Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
OS CINCO NA TORRE DO FAROL
Os primeiros dias passados na bela região da Cornualha foram calmos, sem grandes acontecimentos.
Mas, para os Cinco, a aventura ia chegar pela mão dos Barnies - artistas ambulantes, com o seu cavalo Francis, que faz espantosas habilidades.
Mas que ligação terão os Barnies com as luzes que, em certas noites de tempestade, se acendem na Torre do Farol, há tantos e tantos anos abandonada? Se ninguém habita a misteriosa torre, quem acende essas luzes, que um velho pastor afirma ter visto por várias vezes?
Os Cinco não resistem à tentação de desvendar mais este mistério - eles que tantos outros têm revelado. E a verdade é que vão consegui-lo, Como? Isso é com eles...
COMEÇAM AS FÉRIAS
- QUE maçada! Parece-me que um dos pneus está a esvaziar-se - disse o David. - Não podia ser em pior altura!
O Júlio olhou para a roda traseira da bicicleta do David e depois para o seu relógio.
- Só tens tempo para o encher, - disse ele.
- Faltam sete minutos para o comboio partir. O David desmontou e pegou na bomba. Os
outros também desceram das suas bicicletas e juntaram-se à volta do pequeno, a ver se a roda se enchia bem ou não.
Eles dirigiam-se à estação de Kirrin para apanhar o comboio e desta vez também levavam as bicicletas. Haviam mandado a bagagem à frente e pensavam ter bastante tempo para pedalarem até lá, tratarem do embarque das bicicletas no vagão das mercadorias e meterem-se no comboio tranquilamente.
- Nós não podemos perder o comboio, - disse a Zé, com ar carrancudo. Ela ficava sempre irritada quando as coisas não corriam bem.
- Podemos, sim. É a coisa mais fácil deste mundo, - disse o Júlio, rindo-se da cara zangada da Zé. - Que achas tu, Tim?
O Tim ladrou com força, como se quisesse explicar que concordava. Lambeu a mão da Zé e esta fez-lhe uma festa. Depois perdeu o ar carrancudo ao ver que a roda da bicicleta do David começava a encher-se sem novidade. O pequeno, ao verificar que o pneu estava bem cheio, deu um suspiro de alívio e voltou a pôr a bomba no seu lugar.
- Livra! Custou! - disse ele montando na bicicleta. - Oxalá se aguente até à estação. Estava com medo de que tivessem de ir sem mim.
- Isso não! - exclamou a Ana. - Se fosse preciso íamos no comboio seguinte. Anda, Tim!
Os quatro primos e o Tim lá continuaram até à estação. Quando entraram viram o sinal indicando que o comboio estava a chegar. O carregador, com uma cara muito redonda e vermelha, veio logo ter com eles, sorrindo.
- A bagagem dos meninos já está despachada, - disse ele. - E devo dizer que é bem pouca para tanta gente. Só uma pequena mala!
- Não nos preocupamos muito com o vestuário durante as férias, - disse o Júlio. - O senhor pode pôr as etiquetas nas bicicletas, sem demora? O comboio está a chegar.
O carregador começou a fazer o que o Júlio lhe pedira, mas sem grandes pressas. Enquanto a sua tarefa não estivesse terminada ele não deixaria sair o comboio. Este chegava naquele momento à estação.
- Vão para a Cornualha, não é verdade?- perguntou o carregador. - Para Tremanal. Tenham cuidado quando tomarem banho. O mar ali é muito perigoso.
- Ah, o senhor conhece a Cornualha?! - exclamou a Ana, admirada. - É bonito?
- Bonito? Bem, lá isso não sei, - respondeu o carregador, elevando a voz por causa do barulho que o comboio fazia. - Quando eu lá estive andava quase sempre no barco de pesca do meu tio e achava tudo aquilo muito solitário e primitivo. Nunca pensei que fosse um sítio bom para passar as férias. Não tem cinema, nem vendem sorvetes pelas ruas, nem há banda de música...
- Esplêndido, - disse o Júlio. - Nós passamos bem sem tudo isso. Queremos apenas tomar banho de mar, passear de barco, pescar e dar passeios de bicicleta.
É assim que nós gostamos das férias.
- Béu! Béu! - fez o Tim, abanando a cauda.
- Sim, e tu também, - disse a Zé, fazendo-lhe uma festa na cabeça. - Vamos, é melhor instalarmo-nos já no comboio.
- Eu trato das bicicletas, - disse o carregador. - Divirtam-se e se virem o meu tio digam-lhe que me conhecem. Ele tem o mesmo nome do que eu. Chama-se João Polpy.
- Obrigado, sr. João. Se pudermos havemos de procurar o seu tio, - disse o Júlio enquanto subia para o comboio, com os outros.
Os pequenos sentaram-se junto da janela e o Tim aproximou-se, pondo-se com as patas no parapeito e a cabeça para fora. Esperava ficar assim toda a viagem, pois gostava de sentir o vento a dar-lhe no focinho.
- Tim, olha que te entram fagulhas nos olhos - disse a Zé. - Da última vez foi o que te aconteceu e tu ias arrancando os olhos de tanto os esfregar com a pata.
O Tim não ligou nenhuma importância ao que a Zé dissera; com faúlhas ou sem elas tencionava continuar onde estava. Sentia-se feliz. Estava de novo com os seus amigos e iam dar um passeio. Com certeza haveria coelhos para caçar; o Tim ainda não conseguira caçar nenhum mas não perdia as esperanças.
- Pronto, estamos outra vez fora de casa, - disse o Júlio. - Como eu gosto dos preparativos para as férias! Arranjar as coisas.
consultar mapas, escolher o sítio para onde queremos ir e por fim a partida!
- Num dia bonito como o de hoje, - concluiu a Ana. - Ó Zé, como soube a tua mãe da existência da Quinta do Tremanal?
- Na verdade quem ouviu falar nela foi o meu pai, - respondeu a Zé. - Como sabes ele tem um grupo de cientistas amigos que gostam de escolher sítios isolados para poderem trabalhar em paz e sossego. Um deles foi para a Quinta do Tremanal, pois ouviu dizer que era um dos lugares mais pacatos do mundo. O pai contou que ele foi para lá «pele e osso» e quando voltou estava gordo como um peru no Natal. Por isso, a minha mãe disse que era o lugar indicado para passarmos as férias.
- E tem razão, - observou o David. - Eu sinto-me pele e osso depois de ter passado três meses seguidos no colégio agarrado aos livros. Preciso de engordar!
Todos se riram. - Tu podes sentir-te pele e osso mas não pareces, - disse o Júlio. - Até precisas de fazer exercício para emagreceres. Nós tratamos disso andando a pé e de bicicleta, tomando banho de mar, subindo montes...
- E correndo, - concluiu a Zé. - Ó Tim, tens que ser amável com os cães da quinta, se não passas um mau bocado.
- E não te esqueças de pedir licença aos outros cães para caçar os coelhos que lhes pertencem, - disse o David, muito sério.
O Tim bateu com a cauda nos joelhos do David e abriu a boca deitando a língua de fora; parecia mesmo que estava a rir!
«Ri-te das minhas piadas, - disse o David. - Ainda bem que vieste, Tim! Fazes-nos óptima companhia!
- O Tim vem sempre connosco nas férias,
- disse a Zé. - E toma parte em todas as nossas aventuras.
- Querido Tim! - exclamou o Júlio. - Talvez também desta vez entres em alguma!
- Eu não quero aventuras nestas férias,
- disse a Ana num tom decidido. - Quero estar em férias e nada mais. Não nos preocuparemos com as coisas que nos pareçam misteriosas.
- Muito bem, - concordou o Júlio. - Nada de aventuras desta vez. Vamos fugir de tudo que nos possa meter nalguma. Estão de acordo?
- Estou, - respondeu a Ana.
- Está bem, - disse a Zé, pouco convencida.
- Esplêndido! - exclamou o David.
O Júlio olhou para eles, surpreendido. - Céus! Devo dizer que os acho muito mudados. Pois bem, se vocês estão todos de acordo eu também estou. Ainda que nos encontremos metidos em grandes mistérios, afastamo-nos dizendo: «Não, muito obrigado». Está assente?
- Bem, - começou a Zé. - Eu não garanto que...
Mas o que ela não garantia ninguém chegou a saber, pois naquele momento entrou uma faúlha num dos olhos do Tim. Este deitou-se no chão a ganir e esfregando os olhos com a pata.
«Ora aí tens! - disse a Zé. - Eu bem te avisei. Deixa-me tirar-te a faúlha com a ponta do lenço. Está quieto. Júlio, segura-o, se fazes favor.
Finalmente a Zé conseguiu tirar a fagulha e o Tim correu logo para o seu posto, voltando a debruçar-se da janela.
«Temos que o meter para dentro e fechar a janela, disse a Zé.
- Mas eu não estou para morrer assado, com todas as janelas fechadas, só por causa dos olhos do Tim, - disse o Júlio, com firmeza. - Se ele não quiser obedecer-te é muito bem feito que apanhe mais fagulhas.
Mas tudo se resolveu rapidamente porque o comboio ficou na mais completa escuridão. O Tim assustado correu a refugiar-se nos joelhos da Zé.
- Não sejas palerma, Tim, - disse a Zé. - Não vês que é um túnel? Júlio, chama-o para aí. Está tanto calor para o ter em cima dos meus joelhos! Sai daqui, Tim. Já te disse que é um túnel!
A viagem parecia longa. Estava muito calor dentro do comboio que ainda por cima parava em todas as estações e apeadeiros, onde chegava a demorar-se uns dez minutos. Houve duas mudanças e os pequenos tiveram de esperar pelos comboios seguintes, sentados em plataformas batidas pelo sol. O Tim sentia-se sufocado e mantinha a língua de fora;
a Zé pediu água aos carregadores quando mudaram de comboio.
Os pequenos levavam almoço mas não tinham apetite. Sentiam-se cada vez mais sujos e com mais sede, pois depressa beberam todas as laranjadas que levavam.
«Santo Deus! - exclamou o Júlio abanando-se com uma revista. - Quanto eu daria agora por um banho! Tim, não respires para cima de mim. Fazes-me ainda mais calor do que já tenho.
- A que horas chegaremos? - perguntou a Ana.
- Descemos no apeadeiro de Polwilly, - respondeu o Júlio. - É o sítio mais próximo da Quinta do Tremanal. Depois vamos de bicicleta. Se tudo correr bem chegaremos à hora do lanche.
- Devíamos ter comprado mais bebidas, - disse o David. - Sinto-me como um homem perdido durante semanas num deserto batido pelo sol.
Ficaram todos muito satisfeitos quando chegaram ao apeadeiro de Polwilly. Ao princípio não deram por ele. Não tinha mais do que uma simples plataforma ao lado da linha férrea. O comboio parou, deitando uma grande baforada de fumo. Os pequenos levantaram-se mas não desceram, pois não viam nenhuma tabuleta ou sinal que indicasse ser aquele o apeadeiro que desejavam.
Ouviram passos apressados na pequena plataforma. A cara suada dum guarda apareceu à janela.
- Então não descem? Vão ficar aí todo o dia?
- Céus! Este é o apeadeiro de Polwilly?
- exclamou o Júlio aflito. - Não sabíamos que isto era um apeadeiro! Vamos descer já.
O comboio partiu mal eles tinham saltado para a plataforma. Os pequenos ficaram sozinhos com as bicicletas um pouco mais adiante. Aquele apeadeiro parecia perdido no meio dos campos e montes. Não se via uma única casa.
Mas a vista apurada da Zé depressa descobriu para oeste uma coisa encantadora. Ela puxou por um braço do Júlio. - Olha, o mar! Ali, para lá daqueles montes. Tenho a certeza de que é o mar. Que lindo tom de azul!
- É sempre daquele tom na costa da Cornualha, - disse o Júlio. - Sinto-me melhor só de o ver. Vamos! Agora temos de descobrir o caminho para a Quinta do Tremanal. Se não bebo depressa qualquer coisa fico com a língua de fora como o Tim.
Foram buscar as bicicletas. O David experimentou o pneu da sua. Não tinha muito ar mas ele encheu-o novamente com a bomba.
- A Quinta do Tremanal fica muito longe?
- perguntou o pequeno.
O Júlio consultou os seus apontamentos.
- «Sair no apeadeiro de Polwilly. Depois seguir por um atalho até à Quinta do Tremanal. A Aldeia do Tremanal aparece cerca de um quilómetro e meio antes». Nada mau.
Podemos tomar uma limonada ou talvez mesmo um sorvete.
- Uuuuf! Uuuuf! - fez o Tim. Ele conhecia muito bem a palavra sorvete.
- Pobre Tim, - disse a Ana. - Vai ter tanto calor correndo ao lado das nossas bicicletas! É melhor irmos devagar.
- Se pensam que eu vou por aí fora a toda a velocidade enganam-se, - disse o David.- Vou tão devagar quanto tu queiras, Ana.
Seguiram por um caminho ladeado por altas sebes. Iam devagar por causa do Tim, Pobre Tim! Ele nunca desanimava quando estava com os seus quatro companheiros.
Eram quase cinco horas e a tarde continuava muito bonita. Não encontraram ninguém e nem mesmo uma vagarosa carroça. Estava muito calor para os pássaros cantarem. Não soprava a mais pequena aragem. Um curioso silêncio e uma estranha solidão pairavam em toda a parte.
O Júlio olhou para os outros pequenos e disse-lhes com um sorriso trocista: - Sinto uma aventura no ar. Nós vamos ao encontro da aventura! Mas, voltar-lhe-emos as costas dizendo: Vai-te embora!
NA QUINTA DO TREMANAL.
O caminho por onde os pequenos seguiam estava ladeado por papoilas e as madressilvas impregnavam o ar com o seu cheiro agradável. O trigo crescia nos campos à volta, já da cor do ouro, salpicado com o vermelho das papoilas.
Por fim chegaram à Aldeia do Tremanal. Realmente nada mais havia do que uma rua sinuosa com algumas lojas e casas. Ao longe, espalhadas pelos montes, viam-se várias quintas com as suas casas de pedra brilhando ao sol.
Os pequenos entraram numa das lojas. - Tem sorvetes? - perguntou o Júlio, esperançado. Mas não havia. Que desilusão! Tinham laranjada e limonada bastante fresca, pois estavam guardadas na cave.
- São os meninos que se vão hospedar na quinta da sr.a Peney? - perguntou a dona da loja. - Ela espera-os. São «estrangeiros», não é verdade?
- Bem, estrangeiros propriamente não, - respondeu o Júlio, lembrando-se de que para a maioria das pessoas da Cornualha quem fosse doutros sítios era considerado estrangeiro. - Uma tia-avó da minha mãe viveu toda a sua vida na Cornualha. Portanto não somos completamente estrangeiros, não acha?
- São «estrangeiros», isso é que são, - insistiu a teimosa senhora, olhando fixamente para o Júlio. - Os meninos têm fala de «estrangeiros». Precisamente como um hóspede que a sr.a Peney teve há pouco tempo. Eu descobri logo que ele era maluco, embora inofensivo.
- Sim? - disse o Júlio servindo-se da sua terceira limonada. - Bem, ele era um cientista e quem quiser ser um bom cientista tem de ser um bocado maluco. Pelo menos é o que eu tenho ouvido dizer. Esta limonada é muito boa. Dê-me outra, se faz favor.
A velha riu-se, divertida. - Bem, bem. A sr.a Peney preparou-lhes uma esplêndida refeição mas acho que os meninos não conseguem fazer-lhe as honras com essa limonada toda a chocalhar-lhes no estômago.
- Não me diga que a ouve chocalhar, - disse o Júlio muito sério.-Como nos deve achar grosseiros! São modos de «estrangeiros», claro está! Quanto lhe devemos? Que óptima limonada!
Pagaram a conta e montaram outra vez nas bicicletas depois de perguntarem à velhota qual o caminho para a quinta. O Tim seguiu ao lado deles muito fresco por ter bebido durante quatro minutos sem parar.
- Tim, acho que bebeste água suficiente para encher o bebedouro dum cavalo, - disse o Júlio. - Meu Deus, se o tempo continua assim, vamos ficar da cor dos peles-vermelhas.
O caminho para a Quinta do Tremanal estava em muito mau estado mas por fim os pequenos lá chegaram. Quando atravessaram o portão vieram ter com eles, a ladrar, quatro cães. O Tim, com o pêlo eriçado, rosnou ameaçadoramente, ficando muito quieto com um olhar feroz.
Nessa altura apareceu uma senhora atrás dos cães sorrindo para os pequenos. - Ben, Roby! Para aqui, Nilo! Quieto, Gold! Não tenham medo, meninos. Isto é a maneira de eles dizerem: - Sejam bem-vindos à Quinta do Tremanal.
Os cães juntaram-se à volta das crianças, com a língua de fora e a cauda a abanar. Eram três grandes e um pequeno. Todos bonitos. O Tim mirou-os um a um. A Zé, à cautela, segurou-o pela coleira não fosse ele convencer-se de que era capaz de se bater sozinho com os quatro.
Mas o Tim portou-se como um autêntico «cavalheiro». Mexeu a cauda muito delicadamente e o pêlo deixou de estar eriçado. O cão mais pequeno correu para ele e começou a cheirá-lo.
Então os três cães grandes afastaram-se e as crianças deram um suspiro de alívio por verem que o Tim não seria olhado por eles como um «estrangeiro».
- Eles agora já estão satisfeitos, - disse a sr.a Peney - Fizeram as suas apresentações. É melhor os meninos virem comigo. O lanche está à vossa espera.
A sr.a Peney não tinha o sotaque das outras pessoas da Cornualha. Parecia muito contente por ver os pequenos e recebeu-os com alegria. Levou-os a uma casa de banho muito grande mas antiquada; só tinha uma torneira, de água fria, correndo muito pouco.
A água estava bastante fresca, o que era muito agradável num dia tão quente. Os pequenos lavaram-se e pentearam-se.
Havia dois quartos, um para os rapazes e outro para as raparigas. Eram muito pequenos, com umas janelas muito estreitas, deixando passar pouca luz. Por isso estavam muito escuros apesar da claridade do dia. Tinham pouca mobília; duas camas em cada um deles, uma cadeira, um suporte para as toalhas, um armário e dois tapetes. Nada mais. Mas as janelas mostravam uma vista esplêndida.
Viam-se léguas e léguas de campos cobertos de trigo, pastagens, sebes e atalhos sinuosos ; o feno brilhava nalguns montes; batido pelo sol, ao longe ficava o azul vivo do mar da Cornualha. Uma maravilha!
- Logo que seja possível vamos de bicicleta até ao mar, - disse o David, tentando alisar os cabelos que lhe saltavam para cima da testa. - Existem várias grutas na costa. Havemos de as explorar. Oxalá a sr.a Peney nos dê uns bons farnéis para podermos estar fora todo o dia e irmos para onde quisermos.
- Deve dar, com certeza, - disse o Júlio. - Ela é uma simpatia. Nunca fui tão bem recebido na minha vida. Já estão prontos? Então vamos até lá abaixo.
Começo a sentir o estômago a dar horas.
A refeição que os esperava era formidável. Um presunto muito grande e rosado como a língua do Tim, e uma salada que parecia feita para um rei. Feita para vários reis, tão grande era, como observou o David. A salada tinha tudo o que era possível imaginar-se.
- Alface, tomates, cebolas, rabanetes, mostarda, cenouras e agriões, - enumerou o David.- E ovos cozidos...
Via-se também em cima da mesa uma terrina enorme cheia de batatas novas com salsa picada e manteiga derretida. E ainda uma grande garrafa com molho para a salada.
«Olhem para aquele queijo! - exclamou o David, deliciado. - E que grande bolo de frutas! Aquilo, são «scones» feitos em casa? É tudo para nós, sr.a Peney?
- Pois claro, - respondeu a gorducha senhora, sorrindo para o David. - E também têm uma torta de cerejas com creme, tudo feito em casa. Eu bem conheço o apetite das crianças. Tive sete filhos; todos eles se casaram e se foram embora. Por isso gosto de reviver os velhos tempos quando tenho ocasião para isso.
- Ainda bem que nos apanhou a nós, - disse o David, servindo-se do presunto e da salada. - Pois vai ter bastante trabalho connosco. Temos sempre um apetite devorador.
- Ora, eu nunca encontrei crianças que comessem tanto como as minhas, - disse a sr.a Peney com um ar triste.
- E também nunca encontrei um homem com tanto apetite como o sr. Peney. É um belo «garfo». Ele deve chegar daqui a pouco.
- Oxalá lhe deixemos bastante comida, - disse a Ana, olhando para o presunto e para a salada, quase no fim.
- Não admira que o amigo do meu tio tenha ido daqui tão gordo. - Pobre homem - disse a sr.a Peney, enchendo os copos com leite. - Era magro, como o meu marido quando o conheci; tinha os ossos todos saídos a martelarem uns nos outros... Dizia que não a tudo, mas eu não lhe
ligava importância. Quando ele não queria comer ao jantar, levava o tabuleiro para trás e passados dez minutos apresentava-lho outra vez. «São horas de jantar e espero que o senhor esteja com apetite!» dizia-lhe eu. Até que ele acabava por comer.
- Mas não percebia que a senhora já lhe tinha levado antes o tabuleiro?-perguntou o Júlio, admirado. - Deve ser muito distraído.
- Um dia cheguei a levar-lhe o mesmo jantar três vezes, - contou a sr.a Peney. - Por isso tenham cuidado, não vá eu fazer o mesmo com os meninos.
- Isso queríamos nós, - respondeu-lhe o Júlio, rindo. - Por favor, dá-me mais um pouco de presunto? E ainda mais salada!
Nesse momento ouviram-se passos no chão de pedra da entrada. Abriu-se a porta e apareceu o dono da quinta. Os pequenos olharam para ele, cheios de respeito.
Tinha uma estranha figura. Muito alto, com cerca de um metro e noventa, de ombros largos, e escuro como um cigano queimado pelo sol. O cabelo era preto e desgrenhado. E os olhos eram da cor do cabelo.
- É o sr. Peney, - disse a sr.a Peney. Os pequenos levantaram-se e apertaram-lhe a mão, sentindo uma espécie de medo daquele homenzarrão.
O sr. Peney cumprimentou-os baixando a cabeça e apertou-lhes as mãos. As suas eram enormes, cobertas com uns pêlos tão espessos que mais pareciam a pele duma raposa. A Ana
achou que devia ser agradável fazer-lhes festas como a um gato.
Sentou-se sem dizer uma palavra e deixou a sr.a Peney servi-lo. - Então, como vai a vaca, sr. Peney?
- Ah, - respondeu ele, pegando num prato com presunto. Os pequenos olharam cheios de espanto para as fatias que ele ia comer. Sete ou oito!
- Ainda bem que ela está melhor, - disse a sr.a Peney, empilhando os pratos sujos. - E o bezerrinho que tal é? Que cor tem ele?
- Ah, - respondeu ele baixando a cabeça.
- Castanho e branco, como a mãe. Que bom, não acha? - disse a mulher, que parecia ter o dom maravilhoso de interpretar os seus «Ahs». - Que nome lhe vamos dar?
Os pequenos tiveram vontade de dizer «Ah» mas nenhum se atreveu. Porém o sr. Peney desta vez não disse «Ah» mas sim qualquer coisa que soou como «Eck».
- Está bem, fica a chamar-se Moleque, - disse a sr.a Peney. - Tem sempre óptimas ideias, sr. Peney!
Não soava nada bem a sr.a Peney tratar o marido pelo apelido mas por outro lado os pequenos não conseguiam imaginar que um gigante daqueles tivesse um nome como José ou António.
As crianças continuaram a comer a sua refeição, divertindo-se a olhar para o sr. Peney, que devorava pratos sobre pratos, com a boca muito cheia. A sr.a Peney viu-os a olhar para o marido.
- É um grande comilão, não é? - perguntou ela, cheia de orgulho. - Os meus filhos eram assim. Quando eles cá estavam eu vivia sempre muito ocupada; mas agora, só com o sr. Peney, sinto-me muito só. É por isso que eu gosto de ter gente em casa. Os meninos avisem-me logo, se a comida não lhes chegar,, sim?
Todos riram e o Tim ladrou. Ele também tinha comido uma esplêndida refeição. A sr.a Peney dera-lhe o maior osso que ele vira em toda a sua vida, e a única coisa que o preocupava agora era descobrir a maneira de o esconder dos outros cães da quinta.
De repente o sr. Peney soltou uma das suas características exclamações e meteu a mão na algibeira. - Oh, ah, - disse ele tirando um bocado de papel muito sujo, que entregou à sr.a Peney. Esta desdobrou-o e depois de o ler olhou sorridente para os pequenos.
- Ouçam uma grande notícia, - disse ela. - Os Barnies chegam esta semana. Vocês vão gostar muito deles.
- Quem são os Barnies? - perguntou a Zé, intrigada com a alegria e excitação da sr.a Peney.
- São artistas ambulantes que andam dum lado para o outro dando representações nos celeiros, - explicou a sr.a Peney. - Como não temos cinema perto, os Barnies são sempre bem-vindos.
- Que bom! - exclamou a Ana. - Com certeza que nós vamos gostar muito de os ver.
Eles representam no seu celeiro, sr.a Peney?
- Representam. E vem cá toda a gente da aldeia para os ver, - respondeu ela, com as faces vermelhas de entusiasmo. - Se calhar também vem gente da Aldeia Nova. Vai ser uma festa.
- Ah, - disse o sr. Peney abanando a sua grande cabeça. Via-se que ele também gostava dos Barnies. Deu uma gargalhada e disse qualquer coisa imcompreensível.
- O sr. Peney diz que os meninos vão gostar do Francis, - explicou a sr.a Peney, rindo. - É um cavalo. As coisas que ele faz! A maneira como ele se senta e cruza as pernas! Bem, depois verão.
Aquilo parecia tão engraçado!
Um cavalo que se sentava e cruzava as pernas? O Júlio piscou o olho ao David. Com certeza ia gostar de ver os Barnies.
DEPOIS de terem comido tanto, os pequenos não se sentiam com disposição para fazer qualquer coisa. O David ainda pensou em ir remendar a câmara de ar da bicicleta mas não sabia bem se conseguiria abaixar-se.
A sr.a Peney começou a levantar a mesa. A Zé e a Ana ofereceram-se para a ajudar.
- São muito amáveis, - disse a sr.a Peney.
- Mas esta noite estão muito cansados. Fica para outra vez. A propósito, qual das duas é a Ana?
- Sou eu, - disse a Ana.
- Eu chamo-me Zé e não Maria José. Peço-lhe o favor de não me chamar pelo meu verdadeiro nome, pois detesto-o. Sempre desejei ser um rapaz e por isso gosto que me tratem por Zé.
- No fim de contas ela quer dizer que não responde se a tratarem por Maria José,
- explicou a Ana. - Bem, se realmente não precisa da nossa ajuda, vamos ter com os meus irmãos.
Na verdade a Zé, de calções cinzentos, cabelo curto e encaracolado e a cara cheia de sardas mais parecia um rapaz do que uma rapariga.
Ela meteu as mãos nas algibeiras, tentando caminhar como os primos.
O David depressa descobriu o furo na roda e remendou-o. A certa altura apareceu o sr. Peney com uns fardos de palha para a vaca e o bezerrito. Os dois rapazes olharam-no cheios de admiração, pois levava duma só vez uma extraordinária quantidade de palha. Ele cumprimentou os pequenos baixando a cabeça e continuou o seu caminho sem dizer uma palavra.
- Por que razão não falará o sr. Peney? -disse o David. -Naturalmente os seus sete filhos saíram faladores como a mãe e nunca lhe deram tempo para dizer uma única palavra. Agora é muito tarde. Já não se lembra como se fala.
Os dois rapazes riram. - Que gigante! - disse o Júlio. - Oxalá eu cresça tanto como ele!
- Eu não gostava. Ficaria com os pés fora da cama, - observou o David. - Pronto, a roda já está consertada. Olhem para o prego que fez o furo! Devo ter passado por cima dele esta manhã, quando íamos para a estação.
- Já reparaste no Tim? - perguntou o Júlio. - Está divertidíssimo com os cães da quinta. Até parece um cachorrinho.
E na verdade assim era. Ora corria para cá e para lá, ora se atirava de encontro aos outros cães, saltando-lhes em cima até os fazer cair, no meio duma barulheira em que o
cão mais pequeno se via aflito para se aguentar.
«O Tim vai acompanhar-nos em grandes passeios de bicicleta, - disse o Júlio. - Correndo quilómetros sobre quilómetros não poderá engordar.
Nessa altura chegaram as pequenas. A pouca distância vinha um rapazito, descalço, com o cabelo desgrenhado e muito sujo.
- Quem é aquele? - perguntou o David.
- Não sei, - respondeu a Zé. - Apareceu de repente atrás de nós e tem-nos seguido por toda a parte. Não se quer ir embora.
O miúdo vestia um par de calças todas esfarrapadas e uma camisa sem mangas nem botões. Tinha olhos negros e estava muito queimado pelo sol. Deixou-se ficar a certa distância, olhando fixamente para os pequenos.
- Mas quem és tu? - perguntou o David. O miúdo, assustado, afastou-se um pouco, abanando a cabeça.
- Eu perguntei-te quem és tu, - repetiu o David. - Mas se preferes diz-nos como te chamas.
- Jano, - respondeu o miúdo.
- Jano, - repetiu o David. - Que nome tão esquisito.
- Se calhar é o mesmo que João, - sugeriu a Zé.
- Isso. Jano, - disse o miúdo.
- «Isso» deve ser o mesmo que «sim», - observou a Ana. - Pronto, Jano. Agora podes ir-te embora.
- Não me vou embora, - disse o miúdo, firmemente. - Isso.
E deixou-se ficar, seguindo os outros por toda a parte. Olhava cheio de curiosidade para tudo que eles faziam como se nunca na sua vida tivesse visto crianças.
- Parece um mosquito, - disse o David. - Sempre a zumbir à nossa volta. Começo a sentir-me farto de o ver. Eh, Jano!
- Isso.
- Desaparece! Estás a ouvir? Raspa-te, evapora-te, eclipsa-te, - gritou o David. O Jano continuou a olhar para ele fixamente.
A sr.a Peney ouviu tudo aquilo e foi até lá fora. - O Jano está a incomodá-los? - perguntou ela. - É curioso como um gato. Vai para casa, Jano. Toma lá isto para o teu vovô. E isto para ti.
O Jano arrancou das mãos da sr.a Peney um embrulho com comida e o bocado de bolo que ela lhe estendia. E sem mais uma palavra desapareceu, correndo com os pés descalços, pisando o chão sem fazer barulho.
- Quem é ele? - perguntou a Zé. - Mas que espantalho!
- É um pobrezito inofensivo, - explicou a sr.a Peney. - Não tem parentes a não ser o bisavô que é mais velho do que ele uns oitenta anos! O velhote é nosso pastor. Vêem aquele monte lá adiante? Ele vive com o miúdo numa cabana, do outro lado, quer seja Verão, quer seja Inverno.
- Mas o miúdo com certeza que vai à escola. Não é verdade sr.a Peney? - perguntou o Júlio.
- Não, - respondeu ela. - Passa aqui todo o tempo sem fazer nada. Os meninos devem ir visitar o bisavô dele. O pai era um dos afundadores desta região e ele pode contar-lhes histórias desses terríveis tempos.
- Com certeza que vamos, - disse o David. - Já me tinha esquecido de que a costa da Cornualha foi o covil dos afundadores. Eles arranjavam faróis falsos para fazer com que os navios se viessem despedaçar contra as rochas, não era assim?
- Exactamente. E saqueavam-nos, quando os viam perdidos, - concluiu a sr.a Peney. - Também dizem que não socorriam as pessoas que se afogavam. Foi uma época terrível!
- Leva-se muito tempo daqui até ao mar, indo de bicicleta? - perguntou a Zé. - Eu vejo-o da janela do meu quarto.
- Talvez uns dez minutos, - respondeu a sr.a Peney. - Vão amanhã, se lhes apetecer. Vocês estão com um ar de cansados. Porque não dão uma volta antes de se deitarem? Eu arranjo-lhes uma refeição ligeira para quando vierem.
- Muito obrigada, mas nós com certeza não poderemos comer mais nada esta noite, - disse logo o David. - Mas agrada-me a ideia de dar uma volta. Nós gostávamos de visitar a quinta.
A sr.a Peney foi-se embora e o David olhou para os companheiros. - Uma refeição ligeira! - exclamou ele.
- Eu nunca pensei que me fosse possível recusar uma coisa dessas. Até aposto que o sr. Peney vai pedir uma bela refeição quando voltar.
Começaram o seu passeio, seguidos pelo Tim, sacudindo a cauda. A tarde estava esplêndida e vinha uma brisa fresca dos montes que a tornava ainda mais agradável. Os pequenos andaram por ali, apreciando as coisas características das quintas: os patos no tanque, umas galinhas cacarejando, os carneiros espalhados pelo monte. Viam-se vacas pastando pacatamente e um cavalo veio espreitá-los.
Os pequenos esfregaram-lhe as narinas aveludadas e ele baixou a cabeça para cheirar o Tim, que ainda não conhecia.
Foram visitar os celeiros. Eram enormes, com imensas coisas armazenadas e um cheiro muito agradável. O David tinha a certeza de que o maior era o utilizado pelos Barnies. Que divertido!
- Aposto que são péssimos actores mas de qualquer maneira deve ser engraçado, - disse ele. - Que curioso andar dum lado para o outro com a casa às costas, divertindo o povo com cantigas e representações. Não me importava de experimentar. Tenho muito jeito para comédias.
- Lá isso tens, - concordou a Ana. - Não seria animado nós fazermos também uma pequena representação se os Barnies nos dessem licença?
- Nunca a dariam porque nós somos «estrangeiros», - disse o David, rindo. - Ouçam, o que é aquilo, ao lado daquele saco?
O Tim foi logo ver o que era e começou a ladrar. Os pequenos aproximaram-se para descobrirem também do que se tratava.
- É outra vez o Jano, - disse o Júlio, contrariado, puxando o miúdo para fora do seu esconderijo. - Por que razão nos segues para toda a parte, palerma? - perguntou ele ao miúdo.-Nós não gostamos disso, percebes? Vai ter com o teu vovô antes de devorares toda a comida que a sr.a Peney te deu. Põe-te a andar.
Empurrou o rapazito para fora do celeiro, ficando a vê-lo desaparecer ao longe. - Desta vez já nos livrámos dele, - disse o Júlio. - Acho que o Jano é um pobre diabo. Um destes dias vamos visitar o vovô para ver se ele na verdade sabe alguma coisa de interesse acerca dos antigos afundadores.
- Vamo-nos embora, - disse o David, bocejando. - Já vi o bastante para saber que vou gostar deste sítio. E vou também apreciar a minha cama esta noite. Vamos, Júlio?
Todos concordaram com o David. Os bocejos deste tinham contagiado os outros que só pensavam agora em se irem deitar. Voltaram para casa acompanhados pelo Tim e seguidos a distância pelos outros quatro cães.
Deram as boas-noites aos srs. Peney, que estavam pacatamente sentados a ouvir telefonia. A sr.a Peney quis acompanhá-los ao andar de cima mas eles não consentiram.
Quando se despediram do sr. Peney, ele mastigou um «Ah!» continuando a ouvir o programa de rádio sem ao menos olhar para os pequenos. Depois subiram as escadas e meteram-se nos seus quartos.
Já estavam deitados e quase a dormir quando o Júlio sentiu um ruído vindo do lado de fora da janela. Abriu os olhos e pôs-se à escuta. Pensou tratar-se de ratazanas. Se assim fosse, a Ana com certeza as ouviria e ficaria cheia de medo. E o Tim havia de ladrar furiosamente.
Ouviu-se outra vez o mesmo ruído. O Júlio perguntou baixinho ao David: - Estás acordado? Não ouviste barulho na janela?
Mas não teve resposta. O David dormia profundamente, sonhando que tinha um furo num pé e não podia andar enquanto não o consertasse. O Júlio, muito quieto, pôs-se à escuta outra vez. Sim, lá estava outra vez o mesmo ruído, e não havia dúvida de que alguém tentava espreitar pela janela.
O pequeno levantou-se da cama e aproximou-se da janela. Lá fora havia uma trepadeira. Alguém devia ainda lá estar, pois viam-se as folhas, a mexer.
O Júlio de repente pôs a cabeça fora da janela e viu uma cara mesmo ao pé da sua, olhando para ele muito assustado.
- Jano! Que andas para aí a fazer? - disse o Júlio com firmeza. - Dou-te uma sova se continuas a espiar-nos. Que temos nós de estranho?
O Jano estava apavorado. Desceu rapidamente pela trepadeira como se fosse um gato, saltou para o chão e desapareceu no escuro, correndo a toda a velocidade.
«Espero que não continue a andar sempre atrás de nós, - pensou o Júlio deitando-se outra vez. - Se teimar, dou-lhe uma lição. Diabos o levem! Espantou-me o sono.
Mas não tardou que o Júlio estivesse a dormir tão profundamente como o David. Nem um nem outro se mexeu até que um galo, mesmo em frente da janela, decidiu serem horas de todos se levantarem, começando a cantar com toda a força.
- Có-có-ró-có!
Os rapazes acordaram sobressaltados. O sol da manhã entrava no quarto e o Júlio viu as horas no seu relógio. Era muito cedo! Mas mesmo assim já se ouvia lá em baixo algum barulho, o que significava estar a pé a sr.a Peney, na sua lida, mais o gigante seu marido. Voltaram a adormecer e foram acordados daí a pouco pela sr.a Peney que lhes disse, depois de ter batido à porta: - Já são sete e meia e o pequeno almoço está na mesa às oito. Levantem-se!
Era tão bom, no começo das férias, acordar num sítio desconhecido, pensando só nos banhos de mar, nas bicicletas, nos piqueniques, nos bolos e nas laranjadas, sem as preocupações dos exames e dos castigos. Os quatro pequenos e o Tim espreguiçaram-se olhando para o sol lá fora. Que dia tão bonito!
No andar de baixo esperava-os o pequeno almoço.
- Soberbo! - exclamou o David, olhando para o presunto com ovos, para as carnes frias e para a marmelada e compota. - Sr.a Peney, os seus sete filhos tiveram com certeza muita pena de se casar e sair de casa. Eu acho que se fosse um deles ficaria a viver consigo toda a vida.
NA ENSEADA
Os primeiros três dias na Quinta do Tremanal foram calmos, sem grandes acontecimentos, cheios de sol, de boa comida, de cães e... do Jano.
Este era realmente muito maçador. Parecia que os quatro pequenos o fascinavam e por isso seguia-os por toda a parte com os seus pèzitos descalços. Corria pelos atalhos e punha-se atrás dos arbustos, nos sítios onde os pequenos faziam os seus piqueniques, espiando-os persistentemente com os seus olhos escuros.
- Não se ganha nada em dizer-lhe que se vá embora. Desaparece atrás duma árvore e logo aparece atrás doutra! Admira-me que não se canse de estar sempre a seguir-nos. Que quererá ele?
- Não quer nada, - explicou a Zé. - É apenas curiosidade. Só não consigo perceber por que razão o Tim simpatizou com ele. Era natural que começasse a ladrar ou a rosnar, mas acontece exactamente o contrário. Deixa que o Jano brinque com ele e o faça rebolar pelo chão como se fosse um cachorrinho.
- Amanhã vou ter com o seu vovô e peço-lhe que o não deixe sair, - disse o Júlio. - Dá connosco em doidos. Às vezes tenho vontade de o sacudir como se fosse um mosquito. Sempre a zumbir à nossa volta! Céus, lá está ele outra vez!
E era verdade. Um par de olhos negros espreitavam atrás duma árvore, meio escondidos pela folhagem. O Tim correu para o Jano, cheio de alegria, e fez um tal reboliço que a Zé ficou furiosa.
- Tim, anda cá! - gritou ela, com firmeza. - Não percebeste ainda que deves fazer com que o Jano desapareça em vez de o encorajares a vir atrás de nós? Até tenho vergonha de ti!
O Tim baixou a cauda e foi ter com a Zé, sentando-se pesadamente. O David riu-se.
- Ele ficou zangado. Está a virar a cabeça para o outro lado, de propósito.
O Júlio correu atrás do Jano fazendo-lhe toda a espécie de ameaças; mas o miúdo era mais ágil do que uma lebre e desapareceu de repente como por encanto. Dava ideia de que tinha um processo especial para desaparecer e tornar a aparecer.
- Não gosto daquele rapaz, - disse o Júlio. - Fico irritado quando o descubro em qualquer sítio, a olhar para nós.
- Mas não deve ser mau, porque o Tim gosta muito dele, - observou a Ana, que tinha grande confiança nas opiniões do cão. - O Tim não gosta de gente má.
- Pois sim; mas desta vez enganou-se - declarou a Zé, zangada com o Tim. - Ele resolveu tornar-se bastante estúpido. Não estou nada satisfeita contigo, Tim.
- Vamos até à praia tomar banho, - propôs o David. - Se formos de bicicleta o Jano não poderá ir atrás de nós para nos espiar.
Montaram nas bicicletas e dirigiram-se à praia. A sr.a Peney arranjou-lhes sanduíches e deu-lhes um bolo de frutas e refrescos para levarem. Quando se iam embora viram o Jano a observá-los, atrás duns arbustos.
Seguiram pelo caminho que ia dar à praia. Não passava de um estreito atalho, sinuoso como um rio e com tantas curvas que os pequenos não podiam pedalar muito depressa.
- Olha o mar! - exclamou o David ao
darem a última curva.
O caminho seguia entre dois altos penhascos e em frente destes via-se uma enseada em que rebentavam ondas enormes salpicando tudo à volta.
Deixaram as bicicletas na parte superior da enseada e foram vestir os fatos de banho atrás dumas rochas. Quando voltaram, o Júlio olhou para o mar. Este estava calmo perto das rochas, mas ao largo as ondas faziam enorme barulho, sendo impossível transpô-las a nado.
Os pequenos seguiram à volta dos penhascos e foram dar a uma lagoa que se formara entre os rochedos.
- Exactamente o que queríamos, - disse a Zé, e em seguida deu um mergulho. - Meu Deus, a água está tão fria!
Deveria estar aquecida pelo sol mas de vez em quando uma onda maior entrava lá para dentro levando água muito fria. Era divertido quando isso acontecia. Os quatro nadaram até se fartarem e o Tim também passou um bocado agradável. Fizeram um piquenique sobre os rochedos, apanhando de vez em quando salpicos do mar. Depois desceram à praia para verem melhor a parte inferior dos penhascos.
- Isto é emocionante, - disse a Zé. - Grutas e mais grutas e ainda mais grutas. Enseadas a seguir a enseadas, cada qual mais bonita. Naturalmente com a maré cheia todas elas devem ficar cobertas pela água.
- Também acho, - concordou o Júlio que estava muito atento à maré. - E quase todas
as grutas devem também ficar inundadas. Não admira que a sr.a Peney nos tenha avisado com um ar tão grave. Imaginem o que seria tentarmos trepar por estes penhascos, caso fôssemos apanhados pela maré.
A Ana olhou para cima e estremeceu. Eram tão altos e escarpados! Os penhascos pareciam olhar para ela e dizerem, franzindo a testa: - Não admitimos que ninguém brinque connosco. Por isso arranjem-se como quiserem.
- Valha-me Deus! Olhem para ali. Aquele não é o maçador do Jano? - exclamou o David, de repente, apontando para um rochedo coberto de algas. Por detrás estava o Jano, a espreitar.
- Deve ter vindo a correr até aqui, para nos espreitar, - disse o Júlio, aborrecido. - Pois bem, vamos deixá-lo neste sítio. Já são horas de nos irmos embora e a maré está a
encher. É muito bem feito ele ver que nos vamos embora mal acabou de chegar. Deve ser maluco!
- Achas que ele conhece os perigos da maré? - perguntou a Ana, preocupada. - Saberá que está a encher e que o pode apanhar?
- Claro que sabe, - respondeu o Júlio. - Não sejas palerma. Mas se preferes vamos lanchar da parte de cima da enseada. Se ele quiser fugir à maré é o único caminho para sair daqui. A não ser trepando pelos penhascos, mas ninguém seria tão doido que o tentasse.
Tinham separado um bocado de bolo e biscoitos para o lanche e depressa descobriram um sítio agradável, na parte superior da enseada, onde haviam deixado as bicicletas. Sentaram-se a comer o belíssimo bolo de frutas que a sr.a Peney lhes dera. Não havia dúvida de que ela era uma cozinheira maravilhosa.
A maré subiu muito depressa e daí a pouco tornou-se maior o barulho das ondas enormes, que rebentavam contra os rochedos.
- O Jano ainda não apareceu! - exclamou a Ana. - Acham que não lhe aconteceu nada de mal?
- Se ainda lá está deve ter apanhado um bom banho, - disse o David. - Acho melhor irmos ver. Por muito que ele me desagrade não quero que se afogue.
Os dois rapazes desceram pela enseada o mais longe que puderam, espreitando pelos penhascos para o sítio onde o Jano se tinha escondido. Mas como tudo estava diferente naquela altura!
- Meu Deus, a praia já desapareceu, - disse o Júlio, assustado. - Agora percebo a facilidade com que uma pessoa pode ser apanhada pelo mar. Vês aquela onda varrendo a gruta onde estivemos?
- Que teria acontecido ao Jano? - perguntou o David. - Não se vê em parte alguma. Pela enseada não saiu, pois nós estivemos sempre sentados lá em cima. Onde estará ele?
O David falava apressadamente e o Júlio começou a sentir-se deveras preocupado.
Estava hesitante sem saber se devia continuar pelos rochedos escorregadios. Mas a onda seguinte decidiu-o. Seria uma loucura fazer uma coisa dessas! Mais outra onda como aquela e tanto ele como o David seriam arrebatados do sítio onde estavam.
- Cuidado, vem aí uma onda ainda maior, - gritou o Júlio. E os dois rapazes saltaram do rochedo e correram pela enseada acima. Mesmo assim a onda ainda lhes molhou os pés.
Foram ter com as pequenas. - Não o vimos em parte nenhuma, - disse o Júlio, tentando mostrar-se despreocupado. - A praia está completamente coberta pelo mar. As grutas mais baixas também estão cheias de água.
- Ele... ter-se-ia afogado? - perguntou a Ana cheia de medo.
- Ora, acho que o Jano sabe arranjar-se sozinho, - respondeu o Júlio. - Ele conhece esta costa. Vamo-nos embora. Já são horas.
Seguiram pela estrada com o Tim correndo ao lado das bicicletas. Ninguém disse uma palavra. As crianças não podiam deixar de se sentir apreensivas por causa do Jano. Que lhe teria acontecido?
Quando chegaram à quinta guardaram as bicicletas e foram procurar a sr.a Peney. Contaram-lhe o que se tinha passado com o Jano e a maneira como ele desaparecera.
- Acha que ele terá sido arrastado por uma onda, afogando-se? - perguntou a Ana.
A sr.a Peney riu. - Meu Deus, claro que não! O pequeno conhece de olhos fechados todos os caminhos destas redondezas até à
costa. É mais esperto do que julgam. Ele é um pobre diabo mas sabe muito bem cuidar de si.
Aquilo era tranquilizador. Talvez o Jano voltasse a aparecer com os seus olhos negros sempre fixos nos quatro pequenos.
Depois dum jantar tão bom como de costume, os pequenos foram dar uma volta por uns atalhos impregnados do cheiro das madressilvas, seguidos como sempre pelos cinco cães.
- Olhem! Estão a ver? Reparem!-exclamou de repente a Zé, virando a cabeça na direcção duma árvore não muito distante.
Viam-se dois olhos negros a brilharem, voltados para os pequenos. O Jano! Tinha-os seguido como de costume escondendo-se para os observar. A Ana ficou tão aliviada por o ver, que o chamou.
- Ó Jano! Queres um rebuçado?
O rapazito desceu da árvore a toda a velocidade e foi ter com a Ana, estendendo a mão para apanhar o rebuçado. Pela primeira vez viram-no sorrir e a sua carita suja e triste parecia que se iluminava. A Ana olhou espantada para ele. Afinal era um miúdo simpático! Os seus olhos brilhavam e pestanejavam, aparecendo uma pequena cova em cada face.
- Toma, tens aqui mais dois rebuçados, - disse o David muito contente por ver que o rapazito não se tinha afogado. O Jano quase lhos arrancou da mão. Percebia-se que raras vezes comera guloseimas.
O Tim como de costume fez uma grande festa ao pequeno. Deitou-se de costas sobre os seus pés; depois lambeu-lhe os joelhos e os braços e saltou-lhe aos ombros quase o deitando por terra. O Jano riu e agarrou-se ao Tim, rebolando os dois pelo chão. O Júlio, o David e a Ana assistiam, rindo.
Mas a Zé não estava nada satisfeita com aquilo. O Tim pertencia-lhe e não gostava de o ver brincar com pessoas que lhe desagradavam. Sentia-se contente por o Jano estar salvo mas ainda não chegava a simpatizar com ele! Por isso pôs-se com um ar carrancudo. O Júlio fez um sinal ao David. A Zé percebeu e ainda ficou pior.
- Vão-se arrepender de lhe darem rebuçados, - disse ela. - Passará a seguir-nos mais do que nunca.
O Jano levantou-se daí a um ou dois minutos, chupando os três rebuçados ao mesmo tempo, de maneira que a sua bochecha direita parecia muito inchada.
- Venham ver o meu vovô, - pediu ele com ar decidido, mas com uma pronúncia ainda pior do que a habitual por causa dos rebuçados. - Já lhe falei dos meninos. Ele tem muitas coisas para lhes contar.
O Jano olhou para os pequenos com um ar muito sério. - O vovô também gosta de rebuçados, - acrescentou ele. - Isso, isso. Gosta.
O Júlio riu-se. - Está bem, vamos visitá-lo amanhã à tarde. Agora vai-te embora, se não nunca mais te daremos rebuçados. Compreendes.
- Isso, - disse o Jano, abanando a cabeça. Tirou os três rebuçados da boca para ver se os tinha chupado muito, tornando a metê-los nas bochechas.
- Agora desaparece, - disse outra vez o Júlio. - Mas espera, lembrei-me agora; como conseguiste sair da praia esta tarde? Subiste pelos penhascos?
- Não, não, - respondeu o Jano, mudando os rebuçados para a outra bochecha. - Vim pelo Caminho dos Afundadores. O meu vovô tinha-mo ensinado.
E desapareceu antes que alguém pudesse fazer-lhe qualquer outra pergunta. Os quatro pequenos entreolharam-se. - Ouviram? - perguntou o Júlio. - Ele veio pelo Caminho dos Afundadores. Fazem ideia do que isso seja? Devemos ter estado numa das praias que eles utilizavam há muito, muito tempo.
- Pois sim, mas como conseguiu ele sair da praia sem nada lhe acontecer? - disse o David. - Gostava de saber mais coisas acerca do Caminho dos Afundadores. Acho que realmente devemos ir amanhã visitar o velho vovô. Deve ter coisas muito interessantes para nos contar.
- Pois bem, vamos visitá-lo, - disse a Zé levantando-se. - Mas não se esqueçam do que eu lhes disse. O Jano, agora que o encorajámos, vai maçar-nos mais do que nunca.
- Ora, no fim de contas ele não parece mau rapaz, - observou o David, lembrando-se do inesperado sorriso e da maneira como o Jano aceitara os rebuçados.
- E se convencer o vovô a contar-nos o segredo do Caminho dos Afundadores nós ainda nos poderemos divertir indo explorá-lo. Não achas, Júlio?
- Isso talvez nos meta numa aventura, - disse o Júlio, rindo da cara séria da Ana. - Alegra-te, Ana. No Tremanal não aparece nem o cheiro duma aventura. Estou a brincar contigo.
- Acho que te enganas, - respondeu a Ana. - Se tu não sentes o cheiro duma aventura, eu sinto, ainda que não queira, sinto-o!
O JANO E O VOVÔ.
O dia seguinte era domingo. Mas isso não teve qualquer influência na hora a que os srs. Peney se levantaram. Como dizia a sr.a Peney, as vacas, os cavalos, as galinhas e os patos não gostavam dos pequenos almoços pouco pontuais dos domingos! Queriam ser servidos todos os dias à mesma hora!
- Os meninos vão à missa? - perguntou a sr.a Peney. - O caminho até à igreja do Tremanal é bastante bonito, e o pároco é muito simpático e uma esplêndida pessoa.
- Sim, vamos, - respondeu o Júlio. - Podemos prender o Tim lá fora, pois está habituado. Também tencionávamos ir esta tarde visitar o seu velho pastor, sr.a Peney, para ver que histórias ele nos contará.
- O Jano indica-lhes o caminho, - disse a sr.a Peney indo com pressa tratar dos seus cozinhados. - Vou arranjar-lhes um almoço especial de domingo. Gostam de salada de frutas?
- Muito! - exclamaram todos ao mesmo tempo.
- Podemos ajudá-la a fazer qualquer coisa? - perguntou a Ana. - Vi agora mesmo as ervilhas que tem para descascar.
Uma montanha delas! Posso também arranjar-lhe aquelas groselhas; eu gosto de as separar com um garfo.
- Agradeço-lhes, pois ainda é cedo para irem à igreja, - respondeu a sr.a Peney, sensibilizada. - Faz-me muito arranjo. Os rapazes não precisam de ajudar.
- Ora essa! - exclamou a Zé, indignada.
- Que injustiça! Porque não podem eles ajudar?! Só por serem rapazes?!
- Tem calma, Zé, - disse o David rindo.
- Nós vamos dar uma ajuda, descansa. Também gostamos de descascar ervilhas. Não é preciso descompor-nos!
O David tinha um jeito especial para acalmar a Zé quando a via irritada. Ela sorriu contra vontade; tinha uma certa inveja dos rapazes, pois sempre desejara ser como eles. Depois foi buscar um cesto com ervilhas.
Daí a pouco ouvia-se o estalar das ervilhas a serem descascadas. - Um som muito agradável, - pensou a Ana. Os quatro sentaram-se no grande degrau da cozinha, ao sol, com o Tim ao pé, observando-os cheios de interesse. Mas o cão não ficou ali muito tempo.
Apareceram os seus quatro amigos, indo o cão mais pequeno atrás, tentando acompanhar os outros. - Béu! Béu! - fez o maior deles. O Tim abanou delicadamente a cauda mas não se mexeu.
- Béu! Béu! - fez outra vez o outro cão, saltando a desafiá-lo.
- Tim, ele está a pedir-te que vás brincar,- disse a Zé.
- Então não vais? A tua ajuda não serve de nada para descascar ervilhas e além disso só me incomodas respirando para cima de mim.
O Tim deu uma rápida lambedela à Zé e saltou do degrau alegremente. Fez rebolar o cão mais pequeno e depois atirou-se aos outros três ao mesmo tempo. Estes eram grandes e fortes mas não se podiam medir com o Tim.
- Olhem para ele, - disse a Zé cheia de orgulho. - Pode bater-se sozinho com todos os outros.
- Ele corre mais do que o cão maior e é mais forte do que todos juntos, - observou o David. - Querido Tim! Já tens sido muito útil nalgumas das nossas aventuras!
- Não tenho dúvidas de que ainda o voltará a ser, - disse o Júlio. - Prefiro um Tim a dois cães polícias.
- Ele deve estar com as orelhas a arder, por lhe estarem a fazer tantos elogios, - disse a Ana. - Ai, desculpa David, essa ervilha saltou-me sem eu esperar.
- É a segunda vez que atiras ervilhas para cima de mim, - disse o David, metendo a mão dentro da camisa. - Tenho de encontrar uma que me escorregou pelo pescoço abaixo, pois de contrário não conseguirei estar quieto na igreja.
- Tu nunca estás quieto na igreja - afirmou a Ana. - Olhem, aquele não é o Jano?
Na verdade era o Jano. Vinha na direcção dos pequenos, sujo como sempre, e fez um rápido sorriso que mais uma vez transformou por completo a sua expressão triste. Estendeu a mão com a palma virada para cima e disse qualquer coisa.
- Que quer ele? - perguntou o David. - Ah, está a pedir um rebuçado.
- Não lho dês, - disse o Júlio, entre dentes. - Não o transformes num pequeno pedinte. Desta vez obriga-o a trabalhar para ter direito ao rebuçado. Jano, se queres um rebuçado, tens que ajudar a descascar estas ervilhas.
A sr.a Peney apareceu de repente. - Mas obriguem-no primeiro a lavar aquelas mãos tão sujas, - ordenou ela desaparecendo em seguida. O Jano olhou para as suas mãos e escondeu-as debaixo dos braços.
- Vai lavá-las, - ordenou o Júlio. Mas o Jano abanou a cabeça sentando-se um pouco afastado dos pequenos.
- Está bem. Não lavas as mãos; não descascas ervilhas; não comes um rebuçado, - disse a Zé.
O Jano deitou-lhe um olhar carrancudo. Parecia não simpatizar mais com a Zé do que a pequena com ele. Ficou ali até que umas ervilhas saltaram para o chão em vez de caírem no prato. Então correu para elas, apanhou-as e comeu-as. Ele era tão ágil como um gato.
- O meu vovô diz para o irem visitar, - participou o Jano. - Eu levo-os até lá.
- Pois sim, - disse o Júlio. - Vamos esta tarde. Pedimos à sr.a Peney para nos arranjar um cesto com comida para lancharmos nos montes. Se lavares as mãos e a cara também poderás comer connosco.
- Tenho a impressão de que nunca se lavou em toda a sua vida, - disse a Zé. - Lá vem o Tim. Não quero que brinque com este miúdo sujo. Para aqui, Tim!
Mas o Tim correu na direcção do Jano, muito satisfeito e começou a puxá-lo, desafiando-o para brincar. Começaram os dois a rolar pelo chão como dois cachorrinhos.
- Se sempre vão à igreja é melhor arranjarem-se, - disse a sr.a Peney aparecendo novamente, desta vez com os braços cheios de farinha até aos cotovelos. - Meu Deus, tantas ervilhas que me descascaram!
- Eu gostava de ter tido tempo para arranjar as groselhas, - disse a Ana. - De qualquer forma as ervilhas já estão prontas, sr.a Peney. Acho que descascámos milhares delas.
- O sr. Peney gosta muito de ervilhas, - declarou a senhora. - É capaz de comer uma terrina cheia.
Depois foi-se embora outra vez. Os pequenos arranjaram-se e partiram para a igreja. O caminho era sem dúvida muito bonito, com madressilvas florindo por toda a parte! As pequenas prenderam algumas nos chapéus. - Assim vamos cheirar bem na igreja, - disse a Ana.
A igreja era pequena e antiga, mas encantadora. O Jano seguiu atrás deles até à porta da igreja. Quando viu a Zé prender o Tim, sentou-se ao pé do cão, todo satisfeito. Mas a Zé não gostou nada daquilo. O Tim e o Jano podiam brincar enquanto ela estivesse na igreja! Que maçada!
A igreja era fria e escura, tendo apenas três lindos vitrais coloridos por onde o sol entrava obscurecido. O pároco era muito simpático, como dissera a sr.a Peney. Com um ar simples e acolhedor, as suas palavras eram escutadas por todos, desde uma velhinha muito idosa, toda curvada, até um pequenito duns cinco anos agarrado à mão da mãe.
Fazia impressão aos olhos sair outra vez para o sol, depois de ter estado na penumbra da igreja. O Tim deu um latido como cumprimento de boas-vindas. O Jano ainda lá estava, sentado com o braço à volta do pescoço do cão. Sorriu para os pequenos e largou o Tim que imediatamente ficou como maluco, desatando a correr, a cem à hora.
- Venham ver o vovô, - pediu o Jano ao David, tocando-lhe num braço.
- Esta tarde, - disse o David. - Podes indicar-nos o caminho. Aparece depois do almoço.
E assim, depois de os pequenos terem almoçado um belo guisado de carne com cenouras, ervilhas e batatas novas, seguido de uma esplêndida salada de frutas, o Jano apareceu à porta para os levar ao seu vovô.
- Repararam na porção de ervilhas que o sr. Peney comeu? - perguntou a Ana. - Acho que ele sozinho deu conta duma terrina. Gostava que tivesse dito qualquer coisa além dos «ahs», «ehs» e outro sons esquisitos. É muito difícil conversar com ele.
- O Jano vai levar-vos ao vovô? - perguntou a sr.a Peney, aparecendo. - Vou meter no cesto uns bolos para eles.
- Não nos arranje muita coisa, - implorou o David. - Só queremos uma refeição ligeira para nos aguentarmos até ao jantar.
Mas apesar de tudo o cesto estava bem cheio quando a sr.a Peney acabou de o arranjar.
Andaram muito até chegarem à cabana do vovô. O Jano seguia à frente, orgulhoso. Atravessaram campos e saltaram cercas, passaram por estreitos atalhos e por fim chegaram a um monte onde pastavam carneiros.
Uns cordeiritos ainda sem estarem tosquiados, pulavam aqui e ali, mas de repente talvez lembrando-se de que eram já crescidos, começavam a passear muito calmos.
O velho pastor estava sentado à entrada da cabana, fumando cachimbo. Não era muito alto e tinha a pele encarquilhada como uma maçã guardada durante muito tempo. Mas o seu aspecto era simpático e as crianças gostaram logo dele. Ria-se como o Jano, com um sorriso que lhe iluminava os seus olhos ainda tão azuis como o céu de Verão que os cobria.
A cara tinha milhares de rugas que se cruzavam umas nas outras. As sobrancelhas eram espessas, a barba e o cabelo ondulado eram acinzentados como a lã dos carneiros com que ele passara toda a sua vida.
- Sejam bem-vindos, - disse ele na sua voz vagarosa. - O Jano já me falou dos meninos.
- Trouxemos um lanche para dividirmos consigo, - disse o David. - Vamos comê-lo mais daqui a pouco. O seu pai foi na verdade um dos afundadores dos velhos tempos?
O velhote fez um sinal afirmativo. O Júlio ofereceu-lhe rebuçados. Ele tirou um, com sofreguidão. O Jano aproximou-se imediatamente e tirou outro.
A avaliar pelo barulho que se ouvia, o vovô ainda tinha muitos dentes! Depois de comer o rebuçado começou a conversar. Falava vagarosamente e com simplicidade, quase como o Jano, e por vezes parava para se recordar duma palavra.
- Viver sempre com carneiros não é bom para falar com fluência, - pensou o Júlio, cheio de interesse por aquele velhote de olhar vivo e inteligente. - Ele deve sentir-se mais à vontade com os carneiros do que com seres humanos.
O vovô tinha de facto algumas coisas interessantes para lhes contar. - Coisas aterradoras, - pensou a Ana.
- Viram aqueles rochedos na costa do Tremanal? - começou ele. - São uns rochedos terríveis que roubam navios e seres humanos. Afundaram-se muitos barcos nesta costa e a maioria deles com uma finalidade. Podem não acreditar mas eu não minto.
- Por que razão os afundavam de propósito? - perguntou o David. - Eram atraídos por algum farol falso?
O velhote baixou a voz como se tivesse medo de ser ouvido.
- Há mais de cem anos existia na costa um farol para guiar os navios que navegavam por estes sítios, - explicou ele. - Seguiam na direcção indicada, contornavam a costa evitando assim os rochedos, e ficando a salvo. Mas, nas noites tempestuosas, havia um farol a uns três quilómetros mais abaixo que atraía os navios perdidos e os arrastava para os rochedos das enseadas do Tremanal.
- Que coisa horrível! - exclamaram a Ana e a Zé. - Como era possível seres humanos fazerem uma coisa dessas?!
- Não se calcula as coisas de que as pessoas são capazes, - disse o vovô, abanando a cabeça.
- Vejam o meu pai. Era um homem simpático e muito religioso. Mas era ele quem acendia sempre o farol falso e mandava outros homens observar o navio quando este se dirigia para os rochedos onde acabava por se despedaçar.
- O senhor viu algum navio a afundar-se? - perguntou o David, imaginando os gritos dos homens debatendo-se com o mar tempestuoso.
- Sim, vi, - respondeu o vovô com um olhar distante. - Mandaram-me uma vez para a enseada com os homens e fizeram-me pegar numa lanterna para atrair outra vez o navio quando ele se aproximava dos rochedos. O desgraçado ao despedaçar-se gemia como se tivesse vida. E no dia seguinte voltei lá para ajudar a recolher as coisas espalhadas por toda a enseada. Afogou-se tanta gente naquela noite e...
- Não nos fale mais nisso, - pediu o David, sentindo-se arrepiado. - Em que sítio acendiam o farol falso? Nos montes ou nos penhascos?
- Vou mostrar-lhes onde o meu pai o acendia, - disse o vovô levantando-se vagarosamente. - Só há um sítio nestes montes donde se podia ver a luz do farol. Os afundadores tinham de arranjar um ponto bem escondido, de maneira que o seu traiçoeiro sinal não pudesse ser descoberto de terra, por causa da polícia, mas que fosse visto facilmente por qualquer navio que passasse nas proximidades.
O velhote contornou o monte, acompanhado pelos pequenos e depois apontou na direcção do mar. Entre dois montes via-se o telhado duma casa com uma torre em cima. Esta só se podia descobrir precisamente do lugar em que estavam. O David deu uns passos para a direita e depois para a esquerda e a casa logo desaparecia atrás de cada um dos montes.
- Só eu sabia que o farol podia ser visto de terra, - disse o vovô apontando com o cachimbo para a torre quadrada, lá longe. - Uma noite estava aqui a guardar as ovelhas e vi por acaso o farol aceso. Como depois me disseram que se tinha afundado um navio na enseada do Tremanal, naquela noite, percebi logo que o farol tinha ligação com os afundadores.
- Viu muitas vezes o farol a brilhar enquanto guardava as ovelhas? - perguntou a Zé.
- Oh, muitas! - respondeu o pastor. - E sempre em noites de tempestade, quando os navios estavam em perigo, procurando um farol e eu dizia para comigo: - Que o Bom Deus ajude esta noite aqueles marinheiros, pois com certeza mais ninguém o fará!
- Que horror! - exclamou a Zé, aterrada com tanta malvadez. - O senhor deve sentir-se satisfeito de nunca mais ter visto o farol a brilhar nas noites de tempestade!
O vovô fitou a Zé com um olhar estranho e assustado. Abaixou a voz e falou-lhe como se ela fosse um rapaz.
- Meu menino, - disse ele. - Aquele farol ainda se acende nas noites escuras de tempestade. O lugar está em ruínas e os corvos fazem ninhos na torre. Mas este ano eu vi novamente o farol acender-se por três vezes. Se vier uma noite de tempestade ele acender-se-á outra vez. Tenho a certeza, meu menino, tenho a certeza!
UMA HISTÓRIA SINGULAR
Apesar do calor do sol os pequenos sentiram arrepios ao ouvir as estranhas palavras do pastor. Seria verdade? Os afundadores ainda acenderiam o farol da velha torre nas noites de tempestade? Mas porque o fariam? Certamente já nenhum afundador fazia o seu sinistro trabalho naquela solitária costa cheia de rochedos!
O David transformou em palavras o pensamento dos outros. - Mas com certeza já não há afundadores nesta costa! Não construíram um farol um pouco mais acima para avisar os navios que se devem afastar para o largo? O vovô abanou a sua cabeça grisalha. - Sim. Existe um farol e desde há muitos anos que não se dão naufrágios nesta costa. Mas eu asseguro-lhes que aquele farol se acende precisamente como dantes. Vi com os meus olhos que ainda estão muito bons.
- Eu também vi, - acrescentou imediatamente o Jano.
O vovô olhou para o miúdo, contrariado. - Cala a boca, - ordenou ele. - Tu nunca viste nenhuma luz. Dormes toda a noite como um bebé.
- Eu vi, - repetiu obstinadamente o Jano fugindo do alcance do vovô, que levantara a mão para lhe dar uma bofetada.
O David resolveu mudar de assunto. - Vovô, sabe alguma coisa acerca do Caminho dos Afundadores? - perguntou ele.-É uma passagem secreta para se chegar às enseadas? Os Afundadores serviam-se dele?
O vovô franziu o sobrolho. - Isso é segredo, - disse ele secamente. - O meu pai mostrou-mo e eu jurei que nunca contaria a ninguém. Nós todos fazíamos esse juramento.
- Mas o Jano disse-nos que o senhor lhe tinha ensinado o caminho, - observou o David, intrigado.
O Jano afastou-se imediatamente indo esconder-se atrás duns arbustos. O vovô olhou à sua volta, procurando-o.
- O Jano! Ele não conhece nada acerca do Caminho dos Afundadores. Está esquecido por toda a gente. Eu sou a última pessoa viva que sabe da sua existência. O Jano talvez tenha ouvido falar dalguma antiga passagem dos afundadores e mais nada.
- Oh! - exclamou o David, desapontado. Tivera esperanças que o vovô lhes falasse da velha passagem e eles pudessem então ir examiná-la. De qualquer maneira poderiam tentar descobri-la. Seria divertido.
O Júlio voltou ao assunto do farol da velha torre. Estava intrigado. - Quem poderá acender o farol? - perguntou ele ao vovô. - O senhor disse que aquele sítio está em ruínas.
Tem a certeza de que não foi um relâmpago o que viu, visto estar uma noite de tempestade?
- Não era um relâmpago, - disse secamente. - Vi pela primeira vez aquela luz há cerca de noventa anos e garanto-lhes que voltei a vê-la três vezes este ano. O mesmo sítio, a mesma luz, o mesmo mau tempo. E se o menino me dissesse que não era acesa por vivos eu acreditaria.
Fez-se silêncio depois desta extraordinária declaração. A Ana olhou para a torre distante, situada precisamente entre os dois montes. Era tão estranho ser aquele sítio em que se encontravam, o único donde ela se podia ver de terra! Os afundadores tinham sido bem inteligentes escolhendo um lugar assim para acenderem o farol. Ninguém, a não ser o vovô no cimo do seu monte, poderia descobrir a luz ou calcular o que lá se passava. Ninguém a não ser os cruéis afundadores!
O vovô procurava recordar-se de mais histórias que ia contando; histórias de velhos tempos, singulares e quase incríveis. Uma delas era acerca duma velhota que tinha fama de feiticeira. As coisas que ela fazia!
Os quatro pequenos olhavam fixamente para o pastor, encantados por pensarem que até certo ponto estavam ligados através daquele velhote às bruxas, aos espíritos, aos afundadores e aos assassinos de tempos idos.
Logo que o Júlio abriu o cesto da comida o Jano tornou a aparecer. Tinham voltado à cabana, sentando-se ali perto, ao sol, rodeados pelos carneiros que andavam a pastar. Duas ovelhas das mais pequenas aproximaram-se, parecendo cheias de calor com tanta lã. Cheiraram o velho pastor que lhe esfregou os focinhos lanzudos.
- Estas são ovelhas que eu alimentei por uma garrafa, quando eram pequeninas - explicou ele. - Lembram-se sempre disso: Vai-te embora, Gorducha. Os bolos são mal empregados em ti.
O Jano devorou metade do lanche. Depois sorriu com prazer para a Ana, mostrando as suas duas covas nas bochechas. Ela retribuiu-lhe o sorriso; gostava do pequeno e tinha pena dele. Com certeza o seu velho vovô não lhe dava comida suficiente.
Os sinos da igreja começaram a tocar e o sol descia no céu. - Temos de nos ir embora, - disse o Júlio bem contra vontade. - É muito longe. Obrigado por esta tarde tão bem passada, vovô. Espero que se sinta satisfeito por se ver livre de nós e poder fumar o seu cachimbo em paz, com os carneiros à sua volta.
- Tem razão, - disse o vovô com franqueza. - Eu sinto-me bem, sozinho e gosto de meditar nas minhas ideias. São longos pensamentos com quase cem anos. Quando quero conversar, converso com os meus carneiros. É curioso como eles me escutam.
As crianças riram, mas o vovô estava bem sério, parecendo pesar cada palavra que dizia.
Os pequenos arrumaram o cesto e despediram-se do pastor.
- Que quereria ele dizer quando falou da luz que se acende na velha torre? - perguntou o David aos outros, enquanto iam a caminho. - Que coisa extraordinária! Acham que é verdade?
- Só há uma maneira de o saber, - observou a Zé com os olhos brilhantes. - Esperar por uma noite de tempestade e ir até lá!
- Mas então o nosso compromisso? - lembrou o Júlio. - Se nos parece que está para acontecer qualquer coisa estranha voltamos-lhe as costas. Foi o decidido. Não te lembras?
- Ora! - exclamou a Zé.
- Temos que respeitar o nosso compromisso, - disse a Ana, sem muita convicção. Ela bem sabia que os outros não pensavam da mesma maneira.
- Reparem, quem são aqueles?! - exclamou de repente o David. Os pequenos estavam naquela altura a saltar uma cerca. Pararam, olhando com toda a atenção. Iam a passar umas carroças grandes com coberturas de lona. Eram os carros com o aspecto mais antiquado que os pequenos tinham visto, em nada se parecendo com os dos ciganos.
Viam-se dez ou doze pessoas, vestidas com trajes antigos. Umas iam dentro dos carros e outras seguiam a pé. Algumas eram de meia idade, outras mais novas, mas todas elas tinham um ar alegre.
Os pequenos olhavam, pasmados. Aquela gente assim vestida ligava bem com as velhas histórias do vovô.
Por uns momentos a Ana sentiu-se transportada aos tempos do pastor, quando ele não passava dum rapazote. Devia ter visto pessoas com trajes como aqueles.
- Quem serão? - perguntou ela. E nessa altura os pequenos viram umas letras vermelhas pintadas no carro:
«OS BARNIES»
- São os Barnies. Não se lembram da sr.a Peney ter falado neles? - disse a Ana. - São os artistas ambulantes que dão espectáculos nos celeiros para a gente do campo. Que engraçados!
Os Barnies disseram adeus aos pequenos. Um homem vestido de veludo e rendas, de espada à cinta e cabeleira toda encaracolada, atirou-lhes um ou dois prospectos.
CÁ ESTÃO OS BARNIES!
Nós vamos dançar e tocar rabeca.
Representar peças de qualquer género.
Edith Wells, o rouxinol cantor.
Ben Cárter, o dançarino doutros tempos.
Jane Coster e a sua rabeca.
John Walters, o melhor tenor do mundo.
George Roy, far-vos-á rir.
E outros.
Também apresentamos Francis,
o cavalo mais cómico do mundo.
CÁ ESTÃO OS BARNIES!
- Vai ser divertido, - disse a Zé, satisfeita. Depois perguntou para um dos carros:
- Vão representar na Quinta do Tremanal?
- Vamos, - respondeu um homem com um ar animado e feliz. - Damos sempre lá uma representação. É onde os meninos vivem?
- É sim, - disse a Zé. - Lá ficaremos à vossa espera. Para onde vão agora?
- À Quinta de Polwill, - informou o homem. - Dentro de pouco tempo estaremos no Tremanal.
Os carros passaram e os alegres artistas desapareceram. - Óptimo! - disse o David.
- O espectáculo não deve ser de primeira categoria mas com certeza vai ser divertido. Todos eles parecem satisfeitos.
- Todos menos o homem que conduzia o carro da frente. Repararam nele? - disse a Ana. - Achei-o com um ar tão carrancudo!
Ninguém mais tinha reparado. - Naturalmente era o dono dos Barnies, - lembrou o David. - Vamo-nos embora. Onde está o Tim?
Olharam à volta e a Zé franziu a testa. O Jano tinha-os seguido como de costume e o Tim estava a brincar com ele. Que maçada, aquele Jano. Estaria resolvido a segui-los todos os dias e a todas as horas?
Os pequenos regressaram à Quinta do Tremanal. As galinhas ainda andavam por ali cacarejando e ouviam-se os patos a grasnar. Um cavalo escarvava o chão e os porcos enchiam o ar com os seus grunhidos.
Tudo aquilo tinha um aspecto muito característico. Ouviram-se passos no pátio e apareceu o sr. Peney. Murmurou qualquer coisa aos pequenos e foi para um dos celeiros.
- Dá-me ideia de que o vejo nos tempos antigos como sendo um dos afundadores, - disse a Ana, muito baixinho.
- Compreendo o que tu queres dizer, - concordou o David. - Ele tem um aspecto tão duro e... decidido. Não é bem este o termo. Cruel! Certamente teria dado um bom afundador.
- Acham que ainda existem afundadores e que o farol se acende para atrair os navios para os rochedos? - perguntou a Zé.
- Nunca me passaria pela cabeça a existência de afundadores neste país, - respondeu o David. - Não posso conceber, nem só por um instante, que tolerassem uma coisa dessas. Mas se o farol se acende, qual será o motivo?
- O vovô disse que há muitos anos não há naufrágios nesta costa, - lembrou o Júlio. - Acho que o pastor tem uma imaginação exagerada quando fala sobre a tal luz.
- Mas o Jano disse que também viu o farol aceso! - exclamou a Ana.
- Ele deve ser um pouco mentiroso, - respondeu o Júlio.
- Por que razão diria o vovô que o farol agora não é aceso por mãos de vivos? - perguntou a Zé. - Eu não concebo que o possa ser por outras mãos. Pensará que é o pai dele?
Fez-se uma pequena pausa. - Nós podemos facilmente sabê-lo se formos à torre, para lhe darmos uma olhadela, - disse o David.
Fez-se outra pausa. - Pensava que tínhamos combinado não nos metermos em coisas misteriosas, - observou a Ana.
- Isto não tem nada de misterioso, - argumentou o David. - Não passa duma história recordada por um velhote e eu na verdade não consigo acreditar que o farol ainda se acende nas noites de tempestade. O vovô deve ter visto um relâmpago ou qualquer outra coisa parecida. Porque não havemos de acabar com as dúvidas indo examinar a casa da torre?
- Eu gostava, - declarou a Zé. - Nunca estive de acordo com a tal ideia de «Foge de Todas as Coisas Fora do Normal».
- Está bem, - concordou a Ana, dando um suspiro. - Rendo-me. Se querem ir, vamos.
- Querida Ana, - disse o David, dando-lhe uma palmada amigável nas costas. - Mas tu não precisas de ir connosco, bem sabes. Podes ficar na quinta e nós contamos-te tudo quando voltarmos.
- Claro que não fico, - respondeu a Ana, zangada. - Eu posso não ter tanta vontade de ir como vocês, mas não quero que me ponham de parte seja no que for. Portanto, nem penses nisso.
- Pronto! Está combinado, - concluiu o Júlio. - Iremos quanto antes. Talvez amanhã.
A sr.a Peney apareceu à porta e chamou-os. - O jantar está pronto. Devem ter muito apetite. Podem vir para a mesa.
O sol encobriu-se de repente. O Júlio olhou para o céu, surpreendido. - Meu Deus, reparem naquelas nuvens, - disse ele. - Está a aproximar-se uma tempestade. Eu já a esperava; esteve tanto calor durante todo o dia!
- Uma tempestade! - exclamou a Zé. - Aquele farol acende-se nas noites de tempestade! ó Júlio, achas que ele se acenderá esta noite? Não poderemos... não poderemos ir ver?
UM PASSEIO DURANTE A NOITE.
Os pequenos ainda não tinham acabado de jantar e já a enorme cozinha estava completamente escura. Vinham do oeste nuvens carregadas de electricidade, que se juntavam silenciosamente, negras e ameaçadoras. A certa altura ouviu-se ao longe, pela primeira vez, o ribombar do trovão.
O cãozito mais pequeno foi esconder-se debaixo das saias da sr.a Peney. Detestava as tempestades. A boa senhora fez-lhe festas e o seu gigantesco marido deu uma gargalhada, dizendo qualquer coisa que soou como «ato».
- Não é tímido como um rato, - disse a sr.a Peney, que era realmente maravilhosa a interpretar os estranhos sons do marido. - Ele não gosta de trovoadas. Nunca gostou. Esta noite pode dormir no nosso quarto.
Ouviram-se mais uns sons do sr. Peney que a sua mulher escutou com ansiedade. - Muito bem, se tu vais sair esta noite para ver o Jim, o cavalo, eu trato do cãozinho para ele não deitar a casa abaixo com os seus latidos, - disse ela. E depois voltando-se para os pequenos: - Não se preocupem se o ouvirem ladrar.
A trovoada recomeçou, desta vez um pouco mais perto, e então caiu uma faísca. Desatou a chover, e de que maneira!
Grossos cordões de água faziam enorme barulho ao baterem sobre o telhado.
Os pequenos começaram a jogar às cartas à luz dum candeeiro de petróleo. Não havia electricidade no Tremanal. O Tim deitou a cabeça nos joelhos da Zé. A trovoada não o assustava mas também não lhe agradava particularmente.
- Bem, acho melhor irmo-nos deitar, - disse o Júlio por fim. Sabia que os srs. Peney gostavam de se deitar cedo para se levantarem mal amanhecia. E como eles só se iam deitar depois dos pequenos, o Júlio achou melhor não se demorarem.
Deram as boas-noites e foram para os seus quartos. As janelas ainda estavam abertas e as cortinas afastadas, por isso os montes, iluminados de vez em quando pelos relâmpagos, podiam-se ver nitidamente. Os pequenos ficaram durante algum tempo a admirar aquele espectáculo. Todos eles e em especial o David gostavam de assistir a uma tempestade. E aquela tinha qualquer coisa de grandioso, varrendo os montes e o mar, enchendo tudo à volta com o seu ruído, e rasgando o céu com os clarões dos relâmpagos.
- Júlio, e se fôssemos ao sítio que o pastor nos indicou, para vermos se o farol se acende esta noite? - perguntou a Zé. - Quando há pouco te perguntei o mesmo, porque começaste a rir?
- E rio-me outra vez, - respondeu o Júlio. - Claro que não!
Ficávamos ensopados e além disso não me agrada a ideia de estar naqueles montes com uma tal trovoada.
- Está bem, - concordou a Zé. - De qualquer maneira não sinto tanta vontade que precise de ir já, com esta escuridão.
- Óptimo, - concluiu o Júlio. - Anda, David, vamo-nos deitar!
A trovoada continuou durante algum tempo, caindo trovões à volta dos montes como se estivessem a envolvê-los num círculo. As raparigas adormeceram logo; mas os rapazes viravam-se na cama, cheios de calor.
- David, - disse a certa altura o Júlio. - Já não chove. Vamos ver se o farol se acende. Pelo que disse o vovô a noite está mesmo indicada para isso.
- Pois sim, - disse o David, levantando-se e procurando a sua roupa. - Não consigo adormecer, embora sentisse realmente sono quando me despi.
Vestiram o menos roupa possível, pois a noite continuava com um ar abafado de trovoada. O Júlio pegou na sua lanterna de algibeira e o David foi procurar a dele.
- Já a encontrei, - disse por fim. - Estás pronto? Temos que passar em bicos dos pés em frente do quarto dos srs. Peney para não acordarmos o cão mais pequenino. Ele dorme lá esta noite, não te esqueças.
Foram pé ante pé pelo corredor, passaram em frente do quarto dos srs. Peney e desceram as escadas. Um dos degraus rangeu assustadoramente e os dois rapazes pararam, receosos de que os cães desatassem a ladrar.
Mas felizmente não deram por nada. Os pequenos continuaram a descer a escada, acendendo as lanternas para iluminarem os degraus. Quando chegaram ao fim o David murmurou: - Saímos pela porta da frente ou pela das traseiras, Júlio?
- Pela das traseiras, - respondeu o Júlio. - A da frente é muito difícil de abrir. Anda!
Seguiram até à porta que ficava ao fundo da cozinha. Estava fechada à chave e trancada mas os pequenos abriram-na sem fazerem grande barulho.
Lá fora, pararam. Já não chovia, mas o céu continuava escuro e cheio de nuvens. A trovoada afastara-se mas ainda se ouvia ao longe. Tinha-se levantado um vento fresco que soprava na cara dos dois rapazes.
- Que brisa tão agradável, - murmurou o David. - Vamos pelo pátio? É o caminho mais curto até à cerca.
- Pois sim, - respondeu o Júlio. Atravessaram o pátio silencioso, embora durante o dia fosse muito barulhento.
Passaram perto dos celeiros e dos estábulos. Num destes ouviu-se um ligeiro relincho. -- É o Jim, o cavalo que está doente, - disse o Júlio, parando. - Vamos dar uma espreitadela para vermos se está melhor. A última vez que o vi estava deitado no chão com um ar muito triste.
Acenderam as lanternas e iluminaram o estábulo pela parte superior da porta que estava aberta, para o arejar. Olharam lá para dentro com atenção.
O Jim já estava de pé, mastigando qualquer coisa. Felizmente parecia sentir-se completamente bom e até deu um relincho quando viu os dois rapazes.
Estes seguiram o seu caminho. Quando chegaram à cerca saltaram para o campo do outro lado. A chuva começou outra vez a cair e estava tão escuro que se não fossem as lanternas não conseguiriam ver um palmo adiante
do nariz. - ó Júlio, ouviste aquilo?. - perguntou o
David parando de repente.
- Não, que foi? - disse o Júlio apurando o ouvido.
- Parecia alguém a tossir, - explicou o David.
- Talvez seja algum carneiro, - sugeriu o Júlio. - Eu já ouvi um que tossia precisamente como o tio Alberto. Era uma espécie de choro abafado.
- Não. Não era um carneiro, - disse o David. - Além disso não há carneiros neste sítio.
- Foi ilusão tua, - replicou o Júlio. - Aposto que tirando nós dois, não há ninguém tão parvo que saia com uma trovoada destas!
Continuaram a andar cautelosamente. A trovoada recomeçara, agora um pouco mais próxima. A certa altura caiu um relâmpago seguido dum grande trovão. De repente o David parou novamente, agarrando o Júlio por um braço.
- Vai uma pessoa à nossa frente. O relâmpago iluminou-a por meio segundo. Ia a saltar a cerca para onde nos dirigimos. Quem achas que possa ser, com uma noite destas?
- Tudo indica que está a seguir pelo nosso caminho, - disse o Júlio. - E se nós o vimos é natural que ele também nos tenha visto.
- Só se estivesse a olhar para trás, - respondeu o David. - Vamos ver onde ela irá.
Seguiram com todo o cuidado até à cerca. Depois saltaram para o outro lado. Foi nessa altura que alguém, instantaneamente, agarrou o David por um ombro!
O pequeno ficou sem pinga de sangue! A mão agarrava-o com tanta violência que o David deu um grito de dor, tentando libertar-se.
O Júlio também sentiu um braço querendo agarrá-lo, mas desviou-se, conseguindo fugir! Apagou imediatamente a lanterna e deixou-se ficar muito quieto, com o coração a bater apressadamente.
- Largue-me, - gritava o David, torcendo-se como uma enguia. Quase ficou sem camisa de tanto espernear. Deu um pontapé no homem que o largou por um momento. Era o bastante para o David conseguir escapar-se deixando-lhe metade da camisa entre as mãos. Correu pelo caminho que ia dar à cerca e meteu-se no meio dum arbusto, arquejante. Ouviu o homem passar, resmungando, e o David ainda mais se escondeu no arbusto. A luz duma lanterna brilhou mesmo ali ao pé, não chegando porém a incidir sobre o pequeno.
O David esperou até deixar de ouvir passos e então saiu do seu esconderijo voltando ao caminho sem fazer barulho. - Júlio, - murmurou ele e logo se sobressaltou, pois uma voz respondeu-lhe mesmo por cima da sua cabeça.
- Estou aqui. Como te sentes?
O David olhou para a copa escura duma árvore, mas não conseguiu distinguir nada. - Perdi a lanterna não sei onde, - disse ele. - Onde estás tu, Júlio? Estás aí nessa árvore?
Uma mão tocou-lhe na cabeça, às apalpadelas. - Estou aqui, no ramo mais baixo, -
disse o Júlio. - Escondi-me primeiro na sebe e depois trepei para aqui. Não acendi a lanterna porque o homem podia andar por aí e descobri-la.
- Ele foi-se embora, - disse o David. - Meu Deus, ia-me partindo as costelas. Metade da minha camisa desapareceu. Quem era ele?
Viste?
- Não, não vi, - disse o Júlio saltando da árvore. - Vamos procurar a tua lanterna antes de continuarmos. É boa de mais para se perder. Deve estar perto da cerca.
Foram procurá-la. O Júlio achou prudente continuar a não acender a sua lanterna, de maneira que o David procurou a dele mais pelo tacto do que pela vista. De repente pôs-lhe um pé em cima, e apanhou-a, satisfeito.
- Atenção! Lá vem o homem outra vez, tenho a certeza! - disse o David. - Estou a ouvir a mesma tossezinha seca. Que havemos de fazer?
- Acho melhor não irmos ao monte do pastor ver se o farol da torre se acende, - sugeriu o Júlio. - Proponho escondermo-nos e seguir o homem para ver onde ele vai. Andar vagueando cá por fora com uma noite destas não pode ser por coisa boa.
- Está bem, - concordou o David. - Ai, aqui há ortigas. Que pouca sorte!
Os passos aproximaram-se, voltando a ouvir-se a tal tosse. - Tenho a impressão de que conheço aquela tosse - murmurou o David.
- Schiu! - fez o Júlio.
O homem chegou à cerca e os pequenos ouviram-no saltá-la. Passados uns instantes seguiram atrás dele, cautelosamente. Não podiam ouvir os passos do homem sobre a relva mas o céu estava um pouco mais claro e por isso viram uma sombra movendo-se à sua frente.
Seguiram-no a pouca distância, ficando com a respiração suspensa sempre que davam um pontapé numa pedra ou pisavam algum ramo. De vez em quando ouviam a tosse.
- Está a dirigir-se para a quinta, - murmurou o Júlio, que já via os contornos dos enormes celeiros recortados no céu. - Pensas que seja algum dos trabalhadores? Eles vivem em pequenas casas aqui à volta.
O homem chegou à quinta. Caminhava fazendo o menor barulho possível. Os rapazes seguiram-no. Ele contornou os celeiros até ao pequeno jardim que a própria sr.a Peney cultivava. Os dois irmãos continuavam a segui-lo.
O homem dirigiu-se à porta da frente e os pequenos sentiram a respiração suspensa. Iria ele assaltar a casa? Aproximaram-se mais, pé ante pé. Ouviu-se um pequeno ruído e depois o barulho da tranca a ser posta no seu lugar.
- Ele entrou, - disse o Júlio, surpreendido.
- Não sabes quem ele era? Não consegues adivinhar? - perguntou o David. - Devíamos ter descoberto quando ouvimos aquela tosse! Era o sr. Peney!
Não admira que quase me tivesse partido as costelas com a sua mão tão forte.
- O sr. Peney! Meu Deus, tens razão! - exclamou o Júlio admirado e quase se esquecendo de falar baixinho. - Como saímos pela porta das traseiras não reparámos que a da frente não estava trancada. Portanto foi o sr. Peney que nós seguimos. Que estupidez! Mas que estaria ele a fazer nos montes? Nem sequer foi ver o cavalo, pois este já não estava doente.
- Talvez goste de passear à noite, - lembrou o David. - Vamos também entrar. Tenho frio; praticamente estou sem camisa.
Aproximaram-se da porta das traseiras. Graças a Deus estava aberta! Depois de terem entrado fecharam-na à chave e puseram-lhe a tranca. Deram um suspiro de alívio quando se apanharam a salvo, outra vez no quarto.
- Ó Júlio, acende a tua lanterna e vê como está o meu ombro, - pediu o David. - Dói-me bastante.
O Júlio fez incidir a luz da lanterna nas costas do David e deu um assobio. - Meu Deus, tens uma grande nódoa negra no ombro direito. Ele deve ter-te dado um valente apertão.
- Se deu! - disse o pobre David. - Acho que não foi uma noite muito proveitosa. Passámos o tempo atrás do sr. Peney, fomos apanhados por ele e seguimo-lo até aqui. Que falta de inteligência!
- Não faz mal. Aposto que não se acendeu qualquer luz no farol da torre, - disse o Júlio, metendo-se na cama. - Não perdemos muito em não ir até onde tencionávamos, para a ver.
OS BARNIES.
NA manhã seguinte o Júlio e o David olharam com curiosidade para o sr. Peney. Parecia-lhes inacreditável a aventura da noite anterior e que ele não soubesse serem os dois irmãos quem tentara agarrar. A certa altura, ouviram mais uma vez a tosse seca e o Júlio fez um sinal ao David, sorrindo.
A sr.a Peney estava sentada, como de costume, à cabeceira da mesa. - Dormiram todos bem esta noite? - perguntou ela. - A tempestade durou pouco tempo, não é verdade?
O sr. Peney levantou-se, disse «Ah, Ock, Oh»! ou qualquer coisa parecida e saiu.
- Que disse ele? - perguntou a Ana cheia de curiosidade. Ela não compreendia que alguém pudesse perceber a maneira estranha como o sr. Peney falava. O Júlio achava que ele devia falar por estenografia!
- Disse que não vem almoçar, - respondeu a sr.a Peney. - Oxalá coma em qualquer sítio. Tomou o pequeno almoço muito cedo, eram seis e meia. Ainda bem que veio tomar uma chávena de chá connosco. Coitado, teve uma noite muito má.
Os rapazes apuraram os ouvidos. - Que aconteceu? - perguntou o Júlio.
- Teve que se levantar e passou duas horas seguidas com o pobre Jim, - disse a sr.a Peney. - Eu acordei quando ele saiu mas felizmente o cãozinho não ladrou. O sr. Peney só voltou daí a duas horas; esteve sempre ao pé do cavalo, pobre homem!
O Júlio e o David não ficaram com pena nenhuma do sr. Peney. Sabiam muito bem onde ele estivera; e não tinha sido junto do cavalo, pois ele já não estava doente quando o tinham visto, de noite. Que série de mentiras!
Os dois rapazes estavam muito intrigados. Por que razão mentiria o sr. Peney à sua mulher, contando-lhe coisas que não se passavam? Que teria ele feito para que nem ela pudesse sabê-lo?
Logo a seguir ao pequeno almoço foram apanhar groselhas, medronhos e ameixas para uma salada de frutas, e os pequenos contaram à Ana e à Zé tudo o que se passara. Estas ficaram muito surpreendidas.
- Vocês podiam avisar-nos de que iam sair, - disse a Zé com ar de reprovação. - Eu também gostava de ter ido.
- Sempre achei o sr. Peney com um aspecto estranho e sinistro, - disse a Ana. - Tenho a certeza de que não se levantou para coisa boa. Que pena! A mulher dele é tão simpática!
Continuaram a apanhar as groselhas, que nunca mais acabavam.
A Ana de repente percebeu que estava alguém escondido ali perto. Olhou à sua volta, pouco à vontade. Não havia dúvida de que estava alguém ali atrás.
Claro que era o Jano. Já devia ter calculado! Ele sorriu e aproximou-se. A Ana era a sua preferida. Estendeu-lhe a mão.
- Não tenho rebuçados, - disse a pequena. - Que tal passaste a noite com aquela tempestade, Jano? Tiveste medo?
O Jano abanou a cabeça. Aproximou-se mais e disse baixinho.
- Eu vi a luz esta noite.
A Ana olhou para ele admirada. - Qual luz? Que queres dizer? A luz que se acende naquela torre escondida? - perguntou ela.
O Jano fez um sinal afirmativo.
A Ana foi logo ter com o Júlio e com o David, que estavam a apanhar groselhas e comendo quase tantas quantas metiam no
cesto.
- Júlio! David! O Jano diz que viu o farol acender-se esta noite. O da torre.
- Santo Deus! - exclamaram os dois rapazes ao mesmo tempo. Depois voltaram-se para o Jano que seguira a Ana. - Tu viste a luz? - perguntou o Júlio.
O Jano fez outro sinal afirmativo. - Uma grande luz. Muito grande, - respondeu ele. - Como... como uma fogueira.
- E brilhava na torre? - perguntou O David, ao que o Jano fez nova afirmação com a
cabeça.
- O teu vovô viu-a? - voltou o David a
perguntar.
- Sim, também a viu, - respondeu o Jano.
- Estás a falar verdade? - perguntou o Júlio, lembrando-se de que não podia acreditar muito nele.
O Jano voltou a fazer o mesmo sinal afirmativo.
- Que horas eram? - perguntou o David. Mas o Jano não podia responder a tal pergunta. Não tinha relógio e se tivesse não saberia servir-se dele.
- Que aborrecimento! - exclamou o Júlio voltando-se para o David. - O que nós perdemos! Se o Jano está a falar verdade teríamos visto o farol aceso na noite passada.
-Tens razão. Mas iremos ver esta noite, - disse o David com ar decidido. - Está um dia muito mau, cheio de vento e com o céu a cobrir-se de nuvens. Se costumam acender a tal luz quando o tempo está assim, vê-la-emos com certeza. Mas diabos me levem se consigo perceber por que razão a torre «dos afundadores» é ainda utilizada! Nenhum barco deve dar pela existência daquela luz sem importância, havendo um farol a trabalhar constantemente.
- Eu também vou, - declarou o Jano, que
tinha ouvido tudo.
- Não, não vais, - disse o Júlio. - Tu ficas com o teu vovô. Ele quereria logo saber onde tu estavas.
Começou a chover. - Que maçada! - exclamou a Zé. - Espero que o tempo não tenha mudado de vez. Os dias têm estado tão bonitos! Mas hoje está frio, com este vento cortante. Vamos embora, Ana, temos com que alimentar um batalhão.
Entraram em casa quando a chuva começava a cair com mais força. A sr.a Peney foi ter com eles, muito entusiasmada.
- Os Barnies pediram-nos o celeiro para amanhã à noite, - disse ela. - Os meninos querem ajudar a limpá-lo e a arranjá-lo? Eles dão aqui o primeiro espectáculo e só depois irão a outro sítio.
- Com muito prazer, - respondeu o Júlio. - Podemos ir imediatamente. Há uma porção de coisas a tirar dali. Onde devemos pô-las? No outro celeiro?
Os Barnies chegaram daí a vinte minutos e foram logo para o celeiro, que tinham alugado muitas outras vezes para dar os seus espectáculos. Ficaram contentes por ver os pequenos e terem a sua ajuda.
Já não traziam os curiosos trajos com que as crianças os tinham visto na tarde de domingo. Quase todos eles, incluindo as mulheres, vestiam calças de ganga e preparavam-se para a fatigante tarefa de limpar o celeiro e armar um palco simples com um cenário.
O Júlio reparou numa cabeça de cavalo transportada por um homem ainda novo que caminhava com agilidade, dando uns saltos muito cómicos.
- Para que serve isso. - perguntou ele.
- Ah, essa é a cabeça do Francis? O cavalo que se senta e cruza as pernas?
- É sim, - respondeu o homem. - Eu sou responsável por ele. - Nunca sai da minha vista. São ordens do Patrão.
- Quem é o Patrão? - perguntou o Júlio.
- É aquele, ali? - E apontou para um homem de cara carrancuda que estava a dirigir a mudança duns fardos de palha.
- É esse mesmo, - disse o jovem com um sorriso. - É Sua Excelência! Que tal acham o meu cavalo?
O Júlio olhou para a cabeça do Francis. Estava muito bem feita e tinha um olhar engraçado. A boca podia-se abrir e fechar e o mesmo acontecia com os seus grandes olhos.
- Eu não sou mais do que as patas traseiras, - explicou o homem, desgostoso.
- Mas também manobro a cauda. O sr. Binks trabalha com as patas da frente e faz mexer a cabeça. A cabeça do cavalo, bem entendido. Haviam de ver o Francis a representar! Não há em todo o mundo um cavalo como ele. Pode fazer tudo menos voar.
- Onde estão as patas traseiras e da frente e... o corpo? - perguntou o David, que chegara naquele momento e olhava muito interessado para a cabeça do cavalo.
- Estão ali, - respondeu o homem. - A propósito, eu chamo-me Sid. E os meninos como se chamam e como vieram aqui parar?
Os pequenos apresentaram-se e o Júlio explicou que estavam ali a ajudar por se encontrarem hospedados na quinta. Depois pegou num fardo de palha, achando que já era altura de fazer qualquer coisa.
- É capaz de me ajudar? - pediu o Júlio. O Sid abanou a cabeça.
- Desculpe. Tenho ordens para nunca largar o Francis. Para onde eu vou vai ele também. É como se estivéssemos ligados um ao outro.
- Tem assim tanto valor? - perguntou o
David.
- Não se trata disso, - respondeu o Sid.
- Mas como sabem é muito popular. E desempenha um papel importante. Quando achamos que o espectáculo não está a agradar, levamos o Francis para o palco; começam logo as gargalhadas e as palmas e o público fica bem disposto. O Francis já salvou os Barnies vezes sem conta. É um cavalo formidável!
Nessa altura apareceu o sr. Binks. Era mais alto do que o Sid e muito mais forte. - Estão a admirar o Francis? - perguntou ele dirigindo-se aos dois rapazes. - O Sid já vos contou que uma vez a cabeça do Francis caiu do carro e nós só demos pela sua falta uns quilómetros adiante? Meu Deus, como ficou o Patrão! Garantiu-nos que não haveria espectáculo sem o Francis.
- Nós somos pessoas importantes, - disse o Sid, enchendo o peito e fazendo uns gestos muito cómicos colocando a cabeça do cavalo à sua frente. - Eu, o Binks e o Francis. Sem nós, não há espectáculo!
- Não ponhas o cavalo no chão nem por um só momento, - avisou o sr. Binks. - O Patrão está a olhar para ti, Sid. Repara, está a chamar-te.
O Sid, com um ar aflito, foi ter com o patrão. E levou a cabeça do cavalo muito bem segura debaixo do braço.
O homem de aspecto carrancudo disse umas palavras secas ao Sid. Quando este voltou o Júlio foi ao seu encontro. - Deixe-me tomar o peso da cabeça do cavalo, - pediu ele. -É uma coisa que sempre me apetece fazer quando vejo no circo qualquer animal deste género.
O Sid meteu logo o cavalo debaixo do braço e olhou rapidamente à sua volta para ver se o Patrão teria ouvido. Depois voltou-se indignado para o Júlio.
- Parece impossível pedir-me uma coisa dessas, - disse ele. - Depois de eu lhe ter dito que não tenho licença para largar o cavalo. E o Patrão acaba de me dizer: «Afasta-te desses rapazes, bem conheces as partidas que eles gostam de pregar; se não tens cuidado roubam-te o cavalo». Percebe? Quer fazer-me perder o emprego?
O Júlio riu-se. - Não ia perder o emprego só por isso. Quando for ensaiar, com o sr. Binks nós gostávamos de assistir.
- Está bem, isso pode ser, - respondeu o Sid já mais calmo. - Anda cá, Binks! Vamos ensaiar um bocado. Traz as pernas do
Francis.
O Binks e o Sid foram para um canto do celeiro já desocupado, vestir o dorso e as pernas do cavalo, feitos de lona. O Sid mostrou aos pequenos como fazia mexer a cauda, com uma das mãos.
O Binks enfiou a cabeça e as patas da frente. A sua cara chegava apenas ao pescoço do cavalo. Com as mãos, podia puxar uns cordéis para lhe abrir a boca e fazer os olhos andarem à volta.
O Sid enfiou as patas traseiras e curvou-se para a frente, encostando a cabeça ao Binks e agarrando-se a ele. Fazia assim o dorso do cavalo. Depois um dos outros companheiros correu o fecho «éclair» que unia as duas metades.
- Que cavalo formidável! - exclamou o David, encantado. Parecia um animal vivo, cómico e muito dócil. Os dois homens lá dentro começaram a manejá-lo para ele fazer as mais engraçadas habilidades. O Francis deu uns passos, esquerda direita, esquerda direita, esquerda direita. Fez um sapateado com as patas da frente, que depois ficaram muito quietas, para fazer o mesmo com as de trás.
A certa altura as patas de trás enrodilharam-se e o cavalo caiu sobre elas olhando muito espantado à sua volta.
Os quatro pequenos e o Jano, que estava a espreitar pela porta, desataram às gargalhadas com os gestos engraçados do cavalo.
Ele meteu a cauda na boca e começou a andar à roda. Depois pôs-se em pé nas patas traseiras e deu uns saltos como os cangurus, soltando uns gritos estranhos. Todos os outros Barnies pararam a ver o Francis e até na dura cara do Patrão apareceu um sorriso.
O cavalo sentou-se depois nas patas traseiras e cruzou as da frente, sobre o peito, olhando à volta com um ar muito cómico. Deu um grande bocejo que deixou ver dezenas de dentes enormes.
- Por favor, estejam quietos, - pediu a Ana não podendo rir mais. - Agora percebo a tua importância, Francis. És o melhor número do espectáculo.
Aquela manhã foi muito divertida pois os Barnies não paravam de tagarelar, contando anedotas e rindo. Os dois homens tiraram as pernas e a cabeça do Francis e o Sid continuou como anteriormente, segurando a cabeça muito bem debaixo do braço, sempre com o mesmo ar alegre.
A sr.a Peney chamou as crianças para o almoço. O Jano correu atrás do Júlio tocando-lhe num braço.
- Eu vi aquela luz, - disse ele apressadamente. - Venham vê-la esta noite. Não se esqueçam, eu vi-a.
O Júlio já se tinha esquecido com o entusiasmo da manhã. Sorriu para o pequeno.
- Está bem. Está bem. Não me esqueço. Nós vamos esta noite mas tu não vais. Nem penses nisso, Jano! Toma lá um rebuçado. E agora, desaparece!
O FAROL DA TORRE.
No fim daquela tarde o grande celeiro estava completamente transformado! Tinham tirado todos os fardos de palha, os sacos de trigo e de adubo e os estranhos maquinismos ali guardados. Depois parecia maior, agradando muito aos Barnies.
- Já aqui estivemos muitas vezes, - disseram eles aos pequenos. - É o melhor celeiro desta região. Não é onde temos mais público, por estar muito isolado, só com duas terreolas ao pé. Mas passamos um bom bocado e a sr.a Peney dá-nos sempre um jantar formidável.
- Pois claro, - disse o David, rindo. - Até aposto que os senhores vêm a este sítio tão isolado só por causa da comida da sr.a Peney. Não os censuro. Eu também andaria muitos quilómetros pela mesma razão.
Tinham armado um palco com tábuas e barrotes. Via-se um cenário pendurado na parede de madeira do celeiro, ao fundo do palco. Representava uma cena do campo e tinha sido pintada aos bocados, pelos próprios Barnies.
- Aquele bocado é o meu, - disse o Sid mostrando ao David um cavalo pintado num dos cantos do cenário.
- Era preciso pôr ali o Francis. Está a vê-lo?
Os Barnies tinham feito muitos cenários que eram substituídos muitas vezes durante o espectáculo. Este era também imaginado por eles e enchia-os de orgulho, especialmente aquele em que aparecia um castelo com uma torre. Ao vê-lo os dois rapazes lembraram-se da torre que o Jano dissera ter visto com luz na noite anterior. Entreolharam-se significativamente e o Júlio fez um sinal com a cabeça. Eles iriam ver aquele farol. E então saberiam se o vovô e o Jano haviam falado verdade.
O Júlio não sabia se naquela noite teriam outra vez que ter cuidado com o sr. Peney. O Jim, o cavalo, estava bastante melhor, se é que alguma vez se sentira doente. Portanto o sr. Peney não arranjaria nenhuma desculpa para vaguear lá por fora, durante a noite.
Nenhum dos dois rapazes fazia ideia do que o teria levado a sair na noite anterior, com um tempo tão mau. Teria ido encontrar-se com alguém? Não tivera tempo de ir falar com o pastor, e isso não era muito natural, pois já o tinha visto naquela manhã.
A sr.a Peney foi ver o celeiro quando este já estava quase pronto para o espectáculo da noite seguinte. Tinha a cara vermelha de entusiasmo. Aquilo tudo era um grande acontecimento para ela. Os Barnies no seu celeiro, o povo de duas aldeias que os vinha ver e um grande jantar no final. Que sucesso!
Andava muito atarefada com os seus cozinhados! A enorme despensa já estava cheia de apetitosas empadas, tortas, presuntos, carnes, e queijos.
Os pequenos olharam lá para dentro, deliciados.
A sr.a Peney riu-se e mandou-os embora.
- Os meninos amanhã têm que me ajudar, - disse ela. - Descascar ervilhas, descascar batatas, tirar os fios aos feijões verdes, apanhar groselhas e medronhos e ir descobrir morangos bravos na mata para dar mais sabor à salada de frutas.
- Tudo isso é muito divertido! Mas a sr.a Peney vai fazer o jantar sozinha?
- Vem uma ou duas pessoas da aldeia para me ajudar, - explicou a gorda senhora sentindo-se tão feliz quanto podia no meio de tanto trabalho. - Mas seja como for, amanhã levanto-me às cinco da madrugada. Por isso tenho muito tempo.
- Então é melhor deitar-se cedo esta noite, - sugeriu a Zé.
- Todos nós nos deitamos cedo, - disse a sr.a Peney. - Amanhã levantamo-nos de madrugada e deitamo-nos tarde, por isso precisamos de dormir bem esta noite. Com o sr. Peney não há preocupações; está sempre pronto a ir para a cama bem cedo!
Os pequenos tinham a certeza de que ele desejaria deitar-se cedo naquela noite porque na anterior tinha estado bastante tempo por fora, no meio do temporal! O Júlio e o David também se sentiam cansados, mas estavam absolutamente decididos a ir ao monte do pastor procurar o sítio donde pudessem ver se o farol na verdade se acendia.
Como de costume tiveram um esplêndido jantar, com a presença do sr. Peney. Este comeu imenso, muito sério, sem dizer uma palavra além de qualquer coisa que soou como «Oclc, Ah, Ock».
- Ainda bem que gosta do empadão, sr. Peney, - disse-lhe a sua mulher. - Modéstia à parte, está realmente muito bom.
Na verdade era extraordinário como ela compreendia a maneira de falar do marido. Era também curioso ouvi-la dirigir-se-lhe como se ele fosse uma pessoa com quem fizesse cerimónia, tratando-o por senhor. A Ana gostaria de saber se ela o tratava por sr. Peney quando estavam os dois sozinhos. A pequena olhava para ele fixamente. Que gigante tão negro! E como comia!
O sr. Peney levantou os olhos e viu a Ana a fixá-lo. Fez-lhe um sinal com a cabeça e disse: - «Ah, ock, eck, uck». Se fosse uma língua estrangeira a Ana teria compreendido o mesmo. Olhou para ele admirada não sabendo o que responder.
- Não mace os pequenos, sr. Peney, - disse a mulher dele. - Ela não sabe como responder. Não é verdade, Ana?
- Bem... eu... eu realmente não percebi o que disse o sr. Peney, - confessou a Ana, pondo-se muito vermelha.
- Vê como fala tão mal quando não põe os dentes? - ralhou a sr.a Peney. - Não lhe disse já que deve pôr a dentadura quando quer conversar? Eu compreendo bem o que diz mas os outros não.
O sr. Peney franziu a testa e resmungou qualquer coisa. As crianças olharam para ele, perplexas, por saberem agora que não tinha dentes. Santo Deus! COMO era então possível alimentar-se daquela maneira?! Ele parecia mastigar e não tinha dentes!
- Por isso fala daquele modo tão estranho, - pensou o David. - Mas que engraçado, comer tanto e sem dentes! O que ele comeria se os tivesse!
A sr.a Peney mudou de conversa, pois via-se claramente que o seu marido ficara zangado com ela.
Começou a falar alegremente sobre os Barnies.
«Ai o Francis! Quando ele começa aos saltos e acaba por cair no palco! Vão ver como o sr. Peney dá tantas gargalhadas que quase não se aguenta na cadeira. Gosta muito do cavalo. Já o viu dezenas de vezes e sempre lhe acha muita graça.
- Eu também o acho muito cómico, - disse o Júlio. - Ando agora a pensar em arranjar um número no género para representar na escola, na festa do fim do ano. Eu e o David podíamos ensaiá-lo. Quem me dera que o Sid e o Binks nos deixassem experimentar.
Por fim terminaram a refeição. A maioria das travessas estavam vazias e a sr.a Peney ficou muito satisfeita. - Sim senhor, comeram muito bem, - disse ela. - É isso que eu gosto. As pessoas devem comer tudo o que se lhes dá.
- Isso não é difícil quando se trata de comida feita pela sr.a Peney, - disse a Zé. - Não é verdade, Tim? Aposto que o Tim gostava de viver sempre aqui. Certamente tem dito aos outros cães como os acha felizes.
Depois de se lavar a loiça, no que todos participaram menos o sr. Peney, foram sentar-se a ler. Mas o sr. Peney dava tais bocejos que os pequenos começaram também a abrir a boca. A sr.a Peney riu-se.
- Vão-se deitar, - disse ela. - Nunca na minha vida ouvi bocejar tanto! Pobre sr. Peney. Está exausto por ter passado a metade da noite com o Jim.
Os pequenos entreolharam-se. Eles sabiam bem o que realmente acontecera.
Todos se foram deitar e as crianças riram a ouvir ainda os bocejos do sr. Peney no seu quarto. O Júlio foi à janela. Estava uma noite escura e tempestuosa, caindo repetidas bátegas de água. O vento assobiava e o Júlio teve a impressão de que ouvia as ondas rebentando nos rochedos das enseadas mais próximas. Que grandes deveriam ser, com aquele vento!
- Uma noite esplêndida para os afundadores, se ainda existem, - observou o David. - Um navio que esta noite se aproximasse demasiado daquelas enseadas não teria muitas probabilidades de escapar. Em meia hora podia despedaçar-se nas rochas! No dia seguinte a praia estaria coberta por milhares de despojos.
- Acho melhor esperarmos um pouco, antes de sairmos, - sugeriu o Júlio. - É muito cedo. Numa tarde de sol os montes ainda estariam muito claros. Mas com esta tempestade já está bastante escuro. Podemos acender os candeeiros e ler um bocado.
O vento tornou-se mais violento, transformando-se quase num furacão. Assobiava à volta da velha casa com um barulho assustador. Não estava uma noite nada agradável para ir até aos montes!
- Acho melhor partirmos agora, - disse o Júlio por fim. - Está bastante escuro e já é tarde. Vamos!
Como não se tinham despido desceram logo as escadas e saíram, como na outra noite, pela porta das traseiras, fechando-a com cuidado. Atravessaram o pátio não se atrevendo a acender as lanternas antes de se encontrarem bem longe de casa. Tinham deitado um rápido olhar à porta da frente ao passarem pela entrada; estava trancada e fechada à chave! O sr. Peney não saíra naquela noite, com certeza.
Avançavam corajosamente ficando quase sufocados quando o vento lhes batia em cheio na cara. Tinham vestido camisolas de lã por causa do frio e da ventania.
Atravessaram campos e mais campos. Saltaram cercas e mais cercas. E pararam uma ou duas vezes para se assegurarem de que não se tinham enganado no caminho. Sentiram um grande alívio quando viram o rebanho, concluindo que deviam estar próximos da cabana do pastor.
- Ali está a cabana, - murmurou o Júlio pouco depois. - Já se vêem os seus contornos. Agora temos de andar com muito cuidado.
Aproximaram-se da cabana pé ante pé. Não vinha lá de dentro o mais pequeno ruído e não passava luz alguma pelas frinchas. O Júlio imaginou o Jano abraçado ao velhote na cama de peles de carneiro.
Continuaram a caminhar cautelosamente. Deviam dirigir-se ao sítio donde se via a velha torre. E tinha que ser ao sítio exacto, pois ela não se via de qualquer outro ponto.
Não o conseguiram encontrar. E ainda que o tivessem encontrado não poderiam descobrir a torre ao longe, com aquela escuridão.
- Se por acaso virmos acender-se uma luz não chegaremos a perceber se ela pertence ao farol ou não, - disse o Júlio. - Nunca a vimos durante a noite. Porque não pensámos nisso há mais tempo? Somos uns burros!
Começaram a andar dum lado para o outro olhando sempre na direcção em que julgavam estar a torre. Mas não viram nada. Uma caminhada tão grande, perdida daquela maneira!
A certa altura o Júlio soltou uma exclamação.
- Quem está aí? Não se esconda! Quem é?
O David apanhou um susto. Que se passava? Pouco depois alguém se dirigiu aos pequenos e uma voz falou timidamente.
- Sou eu, o Jano!
- Meu Deus, tu apareces em toda a parte! - exclamou o Júlio. - Tenho a certeza de que andavas à nossa procura.
- Isso. Venham comigo, - disse o Jano puxando o Júlio por um braço. Os rapazes seguiram-no, um pouco para a direita e depois mais para o cimo do monte. Então o Jano parou.
Os rapazes viram imediatamente uma luz, à distância. Não havia a menor dúvida. Acendia-se repetidamente como a luz dum pequeno farol. Cada vez que brilhava viam-se os contornos escuros da torre.
- Parece um sinal, - disse o Júlio. - Meu Deus, que estranho. Quem a acende? E porquê? Claro que já não existem afundadores.
- O meu vovô diz que é o pai dele! - exclamou o Jano assustado. O Júlio riu.
- Não sejas palerma! De qualquer maneira é muito misterioso. Não achas, David? Poderá algum navio ser enganado por aquela luz e vir despedaçar-se nas rochas? É uma luz traiçoeira. Precisamente numa noite em que há ondas enormes para arrastar um navio que se aproxime da costa.
- Tens razão. Bem, amanhã saberemos se houve algum naufrágio, - disse o David com ar triste. - Espero que não. Nem posso sequer pensar nisso. Tenho a certeza, tenho a certeza absoluta de que já não existem afundadores!
- Mas se existem devem descer pelo Caminho dos Afundadores onde quer que ele seja, - observou o Júlio. - E hão-de esperar até o navio se desfazer em pedaços. Depois encherão muitos sacos com os despojos e devem voltar pelo mesmo Caminho.
O David sentia arrepios de horror. - Cala-te, Júlio! - pediu ele secamente. - Não fales assim. E agora que fazemos?
- Ouve, - disse o Júlio, resolvido. - Iremos à torre ver o que se passa. É o que nós vamos fazer! O mais cedo possível! Talvez amanhã!
TUDO PRONTO PARA O ESPECTÁCULO.
O Júlio e o David estiveram mais algum tempo a olhar para a luz e depois voltaram para a quinta. O vento era tão forte e tão frio que os pequenos estavam a tremer, embora fosse Verão.
- Ainda bem que nos encontraste, Jano, - disse o David pondo um braço sobre o ombro do pequeno, que também tremia de frio. - Obrigado pela tua ajuda. Nós vamos amanhã examinar aquela torre. Queres ensinar-nos o caminho?
O Jano começou a tremer ainda mais, de medo e de frio. - Não. Tenho «arreceio», - disse ele. - Agora tenho «arreceio» daquela torre.
- Que quer dizer «arreceio»? - perguntou o David. - É o mesmo que receio, não é? Está bem, Jano. Não precisas de vir connosco. Agora, volta para a tua cabana.
O Jano desapareceu no escuro, como um coelho assustado. Os rapazes dirigiram-se então para casa, sem grandes cautelas pois estavam certos de serem as únicas pessoas que tinham saído naquela noite. Mas quando chegaram ao pátio viram qualquer coisa que os fez parar de repente.
- Há luz no celeiro grande! - murmurou o David. - Já se apagou. Não, lá está ela outra vez. É alguém que acende e apaga uma lanterna. Quem será?
- Naturalmente é algum dos Barnies, - respondeu baixinho o Júlio. - Vamos ver. Os Barnies dormem esta noite nos celeiros mais próximos.
Foram até ao celeiro pé ante pé e espreitaram por uma frincha. Ao princípio não viram nada. Mas a certa altura acendeu-se uma lanterna, iluminando as coisas pertencentes aos Barnies, arrumadas a um canto - cenários, vestidos, e outras coisas.
- Alguém está a mexer nos bolsos! - exclamou o Júlio, indignado. - Olha! É um ladrão!
- Quem será? - disse o David. - Algum dos Barnies a roubar as algibeiras dos outros?
Por uns momentos a luz iluminou as costas da mão do intruso e os rapazes ficaram assombrados. Eles conheciam aquela mão! Era coberta de pêlos negros quase tão espessos como os dum animal!
- É o sr. Peney, - murmurou o David. - Sim, não há dúvida. Olha para a sombra enorme que ele faz. Que quererá ele? Deve ser maluco, a passear de noite pelos montes, roubando nos celeiros, metendo as mãos nas algibeiras dos outros. Olha o que ele está agora a fazer. A abrir as gavetas da cómoda utilizada pelos Barnies num dos seus números. É maluco!
O Júlio não se sentia à vontade. Não gostava de espiar o sr. Peney daquela maneira. Que estranho homem aquele! Dizia mentiras, saía de noite às escondidas e roubava as algibeiras. Sim, devia ser maluco. A sr.a Peney saberia? Se soubesse seria infeliz e ela parecia a pessoa mais alegre do mundo!
- Vamo-nos embora, - disse o Júlio ao ouvido do David. - Ele está a mexer em tudo! Não faço ideia do que espera encontrar no guarda-roupa e nas outras coisas dos Barnies. Agora teve um ataque de tosse! Vamo-nos embora. Não quero ver-me obrigado a denunciá-lo como ladrão. Seria tão desagradável se tivéssemos de contar o que vimos!
Os pequenos afastaram-se do celeiro e entraram outra vez em casa pelas traseiras. Olharam para a porta da frente. Estava encostada, mas não a tinham fechado à chave nem posto a tranca.
Foram para o quarto, muito intrigados. Que noite tão extraordinária! O vento a assobiar, o farol aceso, o homem no celeiro! Não sabiam que conclusão tirar daquilo tudo!
- Vamos acordar as pequenas e contar-lhes, - disse o Júlio. - Não consigo esperar até amanhã.
A Zé e o Tim estavam acordados. O Tim tinha ouvido sair os dois rapazes e ficara acordado à espera de que voltassem. Fizera barulho despertando a Zé, e ela já esperava ouvir um sussurro do lado de fora da porta. - Ana! Zé! Temos novidades para vocês! - murmurou o Júlio. O Tim foi recebê-los, saltando da cama. Daí a pouco a Ana também estava acordada e as duas ouviam entusiasmadas as novidades dos rapazes.
Ficaram tão surpreendidas com a história do sr. Peney no celeiro, como com a luz que realmente se acendia na torre.
- Portanto era verdade o que o vovô disse, - murmurou a Ana. - Ele tinha visto outra vez a luz. Acho tudo isto muito estranho, Júlio; amanhã ouviremos falar de algum naufrágio? Não posso pensar numa coisa dessas!
- Nem eu, - disse a Zé, prestando atenção ao vento que assobiava lá fora.
- Naufragar numa noite assim e ser feito em pedaços pelas ondas contra os rochedos! Sinto vontade de desatar a correr até àquelas enseadas para ver se ainda conseguimos salvar alguém.
- Não serviria de muito, - observou o David. - Duvido de que conseguíssemos alcançar a enseada com uma noite destas. As ondas devem chegar ao caminho que vai até lá.
Fartaram-se de conversar. A certa altura a Zé bocejou. - Acho melhor ficarmos por aqui, - disse ela. - Amanhã de manhã não nos conseguiremos levantar. E durante o dia vai ser difícil visitar a torre, Júlio. Os Barnies estão cá e nós prometemos ajudar a sr.a Peney.
- Então iremos depois de amanhã, - respondeu o Júlio. - Mas estou decidido a ir. O Jano não quer ensinar-nos o caminho. Disse que tem muito «arreceio».
- Também eu tenho «arreceio», - disse a Zé, sentando-se. - Eu ficava sem pinga de sangue se tivesse visto a luz esta noite.
Os rapazes foram para o seu quarto. Depressa estavam deitados e a dormir. O vento assobiava à volta da casa mas eles não o ouviam, pois estavam extenuados com a grande caminhada que tinham feito.
No dia seguinte havia tanto para fazer que era difícil arranjar tempo para pensar nos acontecimentos da noite anterior. Mas uma coisa fez recordá-los!
A sr.a Peney estava a preparar-lhes o pequeno almoço, falando muito, como de costume. Nunca lhe faltava assunto e tagarelava
durante todo o dia quer com os pequenos quer com os cães.
- Os meninos dormiram bem com aquele furacão a soprar toda a noite? - perguntou ela. - Eu dormi como uma pedra. O sr. Peney também! Ele disse-me que nem se mexeu até de manhã, tão cansado estava.
Os pequenos deram pontapés uns aos outros por baixo da mesa mas não disseram nada. Sabiam muito mais coisas do que ela, acerca das noites do seu marido!
Depois pouco tempo tiveram para pensar noutra coisa que não fosse apanhar fruta, descascar ervilhas, correr dum lado para o outro com as coisas dos Barnies, ajudando-os a arrumar bancos, caixas, barricas e cadeiras para o público se sentar, e até coser algumas peças do guarda-roupa. A Ana ofereceu-se para pregar um botão e imediatamente todos começaram a pedir-lhe que remendasse isto ou aquilo.
Foi um dia cheio de trabalho. O Jano apareceu como de costume e como não podia deixar de ser foi recebido pelo Tim com grandes manifestações de entusiasmo. Todos os cães gostavam do Jano mas o Tim era doido por ele. A sr.a Peney mandou-o fazer imensas coisas que ele executava rapidamente e de boa vontade.
- Talvez seja um pouco pateta, mas quando o espera uma boa refeição, faz tudo muito depressa, - disse ela. E assim foi todo o dia: - Leva isto, Jano! Jano, faz aquilo!
Os Barnies também trabalharam muito. Fizeram um pequeno ensaio em que tudo correu mal; o Patrão, enraivecido, exasperava-se e batia com os pés. A Ana não conseguia perceber por que motivo os outros não o deixavam!
Primeiro havia um diálogo entre dois palhaços, que acabavam por tocar violino. Depois uma peça dramática, em que entravam vilões, heróis e uma heroína que se via em grandes apuros. Mas por fim tudo acabava bem, para grande satisfação da Ana.
O Francis não desempenhava qualquer papel especial. Limitar-se-ia a andar dum lado para o outro do palco, para divertir o público ou preencher algum intervalo aborrecido. E sem dúvida saía-se na perfeição!
O Júlio e o David descobriram o sr. Binks e o Sid ensaiando o seu número a um canto do pátio. Que bem se entendiam as pernas da frente com as de trás! Como aquele cavalo dançava, trotava, galopava, marchava, caía, sentava-se, levantava-se, fechava os olhos e, enfim, fazia tudo o que vinha à imaginação do Sid e do sr. Binks. Eles tinham realmente muita graça.
- Deixe-me experimentar a cabeça do cavalo, sr. Binks, - pediu o Júlio. - Deixe! Só para ver como é.
Mas o Sid não deu licença. O sr. Binks não disse nada. - Ordens são ordens! - exclamou o Sid agarrando na cabeça do Francis mal o sr. Binks a tirou. - Não quero perder o meu emprego. O Patrão disse que se eu a largar outra vez, me despede. Portanto, nem pensem no Francis.
- O Francis dorme consigo? - perguntou o David com curiosidade. - Deve ser uma maçada ter que tomar conta duma cabeça de cavalo de dia e de noite!
- O menino habituava-se, - disse o Sid. - Eu e ele dormimos com as cabeças no mesmo travesseiro. O Francis tem um sono muito pesado!
- É o melhor número do espectáculo, - afirmou o Júlio, rindo. - Os senhores esta noite vão deitar o celeiro abaixo, com o Francis.
- Sempre assim acontece, - disse o sr. Binks. - Ele é o mais importante dos Barnies e a quem pior pagam. Não há direito!
- As patas traseiras e as da frente são muito mal pagas, - concordou o Sid. - Contam como um único artista e por isso só recebem metade. Mas nós gostamos desta vida. Portanto aqui nos têm!
Afastaram-se dos pequenos, o Sid levando a cabeça do cavalo por baixo do braço, como de costume. Ele era realmente um homenzinho simpático e alegre.
Ao almoço o Júlio lembrou-se de repente de qualquer coisa. - Sr.a Peney, - disse ele. - Aquele vento terrível não provocou nenhum naufrágio, pois não?
A sr.a Peney olhou para o pequeno, surpreendida. - Não, Júlio. E porque havia de provocar? Os navios agora afastam-se para longe desta costa. O farol avisa-os, bem sabe.
A única maneira dum barco se aproximar é entrando numa das enseadas com a maré cheia, tendo muito cuidado com os rochedos. Os pescadores conhecem a costa como a palma das mãos e por vezes entram nas enseadas. Mas nenhum outro barco lá vai agora.
Todos deram um suspiro de alívio. A luz do velho farol não tinha portanto causado qualquer naufrágio na noite anterior. Que sorte! Continuaram a almoçar. O sr. Peney também ali estava, comendo como de costume e sem dizer uma palavra. Os seus queixos trabalhavam vigorosamente para cima e para baixo, sendo impossível descobrir que não tinha dentes para mastigar. O Júlio olhou de relance para as suas mãos cobertas de pêlos negros. Sim, ele tinha visto aquelas mãos na noite anterior, não havia dúvidas! Sem segurarem um garfo e uma faca mas deslizando para dentro de algibeiras!
Por fim chegou a noite. Tudo estava pronto. Tinham armado na cozinha uma grande mesa feita de tábuas e de cavaletes. A sr.a Peney entregou às pequenas uma enorme toalha para lhe porem em cima. Era a maior toalha que tinham visto!
- É a que usamos no tempo das ceifas, - disse ela, com orgulho. - Damos um grande jantar nessa mesma mesa, mas colocamo-la no celeiro maior, pois ali há espaço suficiente para todos os trabalhadores da quinta. No fim tiramo-la e dançamos.
- Que engraçado! - exclamou a Ana. - Acho que as pessoas se devem sentir felizes por viverem numa quinta.
Há sempre qualquer coisa diferente!
- A gente da cidade não diz isso, - lembrou a sr.a Peney. - Julga que o campo é um sítio morto, mas, meu Deus, há mais vida numa quinta do que em qualquer outra parte do mundo.
- Tem razão, - concordaram a Zé e a Ana, que já tinham estendido a toalha muito branca e bonita.
- Essa toalha tem tradições, - disse a sr.a Peney. - Pertenceu à minha trisavô e tem quase duzentos anos! Sempre muito branca e sem um único rasgão! Tem visto mais jantares do que qualquer outra.
A mesa ficou posta, com pratos, talheres, galheteiros, copos, etc. Todos os Barnies tinham sido convidados e também as crianças.
Uma ou duas pessoas estavam a ajudar. Que grande banquete se preparava!
A despensa estava tão cheia de comida que era difícil lá entrar. Empadas, tortas de frutas, presuntos, «pikles», saladas, compotas, frutas cruas e cozinhadas, geleias, leite-creme e uma porção de coisas sem fim que a sr.a Peney arranjara. Esta riu-se, ao ver os pequenos a espreitarem, deliciados.
«Hoje os meninos não lancham, - disse-lhes ela. - Não comem nada entre o almoço e o jantar para depois terem ainda mais apetite.
Ninguém se importou por não lanchar, esperando uma refeição tão boa para mais tarde. O entusiasmo ia crescendo à medida que se aproximava a hora do espectáculo. - Ali vêm as primeiras pessoas, - disse o Júlio que estava à porta do celeiro a vender os bilhetes.- É entrar! Começa daqui a pouco! Venham todos! O maior espectáculo do mundo! É entrar!
OS BARNIES E O FRANCIS
DEPOIS do celeiro se encher, e serem precisos ainda mais caixotes para algumas crianças, o barulho era ensurdecedor. Todos riam e conversavam, as crianças davam palmas para o espectáculo começar e os cães da quinta ladravam entusiasmados, com quantas forças tinham!
O Tim também estava muito excitado. Recebia todos que chegavam com um latido de boas-vindas. O Jano estava ao pé do cão e a Zé tinha a certeza de que queria passar por seu dono! O Jano tinha um aspecto mais asseado do que habitualmente. A sr.a Peney tinha-o obrigado a tomar um banho!
- Não vais ao espectáculo nem ao jantar se não tomares banho, - ameaçara a sr.a Peney. Mas ele não queria. Tinha «arreceio» do
banho!
- Posso afogar-me, - disse ele, fugindo da banheira. Esta já estava com água até
meio.
- Qual «arreceio»! - exclamou zangada a sr.a Peney, agarrando-o e metendo-o dentro da água, com roupa e tudo. - Agora ainda vais ter mais «arreceio». Despe a roupa que eu lavo-a na banheira, quando saires. Está tão suja!
O Jano fartou-se de gritar enquanto a sr.a Peney o esfregava, ensaboava e limpava com uma toalha. Ele ainda lhe bateu mas apanhou logo um sopapo que o fez calar imediatamente. Deixou de resistir e decidiu não a contrariar enquanto ela lhe dava aquele terrível banho!
A sr.a Peney lavou-lhe a camisa e as calças todas esfarrapadas pondo-as depois a secar. Embrulhou-o num chaile velho e mandou-o esperar, até que a roupa secasse. Depois ajudou-o a vestir-se.
«Um destes dias arranjo-te uma vestimenta decente, - disse ela. - Que magricelas! Que diabo de corpo tu arranjaste! Tenho que te alimentar!
Com isto o Jano ficou muito mais satisfeito. Comer era o género de tratamento de que ele gostava!
Naquela altura estava no celeiro, cumprimentando com o Tim todos os que chegavam, sentindo-se uma pessoa muito importante. E ficou cheio de alegria quando viu o seu velho trisavô chegar ao celeiro!
- Vovô! Disse-me que vinha mas eu não acreditei. Entre, que eu vou arranjar-lhe uma cadeira.
- Que te aconteceu? Estás tão diferente esta noite, - disse o velhote intrigado. - O que fizeste?
- Tomei um banho! - exclamou o Jano, orgulhoso. - Isso. Tomei um banho. A mesma coisa que o senhor precisava.
O vovô deu-lhe um sopapo amigável e depois cumprimentou as muitas pessoas que conhecia. Levava o seu grande cajado de pastor apoiando-se nele mesmo quando estava sentado.
- Vovô, já vai para vinte anos que não o víamos por aqui, - disse um camponês muito alto e com cara vermelha. - Que tem feito durante todo este tempo?
- Trato dos meus assuntos e trato dos meus carneiros, - respondeu o vovô na sua voz pausada. - E hão-de passar mais vinte anos até me veres outra vez, Joe Treman. E se queres saber mais alguma coisa eu digo-te: não foi por causa do espectáculo mas por causa da comida que eu vim aqui.
Todos desataram às gargalhadas e o vovô sentiu-se muito satisfeito. O Jano olhava para ele, cheio de orgulho. O seu vovô fazia sempre boa figura ao pé dos outros!
- Schiu! Schiu! O espectáculo vai começar, - disse alguém, vendo o pano a abrir. Num instante as conversas pararam, voltando-se todos para o palco. Uma cortina azul, desbotada e cheia de rasgões, estava a ser corrida. Tinham todos visto os Barnies muitas vezes mas ninguém estava farto deles.
Não faltava nenhum Barnie em cena, e um deles tocava rabeca enquanto os outros cantavam em coro acompanhados pelos camponeses, muito convencidos. O vovô marcava o compasso batendo com o cajado no chão.
Todos os números recebiam grandes aplausos.
A certa altura uma voz gritou com força. - Onde está o Francis? Onde está ele?
E o Francis apareceu timidamente, olhando pelo canto do olho para o público e com um ar tão envergonhado que o vovô quase caiu da cadeira, às gargalhadas.
O Francis começou a marchar ao compasso da rabeca, que não parava de tocar. A música tornou-se mais rápida e ele pôs-se a correr. Por fim desatou a galopar caindo do palco abaixo.
- Ah! Ah! Ah! - riu alguém. Ah! Ah! Ah! Eram umas gargalhadas tão sonoras que todos se voltaram para trás. Viram o sr. Peney agitando-se e torcendo-se na sua cadeira como se estivesse com uma grande dor de estômago. Mas ele estava somente a rir por causa do Francis.
O cavalo distinguindo a gargalhada do gigante, pôs uma pata na orelha para ouvir melhor. O vovô caiu logo da cadeira, a rir. O Francis tropeçou com as pernas de trás nas da frente caindo também. A assistência deu tantos gritos e gargalhadas que parecia impossível o tecto não ir abaixo.
- Agora vai-te embora, - disse uma voz imperiosa dum dos lados do palco. O Júlio olhou para ver quem era, enquanto o Francis obedientemente saía do palco dizendo adeus à assistência, com uma pata. A voz vinha do Patrão que estava num sítio donde podia ver todo o espectáculo em pormenor. A sua cara continuava séria apesar das palhaçadas do Francis.
O espectáculo teve um grande êxito, ainda que não pudesse ser mais ingénuo. As anedotas eram muito velhas, a peça ainda o era mais, as canções bastante desafinadas e as danças piores do que as dos miúdos duma escola infantil. Mas foi tão alegre e bem disposto que despertou enorme entusiasmo do princípio ao fim.
Para o Francis foi uma grande noite! Cada vez que a sua cabeça aparecia no palco o público quase rebentava de alegria. Na verdade todos se teriam divertido, mesmo que houvesse um só actor e evidentemente esse actor seria o Francis. O Júlio e o David olhavam para o cavalo, fascinados. Como gostariam de pôr a sua cabeça e experimentar as suas pernas para fazerem umas palhaçadas!
- O Sid e o Binks trabalham muito bem, não achas? - disse o David. - Quem me dera arranjar uma cabeça e umas pernas assim para representar aquele número no colégio, na festa do Natal, Júlio. Seria um sucesso. Vamos ver se o Sid nos deixa experimentar só por um bocadinho.
- Ele não há-de querer emprestar-nos a cabeça, - respondeu o Júlio. - Mas podemos tentar sem ela, experimentando só as pernas. Até aposto que invento coisas engraçadas, David.
Todos tiveram pena quando o pano se fechou, no fim do espectáculo. A rabeca tocou o hino nacional e todos se levantaram para o cantar.
- Vivam os Barnies! - gritou uma criança. Seguiu-se uma tempestade de aplausos. O vovô agitou o cajado no ar atingindo no pescoço um camponês muito forte.
- Agora, vovô, está a ver se consegue jogar à pancada comigo?! - exclamou o camponês, esfregando o pescoço. - Mas eu tenho medo de jogar à pancada consigo porque eu... porque o vovô batia-me com o cajado nas pernas, como faz aos carneiros, e atirava-me ao chão.
O vovô estava muito bem disposto. Havia uns quarenta anos que não passava uma noite assim! Talvez mesmo cinquenta anos. E agora, ao jantar! Era por isso que ele ali se encontrava e queria mostrar aos rapazes de sessenta anos como se comia.
Os camponeses dirigiram-se para a mesa, conversando e rindo. Duas ou três mulheres ajudavam a servir. Os Barnies não se preocuparam em mudar a roupa com que tinham representado e foram para a cozinha mesmo assim.
Fazia muito calor no celeiro devido à quantidade de pessoas que ali se encontravam.
As quatro crianças estavam encantadas com tudo. Tinham rido tanto com o Francis que se sentiam sem forças. A peça também os tinha divertido muito com os seus suspiros, gritos, ameaças, lágrimas e grandes passadas dum lado para o outro do palco. Agora já estavam mais do que preparados para o jantar!
Os Barnies acotovelavam-se à volta da mesa completamente cheia, dizendo graças, elogiando a sr.a Peney, distribuindo palmadas nas costas de toda a gente e comportando-se como crianças de escola quando vão a uma festa. O Júlio observava-os. Que animados! Depois procurou ver o Patrão. Talvez naquele momento ele também estivesse bem disposto e a sorrir, por uma vez sem exemplo.
Mas o Patrão com certeza não estava ali, pois o Júlio fartou-se de o procurar sem resultado.
- Onde está o Patrão? - perguntou ao Sid, que estava sentado ao pé dele.
- O Patrão? Está no celeiro, sozinho,- respondeu o Sid atacando um bocado enorme de empadão com ovos. - Não come connosco nem mesmo no fim dos espectáculos. É muito reservado! Devem ter arranjado um tabuleiro enorme cheio de comida só para ele. Mas isso agrada-me! Nunca me sinto bem ao pé do Patrão.
- Onde está a cabeça do cavalo? - voltou a perguntar o Júlio, não a vendo ao pé do Sid. - Está por baixo da mesa?
- O Patrão ficou com ela por esta noite, com medo que eu a amachucasse de baixo da mesa ou lhe deixasse cair em cima algum molho ou geleia, - explicou o Sid servindo-se de seis grandes cebolas em conserva. - A sr.a Peney é uma maravilha! Porque não me caso eu com uma mulher assim em vez de emagrecer cada vez mais dentro das pernas traseiras do Francis?
O Júlio riu. Quis saber quem levava ao celeiro o jantar do Patrão.
Reparou que a sr.a Peney tinha um tabuleiro já pronto e foi ter com ela. - Isso é para o Patrão? - perguntou ele. - Quer que o leve?
- Óptimo, - disse a sr.a Peney, agradecida. - Toma-o lá, e pede ao David que lhe leve um copo e uma garrafa, se faz favor. Já não cabem no tabuleiro.
E assim o Júlio e o David dirigiram-se sozinhos para o celeiro. O vento continuava a soprar fortemente e a chuva tinha começado a cair.
- Não está aqui ninguém, - disse o Júlio olhando à sua volta. Depois pousou o tabuleiro, intrigado. A certa altura viu um papel pregado com um alfinete no pano do palco.
- Volto daqui a uma hora, - leu ele. - Fui dar uma volta. O Patrão.
- Bem, deixamos aqui a comida, - disse o Júlio. Mas quando se iam embora viram as pernas traseiras e dianteiras do Francis. Pararam, cada um deles com o mesmo pensamento.
- Estão todos a jantar! O patrão saiu por uma hora. Ninguém descobrirá que nós experimentámos as pernas.
Entreolharam-se, lendo nos olhos um do outro a mesma ideia.
- Vamos. Depressa, - disse o Júlio. - Tu fazes de pernas traseiras e eu de pernas da frente. Depressa!
Vestiram-nas apressadamente e o Júlio conseguiu correr o fecho «éclair» da parte de fora quase até ao fim. Mas ele não se fechava bem sem a cabeça. Tê-la-ia levado o Patrão?
Talvez não! Ficaria em segurança no celeiro.
- Lá está ela embrulhada numa manta, em cima daquela cadeira, - disse o David indo logo buscá-la.
Era mais pesada do que parecia. O Júlio olhou para dentro pois queria ver até onde chegaria a sua cabeça, e procurou descobrir como se faziam mexer os olhos e a boca.
Meteu a mão lá dentro, apalpando-o a toda a volta. Num dos lados do pescoço abriu-se uma tampa, e caíram uns cigarros que se espalharam pelo chão.
- Não sabia que o sr. Binks guardava os cigarros no Francis. Apanha-os, David, para os guardarmos outra vez. Obrigado.
O Júlio voltou a pôr os cigarros no seu lugar e fechou a tampa. Então enfiou cautelosamente a cabeça do cavalo. Teve uma sensação estranha.
- O pescoço tem uns buracos para os olhos, - disse ele ao David. - É por eles que o sr. Binks vê o caminho. Eu não percebia como ele não tropeçava mais vezes! Pronto. Parece que a cabeça está bem segura. Eu vou marcar um-dois, um-dois, para andarmos a compasso. Não comeces com habilidades sem estarmos bem habituados ao Francis. Que tal te parece a minha voz dentro do pescoço?
- Muito curiosa, - respondeu o David dobrando-se de maneira a fazer de dorso do cavalo e pondo os braços à volta da cintura do Júlio. - Que se passa?
- Vem aí alguém? É o Patrão! - exclamou o Júlio alarmado. - Depressa! Galopemos lá para fora antes que ele nos apanhe.
E assim, com enorme surpresa do Patrão, o Francis galopou desastradamente para fora do celeiro mesmo no momento em que ele ia a entrar, quase esbarrando com o sujeito.
O Patrão não percebeu logo que era o Francis, mas depois começou a gritar e a correr atrás do cavalo.
«Não consigo ver nada, - disse o pobre do Júlio ofegante. - Para onde vamos? Ah, graças a Deus estamos numa cavalariça vazia! Depressa, temos que abrir o fecho «éclair» e depois tiras-me a cabeça do cavalo pois eu não consigo sozinho.
Mas, que desgraça! O fecho emperrou e não se abria nem por nada. Os rapazes puxaram-no com toda a força sem conseguir abri-lo. Parecia que se tinham transformado para toda a vida no Francis!
UM PASSEIO À TORRE.
- Diabos levem este fecho! - exclamou o Júlio desesperado. - Está todo perro! É muito difícil abri-lo estando na parte de dentro deste estúpido cavalo. Ai, esta cabeça! Tenho que me livrar dela.
Fartou-se de empurrar mas ela não cedia de maneira nenhuma e o Júlio achou que só arrancando a sua própria cabeça se conseguiria livrar do Francis!
O cavalo sentou-se, exausto, tomando uma forma muito esquisita. O Júlio encostou a cabeça à parede, ofegante. - Estou a morrer de calor, - queixou-se ele. - Pelo amor de Deus, David, tem uma ideia qualquer. É preciso pedirmos ajuda. Mas eu não me atrevo a voltar ao celeiro por causa do Patrão e por outro lado não podemos aparecer na cozinha neste estado. Desmaiava toda a gente e o sr. Binks ficava furioso connosco.
- Acho que fizemos uma grande asneira metendo-nos nisto, - disse o David puxando outra vez pelo fecho. - Gostava de saber para que servem os fechos «éclair». Não te importas de mudar de posição, Júlio. Parece-me que estás sentado sobre a minha cabeça.
- Vamos dar uma espreitadela à cozinha, - disse o Júlio tentando levantar-se. O David também se levantou, mas caíram um em cima do outro. Voltaram a tentar, e desta vez conseguiram ficar em pé, vacilando.
- Ser um cavalo feito de duas pessoas não é tão fácil como parece, - observou o Júlio. - Não consigo descobrir outra vez os buracos dos olhos. Estou a andar completamente às cegas.
O Júlio conseguiu por fim encontrar as aberturas no pescoço do cavalo e então os dois rapazes saíram da cavalariça, com cuidado, mas sempre aos tropeções. Foram contando, um, dois, um, dois, para não caminharem desencontrados.
Chegaram à porta da cozinha, discutindo se deveriam ou não atrair a atenção de alguém, sem entrarem. Perto deles estava aberta uma janela muito grande por causa do calor que fazia lá dentro. O Júlio resolveu espreitar para ver se a Zé e a Ana estariam ali perto. Talvez conseguissem chamá-las.
Mas ele não contou com o tamanho da cabeça do Francis. Esta bateu contra o caixilho da janela fazendo com que todos olhassem. Imediatamente começaram os gritos.
- Um cavalo. Sr. Peney, soltou-se um dos seus cavalos! - gritou um camponês. - Estava a olhar pela janela!
O sr. Peney saiu imediatamente. O Júlio e o David afastaram-se logo e trotaram em grande estilo pelo pátio. Para onde deviam ir? O sr. Peney viu a sombra do cavalo no escuro e seguiu-o.
O cavalo fugiu, primeiro a trote e depois a galope! Mas isto foi o fim, porque as pernas da frente não se entenderam com as de trás, embrulhando-se umas nas outras, e o Francis caiu ao chão! O sr. Peney correu aflito, julgando que o seu cavalo tinha caído.
- Tira os joelhos da minha boca, - resmungou uma voz zangada. O sr. Peney parou admirado por ouvir uma voz humana vinda do seu cavalo. Então percebeu o que se passava. Era o cavalo dos Barnies com duas pessoas dentro! Quem seriam? Pareceu-lhe que talvez fossem o Júlio e o David e então deu-lhe um ligeiro pontapé.
- Não faça isso, - disse a voz do David. - Pelo amor de Deus, quem quer que seja, abra-nos o fecho «éclair»! Estamos quase sufocados!
O sr. Peney deu uma grande e sonora gargalhada e procurou o fecho. Uma leve puxadela e a pele de lona abriu-se em duas. Os rapazes saltaram para fora, agradecidos. - Oh... Ah... Obrigado, sr. Peney, - disse o Júlio muito embaraçado. - Nós... Bem... nós estávamos a galopar um pouco.
O sr. Peney deu outra ruidosa gargalhada e voltou para a cozinha a fim de acabar a sua refeição. O David e o Júlio estavam-lhe muito gratos. Levaram as pernas e a cabeça do cavalo para o celeiro. Espreitaram pela janela. O Patrão lá estava, dando largas passadas dum lado para o outro e parecendo muito zangado.
O Júlio esperou que ele estivesse no outro extremo do celeiro e então, fazendo o menor barulho possível, empurrou as pernas e a cabeça pela porta. Quando o Patrão se voltou a primeira coisa que viu foi o Francis, feito numa trouxa. Correu logo para ele e olhou para fora do celeiro.
Mas o Júlio e o David tinham desaparecido. Tencionavam contar o que se tinha passado, mas só no dia seguinte, quando as coisas estivessem mais calmas! Entraram serenamente na cozinha, cheios de calor e despenteados, desejando que ninguém desse por eles.
A Zé e a Ana viram-nos logo. A Zé foi ter com eles. - Que estiveram a fazer? - Demoraram-se tanto tempo lá fora! Querem comer alguma coisa antes que tudo desapareça?
- Depois contamos-te, - disse o Júlio. - Sim, queremos comer. Quase não comi nada. Estou a morrer de fome!
O sr. Peney estava outra vez no seu lugar à mesa. Apontou com a faca para os dois rapazes quando eles se sentaram. - «Ock, Ock, Eck», - disse ele, começando a rir e dizendo mais palavras indecifráveis.
- Ah! Eles ajudaram-te a apanhar o cavalo que espreitou à janela? - perguntou a sr.a Peney. - Que cavalo era?
- O Francis! - respondeu-lhe o marido, com uma voz bem compreensível, e dando outra sonora gargalhada. Ninguém percebeu o que ele queria dizer de maneira que nada mais se acrescentou a respeito do assunto. A Zè e a Ana, contudo, perceberam e riram-se.
Aquela noite foi maravilhosa e todos sentiram pena quando chegou ao fim. As camponesas e as duas pequenas juntaram os pratos e travessas sujas e os rapazes levaram-nos para o lava-loiça. Os Barnies ajudaram em tudo que podiam e na enorme cozinha só se ouvia rir e tagarelar. Aquilo era na verdade muito agradável.
Mas por fim a cozinha ficou outra vez vazia e o grande candeeiro de petróleo apagou-se. As camponesas voltaram para casa e os Barnies foram-se embora. O velho vovô deu a mão ao Jano e voltou para os seus carneiros, dizendo tristemente que tinha comido de mais e não conseguiria dormir nem um minuto.
- Não faz mal. Valeu a pena, vovô, - disse a sr.a Peney fechando à chave e trancando a porta da cozinha. Depois olhou à sua volta, cansada mas feliz. Uma das coisas de que ela mais gostava era perder horas e mais horas a preparar pratos deliciosos para os outros e depois vê-los a comerem tudo num instante.
Em breve estavam todos deitados e a dormir. E os srs. Peney também. Só o gato da cozinha não dormia à espreita dos ratos. Ele não gostava das multidões; preferia a cozinha só para ele.
O dia seguinte estava muito bonito e quente, ainda que houvesse bastante vento. A sr.a Peney disse aos pequenos, à hora do pequeno almoço : - Hoje tenho de limpar isto tudo.
Querem que lhes arranje um almoço com os restos do jantar de ontem para irem passar o dia fora? Está um dia muito bonito e talvez lhes apeteça sair.
Nada poderia vir mais a propósito. O Júlio já tinha planeado ir à velha torre, usada em tempos pelos afundadores. Assim teriam o dia inteiro para a examinar.
- Sim, sr.a Peney, nós gostávamos muito, - disse ele. - Deixe a Ana e a Zé arranjarem-nos as coisas para o piquenique. A senhora tem muito que fazer!
Mas a sr.a Peney não queria que ninguém, a não ser ela, tratasse da comida. Começou a embrulhar sanduíches que chegavam para doze pessoas, ou pelo menos assim achou o Júlio ao ver os seus preparativos!
Os quatro pequenos saíram seguidos pelo Tim. Os outros cães da quinta acompanharam-nos, querendo brincar com o Tim. Mas este estava muito sério, caminhando como se dissesse: - Vou levar estas crianças a um passeio, não tenho tempo para brincar com vocês, que não passam duns cães de quinta!
- Deixamos o Jano ir connosco, se ele aparecer? - perguntou a Zé. - Têm algum interesse especial em que ele saiba onde vamos hoje?
O Júlio reflectiu. - Acho que não. Podemos descobrir qualquer coisa que ele não deva saber ou ir espalhar por aí.
- Óptimo, - disse a Zé. - Então se ele aparecer mandamo-lo embora. Estou farta dele. Felizmente agora anda um pouco mais limpo.
Como era de esperar, o Jano seguiu-os silenciosamente com os seus pezitos descalços. Os pequenos não o teriam descoberto se não fosse o Tim. Este, muito satisfeito, largou a Zé e foi dizer ao Jano o seu «Então como estás?» saltando-lhe aos ombros.
A Zé voltou-se para trás, pois queria ver onde estava o Tim e descobriu o rapazito. - Júlio, lá está o Jano, - disse ela.
- Olá, Jano! - exclamou o Júlio. - Vai-te embora. Hoje vamos sozinhos.
- Eu também vou, - respondeu o Jano, empertigando-se. Ainda tinha um ar limpo.
- Não, tu não vens, - insistiu o Júlio. - Tu vai-te embora. Ouviste? Vais-te embora. Hoje não queremos a tua companhia.
O Jano pôs-se com um ar muito solene e voltou-se para a Ana. - Posso ir também? - disse ele suplicante.
A Ana abanou a cabeça. - Não, hoje não, - disse ela. - Fica para outra vez. Toma mais um rebuçado, Jano, e vai-te embora.
O miúdo agarrou no rebuçado e voltou as costas, parecendo aborrecido. Depressa o perderam de vista.
Os quatro pequenos continuaram o seu caminho com o Tim; quando o vento soprava com mais força sentiam-se satisfeitos por ter levado as suas confortáveis camisolas. O Júlio a certa altura deu uma gargalhada.
- Vou sentir uma grande alegria quando almoçarmos, - disse ele. - Este saco de comida é tão pesado que me dá cabo das costas. . - Quando chegarmos à torre podemos pôr o saco no chão. - observou o David. - Vamos fazer uma pequena pesquisa antes do almoço. A sr.a Peney certamente espera que almocemos, lanchemos e jantemos fora, para nos ter arranjado tanta comida!
Supunham não ir em direcção errada. Tinham estudado o mapa e descoberto vários caminhos que segundo calculavam deviam levá-los à torre.
O Júlio tinha uma bússola e orientava-se por ela para escolher os caminhos, os campos e os atalhos, ficando com a certeza de que iam em boa direcção. De qualquer maneira, dirigiam-se para a costa.
- Olha, há ali dois montes ao lado um do outro. Ou são penhascos? - perguntou a Ana apontando. - Parece-me que são os montes entre os quais se vê a torre.
- Tens razão, - concordou o David. - Estamos perto. Não sei como as pessoas conseguiam chegar à casa nos tempos em que era habitada. Parece não haver nenhuma estrada em condições.
Caminharam num terreno aos altos e baixos. Daí a pouco encontraram um atalho muito estreito, ladeado de vegetação quase mais alta do que as cabeças deles.
- Isto é um túnel verde! - observou a Ana, satisfeita. - Olha para estas urtigas tão grandes, Júlio.
Foram dar a uma passagem coberta de vegetação e ao fundo estava a torre. Os pequenos pararam e olharam para ela, fixamente. Naquele sítio tinha-se acendido cem anos antes um farol que atraía os navios para a sua sepultura; e ainda naquela noite se acendera outra vez!
- A torre está em ruínas, - disse o David. - Já lhe caíram bocados enormes. E tenho a impressão de que a casa também está em mau estado, embora ainda se não veja mais do que o telhado. Vamos. Isto está a tornar-se interessante.
A torre não tinha aquele aspecto assustador que parecera na noite de tempestade quando os pequenos viram a luz a brilhar.
Era uma ruína sem importância. Continuaram o seu caminho através dos cardos e urtigas.
- Dá a impressão de que não vem aqui ninguém já há muitos anos, - disse o Júlio, muito intrigado. - Quem me dera ter trazido uma foice para cortar estas ervas e plantas. Quase não conseguimos passar. Estou todo picado pelas urtigas.
Chegaram por fim à casa, que era uma autêntica ruína, quase toda deitada abaixo. As portas tinham caído, as janelas eram antiquadas e não tinham vidros e o telhado estava cheio de buracos. Uma roseira enorme trepava por toda a parte cobrindo as paredes e o telhado com rosas brancas, como se quisesse esconder a fealdade daquela ruína.
Somente a torre parecia ainda segura, a não ser na parte superior, onde tinham caído pedaços de parede. O Júlio abriu caminho através da entrada. O chão estava cheio de ervas.
- Há uma escada de pedra para a torre, - disse ele. - E... olhem para aqui! Que será isto, em cada um dos degraus?
- É petróleo, - disse a Zé. - Alguém que levava um candeeiro ou uma lata de petróleo e o entornou, ó Júlio, é melhor termos cuidado. Pode ainda estar alguém aqui.
NA TORRE.
O David e a Ana correram em direcção à escada de pedra quando ouviram o Júlio e a Zé falarem em petróleo! Isso só podia significar uma coisa. Havia um candeeiro na torre.
Os pequenos pararam olhando para as grandes manchas de petróleo que havia em cada degrau.
- Vamos até lá acima, - disse o Júlio por fim. - Eu vou à frente. Tenham cuidado porque a torre está a cair aos bocados.
A torre estava situada num dos extremos da velha casa e as suas paredes eram mais espessas do que as daquela. A única maneira de lá subir era passando por uma abertura existente no interior da casa e que dava para uma escada de pedra em espiral, muito íngreme.
- Isto deve ter sido a porta da torre, - disse o David, dando um pontapé numa grande prancha de madeira, quase desfeita, que estava ali caída no chão. - A torre parece não ter mais nada do que esta escada de pedra. Acho que devia ser apenas um miradouro.
- Ou um sítio de onde se atraíam os navios para as rochas, - observou a Zé. - ó
Tim, não me puxes dessa maneira; por pouco não me atiras ao chão. Estes degraus de pedra são muito altos.
Como o David tinha dito, a torre parecia não conter mais nada do que uma escada em caracol. O Júlio foi o primeiro a chegar lá acima e deu um assobio. A vista para o mar era deslumbrante. Via-se uma enorme extensão de água, azul como miosótis. Junto à costa, o mar rebentando em ondas de espuma branca deixava ver os rochedos que esperavam os navios desprevenidos.
A Zé chegou atrás do Júlio e olhou também para o panorama. Que vista maravilhosa! O azul do mar e do céu, as ondas rebentando nos rochedos e as gaivotas pairando no ar!
Depois chegou o David e o Júlio avisou-o. - Tem cuidado. Não te encostes muito a essas paredes; estão a desfazer-se.
O Júlio pôs a mão de fora e tocou na parte de cima duma das paredes. Começaram logo a cair pequenas pedras.
Aqui e ali faltavam grandes pedaços, deixando uns buracos enormes na parede à volta da torre. Quando a Ana chegou também lá acima, o Júlio agarrou-a por um braço, com medo de que sendo tantos, algum deles batesse de encontro a uma das paredes em ruínas e caísse da torre abaixo.
A Zé agarrou o Tim pela coleira e obrigou-o a estar quieto. - Não comeces a pôr as patas na parede, - avisou ela.
- Senão quando deres por ti estás lá em baixo em cima dos cardos!
- Vê-se bem como este lugar é o ideal para acender um farol durante a noite, - disse o David. - Devia distinguir-se a grande distância. Antigamente, quando os navios eram apanhados nesta região pelas tempestades, os marinheiros deviam ficar agradecidos por ver um farol indicando o rumo a seguir.
- E que farol! - exclamou o Júlio. - Um farol que os guiava na direcção daqueles enormes rochedos. E ora reparem, não são os que ficam perto das enseadas onde estivemos no outro dia?
- Acho que sim, - respondeu o David. - Mas há tantos rochedos e tantas enseadas que é difícil dizer se são as mesmas.
Este lugar è o ideal para acender um farol durante a noite, - disse o David.
- Os navios que navegavam na direcção do farol deviam despedaçar-se naqueles rochedos, - explicou o Júlio, apontando. - Como chegariam ali os afundadores? Com certeza havia um caminho daqui até lá.
- O Caminho dos Afundadores? - lembrou o David.
O Júlio pensou um bocado. - Não sei. Acho que o Caminho dos Afundadores devia partir de qualquer ponto aqui próximo até ao mar, pois era utilizado por homens desta região. Vou dizer-lhes como penso que as coisas se passavam.
- Como era? - perguntaram todos.
- Nas noites de tempestade, as pessoas que viviam nesta casa subiam à torre e acendiam o falso farol. Depois, com grande emoção, viam o navio navegando cada vez mais perto, iluminado pelos relâmpagos ou pelo luar.
Todos imaginaram a cena e a Zé estremeceu. Pobre navio!
«Quando o barco chegava aos rochedos e se despedaçava, faziam um sinal diferente na torre; um sinal para alguém que estaria naqueles montes, - continuou o Júlio apontando para trás. - Alguém que devia encontrar-se no único lugar donde podia ser vista a luz! Naturalmente brilhava sem interrupções para atrair o navio, mas para quem estava nos montes, com certeza o fazia em código. E os sinais diziam assim: - Navio nos rochedos. Avisa os outros e venham para a festa!
- Que coisa horrível! - exclamou a Ana.
- Não posso acreditar nisso.
- É difícil pensar que haja alguém com tão duro coração, - disse o Júlio. - Mas acho ter sido isso o que acontecia. E depois as pessoas desta torre desciam até às enseadas próximas e esperavam pelos seus companheiros que iam lá ter pelo Caminho dos Afundadores.
- Devia ser um caminho secreto, - observou o David. - Naturalmente só o conheciam os camponeses que eram afundadores. Para mais a actividade deles era contra a lei, de forma que tudo isto de acender luzes e afundar navios devia ser feito em absoluto segredo. Lembrem-se das palavras do vovô:
- Todos os Afundadores que conhecessem o caminho tinham de jurar não o dizer a ninguém.
- Naturalmente o pai do vovô vivia nesta mesma casa, subia a escada de pedra nas noites de tempestade e acendia a luz que brilhava para o mar enfurecido, - disse o Júlio.
- É por isso que o Jano diz ter «arreceio» desta torre, - observou a Zé. - Ele julga que o pai do vovô ainda acende o farol! Nós sabemos mais! Outra pessoa o acende! Mas também não deve ser com um bom fim!
- E não te esqueças, essa pessoa ainda pode estar aqui perto, - disse o Júlio, abaixando de repente a voz.
- Meu Deus! É verdade! - exclamou o David, olhando à volta da pequena torre como se esperasse ver alguém a ouvi-los.
- Gostava de saber onde guardam o candeeiro. Não é aqui.
- Quase todos os degraus de pedra têm manchas de óleo, - disse a Ana. - Reparei nisso quando subi. Aposto que é um candeeiro enorme, para ser visto do mar.
- Olha. Devem tê-lo posto neste sítio, em cima do parapeito, - disse o David. - Aqui há manchas de petróleo.
Todos olharam para as manchas negras. O David baixou-se e cheirou-as. -Sim, é petróleo, - disse ele.
A Zé estava a olhar para a janela do outro lado da torre. A certa altura chamou os outros.
- E há uma mancha daquele lado, - disse ela. - Já sei o que aconteceu! Mal o navio deu pela luz e começou a navegar em direcção ao rochedo, os homens puseram o candeeiro do outro lado da torre para fazerem sinais a alguém que estava nos montes, avisando que tinham apanhado um navio.
- Sim, foi isso! - exclamou a Ana. - Mas quem seria? Parece-me que ninguém vive aquí, está tudo em ruínas, desabrigado da chuva e do vento. Deve ser alguém que conhece este sítio, toma conta da luz e faz os sinais.
Houve uma pausa. O David olhou para o Júlio. Tinham tido o mesmo pensamento. Eles haviam visto alguém vagueando à noite pelos montes.
- Acham que seria o sr. Penney? - perguntou o David.
- Nós não conseguimos perceber por que razão andava ele cá por fora com aquela tempestade, quando saímos de noite pela primeira vez, para ver o farol!
- Não. O sr. Peney não era o homem da luz. Ele era o que estava nos montes - concluiu o Júlio. - É essa a razão por que ele sai nas noites de temporal; vai ver se aparece algum sinal na torre, avisando da aproximação dum navio!
Fez-se uma pausa ainda maior. Não lhes agradava aquela ideia.
- Nós sabemos que ele mente. E sabemos que rouba as algibeiras dos outros, - continuou o Júlio daí a pouco. - Portanto é a pessoa indicada. É ele quem vai para o tal sítio dos montes observar o farol!
- Que fará ele depois? - perguntou a Ana. - Não nos disseram que já não há naufrágios nestes sítios, por causa do farol construído mais acima? Se não se trata de naufrágios de que se tratará então?
- Contrabando, - disse o Júlio, - É disso que se trata. Naturalmente com um barco a motor. Escolhem uma noite de vento e tempestade, quando não podem ser vistos nem ouvidos, esperam no mar que a luz se acenda indicando estar tudo a postos e então vêm até uma destas enseadas.
- E com certeza o Caminho Secreto dos Afundadores é utilizado por aqueles que descem até à enseada para receberem o contrabando, - lembrou o David, entusiasmado. - Talvez três ou quatro pessoas, se as coisas forem pesadas.
Meu Deus! Tenho a certeza de que acertámos!
- E é o homem do monte que avisa os seus companheiros, descendo juntos até à costa. Tudo muito bem combinado, - disse o Júlio.
- Ninguém vê o farol da torre a não ser o barco que o espera. E ninguém vê o sinal para terra senão o homem que está nos montes. Uma autêntica charada!
- Tivemos sorte em darmos com ela, - observou o David. - Mas há uma coisa que eu não percebo. Tenho a certeza de que o homem do candeeiro não vem pelo caminho por onde nós viemos. Senão, teríamos visto plantas pisadas e de qualquer maneira haveria alguma coisa parecida com um caminho feito pelos seus passos.
- É verdade. E não vimos nada disso, nem sequer um cardo pisado - concordou a Ana.
- Com certeza conhece outra passagem para esta casa.
- Isso é evidente! Nós já nos lembrámos que deve haver um caminho para o homem que acende o candeeiro seguir daqui até às enseadas, - disse a Zé. - Pois bem. É por aí que ele vem até esta casa. Que estúpidos somos nós.
A ideia entusiasmou-os. Onde ficaria esse caminho? Ninguém fazia ideia! Certamente não era na torre, pois não tinha espaço para mais do que a escada em caracol.
- É melhor irmos para baixo, - disse a Ana, começando a descer as escadas. Um ligeiro ruído fê-la parar. - Continua, - pediu-lhe a Zé que ia atrás dela. A Ana olhou para a prima com uma cara assustada.
- Ouvi um barulho lá em baixo, - murmurou. A Zé voltou-se logo para o Júlio. - A Ana julga que está alguém lá em baixo, - disse-lhe ela quase em segredo.
- Volta para aqui, Ana, - ordenou logo o Júlio. A Ana subiu outra vez a escada, ainda cheia de medo.
- Será o homem que acende o candeeiro?
- murmurou ela. - Tem cuidado, Júlio. Não deve ser boa pessoa!
- Boa pessoa? Deve ser um patife, - disse a Zé, desdenhosamente. - Vais descer, Júlio? Toma cuidado.
O Júlio espreitou lá para baixo. Na verdade a única solução era descer as escadas para ver quem estaria ali. Não podiam ficar na torre até à noite esperando que a pessoa que fizera barulho se fosse embora!
- Como era o ruído? - perguntou o Júlio
à Ana.
- Parecia uma coisa a rastejar pelo chão,
- explicou a Ana. - Talvez fosse um rato ou um coelho. Mas que era um ruído, isso é certo. Foi alguma coisa lá em baixo. Ou alguém!
- É melhor sentarmo-nos um momento e esperarmos, - sugeriu o David. - Vamos prestar a maior atenção para ver se ouvimos alguma coisa.
Sentaram-se com todo o cuidado e a Zé agarrou o Tim pela coleira. Esperaram durante uns minutos, sempre à escuta. O vento soprava em volta da velha torre.
Ao longe ouviam-se as gaivotas. E os pintassilgos cantavam.
Mas não ouviram nenhum barulho no compartimento ao fundo da torre. O Júlio olhou para a Ana. - Agora não se ouve nada.- disse ele, - Deve ter sido um coelho!
- Talvez, - respondeu a pequenita. - Que fazemos então? Descemos?
- Sim. Eu vou à frente com o Tim, - disse o Júlio. - Se estiver alguém à nossa espera não gostará nada de o ver!
Precisamente na altura em que o Júlio se ia levantar, ouviu-se distintamente um barulho lá em baixo. Era, como a Ana tinha dito, uma espécie de rastejo.
- Bem, cá vou eu, - disse o Júlio começando a descer as escadas. Os outros esperaram com a respiração suspensa. O Tim acompanhou o Júlio, esforçando-se por não o ultrapassar. Parecia que o barulho não o preocupava nada! Por isso talvez fosse realmente um rato ou um coelho!
O Júlio desceu a escada, sem pressa. Quem iria ele encontrar? Um inimigo ou um amigo?
- Cuidado, Júlio. Pode estar alguém à tua espera!
O CAMINHO SECRETO.
O Júlio parou no último degrau e pôs-se à escuta. Não vinha um único som do compartimento seguinte. - Quem está aí? - perguntou o Júlio, com uma voz decidida. - Eu sei que está aí alguém! Já o ouvimos!
Continuou o mesmo silêncio. O compartimento cheio de ervas e escurecido pela trepadeira de rosas, parecia escutá-lo. Mas não houve qualquer resposta.
O Júlio avançou. Não havia ali nada! Nem vivalma! Estava completamente vazio. O Júlio seguiu para outra dependência. Esta também estava vazia. A velha casa tinha somente quatro compartimentos, dois dos quais muito pequenos, e todos eles vazios. O Tim não estava inquieto nem ladrava como certamente faria se ali estivesse algum intruso.
- Bem, Tim. Foi rebate falso, - disse o Júlio sentindo-se aliviado. - Deve ter sido algum coelho ou algum pedaço de parede a desfazer-se. Que estás a cheirar?
O Tim farejava um canto, ao pé da porta, muito interessado. Parou a olhar para o Júlio como se quisesse dizer-lhe qualquer coisa. O pequeno foi ver o que era.
Não havia nada além dumas ervas espezinhadas que cresciam no chão. O Júlio não percebia o interesse do Tim. Mas este depressa começou a andar dum lado para o outro sem perceber porque teriam ido visitar uma casa tão estranha.
- David! Desce com as pequenas! - gritou o Júlio. - Parece que afinal não está aqui ninguém. Deve ter sido algum bicho o que a Ana ouviu.
Os outros, mais descansados, desceram fazendo uma grande algazarra.-Lamento ter-lhes pregado um susto, - disse a Ana. - Mas o barulho parecia mesmo feito por uma pessoa! Contudo, se assim fosse o Tim ladrava; e ele não ficou nada preocupado.
- Acho que nos assustámos sem motivo, - observou o David. - Que fazemos agora? Vamos almoçar? Ou vamos ver se descobrimos a entrada para o caminho que se dirige daqui para as enseadas?
O Júlio consultou o seu relógio. - Ainda não são horas do almoço, a não ser que vocês estejam com um apetite devorador. - disse ele.
- Eu já começo a sentir uma fomezinha muito razoável, - observou o David. - Mas por outro lado não posso conter-me mais tempo sem ir descobrir o tal caminho! Onde ficará a entrada?
- Já estive nas quatro dependências, - disse o Júlio. - Nenhuma delas parece ter mais do que muitas ervas. Não têm portas nem alçapões. Isto é uma charada.
- Arranjámos um belíssimo passatempo, - declarou a Zé. - É o género de coisas que me agrada. Tim, procura também!
Começaram a pesquisar nas dependências da velha casa. Como a erva crescia por toda a parte do chão, concluíram não haver ali quaisquer alçapões. Se houvesse algum e o homem se utilizasse dele certamente se notaria na erva. Mas esta crescia quase uniformemente.
- Ouçam, - disse o Júlio por fim. - Tive uma ideia. O Tim pode descobrir a entrada.
- Como? - perguntou a Zé.
- Vamos fazê-lo cheirar as manchas de petróleo dos degraus e a seguir quaisquer outras que tenham caído sobre a erva, - explicou o Júlio. - Não acredito que o óleo só se tenha entornado na pedra das escadas. Deve ter ido a cair desde a entrada do tal caminho até ao cimo da torre. Conseguirá o Tim seguir as manchas só pelo cheiro? Talvez nos conduza à entrada que procuramos!
- Está bem. Mas eu começo a pensar que não há nenhuma entrada, - observou a Zé, agarrando o Tim pela coleira. - Nós examinámos a casa palmo a palmo. Anda, Tim. Tens que fazer um milagre!
Puseram o focinho do Tim quase em cima da mancha do petróleo, no primeiro degrau da escada. A Zé tinha-o treinado bem! Ele cheirou a mancha e depois quis subir a escada, seguindo o petróleo entornado. Mas a Zé puxou-o para trás.
- Não, Tim. Por aí não. Há outras manchas de petróleo no chão da casa.
O Tim voltou para trás, sem dificuldade. «Querido Tim, - disse a Zé, encantada.- Não o achas inteligente, Júlio? Está a seguir o mesmo caminho que o homem quando transportava o candeeiro. Anda, Tim. Onde está a outra mancha?
Era uma pista fácil para o Tim por causa do cheiro forte do petróleo. Foi seguindo a farejar, até ao outro compartimento mais pequeno. Depois continuou para o maior, que devia ter sido o mais importante, pois tinha um grande fogão de sala. O Tim foi direito ao fogão, farejando sempre. Ao chegar ali, parou. Depois voltou-se para a Zé, começando a ladrar.
- Está a dizer que a pista acaba aqui, - explicou a Zé, entusiasmada. - Portanto a entrada do tal caminho deve estar neste fogão! Os outros juntaram-se à volta do Tim. O Júlio acendeu a lanterna e iluminou a chaminé. Esta era muito grande ainda que tivesse caído um grande pedaço da parte superior. - Aqui não há nada, - disse o Júlio. - Mas... que é isto?
O pequeno iluminou um dos lados do fogão e viu uma cavidade pequena e escura que mal dava para uma pessoa a atravessar. - Olhem! exclamou ele entusiasmado. - Parece-me que encontrei. Vêem este buraco? Aposto que se passarmos por ele encontraremos o caminho secreto. - Ficamos todos sujos, - disse a Ana.
- Isso é mesmo teu! - observou a Zé, desdenhosamente. - Que interessa? Isto deve ser uma coisa bem mais importante, não achas, Júlio?
- Acho, - respondeu o Júlio. - Se estamos na pista que eu julgo - Contrabando com C grande - é muito importante. E agora? Almoçamos primeiro ou vamos examinar aquela abertura?
- Examinemos a abertura, sem dúvida, - respondeu o David. - Não acham que o Tim deve ir à frente? Eu dou-lhe uma ajuda.
O Tim foi içado até ao buraco escuro por onde desapareceu muito satisfeito. Coelhos? Ratos? Que estariam os pequenos a perseguir? Era uma brincadeira tão engraçada!
- Agora vou eu, - disse o Júlio saltando pela abertura. - É difícil passar, David; a seguir ajudas a Ana e a Zé e depois saltas tu.
O Júlio desapareceu do outro lado e os outros saltaram também, um após outro. A Ana teve pena de não usar calções como a Zé. Mesmo uma saia muito curta não era boa para coisas daquele género.
O buraco não passava duma entrada para um pequeno compartimento ao lado da chaminé. O Júlio depois de ter saltado parou um momento, sem perceber se aquilo seria um esconderijo ou uma passagem para qualquer outro sítio. Mas logo a seguir, mesmo à direita dos seus pés, viu outra abertura.
Iluminou-a com a lanterna, reparando numas pegas de ferro num dos lados. Chamou os outros e contou-lhes o que descobrira. Depois desceu pelo buraco, servindo-se das pegas primeiro com os pés e depois com as mãos.
O buraco descia na vertical, como um poço. De repente chegou ao fim e o Júlio ficou em pé sobre terreno firme. Com a lanterna iluminou o espaço à sua volta.
Lá estava o caminho, em frente dele! Devia ser o que conduzia às enseadas, o mesmo por onde em tempos idos seguia o homem da torre, quando ia olhar avidamente para os navios, gemendo sobre os rochedos.
O Júlio sentiu os outros a descerem pelo buraco. De repente lembrou-se do Tim. Onde se teria metido? Devia ter caído pelo buraco até ao sítio onde o pequeno estava. Pobre Tim!
Oxalá não se tivesse ferido. Mas como não tinha uivado, devia ter caído de pé, como um gato!
O Júlio gritou para os outros. - Encontrei o caminho! Começa no fundo do buraco. Vou seguir um pouco mais adiante e então espero por vocês. Depois avançamos em fila indiana.
Daí a pouco já todos tinham descido. A Zé começou a sentir-se preocupada por causa do Tim. - Naturalmente feriu-se, Júlio! Cair daquela altura! Meu Deus, onde estará ele?
- Depressa o encontraremos, - afirmou o Júlio. - Agora mantenham-se bem juntos uns aos outros. O caminho é muito íngreme, como devem calcular.
E na verdade assim era. Nalguns pontos os pequenos quase escorregavam. A certa altura o Júlio descobriu umas pegas de ferro fixas a distâncias regulares nos pontos mais inclinados, e os pequenos começaram logo a utilizá-las.
- Estas pegas de ferro são muito úteis para quem venha a subir, - disse o Júlio. - Deve ser quase impossível trepar por este caminho sem qualquer ponto de apoio para as mãos. Ah, cheguei a uma parte mais plana.
O caminho tornava-se também mais largo. E de repente transformou-se numa gruta. Os quatro pequenos entraram por ali dentro, surpreendidos. O tecto era muito baixo e as paredes de rocha negra brilhavam à luz da lanterna.
- Quem me dera encontrar o Tim! - exclamou a Zé, aflita. - Não o ouço em parte alguma!
- Continuemos até à enseada, - disse o Júlio. - Este caminho deve conduzir-nos directamente à praia; naturalmente vai dar mesmo à enseada onde os navios se afundavam. Olhem, ali está uma espécie de arco de pedra por onde se sai desta gruta. Atravessaram o arco, e foram dar a outro caminho, sinuoso, ladeado de rochas salientes, o que por vezes dificultava a passagem. O caminho a certa altura dividia-se em dois. Um deles ia serpenteando na direcção do mar e o outro na dos penhascos.
«É melhor seguirmos em direcção ao mar, - resolveu o Júlio. Mas precisamente no momento em que entravam no caminho da direita a Zé parou e agarrou o Júlio por um braço. - Espera! - exclamou ela. - Estou a ouvir o Tim!
Os pequenos pararam e puseram-se à escuta. A Zé era de todos quem tinha o ouvido mais apurado. Os outros só daí a momentos conseguiram perceber o ladrar do Tim.
- Tim! - Gritou a Zé, sobressaltando os outros. - TIM!
- Ele não te pode ouvir de tão longe, - disse o David. - Meu Deus, assustaste-me. Bem, temos que seguir na direcção dos penhascos pois os latidos do Tim vêm daí.
- Pois sim, - disse o Júlio. - Vamos buscá-lo e depois regressamos para continuarmos pelo outro caminho. Tenho a certeza de que ele segue na direcção do mar.
Os pequenos tomaram o caminho da esquerda. Não era difícil segui-lo, por ser muito mais largo do que aquele por onde tinham vindo. Os latidos do Tim iam-se tornando mais fortes à medida que os pequenos se aproximavam. A Zé assobiou na esperança de que o Tim aparecesse logo a correr. Mas não.
- É estranho ele não vir, - disse a Zé, preocupada. - Deve estar ferido. TIM!
O caminho fazia ali uma curva e então mais uma vez se dividiu em dois. As crianças viram com surpresa uma porta tosca metida na parede rochosa, do lado esquerdo. Uma porta! Que extraordinário!
- Olhem, uma porta! - exclamou o David, intrigado. - E bem forte!
- O Tim deve estar do outro lado, - disse a Zé. - Naturalmente entrou e a porta fechou-se atrás dele. Tim! Estamos aqui! Vamos ter contigo!
A pequena empurrou a porta mas esta não se abriu. Ela viu que só estava fechada no trinco. Abriu-a com facilidade, e os quatro pequenos entraram numa curiosa gruta que mais parecia uma sala de tecto baixo!
O Tim correu para os pequenos mal eles apareceram. Não estava ferido e ficou tão satisfeito ao ver os seus amigos que ladrava sem descanso.
- Oh, Tim, como vieste aqui parar? - disse a Zé, abraçando-o. - A porta fechou-se, atrás de ti? Meu Deus, que sítio tão estranho. É um armazém? Reparem naquelas caixas e caixotes!
Olharam a toda a volta da estranha gruta e naquele momento ouviram um pequeno ruído. O Júlio correu para a porta e tentou abri-la.
- Está fechada. Alguém a fechou à chave e trancou-a. Deixem-nos sair, deixem-nos sair!
FECHADOS NA GRUTA.
O David, a Zé e a Ana entreolharam-se, aterrados. Alguém estivera à espera deles. Alguém tinha fechado ali o Tim. E agora também eles estavam presos!
O Tim ladrava e o Júlio começou a gritar, dando socos e pontapés na porta.
Do outro lado ouviu-se uma voz arrastada e parecendo um tanto divertida.
- Os meninos vieram em má altura; terão que ficar aí até amanhã.
- Quem é o senhor? - perguntou o Júlio, furioso. - Como se atreveu a fechar-nos aqui?
- Devem ter com que se alimentar, - prosseguiu a voz. - Eu reparei nos sacos que levavam às costas; certamente contêm comida. Foi uma sorte para vocês! Agora tenham juizinho. Isto é a paga da vossa curiosidade.
- Deixe-nos sair, - gritou o Júlio, irritado com aquela voz seca e impertinente. O pequeno estava fora de si e desatou novamente aos pontapés à porta apesar de saber que isso não serviria de nada!
Não se ouviu nenhuma resposta. Quem quer que estivesse do outro lado tinha-se ido embora. O Júlio deu pela última vez um furioso pontapé na porta e voltou-se para os outros.
- Aquele homem deve ter estado a espreitar-nos de qualquer sítio. Naturalmente seguiu-nos todo o caminho até à casa da torre e viu nessa altura os sacos que trazíamos às costas. Deve ter sido ele que tu ouviste lá em baixo, quando estávamos na torre, Ana,
O Tim voltou a ladrar, continuando junto à porta. A Zé chamou-o. - Tim! Não vale a pena. A porta está fechada. Para que te deixámos saltar pela primeira abertura!? Se não tivesses vindo à frente e algum de nós te agarrasse poderias ter-nos protegido dos homens que nos esperavam.
- Que fazemos agora? - perguntou a Ana, tentando mostrar-se valente.
- Que podemos nós fazer?! - exclamou a Zé. - Nada! Estamos fechados numa gruta, sem ninguém perto, a não ser o homem que nos fechou. Gostava de saber se algum de vocês tem alguma boa ideia!
- Pareces zangada! - disse a Ana. - Não há nada a fazer senão esperarmos até que nos deixem sair. Ninguém sabe onde estamos.
- Esse pensamento é animador! - disse o David. - Eu não tenho dúvidas de que a sr.a Peney dê o alarme e depois se forme um grupo para nos procurar.
- Não devem ganhar nada com isso, - declarou a Zé. - Ainda que seguissem a nossa pista até à torre não conseguiriam descobrir a entrada secreta para a passagem!
- Bem, devemos tomar isto pelo mais agradável, - disse o Júlio, tirando o saco das costas. -- Vamos almoçar.
Todos acolheram a ideia com agrado. - Estou com muito apetite! - exclamou a Ana, surpreendida. - Já deve ter passado muito da hora do almoço. Seja como for, comer é sempre agradável!
Saborearam uma esplêndida refeição dando graças à sr.a Peney por lhes ter preparado tanta coisa. Se os deixassem sair dali só no dia seguinte precisariam de bastante comida!
Depois resolveram examinar as caixas e os caixotes que ali se encontravam. Estavam todos vazios. Viram também um grande saco de marinheiro que tinha pintado o nome «Samuel Trelaw». Abriram-no. Não continha nada a não ser um velho botão de metal.
- «Samuel Trelaw», - disse o David lendo o nome. - Talvez fosse o nome dum tripulante dalgUm dos barcos que os afundadores atraíram aos rochedos. As ondas devem tê-lo trazido para a praia, onde o apanharam. Dá-me a impressão de que o proprietário da casa da torre escondia aqui os despojos dos naufrágios.
- Acho que tens razão, - concordou o Júlio. - Por isso tem uma porta que pode ser fechada à chave. Naturalmente o afundador guardava aqui as coisas valiosas apanhadas em vários naufrágios para que nenhum dos seus companheiros ficasse com elas. Devia ser um lindo grupo de patifes. Bem, creio não haver aqui nada de interesse.
Era muito, muito maçador estar naquela gruta. Os pequenos só se serviam duma das lanternas em vez das duas, com medo de gastar ambas as pilhas e terem de permanecer às escuras.
O Júlio examinou a gruta de alto a baixo para ver se haveria alguma possibilidade de fugirem. Mas não achou nenhuma. As paredes eram formadas pelos rochedos e não tinham uma só abertura grande ou pequena por onde pudessem passar.
- Aquele homem disse que nós viemos em má hora, - lembrou o Júlio sentando-se no chão. - Porque será? Estarão à espera de contrabando esta noite? Nós já sabemos que fizeram sinais para o mar, duas vezes esta semana. Não terá ainda aparecido o navio? Se assim é devem esperá-lo esta noite e por isso nós viemos em má altura!
- Se ao menos não estivéssemos fechados nesta estúpida gruta! - exclamou a Zé. - Poderíamos espiá-los para vermos do que se trata. E talvez pudéssemos evitar que eles fossem por diante ou então pormo-nos em contacto com a polícia.
- Pois sim, mas nós não podemos fazer nada disso, - disse o David, tristemente. - Tim, foste um palerma deixando-te prender. O Tim baixou a cauda parecendo tão triste como o David. Ele não gostava de estar naquela gruta com um tecto tão baixo. Por que motivo os seus amigos não abriam a porta para se irem embora?
Ele gania, arranhando a porta com as unhas.
- Não serve de nada. Tim, não se abre, - disse a Ana. - Parece-me que ele está com sede, Zé.
Não havia nada para o Tim beber, excepto limonada que parecia não lhe agradar muito.
- Se ele não gosta, não lha dês, - disse o Júlio. - Vai-nos fazer grande arranjo amanhã.
O David viu as horas no seu relógio. - São sÓ duas e meia, - resmungou ele. - Temos de esperar horas e horas. Vamos jogar qualquer coisa. Pode ser ao galo.
Jogaram até se cansarem. Depois jogaram aos provérbios e às adivinhas. Lancharam às cinco horas e então começaram a pensar no que diria a sr.a Peney por não os ver regressar ao fim da tarde.
- Se o sr. Peney está metido nisto, e é quase certo que está, não se deve sentir muito satisfeito quando lhe pedirem que chame a polícia para nos procurar. É precisamente nesta noite que ele não deve querer a polícia nestes sítios! - disse o Júlio.
- Acho que te enganas, - observou a Zé. - Ele deverá sentir-se muito satisfeito por ver a polícia andar esta noite à procura de crianças perdidas em vez de meter o nariz nos seus negócios!
- Não tinha pensado nisso, - respondeu o Júlio. - Como o tempo passa devagar!
Os pequenos bocejaram, conversaram, calaram-se, discutiram e brincaram com o Tim. A lanterna do Júlio apagou-se e então substituíram-na pela do David.
- Ainda bem que trouxemos duas lanternas, - disse a Ana. Chegaram as nove e meia e começaram a sentir sono.
- Proponho irmos dormir, - sugeriu o David com um bocejo. - Ali há um bocado com areia; é mais macio para nos deitarmos do que esta rocha. Que acham se tentarmos adormecer?
Todos concordaram e foram para o sítio onde havia areia. Era com certeza melhor deitarem-se ali do que na rocha.
- Mesmo assim é duro, - queixou-se a Zé. - Ó Tim, não estejas a respirar para cima da minha cara. Deita-te entre mim e a Ana e dorme.
O Tim deitou-se sobre as pernas da Zé. Meteu o focinho entre as patas e deu um grande suspiro.
- Espero que o Tim não continue suspirando durante toda a noite, - disse a Ana. - Faz uma destas correntes de ar.
Embora julgassem que não conseguiam adormecer, daí a pouco estavam todos a dormir. O Tim também adormeceu, com uma orelha arrebitada e um olho pronto a abrir-se. Cerca das onze horas o Tim abriu esse olho e arrebitou as duas orelhas. Ficou à escuta sem tirar a cabeça de cima das pernas da Zé. Depois abriu o outro olho.
Pôs-se em pé, escutando com mais atenção. A Zé acordou com os movimentos do Tim e estendeu a mão para o agarrar. - Tim, deita-te, - murmurou ela. Mas o Tim não quis obedecer-lhe e começou a ganir.
A Zé sentou-se, completamente acordada. Porque estaria o Tim a ganir? Passar-se-ia alguma coisa lá fora? Seriam os homens dirigindo-se à enseada? Teriam feito o sinal para o mar, com a luz, guiando para terra o barco que eles esperavam?
A pequena agarrou o Tim pela coleira.- Que se passa? - murmurou ela, esperando que o cão ladrasse quando voltou a ouvir-se qualquer coisa. Mas ele limitou-se a ganir outra vez.
Conseguiu libertar-se da mão da Zé e correu para a porta. A Zé acendeu a lanterna, intrigada.
O Tim começou a arranhar a porta, voltando a ganir. Mas não ladrou.
- Júlio! Parece-me que está alguém junto à porta, - disse a Zé, em voz baixa, ao Júlio. - O Tim está a ouvir qualquer coisa. Acorda! Todos acordaram logo. A Zé repetiu o que dissera. - O Tim não está a ladrar. Portanto não são inimigos o que ele ouve. Se fosse o homem que nos fechou aqui, com certeza ladrava sem descanso.
- Estejam quietos um momento e escutem, - pediu o Júlio. - Talvez seja possível ouvirmos qualquer coisa, apesar de não termos os ouvidos apurados do Tim.
Deixaram-se estar em silêncio, escutando. A certa altura o Júlio fez um sinal ao David. Tinha ouvido qualquer ruído. Prestaram a maior atenção, quase sem respirarem.
Ouviram um ligeiro arranhar na porta. Depois fez-se silêncio. A Zé esperava que o Tim começasse a ladrar furiosamente. Mas isso não se deu. O cão ficou ao pé da porta com a cabeça ao lado e as orelhas arrebitadas. Então ganiu excitado e de repente recomeçou a arranhar a porta.
Alguém falou baixinho do outro lado e o Tim ganiu, correndo para a Zé e voltando de novo para a porta. Todos estavam intrigados.
O Júlio levantou-se e foi também até à porta, sem fazer barulho nenhum. Sim, era mais do que certo estar alguém do lado de fora. Talvez duas pessoas conversando baixinho.
- Quem está aí? - perguntou o Júlio de repente. -Estou a ouvi-lo. Quem é?
Depois de alguns segundos uma vòzinha conhecida respondeu suavemente:
- Sou eu. O Jano.
- Jesus! Santo Deus! És realmente tu?
- Isso.
Fez-se silêncio na gruta. O Jano! O Jano, àquela hora da noite, do outro lado da porta da gruta onde eles precisamente estavam! Seria um sonho?
O Tim ficou maluco quando ouviu o Jano responder ao Júlio. Atirou-se de encontro à porta, ladrando. O Júlio agarrou-o pela coleira. - Está quieto, palerma. Ainda estragas tudo! Está quieto!
O Tim conseguiu acalmar-se e então o Júlio dirigiu-se outra vez ao rapazito. - Jano, trouxeste alguma luz?
- Não. Nenhuma luz. Aqui está escuro, - respondeu ele. - Posso ir ter com vocês?
- Claro que podes. Ouve, Jano. Sabes como se abre e destranca uma porta? - perguntou o Júlio, sem saber se aquele miúdo pouco civilizado conseguiria fazer uma coisa tão simples.
- Sei, - respondeu o Jano. - Estão fechados à chave?
- Estamos, - disse o Júlio. - Mas pode ser que a chave esteja na fechadura. Procura-a às apalpadelas. Vê também se descobres a tranca. Levanta-a e dá uma volta à chave, se aí estiver.
Os quatro pequenos na gruta, com a respiração suspensa, ouviam as mãos do Jano tactear no escuro a espessa porta, batendo de onde em onde para descobrir a tranca e a chave.
A certa altura ouviram a tranca ser levantada suavemente. Como eles desejavam que o seu captor tivesse deixado a chave na fechadura!
- Aqui está a chave, - disse de repente o Jano. - Mas é tão pesada! Não tenho força para a fazer girar.
- Experimenta com as duas mãos ao mesmo tempo, - pediu o Júlio com ansiedade.
Ouviram o Jano a tentar, com a respiração ofegante por causa do esforço. Mas a chave não girava.
- Só faltava isto! - exclamou David.-r -, Tão próximo do fim e ao mesmo tempo tão longe. A Ana empurrou o David. Tivera de repente uma ideia. - Jano! Ouve, Jano! Tira a chave da fechadura e mete-a por baixo da porta. Compreendes?
- Isso, estou a entender, - respondeu o Jano. Depois os pequenos ouviram-no a esforçar-se por tirar a chave da porta. Daí a pouco perceberam um ruído como se ela tivesse saído de repente da fechadura. Então, - que sorte! - a chave apareceu por debaixo da porta, empurrada pelo Jano com todo o cuidado.
O Júlio agarrou nela e meteu-a na fechadura da parte de dentro. Deu-lhe uma volta e abriu a porta. Que grande sorte!
O CAMINHO DOS AFUNDADORES.
O Júlio abriu logo a porta e o Tim correu lá para fora, ladrando satisfeito por encontrar o Jano. Deu-lhe várias lambedelas e o rapazito ria-se.
- Vamos embora daqui, depressa, - disse o David. - O homem pode aparecer de repente. Nunca se sabe.
- Tens razão. Deixemos as explicações para mais tarde, - concordou o Júlio, empurrando os outros para fora da gruta e fechando a porta à chave pelo lado de fora. Depois trancou-a e meteu a chave na algibeira sorrindo para o David.
- Assim, quando o homem voltar, nem sequer descobrirá que já nos fomos embora. Não pode entrar na gruta para ver se ainda lá estamos ou não.
- Onde vamos nós agora? - perguntou a Ana, parecendo-lhe tudo um sonho.
O Júlio pensou. - Seria uma loucura voltarmos pela passagem até à torre, - disse ele. - Se estiverem ali a fazer sinais, e certamente estão, seríamos apanhados outra vez. Não deixaríamos de fazer barulho ao saltar pela abertura do fogão de sala.
- Então vamos pela outra passagem que nós vimos, a da direita, - sugeriu a Zé. - Olhem, ali está ela. Onde vai dar, Jano?
- Vai ter à praia, - respondeu o Jano. - Eu segui por ela quando andei à vossa procura mas como não os vi voltei para trás e encontrei aquela porta. Não está ninguém na praia.
- Então vamos, - disse o David. - Assim que estivermos fora do caminho perigoso poderemos estabelecer um plano.
Os pequenos seguiram pela outra passagem, iluminando o caminho com a lanterna. Esta
era muito íngreme tornando-se difícil avançar.
- Foste esperto em nos ter encontrado, - disse a Ana ao Jano. Este fez-lhe um enorme sorriso de agradecimento que a pequena não viu por causa da escuridão.
Finalmente ouviram o barulho das ondas e chegaram ao ar livre. A noite estava muito ventosa, mas as estrelas brilhavam no céu dando uma luz agradável depois da escuridão da passagem.
- Onde estaremos? - disse o David olhando à sua volta. Então percebeu que estavam na mesma praia onde tinham ido anteriormente, mas bastante mais abaixo.
- Conseguiremos chegar à quinta saindo por aqui? - disse o Júlio parando para ver precisamente onde estavam. - Meu Deus! Temos de nos apressar. A maré está a subir! Se não temos cuidado ficamos bloqueados!
Uma onda deslizou pela areia quase até aos pés dos pequenos. O Júlio olhou rapidamente para o penhasco atrás deles. Era muito escarpado. Haveria tempo para procurarem uma gruta onde pudessem esperar que a maré baixasse outra vez?
Uma outra onda molhou o Júlio. - Mau! - exclamou ele. - Isto está a ficar perigoso. A próxima onda grande pode arrastar-nos. Quem me dera que estivesse luar. Aquelas estrelas dão uma luz tão apagada!
- Jano, há alguma gruta para onde possamos ir? - perguntou a Zé cheia de ansiedade,
- Eu levo-os pelo Caminho dos Afundadores, - disse o Jano para surpresa de todos. - Isso! Vão comigo.
- É verdade. Tu disseste que conhecias o Caminho dos Afundadores, - disse o Júlio, recordando-se. - Se fica aqui perto é uma grande sorte! Vamos, Jano. Tu és uma maravilha! Mas apressa-te. Já temos os pés molhados e dum momento para o outro pode vir alguma onda gigante!
O Jano seguiu à frente indicando o caminho. Conduziu os pequenos até ao extremo duma outra enseada, subindo depois por uma pequena passagem aberta nos penhascos.
Chegou a um rochedo enorme e esgueirou-se por detrás dele seguido pelos outros em fila indiana. Ninguém poderia supor que houvesse um caminho para o penhasco atrás daquele rochedo.
- Agora estamos no Caminho dos Afundadores, - explicou o Jano orgulhosamente.
Mas de repente parou fazendo com que todos chocassem uns com os outros. O Tim deu um ligeiro latido de aviso e a Zé segurou-o pela coleira.
- Vem aí gente! - murmurou o Jano, empurrando-os. Na verdade ouviam-se vozes a distância. Os pequenos voltaram para trás apressadamente. Não queriam ir ao encontro de mais um sarilho!
O Jano pôs-se à frente e conduziu-os até um rochedo enorme. Estava a tremer. Os pequenos seguiram-no e o Jano levou-os pela borda do penhasco até uma gruta muito pequena, que não era mais do que uma plataforma coberta.
- Schiu! - fez ele, com um som parecido com o silvo duma cobra.
Todos se sentaram, esperando. Por detrás do rochedo apareceram dois homens, um muito alto e outro bastante baixo. Era impossível vê-los distintamente e o Júlio disse ao ouvido do David: - Tenho a certeza de que é o sr. Penney! Olha para o tamanho dele!
O David concordou. Não era surpresa para eles verem o gigantesco sr. Peney metido naquele assunto. Os cinco pequenos observavam os homens, com a respiração suspensa.
O Jano fez um sinal ao David e apontou para o mar. - Vem aí um barco! - murmurou ele.
O David não via nem ouvia nada. Mas daí a pouco distinguiu qualquer coisa. O ruído dum barco a motor muito rápido! Que ouvido tão apurado devia ter o Jano!
Os outros perceberam também o ruído, através do clamor das ondas rebentando nos rochedos.
- Não tem luz, - murmurou o Jano, quando o barulho do barco se tornou mais forte.
- Vai de encontro aos rochedos! - exclamou o David. Mas antes que isso acontecesse o motor parou. Os pequenos conseguiram então distinguir o barco, balouçando entre a barreira dos rochedos. Era evidente que não tentaria seguir mais adiante.
Nessa altura ouviram-se vozes. Os dois homens que haviam chegado pelo Caminho dos Afundadores estavam a falar ao pé do grande rochedo que tapava a entrada. Um deles saltou para uma rocha que estava mais abaixo e desapareceu. O outro homem ficou só.
- Foi o homem mais alto que saltou, - murmurou o Júlio. - Onde teria ido? Ah, lá está ele! Vai a passar entre aquelas duas rochas. Que foi buscar?
- Um barco! - exclamou o Jano. - Tem-no escondido, fora do alcance das ondas maiores. Ali há uma lagoa. Vai remar em direcção ao outro barco.
As crianças esforçavam-se por ver. O céu estava bastante claro, mas a única luz era a das estrelas e por isso tornava-se difícil distinguir qualquer coisa além das sombras.
A certa altura ouviu-se o ruído dos remos a serem colocados e distinguiu-se vagamente a silhueta negra dum barco com um homem, flutuando sobre as ondas.
- Saberá o caminho através daquela quantidade de rochedos? - pensou o David.
- Deve conhecer muito bem esta costa para se arriscar assim na maré alta e com noite
serrada.
- Que está ele a fazer? - perguntou a
Ana.
- Está recebendo o contrabando do barco a motor, - respondeu o Júlio. - Sabe Deus o quê! Agora perdi-os de vista!
O mesmo acontecera aos outros pequenos. Nem conseguiam ouvir o ruído dos remos, porque as ondas abafam qualquer outro som.
O barco a motor estava para lá das rochas mas só os olhos de lince do Jano conseguiam distingui-lo ainda que vagamente. Numa altura em que o mar ficou mais calmo, ouviram-se vozes sobre as águas.
- O homem já chegou ao barco a motor, - disse o David. - Deve voltar dentro de pouco tempo.
- Olhem, o outro homem vai agora a descer até à enseada; naturalmente é para ajudar o do barco a remos, - disse o Júlio. - E se nós fugíssemos pelo Caminho dos Afundadores uma vez que temos esta oportunidade?
- Boa ideia, - aprovou a Zé, começando a andar. - Vamos, Tim! Para casa!
Dirigiram-se ao rochedo grande e uma vez mais passaram pela parte de trás seguindo até à entrada do Caminho dos Afundadores. Depois, com o Jano à frente, seguiram por aquela passagem secreta, acendendo a lanterna, muito aliviados e satisfeitos.
- Onde vai dar o Caminho dos Afundadores? - perguntou a Ana.
- A uma arrecadação da Quinta do Tremanal, - declarou o Jano, para grande espanto dos outros.
- Fica mesmo à mão do sr. Peney! - exclamou a Zé. - Faço ideia quantas vezes ele terá saído durante a noite, esperando nos montes o aviso do farol da torre para ir pelo Caminho dos Afundadores até à enseada, receber o contrabando de algum barco! Acho tudo muito bem combinado. É impossível serem descobertos por alguém.
- Não falando em nós, - observou o David, satisfeito. - Tratámos do caso com bastante êxito. Agora sabemos muita coisa sobre o sr. Peney!
Fartaram-se de andar. O caminho era bastante estreito e devia ter sido o leito dum rio subterrâneo, pois o terreno era arenoso.
- Parece-me que já andámos cerca de dois quilómetros! - lamentou-se por fim o David. - A que distância estamos agora, Jano? Falta muito para chegarmos? - Isso, - respondeu o Jano. A Ana lembrou-se de repente que ninguém sabia como o Jano os tinha encontrado naquela noite.
- Jano, como conseguiste encontrar-nos esta noite? Pareceu-nos um milagre quando acordámos a sentir-te do outro lado da porta!
- Foi fácil, - explicou o Jano. - Os meninos disseram-me: - «Vai-te embora. Não venhas hoje connosco». Portanto eu afastei-me um pouco. Mas segui-os sempre até à casa velha, embora estivesse com «arreceio».
- Bem sei que tinhas «arreceio», - interrompeu o David rindo. - Bem, continua.
- Eu escondi-me, - continuou o Jano. - Os meninos estiveram muito tempo na torre. Eu fui para a sala de baixo e...
- Então eras tu que nós ouvimos rastejar! - exclamou a Ana. - E nós sem sabermos quem seria!
- Isso, - prosseguiu o Jano. - Sentei-me num canto e esperei, até que os meninos desceram. Depois escondi-me outra vez. Mas via-os de fora, por um buraco. Foram até ao fogão da sala. Estiveram um minuto ao pé dele. Em seguida desapareceram. Eu tive «arreceio».
- Gosto dessa palavra, - afirmou o David. - Então foste tu quem pisou aquelas ervas que o Tim farejou? Bem, que fizeste depois?
- Estive para ir atrás dos meninos, - disse o Jano. - Mas a abertura era tão preta! Estive um bocado ao pé do fogão com esperança que voltassem.
- E que aconteceu? - perguntou o David.
- Ouvi vozes, - continuou o Jano. - Julguei que eram os meninos já de volta. Mas não eram. Apareceram uns homens. Eu fugi e fui-me esconder entre os cardos.
- Escolheste um belo sítio! -exclamou a Zé.
- Depois comecei a sentir fome e fui comer à cabana do vovô, - prosseguiu o Jano. - Ele deu-me uma bofetada por o ter deixado só e obrigou-me a trabalhar todo o dia. Estava muito zangado comigo.
- Então estiveste todo o dia nos montes sabendo que nós estávamos naquele sítio! - exclamou o Júlio. - Não contaste nada a ninguém?
- Quando escureceu fui à Quinta do Tremanal para ver se os meninos já tinham voltado, - disse o Jano. - Mas não tinham. Só lá estavam os Barnies, dando outro espectáculo. Não vi nem o sr. nem a sr.a Peney. Pensei então que os meninos ainda deviam estar naquela abertura negra. Tive medo que os homens lhes fizessem mal.
- Então foste até lá com tudo às escuras?
- disse o Júlio, admirado. - Devo dizer que tiveste coragem.
- Eu tive muito «arreceio», - confessou o Jano. - Os joelhos tremiam-me como os do vovô. Saltei pela abertura e depois encontrei-os.
- Sem uma lanterna para alumiar o caminho! - exclamou o David dando-lhe uma palmada nas costas. - És um belíssimo amigo, Jano! O Tim reconheceu-te muito bem quando chegaste à porta trancada. Ele não ladrou. Percebeu que eras tu.
- Eu também queria salvar o Tim, - disse o Jano. - Isso. O Tim é meu amigo.
A Zé não disse nada. Bem contra sua vontade, agora considerava o Jano um rapaz corajoso e achava que tinha sido antipática e palerma aborrecendo-se por o Tim ter simpatizado com ele.
E ainda bem que ele gostava
do Tim!
O Jano de repente parou. - Já chegámos,- disse ele. - Estamos na Quinta do Tremanal. Olhem para cima.
O Júlio apontou a lanterna para o alto e ficou admirado. Estava um alçapão aberto mesmo por cima deles.
- O alçapão está aberto, - disse ele. - Alguém desceu por ele, esta noite!
- E nós sabemos quem foi, - disse o David com ar preocupado. - O sr. Peney e o seu amigo! Onde vai dar o alçapão, Jano?
- Ao canto da arrecadação onde guardam as máquinas da lavoura, - explicou o Jano.
DEPOIS DA MEIA-NOITE.
DE repente surgiu dum canto um rato correndo para a abertura do alçapão. O Tim ladrou e correu atrás dele. Por pouco enfiava a cabeça pela abertura abaixo. Parou mesmo junto do alçapão e olhou lá para o fundo, pondo a cabeça de lado.
- Ele está a ouvir qualquer coisa, - disse a Ana. - Vem aí alguém. Talvez sejam aqueles homens com o contrabando.
- Não, está só à espreita do rato, - afirmou o Júlio. - Já lhes digo o que vamos fazer! Fechamos o alçapão e pomos-lhe em cima sacos, caixas e tudo o que conseguirmos! Quando os homens chegarem descobrem que caíram numa armadilha; não poderão sair. Nós então vamos calmamente chamar a polícia que os apanhará com toda a facilidade!
- Boa ideia! - exclamou o David. - Soberbo! Os dois homens vão ficar malucos quando chegarem ao alçapão e o virem fechado! E não poderão sair pelo outro lado porque está a maré cheia.
- Gostava de ver a cara do sr. Peney quando encontrar o alçapão fechado e descobrir que tem uma infinidade de coisas em cima, - disse o Júlio. - Há-de fazer uma porção dos seus sons estranhos.
- «Ock, eck, ah», - fez o David, muito sério.- Anda Júlio, ajuda-me a fechar o alçapão. É muito pesado.
Fecharam o enorme alçapão e começaram a arrastar caixas, sacos e alguns maquinismos para cima dele. Agora com certeza ninguém conseguiria sair do lado de baixo.
Quando acabaram estavam com calos e sede. Também começavam a sentir-se cansados. - Livra. - exclamou o David. - Ainda bem que acabámos. Agora é melhor irmos para casa e mostrarmo-nos à sr.a Peney.
- E vamos falar-lhe do marido e contar-lhe como ele está metido neste negócio escandaloso? - perguntou a Ana. - Eu gosto tanto dela! Deve estar também muito preocupada por nossa causa.
- É verdade. Vai ser difícil, - disse o Júlio, pensativo.-É melhor deixarem-me falar a mim. Vamos. Não façam barulho, senão os cães da quinta começam a ladrar. Até admira que eles não tenham começado já a ladrar com toda a força!
Na verdade, isso era surpreendente, pois os cães da quinta ladravam imenso quando ouviam qualquer ruído estranho durante a noite. Os cinco pequenos e o Tim saíram da arrecadação e dirigiram-se à casa. A Zé puxou o Júlio por um braço.
- Olha! - disse ela em voz baixa. - Vês aquelas luzes nos montes? Que será?
O Júlio viu algumas luzes movendo-se dum lado para o outro, nos montes. Ficou intrigado mas depressa calculou o que seria.
- Aposto que a sr.a Peney mandou várias pessoas à nossa procura e elas levaram lanternas, - disse o Júlio. - Andam a ver se nos encontram nos montes. Espero que os Barnies não andem todos também atrás de nós.
Os pequenos chegaram ao pátio, caminhando cautelosamente. O grande celeiro, utilizado pelos Barnies para os seus espectáculos, estava às escuras. O Júlio imaginou-o cheio de bancos, depois do espectáculo daquela noite. Lembrou-se do sr. Peney a mexer nas algibeiras da roupa ali deixada e nas gavetas da cómoda dos Barnies.
Uma voz abafada fê-los parar de repente. A Zé agarrou o Tim pela coleira para o impedir de rosnar ou ladrar. Quem seria agora?
Os pequenos ficaram muito quietos, sem responder. A voz ouviu-se outra vez, no mesmo tom abafado.
- Aqui! Estou aqui!
Nenhum dos pequenos se mexeu. Ficaram todos muito intrigados. Quem estaria ali no escuro e à espera de quem? Novamente se ouviu a mesma voz mas um pouco mais forte.
- Aqui! Estou aqui!
E em seguida como se não tivesse paciência para esperar mais, um homem saiu do escuro e dirigiu-se para o pátio. O Júlio não conseguia vê-lo bem e por isso acendeu de repente a lanterna fazendo incidir a luz sobre ele.
Era o Patrão, de cara carrancuda como sempre! Recuou uns passos quando a luz lhe deu na cara e desapareceu por uma esquina.
O Tim rosnou.
- Quem mais andará a vaguear por estes sítios, esta noite? - disse o David. - Aquele era o Patrão. Que estaria ele a fazer?
- Não me interessa, - disse o Júlio. - Estou muito cansado para fazer raciocínios. Não me admiraria de ver o Francis espreitando-nos a uma esquina, dizendo: «Olá, pequenos!».
Todos se riram. Era o género de brincadeiras «à Francis».
Os pequenos chegaram perto da casa. Esta estava iluminada de cima abaixo. As cortinas da janela da cozinha não tinham sido corridas e os pequenos olharam lá para dentro, ao passarem. A sr.a Peney estava sentada, com as mãos entrelaçadas, parecendo muito preocupada.
Abriram a porta da cozinha e entraram todos, incluindo o Jano. A sr.a Peney levantou-se imediatamente e correu para eles. Abraçou a Ana, tentou abraçar a Zé, disse uma imensidade de coisas muito depressa, e os pequenos perceberam, admirados, que ela estava a chorar.
- Onde estiveram os meninos? - perguntou ela com lágrimas a correr em fio. - Andam com os cães a ver se os encontram. E os Barnies também. Estão à vossa procura há imenso tempo! E o sr. Peney também saiu. Não sei onde ele está. Também desapareceu. Ai, que noite terrível!
O Júlio viu que ela estava muito preocupada. Agarrou-a suavemente por um braço e levou-a para uma cadeira. - Não se preocupe, - disse ele. - Nós estamos todos bem. Peço desculpa por lhe termos causado tão grande aflição.
- Mas onde estiveram os meninos? - choramingou a sr.a Peney. - Já os via afogados, perdidos nos montes ou caídos pelos penhascos. E o sr. Peney, onde andará ele? Saiu às sete horas e mais ninguém o viu desde então.
As crianças sentiram-se pouco à vontade. Lembraram-se de que bem sabiam onde estava o sr. Peney. Devia continuar a receber o contrabando do barco a motor, levando-o com o seu amigo pelo Caminho dos Afundadores!
«Agora os meninos digam-me o que estiveram a fazer, - pediu a sr.a Peney, limpando os olhos e parecendo inesperadamente um pouco zangada. - A preocuparem toda a gente desta maneira!
- Bem, - disse o Júlio. - É uma história muito comprida mas vou fazer o possível por a resumir. Aconteceram coisas bastante estranhas, sr.a Peney.
Começou a contar tudo desde o princípio. A velha torre, a história do vovô, a passagem secreta para a enseada dos afundadores, a prisão de todos eles e a fuga. Nessa altura o Júlio parou.
Como iria ele contar à sr.a Peney que um dos contrabandistas era o seu marido? Olhou para os outros, muito atrapalhado.
A Ana começou a chorar e a Zé também sentiu vontade de fazer o mesmo. Foi o Jano quem de repente falou.
- Nós vimos o sr. Peney na enseada, - informou ele, satisfeito pela oportunidade de dizer qualquer coisa. - Nós vimo-lo!
A sr.a Peney olhou fixamente para o Jano e depois para as caras embaraçadas dos outros pequenos.
- Viram o sr. Peney na enseada! - exclamou ela. - Isso é que não viram! Que estava
ele a fazer ali?
- Parece-nos... parece-nos que ele deve ser um dos contrabandistas, - disse o Júlio, contrafeito. - Temos a impressão de que o vimos entrar num bote e remar até ao barco a motor, para lá dos rochedos. Se assim é, ele... bem... ele vai ver-se em apuros, sr.a Pe...
Mas não acabou, porque inesperadamente a sr.a Peney saltou da cadeira e deu-lhe vários socos nos ouvidos, com violência. O Júlio nem teve tempo de se esquivar.
- Ah, seu mauzão! - exclamou a sr.a Peney parecendo de repente ter perdido a cabeça. - Dizer coisas dessas acerca do sr. Peney, que é o homem mais recto e mais honesto deste mundo! Ele, um contrabandista! Ele metido com esses homens malvados! Hei-de bater-lhe até que negue as suas palavras, e
bem o merece!
O Júlio, afastou-se, admirado da transformação da amável sr.a Peney. Esta estava com a cara toda vermelha. os olhos em chamas e até parecia mais alta.
O Júlio nunca tinha visto uma pessoa tão zangada! O Jano meteu-se logo debaixo da mesa.
O Tim rosnou. Ele gostava da sr.a Peney mas não podia permitir que batesse nos seus amigos. Ela encarou o Júlio, tremendo de cólera.
«Agora peça desculpa, - ordenou. - Senão dou-lhe uma sova como nunca apanhou na sua vida. E vai ver como pensa o sr. Peney quando regressar e souber as coisas que o menino disse a seu respeito!
O Júlio era demasiado forte para que a sr.a Peney lhe pudesse «dar uma sova». Mas tinha a certeza de que ela o tentaria se não
lhe pedisse desculpa! Parecia uma pantera! O pequeno pôs-lhe a mão num braço. - Não esteja aborrecida, - disse ele. - Lamento muito ter feito com que se zangasse.
A sr.a Peney sacudiu-lhe a mão. - Zangada! Acha que é caso para menos? - gritou ela. - Pensar que alguém disse coisas horríveis a respeito do sr. Peney! Não era ele que estava na enseada dos afundadores! Eu sei que não estava. Só queria saber onde estará! Sinto-me tão preocupada!
- Está no Caminho dos Afundadores, - disse o Jano do seu esconderijo, debaixo da mesa. - Nós fechámos o alçapão. Isso.
- No Caminho dos Afundadores?! - exclamou a sr.a Peney deixando-se cair outra vez na cadeira, com grande alívio dos pequenos. Depois voltou-se para o Júlio com um ar
interrogativo.
O pequeno fez um sinal com a cabeça. - Sim. Nós viemos por aí desde a praia. O Jano conhece o Caminho. Vem dar a um canto da arrecadação que tem as máquinas da lavoura. Nós... bem... nós fechámos o alçapão e pusemos-lhe em cima uns sacos e outras coisas mais. Receio... bem... receio que o sr. Peney não possa sair!
Os olhos da sr.a Peney quase saíam das órbitas. Abriu e fechou a boca muitas vezes como um peixe à procura de comida. Todos os pequenos se sentiram pouco à vontade e com imensa pena dela.
- Eu não acredito, - disse por fim. - Isto é um pesadelo. Não é realidade.
O sr. Peney aparecerá aqui dum momento para o outro. Dum momento para o outro digo-lhes eu. Ele não está no Caminho dos Afundadores. Ele NãO é um homem desonesto. Ele aparecerá, verão!
Fez-se um silêncio. E no silêncio ouviu-se um som. O som dumas botas enormes caminhando no pátio!
- Tenho «arreceio», - gritou o Jano de repente, sobressaltando todos. Os passos dirigiram-se à porta da cozinha.
- Eu sei quem é! - exclamou a sr.a Peney levantando-se. - Eu sei quem é!
A porta abriu-se e alguém entrou. O sr. Peney!
A sua mulher correu para ele, abraçando-o. - Sempre veio! Eu disse que havia de vir! Ainda bem que veio!
O sr. Peney tinha um ar cansado e os pequenos, mudos de espanto, repararam que ele estava completamente molhado. O sr. Peney olhou para eles, surpreendido.
- Para que estão estas crianças levantadas? - perguntou. Os pequenos ficaram embasbacados. Ele estava a falar perfeitamente! Pronunciava as palavras com toda a clareza, só ciciando os ss.
- Ai, sr. Peney, as coisas que estes meninos maus contaram a seu respeito! - choramingou a sua mulher. - Disseram que o sr. Peney é contrabandista. Que o viram na enseada dos afundadores dirigindo-se a um barco a motor para receber contrabando.
Que lhe tinham fechado o alçapão...
O sr. Peney empurrou a sua mulher e começou a andar à volta dos pequenos. Estes estavam aflitos. Como teria ele fugido do Caminho dos Afundadores? Com certeza, apesar da sua grande estatura, não conseguira levantar todas as coisas que eles tinham colocado sobre o alçapão. Que aspecto tão feroz tinha aquele gigante, com a sua cabeleira negra, as suas espessas sobrancelhas sobre uns olhos encovados e a sua densa barba também negra!
- Que quer dizer tudo isto? - perguntou ele, deixando outra vez os pequenos embasbacados com a sua maneira de falar. Estavam tão habituados aos seus característicos sons que achavam estranho ele conseguir falar
correctamente.
- Bem, sr. ..., - começou o Júlio, pouco à vontade. - Nós, ... nós estivemos a examinar a torre... e descobrimos umas coisas acerca dos contrabandistas. Realmente pensámos ter reconhecido o sr. Peney na enseada dos afundadores e convencemo-nos de que o tínhamos encerrado, a si e ao seu amigo, fechando o alçapão e...
- Isso é tudo muito importante, - disse o sr. Peney rapidamente, com uma voz aflita.
- Esqueçam essa história de me julgarem um contrabandista. Enganaram-se. Eu trabalho para a polícia. Alguém estava na enseada, mas não era eu. Estive na costa, isso é verdade, a investigar sem resultado e fiquei todo molhado, como vêem. Que sabem os meninos?
Que vem a ser isso de alçapão? É verdade terem fechado e prendido esses homens?
Tudo aquilo era tão extraordinário que por uns momentos ninguém conseguiu dizer uma palavra. Depois o Júlio levantou-se.
- Sim, sr. Peney. Nós fechámos o alçapão e se quer apanhar aqueles homens chame a polícia que o poderá fazer com facilidade. Basta apenas esperar junto ao alçapão até que os contrabandistas apareçam!
- Muito bem, - disse o sr. Peney. - Vamos. Depressa!
O DAVID TEM UMA IDEIA!
NO meio duma grande surpresa e entusiasmo os pequenos precipitaram-se para a porta, seguindo o sr. Peney. O Jano tinha saído debaixo da mesa decidido a não perder nada. Mas o sr. Peney voltou-se quando
ia a sair.
- As meninas não vão, - disse ele. - Nem
tu, Jano.
- Eu tomo conta das pequenas, - disse a sr.a Peney, completamente esquecida da sua zanga, devido às últimas notícias. - Jano,
vem cá.
Mas o Jano tinha-se esgueirado com os outros. Nada no mundo o faria perder aquela nova emoção! O Tim, como é natural, também acompanhou os pequenos, tão entusiasmado como eles.
- Tantas idas e vindas, nas primeiras horas da manhã! - exclamou a sr.a Peney sentando-se outra vez. - E o sr. Peney sem nunca ter dito que andava à procura desses contrabandistas! Nós sabíamos que se passava qualquer coisa de anormal nesta costa, mas não pensei que o sr. Peney tomasse parte
nas investigações.
O Júlio e o David já nem se sentiam cansados. Atravessaram o pátio com o sr. Peney, seguidos pelo Jano e pelo Tim, que saltava como doido. Chegaram à arrecadação e entraram.
- Nós pusemos...-começou o Júlio, calando-se imediatamente. O sr. Peney iluminara com a sua poderosa lanterna o canto onde ficava o alçapão.
Este estava aberto! Inacreditavelmente aberto! Os sacos e as caixas que os pequenos lhe haviam posto em cima estavam espalhados mais adiante.
- Olhem! - exclamou o Júlio, pasmado.- Quem o teria aberto? Sr. Peney, os contrabandistas conseguiram sair com o contrabando e desapareceram. Fomos vencidos.
O sr. Peney ficou muito encolerizado e fechou ruidosamente a tampa do alçapão. Ia dizer qualquer coisa quando se ouviram vozes não muito longe. Eram os Barnies que voltavam, depois de terem procurado os pequenos.
Eles viram luz na arrecadação e espreitaram lá para dentro. Quando viram o Júlio e o David ficaram satisfeitos. - Onde estiveram? Procurámo-los por toda a parte! - disseram eles.
Os pequenos estavam tão desapontados por verem ruir as suas esperanças que mal responderam ao simpático acolhimento dos Barnies. Voltaram de repente a sentir-se cansados e o sr. Peney parecia de muito mau-humor. Respondeu asperamente aos Barnies, dizendo que as conversas ficavam para o dia seguinte. Quanto a ele, tencionava ir-se deitar.
Os Barnies afastaram-se conversando.
O sr. Peney dirigiu-se em silêncio para casa seguido pelo Júlio e David. O Jano desapareceu e como não estava na cozinha quando os pequenos lá chegaram o Júlio calculou que ele se tivesse ido embora, para junto do vovô.
- Três da manhã, -- disse o sr. Peney olhando para o relógio. - Vou dormir uma ou duas horas e depois irei ordenhar as vacas. Mande estas crianças deitarem-se, sr.a Peney. Boa-noite.
Dito isto meteu a mão na boca e com um ar muito sério tirou os dentes postiços metendo-os num copo com água.
- «Ock, eck», - disse ele à sr.a Peney, despindo o casaco. Ela empurrou os pequenos para a escada. Naquele momento estavam todos a cair de cansaço. As pequenas conseguiram despir-se mas os dois rapazes deixaram-se cair em cima da cama, adormecendo em menos de um minuto. Nem se mexeram quando os galos cantaram e as vacas mugiram, nem quando os carros dos Barnies foram rodando para o pátio a fim de eles arrumarem as suas coisas.
O Júlio acordou finalmente. Só passados uns momentos percebeu que ainda estava vestido. Pensou no que acontecera, sentindo uma sensação de desânimo ao lembrar-se como todo o entusiasmo do dia anterior acabara num completo fracasso.
Se ao menos soubesse quem tinha aberto o alçapão! Quem poderia ser?
E de repente uma ideia surgiu no seu espírito. Era evidente! Porque não teria pensado
nisso mais cedo? Por que motivo não se lembrara de informar o sr. Peney da presença do Patrão e das suas palavras: - «Aqui! Estou aqui»!
Ele estava com certeza à espera dos contrabandistas. Naturalmente servia-se dos pescadores daquele sítio para remarem por entre os rochedos até ao barco a motor, levando-os pelo Caminho dos Afundadores para que ninguém soubesse o que se passava.
Os Barnies iam muitas vezes representar no celeiro do Tremanal, por isso nada mais fácil para o Patrão do que arranjar as coisas de maneira a passar o contrabando naquela altura, visto o Caminho dos Afundadores ter uma entrada numa arrecadação ali perto! Se viesse uma noite de temporal, melhor! Ninguém andaria por aqueles sítios. Poderia ir até aos montes esperar que da torre dessem o sinal, indicando a chegada do barco.
Quem faria os sinais? Naturalmente outro pescador, descendente dos antigos afundadores, feliz por se sentir metido numa aventura e por ganhar algum dinheiro.
As coisas tomaram o seu verdadeiro lugar. Todos os pedaços desirmanados e parcelas de acontecimentos encaixavam perfeitamente, como num «puzzle».
O Júlio viu então a verdadeira sequência
daquele caso.
Quem pensaria que o proprietário dos Barnies estava envolvido em negócios de contrabando? Os contrabandistas eram muito espertos, mas o Patrão era mais do que todos eles!
O pequeno ouviu barulho lá fora e levantou-se para ver o que era. Quando viu os Barnies a arrumar as suas coisas nos carros, correu pelas escadas abaixo, depois de ter acordado o David. Era preciso contar tudo ao sr. Peney acerca do Patrão! Este tinha que ser preso! Naturalmente guardara o contrabando nalguma caixa, que pusera núm dos carros. Era uma maneira fácil de o esconder! O Patrão era muito inteligente, não havia dúvidas.
Com o David atrás, intrigado e admirado, o Júlio procurou o sr. Peney. Lá estava ele, com um ar muito carrancudo, vendo os Barnies prepararem-se para partir. O Júlio correu para ele.
-Sr. Peney. Lembrei-me duma coisa; uma coisa muito importante! Posso falar-lhe?
Afastaram-se um pouco e então o Júlio contou todas as suas suspeitas acerca do Patrão.
«Na noite passada ele estava à espera dos contrabandistas, no escuro, - disse o Júlio. - Tenho a certeza disso. Deve ter-nos visto, convencendo-se que éramos quem ele esperava. E naturalmente foi ele quem abriu o alçapão, sr. Peney. Quando viu que os homens não apareciam, dirigiu-se ao alçapão e encontrou-o fechado, com uma imensidade de coisas em cima. Então certamente o abriu e esperou que os homens chegassem para lhe entregarem o contrabando. E agora tem-no escondido em qualquer sítio, dentro dos carros.
- Porque não me disseram isso na noite passada? - perguntou o sr. Peney. - Agora talvez seja tarde! Terei que ir buscar a polícia para passar uma busca aos carros; mas se eu tentar impedir os Barnies de se irem já embora, o Patrão há-de suspeitar de qualquer coisa e desaparecerá logo.
O Júlio sentira um grande alívio ao perceber que o sr. Peney tinha posto os dentes e podia falar com clareza! O sr. Peney passou as mãos pela barba negra, franzindo a testa. - Já procurei o contrabando por diversas vezes nas coisas dos Barnies, - disse ele. - Cada vez que eles têm estado aqui passo uma busca a tudo, durante a noite.
- Sabe de que consta o contrabando? - perguntou o Júlio. O sr. Peney fez um sinal , afirmativo.
- Sei. São drogas perigosas. Estupefacientes que vendem depois no mercado negro a preços elevadíssimos. Devem fazer um volume bastante pequeno. Já desconfiei de que alguns dos Barnies estivessem metidos no negócio e fartei-me de procurar. Mas nada descobri.
- Se não é um volume grande pode ser escondido facilmente, - disse o David, pensativo. - Mas é uma coisa perigosa para esconder. O Patrão não o deve trazer com ele.
- Claro que não. Ele teria medo de ser revistado, - concordou o sr. Peney. - Bem, acho que os devo deixar partir e avisar a polícia. Se quiserem passar uma busca aos carros na estrada, tanto melhor.
É impossível os polícias chegarem aqui antes de eles partirem. Não temos telefone na quinta. -
O sr. Binks apareceu naquela altura transportando as pernas do Francis. Cumprimentou os pequenos. - Fizeram-nos passar um bom bocado na noite passada, - disse ele. - Que aconteceu?
- É verdade, - concordou o Sid, aproximando-se com a ridícula cabeça do cavalo debaixo do braço, como de costume. - O Francis estava bastante preocupado por causa dos meninos.
- Meu Deus! Andou com a cabeça do Francis pelos montes, na noite passada? - perguntou o David, admirado.
- Não. Deixei-a com o Patrão, - respondeu o Sid. - Ele tomou conta do seu precioso Francis enquanto eu andei nos montes dum lado para o outro, à procura dum grupo de miúdos!
O David olhou fixamente para a cabeça do cavalo. Olhou com um ar muito sério. E então fez uma coisa bastante estranha.
Arrancou-a do braço do Sid e correu com ela pelo pátio. O Júlio ficou assombrado.
O Sid desatou a gritar, furioso. - Que é isso? Que está a fazer? Dê-me já o cavalo.
Mas o David nem o ouviu, desaparecendo numa esquina. O Sid foi atrás dele e mais alguém fez o mesmo!
Foi o Patrão que correu pelo pátio a toda a velocidade com um ar aflito! Gritava e berrava, com os punhos cerrados. Mas quando o Sid chegou à esquina, o David desaparecera.
- Que bicho lhe morderia?-disse o sr. Peney, admirado. - Para que irá ele a correr com a cabeça do Francis? O rapaz deve estar maluco!
O Júlio, de repente, percebeu tudo. Ele sabia por que motivo o David arrebatara a cabeça do Francis. Sim, ele sabia!
- Sr. Peney, lembra-se que o Patrão tem sempre a cabeça do cavalo à guarda duma pessoa?- disse ele. - Talvez esconda lá dentro qualquer coisa muito valiosa, qualquer coisa que não deve ser descoberta por ninguém! Vamos ver! Depressa!
A IMPORTÂNCIA DO FRANCIS.
NESSE momento o David reapareceu noutra esquina, ainda com a cabeça do Francis, perseguido pelo Sid e pelo Patrão. Não tinha conseguido parar um só momento nem esconder-se em qualquer sítio. Dirigiu-se ofegante ao sr. Peney e atirou-lhe a cabeça do cavalo.
- Pegue nela. Aposto que tem o contrabando dentro!
O Patrão tentou arrebatar o Francis das mãos do sr. Peney. Mas este era muito alto e o outro muito baixo. O sr. Peney com a mão direita mantinha a cabeça do cavalo fora do alcance do Patrão, desviando-o com a outra. Todos se aproximaram, a correr. Os Barnies, muito excitados, rodearam o pequeno grupo, juntando-se a eles um ou dois trabalhadores da quinta.
A sr.a Peney e as pequenas, que já estavam levantadas e ouviram o barulho, apareceram também, correndo. As galinhas fugiam cacarejando e os quatro cães e o Tim ladravam como doidos.
O Patrão estava absolutamente fora de si. Começou aos socos ao sr. Peney mas o Binks puxou-o para trás.
Então um dos trabalhadores da quinta abriu caminho por entre aquela gente excitada e agarrou o Patrão com toda a força.
- Não o deixem fugir, - ordenou o sr. Peney, abaixando a cabeça do Francis e olhando à sua volta, para os Barnies.
O Patrão olhava para tudo aquilo muito pálido.
- Largue esse cavalo, - gritou ele. - Pertence-me. Que está a fazer?
- O sr. disse que este cavalo lhe pertence?
- perguntou o sr. Peney. - Pertence-lhe inteiramente quer por dentro quer por fora?
O Patrão não disse nada. Estava com um ar muito aflito. O sr. Peney virou a cabeça do Francis ao contrário, olhou lá para dentro e apalpou o interior com a mão. Quando sentiu uma pequena tampa abriu-a, caindo cerca de uma dúzia de cigarros.
- Esses cigarros são meus, - disse o sr. Binks. - Guardo-os sempre aí. Tem algum mal? Isso é um compartimento que o patrão fez para mim.
- Não tem mal nenhum, sr. Binks, - disse o sr. Peney enfiando outra vez a mão na cabeça do Francis. Depois arrancou a tampa e passou os dedos à volta da cavidade onde o sr. Binks guardava os seus cigarros. O Patrão respirava com esforço.
- Sinto aqui qualquer coisa, - disse o sr. Peney olhando fixamente para a cara dele.
- Esta curiosa cavidade tem um fundo falso. Como se abre? Quer dizer-mo ou prefere que desfaça o Francis para descobrir?
- Não o desfaça! - pediram o Sid e o sr. Binks ao mesmo tempo. Depois voltaram-se intrigados para o Patrão. - A que vem tudo isto? - perguntou-lhe o Sid. - Nós não sabíamos que o Francis tinha um segredo.
- E não tem, - respondeu o Patrão teimosamente.
- Descobri o truque! - exclamou o sr. Peney.- Cá está ele!
Tacteou o espaço que de repente se tinha aberto, atrás do sítio onde o sr. Binks guardava os cigarros. E então tirou dali uma pequena caixa embrulhada em papel branco. Uma pequena caixa que valia umas dezenas de contos!
- Que é isto, Patrão? - perguntou ele ao homem, que estava branco como a cal. - É um dos muitos pacotes de estupefacientes que você tem espalhado por estes sítios? Era por causa deste segredo que nunca deixava o Sid largar o Francis? Posso abrir este embrulho e ver o que contém?
Ouviu-se um murmúrio entre os Barnies. Um murmúrio de horror! O Sid voltou-se com um ar feroz para o Patrão: - O senhor obrigou-me a tomar conta das suas horríveis drogas e não do Francis! Nem posso pensar que estive sempre a ajudá-lo! Servir um homem que devia estar na prisão! Nunca mais trabalharei com o Francis! Nunca mais!
Quase a chorar, o Sid abriu caminho por entre os atónitos Barnies e desapareceu. Daí a momentos o sr. Binks seguiu-o.
O sr. Peney guardou o embrulho branco na algibeira. - Fechem o Patrão no celeiro mais pequeno, - ordenou ele. - E tu, Dan, monta na tua bicicleta e vai chamar a polícia. Quanto a vocês, Barnies, não sei bem o que lhes diga. Perderam o vosso Patrão. Mas garanto-lhes que se viram livres duma boa peça!
Tirou dali uma pequena caixa embrulhada em papel branco.
Os Barnies olhavam pasmados para o Patrão enquanto dois homens da quinta o arrastavam para o celeiro mais pequeno.
- Nós nunca gostámos dele, - disse um dos Barnies. - Mas ele tinha dinheiro para nos manter nos dias difíceis... dinheiro do contrabando desses horríveis estupefacientes.
Servia-se dos Barnies como protecção para os seus negócios escuros. Realmente livrámo-nos duma boa peça!
- Cá nos arranjaremos sem ele, - disse outro dos Barnies. - Havemos de continuar os nossos espectáculos. Eh! Sid, anda cá. Anima-te, rapaz!
O Sid e o sr. Binks voltaram com um ar muito sério. - Nós nunca mais apresentaremos o Francis, - disse o Sid. - Agora até podia dar-nos azar. Vamos substituí-lo por um burro e arranjaremos um número diferente. O sr. Binks diz que não voltará a meter-se no Francis e eu penso da mesma maneira.
:- Muito bem, - disse o sr. Peney, pegando na cabeça do Francis. - Dêem-me as pernas dele. Eu encarrego-me do velho Francis. Sempre lhe dediquei muita afeição e não me dará pouca sorte!
Nada mais havia a fazer. Os Barnies despediram-se tristemente. O Sid e o sr. Binks, com um ar muito sério, apertaram a mão de cada um dos pequenos. O Sid deu uma última palmada ao Francis e voltou as costas.
- Nós vamo-nos já embora, - disse o sr. Binks. - Obrigado por tudo, sr. Peney.
Adeus!
- Até à volta, - respondeu o sr. Peney. - O meu celeiro está cempre ao vosso dispor,
Sid.-
O Patrão continuava bem preso, esperando pela polícia. O sr. Peney agarrou na cabeça e nas pernas do Francis e olhou para os cinco pequenos. Eram cinco porque o Jano reaparecera.
Sorriu para todos eles, parecendo tornar-se uma pessoa bem diferente. - Está tudo acabado, - disse ele. - Pensei que o David endoidecera quando fugiu com a cabeça do Francis!
- Nem sei como tive uma ideia tão boa, - disse o David, modestamente. - Surgiu de repente. Mas surgiu a tempo, os Barnies estavam prestes a partir.
Regressaram a casa. A sr.a Peney já se encontrava na cozinha, toda atarefada.
- Estou a arranjar-lhes uma refeição, - disse ela quando os viu entrar. - Pobres crianças, hoje ainda não comeram nada. Nem sequer o pequeno almoço. Venham ajudar-me. Podem esvaziar a despensa, se lhes apetecer.
E os pequenos quase o fizeram! Puseram sobre a mesa presunto, tortas e empadas! A Ana apanhou uma alface no jardim e arranjou-a. O Júlio encheu um prato com tomates. A Zé preparou uma dúzia de ovos cozidos. Como por encanto surgiu uma torta com doce de fruta e colocaram duas grandes canecas com leite nas extremidades da mesa.
O Jano andava de um lado para o outro metendo-se à frente de todos, com os olhos muito abertos, à vista da comida. A sr.a Peney riu-se.
- Sai da minha frente! Queres comer connosco?
- Isso, - respondeu o Jano encantado. - Isso!
- Então vai lá acima lavar essas mãos tão sujas, - disse a sr.a Peney. E, maravilha das maravilhas, o Jano subiu as escadas de muito boa vontade, regressando daí a pouco com as mãos quase limpas!
Sentaram-se todos à mesa. O Júlio, muito sério, pôs uma cadeira ao seu lado e arranjou o Francis duma maneira que ele parecia realmente estar também sentado! A Ana riu-se.
- Ó Francis. Pareces um cavalo a valer! Que vai fazer com ele sr. Peney?
- Vou oferecê-lo, - respondeu ele, mastigando tão bem sem dentadura como o fazia com ela.-Vou dá-lo a uns amigos meus!
- Que felizardos! - exclamou o David, servindo-se dum ovo cozido com salada. - E eles sabem trabalhar com as pernas do Francis?
- Sabem, - disse o sr. Peney. - Sabem até muito bem, só vão ter uma dificuldade. Ah! Ah! Ah!
Os pequenos olharam para ele, surpreendidos. Porque seria aquela repentina gargalhada?
O sr. Peney até se engasgou e sua mulher deu-lhe uma palmada nas costas. - Cuidado, - disse ela. - O sr. Francis está a olhar para si!
O sr. Peney deu outra sonora gargalhada. Depois olhou para os pequenos. - Eu estava a dizer-lhes, - recomeçou ele. - Que esses meus amigos só vão ter uma dificuldade.
- Bem, eles não sabem abrir o fecho «éclair»! - respondeu o sr. Peney, rindo até às lágrimas. - Eles não sabem como... como... Ah! Ah! Ah!... como se abre o fecho «éclair»!
- Tenha termos, sr. Peney, - disse sua mulher, muito divertida. - Porque não diz claramente que vai dar o Francis ao Júlio e ao David em vez de estar para aí com essas frases sem sentido?
- É verdade? - disse o David, entusiasmado.- Muito e muito obrigado!
- Os meninos deram-me o que eu queria, por isso é justo oferecer-lhes o que desejam,
- disse o sr. Peney pegando noutra travessa com presunto. - Tratem bem o Francis. Podem dar uma representação antes de se irem embora. Ah! Ah! Ah! O Francis só por si é um espectáculo. Agora está a olhar para nós!
- Ele piscou o olho! - exclamou a Zé, admirada. O Tim saiu logo debaixo da mesa para observar o Francis, com os seus amigos.
- Eu vi-o piscar o olho! - repetiu a Zé. Bem, talvez não fosse impossível ele ter
piscado o olho, pois realmente participara numa história extraordinária!
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