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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS CORVOS DE AVALON / Marion Zimmer Bradley
OS CORVOS DE AVALON / Marion Zimmer Bradley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS CORVOS DE AVALON

 

Lhiannon fala:

No Samaine abrimos as portas aos espíritos da­queles que já partiram. Hoje em dia me é mais fácil re­cordar os mortos do que os vivos. Lembro-me dos por­menores mais insignificantes dos vestidos e hábitos das mulheres que eram sacerdotisas quando eu era jovem e tenho dificuldade em recordar os nomes das raparigas que me servem agora. Mesmo nesta estação de ventos gelados e de folhas caídas, a casa que me construíram sob as árvores de Vernemeton é confortável, mas quando me lembro do nosso santuário na Ilha de Mona, tudo se transforma numa tarde dourada, pois Oakhalls era um local de magia.

Estas raparigas cresceram sob a sombra de Roma. Como lhes poderei mostrar a glória do mundo em que vivíamos antes da chegada das Legiões? Suponho que não era mais perfeita do que qualquer outra sociedade huma­na, mas era a nossa. Os druidas de Oakhalls preservaram uma nobre tradição que apenas podemos praticar aqui numa imitação pálida.

Ardanos diz que para sobreviver temos de curvar as cabeças e dissimular os nossos poderes, ceder. Não o contradigo... de que serviria? Mas às vezes desejo poder fazer os jovens compreenderem as razões que nos leva­ram a combater pela liberdade. Dizem que a Sociedade dos Corvos está a organizar-se novamente. Chamarão a Senhora dos Corvos para liderá-los? Boudica chamou-a e quase fez ajoelhar Roma.

Nesses tempos amávamos intensamente e tínha­mos grande coragem. Agora limitamo-nos a agüentar. É a vez de Eilan, a neta de Ardanos vir servir-me. Talvez esta

noite, enquanto esperarmos que a procissão dos espíritos chegue à minha porta eu tente contar-lhe a minha histó­ria...

 

 

 

Tinham chegado à Ilha dos druidas mesmo antes do pôr do Sol, Boudica sentada muito direita na sela para que ninguém reparasse que estava com medo. Afastou as recordações das águas azuis cobertas e nubladas de magia e dos telhados cônicos recortados contra o céu que escu­recia, da multidão de homens barbudos de túnicas bran­cas e das mulheres veladas com os olhos cheios de se­gredos e do pequeno choque que sentira quando tinham passado os portões esculpidos e pintados que guardavam Oakhalls.

Tinham-na levado para a Casa das Donzelas. Não sabia se tremia devido à exaustão se por efeito da magia.

Aqui está sempre frio? — perguntou Boudica. Oito raparigas de tamanhos variados ficaram a olhar para ela.

Frio? — respondeu uma rapariga de cabelos escuros que lhe fora apresentada como Brenna. — No Inverno sim, mas agora é Primavera! — Estava vestida com a túnica simples, de linho cru e sem mangas que to­das vestiam, presa num ombro por um pregador de bronze e um cinto verde.

Vais aprender a manter aceso o teu fogo interi­or para não teres frio — continuou Brenna. — Mas por agora vamos ver se conseguimos tornar o ambiente mais quente... — Franziu a testa, concentrando-se, depois fez um gesto e as madeiras na lareira central incendiaram-se subitamente. Pelo seu sorriso, Boudica deduziu que Brenna aprendera recentemente aquela técnica.

Retribuiu-lhe o sorriso, tentando não deixar trans­parecer o quanto aquele truque a tinha impressionado.

Tinha plena consciência de que não mudara a tú­nica de lã e as calças durante o mês inteiro de viagem, mas as roupas simples que as outras raparigas tinham ves­tidas não lhe pareciam grande alternativa. Quanto a tomar banho.... Provavelmente os druidas banhavam-se nas á­guas geladas do ribeiro. Endireitou e afagou a pele de ra­posa que debruava a sua capa e que era quase da mesma cor do seu cabelo. Era preferível acharem-na vaidosa a acharem-na fraca. Chorara nas primeiras noites da sua viagem através da Britânia, embrulhada na capa e em co­bertores, deitada no chão duro, mas agora não o faria.

Vens das terras dos Icenos, não é? Deixa-me apresentar-te o resto do grupo. Esta é a Coventa... — Brenna pôs um braço por cima de uma menininha pe­quena e loira. — Vem, como eu, das terras dos Brigantes. E esta é a Mandua, dos Atrébates... — apontou para uma rapariga mais velha com um ar pouco satisfeito. À medida que os nomes iam sendo pronunciados, Boudica aperce­bia-se dos olhares curiosos e avaliadores.

Dado estarem todas vestidas da mesma maneira, não conseguia distinguir quais as raparigas que eram filhas de chefes tribais das que eram filhas de camponeses. Esse era provavelmente o objetivo das roupas iguais. Era tra­dição fazer com que os filhos das boas famílias passassem uma ou duas estações com os druidas para que obtives­sem instrução numa filosofia mais profunda do que as superstições das pessoas comuns. Mas os filhos dos camponeses, escolhidos pelos sacerdotes devido ao seu talento, podiam muito bem olhar com desdém para a­queles cuja única qualificação para ali estarem era o seu nascimento. Boudica já jurara a si própria que não teriam razões para olharem com desdém para ela.

Mas a ilha de Mona não pertence a tribo ne­nhuma — terminou Brenna. — Foi por essa razão que a Escola dos Mistérios foi estabelecida aqui em Oakhalls.

De verdade? — perguntou Mandua. — Pensei que nos tínhamos instalado aqui no fim do mundo para ficarmos fora do alcance de Roma.

Boudica sentou-se na cama recordando as monta­nhas enormes e imponentes por que tinham passado. E, no entanto, o caminho, ainda que penoso, levara-a até ali. Na casa de Cunobelin, em Camulodunon, parecera que nada estava fora do alcance de Roma. Mas aqui, tão longe de tudo quanto conhecera, não se sentia tão certa disso. Conseguiu sorrir alegremente para benefício das outras raparigas.

Abençôo a hora do nosso encontro. Tenho a certeza de que todas vocês terão muito para me contar...

É à Lhiannon que tens que dar ouvidos — dis­se a pequena Coventa com uma gargalhada. — A Helve tem o título de Senhora da Casa das Donzelas, mas a Lhiannon é quem faz o trabalho... — Calou-se ao ver o cenho franzido de Brenna. — Ora, é verdade, e não é a Verdade o que procuramos aqui?

Boudica ergueu uma sobrancelha. — Se é, então os druidas são diferentes de todas as outras pessoas que já conheci — disse secamente.

Achas que sabes tudo por teres sido criada no forte de um rei? — argumentou Brenna. — Nós aqui ser­vimos os deuses!

Mas vocês ainda não são deuses. — Boudica encolheu os ombros. — Os druidas que serviam o rei Cunobelin estavam tão ávidos de poder como qualquer um dos seus chefes tribais.

Coventa franziu o sobrolho. — Talvez viver no mundo os tenha corrompido.

Bem, não vamos discutir na tua primeira noite entre nós disse Brenna em tom apaziguador. — Como é que era em Camulodunon? O forte de Cunobelin tem mesmo tetos de ouro e paredes de mármore?

Boudica riu-se.

Só o dourado da palha, mas esta é posta por camadas com diversos padrões e os muros exteriores são caiados e pintados com espirais coloridas.

Parece um palácio dos deuses — suspirou Brenna.

E era... — ofegou Boudica com os olhos a ar­der devido a uma súbita saudade do local que fora a sua casa desde os sete anos. Mas o grande rei estava morto, a sua casa dispersa e o seu pai enviara-a para ali para o fim do mundo.

Aqui não somos deuses mas não te deixaremos morrer à fome... — disse uma voz vinda da porta.

Erguendo os olhos Boudica viu uma jovem esbel­ta, com a túnica azul das sacerdotisas ordenadas e o ca­belo loiro caído até meio das costas por baixo de um véu escuro. Quando ela entrou na cabana as raparigas levan­taram-se e fizeram uma vênia.

Boudica lançou-lhe um olhar dissimulado tentando perceber o que ela ouvira. Se aquela mulher tinha poder ali, então teria de ser tratada com cuidado. Olhou nova­mente para ela e encontrou uns olhos de um azul tão cla­ro que pareciam luminosos. O crescente azul da Deusa estava tatuado entre as sobrancelhas claras.

Chamo-me Lhiannon... — disse então a mu­lher. Quando sorriu, as pestanas velaram o olhar azul e Boudica conseguiu desviar os olhos. — Vou ser a tua mestra.

 

O ribeiro corria rápido e forte. No céu três corvos crocitavam enquanto dançavam ao vento.

Boudica estava satisfeita por ter uma pausa nas li­ções, mas lutar contra as águas não era a sua idéia de di- vertimento. Avançou cuidadosamente até ao meio da corrente onde as águas acastanhadas borbulhavam em torno de um emaranhado de ramos. Dizia-se que o ribei­ro era sagrado para a deusa Brigantia mas, se tal era ver­dade, então a deusa estava muito zangada.

Os sacerdotes tinham mandado todos os jovens limpar o curso do ribeiro que passava por trás de Oa­khalls e que corria agora inchado pelas águas das chuvas da Primavera. As cheias tinham arrastado uma quantidade de destroços que obstruíam o curso do ribeiro ameaçan­do provocar a inundação das cabanas, e a vala que impe­dia que o gado entrasse na aldeia não era suficientemente profunda para dar vazão à água. Como Lhiannon dissera, precisavam sempre de lenha. Teria sido uma ingratidão desperdiçar aquela oferenda.

O jovem sacerdote Ardanos que, segundo as rapa­rigas, andava a fazer a corte a Lhiannon, dissera-lhes que limpar o ribeiro seria prestar um serviço ao espírito que ali vivia. Boudica esperava que assim fosse. Agarrou fir­memente o ramo mais próximo e começou a puxar, pra­guejou quando os dedos escorregaram na madeira mo­lhada e puxou novamente. Qualquer coisa cedeu e depois ficou presa. Um ramo enredara-se noutro tronco e man- tinha-se imóvel. Era evidente que, para aquela tarefa, e­ram necessárias mais mãos. Virou-se, semicerrando os olhos, à procura das outras. Acumulavam-se nuvens no céu. A costa rochosa fronteira ao mar de Eriu apanharia com a pior parte da tempestade, mas a chuva atravessaria toda a ilha.

— Mandua! — Chamou reconhecendo a trança castanha da rapariga. — Mandua... puxa aí esse ramo para eu conseguir libertar este! — A outra rapariga virou-se surpreendida, atirou o ramo que tinha na mão para a margem e começou a descer o ribeiro.

Fora uma boa idéia, pensou Boudica quando con­seguiu soltar o ramo. Um tronco daquele tamanho arderia durante horas. E aquela pilha estava cheia de outros troncos do mesmo tamanho. Achou que seria uma pena perder tempo a arrastar o tronco até à margem. Olhou para as outras formas enlameadas.

Senora! Coventa! Venham cá. Podemos trans­portar esta madeira muito mais depressa se a passarmos de mão em mão! Os rapazes não vão conseguir apanhar nada que se pareça. — Quando elas a olharam com ar duvidoso, apontou para mais abaixo onde os rapazes es­tavam a trabalhar. — Prometeram-nos que quem conse­guisse fazer a maior pilha de lenha teria bolos de mel esta noite.

Em poucos minutos conseguiu pôr Brenna e Kea a tratar do monte de madeira seguinte com as raparigas menores a ajudá-las. Boudica puxou a madeira molhada com os lábios arreganhados num esgar feroz. Já não lhe importava que aquele não fosse um trabalho digno de uma mulher icena de sangue real. Muitos dos costumes dos druidas eram de tal forma estranhos, que era um alí­vio poder dedicar-se a qualquer coisa que conseguisse fazer realmente!

Perdida no ritmo do trabalho não prestava atenção a mais nada senão aos montes de ramos na sua frente. Foi só quando não apareceram mãos para receber o tronco seguinte que voltou a prestar atenção ao que a rodeava.

Não consigo agarrá-lo Boudica... tenho as mãos dormentes! — Senora ergueu as mãos.

Troca de lugar com a Coventa e enfia as mãos debaixo dos braços enquanto esperas que ela te passe o seguinte — ordenou. — Vá lá Coventa... não, não é de­masiado fundo. Vá, agarra nesta ponta do pau e passa-o.

Coventa estava com um ar quase tão pálido como a Senora mas obedeceu. As outras também já começavam a queixar-se. Boudica também estava molhada e com frio, mas não deixava que isso interferisse com o seu trabalho. Estavam a progredir a bom ritmo. A água castanha corria célere nos locais onde tinham limpo o leito do ribeiro e a pilha de madeira na margem já era mais alta do que Co- venta.

Não fizemos já o suficiente? — perguntou Mandua gritando para se fazer ouvir por cima do barulho das águas. — Já nem sinto os pés!

Não até termos terminado! — gritou Boudica. — Olha, só falta mais um monte e a nossa parte do ribeiro fica limpa.

A luz estava a ficar mais fraca mas conseguia ver onde tinha que agarrar o pedaço de madeira seguinte. Avançou lentamente na sua direção, resistindo à corrente que fora ficando mais forte à medida que os detritos iam sendo removidos. Quando tocou no ramo ouviu um gri­to.

A Coventa! A Coventa caiu! — Senora esbrace­java desesperadamente apontando para baixo, para a cor­rente.

Boudica avistou um pedaço de tecido pálido que passava perto e atirou-se num mergulho. As suas mãos, mais frias do que quisera admitir, tentaram agarrar o te­cido e falharam. Mergulhou, fez força com os pés no chão, atirou-se e apanhou a outra rapariga por um braço. A pele fria de Coventa estava escorregadia, mas Boudica agarrou-se a ela. Ficaram ambas debaixo de água. Seria o ramo de um tronco afundado que a prendia ou eram mãos que a tentavam manter debaixo de água? Deba­teu-se mais uma vez para se pôr de pé, abraçada ao corpo de Coventa. Brenna caminhava na sua direção por dentro de água com as outras no seu encalço. Passaram a rapari­ga de mão em mão até à margem e depois Brenna ajudou

Boudica a chegar a terra, onde esta se sentou a bater os dentes de frio e de choque.

Ardanos ajudou-a a levantar-se e levaram-na para a Casa das Donzelas. Coventa fora levada para os curan­deiros, mas ninguém parecia muito interessado no fato de ela própria estar molhada e gelada até aos ossos. Secou-se o melhor que pode e enfiou uma túnica de lã e a capa de­bruada com pele de raposa e depois sentou-se junto à lareira, tendo por única companhia a cabeça de pedra no nicho junto à porta do espírito guardião da casa.

Iriam mandá-la de volta para casa? Boudica não sabia se deveria ter esperança ou receio de que tal acon­tecesse. Regressar a casa derrotada vexar-lhe-ia a alma. Preferia ficar o ano inteiro e depois, quando os homens da tribo viessem trazer as oferendas do próximo ano, iria com eles

O seu cabelo secara e passara do vermelho-escuro para os habituais caracóis vermelho-dourados quando a pele que cobria a porta foi afastada e Boudica ergueu os olhos reconhecendo a silhueta esbelta de Lhiannon re­cortada na escuridão.

Porque estás aí sentada? O jantar está pronto e vi que não estavas lá. Não tens fome?

Boudica assentiu. — Ninguém me veio ver. Pensei que estava a ser castigada

Ah... — Lhiannon remexeu nos carvões e uma chama refletiu-se nos seus cabelos claros. Com um sus­piro sentou-se do outro lado da lareira. — E achas que merecias sê-lo?

Não! — A resposta explodiu. — Foi um aci­dente! O rio vinha com muita força... qualquer um podia ter caído! E... acho que o espírito do rio quer um sacrifí­cio.

Já tratamos disso — respondeu Lhiannon. Es­perou, fixando os olhos azuis e calmos na rapariga até esta recuperar novamente o controle da respiração.

A Coventa está bem? — Boudica engoliu em seco lembrando-se do corpo inerte da rapariga nos seus braços.

Bem — disse Lhiannon —, ainda que não te­nha sido a primeira coisa que disseste, pelo menos per­guntaste... Achamos que a Coventa bateu com a cabeça numa pedra quando caiu. Mas já está acordada e a querer comer. Os curandeiros vão ficar com ela algum tempo para se certificarem de que a água que engoliu não lhe fez mal, mas acham que ela vai recuperar bem

Fico feliz — murmurou ela. Recostou-se, alivi­ada pela descarga do medo que não soubera que sentira e que lhe enviou uma onda de calor pelas veias.

E deves mesmo ficar. Portanto vou perguntar novamente: achas que te devíamos castigar?

Boudica encolheu os ombros. — As pessoas pro­curam sempre um culpado quando qualquer coisa corre mal. — Vira isso acontecer a toda a hora no salão do Rei Cunobelin.

Vejamos as coisas de outro ponto de vista — disse então Lhiannon. — Se a Coventa tivesse morrido, ficarias a dever uma compensação pela sua morte?

Boudica olhou para ela, percebendo que aquela era uma pergunta diferente. — Estás a perguntar se o que aconteceu foi responsabilidade minha?

Lhiannon olhou-a com os olhos pálidos a brilhar ligeiramente. — Porque é que a Coventa estava dentro de água?

Porque tu nos mandaste tirar a madeira que es­tava a bloquear a corrente! — ripostou Boudica.

É verdade e não devias ficar surpreendida ao descobrir que a alta sacerdotisa e eu já tivemos a mesma conversa que estás a ter comigo agora. O fato de vocês estarem na água é responsabilidade minha e eu deveria lá ter ficado para vos vigiar.

Mas nós estávamos a ir muito bem...

Era um bom plano — concordou Lhiannon —, mas até mesmo o melhor dos guerreiros não consegue lutar bem com uma espada fraca.

Boudica franziu o sobrolho, visualizando o corpo franzino da rapariga mais nova. — Ela era demasiado pequena... — disse finalmente.

Não estava à altura da tarefa que lhe atribuíste e todas vós tiveram de trabalhar duramente e durante de­masiado tempo. Parece-me bem que nunca passaste mui­to tempo com outras crianças... não é verdade? — Como Boudica assentisse, ela continuou: — És da raça dos Bel­gas, um povo alto e vigoroso e tu própria és mais forte do que a maioria das raparigas da tua idade. Tens que apren­der a ver os outros como eles são e não como desejadas que eles fossem Assumiste a liderança e, portanto, elas eram uma responsabilidade tua.

O Rei Cunobelin tinha um dom especial para isso... — disse Boudica. — Até mesmo quando os ho­mens tentavam traí-lo serviam os seus objetivos, pois ele punha-os em posições onde as suas inclinações naturais os levavam a trabalhar em seu favor. Mas eu sou só uma menina... nunca pensei...

Pensas que por seres mulher não tens poder? Dizem que entre os Romanos as coisas são diferentes, mas nós, os druidas, sabemos que a Deusa é a fonte da soberania e que é através das rainhas e das sacerdotisas que esta é concedida aos homens. E tu descendes de vá­rias gerações de chefes tribais. Não me surpreende que as outras raparigas te tenham obedecido.

A rapariga sobressaltou-se com o tom da sua voz. Que sabia aquela mulher dos costumes dos reis? Mas ti­nha razão num ponto: Boudica sempre estivera sujeita a alguém. Nunca lhe ocorrera que pudesse ter poder.

Estou a perceber — disse lentamente.

Bem. Se percebes então este dia já nos deu qualquer coisa de útil! — disse Lhiannon bruscamente. — Vem comigo agora para encheres a barriga com comida quente e depois, se quiseres, podemos fazer uma visita à

Coventa para te certificares de que ela está bem.

 

Na semana após o quase afogamento de Coventa, uma última tempestade fez com que as águas descessem ruidosamente pelo leito desimpedido do ribeiro. Depois o tempo aqueceu como se o espírito do ribeiro, tendo sido aplacado, tivesse trazido a Primavera. Foi só na noite da Lua Nova que Lhiannon teve oportunidade de falar com Ardanos.

Quando atravessavam o bosque em direção ao pomar ele abrandou a passada habitualmente larga para acompanhar o ritmo dela. Era pouco mais alto do que ela e o seu corpo era seco e rijo mas, não sendo musculoso, era senhor de uma autoridade natural e os outros homens respeitavam-no. Ia a assobiar baixinho. Ela corou ao a­perceber-se de que era a canção que escrevera para ela:

A minha amada é uma rapariga com cabelos de linho dou­rado,

Olhos da cor do céu de Verão,

Os juncos curvam-se de inveja perante os seus passos,

Os salgueiros balançam e suspiram...

Apercebendo-se da sua reação ele riu-se. — E como se está a adaptar a nossa princesa dos Icenos? — perguntou.

Temo que esteja demasiado consciente do fato de que é uma princesa — respondeu Lhiannon. Baixou a voz quando um grupo de jovens sacerdotisas passou por eles, os seus mantos uma mancha pálida à luz do crepús­culo. — Mas é uma líder inata. É capaz de chegar a sa­cerdotisa se conseguir aprender a ser humilde.

Ah, bem, não seria a primeira a ter esse pro­blema... — respondeu Ardanos.

Lhiannon seguiu-lhe o olhar. Havia muito tempo que aquela parte da floresta fora plantada num triplo cír­culo de carvalhos cujas folhas denteadas murmuravam suavemente na brisa noturna. A Lua brilhava como uma pérola redonda do rio apanhada numa rede de ramos. As capas das sacerdotisas eram um borrão escuro sob as ár­vores.

Ardanos referia-se a Helve, mas não era ele quem tinha que trabalhar com a mulher, pensou ela. Aper­tou-lhe a mão em concordância antes de atravessar o rel­vado para se juntar às outras mulheres.

Lhiannon, é muita amabilidade tua juntares-te a nós... — disse Helve. Era uma sacerdotisa importante e quase tão talentosa como acreditava ser. Lhiannon não percebeu bem se ela estava a ser irônica. — Foi difícil pôr as raparigas a dormir?

Se lá tivesses ido, pensou, não terias que perguntar.

A nova, a rapariga dos Icenos, vale a pena ser observada... talvez eu devesse ficar com ela para a forma­ção especial — disse Helve.

És a Senhora da Casa das Donzelas — disse Lhiannon calmamente, mas estava a pensar: Se queres ensi­nar a Boudica, sugiro que comeces por saber qual o seu nome!

Não tinha a certeza se devia desejar que Helve a li­vrasse da rapariga ou se o deveria recear. Boudica era tão orgulhosa como a sacerdotisa e era capaz de ainda ser mais teimosa. Ou, pior ainda, iria Helve encorajar a sua arrogância em vez de lhe ensinar a humildade?

Um tinido de campainhas ecoou por todo o círcu­lo. Escoltada pelas suas aias, a alta sacerdotisa emergia de entre as árvores. Movendo-se ao ritmo ritual, a figura ro­busta de Mearan tinha uma graciosidade equilibrada. Embora toda a comunidade celebrasse em conjunto, os ritos da Lua pertenciam às sacerdotisas, enquanto que os sacerdotes eram responsáveis pelos rituais solares e esta era a hora da Senhora.

— Olhai, oh minhas filhas, como a Senhora Lua brilha sobre nós. — A voz da alta sacerdotisa ecoou pelo círculo. — Ela levanta-se cedo e cedo procura a sua ca­ma... jovem e cheia de promessas, tal como as crianças que nos procuram para que as ensinemos. Conosco a­prenderão as nossas tradições tão antigas. Mas que a­prenderemos nós com elas? Esta noite pedimos à Deusa que abra os nossos corações e as nossas mentes. Pois a­pesar de a sabedoria dos mais velhos permanecer, o mundo está em permanente mudança e o significado da sabedoria muda também. Não nos servirá de nada per­manecermos na segurança da nossa ilha se nos afastarmos tanto daqueles que estamos aqui para servir que eles aca­bem por não conseguir entender as nossas palavras.

O círculo estava em silêncio. No bosque de carva­lhos, um pássaro piou e depois ficou silencioso. Concen­trando-se nas suas ligações à terra, Lhiannon tentou li­vrar-se de todas as tensões. O silêncio tornou-se mais profundo quando as outras mulheres fizeram o mesmo e a atmosfera do círculo ficou carregada de energia.

A alta sacerdotisa aproximou-se da pedra que se erguia no centro. — A Ti, amada Senhora, trazemos estas oferendas. — Uma a uma as suas aias depositaram as flo­res primaveris que traziam em cima da pedra e Lhiannon e as outras sacerdotisas avançaram, rodeando-as.

Deusa sagrada, Deusa sagrada... — As vozes das mulheres cresceram, invocando o nome sagrado em harmonias entretecidas.

«Sob estas velhas árvores sagradas Lança agora a Tua bela luz prateada; Desvenda a Tua face para que a vejamos Desvelada, brilhando na noite...»

Mearan estava de pé perante o altar com as mãos erguidas em adoração. À medida que a canção continua­va, o luar parecia concentrar-se nela, enquanto, doce e suavemente, a Deusa entrava. A sua figura robusta tor­nou-se mais alta, o seu rosto radiante; resplandecia de poder. Naquele momento estava esquecida a expressão colérica que a Deusa exibia quando os homens lhe cha­mavam Corvo da Batalha. Era a doce Senhora da Roda Prateada quem lhes aparecera ali.

Deusa sagrada, Deusa sagrada... — Os homens cantavam como se a terra sólida tivesse encontrado voz para responder.

«Brilha sobre a terra fértil,

Brilha resplandecente sobre o mar fragoroso;

Envia a Tua terna lu^para abençoar

Todos os seres vivos que Te invocam.»

A Deusa virou-se com as mãos abertas numa bên­ção. No Seu olhar profundo encontravam perdão, com­preensão, amor.

Lhiannon suspirou, deixando escapar o último dos seus ressentimentos. Como se aquela fosse a oferenda aguardada, sentiu a alma encher-se das alvuras da paz. Ah Boudica, é isto que temos para te oferecer — o pensamento va­gabundo ocorreu-lhe. Espero que um dia o compreendas... Depois também aquela idéia desapareceu e ficou apenas a luz.

 

Foi só depois da chegada do Outono que Boudica foi chamada para o serviço da Senhora Mearan. A alta sacerdotisa ocupava uma cabana grande na orla do bos­que sagrado. A cada mudança de Lua duas donzelas e uma das sacerdotisas mais jovens iam viver com ela.

Boudica disse a si própria que não havia razão para se sentir nervosa. Servira no forte de um grande rei. Mas os reis emanavam apenas um poder físico. A vida entre os druidas não era repleta de sinais e maravilhas, mas até mesmo naqueles poucos meses já vislumbrara o número suficiente de coisas estranhas para saber que ali havia po­der. E, no entanto, na vida quotidiana, a alta sacerdotisa não parecia muito diferente de qualquer outra mulher da sua idade. Enfiava os braços nas mangas da túnica um de cada vez, e ficava com os membros presos se as aias não dobravam corretamente a roupa. Mas Boudica sabia sempre se a alta sacerdotisa estava a olhar para ela.

Na casa da alta sacerdotisa os odores doces das ervas a secar misturavam-se com o fumo da lareira e ha­via sempre um recipiente de cobre com água pendurado por cima do lume. Os únicos sons eram os das vozes das mulheres, o crepitar do lume e o murmúrio da chuva a cair.

Numa dessas noites, em que o crepúsculo chegou cedo, Boudica deu por si a sós com a alta sacerdotisa quanto as outras iam buscar comida para a refeição da noite. Ficou tensa quando a mulher mais velha a mandou sentar-se perto dela.

— Então, sentes-te feliz aqui conosco? — per­guntou Mearan.

A rapariga arriscou um olhar rápido na direção da sacerdotisa. A idade amolecera a carne que cobria os os­sos fortes, mas os olhos escuros da mulher eram como um lago profundo nos quais as desculpas ou prevarica­ções se limitariam a desaparecer.

Eu gosto de Oakhills — disse Boudica abrup­tamente. — Mas não tenho talento para as coisas que vocês aqui fazem e não gosto que me tratem como se fosse um bebê por não as conseguir fazer...

Ver o que tem que ser feito e levar os outros a fazê-lo também é um dom — disse a sacerdotisa. — Não tenhas tanta certeza das coisas que consegues e não con­segues fazer...

Boudica estava a tentar encontrar as palavras ade­quadas para pedir à sacerdotisa que se explicasse melhor quando ouviu vozes junto à porta.

Mandua afastou a cortina com o ombro e foi se­guida por Lhiannon e por Coventa, todas carregadas com a comida. Foram seguidas por uma rajada de chuva gela­da.

Isto tem um ótimo aspecto — disse a alta sa­cerdotisa. — E a água da minha panela está quase a ferver e em breve teremos uma tisana.

E pão de aveia? — perguntou Coventa espe­rançada.

—Assim que a pedra estiver quente... — respon­deu Boudica juntando um pouco de gordura à tigela de farinha de aveia. Era agradável ouvir a chuva a bater nas árvores lá fora, sentada com as amigas ao pé de um bom fogo. Despejou leite azedo na mistura, moldando tudo até formar uma pasta, salpicou uma tábua com aveia e passou a massa pelos grãos, sujando os dedos com farinha antes de começar a amassar. A luz rosada coloria as pregas dos mantos pendurados e tocava de magia as formas de sacos e caixas menos identificáveis. Provavelmente, pensou ela, eram mesmo mágicos: ervas e pedras e pedaços disto e da­quilo, as coisas de que os druidas necessitavam para os seus feitiços.

Coventa despejou uma gota do chá de ervas sobre a pedra de ardósia que tinham posto por cima dos car­vões. Ouvindo-a fervilhar, Boudica fez um círculo com a massa e dividiu-a rapidamente em quatro. Pôs um pouco de gordura em cima da pedra e esta ficou pronta para fa­zer os pães. Passados instantes o cheiro quente da aveia a cozer misturou-se com os outros odores na sala.

Ouçam o vento! — disse Mandua estremecen­do.

Murmura histórias de todos os locais onde já esteve — concordou Coventa.

Ou grita-as — corrigiu-a Boudica, ouvindo o barulho que o vento fazia na estrutura de ramos que su­portava o telhado cônico de colmo quando esta estreme­ceu sob o impacto de uma nova rajada. Lhiannon sorriu.

Quando as noites estão assim penso sempre naqueles que venceram as tempestades para chegar a esta ilha. Di­zem que os primeiros sábios que viveram em Avalon che­garam ali vindos de uma grande ilha que foi submersa pelo mar.

Mas como é que os druidas vieram para aqui?

perguntou Coventa passando os pães fumegantes da pedra para um cesto.

Parece ser uma noite apropriada para contar histórias... — A sacerdotisa pôs um pouco de mel no seu pão e deu uma dentada com um suspiro de satisfação. — Os primeiros sacerdotes do Carvalho devem ter achado o oceano assustador quando aqui chegaram, seguindo os primeiros chefes guerreiros celtas, e viram esta terra. O seu povo crescera muito e os seus clãs tinham-se espa­lhado em todas as direções. Alguns partiram para norte para se instalarem na Gália e, de lá, aventuraram-se para estas ilhas.

Os Atrébates pertencem às tribos belgas e fo­ram os últimos a vir para aqui, e os príncipes que reinam nas terras dos Icenos... — acrescentou Lhiannon. — A­pesar de haver sangue mais antigo entre o povo que go­vernam. — Virou-se para a alta sacerdotisa. — Qual foi o primeiro da nossa Ordem a vir para Avalon?

O primeiro? — Mearan sorriu. — Segundo a tradição, não foi um sacerdote o primeiro a chegar a A­valon, mas sim uma sacerdotisa fugida da destruição do seu forte numa das primeiras guerras. Chamava-se Rhian. As tempestades de Inverno tinham sido violentas, fazen­do com que Avalon se tornasse mesmo numa ilha. Com esse tempo, quando as brumas cobrem os pântanos, é fácil perdermo-nos. Rhian vagueou por entre as brumas, encharcada e a tremer, até que chegou... — Mearan fez uma pausa para dar um golo no chá.

A Avalon? — perguntou Coventa ansiosa.

A sacerdotisa abanou a cabeça. — Chegou a um sí­tio sem sol nem lua, onde as árvores estão sempre em flor e carregadas de frutos. E a rainha do seu povo, que está aqui a mais tempo do que qualquer habitante humano destas ilhas recebeu-a. E ela ali ficou durante um tempo fora do tempo e, quando ficou curada, atravessou nova­mente as brumas. Foi assim que chegou a Avalon.

Viviam lá sacerdotisas? — perguntou Boudica.

Sacerdotisas e sacerdotes — replicou Mearan. — Descendentes dos primeiros habitantes destas ilhas e mestres de uma alta magia que viera das Terras Alagadas. Mas havia uma diferença: enquanto que entre esses pri­meiros druidas as sacerdotisas existiam apenas para servir os sacerdotes durante os rituais, em Avalon sacerdote e sacerdotisa trabalhavam em conjunto e era a senhora de Avalon quem possuía o maior poder.

E essa continua a ser a diferença entre a nossa Ordem aqui e a forma como é, ou era, na Gália — acres­centou Lhiannon.

As mulheres sábias de Avalon ensinaram Rhian e enviaram-na de volta para fazer a paz entre o seu povo e os homens da raça antiga e, embora as guerras e as sor­tidas tenham continuado, deixaram de ser tão ferozes como no passado e, por fim, tornamo-nos no povo único que somos hoje.

E todos os homens honram as nossas sacerdo­tisas — acrescentou Coventa toda satisfeita

Temos de zelar para merecer essa reverência — disse Lhiannon.


DOIS

Um é para a Fonte, a Origem Divina, inominá­vel, desconhecida, para além da percepção... — entoavam os rapazes e as raparigas sentados por baixo da árvore.

Pela primeira vez, em semanas, as nuvens tinham deixado passar um pouco de luz do Sol e os mestres ti­nham levado os alunos para a rua para que a gozassem. Ar danos deixara os aprendizes de bardo a praticar no bosque. Até mesmo os seus erros pareciam doces no ar primaveril.

A verdade pode muito bem ser só Uma, pensou Lhian­non, mas as suas manifestações no mundo estão a mudar constan­temente. A idéia fê-la estremecer.

Dois é para o Deus e a Deusa, macho e fêmea, luz e trevas, todos os opostos que se encontram e se se­param e se juntam novamente — proferiu as palavras sem pensar e depois calou-se.

Dentro de uma semana acenderiam as fogueiras de Beltane. Nos festivais em que homens e mulheres se dei­tavam juntos para trazer o poder do Senhor e da Senhora ao mundo, só as sacerdotisas com votos de celibato para preservação de poderes mágicos superiores ficavam à parte. Lançou um olhar rápido a Ardanos que estava sen­tado do outro lado do círculo e sentiu o sangue quente enrubescer-lhe as faces.

Mesmo sentado do outro lado do círculo conseguia sentir o seu desejo por ela. Quando o Inverno gelava to­dos os fogos era fácil negar as exigências do corpo, mas quando o Sol despertava novas vidas em cada folha e em cada erva, lembrava-se de que era jovem e estava apaixo­nada.

Três é para a criança Divina que nasce da sua união, e três são os rostos da Deusa que dá vida ao mun­do. — O sol primaveril passava filtrado pelas folhas jo­vens, coroando os estudantes de luz. O cabelo loiro de Coventa brilhava, prateado e por trás dela avistou uma cabeça curvada que parecia incendiada de fogo e que só podia pertencer a Boudica.

Seriam aquelas as únicas filhas que Lhiannon al­guma vez teria? Olhou novamente para Ardanos. Podia sonhar em dar-lhe uma criança, mas nunca se interessara muito por bebês. Que outros criassem corpos... ali em Mona, ela e Ardanos formavam mentes e almas.

E todavia... queria sentar-se no lugar da profecia e atravessar os céus, mas também desejava a força dos braços magros dele em volta do seu corpo. Os druidas mais velhos ensinavam que tinha que se escolher entre o corpo e a alma. Os lábios de Lhiannon continuavam a mover-se ao ritmo do cântico, mas a sua mente estava muito longe.

Enquanto os mais jovens regressavam em tropel a Oakhalls, Lhiannon ouvia-os a especular sobre o que ti­nham ouvido. Boudica, em particular, parecia estar pensa­tiva. Já não era sem tempo. Passado pouco mais de um ano de ali estar a rapariga por vezes ainda se comportava como... como um Romano de visita aos bárbaros. Mas esqueceu Boudica quando sentiu um calor a seu lado e se virou e viu Ardanos. Todo o seu corpo se arrepiou quando ele lhe pegou na mão.

Quando leio os céus estes dizem-me que Bel­tane se aproxima. .. — disse ele suavemente. — Queres dançar comigo quando acenderem a primeira fogueira da festa?

Deitas-te comigo? Não precisava de pronunciar as palavras em voz alta.

Os sacerdotes diziam que o fluxo de energia no corpo se alterava quando uma mulher se deitava com ura homem, bloqueando os canais através dos quais as profe­cias fluíam. Mas que possibilidades tinha Lhiannon de se vir a sentar no banco do oráculo enquanto Helve fosse a preferida dos sacerdotes? A energia que fluía entre ho­mem e mulher despoletava outro tipo de poder. Seria ela suficientemente idiota para recusar o êxtase em troca de uma oportunidade que poderia nunca surgir?

Não conseguia falar, mas apertou a mão dele com

força e percebeu que o seu corpo lhe tinha respondido.

 

Mas as raparigas não jogam hurley[1]! Boudica, e­les nunca te vão deixar entrar no campo! — gritou Co- venta agarrando-a por uma manga. No campo soaram gritos quando um dos jogadores apanhou a bola de couro e a lançou na direção da baliza com o stick.

Boudica resistiu ao impulso de continuar a andar arrastando a menininha atrás de si. Com quinze anos já atingira praticamente a sua altura máxima.

É um jogo de treino para os guerreiros — disse Coventa quando recuperou o fôlego. — Nos velhos tempos não era uma bola o que eles lançavam com os sticks, mas sim a cabeça de um inimigo.

Eu sei! — retorquiu Boudica. — Na minha tri­bo também jogam o mesmo jogo. Mas os druidas não combatem, portanto porque é que eles estão a jogar? De qualquer maneira em Eriu as mulheres continuam a ir à guerra.

Coventa pestanejou, tentando perceber a lógica daquele raciocínio, e Boudica avançou novamente. Os druidas sabiam que uma mente sã funcionava melhor num corpo são e um grande prado próximo de Oakhalls fora transformado em campo de jogos.

Quando trinta rapazes perseguem uma bola usan­do os joelhos, cotovelos e paus de madeira com um me­tro de comprimento, o jogo pode tornar-se quase tão pe­rigoso como um campo de batalha. Era apenas uma questão de tempo até alguém ficar fora do jogo.

— Ora, está bem... — Coventa sentou-se na relva. — De qualquer maneira, tu fazes sempre o que queres.

Um grito de Ardanos separara os combatentes que se reagruparam nas suas equipas, de frente para as suas balizas, na linha divisória. O jovem sacerdote lançou a bola ao ar e recuou apressadamente quando os dois lados se lançaram novamente na sua direção.

Para lá do estreito, Boudica via as formas enormes das montanhas que pareciam formar uma muralha no horizonte. Seria uma proteção ou o muro de uma prisão? Ser dada a um marido seria passar de um cativeiro para outro. Mas quereria ficar ali como professora, ou ir para o clã de um qualquer chefe tribal ou, talvez, para os pânta­nos do País do Verão para servir a Deusa na ilha de Ava­lon?

Estremeceu quando a bola foi lançada na sua dire­ção e para longe do centro da massa ofegante de rapazes e paus. O discípulo de Ardanos, Bendeigid, lançou a bola na direção de um rapaz trinovante de cabelos escuros, chamado Rianor, que saltou no seu encalço brandindo o stick. Falhou a primeira pancada, mas a segunda enviou a bola na direção das duas árvores sagradas que flanquea­vam a baliza.

Ainda bem que a bola não se defende..., pensou Boudi­ca. Se aquilo fosse um inimigo com uma espada ele estaria morto antes de conseguir desferir a segunda pancada.

Tentou perceber o padrão do jogo, mas se alguma das equipas tinha um plano, este não era perceptível. Também nisso o jogo se assemelhava à forma como o seu povo guerreava. O jogo ficou cada vez mais desespe­rado até que alguém gritou. Ardanos mandou parar tudo e os jogadores ofegantes rodearam a figura que se con­torcia no chão.

O jogador tentou sentar-se, o rosto muito pálido por baixo das sardas, agarrando a perna com ambas as mãos. Chamava-se Beli e fazia parte da equipe de Rianor. Boudica levantou-se com o coração aos saltos no peito.

Levem-no aos curandeiros — disse Ardanos com um suspiro. — E, a não ser que tenham reforços escondidos em algum lugar, o jogo acaba aqui.

Ouviram-se protestos dos rapazes e um gemido de desapontamento do público. Os jogos habitualmente du­ravam até uma das equipas ter marcado dez golos ou até ao pôr do Sol. Nove lenços coloridos estavam pendura­dos na árvore da baliza da outra equipa e nove na de Ri- anor. Boudica arregaçou as saias e avançou para o campo.

Eu jogo no lugar dele... — disse em voz alta. Fez-se silêncio. Ficou toda a gente a olhar para ela.

Mas tu és uma rapariga — disse Rianor por fim. Alguém soltou uma risadinha e foi mandado calar. Bou­dica encolheu os ombros. — Sou maior do que a maior parte dos teus rapazes. E claro que, se quiseres jogar pelo seguro, podes atirar as culpas da derrota para o acidente. Mas, se tens coragem, experimenta-me! — Agüentou a intensidade dos seus olhos escuros e viu a luz da batalha incendiá-los de súbito.

Porque não... — sorriu ele, erguendo a mão como se estivesse a lançar os dados.

Ardanos olhou para Cloto, um rapaz robusto que era o líder da equipa adversária.

Por mim tudo bem... — zombou ele. — Agora tenho a certeza de que venceremos!

Está tratado, então... — disse Ardanos fran­zindo o cenho para impedir a resposta exaltada de Rianor. Com um derradeiro olhar irado para Cloto, o rapaz fe­chou a boca e estendeu o stick a Ardanos que o entregou a Boudica. — Juras que não trazes para o campo nenhum feitiço nem encantamento e que jogarás com franqueza e lealdade sem qualquer ajuda que não a força do teu cor­po?

Era uma pergunta necessária numa escola onde alguns dos alunos conseguiam que a bola se movesse u­nicamente através da força da sua vontade, pensou Bou­dica enquanto agarrava no stick e fazia o juramento.

A posição do Beli era ali... — Rianor apontou para um ponto a meio de um dos lados do campo.

Ela ocupou o lugar tomando nota das posições dos outros jogadores. Já se passara muito tempo desde o seu último jogo, mas lembrava-se das linhas diretrizes que serviam de regras naquele jogo. Viu Ardanos aproxi­mar-se do meio com a bola e ergueu o stick. A idéia nunca lhe ocorrera, mas a ponta larga fazia-o parecer-se mais com uma daquelas grandes colheres de pau que as cozi­nheiras usavam para mexer os guisados nos caldeirões, do que com uma espada. De repente sorriu. Porque não ha­via uma rapariga de jogar aquele jogo? Afinal eles usavam uma arma de mulher!

Viu a bola subir e alguém da outra equipa ba­teu-lhe e atirou-a na direção da baliza da sua própria e­quipa. Com o stick preparado, correu para a interceptar, evitando o molho de rapazes que corriam com o mesmo objetivo. Ouviu o barulho do cabedal a bater na madeira quando alguém acertou na bola. A multidão de jogadores correu atrás dela numa massa confusa, atirando rapazes por todos os lados. Viu Cloto a passar disparado, viu-o virar-se e correr na direção dela, enfiando deliberada­mente o ombro no seu peito. Enquanto caía ouviu as suas gargalhadas. Indignada, abriu a boca para o amaldiçoar: o hurley era um jogo duro e a placagem com o ombro era permitida, mas apenas para impedir um adversário de chegar à bola... mas a dor, quando o seu corpo reagiu à pancada, tirou-lhe a respiração.

Vou enfiar-lhe os tomates nas orelhas! Por instantes não conseguiu mexer-se, enrolada de dor com a raiva a tur­var-lhe a visão de negro, clamando por vingança. Quando se levantou a cambalear, ainda curvada, viu Ardanos a correr na sua direção e fez-lhe sinal para que se afastasse. A batalha estava demasiado próxima da baliza da sua e­quipa. Por trás dela avistou mantos azuis e mantos bran­cos entre os espectadores, mas já não queria saber se os druidas estavam a ver. Com uma das mãos a proteger o peito dorido, observou a multidão ofegante tentando en­contrar Cloto, mas o que viu foi a bola a vir na sua dire­ção.

A pressão que sentia nos olhos abrandou. Vencer seria uma vingança ainda melhor.

Saltou para um dos lados e bateu, lançando a pe­quena esfera na direção da baliza do inimigo. Alguém gritou nas suas costas, mas ela já estava em movimento, com a trança a bater-lhe nas costas enquanto galopava pelo campo. A defesa contrária apercebera-se do perigo. Um dos seus elementos apanhou a bola e lançou -a a as­sobiar junto a Bendeigid, que conseguiu dar-lhe uma pancada de lado com a mão esquerda, desequilibrou-se com o impacto e caiu com força na relva. Um dos rapa­zes de Cloto brandiu o stick para parar a bola e esta res­saltou na direção de Boudica.

Nesse momento pareceu-lhe que tinha todo o tempo do mundo para ficar a ver a bola girar na sua dire­ção. Fincou os pés, agarrando o stick com as duas mãos como se este fosse uma espada, flectiu os ombros quando desferiu a pancada, os lábios arreganhados para soltar a raiva num grito de guerra iceno.

O impacto do choque entre a bola e o stick reper­cutiu-se pelo seu corpo e, subitamente, passou a fazer novamente parte do mundo, ainda tonta com a reação da pancada na bola enquanto esta passava disparada por ci­ma das cabeças dos defesas e do guarda-redes.

Todos os olhos estavam fixos na trajetória da bola. O pó ergueu-se quando esta bateu no chão entre as árvo­res sagradas. E, naquele momento de espanto, quando se aperceberam de que o jogo tinha terminado, Coventa gritou.

Boudica correu na direção da amiga que estava sentada muito direita com os olhos esbugalhados. Co- venta agarrou-a pelos braços.

A Rainha Vermelha! Sangue nos campos e ci­dades em chamas, o sangue a correr por toda a parte... — Coventa susteve a respiração e deu um soluço. As suas mãos afrouxaram e Boudica amparou-a. Por instantes o seu olhar desfocado concentrou-se no rosto de Boudica. — Eras tu! Brandias uma espada...

Era só um stick de hurley — protestou Boudica, mas os olhos de Coventa tinham desaparecido, revirados no interior das pálpebras.

Larga-a, rapariga... eu tomo conta dela...

Boudica ergueu os olhos e reconheceu Helve, com

o cabelo escuro apanhado em torno da cabeça em trancas muito bem feitas. — Posso levantá-la... — disse, mas a sacerdotisa empurrou-a para um dos lados procurando o pulso de Coventa e fazendo sinal a um dos sacerdotes para que pegasse na rapariga ao colo. Só então olhou para Boudica.

Ela tem ataques destes com freqüência?

Boudica encolheu os ombros. — Tem pesadelos,

mas esta é a primeira vez que isso acontece com ela a­cordada. Não ficou muito forte depois da febre que teve após o... acidente... no ano passado. — Corou envergo­nhada.

Mas se Helve se recordava do papel que Boudica desempenhara nesse acidente parecia não se importar. Ficou a olhar enquanto o jovem druida levava Coventa, a especulação estampada no olhar.

Ela tocou o Outro Mundo. Às vezes isso basta. Veremos o que o treino poderá conseguir...

Mas e se a Coventa não quiser ser um oráculo? Boudica abriu a boca, mas Helve não estivera a falar com ela. A rapariga pôs-se de cócoras, com o olhar fixo, enquanto a sacerdotisa se afastava.

 

Durante meses, os céus tinham alternado entre as nuvens tempestuosas e um sol aguado, como uma don­zela tímida indecisa entre encorajar um pretendente ou rejeitá-lo. Como eu, pensou Lhiannon fechando os olhos e virando o rosto para o Sol que brilhava no céu azul. Mas agora, tudo — as flores brancas dos pirliteiros nas sebes e as primulas de cor creme no chão, as folhas verdes e ere- tas da erva que crescia e as folhas enroladas e macias que cresciam de novo nos carvalhos — parecia iluminado por dentro. Esta noite os fogos de Beltane brilharão e eu também.

Fora aos vendedores de ervas para comprar mais sementes de papoula para a poção que a sacerdotisa bebia antes do ritual. Os campos abertos que rodeavam Oa- khalls tinham-se enchido com as bancas, tendas, carroças e vendas dos comerciantes. Não apenas os druidas, como também todos os camponeses que tinham jurado servir a comunidade dos druidas estavam presentes, juntamente com algumas famílias do continente. Lhiannon não era a única que sonhava encontrar um amante nas fogueiras de Beltane. Os jovens das aldeias, que conheciam toda a gente da sua idade desde bebê, tinham vindo ali em busca de caras novas e de sangue fresco para os seus clãs. De­pois daquela noite não faltariam cerimônias de entrelaçar de mãos seguidas de casamentos.

Mas antes de ir para as fogueiras, Lhiannon tinha que ajudar no ritual do Oráculo. Quando cantassem o cântico sagrado saberia se o seu chamamento era mais forte do que aquele que lhe era enviado pelo seu próprio corpo.

Quando se aproximou do recinto ouviu Helve, com os seus habituais modos autoritários: foi com cho­que que Lhiannon se apercebeu de que as ordens que a mulher dava não se destinavam ao conforto de Mearan mas sim ao seu próprio conforto. Lhiannon afastou a cortina que tapava a porta.

Onde está a alta sacerdotisa? — perguntou num murmúrio a Belina, uma das sacerdotisas mais velhas. Helve estava nua em frente do fogo, esticando os mem­bros pálidos para que as outras os pudessem lavar com água da fonte perfumada com ervas.

Não se está a sentir bem — respondeu a outra mulher erguendo uma sobrancelha. — Será Helve quem ocupará o lugar principal nesta noite de Beltane.

Que a Senhora lhe traga inspiração — disse Lhiannon secamente e Belina suspirou. Lhiannon diri­giu-se ao canto onde a velha Elin estava a esmagar ervas num almofariz de madeira e entregou-lhe as sementes de papoula. Quando se virou viu Co-venta a entrar na sala. O seu sorriso desvaneceu-se quando se apercebeu de que a rapariga estava envolta nas mesmas vestes azuis escuras que as outras sacerdotisas, a testa envolta, tal com as de­las, por uma coroa de flores primaveris e ervas aromáti­cas.

— Helve, o que é isto? — exclamou. — Esta cri­ança não tem formação. Não podes estar a pensar pô-la a assistir-te na cerimônia!

Os olhos pálidos de Helve brilharam de irritação, mas a sua voz, como sempre, soou doce e baixa. — Sem ela o número de assistentes a escoltar-me, seria um nú­mero ímpar e eu tenho andado a ensiná-la — sorriu a Coventa. — Não é verdade pequenina? Vais sair-te muito bem.

Vai parecer uma criança vestida com a roupa da mãe, pensou Lhiannon, mas Coventa estava radiante de prazer. Olhou para as outras sacerdotisas em busca de apoio mas estas evitaram cuidadosamente o seu olhar. Durante al­guns instantes os únicos sons foram os da água a pingar enquanto as sacerdotisas mergulhavam os panos na água aromatizada com ervas e o ruído de Elin a esmagar as sementes de papoula.

Lhiannon suspirou e tirou o véu. Se Helve estava nervosa tinha razões para isso. Aquela não seria a sua primeira vez no lugar principal, mas não servia freqüen­temente como oráculo e, se a indisposição de Mearan fo­ra repentina, não teria tido muito tempo para se preparar. Pela primeira vez ocorreu-lhe que o talento natural de Helve para a autocracia devia tornar especialmente difícil submeter a sua vontade mesmo à meiga autoridade de Lugovalus.

Seria mais fácil para mim, pensou amargamente. Não consigo sequer afirmar-me o suficiente para defender a Coventa. Mas ao menos poderia manter a criança debaixo de olho durante o ritual.

Por cima da lareira um pequeno caldeirão borbu­lhava. Elin deitou-lhe um punhado de sementes de pa­poula para que fervessem junto às bagas de azevinho, aos cogumelos e restantes ervas, depois pôs-se a mexer a mistura cantarolando baixinho.

Helve continuou a tagarelar enquanto a vestiam com os mantos compridos do oráculo. Quando Lhiannon se aproximou dela, com uma grinalda de brincos de prin­cesa entretecidos com flores primaveris, viu o brilho de triunfo nos olhos da outra mulher.

A Helve nunca me deixará ser o Oráculo. Porque me privei durante tanto tempo? Pensou então Lhiannon. Controlando um assomo de ódio pôs a grinalda na cabeça de Helve e a outra mulher calou-se, finalmente. Elin deitou um pouco da poção na taça antiga e pô-la a arrefecer. A cortina da porta moveu-se e o druida-chefe entrou apoiado no bas­tão. A sua barba prateada brilhava em contraste com a lã creme da túnica.

— Está na hora, minha filha — disse Lugovalus suavemente e Elin pôs a taça negra nas mãos de Helve. Esta respirou fundo e bebeu, estremeceu uma única vez e engoliu tudo até ao fim. Elin e Belina seguraram-na pelos cotovelos e escoltaram-na até à padiola que aguardava no exterior. Quando Lhiannon começou a segui-los sentiu a vibração dos tambores através da planta dos pés, como se o coração da terra marcasse o ritmo do festival.

Para ocidente o céu estava de um azul translúcido, enquanto que por cima deles tinha o mesmo tom a- zul-escuro dos mantos das sacerdotisas. Uma grande mul­tidão reunira-se em frente do bosque sagrado. Helve cambaleou quando a sentaram no banco de três pés e, por um instante, Lhiannon receou que ela tombasse, mas antes que alguém se chegasse ao pé, ela endireitou-se pa­recendo ficar mais alta. Lhiannon sentiu uma brisa quente com um aroma de flores que nenhum jardim terreno po­deria produzir e percebeu que a Deusa estava presente.

Aliviada, puxou Coventa para trás, para junto das outras e descontraiu-se enquanto se juntavam aos ritmos familiares do ritual. Tinha de reconhecer que Helve era uma vidente poderosa.

Do seu lugar, por trás do assento principal, conse­guia sentir a aura da mulher a expandir-se enquanto esta mergulhava mais profundamente no transe e erguia as suas próprias barreiras para se proteger a si própria.

A primeira pergunta foi feita por Lugovalus e era, tal como seria de esperar, sobre as perspectivas de uma boa colheita. Ouviu-se um murmúrio de satisfação quando a vidente falou de céus solarengos e de campos dourados de grãos maduros. O ar em torno dela começa­va a brilhar. Lhiannon sorriu. Mona era um dos celeiros da Britânia — seria muito mau se a colheita estivesse ameaçada. A seu lado Coventa cambaleou, cantarolando baixinho e Lhiannon apertou-lhe a mão com força.

Agarra-te à terra, filha — murmurou enfatica­mente. — Só a vidente é que deve atravessar o portão da profecia. — Coventa deu um soluço e ficou quieta, mas manteve-se instável enquanto Lugovalus falava nova­mente.

Na Gália as Legiões de Roma pusera um jugo de ferro no pescoço do nosso povo e agora o imperador deles baniu a Ordem dos druidas das suas terras. Diz-nos então, vidente, o que o futuro nos reserva aqui na Britâ­nia?

Fez-se silêncio como se não apenas o Druida Che­fe, mas toda a Britânia, aguardasse a resposta.

As flores na grinalda de Helve começaram a tremer e Lhiannon sentiu Coventa estremecer por contágio. Uma vez mais amaldiçoou o orgulho de Helve. A criança esta­va a ser apanhada na visão e não tinha quaisquer defesas contra ela.

Vejo remos que se erguem e mergulham como asas nas águas... — murmurou Helve. — Quando os gansos partem para Norte, chegam na Primavera... três grandes bandos de navios alados atravessando o mar...

Quando é que eles virão, oh sábia? — pergun­tou Lugovalus ansiosamente. — E onde?

Onde os penhascos brancos se erguem e as a­reias brancas brilham — foi a resposta —, quando o pir- liteiro estiver branco de flores.

Era sabido que o tempo era algo muito difícil de circunscrever na profecia, pensou Lhiannon quando se ergueu um murmúrio apreensivo entre a multidão. Mas o mais cedo que tal poderia acontecer seria no ano seguinte. Reunir um tal exército levaria tempo e, apesar de os drui­das terem sido expulsos da Gália, a Ordem tinha muitos agentes do outro lado do mar. Certamente que quando a invasão estivesse a ser planeada eles saberiam. Pôs um braço por cima de Coventa puxando-a contra si e rezan­do para que Helve terminasse rapidamente. Mas o Drui- da-Chefe queria saber mais.

E depois o que acontece? Onde estão os nossos exércitos? — perguntou.

Os Cristas Vermelhas marcham para ocidente e ninguém se lhes opõe. Vejo um rio... — O gemido de Helve foi ecoado por um vago gemido de Coventa. O brilho em torno dela adensou-se, transformando-se numa aura brilhante. Lhiannon abanou a cabeça quando uma visão ameaçou a sua consciência, exércitos envolvidos em combate e cadáveres descendo o rio.

O rio fica vermelho... vermelho... transforma-se num rio de sangue que cobre toda a terra! — O grito de Helve foi o crocitar de um corvo. O grito fraco de Co- venta juntou-se-lhe numa harmonia assustadora. Concen­trados em Helve, os sacerdotes pareceram não reparar, mas as sacerdotisas viraram-se alarmadas.

— Leva-a daqui para fora! — disse Belina ao ou­vido de Lhiannon.

Os membros de Coventa estremeciam. Com a força do desespero Lhiannon ergueu a rapariga e foi, aos tropeções, para o outro lado das árvores. Atrás de si con­seguia ouvir os uivos de Helve e os murmúrios de Lugo- valus enquanto este tentava controlar a torrente de visões. Os druidas teriam mais perguntas sobre os Romanos, mas Lhiannon não precisava de entrar em transe para prever que não as fariam num festival público.

Ofegante, encostou-se a uma árvore. Ficou tensa quando uma sombra apareceu a seu lado e depois des­contraiu-se ao reconhecer

Boudica. Coventa ficara inerte, ainda a murmurar. Juntas levaram-na através do arvoredo de regresso à Casa dos Curandeiros.

 

Ela vai ficar bem? — Boudica desviou os olhos do rosto imóvel da amiga para as feições tensa da sacer­dotisa, alternadamente iluminadas e ensombradas pelas chamas tremeluzentes da pequena fogueira. Coventa a­calmara-se assim que a tinham afastado do bosque e ago­ra jazia como alguém mergulhado num sono profundo. Inclinou-se para a frente pensando em que sonho vague­aria agora Coventa. — Achas que devíamos acordá-la?

E melhor não — respondeu Lhiannon. — E freqüente as pessoas recearem perderem-se no transe, mas se não se consegue recuperar a consciência então o melhor é cair num sono normal. A mente de Coventa reorganizar-se-á antes de ela voltar a acordar. Nós só po­demos ficar a vigiá-la. Se ela acordar demasiado cedo uma parte do seu espírito pode ficar perdida nos sonhos e será muito difícil recuperá-lo novamente.

Mas tu fá-lo-ias, não é... — Não era bem uma pergunta. — Ou a Helve? — Os sons do festival eram como vagas distantes nas praias... podiam muito bem es­tar sozinhas no mundo.

Lhiannon olhou-a surpreendida e Boudica não desviou o olhar. Com a exceção de Coventa, durante um ano recusara todas as amizades, especialmente a de Lhi- annon, receando a sua condescendência ou, pior ainda, a sua piedade. Lhiannon era tão bela, que poderia ela que­rer de uma rapariga desajeitada e cega de espírito? Mas naquela noite estavam unidas por uma necessidade co­mum e por um medo comum. Fora Boudica quem repa­rara que Coventa estava em dificuldades. Naquela noite podia encarar a professora de igual para igual e atrever-se a interrogar-se sobre o que estaria por detrás da expressão serena que a sacerdotisa exibia perante o mundo.

Oh, sim. Não deves subestimar as suas capaci­dades. E muito provável que suceda a Mearan como alta sacerdotisa.

 

Vindos do exterior ouviram os gritos de alegria que saudavam o acender das fogueiras de Beltane.

Tenho dificuldade em gostar dela... — disse Boudica. Lhiannon não disse nada, mas apertou os lábios e a rapariga percebeu o que a sacerdotisa era demasiado leal para dizer. — Ela seduz todos os homens que encon­tra, mas não dá o seu amor a nenhum.

Ela tem que se manter pura para servir o Orá­culo — disse Lhiannon num tom neutro. — Quando a Mearan adoeceu foi uma sorte ter outra sacerdotisa apta para fazê-lo.

Tu podias fazê-lo... — disse Boudica acalora­damente e reparou no rubor comprometedor que cobriu as faces de Lhiannon. — E por isso que estás aqui em vez de andares a dançar à volta da fogueira? — reparara na forma como Lhiannon e Ardanos se olhavam quando pensavam que ninguém os estava a ver.

Estou aqui porque a Coventa precisa de mim! — ripostou a sacerdotisa e, daquela vez, a sua resposta foi suficientemente brusca para avisar Boudica de que era melhor calar-se.

Não compreendo toda essa ênfase na virginda­de — disse ela por fim.

Para te dizer a verdade — disse Lhiannon se­camente —, neste momento eu também não!

Boudica sorriu, descobrindo que era surpreenden­temente agradável perceber que tinha sido perdoada. — Não gosto da idéia de andar às ordens de um marido, mas gostava de ter filhos. A Mearan sempre pareceu como uma mãe para esta comunidade. Estranho que não tenha filhos.

No passado era freqüente a alta sacerdotisa ter filhos e outra mulher servir como oráculo — respondeu Lhiannon.

Mas isso é assim tão importante? — perguntou Boudica. — Como é que eles se arranjam em Roma?

Os Romanos não têm videntes — respondeu Lhiannon obviamente aliviada por a conversa ter passado para assuntos mais neutros. — Visitam os oráculos de Hellas, mas quando a Sibilia Ciméria ofereceu os livros da profecia ao seu último rei, este recusou duas vezes e ela queimou os seis livros antes de os anciãos tribais insisti­rem para que ele comprasse os últimos três... pelo mesmo preço que ela pedira originalmente pelos nove! — Ambas as mulheres se riram. — Agora consultam presságios ou estudam as poucas linhas que restaram, ou fazem pere­grinações a oráculos doutras terras.

Ouvi dizer que há um Oráculo em Delfos. E uma virgem?

E o que se diz. A pitonisa é uma donzela inex­periente, embora conste que noutros tempos escolhiam mulheres mais velhas que tinham criado as suas famílias.

Mas nenhuma que tenha marido ou amante... — observou Boudica.

Lhiannon suspirou. — Existem outros tipos de adivinhação que estão ao alcance de uma mulher casada. Ler profecias não requer o mesmo tipo de transe. Ou até profetizar de improviso ou em resposta a uma pergunta repentina, como fazem em Eriu. Mas o rito do so- no-do-boi, em que o druida adivinha o nome do rei legí­timo, requer que o sacerdote se prepare com orações e je­juns e, para se sentar no banco de três pés, é necessário um abandono ainda mais profundo para o qual todos os canais têm que estar desimpedidos. — Suspirou.

E tu queres fazê-lo... — disse então Boudica.

Sim. As visões chamam-me tal como chamam a Coventa, mas eu sei como resistir-lhes.

Sobre o crepitar do fogo conseguiam ouvir as flau­tas e o grito repentino quando um par afortunado saltava por cima das chamas. Lhiannon virou-se, os olhos trans­bordantes de lágrimas contidas.

Tenho de lhes resistir... — disse então. — A Helve é a preferida dos sacerdotes e eu nunca me sentarei naquela cadeira enquanto ela cá estiver.

Então procura aquilo que podes ter... — dis­se-lhe Boudica. — A Coventa só precisa de uma guardiã. Se alguém está à tua espera — disse com muito tato —, vai para as fogueiras. Eu fico aqui de vigia.

Havia alguém, mas suponho que já não deve estar à minha espera — disse a sacerdotisa baixinho, com a cabeça curvada e o rosto oculto por uma cortina de ca­belos pálidos. — Em tempos pensei que a Deusa me ti­nha chamado para servir como oráculo, mas agora essa via parece estar bloqueada. Estou impedida de avançar, vire-me eu para que lado me virar!

Boudica ficou a olhar para ela, abalada, ao ver que até mesmo uma sacerdotisa com votos podia ser ator­mentada pela dúvida como ela própria fora.

Como é que conheces a vontade da Senhora?

exclamou. — Ela fala contigo?

Lhiannon ergueu os olhos com um grande suspiro.

Às vezes... embora habitualmente eu esteja demasiado concentrada no meu próprio sofrimento para a ouvir nas ocasiões em que mais desejava ouvi-La.

Como agora... pensou Boudica.

As vezes Ela fala comigo através dos lábios de terceiros... — Lhiannon conseguiu um sorriso triste —, como me parece que está a falar através de ti agora. Uma ou duas vezes falou comigo em voz alta, quando se apo­derou do corpo da Senhora Mearan durante um ritual e por vezes já A ouvi falar no silêncio da minha alma. As vezes só sabemos quais são as nossas escolhas depois de as fazermos. Pensei que para obter o amor teria que ab­dicar do poder, mas em vez disso parece-me que troquei o amor pelo dever.

Ou talvez pela amizade? — perguntou Boudica apercebendo-se finalmente, agora que dava por si a baixar as barreiras que a tinham mantido solitária naquele lugar, do quão sozinha se sentira.

Sim, irmãzinha... talvez tenha sido isso o que fiz. — Lhiannon conseguiu sorrir.


 

Numa tarde quente imediatamente antes do festi­val de Lugos,

O som da carynx[2] de bronze ecoou pelos campos. Os reis, que o druida-chefe convocara para aconselhar relativamente ao destino da Britânia, estavam finalmente a chegar. Boudica correu para a Casa das Donzelas para mudar de roupa. Havia mais de um ano que o seu mundo se limitava à comunidade da ilha. Que lhes podia dizer? Alguns dos que conhecera em Camulodunon se lembraria dela?

O seu segundo Verão na Ilha dos druidas fora tão abundante como Helve prometera. A meio do Verão as hastes da cevada já se curvavam ao peso dos grãos e os carneiros estavam gordos graças aos pastos verdejantes. Mas para aqueles que tinham ouvido as previsões do o­ráculo as bênçãos da estação eram um mau presságio, pois se Helve acertara nas previsões das colheitas, era ca­paz de também ter razão no que dizia respeito à invasão romana.

Boudica enfiou rapidamente a túnica branca pela cabeça e passou o pente pelos cabelos espessos. Brenna e Morfad já estavam a pôr nas cabeças as coroas de marga­ridas. Agarrou na sua coroa e apressou-se no encalço das outras pela estrada abaixo que levava de Oakhalls até à praia.

Enquanto o coro de mancebos e donzelas se for­mava atrás dos druidas mais velhos e das sacerdotisas, uma barca avançava na direção da ilha sobre as ondas azuis. Na parte mais estreita do canal os penhascos er- guiam-se, abruptos, de ambos os lados. Os barcos atra­cavam mais abaixo no local onde havia uma pequena praia estreita entre os penhascos e os bancos de areia. A água estava coberta por bruma e na barca só conseguia distinguir as cores vivas da roupa e o brilho do ouro. Se­guiu-se outra embarcação; avistou as formas de cavalos. Sem dúvida que o resto da comitiva tinha sido deixado no acampamento na outra margem.

O druida-chefe enviara a convocatória a todas as tribos do Sul. Obedeceriam? Ninguém em Oakhalls pare­cia duvidar disso, mas se Cunobelin, com toda a sua ca­pacidade ardilosa, só conseguira submeter os Trinovantes e os Catuvelannis, seria o próprio Lugovalus capaz de impor a unidade a tribos que eram inimigas desde os tempos em que os seus antepassados tinham vindo para aquelas terras?

Quando a barca alcançou o meio do rio pareceu perder o impulso como se tivesse encontrado uma qual­quer barreira. Boudica recordava-se daquele momento na sua própria viagem quando, apesar de exausta e ignorante, sentira a pressão da parede invisível que protegia Mona.

Quem se aproxima da ilha sagrada? — A voz de Lugovalus ecoou através das águas.

Os reis da Britânia vieram aconselhar-se com o Sábio — veio a resposta abafada por algo mais do que a distância.

Passem, então, de acordo com a vontade dos deuses poderosos. .. — gritou o druida-chefe e os sacer­dotes e as sacerdotisas começaram a cantar por trás dele. Não houvera um coro de druidas para dar as boas vindas à caravana que trouxera Boudica, apenas dois sacerdotes e uma sacerdotisa. Mas tinha sentido um arrepio esquisito quando as suas vozes tinham entoado feitiço. Agora es­tavam presentes doze sacerdotes e sacerdotisas e o drui- da-chefe era o décimo terceiro na sua frente. O canto vi­brou através dos seus ossos.

Os druidas estavam a dar uma nova forma à rela­ção entre o céu e o mar. Por um instante essa vibração juntou-se à sua; Boudica viu o brilho de cada partícula e compreendeu a que é que os seus professores se referiam quando falavam na harmonia de todas as coisas. Quando conseguiu concentrar-se novamente viu claramente as duas barcas e os passageiros. Mas a outra margem, por trás deles, continuava oculta por uma névoa dourada. Os convidados tinham passado essa barreira.

Boudica reconheceu imediatamente os dois filhos de Cunobelin: Caratac, magro e de cabelos vermelhos, que assumira o controlo do reino Cantiaci e Togodum- nos, mais majestoso desde que assumira a posição do seu pai, e viu também dois outros homens que não conhecia. Vislumbrou um outro homem por trás de Togodumnos, alto e de cabelos claros e bigode. Ergueu uma sobrance­lha quando se apercebeu de que era Prasutagos, irmão do rei iceno do Norte.

À medida que a barca se aproximava de terra, os mancebos e as donzelas começaram a cantar.

Foi à terra dos homens dotados que viestes, Foi à terra das mulheres sábias que viestes, Foi à terra das belas colheitas que vies­tes, E à terra da canção,

Vós que vos sentais no assento dos heróis, Vós que vos sentais no assento do rei, Vós que dais ouvidos aos bons conselhos, Sede bem-vindos aqui...

 

— Se tanto Helve como a Senhora Mearan previ­ram a vitória romana, então para que nos chamastes aqui? — perguntou o rei Togodumnos. Usava uma barba curta o que era pouco usual entre os mais jovens. — Estais a aconselhar-nos a oferecer as nossas gargantas ao lobo romano sem resistir?

Ouviu-se um rugido entre os outros chefes e Bou­dica, que estava a encher a taça dourada, deteve-se com esta na mão. Os reis já tinham passado meio-dia a discutir se se devia dar crédito às visões. Por aquele andar, decidir o que fazer relativamente ao que estas previam, eram ca­paz de levar até à lua cheia seguinte.

Estou disposto a morrer em combate — acres­centou Caratac —, mas preferia não saber que estou condenado mesmo antes de ter começado! —Ao incli­nar-se para diante o fogo acendeu mais uma labareda no seu cabelo vermelho. Não tinha uma figura tão majestosa como a do irmão mas, embora falasse sempre respeito­samente de Togodumnos e se lhe dirigisse também com respeito, Boudica era de opinião que, dos dois, era ele quem tinha, senão mais inteligência, pelo menos mais e­nergia.

Para alojar os convidados os druidas tinham repa­rado as cabanas do prado onde costumavam fazer os fes­tivais e tinham removido as proteções laterais, feitas com ramos, do comprido salão de festas de forma a deixar en­trar luz e ar durante as deliberações. Na cova central es­tava acesa uma fogueira, fornecendo luz e calor bem co­mo testemunho aos juramentos. Havia também vários recipientes de madeira com aros de bronze cheios de cer­veja para lubrificar os debates. Boudica, que vivera numa casa real, era uma escolha óbvia para passar a taça entre os presentes. Não tinha a certeza se deveria considerar aquilo um privilégio, mas pelo menos os deveres eram claros.

Se a condenação fosse certa acham que os teria chamado aqui? — respondeu o druida-chefe. — O que prevemos é aquilo que pode vir a acontecer se as coisas continuarem a decorrer da forma inicial. Mas o destino é como um rio, muda constantemente. A adição de um novo afluente pode originar uma cheia; um seixo, ou seis... — olhou para os homens na sua frente com um sorriso irônico — podem alterar o curso das águas. Não estamos condenados à partida, estamos, isso sim, avisa­dos.

A forma mais fácil de evitar o derramamento de sangue seria receber bem os Romanos quando estes vie­rem... — observou Maglorios dos Durotriges. As suas terras, recordou Boudica, incluíam o País do Verão e a Ilha de Avalon.

Se fizermos tratados — continuou ele —, eles não terão de nos conquistar. Deixem que o imperador nos chame reis-clientes. Ele estará em Roma e nós esta­remos aqui, gozando os benefícios do comércio romano.

E a pagar impostos romanos e a enviar os nos­sos guerreiros para os confins da terra para travar as suas batalhas — ripostou Caratac.

O comércio romano pode constituir uma ame­aça tão perigosa como os exércitos romanos — disse len­tamente o rei Togodumnos. — O meu pai conservou a sua liberdade mas, quando morreu, em muitas coisas já era mais Romano do que Catuvellauni. Eu cresci habitu­ado aos seus luxos, mas começo a temê-los. Se continu­armos a comerciar com eles, ainda assim mudaremos, mas lentamente. Se eles nos governarem, a próxima gera­ção de Bretões falará Latim e sacrificará aos deuses ro­manos.

E os druidas e a sua sabedoria desaparecerão desta terra... pensou Boudica.

Se decidirmos lutar, achais mesmo que pode­remos vencer? — perguntou então o rei Maglorios dos Belgas. Era um homem mais velho, a ficar careca mas ainda forte, cujas terras ficavam entre as dos Durotriges e as dos Atrébates. Acenou e Boudica aproximou-se dele com a taça de cerveja com a elegância que adquirira no salão de Cunobelin. Ele lançou-lhe um olhar apreciativo e ela esquivou-se a uma palmadinha mais do que afetuosa e foi encher novamente a taça.

Se vos juntardes — respondeu a alta sacerdotisa —, acredito que podereis fazê-los retirar, tal como acon­teceu com César há cem anos, por mais que ele se tenha vangloriado das suas conquistas. — Estava com um ar cansado. Boudica ouvira dizer que, na sua visão, Mearan previra ainda mais derramamento de sangue do que Hel­ve.

Ficarei muito satisfeito por dar as mãos a todos os que aqui estão — disse Tancoric —, mas então e os que não estão? Já reparei que os Regni recusaram o con­vite.

Pode haver mais do que uma razão para isso ter acontecido.. . — disse Mearan.

Talvez tenham ouvido dizer que os filhos de Cunobelin estariam aqui... — disse Maglorios e os outros riram-se. As terras dos Regni faziam fronteira, a norte, com os territórios governados por Togodumnos e, a les­te, com as terras dos Cantiaci de que Caratac era agora rei.

E talvez os Atrébates tenham ouvido dizer que tu estarias aqui! — retorquiu Togodumnos. — Afinal são teus vizinhos.

O druida-chefe abanou a cabeça. — Não os con­videi. O rei Veric tem um tratado com os Romanos. En­viou o neto, Cigidumnus, para ser criado em casa do Im­perador e não se atreveria a virar-se contra eles mesmo que o desejasse.

A ilha de Vectis tem um porto muito tentador. Os Romanos poderiam marchar direitinhos ao meio da Britânia através das terras dos Atrébates. Teremos que fazer alguma coisa relativamente ao Veric... — disse Ca- ratac lentamente. Olhou para o irmão e Boudica estre­meceu.

Os filhos de Cunobelin tinham herdado a ambição do pai de unificar a Britânia. A ameaça da conquista ro­mana podia muito bem ser aquilo de que precisavam para ter sucesso.

E os homens da arte combaterão a nosso lado? — ouviu-se uma nova voz. Os outros viraram-se quando o príncipe Prasutagos se inclinou para a frente. Não fala­va com freqüência no conselho mas, quando o fazia, os homens escutavam as suas palavras.

Certamente... — disse o druida-chefe com um sorriso sombrio. — Os Romanos não nos darão a alter­nativa da rendição.

A nossa magia não é talvez tão potente como as lendas a fazem, mas temos algum poder sobre os ventos e o clima e a leitura de presságios. Enviaremos os nossos sacerdotes e sacerdotisas mais talentosas para marchar convosco quando chegar a hora da batalha.

O príncipe assentiu e Boudica aproximou-se para lhe oferecer a taça. Quando ergueu os olhos para a aceitar o seu sorriso era triste. O servo do Rei Caratac dissera-lhe que o príncipe perdera a mulher num parto. Era uma pe­na. Ele tinha um rosto agradável e ela achava que ele teria dado um pai bondoso para os pequenos.

Então espero que as vossas videntes nos pos­sam dizer quando será a invasão. Será difícil reunir um exército e mais difícil ainda mantê-lo unido... — disse o Rei Maglorios.

Boudica passou a taça em torno do círculo e a dis­cussão sobre guerreiros e abastecimentos e estratégias continuou.

 

Por muito que Lhiannon gostasse de Oakhalls, às vezes a sua atmosfera de dedicação concentrada podia tornar-se opressiva, especialmente agora que a presença de estranhos de sangue real lhe recordava de forma tão intensa a existência de um outro mundo para lá da ilha dos druidas. Recebera a honra de ser escolhida para a­companhar os reis quando estes fizessem os seus sacrifí­cios no Lago Negro, se bem que não tivesse a certeza se Mearan queria a sua ajuda como sacerdotisa ou como chaperon para Boudica, que caminhava na sua frente.

Tinham partido naquela manhã, atravessando pe­quenos bosques e campos ceifados onde os corvos pro­curavam grãos caídos por entre a palha e levantavam vôo num alarme ruidoso. Fora mesmo uma colheita abun­dante e, nas estações seguintes, o grão agora armazenado nos subterrâneos era capaz de ser necessário para alimen­tar gentes cujos campos fossem destruídos pela guerra.

Mas os campos de Mona, se bem que férteis, não cobriam toda a ilha. A algumas milhas para o interior as terras férteis do lado leste davam lugar a uma área panta­nosa que partia da costa sul e se estendia até meio da ilha. Quando Lhiannon inspirou profundamente o ar cheiroso a vegetação e com vestígios do sal marinho, o voo de uma gaivota atraiu-lhe o olhar para o outro lado dos pân­tanos. Havia qualquer coisa a mexer-se no meio dos jun­cos. Reconheceu o andar imponente de uma garça, as penas cinzentas tingidas de azul à luz do Sol. Um bando de patos e de andorinhas-do-mar apareceu nas águas de­simpedidas e brilhava ao fundo, as penas despenteadas apontando para o céu enquanto mergulhavam. Os hu­manos não eram os únicos a encontrar ali boas colheitas. O vento puxou-lhe o véu quando o soltou, deixando que os bonitos cabelos esvoaçassem livres como os de Bou­dica. Naquela noite ambas teriam o cabelo todo embara­çado, mas poderiam ajudar-se mutuamente a penteá-los.

Lá da frente, de onde os reis caminhavam juntos, vinham os sons cavos das gargalhadas masculinas. Atrás deles ia o druida-chefe, flanqueado por Ardanos e por Cunitor, e o jovem Bendeigid conduzia a égua mansa que transportava Mearan. A alta sacerdotisa era a única a ca­valo. Naqueles tempos a dor na anca dificultava-lhe o caminhar. Lhiannon suspeitava de outras maleitas que a mulher mais velha escondia, mas nenhuma delas se atre­via a questioná-la.

Sob o olhar de Lhiannon, Ardanos ficou para trás para falar com Mearan. Esta abanou a cabeça e ele olhou para cima com uma expressão preocupada que partiu o coração a Lhiannon. Oh meu querido, é claro que ela está com dores, mas nunca o admitirá perante ti... Mas amou-o por ter tentado. Desde o encontro falhado nas fogueiras de Bel­tane que havia tensão entre eles. Ele dissera que compre­endia as razões que a tinham levado a não aparecer, mas ela vira a mágoa nos seus olhos e não se atrevia a tentar consolá-lo até ter a certeza daquilo que a Deusa queria dela.

Atrás de si ouviu as pancadas irregulares dos cas­cos e o tilintar dos arreios dos cavalos que transportavam as oferendas. A ilha tinha poucas estradas capazes de se­rem percorridas por carroças e havia locais que nem se­quer podiam ser atravessadas por cavalos carregados. O caminho que os levava ao lago sacrificial era comprido, mas num dia solarengo e bonito como aquele, Lhiannon não se importava nada.

Passava pouco do meio-dia quando atravessaram o ribeiro que alimentava os pântanos e viraram para oci­dente. As florestas espessas foram desaparecendo e dan­do lugar a arbustos agarrados a rochedos cinzentos dis­persos e a riachos ladeados por juncos que secavam as terras. Com o avançar do dia, Lhiannon desejou ter-se dedicado mais a atividades físicas e menos à meditação.

Olhou para Boudica, invejando a passada ágil e fácil da rapariga. Tinha dores nas costas e os pés feridos.

Quando o Sol começou a pôr-se, detiveram-se fi­nalmente numa gruta num local onde uma pedra alta marcava um caminho estreito que partia da estrada. O Sol estava a desaparecer por trás da montanha sagrada na sua frente, mas para a esquerda a terra descia em direção ao mar. Ainda mais próximo um pequeno lago refletia o céu translúcido.

Senta-te filha — disse Lhiannon encostando-se a um rochedo e esticando as pernas com um suspiro. — Cansa-me olhar para ti. — Lhiannon fez sinal a Boudica que subira ao rochedo para ter uma vista melhor e a rapa­riga desceu novamente.

Aquela é o lago sagrado? — perguntou, apon­tando para o sopé da colina.

Aquele é o lago a que chamamos Mãe — res­pondeu Lhiannon. — A Filha fica mais abaixo, na encos­ta protegida de olhares casuais. Procurá-la-emos, em je­jum, de madrugada.

Mas esta noite comemos, não comemos? — perguntou Bendi que se aproximara delas. Ardanos e Cu- nitor estavam a ajudar Mearan a descer do cavalo e a sen­tar-se num local coberto com as capas dobradas. Apesar de ter sorrido em agradecimento ela estava pálida.

Por vontade de Lugovalus não comeríamos — respondeu Lhiannon. — Mas até mesmo o druida-chefe não vai exigir um tal sacrifício aos reis. Consolem-se com a idéia da carne com que nos banquetearemos amanhã. Mas se vamos mesmo jantar hoje, então o melhor é dei­tarmos mãos à obra. — Pôs-se de pé e coxeou até à fo­gueira.

Alguns dos homens já tinham montado os pés de ferro forjado onde seria suspenso o caldeirão de bronze martelado e acendido o lume por baixo deste. Lhiannon ficou junto ao caldeirão esperando que o vapor se soltas­se da água. Quando viu as nuvens de vapor deitou lá para dentro um saco de cevada. Boudica equilibrou uma tábua entre duas pedras e começou a cortar vegetais.

O longo dia de Verão estava a chegar ao crepús­culo projetando sombras delicadas de rosa e ouro. O fer­vilhar do caldeirão misturava-se nos murmúrios de fim de tarde, que abafavam até mesmo as vozes dos homens. Três corvos apareceram a voar vindos da direção da ilha sagrada, as silhuetas elegantes claramente recortadas con­tra o céu luminoso.

Perdoem irmãos... desta vez não temos nada para vos dar... — gritou o Rei Tancoric. — Venham a­manhã e alimentar-vos-emos bem.

E quando os Romanos vierem far-vos-emos uma oferenda verdadeiramente valiosa... — acrescentou Caratac. As suas palavras foram sublinhadas pelas garga­lhadas dos homens.

Os corvos voavam em círculo sobre o acampa­mento como se estivessem a escutá-los. Lhiannon estre­meceu quando, com um último grito estridente eles se afastaram velozes.

Estás com frio? Posso ir buscar uma capa... — disse Boudica.

A sacerdotisa abanou a cabeça e mexeu o caldeirão mais uma vez. — Foram os pássaros — explicou. — Pe­dimos bênçãos aos deuses, mas eles podem ser terríveis, especialmente Cathubodva, o Corvo da Batalha, cujos pássaros...

O que é que ele quis dizer com oferenda ver­dadeiramente valiosa? — perguntou Bendi.

Referia-se aos cadáveres — disse Ardanos jun­tando-se a elas. — Após as batalhas os lobos e os corvos banqueteiam-se com os mortos. Sabes como ficam os bosques de carvalhos no Outono, quando as bolotas co- brem o chão? As bolotas são os frutos que os porcos comem, mas dizem que, no campo de batalha, as cabeças cortadas dos homens caídos em combate se parecem com bolotas e chamam-lhes os "frutos de Morrigan", a Gran­de Rainha a quem também chamamos Cathubodva...

Virou-se para Lhiannon. — A alta sacerdotisa está gelada. Tens alguma coisa que eu lhe possa dar?

Passa-me essa taça... a cevada ainda não está cozida, mas a água já tem o suficiente da sua essência para lhe fazer algum bem. — Lhiannon despejou caldo na taça e adicionou-lhe uma pitada de sal. — Toma Bendi... — virou-se para o rapaz. — Estás a aprender para ser cu­randeiro. As vezes a comida também é um remédio. Leva isto à Senhora e, quando ela terminar, pergunta-lhe se quer mais.

Morrigan gosta do derramamento de sangue? — perguntou Boudica depois de ele se afastar.

Ela chora... — disse Lhiannon baixinho. — Na noite antes da batalha, percorre o campo e grita de de­sespero. Aguarda na parte menos funda do rio e lava as roupas dos condenados. Implora-lhes que voltem para trás, mas eles nunca o fazem.

E depois, quando a batalha se inicia — disse Ardanos sombriamente —, concede a loucura que dá aos guerreiros a força dos heróis e permite-lhes que cometam atos de que nenhum homem seria capaz a sangue-frio. E por isso que os reis lhe fazem sacrifícios e pedem a vitó­ria.

Ela é boa ou má? — perguntou Boudica.

As duas coisas — disse Lhiannon tentando sor­rir. — Quando faz amor com o Deus Bom junto ao rio traz a vida à terra. Ele compensa a sua destruição e fá-la sorrir de novo.

Vê as coisas desta maneira — disse Ardanos. — Uma tempestade é boa ou má?

Acho que é boa quando traz a chuva de que precisamos e má quando provoca cheias que nos arrastam as casas.

Nem sempre sabemos porque é que a chuva cai — acrescentou Ardanos —, ou qual a razão de os deuses agirem como agem. As pessoas chamam sábios aos drui­das, mas já deves ter percebido que nos deviam chamar aqueles que procuram a sabedoria. Estudamos o mundo visível à nossa volta e tentamos alcançar o nosso mundo interior. Quando os compreendermos verdadeiramente seremos como deuses, capazes de comandar os seus po­deres, pois mover-nos-emos no interior da sua harmonia.

E isto que eu amo nele, pensou Lhiannon, não apenas do toque da sua mão mas também do toque da sua alma.

E, como se tivesse sentido o toque dela, Ardanos

olhou-a e a ferida que os separava sarou.

 

Era a hora cinzenta imediatamente antes do ama­nhecer. Levantaram-se em silêncio, os mantos brancos dos druidas fantasmagóricos àquela luz. Até mesmo os reis se moviam em silêncio enquanto carregavam as ofe­rendas nos cavalos. Boudica esfregou os olhos para es­pantar o sono e apertou mais a capa aos ombros, enco- lhendo-se quando o movimentos contraiu músculos que ela não sabia que estavam doridos. O druida-chefe ia à frente pelo caminho abaixo. O seu toucado de penas de ganso e as pregas rígidas da capa de pele de cavalo fazi­am-no parecer tão contorcido como os penedos que se erguiam, como guardiães monstruosos, contra o céu que se ia iluminando. Uma tocha brilhava na sua mão.

Atrás dele ia a alta sacerdotisa, apoiada em Arda- nos e em Lhiannon, a figura frágil envolta em vestes es­curas onde brilhava, ocasionalmente, a prata. Acompa- nhando cada movimento, ouvia-se o som tênue das cam­painhas de prata atadas ao ramo na sua mão.

Quando iam a sair do acampamento um grito a­gudo rompeu o silêncio. Os corvos estavam novamente de volta, volteando no céu cada vez mais luminoso.

Lembram-se do banquete que os reis lhes prometeram, pen­sou Boudica. Subitamente as formas dos rochedos e das árvores pareceram insubstanciais, como se não passassem de um véu que, a qualquer instante, poderia ser aberto para revelar uma realidade mais luminosa e ela percebeu a razão de o sacrifício ser feito obrigatoriamente naquele limiar temporal entre a noite e o dia.

A meio da encosta o terreno tornava-se mais pla­no. Não conseguia ver mais para a frente. Os reis descar­regaram os cavalos e levaram-nos de regresso ao topo da colina com exceção de um, um garanhão cinzento que não transportara qualquer fardo para além do seu pelo brilhante. Ataram-no à árvore espinhosa que crescia junto ao parapeito. Naquela luz incerta, mal conseguia distin­guir três formas escuras entre os ramos. Os corvos. A espera...

A alta sacerdotisa e Lhiannon avançaram e ficaram de frente para o druida-chefe que estava à beira do pe­nhasco. Lá em baixo as águas brilhavam negras e tão i­móveis que as ondas provocadas pelas gaivotas a nadar formavam pequenas espirais à superfície.

Pelos céus que nos dão a vida e o ar — cantou Mearan. — Pelas águas em cujo movimento todas as coi­sas crescem e mudam; pela terra sólida sobre a qual nos firmamos... oh espíritos que habitais este local, pedimos a vossa bênção.

Pelo fogo que ilumina o espírito; pelo lago em que buscamos o poder, pela árvore que liga a terra aos céus... — Lugovalus ergueu bem alto a sua tocha —, in­vocamos o testemunho dos Seres Brilhantes.

Lhiannon avançou — Por todas as esperanças le­vadas pelo vento; por todas as memórias que jazem no fundo do lago; pelo saber atual nos campos que conhe­cemos; invocamos a sabedoria dos nossos pais e das nos­sas mães que vieram antes de nós.

Escutai-nos! Abençoai-nos! Sede conosco ago­ra! — gritaram em uníssono. O garanhão puxou nervo­samente a corda e as gaivotas, assustadas, irromperam pelos ares.

O céu iluminara-se e ficara de um azul translúcido e pálido. O Sol continuava escondido por trás das mon­tanhas no continente, mas a sua chegada era proclamada por uma radiância crescente. Togodumnos empunhou uma espada comprida e a luz cada vez mais intensa refle­tiu-se na sua lâmina. Os druidas ensinavam que havia dois tipos de sacrifício, aqueles que eram partilhados para unir os homens e os deuses numa única comunidade e aqueles que eram quebrados e inutilizados pela humanidade.

Conquistamos estas armas aos nossos inimigos nas guerras entre as tribos. Ao destruir esta lâmina — assentou o calcanhar sobre a ponta da espada, fez força e o metal gemeu e cedeu —, termino com a inimizade entre nós. Deuses do nosso povo aceitai este sacrifício! — A espada rodopiou no ar quando ele a lançou, a curva dis­torcida recortando-se nitidamente contra o céu pálido, e desapareceu ruidosamente nas águas em baixo.

Caratac agarrou na haste de uma lança e quebrou a sua ponta contra a pedra. — Não mais esta lança beberá sangue celta! Que a Senhora dos Corvos possa aceitar este sacrifício!

Se ao menos, pensou Boudica, os ódios entre as tribos pudessem ser extintos tão facilmente! Mas talvez a ameaça romana os assustasse o suficiente para que pu­sessem de lado velhas inimizades. Um a um os reis avan­çaram com espadas e lanças, escudos com ornamentos de bronze esculpidos em graciosas espirais triplas, pedaços de arreios de cavalos e aparelhagens para os carros de junco que eram a mais temível arma das tribos. Eram o­bras de arte, não apenas utensílios, um tesouro que pode­ria suscitar apoios entre as gentes, mas poderia não haver gentes se não tivessem os favores dos deuses. À medida que a pilha ia diminuindo, Boudica apalpou o punhal pensando se deveria atirá-lo também. Mas, embora fosse de sangue real, ela própria não tinha nem posição nem poder. Porque haveria de estar a incomodar os deuses, especialmente neste ritual?

— Seres Sagrados — pensou então —, se me disserdes o que Vos agradaria, farei o que puder para celebrar o sacrifício. Teve uma súbita sensação de vertigem, como se a terra se tivesse movido sob os seus pés. Por instantes sentiu difi­culdade em respirar. Boudica sempre acreditara que os deuses ouviam, mas subitamente soube que fora ouvida e estremeceu, pensando se teria sido sensato fazer uma promessa tão arrojada.

Entretanto as ondas provocadas pelo lançamento do último escudo amolgado desapareceram. Uma brisa trouxe o odor da fogueira de que Bendigeid ficara a cui­dar. O céu já estava brilhante e as arestas irregulares do horizonte, a leste, debruadas de ouro. Ardanos e Cunitor despiram os mantos brancos e pousaram-nos no chão, depois foram até à árvore espinhosa e desataram o gara­nhão.

Os Icenos eram grandes amantes de cavalos. Ela sentira a falta dos bichos durante os últimos três anos. Aquele era um belo animal, cujo pêlo e olhos brilhantes revelavam a excelente saúde. Mas quando olhou para o cavalo sentiu algo mais. Já vira muitas vezes animais a serem abatidos para servirem de alimento ou sacrificados como oferendas, mas naquele momento tudo — o ani­mal, os humanos, as águas escuras por baixo do penhasco — pareceu subitamente mais real. Não — pensou então , o sacrifício torna tudo mais sagrado...

O animal bateu nervosamente os cascos quando um dos corvos soltou um grito rouco. Desta vez ninguém disse uma piada. Sentiam todos que não só os pássaros, como os próprios deuses, estavam ansiosos pela oferen­da.

Enquanto os dois jovens druidas seguravam o ca­valo, Mearan andou lentamente à sua volta, moldando o ar em torno do seu corpo com o molho de campainhas de prata. As orelhas do garanhão dobravam-se nervosa­mente, seguindo o som.

— A cabeça deste cavalo é a madrugada! O seu olho é o Sol e o seu hálito é o vento — cantou Lugova- lus. — As suas costas são tão largas como a taça dos céus. O Sol ergue-se na sua testa e põe-se na tenda entre os seus quartos traseiros.

O ribombar grave da voz do druida-chefe parecia fazer vibrar a própria terra. Seriam as suas palavras ou a bênção das campainhas que faziam com que o ar em torno dele brilhasse? Era uma canção de transformação, a parte transformando-se no todo, a palavra da carne ofe­recida ao mundo dos espíritos.

O garanhão sobressaltou-se quando a brisa espe­vitou a chama da tocha. — Este cavalo é a terra e as es­trelas do céu. Este animal é o cavalo que viaja entre os mundos. Este cavalo é a oferenda.

Bendigeid estendeu a Ardanos a lâmina sacrificial. O metal brilhou quando este esticou o braço para cortar a garganta do bicho e o garanhão relinchou e ergueu-se nas patas traseiras, escoiceando o ar. Um dos cascos apanhou Ardanos nas costelas e a faca saiu-lhe, brilhante, das mãos e afundou-se no lago. Lhiannon gritou e correu para Ar­danos quando este tombou.

Os reis saltaram para o lado enquanto o cavalo le­vava Cunitor de rastos pelo chão, mas Prasutagos esqui­vou-se aos cascos e saltou para diante, agarrando a rédea, usando o seu peso enorme para imobilizar o animal.

Ele ficou sem fôlego — disse Lhiannon en­quanto Ardanos tentava respirar. Apalpou-lhe suavemen­te o tronco, mas quando chegou às costelas o homem gritou. — E ficou com algumas costelas partidas — a­crescentou. — Fica quieto, meu querido. Temos que te ligar antes de te poderes mexer.

O garanhão parou de se debater enquanto Prasu­tagos lhe falava, numa voz suave e constante como o murmúrio do vento. Só então, olhando para os outros, é que Boudica se apercebeu de quão terrível devia ser a­quele presságio.

Sacou da faca e rasgou a parte de baixo da túnica, de dentes cerrados, até o linho forte ceder e conseguir rasgar uma tira junto à bainha. — Usa isto... — ofereceu a Lhiannon.

Cunitor, traz cá o cavalo... — disse Lugovalus. — Temos de acabar o ritual.

Eu levo-o — disse Prasutagos. — Ele sente o medo do teu druida.

Bem, não era para admirar, pensou Boudica, de­pois de terem visto o que acontecera Ardanos. Mas não conseguiu evitar um impulso de orgulho. Os Icenos ti­nham fama, tanto pelo treino como pela criação de cava­los, e era evidente que Prasutagos era um mestre dessa arte.

O príncipe conduziu o animal novamente para junto do penhasco. Afagou o pescoço tenso, murmuran­do na orelha levantada até a cabeça nobre se baixar e o cavalo ficar imóvel. Ainda a murmurar, inclinou-se sobre o pescoço forte e tocou nos joelhos do animal até este ajoelhar e deitar-se.

Lugovalus tirou o toucado de penas e a rígida capa de pele de cavalo e pousou-os no chão.

Toma o meu punhal — Caratac estendeu-lhe uma lâmina brilhante. — Foi afiado recentemente.

Este cavalo é a oferenda... — disse o drui- da-chefe numa voz baixa. Movendo-se lentamente deu a volta ao animal e ajoelhou, mantendo a faca junto ao corpo até ao último momento e então, num movimento rápido e ágil, cortou-lhe a garganta.

O sangue jorrou num riacho brilhante. Por um instante o cavalo pareceu não perceber o que acontecera. Depois sobressaltou-se, mas Prasutagos mantinha todo o seu peso sobre o pescoço do animal, ainda a murmu­rar-lhe ao ouvido e a grande cabeça desfaleceu e o prín­cipe pousou-a, suavemente, no chão.

A luz repentina do Sol que se erguia, o mundo pa­receu ficar escarlate enquanto o sangue formava uma po­ça por baixo do corpo branco e corria num ribeiro ver­melho para a beira do penhasco. Boudica pestanejou, vendo o brilho da energia que rodeara o garanhão acom­panhar o sangue na direção do lago. Mas pareceu passar muito tempo antes de a força da vida se esvair por com­pleto e ficar ali, jacente, uma carcaça apenas.

Em silêncio, Cunitor e os outros homens desman­charam o animal, retirando o coração e o fígado e cor­tando grandes porções de carne dos quartos traseiros. Boudica ajudou a enfiar pedaços de carne em espetos de ferro e a suspendê-los por cima do fogo. A cabeça e as pernas foram deixadas ligadas à pele, que foi descida para junto da água e suspensa de um poste que, era evidente, já fora usado anteriormente para o mesmo fim. Quando acabaram, as entranhas estavam amontoadas junto à ár­vore espinhosa e o resto da carcaça foi lançado à água.

A calma da manhã foi estilhaçada pelos gritos tri­unfantes dos corvos que desciam para se apoderarem do seu quinhão do banquete. A bainha do manto do drui- da-chefe estava ensangüentada, e a parte da frente da tú­nica de Prasutagos, onde este aninhara a cabeça do cavalo moribundo, estava carmim de sangue. A náusea competia com a fome sob o efeito do odor da carne de cavalo as­sada que se erguia no ar.

Tudo é alimento para alguma coisa... pensou Boudica. — Que a minha morte possa ser igualmente valiosa quando o meu momento chegar. Mas estava absolutamente consciente de que todos quantos partilhavam o festim não só tinham feito o sacrifício como eram parte dele.


 

— A Helve não queria que me sentasse ao pé de ti... — disse Coventa. As dobras da capa debruada a pele de Boudica eram suficientemente amplas para cobrir am­bas enquanto esperavam pela chegada do banquete do meio do Inverno. — Mas não me importa que ela me ponha as orelhas quentes amanhã se esta noite me man­tiveres quente!

O Verão glorioso dera lugar a um Inverno mais frio e chuvoso do que qualquer um desde a chegada de Boudica àquela terra, ou talvez parecesse apenas sê-lo por as notícias serem más. Por cada tribo que concordara em juntar-se à aliança houvera uma que recusara.

O som da música fez virar a cabeça de Boudica. Ao fundo da lareira, biombos feitos com peles davam mais proteção aos assentos e mesas de jantar onde reina­vam os druidas mais importantes. O homem novo, Brangenos, entrara e estava a ajustar as cordas da harpa em forma de crescente. Fora um bardo da Ordem Druida da Gália que, apenas recentemente, alcançara o refúgio da ilha. Era alto e quase esquelético, de tão magro, com ma­deixas brancas nos cabelos negros. Era também um har- pista muito melhor do que Ardanos, que fora o melhor dos bardos da ilha até à sua chegada. Mas, mesmo quan­do sorria, se via a tristeza estampada nos seus olhos.

Quando estava a terminar a afinação houve movi­mento junto à porta. Era o druida-chefe que entrava. Em honra do festival usava uma manta tecida com sete cores e com franjas por cima da túnica branca. Atrás dele vi­nham os druidas mais importantes, seguidos por Ardanos e por Cunitor, e pelos restantes sacerdotes mais jovens.

Onde, pensou ela enquanto eles se acomodavam no topo, estariam as sacerdotisas?

A um sinal de Lugovalus, Brangenos levantou-se com a harpa aninhada na curva do braço.

O povo saudou o chefe dos grupos de guerreiros O rei dos homens que marchavam chamava as tribos para a guerra

Agora todos os gritos estão silenciados e o vento toca as harpas de ossos.

A harpa soltou acordes sonoros quando o druida passou os dedos pelas cordas. Ele vem da terra de Vercingeto- rix, lembrou-se Boudica. Pelo menos o único Gaulês que venceu César em batalha é recordado aqui.

Em toda a parte, nas terras celtas, era conhecida a história de Vercingetorix e de como este unira as tribos gaulesas, usando os fortes das colinas e as próprias coli­nas como bases para atacar as legiões de César. Mas no fim o imperador romano encurralara-o na Alésia e sub­metera-o pela fome.

O grande rei foi ter com o senhor das águias Depôs as armas para salvar os seus guerreiros O seu túmulo não tem nome e o vento toca a harpa de ossos. Mais uma vez o som suspirou nas cordas. Depois a harpa ficou silenciosa. O rei gaulês fora arrastado pelas ruas de Roma no triunfo de César e aprisionado, durante anos, num buraco na terra. Ninguém sabia como acabara por morrer. Aquela não era, definitivamente, uma canção muito alegre para o solstício. Porque seriam os derrota­dos a ter sempre as melhores canções?

Enquanto o bardo tocava, Mearan aparecera. Por um instante Boudica sentiu-se desapontada por ter per­dido a sua entrada, pois a alta sacerdotisa tomava habitu­almente as refeições na sua própria casa e a sua participa­ção nos festivais mais importantes estava rodeada de al­guma cerimônia. Mas nem mesmo a luz incerta da fo­gueira conseguia disfarçar a sua palidez. Talvez ela tivesse aproveitado a distração para tornar menos notado o fato de precisar de ajuda para se sentar.

Helve, pelo contrário, estava magnífica. A sacerdo­tisa sempre fora simpática para Boudica, mas isso devi­a-se mais ao fato de saber que esta era bem nascida do que a quaisquer sentimentos pessoais. A rapariga já vira aquele mesmo ar em filhos de reis ansiosos por herdar as honrarias dos seus pais. E vira-os depois, por vezes, quando a escolha para chefe recaíra sobre outro dos membros da família real. Não lhe parecia que Helve con­seguisse lidar bem com o desapontamento, mas pergun­tava-se como as restantes iriam lidar com Helve se as suas expectativas fossem satisfeitas.

As peles que cobriam a entrada foram mais uma vez afastadas e o cheiro maravilhoso de javali assado en­cheu a sala. Coroada com hera em honra da estação, a velha Elin abria a procissão. Havia taças de papas de aveia com frutos secos, travessas com tubérculos e cestos com salsichas e queijo. Dois dos rapazes mais velhos carrega­vam entre ambos uma prancha com pedaços de carne de porco que soltavam no ar espirais de vapor. As bocas encheram-se de água quando o druida-chefe ergueu as

mãos e começou a entoar uma bênção sobre a comida.

 

Boudica despejou o copo de madeira cheio de cer­veja e recostou-se com um suspiro. — Estava muito bom. E a primeira vez, em muitos dias, que me sinto quente por dentro e por fora.

— Tens a faces coradas por causa da cerveja... — comentou Coventa — ou é por causa do Rianor estar a olhar para ti?

Não está nada... — Boudica ergueu os olhos e viu que o rapaz interpretara o seu olhar como um convite e que vinha na direção delas com dois dos seus amigos.

—Acho que ele gosta de ti... — Coventa riu-se e gritou quando Boudica lhe deu um beliscão.

Apercebeu-se subitamente de que Rianor já não era um rapaz. Crescera muito durante os últimos meses e no seu queixo via-se a sombra de uma barba escura. Só quando comparado com guerreiros como aqueles que os tinham visitado no último Verão é que continuava a pa­recer uma criança.

Cheguem-se para lá meninas — disse com um sorriso. — Ou comeram tanto que já nem há espaço no banco? Não é justo estarem a tapar todo o calor que vem do fogo.

Estás a dizer que eu estou gorda? — protestou Boudica, mas já estava a chegar-se para o lado para que Rianor conseguisse sentar-se. Corou um pouco quando ele pôs o braço por cima dos seus ombros. O amigo dele, Albi, tentou fazer a mesma coisa e falhou, aterrando na palha aos seus pés onde os outros rapazes se lhe junta­ram, brigando na brincadeira como os cães do seu pai

costumavam fazer antes de se deitarem em frente ao fo­g°.

Na matilha havia uma hierarquia — e na matilha dos rapazes também. Rianor era um líder. Cloto também o era, mas desde a visita dos reis que muitos dos seus an­tigos seguidores o evitavam.

O que achas do nosso novo bardo? — pergun­tou Rianor.

Tem uns olhos tão tristes... — observou Co- venta com um suspiro.

Bem, a canção dele foi bastante triste — con­cordou Albi.

E devíamos aprender com ela — disse Cloto bruscamente. — Não podemos combater Roma. Vercin- getorix tentou e morreu e todos aqueles reis orgulhosos que cá vieram morrerão também.

César conquistou Vercingetorix e César está morto — objetou Rianor. — Este imperador que eles agora têm não é um guerreiro.

Nem tem de ser — disse Cloto sombriamente. — Tem generais que farão o trabalho por ele.

Achas então que devíamos cair por terra e dei­xá-los fazer o que entenderem? — exclamou Albi. A me­dida que as vozes se erguiam começaram a atrair a aten­ção dos outros. Boudica fez um gesto para que falassem mais baixo e, por instantes, calaram-se todos. Quando Cloto voltou a falar a sua voz soou intensa mas baixa.

Devíamos dar-lhes as boas-vindas e fazer tra­tados. Terão de nos tratar com justiça se estivermos sob a proteção das suas leis.

Como Veric... — disse Boudica. Cloto encolheu os ombros. Toda a gente sabia que ele era primo do rei Atrébate. Claro que tinha de estar de acordo com ele.

E, quando estivermos todos tão domados como as tribos da Gália, o que acontecerá? — murmurou Ria- nor. — Os nossos filhos crescerão a falar Latim e esque­cerão os nossos deuses.

Acho que isso não é justo — disse Albi lenta­mente.

Ouvi dizer que todos os povos do Império são livres de adorar os seus próprios deuses desde que hon­rem também os deuses de Roma.

Todos exceto os druidas... — disse Coventa su­bitamente. Os seus olhos estavam desfocados e começara a tremer.

Os druidas da Gália que não fugiram foram mortos. Boudica agarrou-a pelos braços e abanou-a ao de leve, fazendo-a concentrar-se no aqui e agora. Se ela ti­vesse um dos seus ataques teriam os sacerdotes em cima deles de certeza absoluta. Por instantes a rapariga ficou rígida nas suas mãos e depois descontraiu-se com um suspiro.

É verdade — disse então Rianor. — Nós, os druidas, não temos alternativa. Se os Romanos governa­rem a Britânia o povo poderá sobreviver, mas não serão mais Atrébates ou Brigantes ou Regni. — A sua voz er­gueu-se. — Pelos deuses, nós, as tribos, amamos tanto a nossa liberdade que nem sequer nos unimos como Bre­tões sob um único rei! Como é que achas que seria me­lhor sermos engolidos por Roma? — Olhou agressiva­mente para Cloto e o rapaz pôs-se de pé, com um salto, de punhos cerrados e a postos.

Quando Rianor se erguia rapidamente para o en­frentar, Ardanos apareceu repentinamente por trás deles agarrando os ombros dos rapazes com mãos fortes.

No que é que estão a pensar? — sussurrou ele com o cabelo ruivo a ficar em pé. — As vossas disputas profanam o festival! Graças à Deusa que a alta sacerdotisa e o druida-chefe já se foram embora.

Ficaram a olhar para ele de boca aberta. Que parte da discussão teria Ardanos ouvido? Boudica sabia que os druidas tinham as mesmas discussões que os seus jovens educandos. Mas não, tinha que o admitir, em frente de toda a comunidade durante um festival.

Ardanos soltou os rapazes. — Se podem lutar também podem trabalhar. O banquete já terminou. Des­pachem-se a limpar o salão.

 

Os deuses são muitos ou são só dois ou um? — Lugovalus inclinou-se para a frente com a barba branca a brilhar à luz do dia primaveril. Boudica esfregou os olhos e tentou prestar atenção. Preferiria andar atrás dos car­neiros ou a colher verduras para a panela ou qualquer ou­tro trabalho desde que se pudesse mexer.

A Lhiannon ensinou-nos que tudo isso é ver­dade... — disse Brenna dirigindo um sorriso ao mentor. — A todas as deusas, todas as que vemos como divinas e femininas, chamamos Deusa. Mas quando rezamos, Ela tem um ou outro rosto... Donzela ou Mãe ou Sábia ou Brigantia ou Cathubodva.

E nenhuma delas, pensou Boudica, parece querer falar

comigo.

A tudo o que é divino e masculino chamamos Deus. Invocamo-los como Senhor e Senhora no Belta­ne... — Brenna corou.

Tinha acabado de regressar das cerimônias que fa­ziam dela uma mulher adulta, na ilha de Avalon, e estava a certificar-se de que toda a gente ficava ciente de que planeava encontrar um amante nas fogueiras de Beltane.

A vossa professora ensinou-vos bem — disse o druida-chefe. Lhiannon inclinou a cabeça, mas pareceu não ficar muito feliz com o elogio. Ou talvez fosse por causa da referência a Beltane. Tentaria encontrar Ardanos naquele ano?

Então... — disse Lugovalus —, compreendem que os deuses são simultaneamente um e muitos. Hon­ramos o Único, mas há na realidade uns quantos que po­dem ter um toque desse poder. Fez uma pausa momen­tânea, com o rosto iluminado e Boudica sentiu-se abrup­tamente certa de que ele estivera na presença da Fonte de Tudo. Depois sorriu e virou-se novamente para eles.

Talvez saibamos mais quando estamos entre vidas, mas enquanto habitamos os corpos humanos e temos sentidos humanos, é aos muitos que rezamos e fazemos as nossas oferendas.

Rianor ergueu uma mão. — Meu senhor, a que deus deveremos rezar agora, que enfrentamos a guerra?

Que nome dás a esse poder na tua terra?

Os Trinovantes sacrificam a Camulos... — foi a resposta orgulhosa. — Camulodunon é o forte do deus da guerra.

Boudica assentiu, recordando o imponente círculo de carvalhos no campo que ficava a norte do forte e do santuário. No seu interior erguia-se uma pedra onde o deus fora esculpido, de pé entre duas árvores, com um toucado de folhas de carvalho.

Os outros alunos estavam a dizer outros nomes: Cocidios Vermelho no norte, Teutates entre os Catuvel- launi e Lenos para os Silures. Os Belgas sacrificavam a Olloudios e os Brigantes a Belutacadros. Entre o seu próprio povo invocavam Coroticos quando partiam para a guerra, mas como acontecia com muitas tribos, era uma deusa, Andraste, a quem rezavam pedindo o fervor da batalha que lhes traria a vitória.

Quando as tribos se juntarem, que deus ou deusa as guiará? — perguntou Bendeigid.

Vou fazer-te uma pergunta — replicou o drui- da-chefe. — Qual é a diferença entre um exército e um guerreiro?

Um guerreiro é um homem e um exército são muitos homens — respondeu o rapaz. Não era o único a parecer confuso.

Mas o exército é mais do que uma soma de combatentes. Quando dizes "um druida", podias estar a referir-te a mim ou a Cunitor ou a Mearan. Mas quando dizes "os druidas" estás a referir-te a uma entidade maior que engloba todos os nossos poderes e tradições.

As pessoas também são assim — disse Coventa de repente. — Uma mulher pode ser filha e mãe e sacer­dotisa, mas as pessoas falam com ela como se só fosse uma dessas coisas de cada vez.

O druida-chefe assentiu. — Um exército também é mais do que a soma dos seus guerreiros. Tem um espírito, uma mente própria. E o mesmo se passa com os deuses. Quando os combatentes de um exército invocam o deus da guerra usando nomes diferentes, invocam algo de maior que os inclui a todos e que passa a existir.

Nem todos... — disse alguém calmamente. Ar- danos estava de pé na parte de fora do círculo com um ar grave. — O deus dos Atrébates não lutará conosco. Ca- ratac expulsou Veric das suas terras.

Por um instante ficaram todos silenciosos. A notí­cia não era inesperada, mas ouvi-la assim de repente, e naquele contexto, era inquietante, como se ao falarem no deus da guerra o tivessem invocado. Boudica viu o cho­que dessa consciência nos rostos à sua volta.

Que se danem todos! — Cloto pôs-se de pé de um salto olhando furioso em redor. — E tu mais que to­dos! — cuspiu para os pés do druida-chefe. — Os Ca- ruvellauni sempre cobiçaram as nossas terras mas, sem apoios, não se teriam atrevido a tomá-las!

Cunitor pôs uma mão no braço do rapaz. — Vá lá Cloto, aqui já não somos Atrébates ou Trinovantes, so­mos druidas. Lugovalus fez aquilo que achou melhor para toda a Britânia.

Ele trouxe ruína ao nosso povo! — Cloto ar­rancou o braço das mãos de Cunitor e ficou de punhos cerrados desafiando-os a todos. Lugovalus poderia tê-lo imobilizado com uma palavra, mas o druida-chefe limi­tou-se a olhar para o rapaz com a pena estampada nos olhos.

Pensas que és tão sábio! — cuspiu Cloto. — Não vês que farás cair sobre nós aquilo que mais temes? Caratac empurrou Veric para os braços dos Romanos. O tratado que fizeram exige que ele os ajude e este será o pretexto de que necessita!

Mas Helve viu-os a invadir... — disse Coventa erguendo as mãos num apelo. —Não compreendes que unirmo-nos contra eles é a nossa única esperança de so­breviver?!

Por instantes ficaram com os olhares presos um no outro, o rapaz furioso e a menininha vidente. Quem teria razão? Estaria o destino traçado como estivera nas histó­rias que o velho escravo grego de Cunobelin costumava contar?

Maldita sejas! Amaldiçôo a todos! — gritou Cloto. — Quando esta ilha estiver afogada em sangue lembrar-se-ão e desejarão ter ou...

Foi então que, por fim, Lugovalus ergueu a mão e, embora os lábios do rapaz continuassem a mover-se, não produziam qualquer som. No silêncio súbito alguém sol­tou uma risadinha nervosa, depois engoliu em seco e ca­lou-se.

Chega... — disse então o druida-chefe. — Se não vais ficar do nosso lado, não mais pertences a nós. Vai juntar as tuas coisas e dirige-te ao local de embarque. Um barco esperará lá por ti.

Mudos, viram Cloto afastar-se. Lugovalus silencia­ra-o, mas nem mesmo o druida-chefe conseguia apagar aquelas palavras das memórias de todos. E se Cloto ti­vesse razão? Seria melhor lutar pelas razões certas, mes­mo que se falhasse, ou rendermo-nos a bem da seguran­ça? Os druidas não tinham escolha. E, se estivessem condenados, ao menos os bardos poderiam cantar como se tinham batido com valentia.

 

Quando Lhiannon subiu o caminho para a cabana onde vivia a alta sacerdotisa, viu Boudica a afastar a man­ta que cobria a porta com uma bacia de madeira nos bra­ços.

Como está ela?

A Senhora não agüentou nada no estômago hoje... — exclamou Boudica. — Ela está tão magra, Lhi­annon! Acho que se mantém viva graças apenas à força do seu espírito!

Ela sempre teve coragem — murmurou a sa­cerdotisa.

Vi morrer o Rei Cunobelin. Alternava entre a vigília e o sono até que, por fim, não acordou mais. Mas Mearan está acordada. Não há nada que possas fazer por ela, Lhiannon?

Se ela não consegue beber as infusões não a podemos ajudar com remédios, mas posso ajudá-la a a­fastar o espírito das dores do corpo.

Boudica assentiu e afastou-se para despejar a bacia. Lhiannon inspirou mais uma vez o ar doce do Verão e entrou. Quando viu a palidez cerosa da pele de Mearan, pensou com desalento que a batalha que ali estava a ser travada iria ser perdida.

Minha senhora, como vos sentis? Tendes do­res? — perguntou baixinho ajoelhando ao lado de Co- venta.

Lentamente as pálpebras arroxeadas ergueram-se. — Agora não. Sinto-me... leve...

E era caso para isso, pensou Lhiannon. Parecia-lhe que os ossos fortes da mulher mais velha irrompiam ain­da mais da pele do que no dia anterior.

Acho que em breve flutuarei para longe. — Mearan fez uma pausa e depois inspirou novamente. — Não é por vontade minha que vos deixo, mas é capaz de daqui vir algum bem. Entre os mundos consigo ver...

Não deveis fatigar-vos... — Lhiannon ouviu-se a pronunciar as palavras de negação ainda que soubesse que Mearan tinha razão. Dizia-se que a visão final de um iniciado tinha grande poder.

Não deves iludir-te... — A alta sacerdotisa disse secamente. — Sei que estou a morrer.

Lhiannon sentou-se sobre os calcanhares quando Boudica entrou com a taça vazia e um jarro.

Minha senhora, aqui está água fresca da nas­cente — disse a rapariga. — Far-vos-á bem. — Lhiannon ajudou a mulher doente a erguer-se para que pudesse be­ber e depois recostou-a novamente nas almofadas.

Obrigada... — Mearan fechou os olhos. Du­rante algum tempo só se ouviu a sua respiração difícil. — Escutem-me. Esta manhã sonhei acordada... — disse en­tão.

Lhiannon endireitou-se, com a concentração a a­justar-se de um modo que lhe permitiria recordar tudo o que ouvisse, tal como fora treinada para fazer.

E vi-te Lhiannon... só que eras velha. — Mais velha, acho, do que eu alguma vez serei.

Então era ela! — exclamou Coventa. Corou quando viu o olhar reprovador de Lhiannon. — Eu sei que não devia, mestra, mas de verdade que não consegui evitá-lo. Eu estava meio a dormir e sentada aqui mesmo ao lado dela e vi...

Lhiannon suspirou. Se a criança apanhava as visões da vidente no assento da profecia, não era para admirar que partilhasse agora as visões de Mearan. Para seu pró­prio bem, Coventa deveria ter outras tarefas atribuídas, mas se Lhiannon o sugerisse sem dúvida que Helve dis­cordaria.

Não faz mal filha... — murmurou. — Senhora... que mais vistes?

Estavas numa casa rodeada por uma floresta, um local onde nunca estive. Tinhas as insígnias da alta sacerdotisa... — Com os olhos ainda fechados sorriu.

Lhiannon ficou hirta com o choque, olhando para as duas raparigas para ver se tinham ouvido. — Mearan...

murmurou —, que quereis dizer? Serei a alta sacerdo­tisa depois de vós? — Era privilégio da alta sacerdotisa escolher a sua sucessora, apesar de os druidas terem uma palavra a dizer na aceitação da escolha. E Helve estivera tão segura...

Alta sacerdotisa... — a voz da mulher doente ficou mais forte. — Sim... sê-lo-ás, mas não para já, mi­nha filha. E não aqui... — Tossiu. — Entre esse momen­to e o agora há um vazio. Há ali qualquer coisa... fogo... sangue... — a sua cabeça girou, temerosa, sobre a almo­fada. — Não consigo ver... — gemeu. — Tenho que ver!

As palavras foram interrompidas quando vomitou pa­ra dentro da bacia que Boudica segurava.

Mearan! Bebei isto! Não tenteis falar, querida... não preciso de saber!

Saber... — A mulher doente arfou. Durante al­guns minutos a sua respiração difícil foi o único ruído na sala. — Aqui não... — murmurou ela finalmente. — Le­va-me para o Bosque Sagrado. Lá... verei. — Lhiannon recostou a sacerdotisa nas almofadas onde esta ficou de olhos fechados a respirar cuidadosamente. Não voltou a falar.

 

A Primavera estava próxima, mas quando a escu­ridão caía o vento que agitava as chamas das tochas pare­cia vindo direta-mente dos picos das montanhas do outro lado do estreito que ainda estavam nevados. Helve estava diante do altar como alta sacerdotisa, as vestes negras ca­indo-lhe dos braços como asas pretas. Nos seus pulsos os braceletes de ouro brilhavam à luz das tochas; um tor­que [3]de ouro envolvia-lhe o pescoço. Aqueles ornamen­tos teriam pertencido a Mearan? Boudica não se recorda­va se vira a alta sacerdotisa a usá-los. Quando Mearan presidia aos rituais lembrávamo-nos do que ela era e não daquilo que usava...

As sombras ondularam ao longo da fila de sacer­dotisas enquanto estas ecoavam a saudação de Helve. Boudica respirou fundo e preparou-se para cantar. Por­que não teria Lhiannon sido escolhida? Boudica lembra­va-se demasiado bem do murmúrio rouco de Mearan quando esta dissera que tinha visto Lhiannon com as in­sígnias de alta sacerdotisa na testa. Nenhuma das estu­dantes estivera presente no ritual final de Mearan, mas corriam boatos loucos sobre as palavras da moribunda. Teria ela mudado de idéias ou teriam os druidas mais ve­lhos recusado a sua escolha por motivos só deles conhe­cidos?

A nova alta sacerdotisa assumira o seu novo papel causando menos perturbação do que alguns esperavam, mas talvez isso se devesse ao fato de passar tanto tempo a conferenciar com os druidas mais importantes que mal a viam. Mas ela era como uma égua de boa linhagem que o seu pai possuíra em tempos, forte e bela e tão inclinada a morder-nos como a transportar-nos.

A Lhiannon fora conferido o título de Senhora da Casa das Donzelas e agora, como se até mesmo aquele reconhecimento fosse uma ameaça para ela, Helve tinha mandado a sua rival acompanhar Ardanos e os outros druidas que iam ser enviados para apoiar Caratac com magia de guerra se os Romanos viessem.

E eles viriam. O rei Veric escapara a Caratac e correra para o seu patrono, o Imperador. Na costa norte da Gália os Romanos estavam a juntar mantimentos e homens. Caratac estava a reunir as tribos para os enfren­tar, mas se os druidas possuíam alguma magia que pu­desse deter a invasão, então aquele era o momento para a usar.

Boudica regressou à realidade com um sobressalto quando o murmúrio da invocação terminou e um arrepio percorreu-lhe a espinha num misto de antecipação e de apreensão. No Equinócio o mundo ficava em equilíbrio entre a velha e a nova estação.

O que fosse feito naquele momento faria pender a sorte da nova estação num ou noutro sentido. Mas quere­riam mesmo envolver os deuses naquilo? Uma coisa era discutir a Senhora dos Corvos num círculo de estudantes a meio do dia, outra coisa completamente diferente era invocá-la quando a escuridão varria a terra.

O druida-chefe chegou uma das tochas à lenha se­ca que estava a postos junto ao altar e esta explodiu em chamas.

Corvo da Batalha... — gritou a alta sacerdotisa e as sacerdotisas responderam num eco: — Escutai-nos!

Virgem, feiticeira e amante...

Senhora da boca torcida...

Senhora das coxas abertas...

Bruxa dos ossos, noiva das sombras...

Contadora de verdades,passageira de Pesadelos...

Grande rainha que concede a vitória...

Grande rainha que dá a morte...

Cathubodva! Grande Rainha! Escutai-nos! — A resposta foi ainda mais alta, os coros masculinos e femi­ninos entrechocando-se à medida que se conduziam a uma intensidade crescente.

O vosso alimento é a morte, a vossa bebida o sangue da vida! Aqui está o alimento para os vossos cor­vos, Senhora... recebei a nossa oferenda!

Dois dos druidas mais novos avançaram, transpor­tando uma pequena criatura peluda que se debatia nas suas mãos — uma lebre — e Boudica reprimiu um es­tremecimento de terror supersticioso. A lebre, que se er­guia renascida debaixo da foice, era sagrada. A lebre nun­ca era morta nem comida... este sacrifício não seria parti­lhado, antes levado a um local solitário e oferecido inteiro à Deusa.

Um dos homens agarrou a criatura pelas orelhas compridas mantendo-a esticada. O metal brilhou verme­lho à luz do fogo quando Helve abriu a garganta da lebre. Um carmim mais escuro tingiu-lhe as mãos enquanto o sangue jorrava e assobiava sobre as chamas. O ar por ci­ma das labaredas estremeceu — devido ao fumo ou esta­ria a ver a força vital do animal? As narinas de Boudica estremeceram com o cheiro da carne queimada e o corpo exangue foi posto de lado.

Tirareis aos nossos inimigos o sangue dos seus corações e os rins da sua coragem! — Nuvens mais pun­gentes ergueram-se quando a alta sacerdotisa lançou ao fogo um punhado de ervas. — Sobre os nossos inimigos lançareis a sombra do medo e da abominação, a sombra no oceano, a sombra na floresta, a sombra no espírito... Quando se virarem para a Britânia, todos os terrores da noite, todos os medos diurnos contidos nos seus cora­ções se erguerão para os assombrar!

Helve virou-se com os braços abertos, mas nin­guém se moveu. Não eram os seus corpos que ela cha­mava mas sim as suas almas. Duas dúzias de gargantas soltaram um grito que transportava o poder dos que gri­tavam e a sacerdotisa ligou-o à energia que pairava sobre o fogo.

Por cima do círculo o fumo assumia formas alter­nadamente sedutoras e monstruosas. Uma das sacerdoti­sas desmaiara e Boudica viu uma mancha branca no local onde um sacerdote apertava a erva, aterrorizado, mas os outros, pálidos como ela própria sabia estar, continuavam a cantar. Os olhos de Helve estavam orlados de branco e os lábios repuxados sobre os dentes num sorriso de êxta­se.

Sou eu Helve, quem vos conjura, quem vos comanda! Obedecei à minha vontade!

Ela devia dizer aquilo? Certamente que a um mor­tal cabia convencer e não ordenar... Por um instante Boudica sentiu um tipo diferente de medo.

Gritai aos Romanos que não deverão vir contra nós! Esmagai-lhes a coragem! Não virão!

Uma vez mais os seus braços se ergueram e ela gritou. Boudica encolheu-se sob o impacto dos olhos tão negros como uma noite sem estrelas.

Sou a fúria... disse uma voz na sua alma. — Sou o medo... qual deles escolherás? Um carvalho abriu-se ao meio quando o poder desceu e os pássaros adormecidos explo­diram em bandos de gritos sobre o bosque. Com o sangue me chamaste e o sangue correrá até que eu fique satisfeita!

Boudica gritou... gritavam todos enquanto a som­bra os cobria e era levada, a girar, para sul e para leste, com uma onda de som.

 

E através da Britânia voou, num vento de pesadelo que fez com que os cães ladrassem, e os bebês chorassem enquanto galopava pelos sonhos dos homens. Sobre a Britânia e sobre as ondas cinzentas alterosas atravessou o mar estreito até a um local chamado Gesoriacum, na cos­ta da Gália. Atingiu as tendas de cabedal agrupadas em fileiras cerradas como um milhar de fúrias, arrancando as espias e lançando os postes pelo ar. E os homens das le­giões acordaram a tartamudear de medo.

E de manhã, ao olharem para o mar, viram em ca­da onda uma máscara de terror e viraram-se nas fileiras para enfrentar os oficiais e disseram: — Não iremos...


 

Lhiannon estremeceu quando o martelo do ferrei­ro bateu no ferro em brasa. Um mês depois de ter che­gado a Durovernon já estava acostumada ao barulho, mas cada pancada parecia repercutir-se na sua espinha. Olhou para a pilha de espadas de ferro e pontas de lança, peito­rais e capacetes de bronze e ornamentos para os escudos e lembrou-se das oferendas que os príncipes tinham feito no lago sagrado. Quantas das armas que os ferreiros es­tavam a moldar acabariam nas águas e quem as atiraria para lá?

Tinham-se passado três semanas depois do equi­nócio. Os Romanos não tinham vindo, mas era evidente que o mar estreito, que tinha tornado tão arriscadas as travessias de César, era mais clemente para com os co­merciantes que andavam para trás e para a frente entre as tribos celtas da Gália e a Britânia, pois pelo portão do forte vinha a entrar uma carroça conduzida por um Gre­go moreno e carregada com luxos do Sul. Quando o co­merciante começou a descarregar a carroça os homens juntaram-se à sua volta. Lhiannon aproximou-se, seguida pelos outros druidas e com Bendeigid no encalço. Ins­tantes depois Caratac e alguns dos seus chefes tribais jun­taram-se ao grupo.

— Vocês, guerreiros, podem ir para casa agora — os dentes brancos brilhavam entre a barba preta quando o comerciante sorriu. — Aqueles Romanos estão todos com medo! Chamam ao Mar do Meio o "Mar Nosso", mas estas ondas — fez um gesto para leste —, aquilo é o Oceano cheio de monstros para os comer se eles lá passa­rem. E aqui — fez um gesto vago em torno de si —, isto é o fim do mundo.

Eles amotinaram-se? — perguntou Caratac com brusquidão.

Sem dúvida... mesmo depois do equinócio! — O comerciante sorriu novamente. —Acordaram todos aos gritos. Quando os oficiais os fizeram alinhar na for­matura, disseram que a Britânia não era um lugar para homens civilizados e recusaram-se a partir!

Um dos homens soltou um grito triunfante e um outro saiu a correr para espalhar as notícias.

Na viragem da Primavera... — disse Ardanos. — Fizeram-na, então... a Invocação... — Antes da partida de Lhiannon e do seu grupo de Mona, tinha havido mui­tos debates sobre o papel que a magia druida poderia de­sempenhar no combate que se aproximava e que tipo de magia serviria melhor a causa. O olhar que trocou com Lhiannon transmitia aquilo que não podia ser dito naque­la companhia — Então afinal a Helve sempre serve para alguma coisa...

Mas nós já o sabíamos — disse Lhiannon bai­xinho. — Na noite do equinócio sentimos a passagem do poder.

E agora sabemos que resultou! — disse Cuni- tor. — Que possa funcionar de acordo com a nossa von­tade!

Caratac ergueu as sobrancelhas. — Aquela noite de terror foi obra dos druidas? Quem me dera que nos ti­vessem dito na altura...

Cunitor teve a elegância de parecer envergonhado, mas a verdade é que não ocorrera a nenhum deles parti­lhar o que sabiam com quem não tinha os votos druidas nem era iniciado.

Era a Senhora dos Corvos que gritava através dos nossos sonhos... — explicou Ardanos.

E eia é uma força que, depois de invocada, pode ser difícil de adormecer novamente, pensou Lhiannon, mas isso era algo que Caratac não precisava de saber.

Belina inclinou-se para sussurrar ao ouvido de Lhiannon. — Achas mesmo que a Helve escolheria algo de menor quando podia invocar um poder tão espetacu­lar? — Lhiannon assentiu mas não disse nada. Belina, que nunca fora candidata ao lugar de alta sacerdotisa, podia dar-se ao luxo de se expressar assim sem suscitar suspei­tas de ciúme.

Bem, seja lá o que for que tenham conseguido, os meus guerreiros parecem estar convencidos de que fizeram um milagre. O que é bom para a vossa reputação, mas não tão bom se eu quiser manter um exército. — Caratac apontou para o acampamento que surgira ao lado do forte e que zumbia agora como uma colméia sobrelo­tada. Já havia alguns a empacotar as suas coisas.

Bendeigid observava-os pensativamente. Durante o último ano ficara muito alto e magro devido à aproxi­mação da maturidade. Desde a chegada a Durovernon que passara a maior parte do tempo a importunar os guerreiros para que o ensinassem a manejar a espada e o escudo. Houvera ocasiões em que as dificuldades da via­gem tinham feito com que Lhiannon ficasse dolo­rosamente consciente do quão fácil a sua vida tinha sido em Oakhalls. Mas os pés magoados e os músculos dori­dos eram um pequeno preço a pagar para poder estar com Ardanos em vez de ficar a pensar como estaria.

Quantos pensas que ficarão? — perguntava Ardanos.

Metade da Britânia já pensa que esta reunião é um embuste para fazer de Togodumnos Rei supremo de todas as tribos... — disse Caratac amargamente. — E a­queles que responderam à minha chamada em breve quererão ir para casa a tempo de lavrar os campos.

Os druidas assentiram. Todos os homens sabiam que o tempo de combater era no Verão, entre as semen­teiras e as colheitas. Só os Romanos é que tinham trans­formado a guerra num modo de vida e podiam dispor de um exército em qualquer altura do ano.

A questão é saber se os Romanos estão verda­deiramente desencorajados ou meramente à espera... — observou Cunitor. — Não se devem ter esquecido de como os barcos de César foram arrasados pelas nossas tempestades. Certamente que não embarcarão antes do Verão, se chegarem a vir.

Eu preferia que viessem já enquanto ainda te­nho um exército — resmungou Caratac. Franzindo o so­brolho virou-se para Lhiannon. — Sei que na vossa or­dem há algumas que são treinadas como oráculos. Se­nhora, se sois uma delas podereis tentar ver o que se pas­sa? Certamente que compreendeis porque quero saber!

Todos nós queremos... — murmurou Lhian- non. — Eu...

Ela tentará, mas não antes da véspera de Belta­ne — as palavras de Ardanos sobrepuseram-se às dela. — Nessa altura, as energias estarão mais fortes e ela precisa de tempo para se preparar.

Havia uma aspereza nas palavras dele que só Lhi- annon podia perceber. A promoção de Helve a alta sa­cerdotisa mudara muitas coisas na relação de Lhiannon com a comunidade de Mona. Ainda não era claro se a relação com Ardanos também mudara. Durante a noite, na viagem para ali, estivera agudamente consciente do fato de que ele dormia do outro lado da fogueira. Como seria dormir ao lado dele, com o seu corpo aninhado no dela, com as pequenas ressonadelas que soltava durante o sono a fazerem-lhe cócegas na orelha? As vezes ele acor­dava e ela sentia o seu olhar tocar-lhe na alma e sabia que ele estava a pensar no mesmo.

Mas a viagem, que poderia ter fornecido muitas oportunidades, privara-os no entanto da privacidade ne­cessária para as aproveitarem. E, se era precisa para servir Caratac como vidente, então sempre havia uma razão pa­ra preservar a sua virgindade. Helve provavelmente pre­feriria ser a única a servir como oráculo, mas não fora aquela uma das competências druidas que tinham sido enviados para fornecer a Caratac?

Ardanos estava a olhar para ela e Lhiannon perce­beu tanto a dor como a resolução estampadas nos seus olhos. Ele sabe que isto significa que não se deitará comigo neste Beltane...e tomaríamos novamente a mesma decisão. Sentiu uma dor estranha, em algum lugar na vizinhança do coração, e percebeu que escolheriam sempre o dever em detrimento dos seus desejos.

 

Nos dias que se seguiram ao Beltane ocorreu a Lhiannon que a maioria das pessoas, quando pensava nos oráculos, fazia-o da forma errada. Ter visões era fácil. Aparte difícil era compreender o que se vira. Para o ritual tinham ido até uma das elevações que os antigos tinham construído para sepultar os mortos. Tinha visto uma á­guia a lutar com um corvo e uma flor branca de narciso que se erguia acima de tudo. E a águia transformou-se em três bandos que voaram na direção da Britânia.

Mas não ficaram muito tempo à espera de saber o que a visão poderia significar. Antes de se ter passado uma semana um barco ligeiro voou sobre as ondas, vindo da Gália, para lhes trazer as notícias.

O motim terminara. Um dos secretários do impe­rador, um liberto chamado Narciso, pusera-lhe fim aren­gando às tropas de cima do púlpito do general e, passado o primeiro choque, fazendo apelo ao sentido de humor que ninguém suspeitaria ser uma característica dos legio­nários. E agora a frota, que esperara durante tanto tempo, estava a ser carregada com os mantimentos e com os homens. Havia três frotas, tal como Lhiannon vira: uma para devolver Veric ao seu país e duas outras para segui­rem o rastro de César através das terras dos Cantiaci.

Os druidas uniram as suas energias para enviarem um aviso psíquico a todos quantos fossem capazes de o ouvir. Aqueles que, pertencendo à Ordem, serviam como sacerdotes nas aldeias, alertariam os guerreiros... se al­guém acreditasse nas suas palavras. E Caratac enviara corredores para convocar aqueles que, tão recentemente, tinham regressado a casa e que estavam agora no meio dos trabalhos no campo ou com as manadas. Eles vieram, mas lentamente, e o rei reunira apenas metade da sua força quando o general romano, Aulo Pláucio, pôs as pa­tas em solo britânico.

Os Romanos tinham desembarcado na costa a les­te de Durovemon onde o rio desaguava no mar. Barcos negros às centenas estavam encalhados, em filas, mas a­reias como uma migração de aves marinhas fora da esta­ção. Os batedores que Caratac enviara para os observar relataram que os invasores tinham feito uma curta incur­são para o interior e tinham erguido defesas simples nu­ma colina pouco alta. Deviam perguntar-se porque razão não encontravam ninguém, mas as ordens do rei tinham ditado que até mesmo os camponeses fugissem do seu caminho.

Em breve a horda romana marchava já para oci­dente, acossada por todos quantos podiam lançar uma lança ou disparar um arco. Mas Caratac continuava à es­pera, enquanto um a um, ou aos pares e às dezenas, os homens dos Cantiaci e guerreiros dos Trinovantes, do outro lado do Tamesa, iam chegando até que, nos últimos dias do mês de Beltane, os Romanos se aproximaram de

Durovernon e Caratac teve que escolher entre entregar o forte ou tomar posição.

 

Sente a terra a tremer... — disse Cunitor. — Uma vez senti um tremor assim nas montanhas, quando era rapaz.

Lhiannon pousou a palma da mão no solo. Do bosque, no topo da colina onde os druidas tinham sido colocados, não podiam ver muita coisa, mas um tremor regular vibrava sob a sua mão. Para criar um ritmo da­queles era preciso uma grande quantidade de pés a calca­rem a terra, e que tipo de disciplina os manteria assim em uníssono? Pela primeira vez teve noção da magnitude da força que os enfrentava.

É o bater de um tambor e não um tremor de terra — disse Belina calmamente. — O tambor da guerra. — Um raio de sol fez brilhar novos fios prateados no seu cabelo castanho.

Eles vêm aí? — perguntou Ambios. Era o dru­ida de Caratac, um homem mais velho, que engordara devido à vida confortável que levara e que não sabia se havia de se sentir satisfeito ou ressentido com os reforços que tinham chegado da ilha dos druidas. Mas com a a­proximação do inimigo parecia aliviado por ter compa­nhia.

Lhiannon levantou-se e ergueu um ramo para es­preitar. A encosta descia num misto de bosques e prados até alcançar o brilho azul e serpenteante do rio. Para montante, junto ao vau, os telhados de colmo das casas do forte brilhavam ao sol. Mais a baixo as forças de Ca­ratac pareciam uma manta decorada com o brilho do fer­ro, do bronze e do ouro. Mas para leste erguia-se uma nu­vem de pó, interrompida pelo brilho cruel do metal. Sen- tiu um calor que era tanto do espírito como da carne quando Ardanos se pôs ao lado dela.

Eles vêm aí... — murmurou ela. Instintivamen­te estendeu o braço e ele deu-lhe a mão.

Sob os seus olhos o pó começou a definir-se em quatro divisões de homens que marchavam divididos em dúzias de pequenos quadrados, seguindo o mesmo cami­nho que as legiões de César tinham aberto. Os oficiais a cavalo moviam-se entre eles e a cavalaria trotava de am­bos os lados.

Agora os outros druidas também já estavam de pé a espreitar por entre as folhas. Ergueu os olhos quando uma sombra se moveu entre si e o Sol. Uma asa de corvo brilhou, branca, ao captar a luz e depois novamente negra enquanto o pássaro voou em círculos antes de se instalar num ramo. Gritou e outros lhe responderam.

Podes dar-te ao luxo de serpaáente, pensou Lhiannon amargamente. Quem quer que seja o vencedor desta batalha terás a tua recompensa. Pela primeira vez perguntou-se se a pró­pria Senhora dos Corvos queria saber qual dos lados saía vencedor.

Ardanos fez sinal a Bendeigid que ergueu o corno que transportava e fez soar uma nota longa. Uma onda de movimento passou pelos Bretões reunidos lá em baixo enquanto as suas trombetas esculpidas com a forma de cabeças de javali soavam em desafio e as trombetas ro­manas respondiam, num clangor metálico.

Espera por eles — murmurou Ardanos. — Ca­ratac, tens a vantagem do terreno... espera que cheguem perto!

E em frente marchavam as legiões, inexoráveis como as marés, as sandálias ferradas a esmagarem os jo­vens grãos. O forte fora esvaziado, mas o inimigo passou por ele como se a capital bárbara não constituísse qual­quer tentação. E o rio não constituía naquele ponto, bai- xo e largo, um obstáculo. Mas a formação ordeira estava finalmente a quebrar-se... não, estava a mudar, num mo­vimento tão disciplinado como se de uma dança se tra­tasse, uma legião avançando enquanto as outras se espa­lhavam para lhe dar apoio, uma ponta de lança apontada à massa multicolorida dos Celtas na colina.

Das linhas celtas saía um guerreiro nu e depois ou­tro, gritando insultos aos inimigos, mas Caratac continu­ava a ter os homens sob controlo. Por trás dos campeões aguardavam os carros de combate e, por trás destes, uma massa de guerreiros ululantes. O ar vibrava, oco, quando as espadas compridas embatiam nos escudos.

Lhiannon tremeu à vista daquela beleza mortífera, mas o tempo para a contemplação já passara. Os outros estavam a dar as mãos, enterrando firmemente os pés no terreno arenoso e ganhando alento para a parte que teri­am que desempenhar naquele embate.

Oh mortos poderosos, eu vos conjuro! — gri­tou Ardanos. — Vós que combatestes os pais destes ini­migos, escutai-nos agora. Erguei-vos para nos ajudar, vós cujo sangue da vida alimentou estes campos quando Cé­sar conduziu aqui as suas legiões, pois o velho inimigo ataca-nos de novo. Erguei-vos com ira, erguei-vos com fúria, erguei-vos para enviar a horda romana aos gritos de regresso sobre o mar!

De lá de baixo veio a resposta clamorosa quando os guerreiros celtas, finalmente autorizados, se lançaram para diante numa multidão ululante.

Boud! Boud! — gritavam. — Vitória!

Os carros de combate aceleraram na direção do inimigo, os condutores fazendo os ágeis cavalos contor­nar os obstáculos com o carro aos saltos atrás de si, os guerreiros mantendo miraculosamente o equilíbrio en­quanto lançavam os seus dardos. Aproximavam-se a toda a velocidade; agora viravam. Os Romanos tombavam enquanto os dardos cruzavam os ares.

Mas o pesado pillum[4] romano, apesar de ter um alcance mais curto, era igualmente letal. Quando um dos carros se aproximou demasiado Lhiannon viu um míssil enfiar-se na estrutura. O peso da haste fez com que a lança se dobrasse até ficar presa nas rodas e, em segun­dos, o frágil carro ficou feito em pedaços. Lanceiro e condutor conseguiram saltar incólumes e os cavalos fugi­ram impetuosamente, espalhando o pânico entre amigos e inimigos.

Na colina um estremecimento que não fora pro­vocado pelo vento passou pelas folhas. O arrepio que acometeu a pele de Lhiannon não se devia ao frio. Não sabia se tinha sido a invocação de Ardanos ou os gritos de guerra celtas que os tinham despertado, mas os espíri­tos estavam presentes.

Com dupla visão observava as massas dos vivos debatendo-se lá em baixo, nos campos, e os seus corres­pondentes fantasmagóricos em cima, empenhados num combate mortal como tinha acontecido quase um século antes. Por trás eles vislumbrava outras figuras, de tal for­ma imensas que só conseguia apreender fragmentos de um elmo emplumado ou de uma lança que golpeava co­mo um relâmpago, uma capa de asas de corvo que cobria uma entidade que lutava com Alguém, com cabeça de águia, cujo bico maléfico rasgava o Seu adversário.

Sentiu que a garganta se abria para soltar um grito, duplicado, quadruplicado quando os outros se lhe junta­ram num uivo de fúria que ressoou em ambos os mun­dos. Não era o grito de Morrigan, mas era o suficiente para fazer vacilar a primeira linha de legionários. Por um momento os druidas saborearam o triunfo, depois as trombetas romanas soaram novamente e o inimigo lan­çou-se para diante com energia redobrada.

Os punhos de Lhiannon cerram-se com fúria. Se ao menos ela pudesse estar lá, golpeando o inimigo! De uma árvore mais abaixo um corvo gritou, mas o que Lhi- annon ouviu foram palavras: — E podes, e podes, voa livre nas minhas asas, voa livre... — A visão desfocou-se; entonte­cida vacilou. Ouviu alguém praguejar enquanto caía, mas isso não fazia sentido... estava a erguer-se, abandonando a carne fraca para se erguer por cima do campo de batalha.

Dentro de instantes sentiu outro corvo que voava a seu lado e a parte da sua mente que conservava a me­mória reconheceu Belina. Mas estava concentrada nos homens que se batiam lá em baixo, o brilho das espadas e o sangue vertido quando o metal entrava na carne. Onde ela voava rasando, uivando, os homens hesitavam e caí­am, mas vinham sempre mais. A consciência fugiu-lhe no

redemoinho de uma maré vermelha de fúria e de êxtase.

 

A terra tremia, cada tremor uma pancada que lhe ecoava no crânio. Lhiannon gemeu e sentiu um braço forte a erguê-la, a água tocou-lhe nos lábios e ela bebeu e bebeu de novo. A dor diminuiu um pouco e esforçou-se por ver. Agora eram as árvores que se moviam. Fechou novamente os olhos.

— Lhiannon... consegues ouvir-me?

Era a voz de Ardanos. Ninguém gritava. Em vez dos gritos escutou o ranger da lã e o bater dos cascos. Lentamente apercebeu-se de que estava numa carroça, aos solavancos por uma estrada esburacada em algum lugar num local que não era o campo de batalha.

Ardanos... — murmurou. Os seus dedos en­contraram a mão dele.

Graças aos deuses! — A dor que ele lhe pro­vocou ao apertar-lhe os dedos era uma distração da dor de cabeça.

As sandálias romanas... — disse ela então — estão a marchar no meu crânio...

Isso não me surpreende — grunhiu ele. — Eles perseguiram-nos por todas as terras dos Cantiaci.

Perdemos... — Não era uma pergunta.

Continuamos vivos... — respondeu Ardanos numa tentativa de os alegrar. — Se considerarmos bem as coisas isso já é uma vitória. Mas deixamos metade dos nossos guerreiros no campo de batalha. Bateram-se com bravura, mas os Romanos tinham os números a seu fa­vor... e a disciplina —, acrescentou com amargura. — Estamos em retirada. Não teríamos sequer chegado aqui se o general Plauto não tivesse parado para saquear e in­cendiar Durovernon e fazer ali uma fortificação qualquer. Caratac perdeu metade do exército, mas já se juntaram a ele mais homens desde a batalha. Ele pretende dar bata­lha do outro lado do Rio do Meio. Graças aos deuses es­tamos quase lá e graças aos deuses por teres acordado. Não me apetecia nada ter de te carregar ao ombro até à outra margem do rio como se fosses uma saca de farinha.

Durante quanto tempo é que estive inconscien­te?

Estiveste para aí deitada a gemer durante três dias que pareceram uma eternidade! Raios, mulher, que é que te possuiu para voares daquela maneira? Tive medo... —Ardanos engoliu em seco e acrescentou tão baixinho que ela quase não ouviu: — Não sabia se irias voltar para mim...

Lhiannon conseguiu abrir os olhos e sentiu o co­ração sobressaltar-se quando viu a expressão nos olhos dele. No instante seguinte ele desviou o olhar, mas ela sentiu um calor dentro de si que lhe aliviou a dor.

Possuiu... sim. Eu era um corvo... Odiei-os tanto... era a única coisa que podia fazer.

Bem, não voltes a fazê-lo — grunhiu ele. — Estou certo de que deste conta de alguns dos inimigos, mas contra tantos? — Abanou a cabeça. — Podes ser mais útil se te mantiveres consciente.

Ela encolheu-se quando, à distância, ouviu o cha­mamento de um corvo. — Tentarei não voltar a fazer o mesmo — concordou. — Acho que já não gosto muito dos corvos.

Ardanos suspirou e aninhou-a mais confortavel­mente contra o peito. — Os corvos são os verdadeiros vencedores. Não querem saber de quem é a carne que comem.

 

Retirem! Os Batávios atravessaram o rio... reti­rem! Sobre o clamor generalizado Lhiannon mal conse­guia ouvir os gritos. Olhava para a grande torrente cin­zenta do Tamesa tentando ver.

Malditos sejam! Outra vez não! — praguejou Cunitor.

Duas semanas antes as tropas batávicas, auxiliares dos Romanos — homens do delta do Reno que se mo­viam na água como rãs — tinham atravessado a vau o Rio do Meio e apanhando Caratac de surpresa. Restava-lhes esperar que os Durotriges e os Belgas, comandados por Tancoric e por Manglorios, se tivessem saído melhor contra as forças que os Romanos tinham desembarcado nas terras de Veric.

Mas o Rio do Meio era um rio pequeno. O Tamesa era tão largo como uma pastagem, uma fita de chumbo lenta e serpenteante sob o céu cinzento. Ninguém pensa­ra que os Batávios conseguissem nadar aquela distância. Era como um daqueles pesadelos que se repetem infini­tamente.

— Metam os mantimentos novamente na carroça! — disse Ardanos. — Eles irão trazer os feridos para a retaguarda, onde quer que isso seja!

A estratégia que traíra Caratac no Rio do Meio de­veria ter funcionado a seu favor, e a favor de Togodum- nos, no Tamesa. Para atravessar o rio, os Romanos teriam que usar jangadas grandes e lentas e barcas e seriam fáceis de atacar quando chapinhassem na direção das margens. Enquanto Lhiannon agarrava nas pilhas de ligaduras que tinha preparado, pôde ver as barcas a começarem a ser lançadas à água, reduzidas pela distância à dimensão de travessas de comida, brilhantes de homens armados.

Mas a força combinada de Trinovantes, Catuvel- launi e Cantiaci sobreviventes, não as podia atacar se o seu flanco já tivesse sido assolado pelos Germânicos, combatentes ferozes cujas tribos eram parentes próximas dos Belgas. Mas isso não devia constituir qualquer sur­presa: naquela época os nativos italianos eram uma mino­ria no exército romano. A maior parte dos homens que vinham naqueles barcos eram filhos de povos conquista­dos. Se os Bretões fossem derrotados, um dia os seus próprios filhos poderiam vir a envergar aqueles uniformes odiados.

Lhiannon atirou o saco de ligaduras para dentro de uma carroça e enfiou os potes com pomadas noutra, sa­tisfeita por terem persuadido Bendeigid a ficar para trás com os mantimentos. A sua volta as tribos e os clãs esta­vam numa grande confusão enquanto tentavam reagrupar para enfrentar o inimigo. A primeira das barcas romanas estava a ficar ao seu alcance. As flechas silvavam pelo ar, disparadas pelos arqueiros que Togodumnos colocara no local onde o terreno começava a elevar-se. Um legionário tombou da amurada de uma das barcas e foi arrastado para o fundo pelo peso da armadura. O seu escudo ver­melho, pintado com um par de asas de cada lado de rele­vo central e com setas ondulantes e alongadas pintadas a ouro, flutuou corrente abaixo.

As orelhas do cavalo estremeciam nervosamente à medida que o tumulto crescia. Belina agarrou nas rédeas e pôs o animal em movimento, murmurando numa língua conhecida dos cavalos. Agarrando no último saco, Lhi- annon correu atrás da carroça.

O clamor cresceu num rugido quando os Batávios atacaram o flanco. Os homens das fundas tiveram tempo para um disparo, as bolas de barro endurecido no fogo voando, sibilantes como abelhas enlouquecidas, antes que amigos e inimigos se misturassem numa massa confusa. Assistir a uma batalha de cima e à distância fora horrível; estar no meio da batalha era um puro terror, que só uma vida inteira de disciplina mental lhe permitiu suportar.

As expressões dos homens que passavam por ela a correr estavam fixas num rito raivoso. Lhiannon podia sentir a Senhora dos Corvos a tomar forma sobre o campo de batalha, conjurada pela fúria que batia, como asas negras, na sua própria alma. Mas a promessa que fi­zera a Ardanos manteve-a sob controlo. Resguardando o espírito, agarrou-se ao lado da carroça e não o largou en­quanto esta subia clamorosamente colina acima.

Para ocidente, os Dobunni do sul estavam a dar combate aos Batávios. Os clãs do norte deveriam estar a combater ao seu lado, mas o Rei Boduoc revelara-se um traidor tendo-se aliado aos Romanos antes da Batalha do Rio do Meio. As primeiras barcas começavam a deslizar pelas margens enlameadas do rio. Uma saraivada de pil- lums atravessou carne celta e enfiou-se nos escudos, a­brindo espaço para a primeira fileira de Romanos salta­rem para a margem onde juntaram os escudos para for­mar uma linha por trás da qual os seus companheiros poderiam desembarcar em segurança.

Mais barcos foram chegando, vomitando ainda mais legionários para reforçar a linha de aço. A cada ins­tante esta tornava-se mais longa e mais espessa, empur­rando para diante, como uma paliçada em movimento, contra a qual as lanças compridas e as lâminas afiadas dos homens das tribos batiam em vão. Mas um movimento mais ordeiro estava a formar-se na colina quando o som rouco e peculiar das trombetas do rei convocou a guarda a cavalo.

Os homens começaram a desviar-se à medida que o remoinho de movimento se ia definindo em fileira após fileira de guerreiros.

Lá em cima as nuvens abriam-se como que para escapar ao clamor na terra. O sol incidiu repentinamente em torques e braceletes de ouro, em cabeleiras de cabelos empastados pintados com cores mais vivas do que o rui­vo ou loiro originais e na pele leitosa dos corpos esbeltos e musculados que se descobriam apenas para fazer amor ou guerra.

Alheia à confusão à sua volta, Lhiannon ficou a olhar. Certamente que aquele seria o aspecto que o exér­cito dos deuses tivera quando marchara com o Lugos da lança brilhante para confrontar os exércitos das trevas. Por cima das suas cabeças conseguia ver o próprio rei, equilibrando-se com facilidade na frágil plataforma de junco do seu carro de guerra, com o condutor acocorado aos seus pés, os braços agarrados aos lados curvos.

Quando os campeões se desviaram para os lados, Togodumnos ficou completamente à vista. A capa que lhe tombava dos ombros fora tecida com os azuis e ver­des preferidos dos Catuvellauni. Placas de ouro brilhavam no seu cinto e no colete de cabedal que lhe envolvia o tronco largo, ao pescoço trazia um torque de cordões de ouro entrelaçados, grossos como a haste de uma lança, e o cabelo, que começava a rarear, estava coberto por um elmo de bronze prateado esmaltado, encimado pela figura de um pássaro de asas dobradas.

Caratac seguia-o de perto, a sua armadura esfolada num contraste ominoso com a majestade do seu irmão. Mas quaisquer deficiências do seu equipamento eram lar­gamente compensadas pela fúria que reluzia em seu re­dor. Seguiram-se outros carros de guerra e, se mais ne­nhum exibia tanto esplendor, ainda assim o olhar ficava ofuscado por capas com riscas e padrões de xadrez em vermelho e púrpura e em verde e dourado.

Mais guerreiros se juntaram de ambos os lados, só com as calças justas ou sem qualquer roupa para terem os movimentos mais soltos, com símbolos mágicos pintados na pele pálida do tronco e das costas. Por tribo e clã os guerreiros dos Trinovantes e dos Catuvellauni, juntamen­te com os sobreviventes Cantiaci, espalharam-se entre eles, apressando-se a caminho da morte ou da glória. Como uma lança no coração, sentiu a certeza de que, ga­nhassem ou perdessem, o mundo que ela conhecera es­tava a mudar. Nunca mais veriam uma coisa igual àquela.

Como uma manada de pôneis selvagens à desfilada em direção à água, passaram por ela; ouviu o rugido quando embateram nas fileiras romanas. Agora só con­seguia ver uma confusão de lanças erguidas. Os carros de guerra abriram caminho até à retaguarda. O combate a­gora seria a pé, sobre a lama e o sangue que ensopavam as margens. O som batia-lhes nos ouvidos em simultâneo com as emoções dos combatentes que lhe golpeavam o espírito; o ruído de lâmina contra lâmina marcava o ritmo para a música dos uivos e gritos de guerra.

Os feridos começavam a chegar até eles, transpor­tados pelos camaradas ou apoiados em lanças partidas.

Os druidas mantiveram-se ocupados a coser e a ligar fe­ridas. Alguns ficavam apenas o tempo suficiente para be­ber um pouco de água e depois coxeavam de regresso à peleja. A alguns deitavam na carroça ou mandavam retirar do campo de batalha. A outros a única coisa que podiam fazer era aliviar a dor enquanto o sangue da vida se esvaía para o chão.

Lhiannon prometera manter o espírito sob con­trolo, mas nada podia evitar que fosse buscar poder à terra e o projetasse para a frente, para dar alento aos ho­mens que combatiam. Apercebeu-se de que a batalha es­tava a mudar, que o olho do furacão de espadas subia lentamente pela colina acima. O bater de pés desfazia o solo seco em nuvens de pó através do qual voavam ban­dos de corvos aos gritos. Pensou se Togodumnos teria cometido um erro ao planear apanhar os Romanos entre o seu exército e a água. Ouvira um velho guerreiro dizer que era um erro não deixar uma via de fuga ao inimigo. Uma vez desembarcados, aos Romanos só restava lutar para abrir caminho através dos inimigos.

Estava a virar-se para perguntar a Ardanos se não seria melhor levar a carroça dos curandeiros para mais longe quando, subitamente, um novelo de homens a combater aproximou-se deles velozmente. Um dardo passou a toda a velocidade e ficou cravado, a vibrar, na madeira da carroça. Ardanos agarrou num punhado de pó e lançou-o para diante proferindo um feitiço com voz abafada. Subitamente o ar em torno deles ficou escuro e o rugido da batalha parecia o de uma tempestade distante.

Apenas um homem atravessou a barreira. Quando o Romano se pôs de pé, brandindo a espada, Lhiannon agarrou no dardo e bateu-lhe ferozmente, desequilibran- do-o. Um dos feridos, que ela julgara moribundo, agar­rou-lhe um tornozelo e enterrou-lhe uma faca na garganta quando o homem caiu. O Romano gorgolejou horrivel­mente quando o sangue lhe jorrou da jugular, com os o­lhos escancarados e com a mesma expressão de incredu­lidade que testemunhara nos seus próprios guerreiros ao morrer. O fedor, quando o seu esfíncter se relaxou, mis­turou-se com o cheiro ferruginoso do sangue. O Celta que o matara morrera também, mas os seus lábios esta­vam arreganhados num sorriso feroz.

— Deixa-os! — disse Belina. — Temos de sair daqui para fora!

Muda, assentiu, enfiando provisões no véu. Em breve ficariam sem ligaduras. Com Cunitor e Ardanos a proteger a retaguarda, Belina segurou a cabeça do cavalo e avançaram numa direção que esperavam não ser a do campo de batalha. Homens com cavalos pela rédea e com carros de combate passavam por eles a correr prontos para, na vitória ou na derrota, levarem para longe dali os seus senhores.

Na sua frente o terreno descia numa encosta suave para leste, onde as pastagens eram salpicadas por matas em torno das quais a batalha girava como as águas das cheias se dividem em ribeiros em torno dos destroços. Os curandeiros instalaram o seu novo acampamento à som­bra das árvores e pouco tempo depois já estavam nova­mente a trabalhar arduamente. Ficaram sem água e os habitantes locais, que tinham vindo ajudá-los, disse­ram-lhes que as embarcações romanas estavam alinhadas na praia ao longo de mais de um milha. Uma confusão de corpos empilhados e espalhados assinalava o curso da batalha. Havia mais corpos celtas do que romanos, diziam eles. Lhiannon abraçou-se a si própria, sentindo-se subi­tamente cheia de frio.

O Sol a pôr-se começava a lançar sombras com­pridas pelos campos e tinham acendido uma tocha, para que os feridos pudessem encontrá-los, quando a multidão em combate se lançou novamente na sua direção. Passa- dos instantes aperceberam-se de que todos os guerreiros que se aproximavam eram Bretões.

Eles não estão a combater... — murmurou Cu- nitor incrédulo. — Isto é uma debandada. Perdemos... — Tinha a cara suja de pó e de sangue e os seus cabelos cla­ros estavam em pé. Os druidas tinham quase tão mau as­pecto como os homens que tinham socorrido.

Não pode ser verdade, pensou ela, dormente. — Es- forçamo-nos tanto. Não podemos perder agora! Sobressaltou-se quando Ardanos lhe agarrou o braço. Os Romanos esta­vam a aproximar-se? Ele estava a apontar para um carro de combate que vinha disparado na sua direção, tão de­pressa quanto o condutor conseguia fazer correr os cava­los estafados. Passado um momento reconheceu os ar­reios dourados e os pôneis negros, ainda que sem essa ajuda nunca tivesse reconhecido na meia dúzia de ho­mens exaustos, que cambaleavam ao lado dos cavalos, os guerreiros esplêndidos que tinham seguido o seu rei para a batalha umas poucas horas antes.

Lhiannon reconheceu o condutor — vira Caratac naquele estado duas semanas antes. Só que agora a emo­ção que lhe contorcia as feições não era a fúria mas sim o desespero.

Caratac... — disse Ardanos. — Estás...? — A pergunta morreu-lhe nos lábios quando Caratac se endi­reitou e ele viu o corpo de Togodumnos estendido a seu lado. Ardanos procurou a pulsação no pescoço do rei e depois passou as mãos pelo seu corpo, em busca de qualquer sensação de energia. Lentamente endireitou-se com as mãos caídas, derrotadas. — Meu senhor — disse mais formalmente —, o rei supremo está morto.

Um dos guerreiros caiu de joelhos. Belina tentou calá-lo quando começou a uivar em pranto.

Deixem-no... — disse Caratac fatigado. — Ne­nhum inimigo o ouvirá. Demos-lhes uma boa coca, mas os Romanos controlam o campo de batalha. Porque ha­veriam de se arriscar a perder mais homens a perse­guir-nos em terreno desconhecido e no meio da escuri­dão?

Mais homens reuniam-se em volta deles. Um a um começaram a ajoelhar. — Sois o mais velho dos filhos vivos de Cunobelin — disse um deles. — Agora somos os vossos homens.

Onde deveremos enterrá-lo?

Ides dar batalha em Camuludunon? — Veio outra pergunta do meio da escuridão.

Levem-no para casa... — respondeu Caratac fi­nalmente. — Construam-lhe uma sepultura perto do local onde jaz o nosso pai.

Não choreis, Togodumnos banqueteia-se agora com os seus antepassados nas Ilhas Abençoadas... — disse Ardanos, mas a sua voz soou tensa e fina.

Por um instante Caratac limitou-se a olhá-lo. — Pensaste que eu estava a chorar o meu irmão? — disse ele sombriamente. — Hoje, os afortunados são os mortos. Choro pelos vivos, por todos nós, que teremos que con­tinuar a combater nesta guerra!

Dobrou-se e beijou a testa do irmão, depois agar­rou o pesado torque de ouro, torceu-o e tirou-o do pes­coço do irmão. A luz da tocha brilhou no rosto do rei e, sob o sangue e o pó, Lhiannon viu o rasto brilhante das lágrimas.

Camulodunon não pode ser defendida — disse numa voz rouca. — Não de gente como esta...

Temos de ir para ocidente — ouviu-se Lhian­non dizer, a fadiga e a mágoa deixando-a subitamente vulnerável às visões. — Nas terras dos Durotriges há co­linas fortificadas onde podereis refugiar-vos. Enquanto as tribos combaterem os Romanos isoladamente serão der­rotadas. Se nos unirmos contra eles, os Romanos não conseguirão defender aquilo que já conquistaram.

Caratac assentiu. Curvou a cabeça como se o peso do ouro já o tivesse vergado e enfiou o torque que tirara do pescoço de Togodumnos no seu próprio pescoço.


 

Boudica, graças aos deuses estás de volta! — gritou Brenna. — A Coventa teve outro dos seus ataques e não conseguimos despertá-la!

Boudica deixou cair o saco de ervas que colhera e entrou pela porta da Casa das Donzelas. Coventa debati­a-se na cama com Kea a tentar imobilizá-la.

Coventa! — Boudica ajoelhou-se junto à cama e agarrou os ombros magros, sentindo os ossos frágeis dobrarem-se nas suas mãos como os de um passarinho aprisionado. — Coventa, regressa minha querida. Sou eu, a Boudica! Preciso de ti, Coventa, fala comigo! — Lhi- annon poderia ter viajado até ao mundo dos espíritos pa­ra encontrá-la; Boudica podia apenas tentar trazê-la de regresso ao mundo dos humanos.

Coventa respirou com esforço. — Sangue.... — murmurava. — Tanto sangue...

Não te rales com isso... não é o teu sangue. — Boudica tentou recordar as palavras que Lhiannon cos­tumava usar para fazer as pessoas saírem do transe. Pe­gou na mão de Coventa e esfregou-a contra o cobertor. — Sente a cama por baixo de ti, sente a lã áspera. É a rea­lidade! — Sentiu um assomo de esperança quando os dedos da rapariga se moveram. Que mais daria resultado? A Lhiannon dizia que o olfato era o sentido mais antigo e mais aguçado. Respirou fundo tentando identificar os odores que pairavam no ar.

Agora respira Coventa. Cheira o fumo da lenha na fogueira. Nos campos, o feno está quase bom para a ceifa. Inspira... e expira — mantinha a voz baixa. — Cheira a erva verde ainda quente do sol. Estás aqui, em Mona, está segura ao pé de mim! — acrescentou quando a respiração da rapariga ficou mais calma. Sentia os mús­culos tensos começarem a relaxar sob as suas mãos.

E comigo... — Uma outra voz proferiu calma­mente. Boudica ergueu a cabeça estreitando os olhos quando avistou a figura alta de Helve junto à porta, re­cortada contra o céu que escurecia. Uma das suas trancas ainda não estava presa. As madeixas caíam-lhe pelas cos­tas como rolos de serpentina, como a senhora com cabe­los de cobra das histórias do escravo grego de Cunobelin.

Podes ir... — disse a sacerdotisa numa voz mais baixa. — Eu tomo conta dela agora...

Já quase que a consegui acalmar... — começou Boudica a dizer, mas a autoridade dos gestos de Helve fê-la levantar-se antes de pensar sequer em resistir. Re­cuou enquanto Helve se ajoelhava junto à cama e pousa­va a mão branca na testa da rapariga.

Coventa, filha de Vindomor, chamo-te!

Boudica avançou embora a sacerdotisa não esti­vesse a falar com ela.

A rapariga deitada na cama respirou com dificul­dade. — Senhora, estou a ouvir...

Estás a ouvir a minha voz, ouves as minhas pa­lavras, farás como te digo e verás o que eu mandar...

Ouço e obedeço — foi a resposta em voz fraca. Boudica ficou rígida. Era então assim que Helve estivera a ensinar a sua acólita? Coventa nunca dizia muito sobre o que se passava no seu trabalho com a alta sacerdotisa. Ocorria-lhe agora que talvez isso se devesse ao fato de a rapariga não se lembrar.

Procura a ocidente onde marcham os Romanos. O que vês? Que estava ela a fazer? Iria obrigar Coventa a suportar aquele horror todo novamente? Boudica mordeu o lábio, usando a dor para se controlar.

Sangue e fogo! — Coventa susteve a respiração. — Corpos...

Deixai-a! — interrompeu Boudica. — Não ve­des como ela está a sofrer? Ela...

Cala-te! — Usou o mesmo tipo de poder que Lugovalus usara para silenciar Cloto e, tal como ele, quando tentara protestar, Boudica descobriu que não conseguia falar.

Já reparei, Boudica, que tens um forte instinto protetor em relação às tuas amigas. Isso não é uma coisa má, mas tens que escolher sensatamente as tuas amizades. Há alguns poderes aos quais não te podes opor e acabarás por te magoares se tentares fazê-lo. Eu sou um deles.

Helve olhou para Coventa com a expressão, pen­sou Boudica, que um camponês usaria para avaliar uma boa ovelha.

Não te deves meter com aquilo que não podes compreender. Quando é permitido à visão que se desen­role normalmente, esta passa e deixa a vidente em paz. Mas se tentares suprimi-la, o horror permanecerá na sua alma e regressará para a atormentar. A criança não sofre­rá. — Helve ergueu uma sobrancelha requintadamente arqueada. — Na realidade, será que ela alguma vez se queixou do trabalho que faz comigo?

Boudica abanou a cabeça. Agora, que pensava no assunto, apercebia-se de que, quando estavam juntas, Coventa mal falava sequer na professora, mas se tal se devia a respeito, a aversão ou ao fato de Helve ter elimi­nado a sua memória, não sabia dizer.

Os lábios de Helve retorceram-se de desprezo. Depois, sentindo-se de tal forma segura do seu poder que nem sequer pensou em mandar retirar Boudica, virou-se novamente para Coventa.

Coventa, filha, ergue-te sobre o campo de ba­talha. És um pássaro sobrevoando a cena que nada tem a ver contigo. Voa mais alto minha querida, e diz-me o que o pássaro vê...

A rapariga deitada na cama soltou um suspiro lon­go e entre -cortado. — Cai a noite. As mulheres vagueiam pelo campo de batalha procurando aqueles que amam. Os homens arrastam troncos pata construir piras e os corvos reúnem-se para se banquetearem com o massacre.

A Boudica parecia que aqueles pássaros negros es­tavam presos no seu interior. As asas negras embatiam contra o seu espírito.

Então os reis perderam a batalha... — disse Helve sombriamente. — Agora tens que procurar Arda- nos e os seus companheiros.

Vejo os druidas. Estão a deslocar-se para norte do grande rio. Na carroça que seguem jaz o corpo de um homem com cabelos grisalhos.

Togodumnos... — suspirou Helve.

Controlada pelo feitiço, Boudica tremeu dos pés à

cabeça. Não podendo exteriorizar os seus sentimentos, a sua raiva explodiu dentro de si. Faltava pouco para que quebrasse a barreira que protegia a sua identidade. Mas já não se tratava simplesmente de uma emoção... sentia-a a tomar forma, aglutinando-se num ser capaz de rir do fei­tiço da sacerdotisa. Sou uma fúria... murmurava. Sou poder. Liberta-me!

E os Romanos? — perguntou Helve.

Estão a construir uma ponte... — murmurou Coventa. — Construíram um acampamento com uma paliçada quadrada e mantêm-se no seu interior. Não vejo mais nada. — Coventa mudou de posição com um sus­piro e a descontração do sono substituiu a intensidade do transe.

A sacerdotisa recostou-se, de cenho franzido. Com a pequena parte da sua mente que se mantinha fiel a si própria, Boudica viu-se a erguer o braço e soube que no instante seguinte derrubaria a mulher. Agora o seu pró­prio terror debatia-se com a Outra que nascera da sua raiva: ou teria Ela estado sempre presente, aguardando apenas o momento em que a tensão quebraria as barreiras que a mantinham presa no seu interior? Os seus lábios abriram-se num som estrangulado e Helve virou-se.

Por um momento os seus olhos esbugalharam-se. Depois endireitou-se enfrentando Boudica como se fosse um guerreiro a enfrentar o inimigo. Mas também nunca ninguém duvidara da coragem da mulher.

Fala! — O tom era o mesmo que imobilizara a língua de Boudica. — Quem és tu? Eu não te chamei a­qui!

A resposta foi uma gargalhada. Uma gargalhada de mulher, carregada de zombaria que, para alívio de Boudi­ca, se começou a transformar em raiva.

Não chamaste? Já te esqueceste do ritual através do qual Me chamaste na Viragem da Primavera?

A expressão de reconhecimento horrorizado que se estampou no rosto de Helve contribuiu em muito para reconciliar Boudica com aquela violação.

Grande Rainha... — murmurou ela com uma inclinação de cabeça que poderia ter passado mesmo por uma vênia.

Mas que égua forte domaste para mim — disse a Outra. Cathubodva, pensou Boudica, tão espantada como Helve ao aperceber-se de quem governava agora o seu corpo. A deusa ergueu-se um pouco nas pontas dos pés de Boudica e esticou os braços, como se tentasse ex­pandir o corpo da rapariga o suficiente para se sentir confortável no seu interior.

Mas vejo que não era essa a tua intenção. Na verdade, muito pouca coisa daquilo que vocês, os druidas, fizeram neste último ano teve os resultados esperados. Não é verdade?

Boudica vira Mearan falar com a Voz da Deusa nos festivais, mas ser possuído pelos deuses era algo feito apenas pelos druidas mais experientes e apenas dentro dos limites estritos do ritual. E, mesmo para eles, não era evidente se tal deveria ser encarado como um privilégio se como um fardo.

Falais verdade — disse Helve.

Sempre... — replicou a deusa —, quando mo pedem. Mas tu não pediste, pois não? Não procuraste a Minha sabedoria. Invocaste o meu ódio, que explode como um incêndio e queima tudo à sua passagem.

Mas funcionou! Aterrorizastes os Romanos e eles amotinaram-se!

Até recuperarem novamente a coragem — concordou Cathubodva —, e ficarem ainda mais fortes depois de terem conquistado o medo.

Boudica sentiu o corpo a relaxar à medida que a deusa se instalava nele e se dirigia a um banco, encostado à parede, para se sentar com uma perna dobrada e a outra esticada.

Mas que mais poderíamos ter feito? Que mais podemos fazer agora? — uivou Helve.

O que não podem fazer é manter as coisas co­mo estão. Todas as coisas se alteram, transformando-se noutras até o próprio mundo se transformar. E torcer ou quebrar... Isso é lá convosco. — Mais uma vez Cathu­bodva riu-se.

Do canto onde se refugiara a sua consciência, Boudica escutava, fascinada. Seria verdadeiramente a deusa a falar ou os seus desejos reprimidos? Era verdade que algumas daquelas idéias lhe tinham cruzado o espíri­to, mas achava que não teria conseguido expressá-las ou, pelo menos, tê-lo feito com tanta segurança e poder.

Muito bem — disse Helve contra vontade. — Estou a ouvir.

Quanta obediência! Quanto deslumbramento! — A deusa riu-se. —Não baixas a cabeça facilmente, sa­cerdotisa, e hoje em dia não são muitos os que conse­guem que o faças. Esta criança cujo corpo possuí é mais parecida contigo do que qualquer uma de vós está dis­posta a admitir, até mesmo os anos que vos estão desti­nados são os mesmos.

Passá-los-ei então a lutar pela preservação dos nossos saberes e da nossa tradição — respondeu Helve.

E não a lutar pela tua própria posição e poder?

A sacerdotisa ficou completamente imóvel. — O

prestígio da alta sacerdotisa serve a nossa causa. Será er­rado tê-lo?

Se te lembrares de que é à alta sacerdotisa, e não a Helve, que as honras são devidas — replicou Ca­thubodva num tom mais suave do que usara até ali.

Não terá qualquer importância se me recordo disso ou não se os Romanos nos destruírem a todos.

Achas que és a primeira a rezar pela ajuda dos deuses quando um invasor pôs os pés nestas praias? — Já não se ria. — Em tempos foi o teu povo o inimigo. Um dia os Romanos enfrentarão um inimigo que não conse­guirão vencer. E essa a natureza do mundo.

E vós sereis esquecida! — disse Helve com desdém. — Se não nos ajudardes pelo nosso bem, não o fareis pelo vosso próprio bem?

Esquecida? — A deusa abanou a cabeça. — Os nomes mudam, mas enquanto os guerreiros odiarem e as mulheres chorarem, eu estarei aqui. — A sua voz ficou mais grave. — Não compreendeste ainda? Em face do perigo a vida arde com mais fulgor e a tumba é o ventre onde a vida rebenta de novo. Eu sou o Caldeirão do Bom Deus. A única verdadeira morte é a imobilidade.

Helve empalideceu e, naquele lugar que não era um lugar, Boudica ficou tão imóvel como o rato que sabe que está sob o olhar do falcão. Por alguns instantes só se ou­viu a respiração regular de Coventa.

Depois alguém chamou o nome de Helve no exte­rior. A sacerdotisa pestanejou, o rosto assumindo a sua costumeira altivez calma e levantou-se.

Grande Rainha, agradeço os vossos conselhos, mas chegou o momento de regressardes ao Outro Mun­do.

Morrigan ergueu uma sobrancelha e a sensação de algo demasiado vasto para a compreensão humana es­moreceu. — Nem sequer me ofereces uma bebida? — disse secamente. — Vim sem ser convidada, mas estou certa de que não queres que diga que a tua hospitalidade deixa a desejar...

Mantendo a convidada debaixo de olho, Helve di­rigiu-se à porta da cabana, disse qualquer coisa e regres­sou com um jarro de louça cheio da cerveja escura e es­pumosa que era a especialidade da velha Elin. Boudica sentiu o prazer que a bebida pungente e gasosa dava a Cathubodva quando esta a bebeu de um só trago. Teve tempo para se espantar com o fato de uma imortal poder gozar um prazer tão simples, mas quaisquer que fossem os prazeres no Outro Mundo, pensou que talvez até mesmo os deuses dependessem dos sentidos humanos para apreciarem o gosto da cerveja.

Depois a caneca escorregou de uma mão subita­mente inerte. Tombou como um odre subitamente esva­ziado quando a deusa saiu de si, a consciência escapan-

do-se numa vertigem negra enquanto caía por terra.

 

Boudica recuperou os sentidos, ofegante. Helve estava na sua frente com um balde de água nas mãos. Coventa estava sentada na cama, olhando-a com os olhos muito abertos.

Boudica, que foi que te aconteceu?

Boudica engoliu em seco, sentiu o sabor da cerveja e estremeceu perante o olhar calculista de Helve. — Desmaiei? — perguntou numa voz fraca. A Coventa pa­recia nunca se lembrar do que acontecia durante os seus transes. Se ela própria deveria lembrar-se do que se pas­sara não tinha a certeza, mas era evidente que seria me­lhor para ela se Helve não se apercebesse do que ela sabi­a.

 

Boudica correu sobre a erva verde do Verão com o stick na mão para manter a bola em jogo. Mas não havia público para a aplaudir nem adversário a tentar detê-la. Durante as últimas semanas tinham sido tantos os estu­dantes a deixar a escola e a regressar às suas tribos, que já não havia estudantes em número suficiente para constitu­ir as equipas. Mas o exercício aliviava alguma da inquieta­ção que, durante os últimos dias, a impedira de dormir bem à noite, mesmo que tivesse que jogar sozinha.

Ajudava-a imaginar que era uma cabeça romana o que mandava a rolar sobre a erva. Compreendia o que levara os rapazes a partir. Compreendia até a razão por­que Helve insistira para que Coventa contasse toda a sua visão. De que outra forma poderiam saber o que se estava a passar, encurraladas ali no fim do mundo? Lhiannon andava em algum lugar, no exterior. Ela e Ardanos cor­riam perigo — Helve provavelmente enviara-os para aju­dar Caratac devido ao perigo. Certamente que a alta sacer­dotisa ficara satisfeita por se ver livre dos dois mais pro­váveis opositores da sua vontade, enquanto o drui- da-chefe estava também ausente tentando persuadir os chefes hesitantes de que os Romanos podiam ser comba­tidos.

Sem dúvida que a Helve também gostaria de me ver pelas costas, pensou dando uma pancada malévola na bola. Ou talvez não. Ela olha para mim como se não tivesse a certeza se deseja que Morrigan me faça outra visita ou se o receia... Boudica passara a maior parte das suas meditações a fortalecer o espírito contra outra dessas violações, mas gostava bas­tante de manter Helve na dúvida.

Quando rematou a bola à baliza ouviu Coventa a chamar pelo seu nome.

Boudica, tens que vir! — A rapariga parou para recuperar o fôlego. — A Senhora Helve quer falar conti­go. Chegou um mensageiro!

A Lhiannon foi ferida! Pensou, mas as notícias da sa­cerdotisa seriam dadas em primeiro lugar aos druidas mais importantes. Teria acontecido alguma coisa ao pai? Teria ele participado nas batalhas? Mas já corria à dispa­rada, seguida por uma Coventa ofegante.

O dia estava quente e Boudica encontrou Helve sentada por baixo do carvalho cujos ramos abraçavam o telhado cônico da sua cabana. Travou, deslizou e parou e depois endireitou-se, aguardando.

Chegou um mensageiro... um homem chamado Leucu. Conhece-o?

Boudica assentiu. — Serve o meu pai desde que eu nasci. — O seu coração batera devido ao exercício: agora batia de ansiedade. Mas recusava-se a dar a Helve a satis­fação de suplicar pelas novidades.

O teu pai manda-te regressar a casa.

Boudica assentiu não revelando nada. Achava que Leucu seria o acompanhante perfeito — conhecia toda a ilha e era demasiado velho para ameaçar a virtude de uma princesa. Demasiado velho para se juntar aos guerreiros, pensou sombriamente não desviando os seus dos olhos pálidos de Helve. Surpreendentemente, foi a sacerdotisa quem falou primeiro.

Ele disse-me que os Romanos estão a marchar sobre Camulodunon. Parece que a Coventa... viu a ver­dade — disse a sacerdotisa numa voz tensa. — Os Icenos decidiram submeter-se.

Certamente que ele não precisa de mim para isso! — explodiu Boudica apesar do seu controlo. A não ser que houvesse alguém com quem a desejasse casar. Respirou fundo. — Tenho alguma escolha?

Helve suspirou. — Tens — respondeu algo relu­tante. — De qualquer forma terias que decidir dentro de pouco tempo se desejas ficar conosco ou regressar a casa. Digo-te desde já que não vejo em ti o potencial de uma sacerdotisa, mas tens alguns talentos que poderão ser ú­teis — disse evasivamente e Boudica reprimiu um sorriso. — Se quiseres ficar, serás bem-vinda.

De quanto tempo disponho para tomar a deci­são?

Podes decidir já que vais para casa com Leucu, mas tenho também outra mensagem — acrescentou Helve contra vontade, — de Lhiannon.

Ela estava sã e salva! Boudica tentou não deixar transparecer a sua alegria perante tal notícia.

Como sabes, é costume enviarmos as nossas donzelas para um retiro em Avalon antes de assumirem o seu lugar como mulheres na nossa comunidade. A Lhi­annon pede que vás ter com ela ao País do Verão. Nor­malmente irias acompanhada por um grupo de sacerdoti­sas, mas nos tempos que correm não posso dispensar ninguém. A Lhiannon saberá o que deve ser feito.

Eu não me queixo... a Lhiannon é, de entre todas vós, a que eu escolheria para este ritual, pensou então Boudica.

Depois irás para Camulodunon. Quando tiveres visto os dois sítios, com olhos de mulher e não de crian­ça, decidirás.

À medida que Helve falava, a sua voz tornava-se mais ressonante — por instantes quase parecia a própria Senhora Mearan — e Boudica percebeu então que Helve falava com verdade enquanto alta sacerdotisa, apesar do que pudessem ser os seus sentimentos pessoais. E foi à sacerdotisa, não à mulher, que ela fez uma vênia.

Senhora, agradeço-vos. Irei para Avalon.

 

Em vez da viagem entediante a cavalo que espera­ra, os druidas tinham encontrado um navio mercante que ia para sul e cujo capitão estava disposto a levar Boudica e Leucu pela costa ocidental da Britânia até ao grande estuário onde o Sabrina entrava no mar. Ainda assim o sofrimento físico do enjôo atenuou a mágoa de deixar o local a que durante quatro anos chamara lar e, quando se acostumou aos movimentos do barco, as terras e os seus habitantes já lhe eram desconhecidos e estranhos.

O barco virou para leste ao longo da costa onde as montanhas os protegiam da forte nortada. A partir dali era uma viagem de dois dias por um canal do Sabrina até uma costa coberta de juncos e de pântanos através dos quais as calmas águas castanhas corriam para o mar.

Boudica respirou fundo quando o vento trouxe de terra o cheiro forte e fértil dos pântanos mais abaixo.

É, fede mesmo, senhora — disse o capitão in­terpretando mal a sua reação. — Ficarei satisfeito por regressar aos ventos limpos do mar.

Boudica riu-se. — Eu não me importo — disse. — Eu sou da terra dos Icenos. Faz-me lembrar os baixios perto da minha casa.

Ainda bem, pois vai ter de viajar nessa direção para chegar à ilha sagrada... — apontou vagamente para leste. Entre os pântanos e o mar viu um aglomerado de cabanas construídas sobre estacas. A bruma cobria o que quer que estivesse para lá das árvores entrelaçadas. — Vai encontrar um barqueiro naquela aldeia. Esta gente daqui é estranha, uma gente pequenina e escura que está aqui desde a criação da terra, mas conhecem os caminhos dos pântanos e são leais aos santos de Avalon.

Boudica continuou a olhar enquanto avançavam lentamente para terra, tentando decidir se a sombra pon­tiaguda que pensava ver seria mesmo o Tor sobre o qual tinha ouvido falar tanto e pensando no que poderia lá encontrar.


 

A criança cresceu!, pensou Lhiannon vendo Boudica subir o caminho e detendo-se para olhar para o cone pontiagudo do Tor. Nas suas costas os juncos e o mato pontilhavam a vastidão brilhante dos pântanos, salpicados de colinas verdejantes e perdendo-se no brilho prateado do mar.

Ou talvez se tivesse apenas esquecido de como podia ser impressionante a passada das longas pernas de Boudica bem como o seu cabelo flamejante. Movia-se como uma jovem deusa a subir a colina. A rapariga era uma visão bem-vinda depois de todos os horrores a que assistira. Lhiannon tivera a esperança de que as duas se­manas passadas no Tor a curassem, mas os seus nervos ainda estremeciam com qualquer som inesperado. Talvez a alegria robusta de Boudica fosse um bom remédio.

Lhiannon saiu das sombras das macieiras silvestres que formavam um pomar natural na encosta da colina. Um grande sorriso iluminou o rosto de Boudica, cheio de sardas devido à viagem por mar, quando viu a sacerdotisa que a aguardava.

Lhiannon deu-lhe um abraço rápido.

Anda, depois de dois dias nos pântanos deves estar com fome... espero que o barqueiro te tenha dado qualquer coisa melhor do que enguias fumadas e raízes dos pântanos.

Comemos qualquer coisa fumada — respondeu Boudica. — Mas o que era não quis perguntar...

A sacerdotisa riu-se.

O barqueiro levou o criado do teu pai para es­perar por ti na aldeia? Será hóspede deles até nós termi­narmos o que temos a fazer, se bem que não me possa responsabilizar por aquilo que ele vai comer. Tens horta­liças e bolos de aveia e um pouco de pato assado para o jantar. As cabanas onde dormimos são simples, mas com este clima precisamos de pouco...

Lhiannon, estás a tagarelar — disse Boudica olhando para ela. — E não estás com bom aspecto... Sei que estiveste nas batalhas. Sofreste algum ferimento?

Só no espírito... — Lhiannon sentiu a boca re­torcer-se de dor e fez menção de se desviar, mas depois olhou-a novamente. Como poderia ensinar o autoconhe- cimento a Boudica se escondesse a sua própria dor?

Mas foi só depois de terem acabado de comer que lhe pareceu apropriado conversar. Lhiannon cozinhou a refeição simples numa fogueira, no exterior de um grupo de casas junto à fonte sagrada, onde ficavam as sacerdo­tisas quando visitavam Avalon. Uma colina suave escon­dia parcialmente o Tor mais adiante, mas a consciência da sua presença era constante. Os únicos residentes per­manentes eram uns quantos druidas idosos que passavam o tempo em contemplação em cabanas dispersas no lado norte da ilha.

Embalada pelo marulhar da água que jorrava con­tinuamente da Fonte do Sangue, sentaram-se a ver a noite cair ao seu redor. As brumas erguiam-se sobre os pânta­nos, envolvendo-as em mistério, mas o céu por cima do Tor brilhava estrelado. Quando o fogo esmoreceu Lhi­annon começou a falar e, revivendo o sangue e a angústia, sentiu que conseguia finalmente libertar-se.

Então o Rei Togodumnos está morto? — per­guntou Boudica.

Lhiannon assentiu. — Teve a morte de um herói. Agora festeja nas Ilhas Abençoadas. Os melhores de en­tre os Trinovantes estão lá com ele e demasiados Catu- vellauni e Cantiaci também. Caratac tenciona ir ter com o

Rei Tancoric nas terras do ocidente para fazer uma alian­ça com ele.

Tu e Ardanos enterraram o rei em Camulodu- non? — perguntou Boudica baixinho passado alguns mi­nutos.

Lhiannon assentiu. — Por fim. Aquela primeira noite foi de terror, fugindo e escondendo-nos e fugindo novamente, pensando quando seria que os batedores ro­manos nos iriam encontrar. Foi só no terceiro dia que nos atrevemos a parar o tempo suficiente para cremar o cor­po. Levamos as cinzas para os campos funerários, mesmo no exterior dos diques de Camulodunon, e sepultamo-las junto às do seu pai. Foi um funeral pobre, sem oferendas na sepultara, mas deixamos-lhe a lança e o escudo. — Ergueu os olhos com um suspiro. — Como é que sabias?

A Coventa viu-vos... — Boudica interrom­peu-se como se houvesse mais que não devia ser dito. Em algum lugar um mocho piou três vezes e calou-se.

Essa pobre criança... A Helve usa-a sem pieda­de, como suponho eu também faria se a escolha tivesse recaído sobre mim. — Inclinou-se para espevitar o fogo. — Nos dias que se aproximam precisaremos de todas as vantagens.

E que estão os Romanos a fazer agora?

Esperam... — Lhiannon soltou uma gargalhada triste. — O general romano construiu uma ponte sobre o Tamesa e dizem que está à espera que o seu imperador a atravesse para terminar a nossa conquista.

E ele pode fazê-lo? — Um raio solitário de luz brilhou no cabelo de Boudica.

Minha querida, a sudoeste não resta ninguém para se lhes opor. Se permaneceremos conquistados já é ou­tra questão.

Afinal Júlio César viera, proclamara-se conquista­dor e partira, e a Britânia fora deixada em paz durante um século depois disso. O vento murmurava na copa das ár­vores mas, se estava a tentar responder-lhe, não conse­guia compreender as palavras.

— Está a ficar tarde — Lhiannon levantou-se su­bitamente e dirigiu-se à cabana. — Temos de dormir. Amanhã mostro-te a ilha e, quando for Lua Nova, no dia seguinte, faremos a tua iniciação na Fonte do Sangue.

Se Boudica ficou surpreendida pela sua brusquidão teve a gentileza de não fazer comentários e seguiu-a para dentro de casa.

 

Na hora cinzenta que antecede a madrugada o ar era tão gelado que chegava aos ossos. Boudica pensou que já deveria estar à espera, tendo-se acostumado à ce­rimônia do nascer do Sol na ilha dos druidas, mas partira do princípio de que, sendo mais a sul, Avalon não seria tão fria. A luz do Sol da tarde a ilha sagrada parecera um local de beleza e poder. Mas enquanto seguia atrás da forma encapuzada de Lhiannon até ao local entre o po­mar da colina e o Tor onde brotava a Fonte do Sangue, as formas pouco nítidas das árvores e das pedras mudavam em torno dela com uma diversidade ambígua e não con­seguia dizer se as novas formas eram maravilhosas ou terríveis.

Suponho que esta é a primeira lição... pensou enquanto pousava cuidadosamente os pés ao longo do caminho. — Todos nós temospotenàal para o bem e para o mal e, sabendo isso, temos de escolher...

Detiveram-se perante uma sebe de arbustos. A luz fraca conseguiu distinguir uma abertura na base. Virou-se para perguntar se era a entrada, mas a outra mulher desa­parecera.

Boudica, filha de Anaveistl, o que te trouxe até aqui? — Ouviu-se uma voz do outro lado da sebe. Bou­dica pestanejou. Em todas as ocasiões anteriores fora conhecida como filha do seu pai, mas ali tratavam-se dos assuntos das mulheres. Pela primeira vez pensou em co­mo se teria a mãe sentido ao tornar-se mulher. Não tivera uma cerimônia assim, mas a passagem de menina a mulher sempre fora honrada entre as tribos.

Fui uma criança... serei mulher. Fui ignorante... procurarei a sabedoria.

Tira as roupas. Vieste ao mundo nua. Será nua que farás esta passagem para renascer... — Sabia que quem falava era Lhiannon, mas soava... estranha.

Vem!

A tremer, Boudica largou a capa no chão. As pe­dras arranhavam-lhe os joelhos e as folhas aguçadas dos arbustos raspavam-lhe as costas quando rastejou pela a­bertura. Baixou-se mais para não ficar toda arranhada.

O Sol continuava escondido por trás da colina mas, quando emergiu, descobriu que conseguia ver. A sebe estendia-se para a esquerda e para a direita até ao sopé da colina do pomar. A fonte sagrada corria de em algum lugar mais acima, a sua água escorrendo para den­tro de um grande lago cercado por pedras vermelhas de ferrugem devido ao ferro que vinha com a água.

Do outro lado, envolta numa capa, estava uma fi­gura que — assim o esperava — tinha de ser Lhiannon. Pensou em como seria aquele ritual quando era celebrado por uma série de sacerdotisas e não conseguiu decidir se se sentia desapontada ou satisfeita pelo fato de receber aquela iniciação unicamente de Lhiannon, que era em quem ela mais confiava.

Entraste no templo da Grande Deusa que, embora use muitas formas, não tem forma nem nome, embora lhe chamem muitos nomes. Ela é Donzela, para sempre intocada e pura. É Mãe, a Fonte de Tudo. É a Senhora da Sabedoria que perdura para além do túmulo. E Ela responde a todos os nomes que Lhe deram todos as tribos da humanidade. A Deusa está em todas as mu­lheres e todas as mulheres são rostos da Deusa. Tudo o que Ela é, tu serás. Criando e destruindo, Ela faz nascer todas as transformações. Estás disposta a aceitá-La em todas as Suas formas?

Boudica pigarreou. — Estou...

Contempla o Caldeirão dos Poderosos. — A sacerdotisa indicou o lago. — Todos quantos entrarem nele sem ser merecedores perecerão; os mortos nele de­positados reviverão. Atreves-te a enfrentar o Mistério?

O céu já estava mais claro. Boudica pensou se a água ligeiramente brilhante que este lhe mostrava estaria tão fria como parecia, mas a sua voz soou segura quando respondeu: — Sim...

Desce então para o lago.

Quando pôs o pé dentro da água a sua temperatura gelada provocou-lhe um choque em todo o corpo. Tre­meu com o esforço que fez para não desatar aos saltos e aos gritos. Mas apesar de Helve poder fazer pouco das suas aptidões, Boudica tornara-se competente em algu­mas das disciplinas druidas. Respirou fundo procurando o fogo no seu interior. Conseguia senti-lo por baixo do es­terno, pulsando como um pequeno sol. Respirando nova­mente ordenou-lhe que se estendesse a cada membro.

Avançou sem hesitar, a pele arrepiada à medida que o gelo exterior encontrava o fogo interior e, erguendo os olhos, viu outra figura a descer os degraus do lado o­posto, os seus gestos um espelho dos seus próprios ges­tos. Era Lhiannon, disse a si própria, mas contra o céu cada vez mais brilhante distinguia apenas uma silhueta. Na sua postura reconhecia algo de Mearan, na elegância algo da sua própria mãe e a posição da cabeça era a mes- ma que já vira em si própria, no reflexo quando se de­bruçava sobre águas espelhadas.

A ondulação quebrou os seus reflexos em mais um milhar de imagens quando mergulharam na água até ao peito. Ruiva e loira, musculada e esguia, moveram-se na direção uma da outra dentro da piscina.

— Pela água que é o sangue da Senhora, possas ser purificada... — murmurou a Outra que era e não era Lhiannon. — Que deste ventre possas renascer... — Os seios de ambas tocaram-se quando Lhiannon se aproxi­mou, depois pousou as mãos nos ombros de Boudica e fez força para baixo.

Quando as águas se fecharam sobre Boudica, as feridas onde a sebe a arranhara arderam tremendamente e depois a rapariga começou a sentir uma comichão que se espalhou por todo o corpo, como se estivesse realmente a ser criada de novo. Sentia as mãos de todas quantas ti­nham sido iniciadas na piscina antes dela a abençoá-la. A pulsação do sangue nos seus ouvidos era como o bater de asas poderosas; banhava-se na luz e não sabia se esta vi­nha de fora ou de dentro de si.

Filha amada... das profundezas da consciência sur­giu uma voz. A princípio pensou que era a voz de Morri- gan, mas esta era muito mais poderosa: ressoava-lhe nos ossos. No sangue e no espírito és verdadeiramente Minha filha. Ofereço-te ao mundo e o mundo a ti. Aconteça o que acontecer nun­ca estarei longe de ti se procurares no teu interior. Vai em frente e vivei

Depois mãos fortes puxaram-na para cima. A sua pele deslizou suavemente contra outra pele quando emer­giu nos braços de Lhiannon. Na luz da água brilhavam e giravam em torno delas uma multidão de espíritos alegres que celebravam. Durante aqueles poucos momentos em que estivera debaixo de água o Sol levantara-se e estavam no meio de um lago de fogo.

 

O teu ritual de passagem a mulher também foi assim? Perante a pergunta desafiadora de Boudica, Lhi- annon acabou de atar os atacadores dos sapatos e olhou para cima. Tinham passado dois dias desde a iniciação. A noite anterior estivera nublada, mas as brumas estavam a dissipar-se nos pântanos e, por trás das macieiras, o Tor erguia-se, elegante e verde contra o céu alegre.

É sempre igual e sempre diferente... — disse ela com um sorriso. — A estrutura do ritual não sofreu mui­tas alterações, acho eu, desde que o Povo da Sabedoria iniciou as suas filhas pela primeira vez neste lago. Mas o poder que invoca, a transformação interna que provoca, é necessariamente diferente para cada donzela que abençoa.

Recordava a sua própria iniciação como um lento desabrochar da consciência, camada após camada, como uma flor a abrir-se, até que no fim vira o núcleo de luz. Uma vida inteira, pensou, poderia não ser suficiente para compreender aquilo que tocara quando mergulhara no lago.

Achava que Boudica não tivera a mesma experiên­cia, mas era evidente que algo acontecera à rapariga. E, como acontecia sempre no ritual, quem dava era tão a­bençoado como quem recebia.

Lhiannon continuava a chorar os guerreiros mor­tos da Britânia, mas fora recordada de que a Grande Mãe, que chora pelos seus filhos, também os faz renascer.

Ainda estou a tentar digerir todas as palavras sensatas que me disseste depois, quando estávamos a quebrar o jejum junto ao lago — disse Boudica.

Lhiannon franziu o sobrolho. Na euforia que se seguira à bênção, com os corpos nus ainda quentes do fogo sagrado, dera por si a dizer a Boudica coisas que mal admitira perante si própria. Nem mesmo quando passea­va com Ardanos conseguia partilhar os seus pensamentos com tanta intimidade. As suas almas estavam tão despidas como os seus corpos, não eram já professora e aluna, mas duas mulheres juntas numa intimidade espiritual que teria sido impossível se não estivessem sozinhas. Agora come­çava a suspeitar que se forjara entre ambas um laço que não tencionara formar.

Esta rapariga tem um potenáal de que, nos quatro anos que passou com os druidas, nem sequer suspeitamos, pensou me­lancolicamente. Mas, se ela decidir regressar ao seu povo, não será esse potencial perdido que me causará mágoa, mas sim a perda da primeira alma que conheci que se poderia tornar numa ver­dadeira amiga.

Se já tivesses compreendido tudo, então não te­ria sido uma verdadeira iniciação — respondeu Lhiannon tentando disfarçar as emoções. — Isto é o começo. Terás o resto da tua vida para compreenderes o seu significado.

Suponho que sim... Tenho de decidir hoje se quero ficar com os druidas?

Lhiannon respirou fundo. Não, graças aos deuses... Em voz alta disse: — Temos ainda alguns dias até que tenhas de decidir. Permite que cada dia te traga a sua li­ção. Hoje proponho-te que subamos ao Tor. — Agarrou no bastão.

Via que Boudica estava a engolir outra pergunta e sorriu. Poderiam falar mais depois. Ainda tinham tempo.

O caminho seguia em torno da base da colina do pomar e passava pela sebe de arbustos que escondia o lago sagrado. Por trás deste as águas da Fonte de Leite escorriam, juntando-se à lagoa, deixando a sua própria marca leitosa sobre as pedras. Vermelho e branco, sangue e leite, alimentavam a terra. As mulheres pararam para encher os cantis. Depois do sabor pungente da Fonte de Sangue, as águas da Fonte de Leite sabiam a pedra.

Em torno da base do Tor as árvores agrupavam-se cerradas, mas numa época anterior tinham sido arranca­das das encostas e as ovelhas tinham impedido que vol­tassem a crescer no monte. Quando as mulheres saíram de entre as árvores, a longa espinha do Tor erguia-se na sua frente.

Vamos subir a direito até lá acima? — pergun­tou Boudica. Dali a primeira encosta íngreme ocultava a inclinação mais suave que se lhe seguia e não se via o cír­culo de pedras no topo.

Podíamos fazê-lo... ou podíamos dar a volta até ao outro lado e seguir por um caminho mais curto e ainda mais íngreme... se quiséssemos apenas chegar ao topo e gozar a vista...

Aguardou, observando Boudica a avaliar a erva ondulante que tinha pela frente. A base do Tor era mais ou menos oval, apoiada sobre um eixo nordeste-sudueste. Ao longe, parecia um cone perfeito, mas o cume ficava no extremo norte. A distância parecia também muito liso, mas dali via-se claramente que era sulcado por numerosos caminhos em socalcos.

Não são naturais, pois não? — Boudica apon­tou. — Isto é um dos mistérios dos druidas?

Lhiannon abanou a cabeça. — Já aqui estavam quando a nossa gente chegou às ilhas da primeira vez. Quem os construiu foi o Povo da Sabedoria. Não são anéis, mas sim um labirinto. Caminha-se em silêncio, como na meditação, até atingir o topo.

Boudica olhou para o caminho que estava na sua frente, o início marcado por uma pedra antiga. — E quando chegarmos ao outro lado do labirinto — pergun­tou cuidadosamente —, teremos chegado onde?

Inesperadamente, Lhiannon deu uma gargalhada. — Ao cume do Tor... em geral. Mas por vezes, dizem, o caminho conduz para dentro até ao Outro Mundo.

Por baixo do chapéu de palha de abas largas o rosto de Boudica iluminou-se com um sorriso e ela res­pondeu: — Acho que é mais provável tu encontrares esse caminho do que eu. Mas certifica-te de que te lembras do caminho de regresso.

— Não chegaremos a sítio nenhum se não come­çarmos — Lhiannon passou pela pedra e começou a es­calar o monte.

Durante o primeiro circuito estava plenamente consciente de Boudica atrás de si. O caminho seguia pelo meio da encosta norte do Tor, no sentido do movimento do Sol, em torno da encosta sul até se aproximarem da pedra e depois mergulhava e virava para trás, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, em toda a volta, dava mais uma volta para baixo e rasava a base do Tor. Ali o percurso era fácil. Continuou a caminhar, gozando o sol que lhe batia nas costas e a forma como o vento agitava as dobras da sua túnica. Já ali estivera antes e o exercício era bem-vindo num dia lindo de Verão como aquele.

Só quando o caminho se abeirava novamente da entrada é que regressava à espinha da colina em voltas apertadas e em sentido contrário ao dos ponteiros do re­lógio, invertendo o sentido a meio da encosta e subindo para cima na direção das pedras eretas. Foi aí que Lhian- non começou a suspeitar que daquela vez poderia ser di­ferente. A luz parecia mais pálida apesar de nenhuma nu­vem tapar o Sol. Cada passo parecia mais deliberado. Não se sentia mais pesada, mas antes como se uma qualquer força a puxasse para o Tor.

Lhiannon olhou para trás, para o caminho. Via Boudica lá atrás, a meio da encosta, movendo-se lenta­mente e parando de vez em quando para olhar para a cordilheira de montanhas a norte e para o mar distante. O vale de Avalon estava situado entre duas cordilheiras, uma terra abrigada com o Tor como seu coração secreto. A rapariga — não, a jovem mulher — ficaria bem. Com um suspiro de alívio Lhiannon regressou ao caminho.

Já via as pedras sagradas lá em cima. O ar por cima de si tremeluzia. Fez um desvio por trás delas, avançou uma vez mais, chegou tão perto que lhes poderia tocar, mas agora já não precisava de ver o caminho. Um fluxo de energia transportou-a como se fosse levada pela cor­rente de um ribeiro. O caminho dobrava-se sobre si pró­prio e para baixo, descrevia um grande arco para trás e outro mais comprido para a frente, afastando-a do cume. Mas agora já não projetava qualquer sombra, pois o Sol desaparecera. Caminhou através de um crepúsculo lumi­noso enquanto avançava e andava à volta e subia de no­vo, finalmente, até ao ponto de poder no interior do cír­culo de pedras. A terra descia em todas as direções tal como vira enquanto subia e, no entanto, não o fazia da mesma forma, pois agora todas as árvores cintilavam e todos os juncos brilhavam, as pequenas ilhotas elevadas eram pequenos pontos brilhantes que marcavam o fluxo de energia através da terra.

Lhiannon ficou de pé, com a pele arrepiada como acontecera no lago sagrado. Todos os sacerdotes e sa­cerdotisas druidas tinham feito aquela subida e nem um em cada cem encontrara o caminho entre os mundos. A quantos teria passado despercebido o momento de po­tencial transformação? Quantos o tinham pressentido e recuado, temerosos? Pensou por que razão lhe teria sido concedido aquele dom e desejou poder partilhá-lo com Boudica.

— Só quando a alma está pronta é que pode en­contrar o caminho.

Levou um instante a aperceber-se de que quem fa­lava não era o seu espírito. Virou-se com o coração aos pulos.

A princípio pensou que via a Senhora Mearan ali, de pé, mas quando já se achava cheia de contentamento apercebeu-se de que aquela mulher era tão pequena como as mulheres da Aldeia do Lago, vestia roupas de pele de veado e usava uma grinalda de flores estivais. E, no en­tanto, o contentamento manteve-se, pois a sabedoria e o poder que via no rosto da mulher eram os mesmos. Ins­tintivamente, curvou-se como se teria curvado perante uma alta sacerdotisa do seu próprio povo, pois sem dúvi­da que a rainha do povo das fadas era de igual categoria. E era muito mais antiga.

Os sacerdotes do Carvalho ensinaram-te bem... — disse a mulher a sorrir. — Mas a tua gente não me vem visitar com tanta freqüência como em tempos pas­sados. Vieste em busca de refúgio, agora que o teu povo está em guerra?

É verdade que um povo estrangeiro nos inva­diu, mas a maior parte dos nossos sábios está a salvo na ilha de Mona. Não me parece que eles cheguem a lá ir — respondeu Lhiannon com um assomo de orgulho.

O tempo aqui corre de uma forma diferente e já vi muitos povos chegarem e partirem a esta terra. Mas tu, pelo menos, podes ficar em segurança... — a fada fez um gesto e Lhiannon viu que um pano tinha sido estendido sobre a erva no interior do círculo e, em cima deste, havia comida e bebida. O seu estômago rugiu perante a visão dos bonitos pães brancos, das aves assadas e das taças com frutos e nozes de todos os tipos. Já passara muito tempo desde a refeição da manhã.

Quando pensou nisso recordou-se subitamente de Boudica a mexer as papas de aveia com a luz da manhã a incendiar-lhe os cabelos. Lhiannon soubera que a mulher mais nova estava posta perante uma escolha, mas não soubera que a ela própria também seria dado escolher.

Senhora, não quero insultar a vossa hospitali­dade, mas não posso abandonar a minha amiga.

A mulher olhou-a, pensativamente. — A amizade é uma das grandes virtudes da tua espécie. Mas ela ainda não está pronta para compreender. Se a vossa amizade perdurar, talvez chegue o dia em que ela e tu poderão re­gressar para mim...

Conseguis então ver o futuro? — perguntou Lhiannon ansiosamente. Conseguiremos expulsar estes Romanos da Britânia?

Durante alguns momentos a mulher limitou-se a olhar para ela. — Esqueço-me de quão jovem és... A vossa vida humana é um rio e vocês fazem todos parte dele, como os ribeiros e as nuvens e a chuva, cada um movendo-se de acordo coma sua própria natureza, uma corrente correndo mais forte e depois acabando por ce­der a uma outra. Os Romanos são muito fortes, mas é só aqui que posso prever o futuro, pois apenas o meu reino está imune à mudança.

Quereis dizer que é inútil resistir aos Romanos? — Lhiannon fixava-se na única parte que conseguia compreender.

Inútil? Nenhuma ação de um coração corajoso é perdida. Se os vossos reis vos falharem, procurem as vossas rainhas. O vosso amor e a vossa coragem serão uma corrente poderosa nesse rio. Mas conhecerão a dor e um dia morrerão.

Mas crescerei — disse Lhiannon lentamente —, e aqui nunca poderia ser maior do que sou neste mo­mento.

Talvez não sejas, afinal, uma criança — disse então a fada. — Vai agora com a minha bênção. A luz do dia já se desvanece no mundo dos homens.

Obrigada... — disse Lhiannon, mas tanto a mulher como a comida das fadas já tinham desaparecido.

Ainda a pensar deu o primeiro passo e deu por si nova­mente no mundo dos humanos.

 

Apesar de os céus sobre o vale permanecerem limpos, ao largo, sobre o mar, estava a formar-se uma tempestade. O Sol que se punha acendia, nas nuvens dis­tantes, estandartes de chamas. Boudica bebeu o resto da água do cantil e pensou em descer o monte.

Sem dúvida que Lhiannon já estava de regresso à cabana a preparar a jantar e a pensar quando é que Bou­dica chegaria. A outra mulher não passara por ela na des­cida, mas tinha que ter descido, talvez quando Boudica estava no arco comprido do outro lado da colina. Quan­do chegara ao topo olhara em todas as direções e Lhian- non não estava em parte alguma. Ficou um pouco sur­preendida — não, na realidade ficara um pouco magoada — por a companheira não se ter dado ao trabalho de lhe dizer que se ia embora. Pareciam ter ficado tão chegadas, depois daquela manhã na lagoa. Mas Lhiannon dissera que aquela subida deveria ser uma meditação solitária. Talvez tivesse deixado Boudica sozinha para que ela con­seguisse decidir-se.

Eu não quero decidir! — disse com rebeldia.

O que é que queres?

Boudica ficou a olhar. Um momento antes estivera a olhar para as pedras do outro lado do círculo e gora via Lhiannon na sua frente. Se é que era Lhiannon. A sacer­dotisa sempre fora loira, mas agora o seu rosto resplande­cia.

Onde estiveste? — Boudica deu por si de pé sem ter dado por se levantar.

Encontrei o outro caminho... Encontrei o ca­minho interior. — Disse a sacerdotisa lentamente. —

Encontrei o caminho para o país das fadas... — Olhou em torno de si com um misto de desapontamento e de espanto e Boudica acreditou nela. — Mais ou menos a meio, o labirinto começou a mudar. Não viste nada? Tive a esperança de que me seguisses...

Não vi nada a não ser a terra verde e o céu lá em cima. A luz do Outro Mundo ainda brilhava nos o­lhos de Lhiannon e Boudica apercebeu-se da distância que as separava. Mas não sentia inveja. De alguma forma, naquele instante de conscientização, encontrara a resposta para a sua pergunta.

Eu não sou sacerdotisa. Este mundo chega-me.

Os seus olhos encontraram-se e, nos de Lhiannon,

viu a mágoa que se transformou lentamente em aceitação e em algo mais que só conseguia identificar como amor.

Então fico satisfeita por ainda fazer parte dele... — disse a sacerdotisa e sorriu.


 

Em nome de todos os poderes da terra, céu e mar, o que é aquilo?

Boudica virou-se ao ouvir a exclamação de Lhian- non, abrindo muito os olhos ao ver o que aparentava ser uma meda de feno a atravessar lentamente o campo sobre quatro patas curtas e cinzentas. Enquanto observavam, um apêndice semelhante a uma cobra subiu e arrancou algumas das palhas.

Acho... acho que é uma espécie de animal. — Protegeu os olhos com uma das mãos para ver melhor.

O vento mudou de direção e os cavalos começa­ram a escoicear e a relinchar. — E sem dúvida um animal — concordou Lhiannon numa voz insegura. — Deve ser uma daquelas criaturas estranhas de que ouvimos falar na noite passada — os elephanti que os Romanos trouxeram do outro lado do mar.

Calcularam que o animal tinha pelo menos duas vezes a altura de um homem alto. Os aros de latão nas presas de marfim brilhavam ao Sol da tarde quando o bi­cho se movia. A sua mente espantava-se com a idéia de que um tal ser pudesse ser transportado em qualquer tipo de navio capaz de navegar nos oceanos. Sem dúvida que o imperador trouxera os animais para aterrorizar os nati­vos — estava mesmo a assustar os cavalos, mas a total es­tranheza da criatura dava a Boudica vontade de rir.

E um assunto que não te diz respeito... — gru­nhiu Leucu. — Se queremos chegar à tenda do teu pai antes da hora do jantar temos de nos apressar.

Puxou a cabeça do cavalo para um dos lados e im­peliu-o para a frente no caminho que levava ao que fora, em tempos, o forte de Cunobelin. Os Romanos tinham queimado os edifícios de que o velho rei tanto se orgu­lhara — depois de os saquearem primeiro, naturalmente. Os chefes tribais que tinham vindo para fazer a paz com o imperador estavam acampados nos campos de Camu- lodunon.

Sem dúvida que Leucu ficaria satisfeito por se li­vrar da responsabilidade da guarda da filha do seu chefe. Passara a maior parte das três semanas de viagem através da Britânia num estado de nervos que lhe tirara o sono e o pusera com mau feitio. Mas fora só nos últimos dias que tinham encontrado patrulhas romanas, a última das quais numa abertura das muralhas que não tinham, afinal, protegido Camulodunon. Duas mulheres e um velho pa­reciam uma ameaça pouco provável para as legiões que rodeavam o imperador e tinham-lhes dado passagem.

Continuo a não gostar disto... — disse Boudica enquanto atravessavam as pastagens.

Porquê? Tens medo dos elefantes? — pergun­tou Lhiannon.

Boudica grunhiu.

Não... mas pensava que estava a regressar a ca­sa! — Quando viajavam pela Britânia e os seus membros recordaram o prazer de montar, começara a sonhar com as pastagens ondulantes onde os Icenos criavam os seus cavalos. — Mas é um péssimo regresso a casa chegar mesmo a tempo de ver o meu pai a oferecer a garganta a Roma!

As tropas romanas em Camulodunon eram uma lança apontada ao coração de todas as terras que tinham estado, em tempos, sob o domínio de Cunobelin. Mas contentar-se-iam os Romanos com a submissão ou ver-se-ia em breve acorrentada e dentro de um navio com destino a Roma? Por mais limitada que tivesse sido a vida com os druidas, ao menos fora livre. Tentara convencer a sacerdotisa a deixá-los, mas Lhiannon parecera serena­mente confiante. Ou talvez estivesse tão determinada em ir a Camulodunon por os guerreiros terem dito que Ar- danos continuava lá.

Atravessaram a pastagem e meteram pelo caminho que passava por entre os campos. O trigo meio crescido jazia, espezinhado, com apenas algumas espigas prontas a serem colhidas pelos pássaros. O gado também desapa­recera. Sem dúvida que tinha servido para o banquete dos soldados na celebração da vitória.

Outra vala, com as paredes coroadas por pirlitei- ros, rodeava o forte, mas as cabanas cujos telhados pon­tiagudos deveriam ser visíveis por cima da sebe, tinham desaparecido. Passara um mês desde que os Romanos os tinham incendiado, mas o cheiro ácido do fumo continu­ava a pairar no ar. E, no entanto, a pastagem por trás do forte exibia uma colheita colorida de tendas, como se fosse um festival de Lugos fora de época. Os chefes que não tinham chegado a tempo de defender Camulodunon tinham vindo submeter-se aos seus conquistadores.

Quando entraram no acampamento as pessoas sa­íam das tendas para ver quem chegara. Subitamente, Boudica teve consciência do aspecto que devia ter aos olhos deles: uma mulher nova, de pernas compridas, sar­denta e de cabeleira raiva, vestida com uma túnica de li­nho cru, enxovalhada por semanas de caminho e esfarra­pada na bainha. O aspecto maltrapilho fora conveniente para a viajante, mas aqui não o era tanto, pois os homens julgavam quem a pessoa era pelas roupas que envergava.

Os grupos de tendas estavam marcados por mas­tros com estandartes. Olhou para as bandeiras, procu­rando o castanho avermelhado com a lebre saltitante que era o estandarte do seu próprio clã. Talvez os meus pais não me reconheçam, pensou sombriamente. Aí não terei alternativa senão regressar a Mona com a Lhiannon... Rodeada por tanta gente envolta em vestes brilhantes, teve que reprimir o impulso de dar imediatamente meia volta de regresso a onde viera.

Lhiannon viu-a pôr as mãos nos ouvidos e abanou a cabeça.

Não podes viver a vida assim, filha... inventa para ti própria um véu que só possa ser atravessado pelos sons que desejas ouvir.

Boudica fechou os olhos por uns instantes e foi recompensada por uma diminuição do ruído. Quando os abriu novamente percebeu que tal se devia ao fato de o pai ter saído da tenda para vir ao seu encontro, com a mãe a correr atrás para o acompanhar, como de costume. Tinha um aspecto ainda mais austero do que recordava e havia demasiados cabelos grisalhos na sua cabeça. A sua mãe também já estava grisalha. Quando é que os seus pais tinham ficado tão velhos?

Então chegaste finalmente. Parece que não ti­veste pressa... — Olhou para a filha dos pés à cabeça mas a sua expressão não se alterou.

Boudica mordeu o lábio. Certamente que o tempo perdido em Avalon tinha sido compensado por uma parte da viagem que fora feita de barco. Mas Leucu estava a tartamudear qualquer coisa sobre demoras necessárias para evitar os Romanos e ela descontraiu-se novamente.

Não te rales homem — disse Dubrac por fim.

Vai descansar. Tenho a certeza de que o mereces. Pelo menos trouxes-te-a até aqui... — Virou-se para a mulher:

Faz com que se lave, Ana. A hora do jantar tem que estar em condições de ser vista pelos príncipes. — Afas­tou-se.

Vou a um banquete ou a uma feira de gado? — resmungou Boudica enquanto passava a perna por cima do lombo do cavalo, se virava para ficar sentada de lado e escorregava para o chão.

Lançou um olhar implorante a Lhiannon mas a sacerdotisa limitou-se a sorrir.

Depois a mãe abraçou-a, recuando para lhe ver o rosto e abraçou-a novamente.

Oh minha querida, como cresceste! Mas estás castanha como uma bolota, filha, ou é do pó da estrada? Não interessa, não interessa... oh, que saudades tive! So­nhei com este dia.

Eu não, apercebeu-se Boudica com uma guinada de culpa. Mas era estranhamente reconfortante ser mimada como se tivesse oito e não dezoito anos e, apesar de fazer muitas perguntas, a mãe não parecia esperar grandes res­postas.

E para vós, minha senhora, toda a gratidão pe­los cuidados... — Ana virou-se quando Lhiannon des­montou também, baixando a cabeça numa espécie de vê- nia. A túnica azul da sacerdotisa estava um tanto empoei­rada, mas parecia não ter sido tocada por mais nenhuma das dificuldades da viagem.

E como se, pensou Boudica com o habitual espanto exasperado, ela tivesse usado uma magia druida qualquer e des­viado toda a sujidade para cima de mim!

As minhas mulheres prepararam-vos um quarto — fez um gesto vago na direção das outras tendas quan­do uma criada se aproximou. — Se precisardes de alguma coisa para vosso conforto basta pedirdes...

Boudica mal teve tempo para um aceno de despe­dida quando a mãe a puxou para dentro de uma das ten­das, um espaço amplo criado por panos de lã oleada es­tendida por cima de paredes de junco. Suspirando, deixou que Ana lhe desse bolos de aveia e chá de menta, que se alarmasse com o estado do seu cabelo e da sua pele e que discutisse a roupa que deveria vestir. Fora assim, lem­brava-se, quando era pequena. Dado o marido se encar­regar da formação de todos os filhos rapazes, os instintos maternais de Ana tinham-se concentrado na sua única filha viva que, por seu lado, quisera provar ser melhor do que qualquer rapaz ou qualquer um dos seus irmãos. Mas Boudica percebeu que, entre outras coisas, a sua estadia com os druidas lhe ensinara que havia mais de uma ma­neira de se ser mulher mais maneiras do que uma para se ser uma mulher poderosa.

 

Lhiannon, tendo deixado Boudica entregue ao seu destino, foi à procura de Ardanos. Umas quantas pergun­tas discretas acabaram por a conduzir a um grupo de tendas sobre o qual pairava o estandarte com o javali dos Icenos do sul.

Encontrou-o, sentado de pernas cruzadas, a escul­pir e deteve-se para saborear o prazer de o ver ali, vivo e bem de saúde. Em rapazinho ele gostara de esculpir. Seria um sinal do seu contentamento, estar a fazê-lo agora, ou estaria ele de tal modo frustrado com a situação que não conseguia pensar em mais nada para fazer? Provavel­mente era frustração, pensou ela chegando mais perto. Estava a esculpir pássaros.

— E quando os tiveres acabado, levantarão vôo? — perguntou ela suavemente.

Por um momento ele ficou mudo, mas viu que os nós dos seus dedos empalideciam sobre o cabo da faca. Cuidadosamente, descontraiu os dedos e pousou a faca. Só então olhou para ela.

E o que foi, meu querido, que não quiseste que eu visse nos teus olhos?, pensou ela. Estes estavam cheios de lágrimas que ele era demasiado orgulhoso para limpar. Ajoelhou ao seu lado e agarrou num dos pássaros.

O Rei Antedios tem uma filha pequena — disse ele numa voz quase firme. — Estas são aves marinhas e ela pô-las-á a flutuar no ribeiro...

E elas irão pelo ribeiro até ao rio e daí flutuarão até ao mar e daí poderão, enfim, chegar às Ilhas Abenço­adas. Compreendo.

Correu tudo bem? — Estendeu a mão para tirar uma folha que se agarrara ao véu dela; o toque transfor­mou-se numa carícia que lhe afastou uma madeixa de ca­belos da testa e se demorou por lá.

Muito bem. Tanto para a Boudica como para mim, ainda que — talvez por isso — estivéssemos sozi­nhas. Ardanos, desta vez, quando subi ao Tor, fui para dentro! Tenho de te contar...

Aqui não — disse ele bruscamente. — Profana­ria a recordação. Quando estivermos na estrada. Agora que já chegaste podemos sair daqui para fora.

Ardanos! — exclamou ela com um misto de aborrecimento e de riso. — Há três semanas que viajo a cavalo. A Boudica nasceu em cima de um cavalo, acho eu, e recuperou toda a sua antiga perícia, mas eu não nasci e, nem mesmo por ti, estou disposta a sentar-me outra vez numa sela até ter curado as feridas no traseiro. Além dis­so tenho de esperar que a Boudica...

Que se dane a Boudica! Quero pôr-te a salvo daqui para fora! — abanou a cabeça. — Ao menos, usa uma fita na cabeça que esconda esse crescente azul en­quanto aqui estiveres!

Lhiannon franziu o sobrolho. — Esta marca só é usada pelos membros da nossa Ordem que foram inicia­dos em Avalon. Os Romanos não saberão qual o seu sig­nificado.

A não ser que alguém lhes explique... — A sua expressão era sombria. — Há por aqui muita gente que não se importaria de ganhar a simpatia daqueles que dis­tribuem os luxos de Roma. Usa uma fita na cabeça ou um véu.

E então tu? — disse ela ironicamente. — E certo que saberão que és um druida ao verem essa testa rapada.

Toda a gente já sabe quem eu sou — disse ele encolhendo os ombros. — Quando há Romanos nas proximidades uso um barrete.

Então certifica-te de que o usas. — Sentou-se ao lado dele. — E, já que tenho de aqui ficar durante al­gum tempo, o melhor era contares-me quem é que veio

para este desastre e o que achas que acontecerá agora.

 

O festival de Lugos sempre incluíra uma feira de gado onde as pessoas vendiam os animais supérfluos e compravam bestas para cruzar e melhorar as suas mana­das. A Boudica, sentada no meio da tenda dos pais en­quanto a mãe dava ordens a um bando de criadas tagare­las para que a esfregassem, oleassem, penteassem e ador­nassem, a comparação parecia desconfortavelmente a­propriada. O que a impedia de fugir dali era saber que se decidisse ir para Mona, Lhiannon e Ardanos eram muito capazes de a tirarem dali.

Pronto, minha querida... — A mãe recuou, ins- pecionando-a. — Agora já pareces uma mulher da família real. — Estendeu-lhe um espelho de bronze, com a parte de trás gravada com cornucópias graciosas e espirais, para que Boudica se pudesse mirar.

Era verdade que o que havia de mais semelhante a um espelho em Mona era uma lagoa parada, mas o rosto que a olhava não era de ninguém seu conhecido. Ti­nham-lhe entrançado o cabelo, afastando-o do rosto, prendendo-o com fitas escarlates e deixando o resto da cabeleira cair-lhe pelas costas em ondas de cobre e ouro. Uma aplicação competente de cosméticos romanos a­vermelhara-lhe os lábios e definira-lhe as sobrancelhas.

A túnica era de um linho fino que se adaptava às curvas do seu corpo e caía em pregas elegantes, presa com alfinetes e uma cinta de ouro e tingido do vermelho mais escuro que as plantas permitiam. Brincos de ouro e um colar de ouro entrelaçado completavam o conjunto, juntamente com uma capa tecida com os vermelhos, cas­tanhos e amarelos da sua tribo.

Vai estar demasiado calor para isto... — Tentou devolver-lhes a capa de lã.

Podes sentar-te em cima dela quando não an­dares a passar o jarro com o vinho — respondeu a mãe bruscamente.

Sinto-me honrada — disse Boudica secamente, lembrando-se imediatamente da última vez em que servi­ra os reis. Dos governantes que tinham vindo para plane­ar a defesa da Britânia em resposta ao chamamento do druida-chefe, Togodumnos estava morto e Caratac anda­va a monte e os reis dos Durotriges e dos Belgas aguar­davam para ver onde a águia romana atacaria em seguida. De entre aqueles cujas taças encheria naquela noite, só Prasutagos, que com a morte do irmão se tornara rei dos Icenos do Norte, se lembraria.

Bem e tens razão para estares — disse a mãe com brusquidão. — A maior parte deles já tem rainha, evidentemente, mas têm filhos e irmãos... não tenho dú­vidas de que te arranjaremos uma boa posição.

Boudica respirou fundo, grata pelos ensinamentos druidas de autocontrole. — E se eu preferir não me ca­sar? Quando me mandaram para Mona, não foi com o entendimento de que eu poderia decidir ficar lá?

Mas... voltaste...

Vendo a expressão da mãe entristecer, Boudica es­tendeu uma mão consoladora. Dois dos seus irmãos ti­nham seguido Togodumnos até ao Tamesa e tinham morrido. A mãe ainda os chorava e não precisava que a filha lhe desse mais desgostos naquele momento.

Prometo-te que darei uma oportunidade a essa questão. Não te envergonharei no banquete desta noite e ouvirei todas as propostas que forem feitas.

Chamávamos-te "potra" quando eras pequena, de tão rebelde que eras. — A mãe abanou a cabeça com um suspiro. — Tinha a esperança de que tivesses muda­do. Mas ao menos tens o aspecto que uma Mulher Real deve ter.

Tinham de se satisfazer ambas com aquela avalia­ção competente. Em silêncio, Boudica seguiu a mãe até ao círculo de fogo onde panos entendidos protegiam uma

sala de banquetes no exterior.

 

Boudica não foi a única Mulher Real a chegar atra­sada à reunião. Naquela tarde chegara a delegação dos Brigantes e Lhiannon, achando-se supérflua entre os I- cenos, abriu caminho por entre a confusão de tendas e de carroças até ao local onde estava içado o estandarte com o cavalo negro. Para estar correta, a bandeira deveria os­tentar uma manada de cavalos, pois os Brigantes não e­ram bem uma tribo, mas sim uma federação de clãs. O casamento entre Cartimandua e Venutios como que os unira. Mas Lhiannon conhecera a rainha brigante quando ambas eram raparigas na Casa das Donzelas, em Mona. Perguntou-se se Cartimandua teria mudado.

Aparentemente não, pois quando se aproximou ouviu uma voz áspera e algo aguda dando uma rajada de ordens. Uma serva apareceu à porta como se tivesse sido disparada por um arco e desapareceu e, no instante de silêncio que se seguiu, Lhiannon entrou.

Bem-vinda a Camulodunon, minha Senhora... — disse ela suavemente.

Cartimandua girou sobre si própria, o cabelo preto e brilhante ondulando como a crina do pônei brilhante que era o significado do seu nome. Pequena e com curvas elegantes, devia o seu sangue real às tribos que reinavam sobre estas terras na época em que os primeiros príncipes belgas tinham vindo da Gália.

Lhiannon, por tudo quanto é sagrado! Sempre conseguiste saber tudo quanto os poderosos andavam a fazer. Devia ter calculado que estarias aqui.

Lhiannon deu por si envolta num abraço perfu­mado e depois afastada enquanto ambas as mulheres procediam a uma inspeção mútua.

Vejo que te mantiveste elegante — disse a rai­nha —, se é que isso te serve para alguma coisa, ou con­tinuarás a lutar com Helve pelo privilégio de te sentares na cadeira do oráculo?

Lhiannon sentiu-se corar contra vontade. Era ób­vio que Cartimandua continuava a falar da mesma forma direta depois de se ter tornado rainha.

A Senhora Mearan morreu no princípio do Ve­rão. A Helve é agora a alta sacerdotisa.

Ah... e aposto que adora! Lembras-te do Verão em que a perseguimos com rãs? Rãs na cama e rãs nos sapatos e rãs por todo o lado. Acho que ela nunca chegou a perceber qual de nós, santas donzelas, era a responsável. Então agora quem manda é ela e tu e o Ardanos estão no exílio, hem?

Fomos enviados para ajudar Caratac — disse Lhiannon com alguma rigidez.

Ah, esse assunto lamentável — a disposição de Cartimandua alterou-se e ela suspirou. — Tantos belos homens perdidos. Mas não vale a pena lutar contra um furacão. Os Romanos são demasiado fortes e temos de fazer a paz o melhor que pudermos.

Então tu e o Venutius tencionam render-se?

Tencionamos tornarmo-nos num reino cliente, se conseguirmos — corrigiu a rainha. — Pagaremos por isso, mas ao menos conservaremos alguma liberdade. E também receberemos favores dos Romanos... — deu uma gargalhada repentina. — Posso viver com esse a­cordo. Afinal é o mesmo que fiz com o Venutios!

Lhiannon pestanejou. — Ele ama-te?

Cartimandua ergueu uma sobrancelha escura. — O amor não é uma palavra muito usada entre os príncipes. E enérgico na cama quando a situação o requer. O resto do tempo... respeita-me.

Ela tem amantes, pensou Lhiannon. Mas isso não constituía nenhuma surpresa. Em Oakhalls Cartimandua levara para a sua cama todos os rapazes que lhe agrada­vam, mesmo antes de lhe ser oficialmente reconhecida a idade que permitia ir às fogueiras de Beltane. Na altura isso causara algum escândalo, mas toda a gente sabia que os Brigantes tinham costumes muito próprios e alguns dos seus clãs ainda mantinham a descendência real atra­vés das suas rainhas. Ela própria suspeitava que Carti­mandua seguiria sempre leis muito próprias em qualquer terra.

E que estás tu a fazer aqui? Tens o Caratac es­condido por aí, disfarçado de criado? Não que eu não gostasse de o ver novamente, mas não me parece que os Romanos lhe dessem as boas-vindas.

Uma cautela súbita impediu Lhiannon de dizer a Cartimandua qual o paradeiro do rei Cantiaci. Em vez disso começou a falar de Boudica e da viagem que tinham feito de Avalon.

Sem dúvida que a verei no banquete — disse a

rainha.

Pobre criança. Com dois filhos mortos, Dubrac

irá usá-la para comprar uma aliança, em algum lugar.

 

Estou a assistir à última cavalgada da Britânia livre, pensou Boudica enquanto o seu pai conduzia o seu pe­queno grupo de cavalos e se juntava aos outros reis. A­garrou-se aos lados da carroça enquanto esta ia aos sola­vancos pela estrada.

Os Romanos tinham montado o seu acampamento entre a velha muralha protetora e uma nova vala tripla e uma arriba que ia direitinha ao rio, não fazendo qualquer concessão à disposição do terreno. Pela primeira vez co­meçou a compreender a enormidade de um império que podia dedicar permanentemente tantos homens a um ob­jetivo. E aquele era apenas um dos exércitos Romanos.

Só se viam uns quantos mastros com estandartes por cima das muralhas, mas conseguia ouvir o barulho vindo do acampamento romano, semelhante ao zumbido de uma enorme colméia. E depois entraram pelo portão central, ladeado por legionários cujas armaduras brilha­vam ao Sol de Verão. Observavam os Bretões com os olhos semicerrados. Pelo salmonete pintado nos escudos amassados perceberam que pertenciam à legião coman­dada pelo general Vespasiano que, na batalha do Rio do Meio, fora responsável pela vitória.

Tem calma, pensou sombriamente. Viemos para usar o jugo de Roma.

Boudica desviou o olhar quando o pai e o irmão tiraram as espadas e as entregaram a um centurião cheio de medalhas. Depois, de dentes arreganhados, cada grupo de príncipes nativos foi escoltado para o interior. Aquele campo continha 30 000 homens. Só agora, vendo as filei­ras precisas de tendas de couro, estendendo-se para am­bos os lados, começava a perceber o que um número da­queles devia significar. Se alguma vez se conseguissem unir, os Bretões teriam mais guerreiros, mas não conse­guia imaginar um exército celta a atingir alguma vez a­quele tipo de disciplina.

Estavam a ser escoltados pela avenida principal em direção a um pavilhão tão grande como o salão de ban­quetes de Cunobelin, construído com um tecido resisten­te tingido de púrpura escura e debruado a ouro brilhante. O terreno fronteiro estava protegido por soldados altos com armaduras enfeitadas a ouro e cujas expressões re­velavam mais orgulho do que ódio. Aqueles escudos a- zuis-escuros nunca tinham visto uma batalha. Os raios dourados, que partiam das asas prateadas por cima e por baixo do centro do escudo, e as estrelas e luas prateadas aos cantos não tinham qualquer esfoladela.

— A Guarda Pretoriana... — murmurou o seu ir­mão Dubnocoveros. — Assassinaram o antecessor de Cláudio, Calígula. São os únicos a quem é permitido ma­tar um imperador, ao que parece...

Um olhar de um dos oficiais silenciou-o, fosse porque o homem falava Celta fosse por não ser permitido falar. Supunha que a primeira hipótese era possível... o homem tinha ar de Gaulês.

Um a um os pequenos grupos de realeza foram sendo conduzidos ao interior para que se submetessem ao imperador. A Rainha Cartimandua, resplandecente num vestido verde bordado que fazia com que Boudica se sentisse mal vestida, marchou com o marido, de maxi­lares pesados e ar austero, a seu lado. Compreenderiam os Romanos que os governantes brigantes só podiam fa­lar pelos clãs daquela vasta região nortenha que, devido às mudanças nas teias das alianças, estavam de momento a seu lado? Ou estaria Cartimandua a contar com a ajuda romana para desfazer o equilíbrio do poder?

Bodvoc dos Dobunni do Norte estava à parte dos restantes, com um ar todo convencido devido à consci­ência da vantagem que tinha por se ter submetido aos Romanos antes de estes os terem conquistado. Agora teria que se manter em paz com o seu primo sulista Corio. O outro colaborador precoce, o rei Veric, já fora apresen­tado. Ele e o seu herdeiro togado, Cogidumnus, tinham o privilégio de se juntar aos senadores e assistir à humilha­ção dos outros reis. Não havia ali ninguém para apresen­tar a submissão dos Cantiaci, dos Trinovantes ou dos Catuvellauni. Estes eram povos conquistados e as suas terras seriam administradas diretamente pelo governador romano.

E depois chegou a vez dos Icenos. Antedios, com as têmporas grisalhas e encurvado pelas ansiedades re­centes, avançou seguido por Dubrac que era agora o seu parente masculino mais próximo e por Prasutagos, que a morte do irmão tornara senhor dos clãs nortenhos dos Icenos.

O meupotenàal futuro marido... pensou ela olhando-o com um novo olhar. Ao menos já o conhecia e achava-o bondoso. Recordava-o como homem de poucas palavras. Naquele momento estava tão calado que parecia nem se­quer estar presente. Quando iam a entrar na tenda impe­rial os seus olhos encontraram-se e Boudica percebeu que ele devia estar a lembrar-se das fanfarronices orgulhosas em Mona.

No entanto aqui estamos nós os dois e tu não irás di%er-lhes que eu fui educada pelos druidas e eu não lhes direi que eras aliado de Caratac. Talvez devessem casar-se para garantir o silên­cio mútuo. Mas primeiro teriam que sobreviver à hora seguinte.

Uma luz fraca, púrpura como o crepúsculo inver­nal, filtrava-se através do tecido pesado. Quando os seus olhos se ajustaram começou a distinguir os perfis som­brios e batidos pelos elementos dos guardas, os rostos barbeados dos senadores, calculistas ou entediados e o imperador, Tibério Cláudio César Augusto Germânico em pessoa, envolto numa seda bordada tingida da mesma púrpura que a tenda, o que fazia com que o seu rosto pa­recesse pairar como se fosse uma aparição divina.

Um deus tenso e cansado, pensou ela, com um rosto enrugado e orelhas espetadas numa cabeça que pa­recia demasiado grande para o pescoço. As enfermidades físicas de que ouvira falar estavam ocultas pelas vestes amplas. Mas os seus olhos escuros pareciam surpreen­dentemente bondosos. Que confortante, pensou, saber que o que quer que fosse que ele decidisse fazer-lhes não teria por fundamento a malícia mas sim a necessidade política.

Ajoelhou juntamente com os restantes sentindo-se grata pelo tapete suntuoso que cobria o chão. Se tinham que se humilhar, ao menos que o fizessem luxuosamente.

Um dos servos do imperador começou a declamar um texto onde reconheceu os nomes Icenos e que ia sendo traduzido frase a frase pelo intérprete.

— Estais aqui para vos submeterdes ao Senado e ao Povo de Roma, para vos oferecerdes e às vossas famí­lias, aos homens das vossas tribos e aos vossos servos como súbditos voluntários e obedientes do império. Concordais com esta ligação?

Antedios, Dubrac e Prasutagos pousaram as pal­mas das mãos no chão. — Que a terra se abra e nos en­gula, que o mar nos leve, que o céu tombe sobre nós, se não mantivermos a fidelidade ao rei supremo das tribos romanas.

O tradutor falou novamente. — Este é Lúcio Júnio Polião... — Um dos Romanos, togado mas sem a faixa púrpura dos senadores, avançou. Seco e moreno, tinha um aspecto marcial apesar do manto pregueado. — Será ele quem receberá os vossos impostos às ordens do pro­curador, mas podereis manter as vossas leis e governar os vossos povos na medida em que essas leis e governo não violem as leis de Roma. Os nossos aliados serão os vos­sos aliados, e os vossos inimigos serão os nossos inimi­gos.

O imperador curvou-se para murmurar qualquer coisa a um dos conselheiros que, por sua vez, falou com o tradutor.

O imperador pergunta se tendes herdeiros.

O Rei Prasutagos só se tornou rei recentemente e não tem mulher nem filhos — foi a resposta. — O Rei Antedios é o seu suserano e o seu herdeiro é Dubrac que está ajoelhado ao seu lado.

Boudica viu o irmão a ficar hirto quando o impe­rador falou novamente.

Os vossos povos não podem tornar-se bons súbditos do Império até compreenderem Roma. É por isso nossa política educar herdeiros reais na nossa corte, como fizemos com o Príncipe Cogidumnus. Dubnoco- verus filius Dubraci irá conosco e com outros jovens de boas famílias quando regressarmos.

O espasmo convulso de Dubi foi reprimido pela mão do pai. Aquilo não fora discutido, mas a tomada de reféns era uma política romana. Compreendia agora a ra­zão pela qual fora ordenado aos reis que trouxessem a família. O homem do governador, Polião, estava a olhar para ela como se desejasse que fosse ela a refém. Esfor­çou-se por ficar invisível, grata por a decisão não estar nas suas mãos.

Erguei-vos, aliados de Roma!

Primeiro Antedios e depois Prasutagos receberam uma corrente dourada com um medalhão com a esfinge do imperador. Um a um foi-lhes permitido que beijassem a mão imperial.

E depois foram conduzidos ao exterior para a luz de um dia que parecia ter sido destituído de todo o calor, como se os Romanos tivessem levado a luz do Sol junta­mente com a sua liberdade.

 

Até nos roubaram as estrelas... — disse Boudi­ca. Lhiannon ergueu os olhos, sobressaltada pela amar­gura do tom da mulher mais nova. Não era preciso per­guntar quem eram eles. Por cima do acampamento roma­no o céu estava vermelho com a luz de um milhar de fo­gueiras. Sabia que eram as nuvens que refletiam a luz, mas havia algo de enervante naquele brilho sangrento. Tinham ido para os campos por trás do acampamento iceno para conversar, mas ali não havia paz.

Por trás das nuvens as estrelas continuam a brilhar — disse ela numa voz reconfortante. — E vê-las-emos novamente um dia.

Isso é alguma espécie de profecia druida? As tuas previsões revelaram-se bastante verdadeiras... deve­rias ter-lhes dado ouvidos. — A voz de Boudica tremia de dor.

A situação parece desesperada, mas os Roma­nos controlam apenas um canto da Britânia. Se Caratac conseguir juntar as outras tribos...

Lutará com mais esperança se não o deixares ouvir as previsões do oráculo — respondeu Boudica e depois: — Tu não viste o acampamento romano, fileira após fileira de homens vestidos de metal. Como pode alguém defrontá-los?

Lhiannon estremeceu, recordando-se de quão be­los pareciam os guerreiros trinovantes quando corriam para lançar os corpos nus contra as fileiras Romanas.

Regressa comigo a Mona. Ficarás a salvo na ilha dos druidas. — O caminho levava-as em torno da sebe espinhosa. Quando passavam, uma lebre saltou das som­bras e foi aos pulos pela erva.

Acreditas mesmo nisso? Ambas ouvimos as pa­lavras da Senhora Mearan no leito de morte. — Os Ro­manos sabem que, até eliminarem os druidas, o seu con­trolo sobre a Britânia nunca estará seguro. Encontrarão Mona. E apenas uma questão de tempo.

Lhiannon afastou-se um pouco, erguendo instinti­vamente escudos mentais contra o desespero da jovem. — Tenho de acreditar que existe esperança — disse nu­ma voz baixa. — Mesmo que esteja errada. Não posso trair os homens que vi morrer no Tamesa e no Meio de­sistindo agora.

Ah, lamento! Não era minha intenção mago­ar-te! — Boudica abraçou-a. — Quando aqui chegamos, desprezei o meu pai por se render tão facilmente. Mas agora acho que ele tem razão. Cooperar é a única forma de conseguir manter alguma independência!

E então vais ficar e casar com Prasutagos?

Com Dubi como refém a nossa família necessi­ta de uma aliança com outra linhagem real icena. Em Mona, eu nunca seria mais do que uma sacerdotisa pouco importante. Talvez possa ajudar o nosso povo como rai­nha.

Caminharam em silêncio e descobriram que os seus passos as tinham levado até à abertura que conduzia a Camulodunon. As trevas amigáveis escondiam a parte pior da destruição mas, até mesmo à noite, o forte nunca estivera tão profundamente silencioso.

E ele amar-te-á? — perguntou Lhiannon sua­vemente passados alguns minutos.

E isso importa? — ripostou Boudica. — O Ar- danos ama-te, o que não fez mais feliz nenhum dos dois, isso vejo eu!

Lhiannon deteve-se, a desolação apertando-lhe a garganta ao ter de admitir que aquilo que Boudica dizia era verdade. Cambaleou e sentou-se numa carroça parti­da.

—Ah, agora magoei-te outra vez! — Também ha­via lágrimas na voz de Boudica. — Mas tens de compre­ender... da última vez que aqui estive, esta era a casa de um grande rei. Não quero que o mesmo aconteça ao forte do meu pai!

Como Lhiannon não respondesse ela sentou-se a seu lado. — Confio que Prasutagos trabalhará pelo nosso povo. Estou a fazer uma aliança. Mas será mais fácil se souber que ainda me amas...

Rezarei à Deusa para que encontres alegria no teu dever... — murmurou Lhiannon. Embora ela me tenha dado pouca no meu...

Sentia Boudica assentir enquanto choravam nos braços uma da outra.


 

Vivendo na comunidade fechada de Oakhalls, Boudica esquecera a sensação de galopar pelos espaços abertos sob o céu infinito. Naquele momento precisava da fuga mais do que nunca. Até mesmo Helve, nos seus piores momentos, não tinha sido tão maçadora como a tagarelice interminável da mãe sobre a espantosa quanti­dade de coisas e de utensílios que toda a gente esperava que Boudica levasse para a sua nova casa. No dia seguinte partiriam para Dun[5] Garo no Rio da Enguias. O Rei Antedios tinha reclamado a honra de ser o anfitrião do casamento entre o seu rei vassalo mais importante e a filha do seu herdeiro.

Permitirá Prasutagos que a sua mulher galope pelas coli­nas? As terras do clã dele ficavam a norte, perto do mar. Ir para lá seria como chegar novamente à ilha dos drui­das, mas esta mudança seria para toda a vida.

Os seus lábios contorceram-se com ironia quando se apercebeu do que a estava a incomodar verdadeira­mente. O povo dela criava cavalos e ela sabia, aproxima­damente, o que era preciso para a reprodução humana. Umas quantas explorações com Rianor tinham-lhe até mostrado a razão porque tal poderia ser agradável. Aper­cebeu-se de que não receava propriamente o ato em si mas sim a idéia de se submeter a um estranho.

O cavalo que fora seu no forte atirou a cabeça para trás e deteve-se quando uma lebre cinzenta, sobressaltada pela sua forma projetada nos arbustos, atravessou o campo aos saltos. Boudica susteve a respiração e fez um sinal de reverência quando o bicho desapareceu.

Havia gerações que o Clã da Lebre apascentava ovelhas e cavalos naquelas terras onduladas onde a terra arenosa retinha apenas a água suficiente para alimentar as ervas que cresciam entre os arbustos de mimosas e as plantas espinhosas, se bem que o pai tivesse recentemente decidido tirar proveito da localização das suas terras e, no local onde um caminho antigo atravessava dois rios, ti­vesse instalado um centro de tecelagem onde os fios fia­dos pelas mulheres eram transformados em tecidos.

À medida que a estação das colheitas se aproxima­va do fim, as terras brilhavam com o roxo da urze e o amarelo escuro das flores do tojo. As árvores nas mar­gens dos rios que corriam para oeste, para os pântanos, iam do verde a todos os tons das cores outonais. Era ali que ficava o bosque sagrado que albergava o santuário de Andraste, que era adorada naquelas terras desde os tem­pos anteriores à chegada dos príncipes belgas vindos do outro lado do mar.

Boudica pressionou a montada com os joelhos pa­ra a forçar a pôr-se novamente em movimento e desce­ram a trote pelo caminho que serpenteava por entre os antigos túmulos. Desceu da montada e prendeu as rédeas a um abrunheiro onde o cavalo poderia pastar a erva res­sequida.

A Viragem do Outono acabara de passar. Sobre um dos túmulos estava um ramo de urze e flores do campo já secas. Devia ter sido a velha Nessa que ali pu­sera as flores ... era ela quem conhecia as histórias antigas. Boudica começou a percorrer o caminho entre os velhos túmulos seguindo o padrão que a velha mulher lhe ensi­nara, acabando no túmulo que ficava ao centro: o único a que era permitido trepar.

A quatro milhas para noroeste avistava as cabanas do forte do pai, sobranceiras ao vau onde o rio era atra­vessado pelo caminho antigo. A horta da mãe ficava nas traseiras da casa do chefe da tribo, os estábulos para as ovelhas e os cavalos e o telheiro da tecelagem, mais ao fundo. Dali parecia tudo enganadoramente pacífico.

No dia seguinte partiriam para o forte de Antedios onde se realizaria o seu casamento; quando voltaria a ver novamente a sua casa? Tinha concordado em casar-se, mas naquele momento sentia-se como a lebre sacrificial que se debatera nas mãos de Helve.

Tirou um pedaço de bolo de aveia de dentro do saco e pousou-o numa fenda entre duas pedras no topo do túmulo.

Velha, a tua terra e água criaram o meu sangue e os meus ossos. Aceita esta oferenda. Guarda este local como fizeste durante tantos anos e, embora tenha que te deixar, lembra-te de mim...

Gradualmente, o seu pânico diminuiu. Coventa, pensou ironicamente, teria ouvido a reposta. Para Boudi­ca havia apenas uma sensação de paz, até que a luz co­meçou a diminuir e soube que era tempo de regressar a casa.

 

A égua abanou a cabeça, soltando um relincho a­gudo que revelava o desdém que sentia pelo rapaz agar­rado à guia. O seu pelo castanho brilhou quando o Sol rompeu por entre as nuvens, um pouco mais escuro do que o cabelo de Boudica. O rapaz fincava os calcanhares para a controlar, mas naquela manhã chovera e o moço escorregava na lama.

Não me parece que aquela potra queira ser se­lada — disse um dos guerreiros do Rei Antedios.

E preciso um homem capaz para a montar — respondeu-lhe o companheiro.

— Dizem que o Prasutagos tem boa mão para os cavalos...

Boudica corou quando os homens olharam para ela de relance e começaram a rir. Mas o cavalo era mesmo lindo e era dela, um presente de casamento do seu futuro marido.

A mãe puxou-a pelo cotovelo e ela deixou-se con­duzir até uma cabana. Vestida com o vestido vermelho, a capa de xadrez e as jóias que usara em Camulodunon, movia-se com cautelas receando desfazer as trancas do penteado requintado que as criadas da mãe lhe tinham feito. Uma grinalda de tojo dourado e espigas de trigo encimavam o penteado prendendo um véu vaporoso de linho carmim.

Estava com uma disposição esquisita desde o a­cordar, num estado suspenso, deixando que as mulheres a vestissem e a adornassem como se fosse uma imagem de um deus. O que, pensou sentindo-se distante, era quase verdade. Hoje era a Noiva, não era Boudica. Aquela ce­rimônia celebraria a união de dois descendentes reais que fortalecia a tribo, a união de macho e fêmea que renovava o mundo. O simbolismo estava presente em qualquer casamento, mas os reis e as rainhas eram os depositários da sorte da tribo. Tinha sido apanhada no fluxo de emo­ções que corriam das pessoas para o rei quando o pai ce­lebrara os rituais da sementeira e da colheita. Os druidas tinham-lhe dado a educação suficiente para entender o que se estava a passar. Mas agora era ela quem tinha que transportar esse poder. Era diferente quando se fazia parte do ritual.

O ruído das vozes das mulheres mais adiante dis­se-lhe que estava a formar-se a procissão das mulheres. Boudica ficou surpreendida ao ver a rainha brigante, Car- timandua, entre elas. Desejou que Lhiannon e Coventa pudessem ali estar.

A sua mãe conseguiu estabelecer alguma ordem entre as mulheres e um bardo começou a tirar acordes rítmicos de uma pequena harpa. Anaveistl pôs um feixe de cereais nos braços de Boudica e empurrou-a para o seu lugar, atrás das raparigas tagarelas com os seus cestos de ervas e flores outonais. As restantes ocuparam os seus lugares atrás dela e começaram a andar através dos cam­pos.

Em algum lugar soavam as batidas de um tambor, vibrações graves que sentia tanto quanto as ouvia. Ou talvez fossem as batidas do seu próprio coração. A harpa e o tambor silenciaram-se quando a procissão dos ho­mens se aproximou, vinda dos bosques a nordeste, con­duzida pelos rapazes que empunhavam ramos verdes e por um jovem transportando uma tocha acesa. Rodearam um círculo de terra muito antigo, com mais ou menos a altura de um homem e criado por valas baixas, para se encontrarem com as acompanhantes da noiva junto à en­trada.

Quando a mãe de Boudica a levou para diante, os rapazes começaram a cantar:

És a lua entre as estrelas, És a espuma sobre as ondas, És o lírio entre as flores, És a faúlha que acende a chama, És a amada.

Prasutagos, envergando uma esplêndida capa num xadrez de sete cores e orlada com franjas, sobre uma tú­nica azul e calças às riscas azuis e vermelhas, emergiu do grupo dos homens e pôs-se a seu lado, enquanto as don­zelas que acompanhavam Boudica respondiam: És o sol sobre as nuvens, És a vaga que golpeia a praia, És o carvalho no meio do bosque, És a tocha que ilumina o salão.

És o amado.

No interior do anel o Rei Antedios e a sua rainha, o druida e o pai de Boudica, aguardavam. Quando passou pela entrada teve a estranha sensação de que a terra se movera. Prasutagos amparou-a quando tropeçou e ela respirou fundo, olhando em torno de si. Ali não havia pedras antigas que testemunhassem o passado, mas a ter­ra era ainda mais antiga. Durante quantas vidas de ho­mem tinha aquela construção de terra definido o solo sa­grado?

Quando vivia entre os druidas pensara ser com­pletamente destituída de vidência, mas ao caminhar em torno do fogo que ardia no centro do círculo, percebeu que o tempo passado na ilha a transformara. Quando vi­sitara aquele local, em criança, não sentira nada de especi­al, mas agora, quando olhava através da abertura que en­quadrava os telhados do forte e uma colina baixa do ou­tro lado do rio, sentiu a corrente de energia que os ligava. Para lá das paredes de terra parecia tudo esborratado, como se estivesse a ver as coisas através do ar quente por cima de uma fogueira. Pensou se teria sido assim que Lhiannon se sentira quando estivera no mundo das Fa­das. Por um instante pareceu-lhe que todos os tempos eram simultâneos, como se através de uma alteração do seu olhar pudesse ver.

Sentiria Prasutagos o mesmo, pensou quando se detiveram em frente do fogo. As suas feições habitual­mente agradáveis pareceram-lhe austeras, o olhar um tanto introspectivo. Ou talvez estivesse a recordar a sua primeira mulher e a lamentar a necessidade que o fazia casar com Boudica.

O druida, com vestes ainda mais coloridas que as de Prasutagos, virou-se para os restantes. A sua barba branca caía até ao peito como lã cardada, agitando-se ao de leve com o vento.

De que famílias vêm este homem e esta mu­lher?

Eu respondo por Prasutagos pois o seu pai já não é vivo — disse Antedios. — Ele é o chefe do seu próprio clã. Que se case com esta mulher com as bênçãos dos seus parentes.

Eu respondo por Boudica — disse então o pai dela. — Liberto a minha filha dos laços do clã e dos di­reitos do clã para que possa tornar-se parte da família do marido. Que se case com este homem com as bênçãos dos seus parentes.

O druida andou à volta do fogo com uma corda na mão. Era um homem pequeno, um pouco curvado pela idade, mas havia um brilho nos seus olhos que a faziam recordar Lugovalus.

Prasutagos e Boudica, viestes aqui com as bên­çãos das vossas famílias para serdes unidos perante o povo, os antepassados e os deuses. Sereis unidos na carne e no espírito. Consentis ambos nesta união?

O que aconteceria se eu dissesse "não"?, pensou ela des­vairadamente. Ouviu o assentimento murmurado do ho­mem juntar-se ao seu próprio assentimento quando o druida passou a corda sobre os pulsos de ambos. Mas ela tinha-se comprometido quando dissera a Lhiannon que não regressaria à Ilha dos druidas.

Através de que votos vos unis?

Prasutagos olhou-a a direito pela primeira vez des­de que tinham entrado no círculo. Os seus olhos eram cinzentos, mas em torno das íris viu pintas douradas. Com o tempo, pensou, ficarei a saber tudo sobre este homem, e depois, com um tremor, e ele saberá tudo de mim...

Eu Prasutagos, prometo-te, Boudica, que vive­rei como teu marido...

Ela respirou fundo e respondeu:

Eu, Boudica, prometo-te, Prasutagos, que vive­rei como tua mulher.

Juntos continuaram com os votos.

O teu fogo será o meu fogo, a tua cama será a minha cama. Pela tua lealdade dar-te-ei amor e pelo teu amor dar-te-ei a minha lealdade. Sobre o círculo da vida o juro, pela terra e pelo fogo, pelo vento e pela água e pe­rante os deuses sagrados.

Sou o teu bastão e a tua espada... — disse Pra­sutagos.

E Boudica replicou: — Eu sou o teu escudo e o teu caldeirão.

A rainha estendeu-lhes um pão feito com grãos cultivados na Casa da Lebre misturados com outros co­lhidos nas terras de Prasutagos.

Da terra que vos criou foi feito este pão — proclamou o druida, — com muitas sementes desfeitas e juntas num só pão. Que a vossa união seja frutuosa; e que essa fertilidade se estenda aos campos e à floresta, às terra aradas e aos pastos e a todas as terras sobre as quais rei­nardes. — Apesar da idade a sua voz era sonora e forte.

Boudica partiu um pedaço do pão, deixou cair umas migalhas no chão e nas chamas e deu o resto a Prasutagos.

Ao partir este pão ofereço a minha vida para te alimentar — disse.

Ao recebê-lo, o meu corpo tornar-se-á uno com o teu — respondeu ele.

O pão foi entregue a Prasutagos que fez o mesmo. Quando Boudica engoliu o pão feito com os grãos pouco moídos, sentiu-se subitamente consciente da presença física dele.

O druida pegou no resto do pão e o desfez sobre as cabeças de ambos. Pareceu-lhe que sentia cada grão.

O rei avançou com uma taça esculpida em madeira negra e encheu-a com água.

Esta água é o sangue da terra, colhida em duas fontes sagradas — disse então o druida. — Tal como es­tas águas se tornaram uma só, que os vossos espíritos possam unir-se, e que as fontes que regam as vossas ter­ras corram sempre puras e limpas.

O rei ofereceu a taça a Prasutagos que verteu um pouco de água por terra e lançou uma gota ao fogo. Tal como os grãos, era uma fusão das terras de ambos.

Tal como esta água é vertida, verto o meu espí­rito no teu.

Ao beber desta água, o meu espírito mistura-se no teu — respondeu ela.

Prasutagos chegou a taça aos lábios de Boudica e esta bebeu. Depois o druida estendeu-lhe a taça. Ao repe­tir as palavras sentiu que os olhos se lhe enchiam de lá­grimas e tentou reprimir a emoção que sentia pestane­jando para as secar.

Quando terminou o druida pousou a taça e vi- rou-os, pondo-os frente a frente. — O ar livre dos céus é a respiração dos antepassados. Respirai fundo, deixai que o espírito vos preencha e devolvei-o novamente.

Era verdade, pensou ela enquanto enchia os pul­mões de ar. Se a terra era feita do pó de todos quantos já tinham vivido, o ar continha a sua respiração, geração após geração, mudando, transformando-se, inspirando e expirando cada nascimento e cada morte.

Entre as mulheres Boudica era alta, mas Prasutagos era um palmo mais alto. Com a mão livre ele ergueu-lhe o queixo. Ela controlou um estremecimento involuntário e o bigode dele fez-lhe cócegas quando pousou os lábios sobre os dela. Estes eram secos e frios, firmemente exi­gentes. Muito em breve ele terá direito a muito mais do que um beijo, disse a si própria forçando-se a abrir os lábios por baixo dos dele.

Pela terra e água e o ar fostes unidos. Deixai que o fogo do coração e que as chamas testemunhem os vossos votos. — O velho druida recuou.

Ainda unidos, Prasutagos e Boudica andaram em torno da fogueira uma, duas e três vezes e ficaram nova­mente na frente do druida. Estaria mais quente ou seria o calor do corpo de Prasutagos que estava a incendiar o seu?

Agora já está feito. Agora estais unidos perante a terra e os céus. Rei e Rainha, Sacerdote e Sacerdotisa, Senhor e Senhora sereis um para o outro e para a vossa terra. — Virou-os e juntos saíram pela abertura do anel de terra com os restantes atrás. Quando emergiram os rapazes e os homens começaram a cantar:

És a brisa que refresca a testa,, És um poço de água doce, És a terra que embala a semente, És o forno que co%e o pão, És a amada.

E, mais uma vez, as mulheres responderam:

És o vento que abana o carvalho, És a chuva que enche o mar, És a semente no interior da terra, És o fogo sob a forja És o amado.

 

— Pensaste que isto era tudo em tua honra? — Cartimandua virou-se para Boudica apontando para a fogueira em torno da qual uma roda de rapazes, com a coordenação apenas ligeiramente afetada pelas quantida­des de cerveja de urze que tinham bebido, girava. Sendo uma rainha reinante fora-lhe dado o lugar de honra ao lado da noiva.

Em cima do pano comprido, estendido na frente dos convidados reais, havia comida em abundância: vea­do assado e javali, carne de vaca das suas pastagens e salmão e enguias do rio, pão e feijões e cevada, frutos se­cos e frescos queijos cheirosos. Se o objetivo do banquete do casamento era fazer com que o acontecimento ficasse impresso na memória das pessoas, aquele seria bem re­cordado.

O Romanos chegaram... — continuou a rainha. — E, apesar de todas aquelas belas palavras em Camulo- dunon, ninguém sabe realmente o que acontecerá agora à Britânia. — Por instantes os seus olhos escuros pousaram no jovem Epilios que arrastara o irmãozinho de Boudica, Braci, para a dança.

Até ao momento toda a gente conspirara para manter os Romanos na ignorância do fato de que um ou­tro filho de Cunobelin sobrevivera. Mas agora, que eram clientes de Roma, ele era muito bem capaz de não estar a salvo nas terras dos Icenos e seria um refém muitíssimo valioso para garantir o bom comportamento de Caratac. Ao pensar nisso Boudica lembrou-se do seu irmão mais velho, que ia agora a caminho de Roma. O pai já come­çara a educar o pequeno Braci para ser o seu herdeiro. Dubrocovernos poderia nunca regressar e, se regressasse, poderia vir mais romano do que celta, como aquele rapaz arrogante, o Cogidumnus que Boudica conhecera em Camulodunon.

Cartimandua encolheu os ombros.

Um casamento é uma promessa de que a vida continuará e embebedarmo-nos é uma forma segura de libertar a frustração de não ser capaz de dar conta do i­nimigo.

Boudica pousou o pedaço de javali assado que fin­gia estar a comer e deu mais um golo do copo de prata. Uma confusão de conversas erguia-se à sua volta e, de vez em quando, ouvia um nome: Morigenos... Tingeto- rix... Brocagnos, que achava que devia conhecer. Aqueles eram os principais homens do reino Iceno com quem ela teria que lidar como rainha. Tinha sido servido hidromel, ardente como a tocha nupcial e doce como o amor deve­ria ser.

E então a minha frustração?, pensou ela.

Prasutagos estava a conversar com um rei sobre a reprodução do gado. Na realidade, desde que tinham tro­cado os votos nupciais no anel de terra, mal tinham tro­cado uma palavra. E, no entanto, apesar de a corda já não os ligar, ela sentia uma consciência aguda da presença do seu corpo e do seu calor a seu lado.

Eu estou ligada a ele, pensou ressentida. Mas ele, estará ligado a mim? Estendeu a taça para que lha enchessem e bebeu novamente. A meio do céu a Lua brilhava, envi­ando raios prateados que desafiavam o brilho do fogo.

E como é que celebram os casamentos na tua terra? — perguntou à rainha.

O olhar de Cartimandua passou pelas filas de cele­brantes até chegar ao marido e ela riu-se. — Não de uma forma tão suave como vocês aqui! Há os votos e as bên­çãos, claro, mas primeiro o homem tem que conseguir arrancar a mulher de entre os seus parentes. O homem vem até à casa da noiva e esta finge que se esconde, ou então ataca a procissão nupcial e ela enfia os calcanhares na barriga do cavalo e ele tem que a apanhar.

Mesmo no casamento de um rei com uma rai­nha?

Especialmente nesse caso... — disse Cartiman­dua nostalgicamente. — Na minha terra temos muito or­gulho nos nossos cavalos. O garanhão não é autorizado a reproduzir-se a não ser que apanhe uma égua.

Os Icenos também criam belos cavalos! — ex­clamou Boudica.

É verdade. — Cartimandua lançou-lhe um o­lhar especulativo. Apostaria em como aquela égua ver­melha que o teu marido te ofereceu é muito rápida...

Os criados tinham parado de trazer novos pratos, mas continuavam a servir hidromel. Os músicos cala­ram-se e o murmúrio das conversas diminuiu quando o Rei Antedios se levantou.

Bebamos a esta feliz ocasião... um brinde aos noivos! — Ergueu o cálice. — Os dois ramos dos Icenos estão novamente unidos! Para selar o negócio, Dubrac oferece ao seu novo filho quarenta ovelhas brancas e seis éguas para criação...

...E a mais bela de todas é aquela potra que está sentada ao lado de Prasutagos! — O comentário foi feito em voz suficientemente alta para ser ouvido. Ouviu-se um rugido das gargalhadas masculinas em toda a volta e Boudica sentiu-se corar. Sentira-se ofendida por ter sido ignorada, mas aquele não era o tipo de atenção por que ansiava. Estendeu a taça para que lha enchessem.

Onde estavam agora os nobres votos que tinham trocado no círculo? Por mais que o fato fosse disfarçado pelos rituais, a verdade era que tinha sido dada em casa­mento a um homem com quase o dobro da sua idade pa­ra cimentar uma aliança e, o que não era menos impor­tante, Prasutagos fora pago com gado vivo para ficar com ela. Em troca Dubrac receberia cabeças de gado e várias quintas a norte da costa ficariam na posse de Boudica.

Pestanejou, ensonada, quando os criados trouxe­ram os presentes dos convidados do casamento para se­rem apreciados: rolos de lãs e de linhos e um belo tear de madeira trabalhada para que ela pudesse ocupar-se a tecer mais peças, um conjunto de pratos rosados de Samos feitos na Gália, várias ânforas de vinho romano.

Muito bonitos, pensou Boudica, mas valerão a nossa li­berdade? Ao menos a égua vermelha, adornada com os seus ricos arreios e que caminhava nervosamente por en­tre os convidados, tinha sido criada em casa. Boudica be­beu o resto do hidromel.

As mulheres da rainha estavam a formar em frente da casa que fora preparada para a cama da noiva. — Não é de dia ainda não é dia — cantavam. — Não é dia, ainda não é de manhã: não é de dia ainda não é dia, pois a Lua brilha no céu...

E brilhava mesmo, pensou Boudica semicerrando os olhos enquanto tentava focar a visão. Parecia que es­tavam duas luas a dançar lá em cima, ou talvez fossem três. Haveria muita luz para os bêbados idiotas que bate­riam em tachos junto à porta e que gritariam sugestões brejeiras quanto à forma como Prasutagos deveria cobrir a sua nova égua.

Está na hora de te preparares para a tua noite de núpcias, minha filha — disse Cartimandua estendo-lhe uma mão para a amparar quando Boudica tentou levan­tar-se. — E é uma pena desperdiçar uma noite destas de­baixo de um telhado. Com a Lua tão cheia a noite está tão brilhante como o dia.

Boudica pôs-se de pé e cambaleou quando o mundo girou à sua volta.

Oh meu deus — disse a rainha. — Bem, só o marido é que não se arrisca a ficar incapacitado. Se és virgem até és capaz de preferir estar embriagada na pri­meira vez... — A mãe de Boudica encaminhou-se na di­reção delas e Cartimandua afastou-a com um gesto.

Preciso... da casinha... — disse Boudica com toda a dignidade que conseguiu arranjar.

Tenho a certeza que sim, minha filha — Carti- mandua agarrou-a pelo cotovelo e levou-a para longe da fogueira.

Para servir todos aqueles convidados tinham sido abertas novas covas ao longo dos sítio onde estavam presos os cavalos. A égua vermelha, ainda coberta pela manta bordada, estava presa pelas rédeas a um poste. A­tirou a cabeça para trás e relinchou quando Boudica e a acompanhante passaram por ela.

A caminhada ao ar frio tinham desanuviado a ca­beça de Boudica o suficiente para poder ir sozinha para trás do biombo de juncos e, depois de se ter aliviado de tanto hidromel quanto foi capaz, já só havia uma lua no céu. Uma pena, pensou sombriamente. Cartimandua ti­nha razão. Estava prestes a ser desflorada, praticamente em público, por um homem para quem não passava de mais uma égua de cobrição. Teria sido muito mais fácil através de um nevoeiro de hidromel.

Levantou-se finalmente, ajeitando as saias e aper­tando melhor a capa de lã. Agora que o álcool estava a sair-lhe do sistema, o ar estava a ficar frio. Cartimandua estava à espera. Começaram a subir o caminho em silên­cio.

Espera um pouco... — disse quando passaram pelo local onde a égua estava presa. — O cavalo é meu e ainda nem lhe dei um nome. —Avançou em silêncio.

A égua virou a cabeça e resfolegou quando Boudi­ca esticou o braço para a acariciar por trás das orelhas, no sítio que a cabeçada a apertava. Baixou as mãos para a­garrar a cabeça do animal e soprou-lhe nas narinas.

Olá, minha linda menina. Achas que te chame Roud, minha linda vermelha? E deixaram-te presa? — Passou a mão pelo pescoço brilhante e a égua esfregou a cabeça para cima e para baixo no ombro dela. — E uma pena, numa noite destas em que devias andar a correr li­vre pelas colinas...

Num local perto da fogueira os homens gritavam:

Tragam a noiva! Tragam a égua... o garanhão está pronto! Onde é que ela está? Rapazes, vão buscá-la! Mos­trem-nos a noiva!

Sabes... — disse Boudica a Cartimandua por cima do ombro. — Não me apetece ser o divertimento desta gente toda esta noite. A tua gente não é a única que acredita que uma rainha deve ser respeitada. — Suspirou, recordando os conselhos de Lhiannon em Avalon. Pas­sou a mão pela sela e viu que a correia ainda estava aper­tada.

Mas achei aquilo que me contaste dos costumes dos Brigantes muito interessante. O Rei Prasutagos terá que merecer a sua noiva, não achas? — Passou a mão por baixo do pescoço da égua e deu um puxão ao nó. Tal como esperara, este soltou-se facilmente. O cavalo deu um passo em frente quando a corda se soltou ficando entre Boudica e a rainha.

Oh, realmente... — ofegou Cartimandua, a voz abalada pela consternação e, possivelmente, pelo riso.

O Prasutagos não me cortejou — continuou Boudica no mesmo tom sereno, dando a volta ao animal

nem me comprou. — Pôs as mãos no dorso da égua.

Apanhar-me é o mínimo que pode fazer... — De um salto pôs a barriga em cima do dorso macio, esforçan­do-se por passar a perna com as rédeas ainda na mão.

E depois ficou sentada, apertando a barriga da é­gua com as pernas compridas e fazendo com que esta saltasse para a frente. Boudica debruçou-se sobre o pes­coço brilhante, sem querer saber para onde iam desde que fosse para longe dali. Quando descia pelo caminho à des­filada ouvia os gritos soarem atrás de si e, por cima dos gritos, as gargalhadas sonoras de Cartimandua.

 

A desfilada inicial da égua levara-as para fora do forte e a atravessar o vau do Tas. Quando trepou a outra margem Boudica virou-se e viu que o forte estava ilumi­nado pelas tochas que se moviam de um lado para o ou­tro. Prasutagos teria que ir atrás dela ou ficar envergo­nhado para sempre, mas os outros cavalos estavam todos soltos nas pastagens e, por aquela altura, a maior parte dos homens estava demasiado embriagada para os con­seguir apanhar. Do vau partiam vários caminhos, brancos ao luar. Rindo, soltou a cabeça da égua perguntando-se qual dos caminhos o animal escolheria.

Escolheu o caminho do norte. A medida que iam galgando milhas tornava-se claro que a égua se dirigia pa­ra os campos que conhecia. Quando Prasutagos as en­contrasse já elas estariam a meio caminho de casa. De tempos a tempos refreava a montada, pondo-a a passo, à escuta. Mas com exceção do ladrar ocasional dos cães quando passavam junto a uma quinta, a terra permanecia silenciosa sob a lua.

Os druidas tinham feitiços para confundir um per­seguidor e para ocultar um trilho, mas ela não os apren­dera. E, em qualquer caso, ela queria que Prasutagos a encontrasse... mas ainda... não.

Tinha que atravessar mais dois rios, o último dos quais suficientemente profundo para a égua ter de o atra­vessar a nado. Quando chegaram a terra firme Boudica tremia com o fio da madrugada. Ainda assim estava mais quente em cima do cavalo do que estaria a pé e os conhe­cimentos que recebera dos druidas tinham-na ensinado a ignorar o desconforto físico. Por essa altura já a égua es­tava disposta a ir a passo e assim continuaram até o sol outonal ter secado a roupa de Boudica.

Quando refreou a montada para a fazer sair da es­trada e entrar num bosque onde havia uma fonte e a erva crescia espessa por entre as árvores, já tinham percorrido quase vinte milhas. Esfregou o cavalo e usou o cinto para improvisar umas peias para que o animal pudesse pastar, depois pôs a manta do bicho no chão, enrolou-se na capa e deitou-se a descansar, pensando quanto tempo levaria Prasutagos a chegar.

Quando acordou já passava do meio-dia e lamen­tou ter comido tão pouco no banquete do casamento. A égua, por seu turno, banqueteara-se com a erva suculenta e estava pronta para partir de novo.

A terra naquela região era suavemente ondulada, num misto de florestas e de campos abertos salpicados por quintas rodeadas por campos retangulares e compri­dos. Por essa altura Boudica já não se importava de deixar pistas para os seus perseguidores e aventurou-se a parar numa das quintas e a trocar uma das fitas do cabelo por uma refeição e uma cama junto ao fogo. Temera ter de arranjar respostas para as perguntas que lhe fizessem, mas as pessoas falavam vagarosamente e eram pacientes, cui­davam da sua própria vida e pareciam estar dispostos a deixar que ela cuidasse da sua. Foi só mais tarde que se lembrou de ter visto os sinais de proteção que tinham feito, e em que estivera demasiado cansada para reparar, e percebeu que eles deviam ter pensado que ela era uma criatura perdida do Mundo das Fadas.

Boudica ficou surpreendida ao acordar na manhã seguinte sem ver qualquer sinal do rei. Por aquele andar, pensou exasperada, chegaria ao forte antes de ele a apa­nhar e estaria à espera para lhe dar as boas vindas... se a deixassem entrar. Ser apanhada no meio do mato poderia ser romântico, esperá-lo junto à sua porta, como uma pe­dinte, seria embaraçoso.

Partiu com maçãs e pães de aveia na dobra do ves­tido que lhe dariam para um dia ou mais, deixando que a égua vermelha caminhasse ao seu ritmo ao longo da es­trada. Aquela região era mais plana do que a que rodeava o forte de Antedio e, a julgar pelo feno que havia nos campos, mais bem drenada e mais fértil. As ansiedades e ressentimentos que tinham atormentado Boudica no ca­samento pareciam agora muito distantes. Aquela era uma nova terra e, tal como fizera em Mona, teria que aprender os seus costumes.

A não ser, evidentemente, que Prasutagos repudi­asse o casamento e a devolvesse, em desonra, à casa do pai. Aquela idéia foi suficiente para mergulhar Boudica numa contemplação sombria durante o resto da tarde. Nessa noite não teve coragem para procurar abrigo nou­tra quinta e deitou-se novamente nos bosques, olhando por entre os ramos para as estrelas que, no céu, pareciam indicar-lhe o caminho.

Foi acordada pelo aroma de salsichas a assar. Por instantes pensou que fosse um sonho, mas depois ouviu o crepitar do fogo. Franziu o sobrolho e virou-se esfre­gando os olhos. A luz da manhã transformava o fumo numa bruma dourada através da qual só conseguia dis­tinguir os contornos do homem ajoelhado junto às cha­mas. Mas reconheceu a altura e a largura dos ombros. Um assomo de emoção, composta por partes iguais de alívio, exaspero e desilusão, despertou-a completamente.

Dois dias... — disse ela sentando-se. Os irmãos sempre lhe tinham dito que o ataque era a melhor defesa. — Levastes muito tempo, meu senhor.

Não havia pressa. A terra está em paz e eu sabia para onde a égua iria. — Prasutagos virou as salsichas e olhou para ela. Tinha o cabelo e o bigode muito bem penteados e até mesmo os cabelos grisalhos estavam dourados à luz do sol. Trazia vestidas umas calças resis­tentes e uma túnica de um verde baço, roupa adequada para a viagem. E estava limpo.

Espero bem que sim. — Tirou uma erva do cabelo.

Não fostes difícil de seguir. Os campos estão cheios de rumores de uma mulher ruiva num cavalo ver­melho, se bem que os relatos divirjam; nuns é uma das deusas, noutros é uma refugiada das guerras com os Ro­manos; nuns é um bom presságio, noutros é um mau presságio.

Boudica sentiu-se corar por baixo da sujidade e do pó. Pigarreou.

E qual é a vossa opinião?

Eu acho que é uma divindade outonal — res­pondeu ele secamente. — Prometi encontrá-la e garan­ti-lhes que a magia do rei era suficiente para contrariar qualquer encantamento. — Tirou as salsichas do fogo e espetou no chão mole os ramos em que tinham estado a assar.

Perdoai-me — disse ela com a dignidade possí­vel. — Vou lavar-me no riacho.

Excelente idéia. No pacote junto ao salgueiro tendes roupas limpas — disse ele gravemente e depois: — Não fujais outra vez de mim. Acho que a minha repu­tação não iria agüentar perder a noiva pela segunda vez...

 

Boudica seguiu o seu novo marido durante a tarde dourada de Outono. No pacote que ele lhe trouxera en­contrara uma túnica com mangas de uma lã leve da cor dos campos ceifados. Suspeitava que passaria muito tempo antes de se atrever a vestir novamente roupas carmins nas terras de Prasutagos. Também lhe trouxera as calças que costumava vestir para montar e que as suas pernas esfoladas muito agradeceram depois de dois dias passados sem mais proteção do que as dobras de uma túnica de linho.

O grande cavalo baio do rei tinha uma passada mais larga que a da égua e deu por si a ficar sempre um pouco para trás. Pensou em como ele teria conseguido escapar aos membros da sua casa.

Mas também, sendo o filho mais novo, nunca es­perara herdar um exército e talvez estivesse acostumado a cavalgar sozinho pelos campos. Certo era que os habi­tantes da quinta onde pararam para descansar e beber leite acabado de mugir não pareciam surpreendidos por ver o seu rei a passear pelos caminhos com a sua noiva.

Prasutagos estava habituado a estar sozinho, pen­sou à medida que iam galgando milhas. Apesar do emba­raço daquela manhã, tivera a esperança de que o cons­trangimento entre ambos desaparecesse. Mas suspeitava agora que no banquete ele se mantivera silencioso por ser esse o seu hábito e não com qualquer outra intenção.

Se Coventa ali estivesse teria preenchido o silêncio com tagarelice. Boudica nunca sentira necessidade de o fazer e agora não se atreveria.

Onde é que vamos passar a noite? — pergun­tou ela depois de uma hora em que não fora proferida uma única palavra. — Ou tencionais cavalgar sem parar até ao vosso forte?

Os cavalos precisam de descansar — diminuiu um pouco o passo para lhe responder. — Um pouco mais acima nesta estrada há uma fonte sagrada onde as pessoas vão rezar à Deusa por uma cura ou pela satisfa­ção de desejos. Dou alguma ajuda às pessoas da quinta para que possam alimentar os viajantes. Ficaremos lá.

 

Chegaram à fonte da Senhora quando as primeiras estrelas apareciam no céu. Ouviam as águas que brotavam da fonte a correr por um desfiladeiro pouco profundo por entre as colinas arborizadas. Mas o caminho estava bem marcado, a área por baixo da fonte fora limpa e a erva continuava verde. Os abrigos com telhados de col­mo, usados pelos primeiros peregrinos erguiam-se entre as árvores. Não havia mais ninguém ali numa época tão tardia do ano, mas era evidente que aquele era um santuá­rio muito popular.

Prasutagos deixou Boudica a fazer a cama e foi à quinta buscar comida. Ela pensou se aquela divisão do trabalho fora fruto do tato, permitindo-lhe escolher con­sumar ou não o casamento naquela altura. Se ele a tivesse pressionado, pensou com ironia, era capaz de ter resisti­do, mas tinha que admitir que a distância dele era um de­safio e que a ligação que lhes fora imposta no círculo sa­grado tinha que ser completada. Estendeu os dois cober­tores no chão, um por cima do outro.

Como o marido ainda não tinha regressado quando terminou, agarrou nos cantis e numa das fitas do cabelo que lhe restavam e entrou no caminho que conduzia à fonte sagrada. Tinha sido escavado um lago para reter a água que escorria pela encosta de uma pequena colina. A luz que esmorecia era apenas suficiente para vislumbrar os pedaços de tecido atados aos ramos da aveleira que a protegia. Na base da árvore fora cravado no chão um pe­daço de madeira, com dois olhos muito abertos gravados e, por baixo, o buraco representando a vulva de uma mulher. Sorrindo, atou a fita junto aos outros pedaços de tecido e ajoelhou-se à beira.

— Senhora — murmurou —, por seja qual for o nome que preferis nesta terra eu vos honro. Ajudai-me a ser uma boa mulher para Prasutagos e a dar-lhe filhos... — e depois, mais baixinho: — Ajudai-me a conquistar o seu amor... — Apanhou água com as mãos em concha e bebeu, depois enfiou os cantis na água para os encher.

Sentou-se sobre os calcanhares, afastando um a um os pensamentos da sua mente, como lhe tinham ensinado na ilha dos druidas, até se concentrar apenas na doce mú­sica da fonte. Mas daquela simples melodia vinha uma consciência que permaneceu na sua memória como se fosse constituída por palavras.

Podes chamar-me Santa Mãe, pois há sempre leite nos meus seios, este corre sempre, sempre correu para os meus filhos em amor eterno. Vai empaz. Nas tuas alegrias e tristezas estarei aqui...

Boudica tirou mais um pouco de água e deitou-a no orifício da figura, sentindo o interior das suas próprias coxas pulsar em antecipação.

Ergueu-se em paz e pegou nos cantis que enchera. Quando regressou ao abrigo Prasutagos acendera uma fogueira e havia frutos e pão fresco junto ao fogo. Ainda hipnotizada pela calma da fonte, Boudica sentiu-se à vontade com o silêncio dele. Quando ele se retirou depois da refeição ela tirou as roupas e enfiou-se debaixo dos cobertores.

Ele esteve ausente durante o que lhe pareceu mui­to tempo, e quando regressou trazia consigo a frescura da fonte sagrada. Ela pensou se teriam ambos pedido a mesma coisa nas suas orações. Mas uma condição para que tais milagres se realizassem era nunca falar deles em voz alta.

O fogo esmorecera e, mais uma vez, ela viu a sua silhueta recortada a ouro. Ficou tensa quando ele entrou para dentro dos cobertores a seu lado e ele apoiou-se so­bre um cotovelo e, com a outra mão, brincou com um caracol dos seus cabelos. Murmurou palavras calmantes que ela não conseguiu distinguir.

Queria dizer-lhe que não tinha medo, mas ele con­tinuava a murmurar e a acariciar-lhe os cabelos e ela não conseguiu encontrar as palavras adequadas. Lembrou-se de como ele acalmara o garanhão branco na lagoa sacrifi­cial. Era magia dos cavalos, pensou, para amansar a égua vermelha...

Prasutagos curvou-se para a beijar e, desta vez, os seus lábios estavam quentes. As mãos dele moveram-se sobre o seu corpo, acariciando, guiando, até ela se abrir em aceitação, todo o seu ser correndo para o abraçar, a­colhedor como as águas da fonte sagrada.

 

— Boudica! — A voz de Nessa soou no pátio. — Anda lá amor... o teu senhor disse que não podes levantar nada tão pesado... anda lá daí!

Boudica suspirou e pousou a braçada de lenha que se preparara para levar para a cabana. Pouco depois de ela e Prasutagos terem chegado a Eponadunon, tinha apare­cido uma caravana de carroças com todos os presentes do casamento e, juntamente com estes, vinha a velha Nessa, enviada pela mãe para a servir na sua nova casa. Ou tal­vez fosse para a guardar... Assim que se tornara evidente que Boudica estava grávida, Nessa e Prasutagos tinham conspirado para a tratar como se fosse feita de vidro ro­mano. O que não tivera importância durante o Inverno, quando a chuva gelada fazia com que toda a gente se mantivesse dentro das cabanas, mas agora já passara Bel­tane e o bom tempo levava toda a gente para o ar livre. Em retrospectiva achava que devia sentir-se grata por a mãe não ter mandado a velha mulher com ela para Mona, apesar de a idéia de Nessa a confrontar Lhiannon a fazer sorrir.

Sentia a falta de Lhiannon, cujo bom senso tran­qüilo teria sido muito útil quando se instalara na sua nova casa. Eponadunon ficava na curva de um pequeno rio a meio dia de viagem do mar ou, melhor dizendo, dos pân­tanos, pois a costa norte avançava gradualmente por zo­nas de pântanos salgados e areias movediças, com um canal estreito por onde os barcos conseguiam chegar a terra firme. Para sul, um dia a cavalo levá-los-ia até à fon­te sagrada, se bem que desde a sua chegada tivesse estado demasiado ocupada para lá voltar. Teria gostado de levar lá Lhiannon.

Anda lá minha querida, vem para casa... — Nessa pareceu atrás dela.

Boudica virou-se para ela. — Sou jovem, saudável e nunca me senti melhor na minha vida! E também não me vou derreter com o Sol da Primavera!

Um dos rapazes que toma conta do gado re­gressou. Viu cavaleiros na estrada... é melhor ires trocar esse vestido velho.

Quando Boudica, soltando um suspiro de rendi­ção, seguiu Nessa para o interior da maior das três caba­nas, sentiu um arrepio de excitação. Eponadunon era quase tão remoto como Mona, e Prasutagos não dispunha da rede de informadores do druida-chefe para o manter a par das novidades, se bem que agora, que o primeiro choque da conquista romana tinha passado, os mer­cadores e comerciantes recomeçassem a aparecer.

E, de vez em quando, havia bisbilhotices. Quando Cláudio regressou a Roma, tinha-se gabado de ter rece­bido a submissão de onze reis. Como é evidente, o seu Triunfo representara a conquista de Camulodunon como a tomada de uma cidade amuralhada. No que respeitava às notícias domésticas, os homens diziam que a Legião que fora deixada para controlar os Trinovantes estava a construir uma fortificação na colina por cima das ruínas do forte.

Mas os viajantes não eram mercadores. Quando Boudica estava a apertar a túnica, uma das raparigas que estivera a lavar roupa no rio veio a correr informá-las de que um grupo de Romanos vinha a subir a estrada.

O rei partiu para o novo forte na costa esta manhã... podemos mandar um dos rapazes à procura de­le, mas teremos que entreter estas pessoas até que ele chegue — disse ela à rapariga. — O nosso pão ainda está a cozer. Rapariga, depois de enviares o mensageiro, corre às quintas mais próximas e vê o que eles têm por lá. En­tretanto os nossos convidados terão que se contentar com carne e queijo.

Enquanto o forte explodia em atividade ao seu re­dor, ela pegou no guarda-jóias para acrescentar um colar e braceletes à indumentária. O rei vivia ali com simplicida­de e o forte não impressionaria os visitantes, mas ela ao menos podia ter o aspecto de uma rainha.

Quando os desconhecidos entraram pelo portão de madeira a casa já fora varrida e as tralhas escondidas. Boudica aguardava com um corno na mão contendo as últimas sobras de vinho do seu casamento. Em tempos de paz Prasutagos não mantinha mais que meia dúzia de guerreiros no forte. Calgac, um jovem desengonçado que fora designado para a escoltar, e os outros três que não tinham acompanhado o rei formaram atrás dela quando os Romanos chegaram.

Contou-os automaticamente — um contubérnio de dez soldados, escoltando três homens com túnicas civis e calções de montar pelos joelhos e um homem de calças aos quadrados que devia ser o guia.

Salutatio... — estendeu o corno ao homem mais bem vestido, abrindo muito os olhos quando reconheceu o nariz grande e os olhos escuros que vira nas sombras purpúreas do pavilhão do imperador. Certamente que não chegara já a altura de pagar os impostos aos Romanos! O seu sorriso ficou tenso enquanto continuava: — Lúcio Júnio Polião, salvei — Aquele era todo o Latim de que se recordava dos anos passados no forte do Rei Cunobelin.

Saudações... — respondeu Polião na língua de­la. — Bebo à vossa saúde, minha rainha... — Falava com sotaque atrébate.

Boudica ergueu uma sobrancelha. Não estivera à espera que os Romanos tivessem o bom senso de enviar um homem que falasse a língua dos Britânicos.

Os minutos seguintes foram passados a desmontar toda a gente e a arranjar sítio para acomodar homens e animais. Dirigiu um olhar calmante ao mais jovem dos seus guerreiros. Alguns deles eram novos no serviço do rei, substitutos daqueles que tinham tombado no Tamesa e olhavam com hostilidade para os legionários romanos. Depois de ela instalar e alimentar toda a gente Prasutagos ainda não regressara. Em vez de ficar sentada a olhar para Polião por cima do fogo, sugeriu que dessem uma volta pelo forte.

Tinham sido talhados degraus na parte interior da muralha de terra coberta de erva que rodeava o forte. No exterior a muralha era complementada por uma paliçada. — A família do meu marido está na posse deste forte desde os tempos do seu trisavô — disse ela quando che­garam ao topo —, mas os clãs desta região há muitos a­nos que vivem em paz.

E, no entanto, o Rei Prasutagos está a construir um novo forte? — Não era bem uma pergunta. — Um novo forte para guardar o porto onde atracam os navios que atravessam o canal?

Acho que ele gosta de construir coisas... — en­colheu os ombros. Tinha feito um passeio a cavalo para ir admirar a muralha imponente reforçada por blocos de pedra, mas o único alojamento disponível eram as caba­nas dos trabalhadores e o rei estivera demasiado concen­trado no trabalho para reparar se ela estava ou não pre­sente e por isso não se demorara.

Pois gosta... — concordou Polião. Os seus o­lhos pousaram brevemente sobre o seu ventre dilatado e depois afastaram-se. — A muralha oferece uma posição vantajosa.

Ela sorriu ao de leve, como fazia sempre que ali ia e olhava para os campos. Naquela estação os campos es­tavam verdejantes com a erva nova, salpicados pelo cas­tanho rugoso dos campos recentemente arados e semea­dos. Um bando de corvos pousara no campo mais pró­ximo procurando grãos. Uma criança atravessou o campo a correr, seguida por um cão a ladrar e os corvos levanta­ram vôo numa explosão de gritos.

Cathubodva,, leva as tuas galinhas, rezou. Aqui não há carne nem bolotas para ti! Apesar de preferir partilhar com a deusa a fazê-lo com os Romanos, pensou, dirigindo um olhar de soslaio ao homem que estava ao seu lado. Des­concertantemente, ele olhava-a a ela e não os campos.

É verdade que não temos montes altos onde construir os nossos fortes como há nas terras dos Duro- triges — disse em tom neutro. Até mesmo ali tinha che­gado o relato de que a campanha romana no sudoeste esmorecera e se arrastava enquanto o general Vespasiano cercava um forte de cada vez.

Se a observação o irritara ele não deixou transpa­recer. — Cultivam aqui cevada e criam gado? — Os seus olhos escuros desviaram-se.

E trigo e criamos ovelhas nas colinas — acres­centou ela afastando-se um pouco dele. — Os nossos campos não são tão férteis cornos os das terras dos Tri- novantes mas, na maior parte dos anos, conseguimos a­limentar a nossa gente. Quando os Invernos são rigoro­sos há cheias e temos sorte se conseguirmos uma colheita que seja.

Compreendo — disse ele suavemente. — Mas é nisso que beneficiam em fazer parte do Império. Em a­nos desses podemos fazer-vos empréstimos para que se remedeiem e, quando tiverem excedentes, poderão pagar. E também não precisam de recear que outra tribo cujas sementeiras tenham falhado tente ficar com as vossas colheitas. O nosso general Vespasiano já tomou muitas colinas fortificadas — continuou. — Em breve todo o ocidente terá sido também conquistado.

Ela teria gostado de lhe tirar o sorriso convencido da cara, mas infelizmente ele dizia a verdade. Que a Deusa guarde Lhiannon!, pensou então. Mas certamente que as sacerdotisas não entrariam na guerra. Continuou a andar ao longo da muralha e ele seguiu-a.

Falais bem a nossa língua — comentou quando chegaram aos fortes barrotes que suportavam o portão.

O Imperador designou-me companheiro do jovem Cogidumnus, quando ele foi para Roma, e orde­nou-me que aprendesse a língua dele enquanto lhe ensi­nava a nossa. Cláudio, como é evidente, sabe a língua dos tempos da juventude passados na Gália — respondeu ele.

Há quanto tempo estaria o Imperador a pensar na conquista da Britânia?, pensou desvairada. Os seus es­forços para evitar o ataque teriam feito alguma diferença? Respirou fundo. — Falar a língua daqueles que nos ro­deiam é sempre útil. Na verdade já pensei que seria bom ter aqui alguém que me pudesse ensinar o Latim.

Sois sensata. Se vos ireis tornar cidadãos do Império, então tereis que falar a língua, embora não haja dúvida de que ainda há muitos que consideram o Grego como a única língua civilizada.

Boudica não gostou da superioridade inconsciente que pressentiu nas palavras de Polião. Mas já avistava ca­valeiros na estrada. Até mesmo àquela distância havia al­go na postura do primeiro cavaleiro, descontraído sobre a montada, que ela reconheceu. Passou menos de um ano, pensou. Já estarei assim tão ligada a ele? Talvez devesse ter previsto que tal aconteceria, apesar de na maior parte do tempo ele se manter tão silencioso como sempre. Talvez fosse por estar grávida de um filho dele.

Esticou-se e acenou quando Prasutagos galopou na sua direção, sentindo-se tão grata por ser resgatada como se estivesse estado sob um cerco.


 

Lhiannon estava sentada, em frente de Ardanos do outro lado da fogueira, as suas vozes entrelaçadas no cân­tico com a coluna de fumo a subir para o céu. Os muros de terra que protegiam os túmulos dos antigos estavam cobertas de erva e gastas pelos anos. O topo da colina do outro lado do vale, para sul, seria o seu refúgio. Os ho­mens da tribo dos Durotriges estavam naquele momento a labutar, subindo as encostas com cestos cheios de terra e de pedras para reforçar as defesas construídas por pes­soas cujos nomes já tinham desaparecido da terra.

Nos tempos de paz o Equinócio da Primavera ti­nha sido uma época de trabalho para uma abundante é­poca de colheitas. Mas naquele ano seria o sangue dos homens que fertilizaria os campos. Através das ondas de calor via as feições de Ardanos exaltadas e concentradas como acontecia sempre nos rituais. Aquele devia ser o seu ar quando fazia amor... tentou afastar a imagem, mas andavam tão próximos um do outro naqueles dias que ele sentia o que ela pensava e, quando os olhos de ambos se encon­traram, ela sentiu o corpo quente de desejo. O seu pri­meiro instinto foi reprimir o desejo, mas também ele po­deria constituir uma oferenda.

Quando o círculo começou a rodar no sentido do Sol, permitiu que a energia crescesse, brotando da sua mão esquerda para os druidas e os sacerdotes da aldeia que se tinham juntado a eles para celebrar o ritual.

Igualdade entre dia e noite,

Ponto de equilíbrio entre trevas e luz...

E o dia, é a hora,

De escolher o objetivo, fazer crescer o poder...

Desde o Verão anterior que ela e Ardanos se mo­viam continuamente na frente do avanço romano para ocidente, sempre juntos mas nunca sozinhos. O Rei Veric morrera pouco depois de o imperador romano ter deixa­do a Britânia. Enquanto Vespasiano andava atarefado a esmagar os últimos apoiantes de Caratac na ilha de Vectis e a instalar Cogidomnus no trono do seu avô, Lhiannon e Ardanos tinham ido para junto do Rei Tancoric. As terras dos Durotriges eram ricas em colinas fortificadas nos tempos antigos e reconstruídas durante as intermináveis guerras tribais do ocidente do país. Certamente que os Romanos não conseguiriam tomá-las a todas...

O vento soprou no topo da colina e as chamas su­biram repentinamente, lambendo os ramos de junípero que tinham sido entrançados entre as cavacas de carvalho formando esculturas de fogo. Os ramos de pinheiro in­cendiaram-se com um crepitar de resina, juntando o seu cheiro aromático ao fumo que era soprado para leste pelo vento onipresente. Para leste... na direção do inimigo que avançava.

O fogo ateava-se e assobiava quando um e depois outro dançarino avançava de um salto para lançar uma oferenda de óleo, ou de hidromel ou de sangue, para as chamas. O fumo tornou-se mais espesso subindo em es­pirais por cima da colina. Lhiannon sentia a energia a crescer no interior do círculo enquanto dançavam à volta do fogo.

Pelas nossas palavras e pela nossa vontade, Aqui na colina sagrada, Abençoamos todos quantos vemos, Lançamos um feitiço para a vitória!

O vento soprou novamente, lançando-lhe para o rosto os cabelos que deixara soltos por causa do ritual. Abanou a cabeça para afastar as madeixas soltas e o seu sorriso desvaneceu-se quando se apercebeu de que o vento mudara de direção. Ardanos puxou a sua parte do círculo para a frente, os braços erguidos para soltar a e­nergia e os outros seguiram-no algo desordenadamente. A coluna de fumo que voara para leste desviara-se para

norte, indo na direção da colina de pedras.

 

Lhiannon sentou-se num banco e puxou um pé para cima, secando-o com a capa pesada e rica em lanoli­na. A pele estava pálida e engelhada pela água, cortada e magoada por ter andado descalça na lama. Ao menos quando o nosso refúgio é um forte numa colina, a maior parte da água da chuva, que não fica retida nas cisternas, escorre encosta abaixo. O povo dos pântanos à volta de Avalon tinha fama de ter pés de pato. Quem lhe dera tê-los. Desejou estar agora na ilha de Avalon e não en­curralada naquela colina. Espreitou para cima, com espe­rança de que a bruma que se estava a formar indicasse uma aberta nas nuvens, mas só viu cinzento.

Os Romanos tinham chegado pouco depois do festival de Beltane e tinham escavado as suas valas e feito as suas muralhas na base do monte. Com eles chegara a chuva. Um guerreiro de cabelos escuros escorregou pela muralha até chegar a uma pilha de pedras para ir recolher mais munições para a sua funda, guardando-as numa bolsa presa ao cinto e ela dirigiu-lhe aquilo que, esperava, fosse um sorriso alegre. Os defensores do forte da colina tinham reunido mantimentos suficientes para um cerco prolongado, mas os trabalhos de construção tinham-se concentrado em tornar mais robustas as muralhas e em escavar mais profundamente o fosso entre elas e não em reparar as casas no interior. Mas não lhes faltava água nem pedras.

Agora, como era evidente, não podiam ir recolher palha para os telhados nem caiar as paredes de adobe pa- ra as proteger. Os círculos de cabanas, erguidas apressa­damente, amontoavam-se sobre a terra lamacenta do topo do monte e eram menos seguras do que as casas onde as pessoas guardavam os animais na sua terra e não havia ramos de junco para remendar os cercados onde estavam presos os animais que tinham trazido. A comida fora guardada na casa mais segura e, ainda assim, alguma ti­nha-se estragado. Esperava-se que os humanos fossem mais resistentes. Com um suspiro começou a tratar do outro pé, fazendo uma careta quando pousou o outro na lama fria.

A razão por que recusara ficar com Boudica estava de pé em cima da fortificação, espreitando por entre duas das estacas pontiagudas que formavam a paliçada. O manto branco de Ardanos já estava da cor da lama, mas a túnica azul de sacerdotisa de Lhiannon estava da mesma cor. Do que precisavam naquele sítio era de um bom cinzento natural. Mas roupa nova era algo de que teriam de abdicar durante algum tempo.

Alguém gritou e ela olhou para cima, com os olhos semi-cerrados, seguindo a trajetória de um projétil de pe­dra com o olhar cansado. As catapultas romanas eram bastante potentes, mas a área protegida pelas fortificações duplas, que rodeavam um quadrado bastante amplo no topo do monte, era suficientemente grande para que, para além do desgaste provocado nos nervos de todos, rara­mente provocassem dano. Os pedregulhos que se abati­am sobre a paliçada já eram uma questão diferente, mas ainda dispunham de estacas suficientes para reparar du­rante a noite aquilo que era destruído durante o dia e u­savam também os pedregulhos do inimigo para reforçar as defesas.

Porque seria que os poemas épicos, que os bardos gostavam tanto de recitar, nunca mencionavam o pro­fundo sofrimento de suportar um cerco debaixo de chu­va? Esperava que os Romanos se sentissem igualmente desconfortáveis. Esperava que as suas proteções peitorais e dorsais estivessem a enferrujar, que as proteções metá­licas das balistas se estivessem a desfazer e que as tendas de couro estivessem a apodrecer e a cair aos bocados.

Lhiannon levantou-se com um suspiro e puxou a capa por cima da cabeça enquanto a chuva se intensifica­va novamente.

 

Conseguimos defender este forte durante mais tempo do que quaisquer outros — disse Caratac tossindo quando uma corrente de ar soprou o fumo da lareira e o espalhou pela cabana onde os chefes tribais se tinham reunido. Lhiannon puxou o véu para a cara para servir de máscara e tirou mais chá de ervas do caldeirão. A chuva no colmo tinha uma batida monótona que, em conjunto com o assobio do fogo, era tão familiar que só em mo­mentos como aquele, em que toda a gente aguardava que o fumo se dissipasse, é que se tornava notada.

Mais tempo não é para sempre — disse Ante- brogios, o chefe que Tancoric pusera no comando das defesas. Tossiu, fosse por causa do fumo ou devido ao catarro que afetava todos quantos ali se encontravam. — Os mantimentos começam a faltar-nos e temos homens doentes.

O Romanos também — resmungou um dos outros. — A noite conseguimos ouvi-los a tossir nas ten­das. Amaldiçoam o clima da Britânia e amaldiçoam o im­perador que os mandou para aqui.

Então que vão para casa para a ensolarada Itália — resmungou alguém. — Se esta chuva se mantiver du­rante muito mais tempo vou desejar poder ir também.

Se ficarem sem comida ou sem homens podem reabastecer-se ou pedir reforços — comentou um chefe. — Nós não.

Estás a tentar dizer que devíamos desistir? — Desafiou-o Caratac. Estendeu o copo a Lhiannon para que esta o enchesse. Tal como os outros estava encurva­do e sujo reduzido, pelas privações, ao músculo e à pele. Se no conselho em Mona tivesse previsto aquele dia teria falado com tanta bazófia? Pensou ela enquanto lhe devol­via a taça. Algum deles teria?

O seu olhar encontrou o de Ardanos, que estava sentado na sombra junto à porta, e pensou se ele estaria a pensar no mesmo. Ele tinha emagrecido nas últimas se­manas, as faces estavam encovadas e os olhos febris. An­teriormente tivera sempre um comentário irônico ou uma palavra animadora, mas nas últimas semanas ficara estra­nhamente silencioso. Já não tentava persuadi-la a deitar-se com ele e isso era o mais perturbador. Mas ela também se tornara silenciosa.

Desviou os olhos. Se falarmos, temos medo de ter de re­conhecer que não existe qualquer esperança de vitória...

Os Romanos lá fora são mais do que nós cá dentro — Caratac falou com uma intensidade calma. — As legiões deles são mais numerosas do que os Durotri- ges, tal como foram mais numerosas do que os Trino- vantes quando combatemos no Tamesa. Mas eles não são mais numerosos do que os Bretões da Britânia! Se não desistirmos, se os fizermos pagar com sangue cada colina fortificada, cada travessia de rio, cada metro de terra, chegará a altura em que o ouro e os cereais que nos con­seguem tirar não chegarão para pagar as vidas dos seus homens. É por isso que temos de agüentar o mais que pudermos e, se formos expulsos desta fortaleza, teremos que retirar para outra. Nós podemos sobreviver-lhes. Esta é a nossa terra!

Talvez até mesmo Caratac tivesse tido receio, um ano antes, se soubesse o que estava para vir, mas era evi­dente para Lhiannon que agora não podia fazê-lo. Os ou­tros poderiam render-se mas ele continuaria a resistir. Já tinha pago um preço demasiado alto para desistir.

Mas e se os Romanos sentissem o mesmo? E se cada legionário que alimentava os corvos de Morrigan reforçasse a determinação do General Vespasiano de des­truir aqueles que o tinham matado?

Lá fora alguém deu o alarme. Praguejando, os che­fes agarraram nas espadas e saíram em tropel pela porta. Tropeçando e escorregando na lama, erguendo os escu­dos com uma mão, formando uma parede para repelir os mísseis lançados de cima, os Romanos estavam a assaltar novamente as paliçadas.

 

A chuva parará finalmente.

Grandes fortalezas de nuvens brilhantes vogavam lentamente para leste, tendo despejado todas as suas re­servas de chuva, deixando o Sol vitorioso no campo azul. No Forte das Pedras, sitiados e sitiantes fizeram uma pausa nos seus trabalhos, virando-se para a luz como se fossem flores enquanto o Sol, cada vez mais forte, sugava a umidade do chão encharcado do forte, provocando nu­vens de vapor. Os pulmões de Lhiannon ainda estavam pesados com ar úmido, mas ela sabia que em breve este secaria e que a lama nas encostas do forte secaria e que os Romanos atacariam novamente.

No céu os corvos voavam em círculos, escuros ou brilhantes, conforme as suas asas refletiam a luz do Sol. Sejampaáentes, pensou, em breve terão comida!

Despiu-se até ficar só com a túnica interior de li­nho e passou o manto azul por cima do telhado de colmo da cabana e começou a desfazer as trancas.

O teu cabelo parece luz do Sol entretecida...

Sentiu um toque e virou-se, quase caindo nos bra­ços de Ardanos.

E pareces uma filha das fadas, com o teu manto pálido e os braços brancos a brilhar ao Sol. — Sorrindo ao de leve, ele começou a desembaraçar os nós com que ela estivera a debater-se.

Mas cor de lama junto à bainha, embora sejas simpático ao dizer isso... — respondeu ela com a voz mais firme que conseguiu. — Mas, se a morte vier, ao menos enfrentá-la-emos com as roupas secas.

Provavelmente... quase de certeza, acho — respondeu ele numa tentativa de recuperar o seu antigo distanciamento irônico. — Quando espreitei por cima da paliçada, pareceu-me ver uma imensa atividade no sopé do monte. Os Romanos estão a pôr as balistas em posi­ção de assalto e não fazem qualquer tentativa de passar despercebidos. E porque haveriam de fazer? Quando de­cidirem atacar nós só poderemos responder com aquilo que temos. Que não é muito. Quase não temos setas e até mesmo o fornecimento de pedras para as fundas está a acabar.

E uma fortaleza não pode fugir — concordou ela. — Nem podem fugir aqueles que estão presos lá dentro. Mas não havia necessidade de o dizer em voz alta.

Ele terminou a segunda trança penteando as ma­deixas com os dedos, deixando-as cair, soltas e macias sobre os ombros, brilhando ao Sol.

Porque será que a falta de comida ainda te faz mais bonita? — disse ele então. — Antes já eras quase magra de mais, mas agora o teu espírito brilha como uma lâmpada através da tua pele... — Na última semana a ra­ção, que nunca fora muito abundante, fora reduzida. Os Romanos podiam não estar à espera de que eles resistis­sem tanto tempo, mas Antebrogios nunca esperara que os Romanos tivessem paciência para um cerco tão longo.

Ardanos também estava magro. Ela via agora co­mo seria o seu aspecto quando fosse velho, isto se algum deles sobrevivesse e chegasse a velho. Naquele momento isso não tinha qualquer importância. Ouvir aquele tom gentil na sua voz, ver a luz nos seus olhos, era do que ela estava a precisar. Se ele estava frágil ela também estava. Já não era apenas a fome que a fazia sentir-se tonta quando se deixou abraçar por ele.

A atividade no acampamento romano continuou durante toda a tarde. No forte, a refeição da noite foi si­lenciosa, mas os cozinheiros serviram a melhor comida que lhes restava. Para beber só havia água, mas os chefes brindaram uns aos outros como se bebessem vinho.

Se estivermos destinados a cair esta noite, então partiremos alegres — disse Ardanos quando o copo che­gou às suas mãos. — Os Romanos que matarmos pode­rão partir para o sombrio Hades, mas as Ilhas Abençoa­das esperam por nós até chegar a altura de entrarmos no Caldeirão e renascermos.

As Ilhas dos Abençoados ou o Outro Mundo que a mulher das fadas me mostrou... pensou Lhiannon. Se aquela senhora lhe abrisse uma porta ali, naquele momento, passaria por ela? Sozinha não, pensou, olhando para Ardanos. Nunca entraria se tivesse que entrar no caminho sozinha.

Por todos os deuses, vocês os Durotriges cer­tamente que festejarão entre os heróis — exclamou Ca- ratac. — Ninguém jamais lutou tão bravamente ou se a­güentou tão bem...

Nunca ninguém foi liderado por tão nobres chefes... — foi a resposta dos homens.

Quando a refeição terminou, Lhiannon e Ardanos passaram pelos currais vazios olhando para as estrelas. Os homens que caminhavam pelas fortificações cantavam. Quando se calavam ouvia-se um murmúrio distante lá em baixo, como o ribombar de um trovão. Mas ali, no monte de palha que Ardanos cobrira com a sua capa, parecia tudo muito calmo.

Lhiannon pousou a cabeça no ombro dele, segura no seu abraço. Estavam ambos completamente vestidos e ele não fez qualquer gesto para alterar esse estado de coi­sas. Ela sentia um pulsar debaixo da sua mão, como se sentisse o bater do coração dele.

Nunca pensei que fosse num lugar destes e numa altura como estas que iria finalmente deitar-me contigo nos meus braços — disse Ardanos por fim. — Ou que me bastaria abraçar-te simplesmente e saber que este é o local onde escolheste estar.

Os mais ascéticos entre os druidas passavam fome para alcançar um estado em que a carne deixava de sentir necessidades. Talvez fosse isso o que lhes acontecera, a ela e a Ardanos, ou talvez no local onde se encontravam agora, fora do alcance da vida quotidiana, pudessem falar de alma para alma.

Quando eles vieram — murmurou ele passados instantes. — Quando romperem as defesas, virás comigo para as Ilhas Abençoadas. Reconhecer-nos-ão como dru­idas e, se nos apanharem vivos, arrastar-nos-ão acorren­tados pelas ruas de Roma e acabarão por nos lançar às feras, na arena.

Sim meu amor. Mas ainda não. Há aqui homens valentes e não estaria certo abandoná-los tão cedo.

Ele soltou uma risadinha e beijou-a na testa.

Nunca duvidei da tua coragem, Lhiannon.

As estrelas empalideciam à medida que a Lua cheia subia no céu. Numa noite assim parecia impossível que em breve homens fossem morrer. Os Romanos chama­vam à Lua a deusa casta. Não perceberiam que perturbar a paz daquela noite com violências seria uma blasfêmia?

Lhiannon sentou-se erguendo as mãos para os

céus...

Deusa sagrada, Deusa sagrada — cantou.

Neste mundo de homens em guerra Olhai para baixo e fa­Zei cessar o ódio. Oh Deusa sagrada, escutai-nos agora, Ouvi a nossa prece e dai-nos a paz...

Como que numa resposta uma bola de fogo er­gueu-se no céu descrevendo um arco de fogo sobre o rosto da Lua. Caiu sobre um telhado de colmo que se in­cendiou.

Deusa — murmurou ela —, tende misericórdia de nós. Começou!

Caíam mais bolas de fogo, algumas sobre casas, outras extinguindo-se a assobiar por terra. A maior parte do barulho parecia vir do portão. Quando ela e Ardanos se encaminharam nessa direção um guerreiro passou por eles aos gritos com as roupas em chamas. Ela própria gritou quando uma estaca disparada por uma balista pas­sou por ela e empalou outro homem numa parede.

Mais longe, junto ao muro, os homens gritavam. As chamas erguiam-se no local onde as estacas da paliça­da se tinham incendiado e havia homens a fugir das cha­mas. Era disto que as tempestades nos protegiam, pensou Lhi­annon atordoada. Lamento ter amaldiçoado a chuva...

A sua volta a confusão era total, com grupos de homens correndo de um lado para o outro à medida que o alarme era dado em diferentes secções da muralha. Ela e Ardanos separaram-se para irem buscar as arcas onde tinham guardado o resto das ligaduras e os instrumentos cirúrgicos; quando ia a sair da cabana viu um dos chefes a agarrar o braço de Ardanos. O homem apontou para o outro lado do forte e ele assentiu, lançou-lhe um olhar desesperado e partiu a correr.

Começaram a trazer os feridos para o terreno fronteiro à casa de Antebrogios e a deitá-los sobre co­bertores trazidos das cabanas que ainda não estavam a arder. Ela correu para o mais próximo, que tinha uma estaca disparada por uma balista cravada na coxa. Um pedaço de madeira endurecida, com cerca de sete metros, os três espigões da extremidade saíam-lhe da carne. Uma flecha poderia ser partida, mas a estaca era demasiado grossa; teria que a arrancar. O homem não estava a san­grar muito; provavelmente não tinha sido atingida ne­nhuma artéria.

— Agarra-o... — disse ao homem do lado cuja perna seria metida em talas a seguir. Fazendo uma careta ele assentiu e apoiou todo o seu peso no companheiro enquanto ela agarrava na estaca por baixo dos espigões e dava um forte puxão. O doente gritou e desmaiou. Lhi- annon cerrou os dentes e voltou a puxar usando toda a sua força. Sentiu qualquer coisa ceder e soltar-se a mal­vada ponta quadrada sujando de sangue as suas saias. Quando a madeira se soltou da carne, o orifício sangrou ainda mais e ela agarrou num pedaço de lã e pressionou com força e depois atou-o firmemente com uma faixa de tecido.

A ferida deveria ter sido lavada com vinho. O ho­mem deveria ser levado para um sítio calmo e deveria beber infusões de salgueiro-branco para aliviar a dor. Era até capaz de vir a fazer tudo isso se ele sobrevivesse — se algum deles sobrevivesse — nas próximas horas. No es­tado em que as coisas estavam ele era bem capaz de so­breviver até de manhã e morrer a seguir de uma infecção. Poderia sobreviver para viver na escravidão e desejar ter morrido naquele dia.

Mas já estavam a pôr na sua frente um homem com o ombro atravessado por um pedaço de estaca e já lá vinha outro com o joelho esmagado por uma pedra lan­çada por uma catapulta. Concentrou-se apenas na decisão seguinte, na incisão seguinte, no sangue vermelho e na luz do fogo e na dor. Homens gritavam e sangravam nas suas mãos, alguns desmaiavam e alguns morriam. A certa altu­ra ergueu os olhos e viu a lua a brilhar vermelha devido ao fumo que enchia o ar. Aquela não era uma deusa cas­ta... aquele era o escudo sangrento de Cathubodva, a lua da guerra.

A batida oca que estremecia a terra por baixo dos seus pés poderia ser a batida de um coração. Foi só quando os homens começaram a passar por ela a correr que se apercebeu de que os Romanos estavam a atacar o portão. Apesar dos mísseis que os defensores despejavam sobre eles, os escudos juntos na formação a que chama­vam de "tartaruga" protegiam os homens que manobra­vam o aríete.

Viu Caratac em todo o seu maltratado esplendor gritar a um grupo de guerreiros, pondo-os em posição no cimo da encosta íngreme que descia na direção do portão.

— Sai do caminho! — um dos guardas pessoais de Antebrogios pô-la de pé com um puxão e empurrou-a na direção de uma cabana. —Abriga-te! Agora não os podes ajudar!

Onde estava Ardanos? Hesitou, olhando desvaira­damente para a confusão dos homens que corriam de um lado para o outro. Ouviu-se um gemido estridente quan­do a grande tranca atravessada no portão cedeu e caiu. Os barrotes estremeceram sob o impacto do aríete; fixos pe­las rochas empilhadas na sua base, desfizeram-se sob o impacto de uma terceira investida violenta. Os defensores cambalearam sob uma nova chuva de mísseis quando os primeiros inimigos de armadura se esgueiraram pela a­bertura.

Recuou até ficar aninhada por baixo do telhado pendente de uma cabana, mas tinha que ver! Mais Ro­manos entravam pela abertura. Ouvia-se o embater dos ferros quando se lançavam sobre os Bretões que os a­guardavam. Ouviu o grito de guerra de Caratac. Uma es­pada deslizou pelo chão até junto dos seus pés e ela a­garrou-a e depois deixou-a cair novamente. Era uma cu­randeira; o seu coração estava desfeito pela angústia, mas mesmo naquele momento não havia nela nada que rea­gisse à fúria de Morrigan.

A confusão dos homens que combatiam estava a mover-se na sua direção. No momento em que se aper­cebeu disso os defensores cederam e fugiram. Viu Cara­tac erguer-se no meio do tumulto, desferindo em seu re­dor grandes golpes com a espada comprida. Os Romanos recuaram, aterrorizados pela lâmina enorme e, por ins­tantes, o espaço em seu redor ficou desimpedido. Ele deu um salto em frente, viu-a escondida e puxou-a para as sombras nas traseiras da casa.

— Eles não me vão apanhar e a ti também não, sacerdotisa! A paliçada do lado oeste está derrubada. Vem comigo!

O braço dele parecia de ferro à volta da sua cintu­ra. Meio arrastada, meio a correr, foram saltando de casa em casa enquanto a batalha continuava. Quando se apro­ximavam da paliçada pareceu-lhe ver o manto branco de Ardanos no meio de um grupo de guerreiros em fuga. Tentou chamá-lo mas não tinha forças. Depois Caratac lançou-a pela abertura entre os postes; ela tropeçou e ro­lou pela rampa abaixo. Ele deslizou atrás ela, puxou-a sobre a segunda muralha de terra e, juntos, deslizaram para as trevas mais adiante.

Lhiannon olhou para trás. Pela dimensão do brilho que cobria a colina, a maior parte das cabanas devia estar a arder. Uma bruma de calor e de fumo obscurecia o céu. Ou talvez fosse a sua visão que estava desfocada pelas lágrimas.

 

Uma confusão de cães, malhados, listados e cin­zentos, saíram em tumulto pelo portão da quinta quando Caratac levou o grupo pelo caminho acima, numa caco­fonia de latidos. Lhiannon despertou quando o cavalo parou, sobressaltada e atenta pela primeira vez nos últi­mos dias. Ardanos teria sabido dizer uma Palavra de Po­der para acalmar os animais, pensou ela com tristeza. O Rei Caratac, contudo, dispunha da voz da autoridade. Os cães recuaram e depois, quando alguém mais os chamou, calaram-se, com as caudas a abanar e as cabeças baixas. O coração de Lhiannon deu um salto quando viu um manto branco por trás dos animais. Era o manto de um druida, mas o corpo alto que o envergava tinha o rosto de um rapaz e a barba preta de um jovem.

— Senhora Lhiannon! Que fazeis aqui? — excla­mou ele e, ouvindo-lhe a voz, reconheceu Rianor que es­tudara com Boudica. Ele olhou para o grupo de homens exaustos e a sua expressão alterou-se.

Eram um grupo esfarrapado, muitos deles com li­gaduras, guerreiros escapados à queda do Forte das Pe­dras e reunidos por Caratac durante os primeiros dias frenéticos em que tinham andado fugidos às patrulhas romanas. O rei já não era o jovem agradável que os visi­tara em Mona e também já não era o guerreiro exausto que chorara sobre o corpo do irmão nas margens do Ta- mesa. Por cima do torque real, o rosto de Caratac estava reduzido a uma moldura para os olhos que brilhavam de determinação. A energia desvairada que a conseguira tirar do Forte das Pedras estava agora controlada e posta ao serviço da causa comum.

Santos deuses, vocês estavam no forte... todos ouvimos falar da bravura com que foi defendido — disse Rianor. — Na ilha rezávamos por vós. A minha mãe per­tencia aos Belgas e mandaram-me para aqui...

Como vês temos feridos — disse Caratac. — Alguns recuperarão o suficiente para combater de novo e outros não podem viajar mais.

Os Romanos vêm aí? Estás aqui para comandar a defesa de Camadunon? — Rianor apontou para uma colina a sul da quinta.

Desde a última vez que a colina fora usada como local de refúgio, havia muitos anos, a floresta tinha cres­cido à sua volta, mas alguém já começara a abater as ár­vores e a usá-las para reconstruir a paliçada. Com uma espécie de dormência desesperada, Lhiannon deu por si a calcular em que local um inimigo tentaria escalar a colina.

Caratac abanou a cabeça. — O Rei Maglorios vai mandar homens para a defender. Tenho que ir até ao país dos Silures. As tribos do norte e do ocidente serão a nos­sa melhor defesa se o sul cair. — Virou-se para Lhiannon. — Senhora, eu irei viajar a toda a velocidade e sem des­canso, pelo que devo deixar-vos. Este forte guarda os caminhos do País do Verão e aqui conseguireis arranjar uma escolta para Mona ou para Avalon.

Obrigada — foi só o que ela conseguiu dizer, embora tivesse havido muitas noites em que o amaldiço­ara no seu coração por não a ter deixado morrer com Ardanos.

Rianor ajudou-a a desmontar e, juntos, ficaram a ver o rei e três homens da sua tribo que tinham sobrevi­vido, a afastarem-se. Pensou se o voltaria a ver.

O Ardanos não está convosco? — aventurou-se Rianor a perguntar enquanto lhe indicava um local para dormir até mais cabanas serem construídas no forte.

Fomos separados quando o inimigo rompeu as defesas. A última vez que vi Ardanos ele estava com um grupo de homens do Antebrogios. Caratac trouxe-me, mas não tivemos notícias dos outros. O mais provável — conseguiu, com esforço, manter a voz calma — é que tenha sido morto ou capturado. — Procurara-o nas es­tradas do espírito sem qualquer sucesso. No seu atual es­tado de fraqueza isso poderia não querer dizer nada. Cer­tamente que se tivesse sido morto ela teria sentido a sua morte. Mas porque não teria tentado comunicar com ela, se estava vivo?

Oh minha senhora, lamento muito! — excla­mou Rianor. — Todos sabíamos o quanto o amáveis e o quanto ele vos amava a vós. Se não fosse isso teríeis sido alta sacerdotisa em vez de Helve.

Lhiannon fechou os olhos de dor. Teriam todos partido do princípio de que ela e Ardanos eram amantes? Parecia-lhe duro ter a reputação sem ter tido o prazer. E, no entanto, isso não era inteiramente assim, pensou ao recordar a forma como se tinham deitado juntos sob a Lua. Alma com alma, tinham-se unido numa plenitude que poucos daqueles que só conheciam a doce união dos corpos alguma vez tinham logrado.

Minha senhora — disse ele então —, tivestes alguma notícia de Boudica? Eu... tínhamos a esperança de que regressasse depois da vossa visita a Avalon.

Ela escolheu regressar à sua tribo — disse Lhi­annon numa voz firme. — Foi-lhe arranjado um casa­mento com o Rei Prasutagos para unir os dois ramos dos Ieenos. Suponho que ela será tão feliz quanto é possível sê-lo nos tempos que correm. Ele pareceu-me um bom homem.

— Se ele for bom para ela isso já é suficiente para mim! — disse Rianor ferozmente. — Mas é estranho pensar nela casada com um dos que ajoelharam perante Roma. Ao menos estará a salvo nas terras dos Icenos. — Levantou-se. — Quem me dera que pudéssemos dizer o mesmo... se os Romanos continuarem como até aqui, passarão por cá.


 

As tempestades que tinham fustigado as terras dos Durotriges tinham-se deslocado para norte e para leste para as terras dos Icenos. Enquanto a água encharcava os campos, afogando os rebentos dos cereais que desponta­vam, houve momentos que Boudica pensou se as pala­vras que dissera ao Romano teriam sido proféticas, já que naquele ano haveria pouco para ceifar. E também não podia esperar ajuda do Dun Garo, pois as terras aí eram ainda mais baixas e os rios mais largos. Todos os chefes Icenos iriam implorar aos Romanos os cereais de que ne­cessitavam para alimentar a sua gente durante mais um ano.

As chuvas continuavam a cair e a cabana cheirava permanentemente a fumo e a estrume e à roupa de lã pendurada a secar nos barrotes. O gado reprodutor mais valioso fora levado para as terras mais altas do forte e guardado dentro de casa, mas todos os dias, era o que parecia, vinha alguém a chafurdar de uma das outras quintas, pedindo ajuda para salvar ovelhas isoladas ou para reforçar o dique que protegia a casa do rio que subia. E, rapidamente, a doença da tosse começou a alastrar pe­los campos e Nessa e Boudica mantinham-se atarefadas a fazer tisanas e caldos.

 

Nos dias que se seguiram à sua chegada a Cama- dunon, Lhiannon percebeu que o melhor tratamento para os tormentos do espírito, contrariamente aos do corpo, era a atividade. O trabalho que exigia completa concen­tração era melhor do que cavalgar. Não tinha qualquer desejo de passar mais dias como passageira, a ver passar imagens imaginárias de Ardanos acorrentado ou a morrer, enquanto um cavalo a transportava por uma estrada e, fosse como fosse, não podiam dispensar nenhum homem para a escoltar até Avalon. Ali havia homens feridos que necessitavam dos seus cuidados, comida para preparar para os trabalhadores e, quando não havia outro trabalho, um par de mãos extra era sempre útil no forte.

De tempos a tempos, um pastor ou um rapaz da quinta entrava nos estábulos com notícias do avanço ro­mano. Vespasiano deixara engenheiros a construir forti­ficações romanas no Forte das Pedras e continuara a sua campanha. De acordo com os boatos, os Romanos mar­chavam para norte ou para sul ou tinham parado com­pletamente, mas quando chegou a festa de Lugos já se sabia que eles vinham a caminho.

Tinham feito tudo o que podiam em Camadunon. As valas entre as quatro muralhas de pedra e madeira que rodeavam o forte da colina tinham sido mais escavadas e a muralha de cima recebera uma nova paliçada. Junto às ameias do lado nordeste e sudoeste dos portões, havia pedras amontoadas. Fora sacrificado um boi aos deuses no novo santuário e os mantimentos tinham sido arma­zenados e os homens tinham acorrido dos campos em redor.

Camadunon ficava na fronteira entre os campos das quintas e o País do Verão. Se caísse, Avalon ficaria sem mais nenhuma defesa para além dos pântanos. A noite, Lhiannon ficava deitada, insone, recordando o Forte das Pedras. Começou a aperceber-se de que não suportaria passar novamente pelo desespero crescente de um cerco e pelo terror do assalto, mas poderia desertar de junto daqueles que agora dependiam dela?

Na noite da Lua cheia Lhiannon ficou de pé nas muralhas olhando para o outro lado do emaranhado de pântanos e lagoas.

No dia seguinte, diziam os batedores, os Romanos estariam ali. A noite estava fria e limpa, mas a ocidente aproximavam-se nuvens vindas do mar carregadas de chuva. Quanto tempo passaria até aquela lua ficar tam­bém manchada de vermelho, a paz destruída pelos gritos de homens moribundos? Sobressaltou-se com um toque no ombro, virou-se e viu Rianor a seu lado.

Olhai... — apontou para nordeste onde um monte pontiagudo se recortava nitidamente contra as nuvens do pôr do Sol. — Consegue ver-se o Tor e, em manhãs particularmente límpidas, vê-se também o monte da pirâmide na costa. A energia da terra flui desse monte e espalha-se para diante. Conseguis senti-la aqui?

Ela fechou os olhos, procurando com sentidos há demasiado tempo inativos, permitindo que a consciência mergulhasse até profundezas que não eram completa­mente físicas e sentiu a vibração da corrente por baixo do casco de um barco no mar e, com ela, veio a recordação vivida do Outro Mundo por onde viajara no Tor de Ava­lon. Se lá tivesse ficado quantos sofrimentos teria evita­do... e quantas alegrias...

A mulher do povo das fadas dissera-lhe que todos os mundos estavam ligados. Rianor acabara de lhe recor­dar que a energia fluía de Avalon para aquele forte. Pode­ria esse poder ser usado? Seria a fada ou a Deusa que lhe enchia agora a mente com imagens?

Rianor... durante as últimas semanas tu e eu trabalhamos até rebentarmos as costas e ficarmos com as mãos a sangrar, não fazendo mais do que aquilo que esta­ria ao alcance de qualquer trabalhador e, pelo menos no meu caso, com metade da sua competência. Esquece­mo-nos de quem somos.

Ele pestanejou e ela percebeu que também ele es­tivera demasiado concentrado nos barrotes e nas pedras para pensar no que quer que fosse.

Se os Romanos nos atacarem aqui, acabarão por tomar este sítio tal como tomaram o Forte das Pe­dras. Não achas que seria melhor que nunca aqui chegas­sem?

Seria melhor, minha senhora, se nunca tivessem atravessado o Mar Estreito... — ficou muito sério quando viu que ela não estava a rir. — O que quereis dizer?

Temos nuvens... — apontou para as nuvens que se acumulavam a ocidente. — Nuvens e chuva e as brumas que cobrem tão freqüentemente os pântanos em torno de Avalon. Se as atrairmos pelos canais do poder poderemos enrolá-las em torno desta colina.

Aquele momento, apercebeu-se, era o indicado para pôr em ação esse poder. Com uma certeza onírica apertou a capa ao corpo e deitou-se junto da paliçada, cobrindo o rosto e fechando os olhos para reter a ima­gem das nuvens que vira.

Guarda-me. Não deixes que ninguém me per­turbe até eu regressar. Empresta-me a energia que pude­res...

Teria sido mais fácil com Ardanos a seu lado, equi­librando a energia dela com a dele, mas à medida que Lhiannon mergulhava num transe mais profundo, sentia a jovem energia de Rianor a apoiá-la. Abrandou o ritmo da respiração, recorrendo a uma disciplina há muito domi­nada, para separar a mente do corpo e deixá-la vogar li­vremente.

Como uma carícia sentiu o toque de uma outra

mente.

Então, minha irmã, regressaste... passou muito tempo no teu mundo?

Mas eu não regressei! Não estou no Tor! — Com um sentido mais agudo que a visão reconheceu a Senhora com quem falara no reino das fadas, mas como podia ela estar ali?

Nem eu... — veio a resposta. — estamos entre os mundos, onde todos os mundos se encontram e todos os poderes se juntam numa dança grandiosa. Canta o feitiço irmã, compõe a mú­sica que servirá o teu propósito...

Porque nunca recorrera antes àquele poder? Per­cebeu então que nunca estivera suficientemente desespe­rada e acreditara na sensatez de Ardanos e dependera das decisões dele. Agora tenho de confiar na minha própria sabedo­ria...

Bruma e nevoeiro, nuvem e chuva, ouvi a minha chamada, vinde de novo... No mundo dos homens estava silenciosa, mas no seu interior compunha uma música poderosa. Com a visão interior distinguia as camadas de ar quente e frio a reunirem-se aos espíritos. Calor e frio misturam-se nos céus... onde se tocarem a bruma erguer-se-á... Rindo, acenou aos espíritos do ar, trazendo-os para a dança.

No local distante onde a sua carne jazia, estava a ficar escuro e frio, mas no local onde agora se encontrava, o tempo tinha um outro significado. Foram os seus sen­tidos interiores que se alegraram quando os espíritos das nuvens começaram a libertar uma chuva leve e fresca; chamou o ar quente e a chuva transformou-se em nevo­eiro antes de cair.

Era bruma e não chuva o que se precipitava do ar úmido, fantasmas de bruma que pairavam sobre a colina e o vale, adensando-se com o avançar da noite. O nevoeiro cobria Camadunon, perolando a lã grossa que envolvia Lhiannon e a barba encaracolada de Rianor. A bruma brilhava em torno das tochas que iluminavam o acampa­mento provisório dos Romanos e condensava-se sobre as armaduras e as lanças.

Na madrugada seguinte não se avistava o Sol, ape­nas o manto espesso e cinzento do nevoeiro. O exército romano, iniciando a marcha com a sua habitual organiza­ção perfeita, seguiu pelo caminho que lhe pareceu mais limpo e chegou, ao cair da noite, a um velho forte rodea­do por muralhas em ruína e meio invadido pela floresta. Não havia ali selvagens celtas ululantes, apenas os fan­tasmas de guerras antigas. Os rumores, decidiu o general, deviam estar errados. Na manhã seguinte deu ordens para que marchassem para sudoeste na direção das terras dos Dumnoni, nunca chegando a suspeitar da existência de um forte que o aguardava, envolto num silêncio feito de brumas, a apenas cinco milhas de distância.

Lhiannon abriu os olhos quando o Sol cada vez mais forte começou a dissipar o véu de brumas que co­bria a terra.

 

Boudica saiu da cabana de Rosic e aconchegou melhor a capa de lã. Naquela época do ano ainda deve­riam restar algumas horas de luz, mas as nuvens da tem­pestade da tarde ainda cobriam o céu sugando a cor dos campos encharcados. Esfregou os rins quando o bebê lhe deu um pontapé. Quando estivera dentro da cabana com as crianças não dera pela dor. Pelo menos o seu próprio filho estava quente e seguro no aconchego da sua barriga e os três de Rosic tinham engolido a sopa que lhes dera e, provavelmente, sobreviveriam.

Semicerrou os olhos na direção do firmamento, demasiado acostumada aos bastiões de nuvens cinzentas que cobriam os céus para reparar na sua beleza. Um pouco de amarelo avançava do ocidente. A luz deveria durar o suficiente para ela chegar a casa. Se tal não acon­tecesse, já andara tantas vezes por aqueles caminhos nos últimos dias, que dificilmente se perderia. Enfiou debaixo do braço a tigela de madeira em que trouxera a sopa e começou a descer o caminho.

Era uma tarefa demorada, pois as poças tinham fi­cado maiores. Uma mudança na direção do vento co­briu-lhe os olhos com uma névoa fina e praguejou, mas durante as últimas semanas habituara-se à umidade. Um pouco mais do mesmo não lhe faria mal. Seria mais fácil caminhar, pensou enquanto escorregava na lama, se ti­vesse trazido um bastão. Mas à ida precisara de ambas as mãos para segurar a tigela. A dor nas costas estava a au­mentar, o que a surpreendeu, pois geralmente diminuía com o exercício físico.

Boudica pestanejou e puxou a capa por cima da cabeça quando a chuva ficou mais forte. A lã gorda repe­liria a maior parte da água e, mesmo úmida, continuava a ser quente. A água acumulou-se à volta dos seus torno­zelos e tropeçou. Ali o caminho passava junto àquilo que em tempos normais era um pequeno ribeiro. Agora a á­gua cobria o caminho. Talvez devesse ter ficado na caba­na. Mas agora seria igualmente perigoso recuar ou avan­çar.

Uma nova onda fê-la desequilibrar-se, deu mais um passo, sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés e caiu pe­sadamente no chão. Quando se levantou tinha as saias encharcadas e apercebeu-se gradualmente de que o líqui­do quente que lhe encharcava a saia de baixo não era água da chuva. Parou, estremecendo, quando a barriga se con­traiu com uma dor súbita e aguda. Só estava grávida de sete meses... era demasiado cedo!

Boudica deu mais uns passos e parou novamente. A água que subia escondera todos os vestígios do cami­nho. Sem luz poderia ser facilmente arrastada pela cor­rente. Mas os terrenos mais elevados brilhavam suave­mente na sua frente. Chafurdou nessa direção, parando quando sentia as dores e trepou de gatas até ao topo. Quando o coração se acalmou olhou à sua volta e perce­beu onde estava.

Há muito tempo aqueles que tinham construído o forte tinham enterrado os seus chefes naquele local. Ape­sar do seu nome ter sido esquecido, o povo de Epona- dunon trazia-lhe oferendas na Véspera de Samaine. Cer­tamente que esse velho espírito não lhe regatearia aquele refugio até Prasutagos vir salvá-la. Os primeiros bebês levavam sempre algum tempo a nascer... todas as mulhe­res velhas que a tinham tentado assustar com histórias de partos difíceis ao longo da gravidez tinham concordado nesse ponto. Ainda tinha tempo...

Mas, à medida que as contrações foram ficando menos espaçadas, lembrou-se de que o rei fora para uma das quintas mais distantes nessa manhã. Como um tempo daqueles sem dúvida que passaria a noite onde estava e era mais do que provável que Nessa e os outros pensas­sem que ela faria o mesmo. Um gemido irrompeu por entre os seus dentes cerrados quando percebeu que nin­guém viria à sua procura.

E as velhas tinham-se enganado quando ao tempo da gravidez e ao tempo que o parto duraria, pelo menos o bebê chegaria demasiado cedo. E ela estivera errada ao pensar que poderia andar sem companhia com um tempo daqueles. Estava tudo a correr mal! Pôs-se de gatas com as contrações a sacudirem-lhe o corpo, gritando de ultraje e dor.

Quando as dores lhe deram um momento de des­canso cortou duas faixas da saia de baixo com o punhal e pô-las de lado. Quando sentiu que as dores estavam a ficar diferentes pôs a capa por baixo de si e acocorou-se, chorando, enquanto a barriga se contraía repetidamente. Apanhou a coisa vermelha que, finalmente, saiu a con- torcer-se do seu corpo e conseguiu cortar e atar o cordão umbilical. Era um filho. Ao sentir o ar frio o bebê soltou um vagido fraco. Ofegando, Boudica conseguiu abrir o decote o suficiente para pôr o bebê entre os seus seios e atou o cinto logo por baixo, para o segurar. Pequeno como era cabia ali facilmente.

— Deita-te em cima do meu coração, pequenino, pois já estás dentro dele — gaguejou ao sentir o útero contrair-se mais uma vez expulsando os restos ensan­güentados do parto.

Durante a última hora parara de chover. O ribeiro começava a baixar. Um vento frio empurrava as nuvens e uma lua aguada mostrava-lhe os contornos da terra. Ti­nha as coxas escorregadias de sangue. Demasiado sangue? Não sabia. Mas era mais importante do que nunca chegar a um abrigo. Levantou-se a cambalear, apertou a capa ao corpo e desceu o monte funerário aos tropeções.

Na sua base cresciam pequenas árvores; ao agar­rar-se a uma delas para recuperar o equilíbrio, esta fi­cou-lhe na mão. Com a ajuda do pau conseguiu ir apal­pando o terreno e atravessar o ribeiro. Dali até ao forte, só teria que andar uma milha através dos campos. Se não fosse a criança ela ter-se-ia deixado cair a meio do cami­nho e não teria feito um esforço para se levantar. Assim, após cada queda, levantava-se novamente e encontrava-se um pouco mais próxima de casa.

O portão, evidentemente, estava fechado. Teria o guarda procurado abrigo no interior? Seria uma grande ironia, comentou uma vozinha no seu interior, expirar junto ao seu próprio portão depois de ter andado tanto. Com as forças que lhe restavam, Boudica encheu os pulmões de ar como os druidas lhe tinham ensinado e soltou um grande grito para que a deixassem entrar. Se­guiu-se uma confusão de vozes e de tochas e de calor mais do que abençoado.

Levem-no... — murmurou quando a deitaram na sua cama. — Cuidem do meu filho... —Alguém ex­clamou qualquer coisa, mas ela não percebeu as palavras.

Sentia apenas o calor e o conforto da escuridão.

 

Boudica ergueu a mão surpreendida pela dificul­dade em movê-la. A sua memória era uma confusão de pesadelos e oblívio. Prasutagos estava ali, com as feições habitualmente calmas contorcidas pela angústia. Lembra­va-se até do toque escaldante das suas lágrimas. Devia ter sido numa das ocasiões em que sentira frio.

Estive doente, pensou. Mas eu nunca estou doente. Que estranho...

Ela está acordada! — disse alguém. Ouvia to­dos os sons familiares do forte: o queixume de uma vaca, alguém a assobiar, o cacarejar de galinhas junto à porta.

Bebei isto minha senhora... — Um braço forte rodeou-lhe os ombros, erguendo-a. Obedientemente, engoliu o líquido que lhe encostavam aos lábios. Era leite quente com um sabor a casca de salgueiro. Lembrava-se vagamente de ter sentido antes aquele sabor.

Quando pensou em leite, os seus seios começaram a pulsar. A barriga flácida estava dorida; todos os seus membros doíam com a sensibilidade que sobrevém à fe­bre. Abriu de repente os olhos ao aperceber-se do que não ouvira. Não ouvira o choro de um bebê.

Tentou falar, engoliu e tentou novamente. — On­de está o meu filho?

O silêncio que se seguiu foi demasiado comprido. O rosto da velha Nessa pairava sobre o seu, as faces co­bertas de lágrimas.

Ele era demasiado pequeno, minha querida e estava demasiado frio. Só viveu um dia.

Que Brigantia seja abençoada por terdes sobre­vivido — acrescentou uma das criadas alegremente. — Pensamos que vos iríamos perder também.

Prasutagos? — perguntou numa voz fraca.

Chamou Cunomaglos à criança em honra do seu irmão. O bebê jaz no cemitério com os seus parentes.

Onde está o rei agora? — conseguiu perguntar.

O silêncio não foi tão prolongado. — Quando

soubemos que sobreviveríeis, senhora, ele pegou em dois homens e foi ver quem mais precisava de ajuda.

Deixando-me num silênáo ainda maior do que o habitual, pensou Boudica. Mas isso já não interessava. Que pode­riam dizer um ao outro agora?

 

Minha senhora... para vós...

Lhiannon virou-se a tempo de ver uma pequena mão a estender-lhe um ramo de margaridas um tanto murchas. Quando espreitou pelo outro lado do poste pa­ra sorrir ao ofertante, a criança corou, deixou cair o ramo e fugiu.

Porque será que nunca ficam e não me deixam agradecer-lhes? — Suspirou ela procurando uma vasilha onde pudesse pôr as flores.

Deixai-me fazer isso! — Rianor tirou-lhe as flores da mão, retirou a oferenda do dia anterior de um copo de barro e pôs as margaridas no seu lugar. Aperce­beu-se subitamente de que ele também não a olhava nos olhos.

Após o trabalho mágico que salvara Camadunon, ela despertara apenas para comer antes de cair novamente num sono sem sonhos. Quando ficou capaz de se aper­ceber novamente do que se passava à sua volta já tinham passado semanas. Mas desde então, as oferendas apare- ciam todas as manhãs e, se calhar, já apareciam antes, tanto quanto lhe era dado saber. No dia anterior tinha sido um ramo de folhas cor de bronze e ocre. Enquanto ela jazia naquilo que os camponeses claramente conside­ravam ser um sono encantado, o Verão passara.

Ela própria diagnosticara as causas do seu colapso como o efeito acumulado da fome e do medo por que passara no Forte das Pedras. E do desgosto... Não sabia que o desgosto podia transformar-se numa doença que sugava a força do corpo e da alma. A dor da perda de Ardanos continuava presente, mas se tivesse cuidado conseguia passar meio dia sem chorar.

Diz às crianças que lhes estou grata... — A me­dida que recuperava as forças dava por si a concentrar-se nos prazeres simples: o sabor do leite novo, as cores das folhas a mudar. — Se quiserem visitar-me serão bem-vindas.

Elas respeitam-vos demasiado, senhora... — disse ele baixinho. — Para elas vós sois a senhora branca que se transformou numa nuvem para nos salvar dos Romanos e têm medo.

Bem, deverias reconfortá-las — disse ela brus­camente. — Nós, os druidas, somos servos, não somos deuses!

Claro Senhora Lhiannon... — respondeu ele corando e olhando-a nos olhos. Nos dele ela viu a mesma expressão de admiração com que tinham olhado para a alta sacerdotisa quando esta era possuída pelo poder da Deusa nos rituais.

Oh, meu Deus. Ela partira do princípio de que have­ria rumores sobre as brumas mágicas que tinham salvo o forte, mas não se apercebera de que a sua longa conva­lescença permitira que estes ganhassem raízes tão pro­fundas.

Os camponeses das redondezas vieram ter co­migo — disse ele então. — Querem construir-vos uma casa na encosta do forte, perto da Fonte de Cama. Fica­riam honrados se fizésseis aí o vosso lar...

Como deusa local e espírito tutelar, pensou Lhiannon ironicamente, com Rianor como sacerdote chefe do meu culto!

Abanou a cabeça. Precisava de paz e não de ser adorada. Ficar ali seria absurdo. Mas só a idéia de regres­sar a Mona, onde seria recordada de Ardanos a cada volta do caminho, fazia com que o seu espírito recomeçasse a sangrar.

Não posso ficar aqui — disse suavemente. — Enviamos aqueles que precisam de sarar para o Tor. Gostaria de passar o Inverno num retiro em Avalon e depois veremos...

Precisamos de juntar provisões. A casa vai pre­cisar de reparações. Mas não é muito longe. —A sua ex­pressão alegrou-se. — Vou tratar de tudo senhora, em vosso nome.

 

Os dias passaram e Boudica recuperou as forças, apesar de os seus seios continuarem a verter leite e as lá­grimas continuarem a cair. Teria o espírito do túmulo roubado a vida ao seu bebê? Ou teria sido simplesmente uma daquelas coisas que acontecem? Como toda a gente estava ansiosa por lhe recordar, em todas as famílias era maior o número de crianças que morriam do que o nú­mero das que sobreviviam e chegavam a ter os seus pró­prios filhos. Dizerem-lhe que era nova e que teria outros filhos doía-lhe ainda mais. Preferiria poder culpar alguém ou alguma coisa a aceitar que a perda do filho não tinha qualquer significado.

O marido ficava no forte que estava a construir perto da costa, como se, não tendo conseguido fazer um filho, nas defesas de terra residisse a sua imortalidade.

Talvez a criança tivesse sido levada em sacrifício, pensou sombriamente, pois à medida que a estação ia avançando parecia que os espíritos do céu tinham sido apaziguados. As nuvens passavam e o chão enlameado secou. Nuns quantos montes afortunados havia até um pouco de cereais. A disposição de Boudica, contudo, não melhorou e Nessa começou a sugerir que fizesse uma visita à fonte sagrada.

A sua primeira reação foi de repulsa. Regressar no seu atual estado ao local onde o seu casamento se iniciara verdadeiramente, ao local onde sentira tanta esperança e conhecera tanta paz, parecia-lhe um sacrilégio. Mas quando pensou no assunto começou a aperceber-se de que a senhora da fonte sagrada a tinha enganado ao pro­meter-lhe tanto e ao falhar no cumprimento da promessa. Devia ir, pensou sombriamente. Tinha umas quantas coi­sas a dizer ao espírito da fonte.

Partiram do forte para sul num dia ensolarado com os primeiros sinais de Outono no ar. Boudica não fez qualquer esforço para desencorajar a vinda de acompa­nhantes. Naquela época as outras pessoas pareciam-lhe fantasmas ou sombras. Se desejassem segui-la ela não conseguia arranjar energia para as dissuadir.

Meio dia de viagem levou-os ao santuário. O local estava repleto de peregrinos, alguns dos quais foram des­pejados sem cerimônia dos seus abrigos quando chegou a comitiva da rainha dos Icenos do Norte. A Boudica pouco lhe interessava onde dormia, desde que não fosse no abrigo que tinha partilhado com Prasutagos. Enquanto os outros arranjavam as camas ela foi dar um passeio por entre as árvores. Comeu a comida que cozinharam para ela mas foi só na manhã seguinte que foi à fonte.

A manhã era um tempo de esperança, pensou quando o caminho descreveu uma curva e ela atravessou o caminho de pedras que atravessava o terreno pantanoso por baixo da fonte. Mas aos seus olhos a luz do Sol pare­cia fraca e o rumor das águas ridículo. Pedaços de tecido, alguns deles velhos, outros novos, ainda flutuavam presos nos ramos da aveleira. Esticou o braço e desatou a fita que ali deixara quase um ano antes.

A brisa fresca da água não mudara e a própria água continuava a surgir vinda de profundezas desconhecidas, doce e limpa.

Preferia ter vindo aqui agradecer-te um parto bem sucedido — disse calmamente. — Se é que há algu­ma coisa aqui a quem agradecer... — a sua voz falhou. — Se é que te importas que te dêem uma fita ou que ta ti­rem, que te dêem graças ou que cuspam para a tua lagoa!

Mas nem mesmo na sua fúria Boudica conseguia ir tão longe. Aquilo poderia não ser mais do que água, mas não era menos do que isso, um elemento que devia ser respeitado, até mesmo agora, quando a tinham em tanta abundância. Os druidas teriam tomado aquilo como uma deixa para um sermão místico. Mas naquele momento a sabedoria dos druidas parecia-lhe também destituída de qualquer valor. Tudo o que tinham conseguido com a sua magia tinha sido trazer os Romanos mais rapidamente para as praias da Britânia. Na verdade, naquele momento, não conseguia pensar em nada em que acreditasse. Como se juntamente com a esperança tivesse também perdido a capacidade locomotora, deixou-se cair sobre um pedaço de tronco que servia de banco ali perto.

Odiar-te-ia se tivesse energia para isso — disse à lagoa. — Dizem que as tuas águas são tão generosas como os seios da Mãe. Os meus seios estão secos. Dizem que a tua lagoa é o ventre da vida. O meu ventre está vazi­o! — Dizia-se também que as lágrimas da Deusa enchiam a fonte. Quando se debruçou sobre as águas escuras as suas próprias lágrimas caíram na lagoa.

Quando Boudica ali estivera antes pensara que a Senhora da Fonte lhe falara. Agora teria resistido a qual­quer idéia semelhante. Mas não conseguia resistir à única coisa que as águas lhe ofereciam... um local onde, final­mente, ficar quieta. Aquilo não era nem conforto, nem perdão, nem paz, mas sim um local que ficava para lá de tudo isso. O Sol movia-se inexoravelmente para ocidente; a água acumulava-se continuamente e depois descia pela colina abaixo; juncos e erva e árvores continuavam a cres­cer. Ela vivia.

Durante algum tempo ficou ali sentada sem pensar, mas acabou por se aperceber de um som que não perten­cia à harmonia daqueles bosques: um gemido intermitente que saía de um feixe de juncos. Com o primeiro assomo de curiosidade que sentira desde a morte do bebê, levan­tou-se para ir ver o que era. Um pedaço de linho sujo mexia-se meio enfiado na água. Puxou o pano e viu aqui­lo que parecia um rato afogado, se é que alguma vez exis­tira um rato branco com orelhas vermelhas e patas absur­damente grandes.

Um cachorro... alguém tentara afogar um cachorro na fonte sagrada. Ora aquilo era definitivamente uma blasfêmia! Sentiu as entranhas apertadas quando a criatu­rinha se debateu nas suas mãos. Apetecia-lhe vomitar e matar quem quer que tivesse sido o autor de tal ato. Mas já estava a arrancar o pano encharcado e a esfregar o pelo molhado com o xale. Aninhou a criatura que tremia con­tra o peito e a cabecinha virou-se e uma língua muito cor-de-rosa lambeu-lhe a mão.

Boudica embrulhou o cachorrinho no xale e co­meçou a descer o caminho. Depois deteve-se, apanhou a fita do chão e voltou a prendê-la no ramo da aveleira.

Quando regressou ao abrigo o alívio estampado nas caras dos criados fê-la perguntar-se durante quanto tempo teria estado ausente. Se algum deles sentiu curio­sidade em saber o que ela trazia tão cuidadosamente em­brulhado no xale, nenhum se atreveu a perguntar.

Desejais ficar aqui esta noite, minha senhora?

Perguntou Calgac. — Se partíssemos imediatamente, conseguiríamos chegar ao forte antes de cair a escuridão...

Ela ficou a olhar para ele. Regressar a Eponadunon onde cada coisa a recordaria do que perdera? Não con­seguia fazê-lo. Queria espaço e luz e uma cama onde nunca se tivesse deitado no abrigo enganador dos braços do marido. Havia uma quinta a ocidente dali que visitara uma vez com Prasutagos, quando ele a andava a apresen­tar ao seu povo e à sua terra. Segundo o acordo nupcial, a quinta pertencia-lhe.

Não farei nada disso... — disse ela lentamente.

Prepararemos uma carroça e iremos pela estrada que leva a Ramshill. Regressem a Eponadunon... — disse para os guerreiros. — Podem dizer ao meu marido para onde fui e que ele já pode regressar ao seu forte. Não estarei lá para o censurar... — ou para ser censurada...

Não esperava encontrar a felicidade, mas talvez o tempo trouxesse melhoras. Mas primeiro, pensou com o cachorro aninhado contra o peito, teria que encontrar leite para dar ao cãozinho.


 

A neve espirrou para todos os lados quando o ca­chorro chegou à margem, a sua forma pálida desapare­cendo e depois saltando livremente como se fosse um espírito invernal que se manifestasse em forma canina. Deslizou uns metros e depois deu outro salto, deixando uma série de marcas pela colina abaixo.

Como ele gosta da neve! — disse Temella. Com um xale enrolado à cabeça só eram visíveis os grandes olhos cinzentos e a ponta do nariz vermelho da rapariga.

O Bogle gosta de tudo — respondeu Boudica divertida. Quando se tinham instalado na quinta de Ramshill no Outono anterior, sacos e cestos e tudo o que ficasse ao alcance dos seus dentinhos se transformava num brinquedo. Quando o cachorro começou a crescer e a corresponder às expectativas criadas pelas suas patas enormes, tinha encontrado um divertimento imenso nas folhas outonais caídas por terra. Pela cor deduziam que um dos pais era um cão de caça, mas o outro devia ser um bicho muito maior. E agora que já lhe dava pelos jo­elhos e continuava a crescer, descobrira a neve.

A égua ruiva bateu os cascos e relinchou quando o cachorro escorregou por baixo das suas patas, ladrou e partiu de novo. Mas por aquela altura já a Roud estava acostumada com as suas traquinices, pois a cavalo ou a pé, para onde quer que Boudica fosse, o cão estava sem­pre à distância de um assobio. Temella era uma compa­nhia quase tão constante como a do cão. A criança era a mais velha dos três meninos a quem Boudica levara sopa no dia em que tivera o bebê. Aparecera em Ramshill cerca de um mês depois de Boudica se ter mudado para ali e lá ficara como criada, mensageira e sombra.

Boudica inspirou o ar fresco. Era de esperar algu­ma neve naquela estação, mas uma tempestade daquele tamanho, que mantivera toda a gente dentro de casa du­rante os últimos três dias, era pouco habitual. Os campos e as pastagens tinham sido transformados pela queda de neve, todas as irregularidades suavizadas por um manto branco e limpo. Até mesmo os ramos despidos da árvore que dava sombra à lareira ritual estavam cobertos de branco e o caminho antigo, que levava até à costa, não passava de uma depressão na neve. Por baixo do manto branco muita coisa dormia, desde o corpo do seu filho às sementes dos cereais do ano seguinte.

Nos meses passados desde a sua chegada a Ram­shill, houvera ocasiões em que lhe apetecera deitar-se de­baixo de uma coberta assim obliterante, sem pensar nem se mover, até todos os sentimentos desaparecerem. Até mesmo as raras visitas do marido não tinham perturbado a sua letargia. Era Bogle que, ao enfiar a cabeça peluda debaixo da sua mão para que lhe fizesse festas ou ao dei­xar cair qualquer objeto lambuzado no seu colo para que lho atirasse, a tinha mantido em contacto com o mundo dos vivos. Ocasionalmente até se ria.

Às vezes observava-o, sorrindo, enquanto ele pas­sava a correr pelos carvalhos desfolhados estrada abaixo, ladrando furiosamente.

Vem aí alguém — disse Temella quando o cão voltou para o pé delas aos saltos.

Bogle! Quieto! — Boudica refreou o cavalo e assobiou e o cão abrandou, com um rosnar baixo na gar­ganta, a cauda peluda a abanar suavemente. Estava des­confiado mas não alarmado embora, pensou ela, com a sua idade, como poderia distinguir o perigoso daquilo que era meramente desconhecido? Ainda assim era pouco provável que qualquer inimigo andasse lá por fora com aquele tempo, especialmente agora que estavam a salvo debaixo da mão protetora de Roma.

Mal acabara de formular aqueles pensamentos quando surgiram os desconhecidos, Romanos, a julgar pelo equipamento, movimentando-se ordenadamente por entre as árvores. Quando eles se aproximaram reconhe­ceu Polião e a sua escolta, todos montados em cavalos nativos cujos mantos peludos repeliam a neve.

Que belo encontro, minha senhora! — chamou ele, a respiração formando nuvens brancas no ar gelado. — Mas não esperava ver-vos tão cedo! Ia a caminho do barco — tenho uma missão a desempenhar nas terras dos Brigantes — e lamentei não poder interromper a minha viagem em Eponadunon. Estais com o vosso marido a visitar a região? — Deteve-se ao lado de Boudica.

O rei está em Eponadunon — disse ela em voz

neutra.

Eu vivo aqui em Ramshill.

Os seus olhos escuros ficaram mais atentos. — Verdade? Então a fortuna acompanha-me.

Ela ergueu uma sobrancelha, pensando o que po­deria ele preferir dizer-lhe a ela em vez de dizer ao rei. — Temella, vai até à quinta e diz-lhes que temos convidados. —A rapariga assentiu e pôs o cavalo a trote. Bogle correu atrás dela, fez um círculo em torno do cavalo e depois veio a escorregar novamente para o pé de Boudica.

Acompanhais-me até um pouco mais acima na estrada? — perguntou ele chegando a montada para mais perto da dela. — Os nossos cavalos não devem ficar pa­rados com este frio.

Era verdade. Soltou as rédeas e deixou que Roud se pusesse ao lado do seu cavalo cinzento.

O Inverno fica-vos bem, senhora.

Também não me pareceis sofrer... — observou ela. O frio pusera-lhe uma cor pouco habitual nas faces encovadas e um brilho nos olhos, se bem que já tivesse reparado que até mesmo os Romanos deixavam a barba crescer quando estava assim frio.

Suponho que isto deva ser muito diferente da vossa casa.

Não tanto como podeis pensar... Nasci na Dá­cia e os Invernos lá são por vezes muito rigorosos.

Isso explica porque andais a viajar com um tempo destes. Pensei que vocês, os Romanos, passavam os Invernos britânicos a atirar lenha para as fornalhas dos vossos hipocaustos e a amaldiçoar o frio.

Daquela vez ele deu uma gargalhada, um som sur­preendentemente agradável. — Sem dúvida que é o que estão a fazer em Camulodunum, mas até o vosso cão sabe que nos podemos divertir no Inverno...

O olhar dela seguiu Bogle que espantara uma lebre nos bosques e a perseguia pela neve, ladrando extasiado, se bem que não fosse claro se estava a tentar caçar ou brincar.

A minha mãe era uma nobre da Dácia — os olhos de Polião pousaram no rosto dela e depois desvia­ram-se. — O meu pai casou com ela quando lá estava destacado. E assim que as novas províncias se tornam parte do império.

Eu já tenho marido... porque estará ele di%er-me isto? Mas fora ela que lhe dissera que vivia separada de Prasutagos. Ouvira dizer que o divórcio era uma coisa simples entre os Romanos. Talvez ele não considerasse o fato de ela ser casada como um impedimento. Olhou-o de relance, vendo-o pela primeira vez como um homem nada mal parecido e que, era evidente, apreciava a sua companhia. Como se tivesse sentido o olhar dela ele virou-se nova­mente e ela desviou os olhos.

Quando atravessavam o bosque, os cavalos, pres­sentindo a intenção dos cavaleiros, abrandaram. Polião esticou o braço e pegou-lhe na mão.

Boudica, sois como uma chama que arde no meio da neve. Pensei isso mesmo da primeira vez que vos vi, brilhando como uma tocha nas imperiais sombras purpúreas, mas éreis ainda uma criança. Sois agora uma mulher e sois magnífica!

Desde esse dia ela já tivera e já perdera um filho. Se era isso o que fazia dela uma mulher, perguntava-se como iria a raça sobreviver. E como poderia ser uma chama quando se sentia gelada por dentro?

Ou não estaria? Polião descalçara a luva e enfiava agora os dedos pela mitene de lã que lhe cobria a mão. O toque foi surpreendentemente íntimo. Sentiu um calor súbito, como se ele lhe tivesse enfiado a mão por baixo do vestido.

Sois uma princesa do vosso povo tal como eu sou um senhor no meu. Juntos poderíamos fazer muito por esta terra...

Os cavalos tinham parado. Ela tremeu quando ele começou a traçar pequenos círculos na sua sensível palma da mão.

Sonhei convosco, minha senhora — disse ele baixinho. — Doce e madura como as maçãs que crescem nas terras do sul. Sonho provar essa doçura, tal como sonho aquecer-me no vosso fogo. Abençoada Boudica, a mais bela das mulheres, dai-me as boas-vindas à vossa lareira...

Bogle estava a ladrar, mas o som parecia vir de muito longe. Polião inclinou-se para a frente, o seu outro braço estendido para a puxar para si. Os lábios dela abri­ram-se esperando o seu beijo.

E o cão, soltando latidos alegres, enfiou-se debaixo das barrigas dos cavalos. A montada de Polião empi- nou-se, escoiceando e a égua vermelha recuou.

Boudica agarrou-se às crinas e equilibrou-se. O Romano estava meio tombado sobre o cavalo, prague­jando enquanto tentava segurar as rédeas. Bogle, aparen­temente na crença de que encontrara finalmente um companheiro de brincadeiras, corria para trás e para a frente, evitando os cascos e depois afastou-se novamente a correr, ladrando num tom que significava: Vem aí gente, venham ver, venham ver!

Ela endireitou-se, semicerrando os olhos devido ao brilho da neve, quando um grupo de cavaleiros se apro­ximou da direção oposta. Eram liderados por um homem grande sobre um cavalo também grande. Com um senti­do que ia para além da visão, Boudica reconheceu-o. En­direitou-se, tentando fazer com que o coração abrandas­se.

Quando Prasutagos chegou perto deles já Polião conseguira controlar também a sua montada. Acenou com a cabeça numa cortesia fatigada. — Saudações, meu senhor.

Boudica olhava-os com uma mistura de diverti­mento e de consternação. Durante quanto tempo teriam estado sob o olhar de Prasutagos antes de o Bogle ter re­parado nele e ter começado a ladrar? E o que é que, à distância, ele poderia ter visto?

O que havia na realidade para ver? Eu teria mesmo dei­xado que o Romano me beijasse? Não sentia nada por Prasu­tagos, mas ao seu lado o Romano parecia... pequeno.

— Está um dia frio para montar — comentou o rei. — E raro termos uma tempestade assim. — Virou-se para Boudica. — Estive na quinta de Coric, perto do porto. O telhado de uma das casas caiu devido ao peso da neve. Pensei que era melhor vir aqui para saber se preci­savam de ajuda.

Era uma pergunta razoável. Ramshill estava em muito mau estado quando ela lá chegara. E sabia que nos últimos seis meses Prasutagos passara a maior parte do tempo a viajar de uma quinta para outra. Para reforçar os laços entre o rei e o seu povo, diziam, mas era possível que também achasse insuportável viver em Eponadunon. Certamente que fora por acaso que estava naquela parte das suas terras quando a tempestade rebentara, mas se era uma coincidência feliz ou infeliz ela não o sabia.

Parece estar tudo em segurança — respondeu ela numa voz neutra.

Isso são boas notícias — disse Prasutagos. Vi- rou-se para o Romano. — Para alojar os vossos homens e os meus iremos precisar da segunda cabana e é melhor abrigar também os cavalos.

Oh, não há necessidade de os vossos guerreiros ficarem apertados... — Os lábios de Polião abriram-se num sorriso igualmente educado. — Se nos apressarmos, chegaremos ao barco ao cair da noite. Tenho mensagens para o rei Brigante que não podem esperar e tenho de aproveitar a calmaria para fazer a travessia, antes que vol­te o mau tempo.

Antes de Prasutagos chegar, pensou Boudica, ele parecera bastante disposto a passar a noite com ela.

Talvez sejais sensato — disse o rei pensativa­mente. — Chegou um navio mesmo antes da tempestade, por isso não tereis que esperar muito tempo. Saudai Ve- nutius e Cartimandua da minha parte.

Lamento não termos o prazer da vossa com­panhia. — Boudica deixou que o Romano entendesse as palavras como lhe aprouvesse. — Mas compreendo o chamamento do dever. — Incluindo, pensou fatigadamen­te, o do meu próprio dever?

Prasutagos visitara-a de tempos a tempos quando estava nas redondezas, demorando-se o suficiente para tomar uma refeição mas partindo novamente antes do cair da noite, olhando por ela como fazia com as suas ou­tras propriedades, pensou ela com amargura. Das primei­ras vezes que ele ali viera ela mal dera pela sua presença, mas ultimamente achara aquele distanciamento um tanto enervante.

Bogle sentou-se na neve com a língua de fora, en­quanto Polião chamava os seus homens e o pequeno grupo partia estrada fora no meio da neve.

Deviam agradecer-nos por lhes termos aberto o caminho — observou Bituitos, o mais velho dos dois guerreiros que eram a principal guarda do rei. Era tão grande como Prasutagos, mas dez anos mais novo e era uma espécie de primo, partilhando o tamanho, a força e a cor dos membros da família.

Mas é melhor que se apressem — acrescentou Eoc, igualmente alto mas com o cabelo castanho e os o­lhos cinzentos da raça mais antiga. Estivera-lhe destinada uma vida de camponês até alguém ter reparado o quão mortalmente rápido era a manejar uma espada. — Se o Romano não sabe ler os sinais do tempo, eu sei e as nu­vens que se estão a acumular para leste trarão mais neve antes da madrugada!

Era verdade que o vento estava a soprar mais for­te, com um frio úmido que se infiltrava mais fundo do que o frio cortante da manhã.

Talvez devêssemos pôr-nos a caminho — suge­riu ela. — Quando encontramos os Romanos, mandei a Temella avisar lá em casa que teríamos convidados. Ainda bem que chegastes... teria sido uma pena estragar a comi­da.

 

Bituitos tivera razão no que respeitava ao tempo. Ao pôr do Sol já o vento soprava os primeiros flocos de neve nas encostas dos montes. A estrutura de barrotes e juncos entrelaçados que suportava o colmo do telhado envergava-se e gemia a cada rajada e a alteração da pres­são fazia com que o fumo se acumulasse no ponto mais alto. Ninguém sugeriu que o rei e os seus homens partis­sem no meio daquela tempestade, se é que Prasutagos ti­vera sequer essa intenção. Ela estava consciente da pre­sença dele de uma forma que antes não estivera e não sabia se fora ele quem mudara ou se fora ela. Ele pareci­a-lhe mais magro, pensou, reduzido, pelas cavalgadas du­ras, a músculos resistentes e ao osso. O fogo brilhava nos seus bigodes e acentuava-lhe os malares e o queixo fortes.

Havia duas cabanas na quinta, bem como outras casas que serviam de estábulos e de arrecadações. Quan­do acabaram de comer o resto da carne de carneiro, a maior parte dos homens do rei foi enviada para a segunda casa juntamente com os homens que trabalhavam na quinta. Desatar a pele que cobria a porta durante o tempo suficiente para que saíssem deixou entrar um vento gela­do que deixou Boudica a tremer de frio. As peles e man­tas de lã espessa penduradas no interior das paredes das casas evitavam algumas correntes de ar, mas a mesma permeabilidade que deixava que o fumo saísse pelo colmo também deixava entrar algum ar.

Temella foi buscar mais peles e cobertores e Bitui- tos e Eoc enrolaram-se nelas junto ao fogo onde Bogle já estava deitado a ressonar, com a cabeça pesada pousada num osso. Habitualmente, numa noite fria como aquela, Temella e Boudica partilhavam uma cama, mas a rapariga estava a fazer a sua numa divisão que pertencia à velha Nessa. Aquilo parecia responder à questão do local onde

Prasutagos iria dormir. Boudica sentia o seu olhar segui-la quando foi cobrir o fogo.

— Senhora do fogo sagrado, guardai esta chama até de manhã. Brigantia, abençoada, que sejais o fogo na lareira tal como sois o fogo no coração. Contra todos os males que caminham na noite, sede o nosso escudo e a nossa proteção. — Desenhou o sol-cruz da Senhora nas cinzas e levantou-se sacudindo as mãos.

Quando fez menção de se virar o rei levantou-se e pôs-se a seu lado. Ela controlou um estremecimento... esquecera-se de como ele era alto. Passaram juntos atra­vés das cortinas de lã que Boudica tecera no casta- nho-avermelhado e no amarelo do seu próprio clã e que pendurara nos pilares para demarcar o local onde dormia. Rapidamente ela tirou o xale e despiu a túnica, tirou os sapatos e deitou-se com a camisa e a túnica interior, en- rolando-se para se defender do frio e para se afastar do homem que ouvia a despir a roupa. A palha por baixo das peles de carneiro e dos panos de linho restolhou quando Prasutagos entrou na cama a seu lado. Ela não disse nada, mas certamente que as costas viradas tornavam claros os seus desejos.

Boudica esquecera que, para algumas coisas, ele não precisava de palavras.

Estivera preparada para resistir à sua corte, mas desta vez não houve os murmúrios doces de quando lhe tirara a virgindade, apenas o som da sua respiração na orelha dela. Contraiu-se quando ele lhe puxou a camisa e a túnica e as enrolou à volta do corpo, aquelas mãos for­tes, calejadas pela espada e pelas rédeas, apoderando-se de tudo o que estava por baixo da roupa. Com uma fúria silenciosa ela tentou libertar-se, mas as pernas que con­seguiam prender o dorso de um cavalo imobilizavam-na, um braço musculoso prendia-lhe os seus braços enquanto a outra mão reaprendia a forma dos seus seios.

— És a minha mulher... —As palavras escapa- ram-se-lhe por entre os dentes cerrados com a mesma força que lhe dava energia para quebrar as barreiras que o mantinham em silêncio. Ela sentia cada estremecimento que lhe percorria o corpo, tão comprimido contra o seu. — Poderás viver sem um homem... mas não te deitarás com nenhum... homem... sem... ser... eu!

Aquilo respondia à questão de saber se vira Polião tentar beijá-la.

Ela ainda estava a pensar numa resposta quando, num movimento ágil, ele a tomou e, tal como acontecera antes, quando o seu corpo estava preso, a sua fúria ex­plodia para dentro, expulsando a parte de si que pensava. O Romano chamara-lhe chama e ela estava a incendiar-se.

Eu sou o forno que co%e o pão... disse uma voz no seu interior. Sou o forno que coze a chávena... Sou a forja que molda a lâmina. Arde!

Quando Boudica acordou na manhã seguinte, a neve parará e Prasutagos partira. Poderia pensar que a sua visita fora um sonho, mas na Viragem da Primavera sou­be que estava novamente grávida.

A Primavera chegou ao Tor trazendo um tesouro dourado de flores e anunciada pelo cantar dos pássaros que regressavam. A Lhiannon parecia que os dias maiores se transformavam numa única e longa manhã que a liber­tava das sombras que a tinham envolvido desde a queda do Forte das Pedras. Os ciclos longos e lentos do Inver­no tinham estado de acordo com o estado de espírito de Lhiannon, mas com a chegada da Primavera a vida tor­nava-se frenética e, ao sentir aquela energia a queimar-lhe as suas próprias veias, percebeu que, tanto quanto lhe era possível, estava curada.

Sabia que em breve teria que deixar o Tor, mas enquanto o mundo pairava em torno da chegada da Pri­mavera, deu por si tão indecisa como a própria estação.

Um ano antes por aquela altura, ela e Ardanos tinham estado a preparar-se para defender o Forte das Pedras. Agora nesse local erguia-se um forte romano e a maior parte do sul e do ocidente estavam em mãos romanas. O Governador Pláucio dirigia-se para ocidente atravessando as regiões centrais, Caratac refugiara-se, em algum lugar, nas montanhas mais distantes. Mesmo que Lhiannon es­tivesse disposta a enfrentar mais batalhas, não havia nada que pudesse fazer.

No primeiro dia depois do Equinócio, a energia acumulada levou-a até ao Tor. Daquela vez não cami­nhou em espiral, mas isso não tinha importância. A sua consciência do Outro Mundo acompanhava-a agora em permanência. O vento agitou a erva nova. Lá em baixo, as lagoas dos pântanos, ainda cheias com as chuvas da Pri­mavera, estendiam-se pelas planícies num mosaico de cambiantes azuis e prateados. Mas o sol primaveril aque­cia-lhe os ombros e quando chegou ao topo deitou-se a descansar.

Lhiannon nunca teve a certeza se aquilo que lhe aconteceu a seguir foi um sonho ou uma visão, mas pa­receu-lhe que estava num local de campos abertos e vas­tos céus onde o ar trazia o aroma do mar. Boudica estava com ela, mais bela do que nunca, mas com os seios mais cheios e o rosto mais magro, revelando os belos contor­nos dos malares e da testa. Nos seus olhos Lhiannon via um desgosto igual ao seu,

— Lhiannon... — ouviu o grito através da distância.

— Lhiannon, estou com medo. Preciso de ti... vem ter comigo!

 

Boudica ajoelhou junto ao poço das oferendas, ta­teando as ondas que ornamentavam a taça que tinha nas mãos. Era uma bela peça de cerâmica de cor creme, ao estilo gaulês, que o seu povo trouxera do outro lado do mar, uma das peças do conjunto incluído no tesouro do casamento que lhe fora enviado de Eponadunon quando fixara residência em Ramshill. A taça estava cheia de flo­res primaveris, apanhadas quando atravessara o bosque que rodeava uma parte do caminho para o Santuário do Cavalo no sopé da colina. Do outro lado do santuário os campos eram abertos, descendo até ao caminho que bor­dejava o ribeiro. No centro da cerca o crânio do mais re­cente sacrifício equídeo contemplava-a do poste.

Oh antigos que aqui estivestes antes de mim — murmurou. — O vosso pó é parte da terra cujos frutos me alimentam e ao meu filho. Concedei-nos a vossa bên­ção. Os fantasmas desta terra já me levaram um filho, certamente que não precisam de outro! Por favor aceitai esta oferenda!

Quando se debruçou para esvaziar a taça, desequi­librou-se e a cerâmica lisa escorregou-lhe das mãos, caiu sobre uma pedra e partiu-se. Ela caiu de gatas ficando a olhar para a água que se escapava e se embebia no solo. Veio-lhe à memória a imagem dos reis a partirem as es­padas e a dobrarem os escudos antes de os oferecerem à Lagoa Negra. Seria um sinal de que os antepassados ti­nham aceite a oferta ou um presságio de que o seu ventre era inútil como uma taça quebrada?

Não era druida para o poder interpretar! Recusara tornar-se sacerdotisa e abandonar os seus deveres de es­posa e rainha... seria alguma vez mãe? Agarrou-se à barri­ga, a chorar.

Boudica? Quem te magoou, filha? O que se

passa?

Por instantes pensou que a voz fosse uma ilusão provinda da sua memória. Depois ouviu um cavalo relin­char e o ranger dos arreios. Virou-se, ficando com a visão turvada pela imagem de uma mulher de azul e cabelos dourados. Lentamente pôs-se de pé.

Lhiannon? És real? Eu desejei tanto que aqui estivesses! Estás mesmo aqui? — Quando a sacerdotisa deslizou de cima do cavalo, Boudica correu para diante, abraçando-a numa confusão de riso e lágrimas.

Não perdeste nenhuma da tua força, lá isso não... — disse Lhiannon quando Boudica finalmente a largou. — E estás a florescer. Mas que estás a fazer aqui? Disseram-me que o forte de Prasutagos fica ainda a dias de viagem. Só vim por este caminho para ver se arranjava uma refeição na quinta.

Tenho a certeza de que o Paios e a Chandra te receberiam muito bem, mas não há necessidade de os incomodar porque a minha casa fica no topo da colina! — exclamou Boudica. — Na quinta estão muito atarefa­dos com os preparativos para o Beltane, mas podemos antecipar a matança de um dos borregos para um ban­quete de boas-vindas! Segue-me!

Talvez enquanto caminhavam conseguisse encon­trar as palavras adequadas pata contar a Lhiannon tudo o que lhe acontecera desde que se tinham separado, em Camadunon. Os deuses sabiam que ensaiara a história inúmeras vezes em noites de insónia quando desejava que a outra mulher viesse para junto de si.

Acredito em ti — disse Lhiannon. — Quando a necessidade é grande, esse tipo de grito tem muito poder. Eu ouvi o teu chamamento do outro lado da Britânia...

Calou-se para puxar a rédea do cavalo quando este tentou desviar-se para um campo com erva nova e parti­cularmente suculenta. Nos pastos de ambos os lados do caminho as ovelhas estavam a aproveitar toda aquela a­bundância rodeadas por borregos titubeantes. Pareceu-lhe que a fertilidade da terra e dos seus animais era um bom presságio para a gravidez de Boudica.

Agora compreendia a radiância trágica da jovem mulher, mas ainda não decidira o que ela deveria fazer. Em grande parte, pensou, isso dependia de o rei ser um homem violento ou de ter simplesmente lidado mal com a sua jovem potra.

Estavas em Avalon? — exclamou Boudica. — Santa Deusa, há quanto tempo andas na estrada?

Lhiannon franziu o sobrolho. — Parti pouco de­pois do Equinócio, quando a Lua estava cheia e ela já está novamente cheia. Foi uma viagem difícil até ter apanhado o caminho antigo, perto de Carn Ava, mas depois andei bem, salvo quando um destacamento romano se atraves­sou no meu caminho.

Correste perigo?

A nossa gente ainda não está acobardada ao ponto de deixar de honrar a minha Ordem e havia sem­pre alguma casa onde arranjar abrigo em troca de uma bênção ou de um feitiço.

Na verdade a viagem recordara-a da razão por que era sacerdotisa. Tal como dissera a Rianor, os druidas mereciam as honras que as pessoas lhes davam porque as serviam. E era evidente que ela era desesperadamente necessária ali.

O caminho por onde Boudica as levava passava através de um bosque e ao lado de um campo. O sol mergulhava a ocidente e os seus raios oblíquos pintavam de luz cada folha e lâmina de erva. Aquele era um local pacífico, adequado para procurar a cura. A cura de ambas, ocorreu-lhe então.

Quando chegaram ao topo da colina a paz foi per­turbada pelo som de latidos. Agarrou-se às rédeas do ca­valo quando uma criatura do tamanho de um pequeno bezerro saiu pelo portão da cerca de juncos que rodeava a quinta e veio, aos saltos, na sua direção.

Bogle! Para baixo! — Boudica apanhou o ani­mal no ar e prendeu-o ao solo quando este tentava alcan­çar a sacerdotisa.

O que, em nome de An-Dubnion, é isso?

E o meu cachorrinho... — Por um instante o sorriso de Boudica lembrou-lhe a rapariga que conhecera em tempos. — Para baixo, Bogle, tem maneiras! E uma amiga!

Deve ser um cão, pensou Lhiannon quando o a­nimal lhe lambeu a mão, apesar de ser de uma raça que nunca vira. Ondas de pelo crespo de cor creme cobriam a forma esguia de pernas compridas com uma cauda felpu­da que abanava perigosamente. Mas a cabeça pousada sobre os ombros poderosos era larga, com um nariz ver­melho e as orelhas caídas, uma branca e a outra averme­lhada.

Impressionante — disse Lhiannon em voz neu­tra quando o cão lhe deu uma última lambidela e partiu aos saltos a anunciar a sua chegada.

Acho que a deusa mo enviou para me salvar o juízo — respondeu Boudica.


 

Lhiannon vigiou Boudica cuidadosamente en­quanto o mês de Beltane terminava e o ano amadurecia com a chegada de Junho. Foi um alívio quando o tempo se manteve seco: mesmo sem chuva, aquele mês tinha recordações dolorosas para ambas. E não apenas para elas, apercebeu-se certa manhã quando os latidos de Bo­gle anunciaram a chegada do Rei Prasutagos e dos seus homens.

Ele só ali viera por duas vezes desde a visita em Janeiro, visita essa em que, segundo Boudica lhe contara, ficara apenas o tempo suficiente para dar de beber aos cavalos e certificar-se de que a mulher estava bem. Cer­tamente que isso não era para admirar se o encontro fora tão... intenso... como Boudica lhe dissera. Mas Lhiannon sabia muito bem que a sua relação com Ardanos dificil­mente lhe servia de preparação para avaliar um casamen­to. Ficou muito satisfeita com a oportunidade de ver por si própria com que tipo de homem o clã de Boudica a tinha casado.

— Minha senhora, saúdo-vos... — disse Prasuta­gos quando Lhiannon saiu da cabana para o cumprimen­tar. Por instantes o olhar dele demorou-se na porta, mas como esta permanecesse vazia, virou-se para ela com um sorriso. Não parecia surpreendido por a ver, mas também a notícia da sua chegada devia ter-se espalhado rapida­mente pelos campos. — Ficamos satisfeitos por vos ofe­recer refúgio aqui.

Era evidente, pensou Lhiannon, que ele não se a­percebera ainda da razão da vinda da sacerdotisa. Perce­beu pelo aumento da tensão nos seus ombros que Bou­dica aparecera, trazendo em sinal de boas-vindas um corno com cerveja. Envergava uma túnica de linho presa nos ombros e atara um cinto com força por baixo dos seios e o volume da sua barriga era evidente. Por ins­tantes o rosto de Prasutagos ficou completamente inex­pressivo. Lhiannon esperou pelo que se seguiria: alegria ou ira? Em vez disso o que viu foi medo.

— Que as bênçãos dos deuses estejam convosco, meu marido. .. — disse Boudica em voz neutra.

Prasutagos assentiu e aceitou o corno. Mas bebeu e devolveu-lho sem dizer palavra.

O silêncio do rei foi disfarçado pelo barulho feito pelos outros homens que cuidavam dos cavalos e depois se sentaram para comer a refeição que as mulheres lhes trouxeram, pois num tão belo dia de Junho seria um cri­me acotovelarem-se dentro de casa. Tinham posto tron­cos a servir de assentos à volta da fogueira onde um cal­deirão estava pendurado sobre as chamas baixas. Prasu­tagos sentou-se num banco esculpido, que fora um pre­sente de casamento, com Boudica na sua frente do outro lado do fogo. Lhiannon ficou satisfeita por estar ao ar livre, onde havia luz suficiente para os poder observar a ambos, pois continuava a não ter a certeza do que se es­tava a passar.

O que quer que fosse, os últimos meses também tinham sido difíceis para ele. O príncipe que conhecera em Mona fora calado mas suficientemente loquaz quando as palavras eram necessárias. O rei que vira em Camulo- dunum era tão contido que se tivesse enviado uma está­tua sua em pedra o resultado teria sido parecido. Lhian- non não ficou surpreendida por Boudica ter reagido mal. Sempre fora uma rapariga direta. Mas o que a sacerdotisa via nele agora era algo de mais profundo. Aquilo não era apenas reserva, era constrição, era como se o seu silêncio fosse uma barreira para reprimir emoções obscuras que ele não se atrevia a revelar. Podia ver a tensão na posição da cabeça, nos movimentos abruptos e via a dor nos seus olhos quando olhava para Boudica.

Depois da refeição Prasutagos foi dar a volta à quinta com o velho Kitto. A maior parte dos homens fi­cou ali mesmo, a provocar a pequena Temella e a trocar insultos fingidos com Nessa, mas Bituitos atravessou o quintal e pôs-se em sentido na sua frente, obviamente a tentar encontrar as palavras indicadas.

Posso ajudar-te em alguma coisa? — Lhiannon acabou por se apiedar dele.

Senhora — disse Bituitos —, é evidente que a rainha tem muita consideração por vós. Poderíeis falar com ela em nome do meu senhor? Ele não se queixa, mas nós sabemos que sofre. Outro homem tê-la-ia levado pa­ra casa pelos cabelos, mas ele não fará nada nem dirá na­da até ela lhe dar um sinal.

Lhiannon assentiu.

Ele foi sempre assim tão silencioso?

Bituitos franziu o sobrolho. — Comparado com os irmãos sempre foi mais calado. Mas não assim, não. Per­deu a alegria quando a primeira mulher morreu com o filho. E depois perder todos os irmãos... foi duro.

Seria de esperar que a dor partilhada pela perda do filho os tivesse aproximado... — disse Lhiannon.

Eu acho que o desgosto os separou — mur­murou o guerreiro.

Ela ficou a olhar para ele em silêncio. Valia a pena saber que o rei era um homem cujos guerreiros ajura­mentados o serviam, não apenas por dever, mas também por amor.

Lamento... — acabou por dizer. — Sei que verterias o teu sangue para o proteger. Mas não o podes proteger das feridas que inflige a si próprio. Nem eu posso proteger a rainha dessa forma. Talvez as coisas melhorem entre eles quando a criança nascer.

Que os deuses o permitam. Acho que se as coisas correrem mal outra vez isso o matará — disse Bi- tuitos em voz baixa. — Eu vi a sua expressão quando ele pensou que ela estava a morrer, como a outra.

Endireitou-se e Lhiannon apercebeu-se de que Prasutagos vinha a entrar pelo portão ainda a conversar com o homem idoso.

O seu rosto ficava muito diferente quando se ria. Mas quando os homens começaram a preparar os cavalos ele aproximou-se de Lhiannon e a sua expressão ficou novamente inexpressiva.

Sacerdotisa, fico satisfeito por estardes aqui. Nunca forçaria Boudica a regressar a Eponadunon, mas receava por ela, sem ninguém por perto com autoridade suficiente para cuidar dela e das casas se lhe acontecesse alguma coisa. Mandai-me dizer se houver alguma coisa de que ela precise aqui.

Teria pensado que aquelas palavras eram apenas as do dever se não tivesse falado com o seu homem; se não tivesse visto o aspecto de Prasutagos quando sorria. Sen­do assim sorriu. Mas eleja não a olhava. Boudica saíra novamente da cabana trazendo na mão a taça da despe­dida.

Que façais uma viagem segura meu senhor — disse em voz alta.

Que as bênçãos da Grande Mãe sejam convos­co, minha senhora — respondeu ele numa voz baixa — e com a criança...

Depois de os homens partirem a quinta pareceu muito silenciosa e descolorida, como se uma parte da vida tivesse abandonado o mundo. Ou talvez fosse só Boudica quem parecia subitamente pálida.

Nessa noite a rainha foi cedo para a cama, mas por volta da meia-noite Lhiannon acordou e ouviu-a chorar.

Silenciosamente afastou as cortinas e ajoelhou junto à cama.

Pronto minha querida, que se passa? Estás com dores? Boudica calou-se, deu um soluço e virou-se. — Só no coração — murmurou. — E eu já devia estar habitu­ada a isso.

Cuidadosamente, Lhiannon deitou-se e passou um braço por cima dela, puxando-a até a cabeça de Boudica estar pousada no seu ombro.

Vai correr tudo bem... vai correr tudo bem, minha querida.

Alguma da tensão abandonou o corpo de Boudica juntamente com um longo suspiro. Eu da outra vez que estive grávida estava tão feliz. Mas desta vez, quando en­gravidei, fiquei com medo. E se eu perder este também?

Era também isso o que Prasutagos temia. Lhian­non acariciou o cabelo que se encaracolava tão vigorosa­mente na testa de Boudica. — O teu marido... — come­çou ela mas Boudica afastou-se imediatamente.

Veio inspecionar a sua égua. Talvez me deixe em paz agora que sabe que estou novamente prenha.

O oposto era o mais provável, pensou Lhiannon, mas era evidente que aquela não era a altura mais propícia para o dizer.

Não te rales então. Eu tomo conta de ti.

Boudica suspirou e acomodou-se novamente a seu

lado. O coração de Lhiannon doía-lhe com pena dela e também do marido dela, mas era estranhamente doce a­braçar aquele corpo forte e jovem que começava agora a amadurecer com a gravidez.

E amar-te-ei, jurou em silêncio, e em nome de Brigid, interpor-me-ei entre ti e o que quer que ameace a tua vida ou a do teu filho!

 

O Verão era dourado. Enquanto os grãos amadu­receriam nos campos, Boudica sentia o seu próprio corpo inchar e florescer. E à medida que os meses se iam suce­dendo, os seus receios começaram a esmorecer. Sentia o amor de Lhiannon como um escudo protetor à sua volta. Abençoou os campos quando os homens trouxeram as colheitas, modelo vivo da imagem da Mãe do Milho que moldavam com as últimas folhas apanhadas nos campos. Quando o nono mês da gravidez se iniciou percebeu que esperava o nascimento com alegria.

Atravessava o quintal com um cesto de restos para as galinhas

o objeto mais pesado que a deixavam carregar — quando sentiu a dor familiar nos rins. Parou morden­do o lábio — já tivera dores daquelas antes e toda a casa se reunira em pânico à volta dela e depois as dores ti­nham parado. Lhiannon dissera-lhe que aquela era a ma­neira que o ventre tinha de se preparar, praticando como um guerreiro para batalhas futuras. Se soubessem o que estava a sentir obrigá-la-iam a deitar-se e ela sentia uma imensa vontade de caminhar, não para longe, sabia que não devia fazê-lo, mas se ficasse ao alcance da voz pode­ria dar a volta à quinta. Acabou de dar de comer às gali­nhas e saiu o portão para os campos.

Boudica já dera três voltas, parando de tempos a tempos à espera que a dor passasse, quando se apercebeu de que Lhiannon caminhava a seu lado.

Já começou? — perguntou a sacerdotisa.

Boudica assentiu, arfando quando outra contração

lhe atingiu a barriga.

Por favor, não me obrigues a ir para dentro...

Posso nunca ter tido nenhum bebê, mas já aju­dei em muitos partos — respondeu Lhiannon um pouco bruscamente. — Apoia-te no meu ombro se precisares e caminha até te cansares.

Aquilo ajudou, mas quando chegou a hora ela não conseguia dar dois passos sem se dobrar ao meio e dei­xou que a levassem para dentro. Quando Nessa estava a ajudá-la a despir-se virou-se para Lhiannon.

Manda... buscar o meu marido. Ele deve estar aqui... para ver... o que fez.

Ele está lá em baixo no Santuário do Cavalo — disse Temella ansiosamente. — Tem estado na quinta do Paios e da Chandra.

Raios o partam! — murmurou ela. — A espi­ar-me! — Depois sentiu um aperto enorme na barriga e não conseguiu dizer mais nada.

No parto do seu filho as dores tinham sido agudas, mas apercebia-se agora de que não tinham durado muito. Aquele parto nunca mais acabava. A consciência ia e vi­nha com as dores. Durante uma das pausas nas contra­ções ouviu a voz de Prasutagos e chamou o seu nome. Quando a contração seguinte passou ele estava sentado ao seu lado. A luz tremeluzente do candeeiro romano que estava pendurado dos barrotes conseguia ver o seu rosto, imóvel como o da imagem de um deus.

Foste tu quem me fez isto! Tu, com a tua cara de pedra! Não queres saber? — Apercebeu-se de que es­tava a falar compulsivamente e que não conseguia parar nem conseguia controlar as palavras. Debateu-se e ele agarrou-lhe nas mãos. Ela agarrou-se a ele, ofegante e, quando a dor passou, começou a amaldiçoá-lo novamen­te. Estava vagamente consciente da presença de Lhian- non e das outras mulheres que entravam e saíam do quarto, mas Prasutagos era o rochedo a que se agarrava.

Porque não vieste? Eu tinha frio e estava com dores e tu não vieste... — murmurou num momento de alívio e viu que ele fechava os olhos de dor. Mas quando a olhou novamente já recuperara a calma.

Eu estou aqui... — disse calmamente. — Bou­dica, eu estou aqui.

Sim — disse ela com espanto. — Fica comigo... — Depois arfou. Continuava com dores, mas agora era diferente. Tentou sentar-se.

Chegou a hora... — disse Nessa que vira ainda mais bebês entrarem neste mundo do que Lhiannon. Mas foi a sacerdotisa que se meteu na cama por trás dela, a- poiando-lhe as costas enquanto Prasutagos lhe segurava nas mãos.

Ela gemeu e subitamente corpo e mente ficaram novamente emparelhados. Fez força repetidamente; esta­va a partir-se ao meio, mas isso não lhe importava. Com um grito, que era um grito de guerra, lançou-se em dire­ção ao seu objetivo. E a criança, de cabelos ruivos, en­sangüentada e já aos gritos, escorregou para as mãos de Nessa que a aguardavam.

Por um instante o alívio foi tal que Boudica nem se interessou pelo que estava a acontecer desde que conti­nuasse a ouvir os fortes vagidos do bebê. Mas quando as mulheres acabaram de a lavar, vestir e de mudar a cama, os vagidos tinham sido substituídos por uma canção de embalar.

Quando se concentrou apercebeu-se de que era Prasutagos quem cantava, sentado a seu lado com o bebê adormecido nos braços. Tinha as mãos esfoladas e ma­goadas e olheiras negras por baixo dos olhos. Pelo me­nos, pensou ela com ressentimento, ele também sofrerá.

Gostava de lhe chamar Rigana — disse ele com um ar pensativo. — Parece-se com a minha mãe depois de velha.

Estavas à espera que fosse parecida com quem? Com o Polião?

Pensei que talvez fosse possível — manteve os olhos fixos no bebê. — Não te recriminaria.

Ai não? — ripostou-lhe ela. — Não foi isso o que disseste na noite em que ela foi concebida. Mas a fi­lha é tua — acrescentou —, se isso te interessa...

Ele ficou corado desde o pescoço até à testa e de­pois empalideceu de novo. Olhou para a criança.

Que estranho que um milagre destes seja fruto da minha loucura. Mas talvez seja por isso que esta é uma lutadora... — a sua voz reduziu-se a um murmúrio — e sobreviverá...

E não tens nada para me dizer a mim? — Não pedes desculpa?, continuou a sua voz interior. Pensou como é que ele não conseguia ouvi-la.

Lamento... muitas coisas. Nunca to disse... — Fechou os olhos e ela soube subitamente o que ele ia di­zer: — Eu estava com medo. Sabes que tive uma mulher que morreu... a dar à luz um filho meu. Quando vi que estavas grávida, endureci o meu coração o mais que pude para não sofrer novamente.

E depois o bebê morreu — disse Boudica nu­ma voz átona. Ainda não era capaz de lhe perdoar, mas começava a compreender. Mas eu também sofri e ainda não estou pronta para baixar o meu escudo.

O silêncio torna-se um hábito — disse ele en­tão. — Mas vou tentar.

 

Soltando uma risada de triunfo, Rigana prendeu os dedos rechonchudos ao pêlo de Bogle e levantou-se, vi­giada de perto por Nessa que continuava sem se conven­cer de que o cão enorme não se viraria contra a criança e não a desfaria. Ainda no ano anterior o próprio Bogle fora muito cachorro, mas quando o bebê chegara ele de- cidira que ela era uma extensão de Boudica e, portanto, tinha direito a uma paciência infinita. Assim que os seus pequenos dedos tinham conseguido agarrar, tinham-se fe­chado sobre o pêlo de Bogle. Ele tornara-se algo a que trepar assim que a criança começara a gatinhar. E agora, que estava prestes a começar a andar, o cão transforma­ra-se num apoio muito conveniente que mostrava os dentes para desencorajar qualquer estranho que tentasse aproximar-se dela.

E naquele dia havia muitos estranhos, pensou Lhiannon, enrolando mais lã em torno do fuso e conti­nuando a fiar. Para lá da cerca o campo ceifado produzira uma nova colheita de tendas e de abrigos com a chegada dos Icenos do Norte para o conselho de Outono e para uma feira de cavalos. Os Romanos queixavam-se de que os Bretões não eram civilizados por não terem cidades. Mas apercebia-se agora de que aquelas reuniões eram o equivalente celta das cidades, produzindo-se nos locais e ocasiões em que eram necessários. Havia ali comerciantes a vender panos e jóias e sapatos de couro e vasilhas de cobre e vidros romanos. Ferreiros e carpinteiros aprego­avam o seu ofício. Gado para abate e vacas leiteiras pas­tavam juntamente com os cavalos, que eram a razão da vinda de todos até ali.

Era a primeira vez que o conselho dos clãs se rea­lizava naquele local. Desde que Rigana nascera que Pra­sutagos passara a viver na quinta junto ao Santuário do Cavalo. Não estava disposto a regressar a Eponadunon, nem mesmo para o conselho, deixando ali a mulher e a filha. Viam-no freqüentemente e, apesar de Boudica ainda não o ter convidado para partilhar a sua cama, ninguém esperava que tal acontecesse, pois ela continuava a ama­mentar a criança. Estavam agora sentados ao lado um do outro escutando a mensagem que o Rei Antedios enviara de Dun Garo.

Então é certo que o Governador Pláucio vai regressar a Roma? — perguntou o rei.

O tempo da sua nomeação terminou e eles não gostam de deixar os homens muito tempo no mesmo sí­tio, não vão eles começar a pensar que a terra lhes per­tence a eles e não ao Império.

Este sol é forte demais para a minha cabeça velha — disse Nessa. — Minha senhora, desejais que leve o bebê para dentro? — Rigana e o seu servo canino já tinham conseguido atravessar metade do pátio. A criança estava sentada entre as patas do animal, reunindo energias para mais uma tentativa de dominar o equilíbrio que per­mitia aos adultos andarem de um lado para o outro com tanta facilidade.

Ela está bem onde está... — disse a rainha. Nós estamos aqui para olhar por ela. Vai para a sombra.

Hmmm — resmungou a velha mulher quando se virou na direção da cabana. — Destes o nome de uma rainha a essa criança e ela vai crescer a pensar que é rai­nha. Ela tem que aprender que não pode ser sempre tudo à sua vontade ou, ouvi os que vos digo, um dia ainda ar­ranjareis um sarilho!

O que podia muito bem acontecer, refletiu Lhian­non passando o fio por entre os dedos hábeis, mas como a Nessa profetizava desastres de um ou outro tipo todos os dias, as suas palavras raramente mereciam atenção.

Quem virá para o substituir? — perguntou Boudica.

Um homem chamado Públio Ostório Escapula vai ser enviado, mas não conseguirá chegar muito antes do Inverno e isso não é altura para iniciar uma campanha, pelo que somos capazes de ter paz por uns tempos...

Aqui certamente... — Prasutagos suspirou. — Pagamos o suficiente para que eles nos deixem em paz...

Na verdade o dia estava demasiado belo para se pensar em guerras. Os céus pareciam sempre mais aber­tos por cima das montanhas, uma vastidão de azul salpi­cada por farrapos de nuvens, como se alguma da lã se tivesse escapado do cesto para o céu. Do outro lado da sebe ouviu-se o trovejar das patas de cavalos quando al­guns dos homens mais novos começaram a praticar para as corridas que se realizariam no dia seguinte. Na véspera tinham feito corridas com os carros de guerra. Lhiannon não assistira — a sua recordação da última carga dos car­ros de guerra dos Trinovantes ainda lhe provocava dema­siado sofrimento. Supunha que deveria ter assistido. Os Bretões eram o único povo que ainda usava aqueles car­ros e não sabia quando aquele espetáculo voltaria a reali­zar-se.

Alguém gritou e os cascos tornaram-se subitamen­te mais ruidosos. O fuso e a roca saltaram das mãos de Lhiannon quando um cavalo desgovernado atravessou o portão. O animal ergueu-se sobre as patas de trás com o cavaleiro a tentar controlá-lo, os cascos aguçados atin­gindo o solo a dois passos da criança. Os adultos levanta­ram-se de um salto e correram para a criança e o cão ata­cou o cavalo.

O cavaleiro foi cuspido para a cerca e o cavalo ca­iu, aos gritos. O sangue jorrou quando os dentes afiados lhe rasgaram a garganta. Prasutagos apanhou a filha e passou-a a Lhiannon que correu para a casa. Boudica, vendo que a filha estava salvo, virou-se para o cão que rosnava horrivelmente tentando apanhar a jugular.

— Bogle! Pára! Ela já está a salvo, rapaz! Pára com

isso!

Lhiannon, parada junto à porta com Rigana nos braços, ergueu uma sobrancelha. Não se tratava de tirar um brinquedo da boca de um cachorro. Conseguiria a voz de Boudica penetrar a fúria que motivava o animal naquele momento? O salto de Bogle fora espantoso. Ter soltado a presa e ficar a tremer, com os beiços a escorrer sangue quando Boudica o chamou novamente, foi um milagre.

Murmurando baixinho, ela aguardou até que a loucura abandonasse os olhos do bicho. Depois agar­rou-o pela coleira e conduziu-o lentamente pela frente do ajuntamento que se formara até junto do bebedouro dos cavalos onde lhe encheu a taça de água. A água ficou vermelha assim que ele lá enfiou o focinho. Ela encheu-a novamente e despejou-lha por cima da cabeça e depois deixou-o beber e sacudir a água do pêlo. Depois afas­tou-se na direção da cabana como que a perguntar-se por que razão toda a gente olhava para ele.

Prasutagos estava a falar com o cavaleiro que se levantara e murmurava desculpas a todos quantos esti­vessem dispostos a ouvi-lo. A voz do rei estava baixa e controlada, como sempre, mas Lhiannon nunca lhe ouvi­ra antes aquela vibração de fúria. O cavaleiro afastou-se, envergonhado, e Prasutagos ajoelhou ao lado do cavalo que se contorcia e sangrava por terra.

Quando pousou uma mão no focinho macio o bi­cho teve uma convulsão; um dos cascos atirou o rei pelos ares até ao outro lado da quinta. Eoc correu na direção dele. Passados instantes o rei mexeu-se, fez sinal ao ho­mem para que se afastasse e, movendo-se com extrema cautela, aproximou-se novamente do cavalo, desta vez por detrás. O cão não cortara a grande artéria, mas o pescoço do animal estava demasiado rasgado para ter salvação. O metal brilhou quando alguém lhe passou uma faca.

— Pronto, pronto... meu lindo — murmurou o rei ajoelhando-se rigidamente com Eoc a observá-lo com preocupação. — Ainda assim não tiveste culpa. Vai agora para Epona onde correrás pelos prados verdes e nenhum cavaleiro idiota te fará mal. Dorme agora meu herói... — pousou uma mão sobre os olhos do cavalo e o animal acalmou-se. A lâmina golpeou uma vez, profundamente por baixo do maxilar e depois rasgou. O rei recuou o tronco quando o cavalo saltou, soltando o sangue num repuxo carmim e depois ficou imóvel.

Por essa altura já os gritos de Rigana se tinham transformado em fungadelas ocasionais. Lhiannon entre­gou-a a Boudica e avançou quando Eoc estendia a mão para ajudar Prasutagos a levantar-se.

O rei deu um passo, mordeu o lábio, tentou endi­reitar-se e parou, respirando cautelosamente.

Vinde cá... — disse Lhiannon.

Eu estou bem — resmungou ele sem a olhar nos olhos.

E claro que estais bem — disse a sacerdotisa animadamente. — Agora vinde cá para eu vos ver... — Falou com um pouco de entoação sacerdotal e Prasuta­gos ergueu os olhos, surpreendido. Viu que ele estava a pensar no assunto e depois, com um suspiro, virou-se na sua direção.

Devo ajudá-lo a entrar em casa? — perguntou Eoc. Lhiannon abanou a cabeça. — Traz um cobertor para aqui e ajuda-o a deitar-se. Vou precisar de luz.

Quando acabaram de lhe tirar a túnica e o deitaram de costas no cobertor, já o rei estava pálido e a transpirar. Uma barba rala e dourada brilhava-lhe no queixo. Boudi­ca olhava, sem saber o que fazer, com Rigana nos braços. Do lado esquerdo, a pele por cima das costelas inferiores do rei tinha uma marca vermelha do feitio de um casco. A carne em redor já estava descolorida e inchada. Ele te­ria ali uma nódoa negra muito colorida dentro de pouco tempo.

Fechando os olhos, Lhiannon pôs a mão aberta com a palma virada para baixo, para identificar o ponto onde a energia do corpo tinha sido mais perturbada. De­pois, usando os olhos e as pontas dos dedos, começou a apalpar as costelas.

Passados instantes afastou-se e franziu o sobrolho. — Sois um guerreiro, meu senhor e, por definição, sois corajoso. Mas não posso descobrir grande coisa se insistis em ocultar a vossa dor. Onde é que dói mais? Aqui? — Apalpou suavemente. — Aqui? — Assentiu quando ele gemeu. — Sim, foi o que pensei... Tendes uma ou duas costelas partidas e tendes sorte por as costelas estarem aí para proteger o que está por trás. Vamos ligar-vos, mas não deveis montar a cavalo durante mais ou menos uma lua. Temella — virou-se para a rapariga —, preciso do meu saco de curandeira e põe água a ferver para fazer chá de casca de salgueiro.

Quando Lhiannon acabou de ligar as costelas de Prasutagos já ele estava novamente pálido. A maior parte dos mirones, vendo que a excitação terminara, tinha-se afastado.

Obrigado — murmurou ele quando Eoc o aju­dou a levantar. — Tendes boas mãos.

A forma como acalmastes aquele pobre cavalo foi admirável — respondeu ela. — Se falásseis com a vossa mulher com metade do jeito com que falais com os vossos cavalos, muitas coisas teriam sido diferentes por aqui nos últimos dois anos. — O estremecimento dele ao ouvir aquelas palavras não se devia à dor física. Não era muito justo falar-lhe daquela maneira quando ele não ti­nha fôlego para lhe responder, mas ela conquistara esse direito. As suas palavras dar-lhe-iam algo em que pensar enquanto esperava que as costelas sarassem.

E Lhiannon também tinha algo em que refletir. O mensageiro dissera que Caratac estava nas terras dos Or- dovice com os parentes da mulher, preparando-se para tirar vantagem da ausência do governador para punir os Dobunni e os Cornovii que se tinham aliado com Roma.

Pensara que a causa pela qual ela e Ardanos tanto tinham sofrido já não existia. Estaria ela a trair a sua me­mória ao ficar ali, em segurança, junto daqueles a quem Caratac chamava traidores? Era útil ali, mas o trabalho que fazia podia ser feito por qualquer curandeira de aldei­a. Deveria regressar a Mona ou juntar-se a Caratac para, mais uma vez, retomar a luta? Não sabia.


 

— Achais que o rei virá para casa em breve? — perguntou Temella.

Boudica deu uma palmada no travessão do tear que passava por entre a teia de lãs e praguejou quando o fio que estava enfiado se partiu. Não valia a pena gritar com a rapariga por ter perguntado. Na verdade a própria Boudica não tinha a certeza da razão porque a pergunta a incomodava. Deveria estar satisfeita por Prasutagos con­tinuar ainda com o rei supremo em Dun Garo. Tê-lo sempre debaixo dos pés naquele Inverno, enquanto espe­rara que as costelas sarassem, tinha-a deixado meio louca apesar de ter tentado disfarçar a bem da filha.

Não ajudava o fato de os mensageiros acorreram onde quer que o rei estivesse e de as notícias perturbado­ras continuarem a chegar. Aparentemente, o novo gover­nador nunca ouvira dizer que era impossível fazer cam­panhas no Inverno e atacara com tal vigor, que Caratac se vira forçado a recuar para norte para as montanhas ina­cessíveis que alojavam os refúgios dos Ordovice. Aquilo deveria ter posto um fim ao conflito, mas logo após o festival de Brigantia, viera um cavaleiro a galope de Dun Garo a convocar Prasutagos para um conselho tribal de emergência.

E já se passara uma lua. Se tivesse havido um aci­dente certamente que Eoc ou Bituitos teriam vindo di­zer-lhes. O que teria o conselho para discutir que levava tanto tempo? E por que razão ficava mais inquieta a cada dia de ausência do marido? Suspirou e começou a separar as pontas quebradas do novelo para poder voltar a te­cê-lo. Ficaria um pouco irregular, mas a tecelagem conti­nuaria.

Iria lembrar-se daquela observação nos dias que se seguiram ao regresso a casa de Prasutagos.

Quando os latidos de Bogle os fizeram sair a todos para saudar os cavaleiros que regressavam, de início pen­sou que o rei fora ferido. Nem mesmo quando as suas costelas estavam ainda muito mal ele tivera um aspecto tão sombrio e cinzento. Foi Nessa quem lhe trouxe um corno com hidromel e lhe serviu um segundo quando ele bebeu o primeiro de um só trago. E, mesmo assim, foi Bituitos quem teve de lhes dar a notícia.

Os Romanos ficaram com a nossa terra, os nossos cereais e o nosso ouro. Agora estão a ficar com as nossas espadas! — Viu a confusão nos seus rostos e riu-se sem alegria. — Querem que nos desarmemos. Este governador teme que se tivermos armas nos juntemos a Caratac. Ordenou a toda a gente deste lado da fronteira, a que chamam limes, que entregasse todas as armas de guerra — as tribos conquistadas e as tribos aliadas tam­bém.

Não podem fazer isso — exclamou Boudica. — Temos um tratado. Como podemos ser seus aliados se não pudermos combater em caso de necessidade?

Podem... — Prasutagos falou finalmente. — Já há destacamentos a revistar as quintas dos Trinovantes e a ordenar aos homens que entreguem as suas armas e, quando não ficam convencidos pela pilha de armas en­tregues, desfazem os telhados e espetam as lanças nos cereais armazenados. Estarão aqui antes da Viragem da Primavera.

Os soldados que estão a construir o forte re­crutaram os camponeses locais como trabalhadores para construir os muros. Alguns dos Trinovantes já estão a planear uma rebelião. Muitos dos nossos chefes e prínci­pes do sul querem juntar-se-lhes. — Disse Eoc feroz­mente. — Alguns estão a juntar-se num grupo secreto para planear a resistência... chamam-lhe a Sociedade dos Corvos.

Boudica estremeceu lembrando-se de como a Se­nhora dos Corvos falara pela sua boca muito tempo an­tes. Se A queriam como padroeira deviam estar mesmo muito desesperados.

Vamos lutar? — Os olhos de Temella tinham ficado muito esbugalhados.

O rei olhou para ela e tentou sorrir. — Se devía­mos resistir ou obedecer, foi o que discutimos durante tanto tempo...

Não podeis entregar a espada do vosso pai... — exclamou Boudica. A espada que fora herdada pelo seu pai perdera-se juntamente com o seu irmão mais velho no Tamesa. Com ela desaparecera, não apenas o filho, mas o símbolo da honra da família.

Não... mas não vejo esperança em combater Roma. Teremos que lhes dar o suficiente para que fiquem convencidos, mas salvaremos as armas que foram aben­çoadas pelos deuses.

Ireis ceder? — gritou Lhiannon. — Não vedes que esta é a oportunidade de recuperarmos o que perde­mos?

Boudica ficou a olhar para ela. Tinham vivido em paz durante tanto tempo... naqueles tempos Lhiannon já nem sequer se vestia de azul. Partira do princípio de que, tal como todos eles, a sacerdotisa se resignara a viver sob o jugo de Roma. Mas, mesmo naquela época, Lhiannon acordava por vezes aos gritos por causa dos pesadelos causados pela guerra no sul.

Esse porco romano tem razão em ter medo! Enquanto Caratac os ataca a ocidente, o sul e o leste po­derão revoltar-se. Só quando acontecer qualquer coisa que indigne todo o nosso povo de uma forma igual é que este esquecerá as velhas inimizades! Se tivéssemos con­seguido que o nosso povo lutasse unido não teríamos perdido há quatro anos.

Os olhos de Lhiannon estavam orlados de branco e tinha os cabelos loiros em pé. Aquela não era a sua amada amiga, mas um espírito vingador que gritava agora junto ao fogo. O sangue pulsou nos ouvidos de Boudica, ou talvez tivesse sido o bater das asas dos corvos.

Tenho até medo de imaginar que outro desastre será necessário para despertar o nosso espírito se deixar­mos passar esta oportunidade — acrescentou Lhiannon.

E se tal vier a acontecer, o que poderemos fazer? Não teremos armas com que combater, nem jovens guerreiros treinados para as usar! Haverá sangue! Prevejo sangue e ruína se não aproveitardes esta oportunidade!

A barriga de Boudica apertou-se quando se aper­cebeu de que não era a máscara da sacerdotisa celebrante aquilo que via, mas sim o rosto do oráculo a profetizar a aniquilação. Esquecera-se da formação de Lhiannon. Talvez a própria sacerdotisa a tivesse esquecido.

Que diz o rei supremo? — perguntou.

Prasutagos abanou a cabeça. — Antedios é um

homem velho e está doente. Não temos um chefe guer­reiro à altura de Caratac. O rei não tem um filho e o teu pai, que é o seu sucessor, também está velho. O rei su­premo ordenou-nos que obedecêssemos.

Vós não sois velho — rugiu Lhiannon.

Quereis que me rebele contra o meu rei e con­tra os Romanos também? Ficaríamos tão divididos como os clãs do sul.

Deverei chamar Caratac para vos comandar? — cuspiu ela. — Sois todos umas velhas e arrepen- der-vos-eis de não ter dado ouvidos às minhas palavras!

Foi para dentro de casa.

Boudica reprimiu um acesso de riso histérico ao pensar na imagem de Caratac a manifestar-se ali, junto ao fogo. Lhiannon conseguiria provavelmente que esta pa­recesse, dado o estado de espírito em que se encontrava. Quase conseguia ouvir os discursos inflamados e a fúria da resposta da multidão.

— Talvez... — murmurou Prasutagos —, mas eu sou um rei para a paz e o que precisamos agora é de um chefe para a guerra...

 

Não posso ficar aqui..., pensou Lhiannon. Sentou-se junto ao caldeirão na cabana, com um lenço atado sobre o símbolo revelador tatuado na sua testa e um xale sobre os ombros, mexendo a sopa no caldeirão que estava pendurado por cima das chamas. As primeiras verduras da Primavera tinham sido deitadas lá para dentro: urtigas macias, ervas e flores para juntar à carne salgada das pro­visões cada vez mais escassas. Mas na sua alma continua­va a ser Inverno.

Ouvia o bater das sandálias cardadas e as vozes graves dos homens no exterior e o barulho do metal à medida que as espadas e escudos de bronze e as lanças iam sendo amontoados.

Vim para aqui para fugir da guerra, mas isto não é a paz, é a morte...

Boudica estava sentada na sua frente a dar de ma­mar à filha. Rigana já fora quase desmamada, mas quando estava ansiosa ainda procurava a mama da mãe. Estreme­ciam a cada pancada metálica, mas a fúria lenta de Lhi- annon fervia sob uma camada de gelo. Prasutagos não tinha alternativa senão assistir ao confisco, nem que fosse apenas para controlar a fúria dos seus homens. Esperava que cada espada o atingisse no coração ao tombar por terra.

Sobressaltou-se quando a pesada pele que cobria a porta foi afastada. A luz passou pelo centro da cabana quando o agente romano, Polião, entrou seguido por um legionário com uma couraça de placas sobrepostas como uma centopéia e com um capacete romano com uma proteção para o pescoço debaixo do braço.

Perdoai-me senhoras — disse ele num Bretão espantosamente bom —, mas as minhas ordens exigem que reviste também a casa...

Boudica levantou-se com a criança adormecida nos braços. — Compreendo — disse com voz doce, mas ha­via um brilho perigoso nos seus olhos. Ainda bem que tinham atado o Bogle junto aos estábulos dos cavalos. Ele era tão perigoso como qualquer arma metálica, os Ro­manos é que não sabiam.

Polião acenou e o soldado moveu-se hesitante em volta da fogueira, levantando cobertas e espreitando por baixo das arcas. Lhiannon continuou a mexer o guisado, criando em torno de si um véu de anonimato.

Quando o homem tocou nas cortinas à volta da cama Boudica ficou tensa. — Não esqueçam o colchão! Nós, os Celtas somos uns bárbaros tão duros que dor­mimos sobre lanças. E para quê limitarem-se à mobília? — acrescentou. — Procurem aqui no meu peito! Posso estar a esconder um punhal... — Puxou a parte da frente da túnica para baixo, ainda solta por ter estado a dar de mamar e descobriu um seio branco. — O soldado abriu a boca e virou as costas e Polião corou até à raiz dos cabe­los. — Ou talvez queiram espreitar para dentro da fralda do meu bebê para ver se escondemos lá dentro uma lan­ça!

Não minha senhora, sei que vós e o vosso ma­rido sois amigos de Roma... — disse Polião. Resmungou qualquer coisa ao soldado que se virou com uma expres­são de alívio.

Não teria encontrado nada na cama, pensou Lhi- annon. Seriam eles tão ingênuos que pensassem que as armas seriam escondidas em locais tão fáceis de encon­trar? O legionário não descobriria a espada de Prasutagos a não ser que conseguisse mexer nos carvões, como ela aprendera a fazer em Mona. Tinham embrulhado as es­padas herdadas em cabedal oleado e tinham-nas enterra­do, bem fundo, por baixo da fogueira. Que a deusa que protegia o fogo da família as conservasse até serem no­vamente usadas.

E esse dia virá... quando Polião e o seu acólito saí­ram ela olhou ferozmente para as suas costas. Estas espa­das beberão sangue romano da mesma maneira que agora bebemos vinho romano...

Acreditara que para ela a guerra terminara. Pensara estar desligada da profecia. A consciência de ambas agi­tava-se agora dentro de si.

Fiquei aqui demasiado tempo...

 

Os desconhecidos vinham a coxear pelo caminho mesmo ao nascer do Sol. Quando chegaram ao portão já o ladrar furioso de

Bogle tinha acordado a quinta inteira. Boudica pôs um xale sobre a túnica interior e cambaleou ensonada até à porta, agarrando a coleira do cão. A sua ordem o ladrar transformou-se num rosnido subliminar.

Eram três, com os corpos e os rostos jovens pre­maturamente envelhecidos. Um tinha o braço ao peito. O outro trazia a cabeça enfaixada com um pano sujo. Am­bos apoiavam o terceiro, cuja perna estava enfaixada com ligaduras ensangüentadas do tornozelo até à coxa.

— Lhiannon — disse por cima do ombro —, vem depressa. Temos aqui homens feridos.

Senhora... — disse o do braço ferido —, por misericórdia, tendes alguma comida e um local escondido onde nos possamos deitar? Não vos traríamos proble­mas... ao pôr do Sol pomo-nos a caminho...

Isso é que não põem! — exclamou Boudica. — Não estão em melhor estado para viajar do que a minha menina. Entrem... aqui ninguém vos trairia, mas não sa­bemos quem pode andar por aí... não são os primeiros refugiados que passam por cá. — Desde que tinha sido anunciada a ordem de desarmamento, havia quem prefe­risse abandonar a sua casa a obedecer.

Mas aqueles não eram meros refugiados a fugir ao avanço dos Romanos, pensou com o coração pesado quando os ajudava a entrar. Aqueles homens tinham par­ticipado numa batalha e não fora há muito tempo.

O homem do braço partido chamava-se Mandos. Vinha de uma pequena quinta, não muito longe do forte onde Boudica nascera. Dos seus companheiros, o da ca­beça partida era Trinovante e o homem da perna ferida era originário de em algum lugar perto da costa. Não se conheciam antes da batalha, disse ele. Tinham acabado escondidos no mesmo bosque e desde aí andavam juntos.

Quando os três já estavam alimentados e lavados chegou Prasutagos. Lhiannon estava a cuidar do homem com a perna ferida, que tinha febre, mas os outros pare­ciam suficientemente recompostos para contar a sua his­tória.

Fico feliz por estardes aqui senhor — disse Mandos. — Os deuses sabem as histórias que circulam por aí. Sei que não acreditáveis que pudéssemos vencer e talvez tivésseis razão... — depois de lavada a sujidade mal parecia ter dezoito anos, dois anos mais velho que o ir­mão mais novo de Boudica que, rezava ela, esperava que o pai tivesse mantido afastado da rebelião.

Talvez — disse Prasutagos calmamente. — Mas pode ser que tivésseis razão em ter tentado. O que acon­teceu?

Deveria ter resultado! — disse o companheiro. — O nosso chefe de guerra era um homem dos pântanos que conhecia os caminhos para um montículo, uma ilhota de terras mais altas, que lá há. Ele achou que podíamos atrair os Romanos para lá, onde o terreno não seria bom para a cavalaria deles e desgastá-los à medida que nos a­tacassem.

Mandos assentiu em concordância. — Mas o co­mandante romano também era uma raposa. Desmontou os homens e eles atacaram-nos. As muralhas transforma­ram-se numa armadilha assim que os Romanos lá entra­ram. Tropeçávamos uns nos outros, tentando sair. Alguns dos habitantes locais tinham-se refugiado conosco. Havia velhos... crianças... chacinaram-nos a todos. Foi há quatro dias. — Deu mais um golo na aguardente. — Só pude­mos viajar de noite. De dia as patrulhas romanas andam à caça dos que fugiram.

Aqui estão a salvo — disse o rei. — Encontra­remos casas onde possam ficar.

Mandos abanou a cabeça com uma expressão de­masiado sombria para a juventude do seu rosto. —Agradeço-vos senhor. O nosso amigo da perna ferida certamente ficará. Mas este idiota trinovante e eu próprio continuaremos até encontrarmos uma terra onde nos seja permitido usar as nossas espadas! —Acariciou a lâmina amolgada que trazia à cintura. — Talvez nesse local en­contremos outros da Sociedade dos Corvos.

Boudica viu o marido estremecer e daquela vez foi ela quem ficou sem palavras.

Três dias após a partida dos jovens guerreiros o terceiro homem morreu. Ao pôr do Sol enterraram-no perto do santuário com a sua adorada espada na mão.

Quando regressavam à quinta apareceu um cavaleiro no topo do monte. Não tinha sinais de ter participado na batalha, mas a sua expressão era sombria.

Meu senhor Prasutagos, sois chamado a Dun

Garo.

O rei convocou outro conselho? Pensei que já tinha tornado clara a minha opinião!

Meu senhor, o Rei Antedios morreu. Foi o go­vernador romano que vos convocou e a todos os chefes sobreviventes dos clãs icenos.

Suponho que ele deve ter morrido de desgosto — disse Boudica depois de mandar o mensageiro para a quinta de Paios para comer e descansar. Recomeçou a andar pelo caminho que levava a Ramshill e Prasutagos, que ficara em silêncio desde que soubera da notícia, se­guiu-a. — O Antedios devia conhecer a maior parte dos que tombaram. Eu provavelmente brinquei com alguns deles quando era criança. — Apesar das histórias que Lhiannon contava sobre a guerra no sul, era difícil imagi­nar que homens novos que deveriam andar a montar a cavalo e a fazer filhos pudessem morrer tão facilmente.

Durante alguns minutos caminharam em silêncio mas ela viu o brilho das lágrimas nos olhos do rei. — Bem, não achas? Diz qualquer coisa! Não te atrevas a transformar-te novamente em pedra!

Achas que não tenho também o coração ma­goado? — Explodiu Prasutagos subitamente. — Desde que aqueles jovens entraram pelo teu portão que não pa­rei de pensar se não me deveria ter junto à rebelião, se as coisas poderiam ter corrido de maneira diferente com algumas cabeças sensatas para os comandar ou, pelo me­nos, se pudessem contar com mais algumas espadas!

E poderias ser tu quem estaria morto nos pân­tanos se tivesses ido... — respondeu ela. — E, nesse caso, o que faríamos?

Ele deteve-se no caminho com os olhos a seguirem um bando de corvos que sobrevoavam os campos. — Passaste bastante bem sem mim no ano passado e no ano anterior a esse... — disse ele baixinho ainda sem olhar para ela. — Sei que toleras a minha presença só por causa da criança...

Isso não é verdade! — exclamou Boudica e perguntou-se subitamente quando é que os seus senti­mentos se teriam alterado. Ele ficou muito quieto, de ca­beça baixa e ela não se atreveu a quebrar o silêncio. Cru­zou os braços sobre o peito sentindo um pouco de frio.

Passados alguns momentos ele recomeçou a andar. — Acho que se lá tivesse estado — disse em voz baixa —, poderia ter ajudado a vencer a batalha, mas teríamos perdido a guerra na mesma. O Caratac tinha razão: o tempo para as tribos se unirem foi há quatro anos, antes de as águias romanas terem cravado as garras nesta terra. Agora só podemos acomodar-nos o melhor que puder­mos.

Parou e virou-se para ela, a silhueta recortada con­tra o céu que escurecia.

Minha senhora, concordais comigo?

Boudica olhou para ele sentindo-se confusa. O que

interessava o que ela pensava sobre o que quer que fosse? Sem dúvida que a Lhiannon diria para continuar a luta, mas ela ainda se recordava da agonia no rosto daquele pobre rapaz ao morrer. Não seria a paz, mesmo com as conseqüências inerentes, melhor do que o desperdício de homens?

Sim meu senhor, concordo.

Tenho de ir a Dun Garo — disse ele grave­mente. — O vosso pai era o sucessor de Antedios, mas está velho. Sou o seguinte nos Parentes Reais e acho que eles vão tentar fazer de mim o rei da tribo unida. Os Ro­manos só o permitirão se confiarem no meu com­promisso com eles. Não o desejo, mas é muito bem capaz de ser a única forma de conservar a independência que temos.

Isolada na quinta, até à ordem de desarmamento, Boudica pudera fingir que era possível viver sem ser in­comodada por Roma. Mas Prasutagos não pudera dar-se a tal luxo.

Quando eu partir virás comigo, Boudica?

Ela não conseguia ver-lhe os olhos. Estendeu a mão para se certificar de que as palavras tinham sido di­tas, não por uma sombra, mas por um homem vivo e sentiu o músculo firme do seu braço tremer debaixo da sua mão.

Irei, meu marido. Prometo-te.

 

Lhiannon desatou o rolo da cama e estendeu-o ao lado da cama de Boudica. A cabana destinada à rainha e às suas mulheres quase não tinha tamanho suficiente para todas e não estava lá muito limpa, mas ela e Temella ti­nham conseguido torná-la habitável. Fosse quem fosse que viesse a ser o rei supremo, teriam que ali ficar até depois do Beltane.

Ergueu os olhos quando uma sombra tapou a por­ta aberta.

És mesmo tu! — disse uma voz que ela deveria reconhecer. — Alguém me disse que foras vista... Mal posso acreditar que seja verdade!

Quando Lhiannon se levantou reconheceu Belina e a sua figura ampla, ainda que tivesse mais fios grisalhos no cabelo.

Demos-te por perdida durante estes três anos depois de Rianor ter comunicado o teu desaparecimento de Avalon — disse a sacerdotisa. — Pusemos um lugar para ti no Samaine, filha. Pensamos que tinhas morrido ou partido para o país das fadas — não faças esse ar sur­preendido — não foste a primeira a ter conhecido a rai­nha dessa terra.

Tenho estado ao serviço da rainha desta terra — Lhiannon recuperou finalmente a voz.

Belina riu-se.

Sai dessas sombras e deixa-me ver-te, querida! Continuas magra como um fantasma... não te alimenta­ram, lá nos pântanos? Mas pareces saudável, que a Deusa te abençoe.

Lhiannon pestanejou quando saiu para a luz. O Dun Garo zumbia como uma colméia à medida que os clãs continuavam a chegar. Homens arrastavam toros pa­ra construir a grande fogueira de Beltane no meio do prado. Tinham surgido tendas numa confusão de cores por todas as pastagens. Do outro lado do rio uma paliça­da rodeava as fileiras ordenadas de tendas de cabedal que alojavam o governador romano e os seus homens, um lembrete mudo mas eloqüente de que, apesar de os pais do clã poderem eleger o seu novo rei supremo, era me­lhor não aclamarem alguém que não fosse merecedor da aprovação de Roma.

Mas não precisas de usar essa fita a tapar-te a testa... — Belina puxou pelo lenço que Lhiannon atara à cabeça para tapar o crescente de Avalon. — Mesmo que soubessem o que isso quer dizer, os porcos romanos não ligam ao que as mulheres fazem. — Teria Belina sido sempre tão tagarela ou precisaria das palavras para disfar­çar a emoção do encontro inesperado? — Devíamos ter imaginado que tu irias ter com Boudica. Ela sempre foi a tua preferida quando estava na escola.

O que estás aqui a fazer? — Conseguiu Lhian- non perguntar finalmente. — Quem mais veio? A Helve...

Oh não! Certamente que não achas que a nossa amada alta sacerdotisa se arriscaria entre o inimigo, apesar de estar bastante disposta a enviar-nos a nós para fomen­tarmos a rebelião por estas paragens... as outras sacerdo­tisas mais velhas, quero eu dizer.

Lhiannon riu-se. Parecia-lhe que pouca coisa mu­dara. — E para isso que estás aqui? Vais ter pouca sorte entre os Icenos... Os dentes deles já não mordem e Pra­sutagos não é homem para arriscar perder aquilo que a­inda tem — acrescentou amargamente. O rei não a escu­tara quando os argumentos dela ainda poderiam ter ser­vido para alguma coisa. Agora nem sequer se falavam.

Ele está assim tão agarrado ao poder? — per­guntou Belina.

Não é ao poder... — respondeu Lhiannon com honestidade. — E à paz. A Boudica daria uma melhor chefe de guerra do que ele, se tivesse nascido homem.

Belina assentiu.

Mas dará uma boa rainha? Para a aclamação do rei é preciso mais do que a eleição. A transferência da soberania é um assunto das mulheres. E melhor quando a rainha consegue fazer o ritual, mas não sabíamos se Bou­dica estaria à altura. Ela lembra-se de alguma coisa do que lhe ensinamos na escola?

Lhiannon baixou os olhos. — Não falamos nisso.

Ultimamente Boudica e Prasutagos pareciam estar mais confortáveis na companhia um do outro, mas ela continuava sem dormir com ele, apesar de a criança já ter sido desmamada. Se Boudica não partilhasse o seu poder, poderia Prasutagos reinar verdadeiramente? Teria isso alguma importância, agora que o verdadeiro poder estava em Roma? E o que restava ali para Lhiannon, se Boudica tomasse o seu lugar ao lado do marido?

Que outras ordens trouxeste de Oakhalls? — perguntou. Belina encolheu os ombros. — Da Helve, queres tu dizer...

O Lugovalus está enfraquecido e é ela quem dá as ordens atualmente. Fui mandada reunir todo o apoio possível a Caratac. O governador está a enviar as suas legiões para norte e para ocidente, para demasiado perto para que a situação seja confortável.

São uma ameaça para Mona? — perguntou Lhiannon alarmada.

Ele sabe que é o refúgio dos druidas — res­pondeu Belina. — Sabe que em Mona há algumas das terras mais férteis da Britânia e que poderemos sustentar, com cereais ou com magia, todos quantos estiverem dis­postos a lutar. Teria que ser estúpido para não perceber que enquanto existirmos o seu controlo sobre a Britânia não estará seguro.

Os Romanos não são estúpidos — disse Lhi- annon lentamente. — Mas esta é uma ilha grande. Se continuarmos a guerra contra eles, são capazes de decidir que seria idiota continuar a desperdiçar recursos e ho­mens...

Não perdeste a tua sensatez... — Belina deu-lhe um abraço aprovador. — Seja eu ou Boudica a fazer as honras, deverias vir comigo depois da aclamação ter sido feita. — Ambas as mulheres olharam para o local onde surgira uma agitação súbita, na direção do fogo do con­selho em frente do salão do rei supremo.

Depois da eleição do rei... — disse Lhiannon lentamente. — Nessa altura dou-te a minha resposta.

As pessoas começavam a passar apressadas à me­dida que a confusão se ia tornando mais ruidosa.

Prasutagos, filho da aveleira, Prasutagos filho do Sol, Prasutagos filho do arado, Prasutagos Ricon, Rei Iceno! — Ecoavam os gritos.

 

— Virai-vos, minha senhora e erguei o vosso bra­ço...

Boudica obedeceu, controlando as cócegas provo­cadas pelo pincel de penas com que a velha mulher lhe pintava uma série de espirais de um dos lados do corpo. A sua respiração era lenta e calma. O seu pulso batia ao ritmo das vibrações que sentia por baixo dos pés, a batida do coração dos tambores de Beltane.

Raios do Sol que se punha passavam pelas cortinas toscamente tecidas com que tinham feito as paredes e o teto da tenda das mulheres, lançando reflexos de luz fos­ca sobre a relva. A máscara da Égua Branca estava pen­durada no poste central, aguardando pela sua vez de de­sempenhar o seu papel na transformação de Boudica. A­través das paredes de pano o ruído do festival chega­va-lhe estranhamente abafado, como se aquele espaço estivesse separado do mundo.

Tal como eu estou separada do meu antigo eu... pensou lentamente. A espera de descobrir o que irei ser... Para suportar o tédio das pinturas no corpo, recorrera à disciplina que aprendera em Mona; estava sentada e tão imóvel como a imagem em que a pintura a estava a transformar. As suas costas e barriga nuas já exibiam as figuras da Lebre e do Javali em corrida, com uma série de cavalos escapulin- do-se entre os dois, totens que os Celtas invasores tinham herdado dos povos conquistados.

No anel de Terra, Prasutagos estaria a receber as bênçãos dos druidas que tinham testemunhado o jura­mento dos chefes tribais ali reunidos para a sua aclama­ção. Mas a Rainha dos Cavalos, que abençoava os ritos de Beltane, era a sacerdotisa de uma magia mais antiga. Os druidas consagravam o rei à tribo. A Deusa ligava-o à terra em que viviam. Boudica ainda não sabia se conseguiria submeter-se a uma energia tão avassaladora. Belina estava preparada para a substituir, mas se Boudica falhasse tal significaria também o fim do seu casamento.

Uma parte do seu espírito estava imobilizada no interior do seu corpo, os seus queixumes reprimidos pela mesma disciplina que lhe imobilizava os membros. Desta vez, pensou, não poderia cavalgar na erva vermelha até à liberdade. Desta vez, a Égua Branca cavalgá-la-ia a ela.

Está pronto... — disse a velha mulher. Lenta­mente, ela baixou o braço.

Volta minha querida... — O rosto de Lhiannon apareceu na sua frente. — Já podes dominar novamente os teus membros. Expira e inspira e expira novamente. Isso... estás aqui comigo e o ritual iniciar-se-á em breve. Regressa!

Boudica pestanejou quando as sensações a percor­reram em vagas, consciente da tinta dura sobre a sua pele, da tagarelice das mulheres, subitamente ruidosa nos seus ouvidos. O Sol pusera-se; estava rodeada por sombras. Estremeceu. A procissão do rei apareceria em breve.

Não! — Estava Nessa a dizer a alguém na en­trada. — Não podes vê-la. Este espaço está vedado aos homens, especialmente a ti! Vai-te embora antes que eu chame os guerreiros para te atirarem para a lixeira... para isso não precisarão de espadas!

Quem é? — perguntou Boudica.

Ninguém que vos interesse... — resmungou a velha mulher suspirando ao ver o olhar feroz de Boudica. — É aquele Polião... diz que tem que falar convosco.

A irritação inicial transformou-se em alarme. — Eu falo com ele — disse numa voz baixa. — Lhiannon, mantém as mulheres afastadas até eu terminar. — Apro­ximou-se da cortina.

O que foi? Tendes que falar rapidamente — murmurou através do pano.

Deixai-me ver o vosso rosto Boudica — disse a voz com o sotaque atrébate seu conhecido.

Pela Deusa, não! — corou com uma súbita consciência do corpo nu. — Nos tempos antigos ter-vos-iam dado de comer aos corvos por vos terdes aproximado tanto do santuário das mulheres.

Não tendes que fazer isto! — As palavras de Polião atropelavam-se. — E do conhecimento geral que não recebeis o vosso marido na vossa cama... não tendes que o deixar deitar-se convosco agora. Não fará qualquer diferença. Prasutagos é rei porque tem o apoio de Roma, não por causa de um qualquer ritual primitivo.

De que falais? — Desde aquele dia na neve, em que ele tentara beijá-la, que mal vira o homem e nunca sozinha. Teria ele construído uma fantasia em que ela o amara durante todo aquele tempo?

Deixai o vosso marido! Vinde comigo! — sibi­lou ele. — Sois uma princesa da casa real... podeis chegar a rainha reinante como a Cartimandua!

Estais louco! — disse ela com convicção. — E isto é um sacrilégio!

Eu amo-vos Boudica! Sei que não vos sou indi­ferente!

Na verdade não sois... — respondeu ela com uma fúria contida. — Um homem que tenta a mulher de um aliado a trair o seu casamento só merece desprezo! E essa a honra que ensinam em Roma?

O fato de ela própria se ter sentido tentada a fugir não tinha importância: nunca o teria feito com aquele porco romano! E, naquele instante, Boudica apercebeu-se de que toda a sua ambivalência desaparecera.

Mas minha senhora... — As palavras dele foram interrompidas pelo som dourado do corno de carynx que reverberou pelos ares do fim de tarde.

Eles vêm aí! Matar-vos-ão se vos encontrarem aqui. Ide e maldito sejais, Romano! Este aviso será a últi­ma palavra que ouvireis de mim!

Ouviu o roçar dos passos que fugiam quando os cornos soaram novamente e recuou, respirando rapida­mente.

Que queria ele? — perguntou Lhiannon.

Nada que interesse — resmungou Boudica, sa­tisfeita por a pouca luz disfarçar a vermelhidão que lhe aquecia as faces. Lhiannon era a última pessoa a quem queria revelar a proposta vergonhosa que o Romano lhe fizera.

Lá fora os tambores rufavam atraindo as atenções. As vozes graves dos druidas subiam e desciam, cada vez mais próximas, afastando-se depois quando o rei foi es­coltado para o assento de honra junto ao fogo. Ali, o que estava em causa, era mais do que aquela cerimônia. Se Belina desempenhasse naquela noite o papel de sacerdo­tisa, ficaria ligada ao rei apenas quando a Deusa estivesse presente. Mas se Boudica assumisse esse papel, então re­ceberia Prasutagos e Epona no seu coração. Boudica sen­tiu um arrepio de antecipação percorrer-lhe a pele. Lhi- annon trouxe uma capa branca e pousou-lha nos ombros para protegê-la do ar que estava a ficar mais fresco. A cortina da porta moveu-se e ela viu a mãe.

Oh minha filha, está tão bela... ainda mais bela do que no dia do teu casamento — disse Anaveistl com um sorriso trêmulo. — Só queria ver-te e agora vou vol­tar para casa, para o pé da nossa menina querida...

Boudica acariciou a mão da mulher mais velha. Ao conhecer a sua neta, Anaveistl ficara imediatamente enfei­tiçada. Rigana não poderia ter uma ama mais devotada.

O que se está a passar agora? — perguntou depois de a mãe sair.

O rei foi sentado — respondeu Belina. —Acho que já está suficientemente escuro para poder abrir um pouco a cortina. Se te sentares aqui poderás ver...

Um dos druidas ajoelhou-se para chegar o fogo que trouxera do Anel de Terra à pilha de lenha que estava ao centro; ouviu-se um grande grito quando esta se in­cendiou. Os tocadores de tambor explodiram num som trovejante quando uma fila de rapazes armados com paus começou a dançar em torno da fogueira.

Deveriam ser mais, pensou Boudica com tristeza. Aqueles eram os irmãos mais novos dos homens que ti­nham morrido na batalha dos pântanos. Mas giravam e golpeavam o ar com valentia. Estaria Prasutagos a pensar o mesmo? Ele parecia cansado, mas as suas feições exi­biam a habitual calma controlada. Como tinha que ser, pensou, se ia reinar. Pulseiras de ouro brilhavam nos seus braços fortes e um torque de ouro envolvia-lhe o pes­coço. Tinham-lhe vestido um kilt e uma capa ao estilo antigo. Nunca reparara que as suas pernas eram tão mus­culadas e bem feitas como os seus braços.

Bem, quando é que tive a oportunidade de reparar nisso?, pensou com um assomo de vergonha e de algo mais. Uma chispa de excitação aqueceu-a quando se apercebeu que podia olhar para ele tanto quanto lhe apetecesse, pois ele não a podia ver.

Algumas das raparigas escapuliram-se da tenda das mulheres e foram juntar-se à fila das donzelas que dese­nhavam padrões sinuosos em volta do fogo. Estavam coroadas com ramos de pirliteiro e, à medida que iam aquecendo com a dança, primeiro uma e depois outra soltaram os alfinetes que lhes prendiam as roupas nos ombros, ficando estas apenas seguras por um cinto e dei­xando à mostra os seios brancos.

Alguém trouxe a Boudica um copo de vinho; sen­tiu o calor nos membros e, na cabeça, um pulsar rítmico que acompanhava a batida dos tambores.

Os rapazes regressaram para fazer círculos em vol­ta das donzelas, dançando na direção delas até quase as tocarem e depois afastando-se novamente a girar sobre si próprios. Os olhos ficavam mais brilhantes e os rostos corados e não só devido ao calor do fogo. Prasutagos sorria. Seria a imaginação que a fazia pensar que a pulsa­ção na base da sua garganta estava mais rápida ou seria apenas o pulsar que sentia na sua própria garganta?

Aquele festival não se destinava apenas a honrar o novo rei mas também a dar as boas-vindas ao Verão e a fazer tudo quanto estivesse ao alcance dos homens para encorajar um ano generoso. Boudica lançou um olhar a Lhiannon, recordando como a mulher mais velha tivera a esperança de encontrar Ardanos nos fogos de Beltane. A criança que ela fora não compreendera a mensagem en­viada pelos tambores. A sua carne compreendia-a agora.

Os tambores rufaram num floreado final; homens e mulheres tinham dado as mãos e fugido a rir para a es­curidão. Subitamente o círculo ficou imóvel.

Chegou a hora... — disse Lhiannon numa voz neutra como se também ela estivesse a tentar contro­lar-se.

Pois chegou... — Belina virou-se para Boudica. — Estás pronta, minha querida?

Boudica não teria conseguido falar, mas o seu corpo respondia por ela. Levantou-se. Estendeu o braço para tirar a máscara da Égua Branca das mãos da sacerdo­tisa. Enfiou o cabedal moldado na cabeça, sobre o cabelo que fora enrolado para a segurar e Lhiannon apertou os cordões. O pescoço da máscara descia pela sua nuca até aos ombros, a cabeça escondia-lhe o rosto, as peças da frente moldando-se às suas faces e o focinho espetado para a frente. A crina fora feita com pêlos verdadeiros.

— Agora... — A voz de Lhiannon pareceu-lhe vir de um lugar muito distante. — Agora és a rainha...

Boudica quase não dava pelo peso do cabedal. Quando a máscara se fechou sobre a sua cabeça sentiu uma pressão corresponder no interior do seu crânio que empurrou o eu, que tinha como sendo seu, para um qualquer local de onde podia apenas observar com terror e espanto enquanto o seu corpo se retesava como o de um cavalo jovem que se debatesse contra os arreios. Quantas rainhas teriam usado aquela coroa? Estavam to­das presentes, murmurando, as suas vozes fundindo-se numa única Voz.

Chegou a hora de correr? — surgiu a pergunta. — Chegou a hora de dançar?

A sua espinha foi percorrida por tremores que se espalharam pelos braços que se agitavam e pelas pernas fortes que calcavam e batiam na terra. Cambaleou e foi amparada por mãos suaves. A crina agitava-se quando abanava a cabeça e o ar explodia-lhe nos pulmões com um som que era meio gargalhada meio relincho. Tentou resistir, tal como tentara resistir a Morrigan. Esta deusa era simultaneamente mais selvagem e mais benigna, mas era igualmente forte.

Tu já Me conheces, minha filha, de que tens medo? Não te lembras de como cavalgaste a égua vermelha?

E quando Boudica recordou essa cavalgada ao luar, o passado e o presente, cavaleira e montada transforma­ram-se num só. Quando era pequena implorara um cava­lo ao seu pai e galopara com ele em volta do forte até o domar. O seu corpo já conhecia os movimentos. Dei­xando cair a capa que tinha nos ombros, correu a cortina para um lado e avançou na direção do fogo.

Um murmúrio de espanto percorreu o círculo, mais alto do que as flautas e as pandeiretas que tinham começado finalmente a tocar. —A deusa está entre nós... Epona veio até nós... a deusa veio até ao rei...

Os totens de todos os clãs moviam-se quando os seus músculos se contraíram por baixo da pele branca. Virou-se, de braços estendidos, abraçando-os a todos. As mulheres choravam, os olhos dos homens brilhavam com uma esperança que ali não estivem antes Ela levou o seu tempo, pois aquelas pessoas tinham sofrido e precisavam do Seu amor. Uma vez, duas vezes, três vezes, percorreu o círculo, abençoando a Sua tribo e depois, finalmente, deve-se na frente do rei.

A calma de Prasutagos desaparecera. Nas suas fa­ces brilhavam vestígios prateados de lágrimas e nos seus olhos o espanto e a alegria. A máscara moldada fez uma vénia na sua frente e ergueu-se com um abanar da crina. Um arrepio percorreu-lhe o corpo; ela virou-se, ofere- cendo-se como uma égua. Mas também era uma mulher: virou-se novamente para ele, oferecendo-lhe os seios fir­mes que tinham amamentado a sua filha, passou as mãos pela barriga, realçando o ventre que recebera a sua se­mente.

Vem! — soou a ordem numa voz que simulta­neamente era e não era a sua.

O rei levantou-se, debatendo-se com o fecho de ouro do cinto deixando depois cair o kilt. O seu pênis já estava inchado e ereto. Seria do ritual ou seria ele verda­deiramente mais dotado do que os outros homens? O povo gritou em aprovação quando ele se aproximou dela. Tal como Ela era a deusa, ele aparecia perante eles como a imagem do deus.

Vem e serve-Me — murmurou ela. A energia vibrou através de ambos quando ele lhe pegou na mão.

Abria-se um caminho por entre a multidão na frente de ambos. Mais adiante o campo arado aguardava para se tornar no seu leito.

 

Quem me dera que não nos deixasses... — disse Boudica pegando na capa de viagem que Lhiannon aca­bara de abrir e dobrando-a novamente. No Dun Garo a rainha e as suas mulheres tinham uma casa-solário para as suas atividades, construída num anel cujo centro era a­berto para o céu. A luz era bem-vinda, mas a companhia de tantas mulheres tagarelas irritava os nervos de Lhian- non. Ali havia mais espaço para empacotar todas as coisas que a rainha insistira para que ela e Belina levassem na viagem.

Precisamos de ti aqui, Lhiannon. Precisamos das tuas capacidades curativas e da tua sabedoria — con­tinuou Boudica.

Se tivesses dito, "Eu preciso de ti aqui, Lhian­non", eu era capaz de ficar... pensou com tristeza. — Já não estás sozinha na quinta — disse em voz alta. — Tens cu­randeiros e homens sábios e guerreiros em quantidade aqui em Dun Garo. Já é tempo de eu voltar a ser sacerdo­tisa. — Resgatou a capa dos dedos nervosos da rainha e pô-la no braço.

A maior parte dos druidas vivem nos fortes dos chefes tribais e não na Escola... — respondeu Boudica. — Se queres enfiar sabedoria na cabeça dos jovens, fica aqui e enfia algum juízo na cabeça da Rigana! — Naquela manhã a menina conseguira iludir as suas guardiãs. As suas pequenas pernas tinham-na levado até junto da ofi­cina do ferreiro antes de ouvirem Bogle a ladrar e a terem encontrado a chorar porque o cão não a deixava chegar ao fogo.

Para o tipo de cuidados de que ela precisa agora o Bogle é um guardião melhor do que eu alguma vez seria

respondeu Lhiannon. Curvou-se para fechar o saco.

Minha querida, isto não é para sempre. Eu visitar-te-ei e, quando ela for mais velha, poderás enviar a Rigana para ser educada como tu foste educada. .. — Se ainda houver uma Escola para onde ela ir, veio o pensamento. Mas não partia para poder fazer o que estivesse ao seu alcance para preservar a vida que sempre tinham conhecido?

Sim, mas... — As palavras de Boudica esmore­ceram. Lhiannon ergueu os olhos e viu que o rei entrara. A rainha virou-se para ele como uma flor se vira para o sol. Desde Beltane que aquilo acontecia. O casamento fora finalmente consumado, não apenas na carne mas também no espírito. A rapariga transformara-se numa mulher, sacerdotisa para o seu marido bem como rainha.

Não, eu parto porque ela já não preása de mim, reco­nheceu Lhiannon quando Boudica se aninhou no braço de Prasutagos. O que é que esperara? Que tendo perdido o homem que amava fosse encontrar uma substituta em Boudica, preservando assim a sua virgindade? Lhiannon sabia muito bem que não era o contato físico mas o laço emocional que este gerava que constituía uma distração para um oráculo. Só o fato de ter aquele tipo de pensa­mentos a desqualificava. Tenho de recuperar a minha soberani­a.

Lhiannon, estás pronta? — chamou Belina da porta. Pegou no saco. Prasutagos e Boudica vieram abra­çá-la — juntos — agora ficariam sempre juntos.

Minha senhora, agradeço-vos tudo o que fizes­tes... — murmurou o rei.

Lhiannon... — A voz de Boudica tremeu. — Tem cuidado! Tem cuidado!

Ela não tinha palavras. Beijou-os a ambos e saiu para a luz brilhante do Sol.

 

Boudica encostou-se à trave de cima da cerca que rodeava o prado doméstico de Dun Garo, observando Roud a mover-se graciosamente sobre a erva, o pelo cas­tanho avermelhado brilhando à luz do Sol. Parava para mastigar um pouco de erva e depois, abanando seduto­ramente a cauda, virava-se para confirmar se o garanhão cinzento do rei a seguia. Boudica não se apercebera de que a égua vermelha estava com o cio. Pensou quanto tempo levaria o garanhão a cobri-la.

E quanto tempo levará Prasutagos para me fazer o mesmo? Ao pensar nisso, sentiu o calor inundar-lhe a pele. As su­as recordações do ritual de Beltane eram fragmentadas, mas a lembrança da autoridade com que o seu marido a possuíra todas as noites desde então deixava-a úmida de desejo. E como se a idéia o tivesse chamado, um sentido que Boudica não soubera possuir avisou-a de que o rei se aproximava.

Virou a cabeça e sorriu-lhe dando as boas-vindas, pensando como pudera alguma vez ter visto aquele passo gingado sem desejar que o seu corpo forte estivesse junto ao dela, ou olhado para as feições irregulares sem desejar fazê-lo sorrir.

— Ainda bem que vos vejo, minha senhora... — Os seus lábios abriram-se num sorriso quando se aperce­beu do que se estava a passar. — Espera-se que o rei e a rainha tragam fertilidade ao reino, mas não pensei que o efeito fosse tão imediato.

Rindo, ela meneou as ancas como a égua estava a fazer e recuou encostando as nádegas às virilhas dele. Sentiu-o endurecer contra o seu corpo e afastou-se rapi­damente. Dançara nua na frente de toda a tribo nos ritu­ais de Beltane, mas não poderia fazer o mesmo ali.

Isso foi... sensato — disse ele um pouco ofe­gante. — O rei deve demonstrar autocontrole bem como virilidade e, se te tocar outra vez, vou pôr-te de joelhos na erva...

Sim... — disse ela numa voz insegura, sentindo mais do que desejo. Ele respirou fundo e olhou-a nos olhos. Já não estavam a tocar-se, mas ela sentia-o tão for­temente como se estivesse dentro de si. Aquilo não era luxúria, não era apenas luxúria. — Que aconteceu co­nosco?

Prasutagos engoliu em seco. Fosse o que fosse, ele também estava enfeitiçado.

Entre um rei e uma rainha deve existir conside­ração e respeito — disse como se aquilo fosse uma lição aprendida de cor. — Nunca me atrevi a ter a esperança...

Do amor... — respirou ela, permitindo-se re­conhecê-lo e aceitá-lo finalmente. Viu a expressão dele ficar radiante quando se apercebeu de que aquilo era para ambos o perdão do que acontecera antes e uma promessa do que estava para vir.

Devo desculpas, pensou Boudica, ao espírito da fonte sa­grada...

 

Lhiannon curvou-se para encher o cantil repri­mindo a vontade de tirar os sapatos e mergulhar os pés na lagoa. O cavalo tinha ficado coxo naquela manhã e ela viera a pé, com o animal à rédea, durante o resto do dia. Uns quantos pedaços de tecido flutuavam nas árvores em torno da água. Os habitantes locais que lhes tinham dado leite e queijo chamavam àquele sítio Vernemeton, o bos­que sagrado. Não seria bom ofender o espírito da nas­cente.

Recostou-se, inspirando profundamente o ar fres­co e úmido. Havia ali uma grande paz. Gostava de poder demorar-se algum tempo. Tentou convencer-se de que era por estar cansada da viagem, mas quanto mais viajava na companhia de Belina e dos outros druidas que se ti­nham juntando ao grupo enquanto atravessavam a Britâ­nia, mais se recordava da razão porque ela e Ardanos ti­nham ficado satisfeitos por poderem partir.

A Lua, que estivera no quarto minguante quando o pequeno grupo de druidas saíra de Dun Garo, já tinha ficado cheia e estava novamente minguante. Nos tempos antigos teria sido uma viagem ligeiramente mais curta, mas os Romanos andavam a patrulhar com mais freqüên­cia do que seria de esperar o território dos seus aliados da zona central, com receio de que Caratac e os guerreiros Ordovices atacassem novamente.

Suspirou e levantou-se quando Belina chamou o seu nome. Os outros já tinham acendido uma fogueira. Lhiannon deitou a água para o caldeirão e Belina despe­jou o saco de tecido grosseiro que continha carne seca e cereais. Dois dos druidas estavam a discutir as formas de cálculo das datas dos festivais. Eram ambos homens ido­sos que abandonavam os clãs que tinham servido com medo da proibição romana. O que fariam as pessoas para obter acompanhamento espiritual se todos os druidas procurassem refúgio em Mona? O que fariam os Roma­nos, pensou com apreensão, se se apercebessem da quan­tidade de druidas que lá havia?

Quando a comida ficou pronta já estava bastante escuro. As muralhas cheias de ervas do forte abandonado na colina por cima deles recortavam-se contra as estrelas. Naquela época era o local usado na região para a celebra­ção de feiras e festivais sazonais. Lhiannon esperava que nunca fosse preciso para mais nada. Os últimos anos ti­nham-na feito desgostar das fortalezas nas colinas. .. era demasiado fácil para aquelas paredes transformarem-se em armadilhas para aqueles que deviam proteger.

E o Lugovalus tem a certeza de que os Roma­nos não chegarão a Mona? — perguntou um dos ho­mens.

Será alguma coisa certa com exceção, talvez, das profecias de Helve? — perguntou Belina. — Mas só poderão alcançar-nos pelo caminho costeiro e será difícil fazê-lo com tantos homens.

Mas se o fizerem — insistiu o homem —, con­seguirá o druida-chefe defender-nos? Ouvi dizer que a sua saúde está muito fraca.

Os últimos anos foram difíceis para ele como o foram para todos nós — disse Belina pacientemente ser­vindo as papas de aveia.

Mas se ele morrer quem lhe poderá suceder? O Cunitor é o mais graduado, mas não é muito vigoroso, se bem me recordo.

Suponho que a escolha recaia sobre Ardanos, mas esperemos que essa necessidade seja adiada...

Lhiannon pestanejou quando o mundo se trans­formou num turbilhão de sombras perfuradas pelo fogo. Uma forte queimadela na coxa despertou-a e aperce­beu-se que despejara metade das papas que tivera na taça. Limpou as papas atabalhoadamente com a manga.

Lhiannon, estás a sentir-te bem? — Belina es­tava a seu lado com um pano.

Desculpa... — disse atordoada. — Não queria estragar comida. Ardanos... — Respirou com dificuldade. Não iria admitir que durante todo aquele tempo pensara que ele estava morto. — Vi-o pela última vez na queda do Forte das Pedras... Fico... feliz por ter escapado.

Oh, claro, estiveste tão incontactável que não poderias saber disso. Ele foi ferido e deixado como mor­to, é verdade, mas agora está bem. Vai ficar contente por te ver... — acrescentou alegremente. —Andou durante meses com cara de maçã azeda a pensar que estavas per­dia. Tinha-me esquecido de que vocês trabalharam juntos durante algum tempo quando o Caratac andava a comba­ter com as tribos do Sul. Devem ter-se tornado bastante próximos... — continuou ela a tagarelar.

Próximos..., pensou Lhiannon. Tão próximos como o

sangue e a respiração. Ele está vivo e vê-lo-ei em breve!

 

Quando deram a volta ao penhasco de granito Lhiannon susteve a respiração estremecendo quando, por um instante, o odor frio e salgado deu lugar ao aroma doce e verdejante da ilha mais além, uma promessa de santuário no cinzento dominante do mar. Para lá das ár­vores conseguia avistar as águas azuis do estreito e a ilha de Mona, uma ilha mágica rodeada por magia, brilhando dourada ao sol da tarde.

Estremeceu novamente quando o vento ficou mais forte. Ataques de tremuras acometiam-na de tempos a tempos desde que soubera que Ardanos estava vivo. Be­lina dera-lhe remédios para as febres e Lhiannon não a contradissera, apesar de saber que aquilo não se devia a qualquer doença do corpo sendo apenas um sintoma da sua agitação interior.

Teria Ardanos mudado? Pareceria mais velho? E ela? Tinham perdido tanto tempo, desperdiçado tantas oportunidades. Vira na realização que Boudica encontrara finalmente o que um verdadeiro casamento podia ser. Ela seria a Deusa para Ardanos e renovariam o mundo.

Como se se movesse num sonho conduziu o ca­valo atrás dos outros pelo caminho. Uma chata estava junto ao cais. Lhiannon atravessou com o segundo grupo. Quando franquearam os portões de Oakhalls já se reunira toda a comunidade. Eram em maior número do que ela recordava, sacerdotes e sacerdotisas que tinham fugido ao avanço dos Romanos. Não invejava o trabalho que Helve devia ter para os manter a todos bem alimentados e ocu­pados.

Ainda a cavalo, Lhiannon procurou a cabeça ruiva de Ardanos na multidão. Esta estava a abrir caminho para que a alta sacerdotisa viesse, em pessoa, dar-lhes as bo­as-vindas com

Coventa, mais alta mas pouco mais mudada do que isso, um pouco atrás. E atrás dela mais um grupo, mas apenas uma face com significado para Lhiannon. Quando Helve avançou ele deteve-se, ergueu os olhos e encontrou o seu olhar interrogador.

Os lábios dela moveram-se mas não produziu qualquer som. Toda a cor desaparecera do rosto dele. Uma mulher amparou-o quando ele cambaleou. Mas nessa altura já Lhiannon saltara do cavalo e corria na sua direção.

Lhiannon... — ouviu-se a voz de Helve nas su­as costas. — Mas que milagre ter-te novamente entre nós! Como podes ver a nossa comunidade adquiriu muitos novos membros. Ardanos... tens que apresentar a tua mulher e a tua filha...

Pela primeira vez Lhiannon olhou para a mulher que o amparava. Os cabelos longos e loiros estavam ata­dos por baixo do lenço. Uma túnica verde cobria um corpo que se tornara provavelmente mais cheio desde o nascimento da criança de dois anos, com cabelos claros, que se agarrava às suas saias.

Não, o meu homem está demasiado espantado para dizer o que quer que seja e é ele um bardo profis­sional! — exclamou a mulher com o sotaque da tribo dos Durotriges. — Sou Sciovana e esta é a nossa filha, Pdieis.

Ele falou-me muito de vós, minha senhora... Sei que deve ser maravilhoso para ele ver-vos viva!

Aquele discurso salvara-os a ambos, pensou Lhi- annon desviando o olhar de Ardanos, que recuperava a compostura, para Helve que os observava com o que pa­recia ser um sorriso malicioso. Não podia gritar com a­quela mulher que lhe sorria tão amavelmente nas bo­as-vindas, e não daria a Helve a satisfação de saber que a sua pequena surpresa magoara Lhiannon tão pro­fundamente como ela desejara.

Coventa apareceu ao seu lado. — Lhiannon, deves estar exausta da viagem — disse suavemente. — Vem, vamos guardar as tuas coisas... depois do jantar terás

tempo de conversar com os velhos amigos...

 

Era verdade que era mais fácil enfrentar a maior parte das coisas de barriga cheia, pensou Lhiannon, ainda que não esperasse que Coventa o soubesse.

Fico surpreendida por continuares a usar linho cru — indicou a túnica de linho cru de donzela que a ra­pariga envergava. — Pensava que por esta altura já te fosse ver a usar o azul das sacerdotisas.

Coventa encolheu os ombros. — Estou pronta, mas a Helve achou que as estradas estavam demasiado perigosas para a viagem até à minha terra depois da ceri­mônia em Avalon. Talvez no próximo ano, se as coisas acalmarem.

Bem, essa podia ser a razão. Mas poderia haver outras razões. Coventa sempre fora delicada. Agora tinha um aspecto positivamente etéreo, como se não precisasse de entrar em transe para visitar o Outro Mundo.

Tens passado bem, filha? — perguntou.

Oh, segura como tenho estado aqui na ilha, como poderia não ter passado bem? — perguntou Co- venta alegremente. — Foste tu quem andou metida em aventuras perigosas...

Fizera uma cama para Lhiannon na Casa das Sa­cerdotisas e ajudara-a a guardar as suas poucas coisas e trouxera-lhe uma taça com carne e vegetais da figueira central para que pudesse comer em paz.

Quando estamos no meio da história o perigo torna-se mais evidente do que a aventura... — disse Lhi- annon ironicamente. — Esse tipo de momentos é mais agradável quando experimentados em segunda mão, a­través de uma balada de um bardo junto a uma fogueira.

Nem todas as boas histórias são sobre terro­res... — comentou Coventa. Sentou-se de pernas cruza­das aos pés da cama de Lhiannon. — Fala-me da Boudi­ca. Tenho tantas saudades dela. E mesmo verdade que fugiu do marido na noite do casamento?

Lhiannon abanou a cabeça, maravilhada por a his­tória ter chegado tão longe. — Fugiu sim, mas agora es­tão muito felizes...

Suspirou, recordando os poucos dias em que tivera a esperança de vir a encontrar uma felicidade semelhante e, como se o tivesse invocado, ouviu a voz de Ardanos no exterior.

A Lhiannon está aqui? Sente-se suficientemente descansada para vir dar um passeio comigo?

Coventa olhou interrogativamente para Lhiannon que se levantou e pegou num xale. Soubera que teriam que ter aquela conversa, mais cedo ou mais tarde. E, quando isso acontecesse, ela poderia esquecer os seus sonhos ou, se tal se revelasse impossível, atirar-se ao mar.

O Sol pusera-se, mas tão perto do pino do Verão, o céu continuava brilhante apesar de não haver nenhuma fonte de luz visível. Fazia-a lembrar-se da luz no mundo das fadas. Quando atravessaram o círculo da fogueira Lhiannon viu que tinham sido construídas mais cabanas em seu redor. Os pilares esculpidos dos portões eram os mesmos, bem como as árvores que sombreavam o cami­nho para o Bosque Sagrado. E, no entanto, pareciam es­tranhas aos seus olhos, tal como o homem que caminha­va a seu lado era um estranho, coxeando um pouco ao descer o caminho.

A tua filha é muito doce e a tua mulher parece ter bom feitio e ser bondosa — disse educadamente.

Lhiannon, pensei que tinhas morrido! — Ar­danos respondeu à pergunta oculta nas suas palavras. — As espadas golpeavam o ar à tua volta e depois eu fui a­tingido. Pensei que eu próprio estava morto. Os Roma­nos pensaram o mesmo, ou por esta altura eu seria es­cravo na Gália. Atiraram-me para uma pilha de cadáveres e, se não tivesse sido encontrado pelas pessoas da quinta mais próxima, que andavam à procura de alguns dos seus homens, teria servido de alimento aos corvos.

Ela não disse nada. O Bosque Sagrado estava na frente de ambos. Por acordo tácito detiveram-se mesmo no exterior.

A família da Sciovana recebeu-me — continuou ele. — Eu perdera uma grande quantidade de sangue. Ela cuidou de mim e quando eu delirava, de desgosto e dor, embalava-me nos seus braços.

A dor não era suficiente para te impedir de te aproveitares da sua generosidade, pensou Lhiannon.

Eu não sabia o que fazia, mas quando recuperei o juízo e percebi que engravidara a rapariga, estava dis­posto a casar com ela. Que importância tinha, se estavas perdida para mim?

Poderia culpá-lo, pensou ela, lembrando-se de como procurara conforto junto de Boudica. E se Boudica a tivesse amado como Sciovana amara Ardanos, ela nem sequer estaria ali. Mas aqui estava ela, e a sua dor não a deixava condoer-se da dele.

Ele ficou a olhá-la, com os olhos cheios de lágri­mas. — O meu amor é uma rapariga com o cabelo como uma bandeira amarela — murmurou. — Macio como o peito de um cisne... — Engoliu em seco e pegou-lhe na mão. — És uma sacerdotisa, Lhiannon e a Sciovana nun­ca poderá sê-lo. Nos grandes rituais poderemos ficar juntos, sacerdote e sacerdotisa, convocando o poder!

— Tens tudo planeado, ao que vejo! — Lhiannon arrancou a mão das dele. — Uma mulher para o altar e uma para a casa... Mas que conveniente! Mas eu não fi­quei virgem estes anos todos para me tornar na tua a­mante mágica! Regressa para a tua mulher, Ardanos! Ela parece ser uma boa mulher e merece melhor, mas parece que te ama...

Ele tentou segurá-la mas, com um puxão rápido, ela desceu o caminho a correr. Não se deteve até chegar à Casa das Sacerdotisas onde se deixou cair, em pranto, nos braços de Coventa.


 

A Helve pergunta se a servirás esta tarde... — disse Coventa. A Primavera chegara finalmente à ilha e um vento suave agitava-lhe os cabelos claros.

Minha filha, estás a mentir... — Lhiannon er­gueu os olhos do moinho com que estava a moer cereais e sorriu. — A Helve não envia pedidos às suas subordi­nadas. Tu devias trazer-me a sua ordem...

Bem, sim... —. Coventa corou. — Mas ela fala assim porque acha que a sua dignidade o exige. De ver­dade que ela consegue ser muito bondosa.

Contigo, talvez, pensou Lhiannon. Se a crença na bondade de Helve fazia com que a mulher mais nova se sentisse melhor com a posição que ocupava na ilha, teria sido cruel privá-la disso, em especial agora que Helve transferira as suas atenções para uma nova rapariga cha­mada Nodona. Com a exceção de ter o cabelo negro, lembrava a Lhiannon vivamente Coventa quando era muito nova.

Podes dizer à alta sacerdotisa que irei.

Enfiou outra mão cheia de grãos no buraco da mó de cima, agarrou o cabo polido pelo uso que servia de pega e começou a girá-lo novamente. Era o tipo de tra­balho árduo que deveria ter delegado em alguém como Sciovana, mas os movimentos repetitivos tinham um e­feito anestesiante que ajudavam a passar os dias.

Antes de ir ter com Helve, contudo, Lhiannon ti­rou o tempo necessário para se lavar e vestir uma túnica limpa. Ficou satisfeita por o ter feito quando viu que a alta sacerdotisa não estava sozinha. Lugovalus e Belina, Cunitor e Ardanos e alguns escolhidos entre os druidas mais velhos refugiados em Mona também estavam pre­sentes.

A Coventa não me disse que isto era um conselho... talvez porque Helve temesse que eu recusasse partiápar, pensou ironi­camente, apesar de não ser verdade ela evitar completa­mente a companhia de Ardanos, limitava-se apenas a re­cusar-se a vê-lo a sós. Sentou-se ao lado de Belina com um sorriso de ferro.

Bem-vinda, minha irmã... completamos o nosso círculo — disse Lugovalus bondosamente. Se estava consciente das correntes subterrâneas não deu sinais dis­so. — Soubemos que o governador está a planear atacar os Deceangli.

Atacarmos, queres tu dizer — disse Divitiac que fora o druida-chefe dos Durotriges antes da chegada dos Romanos. Tinha sido retirado quando as legiões marchavam pelo forte de Tancoric adentro e os seus membros tremiam, apesar de o seu espírito continuar forte. — Os Deceangli guardam o caminho da costa nor­te que qualquer invasor terá que percorrer para aqui che­gar.

Temos de fugir! — murmurou uma sacerdotisa que estivera com os Belgas e que por vezes acordava de noite a soluçar devido aos pesadelos provocados por a­quilo a que assistira. — Temos de apanhar um barco para Eriu. Os druidas irlandeses são fortes e receber-nos-ão bem.

E para onde iremos depois disso... para as Ilhas Abençoadas? — perguntou Cunitor com humor negro.

De uma maneira ou doutra será lá que acaba­remos no fim... — murmurou Belina.

Se fugirmos agora nunca mais pararemos — objetou Cunitor. — Caratac continua a lutar e ainda há tribos que não ajoelharam perante Roma. Se conseguir- mos fazer com que se revoltem, os Romanos deixarão os Deceangli em paz.

Por agora..., pensou Lhiannon, mas não o disse em voz alta.

Os meus parentes dos clãs dos Brigantes não estão satisfeitos com a amizade de Cartimandua com os Romanos — disse então Cunitor. — Talvez eu consiga persuadi-los de que esta é a altura de darem a conhecer os seus sentimentos...

Caratac tem que saber que o apoiamos — disse Lugovalus.

Irei ter com ele — disse Ardanos. — Já traba­lhei com ele antes.

Ainda te estás a recuperar dos teus ferimentos e tens família — disse Helve com firmeza. — Es necessário aqui.

Estou a ver o caminho que isto está a levar, pensou Lhi­annon. Sem dúvida que ela e Lugovalus já deádiram o que fazer antes de nós termos aqui chegado. Mas não tinha vontade de resistir à sua manipulação. Tinha suportado o peso do Inverno, mas não lhe parecia que conseguisse estar no mesmo local de Ardanos quando o mundo se alegrasse com a chegada da Primavera.

Enviem-me a mim... — sorriu inexpressiva­mente a Helve. — Caratac salvou-se da morte ou de pior. Devo-lhe toda a ajuda que lhe puder dar.

Eu irei com ela — ouviu outra voz. Ergueu os olhos surpreendida e reconheceu Brangenos, um pouco mais grisalho e mais magro, mas de resto inalterado. — Um bardo vagabundo passa por todo o lado e também sou curandeiro.

Lhiannon franziu sobrolho. Recordava-se de como ele cantara para o Rei Togodumnos antes da batalha do Tamesa. E ouvira-o entre os Durotriges quando Vespa- siano semeava a devastação nas suas terras. Que desastres esperas vir a celebrar quando estivermos com Caratac, oh bardo?

Está combinado então. E pediremos aos sa­cerdotes mais novos que espalhem a mensagem pelos outros locais... — continuou Lugovalus.

Quando os outros se levantaram para sair, Helve chamou Lhiannon.

Nunca fomos amigas — disse a alta sacerdotisa quando ficaram sozinhas. — Mas acredita quando te digo que não te estou a enviar nesta missão para me ver livre de ti...

Não?, pensou Lhiannon. Pensei que talvez fosse por ameaçar a influênáa que tens sobre a Coventa. Continuou a sor­rir.

Quaisquer que tenham sido as rivalidades que nos separaram no passado, temos de trabalhar juntas a­gora — continuou Helve. — Tens grandes capacidades e a Deusa sabe o quão desesperadamente necessitamos de todos os homens e mulheres de poder! Não tenho alter­nativa se não usar todas as ferramentas de que disponho, seja qual for o preço. Nem tu nem eu temos importância, nem Ardanos, nem Coventa, nem Lugovalus, se com o nosso sacrifício pudermos salvar a nossa Ordem

Lhiannon abriu ligeiramente a sua consciência e ficou surpreendida por detectar apenas sinceridade. Helve acreditava no que dizia e era até capaz de ser verdade. Talvez estivesse a ficar à altura do cargo que desempe­nhava.

Compreendo... — Pela primeira vez dirigiu à alta sacerdotisa uma vênia respeitosa.

Mantém-te a salvo, Lhiannon e regressa para junto de nós quando tiveres terminado a tua missão.

 

Boudica sonhou que caminhava por um caminho estreito através de colinas densamente florestadas, rodea­da por homens que empunhavam espadas. As roupas es­tavam cobertas de lama e de sangue e nos seus olhos ha­via um brilho fanático. Na sua frente marchava Lhiannon, tão suja como qualquer dos outros, mas parecendo endu­recida e em boa forma.

No vale mais abaixo havia uma quinta. Em silêncio os guerreiros cercaram-na. Vislumbrou Caratac no meio deles. Quando alguém acendeu uma tocha o seu torque de ouro brilhou. Lançaram-se ao ataque, uivando gritos de guerra Silures. Os homens saíram das casas a correr. As mulheres gritavam quando os telhados se incendiaram. Em breve havia mais sangue a jorrar e corpos jazendo por terra. E depois os atacantes bateram em retirada, al­guns levando animais ou sacos de cereais. Quando iam a passar Lhiannon virou-se e pareceu ver finalmente Bou­dica.

Este é o tratamento que daremos a todos

quantos ajoelharem perante Roma...

 

Boudica apercebeu-se de que estivera a chorar quando abriu os olhos e viu o rosto preocupado do ma­rido. Devia ser de manhã. A porta da cabana estava aber­ta e o sol filtrava-se pelas cortinas às riscas vermelhas e amarelas que rodeavam a cama.

Gritaste... estás com dores?

Foi um pesadelo — tartamudeou ela limpando os olhos. — Já passou... — mentiu, pois sabia que aquele sonho lhe ficaria na memória. O seu irmão mais novo, Braci, e o irmão de Caratac, Epilios, tinham-se juntado aos rebeldes um ano antes. Mas no sonho os Bretões pa­reciam estar a ganhar. Se Lhiannon ali estivesse ter-lhe ia pedido uma interpretação do sonho. Teria sido a sacerdo­tisa quem lhe enviara o sonho e, nesse caso, seria uma reprimenda ou um aviso?

Vem cá e manda o pesadelo embora com bei­jos... — Puxou-o para a cama encaixando o corpo no dele da forma a que se acostumara nos dois anos em que fora verdadeiramente a sua rainha. Ele riu-se e esfregou o na­riz no pescoço dela, com uma das mãos deslizando sobre o seu seio. Ela sentia a sua satisfação e o seu desejo. Por­que lhe teria levado tanto tempo a compreender que Pra- sutagos era mais eloqüente quando estava silencioso?

Mama, Papá! O Bogle apanhou uma lebre! Pra- sutagos rolou para um dos lados quando as cortinas fo­ram afastadas com um puxão e um tumulto de cabeça ruiva saltou para o meio deles. Boudica pestanejou e es­tendeu uma mão tentando fazer com que a filha ficasse quieta.

Ele apanhou-a no meio dos arbustos e trouxe-a para casa. Os cachorros estão a lutar por causa dela!

Boudica trocou um olhar exasperado com o mari­do que se riu e saiu da cama, tateando à procura da túnica que despira tão precipitadamente na noite anterior. O que significaria ter o totem do nosso clã calado pelo nosso cão? Era inevitável que tal acontecesse, supunha, se dei­xasse Bogle e a sua numerosa prole vaguear pelos campos quando estavam a viver no velho forte do pai.

Rigana! Rigana... a criança está convosco? Pra- sutagos puxou a túnica precipitadamente para baixo quando

a mãe de Boudica entrou apressadamente.

Desculpem, meus queridos, ela acordou-vos? — disse a mãe. — Ela corre muito depressa, sabem.

Sim. Não tem importância, Mama — disse Boudica. — Eu de qualquer forma ia levantar-me.

— Pensei nisso... — disse a mulher mais velha. O ferreiro já aqui está com as moedas novas para o rei a­provar. — Desde a morte do pai de Boudica, Anaveistl adaptara-se bem, mas às vezes esquecia-se de que já não era a rainha.

Boudica abraçou Rigana, deliciando-se com a fir­meza do seu corpo e o cheiro a flores do seu cabelo. — A tua irmãzinha já acordou, minha flor? — As duas meni­nas dormiam com a avó e as amas na cabana do lado, su­ficientemente perto para Boudica as ouvir se alguma delas chorasse.

Como se a pergunta fosse um sinal, Nessa entrou pela porta com Argantilla, que dava os primeiros passos, pela mão. Com um sorriso luminosos, a menina mais pe­quena, tão dourada e gentil como a sua irmã era ruiva e ativa, trepou para a cama para se juntar a Rigana nos mi­mos matinais antes de os pais serem distraídos pelas exi­gências do dia.

O pequeno-almoço, tomado debaixo dos ramos compridos do carvalho, era a ocasião em que se recebiam relatórios e se planejava o dia. Naquela manhã tinham recebido moedas de prata juntamente com as papas de aveia: as primeiras cunhadas ao estilo romano, com a i­magem do rei numa das faces e o lema "Subri Esvprasto Esico Fecit" com o totem cavalo dos Icenos na outra.

Um número demasiado grande daquelas moedas teria que ser entregue aos Romanos no pagamento de impostos. Outras teriam que ser pagas a chefes tribais que tinham recolhido produtos nos seus clãs para alimentar a infindável necessidade de mantimentos dos Romanos.

Esico, o cunhador de moedas, um homenzinho de cabelos escuros desdentado e com um ar confiante que provinha do fato de saber que a sua competência seria sempre necessária, fosse quem fosse que estivesse no poder, também comerciava informações. A sua primeira oferta foi a notícia de que o governador, achando que os seus recursos estavam demasiado disperosos, ia transferir a vigésima legião de Camulodunum para um local pró­ximo da boca do estuário do Sabrina, onde poderia man­ter os Silures debaixo de olho.

Vão retirar todas as suas forças das terras dos Trinovantes? — perguntou Prasutagos.

Não exatamente — ciciou Esico. — Querem transformar o forte numa cidade ao estilo romano e po­voá-la com veteranos. "Colônia Vitória", chamam-lhe... — cuspiu as palavras. — Já recrutaram homens para aju­dar na construção... e com as colheitas à porta... — aba­nou a cabeça. — Os Trinovantes não estão nada satisfei­tos, mas o que podem fazer?

O que podemos nós fazer, pensou Boudica, senão conti­nuar em frente?

Os Romanos dão grande importância a edifícios impressionantes... — disse Prasutagos lentamente quando Esico se foi embora. — Consideram-nos um sinal de civi­lização. — Boudica olhou-o com suspeição, reconhecen­do o brilho entusiasmado dos seus olhos.

Os Romanos nunca nos deixarão construir for­tificações. O que é que tinhas — acrescentou cuidadosa­mente — exatamente em mente?

Nada em pedra... — disse ele rapidamente. — Nada que eles pudessem considerar uma ameaça. Mas estava a pensar na forma como os Romanos constroem um segundo andar nas suas casas e acho que podíamos construir uma cabana assim, com dois andares. — Bou­dica pestanejou. Não conseguia sequer imaginar aquilo de que ele estava a falar, mas era óbvio que Prasutagos con­seguia ver a coisa com toda a clareza. — Vamos tirar al­guns dos edifícios que há dentro do recinto... passamos os telheiros dos teares para o pátio adjacente e erguemos um recinto próprio para a cunhagem de moedas. E cons­truímos uma bela muralha com fosso em torno da casa.

Queres competir com o Rei Cogidumnus? — riu-se ela. — Ele está a construir um palácio romano em Noviomagus.

Ele abanou a cabeça. O monte sobre o qual fora construído o forte era suficientemente alto para lhes proporcionar uma boa vista do rio, com os arbustos a brilharem dourados pelo sol da manhã. Aquela cena pací­fica fazia com que a violência das suas visões noturnas parecessem mais irreais... ou seria este o sonho? Quando suspirou, Bogle ergueu a grande cabeça que estivera pou­sada sobre um dos seus pés e pousou-a sobre o outro. Ela mexeu os dedos do pé para restabelecer a circulação. O cão, tendo feito a sua contribuição para o fornecimento de alimentos da comunidade, sentia-se claramente com direito ao descanso.

No entanto, passados alguns instantes, Bogle le­vantou novamente a cabeça, com as orelhas espetadas e depois saiu de debaixo da mesa e deu alguns passos na direção do portão.

Estamos à espera de visitas? — perguntou Pra- sutagos. O cão demonstrara ter uma estranha capacidade de distinguir a aproximação de estranhos da de pessoas da região.

Parece que são amigos... — observou Boudica quando a cauda felpuda começou a abanar suavemente.

Passados poucos minutos um dos guerreiros que estava de guarda entrou a correr pelo portão e anunciou que vinham três mulheres e um homem a cavalo a subir o caminho.

Isso não me parece muito perigoso — disse Prasutagos afagando o bigode para disfarçar um sorriso. — Porque não vamos dar-lhes as boas-vindas?

A curiosidade foi substituída pelo espanto quando as três mulheres apareceram junto do portão. Boudica tivera a esperança de ver Lhiannon, mas os caracóis lou­ros da primeira mulher foram quase igualmente bem-vindos.

Coventa! — Calou-se ao reconhecer Belina e, atrás dela, Helve, imagine-se, e abrandou o passo para um ritmo mais adequado a uma rainha.

Minha senhora! — O aceno de cabeça foi cui­dadosamente calculado para transmitir a igualdade das suas posições. — Honrais-nos! — Enquanto dava ordens para que fosse servida comida e bebida observava-as dis­farçadamente, vendo que Coventa crescera e ficara bas­tante alta e que Helve estava mais rechonchuda. A alta sacerdotisa continuava bela, mas no seu rosto havia rugas novas. E não é para admirar, pensou silenciosamente, os últimos anos não foram fáceis para ninguém. Sorriu novamente quando viu que o acompanhante das mulheres era Ria- nor. Tal como as mulheres vestia roupas normais.

Deves estar a pensar no que estamos aqui a fa­zer... — disse Belina quando se sentaram em frente a uma travessa com bolos de aveia e uma garrafa de vinho ro­mano. — Com os Romanos atarefados a construir o no­vo forte perto do Sabrina, as estradas pareceram-nos sufi­cientemente seguras para que a Coventa pudesse ter a sua cerimônia de mulher adulta em Avalon...

Boudica assentiu, lembrando-se da sua própria ini­ciação às mãos de Lhiannon. Pensou se Helve conseguiria invocar a mesma magia, mas a Coventa tinha em si magia suficiente para as duas.

E agora vamos levá-la a visitar os seus parentes nas terras dos Brigantes antes de ela fazer os seus votos — disse Helve. — Tem sido uma viagem interessante.

E tu tens andado a recolher informações por onde passas..., observou Boudica. Parecia-lhe que o tipo de raciocínio necessário a uma alta sacerdotisa não era muito diferente do necessário a uma rainha.

Disse-lhes que não tinha importância — disse Coventa. — Ninguém me propôs um grande casamento e eu recusá-lo-ia, se mo tivessem oferecido... apesar de as tuas meninas serem tão doces que me fazem pensar no­vamente na maternidade!

Boudica sorriu. "Doce" não seria bem o termo que usaria para classificar Rigana, mas as duas crianças ti­nham-se portando muito bem ao conhecer as sacerdotisas e percebia que estas pudessem ser enganadas.

Estamos a planear poupar algum tempo de via­gem apanhando um barco na costa norte das vossas ter­ras — disse Helve. — Ficaremos em casa da Rainha Car- timandua, em Briga, durante algum tempo antes de re­gressarmos a casa. Pensei que, se o teu marido o permitir, talvez gostasses de nos acompanhar...

Oh por favor, vem Boudica — implorou Co- venta. — Só podemos cá ficar uma noite e isso não é tempo que chegue para tudo o que tenho para te contar!

Não sei... — disse Boudica indecisa. O bebê estava desmamado e às raparigas não faltavam protetores, mas não dormira separada de Prasutagos mais de uma noite desde que ele se tornara rei supremo, exceto quan­do parira Argantilla e durante a semana em que ele tivera uma febre, no ano anterior. Sem ele na cama, a seu lado, ela não dormia bem.

 

Por fim foi Prasutagos quem a aconselhou a ir, se bem que fosse evidente que a perspectiva da separação não lhe agradava a ele mais do que a ela. Mas havia algum tempo que não falavam com Cartimandua e, desde que os Brigantes ocidentais se tinham revoltado no ano anterior, tornara-se importante saber qual era a posição dela e do marido em relação a Roma.

No casamento a Cartimandua pareceu simpati­zar contigo — observou o rei secamente. Boudica aper­cebeu-se pela primeira vez de que ele tinha consciência de que a rainha brigante a encorajara a fugir a cavalo. Ele nunca falara nesse assunto antes. — Ela é muito volunta­riosa, mas talvez se passarem juntas algum tempo ela fale à vontade.

Foi só depois de estarem na estrada há vários dias que ocorreu a Boudica que o convite de Helve se devera às mesmas razões.

Três dias de viagem levaram-nos até a um pequeno porto em Wash, na costa norte das terras icenas. Aí en­contraram dois barcos de fundo largo, que poderiam le­var as quatro mulheres e o acompanhante, numa viagem de quatro dias pela costa acima e até ao grande estuário. Ao desembarcar compraram cavalos de pelo comprido para os transportar para montante até chegarem a Lys

Udra, onde a Rainha Cartimandua tinha a sua casa.

 

Simpatizamos com o Caratac, como é óbvio — disse a rainha.

Continuava a ser a criatura polida e de língua mor­daz que Boudica recordava, com o seu cabelo negro a brilhar à luz do Sol. Coventa estava a passar uma semana com a família do irmão, deixando a rainha brigante a en­treter as visitas inesperadas no seu salão junto ao rio. Ali as terras eram boas para a lavoura, mas a ocidente fica­vam pântanos e montanhas onde só os pastores conse­guiam viver.

Ele e o irmão estavam no bom caminho para unificar todo o sul, se os Romanos não tivessem vindo.

— Serviu o vinho em taças de louça samiana avermelhada e passou-as às visitas. — E é também um homem bem parecido, apesar de ser deprimentemente fiel àquela mu­lher ordovice com quem se casou. — Sorriu.

Boudica ergueu uma sobrancelha. — Tentaste então a tua sorte com ele e foste recusada? Cartimandua era conheci­da por ter olho para os homens bem parecidos. O marido não levantava objeções, mas Briga era uma terra selvagem onde o povo se mantinha fiel a costumes mais antigos do que os dos Celtas da Gália, seus conquistadores. O Rei Venutios estava a passar o Verão em Rigodunon, perto do estreito de Salmaes na costa noroeste. Era evidente que a natureza da sua relação com Cartimandua era muito diferente da união que ela e Prasutagos tinham finalmente conseguido. Boudica pensou se ele teria tido algum papel na revolta.

Dizem que o Caratac levou o seu exército para as terras dos Ordovices — disse Helve.

Ele pode levá-los para onde lhe apetecer desde que se mantenha longe de Briga —, Cartimandua falou com súbito veneno. — Não vou permitir que persuada mais nenhum dos nossos clãs a participar numa revolta que só poderia ser esmagada trazendo para cá as Legiões.

Eu, por outro lado, só posso estar grata por eles se terem revoltado. Essa rebelião salvou Mona — co­mentou Helve.

Estais à espera que vos diga que sois bem-vinda? — Cartimandua respondeu à pergunta que ela não fizera. — Não tenho qualquer diferendo com a vossa Ordem, mas gosto muito mais dos Romanos quando os seus cobradores de impostos, por mais irritan­tes que sejam, são os únicos representantes que eles preci­sam de enviar para as minhas terras.

Os lábios de Helve apertaram-se mas, mesmo ela, tinha dificuldade em contrariar as palavras da rainha quando estava a beber do seu vinho. Era útil para a alta sacerdotisa ser bem-educada para uma soberana sua igual, pensou Boudica. Gostaria que Lhiannon estivesse ali para presenciar a cena.

Dizem que Caratac tem com ele uma sacerdo­tisa da vossa Ordem, uma Senhora Branca com poderes mágicos — acrescentou Cartimandua como se Boudica tivesse dado voz aos seus pensamentos. Coventa disse­ra-lhe que Lhiannon partira em auxílio dos rebeldes. Fi­cou satisfeita por ter a confirmação dos seus sonhos.

Verdade? — perguntou Helve rigidamente.

Sem dúvida que os Romanos também já ouvi­ram falar no assunto. Isso não os tornará mais tolerantes para com o vosso poder. — Cartimandua recostou-se e fez sinal a uma das suas mulheres que trouxesse mais vi­nho.

Se não lhes fizermos frente não teremos poder — disse Helve com mais franqueza do que Boudica previra.

Ora bem, jogamos o jogo de formas diferentes — sorriu Cartimandua. — Será interessante ver quem vencerá...

 

Na noite anterior à sua partida de Lys Udra, a rai­nha brigante chamou Boudica quando as outras se enca­minhavam para as suas camas, após o jantar na cabana grande que era o salão real.

Que queria ela? — perguntou Coventa quando Boudica se lhes juntou.

Queria avisar-me em relação a vocês! — Bou­dica tentou rir-se. — Ela acredita que os Romanos tenta­rão destruir os druidas quando tiverem pacificado as tri­bos.

Sei que não podes fazer muito para nos ajudar, na tua posição — disse Coventa muito séria —, mas será um conforto saber que ainda me tens no coração...

Oh minha querida, como poderia não ter? — exclamou Boudica. Mas não queres reconsiderar a tua decisão? Acredito que estarias mais segura comigo do que com a Helve.

Coventa abanou a cabeça com o seu habitual sor­riso doce. — Sei que não gostas dela, mas ela deseja mesmo servir o povo e os deuses. E tem sido boa para mim.

Ela usou-te, pensou Boudica. Mas não serviria de nada dizê-lo em voz alta.

Esta viagem revelou-me o quão infeliz eu seria se tivesse que viver com pessoas que vêem e ouvem ape­nas com os olhos e os ouvidos. Em segurança ou não, ser sacerdotisa em Mona é a única coisa para que sirvo — disse Coventa.

Então sê-lo e sê feliz... — Boudica abraçou os ombros magros. O tempo que conseguires. Mas, na verdade,

poderia ela, ou alguém, desejar mais do que isso?

 

As colheitas eram a época mais esperançosa do ano. Nos tempos antigos as guerras paravam quando chegava a altura de fazer as colheitas. Mas agora, exceto quando era necessário perseguir ocasionalmente uma vaca que vagueava para o outro lado da fronteira tribal, já não tinham que se preocupar com guerras... talvez o único dos benefícios prometidos pelos Romanos e que era ver­dadeiramente bem-vindo. Quando os grãos ficavam dou­rados, toda a gente, importante ou não, aparecia para a­judar nos campos.

Boudica curvou-se, apanhou as espigas empilhadas na sua frente e juntou-as ao molho que tinha no braço. Mais à frente a fila de ceifeiros movia-se ao ritmo do tambor da ceifa, apanhando, cortando e deixando cair as espigas de cereais. Acocorou-se para juntar mais espigas ao braçado, achou que já tinha o suficiente para um feixe, atou-o com um pedaço de palha e recomeçou o processo.

Uma grande parte das terras dos Icenos era cons­tituída por pastagens e terrenos pantanosos, o que fazia com que os terrenos onde os cereais cresciam fossem du­plamente preciosos e, os melhores de entre eles, encon­travam-se nas terras altas em volta de Ramshill. Boudica fora para ali após a visita a Cartimandua e o rei trouxera as meninas para ficarem com ela enquanto viajava pelo reino. Regressariam todos para Dunford quando as co­lheitas terminassem.

Esperava sempre com ansiedade por aquela esta­ção e pelas suas festividades, mas naquele momento de­sejou que já tivesse terminado. No céu o Sol brilhava e o suor escorria-lhe pelas costas, fazendo com que o linho da túnica se pegasse à pele das costas e provocando co­michão nos locais onde o onipresente debulho se tinha enfiado. As mangas compridas protegiam-lhe os braços do Sol, nas naquela noite a sua cara estaria vermelha e dorida, apesar do óleo com que ela se untara antes de começar a labuta e do chapéu de palha de abas largas que tinha na cabeça.

Mas não podiam parar agora. As nuvens estavam a juntar-se por cima do Estreito e perderiam a maior parte do trigo se chovesse. As famílias cujas quintas ficavam perto do Santuário do Cavalo ceifavam em conjunto, passando de um campo para outro à medida que os cere­ais iam ficando maduros. Naquele dia estavam nos cam­pos de Paios e Chandra. No princípio do Verão, Paios estivera doente mas agora parecia recuperado, com a pele bronzeada e o cabelo castanho queimado pelo Sol.

Ao lado dele Prasutagos ceifou e atirou para o lado mais uma mão cheia de espigas. O rei despira a túnica. Boudica deteve-se por um instante apreciando o movi­mento dos músculos nas suas costas quando ele estendeu o braço para mais uma mão-cheia, depois apanhou as es­pigas que ele ceifara e fez mais um feixe de trigo.

Tens aqui água, mãe... — disse Rigana. Boudica esticou-se para aliviar a dor nas costas e agarrou no cantil cheio de água. Sabia-lhe melhor do que o vinho romano. Ao menos aquele era o último campo. Da quinta vinha o cheiro dos cozinhados... estariam a festejar dentro de pouco tempo.

Muito em breve, apercebeu-se, pois os ceifeiros estavam a aproximar-se da extremidade do campo. Uma onda de antecipação passou pelos espectadores. As foices brilhavam enquanto os homens se apressavam em direção ao fim e depois detiveram-se, afastando-se de Prasutagos, que estendia a mão para as últimas espigas que ainda se erguiam no campo. Ouvindo o silêncio este parou, aper­cebeu-se de que chegara ao fim e olhou à sua volta, sol­tando uma gargalhada constrangida.

"A Mulher Velha!" "A Mãe do Milho" "Cuidado, ela apanha-te!" Ouviram-se os gritos.

Paios, este campo é teu... deixarei que sejas tu a fazeres as honras — disse o rei, esperançado, estendendo a foice ao outro homem.

Não meu senhor... — Paios sorriu. — É por vós que ela tem estado à espera. Não me intrometerei no vosso caminho! — A sua mulher de cabelos loiros agar­rou-lhe num braço, como que para se certificar disso mesmo.

Prasutagos soltou um suspiro dramático. — Bem, tu estiveste doente, por isso encarregar-me-ei dela... — endireitando-se deu um passo em frente, agarrou nas es­pigas com a mão esquerda e, com um golpe rápido, cor­tou-as. Quando recuou uma coisa castanha e veloz saltou do meio da palha e atravessou o campo aos saltos.

Uma lebre! — murmurou alguém fazendo um sinal de proteção. Boudica sentiu os braços arrepiarem-se. Subitamente a oferta risonha de proteção do rei adquiria um sentido mais profundo O olhar dele encontrou o do camponês que empalidecera um pouco.

É o dever do rei interpor-se entre o perigo e o seu povo — disse Prasutagos suavemente e sorriu.

Um pescoço! Um pescoço! Ele tem a Mulher Velha! Gritavam os outros.

Prasutagos entregou as espigas a Chandra que co­meçou a atá-las rapidamente de forma a formar braços e pernas e a dotar a figura de uma grinalda e de uma coroa. Assim que ela pôs as mãos nas espigas as outras mulheres agarraram o rei enfiando-lhe palha nas roupas e no cabe­lo. Depois carregaram-no até ao rio e atiraram-no à água.

Quando os tempos eram verdadeiramente maus, pensou Boudica um tanto sombriamente, o soberano, ou o seu substituto, tinha que morrer mesmo pelas suas ter­ras e não apenas de brincadeira. Seria esse sacrifício exi­gido a Caratac? Mas, apesar das suas ambições, ele nunca fora rei de toda a Britânia. A aceitação teria que vir antes do sacrifício.

Agora tiravam Prasutagos novamente da água. Por cima das cabeças das mulheres os seus olhos risonhos encontraram os dela. Vão levá-lo para a quinta para o ban­quete, pensou enquanto a custo lhe retribuía o sorriso, e

obrigá-lo-ão a dançar com a Mãe do Milho e a comer tanto como Devodaglos e a prometer mais cerveja a toda a gente. Não é um sacrifício assim tão grande...

— Ei-ei, ei-ei... — A Mãe do Milho era levada de regresso à quinta e os gritos soavam triunfantes através dos campos.

Boudica seguiu a multidão e ocorreu-lhe que os maus tratos dados ao ceifeiro eram apenas um símbolo, mas a cada Primavera, a Deusa do Milho, nos grãos com que era feita a imagem da última ceifa, era desmembrada e espalhada para abençoar os campos.


 

Fora uma longa guerra. Da porta da tenda de co­mando, Lhiannon olhava para as fogueiras que tremelu- ziam nos prados que bordejavam o rio onde os homens da grande coligação forjada por Caratac tinham afogado as suas rivalidades do passado por ódio a um inimigo maior. Os Silures, veteranos dos combates no sul de dois anos antes e os sobreviventes Durotriges, das campanhas de Vespasiano, estavam lado a lado com os Ordovices e com os Deceangli, que tinham suportando o fardo de batalhas mais recentes, e de homens dispersos de outras tribos. A última vez que se reunira uma tão grande hoste de Bretões fora nas margens do Tamesa.

Por trás dela Caratac estava reunido com os chefes de guerra, desenhando mapas no chão. Brangenos insta­lara-se nas sombras mais atrás, tocando uma música sua­ve e melodiosa, que aliviava a alma sem requerer atenção.

Dizem que o governador quando cá chegou es­tava doente e não me parece que a sua saúde tenha me­lhorado com as perseguições que me fez por essa colinas. Por todos os deuses, estou tão cansado de lhe fugir como ele está de me perseguir!

Tencionas então defrontá-lo? — perguntou Tingetorix, um campeão iceno que Lhiannon conhecia dos tempos passados com Boudica.

Tenciono dar-lhe batalha... num local da minha escolha... — Caratac mostrou os dentes num sorriso. — Duvido que ele seja capaz de resistir ao convite. — Oito anos de guerra tinham transformado a raposa dos Cantia- ci num lobo velho, o cabelo ruivo estava agora grisalho e a pele, tisnada pelos elementos, semeada de cicatrizes.

Mas o fogo nos seus olhos ardia com a intensidade de sempre.

E o de Lhiannon? Também ela deixara a sua ju­ventude naquelas montanhas. Para os homens do exército de Caratac, de quem cuidara e a quem confortara quando estavam feridos ou doentes, era a Senhora Branca. Na­queles dias vestia-se com linho cru caseiro. A sua túnica azul de sacerdotisa havia muito que se gastara. Mas a sua verdadeira aparência deixara de ter importância: apesar de não ser o único druida do exército, tal como Caratac, transformara-se num talismã vivo. E havia alturas, mes­mo ali, em que o transe da visão descia sobre ela, não como acontecia nos rituais organizados de Mona, mas como uma intuição súbita que a deixava numa confusão de esperança e de medo.

Os nossos batedores dizem que o governador trouxe a Décima Quarta legião de Viroconium e a Vigé­sima de lá de baixo, do sul... — disse um dos homens dos Ordovices.

A Vigésima que costumava estar estacionada em Camulo-dunum? — ecoou Epilios. — Mal posso es­perar por os encontrar de novo... — O seu sorriso era um reflexo juvenil do de seu irmão — os dois últimos filhos de Cunobelin estavam juntos, comandando na guerra os homens da Britânia.

Estão acantonados em acampamentos de cam­panha perto dos vaus onde os rios se juntam. Cerca de vinte mil homens num dos acampamentos e a cavalaria noutro.

Somos quase tantos como eles e a cavalaria não vai servir de grande coisa no local para onde estou a pen­sar levá-los. — Caratac fez sinal a Lhiannon. — Con­tai-lhes, donzela, a visão que partilhastes comigo...

Todos os olhos se viraram para Lhiannon quando esta avançou para a luz da fogueira afastando o véu. —

Foi um sonho... cabe-vos interpretá-lo, mas foi isto o que eu vi. Eu era como um pássaro, olhando para baixo para a terra da Britânia. Por baixo de mim vi águias em vôo, seguindo Caratacus do oceano até ao rio através de pastos de terras cultivadas. Mas quando ele entrou na floresta elas tentaram segui-lo e quando ele subiu as montanhas elas ficaram cansadas. A visão falhou nessa altura e não vi o fim da batalha. Mas se lutardes num monte tereis hipó­tese de vencer. E isso o que eu vejo.

A própria terra combaterá por nós, compreen­dem... — Caratac debruçou-se sobre o mapa desenhado no solo e começo a apontar para os montes e rios ali marcados. — Os Romanos combatem como leões em terrenos planos, mas os nossos homens são como gatos selvagens nos seus montes natais. Atraí-los-emos com alguma resistência no atravessamento do rio e depois re­tiraremos para este monte... — Espetou no chão o pau que lhe servia de ponteiro.

O velho forte do monte? — perguntou um guerreiro duro-trige que o acompanhava desde a campa­nha de Vespasiano. — Não estás a pensar encurralar-nos aí!

Lhiannon estremeceu. Ainda havia noites em que acordava a gemer devido às memórias da queda do Forte das Pedras.

Não, se bem que nos possa servir de último reduto se as coisas correrem mal — respondeu Caratac. — Vamos ocupar as nossas posições nas encostas do monte, onde o relevo da terra os apertará e, onde a subida for mais fácil, poderemos tapar o caminho com paredes de pedra.

Pedras não nos faltam — disse um dos Ordo- vices e toda a gente se riu.

Pedras e ventos frios, pensou Lhiannon quando a bri­sa, que se tornava sempre mais forte ao pôr do Sol, en- trava por todas as imperfeições do tecido da sua capa de lã. O Sol pusera-se por trás das montanhas ocidentais e o crepúsculo descia um véu de sombras sobre os montes mais baixos. No dia seguinte estariam novamente em movimento.

Os homens estavam a discutir as posições que as tribos deveriam ocupar no monte e tinham-na esquecido. Lhiannon percorreu o acampamento na direção da tenda que partilhava com a mulher e com a filha de Caratac e com algumas outras mulheres cujo valor como potenciais reféns era demasiado elevado para serem deixadas onde poderiam correr o risco de serem capturadas. De vez em quando um homem levantava os olhos quando ela passa­va junto à sua fogueira. Ela sorria-lhes em saudação. Não lhe custava nada dar-lhes esse conforto. Mas quem, pen­sou, me confortará a mim?

Afastou aquele pensamento. Nos primeiros meses que passara com o exército as marchas diárias deixa­vam-na demasiado cansada para pensar fosse no que fos­se a não ser em dormir quando a noite caía. Mas depois de dois anos passados no terreno, era tão forte como qualquer um dos homens. O sono vinha com dificuldade com uma batalha em preparação. Mas teria que tentar. Se tivesse sorte não sonharia.

 

Alguns homens sonhavam com a riqueza ou com a glória. Prasutagos, apercebera-se a sua mulher, sonhava com edifícios. Quando o olhar de Boudica seguia o fumo que subia em espirais, ainda tinha que pestanejar de es­panto pela altura adicional criada pelo segundo piso da cabana. A área em volta da fogueira era suficientemente ampla para sentar todos os chefes tribais. Tinham sido criados quartos espaçosos para a família através de divi­sões que iam dos pilares principais até às paredes exterio­res. Não havia nada de semelhante ao salão de dois anda­res do rei em todas as terras celtas.

Só se tinham mudado no mês anterior. Por baixo dos odores a fumo e a guisado de carneiro ainda se sentia o cheiro a cal e a palha fresca. Mas, para as crianças, para quem o mundo inteiro era feito de maravilhas, a nova casa do pai tornara-se num milagre vulgar. Naquele mo­mento adiar a inevitável ordem de irem para a cama era a sua preocupação.

Uma história, Mama! — implorou Rigana. — Conta-nos uma das histórias que aprendeste ma ilha má­gica! — A pequena Tilla bateu as palmas.

Boudica sorriu ao pensar que o principal uso que dava às artes que os druidas lhe tinham ensinado com tanta solenidade era a criação de histórias para as crianças. E, no entanto, aquelas histórias eram o produto da sua religião. Era mais importante do que nunca que as crian­ças as apreendessem agora, quando tantos se viravam pa­ra os vitoriosos deuses romanos.

Bem... como estamos no Verão, tenho de vos falar de um dos deuses que faz as coisas crescerem. Ele toca a harpa para ordenar as estações e no seu pomar há sempre frutos nas árvores. Chamamos-lhe Dagdevos ou o Deus Bom, o Pai de Tudo, ou O Vermelho que Tudo Sabe, ou O Bom Batedor e ele pode fazer tudo. E um dos reis dos Seres Brilhantes.

Como o Papá... — disse Tilla sensatamente.

Mesmo como o Papá — concordou Boudica, fazendo um esforço para se manter séria ao ver o marido corar. — Quando o povo dos monstros atacou a sua terra teve que passar nos testes que eles lhe fizeram. Teve de comer uma papa feita com litros e litros de leite, e ele comeu-a, apesar de ficar com a barriga tão cheia que a túnica nem a conseguia tapar.

Ao ouvir aquilo o olhar que as meninas lançaram ao pai foi francamente especulativo e Temella e Bituitos desataram a rir.

A barriga dele não era a única coisa que estava inchada, segundo ouvi dizer — murmurou Eoc e as gar­galhadas soaram novamente.

Está a falar no seu cacete? — perguntou Bou­dica inocentemente. — Quando ele bate, a morte é ins­tantânea, mas se nos tocar com a outra extremidade re­gressamos novamente à vida.

E essa a extremidade que ele usa com a Senhora dos Corvos — retaliou Prasutagos. —Apesar de ser a deusa da batalha, ele tem uma arma capaz de a vencer...

Mas o seu bem mais precioso é um caldeirão mágico — disse Boudica, se bem que agora também ela já estivesse corada. — Há quem diga que é o mesmo em que se metem guerreiros mortos para recuperarem a vida, mas outros dizem que o caldeirão conseguiria alimentar um exército inteiro e que nos dará a nossa comida prefe­rida.

Dava-nos bolos de mel? — perguntou Rigana.

E bagas com natas? — disse a irmã. — Quero ir para lá!

Para onde deviam ir agora era para a cama — disse Prasutagos com uma careta cômica. — Podem banquetear-se com Dagdevos nos vossos sonhos...

Depois de ambas as meninas serem beijadas e a­braçadas e entregues às amas, Prasutagos virou-se para Boudica. — Não lhes contaste a história de como Dag­devos faz amor com Morrigan todos os Samaine para Lhe acalmar a fúria e restaurar o equilíbrio do mundo —, murmurou ele com um olhar que lhe enrubesceu nova­mente a pele.

Acho que essa pode esperar até as meninas se­rem mais velhas — disse ela pudicamente. — E nunca percebi bem como até mesmo os deuses o conseguem, de pé num ribeiro...

— Preferes a cama, então? Porque se preferes eu tenho uma... — Pegou-lhe na mão e Boudica sorriu, sa­bendo-se abençoada pelos deuses.

 

Juntamente com os outros druidas, Lhiannon fize­ra as ofertas a Lenos, que era o nome que davam naque­las paragens ao deus da guerra, vertendo no solo o sangue de um boi e pendurando a carcaça num velho carvalho. Teria sido aceite? Não se tinha ouvido o rugir de nenhum trovão, apenas os corvos, crocitando como sempre fazi­am quando havia um exército em movimento. Não era preciso nenhum druida para interpretar os sinais: onde quer que os humanos lutassem, os corvos alimenta­vam-se.

Mas naquela noite Lhiannon voltara a sonhar. Mais uma vez sobrevoava o campo de batalha e desta vez os Romanos, como insetos de armadura, avançavam colina acima. O deus-águia caminhava na sua frente com passos como trovões e os Bretões tombavam diante deles e o sangue regava as pedras como se fosse chuva. Acordara a chorar, sabendo que aquele fora um sonho a prever a desgraça. E percebera também que não podia fazer nada. Os Romanos já vinham a caminho. Qualquer rumor de derrota desfaria o exército britânico antes mesmo de ser desferido um único golpe. Caratac poderia ter fugido para o mato se estivesse acompanhado de um pequeno grupo, mas uma força daquele tamanho não tinha alternativa se­não agüentar firme. Até mesmo dizer ao rei aquilo que vira poderia privá-lo da esperança que poderia negar a sua visão. Só lhe restava observar e rezar e esperar que os deuses da Britânia a ouvissem.

Ou estaremos nós a re%arpelas coisas erradas?, pensou subitamente.

A colina de onde observavam o desenrolar da ba­talha não lhe dava as vantagens da sua visão, mas também não lhe dava o mesmo distanciamento. Depois de terem dificultado o atravessamento do inimigo, atirando pedras com as fundas e disparando setas, os Britânicos tinham retirado ordenadamente para a encosta do monte, jun­tando-se para resistir ao avanço romano quando este se tornou mais forte, disparando e atirando lanças de trás das barricadas de pedras que os protegiam dos projéteis disparados pelas balistas do inimigo.

A meio da manhã, a mulher e a filha de Caratac ti­nham começado a soltar vivas ao ver os auxiliares roma­nos a recuar perante a intensidade do fogo dos defenso­res. Mas as legiões já estavam a formar na retaguarda, e os escudos sobrepostos já estavam erguidos para cobrir os grupos de homens em marcha e neles ressaltavam, inó­cuos, os mísseis dos Britânicos. E, apesar da fúria dos defensores, eles não paravam de avançar, passo a passo, metro a metro, até chegarem às paredes de pedra e as demolirem e depois foi espada contra espada e escudo contra escudo e o sangue corria pela colina abaixo.

— Morrigan, deusa das batalhas, sede com eles agora! — rezou ela. A angústia que ouvia no choro das mulheres de Caratac ao verem as linhas britânicas cederem e desapa­recerem, era a mesma exultação de dor que ouvia nos gritos dos corvos que sobrevoavam o monte. A deusa está com eles. Lhiannon estremeceu de espanto e compreensão. Até à morte e para além dela. Mas ela não pode, ou não quer, sal­vá-los.

Alguém gritou que havia soldados a aproxima­rem-se. Demasiado atordoada para se mexer, Lhiannon ficou imóvel no meio da confusão enquanto os outros se preparavam para fugir, deixando-a sozinha no meio das árvores.

 

Uma escuridão semelhante à de milhares de asas de corvos cerrara-se em torno do mundo. As forças romanas tinham passado, em perseguição de um grande grupo de homens da tribo dos Silures que tinham conseguido des­cer o monte, deixando o campo de batalha abandonado àqueles com coragem suficiente para procurar algo de valioso entre os mortos. Lhiannon era como um fantasma entre eles. Uns quantos desgraçados conseguiram beber a água que lhes oferecia. Para outros um golpe firme do punhal era a única misericórdia possível. Anestesiada pelo horror dos corpos desfeitos à sua volta, fazia uma coisa e outra com igual calma.

E assim, vagueando pelo campo de batalha com a túnica branca, encontrou o rei.

Foi só pelo torque de ouro que tinha ao pescoço que o reconheceu. Caratac estava coberto de sangue, a maior parte das roupas rasgadas. Estava sentado com o corpo de um guerreiro nos braços. Lhiannon não reco­nheceu o homem morto. Talvez isso não interessasse. Ele era todos os outros.

Quando se aproximou, Caratac levantou a cabeça. — A Senhora Branca... — murmurou. — Viestes para me levar também?

Meu senhor — o choque quebrou a alheamento de Lhiannon. — Não devíeis estar aqui!

Não... Não devia. Isso é muito verdade... — Olhou em torno de si. — Oh, meus guerreiros! Vede como estão por terra... Porque continuo vivo? Combati bravamente... Não fugi... Sabes disso, não sabes? — Fa­lava com o homem morto. — Diz-lhes, lá onde festejam com os heróis, que tentei... —A cabeça tombou-lhe no­vamente.

Caratac levantai-vos! Os Romanos foram em­bora mas vão regressar e não podem encontrar-vos aqui.

Isso interessa?

Era uma pergunta que ela estava a tentar não fazer.

Pode interessar àqueles que escaparam deste campo

disse ela cuidadosamente. — Eles vão querer que os comandeis novamente...

Como comandei estes? — perguntou ele amar­gamente. Mas ao menos pareceu aperceber-se de que o homem que segurava já não o conseguia ouvir. Fez-se um longo silêncio. Depois, muito suavemente, pousou o corpo. — Os Ordovices estão desfeitos — disse ele num tom mais normal. — E os porcos romanos vão concen­trar aqui toda a sua atenção. A nossa única esperança é procurar apoio numa direção para que eles não estejam a olhar. — Ficou novamente em silêncio, mas a tensão ha­bitual estava a regressar ao seu corpo. Começava a pare­cer-se com o homem que ela conhecia. — Os Brigantes já estavam dispostos a rebelar-se contra eles. O que me di­zeis, Senhora Branca?

Lhiannon abanou a cabeça. — Não me olheis à procura de respostas, meu senhor. Estou vazia. Há dois anos o druida-chefe queria que eu fosse estudar em Eriu. Diz-se que lá eles têm conhecimentos que nós já perde­mos. Devia ter ido... não vos servi de grande coisa aqui...

Somos realmente um par triste — disse Caratac baixinho. — Mas estais enganada senhora. Destes-me uma razão para viver.

Ide para ocidente, para Eriu e encontrai alguma sabedoria para o nosso futuro, que eu irei para leste ter com Cartimandua.

 

Ides ter com Cartimandua? — Boudica franziu o sobrolho ao homem que tinha na sua frente. — Tendes a certeza de que isso é sensato?

Fora encontrá-lo junto aos portões de Dunford, coberto por uma capa de capuz, tão anônimo como qualquer outro homem ferido e usado pelas guerras. Quando parará para lhe dar um bolo de aveia do saco que trazia sempre para ocasiões como aquela, vislumbrara o brilho do ouro junto ao pescoço por baixo de um lenço esfarrapado.

Ele afastara o lenço. Ela empalidecera ao reconhe­cer o colar e depois o olhar feroz do rei.

Meu senhor Caratac! Sede bem-vindo! Vinde para o forte e deixai-me servir-vos uma refeição decente! —E um banho... e ligaduras para esses ferimentos... acrescentou em silêncio.

Não... — dedos fortes cerraram-se sobre a mão que lhe estendia. Os seus olhos olharam fugidiamente para a estrada onde uma carroça carregada com rolos de panos de lã dos seus teares passava ruidosamente a ca­minho de Colônia.

Tendes aqui demasiada gente que é amiga de Roma. Para meu e vosso bem é melhor que ninguém sai­ba que estive aqui.

Mas temos de falar... Soubemos da batalha. Al­guns dizem que fostes capturado, outros que fostes mor­to... — Calou-se ao ver a dor que lhe ensombrava o olhar.

Talvez tenha sido e seja só o meu fantasma o que vedes aqui. Nas últimas semanas senti-me um fan­tasma, atravessando a terra sem ser visto. Muitos — de­masiados — dos meus homens jazem mortos naquela colina. — Hesitou e depois olhou-a. — O vosso irmão Bracios era um deles. Tombou defendendo-me.

Obrigada por mo dizerdes. — Boudica res­pondeu passados uns instantes. Mal vira o irmão desde que ambos eram pequenos, supunha que a dor que senti­ra era mais pela morte da infância do que pela morte dele.

Mas vós estais vivo e vejo que precisais de vos ali­mentardes... Se seguirdes o caminho do rio ireis dar ao bosque de Andraste. Aguardai-me lá.

E agora, com um cesto cheio de comida e de vinho e de ligaduras, estava sentada na frente dele à sombra do círculo de carvalhos que rodeava o santuário.

Já há muito tempo que não bebia vinho deste.

Bebeu mais um trago do odre. — Ultimamente só te­nho bebido água e, antes disso, cerveja. Rejeitei tudo o que é romano menos isto. — Suspirou. — O nosso povo já poderia ser livre se tivéssemos esquecido o nosso gosto pelo vinho romano.

O meu marido e eu não vos trairemos, mas também não vos podemos ajudar — disse então Boudica.

Já ouvi histórias do deserto que os Romanos deixam atrás de si quando impõem a sua "paz" às terras conquis­tadas. E, na verdade, acho que nem vos seríamos de grande utilidade de nos atrevêssemos a ajudarmos. Os homens com coragem para combater os Romanos fize­ram-no no forte dos pântanos, há quatro anos, e morre­ram.

Desejo-vos sorte com a paz que os Romanos vos deixaram — disse Caratac secamente. — Espero que seja duradoura.

Deu uma pequena dentada num pedaço de pão e pousou-o.

Transformaste-vos numa bela mulher — disse.

Quando passastes o copo de hidromel no salão de Mona éreis como uma jovem potra, só pernas e energia nervosa. — Bebeu mais um golo de vinho.

E agora sou a Égua Vermelha dos Icenos... Não devia saber que as pessoas me chamam assim... — sorriu.

Mas é a égua negra dos Brigantes que vos deve preo­cupar.

Posso ao menos ter a esperança de que ela me ouvirá. A Cartimandua tinha simpatia por mim há muito tempo.

Ela desejava-te — corrigiu-o Boudica com um suspiro interior. Naquela época Prasutagos engrossara bastante à volta da barriga, mas ela podia aquecer-se nas suas chamas constantes. O homem na sua frente ainda tinha o corpo musculado de um guerreiro, mas o fogo que atraíra para si homens e mulheres estava reduzido a cinzas.

Tenho de fazer alguma coisa — continuou ele.

Os porcos romanos capturaram o meu irmão Epilios e a minha mulher e a nossa filha, a pequena Eigen, a única filha que me resta. Tendes filhas... podeis compreender como me sinto!

Boudica assentiu. — A Rigana já tem seis anos e o seu primeiro cavalo. A Argantilla tem quase quatro. — Se ela e Prasutagos não tinham mais filhos não era por não tentarem, mas não engravidara novamente. Naqueles dias a única coisa que tinha o poder de despertar a sua fúria era a idéia de perigo para as suas filhas espertas e por ve­zes exasperantes, que pareciam ser as únicas filhas que alguma vez teria.

Se me entregar agora, não poderei fazer mais do que ficar acorrentado ao lado deles. Mas poderei negociar a sua libertação se os Romanos me virem novamente como uma ameaça — continuou Caratac.

Havia não muito tempo, pensou Boudica, aquele homem jurara defender toda a Britânia. Agora a sua am­bição limitava-se à liberdade de um homem, de uma mu­lher e de uma criança. Mas não acabava tudo por se re­sumir sempre a isso mesmo? Por mais palavras que os homens usassem para vestir as suas ambições, a abstração por que combatiam tinha sempre um rosto e um nome humanos.

Tudo o que vos posso oferecer são mantimen­tos para o caminho e a minha bênção... — começou a dizer.

Não... há mais uma coisa que podeis fazer por mim... — Levou as mãos ao torque, agarrou no fecho de anéis ornamentados e começou a abrir a corda espiralada de fios de ouro entre -tecidos. —Aceitarei este vosso conselho. Este colar foi feito por um artífice iceno. — Estremecendo tirou-o, deixando à vista uma semicírculo branco na base do pescoço no local onde o colar es-tivera. — Guardai-o para mim, Boudica. Se as coisas correrem bem voltarei para o reclamar. Se correrem... mal, não envergonharei o ouro ao usá-lo com as corren­tes romanas.

 

Se Mona era chamada de ilha dourada, envolta em magia, o rochedo separado do resto por um estreito cria­do pelas marés era considerado ainda mais sagrado. Lá do cimo, na ponta ocidental de Mona, via-se o oceano pra­teado e meio toldado pelas brumas. Havia quem dissesse que aquele era o último porto de onde se podia navegar para as Ilhas dos Abençoados. Lhiannon partia apenas para Eriu.

Mas parecia-lhe a morte, isso era certo, deixar a Britânia. Agarrou-se à amurada do pequeno barquinho quando este saiu das águas abrigadas do porto e começou a subir e a descer ao ritmo do mar. Partia com a satisfa­ção relativa de saber que o governador romano Ostório morrera e com a dor de saber que a Rainha Cartimandua enviara Caratac, acorrentado, aos Romanos. Naquela al­tura também ele devia navegar em mar aberto em direção a Roma. Ter com ele a mulher, a filha e o irmão certa­mente que não era um conforto, quando qualquer um deles só podia esperar a morte ou o cativeiro.

A instabilidade debaixo dos seus pés refletia bem a sua confusão interior. Tudo o que sempre conhecera de­saparecia atrás de si, não tinha quaisquer fundações fir­mes onde se apoiar e o seu futuro estava envolto em brumas tão cinzentas como o nevoeiro que cobria o mar.

Ainda via na praia a silhueta azul de Helve.

Lhiannon não esperara que a alta sacerdotisa a acompanhasse. Só quando já estavam na estrada é que se apercebera de que a outra mulher quisera ter a oportuni­dade de falar com ela longe dos ouvidos de toda a comu­nidade druida.

Os Romanos vão tentar destruir-nos — disse Helve sombriamente. — Já o vi e a Coventa também viu. Apesar da nossa resistência, os fortes que eles constroem aproximam-se todos os anos. Descobriram que há ouro no coração das montanhas e prata nas terras dos Decean- gli. Vão explorar esses metais e depois descobrirão a es­trada costeira que vem até aqui. Estas montanhas já não nos protegerão.

Então porque me mandas embora? — pergun­tara Lhiannon.

Já provaste ser adaptável. Acredito que és a melhor candidata a aprender tudo aquilo que os druidas de Eriu têm para ensinar. A Mearan acreditava que eras a mais talentosa das jovens sacerdotisas... caber-te-á a ti preservar a nossa tradição, se tombarmos.

O choque daquela afirmação deixara Lhiannon sem palavras. — Pensei que me desprezavas... — disse finalmente.

E Helve olhara-a com uma expressão entre a e­xasperação e a ira. — Tu eras a minha rival. Mas se estes ornamentos alguma vez forem teus... — tocou o ouro que trazia ao pescoço —, descobrirás que o trabalho tem precedência sobre os sentimentos que possas nutrir. O amor e o ódio são luxos que já não posso ter. E se te to­mares alta sacerdotisa isso significará que eu morri e que estou para lá de todo o ciúme... — deu uma gargalhada amarga. — Por isso toma bem conta de ti e aprende tudo o que puderes...


 

Quero que mantenham os olhos bem abertos... — Boudica dirigiu-se às filhas com um olhar de aviso. — A cidade romana será uma grande novidade e muito es­tranha. Devem ficar sempre à vista da Temella ou do guarda da casa... perceberam? — O olhar fixou-se em Rigana que, com sete anos, juntara à independência de espírito uma estranha habilidade para enganar os seus guardiães. Por um momento a rainha desejou ter trazido Bogle, mas o cão estava a ficar velho para uma viagem daquelas e estremeceu ao pensar como ele poderia reagir aos sons e odores novos da cidade romana.

Pensou em quão estranha Camulodunum, ou Co­lônia Victricensis — a Cidade da Vitória — como lhe de­viam chamar agora, seria. — Tinha visto o forte que eles tinham construído na colina por cima do velho dun, mas não tinham vindo tanto para sul há alguns anos e só co­nhecia da cidade aquilo que ouvira dizer.

Eles estão confiantes — comentou Prasutagos quando começaram a subir a colina.

Um conjunto desordenado de cabanas e de jardins alinhava-se ao longo da estrada, e o fosso e o talude que tinham suportado as muralhas, já não estavam encimados por uma paliçada. Muitos dos antigos edifícios dos legio­nários tinham sido convertidos em lares e em lojas, mas havia também uma grande quantidade de novos edifícios a serem construídos. Os soldados veteranos tinham-se adaptado bem, mas também uma legião era como uma cidade móvel, com homens treinados em todos os ofí­cios. Alguns tinham mandado vir as mulheres da sua terra natal e outros tinham casado com raparigas das tribos. Boudica pensou como se sentiriam os Trinovantes por ter tantos estranhos instalados bem no meio do seu terri­tório. Mas, como tribo conquistada, não havia muito que pudessem fazer a esse respeito. Mais uma razão, pensou ela sombriamente, para os Icenos manterem o seu esta­tuto protegido de aliados.

Têm razões para isso — respondeu. O novo governador, Aulo Dídio Galo, forçara os Silures à rendi­ção. Com Caratac feito prisioneiro, não restava nenhum chefe britânico com estatura para liderar uma rebelião.

Olha Mamã... um rochedo grande com portas!

Podia desculpar-se a Argentilla não ter reconheci­do no portão a obra de um homem, nunca vira um edifí­cio feito de pedra e aquela estrutura com arcos geminados e uma cimalha esculpida, não tinha qualquer função a não ser afirmar o orgulho romano. A luz do Sol deu lugar às sombras quando passaram por baixo do arco e entraram na cidade.

 

A luz do Sol brilhava na fonte no meio do jardim de Júlia Póstuma, o marulhar das suas águas um barulho de fundo para o murmúrio das vozes das mulheres. Lem­brou a Boudica as águas da fonte sagrada. Apesar de a­quela ser mais sofisticada e mais ordenada do que qual­quer tipo de santuário amado pelos seus deuses, anda as­sim era uma mudança bem-vinda nas linhas direitas e ân­gulos retos das esquinas da cidade romana. No jardim não havia nada de tão prático como couves ou feijões. Era um santuário à Beleza, tendo até um pedestal de pe­dra onde uma imagem da deusa sorria às flores. Os deu­ses que tinham levado os Romanos até à Britânia eram Júpiter e Marte. Aquela senhora adorável parecia uma divindade de natureza mais gentil.

Quem é a deusa? — perguntou. O seu Latim ainda era hesitante e ela falava-o com o sotaque do es­cravo gaulês que tinham comprado para professor e que tinham libertado, mas servia para comunicar. Póstuma tinha ficado visivelmente aliviada por descobrir que po­diam falar sem precisar de tradutor.

Aquela é Vênus, a senhora do amor. Têm uma deusa assim, nas tribos?

Uma deusa só para o amor? Não. — Boudica abanou a cabeça. — Mas todas as nossas deusas são sen­suais — sorriu ao de leve lembrando-se de algumas das histórias que ouvira contar de Morrigan —, até mesmo a nossa deusa da Guerra.

Póstuma riu-se. — Diz-se que Vênus combateu na guerra de Tróia, mas não muito bem. Desde aí o quarto de cama tem sido o seu único campo de batalha.

Sem dúvida que os vossos homens preferem assim — respondeu Boudica. — Parecem sentir-se des­confortáveis com mulheres no poder, até mesmo com rainhas... — Ainda a irritava o fato de Prasutagos ter sido convidado para o conselho de chefes tribais e ela não. A sua única consolação era o fato de a mesma proibição se aplicar também a Cartimandua. Que também estava sen­tada do outro lado do jardim. Ao menos confio em Prasutagos para me contar o que se passar e ele pedir-me-á o meu conselho, pensou então. Toda a gente dizia que desde que Carti­mandua traíra Caratac ela e Venutios mal trocavam pala­vra.

E muito simpático da vossa parte receber-nos enquanto os nossos maridos estão ocupados — disse e­ducadamente. — Enquanto o teu marido recorda aos nossos quem manda realmente na Britânia, pensou ainda.

Oh, acho que somos nós quem tem melhor sorte — respondeu a mulher do governador. — Podemos ficar confortavelmente sentadas a apanhar ar fresco en­quanto eles têm que estar enfiados a transpirar naquele salão abafado. Mas se seguirmos o exemplo do imperador isso é capaz de mudar. Disseram-me que Caratac e a sua família foram exibidos pelas ruas de Roma. Agripina es­tava sentada no trono ao lado do marido.

Ouvistes contar mais alguma coisa do que se passou por lá? — perguntou Boudica em tom neutro.

Ele é um homem corajoso, o vosso Caratacus. Os outros, disseram-me, curvavam as cabeças, desespe­rados, mas o rei usava as correntes como se fossem jóias reais. Perguntou para que é que os Romanos queriam a Britânia se já tinham uma cidade tão magnífica. Depois disse a Cláudio que as dificuldades que nos causara só aumentavam a nossa glória ao conseguir capturá-lo e dis­se que, se fosse morto, seria esquecido, enquanto que se vivesse seria um testemunho da magnanimidade do im­perador. Os Romanos apreciam sempre um bom discurso e ele tinha razão. Então Cláudio permitiu que vivesse e deu-lhe uma casa em Roma.

Mas Caratac nunca mais verá a Britânia..., pensou Boudica. Acho que preferia morrer a suportar o cativeiro, mesmo um cativeiro suave como o dele.

Póstuma ergueu os olhos quando um dos seus es­cravos apareceu ao portão seguido de perto por Temella.

Domina... — começou, mas Temella passou-lhe à frente.

Minha senhora, as meninas desapareceram!

Mas Boudica já estava de pé, murmurando uma

desculpa à anfitriã antes de Póstuma ter oportunidade de reagir. Devia ter trazido o Bogle, pensou enquanto saía a­pressadamente.

Foi o liberto gaulês, Crispus, quem se revelou mais útil devido ao seu conhecimento das cidades romanas.

Receio que tudo isto possa ser culpa minha, senhora — disse enquanto caminhavam apressadamente estrada abaixo. — Falei das lojas às meninas e elas não conseguiram esperar para as ir ver.

A própria Boudica quisera visitar as lojas e prome­tera levá-las. Visões das suas filhas, assustadas e a sangrar, alternavam com cenários do que lhes iria fazer quando as encontrasse sãs e salvas.

Mais à frente ouviu gritos. Aquilo pareceu-lhe prometedor. Trocou um olhar com Temella e começou a correr com Calgac, o guerreiro que lhe fora destinado para a escolta, correndo pesadamente atrás de si.

A cena com que se deparou fê-la parar, as lágrimas de alívio competindo com uma enorme vontade de rir. Rigana, com uma expressão furiosa e agarrada a um poste que, aparentemente, servira de apoio ao toldo que estava agora caído por trás dela, mantinha à distância um grupo de adultos vociferantes. Aparentemente, a qualidade das roupas e ornamentos usados pelas crianças tinha feito com que os habitantes locais pensassem duas vezes entes de tomar medidas mais drásticas. Por trás dela estava Ar- gantilla, com os braços fechados protetoramente em tor­no de um rapazinho de cabelos escuros, pouco mais ve­lho do que ela e que parecia igualmente aterrorizado pelos adultos aos gritos e pela sua pequena protetora. Havia cestos de feijão entornados pelo chão.

Ela é sem dúvida vossa filha, minha senhora — murmurou Calgac. — Maneja bem aquela, hm, lança.

Boudica transformou o sorriso num franzir de ce­nho real, ajeitou a túnica e avançou. Os homens afasta­ram-se para a deixar passar, igualmente impressionados, ela assim o esperava, pelo seu ar autoritário e pela lança na mão do homem que a seguia.

Mama — gritou Rigana quando ela apareceu. — Eles iam matar o rapaz!

Não senhora... nobre rainha! — disse um ho­menzinho baixo e gordo com uma cara muito vermelha, que tentava simultaneamente fazer uma vênia e manter o ar fanfarrão. — Bati no rapaz porque ele é estúpido e preguiçoso e estas meninas começaram a gritar comigo, e a do cabelo ruivo bateu-me e veja bem a confusão que fi­zeram na minha banca!

Boudica observou-o mais de perto e viu que uma grande nódoa negra começara a aparecer na cara do ho­mem. Bem feito, Rigana! — Compreendo... — disse em voz alta. Infelizmente o homem estava no seu direito e ela não tinha qualquer desejo de dirimir aquele conflito num tribunal romano. — Suponho que o rapaz seja teu escra­vo?

E, para mal dos meus pecados, e um estúpido e

inútil...

Então sem dúvida que terá pouco valor — ela interrompeu-o. — Será esta uma compensação suficiente pelo insulto à tua honra, pelos estragos causados na tua loja e por este rapaz inútil? — Tirou um dos braceletes de ouro e estendeu-lho.

Sim, mas o rapaz custa... — o seu protesto es­moreceu quando olhou bem para o ouro. — Sim, grande rainha, sois muito generosa!

Pois sou, pois esse bracelete vale mais que tudo o que tens na loja incluindo-te a ti próprio. — Os ho­mens endireitavam-se e curvavam a cabeça quando ela varreu a multidão com um olhar real. — Perante todos os deuses, sois testemunhas de que foi oferecida e aceite uma compensação e tereis que atestar esse fato se tal vos for exigido.

Sim, senhora — ouviram-se os murmúrios e, da parte daqueles que a reconheciam, ouviu: — Sim, minha rainha!

Crispus, fica com uns quantos nomes para o caso de ser necessário, enquanto eu e Calgac levamos es­tas poderosas guerreiras para casa para enfrentarem a sua própria justiça — murmurou Boudica avançando para ir buscar as filhas e o seu prêmio.

Qual de vocês teve esta idéia? — perguntou quando entraram na casas ao estilo romano que lhes fora destinada para a estadia.

Rigana lançou-lhe um olhar duvidoso, tentando claramente decidir se reivindicar a liderança lhe traria elo­gios ou recriminações.

A Riga queria ver as lojas — disse Argantilla muito bem explicada —, mas eu salvei o rapaz!

Ah sim... — por um instante ficou a observar a menina mais nova. Rigana sempre fora mais agressiva, mas era evidente que a Tilla também era corajosa. Depois suspirou e olhou para o rapaz. — Bem, vamos lá dar-te uma vista de olhos, criança. — Levantou-lhe o queixo e olhou para os olhos escuros muito abertos numa atitude de desafio e de medo. — Como te chamas?

Ele chamava-me "bastardinho" — tartamudeou o rapaz —, mas havia uma mulher que me chamava Caw. — Via agora que ele estava horrivelmente magro e viu marcas de chicote por baixo da túnica esfarrapada que trazia vestida.

Era a tua mãe? — perguntou Boudica com mais gentileza. O rapaz falava com o sotaque dos Trinovantes, mas isso seria de esperar. Com aquela cor de cabelo e de olhos podia ser um bastardo romano ou filho de uma mulher Silure capturada na guerra.

Não sei... — Caw baixou os olhos.

Bem, não interessa, agora pertences-nos a nós. Legalizaremos a tua liberdade quando cresceres. E nós não espancamos os nossos servos, sejam escravos ou li­vres! — Virou-se para o guerreiro. — Calgac, levas a nossa nova criança e arranjas-lhe comida, um banho e roupas? Quando estiveres recuperado, Caw, tratarás das minhas filhas. Espero que as ajudes, mas não podes dei­xar que elas mandem em ti. E vocês as duas... — virou-se para as raparigas, — devem tratá-lo com cortesia.

— Sim Mama — disseram elas em coro, muito

bem comportadas, pelo menos de momento.

 

A praça estava quente. Enquanto a fila de homens e mulheres ricamente vestidos ia avançando lentamente, Boudica puxou o véu para a frente para fazer um pouco de sombra. Prasutagos olhou-a com inveja. Estava a ficar com o cabelo ralo no cocuruto e já o teria todo vermelho quando aquilo terminasse. Os cidadãos romanos do gru­po tinham puxado as pontas das togas por cima das ca­beças. Ela sempre pensara que as pregas volumosas da toga se destinavam a demonstrar que não se esperava de quem as usava que fizesse nada de muito prático, mas era evidente que, na sua terra natal, também serviam para proteger os homens que tinha que estar ao sol italiano durante horas nas cerimônias oficiais. Sentia o suor a es­correr-lhe pelas costas por baixo da túnica de linho.

Um fumo doce pairava no ar, velando as telhas das coberturas dos edifícios que rodeavam a praça. Aquele local era o mais enfaticamente romano da cidade de Co­lônia. Fora construído na ponta leste da cidade, onde as muralhas com ameias tinham sido derrubadas para criar o espaço necessário. De um dos lados as paredes meio construídas do novo teatro brilhavam, alvas, à luz do Sol. Apesar de não vislumbrar qualquer imagem de Júpiter, a sua presença sombria pairava sobre o local como uma nuvem invisível. Mas a figura de Vitória sobre a sua alta coluna olhava complacentemente para aqueles que ti­nham vindo ao altar cívico oferecer incenso ao gênio do imperador. Boudica não tinha qualquer objeção a partici­par na cerimônia, se bem que o ritual parecesse rígido e rotineiro depois do poder dos rituais druidas. Tudo o que aumentasse a virtude do soberano só poderia melhorar a forma como este lidava com a Britânia.

Prasutagos soltou um suspiro paciente à medida que, passo a passo, reis e chefes tribais iam avançando. Ao menos pudera divertir-se a olhar para os edifícios. Ela aprendera a interpretar os seus suspiros da mesma ma­neira que interpretava os seus silêncios. Aquele expressa­va uma série de coisas que ele era demasiado hábil para dizer, como a sua opinião acerca das togas usadas por alguns dos Catuvellauni. Os Bretões que se tinham pas­sado para o lado dos Romanos tinham sido recompensa­dos com uma cidade própria, Verulamium, e com a cida­dania. A Paz de Roma exigia que fosse simpática para com eles assim como a impedia de dizer o que pensava a Cartimandua.

Encontrou os olhos escuros da rainha brigante a­través do fumo. Despre%as-me como traidora, pareciam di­zer-lhe. No entanto somo-la as duas. Caratac foi ter contigo em segredo, mas comigo veio ter abertamente. Poderias jurar que se ti­vesses estado na minha situação não terias feito o mesmo? E Bou­dica, reconhecendo que ela própria poderia ter traído Ca- ratac se esse fosse o preço da segurança das suas filhas, foi a primeira a desviar os olhos.

As suas narinas estremeceram com o odor forte quando chegaram junto ao altar. Curvou a cabeça e lan­çou um pedaço de resina esmagada para o fogo. Ficaram despachados e puderam reunir-se ao grupo conversador que se reunira à sombra num dos lados da praça.

Eles acham mesmo que fazerem-nos participar nesta encenação nos fará amar Roma? — murmurou.

Acho que não tem importância — respondeu Prasutagos. — Os Romanos estão sempre mais preocu­pados com as aparências das coisas. Desde que façamos os gestos, eles não parecem estar interessados no que a- creditamos verdadeiramente. Eu acho que eles revelam a sua fé nas coisas que constroem... — O seu olhar voltou à praça. —Até mesmo as paredes das casas são altas e di­reitas, como muralhas, escondendo o que está no interior.

Boudica sorriu, pensando em que construção esta­ria ele a matutar agora e deixando que a levasse para a sombra.

Debaixo do telheiro estava mais fresco. Escravos de túnicas verdes moviam-se por entre a multidão, trans­portando tabuleiros com acepipes condimentados e vinho em copos de vidro azul.

A expressão de interesse agradado de Boudica tornou-se um pouco rígida quando viu Polião vir na sua direção.

Uma tarde adorável, não é verdade? Quase su­ficientemente quente para que nós, Romanos, nos sinta­mos em casa... — O seu tom era descontraído, mas ela estremeceu sob a intensidade do seu olhar e passou o véu pelos ombros e sobre o peito num escudo protetor. — Tenho a honra de lhes apresentar o meu novo assistente... Lúcio Cloto de Noviomagus, das terras dos Atrébates.

Boudica pestanejou, retirando mentalmente gor­dura e pêlos faciais da cara daquele homem de olhos jun­tos, para o fazer parecer-se com o rapaz que Ardanos ar­rastara para longe, aos gritos. Infelizmente Cloto estivera certo quanto ao poder de Roma e, era evidente, que fora recompensado, apesar de aparecer ir tropeçar a qualquer momento na toga mal enrolada. A julgar pelo novo nome devia ter-se tornado cliente de Polião ao obter a cidadania romana.

O Rei Prasutagos, como é evidente, já conhe­ces, mas podes não ter tido oportunidade de conhecer a sua adorável esposa, Boudica... — continuou Polião.

Oh, conheci a Boudica quando era uma meni­ninha magricela, há muito tempo — disse Cloto. Ele e Boudica trocaram sorrisos tensos.

Desde esse tempo muitas coisas mudaram... — disse ela brandamente. Provavelmente não seria muito oportuno nem muito digno lembrar-lhe que lhe ganhara no campo de jogos.

Na verdade, minha adorável esposa, dizia a sobrancelha erguida de Prasutagos, pressinto uma história que ainda não ouvi.

Sem dúvida que nos encontraremos novamente este Outono, quando fizermos a ronda depois da colheita — disse Cloto. Eu tinha ra%ão... e agora pagar ás, sorriu ele.

Sabes que as pessoas daqui chamam-lhe "Clo- to", o nome de uma das Parcas gregas? — perguntou Prasutagos quando os dois coletores de impostos se afas­taram. — Ele mede a quantia devida.

Era estudante em Mona quando eu lá estava — disse Boudica, — e era um rapaz tão desagradável como o homem que agora é. Será perigoso... em tempos foi um de nós e sabe o que é provável que as pessoas tenham e o que tentarão esconder... Isto afetará o projeto de cons­trução em Dunford? — continuou. A cabana de dois an­dares não satisfizera o rei por muito tempo. O novo pla­no de Prasutagos contemplava agora um novo grupo de edifícios num recinto muito ampliado.

Não me parece — disse ele pensativo. — Estou a dar trabalho a pessoas que, desocupadas, seriam poten­ciais rebeldes. Os Romanos deviam agradecer-me por os tirar das estradas. — Encolheu os ombros. — Os Ro­manos dizem que ao destino, tal como à morte e aos im­postos, ninguém consegue escapar.

Prasutagos sorriu, mas Boudica não. Certamente que tudo o que os druidas tinham feito para evitar o des­tino previsto pelas videntes só contribuíra para que este viesse a acontecer. Quais dos seus esforços para preservar o seu povo provocaria, em vez disso, um desastre? Sentiu

um arrepio apesar do calor do dia.

 

O dia amanhecera claro, mas um vento frio em­purrava as nuvens pelo céu. A chegada da Primavera tra­zia sempre um tempo inconstante, pensou Boudica apa­nhando um monte de roupas de cama para levar da ca­bana de dois andares para a casa nova, que fora construí­da de um dos lados para acomodar as mulheres. Os gan­sos voavam para norte e a família real estava a mudar-se da cabana de dois andares. Seria um alívio, pensou ela ironicamente, não ter de adormecer ao som das discus­sões dos homens à volta da fogueira.

Mama! O Bogle desapareceu!

Boudica virou-se quando Argantilla correu na sua direção.

Ele é um cão velho, querida. De certeza que está deitado num sítio escondido a fazer uma sesta. — Embora fosse difícil imaginar onde ficaria um tal sítio, com o forte virado do avesso com os homens a escava­rem o novo fosso e a fazerem o novo talude agora que tinham terminado as cabanas que flanqueariam o que passaria a ser a sala do conselho.

Mas eu procurei por toda a parte! — Com oito anos, Argantilla estava a tornar-se uma criança robusta e responsável, com o cabelo farto e loiro do pai e agora estava corada pela fadiga. Era um alívio ter uma filha que sabia sempre onde deixara os sapatos na noite anterior, mas a convicção de Tilla de que era a única pessoa res­ponsável da família era, por vezes, muito irritante.

Não, não procuraste — disse Boudica aspera­mente —, ou tê-lo-ias encontrado. Hoje em dia ele está demasiado coxo para se afastar muito. Pede à tua irmã que te ajude a procurar, ou ao Caw.

A Rigana saiu a cavalo e foi ajudar os homens a trazer as vacas — disse Tilla reprovadoramente. —Acho que o Caw está a ver o ferreiro a trabalhar.

Criado numa cidade romana, Caw não tinha o mesmo à vontade das raparigas a cavalo, que já monta­vam antes de saberem andar, mas tinha muito jeito de mãos. Argantilla continuava a encará-lo como uma des­coberta sua e o rapaz reverenciava-a como sua salvadora. Boudica não tinha qualquer dúvida de que ele largaria o que estivesse a fazer se Tilla lho pedisse.

Vai ter com ele, minha flor — disse em voz alta —, e vai procurar o cão e depois podes vir cá para me a­judares.

Prasutagos também deveria estar a ajudá-la, mas descobrira convenientemente que tinha que ir ter com Drostac em Ashe Hill. Agora que as duas cabanas junto ao Salão do Conselho já estavam prontas, Boudica e as meninas estavam a transportar todos os seus pertences para a casa destinada à rainha. Com exceção de umas poucas coisas de que precisaria à noite, as coisas do rei tinham que ser mudadas para a Casa dos Homens, que ficava do lado oposto. Só os deuses sabiam como ele e os guardas organizariam as coisas por lá, mas esse não era um problema dela.

O que ela teria preferido, pesou Boudica bem-humorada, era uma casa separada com tamanho a­dequado para os dois. Já era tempo de o rei e a rainha fazem mais uma viagem pelos territórios tribais, apesar de agora, que ele era rei supremo, ela achar que nunca con­seguiriam ficar tão completamente sós como quando ela fugira da festa do casamento e acordara com ele a cozi­nhar o pequeno-almoço na fogueira. Sorriu com a recor­dação e depois deu a si própria um abanão mental e a­garrou novamente nas roupas de cama.

Tinha arrumado todas as suas coisas e ela e Te- mella estavam a fazer a cama grande quando Caw apare­ceu à porta. A cama era nova e estava desejosa de a expe­rimentar quando o marido chegasse a casa.

Minha senhora — disse Caw com a formalidade que continuava a usar mesmo depois de já ter passado três anos naquela casa. — Encontramos o cão. — A­guardou.

Está ferido? — perguntou Boudica.

Acho que se passa qualquer coisa. Ergue a ca­beça mas não se levanta. A Argantilla está com ele ao fundo do novo fosso. Senhora, ele é demasiado pesado para o conseguirmos trazer para casa.

É claro que é... — Ultimamente o cão perdera corpulência, mas mesmo assim provavelmente ainda pe­sava o mesmo que uma das raparigas. Argentilla não teria hesitado em ordenar aos homens que os ajudassem, mas conseguia perceber porque é que a rapariga ficara com o cão. Era sempre a ela que traziam os pássaros com asas feridas.

Se está ferido, tem de ser movido com cautelas. Vai ter com os trabalhadores que estão a construir a pali­çada e diz-lhes que usem postes para fazer uma padiola. Diz-lhe que fui eu que mandei — acrescentou quando viu o seu ar duvidoso.

Deixando Temella a acabar de fazer a cama, Bou­dica cheirou o ar, pegou num xale e atravessou o pátio. O céu estava completamente cinzento e a atmosfera estava pesada com a promessa de chuva. Quase desejou que Prasutagos não tivesse concebido o novo recinto retan­gular para ser tão grande. Caberia lá dentro um forte ro­mano inteiro. O talude e fosso originais tinham sido ni­velados e, à medida que cada secção dos novos ia sendo completada, os carpinteiros iam acrescentando a paliçada enquanto os cavadores prolongavam um pouco mais o fosso.

Quando se encaminhava apressadamente para o canto mais distante do recinto, avistou a cabeça loira de Argantilla e depois o corpo de cor creme do cão, por ter­ra. Bogle ergueu a cabeça quando ela se aproximou, com a cauda a estremecer dando-lhe as boas-vindas.

Olá velho amigo — murmurou ela ajoelhan- do-se ao seu lado e pousando a cabeça enorme no seu colo. — Como é que estás?

O cão soltou um suspiro entrecortado quando ela lhe começou a afagar as orelhas. O coração de Boudica contraiu-se de pena ao sentir os ossos por baixo da pele lassa. Sabia que o Bogle estava a envelhecer, mas como era um cão branco o seu focinho não ficara grisalho para lhe lembrar de como estava velho.

Onde é que te dói, meu rapaz? — Suavemente foi passando as mãos ao longo da espinha do cão, apal­pou os músculos das costas e das coxas. O cão não se queixou nem se mexeu, com exceção do bater vagaroso da cauda.

Mama, o que é que ele tem?

Boudica encolheu os ombros, impotente. — Não encontro nenhum ferimento, Flor. Acho que está sim­plesmente velho e cansado.

Como a Avó ficou? — perguntou a menina.

Sim, querida. — A mãe de Boudica morrera no ano anterior e fora Argantilla quem lhe fizera companhia nos últimos dias. — Os corpos gastam-se nos cães e nos humanos também.

Mas ele só tem mais dois anos que a Rigana! — exclamou Tilla.

Os anos dos cães são diferentes — disse Bou­dica. — Para um cão grande o Bogle é muito velho... —

Da mesma idade que o seu filhinho teria se tivesse sobre­vivido. Que estranho já ter passado a vida inteira de um cão quando a morte do seu bebê parecia ter acontecido no dia anterior.

Onde estariam os homens com a padiola? Estava a ficar frio.

Mas eu não quero que ele morra... — murmu­rou a criança. Por trás dela Caw ficara pálido e perfeita­mente imóvel. Ele já viu mortes, pensou Boudica, e sabe como é. E eu, saberei?

Quando a mãe morrera, ela estivera fora de casa e a concha que restara parecera-lhe irreal. Se tivesse visto o corpo do filho, talvez não tivesse sido assombrada du­rante tantos anos por sonhos nos quais ouvia um bebê a gritar que ela o abandonara, ou se tivesse sentido a sua pequena vida extinguir-se debaixo das suas mãos, como sentia agora a vida de Bogle a extinguir-se.

Debruçou-se mais perto, tentando confortar o cão enquanto este tremia e estremecia nos seus braços.

Vão ter de ter muito cuidado quando o levan­tarem — estava Argantilla a dizer quando o Bogle se re­tesou, relaxou e recomeçou a tremer novamente.

Oh, meu pobre cachorrinho — murmurou Boudica, — descontrai-te, fica em paz. Os campos de Na-Dubnion estão cheios de lebres, segundo dizem, e Arimanes adora um bom cão...

A morte rodeara-a naqueles anos em que os Ro­manos tinham morto os seus irmãos e tantos outros ho­mens, mas nunca estivera presente. Agora não tinha al­ternativa senão encará-la.

Foste um bom cão, Bogle, um bom cão... — Conseguiu dizer com a garganta apertada. Obrigada por todo o amor que me deste...

A cauda felpuda bateu no chão. Ela abraçou-o com força quando ele teve mais uma convulsão e depois ficou quieto.

Fizemos uma padiola, Senhora. Quereis que le­vemos o cão para casa?

Boudica endireitou-se para reconhecer a sua pre­sença, se bem que naquele momento não se lembrasse dos seus nomes.

Não. Temos de arranjar um sítio para o enter­rar... — murmurou e Tilla começou a chorar. — As fun­dações para os postes dos portões já foram abertas? — Quando os homens assentiram, Boudica acrescentou: — Vamos pô-lo lá, onde poderá continuar a guardar-nos e vamos esculpir a sua cabeça na parte de cima do poste.

Gotas úmidas salpicaram o pelo branco do cão e ela pensou que começara a chover, mas eram apenas as suas lágrimas.


 

Durante o Samaine, as portas ficam abertas entre o ano velho e o ano novo, entre os vivos e os mortos, entre os mundos. Naquele ano os portões novos de Dunford também estavam abertos, com tochas enterradas no chão em frente aos postes onde estavam expostas as cabeças dos animais sacrificados para o banquete. O talude e fos­so interiores tinham sido terminados apesar de a paliçada ainda estar em construção. Agora Prasutagos estava com a idéia de acrescentar mais uma parede exterior com uma floresta de estacas entre as muralhas. Só o Deus Bom sa­beria quanto tempo levaria isso a ser construído.

Aquela era estação em que os rebanhos eram tra­zidos para as pastagens ao pé de casa. Na semana seguin­te começariam a selecionar os animais que não poderiam manter durante o Inverno e o cheiro do sangue pairaria, pesado, no ar. Mas agora, enquanto Boudica via o Sol esmorecer a ocidente, o vento trazia-lhe os odores da carne assada e do fumo e a promessa de mais chuva.

Mãe, o que estás a fazer? Estamos à tua espera! — Rigana acabara de fazer onze anos e parecia que ficava mais alta à passagem de cada lua. Juntamente com a altura aparecera a convicção aparente de que os pais eram seres inferiores que se tornavam, alternadamente, maçadores e divertidos. Boudica disse a si própria que aquilo lhe pas­saria com o tempo, mas lembrava-se de também ter sido assim.

Bem, mama, aqui tens a tua vingança... pensou com um sorriso interior. E talvez, naquela noite, o espírito da mãe a ouvisse.

Sim querida, vou já — disse em tom pacificador e seguiu a filha até ao salão de dois andares.

Prasutagos já estava sentado na cadeira esculpida do outro lado da fogueira. O banco dela estava ao lado do dele, mas depois seguiam-se duas cadeiras que ficariam vazias, para a sua mãe e o seu pai. A guarda do rei e o resto da casa estavam a instalar-se nos seus lugares. Também entre eles haveria lugares vazios; um dos guer­reiros morrera quando o seu cavalo caíra e a mulher de um outro morrera no parto.

Um ano vulgar, pensou, não como o do Outono que se seguira ao seu casamento, quando metade dos lu­gares do festim tinha sido reservada para o irmão de Pra­sutagos e todos os homens mortos na batalha do Tamesa. Se os deuses fossem bondosos ela nunca mais veria um banquete do Samaine como aquele.

Prasutagos olhou-a com um ar preocupado e ela conseguiu sorrir-lhe. O banquete era sagrado, mas na maior parte dos anos não era uma ocasião triste. Os dru­idas ensinavam que o Outro Mundo ficava apenas a uma respiração de distância deste. Os mortos não partiam e no Samaine o véu entre os mundos ficava muito fino.

A comida começou a ser servida em tabuleiros de madeira: pão e bolos de mel e cevada quente, maçãs sil­vestres secas e costeletas de vaca e fatias de carne de java­li assado. Tinham andado a destilar cerveja durante se­manas para aquela noite e as taças e os cornos manti- nham-se cheios.

— Saúdo a minha mãe Anaveistl — disse Boudica. — Dunford mudou muito desde os tempos em que foste a sua senhora, mas espero que não fiques muito desa­pontada com os nossos cuidados domésticos! —Aquilo arrancou gargalhadas ao que se lembravam dos esforços heróicos da sua mãe nas limpezas de Primavera. Boudica despejou o corno e os brindes continuaram

Arrancou o último pedaço de carne que dentes humanos conseguiriam tirar de uma costeleta de vaca, estendeu a mão para dar o osso ao Bogle e depois parou, com os olhos a arder cheios de lágrimas quando se lem­brou da razão para ele ali não estar. Mas certamente que o cão fora um membro estimado da família, tanto como muitos dos outros que estavam a saudar... com uma prece silenciosa pousou o osso no chão, no local onde ele se deitara tantas vezes.

Os brindes continuaram, às vezes acompanhados de uma cantiga ou de uma história fazendo com que os mortos vivessem novamente na memória. Mas à medida que a noite ia avançando, Boudica reparou que as filhas olhavam com uma freqüência cada vez maior para a porta aberta.

Acho que há alguém que quer ficar de vigia lá fora... — disse a sorrir. — Eoc Mor, importas-te de ir com elas até ao portão?

E, como estava à escuta, mesmo antes de as rapa­rigas regressarem aos gritos, Boudica apercebeu-se da vi­bração grave dos tambores distantes.

A Égua Branca vem aí! A Égua Branca!

Toda a gente saiu para a noite iluminada por to­chas. No céu, umas quantas nuvens jogavam à apanhada com a Lua e erguia-se um pouco de nevoeiro do chão úmido. Para lá dos postes dos portões, do outro lado do recinto, viu o brilho das luzes. Não era a luz da grande fogueira que ardia junto aos portões, pois aquela luz mo­via-se. O ar úmido dava uma auréola àquela luz que lhe provocou arrepios nos braços. A luz movia-se ao mesmo ritmo do barulho das bexigas cheias com cascalho e do assobio das flautas e da batida dos tambores. Boudica sentiu o seu coração acompanhar o ritmo e riu-se.

Via agora os seres que traziam as tochas entrarem aos saltos dentro do recinto, mascarados e com peles a imitar os animais que eram os totens das famílias ou cria­turas fantásticas do Outro Mundo. Das capas e das man­gas estavam pendurados fios de lãs coloridos e pedaços de metal e ossos que batiam, barulhentos. Alguns tinham a forma de homens, mas tinham-se pintado como os guerreiros da raça antiga, cujo sangue lhes corria nas vei­as. Alguns não tinham mais disfarce do que a pasta de giz que lhes transformava os rostos em caveiras, com os o­lhos brilhantes de uma intensidade enervante.

E, erguendo-se no meio daquela turbamulta taga­rela e ruidosa, vinha Ela, a Égua Branca, o crânio branco pousado com o maxilar móvel por cima da capa feita com a pelagem branca e macia. Discos de cobre tinham sido enfiados nas órbitas, polidos para refletirem a luz das to­chas com um brilho ominoso. Aquela não era a viva e amável deusa eqüina cuja máscara Boudica usara na acla­mação do rei. A Epona do Samaine exibia o rosto da Vi­da para lá da vida, para a qual a Morte era a passagem.

No Samaine, Ela caminha ao lado da Senhora dos Corvos, pensou Boudica, e este é um aspecto que ninguém no seu juízo pediria para ter...

Os invasores formaram um semicírculo com a é­gua no meio e começaram a cantar.

Vede, aqui estamos, Vindos de longe Os vossos portões, amigos, destrancai, E ouvi-nos cantar! Cada distrito tinha a sua versão própria do festival. Dunford fora o lar da infância de Boudica, por isso foi ela quem avançou para responder:

Oh sábios, dizei-me a verdade, Quantos sois vós E dizei-me os vossos nomes também Para que os saibamos. Provavelmente ela conhecia os homens que lhe respondiam, mas através das máscaras as suas vozes soa­vam estranhas e abafadas.

Tendes de nos dar de comer Cevada e trigo, Da forma como tratardes os espíritos Assim prosperareis! Boudica manteve o diálogo enquanto as menini­nhas corriam a casa para irem buscar pães e cerveja.

Poucos minutos depois já a comida e a bebida estavam a ser distribuídas aos mascarados.

A Égua Branca cantará: Os espíritos trarão Nova vida e bênçãos A toda a gente...

A cabeça imponente curvou-se. Boudica recuou, atordoada como se tivesse sido ela a beber a cerveja, vendo não um crânio e uma pele mas o animal inteiro, completo, desde a pele brilhante aos ossos.

Um presente teu recebe um presente Meu... O que me pedes... Rainha dos Icenos?

Estaria a ouvi-la com os ouvidos ou com o cora­ção?

Devolve-me o meu filhinho... — murmurou em resposta.

Ele regressará, mas não para ti. Não será através dos teus filhos que alcançarás a imortalidade. Mas d,evolver-te-ei o teu guardião.

Depois a multidão moveu-se entre elas e a ligação quebrou-se. Pestanejando, Boudica deu por si nas franjas da multidão.

Minha senhora...

Virou-se e reconheceu Brocagnos com uma más­cara de javali pendurada na mão. Tinha do outro lado qualquer coisa branca a mexer-se. Ela curvou-se um pouco para ver o que era.

Quando visitastes o meu forte, no Outono passado, a minha cadela branca estava com o cio e aquele vosso cão... bem, podeis ver que o cachorro é igualzinho e ele. Pensei em ficar com ele, senhora, mas acho que pertence a esta casa...

Boudica quase não o ouvia. — Bogle... — mur­murou quando uma cabeça branca enorme com um nariz rosado e uma orelha vermelha apareceu mais ao menos ao nível da anca de Brocagnos. — Bogle — repetiu —, és tu?

As orelhas sedosas levantaram-se. Depois, como

um latido de felicidade, o cão lançou-se nos seus braços.

 

Os grãos que amadureciam nos campos em torno de Ramshill ondulavam como o pêlo de um animal sob o vento frio que soprava todos os dias ao pôr do Sol vindo do mar. Prasutagos fora a Colônia para o encontro anual dos chefes tribais, mas já se tinham passado cinco anos desde que Boudica o acompanhara a última vez. Preferia passar o Verão ali, na terra que aprendera a amar, onde a meninas, uma agora com dez anos e a outra com quase treze, podiam correr tão livres como as suas montadas.

Durante o dia estava demasiado ocupada para sen­tir a falta de Prasutagos, mas quando as sombras se alon­gavam e a noite começava a espalhar-se pelo mundo, to­mara-se seu costume assobiar aos cães e ir dar um passeio pelo caminho que atravessava os montes. Os cães eram agora uma boa meia dúzia, descendentes do velho Bogle, filhos de várias cadelas espalhadas por todas as terras i- cenas. Depois de Brocagnos lhe ter trazido o jovem cão, outros lhe tinham oferecido cachorros com muito sangue dele e agora os seus passeios eram seguidos por uma quantidade de cães brancos com manchas vermelhas.

Corriam para trás e para a frente, perseguindo uma lebre escondida nos arbustos, ladrando aos corvos que se erguiam em bandos tagarelas e voavam, sobre os campos, para irem pousar numa árvore. E no entanto, sob todo aquele ruído, havia um silêncio profundo na terra que acalmava a alma de Boudica. Foi dar a uma estrada e o­lhou para sul, na esperança de avistar um grupo de ho­mens e de cavalos que anunciasse o regresso do marido.

Boudica não via nada na estrada, mas os cães ti­nham ficado imóveis, as cabeças erguidas, cheirando a brisa. Ficou à espera, acariciando uma cabeça peluda e depois outra, quando estas se encostavam à sua mão, até que apareceu uma única silhueta. Era um homem, jovem a julgar pelo vigor da sua passada, com uma túnica gasta de lã crua, uma mochila às costas e um chapéu de palha puxado para a testa.

Que sejas bem-vindo, caminhante — disse ela quando ele se deteve na sua frente. — Olha, é o Rianor! — exclamou quando ele tirou o chapéu. Viu pela sua tes­ta rapada e pela barba que já era um sacerdote. — Espero que viesses visitar-nos a Ramshill. Se não os meus cães e eu levamos-te na mesma.

Desde que não sejas a matilha de Arimanes o que aí tens...

disse ele ainda a sorrir. — Parecem cães das fa­das, mas amigáveis. Mas esse não pode ser o teu velho Bogle, a não ser que tenha ido para o País da Juventude e tenha regressado...

Quase. Este nasceu depois de o primeiro ter morrido e, como podes ver, as suas manchas são prati­camente iguais. — O cão adaptara-se tão bem à sua vida que, mesmo sem a profecia da Égua Branca, ela teria a­creditado ser o mesmo cão.

Parece-me que as lições de Lugovalus nunca mencionaram a reencarnação de cães, mas suponho que possa acontecer...

sorriu Rianor.

Mas diz-me, que andas a fazer por aqui? — perguntou Boudica quando começaram a percorrer o ca­minho que levava à quinta.

Como sou ainda jovem e suficientemente forte para o fazer, ando sobretudo a distribuir notícias e men­sagens. E, quando o solo parece favorável, planto umas quantas sementes que poderão despontar em rebelião quando as estrelas forem favoráveis. Toda aquela prática de memorização, sabes... — sorriu. — De qualquer forma é por isso que aqui estou.

Não para me persuadir a revoltar-me, espero... — começou ela, mas ele abanou a cabeça.

Não... tenho uma mensagem para ti... da Se­nhora Lhiannon.

Viste-a? Onde está? Está bem?

Rianor ergueu uma mão para a calar. — Viajei até Eriu e espero nunca mais o fazer. O oceano e eu não nos damos bem. Mas vi realmente a senhora e ela está bem. Vive numa comunidade de druidas no reino de Laigin e os druidas são mesmo um espanto, tão numerosos e po­derosos que podem dar-se ao luxo de lutar entre si, quando não estão a usar a magia para ajudar os seus reis. Ainda são como nós fomos, acho eu, antes da vinda dos Romanos.

E ela mandou-me uma mensagem? O melhor é dares-me. As meninas estão mesmo na idade indicada para acharem que és uma figura muito romântica. Assim que se aperceberem da tua presença mais ninguém con­seguirá falar contigo até as encheres com histórias das tuas viagens.

Muito bem. — Tinham chegado a um bosque um pouco abaixo da quinta e Rianor sentou-se sobre um tronco caído e fechou os olhos. — Estas são as palavras da sacerdotisa Lhiannon para a Rainha Boudica... — A sua voz adquiriu um timbre mais ligeiro, como se Lhian- non o tivesse imbuído do seu espírito bem como das suas palavras.

«Minha querida, aproveito esta oportunidade para te mandar uma mensagem por alguém que conheces bem. Ele dir-te-á que estou bem e sou feliz. Foi muito difícil deixar a Britânia, mas estou satisfeita por ter vindo. A­prendi muitas coisas que espero poder partilhar contigo, um dia. Mas a notícia principal é que tenho uma filha...

não, não do meu corpo, mas uma menina que encontrei a chorar um dia no mercado, com o cabelo tão brilhante como a asa de um pássaro negro e os olhos azuis como o mar. Os pais tinham uma casa cheia de pequeninos que não podiam alimentar e ficaram muito satisfeitos por ma venderem.

A minha pequena Caillean (que significa rapariga na língua de Eriu) não sabe quando nasceu, mas acho que deve ter mais ou menos a idade da tua menina mais nova. E difícil de dizer, pois ela estava subnutrida quando a encontrei, apesar de estar a crescer depressa, agora que tem os cuidados e a alimentação devida. E uma menina muito esperta e desejosa de aprender. Acho que percebo o prazer que tens nas tuas filhas ao vê-las mudar de dia para dia.

Penso em ti muitas vezes e espero voltar a ver-te, apesar de não saber quando isso acontecerá. Podes enviar uma mensagem através do Rianor que me disse que esta­vas bem e eras feliz — e que estavas linda — quando te viu há sete anos. Se os deuses forem bondosos, ele pode­rá entregar-me.

Tens sempre o meu amor, minha querida. Sempre tua Lhiannon.»

O druida ficou silencioso por instantes depois a­banou-se e abriu os olhos.

Obrigada — disse Boudica e depois: — De que parte é que te lembras?

Não compreendes... quando uma mensagem me é entregue durante um transe, eu não me lembro e é frustrante quando as pessoas querem mais informações e eu não faço idéia do que lhes disse.

Bem, isso explicava a razão de Lhiannon ter sido tão franca.

Sim, deve ser difícil, mas tenho a certeza de que entregaste a mensagem fielmente. Parecia que ela estava a falar comigo.

Ainda bem — sorriu calorosamente.

Agora vem, o jantar deve estar pronto e tenho a certeza de que deves estar com fome. Vieste do Sul? En­quanto caminhamos podes dar-me notícias de Colônia.

Rianor era bom observador, com um dom para descrever as coisas que vira. Todos se tinham interrogado sobre o que aconteceria quando ao Imperador Cláudio sucedesse o seu enteado Nero, mas tanto quando o drui­da pudera ver, o principal reflexo local parecia ser a cons­trução de um templo em nome do imperador morto. Era estranho que um homem que em vida fora desprezado por tantos, fosse honrado como um deus depois de mor­to, especialmente quando corriam rumores de que a sua mulher o envenenara. Mas só eram recordadas as quali­dades dos mortos, como se o espírito divino a que tinham oferecido incenso fosse tudo o que restava. Os reis anti­gos, cujos túmulos estavam espalhados por toda a Britâ­nia, ainda eram honrados, por isso talvez as crenças dos Celtas e dos Romanos não fossem tão diferentes nesse aspecto. Mas por muito benigno que pudesse ser o espí­rito do imperador, parecia-lhe violento que os Trinovan- tes, a quem Cláudio privara de rei e de reino, tivessem que pagar pela deificação do seu conquistador.

Não vi o teu marido, mas ouvi dizer que estava lá. É muito respeitado. Chamam-lhe o "próspero Rei Prasutagos", sabias? — Rianor calou-se. Estavam quase a chegar à quinta. Por cima da cerca os telhados das caba­nas erguiam-se como pontos negros contra o céu que es­curecia, mas a luz saía pelas portas e havia um apetitoso cheiro a cozinhados de carne no ar.

Antes de entrarmos, tenho de te dizer uma coi­sa. Quando éramos mais novos — disse num tom subi- tamente desafiador — tive a esperança de que ficasses em Mona e que talvez dançasses comigo nas fogueiras.

E depois imaginaste que estavas apaixonado por Lhiannon, pensou Boudica.

Mas quando aqui estive com a alta sacerdotisa e com a Coventa, vi a forma como o teu marido te olha. Não é muito ardente, mas é evidente que tem sido bom para ti. Algumas mulheres envelhecem, mas tu ficaste mais bonita.

Aquilo era uma declaração ou uma renúncia? Bou­dica reprimiu a vontade de rir. Agora que as filhas esta­vam quase a ficar casadoiras, era um consolo saber que ela própria era agradável à vista dos homens. — Temos sido muito felizes — disse finalmente. — Mas sinto-me honrada com as tuas atenções.

Quando entraram pelo portão, os cães regressaram a correr para junto deles, num tumulto de línguas caídas e de caudas agitadas, seguidos pelas suas filhas.

Onde estavas Mama? Já voltamos há imenso tempo e o jantar está feito!

 

Boudica engoliu uma última colher de carne e de feijões e olhou para o marido que terminava a sua própria tigela do outro lado do fogo. Pela primeira vez desde que o conhecera, Prasutagos pareceu-lhe velho. Ele e os seus homens tinham chegado cedo, nessa tarde, e tinham es­tado todos atarefados a descarregar sacos e caixas com mantimentos e presentes que tinham trazido de Colônia. Para Rigana havia arreios de cabedal vermelho com apli­cações em bronze para o seu cavalo e para Argantilla li­nhas de bordar em todas as cores imaginárias. A menina mais nova já era mais habilidosa com a agulha do que a irmã, melhor, na verdade, do que Boudica alguma vez seria.

Desejou que Rianor tivesse ficado com eles até à chegada do rei. Teria sido interessante comparar as suas informações com aquilo que Prasutagos tivesse sabido no Conselho...as más notícias que ele estava a guardar até ficarem a sós. Tinha que ser qualquer coisa política, pen­sou ela sentindo-se infeliz. Se fosse alguma coisa pública, já teriam ouvido os homens fazer comentários. Os outros podiam pensar que o rei estava assim calado por estar cansado. Prasutagos estava com um ar mais fatigado do que seria de esperar, mesmo depois de uma longa caval­gada, mas após dezesseis anos de casamento os silêncios

diziam-lhe mais do que as palavras de muita gente.

 

Boudica sempre gostara do brilho difuso que ilu­minava o quarto de cama quando a luz dos carvões se filtrava através das cortinas. Não era luz nem escuridão, fazia com que a cama conjugai parecesse um local prote­gido e separado do mundo. Apoiou-se sobre um cotove­lo, olhando para o marido, afastou cuidadosamente uma madeixa do cabelo que rareava e beijou-o na testa.

Senti a tua falta... — disse baixinho e beijou-o nos lábios. Ele puxou-a para baixo e o beijo tornou-se mais profundo.

Quando pararam para respirar ela aninhou-se co­mo de costume, com a cabeça sobre o seu ombro e um braço por cima do seu peito, ouvindo-o respirar.

E eu a tua... — murmurou ele. — Senti a falta de te ter nos braços e senti a falta de discutir as questões contigo, depois do fim das reuniões.

Sim? Então o que é que tens tido tanto cuidado para não dizer desde que chegaste a casa? — Passou a mão sobre o músculo do seu ombro reaprendendo os seus contornos.

E assim tão óbvio?

Para mim é... — puxou-lhe os cabelos do peito e ele encolheu-se e riu-se.

Dinheiro...

As suas carícias pararam. — Que queres dizer? A colheita foi boa este ano...

Para reunirmos a riqueza de que precisamos precisaríamos que todos os grãos de todos os anos fos­sem de ouro... — suspirou. — Estão a pedir o pagamento de todos os empréstimos imperiais... Lembras-te? Aque­les fundos tão convenientemente oferecidos por Cláudio e pelos seus amigos patrícios, no ano das cheias, e o di­nheiro que pedimos emprestado para construir o salão em Dunford. Os homens que governam em nome do jovem Nero querem o dinheiro de volta. Dizem que Sé­neca emprestou quarenta milhões de sestércios aos chefes britânicos. Manter aqui um exército tão numeroso sai ca­ro e as minas não se revelaram tão ricas como eles espe­ravam. O novo procurador, Deciano Catus, parece ter sido escolhido por ser da linha dura.

Mas o governador não o pode refrear? — Fitou o teto sem ver.

O Verânio morreu. Um homem chamado Pau­linus vem a caminho, mas não sabemos qual será a sua política. De momento o Catus é quem manda.

Catus e Cloto... — estremeceu, lembrando-se do significado do nome do Procurador. — Um para des­cobrir como nos há-de enganar e o outro para estabelecer o preço. Devem dar-se muito bem. — Mentalmente es­tava a fazer contas ao gado e aos mantimentos guardados, pensando naquilo que poderia ser vendido e o que pode­riam salvar. As cortinas em torno do seu pequeno mundo já não pareciam uma barreira tão segura.

Suponho que o Rianor teve juízo suficiente para não falar de rebeliões aqui, mas encontrou ouvidos aten­tos noutros lugares — disse então Prasutagos. — Por enquanto, toda a gente continua com a esperança de que o golpe não os atinja a eles, mas assim que começarem as propriedades a ser confiscadas, qualquer faísca será sufi­ciente para incendiar a terra. O estado de espírito do conselho era pouco agradável lá para o final.

Havemos de arranjar o dinheiro. Temos de ar­ranjar... a rebelião agora só nos pode trazer desastres... — Boudica sentou-se e pôs-lhe as mãos nos ombros, ten­tando distinguir-lhe as feições. Os olhos dele brilhavam na obscuridade. — E no próximo ano irei ao Conselho contigo. Não quero que me voltes a aparecer em casa a parecer uma daquelas coisas que o Bogle traz do pântano. — Afagou os músculos fortes do peito e da barriga dele, como se o seu toque o pudesse sarar.

Já me sinto a reviver... — Ele tentou rir, mas a sua respiração tomara-se irregular. Ela sorriu e tocou-o mais abaixo, segurando-lhe no peso quente da sua virili­dade. Quando ele se ergueu ao seu encontro ela sentou-se sobre ele e deu-lhe as boas-vindas a casa.


 

Desde o Festival de Brigantia que não parava de chover, uma precipitação branda e persistente que deixa­va tudo úmido, como se a terra e o céu estivessem ambos a dissolver-se numa bruma primeva. Se isto continua as­sim, pensou Boudica, o Dun Garo ainda desliza para o rio. O frio cortante do Inverno seria mais bem- vindo.

Quando chegou à porta do telheiro dos teares o­lhou para a estrada enlameada. Mas as árvores oculta­vam-se na bruma por trás dela. Com aquele tempo não conseguiria ver Prasutagos a aproximar-se até ele chegar aos portões. Malvado homem... já deveria estar de re­gresso! Drostac de Ash Hill estivera à espera dois dias por um julgamento numa disputa de terras e, apesar de aceitar a sua autoridade de rainha, ela queria o conselho do seu marido.

Naquela manhã um pequeno grupo chegara das terras dos Trinovantes, gente expropriada da sua quinta por um oficial romano que a ia entregar a um dos seus lacaios. Era muito difícil ser-se despejado da terra onde conhecíamos o nome dos espíritos que habitavam cada pedra e cada ribeiro... mais difícil ainda era fugir para o território de outra tribo. Mas eles já não tinham o seu próprio rei para proteger aquela relação sagrada. Abri­gá-los-ia Prasutagos sob a sua asa? Poderia fazé-lo? Pensou Boudica, sabendo que os seus próprios recursos já eram tão limitados? Entre os projetos de construção do rei e os impostos romanos, não restava muito nos cofres.

A cobiça dos Romanos parecia não ter limites. Já vendera uma grande parte das suas jóias para ajudar o povo. Das peças maiores só o torque de Caratac se man­tinha escondido, como um desafio secreto, no fundo da sua arca. Os Romanos tinham o direito legal ao paga­mento, apesar de entre a sua própria gente ser muito mal visto o governante que não perdoava o tributo ao seu povo quando os tempos eram difíceis. Até mesmo os Romanos distribuíam pão pelos seus cidadãos. Era essa a diferença, pensou amargamente. Os Romanos alimenta­vam o seu próprio povo, mas apesar de todas as belas palavras sobre os benefícios de pertencer ao Império, os Bretões continuavam a ser o inimigo.

Boudica deixou cair a cortina da porta e regressou ao trabalho. Temella ergueu os olhos inquiridoramente, mas sabia que era melhor não fazer perguntas quando a rainha estava com aquela disposição. Por instantes ficou a olhar para o padrão de verdes e azuis e depois afastou-se, inquieta. Tecer requeria paciência e calma e, atualmente, não tinha nem uma coisa nem outra. Queria estar lá fora a fazer qualquer coisa e, até ao regresso de Prasutagos, não havia nada que pudesse fazer.

Foi com uma sensação de profundo alívio que ou­viu o som dos cavalos a chegar ao pátio. Quando os cães começaram a ladrar saiu a correr da cabana. Crispus já empunhava a taça de cerveja. Ela pegou-lhe e aguardou.

A porta abriu-se e deixou entrar uma rajada de vento úmido. Prasutagos vinha a entrar, meio apoiado em Eoc, com Bituitos mesmo atrás. As suas palavras de bo­as-vindas e as de reprimenda, que planeara dizer a seguir, ficaram esquecidas.

O que foi? — exclamou quando o rei afastou o ajudante. — Houve algum acidente?

Eu estou bem! Velhas maricás... — Prasutagos ficou a cambalear, sem parecer reparar na mão de Bituitos que lhe apoiava o cotovelo. Franzindo o sobrolho, ela estendeu-lhe a taça. Seria aquela careta uma tentativa de sorriso de agradecimento? Começou a beber e teve um ataque de tosse. Ela devolveu a taça a Crispus e depois pegou na cabeça do marido com ambas as mãos.

Ele está a arder em febre. — Olhou acusado­ramente para os homens. — Que estavam a pensar ao deixá-lo viajar com este tempo? Ele está doente!

Senhora, eu sei, mas ele quis vir! — disse Eoc desesperado. — E ele é o rei...

Disse que o vosso toque lhe fazia bem — a­crescentou Bituitos.

O meu toque vai meté-lo na cama que é onde ele deve estar — resmungou ela passando um braço em torno do marido.

Ajudem-me a levá-lo para a cama!

Assim que despiu as roupas molhadas a Prasuta­gos, ele pareceu ficar melhor. Sentou-se junto à cama a dar-lhe colheres de sopa até ele se recusar a comer mais.

Muito bem então, se não queres comer con­ta-me o que se passou!

Sim minha senhora... — disse ele com o seu velho sorriso, apesar de continuar a respirar com dificul­dade. — Bem... consegui que Morigenos concordasse em emprestar cereais a Borcagnos para a sementeira da Pri­mavera... Vão partilhar o trabalho e a colheita.

Boudica assentiu. Assim mais um clã sobreviveria.

E há algumas notícias de Colônia?

Ele assentiu. — Paulinus conseguiu subjugar os Deceangli. Correm rumores de que... — parou para res­pirar — ele tenciona marchar sobre Mona para acabar com a interferência dos druidas de uma vez por todas.

Não vai ter muita sorte — respondeu ela dese­jando que fosse verdade. — Metade dos druidas da Britâ­nia está lá. Mona será defendida por uma magia poderosa.

Também recebi notícias...

continuou ela. —A Cartimandua não só se se­parou do Venutios, como fez do escudeiro dele, o Velo- catos, seu amante.

Prasutagos ergueu uma sobrancelha. — Isso é al­gum tipo de aviso? Vou ter de manter o Bituitos debaixo de olho... — A gargalhada dele acabou noutro ataque de tosse e, desta vez, quando parou, havia gotas de sangue no pano.

Então vais ficar de vigia aqui da cama — disse ela bruscamente. — Tens a garganta arranhada de tanto tossires. — Pôs-lhe a mão na testa e achou-o um pouco menos febril do que antes.

Tens os dedos frescos... — murmurou ele fe­chando os olhos. —Agora já posso descansar. Não dur­mo bem... quando não estás ao meu lado...

Nem eu, meu amor — curvou-se para lhe beijar a testa. Parecia-lhe estranho vé-lo ali deitado, tão quieto, ainda de dia. Tivera que cuidar das filhas em várias doen­ças infantis, mas Prasutagos sempre fora agressivamente saudável. Os homens fortes eram sempre os doentes mais difíceis. Esperava que a doença não fosse muito longa.

Desejou que Lhiannon ali estivesse.

Dorme, meu querido... e cura-te — disse em voz alta. Tenho de ir tratar da comida dos teus homens. — Ele iria dormir e a febre baixaria e ele ficaria bem. Não

havia outro resultado possível.

 

Por que é que o Pai não melhora? — Rigana bateu com os calcanhares nos flancos do cavalo pondo-o ao lado da égua cinzenta que substituíra Roud como montada habitual de Boudica.

A égua chamava-se Branwen e considerava-se a si própria a rainha da estrada. Boudica viu-a pôr as orelhas para trás e deu-lhe uma palmada no pescoço antes que ela pudesse morder o cavalo. Estava um lindo dia, mesmo antes da chegada da Primavera, e ambos os cavalos esta­vam irrequietos. Os homens que Prasutagos insistira que a acompanhassem trotavam atrás de si.

Conseguiria dizer palavras de conforto quando a mesma pergunta lhe martelava a cabeça? Passara-se um mês desde que Prasutagos caíra à cama. Continuava a tos­sir e, quando tentava levantar-se, a febre voltava. Boudica olhou de lado para a filha.

Rigana tinha quase quinze anos... idade mais do que suficiente para o seu ritual de passagem a mulher a­dulta. Boudica adiara-o, fantasiando que poderia levar a menina a Avalon para ser iniciada, tal como ela fora. Mas era evidente que não poderiam fazer uma viagem tão longa estando Prasutagos incapaz de governar. No en­tanto Rigana tinha idade suficiente para ser considerada mulher e merecia a verdade.

Estás preocupada com ele... — disse Rigana em tom acusador. — Não dormes. Tens olheiras. Se tens de fazer o trabalho do rei... — apontou para a quinta —, devias deixar que eu e a Tilla te ajudássemos no teu.

Isso é muito atencioso da tua parte, querida,

mas...

Mãe! Não me insultes. Eu não preciso de ser protegida... Exceto, talvez, de ti própria..., pensou Boudica desconfortavelmente recordada de si própria naquela i­dade. Trouxera Rigana consigo por ter a vaga sensação de que a rapariga deveria aprender as responsabilidades de um chefe tribal uma vez que, provavelmente, se casaria um dia com um governante. A rainha não se permitiu pensar no fato de Rigana ser provavelmente a única her­deira que Prasutagos alguma vez teria.

Talvez não — disse calmamente —, mas quando tiveres filhos compreenderás que os pais sentem que devem tentar...

E o Pai quem precisa de ajuda — disse Rigana reprovadoramente. — Se não consegues curá-lo devias encontrar alguém que consiga.

—A Lhiannon está em Eriu e os druidas de Mona estão escondidos por trás das suas proteções à espera da chegada dos Romanos.

Mesmo assim podes perguntar... talvez haja al­gum que prefira estar a salvo aqui!

Muito bem — respondeu Boudica. Podia dizer a si própria que iria pedir ajuda para agradar à filha e não devido ao terror que a mantinha acordada nas horas de escuridão, deitada ao lado do marido, a ouvir cada inspi­ração difícil. Calgac era um homem de confiança. Fa- lar-lhe-ia no assunto quando regressassem ao forte.

A quinta de Drostac ficava numa pequena eleva­ção. Gado e cavalos pastavam nos campos. Quando se aproximaram da quinta apareceu uma matilha de cães vinda do pátio a ladrar furiosamente. Um soldado mon­tava guarda junto a alguns cavalos... aparentemente os Romanos já tinham chegado.

Ali minha senhora... — Calgac apontou para um grupo de homens que discutiam no campo ao lado. Um deles, viu ela com desagrado, era Cloto.

Boudica considerou a hipótese de fazer Branwen saltar por cima da cerca e de ir a cavalo até junto deles, mas isso teria assustado o gado que eles pareciam estar a discutir tanto como perturbaria Cloto e, além disso, não seria digno.

Eu devo-vos três vacas... — exclamava Dros­tac. — Não o nego. Já as separei ali. Este animal é um boi e não mo vão levar! — O animal em apreço, um boi cas- tanho com cornos pesados e um brilho de desconfiança no olhar, estava a poucos passos de distância.

Sou eu e não tu quem decide que animais é que levo... — disse Cloto. — Selecionei este. — Sorriu e Boudica teve a súbita certeza de que ele sabia o quanto Drostac se orgulhava daquele boi.

As cabeças viraram-se quando ela se aproximou com Rigana um pouco atrás. Olhou para Cloto e para o oficial romano que o acompanhava, um homem pequeno que não parava de saltitar de um pé para o outro, como se tivesse medo de se enterrar na lama e que estava obvia­mente incomodado com a presença do boi.

Queres o boi? — Boudica desatou às gargalha­das. — Ora Cloto, já esqueceste tudo o que aprendes so­bre a lavoura? — Abanou a cabeça tristemente e virou-se para o Romano. — Suponho que querereis cobrar im­postos a este homem para o ano? Como é que achais que nascerão bezerros se levardes o boi?

Drostac cerrou os lábios para não dizer aquilo que estava prestes a dizer quando o Romano franziu o so­brolho. A expressão de

Cloto fechou-se. Quando ele se virou para lhe responder, Boudica deu um pequeno grito e recuou.

Rigana, querida, quero-te por trás daquela cerca — disse em voz alta. — E, meus senhores, acho de deví­eis fazer o mesmo. Esse animal não me parece de confi­ança...

A indignação de Rigana por ter sido mandada para trás da cerca desvaneceu-se quando viu a mãe piscar-lhe o olho. O oficial romano não precisou de mais encoraja­mento para ir atrás dela. Boudica e Drostac foram no en­calço dele, deixando Cloto a enfrentar o boi que, agora, estava realmente perturbado e começou a escoicear no chão.

Assim que passaram o portão Boudica pegou no braço do Romano. — Se matásseis aquele animal, ele não serviria nem para dar pele para sapatos — disse em tom confidencial. — As vossas tropas agradecer-vos-ão a car­ne de três vacas tenrinhas, acreditai no que vos digo, mas

amaldiçoar-vos-ão se lhes tentardes dar boi para comer.

 

Nos campos por onde passavam os jovens borre­gos brincavam com uma energia que ninguém conseguia imaginar que as suas mães já tivessem tido. De vez em quando uma das ovelhas erguia a cabeça e soltava um ba­lido de aviso. Boudica compreendia-as. Imediatamente após a chegada da Primavera, Argantilla fora ter com a mãe e anunciara que começara a sangrar "do sítio das mu­lheres" e quando é que podia ter a sua cerimônia? Embo­ra Rigana considerasse a hemorragia mensal como um aborrecimento, Argantilla sempre se sentira muito mais confortável com a sua feminilidade. Mas agora, que esta­vam na estrada, as duas faziam galopar os cavalos para cima e para baixo com igual entusiasmo.

— Acalmem-se as duas... — gritou quando a filha mais nova passou por ela. — Se cansarem as montadas antes de chegarmos ao destino, terão de caminhar ao seu lado.

Boudica sentia-se satisfeita ao manter a égua cin­zenta numa passada lenta, a ansiedade por ter deixado Prasutagos em Dun Garo rivalizando com um alívio cul­pado por estar livre e em campo aberto. Deveria ter fica­do com ele? Ele insistira para que levasse as raparigas à fonte sagrada.

Teriam podido fazer a viagem em dois dias, mas as carroças que transportavam algumas das outras mulheres moviam-se lentamente. Temella seguia com elas, bem como algumas das mulheres dos chefes. A sua mãe mor­rera havia muito, mas tinham mandado buscar Nessa a Ramshill e a filha de Drostac trazia a sua própria filha, Catuera, para participar no ritual.

O teu ritual também foi assim? — perguntou Argantilla quando se instalaram nos abrigos por baixo das árvores.

Boudica passou o braço pelos ombros da filha. A Tilla ainda não acabara de crescer, mas a sua figura já era docemente arredondada. Devia ter herdado aquele corpo feminino e a natureza calma do lado da família do pai, pensou a rainha. Não tinha nada da energia esgalgada que ela própria partilhava com Rigana. Essa não teria estado pronta para aquele ritual aos treze anos, mas para Argan- tilla chegara o momento.

Não, porque eu estava com os druidas em Mo­na. Quando comecei a ser menstruada fizemos uma cele­bração, mas o ritual era sempre adiado até a rapariga estar pronta a decidir se desejava tornar-se sacerdotisa. Por­tanto eu era muito mais velha... — E nalguns aspectos muito mais nova, pensou dando mais um abraço à menininha. Em Mona os druidas viviam numa separação distante das exigéncias do mundo, ou pelo menos tinham vivido assim até agora, pensou apreensivamente. Crescer na casa do rei supremo dera às suas filhas uma sofisticação que não condizia com as suas idades.

Nessa noite, contudo, as risadinhas que vinham do abrigo onde as três raparigas deveriam estar a dormir e­ram perfeitamente apropriadas às suas idades. Boudica ficou acordada, recordando como Prasutagos viera ter com ela na escuridão, tocando-

-se como ela a tocara, imaginando que ele estava ali ao seu lado. Não tinham feito amor desde que ele adoe­cera. Não se apercebera da falta que lhe fazia o alívio que encontrava nos seus braços.

Na hora de escuridão que antecedia a madrugada foram acordadas e seguiram a sacerdotisa que cuidava da fonte sagrada, que ficava ao fundo do caminho, com ar­chotes brilhando nas mãos. Quando chegaram à lagoa dispuseram as luzes à sua volta e aguardaram.

As mãos de Boudica estavam atadas às mãos das filhas. Quando se aproximavam a sacerdotisa barrou-lhes o caminho.

Quem vem à fonte sagrada?

Sou eu, Boudica, filha de Anaveistl e estas são as minhas filhas Rigana e Argantilla. Protegi-as e alimen­tei-as nos seus anos de crescimento. Tenho o direito de as acompanhar agora.

As crianças que amaste já não existem — disse a sacerdotisa. — Agora o seu próprio sangue corre ver­melho ao chamamento da Lua. Na jornada que se inicia terão que caminhar sozinhas.

Virou-se para as raparigas. — Rigana, Argantilla, a Deusa chamou-vos para assumirem as responsabilidades de mulheres adultas. Estão dispostas a separar-vos da vossa mãe e a obedecerem?

Eu estou — responderam-lhe.

A sacerdotisa virou-se para Boudica. — E tu, estás disposta a deixá-las partir?

Quando deu o seu assentimento o seu coração gritou: Não! Elas são apenas crianças. E demasiado cedo! Mas o ritual, tal como os anos que as tinham levado até àquele local, tinha um ritmo que a envolveu.

Corto então as cordas que vos ligaram. A partir deste momento caminhareis livres. — Com uma pequena lâmina em forma de foice a sacerdotisa cortou os laços.

Quando a corda cedeu, Boudica sentiu a perda de uma outra ligação de cuja existência não se apercebera conscientemente. Eu não devia ter feito isto às duas meninas ao mesmo tempo, pensou freneticamente. Não estou pronta para perder os meus bebês de uma só ve%l

Ficou a assistir enquanto o processo se repetia para cada mãe e cada rapariga e seguiu-as, sentindo-se infeliz e sabendo que a sua única função ali era servir de testemu­nha. Três das mulheres mais jovens tinham despido as roupas e estavam a ajudar as raparigas a despirem-se antes de as conduzirem à lagoa. Boudica viu as suas peles arre­piarem-se e estremeceu em solidariedade. Mesmo no pico da Primavera o ar era frio àquela hora e a água estava sempre gelada.

Pedaços de tecido suspensos dos ramos, uns novos e outros velhos, flutuavam no vento da madrugada. Su­punha que aquele que ela ali deixara tantos anos antes já se transformara em pó, tal como o corpo do seu filho. Mas a imagem da deusa continuava lá... ou talvez fosse uma nova do mesmo modelo. Boudica imaginou uma seqüência de estátuas como aquela, substituindo-se umas às outras à medida que iam apodrecendo, tal como uma nova geração de filhas ocupava os lugares das suas mães na fonte sagrada.

— Agora deixai que a água leve todas as manchas e sujidades... — entoavam as jovens mulheres, apanhando água e despejando-a sobre as raparigas. — Deixai que dissolva todos os laços que vos prendiam, deixai que tudo o que ocultava o vosso verdadeiro ser seja lavado... Senti a água a acariciar-vos os corpos e recordai as águas das quais nascestes.

Ruivas e morenas e loiras, as raparigas viravam-se para receber a bênção. A luz tremeluzente os seus corpos pareciam feitos de marfim, brilhando onde a água fazia pequenos remoinhos sobre os membros arredondados. Boudica susteve a respiração, maravilhada pela beleza dos seios que despontavam e pela doce união das coxas es­beltas. Em locais como aquele e a Fonte do Sangue, em

Avalon, sentia uma energia sagrada. E houvera ocasiões em que a sentira dentro de si. Mas quando as três rapa­rigas se abraçaram viu a Deusa Donzela manifestar-se em toda a Sua infinita variedade, radiante e promissora e as suas lágrimas correram, misturando-se com as águas da fonte sagrada.

Rigana, Argantilla, Catuera, limpas e brilhantes, reveladas na vossa beleza, levantai-vos, oh minhas irmãs e juntai-vos a nós agora...

As raparigas saíram da lagoa com mais celeridade do que tinham entrado, ofegantes por causa do frio e do riso, secaram-se umas às outras e enfiaram as túnicas. Entretanto as mulheres tinham-se virado umas para as outras ao longo do caminho, dando as mãos aos pares e formando um túnel que as raparigas tinham que atraves­sar para chegar à refeição que as aguardava numa clareira mais à frente.

Da flor vem o fruto e do fruto vem a semente, cantavam as mulheres. — Ao morrer nascemos de novo e, sepultadas, liberta- mo-nos...

Boudica e a mãe de Catuera abriram os braços para apanhar Rigana puxando-a contra si.

Com este abraço nasces para o círculo das mu­lheres — murmurou Boudica.

Com este abraço nasces para uma nova vida... — respondeu a outra mulher.

Depois passaram-na ao par seguinte e abriram os braços a Catuera. Mais à frente a canção continuava.

Nascendo e renascendo, passando, regressamos, Libertando, tudo nos é dado, abdicando aprendemos...

A medida que as iniciadas iam passando a fila des­fazia-se nas suas costas e o resto das mulheres ia-as se­guindo. A luz do Sol recém erguido passava por entre os ramos em raios longos tomados visíveis pelo vapor do caldeirão que fervia sobre o lume. As raparigas tinham sido dados os lugares de honra e tinham-nas coroado com grinaldas floridas. Risonhas e coradas, ouviam as palavras sensatas e os conselhos, muitos deles brejeiros, que as mulheres estavam ali para lhes dar.

Boudica bebericou o chá de menta que Nessa lhe entregou em silêncio. Sentira aquela mistura de alegria e de perda depois dos partos. E porque haveria de se sentir surpreendida? Estivera à espera da dor quando dera à luz os corpos das suas filhas, mas aquela segunda separação rasgava-lhe o coração com uma dor nova e inesperada.

Mas as filhas continuavam junto de si. Os druidas ensinavam que a morte era um tipo diferente de nasci­mento. Se o marido fizesse essa passagem que faria ela? Depois daquele dia continuaria a poder abraçar as filhas, ainda que a natureza da sua relação com elas se tivesse alterado. Mas e se Prasutagos morresse...

Deusa! Senhora da Fonte Sagrada! Dar-lhe-ei as vossas águas para beber e se ele recuperar construirei um templo aqui, no

vosso santuário. Senhora da Vida! Deixai o meu marido viver!

 

Prasutagos estava na cama, completamente imóvel.

Santa Deusa, estará morto? Boudica deteve-se, com a cortina meio erguida, a olhar para ele.

Com certeza, pensou com uma certeza cega, que ele teria esperado... não poderia deixá-la sem se despedir... e depois, mais sensatamente, pensou que certamente lhe teriam dito se ele tivesse morrido. Viu o peito dele subir e descer e o seu coração recomeçou a bater. E, apesar de ela não ter feito barulho, os olhos dele abriram-se e sau­dou-a com o seu velho e doce sorriso.

Boudica forçou os lábios a retribuírem-lhe apesar de o seu coração bater descontroladamente.

Está tão magro! Não devia ter ido!

Então as nossas filhas já são mulheres...

O ritual correu bem — disse ela deixando a ca­pa cair por terra. As correias da cama gemeram quando se sentou ao lado dele.

Ele suspirou. — Sem dúvida que os anos voam, não me parece ter passado mais de uma estação desde a primeira vez que tive Rigana nos braços... E tu não pare­ces mais velha do que nessa altura, minha mulher... quando me começaste a perdoar por te ter engravidado dela...

Boudica pestanejou para reprimir as lágrimas. — Vi cavalos desconhecidos na cerca — disse com uma brusquidão forçada.

Temos visitas?

Uma para ti... uma para mim... — os seus lábios estremeceram. — Ou suponho que sejam ambas... para mim, apesar de eu só ter mandado chamar uma... — Fi­cou subitamente sem conseguir respirar e o seu peito as­sobiou quando tentou recuperar a respiração.

Respira! Boudica debruçou-se sobre ele, transmi- tindo-lhe força e foi recompensada por uma inspiração entrecortada.

Chiu... não tentes falar.

Isso já passa, minha senhora — disse uma voz desconhecida. As cortinas mexeram-se e um homem alto e magro, com um manto branco, entrou. Pegou no pulso do rei procurando a pulsação.

Boudica ficou a olhar para ele, com a memória a fazer corresponder gradualmente as feições magras e as mãos graciosas ao homem que vira pela última vez em Mona, havia metade da sua vida. Pouco mais prata havia nos seus cabelos do que nessa altura.

Brangenos! Que estás a fazer aqui?

A responder à vossa chamada, minha senhora — respondeu ele. — Estudei para ser curandeiro... uso os remédios para curar o corpo e as canções para recuperar a alma. — Olhou para Prasutagos que parecia ter adorme­cido e puxou Boudica de parte. — Posso aliviar a dor do rei, mas a música é o melhor tratamento que lhe posso oferecer agora.

Ele está a morrer? — Fechou os olhos para não ver o seu assentimento.

Não vos recrimineis, minha rainha. Não teria servido de nada ter vindo mais cedo. Isto não é doença da tosse, é uma doença mais grave. Ele disse-me que um ca­valo lhe deu um coice no peito há anos. Essa pode ter sido a primeira causa ou um outro qualquer mal de que não saibamos.

Mas ele parece tão alegre... — disse ela com uma voz fraca.

Ele sabe o que lhe está a acontecer, mas não vos mostra a sua dor. Ainda não. Mas vós estudastes em Mona... em breve tereis que recordar a vossa formação. Ele vai lutar... e sofrer até lhe dardes licença de partir. Tereis que ser a Deusa para ele, minha senhora, e facili­tar-lhe o nascimento para o Outro Mundo...

Boudica abanou a cabeça. Não me recordo... Não sou uma sacerdotisa... Não sou capa,z de o deixar partir...

Mas ainda não... — ouviu-se um murmúrio vindo da cama. Boudica e Brangenos viraram-se os dois.

Primeiro... temos trabalho para fazer.

Sim meu senhor... — o druida fez uma vénia.

Desejais que o Romano entre?

Enquanto cuidavas dos espíritos das nossas fi­lhas... tentei salvaguardar... a sua herança — disse Prasu­tagos e Boudica ergueu as sobrancelhas, surpreendida.

Sentou-se novamente a seu lado quando as corti­nas foram afastadas e Brangenos regressou seguido por Bituitos, Crispus e um homem careca com uma túnica romana que a olhou com uma mistura de admiração e de apreensão.

O que poderá ele ter ouvido a meu respeito ? Obrigou-se a adotar uma expressão mais agradável. Eu não te faço mal, homenzinho, por muito pouco bem-vindo que sejas.

Este é Júnio Antônio Calvus, um advogado de Londinium — disse Crispus em Britânico e depois, em Latim: — Senhor, esta é a rainha.

Ela fala a nossa língua? — perguntou Calvus como se achasse a possibilidade remota.

Boudica mostrou-lhe os dentes num sorriso.

Fala, mas aqui o Bituitos não fala. Portanto, eu traduzirei para que ele possa servir de testemunha.

O advogado pigarreou. — Muito bem então. Do­mina, o vosso marido pediu-me que fizesse um testamen­to à nossa maneira, dado ele ser um cliente do imperador e um amigo de Roma. Normalmente isto deveria ter sido feito há muito tempo e o documento deveria ter sido en­viado para Roma para ser registrado no templo de Vesta, mas podemos guardá-lo no Gabinete do Procurador, por agora. — Abriu a pasta de cabedal que tinha ao lado e retirou de lá de dentro um pergaminho.

Boudica tentou prestar atenção enquanto ele de­clamava num Latim pomposo, com o eco melodioso em Britânico a dar-lhe sentido. As terras do dote que já esta­vam registradas no nome de Boudica continuariam a ser suas, mas as propriedades do rei eram divididas entre as filhas e o imperador. A medida que Calvus lia, Prasutagos escutava, com a expressão de teimosia determinada que Boudica tão bem conhecia.

Na lei Romana, é costume as mulheres herda­rem da sua família, não da do seu marido — disse o ad­vogado apologeticamente quando terminou a leitura. — Um homem deixa a sua riqueza aos filhos. As filhas po­dem herdar quando não existem filhos.

Mas... e o imperador? — perguntou ela.

Calvus ficou ligeiramente corado e desviou o olhar.

Deveis ter consciência de que há homens... próximos do imperador que exercem grande influência...

Boudica assentiu. Sêneca e os outros anciãos que controlavam o rapaz imperador tinham roubado à Britâ­nia as suas riquezas durante os últimos anos.

Pensamos que... se Nero for co-herdeiro das vossas filhas, eles não se atreverão a impugnar o testa­mento. Foi a única forma legal que conseguimos encon­trar... — A sua voz esmoreceu. Continuava a olhá-la, pensou Boudica, como se achasse que ela era capaz de o comer. Virou-se para o marido.

Meu amor, é mesmo isto o que desejas?

O meu desejo é viver... — ofegou ele. — Mas se não puder ser... este é o meu testamento. Peço ao Conse­lho que te confirme... para reinares...

Até Rigana ser crescida e escolher um marido

acrescentou Bituitos. — Os Romanos apoiaram Car- timandua porque ela os serviu, mas não se sentem con­fortáveis com rainhas reinantes.

Prasutagos fechara os olhos. Brangenos, que para um homem tão alto tinha uma espantosa habilidade de se confundir com as paredes quando o desejava, levan­tou-se. O Romano deu um salto, pois aparentemente não se apercebera da sua presença.

O rei exauriu as suas forças... agora tem de dormir. — O cenho franzido do druida era uma ordem.

Calvus apressou-se a reunir as suas coisas e foi es­coltado por Crispus para fora do quarto. Bituitos se­guiu-os. Mas Boudica manteve-se de pé. O seu olhar de desafio encontrou o olhar compassivo do druida que lhe fez uma vênia. Depois de ele sair ela ficou a olhar para as feições de Prasutagos, memorizando a curva do seu nariz, as linhas das suas sobrancelhas. Havia uma pequena ruga entre elas, como se mesmo durante o sono sentisse dor. Os seus bigodes já estavam completamente prateados.

Ficou com a visão desfocada e caiu de joelhos ao lado da cama, chorando silenciosamente. Muito tempo depois sentiu um toque na cabeça e levantou-se de um salto tentando secar as lágrimas.

Vá, chora... — arfou ele. — Os deuses sabem que também chorei. Achas que é mais fácil para mim par­tir do que para ti ficar?

Sim! — Limpou mais lágrimas. — Não foi pior para ti quando a tua primeira mulher morreu? E só tinhas vivido com ela durante um ano. Tu e eu estivemos liga­dos durante quase metade da minha vida e vais deixar-me sozinha!

Prasutagos fechou os olhos. Boudica susteve a res­piração, horrorizada com as suas próprias palavras. Nun­ca tinham falado da primeira mulher que lhe chamara ma­rido. Que loucura a fizera mencioná-la agora?

Quando ela morreu... chorei por não a ter po­dido salvar — murmurou ele por fim. — Agora... porque não poderei proteger-te...

 

Boudica gostava de caminhar até ao recinto dos cavalos quando Brangenos insistia que deixasse Prasuta- gos e fosse apanhar ar. Agora era apenas ali que se permi­tia o luxo das lágrimas. Bogle e os outros cães seguiam-na num silêncio incaracterístico, pois sentiam o seu estado de espírito. A tarde estava a escurecer. A égua cinzenta veio até à cerca, dando-lhe com o focinho no ombro na esperança de uma guloseima e Boudica passou os braços pelo pescoço forte e enterrou a cara nas crinas brancas da égua. Não rezou. Não era capaz de rezar desde que re­gressara da fonte sagrada, mas a força sólida da égua era reconfortante.

As celebrações de Beltane tinha sido um velório em vez de uma festa, apesar de Prasutagos continuar vi­vo. Os chefes, chocados com a perspectiva de irem per­der o seu rei, estavam dispostos a concordar com tudo o que ele pedia. O Verão abençoava a terra com um cres­cimento alegre, mas a cada hora que passava as forças do rei diminuíam e os seus pulmões debilitados perdiam a batalha ao tentar encher-se de ar.

Com a cara encostada à crina áspera de Branwen, Boudica sentiu mais do que viu a luz a extinguir-se. De­pois a égua bateu os cascos e abanou a cabeça e Boudica apercebeu-se de que alguém a chamava.

— Mamã... — disse Rigana muito tensa. — Bran­genos diz que deves vir.

Um estremecimento que não conseguiu evitar percorreu o corpo de Boudica, mas quando se virou tinha os olhos secos. Estendeu o braço e pegou na mão da fi­lha. Quando se aproximaram da cabana ouviu as notas da harpa, doces como a memória. As poções do druida já não serviam de grande coisa, mas a música parecia aliviar as dores do rei. Quando entraram a porta ela parou, pre­parando-se para o cheiro da doença.

Rigana juntou-se à irmã do outro lado da cama. Bituitos e Eoc também lá estavam, bem como os outros. Boudica não os viu.

O rosto de Prasutagos ficara ainda mais encovado no curto espaço de tempo que se ausentara, com a pele a murar sobre os ossos. Cada inspiração irregular era uma luta. Estaria ele inconsciente ou apenas de tal forma con­centrado em manter-se vivo que não lhe restava atenção para dar ao mundo exterior? Agora as lágrimas que lhe embaciavam os olhos eram de pena e não de mágoa por si própria.

O que Brangenos dissera tornou-se subitamente real para si. Prasutagos não podia viver. Cada hora que passava apenas prolongava o seu sofrimento. Teria sido assim que Prasutagos se sentira quando a vira lutar para dar à luz a filha dele? Ele lutava agora para libertar o espí­rito e a ela cabia a responsabilidade de ser a parteira da sua alma.

Não sou capaz de o fazer, pensou.

Tenho de o fazer...

Avançou e os olhos do seu marido abriram-se. Os seus lábios moveram-se, tentando dizer o seu nome.

Prasutagos... — falou como ele lhe falara havia tanto tempo. — Prasutagos, estou aqui... — Ajoelhou e pegou-lhe nas mãos, transmitindo-lhe força através dos dedos entrelaçados e a sua agonia pareceu diminuir.

Os seus lábios moveram-se novamente, as palavras quase silenciosas. — Cuida do meu povo, Boudica. Pro­tege as minhas meninas...

Sim meu amor — respondeu numa voz firme. — Assim farei.

Com esforço ele inspirou mais uma vez, o corpo ainda a lutar para se manter vivo. Ela debruçou-se sobre ele. Os seus lábios roçaram-lhe a testa.

Fizeste tudo o que podias — murmurou. — Nenhuma mulher jamais teve melhor marido. Agora a­cabou, meu amado. Avança... liberta-te...

Quando ela se endireitou os lábios dele curva­ram-se no sorriso doce e familiar. Não voltou a falar.

Boudica esperou, lembrando-se subitamente de como fora embarcar no navio para ir para Avalon, como lhe parecera que era a margem e não o barco, que se a­fastava. Muito tempo depois apercebeu-se de que a respi­ração difícil cessara. Os dedos dele estavam a ficar frios nos seus. Libertou-os suavemente e cruzou-lhe as mãos sobre o peito.

Depois levantou-se. Se os outros lhe falaram ela não os ouviu. Prasutagos estava imóvel. Em todos os a­nos que reclamara dos seus silêncios, nunca houvera um silêncio como aquele. Por mais que praguejasse ou im­plorasse, ele nunca lhe responderia.

Boudica virou-se, afastando todos quantos tenta­ram detê-la. Os seus passos levaram-na ao cercado dos cavalos onde a égua branca a aguardava. Para que preci­sava ela de uma sela ou de um freio? Saltou para o dorso da égua e um instante depois saía o portão e afastava-se.

A rainha cavalgou a égua branca como outrora ca­valgara a vermelha, com os cães selvagens ladrando no seu encalço e os homens fugiam para dentro de casa e trancavam as portas. — E Epona quem cavalga... — murmuravam. — Epona chora o rei.

Mas, por mais loucamente que galopasse, ela agora nunca mais o ultrapassaria.


 

Lhiannon agarrou-se à borda do barquinho que a transportara do navio até à praia e desembarcou cuidado­samente. A areia gemeu debaixo dos seus pés. Ela cur­vou-se e recolheu uma mão cheia.

Ligo-me a esta terra da Britânia — murmurou —, ao seu solo e às suas pedras, aos rios e às fontes. A cada coisa que cresce e que caminha e que voa, com o povo desta terra me comprometo a não voltar a deixá-la.

A direita erguia-se a grande massa do monte sa­grado. Algumas casas agarravam-se às encostas e havia barcos de pesca nas areias da praia, onde os corvos dis­putavam com as gaivotas os restos da última pescaria que tinham feito.

Isto é Oakhalls? — perguntou o druida irlandês que a acompanhava, olhando em torno de si com um ar duvidoso. Os seus superiores, reagindo aos rumores de um potencial afluxo de refugiados da Britânia, tinham-no enviado para que avaliasse, com os seus próprios olhos, o que se estava a passar.

Lhiannon riu-se.

Isto não passa do rosto vazio e pedregoso que Mona exibe ao mar. Sem dúvida que esta boa gente nos dará alguma comida em troca de uma bênção e, depois, dois dias de caminho levar-nos-ão à aldeia. Mas se eu não tiver perdido toda a minha magia, alguém é capaz de vir buscar-nos antes com animais para montarmos.

Aquela idéia não fazia com que o homem se sen­tisse muito satisfeito, mas não perguntou mais nada. Lhi­annon suspirou. Se eu não tiver perdido toda a minha magia, pensou, e se os druidas de Oakhalls não estiverem demasiado dis­traídos com medo dos Romanos para ouvirem o meu chamamento.

A tripulação que as trouxera de Eriu levara rumores in­quietantes de um avanço romano. Tivera esperança de poder trazer Caillean com ela, mas com a situação tão instável isso não lhe parecera sensato. A rapariga ficaria em segurança com a família a quem pagara para cuidar dela até Lhiannon a mandar chamar.

Era o sonho que a despertara logo após o Beltane que a preocupava. Ouvira Boudica chorar e depois vira uma deusa montada que cavalgava, ululante, através dos céus.

 

Os lamentos das mulheres erguiam-se sobre os murmúrios da multidão. Após três dias de luto público, Boudica já nem as ouvia. Agora que a voz de Prasutagos se silenciara, não havia muita coisa que lhe interessasse ouvir. Quando os chefes tinham começado a chegar ela falara com eles, mas instantes depois já não se lembrava de quem ali estivera.

Na manhã seguinte à morte de Prasutagos, a égua, sentindo-se esgotada, trouxera Boudica para casa. Nessa altura já os preparativos do funeral iam adiantados. Mu­lheres idosas tinham aparecido no forte para lavar e pre­parar o corpo. Os homens já estavam a cavar uma sepul­tura e a juntar madeira para a pira funerária. E sozinhos e aos pares e em família, os chefes dos Icenos iam chegan­do.

— Mãe... temos de ir... — A mão quente de Ar- gantilla cerrou-se sobre a dela.

Pestanejando, Boudica concentrou-se no que se passava à sua volta, nos rostos sombrios pouco condi­zentes com o esplendor das roupas de cerimônia — Te- mella, Crispus, Caw como de costume ao lado de Argan- tilla. Todos aguardavam que ela montasse a égua cinzenta e os conduzisse ao local do enterro. Rigana já estava montada no seu cavalo baio, com o rosto pálido devido às noites passadas a chorar. Memórias fragmentadas di­ziam-lhe que fora a doce Argantilla quem mantivera a casa a funcionar durante os últimos dias. Um murmúrio do ressuscitado instinto maternal perguntou-lhe porque deveria surpreender-se. A Rigana é demasiado parecida comi­go... pensou atordoada. E uma espada sem bainha.

Obedientemente, permitiu que Calgac a ajudasse a montar e ajeitou-se na sela. Também Brawen se estava a portar bem, caminhando calmamente ao longo da estrada como se nem conseguisse imaginar o que era galopar desvairadamente pelos pântanos.

Uma extensão de terra não cultivada para norte de Dun Garo continha vários montículos redondos, os tú­mulos de reis antigos. Agora uma nova sepultura estava aberta ao seu lado. Os seus olhos evitaram a câmara fú­nebre construída em madeira onde a carne que Prasuta- gos deixara para trás repousava em peles de cordeiro em cima de uma urna. Durante os dias que ele ali jazera o seu povo viera despedir-se. Agora mantinham-se ali, uma multidão silenciosa, aguardando. Agora é a minha vez..., pensou.

Deveria haver ricos deuses-tumulares em torno do corpo, mas muito do que poderia ter sido oferecido fora vendido. A riqueza do "próspero Rei Prasutagos" tinha sido usada para ajudar o seu povo. Mas outros objetos tinham sido acrescentados àqueles que ela reconhecia — pequenas coisas cujo valor era medido pelo coração e não pelo dinheiro — uma peça de tecido bordado, uma taça de madeira polida de tanto uso, até mesmo um infantil cavalo de brincar. Aqueles tesouros nunca poderiam ser taxados pelos conquistadores romanos.

Brangenos estava junto da pira. A seu lado um to­cha acesa estava fixa no chão. Arranjara em algum lugar um manto limpo. As suas pregas níveas agitavam-se na brisa. Era um druida com muitos talentos, pensou ela so­briamente. Quer se necessitasse de música, de remédios ou de rituais, ele estava sempre presente. Teria gostado de poder odiá-lo por não ter conseguido salvar o rei. Mas isso teria exigido que ela sentisse.

Desmontou e ocupou o seu lugar ao lado das fi­lhas, em frente à pira. Bituitos e Eoc tinham-se mantido ali de vigia desde que o seu senhor fora depositado na câmara funerária. Tinham estado ao lado do rei desde que eram rapazes. Boudica supunha que a dor deles devia ser quase tão grande como a sua. A chorar saltaram para dentro da câmara e ergueram o seu senhor para que ou­tros o pudessem transportar para a pira.

— Este é o corpo do homem que amamos... — o druida contemplava a urna. — Mas Prasutagos não é esta carne. Esta carne é feita de terra e dos alimentos da terra, pedida emprestada durante algum tempo. Agora teremos que a devolver novamente. Das águas que são o ventre da Deusa veio este homem. Tal como o sangue, estas águas corriam nas suas veias. Agora a terra é alimentada pelo sangue do rei. Através deste corpo passou o sopro da vi­da. Ele libertou-o no vento. Respirando esse vento rece­bemos o seu espírito... e deixamo-lo partir mais uma vez. No interior deste corpo ardeu um fogo imortal. Que es­sas chamas o libertem!

Arrancou a tocha do solo e enfiou-a nos toros embebidos em óleo. As chamas impacientes ergueram-se imediatamente com fúria. Boudica sentiu os dedos das filhas enterrarem-se com força nos seus braços e só então é que se apercebeu de que avançara na direção da pira. Porque me detêm?, pensou ressentida. Se eu arder com ele tam­bém ficarei livre...

Rigana começou a soluçar e com um instinto que transcendia a sua mágoa, Boudica abraçou-a. Argantilla abraçava-as a ambas. Boudica teve uma consciência súbita do calor da pele delas contra a sua. Ele vive nelas... enquanto eu tiver as nossas filhas ele não terá partido completamente... E subitamente aquele calor derreteu o gelo que lhe entor­pecera o espírito e as lágrimas da cura começaram tam­bém a correr dos seus olhos.

Enquanto o corpo ardia, as pessoas iam descendo à câmara funerária, retirando cerimoniosamente cada ob­jeto e quebrando-o.

Rasgando os tecidos, o metal quebrado em sacrifí­cio, para jazerem junto com as cinzas do rei quando a cremação tivesse terminado. Bituitos trouxe a espada com copos de ouro que fora escondida quando da vinda dos inspetores romanos, encostou a ponta contra uma rocha e fez força até a lâmina de ferro se partir. Eoc dobrou o escudo coberto de bronze, cujo centro espiralado era es­maltado a vermelho, o brilho das jóias embotado pelas suas lágrimas. Como podia o Sol brilhar daquela maneira num dia assim? Até mesmo os céus deveriam chorar a perda de um homem como ele.

Brangenos pegou na harpa e começou a cantar.

O rei que reina em paz é o escudo do seu povo...

Os seus elogios são a sua glória, a sua riqueza é o seu amor,

Até terminar o seu tempo.

O rei que protege o seu povo é bem-vindo pelos deuses...

Festeja com os abençoados e caminha na luz

Até regressar de novo...

O fumo erguia-se, azul na luz do Sol, o cheiro da destruição misturando-se com o odor pungente das ervas na pira, Ela não queria olhar, não seria testemunha do encarquilhamento das mãos que a tinham tocado com tanta doçura, da destruição do seu rosto... gemendo, Boudica virou-se para as chamas, pois certamente a reali­dade não podia ser pior do que as imagens que a sua mente criava.

Fogo arde! — gritou o druida. — Vento sopra! Carne consome-te! Espírito Vai!

A visão dela estava encandeada pelo fogo. O fogo, diziam os druidas, libertava o espírito, reduzindo a carne que o confinara aos elementos que a compunham. Não era para admirar que o mundo se alegrasse... Prasutagos era agora parte de tudo.

De tudo... Por um único momento eterno Boudica uniu-se a tudo o que a rodeava, às suas filhas, à terra, às pessoas que choravam o seu rei. Prasutagos amara-os. Por um momento sentiu novamente a sua presença en­volvê-la.

Ergueu a cabeça com uma consciência arrepiante percorrendo-a como um choque. Teria sido o calor da pira que provocara aquele estremecimento no ar ou seria ela que só agora se apercebia de que o mundo era apenas um véu de luz que escondia uma realidade mais perene?

Oakhalls parecia mais pequeno do que Lhiannon recordava. Ou talvez lhe parecesse assim porque havia muito mais gente lá dentro. Não deveria sentir-se surpre­endida: a chegada de refugiados começara mesmo antes da sua partida para Eriu, mas era estranho.

Obrigada por nos terem enviado os cavalos — disse enquanto seguia Coventa pelo caminho até à sala do Conselho.

Depois das minhas visões mais recentes, essa foi muito bem-vinda — Coventa olhou para trás com um sorriso triste.

Parecia-lhe estranho ver Coventa com o manto a- zul-escuro das sacerdotisas, mas ela agora já devia ter mais de trinta anos. Bem, pensou Lhiannon com tristeza, todos nós envelhecemos.

Regressaste por causa da Boudica? Dizem que o marido dela morreu. O Rianor foi ver se podia ser-lhe útil. Se soubesse que vinhas talvez tivesse ficado... — Vi- rou-se quando Lhiannon parou abruptamente.

Senti... que ela estava com problemas — mur­murou. — Obrigada por me teres dito.

Não me surpreendo. Vocês sempre foram che­gadas. Dizem que ele era um bom homem.

Era verdade mas, após treze anos, a relação que fora forjada entre rei e rainha no ritual em que Boudica tomara o poder da

Deusa para abençoá-lo, podia ter-se esbatido e transformado no afeto que existia geralmente entre os casais. E, no entanto, Lhiannon sentira a angústia de Boudica. Ela teria que estar devastada, mas... Prasutagos fora-se. Onde procuraria conforto agora a sua rainha?

Vindo do salão mais adiante ouvia o ruído das conversas, de uma discussão, apercebeu-se quando se aproximaram.

As paredes de junco tinham sido removidas para deixar entrar o ar e os bancos por baixo do telhado de colmo estavam cheios de gente. Helve estava sentada no grande cadeirão à cabeceira, junto da fogueira, com os olhos tão brilhantes como os de uma ave de rapina. Mas os seus cabelos estavam generosamente salpicados de cinzento. E o homem a seu lado... Lhiannon tropeçou quando viu que era Ardanos.

Até mesmo em Eriu lhe chegara a notícia de que Ardanos fora escolhido para druida-chefe quando Lugo- valus morrera. Mas não estivera à espera de que ele tives­se mudado. Estava sentado como se fosse uma imagem, com um manto branco e, até mesmo o cabelo, estava penteado em caracóis rígidos. Mas talvez o seu coração não estivesse tão endurecido como parecia, pois foi ele quem se virou primeiro e, quando os seus olhares se cru­zaram, houve qualquer coisa que se incendiou no seu o­lhar.

Fosse o que fosse que ela pensara ter visto, foi imediatamente ocultado. Ele curvou a cabeça numa sau­dação e Helve virou-se, com uma expressão que era um estranho misto de exasperação e de alívio quando viu Lhiannon.

A nossa irmã Lhiannon regressou de Eriu... — disse numa voz agradável. — Tenho a certeza de que terá muita coisa para nos contar quando terminarmos as nos­sas deliberações. Entretanto demos-lhe as boas-vindas. — O seu olhar passou pela assembléia de druidas, homens e mulheres, e um murmúrio adequado ergueu-se entre eles. Lhiannon reconheceu Belina e Cunitor e alguns dos ou­tros e seria aquele jovem robusto, de barba castanha, o pequeno Bendeigid? Mas muitos dos que ali estavam sentados eram sacerdotes e sacerdotisas mais idosos que ela não conhecia.

Seguiu Coventa e foi sentar-se num dos bancos.

E esta a situação... — A voz de Ardanos era firme e controlada. — O Governador Paulinus passou o Inverno na sua fortaleza de Deva, a construir barcos e a reunir mantimentos. Os mantimentos poderiam ser para ir para qualquer lado, mas os barcos — barcos de fundo chato que podem navegar em baixios de lama ou em praias arenosas — só podem servir para trazer soldados até aqui. E agora a estação das tempestades já terminou. Há muito que sabemos que isto poderia acontecer. Talvez devêssemos sentir-nos gratos aos deuses por nos terem protegido durante tanto tempo.

Esta ilha está cheia de guerreiros Silures, Ordo- vices e Deceangli que fugiram quando os Romanos con­quistaram as suas tribos — disse Helve. — Na outra margem não existe nenhum rei britânico com força sufi­ciente para nos defender. Convocamo-vos para que, jun­tos, decidamos se devemos dispersar, resistir com todos os nossos poderes ou entregarmo-nos à misericórdia de Roma.

A última hipótese não é viável, certamente — disse alguém. — Eles não têm amor nenhum por gente como nós.

Eles odeiam o que temem... então prove - mos-lhes que têm razão para isso! — Fora palavras de um velho imponente com uma longa barba branca que fora obviamente o druida-chefe de um qualquer rei tribal. — Para os guerreiros que para aqui vieram não há sítio ne­nhum para onde possam fugir e quando é que já houve uma vez tantos druidas com a nossa experiência reunidos num só lugar? Lancemos sobre as cabeças deles a ira dos deuses!

Doce Deusa, pensou Lhiannon, para o que é que eu vol­tei? Será outra vez como andar em campanha com Caratac. Nos seus pesadelos continuava a vaguear por aquele último campo de batalha, apesar de as memórias se terem esba­tido durante a sua estadia em Eriu.

Primeiro, certamente, que teremos que procurar o seu favor... — disse uma das sacerdotisas. — Quando fugimos para aqui trouxemos os nossos tesouros. Espa­das e carros de guerra não são armas para os druidas. En­treguemo-los aos deuses!

E melhor serem afundados do que exibidos num triunfo romano... — resmungou alguém nas suas costas.

O guerreiro prepara-se para a batalha pratican­do as suas técnicas — disse Ardanos austeramente. — Vós, que servistes em fortes e aldeias, tivestes mais ne­cessidade dos rituais de crescimento e de cura do que da alta magia. E o nosso propósito aqui em Oakhalls tem sido alimentar os espíritos. Se queremos enfrentar os Romanos, cada um de vós deverá passar o tempo que nos resta em oração e rituais de purificação, disciplinando a mente e preparando a alma.

Lhiannon pensou se isso serviria para alguma coi­sa. Já vira batalhas suficientes para saber que o camponês, cujas mãos estavam mais habituadas a manejar o arado do que a lança, servia sobretudo para compor a frente de batalha. Para usar uma espada com eficiência era preciso um treino constante. Em Eriu, os druidas eram freqüen­temente chamados para lançar tempestades ou espíritos contra os exércitos com quem os seus reis estavam em guerra, mas apenas uns poucos druidas ali — como Arda­nos... e eu — pensou sombriamente, tinham realmente visto um combate.

Perdida nos seus pensamentos ficou surpreendia quando a reunião terminou. Antes de conseguir protestar já Coventa a puxava para o círculo que se formara em torno de Ardanos e de Helve.

— A tua família está aqui? — perguntou educada­mente quando o druida-chefe se virou para ela. — Espe­ro que estejam todos bem.

As feições de Ardanos adoçaram-se. — Estão bem sim, graças aos Deuses e em segurança, com a família da Sciovana nas terras dos Durotriges. A minha pequena Rheis casou-se com Bendeigid no ano passado e está à espera de um filho.

Lhiannon pestanejou, fazendo mentalmente as contas, pois parecia-lhe ter sido apenas ontem que re­gressara a Mona e encontrara Ardanos casado e com uma filha pequena. Mas o mundo não ficara imóvel enquanto ela estivera em Eriu. Por esta altura as filhas de Boudica também já deviam estar casadoiras.

Ao ouvir o seu nome, Bendeigid ergueu os olhos. Lhiannon apercebeu-se de que no interior do corpo musculado continuava a habitar o rapazinho que costu­mava trepar às árvores para espreitar os ninhos dos cor- vos, tal como em algum lugar dentro dela ainda habitava a rapariga que amara Ardanos. E, apesar daquela concha que ele construiu para se proteger, há uma parte de Ardanos que ainda gosta de mim...

Não ficou surpreendida quando ele veio ter com ela depois do jantar.

Vem dar um passeio comigo, Lhiannon...

Ela olhou-o duvidosa, lembrando-se da última o­casião em que tinham estado sozinhos. Vendo a sua ex­pressão Ardanos desviou o olhar.

Não precisas de ter medo — disse com a voz embargada. — Não te direi nada de pessoal que não pu­desse ser dito à vista de toda a comunidade druida, mas também quero conversar contigo abertamente sobre as­suntos que lhe dizem respeito e que preferiria que não fossem ouvidos.

Muito bem meu senhor — respondeu ela. — Assim que a criança estiver preparada para dormir virei ter convosco.

Desta vez ele levou-a pela estrada que ia dar à cos­ta. As águas escuras do estreito estavam calmas sob a Lua nova, ocultando a força da corrente mais abaixo, mas a maré subia em pequenas ondas, cada uma mais próxima do que a anterior, que marulhavam suavemente na areia. Os penhascos da outra margem eram densamente arbo­rizados. Lá bem em cima um ponto de luz assinalava a fogueira de um pastor. Era difícil acreditar que aquelas águas poderiam vir a ficar vermelhas de sangue.

Fizeste bem em chamar-me "senhor" ainda há pouco — disse Ardanos agradavelmente. — O coração do homem que te ama diz-me que te mande embora en­quanto ainda é possível, mas o druida-chefe responde a outros imperativos. Viste o meu "exército" — acrescen­tou amargamente. — Bons sacerdotes e sacerdotisas, na sua maioria, mas não propriamente adeptos. A Helve, por pouco que gostes dela, tem realmente poder. E a Coventa também, se houver alguém que a dirija. A maior parte daqueles que eram suficientemente jovens para se lem­brarem do que estudaram foram em auxílio dos guerrei­ros e morreram. Mas tu, Lhiannon, eras a sacerdotisa mais poderosa da tua geração. Vamos precisar muito de ti. Para bem da nossa Ordem, peço-te que fiques.

Que hipóteses temos? — perguntou ela.

Ardanos suspirou. — Este Governador Paulinus

preocupa-me. Receio que ele seja um Romano da mesma cepa de César. Corre riscos e vence. Os seus deuses de­vem amá-lo. Devia ter morrido cem vezes quando andou nas montanhas... — apontou para as formas negras que se erguiam para lá das águas —, mas conseguiu sempre salvar-se.

Lhiannon assentiu. O fato de Paulinus ter conse­guido subjugar finalmente os Ordovices, que tinham con­tinuado a lutar depois do desaparecimento de Caratac, era um testemunho disso mesmo.

Como podia ela comparar a necessidade de uma mulher — mesmo a de uma mulher que amava — com as necessidades de uma comunidade que era a guardiã das tradições de todo um povo? Era a velha discussão de novo. Para que servia preservar o corpo quando se perdia a alma? E se aquele inimigo fosse realmente demasiado forte, se os deuses da guerra das tribos, todos juntos, não conseguissem competir contra Júpiter e Marte Ultor, su­portaria viver em segurança junto de Boudica, sabendo que nem sequer tentara?

 

Estamos aqui reunidos para nos aconselharmos relativamente ao futuro da tribo icena... — disse Morige- nos com o tipo de grandiloqüência sóbria que adotava até mesmo em ocasiões menos importantes. Como mais ve­lho entre os chefes dos clãs, tornara-se o porta-voz dos homens que estavam reunidos em torno da grande fo­gueira em frente da casa do rei.

O grupo de casas no interior da paliçada não mu­dara muito desde que ela ali viera para o seu casamento, pensou Boudica melancolicamente. Com exceção do pe­queno templo junto ao forte, até mesmo Prasutagos, com a sua paixão pela construção, não se aventurara a alterar as características do lar ancestral da sua linhagem. Mais uma vez os anciãos dos clãs icenos estavam reunidos em Dun Garo para escolher um rei.

Sepultamos um nobre senhor, Prasutagos filho de Domarotagos, descendente, através de uma longa li­nhagem, de Brannos que nos trouxe para estas terras. Não resta agora nenhum homem com o sangue dos nos­sos reis. Morigenos puxou a barba encaracolada.

Boudica suspirou, lembrando-se do seu filho mor­to. Se tivesse sobrevivido seria praticamente da mesma idade do jovem imperador.

Foi vontade do nosso senhor que as suas filhas herdassem juntamente com o imperador... — O lábio de Morigenos arreganhou-se ao proferir aquelas palavras, mas não disse nada que pudesse ser usado contra si. Fo­ram os outros chefes que olharam com desagrado para Cloto, que chegara no dia a seguir ao funeral, sem se ter feito anunciar, sem ter sido convidado e sem ser bem-vindo.

Ao menos era só Cloto, pensou Boudica. Receara que Polião viesse ao funeral. Ela própria só ali estava por amor às suas filhas vivas que estavam sentadas uma de cada lado. Quando aquilo terminasse levá-las-ia para Ramshill. A exaltação que a acometera no funeral desa­parecera com a mesma rapidez com que viera. Sem Pra- sutagos o mundo era um lugar vazio, mas por causa delas ela teria que continuar a viver nele.

Não disputamos esse fato. Um homem pode deixar os seus bens a quem lhe aprouver... — E a quem for politicamente mais conveniente, era a adenda silenciosa. — Mas cabe-nos escolher quem chefiará a tribo...

Estás errado em relação aos dois aspectos... —A voz de Cloto sobrepôs-se à dele. — Prasutagos era um cliente do imperador. Essa relação morre com ele. Cabe ao imperador escolher outro homem para governar as terras como rei cliente ou para as administrar direta­mente como território conquistado.

Nós nunca fomos conquistados!

Somos aliados de Roma!

A reunião entrou em efervescência com uma quan­tidade de protestos.

E quem és tu para falares em nome do impera­dor, seu sapo? — rugiu Bituitos.

Sou um homem de confiança do procurador de Nero. Enquanto o governador estiver no ocidente é à palavra de Deciano Catus que terão que obedecer. Nem a vossa vontade nem a de Prasutagos tem qualquer signifi­cado até ser confirmada pelos verdadeiros governantes da Britânia.

Se não o fizerem, trairão a Lei Romana que tanto prezam! — ripostou Drostac com os bigodes a tremer.

E revelar-se-ão sem honra e indignos da nossa obediência — acrescentou Morigenos.

Cloto encolheu os ombros. — Estou a dizer-vos isto para vosso bem, não para meu.

Boudica levantou-se de um salto... surpreendida por ser capaz de se sentir irada.

Como te atreves a dizer essas coisas com as cinzas do meu marido ainda quentes? Ele confiava em

Roma. Volta para os teus amos para que te ensinem o significado da honra, se forem capazes!

Pensas que és outra Cartimandua? — zombou ele. — Eles não confiam nela e farão ainda menos fé em ti...

Das gargantas dos homens sentados à volta da fo­gueira saiu um rosnido rouco, semelhante aos dos cães quando cheiravam o inimigo. Pela primeira vez Cloto pa­receu aperceber-se de que poderia estar em perigo. Le­vantou-se e aconchegou a capa aos ombros com a digni­dade de que foi capaz.

A responsabilidade é vossa — repetiu. — Fo­ram avisados.

Ouvimos-te. — Boudica endireitou-se. Os ho­mens riram-se quando ele mirrou sob o seu olhar furi­bundo. — Agora desaparece... enquanto podes!

Quando Cloto se fora ela voltou a sentar-se e ace­nou a Morigenos com a cabeça. — Peço desculpa pela interrupção. Continua.

Agradecemos-te por nos teres livrado daquele rafeiro... — Por um instante avaliou-a e depois virou-se novamente para os restantes. — Não que eu acredite ne­le. Os Romanos têm apoiado fortemente a rainha brigan­te. Porque não haveriam de aceitar uma rainha nas terras icenas? Não há nenhum homem com o sangue antigo, mas Boudica e as suas filhas são dessa linhagem e ela go­vernou ao lado do marido. Proponho que a aclamemos agora. Quando as suas filhas tiverem maridos teremos tempo de pensar na eleição de um rei.

Era disto que eu estava à espera! — Rigana a­pertou-lhe a mão. — Mãe, porque estás tão surpreendida? Era a decisão óbvia.

Boudica não estivera à espera daquilo. Mas quando os homens da tribo começaram a dar vivas, ouviu nova­mente a voz de Prasutagos a pedir-lhe que protegesse o

seu povo. Por ti fá-lo-ei... Disse silenciosamente, Por ti...

 

Boudica estava no interior do anel de terra onde ela e Prasutagos tinham sido unidos um ao outro. O cor­po ao qual o ritual do casamento a ligara já não existia, mas ele continuava a fazer parte da sua alma. Ali de pé, com os campos verdes a estenderem-se de ambos os la­dos, quase conseguia senti-lo a seu lado. Ele amara aquela terra e ela amara-o a ele. Se tomasse o seu lugar ele acom­panhá-la-ia e ela poderia arriscar sentir novamente.

Os druidas que tinha presidido ao ritual de Prasu- tagos havia muito que tinham desaparecido, empurrados para o exílio ou para a clandestinidade quando os Roma­nos tinham começado a perseguir a sua Ordem, mas Brangenos, com a surpreendente ajuda de Rianor, que aparecera inesperadamente junto aos portões, uns dias depois do conselho, era perfeitamente capaz de celebrar o ritual.

Boudica, filha de Dubrac, da linhagem de Brannos, filho da Égua Branca, aceitas ser a Rainha do povo e a Senhora da Terra?

Aceito.

Já a tinham purificado com fogo e com água, com terra e com ar. Sentiu-se subitamente pesada, como se tivesse criado raízes no solo.

E juras que serás uma mãe para os Icenos, a- poiando-os nos tempos de paz, protegendo-os na guerra, defendendo os direitos dos fracos e punindo as malfeito­rias dos fortes?

Subitamente ficou muito consciente das pessoas à sua volta, os chefes tribais no interior do anel de terra e

todos os outros no exterior. O ar vibrava com a sua ener­gia. A sua própria voz tremeu quando respondeu:

— Juro.

E juras por quê, filha de Dubrac?

Juro pelos deuses do nosso povo. — Engoliu quando o ar à sua volta pareceu ficar mais pesado. As pessoas passavam a vida a jurar pelos deuses. Nunca an­tes tivera tanta certeza de que Eles ouviam. — Juro por Epona Senhora dos Cavalos, por Brigantia do Fogo e por Cathubodva, Senhora dos Corvos. Juro por Lugos das muitas competências, por Taranis da Roda que Gira e por Dagdevos o Bom Deus. — Testemunhas invisíveis a­montoavam-se à sua volta e sentiu os pêlos dos braços arrepiarem-se.

Respirou fundo e continuou: — Juro pelos espíri­tos dos meus antepassados e, se quebrar este juramento, que o céu possa cair sobre mim e cobrir-me, que a terra se abra debaixo dos meus pés e que as águas engulam os meus ossos.

O druida aguardou como se desse tempo ao jura­mento para chegar ao Outro Mundo.

E qual será o teu penhor, Senhora dos Icenos? — perguntou então.

Ofereço o sangue do meu coração como pe­nhor —, respondeu ela sacando o punhal e fazendo rapi­damente um corte na carne junto à base do polegar. Es­tendeu a mão para que o sangue pingasse num corte a­berto na erva verde que cobria o anel. Pestanejou quando a abertura na terra pareceu tremeluzir de energia.

Ofereço-o agora a esta terra que representa to­da a terra, tal como ofereci o meu serviço a vós, que sois testemunhas em nome do povo que aqui vive. E, se tal for necessário, oferecerei também a minha vida. — Tal como a Mãe do Milho oferece os seus grãos para fazer a colheita crescer... , pensou recordando o ritual.

O druida virou-se para os circundantes. — A vossa Senhora presta-vos assim o seu juramento; prometeis-lhes também o vosso serviço? A vossa comida para a sua me­sa, os vossos guerreiros para que a sigam, a vossa obedi­ência a todas as ordens legais?

A resposta surgiu num rugido em toda a sua volta: — Sim! Sim! Sim!

 

— Pela nossa fé e pelo nosso povo fazemos esta oferenda. Olhai para nós com bondade, oh santos deu­ses... — A voz de Helve vibrava clara, apesar de a sua forma quase não se distinguir na escuridão brumosa. Chovera intermitentemente toda a noite e apesar de em algum lugar o Sol estar a nascer, o fogo dos druidas pare­cia ser a única luz do mundo.

Lhiannon aconchegou-se à sua capa de lã, ouvindo as tosses e os espirros das pessoas à sua volta. Reza para que o clima tempestuoso se prolongue, Helve, pensou com um humor sombrio. E talvez os Romanos não venham...

No malfadado ritual em que os reis ali tinham feito as suas oferendas, a madrugada estivera límpida. Naquele dia não havia gaivotas a nadar sobre as águas. Talvez a­quele céu pesado fosse um bom presságio.

Queria chorar, ao pensar nos tesouros que tinham sido lançados à lagoa: espadas de lâminas brilhantes e pontas aguçadas de lança e escudos de bronze. Também fora sacrificado um maravilhoso corno carynx de Eriu, grandes caldeirões e foices que tinham cortado visco. Colares e correntes de ferro outrora usados em prisio­neiros seguiram os outros objetos para dentro de água. Ornamentos mais pequenos tinham brilhado à luz do fogo antes de mergulharem nas profundezas. Mas ela não sentia qualquer diferença na atmosfera.

Todos quantos tinham forças para fazer a viagem tinham seguido a carroça cheia de oferendas. Os muito idosos tinham sido enviados para longe por mar ou, se estivessem demasiado fracos para viajar, levados para fa­zendas e quintas noutros locais da ilha onde poderiam passar por avós e tios velhos se os Romanos viessem. As três dúzias de sacerdotes e sacerdotisas que restavam es­tavam agora de pé, com tochas apagadas nas mãos, nas margens da lagoa negra.

Do local onde encontrava na ponta ocidental, Lhiannon conseguia ver Ardanos do outro lado das águas escuras. A sul estava Helve e na sua frente Cunitor.

A Helve sempre foi fogo e eu água, pensou Lhiannon. Não é para admirar que tenhamos tido dificuldade em darmo-nos bem.

Ardanos acendeu a tocha e tocou com ela na do homem que estava a seu lado e este na da sacerdotisa que estava a seu lado e por assim adiante até a lagoa estar cercada de chamas. Pontos de fogo dançavam nas águas com se os espíritos da lagoa se tivessem juntado ao ritual. Lhiannon sentiu um arrepio na espinha quando o circuito se fechou e os druidas espetaram as tochas no solo. Tal­vez os deuses afinal os ouvissem.

Pela terra e pela água, pelo ar e pelo fogo, Lançamos o àclo do desejo. Entre a escuridão e o dia, Entre os mundos encontramos o caminho! Quando as vozes se juntaram no cântico, Lhian- non sentiu o mergulho interior e a expansão do transe que se aproximava e soube que a magia se iniciava. Pelo sacrifício alimentamos os deuses, Em oferenda o nosso sangue vertemos... Cathubodva, escuta a nossa chamada Faz com que os guerreiros Romanos falhem!

E, um a um, todos os sacerdotes e sacerdotisas avançaram, passaram uma faca afiada pela base do pole­gar e deixaram o sangue pingar na lagoa. Aquela era a al­teração do ritual decretada por Helve: não deveriam sacri­ficar um cavalo, nem um boi nem mesmo uma lebre, mas

sim o seu próprio sangue como uma dádiva de energia.

 

Que os seus braços enfraqueçam e as suas armas se que­brem,

Que a sua coragem esmoreça e a sua força seja nossa!

Ao alvorecer do dia,

Eles hesitam, viram-se e fogem!

O cântico foi repetido uma e outra vez. A Lhian- non pareceu que se estava a formar uma bruma sobre as águas. Era o tipo de coisa que se via acontecer freqüen­temente sobre lagos gelados, quando o ar aquecia com a aproximação do dia, mas aqueles vapores pulsavam como trevas entrecortadas por lampejos de fogo. Estendeu as mãos para a esquerda e para a direita quando o poder que estavam a invocar começou a pressionar as fronteiras do círculo, sentiu a paixão de Helve e a força fiel de Cunitor e, do outro lado do lago, a inteligência aguda de Ardanos, equilibrando o impulso do seu amor.

O círculo aguentou-se e a energia, contida, subiu no ar. Em torno da lagoa rompia o dia, mas lá em cima as trevas agitavam-se como uma nuvem de asas negras.

Que o medo os gele e o fogo os queime! — gritou Helve.

Que possam ver destruído tudo o que constru­íram — ecoou Lhiannon.

Morrigan, Grande Rainha, enviai-os rapida­mente para longe! — gritou Cunitor.

— Cathubodva, viajai para leste, levai a morte ao nosso inimigo! — Ardanos abriu os braços e as trevas emplumadas voaram na sua direção. E com um só mo­vimento ágil, ele recebeu-as, virou-se e soltou-as, aladas, vogando para leste na direção da madrugada.

Quando as trevas passaram Lhiannon sentiu, com sentidos que estavam para além da audição, um som que era simultaneamente o grito de um corvo e a gargalhada de uma mulher.


 

Como podia ter pensado que sentiria menos a falta de Prasutagos em Dunford?

Boudica reprimiu as lágrimas enquanto ouvia o barulho dos últimos postes a serem postos no lugar. Duas semanas tinham passado desde que o marido fora cre­mado na sua pira e continuava dar por si, a todo o mo­mento, a pensar em algo que tinha para lhe contar e de­pois lembrava-se, e vinha a dor. Ali era pior, no local on­de só o conhecera saudável e forte. Certamente que a qualquer momento o rei entraria pelo portão a passos largos, resplandecente de orgulho por mais um grande feito e chamando-a para que o fosse admirar.

Certamente que nunca um rei celta tentara uma coisa assim. O recinto retangular fora alargado até ter a dimensão de dois campos de jogos postos lado a lado, com o talude e o fosso rodeando duas novas casas, que flanqueavam a sala do conselho de três andares que cons­truíra anteriormente. Eram os postes no exterior do dique que tornavam o local único. Nove filas de troncos de ár­vores e, mais à frente, outro talude e outro fosso rodea­vam o recinto, duplicando o seu tamanho. Desejava que pudessem ser árvores vivas, mas os solos ali não suporta­riam uma tal floresta. Os construtores romanos tinham ajudado a executar a obra, mas a concepção fora sonhada pelo seu marido.

Oh, meu amor, está exatamente como tu querias, pensou quando regressou através do circulo vedado com uma cerca e que servia de pátio à cabana na qual ela e as rapa­rigas agora viviam. E, por um instante, sentiu-o tocar-lhe na face como costumava fazer, ou talvez tivesse sido o vento.

Mas alguém a estava mesmo a chamar. Virou-se no­vamente. Um cavaleiro e o seu cavalo transpirado passa­ram pelos postes altos do portão, esculpidos com os to­tens dos clãs icenos. Sentiu o coração apertado. Os ho­mens não cavalgavam tão desesperadamente quando e­ram portadores de boas notícias. Mas acabara de ver as filhas em segurança dentro de casa... por quem mais po­dia temer agora que Prasutagos tinha partido?

O cavaleiro deteve-se quando a viu dirigir-se na sua direção e desceu do cavalo com uma contorção a­pressada que não chegava a ser uma vênia. Já havia mais gente que tinha dado pela agitação e vinha ver o que se passava.

Minha rainha! — Calou-se e obrigou-se a respi­rar. — Tendes que fazer alguma coisa... os Romanos... — inspirou novamente. — Os porcos romanos enviaram homens para confiscar a quinta do Brocagnos.

Mas ele pagou os impostos — disse ela espan­tada. O ouro do bracelete da sua mãe tinha sido sacrifi­cado para pagar essa dívida, lembrava-se bem.

Ele não é o único, senhora... — continuou o homem. Começou a dizer uma lista de nomes, na sua maioria de camponeses que viviam perto da fronteira sul. — Estão a levar o gado e as pessoas também.

Para o exército? — O sangue começava a pul­sar-lhe por trás dos olhos, irado. Muitas famílias tinham dado filhos ao recrutamento militar. Os rapazes eram ha­bitualmente enviados em serviço para locais muito dis­tantes da Britânia. Ocasionalmente chegava um presente de uma qualquer terra distante, mas a maior parte deles perdia-se, como o seu próprio irmão, que morrera refém em Roma.

Estão a levá-los como escravos, senhora... ho­mens e mulheres!

Eles não podem fazer isso, pois não? — per­guntou Argantilla que saíra da casa. O pátio enchia-se de gente à medida que iam passando a palavra.

Crispus, preciso de ti... — gritou Boudica. — Vai buscar as tuas tabuinhas... temos de mandar uma mensagem para Colônia. O Polião saberá como resolver isto.

Talvez algum oficial romano ache que pode en­riquecer depressa enquanto o governador está ausente — disse um dos homens.

Boudica esperava que fosse esse o caso. Mas mesmo enquanto ia ditando a mensagem, tentava não pensar se Cloto, afinal de contas, não soubera do que es­tava a falar.

 

Boudica caminhava com Prasutagos num bosque de aveleiras. Pelas flores cremosas que cobriam o chão pensou estar perto do Beltane. Alegrou-se ao vê-lo tão forte e saudável: maior e mais musculado do que alguma vez fora. Aquelas recordações em que o vira alquebrado deviam ser produto de um sonho mau. Tinha um grande cacete apoiado no ombro e vestia uma túnica sem mangas e tão curta que ela lhe via as nádegas. Caminhou mais ra­pidamente, pensando se o que veria da parte da frente seria mais interessante.

— Aqui está a clareira onde irei construir o novo forte... — disse ele quando saíram para a luz do Sol. Des­creveu uma forte pancada circular com o cacete que fez um grande roço no solo, lançando terra dos dois lados numa grande pilha. Virou-se para ela, com um sorriso radioso que se alargava à medida que se ia aproximando dela, com o cacete enorme na mão...

A cena dissolveu-se à sua volta quando o solo se moveu, mas era a cama que estremecia quando Bogle lhe saltou para cima a ladrar. Acordou sobressaltada, com as virilhas a pulsar e começou a chorar quando se apercebeu de que Prasutagos fora um sonho e de que estava sozi­nha.

Mas ao menos aquela fora uma ilusão melhor do que os pesadelos em que perseguia interminavelmente a sua forma que se desvanecia através de uma terra árida. Abraçou o cão procurando conforto no seu calor e afa­gou-lhe os pontos sensíveis por trás das orelhas. Mesmo a chorar a memória do prazer de Prasutagos com a pers­pectiva de uma nova construção fê-la sorrir.

 

Passava pouco do meio-dia quando os Romanos chegaram. Pouco depois da madrugada as nuvens tinham começado a juntar-se, tapando a luz do sol do sonho de Boudica. Naquela luz cinzenta as capas dos soldados e­ram da cor de sangue velho; até mesmo as suas armadu­ras tinham um brilho baço. Era Polião quem os coman­dava. Bogle, que não gostava de Romanos, ladrava furio­samente. Disse a Crispus que atasse o cão nas traseiras e que trouxesse a taça das boas-vindas com um sorriso lú­gubre. Se Polião achava que ela enfraquecera por já não ter o marido a seu lado iria descobrir que estava engana­do. Agora ajustariam contas e os subalternos que eram responsáveis por aquelas ignomínias sofreriam as conse­qüências dos seus pecados.

— Júnio Polião, salve! — ofereceu-lhe a cerveja.

O retorcer de lábios com que ele retribuiu a sau­dação mal poderia ser chamado sorriso, mas também o seu rosto comprido parecia sempre sombrio. Os seus o­lhos escuros examinaram-lhe o rosto como sempre fazi­am quando se encontravam, como se tivesse a esperança de que os sentimentos dela por ele tivessem mudado. Quando Polião estendeu a mão para a taça o cavalo re­cuou repentinamente e esta escorregou-lhe dos dedos e desfez-se no chão. Por um instante Boudica ficou a ver o líquido escuro a embeber-se na terra. Depois abanou-se mentalmente e conseguiu sorrir.

Não tem importância... entrai no Salão do Conselho que eu mando vir mais.

Onde estão os vossos guerreiros? — perguntou ele quando a seguiu para a cabana central.

A percorrer os campos e a reunir provas dos crimes dos Romanos... — Sentou-se no grande cadeirão em frente ao fogo cuja luz quente era menos intensa de­vido à luz que entrava pelas aberturas no terceiro andar. Polião olhou desconfortavelmente para o lado enquanto se sentava na cadeira mais baixa ao lado dela. Do fogo, até ao cimo do telhado, o interior da casa era da altura de quatro homens altos uns em cima dos outros. Ali não havia colunas de mármore nem estátuas de bronze, mas as imagens bordadas nos tapetes que cobriam as paredes pareciam mover-se à luz inconstante do fogo. As casas romanas ostentavam o poder do seu proprietário; o salão de Prasutagos ocultava o seu com mistério.

Mandai-os regressar, Boudica — disse em voz

baixa.

Não podeis fazer nada.

Que quereis dizer? — ripostou ela. — Tenho o dever de proteger o meu povo. Sou a rainha dos Icenos e cliente do Imperador.

Não. Não sois. Roma não faz tratados com ra­inhas.

Por um longo instante ela limitou-se a olhar para ele. — Mas a Cartimandua...

...foi legitimada pelo juramento do marido, a­pesar de ele se ter rebelado. O vosso marido morreu.

As palavras penetraram-lhe no coração como uma espada. Boudica tivera que aprender a viver de novo. A­gora já conseguia passar horas seguidas sem pensar no seu desgosto, quando estava ocupada com outros assun­tos, até que uma palavra incauta, como um ramo seco lançado sobre os carvões, provocava uma ressurgir das chamas da dor.

Prasutagos era aliado de Roma — disse ela fi­nalmente.

Algumas das propriedades que os vossos ho­mens andam a confiscar foram deixada às suas filhas em testamento. Têm de