma moça reservada?

—Sim, bastante. De fato, se parar a pensar nisso, não se pode dizer que tivesse muitos amigos. Embora fosse bastante aficionada a Euphemia Carlton.

—Que tipo de homens gostava?

Sophie esticou sua musculatura facial fazendo um novo esforço por recordar.

—Os homens sólidos. Não me refiro só ao aspecto material, mas também aos que triunfaram em algo e que estejam bem estabelecidos. Em definitivo, homens amadurecidos. Talvez porque passou muitos anos sem pai, pobre moça.

Admirava muito ao general Balantyne, por certo. É um homem atraente, não lhe parece? Tem um ar de autoridade e dignidade... Se não quisesse tanto a meu Freddie, não duvide que lhe jogaria o olho!

—Por isso não se casou com o senhor Ross? Porque não era o bastante sólido para ela, ou talvez muito jovem? -perguntou Emily.

—O certo é que não o tinha pensado, mas esse poderia ser o motivo. Ela valorizava muito que um homem tivesse segurança em si mesmo, embora também não fazia nenhum caso ao pobre Reggie Southeron... Mas é tão irresponsável! Não tem a classe de... aquilo que os romanos chamavam gravitas, como costuma dizer meu Freddie. Soa tão masculino isso de gravitas! Não lhe parece? Uma palavra verdadeiramente excitante!

—Nesse caso é improvável que fugisse com um moço sonhador que não tivesse um penny, não lhe parece? Nem tampouco com ninguém de classe social pouco elevada -acrescentou Emily com ar interrogativo.

O mistério se tornava cada vez mais escuro! Para Emily era fascinante e cada vez mais incompreensível.

Os olhos de Sophie se abriram pela surpresa.

—OH, não! Estranharia muito que tivesse feito algo assim. OH, querida, supõe você que ele já poderia ter estado com outra, de modo que optaram por fugir juntos? Que idéia tão espantosa!

—Onde acredita que pôde conhecê-lo? -prosseguiu Emily-. Se se viam em alguma festa ou ato social, as pessoas saberiam quem é ele... mas ninguém sabe!

—OH, não, tiveram que ver-se em algum lugar secreto - concordou Sophie-.

Nem sequer Laetitia sabe quem é. Ou pelo menos isso diz, e para que ia mentir?

Salvo, claro está, que se tratasse de alguém simplesmente horrível... Mas não imagino a Helena apaixonando-se por alguém horrível. Era muito orgulhosa e exigente.

—Era exigente?

—OH, muitíssimo! Não, não há dúvida de que deviam ver-se em algum lugar secreto.

—Bem, mas teria que estar perto daqui, não acha? -disse Emily, pensando em voz alta-. Ou do contrário teria tido que tomar uma carruagem, e nesse caso ao menos o cocheiro saberia... E não se pode confiar em um cocheiro, nem sequer pagando por seu silêncio, já que inclusive nesse caso sempre pode haver alguém que lhe pague mais. Não, não deverá confiar-se nos criados, especialmente os homens; sempre tendem a aliar-se com outros homens.

—Mas... onde se veriam então? -perguntou Sophie-. OH, claro! Já sei. Ou pelo menos sei exatamente o que faria eu em seu lugar!

—O que... ? -A anterior compostura do Emily se desvaneceu por completo.

—Pois na casa vazia, claro! A casa que há do outro lado da praça está há muitos anos vazia! Pertence a uma anciã que não quer vendê-la nem residir nela. Acredito que prefere viver na França ou em algum lugar igualmente estranho. Agora está bastante descuidada, mas antes era uma casa atraente, e na parte de trás há uma pracinha. Um cantinho romântico ideal para um encontro amoroso. Aí teve que ser! Não lhe parece que fui muito esperta ao pensar nisso?

Emily, em troca, pensava que tinha sido uma estúpida por não ter pensado nisso imediatamente, mas naturalmente teria sido muito pouco amável e diplomático dizer isso ao Sophie.

—OH, sem dúvida! -concordou entusiasta-. E estou convencida de que tem razão. Inclusive diria que algum dia averiguaremos quem foi.

—E se fôssemos dar uma olhada? -sugeriu Sophie-. Talvez encontremos algum objeto que esqueceram! O que lhe parece?

Emily já tinha decidido fazê-lo no mesmo instante em que Sophie mencionou a casa. Certo que não desejava levar Sophie com ela, mas ao que parecia não havia escapatória.

—Uma idéia magnífica! -concordou-. Faremos isso na primeira oportunidade que nos apresente. Mas pareceria estranho e chamaríamos desnecessariamente a atenção se o fizéssemos com esta chuva. Amanhã, se não chover, passarei pra recolhê-la e iremos juntas.

Emily olhou ao Sophie para lhe dar a entender que, se fosse antes por seus próprios meios, Emily já não voltaria a lhe confiar seus falatórios. Pôde ver na expressão de Sophie que tinha captado a mensagem perfeitamente.

Emily ficou em pé.

—Querida, esta foi à visita mais excitante que fiz em muitos meses.

Morro de impaciência por nosso próximo encontro.

Dirigiu-se para a porta e Sophie a acompanhou, esquecendo-se de chamar à criada devido à emoção antecipada que sentia pela aventura do dia seguinte.

Uma vez na soleira, Emily se voltou para ela.

—OH, importar-lhe-ia que levasse comigo a minha irmã Charlotte? É uma criatura muito inteligente e poderia nos ser de ajuda.

A expressão do Sophie decaiu por uns instantes, embora ante a possibilidade de que Charlotte lhes fosse de ajuda se iluminou de novo.

—Não, claro que não -assegurou-. Se for sua irmã não me cabe dúvida de que será igualmente encantadora.

Emily poderia ter discutido esse ponto; Charlotte unicamente era encantadora quando se propunha sê-lo, e duvidava que Sophie conseguisse lhe tirar o melhor de si, mas isso agora importava pouco. Dedicou-lhe um sorriso encantador e partiu, o coração palpitante por seu triunfo.

Suas preces foram escutadas e o dia seguinte foi frio e seco. Passou a procurar Charlotte na primeira hora da tarde e se dirigiu com ela ao Callander Square, lhe explicando sua missão pelo caminho, assim como à necessidade que tinha de agir rapidamente. Não confiava no Sophie para não temer que se passasse pela casa sem esperá-la, descobrindo o que ali pudesse haver antes de que Emily e Charlotte chegassem. Era improvável que tivesse ido pela manhã, já que o dia tinha amanhecido úmido e as ruas estavam geladas. Mas essa tarde Sophie podia ter decidido escapulir-se sem o Emily, confiando em que esta não a pilhasse em flagrante.

Chegaram ao Callander Square e desceram da carruagem, dando instruções ao cocheiro e o lacaio para que as esperassem ali. Recebeu-as diretamente Sophie, que já estava esperando-as com as botas de rua postas e a capa preparada em mãos do criado. Em só cinco minutos chegaram à cancela do jardim da casa desocupada. Foi preciso o esforço das três para abri-la de um empurrão devido ao muito tempo que estava fechada.

Uma vez na soleira, vacilaram.

O jardim que ocultava a cancela estava gelado e envolvido em uma sinistra quietude. Das árvores caíam pedaços de gelo e os paralelepípedos do atalho estavam recobertos de musgo e lodo. Havia folhas mortas sobre a grama e canteiros. Se alguma planta seguia viva, permaneceria adormecida até a primavera.

—É triste ver um jardim assim -murmurou Charlotte-. Alguém devia fazê-lo arrumar alguma vez, e haveria gente que passeava e conversava animadamente entre estas mesmas árvores.

—Com efeito: Helena Douram e alguém mais - respondeu Emily com seu habitual praticidade. - Entremos.

Com passo silencioso sobre o leito de folhas mortas que se afundava sob seus pés, as três mulheres entraram no jardim com certo sentimento de aversão.

Charlotte fechou a cancela para ocultar sua presença. Seguiram o atalho com tato, temerosas de escorregar no lodo dos paralelepípedos, que ladeava toda a casa até a erva da parte de trás. Uma vez ali, viram que a grama estava empapada e novamente recoberta de folhas. um pouco mais adiante havia uma pracinha de madeira com um teto de palha meio derrubado; sem dúvida ao longo dos anos uma miríade de pássaros tinha estado bicando e roubando a palha para seus ninhos.

—Aqui! -disse Emily triunfante-. Aqui é onde se reuniriam clandestinamente dois amantes.

Dito isto, avançou a toda pressa até a pracinha pela lamacenta grama arrastando raminhos e folhas com a saia. Charlotte a seguiu pressurosa, enquanto Sophie preferiu percorrer o trecho com cuidado, saltando de paralelepípedo em paralelepípedo pelo que ainda ficava de atalho.

Charlotte e Emily ladearam a pracinha e entraram nela. Estava bastante abandonada, com o telhado de palha caindo a partes e vários assentos desmoronados pelo caruncho, com partes espalhadas pelo chão.

—Meu Deus... -disse Emily-. Duvido que tudo isto possa ter ficado assim em só dois anos!

—Não importa -disse Charlotte a suas costas-. Não esqueça que estamos em janeiro. Com certeza isto no verão devia ser bem diferente. As árvores teriam folhas e tudo estaria cheio de flores e pássaros. Certamente pareceria um jardim secreto. Não acredito que a Helena e seu amante importasse que estivesse um pouco descuidado.

—Um pouco?

—Vamos ao ponto - disse Charlotte ao mesmo tempo que olhava ao redor-. Vê algo que indique que alguém esteve utilizando esta pracinha? Helena poderia ter perdido um lenço ou algo assim, ou ter-se arranhado em algum ramo uma parte de vestido. Certamente aqui não faltam lascas de madeira onde rasgar a roupa...

As duas começaram a inspecionar ao mesmo tempo que Sophie se reunia com elas.

Ao cabo de vários minutos se convenceram de que não havia nada que descobrir, e Charlotte e Emily foram para a porta traseira do jardim. Sophie ficou atrasada, considerando que ainda não tinha procurado o suficiente.

Depois de atravessar uns matagais, Charlotte se deteve em seco e Emily se deu de bruços contra ela.

—Que demônios lhe passa? -perguntou, mas olhou por cima do ombro de sua irmã e o sangue lhe gelou no corpo.

As duas mulheres estavam junto a um estreito atalho que rodeava a uma grande árvore. De um dos ramos pendia um balanço de jardim, e nele, com os esqueléticos dedos ainda agarrando as cordas, viam-se os ossos limpos do que em seu dia tinha sido uma mulher. Do assento do balanço pendiam alguns restos esfarrapados do que fora seu vestido, agora cinza por efeito de várias estações de chuva e de sol. Moscas e outros insetos tinham devorado sua carne e de sua celebrada beleza já não ficava mais que um pouco de pele ressecada, mechas de pálido cabelo amarelo e as unhas dos dedos. Grotescamente, as baleias de seu espartilho ainda permaneciam inteiras, embora afundadas no lugar que antigamente tinha ocupado o ventre e, em sua parte superior, liberados da matriz, apareciam os ossos diminutos, semelhantes aos de um pássaro, de um menino que nunca nasceu.

—Helena! -exclamou Charlotte-. É Helena!

 

Quando Reggie Southeron chegou a casa depois de sua habitual partida de cartas vespertina, achou a Adelina pálida e com os olhos chorosos. Pareceu- lhe uma visão preocupante, pois ele, por sua parte, estava de um humor excelente depois de ter ganho uma boa soma de dinheiro, ter compartilhado um bom brandy, fumado magníficos charutos e feito umas quantas brincadeiras jocosas.

Tinha se proposto manter seu bom humor durante o resto da tarde, mas descobrir a Adelina de tão mau aspecto teve um efeito negativo. Reggie tratou de diverti-la para que esquecesse suas aflições, fossem quais fossem. Ao fim e ao cabo, as mulheres mudam de humor tão facilmente... Com certeza não era nada importante.

—O que acontece, querida? Não se encontra bem? -perguntou-lhe afavelmente-. Não se preocupe, já passará. Tome uma taça de brandy e te animará. Eu a acompanharei.

Para sua surpresa, Adelina aceitou, e uns minutos mais tarde os dois estavam sentados na saleta, as cortinas fechadas à escuridão da noite e compartilhando o calor de um bom fogo. de repente Adelina pôs-se a soluçar de novo, levando um lenço aos olhos.

—Pelo amor de Deus, querida! -respondeu Reggie com certa aspereza-. Controle-se um pouco! De nada te servirá chorar.

Sua esposa lhe dedicou um olhar pouco amável, enxugando-os olhos com mais afinco.

—A única coisa que posso deduzir de sua atitude é que ainda não soube - respondeu ela com indignação.

—Pois não - concordou ele-, e se essa notícia me fará estar tão triste como você, prefiro não me inteirar. Se a alguém aconteceu uma desgraça, sinto-o por ele, mas como não poderei ajudá-la, continuarei ignorante de seus sórdidos detalhes.

—Seu dever é sabê-lo! -exclamou sua esposa com tom acusador.

Reggie tentou protestar, mas Adelina não estava de humor para conter-se.

—Acharam a Helena Douram!

—E isso é motivo de tanto pranto? Ao fim e ao cabo, fugiu. Se agora não gostar da vida que leva, é uma pena, mas dificilmente será assunto de nossa responsabilidade...

—Morta! -replicou Adelina, deixando cair à palavra como se fosse uma condenação-. Está morta há dois anos, sentada no balanço do jardim da casa vazia, sustentando-se ainda como se continuasse viva... E com certeza assassinaram-na!

Reggie não dava crédito a seus ouvidos; era algo sinistro, uma perturbação sórdida e desagradável de todas as coisas seguras e confortáveis, quer dizer, das únicas coisas que ele apreciava.

—Por que tem tanta certeza? -perguntou-. Poderia ter morrido de um enfarte, um ataque ou algo assim.

—Estava grávida!

—Quer dizer que já lhe fizeram a autópsia? -inquiriu com surpresa e certo desgosto-. Tão rápido?

—Não havia nada mais que seu esqueleto - respondeu Adelina, chorando de novo-. Só havia ossos. Nellie me disse.

—E quem é Nellie? -Reggie não recordava ninguém com esse nome.

—A criada. Nem sequer pode se lembrar dos nomes de seus criados?

Reggie se surpreendeu sinceramente ante aquela observação.

—E por que diabos teria que me lembrar? Nem sequer acredito tê-la visto jamais. Lamento sobre Helena, mas, querida, é um assunto muito sórdido. Falemos de outra coisa. Estou certo de que assim se sentirá melhor. -Reggie teve uma inspiração repentina-. E pense que nós não gostaríamos de alarmar às crianças. Se a virem tão aflita se inteirarão, e não acredito que seja um assunto apropriado para eles...

Mas a de Reggie era uma esperança ridícula. Ao menos Chastity ia descobrir em seguida, enfeitado com luxo de detalhes; e mais, provavelmente soubesse já.

Mas as palavras do Reggie soaram compreensivas e caiu nos ouvidos de sua esposa.

Adelina lhe olhou com certa incredulidade, mas preferiu não discutir.

De modo que Reggie se dispôs iniciar uma agradável noite junto ao fogo, a ingerir um bom jantar regado com Porto e talvez a beber um pouco mais de brandy. Agora mesmo Helena e seus problemas já não tinham remédio, de modo que não havia nada que ganhar incidindo em temas tão desagradáveis como cadáveres em jardins abandonados, assassinatos e demais misérias humanas.

Em qualquer caso, sua paz se viu turvada às nove em ponto quando o criado lhe levou uma nova garrafa de Porto e anunciou que o doutor Bolsover esperava ser recebido.

Reggie ficou em pé, surpreso.

-OH! Bem, faça-o entrar -disse a contragosto. Realmente não estava de humor para manter conversas, mas Freddie era bom tipo, bem educado, possível fonte para um agradável momento de bate-papo civilizado regado com Porto-. Ponha outra taça para ele.

—Já me permiti fazê-lo, senhor. Direi ao doutor Bolsover que se reúna com o senhor. A senhora Southeron já se retirou a seus aposentos.

—Muito bem. Sim, obrigado. Isso é tudo -disse Reggie acomodando-se de novo. Felizmente não havia necessidade de ficar em pé para receber ao Freddie.

Freddie entrou uns instantes mais tarde, elegantemente vestido com um meio casaco vinho que combinava com a palidez natural de seu rosto.

—Boa noite, Freddie -saudou Reggie com indolência-. Sirva-se você mesmo uma taça de Porto. Uma noite imunda, verdade? Em qualquer caso, junto ao fogo se está bem. Sente-se.

Freddie seguiu as sugestões de seu anfitrião e, com a taça na mão, sentou-se na poltrona que havia frente a ele. Tomou um gole de Porto e o saboreou na boca.

—Um assunto desagradável o da Helena Douram, não lhe parece? -respondeu, erguendo a vista.

Reggie se sentiu desconfortável. Não desejava discutir esse assunto.

—Sim, muito desagradável -concordou subitamente-. Em qualquer caso, é água passada.

—OH, duvido-o! -objetou Freddie com um sorriso nos lábios.

—Está morta - replicou Reggie reclinando-se ainda mais em sua poltrona-. Não há nada mais concludente que isso.

—Com efeito, supõe o fim da Helena, pobrezinha - concordou Freddie enquanto erguia a taça para admirar a formosa cor do Porto a contraluz-. Mas só é o começo de outras coisas.

—Por exemplo?

—Pois para começar, as circunstâncias de sua morte. -Os claros olhos azuis do Freddie permaneceram fixos em seu interlocutor-. E quem a matou. A polícia quererá sabê-lo.

—Certamente morreria de morte natural. -Reggie achava o muito mais detestável. Começava a desejar que Freddie partisse-. Em qualquer caso, não é nosso assunto.

—Mas a polícia rondará por todos os lugares da praça, e isso sim é nosso assunto -replicou Freddie, ainda olhando-o nos olhos e sorrindo.

Um tipo encantador, esse Freddie, mas menos oportuno do que Reggie imaginava. Tinha escolhido um mau assunto para trazer à tona em casa de um vizinho cujo Porto se estava bebendo.

—Meu não -insistiu Reggie, estirando as pernas.

Sem dúvida o fogo era excelente. Esquentava Reggie da cabeça aos pés.

—OH, logo se converterá em assunto de todos. Voltarão a nos fazer perguntas. Disso pode ter certeza.

—Mas eu não sei nada. Não posso ajudar. Não sei quem era seu amante. Não me interessa esse tipo de coisas, falatórios de mulheres. Que esse polícia interrogue a elas se quer fazer bem seu trabalho.

—Quem? Pitt?

—Sim, acredito que se chama assim...

—Não duvide de que o fará. Mas também nos interrogará .

Freddie também se reclinou um pouco na poltrona.

—Não tenho nada que lhe dizer. -Reggie tinha terminado sua taça e se serviu um dedo mais. A sala parecia cada vez mais cálida e vermelha-. Nada absolutamente.

Houve um momento de silêncio.

—Nesse caso, deduzo que não foi você... -soltou Freddie de repente.

—Eu? -Reggie já tinha esquecido o assunto e começava a pensar em outras coisas. Em mulheres bonitas. Na Jemima, para ser mais exato. Uma criatura encantadora, tão feminina...-. Do que me está falando?

—Do amante da Helena, certamente. -Freddie continuava sorrindo de um modo quase imperceptível-. Não foi você, não é, velho amigo?

—Pelo amor de Deus! - Reggie se endireitou como impulsionado por uma mola-. Claro que não fui eu!

—Simplesmente pensei que poderia tê-lo sido. Além de tudo, tem afeição por esse tipo de coisas...

—Afeição? A que demônios se refere? -Reggie pareceu ofendido; tinha sido uma observação francamente descortês.

—Afeição pelas mulheres jovens - precisou Freddie, que não parecia afetado absolutamente-. Mary Ann, Dolly e quem sabe quantas mais...

—Mary Ann é uma criada! -exclamou Reggie com indignação-. Todo mundo se afeiçoa a alguma ou outra criada de vez em quando. E o do Dolly aconteceu faz muito tempo. Preferiria não falar desse assunto. Acredito que já lhe disse isso.

—OH, claro que me disse isso! -concordou Freddie-. Não convém que o faça, especialmente agora...

—O que quer dizer? -Reggie não gostava da aparência que tomava a conversa-. por que agora?

—Bem, ao que parece Helena também estava grávida - informou Freddie, ainda olhando-o nos olhos e sorrindo-. E depois há esses bebês do jardim... Se a polícia soubesse sobre Mary Ann e sobre pobre Dolly, poderia chegar a muito desagradável conclusão de que todas estas histórias estão inter-relacionadas. Não o acha assim?

De repente o calor do fogo se retirou das pernas do Reggie, lhe deixando uma profunda sensação de frio em todo o corpo. Aquela idéia era terrível, espantosa! Sentiu a boca ressecada. Olhou atônito ao Freddie, tratando de convencer-se de que não o tinha compreendido bem.

—OH, suponho que sim... -O sorriso do Freddie parecia haver-se solidificado em seu rosto. Estava suspenso no ar frente à Reggie, como se em toda a sala só houvesse esse sorriso-. Entende o que quero dizer? - insistiu Freddie.

—Sim - disse Reggie, escutando sua própria voz longínqua e dotada de um timbre mais delatadoramente agudo do desejável-. Mas não averiguarão nada de tudo isso. Quero dizer, não há nada pelo que possam inteirar-se. Você é o único que sabe do assunto; sobre Dolly, quero dizer.

—Com efeito - concordou Freddie, estendendo o braço em busca da garrafa de Porto embora sem deixar de olhar ao Reggie-. Assim tudo depende de mim, não é assim?

—Pois sim, pelo amor de Deus, mas você não vai dizer nada!

—Não, claro que não - afirmou Freddie e bebeu um gole de Porto-. Certamente que não. -Tomou um gole mais-. Na medida em que me lembre em todo tempo do que disse e não me contradiga...

—Mas não o fará!

—Espero que não. De qualquer modo, isso não tem muita importância. Com certeza com um aviso não me passaria.

—O que... o que quer dizer, Freddie?

—Um aviso -respondeu Freddie sem lhe dar importância-. Algo que mantenha minha mente alerta, algo que ajude a não esquecer, algo o bastante grande para convertê-lo em um tema importante.

Reggie o olhou atônito e com fria admiração. Pouco a pouco ia acendendo uma luz em sua mente, e não gostava nada do que esta iluminava.

—O que tem em mente, Freddie? -perguntou-lhe.

Reggie gostaria de dar um murro na aquele homem tão comodamente sentado junto a seu fogo e seu Porto. Mas sabia que não podia permitir-se esse luxo. Precisamente agora que a polícia procurava qualquer gesto ou atitude estranha. Chegaria o momento, certamente, quando todo o assunto tivesse passado à história e a vida seguisse seu curso habitual: então poderia ajustar as contas ao Freddie. Esse homem era um canalha!

Mas enquanto isso...

—O que quer, Freddie? -repetiu.

Freddie continuava sorrindo. E pensar que sempre lhe tinha parecido um homem agradável! Tinha um sorriso tão franco...

-Tenho essa estúpida fatura pendente com meu alfaiate – replicou Freddie com absoluta falta de vergonha-. Faz tempo que me ronda a cabeça. Me dê uma mão com ela, velho amigo! Como favor pessoal. Pensa que se em lugar desse desprezível alfaiate fosse eu o proprietário de minha própria roupa, meu agradecimento a você seria eterno...

—Mais lhe valerá!

—Sê-lo-á, asseguro-lhe isso. Pensarei em você cada vez que me vista.

—Quanto quer?

—OH, acredito que com cem libras me arrumarei isso...

—Cem libras! -Reggie deu um pulo. Não se gastava tanto dinheiro em roupa em todo um ano, e não teria tolerado que Adelina gastasse nem a metade. Por todos os diabos, aos criados não pagava mais de vinte libras ao ano!-. Maldita seja, como pode te permitir a desfarçatez de...!

—Eu gosto de me vestir bem, já sabe. -Freddie ficou em pé. Era um homem alto, esbelto e elegante: o certo era que se vestia muito bem, imensamente melhor que Reggie; claro que também tinha a figura adequada para isso... Mas mesmo assim!-. Obrigado, velho amigo! -disse alegremente-. Não o esquecerei.

—Por Deus que mais lhe vale!

Reggie sentiu como a ira e o pânico ganhavam terreno em seu interior. Se Freddie se esquecesse, ou se voltava atrás em sua palavra...

—Não se preocupe -disse Freddie com ligeireza-. Tenho uma excelente memória, quando me proponho a isso. Sou médico, já sabe. Os médicos nunca repetem o que seus pacientes lhes confiam. A polícia não pode exigir-lhe É um sistema absolutamente seguro. -Freddie avançou elegantemente para a porta-. Aceitarei essas cem libras agora mesmo. Meu alfaiate está um pouco impaciente, sabe? Não me aceitará encomendas se não lhe pagar. É um canalha desprezível.

—Não as tenho aqui - replicou Reggie com aspereza-. Enviarei a meu criado ao banco pela manhã. Levar-lhe-á isso amanhã mesmo.

—Muito bem, mas não o esqueça, Reggie. A boa memória pode ser uma qualidade de vital importância. Com certeza o compreende.

Com efeito, Reggie o compreendia perfeitamente. Ia ter a um criado à porta do banco no mesmo instante em que abrissem as portas. Maldito Freddie. E o pior era que teria que comportar-se educadamente com essa sanguessuga. Não havia modo de evitá-lo. Se lhe falasse com maus modos, a gente ia dar-se conta, e tinha que conservar a boa vontade de Freddie como fosse, ao menos até que a polícia renunciasse a suas investigações e abandonasse a praça.

Reggie tomou assento de novo. Alegrou-se de que Adelina não estivesse ali.

Desejava estar só. Tinha sofrido uma comoção e, quanto mais pensava no assunto, mais repugnante lhe parecia. Quem lhe tivesse dito que Freddie podia chegar a comportar-se como um rato de esgoto? Se andasse escasso de recursos, qualquer um o teria compreendido. Mas daí a recorrer ao... chantagem!

Claro que tudo ficaria esquecido se a polícia averiguasse a identidade da desgraçada moça, coisa muito improvável, ou simplesmente renunciava a seguir adiante com suas pesquisas, que parecia o mais certo. Mas então uma desagradável pergunta foi a sua mente: que fazia a polícia quando não conseguia resolver um caso? Renunciavam definitivamente? Ou simplesmente o afastavam, mantendo-o em um canto de sua memória, com o ouvido sempre receptivo a novos detalhes? A mera possibilidade era aterradora! E se alguma vez renunciavam de todo, deixando o caso como uma chaga aberta, pinçando nela cada vez que ameaçasse cicatrizar por completo? Podia converter-se em um algo desagradável, em um rumor permanente que nem seria admitido publicamente, apagando-se assim de tudo, nem poderia demonstrar-se como falso.

Santo Deus! Nesse caso, o que podia fazer com o Freddie? Esse canalha voltaria a lhe fazer chantagem uma e outra vez! Cem libras por aqui, um favor social por lá, uma indicação ou recomendação financeira sob mão, um presente disto ou aquilo... Pelo amor de Deus, seria o conto de nunca acabar! Era monstruoso!

O melhor que poderia acontecer a Reggie era que esse maldito Pitt descobrisse ao culpado e esclarecesse definitivamente todo o maldito assunto.

Então Freddie poderia dizer o que tivesse vontade. Sem dúvida isso afetaria à reputação do Reggie durante uma temporada e Adelina ficaria bastante transtornada, mas sua relação com ela não era muito estreita, assim que isso suporia uma perda menor em comparação com uma chantagem perpétua do Freddie. E a ele, o mero fato de ter traído sua confiança como médico e amigo lhe causaria um dano público bastante maior. Quem confiaria nesse tipo depois de algo assim? Não, ver-se obrigado a confessar o segredo de um amigo submetido à pressão pela polícia era uma coisa; isso daria ao Freddie uma boa desculpa.

Mas divulgá-lo por aí, como se de um mero falatório se tratasse, seria um engano imperdoável para sua carreira profissional, e sem dúvida Freddie sabia.

Assim, Reggie estaria definitivamente seguro se Pitt descobrisse ao culpado.

Ao pensá-lo, Reggie se acomodou confortavelmente na poltrona e estirou as pernas de novo. Realmente, o fogo de sua lareira era excelente. Fez soar a campainha para chamar o criado, deu-lhe as instruções oportunas para que fosse ao banco no dia seguinte e lhe pediu mais Porto. Reggie nunca teria dito que entre duas pessoas pudessem acabar com uma garrafa inteira, mas aí estava a prova: vazia. Em qualquer caso, uma experiência terrível como a dessa noite reclamava um tonificante. Era compreensível.

Agora tinha que ver no que podia ajudar a esse maldito polícia para resolver o assunto de uma vez, para que todo mundo soubesse a quem deveria negar a saudação e a quem não. Feito isto, a polícia voltaria para a classe habitual de crimes dos bairros pobres para cuja resolução estava realmente preparada.

Reggie dormiu perguntando-se no que poderia ajudar ao Pitt.

Na manhã seguinte Reggie despertou tarde, tal como costumava. Levantou-se, deixou-se vestir por seu valete e engoliu um bom café da manhã de papa de aveia, bacon, ovos, rins em molho picante, salsichas, cogumelos, torradas, manteiga, geléias e, claro está, uma boa taça de chá recém preparado.

Depois de iniciar o dia assim deveria sentir-se muito melhor. Entretanto, não foi assim. À luz cinza e prosaica da manhã, a probabilidade de que a polícia descobrisse à moça lhe parecia quase impossível.

Sem dúvida esse Pitt era um pássaro inteligente e inquisitivo, mas onde podia achar provas? Além de tudo, já tinham passado muitos meses, inclusive anos, desde que alguém enterrasse a aqueles desafortunados bebês. Poderia tê-lo feito qualquer um!

Inclusive alguma moça desgraçada dos bairros vizinhos. Nem sequer tinha que ser alguém do Callander Square! Esses vagabundos não tinham pensado nisso?

"Não seja asno! te acalme, Reggie. Claro que o terão pensado. A isso devem dedicar seu tempo quando não estão bisbilhotando por aqui. E a verdade é que passam aqui muito pouco tempo, tendo em conta que provavelmente trabalhem de sol a sol cinco ou seis dias à semana. Claro que sim, já devem ter interrogado a toda a praça."

Depois de dizer-se isto, Reggie começou a sentir-se melhor e passou uma manhã bastante agradável indo ao centro, passeando-se pelo banco mercantil de que era diretor, almoçando opíparamente no clube e retornando a casa às quatro e meia da tarde, quando já começava a anoitecer e cair uma fina chuva. As luzes de gás do lugar estavam parcialmente obscurecidos pela névoa e as árvores estremeciam pelas rajadas de vento. Uma noite de cães.

Ainda bem que lhe esperava um bom fogo e uma boa mesa a que sentar-se.

Saudou cortesmente as crianças e é claro também a Adelina, e começava a relaxar enquanto fazia a digestão do jantar quando alguém bateu na porta.

—Adiante -disse com certa surpresa.

Chastity entrou, afetada e bonita.

—O que acontece, pequena? -inquiriu Reggie com cenho. Não estava de humor para falar.

—Tio Reggie, a senhora Waggoner me disse que se quiser aprender matemática tenho que lhe pedir permissão. Por favor, posso?

—Não. Para que necessitará matemática?

—Eu gostaria de aprender pelo prazer de aprender - replicou Chastity- Você me disse que sempre tinha que fazê-lo assim.

—Mas a matemática nunca lhe servirá de nada - respondeu Reggie com determinação.

—Tampouco me servirá aprender a pintar, mas você me disse que devia aprender igualmente.

—Mas pintar é uma arte e isso é diferente. As mulheres devem aprender a praticar corretamente alguma arte: isso lhes dá algo que fazer enquanto crescem e procuram marido. Do contrário, no que iria empregar seu tempo?

A lógica do Reggie era implacável. A pequena Chastity não acharia réplica contra semelhante argumento. Seu tio a olhou nos olhos com satisfação.

—Poderia me casar com um policial - respondeu a menina-. E então seria pobre, de modo que teria que administrar minha própria casa. Nesse caso poderia me ser muito útil saber matemática porque assim poderia economizar.

—Não seja ridícula! -Realmente essa menina estava se tornando impossível-. por que diabos iria casar se você com um policial?

—Porque eu gosto. Eu gosto do senhor Pitt. Eu gostaria de me casar com ele, se não fosse porque já o está. Hoje tornou a estar aqui e falou com a Mary Ann. Não acredito que descubra quem matou a esses bebês, sabe? Ele mesmo me disse isso . Continuará sendo um mistério para sempre. Passaremo-nos a vida nos perguntando quem é o culpado e pensaremos coisas horríveis um do outro, e ninguém saberá nunca o que passou seriamente. Quando eu for muito velha, ou seja, quando tiver quarenta ou cinqüenta anos, contarei- esta historia a meus netos e lhes direi que a praça está encantada pelos fantasmas de uns bebês que choram e que foram assassinados muito tempo atrás, porque então já teria passado muitíssimo tempo, e ninguém saberá nunca quem o fez. E jogaremos a adivinhar quem pôde ser e...

—Silêncio! -exclamou Reggie furioso. Não conseguia recordar a última vez que tinha perdido os estribos, mas o de agora já era muito para ele. Essa menina dizia autênticas sandices! Umas sandices absurdas, ridículas e aterradoras. Tinha visões de escravidões permanentes, de alguém lhe chupando o sangue até lhe deixar seco, de temores que o perseguiriam durante o resto de sua vida!-.

—Silêncio! -exclamou de novo-. Isso não é verdade! Descobrirão quem foi. A polícia é muito esperta. Estão a ponto de descobrir, e saberemos logo.

Reggie ainda notava seu coração pulsando com força, mas já não tão descontroladamente como uns momentos antes.

Chastity o olhou com surpresa nos olhos, mas sem perder um ápice de sua compostura.

—Você acredita nisso, tio Reggie? Eu não. Será um terrível mistério para sempre e todo mundo irá por aí murmurando coisas. Deixa-me que estude matemática, por favor?

—Não!

—Mas eu quero.

—Dá na mesma, não pode!

—Por que não?

—Porque o digo eu. E agora vá à cama. Já é hora.

—Ainda não. Ainda falta uma hora.

—Faz o que lhe disso, pequena. Vá para a cama.

Reggie sabia que se estava comportando com arbitrariedade, mas esta permitia não ter que dar explicações às crianças. Nem sequer era preciso ter um motivo coerente. Ao ser arbitrário, a gente podia fazer o que tivesse vontade. Além disso, para as crianças era bom aprender a obedecer.

Chastity obedeceu, mas com um olhar de desgosto e certo desdém. A rabugice desse olhar incomodou-o.

Reggie permaneceu sentado com a vista fixa na poltrona vazia que tinha diante, os pensamentos vagando com desgosto crescente. E se Chastity tivesse razão e a polícia nunca o descobria? As pessoas continuariam falando do assunto.

Além de tudo, que motivo teriam para deixar de fazê-lo? Os falatórios eram a fonte vital dos círculos sociais femininos. O que não era real ou conhecido tinha que inventar-se! Espantoso mas certo. Claro que também viriam à luz outros assuntos, outros escândalos... mas ante a menor suspeita, este caso ressuscitaria com todas suas obscenas especulações.

E Freddie saberia e se aproveitaria disso. Santo céu, podia estar pagando durante o resto de sua vida a uma repugnante sanguessuga... a um vampiro que o deixaria seco pouco a pouco! Uma perspectiva terrível!

Reggie se surpreendeu de pé, sem ter tido consciência de que se levantara.

Tinha que fazer algo. Mas o que? Seu cérebro era como um queijo: só continha buracos. Não poderia fazer nada só, isso estava claro. Era incapaz de gerar uma boa idéia por si mesmo. Quem poderia lhe ajudar? Era melhor não mencionar a Adelina, já que o difundiria imediatamente por toda a praça. De qualquer modo, ela era precisamente uma das pessoas que deveria manter afastadas do tema. Seria difícil compreender sobre Mary Ann, e mais ainda sobre Dolly.

Se soubesse, converteria sua vida em um inferno, e Reggie valorizava especialmente o conforto, a tranqüilidade e o bom ambiente de seu lar. Nenhum aspecto desagradável do mundo exterior entrava nele, e Reggie queria manter as coisas assim a qualquer preço.

E obviamente, por motivos meramente práticos, também era preciso que protegesse sua posição no banco, que lhe oferecia uma situação muito folgada e prazenteira, assim como interessantes influências.

Mas nada disso podia lhe servir agora. Em sua imaginação, Reggie via esse paraíso escapar das mãos, deixando-o nu e desprotegido frente à realidade da vida: nada de comidas suculentas, de grandes fogos, de poltronas confortáveis, de tardes do verão com morangos, de criados para algo, de festas a prazer.

Via-se nu e vulnerável por completo, como um grande animal esfolado, preparado para ser aniquilado pelos primeiros ventos invernais.

Necessitava de ajuda. Quem era a pessoa mais inteligente e com maior prática que conhecia? A resposta foi a sua mente imediatamente: Garson Campbell.

Não havia tempo a perder. De qualquer maneira, não poderia descansar até que tivesse tomado alguma medida para pôr fim a essa desgraçada situação. Sua mente estava em ebulição. Chamou o criado para que levasse seu casaco. Fazia uma noite espantosa e Reggie odiava molhar-se, mas seu desconforto interior era imensamente pior e se tornava mais agudo com cada pensamento que ia a sua mente.

Encontrou ao Campbell em casa e disposto a recebê-lo, embora dada a urgência com que se anunciou ao criado que foi abrir, o teria surpreendido senão tivesse sido assim.

—Bem, Reggie, a que vem esse pânico? -disse Campbell com um de seus leves sorrisos cáusticos-. Para William pareceu que atravessa uma crise.

—Maldição, Campbell, descobri algo espantoso! -Reggie se deixou cair em uma poltrona e ergueu a vista em direção ao Campbell com o coração acelerado-. Algo verdadeiramente horrível.

Campbell não se deixou impressionar.

—Ah. Imagino que lhe assentará bem uma taça de Porto. -Era uma mera observação; não um convite.

Reggie se endireitou.

—Não estou brincando, Campbell, trata-se de um assunto endiabradamente sério!

Campbell se aproximou do aparador para vê-lo de frente, talvez levemente preocupado pelo timbre de sua voz.

Reggie podia sentir como cresce o pânico. E se Campbell não quisesse ajudá-lo?

—Estou sendo submetido a uma chantagem! -replicou-. Em troca de dinheiro! Ao menos de momento só é dinheiro. Deus sabe no que pode converter-se dentro de pouco! Campbell, toda minha vida poderia ficar arruinada!

Esse canalha poderia tirar de mim tudo o que quisesse, como um vampiro aceso a minha garganta, me sugando a vida! É algo sinistro, espantoso!

Por fim Campbell se sentiu impressionado. Seu rosto se alterou levemente e certa dureza e interesse foram a seus olhos.

—Chantagem? -repetiu, a mão sustentando a garrafa de Porto, em atitude ausente.

—Sim! -A voz do Reggie soava cada vez mais alta e mais aguda-. Cem libras!

Campbell recuperou novamente o domínio e esboçou uma careta.

—Isso é muito dinheiro.

—Maldição, claro que é! Campbell, o que vou fazer? Temos que arrumar isto antes que seja muito tarde.

As sobrancelhas do Campbell se arquearam.

—Por que "temos", Reggie? Concordo que a chantagem é algo muito desagradável, mas por que ia eu a me implicar neste assunto?

—Porque se trata do Freddie, idiota!

Reggie tinha perdido os estribos uma vez mais. Estava francamente assustado. Todo seu estilo de vida se achava em perigo, e aí estava Campbell, com uma garrafa de Porto na mão e um sorriso sarcástico nos lábios como se tudo não fosse mais que um leve contratempo.

—Freddie? -Reggie percebeu certa gelidez na voz do Campbell. Seu rosto se endureceu; inclusive seu corpo-. Freddie Bolsover?

—Sim! Esse mal nascido do Freddie Bolsover. Foi a minha casa fresco como uma rosa, sentou-se na poltrona de minha biblioteca e bebeu meu Porto, me pedindo cem libras em troca de manter a boca fechada a respeito de minha afeição pelas criadas.

—E você lhe pagou?

As sobrancelhas do Campbell se arquearam e seus pequenos olhos cintilaram com cínica incredulidade e algo suspeitosamente similar ao regozijo.

Ou seja o que parecia tão divertido a esse idiota!

—Claro que lhe paguei! -exclamou Reggie furioso-. O que pensaria a polícia se soubesse que tenho certa fraqueza pelas criadas agora que estão farejando nesse ditoso assunto dos bebês? Poderiam supor que tive algo que ver com a Helena Douram, embora saiba Deus que jamais lhe toquei nem um cabelo!

Só me diverti que forma inofensiva com umas quantas jovenzinhas, mas nunca foi nada sério. Mas não posso esperar que esses cafajestes da polícia acreditem nisso!

Eles também pertencem à classe trabalhadora!

Campbell lhe olhou de soslaio por cima de seu longo nariz.

—Bem, vejo que está em um apuro, não é assim, Reggie? -Por fim Campbell terminou de servir o Porto e estendeu uma taça a seu amigo-. Entretanto, não acredito que alguém tenha motivos para relacioná-lo com a Helena Douram... Equivoco-me?

—Não!

—Então não sei por que se excita assim. O que pode dizer Freddie? Que parece que esteve pulando um pouco com suas criadas? Dificilmente poderiam condená-lo por isso. Por outra parte, como diabos poderia sabê-lo? Escutando os falatórios da criadagem? foste um imbecil ao lhe pagar.

Reggie se revolveu na poltrona. Era a morte da Dolly depois daquele aborto malogrado o que seriamente o assustava. Efetivamente, sobre Mary Ann não tinha maior importância, tal como dizia Campbell. Reggie contemplou a seu anfitrião, de pé no centro da sala, com seus largos ombros, seu sólido ventre e um tênue sorriso sarcástico nos lábios. Era um homem ardiloso e Reggie sabia, sempre o tinha sabido. Mas... poderia confiar nele? Necessitava ajuda de alguém. Era preciso parar os pés ao Freddie, ou do contrário lhe arrebataria tudo o que em sua vida tinha algum valor! Tirar-lhe-ia até a medula como se se tratasse de um animal repulsivo, levaria toda a comodidade de sua relaxada vida e convertê-lo-ia em um pobre desgraçado que só poderia beber água e comer pão e conservas. Antes preferiria estar morto!

Mas não sabia como começar a lhe contar a verdade.

Campbell esperava, olhando-o fixamente, os olhos ainda afáveis.

—É algo mais que isso... -começou Reggie-. Poderiam pensar que...

A boca do Campbell esboçou uma careta.

—Quero dizer... -tentou Reggie de novo-. Outras criadas poderiam...

Maldito fosse esse homem. Por que demônios lhe era tão difícil compreendê-lo?

—Quer dizer que poderiam pensar que tem algo que ver com a morte da Dolly? -ajudou-lhe Campbell.

Reggie sentiu um calafrio nas costas.

Campbell seguia olhando-o com cínico regozijo.

—Com efeito, isso poderia ser grave - respondeu pensativo-. Freddie foi o médico que a acudiu, não é assim? Claro, ele poderia contar à polícia com detalhe. E imagino que teria motivos para sentir-se desculpado de seu segredo profissional, em circunstâncias como estas... Talvez tenha feito bem em pagar, depois de tudo.

—Maldição! -Reggie se levantou da poltrona de um salto e ficou de pé olhando ao Campbell cara a cara. - Que me diga isso não me ajuda! Que diabos posso fazer?

Campbell adiantou o lábio inferior com ar pensativo.

—Para começar, não perder o controle. Estou de acordo com você, velho amigo. Mau assunto, realmente mau. Não tinha idéia de que Freddie fosse capaz de fazer algo assim...

—É um perfeito indesejável -respondeu Reggie com amargura-. Um vil canalha.

—Sem dúvida, mas isso só significa que ele tem o sangue-frio e a habilidade necessárias para fazer o que outros muitos também fariam de boa vontade, se tivessem coragem para isso. Não seja hipócrita, Reggie. Não é momento de ser farisaico; além de ficar em ridículo, não lhe servirá de nada.

—Me servir...? -Reggie ficou sem fala. Freddie era um perfeito canalha e aí estava Campbell falando disso como se o que lhe tinha feito fora um problema de logística em lugar de um ultraje.

—Claro que lhe servir! -confirmou Campbell com aspereza-. O que quer é evitar que esta situação se prolongue indefinidamente, não é assim? E imagino que por isso veio ver-me.

—Com efeito, assim é! Mas... não está surpreso? Quero dizer... Freddie!

—Faz anos que não me surpreende nada - respondeu Campbell sustentando sua taça de Porto a contraluz para examinar sua cor-. Só me surpreendo ocasionalmente. Costumam ser surpresas gratas, como sempre que espero o pior e finalmente não acontece, ou quando minha boa sorte dura mais do que esperava.

Mas a maioria da gente honesta que conheço só se surpreende por falta de coragem ou de imaginação. O homem é basicamente um ser egoísta. Note as crianças e o comprovará. Todos somos mais ou menos iguais, com uma mão disposta a arrebatar algo sempre que pudermos e um olho olhando por cima do ombro para ver quem nos está observando. Ah, e pode ter certeza de que nunca teremos que pagar por isso. Freddie simplesmente foi um pouco mais ousado do que eu supunha.

—Te esqueça de filosofias! Que demônios vamos fazer com este assunto? – inquiriu Reggie-. Não podemos permitir que siga adiante!

—Não haverá maneira de que siga adiante - disse Campbell - Assim que a polícia descubra ao responsável, o que considero quase impossível, ou renuncie a seguir com a investigação, o que terminará por fazer em algumas semanas, tudo terá terminado para você. Ao fim e ao cabo, não podem perder o tempo indefinidamente pelas ofensas de uma criada. Ninguém tem interesse pessoal no caso, e descobrir ao culpado não evitará que uma situação assim se reproduza no futuro. Simplesmente não perca a cabeça. Por minha parte falarei com o Freddie e o avisarei das coisas desagradáveis que poderiam lhe acontecer se sua consulta se convertesse em hábito tal atitude.

Pela primeira vez Reggie viu um vislumbre de esperança: uma esperança sã e racional. Se Campbell falasse com o Freddie talvez este desistisse de continuar chantageando-o.

Reggie nunca conseguiria assustar ao Freddie, mas era muito provável que tomasse mais a sério Campbell.

—Obrigado - respondeu sinceramente-. Acredito que com isso bastará. Freddie procurará não meter-se em problemas. Sim, excelente ideia. Obrigado de novo.

Campbell adotou uma expressão de incredulidade mesclada com regozijo, mas não disse nada. Reggie partiu com passo firme. Agora voltava a ver brilhar uma esperança.

Claro que o general Balantyne também se inteirou do espantoso achado do jardim abandonado, sentindo-se profundamente transtornado. Não conhecia muito bem a Helena, mas a recordava como a uma criatura encantadora, cheia de vitalidade, gentil, com uma prometedora vida à frente. Que a tivessem encontrado de um modo tão... A mera idéia era muito horrível.

Alguém tinha abusado dela e a tinha violado e presumivelmente assassinado. A notícia ainda não se estendera muito, e a polícia tampouco tinha acudido. Era de supor que ia fazê-lo hoje.

Enquanto isso continuaria trabalhando em seus papéis. A senhorita Ellison - embora agora pensava nela como Charlotte- tinha completado sua tarefa e já não vinha mais. Para falar a verdade, sentia falta dela. A biblioteca parecia vazia sem sua presença e era mais difícil para o general concentrar-se, como se estivesse à espera de algo.

Ainda não tinha conseguido meter-se de cheio em seu trabalho quando chegou à polícia. Era o mesmo tipo de sempre, esse Pitt. Recebeu-o na biblioteca.

—Bom dia, inspetor. -Não havia necessidade de perguntar o que o levava ali.

—Bom dia, senhor. -Pitt entrou com expressão séria. - Receio que não poderei lhe dizer nada de útil -começou Balantyne sem andar-se com rodeios.

Não conhecia a senhorita Douram mais por tê-la visto ocasionalmente quando ia visitar minha esposa e minha filha. Imagino que desejará vê-las também.

Estar-lhe-ia muito agradecido se se guardasse os aspectos mais sórdidos do assunto. Minha filha está a ponto de casar-se; depois de amanhã, para ser exato.

Não queria estragar...

O general se interrompeu. O que estava dizendo soava insensível, inclusive ofensivo, em uma situação em que uma pobre garota da mesma idade da Christina jazia reduzida a um montão de ossos recobertos de farrapos, em algum depósito de cadáveres, obscenamente devorada por animaizinhos e vermes! Pensar nisso lhe revolvia o estômago.

Pitt pareceu ler no rosto do Balantyne esses confusos sentimentos.

—Claro que sim - respondeu sem muita simpatia, ou pelo menos assim pareceu ao Balantyne.

Mas, ao fim e ao cabo, por que ia demonstrar lhe simpatia? Christina estava viva e se achava bem, a ponto de casar-se e de levar uma vida cheia de segurança e conforto e com toda classe de privilégios sociais.

E, para falar a verdade, embora não fosse de todo impossível que sua filha se sentisse transtornada e desgostada pela morte da Helena e pelo modo em que esta aconteceu, o general se sentiria francamente surpreso se o tema ocupasse seus pensamentos durante mais de meia hora, e ainda mais se a visse verter uma lágrima de compaixão.

—Estou interessado na vida da Helena - prosseguiu Pitt-. É em sua vida onde acredito que acharei a causa de sua morte, e não no que passou a seu corpo depois de morta. Estava grávida quando morreu, sabia?

Balantyne sentiu uma pontada de horror ante a dupla perda.

—Sim, isso ouvi. Desgraçadamente há poucas notícias que não vão de boca em boca em uma praça como esta.

—Tem idéia de quem pôde ser seu amante? -inquiriu Pitt.

Balantyne se sentiu repelido pela vulgaridade da pergunta. Helena tinha sido uma mulher distinta, uma... Nesse instante o olhar do Pitt lhe fez compreender que tratava de aferrar-se a um sonho irreal. Mas pensar assim... de uma mulher! Maldito fosse esse Pitt e suas miseráveis verdades.

—Sabe? -repetiu Pitt, embora se tratasse de uma redundância. A visível repulsa do Balantyne já tinha respondido por ele.

—-Não, claro que não! -respondeu Balantyne, dando-a volta.

—É natural que esteja aflito -disse Pitt com suavidade-. Estimava-a muito?

Balantyne não soube como responder a isso, de modo que se mostrou torpemente vacilante. A pálida beleza da Helena sempre lhe tinha parecido limpa e doce; talvez inclusive a tivesse idealizado um pouco.

Ouviu que Pitt falava de novo atrás de seu ombro.

—Acredito que ela também sentia uma grande admiração por você.

Balantyne estremeceu, surpreso, e Pitt sorriu levemente.

—As mulheres confiam umas nas outras, sabe? E atualmente estou bastante tempo fazendo perguntas sobre as mulheres desta praça.

—OH -disse Balantyne, afastando novamente a vista.

—até que ponto a conhecia, general Balantyne?

A voz do Pitt soava serena, mas na cabeça do Balantyne deu lugar repentinamente a um pensamento espantoso. Deu a volta sentindo como seu sangue acendia subitamente seu rosto. Olhou ao Pitt nos olhos, tratando de ver algum indício de suspeita neles, mas só achou um interesse ardiloso espreitando.

—Não muito - respondeu torpemente-. Já o disse... Unicamente a via em reuniões sociais, como vizinha minha que era. Nada mais.

Pitt guardou silêncio.

—Nada mais que isso... -prosseguiu Balantyne. Tentava esclarecer esse ponto para que Pitt pudesse compreender, mas titubeou e terminou por calar.

—Já vejo. -Com isto Pitt só quis dar a entender que o tinha ouvido.

Logo fez um par de perguntas mais antes de pedir permissão para falar com as mulheres da casa.

Quando se foi, Balantyne ficou na sala sentindo-se estúpido e perturbado.

Só dois ou três meses atrás tinha estado seguro de muitas coisas que agora se estendiam em fragmentos ameaçadores e estranhos ao redor dele. Grande parte dessas coisas tinham que ver com mulheres. Todas as convicções que tinham jogado um papel tão importante para a segurança de sua vida emocional tinham que ver com o que tinha pensado sempre das mulheres. Depois Christina se atou com esse inapresentável criado e agora estava a ponto de casar-se com o Alan Ross. Graças a Deus finalmente se alcançou uma solução aceitável para esse assunto. Por isso respeitava Augusta, produziu-se uma mudança de consideração com respeito a ela que Balantyne ainda não conseguia assimilar.

Euphemia Carlton estava grávida do filho de outro homem, coisa que considerava inexplicável, já que ao fazê-lo tinha traído sem excusa a um bom homem que a amava. E agora a pobre Helena Douram tinha sido seduzida, utilizada e talvez assassinada. Ou teria sido ela a assassina? Possivelmente nunca averiguassem a verdade. Pensar em tudo isto o afetava profundamente.

Mas o que de algum modo lhe era mais desconcertante, a idéia em que menos desejava pensar era a calidez especial com a que olhava ao Charlotte Ellison, o singular prazer que sentia em sua companhia, a exatidão com que podia recordar a curva exata de sua garganta e a rica cor de seu cabelo, a maneira como ela o olhava e quão profundamente sentia tudo o que dizia e fazia.

Era ridículo. Não tinha sentido sentir-se perturbado, esperançado ou violento, e muito menos solitário, por culpa de uma moça. Por alguém que sem dúvida o via unicamente como a um chefe! Ou talvez algo mais? Balantyne achava que possivelmente Charlotte sentisse certo respeito por ele... Possivelmente vizinho no afeto? Não, claro que não.

Deveria descartar essa idéia. Estava se convertendo em um perfeito idiota com os anos.

Balantyne pegou uma folha e começou a ler com fúria, embora passassem cinco minutos antes que as palavras começassem a criar imagens em sua mente e adquirissem vida própria e isolada no tumulto de seu cérebro.

Inclusive durante o jantar a conversa passou junto a ele sem que fosse consciente dela. Ele pagaria as bodas, é claro, mas deixaria todos os acertos, tão sociais como práticos, em mãos de Augusta. Atuaria tal como se esperava dele e seria tudo tão encantador como fosse necessário, mas os chatos preparativos ficariam fora de seu controle.

Nem sequer foi capaz de pôr atenção na desagradável discussão sobre a preceptora da casa do lado que mantinham Christina e Brandy. Quão único chegou a sua mente foi que Christina a estava denegrindo enquanto Brandy a defendia com um vigor que em outro momento o teria movido a pedir explicações a seu filho.

Preocupava-lhe no fundo que talvez Brandy estivesse desenvolvendo o que parecia uma afeição hereditária por manter aventuras com os criados.

Claro que para um homem era diferente, mas Brandy demonstraria bom senso se saciasse suas paixões juvenis longe de sua própria casa.

Depois de jantar mandou chamar o Brandy à biblioteca. O criado trouxe o Porto e se retirou, fechando a porta atrás dele.

—Porto? -ofereceu Balantyne.

—Não, obrigado, muito forte – disse Brandy negando com a cabeça.

—Compreendo suas inclinações, filho - começou Balantyne-. São muito naturais...

—Simplesmente eu não gosto muito do Porto - respondeu Brandy com ligeireza.

—Não me refiro ao Porto! -Acaso seu filho se estava fazendo de idiota com ele a propósito-. Refiro-me à senhorita como-se-chama? A preceptora da casa do lado. Uma criatura encantadora...

—Não é uma criatura! -replicou Brandy com um repentino arranque de ira-. É uma mulher exatamente igual à Christina, ou sua senhorita Ellison, ou qualquer outra!

—Não é igual à Christina - replicou Balantyne com frieza.

—Não, tem razão! -replicou Brandy-. Ao menos ela não se deita com o criado!

Balantyne ergueu a mão para esbofeteá-lo, sentindo-se vivamente ultrajado.

Mas então viu a calma que refletia o rosto do Brandy, dura e imutável. Baixou a mão. Ao fim e ao cabo, havia uma grande verdade no que havia dito e não desejava brigar com seu filho. Os dois eram muito diferentes mas mesmo assim Balantyne apreciava muito ao Brandy.

—Isso foi uma grosseria desnecessária de sua parte - disse baixando a voz-. Tenho certeza de que você também se deitou com quem não devia alguma ou outra vez.

Para sua surpresa, Brandy avermelhou.

—Me desculpe, pai - respondeu-. Não deveria haver dito isso. É só que tenho a Jemima em grande consideração, mas não na classe de consideração que você supõe. É igual a que acredito que sente você pela senhorita Ellison, e eu não insultaria a nenhuma das duas fazendo uma hipótese dessa natureza. –Brandy sorriu tristemente-. E mais, inclusive acredito que, ao fazê-lo, correria o perigo de ver-me com uma face torcida. Estou convencido de que a senhorita Ellison seria capaz disso e de muito mais!

Balantyne balbuciou algo entre dentes, sentindo-se incomodado ante a capacidade de percepção de seu filho. Havia um verdadeiro tumulto em seu interior; mas ainda assim forçou um sorriso.

—Eu também o diria - concordou com voz apagada-. Talvez seria melhor que falássemos de outro assunto.

Não levavam muito tempo falando de temas menos graves quando o lacaio anunciou Sir Robert Carlton. Brandy, com um sentido do tato pouco habitual nele, desculpou-se e abandonou o aposento.

Carlton recusou o Porto e permaneceu em pé no centro da sala com certa estupidez. Seu rosto evidenciava finas rugas produto da super agitação emocional vivida nos últimos meses.

-Um desventurado assunto o da pobre Douram - disse nervosamente-.

Pobre criatura. É espantoso pensar que estava há tanto tempo morta só a uns metros daqui e que ninguém sabia. Todos continuávamos com nossas próprias coisas.

Balantyne ainda não tinha pensado nisso desse ponto de vista, e só a idéia lhe revolveu o estômago: a imediatez da vida e da morte. Todos eles tinham passado tão perto e de modo tão indiferente junto aos apuros de outra criatura. Por Deus, era habitual que a gente passasse ao largo ante outros dessa maneira? Instintivamente procurou os olhos do Carlton. Havia algo novo neles.

—Com respeito sobre Euphemia... -titubeou Carlton.

Balantyne tentou que seu rosto expressasse parte da amabilidade que desejava sentir e que de fato sentia. Mas não disse nada, acreditando que era melhor limitar-se a esperar.

—Eu... -Carlton vacilava em busca de palavras-. Eu não soube me dar conta de nada. Devo ter sido muito... frio com ela. Ela desejava ter um filho.

Eu... não tinha nem idéia disso. Tomara... tomara ela tivesse tido a sensação de que me podia confiar isso. Por minha culpa não se atreveu a fazê-lo. Fui muito... Pu-la em um pedestal. Não me dava conta de... o pouco que pode ser o respeito. Ela só queria ter um filho...

—Já vejo. -Balantyne não via nada absolutamente, mas pôde sentir em sua própria carne a necessidade do Carlton, sua ânsia por acreditar que a atitude de sua esposa era compreensível e que ele mesmo a compreendia-. Sim, já vejo - repetiu.

—Parece-me... -prosseguiu Carlton-. Parece muito difícil me fazer à idéia, mas acredito que com o tempo o conseguirei. Acredito que devo considerar meu esse filho. Balantyne... quererá fazê-lo você também?

Suas feições coraram intensamente. Era incapaz de expressar com palavras o que sentia.

—Claro que sim -disse Balantyne-. Fazer qualquer outra coisa seria monstruoso e, além disso, bastante equivocado!

—Obrigado. -Carlton tinha as mãos tensas e a têmpora lhe palpitava-. Eu... a amo muito, sabe?

—É uma mulher de muita classe -disse Balantyne, e achava seriamente-. E ela te amará mais ainda por sua compreensão.

Carlton ergueu o olhar.

—Você acha? -Em sua voz havia um indício de esperança que era doloroso de escutar.

— Tenho certeza - disse Balantyne com firmeza-. E agora... de verdade não quer um Porto? É muito bom, sabe? Recomendou-me Reggie Southeron, e Reggie talvez não tenha nem idéia de nada, mas não há dúvida de que tem bom paladar.

Carlton suspirou aliviado.

—Obrigado; talvez aceite, depois de tudo.

 

Pitt não foi visitar Reggie Southeron até a tarde do dia seguinte. Acabava de acomodar-se em sua poltrona para repor-se dos inconvenientes que suportava deslocar-se em carruagem -fortes sacudidas, estalos continuados e salpicaduras-, quando anunciaram ao Pitt.

Reggie pensou seriamente negar-se a recebê-lo, mas estimou que talvez seria uma atitude pouco sensata. Poderia induzir ao Pitt a farejar mais a fundo em certos assuntos que Reggie preferia que deixasse de lado. De resto, não vê-lo suporia perder uma oportunidade de favorecer seu próprio caso, de proceder à defesa antes do ataque. Maldito Freddie Bolsover!

—Diga que entre - disse com certa crispação-. E será melhor que leve este xerez e traga uma garrafa dessa outra sujeira que têm na cozinha.

Seria néscio de sua parte insultá-lo não lhe oferecendo nada absolutamente... Mas mesmo assim tampouco havia necessidade de desperdiçar com um policial seu melhor xerez.

Pitt entrou, desalinhado como sempre, o casaco muito folgado e os ombros empapados pela chuva; sua expressão era afável e aparentava bom humor, mas seus olhos pareciam mais inquisitivos do que Reggie recordava.

—Boa tarde, senhor - disse Pitt.

Era estranho que um tipo de sua classe tivesse uma voz tão bem modulada e uma dicção tão impecável. Seriam ares de superioridade, não havia dúvida.

Com certeza assim tentava imitar a seus superiores.

—Boas! -replicou Reggie-. Suponho que vem por causa da pobre Helena Douram. Não posso lhe dizer nada; não sei absolutamente nada.

—Não, claro que não - concordou Pitt-. Tenho certeza de que se tivesse sabido algo já me teria dito. De qualquer modo... –acrescentou sorrindo repentinamente com uma expressão que, em outro momento, Reggie teria qualificado de encantadora... sempre e quando tivesse saído de alguém de seu próprio nível social, claro-.

Acredito que talvez poderia você me esclarecer alguns espaços em branco.

—Xerez? -ofereceu Reggie, erguendo a garrafa.

—Não, obrigado -recusou Pitt fazendo um gesto com a mão.

Reggie se serviu de um pouco, sentindo-se vexado. Agora que tinha feito trazer essa asquerosa mistura da cozinha, o maldito polícia não queria tomá-lo. Não ficava mais remédio que permanecer aí como um idiota e bebê-la ele só.

—Já o disse -repetiu com tom petulante-. Não sei nada da Helena Douram.

—Não de sua morte, talvez; mas com certeza saberá algo sobre sua vida - respondeu Pitt com naturalidade-. Talvez inclusive mais do que você pensa. Eu gostaria de conhecer sua opinião. É um homem de mundo. Sem dúvida, costuma criar uma opinião sobre a gente que lhe rodeia, em sua condição de banqueiro.

Reggie não soube por que se surpreendia ao ouvir isso. Esse Pitt tinha melhor olfato do que supunha. Com efeito, sabia julgar perfeitamente às pessoas em todos os aspectos. Lástima que com o Freddie se equivocasse tão estrepitosamente!

—Dir-lhe-ei tudo o que possa, naturalmente - disse cedendo um pouco-.

Um assunto chocante. Uma garota muito jovem, sabe?

—E bonita, me disseram. -Pitt arqueou as sobrancelhas com gesto interrogativo.

—Sim, muito, embora de uma beleza pálida. Muito loira para meu gosto, de aspecto frágil, mas muito bonita para quem aprecie a este tipo de mulheres.

Pessoalmente prefiro às mulheres um pouco mais robustas. -Não devia permitir que passasse pela cabeça do Pitt que Reggie poderia ter sido alguma vez seu amante. Boa idéia a de deixar em claro este aspecto desde o princípio.

—Tampouco eu gosto muito de loiras -concordou Pitt-. Ou ao menos as muito pálidas. Sempre me pareceram um tanto frias.

Talvez esse polícia não fosse tão malvado depois de tudo; humano, em todo caso.

—Com efeito -concordou Reggie-. Helena era uma garota agradável, educada e de comportamento exemplar, pelo que sei. Uma verdadeira pena.

Os brilhantes olhos do Pitt continuavam fixos nele.

—Sabe você quem a admirava especialmente? Com certeza teve muitos pretendentes.

—OH, claro! -concordou Reggie. Pitt lhe tinha dado uma oportunidade magnífica-. Alan Ross esteve muito apaixonado por ela naquela época. Mas imagino que você já saberá...

—Alan Ross?

—Sim. Um tipo que acaba de casar-se com a Christina Balantyne. Nesta mesma manhã, por certo.

—OH, sim, claro. Já tinha ouvido dizer que apreciava muito a Helena Douram.

—Não só a apreciava, asseguro-o. Estava louco por ela. Ficou terrivelmente

comocionado quando fugiu... embora agora deveria dizer "quando foi assassinada". -Reggie ergueu a vista para olhar ao Pitt-. Porque suponho que foi assassinada...

—Com efeito. Temo que não há duvida a esse respeito.

—Como podem sabê-lo? Disseram-me que o corpo estava...

—Certamente. Mas ficavam alguns fragmentos de roupa e, é claro, o esqueleto. Já não ficava carne nele, mas estavam todos os ossos. Tinha a nuca rompida. Deveram estrangulá-la umas mãos muito fortes.

Reggie estremeceu.

—Muito desagradável, não é? -concordou Pitt, embora Reggie pôde detectar um matiz estranho em sua voz que não soube classificar. Um tipo peculiar esse Pitt, embora tomasse muito a sério seu dever. Com um pouco de habilidade, possivelmente também poderia ser útil a ele.

—Ficou muito aflito, sem dúvida -prosseguiu Reggie-. Inclusive um pouco transtornado durante um tempo. Não é que pretenda sugerir que ele...

Absolutamente!

—Mas é uma possibilidade -disse Pitt, terminando a frase em seu lugar.

Reggie aparentou não querer dizer o que expressou a seguir:

—Tenho que admiti-lo.

—Mr. Ross lhe falou alguma vez de outro homem na vida da Helena, de um possível amante?

Reggie enrugou o rosto em um esforço por recordar.

—Não recordo. Mas, querido moço, embora pudesse recordá-lo não esperará de mim que repita algum comentário formulado ao acaso e por cuja causa poderiam chegar a pendurar a alguém -protestou Reggie com fingida dignidade.

—Não vamos pendurar a ninguém por umas palavras -replicou Pitt amavelmente, sorrindo de novo-. Você tem um imperativo moral que respeitar.

—OH, claro -concordou Reggie, satisfeito.

As coisas estavam indo muito bem; lástima pelo desafortunado Alan Ross, mas ao fim e ao cabo tampouco podia descartar-se que tivesse assassinado a Helena em um arrebatamento de ciúmes. depois de tudo, essa era a explicação mais plausível!

Pitt permanecia à espera.

—Bem... -vacilou Reggie, embora desta vez não por supostas reticências éticas, mas sim porque não lhe ocorria nada adequado que dizer-. Não posso recordar as palavras exatas, claro -prosseguiu, erguendo um pouco seu agudo timbre para o final da frase, como perguntando se Pitt realmente desejava que continuasse.

Mas na hora voltou a dar-se pressa, temendo que ao Pitt lhe ocorresse cortá-lo no último momento-. Só recordo o sentido geral. Ross estava muito apaixonado por ela. De fato, todos pensávamos que iriam se casar logo. Claro que o resto de nós não tinha nem idéia de que Helena tivesse um amante. Imagino que Ross o descobriria. Não sei como pôde fazê-lo. Nunca nos disse nada... Claro que tampouco o teria feito, não lhe parece? Seria muito insensato de sua parte, não é? Não é muito honroso que a mulher a quem ama se meta com outro tipo na cama.

—Certamente -concordou Pitt solenemente-. Uma situação muito grave. Qualquer homem poderia reagir movido pela paixão do momento.

—Exato! -respondeu Reggie com rapidez-. Exato.

—Por outro lado - disse Pitt depois de refletir uns instantes-, também poderia tê-la matado seu amante.

—Seu amante? -Reggie ficou desconcertado-. Por que, pelo amor de Deus? Eu pensava que ele seria o único favorecido pela situação, não? –Tratou de sorrir, mas só conseguiu esboçar uma careta-. Não vejo que tivesse motivos para lhe fazer mal.

—Estava grávida - recordou Pitt-. Levava um filho desse amante.

—Seriamente?

Um pensamento sombrio cruzou de repente pela mente do Reggie; supunha o começo de um temor muito pouco agradável.

—Seu amante se teria casado com ela se fosse livre para fazê-lo, não lhe parece?

Pitt o esquadrinhava com os olhos muito abertos. A mente do Reggie se converteu em um torvelinho. Era absurdo. Ele nunca tinha posto a mão sobre essa garota, assim não tinha motivo para inquietar-se. Mas aí estava Freddie e sua maldita língua. Se a polícia chegava a averiguar que gostava de dar alguma ou outra relação por aí, possivelmente não fossem capazes de compreender a diferença!

—Talvez não fosse um homem adequado como marido, penso – respondeu Reggie olhando ao Pitt de soslaio-. Poderia ter-se tratado de um comerciante ou algo assim. Helena Douram não poderia casar-se com um simples comerciante, não lhe parece?

Não era momento de preocupar-se com a sensibilidade de classe que pudesse ter Pitt. Esse tipo tinha que compreender que as distinções sociais existiam.

Embora sem dúvida soubesse já; era impossível não sabê-lo.

Mas em lugar de sentir-se ofendido, Pitt se limitou a considerar a questão com ar pensativo.

— Por acaso Helena sentia alguma atração especial pelos comerciantes? - inquiriu.

Maldição!, pensou Reggie, revolvendo-se. O que ia dizer agora? Se respondia que sim, seria evidente que estava mentindo. Pitt seria capaz de falar com todos os vizinhos da praça. Helena nunca tinha olhado a um comerciante em sua vida! Se de algo a podia acusar era de certo refinamento excessivo. O único homem, além do Alan Ross, pelo que Reggie a tinha visto demonstrar certa admiração era o velho Balantyne da casa do lado.

Provavelmente gostasse de sua pompa e sua prepotência de militar.

—Não - disse com toda a calma de que foi capaz-, não, absolutamente. - Sim, essa era a resposta ideal-. De fato nunca a vi demonstrar interesse por ninguém, que eu recorde - acrescentou, sopesando suas palavras-, à exceção do velho Balantyne. Sem dúvida um tipo de aparência agradável, o general. É natural que impressionasse a uma moça tão jovem como Helena Douram.

Reggie pensou que poderia permitir que Pitt começasse por aí. Não havia necessidade de lhe dizer que o general estava casado. O próprio Pitt fazia já a observação de que poderia tratar-se de alguém impedido de casar-se, de modo que só cabia esperar que deduzira o resto.

—Já vejo. -Pitt desceu a vista a seus pés para elevá-la de novo ao cabo de um momento, com ar zombador-. Não sentia admiração por você, senhor?

—Por mim? -Reggie pareceu surpreso-. Santo céu, claro que não! Sou um banqueiro mercantil, sabe você? Não é um trabalho tão excitante como estar no exército, certamente. Não tem nenhuma aula de encanto, asseguro. –Forçou um sorriso-. Não há nada em mim que pudesse ser atraente a uma jovenzinha sonhadora.

—Compreendo. Então, você acha que o general Balantyne pode ser seu amante desconhecido?

—OH, eu não disse isso!

—Claro que não. Você não seria capaz: vulneraria seu sentido da lealdade e tudo isso - disse Pitt, negando com a cabeça-. Muito admirável por sua parte.

Por que aquele maldito polícia parecia estar sorrindo para si mesmo?

—Acho ter entendido que Helena não cumpria com o ideal de beleza que lhe é atraente, não é assim?

—Perdão?

—Quero dizer que você nunca teria estado ciumento dela.

—Claro que não! Perdoe; quero dizer, certamente que não. Muito pálida e abatida para meu gosto. Prefiro algo um pouco mais... Estou casado com... -Não, isso soaria muito pomposo. Melhor esquecer.

—Tem você uma criada muito bonita, por certo - indicou Pitt-. Não pude evitar perceber. É uma das garotas mais formosas que conheci.

Reggie se ruborizou. Grande impertinente era esse Pitt! Ou não o dizia por nada em especial? Olhou à polícia com atenção, mas em seus olhos não viu nada que fosse além de uma mera apreciação inocente.

—Sim -concordou ao fim-. As escolhemos em função de sua aparência, já sabe. A boa presença é um fator muito importante em uma criada.

—Seriamente? -inquiriu Pitt, simulando interesse-. O certo é que alguém me disse que tem muito bom olho para as criadas.

Reggie estremeceu. Acaso Freddie...? Evitou o olhar do Pitt.

—Disse-o Freddie Bolsover?

—O Doutor Bolsover? -Pitt fingiu não compreender.

—Sim. Foi o doutor Bolsover quem lhe fez essa observação sobre mim e... as criadas? -disse Reggie, clareando a garganta-. Não tenha muito em conta o que possa lhe dizer. É jovem e tem um senso de humor muito pouco confiável.

Pitt franziu o sobrecenho.

—Não acredito compreendê-lo bem, senhor.

—Quero dizer que faz piadas desagradáveis - explicou Reggie-. Diz coisas que lhe parecem divertidas sem perceber que a pessoa que não o conhece pode levá-las a sério.

—Que tipo de coisas? Quero dizer, onde estaria a piada e onde o que verdadeiramente quer dizer?

—OH, bem... -"Pensa rápido, Reggie. Não te deixe levar pelo pânico. Conserva o sangue-frio"-. Nada relacionado com a medicina, é claro, nisso é um profissional de absoluta seriedade. Mas poderia fazer alguma piada sobre mim e as criadas, por exemplo.

—Refere-se a que poderia chegar a dizer que você tem uma aventura com uma criada, ou algo assim? -inquiriu Pitt.

Reggie notou como lhe subia o sangue ao rosto, de modo que se virou.

—Sim, esse tipo de coisas - disse aparentando desinteresse embora estivesse à beira da comoção. - Tem certeza de que não deseja tomar um xerez? Eu sim me servirei outro.

—Um senso de humor muito perigoso - observou Pitt-. Não, obrigado - disse lhe dando um olhar desdenhoso ao xerez-. Eu se fosse você falaria com ele para que deixasse de fazer esse tipo de brincadeiras. Precisamente em um momento como este poderiam ser muito graves para você.

—OH, sim, fá-lo-ei -disse Reggie-. Tem razão, deveria fazê-lo. Bom conselho.

—Surpreende-me que não o tenha feito já - prosseguiu Pitt-. Porque não o fez, não é verdade?

—O que? -inquiriu Reggie e a garrafa quase lhe escorreu da mão.

—Não terá falado já com ele a respeito? -perguntou Pitt arqueando as sobrancelhas.

—Ele...? Disse a você que sim? -Ao pronunciar isto, Reggie compreendeu que era uma pergunta estúpida-. Quero dizer...

—Tem feito isso?

—Bem, né...

Que diabos ia dizer lhe? Maldito policial... O que sabia em realidade esse Pitt?

Se Reggie pudesse estar informado do que Pitt já sabia, estaria em situação de preparar as réplicas oportunas, mas seguir dando paus de cego era muito arriscado.

Pitt fez uma careta -tinha um rosto muito expressivo- e olhou distraidamente as unhas.

—É bastante normal sentir atração por uma criada atraente – acrescentou Pitt com ar pensativo-. Há muitos homens que a sentem. Não há nada reprovável nisso. A única coisa que acontece é que precisamente agora poderia chegar a ser um comentário desafortunado. - Ergueu a vista e fixou no Reggie seu reluzente e penetrante olhar. - O doutor Bolsover não terá estado incomodando-o ultimamente, não é?

Reggie ficou de uma peça. Sentia que tinha o cérebro a ponto de explodir.

O que devia dizer? Podia confiar no Freddie? Esta era a oportunidade de desembaraçar-se dele e sua chantagem! Ou não? Embora... um momento! E se Pitt fosse ver o Freddie e o crivara a perguntas? Freddie lhe explicaria tudo sobre Dolly, e seria muito mal assunto para ele! Ou acaso saberiam já que alguém tinha ido ao banco e retirado as cem libras? Teriam estado falando com o criado? Era isso o que acontecia? "Calma, Reggie, pensa antes de falar. É fácil cair em uma armadilha."

—OH, não, de maneira nenhuma! -disse forçando um torpe sorriso-.

Freddie é um tipo decente. Um pouco estúpido às vezes, mas nada mais. Tem boas intenções.

—Alegra-me ouvir isso, senhor. - Os olhos do Pitt continuavam fixos no rosto do Reggie-. Só pensei que talvez tivesse você certos problemas.

—Pró... problemas? O que o faz pensar isso?

Era preciso que Reggie averiguasse o que Pitt sabia realmente.

—Falei com todos os criados -disse Pitt-. Durante o transcurso de minhas investigações, já sabe.

Reggie esquadrinhou seu rosto. Sabia! Sabia o do criado e sobre o banco! Se lhe explicava uma mentira sobre o que tinha feito com as cem libras, esse maldito iria comprovar e descobriria tudo! Muito perigoso. Tinha que inventar alguma outra coisa.

—Bem... -começou com dificuldade, espremendo o cérebro. A quem poderia jogar a culpa, se não ao Freddie? Quem não estaria em situação de negar uma acusação? Quem tinha alguma possibilidade de parecer culpado-. Bem... -para falar a verdade, é certo que tive problemas ultimamente... Não com o Freddie, é claro; Freddie é um cavalheiro. Ocorre que a preceptora... -Isso, muito bem!- A preceptora está um pouco perturbada...

É uma mulher solteira, sem pretendentes, ocupada em um trabalho no qual passa o dia lecionando às crianças. Ocorreram-lhe um par de idéias amalucadas e tentou me pressionar com elas. Em outra situação a teria mandado a passeio, mas precisamente agora, como você bem diz, teria sido grave. Assim lhe paguei. Suponho que não deveria tê-lo feito, mas quis manter a paz, sabe? Você também é um homem casado. Espero que o entenda. Se não lhe tivesse pago teria se posto a difundir os falatórios por toda a praça. Mas não acredito que volte a fazê-lo. Em qualquer caso, até que você não esclareça todo este assunto não haverá necessidade de... Compreende-me?

—OH, não, claro - respondeu Pitt com atitude compreensiva. – Devo entender que não deseja pôr uma denúncia?

—Santo céu, não! Meu único propósito ao lhe pagar era aquietar o assunto o mais possível. Ela negaria tudo se o perguntasse...E eu faria o mesmo. Não fica outro remédio, tenho esposa, já sabe. Também tenho que pensar nas crianças, três filhas. Imagino que já sabe. Duas são minhas e a terceira é a filha de meu irmão. O pobre moço foi assassinado. Acolhi-a em minha casa, naturalmente.

—Sim, uma menina encantadora.

—Sim, sim. Bem, então me compreende? Queria deixar o assunto tal como está. Seria desagradável que se divulgasse. As meninas apreciam muito a sua preceptora... e é muito boa em seu trabalho -acrescentou precipitadamente-.

Muito boa.

—Claro. Enfim, muito obrigado, senhor. Foi de grande ajuda.

—Bem. Me alegro. Espero que tudo se esclareça logo.

—Eu também o espero. Boa noite, senhor, e obrigado de novo.

—Boa noite; sim, sim, boa noite.

Charlotte se sentiu indignada quando no dia seguinte se inteirou da confissão do Reggie. Ao sabê-lo-se afastou bruscamente do aparador junto ao qual tinha permanecido de pé para olhar cara a cara ao Pitt.

—Quer dizer que esse canalha dissoluto te disse que Jemima lhe está chantageando e você se limitou a ficar aí e lhe permitir que o fizesse? - inquiriu-. Isso é uma ruindade!

—Não podia contradizê-lo - observou Pitt-. Sua história parece improvável, mas não impossível.

—Claro que é impossível! -exclamou Charlotte-. Nunca ocorreria à Jemima chantagear a alguém.

—Isso é o que lhe diz seu coração - respondeu Pitt sorrindo-lhe com uma mescla de afeto e regozijo.

Mas Charlotte continuou implacável. Estava absolutamente convencida de ter razão; só lhe faltava achar a prova.

—Pois muito bem! -replicou lhe olhando de novo com determinação-

Então, de coração, seriamente pensa que vale a pena investir dinheiro para manter em segredo que se deita com a criada? Possivelmente todo mundo sabe já. E Mary Ann não leva tanto tempo trabalhando com ele -acrescentou Charlotte com uma nota de triunfo intelectual na voz-. Não o suficiente para ter sido a mãe do primeiro bebê! Mas havia outra que trabalhou pouco tempo na casa antes dela. Casou-se e se foi. E antes houve outra que morreu. -Charlotte olhou ao Pitt nos olhos, presa de uma crescente excitação-. Todo mundo sabe que Reggie Southeron se comportava mal com elas.

Imagino que inclusive sua mulher sabe, por muito que pretenda não saber...

Pitt franziu o sobrecenho.

—Por que? Por que diabos ia pretender não saber? Eu pensaria mais que se teria posto furiosa e teria terminado imediatamente com essa situação.

Charlotte suspirou com paciência. Às vezes os homens se mostravam como criaturas muito pouco inteligentes!

—Eu diria mais que ela não deseja ser objeto contínuo das atenções de seu desagradável marido -explicou-, por isso sem dúvida se sentirá contente que ele tenha decidido dedicar-se a outra. Claro que se se visse forçada a saber...o, quero dizer, se todo mundo soubesse que ela sabe, então teria que queixar-se, sentir-se injuriada, escandalizar-se e tudo o resto. A sociedade esperaria dela essa atitude. Mas inclusive em tal caso ficaria em muito mau lugar: não deixaria de ser uma esposa enganada. Uma posição bastante humilhante.

—Mas é uma esposa enganada! -replicou Pitt-. À exceção, é claro, de que se acredite na mentira, mas em qualquer caso a ofensa seria a mesma.

—Não, não o é -disse Charlotte olhando-o de esguelha. Simulava ser tão ignorante ou de verdade não conseguia compreender? Havia vezes em que Pitt zombava de uma maneira espantosa.

Pitt permaneceu inocentemente à espera.

—Não é uma ofensa - prosseguiu Charlotte ao cabo-, sempre que gosta que ele o faça; ao menos, não é uma ofensa contra ela. A ofensa consistiria em converter a sua mulher em uma estúpida em público. Todo mundo sabe que Reggie o faz e todo mundo sabe que sua mulher não se importa. Mas se ela se visse forçada a saber, então teria que montar uma cena, o que a faria parecer ridícula, ou aceitá-lo publicamente, o que seria imoral.

—Grande cinismo! Onde diabos aprendeu todo isso?

Charlotte fez expressão de desgosto.

—Sim, sei. Sei que é bastante desagradável, mas isso é o que acontece.

Emily me ensinou muitas coisas. É muito boa observadora, sabe? E também conhece muitíssima gente dessa classe... da alta sociedade, quero dizer. Eu nunca conseguiria agir assim. Provavelmente eu montaria uma cena espantosa.

Pitt sorriu.

—Não me cabe dúvida de que a montaria, querida.

Charlotte lhe dedicou um olhar fugaz, a que Pitt respondeu erguendo as mãos em atitude defensiva.

—Não se preocupe, não podemos nos permitir o luxo de ter uma criada, e juro que nunca porei a mão em cima à senhora Wickes.

Tendo em conta que a senhora Wickes pesava oitenta quilos e tinha bigode, Charlotte não estimou uma grande concessão de sua parte.

—E o que vai passar com a Jemima? -perguntou.

—Ele não quer denunciá-la.

—Claro que não quer! Porque não é culpada!

—Estou de acordo com você -respondeu com ar pensativo-. E isso me faz perguntar por que me contou toda esta história. Parece mais uma invenção supérflua e perigosa, não acha?

— Dá na mesma ! Jemima nunca lhe faria chantagem.

—Isso, por sua vez, expõe a interessante pergunta de quem o está fazendo realmente.

Charlotte conteve o fôlego.

—OH!

—Com efeito -disse Pitt, levantando-se agilmente da poltrona.

—Não vai denunciá-la? -inquiriu Charlotte, lhe agarrando o braço.

—Não. Mas vou ter que dar parte.

—É necessário?

—É claro.

—Mas isso lhe faria muito dano! Provavelmente seja incapaz de demonstrar que não o fez. Talvez nunca consiga fazê-lo!

Pitt apoiou a mão docemente na do Charlotte por um instante antes de afastá-la.

—Já sei, querida. Eu gostaria de poder demonstrar que esse tipo é um mentiroso.

—OH... -Charlotte sabia que não tinha sentido continuar discutindo. Se havia algo que fazer, teria que pô-lo em prática ela mesma.

Portanto, assim que Pitt se foi, também ela abandonou a casa deixando uma nota à senhora Wickes e se dirigiu ao Callander Square. A única desculpa que lhe ocorreu foi fazer uma visita ao general Balantyne e inventar rapidamente algum serviço mais, algo que tivesse esquecido de lhe dizer ou preparar.

Quando bateu na porta a recebeu o criado. Ainda não tinha conseguido arranjar nada satisfatório para justificar sua presença, mas felizmente o criado não lhe perguntou pelo motivo de sua visita, limitando-se a conduzir a à biblioteca. Ali estava o general, sentado na escrivaninha, aparentemente sem trabalhar pois não havia nenhuma pena sobre ela.

Tão somente olhava fixamente muitos papéis. Elevou a vista com certa alegria assim que ela entrou.

—Charlotte, querida, quanto me alegro de vê-la!

Ela não estava preparada para uma recepção tão cálida. Era um homem realmente imprevisível. Talvez ainda estivesse embargado pela alegria das bodas da Christina?

—Bom dia, general - respondeu com a melhor mescla de formalidade e afetividade que foi capaz de conseguir.

—Entre. -O general já estava em pé, rodeando a escrivaninha para ir a seu encontro-. Sente-se junto ao fogo. Faz um dia francamente desagradável, mas imagino que não se pode esperar outra coisa em pleno janeiro.

O primeiro impulso de Charlotte foi declinar o convite de se sentar, mas então recordou que ainda não tinha pensado em nenhuma razão que justificasse sua visita e, ao menos, isso lhe daria tempo.

—Obrigada. Com efeito, faz muito frio. Acredito que o notamos tanto por culpa do vento.

O general se limitou a contemplá-la sem dizer uma palavra, situação que fez Charlotte sentir-se desconfortável.

—Em princípio parece que os edifícios deveriam oferecer algum refúgio - prosseguiu para romper o silêncio-. Mas em realidade não fazem senão agir como condutores de rajadas ainda mais intensas.

—Permitir-me-á que a acompanhe a casa em minha carruagem –disse com seriedade-. Talvez queira tomar algo? Uma xícara de chá?

—OH, não, muito obrigado! -respondeu ela precipitadamente-. Não desejo lhe criar nenhum inconveniente. Unicamente vim a... - Rápido, que possível motivo poderia ter para voltar? - Porque... de repente recordei que... excluí algumas cartas importantes. Quero dizer, excluí-as em sua seqüência correta no arquivo. Ou ao menos penso que foi assim. -Tinha parecido convincente?

—É muito conscienciosa - respondeu Balantyne com gesto apreciativo-.

Mas não vi nada que não estivesse corretamente ordenado.

—Permite-me comprová-lo? -disse ao mesmo tempo que se levantava e examinava a superfície da escrivaninha. Ao vê-la compreendeu que a mera idéia de uma ordem resultava ridícula. Charlotte se voltou sem saber muito bem o que dizer.

—Acho que tornei a desordenar tudo - disse o general, anunciando o que era claro-. Apreciaria muito que você me prestasse sua assistência de novo.

Algo em sua expressão a perturbou: a doçura de seu olhar, o modo muito franco com que a contemplava... Santo céu! Teria interpretado mal a razão que a tinha feito retornar? Certamente, sua desculpa tinha sido muito pouco convincente... Mas não por esse motivo!

Só queria ter ocasião de ver a Jemima, e se batia à casa dos Southeron sem outro motivo levantaria suspeitas, e talvez Reggie Southeron descobrisse, ou intuísse, suas verdadeiras intenções. A pessoa culpada, e ela tinha certeza de que Reggie o era, tendia a ser muito suspicaz. A consciência de sê-lo fazia que esquecessem toda lógica e que vissem acusações onde não as havia. E acusá-lo era precisamente seu propósito!

Balantyne permaneceu à espera, contemplando-a.

—OH! -exclamou Charlotte, recordando-a urgência de lhe desenganar-.

Bem... -acrescentou, contemplando a superfície da escrivaninha-, seria um prazer voltar a pôr isto em ordem, mas não posso lhe oferecer mais serviço que este.

- Sorriu tratando de tirar dureza a sua afirmação-. Dado que não disponho de criados, com o tempo fui adiando o terminar com certos trabalhos domésticos. E agora é algo verdadeiramente urgente.

—Entendo - murmurou Balantyne com expressão desolada-. Lamento ter sido tão pouco considerado. Eu... não é meu desejo mantê-la afastada de... –O general vacilou um pouco antes de forçar-se a recuperar o controle-. Mas se ao menos ficasse durante o dia de hoje lhe estaria muito agradecido.

O general voltou a vacilar e Charlotte intuiu que se estava perguntando se devia lhe oferecer uma remuneração por seus serviços e como fazê-lo com tato.

Ela sabia que a situação o incomodava e o lamentou por ele, assim lhe sorriu com cordialidade.

—Em realidade odeio os trabalhos domésticos, assim por um dia acredito que poderei me evadir deles sem me sentir culpada. Talvez seja muito pouco feminino de minha parte, mas a guerra da Crimea me parece imensamente mais interessante que pôr ordem na despensa.

Charlotte se dirigiu à escrivaninha, ao mesmo tempo que tirava as luvas e lhe dava as costas com o fim de não lhe proporcionar mais oportunidades de olhá-la nos olhos, mas era muito consciente de que o general continuava imóvel atrás dela, contemplando-a.

Não pôde escapulir à hora do almoço, de modo que à primeira ocasião se apresentou na porta do lado para ver a Jemima, embora um pouco mais tarde que o esperado. Em qualquer caso, ninguém a viu entrar salvo a criada e a chefe de cozinha. Conseguiu estar no quarto de estudos antes que começassem as lições da tarde.

Jemima estava junto à janela, contemplando a praça que se estendia ante seus olhos. Deu a volta quando ouviu entrar Charlotte.

—OH, Charlotte, quanto me alegro de vê-la! -Seu rosto resplandeceu de alegria, inclusive de excitação; e havia um brilho especial em seu olhar-. Volta a trabalhar para o general Balantyne?

—Só por hoje - disse Charlotte escuetamente-. Em realidade vim porque queria vê-la sem chamar muito a atenção. -Não tinha sentido andar-se com rodeios. Tinha que lhe dizer a verdade sobre o Reggie, e devia fazê-lo antes de que retornassem as crianças.

Mas Jemima não parecia experimentar nenhum perigo nem urgência alguma em ouvi-la.

—Tenho certeza de que ao senhor Southeron não lhe importaria que venha para ver-me. -Jemima não olhava ao Charlotte, a não ser algum lugar da janela por cima de seu ombro-. Teria gostado de ter almoçado com você. Espero que possa vir amanhã.

Não a tinha estado escutando? Charlotte lhe havia dito que só ia estar aí um dia!

Mas Jemima havia tornado a olhar pela janela.

Charlotte cruzou a sala e se deteve atrás dela. Olhou para baixo. Não havia nada que ver salvo a silenciosa praça limpa de folhas, empapada pela chuva e colorida em uma sutil gama de cinzas. Inclusive a grama parecia ter perdido sua cor habitual. O vento varria com força todos os atalhos, empurrando contra os arbustos as últimas folhas caídas. Não havia nada em um cenário assim que pudesse chamar a atenção de uma moça. Tinha que tratar-se de alguém que tinha passado por aí um momento antes.

Mas Charlotte não tinha ouvido nenhuma carruagem, e os cascos dos cavalos fazem um ruído considerável sobre os paralelepípedos.

Tinha que tratar-se de um viandante. Com este tempo? OH, claro! Brandy Balantyne!

—Jemima!

Jemima se virou, os olhos ainda resplandecentes e felizes. Baixou a vista com um leve rubor em suas faces.

—Brandy Balantyne? -perguntou Charlotte.

—Não gosta dele, não é, Charlotte? A última vez que nos vimos disse algo que me faz pensar isso.

Justamente o contrário, Charlotte tinha gostado muito de Brandy, mas não devia reconhecê-lo... embora tampouco devia feri-la desnecessariamente lhe dizendo que não.

—Unicamente lhe vi algumas vezes, e por muito pouco tempo. Como recordará, eu não ia a casa dos Balantyne fazer visitas sociais; só era uma empregada mais.

Isso foi cruel e Charlotte sabia, mas não devia permitir a Jemima que sonhasse com impossíveis. Quanto mais vívido fora seu sonho, mais doloroso seria o despertar.

A ferida infligida se manifestou imediatamente no rosto da Jemima.

—Sim - murmurou-, sei. E sei o que está tratando de me dizer. Tem razão, não há dúvida.

Charlotte quis adverti-la sobre as intenções do Reggie Southeron, mas isso teria deslocado o tema para um amo que se deita com suas empregadas, e falar de algo assim nesse momento teria sido muito cru e inclusive injusto.

Era evidente que não havia nenhum paralelismo entre o Reggie Southeron e Brandy, e não queria que Jemima imaginasse que lhe parecia que havia. Teria que deixá-lo para um momento menos propício a feridas e mal-entendidos. Todas as explicações do mundo não bastariam para tirar a Jemima a impressão de paralelismo se lhe falasse do Reggie, de suas criadas e da chantagem no mesmo contexto que do Brandy Balantyne.

—Tenho que voltar - disse em seu lugar-. Só queria ver-te um momento e... lhe dizer que tenha muito cuidado. Às vezes a pessoa assustada tenta culpar a outros em investigações como a que se está levando a cabo. Inteirei-me que sobre a pobre senhorita Douram. Tenha muito cuidado com o que diga!

Jemima a olhou um tanto desconcertada, mas aceitou sem mais seu conselho.

Cinco minutos mais tarde, Charlotte voltava a estar na gélida rua, correndo de retorno para a biblioteca, o general e seus papéis, sentindo-se insatisfeita consigo mesma e duplamente assustada pela Jemima.

Christina não passou mais que uma semana fora pelo motivo de suas bodas, possivelmente devido às tragédias ocorridas no Callander Square. Considerou-se que estavam em uma época pouco adequada para umas férias.

Por outra lado, provavelmente ninguém estaria de humor para fazê-lo, e muito menos o próprio Alan Ross. Nem sequer Christina, casando um par de dias depois do achado do corpo da Helena, podia pedir a seu flamejante marido que estivesse de humor para celebrar com ela sua lua de mel. Emily, que foi visitá-la-o mais cedo que lhe permitiram as convenções sociais, pensou para si mesma que Christina podia ter- e dado por satisfeita porque não se atrasara também as bodas. Isso poderia ter sido desastroso. No estado em que era provável que se encontrasse, só um par de semanas mais poderiam convertê-la em uma mentirosa aos olhos do mundo. A desculpa de um nascimento prematuro já implicava uma prova da confiança de outros!

Emily foi fazer uma visita de cortesia a Christina sem mais propósito que averiguar algo mais sobre a Helena Douram. As duas tinham sido de idade muito similar e ao que parecia tinham mantido certo trato, iam às mesmas festas e conheciam a mesma gente. Emily duvidava que naquela época tivessem sido amigas, e provavelmente Christina sentiria certa amargura ao haver-se acabado de casar com um homem do quem todo mundo sabia que amava a Helena, ao menos no passado. Mas com certeza ela sabia algo. Por outra parte, muitas vezes se dizem mais verdades sobre a gente que alguém odeia que sobre a que estima, especialmente quando a pessoa em questão já está morta. Não deixava de ser divertido comprovar como a morte parecia obscurecer todas as verdades relevantes sob uma enjoativa cobertura de decência. Sem dúvida isso tornaria mais difícil o trabalho de um detetive.

A casa de Alan Ross se erigia em uma elegante rua a menos de meio quilômetro do Callander Square. Não tinha a mesma opulência da praça nem a mesma graça produto da moda, mas se tratava de um bairro igualmente distinto.

Quando Emily bateu na porta foi recebida por uma bonita criada.

Christina pareceu alegrar-se muito de vê-la, embora ao Emily pareceu que estava um pouco pálida. Muitas vezes as luas de mel supunham uma espécie de comoção para as mulheres... Mas alguém que tinha estado pulando alegremente com um criado, como ela, com certeza não poderia descobrir muitas surpresas!

—Boa tarde, Emily -disse Christina com certo ar enrijecido-. Muito amável de sua parte me fazer uma visita.

Emily cruzou mentalmente os dedos, consciente de lhe estar mentindo.

—Queria lhe dar as boas-vindas em sua nova casa... e ver como está - acrescentou com tom de preocupação-. Além de tudo, a fortuna não a tratou muito bem. foi o momento menos oportuno para achar o corpo dessa pobre desgraçada... Dificilmente poderia haver-se averiguado isto em pior momento!

Christina lhe dedicou um olhar frio.

—Nesse caso também é uma pena que escolhesse precisamente este momento para descobri-lo!

—OH, querida! -exclamou Emily, aparentando contrição com extraordinária mestria-. Como ia imaginar que me ia encontrar com algo assim?

Eu pensava, ao igual a todo mundo, que Helena fugira com seu amante e que estaria felizmente casada em algum lugar... Ou pelo menos casada e só. Em realidade nunca cheguei a acreditar que pudesse estar "felizmente". As histórias românticas muito poucas vezes acabam sendo felizes.

—Com efeito, isso dizia antes. Mas que diabos estava fazendo em um jardim abandonado?

—Foi mera curiosidade, suponho - respondeu Emily com desinteresse, enquanto se voltava para admirar a sala da nova casa em que se achava, que certamente era formosa. Era um lugar muito romântico...

—OH, sem dúvida! Um jardim ruinoso em pleno inverno! -Christina deu a sua voz um matiz de sarcástico ceticismo.

—Mas esse jardim nem sempre está em pleno inverno. É agora quando o está -respondeu Emily razoavelmente-. E sem dúvida faz dois anos o jardim estaria menos arruinado que agora.

—Não consigo entendê-la -disse Christina, ainda com decidida frieza.

—Porque é aí onde Helena se via com seu amante! -Emily se virou para olhá-la-. Como era ela, Christina? Com certeza a conhecia. Era formosa e fascinante?

—Não especialmente -disse Christina com certo desdém-. Era bonita, mas de uma beleza de tipo bem anêmico. E realmente não era nada engenhosa; e mais, eu sempre a achei agradável, mas insípida.

—Ah! -Emily fez um esforço para expressar desgosto, embora não lhe foi fácil: estava muito regozijada com esses sentimentos tão genuínos da Christina e que expressavam tantas coisas sobre ela mesma como sobre a Helena Douram.

—Que lástima! -continuou-. Por sua descrição não parece precisamente o tipo de mulher capaz de atrair a um amante sonhador, salvo possivelmente um jovenzinho imberbe. A não ser, claro está, que ela possuísse certos encantos ocultos...

—Se os possuía, não há dúvida de que estavam muito bem ocultos - balbuciou Christina-. Ninguém que eu conheça os viu nunca!

Emily sentiu certo remorso por ser tão cruel.

—Nem sequer... o senhor Ross? -inquiriu.

Para sua surpresa, Christina corou intensamente.

—Alan está bastante desiludido com ela. Já não a admira.

—Desiludido? -insistiu Emily.

—Bem, é evidente que não era tão mosca morta como pretendia ser - disse Christina com mordacidade-. Ao fim e ao cabo, dedicava-se a ver-se às escondidas com um amante em um jardim abandonado, e obviamente se deitava com ele, ou do contrário não teria ficado grávida! Sem dúvida isso é suficiente para desiludir a qualquer um!

—Nesse caso convir-lhe-á ser discreta pelo que a você respeita! -observou Emily.

Não gostava da hipocrisia moral, e tampouco gostava especialmente de Christina.

O rubor da Christina se avivou e olhou ao Emily como se esta a tivesse traído. Era possível que tivesse chegado a sentir tão cedo algum apreço pelo Alan Ross? Parecia a explicação mais óbvia.

Agora Christina já contava com a segurança do matrimônio e tinha adquirido a respeitabilidade necessária para o caso de que realmente estivesse grávida, coisa que cada vez parecia menos provável. A diferença de Charlotte, Christina continuava usando vestidos de cintura de vespa, e sua figura não revelava nenhuma mudança.

Assim, possivelmente tinha desenvolvido uma estima sincera por seu marido. Era quase de lamentar, já que, em opinião de Emily, a não ser que Christina fosse capaz de mudar em muito seu caráter, quanto mais chegasse a conhecê-la o senhor Ross menos provável era que ele correspondesse a esse sentimento.

Em qualquer caso, não era algo no que Emily pudesse intervir, e nem sequer desejava fazê-lo.

Permaneceu com Christina um momento mais, conversando sobre a Helena, mas sem averiguar nada além de que Christina a odiava. Ainda assim, não discerniu se esse ódio se devia a recente admiração da Christina pelo senhor Ross.

Meia hora depois partiu, com novas e interessantes idéias na mente.

À manhã que seguiu ao relato por parte de Emily das últimas novidades e, ainda mais importante, das conclusões a que estas a tinham levado, Charlotte decidiu voltar a ver a Jemima; independentemente do que pudesse lhe doer, desta vez tinha que achar o modo de adverti-la mais especificamente do perigo que corria.

Também queria averiguar algo sobre o Reggie Southeron que pudesse lhe dar uma pista sobre quem realmente o chantageava... se é que alguém o fazia. Fossem quais fossem os fatos, em altares da segurança da Jemima tinha que averiguar por que tinha feito semelhante acusação.

Para conseguir ver a Jemima a sós, Charlotte tinha que encontrar-se com ela antes das lições da manhã, que começavam às nove em ponto. Assim, eram pouco mais das oito e quinze e acabava de amanhecer uma manhã plúmbea e com nuvens de nevasca quando desembarcou do cabriolé. O cocheiro a tinha deixado no lado equivocado da praça e se negara a dar a volta pelo perigo que supunham para as patas de seus cavalos os escorregadios e lamacentos paralelepípedos sobre os quais se amontoaram as folhas mortas arrastadas pelo vento.

Charlotte não quis discutir. Não desejava que um cavalo escorregasse e se fizesse mal, nem tanto pelo gasto que isso suporia para o cocheiro, mas sim pelo próprio animal.

Assim, não tinha mais opção que caminhar e correr idêntico risco ela mesma.

Pondo boa cara ao mau tempo, pensou que seria melhor cruzar o lugar pelos jardins centrais, em cuja grama não havia paralelepípedos e nos quais a geada da noite tinha endurecido o chão até o ponto de poder suportar seu peso sem que as botas de cano longo se afundassem no lodo.

De noite nunca se atrevera a ir sozinha, pois ainda recordava o acontecido no Callander Square e provavelmente não o esqueceria nunca; por outra parte, teria que tratar-se de um mero deador verdadeiramente desesperado para permanecer à espera de uma vítima em uma manhã cinza e gélida como aquela, em meio dos afiados ramos negros das árvores invernais e da vegetação caída.

Transida, Charlotte avançou com resolução, mas vigiando onde punha os pés, para não dar um mau passo e tropeçar. Esse foi o motivo de não perceber do montículo escuro até que quase se achava em cima dele.

Não se achava exatamente no atalho, mas muito perto dele, como se antes tivesse estado aí mas alguém o tivesse afastado. Nenhum ramo caído podia ocupar tanto espaço. A repentina intuição de um desastre foi a sua mente inclusive antes de chegar ao montão e deter-se.

Eram roupas úmidas, e entre as raízes das margaridas de outono do ano anterior se achava a cabeça: o cabelo escurecido pela umidade poderia ter sido loiro, e a pele era branca como só o frio da morte podia deixá-la.

Charlotte se agachou e contemplou o cadáver. Estava de lado, com um braço dobrado por debaixo do corpo, como se tivesse tentado tirar a faca funda em seu peito até o punho. Charlotte só o tinha visto uma vez, que pudesse recordar, mas soube, sem lugar para dúvidas que se tratava do Freddie Bolsover.

Charlotte se endireitou de novo e se dispôs a caminhar de retorno através das violentas rajadas de vento em busca de um policial.

 

Avisaram diretamente ao Pitt, já que algo que acontecesse no Callander Square se considerava parte de seu caso.

Antes das nove e meia já estava removendo a terra ainda gelada ao redor do corpo. Perto dele um agente de polícia montava guarda. Ninguém havia tocado em nada.

Depois de alguns protestos, Pitt tinha conseguido enviar Charlotte de volta para casa, embora pensara que provavelmente era o gélido horror que ainda a embargava o que lhe permitiu convencê-la tão facilmente, e não seu sentido da obediência, pelo resto bastante escasso.

O médico forense estava junto a ele. Depois de ter examinado atentamente os restos e ter feito um esquema mental exato da localização do cadáver, os dois deram a volta ao Freddie para lhe examinar a ferida. A faca estava funda em seu peito até o punho. Na manga de filigrana não havia rastros de nenhuma mão.

Pitt lhe tirou a roupa cuidadosamente.

—Uma ferida muito limpa, feita de uma vez -observou.

—Pode ter sido pura sorte - disse o forense por cima de seu ombro-. Não tem por que ser fruto da habilidade.

—O que me diz da força do assassino? -perguntou Pitt.

—Força? -O forense refletiu. Logo se agachou e tratou de mover a faca de um lado a outro-. Não há ossos quebrados -observou-. A folha entrou limpamente entre as costelas. Só atravessou uma cartilagem e parte de um músculo; foi direta ao coração. Qualquer pessoa adulta poderia tê-lo feito. A ferida está muito alta para que a tenha causado uma pessoa de estatura baixa. O golpe parece haver-se dado de cima para baixo, de modo que o assassino tem uma altura de pelo menos um e setenta, provavelmente mais.

Pitt pegou uma mão do Freddie.

—Não usa luvas -disse, franzindo o sobrecenho-. Deve ter saído de casa a toda pressa, e provavelmente não pensava permanecer fora muito tempo. Deve ter saído para ver algum conhecido, imagino. -Pitt examinou as unhas e os dedos-. Não vejo sinais de que tenha lutado.

—Pegaram-no de surpresa -respondeu o médico-. Devia estar consciente só uns segundos antes de desvanecer-se.

—Surpresa... -repetiu Pitt lentamente-. Entretanto, foi atacado de frente.

Isso quer dizer que conhecia seu assassino. O que deve lhe ter causado surpresa foi que o atacasse. O doutor Bolsover certamente o considerava uma pessoa inofensiva, um amigo.

—Ou um conhecido - acrescentou o doutor.

—Você acredita que alguém sairia de casa para ver um mero conhecido em meio desta praça e em plena noite?

—Eu não disse que foi assassinado de noite -respondeu o forense negando com a cabeça-. Não posso assegurar. Com este tempo um corpo se congela em muito pouco tempo. Isso dificulta fixar a hora da morte.

—Mas supõe muito risco assassinar a alguém em meio de um lugar a plena luz do dia -respondeu Pitt amavelmente-. Os criados passam muito tempo olhando pela janela. Teria sido fácil que alguém o visse dirigir-se ao centro da praça.

Em troca, em meio da escuridão, envolvido em um cachecol e com a gola subida, assim que uma pessoa se afasta das luzes se torna virtualmente invisível.

Poderia ter subido os degraus da porta principal, ou ter atravessado um atalho, ou chamar uma carruagem... Algo.

—Certo - concordou o forense com certa aspereza-. Então suponhamos que se acharam de noite. É estranho, não lhe parece? Sair para encontrar-se com alguém na mais absoluta escuridão e em um lugar frio e deserto como este.

Teria sido fácil cair e quebrar a espinha, para não falar de receber uma punhalada.

Devia ser inclusive difícil distinguir os próprios passos.

—Faz muitas interrogações, não é? -Pitt baixou novamente a vista para o cadáver.

O médico balbuciou algo entre dentes.

—Possivelmente queriam discutir algo muito urgente e muito privado ao mesmo tempo.

—Ou um deles tinha o propósito de cometer um assassinato -respondeu Pitt em voz baixa.

O forense não respondeu.

Pitt se agachou com certa rigidez devida ao intenso frio.

—Estou pensando que tenho várias perguntas que fazer ao Reggie Southeron. Importar-lhe-ia ocupar-se de que levem ao Bolsover ao depósito de cadáveres? Será melhor que efetue a autópsia por consciência, apesar das evidências. Não acredito que fique nada por averiguar, mas sempre cabe alguma possibilidade.

O médico lhe dedicou um olhar azedo e caminhou pesadamente em direção ao agente, movendo as mãos para reavivar a circulação.

Desta vez Pitt não quis pôr Reggie sobre antecedentes. Dirigiu-se sem mais à porta principal e, quando o criado abriu, anunciou que precisava ver o senhor Southeron com a maior urgência. Supôs que em uma manhã tão rude como aquela Reggie não se teria levantado antes das nove, e sem dúvida não teria terminado de tomar seu café da manhã e de preparar-se para sair até passadas as dez.

Estava certo. Reggie continuava sentado à mesa e se dispunha a protestar ante à interrupção de seu criado e de lhe dizer que a polícia poderia esperar, quando por detrás do sóbrio semblante do criado reconheceu a grosa figura do Pitt, metido em um casaco, que tinha seguido ao criado até ali precisamente para evitar ser despedido.

—Por todos...! -balbuciou Reggie, lançando faíscas pelos olhos-. Me consta que tem você um trabalho difícil, mas uns poucos incidentes desagradáveis na praça não liberam você da necessidade de seguir as normas das boas maneiras. Verei-o assim que tenha terminado meu café da manhã! Até então poderá esperar no salão matutino, se o desejar.

Pitt deu uma olhada ao criado e comprovou com satisfação que o temor que aquele homem sentia ante a polícia era superior ao que sentia por seu senhor, já que se tinha retirado quase imperceptivelmente, escapando pelo corredor.

—O assunto não admite demoras -disse Pitt com firmeza-. O doutor Bolsover foi assassinado.

Reggie o olhou boquiaberto, sem conseguir compreender.

—O que disse?

—O doutor Bolsover foi assassinado -repetiu Pitt-. Seu corpo foi encontrado esta manhã, poucos minutos depois das oito.

—Santo céu! -Reggie deixou cair o garfo carregado de comida, que golpeou o chão com um estalo, arrastando em sua queda à faca e levando com ele uma parte de salsicha-. Santo céu! -repetiu-. É espantoso...

—Sim - concordou Pitt, esquadrinhando-o. Seriamente Reggie possuía dotes interpretativos tão irrepreensíveis? Parecia verdadeiramente estupefato ante a notícia-. O assassinato sempre é um fato espantoso -prosseguiu-. Claro que muitas pessoas assassinadas procuraram esse final.

—Que diabos quer dizer? -O grosso rosto do Reggie corou repentinamente-. Suas palavras me parecem uma rabugice! De um mau gosto imperdoável! O bom do Freddie está morto e você fica aqui de pé sugerindo que o merecia!

—Não -corrigiu Pitt-. É você quem chegou a essa conclusão. O que eu queria dizer é que certas pessoas que acabam por ser assassinadas o procuraram de algum modo: refiro a chantagistas e casos similares -explicou inclinando-se um pouco e contemplando de perto o rosto do Reggie.

Reggie sabia o que Pitt procurava: indício de palidez e tiques nervosos...

—Chantagistas? -repetiu Reggie, os olhos fixos no vazio como os de uma boneca de trapo.

—Sim -respondeu Pitt, aproximando uma cadeira e sentando-se. – Os chantagistas costumam ser assassinados. Freqüentemente a vítima considera sua única saída. Os chantagistas não parecem saber quando chegam muito longe com suas pressões. Passam dos limites. -Pitt abriu as mãos como se quisesse imitar uma explosão com elas.

Reggie engoliu em seco, os olhos fixos no inspetor. Parecia incapaz de falar.

Pitt seguiu jogando.

—Isso deve ter ocorrido ao doutor Bolsover, não lhe parece, senhor?

—Ao doutor Bolsover...?

—Sim. esteve chantageando-o, não é assim?

—Não... não! Já o disse! Foi... foi Jemima, a preceptora. Já o disse antes.

— Com efeito, isso me disse. Disse-me que a preceptora lhe estava fazendo chantagem porque tinha tido uma antiga aventura com uma criada.

Eu não acredito que valesse a pena pagar por isso, senhor, dado que eu sabia e os criados também, e me surpreenderia averiguar que os vizinhos não o suspeitassem desde há tempos.

Imagino que inclusive sua esposa sabe, por muito que prefira comportar-se como se não fosse assim.

—Que diabos quer dizer? -exclamou Reggie, tratando de parecer ofendido.

—Nada mais que o que digo, senhor, que me é difícil acreditar que você se submetesse a uma chantagem por um assunto que é de conhecimento geral, por muito que ninguém o faça saber, e que sem dúvida é sórdido, mas não uma ofensa incomum. E menos um delito.

—Eu... já lhe disse... Claro que não é um delito! Mas precisamente agora poderia ser interpretado mal! As pessoas poderiam pensar...

- Quer dizer "a polícia poderia pensar..."? -inquiriu Pitt, arqueando sardônicamente as sobrancelhas.

Uma rajada de rubor tingiu o rosto do Reggie assim que compreendeu que sua mentira tinha sido ridícula. Pitt quase podia ver como Reggie se espremia o cérebro. Devia apanhar ao Reggie agora, presa do pânico, ou era melhor esperar até que sua própria língua o traísse?

—Bem... -Reggie murmurou algo enquanto inventava uma justificação-. Bem... Com efeito, soa...

—... Pouco convincente -terminou Pitt-. Suponho que me disse você a verdade...

—Né... sim... A verdade!

—Claro, senhor. Por que fazia chantagem o doutor Bolsover?

—Eu... -Reggie ficou imóvel.

—Se me obrigar a perguntar a outros para averiguá-lo, a situação será menos favorável para você -explicou Pitt-. Em troca, se me contar, desde que não houver nenhum delito misturado nisso, serei o mais discreto que possa. O tempo é um fator importante. Temos a um assassino em algum lugar desta praça... E talvez não tenha terminado ainda!

—OH, Meu Deus!

—Por que fazia chantagem Bolsover, senhor Southeron?

Reggie pigarreou e engoliu em seco.

—Por outra aventura que tive. -Seus olhos avermelhados procuravam algum ponto mais à frente do ombro do Pitt-. A mulher era casada. Seu marido era um tipo importante. Poderia me prejudicar se o descobrisse.

Compreende?

Pitt lhe olhou fixamente por um momento que pareceu eterno. Estava mentindo.

—E como pôde inteirar-se disso a preceptora? -perguntou.

—O que? -Reggie deu um pulo-. OH. Bem...

—Disse-me que também lhe estava fazendo chantagem -lhe recordou Pitt-. Gostaria de retificar agora?

De repente os olhos do Reggie se iluminaram sinistramente.

—Não! Não; foi ela. Uma jovenzinha muito ambiciosa. Por isso assassinaram ao Freddie! Claro, tudo encaixa! Não o vê? - Endireitou-se um pouco-.

Devem ter discutido pelo dinheiro! Ela quereria cobrar mais do que lhe tocava, ele se negaria e ela o assassinou. Tem sentido. Tudo encaixa!

—Como averiguou a preceptora essa aventura sua? Essa mulher esteve aqui?

—Santo céu, claro que não! Que classe de homem acredita que sou?

—Nesse caso, como sabia, senhor?

—Não sei! Freddie deve ter comentado-lhe.

—Por que ia ele fazer isso? Por que ia compartilhar seu trunfo desnecessariamente? Considerá-lo-ia uma estupidez de sua parte.

—Como diabos quer que eu saiba? -inquiriu Reggie com fúria-. Talvez tivesse uma aventura com ela e o disse em um momento de debilidade, ou algo assim. Agora nunca saberemos. O pobre infeliz morreu.

—Mas a preceptora não.

—Dificilmente esperará dela que lhe diga a verdade! -O tom agudo do Reggie revelava pânico.

Pitt voltou a jogar as cartas.

—Parece-me mais provável, senhor, que essa mulher com quem você teve uma aventura não era a esposa de nenhum homem poderoso, mas outra criada.

Os olhos do Reggie cintilaram.

—Como você muito bem disse, inspetor, dificilmente valeria a pena pagar pelo silêncio de alguém com o fim de encobrir um episódio assim!

—Não se isso fosse tudo o que deveria ocultar - concordou Pitt com um leve sorriso, os olhos fixos no Reggie-. Mas... e se havia algo mais? E se estava grávida, por exemplo?

Reggie empalideceu bruscamente. Por um momento Pitt pensou que podia ter sofrido um ataque.

—Uma de suas criadas morreu, não é assim? -perguntou Pitt lentamente, deixando que cada palavra sortisse seu efeito.

Reggie balbuciou em um esforço por tomar fôlego.

—Não a mataria você, não é verdade, senhor Southeron?

—Meu Deus! OH, Meu deus! Não, não a matei! Simplesmente morreu. Freddie esteve com ela. Fizemos chamá-lo. Por isso sabia.

—Do que morreu, senhor Southeron?

—Eu...! Não sei!

—Tenho que perguntar a suas criadas? -inquiriu Pitt quase com doçura.

—Não! -Fez uma pausa-. Não - repetiu Reggie um pouco mais calmo-.

Fez um aborto e saiu mau. Por isso morreu. Eu não sabia nada. Não pude salvá-la. Tem que me acreditar.

—Mas o filho era seu?

—Como vou saber?

Finalmente, Pitt se permitiu dar rédea solta ao desprezo que sentia desde há um bom tempo.

—Quer dizer que a compartilhava com alguém mais? Com o criado, talvez? Ou com o engraxate? -inquiriu com brutal aspereza.

—Como se atreve! Terei que lhe recordar quem sou eu!

—Você, senhor Southeron, é uma pessoa colocada até o pescoço em um assunto muito feio! -contra-atacou Pitt-. Uma criada grávida de você morre em sua própria casa devido a um aborto incompetente. E seu médico lhe chantageava por este assunto. E agora seu médico foi assassinado no meio da praça. Qual lhe parece a conclusão óbvia destes dados?

—Eu... já lhe disse que... -balbuciou Reggie, procurando as palavras-. A preceptora! Ela estava com ele! Com certeza se deitava com ela e o disse! Foi ela quem veio me exigir o dinheiro! Deve ter discutido com ele... O típico caso de dois rufiões que brigam! Essa é a resposta mais óbvia! A quem vai acreditar você? A mim, que não tenho feito nada mau, ou a uma simples empregada que minta e chantageia e que finalmente mata a seu cúmplice e amante? Diga-me isso.

Pitt suspirou e ficou em pé.

—Não vou acreditar em ninguém, senhor Southeron, até que disponha de mais evidências. Mas não duvide que recordarei suas palavras. Obrigado por me haver dedicado seu tempo. Bom dia, senhor.

Ao ir-se Pitt, Reggie se derrubou. Aquilo era uma catástrofe! Só Deus sabia como ia terminar! O escândalo! A ruína! Reggie se sentiu doente. A sala se movia ante seus olhos e se obscurecia até conformar terríveis visões de penúria... Visões vagas, dado que nunca tinha tido ocasião de conhecer a penúria, mas nem por isso menos estremecedoras.

Continuava abatido e desolado quando entrou Adelina.

—Parece doente -observou-. Comeu muito?

Seu frio desinteresse foi à gota que encheu o copo de um homem ferido e humilhado.

—Sim, estou doente! -replicou em um arrebatamento de ira-. A polícia acaba de estar aqui! Freddie Bolsover foi assassinado!

Reggie desfrutou na contemplação do rosto comocionado de sua esposa.

—Assassinado? -murmurou, sentando-se pesadamente-. Que horrível! Mas por que? Tentaram roubá-lo?

—Não tenho nem idéia! -exclamou ele-. Simplesmente foi assassinado!

—Pobre Sophie... -murmurou Adelina, contemplando vacuamente um ponto perdido da mesa-. Deve estar desfeita.

—Deixa de preocupar-se por Sophie! O que acontece a nós? Foi assassinado, Adelina! Não o compreende? Isso significa que alguém o assassinou, que saiu em plena noite e lhe cravou uma adaga nas costas, ou lhe deu um golpe na cabeça, ou o que seja.

—Muito desagradável -concordou ela-. Uma pessoa pode chegar a ser muito perversa.

—Isso é tudo o que lhe ocorre dizer? -Sua voz ameaçava converter-se em um grito irreprimível-. Maldita seja, mulher, esse canalha de polícia vai acusar -me!

Adelina não pareceu impressionada, e menos ainda assustada.

—Por que quereria fazê-lo? Você não tinha nenhum motivo para assassinar ao Freddie. Era seu amigo.

—Era um maldito chantagista!

—Freddie? Não diga tolices. A quem diabos ia chantagear?

—Era médico, sua estúpida! Podia chantagear a todos seus pacientes!

Adelina seguia impertérita.

—Aos doutores não está permitido revelar os assuntos confidenciais de seus pacientes. Se o fizessem ficariam sem clientela. Freddie nunca o teria feito. Seria uma tolice. E não me chame estúpida, Reggie. Parece-me muito grosseiro de sua parte e não há necessidade disso. Lamento que Freddie tenha morrido, mas ficar histérico não lhe servirá de ajuda.

—Não consigo compreendê-la! -exclamou fora de si e perplexo-.

Passou dias inteiros chorando pela Helena e agora que Freddie morreu não parece se importar muito!

—Aquilo foi diferente. Helena estava grávida. -Sua voz se entrecortou ao recordá-lo-. Esse menino morreu inclusive antes de nascer. Se você fosse mulher poderia compreender. Eu olhei a meus próprios filhos e então sim choro ao pensar nisso. As crianças são tudo o que uma mulher realmente possui. -

De repente olhou a seu marido com uma estranha severidade-. Nós carregamos com eles, levamo-los dentro, trazemo-los para o mundo, queremo-los, escutamo-los, aconselhamo-lhes e procuramos que se casem bem. Em troca, quão único você faz é pagar as faturas e fanfarronar a sua custa quando fazem bem algo.

Lamento que Freddie tenha morrido, mas duvido que seja capaz de chorar por isso. E também o lamento pelo Sophie, claro está, porque ela não tem filhos...

Como sabe que Freddie era um chantagista?

—O que?

—Disse-me que Freddie era um chantagista. Como sabe?

—OH... -titubeou Reggie em busca de uma resposta-, alguém me disse isso. Uma confidência, já sabe, não posso lhe dizer mais.

—Não seja ridículo, Reggie. As pessoas não vão contando por aí coisas assim.

Fazia chantagem a você, não é verdade?

—Claro que não! Sobre o que poderia me fazer chantagem?

—Nesse caso, por que a polícia pensa que o matou você?

—Não sei! -exclamou-. Não o perguntei, maldita seja!

—Imagino que se tratava sobre Dolly.

Reggie estremeceu. Sua esposa parecia uma desconhecida sentada à cabeceira da mesa, monstruosa e inescrutável. Estava dizendo algo espantoso e entretanto seu rosto só mostrava uma leve curiosidade.

—Do... Dolly? -gaguejou.

—Poderia tê-lo perdoado por se deitar com ela, desde que fosse discreto -respondeu Adelina com calma, olhando-o nos olhos. Parecia a primeira vez em que realmente o olhava no rosto-. Mas não por ter assassinado a seu filho.

—Eu não matei a seu filho! -Reggie começava a perder o domínio. Ouvia suas próprias palavras e não podia evitar pronunciar -. Foi um aborto. Resultou fracassado! Mas eu não o fiz!

—Não me minta, Reggie. Claro que o fez. Permitiu-lhe que fosse a alguma ruela de Londres para que lhe fizessem um aborto em lugar de enviá-la ao campo para que desse a luz a seu filho. Poderia ter ficado ali ou dar ao menino em adoção. Mas não o fez, e nunca lhe perdoarei isso, Reggie; jamais.

Adelina ficou em pé e se virou. - Confio em que não tenha nada que ver com a morte do Freddie. Teria sido uma estupidez de sua parte.

—Estupidez? Isso é tudo o que lhe ocorre? Estupidez! Seriamente pensa que posso ter que ver com o assassinato do Freddie?

—Não. Teria sido muito improvável em você ter coragem para fazer algo tão definitivo. Mas me alegro de ouvir que não o fez. Espero que esteja dizendo a verdade.

—Acaso duvida de mim?

—Não acredito que me importasse muito, se não fosse pelo escândalo. Se consegue manter à polícia afastada de tudo isto, dar-me-ei por satisfeita.

Reggie a olhou atônito e desamparado. De repente sentia muitíssimo frio, como se alguém lhe tivesse arrancado a pele e o tivesse deixado definitivamente nu. Viu-a sair da sala e se sentiu como um menino só na escuridão.

Depois de dizer à polícia que Jemima tinha sido quem o tinha chantageado e, por conseguinte, não podendo desdizer-se dessa acusação, a solução perfeita era acusá-la também do assassinato do Freddie.

Mas agora tinha que fazer que toda sua história soasse mais convincente. Tinha que comportar-se como se ele realmente acreditasse que essa era a verdade. Era inconcebível que um homem, sabendo uma coisa assim, continuasse mantendo em sua própria casa a uma preceptora chantagista e assassina.

A única atitude coerente que podia tomar era despedi-la imediatamente.

Era uma lástima, claro. Em tais circunstâncias não haveria ninguém que quisesse lhe dar emprego, mas que outra coisa podia fazer? Lástima que não tivesse aproveitado a oportunidade cinco minutos antes de explicar - tudo a Adelina... Mas pensar na Adelina lhe resultava extremamente incômodo, de modo que preferiu afastá-la de sua mente. Tinha que achar a Jemima e lhe dizer que partisse. Não tinha por que lhe explicar a razão, já que isso teria sido muito grave... Podia evitá-lo sustentando que ele não a acusaria antes de que o fizesse a própria polícia, pondo talvez em perigo a justiça de sua causa.

Sim, isso soava muito convincente.

Inclusive sentiu um arrebatamento de retidão, e se levantou da mesa para pôr em prática sua idéia.

Charlotte soube ao meio dia, quando Jemima apareceu na soleira de sua porta, pálida, com um baú no chão junto a ela e uma carruagem que já se afastava pela rua. A jovem devia ter permanecido um bom momento frente à porta, duvidando se devia bater.

Foi a própria Charlotte quem foi a abrir, já que não havia ninguém mais para fazê-lo; Teria sido pouco apropriado enviar à senhora Wickes, com as mãos molhadas, o avental salpicado e sua espessa e rebelde cabeleira desarrumada.

—Olá, Jemima! -exclamou Charlotte, antes de ver o baú junto a ela-. O que aconteceu? Entre, parece transida. Agarra a outra asa do baú. Não podemos deixá-lo fora, alguém poderia roubá-lo.

Jemima a ajudou a carregá-lo e uns minutos depois as dois estavam de pé na cozinha, onde Charlotte a olhou com cenho.

—O que passou? -perguntou com doçura-. O senhor Southeron te acusou-a de fazer chantagem?

Jemima levantou a vista, surpreendida e um tanto aliviada de não ter que explicar ela mesma todas as novidades.

—Sabia?

Charlotte se sentiu envergonhada por não tê-la advertido, embora talvez lhe tivesse servido pouco. Mais importante teria sido evitar que Pitt desse alimento às mentiras do Reggie.

—Sim. quis dizer-lhe isso quando fui vê-la outro dia. -Charlotte deu uma amistosa palmada nas frias mãos da Jemima-. Sinto muito! Quando compreendi o que sentia pelo Brandy Balantyne não fui capaz de lhe falar na mesma ocasião do Reggie Southeron e suas criadas, por temor a que pensasse que eu não a considerava melhor que elas.

Jemima a olhou aturdida, mas não havia reprove em seus olhos.

—Como sabia? -repetiu-. Sabe todo mundo menos eu? –Jemima irrompeu em soluços-. Por que, Charlotte? Por que ia dizer algo assim? Certo que se deitava com a Mary Ann, mas todo mundo sabia! Nunca falei disso, e menos ainda a ele... E lhe pedir dinheiro por meu silêncio! Que motivos teve para afirmar que eu fiz uma coisa assim?

—Alguém estava fazendo chantagem a ele, e não desejava explicar toda a verdade -replicou Charlotte-. Foi fácil culpá-la, porque você lhe pareceu a menos capacitada para se defender.

—Mas por que ia alguém lhe fazer chantagem por isso? Certamente é uma conduta bastante vil e supõe um abuso da Mary Ann e de sua esposa, mas não é um delito; nem sequer teria sido um escândalo. Não valia a pena pagar por isso.

—Não sei - admitiu Charlotte-. Mas venha e sente-se. Deixa que lhe prepare algo quente para beber. Acredito que tenho um pouco de chocolate. Teremos que pensar o que fazemos agora.

Charlotte ficou rapidamente em marcha. De todos os modos já se achavam na cozinha, o aposento mais quente da casa. Charlotte não se podia permitir o luxo de acender um fogo na lareira do salão salvo de noite. A senhora Wickes tinha terminado de esfregar o chão e tinha subido ao piso de cima para varrer, de modo que estavam a sós.

—Poderá dormir no quarto das crianças - prosseguiu Charlotte, vertendo o chocolate em pó com uma colher de madeira-. A cama é um pouco pequena, mas não está mal para uma temporada. Temo que é tudo o que posso lhe oferecer...

—Não posso ficar aqui -respondeu Jemima rapidamente-. OH, Charlotte, agradeço-lhe, mas a polícia virá me buscar. A chantagem é um delito, sabe?

Não posso conduzi-la a desgraça de...

—OH! -exclamou Charlotte dando-a volta surpreendida, esquecendo o pouco que Jemima sabia dela-. Não se preocupe por isso. Meu marido é polícia; de fato, é o policial encarregado deste caso. Ele já sabe que não chantageou ninguém. Ou ao menos -se corrigiu- não acredita que o tenha feito. Não se preocupe, ele descobrirá a verdade. Por certo, o doutor Bolsover foi assassinado.

Sabia? Eu mesma encontrei seu corpo esta manhã. Achava-me de caminho para adverti-la das intenções do senhor Bolsover quando quase tropecei com ele.

Talvez fosse ele o verdadeiro chantagista.

—Você... a polícia? -Jemima estava confusa. - Mas você não estava casada... Não é a irmã da senhora Ashworth? Ao menos isso disse o General Balantyne. Foi ele quem me deu sua direção esta manhã. Tive que lhe mentir.

Disse-lhe que desejava escrever-lhe uma carta. -Jemima estremeceu e desceu o olhar-. vim antes que o senhor Southeron começasse a contar coisas sobre mim a todo mundo e ninguém quisesse me abrir a porta. Não tinha a quem acudir...

Seus olhos estavam inundados de lágrimas e baixou a cabeça para ocultar sua aflição.

Charlotte afastou o chocolate do fogo, aproximou-se e lhe passou um braço pelos ombros. Durante um momento Jemima chorou em silêncio; depois fez um esforço por recompor-se, soou ruidosamente o nariz, pediu ir ao asseio para lavar o rosto e finalmente desceu as escadas para tomar a fumegante taça de chocolate que Charlotte tinha preparado junto com umas bolachas. A seguir olhou ao Charlotte nos olhos enquanto se dizia que já estava preparada para lutar.

Charlotte lhe dedicou um sorriso.

—Thomas descobrirá a verdade -disse com firmeza, embora sabia que isso não era necessariamente assim. Às vezes os crimes ficavam sem resolver-.

E se pudermos, ajudaremos a você -prosseguiu-, para que o consiga quanto antes.

Acho que deveria enviar uma nota para Emily para informá-la dos últimos acontecimentos. Talvez ela possa colaborar.

—É maravilhosa -disse Jemima sorrindo fracamente-. Está tão acostumada aos assassinatos que já não a assustam?

—OH, não! -O horror vivido no Cater Street voltou à sua mente com toda sua aflição. Inclusive sentiu que as lágrimas iam a seus olhos pela pobre Sarah-. OH, não -repetiu serenando-. Me assustam muito. Não exatamente os assassinatos mas todas as coisas sombrias que despertam naquelas pessoas mal relacionadas com o crime. Acontece com freqüência que um crime implique outro mais. A pessoa atua dessa estranha maneira para encobrir sua culpa inicial.

O ser humano pode ser muito cruel e egoísta quando tem medo. Os assassinatos e as investigações policiais revelam muitas coisas sobre outros que de outro modo dificilmente suspeitaríamos. Me acredite, assustam-me, e preferiria que não deixassem nunca de me assustar, pois o contrário implicaria que perdi a capacidade de compreender seu significado. Mas a luta é parte de meu caráter, e vamos descobrir a verdade deste!

Pitt só se surpreendeu pela metade quando, ao retornar a casa aquela noite, achou-se a Jemima sentada junto ao Charlotte frente à lareira.

Jemima se sentiu muito violenta e nervosa ao começar a lhe contar o acontecido, mas Pitt se esforçou em fazê-la sentir-se confortável, inclusive apesar de achar-se terrivelmente cansado. Quando a jovem se retirou para descansar, Pitt parecia a ponto de ficar adormecido.

Depois que se foi sua jovem convidada, informou a Charlotte que Reggie também a tinha acusado do assassinato do Freddie, e se sentiu aliviado ao ver que Charlotte não explodia em nenhum de seus habituais arrebatamentos de temperamento, nem tampouco se desfazia em lágrimas, por muito que este último fosse altamente improvável.

Pela manhã saiu novamente com destino ao Callander Square, percorrendo a pé grande parte do trajeto, já que caminhar lhe era muito útil para refletir.

Não duvidou que Freddie Bolsover tinha sido assassinado por ser chantagista, mas pensava que o assassino não tinha sido Reggie Southeron, embora só fosse porque carecia de sangue-frio para isso e porque pareceu realmente surpreso quando lhe comunicou a triste noticia.

Com certeza se nesse momento tivesse sabido algo teria preparado uma história mais plausível ao Pitt.

Mas se não tinha sido Reggie, quem tinha sido? Com certeza no Callander Square havia muitos segredos por cuja reserva valia a pena pagar.

Começaria com o Balantyne.

Encontrou-o em casa e disposto a recebê-lo. Conduziram-no ao salão matutino e um momento depois entrou o general, oferecendo ainda um aspecto pesaroso pela notícia do assassinato do Freddie.

—Bom dia, inspetor. Descobriu algo sobre o pobre Freddie?

—Sim, muitas coisas, senhor. Mas nenhuma delas agradável.

—Compreendo. É um assunto lamentável; pobre moço. Ontem você me disse que tinha sido apunhalado. Acaso não foi assim?

—Talvez não me expliquei bem. Queria dizer que descobri várias coisas sobre o próprio Bolsover, não sobre o assassinato. Acredito que averigüei o móvel do crime.

—Seriamente? -Balantyne franziu o sobrecenho-. O que quer dizer? Não terá nada que ver com os bebês da praça, espero... Sempre pensei que Freddie era um tipo bastante comedido, não muito dado a fazer tolices com mulheres.

—Não tem que ver diretamente com os bebês, mas talvez indiretamente.

Bolsover era um chantagista.

Balantyne ficou surpreso.

—Um chantagista? -repetiu estupidamente-. Como pode pensar algo tão... vil?

—Falei com uma de suas vítimas.

—Com certeza mente! Um tipo que tenha feito algo suscetível de ser submetido a chantagem, pode ser também um mentiroso.

De fato tem que ser! Do contrário outros saberiam de seus delitos.

—Uma chantagem não tem que apoiar-se necessariamente em um delito, senhor -explicou Pitt amavelmente-. Poderia tratar-se simplesmente de algo que a pessoa em questão prefere manter em privado... algum deslize ou infortúnio. Talvez do tipo de que sua filha tenha mantido uma aventura com um criado, ficando grávida dele antes de casar-se, O...

Pitt se interrompeu. Era desnecessário continuar, o rosto do Balantyne tinha adquirido já um aceso rubor escarlate. Pitt esperou.

—Esse tipo antes me veria no inferno que pagando por seu silêncio – respondeu Balantyne com lentidão-. Me acredite!

—Seriamente? -perguntou Pitt, sem mudar o suave tom de voz, mas sondando o terreno-. Sua única filha, justo antes de contrair matrimônio com um homem muito apropriado? Tem certeza? Não consideraria que vale a pena fazer um pequeno gasto para protegê-la?

Balantyne o olhou com olhos trêmulos.

Pitt não disse nada mais.

—Não sei -respondeu Balantyne ao fim-. Possivelmente tenha razão. Mas isso que diz não aconteceu. Freddie nunca veio ver-me com esse propósito. –O general baixou a vista ao tapete-. Pobre Sophie. Suponho que ela não sabia.

Muitas vezes me perguntei como Freddie conseguia manter um nível de vida tão alto. Eu tinha certos conhecimentos sobre o limitado alcance de sua clientela. Mas nunca me passou pela cabeça que ele... Que assunto tão desagradável! Acredita que ele sabia de quem eram esses bebês?

—Talvez -replicou Pitt-. Mas o duvido. Se estava pressionando a alguém por este assunto, imagino que o teriam tirado de cima muito antes. Claro que talvez soubesse algo sem ter reparado ainda em sua importância... Não sei. Por isso devo interrogar a todas as pessoas sobre as quais teria podido exercer pressão.

—Naturalmente. Claro que tem que fazê-lo. Enfim. Lamentaria me achar nessa situação, mas se pudesse ajudá-lo, não duvide que o faria.

—Muito obrigado. Poderia falar com Lady Augusta, por favor, e depois com o jovem Balantyne?

Uma vez mais Balantyne se ruborizou incomodamente.

—Lady Augusta não poderá lhe dizer nada, asseguro. Nunca em sua vida fez algo que possa justificar uma chantagem! E não é do tipo de mulheres que se deixa intimidar.

Pitt concordou com a última observação, mas se alguma vez tinha cometido alguma maldade, sem dúvida seria do general de quem desejaria mantê-la em segredo. Mas se absteve de comentá-lo, pois só teria conseguido pôr Balantyne em uma situação grave sem propósito algum.

-Não importa, senhor. Talvez ela possa me ajudar. Estou convencido de que não é uma mulher dada aos falatórios, mas estamos investigando um assassinato. Necessito toda a ajuda que possa obter.

—Sim, claro... Muito bem.

Talvez o general fosse consciente de que o ato de lhe solicitar permissão não era mais que uma mera formalidade. Não podia negar nada ao Pitt. Ele estava ali com todo o peso da lei.

Augusta o recebeu no salão de visitas, ainda um pouco frio, com o fogo recém aceso.

—Bom dia, senhora -disse Pitt assim que o criado fechou a porta às suas costas.

—Bom dia -respondeu Augusta. Era uma mulher elegante, e parecia mais relaxada que na vez anterior-. O que posso fazer por você, inspetor? Não me ocorre quem pôde matar ao Freddie Bolsover, nem por que.

—O porquê não é difícil -observou Pitt, olhando a de cheio-. Bolsover era um chantagista.

—Seriamente? -inquiriu ela, arqueando levemente as sobrancelhas-. Que desagradável! Não sabia. Imagino que tem certeza disso...

—Com efeito -disse Pitt, e esperou a próxima observação de sua interlocutora.

—Nesse caso deve tê-lo assassinado sua vítima, não é? Não pode ser que me necessite para que lhe diga uma obviedade assim!

Pitt sorriu.

—Mas isso implica que unicamente tinha uma vítima, senhora. Por que deveríamos presumir isso?

Augusta olhou-o e esboçou um tênue sorriso.

—Sim, deve reparar nisso. Enfim. Bem, o que supõe que posso lhe explicar? É claro, Freddie Bolsover não me submeteu a nenhuma classe de chantagem.

—Seriamente? Não o tentou sequer com o desafortunado incidente da senhorita Christina e o criado?

Augusta não se alterou.

—Considero que isso não é assunto da polícia.

—Concordo. Seu descobrimento foi acidental. Mas não respondeu a minha pergunta. O doutor Bolsover a tinha pressionado sobre este assunto?

—Claro que não. -Augusta sorriu e olhou a seu interlocutor com simpatia-. Eu nunca lhe teria pago. Teria encontrado outro modo de arrumar o assunto, assim como fiz com Max, que o tentou. Tenho suficiente cérebro e imaginação, inspetor, para não ver-me obrigada a recorrer à violência.

Pitt sorriu abertamente.

—Acredito-, senhora. Não obstante, espero que se reparar em algo que pudesse me ser de ajuda, embora seja mínima, me fará saber isso imediatamente.

Rogo, não trate de fazer as coisas por seus próprios meios. Essa pessoa assassinou uma vez, talvez mais, e pode voltar a fazê-lo.

—Dou-lhe minha palavra - disse ela.

Pouco mais tarde Pitt teve um encontro com o Brandy na mesma sala.

—O que se passa esta vez? -inquiriu Brandy-. Não me diga que há outro cadáver!

—Não, e quero achar que não aconteça de novo. Devo averiguar quem matou ao doutor Bolsover antes de que o assassino se sinta ameaçado de novo.

—Ameaçado? -Brandy franziu o sobrecenho.

—Bolsover era um chantagista, senhor Balantyne. É quase certo que esse foi o motivo de seu assassinato.

—A quem estava chantageando? Sabe?

—Pelo menos ao senhor Southeron.

—Ah! Mas imagino que Reggie não o assassinaria...

—Parece-lhe improvável?

—Pois... sim, parece-me isso. De certo modo não acredito que Reggie fosse A... Para falar a verdade, não teria coragem! -Brandy sorriu como desculpando sua inconveniência.

—Eu também acredito -concordou Pitt-. Ele acusou a Jemima Waggoner de assassinar ao Bolsover...

—O que? -De repente Brandy empalideceu como uma folha de papel-. Jemima? Isso é ridículo! Por que demônios ia Jemima a matar alguém?

—Porque era sua cúmplice na chantagem, mas foi muito ambiciosa e discutiu com...

—Mentiu-lhe! -Desta vez não cabia dúvida sobre a classe de emoção que embargava ao Brandy: era fúria-. Reggie o assassinou e mente para proteger-se a si mesmo! Aqui tem a prova! Se disse que Jemima fazia chantagem é um mentiroso! -Seu rosto expressava simultaneamente resolução, ira e atitude defensiva.

—A gente pode mentir sobre muitas coisas, senhor Balantyne -respondeu Pitt com calma-, mas não necessariamente sobre um assassinato. Ao que parece o senhor Southeron se deixa embargar pelo pânico muito facilmente.

—É um mentiroso! -O tom do Brandy era cada vez mais alto-. Não pode acreditar que ela... Jemima... -interrompeu-se, esforçando-se por manter o controle. Engoliu em seco e prosseguiu-: Sinto muito . Aprecio muito essa mulher.

Acredito firmemente que Jemima é inocente e acharei o modo de demonstrá-lo.

—Agradecer-lhe-ei qualquer classe de ajuda -disse Pitt, sorrindo-.

Bolsover falou com você, senhor?

—Não. Por que ia fazê-lo?

—Para exigir dinheiro, favores ou algo parecido?

—Claro que não!

—Pensei que talvez você estivesse disposto a pagar para proteger, por exemplo, a Lady Carlton.

Brandy se ruborizou.

—Como sabe isso?

Pitt evitou a resposta.

—Fez isso?

—Não. Acredito que Freddie o ignorava. Dificilmente teria sido um assunto com o que tivesse tido que ver. Quero dizer, talvez teria chegado a averiguar que estava grávida, sendo médico e todo isso... Mas nada sobre mim. Mas tudo isso carece de importância contanto que se se esclareça sobre Jemima.

Por favor, inspetor -implorou-, procure chegar ao fundo do assunto.

Pitt sorriu amavelmente.

—Aprecia-a muito, não é verdade?

—Eu... -Brandy pareceu desamparado. Ergueu a vista e disse-: Sim...Acredito que sim.

 

Pitt também visitou Robert Carlton, mais para lhe informar que Freddie tinha sido um chantagista que com esperança de que Carlton admitisse ter sido uma de suas vítimas. Expôs suas perguntas discretamente, pois pensou que a cooperação do Carlton era mais valiosa que qualquer possível situação grave que pudesse reconhecer a contra gosto.

Ao Pitt não lhe ocorreu nenhum motivo pelo que os Douram pudessem ter atraído a atenção de Freddie. O assunto da Helena já se vira submetido à especulação pública antes de que Freddie fosse assassinado.

Assim, deixou à família na privacidade de sua dor e decidiu visitar os Campbell. Também neste caso não lhe ocorria nenhuma razão pela que pudessem ter sido chantageados, mas sempre cabia a possibilidade de que houvesse algum segredo, embora nesse caso fosse improvável que quisessem revelá-lo.

Entretanto, Pitt sabia que inclusive nas conversas mais herméticas podiam achar-se pequenas chaves: muitas vezes a própria reserva era um indício de que algo se tratava de ocultar.

Viu primeiro Mariah, dado que Campbell estava em seu estúdio escrevendo umas cartas. Encontrou-a muito serena, e não manifestou mais que uma profunda simpatia por Sophie.

Não averiguou nada, salvo a confirmação de uma sensação que tinha tido antes: que se tratava de uma mulher muito forte que ao longo de sua vida tinha tido ocasião de superar muitos escolhos, inclusive grandes penas, e de que estaria disposta a ajudar ao Sophie a superar a comoção que padecia, assim como a vergonha que sem dúvida ia ter que sofrer a seguir.

Viu-se obrigado a esperar mais de um quarto de hora antes de que Garson Campbell enviasse a um criado para acompanhá-lo a seu estúdio. Encontrou ao Campbell de pé frente ao fogo, balançando levemente o corpo. Parecia zangado.

—Bem, Pitt, o que ocorre? -disse laconicamente.

Pitt decidiu que não valia a pena ser sutil. Achava-se frente a um homem ardiloso e agressivo que seria capaz de reconhecer e evitar qualquer armadilha verbal que tentasse lhe estender.

—Sabia que o doutor Bolsover era um chantagista?

Campbell considerou à resposta uns instantes.

—Sim, sabia -disse lentamente.

Pitt sentiu uma pontada de excitação.

—Como soube, senhor?

Os frios olhos cinzas do Campbell o olharam com amargo regozijo.

—Não porque estivesse me chantageando a mim, inspetor. Uma de suas vítimas veio me pedir conselho. Naturalmente, não posso revelar seu nome.

Pitt sabia que era inútil pressioná-lo. Havia pessoas suscetíveis de ser coercionadas, intimidadas ou dominadas por outra pessoa, mas não era o caso do Garson Campbell.

—Poderia me dizer que tipo de conselho deu a essa vítima? -perguntou.

—Certamente -disse Campbell, sorrindo levemente-. Aconselhei-o que pagasse, ao menos de momento. O motivo da chantagem era um deslize, não um delito. O perigo de que se fizesse público e de que pudesse provocar verdadeiro dano passaria logo.

Também lhe prometi que falaria com Freddie para lhe advertir que um truque assim não lhe sairia bem pela segunda vez.

—E o fez?

—Sim.

—E qual foi a reação do Bolsover?

—Duvidosa, diria eu, inspetor. Não acredito que um homem capaz de fazer chantagem tenha reparos em mentir.

—A chantagem é um delito furtivo, oculto, senhor Campbell. Um chantagista se apóia no segredo e está acostumado a ser um covarde. Poderia ter se assustado ante a intervenção de um homem mais poderoso que ele...

Algo que Southeron não é, mas você sim.

As sobrancelhas do Campbell se arquearam com ar divertido.

—Então sabia sobre Reggie?

-Claro que sim -afirmou Pitt, permitindo-se certa arrogância.

—E não deteve ao pobre Reggie? É um imbecil. Cai preso do pânico com suma facilidade.

—Já me dei conta -concordou Pitt-. Mas também é um covarde, acredito eu.

E certamente não é a única pessoa no Callander Square que pudesse merecer as atenções de um chantagista.

O rosto do Campbell se escureceu e seu corpo se enrijeceu. Por um instante pareceu sofrer um espasmo de dor.

—Eu se fosse você mediria minhas palavras, Pitt. Pode ganhar grandes iras se se dedicar a fazer acusações ligeiras sobre a gente deste lugar. Todos temos nossas fraquezas ,algumas delas pouco agradáveis segundo sua escala de valores, mas não nos agrada que se delas fale. Todos fazemos o que gostamos com discrição, e os que residimos no Callander Square temos a boa fortuna de poder fazer mais coisas que a maioria; ganhamos ou herdou essa posição.

No máximo averigúe quem matou a esses bebês, se for realmente necessário, e trate de descobrir quem apunhalou ao Freddie Bolsover, mas tenha consideração pelo Sophie e não desenterre um escândalo só para ver o que sai à superfície.

Poderia destruir sua carreira, asseguro. É muito provável que acabasse fazendo rondas noturnas pelo porto pelo resto de seus dias.

Pitt olhou-o nos olhos. Não duvidou que Campbell queria dizer exatamente o que havia dito, e que se tratava de algo mais que de uma mera advertência.

—Freddie Bolsover era um chantagista, senhor - respondeu com tom monocórdio-, e a chantagem se alimenta do escândalo. Dificilmente posso descobrir quem o matou sem averiguar antes o motivo.

—Se era um chantagista, merecia morrer. Talvez em altares da paz de quem ainda residem no Callander Square fosse melhor que deixasse as coisas tal como estão. Eu não tenho nenhum escândalo que ocultar, como imagino já saberá você, mas há muitos homens poderosos que sim o têm. Por sua segurança e minha conveniência, recomendo-lhe que não remova muito os trapos sujos. Já faz muito tempo que suportamos à polícia rondando por aqui. Não é bom para nós. Já vai sendo hora de que chegue a uma conclusão ou renuncie e nos deixe em paz.

Pensou que seu persistente bisbilhoto poderia ter precipitado estas tragédias? Que longe de estar fazendo algum bem em realidade não faz senão piorar o que já estava bastante mal desde o princípio?

—Já aconteceu com antecedência que um assassino comete um segundo crime para encobrir o primeiro. Isso não é motivo para deixá-lo em liberdade.

—OH, pelo amor de Deus, não seja tão endiabradamente piedoso! O que tem até o momento? Uma criada que fica grávida e mata seus bebês... ou enterra aos que já nasceram mortos, uma rameira cujo amante se cansou dela, e um chantagista. Hoje por hoje não tem a mínima possibilidade de averiguar a identidade dessa criada, e, por outra parte, a quem lhe importa? O amante da Helena provavelmente já se encontra em outro país e, dado que aparentemente ninguém o viu, não tem mais probabilidades de levá-lo a forca que de apanhar a lua com um laço.

E no que diz respeito ao Freddie, ele mesmo o buscou. A chantagem é um delito. E quem assegura que fora alguém do Callander Square? Tinha pacientes por toda parte. Tente-o com eles. Mas depois não me culpe se o põem de quatro na rua!

Pitt partiu mais deprimido do que se sentia no começo do caso. Grande parte do que Campbell lhe havia dito era verdade. Era certo que sua presença podia ter precipitado tanto a chantagem do Freddie como sua morte.

E não parecia achar-se mais perto da solução de nenhuma das mortes do que tinha estado no primeiro dia.

Dois dias depois, quando foi chamado por seus superiores e interrogado duramente sobre o assunto, se não tivesse sido pela apaixonada determinação de Charlotte, teria cedido a suas pressões e teria admitido a derrota em tudo salvo no motivo do assassinato do Freddie Bolsover.

—Somos conscientes de que fez todo o possível, Pitt -disse um pouco irritado Sir George Smithers-. Mas ainda não achou nada, não é assim? Não estamos mais perto de uma resolução do que o estávamos no primeiro dia! E depois já passou um tempo mais que considerável.

—E o necessitamos para casos mais importantes -acrescentou o Coronel Anstruther com mais serenidade-. Não podemos desperdiçar a um de nossos melhores homens em um beco sem saída.

—E o que se passou com o doutor Bolsover? -perguntou Pitt com mordacidade-. Também devemos arquivá-lo sob "casos sem resolver"? Não lhe parece um pouco prematuro? As pessoas