Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS COMEDORES DE PÉROLAS / João Aguiar
OS COMEDORES DE PÉROLAS / João Aguiar

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS COMEDORES DE PÉROLAS

 

                                HÔNG‑KÓNG SÂN, O GRANDE GENERAL

 

                   5 DE AGOSTO

Esta manhã, quando estava no Hông‑kóng Miu, tive uma visão. Em si mesmo, o facto não é excepcional. Nos últimos tempos, desde que deixei de tomar os medicamentos, tenho tido muitas visões, suponho que por efeito da desintoxicação. Mas esta visão foi diferente porque tinha um suporte físico. Não era uma sombra; era uma pessoa de carne e osso.

No entanto, embora isso tenha acontecido há poucas horas, não consigo pôr a memória a trabalhar como desejaria e sei que este mau funcionamento não tem nada a ver com o facto de ter deixado de tomar remédios. Há uma interferência. Estou assombrado, quem sabe, pelo espírito de Camilo Pessanha...?

Aqui, importa fazer um esclarecimento. Pessanha já se tornou há muito uma menção obrigatória nesta terra. Quem quer ser "cultural", cita Pessanha. Deixou de ser original e começa a ser cansativo. Porém, no meu caso ‑ provavelmente todos dizem isto! ‑ não é uma referência literária pedante. No fundo, não é, sequer, uma referência literária, mas sim um encontro com o meu passado. Desde os dezasseis anos que Camilo Pessanha e os seus barcos de flores me roubam a tranquilidade. Desde os dezasseis anos que sonho com Macau e esse sonho foi alimentado unicamente pela música de um poema: "Ao longe, os barcos de flores".

Só, incessante, um som de flauta chora,

Viúva, grácil, na escuridão tranquila...

Tive de esperar muito. Mas agora, finalmente, vejo o Rio das Pérolas. Resplandece ao Sol, liso e barrento no seu leito de lodo, tão afogueado de calor que os peixes devem transpirar. São duas da tarde, não há escuridão tranquila, nem barcos, nem flores, nem flautas.

Há apenas o som incessante. Vem da janela, onde o aparelho de ar condicionado chora a sua decadência e exaspera‑me com o seu pranto. Ofender‑se‑á Wang Kam Meng se eu lhe pedir ajuda? Afinal, este não é exactamente o tipo de assistência que lhe compete dar‑me.

Vou telefonar ao Daniel a pedir conselho. Mas tenho de esperar porque ele vai quase sempre almoçar a um restaurante da Taipa e os seus almoços costumam ser longos, bem conversados e bem digeridos. Portanto, as reivindicações do ar condicionado terão de esperar e eu também. É melhor pensar em qualquer outra coisa.

E a minha visão? Foi assim: esta manhã, acordei muito cedo e mal, com uma forte tentação de voltar aos medicamentos. Em Lisboa, Malaquias advertiu‑me: isso vai acontecer, vais acordar com angústias, com vontade de trepar pelas paredes. E quando isso te acontecer, deves reagir imediatamente ‑ faz qualquer coisa, mexe‑te, sai.

Foi o que fiz. Mexi‑me e saí. As ruas ainda estavam desertas de gente e cheias de lixo, mas não chegou a haver tempo para que a solidão e o silêncio me atirassem outra vez contra mim próprio. Quase sem eu dar por isso, a cidade espreguiçou‑se e começou, ela também, a mexer‑se.

Macau é um daqueles lugares capazes de oferecer ao recém‑chegado a ilusão de que ele pode perder‑se da vista das pessoas, ficar submerso e anónimo no emaranhado de ruas e becos da cidade velha, afogado pelas casas, a humidade, os novelos e teias selvagens de fios eléctricos que trepam pelas fachadas e saltam de prédio para prédio em ligações piratas.

Dizem‑me, e estou pronto a acreditar, que essa ilusão não dura muito tempo e que o verdadeiro problema, para um europeu, é nunca conseguir passar desapercebido. Mas eu ainda estou chegado de fresco e portanto fui capaz de gozar a sensação de fuga, durante as primeiras horas da manhã, ajudado por uma chuva miúda que punha no dia um filtro cinzento‑claro sem conseguir refrescar o ar pesado e quente. Acabei no Bazar Chinês, mais precisamente no Largo do Pagode do Bazar, onde o velho empedrado, luzidio de chuva, fazia escorregar as solas dos sapatos.

Quando o pequeno templo de Hông‑kóng Sân abriu as portas, entrei para cumprimentar o deus (o que diria o padre Frazão, se me visse!) e comprei pivetes de incenso a um bonzo indiferente que logo a seguir se refastelou a ver televisão, sentado num sofá recoberto de napa, mesmo ao lado do altar‑mor, onde já estava instalado um garoto, provavelmente seu filho, também com os olhos pregados no receptor enquanto mastigava qualquer coisa. As familiaridades desta gente com a divindade são curiosíssimas.

O bonzo não me ligou mais, absorvido com um programa em chinês de uma estação de Hong Kong. Acendi um pivete e coloquei‑o em frente da grande imagem do altar‑mor. o garoto olhou‑me e fez um sorriso irónico.

Não me importei. Tenho uma simpatia especial por Hông‑kóng Sân. Não só porque é o protector dos patos, o que acho meritório, mas também porque é um herói divinizado. Na minha ideia, ignorante que sou das coisas chinesas, esta qualidade aproxima‑o de Hércules, dos Dióscuros, de outros heróis helénicos. o que, em pleno Extremo Oriente, produz uma estranha (e talvez falsa) sensação de familiaridade.

Quando Hông‑kóng Sân era um homem, nos tempos da dinastia Han, chamava‑se Lêi‑Liut e era um grande general, o que lhe valeu a confiança do Imperador e uma ordem para conquistar mais terras a Norte. Ele obedeceu e um dia, em campanha, caiu numa emboscada e foi salvo por um pato, que apagou ou baralhou as pegadas que o general fugitivo deixava na lama. Por isso, quando Lêi‑Liut foi divinizado e se tornou Hông‑kóng Sân, tornou‑se também o protector dos patos.

Como sei eu isto? Contou‑mo Wang Kam Meng. E eu, com aquela carga de cretinice que trouxe do outro lado do mundo, observei que bem se via que um deus tão agradecido devia ter por força afinidades com os patos, já que os homens não o entenderiam. Felizmente, ele não percebeu. Ou então, o que é mais provável, decidiu não perceber.

Encontrava‑me ainda diante do altar‑mor, esta manhã, quando tive a minha visão. Isto é: quando a rapariga apareceu.

Não vou fazer grandes descrições. Os lirismos são enternecedores num adolescente e são ridículos num senhor de meia‑idade. A rapariga era, simplesmente, muito bonita ‑ uma beleza ao mesmo tempo fresca e elaborada. Chinesa ou macaense, não sei; ainda não sou capaz de distinguir a diferença, a menos que o cruzamento com sangue europeu seja muito óbvio. E não era o caso.

Fosse ela o que fosse, não tinha a mínima importância. Era um repouso e um conforto para os olhos. As feições, sobretudo, fascinaram‑me ‑ o que é normal; são as caras que me atraem sempre, em primeiro lugar. Mas o resto condizia perfeitamente com a cara. o que estava por debaixo dos jeans azuis e da camisa de seda cor de pêssego era um corpo discretamente magnífico: nervoso, franzino, com uma graça natural de movimentos. Um corpo, notei, habituado a ser senhor de si.

Mas estou a divagar. Nada sei sobre ela. Só uma coisa: aquela roupa tão simples e informal veio com certeza das lojas mais elegantes de Hong Kong, ou mesmo da Europa.

Ela acendeu três pivetes diante de uma "tabela", uma daquelas placas que representam os espíritos dos familiares defuntos. Rapidamente, curvou‑se três vezes, como manda o costume, lançou‑me um olhar breve e saiu. Quando, momentos mais tarde, cheguei à rua, já não a avistei.

Sinceramente, não fiquei contrariado. Não esperava e não queria vê‑la outra vez... então, por que lhe chamo eu uma visão e porquê todo este relato, se tudo não passou de um avistamento insignificante?

Porque não foi insignificante. Pela primeira vez desde... oh, sei lá quantos meses, pela primeira vez desde há uma eternidade, aquela minha indiferença, de cor e peso de chumbo, estremeceu ligeiramente. Pela primeira vez senti um vislumbre de verdadeiro interesse por aquilo que se passa à minha volta, todo esse mundo de gente que (se exceptuar Lei Siu Lam; esse conseguiu interessar‑me) me tem parecido um continente brumoso e sem promessas que não sejam de tédio.

Malaquias ficaria muito contentinho com estes sintomas. Talvez lhe fale nisto ‑ mas só se ele telefonar, e espero sinceramente que não o faça.

 

                                     Mais tarde.

Os queixumes do ar condicionado tornaram‑se tão alarmantes que o desliguei e antes que o calor me derretesse telefonei a Daniel. Foi uma conversa muito característica:

- o meu ar condicionado é a flauta do Camilo Pessanha disse‑lhe mal ele atendeu, Ficou imperturbável:

- Não devias beber tanto, é mau para o tratamento.

- Não bebi nada. o ar condicionado é que bebeu. Acho. Desatou a ganir, desliguei‑o e agora estou a ficar encharcado em suor.

- Percebo. Queres que eu sopre?

- Vai à merda.

Daniel soltou uma risada seca.

- Eu conheço uma loja que faz reparações, mas o teu aparelho pertence à Administração do Território e eles é que têm a obrigação de resolver esse magno problema. Fala ao Xavier.

- Já pensei nisso. Não será chato?

- Não. Ele há‑de conhecer alguém.

Despedimo‑nos. Segui a sugestão e telefonei a Wang Kam Meng, que, como seria de esperar, tem um primo na repartição competente. A minha pouca experiência em coisas chinesas e macaenses já me dá para entender que todos têm primos em todos os lados e que sem eles a vida não seria possível: guanxi, chama‑se a isto; relações. E entendo, também, que o primo de Wang Kam Meng lhe deve algum favor e que Wang, por qualquer razão, está interessado em que eu lhe deva um favor. Para evitar futuros e exagerados compromissos, terei de o convidar para jantar no Hyatt, que é o seu lugar favorito. Será um sacrifício, porque, por princípio, não gosto de comer em hotéis. Mas o ar condicionado vale bem um jantar no Hyatt.

Uma das muitas coisas que ainda não compreendi é o uso que Wang Kam Meng faz dos seus nomes. Em Lisboa, enquanto eu negociava ‑ se assim se pode dizer ‑ a minha vinda para Macau, toda a correspondência falava do dr. Wang Kam Meng e de tal maneira que de vez em quando ainda dou comigo a pensar nele assim. Porém, quando o conheci, apresentou‑se‑me como Xavier Wang. Isto não é extraordinário; eu já sabia que em Macau e Hong Kong muitos habitantes têm um nome chinês e outro cristão. Mas, penso eu, normalmente optam por usar uma combinação dos dois, ou apenas um deles. Ora, Wang Kam Meng (Xavier), diante de mim, já utilizou os dois, alternadamente. E porque o mundo exterior me tem sido remoto, pelo menos até à visão desta manhã, não consigo lembrar‑me das circunstâncias que poderiam explicar essa oscilação.

Wang Kam Meng (Xavier!) é magnífico na arte da reserva cordial. Conheci‑o antes mesmo de entrar em Macau ‑ era ele que estava à minha espera no aeroporto de Kai Tak, em Hong Kong. Quando o avistei, empunhando uma folha de papel em que estava escrito o meu nome, eu vinha a flutuar entre o tecto e o chão, ou pelo menos assim me parecia: atordoado com o barulho, o tempo passado nas filas de gente que se formam junto da verificação de passaportes, o tempo passado com o minucioso funcionário, um quase adolescente de tal modo fardado e garboso e escrupuloso e burocrático que se via bem como pesavam sobre os seus ombros todos os milénios de vida do Império do Meio e que tinha uma particular afeição pelo uso dos carimbos. Os meus medicamentos estavam a fazer pleno efeito ‑ eram os últimos que devia tomar, salvo em caso de crise aguda; Malaquias dera‑mos sobretudo para o voo "e depois, metes o resto na gaveta e esqueces".

Xavier encarregou‑se de tudo. Aliás, tinha já tratado de tudo com inteligência e eficiência. o seu sorriso de boas‑vindas também era inteligente e eficiente. já no carro, uma enorme limusina, a caminho do embarcadouro onde tomaríamos o jetfoil para Macau, disse‑me, como se eu não soubesse:

- Eu vou ser o seu assistente e também o tradutor. Vamos ter um gabinete no Palacete Amarelo...

- o espólio terá muitos textos em chinês? ‑ perguntei‑lhe, só para fazer conversa, porque já sabia a resposta.

- Ah, não sei ao certo, porque as caixas estão seladas e ainda estão na casa forte... mas julga‑se que até haverá mais textos chineses que portugueses...

Xavier disse isto com uma evidente satisfação. É natural: a existência de muitos textos chineses no espólio de Wang Wu não só justifica o seu contrato como realça a sua bagagem académica. Quase todos os macaenses cultos são bilingues, mas quanto à escrita é outra coisa. Na sua maioria, estudaram em escolas portuguesas. Aprenderam o cantonense com as velhas "amas", mas são analfabetos em chinês ‑ e quando penso nos três mil caracteres que constituem o necessário, só para as primeiras letras, não posso deixar de os compreender.

Talvez Xavier não seja propriamente um macaense, Não sei; ainda não tive a oportunidade (nem a vontade) de lho perguntar sem parecer indiscreto. Fala cantonense, fala mandarim e sabe decifrar os caracteres. Pouco mais sei dele além disto. Insiste, amavelmente, em que o trate por Xavier ‑ nada de dr. Wang ou de Wang Kam Meng, Mas a familiaridade acaba aí. o que, note‑se, não me incomoda, bem pelo contrário.

Como assistente, Xavier tem‑se mostrado mais que satisfatório. É pontual, é eficiente, interessa‑se pelo trabalho e até me ajuda na organização do espólio, uma tarefa complicada porque os documentos guardados nas caixas ‑ a julgar pela primeira, que já abrimos ‑ estão numa confusão indescritível; foi tudo arrumado sem método nem ordem, atirado indiscriminadamente para dentro daqueles belíssimos cofres de pau‑rosa (quem me dera um; mas vão para o museu do Centro Cultural, quando estiverem todos vazios). Impressionado com tanta aplicação, perguntei‑lhe ‑ foi essa a minha única curiosidade ‑ se o "Wang" do seu apelido estava relacionado com Wang Wu, ao que ele respondeu, rindo, que não tinha essa sorte.

Enfim, dou‑me bem com Xavier e até hoje, pensando bem, só tive com ele uma reserva. Ocultei‑lhe o meu interesse por um assunto histórico que tem pouco ou nada a ver com o espólio do Comendador: é a tomada do Passaleão e a figura trágica de Vicente Nicolau de Mesquita... mas sobre isso hei‑de escrever mais tarde.

Este interesse nasceu em Lisboa, há pouco tempo, quando, já muito longe dos dezasseis anos e do fascínio pelos barcos de flores, procurava, sem muita convicção, saber um mínimo decente sobre Macau. A ideia de trabalhar no espólio ainda não me atraía, porque nada me atraía. Portanto, é bem possível que nessa altura a história do Passaleão tenha conseguido salvar o (pouco!) que me resta de sanidade mental.

 

                               Dia 6, madrugada.

São cinco e meia. Acordei há pouco, a tiritar de frio. Os homens da Administração, que Xavier me arranjou, consertaram ‑ ou atamancaram ‑ o aparelho de ar condicionado, mas desregularam‑no. Quando voltei a casa, o cansaço era tal, estava tão atordoado pelo calor, que me atirei para cima da cama sem reparar em nada a não ser na frescura do ambiente e no prazer de respirar sem ter a sensação de me encontrar junto de uma chaleira com água a ferver. Adormeci e, enquanto dormia, a frescura transformou‑se em frio.

Voltei a casa, escrevi eu. De facto, saí outra vez, apesar de ontem ter planeado o dia e a noite como retiro absoluto. Foi uma segunda fuga, mas bem mais grave do que a da manhã de ontem, que me levou ao Hông‑kóng Miu.

Uma vez mais, sinto‑me maravilhado com a enorme habilidade que os nossos mais queridos familiares e amigos têm para nos fazer sofrer. Estava eu em relativa paz comigo e com o mundo; tinha telefonado a Xavier e recebido a promessa de auxílio imediato contra as fantasias do ar condicionado; tinha comido um almoço leve mas delicioso, os tim‑sâm do restaurante da esquina. Instalara‑me perto da janela, com o rio à vista, e começara a ler as minhas notas. Não as do trabalho (remunerado) sobre o espólio Wang Wu; as outras, que me divirto a considerar clandestinas, sobre a tomada do Passaleão. Não tenho ilusões, sei que não descobri nada de novo. Mas gostaria de contar essa história à minha maneira.

Portanto, li as notas e depois divaguei até chegar à recordação da rapariga que vi no templo do deus dos patos. No fim, veio a punição de todos estes desvios ‑ porque, acho eu, tudo o que é espontâneo e nos agrada acaba por ser punido, neste mundo chato: o telefone tocou, atendi e percebi imediatamente que era uma chamada intercontinental.

Dois segundos depois reconhecia a voz de Ritinha a dizer: "Está lá?”

- Estou

- Papá?

- Sim. Ritinha nunca se deixou desencorajar pelo laconismo alheio e não era agora que ia começar.

- Papá, estás com uma voz muito esquisita, Estás bem? Tinha saudades tuas!

E assim por diante. Se eu durmo bem. Se tomo remédios. Se estou calmo. Em dois minutos, Ritinha, com a sua voz fresca, vozinha meiga de filha saudosa, evocou e reconstruiu todo o pesadelo que me levou à fronteira da loucura. Quando, finalmente, desligou, eu estava muito próximo daquele célebre dia em que Malaquias, no consultório, me agarrou pelos colarinhos da camisa.

Daí a nova fuga, agora pela Macau nocturna, depois de dizer ao porteiro que viriam os técnicos da Administração, por causa do ar condicionado, e que lhes abrisse a porta. o porteiro acenou com a cabeça, sorrindo na sua cortez indiferença por mais um vago ocidental que tem a pouca sorte de não ser chinês. Eu chamo‑lhe Charlie Chan, por influência das minhas leituras policiais. Na realidade, ele chama‑se oficialmente Agostinho do Rosário e, obviamente, não percebe uma única palavra de português. Até o seu inglês é mais que problemático.

Por onde andei? Não me lembro muito bem. A não ser que estive no Hotel Lisboa e atravessei a imensa e barulhenta sala do casino e dei uma espreitadela num "sauna‑massagem". Ponho‑lhe as aspas porque isto é, evidentemente, um eufemismo.

As minhas intenções não eram sensuais, ou pelo menos não eram sexuais. Queria observar de passagem as jovens "massagistas" (muitas delas até sabem fazer massagens, ao que me dizem) que, expostas no "aquário", devidamente numeradas, esperam, no esplendor da sua quase nudez, que venha um cliente. Ele inspecciona, escolhe a menina número dois ou a menina número cinco e então a menina seleccionada vai reunir‑se ao cliente para lhe prestar os serviços incluídos na tarifa. E cujo pagamento representa, muito provavelmente, a sobrevivência dos pais, do marido ou dos filhos que ficaram na Tailândia ou nas Filipinas.

Está claro que é deprimente. A questão é que, quando vou inspeccionar os aquários, o que só me aconteceu duas vezes, já ultrapassei todos os limites do chamado estado de alma e não há depressão que me atinja.

Aconteceu‑me uma coisa curiosa. Não sei se na sala do aquário se à saída, quando iniciei o regresso a pé, comecei a ter a impressão de que estava a ser seguido.

... Quantas vezes já li isto, sempre em maus livros?! Adiante. Pensando melhor, não pode ter sido no sauna, porque, na minha memória, essa impressão está associada ao motor de um carro ‑ um carro que passou por mim várias vezes, pilotado por uma sombra feminina.

Ainda há dez anos, eu poderia pensar que era talvez o princípio de uma aventura (qual aventura! De um engate). Hoje, duvido que o meu cabelo grisalho desperte desejos à distância e à noite.

Aliás, duvido até de que tudo isto seja mais que uma impressão. E, como dizia um colega espirituoso que tive no liceu, "as impressões passam com o chichi".

Mas ao chegar a casa vinha vagamente preocupado e talvez por isso não demorei a reparar que alguém, na minha ausência, mexera nos papéis deixados sobre a secretária ‑ as notas sobre o Passaleão. Durante alguns minutos, fiz conjecturas. Até que me lembrei dos homens do ar condicionado: provavelmente, tinham precisado de mexer na secretária, para a arredar do sítio onde costuma estar.

Devo ter feito este raciocínio em voz alta, porque logo a seguir uma voz disse, atrás de mim:

- Foi isso, com certeza; eu é que não fui!

Voltei‑me; era Lei Siu Lam.

 

                                           6 DE AGOSTO

Lei Siu Lam estava enroscado confortavelmente a um canto da sala, na poltrona onde à noite me sento para ler. Como é seu hábito, tinha entrado pela varanda.

... E ao reler o que escrevi acima dou‑me conta de que a frase poderia muito bem aplicar‑se a um gato. o que não é de todo despropositado, porque os seus movimentos têm um pouco de felino.

Já se tornou um hábito Lei Siu Lam entrar‑me em casa sem avisar. Usa a nossa varanda quase comum ‑ quase, porque há uma vaga divisória formada por tijolos um pouco desconjuntados. Em todo o prédio se nota a subtil decadência típica dos edifícios que são propriedade do Estado.

- Uma recaída? ‑ perguntou ele com ar solícito.

- Muito perto disso, mas não cheguei lá, espero. Bebes alguma coisa?

Abanou a cabeça. ‑ Não a esta hora. Vim cá porque me pareceu que havia algum problema... saíste de repente, já tarde... tens a certeza de que estás bem?

- Estou tão bem quanto possível ‑ respondi, enquanto me servia de whisky. Sentia os seus olhos a pesar sobre a minha nuca. Em qualquer outra pessoa, eu não aceitaria a impertinência ‑ nem Daniel é tão inquisitivo e já somos amigos há muito tempo ‑ mas tenho de reconhecer: aceito praticamente tudo o que vem deste enigmático chinês e nem sei bem por que o faço.

No entanto, aquele olhar pressentido começava a incomodar‑me. Voltei‑me e sorri‑lhe para que não me julgasse ofendido.

- Não armes em psicólogo, A‑Lam! De psicologia, já tive a minha conta e muito mais!

Ele respondeu com um trejeito que lhe deu um ar de garoto. É verdade que Lei Siu Lam deve ser muito novo, se bem que aos olhos dos ocidentais os chineses pareçam, em regra, mais jovens do que são.

- Pronto. Não se fala mais no teu estado psicológico. E como vai o trabalho? Julguei perceber uma ponta de ironia. Então, pensei: foi ele, afinal, e não os técnicos do ar condicionado, que remexeu as minhas notas sobre o Passaleão. Ainda assim não consegui zangar‑me, mas achei que devia dar‑lhe a entender que descobrira a sua indiscrição.

- O que pensas tu desta história do Passaleão?

Lei Siu Lam sorriu.

- Pessoalmente, não penso nada... a História não é o meu forte. Está claro que como bom chinês eu nunca ouvi sequer falar no Pak‑Shan‑Lan. Acho que nunca existiu, foi uma coisa inventada pelos estrangeiros colonialistas, esses desprezíveis kwai‑lôus.

Olhámo‑nos e largámos a rir. Depois, ele levantou‑se e compreendi que se ia embora.

- A‑Lam, não vás ainda! Não queres saber nada do meu trabalho... o meu trabalho "sério"?

- Não. Sobre o Comendador Wang Wu, penso ainda menos que sobre o Passaleão. E é tarde. já posso ir para casa, porque já te vi rir... bom resto de noite, por pequeno que seja.

Saiu para a varanda no seu passo de gato e desapareceu. Deitei mais whisky no meu copo e instalei‑me na poltrona onde Lei Siu Lam estivera. E fiquei a pensar nele.

É a relação mais estranha que criei em Macau. Não; é a relação mais estranha da minha vida, se exceptuar aquela que tenho comigo próprio. Trato‑o por tu, chamo‑lhe "A‑Lam". Não me passaria pela cabeça dar um tratamento tão íntimo a Xavier. E no entanto, conheço Lei Siu Lam há menos tempo. Nada sei sobre ele, a não ser que é meu vizinho e que o conheci (coincidência!) no templo de Hông‑kóng Sân, quando lá fui pela primeira vez ‑ um europeu perdido entre chineses, porque o deus dos patos não é muito visitado pelos turistas, cujas atenções vão, para o Pagode da Barra ou para o Kun Iam Tong.

Nada sei de Lei Siu Lam mas ele conhece toda a minha vida porque lhe abri todas as portas. É muito estranho.

Tenho de estar às dez horas no Palacete Amarelo. Se me deitasse agora, dormiria tão pouco que me levantaria ainda mais cansado, portanto vou fazer uma "directa" e ocupar este tempo a escrever. É uma receita de Malaquias: Terapia e disciplina. Se não tiveres outro assunto, podes sempre escrever para a posteridade as tuas impressões de Macau.

Que gracinha, pensei logo. Os livros de viagens com brilhantes e penetrantes descrições já tinham sido ultrapassados há muito tempo pelos álbuns fotográficos; mas hoje, o vídeo tomou‑os pré‑históricos. E agora, desde que cheguei, há uma outra questão. As minhas impressões de Macau, embora agradáveis, são tumultuosas. Há demasiada informação, demasiados contrastes, demasiadas situações novas para mim, preciso de tempo para digerir tudo isto.

Mais: essas impressões não são alegres nem optimistas. Há muito de fado português no que eu sinto aqui em Macau.

É o saque, diziam‑me em Lisboa; aquilo é sacar enquanto se pode, antes de 1999. É abanar a árvore das patacas, a ver quem saca mais! Claro que encontrei essa febre, a natureza humana é aquilo que é e eu não esperava outra coisa, estarei diminuído mas ainda não dei em estúpido. Entretanto, é sintomático que em Lisboa os palradores só falem disso. Falam disso, aliás, com secreta mas discernível inveja. o resto não lhes interessa, nem sabem que existe.

E o resto são as pessoas em cujos rostos se lê um suave e sorridente desespero, a consciência de que vivem os últimos anos felizes neste pequeno mundo que é seu e que vai acabar.

São muitos, esses rostos. E o pior, o que perturba mais, é que os rostos, aqui, não são uma abstracção ‑ correspondem a pessoas reais. o cronista que cinzelou a expressão "muitas e desvairadas gentes" não parece ter‑se preocupado com um pormenor: os homens e mulheres que formam as desvairadas gentes têm uma individualidade e uma alma ‑ que eu vejo nestas ruas, atormentada.

Macau nunca foi conquista. Viveu quase sempre do compromisso, da cedência, dos favores ‑ em regra, favores comprados. Mas era, ainda assim, um posto avançado do império. Com a desagregação final, aqui vieram aportar muitos daqueles que não puderam ou não quiseram regressar à Europa, depois de toda uma vida passada no espaço imperial. Senti bem isso quando Daniel me levou ao restaurante angolano: no Território, há mais, sempre houve muito mais do que Portugal e a China; aqui, toca‑se todo o antigo extremo português, Angola, Moçambique, Goa, Timor, Japão, Malásia, as sete partidas. Hoje, essa gente veio aqui parar à falta de melhor sítio, mas muitos encontraram mais do que um recurso: encontraram uma resposta para o seu dilema de portugueses‑distanciados, para quem Portugal é uma tradição e uma saudade, mas seria um calvário insuportável se tivessem de o viver no dia a dia.

E depois, há os macaenses. Os filhos da terra. Essa gente estranha, ignorada, portuguesa, asiática, um pé no Tejo e outro no Rio das Pérolas.

Este é um santuário último, onde é possível encontrar as tais desvairadíssimas gentes que às vezes já não se entendem na língua mas ainda partilham uma tradição. E este santuário, o último, vai desaparecer. Com ele, diz‑se, desaparecerão o jogo, a vida nocturna, a prostituição consentida (tenho as mais sérias dúvidas quanto à prostituição; a corrupção e a droga, essas, estão evidentemente para ficar). Mas também desaparecerá a vizinhança. E também tudo aquilo que os nossos políticos fingem julgar indelével: as marcas da presença portuguesa, as misturas ocidente‑oriente e, entre muitas outras coisas, a querida Fundação Cultural Luso‑Chinesa, minha actual e momentânea entidade patronal, que me paga ordenado, carro e motorista. Com ela, esfumar‑se‑á também o inefável MM, aliás Martinho Martins, seu vice‑rei nesta terra; talvez a única consequência completamente positiva da futura integração na China, mas também para que quereriam os chineses aquele cretino?

Macau passará a chamar‑se definitivamente Ou‑Mun. As pretensões de "continuidade cultural" são só isso mesmo, pretensões, a menos que haja na China, não uma mudança de regime, mas um milagre de alquimia. Serão varridas pelo irresistível sino‑centrismo, que não conhece outra civilização sólida e real que não seja a chinesa.

Logo nos primeiros dias após a minha chegada, Daniel levou‑me a Zhuhai, a "zona económica especial" da República Popular que faz fronteira com Macau e que, inicialmente, poderia ter sido imaginada como tampão destinado a proteger o Celeste Império da ocidental decadência ‑ mas que, hoje, é o verdadeiro paraíso da corrupção, a ponto de deixar Macau a perder de vista. Passámos a Porta do Cerco, cumprimos as complicadíssimas formalidades no posto da RPC e depois continuámos ‑ a pé, já que iríamos tomar um táxi no outro lado. De repente, Daniel fez‑me parar.

- Nunca te esqueças de duas coisas. A primeira é que a Porta do Cerco não foi levantada por nós para impedir os chineses de entrar; foi levantada por eles para nos impedir de sair. A segunda é isto... olha.

E apontou. Reparei então que havia uma larga estrada de duas faixas, uma verdadeira auto‑estrada, vinda de Zhuhai e que terminava abruptamente, sem sentido, junto do posto fronteiriço, a poucas centenas de metros do arco monumental erguido na Porta do Cerco, à memória do governador Ferreira do Amaral e da proeza de Vicente Nicolau de Mesquita.

- Deixa ver se compreendi ‑ arrisquei; ‑ em 1999, o posto é removido, a estrada continua...

- ...E a Porta do Cerco, mais tarde ou mais cedo, vai abaixo ‑ completou Daniel. Recomeçámos a andar.

Irá mesmo abaixo? ‑ pergunto‑me. às vezes duvido de tanta certeza. Seria um pecado grave subestimar a inteligência dos chineses.

E depois, não me compete filosofar sobre Macau, os macaenses, a China. Compete‑me, humildemente, organizar o precioso espólio documental e literário do Comendador Wang Wu.

 

                                Mais tarde.

Pensar em Wang Wu e no seu espólio levou‑me a interromper a escrita e a colocar perto da mesa a segunda caixa de documentos, que trouxe do Palacete Amarelo e que já teria aberto se não me desviasse a ler e a escrever sobre o Passaleão ‑ e também a ter recaídas e a fazer especulações histórico‑filosóficas. Pensei que uma madrugada perdida para o sono conviria perfeitamente para um primeiro contacto com os papéis. Ia, portanto, romper o velho lacre que ainda ostenta, bem visível, o selo chinês da defunta Irmã Maria da Conceição... ou seja, o selo da sr.ª Wang. Mas, de repente, a minha atenção desviou‑se. No silêncio quase absoluto, ouvia‑se o ruído muito suave de um motor de automóvel.

Não sei por que razão fui até à varanda espreitar a rua. Quando me debrucei, um carro ‑ um Honda vermelho, descapotável, com a capota levantada ‑ arrancou numa grande chiadeira de pneus.

Voltei para dentro e já não abri a caixa de documentos. Em vez disso, deixei‑me ficar de pé, a olhar a rua e a primeira luz da manhã. É talvez uma fantasia minha, mas aquele Honda vermelho lembra‑me o carro que eu julguei ver a seguir‑me quando saí do sauna. Claro, não tenho a certeza de nada; é bem possível que as válvulas do meu entendimento, ainda mal não reajustadas, tenham recomeçado a abrir e fechar quando devem.

Penso que vou telefonar para Lisboa e pedir a Malaquias, como um favor pessoal, que proíba à minha família qualquer espécie de comunicação comigo até nova ordem e nunca antes. Porque é evidente: o telefonema de Ritinha atirou‑me de novo para uma região qualquer próxima da Estaca Zero.

 

                                         9 DE AGOSTO

Escreve, escreve, dizia Malaquias. Homem, é a tua melhor terapia, é o que sabes fazer... tem juízo e escreve, é esta a minha receita. Vens de Macau como novo, vais ver.

Claro, omitia convenientemente as outras receitas, os comprimidos para dormir, os comprimidos para acordar, os comprimidos para pensar, os comprimidos para ficar bem disposto ‑ e os comprimidos que devia tomar para poder deixar de tomar os outros comprimidos. No aeroporto, à despedida, em público, tudo isso ficava em silêncio para lhe dourar a imagem do abnegado médico‑amigo‑e‑compreensivo. Odiei‑o. o que me afasta de Malaquias é ele ser médico, um médico daquela geração a partir da qual os doentes foram substituídos pelos utentes dos serviços de saúde. E o que por vezes me aproxima dele é o resíduo de uma juventude partilhada, aquilo a que à falta de melhor se terá de chamar amizade.

o estado normal de Malaquias é o de médico. Admito que tem momentos de lucidez e humanidade: quando me agarrou pelo colarinho da camisa e me atirou contra a parede do seu consultório estava num desses momentos. Infelizmente, a crise passou‑lhe e no aeroporto já ele me dizia: escreve, escreve. Era o médico outra vez. Por isso, passei‑lhe um cheque.

Malaquias não tem a mínima ideia do que seja escrever. Mesmo como "terapia".

É verdade que estou a escrever e que isso talvez seja um bom sinal, mas faço‑o muito simplesmente para procurar satisfazer uma necessidade imediata e prática: preciso de ordenar as ideias. Fundamentalmente, preciso de tentar perceber o que me aconteceu há meses atrás, em Lisboa.

Ao partir‑se, o pente fez "crrrac". Desviei os olhos do espelho e contemplei bovinamente a minha mão que se cobria de sangue porque os dentes de plástico tinham‑me apanhado dois dedos.

(Foi a primeira recordação que tive quando acordei na clínica. E assim, por muito ridícula que seja a ideia, tenho de começar por esse pente partido.)

Lena entrou na casa de banho e começou a dizer o seu clássico e quotidiano:

- Então, nunca mais te despachas?

Que, dessa vez, teve uma variante. Assim:

- Então, nunca... mas que é isso? Que horror, o que é que tu fizeste?

Sinceramente, pareceu‑me que ela estava mais irritada por ver sangue no lavatório logo pela manhã do que preocupada com o que pudesse ter‑me acontecido. Mas talvez fosse injusto, porque talvez já não estivesse "bem".

E lembro‑me de ter tentado uma desculpa:

- É a merda da barragem, não dormi a pensar nisso. A desculpa mais esfarrapada dos dois hemisférios. Para Lena, as barragens não existem e a barragem de Pedra Moura não era excepção ‑ e se ela casara com um jornalista suficientemente idiota para sofrer por causa de uma barragem, já espiara esse pecado havia muito.

Hoje, compreendo que a história de Pedra Moura não podia ser um factor decisivo para o que aconteceu. Mas ajudou a colocar‑me na rampa de lançamento: eu trabalhara muito, sofrera muito com aquela série de reportagens sobre uma barragem quase inútil, feita sobre um rio cujo caudal já vem esgotado de Espanha e que só era construída para que se vendesse e comprasse alta tecnologia e cimento armado. Para fazer o meu trabalho, suportara (o que é inevitável mas sempre doloroso) ministros e engenheiros yúppicos e sorridentes, de pasta de couro e água‑de‑colónia‑selvagem. Percorrera com amor e saudade antecipada a vila que ia desaparecer (para isso sempre se arranjaria água), o Convento do Espírito Santo que ia ficar submerso. Passara dias de fúria a convencer o jornal de que valia a pena continuar e queimara noites a escrever, na obsessão de encontrar o tom e o cortante que conseguissem salvar Pedra Moura. Mas, claro, o milagre não aconteceu, os milagres só acontecem por engano. Assisti à inauguração da barragem e voltei a Lisboa.

Isto foi Pedra Moura, para mim. Mas, dias depois de fechar esse trabalho, estava eu na Redacção, passou‑me pelas mãos uma "carta ao director". Um homem ‑ um velhote, compreendia‑se logo ‑ protestava contra o secretário de Estado do Ambiente, que fizera uma descoberta: as gaivotas são piores que os ratos. E agora, andam a acabar com as gaivotas, escrevia o velho. As gaivotas que eu ia alimentar todos os dias à beira do Tejo, as gaivotas que andaram por aqui durante séculos, milénios, até que um secretário de Estado decretou que elas eram piores que os ratos. Primeiro, desapareceram os golfinhos, agora mataram as gaivotas. o Tejo é um carreiro de água morta. Por que é que fazem isto?

Não sei, pensei eu, ao entregar a carta do velhote a alguém que ia metê‑la em computador. Também não sei nada sobre gaivotas, mas tenho vontade de ir à procura deste velho e sentar‑me com ele à beira do Tejo morto e talvez chorar com ele a morte dos rios. Começo a compreender que é possível a gente desgostar‑se da Terra.

Portanto, eu já estava assim quando decidi refugiar‑me em Pedra Moura.

A cruzada inglória contra a barragem arranjara‑me simpatias. Um professor que era da região e tinha por ali uma casita ofereceu‑me esse retiro, quando eu quisesse.

Meti férias. Dei a desculpa de que precisava de acabar "o Exílio", o meu quinto romance, já anunciado, ainda incompleto. De facto acabei‑o ali, mas era uma desculpa. Do que eu precisava era de pensar sobre mim e sobre o mundo. o que pode talvez parecer pedante, não sei; apenas sei que era uma necessidade. Havia já uns anos que eu andava a fugir a certas perguntas ‑ uma fuga difícil porque eu próprio era o perguntador.

Comecei a responder‑me antes mesmo de me refugiar em Pedra Moura. E foi por isso que rompi a ligação com Paula.

Tivemos o último encontro na casa dela, na sala moderna e sóbria decorada a verde‑claro (sempre a achei fria de mais). Foi um desastre inesperado: sob grande pressão, acabei por ser honesto, imagine‑se, e disse‑lhe que deixara de poder esquecer que eu tinha quase cinquenta anos e ela quase trinta e que não conseguia suportar a imagem mental de nós os dois na cama a fazer amor. Que, além disso, não era amor e sim sexo. E que começara a angustiar‑me o sexo com poucos antecedentes e nenhuns consequentes.

Ela perguntou‑me se eu sofria de impotência; respondi‑lhe que antes sofresse. Se queria partir para outra; disse‑lhe que não; se (isto com ironia) me reapaixonara pela minha mulher; de certa maneira, reconheci; mas não sabia explicar como ou porquê. Seria talvez o princípio da velhice, arrisquei, a sorrir, para disfarçar um sentimento patético, ridículo mas desgraçadamente verdadeiro.

Paula não acreditou. E quando eu saí de Lisboa levei comigo mais aquela matéria de reflexão. Por uma vez, eu dissera a verdade: olhava‑me ao espelho, acompanhava a evolução do meu corpo, e cada vez me parecia mais inadequada a relação que mantinha com Paula. Eu via‑nos aos dois durante o acto, como se fosse uma testemunha independente, como se estivesse no tecto do quarto, a assistir. E não gostava do que via. A velha história: se queres saber como vais ser daqui a vinte anos, pega num espelho e inclina‑te sobre ele. Eu já não precisava de me inclinar.

Não me revoltava, mas ansiava por manter‑me em harmonia com o mundo. Pelo menos neste particular, queria fugir à nossa bela civilização mediática, que está a fazer de nós pouco mais do que adolescentes retardados obcecados pela imagem da juventude, a beleza da juventude. E obcecados por falos e vaginas, sob uma capa de psicologia suburbana.

"Como? Ele confessa que não tem relações todos os dias? Ele não é assinante do Sexofone? Ele não entra numa orgia por mês? Mas minha querida, isso é horrível, que pouca vergonha! Decididamente, há gente capaz de tudo, neste mundo!"

A nossa geração é a contrapartida perfeita da Sra. D. Patrocínio das Neves. É tão lamentavelmente ridícula como ela.

Passeava sobretudo junto da nova albufeira, olhando as árvores que iam morrer por excesso de água enquanto a montante e a jusante outras árvores morriam à sua míngua. Preferia aquele ponto da margem mais próximo do local onde sabia estar submerso o Convento do Espírito Santo.

Como se quisesse colher no ar os últimos queixumes de uma fé perdida. Porque, sabia bem, a questão não era a perda do que me restava de juventude, e sim a quebra de relações com o transcendente.

Assim mesmo: quebra de relações, como se fosse um amuo de senhoras vizinhas. Eu jamais cometi a idiotice profunda de me proclamar ateu, graças a Deus. Mesmo quando, no liceu, descobri Nietzsche e entrei na dança do super‑homem e da morte de Deus, nunca deixei de viver, essencialmente, fundamentalmente, na ideia da ligação, da ponte entre o homem e a divindade. Era um falso nietzscheano e um verdadeiro religioso ‑ porque ser religioso é isto, tanto pela etimologia como pela essência.

E todas as voltas que dei, na vida como no pensamento, acabavam por deixar‑me no mesmo sítio. Até que veio um dia ‑ em que a idade, uma nova consciência, um novo olhar sobre o mundo, uma nova guerra nesse mundo, uma nova morte estúpida, não sei bem; tudo isso ao mesmo tempo, talvez, provocou aquilo a que chamei, e chamo, a revelação negra.

E a Revelação Negra deixou‑me só e nu perante um mundo que me descobria a sua principal qualidade. Catástrofes, doenças, morte, fome, guerra, revolução, o nosso humano trivial, uma cascata de que a barragem de Pedra Moura não representou mais que uma gota de água risível de tão pequena. Essa principal e primordial qualidade, descobri então, é a crueldade absoluta e absurda do mundo.

Nunca se discorrerá suficientemente sobre a crueldade e o absurdo, pensava eu durante os meus passeios em Pedra Moura. Há partes do mundo onde os homens se ocupam por inteiro no esforço de sobreviver ‑ não para depois fazer outra coisa, mas somente para continuar a sobreviver. Esse esforço é mais doloroso mas não mais fútil que o da esmagadora maioria dos habitantes do mundo próspero, que só sabem gozar por interpostos media aquilo que outros fazem diante das câmaras de TV, seja missa solene em Roma ou orgia transmitida por satélite. Note‑se que os que participam directamente na missa ou na orgia também não sabem muito bem ao que andam. E, no topo, os homens de sucesso. Como odeio a expressão.

Não tenho ilusões. Nada disto é original ou profundo. Mas em Pedra Moura este processo de reflexão teve pelo menos uma dignidade especial, porque era verdadeiramente sentido, tanto quanto pensado.

Lembro‑me de estar sentado à beira da água opaca, a fumar o cachimbo, a morder um caule de erva que por qualquer razão sabia a fénico e a observar uma oliveira moribunda que emergia da água acastanhada. A questão do sofrimento humano é talvez a chave, pensei. Tanto sofrimento gratuito. Evidentemente, a existência de outro plano de vida, para além do físico, pode, ou poderia, justificar o que se passa por cá e filtrar o absurdo. De outra forma, o processo evolutivo que levou um animal ao ponto de se questionar a si próprio e de sofrer ou Ter medo apenas por antecipação, o que é uma construção abstracta, esse processo não tem sentido nem finalidade.

E ainda assim, ainda admitindo a vida "meta‑física", há falhas no sistema. A menos que a reencarnação seja mais do que uma bela teoria, nada faz sentido ‑ para que a vida humana, se quando finalmente estamos preparados, limados, burilados, é então que entramos em declínio?

Muitas destas reflexões foram anichar‑se nas páginas de "O Exílio", que eu terminei facilmente, ao fim de duas semanas. Cinco dias mais tarde, Lena e Ritinha vieram buscar‑me. Nada fora combinado, mas elas vieram. Nessa altura, ao vê‑las sair do carro ‑ com certeza que Lena passara a viagem a dizer: "Não vás tão depressa!" ‑ senti‑me submerso numa onda de ternura. E também de amor e de remorsos por todos os abandonos, todas as hipocrisias, egoísmos, mentiras, sacanices em 25 anos de casamento, há tempo para tudo.

E enquanto Lena e Ritinha arranjavam as minhas coisas dentro do saco ‑ tu não sabes, fica tudo amarrotado ‑, eu olhava‑as e pensava, não há mais nada, há só isto, o termo‑nos uns aos outros, enquanto for possível, apesar de tudo, contra todas as probabilidades. Não há outro conforto, porque não sabemos para onde vamos, não sabemos nada, a não ser que estamos aqui.

Voltei para Lisboa. Aparentemente, a crise passara, fora superada (a expressão está na moda, mas acho que não distinguem muito bem, por exemplo, entre uma crise superada e uma crise soprada). Porém, cedo reparei que entre mim e os outros havia algumas discordâncias evidentes.

Ninguém acompanhava ou compreendia os processos do meu raciocínio. No entanto, o meu raciocínio parecia‑me simples, claro, banal, mesmo: se é cada vez mais certo que nada temos de seguro, que a nossa vida não tem apoio e a nossa única certeza é a dúvida, então há que saber fazer de cada pequeno momento uma pequena alegria, para ir afastando, enquanto for possível, a escuridão e a loucura.

Esta concepção pessimista produz um optimismo quotidiano que tenta fazer de cada ocasião uma boa ocasião. Por exemplo: ter o cachimbo aceso, com o fornilho quase em brasa bem apertado na palma da mão. A dor pode transformar‑se numa sensação exaltante, se a considerarmos pelo prisma certo. o prisma certo é, claramente, aquele que vê a dor, quando procurada e experimentada por vontade própria, como prova de consciência superior (os animais nunca a procuram); e essa experiência, por sua vez, refina e apura a nossa capacidade para apreciar a ausência da dor, que de outro modo é desvalorizada, por ser confundida com uma (aliás inexistente) "normalidade".

Ninguém compreendeu isto. Ninguém compreendeu a razão e a necessidade das manchas que começaram a aparecer nas palmas das minhas mãos, ninguém compreendeu como essas queimaduras eram importantes para manter a minha vida em equilíbrio, recordar‑me a felicidade e a intensidade dos momentos passageiros.

Apesar dessas incompreensões, consegui ter semanas inteiras de festa: levantava‑me mais cedo para preparar o pequeno‑almoço de Lena; saltava da cama a meio da noite para ouvir o silêncio da rua (que sempre me fascinou); e, sobretudo, festejava todas as ocasiões que eu considerava especiais ‑ fazia grandes e pequenos jantares para inaugurar um quadro novo ou um novo aparelho de cozinha.

Este hábito saudável não foi compreendido. No dia em que convidei os amigos mais chegados para inaugurar a minha nova escova de dentes, houve um conflito aberto. Lena disse‑me que eu estava a exagerar e que ela não compreendia, não via onde estava a graça. Houve algum mal‑estar. Mas escapei ‑ uma última vez ‑ com o lançamento de "o Exílio": entrevistas, um cocktail, Lena e Rita sorridentes, ao meu lado...

A crítica arrasou‑me.

Nesse mesmo dia em que saiu o primeiro ataque, Lena soube da existência de Paula (ela estivera no lançamento do livro mas mal nos faláramos, não havia nada a dizer). E então, enquanto alguns amigos telefonavam consoladoramente a proclamar a estupidez dos críticos e a minha óbvia e necessária superioridade, Lena anunciou‑me que se fartara definitivamente e que queria o divórcio.

Talvez não estivesse a ser sincera. Respondi‑lhe qualquer coisa, mas não me recordo das palavras. Só me lembro, mais tarde, da sua expressão de medo (sempre foi exagerada) a olhar para mim; e de Ritinha com a cara coberta por um lençol de lágrimas. Talvez houvesse mais gente. Todos tentavam parar‑me e eu, inocentemente, só queria passear de um lado para outro, na minha sala. Por que não me deixavam passear de um lado para outro, na minha sala? o facto de eu estar descalço e de haver espalhados pelo chão dois ou três copos de cristal partidos não devia levar ninguém a essa intromissão. Eram os meus pés e eram os meus copos. E o sangue que se espalhava pelo tapete também era meu. o próprio tapete era meu, tinha dado uma bela festa para o inaugurar.

No dia seguinte, na sala de espera, tive um escasso meio minuto de sossego. Mas logo, instantes depois, Malaquias, que me puxara de rompante para dentro do seu gabinete, disparava ordens à enfermeira, agarrava‑me pelo colarinho e atirava‑me contra a parede a gritar:

- o que é que tomaste, meu grande filho da puta?! Diz o que tomaste!

o resto não tem interesse de maior. É lavagem de estômago e de cérebro.

Meses mais tarde, quando saí da clínica, foi ainda Malaquias que se lembrou de um comum amigo, Cristiano (um daqueles "rapazes do nosso tempo" com que nos ridicularizamos a partir de certa idade). Cristiano tinha recebido o primeiro número da lotaria sob a forma da presidência de uma Fundação Cultural Luso‑Chinesa, com dupla sede em Lisboa e Macau. E Malaquias pensava em Macau porque sabia que tão cedo eu não poderia viver e trabalhar em Lisboa. Quanto a mim, essas preocupações tinham cessado de me atormentar. Tudo estava bem e tudo estava mal ao mesmo tempo; havia uma trégua com Lena, embora eu não soubesse ainda se a causa era a solidariedade e algum amor, se a dificuldade prática de se divorciar de alguém que está internado numa clínica em tratamento intensivo.

Malaquias, que ainda não tivera, comigo, a sua recaída de médico, deve ter falado seriamente com Cristiano porque ele telefonou‑me e nem esteve com rodeios: amanhã, na Fundação, às dez horas? Preciso muito de falar contigo, não armes em parvo.

E quando chegou esse amanhã glorioso, lá estava eu a pisar os mármores e as alcatifas da Fundação Cultural Luso‑Chinesa, seguindo os passos elegantes de uma secretária imensamente bem, daquelas que Cristiano prefere. Depois, no seu gabinete sumptuoso, ele foi direito ao assunto:

- Tenho um trabalho para ti em Macau.

- É longe ‑ comentei sobriamente.

- o ideal, segundo diz o Malaquias. E depois, não ficas sozinho... lembras‑te do Daniel? Dragões da Huíla?

Claro que me lembrava do Daniel, respondi‑lhe. De vez em quando até nos escrevíamos.

- óptimo. Então, sabes que ele continua em Macau e pode sempre segurar‑te na mão quando tiveres pesadelos ou lá o que é que tu tens.

Cristiano não mudara nada com os anos, continuava a ser o mesmo carro de assalto blindado que sempre fora. Mas isso fez‑me bem, após tantos meses de palavras cuidadosas ditas em meios tons.

- Vamos ao que interessa ‑ prosseguiu Cristiano infatigavelmente, enquanto acendia um charuto, depois de eu recusar um. Recostou‑se e disparou:

- Wang Wu: ouviste falar?

- É um computador?

Ele não perdeu tempo a rir:

- Não, não computa nada. É ou antes, era o Comendador Wang Wu. Um gajo riquíssimo, letrado, negociante, industrial, benemérito, membro do Leal Senado de Macau, estás a ver o esquema. Morreu aí por volta de 1920... não, 21. Mas nessa altura já era quase centenário. Ainda hoje é muito conhecido em Macau, deixou orfanatos, asilos, hospitais, essa trapalhada toda. Bom, mas o que ele tem de especial é isto...

E para dar maior ênfase ao discurso, Cristiano debruçou‑se sobre o tampo da secretária.

- Noventa e nove vírgula nove nove nove por cento dos letrados chineses não se dariam ao incómodo de sequer aprender a falar português, e ainda menos de o escrever. Mas este Wang Wu fê-lo... não se conhece bem toda a vida dele, sobretudo não se sabe bem (eu, pelo menos, não sei) como é que ele apareceu em Macau e como é que enriqueceu. De qualquer modo: nos últimos anos do século passado e nos primeiros anos deste século, o nosso amigo Wang esteve muito ligado ao Expediente Sínico.

Por momentos, desorientei‑me e a minha interrupção não foi sequer uma piada:

- Porque tu acreditas que há expedientes honestos e sinceros?

- Muito engraçado. o Expediente Sínico, com S, era uma repartição do Governo de Macau que tratava dos assuntos chineses. E aí, está claro, punha‑se sempre o problema da tradução de textos... estás a ver? Bom, o rapaz Wang colaborou com o Expediente Sínico e isso exigiu‑lhe um conhecimento perfeito do português.

- Porquê perfeito?

Cristiano arreganhou os lábios num sorriso: percebi que esperava aquela pergunta.

- Porque de outra maneira seria um desastre. As diferenças entre o chinês e o português são tão profundas que um pequeno erro tem consequências imprevisíveis. Há tempos, houve um barbeiro em Macau que quis anunciar na montra os preços da lavagem e do corte de cabelo. Sabes o que ele escreveu? "Lava e corta cabeças ‑ cinquenta patacas". É para veres.

Contada a anedota ‑ que já estava com certeza previamente engatilhada ‑, Cristiano prosseguiu:

- Como dizia, o Wang Wu da minha história aprendeu muito bem o português. E então, temos este caso singularíssimo: um tipo que escreveu nas duas línguas.

- Escreveu o quê, exactamente?

Ele reacendeu o charuto antes de responder:

- Em português, há notícia de artigos publicados em jornais da época, jornais de Macau e de Hong Kong... mas ao certo, não sabemos... porra, não me interrompas, deixa‑me vender o peixe por atacado! É assim: quando o homem bateu a bota, a viúva herdou tudo... e a seguir, o que acontece? Uma coisa incrível: a gaja converte‑se ao catolicismo e vai para freira, imagina! E dá boa parte da fortuna aos pobres, a obras de caridade! E faz um testamento em que lega o património que lhe resta à Santa Casa da Misericórdia de Macau! Bonito, não é?

- Comovente. Eu... Mas Cristiano não estava disposto a ceder a palavra. Tudo, incluindo a casa onde vivia, o famoso Palacete Amarelo, e... é aqui que entramos no vivo do assunto: tudo, incluindo o espólio documental do marido. Doze cofres de madeira, numerados e selados, cheios de papel e de sei lá que mais. E há cerca de 60 anos que esses cofres têm estado em poder da Misericórdia, fechados a sete chaves e quase esquecidos...

- Até que...?

Ele deitou um olhar ao relógio.

- Chiça, tenho de me despachar... uma audiência em Belém, por causa de... não interessa. Até que entra em cena o neto de Wang Wu. E quem julgas tu que ele é? Nada mais nada menos que um senhor chamado Richard Wang!

- Ah, esse? o tipo de Hong Kong, o milionário?

- Não é de Hong Kong, tem a base lá... mas é esse, pois. Eles são milionários de pais para filhos. Este Richard Wang fez fortuna por conta própria. já está com 70 anos bem puxados... adiante: de repente, o gajo bate à porta da Santa Casa, bate à porta do Governo de Macau, bate à nossa porta e diz: meus caros senhores, onde está o espólio do meu avô? Por que é que o Palacete Amarelo está a cair aos bocados? Eu compro tudo isso, já! Mas surge uma dificuldade ‑ o testamento da megera, a vóvó Wang, vulgo Irmã Maria da Conceição. Há uma cláusula que diz: o espólio não pode ser alienado, a Misericórdia não pode cedê‑lo; sobretudo, nota bem, não pode cedê‑lo à família do Comendador! Rica avó, han?

Novo olhar ao relógio, novo chiça. ‑ Para encurtar: daí a um mês, todos nós assinávamos um protocolo: o palacete é restaurado, bota‑se lá mais um centro cultural onde há‑de ficar instalado o espólio do avô Wang Wu. E o espólio tem de ser estudado. E o que for de interesse tem de ser publicado, para edificação dos povos. E aqui, finalmente, entras tu. É preciso um nome com prestígio, um especialista das letras...

- Cristiano, eu sou como o Eça: de chinês, só sei dizer chá e mandarim.

- Claro. Para o chinês tens um assistente local. o Governo de Macau dá o teu alojamento; nós, Fundação, damos o teu ordenado (um bom ordenado, já vamos falar disso) mais um carro com motorista. A Misericórdia dá as autorizações e põe ao teu dispor o padre Frazão, que foi durante todos estes anos o responsável pelo espólio; é um erudito, um velho residente de Macau. E o Richard Wang paga o resto, e não é pouco. Mas tu não dependes dele, já se vê. Dependes da Fundação, mais precisamente de mim. Tens autonomia para fazer o trabalho como entenderes. Que mais queres?

Disse‑lhe que mais nada.

 

                                       25 DE AGOSTO

Já sei quem é a minha visão do templo de Hông‑kóng Sân.

Ontem à noite, apesar do terrível calor húmido que tem feito, apesar, mesmo, do vento forte e quente, senti‑me com forças suficientes para ir a uma recepção no Palácio da Praia Grande, fastígio social praticamente irrecusável porque já escapei a três convites anteriores. Portanto, ao entrar, segui o roteiro: cumprimentos e conversa com o governador, conversa de circunstância com um ou dois secretários‑adjuntos ‑ e depois, ai de mim, caí em poder de MM.

Creio já ter escrito isto antes, mas à cautela repito‑o para que a posteridade não esqueça: MM é o dr. Martinho Martins, a figura mais inefavelmente idiota de Macau, incluindo as ilhas da Taipa e de Coloane. É também o director residente da Fundação Cultural Luso‑Chinesa, o que me impede de o evitar por completo. É, como se diz por cá, um "filho da terra" (eu, dele, penso outra coisa). Sempre que avisto aquela silhueta curta e confortável, cada vez que vejo aqueles olhinhos oblíquos e piscos, cada vez que ouço aquela voz empolada e satisfeita, penso que Macau, uma terra que tem produzido filhas e filhos de grande beleza, teve neste inominável aborto o castigo de todos os seus pecados. Cristiano, que conhece bem MM e que me conhece ainda melhor, arranjou as coisas de modo a reduzir ao mínimo as necessidades de contactos entre nós.

MM saiu‑me ao caminho na altura exacta em que eu engolia uma tapa de caviar e nunca lhe perdoarei ter‑me estragado esse prazer porque o caviar é a única coisa que me torna suportáveis as recepções.

- Então, senhor doutor, há muito tempo que não o vejo... (isto em tom de piada afável; ele teve de aceitar mas nunca engoliu a grande dose de autonomia com que vim de Lisboa) e corre tudo bem, sem problemas?

Respondi‑lhe que andava tudo sobre rodas. Condescendi mesmo em dizer‑lhe que já estavam analisados todos os documentos da primeira caixa. Ele fez um "haaa" extático, como se os documentos da primeira caixa contribuíssem para a sua bem‑aventurança pessoal; eu antevi uma salva de perguntas chatas ou impertinentes e comecei a preparar a evasão, mas de repente o olhar de MM iluminou‑se com um outro interesse e acenou, todo sorrisos, a alguém que passava atrás de mim:

- Rosa! Rosa, queria apresentar‑lhe...

Voltei‑me, resignado a sofrer a apresentação; e, claro está, era ela. MM papagueava os meus méritos: jornalista... escritor... já leu? Ah, não deve perder! Depois, para mim:

- A Rosa Leong é a melhor jornalista de Macau... (risos, protestos) está na Redacção da "Nova Abelha"... mas já se conheciam?!

Devo ter olhado de algum modo especial. Apressei‑me a explicar:

- Não nos conhecíamos, mas eu já a tinha visto...

Calei‑me porque MM desinteressara‑se da questão. Alguém lhe fizera um sinal, esferas mais altas solicitavam‑no e ele deixou‑nos.

- Hông‑kórig Sân? ‑ disse eu, para ver se ela se lembrava. Rosa Leong sorriu. ‑ Ah, então foi aí! Bem me parecia também que já nos tínhamos visto...

Após este reconhecimento, de comum e tácito acordo, largámos um caudal de frases convencionais que só foi interrompido por um jovem e impecável assessor obviamente interessado em meter conversa com Rosa. Veio anunciar, risonho, como se fosse uma boa nova, que acabava de ser dado o Sinal Um de tufão. E esclareceu: era o "Barry" e vinha, mais ou menos, na direcção de Hong Kong.

- É o seu primeiro tufão? ‑ perguntou‑me Rosa.

- Receio bem que sim.

Riso superior do jovem impecável: não havia razão para pânico. Respondi‑lhe que não estava em pânico, porém ele não ouviu porque se lançara numa tirada didáctica sobre os graus de alerta: o Sinal Um é simples prevenção e com o Três as pessoas ainda fazem, praticamente, a sua vida normal, saem à rua sem grandes cautelas; mas, a partir do Oito...

Um abençoado secretário‑adjunto convocou, de longe, o nosso assessor, que se afastou de má vontade. De tácito e comum acordo, Rosa e eu retomámos as banalidades. Mas durante toda a conversa qualquer coisa me pôs em estado de alerta, como uma luz amarela que é o primeiro sinal de perigo. o Sinal Um de tufão.

Quando cheguei a casa, encontrei Lei Siu Lam no seu canto habitual. Comecei logo a falar:

- A‑Lam, imagina. Aquela miúda que vi no templo? Estava na recepção, chama‑se Rosa, Rosa Leong. É jornalista. Mas e isso não é o mais interessante; o mais interessante é que... lembras‑te daquele carro que me seguiu, o Honda vermelho? Tenho quase a certeza de que foi ela.

Eu fizera esta descoberta à saída do Palácio. Estava no passeio à espera que Chen Lo, o meu motorista, fosse buscar o carro. Lancei um olhar ao morro da Guia, onde, junto do farol, continuavam a brilhar as luzes do Sinal Um. E de repente, ao baixar os olhos, vi‑a passar, pilotando um Honda vermelho. Virei‑me rapidamente de costas, para que não me visse.

Os olhos de Lei Siu Lam brilhavam de malícia.

- Parabéns. E logo tu, um kwai‑lôu!

- Deixa‑te disso! ‑ respondi com súbita irritação. ‑ Se ela me segue, não é com certeza um engate, aliás isso já não me acontece desde o século XVIII. Mas: se ela me segue, há‑de haver uma razão e eu gostava muito de saber...

- Já percebi! ‑ disse Lei Siu Lam muito sério. ‑ A tenebrosa seita do Olho Vivo ataca de novo e escolheu‑te para vítima.

- Goza, goza! ‑ rosnei eu, ao mesmo tempo que me perguntava onde poderia Lei Siu Lam ter ido buscar um nome daqueles, que eu só encontrara na minha infância, num livro de aventuras para crianças: Zé Fagulha contra a seita do Olho Vivo.

 

                                           Mais tarde.

Lá fora, tombam súbitas revoadas de chuva. Lei Siu Lam foi‑se embora. Entretive‑me com a leitura de um volume de dispersos de Camilo Pessanha, uma edição macaense ‑ e tive uma surpresa: Pessanha, numa carta, fala numa "companhia do olho vivo". A expressão já existia na sua época; a seita do Olho Vivo não era, portanto, um exclusivo das aventuras do Zé Fagulha que fizeram as delícias da minha infância. Mas tenho a certeza absoluta de que nunca li nada sobre o assunto e não acredito que Lei Siu Lam... não interessa: está aqui, talvez, uma explicação. o que não impede que me sinta perturbado com aquela alusão, vinda dele.

Decidi, finalmente, abrir a segunda caixa do espólio, que Xavier fez transportar para aqui, a meu pedido, no princípio do mês. Os papéis do primeiro cofre exigiram mais trabalho do que eu previa. Predominavam os textos em português, em minha opinião nada de muito excitante, mas havia a considerar o interesse documental porque eram cópias de traduções feitas para o Expediente Sínico.

Tecnicamente, eu deveria abrir as caixas no Palacete Amarelo, a velha mansão do Comendador Wang Wu, onde está instalado o meu gabinete e onde o espólio dormiu durante seis décadas, até que o neto Richard se lembrou dele. Consegui, porém, a cumplicidade de Xavier e a da Fundação (embora MM não o saiba), porque me incomodam as constantes intromissões: a toda a hora me entram pelo gabinete os operários que estão a acabar as obras de restauro e, atrás deles, a vigiá‑los, os funcionários da Misericórdia, a quem pertence o prédio e o valioso recheio, tudo legado pela viúva de Wang Wu.

Era o selo dela, a megera, como diz Cristiano (e confirmaram‑mo em Macau), que eu ia quebrar. A terrível sra. Wang, mesmo depois de se ter convertido e transformado em Irmã Maria da Conceição, achou oportuno deixar a sua marca (chinesa) a proteger as recordações, os papéis, os segredos do defunto.

Mas anda um diabinho travesso a desviar‑me. Quando ia abrir a caixa, reparei na data, escrita em tinta já desmaiada, numa etiqueta: 1847 ‑ 1849. E fiquei‑me, a cismar. Porque 1849 foi o ano de Ferreira do Amaral) o ano do Passaleão, e é quase alucinante pensar que este comendador assistiu a tudo. Tinha já dezassete anos, nessa época.

E depois... é verdade: hoje é o dia 25 de Agosto. Nem de propósito. Não resisto mais tempo. Vou incluir nesta espécie de diário uma primeira versão redigida das minhas notas. Para mim, no meu foro íntimo, há uma excelente razão para o fazer.

 

                                     NOTAS SOBRE O PASSALEÃO

Há coisa de século e meio, houve em Macau outro 25 de Agosto insuportavelmente quente. As ruas da cidade estavam então bem mais silenciosas, não só porque havia menos habitantes mas também porque os habitantes se calavam, tolhidos pelo medo.

Na Sé, em frente do altar‑mor, rodeado de flores que já começavam a murchar, jazia em modesta pompa o corpo do governador Ferreira do Amaral. o caixão estava fechado e devia ser selado nesse mesmo dia. Não houvera exposição: não se podia mostrar aquele corpo sem cabeça, sem braço direito e sem mão esquerda. Nem as conveniências nem os estômagos o permitiriam.

A igreja estava deserta, o corpo mutilado repousava solitário dentro do caixão desde que o bispo D. Jerónimo da Mata pronunciara as orações fúnebres com a devoção de quem não sabia muito bem se estava a rezar pelo governador se por si próprio.

E ninguém o sabia, de facto. Desde que Ferreira do Amaral fora trazido assim da Porta do Cerco, Macau esperava o cutelo chinês. Das fortalezas ‑ do Monte, da Guia, de Mong Ha, os soldados tinham visto, nos últimos dois dias, tropas a concentrar‑se no outro lado, dentro e em redor do Pak‑Shan‑Lan. Ninguém duvidava de que o assassínio fora ordenado pelo vice‑rei de Cantão. E embora naquela parte do mundo houvesse forças ocidentais ‑ navios ingleses rondavam costumeiramente por onde quer que fosse ‑ ; embora os ministros das potências europeias tivessem declarado solidariedade e alguns dos omnipresentes barcos da Rainha Vitória viessem a caminho, não seriam muitos os que acreditavam que os novos impérios da Europa se incomodariam verdadeiramente com a desgraça do velho leão lusitano.

Aliás, precisamente nessa manhã de 25 de Agosto, enquanto os restos do governador entravam em processo natural de decomposição, os ministros estrangeiros aconselhavam grande prudência ao Conselho que o substituíra.

o Conselho de Governo estava reunido no Palácio, embrenhado numa daquelas discussões inúteis que só são possíveis em circunstâncias serenamente desesperadas, quando o fim ainda não chegou mas está próximo. E os ministros das potências velavam recatadamente o cadáver futuro.

Acontecia isto quando a cidade ouviu os canhões.

No Palácio também os ouviram e o bispo estremeceu. o ajudante‑de‑campo do Conselho, um jovem alferes de Artilharia, precipitou‑se para a rua, montou a cavalo e abalou à procura de notícias. Voltou, não muito mais tarde, com o uniforme desalinhado e o rosto fechado e duro; o seu cavalo resfolegava de cansaço. o oficial desmontou de um salto, entrou e correu para a sala onde o Conselho se encontrava.

- Estão a bombardear a Porta do Cerco! ‑ gritou ele da entrada, sem se preocupar com etiquetas. Os senhores do Conselho falaram todos ao mesmo tempo e o alferes precisou de levantar a voz para se fazer ouvir:

- Temos lá cento e vinte homens e três bocas de fogo que não alcançam o inimigo. Não vão aguentar muito mais tempo.

- Como sabe?! ‑ perguntou o barão de Forth‑Rouen, o ministro francês, que na excitação se esqueceu, ele também, do protocolo.

O alferes voltou‑se para o grupo dos diplomatas estrangeiros e envolveu‑os num olhar frio. Era uma sensação desagradável, ver aqueles olhos rasgados de oriental que lhes lembravam mais a tropa concentrada no Pak‑Shan‑Lan do que um soldado português: o oficial chamava‑se Vicente Nicolau de Mesquita, nome cristão, civilizado; mas era macaense, um filho daquele estranho e decadente império luso, que cruzara tanto sangue diferente.

- Sei ‑ respondeu ele ‑ porque venho da Porta do Cerco e aquilo é um inferno. ‑ Dirigiu‑se então ao bispo, como seu comandante supremo, visto que presidia ao Conselho: ‑ Não podemos responder ao fogo com a nossa artilharia. Temos de atacar o Passaleão.

De novo, todos falaram ao mesmo tempo, a dizer a mesma coisa. Sabiam que o bombardeamento era o prelúdio da tomada de Macau. Mas no Passaleão (como os portugueses chamavam ao forte de Pak‑Shan‑Lan) havia, pelos cálculos dos vigias, cerca de quinhentos soldados; nas elevações vizinhas estavam mais mil e quinhentos, com artilharia, e chegavam constantemente reforços. Era impossível atacar, ninguém podia fazê‑lo.

- Eu posso! ‑ gritou o ajudante de campo.

...E eu não posso continuar a perder tempo com este assunto. Não sei sequer se o que escrevi aconteceu assim, a 25 de Agosto de 1849. o que disse exactamente Vicente Nicolau de Mesquita ao bispo D. Jerónimo? o que lhe respondeu o bispo? o que disse o barão de Forth‑Rouen? E terá Mesquita olhado friamente os ministros estrangeiros, entre os quais estava, por exemplo, o espanhol Sinibaldo de Mas, que além de um nome impossível deixou excelente reputação em Macau?

Ninguém pode saber. Como ninguém pode saber o que ia na cabeça do ajudante‑de‑campo quando saiu do Palácio e marchou para a Porta do Cerco à frente de dezasseis voluntários, com um morteiro ‑ para atacar as linhas inimigas e uma fortaleza eriçada de artilharia. Só posso recorrer à imaginação, porque as próprias gravuras não merecem inteira confiança. É com os olhos da imaginação que vejo Mesquita chegar à Porta com os seus dezasseis malucos (mais o morteiro) e entregar ao comandante a ordem do Conselho e preparar‑se para avançar sobre os arrozais. Tudo isto debaixo de fogo.

A Macau dessa época desapareceu completamente. Não consigo ver a paisagem dos arrozais. Mas vejo os cento e vinte homens ‑ com os reforços: dezasseis voluntários e um morteiro ‑ alapados no terreno alagadiço; e Mesquita a carregar e a assestar a peça; e o tiro e a explosão que provocou morte e pânico dentro do Passaleão...

o morteiro era francês. Mas, muito portuguesmente, ficou inutilizado com esse primeiro tiro. Vejo Mesquita, furioso com o seu material. E enquanto as balas disparadas do forte passam e assobiam, vejo‑o apostrofar o capitão Sampaio, o comandante da guarnição, e invocar a autorização do bispo e gritar aos homens, quem se oferece, vamos atacar. Debaixo do tiroteio, mais vinte soldados dão um passo em frente.

Ah, sim, foi uma história muito portuguesa: a fraqueza irremediável de Macau, a avaria do morteiro, o avanço de Mesquita com os trinta e seis voluntários. Com o recrudescer do fogo, o capitão, lá atrás, ordenou a retirada; Mesquita, ao ouvir o toque, deu ao seu corneteiro a ordem contrária. Uma bala veio partir a corneta em dois bocados e foi ele que gritou à carga, vamos a isto, vamos dar cabo deles.

Tomaram o forte. Um soldado goês chamado António Simão desfraldou a bandeira portuguesa no alto das muralhas. Lançaram fogo aos paióis. E voltaram com a cabeça e o braço de um mandarim morto: o que se pode chamar uma subtil alusão ao que haviam feito os assassinos de Ferreira do Amaral.

E esta é a história que eu queria escrever. Mas não convém. Neste final de século e de ciclo, tanto Ferreira do Amaral como Vicente Nicolau de Mesquita estão profundamente esquecidos pela esmagadora maioria dos portugueses. E aqui em Macau, não estão esquecidos mas são profundamente incómodos.

Fim das notas sobre o Passaleão.

E por que é que esta história me fascina?

Porque, com todos os seus defeitos, Vicente Nicolau de Mesquita e João Maria Ferreira do Amaral pertencem àquela raça, hoje extinta, dos portugueses que fizeram e durante séculos mantiveram Portugal como país. Além disso, ambos são heróis trágicos, ambos pagaram o tributo exigido pelos deuses. UM foi assassinado, o outro enlouqueceu. A estátua de Vicente Nicolau de Mesquita foi derrubada e desapareceu nos tumultos da Revolução Cultural; a do governador, tão sólida que resistiu aos esforços dos revolucionários culturais, deve ser desmontada muito em breve.

Há ainda outra razão. Embora ninguém o diga abertamente, sinto que eles são hoje um embaraço para a nossa diplomacia sínica (!). E só isso bastaria. Desde que me estreei no jornalismo, nunca resisti à tentação de tentar embaraçar o Poder.

 

                                           Mais tarde.

Não há dúvida: mergulhei em pleno mistério. Estava, muito calmamente, a escrever este diário ‑ porque já percebi que, afinal, estou a escrever um diário. A certa altura, levantei‑me para descansar as costas e olhei casualmente pela janela. Lá em baixo, na rua, um carro dobrou a esquina e logo a seguir o condutor apagou os faróis.

Sem razão aparente, o instinto gritou‑me qualquer coisa. Deslizei para o chão, gatinhei até à porta da varanda e, com muito cuidado, espreitei. Era um Honda vermelho.

Decidi que tinha chegado a altura de acabar com as dúvidas. Com os mesmos cuidados, para evitar que a minha sombra fosse vista do exterior, saí de casa, galopei escada abaixo e saí para a rua, bendizendo o facto de o prédio fazer esquina e a porta ficar no outro lado. à esquina, espreitei e vi tudo o que queria ver. Mas, de repente, veio a tentação e foi tão forte que não consegui resistir‑lhe; razão pela qual voltei a andar de gatas, sujando e molhando as mãos e os joelhos no empedrado e fazendo com certeza uma estranha figura, se alguém me visse. Tudo isso ficou pago quando pude abrir de rompante a porta do lado do motorista e dizer na minha voz mais cordial:

- Ora então boa noite, suba, não esteja aqui ao relento! Ela deu um grito. Mas dominou‑se rapidamente e não deve ter sido pequeno o esforço: primeiro o medo, depois a irritação. Enfim, o sorriso: ‑ Por aqui?

- Rosa, sabe muito bem que por aqui, não se esforce, não é a primeira vez, e não me diga que vai perder a face por tão pouco. Mas se é o caso, olhe: eu tenho uma face sobressalente lá em cima, 25 anos, engarrafada na Escócia... suba!

Podiam acontecer várias coisas, pensei. Rosa Leong podia mesmo sentir a perda dessa famosa face, mianzi, a grande prioridade chinesa.

Mas o que aconteceu foi que ela sorriu com uma expressão de garota apanhada em falta e recostando‑se no assento de couro verdadeiro gorjeou:

- Está bem, confesso, ando atrás de si, quero uma entrevista para o "South China Morning Post", é um jornal de...

- Eu sei o que é, Rosa. Que interesse tenho eu para o público de Hong Kong?

o sorriso alargou‑se.

- Um jornalista, um escritor conhecido...

- Em Portugal, Rosa. E ainda assim, só Deus sabe... Que interesse pode ter Hong Kong na minha fraca figura? juro‑lhe que não vi nenhuma passadeira vermelha quando cheguei...

Ela franziu o sobrolho.

- A ideia foi minha. Eu... eu faço uns trabalhos free‑lance para eles e lembrei‑me de que podia ter interesse!

Que mentira irreparavelmente esfarrapada. Tinha bom poder de recuperação, mas zero para a imaginação e para a plausibilidade.

- Bom ‑ insisti, só para a embaraçar. ‑ Então suba, tome uma bebida e faça a entrevista!

Ela abanou a cabeça:

- Obrigada, é muito tarde... Se estiver de acordo, eu telefono‑lhe e combinamos um encontro, a uma hora mais conveniente.

Mas eu queria cobrar a factura por inteiro, a mianzi que se lixasse: ‑ Para quê? Podemos combinar já!

- Não, é que... eu amanhã vou para Hong Kong.

- E o tufão?

Ela abanou a cabeça, impaciente.

- Tudo continua a funcionar com o Sinal Um! Mas precisamente por causa do tufão, não posso dizer, ao certo, quando volto de Hong Kong! Eu telefono depois, é melhor...

Libertei‑a, então, e ela partiu com um grande arranque de pneus, como fizera da outra vez.

É tudo muito engraçado, mas convirá saber o que está por detrás disto.

 

                                       28 DE AGOSTO

O mastro do farol da Guia içou o Sinal Três de tufão; mas depois o "Barry" afastou‑se de Macau.

Aconteceram várias pequenas coisas estranhas desde o dia do Sinal Um, em que surpreendi Rosa Leong a espiar‑me a casa. Parece‑me que este diário, começado quase involuntariamente ‑ começado, pelo menos, sem deliberação ‑ poderá ter, afinal, uma utilidade concreta: além do meu ordenador de ideias, ele será também um registo paralelo de cuja existência ninguém tem conhecimento. E ou me engano muito ou este registo vai ser preciso.

Começo pela noite em que apanhei Rosa em flagrante delito de espionagem: quando ela arrancou no seu Honda, entrei em casa e subi, desta vez pelo pachorrento elevador. Lembro‑me de pensar: é uma pena eu ter de a considerar como agente do inimigo. Não sei por que pensei isto. Não sei por que hei‑de ter um inimigo em Macau, não há a mínima razão, que eu saiba. No entanto, a ideia ficou.

Decidi pô‑la de lado e esquecer provisoriamente o assunto. Então, abri finalmente a segunda caixa ‑ e tive uma surpresa. As datas escritas no exterior, além de serem anteriores à datação do primeiro cofre, o que já não é lógico, não correspondem, neste caso, ao conteúdo. Os anos indicados, 1847 ‑ 1849, não prometiam grande coisa, porque nessa época Wang Wu era um adolescente. Mas afinal este cofre de pau‑rosa está a abarrotar de manuscritos, textos dactilografados, fotografias, recortes de jornais, desenhos. Há também uma grande quantidade de textos chineses.

Muitos documentos não têm data e os que estão datados são de várias épocas, não respeitam a etiqueta que estava colada junto ao lacre. Isto não acontecia com o primeiro cofre, que ostentava a indicação de 1883. Mas, neste caso, embora os papéis não estivessem por ordem, ao menos correspondiam a esse ano.

Outro pormenor com interesse: uma tira de papel estava presa ao lacre e, logo que a retirei, pude ler um pequeno texto, escrito a tinta, à mão, numa letra que não é a de Wang Wu:

o Dois, o Seis, o Doze são os números da desarmonia que é preciso evitar.

Uma charada, portanto. Sei que os chineses atribuem cargas negativas e positivas aos números, mas como não conheço esta simbologia, lembrei‑me de perguntar a Xavier qual é o significado atribuído ao dois, ao seis e ao doze. Ora, o que ele me disse não justifica aquela enigmática advertência: o seis corresponde a continuidade; o dois corresponde a facilidade; quanto ao doze, além da "facilidade" do dois, tem o um, que indica certeza. Nada sugere desarmonia e não percebo nada disto.

Passo agora a anotar outro pequeno facto bizarro.

Depois de abrir a segunda caixa, levei um primeiro maço de documentos para o Palacete Amarelo e comecei a examiná‑los. Antes mesmo que Xavier aparecesse ‑ ele não é particularmente matinal ‑ isolei uma primeira peça que já em casa chamara a minha atenção: uma folha toda iluminada com desenhos belíssimos. Aproveitei o excelente equipamento com que a Fundação dotou o meu gabinete e fiz uma fotocópia para minha delícia pessoal.

Este papel tem uma outra particularidade: é bilingue, e de uma forma muito curiosa. No lado esquerdo da folha, há um texto em caracteres chineses manuscritos. No lado direito vê‑se uma única linha em português, também manuscrita:

A Orquídea é a única esposa do Lótus

Sem mais, como se fosse o primeiro verso de um poema inacabado.

Pelas onze da manhã, Xavier apareceu enfim, com desculpas pelo atraso: tivera de resolver um problema administrativo, um subsídio qualquer que não lhe tinham pago.

Aquela era a hora do chá matinal, um costume altamente exótico que eu introduzi no Palacete Amarelo, e foi então que lhe mostrei a folha:

- Já viu, Xavier? o primeiro documento bilingue que nos aparece! Bem, só um bocadinho bilingue. Só uma linha pequenina em português... até parece que o nosso Comendador começou e depois desistiu...

- Mas pode não ter sido ele ‑ cortou Xavier ‑, há escritos de outras pessoas!

Por causa do seu tom de voz, levantei a cabeça para o olhar. E porque fiz um movimento rápido, apanhei ainda os últimos instantes de um clarão de... excitação? Preocupação? Não posso dizer. Em todo o caso, e mesmo admitindo que nada sei de Macau nem dos macaenses, estou disposto a jurar que Xavier ficou perturbado. Fingi que não reparei.

- Não, Xavier, pode ter a certeza de que foi ele. Olhe, a letra é igual... ‑ e empurrei para a sua frente um manuscrito assinado por Wang Wu, o rascunho de uma interessante "carta aberta" de apoio ao governador Horta e Costa, que ele publicou em 1900, num jornal português de Hong Kong, "o Porvir".

Xavier olhou e sorriu, meneando a cabeça. A perturbação, fosse ela o que fosse, passara sem deixar vestígios.

- Tem razão... você já está perito em caligrafia!

- Na caligrafia dele. A portuguesa. E aqui está: podíamos começar as traduções com isto... acha bem?

Ele concordou:

- É boa ideia, já que ainda não nos tinha aparecido nada nas duas línguas...

- Bom. Já agora, satisfaça a minha curiosidade: que género de texto é esse? Pela parte portuguesa, essa única linha, até podia ser um poema...

Xavier ajustou os óculos e começou a ler. De repente, desatou a rir.

- Não vai acreditar, Adriano. Isto é uma receita de cozinha! - Fiquei, suponho, com cara de parvo. ‑ Os chineses também comem orquídeas?

Ele riu ainda mais:

- Não é isso! o texto português não tem nada a ver com o chinês! Não percebo. Dá a ideia de que ele pegou no primeiro papel que tinha à mão e escreveu isso em português, depois não continuou... e o que tinha à mão era uma receita...

- E qual é o petisco, alguma coisa apetitosa?

Mas Xavier abanou a cabeça, agora embaraçado e pesaroso. Havia ali nomes, produtos que ele não conhecia, outros de que ignorava a correspondência portuguesa. Tinha de consultar a mulher.

E agora, outro assunto ‑ que talvez não seja tão outro como parece. Ontem, MM telefonou‑me a convidar‑me para almoçar. Pensei logo: vou telefonar ao Cristiano, em Lisboa; dizer‑lhe que os meus nervos, ainda esfrangalhados, não aguentam estas emoções! Mas duvidei que Cristiano apreciasse a piada. Portanto, à hora prefixa, desci, mandei chamar Chen Lo e ordenei‑lhe que me levasse ao local do suplício. Como o seu Português é débil, não percebeu nada, nem eu o esperava. Disse‑lhe então: "Tun Fon", ele decifrou‑me e rumou para a Avenida da Amizade.

Almoçámos no restaurante do Mandarim Oriental. Como eu esperava, foi um almoço cheio de tédio. Mas, ao contrário do que eu esperava, foi também instrutivo: MM tinha qualquer coisa para me dizer, após as intermináveis citações literárias e os soporíferos alardes culturais.

- Queria pedir‑lhe desculpa, em nome da Fundação! Ouvi dizer que o senhor doutor (é verdade; ele trata‑me mesmo assim) tem de levar a documentação para casa porque não há boas condições de trabalho no seu gabinete!

Fiquei surpreendido com a importância que dava ao caso. Expliquei‑lhe que não era assim tão dramático; era mais uma questão de comodidade, por causa das obras no edifício.

- Mas é inadmissível. É uma negligência da Misericórdia! Enfim, não estou a criticar o provedor, já se vê... de qualquer forma, não pode ser, o senhor doutor não pode estar sujeito a isso, era o que faltava!

- Não me queixo. Mas não, insistiu MM. A Fundação já telefonara, já oficiara, já providenciara. A Fundação queria a minha felicidade, queria para mim um gabinete mais amplo e sobretudo mais sossegado, na parte já restaurada do Palacete Amarelo. justamente, havia um, no segundo andar, com vista para o belíssimo jardim. Uma maravilha, só que mais um lanço de escadas. Serviria?

E logo, depois dos meus vagos agradecimentos, MM encomendou um conhaque especialíssimo para meu regalo e tornou‑se confidencial:

- Sabe, esta gente aqui em Macau é muito especial... quero dizer: nós somos muito especiais, eu também sou de cá... os macaenses, é preciso conhecê‑los... o espólio, claro, não é da Fundação, continua a pertencer à Misericórdia; imagine que eles se lembram de dizer que faltam documentos? E há ainda o Richard Wang, também não tem autoridade sobre o espólio, mas enfim, é um dos grandes financiadores desta operação...

- E pensa que alguém vai dizer que eu perdi... ou que desviei documentos?! ‑ eu estava mais divertido do que irritado. MM ergueu os olhos ao alto, invocando o tecto do restaurante como testemunha da sua boa fé.

- Santo Deus, não! A Fundação tem uma confiança inteira em si! Mas esta gente é complicada...

Eu queria, ao menos, saborear o conhaque em paz e portanto disse‑lhe que compreendia, esta gente é muito complicada.

Agora, que pensei melhor, compreendo cada vez menos. Gostava de falar disto a Lei Siu Lam, que não tem aparecido. E, sobretudo, quero falar com Daniel.

 

                                      Dia seguinte.

Tive sorte. Daniel chegou ontem mesmo da Tailândia, para onde tinha ido passear com a mulher e as crianças.

Jantei em casa deles esta noite. É um apartamento no último andar de um prédio virado para a fortaleza do Monte, dominando boa parte do que resta da antiga Macau, o mar confuso de casario manchado de humidade, cor de musgo e cor de lodo, que parece prestes a fundir‑se com a terra onde foi erguido. A sala tem uma varanda que eles mandaram envidraçar e foi aí que nos instalámos para tomar o café e o whisky velho em balões, gozando a vista nocturna e a suave temperatura do ar condicionado ‑ lá fora, abafava‑se e transpirava‑se ao mesmo tempo.

Eu sentia‑me apaziguado e confortável. Tinha dentro de mim um sumptuoso jantar chinês cozinhado por Catarina, a mulher de Daniel, uma suave macaense, ainda jovem, que voltara à terra natal depois de experimentar as maravilhas culturais e existenciais de Lisboa. Como macaense, ponto de intersepção de duas culturas, Catarina domina com perfeição a arte sublime da gastronomia chinesa e a técnica do café português. Além disso, o whisky era um "Edradour" com dez anos. Só me faltava um charuto (não fumava desde a cura na clínica), mas Daniel é, nesse capítulo, abstêmio militante.

- Santo Deus, mas não é que eu gosto mesmo disto?! ‑ exclamei, olhando as luzes e o casario desordenado.

- Tens o café a arrefecer ‑ disse Daniel. E logo a seguir, abandonando o tom prosaico: ‑ Não caias nessa, pá. Nem sequer sabes o que é Macau, não podes saber se gostas. E depois, é tarde para essas paixões, como sabes.

De facto, é tarde. Macau, esta Macau, tem o seu tempo contado. E é uma pena, disse eu, depois de beber o café morno. ‑ o que é que tu achas uma pena? ‑ perguntou Daniel, com o olhar distraído pousado na fachada da igreja de São Paulo, a única coisa que os portugueses conhecem da cidade mais leal do seu defunto império.

- Macau, é uma pena.

Convém explicar que eu andava a remoer aquele desabafo havia uns largos dias.

- Quero dizer: isto não é uma colónia, não é verdade? Nunca foi uma colónia, mesmo quando nós queríamos que fosse. à China, dá‑lhe muito mais serventia, quanto mais não seja serventia económica, ter Macau administrada por nós. Claro que eu em economia sou um cepo. Mas mesmo culturalmente) existencialmente...

Aqui, Daniel não se conteve e riu‑se ‑ riu‑se de mim) está claro, e não protestei porque o merecia. Entre nós, segundo um código não escrito mas férreo, falar desta maneira é sinal de snobismo, de intelectualismo, de tontice; um pecado considerado mortal já desde os anos recuados em que integrámos a mesma gloriosa unidade do Exército Português, bravamente aquartelada em plena zona operacional do ar condicionado, em Luanda. ‑ Não é tanto Macau. o que eles, Catarina murmurou: querem, acima de tudo, é Taiwan. Macau é um prelúdio e tem de completar a lógica do sistema: Hong Kong, Macau, Taiwan.

- Mas é diferente! ‑ exclamei, sem me dar conta de que estava a servir‑lhes um prato de retórica que eles conheciam até ao fastio. ‑ É diferente. Macau não é comparável a Gibraltar, por exemplo! E depois, há esta mistura simpática...

Daniel falou como quem fala a uma criança:

- A tese oficial chinesa não é essa. E o que conta, o que tem influência é a tese oficial chinesa. Além disso, as misturas culturais nunca lhes agradaram.

Isto é verdade, é mesmo o ponto mais divergente dos dois mundos, português e chinês. Nós, positivamente, adoramos misturas.

- Sabes o que me lembra Macau? ‑ a ideia surgira‑me na véspera e ainda não a tinha vendido a ninguém. ‑ Lembra‑me aquela anedota histórica: a pérola que Cleópatra dissolveu em vinagre, durante um banquete, só para mostrar a Marco António que era mais gastadora do que ele. É um pouco isso, hen?

Daniel murmurou ironicamente que a minha erudição não cessava de o surpreender. Não respondi à piada; estava lançado e repeti, com notória falta de originalidade, que era uma pena. Então, ele disse:

- Ouve. É uma pena, claro, mas os portugueses têm muita culpa. E depois, a alegoria da pérola não está completamente certa. Macau podia ser uma pérola se nós nos tivéssemos esforçado por isso. Nunca o fizemos, ou pelo menos nunca o fizemos com suficiente continuidade. Há séculos que Portugal não tem uma política definida para Macau. A não ser a política da rolha.

Também é verdade, admiti. o que não impede que alguma coisa tenha ficado. Quanto mais não seja, os macaenses... ‑ recostei‑me na cadeira. o bem‑estar era tanto e era uma sensação tão nova, depois dos meus meses de inferno, que ultrapassei alegremente os limites: ‑ São uma semi‑raça fascinante, mas a questão não é essa: são gente. E gente condenada. Para eles, só Macau tem a atmosfera natural que lhes permite respirar. o que me parece é que o luxo de engolir uma pérola dissolvida em vinagre não traz grandes vantagens a ninguém e lixa, definitivamente, os macaenses. Porque é claro que eles vão extinguir‑se, seja aqui, quando isto se chamar Ou‑Mun, seja em Portugal, que também não é propriamente a terra deles... o que eu quero dizer é que ninguém pensou neles, Daniel!

Só então percebi que metera a pata na poça. Senti Catarina estremecer, olhei para ela, vi a sua expressão, o olhar que lançou ao marido. Sou uma besta paquidérmica, pensei. E apressei‑me a falar do espólio do Comendador.

Daniel aceitou com gratidão a mudança de conversa.

- Sabes como é que esse espólio foi formado? ‑ perguntou. Respondi‑lhe:

- sei vagamente, foi a viúva.

- Pois, foi a viúva. Mas é uma história complicada. Repara que a viúva não devia ter herdado, o Wang Wu tinha um filho ... simplesmente, aqui é que está a piada: a senhora Wang... não sei o nome dela em chinês... era uma megera...

- Isso eu sei: o Cristiano disse‑mo em Lisboa, mas não explicou.

- Eu também não sei os pormenores ‑ prosseguiu Daniel - mas o que me disseram é que, lá em casa, quem mandava era ela...

Catarina corrigiu:

- Amor, isso não pode ser, isso não é chinês! ‑ Daniel encolheu os ombros:

- Bem, não seria exactamente assim, mas tinha uma grande influência sobre o marido, ajudava‑o a dirigir os negócios... era uma gaja autoritária. Fez a vida negra ao filho ‑ quis arranjar‑lhe casamento à força, todas essas coisas ‑ e a coisa foi tão longe que o rapaz cavou! Cavou de casa, foi para Cantão, ou Xangai, não sei bem, e nunca mais voltou nem deu notícias. Foi por isso que ela sacou tudo quanto era do marido. Só que, logo a seguir à morte do Wang Wu, passou‑lhe uma coisa pela cabeça, não sei... e converteu‑se e foi para freira. o filho não voltou a aparecer em Macau, nem mesmo em Hong Kong; tal foi o pó que ganhou à mamã! Só mais tarde é que o filho desse tipo veio estabelecer‑se em Hong Kong...

- Ou seja, o nosso estimado Richard Wang?

- Ele mesmo.

Curioso, como ninguém me contara esta história. Inspirado por ela, entrei no assunto que me levara àquele serão. Relatei‑lhes o almoço com MM, a história do novo gabinete; mas falei também do poema inacabado, o documento bilingue, e da reacção de Xavier e da receita de cozinha. Catarina interrompeu‑me para dizer que achava muito estranha essa receita.

- Também eu! ‑ repliquei; ‑ e há outra coisa ainda mais estranha.

Essa coisa ainda não a referi neste diário: Xavier não me devolveu o papel original e pelo seu ar evasivo eu penso que ou ele o perdeu, ou a mulher não sabe fazer a tradução (o que é pouco provável) ou ele quer, por qualquer razão, reter o documento em seu poder.

Nesta altura, os miúdos ‑ um rapaz de nove anos e uma miúda de cinco; Daniel casou tarde ‑ vieram dar as boas‑noites. Houve um quarto de hora de intervalo doméstico. Enfim, contei a última novidade, a vigilância de Rosa Leong à minha modestíssima pessoa. Esperava uma série de comentários jocosos, mas enganei‑me: Daniel semicerrou os olhos, como que procurando um ficheiro na memória.

- Rosa Leong... Rosa Leong... onde é que eu ouvi... já sei. É muito gira... trabalha na "Nova Abelha"...

- Raio de nome para um jornal ‑ murmurei.

- Não sabes? o primeiro jornal que houve em Macau chamava‑se "Abelha da China"... mas o que tem interesse é que, tanto quanto sei, a "Nova Abelha" é do nosso amigo Richard Wang. Aliás, agora estou a lembrar‑me: até se diz que essa Rosa foi metida no jornal por ordem dele e que... compreendes... a Rosinha e ele... tal e coisa.

Catarina exclamou:

- O homem tem setenta anos! ‑ Mas Daniel não se mostrou impressionado.

- Isso é normal, não? Ricaços velhos, raparigas novas. Olha, Adriano, não te metas nisso. Não te metas com ela.

Eu protestei:

- Meter‑me em quê? E com quem? A única coisa que quero saber é o teor daquela receita de cozinha!

Lembrei‑me então da fotocópia e perguntei‑lhes se poderiam ajudar‑me. Catarina ofereceu‑se: fala cantonense, mas não lê chinês; no entanto, tem amigos letrados e pode conseguir facilmente uma tradução.

É tudo quanto há a registar, por agora. já me esquecia ‑ uma coisa mais: esta noite, ao entrarem casa, um carro passou, vindo da outra rua, para onde dão as janelas do meu apartamento. Era um Honda vermelho.

 

                                   5 DE SETEMBRO

...No ano da graça do Senhor de 1508, D. Manuel I reinava em Portugal e Vou‑Tsong na China. Os dois impérios não se conheciam, mas isso não tardaria a acontecer. E acho curioso que o primeiro acto decisivo da mudança tenha sido executado em Almeirim, terra que nessa altura era conhecida por mais alguma coisa do que melões.

Almeirim tinha paço real. Foi aí que D. Manuel assinou um Regimento em que ordenava a Diogo Lopes de Sequeira, de partida para o índico, que indagasse sobre esses exóticos chineses cuja presença fora assinalada nas águas do Malabar, de Ceilão e das Maldivas. De facto, no ano seguinte Diogo Lopes Sequeira encontrou juncos em Malaca, chegou à fala com as tripulações e foi até convidado para ir comer a bordo de um junco. Tornou‑se, possivelmente, no primeiro português a ter o privilégio de conhecer as elevações místicas da gastronomia chinesa.

Depois, em 1511, Afonso de Albuquerque também estabeleceu laços cordiais com os negociantes e marinheiros do Império do Meio.

Assim começaram as relações entre a dinastia Ming e a dinastia de Avis; e começaram bem. Tanto, que uns trinta anos mais tarde já tabeliães portugueses, confortavelmente estabelecidos em Che‑Quiang, ao fazer as suas escrituras, usavam a frase: "Nesta mui nobre e sempre leal cidade de Liam‑Pó, por El‑Rei nosso senhor"...

Mas Liam‑Pó, que tinha capitão residente, ouvidor, juizes, vereadores, provedor‑mor dos órfãos e Misericórdia, foi arrasada e incendiada e o mesmo aconteceu logo a seguir a Chin‑Cheu. Rezam as crónicas que a culpa foi nossa ‑ e como são crónicas portuguesas, e como eu sei bem do que por vezes gasta a casa lusitana, estou pronto a acreditar nessa culpa.

Macau só aconteceu depois. Não foi arrasada, mas estes quatrocentos anos foram cheios de equívocos. É extraordinário como nós e os chineses nos desentendemos tão bem.

Pronto, o desabafo chegou ao fim. Tudo isto não foi mais do que a descrição sublimada do meu presente estado de espírito. Sinto‑me pior, outra vez. Sinto‑me perdido num labirinto tremendamente estrangeiro. Não devia ter vindo, não devia ter aceitado este trabalho. Cometi o erro crasso de permitir que outros pensassem por mim, quando os outros não sabem o que eu sei: que a nossa vida é uma sequência de absurdos e que portanto não interessa a longitude nem a latitude onde eles ocorrem. o absurdo pode apenas ser menos doloroso se me for familiar. E aqui pouco ou nada me é familiar.

Estava tudo bem ‑ não: tudo parecia estar bem, desde o Jantar em casa de Daniel e até há poucos dias. Xavier parecia sinceramente consternado pela perda, já confessada, da receita de cozinha; aliás isso poderia criar‑lhe problemas, se eu mencionasse o assunto, o que não vou fazer. Estive mesmo tentado, para o consolar, a dizer‑lhe que possuo uma fotocópia, mas acabei por calar‑me, ainda não sei porquê.

Mas estava tudo bem, na aparência. E de repente, subtilmente, sem que eu possa dizer como e em que, as coisas mudaram.

Escrever, escrever, como dizia a besta do Malaquias.

Há uma semana que suspendi este diário, por falta de tempo. o segundo cofre do espólio não só estava a abarrotar de papéis como continha algumas surpresas. E que surpresas.

Encontrei documentos que provam, sem sombra de dúvida, que o ilustre Comendador Wang Wu devia boa parte dos seus rendimentos ao comércio do ópio e ao tráfico de cules ‑ esse tráfico ilegal que consistia em exportar jovens trabalhadores chineses, praticamente em regime de escravatura, para as Américas.

o que, aos meus olhos ingénuos e ocidentais, não se coaduna harmoniosamente com a alta reputação do Comendador, o seu lugar no Leal Senado, a sua virtude, a sua benemerência, o seu porte venerando, tal como o admirei nas fotografias que encontrei até agora e em que ele aparece imponente e mandarínico, em cabaia de seda bordada.

Cules e ópio. Xavier, que partilhou a minha descoberta, não se mostrou impressionado. Segundo me explicou, o comércio do ópio foi perfeitamente legal até muito tarde e o tráfico de cules também, embora tenha sido proibido há mais tempo. E se fôssemos a falar de compras de seres humanos... pois não sabia eu que o Camilo Pessanha (claro!) tinha comprado a governanta chinesa que foi a mãe do seu primeiro filho?

Eu sabia, tal como sei que Pessanha morreu devorado pelo ópio. Mas se esses comércios eram legais e não lançam qualquer vergonha sobre a história de uma família, não compreendo por que razão Xavier tenta opor‑se a que eu seleccione este material para publicação.

- Compreende... ‑ argumenta ele ‑ em Macau, nós sabemos que é assim. Mas na Europa, o público vai reagir como você. E este Comendador Wang Wu é uma figura tão respeitada, ainda hoje... e depois, é o avô do sr. Wang!

- Wang, Richard e não Wang, Xavier. Compreendo.. Claro que compreendi, que compreendo. Richard Wang é quem paga, entre outras coisas, o ordenado de Xavier nesta operação do espólio Wang Wu. E Richard Wang tem vastos interesses internacionais. Não será ele que terá dificuldades em arranjar um novo cantinho para si e para os seus, depois de 1999.

Compreendo a posição de Xavier, mas não a aceito porque ela representa, já não respeito, mas subserviência. Disse‑lho, por outras palavras. Mas fiquei com a certeza de que não o convenci.

Eu estava, portanto, preparado para uma resistência passiva de Xavier contra a futura publicação destes documentos; contudo, não estava preparado para as outras pressões.

MM telefonou‑me. Pura cortesia, começou por dizer; para saber se gosto do meu novo gabinete, se tudo me corre bem e estou feliz. Então, quase naturalmente (digo "quase" porque ele não é capaz de ser natural, mesmo quando inocente), perguntou‑me se já tinha seleccionado muitos textos para publicação. Disse‑lhe que sim, bastantes; e fiquei à espera, para saber se ele sabia.

Sabia. Não vou reproduzir a conversa porque o discurso de MM, falado ou escrito, é péssimo para o meu fígado. Mas fez tantas tentativas para chegar ao assunto que eu próprio, generosamente, lhe falei dos documentos, alguns dos quais escritos pelo punho do Comendador, atestando os tráficos que eu julgava (erradamente?) embaraçosos.

- Você... o senhor doutor não vai publicar isso?! ‑ exclamou MM, sufocado.

- Porquê? É proibido?

Ele recompôs o verniz e protestou que não, eu tinha autonomia absoluta, eu era o responsável (carregou um pouco no "responsável"). Mas... e MM advogou, ele também, a pouca importância da questão, lembrou, ele também, que o comércio do ópio foi perfeitamente legal até muito tarde; e os cules, bem, os cules, era uma questão diferente, era a mentalidade da época, era a tradição cultural, as referências civilizacionais.

Disse‑lhe o que já tinha dito a Xavier: em qualquer caso, eu insistiria na publicação; mas se não havia, nestes documentos, uma carga negativa para a imagem do Comendador, onde residia, então, o problema, o impedimento?

- O problema é a total e absoluta falta de interesse, - respondeu MM, e eu apertei os dentes para não bolsar uma obscenidade. Ele continuou a meter os pés pelas mãos durante mais uns bons dois minutos, depois passou ao actual momento de Macau, tão especial, tão delicado, tão vulnerável a mal‑entendidos. Só desistiu porque, conforme percebi, recebeu uma chamada de Lisboa por outro telefone.

MM é um tonto. Mas Xavier não é. Nem as diversas outras personalidades que me têm discretamente assediado podem ser todas tontas. E, por fim, esta manhã, até o insuspeito padre Frazão.

o padre Frazão é qualquer coisa, não sei bem o quê, na Misericórdia de Macau; quando me falaram dele em Lisboa, disseram: um velhinho quase centenário. Mas não consigo associá‑lo à ideia de "velhinho". É rijo e seco de corpo, muito despachado, capaz, até, de usar o seu calãozito de vez em quando. Está em Macau há mais de meio século. Ao que parece, foi ele que converteu a sra. Wang ao catolicismo e além dessa proeza notável tem sido o guardião do espólio ‑ e um bom guardião. Quando, em 1966, a revolução cultural maoísta chegou a Macau (o famoso "1, 2, 3", como aqui lhe chamam), livros preciosos da biblioteca do Leal Senado foram atirados pela janela, mas ninguém tocou nestes doze cofres de madeira. Ainda hoje, é ele que possui a chave da "casa‑forte" ‑ como nós chamamos ao quartinho do Palacete Amarelo onde se encontram agora os cofres que ainda não foram abertos. Chamar‑lhe casa‑forte é um exagero, mas enfim, a porta foi reforçada com uma grade metálica, destas que são omnipresentes em Macau, à entrada dos apartamentos.

Desde que passei para o meu novo gabinete no Palacete Amarelo, o padre Frazão é meu vizinho. Tem um gabinete no segundo andar, pequeno e sempre atravancado de livros ‑ estantes, mesa, cadeiras, chão, os livros invadiram tudo. Visitei‑o esta manhã ‑ e também ele já sabe dos cules e do ópio e também ele sugere que não seria bom insistir sobre o assunto.

- Eu sempre achei que nem se devia pegar em nada e até já disse isto mesmo ao sr. Wang ‑ desabafou brandamente. Se bem que, do seu ponto de vista, o que importa é respeitar a memória da sua convertida, a Irmã Maria da Conceição, de quem ele era o confessor ‑ e que no século foi a megera, a enérgica esposa, inspiradora e coadjutora do Comendador nestas e quem sabe em que outras traficâncias. A conversão e o implícito arrependimento da sra. Wang, a grande piedade e a grande caridade de que ela deu provas depois de professar, merecem respeito e justificam que se evite um frio "escarafunchar do passado", diz o padre.

Nesta minha visita, recolhi mais um facto curioso. o padre Frazão alargou‑se a falar das bondades e virtudes da Irmã Maria da Conceição ‑ ou melhor: Maria da Imaculada Conceição, pois foi este o nome que adoptou quando entrou para o Colégio das Irmãs de Santa Rosa. E insistiu em mostrar‑me um pequeno caderno com poemas religiosos ‑ "de grande beleza", decretava ingenuamente ‑ escritos pela irmã e que ela, antes de morrer, lhe ofereceu. Por delicadeza, mas também com alguma curiosidade, passei os olhos pelas folhas amareladas.

E senti um baque. Reconheci a letra, bem diferente da letra do Comendador.

o Dois, o Seis e o Doze são os números da desarmonia que é preciso evitar

Então, ela escreveu isto, fosse ainda como sra. Wang, fosse já na santa qualidade de Maria da Imaculada Conceição. Quando? Porquê? Para quem?

Tenho de encontrar as respostas e já não me atrevo a procurá‑las junto de Xavier. E Lei Siu Lam não me aparece há vários dias.

E as pressões ‑ suaves, persuasivas, murmuradas ‑ irritam‑me pela sua falta de lógica, pela uniformidade dos argumentos idiotas que me são lançados. Só compreendo os do padre Frazão, ainda que não os aceite.

Mas as pressões, além de me irritarem, também me preocupam. Porque, se exceptuar o padre, que me parece apenas preocupado com a memória da sua amiga e convertida, todas essas sugestões, todos esses conselhos, por muito suaves e murmurados que sejam, têm um pequeno fundo de ameaça. E eu só gosto de entrar em guerra (se é que ainda sei entrar em guerra) quando conheço o motivo e o inimigo.

 

                       Dia seguinte.

Estou obcecado por uma frase.

Killed by a flower. Esta é a frase.

"Morto por uma flor". A acreditar no epitáfio, foi o que aconteceu ao jovem Nigel R. Webb, 1875‑1899. Mas não foi exactamente isso o que os jornais disseram.

É melhor começar pelo princípio. Esta manhã, dediquei‑me aos recortes de jornais ‑ e Wang Wu recortou ou mandou recortar muitos jornais, portugueses, chineses e ingleses, ao longo da sua longa vida: artigos que escreveu e publicou, notícias das suas múltiplas actividades, no comércio, na indústria, no Leal Seriado, no Expediente Sínico; notícias da sua presença e intervenção em festas de caridade, das suas contribuições para causas meritórias. E, também, notícias que aparentemente nada tinham a ver com ele mas que haviam despertado o seu interesse: ataques de piratas no delta do Rio das Pérolas ‑ lucrativa actividade que durou até muito tarde neste século e que não se encontra de todo extinta nos mares asiáticos ‑; um tufão que assolou Hong Kong mas poupou Macau; casos de polícia diversos.

Ao fim da manhã, eu ‑ que me levantei muito cedo porque tive insónia e não quis tomar comprimidos ‑ estava exausto, sujo do pó acumulado no papel e cheio de sede. Xavier, que encalhara numa tradução, proclamou‑se frustrado e pronto para uma tarde de gazeta, para a qual, surpreendentemente, me convidou: podíamos comer qualquer coisa na "Loc Kok", a típica e famosíssima "casa de tomar chá", onde servem aqueles deliciosos petiscos a que chamam tim‑sâm, a comida "de tocar o coração". E depois, durante a tarde, faríamos um pouco de turismo urbano, em minha intenção, para eu conhecer melhor Macau.

Aceitei porque julgo que é boa política não o melindrar. Além disso, precisava de espairecer e o dia estava excepcionalmente fresco para esta época do ano. Portanto, depois da reconfortante passagem pela "Loc Kok", o meu motorista, Chen Lo (já comecei a tratá‑lo familiarmente por A‑Lo), levou‑nos ao jardim de Lou Lim Ioc e, a seguir, fomos a Patane, ao jardim de Camões, em cuja gruta Camões não deve ter escrito um único verso, porque ninguém pode escrever nada de jeito ali dentro, é demasiado desconfortável. Finalmente, à saída, Xavier lembrou‑se de mostrar‑me o velho cemitério protestante: ali repousam defuntos ingleses, americanos, suecos, holandeses. Ao contrário dos nossos cemitérios, é, também ele, um jardim agradável.

Aí, por mero acaso, reparei no túmulo de Nigel R. Webb e li o seu epitáfio.

Killed by a flower. Mas o que se dizia dele, num recorte que Wang Wu guardou e que eu vi esta manhã, era: assassinado por desconhecidos no Bazar Chinês de Macau.

Fiquei longos minutos de cócoras, diante do túmulo daquele rapaz de vinte e quatro anos, morto há quase um século, numa cidade que devia ser‑lhe estranha. Assassinado por uma flor. E o Comendador Wang Wu achara interessante recortar a notícia.

Levantei‑me, por fim, e bati com os pés no chão para desentorpecer.

Xavier olhava‑me, muito sério e muito preocupado.

 

                                   8 DE SETEMBRO

Ego dixi Domine, miserere mei.

Em que vespeiro vim eu meter‑me?

É tarde. Cheguei agora de casa de Daniel. Ele tinha‑me telefonado, logo de manhã, mal raiavam as nove, para o Palacete Amarelo, a convidar‑me para ir tomar um café, à noite: ‑ Não te ofereço de jantar ‑ disse ‑ porque a Catarina chega sobre o tarde, tem o banho dos miúdos e toda essa trapalhada e amanhã é dia de trabalho. Mas café, aí pelas nove e meia?

o seu tom avisava já que não me diria nada mais pelo telefone, por isso agradeci, aceitei e não fiz perguntas. Passei o resto do dia às voltas com o conteúdo de uma pasta que estava dentro da segunda caixa: cópias de cartas. É extraordinário, mas Wang Wu guardava cópias, até, dos seus bilhetes mais simples e lacónicos, como se soubesse que um dia a posteridade viria a debruçar‑se sobre o seu espólio... ou, mais provavelmente, como se durante toda a sua vida tivesse pisado terreno escorregadio e quisesse estar sempre seguro do que é que tinha escrito e a quem. Na velha pasta de couro estragado pela humidade, estão reunidas cartas de várias épocas ‑ para governadores de Macau, para negociantes, jornalistas, chefes de repartição. Há mesmo uma carta, escrita num inglês preciso e meticuloso, endereçada a um governador de Hong Kong. Tenho esperanças de encontrar alguma correspondência com Camilo Pessanha; afinal de contas, é quase certo que se conheceram.

Mas o que interessa é o serão em casa de Daniel. Logo que cheguei, percebi que não me enganara, havia um segredo, uma surpresa à minha espera ‑ era o que me dizia o brilho nos olhos de Catarina e o riso contido que via no rosto de Daniel. No entanto, permeando a boa disposição, havia também outra coisa: um alerta?

- O que é que se passa? ‑ perguntei mal Catarina trouxe a bandeja com as chávenas de café. E Daniel, ainda a fazer durar a expectativa:

- Tem de se passar alguma coisa? Isto é só uma confraternização...

mas ela atalhou:

- Deixa‑te de fitas, vamos dizer‑lhe já!

Dirigiu‑se à secretária que está ao fundo da sala, abriu uma gaveta e voltou com uma folha de papel, que me entregou:

- Aqui tens a tradução.

- A famosa receita de cozinha! ‑ disse eu, interessado. Daniel lançou uma gargalhada ruidosa. ‑ Lê, lê a receita!

Eu li. Vou transcrever:

A Orquídea é a única esposa do Lótus,

A bem‑amada, a guerreira.

As pétalas firmes da Orquídea

Protegem o Filho do Céu

Ela é mais forte e poderosa

Que os punhos harmoniosos da justiça

Suponho que a minha cara devia ser cómica, porque ambos desataram a rir. Procurei mostrar‑me à altura da situação:

- Isto não dá para jantar.

E Catarina:

- Pois não. É um poema. Está claro que a tradução é muito aproximativa, as traduções de chinês para português são sempre aproximativas, mas o tipo que a fez leu‑me o poema em voz alta e o sentido é esse.

Recostei‑me para respirar fundo.

- Um poema, que o nosso amigo Wang Wu começou a traduzir e depois, por qualquer razão, desistiu. Até aí, ainda vou. Mas por que é que o Xavier inventou aquela história idiota da receita? Por que é que ficou com o original?

Daniel, que de repente ficara muito sério, disse:

- Isso não sei. É muito esquisito. Quanto ao poema, há certas coisas que podemos entender pelo sentido. É claro que o Filho do Céu é o Imperador da China, isso até tu chegas lá. Mas o mais interessante é essa parte que diz... a orquídea é mais poderosa que os punhos harmoniosos da justiça.

- E daí?

Catarina, que também se pusera séria, interveio:

- Não sabes o que são? ‑ e perante a minha expressão de ignorância disse uma só palavra, seca:

- Boxers.

Os boxers, conheço vagamente, - retorqui. - Eram aqueles tipos que no século passado atacavam os estrangeiros, o domínio estrangeiro sobre o Império do Céu. Atacavam sobretudo os missionários e os convertidos cristãos, explicaram‑me Catarina e Daniel; ora, eles chamavam‑se a si próprios a "Sociedade dos Punhos Harmoniosos da Justiça". Portanto, se a orquídea do poema era mais poderosa que os boxers...

- E era a única esposa do Lótus! ‑ disse Catarina, carregando nas palavras. Mas a observação não me iluminou.

- o Lótus Branco ‑ prosseguiu ela ‑ é... ou era... uma sociedade secreta medieval, do Norte da China. Os boxers consideravam‑se descendentes do Lótus Branco.

- E as tríades, o que é que têm a ver com isto? ‑ era a única coisa de que eu ouvira falar. Mas Catarina abanou a cabeça, em negativa: tríades é hoje um nome genérico para todas as seitas. A não confundir com a Tríade, uma sociedade a que pertenceu Sun‑Yat‑sen, o pai da república chinesa.

Chegado a este ponto, reclamei um whisky com tanta urgência que os dois voltaram a rir. Porém, ao servir as bebidas, Daniel já recuperara da hilaridade:

- Nunca ouvi falar em nenhuma "Orquídea" ‑ observou pensativamente; ‑ talvez fosse uma seita pequena, ou uma obediência de uma outra organização... de qualquer maneira., isso tem um certo interesse histórico.

Entretanto, eu começara, enfim, a raciocinar: ‑ Só histórico? Por que é que o meu preclaro assistente, Wang Kam Meng, Xavier, me contou uma balela? E me ficou com o original, sem saber que eu tinha uma fotocópia?

Daniel fitou‑me.

- É isso. Talvez seja aconselhável teres algum cuidado... se bem que ‑ acrescentou num tom mais ligeiro ‑ pode ser que ele esteja só a querer defender a imagem do Comendador. Provavelmente, o Richard Wang paga‑lhe também para isso. É normal. o respeito pelos antepassados, e tudo isso.

Mas o respeito pelos antepassados, retorqui, não explica a mansa teima a propósito dos cules e do ópio, que Xavier, MM e muitos outros não querem que eu divulgue apesar de, reconhecidamente, não serem assuntos comprometedores. Nem Daniel nem Catarina compreendem esta história e chegaram mesmo a sugerir que eu percebi mal. Enfim, lembrei‑lhes, a coisa não me foi dita em cantonense e eu, português, ainda falo.

Voltei para casa com a cabeça a zumbir. Boxers, Lótus Branco, punhos harmoniosos, seitas, Richard Wang. É de mais para mim, pelo menos esta noite. Mas amanhã tenho de tentar espremer Xavier.

Adjutorium nostrum in nomine Domini. (Pelo menos, voltei a fazer citações. Era uma mania, uma forma de fazer humor comigo próprio, nos tempos anteriores à Crise; sinal de alguma saúde mental...? Oxalá; a saúde mental é, neste momento, um requisito particularmente importante para a minha sobrevivência.)

Relato circunstanciado das últimas horas: De manhã, a conversa que pretendia ter com Xavier não correu exactamente como queria. Esperava ser eu a atacar e, afinal, tomou ele a ofensiva ‑ entenda‑se: da maneira mais simpática e delicada possível.

Não seria melhor, começou, estabelecer uma primeira selecção dos textos a divulgar? A Fundação estaria certamente interessada, bem como a Misericórdia e... "enfim, todas as partes envolvidas". Eu concordei, aliás já tinha falado nisso. Mas precisava das traduções, acrescentei; todas as traduções.

Xavier esgueirou‑se com a presteza da proverbial enguia: eu tinha decidido, recordou, que os originais portugueses seriam publicados separadamente; e era esses que convinha "ir seleccionando primeiro". E, de repente, surpreendeu‑me dizendo que deveríamos incluir as histórias dos cules e do ópio: de facto, pensando melhor, mesmo em termos de público europeu, era uma coisa já tão antiga... talvez não se justificasse a exclusão... e lançou uma confidência:

- É que o Richard Wang, sabe, não me tem largado, com medo que o nome do avô saia... prejudicado...

- Xavier, toda esta ideia do espólio foi dele! Ele é que propôs à Misericórdia a divulgação dos documentos!

E Xavier, encolhendo os ombros:

- Com certeza não imaginava que se descobririam certas coisas... mas olhe: podíamos fazer uma coisa, para evitar melindres. Você conserva todos esses papéis do comércio de ópio... e do resto... no rol de publicação; e em troca, nós prometemos ao Richard Wang que lhe mostramos todos os documentos que pareçam mais delicados, ou que tenham só a ver com a família...

Respirei fundo e sorri ‑ suponho que foi aquele tipo de sorriso que Ritinha considera "de fazer gelar o sangue".

- Xavier. Eu não faço trocas com o sr. Richard Wang. Não tenho nada a ver com o sr. Richard Wang. Tenho um contrato com a Fundação Cultural Luso‑Chinesa e ponto final. Parágrafo. Fim de citação.,

Logo a seguir, procurei amenizar a conversa, mas fiquei com a convicção de que o tinha magoado. Lembrei‑me, então, de que planeara pagar‑lhe o jeito do ar condicionado e convidei‑o para jantar no Hyatt, como se a ideia me tivesse ocorrido irresistivelmente, naquela altura, com a maior naturalidade. Se recusasse, pensei, estava mesmo ofendido. Mas aceitou.

...E agora, tenho de fazer um esforço para que tudo fique registado com o maior rigor ‑ pode vir a ser importante.

Jantámos, como previsto, no restaurante do Hyatt. E foi no fim do jantar que eu, cheio de bife com molho de cogumelos, e de vinho do Douro, e de queijo, comecei a sentir o estômago. Talvez porque era a primeira refeição completa desde havia largas semanas ‑ quando saí da clínica, andei sem apetite e quase sem paladar; e quando o paladar voltou, já em Macau, durante muito tempo só conseguia suportar os tim‑sâm.

Seja como for, tenho a certeza de que o mal‑estar começou então, mas não me dei logo conta porque estava demasiado ocupado com a conversa. Xavier, que parecia expansivo e desinibido pelos aperitivos e o vinho, queria obviamente conquistar‑me. Falou‑me da família: da mulher, assistente na Universidade da ásia Oriental, e dos filhos, por enquanto apenas dois, gémeos de cinco anos. Eram confidências superficiais, que ele forçava para me fazer sentir estimado. Meritório se sincero, pensei.

E então, fiz uma jogada. Tinha encomendado whisky velho em balões e dois charutos. Quando começámos a beber e a fumar, perguntei‑lhe, sorrindo:

- Xavier, por que é que você ficou com aquela receita de cozinha?

Não sei se esperava o ataque. Riu com uma timidez encantadora ‑ um riso franco, que desarmava.

- Andava a arranjar coragem para lhe falar nisso...

Contou‑me a história ‑ ou melhor, uma história. às vezes, os caracteres chineses prestam‑se a confusões inacreditáveis; não sabia como, quando leu aquilo, no gabinete, à pressa, pareceu‑lhe ver escrito "nenúfar" e "calda". Não leu mais; levou para casa e só depois reparou no erro, quando releu o texto com a mulher. E agora, estava a apurar a tradução, para que saísse impecável.

Uma coisa percebi: em caso algum Xavier se afastará desta versão, por irracional que ela seja, mesmo que lhe demonstre que é impossível acreditar nela. Li, não sei onde, que os chineses são capazes de se agarrar à mentira mais flagrante só para salvarem a bendita face ‑ às vezes, até, só para salvarem a face da pessoa com quem discutem. Portanto, decidi não insistir e fingi que acreditava.

Ele pareceu grato e aliviado. Tanto que ‑ sentindo‑se agora devedor ‑ insistiu, à saída do Hyatt, em levar‑me a um "sítio simpático" para tomarmos só mais uma bebida. Por essa altura, já eu me dava conta da existência do estômago. Mas o mal‑estar era ainda ligeiro e não quis estragar aquela amizade tão comoventemente renovada. Vamos a isso, disse‑lhe com o entusiasmo que consegui arranjar. Saímos do hotel e enfrentámos o bafo quente e húmido da noite.

Para ir até à Taipa, usáramos o carro de Xavier ‑ eu dispensara o meu inestimável A‑Lo e recuso‑me a conduzir no que, para mim, é obviamente o lado errado da estrada. Esperava que ele rumasse à ponte, de regresso à cidade, mas tomou a direcção contrária, a do istmo.

- Coloane?

Xavier acenou.

- É uma coisa nova, ainda não é muito conhecida... um sítio simpático, sem confusão...

o sítio simpático de Xavier chama‑se "Blue Garden" e é indescritível. Um dia, pensei, hei‑de abrir em Macau um clube nocturno verdadeiramente especial: há‑de chamar‑se "Jardim, das Delícias Transcendentais", será decorado em puro estilo Ming e servido por raparigas e rapazes impecáveis e sorridentes. Só serão servidos chá e grelhados. Os clientes irão ali para conversar inteligentemente e a meia‑voz, com um fundo de música seleccionada por mim: canto gregoriano, missas várias, Rameau, Bach, Sousa Carvalho e Philip Glass. Quem falar alto, disser idiotices ou puser a mão nas raparigas (ou nos rapazes) será punido com um número de vergastadas a condizer com o crime.

o "Blue Garden" não é nada disto. É um horror em verdadeiro estilo falsamente chinês, todo napas, plásticos, néons, barulho. Mas se é o lugar selecto de Xavier, suportemos o "Blue Garden", pensei resignadamente.

Extrovertido ao ponto da euforia, Xavier mandou vir conhaque para si e insistiu em que eu provasse a especialidade da casa: aguardente de pétalas de rosa. Depois, lançou‑se numa evocação saudosa da velha Macau. o que parece ridículo, dada a sua juventude, mas não é. Macau, na ânsia de copiar o pior de Hong Kong (para o melhor não tem dinheiro nem iniciativa), autodestrói‑se com afinco. E não é de hoje esta febre. Basta olhar as velhas fotografias e ver os prédios magníficos sacrificados ao progresso bronco ‑ o antigo Palácio do Governo, as velhas casas da Praia Grande, o Hospital Militar de S. Januário.

Xavier dizia:

- A gente olha em volta e tem a sensação de que o mundo está a acabar. As velhas casas vão abaixo e aparecem esses monstros que não têm relação nenhuma com o que está em volta. Os velhos chineses, que tinham palavra e escrúpulos e face, que compreendiam também o valor desta convivência, vão abaixo, como as velhas casas, vão morrendo e são substituídos por recém‑chegados que não percebem sequer por que há‑de estar hasteada a bandeira portuguesa em Macau, que aleijão histórico é este. Nem por que hão‑de sobreviver as velhas casas. Adriano, às vezes olho para si e pergunto‑me se você se dá conta de ter mergulhado num pequenino apocalipse.

Parecia completamente sincero. E, apesar do que aconteceu depois, ainda julgo que foi sincero neste lamento. Há muito que deixei de esperar coerência nos meus semelhantes.

Então, ele serviu‑me outra dose de aguardente. Bebi um gole e descobri que estava bêbado.

Foi súbito e fulminante. Passei, sem transição, de um estado de descontracção para um estado de embriaguês. Os sons da sala tornaram‑se confusos, as luzes aturdiram‑me, os objectos perderam os contornos. Xavier, a meio metro, transformou‑se num borrão que teimava em duplicar‑se.

Respirei fundo e tive uma tontura. Experimentei falar.

- Xavier, lamento mas estou com os copos ‑ devo ter gritado, porque me pareceu ver olhares virados para mim. Penso que Xavier riu e que disse qualquer coisa. à cautela, contestei:

- Não, não. Estou mesmo. Vou lavar a cara. Levantei‑me. Benditos os néons do "Blue Garden". Até o WC estava indicado com um néon cor de púrpura, lá ao fundo da sala. Comecei a navegar naquela direcção. Xavier fez um aceno enérgico com o braço, mas não liguei porque estava em movimento e tinha de aproveitar a força da inércia para chegar ao farol púrpura. Alguém dizia "cuic‑cuic"...

Ou talvez: Quick! Quick! Estive quase a parar para considerar a questão.

Felizmente, não parei. Consegui chegar ao WC, abrir a porta, deslizar num mundo de mármores falsos e azulejos de plástico. Por uma razão qualquer, nesse mundo o ar estava condicionado a uma temperatura mais baixa e isso teve um efeito salvador sobre o meu estômago.

Como num lugar de culto, ajoelhei no cubículo. Executei gestos inconscientes, manobrados apenas por reflexos ‑ fechar a porta e levantar a tampa. Depois disso, o dilúvio.

Durante uma eternidade, vomitei furiosamente. Vomitei a aguardente de rosa, o bife, os cogumelos, o vinho do Douro, o queijo, o whisky, a sanduíche do almoço, o chá do pequeno‑almoço, as refeições da véspera, a barragem de Pedra Moura, as receitas de Malaquias.

Mais do que isso, vomitei‑me. E quando acabei, purificado, santificado, vazio, só sabia que ainda tinha um corpo porque esse corpo estava dotado de uma cabeça e esta retalhava‑se com dores. Mas também as dores abrandaram, por fim, e consegui levantar‑me e o mundo começou a re‑acontecer à minha volta.

É bom que o estômago, às vezes, ajude a cabeça ‑ pensei ao pôr esta última debaixo da torneira do lavatório. Depois, quando secava a cara e o cabelo, o mundo exterior tornou‑se‑me mais palpável ‑ ou antes, mais audível. Aquele lugar da minha redenção era privilegiado por uma combinação especial de tubos, canos e condutas de ventilação que traziam os sons do exterior e os misturavam com os da sala. Ainda durante as abluções eu ouvira um concerto de pneus a chiar em travagem e o metralhar de portas a bater, de passos apressados no pavimento. Agora, ao ajeitar a gravata, ao caminhar para a porta, apreendi uma outra alteração sonora na sala, uma mudança no vago marulhar das conversas e risos.

Claro que nada disto me pôs de sobreaviso. Quando abri a porta, fui completamente apanhado pela fuzilaria das máquinas fotográficas, cego pelos clarÕes dos flashes. Quando recuperei a vista, encontrei na minha frente quatro fotógrafos e outros tantos repórteres. Entre eles, Rosa Leong.

Fiz uma pausa nesta narrativa, para beber café e também para analisar melhor, em retrospectiva, a minha reacção. Não há dúvida de que, naquele WC do "Blue Garden", vomitei muito mais do que o jantar; não há dúvida de que houve uma alquimia através da purificação... eu conheço‑me e sei que, de outro modo, não teria actuado como actuei.

E actuei assim: caminhei para Rosa de mão estendida, a sorrir.

- Então, sempre se decidiu a fazer‑me a tal entrevista! Mesmo que um dia tenha de pagar caro por esta piada, não me arrependo. Ela empalideceu e durante alguns instantes vi‑lhe uma expressão de animal acossado. Mas, reconheço, a recuperação foi rápida:

- Então, era o senhor que estava aqui! Isto foi uma grande confusão!

E já muito à vontade ‑ muito ocidental, também ‑ apertou a minha mão. o contacto físico era agradável.

- Imagine! Disseram‑nos que estava aqui o Ted McCullen... sabe? Ele está a filmar em Hong Kong...

Não se pode ser bonita, inteligente, atraente ‑ e, ainda por cima, ter o dom das explicações rápidas e plausíveis. Nisso, pelo menos, ela tem uma afinidade com Xavier.

E não só nisso, pensei, ao surpreender o olhar de censura que Rosa lançou ao meu assistente. Xavier desviou a cara rapidamente, mas o jogo não me passou despercebido. Como não me passou despercebido o ar frustrado dos fotógrafos chineses, nem as duas jovens e semi‑despidas tailandesas, virgens de aluguer em serviço no "Blue Garden", que me fitavam com uma desilusão em que se lia gorjeta perdida. Uma delas ainda quisera avançar para mim, logo que assomei à porta do WC.

- Que pena eu não ser quem você queria que eu fosse! ‑ disse ainda a Rosa, enquanto avançava e o batalhão da imprensa abria alas. Ela encolheu os ombros com ar de resignação graciosa e começou a manobrar a retirada. Acabaram por sair todos numa revoada de sorrisos. Só então enfrentei o meu querido Wang Kam, Meng, Xavier.

Enfrentar é um modo de dizer. Ele resplandecia agora de inocência e normalidade; comentou, divertido, o engano e a desilusão do pessoal da imprensa. Deixei‑o falar e no fim disse‑lhe, muito bonacheirão, muito paternal:

- Tudo isto foi engraçadíssimo, Xavier, este "Blue Garden" é o máximo, mas agora tenho de ir para a caminha. Já não tenho a sua idade, sabe.

- Claro que foi ele que os chamou! Claro que estava combinado! ‑ disparou secamente Daniel.

E eu pedi‑lhe que falasse mais baixo porque a cabeça doía‑me outra vez. Quando entrei em casa, dei com uma atmosfera insuportável ‑ tinha‑me esquecido de ligar o ar condicionado ‑ e com o telefone a tocar. Comecei logo a transpirar. Avancei pela estufa que era a minha sala e atendi, com o coração apertado, na certeza de que era uma chamada de Lisboa, a última coisa de que eu precisaria, a pedra‑chave de uma inesquecível noite. Mas, abençoadamente, era Daniel.

Daniel estava agitado. Tem vários conhecimentos nos jornais de Macau e alguém lhe telefonou discretamente, da Redacção da "Nova Abelha": recebemos uma chamada, o teu amigo Adriano está numa espelunca de Coloane, perdido de bêbado, a fazer escândalo com umas gajas, a Rosa Leong já foi para lá com o fotógrafo.

Fiz‑lhe uma descrição, mas não muito coerente, porque o calor da sala me atordoara. Daniel irritou‑se:

- Não te deites, vou para aí, abre‑me a porta! ‑ e desligou. Pude então pôr a trabalhar os dois aparelhos de ar condicionado. Cinco minutos depois, quando Daniel chegou, já eu recuperara a lucidez e ele mostrou‑se aliviado.

- Claro que foi ele! ‑ disse pela terceira vez. ‑ Ouve: queres um conselho? Então, ouve: tu vieste para Macau, se bem entendo, para acabar uma cura. Não para... a propósito: não te meteste na passa, nem...

- Que estupidez!

Daniel fez um sorriso de desculpa, mas objectou:

- Não é estupidez, contam‑se às centenas as pessoas que chegam de Portugal e quinze dias depois caem nessa. já não digo as drogas duras, mas haxixe, marijuana. Bom, se não entraste nisso, se não estragaste a pintura por um lado, então não a estragues por outro.

- Isso quer dizer...?

- Isto quer dizer: não te lixes por causa da merda do espólio do Wang Wu. Cules, ópios, orquídeas, seitas; e ratoeiras em Coloane! Homem, não fazes a coisa por menos!

Ao que eu respondi:

- Tenho um trabalho para fazer, não? A isto, Daniel encolheu os ombros.

- Tu é que sabes ‑, disse ele com a clara convicção de que eu não sabia nada. ‑ Mas ouve esta história: já aconteceu com um pobre pato ‑ um pato humano, portanto não protegido pelo Hông‑kóng Sân ‑ dar consigo meio bêbado... ou drogado: gostava de saber o que havia nessa tal aguardente de pétalas de rosa... enfim, dar consigo num preparo desses, num local público e notório, enrolado em gentis meninas... depois vêm os fotógrafos e no dia seguinte saem as reportagens. Os jornais chineses apontam o triste preparo do kwai‑lôu... os jornais portugueses lamentam que...

- Já percebi ‑ atalhei eu. Mas ele não queria deixar‑me dúvidas:

- Da última vez, foi na Taipa e chegou a criar embaraços às nossas autoridades. Calculas como o governador ficou grato.

Precisei ainda de algum tempo para tranquilizar Daniel quanto à minha prudência, moderação e cautela. Enfim, foi‑se embora censurando‑me a sua noite estragada. Nessa altura, o ar dentro de casa começava a ficar respirável.

As visitas não tinham acabado. De repente, senti um movimento na varanda; e confesso que antes de pensar em Lei Siu Lam lembrei‑me de que talvez se preparasse uma continuação ‑ mais perigosa ‑ da cena de Coloane. Mas era Lei Siu Lam.

- Por onde tens andado? ‑ atirei‑lhe, mal ele entrou. Em vez de me responder, foi sentar‑se no seu canto.

- Então, grandes divertimentos lá para os lados de Coloane...

Olhei‑o desconfiado.

- Como sabes?

- Ouvi da varanda.

Assim mesmo. Estivera à escuta, em vez de entrar. Fiquei sem saber se havia de zangar‑me ou se era preferível rir. E ‑ não pela primeira vez ‑ ele leu‑me o pensamento:

- Podes zangar‑te, se quiseres ‑ disse com os olhos a brilhar de ironia ‑, é saudável. Tudo o que está a acontecer é saudável, acredita.

Bocejei devagar, exagerando um pouco o gesto.

- A‑Lam, meu querido e nunca assaz louvado amigo: depois da alegre noitada que tive, sinto‑me incapaz de resolver charadas portuguesas, quanto mais charadas chinesas!

Ele abanou a cabeça.

- Não é uma charada. o que te salva, Adriano, são todos estes pequenos mistérios. Sem eles, continuavas enrolado em ti próprio. Sem eles, estarias em Macau como estavas em Lisboa. Ou julgas que basta a um homem atravessar meio planeta para conseguir fugir da sua sombra?

Arrotei. Não para ser ordinário, mas por mera necessidade. E, de qualquer forma, o arroto entra na etiqueta chinesa, secção gastronómica. ‑ A‑Lam, disse‑lhe depois de arrotar, não me dás novidade nenhuma, já fiz essa descoberta, conta‑me outra história. Explica‑me o que se passa com o Xavier, explica‑me o que está a acontecer à minha volta.

Mas ele sorriu, com uma doçura inesperada, e replicou:

- Adriano, és tu que estás a acontecer. Julgavas que isso não teria consequências?

Antes que eu encontrasse uma resposta, levantou‑se e caminhou em direcção à varanda.

Mais tarde ou mais cedo, terei de descobrir quem ele é e qual o seu papel na minha vida.

Depois de Lei Siu Lam partir, fiz café bem forte e sentei‑me na sala, a beber e a pensar. A seguir, escrevi estas páginas.

E agora o Sol vai nascer e eu vou esperar que sejam horas. Então, tomo banho, visto‑me de lavado e vou visitar Hông‑kóng Sân no seu templo.

Mesmo sem me considerar mais pato do que qualquer outro dos biliões de tontos que andam neste mundo, quero pedir‑lhe protecção.

Afinal, Hông‑kóng Sân é um grande general e eu vou partir para a guerra.

 

                 A‑MAH, A MÃE CELESTE

 

                                     12 DE SETEMBRO

Suscipiat Dominus sacrificium de manibus tuis ad laudem et gloriam nominis sui, ad utilitatem quoque nostram, totiusque Ecclesiae suae sanctae.

Coloane foi só a declaração de guerra; julgo que a primeira batalha começou agora e se assim é suportei a ofensiva com uma paciência que eu próprio, sem falsa modéstia, acho admirável. Acabam de impor‑me um colaborador novo ‑ ou, por outras e mais simples palavras, um novo espião. É claro que não posso recusá‑lo, sob pena de alargar as hostilidades cedo de mais.

Foi tudo feito com muita diplomacia: MM, que, já não tenho qualquer dúvida, está completamente a soldo de Richard Wang ‑ e Wang é, obviamente, o meu inimigo ‑, telefonou‑me com outra solicitude: há muitos textos em inglês, afinal; recortes de imprensa de Hong Kong, cartas comerciais e pessoais de e para a colónia britânica, correspondência com Xangai e Cantão, no tempo dos vários domínios estrangeiros. Isso significa que eu preciso de um tradutor.

Só para ver até onde ia o empenho, disse a MM que o meu inglês chega perfeitamente; ah! mas terei eu tempo? ‑ argumentou a inefável criatura. Com todo o trabalho de classificação, análise, compilação, enquadramento histórico, comentário, etc., etc., etc., terei eu tempo?

Reconheci que não, mesmo porque não podia fazer outra coisa. Claro que não, disse a voz pedante e obsequiosa do outro lado do fio. Portanto, a Fundação Cultural Luso‑Chinesa já providenciara. o dr. Jorge Silveira estava ao meu dispor, o dr. Jorge Silveira era um admirador dos meus livros, da minha personalidade; ansiava por conhecer‑me, trabalhar comigo, assistir‑me em tudo aquilo de que eu precisasse. Contive‑me para não dizer a MM que precisava unicamente de um exterminador de chatos. Em vez disso, agradeci‑lhe a atenção e marquei uma entrevista para esta tarde.

Mas antes dessa entrevista aconteceram outras coisas que quero deixar registadas. De manhã, quando A‑Lo tocou à minha porta, resolvi que, a caminho do Palacete Amarelo, faríamos um grande desvio pelo Ma Kok Miu, o famoso Pagode da Barra ‑ se bem que não compreenda por que lhe chamam pagode; não há nenhuma grande torre no complexo do templo dedicado à deusa A‑Mah, a concubina celeste do Imperador de Jade, a mãe protectora que afasta os tufões de Macau e vela pelos pescadores.

Durante a visita, reflecti: é curioso, eu, que me revoltei contra as negaças do transcendental, ando constantemente enrodilhado em divindades. Mas na verdade, não sou o único: mal acabara de fazer esta reflexão, dei de caras com o Manuel Garcia.

Ainda não o mencionei neste diário porque tenho‑o visto poucas vezes: é um professor do ensino secundário oficial que me foi apresentado por Daniel ‑ um homem ainda novo, de forte barba negra, muito discreto e reservado, mais dado a sorrir do que a rir. Vive em Macau há largos anos; a mulher também é professora e está a ensinar no Colégio de Santa Rita. Formam um casal simpático.

Quando o vi no templo, julguei que estivesse em serviço de anfitrião, para benefício de algum visitante; algo que, disse‑me Daniel, ele gosta de fazer. Mas não, viera sozinho, como eu. Era então uma promessa devida a A‑Mah? ‑ perguntei por brincadeira, por me parecer que ele é agnóstico ou talvez, mesmo, ateu militante. Garcia deu uma resposta a condizer, mas reparei que havia nele uma certa perturbação; como se o tivesse apanhado em algum flagrante delito.

- às vezes venho até cá, só para rever isto ‑ explicou timidamente; ‑ é para não esquecer que as coisas estão aqui.

Parecia tão pouco à vontade que acorri em seu auxílio: disse que compreendia muito bem o que ele queria dizer, eu próprio nascera e vivera dezassete ou dezoito anos em Lisboa sem subir uma única vez ao Castelo de S. Jorge. Ainda agora, podia contar as minhas visitas pelos dedos de meia mão.

Garcia pareceu aliviado com esta réplica; como se ela o libertasse de arranjar mais explicações embaraçosas. E logo teve uma ideia súbita:

- Se você quiser... amanhã, tenho a manhã toda livre: quer dar uma volta, ver todos os sítios que ainda não visitou?

Aceitei sem a mínima hesitação. Porque não vou criar‑lhe um incómodo; tenho a certeza de saber o que o levou esta manhã ao templo de A‑Mah. Ele anda, secretamente, a despedir‑se de Macau, a rever todos os lugares para os guardar na memória quando voltar a Portugal e lhe restar ir viver para um três assoalhadas na Damaia (espero, sinceramente, que não seja na Damaia, em nenhuma das Damaias que nós tão inteligentemente criámos para nosso regalo e bem‑estar).

Marquei na minha agenda que amanhã é dia de passeio com Manuel Garcia. Posso permitir‑me estas escapadelas porque o meu trabalho está bastante adiantado: já abri e explorei a terceira e a quarta caixas, vou agora na quinta.

o que me traz de regresso ao meu grande admirador Jorge Silveira; ele apareceu‑me no gabinete, a seguir ao almoço. Não é o que eu estava à espera que fosse. Para começar, é muito mais novo do que julguei, não deve ter ultrapassado os trinta anos ‑ ou talvez pareça mais novo por ser alourado, com pouca barba, e ter pele branca e olhos azuis. À superfície, é simpático, tem até um riso aberto; e também possui um inegável sentido de humor. Está, portanto, completamente fora do MM‑padrão. Mas, se MM é um secreto recruta de Richard Wang, este rapaz Silveira pode muito bem ter sido seleccionado pelo velho milionário e impingido a MM, com ordens para que ele mo servisse à hora do chá.

Tenciono não perder tempo com especulações deste género. Venha de onde ou de quem vier, o meu grande admirador Jorge Silveira é um agente inimigo ‑ como Xavier, como Rosa Leong. Resta‑me ser muito simpático e não confiar nele nem um bocadinho. Exactamente o contrário do que ele me disse esta tarde com um sorriso encantador.

- Pode confiar em mim inteiramente para todas as traduções; já tenho experiência disso!

Dei‑lhe uma resma de coisas sem interesse. Aliás, o conteúdo das últimas caixas é notoriamente árido: correspondência comercial (em inglês!), dois artigos assinados por Wang Wu, com datas do século passado, publicados em jornais da época; dois ensaios literários, inéditos, suficientemente bem escritos para poderem ser publicados: um sobre poetas chineses e outro sobre Camões. Este segundo texto, medíocre, foi redigido talvez para ser lido numa conferência.

Pelo seu morno conteúdo, as caixas do espólio recentemente abertas servem a minha estratégia ‑ porque já estabeleci e comecei a aplicar uma estratégia. Em duas noites, trabalhando até tarde, sem que Xavier pudesse arranjar um pretexto aceitável para ficar a vigiar‑me, seleccionei as peças mais importantes do material "embaraçoso" e fotocopiei‑as. Essas fotocópias estão agora bem guardadas ‑ e nem a este diário vou confiar o segredo do seu paradeiro; a minha casa não é propriamente inviolável. Ao mesmo tempo que fazia isto, criei um título novo na grelha de classificação de material: "Dispersos". Subtítulo: "Para estudo posterior. Dado que na grelha já constavam os títulos "Prioridade para publicação" e "Documentos com grande interesse", a entrada de todos aqueles cules e do ópio nos "Dispersos" deverá tranquilizar a oposição. Se Xavier alguma vez devolver o original com o poema da orquídea, também o porei aqui. Claro que os "Dispersos" são, na minha classificação secreta, o material prioritário, o que será publicado em primeiro lugar.

Esta é a estratégia. o que farei a seguir, não sei ainda; depende do que conseguir descobrir. Para já, estou a recorrer à bibliografia que Daniel e Catarina me forneceram para tentar obter uma imagem do que era Macau quando Wang Wu aqui viveu e prosperou.

É difícil compor essa imagem, quanto mais não seja porque o longevíssimo Comendador atravessou quase um século inteiro antes de bater à porta dos seus antepassados. Conheceu os tempos em que a Sociedade dos Rios e dos Lagos (mais uma seita; estaria ligada à "minha" orquídea") conduziu a abortada revolta dos faitiões, assassinou Ferreira do Amaral e fez ir pelos ares a fragata "D. Maria II"; seguiu de perto, certamente, as negociações do Tratado de Tien‑Tsin; conversou talvez com Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes; há‑de ter tomado chá com Sun Yat‑sen e assistiu à queda da dinastia manchu. Observou, com os seus olhos cépticos de confucionista, a procissão do Corpus Christi, tal como Pessanha a descreveu, com padres, portugueses e chineses, a desfilar vestidos de cabaias e ostentando rabichos compridos. 1832‑1921, reza a biografia do homem; quase me dá tonturas pensar em tudo aquilo que desfilou diante dele.

Wang Wu assistiu, portanto, aos amuos de dois impérios decadentes, o do Céu e o dos Lusitanos; cada um deles agarrado à poeira gloriosa do seu passado; ralhando‑se e lançando‑se pedras, ambos incapazes de se defrontarem a sério e despidos da sabedoria necessária para se entenderem. Enquanto o leão inglês prosperava, sorrindo de tanta impotência ‑ e impunha o ópio à China e vinha a Macau para se embebedar e jogar o fantan.

Velhos tempos. Mas não tão velhos assim, afinal, porque os dois comparsas de antigamente não ganharam experiência, nem maturidade, nem sensibilidade, nem inteligência. É por isso que se preparam para destruir o bem comum que possuem. Um cheio de nacionalismos, o outro cheio de desistências. Um estende a taça cheia de vinagre, o outro deixa lá cair a pérola.

 

                                                   Dia seguinte.

- E se a Cleópatra depois bebeu o que estava na taça, foi disso que morreu e não de nenhuma picada de cobra; experimente você dissolver uma pérola em vinagre e engolir a mistela resultante!

Isto disse eu, pela manhã, a Manuel Garcia, quando contemplávamos Macau, a Pérola, do alto da fortaleza do Monte. Era o passeio que ele me prometera e que nos levara a sítios que afinal não me eram desconhecidos mas que ainda me reservavam um segredo: os jardins, de manhã muito cedo, à hora a que os velhos levam os seus pássaros ao passeio. Penduram as gaiolas nos ramos das árvores ou pousam‑nas sobre a relva e ficam, gravemente, sentados num banco, a ouvir os trinados. É também a hora a que muitos chineses ‑ homens maduros, senhoras de meia idade, um ou outro rapaz ‑ vão fazer os seus exercícios, concentrados em si próprios e sem ligar a quem passa ou a quem olha. Respiração, do‑in, artes marciais... os poucos espaços verdes de Macau, ainda que apertados numa cidade que arqueja e anda a trote, são, àquela hora, ilhas de repouso, com trinados, danças, gestos lentos e harmoniosos.

A subida ao Monte era o remate, o acto final. Foi aí que falei da pérola de Cleópatra a Manuel Garcia. Mas ele riu‑se, abanou a cabeça e começou a debitar informações, apontando: além estavam a conquistar mais terreno às águas do delta; além, o velho Seminário de S. José; lá para o fundo, aquela urbanização nova, de um branco ainda faiscante, que a humidade não tivera tempo de manchar, era o Bairro do Oriente, um empreendimento de luxo financiado por gente de Hong Kong. Mais perto, na cidade velha: via eu aquele casarão, espécie de palacete, quase tapado de andaimes? É o anexo mais recente da Biblioteca Central. A restauração do prédio está a custar uma fortuna, dizem, e a imprensa até já falou nisso; mas é a costumada mesquinhês portuguesa, está claro que vale a pena, o prédio é uma preciosidade.

E então, perdi de repente a diplomacia:

- Preciosidade? Uma fortuna? Ouça, ainda agora falávamos da pérola de Cleópatra. Você não acha que estamos só a enganar‑nos a nós próprios com este esforço ‑ um esforço que estava em falta há séculos? Vale a pena, Manuel Garcia? Temos pela frente meia dúzia de anos. Depois, a China toma conta de Macau e a China, você sabe‑o bem, tem outros gostos e outros interesses. Macau? Não: Ou Mun.

Ele tentou falar, mas eu só tinha parado para tomar fôlego:

- Veja você o espólio literário português do Comendador Wang Wu, um tipo que para mim começa a parecer‑se cada vez mais com o Mandarim Ti‑Chiri‑Fu do Eça! Claro que me dá muito jeito, a mim, Adriano Carreira, tratar‑lhe do espólio... é bem pago, são uns largos meses no Extremo Oriente exótico, veio mesmo a calhar porque, não sei se sabe, eu tinha‑me passado dos carretos e precisava urgentemente de uma mudança de ares. Mas o que é que tudo isso tem a ver com Macau? Amanhã, o espólio Wang Wu desaparece, juntamente com o Palacete Amarelo, que é a amostra de um estilo miseravelmente colonialista. Dez anos depois de 1999, não há‑de sobrar um único vestígio português em Macau. E o resto ou é idealismo, caso seu, ou oportunismo, o meu caso.

Ele desistiu de protestar, ao menos com o vigor inicial. Eu cometera um excesso, mas esse excesso colocara‑me a descoberto e isso criara como que uma cumplicidade. Cada um de nós descobrira o flanco das suas fraquezas.

Por isso, Manuel Garcia leccionou‑me tranquilamente, cordialmente, sobre as obrigações que os portugueses têm: para com os chineses, e sobretudo para com estes seus filhos tão mal amados que são os macaenses; para com a História. E sempre, em fundo, discreta mas tão presente que eu quase podia dizer‑lhe a cor, estava aquela amargura, aquela suave angústia de Macau em fim de estação. A brisa que soprara por momentos tombou e desapareceu. As nuvens gordas e escuras que tinham velado o Sol em Macau passaram para a China. Transpirámos com mais força. Descemos à cidade e fomos beber cerveja, para afogar o calor e a conversa.

- Sabe você ‑ disse‑me Manuel Garcia de repente - quem é que merecia uma investigação, uma história? Não é o Comendador; é a mulher!

Larguei a rir:

- A sra. Wang, a Irmã Maria da Conceição, a megera, a terrível! já pensei nisso. Mas onde é que eu arranjo essa história?

E ele respondeu simplesmente: o padre Frazão, claro. o padre Frazão, que chegou a Macau ainda muito novo e conheceu a senhora... ele ainda hoje garante que a converteu, acrescentou Manuel Garcia, e julguei ver‑lhe um leve sorriso de ateu amável.

- Eu sei. Converteu‑a e foi o confessor dela. Mas se o padre não quer que eu publique as histórias sujas do marido, o que fará com as da mulher?

- Convença‑o! ‑ exclamou o professor. ‑ Diga que quer escrever sobre a conversão da irmã e as boas obras que ela fez. Sobre isso, ele fala com certeza.

E eu decidi, ali mesmo, que a sugestão era boa; melhor, até, do que o seu autor poderá imaginar. Pelo pouco que sei dela, seguir a pista da sra. Wang pode dar‑me as respostas de que preciso: que espécie de homem era o Comendador, o que é que as orquídeas têm a ver com as sociedades secretas ‑ e por que razão Richard Wang leva tão longe a sua operação contra as verdades incómodas. Talvez consiga mesmo a resposta à pergunta mais importante: por que razão Richard Wang declarou a guerra, antes mesmo de tomar a medida mais lógica: falar comigo e pedir‑me que, por mera questão de delicadeza, eu o ajudasse a proteger a memória do avô.

 

                                         Mais tarde.

Estou tão cansado que não vou conseguir dormir. Este dia foi demasiado cheio e demasiado perturbador.

A seguir ao almoço, tive uma primeira reunião de trabalho com Jorge Silveira. Uma coisa consegui, pretextando falta de espaço: ele não trabalha no meu gabinete. Aliás, pode fazer as traduções em casa ‑ ou onde lhe apetecer, isso é‑me indiferente, desde que não o tenha todo o dia a espreitar o que eu faço.

Mas talvez ele me possa ser útil, afinal de contas. Tenho de admitir que é rápido e eficiente: os textos que lhe dei ontem já estão traduzidos ‑ e bem. No entanto, parece muito inseguro: perguntou‑me duas ou três vezes se eu ficara satisfeito com o trabalho e mostrou‑se exageradamente feliz ‑ digo bem, feliz e não servil ‑ quando o elogiei.

Logo que pude, despachei‑o e fui bater à porta do padre Frazão, que me convidou para tomar chá com ele, no seu gabinete. Não foi difícil, entre duas chávenas de lapsang, puxar a conversa para a Irmã Maria da Conceição. Aproveitei a ideia de Manuel Garcia e disse‑lhe (sou, até, muito capaz de o fazer) que tencionava incluir no meu trabalho uma referência biográfica sobre a viúva do Comendador ‑ afinal, a pessoa a quem se deve a existência do espólio, intacto e confiado aos cuidados da Misericórdia...

o padre interessou‑se pela ideia; o problema é que não sabe muito sobre a primeira vida da Irmã Maria da Conceição. Ou antes: o que ele sabe está coberto pelo segredo da confissão. Ainda assim, deu‑me pistas: ela veio de Swatow e deve ter sido comprada por Wang Wu quando era ainda muito nova. o padre Frazão não sabe quando Wang casou com ela, mas diz ter a certeza de que foi em Hong Kong... é curioso: ninguém, até agora, tinha achado interessante ou pertinente dizer‑me que o Comendador passou um período importante da sua vida em Hong Kong e aí acumulou parte da sua fortuna! Começo a pensar que tenho de ir a Hong Kong. E, mais uma vez, a biografia da sra. Wang pode fornecer‑me uma camuflagem. Veremos.

Mas o acontecimento mais notável do dia estava para vir. Ia despedir‑me do padre Frazão quando ele se lembrou de mostrar‑me uma relíquia que a Misericórdia está a recuperar, também com o apoio da Fundação Cultural Luso‑Chinesa: a igreja de Nossa Senhora das Dores, mais conhecida por Capela de Liam‑pó. Fica mesmo em frente do Palacete Amarelo, é uma igrejinha do século XVIII, quase pobre na sua simplicidade. Diz‑se que se encontram ali os restos mortais de alguns dos portugueses mortos em Liam‑pó, quase dois séculos antes da construção. Não há provas documentais, mas a tradição foi suficientemente forte para baptizar a capela e talvez seja verdadeira porque ela ergue‑se no local onde antes havia outra igreja.

Fomos, portanto, visitar a Capela de Liam‑pó, cujo interior já está restaurado. E ‑ veja‑se como são as coisas, como os fados se conjugam da maneira mais espantosa: quando entrei, a reboque do padre Frazão, só vimos uma pessoa. Essa pessoa era Rosa Leong: estava a colocar uma vela diante do altar de S. Francisco Xavier, esse raro espanhol lusófilo cujo primeiro túmulo se situou nesta parte do mundo, bem perto de Macau.

Momentos mais tarde, completada a visita, o padre Frazão, que conhece todos os jornalistas de Macau, porque escreve para todos os jornais, incluindo os chineses, despediu‑se de nós. E assim que me vi liberto da sua presença tutelar, fiz aquilo que ansiava fazer desde que entrara na capela e cuja abstenção começava a pôr‑me doente. Isto é: larguei uma gargalhada.

- De que é que está a rir? ‑ perguntou Rosa, num desafio.

- Da circunstância. Você é muito ecléctica, não é? Acende pivetes no templo do deus dos patos, acende velas a S. Francisco Xavier na Capela de Liam‑pó... posso ir consigo à mesquita? Vai para lá agora, suponho?

Esperava que ela me explicasse: respeitava a memória da trisavó materna, mas por outro lado devia uma promessa a S. Francisco ‑ qualquer coisa do género. Enganei‑me, e, mentalmente, tirei‑lhe o chapéu.

- Não, não vou à mesquita. Vou tomar uma bebida, porque preciso disso urgentemente. Boa tarde.

E aqui está como, contra todas as regras do bom senso, da segurança e da estratégia, Rosa Leong, jornalista, agente a soldo de Richard Wang o inimigo, veio a minha casa beber o meu Whisky.

Quero que este diário continue a ser um registo perfeitamente sincero e verdadeiro; afinal de contas, é essa a única razão por que o escrevo. Assim, abreviarei o relato desta visita pela boa razão de que há muito pouco a dizer.

Rosa sentou‑se deliberadamente longe de mim e fez conversa de cacharolete. Quando insisti no seu eclectismo religioso, encolheu os ombros e pareceu muito divertida:

- Não estava à espera que percebesse. Você não passa de um kwaz‑lôu. Que acende um único pivete diante de Hông‑kóng Sân, quando nunca se faz isso, as pessoas acendem, no mínimo, três pivetes!

Por isso, naquela manhã, o garoto, o filho do bonzo, me tinha olhado com ar de troça. Dei um suspiro teatral:

- já cá faltava o estafado, o esgaçado, o desgastado kwai‑lôu.

- Faltava...?

- Pois. De cada vez que se carrega na tecla "exotismo chinês", é preciso falar dos diabos estrangeiros.

Rosa levantou‑se para sair.

- Vocês é que são exóticos - comentou tranquilamente, enquanto pegava na minúscula bolsa de couro. ‑ São uma gente estranha... e os portugueses são ainda mais estranhos do que os outros...

- Uns kwai‑lôus de trazer por casa, não é?

Ríamos os dois quando a acompanhei à porta. Aqui, tive uma hesitação: como é o adeus? Aperto de mão? Mas Rosa avançou com naturalidade até à porta do elevador e pôs assim dois metros de permeio entre nós.

- às vezes, penso que se tivesse acontecido em Macau o que aconteceu em Liam‑pó não haveria tantos problemas.

- Muito agradecido ‑ disse eu, numa vénia.

o elevador chegou e ela desapareceu antes que eu pudesse interpretar o seu rosto.

Voltei à minha sala, deserta e, pior que isso, vazia.

É muito fácil a Malaquias dizer: seja o que for, aconteça o que acontecer, evita recomeçar a tomar remédios; só num último extremo. Mas o que é um último extremo?

o que me irrita nisto tudo é que me senti excitado.

 

                             7 DE SETEMBRO, Hong Kong

Abençoado seja quem inventou o ar condicionado. o calor é tanto que só o desembarque do jetfoil, as formalidades idiotas e o trajecto para o hotel deixaram‑me completamente atordoado, sem forças e sem fôlego. Mal cheguei ao quarto, nem me preocupei em abrir a mala, atirei‑me para cima da cama e fiquei ali, à espera de que a deliciosa frescura ambiente me devolvesse a energia e um pouco de lucidez. Dormi durante três horas. Finalmente, já sou capaz de escrever.

De escrever e, também, de sentir outra vez o arrepio que me percorreu as costas quando esta manhã, em Macau, Xavier entrou no nosso gabinete, com um largo sorriso a iluminar‑lhe a cara, e me entregou o original do poema da orquídea e uma tradução do texto em português que ele, segundo me explicou, esteve a fazer durante todo este tempo, com a ajuda da mulher. Mais uma vez, felicitei‑me intimamente, com fervor, por nunca lhe ter contado que fiz uma fotocópia e que já tenho a tradução que Catarina me arranjou.

Porque o texto que Xavier me trouxe é completamente diferente; é uma charada sem pés nem cabeça, sem sentido. Ele diz que se trata muito simplesmente de um poema falhado, que o Comendador terá começado a escrever e que desistiu de acabar. De novo me interrogo: qual o motivo suficientemente forte para o fazer correr este risco ‑ porque é óbvio que, ainda que tivesse conseguido enganar‑me, a mentira se descobriria mais tarde ou mais cedo?

Durante toda a viagem até Hong Kong, vim a pensar nisto. Mas é cedo para construir uma hipótese. Talvez consiga aqui alguns dados; esta tarde, vou à Redacção do "South China Morning Post", à procura do passado do Comendador e de Madame.

 

                                         Mais tarde.

De regresso ao hotel e de novo arrasado. Hong Kong é uma cidade extraordinariamente fatigante, este povo corre e empurra‑se sem a mínima cerimónia; é verdadeiramente a luta pela sobrevivência, desenfreada e confessada. Sinto que aqui, com menos de seis a dez zeros americanos ou esterlinos à direita na minha conta bancária, dificilmente seria reconhecido como um ser humano e pensante. já tenho saudades de Macau.

A minha incursão no "South China" foi uma desilusão: nada, nem um vestígio. Ou o preclaro Wang Wu foi muito discreto enquanto viveu na colónia, ou, nessa época, ainda não era preclaro. Resta‑me tentar, amanhã, uma última oportunidade que Daniel me proporcionou: uma entrevista com um tal Tom Koopman, um holandês que trabalha para uma editora local, a "Victoria Publishing House", e que sabe praticamente tudo quanto é possível saber acerca desta região.

Olhei agora para o espelho, distraidamente, e vi que estou com um belo par de olheiras. Adriano, não podes continuar assim, meu filho, onde é que está a convalescença? É tempo de descansar, tomar um banho e descer para tomar uma bebida e jantar...

Mas antes, uma singela precaução: uma chamada para Macau, para a casa de Xavier, sob um pretexto plausível.

Para ter a certeza de que ele não se encontra em Hong Kong.

 

                                       18 DE SETEMBRO

Qui laetificat juventutem meam!

Que dia. Que dia inesquecível!

A verdade é que já me levantei com uma disposição especial: tanto quanto ontem me sentia atordoado e lento, estava hoje lúcido e de espirito afiado logo ao sair da cama. Acho que trauteei qualquer coisa na casa de banho ‑ pela primeira vez desde há anos.

Com o pequeno‑almoço ‑ ovos, salsichas, torradas - tive de resistir à tentação de mandar vir champanhe; era muito agradável aquela boa disposição, mas tinha um longo dia de trabalho à minha frente.

E lancei‑me ao trabalho. Um táxi que o porteiro do hotel me arranjou levou‑me através do trânsito, já histérico àquela hora, até à sede da editora; e nem o calor, nem a humidade lograram sabotar o meu moral. Isto vai mesmo bem comigo, pensei. É espantoso. Se cabe usar para Hong Kong o lugar‑comum "selva de pedra", então pode‑se dizer que a "Victoria Publishing House" assentou arraiais numa das árvores mais exóticas dessa selva. Nunca me dera conta) até chegar a esta parte do mundo, de que o beliscão de terreno que é Hong Kong serve de laboratório para experiências arquitectónicas ousadas. Os escritórios da editora situam‑se no décimo sexto andar de uma dessas experiências. E enquanto eu subia num elevador transparente que me dava vertigens, pensava, apesar do meu optimismo, que não era possível ‑ psicologicamente possível ‑ encontrar as informações que procurava naquele pequeno universo de vidro, aço, acrílico e cimento, um mundo harmonioso mas asséptico onde, evidentemente, os monitores dos computadores só se iluminavam para mostrar colunas de números ‑ estatísticas, índices, cotações.

Enganei‑me. Por inacreditável que pareça, todo esse mundo desaparece quando o visitante entra no gabinete de Mijnheer T. Koopman, Chefe de Pesquisa da "Victoria Publishing House". É uma divisão ampla, onde paira um vago perfume de incenso e que ocupa uma esquina do andar e portanto duas das paredes são, praticamente, todas de vidro. Mas quase não se dá por isso. As pesadas cortinas (cortinas e não estores!) criam uma penumbra de igreja, cortada apenas pelas lâmpadas de candeeiros baixos, de mesa. Por toda a parte, tal como no gabinete do padre Frazão mas em muito maior escala, há livros, antigos e modernos, encadernados em couro velho ou novo, em napa, sem encadernação; gravuras, desenhos, fotografias, recortes de jornais, pergaminhos. o inevitável computador é a única coisa que recorda o mundo que pulsa e vibra lá fora.

E no meio de todo este caos e desta penumbra, resplandece T. H. Koopman, TK para amigos e mesmo só conhecidos, uma figura muito diferente do padre Frazão e tão inesperada como o seu próprio gabinete. Daniel dissera‑me: "é um tipo ainda novo"; mas esta descrição imprecisa não bastava. Quem avançou para mim, de mão estendida e vasto sorriso de boas‑vindas, foi um gigante louro com ar de adolescente e que, se não fossem os óculos grossos e o hábito de andar ligeiramente curvado, eu veria melhor num estádio.

- Desculpe a desordem... sente‑se... café, cerveja, chá, whisky? Espere, vamos os dois para aqui, eu desalojo estes livros! ‑ Apesar do seu aspecto nórdico, T Koopman tem uma volubilidade latina a que nem sequer faltam os gestos. Logo durante os primeiros dez minutos de conversa, garantiu‑me que parte da sua ascendência é portuguesa, mas pergunto‑me se não estava a querer ser simpático: se tem sangue português, não se nota nada. De qualquer modo, ele é incongruente mesmo entre os ingleses de Hong Kong. E a incongruência não é só física: pelo que percebi, ele nasceu algures nestas paragens e deve ter sofrido uma certa osmose asiática; nota‑se, em todo o caso, que não pensa nem fala exactamente como um norte‑europeu típico. Ao fim de alguns minutos de conversa, admiti: pode até ser que tenha sangue português, afinal.

De repente, sem transição, Koopman deixou as banalidades introdutórias, olhou para o tecto e entrou no assunto: ‑ A sra. Wang... ‑ disse ele; ‑ a sra. Wang; o Daniel avisou‑me sobre o que você queria. Wang pelo casamento com um Wang Wu, que foi um notável de Macau... note que há com toda a certeza vários milhões de Wangs em toda a China... leu aquele livro da Pearl Buck, "Os Filhos de Wang Lung"? Wang. É estranho, acho que cheguei lá, aonde você quer, mas há nomes que não coincidem... é uma história engraçada, vai ver... a sério, nem um chá?

Aceitei o chá. Que era de pacote, feito com água que ele tirou de uma garrafa térmica. Desculpou‑se, podia pedir a uma das raparigas do expediente que lhe arranjasse chá melhor... mas perde‑se tanto tempo!

E ele estava com pressa, não para me pôr a andar mas para contar‑me a história engraçada da sra. Wang.

- Bom. Em primeiro lugar, ela chamava‑se Chan Ai‑Ling e veio de Swatow. Claro está, não há a mínima hipótese de saber em que ano nasceu. Mas descobri que, aí por volta dos catorze anos, deve ter sido ou comprada ou ‑ é o mais provável ‑ raptada por um pirata... ah, já está a rir‑se? Espere, que há muito melhor!

De facto: faltava‑me, nesta história toda, uma donzela raptada por piratas. Não que fosse inverosímil, bem sei que a pirataria no delta do Rio das Pérolas prosperou até à II Guerra Mundial e que ainda hoje existe nestes mares, embora mais restrita e mais discreta.

Koopman prosseguiu:

- tínhamos, portanto, a nossa Ai‑Ling na posse de um pirata. Não um dos mais famosos, mas suficientemente conhecido para ter deixado rasto, e foi esse rasto que permitiu a Koopman encontrar referências sobre a mulher. Porque o que aconteceu então, depois da compra? Aconteceu que a espertíssima Ai‑Ling se transformou na alma danada do seu senhor. Uma espécie de Lai‑Choi‑San, aquela célebre chefe de piratas que aterrorizou o delta, que comandava uma esquadra de doze juncos armados com canhões e se dava ao luxo de abrigá‑los no Porto Interior de Macau. A nossa Ai‑Ling, segundo parecia, não tomava parte directa nas operações, mas constava que era ela quem organizava e dirigia tudo, não apenas os assaltos mas também o tráfico de ópio, o contrabando de tabaco...

- E então ‑ perguntei eu ‑, onde é que Wang Wu entra nesta história?

Pelo seu ar deliciado percebi que esperava a pergunta. Ah, essa é a parte mais estranha: não entra. Não há, nesta época, nenhuma menção... note‑se que ele ainda era muito novo, estamos a falar de há mais de um século... mas: há um pormenor muito curioso. o nome do pirata, o homem que comprou ou raptou Ai‑Ling, o homem de quem ela passou a ser sócia‑gerente, chamava‑se Worig Wei... assim:

E Koopman escreveu rapidamente, num canto de um papel, o nome em letra de imprensa. E saboreou plenamente a minha exclamação (claro que estávamos a falar em inglês):

- Wong Wei; Wang Wu. Jesus Christ!

- Foi o que eu pensei. E note que todos os dados permitem essa interpretação; pelo menos, os que dizem respeito ao período em que esse Wang esteve em Hong Kong.

E também no que toca a Macau, interrompi. Wang Wu terá partido de lá para Hong Kong quando tinha uns dezoito anos. Depois, o rasto perde‑se.

- Perde‑se o rasto ‑ completou Koopman, excitado mas aí por volta de 1852, ou 53, começa a haver notícias sobre o pirata Wong Wei. Em 1861, Wong Wei e Ai‑Ling deixam de operar no delta, pelo menos pessoalmente, e corre a notícia de que foram para a China. E não se volta a falar deles. Até que, em 1875, temos uma carta de um missionário católico de Xangai para um padre de Hong Kong... português, por sinal... a anunciar‑lhe a chegada à colónia de um negociante Wang Wu e de Ai‑Ling, sua mulher, que ele tinha tentado converter e baptizar. A conversão ficara a meio, talvez porque Wang decidiu transferir‑se para Hong Kong... e o missionário... não vale a pena escrever, eu vou passar‑lhe tudo isso, com nomes!

Esta última frase, Koopman dissera‑a porque eu tinha aberto o meu bloco de notas e escrevia gatafunhos febris. Parei e agradeci‑lhe efusivamente. Ele prosseguiu: o missionário, desejoso de que aquela ovelha não se perdesse, pedia ao padre de Hong Kong que estabelecesse contacto e, para lhe facilitar o trabalho, contara‑lhe o que sabia dela, como passara numerosas provações, como fora raptada nas proximidades de Swatow pelo "feroz pirata" Wong Wei. Obviamente, o missionário não fizera qualquer associação de nomes, mas afinal a China fervilha de Wangs, de Wongs, de Weis e de Wus.

Portanto, o casal fixa‑se em Hong Kong em 1875 e tudo indica que a sra. Wang adiou a sua conversão para mais tarde. Em todo o caso, ela e o marido constroem rapidamente uma respeitabilidade ‑ coisa fácil aqui, para quem tenha os meios ‑ e poucos anos depois Wang regressa definitivamente a Macau, embora conserve grandes interesses na colónia britânica e também na China. É hoje impossível conhecer a extensão desses interesses.

- E pronto! ‑ rematou Koopman, satisfeito. ‑ Foi o que consegui saber.

- E não foi pouco! ‑ exclamei; e acrescentei mais um Jesus Christ. Mas, logo a seguir, observei: como era possível que estes elementos, que ele obtivera assim tão rapidamente, fossem desconhecidos do grande público? Como era possível que ninguém, em Hong Kong, tivesse percebido que o Comendador voltara a ser notícia em Macau, que ninguém fosse desenterrar esta matéria tão escaldante?

Com a desenvoltura que lhe dá a sua neutralidade holandesa, Koopman explicou: porque Hong Kong se está imperialmente nas tintas para Macau. Porque é um misto de chinês com inglês, ou seja: dois umbigos do mundo na mesma tigela. Wang Wu não tem a mínima importância, não levantou sequer um único "Memorial Hospital" em Hong Kong. E Hong Kong concentra em si o orgulho e a arrogância dos filhos do Céu e dos filhos de John Bull... rimos os dois, em cumplicidade.

E depois... e depois, já eu me despedia, já ia a caminho da porta, quando Koopman disse, em tom displicente: ‑ Claro que há muito mais informações com piada... aquela época foi fabulosa! Há as seitas, os Boxers, a Tríade... e as mais pequenas, a Orquídea de Prata, a Sociedade dos Irmãos...

Tive de me reter para não o agarrar pelos colarinhos, na minha sofreguidão.

- Orquídea de Prata? Orquídea de Prata?

Surpreendido com a minha excitação, Koopman explicou: citara esse nome apenas por citar, não tinha importância especial. A Orquídea de Prata fora uma simples e obscura obediência da Sociedade para a Protecção do Imperador, uma das muitas seitas criadas nos finais do século passado. Se eu quisesse, ele tinha um pequeno folheto, publicado havia já um bom par de anos, sobre as seitas chinesas. Porquê tanto interesse?

A minha resposta foi convidá‑lo para jantar esta noite. Ele aceitou. Vamos encontrar‑nos dentro de uma hora e poderei contar‑lhe o que sei sobre a Orquídea que é a única esposa do Lótus e mais poderosa que os punhos harmoniosos da justiça...

o único problema, agora, é: o que vou eu fazer com todo este material?

A Orquídea de Prata. Nigel R. Webb, jornalista, killed by a flower, morto por uma flor.

 

                                 19 DE SETEMBRO, Macau.

o pior que me pode acontecer é um anticlímax. Sobretudo quando ele é acompanhado pela transferência brusca de um mundo para outro.

E o pior que me pode acontecer aconteceu‑me hoje. Esta manhã, tomei o Primeiro jetfoil de regresso a Macau, cheio ainda da conversa de ontem com Tom Koopman, a quem já comecei a chamar TK. Durante a viagem, entretive‑me a ler o folheto sobre as sociedades secretas e fiquei a saber que a Sociedade para a Protecção do Imperador foi fundada em 1899, no Canadá, por um monárquico reformista que procurava instaurar na China um sistema constitucional; o Imperador que a sociedade queria proteger era o jovem Kuang Hsu, que fora preso e forçado a abdicar pela terrível Tz'u Hsi, a Imperatriz viúva que cavou a sepultura da dinastia manchu. Foi, portanto, esta sociedade que inspirou a fundação da Orquídea de Prata, que apenas merece neste folheto uma referência breve ‑ mas em que se refere a existência de uma loja em Macau.

E agora eu começava a entender, embora me parecesse exagerada, a furiosa determinação de Richard Wang, os seus esforços para impedir as referências embaraçosas na publicação do espólio do avô. o comércio de ópio era legal no tempo de Wang Wu; o tráfico de cules é vergonhoso aos nossos olhos, evidentemente, porém esteve generalizado e tendo em conta a miséria que à época reinava na China pode, em rigor, ser admitido, ainda que reprovado. Mas a pirataria é outra coisa, muitíssimo diferente. Sobretudo porque se sabe quais os hábitos dos chefes piratas que operavam no Sul da China. Wang Wu, sob o nome de Worig Wei, não pode ter sido muito diferente daquele célebre Lam‑Kuai‑si, que ensopava em petróleo e queimava vivos os patrões dos barcos que atacava e que, quando os desgraçados cultivadores de arroz não podiam pagar‑lhe o resgate dos filhos que lhes raptara, devolvia‑os aos pais, mas depois de os cozer, inteiros.

Não faltará quem se lembre de tudo isto logo que se saiba que Wang Wu o comendador foi Wong Wei o pirata. E percebo também as reticências do padre Frazão em desvendar‑me o passado de Ai‑Ling, a sua arrependida e penitente Irmã Maria da Imaculada Conceição. As peças do quebra‑cabeças começam a entrar nos seus sítios; só me falta entender uma coisa, a iniciativa de Richard Wang. Afinal, foi ele que insistiu na divulgação do espólio e é ele que financia uma boa parte da operação. Será crível que ignorasse por completo o passado do avô?

Vinha tão absorto neste assunto que me recordo mal do desembarque. A‑Lo, o motorista, que eu mandei avisar ontem, estava à minha espera com o carro, o sorriso e a sua indescritível pronúncia do meu nome; e rumámos para casa sem que eu me desse conta, sequer, do trânsito caótico e do calor.

Este recolhimento interior foi despedaçado pelo toque do telefone, que começou a manifestar‑se no momento em que abria a porta de casa. Largo a mala na entrada, corro à sala, levanto o auscultador ‑ e ouço o terrível silêncio do satélite, aquela pausa de instantes que precede cada fala vinda do outro lado do mundo:

- Papá! Onde é que estavas? Passa das três da manhã! Ritinha. Engoli o coração, que me saltou até à garganta e ameaçava sufocar‑me; depois, fiz‑lhe notar que em Macau eram dez e pouco da manhã. Como era exasperantemente habitual, ela achou graça:

- É verdade! Tinha‑me esquecido!

Tenho de me preparar para um próximo telefonema seu às três da madrugada, hora de Macau.

- Uma grande novidade, Papá! Ganhaste um prémio de literatura!

Pela minha parte, não achei graça:

- É para me dizer isso que telefonas? Eu não concorri a nenhum prémio. Sabes isso muito bem. Eu não concorro. Nunca concorro! ‑ a repetição do cem "nunca" e "concorro" produziu uma cacofonia ofensiva que me irritou ainda mais.

Mas é verdade, insistiu Ritinha. o meu último romance, "o Exílio", que a crítica de dois ou três semanários sovou e a restante imprensa ignorou, foi distinguido com o Prémio Amadis, galardão atribuído sem concurso, um prémio que é gerido sob um estatuto de coutada, mas por um diferente e concorrente clube cultural. Os críticos bateram‑me, os juizes do "Amadis" premiaram‑me. É intolerável e noutras circunstâncias eu protestaria, mas sinto‑me estranhamente indiferente e passivo perante essas vicissitudes. Além do que, neste momento preciso, talvez o prémio (não: a notícia do prémio!) me seja útil.

- Estou há horas a ligar para aí! ‑ protestou Ritinha, depois de explicar os pormenores do feliz acontecimento. Abri a boca para lhe perguntar: por que é que a tua mãe não ligou? Por que não vem ao telefone? Mas calei‑me. Pura cobardia.

Parabéns, beijinhos, e telefona! Tu, aí, não pagas chamadas; se sou eu a telefonar, vais ver a conta que te bate à porta. Enquanto esvaziava a mala sobre a cama, arrumava a roupa limpa e atirava para o chão a roupa suja que Betty, a minha volumosa e simpática filipina, há‑de vir buscar para ulterior processamento, reflecti que, afinal, ainda basta um simples telefonema para reabrir as portas da depressão.

É bem possível, de resto, que aquilo a que chamo depressão seja pura e simplesmente a vida na Terra, o quinhão que cabe a cada um. Para mim, o quinhão seria a existência que levava em Lisboa e que eu confundi com pesadelo. Se assim for, o facto de me ter revoltado e de estar em Macau equivale a um acto inútil contra a minha condição.

Como tenho saudades do tempo em que não me sentia abandonado pela divindade.

 

                                       7 da tarde.

Pode ter sido, ou não, o telefonema de Ritinha; mas sinto‑me pior.

A notícia do prémio já foi transmitida pela rádio. Durante a tarde, no gabinete, tive de suportar as felicitações de Xavier e de Jorge, depois os telefonemas de dois ou três jornalistas a pedir depoimentos e entrevistas ‑ claro, Macau é tão pequena, e a Macau portuguesa tão minúscula, que tudo é matéria.

Cruzei‑me no corredor com o padre Frazão, mas ele não liga a essas coisas, vive num outro mundo ideal onde os letrados chineses vão à igreja rezar a Nossa Senhora de Fátima. Quanto a Daniel, conhece‑me bem de mais para me telefonar por causa disto.

A história do prémio não ajuda a minha disposição de espírito. o que me vale é que, pelo menos, descarreguei a bílis, algo que não fazia há demasiado tempo, e, supremo deleite, descarreguei‑a sobre MM.

De que modo e porquê? Eu tinha recebido da Fundação ou melhor, de Cristiano ‑ um pedido para preparar uma relação provisória do material do espólio analisado até agora que deverá ser seleccionado para publicação. Fiel à minha estratégia, não dei particular relevo às histórias de cules e ópio (que, agora, também já me parecem insignificantes). Deixei a relação pronta antes de ir a Hong Kong, porque sabia que Cristiano tem pressa em recebê‑la; mas, com a sua característica resistência passiva, Xavier arranjou duzentas e cinquenta e três excelentes desculpas para não a enviar. Então, um pouco ostensivamente, depois de responder a todas as suas dúvidas mandei chamar A‑Lo e ordenei‑lhe que fosse entregá‑la à Fundação, para que esta se encarregasse do envio para Lisboa, através dos seus canais privilegiados.

Foi isto às três da tarde. E às cinco e meia MM telefonou‑me. Depois de desembrulhado o discurso, postas de lado as introduções, afastados os circunlóquios, a mensagem era clara e não tinha mudado desde a última vez. Apesar das minhas cautelas, a simples menção de certos documentos levava‑o a recear ferimentos em certas susceptibilidades.

Por uma razão qualquer ‑ que há‑de estar relacionada com a chamada de Ritinha ‑, a minha capacidade de resistência esgotou‑se então.

- Que susceptibilidades? De quem? o Comendador é uma figura histórica de Macau. Estamos a falar de História aqui, não estamos a fazer fofocas.

Senti o sorriso superior de MM, o "eu‑conheço‑Macau‑e‑tu‑não‑topas‑nada‑disto": ‑ Aqui é diferente. Aqui, nós temos...

Interrompi‑o: ‑ Aqui, nós estamos, como estivemos quase sempre, de gatas e a sacudir a água do capote.

- Como? Eu...

- O espólio do Comendador Wang Wu deve ser publicado, não pelo que tem de interessante, mas para amanteigar a vaidade de um neto ricaço e mafioso...

- Como? Eu...

- Ouça. Foi só por cortesia que eu incluí uma cópia para seu conhecimento. Mas posso perfeitamente solicitar ao Conselho da Fundação um canal directo de comunicações, sem passar pela sede de Macau.

Depois de usar a artilharia pesada, ajeitei‑me melhor na cadeira, à espera da sufocação indignada. MM já não disse: "Como? Eu...". Disse coisas ponderosas, graves e magoadas. Não lhe dei muita atenção. Decidira subitamente que era melhor voltar a Lisboa e enfrentar o touro. Perdera as ilusões de saber pegá‑lo. Portanto, era preferível deixar‑me imolar nos seus cornos, numa oferta de segunda classe a qualquer que seja a divindade sádica que se encarrega do meu caso.

Mas enganava‑me. MM começou com suficiente fogo, ofendido e quase ameaçador; porém, à medida que falava convertia gradualmente os termos, de modo que, no fim, a mensagem era: estamos todos de acordo, só que uns são mais impetuosos do que outros. E acabou a dar‑me os parabéns pelo Prémio Amadis. É claro que nunca me perdoará.

Eu bem dizia que podia haver uma utilidade na porcaria do prémio. Se bem que, agora, já não me interesse defender a minha posição em Macau. A minha decisão está a ganhar volume e contornos. Amanhã vou escrever a Cristiano...

 

                                    9 da noite.

Tenho a cabeça a estalar com nevralgia.

Lei Siu Lam apareceu, esteve aqui hora e meia, por causa disso nem saí para jantar.

Não compreendo o que se passou.

Lei Siu Lam entrou da forma habitual, pela varanda, e foi sentar‑se no seu canto. Mas o que é hábito acaba aqui; a sua voz, a maneira de olhar, eram diferentes. Havia nele uma atitude secreta... um desafio?

Note‑se que eu também não estava normal ‑ admitindo que sei o que é estar normal. A tal ponto que me pareceu não ter, afinal, esgotado a bílis com MM.

- Pensei que tinhas mudado de casa! ‑ atirei‑lhe num tom agridoce.

E quando ele perguntou o que me levara a pensar isso, fiz‑lhe... admito agora que é ridículo; mas paciência, está feito. Fiz‑lhe uma cena. Como se fosse um amante abandonado. Acusei‑o de me largar da mão nas alturas em que precisava mais de apoio e ia, sem vergonha, desenvolver o assunto quando ele me interrompeu:

- Isso não é verdade. Eu estou aqui agora.

E depois, tranquilamente, aproveitando o tempo de que precisei para digerir aquilo, continuou:

- A verdade é que estava para mudar de casa. Talvez ainda mude, esperemos que sim... diz‑me uma coisa: continuas a querer abandonar Macau?

Convém recordar que a ideia me surgira poucas horas antes, durante o atrito telefónico com MM, e que eu não falara do assunto a ninguém. Torna‑se compreensível que eu tenha sentido um pequeno arrepio.

Mas não lhe perguntei como sabia, não caí nessa vulgaridade. Caí noutra: ‑ Salva a tua presença, estou farto de chineses. Entendes bem? Chineses, semi‑chineses, quartos‑de‑chineses, macaenses. Estou farto de olhos em bico. E se queres que te diga, não sei mesmo se vou salvar a tua presença.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Lei Siu Lam e depois espalhou‑se, abriu‑se até que ele riu à gargalhada.

- Adriano, mas é exactamente o contrário! Tu gostas dos chineses! Tu adoras os chineses e esse é um dos teus problemas, aquele, precisamente, que me traz aqui. Tu adoras os chineses desde que leste o Salgari... não, antes: desde que leste as aventuras do Zé Fagulha contra a seita do Olho Vivo e o Mandarim Xé‑Xé de Xangai...

Fez‑se um silêncio que trouxe para primeiro plano o zumbido do ar condicionado.

- Quem és tu?

Novo sorriso, mas agora um ar paciente, de preceptor.

- Adriano. Eu sou a tua vontade de estar em todos os lugares do mundo, de adoptar como teus todos os lugares do mundo, ao mesmo tempo que te agarras àquilo a que poeticamente se chama o torrão natal. Eu sou a tua vontade... impossível, desculparás... de ser chinês, e já agora indiano, negro, eslavo, lapão... conseguindo o milagre de continuar a ser quem és. Eu não existo, Adriano. Mas apesar disso, tenho as minhas utilidades. Tenho, como tu gostas de dizer, a minha serventia.

Virei‑lhe as costas e olhei pela vidraça a noite carregada de humidade. o Rio das Pérolas adivinhava‑se na distância, a escorregar no lodo.

- Não percebo.

- Isso, graças a Deus, nunca foi obstáculo para um português. Povo de poetas, mas não de filósofos. Também sou, já agora, a tua angústia de não conseguires essa grande comunhão geral, vagamente mística, vagamente apaixonada, vagamente espiritual, vagamente erótica. Estamos a ficar muito literários. Sempre voltas para Lisboa?

Abandonei a janela, olhei para ele. Lei Siu Lam erguera‑se e havia uma mudança, uma mudança física. Menos jovem, talvez. Mais triste? Não. Melancólico. Não é a mesma coisa.

- Não, não vou ‑ respondi sem pensar. ‑ Não vou sem fazer o que vim fazer e sem descobrir o que quero descobrir e que não é nenhuma verdade filosófica, mas muito simplesmente uma história suja.

Então, ele caminhou para mim, aproximou‑se tanto que eu recuei; depois, julguei que ia abraçar‑me. Mas no momento seguinte, não sei bem como, que movimentos fez, já tinha passado, estava junto da porta que dava para a varanda. Olhou para trás durante um instante e fez um trejeito. Depois saiu. E pareceu‑me que aquela visita tinha sido uma despedida.

 

                                   Mais tarde.

É estranho. Quase tenho dificuldade em acreditar que aconteceu o que acaba de acontecer. Ainda há pouco, cedi a esta dúvida e fui, puerilmente, à procura de provas.

Após um dia tão animado como este, a discussão com Lei Siu Lam deixou‑me num estado de espírito especial ‑ não deprimido, mas cansado, ou melhor: gasto.

Bebi um whisky, tomei um banho, destapei a minha melhor água‑de‑colónia e refresquei‑me, pensando construtivamente, ao sentir o perfume a escorrer no corpo: "a unção do cadáver". E esperei que A‑Lo chegasse. Tenho um acordo especial com A‑Lo: pago‑lhe do meu bolso um suplemento, uma gratificação para ele trabalhar também à noite, quando e se eu precisar, até à uma da manhã. Ele passa, pontualmente, às nove e meia, toca três vezes lá em baixo, espera dez minutos. Se eu não der sinal, vai para casa, julgo que abençoando os meus antepassados.

Desta vez não abençoou, porque fui ter com ele. Mas sorriu de orelha a orelha quando entrei no carro e saudou, como sempre:

- Good evening Mr. Ca‑lâh‑i‑lah...

...Ou mais ou menos isto. o que ele quer dizer é Carreira, mas o que é preciso é que a gente se entenda. Claro que, para firmar o acordo com ele, pedi a Catarina que servisse de intérprete, porque o inglês também não é o seu forte. Devo dizer, no entanto, que de uma forma geral entendo‑me bem com A‑Lo; recorremos a muitos gestos e muitos sorrisos para comunicar e conseguimos fazer passar as mensagens. Até sei que ele tem sete filhos e uma sogra e que a família da mulher é de Cantão. Por seu turno, A‑Lo aprendeu que eu escrevo livros e que embora não seja louco sou capaz de fazer coisas estranhas, como esta noite: pedir‑lhe que percorresse de ponta a ponta os oitenta quilómetros que são o comprimento máximo do Território, por estrada, a uma velocidade de 50 quilómetros por hora. Só para passear.

Quando ele arrancou, com o rosto iluminado por uma expressão condescendente, estes kwai‑lôus são todos esquisitos e o meu é mais esquisito que os outros, recostei‑me e fechei os olhos. Do que precisava era daquilo: o carro em movimento e o silêncio. Voltei a abrir os olhos a meio da ponte da Taipa; nessa altura, A‑Lo, que me espreitava pelo espelho retrovisor, perguntou:

- Comel? Eat?

E então, como ele falou nisso, senti o vazio do estômago e disse‑lhe:

- Sopa de fitas!

A‑Lo compreendeu imediatamente. Foi ele que me indicou, na Taipa, uma espécie de tasquinha chinesa onde a sopa de fitas é particularmente saborosa. Dizer "sopa de fitas" é já, para nós, um código. Portanto, não fez mais perguntas, meneou a cabeça com ar de aprovação e acelerou.

Surpresa à porta da tasquinha: Rosa Leong estava ali, de pé, a comer uma sopa. Era, muito sinceramente, a última pessoa que eu quereria ver naquela ocasião; teria preferido encontrar o próprio MM, o que evidentemente seria impossível, os MM's deste mundo não comem sopa de fitas numa tasquinha.

Resolvi manter‑me distante, mesmo porque na altura tinha esgotada a reserva de ironias amáveis. Cumprimentei e avancei até ao balcão. Rosa veio ter comigo. Nem é tarde nem é cedo, pensei, primeiro MM e depois tu, hoje é o dia para criar as mais sólidas inimizades.

- Minha senhora, hoje não dou entrevistas nem estou bêbado; lamento.

Abri assim as hostilidades. Mas Rosa, ao contrário do que eu esperava ‑ e ao contrário, tenho a certeza, do seu temperamento ‑ não respondeu no mesmo tom. o seu ar desconcertado quase me fez lamentar a piada.

- Palavra que eu quero fazer‑lhe uma entrevista! E agora, estou é a pensar na "Nova Abelha", por causa do...

- Por causa do bem‑aventurado prémio! ‑ interrompi. ‑ Posso convidá‑la para uma sopa de fitas?

Agradeceu, disse que já tinha comido uma.

- Venho aqui muitas vezes, quando saio do jornal... sobretudo, se estou muito cansada, isto acalma‑me. Não sei porquê!

- Não sabe por que é que sai do jornal cansada?

Pequeno trejeito de impaciência.

- Não sei por que me sinto mais calma aqui. Mas sempre gostei muito da Taipa. É uma espécie de retiro... ouça: por que é que você não gosta de mim?

Assim, de repente. Foi a minha vez de ficar sem fala. Mas recuperei e pensei: perdido por dez, perdido por vinte cinco mil.

- Rosa: acha que essa é uma pergunta que se faça? Ela franziu o sobrolho como se estivesse a considerar seriamente a questão.

- Não, não é ‑ disse por fim. ‑ Mas eu gostava de poder explicar‑lhe.

- Como se costuma dizer, sou todo ouvidos.

Rosa abanou a cabeça.

- Não aqui... ouça: eu podia fazer‑lhe a entrevista hoje, por que não? E a seguir, conversávamos.

- Por que não, - respondi. - Em minha casa? - Senti‑me observado atentamente, durante instantes.

- Por que não? ‑ respondeu por fim, entrando no jogo de palavras.

o resultado foi que dispensei A‑Lo, cuja impassibilidade correspondia, vi bem, a uma gargalhada malandreca, e transferi‑me para dentro do Honda vermelho que me vigiara a residência e me perseguira pelas ruas de Macau.

E Rosa Leong fez‑me a entrevista ‑ já nem sei o que lhe disse; e depois contou‑me uma história para justificar tudo o que acontecera e eu não acreditei e comuniquei‑lhe a minha incredulidade. E depois discutimos, embora civilizadamente e a meia voz. E depois, para dar maior ênfase a um argumento, ela pousou a mão no meu braço e eu toquei nessa mão e ela beijou‑me.

E o gelo acumulado em longos meses de angústia, o gelo que eu me habituei a pensar que seria eterno, como aquele que cobre as grandes montanhas da Terra, rebentou, fragmentou‑se em mil pedaços, desfez‑se em torrentes de água, torrentes de lama, de sémen, de amor e talvez também de ódio, não sei; sei que pela primeira vez em já longos anos eu não fiquei de fora a observar‑me no acto do amor nem senti a incongruência de um corpo de cinquenta anos sobre, ao lado e sob um corpo de vinte.

E agora é outra vez madrugada, Rosa partiu, estou só com mais uma questão filosófica para digerir.

Quia peccavi nimis cogitatione, verbo et opere.

 

                                      22 DE SETEMBRO

Ontem, quando A‑Lo chegou para levar‑me ao Palacete Amarelo, disse‑me na sua linguagem mista de inglês e mímica que viu Rosa, de manhã muito cedo, à entrada da "Nova Abelha". Afectei indiferença, mas achei graça ao seu ar de cumplicidade.

Não vejo Rosa desde o dia da grande explosão, que ainda não consegui compreender. Não a procurei e ela não me procurou. Só o tempo dirá o que vai acontecer, tendo em conta que ela é ‑ não posso esquecê‑lo ‑ um agente inimigo.

Até ontem à noite, eu poderia dizer: o inimigo anda singularmente pacífico. Cheguei a pensar que talvez a minha estratégia tivesse resultado, afinal. A pedido do padre Frazão, escrevi uma crónica, inócua e simpática, a propósito da figura de Wang Wu, para o semanário católico "O Clarim"; logo a "Nova Abelha" (cujo grande patrão é Richard Wang, também não o esqueçamos) avançou com a entrevista que Rosa me fez ‑ bem escrita, com espírito ‑ e solicitou‑me um artigo sobre o espólio, que eu redigi com as devidas cautelas e que foi publicado ontem, com grande destaque. Finalmente, um outro acontecimento importante nesta trégua que quase pareceu uma lua‑de‑mel: recebi um convite para a inauguração do novíssimo Centro de Artes Plásticas de Macau. o que seria normal, só que o Centro é uma exclusiva iniciativa de Richard Wang, que vem propositadamente de Hong Kong para assistir à cerimónia.

Nada disto bastaria para me fazer esquecer o que se passou nem para me fazer desistir da ideia de querer saber tudo o que haja para saber sobre Wang Wu. De qualquer forma, o dia de hoje trouxe novos factos e mostrou‑me que do outro lado a guerra também continua. Mostrou‑me alguma coisa mais quanto aos métodos do inimigo; e talvez que a relativa serenidade com que escrevo isto seja um sinal de que estou a habituar‑me a estes métodos e a este tipo especial de crueldade.

Ao fim da tarde, Jorge veio ao gabinete para trazer‑me algumas traduções e combinar um plano de trabalho para os próximos dias. Achei‑o estranho, ainda mais inseguro do que é habitual e, ao mesmo tempo... como explicar? Parecia que queria dizer‑me qualquer coisa que Xavier não devia ouvir. Parecia querer fazer um convite ou um apelo.

Conheço‑o há pouco tempo, mas já deu para reconhecer que ele é aquilo a que eu chamo uma pessoa "suave". Jorge é suave no tom da voz, nos gestos, no olhar; transmite, igualmente (pelo menos, é o que eu sinto), uma sensação de vulnerabilidade. Hoje, tudo isto parecia exacerbado. Tornara‑se quase terno ao mesmo tempo que tentava, obviamente, insinuar qualquer coisa no meio da conversa. Não fui só eu a notar: Xavier, reparei, ouvia‑o com muita atenção.

Mas Jorge deixou‑se ficar até à hora em que Xavier, pressionado por obrigações familiares, teve de ir‑se embora. Então, não perdeu mais tempo ‑ queria muito convidar‑me para jantar.

Desculpei‑me dizendo que não estava bem disposto, não me sentia capaz de comer, só tomaria uma chávena de chá.

- Não faz mal, tomamos só chá! Ouça, eu... peço desculpa. Mas estou a precisar muito de companhia, esta noite.

- Algum problema?

Jorge abanou a cabeça. Sentia‑se muito só, disse. Sentia a falta da família, saudades de Portugal, toda a bagagem nostálgica do português na diáspora. Mas havia nele outra coisa que eu não conseguia definir. Uma urgência, sim, e também um receio.

Tinha um certo encanto a maneira como suplicava, o que tornava difícil a recusa. Claro está que me forcei a recusar; o que me aconteceu nas últimas semanas chegou para compreender que não posso dar‑me ao luxo de baixar as defesas ‑ Deus sabe o que terei de pagar por aquilo que aconteceu com Rosa Leong. Não preciso de mais brechas na muralha e não sei de todo o que é que este tipo quer de mim.

Jorge foi‑se embora, triste ‑ e, pareceu‑me, preocupado. Então, fiz o que tencionava fazer logo que Xavier fosse para casa e me deixasse só no gabinete: abri, sozinho, o cofre número seis do espólio, que o padre Frazão me entregara pela manhã. Sempre que possa, hei‑de abrir as caixas sozinho e efectuar o primeiro exame sem auxílios suspeitos.

E o sexto cofre é uma autêntica arca do tesouro. Está aqui tudo o que eu queria saber sobre as ligações de Wang Wu com a Orquídea de Prata ‑ e, abençoadamente, há muita coisa em português. Haverá, estou certo disso, muito mais informações nos textos em chinês, que também abundam; mas, uma vez que sei agora o que era a Orquídea de Prata, já posso ter uma ideia bastante exacta do que se passou.

Os papéis portugueses são cópias de cartas de Wang Wu para o governador Horta e Costa, documentos ligados ao Expediente Sínico e recortes de notícias e artigos de jornais, uns assinados pelo Comendador, outros por notáveis portugueses ou macaenses ‑ há mesmo artigos assinados por um padre Frazão, que não pode ser o "meu", pois nessa época seria demasiado jovem. E por eles fica‑se a entender muito da vida de Wang Wu nos princípios deste século.

A Orquídea de Prata era, de facto, uma obediência da Sociedade para a Protecção do Imperador. Foi fundada em Hong Kong e Wang Wu, quando se transferiu para Macau, deve ter criado aqui uma loja ‑ que ficou instalada na Travessa dos Santos, ao que reza o recorte de um jornal da época.

E foi por causa da sua filiação na Orquídea de Prata que Wang acabou por se aproximar da administração portuguesa, conforme prova a cópia de uma carta sua para Horta e Costa, datada de Setembro de 1900, intercedendo a favor de King Lien Shan, um velho aristocrata proscrito pela Imperatriz viúva e que fora preso em Macau a pedido do vice‑rei de Cantão. King Lien Shan era um dos membros mais importantes da Sociedade para a Protecção do Imperador e a sua prisão, que poderia custar‑lhe a vida se ele fosse entregue às autoridades imperiais, causara grande agitação não só em Macau e em Hong Kong como na diáspora chinesa. Horta e Costa, que assumira recentemente o governo do Território, herdou este sarilho; e embora, como se viu depois, a sua maior simpatia fosse para o republicano Sun Yat‑sen, empenhou‑se em proteger o ilustre prisioneiro: tratou‑o com grande consideração e recorreu a todas as delongas legais para retardar a sua entrega. o mandarim contestatário acabou por morrer em Macau sem ter de enfrentar a justiça imperial.

É a partir deste caso que Wang Wu começa a colaborar com a Repartição do Expediente Sínico e também a fazer grandes obras de benemerência em Macau. Portanto, o caso King Lien Shan marca o início da sua nova respeitabilidade, que aliás seria exigida pelas características e os objectivos políticos da Orquídea de Prata ‑ naquele tempo, as sociedades secretas ainda não se haviam transformado em meras associações de criminosos. Mas os seus velhos hábitos vieram à tona de água pelo menos uma vez. Por isso, Nigel Webb, aquele jovem inglês inexperiente com pretensões a jornalista e a caçador de mistérios, acabou assassinado no Bazar Chinês de Macau.

"Morto por uma flor". Assassinado por uma orquídea. Até agora, não consegui saber que verdades comprometedoras descobriu ele, capazes de levarem Wang Wu a ordenar à loja da Orquídea de Prata que cortasse o mal pela raiz. Certamente nunca saberei nem o motivo do assassínio nem a identidade de quem mandou gravar a denúncia no túmulo do Cemitério Protestante: Killed by a flower. Mas a razão, a esta distância temporal, deve ser secundária. Bastaria que o rapaz tivesse descoberto, por exemplo, que Wang Wu também se chamara em tempos Wong Wei, pirata em todas as especialidades no delta do Rio das Pérolas.

Tudo isto, repito, é o resultado de uma primeira análise dos documentos que encontrei na sexta caixa do espólio, uma análise, note‑se bem, ainda superficial e incompleta. Passava já da meia‑noite e eu tinha A‑Lo à minha espera lá em baixo, com o carro, desde as onze e meia. Fui à janela, assobiei para lhe chamar a atenção e fiz‑lhe um sinal a indicar que não teria de esperar muito mais tempo. Depois, procedi a uma operação clandestina.

Há já quinze dias ‑ este é um pormenor interessante que ainda não tinha mencionado ‑ que a fotocopiadora do gabinete está avariada. o que é interessante é que ainda não foi possível conseguir uma reparação ou uma substituição... perante a minha insistência um pouco cortante, MM arranjou uma solução provisória: as fotocópias são feitas na sede da Fundação. É uma esperteza transparente, mas o que "eles" não sabem é que o padre Prazão, que eu continuo a visitar regularmente, conseguiu que a Misericórdia lhe arranjasse um telecopiador. E, claro está, os telecopiadores também fazem fotocópias; além disso, o padre Frazão, ou porque é distraído ou porque vive na memória de tempos mais serenos e confiantes, nunca fecha à chave a porta do seu gabinete. Enquanto Xavier não se lembrar disto, eu posso esperar pela noite e fotocopiar ali as peças mais importantes, desde que não sejam livros ou cadernos. Foi exactamente o que fiz.

Quando voltei ao meu gabinete, o telefone estava a tocar, atroava os ares e sacudia as paredes no silêncio do prédio deserto. A esta hora, só pode ser Lisboa, só pode ser Ritinha, pensei, resignado.

Não era Ritinha. A princípio, não reconheci a voz, de tal maneira estava alterada. Mas era Jorge.

- Eu preciso de o ver. Pelo amor de Deus. Eu preciso de falar consigo!

o resto perdeu‑se num soluço. Estava a chorar. Ou fingia que estava a chorar?

- Jorge. o que é que aconteceu? Onde é que você está?

- Em casa, estou em casa. Mas ouça...

Ouvi e não percebi, porque ele largou mesmo a chorar, não podia haver dúvida. A dúvida estava em se era sincero ou bom actor. E então, ouvi a minha voz dizer:

- Está bem, já vou.

Ainda não tinha pousado o auscultador e estava já a medir as consequências do que ia fazer. Uma gente que me segue e me vigia; que coloca ao meu lado dois ou três espiões, que domina completamente MM e não hesita em drogar‑me com uma porcaria qualquer para que a imprensa possa fotografar‑me bêbado, uma gente assim, capaz de tudo, também não se ensaia para dar outro golpe ainda mais sujo e eu tenho a vaga intuição de que este é o golpe. Por outro lado, se não respondo ao apelo de Jorge, seja qual for o motivo, arrisco‑me a nunca mais me perdoar a mim próprio.

Seja, decidi. Estou cansado de mais para me importar com o que possa acontecer.

Meti as minhas fotocópias numa pasta, que trouxe comigo. Desci e pedi a A‑Lo que me levasse a casa de Jorge. Ele mora numa casa degradada, perto do Beco do Lilau, num lugar que já foi com certeza muito belo e agora só espera o usual incêndio que tanto aflige os prédios classificados de Macau para dar lugar a mais um desses modernos, horrorosos e rendíveis edifícios próprios dos tempos modernos e dos amanhãs que cantam.

à chegada, disse a A‑Lo, na nossa curiosa linguagem mista, que precisava ainda dele, que não se afastasse dali; combinaríamos uma gratificação especial. Espantei‑me: em vez do largo sorriso que é o seu hábito, ficou muito sério ‑ quase diria ansioso. E disse‑me que não queria a gratificação especial. Mais uma coisa que não entendo, pensei enquanto trepava uma escada suja de corrimão sujo, encostada a uma parede suja.

Jorge vive no segundo piso. já na escada se sentia o cheiro e no patamar não havia dúvidas. Eu não percebo nada de drogas, a minha única experiência resume‑se a uma cachimbada de liamba, em Luanda, há muitos anos, da qual me resta a recordação de uma dor de cabeça muito aguda e muito intensa e de uma total ausência de êxtase. Mas aquele cheiro era inconfundível ‑ haxixe, marijuana, uma erva qualquer.

A porta do apartamento estava só encostada. Entrei, com a certeza fatalista de que assinava uma sentença qualquer contra mim próprio.

Chamar apartamento àquilo é exagero. Uma sala‑quarto, com tudo encardido: móveis, cortinas, estofos. o cheiro era quase insuportável e pairava uma névoa mais que suspeita. Sobre uma mesa manchada estavam cigarros enrolados à mão e alguns utensílios clássicos, uma faca de lâmina enegrecida, uma colher, outras alfaias do novo ritual que substituiu as antigas liturgias.

o que a cena tinha de mais chocante era Jorge, sentado num sofá que já vira melhores dias, com a cabeça caída para trás e a boca aberta. Antes que tivesse ideias macabras, percebi que adormecera, porque começou a ressonar.

Sacudi‑o suavemente, depois com força crescente. A minha irritação também estava em curva ascendente.

- Jorge. Acorde. o que é que você quer? Ele levou algum tempo a voltar à superfície e, depois, a reconhecer‑me.

- Adriano, eu não vou fazer nada ‑ gemeu. (Vou tentar escrever exactamente tudo o que ele disse; pode vir a ser importante, sobretudo se houver uma escalada e... enfim, este diário pode vir a ser importante.)

- Adriano ‑ continuou ele ‑, por que é que você é um tipo tão porreiro?

Respondi‑lhe que era de família. Ele não deu atenção à resposta e continuou a falar: ‑ Se você não fosse tão porreiro, eu podia... mas assim, não tenho coragem. Adriano, são uns sacanas, uns filhos da puta, Adriano!

E, como eu me sentara ao seu lado no sofá, inclinou‑se para mim, tentando focar‑me com uns olhos vermelhos, dilatados, que resistiam ao seu esforço de ver com nitidez.

- Eu queria era dizer‑lhe isto. Quero que eles se fodam todos, ouviu? É o que eles me vão fazer, mas não faz mal, já estou habituado, nunca tive sorte, andei sempre na mão de filhos da puta...

o seu próprio discurso provocou nele uma vaga de autocomiseração. Largou a chorar ‑ um choro verdadeiro, que me arrepiou porque tinha uma qualidade especial, o desespero. Desespero absoluto, sem remissão. Toquei‑lhe no ombro e ele respondeu imediatamente ‑ agarrou‑se a mim com ânsia, afundou a cara contra a minha camisa, exactamente como uma criança se agarra ao pai ou à mãe quando tem medo.

Que bonito, pensei, é o momento de Rosa chegar com os fotógrafos e apanhar‑me abraçado a este tipo, a fazer‑lhe festas na cabeça. Mas parte desta atitude era um recurso para afastar o desconforto da compaixão.

Jorge segredava agora, repetia:

- Eu nunca vou fazer isso, nunca, nunca, nunca! ‑ com cuidado, para não ser brusco, afastei‑o um pouco.

- Jorge, vamos por partes. Quem são eles e o que é que eles querem que você faça?

Nesta altura, ele teve uma variação súbita de humor e pediu‑me um cigarro. Recordei‑lhe que não fumo cigarros.

- Daqueles... ‑ apontou a mesa. ‑ Por favor, Adriano, um cigarrinho...

- Não seja idiota, Jorge. Diga lá: quem são eles e o que querem que faça?

Encostou‑se ao espaldar do sofá e fechou os olhos. Começou a falar assim, com uma voz arrastada, sem entoação, com as pausas a meio das palavras.

- Não faço. É uma sacanice, não faço. Cada um faz o que quer, não é, Adriano? Você não se chateia comigo porque eu fumo umas coisas, pois não? Se não prejudicar ninguém... fumo umas coisas, tomo umas coisas, e depois, ninguém tem nada com isso, merda! o que é que os gajos pensam? o que é que eles têm a ver com... o Adriano, o que é que você lhes fez para eles quererem acabar consigo? Eh pá, deixe‑me lá fumar uma passa, porra!

Agarrei‑o com força para que não se levantasse.

- Você fuma o que quiser, faz o que quiser consigo, mas não enquanto eu estiver aqui. Se não queria isto, não me tivesse chamado. Ou a chamada faz parte do que eles queriam?

Recomeçou a chorar, agora docemente, de novo recostado.

- Pois, pois é, pois faz, Adriano. Pois. Eles hão‑de vir aí... mas eu...

E agora, todo o meu corpo se retesava sob o aguilhão de uma voz interior: sai, sai depressa, vai‑te embora daqui, já! Deixa este destroço e salva‑te enquanto é tempo. Levantei‑me.

- Jorge. Jorge, ouça. Está a ouvir? Tome atenção. Jorge! Venha daí, venha comigo. Vou levá‑lo ao hospital.

Mas ele continuava a chorar baixinho e deixara de me ouvir. o que vou fazer com este gajo, perguntei‑me. E só me apareceu uma solução. Corri à janela, chamei A‑Lo com urgência. Quando ele chegou, não precisou de grandes explicações, bastou‑lhe um olhar em volta.

- Oooouuuh! ‑ fez A‑Lo.

- Pois, também acho. Vamos a isto! ‑ e peguei em Jorge por debaixo dos braços. Ele não percebeu o que eu disse mas compreendeu perfeitamente o gesto e pegou‑lhe pelas pernas. Jorge não se debateu; aparentemente, adormecera.

Mesmo a dois, não foi fácil levá‑lo pela escada estreita e mal iluminada. Eu rezava para que não fosse já tarde, porque se os rapazes da fotografia aparecessem ‑ e desta vez, previsivelmente, com algum gorila que arrombasse a porta do apartamento ‑, A‑Lo ficaria envolvido sem saber sequer do que se tratava. Enfim, metemo‑lo no assento traseiro do carro e eu sentei‑me ao lado de A‑Lo.

- Hospital? ‑ perguntou este, arrancando mal fechei a porta. Respondi‑lhe, tentando articular de modo a que me entendesse bem:

- No, no hospital Take him to FatherFrazão. Padre Frazão, A‑Lo!

Só me lembrei disto, atendendo a que não queria, e não quero, arrastar Daniel para toda esta história. o padre Frazão há‑de saber o que fazer, disse para comigo; e tenho já uma certa confiança com ele; de qualquer modo, não me lembro de mais nada.

Afastávamo‑nos do Beco do Lilau quando um carro se aproximou a grande velocidade, arriscando a cada metro um acidente naquelas ruas estreitas pejadas de caixotes de lixo a transbordar. A prudência mandava‑me baixar a cabeça, mas fiz exactamente o contrário, fiz descer o vidro e espreitei, porque havia uma coisa que eu precisava absolutamente de ver. A‑Lo surpreendeu‑me, porém; no último instante, enfiou por uma transversal e acelerou a fundo, numa grande chiadeira de pneus. Tudo tão rápido que quando recuperei o fôlego já íamos longe, em fuga, não para casa do padre, mas em direcção à Taipa.

- A‑Lo! ‑ gritei. Ele não abrandou, mas disse, com os olhos fixos na estrada:

- Vely bad people, vely bad people!

E estava muito sério, muito grave. A‑Lo sabia alguma coisa, percebi, e, por uma razão qualquer, queria proteger‑me. Ao menos, que haja um aliado.

Demos uma volta à ilha a velocidade reduzida. Depois, voltámos à cidade e fui tocar à porta do padre Frazão, que vive numa residência pertencente à Misericórdia, um prédio antigo e enegrecido pela humidade, nas escadinhas da Rua da Sé.

Felizmente, o padre deita‑se tarde, ainda estava acordado. Não lhe contei nada: entreguei‑lhe Jorge e ele lançou‑lhe um olhar, percebeu imediatamente o que se passava e disse que a situação não devia ser de perigo imediato, mas, por precaução, ia telefonar a um médico seu amigo. Quanto ao resto, esperei que Jorge tivesse ultrapassado a fase das inconfidências.

- Você está com um aspecto horrível ‑ disse‑me o padre, depois de ter deitado Jorge num sofá e telefonado ao médico. ‑ Sente‑se bem?

- É só cansaço. Acha que o tipo se safa?

Ele soltou uma risada seca, impaciente, não muito eclesiástica.

- Por esta vez, com certeza, isto não é nada, penso eu. Mistura de ressaca, copos, mais fumo e um estado de grande ansiedade... gente como ele tem os nervos sempre esfrangalhados, é fatal. Agora, se me pergunta: acha que ele se safa da droga, isso já é mais difícil e infelizmente não acredito. Isto é um caso típico. Vêm de Portugal já meio avariados, porque só Deus sabe como as coisas andam por lá. Chegam aqui e é tudo tão fácil... Bom. Você não quer um chá?

Agradeci, recusei. Tinha pressa de sair, não queria encontrar o médico. Mas não resisti a satisfazer a minha curiosidade ‑ ou melhor, acho que foi a minha curiosidade que decidiu satisfazer‑se a si própria, sem a minha autorização:

- Diga‑me uma coisa ‑ perguntei ‑, sabe de algum outro padre Frazão que tenha estado em Macau?

o padre lançou‑me um breve olhar curioso.

- Era o meu irmão mais velho. Foi capelão militar. Porquê? Encontrou alguma coisa sobre ele?

Não sobre ele, mas dele; artigos publicados, expliquei.

- Outra coisa, senhor padre: o que faremos nós com o nosso amigo, aí?

Ele encolheu os ombros.

- o médico dirá. Mas se estiver razoavelmente bem, pode ir trabalhar daqui a um dia ou dois. Falei com toda a cautela. Eu gostaria, expliquei, que Jorge ficasse uma semana fora da casa onde vivia, longe daquele meio doentio. Não me importava de pagar, desde que estivesse ao meu alcance. Um sítio calmo, discreto?

Por muita cautela que tivesse, o padre, que nunca na vida foi tolo, observou‑me com olhos inquisidores. Vira muita coisa, o padre Frazão. Era capaz de sentir o cheiro da intriga no meio de uma corrente de ar.

- Não se preocupe ‑ disse por fim. ‑ A Misericórdia tem uma casa de retiros em Coloane... ele fica lá bem, é o ideal para desintoxicar. Telefone‑me amanhã.

Vim‑me embora. à porta da minha casa, despedi‑me de A‑Lo cuja solidariedade me oferecia agora mais um enigma. Entrei em casa e estava de repente tão cansado que mal conseguia andar; exausto, atordoado até ao ponto da insensibilidade. Larguei os sapatos na sala, atirei a camisa para o chão e ia acabar de me despir quando a campainha da porta tocou. àquela hora, tinha de considerar cuidadosamente se abriria ou não a porta, por isso fui espreitar pelo ralo.

Era Rosa. Rosa Leong, jornalista de profissão, redactora do "Nova Abelha", protegida do sr. Richard Wang, a venerável e corrupta luminária da ásia Oriental. Tão depressa como viera, o meu cansaço transformou‑se.

Abri a porta, ela entrou e não parecia muito à vontade, mas não me detive em análises.

- Como vês, estou em casa. Estou sozinho, não estou drogado, não estou a fazer nenhuma coisa feia, nada que se preste a chantagem. Podes mandar o teu fotógrafo embora e de Preferência faz‑lhe companhia.

Rosa perguntou‑me o que tinha acontecido. Não lhe respondi. Ao fugir com o carro, A‑Lo roubara‑me a possibilidade de ver se ela estava no outro automóvel que vinha a caminho do apartamento de Jorge) mas eu tinha a certeza e disse‑lho, disse‑lho em todos os tons, carregando nos mais insultuosos.

Ou será que, em vez dessas palavras, quem sabe se através dessas palavras, lhe fiz uma declaração de amor? Não sei, já não sei. Ela chorou, penso que também chorei ‑ de raiva, de cansaço, de ódio e de paixão. Depois, sem que nada em nós pudesse prever ou prevenir esse impulso, caímos um sobre o outro, no chão do vestíbulo, e rolámos na madeira envernizada do soalho e foi ali que fizemos amor, como selvagens, com a diferença de que os selvagens são inocentes e nós tivemos de construir ali a nossa inocência, com bocados de desespero, bocados de êxtase, bocados de luxúria, bocados de ternura.

E desta vez Rosa não se foi embora. Está agora a dormir na minha cama. Da sala, onde me encontro a escrever, vejo os contornos do seu corpo e o longo cabelo espalhado na almofada.

Se fosse apenas paixão, atracção sexual ‑ ou até só amor, - não me sentiria tão angustiado. Mas é também ternura; e por isso estou a entrar em pânico.

 

                                     24 DE SETEMBRO

Juntos, fomos ao templo de A‑Mah e Rosa comprou incenso e acendeu‑o diante da estátua da deusa. Fomos muito cedo, para escapar a olhos indiscretos, embora saibamos que se alguém andar a vigiar‑nos já sabe tudo ‑ e essa é a hipótese mais provável. Mas queremos, ao menos, fazer de conta que é possível escapar à vigilância. A‑Mah, a que conquistou o amor do Imperador de Jade, a que recebe os seus devotos vestida de noiva, a mãe celeste dos pescadores de Macau, a protectora que deu o nome à cidade ‑ embora eles teimem em chamar‑lhe Ou Mun ‑ talvez nos proteja dentro do seu recinto.

Rosa e eu queremos voltar muitas vezes ao templo da Barra. Queremos passear ali como dois namorados.

o que só prova que estou senil, digo‑lhe eu, e Rosa belisca‑me com força, para fazer‑me gritar. Outras vezes, meio a sério, murmuro‑lhe: não vês que sou um pervertido, ando com uma rapariga pouco mais velha do que a minha filha. Ela responde, a conter o riso: não vês que sou uma pervertida, ando com um kwai‑lôu, um europeu, um tipo de uma raça inferior e velho, ainda por cima. Acabamos a rir.

Sei que hei‑de cair em mim e que será a pior ressaca de toda a minha vida ‑ talvez não lhe sobreviva, tendo em conta os antecedentes. Mas Por enquanto, tenho a cabeça a tocar as nuvens e sou capaz de cavalgar o vento; o calor que me desfaz em suor é uma carícia e os grossos cordões de chuva morna que todos os dias alagam a Cidade do Nome de Deus parecem‑me feitos de cristal.

 

                                         Dia 26.

Rosa e eu chegámos há pouco de Hong Kong ‑ foram um dia e uma noite em deliciosa clandestinidade, seguramente entrincheirados no quarto que reservámos no Shangri‑La. Os empregados pensavam que estávamos em lua‑de‑mel, dizia ela, muito séria. Eu calava‑me para não responder: pensam é que este cinquentenário bárbaro alugou uma chinesinha com os seus dólares. Talvez Rosa tenha tido a mesma ideia: quando pedi a conta, ela já a pagara. Recusou‑se mesmo a aceitar a minha parte.

Quase não saímos do nosso esconderijo. Perto do hotel, há um restaurante vietnamita. Rosa conhece o dono, é um francês que se aguentou em Saigão enquanto pôde e depois tentou sem êxito o Cambodja antes de desaguar em Hong Kong. Foi aí que jantámos ontem à noite, num ambiente sóbrio de final de festa. Ambos sabíamos que a embriaguês não podia durar sempre, cedo ou tarde cada um de nós teria de explicar a situação ao outro e a si próprio. E talvez por isso a comida não tivesse muito sabor e o sorriso de Rosa fosse forçado.

De repente, ela pôs de lado os pauzinhos e disse em voz baixa:

- Pede a conta e vamos embora; precisamos de falar.

Eu já estava de pé. Sentia, como ela, essa urgência que não consentia demoras. o empregado aproximou‑se, espantado, escandalizado, logo seguido do francês; atabalhoámos desculpas, mademoiselle está indisposta, quer retirar‑se; não, não é nada de grave, a comida é magnífica, o serviço impecável, voltamos amanhã. De regresso ao quarto, telefonei a encomendar champanhe. Champanhe?! Sim, Rosa, meu amor; é melhor que a cicuta, bem basta o veneno que vamos ter de engolir esta noite, o veneno que vamos dar um ao outro. o champanhe é para a Coragem. Mas eu quero poupar‑te o pior. Vou eu falar, está bem? Vou eu dizer o que penso que está a passar‑se.

o champanhe chegou e foi servido com floreados por um adolescente chinês que evitou cuidadosamente olhar‑nos e dar‑se conta de que uma compatriota estava naquele quarto com um europeu. Outra vez sós, descalcei‑me, despi‑me e atirei‑me para cima da cama. Rosa veio aninhar‑se e pousar a cabeça no meu ombro.

- Então, o que é que tu pensas? ‑ disse numa voz muito velada, como se quisesse esconder‑lhe a expressão.

Eu falei sem a ver, com os olhos fixos no tecto.

- Penso que és amante do Richard Wang (uma contracção muscular; mas não disse nada). Amante e protegida. Sei que escreves bem, li a entrevista que me fizeste, mas julgo que estás na "Nova Abelha" por imposição dele. Penso que tens feito outros trabalhos de vigilância para o sr. Wang; um homem tão rico e com tantos negócios, não pode ser honesto, é uma improbabilidade existencial. E comigo? Penso que comigo a tua missão era: vigiar primeiro, perseguir e destruir depois; daí a ratoeira de Coloane, que armaste de cumplicidade com o meu querido assistente Xavier, e a ratoeira do Lilau, que armaste com o meu não menos querido assistente Jorge Silveira, só que o Jorge é mais fraco ou menos sacana e foi‑se abaixo.

Senti o seu corpo contraído outra vez, mas manteve‑se em silêncio.

- Penso que fizeste tudo isto por pressão ou por dinheiro ou pelas duas coisas; penso tudo isto, Rosa, e só não compreendo o que leva Richard Wang a fazer o que faz. Só para proteger a memória do avozinho? Mesmo que seja isso, tinha mil outras maneiras mais cómodas de o fazer. Pedir a minha substituição era a primeira, parece‑me; mas havia tantas outras! É isso que não entendo.

Ela ia dizer qualquer coisa, finalmente, mas puxei‑a mais para mim, beijei‑a e rematei o meu discurso:

- Por último: não entendo o que te trouxe até esta pobre carcaça europeia; mas também não quero entender. Estou apaixonado por ti, penso que talvez gostes de mim um bocadinho. E se não for isso, que Deus tenha piedade deste triste pecador.

Ergui‑me sobre um cotovelo, esvaziei um fuste de champanhe. Ao pegar na garrafa, gotas de água gelada caíram sobre nós, mas Rosa não deu sinal de as ter sentido.

- Já podes corrigir‑me a prosa ‑ disse‑lhe, fechando os olhos. Percebi que ela sorria.

- Não há muito para corrigir, mas o que há é importante. Num gesto brusco afastou‑se de mim. Abri os olhos, surpreendido; ela só se afastara para me ver melhor, talvez também para respirar fundo.

- Não sou amante do Richard. Sou protegida, sim... uma espécie de afilhada ou de filha adoptiva não oficial. E é isto que torna tudo tão difícil. Adriano, eu adoro aquele velho. Tem coisas horrorosas, eu sei, já deu para entender isso há muito tempo. Mas eu nunca conheci os meus pais, morreram num desastre quando eu era bebé. Toda a minha vida, só conheci as amas ‑ e o Richard, que era o protector, o amigo, o pai e a mãe.

Interrompi‑a. Como era possível, então, que corressem em Macau essas histórias sobre eles...? Rosa encolheu os ombros. Por que não? Sabia‑se que não havia relação de parentesco e Rosa nunca vivera em casa de Richard Wang, como membro da família. A mulher dele, explicou, era um caso psiquiátrico e os dois filhos eram playboys que já tinham no activo algumas feias histórias com violações pelo meio. Desde muito cedo, Richard decidiu que aquele não era um bom ambiente para uma rapariga.

- Nunca entrei, sequer, na casa dele, aqui em Hong Kong. Mas ele visitava‑me sempre que ia a Macau... quase todas as semanas. Ainda hoje, mas hoje é diferente: vou ao escritório dele, saímos a jantar fora...

Rosa não sabe o que levou Richard Wang a estender à minha volta uma rede de informadores. Também a ela Richard disse que suspeitava do passado do avozinho comendador e queria evitar mais nódoas na família, a juntar às dos seus dois desagradáveis rebentos. Como o espólio, por causa da traiçoeira conversão da avó Ai‑Ling, caíra em mãos portuguesas e cristãs, para o tirar de lá seria preciso um kwai‑lôu ‑ e de preferência, um que não conhecesse nada do passado, nada de nada. Que fosse manobrável. Xavier foi o primeiro a ser recrutado, mas quando relatou que o pato vindo de Lisboa não parecia assim tão pato, apesar das suas devoções a Hông‑kóng Sân; e que levava para casa parte da documentação; e que se dispunha a publicar tudo o que lhe apetecesse, então o velho potentado mobilizou discretamente as suas forças e Rosa foi recrutada.

- A princípio era excitante, achei graça... as coisas só se estragaram em Coloane. Aí é que vi até que ponto o golpe era sujo... e depois, já estava a pensar em ti durante demasiado tempo.

Mas continuaste, observei‑lhe; mesmo depois de termos feito amor pela primeira vez. Rosa sacudiu a cabeça. Sim, continuou, cada vez mais contrafeita...

- Contrafeita! ‑ exclamou com uma expressão de desprezo, como se discutisse consigo. ‑ Desesperada, partida em duas! Uma coisa, Adriano... ‑ sentou‑se na cama. ‑ Uma coisa muito importante. Eu não sabia nada daquela história do Jorge, nem sequer o conhecia, acho que foi o Xavier que o desencantou. Tenho a certeza de que o Xavier sabe mais do que eu. E o Jorge também, talvez... porque concordo contigo numa coisa.

Debruçou‑se sobre mim. Quis puxá‑la para a beijar, porém ela resistiu, estava empenhada no que dizia.

- Adriano, eu também não compreendo esta história. Acho tudo isto um exagero. Por que é que ele não comprou o espólio?

- A isso, eu sei responder: não o comprou porque não pôde. o testamento da avó não deixa. Sem contar com outro perigo, o padre Frazão mordia‑lhe as canelas. Não interessa, continuo a não perceber. Haverá mais qualquer coisa, além das trivialidades que já conhecemos, cules, ópio, pirataria, Orquídea de Prata e assassinos no Bazar Chinês? ‑ Rosa abanou a cabeça em sinal de ignorância.

Esvaziámos a garrafa de champanhe. E passámos o resto da noite como se no dia seguinte cada um de nós partisse para lados opostos da Terra.

Mas voltámos juntos para Macau. à chegada, ao ver a cidade desordenada, tranquila e pobre ao lado de Hong Kong, reflecti que me sentiria feliz ali, como num regresso a casa, se não soubesse que tinha uma guerra à minha espera.

 

                                   Dia seguinte.

Só o tempo de escrever umas linhas apressadas, enquanto A‑Lo não vem buscar‑me, porque julgo que terei interesse, mais tarde, em analisar melhor as minhas reacções. Há cerca de três quartos de hora, estava eu a sair da cama, Lena telefonou‑me de Lisboa: decidiu‑se a pedir‑me o divórcio. A conversa foi breve, correcta e, como seria de esperar, muito tensa. Depois, Lena desejou‑me felicidades e passou o telefone a Ritinha, que começou a chorar mal me ouviu.

Enquanto procurava consolá‑la, uma voz surda dizia‑me: mais tarde, mais tarde pensarás nisto, mais tarde podes sofrer e filosofar, como é teu vício. Agora, não podes; há uma urgência maior, tens de viver primeiro, tens de sobreviver primeiro. Tens outros sofrimentos em prioridade na lista de espera.

Já me tinha esquecido de como é bonita a vista da varanda da casa de Daniel. Eles estão na sala; deixaram‑me aqui, com um fortíssimo whisky e um maço de folhas de papel de máquina. Queriam que eu me descontraísse, com os olhos fechados, enquanto Daniel faz todos os telefonemas. Mas preciso de escrever tudo, e urgente; se espero para mais tarde, a memória acaba por pregar partidas.

Esta manhã, cheguei ao gabinete com uma excelente disposição. Correspondi benignamente aos cumprimentos de Xavier. Aliás, tenho negligenciado Xavier e isso não é bom, sobretudo agora, que conheço melhor o seu papel nesta edificante história. Procurei compensar um pouco a falha com uma conversa cordial sobre coisas inócuas; e ele correspondeu logo, com ar feliz, como se estivesse aliviado. No entanto, é impossível que não saiba o que penso a seu respeito.

Tivemos a seguir umas três horas de trabalho em que despachámos muita coisa; depois da sexta caixa, cujo explosivo conteúdo foi quase todo parar aos eufemísticos "Diversos", o cofre número sete só reservava alegrias serenas, alegrias eruditas: pilhas de fotografias antigas, algumas absolutamente preciosas; poemas em chinês (diz Xavier que são poemas e talvez sejam), assinados por Wang Wu. Pouca coisa em português. Mas só as fotos justificam todo um trabalho de pesquisa e começo a pensar seriamente em propor uma exposição ‑ o material recolhido já é mais do que suficiente. Xavier está de acordo comigo e discutimos o assunto até perto da hora do almoço.

Então, Jorge Silveira entrou‑me pelo gabinete. Não o via desde a célebre noite. Disse, no Palacete, que ele me tinha telefonado a pedir uns dias de dispensa e que lhos tinha concedido; pedi ao padre Frazão que mo guardasse no retiro até ele estar em condições de ter uma conversa a sério comigo. E agora, aparecia‑me ali, com a cara cavada de olheiras e rugas prematuras, os olhos suspeitamente brilhantes. E um ar de grande urgência.

Respirei fundo. Xavier estava no outro extremo da sala, mas eu podia sentir a sua atenção cravada em nós.

- o que é que você está a fazer aqui, Jorge? Eu dei‑lhe dispensa, lembra‑se?

Arquejava como se tivesse subido as escadas a correr.

- É muito urgente, Adriano. Muito urgente. Tenho de falar consigo, é por causa de...

E então, qualquer coisa me disse que tinha de o impedir de falar ali, nem que fosse pela força. Levantei‑me, contornei a secretária, peguei‑lhe no braço.

- Vamos aí a qualquer sítio falar... ‑ rouquejou o idiota. Era ilusão minha, mas as orelhas de Xavier pareciam‑me enormes, capazes de girar à procura do melhor ângulo de recepção. o estúpido, pensei. Pior que estúpido: o cheiro que se desprendia dele explicava muita coisa.

- Não tenho tempo para falar consigo, estou cheio de trabalho ‑ disse bem alto enquanto o empurrava para o corredor. Depois obriguei‑o a descer as escadas, sempre com o braço agarrado.

- Jorge, por que é que saiu de onde estava? ‑ falei entre dentes, enquanto continuava a impeli‑lo, escada abaixo. Ele gaguejou numa voz lamentosa:

- Não me sentia bem lá... não conhecia as pessoas... e depois precisava de falar consigo...

E precisavas de droga, pensei, já vens num belo estado. Em baixo, levei‑o até à saída das traseiras. Aí, ele tentou outra vez:

- Eh pá, eu tenho de falar consigo...

- Não aqui, seu estúpido! ‑ explodi. ‑ Você está em condições de pensar? Ouça. Jorge, ouça: vai voltar para onde veio, o meu motorista leva‑o... Não, cale‑se e ouça! Vai voltar para onde veio e daqui a hora e meia eu vou ter consigo e então você conta‑me tudo.

Não estava muito pelos ajustes. Aparentemente, decidira confessar‑se e claro que não podia esperar. Mas recusei‑me a ouvi‑lo e mandei chamar A‑Lo. Quando ele apareceu, fui com os dois até ao carro. E aí, porque tinha de me explicar claramente a A‑Lo, fiz prodígios de mímica. A mensagem era: levas esta abécula, não deixas que ele fuja do carro para ir ao haxe, ou ao ópio, ou lá o que é; procura o retiro da Misericórdia em Coloane e deixa‑mo lá. Se eles protestarem, fala no padre Frazão.

A‑Lo suportou a minha mímica com impassibilidade chinesa ‑ até que não se conteve e largou a rir. Mas foi dizendo: Yes, Coloane, yes, Mi‑se‑lico‑dia, padle, yes. o que há de bom com os chineses é que são inteligentes. Pelo menos, este. E tomei, logo ali, a decisão que já devia ter tomado. Gosto deste senhor Chen Lo, já lhe sou devedor, vou fazer dele um amigo. Se por acaso ele gostar de comida ocidental, hei‑de oferecer‑lhe um almoço babilónico no Hyatt, merece bem mais a despesa do que Xavier. Avante, A‑Lo, leva‑me esse traste simpático para o frigorífico do padre Frazão!

Era essencial, para que a cortina de fumo desse resultado, voltar rapidamente ao gabinete. Corri escada acima e compus um ar de profunda irritação antes de entrar.

- Não suporto estes gajos da passa! ‑ lancei para o ar a frase com a dose máxima de vitríolo. Xavier levantou os olhos plácidos do texto que estava a traduzir.

- Como?

Gesticulei.

- o Jorge, porra! Eu nem pedi um tradutor de inglês! E arranjam‑me um toxicodependente, um gajo em quem não se pode confiar, que diz baboseiras, delira, falta ao serviço, pede dispensa...

Xavier fez um ar interessado:

- o dr. Silveira? Toxicodependente?

Esforcei‑me ainda mais por parecer natural:

- Não me diga que você não reparou? Não viu, ainda agora? o homem já estava em rampa de lançamento! Drogado até aos olhos!

E, porque não queria forçar a nota, desviei a conversa para a droga em geral e a droga em Macau em particular. Nestas águas seguras naveguei até à hora do almoço. Teria querido convidar Xavier, porém ele, antes que eu fizesse o convite, disse‑me que entraria mais tarde, ia ao Hospital Conde de S. Januário ver um dos seus miúdos, que fora operado ao apêndice.

Então, como de qualquer maneira não me apetecia comer sozinho, saí, comprei duas sanduíches e uma coca‑cola. Atravessando a rua, de regresso ao Palacete Amarelo, quase me deixei atropelar por uma ambulância. o que me fez reflectir, humoristicamente ‑ raio de época esta em que vivemos, o trânsito é de tal ordem que os últimos sacramentos começam a ser precisos só para atravessar a rua. o que, por sua vez, me trouxe à ideia o padre Frazão ‑ e lembrei‑me de que ele almoça sempre no seu gabinete, chá e bolachas grossas, bolachas com ar antigo, que fazem pensar nos mantimentos dos grandes exploradores do século passado.

Fui bater‑lhe à porta: um solitário a precisar de companhia, disse. Mandou‑me entrar, pronunciou severas críticas à coca‑cola e ofereceu‑se para fazer chá de jasmiim, que lhe tinham trazido de Zhuhai e que, a meu ver, era inferior ao que se compra em Macau ‑ ou Londres, já agora ‑, mas não lho disse.

E então, perguntei, quanto tempo estivera o seu irmão, o capelão militar, o autor dos artigos que encontrei no espólio, nestas remotas paragens? Ele respondeu, agitando uma bolacha: remotas, remotas... tudo dependia. Para um chinês de Macau, de Hong Kong, de Swatow... para um chinês tout‑court, acrescentou, saboreando o galicismo, a Europa é remota, remotíssima. Mas enfim, o mano Arnaldo, que Deus tenha, andou por cá uns dez anos, nos princípios do século, depois adoeceu e regressou a Cinfães, terra ancestral, onde faleceu.

Neste ponto, uma revoada de sirenes soou lá fora. Incêndio ‑ classificou o padre Frazão. ‑ Pelo barulho, é coisa grande. E esqueceu‑se do mano Arnaldo para verberar o escândalo, os fogos postos em prédios classificados, a rápida consumição da velha Macau que fora a delícia da sua juventude.

Xavier ainda não voltara quando me instalei de novo à secretária para ler as anotações que Wang Wu escreveu com o seu próprio punho à margem do texto do Tratado de Tien Tsin. De repente, ouvi um tamborilar violento nos vidros da janela; levantei a cabeça, em alerta ‑ mas nada acontecera, a não ser que chovia furiosamente. Vai ficar tudo alagado, pensei. A começar pelos buracos das ruas.

Ouvia‑se mais uma sirene a percorrer uma rua próxima. Está claro que não é fogo, são inundações. Tal e qual como em Lisboa, que Deus os preserve.

Então, a porta do meu gabinete abriu‑se como se uma granada tivesse rebentado lá fora. A meio dos dois batentes escancarados, apareceu Daniel.

- Ah meu grande filho da puta, não ouviste o telefone tocar?

Devia ter tocado quando eu estava com o padre Frazão, mas não me deu tempo para responder. Avançou dois passos, atirou‑se para uma cadeira, fitou‑me com ar estranho.

- És mesmo tu, não és? Que alívio.

Fiz‑lhe notar que eu era inelutavelmente eu e que essa verdade nunca me aliviara, bem pelo contrário.

- Em contrapartida ‑ acrescentei ‑, tu, neste momento, não pareces estar em ti e, portanto, não és completamente tu. Quer isto dizer...

- O teu carro foi pelos ares no istmo de Coloane. o trânsito está interrompido. Encontraram os bocadinhos de dois corpos.

 

                                        28 DE SETEMBRO

o tempo está a mudar. Com a madrugada, o céu está a ficar luminoso. Pela primeira vez desde há longas semanas, não se vêem nuvens negras, não se vê uma única nuvem.

Arranjei um novo esconderijo para o meu diário, mas é só por excesso de zelo. Onde ele estava não lhe podiam chegar, porque não o guardava dentro do apartamento ‑ e foi o apartamento que eles revistaram. Com cuidado, mas não o cuidado suficiente. De qualquer modo, talvez não esperassem que eu estivesse vivo e capaz de fazer esses pequenos reparos, o tubo de creme de barba mal colocado, o sabão do lado esquerdo do lavatório.

Só agora me ponho a questão: a bomba era para mim ou para Jorge? A polícia descobriu que A‑Lo fez uma paragem antes de entrar na ponte da Taipa ‑ ao que parece, foi comprar um jornal para Jorge. A bomba já podia lá estar mas também podiam tê‑la colocado nessa altura.

Estranho, como escrevo isto quase a frio. Mas já me conheço, a reacção virá depois.

Quando, ontem, escrevia as últimas linhas sobre o atentado, em casa de Daniel, ele veio ter comigo à varanda, depois de telefonar a todos os seus amigos jornalistas.

- Quase toda a malta pensa que a bomba era para o Jorge ‑ disse, sentando‑se ao meu lado, a olhar a fortaleza do Monte. ‑ Primeiro, porque tu és de fora, não conheces Macau. Há quem se lembre daquela história de Coloane, mas a verdade é que o Jorge andava metido com gente muito esquisita. Talvez mesmo gente das seitas. Há até quem pense que o atentado nem era contra ele e sim contra o teu motorista...

- o A‑Lo?

Lembrei‑me do seu riso divertido quando lhe gesticulava a minha ordem de levar Jorge para o retiro. Lembrei‑me das minhas intenções de fazer dele um compincha.

- É claro ‑ Daniel virou a cabeça para me encarar ‑ é claro que toda a gente quer falar contigo e clama que sendo tu jornalista tens de compreender a alta missão de que vocês estão todos investidos e etc., etc.

- Pois ‑, disse eu enquanto me levantava. A missão, está claro, o sacerdócio.

- Aonde vais?

- Embora. ‑ E olhei‑o de frente. ‑ Daniel, sabes tão bem como eu que tenho de me afastar de ti. Vieste logo ter comigo, deste‑me assistência, acompanhaste‑me à polícia, ligaste para o Palácio, afastaste de mim o cálice dos meus colegas sacerdotes; nunca estarei suficientemente grato pelo que fizeste. Mas a partir de agora eu sou um perigo potencial. Não sabemos se a bomba era para o Jorge ou para o A‑Lo, não é verdade? E o pior é que eu não sei se eles sabem que eu não sei o que não querem que eu saiba...

- Repete lá?

Abanei a cabeça.

- Não interessa. o recreio acabou. já não somos rapazinhos, já não estamos na tropa em Angola, tu tens a Catarina e os miúdos.

Ele curvou a cabeça, sem saber o que responder. Nem eu esperava resposta. No entanto, depois de um silêncio, Daniel fez uma tentativa convicta.

- Já há muito tempo que pensava nisto. Foi uma asneira vires para Macau. Adriano: vai‑te embora ‑ já.

 

Abanei a cabeça.

- Porquê, para quê, para onde? Para uma casa que está a desfazer‑se? A Lena pediu o divórcio, ainda não tive ocasião de te contar isso. A Ritinha... lembras‑te da minha filha? A Ritinha está a dois passos de ‑ não sei de quê, mas de qualquer coisa, já nem me atrevo a perguntar porque damo‑nos bem e não quero estragar a relação. A dois passos de construir uma vida separada, digamos. E depois? Que mais há? Daniel, eu tenho tanto futuro como os macaenses. Ou menos.

A discussão arrastou‑se um pouco, mas agora era já só mera formalidade. Combinámos um complicado sistema de comunicações em caso de grave emergência, sabendo perfeitamente que nunca o utilizaríamos. E Daniel insistiu, como ponto de honra, em trazer‑me a casa no seu carro.

Passei as horas seguintes a pôr em dia este diário e a deixar tocar a campainha do telefone ‑ e ela tocou muito, teimosa, irritadamente. Há uma curiosa característica no som de um telefone que se deixa tocar sem atender: fica quase humano na sua frustração.

Por fim, estava a acabar de escrever, a campainha da porta tocou. E, claro está, embora eu tenha tomado todas as precauções antes de abrir, sabia quem tocava e era porque estava à espera de quem tocava que deixara sem resposta as chamadas do telefone.

Ela entrou como um furacão, não deu tempo para fechar a porta, saltou‑me ao pescoço, numa sofreguidão, dizendo palavras que não existiam ou não faziam sentido. Tomei‑a nos braços e levei‑a assim, a vibrar e a falar e a chorar, até à sala; depositei‑a no sofá e pareceu‑me, absurdamente, que deitava uma vítima sobre a ara de uma divindade.

Finalmente, Rosa conseguiu respirar fundo e falar. Soubera do atentado na Redacção e sentira‑se morrer mil vezes antes de alguém dizer ‑ e tinha‑se passado mais de uma hora desde que a notícia chegara à Redacção ‑ que talvez não fosse o gajo de Lisboa quem ia no automóvel. Depois, conseguira facilmente a confirmação e teria querido telefonar, mas conhecia demasiado bem as habilidades do seu protector, para quem o segredo telefónico era como o resto, uma mercadoria que se pode comprar. Agarrada a mim, com as mãos cruzadas atrás do meu pescoço, repetia incessantemente não sabia, Adriano, juro que não tenho nada a ver com isto, desta vez ele foi longe de mais. Deve estar louco.

- Não, Rosa. Ou antes, não está mais louco do que sempre foi. Agora, sei até onde ele pode ir. E se não quero acabar como o A‑Lo e o Jorge, preciso de descobrir o verdadeiro motivo de tudo isto, preciso de descobrir exactamente aquilo que ele não quer que eu descubra. É esta a minha guerra.

- A nossa guerra ‑ disse ela.

Consegui convencê‑la a voltar para casa. A ideia de Rosa era encantadoramente simples: Richard nunca lhe faria mal, portanto nunca me atacaria enquanto ela estivesse perto de mim. Além de eu não acreditar inteiramente na sua imunidade, há várias impossibilidades práticas ‑ como o seu ofício de jornalista e o meu trabalho de... de quê? Suicida? Não importa a definição. Está diante de mim e tenho de o fazer. Só isso e só por isso.

Depois de Rosa partir, fiz café e instalei‑me na sala porque sei que não vou poder dormir. Mesmo agora, que já recebi todas as chamadas previsíveis de Lisboa ‑ Ritinha, em pânico; Cristiano, desorientado, quase desconfiado: o que andas tu a fazer por aí, foi o tom da sua conversa. E até Malaquias: eu não te receitei atentados à bomba, vê se tens juízo. Servi a todos o mesmo prato, que e, estou certo, o que a polícia vai escolher: a bomba era para Jorge e portanto atingiu o alvo. Coisas de seitas e tráficos.

Com a chamada de Malaquias, acabou a série de comunicações pela noite dentro e a madrugada fora. o silêncio voltou. Finalmente, começo a tomar o peso do que aconteceu, começo a sentir as mortes de Chen Lo, motorista, e de Jorge Silveira, tradutor, espião e toxicodependente.

A‑Lo. Sabia alguma coisa, o suficiente para dizer que os homens de quem eu fugira eram vely bad people. E, inexplicavelmente, tomou partido por mim, protegeu‑me ‑ morreu ao meu serviço. Não sei se era cristão, budista ou marxista. à falta de um pagode dedicado a Marx, irei à Sé acender uma vela e queimarei dinheiro do inferno no templo de Kun Iam. É ridiculamente pouco, mas agora tudo é ridiculamente pouco.

Jorge. Ia dizer‑me algo muito importante ‑ ou estava já a delirar? Provavelmente, as duas coisas. Nunca saberei o que ia dizer‑me. Suspeito, no entanto, que era aquilo que eu preciso realmente de saber ‑ por que é que Richard Wang me espia, o que quer ele encontrar no espólio do avô.

(Releio esta última frase; ela desperta em mim uma ideia qualquer, uma pista. Mas não consigo defini‑la exactamente.)

Não posso ficar agarrado a vagas ideias. Chegou a altura de mudar de estratégia. Mesmo que isso me traga custos (custos... definitivos?), vou passar à ofensiva.

Não, não vou pôr uma bomba no carro de Richard Wang. Para já, vou, muito simplesmente, assistir à inauguração do Centro de Artes Plásticas de Macau (que já tem sigla: CAPM, asceticamente), para a qual fui convidado ‑ em nome de Richard Wang. E se isto não é uma demonstração de força, então não sei o que é uma demonstração de força.

Ou, melhor dizendo: faz‑se o que se pode...

Foi muito, muito interessante. Claro que Macau inteira estava lá, mais um ou dois jornalistas e outras tantas luminárias de Hong Kong. Logo à entrada, esbarrei com o inevitável MM; havíamos tido duas azedas conversas telefónicas, uma por causa do atentado (cuja culpa ele quase parece querer atribuir‑me) e outra a propósito do carro novo e do motorista novo que eu exijo. Mas ali, em público, MM foi encantador, como eu já esperava.

Notei alguns olhares curiosos, a que, felizmente, o acto solene pôs cobro. As entidades oficiais fizeram discursos, as máquinas fotográficas dispararam, as câmaras vídeo captaram os movimentos magníficos da tesoura a cortar a fita. Quanto às artes plásticas, não sei que diga. Não eram as obras que me interessavam; quem me interessava era o obreiro de tudo aquilo.

Ele lá estava, impecável no seu smoking e no seu cabelo branco, rijo, franzino, respeitável, um exemplo para as duas principais comunidades de Macau. Sorria e gracejava com toda a gente, feliz como um colegial. Mas nem todo o fogo do mundo chegaria para aquecer aqueles olhos semi‑cerrados. Atentando neles, o rosto transformava‑se numa máscara e o sorriso numa careta. Mas era preciso observá‑lo bem. E depois, pensei, não estou a ser objectivo.

Enquanto eu o olhava à distância, Rosa aproximou‑se. Tínhamos discutido sobre se eu deveria vir ou não. Ela opôs‑se por instinto, mas acabou por ceder à razão, tal como cedeu em relação a si própria, porque o seu primeiro impulso fora correr para Wang, chamar‑lhe assassino e dizer‑lhe que os belos tempos do amor filial estavam terminados. Se ela o fizesse, objectei, perderia a protecção e o emprego; e na luta imediata para enfrentar essa situação dificilmente estaria em condições de ajudar‑me. Era vital conhecer, pelo menos, o estado de espírito de Richard. Cedeu aos meus argumentos e percebi que ficara aliviada, que a ruptura total com o velho a assustava. E por que não, pensei; nunca conheceu outra família.

Eu vira‑a logo à chegada, mas tinha‑me mantido afastado para respeitar a ficção de que éramos somente vagos conhecidos. Rosa, que estava em serviço do jornal, escutara os discursos com alguma atenção mas depois não procurara nenhuma entidade oficial para as sacramentais perguntas. Em vez disso, veio ter comigo.

- Não recolhes declarações? ‑ perguntei em voz baixa. Ela encolheu os ombros.

- São sempre as mesmas. A secretária do Richard passa‑me o que houver de importante. Está além, vês? A propósito, ela é que é a amante. Eu não sou amante de ninguém. Não era, até nos conhecermos.

- Fala baixo.

Mas Rosa continua a pensar que a melhor forma de me proteger é tornar a nossa relação tão pública quanto possível. Perguntei‑lhe qual seria a reacção de Richard. Não ia gostar, disse, o que era redundante; mas não faria nada. já tentara casá‑la por três vezes, ela recusara os três candidatos e Richard resignara‑se.

MM passou por nós com um sorriso parado de circunstância a fazer‑lhe um esgar no rosto semi‑asiático. E de repente, não sei por que razão, não sei o que me provocou ‑ mas senti um asco imenso de tudo aquilo, toda aquela gente, toda aquela circunstância. E uma vontade irresistível de agredir, uma vontade tão forte que me cortou a respiração.

Foi MM como podia ter sido outra pessoa qualquer, admito, embora tivesse mais razões no caso dele.

- Ah doutor! ‑ chamei; e algumas pessoas viraram a cabeça. Tal e qual como na anedota, pensei; mas se tivesse chamado ó cabrão, haveria muito mais cabeças viradas. MM parou e alargou o sorriso.

- Há bocado, esqueci‑me de lhe lembrar: olhe que preciso mesmo de um carro com motorista. A partir de amanhã, sem falta.

o sorriso desapareceu.

- já falámos sobre isso e eu já expliquei ao senhor doutor Carreira que... ‑ mas era este género de coisa que eu queria ouvir, benzesse‑o Deus. - Pois, mas eu é que não lhe expliquei uma coisa. Não lhe expliquei que estou farto de si e das suas interferências e das suas pressões e de o ver alinhar com interesses que não são os da Fundação Cultural Luso‑Chinesa. Por isso, é muito simples. Ou tenho amanhã o carro ou demito‑me, mas com escândalo e declarações aos jornais. Admito que a imprensa em Portugal não se interesse muito, mas os jornais de Macau chamam‑lhe um figo. Quem quer censurar o espólio Wang Wu? Porquê? já estou a ver as manchetes. Boa noite.

Virei‑lhe as costas. Rosa já não estava ao meu lado e procurei‑a para dizer‑lhe que me sentia muito melhor; de repente, a sua voz soou atrás de mim, chamando‑me pelo nome. Voltei‑me; vi, já longe, um MM ainda pálido a sorrir para uma senhora ‑ e à minha frente, a menos de um metro, estava Richard Wang, com um braço paternal sobre os ombros de Rosa.

- o Richard quer conhecer‑te ‑ disse ela em inglês. E fez as apresentações. A mão do tipo era fina e seca, a condizer com ele, e completamente desprovida de qualidades humanas, como calor, frio, suor. Como se fosse uma prótese.

Falámos em inglês porque o seu português é laborioso. Ah, finalmente, disse ele; que pena tinha de não me ter conhecido à chegada, mas nessa altura estava na Europa em negócios, sempre os negócios. E agora, por pouco não me conhecia de todo, han? Uma bomba, não fora? No carro? Bang?

Felizmente que eu descarregara a bílis sobre, MM e tinha a cabeça aliviada.

- Pois, bang, bum, splash. Parece que o espólio do seu avô é péssimo para a saúde.

Um pouco da frialdade dos seus olhos comunicou‑se à boca.

- o que é que quer dizer com isso?

- Que morreram dois homens. Um era o meu motorista, outro o meu assistente.

Wang não respondeu logo. Estava a medir‑me. Para calcular o tamanho do caixão, conjecturei.

- Ah, isso foi uma coincidência ‑ disse ele em tom benigno. E para Rosa: ‑ Não disseste aqui ao nosso amigo que a polícia está convencida que foi um ajuste de contas das tríades com esse tal... como é que se chamava? Esse assistente. Quanto ao espólio, tenho a certeza de que não faz mal a ninguém se for tratado com respeito... se não for, o espírito do meu avô pode vingar‑se... hen, Rosa, é isto, não é?

Mas Rosa não queria, obviamente, participar no combate. Acenou com a cabeça num gesto indefinido, encolheu os ombros, murmurou que o ajuste de contas era só uma teoria. Um homem grisalho, um chinês, muito elegante, veio chamar Wang, que se afastou com um aceno de despedida. Ao meu lado, Rosa libertou um longo suspiro de alívio.

- Quem é aquele? ‑ perguntei‑lhe, indicando o homem que viera buscar Wang.

- O filho mais velho. Charlie. Um dos playboys. Detesto‑o. Comentei que para playboy Charlie Wang estava um pouco envelhecido. Parecia ter a minha idade.

- E daí? Tu não és playboy mas és um enfant terrible.

Baixei a voz:

- Meu amor, vamos parar com os estrangeirismos, afirmemos a nossa indefectível portugalidade nestas longínquas paragens e... Rosa, vou pôr‑me a milhas. já fiz o que queria fazer.

Ela protestou, porque não podia acompanhar‑me, tinha de ir para a Redacção. Mas insisti, porque, finalmente, vinda de não sei onde, alimentada não sei por quem, a tal ideia, a tal pista mal definida ganhava forma rapidamente e eu queria vir para casa e pensar melhor nela.

No táxi, lembrei‑me: fora Richard Wang, ao falar do espólio e do espírito do avô ‑ O espírito do Comendador: parece a história de D. Juan ‑ fora essa alusão (ameaça?) que desencadeara tudo. Agora eu sabia qual era a ideia.

E agora, estou absolutamente certo. Mal cheguei a casa, fui à cozinha e levantei o oleado; nesse esconderijo, que considero razoavelmente seguro porque a casa já foi revistada, guardo agora não só o diário como outros papéis ‑ por exemplo, as minhas fotocópias clandestinas. E guardo ali, também, aquela tira de papel escrita pela sra. Wang, que encontrei presa ao lacre que selava a segunda caixa do espólio. Quase me esquecera daquilo.

o Dois, o Seis, o Doze são os números da desarmonia que é preciso evitar.

Trouxe o bocadito de papel para a sala e sentei‑me a brincar com ele. Uma charada, pensei eu quando o encontrei. Mas é melhor que isso, é um roteiro. o dois, o seis e o doze não têm uma carga negativa na numerologia chinesa e, sobretudo, não estão relacionados com a quebra da harmonia. A afirmação errada é a chave do código.

A velha pergunta. Como é que não me lembrei disto antes?

O dois, o seis e o doze. Os primeiros documentos embaraçosos para o bom nome do Comendador Wang Wu (embaraçosos, pelo menos, numa perspectiva católica; na perspectiva de uma católica arrependida e recém‑convertida), esses documentos, encontrei‑os na segunda caixa. Os restantes estavam na sexta caixa.

Os números da desarmonia que é preciso evitar.

 

                   KUN IAM, A MISERICORDIOSA

 

                                   30 DE OUTUBRO

Domine, non sum dignus, ut intres sub tectum meum.

Escolhi estas palavras para recomeçar o meu diário porque sinto‑me estranhamente purificado pelas quatro semanas que acabam de passar sem que eu tivesse tempo, forças ou cabeça para escrever uma só linha.

Purificado, sim ‑ embora o padre Frazão talvez não concordasse comigo ‑ e espantado, também; espantado comigo mesmo: esperava sinceramente uma recaída, uma crise aguda. Estará a depressão à espera de me apanhar desprevenido? (na minha mitologia particular atribuí‑lhe uma individualidade própria).

Foram quatro semanas de pressão sobre os nervos. Tive de constituir advogado em Lisboa porque Lena se mostrou inesperadamente agressiva no processo de divórcio e a qualificação de "comum acordo" está a ficar eufemística; tive de me defender dos ataques de MM junto da Fundação Cultural; tive, enfim, de responder a uma campanha hostil e vagamente difamatória lançada pela "Nova Abelha" a propósito ‑ adivinhe‑se! ‑ do trabalho de análise do espólio Wang Wu. É uma sensação nova para um jornalista: normalmente, somos nós que fazemos as campanhas, não as sofremos. Ainda que eu não seja dos piores.

No entanto, e surpreendentemente, este foi um período de grande paz interior. Talvez porque tomei uma decisão importante e estou a cumpri‑la. A seu tempo a enunciarei, quando (se) a tiver levado até ao fim.

Rosa esteve em Manila, a entrevistar a sra. Corazón Aquino, e andou pela Tailândia sem conseguir (como eu previa) entrevistar o Rei. Suspeito muito desta viagem, penso que Richard quis arejar‑lhe as ideias e afastá‑la de mim. Não tenho a mínima dúvida de que ele já sabe o que há entre nós.

Em todo o caso, se a ideia foi essa, falhou. No regresso, mal chegou a Hong Kong, Rosa telefonou‑me, do aeroporto. Era um sábado, consegui lugar num jetfoil e fui ter com ela ‑ não a um hotel, mas ao apartamento de uma amiga que estava de férias em Taiwan. Só voltámos na segunda‑feira. E desde então não temos tomado grandes cautelas.

Foi durante a ausência dela que a "Nova Abelha" houve por bem divulgar "as preocupações de várias individualidades do Território" quanto à preservação do espólio do Comendador Wang Wu, por "constar" que os documentos não estavam a receber o melhor tratamento... na realidade, nunca constou fosse o que fosse, o interesse pelo espólio está completamente adormecido, como sempre acontece quando as coisas deixam de ser novidade (a novidade vou dá‑la eu; mas a seu tempo). Foi fácil responder a este ataque pouco hábil: escrevi uma carta ao director do jornal propondo‑lhe que me enviasse um redactor a quem eu facultaria todas as peças do espólio já analisadas; para dar um pouco de sal, sugeri que poderia, se a "Nova Abelha" não estivesse interessada, dirigir‑me a outro jornal. Não tive resposta. Talvez porque, poucos dias depois, o director adoeceu e partiu para Lisboa, em tratamento. Ainda não voltou. Suspeito que não voltará tão cedo.

E, através de todas estas vicissitudes, o que fiz eu à décima segunda caixa do espólio, onde suspeito ‑ não; estou certo ‑ que se encontra a chave de todos estes mistérios?

A resposta normal seria: quebrei o selo, como fiz com as outras; abri a caixa e devassei furiosamente o conteúdo. Mas não é assim tão fácil ‑ nunca foi, desde o princípio, e agora cada vez menos. Primeiro, cada caixa era‑me solenemente entregue por um representante da Misericórdia ‑ regra geral, o padre Frazão ‑ e depois eu procedia como entendia. Foi assim que abri os primeiros cofres em minha casa e encontrei aquela mensagem sobre o Dois, o Seis e o Doze. Mas desde que MM interveio (por ordem de Richard Wang, estou agora absolutamente certo), a rotina sofreu alterações sucessivas, sempre impostas como se viessem das altas esferas. Ultimamente, as caixas que restam passaram a ser abertas no Palacete, na presença do padre, de um funcionário da Fundação e de Xavier, embora a presença deste não seja um requisito oficialmente reconhecido como tal.

Então, o que é que se faz? Uma sabedoria superficial diria: tens de ser paciente como o chinês e, muito simplesmente, esperar que chegue a vez da caixa número doze, o que aliás só depende do teu ritmo de trabalho. Mas o que essa sabedoria não toma em linha de conta, e por isso peca por superficialidade, é que estou a correr contra o tempo. Se, como penso, é na caixa doze que se encontra o número da sorte grande, até lá pode acontecer‑me toda uma série de infelizes e deliberadamente fortuitos acidentes. Até que eu chegue, como a sapientíssima tartaruga, à minha meta, a oposição terá todo o tempo do mundo para manobrar. Estamos no final do século XX, digo eu à sapientíssima tartaruga; e este é o tempo mais vicioso, mais distorcido, mais filho‑da‑puta da História da Humanidade desde que Adão perdeu uma costela por ter o sono pesado. Antes desta ortega‑y‑gassetiana circunstância, houve monstros como o homo‑napoleonicus, o homo‑stalinicus, o homo‑hitlerianus. Mas nunca houve, como hoje, o Homem‑Lebre.

É o novo Milénio. Acabou o tempo da Tartaruga e começou o tempo da Lebre. Que é o tempo do mal‑cozinhado.

Filosofia barata à parte: preciso de arranjar maneira de abrir a décima segunda caixa sem esperar pelas que faltam. Para isso, preciso, pelo menos, de duas coisas: a cumplicidade do padre Frazão e o apoio expresso da Fundação, minha patroa. o padre é imprevisível, penso; tudo depende dos meus argumentos e da adequação desses argumentos ao seu código pessoal de conduta. Quanto à Fundação, o conflito com MM, depois da batalha do carro novo, que eu ganhei, é agora aberto e por assim dizer público. o homem não me fala, queixa‑se de mim ao governador, à Misericórdia, aos jornalistas, talvez mesmo ao Papa ‑ e, certamente, à Administração, em Lisboa. Enquanto estas queixas não catalisarem uma reacção qualquer, não posso fazer nada. Sou a Tartaruga num mundo que pertence à Lebre, como quem diz, a Richard Wang, que tem vinte e muitos zeros à direita em qualquer banco que se preze. É que, além de ser apressada, a Lebre é rigorosamente economicista.

 

                                       Dia seguinte. Hong Kong.

De repente, tudo mudou: a reacção deu‑se. Ontem pela manhã, depois de escrever as páginas anteriores, saí de casa, cumprimentei o meu novo motorista, que é Chan‑qualquer‑coisa e tem "Richard. Wang" escrito na testa, meti‑me no carro e mandei seguir para o Palacete Amarelo, onde já fui encontrar Xavier.

Nota ‑ Xavier anda perturbado. Hoje, depois de reflectir muito, tenho a convicção de que a bomba posta no meu carro era mesmo para Jorge e talvez também para A‑Lo, como castigo por ter‑me ajudado; e, neste caso, não duvido de que Xavier é um dos responsáveis porque só ele podia ter avisado a oposição de que Jorge ia fazer‑me confissões perigosas. Mas a verdade é que, precisamente desde o atentado, Xavier não anda o mesmo. É um assunto a aprofundar.

Retomando o fio: meia hora antes de sair para almoçar, recebi um telefonema de Lisboa: Cristiano.

- Qual é a urgência? ‑ perguntei, ao reconhecer‑lhe a voz.

- Como sabes que é uma urgência?! ‑ o tom era de desconfiança, mas talvez fosse impressão minha.

Respondi pacientemente:

- Porque, salvo erro, são quatro da manhã aí em Lisboa. Ou é urgência ou é insónia.

- Bom ‑ rosnou ele; ‑ está bem, és muito esperto. Ouve: quero encontrar‑me contigo amanhã, em Hong Kong. No Hilton. Eu devo chegar às...

- Em Hong Kong, Cristiano?

- Merda, que é que tem? Eu não vou a Macau, vou a Taiwan. Manda marcar um quarto para ti, também.

É por isso que estou em Hong Kong. Cristiano já partiu. A entrevista começou de um modo estranho. Quando entrei na suite e o vi, foi como se o passado me sufocasse; num instante, voltei a viver Lisboa, a barragem de Pedra Moura, a ruptura com Paula, e com Lena, a angústia, a desistência, a clínica. Mas Cristiano não me deu tempo para devaneios perigosos. Abraçou‑me e, no mesmo movimento, quase me empurrou para uma poltrona.

- Então, o que é que se passa? Eu só parei em Hong Kong para te ver, meu sacana. o que é que tu andas a fazer em Macau? E bebes o quê?

Por momentos fiquei desorientado com a última pergunta, mas depois percebi que ele estava a ser hospitaleiro.

- Bebo champanhe, se mo deres, e a que vêm essas perguntas?

Já ele empunhava o telefone e encomendava bruscamente: room‑service? champanhe, uma garrafa. Não, bolas, eu sei que há no frigorífico, mas eu quero Taittinger. Qual? Sim, esse; e depressa. Largou o auscultador sobre o descanso e já falava para mim:

- Homem, o Martinho. o Martinho Martins. Não vou dizer‑te o que ele diz de ti porque leva muito tempo e não gosto de filmes de horror. Fiquei preocupado. Chiça, tu vieste para recuperar... se a coisa não corre bem, ainda sais pior. E depois há essa merda do atentado, que ainda não me saiu da ideia. Quem era esse Jorge Silveira, de quem nunca ouvi falar?

Cristiano nunca foi capaz de fazer uma pergunta de cada vez. Penso que sofre de excesso de energia. Seleccionei uma primeira resposta:

- Era um tipo na rampa. Rampa descendente: droga, estás a ver? Mas bom tipo. Foi o que o lixou. Agora...

Bateram à porta, era o empregado com o champanhe e um balde de prata cheio de gelo. E taças. Mas Cristiano mandou‑as para trás e exigiu flutes.

- Agora ‑ retomei quando a questão se resolveu ‑, preciso de saber uma coisa, antes de te responder. Preciso de saber o que tu pensas, muito exactamente, do teu Martinho Martins.

Cristiano bebeu um longo e lento gole de champanhe e depois observou o copo, um tubo de cristal liso.

- Muito exactamente, é um cretinóide filho da puta ‑ esclareceu enquanto apreciava o copo. ‑ Está em Macau porque em Lisboa eu tinha de vê‑lo todos os dias e isso faz‑me urticária. Mas ‑ acrescentou enquanto se servia de mais champanhe ‑ isso não quer dizer que tu estejas mais brilhante que ele. Estás?

- Provavelmente, não. ‑ E cumpridos assim os preliminares, contei‑lhe tudo, exaustivamente tudo o que se passou desde a minha chegada a Macau. Achei mesmo ‑ embora não fosse da conta dele ‑ achei mesmo conveniente e natural contar‑lhe o que se estava a passar entre Rosa e eu. Os olhos brilharam‑lhe.

- Uma chinesinha, hen? Macau, ponto de encontro de várias culturas, como eles dizem nos folhetos? Mas não acredites Muito nisso, põe‑te a pau. Preocupo‑me só por ti, já se sabe: Em cima do divórcio, um novo amor infeliz era o cúmulo. Bom, mas que raio de merda de filha da puta de história.

A adjectivação elegante não se dirigia, percebi logo, à minha ligação com Rosa, mas antes a todo o complicado drama.

- É como dizes ‑ retorqui. ‑ E, Cristiano, eu tenho de saber qual é a vontade da Fundação. Não te preocupes comigo: só preciso de meia hora para fazer as malas.

- Malas? Chiça, deves estar bêbado.

E em três chiças explicou‑me que eu mantinha ‑ não, reforçava ‑ a minha autonomia. Só dependia dele, chiça, já o tinha dito e escrito, chiça, mas ia explicar melhor, chiça, para os simples alfabetizados.

- E o teu amigo MM? ‑ objectei.

- Esquece. jantas comigo logo? Ah, não, não posso. o cônsul apanhou‑me no aeroporto, convidou‑me. E eu preciso de cravar‑lhe uma coisa. Bom, então almoças. E depois vou dormir uma sesta. Amanhã, tenho avião muito cedo.

Não disse mais nada sobre MM nem sobre o resto. Mas se conheço bem Cristiano ‑ e julgo que o conheço bastante bem ‑ vou poder exercer a autonomia de que preciso para antecipar a abertura do décimo segundo cofre.

E agora, para terminar o registo de hoje: quando regressava ao hotel, depois do almoço, quase me esbarrei contra Tom Koopman, o meu incomparável holandês. E foi TK que me convidou para jantar com ele, esta noite, porque, veja‑se a coincidência, andava para me telefonar, tinha descoberto uns pormenores engraçados. Só que não disse a propósito de quê.

 

                   1 DE NOVEMBRO, Jetfoil Hong Kong ‑ Macau.

Cena patética no terminal de Hong Kong, diante dos balcões de verificação de passaportes.

à minha frente, na bicha, estava uma chinesa com o filho pendurado às costas, ao jeito tradicional, e empunhando um passaporte português. Um passaporte português falso. A mulher foi levada, aos gritos, para longe dali, enquanto o bebé acordava e começava a chorar. A mulher gritava em chinês. Esta falsa cidadã nacional não diz certamente uma palavra de português ‑ e o mesmo acontece com a maioria daqueles que têm a sorte de possuir um passaporte verdadeiro, em boa e devida forma.

o passaporte português é o sonho dourado de milhares de chineses, que, embora por diferentes razões, têm tantas dúvidas como eu a propósito do que irá acontecer depois de 99. Não é, evidentemente, portuguesismo. É a chave da evasão, a Europa, a CEE, o mundo, a sobrevivência ‑ aquilo que os ingleses, sábia e fria e impiedosamente, negaram aos chineses de Hong Kong. O meu coração está com Portugal, a minha cabeça com a Inglaterra.

Ponto final no devaneio. Sobre a minha guerra: TK é um presente caído do céu e o serão que ontem me ofereceu vai ficar‑me na memória durante muito tempo.

Julgava que ele ia levar‑me a algum restaurante de que fosse cliente certo; não sei porquê, nunca associei Koopman a uma vida familiar, com mulher e filhos. Quando muito, uma namorada flutuante, um apartamento de duas assoalhadas pré‑mobilado, com alguns toques pessoais ‑ gravuras, estatuetas ‑ e, talvez, uma mulher‑a‑dias chinesa ou filipina.

Nisto tudo, só não me enganei no celibato. Ele ofereceu‑me de jantar não num restaurante, mas em sua casa, um belo apartamento em Kowloon ‑ e uma vez mais, ali, tal como no seu gabinete da "Victoria Publishing House", temos a sensação, ao entrar, de que TK consegue isolar o seu espaço e torná‑lo imune ao século XX, ao barulho, à febre, à vibração de Hong Kong. Com uma notável diferença: enquanto o gabinete está votado a um caos irremediável, em casa reina uma ordem perfeita ‑ mais do que ordem: harmonia. A sala, enorme, tem recantos discretamente iluminados. Num deles está uma magnífica cama de ópio em ébano, transformada em trono e sólio de uma estátua antiga, de marfim, representando a deusa Kun Iam. Adiantei‑me para admirar as duas peças, cama e estátua, ao mesmo tempo que pensava: TK pode não ser casado, mas há aqui uma fada ou um génio bom do lar, tudo isto está limpo de mais, acarinhado de mais; a única coisa desordenada (ainda que seja uma desordem simpática) é ele.

Não tardei a verificar que o génio bom é um jovem criado chinês, que veio servir os aperitivos e que depois serviu à mesa, discreto e aprumado. TK dirige‑se‑lhe sempre em mandarim, embora ele fale perfeitamente inglês. Trata‑o com uma familiaridade respeitosa e chama‑lhe "Erik", o que é incongruente; mas TK diz que esse é o nome que lhe arranjou porque o verdadeiro nome de Erik é demasiado importante para ser usado em vão. É um descendente do Filho do Céu, pertence à antiga casa imperial.

Não sei se acredite nesta história. Mas não importa; tenho de acreditar em outra história interessantíssima que TK me contou depois do jantar, quando nos instalámos) para o café e o conhaque, sob o olhar benigno de Kun Iam. Koopman estivera a guardar‑se para este momento; até aqui, falara de assuntos perfeitamente inócuos, mas logo que Erik serviu o conhaque, ele ergueu o balão de cristal e desejou‑me longa vida, apesar das coisas estranhas que acontecem aos carros que andam ao meu serviço. Respondi‑lhe no mesmo tom: não esperara, disse, que as vagas ocorrências das pobres cidades provinciais fossem escutadas pela Metrópole.

- Ah! ‑ largou ele a rir. ‑ Não somos assim tão distraídos... a imprensa noticiou, com destaque. É normal ... e depois, sabe, é já um hábito antigo dar atenção a todos os factos que demonstrem como as coisas são desorganizadas e pouco seguras em Macau, em contraste com a Cidade Perfeita...

Mas agora, TK já tinha dado o seu espectáculo e era ele que estava ansioso por entrar na questão: explicou‑me que a notícia do atentado sacudira‑lhe a memória, trouxera‑lhe à lembrança mais alguns factos. Não sobre Wang Wu, mas mais recentes, sobre Richard.

- Sabia você que houve grandes dramas familiares? Há coisa de dez anos, morreram, em Hong Kong e em Macau, vários Wangs. Quero dizer: vários dos seus Wangs, primos de Richard Wang.

Endireitei‑me rapidamente. ‑ Como é isso? Morreram como?

Em série, disse TK com uma gravidade cómica. Causas várias. Só tinha pormenores sobre dois desses primos, que viviam em Hong Kong. Um morrera com um ataque cardíaco, o outro afogado no porto, uma coisa estranha.

- Novos? Velhos?

Ambos mais ou menos da idade de Richard. Quanto aos outros, que eram de Macau ou lá viviam, a única referência a que TK deitou a mão é um artigo mais ou menos fantasista sobre maldições familiares, publicado numa revista que já não existe. Aí se fala de mais três óbitos pouco explicáveis.

- E todos na mesma época. Ou melhor, em duas épocas próximas: há quinze e dez anos. Curioso, não?

- Curiosíssimo. E, maldições à parte, ninguém suspeitou de mais nada?

Koopman fez um sorriso de garoto. ‑ Bem me parecia que você ia gostar de saber. Em Macau, desconheço. Em Hong Kong, a polícia nunca chegou a perceber como é que o sr. Jack Wang, próspero e prudente comerciante, foi parar às águas do porto. Caiu de um junco, não se sabe bem como, nem sequer o que é que ele estava a fazer a bordo. Mas o caso, se era um caso, ficou por resolver.

- TK, cada dia que passa a minha dívida para consigo aumenta. Começa a ser assustador.

TK encolheu os ombros, bem humorado.

- Não tem importância. Digamos que é por causa do meu sangue português. Não ria! Mas olhe: se quiser publicar um livro com toda essa história, não se esqueça de mim nem da "Victoria Publishing House".

E aqui está o que vou fazer quando chegar a Macau ‑ e estamos a chegar, estes cinquenta e cinco minutos passaram muito depressa. Vou à Biblioteca Central consultar, pacatamente, jornais antigos.

 

                                   Dia seguinte. Coloane.

o padre saiu agora para dizer missa na capela. E nem insinuou que eu podia, se quisesse, assistir! Pelo contrário, recomendou muito, fique aqui, descanse, descontraia os nervos, não saia.

Está assustado e já não é sem tempo. Quando ele acabar a missa, hei‑de ouvi‑lo em confissão.

Entretanto, vamos ao que aconteceu. Quando, ontem, desembarquei em Macau, pensei em ir à Biblioteca antes mesmo de ir a casa. Como os feriados cristãos só são observados pela Administração e até mesmo aos sábados e domingos a Macau chinesa trabalha, só me lembrei de que era o primeiro de Novembro quando esbarrei na porta da Biblioteca, fechada. Por isso, fiz a consulta esta manhã e pedi a Rosa que visse discretamente, no arquivo do jornal, o que havia acerca dos primos Wang ‑ ela recorda‑se vagamente, mas na altura das mortes mais recentes tinha 15 anos e outras preocupações.

Na Biblioteca, encontrei com facilidade as notícias, que tinham muitíssima parra e pouquíssima uva. Mas tinham, pelo menos, os nomes e as circunstâncias. o suficiente para avançar com o meu plano.

Não demorei muito tempo e não creio que me seguissem. Mas enfim, cometi dois erros perfeitamente idiotas: o telefonema para Rosa, no jornal, e o aviso que fiz a Xavier: se ligassem para o gabinete à minha procura, podia informar que eu estava na Biblioteca Central a fazer uma pequena investigação. Não podia ter sido mais estúpido.

Quando cheguei ao Palacete Amarelo, Xavier tinha um recado para mim: MM telefonara, não uma, mas três vezes, a pedir que passasse urgentemente na Fundação, primeiro às onze, depois ao meio dia, depois, como eu ainda não tinha aparecido, logo a seguir ao almoço, às três.

Ao ver Xavier, pensei: está, de facto, mudado. Ou então, está doente, mas não parece; pergunto‑me se não se encontra na posição do aprendiz de feiticeiro: foi muito bom servir Richard Wang, receber o dinheiro de Richard Wang para vigiar e lixar a vida ao kwai‑lôu que veio de Lisboa. Mas quando Richard Wang tomou embalagem e mandou matar Jorge e A‑Lo, as coisas mudaram de rumo e não ficaram mais simpáticas. Paciência, meu filho; todos nós temos as nossas contrariedades (repito: isto foi o que eu pensei ao fim da manhã, quando cheguei ao meu gabinete).

A convocação de MM exasperou‑me, primeiro porque estava sem paciência para a criatura e depois porque planeara trabalhar toda a tarde no gabinete, a despachar os documentos da caixa número oito ‑ e a decidir qual a melhor maneira de chegar rapidamente à número doze. Portanto, como compensação do tempo que ia perder, não fui almoçar.

Rosa telefonou‑me, o que já é habitual; às vezes, ligo eu, mesmo que seja só para ouvir‑lhe a voz. Mas tinha uma razão especial: encontrara no arquivo algumas notícias sobre as mortes dos Wangs. Foi o terceiro erro crasso do dia ‑ fez a chamada da Redacção, confiando na linha directa.

Combinámos que ela iria ter comigo à Fundação. Eu decidi que não concederia a MM mais do que uma hora do meu precioso tempo; disse‑lhe que viesse às quatro, depois íamos para uma esplanada qualquer na Taipa, beber cerveja, comer camarÕes e falar. Esta ideia, expliquei‑lhe, dava‑me coragem para enfrentar as previsíveis tensões e tédios da entrevista com MM. Rosa murmurou: e se eu dormisse em sua casa a coragem aumentava? Respondi‑lhe a condizer. Desliguei a rir e a chamar‑me idiota e adolescente retardado, porque bastava aquela conversa para me excitar.

Sobre a entrevista com MM, e o que aconteceu depois, importa deixar bem claro: ele teve tempo para preparar tudo.

Em si mesma, a entrevista foi interessante e incómoda. MM era um homem derrotado, amargo ‑ e cheio de ódio. Nós falamos com demasiada facilidade em ódio e amor, mas quase sempre falamos sem verdadeiro sentido: adoro sardinhas assadas, odeio carne em sangue. A tia Anastácia adora‑me, o vizinho de cima odeia‑me por causa da música tão alto. Nada disto tem significado. É uma coisa muito diferente encontrar o amor e o ódio cara a cara, vê‑los brilhar nos olhos do outro, senti‑los estremecer no corpo do outro, cortando‑lhe a respiração, e saber que nós provocamos tudo isso.

o ódio de MM respirava‑se no ar do seu gabinete, onde me recebeu. Compreendi imediatamente que Cristiano, fiel aos seus métodos, não perdera tempo e decretara a desgraça de Martinho Martins. Simplesmente, eu não sabia, na altura, qual o tipo de desgraça ‑ não sabia que MM tinha sido nomeado, precisamente nessa manhã, e por fax, director da futura delegação da Fundação Cultural Luso‑Chinesa nos Novos Territórios, uma espécie de sub‑divisão da já diminuta delegação em Hong Kong. Quando Cristiano decide a desgraça de alguém, decide mesmo, vai bater onde dói mais.

o que MM tinha a dizer‑me era que deixara de ter quaisquer responsabilidades na sede macaense da Fundação; o que tinha a dar‑me a entender era que me odiava e mais tarde ou mais cedo ajustaria contas comigo. As duas mensagens, a explícita e a outra, foram dadas com razoável contenção ‑ mas sem qualquer vislumbre de elegância. Estranhamente, essa fraqueza tão profunda, tão visível, tocou‑me. E felicitei‑me intimamente por nunca ter desejado feri‑lo. Em todo este conflito, limitei‑me a querer a remoção de um obstáculo e a neutralização de um chato; não é a mesma coisa que procurar vingança ‑ e, ao menos, livra‑me do remorso.

Saí da sala antes das quatro, mas Rosa já estava à minha espera no sumptuoso átrio. Veio ter comigo ‑ e beijou‑me. Era a primeira vez que nos beijávamos em público.

- Foi muito chato? ‑ perguntou a meia voz quando caminhávamos para a saída.

- Quantum satis ‑ respondi. o homem está alterado. Mas pronto, acabou‑se. E tu, o que é que conseguiste desencantar?

Tínhamos descido a escadaria. Cá fora estava calor e parei para tirar o casaco. Por isso, não estranhei logo a ausência de resposta.

E agora, que procuro recordar tudo exactamente, só consigo ter farrapos de memória: farrapos de sons, de cores, de sombras.

o grito de Rosa, isso sim, recordo bem, ainda o ouço. Gritou o meu nome, julgo, mas quase inarticulado ‑ um grito, um aviso, um lamento. Mais gritos. o retinir de vidros que se partem, uma cascata de bocadinhos de vidro a brilhar ao Sol. E a queda ‑ e só então, embora fosse com certeza antes, a rajada. E a seguir, todo o inferno desencadeado. Lembro‑me de ver uma coisa cómica, um homem, um chinês, a fazer o pino, o que parecia ser o pino, uma acrobacia estranha. E com um vago concerto em fundo, travões, motores, buzinas, desci ao passeio. Ou o passeio subiu e veio ter comigo.

Rosa caiu sobre mim ‑ porque ela viu o que ia acontecer, viu a boca da pistola‑metralhadora a sair da janela do carro e aplicou‑me uma rasteira, atirou‑se a mim para fazer‑me cair. Conseguiu. Sei agora ‑ ela disse‑mo ‑ que mal toquei o chão tentei rolar para a cobrir com o meu corpo. Não consegui e fiquei ali estendido, impotente, a sentir a camisa molhar‑se de sangue.

Sangue de Rosa. Foi a compreensão disto que me fez levantar, ampará‑la, gritar qualquer coisa que ninguém ouviu porque havia muita gente a gritar.

Depois, só me lembro de um rosto macaense, o rosto sereno de um enfermeiro que me dizia:

- É só na mão, é um arranhão pequeno!

Mas ela estava inconsciente, ela estava deitada na maca e eu ia, claro, matar Richard Wang e primeiro, porque estava mais à mão, MM. Só que não podia, porque alguém, outro enfermeiro, me agarrara e imobilizara enquanto dizia palavras suaves, como se quisesse embalar um bebé. Então, respirei fundo e voltei a ver o acrobata, o homem do pino. Não era um acrobata, afinal, e esse sim, estava total e completamente morto, tão morto que me perguntei por que tinham eles tanto cuidado ao deitá‑lo na maca, ele não se queixaria se o sacudissem.

 

                                           3 DE NOVEMBRO, Madrugada.

...Hospital, enfermeiros, médicos, polícias e depois, abençoadamente, Daniel e Manuel Garcia. Quando os vi tive de fazer um esforço para não chorar, sentia‑me tão frágil que bastava um sorriso, uma palavra mais suave para me comover. E eles tinham vindo, Daniel por causa dos velhos tempos em que fomos novos e Manuel Garcia não sei porquê, suponho que porque sim. E Rosa? ‑ perguntei.

Ela estava na enfermaria ao lado e entrou quando Daniel se afastou para conferenciar com um sargento da polícia. Trazia a mão direita ligada. Vinha muito pálida ainda, mas caminhava bem, sem se apoiar.

Por instantes, enquanto não me sorriu, fiquei gelado. Nunca antes a tinha visto com aquela expressão, que não sei definir - era ódio, sim (nunca vi de tão perto a face do ódio como hoje), mas era também uma decisão: a sacerdotiza que vai imolar a vítima, a fúria do Hades que vai lançar‑se sobre o parricida. Então, ela olhou‑me e sorriu e vi que nada daquilo era para mim, mas pensei, ai do homem que inspirou isto. E sei quem ele é.

Iam dar‑nos alta. E toda a gente tomou decisões por mim, sem que eu reagisse.

Rosa, sem se perturbar com os presentes, beijou‑me. Meu amor, vemo‑nos amanhã. Hoje tenho uma coisa muito importante a fazer.

- Tens de dormir ‑ protestei, mas ela não ouviu sequer.

- Amanhã eu falo‑te. Não me telefones, não vou dormir a casa. Não te preocupes comigo.

Antes que eu desistisse de protestar, já Daniel e Manuel Garcia tomavam decisões a meu respeito. Eu também não iria para minha casa; havia um bom sítio para me alojar...

- Onde?! ‑ protestei. Não me responderam. ‑ Anda daí ‑ disse Daniel ‑, precisas de um bom copo e não sei se há disso no sítio para onde te levamos...

- Acho que sim ‑ comentou Garcia, com risinho maroto ‑ mas à cautela vamos aviá‑lo primeiro!

Nesta altura achei por bem reagir e dizer‑lhes que, embora estivesse pronto a submeter‑me à doce tirania da amizade, não se me dava saber que merda de programa estavam a preparar‑me. Ignoraram a observação e conduziram‑me até ao carro de Daniel, falando, como se eu não estivesse de permeio, sobre onde poderiam comprar uma garrafa de whisky.

Vinte minutos mais tarde, rolávamos lentamente pela Avenida da Praia Grande. Daniel disse‑me então que a polícia não estava certa de que o atentado tivesse sido dirigido contra mim.

- Essa é a melhor! ‑ exclamei; ‑ os rapazes são exigentes! Daniel explicou: As pessoas contaram uma história esquisita. o tipo da pistola‑metralhadora fez pontaria na tua direcção; de repente, abriu muito os Olhos, como se estivesse assustado, e desviou o cano para a direita. Ninguém sabe Porquê.

- Mas a polícia ‑ interveio Garcia ‑ tem umas ideias. Lembra‑se do tipo que morreu? o chinês?

o acrobata, pensei. Garcia continuava a falar: ‑ Já o identificaram. Segundo parece, é... era o chefe de uma rede de passadores de droga. Portanto, os tiros podiam ser para ele ‑ sei lá, um ajuste de contas. Não é a primeira vez que acontece. Tipos assim estão sempre ligados às seitas e as seitas, de vez em quando, resolvem os seus problemas desta maneira, embora casos tão espectaculares sejam raros. Houve uma história deste género, em 1978.

- Não acredito ‑ rosnei.

Garcia falou na sua voz tranquila:

- Nem eu. Ninguém. Mas é tecnicamente possível, não é? E depois, esta teoria tem uma enorme virtude. Evita embaraços. Você há‑de concordar que começa a ser incómodo! Dois atentados, polémicas na imprensa... não ajuda nada ao clima de bom entendimento que deve prevalecer nestes anos que precedem a transferência da administração.

Falava a brincar, mas percebi que é um pouco isso o que se passa. Dá a ideia de que tropeçar num buraco de rua é embaraçoso para Portugal, porque as individualidades afectas a Pequim podem estabelecer uma interpretação menos "harmoniosa".

Reparei, ao olhar pela janela, que estávamos a caminho de Coloane.

o refúgio em que Daniel e Manuel Garcia tinham pensado era a casa de retiros da Misericórdia, o que queria dizer que tinham recrutado o padre Frazão. Quando enfim condescenderam em dizer‑mo, eu, que só então começava a reagir ao choque, declarei que achava a escolha de mau agouro. o infeliz Jorge Silveira ficou lá na véspera da bomba, disse‑lhes. Garcia começou a explicar que isso não era relevante; Daniel, que me conhece melhor, interrompeu:

- Ele sabe isso perfeitamente, só está a querer discutir para acalmar os nervos. ‑ E, para mim, apontando a garrafa que tinha comprado: ‑ Olha, bebe que isso passa‑te!

Não bebi. Recostei‑me e fechei os olhos. Na realidade, era com o padre Frazão que eu precisava desesperadamente de falar. o choque físico do atentado pusera a funcionar um mecanismo cerebral que até então estivera inactivo. De repente, percebi que sabia muito mais coisas do que julgava. Não sabia tudo, mas sabia muito; faltara‑me apenas tomar consciência disso e relacionar todos os dados. E, por fim, ia poder obrigar o digno e venerável sacerdote a enfrentar a dura realidade.

Foi o que fiz há poucas horas. o padre Frazão esperava por nós aqui, na casa de retiros de que ele é ‑ só agora apreendi esse pormenor ‑ o administrador; para um homem a caminho dos noventa anos, a sua actividade é espantosa. Daniel e Manuel Garcia despediram‑se e regressaram à cidade. Então, o padre mostrou‑me um quartinho ascético, só com uma cama, uma mesinha e um crucifixo na parede, e disse‑me: vai dormir aqui, pode deixar aqui a garrafa (uma piada seca: o whisky era a minha única bagagem), amanhã arranja‑se maneira de trazer algumas coisas do seu apartamento. Repliquei‑lhe:

- Amanhã, eu volto para casa. Não entrei na clandestinidade, senhor padre. Só deixei que me trouxessem porque tenho de falar consigo... ou antes, o senhor tem de falar comigo, não é verdade?

Esperava outra reacção. Não sei exactamente qual; surpresa fingida, talvez. De qualquer modo, ele acenou com a cabeça e disse:

- Pois tenho, pois tenho. Venha daí.

Conduziu‑me a uma salinha confortável onde havia duas poltronas, um armário grande e uma secretária. Abriu o armário ‑ e toda uma prateleira estava cheia de copos e garrafas, o que achei estranhíssimo numa casa daquelas, mas não disse nada. o padre Frazão escolheu uma garrafa enquanto dizia:

- Para ocasiões assim, sempre achei que o conhaque é melhor que o whisky. Isto ‑ apontou o arsenal alcoólico ‑ são presentes dos meus amigos guardas da alfândega. Faz sempre jeito.

- Que alfândega? A nossa ou a chinesa? ‑ perguntei procurando dominar um estúpido riso convulsivo que me ameaçava,

- As duas. Tenho amigos nos dois lados, não se esqueça de que estou cá há muitos anos.

Saltei sobre a ocasião:

- Pois está, senhor padre. Há muitos anos. Ainda conheceu a sra. Wang Ai‑Ling e todos os seus segredos, foi o senhor que a ajudou na metamorfose, que a ajudou a transformar‑se em Irmã Maria da Conceição...

- Da Imaculada Conceição ‑ corrigiu ele; ‑ olhe, eu vou dizer missa agora. Fique aqui, sirva‑se, beba um fundinho de conhaque, descontraia os nervos, não saia! Lembre‑se do que aconteceu àquele rapaz que me trouxe no outro dia. Eu vou fazer uma homilia curta.

Quando fiquei só, servi‑me de conhaque e só então percebi como precisava furiosamente de uma bebida.

Lembre‑se do que aconteceu àquele rapaz, disse o padre. Claro que me lembro de Jorge. E de A‑Lo. Creio ter escrito neste diário, há poucos dias, que tinha tomado uma decisão especial e que só essa decisão me devolveu a tranquilidade. o que eu decidi foi isto: aconteça o que acontecer, o assassino de Jorge e de A‑Lo há‑de pagar pelo crime. Não posso atingir o homem que pôs a bomba, não sei quem ele é e provavelmente já está longe, tal como o tipo da pistola‑metralhadora deve estar neste momento em Zhuhai, se organizou bem as coisas. Mas não interessa) porque o assassino é Richard Wang e por pouco Rosa não entrava na lista das vítimas.

(Rosa. Preciso de Rosa. E quero saber o significado daquele esgar cruel no seu rosto e aonde ela foi e onde se encontra neste momento; domina‑te, bebe mais um "fundinho" de conhaque.)

E Richard Wang pagará. Nem que eu tenha de tomar a justiça em mãos. Pela primeira vez na minha vida, compreendi o sentido profundo dos kamikaze e a tranquilidade que devem ter sentido no momento em que cometeram o acto, por muito monstruoso que fosse ‑ mas, claro, só era monstruoso aos olhos dos ocidentais. Richard Wang tem à perna um kamikaze de olhos redondos, é só isso.

Dormitava quando o padre voltou da capela, já sem os paramentos. Perguntou‑me se tinha fome, disse‑lhe que não. Em vez de insistir, como eu temia, sentou‑se à minha frente. Eu planeara um pouco de teatralidade, uma certa intensidade dramática, mas nesta altura esqueci‑me de tudo e comecei:

- Senhor padre, não acha que já morreu bastante gente? Não acha que é tempo de pedir que o dispensem do segredo de confissão?

Uma risada breve:

- Ninguém pode dispensar‑me do segredo de confissão. Mas neste caso não há nada disso. Um padre não recebe só segredos de confissão. Pode também receber confidências, como qualquer leigo. E pode até, imagine você, querer comportar‑se como um cavalheiro. Não sei se sabe, mas não é incompatível com a carreira eclesiástica.

Servi‑me de mais conhaque. ‑ Estou a ver. o Jorge Silveira e o Chen Lo devem ter apreciado muito o seu cavalheirismo.

Arrependi‑me imediatamente ao ver a sua expressão de profunda tristeza, que eu não esperava. Até esse momento parecera‑me perfeitamente seguro de si e das suas verdades; agora, o velho rosto curtido tornou‑se amargo e ele pareceu de repente muito mais velho ‑ um velho muito frágil e muito triste o padre Frazão suspirou.

- É tão fácil julgar os outros... Não caia você nesse erro, como eu caí. Só hoje, ao saber do que lhe aconteceu, compreendi que tinha cometido um engano monstruoso ao julgar o meu próximo. E o pior, o que me dói mais, é que esse engano favoreceu um criminoso. Mas juro, ouça bem, juro que até hoje tudo isto me pareceu demasiado absurdo, demasiado perverso para poder ser verdade. Já estou a ver a cara com que você vai dizer: padre Frazão, os tempos mudaram e a vida não é o seminário nem a Misericórdia! Mas...

- Não vai ver cara nenhuma ‑ interrompi. Queria acabar com os preâmbulos porque sentia que o cansaço estava a tomar conta de mim, trepava‑me pelo corpo como as trepadeiras sobem pelas paredes velhas. ‑ Não vou dizer nada disso. Não vou dizer nada de nada, senhor padre. Quero ouvir. Quero ouvir aquilo que o senhor calou durante todo este tempo e que já provocou duas mortes ‑ duas mortes recentes, porque ainda temos de contar com as outras...

- Não diga isso, não pode ter uma certeza dessas. Mas está bem...

o padre levantou‑se, foi buscar um copo ao armário e serviu‑se de conhaque, e não de um fundinho. Depois ‑ e já não era sem tempo ‑ contou a história que me faltava conhecer.

"Não há muita coisa para dizer: quando eu cheguei a Macau era um padrezinho acabado de sair do seminário e, claro está, nunca tinha ouvido falar no Comendador Wang Wu, mas o meu irmão Arnaldo, aquele outro padre Frazão cujo nome você foi encontrar no espólio, já cá vivia e pôs‑me ao corrente de tudo, incluindo os nomes dos notáveis da terra. Nem o Comendador nem a mulher tinham grandes relações com a Igreja, os contactos limitavam‑se a uma troca de cumprimentos com o bispo nas cerimónias civis. Wang Wu era vagamente confucionista, vagamente budista também e, de qualquer forma, era muito velho e estava moribundo ‑ eu cheguei em 1921, que foi precisamente o ano em que ele faleceu. Quanto à Irmã... quanto à sra. Wang, como todas as damas chinesas, sobretudo na época, levava uma vida muito recatada. Contavam‑se coisas a seu respeito ‑ muitas você já sabe ‑, mas afinal, Macau, como todos os meios pequenos, era muito fértil em intrigas".

Distraidamente, o padre Frazão voltou a deitar conhaque nos nossos copos e prosseguiu: o casal Wang frequentava o Palácio, mas não a Sé, ou seja, não pertencia à área de actuação do clero católico ‑ nem dos missionários protestantes. Eram puristas, explicou o padre com um ligeiro sorriso, o que não impediu que nomes cristãos surgissem na geração seguinte... mas isso não interessa, atalhou, como se agora tivesse pressa de acabar.

- o que interessa é perceber que nós, isto é, o clero católico de Macau, não tínhamos, na altura, qualquer relação próxima com a família Wang e por isso o que aconteceu depois foi uma completa surpresa. Como lhe disse, cheguei a Macau em 1921, o ano em que Wang Wu morreu, já nonagenário. E o ano seguinte foi dramático aqui no Território. Agitação, manifestações ‑ começava‑se a falar de comunismo e, ao mesmo tempo, houve, da parte dos chineses, um recrudescimento dos sentimentos anti‑estrangeiros. Em fins de Maio, as coisas chegaram ao ponto de ruptura e a tropa portuguesa disparou e carregou sobre os manifestantes. Houve pelo menos uns oitenta mortos.

o padre parou para tomar fôlego e olhou para mim. Devo ter sido transparente porque ele observou:

- Não estou a desviar‑me, isto tem importância para que você compreenda.

- Bom, continuou; ‑ temos portanto Macau em estado de choque (para não variar, as nossas abençoadas autoridades não haviam medido a situação) e o sangue a correr na rua. o que faz um jovem padre cheio de ideais e vazio de experiência? Corre para a rua a acudir aos feridos e a tentar consolar os moribundos, sejam eles quem forem; mesmo que a sua condição de europeu o ponha em risco e mesmo que ainda não saiba o suficiente de chinês para dizer, sequer, Sun Yat‑sen.

- E note uma coisa! ‑ exclamou ele sacudindo a cabeça como um velho cavalo de batalha que ouve tocar os clarins ‑ note que eu falo da falta de experiência, mas hoje faria a mesmíssima coisa! Enfim, adiante: dois ou três dias depois destas cenas tristes, o meu irmão recebe um recado vindo do Palacete Amarelo, que era a mansão Wang em Macau: a viúva do Comendador queria falar com o irmão mais novo do padre Frazão. Típico, este procedimento! Para eles, ser padre tinha muito menos significado do que ser irmão mais velho ou mais novo. E assim começou, verdadeiramente, a conversão da sra. Wang.

- Senhor padre ‑ interrompi ‑, se não entra já no vivo do assunto, tem de dar‑me um pouco mais disso ‑ apontei a garrafa. Ele lançou‑me um olhar desconfiado e serviu‑me.

- Estamos no vivo do assunto. A sra. Wang converteu‑se, professou e eu fui seu confidente e seu confessor ‑ e também seu amigo, penso que o único amigo; era uma mulher extraordinária ‑ foi‑o até ao fim. E agora você compreende os remorsos que a torturaram: remorsos pessoais, pelas barbaridades que ajudou a cometer enquanto Wang Wu foi pirata, sob o nome de Wong Wei... sim, claro que ela me contou isso! E remorsos colectivos, pela família. Porque Wang Wu, ou antes, Wong Wei, na época, não operava sozinho, aquilo era uma empresa de pirataria familiar. Pelo menos três dos seus irmãos faziam parte do bando.

- Irmãos Wei e companhia, sendo que a companhia era a mulher! ‑ tudo me parecia agora cada vez mais claro. o padre Frazão fez um aceno com a cabeça. ‑ Era mais ou menos isso. Depois, um belo dia, resolveram mudar de vida. Cada um recebeu uma parte do tesouro que tinham acumulado, estou certo, graças à inteligência da mulher de Wong; combinaram mudar de nome ‑ e Wang parecia uma escolha natural ‑ e cada um foi para seu lado. Mas ‑ o padre inclinou‑se para a frente ‑ antes de se separarem fizeram uma combinação. A repartição de lucros só cobriu uma parte do bolo. o resto ficou indiviso, uma espécie de fundo de emergência comum. E foi colocado em depósito num banco de Calcutá.

Soltei um longo assobio. ‑ Então é isso, hen?

- É isso. Agora, pense: nunca ninguém tocou nesse dinheiro e o depósito foi feito há quase cem anos e desde então tem acumulado juros. o problema é que hoje o dinheiro pertence aos descendentes directos dos depositantes iniciais. Ou seja, Richard Wang e os primos ‑ os filhos ou netos dos irmãos de Wang Wu que o acompanharam na pirataria. É provável que muitos deles nem saibam que essa fortuna existe.

Uma voz sobrepôs‑se à do padre. Era a minha, a ressoar somente dentro da minha cabeça, narrando a actualização da história: e há quinze anos, Richard Wang iniciou calmamente a operação de eliminação de todos os parentes que pudessem ter direito à fortuna que dorme no banco de Calcutá. Mas depois de despachar os rapazes da sua idade, esbarrou, claro, com um problema ‑ saber quem eram os outros. A família dispersou‑se um pouco, Richard nasceu algures na China, é bem possível que não conheça as gerações mais jovens.

Mas o padre Frazão continuava a falar: ‑ ...Ela não queria que esse dinheiro, que representava tantas mortes, tantos roubos, fosse parar às mãos da família, porque estava amaldiçoado.

- Pois; mas guardou a lista com os nomes dos depositantes e dos filhos que eles tinham à data da constituição do depósito... não guardou, senhor padre? A lista que eles fizeram para tornar possível estabelecer quem era herdeiro desse enorme bolo? É aí que está a questão, não é?

Ele passou a mão pela testa.

- Suponho que sim ‑ disse em voz baixa. ‑ Hoje, tenho a certeza. Quando professou, a Irmã Maria da Imaculada Conceição guardou todos os documentos do marido naqueles cofres de madeira e...

Interrompi‑o outra vez:

- Mas não esteve com preocupações cronológicas. Teve uma única preocupação: concentrar em três cofres os papéis comprometedores. Os papéis que, tanto à luz da ética confucionista como da sua nova fé católica, testemunhavam a vergonha do seu passado e do passado do Comendador...

- Isso já não sei.

- Mas sei eu, padre, sei eu! Não conhece este poeminha lindo: "O Dois, o Seis e o Doze são os números da desarmonia"?

Tive como resposta um franzir de sobrancelhas interrogativo.

- Ela juntou esta mensagem ao selo do segundo cofre, esperançada em que, se o seu grande amigo padre Frazão ou qualquer outra pessoa da Misericórdia decidisse consultar o espólio, compreenderia, ao ler aquilo, que nos cofres números dois, seis e doze havia coisas que não deviam ser divulgadas. A mensagem era sobretudo para si, acho. Evitar a desarmonia que os documentos do segundo, do sexto e do décimo segundo cofres não deixariam de provocar.. e não custa nada acreditar que o netinho da senhora, o nosso muito amado Richard, soube alguma coisa de tudo isto, mas não o suficiente. E que pensou assim: a única forma de deitar a mão àquele realíssimo bocado de dinheiro é provocar a abertura do espólio e sacar de lá a famosa lista para mandar todos os outros veneráveis primos de visita aos antepassados.

- Mas o homem já é riquíssimo! Ninguém pode ser tão monstruoso?

- Bem‑vindo ao final do século vinte, padre Frazão. De resto, não sabemos nada sobre o estado de saúde da fortuna dele. Padre, antes que haja mais mortes é preciso abrir já o décimo segundo cofre.

Ele compreendeu o que eu queria dizer e digeriu a ideia em silêncio. ‑ Tem razão ‑ disse por fim , eu já devia tê‑lo feito sozinho, sem dizer nada a ninguém, mas tive escrúpulos. E não conseguia acreditar... além disso, as mortes de que você falou, essas de há quinze anos, pareciam...

- Pois pareciam.

o padre levantou‑se tão decidido como se quisesse ir logo à casa‑forte do Palacete Amarelo. No entanto foi só até à janela e abriu‑a, para deixar entrar o fresco da noite.

- Padre ‑ disse eu falando para as suas costas ‑, a exploração do décimo segundo cofre não é um trabalho qualquer e não pode ser feita da maneira como foram estudados os outros documentos. E há uma coisa importante que tem de ser feita. Chame‑lhe uma exigência, mas tenho direito a essa exigência, depois de tudo o que me tem acontecido. E preciso da sua ajuda. Presumo que sabe ler chinês? E que sabe conduzir um carro? Ainda conduz?

Virou‑se lentamente.

- Leio chinês e conduzo o meu carro, está claro, que pergunta!

- Então, senhor padre, preciso de si. Tenho um plano, sabe!

Veio sentar‑se de novo à minha frente, a estudar‑me.

- Meu filho, vamos por partes. Tem um plano, ou já está com os copos?

- As duas coisas, padre. E as duas com a sua ajuda.

 

                                   4 DE NOVEMBRO

Rosa foi buscar‑me esta manhã à casa de retiros de Coloane. o padre Frazão deixou‑me partir porque Rosa explicou‑lhe que ia levar‑me para casa dela e admitiu que aí eu estaria em pelo menos relativa segurança. Não resisti a dizer‑lhe:

- E não fique muito triste, senhor padre... isto, entre nós, ainda vai acabar em casamento! Agora, não se esqueça da combinação que fez comigo...

Despedidas, agradecimentos e partimos, comigo ao volante, apreensivo por causa do trânsito, que passa todo do lado errado da estrada, mas Rosa tem enorme dificuldade em conduzir com a mão ligada e ainda sujeita a fortes guinadas de dores.

o que eu disse ao padre não era nem piada nem mentira piedosa. Estou cansado das minhas restrições estéticas sobre senhores maduros de 50 anos e rapariguinhas novas. Estou cansado de remoer sozinho as minhas angústias existenciais. Estou cansado, em suma, de Lei Siu Lam, que, sintomaticamente, nunca mais apareceu.

Estou perfeitamente decidido a mandar todos os meus fantasmas à fava e a casar com Rosa. Estou mesmo decidido a casar aqui, em Macau, e o termo do nosso casamento há‑de ser redigido à moda antiga, como aquele cuja tradução o padre Frazão me deu a ler: " Tal como se as flores de pessegueiro desabrochassem exuberantemente neste dia, acabam de se constituir um lar em harmonia e uma família em paz, aos quais se augura no futuro uma numerosa prole, cheia de brilhante ventura". Assim mesmo. Vou insistir neste ponto.

Rosa e eu discutimos o assunto, hoje, pela primeira vez ‑ em casa dela, na cama dela, depois de nos reencontrarmos nos braços um do outro, depois de evocarmos juntos o choque e o horror do atentado, depois de fazermos amor ‑ ternamente, com cuidado, para não abrir a ferida da mão. Os médicos disseram‑lhe que vai ficar com uma cicatriz.

- Podia fazer uma operação, mas dizem que a cicatriz é pequena e não vou tirá‑la ‑ disse‑me a sorrir; ‑ é uma recordação, aquilo que te convenceu a pedir‑me em casamento!

Perguntei‑lhe então aonde é que fora na véspera, depois de me abandonar, de me deixar entregue a Daniel e a Manuel Garcia. Contei‑lhe, aliás, como a sua expressão assassina me arrefecera o sangue, antes de perceber que não me era dirigida.

- Fui falar com o Richard. - o quê?

Rosa repetiu: saíra do hospital, chamara um táxi. A sua profissão de jornalista facilitava‑lhe a vida quando a lotação dos jetfoils ou dos helicópteros estava completa; meteu‑se no Primeiro jetfoil para Hong Kong, entrou como um tufão no imponente arranha‑céus que é o centro do império Wang; forçou, praticamente, a Porta do gabinete imperial.

- E disse ao Richard tudo o que penso dele, que afinal é um bandido, um gangster de Chicago. Disse‑lhe que não esqueci que foi ele que me criou, que me sustentou, arranjou emprego e casa e que me ajudou a mobilá‑la, mas que nada disso conta para mim, que sei como ele comprou o Martinho Martins, sei como comprou o Xavier Wang e o desgraçado do Jorge, mas a mim não pode comprar‑me.

E por fim, em remate de conversa ‑ não; de monólogo, Rosa disse ao velho mafioso: se tocas no único homem de quem eu gosto, no homem com quem quero viver, eu não mando ninguém matar‑te, faço‑o pessoalmente. Se ele desta vez tivesse morrido, eu estaria aqui com uma pistola para descarregá‑la sobre a tua cabeça!

- Safa! ‑ disse eu a rir. ‑ E o que é que ele disse? o que é que fez?

- Nada. Ficou especado, sentado à secretária, a olhar para a minha mão... esta, a que tem as ligaduras... nem abriu a boca. Também, não lhe dei tempo: acabei de falar e vim‑me embora!

- Para casar comigo?

- Se me pedires com muito bons modos ‑, replicou. E voltámos a arrulhar como dois pombinhos.

Mas para pensar seriamente em casar com Rosa ‑ logo que o meu divórcio esteja pronunciado ‑, preciso, primeiro, de fazer uma coisa. Preciso de fazer aquilo para que requisitei a ajuda do padre Frazão.

Alguém queimou uma fieira de panchões e o efeito, semelhante a uma rajada de metralhadora, quase me fez atirar‑me ao chão. Contive‑me e sorri friamente para Xavier, ao dizer‑lhe:

- Neste momento, há uma série de demónios muito assustados. E nem todos serão demónios estrangeiros.

Estávamos no Kun Iam Tong. o templo de Kun Iam, a boa deusa da misericórdia. Fora para aqui que eu trouxera Xavier, engodado pelo padre Frazão até se meter no carro, onde eu já me encontrava. Conforme combinado, o padre trouxe‑nos até ao templo. Quando abri a porta, perguntei‑lhe candidamente se queria que acendesse pivetes em sua intenção.

- Tenha juízo ‑ resmungou ‑, eu vou com vocês. Agora estava ali connosco, mas um pouco afastado, observando as imagens sagradas. Eu tinha, de facto, três pivetes acesos na mão. Coloquei‑os diante da estátua de Kun Iam, fiz a tripla vénia e voltei‑me para encarar Xavier, que estava perplexo.

- Convém cumprimentar a dona da casa ‑, expliquei a sorrir ‑ e agradecer‑lhe as suas benesses: oferece‑nos um óptimo local para conversarmos, sossegado fora o ocasional panchão, com muitos turistas e pouca gente de Macau, sobretudo pouca gente que entenda bem o português. Além disso, é complicado mandar alguém cometer um assassínio num templo... o que diriam os antepassados?

Xavier não respondeu.

- Há várias coisas ‑ prossegui ‑ pelas quais tenho de lhe agradecer: a espionagem que fez a favor de Richard Wang, a tentativa para me apanhar numa situação embaraçosa, em Coloane, o desvio do poema sobre a sociedade secreta da Orquídea de Prata, enfim, muitas coisas. Mas o que, acho eu, merece um agradecimento especial foi você ter mandado para a morte o Jorge Silveira e o A‑Lo.

- Adriano... ‑ começou ele.

- Você telefonou mal eu levei o Jorge para fora do gabinete. Você informou o Richard Wang de que o Jorge ia falar. Ele ia contar‑me a história do tesouro de Calcutá.

Xavier estremeceu visivelmente. ‑ Mas não sabia que eles iam matá‑lo, juro. Desde essa altura, tenho andado aflito, sem saber o que fazer.

Curvei‑me outra vez diante da deusa.

- Obrigado pela ajuda... ‑ murmurei a sorrir e atrás de mim o padre fez: tsss‑tsss‑tsss. ‑ Deixe‑me adivinhar outra coisa ‑ prossegui para Xavier: você, claro está, é da família do comendador Wang Wu...

- Bisneto ‑ disse Xavier em voz baixa. ‑ o meu pai é irmão de Richard Wang.

Olhei‑o com uma comiseração insultuosa.

- Então, e o rico foi trabalhar para o Tio Richard? o rico não sabia que o Tio Richard limpou o sebo ao papá?

Este género de discurso não lhe é muito familiar mas ele entendeu imediatamente o sentido geral.

- Não, o meu pai ainda é vivo. E está longe de Macau... o meu pai é português, Adriano. De nacionalidade e de adopção. E a minha mãe, essa, é mesmo portuguesa por inteiro. Das outras mortes na família, eu não sabia, era muito miúdo, estava ainda a viver em Portugal.

Saímos para o jardim e Xavier contou‑me rapidamente a sua história:

- Quando vim para Macau, procurei Richard Wang, apesar de saber que ele nunca perdoou ao meu pai Ter casado com uma europeia. Fui bem recebido; ele ajudou‑me, ajudou‑me até a pagar os estudos da minha mulher. Fez de mim uma espécie de assistente especial. Só me pediu que não divulgasse o nosso parentesco: disse que se os outros sobrinhos soubessem, as suas empresas não bastariam para empregar toda a gente...

- E você acreditou

Xavier encolheu os ombros.

- Não pensei muito no assunto, para dizer a verdade. Mas, como dizia, o meu tio tratou‑me muito bem. Um dia, falou‑me nessa conta bancária em Calcutá. Disse‑me que era uma grande fortuna, mas que não convinha mexer no assunto antes de saber quantos seriam os descendentes dos primitivos titulares, ou seja, as pessoas com direito a uma parte do bolo. Disse também (e eu concordei, confesso) que muitos deles, por exemplo, os que prejudicaram a família durante a Revolução Cultural, não deviam receber nada, seria injusto. Mas não sabíamos quais os irmãos de Wang Wu que tinham participado no depósito. Richard suspeitava, tinha mesmo a certeza, de que no espólio Wang Wu havia uma lista dos depositantes.

No jardim do Kun Iam Tong há uma mesa de pedra e uns bancos pretensamente históricos, onde, segundo uma lenda muito recente, foi assinado um tratado sino‑americano. o padre Frazão sustenta que o tratado foi assinado noutro local, o templo de Lin Fong, próximo da Porta do Cerco.

Sentámo‑nos naqueles bancos pseudo‑históricos.

- Uma pergunta, Xavier: das pessoas que o seu venerando tio pôs a espiar‑me, quem é que sabia do depósito em Calcutá e da lista de depositantes?

- A princípio, só eu. Ele precisava que eu soubesse o que devia procurar. Para todos os outros, a desculpa era tentar evitar uma nódoa na família, salvar a reputação do Comendador. Mas depois, Jorge descobriu, não sei como. E Chen Lo não contava, só recebia ordens para relatar aonde você ia e o que fazia.

o padre Frazão viera sentar‑se ao pé de nós e acendera um cigarro com ar distraído, como se não estivesse a ouvir nada. Xavier fez uma pausa. Baixou a cabeça e murmurou: ‑ Eu só percebi tudo, só percebi que ele queria saber quem eram os herdeiros para matar aqueles que pudessem reclamar a sua parte, quando ele mandou que matassem o Jorge, o Chen Lo... e...

- Eu sei. Mas você não estranhou, sequer, todo esse interesse furioso por parte de um homem que já é podre de rico? Ou será que está arruinado e nós não sabemos?

Xavier abanou a cabeça.

- Não é nada disso, Adriano. Ele é muito rico. Ele quer esse dinheiro ... julgava eu que queria uma parte, mas afinal quere‑o todo... para Rosa. Ele adora Rosa. Adriano: Rosa é filha de Richard Wang. Ilegítima, claro.

- Raios me partam!

o desabafo, pouco eclesiástico, veio do padre Frazão, que afinal ouvira tudo. Mas podia ter sido meu. Porém, eu fiquei calado, atordoado com a lógica, a evidência de uma verdade que dançava diante dos meus olhos desde o princípio.

- Rosa não sabe ‑ explicou Xavier ‑, foi o próprio Richard que me contou isto e dessa vez não estava a mentir. Não quis que ela soubesse porque não podia tê‑la em casa, a mulher é um monstro, os filhos só ainda não foram presos porque ele usou a sua influência. Pensou que ela seria mais feliz assim, tanto mais que a mãe... embora chinesa ‑ aqui, fez um pequeno sorriso amargo ‑ não era mais que uma prostituta. Mas o meu tio teve uma grande paixão por ela, quis fazer dela, vá lá... uma espécie de concubina oficial. Isso não bastou à gaja, pôs‑se a andar e deixou‑lhe a criança nos braços.

o padre, já recomposto do espanto, objectou:

- Mas que eu saiba, os chineses não dão grande importância às mulheres... oh, está bem, em toda a parte há excepções.

- o que eu sei ‑ disse Xavier ‑ é que ele transferiu para a filha toda a paixão... uma paixão doentia, porque no fundo é tudo o que ele sentia pela mãe. Como ele me explicou uma vez, os outros filhos nunca aceitariam que Rosa fosse contemplada no seu testamento. Iriam a qualquer extremo. Até Mesmo...

Um padrão já familiar, pensei: desde Nigel R. Webb, morto por uma flor. É uma tendência de família.

- Ah dr. Xavier Wang ‑ disse cerimoniosamente o padre Frazão ‑, vamos lá ver se eu entendo. o senhor, que afinal é sobrinho do sr. Richard Wang, aceitou servir de agente dele nesta história, porque acreditou que ele aceitaria repartir, pelo menos consigo, o dinheiro da conta depositada em Calcutá.

- Sim, senhor padre.

- Mas afinal o que o homem queria era arranjar maneira de saber quem são os parentes com direito a partilhar essa fortuna para depois os matar e dar tudo à Rosa Leong.

- Sim.

- E a Rosa Leong é filha ilegítima de Richard Wang.

- Exactamente, senhor padre.

- Que grande merda.

Aqui está o encanto do padre Frazão. Trata as pessoas por doutor e depois, quando se excita, é capaz de dizer coisas destas. Provavelmente, nem acha que é grave, porque estávamos no recinto de um templo budista, não numa igreja.

Levantei‑me.

- Estou inteiramente de acordo consigo. Por isso mesmo, lembro‑lhe que há uma pequena formalidade a cumprir.

Fui eu que redigi a acta ‑ o padre insistiu em chamar‑lhe assim. Tenho as mais sérias e completas dúvidas sobre a sua validade legal, mas também o que interessa é o fundamento moral e o compromisso em que nós envolvemos o nosso nome. Ficou decidido que não seria útil mencionar o nome de Richard Wang. Diz‑se apenas quais as nossas motivações. Ainda assim ‑ ou sobretudo por causa disto ‑ eu não concordaria se esta "acta" não se destinasse unicamente aos arquivos da Misericórdia ‑ um documento para a História, uma ideia cara ao padre Frazão.

o Palacete Amarelo nunca foi, durante estes meses em que ali tenho trabalhado, um local de grande azáfama e só os meus caóticos métodos de trabalho vieram alterar um pouco a pachorra dominante. Depois das cinco e meia, é raro encontrar uma alma lá dentro. Isto convinha‑nos. A nossa presença no edifício é absolutamente normal, mas o que íamos fazer exigia discrição.

Cinco minutos depois de termos entrado, estávamos no pequeno gabinete do padre, contemplando a décima segunda caixa.

- Compete‑lhe a si abrir ‑ disse ele. Acenei. Quebrei o selo, o décimo segundo selo da sra. Wang Ai‑Ling, Irmã Maria da Imaculada Conceição. Abri a caixa. Estava quase vazia, mas o que tinha dentro valia uma fortuna e muitas vidas. Os papéis de depósito passados pelo Imperial Bank of Calcutta; e um documento em chinês. Tive uma ideia súbita e entreguei os papéis ao padre antes mesmo que Xavier pudesse esboçar um gesto. Afinal de contas, cada um de nós só é honesto e generoso até um determinado quantitativo e as variantes deste quantitativo é que distinguem as boas das más pessoas.

o padre estudou gravemente os documentos em inglês e chinês.

- Está tudo aqui ‑ disse por fim ‑, incluindo a lista dos primeiros depositantes. Garantias de identificação junto do banco. Tudo. A Irmã Maria da Conceição não ousou destruir isto por respeito para com a memória do marido...

- E medo que o espírito dele se vingasse ‑ murmurei, sempre a observar Xavier.

o padre franziu o sobrolho e abriu a boca, certamente para contestar que uma convertida sua pudesse ter mantido essas vãs superstições. Mas desistiu, talvez porque é honesto e conhece bem os chineses. Aproveitei para me dirigir a Xavier:

- Eu calculo o que lhe vai na alma; e só... Ele interrompeu‑me: ‑ Calcula! Como pode saber? Você não é uma anomalia, você não é um meio‑chinês nascido em Macau. Você não tem um pé na Europa e outro na ásia, nem está a poucos anos de perder o seu mundo. Você não está numa situação em que só o dinheiro pode garantir uma nova pátria para si e para os seus filhos.

Olhei‑o com atenção. já uma vez fora sincero, naquela noite em Coloane, quando lamentara a ruína da velha Macau; só que, logo a seguir, accionara a armadilha em que tencionava expor‑me à imprensa. Como é difícil acreditar nas pessoas, reflecti. Mas agora, pela primeira vez, Xavier falava de si mesmo e dizia algo que não tivera tempo para preparar.

- Não vou responder a isso, Xavier. Não tenho resposta para isso. Não sou o Governo de Pequim, nem o de Lisboa. Não sou Portugal nem a China. E não como pérolas à ceia.

Não reagiu, apesar de não poder compreender a alusão, porque nunca lhe falei da minha alegoria de Cleópatra. Parecia, de resto, que estava muito longe, perdido no seu próprio labirinto. Continuei a falar.

- Mas antes de pensar em 1999, pense no que se passa agora. Estes papéis. Dificilmente representam para si outra coisa que não seja a morte. Você não acredita com certeza que o seu tio vai deixá‑lo viver.

O padre Frazão agitou‑se e eu sabia o que ele estava a pensar e antecipei‑me.

- Dei‑lhe as razões pessoais; talvez fosse injusto ao pensar que são as mais fortes. Mas, já agora, não fica mal considerar outra coisa: admitindo que Richard Wang acha conveniente deixá‑lo viver, você sabe perfeitamente que ele vai eliminar o maior número possível de herdeiros ‑ e não podemos impedi‑lo. Não há provas para o acusar dos assassínios passados e ninguém pode ser acusado dos crimes que ainda não cometeu. Mas isso não altera a realidade: o que o padre Frazão tem nas mãos é uma lista de execuções.

Enquanto eu falava, ele tinha‑se sentado e apoiara a cabeça às mãos, de forma a esconder a cara. Nessa mesma posição, disse, a meia voz:

- Eu sei. Façam o que quiserem.

- Algum dos senhores fuma? ‑ perguntei, por mera questão de retórica. já o padre Frazão rasgava os documentos e empilhava os bocados de papel numa grande lata redonda. Do bolso da sotaina extraiu o isqueiro com que acende os seus cachimbos.

- Nosso Senhor lho acrescentará, dr. Xavier ‑ resmungou ele enquanto incendiava os papéis.

 

                                    5 DE NOVEMBRO

Antes de mais nada: falta‑me acrescentar uma coisa ao relato do que se passou ontem.

Nunca pretendi ser santo ou, sequer, boa pessoa; mas a vida ensinou‑me que o prazer da vingança é extraordinariamente amargo. Não esperava por isso sentir‑me feliz ao ver arder os papéis ‑ e com eles os planos ‑ do meu inimigo.

Não me senti feliz, é verdade; mas o alívio foi tão intenso que foi equivalente. Apesar de saber, evidentemente, que tinha queimado a fortuna de Rosa.

Quando o padre Frazão desfez as cinzas e as deitou para o cesto dos papéis, Xavier, que não olhara uma só vez enquanto o auto‑de‑fé durou, levantou‑se, muito composto.

- Tudo isto foi inútil se não informarmos o meu tio sobre o que fizemos ‑ disse; ‑ e ele pode não acreditar e pensar que é só um estratagema.

Eu já tinha pensado nisso, claro. ‑ Vou escrever‑lhe. Vou dar‑lhe todos os pormenores, menos um: a sua participação. Ele pode querer vingar‑se de si, mas uma vingança contra mim já não é útil, é perigosa e dá muito trabalho. Vou escrever a carta com muito cuidado, para ter a certeza de que ele acredita.

o padre fez menção de nos impelir em direcção à porta. Tinha alguma pressa, explicou, estava atrasado para uma reunião em Coloane. Mas eu não acabara.

- Quero pedir uma coisa aos dois: que Rosa nunca saiba o que aconteceu.

Reagiram com alguma surpresa: Xavier objectou que Richard podia muito bem, em qualquer altura, dizer‑lhe que era pai dela.

- Talvez, mas duvido que lhe conte o resto. E é isso o que eu não quero que ela saiba.

o padre fungou, com ar vagamente irritado.

- Você tem um alto conceito da rapariga ‑ rosnou.

- Engana‑se. Tenho é um péssimo conceito da natureza humana, senhor padre. E portanto, admito, até, a minha cobardia: não quero submeter Rosa a essa prova, não quero saber qual poderá ser a reacção dela. E depois, que interesse tem?

Nenhum deles me respondeu. Saímos do gabinete.

Esta noite, dormi outra vez no apartamento de Rosa. Ela chegou muito tarde, teve trabalho no jornal e proibiu‑me que a esperasse fora de casa ‑ não tinha a certeza das intenções de Richard. Aproveitei esse tempo para redigir a carta que o informaria da destruição da lista e pensei: esta é uma carta para o pai da rapariga com quem quero casar, e escrevo‑a para ter a certeza de que ele não me organiza outro atentado antes de poder chamar‑lhe sogro. Escrevi o primeiro rascunho e não ficou nada mal. Depois, cedi ao cansaço; estendi‑me na cama, a gozar plenamente o prazer do ar condicionado, e quando ela chegou eu tinha adormecido.

Acordou‑me, brincámos, fizemos amor; o telefone tocou várias vezes, mas Rosa não atendeu: não pode ser importante e pode não ser decente, declarou. Há um vizinho, um obcecado qualquer, que ela ainda não conseguiu identificar, que de vez em quando lhe telefona a explicar os sentimentos e, pior, as sensações que o assaltam quando a vê na rua.

Dormimos pouco. Por alguma razão, estávamos excitados, mental e fisicamente. Quando o dia clareou, eu disse: se isto fosse uma casa verdadeiramente requintada, agora fazíamos um pequeno‑almoço de ovos mexidos e torradas, acompanhado de champanhe! Ela sorriu, não respondeu ‑ mas daí a dois minutos saiu da cama, disse que tinha de ir beber água e pouco depois senti o cheiro de bacon frito. Fui ter com ela à cozinha; quando me viu, disse apenas que o champanhe estava no frigorífico, primeira prateleira a contar de baixo.

Comemos e voltámos para a cama, quebrados pelo champanhe. Rosa aninhou a cabeça no meu ombro.

- Ainda não decidimos onde vamos viver quando casarmos ‑ disse.

- Temos alguma escolha? ‑ perguntei a sorrir. Ela não respondeu logo. Quando falou, a conversa, que começara por ser superficial, tornou‑se séria.

- Custa‑me muito deixar Macau. Eu queixo‑me, sou como toda a gente, adoro queixar‑me. E adoro sair daqui. Mas sair para não voltar... é outra coisa.

Peguei numa madeixa do seu cabelo e deixei‑a deslizar entre os dedos para sentir‑lhe o macio. ‑ Meu amor, não é o casamento que te arranca de Macau. Vamos casar em Macau, vamos fazer desabrochar exuberantemente as flores de pessegueiro. o problema é o que acontecerá depois. Eu posso tentar ficar, a fazer só Deus sabe o quê. Mas é só um adiamento, sabes bem.

Rosa chegou‑se mais para mim, falou‑me ao ouvido:

- Eu sei. Dá‑me esse adiamento. Tenho uma esperança... todos nós temos uma esperança que não queremos confessar: pode acontecer qualquer coisa, a situação na China pode mudar, por exemplo. Até ao último momento possível, há uma esperança. Até ao último momento possível, há Macau e eu quero ficar enquanto houver Macau.

- Bom; Fiquemos então até ao último momento possível. Precisas de um porteiro lusófono?

Riu‑se, fez‑me cócegas e logo a seguir, muito séria, começou a considerar as possibilidades de trabalho para mim. Era já dia. o telefone tocou.

- Que chatice! ‑ protestou ela. ‑ E agora tenho mesmo de atender, é capaz de ser o jornal, eles ontem disseram... está lá?

Percebi que era o jornal, que era uma convocação urgente. Desejei, com muita força, que ela não tivesse atendido.

Rosa desligou com ar irritado, depois de ter lançado um seco "já vou".

- São incríveis! ‑ exclamou ao saltar da cama. ‑ Parece que só têm um redactor e que esse redactor é uma redactora chamada Rosa Leong. Uma entrevista marcada para as dez e meia e o Sequeira arranja uma gripe... eu conheço as gripes do Sequeira.. e telefona a dizer... e logo eu, que tenho a mão assim, só posso gravar. Já esta noite, tive de ditar o meu texto. Eu devia era ter metido baixa, mas nunca mais tenho emenda!

Perguntei‑lhe ‑ só por perguntar; uma ideia tola ‑ se tinha sido o jornal a ligar durante a noite.

- Não sei, não perguntei. Mas acho que não; era o que faltava! ‑ deu uma corrida em direcção à casa de banho enquanto dizia por cima do ombro: ‑ Meu amor: eu estou despachada pelo meio dia. Almoças comigo?

- Só se tu também almoçares comigo.

Através da porta da casa de banho, enquanto ela se arranjava à pressa, combinámos um encontro em frente do Leal Senado.

- Se bem que eu não goste muito da ideia de te saber assim, parado, ao ar livre... depois do que aconteceu ‑ objectou Rosa, ao voltar ao quarto para se vestir.

- Está descansada. o que aconteceu não volta a acontecer. Ia enfiar as calças, interrompeu o movimento.

- Por que é que dizes isso?

- É uma intuição.

Rosa acabou de se vestir troçando das minhas intuições. Antes de sair, fez‑me uma lista de recomendações: não ir sozinho ao meu apartamento, não recorrer aos serviços do Chan‑qualquer‑coisa, o novo motorista que o inefável e hoje exilado MM me arranjou, ter muito cuidado com Xavier. Pensei: alguma coisa vou precisar de lhe dizer para que ela deixe de olhar Xavier tão de través.

Finalmente, Rosa saiu. Era tempo de me preparar também; liguei o rádio, porque a casa sem ela fica deserta a ponto de doer, e fui tomar um banho.

Estava à procura da minha máquina de barbear, que Rosa deslocara para local incerto, quando começou o noticiário:

" ...Em Hon Kong, os médicos que assistem Richard Wang continuam a reservar os seus prognósticos. o empresário Richard Wang foi internado de urgência, a noite passada, numa clínica privada de Hong Kong, depois de ter sofrido um grave acidente vascular. Richard Wang, de setenta e dois anos, uma figura, bem conhecida e muito estimada em Macau"...

Encontrara a máquina de barbear, mas trouxe‑a para o quarto e sentei‑me na cama, a pensar.

Pensar, sentado na cama onde se fez amor, e com uma máquina de barbear na mão, é extremamente eficaz. o quebra‑cabeças era, aliás, muito menos complicado do que o outro, que se resolvera com a queima de certos papéis. Este quebra‑cabeças era muito simples: três ou quatro chamadas nocturnas não atendidas; e pela manhã, o jornal telefona a dizer que, inesperadamente, precisa da redactora Rosa Leong, apesar de ela ter a mão direita pensada e metida numa ligadura. juntemos a isto que não é dificil saber onde Rosa Leong passou a noite e com quem, e que o jornal "Nova Abelha", que a emprega, tem como patrão um certo Richard Wang que teve um ataque a noite passada. A solução do quebra‑cabeças é facílima, disse para comigo, mas já não posso dizer o mesmo quanto àquilo que devo fazer.

Também neste caso acabei por encontrar a resposta. Pelo menos, aquela que julgo ser a melhor, porque me deixa todas as portas abertas. Embora a esperança não seja muita.

Vesti‑me à pressa, telefonei para o Palacete Amarelo. Quando Xavier atendeu, pedi‑lhe que, no seu mais puro cantonense, ordenasse a Chan‑qualquer‑coisa que viesse buscar‑me ao apartamento de Rosa para me conduzir a minha casa, primeiro, e, dez minutos mais tarde, ao Palacete. Desliguei, atirei com todas as minhas coisas para dentro do saco que trouxera. Tive o cuidado de procurar bem, para não me esquecer de nada.

Eu trouxera apenas umas calças, uma camisa, duas mudas de roupa interior, coisas assim. Mas não queria que Rosa, ao chegar, se chegasse, quando chegasse, encontrasse qualquer coisa que lhe recordasse a existência de um certo cinquentão português com quem tivera a fraqueza de ir para a cama.

E se não for assim, pois será uma boa surpresa, pensei, descendo as escadas, respirando com a boca aberta, a tentar furiosamente alargar o nó que me apertava a garganta a ponto de doer.

E com tudo isto, lembrei‑me, ainda tenho de escrever uma carta. Para o caso de ele sobreviver.

 

                               Em casa. De madrugada.

A chamada veio há pouco mais de meia hora. Claro que eu sabia que era ela; apesar disso, tive dificuldade em reconhecer‑lhe a voz.

- Onde é que estás? Há quanto tempo não descansas? Estava ‑ está ‑ ainda em Hong Kong. Não respondeu à minha segunda pergunta, nem eu insisti, não valia a pena. Quando voltei a falar, desejei que a minha voz lhe levasse a mensagem certa ‑ amor, respeito, compreensão e afastamento.

- Rosa, eu já trouxe todas as minhas coisas que estavam em tua casa. Não preciso de voltar lá. Tu podes... E do outro lado, quase um grito:

- Adriano, ele é meu pai! É mesmo meu pai! Disse‑mo agora! Ele...

- Eu sei.

Mas ela não perguntou: como sabes? ‑ não, isso não tinha importância, agora.

- Adriano ‑ continuou, num murmúrio ‑, ele... ele está meio paralisado, só mexe metade do corpo. É horrível.

Eu... olhava para ele e pensava em tudo aquilo que ele fez... e sobretudo no que te fez, mas... quem o conheceu como eu o conheci, vê‑lo assim, a largar saliva, a babar‑se... e não é só isso, é que foi por minha causa!

Interrompi‑a para ordenar: não digas asneiras. Sabendo, claro, que é verdade, que foi a fúria de Rosa, o seu ataque selvagem, a ruptura, que cobrou a Richard Wang um pouco do que ele fez ao longo da vida.

Mas esse pouco, assim como é, talvez seja de mais, não sei, já não sei nada, estou como o velho Sócrates, seguro somente da minha desesperada ignorância.

Concentrei‑me na voz de Rosa: ‑ Adriano, eu... é grave, ter tanta pena dele? Adriano, ajuda‑me, não sei o que hei‑de fazer!

Senti, claramente, a ameaça da histeria. Gritei para o bocal:

- Rosa! Rosa, ouve‑me com atenção! Estás a ouvir? Eu compreendo. Compreendo, ouves? Agora, tenta descansar, tenta dormir. Isso é o mais importante. Depois pensas melhor pois falamos melhor. Por favor, por favor, descansa.

E fiquei ainda, durante uns longos dez minutos, a falar‑lhe, a embalá‑la com a minha voz, a repetir‑lhe, está tudo bem, dorme.

E agora, resta‑me ouvir o lamento de um aparelho de ar condicionado que não ficou consertado como devia ser.

Se Lei Siu Lam estivesse aqui ‑ isto é: se Lei Siu Lam tivesse uma existência real, esta seria a ocasião ideal para uma visita.

Mas a guerra que travei com Richard Wang obrigou‑me a abdicar da companhia de fantasmas.

 

                                 15 DE DEZEMBRO

E agora, uma camisa lavada, de seda natural, que vai fazer grandes invejas em Lisboa e pôr o pessoal a murmurar: "Mais um que foi a Macau p'ra se encher".

Mês e meio sem escrever uma só linha de diário. Mas não sem trabalhar: a análise do espólio Wang Wu está terminada, o relatório final feito e entregue, o livro em que se incluirão as peças mais importantes (textos, fotografias, pinturas) está pronto para publicação, com traduções, comentários, notas. E é por isso, aliás, que tirei do armário a camisa de seda natural: esta tarde, no decorrer de uma discreta mas espero que elegante recepção, farei a entrega oficial do relatório e de todo o material. É mais coisa para a imprensa, está claro. E é porque a imprensa de língua portuguesa (com a curiosa excepção do jornal "Nova Abelha") pressionou, fez perguntas, que a Fundação Cultural Luso‑Chinesa se resigna a promover este simpático encontro.

A imprensa fez isto porque foi discretamente informada por Daniel. Não resolve nada, disse ele, sensatamente desencantado, não resolve nada mas pelo menos chateia, compromete. Pelo menos, quem dobra a espinha vai ter de mostrar o cu.

A nova situação é tão previsível, tão inexorável, que não tenho a menor dúvida sobre o futuro do trabalho que executei.

Acabaram as violências, as pressões, os atentados. Richard Wang continua vivo, mas ainda está internado. Dizem‑me ‑ Manuel Garcia e o Padre Frazão, por exemplo ‑ que as suas faculdades estão afectadas e que por isso o punho de ferro perdeu peso; pela minha parte, acredito mais na influência de Rosa, que ainda está em Hong Kong, à cabeceira do pai. Afinal de contas, Richard esteve suficientemente lúcido para, do leito da clínica, mandar calar a família e mover as suas influências de modo a adoptar Rosa em questão de dias. Suponho que perfilhá‑la, como verdadeiro pai, suscitaria perguntas e curiosidades mais embaraçosas, como a identidade, paradeiro e ocupação da mãe.

Mas ‑ e esta é outra razão de peso para eu acreditar mais na influência de Rosa do que na perda de faculdades de Richard agora que, sem pressões e em plena liberdade de acção, eu tenho pronto o livro sobre o espólio Wang Wu, no qual certas actividades do Comendador têm o destaque que o seu interesse histórico merece ‑ nem mais nem menos, e com um tratamento propositadamente discreto ‑, agora, algo de curioso se passa. Note‑se: a recepção de hoje à tarde é para assinalar a entrega do material e não, como seria lógico, para lançar o livro, cuja publicação foi adiada por motivos de ordem técnica e orçamental.

Quanto a mim, fui alvo, já não de tiros de pistola‑metralhadora, mas dos maiores elogios. E recebi um simpático pagamento, extraordinário, irrecusável porque justificado como indemnização moral (o desgaste psíquico dos atentados, isso é uma coisa que conta, senhor doutor!). Entretanto, recebi um aviso de Cristiano: meu filho, vou largar a Fundação, estou farto deles, são uns filhos da puta retorcidos, tu não tens problemas, está tudo tratado, mas acaba isso e cava depressa.

E o que se desenha, com a já referida inexorabilidade, é o discreto e doce escorregar para o esquecimento do precioso espólio do Comendador Wang Wu.

- Está a condizer ‑ vociferou‑me Cristiano ao telefone está a condizer! Afinal, Macau também vai escorregar para o esquecimento, não? Se é que estes bandalhos aqui em Portugal alguma vez se lembraram de Macau, em quatro séculos não foram muitas as vezes!

Daniel concorda com esta previsão sobre o espólio (quanto a Macau também, mas enfim, é outra história). E pensa, apenas, que mesmo numa situação destas, em que obviamente não há nada a fazer, sempre se pode fazer qualquer coisa: como ele diz, pode‑se obrigar quem dobra a espinha a mostrar o cu.

Amen. E por isso a camisa de seda, a gravata italiana. já tenho as passagens de avião marcadas.

Vou voltar para onde, para quem? Não sei. As notícias das minhas aventuras, ainda que filtradas, tiveram um efeito inesperado. Lena (é Ritinha que mo diz, mas também o pressente) no último telefonema) Lena percebeu subitamente uma coisa ridícula, ainda gosta de mim. Deixou de fazer exigências e arrasta as diligências para o divórcio, diz que precisa de falar comigo pessoalmente. E Ritinha diz, esperançadamente, que tudo se vai compor.

É fácil ser optimista quando se é muito jovem e se prepara o casamento para breve ‑ novidade que me foi dada agora. o namoro durou dois meses: Ritinha é muito antiquada em certas coisas, nesse longo período, qualquer das amigas dela já estaria, não casada mas divorciada.

Não sei, de facto, o que vou encontrar depois de Macau. Nem como vou encontrar‑me depois de Macau.

 

                                Muito mais tarde.

Rosa apareceu na recepção.

Esperava tudo menos isso, e no entanto não fiquei espantado. Mal a vi, percebi a razão da sua presença.

Está mais magra. Estas últimas semanas deixaram‑lhe marcas no rosto e suponho que marcas na alma, também. Tiraram‑lhe o sorriso e o brilho dos olhos. Para mim, nada disso a torna menos atraente e o arrepio que senti ao vê‑la não foi menos violento. Mas, felizmente, eu estava em público, de gravata e camisa de seda natural, e era o centro das atenções.

A conferência de imprensa começou, sentei‑me na mesa ao lado dos senhores da Fundação. Os jornalistas fizeram‑me perguntas, dei as respostas que podia. Alguém ‑ discretamente industriado por Daniel ‑ perguntou: e quando é publicado o livro? Não fica para o lançamento? Alarme em alguns olhos fundacionais. Respondi: dizem‑me que há problemas técnicos e o meu contrato acabou. Não era uma resposta elegante, mas era a resposta necessária. Cinco minutos depois, quando tínhamos passado à agradável fase do caviar, Manuel Garcia, convidado por minha indicação, segredou‑me que já consta o regresso de MM aos seus penares macaenses, logo que Cristiano sair.

Disse‑lhe: ainda bem, o mérito é enfim recompensado, e ele fez um riso triste porque gosta de Macau. Naveguei ao acaso pela sala; Rosa veio ao meu encontro.

- Tens ar de quem está cansado ‑ disse.

- Tu também.

E encalhámos, até que eu, exasperado, exclamei: Estamos os dois muito cansados porque trabalhamos muito. Agora, passemos ao assunto seguinte!

Fez‑nos bem rir. Ela aproveitou esse riso para poder aparentar naturalidade ao perguntar:

- Quando vais?

- No dia 20.

- A que horas?

Pesquei um novo whisky de uma bandeja que passava com um criado atrás.

- Rosa: não quero que vás ao aeroporto, está bem? Não é bom para nenhum de nós. o sofrimento tempera as grandes almas, eu sei, mas as nossas já têm todos os condimentos.

Rosa olhou em volta antes de murmurar:

- Adriano, eu continuo a gostar de ti. Mas se o visses, se soubesses como os filhos, os outros filhos o tratam... sabes que eu não deixei que ele alterasse o testamento para me incluir?

Respirei fundo. ‑ Rosa, ouviste o que eu te disse? As nossas almas já têm todos os temperos, estão óptimas, estão no ponto. Não vamos insistir. Quando eu te disse, daquela vez, ao telefone, que compreendia, não estava a ser simpático. Nunca sou simpático. E depois, o nosso casamento ia ser um desastre. Acredita. Eu ressono.

Ela riu‑se, disse que já tinha dado por isso. De repente, os seus olhos encheram‑se de lágrimas. Murmurou: "Adeus". E afastou‑se rapidamente. Alguém me fez uma pergunta, respondi e quando olhei à minha volta, à procura dela, vi‑a a caminho da saída. Fiquei onde estava, só deitei a mão a outro whisky.

E agora estou só, no meu apartamento que não é meu e sim do Estado e que já tem outro ocupante designado. Finalmente, a embriaguês passou. Não é porque ressono que o casamento seria um desastre. o casamento seria um desastre porque eu provoquei a ruína de Rosa e o ataque de Richard, porque o tempo, ao contrário do que diz o faduncho, não volta para trás e há vinte anos de diferença, vinte anos de divergência entre Rosa e Adriano. Enfim, estou sóbrio e já não era sem tempo.

Olho em volta e fixo o sofá do canto, onde gosto de me sentar e onde imaginei um amigo chinês que baptizei com o nome de Lei Siu Lam. A quem desejo, agora, felicidades no seu país inexistente.

Não me envergonho de ter feito como as crianças que arranjam companheiros imaginários. No estado em que me encontrava quando cheguei a Macau, Lei Siu Lam, meu alter ego de olhos rasgados, salvou‑me provavelmente da loucura. Nenhum chinês se reconheceria nele, mas não importa ‑ Lei Siu Lam é português. Lei Siu Lam é a minha fome das sete partidas.

Lei Siu Lam desapareceu, compreensivelmente, quando, forçado pelo instinto de autodefesa, eu fechei a porta das angústias existenciais.

E isto, não o devo a mim, seja sob a forma de Adriano seja sob a forma de Lei Siu Lam. Isto devo‑o a Macau.

Não me sinto mais sábio nem mais sensato nem, de todo, iluminado. Talvez até nem me sinta menos angustiado.

Sei que o mundo é cada vez mais um caos absurdo.

Mas esta pequena guerra que travei obrigou‑me a mobilizar recursos, a pôr de parte os meus fantasmas. Esta pequena guerra salvou‑me, ao menos por enquanto. Deu‑me um tempo suplementar.

Rosa também me salvou ‑ mesmo fisicamente: foi a sua presença, a presença da filha querida do patrão, que assustou o atirador e o fez desviar a pontaria e abater um traficante de droga em vez de um jornalista de passagem.

Talvez mais importante é isto: voltei a pensar que, afinal, com o mundo perante um caos que se anuncia tão absoluto, talvez esta seja a necessária purificação antes da nova era, em que nos reencontraremos? Talvez haja, afinal, um sentido, talvez haja, afinal, uma ordem, um Deus, um porto para a nossa angústia. Talvez nada disto seja em vão?

Talvez.

Ter passado do Nada para o Talvez é o que levo comigo.

Não é uma fé que satisfaça o padre Frazão. Mas já é alguma.

Não será em vão que, por enquanto, esta ainda é a Cidade do Nome de Deus.

 

                         20 DE DEZEMBRO, Voo Hong Kong ‑ Londres.

o jantar já foi servido. Não comi; sinto‑me leve e meio atordoado. É o resultado de quatro dias com escassas horas de sono. Fazer malas, ultimar burocracias, despedir‑me.

Despedir‑me de Hông‑kóng Sân, de A‑Mah, de Kun Iam: obrigado por tudo, olhem pelos vossos devotos, tentem aguentar‑se e, se não for possível, emigrem. Haverá, com certeza, passaportes de cidadão nacional ao vosso dispor, é o mínimo que nós podemos fazer.

Despedir‑me de Daniel, de Manuel Garcia, do padre Frazão: até à próxima... quando já não houver Macau? A frase, claro está, não foi dita. Nenhum de nós admitirá, sequer, tê‑la pensado.

Uma surpresa: Xavier insistiu em acompanhar‑me a Hong Kong, até ao aeroporto de Kai Tak. Entrei e saí pela sua mão. Mas esta atenção é notável porque Xavier ingressou nos quadros da Fundação e ontem mesmo, MM o magnifico, a alma santa que avisou os homens de Richard Wang no final da nossa última entrevista ("ele saiu agora do meu gabinete, vai a caminho da rua, podem dar‑lhe o tiro") ontem mesmo, MM regressou a Macau em glória e foi reposto no seu trono.

Levo comigo a dúvida: não sei se Xavier me acompanhou a Hong Kong desafiando a fúria de MM, apenas por consideração ou sentido do cerimonial, ou se foi o próprio MM que o mandou, para ter a certeza de que eu ia mesmo embarcar.

A bordo do jetfoil durante a travessia, ele falou pouco e sorriu muito. Mais tarde, em Hong Kong, obrigou‑se a uma conversa para passar o tempo: que sensação de formidável poderio económico nos transmite Hong Kong! Será possível que a China consiga absorver tudo isto sem sofrer, no processo, uma transformação dramática?

É uma boa pergunta, observei, sem me comprometer. às vezes, Deus escreve singularmente direito por linhas singularmente tortas.

Enfim, no aeroporto, quando eu ia transpor a barreira da área reservada aos passageiros, Xavier agarrou‑me pelo braço:

- Adriano. Você consegue acreditar que, apesar de tudo o que se passou, eu fiquei seu amigo?

Respondi‑lhe que sim, acredito. E é verdade. Acredito, mesmo que ele tenha vindo por ordem de MM.

- Então, se acredita, não se esqueça de mim. Não se esqueça de Macau.

Não há perigo de que isso aconteça.

As luzes apagaram‑se na cabina, o filme começou a rodar. Recosto‑me, fecho os olhos e vejo‑me no jardim de Lou Lim Ioc a ouvir os pássaros que os velhotes trouxeram nas suas gaiolas, para apanhar o fresco enquanto os ouvem cantar.

Pouco interessa lamentar, desejar isto ou aquilo. Ou andamos todos a puxar uma nora sem dono ou estamos todos na mão de Deus.

Indulgentiam, absolutionem et remissionem peccatorum nostrorum tribuat nobis omnipotens et misericors Dominus.

 

                                                                                João Aguiar  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"