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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS ESTRANHOS / Stephen King
OS ESTRANHOS / Stephen King

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS ESTRANHOS

 

Como acontece a muitas rimas de Mamãe Gansa, as estrofes sobre os Tom-myknockers são decepcionantemente simples. É difícil chegar-se à origem desta palavra. O Webster’s Unabridged diz que Tommyknockers tanto podem ser ogres vivendo em túneis, como fantasmas que infestam cavernas ou desertas galerias de minas. Uma vez que tommy é um termo arcaico de gíria britânica, referindo-se a reações do exército (o que tornou o termo tommies uma palavra usada para identificar recrutas britânicos, como em Kipling: “é Tommy isto, e Tommy aquilo...”), o Oxford Unabridged Dictionary, embora não identificando o termo em si, pelo menos sugere que Tommyknockers sejam os fantasmas de mineiros mortos por inanição, mas que continuam batendo por comida e resgate.

A primeira estrofe (“Bem tarde na noite passada e na noite anterior,” etc.) é comum o bastante para que eu e minha esposa a tivéssemos ouvido quando crianças, mesmo havendo sido criados em cidades diferentes, tendo crenças religiosas diferentes e possuindo diferente ascendência — ela, oriunda principalmente de franceses, eu de irlandeses-escoceses.

Todas as demais estrofes são produto da imaginação do autor.

Este escritor — eu, em outras palavras — deseja agradecer à esposa Tabitha, uma crítica inestimável, embora às vezes exasperante (quando nos enfurecemos com os críticos quase podemos ter certeza de que estão certos), ao editor Alan Williams, por sua gentil e cuidadosa atenção, a Phyllis Grann por sua paciência (este livro não foi apenas escrito, mas também expelido e, em particular, a George Everett McCutcheon, que leu cada um de meus livros e os analisou criteriosamente — antes de mais nada, por motivos ligados a armas e balística, mas também por sua atenção à continuidade. Mac faleceu enquanto este livro era reescrito. Aliás, eu fazia obedientemente as correções sugeridas em uma de suas notas quando soube que por fim sucumbira à leucemia, contra a qual vinha lutando por quase dois anos. Senti uma tremenda falta dele, não por ajudar-me a corrigir coisas, mas por fazer parte dos que moram em meu coração.

Devo ainda agradecimentos a outras pessoas, estas em maior número do que me seria possível mencionar: pilotos, dentistas, geólogos, colegas escritores, e inclusive meus filhos, que ouviram a leitura do livro. Também sou grato a Jay Gould. Embora ele torça pelos Yankees, não sendo, portanto inteiramente confiável, seus comentários sobre as possibilidades do que eu denominaria a “evolução dos mudos”, ajudaram a modelar o novo rascunho desta novela (O sorriso do flamingo, por exemplo).

Haven não é real. Os personagens não são reais. Esta é uma obra de ficção, com uma única exceção:

Os Tommyknockers são reais.

Se você pensa que estou brincando, é porque não ouviu os noticiários noturnos.

Stephen King

 

ROBERTA ANDERSON TROPEÇA

O reino foi perdido por falta de uma ferradura — é como diz o catecismo, quando o reduzimos à expressão mais simples. Por fim, podemos reduzir tudo a algo similar — ou assim pensou Roberta Anderson, bastante tempo mais tarde. Foi tudo uma casualidade... ou tudo obra do destino. Ela literalmente tropeçou em seu destino, na cidadezinha de Haven, no Maine, a 21 de junho de 1988. Esse tropeção foi a raiz do assunto; todo o resto se tornou história.

 

Naquele entardecer, Roberta havia saído com Peter, um velho cão beagle, agora cego de um olho. Jim Gardener lhe dera Peter em 1976. Roberta saíra da universidade no ano anterior, faltando apenas dois meses para diplomar-se, a fim de ir morar na propriedade do tio, em Haven. Não havia percebido o quanto estava solitária, senão quando Gard lhe trouxera o cão. Peter era um filhote, na época, e Roberta custara a crer que agora estivesse idoso — oitenta e quatro anos, na contagem de idade dos cães. Aliás, era uma forma de também mensurar sua própria idade. Mil novecentos e setenta e seis recuara. Sim, de fato. Quando temos vinte e cinco anos, ainda nos podemos dar o luxo de acreditar que, em nosso caso, envelhecer era um erro de transcrição que, eventualmente, seria corrigido. Ao acordarmos um belo dia e descobrirmos que nosso cão está com oitenta e quatro anos e nós com trinta e sete, essa é uma perspectiva que devia ser reexaminada. Sim, de fato.

Roberta procurava um lugar em que pudesse cortar um pouco de lenha. Já tinha quase duzentos pés cúbicos de lenha cortada, porém queria triplicar a quantidade, o que lhe permitiria atravessar todo o inverno. Havia cortado um bocado de lenha desde que Peter ainda era filhote, afiando os dentes em um chinelo velho (e molhando exageradamente todo o tapete da sala de refeições), porém ainda existia bastante madeira na propriedade. Aquelas terras (que após treze anos continuavam sendo identificadas, pela gente da cidade, como a fazenda de Frank Garrick) ficavam a apenas sessenta e um metros da Rota 9, porém os muros de pedra marcando os limites norte e sul estendiam-se em ângulos divergentes. Outro muro de pedras — este tão antigo que se degenerara em monturos isolados de pedras, cobertas de musgo — delimitava as divisas posteriores da propriedade, avançando, em cinco quilômetros de indisciplinada floresta contendo árvores de primeira e segunda geração. A área total dessa cunha em forma de torta era enorme. Além do muro na margem oeste da terra de Bobbi Anderson, havia quilômetros e quilômetros de florestas pertencentes à Companhia de Papel da Nova Inglaterra. No mapa, tinham o nome de Burning Woods. Floresta Ardente.

Em verdade, Roberta não tinha real necessidade de procurar algum local apropriado para cortar sua lenha. A terra que herdara do irmão de sua mãe era valiosa, porque a maioria das árvores ali existentes era de excelente madeira dura e relativamente intocada pela infestação da mariposa européia. Entretanto, aquele era um dia radioso e quente, após uma primavera chuvosa, o jardim fora semeado (com a maioria das plantas apodrecendo, graças às chuvas) e ainda não era hora de iniciar o novo livro. Assim, ela cobrira a máquina de escrever e perambulava com o velho e fiel Peter de um olho só.

Havia uma velha estrada de lenhadores atrás da fazenda, e Roberta seguiu quase dois quilômetros por ela, antes de desviar-se para a esquerda. Levava uma mochila (contendo um sanduíche e um livro para ela, biscoitos caninos para Peter e punhados de fita alaranjada que, atada à volta dos troncos das árvores que pretendia derrubar quando o calor de setembro fosse chegando a outubro) e um cantil. Tinha no bolso uma bússola Silva. Já se perdera dentro da propriedade uma vez, mas que fora o suficiente para Roberta não desejar ver repetida. Havia passado uma noite terrível na floresta, ao mesmo tempo incapaz de acreditar que estava mesmo perdida na propriedade que — pelo amor de Deus — lhe pertencia, e certa de que acabaria morrendo ali. Era uma possibilidade na época, porque apenas Jim daria por sua falta, mas Jim só aparecia quando não era esperado. Pela manhã, Peter a guiara a uma corrente e a corrente a levara de volta à Rota 9, onde borbulhava alegremente através de manilhas sob o asfalto, a apenas três quilômetros de casa. Atualmente, havia a probabilidade dela já conhecer o suficiente da floresta para encontrar o caminho de volta à estrada ou a um dos muros cercando sua terra, porém a palavra chave era probabilidade. Assim, Roberta levava uma bússola.

Por volta das três da tarde, encontrou um bom maciço de bordos. De fato, já havia passado vários ajuntamentos de boas árvores para o corte, porém este aqui ficava próximo de uma trilha conhecida, com largura suficiente para acomodar o Tomcat. Por volta de 20 de setembro mais ou menos — se alguém não explodisse o mundo, nesse meio tempo — ela engancharia seu trenó ao Tomcat, dirigiria até ali e cortaria alguma madeira. Por outro lado, já tinha caminhado o suficiente por um dia.

— Parecem boas, Pete?

Pete latiu fracamente e Roberta olhou para o beagle com tão profunda tristeza, que isso a surpreendeu e inquietou. Peter estava liquidado. Atualmente, era raro ele correr atrás de pássaros, esquilos, tâmias e uma marmota ocasional; a idéia de Peter afugentando uma corça era hilariante. Seria preciso fazer várias paradas para ele descansar, quando voltassem, mas houvera uma época, não muito distante (ou assim afirmava sua mente, com teimosia), quando Peter sempre se mantinha quinhentos metros à frente dela, esgoelando-se em latidos por entre as árvores. Roberta refletiu que podia chegar o dia em que decidiria ser o bastante; então, bateria no lado do passageiro de sua picape Chevrolet pela última vez e levaria Peter ao veterinário, em Augusta. Só que não neste verão, meu Deus, por favor! Nem neste outono ou inverno, por favor, Deus! Ou nunca, por favor, Deus!

Porque, sem Peter, ela estaria só. A exceção era Jim, porém Jim Gardener ficara ligeiramente distante no correr dos últimos três anos mais ou menos. Ainda um amigo, mas... distante.

— Gostei de você ter aprovado, Pete meu velho — disse ela, amarrando uma ou duas fitas em torno das árvores, mas sabendo perfeitamente que talvez preferisse cortar outro maciço, enquanto as fitas apodreceriam ali. — Seu gosto só é superado por sua boa aparência.

Sabendo o que era esperado de sua parte (Peter estava velho, porém não era burro), ele agitou o coto de cauda e latiu.

— Seja um vietcongue! — gritou Roberta.

Peter obedientemente caiu de lado — um leve gemido escapou dele — e rolou de costas, com as pernas escancaradas. Isso quase sempre divertia Roberta, mas agora, a visão de seu cachorro brincando de vietcongue (Peter também se fingia de morto às palavras hooch ou “My Lay”*) era demasiado aproximada daquilo em que estivera pensando. — Levante-se, Peter!

Peter levantou-se devagar, com o focinho ofegante. Seu focinho branco.

— Vamos embora! — Ela lhe jogou um biscoito canino, Pete procurou abocanhá-lo no ar, mas falhou. Farejou em busca do biscoito caído no chão, perdeu a pista, tomou a encontrá-lo. Comeu-o lentamente, sem grande satisfação. — Muito bem — acrescentou Roberta. — Andando!

 

O reino foi perdido por falta de uma ferradura... e, pela escotilha de uma trilha, a nave foi encontrada

Roberta Anderson já estivera ali antes, nos treze anos em que a Fazenda Garrick se tornara a Fazenda Anderson. Reconheceu a encosta da terra, um emaranhado de árvores caídas desnivelando o terreno, todas elas talvez mortas antes da guerra da Coréia, entre as quais um enorme pinheiro de topo fendido. Caminhara pelo lugar antes e não teria problemas para encontrar o caminho de volta à trilha que usaria com o Tomcat. Poderia ter passado uma, duas ou meia dúzia de vezes antes pelo local onde tropeçou, talvez a metros ou centímetros de distância.

Agora, no entanto, seguia Peter, que se tinha movido ligeiramente para a esquerda. Com a trilha à vista, uma de suas velhas botas de caminhar bateu em alguma coisa... bateu com força.

— Ei! — gritou.

Tarde demais, apesar dos braços que se agitavam. Caiu ao chão. O ramo baixo de um arbusto arranhou-a no rosto, com violência bastante para tirar sangue.

— Merda! — exclamou, e um gaio censurou-a.

Peter voltou, primeiro farejando, depois lambendo o nariz.

— Céus, não faça isso, seu bafo fede!

Peter abanou a cauda. Roberta sentou-se no chão. Esfregou a face esquerda, viu sangue na palma e dedos. Grunhiu.

— Que bela queda! — exclamou, olhando para ver em que havia tropeçado.

Provavelmente fora em um pedaço de tronco caído ou em alguma rocha destacando-se do solo. Há rochas em abundância no Maine. No entanto, o que viu foi um brilho metálico.

Ela o tocou, correndo o dedo ao longo da coisa de metal, depois soprando a terra negra da floresta que aderira.

— O que é isto? — perguntou a Peter.

Peter aproximou-se, farejou e então fez algo peculiar. O beagle recuou dois passos caninos, sentou-se e emitiu um único uivo roufenho.

— O que deu em você? — perguntou Roberta.

Peter apenas continuou onde estava. Roberta chegou mais perto, ainda sentada, deslizando sobre o fundilho dos jeans. Examinou o metal no solo.

Apenas uns sete centímetros emergiam da terra coberta de folhas mortas — o suficiente para fazê-la tropeçar. Ali havia uma ligeira elevação e talvez a água corrente das fortes chuvas da primavera houvesse carregado a terra. A primeira idéia de Roberta foi de que os arrastadores de troncos, os lenhadores que haviam trabalhado ali nos anos 20 e 30, deviam ter deixado no local um punhado de seus refugos — os restos de comida de três dias de trabalho, um “fim de semana de lenhadores”, conforme era chamado na época.

Deve ser uma lata, pensou ela. Uma lata de feijões B&M ou de sopa Campbell. Sacudiu a protuberância metálica, da maneira como se sacode uma lata, a fim de arrancá-la da terra. Então, ocorreu-lhe que ninguém, a não ser uma criança de tenra idade, seria capaz de tropeçar na borda saliente de uma lata e cair, o metal fincado na terra não se abalou. Era sólido como uma rocha maciça. Seria talvez alguma peça do antigo equipamento dos madeireiros?

Intrigada, examinou-a mais de perto, não percebendo que Peter se erguera, recuara mais quatro passos e sentara novamente.

O metal era de uma opaca tonalidade cinza — não a cor brilhante de urna lata ou de ferro, em absoluto. Também era mais espesso do que uma lata, tendo talvez uns seis milímetros no topo. Roberta pousou a ponta do indicador direito na borda e sentiu momentâneo e curioso formigamento, como uma vibração.

Afastou o dedo e olhou para ele, intrigada.

Tornou a pousá-lo na borda metálica.

Nada. Nenhuma vibração.

Segurando o metal entre o polegar e o indicador, tentou puxá-lo da terra, como puxaria da gengiva um dente frouxo. Nada aconteceu. Agarrava a saliência bem pelo meio. Ela se afundava na terra — ou foi a impressão que deu — em ambos os lados, em uma largura com menos de cinco centímetros. Mais tarde, contaria a Jim Gardener que podia ter caminhado ali três vezes ao dia, durante quarenta anos, sem nunca tropeçar naquilo.

Afastou a terra solta dos lados, expondo um pouco mais do metal. Com os dedos, escavou ao longo dele um canal com cerca de cinco centímetros de profundidade — o solo cedia com facilidade, de maneira como cede o solo das florestas... pelo menos, até chegarmos ao emaranhado das raízes. O metal continuava a aprofundar-se uniformemente, chão adentro. Pondo-se de joelhos, Roberta escavou ao longo dos dois lados. Tentou sacudir o metal novamente. Mais uma vez, nada aconteceu.

Escavou mais terra com os dedos e rapidamente expôs mais — agora via quinze centímetros de metal acinzentado, logo em seguida vinte, depois trinta.

É um carro, um caminhão ou um puxador de toras, pensou de súbito. Enterrado aqui, no meio de lugar nenhum. Talvez seja alguma espécie de estufa do tipo Hooverville. Certo, mas por que aqui?

Não conseguia encontrar um motivo; não havia qualquer razão para aquilo estar enterrado ali. De tempos em tempos, Roberta encontrava coisas na floresta — cartuchos detonados de rifles, latas de cerveja (das bem antigas, sem topos facilmente abertos com a mão, mas com buracos em forma de triângulo, feitos pelo que, nos longínquos dias dos anos 60, era conhecido como “chave de igreja”), envoltórios de balas e doces, objetos vários. Haven não se situava na direção das duas principais rotas turísticas do Maine, uma das quais cruza a região dos lagos e montanhas até o extremo oeste do estado, a outra subindo o litoral até o extremo leste, porém há muito e muito tempo deixara de ser a floresta primitiva. Certa vez, (ela cruzara o tombado muro de pedra nos fundos de sua terra, na época realmente invadindo os terrenos da Companhia de Papel da Nova Inglaterra) descobrira a desmantelada e enferrujada estrutura de um Hudson Hornet de fins dos anos 40, assentada no que outrora havia sido uma estranha madeireira, mas que agora, mais de vinte anos depois após ter sido interrompido o corte das árvores, se tornara um emaranhado matagal de segunda geração — o que os locais denominavam “madeira inútil”. Tampouco havia qualquer motivo para a presença da carcaça de um carro estar ali... porém era mais fácil de explicar, do que uma estufa, uma geladeira ou qualquer outra maldita coisa realmente enterrada no solo.

Roberta tinha escavado valas duplas com trinta centímetros de comprimento a cada lado do objeto, sem encontrar suas extremidades. Escavou quase trinta centímetros de profundidade, antes que seus dedos arranhassem rocha. Poderia ser capaz de arrancar aquela pedra — isso, pelos menos cedera um pouco — porém não havia motivo para tal. O objeto continuava mergulhado na terra, depois disso.

Peter ganiu.

Roberta olhou para o cão, depois ficou em pé. Seus joelhos bambearam. O pé esquerdo formigou com alfinetadas. Tirou o relógio de bolso das calças — antigo e empretecido, o relógio Simon era outra parte do legado do tio Frank — e ficou espantada, ao ver que passara muito tempo ali. Uma hora e quinze minutos, pelo menos. Já passava das quatro.

— Muito bem, Pete — disse. — Vamos dar o fora!

Peter tornou a ganir, porém não se moveu. E agora, com real inquietação, Roberta viu que seu velho beagle tremia inteiramente, como se estivesse com sezão. Ela ignorava se cães podiam sofrer de sezão, mas talvez os idosos pudessem. Recordou que a única vez que vira Peter tremer daquele jeito tinha sido no outono de 1975 (ou então de 76). Um gato-do-mato andara pela propriedade e durante umas nove noites, mais ou menos, o animal miara e se esgoelara, possivelmente devido a um cio não correspondido. A cada noite, Peter ia para a janela da sala de estar e saltava sobre um velho banco de igreja que Roberta colocara ali, junto da estante de livros. Ele jamais latia. Apenas ficava espiando para o escuro, de orelhas em pé, na direção daqueles guinchos extraterrenos e femininos. Suas narinas dilatavam-se e ele tremia de alto a baixo.

Roberta passou por cima de sua pequena escavação e aproximou-se de Peter. Ajoelhando-se, deslizou as mãos pelos lados da cara do cachorro, sentindo a tremura nas palmas.

— O que há de errado, garoto? — murmurou.

Não obstante, sabia o que estava errado. O olho sadio do cão passava além dela, fixo na coisa enterrada no solo. Voltava depois a fixar-se em sua dona. A súplica impressa na pupila não velada pela odiosa e leitosa catarata era tão clara como palavras: Vamos embora daqui, Bobbi, gosto tanto daquela coisa como gosto de sua irmã.

— Está bem — disse Roberta, apreensivamente.

Ocorreu-lhe, de repente, que não se recordava de jamais haver perdido a noção do tempo como acontecera nesse dia, naquele lugar.

Peter não gostou da coisa. Nem eu tampouco.

— Vamos!

Ela começou a subir a pequena encosta até a trilha. Peter a seguiu com alacridade. Estavam quase chegando lá quando, como a mulher de Ló, Roberta olhou para trás. Se não fosse esse último olhar, de fato poderia ter esquecido inteiramente o que ocorrera, desligar-se daquilo. Desde que abandonara a universidade, antes das provas finais — a despeito das lacrimosas súplicas da mãe e das furiosas recriminações e ultimatos da irmã — Roberta ficara perita em desligar-se das coisas.

O olhar para trás, daquela distância intermédia mostrou a ela duas coisas. Primeiro, a peça metálica não mergulhava na terra como imaginara a princípio. A língua de metal projetava-se do centro de uma declividade mais ou menos suave, não ampla, porém mais ou menos profunda, sem dúvida o resultado do degelo do inverno anterior e das fortes chuvas de primavera, vindas em seqüência. Assim, o solo em ambos os lados do metal protuberante era mais alto, a peça metálica simplesmente desaparecendo em seu interior. A primeira impressão de Roberta, havia sido de que a coisa no solo seria a quina de algo, porém isto não era verdade — ou não necessariamente verdade. Em segundo lugar, aquilo assemelhava-se a um prato — não um prato em que se coma, porém um prato ou placa de metal fosco, exibindo um dos lados ou...

Peter latiu.

— Está bem — disse Roberta. — Já ouvi sua chamada. Vamos!

Vamos... e deixemos isso pra lá!

Ela caminhou pelo centro da trilha, deixando Peter seguir à frente, em direção à estrada da floresta, em seu próprio passo cambaleante, apreciando a verdura exuberante do pico do verão... e aquele era o primeiro dia do verão, certo? O solstício. O dia mais longo do ano. Roberta deu um tapa no mosquito que pousara em sua pele e sorriu. O verão era uma boa época em Haven. A melhor de todas. E, se Haven não era o melhor dos lugares, situado bem acima de Augusta, naquela parte central do estado não trilhada pela maioria dos turistas — continuava sendo um bom lugar para se vir descansar. Houvera um tempo em que ela acreditara sinceramente ficar ali apenas alguns anos, os suficientes para recuperar-se dos traumas da adolescência, da irmã e de sua brusca e confusa saída da universidade (capitulação, como Anne afirmava). Os poucos anos, no entanto, transformaram-se em cinco, os cinco se tornaram dez, os dez chegaram a treze, e vejam só, Peter está velho e você com uma boa dose de fios grisalhos, exibindo-se em uma cabeleira que era tão negra como o Rio Estige (ela tentara um corte de cabelo bem curto, dois anos atrás, quase à maneira de um punk, tendo ficado horrorizada ao perceber que o grisalho ficava ainda mais visível. Desde então, voltara a deixá-lo crescer).

Atualmente, Roberta achava que passaria o resto da vida em Haven, com a única exceção da obrigatória viagem para visitar seu editor em Nova York, a cada um ou dois anos. A cidade a conquistara. A propriedade a conquistara. A terra a conquistara. E, afinal, isso não era tão ruim assim. Talvez fosse tão bom quanto qualquer outra coisa.

Como um prato. Um prato de metal.

Ela quebrou um pequeno galho bem provido de recentes folhas verdes e o agitou em torno da cabeça. Os mosquitos a tinham encontrado e pareciam determinados a extrair dela seu chá festivo. Mosquitos redemoinhando à volta de sua cabeça... e pensamentos como mosquitos, dentro da cabeça. Estes últimos ela não conseguia afugentar.

Aquilo vibrou por um segundo sob meu dedo. Eu senti. Como um diapasão. No entanto, parou quando o toquei. Será possível algo vibrar na terra desse jeito? É claro que não. Talvez...

Talvez houvesse sido uma vibração psíquica. Ela não descria de tais coisas, em absoluto. Talvez sua mente houvesse captado algo sobre aquele objeto enterrado e lhe falara a respeito, utilizando a única maneira possível, isto é, fornecendo uma impressão táctil: a da vibração. Sem dúvida, Peter captara algo sobre a coisa; o idoso beagle não quisera aproximar-se dela.

Esqueça. Ela esqueceu.

Por enquanto.

 

Nessa noite levantou-se uma brisa alta e suave, convidando-a a sair à varanda da frente da casa, a fim de fumar e ouvir o vento andar e falar. Em outras épocas — até mesmo no ano anterior — Peter teria saído com ela, porém agora permanecia na sala, enrodilhado sobre seu pequeno tapete de crochê ao lado da estufa, com o focinho junto da cauda.

Roberta percebeu que sua mente revia aquele último olhar para a chapa metálica despontando do solo e, mais tarde, passou a acreditar ter havido um momento — talvez ao jogar o toco do cigarro na entrada de cascalho — em que decidira ser preciso escavar aquilo e verificar o que era... embora então não identificasse conscientemente a decisão.

Sua mente inquieta remoia o que seria aquilo e, desta vez, permitiu que os pensamentos voassem — havia aprendido que quando a mente insiste em repisar um tema, pouco importando quanto se tente desviá-la disso, o melhor é deixá-la cogitar. Somente os obcecados preocupam-se com a obsessão.

Deve ser parte de alguma construção, aventurou sua mente, algo pré-fabricado. Não edificações pré-fabricadas, erguidas na floresta — por que levar para lá todo aquele metal, quando três homens poderiam levantar um telheiro em seis horas, com serrotes, machados e uma serra de lenhador? Tampouco podia ser um carro, porque então o metal exposto estaria coberto de ferrugem. Um bloco de motor parecia ligeiramente mais provável, mas por quê?

E agora, com a escuridão da noite baixando, a lembrança da vibração retornou, com indiscutível certeza. Se ela a sentira, devia ter sido uma vibração psíquica. Aquilo...

De repente, avolumou-se dentro dela uma fria e terrível certeza: alguém estava enterrado lá. Talvez houvesse descoberto a borda visível de um carro, uma velha geladeira ou mesmo algum tipo de cofre de aço, porém o que quer que aquilo houvesse sido em sua vida acima do solo, agora transformara-se em ataúde. Uma vítima de assassinato? Quem mais seria sepultado dessa maneira, em semelhante caixão? Indivíduos que casualmente perambulavam pelas matas durante a temporada de caça, e se perdiam por lá, não levavam consigo ataúdes de metal para se meterem neles quando morriam... e mesmo que tão absurda idéia fosse verdadeira, quem os cobriria de terra? Ora, vão plantar batatas, caras, como costumávamos dizer nos gloriosos dias de nossa juventude.

A vibração. Aquilo fora o chamado de ossos humanos.

Francamente, Bobbi... não seja tão idiota!

Ainda assim, ela foi tomada por um estremecimento. A idéia continha uma certa persuasão espectral, como um conto vitoriano de fantasmas, inteiramente deslocado, enquanto o mundo se precipitava pela Alameda Microchip, em direção às desconhecidas maravilhas e horrores do século XXI — mas mesmo assim produzindo o calafrio. Roberta podia ouvir Anne rindo e dizendo, você está ficando tão mole dos miolos como o tio Frank, Bobbi, mas é justamente o que merece, morando aí sozinha com seu cachorro fedorento. Certo. Febre de cabana. O complexo de ermitão. Chamem o médico, chamem a enfermeira, Bobbi está mal... e ficando pior

Fosse como fosse, de repente ela quis falar com Jim Gardener — precisava falar com ele. Entrou em casa, a fim de ligar para ele, que residia mais acima na estrada, em Unity. Chegou a discar quatro números, quando recordou que Jim estava fora, fazendo preleções — isto e os seminários de poesia eram os meios que o sustentavam. Para artistas itinerantes, o verão era a temporada ideal. Todas aquelas matronas imbecis na menopausa precisam encher seus verões de algum modo, ela podia ouvir Jim dizendo ironicamente, e eu preciso comer no inverno. Uma mão lava a outra. Você devia dar graças a Deus por ser poupada dessas palestras itinerantes afinal de contas, Bobbi.

Sim, ela fora poupada disso — embora achasse que Jim apreciasse mais o que fazia, do que deixava transparecer. Sem dúvida, aquilo produzia mulheres suficientes com quem ir para a cama.

Roberta recolocou o fone no gancho e olhou para a estante de livros, à esquerda da estufa. Não era uma bonita estante — seu forte não era a marcenaria e jamais seria — porém o móvel servia à finalidade. As duas últimas prateleiras de baixo estavam tomadas pela série de volumes Time-Life sobre o velho oeste. As duas de cima enchiam-se com uma mistura de ficção e fato sobre o mesmo tema; os antigos westerns de Brian Garfield disputavam espaço com o maciço Western Territories Examined, de Hubert Hamptort. A saga de Sackett, de Louis L’Amour, se colava às duas maravilhosas novelas de Richard Marius, The Coming of Rain e Bound for the Promised Land. Bloodletters and Badmen, de Jay R. Nash e Westward Expansion, de Richard F. K. Mudgett, uniam-se à confusão de livros de bolso sobre o faroeste, escritos por Ray Hogan, Archie Joceylen, Max Brand, Hernest Haycox e, naturalmente, Zane Grey — o exemplar de Riders of the Purple Sage, de Roberta, havia sido lido e relido até quase ficar em frangalhos.

Na prateleira de cima ficavam seus próprios livros, treze ao todo. Doze deles eram westerns, começando por Hangtown, publicado em 1975, e terminando com The Long Ride Back, publicado em 87. Massacre Canyon, o último seria publicado em setembro, como acontecera a todos os seus livros de faroeste, desde o começo. Recordava agora que tinha sido ali, em Haven, que recebera o seu primeiro exemplar de Hangtown, embora tivesse iniciado a novela em um sórdido apartamento em Cleaves Mills, utilizando uma antiga Underwood da safra dos anos 30, agonizando de velhice. Não obstante, viera terminá-la em Haven, e ali é que realmente tivera em mãos o primeiro exemplar do livro.

Ali, em Haven. Toda a sua carreira de escritora acontecera ali... exceto pelo primeiro livro.

Ela o pegou agora, fitou-o com curiosidade e percebeu que talvez houvesse decorrido cinco anos, desde que segurara o fino volume pela última vez. Não era apenas deprimente constatar a rapidez com que o tempo voava; era deprimente, pensar na freqüência com que se detinha em tal idéia ultimamente.

Este volume oferecia um total contraste com os outros, os quais possuíam capas exibindo mesas e montanhas isoladas de flancos abruptos, cavaleiros, vacas e empoeiradas cidadezinhas vaqueiras. A capa do que agora tinha nas mãos, era uma xilogravura de um veleiro aproximando-se de terra. Seus pretos e brancos inflexíveis eram surpreendentes, quase chocantes. Volta ao ponto de partida era o título impresso acima da xilogravura. E abaixo dela: Poemas de Roberta Anderson.

Ela abriu o livro, virou a página de rosto, demorou um instante olhando a data dos direitos autorais — 1968 — depois fez uma pausa na página da dedicatória. Era tão severa quanto a xilogravura. Este livro é dedicado a James Gardener. O homem para quem tentava telefonar, o segundo dos três únicos homens com quem já tivera sexo e o único que fora capaz de levá-la ao orgasmo. Não que ela desse muita importância a isso. Ou não importância demasiada, afinal. Ou assim pensava. Ou pensava que pensava. Ou qualquer coisa. Enfim, isso não importava; aqueles dias eram os velhos tempos.

Suspirando, Roberta tornou a colocar o livro na estante, sem olhar para os poemas. Somente um deles era muito bom, o que tinha sido escrito em março de 1967, um mês após seu avó ter morrido de câncer, os outros eram asneiras — o leitor desavisado podia ser enganado, porque ela era uma escritora talentosa... porém o âmago de seu talento estava posto em outra coisa mais. Ao publicar Hangtown, havia sido renegada por todo o círculo de escritores que conhecia. Todos, menos Jim, que, antes de mais nada, havia editado Volta ao ponto de partida.

Roberta enviara a Sherry Fenderson uma longa e amistosa carta, pouco tempo depois de chegar a Haven, recebendo em resposta um lacônico cartão-postal: Por favor, não escreva mais para mim. Não a conheço. A assinatura era um único e rasgado S, tão breve quanto a mensagem. Ficara sentada na varanda, chorando com o cartão na mão, quando Jim apareceu. Está chorando por causa do que pensa aquela mulher idiota? perguntara ele. Pretende mesmo confiar no julgamento de uma mulher que anda por aí gritando “Poder para o povo” e cheirando a Chanel Número Cinco?

Acontece que ela é uma excelente poetisa, fungara.

Jim fizera um gesto de impaciência.

Isso não a torna mais velha, ele havia dito, nem mais capaz para abjurar o que lhe ensinaram e depois ensinou a si mesma. Ponha a cabeça no lugar, Bobbi. Se quer continuar fazendo o que gosta, ponha essa merda de cabeça no lugar e pare com essa merda de choro. Essa merda de choro me deixa doente. Essa merda de choro me dá vontade de vomitar. Você não é fraca. Posso identificar um fraco, se estou com ele. Por que quer ser uma coisa que não é? Sua irmã? É isso? Bem, ela não está aqui e não é você. E não vai deixá-la interferir em sua vida, se não quiser. Não me venha mais com lamúrias sobre sua irmã. Cresça! Pare de choramingar!

Roberta recordava agora que tinha olhado para ele com espanto.

Há uma grande diferença entre ser boa no que você FAZ e ser inteligente sobre o que CONHECE, disse ele. Dê a Sherry algum tempo para ela crescer. Dê a si mesma algum tempo para crescer. E pare de ser seu próprio juiz! É tedioso. Não quero vê-la lamuriando-se. Lamúrias são para os tolos. Pare de ser tola!

Ela se percebera odiando-o, amando-o, querendo todo ele e nada dele. Jim havia dito que identificava um fraco, se estava com um? Poxa, ele devia saber. Tinha propensão para a fraqueza. Mesmo então, ela já sabia disso.

E agora, ele havia dito, você quer ir para a cama com um ex-editor ou vai gastar todas as suas lágrimas nesse cartão-postal idiota?

Roberta fora para a cama com ele. Não sabia então, como não sabia agora, se quisera ir para a cama com ele, mas tinha ido. E havia gritado quando gozara.

Isso tinha sido perto do fim.

Ela recordou também isso — como havia sido perto do fim. Ele se casara não muito depois, porém de qualquer modo teria sido perto do fim. Ele era fraco e tinha propensão à fraqueza.

Seja lá como for; pouco importa, pensou ela, dando a si mesma o velho e bom conselho: Deixa pra lá!

Era um conselho mais fácil de ser dado, do que seguido. Muito tempo passou, antes que Roberta pegasse no sono essa noite. Velhos fantasmas haviam despertado, quando pegara em seu livro com poemas abaixo da crítica... ou talvez aquele vento alto e suave, farfalhando entre a folhagem e assobiando nas árvores.

O sono começava a dominá-la, quando Peter a acordou. O cão gania dormindo.

Roberta pulou da cama, apressada e assustada — Peter fizera montes de ruídos anteriormente em seu sono (sem mencionar alguns peidos caninos incrivelmente mefíticos), porém jamais ganira assim. Era como despertar com o som de uma criança chorando, nas garras de um pesadelo.

Nua, calçada apenas em soquetes, chegou à sala e ajoelhou-se ao lado de Peter, que continuava em seu tapete ao lado da estufa.

— Pete... — murmurou. — Ei, Pete, acalme-se...

Alisou o cão. Peter tremia, e recuou quando ela o tocou. Mostrou os remanescentes cariados dos dentes e então abriu os olhos — o cego e o sadio — parecendo recomposto. Ganiu francamente e bateu no chão com o toco da cauda.

— Tudo bem com você? — perguntou ela.

Peter lambeu-lhe a mão.

— Muito bem, torne a deitar-se e pare de ganir. É tedioso. Pare com essa droga!

Peter se deitou, fechando os olhos. Ajoelhada, Roberta olhou para ele, tomada de preocupação.

Está sonhando com aquela coisa...

Sua mente racional rejeitou a idéia, porém a noite insistiu em seu próprio imperativo — era verdade, e ela sabia.

Finalmente voltou para a cama e o sono lhe chegou mais ou menos pelas duas da madrugada. Roberta teve um sonho peculiar. No sonho, tateava no escuro... não procurando encontrar algo, mas fugindo de algo. Estava no matagal. Ramos lhe batiam no rosto e espetavam-lhe os braços. Às vezes tropeçava em raízes e árvores caídas. Então, adiante dela, brilhou uma terrível luz verde, em um só raio da espessura de um lápis. Sonhando, pensou em O coração delator, de Poe, a lanterna do narrador louco encoberta, com exceção de um diminuto orifício, que ele usava para dirigir o facho de luz contra o olho maligno que, fantasiosamente, imaginava ser de seu idoso benfeitor.

Bobbi Anderson sentia todos os seus dentes caírem.

Soltaram-se das gengivas sem dor, todos eles. Os inferiores tombaram, alguns para fora, outros dentro da boca, sobre a língua ou debaixo dela, em duros montículos. Os superiores simplesmente caíram pela frente de sua blusa. Roberta sentiu um ficar preso em seu sutiã, que se abria na parte frontal, espetando-lhe a pele.

A luz. A luz verde. A luz...

 

... tinha algo errado.

Não era apenas que essa luz fosse cinza e perolada; esperava-se que um vento, como o que soprara à noite, provocasse uma mudança no tempo. Entretanto, Roberta sabia existir algo além de errado, ainda antes de espiar para o relógio na mesa de cabeceira. Tomou-o entre as mãos e o chegou perto do rosto, embora tivesse uma perfeita visão 20/20. Eram três e quinze da tarde. Tinha dormido tarde, claro. Contudo, por mais tarde que adormecesse, o hábito ou a necessidade de urinar sempre a acordava pelas nove, dez horas no máximo. No entanto, dormira doze horas a fio... e estava faminta.

Saiu para a sala de estar arrastando os pés, ainda usando apenas as meias curtas, e viu que Peter jazia flacidamente de lado, a cabeça para trás, com tocos amarelos de dente à mostra, as patas estiradas.

Está morto, pensou, com uma fria e absoluta certeza. Peter está morto. Morreu durante a noite.

Aproximou-se do cão, já antecipando o contato da carne fria e do pelame sem vida. Foi quando Peter emitiu um som roufenho que lhe estremeceu os beiços — um engrolado ronco canino. Roberta foi tomada do intenso alívio. Disse o nome do cão em voz alta, e Peter acordou, quase culpadamente, como que cônscio de haver dormido além da conta. Roberta imaginou que ele se sentisse culpado — cães parecem possuir uma noção de tempo agudamente desenvolvida.

— Dormimos demais, amigo — disse para ele.

Peter levantou-se, estirando primeiro uma pata traseira, depois a outra. Olhou em torno, com quase cômica perplexidade, depois encaminhou-se para a porta. Roberta a abriu. Peter ficou parado na soleira um instante, não gostando da chuva. Depois saiu para fazer suas necessidades.

Ela ficou parada na sala um pouco mais, ainda ruminando aquela certeza de que Peter havia morrido. Droga, afinal o que havia de errado com ela ultimamente? Tudo era fatídico e sombrio. Em seguida, tomou a direção da cozinha, a fim de preparar alguma coisa para comer... o que quer que se denominasse desjejum, às três horas da tarde.

No trajeto, desviou-se para o banheiro, a fim de fazer o que era preciso. Depois parou diante de seu reflexo, no espelho salpicado de pasta de dentes.

Uma mulher caminhando para os quarenta. Cabelos embranquecidos, porém não muito mais do que isso — ela não bebia demais, não fumava demais, passava a maior parte do tempo ao ar livre, quando não estava escrevendo. Negros cabelos irlandeses — para ela, nada das labaredas ruivas descritas nos romances — talvez um tanto compridos. Olhos cinza-azulados. De repente, ela exibiu os dentes, por um momento esperando ver apenas lisas gengivas rosadas.

Seus dentes estavam lá — todos eles. Graças à água fluoridificada de Utica, Nova Iorque, por isso. Roberta os tocou, deixou que os dedos transmitissem ao cérebro aquela óssea realidade.

Alguma coisa, contudo, não estava certa.

Umidade.

Havia umidade na parte superior de suas coxas.

Oh, não, oh, que merda, quase uma semana adiantada, ainda ontem troquei as roupas de cama...

Entretanto, após tomar uma ducha, colocou um absorvente em calcinhas limpas de algodão, vestiu-as até senti-las aconchegadas ao corpo, examinou os lençóis e viu que não tinham ficado manchados. Sua menstruação chegara antes do tempo mas, pelo menos, tivera consideração suficiente para esperar até que ela estivesse quase acordada. Não havia motivo para alarmar-se; era razoavelmente regular, porém de tempos em tempos seus períodos menstruais chegavam um pouco antes ou um pouco depois do período normal; talvez pela dieta, talvez por tensão subconsciente, talvez por algum relógio interno falhando um ou dois segundos. Roberta não ansiava envelhecer depressa, porém muitas vezes pensava no alívio que representaria deixar para trás toda aquela inconveniente trapalhada da menstruação.

A parte final de seu pesadelo evaporou-se, e Bobbi Anderson foi preparar seu muito atrasado desjejum.

 

ROBERTA ANDERSON ESCAVA

Durante os três dias seguintes, choveu persistentemente. Roberta perambulou inquieta pela casa, fez uma viagem até Augusta com Peter na picape, a fim de comprar mantimentos de que não estava precisando, bebericou cerveja e ouviu antigas músicas dos Beach Boys, enquanto fazia reparos dentro de casa. O problema era que, na realidade, não havia muitos reparos a serem feitos. No terceiro dia, ela já rodeava a máquina de escrever, pensando que talvez devesse iniciar o novo livro. Já sabia qual seria o enredo; uma jovem professora da escola elementar e um caçador de búfalos surpreendidos em uma guerra de rancheiros no Kansas, em inícios de 1850 — um período em que todos na parte central do país pareciam em preparativos para a Guerra Civil, quer soubessem ou não. Roberta achava que seria um bom livro, porém não se considerava ainda “no ponto”, o que quer que isso significasse (em sua mente despertou uma mímica sardônica, imitando a voz de um Orson Welles: Não escreveremos faroeste algum antes da hora). Ainda assim, a inquietação a possuiu e os indícios estavam todos à vista: certa impaciência com livros, com a música e consigo mesma. Certa tendência a distanciar-se... mas então se percebia olhando para a máquina de escrever, querendo despertá-la para algum sonho.

Peter também parecia desassossegado, arranhando a porta a fim de sair e tornando a arranhá-la cinco minutos mais tarde para entrar, vagando pela casa, deitando-se e logo voltando a levantar-se.

Barômetro baixo, pensou Roberta. Tinha que ser isso. Está deixando nós dois irrequietos, birutas.

E a maldita menstruação. Em geral, o fluxo era abundante, e então cessava de súbito. Como fechar uma torneira. Desta vez, no entanto, ela simplesmente continuou vazando. Mais lavagem de roupa, ha-ha, pensou, sem o menor senso de humor. Logo após o escurecer do segundo dia chuvoso, ela se viu sentada diante da máquina de escrever, com uma folha em branco enfiada no rolo. Começou a teclar, porém o que saiu foi apenas um punhado de Xs e Os, como um jogo-da-velha infantil, seguido por algo semelhante a uma equação matemática... o que era idiotice, pois sua última visão de matemática fora nas aulas de Álgebra II, ainda no ginásio. Agora, a letra X servia para eliminar a palavra errada, mais nada. Puxando a folha em branco, ela a jogou fora.

Depois do almoço no terceiro dia chuvoso, ligou para o Departamento de Inglês da universidade. Jim não lecionava mais lá, desde oito anos atrás, porém ainda tinha amigos na faculdade e permanecia em contato com eles. Muriel, que trabalhava no gabinete, geralmente sabia por onde ele andava.

Também sabia agora. Jim Gardener, informou ela a Roberta, estava fazendo uma palestra em Fall River essa noite, 24 de junho. Nas três noites seguintes, faria palestras e leituras em Providence e New Haven — tudo fazendo parte de algo denominado Caravana de Poesia da Nova Inglaterra. Devia ser idéia de Patrícia McCardle, pensou Roberta, sorrindo de leve.

— Então... quando ele estará de volta? Quatro de julho?

— Bem, eu não sei quando ele voltará, Bobbi — respondeu Muriel. — Sabe como é Jim. Sua última preleção será a 30 de junho. É tudo quanto posso dizer com certeza.

Roberta agradeceu, e desligou. Ficou olhando para o telefone, pensativa, enquanto evocava Muriel — mais uma descendente de irlandeses (porém, Muriel possuía os esperados cabelos ruivos), atingindo agora o ponto mais distante do apogeu da idade, de faces redondas, olhos verdes, seios fartos. Teria dormido com Jim? Provavelmente. Roberta sentiu uma pontada de ciúme — não mais do que uma pontada. Muriel era legal. Apenas falara com ela e já se sentia melhor. Afinal, Muriel sabia quem era ela, podia pensar nela como uma pessoa real, não apenas um freguês no outro lado do balcão em uma loja de ferragens em Augusta ou alguém a quem dizer como vai, por sobre a caixa de correspondência. Roberta era solitária por natureza, mas não monástica... e, às vezes, o mero contato humano tinha o dom de nutri-la, mesmo nem sabendo que precisava ser nutrida.

Imaginou saber agora, por que quisera estar em contato com Jim — falar com Muriel esclarecera isso, pelo menos. Aquela coisa na floresta lhe ficara na mente, e a idéia de ser alguma espécie de ataúde clandestino passara a ser certeza. Sua inquietude não era por escrever; era por escavar. Apenas, não sentia vontade de fazer isso sozinha.

— No entanto, parece que não há alternativa, Pete — falou, sentando-se na cadeira de balanço junto à janela do leste — sua cadeira de leitura.

Peter olhou para ela brevemente, como se dissesse, Você é quem manda, meu bem. Roberta inclinou-se para diante, de repente olhando para Pete — olhando realmente para ele. O cão devolveu-lhe o olhar alegremente, a cauda batendo no chão. Por um momento, parecia haver algo diferente nele... algo tão óbvio, que ela deveria estar vendo.

Se havia, Roberta não viu.

Tornou a recostar-se na cadeira e abriu o livro — uma tese de mestrado da Universidade de Nebraska, cujo título era a coisa mais excitante que possuía: A guerra entre rancheiros e a Guerra Civil. Recordou ter pensado, duas noites atrás, no que diria sua irmã Anne: Você está ficando tão mole dos miolos como o tio Frank, Bobbi. Bem... talvez estivesse mesmo.

Pouco depois, estava profundamente concentrada na tese, fazendo uma anotação casual no bloco de notas que tinha ao alcance. Lá fora, a chuva continuava a cair.

 

O dia seguinte amanheceu claro, radioso e sem mácula: um dia estival de cartão-postal, com vento apenas suficiente para manter os insetos à distância. Roberta zanzou ociosamente pela casa até quase dez horas, cônscia da crescente pressão em sua mente que a impelia para fora, a fim de resolver o que a inquietava, o quanto antes. Percebia-se repelindo tal ânsia conscientemente (Orson Welles de novo — Não desenterraremos nenhum corpo antes da... oh, cale-se, Orson!). Seus dias de apenas seguir o impulso do momento, um estilo de vida que certa vez fora inculcado pelo descarado lema “se isso a deixa sentindo-se bem, então faça-o”, estavam encerrados. Tal filosofia jamais funcionara com ela — de fato, cada coisa ruim que lhe acontecera, fora resultado de algum ato impulsivo. Roberta não condenava, em absoluto, aquelas que viviam segundo o impulso; talvez suas próprias intuições é que não houvessem sido das melhores.

Devorou um farto desjejum, acrescentou um ovo mexido à ração de Peter (ele comeu com mais apetite que o costumeiro, mas ela atribuiu o fato ao término daquele período chuvoso), e então lavou suas roupas.

Tudo estaria ótimo, se pelo menos sua menstruação parasse de gotejar. Bem, esqueça; não interromperemos nenhuma menstruação antes da hora. Certo, Orson? Você é uma merda, com M maiúsculo.

Saindo da casa, Bobbi enfiou na cabeça um velho chapéu vaqueiro de palha e passou a hora seguinte na horta. A situação ali parecia melhor do que era de esperar, em vista da chuva. As ervilhas brotavam e o milho se aprumava bem, como teria dito o tio Frank.

Parou às onze horas. Dane-se! Contornou a casa até o celeiro, apanhou uma pá de escavar e outra para remover terra solta, fez uma pausa e acrescentou uma alavanca. Ia saindo do galpão, quando voltou, pegou uma chave de fenda e uma chave inglesa ajustável, na caixa de ferramentas.

Peter a acompanhava como sempre, mas desta vez Roberta disse:

— Não, Peter!

Ela apontou para a casa. O cão parou, como que magoado. Deu um ganido e ensaiou um passo na direção da dona.

— Não, Peter!

Peter entregou os pontos e voltou para a casa, de cabeça baixa, a cauda encolhida contra o corpo. Roberta entristeceu-se ao vê-lo ir embora daquele jeito, mas a reação anterior do cão à placa enterrada no solo fora bem desagradável. Ficou mais um momento parada na trilha que a levaria à estrada da floresta, a pá em uma das mãos, a segunda pá e a alavanca na outra, espiando enquanto Peter subia os degraus dos fundos, focinhava a porta para abri-la e entrava na casa.

Havia alguma coisa diferente nele... pensou. Há uma diferença. O que será? Ela não sabia. No entanto, por um instante, quase subliminarmente, teve um vislumbre de seu sonho — aquela flecha de venenosa luz verde... e todos os seus dentes caindo das gengivas, sem dor.

A lembrança desapareceu. Ela começou a caminhar para o lugar em que jazia aquela singular coisa no solo, ouvindo os grilos emitirem seu firme som cri-cri-cri naquela pequena plantação dos fundos, que logo estada pronta para o primeiro corte.

 

Ás três daquela tarde, foi Peter quem a arrancou do semi-aturdimento em que estivera trabalhando, tornando-a cônscia de estar dupla e infernalmente próxima: infernalmente próxima de morrer de fome e infernalmente próxima da exaustão.

Peter estava uivando.

O som provocou arrepios nas costas e braços de Roberta. Soltando a pá com que trabalhava, ela recuou daquela coisa na terra — uma coisa que não era uma chapa, uma caixa ou qualquer coisa que se pudesse compreender. Sua única certeza, era de que estivera imersa em um estranho e desligado estado que não a agradava em absoluto. Desta vez, fora além de perder a noção do tempo; tinha a sensação de que também havia perdido a noção de si mesma. Era como se alguém houvesse penetrado em sua cabeça, da maneira como um homem entraria em uma máquina de terraplenagem ou ogiva nuclear, simplesmente pondo-a em movimento e começando a acionar as alavancas adequadas.

Peter uivou, agora apontando o focinho para o céu — eram longos, arrepiantes e lamuriosos sons.

— Pare com isso, Peter! — gritou ela.

Por sorte, ele parou. Mais um uivo daqueles, e ela seria capaz de dar meia volta e fugir dali. Entretanto, lutou para controlar-se. Recuou outro passo e soltou um grito, quando algo bateu frouxamente em suas costas. Ao ouvi-la gritar, Peter proferiu mais um breve e ululante som, depois tomando a silenciar.

Roberta agarrou o que quer que a tocara, imaginando que poderia ser — bem, não sabia ao certo o que seria, mas, ainda antes de sua mão tocá-lo, recordou de repente. Tinha uma vaga lembrança de haver feito algo, apenas o suficiente para pendurar a blusa em um arbusto. Ali estava ela.

Apanhou-a e tomou a vesti-la, abotoando a frente errado na primeira tentativa, de maneira que um lado ficou mais comprido do que o outro. Abotoou novamente, olhando para a vala que tinha começado, o início de escavação — e agora, essa palavra arqueológica parecia ajustar-se exatamente ao que estivera fazendo. Suas lembranças das quatro horas passadas em escavar o solo eram como aquela de pendurar a blusa no arbusto — vagas e fragmentadas. Não havia lembranças; havia fragmentos.

Agora, no entanto, ao olhar para o que tinha feito, sentiu admiração, no mesmo tempo que medo... e um crescente senso de excitamento.

O que quer que fosse aquilo, era imenso. Não apenas grande, mas imenso.

As duas pás e a alavanca jaziam em intervalos, ao longo da trincheira de cinco metros no solo da floresta. Ela havia feito pilhas regulares de terra negra e de pedras, a intervalos mais ou menos iguais. Despontando daquela vala, com aproximadamente um metro e meio de profundidade no ponto em que Roberta originalmente tropeçara em cinco ou sete centímetros de metal cinzento saliente, estava a borda de algum objeto titânico. Metal cinza... um objeto...

Em geral, tem-se o direito de esperar algo melhor e mais específico da parte de um escritor, pensou ela, passando o braço na testa para enxugar o suor. Entretanto, agora não tinha tanta certeza de que o metal fosse aço. Parecia mais ser uma liga exótica, berílio, magnésio, talvez — e, composição à parte, ela não fazia absolutamente qualquer idéia do que fosse o material.

Começou a desabotoar os jeans para poder enfiar a blusa para dentro, depois parou.

A parte das entrepernas do desbotado Levis, estava encharcada de sangue.

Jesus! Jesus Cristo! Isto não é uma menstruação! É as cataratas do Niágara!

Ficou momentaneamente amedrontada, de fato amedrontada, mas então disse a si mesma que parasse de ser infantil. Estivera mergulhada em uma espécie de alucinação, tendo feito um trabalho de escavação que deixaria orgulhoso um grupo de quatro homens robustos... ela, uma mulher pesando sessenta e dois quilos, sessenta e cinco no máximo! É claro que estava sangrando fortemente. Sentia-se muito bem — de fato, devia ser grata por não estar com cólicas e tampouco nauseada.

Minha nossa, como hoje estou poética, pensou, emitindo uma risadinha ríspida.

Sua necessidade primordial agora era a de limpar-se: uma ducha e roupas limpas teriam um efeito maravilhoso. Afinal, aquele jeans estava perfeito para o lixo ou o saco de trapos. Agora havia uma escolha a menos em um mundo perturbado e confuso, certo? Certo. Nada importante.

Tornou a abotoar as calças, mas sem enfiar a blusa pela cintura — não fazia sentido arruiná-la também, embora Deus bem soubesse que não era exatamente um original de Dior. A sensação de pegajosa umidade nos fundi-lhos, ao começar a andar, provocou-lhe uma careta. Céus, como ansiava estar limpa! Limpa o quanto antes!

No entanto, em vez de começar a subir a encosta para a trilha, tomou a aproximar-se daquela coisa na terra, atraída por ela. Peter uivou e os arrepios voltaram.

— Pelo amor de Deus, Peter; CALE essa boca!

Ela jamais gritara para Pete — gritara de verdade — mas o maldito cão começava a fazê-la sentir-se um paciente de comportamento estudado em psicologia. Arrepios quando o cão uivava, ao invés de saliva ao som da sineta, porém o princípio era o mesmo.

Parada junto ao seu achado, ela segurou Peter e ficou apenas olhando inquisitivamente para a coisa. Após alguns momentos, estendeu o braço e a tocou. De novo, houve o curioso senso de vibração — algo penetrando em sua mão e depois desaparecendo. Desta feita, pensou ter tocado uma carcaça, sob a qual mecanismos muito pesados estivessem em pleno funcionamento. Em si, o metal era tão liso, que possuía uma superfície quase oleosa — a gente esperava que parte da oleosidade aderisse às mãos.

Fechando a mão, Roberta bateu no metal com os nós dos dedos. O som foi opaco, como se houvesse batido em um grosso pedaço de mogno. Ficou parada mais um momento, depois tirou a chave de fenda do bolso traseiro, ergueu-a indecisamente por um instante e então, com estranha sensação de culpa — sentindo-se como um vândalo —, riscou o metal exposto com a lâmina da chave de fenda. Não apareceu qualquer arranhão.

Seus olhos sugeriram duas coisas mais, porém ambas poderiam ser uma ilusão de óptica. A primeira, era de que o metal parecia ficar ligeiramente mais espesso, ao afastar-se da borda em direção ao ponto onde desaparecia na terra. A segunda, era de ser aquela borda levemente encurvada. Estas duas coisas — as verdadeiras — sugeriram uma idéia que era, ao mesmo tempo, excitante, ridícula, aterradora, impossível... e possuindo uma certa e louca lógica.

Roberta deslizou a palma sobre o metal liso, depois recuou. Que diabo estava fazendo, afagando aquela maldita coisa, enquanto o sangue escorria por suas pernas abaixo? No entanto, a menstruação era a menor de suas preocupações, se o que começava a pensar pudesse ser verdade.

É melhor chamar alguém, Bobbi. Imediatamente.

Vou ligar para Jim. Quando ele voltar

Claro. Convoque um poeta. Grande Idéia! Depois pode convocar o Reverendo Moon. Talvez Edward Gorey e Gaban Wilson para fazerem ilustrações. Depois poderá contratar alguns conjuntos de rock e ter bem aqui um maldito Woodstock 1988. Falando sério, Bobbi chame a polícia estadual!

Não. Quero primeiro falar com Jim. Quero que ele veja isto. Quero falar com ele a respeito. Enquanto isso, irei escavando um pouco mais.

Pode ser perigoso.

Sem dúvida. Não apenas podia ser perigoso, como provavelmente o fosse — ela não havia percebido isso? Peter não percebera? Havia também uma outra coisa. Ao descer a encosta que vinha da trilha, esta manhã, Roberta encontrara uma marmota morta — quase tropeçara nela. E, ao inclinar-se para o animal, embora o cheiro lhe dissesse que devia estar morto há dois dias pelo menos, não houvera nenhum zumbido de moscas pan alertá-la. Não havia uma só mosca ao redor do pobre bicho, e Roberta não se lembrava de já ter visto coisa semelhante. Tampouco havia algum óbvio sinal do que o matara, mas acreditar que aquela coisa lá no solo tivesse algo a ver com isto, era a mais deslavada mentira. O pobre bicho certamente comera alguma isca envenenada de um fazendeiro e caíra ali para morrer.

Vá para casa. Troque suas calças. Você está ensangüentada e fedendo!

Roberta afastou-se da coisa, deu meia volta e subiu a encosta para a trilha, onde Peter se juntou desajeitadamente a ela, começando a lamber-lhe a mão com uma ansiedade que ficava um tanto patética. Ainda um ano antes, ele estaria tentando focinhar sua virilha, atraído pelo odor desprendido dali, mas não agora. Tudo quanto Peter conseguia fazer, era tremer.

— A culpa é toda sua — disse Bobbi, — Eu mandei você ficar em casa!

Ao mesmo tempo, alegrava-se por Peter ter vindo. Caso contrário, ela talvez ficasse trabalhando até o cair da noite... e a idéia de ver-se no escuro, com aquela coisa avolumando-se nas proximidades... Bem, era uma idéia que nada tinha de fascinante.

Da trilha, Roberta olhou para trás. A posição elevada permitia-lhe agora uma visão completa da coisa. Pôde ver que ela se projetava do solo em ligeiro ângulo. Tornou a achar que a borda mostrava uma ligeira curvatura.

Um prato, foi o que pensei; quando cavei a primeira vez em torno disso, com os dedos. Uma espécie de prato de aço, não um prato de comer como pensei, mas então havia tão pouco apontando do chão, que eu realmente pensava em um prato de comer ou em um disco.

Um maldito disco voador

 

Novamente em casa, ela tomou uma ducha e trocou de roupa, usando um dos absorventes tamanho grande, embora o forte fluxo menstrual já parecesse estar diminuindo. Depois preparou para si mesma um farto jantar de feijões assados enlatados e mocotó de porco. Entretanto, sentiu-se cansada demais para ir além de umas poucas garfadas. Colocou o resto — mais da metade — no prato de Peter, e foi sentar-se em sua cadeira de balanço junto a janela. A tese que estivera lendo continuava caída no chão, ao lado da cadeira, a folha marcada com uma usada e velha carteirinha de fósforos. O bloco de notas estava perto do livro. Roberta o pegou, virou uma nova página e começou a desenhar a coisa na floresta, conforme a vira ao dar-lhe aquele último olhar.

Não tinha grande jeito com uma pena, a menos que estivesse desenhando palavras, mas sempre havia um leve dom para dar uma idéia do que tinha em mente. Começou a desenhar muito devagar, não somente porque pretendia tornar a figura o mais exata possível, mas por estar demasiado cansada. Para piorar a situação, Peter aproximou-se e focinhou-lhe a mão, querendo ser afagado.

Roberta afagou aleatoriamente a cabeça do cão, apagando um rabisco que a focinhada dele colocara na linha do horizonte de seu croqui.

— Oh, mas você é um cão legal, um cão legal, por que não vai apanhar a correspondência?

Peter trotou através da sala de estar e abriu a porta telada com uma focinhada. Roberta voltou a trabalhar em seu desenho, erguendo os olhos uma vez, a fim de ver Peter executando seu mundialmente famoso truque canino de ir apanhar a correspondência. Ele ergueu a pata esquerda dianteira para a caixa de correspondência, presa a uma estaca, e então começou a manejar a portinhola. Joe Paulson, o carteiro, sabia da habilidade de Peter e sempre a deixava encostada. Peter conseguiu baixar a portinhola, mas então perdeu o equilíbrio, antes de puxar a correspondência para fora, usando a pata. Roberta pestanejou — até este ano, Peter jamais perdera o equilíbrio. Apanhar a correspondência, tinha sido sua piêce de résistance, melhor do que brincar de vietcongue morto e muito melhor do que qualquer coisa trivial, como sentar-se ou “falar”, pedindo um biscoito canino. O truque da correspondência deixava admirados todos que o viam fazê-lo, e Peter sabia disso... porém atualmente se tornara um ritual demasiado triste para ser assistido. Aquilo fez Roberta sentir-se como achava que se sentiria, se visse Fred Astaire e Ginger Roger na televisão, tentando repetir um de seus antigos espetáculos de dança.

O cão conseguiu erguer-se para a estaca novamente, desta feita conseguindo puxar a correspondência — um catálogo e uma carta (ou uma conta — sim, com o fim do mês chegando, era mais provável ser uma conta) — para fora da caixa, com o primeiro puxão da pata. As duas coisas caíram ao chão, Peter as recolheu e Roberta voltou ao seu croqui, dizendo a si mesmo que parasse de tanger os sinos fúnebres para Peter, a cada dois minutos. Em verdade, ele até parecia um tanto animado esta noite; recentemente houvera noites em que precisava equilibrar-se três ou quatro vezes nas patas traseiras, antes de conseguir recolher a correspondência — que em geral consistia em não mais de alguma amostra grátis de Procter & Gamble ou uma circular publicitária da firma K-mart.

Roberta examinou de perto seu croqui, sombreando alheadamente o tronco do enorme pinheiro com o topo fendido. Não ficara cem por cento preciso... mas estava bem aproximado. De qualquer modo, acertara no ângulo da coisa.

Desenhou uma caixa em torno dela, depois transformou a caixa em um cubo... como que para isolar a coisa. A curvatura ficara suficientemente óbvia em seu desenho, mas existiria de fato?

Sim. E aquilo que estivera classificando como uma chapa ou prato metálico — em realidade era uma carcaça, não? Uma carcaça sem rebites, lisa como vidro.

Está ficando com os parafusos frouxos, Bobbi... sabe disso, não?

Peter arranhou a porta telada, para que lhe fosse aberta. Ela caminhou até lá, ainda olhando para o desenho. Peter entrou e deixou cair a correspondência sobre uma cadeira no vestíbulo. Depois caminhou lentamente até a cozinha, sem dúvida para verificar se não esquecera alguma coisa de comer no prato de sua dona.

Pegando as duas peças de correspondência, Roberta as limpou na perna dos jeans, com uma pequena careta de desagrado. Era um bom truque, evidentemente, mas saliva canina molhando a correspondência jamais seria uma de suas coisas prediletas. O catálogo fora enviado pela Radio Shack — queriam vender-lhe um processador de palavras. A conta vinha da Central Elétrica do Maine, a fornecedora de energia elétrica. Isso a fez pensar brevemente em Jim Gardener outra vez. Jogou os dois envelopes na mesa do vestíbulo, retornou à sua cadeira, tornou a sentar-se, virou uma nova página do bloco e, rapidamente, copiou o croqui original.

Franziu a testa ante o suave arco, que provavelmente devia ser um pouquinho de extrapolação — como se houvesse escavado quatro ou cinco metros, em vez de apenas um e meio. Tudo bem, e daí? Uma pequena extrapolação não a preocupava; diabo, isso fazia parte da função de uma escritora de ficção, e quem pensasse que competia unicamente aos escritores de ficção-científica ou fantasia, jamais se vira às voltas com o problema de preencher espaços em branco, que nenhuma história poderia fornecer — por exemplo, coisas como o que acontecera aos colonizadores de Roanoke lsland, na costa da Carolina do Norte, os quais simplesmente desapareceram sem deixar vestígios além da inexplicável palavra CROATGAN, esculpida em uma árvore. Ou os monolitos da Ilha da Páscoa. Ou por que os moradores de uma cidadezinha do Utah, chamada Blessing (bênção), de repente haviam enlouquecido — ou assim parecia — todos no mesmo dia do verão de 1884. Quando não se tem certeza, nada há de mais em imaginar-se — a menos e até que se descubra a verdade.

Havia uma fórmula, pela qual a circunferência poderia ser determinada a partir de um arco, disto ela estava certa. O único problema é que havia esquecido a maldita fórmula. Entretanto, podia talvez ter uma idéia aproximada — sempre levando em conta sua impressão de quanto era acurada a curvatura da borda da coisa — através de uma estimativa do ponto central dessa coisa...

Retornando à mesa do vestíbulo, ela abriu a gaveta do meio, que era uma espécie de depósito geral. Suas mãos percorreram maços de cheques desalinhados e cancelados pilhas inúteis de 9 volts e outras categorias (por algum motivo, Bobbi jamais conseguira jogar fora pilhas gastas — o que a gente faz com elas é jogá-las em uma gaveta, só Deus sabe por que, era como se houvesse um Cemitério de Pilhas, ao invés daquele que se supõe seja prerrogativa dos elefantes), montes de fitas de borracha e de largos aros de borracha vermelha para alimentos em conserva, cartas de fãs não respondidas (era tão incapaz de jogar fora uma carta não respondida de fã, como uma bateria ou pilha gasta) e receitas anotadas em cartões de fichário. Bem no fundo da pequena gaveta, entre um amontoado de pequenos objetos, ela encontrou o que procurava — um compasso com um toco amarelo de lápis adaptado à armação.

Voltando a sentar-se na cadeira de balanço, Roberta virou outra folha do bloco e, pela terceira vez, desenhou a borda exposta da coisa sepultada na terra. Tentou mantê-la na escala, mas agora desenhou-a um pouco maior, não se preocupando com as árvores circundantes e somente sugerindo a vala escavada, em benefício da perspectiva.

— Muito bem, um trabalho de adivinhação — disse para si mesma.

Fincou a ponta metálica do compasso no bloco de folhas amarelas, abaixo da borda encurvada do desenho. Ajustou o arco do compasso, a fim de que riscasse aquela borda com razoável precisão — e depois o fez girar em torno de si mesmo, em um círculo completo. Olhou para o desenho e então enxugou a boca com o dorso da mão. Seus lábios subitamente haviam ficado demasiado soltos e demasiado molhados.

— Que exagero! — sussurrou.

Não havia exagero. A menos que sua estimativa da curvatura da borda e do ponto central fosse inteiramente enganosa, ela havia desencavado a borda de um objeto medindo pelo menos trezentos metros de circunferência.

Roberta largou o compasso e o bloco, que escorregaram para o chão, e espiou pela janela. Seu coração batia forte demais.

 

Enquanto o sol se punha, Roberta ficou sentada no alpendre dos fundos, olhando fixamente para a floresta através de sua horta e ouvindo as vozes que lhe povoavam a cabeça.

Em seu penúltimo ano da universidade, assistira a um seminário sobre criatividade, do Departamento de Psicologia. Ficara surpresa — e algo aliviada — ao descobrir que não estava encobrindo alguma neurose privada; quase todas as pessoas imaginativas ouviam vozes. Não apenas pensamentos, mas vozes reais dentro da cabeça, individualmente diferentes, cada uma definida com tanta clareza, como as vozes de um espetáculo radiofônico dos velhos tempos. Provinham do lado direito do cérebro, explicou o professor — o lado que é mais comumente associado a visões e telepatia, bem como a essa extraordinária aptidão humana de obter imagens através de comparações e fazendo metáforas.

Esse negócio de discos voadores não existe.

Oh, não? E quem pode afirmar?

A Força Aérea, antes de mais nada. Há vinte anos, eles encerraram os registros sobre discos voadores. Conseguiram explicar todas as visões verificadas, exceto três por cento, e afirmam que esses últimos três eram quase certamente provocados por condições atmosféricas efêmeras — coisas como parélios, turbulência em ar límpido, bolsões de eletricidade em céu sem nuvens. Diabo, as Luminosidades de Lubbock tinham sido notícia de primeira página, e tudo quanto resultaram ser era... bem havia aqueles montes e montes de mariposas itinerantes, entende? Então, a claridade dos postes de iluminação nas ruas de Lubbock bateu em suas asas e o reflexo de enormes formas móveis, luminosas e coloridas, foi projetado sobre a massa de nuvens baixas, que se mantinha estagnada sobre a cidade durante uma semana. A maioria do país levou aquela semana pensando que alguém trajado à maneira de Michael Rennie em O dia em que a terra parou, iria caminhar pela rua principal de Lubbock, com seu predileto robô Gort chacoalhando ao lado dele, exigindo ser levado ao nosso líder e tudo não passava de mariposas. Gosta disso? Não tem que gostar disso?

Esta voz tão nítida, que chegava a ser divertida, era a do Dr. Klingerman, que atuara no seminário. Essa voz dissertou para ela com o entusiasmo inabalável — embora um tanto esganiçado — do velho e bom Klingermanzinho. Roberta sorriu e acendeu um cigarro. Estava fumando além da conta esta noite, porém os malditos cigarros, afinal de contas, estavam ficando mofados.

Em 1947, um capitão da Força Aérea chamado Mantell, voou alto demais enquanto perseguia um disco voador — o que imaginou ser um disco voador. Ficou inconsciente. Seu avião espatifou-se, Mantell morreu. Havia perseguido um reflexo de Vênus sobre uma alta formação de nuvens — um parélio, em outras palavras. Assim, existem reflexos de mariposas, reflexos de Vênus e, provavelmente, reflexos também em um olho dourado Bobbi, porém não existem discos voadores.

Então, o que é aquilo no chão?

A voz do conferencista se calou. Ela não sabia. Portanto, substituindo-a surgiu a voz de Anne, dizendo a mesma coisa pela terceira vez, dizendo-lhe que estava ficando de miolos moles, biruta como o tio Frank, dizendo-lhe que em breve estariam tomando suas medidas para um daqueles casacos de lona que se usa de trás para diante; eles a internariam no asilo em Bangor ou naquele de Juniper Hill, onde ela poderia matutar sobre discos voadores enterrados nas florestas, enquanto tecia cestas. Era a voz de Sissy, claro; Roberta podia telefonar-lhe agora mesmo, contar-lhe o que acontecera e ouvir aquele sermão, com capítulo e versículo. Sabia disso perfeitamente.

Estava direito isso?

Não, não estava. Anne relacionaria a vida principalmente solitária da irmã com a loucura, pouco importando o que Roberta fizesse ou dissesse. E, bem, aquela idéia de que a coisa enterrada na terra pudesse ser alguma espécie de espaçonave, sem dúvida era loucura... mas seria loucura brincar com a possibilidade, pelo menos até que fosse descartada? Anne sem dúvida acharia que sim, mas Roberta achava que não. Nada havia de errado em manter a mente aberta.

Não obstante, a rapidez com que lhe ocorrera a possibilidade...

Levantando-se, entrou em casa. Da última vez que se envolvera com aquela coisa na floresta, dormira durante doze horas. Perguntou-se se deveria esperar uma maratona-sonífera semelhante esta noite. Sentia-se quase cansada o bastante para dormir doze horas, Deus sabia.

Esqueça isso, Bobbi. É perigoso.

No entanto, ela sabia que não esqueceria, foi o que pensou, enquanto tirava sua camiseta com o dístico OPUS FOR PRESIDENT. Não por enquanto.

Bobbi havia descoberto que o problema em viver sozinha — e o motivo pelo qual a maioria das pessoas suas conhecidas não gostava de ficar só, nem por algum tempo — eram aquelas vozes provenientes do lado direito do cérebro. Quanto mais tempo se vive só, mais alto e mais claramente elas falam. Enquanto as medidas de racionalidade começavam a encolher-se no silêncio, aquelas vozes do cérebro direito não apenas requeriam atenção: elas a exigiam. Era fácil ficar com medo delas, achar que, afinal de contas, significavam a loucura.

Anne certamente acha que significam, pensou Bobbi, enfiando-se na cama. O abajur lançava um nítido e aconchegante círculo de luz sobre a colcha, mas ela abandonara no chão a tese que estivera lendo. Ficara esperando as lúgubres cólicas, que costumavam acompanhar o início de seus ocasionais fluxos menstruais antecipados e abundantes, porém até então nada acontecera. Não que estivesse ansiosa para que aparecessem, compreendam.

Cruzando as mãos atrás da cabeça, ela olhou para o teto.

Não, você nada tem de louca Bobbi, pensou. Acha que Gard está ficando distante, mas está tudo bem com você — porém isto não será também um sinal de que está oscilando? Até existe um nome para isso... negação e substituição. “Estou perfeitamente bem, é o mundo que está louco.”

Verdade absoluta. No entanto, ela se sentia firmemente no controle de si mesma e segura de uma coisa: estava mais lúcida em Haven, do que estivera em Cleaves Mills, e muito mais lúcida do que estivera em Utica. Mais alguns anos em Utica, uns poucos anos por perto da sua irmã Anne, e ficaria tão louca quanto o chapeleiro. Roberta acreditava em Anne, de fato, encarava o ato de levar parentes próximos à loucura, como parte de seu... seu trabalho? Não, nada tão mundano. Como parte de sua sagrada missão na vida.

Ela sabia o que realmente a perturbava — não era a rapidez com que lhe tinha ocorrido a possibilidade do que seria a coisa. Era a sensação de certeza. Procuraria manter a mente aberta, porém a luta seria mantê-la aberta em favor do que Anne denominada “sanidade”. Sim, porque sabia o que tinha encontrado, e isso a enchia de medo e reverência, de inquieto e emocionado excitamento.

Entenda, Anne, a velha Bobbi não se mudou para Sticksville e ficou maluca; a velha Bobbi se mudou para lá e ficou lúcida. Insanidade significa possibilidades limitantes, Anne, dá para entender? Insanidade é recusar-se a descer por certas trilhas de especulação, mesmo que a lógica esteja lá... como uma ficha para o torniquete. Entende o que quero dizer? Não? É claro que não entende. Não entende e nem nunca entendeu. Portanto, caia fora, Anne, fique em Utica e rilhe os dentes no sono, até nada restar deles. Faça o que for insensato o bastante para ficar dentro do alcance de sua voz demente, fique à vontade, mas fora da minha cabeça.

A coisa na terra era uma nave do espaço.

Pronto. Tinha dito. Sem exagerar. Pouco importava Anne, pouco importava as Luminosidades de Lubbock ou o fato da Força Aérea haver encerrado sua pesquisa sobre discos voadores. Pouco importavam as carruagens dos deuses, o Triângulo das Bermudas ou a maneira como Elias fora arrebatado para o céu em uma roda de fogo. Nada disso importava — seu coração sabia o que seu coração sabia. Era uma nave, e tanto podia haver pousado, como ter-se espatifado no pouso, muito e muito tempo atrás — talvez milhões de anos atrás.

Céus!

Ela ficou quieta na cama, com as mãos atrás da cabeça. Estava suficientemente calma, porém o coração batia depressa, depressa, depressa.

Então outra voz, esta agora a de seu avô morto, repetia algo dito antes pela voz de Anne.

Esqueça isso, Bobbi. É perigoso.

Aquela vibração momentânea. Sua premonição inicial, asfixiante e positiva, de que encontrara a borda de algum esquisito ataúde de aço. A reação de Peter. Sua menstruação antecipada, pingando somente, se em sua casa, mas sangrando como um porco degolado, quando estava próxima da coisa. Perdendo a noção do tempo, dormindo horas e horas a fio. E não esqueça a pobre e velha marmota, o bichinho espargia cheiro de podridão, mas não havia moscas. Nem uma só mosca sobre seu corpo, eis a verdade.

Nada dessa merda faz sentido e nem se encaixa, Fico com a possibilidade de uma nave na terra, porque, não importa quanto isto pareça louco a princípio, a lógica continua presente. Contudo, não existe lógica no restante do assunto; tudo não passa de contas soltas de colar; rolando sobre a mesa. Enfiadas em um fio, eu talvez as aceite — seja como for; pensarei a respeito. Certo?

A voz do avô novamente, aquela voz pausada e autoritária, a única na casa que sempre fora capaz de reduzir Anne ao silêncio, quando criança.

Tudo isso aconteceu depois que você encontrou a coisa, Bobby. Aí está o seu fio.

Não. Não do bastante.

Era muito fácil agora responder a seu avô; o homem estava na sepultura desde dezesseis anos antes. Não obstante, foi a voz dele que a acompanhou quando adormeceu.

Esqueça isso, Bobbi. É perigoso.

— e você também sabe disso.

 

PETER VÊ A LUZ

Ela pensava ter visto algo diferente em Peter, mas não fora capaz de dizer exatamente o que era. Quando Roberta acordou na manhã seguinte (às perfeitamente normais nove horas), percebeu quase em seguida.

Estava em pé junto ao balcão da cozinha, despejando a ração de Peter no velho prato vermelho do cão. Como sempre, ele chegava trotando àquele som. A ração da marca Gravy Train era relativamente nova: até este ano, sempre havia sido Gaines Meal pela manhã, meia lata de ração para cães, da marca Rival, à noite, mais tudo quanto Pete pudesse conseguir na floresta, entre uma e outra refeição. Então, ele havia deixado de comer a Gaines Meal e Roberta levara quase um mês para perceber — Peter não estava enjoado do sabor; simplesmente, o que restava de seus dentes não conseguia mais mastigar os pedaços. Assim, ele passou para a nova ração Gravy Train... o equivalente, supunha ela, ao ovo pochê de um velho, à hora do desjejum.

Despejou água morna sobre os pedaços de Gravy Train, depois os mexeu com a velha colher que reservava para isso. Em pouco, os pedacinhos amolecidos flutuaram em um líquido lodoso que realmente parecia molho... ou então, pensou Roberta, algo tirado de uma fossa séptica fora de uso.

— Pronto, aqui está — disse ela, afastando-se da pia. Peter agora ocupava seu posto costumeiro sobre o linóleo — uma polida distância, a fim de que Roberta não tropeçasse nele, quando se virava — e abanando a cauda. — Espero que aprecie. Quanto a mim, acho que vomitaria as tri...

Foi então que se interrompeu, inclinada para Peter com o prato vermelho na mão direita, o cabelo caindo sobre um olho. Jogou-o para trás.

— Peter? — ouviu-se chamando.

Peter a fitou curiosamente por um instante e então ajeitou-se para saborear seu petisco matinal. Um instante mais tarde, sorvia a mistura com entusiasmo.

Roberta se ergueu, olhando para seu cão, bastante satisfeita por não poder mais ver-lhe a cara. Em sua cabeça, a voz do avô tornou a dizer-lhe que esquecesse aquilo, que era perigoso, e ela precisava de mais algum fio para suas contas?

Neste país, apenas, cerca de um milhão de pessoas viriam correndo, se tivessem a mais leve idéia sobre este tipo de perigo, pensou Roberta. Só Deus sabe quantas mais no mundo fariam o mesmo. E isso é tudo que aquilo faz? Pode imaginar como funcionaria no câncer?

Toda a força lhe fugiu subitamente das pernas. Tateou o caminho de volta, até tocar uma das cadeiras da cozinha. Sentou-se e ficou espiando Peter comer.

A catarata leitosa que cobria o olho esquerdo do cão, agora desaparecera pela metade.

 

— Não faço a menor idéia — disse o veterinário essa tarde.

Roberta sentou-se na única cadeira do consultório, enquanto Peter se postava obedientemente sobre a mesa de exames. Ela se viu recordando como temera a possibilidade de precisar trazê-lo ao veterinário esse verão... apenas, agora não havia a impressão de que, afinal, Peter teria que ser eliminado.

— Não será imaginação minha? — perguntou.

Achou que, em realidade, queria ouvir o Dr. Etheridge confirmar ou refutar a Anne em sua cabeça: É isto o que você merece, vivendo lá sozinha com seu cachorro fedorento...

— Em absoluto — disse Etheridge, — embora eu possa entender o seu aturdimento. Também estou um pouco aturdido. A catarata dele está em ativa remissão. Pode descer agora, Peter.

Peter desceu da mesa, pisando primeiro na banqueta do Dr. Etheridge e depois no chão, antes de ir para Roberta.

Ela pousou a mão na cabeça do cachorro e olhou fixamente para o veterinário, pensando: Você viu isso? Não queria fazer a pergunta em voz alta. Por um momento, os olhos de Etheridge encontraram os seus, e então ele desviou o rosto. Sim, eu vi, porém não vou admitir que vi, Peter havia descido cautelosamente, em um desempenho que ficava a quilômetros de distância do endiabrado filhote que fora um dia, porém tampouco havia sido a descida trêmula, sondante e desajeitada de uma semana atrás, ladeando a cabeça esquisitamente para a direita, a fim de poder ver para onde ia, o equilíbrio tão precário, que o coração de quem apreciasse a visão pararia de bater, enquanto ele não chegasse ao chão sem ossos quebrados. Peter desceu com a confiança conservadora, mas sólida do idoso estadista que havia sido dois ou três anos atrás. Em parte, supôs Roberta, o progresso de agora se devia ao fato da visão no olho esquerdo estar retornando — Etheridge confirmara isto, através de uns poucos simples testes de percepção. Entretanto, o olho não era tudo. O resto se traduzia em coordenação corporal totalmente melhorada. Simples assim. Louco, mas simples.

Além do mais, a catarata em desaparecimento não fizera os pêlos do focinho de Pete passarem de um branco quase total para um tom grisalho? Roberta notara o detalhe ainda na picape, quando rodavam para Augusta. Então, quase dirigira para fora da estrada.

Quanto disto Etheridge estava vendo, mas não se sentia preparado para admitir que via? Uma boa parte, supôs Roberta, mas a verdade é que Etheridge não era o Doutor Daggett.

Daggett vira Peter pelo menos duas vezes ao ano, durante os primeiros dez anos de vida do cão... e então houvera as coisas que iam surgindo, como da vez em que Peter se envolvera com um porco-espinho, por exemplo, e Daggett removera os espinhos, um por um, assobiando a música tema de A ponte sobre o rio Kwai, enquanto isso tranqüilizando o trêmulo cachorrinho de um ano de idade, com uma de suas mãos enormes e gentis. Em outra ocasião, Peter chegara mancando em casa, com um lado do corpo, mais para a traseira, repleto de chumbinho de abater pássaros. Aquilo fora o cruel presente de um caçador, imbecil demais para olhar antes de atirar ou talvez suficientemente sádico para desforrar-se em um cão, por não encontrar um pardal ou faisão em que infligir dor.

O Dr. Daggett teria visto todas as alterações em Peter e não seria capaz de negá-las, mesmo querendo. O Dr. Daggett teria removido seus óculos de aros rosados, limparia as lentes em sua bata branca e diria algo como: Precisamos descobrir por onde ele andou e em que se meteu, Roberta. Isto é sério. Cães não rejuvenescem sem mais nem menos, e é justamente o que parece estar acontecendo com Peter. Isso forçaria Roberta a responder: Eu sei por onde ele andou e tenho uma boa idéia sobre o que provocou isso. Semelhante diálogo faria desaparecer boa parte da pressão, certo? Entretanto, o velho Dr. Daggett vendera sua clínica a Etheridge — que se mostrava muito amistoso, mas continuava sendo mais ou menos um estranho — e então se aposentara, indo viver na Flórida. Etheridge tinha visto Peter com mais freqüência do que Daggett — de fato, quatro vezes no ano anterior — porque à medida que o cão envelhecia, ficava cada vez mais combalido. De qualquer modo, o novo veterinário não o vira tão freqüentemente como seu antecessor... e, segundo desconfiava ele, tampouco possuía nítidas percepções de quem substituíra. Ou a sua coragem.

Nos aposentos atrás deles, um pastor-alemão explodiu de repente em uma série de fortes latidos, semelhantes a uma fieira de pragas caninas. Outros cães fizeram coro. As orelhas de Peter viraram-se para diante e ele começou a tremer sob a mão de Roberta. Aparentemente, a passagem dos anos em nada contribuíra para a tranqüilidade do beagle, pensou ela. Certa época, durante as tempestades presenciadas quando filhote, Peter ficava tão abatido, que quase chegava à paralisia. Este tremor de agora, altamente nervoso, era coisa nova.

Etheridge ouvia os cães com a testa agora ligeiramente franzida — quase todos eles estavam latindo.

— Obrigada por receber-nos com tanta presteza — disse Roberta. Tinha que erguer a voz para ser ouvida. Um cão na sala de espera também começara a latir; os latidos rápidos e nervosos de um animal bem pequenino... um lulu ou um poodle, mais provavelmente. — Foi muita...

Sua voz extinguiu-se momentaneamente. Sentiu uma vibração sob as polpas dos dedos, e seu primeiro pensamento

(a nave)

foi sobre a coisa na floresta. Entretanto, sabia o que era esta vibração. Embora a tivesse sentido muito, muito raramente, não havia mistério a respeito.

Esta vibração estava vindo de Peter. Peter rosnava, muito baixo e muito fundo na garganta.

— ... gentileza sua, mas acho que agora devemos ir. Parece que se encontra diante de um motim...

Ela quis dar à frase um tom de piada, mas as palavras não soavam mais como piada. De repente, todo o pequeno complexo — o quadrado de concreto cinza que era a sala de espera e sala de tratamento de Etheridge, mais o quadrado anexo que era sua enfermaria e sala de operações — resumia-se em uma só balbúrdia. Todos os cães lá atrás latiam e, na sala de espera, o lulu tinha o coro de outros dois cães... e de uma cauda agitando-se, feminina, que era indiscutivelmente felina.

A Sra. Alden assomou, parecendo perturbada.

— Dr. Etheridge...

— Tudo bem — disse ele, parecendo constrangido. — Com sua licença. Srta. Anderson...

Saiu apressadamente, encaminhando-se primeiro para a enfermaria. Quando abriu a porta, o barulho produzido pelos cães pareceu duplicar-se — vão acabar roucos, pensou Roberta, e não houve tempo para pensar mais nada, porque Peter quase voou de baixo da sua mão. Aquele grunhido despreocupado e grave em sua garganta, de repente avolumou-se para um rosnado firme. Etheridge não ouviu, já correndo pelo corredor central da enfermaria, com os cães latindo à sua volta e a porta de vaivém fechando-se lentamente com seu mecanismo de ar comprimido, atrás dele; contudo, Roberta ouviu e, se não tivesse a sorte de aferrar a coleira de Peter, o beagle teria cruzado a sala como um petardo e invadiria a enfermaria, atrás do veterinário. O tremor e o grunhido profundo... não eram sintomas de medo, percebeu ela. Haviam sido de fúria era algo inexplicável, inteiramente em desacordo com a natureza de Peter, mas não tinha sido outra coisa.

O rosnado de Peter transformou-se em um som estrangulado — rau! — quando Roberta o puxou de volta, pela coleira. Ele virou a cabeça e, no olho direito do cão, girando e orlado de vermelho, ela viu o que mais tarde qualificaria apenas como fúria, por ser proibido de seguir o rumo que pretendia. Roberta podia aceitar a possibilidade de haver um disco voador com trezentos metros de diâmetro, a julgar pela borda exterior, enterrado em sua propriedade; a possibilidade de que alguma emanação ou vibração de tal nave houvesse matado uma marmota, cuja má sorte fora chegar perto demais, matando-a tão completa e desagradavelmente que até as moscas pareciam não querer parte do bicho morto; podia enfrentar um anômalo período menstrual, uma catarata canina em remissão, até mesmo a aparente certeza de que seu cão, de algum modo, estava rejuvenescendo.

Podia aceitar tudo isso, sim.

Entretanto, a idéia de ter visto um ódio insano por ela, por Bobbi Anderson, nos olhos de seu bom e velho cão Peter... não.

 

Aquele momento foi gratificantemente breve. A porta da enfermaria se fechou de todo, amortecendo a cacofonia. Parte da tensão de Peter pareceu acabar. Ele ainda tremia, mas pelo menos tornou a sentar-se.

— Venha, Peter, vamos sair daqui — disse ela.

Estava francamente abalada — muito mais do que admitiria posteriormente a Jim Gardener. Porque admitir isso, talvez a fizesse recordar o furioso vislumbre de ódio que vira no olho sadio de Peter.

Seus dedos embaralharam-se na correia pouco familiar que havia desligado da coleira de Peter, assim que entraram na sala de exames (a imposição de que cães deviam estar presos pela coleira, quando os donos os levavam ao veterinário, era algo que Roberta sempre achara irritante — até agora), quase a deixando cair. Por fim, conseguiu prendê-la à coleira de Peter.

Levou o cão até a porta da sala de espera e a abriu, empurrando-a com o pé. A barulheira ficara pior do que nunca. O cãozinho que latia esganiçadamente, era de fato um lulu, propriedade de uma mulher gorda vestindo berrantes slacks amarelos e corpete da mesma cor. A gorducha tentava aquietar o lulu, dizendo-lhe que “seja um bom menino, Eric, um bom menino para a mamãezinha”. Entre os braços volumosos e flácidos de mamãezinha, bem pouco era visível do cão, exceto os olhos brilhantes e, de algum modo, semelhantes aos de um rato.

— Senhorita Anderson... — começou a Sra. Alden.

Parecia aturdida e um tanto amedrontada — era uma mulher tentando seguir as normas costumeiras, em um lugar que subitamente se transformara em hospício. Roberta compreendia como ela se sentia.

O lulu avistou Peter — Roberta mais tarde juraria que foi isso que desencadeou tudo — e pareceu enlouquecer. Evidentemente, para ele não havia o menor problema em escolher um alvo. Afundou os dentes aguçados em um dos braços de mamãezinha.

— Filho da puta! — gritou mamãezinha, deixando o lulu cair ao chão.

O sangue começou a escorrer-lhe do braço. Ao mesmo tempo, Peter saltou para diante, latindo e rosnando, estirando-se no final da curta correia, o suficiente para arrastar Roberta para a frente. O braço direito dela ficou esticado em linha reta. Com seu penetrante olho mental de escritora, pôde ver exatamente o que aconteceria em seguida. Peter, o beagle e Eric, o lulu, iam atracar-se no meio da sala, como Davi e Golias. Com a diferença de que o lulu não tinha astúcia e muito menos uma funda. Peter racharia sua cabeça com apenas uma boa patada.

O desastre foi evitado por uma garota de uns onze anos, sentada à esquerda de mamãezinha, que segurava no colo uma caixa para transporte de animais. Dentro da caixa, uma enorme blacksnake, — a serpente negra não venenosa — exibia escamas que reluziam de exuberante saúde. Espichando uma perna envolta em jeans, a garota demonstrou os incríveis reflexos dos muito jovens, pisando com força na extremidade solta da correia do lulu. Eric executou uma cambalhota completa. A menina então segurou a correia do cãozinho. De longe, era a pessoa mais calma ali dentro.

— Será que o desgraçadinho me transmitiu raiva? — gritou mamãezinha, cruzando a sala em direção à Sra. Alden.

O sangue gotejava entre seus dedos apertando o braço mordido. Ao passar junto a Peter, o cão virou a cabeça para ela, mas Roberta o puxou para trás, encaminhando-se para a saída. Que se danasse o pequeno aviso no cubículo da Sra. Alden, alertando: É DE PRAXE O PAGAMENTO EM DINHEIRO POR SERVIÇOS PROFISSIONAIS, A MENOS QUE HAJA ENTENDIMENTOS ANTERIORES. Ela só pensava em sair dali, dirigir na velocidade limite o trajeto inteiro para casa e beber alguma coisa. Uma dose. Talvez dupla. Pensando melhor, talvez tripla.

Da esquerda, chegou até ela um som prolongado e baixo, virulento e sibilante. Virando-se para lá, Roberta viu um gato que bem poderia ter saído de uma decoração do Dia das Bruxas. Totalmente negro, com exceção de um pequeno toque branco na ponta da cauda, ele recuara o mais fundo que permitia sua caixa de transporte. Tinha o dorso arqueado, o pêlo inteiramente eriçado e os olhos verdes fixos sobre Peter, cintilando de maneira fantástica. A boca rosada repuxava-se para trás, mostrando as fileiras de dentes.

— Leve seu cachorro daqui, dona — disse a mulher do gato, em voz tão fria como uma arma sendo engatilhada. — Blacky não gosta dele.

Roberta gostaria de responder que pouco estava ligando se Blacky peidasse ou soprasse um apito de lata, porém só mais tarde pensaria nessa obscura expressão, mas de certo modo requintadamente apta — não tinha o costume de pensar, quando em situações acaloradas. Seus personagens sempre sabiam exatamente as coisas certas para dizer sendo raro ela ter que deliberar sobre as palavras adequadas — elas sempre despontavam, fáceis e naturalmente. Na vida real, contudo, isso quase nunca acontecia.

— Vá tomar banho! — foi o melhor que lhe ocorreu.

Falou em tão rouco murmúrio, no entanto, que duvidava se a dona de Blacky teria a mais remota idéia do que havia dito ou mesmo se dissera alguma coisa. Em realidade, agora estava puxando Peter, usando a correia para arrastar o cão e logo da maneira que odiava ver um cão ser puxado, sempre que via tal cena na rua. A garganta de Peter emitia ruídos de tosse e a saliva lhe escorria da língua, que pendia de um canto da boca. Ele encarou um boxer, cuja pata dianteira direita estava engessada. Um homem corpulento, vestindo um macacão azul de mecânico, segurava a corda da coleira do boxer com as duas mãos. De fato, havia enrolado duas vezes a corda em torno de um enorme pulso sujo de graxa e, mesmo assim, sentia dificuldade em segurar o cão, que teria liquidado Peter tão rapidamente, como o próprio Peter acabaria com o lulu. O boxer puxava vigorosamente pela corda, a despeito da pata quebrada, e Roberta confiava mais no controle da mão do mecânico do que na corda-coleira, que parecia estar se esfiapando.

Ela teve a sensação de que levou cem anos, manejando com a mão livre a maçaneta da porta de saída. Era como ter um pesadelo, em que as mãos se encontram inteiramente ocupadas e as calças começam a escorregar, lenta e inexoravelmente.

Peter conseguira isso. De algum modo.

Girando a maçaneta, ela deu um último e apressado olhar à sala de espera. Aquilo se tornara uma pequena e absurda terra de ninguém. Mamãezinha exigia primeiros-socorros da Sra. Alden (e parecia realmente precisar disso; agora, o sangue corria em um filete pelo braço, salpicando os slacks amarelos e os sapatos brancos); Blacky o gato, continuava sibilando; os gerbos do Dr. Etheridge estavam ficando loucos, no complicado labirinto de tubos e torres de plástico sobre a prateleira mais alta, onde tinham instalado seu lar; Eric, o lobo alucinado, espichava-se na extremidade de sua correia, latindo para Peter em voz estrangulada. E Peter respondia, em ameaçador rosnado.

Os olhos de Roberta pousaram na blacksnake da menina e viram que ela se erguera como uma cobra, dentro da sua caixa de transporte, também olhando para Peter, formando como que um bocejo com a boca sem presas, a língua rosada e estreita agitando-se no ar, em leves sacudidelas.

Blacksnakes não fazem isso. Nunca vi uma blacksnake agir assim em minha vida...

Agora, invadida por algo bem próximo do verdadeiro horror, Roberta quase correu, arrastando Peter atrás de si.

 

Pete começou e acalmar-se, quase assim que a porta se fechou atrás deles. Parou de tossir e estirar-se na correia, passando a caminhar ao lado de Roberta, olhando ocasionalmente para ela, como se dissesse, Detesto esta coleira e jamais gostarei dela, mas tudo bem, tudo bem, se é assim que você quer. Quando se viram dentro da picape, Peter já voltara inteiramente a ser como antes.

O mesmo não aconteceu a Roberta.

Suas mãos tremiam tanto, que precisou fazer três tentativas, antes de conseguir introduzir a chave na fenda da ignição. Então, pisou na embreagem e o motor afogou. A picape Chevrolet deu um violento solavanco e Peter caiu do assento no piso. Ele lançou a Roberta um reprovativo olhar de beagle (embora todos os cães sejam capazes de olhares reprovativos, somente os beagles parecem ter dominado aquela expressão de profundo sofrimento). Onde mesmo disse que tirou sua carteira de motorista, Bobbi? era o que parecia perguntar a expressão. Na Sears & Roebuck? Então ele tornou a subir de novo para o banco. Roberta já custava a crer que somente cinco minutos antes, Peter estivera grunhindo e rosnando, um cão de maus bofes que jamais vira na vida, parecendo prestes a morder qualquer coisa que se movesse, mostrando aquela expressão, aquela... mas sua mente se recusou a repisar o assunto, a prosseguir com isso.

Conseguiu ligar o motor novamente e começou a rodar para a saída do pátio de estacionamento. Passando ao lado do prédio — CLÍNICA VETERINÁRIA DE AUGUSTA, dizia o conciso letreiro — ela baixou o vidro da janela. Alguns latidos e ganidos. Nada fora do comum.

A coisa cessara.

Não apenas tudo aquilo cessaria, pensou. Embora sem certeza absoluta, achava que sua menstruação também terminara. Sendo assim, bons ventos levem o que não presta!

Apenas para cunhar uma frase.

 

Bobbi não quis esperar — ou não podia — até chegar em casa para tomar o drinque que prometera a si mesma. Logo depois do perímetro urbano de Augusta, havia um bar junto à estrada com o sugestivo nome “Bar e Restaurante Grande Fim de Semana Perdido” (Nossa especialidade: costeletas de porco tamanho gigante, ao som dos Nashville Kitty-Cats, nesta sexta e sábado).

Roberta estacionou entre uma velha camioneta e um trator John Deere, tendo na traseira uma grade suja de terra, cujas lâminas haviam sido viradas para cima. Mais abaixo havia um grande e velho Buick, ao qual fora adaptado um trailer para cavalos. Ela ficara distante do Buick propositadamente.

— Fique aí — disse para o cão.

Agora enrodilhado no banco, Peter dirigiu-lhe um olhar que parecia dizer, Por que eu quereria ir a algum lugar com você? Para que me sufocasse um pouco mais com sua estúpida coleira?

O Grande Fim de Semana Perdido estava penumbroso e quase deserto naquela tarde de quarta-feira, a pista de danças assemelhando-se a uma caverna fracamente iluminada. O lugar recendia a cerveja azeda. O barman atendente caminhou sem pressa até ela e disse:

— Como vai, bela senhorita? O chili é o prato especial. Também temos...

— Eu queria um Cutty Sarck — disse ela. — Duplo. Sem água.

— Sempre bebe como um homem?

— Geralmente usando um copo — replicou Roberta.

Era uma resposta que não fazia o menor sentido, mas ela se sentia demasiado cansada... e angustiada até os ossos. Foi ao toalete de senhoras trocar seu absorvente, agora introduzindo nas calcinhas um de tamanho pequeno, que tirou da bolsa, como medida de precaução... mas tudo se resumia em precaução, o que era um alívio. Parecia que suas regras só tornariam a aparecer no mês seguinte.

Voltou à sua banqueta com melhor humor do que quando a deixara, sentindo-se ainda melhor após ter metade do drinque dentro de si.

— Ouça, eu não tive a menor intenção de ofender — disse o barman. — Acontece que isto aqui fica muito solitário à tarde... Quando aparece um estranho, passo a falar demais.

— A culpa foi minha — respondeu ela. — Este não está sendo precisamente o melhor dia de minha vida.

Ao terminar o drinque, deixou escapar um suspiro.

— Mais um drinque, senhorita?

Acho que gostei mais do bela senhorita, pensou Roberta, e meneou a cabeça.

— Prefiro um copo de leite. Do contrário, vou ficar com azia a tarde inteira.

O homem trouxe o leite. Roberta bebericou-o, enquanto meditava no acontecido no veterinário. A resposta era rápida e simples: ela não sabia o que fora aquilo.

Pois eu lhe direi o que aconteceu, quando entrou com ele, pensou. Absolutamente nada.

Sua mente aferrou-se a isto. A sala de espera havia estado tão cheia ao chegar lá com Peter, como quando o arrastara para a rua, só que da primeira vez não houvera aquela cena infernal. A quietude era total — animais de tipos e espécies diferentes, muitos deles antigos e instintivos antagonistas, incapazes de criar um ambiente de biblioteca ao serem postos juntos — mas tudo transcorrera normalmente. Agora, com o álcool agindo em seu organismo, recordou o homem com macacão de mecânico, que continha os ímpetos do boxer. O cachorro dele olhara para Peter. Peter o olhara de volta, com brandura. Nenhuma confusão.

E daí?

E daí, beba seu leite, vá para casa e esqueça.

Certo. E quanto àquela coisa na floresta? Devo esquecê-la também?

Ao invés de uma resposta, ouviu a voz do avô: Por falar nisto, Bobbi, o que aquela coisa está fazendo a você já pensou nisso?

Ela não havia pensado.

E agora que pensava, sentiu vontade de pedir outro drinque... só que mais um, mesmo apenas uma dose, iria deixá-la bêbada. Desejaria mesmo ficar sentada naquele enorme celeiro, em um começo de tarde, embriagando-se sozinha, à espera do inevitável (talvez o próprio barman) aproximando-se para perguntar o que, um belo lugar como aquele, estava fazendo em uma garota como ela.

Deixou no balcão uma nota de cinco e o barman cumprimentou-a. A caminho da saída, avistou um telefone público. O catálogo estava ensebado e muito usado, cheirava a bourbon velho, mas pelo menos ainda existia. Roberta depositou vinte centavos, enganchou o fone entre o ombro e o ouvido enquanto folheava as letras V das Páginas Amarelas, e então discou o número da clínica de Etheridge. A voz da Sra. Alden parecia inteiramente controlada. Nos fundos, ouvia-se apenas o latido de um cão. De um.

— Não gostaria que me imaginasse tendo saído propositadamente sem pagar — disse para a mulher. — E amanhã mesmo remeterei a trela do cachorro pelo correio.

— Em absoluto, Senhorita Anderson! — respondeu ela. — Após tantos anos nos procurando, seria a última pessoa sobre quem eu faria uma má idéia! E quanto a trelas, aqui já temos de sobra.

— A situação parecia um pouco descontrolada por um momento.

— Não imagina quanto! Tivemos que pedir ajuda médica para a Sra. Perkins. Não creio que tenha sido coisa muito séria, ela terá que levar alguns pontos, naturalmente, mas muita gente precisando ser suturada procura o médico por conta própria. — Ela baixou a voz um pouco, oferecendo a Roberta uma confidência que talvez não ofereceria a um homem: — Felizmente, foi seu próprio cão que a mordeu. Ela é o tipo de mulher que começa a falar em processar, por dá cá aquela palha!

— Tem alguma idéia do que poderia ter causado tanto alvoroço?

— Nem de longe, e tampouco o Dr. Etheridge. Talvez seja o calor depois das chuvas. O Dr. Etheridge disse ter ouvido algo a respeito certa vez, em sua convenção. Uma veterinária da Califórnia comentou que todos os animais de sua clínica tiveram o que ela chamou de “acesso selvagem”, pouco antes do grande terremoto que houve por lá.

— E faz sentido?

— No ano passado houve um terremoto no Maine — disse a Sra. Alden. — Espero que não esteja para haver outro. Aquela usina nuclear em Wiscassett fica perto demais para o meu gosto.

Pergunta só a Gard, pensou Bobbi. Ela tornou a agradecer e desligou.

Voltou para a picape. Peter dormia. Abriu os olhos quando ela entrou, depois tornando a fechá-los. Seu focinho jazia sobre as partes. Os pêlos grisalhos de seu focinho estavam desaparecendo; não havia dúvidas a respeito.

Por falar nisto, Bobbi, o que essa coisa está fazendo a você?

Cale a boca, vovô!

Rodou para casa. Uma vez lá, após fortalecer-se com um segundo uísque — uma dose fraca — foi ao banheiro e ficou diante do espelho, primeiro examinando o rosto, depois correndo os dedos entre os cabelos, erguendo-os e tomando a deixá-los cair. Os fios grisalhos ainda estavam lá — que soubesse, todos os que possuía até então.

Roberta jamais havia pensado que ficaria tão satisfeita em ver cabelos grisalhos, mas a verdade é que ficou. Era uma certa espécie de satisfação.

 

Estava anoitecendo, quando nuvens escuras passaram a amontoar-se no oeste e, no escurecer, começaram as trovoadas. Parecia que a chuva ia voltar, pelo menos durante uma noite. Roberta sabia que seria impossível forçar Peter a sair aquela noite, a fim de fazer além do que apenas as mais urgentes necessidades caninas. Desde os tempos de filhote, o beagle sentia verdadeiro pavor de trovoadas.

Roberta sentou-se na cadeira de balanço, junto à janela. Supôs que, se alguém a visse, poderia imaginar que estaria lendo, em vez de queimar furiosamente as pestanas naquela tese A guerra entre rancheiros e a Guerra Civil. Era um texto árido como poeira, porém ela achava que lhe seria de enorme utilidade quando, por fim, começasse a escrever o novo livro... algo que teria de acontecer dentro em breve.

A cada vez que um trovão ribombava, Peter se chegava mais para perto da cadeira de balanço e de sua dona, quase parecendo sorrir envergonhadamente. Bem, eu sei que isso não vai me machucar, claro que sei, mas só quem ficar pertinho de você, está certo? E se houver uma trovoada das bravas, pulo para essa maldita cadeira de balanço com você, o que me diz? Você não se incomoda, não é mesmo, Bobbi?

A ameaça de tempestade prosseguiu até nove horas da noite, quando então Roberta podia jurar que teriam uma das boas — o que os moradores locais costumavam chamar de “baita temporal”. Foi até a cozinha, entrou no armário embutido que funcionava como despensa e, em uma prateleira alta, encontrou sua lanterna Coleman a gás. Peter seguiu em seus calcanhares, a cauda metida entre as pernas, o mesmo sorriso envergonhado na face. Roberta quase caiu em cima dele, ao se virar para sair do armário com a lanterna.

— Com licença, Peter?

Peter ofereceu-lhe um diminuto espaço... e então tornou a colar-se aos tornozelos da dona, quando um trovão estrugiu como um canhonaço, aterrador o suficiente para sacudir as janelas. Enquanto ela voltava para sua cadeira, um raio riscou o céu com luz branco-azulada e o telefone retiniu. O vento começou a aumentar, fazendo com que as árvores se sacudissem e suspirassem.

Peter acomodou-se bem junto da cadeira de balanço, erguendo para Roberta um olhar suplicante.

— Está bem — disse ela, com um suspiro. — Suba, seu covarde!

Peter não esperou segundo convite. Saltou para o colo de Roberta, acertando-lhe as virilhas com uma forte patada dianteira. Ele sempre parecia machucá-la ali ou em um seio; não fazia pontaria — era apenas uma dessas coisas misteriosas, como a maneira em que os elevadores invariavelmente param em todos os andares, quando a gente tem pressa. Se houvesse algum meio de defesa, Roberta ainda precisaria descobri-lo.

O fragor dos trovões enchia o céu. Peter aninhou-se contra ela. Seu cheiro — Eau de Beagle — inundou as narinas de Roberta.

— Por que não me contradiz com vontade e acaba logo com isso, Pete?

Ele exibiu seu sorriso envergonhado, como que dizendo, Certo, está bem, não precisa repetir!

O vento aumentou. As luzes começaram a piscar, indício seguro de que Roberta Anderson e a Central Elétrica do Maine estavam prestes a trocar um carinhoso adeus... pelo menos até três ou quatro da madrugada. Deixando a tese a um lado, ela passou o braço em torno do cão. Não ficava preocupada com uma ocasional tempestade de verão ou com as nevascas do inverno, pelo contrário. Até apreciava sua potência descomunal. Gostava de ver e ouvir aquela força funcionando sobre a terra, à sua maneira crua e cegamente positiva. Sentia uma compaixão insensata no trabalho desses temporais. Podia sentir este trabalhando em seu íntimo — os pêlos dos braços e da nuca se eriçavam e um raio estrondeando particularmente próximo a deixava sentido-se quase galvanizada de energia.

Recordou uma curiosa conversa que certa vez tivera com Jim Gardener. Gard tinha uma placa de metal no crânio, recordação de um acidente de esqui que quase o matara, à idade de dezessete anos. Gardener lhe contara que certa vez, quando trocava uma lâmpada, tinha levado um tremendo choque ao, inadvertidamente, enfiar o indicador no soquete. Isto nada tinha de incomum; a pane peculiar era que, durante a semana seguinte, ele ouvira música, anúncios e noticiários na cabeça. Disse que chegara a crer que estava ficando doido. Acrescentou que, no terceiro dia disto, pudera identificar as letras da sigla da estação que recebia: WZON, uma das três estações radiofônicas AM de Bangor. Anotara os nomes das três canções executadas em seqüência, depois ligando para a estação, a fim de saber se de fato as tinham tocado — aí incluindo os comerciais para o Restaurante Polinésio Sing’s, o Village Subaru e o Museu de Pássaros em Bar Harbor. Eles tinham.

No quinto dia, segundo ele, o sinal começou a fraquejar e, dois dias mais tarde, cessara de todo.

— Foi essa maldita placa no crânio — explicara ele, batendo suavemente com o punho na cicatriz, perto da têmpora esquerda. — Não tenho a menor dúvida sobre isso. Sei que milhares ririam da história, mas, pessoalmente, tenho a mais absoluta certeza.

Se outra pessoa lhe houvesse contado isso, Roberta pensaria que estavam tentando ludibriá-la, porém Jim falava sério — bastava ver os olhos dele e se sabia que não brincava.

Grandes tempestades têm grande poder.

Um relâmpago iluminou tudo em claridade azulada permitindo a Roberta um instantâneo do que passara a considerar — como os vizinhos — seu pátio junto à porta da entrada. Viu o caminhão, com as primeiras gotas de chuva no pára-brisa; a pequena pista de rolamento para o carro, em terra batida; a caixa de correspondência, com sua bandeirola arriada e firmemente presa contra a lateral de alumínio; as árvores contorcendo-se. O trovão explodiu quase que em seguida, e Peter saltou contra ela, ganindo. As luzes apagaram-se. Não se preocuparam em ficar mortiças, piscando ou embromando; apagaram-se ao mesmo tempo, completamente. Apagaram-se com autoridade.

Roberta estendeu a mão para a lanterna — e parou de repente.

Havia um ponto verde na parede oposta, logo à direita da cômoda galesa do tio Frank. Mostrou inesperadamente uns cinco centímetros, moveu-se para a esquerda, depois para a direita. Desapareceu por um momento, logo tornando a voltar. O sonho de Roberta lhe veio à mente, com todo o fantasmagórico poder do déjà vu. Tornou a pensar na lanterna da história de Poe, mas agora havia outra recordação misturada: A guerra dos mundos. O raio calorífico, chovendo morte verde sobre Hammersmith.

Virou-se para Peter, ouvindo os tendões de seu pescoço rangerem como gonzos emperrados, sabendo o que iria ver. A luz provinha do olho de Peter. De seu olho esquerdo. Ele brilhava com a verde luz enfeitiçante do fogo-de-santelmo, vagando acima de um pântano, após um dia parado e sufocante.

Não... não era o olho. Era a catarata que luzia... pelo menos, o que restara dela. Seu tamanho diminuíra perceptivelmente, mesmo a partir desta manhã, no consultório do veterinário. Aquele lado do rosto de Peter estava banhado em espectral luminosidade verde, fazendo-o parecer uma monstruosidade de histórias em quadrinhos.

O primeiro impulso dela foi afastar-se do cão, mergulhar para fora daquela cadeira e simplesmente correr...

...mas aquele era Peter, afinal de contas. E Peter já estava morto de pavor. Se o abandonasse, ele ficaria aterrorizado.

O trovão estrondeou no escuro. Desta vez, os dois saltaram de susto. Então a chuva caiu, como um enorme lençol de suspirante aguaceiro. Roberta tornou a olhar para a parede no outro lado da sala, para a mancha verde que lá oscilava, de um lado para outro. Recordou as vezes em que ficava na cama, quando criança, usando a pulseira de seu relógio Timex para jogar na parede uma luminosidade semelhante, ao mover o pulso.

E por falar nisso, o que essa coisa está fazendo a você, Bobbi?

Um fogo verde mergulhado no olho de Peter, removendo a catarata. Comendo-a. Tornou a olhar, precisando controlar-se a custo para não puxar a mão, quando Peter começou a lambê-la.

Nessa noite, Bobbi Anderson mal pregou os olhos.

 

PROSSEGUE A ESCAVAÇÃO

Quando Roberta finalmente acordou, eram quase dez da manhã e todas as luzes da casa estavam acesas — parecia que a Central Elétrica do Maine conseguira endireitar sua tralha. Caminhou pelos aposentos, de soquetes, apagando as luzes. Depois espiou pela janela da frente. Peter estava na varanda. Roberta o deixou entrar e examinou-lhe o olho com atenção. Podia recordar o terror sentido na noite anterior; mas agora de manhã, à brilhante claridade do dia estival, o terror fora suplantado pela fascinação. Qualquer um ficaria amedrontado pensou, vendo algo como aquilo no escuro, com a energia elétrica interrompida e trovões ribombantes no céu e na terra do lado de fora.

Por que, raios, Etheridge não viu isto?

A explicação era fácil. Os mostradores de rádio dos relógios luzem tanto de dia, como de noite; apenas não se pode perceber o brilho em luz forte. Estava um pouco surpresa, por não ter notado o brilho verde do olho de Peter nas noites anteriores, mas dificilmente espantada... afinal de contas, levara dois dias inteiros para perceber que a catarata se reduzia! No entanto... Etheridge estivera bem perto, não? Etheridge examinara de perto o olho do cão, com o velho oftalmoscópio.

E concordara com ela, sobre a catarata estar diminuindo... mas sem mencionar qualquer brilho, verde ou não.

Talvez ele o tenha visto e decidido não vê-lo. Como viu Peter parecendo rejuvenescido e decidiu que nada tinha visto. Porque não queria ver.

Uma parte dela não sentia a mais remota simpatia pelo novo veterinário; talvez isso acontecesse porque apreciara tanto o velho Dr. Daggett, a ponto de tolamente presumir (uma tolice parecendo inevitável) que ele ainda estaria ali, por todo o tempo em que ela e Peter estivessem. De qualquer modo, era um motivo ridículo para que sentisse hostilidade pelo substituto do idoso veterinário e, mesmo que Etheridge não tivesse visto (ou se recusasse a ver) a aparente regressão de idade de Peter, isto não alterava o fato dele parecer um profissional perfeitamente competente.

Uma catarata emitindo luz verde... Roberta não acreditava que ele tivesse ignorado um fato semelhante.

Isto a levava à conclusão de que o fulgor verde não estivera lá, para que Etheridge o visse.

Pelo menos, não naquele momento.

E, naquele momento, tampouco houvera qualquer gigantesca balbúrdia, certo? Não, quando ela e o cão tinham entrado. Não, durante o exame. Tudo acontecera quando já se dispunham a ir embora.

Teria o olho de Peter começado a luzir nesse instante?

Roberta despejou Gravy Train no prato de Peter e ficou com a mão esquerda estirada sob a torneira, esperando que a água amornasse, para então amolecer a ração. A espera se foi prolongando e prolongando. Seu aquecedor de água era vagaroso, empacador, tristemente obsoleto. Estivera querendo trocá-lo — de fato, era imperioso trocá-lo antes da chegada do tempo frio — porém o único bombeiro-encanador existente na cidade ou nas cidadezinhas rurais, logo ao norte ou sul de Haven, era um indivíduo sumamente desagradável, chamado Delbert Chiles, que costumava fitá-la como se soubesse precisamente qual a sua aparência sem roupas (não é grande coisa, diziam os olhos dele, mas acho que valeria a pena, em uma emergência) e sempre queria saber se ela estava “escrevendo novos livros ultimamente”. Chiles gostava de confidenciar-lhe que poderia ter sido um escritor dos melhores, porém tinha energia demais e “cola de menos no fundilho de minhas calças, entende?” A última vez que se vira forçada a chamá-lo, tinha sido quando os canos estouraram, no penúltimo inverno, em que uma onda gélida fizera a temperatura baixar a vinte graus negativos. Após consertar tudo, ele lhe perguntara se gostaria de “dar uma saída” alguma vez. Roberta declinara polidamente, sendo presenteada por Chiles com uma piscada de olho tendo aspirações a conhecimentos mundanos, mas que de fato mostrava uma quase informe vacuidade. “Não sabe o que está perdendo, doçura”, dissera ele. Tenho certeza absoluta de saber, daí a minha recusa lhe subira aos lábios, porém ela nada havia dito — por menos que o apreciasse, a verdade é que poderia precisar de Chiles novamente, a qualquer momento. Por que será que as respostas realmente apropriadas só surgem de súbito na mente, na vida real, quando não há possibilidade da gente usá-las?

Você poderia tomar uma providência sobre o seu aquecedor de água, Bobbi, disse uma voz em sua mente, a qual não conseguiu identificar. Uma voz de estranho em sua cabeça? Oh, céus, deveria chamar os tiras? É claro que poderia, insistiu a voz. Tudo que precisa fazer seria...

Foi quando a água começou a esquentar — a ficar tépida, pelo menos — e ela esqueceu o assunto do aquecedor. Mexeu a ração de Peter, depois colocou o prato no chão e ficou espiando, enquanto ele comia. Peter vinha demonstrando um apetite bem melhor estes dias.

Eu devia examinar-lhe os dentes, pensou. Talvez você possa voltar para a Gaines Meal. Vintém poupado é vintém ganho, e o público leitor americano não está exatamente abrindo uma trilha até sua porta, meu bem. Além disso...

Quando, precisamente, começara a balbúrdia na clínica?

Roberta meditou nisso cuidadosamente. Não tinha certeza plena, porém quanto mais pensava no assunto, mais lhe parecia que devia ter sido — não com certeza, mas talvez — logo depois que o Dr. Etheridge terminara de examinar a catarata de Peter e largara o oftalmoscópio.

Preste atenção, Watson, a voz de Sherlock Holmes falou subitamente, no compasso rápido, quase pressuroso da fala de Basil Rathbone. O olho reluz. Não... não o olho; a catarata reluz. Entretanto, Roberta Anderson nada repara, embora devesse. Etheridge não a observa e, definitivamente, deveria. Poderíamos afirmar que os animais na clínica veterinária só ficam perturbados, quando a catarata de Peter começa a luzir... somente, permitimo-nos teorizar um pouco mais, quando é reiniciado o processo de cura? Possivelmente. Que o brilho só é visto quando se torna seguro vê-lo? Ah, Watson, eis aqui uma suposição tão amedrontadora quando desautorizada. Porque isso indicaria alguma espécie de...

...alguma espécie de inteligência.

Roberta não gostou do rumo que aquilo estava tomando e tentou sufocá-lo com o velho e confiável conselho: deixe pra lá.

Funcionou desta vez.

Por enquanto.

 

Roberta queria sair e escavar um pouco mais. Seu cérebro anterior não gostou da idéia em absoluto.

Seu cérebro anterior achou que tal idéia era um fiasco.

Deixe isso pra lá, Bobbi. É perigoso.

Correto.

E por falar nisso, o que essa coisa está fazendo a você?

Nada que ela pudesse ver. Entretanto, também não podemos ver o que a fumaça do cigarro faz a nossos pulmões; daí o motivo das pessoas continuarem fumando. O fígado dela talvez estivesse desintegrando-se, as cavidades do coração poderiam estar atacadas pelo colesterol ou ainda seria possível que houvesse ficado estéril. Sem que soubesse, sua medula óssea bem poderia estar descontroladamente produzindo criminosos glóbulos brancos, naquele exato minuto. Por que preocupar-se com uma menstruação prematura, quando poderia ter algo realmente interessante como leucemia, Bobbi?

Não obstante, ela queria continuar escavando, de qualquer jeito.

Esta ânsia, simples e elementar, nada tinha a ver com seu cérebro anterior. Vinha sazonando de algum ponto interno mais profundo. Possuía todas as características de alguma ânsia física — ânsia por sal, por coca, heroína, cigarros ou café. Seu cérebro anterior fornecia a lógica; esta outra parte fornecia um imperativo quase incoerente: Escave, Bobbi, está tudo bem, escave a coisa, escave a coisa, merda, por que não escavá-la um pouco mais, você sabe que quer saber o que é aquilo, portanto, vá escavá-lo até ver o que é, escave, escave, escave...

Através de um esforço consciente, ela podia desligar a voz, mas quinze minutos depois percebia que voltava a ouvi-la, como se fosse um oráculo délfico.

Você precisa contar para alguém o que descobriu.

A quem? À polícia? Negativo. De maneira nenhuma. Então...

Então a quem?

Ela estava no jardim, trabalhando loucamente, um viciado sem a droga...

...então, a alguém investido de autoridade, terminou sua mente.

Seu cérebro direito forneceu a risada sarcástica de Anne, como já previa... porém o riso não teve toda a força que temera. Como uma boa parte de sua geração, Roberta não punha muita fé nisso de “deixe que as autoridades cuidem do assunto”. Sua desconfiança pela maneira como as autoridades manejavam as coisas começara quando tinha doze anos, em Utica. Estava sentada no sofá da sala de estar, com Anne a um lado e sua mãe no outro. Comia um hambúrguer e via a Polícia de Dallas escoltar Lee Harvey Oswald, através de um pátio de estacionamento no subsolo. Havia montes de policiais de Dallas. De fato, havia tantos, que o locutor de televisão, anunciando ao país que alguém tinha matado Oswald à bala, diante de todos aqueles policiais — todas aquelas pessoas investidas de autoridade — parecia não ter a mais vaga suspeita de que algo saíra errado e tampouco do que seria.

Que ela soubesse, os policiais de Dallas tinham desempenhado um trabalho tão espetacular, protegendo John E. Kennedy e Lee Harvey Oswald, que haviam sido incumbidos de cuidar dos distúrbios raciais no verão de dois anos mais tarde e, em seguida, da guerra no Vietnã. Seguiram-se outras incumbências: manejo do embargo do petróleo, dez anos após o assassinato de Kennedy, e negociações que garantissem a liberação de reféns americanos, na embaixada em Teerã. Então, ao ficar evidente que os nativos se recusavam a ouvir a voz da razão e da autoridade, Jimmy Carter enviara os policiais de Dallas para resgatar aqueles pobres sujeitos retidos no Irã — afinal de contas, autoridades que haviam manejado aquele caso da Universidade Estadual de Kent com tamanha segurança e sangue-frio, sem dúvida alguma infundiam confiança para executar o tipo de trabalho que tais indivíduos de Missão impossível efetuavam a cada semana. Bem, a Polícia de Dallas enfrentara certa má sorte neste último caso, mas, de um modo geral, eles tinham a situação sob controle. Tudo que se podia fazer era verificar como a situação mundial ficara infernalmente disciplinada naqueles anos, desde que um homem de camiseta e suspensórios, com Vitalis nos cabelos rareando e gordura de frango frito debaixo das unhas, estourara os miolos de um Presidente que ocupava o assento traseiro de um Cadillac, rodando rua abaixo em uma cidade vaqueira do Texas.

Contarei a Jim Gardener. Quando ele voltar. Gard saberá o que fazer; como manejar isto. Enfim, ele terá algumas idéias.

A voz de Anne: Você vai pedir conselho a um biruta qualificado. Formidável!

Ele não é biruta. Apenas um pouco esquisito.

Sem dúvida... Preso na última demonstração de Seabrook, com uma 45 carregada na mochila. Isso é ser esquisito, claro.

Cale a boca, Anne!

Ela prosseguiu cuidando da plantação. Fez isso ao sol quente de toda aquela manhã, as costas da camiseta molhadas de suor, o espantalho do ano anterior usando o chapéu que ela geralmente punha, a fim de resguardar-se do sol.

Até que finalmente se levantou, pegou a alavanca, as duas pás e partiu para a floresta. Fez uma parada no final de sua horta, a testa franzida e pensativa. Então voltou para pegar uma picareta. Peter estava no alpendre. Ergueu os olhos brevemente, porém não fez qualquer movimento para acompanhá-la.

Roberta não ficou realmente surpresa.

 

Assim, cerca de vinte minutos mais tarde viu-se na elevação, os olhos abaixados para a encosta coberta de mato até a vala que começara a escavar no solo, a fim de desenterrar o que agora acreditava ser uma diminuta seção de uma espaçonave extraterrestre. O vulto cinza daquilo era tão sólido como uma chave de fenda ou chave inglesa, negando sonhos, fantasias e suposições; estava ali. A terra que ela atirara a cada lado, úmida, negra e privativa da floresta, agora tinha um tom castanho-escuro — estava ainda molhada pela chuva da última noite.

Quando descia a encosta, pisou em algo que rangeu como papel de jornal. Não era jornal; era um pardal morto. Uns sete metros mais abaixo havia um corvo morto, os pés comicamente apontados para o céu, como uma ave morta de caricatura. Roberta parou, olhou em torno e viu os corpos de três outros pássaros — mais um corvo, um gaio e um sanhaço escarlate. Sem marcas. Apenas mortos. E sem moscas voejando em torno deles.

Ela chegou à vala e largou as ferramentas na margem. A vala estava lamacenta. Entrou nela assim mesmo, os sapatos de trabalho chapinhando na lama. Inclinando-se, podia ver o liso metal acinzentado que penetrava na terra, ao lado de uma poça.

O que é você?

Colocou a mão sobre aquilo. Uma vibração transmitiu-se à sua pele e, por um momento, pareceu percorrer-lhe o corpo inteiro. Depois cessou.

Virando-se, Roberta pousou a mão em sua pá, sentindo o cabo liso de madeira, ligeiramente aquecido pelo sol. Tinha uma vaga sensação de que não ouvia quaisquer ruídos da floresta, nenhum deles em absoluto... não ouvia pássaros cantando e nem animais movendo-se através do mato rasteiro, distanciando-se do cheiro de um ser humano. Tinha uma noção mais aguda dos cheiros: terra turfosa, agulhas de pinheiro, cascas de árvores e seiva.

Uma voz dentro dela — muito lá no fundo, não vindo da parte direita do cérebro, mas talvez das próprias raízes da mente — gritou de terror.

Está acontecendo alguma coisa, Bobbi, está acontecendo alguma coisa bem AGORA! Caia fora daqui marmota morta pássaros mortos Bobbi por favor por favor POR FAVOR...

Sua mão comprimiu o cabo da pá e tornou a ver exatamente o que desenhara — a borda acinzentada de algo titânico enfiado na terra.

Sua menstruação recomeçara, porém estava despreocupada; havia colocado um absorvente no fundilho das calcinhas, ainda antes de ir trabalhar na horta. Um absorvente tamanho grande. E havia mais meia dúzia em sua mochila, não havia? Ou seria cerca de uma dúzia?

Ela não sabia e nem interessava. Nada a perturbava, nem mesmo a descoberta de que uma parte sua sabia que acabaria ali, a despeito de quaisquer tolas concepções de livre arbítrio, que o resto de sua mente possuiria. Uma luminosa espécie de paz a invadira. Animais mortos... regras que paravam e recomeçavam... chegar preparada, mesmo depois de garantir a si mesma que ainda não fora tomada uma decisão... tudo coisas insignificantes, coisas mínimas, um monte de asneiras. Ela apenas escavaria por algum tempo, escavaria aquela “raiz”, verificaria se havia algo, além de metal de superfície lisa para ver. Porque tudo...

— Tudo está ótimo — disse Bobbi Anderson, em meio àquela quietude inatural.

Então começou a escavar.

 

GARDENER LEVA UMA QUEDA

Enquanto Bobbi Anderson traçava uma forma gigantesca com a ajuda de um compasso e pensava o impensável, com o cérebro mais entorpecido pela exaustão do que percebia, Jim Gardener fazia o único trabalho de que parecia ser capaz naqueles dias. Desta vez, atuava em Boston. A leitura de poesia em 25 de junho, era na Universidade de Boston. Tudo corria bem. O dia 26 seria de folga. Também foi o dia em que Gardener tropeçou — tropeçar, apenas, infelizmente não descrevia de fato o que aconteceu. Não se tratou de algo inconseqüente, como enganchar o pé debaixo de uma raiz, ao caminhar no mato. Foi uma queda que ele levou, uma longa e maldita queda, como levar um trambolhão quebra-ossos, sem despesas pagas, por um comprido lance de escadas abaixo. Escadas? Poxa, sua queda o lançou fora da face da terra.

A queda começou em seu quarto de hotel e foi terminar no quebramar de Arcadia Beach, New Hampshire, oito dias mais tarde.

Bobbi queria escavar (embora, pelo menos temporariamente, fosse afastada disso pelas coisas estranhas que estavam acontecendo à catarata de seu beagle); Gard despertou na manhã do dia 26 querendo beber.

Ele sabia que não existe tal coisa como um “alcoólatra parcialmente controlado”. O sujeito estava bebendo ou não. Ele não estava bebendo agora, o que era bom, mas sempre houvera prolongados períodos em que nem mesmo pensava na bebida. Meses, às vezes. Aparecia em uma reunião dos A.A, ficava pouco à vontade — da maneira como ficava ao derramar o sal e não atirar um punhado por cima do ombro, levantava-se e dizia, “Olá, meu nome é Jim e sou um alcoólatra”. Entretanto, quando a ânsia por bebida desaparecia, isto não soava como verdadeiro. Durante tais períodos, não ficava realmente a seco; Jim podia e tomara um drinque — drincava, em oposição a embriagar-se. Uns dois coquetéis por volta das cinco, caso estivesse em alguma reunião ou jantar da faculdade. Apenas isso, nada mais. Podia também ligar para Bobbi Anderson e convidá-la a sair para uns dois drinques, e tudo bem. Sem problemas.

Então, surgia uma manhã como esta, em que ele acordava querendo ingerir todo o álcool do mundo. Era como sentir uma sede real, uma coisa física — fazia-o evocar aquelas criaturas que Virgil Partch costumava desenhar para o Saturday Evening Post, aquelas em que algum velho e apavorado prospector está sempre cambaleando através do deserto, de língua pendurada em busca de um olho d’água.

Tudo quanto podia fazer quando a ânsia o tomava, era lutar contra ela — agüentar firme, tentar empatar a partida. Por vezes, de fato era melhor encontrar-se em um lugar como Boston, quando isso acontecia, já que teria de comparecer a uma reunião todas as noites — cada uma de quatro horas, tempo que demoravam. Após três ou quatro dias, tudo voltava ao normal.

Geralmente.

Decidiu que simplesmente esperaria a ânsia passar. Ficaria sentado em seu quarto, vendo filmes na TV por cabo, a despesa lançada na conta do hotel. Desde seu divórcio e separação da universidade do Maine, ele vivera aqueles oito anos como Poeta em Tempo Integral, isto significando que passara a viver em uma singular e pequena sub-sociedade, onde a permuta costumava ser mais importante do que dinheiro.

Havia permutado poemas por comida: em certa ocasião, um soneto de aniversário para a esposa de um fazendeiro, em troca de três sacolas de compras com batatas frescas. “É melhor que a maldita coisa também rime”, avisou o fazendeiro, verrumando Gardener com um olho acerado. “Poemas de verdade rimam.”

Gardener sabia aceitar unia sugestão (especialmente quando havia o envolvimento de seu estômago), e então compôs um soneto, tão recheado de exuberantes rimas masculinas, que explodiu em gargalhadas após examinar o segundo rascunho. Ligou para Bobbi, leu o soneto ao telefone e os dois escangalharam-se de tanto rir. A coisa ficava ainda melhor, quando lida em voz alta. Em voz alta, soava como uma carta de amor do Dr. Seuss. Contudo, não fora preciso Bobbi dizer-lhe que, mesmo assim, o soneto era um trabalho honesto, destemperado, mas não condescendente.

Em outra ocasião, uma pequena gráfica de West Minot acedeu em publicar um livro de seus poemas (isto havia sido em princípios de 1983, sendo de fato o último livro de poemas que Gardener publicara), oferecendo sessenta e quatro pés cúbicos de lenha. Gardener aceitara.

— Devia ter exigido oitenta e cinco pés cúbicos — disse-lhe Bobbi essa noite, os dois sentados diante da estufa dela, os pés pousados na grade protetora, fumando cigarros enquanto o vento atirava neve fresca sobre os campos e árvores. — Os poemas são bons. E também são muitos.

— Eu sei — replicou Gardener, — mas sentia frio. Sessenta e quatro pés cúbicos me chegam, até a primavera. — Ele lhe piscou um olho. — Além disso, o sujeito é do Connecticut. Não devia saber que a maioria era lenha de freixo.

Ela deixou os pés caírem ao chão e o encarou.

— Está brincando!

— De jeito nenhum!

Roberta começou a dar risadinhas contidas, ele a beijou com vontade e mais tarde a levou para a cama, tendo os dois dormido juntos, como colheres. Gardener recordava ter acordado uma vez e, ouvindo o vento, pensou em toda aquela escuridão, no frio cortante lá fora, em contraste com o calor daquela cama, impregnada da tranqüila quentura dos dois, abrigados sob dois edredons, e desejou que aquilo pudesse durar para sempre — porém nada era assim. Ele fora criado acreditando que Deus era amor, mas a gente se pergunta o quanto um Deus podia ser amoroso, se fazia homens e mulheres inteligentes o bastante para pousar na lua, mas idiotas o suficiente para precisarem aprender que não existia isso de para todo o sempre.

No dia seguinte, Bobbi tornara a oferecer-lhe dinheiro e ele recusara novamente. Gardener não estava nadando em ouro, mas dava para o gasto. Não pôde conter a pequena fagulha de raiva que sentiu, apesar do tom trivial que ela empregara.

— Não sabe quem se supõe deva receber dinheiro, após uma noite na cama? — perguntou.

Ela empinou o queixo.

— Está me chamando de prostituta?

Ele sorriu.

— Você precisa de um gigolô? Ouvi dizer que isso dá dinheiro.

— E você quer um desjejum, Gard, ou prefere me chatear?

— Que tal as duas coisas?

— Não!

Viu que Bobbi ficara realmente furiosa — céus, cada vez ele estava pior e pior em ver coisas assim, quando antes era tão fácil! Abraçou-a. Eu estava apenas brincando, ela não percebia? pensou. Ela sempre costumava saber quando eu estava brincando. Contudo, Bobbi não percebera que era brincadeira, porque ele não estava brincando. Se Gard pensava o contrário, apenas enganava a si mesmo. Estivera tentando feri-la, porque ela o constrangia Não que a oferta de Bobbi fosse idiota; idiota era o constrangimento dele. Havia mais ou menos escolhido a vida que vinha levando, não havia?

Afinal, não tivera intenção de ferir Bobbi, não tivera intenção de afugentá-la. A parte da cama era ótima, porém não a parte que realmente importava. O de fato importante, era Bobbi Anderson ser uma amiga, mas algo aterrador parecia vir acontecendo ultimamente. A rapidez com que ele ia perdendo amigos. Sem dúvida, algo bastante assustador.

Perdendo amigos? Ou afugentando-os? Como é isso, Gard?

A princípio, abraçá-la era como abraçar uma tábua de passar roupas, e Gard receou que Bobbi fosse rejeitá-lo, que ele cometesse o erro de insistir no abraço, mas por fim ela amoleceu.

— Quero o desjejum — falou, — e dizer que sinto muito.

— Tudo bem — respondeu ela, virando-se antes que ele lhe pudesse ver o rosto. A voz, no entanto, tinha aquela seca fragilidade, indicando que chorava ou estava à beira das lágrimas. — Sempre estou esquecendo que é descortesia oferecer dinheiro a ianques.

Bem, ele ignorava se era descortesia ou não, mas não aceitaria dinheiro de Bobbi. Nunca aceitara, jamais aceitaria.

A Caravana de Poesia da Nova Inglaterra, no entanto, era um outro assunto. Agarre essa galinha morta, teria dito Ron Cummings, que precisava de dinheiro tanto quanto o Papa precisa de um chapéu novo. Não a deixe fugir de sua porta!

A Caravana de Poesia da Nova Inglaterra pagava em dinheiro. Moeda do reino pela poesia — trezentos adiantados e trezentos no final da turnê. O verbo se fez carne, poder-se-ia dizer. Entretanto, ficava subentendido que dinheiro vivo era apenas parte do negócio.

O restante do negócio era A CONTA.

Quando a gente faz uma turnê, tira proveito de cada oportunidade que surge. Pede refeições no quarto ao serviço de copa, corta o cabelo na barbearia do hotel, caso exista uma, leva na viagem o par de sapatos extra (se tivermos algum) e esse par é colocado uma noite do lado de fora, em vez do par de uso regular, a fim de que o extra seja engraxado.

Também há os filmes assistidos no quarto, filmes que jamais se teria a chance de ver em um cinema, porque os cinemas insistem em querer dinheiro, por mais ou menos a mesma coisa que os poetas (inclusive os excelentes) por algum motivo, supostamente devam fornecer de graça ou quase de graça — três sacos de batatas = 1 (um) soneto, por exemplo. Evidentemente, o hóspede paga uma taxa pelos filmes, mas e daí? Nem se precisa anotá-los em A CONTA; algum computador faz isso automaticamente. Tudo quanto Gardener tinha a dizer sobre a questão, era: Deus abençoe e guarde A CONTA, e tragam essas merdas! Ele assistia a tudo, de Emmanuelle em Nova Iorque (achando particularmente artística a elevadora parte em que a garota faz sacanagem com o cara debaixo de uma mesa, no “Windows on the World”; de qualquer modo, a cena certamente elevou parte dele) a Indiana Jones e o templo da perdição e Rainbow Brite and the Star-Stealer.

Pois é justamente o que farei agora, pensou ele, esfregando a garganta e pensando no sabor do bom uísque envelhecido. EXATAMENTE o que vou fazer: Ficar aqui sentado e ver tudo aquilo de novo, inclusive Rainbow Brite. E, para o almoço, vou pedir três cheeseburguers com bacon e comer um deles frio, às três horas. Talvez troque Rainbow Brite por uma soneca. Fico no quarto esta noite. Vou cedo para a cama. E esse negócio acaba.

Bobbi Anderson tropeçou em sete centímetros de uma língua de metal que se projetava do solo.

Jim Gardener tropeçou em Ron Cummings.

Objetos diferentes, resultado idêntico.

Por falta de uma ferradura.

Ron apareceu mais ou menos à mesma hora em que, a uns trezentos e quarenta quilômetros de distância, Roberta e Peter finalmente chegavam em casa, voltando de sua viagem menos do que normal ao consultório do veterinário. Cummings sugeriu que descessem ao bar do hotel e tomassem um ou dez drinques.

— Ou então — prosseguiu Ron, radiosamente, — podemos poupar os preliminares e encher a cara.

Se houvesse exposto a questão mais delicadamente, Gard poderia ter encontrado uma saída. Em vez disso, viu-se no bar com Ron Cummings, levando aos lábios um esplêndido Jack Daniel’s e cochichando para si mesmo o velho dito sobre poder parar quando realmente quisesse.

Ron Cummings era um bom e sério poeta que, por acaso, tinha dinheiro praticamente lhe caindo do traseiro... ou era o que vivia dizendo aos outros. “Sou o meu próprio De Medici”, costumava alegar; “tenho dinheiro praticamente caindo do traseiro”. Sua família estivera no negócio têxtil por uns novecentos anos, sendo proprietária da maioria da parte sul de New Hampshire. Ron era considerado lunático, mas em vista de ser o segundo filho, e porque o primeiro não era lunático (isto é, interessava-se por têxteis), eles deixaram que Ron fizesse da vida o que bem quisesse, isto significando escrever poemas, ler poemas e beber quase constantemente. Era um homem magro, com jeito de tuberculoso, Gardener nunca o vira comer outra coisa além de salgadinhos para acompanhar bebida.

Em benefício de seu duvidoso crédito, Ron não tinha a menor idéia dos problemas pessoais de Gardener com o álcool... ou do fato de que ele quase chegara a matar a esposa, quando embriagado.

— Tudo bem — havia dito Gardener. — Eu topo. Vamos encher a cara!

Após alguns drinques no bar do hotel, Ron sugeriu que dois sujeitos espertos como eles, bem podiam encontrar algum lugar com uma diversão mais excitante do que a música transmitida pelos alto-falantes acima deles.

— Acho que meu coração agüenta — disse Ron. — Quero dizer, não tenho certeza, mas...

— ...Deus odeia covardes — completou Gardener.

Ron deu uma risadinha cacarejada, bateu-lhe nas costas e pediu A CONTA. Assinou com letra floreada e depois acrescentou uma generosa gorjeta de seu dinheiro pessoal.

— Vamos sacolejar o traseiro, meu velho — disse.

Lá foram eles. O sol de final de tarde verrumou os olhos de Gardener como lanças de vidro e, de repente, ele teve a impressão de que aquela podia ser uma má idéia.

— Escute, Ron — começou. — Acho que talvez eu apenas...

Cummings bateu em seu ombro, as faces anteriormente pálidas agora afogueadas, os olhos anteriormente de um azul-aguado agora cintilando para Gard, Cummings estava algo semelhante ao engambelador de Toad Hall, depois de comprar seu automóvel, e cantarolou, lisonjeador:

— Não me venha agora com essa, Jim! Boston jaz à nossa frente, uma cidade tão nova e variada, brilhando como a recente ejaculação da primeira polução noturna de um garoto...

Gardener foi tomado por incontidos acessos de riso.

— Agora já está mais parecido ao Gardener que todos conhecemos e amamos — disse Ron, também entre risadas.

— Deus odeia os covardes — disse Gardener. — Chame um táxi para nós, Ronnie.

Foi então que viu: o funil no céu. Grande, negro e chegando mais perto. Logo estaria em cima dele e o carregaria.

Não para Oz, entretanto.

Um táxi parou junto ao meio-fio. Os dois entraram. O motorista perguntou para onde queriam ir.

— Para Oz — murmurou Gardener.

Ron deu uma risada.

— Ele está querendo dizer, é algum lugar onde se beba depressa e dance ainda mais depressa. Pode dar um jeito nisso?

— Acho que sim — replicou o motorista, começando a rodar.

Gardener passou um braço pelos ombros de Ron e exclamou:

— Que comece a baderna!

— Eu beberei a isso — disse Ron.

Na manhã seguinte, Gardener acordou inteiramente vestido, dentro de uma banheira cheia de água fria. Suas melhores roupas — que tivera a infelicidade de estar usando, quando ele e Ron Cummings haviam partido na véspera — aderiram-se lentamente à pele. Olhou para os dedos e viu que estavam muito brancos e enrugados. Dedos de peixe. Aparentemente, ficara ali dentro um bom período. A água talvez até estivesse quente, quando entrara na banheira. Ele não se lembrava.

Puxou o tampão ralo. Viu uma garrafa de bourbon pousada sobre o tampo do vaso sanitário. Estava pela metade, a superfície pegajosa por algum tipo de oleosidade. Apanhou-a. A oleosidade tinha um vago cheiro de frango frito. Gardener, contudo, estava mais interessado no aroma que vinha de dentro da garrafa. Não faça isso, pensou, mas o bocal da garrafa já batia contra seus dentes, antes que o pensamento estivesse pela metade. Tomou alguns goles. Apagou novamente.

Quando voltou a si, estava em pé em seu quarto, nu e com o telefone encostado ao ouvido, tendo a vaga idéia de que acabara de discar um número. De quem? Só descobriu, quando Cummings atendeu. Cummings dava a impressão de estar ainda pior do que ele, embora Gardener quase jurasse ser algo impossível.

— Até onde foi o estrago? — Gardener se ouviu perguntar. Sempre era assim, quando o ciclone o capturava; mesmo estando consciente, tudo parecia ter a acinzentada e granulosa tessitura de uma foto de tablóide, e ele nunca parecia estar exatamente dentro de si mesmo. Na maior parte do tempo, era como se flutuasse acima da própria cabeça, como um prateado balão de gás de uma criança. — De que tamanho foi a enrascada em que nos metemos?

— Enrascada? — repetiu Cummings, em seguida silenciando. Pelo menos, Gardener achou que ele estava pensando. Esperou que estivesse pensando. Ou talvez temesse a idéia. Aguardou, com as mãos muito frias. — Oh, não houve enrascada nenhuma — disse Cummings por fim, e Gard relaxou um pouco. — Exceto por minha cabeça, quero dizer. Enfie a cabeça em um bocado de confusão. Que coisa!

— Tem certeza? Não aconteceu nada? Absolutamente nada?

Ele estava pensando em Nora.

Baleou sua esposa, bem? uma voz soou repentinamente em sua mente — a voz do comissário com o livro de histórias em quadrinhos. Uma baita enrascada, eh?

— Be-emm... — disse Cummings, pensativamente, depois parando.

A mão de Gardener tomou a se crispar apertadamente sobre o fone.

— Bem, o quê?

De repente, as luzes do quarto estavam ofuscantes. Como a claridade do sol, quando haviam saído do hotel, no final da tarde da véspera.

Você andou fazendo alguma coisa. Apagou estupidamente de novo e fez outra coisa estúpida. Ou coisa louca. Ou coisa terrível. Quando vai aprender a ter juízo? Ou será que aprende?

Um diálogo de filme antigo, chocalhou idiotamente em sua cabeça.

Bandido El Comandante: Amanhã, antes do amanhecer, estará morto, señor! Viu o sol pela última vez!

Corajoso americano: Cedo, mas você será careca pelo resto da vida!

— O que foi? — perguntou a Ron. — O que foi que eu fiz?

— Você começou a discutir com uns caras, em um lugar chamado “Bar e Restaurante The Stone Country” — disse Cummings. Ele riu um pouco. — Nossa! Quando a gente ri e sente dor, sabe que andou abusando. Você se lembra do The Stone Country e daqueles bons e velhos rapazes, James, meu caro?

Ele respondeu que não se lembrava. Esforçando-se bastante, conseguia recordar um estabelecimento chamado Irmãos Smith. O sol tinha acabado de afundar em um caldeirão de sangue e, estando-se em fins de junho, isto significava que deviam ser... quanto? Oito e meia? Quinze para as nove? Seriam umas cinco horas depois que ele e Ron haviam começado, um pouco mais, um pouco menos. Podia recordar que o cartaz do lado de fora mostrava a semelhança dos famosos irmãos das pílulas para tosse. Podia recordar que discutira acaloradamente sobre Wallace Stevens com Cummings, gritando para ser ouvido acima da vitrola automática, então estrondeando algo de John Fogarty. Era até onde chegavam as denteadas bordas das últimas lembranças.

— Era a casa com o adesivo WAYLON JENNINGS PARA PRESIDENTE, colado sobre o bar — disse Cummings. — Isto refresca sua velha cuca?

— Não — disse Gardener, com ar miserável.

— Bem, você começou a discutir com dois dos bons e velhos rapazes. Houve troca de palavras. Foram palavras que primeiro ficaram quentes, depois fervendo. Um soco entrou em cena.

— Dado por mim? — perguntou Gardener, em uma voz que agora era somente fosca.

— Por você — concordou Cummings alegremente. — A essa altura, nós voamos pelos ares com a maior facilidade e aterramos na calçada. Para ser franco, acho que pagamos até bem pouco. Você os deixou espumando pela boca, Jim.

— Foi sobre Seabrook ou Chernobyl?

— Porra, você se lembra!

— Se me lembrasse, não estava perguntando a você qual deles foi.

— Se quer mesmo saber, foram ambos. — Cummings vacilou. — Você se sente bem, Gard? Está soando como se estivesse por baixo.

Não diga! Pois a verdade, Ron, é que estou por cima. No alto do ciclone. Girando e girando, subindo e descendo, indo para onde, ninguém sabe!

— Estou legal!

— Isso é bom. Espero que saiba a quem deve agradecer por isso.

— A você, talvez?

— E a mais ninguém. Cara, eu aterrei naquela calçada, como uma criança aterrando na areia, da primeira vez que desce em um escorrega. É impossível ver meu traseiro no espelho, mas provavelmente deve estar roxo. Aposto como ficou parecido com um daqueles posters berrantes de 69, aqueles coloridos em tons shocking. Acontece que você queria entrar de novo e dizer como todas aquelas crianças nos arredores de Chernobyl iam morrer de leucemia em cinco anos. Você queria contar como alguns caras quase explodiram o Arkansas, procurando fios defeituosos com uma vela, em uma usina de energia nuclear. Você disse que eles botaram fogo no lugar inteiro. Pois eu aposto meu relógio — e é um Rolex — como eles eram sabotadores. A única maneira que encontrei para enfiar você em um táxi foi dizendo que íamos voltar mais tarde e quebrar cabeças. Consegui convencê-lo a ir para seu quarto e preparei a banheira para seu banho. Você disse que estava bem. Disse que ia tomar um banho e ligar para um cara chamado Bobby.

— O cara é uma garota — disse Gardener, com expressão ausente, enquanto esfregava a têmpora direita com a mão livre.

— Boa pinta?

— Interessante. Nada de extraordinário.

Um pensamento errante, disparatado, mas perfeitamente concreto — Bobbi está em apuros — cruzou sua mente, da maneira como uma bola errante de bilhar rola pelo feltro verde e vazio de uma mesa de sinuca. Depois desapareceu.

 

Ele caminhou lentamente até uma poltrona e sentou-se, agora massageando as duas têmporas. As armas nucleares. Claro que tinha sido isso. O que mais poderia ser? E se não fosse Chernobyl, seria Seabrook, e se não fosse Seabrook seria Three-Mile Island, e se não fosse Three-Mile Island, seria a Yankee do Maine, em Wiscasset — ou o que teria acontecido na Usina Hanford, no estado de Washington, se alguém não tivesse percebido, no último instante, que seu rejeito nuclear, estocado em uma vala sem forração, no lado de fora, estava prestes a explodir, em uma magnitude que chegaria ao alto do céu?

Quantos últimos instantes existiriam?

Varetas de combustível nuclear gastas, empilhadas em enormes pilhas perigosas. Eles achavam que a Praga do Rei Tutancâmon era maligna? Caramba! Pois esperem só que algum arqueólogo do século XXV escave uma boa porção desta merda! A gente tenta dizer às pessoas que a coisa toda é uma mentira, nada mais do que uma crua e deslavada mentira, que a energia de geração nuclear eventualmente matará milhões, tornando estéreis e impróprias para a vida vastas extensões de terra... mas o que recebe em troca é uma expressão fosca. Fala-se a pessoas que viveram durante um governo após outro, nos quais seus candidatos eleitos contaram uma mentira depois da outra, depois mentindo sobre as mentiras, e quando essas mentiras eram descobertas, os mentirosos alegavam: “Oh, poxa, eu esqueci, sinto muito” — mas já que tinham esquecido, seus eleitores agiam como cristãos e perdoavam. Era difícil a gente acreditar que tantos desses cretinos preferiam fazer isso, até recordarmos o que P.T. Barnum havia dito sobre a extraordinariamente alta taxa do nascimento de otários. Quando tentamos dizer-lhes a verdade, eles nos olham bem na cara e então nos informam de que estamos recheados de merda, que o governo americano não mente e que não mentir, foi o que tornou grande a América. Oh, caro Padre, estes são os fatos, fiz isso com a minha machadinha, não vou ficar calado só porque fui eu e, além do mais, não posso mentir. Ao tentar-se falar com eles, era como se estivéssemos balbuciando em língua estrangeira. Já fazia oito anos, desde que ele quase matara sua esposa, e três desde que fora detido com Bobbi em Seabrook; Bobbi, sob a acusação geral de demonstração ilegal, Gard, sob uma bem mais específica — posse de arma escondida e sem licença. Os outros pagaram uma multa e foram soltos. Gardener pegou dois meses. Segundo seu advogado, tivera muita sorte. Gardener perguntou a ele se sabia que estava sentado sobre uma bomba-relógio, coçando o saco. O advogado perguntou-lhe se já havia pensado em consultar um psiquiatra. Gardener perguntou-lhe se já havia pensado em tomar no rabo.

Não obstante, tivera senso bastante para não tomar parte em outras demonstrações de protesto. Ficou à distância. Elas o estavam envenenando. Quando se embriagava, no entanto, sua mente — ou o que quer que o álcool deixava na mente — voltava obsessivamente ao tema dos reatores, ao lixo nuclear, aos containers, à incapacidade de ser contido um descontrole, uma vez que o mesmo tivesse começado.

Em outras palavras, aos reatores nucleares.

Quando se embriagava, seu coração fervia. Os reatores nucleares. Os malditos reatores. Era algo simbólico, sim, sem dúvida, ninguém precisava ser Freud para perceber que, em realidade, Gardener protestava contra o reator em seu próprio coração. Quando se tratava da questão de coibição, ele possuía um péssimo sistema de contenção. Dentro dele existia uma espécie de técnico, que há muito devia ter sido demitido. Era um técnico que se punha a apertar todos os botões errados. Esse sujeito só ficaria de fato feliz quando Jim Gardener encarnasse a Síndrome da China.

Os malditos, fodidos reatores nucleares.

Esqueça-os.

Ele tentou. Para começar, procurou pensar na leitura dessa noite, na Universidade do Nordeste — um festejo pleno de divertimento, co-patrocinado pela universidade e um grupo que se autodenominava Amigos da Poesia, um nome que enchia Gardener de temor e tremor. Grupos com tais nomes, em geral eram compostos exclusivamente de mulheres que se consideravam damas (a maioria das ditas damas, com uma persuasão decididamente de cabeleiras azuladas). As damas do clube tendiam a uma familiaridade muito maior com os trabalhos de Rod McKuen, do que com os de John Berryman, Hart Crane, Ron Cummings ou daquele velho e bom bêbado fanfarrão e baleador-de-esposa, chamado James Eric Gardener.

Dê o fora daqui, Gard! Não ligue para a Caravana de Poesia da Nova Inglaterra. Não ligue para a Nordeste, os Amigos da Poesia ou a cretina da McCardle. Dê o fora daqui agora mesmo, antes que alguma coisa ruim aconteça. Alguma coisa muito ruim. Porque se você for ficar vai acontecer alguma coisa realmente ruim. Há sangue na lua!

Entretanto, amaldiçoado fosse ele, se ia fugir para o Maine com o rabo entre as pernas. Não ele!

Por outro lado, havia a cretina.

Chamava-se Patrícia McCardle e, se não era uma emproada cadela de primeira classe, então Gard jamais vira alguma.

Aquela mulher possuía um contrato, no qual estava estipulado que quem não trabalha não ganha.

— Céus! — suspirou ele.

Colocou a mão em cima dos olhos, procurando amenizar a crescente dor de cabeça e sabendo que só existia um tipo de remédio capaz disso, mas também sabendo ser exatamente aquele, o tipo de remédio capaz de produzir a coisa realmente ruim que temia.

E, sabendo ainda, que saber disso não lhe adiantaria coisa alguma. Só depois de algum tempo é que o álcool começava a fluir, desintegrando o ciclone.

No momento, Jim Gardener se via em queda livre.

 

Patrícia McCardle era a contribuinte principal da Caravana de Poesia da Nova Inglaterra e também seu capataz-chefe. Tinha pernas compridas, mas ossudas, o nariz aristocrático era demasiado afilado para que o considerassem atraente. Certa vez, Gard tentara imaginar-se beijando-a e se horrorizara ante a imagem não evocada, que lhe surgia na mente: o nariz dela não apenas deslizava por sua face, mas a cortava como uma navalha. Patrícia McCardle tinha testa alta, seios não-existentes e olhos tão frios como uma geladeira, em dia nublado. Segundo ela, sua ancestralidade alcançava o Mayflower.

Gardener já trabalhara antes para Patrícia McCardle, e antes houvera problemas. Era algo espantosa, a maneira como ele se tornara parte da Caravana de Poesia da Nova Inglaterra em 1988... porém, o motivo de sua abrupta inclusão não era mais ignorado no mundo da poesia do que no mundo do jazz ou do rock and roll. Patricia McCardle se vira com um buraco de última hora em sua anunciada programação, porque um dos seis poetas que haviam sido contratados para aquele feliz cruzeiro de verão enforcara-se com o cinto em seu armário.

— Como Phil Ochs — havia comentado Ron Cummings para Gardener, os dois sentados perto da traseira do ônibus, no primeiro dia da turnê. Falara com um risinho nervoso de garoto-bagunceiro-no-fundo-da-sala-de-aula. — Enfim, Bill Claughtsworth era um repulsivo filho da puta.

Patricia McCardle programara doze datas para leituras e conseguira adiantamentos financeiros razoavelmente bons, em um negócio que, se despido de toda a retórica bombástica, reduzia-se a seis poetas pelo preço de um. Em seguida ao suicídio de Claughtsworth, restavam-lhe somente três dias para encontrar um poeta editado, em uma temporada quando poetas com trabalhos na praça já estavam solidamente comprometidos (“Ou em férias permanentes, como Imbecil Billy Claughtsworth”, disse Cummings, rindo um tanto sem jeito.)

Poucos — se algum — dos grupos comprometidos rejeitariam o pagamento do honorário estipulado, apenas porque a Caravana terminara em falta de um poeta. Fazer isso seria de péssimo gosto, particularmente ao considerar-se o motivo pelo qual a Caravana ficara sem um poeta. Fosse como fosse, isto colocava Caravana & Cia. em uma posição de falha contratual pelo menos tecnicamente, e Patricia McCardle não era mulher para aceitar brechas.

Após tentar quatro poetas, cada um de categoria inferior ao último, e estando a menos de trinta e seis horas da primeira leitura, ela finalmente ligara para um Gardener.

— Você continua bebendo, Jimmy? — perguntara rudemente.

Jimmy — ele odiou isso. Era chamado de Jim pela maioria das pessoas. Jim era legal. Ninguém o chamava de Gard, exceto ele próprio... e Bobbi Anderson.

— Bebendo um pouco — respondeu ele. — Sem dar para cair.

— Estou duvidosa — disse ela com frieza.

— Você sempre esteve, Patty — replicou Gardener, sabendo que ela odiaria isso, ainda mais do que ele odiara o “Jimmy”. O sangue puritano de Patricia McCardle se rebelaria contra isso. — Fez a pergunta por estar em falta de uma garrafa ou existe algum motivo mais premente?

É claro que ele sabia, como era claro que ela sabia que ele sabia, e era claro que ela sabia que ele estava sorrindo e claro isso a deixava furiosa e, claro tudo isto o deixava francamente deliciado e, claro, ela sabia que ele também sabia disso, e era simplesmente o que o deixava encantado.

Altercaram por mais alguns minutos e então chegaram ao que não era um casamento de conveniência, mas por necessidade. Jim Gardener queria comprar uma boa fornalha usada que queimasse lenha, tendo em vista o próximo inverno; estava cansado de viver como um desmazelado, encolhido à frente de uma estufa de cozinha, enquanto o vento chocalhava contra o plástico pregado sobre as janelas; Patricia McCardle queria comprar um poeta. Contudo, não haveria qualquer acordo com aperto de mãos, não com Patricia McCardle. Ela rodara de Darry aquela tarde, levando um contrato (em três vias) e um tabelião. Gard ficara surpreso por ela não ter levado um segundo tabelião, apenas para o caso do primeiro talvez ser vitimado por um ataque das coronárias ou coisa assim.

Sentimentos e premonições à parte, em realidade não havia maneira alguma dele poder abandonar a turnê e conseguir a fornalha a lenha, por que, se abandonasse a turnê, jamais veria a segunda metade de seus honorários. Ela o levaria aos tribunais e gastaria mil dólares, tentando fazê-lo cuspir os trezentos que a Caravana & Cia. pagara adiantadamente. Era bem capaz disso. Gardener já fizera quase todas as leituras que lhe competiam, porém o contrato que assinara era cristalino a respeito: se fosse embora, por qualquer razão inaceitável à Coordenação da Turnê, todos e quaisquer honorários não pagos seriam declarados nulos e inexistentes, e todos e quaisquer honorários antecipadamente pagos deveriam ser devolvidos a Caravana & Cia., dentro de trinta (30) dias.

E ela o perseguiria. Patricia McCardle talvez se considerasse agindo assim por princípios, mas, em realidade, seria por ele a ter chamado de Patty em sua hora de necessidade.

Isso, entretanto, não significaria o fim de tudo. Se Gard fosse embora, ela trabalharia com incansável energia para colocá-lo na lista negra. Sem a menor dúvida, ele jamais faria leituras em outra turnê de poesia a que Patricia McCardle estivesse associada — isto significando uma boa quantidade de turnês de poesia. Havia ainda a melindrosa questão das subvenções. Falecido dez anos antes, o marido lhe deixara um bocado de dinheiro (embora Gard achasse que não se poderia dizer, como no caso de Ron Cummings, que ela tivesse dinheiro praticamente caindo do traseiro, pois não acreditava que Patricia McCardle possuísse algo tão vulgar como um ânus ou mesmo um reto — quando precisasse aliviar-se, provavelmente desempenharia um ato que ele imaginava sendo da Imaculada Excreção). Patricia McCardle reservara uma grande parte desse dinheiro para estabelecer inúmeras subvenções. Isto a tornava, simultaneamente, uma séria patrocinadora das artes e uma mulher de negócios extremamente sagaz, no relacionado ao repelente assunto do imposto de renda: as subvenções eram dedutíveis. Algumas delas financiavam poetas por períodos de tempo específico. Outras destinavam-se a prêmios em dinheiro por poesia ou à subscrição de revistas sobra poesia moderna e ficção. Cada subvenção era administrada por comitês. Por trás de cada um deles movia-se a mão de Patricia McCardle, para certificar-se de que se combinavam tão perfeitamente como um quebra-cabeças chinês... ou os fios de uma teia de aranha.

Ela podia infligir muito mais a ele, do que receber de volta suas sujas seiscentas pratas. Podia amordaçá-lo. E era bem possível — improvável, mas possível — que ele pudesse escrever mais alguns bons poemas, antes que os loucos que haviam enfiado o cano de uma arma no rabo do mundo decidissem puxar o gatilho.

Portanto, vá até o fim, pensou. Havia pedido ao serviço de copa uma garrafa de Johnny Walker (que Deus abençoe A CONTA, para todo o sempre, amém), e agora despejava o segundo drinque, com uma mão que se tornara curiosamente firme. Vá até o fim, eis tudo.

Entretanto, à medida que o dia passava, continuava pensando em pegar um ônibus Greyhound no terminal da Rua Stuart e, cinco horas depois, desembarcar diante da pequena e empoeirada drugstore de Unity. De lá em diante, seguiria de carona. Telefonaria para Bobbi Anderson, dizendo: Quase fui carregado por um ciclone, Bobbi, mas encontrei o abrigo contra tempestades na hora exata. Que sorte, não?

Merda para isso! A gente é que faz a própria sorte! Se você for forte, Gard, terá sorte. Vá até o fim, eis tudo. É o que tem a fazer

Vistoriou sua maleta de lona em busca das melhores roupas que lhe restavam, uma vez que as usadas para as leituras pareciam agora de todo imprestáveis. Retirou um jeans desbotado, uma camisa branca comum, um surrado par de mocassins e um par de meias, que jogou em cima da colcha estirada na cama (obrigado, senhora, mas não precisa arrumar o quarto, eu dormi na banheira). Vestiu-se, comeu alguns salgadinhos, bebeu um pouco, comeu mais salgadinhos, e então tornou a vistoriar a maleta, agora em busca de aspirinas. Encontrou-as e ingeriu algumas. Olhou para a garrafa. Desviou os olhos. A cadência da dor de cabeça estava pior. Sentou-se junto à janela com seu bloco de notas, tentando decidir o que leria essa noite.

À claridade daquela terrível e comprida tarde, todos os seus problemas pareciam escritos em púnico. Em vez de fazer algo positivo por sua dor de cabeça, a aspirina parecia até intensificá-la: bam, bum, baticum, bum. Sua cabeça estremecia a cada batida do coração. Era a mesma e velha dor de cabeça, aquela que parecia uma verruma de aço penetrando lentamente em seu cérebro, em um ponto ligeiramente acima e à esquerda do olho esquerdo. Ele levou as pontas dos dedos à esmaecida cicatriz que ali havia, alisando-a no sentido do comprimento. A placa de aço enterrada debaixo da pele era resultante de um acidente de esqui na adolescência. Evocou o médico dizendo Você talvez sofra de dores de cabeça volta e meia, filho. Quando elas chegarem, apenas agradeça a Deus por sentir alguma coisa Você teve sorte em ficar vivo.

Em momentos como estes, no entanto, ele duvidava.

Duvidava bastante, em momentos como este.

Deixou o bloco de notas a um lado, com a mão trêmula, e fechou os olhos.

Não vou conseguir ir até o fim.

Você pode ir.

Não posso. Há sangue na lua, eu o sinto, quase posso vê-lo.

Não me venha com uma de suas tolices irlandesas! Tome coragem, seu fodido mulherzinha! Coragem!

Vou tentar — murmurou ele, sem abrir os olhos. 

Não percebeu quando, quinze minutos mais tarde, seu nariz começou a sangrar. Tinha adormecido na poltrona.

 

Ele sempre tinha medo do palco antes das leituras, mesmo se o grupo fosse pequeno na platéia (e os grupos que costumavam ouvir recitais de poesia moderna não passavam disso). Na noite de 27 de junho, entretanto, o medo de palco de Jim Gardener foi intensificado por sua dor de cabeça. Quando despertou daquela soneca, na poltrona do quarto do hotel, os tremores e a agitação do estômago haviam desaparecido, mas a dor de cabeça estava pior ainda: era uma tortura absoluta nota 10, talvez a pior de todos os tempos.

Quando finalmente chegou a sua vez de ler, ele pareceu ouvir-se de uma enorme distância. Tinha a sensação de estar ouvindo uma gravação de si mesmo em uma irradiação radiofônica de ondas curtas, transmitida da Espanha ou Portugal. Então, uma onda de vertigem o percorreu e, por alguns momentos, pôde apenas simular que procurava um poema, talvez algum poema em particular, que ficara temporariamente fora de ordem. Folheou papéis com dedos entorpecidos e sem tato, pensando: Vou desmaiar, acho que vou. Bem aqui diante de todos. Cair contra este púlpito e arrastá-lo comigo até a primeira fila de cadeiras. Talvez possa aterrar em cima daquela cona de sangue azul e matá-la. Isso quase faria minha vida inteira valer a pena.

Vá até o fim, respondeu aquela implacável voz interior. Algumas vezes, essa voz parecia a de seu pai, porém com mais frequência assemelhava-se à de Bobbi Anderson. Vá até o fim, eis tudo. É o que tem a fazer.

Naquela noite, a platéia era maior que de costume, havia talvez umas cem pessoas, espremendo-se atrás das carteiras de um auditório da Nordeste. Os olhos dos ouvintes pareciam demasiado grandes. Que olhos grandes você tem, vovózinha! Era como se quisessem comê-los com os olhos. Sugar-lhe a alma, o seu ka, o seu o que quer que quisessem chamar. Ocorreu-lhe um fragmento do velho T. Rex: Garota, sou apenas um vampiro por seu amor... e vou SUGÁ-LA!

Claro que não havia mais T. Rex. Marc Bolan embrulhara seu carro-esporte em torno de uma árvore e tinha sorte por não estar vivo. Ponto para você, Marc! Sem dúvida, deu-se bem. Ou deu-se mal. Ou qualquer coisa. Um grupo chamado Power Station irá gravar sua música em 1986 e a coisa ficará realmente ruim, ela... ela...

Ele levou à testa uma mão vacilante, e um quieto murmúrio percorreu a platéia.

É melhor irem frente, Gard! Os nativos estão ficando inquietos.

Sim, era mesmo a voz de Bobbi, não havia dúvida.

As luzes fluorescentes, incrustadas em retângulos granulados acima de sua cabeça, pareciam pulsar em seu cérebro. Podia ver Patricia McCardle. Usava um vestidinho preto que certamente não custara um centavo além de trezentos dólares — artigo refugado de uma daquelas deselegantes lojinhas da Rua Newbury. O rosto dela era tão estreito, pálido e implacável, como o de qualquer de seus ancestrais Puritanos, aqueles maravilhosos sujeitos amantes de divertimentos, que ficavam mais do que felizes se jogavam alguém em uma cela fedorenta, caso alguém fosse visto saindo no dia de descanso, sem ter no bolso um lenço de assoar. Os olhos escuros de Patricia fixavam-se nele como pedras opacas, e Gard pensou: Ela percebe o que está acontecendo e não podia estar mais satisfeita. Olhem para sua cara. Espera que eu desmorone. E quando eu desmoronar, sabem o que ela estará pensando, não sabem?

Ele sabia, naturalmente.

Aí está o que merece por chamar-me de Patty, seu bêbado filho da mãe! Era isto o que ela estaria pensando. Ai está o que merece por chamar-me de Patty, aí está o que merece por ter feito tudo, exceto forçar-me a ficar de joelhos e suplicar. Portanto, vá em frente, Gardener! Talvez eu até permita que fique com o dinheiro do adiantamento. Trezentos dólares me parecem um preço até muito barato, pelo indescritível prazer de vê-lo explodir diante de toda esta gente. Vá em frente! Vá em frente e acabe logo com isso!

Alguns membros da platéia agora estavam ficando visivelmente inquietos — a demora entre poemas se estendera muito além do que seria considerado normal. O murmúrio se transformara em abafado zumbido. Gardener ouviu Ron Cummings pigarrear nervosamente, atrás dele.

Coragem! gritou novamente a voz de Bobbi, porém a voz agora diminuía de intensidade. Extinguia-se. Estava prestes a desaparecer. Gardener olhou para os rostos na platéia e viu apenas círculos opacos, de um pastoso pálido, cifras, enormes buracos brancos no universo.

O zumbido aumentava. Ele permaneceu em pé diante do púlpito, agora oscilando perceptivelmente, molhando os lábios, fitando os assistentes com uma espécie de aturdido terror. Então, de repente, em vez de ouvir Bobbi, Gardener realmente a viu. A imagem tinha a força de uma visão.

Bobbi estava lá, em Haven, neste momento em que a via. Gardener podia vê-la sentada na cadeira de balanço, usando shorts e um top sobre o que tinha de seios, que não era grande coisa. Os pés calçavam velhos e surrados mocassins e Peter estava enrodilhado diante deles, profundamente adormecido. Bobbi segurava um livro, mas não o lia, porque jazia aberto em seu colo, a capa virada para cima (este fragmento de visão era tão perfeito, que ele até conseguiu ler o título do livro — era Watchers, de Dean Koontz). Ela olhara para o escuro através da janela, ruminando os próprios pensamentos — pensamentos que tinham seqüência, um após o outro, seguindo-se de maneira tão lúcida e racional, como se desejaria que corresse um trem de pensamentos. Sem descarrilar; sem cargueiros atrasados; sem colisões. Bobbi sabia como dirigir uma ferrovia.

Gardener podia, inclusive, saber o que ela pensava, conforme descobriu nesse momento. Era sobre algo na floresta. Algo... alguma coisa que ela descobrira no meio do mato. Sim. Bobbi estava em Haven, tentando decidir o que seria aquela coisa e por que se sentia tão cansada. Não estava pensando em James Eric Gardener, o conhecido poeta que fazia demonstrações de protesto e baleava a esposa no Dia de Graças, que naquele instante se encontrava de pé em um salão de conferências na Universidade do Nordeste, debaixo daquelas luzes com mais de cinco outros poetas e um monte gordo de merda chamada Arberg, Arglebargle ou coisa assim, estando prestes a desmaiar. O Mestre do Desastre presidia aquele salão de conferências. Que Deus abençoe Bobbi, pois de algum modo conseguira manter-se lúcida, enquanto todos à sua volta endoidavam — Bobbi estava lá, em Haven, pensando da maneira como se supunha que as pessoas devessem pensar.

Não, não está. Ela não está fazendo nada disso.

Então, pela primeira vez, foi tomado por um pensamento que lhe chegou sem qualquer envoltório acústico a cercá-lo; chegou tão alto e urgente, como um toque de sinos alertando para um incêndio à noite: Bobbi está em apuros! Bobbi está em SÉRIOS APUROS!

Esta certeza o atingiu com a força de um direto no queixo e, de repente, a vertigem desaparecera. Gardener pareceu cair de volta dentro de si mesmo, com um baque seco que quase pareceu sentir os dentes chocalharem. Uma pontada nauseante de dor dilacerou sua cabeça, porém até isso foi bem-vindo — se sentia dor, é porque voltara para aquele lugar, estava ali, em vez de flutuar em torno de algum lugar no ozônio.

Então, por um intrigante momento, ele viu um novo quadro, muito breve, muito nítido e muito agourento: Bobbi estava na adega da casa que herdara do tio. Acocorava-se diante de alguma peça de maquinismo, trabalhava nela... ou o que fazia? A cena era muito sombreada, a coisa parecia difusa e, por outro lado, Bobbi não era grande coisa para lidar com mecanismos. No entanto, sem sombra de dúvida fazia algo, porque um fantasmagórico fogo azulado saltava e tremulava entre seus dedos, enquanto ela remexia no emaranhado de fios dentro... dentro... estava demasiado escuro para que pudesse ver o que era aquela coisa penumbrosa, de formato cilíndrico Parecia familiar, alguma coisa que ele já vira antes, mas...

De repente, pôde ouvir, tão bem quanto ver, embora o que ouvisse fosse ainda menos confortador do que o espectral fogo azulado. Era Peter. Peter uivava. Bobbi não dava importância, o que absolutamente não era do seu feitio. Ela apenas continuou manuseando os fios, remexendo neles para que fizessem alguma coisa, naquela adega escura, cheirando a raízes...

A visão se desfez, entre um crescente vozerio.

Os rostos que acompanhavam aquelas vozes não eram mais buracos brancos no universo, mas rostos de pessoas reais; alguns mostravam-se divertidos (mas não muitos), outros pareciam embaraçados, porém a maioria estava alarmada ou preocupada. Em outras palavras, a expressão da maior parte era como a oferecida por ele, se sua posição houvesse sido trocada com alguma daquelas pessoas. Teria sentido medo delas? Teria? E, se teria, por quê?

Somente Patricia Mccardle não se ajustava ao quadro. Ela o fitava com uma satisfação quieta e segura, que tivera o dom de fazê-lo cair em si completamente.

Gardener de súbito falou para a platéia, surpreso ao notar como sua voz soava natural e agradável.

— Eu sinto muito. Peço que me desculpem, por favor. Tenho aqui uma batelada de poemas novos e receio ter-me perdido entre eles.

Fez uma pausa. Sorriu. Agora podia ver que alguns rostos perdiam o ar preocupado, pareciam aliviados. Houve risos breves, mas de simpatia, de compreensão. Não obstante, Gardener podia perceber um surto de raiva subindo para as faces de Patricia McCardle, o que fez um mundo de bem à sua dor de cabeça.

— Em realidade — prosseguiu, — a verdade não é bem essa. De fato, eu tentava decidir se devia ou não ler parte deste novo material para vocês. Após uma furiosa arbitragem entre aqueles dois clamorosos pesos-pesados, o Orgulho do Autor e a Prudência, a Prudência ganhou por pontos, mas o Orgulho do Autor pretende apelar da decisão...

Mais risos, mais calorosos. Agora, as bochechas da velha Patty assemelhavam-se à estufa da cozinha dele, através de suas janelinhas de mica, em uma fria noite invernal. Ela estava de mãos entrelaçadas, os nós dos dedos muito brancos. Não arreganhava os dentes inteiramente, mas estava quase, quase chegando a isso, amigos e vizinhos.

— Nesse meio tempo, encerrarei com um ato perigoso: vou ler um poema razoavelmente longo de meu primeiro livro, Grimoire.

Deu uma piscadela na direção de Patricia McCardle e depois envolveu todos os assistentes em sua humorística confidência:

— Deus, no entanto, odeia os covardes, certo?

Ron começou a rir ruidosamente atrás dele, e então todos estavam rindo. Por um instante, Gardener realmente viu um relance dos dentes branco-perolados dela, por trás daqueles lábios distendidos e furiosos, e, poxa, cara, isso tinha sido tão bom quanto você queria, não?

Cuidado com ela, Gard. Você acha que agora tem a bota sobre o pescoço dela, e talvez tenha mesmo, por enquanto, mas cuidado com essa mulher! Ela não vai esquecer.

Nem perdoar.

Bem, isso ficava para mais tarde. Agora, ele abriu o surrado exemplar de seu primeiro livro de poemas. Não precisou procurar “Rua Leighton”, porque o livro se abriu sozinho naquela página. Seus olhos encontraram a dedicatória. À Bobbi, que primeiro descobriu a sabedoria em Nova Iorque.

“Rua Leighton” havia sido escrito no ano em que a conhecera, o ano em que tudo quanto ela sabia falar, era sobre a Rua Leighton. Naturalmente, era a rua de Utica em que Bobbi se criara, a rua de onde tivera que fugir, ainda antes de começar a ser o que pretendia — uma simples escritora de histórias simples. Bobbi podia fazer isso, escrevia com rapidez e facilidade. Gard soubera disso quase imediatamente. Mais tarde nesse ano, pressentira que ela seria capaz de mais: superar a descuidada e dissipadora facilidade com que escrevia e sem nenhum grande esforço, fazer um trabalho audacioso. Primeiro, no entanto, precisava sair da Rua Leighton. Não da real, mas da Rua Leighton que carregava na mente, uma geografia demoníaca, povoada por inquilinos obsessivos, por seu pai amado e doente, por sua mãe amada e fraca e por uma irmã, uma ovelha velha e desafiante, que governava todos eles como um demônio de poder interminável.

Naquele ano, certa vez ela pegara no sono durante a aula — Composição para Calouros, era o que tinha sido. Gardener se mostrara gentil com ela, pois já a amava um pouco e tinha percebido os enormes círculos abaixo de seus olhos.

— Venho tendo problemas para dormir à noite — aplicou, quando ele a reteve por um momento, terminada a aula. Ainda estava meio adormecida, pois do contrário nada diria além disso, a tal ponto era forte a influência de Anne sobre ela — que era a influência da Rua Leighton. Entretanto, Bobbi era como uma pessoa que foi drogada, e existe com uma perna caída a cada lado do escuro e pétreo muro do sono. — Mal pego no sono, começo a ouvi-la.

— Quem? — perguntou ele suavemente.

— Sissy... minha irmã Anne, quero dizer. Ela range os dentes e isso tem um som de os-os-os...

Ela queria dizer ossos, mas então despertou para um acesso de choro histérico, que o tinha deixado bastante amedrontado.

Anne.

Mais do que qualquer coisa, Anne era a Rua Leighton.

Anne havia sido.

(batidas à porta)

a mordaça sobre as carências e ambições de Bobbi.

Multo bem, pensou Gard. Por você, Bobbi. Somente por você. E começou a ler “Rua Leighton”, tão tranqüilamente, como se houvesse passado a tarde ensaiando o poema em seu quarto.

 

“Aquelas ruas começam onde as lajes

emergem no asfalto como as cabeças

de crianças mal sepultadas em suas tramas,

 

Gardener leu.

 

“Que lenda é esta?

perguntamos, porém

as crianças que jogam bola e

pulam carniça por ali, apenas riem.

Não há lenda, dizem todas, não há lenda,

apenas dizem todas, ei, bobão, por aqui

nada existe além da Rua Leighton,

nada existe além de casas pequeninas

de alpendres nos fundos, onde nossas mães

lavam coisas e passam o tempo.

 

Onde os dias ficam quentes

e elas ouvem rádio ao longo da Rua Leighton,

enquanto fluem pterodáctilos entre antenas de TV

sobre o teto, e todas dizem, ei, bobão, dizem todas,

Ei, bobão!

 

Não há lenda, dizem todas, não há lenda,

apenas dizem todas, ei, bobão, por aqui

nada existe além da Rua Leighton

 

Isto, dizem todas, é como você silencia em seu silêncio

de dias, Bobão.

 

Ao virarmos as costas àquelas estradas

ao norte do estado,

armazéns com fachadas de tijolos descorados,

ao dizermos, ‘Ó, mas eu cheguei ao fim

de tudo que conheço, porém ainda ouço rangendo,

rangendo dentro da noite...’ ”

 

Como fazia muito tempo desde a última vez que lera o poema, mesmo para si próprio, não apenas o “representou” (algo que, tinha descoberto, era quase impossível deixar de fazer, no final de uma turnê como aquela) — ele o redescobriu. A maioria dos presentes ao recital da Nordeste aquela noite — inclusive os que testemunharam a sórdida e repelente conclusão da noitada — concordou em que a leitura de “Rua Leighton”, por Gardener, havia sido o melhor do espetáculo. Muita gente afirmou ter sido aquilo o melhor que já ouvira.

Assim, posto ser essa a última leitura que Jim Gardener faria na vida talvez não tivesse sido uma forma mão ruim de afastar-se.

 

Ele levou quase vinte minutos para ler todo o poema e, ao terminar, ergueu os olhos incertamente, fixando-os em um profundo e perfeito poço de silêncio. Teve tempo para pensar que nunca havia lido realmente a maldita coisa, que tudo fora apenas uma vivida alucinação, um ou dois momentos antes de desmaiar.

Então, alguém se levantou, começando a bater palmas, firme e vigorosamente. Era um rapaz, com lágrimas nas faces. A moça ao lado dele se levantou também, batendo palmas. E também ela chorava. Em seguida, estavam todos de pé e aplaudindo, sim, ofereciam-lhe uma gigantesca e entusiástica ovação. No rosto daquelas pessoas, Gardener viu o que cada poeta ou futuro poeta espera ver, ao término de seu recital: a expressão de indivíduos subitamente despertados de um sonho, mais vivido do que qualquer realidade. Pareciam todos tão aturdidos como estivera Bobbi naquele dia, não muito certos de onde se encontravam.

Gardener viu, no entanto, que nem todos estavam de pé e aplaudiam; Patricia McCardle permanecia rígida e ereta em sua cadeira da terceira fila, as mãos entrelaçadas apertadamente no colo, sobre a pequena bolsa de noite. Os lábios estavam fechados. Não havia agora a menor insinuação dos velhos dentes branco-perolados; sua boca se tornara um pequeno corte incruento. Gard sentiu uma fatigada satisfação. No que lhe diz respeito, Patty a verdadeira ética puritana é de que ninguém sendo uma ovelha negra ousaria elevar-se acima de seu respectivo nível de mediocridade, correto? Entretanto, em seu contrato não existe cláusula sobre a mediocridade, existe?

— Obrigado — murmurou ele ao microfone.

Enquanto falava, ia juntando seus livros e papéis em uma pilha confusa, com mãos trêmulas — e então quase deixando tudo cair ao chão, no momento em que começou a afastar-se da tribuna. Arriou o corpo no assento ao lado de Ron Cummings, com um profundo suspiro.

— Meu Deus — sussurrou Ron, ainda aplaudindo. — Meu Deus!

— Pare de bater palmas, seu idiota — cochichou Gardener de volta.

— Uma merda que vou parar! Pouco me importa quando você o escreveu, mas esteve infernalmente brilhante — disse Cummings. — Mais tarde faço questão de lhe pagar um drinque.

— Esta noite não bebo nada mais forte do que club soda — disse Gardener, e sabia que era mentira.

Sua dor de cabeça já rastejava de volta. A aspirina não curaria isso, o Percodan tampouco ou um depressivo. Nada endireitaria sua cabeça, além de uma boa quantidade de álcool. Para alívio breve, rápido.

Os aplausos finalmente começaram a morrer. Patricia McCardle se mostrava gelidamente grata por isso.

 

O nome do monte gordo de merda que fora apresentado a cada poeta era Arberg (embora Gardener insistisse em chamá-lo Arglebargle). Tratava-se do professor-assistente de Inglês e chefiava o grupo patrocinador sendo a espécie de homem que seu pai teria denominado um “balofo filho da mãe”.

O balofo filho da puta daria uma festa em sua casa para a Caravana, os Amigos da Poesia e a maior parte do pessoal do Departamento de Inglês, após a leitura. A festa começou pelas onze horas. Um tanto formal no início, com homens e mulheres formando desconfortáveis grupinhos em pé, segurando copos e pratos de papel exibindo o tipo costumeiro da cautelosa conversa acadêmica. Quando lecionava, Gard considerara aquela espécie de hipocrisia uma idiota perda de tempo. Ainda pensava assim, porém agora havia algo de nostálgico e agradável em tais reuniões — embora de maneira melancólica.

Sua característica de Colosso da Festa lhe dizia que, formal ou não, aquela seria uma Festa com Possibilidades. Por volta de meia-noite, os estudos de Bach seriam quase certeiramente substituídos pelos Simuladores, cujas conversas sobre aulas, política e literatura passariam para tópicos mais interessantes — o desempenho esportivo dos Red Sox, quem andava bebendo além da conta na faculdade e o tema favorito de todos os tempos, quem estava trepando com quem.

Havia um grande bufê, para onde a maioria dos poetas rumava em linha reta, confiadamente seguindo a Primeira Norma para Poetas em Turnê, da autoria de Gardener: Se for grátis, agarre. Enquanto ele espiava, Ann Delaney, que escrevia secos e obsessivos poemas sobre a classe operária rural da Nova Inglaterra, escancarava os maxilares ao máximo e enfiava na boca o enorme sanduíche que segurava. Maionese da cor e tessitura de sêmen de touro escorreu por entre seus dedos, o que ela lambeu despreocupadamente. Deu uma piscadela para Gardener. À esquerda de Ann, o ganhador do Prêmio Hawthorne da Universidade de Boston, no ano anterior (por seu longo poema Harbor Dreams 1650-1980), entupia a boca de azeitonas verdes, em supersônica velocidade. Tal indivíduo, Jon Evard Symington de nome, fazia pausas apenas suficientes para enfiar punhados de rodinhas embrulhadas de queijo Bonbel em cada bolso do paletó-esporte de veludo cotelê (naturalmente, com reforços nos cotovelos), para então retornar às azeitonas.

Ron Cummings trotou para onde Gardener se encontrava de pé. Como sempre, não estava comendo. Tinha na mão um copo que parecia cheio de uísque puro. Fez um gesto de cabeça para o bufê.

— Comilança de primeira! Se você é um connoisseur de salsichão Kirschner’s e de alface batávia, está por dentro da situação, irmão.

— Esse Alglebargle sabe viver — disse Gardener.

No ato de beber, Cummings riu tão alto e forte, que seus olhos esbugalharam-se.

— Você está caminhando para a popularidade esta noite, Jim. Alglebargle. Céus!

Ele olhou para o copo na mão de Gardener. Continha vodca e tônica — uma dose fraca, mas já a segunda, o que era uma diferença.

— Água tônica? — perguntou Cummings, timidamente — Água tônica pura?

— Bem... a maioria.

Cummings tornou a rir, e afastou-se.

Quando alguém desligou Bach e passou para coisas mais triviais, Gard já ia pelo quarto drinque — neste, ele pediu ao barman, que estivera presente à leitura, que castigasse mais na vodca. Então, ele começara a repetir dois comentários que lhe pareciam tão mais sagazes, quando mais embriagado ficava: primeiro, que se você era um connoisseur de salsichão Kirschner’s e de alface batávia, está por dentro da situação, como este aqui, irmão, e segundo, que todos os professores-assistentes eram como os Práticos Personagens de T. S. Eliot, pelo menos em um modo: todos eles possuíam nomes secretos. Gardener confiou haver intuído o nome secreto de seu anfitrião: Alglebargle. Retornou para um quinto drinque e disse ao barman que apenas acenasse com a garrafa de tônica, diante da boa e velha dose em seu copo — isso seria ótimo. O barman meneou solenemente a garrafa de Schewppes diante do copo de vodca de Gardener. Gardener riu até as lágrimas lhe saltarem dos olhos e seu estômago doer. De fato, sentia-se excelente essa noite... e quem mereceria mais, senhoras e senhores? Lera um poema melhor do que havia lido em anos, talvez durante a vida inteira!

— Sabe de uma coisa? — disse ao barman, um pós-graduado necessitado, que havia sido contratado especialmente para a ocasião. — Todos os professores-assistentes são, em certo sentido, como os Práticos Personagens de T. S. Eliot.

— É mesmo, Sr. Gardener?

— Jim. Apenas Jim.

Entretanto, pela expressão nos olhos do rapazinho, Gardener percebeu que jamais seria apenas Jim para ele, que o vira brilhar essa noite. E, homens que brilham nunca podem ser algo tão mundano como apenas Jim.

— É isso aí — disse ao rapazinho. — Cada um deles tem um nome secreto. Eu intuí qual seria o de nosso anfitrião. É Alglebargle. Como o som que a gente faz, gargarejando com a velha Listerine. — Gardener fez uma pausa, refletindo. — Agora que pensei nisto, trata-se de algo de que o cavalheiro em questão poderia usar uma boa dose...

Gardener riu, bastante alto. Era uma excelente adição à confiança básica. Como adicionar ao capô de um belo carro um enfeite de bom gosto, pensou, tornando a rir. Desta vez, algumas pessoas olharam em torno, antes de retornarem à sua conversa.

Alto demais, pensou ele. — Baixe o controle de volume, Gard, meu velho. Sorriu largamente. Considerando que estava vivendo uma daquelas noitadas mágicas — inclusive seus malditos pensamentos eram divertidos naquela noite.

O barman também sorria, mas com certa preocupação.

— Devia tomar cuidado com o que diz sobre o Professor Arberg — aconselhou ele — ou a quem disser. Ele... bem, é um tanto truculento.

— Oh, é mesmo? — Gardener girou os olhos nas órbitas e movimentou energicamente as sobrancelhas, para cima e para baixo, como Groucho Marx. — Bem, ele tem corpulência para isso. Um balofo filho da mãe, não é mesmo? — Entretanto, ao dizer isso, tomou o cuidado de manter a voz baixa.

— Exato — disse o barman. Olhou em torno, depois inclinou-se sobre o balcão do bar improvisado, na direção de Gardener. — Há uma história de que ele ia passando perto da sala dos assistentes em pré-graduação, o ano passado, quando ouviu um deles dizer, em tom de piada, que sempre quisera estar ligado a uma escola onde Moby Dick não fosse apenas um clássico insosso, mas um real membro da faculdade. Esse cara era um dos mais promissores alunos de Inglês que a Nordeste já teve, segundo ouvi dizer. No entanto, teve que sair antes de terminado o semestre. Como tiveram que sair, todos os que riram da piada. Os que não riram, ficaram.

— Minha nossa! — exclamou Gardener.

Já ouvira histórias semelhantes antes — uma ou duas delas eram ainda piores — porém ficou desgostoso. Seguiu o olhar do barman e viu Alglebargle no bufê, em pé ao lado de Patrícia McCardle. Alglebargle tinha uma caneca de cerveja em uma das mãos e gesticulava com ela. Sua outra mão mergulhava batatas fritas em uma tigela de pasta de camarão e depois as passava para a boca, que continuava falando enquanto mastigava as batatas. Gardener não se lembrava de já ter visto algo tão absolutamente repulsivo. No entanto, a extasiada atenção da cadela McCardle sugeria que, a qualquer momento, ela poderia cair de joelhos e praticar felação no sujeito, por pura adoração. Gardener pensou, e o fodido balofo continuaria comendo tranqüilamente enquanto ela fazia isso, deixando cair migalhas de batata frita com glóbulos de pasta de camarão nos cabelos dela.

— Minhas tripas se revoltam — disse ele, despejando preguiçosamente na boca metade de sua vodca sem tônica. A bebida mal queimava... o que queimava era a primeira real hostilidade da noite — o primeiro batedor daquela fúria muda e inexplicável que o perseguia, quase desde que começava a beber. — Refresque isto aqui, está bem?

O barman despejou mais vodca no copo e disse, timidamente:

— Achei que sua leitura desta noite foi maravilhosa, Sr. Gardener.

Gardener ficou absurdamente comovido. “Rua Leighton” havia sido dedicado a Bobbi Anderson, e aquele rapazinho atrás do bar — mal tendo idade suficiente para beber legalmente — o fez recordar Bobbi, como ela era ao chegar à universidade.

— Obrigado.

— Tem que tomar certo cuidado com essa vodca — disse o barman. — Ela tem um jeito de enganar a gente.

— Estou no controle — disse Gardener, dando para ele uma piscadela tranqüilizadora. — Visibilidade de dez quilômetros ao infinito.

Afastou-se um pouco do balcão do bar, a fim de tornar a olhar para o balofo filho da mãe e a McCardle. Os olhos dela encontraram os seus e Patrícia o encarou fixamente, fria e sem sorrir, os olhos azuis parecendo pedras de gelo. Coce meu saco, sua putinha fingida, pensou ele, e ergueu seu drinque para ela, em um grosseiro cumprimento de botequim, enviando-lhe ao mesmo tempo um largo e insultante sorriso.

— Apenas tônica, certo? Tônica pura.

Gardener olhou em torno. Ron Cummings surgira ao seu lado, tão subitamente como o diabo. E seu sorriso era adequadamente diabólico.

— Não enche! — disse Gardener, e mais pessoas se viraram para olhar.

— Jim, meu velho...

— Já sei, já sei, baixe o controle do volume — murmurou.

No entanto, podia sentir aquela pulsação na cabeça ficando cada vez mais forte, mais insistente. Não era como as dores de cabeça preditas pelo médico, em seguida ao seu acidente; não provinha da frente da cabeça, mas de algum ponto profundo, atrás. E não doía.

Na verdade, chegava a ser agradável.

— Você conseguiu — disse Cummings, com um gesto quase imperceptível de cabeça para McCardle. — Ela está fula com você, Jim. Adoraria tirá-lo da turnê. Não lhe dê um motivo!

— Vá foder a cadela!

— Faça isso você — replicou Cummings. — Câncer, cirrose do fígado e danos cerebrais são resultados estatisticamente provados do excesso de bebida, de maneira que até posso esperá-los em meu futuro. Se uma dessas coisas me cair na cabeça, só posso culpar a mim mesmo. Em minha família há casos de diabetes, glaucoma e senilidade prematura... mas hipotermia do pênis? Oh, posso passar sem isso. Com sua licença.

Gardener ficou quieto um momento, intrigado, espiando Cummings afastar-se. Então, entendeu o espírito da coisa e se dobrou de rir. Desta vez, as lágrimas não lhe ficaram apenas nos olhos — de fato lhe rolaram pelas faces. Pela terceira vez naquela noite, os outros olhavam em sua direção — um homem grandalhão, em roupas um tanto surradas, com um copo repleto do que parecia suspeitosamente vodca pura, em pé sozinho e rindo com quantas forças tinha.

Tampe isso, pensou ele. Baixe o volume, pensou. Hipotermia do pênis, pensou, e tornou a gargalhar como louco.

Aos poucos, conseguiu recuperar o controle. Encaminhou-se para o estéreo, na outra sala — era onde geralmente podiam ser encontradas as pessoas mais interessantes em uma reunião. Pegou uns dois canapés em uma bandeja e os engoliu. Tinha a forte impressão de que Arglebargle e McCarglebargle continuavam a olhá-lo, e que McCarglebargle fornecia a Arglebargle uma ficha completa a seu respeito, em pequenas frases contidas, sem que aquele frio e enlouquecedor sorrisozinho lhe abandonasse o rosto. Você não sabia? É a pura verdade — ele a baleou. Bem no rosto. Ela lhe disse que não faria acusações se ele lhe desse um divórcio amigável. E quem sabe se foi a decisão acertada ou não? Ele não tornou a balear mulheres... pelo menos, ainda não. Entretanto, por melhor que tenha lido o poema esta noite após aquele lapso excêntrico, quero dizer — é um indivíduo instável e, como pode ver, não consegue controlar-se na bebida...

É bom ficar atento, Gard, pensou ele e, pela segunda vez naquela noite, chegou-lhe um pensamento em uma voz que era muito semelhante à de Bobbi. Sua paranóia está transparecendo. Pelo amor de Deus, eles não estão falando de você!

Chegando à porta, ele parou e olhou para trás.

Eles olhavam diretamente em sua direção.

Sentiu-se constrangido, foi percorrido por amedrontadora onda de choque... e então se forçou a outro largo e insultante sorriso, enquanto erguia o copo para os dois.

Vá embora daqui, Gard. Isto pode dar confusão. Você está bêbado! Estou no controle, não se preocupe. Ela quer me ver pelas costas, daí o motivo de ficar olhando para mim, daí o motivo de estar dizendo para aquele desgraçado tudo que sabe a meu respeito — que baleei minha esposa, que fui detido em Seabrook com uma arma carregada em minha mochila... Ela acha que manifestantes contra a energia nuclear, bêbados, simpatizantes dos comunistas e baleadores de esposas não devem ser o autor mais infernalmente grande da noite. Só que eu não esquento. Não há problema, meu bem. Eu apenas vou resistir, acabar com a aguardente, tomar algum café e ir cedo para casa. Não há problema.

E, embora ele não tomasse nenhum café, não fosse cedo para casa e, claro, não acabasse com a aguardente, ainda se manteve contido por uma hora ou coisa assim. Baixava o volume, sempre que se percebia começando a falar mais alto, e procurava conter-se, ao ouvir-se fazendo o que sua esposa tinha chamado de arengar. “Quando você fica bêbado, Jim,” dizia ela, “um dos seus problemas — não o menor — é uma tendência a parar de conversar e começar a arengar.”

Ficou a maior parte do tempo na sala de estar de Arberg, onde os reunidos eram mais jovens e não tão cautelosamente pomposos. A conversa deles era animada, alegre e inteligente. O pensamento dos reatores nucleares brotou na mente de Gardener — em horas semelhantes sempre acontecia isso, como um corpo em decomposição flutuando à superfície, em resposta ao fogo de artilharia. Em horas semelhantes — e, neste estágio de bebedeira, costumava emergir a certeza de que devia alertar aquela juventude, o problema traçava seu caminho no calor da raiva e da irracionalidade, como algas apodrecidas. Era sempre assim. Os últimos oito anos de sua vida haviam sido ruins e os últimos três tinham-se tornado uma fase de pesadelo, na qual ele ficara inexplicável para si mesmo e deixara atemorizados quase todos aqueles que de fato o conheciam bem. Quando Gardener bebia, essa fúria, esse terror e, principalmente sua incapacidade em explicar o que acontecia, inclusive a si mesmo — encontravam uma válvula de escape no tema dos reatores nucleares.

Esta noite, no entanto, mal havia tocado no assunto, quando Ron Cummings entrou na sala cambaleando, o rosto fino e emagrecido brilhando com uma tonalidade febril. Bêbado ou não, Cummings ainda era perfeitamente capaz de perceber como o vento soprava. Com sagacidade fez a conversa retornar à poesia. Gardener lhe ficou vagamente grato, porém também sentiu raiva. Era irracional, mas estava presente: sua tomada de posição lhe fora negada.

Assim, em parte graças ao severo controle que impusera a si mesmo e em parte devido à oportuna intervenção de Ron Cummings, Gardener evitou problemas até a festa de Arberg estar quase no fim. Mais uma meia hora e o problema seria inteiramente evitado... pelo menos, nessa noite.

Entretanto, quando Ron Cummings começou a arengar sobre os poetas beat, com sua costumeira e cortante inteligência, Gardener retornou à sala de refeições para outro drinque e talvez algo do bufê para mastigar. O que se seguiu, poderia ter sido programado pelo demônio, com um senso de humor particularmente maligno.

— Tão logo tenhamos a Iroquois totalmente equipada, vocês podem contar com o equivalente a três dúzias de bolsas de estudo integrais para distribuir — dizia uma voz, à esquerda de Gardener.

Ele olhou em torno tão subitamente, que quase entornou sua bebida. Na certa, devia ter imaginado aquela conversa — era coincidência demais para que fosse real.

Havia meia dúzia de pessoas agrupadas em uma extremidade do bufê — três homens e três mulheres. Um dos casais era a Mundialmente Famosa Dupla de Vaudeville, Arglebargle e McCarglebargle. O homem que falava assemelhava-se a um vendedor de carros, com melhor bom gosto nas roupas do que a maioria de seus colegas. Sua esposa estava ao lado. Era atraente, mas de uma forma fatigada, com os desbotados olhos azuis aumentados pelas lentes grossas dos óculos. Gardener viu uma coisa imediatamente. Ele podia ser um alcoólatra e obcecado por aquele tema único, mas sempre fora e ainda era um sagaz observador. Aquela mulher dos óculos de lentes grossas, percebia que seu marido estava fazendo exatamente aquilo que Nora acusara o próprio Gard de fazer nas festas, ao ficar bêbado: arengava. Ela queria afastá-lo dali, mas até então não descobrira como.

Gardener tornou a dar uma olhada e adivinhou que os dois tinham oito meses de casados. Talvez um ano, porém oito meses era uma suposição mais acertada.

O homem que falava, devia ser alguma espécie de figurão na companhia de energia elétrica, a Bay State Electric. Tinha que ser a Bay State, porque a Bay State possuía a mamata que era a usina de Iroquois. O sujeito a fazia parecer a maior coisa existente, desde o pão em fatias, e como parecia realmente acreditar no que dizia Gardener decidiu que seria um figurão de pequeno escalão, talvez até mesmo uma pequena roda na engrenagem ou inclusive um pneu sobressalente. Em sua opinião, era duvidoso que o pessoal da cúpula fosse tão fanático sobre a Iroquois. Mesmo deixando de lado a energia nuclear por um momento, restava o fato de que a Iroquois estava com um atraso de cinco anos em sua complementação, além do fato de que três cadeias de bancos interligados na Nova Inglaterra dependiam do que aconteceria, quando — e se — ela fosse completada. Estavam todos atolados até o peito em areias movediças radioativas e papelório comercial. Era como algum alucinado jogo de cadeiras musicais.

Naturalmente, os tribunais finalmente haviam concedido à companhia uma permissão para começar a colocar carga nos “bastões envenenados” um mês antes, e Gardener supôs que os desgraçados, com isso, respiravam um pouco mais aliviados.

Arberg ouvia, em solene respeito. Não era membro do conselho diretor da faculdade, mas qualquer um acima do cargo de instrutor saberia o suficiente para adular um emissário da Bay State Electric, mesmo sendo este um pneu sobressalente. Grandes entidades privadas, como a Bay State, podiam fazer muito por uma escola, se assim quisessem.

Aquele Kilowatt Vermelhão seria um Amigo da Poesia? Devia ser tanto quanto, suspeitava Gard, ele próprio era um Amigo da Bomba de Nêutrons. A esposa dele, no entanto — aquela de óculos grossos e de cansado rosto bonito — bem, ela parecia ser uma Amiga da Poesia.

Certo de que isso seria um terrível erro, Gardener vagou dali. Usava um agradável sorriso de festa-quase-no-fim-para-mim, porém a pulsação em sua cabeça era mais rápida, centralizando-se no lado esquerdo. A velha e incontida raiva crescia em uma onda vermelha. Você sabe o que está dizendo? era quase tudo que seu coração conseguia gritar. Havia argumentos lógicos contra usinas de energia nuclear, que ele poderia expor, mas em momentos como aquele, podia apenas encontrar o grito inarticulado de seu coração.

Você sabe o que está dizendo? Sabe quais são os riscos? Nenhum de vocês recorda o que aconteceu na Rússia, dois anos atrás? Eles lá não esqueceram; não podem esquecer: Estarão sepultando as vítimas do câncer, ainda no próximo século. Meu Deus do céu! Cara, enfie em seu traseiro um daqueles bastões de núcleo usados, durante meia hora ou coisa assim, e depois diga a todo mundo o quanto é segura a fodida energia nuclear, quando sua bosta começar a cintilar no escuro! Meu Deus! MEU DEUS! Vocês, seus idiotas, ficam aí parados, ouvindo esse homem fa1ar, como se ele fosse lúcido!

Ele ficou parado, de copo na mão, sorrindo agradavelmente, enquanto ouvia o pneu sobressalente cuspir suas mortíferas tolices.

O terceiro homem do grupo teria uns cinquenta anos e parecia um deão de universidade. Ele queria saber sobre a possibilidade de mais manifestações de protesto organizadas para o outono. Chamava o pneu sobressalente de Ted.

Ted, o Homem Energia, disse duvidar muito que houvesse preocupações a respeito. Seabrook tivera a sua época, e a instalação de Arrowhead, no Maine, também, mas desde que os juízes federais tinham começado a impor severas sentenças pelo que eles consideravam apenas agitação, as manifestações de protesto tinham declinado com rapidez.

— Esses grupos escolhem alvos quase tão depressa quanto escolhem conjuntos de rock — disse ele,

Arberg, McCardle e os outros riram — todos exceto a esposa de Ted, o Homem Energia. Seu sorriso apenas desgastou-se um pouco mais.

O sorriso agradável de Gardener permaneceu. Ele o sentia como que congelado sobre o rosto.

Ted, o Homem Energia, ficou mais expansivo. Disse já ser hora de mostrar aos árabes, de uma vez por todas, que a América e os americanos não precisavam deles. Disse que mesmo os mais modernos geradores tendo carvão como combustível eram sujos demais para que o Departamento de Proteção Ambiental os aceitasse. Disse também que a energia solar era excelente... “enquanto o sol brilhar”. Houve outro surto de risadas.

A cabeça de Gardener batia e estalava, estalava e batia. Os ouvidos, sintonizados a uma nota quase preternatural, captavam um fraco som crepitante, como de gelo rachando, e relaxou a mão um breve segundo, antes de tornar a crispá-la, com força suficiente para estilhaçar o copo.

Piscou várias vezes e viu que Arberg tinha a cabeça de um porco. A alucinação foi absolutamente completa e absolutamente perfeita, abrangendo até as cerdas no focinho do gorducho. O bufê estava em ruínas, mas Arberg o vasculhava, procurando liquidar os salgadinhos restantes, espetando uma fatia final de salame e um pedacinho de queijo no mesmo palito de plástico, arrematados com as últimas migalhas de batata frita. Tudo isso foi terminar em seu focinho farejante, e ele continuava assentindo todo o tempo, enquanto Ted, o Homem Energia, explicava que, em realidade, a última alternativa era a nuclear.

— Graças a Deus, o povo americano finalmente enquadrou aquele negócio de Chernobyl em alguma espécie de perspectiva — disse ele. — Trinta e duas pessoas mortas. É horrível, sem dúvida, mas faz apenas um mês, houve um desastre de aviação que matou cento e noventa e tantas. No entanto, vocês não ouviram ninguém gritar para o governo fechar as linhas aéreas ouviram? Trinta e dois mortos é terrível, porém muito longe do Apocalipse que esses adversários da energia nuclear querem fazer parecer. — Ele baixou um pouco a voz. — Eles são tão maníacos como a gente de LaRouche que vemos nos aeroportos mas, de certa forma, são ainda piores. Soam mais racionais. Entretanto, se lhes déssemos o que queriam, dariam meia volta um mês mais tarde e começariam a choramingar que não eram capazes de usar secadores de cabelo ou que seus eletrodomésticos não funcionavam, quando queriam preparar um bocado de comida macrobiótica.

A Gard, aquele sujeito não parecia mais um homem. A cabeça desgrenhada de um lobo emergia do colarinho de sua camisa branca, com a estreita gravata vermelha. Ele olhava em torno, a língua rosada pendurada, os olhos verde-amarelados cintilando. Arberg guinchou alguma espécie de aprovação e enfiou mais um monte de coisas em seu rosado focinho de porco. Patrícia McCardle agora tinha a cabeça lisa e esguia de um lebréu. O deão universitário e sua esposa eram doninhas. E a esposa do homem da companhia de eletricidade se tornara um coelho amedrontado, com olhos rosados girando atrás das lentes espessas.

Oh, Gard, não! gemeu sua mente.

Gardener tornou a piscar, e eles voltaram a ser apenas pessoas.

— E uma coisa que esses protestadores nunca se lembram de mencionar em suas manifestações, é apenas isto — encerrou Ted, o Homem Energia, olhando em redor como um advogado no tribunal, ao atingir o clímax de seu sumário. — Em trinta anos de pacífico desenvolvimento da energia nuclear, nunca houve uma só morte resultante da energia nuclear nos Estados Unidos da América!

Ele sorriu modestamente, e engoliu o resto de seu uísque.

— Estou certo de que todos descansaremos mais tranqüilos, sabendo disso — falou o homem que parecia deão de universidade. — Bem, acho que eu e minha esposa agora...

— Sabiam que Marie Curie morreu de contaminação radioativa? — intrometeu-se Gardener, em tom trivial. Cabeças se viraram. — Isso mesmo. Leucemia, induzida por exposição direta aos raios gama. Ela foi a primeira vítima, ao longo do desfile de mortes, com esse cara da usina elétrica no final. Ela fez um bocado de pesquisa e registrou tudo.

Gardener olhou à volta da sala repentinamente em silêncio.

— Suas anotações estão trancadas em uma caixa-forte — disse ele. — Uma caixa-forte em Paris. Forrada de chumbo. Os livros de anotações estão intatos, porém demasiado radioativos ao toque. Quanto a quem morreu aqui, em realidade não sabemos. A Comissão de Energia Atômica e o Departamento de Proteção Ambiental não se pronunciam a respeito. São um túmulo.

Patricia McCardle olhava para ele com a testa franzida. Estando o deão temporariamente esquecido, Arberg retornou à pesquisa na mesa desnuda do bufê.

— A 5 de outubro de 1966 — disse Gardener — aconteceu um vazamento parcial de radioatividade no reator reprodutor da Enrico Fermi, em Michigan.

— Nada aconteceu — disse Ted, o Homem Energia, estendendo as palmas para os membros do grupo, como se dissesse: Eu não falei?

— Sim — disse Gardener. — Nada aconteceu. Deus sabe por que, e suponho que mais ninguém saiba. A reação em cadeia parou por si mesma, sem que se descobrisse o motivo. Um dos engenheiros convocados para dar uma espiada, sorriu e disse: “Caras, vocês quase perderam Detroit!” Então, ele desmaiou.

— Oh, mas Sr. Gardener! Aquilo foi...

Gardener ergueu uma das mãos.

— Quando examinamos as estatísticas de morte por câncer, nas áreas circunjacentes a cada instalação de energia nuclear no país, encontramos anomalias, mortes que não se ajustam ao normal.

— Isso é totalmente inverídico e...

— Deixe-me terminar, por favor. Não acredito que os fatos façam qualquer diferença, mas permita-me terminar, assim mesmo. Muito antes de Chernobyl, os russos tiveram um acidente com um reator, em lugar chamado Kyshtym. Entretanto Khrushchev era o Premier na época, de maneira que os soviéticos ficaram de bico calado. Parece que eles estavam armazenando bastões nucleares usados, em fosso raso. Por que não? Como poderia ter dito Madame Curie, naquele tempo parecia uma boa idéia. Podemos fazer uma suposição aproximada de que o núcleo dos bastões oxidou-se, só que em vez de criar óxido ferroso — ou ferrugem — da maneira como acontece a bastões de aço, a ferrugem daqueles bastões foi plutônio puro. Mais ou menos como acender-se uma fogueira perto de um tanque de gás em baixa pressão, porém eles não sabiam disso. Presumiram que estava tudo bem. Presumiram. — Gardener podia ouvir a fúria impregnando sua voz e não conseguia contê-la.

— Eles presumiram, brincaram com as vidas de seres humanos, como se estes fossem... bem, meros bonecos... e adivinhem o que aconteceu?

A sala estava silenciosa. A boca de Patty era uma congelada fenda vermelha. Sua pele estava cor de leite, tal a raiva que sentia.

— Choveu — disse Gardener. — Choveu forte. E isso iniciou uma reação em cadeia, que provocou uma explosão. Foi como a erupção de um vulcão de lama. Milhares tiveram que ser evacuados. A cada mulher grávida, foi concedido um aborto. Não havia alternativa no caso. O equivalente a uma estrada de pedágio, na área de Kyshtym ficou fechado por quase um ano. Então, quando começou a vazar a notícia de que acontecera um grave acidente nas fronteiras da Sibéria, os russos tornaram a abrir a estrada. Entretanto, colocaram sinalizações realmente hilariantes. Eu vi as fotos. Não leio russo, mas pedi uma tradução a quatro ou cinco pessoas diferentes e todas coincidiram. Soava como uma perversa piada étnica. Imaginem-se dirigindo por uma auto-estrada americana — a I-95 ou a I-70, talvez — e avistando uma tabuleta sinalizadora avisando POR FAVOR, FECHEM TODAS AS JANELAS, DESLIGUEM TODOS OS ACESSÓRIOS DE VENTILAÇÃO E DIRIJAM O MAIS DEPRESSA QUE SEU CARRO PERMITIR NOS PRÓXIMOS TRINTA QUILÔMETROS.

— É pura tolice! — exclamou em voz alta Ted. O Homem Energia.

— As fotos são disponíveis, pela Lei da Liberdade de Informação — disse Gard. — Se este cara apenas estivesse mentindo, talvez eu até suportasse. No entanto, ele e o resto de gente como ele, estão fazendo algo pior. São como vendedores, dizendo ao público que os cigarros, além de não provocarem câncer pulmonar, estão impregnados de vitamina C e impedem que tenhamos resfriados.

— Está insinuando que...

— Trinta e dois em Chernobyl, a gente pode verificar. Diabo, talvez tenham sido somente trinta e dois mortos. Temos fotos tiradas por médicos americanos, sugerindo que já devem ser mais de duzentos, mas digamos trinta e dois. Isto não altera o que aprendemos sobre exposição à alta radioatividade. As mortes não acontecem imediatamente. Daí a situação enganosa. As mortes surgem em três ondas. Primeiro, as pessoas que foram fritas no acidente. Segundo, as vítimas de leucemia, principalmente crianças. Terceiro, a onda mais letal: câncer em adultos de mais de quarenta anos. São tantos os casos de câncer dos ossos, câncer do seio, câncer de fígado e os melanomas — em outras palavras, câncer da pele. Entretanto, você também pode ter seu câncer intestinal, seu câncer da bexiga, seus tumores cerebrais, seu...

— Pare! Por favor, quer parar? — gritou a esposa de Ted, com a histeria colocando um surpreendente vigor em sua voz.

— Eu pararia, se pudesse, minha cara — disse ele, gentilmente. — Só que não posso. Em 1964, a Comissão de Energia Atômica solicitou um estudo sobre um cenário de pior-caso, se um reator americano com um quinto do tamanho de Chernobyl explodisse. Os resultados foram tão assustadores que a CEA arquivou o relatório. Ele sugeria...

— Cale a boca, Gardener — disse Patty, em voz muito alta. — Você está bêbado!

Ele a ignorou, fixando os olhos na esposa do Homem Energia.

— Ele sugere que um acidente semelhante, em uma área relativamente rural dos EUA — por falar nisto, a área que escolheram foi a zona central da Pensilvânia, onde fica Three-Mile Island — mataria 45.000 habitantes, deixaria radioativo setenta por cento do estado e causaria prejuízo de dezessete milhões de dólares.

— Porra! — exclamou alguém. — Isso é uma merda de piada?

— Negativo — disse Gardener, sem afastar os olhos da mulher, que agora parecia hipnotizada pelo terror. — Se você multiplicar por cinco, terá 225.000 mortos e prejuízos no valor de oitenta e cinco milhões de dólares. — No silêncio tumular da sala, ele tornou a encher seu copo despreocupadamente, ergue-o na direção de Arberg e bebeu dois goles de vodca pura. Esperava-se que fosse não-contaminada. — Aí está! — terminou ele. — Estamos falando de quase um quarto de milhão de mortos, à altura em que se dissipar a terceira onda, por volta do ano 2040. — Ele piscou para Ted, o Homem Energia, cujos lábios repuxados agora exibiam os dentes. — Seria difícil liquidar toda essa gente, mesmo em um 767, não acha?

— Esses números saíram diretamente do seu traseiro! — exclamou Ted, o Homem Energia, tomado de fúria.

— Ted... — disse nervosamente a esposa dele.

Ela ficaria mortalmente pálida, com apenas duas pequenas manchas vermelhas ardendo acima dos malares.

— Espera que eu fique aqui parado, ouvindo essa... essa retórica de partido? — perguntou ele, aproximando-se de Gardener até ficarem peito contra peito. — Espera mesmo?

— Em Chernobyl, eles mataram as crianças — disse Gardener. — Será que não entende? Aquelas que tinham dez anos e as ainda in utero. Muitas talvez continuem vivas, porém agonizando neste exato momento, enquanto estamos aqui, segurando nossos drinques. Algumas ainda nem sabem ler. A maioria dos meninos jamais poderá dar um beijo apaixonado em uma garota. Exatamente agora, enquanto estamos aqui com nossos drinques na mão. Eles mataram as crianças!

Gardener olhou para a esposa de Ted, e então sua voz começou a tremer e elevar-se ligeiramente, como que em uma súplica.

— Nós ficamos sabendo com Hiroxima e Nagazaki, com os testes que fizemos em Trinity e Bikini. Eles mataram as próprias crianças, dá para entender o que digo? Em Pripyat há crianças de nove anos que vão morrer evacuando os intestinos! Eles mataram as crianças!

A esposa de Ted recuou um passo, os olhos arregalados atrás das lentes dos óculos, a boca torcida.

— Penso que todos concordamos, quanto ao Sr. Gardener ser um excelente poeta — disse Ted, o Homem Energia, passando um braço em torno da esposa e tornando a puxá-la para junto de si. Era como ver um vaqueiro laçando um bezerro. — Entretanto, ele não está bem informado sobre a energia nuclear. Em realidade, não fazemos idéia do que pode ou não ter acontecido em Kyshtym, e os números russos sobre as mortes em Chernobyl são...

— Corta essa! — exclamou Gardener. — Você sabe perfeitamente do que estou falando. A Bay State Electric tem todos estes dados em seus arquivos, juntamente com as elevadas taxas de câncer nas áreas circunvizinhas às instalações americanas de energia nuclear — a água contaminada pelo lixo nuclear, a água em profundos depósitos, a água com que as pessoas lavam as roupas, os pratos e elas próprias, a água que bebem. Você sabe. Você e qualquer outra companhia de energia na América, seja ela privada, municipal, estadual ou federal.

— Pare com isso, Gardener! — avisou McCardle, avançando um passo. Dirigiu um sorriso ultrabrilhante aos que estavam em redor. — Ele é um pouco...

— Ted, você sabia? — perguntou subitamente a esposa de Ted.

— Claro, tenho algumas estatísticas, mas...

Ele se interrompeu. O queixo bateu com tanta força ao fechar a boca, que quase se poderia ouvir. Não era grande coisa... mas fora o suficiente. De súbito, todos souberam — todos eles — que aquele homem omitira uma boa dose da escritura em seu sermão. Gardener experimentou um momento de amargo, inesperado triunfo.

Houve um instante de embaraçoso silêncio e então, de maneira visivelmente deliberada, a esposa de Ted afastou-se dele. Ted ficou vermelho. A Gard, pareceu um homem que tivesse acabado de dar uma martelada no polegar.

— Oh, nós temos todos os tipos de relatórios — disse ele. — Em sua maioria, não passam de um monte de mentiras — propaganda russa. Pessoas como este idiota ficam eufóricas quando engolem a isca, com anzol e tudo. Pelo que sabemos, Chernobyl talvez nem tenha sido um acidente, em absoluto, mas um esforço para impedir que nós...

— Céus, daqui a pouco, você nos estará dizendo que a terra é chata — disse Gardener. — Você viu as fotos dos caras do Exército, vestindo trajes contra a radiação e caminhando em torno de uma usina nuclear, a meia hora de carro de Harrisburg? Sabe como eles tentaram tamponear um dos vazamentos por lá? Enfiaram uma bola de basquete, envolta em fita isolante, mas então a pressão cuspiu a bola para fora e fez um buraco bem atrás da parede de contenção.

— Você sabe como soltar uma boa arenga de propaganda — disse Ted, sorrindo levemente. — Os russos adoram gente como você! Eles lhe pagam ou você faz isso de graça?

— Quem é que agora soa como um lunático de aeroporto? — perguntou Gardener, rindo um pouco. Deu um passo para mais perto de Ted. — Os reatores nucleares são mais bem estruturados do que Jane Fonda, certo?

— Que eu saiba, sim, no que se refira ao tamanho!

— Por favor! — pediu a esposa do deão, angustiada. — Vamos discutir, mas sem gritar, por favor! Afinal de contas, somos todos gente de universidade...

— É melhor que alguém comece a dar berros sobre isto! — bradou Gardener. Ela se encolheu, pestanejando, enquanto seu marido fitava Gardener com olhos que brilhavam como pedacinhos de gelo. Fitava-o como se o estivesse marcando para sempre. E Gard supôs que fosse isso mesmo.

—Você gritaria, se sua casa estivesse pegando fogo e fosse a única pessoa da família a acordar no meio da noite, e perceber o que estava acontecendo? Ou apenas sairia andando na ponta dos pés e sussurrando, porque é uma pessoa de universidade?

— Eu acho que isto já foi longe de...

Gardener ignorou-a, virou-se para o Sr. Bay State Electric e lhe piscou um olho confidencialmente.

— Diga-me uma coisa, Ted, a que distância fica a sua casa dessa nova e formidável instalação que vocês estão construindo?

— Não tenho que ficar aqui e...

— Não deve ser perto demais, hein? Exatamente como imaginei...

Gardener olhou para a Sra. Ted. Ela se esquivou ao seu olhar, agarrou-se ao braço do marido. Gard pensou, O que será que ela vê, para esquivar-se desse jeito de mim? O que, exatamente?

A voz do comissário leitor de histórias em quadrinhos e escarafunchador de nariz, chocalhou em dolorosa resposta: Atirou em sua esposa, hein? Uma baita enrascada...

— Está pretendendo ter filhos? — perguntou suavemente a ela. — Se está, espero que, em seu benefício e no de seu marido, de fato morem a uma distância segura da usina... compreenda, eles vivem dando mancadas. Como aconteceu em Three-Mile Island. Faltando pouco para acionarem a sucção, alguém descobriu que tinham ligado um tanque de 3.000 galões de lixo radioativo líquido nos bebedouros, em vez de aos canos de escoamento. De fato, descobriram o engano cerca de uma semana antes do lugar entrar em funcionamento. O que acha disto?

Ela chorava.

Ela chorava, mas ele não conseguia parar.

— Os caras que investigaram a coisa puseram em seu relatório que a ligação de canos para dejetos de resfriamento radioativo àqueles que alimentam bebedouros era “uma prática geralmente desaconselhada”. Se seu maridinho, aqui presente, convidá-la a uma excursão pela usina, eu lhe diria o mesmo que dizem para a gente fazer no México: não beba a água. E se seu maridinho a convidar depois que estiver grávida — ou até mesmo depois de achar que possa estar — diga a ele... — Gardener sorriu, primeiro para ela, depois para Ted. — Diga a ele que está com dor de cabeça — finalizou.

— Cale essa boca! — exclamou Ted.

A esposa dele começara a soluçar.

— Já basta! — disse Arberg. — Francamente, acho que já é hora de se calar, Sr. Gardener!

Gardener olhou para eles, e depois para os demais presentes que fitavam o quadro-vivo junto à mesa do bufê, de olhos arregalados e silenciosos, o jovem barman entre eles.

— Calar-me? — gritou Gardener. A dor enviou uma cintilante ferroada ao lado esquerdo de sua cabeça. — Oh, sim! Calar-me e deixar a maldita casa pegar fogo! Podem apostar que estes miseráveis donos de favelas estarão por perto, para mais tarde recolherem o seguro contra incêndio, depois que as cinzas esfriarem e for peneirado o que restar dos corpos! Eis o que querem todos esses sujeitos — que nos calemos! E se nós não nos calarmos por vontade própria, talvez sejamos calados, como Karen Silkwood...

— Pare, Gardener! — sibilou Patricia McCardle.

Não havia sibilantes nas palavras que disse, impossibilitando-a de sibilar — mas ela sibilou assim mesmo. Gardener inclinou-se para a esposa de Ted, cujas faces pálidas estavam agora molhadas de lágrimas.

— Você também poderá examinar as taxas de SMI — síndrome de morte de infantes, quero dizer. A proporção sobe alto, nas áreas das usinas. Defeitos de nascimento, como a Síndrome de Down — mongolismo, em outras palavras — e cegueira, e...

— Quero que saia da minha casa! — disse Arberg.

— Você está com batatas fritas no queixo — disse Gardener, e se virou para o Sr e Sra. Bay State Electric.

Sua voz vinha de cada vez mais fundo dentro dele. Era como ouvir uma voz brotando de um poço. Tudo atingia um ponto crítico. Linhas vermelhas surgiam por toda a parte superior do painel de controle.

— O nosso Ted, aqui, pode mentir sobre o quanto tudo isto foi exagerado, apenas uma pequena fogueira e muito combustível para as manchetes. Vocês todos, até talvez acreditem nele... mas o fato é que o ocorrido na usina nuclear de Chernobyl liberou mais dejetos radioativos na atmosfera deste planeta do que todas as bombas A disparadas acima do solo, desde Trinity.

— Chernobyl é coisa quente.

— E vai continuar assim por muito tempo. Quanto? Ninguém sabe ao certo, não é, Ted?

Apontou o copo para Ted e então passou os olhos pelos que o ouviam falar, todos agora calados e fitando-o, muitos parecendo tão consternados como a Sra. Ted.

— Pois tudo vai acontecer novamente. Talvez no estado de Washington. Eles estavam armazenando bastões de núcleos em valas sem isolamento, nos reatores de Hanford, exatamente como fizeram em Kyshtym. Na Califórnia, da próxima vez que houver um grande terremoto? Na França? Polônia? Talvez aqui mesmo, em Massachusetts, se o amigo aqui presente levar a melhor e a usina de Iroquois entrar em funcionamento na primavera. Basta que um cara aperte o botão errado na hora errada, e o próximo jogo dos Red Fox em Fenway, será por volta de 2075.

Patricia McCardle estava lívida como uma vela de cera... exceto pelos olhos, cuspindo fagulhas azuis que pareciam recém-escapadas de um aparelho de soldar. Arberg seguira o caminho oposto: estava vermelho e tão escuro como os tijolos de sua requintada e velha casa ancestral, em Back Bay. A Sra. Ted olhava de Gardener para o marido e do marido para Gardener, como se eles fossem dois cães que pudessem morder. Ted notou aquele olhar; sentiu que ela procurava fugir de seu braço, que a enlaçava e aprisionava. Gardener supôs que a reação dela ao que ele estivera dizendo é que provocara a escalação final. Sem dúvida, Ted fora instruído sobre como manejar histéricos da qualidade de Gardener; a companhia ensinava a seus Teds o que fazer, tão rotineiramente como as linhas aéreas ensinavam suas aeromoças a demonstrar o sistema de emergência de oxigênio nos jatos em que voavam.

Contudo, era tarde. A preleção bêbada, mas eloqüente de Gardener, havia explodido como um bolsão de temporal... e agora a mulher de Ted agia como se o marido fosse o Carniceiro de Riga.

— Céus, estou farto de caras como você e de sua afetação! Todos o vimos esta noite, lendo seus poemas incoerentes em um microfone que funciona com eletricidade, tendo sua voz roufenha amplificada por alto-falantes que funcionam com eletricidade, usando iluminação elétrica para enxergar... de onde é que vocês, reacionários, pensam que vem essa energia? Do Mago do Oz? Meu Deus!

— Já é tarde — disse McCardle, apressadamente — e todos nós...

— Leucemia — disse Gardener, falando diretamente e com amedrontador ar confiante para a esposa de Ted, que o fitava de olhos esbugalhados. — As crianças. As crianças são sempre as primeiras vítimas, após um vazamento radioativo. Há uma boa coisa nisto: se perdermos a Iroquois, a ocorrência manterá ocupados os fundos de socorro à infância.

— Ted? — gaguejou ela. — Ele está enganado, não está? Quero dizer...

Ela remexia na bolsa, em busca de um lenço de tecido ou de papel, mas acabou deixando-o cair. Houve um som de algo frágil se quebrando no interior.

— Pare! — disse Ted para Gardener. — Falaremos a respeito, se quiser, mas pare de perturbar minha esposa deliberadamente!

— Eu quero que ela fique perturbada — replicou Gardener. Estava agora inteiramente cercado pela escuridão. Pertencia a ela — como ela pertencia a ele e tudo estava formidável. — Parece haver muita coisa que sua esposa ignora. Coisas que devia saber. Considerando-se com quem está casada.

Gardener voltou para ela seu belo e alucinado sorriso. A mulher o encarou, agora sem encolher-se, hipnotizada como uma corça, diante de dois faróis aproximando-se.

— Bem, falemos de bastões de núcleos usados. Sabe para onde vão, quando não têm mais utilidade para a pilha — o reator nuclear? Ele lhe contou que a Fada dos Bastões de Núcleos os leva? Não é verdade. Os sujeitos da energia nuclear são como esquilos, gostam de estocá-los. Existem montanhas de perigosas pilhas de bastões de núcleo aqui, ali e acolá, depositados em asquerosas piscinas de águas rasas. São realmente perigosos, senhora! E vão continuar assim por muito tempo ainda!

— Quero que vá embora, Gardener! — repetiu Arberg.

Ignorando-o, Gardener prosseguiu, falando para a Sra. Ted e para ela apenas:

— Eles já andam esquecendo a localização de algumas dessas piscinas de bastões usados, sabia? Como crianças pequenas, que brincam o dia inteiro, vão para cama cansadas e acordam no dia seguinte sem lembrar aonde deixaram seus brinquedos. Então, temos o material que simplesmente se evapora. Haverá um Bombardeiro Louco final. Já desapareceu plutônio suficiente para explodir a costa leste dos Estados Unidos. No entanto, eu preciso ter um microfone para ler nele meus poemas incoerentes. Oh, Deus, eu devia ter levantado a v...

Arberg o agarrou subitamente. O homem era gordo e flácido, mas tinha bastante força. A camisa de Gardener escapou das calças. O copo escapou-lhe dos dedos e estilhaçou-se no chão. Em voz trovejante, autoritária — uma voz que talvez somente poderia ser produzida por um indignado professor que havia passado muitos anos em salas de conferências, Arberg anunciou a todos os presentes:

— Vou expulsar este cretino!

Sua declaração foi acolhida por um aplauso espontâneo. Nem todos ali aplaudiram — talvez nem mesmo metade. Entretanto, a esposa do Homem da Energia agora chorava francamente, apertava-se contra o marido, não mais tentando afastar-se; até Arberg agarrá-lo, Gardener agigantava-se acima dela, parecia ameaçá-la.

Gardener sentiu seus pés deslizarem no chão e depois perderem o contato inteiramente. Viu Patricia McCardle de relance, os lábios comprimidos, os olhos faiscando, as mãos aplaudindo, na furiosa aprovação que se recusara a conceder anteriormente a ele. Viu também Ron Cummings, parado à porta da biblioteca, tendo na mão um drinque monstruoso, o braço enlaçando uma bela garota loura e a mão firmemente pressionada contra o lado do seio dela. Cummings parecia preocupado, mas não exatamente surpreso. Afinal de contas, era apenas a discussão do Bar e Restaurante “Stone Country” que prosseguia em outra noite, certo?

Vai permitir que esse inchado saco de bosta o ponha para fora, como um gato de beco?

Gardener decidiu que não ia.

Moveu o braço esquerdo para trás, com quanta força teve. Acertou o peito de Arberg. Gardener pensou que seria a mesma sensação de enfiar o cotovelo em uma terrina cheia de gelatina muito firme.

Arberg soltou um grito estrangulado e o soltou. Gardener se virou, as mãos crispadas em punhos, pronto para esmurrar o dono da casa, se este tentasse agarrá-lo novamente, se até mesmo o tocasse. Esperava que Arglebargle quisesse lutar.

Entretanto, o balofo filho da mãe não mostrava sinais de querer lutar. Aliás, perdera por completo o interesse em expulsar Gardener. Estava aferrando o peito, como um ator canastrão preparando-se para cantar mal uma ária. A maioria da coloração-tijolo desaparecera de seu rosto, embora em cada face surgissem estrias avermelhadas. Os lábios grossos de Arberg flexionaram-se em um O; afrouxaram-se; flexionaram-se em O novamente; tornaram a afrouxar-se.

—  ...coração... — gemeu ele.

— Que coração — perguntou Gardener. — Está querendo dizer que tem um?

— ...ataque... — gaguejou Arberg.

— Ataque do coração uma ova! — exclamou Gardener. — A única coisa sendo atacada é o seu senso de decoro. E você bem merece, seu filho da puta!

Passou rente a Arberg, ainda petrificado naquela pose de prestes a cantar, as duas mãos aferradas ao lado esquerdo do peito, onde Gardener fincara o cotovelo. A porta entre a sala de refeições e o corredor estava entupida de gente, mas todos recuaram às pressas, quando Gardener aproximou-se e passou por eles, em direção à porta da frente.

Atrás dele, uma mulher gritou:

— Vá embora, ouviu? Vá embora, seu bastardo! Vá embora daqui! Nunca mais quero tornar a vê-lo!

Aquela vozinha histérica e esganiçada era tão diferente do costumeiro e distinto ronronar de Patricia McCardle (garras de aço escondidas em algum lugar; dentro de coxins de veludo), que Gardener parou. Deu meia volta... e foi sacudido por uma bofetada de arrancar água dos olhos. O rosto dela estava contorcido pela raiva.

— Eu devia saber! — ofegou. — Você não passa de um beberrão inútil —um ser humano nojento, obsessivo, fanfarrão e baderneiro! Oh, mas eu ajusto contas com você! Farei isso! Você sabe que posso!

— Ora, Patty, eu não sabia que se preocupava comigo — disse ele. — Quanta gentileza! Há anos espero que ajuste contas comigo. Devemos ir lá para cima ou presentear todo mundo com um ato no tapete?

Ron Cummings chegara mais perto do local da ação e riu. Patricia McCardle mostrou os dentes. Sua mão se moveu de novo, agora acertando a orelha de Gardener.

Ela falou em voz baixa, mas perfeitamente audível a todos na sala:

— Eu não esperava nada melhor, de um homem que baleou a própria esposa!

Gardener olhou em torno, avistou Cummings e disse:

— Com sua licença...

Tirou o copo que Cummings tinha na mão. Em um só gesto, rápido e firme, enganchou dois dedos no corpete do vestidinho preto de Patricia — era elástico, cedeu facilmente — e despejou lá dentro o uísque do copo.

— Saúde, meu bem! — exclamou, e se virou para a porta.

Decidiu que, nas circunstâncias, aquele era o melhor ato de saída que poderia desempenhar. Arberg continuava imóvel, com os punhos aferrados ao peito, a boca flexionando-se em um O e tornando a relaxar.

— ...coração... — gemeu novamente para Gardener ou quem quer que o ouvisse.

Na outra sala, Patricia McCardle gritava esganiçadamente:

— Está tudo bem comigo! Não me toquem! Deixem-me em paz! Está tudo bem comigo!

— Ei, você!

Gardener se virou na direção da voz. O punho de Ted atingiu-o no alto de uma bochecha. Gardener saiu aos tropeções pela maior parte do comprimento do corredor, precisando amparar-se na parede para não perder o equilíbrio de todo. Chocou-se no porta-guarda-chuvas, derrubou-o e foi colidir contra a porta da frente, com força bastante para fazer estremecer o vidro da bandeira semicircular.

Ted caminhava para ele, corredor abaixo, como um pistoleiro.

— Minha esposa está no banheiro, tendo um ataque histérico por sua causa! Se não cair fora daqui imediatamente, vou surrá-lo até deixá-lo caído no chão!

A escuridão explodiu, como tripas em decomposição, repletas de gás.

Gardener apanhou um dos guarda-chuvas. Era comprido, bem fechado e negro — um guarda-chuva de lorde inglês, caso tenha havido um. Correu para Ted, em direção àquele sujeito que sabia exatamente quais eram os riscos, mas ia em frente assim mesmo, por que não? Faltavam sete prestações do Datsun Z e dezoito da casa, mas por que não? Ted, que via um aumento de seiscentos por cento na leucemia apenas como um fato que podia perturbar sua esposa. Ted, o bom e velho Ted, e era muita sorte para o bom e velho Ted, que no final do corredor houvesse apenas guarda-chuvas, em vez de rifles de caça.

Ted ficou olhando para Gardener, os olhos dilatados, o queixo caído. A expressão de desorbitada raiva deu lugar à incerteza e ao medo — o medo que surge ao decidirmos que estamos lidando com um ser irracional.

—Ei!...

— Caramba, seu puto! — gritou Gardener.

Agitou o guarda-chuva e então o espetou na barriga de Ted, o Homem Energia.

— Ei! — ofegou Ted, encolhendo-se. — Pare com isso!

— Andale, andale! — berrou Gardener, agora começando a bater em Ted com o guarda-chuva — em um lado e no outro, em um lado e no outro, em um lado e no outro.

O prendedor que mantinha o guarda-chuva seguro na empunhadura afrouxou-se e o tecido também ficou frouxo, embora ainda preso, esvoaçando em torno do cabo.

— Arriba, arriba!

Ted estava demasiado intranqüilo para pensar em renovar o ataque, para pensar em outra coisa que não fosse fugir. Deu meia volta e correu. Gardener perseguiu-o, dando gargalhadas casquinadas, batendo-lhe atrás da cabeça e na nuca com o guarda-chuva. Dava risadas... mas nada era engraçado. Sua cabeça comprimia-se e palpitava. Que vitória havia em levar a melhor em uma discussão com semelhante homem, mesmo temporariamente? Ou fazer sua esposa chorar? Ou bater nele com um guarda-chuva fechado? Alguma dessas coisas impediria que a usina nuclear de Iroquois fosse ativada, no próximo mês de maio? Alguma dessas coisas salvaria o que sobrara de sua própria vida miserável ou mataria aquelas tênias dentro dele, que continuavam cavando, mastigando e crescendo, comendo tudo que lhe restara de lúcido nas entranhas?

Não, claro que não. Por ora, no entanto, o insensato movimento para diante era tudo o que importava... porque era tudo que restara.

— Arriba, seu bastardo! — gritou, perseguindo Ted na sala de refeições.

Ted erguera as mãos à altura da cabeça e as agitava perto das orelhas; parecia um homem perseguido por morcegos — e o guarda-chuva realmente parecia um pequeno morcego, subindo e descendo no ar.

— Ajudem-me! — guinchou Ted. — Socorro, este homem enlouqueceu!

O quadril de Ted se chocou contra uma quina do bufê. A mesa oscilou para diante e para trás, havia talheres escorregando pelo plano inclinado da toalha amarfanhada, pratos que caíam e se quebravam no chão. A poncheira Waterford, de Arberg, detonou como uma bomba, e uma mulher gritou. A mesa vacilou por um instante e então tombou.

— Socorro? Socorro? Socoooorro!

— Andale! — gritou Gardener.

Deixou o guarda-chuva cair sobre a cabeça de Ted, em uma pancada particularmente rude. O fecho funcionou de repente e o guarda-chuva se abriu por completo, com um oco puuushhh! Agora, Gardener assemelhava-se a uma louca Mary Poppins, perseguindo Ted, o Homem Energia, com um guarda-chuva em uma das mãos. Mais tarde, ocorreu a ele que abrir um guarda-chuva dentro de casa dava má sorte, segundo se dizia.

Mãos o agarraram por trás.

Ele girou, esperando que Arberg se houvesse recuperado de seu inadequado ataque e estivesse de volta, para tornar a enfrentá-lo.

Não era Arberg. Era Ron. Ele ainda parecia calmo — porém em seu rosto havia algo, algo amedrontador. Seria piedade? Sim, Gardener viu que era isso mesmo.

De repente, ele não quis mais o guarda-chuva. Jogou-o a um lado. A sala de refeições ficou absolutamente silenciosa por um momento, com exceção do ofegar de Gardener e dos arquejos ásperos e soluçantes de Ted. A mesa derrubada do bufê jazia em um amontoado de toalha, pratos quebrados e vidros estilhaçados. O cheiro do rum derramado da poncheira subia no ar como um fog, ardendo nos olhos.

— Patricia Mccardle está no telefone, chamando os tiras — disse Ron, — e em se tratando de Back Bay, eles aparecem rapidamente. É melhor dar o fora daqui, Jim.

Olhando em torno, Gardener viu grupinhos de convidados amontoados junto às paredes e portas, fitando-o com aqueles olhos arregalados e medrosos. Amanhã, eles não se lembrarão mais se o tema era energia nuclear, William Carlos Williams ou quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete, pensou ele. Uma metade dirá para a outra que eu me engracei com a esposa dele. Simplesmente, esse bom e velho Jim Gardener, baleador de esposa e amante de diversão, ficou louco e surrou de rijo um cara com um guarda-chuva. Também despejou uma garrafa de Chivas nos peitinhos de uma mulher que lhe arranjou um emprego, quando ele não tinha nenhum. Energia nuclear? O que uma coisa tem a ver com a outra?

— Que enrascada filha da mãe — murmurou ele roucamente para Ron.

— Porra, eles vão ter assunto para anos — respondeu Ron. — A melhor leitura que já ouviram, seguida pela festa mais movimentada que já viram. Muito bem, andando, cara! Mova seu traseiro para o Maine. Eu ligo depois.

Ted, o Homem Energia, com olhos dilatados e lacrimosos, quis avançar para ele. Dois rapazes — um deles o barman — conseguiram segurá-lo.

— Adeus — disse Gardener para os grupinhos de convidados. — Obrigado a todos, por momentos tão agradáveis!

Caminhou até a porta e de lá se virou.

— E se esquecerem tudo o mais, pelo menos lembrem-se da leucemia e das crianças. Lembrem-se...

O que eles recordariam, no entanto, era de vê-lo espancando Ted com um guarda-chuva. Gardener pôde ver isso no rosto deles.

Assentindo com a cabeça, ele desceu o corredor, passando por Arberg que continuava de mãos aferradas ao peito, os lábios se abrindo e fechando. Gardener não olhou para trás. Chutou para um lado o amontoado de guarda-chuvas, abriu a porta e saiu para a noite. Queria um drinque, como jamais quisera algo na vida, e supôs que devia ter encontrado um, porque isso foi quando caiu dentro do ventre do enorme peixe e a escuridão o envolveu.


 

GARDENER SOBRE AS PEDRAS

Não muito depois do amanhecer do dia 4 de julho de 1988, Gardener acordou ou voltou a si — perto do final do quebra-mar de pedras que avança pelo Atlântico, não muito distante do Parque de Diversões Arcadia, em Arcadia Beach, New Hampshire. Não que, nesse momento, ele soubesse onde se encontrava. Mal sabia alguma coisa além do próprio nome, do fato de estar no que parecia uma total agonia física e do fato um tanto menos importante de que, aparentemente, quase se afogara durante a noite.

Jazia de lado, com os pés enfiados na água. Imaginou que estivera sozinho ao valsar até ali na véspera, e parecia ter rolado durante o sono, deslizando por parte do inclinado lado norte do quebra-mar... e agora a maré estava subindo. Se acordasse meia hora mais tarde, deduziu que poderia perfeitamente ter boiado para fora das pedras do quebra-mar, assim como um navio encalhado pode flutuar e afastar-se de um banco de areia.

Um dos mocassins continuava no pé, mas agora enrugado e inútil. Gardener livrou-se dele e ficou olhando apaticamente, vendo-o flutuar e depois descer para esverdeadas profundezas. Alguma coisa para as lagostas encherem de merda, pensou, e sentou-se.

A pontada de dor que lhe varou a cabeça foi tão intensa que, por um momento, ele se julgou estar tendo um ataque cardíaco; que sobrevivera àquela noite no quebra-mar; apenas para morrer de embolia pela manhã.

A dor diminuiu um pouco e o mundo retornou da névoa cinzenta para onde recuara. Ele foi capaz de considerar o quanto era miserável. Seria o que Bobbi Anderson sem dúvida denominaria “a viagem integral do corpo” — Aprecie a viagem integral do corpo, fim. O que pode ser melhor do que a maneira como se sente, após uma noite no olho do ciclone?

Uma noite? Certa noite?

Não adianta, meu bem. Isto tinha sido um legítimo porre. Um verdadeiro e desgraçado porre

Seu estômago estava azedo e inchado. Sua garganta e sinus estavam entupidos de vômito antigo. Gardener olhou para a esquerda e, sem a menor dúvida, lá estava, um pouco acima dele, o que devia ter sido sua posição original, a assinatura do bêbado — uma grande, enorme poça de vômito ressequido

Céus, seu corpo doía de alto a baixo...

Gardener passou uma trêmula e suja mão direita abaixo do nariz, e viu coágulos de sangue seco. Tivera uma hemorragia nasal. Elas aconteciam de vez em quando, desde o acidente de esqui em Sunday River, quando estava com dezessete anos. Pelas hemorragias, quase podia contar as vezes em que estivera bebendo.

No final de todos os seus porres anteriores — e esta era a primeira vez que tivera uma orgia de bebedeira, em quase três anos — Gardener sentira o que sentia agora: uma náusea mais forte do que a cabeça latejante, o estômago embrulhado, parecendo uma esponja viva e encharcada de ácido, as dores, os músculos trêmulos. Aquela náusea intensa nem mesmo podia ser considerada depressão — era uma sensação de perdição absoluta.

Isto de agora era pior, ainda pior do que a depressão em seguida à Famosa Bebedeira do Dia de Ação de Graças de 1980, aquela que havia encerrado sua carreira de professor e seu casamento. Daquela vez, também estivera a ponto de encerrar a vida de Nora. E ele acabara na cadeia do condado, em Penobscot. Um comissário de polícia sentava-se do lado de fora de sua cela, lendo um exemplar da revista Crazy e esgaravatando o nariz. Mais tarde, Gardener ficou sabendo que todos os departamentos de polícia estavam a par de que bêbados contumazes freqüentemente despertavam do porre profundamente deprimidos. Assim, quando havia um homem disponível, ele ficava de olho no bêbado, apenas para certificar-se de que o sujeito não faria alguma besteira... pelo menos, até que fosse liberado e abandonasse a propriedade do condado.

— Onde estou? — perguntou Gardener, ao abrir os olhos.

— Onde pensa que está? — respondeu o comissário.

Enquanto falava, o homem olhou para a enorme meleca verde que acabara de extrair do nariz, transferiu-a para a sola do sapato, devagar e com aparente satisfação, em seguida esmagando-a ao longo do piso sujo do lugar. Gardener fora incapaz de afastar os olhos daquela operação; um ano mais tarde, escreveria um poema a respeito.

— O que foi que eu fiz?

Exceto por vislumbres ocasionais, os dois dias anteriores tinham sido absolutamente negros. Eram vislumbres dispersos, como punhados de nuvens que deixam passar salpicos de claridade solar, enquanto uma tempestade se aproxima. Ele havia levado um xícara de chá para Nora, e então começara a encher-lhe a paciência com os reatores. Oh, sim, os reatores nucleares. Viva os eternos reatores! Quando ele morresse, suas palavras finais sobre toda aquela fodida confusão não seriam Vão tomar no rabo, mas reatores. Recordava ter caído na entrada para carros, ao lado de sua casa. Carregava uma pizza e, estando tão bêbado, enormes filetes de queijo escorriam para dentro de sua camisa, queimando-lhe o peito. Também recordava que ligara para Bobbi. Tinha ligado e balbuciado algo para ela, alguma coisa terrível — e Nora estivera gritando? Gritando?

— O que foi que eu fiz? — perguntou, com mais ânsia.

O comissário encarou-o por um momento, com o mais perfeito desdém no olhar.

— Baleou sua esposa. Aí está o que fez. Uma baita enrascada, eh?

O comissário retornara à leitura de sua revista Crazy.

Aquilo havia sido ruim; isto agora era pior. Essa sensação vaga de desprezo por si mesmo, a pavorosa certeza de que você fez coisas ruins das quais não se lembra. Nada de alguns copos a mais de champanha na véspera do Ano-Novo, quando você coloca uma cúpula de abajur na cabeça e perambula pela sala com ela lhe caindo sobre os olhos, enquanto todos os presentes (com exceção de sua esposa) acham que jamais viram coisa tão divertida em suas vidas. Não saber que você fez coisas divertidas, como esmurrar chefes de departamentos de ensino. Ou balear sua esposa.

Desta vez havia sido pior.

Como era possível ser pior do que com Nora?

Alguma coisa. Durante alguns momentos, sua cabeça doeu demais, para pelo menos tentar reconstituir o último período de tempo ignorado.

Gardener baixou os olhos para a água, as ondas avolumando-se uniformemente na direção de onde se sentava, os antebraços sobre os joelhos, a cabeça pendida. Quando as ondas recuaram, ele viu crustáceos e esverdeadas algas melosas. Não... não eram algas realmente. Limo verde. Como melecas encatarradas.

Baleou sua esposa... uma baita enrascada, eh?

Gardener fechou os olhos contra os nauseantes latejamentos de dor, depois tornou a abri-los.

Pule, uma voz o engambelou docemente. Quero dizer, porra, você não vai mesmo precisar mais desta merda, vai? O jogo foi suspenso. Informalmente. Adiado pela chuva. Para ser reprogramado quando a Grande Roda do Carma girar para a próxima vida... ou a vida depois dessa, caso eu tenha que expiar essa próxima, sendo cocô de inseto ou coisa assim. Pendure as chuteiras, Gard. Pule. Em seu atual estado, suas duas pernas logo ficarão com cãibras e tudo terminará rapidamente. Seja como for, acabará ganhando um lençol em uma cela de cadeia. Vamos, salte!

Ele se levantou e ficou cambaleando em cima das pedras, olhando para a água. Apenas um grande passo, não precisaria mais nada. Ele poderia ter feito isto enquanto dormia. Merda, quase fizera!

Ainda não! Quero primeiro falar com Bobbi!

A parte de sua mente que continuava com uma leve vontade de viver, agarrou-se à idéia. Bobbi. Bobbi era a única parte de sua vida antiga que, de certo modo, persistia sendo íntegra e boa. Bobbi, que morava em Haven, escrevendo seus faroestes, que ainda era lúcida, ainda sua amiga, se não sua amante. O último amigo no mundo.

Quero primeiro falar com Bobbi, certo?

Por quê? Para ter uma última chance de enrascá-la também? Deus é testemunha do quanto você tentou. Por sua causa, ela agora tem uma ficha na polícia e, sem dúvida, também uma pasta no FBI. Deixe Bobbi fora disto, cara. Pule e deixe de armar confusões!

Ele oscilou para diante, quase obedecendo. Sua parte que ainda queria viver parecia não ter mais argumentos, nenhuma tática de protelação. Essa parte poderia alegar que ele permanecera sóbrio — mais ou menos — durante os últimos três anos, que não houvera amnésias, desde que fora preso com Bobbi em Seabrook, em 1985. Entretanto, tratava-se de um argumento vazio. Com exceção de Bobbi, Gardener agora estava completa-mente só. Sua cabeça era um torvelinho quase o tempo todo, a mente sempre e sempre insistindo — mesmo quando sóbrio — no tema dos reatores nucleares. Ele reconhecia que sua preocupação e raiva originais se tinham corrompido para obsessão... mas reconhecimento e reabilitação não eram a mesma coisa, de maneira alguma. Sua poesia deteriorara. Sua mente deteriorara. Pior do que tudo, quando não estava bebendo, ele desejava que estivesse. Acontece apenas, que a dor agora é o tempo todo. Sou como uma bomba, andando por aí e procurando um lugar para explodir. Chegou o momento de puxar o pino.

Tudo bem, então. Tudo bem. Ele fechou os olhos e preparou-se.

Ao fazer isso, uma singular certeza o dominou, uma intuição tão forte, que era quase precognição. Gardener sentiu que Bobbi precisava falar com ele, não o contrário. E isso não era nenhum truque de sua mente. Ela estava, de fato, em alguma espécie de enrascada. Séria enrascada.

Abrindo os olhos, ele olhou em torno, como um homem despertado de profundo transe. Encontraria um telefone e ligaria para ela. Não iria dizer-lhe “Ei, Bobbi, tive outro blackout” e tampouco diria “Não sei onde estou, Bobbi, mas desta vez nenhum comissário escarafunchador de nariz irá fazer-me parar.” Ele diria “Ei, Bobbi, como vai?” e quando ela respondesse que estava bem, que nunca estivera melhor, envolvida em um tiroteio com o bando de James em Northfield ou fugindo para os territórios em companhia de Butch Cassidy e do Sundance Kid — e por falar nisto, como está o seu péssimo eu? — Gard responderia que estava ótimo, escrevendo algum bom trabalho para variar, pensando em ir até Vermont por algum tempo, ver alguns amigos. Então, retornaria ao final do quebra-mar e pularia. Nada de floreios; apenas cairia de barriga, na zona além da imaginação. Isso parecia adequado; afinal de contas, era a maneira como atravessara a maioria da zona da realidade. O oceano permanecia ali desde um bilhão de anos ou coisa assim. Podia esperar mais cinco minutos, enquanto ele dava o telefonema.

Certo, mas nada de encher a paciência dela, ouviu bem? Prometa, Gard. Não vá amolecer e debulhar-se em lamúrias. Supõe-se que seja amigo de Bobbi não o equivalente masculino daquele balde de lodo que é a irmã dela. Não faça uma cagada dessas!

Deus sabia que ele já faltara a promessas em sua vida — alguns milhares delas, em relação a si mesmo. Esta, no entanto, iria manter.

Subiu desajeitadamente até o alto do quebra-mar. Era acidentado e rochoso, o lugar ideal para quebrar o tornozelo. Olhou em torno apalermadamente, procurando sua mala-mochila marrom, a que sempre carregava, ao viajar para fazer suas leituras ou quando apenas perambulava. Pensou que poderia estar enganchada em algum vão entre as pedras ou talvez caída por ali, em qualquer lugar. Não estava. Ela era uma antiga companheira de campanhas, coçada e velha, recuando aos últimos e perturbados anos de seu casamento, um objeto que conseguira reter, enquanto todas as coisas valiosas se perdiam. Bem, sua mala-mochila agora finalmente se fora também. E tudo o que continha: roupas, escova de dentes, um sabonete em uma saboneteira de plástico, um punhado de espetos para carne defumada (às vezes, Bobbi gostava de defumar carne em seu galpão), uma nota de vinte dólares, escondida sob o fundo da mochila... e todos os seus poemas não publicados, naturalmente.

Os poemas eram a última de suas preocupações. Aqueles escritos nos dois últimos anos e aos quais dera o admiravelmente sagaz e apropriado título de ¨DO Ciclo da Radiação¡¬, tinham sido apresentados a cinco editores diferentes e rejeitados por todos os cinco. Um editor anônimo garatujara:

“Poesia e política raramente se misturam; poesia e propaganda, jamais.” Esta pequena homilia era absolutamente verdadeira, ele sabia... e mesmo assim, fora incapaz de parar.

Bem, a maré conferira a eles o Lápis Vermelho Final. Vai e faze o mesmo a ti, pensou ele, e caminhou ao longo do quebra-mar, arrastada e lentamente em direção à praia, refletindo que sua caminhada para o lugar em que despertara devia ter sido melhor do que um ato circense de desafio à morte. Caminhou, com o sol do verão subindo vermelho e inchado do Atlântico às suas costas, tendo pela frente sua sombra alongada. Na praia, um menino de jeans e camiseta fez explodir uma fieira de bombinhas.

 

Um milagre: sua mala-mochila não se perdera, afinal. Jazia emborcada na praia, pouco acima do limite da maré alta, o zíper aberto, parecendo a Gardener uma enorme boca de couro mordendo a areia. Ele a recolheu e espiou no interior. Tudo se fora. Até mesmo sua surrada roupa de baixo. Ergueu o fundo em imitação de couro da mochila. Os vinte também haviam ido embora. Doce esperança, tão prontamente desfeita.

Gardener largou a mochila. Seus cadernos de notas, todos os três estavam um pouco além. Um repousava sobre as duas capas, arqueadas em forma de tenda outro jazia encharcado logo abaixo do limite da maré alta, inchado de umidade e mais parecendo um catálogo telefônico e o terceiro tinha as folhas viradas preguiçosamente pelo vento. Não se chateie, pensou. Não valiam merda nenhuma.

O menino com as bombinhas caminhou para ele... mas sem chegar muito perto. Quer ser capaz de dar o fora rapidamente, se eu me mostrar tão louco como devo estar parecendo, pensou Gardener. Garoto esperto...

— Isso é seu? — perguntou o menino.

A camiseta dele mostrava um sujeito explodindo seus mantimentos. VITIMA DO ALMOÇO ESCOLAR, dizia o dístico.

— Sim, é — respondeu Gardener.

Abaixando-se, ele recolheu o inchado caderno de notas, examinou-o por um momento e tornou a largá-lo. O garoto entregou-lhe os outros dois. O que ele poderia dizer? Não se incomode, garoto? Os poemas são uma porcaria, garoto? Poesia e política raramente se misturam, garoto, poesia e propaganda jamais?

— Obrigado — disse apenas.

— Tudo bem. — O menino segurou a mala-mochila, a fim de que Gardener deixasse cair dentro dela os dois cadernos de notas secos. — É incrível que tenha encontrado alguma coisa. Este lugar fica cheio de ladrões no verão. Por causa do parque, acho eu.

O menino apontou com o polegar, e Gardener avistou a montanha que se delineava contra o céu. O primeiro pensamento de Gard foi de que precisaria, de algum modo, fazer todo o trajeto para o norte até Old Orchard Beach, antes de desmoronar. Um segundo olhar modificou sua idéia. Não havia píer.

— Onde estou? — perguntou.

Sua mente recuou, com sobrenatural totalidade, à cela na cadeia e ao comissário limpando o nariz. Por um instante, teve a certeza de que o menino perguntaria: Onde pensa que está?

— Em Arcadia Beach. — O menino mostrava uma expressão entre divertida e desdenhosa. — Acho que esteve um bocado alto na noite passada, senhor.

— Na noite passada e na noite anterior — cantarolou Gardener, com voz um tanto roufenha, um tanto esquisita. — Tommyknockers, Tommyknockers, batendo à porta.

O menino piscou para Gardener, surpreso... e então o deliciou, acrescentando inesperadamente uma parelha de versos que Gardener nunca tinha ouvido:

— “Quero sair, não sei se posso, porque tenho pavor do homem Tommyknocker.”

Gardener sorriu... mas o sorriso transformou-se em um pestanejar de nova dor.

— Onde foi que ouviu isso, garoto?

— De minha mãe. Quando eu era criancinha.

— Eu também ouvi de minha mãe sobre os Tommyknockers — disse Gardener, — mas nunca essa parte.

O menino deu de ombros, como se o assunto tivesse perdido qualquer interesse marginal que talvez possuíra para ele.

— Ela costumava inventar todo tipo de coisas. — Ele avaliou o homem à sua frente. — Está sentindo dores?

— Garoto — disse Gardener inclinando-se solenemente para diante, — nas mortais palavras de Ed Sanders e Tuli Kupferberg, eu me sinto como um monte de merda.

— Está parecendo que bebeu por muito tempo.

— É mesmo? Como é que sabe?

— Por causa da minha mãe. Com ela, sempre eram coisas engraçadas como os Tommyknockers, ou então estava bêbada demais para conversar.

— Ela desistiu?

— Acabou. Acidente de carro — disse o menino.

Gardener foi repentinamente tomado de estremecimentos. O menino parecia não perceber; estudava o céu, seguindo a rota de uma gaivota. Ela cruzava um céu matinal, de um azul delicadamente forrado com escamas de cavalinha, ficando negra por um instante, quando voou diante do olho vermelho do sol que nascia. Pousou no quebra-mar, onde começou a bicar algo que gaivotas certamente achavam saboroso.

Gardener olhou da gaivota para o menino, sentindo-se desconcertado e estranho. Tudo aquilo estava, decididamente, assumindo tons agourentos. O menino estava a par dos lendários Tommyknockers. Quantos meninos no mundo sabiam sobre eles e quais as probabilidades de Gardener encontrar um que (a) soubesse sobre eles e (b) que tivesse perdido a mãe por causa da bebida?

Enfiando a mão no bolso, o menino tirou um pequeno emaranhado de bombinhas. O doce pássaro da juventude, pensou Gard, e sorriu.

— Quer soltar umas duas? Comemorar o Quatro de julho? Talvez ficasse mais alegre.

— Quatro de julho? Hoje é quatro de julho?

O menino ofereceu-lhe um sorriso seco.

— Não é o Dia da Árvore.

Vinte e seis de junho tinha sido... Gardener contou para trás. Santo Deus! Estava com oito dias pintados de negro. Bem... nem tanto. Isso até que seria melhor. Retalhos de luz, de maneira alguma bem-vindos, começavam a iluminar partes daquele negror. A idéia de que ferira alguém — novamente — surgiu em sua mente como uma certeza. Ele queria saber quem tinha sido

(arglebargle)

essa pessoa. E o que fizera — a ele ou a ela? Provavelmente fosse melhor não saber. O melhor era telefonar para Bobbi e acabar consigo mesmo, antes de recordar tudo.

— Como foi que arranjou essa cicatriz na testa, senhor?

— Colidi em uma árvore, quando esquiava.

— Deve ter doído um bocado.

— Sim, foi ainda pior do que isso, mas não muito. Sabe onde há um telefone público?

O menino apontou para um extravagante teto verde de presbitério, situado a talvez um quilômetro e meio, junto da praia. Erguia-se sobre um promontório granítico, que desmoronava e parecia a capa de uma novela gótica. Tinha que ser um balneário. Após um momento forçando a memória, Gard recordou o nome.

— É o Alhambra, não?

— Primeiro e único.

— Obrigado — disse ele, começando a andar.

— Senhor?

Gardener se virou.

— Não vai querer o último caderno? — o menino apontou para o caderno de notas molhado, que jazia na linha da maré alta. — Poderia tentar secá-lo.

Gardener abanou a cabeça.

— Garoto — disse ele. — Eu nem mesmo consigo secar-me...

— Tem certeza de que não quer soltar algumas bombinhas?

Gardener tornou a abanar a cabeça, sorrindo.

— Tome cuidado com elas, certo? As pessoas às vezes se machucam com coisas que explodem.

— Tá bem. — O menino sorriu, com certo acanhamento. — Minha mãe levou um tempão se machucando, antes de... o senhor sabe...

— Eu sei. Como é o seu nome?

— Jack. E o seu?

— Gard.

— Feliz Quatro de Julho, Gard.

— Feliz Quatro, Jack. E fique de olho nos Tommyknockers.

— Batendo à minha porta — acrescentou solenemente o menino, fitando Gardener com olhos que pareciam estranhamente conhecedores.

Por um momento, Gardener pareceu sentir uma segunda premonição (quem imaginaria que uma ressaca era tão conducente às emanações psíquicas do universo? perguntou em seu íntimo uma voz amargamente sarcástica). Ele não sabia exatamente qual era a premonição, porém ficou de novo ansioso em relação a Bobbi. Acenou para o menino e começou a caminhar. Seguiu pela praia em passos rápidos e firmes, embora a areia dificultasse a caminhada, aderindo aos pés, tolhendo-os. Logo seu coração disparava e a cabeça latejava tão forte, que até os olhos pareciam pulsar.

E sua impressão era de que o Alhambra não ficava mais tão próximo.

Diminua o passo ou terá um ataque do coração. Um infarto. Ou as duas coisas.

Caminhou mais devagar... mas então pensou no quanto isso era palpavelmente absurdo. Ali estava ele, planejando afogar-se dentro de quinze minutos mais ou menos, porém enquanto isso, preocupava-se com um ataque cardíaco. Era como a velha piada, sobre o condenado à morte que recusava o cigarro oferecido pelo chefe do pelotão de fuzilamento. “Estou tentando parar de fumar”, diz o sujeito.

Gardener recomeçou a andar depressa, e agora as pontadas de dor marcavam firmes batidas, como moedas retinindo ritmadamente:

 

Na noite passada e na noite anterior

Tommyknockers, Tommyknockers,

Batendo à porta.

Eu estava louco, Bobbi estava sã,

Porém Isso foi antes

De chegarem os Tommyknockers.

 

Ele parou de andar. Que merda é essa de Tommyknockers?

Em vez de uma resposta, ouviu aquela voz profunda, tão aterrorizante, mas também tão segura como o grasnido de um mergulhão, lamentando um lago vazio: Bobbi está em apuros.

Gardener começou de novo a caminhar, voltando ao passo lépido anterior... depois movendo-se ainda mais depressa. Quero sair, pensou. Não sei se posso, porque tenho pavor do homem Tommyknocker.

Estava subindo os degraus, embranquecidos pelo vento, que levavam da praia ao promontório de granito em que ficava o hotel, quando passou a mão debaixo do nariz e notou que ele sangrava novamente.

 

Gardener demorou exatamente onze segundos no saguão do Alhambra — tempo suficiente para o homem no balcão da portaria constatar que ele estava descalço. O homem fez um sinal de cabeça para um robusto empregado quando Gardener começou a protestar e, juntos, eles o expulsaram dali.

Teriam me posto para fora, mesmo que eu estivesse de sapatos, refletiu Gard. Merda, eu mesmo me poria para fora!

Tinha dado uma boa espiada em sua figura, no vidro da porta do saguão. Uma espiada até boa demais. Conseguira limpar a maioria do sangue no rosto com a manga, porém ainda havia traços. Seus olhos estavam injetados e arregalados. A barba de uma semana dava-lhe uma aparência de porco-espinho, umas seis semanas após ser tosquiado. Aos olhos do afetado mundo veranista do Alhambra, onde homens eram homens e mulheres usavam saiotes de tênis, ele parecia um mendigo catador de papéis.

Como por ali só estavam os mais madrugadores, o empregado robusto perdeu algum tempo comunicando-lhe que havia um telefone público no posto de gasolina da Mobil.

— Fica no cruzamento da US 1 e da Rota 26. Agora, caia fora daqui e vá para o inferno, antes que eu chame os tiras!

Se houvesse necessidade de ele saber mais sobre si mesmo do que já sabia, bastava ver os olhos desdenhosos do corpulento empregado.

Gardener desceu lentamente a colina, em direção ao posto. Suas meias adejavam e batiam no asfalto. Seu coração pulsava como um lamentoso motor de Modelo T, que já experimentara viagens demasiado acidentadas e insuficiente manutenção. Podia sentir a dor de cabeça movendo-se para a esquerda, onde eventualmente se centralizaria em brilhante ponta de alfinete... se ele pretendesse viver até lá, claro. Então, de repente, Gardener estava de novo com dezessete anos.

Tinha dezessete anos, e sua obsessão não eram reatores, mas sexo. O nome da garota era Annmarie. Gard achava que logo estaria levando a melhor com ela, desde que não perdesse as estribeiras. Se tivesse paciência. Talvez ainda essa noite. No entanto, uma parte de manter a linha era sair-se bem nesse dia. Nesse dia, bem ali — ali sendo Straight Arrow, uma pista intermediária de esqui na montanha Victory, em Vermont. Ele estava olhando para seus esquis, revisando mentalmente os passos necessários para a manobra básica de conseguir frear a descida, quando chegasse ao final, da mesma forma como revisava a matéria para uma prova no colégio, querendo ser aprovado, sabendo que ainda era bastante novato nisto, ao contrário de Annmarie. Não queria encerrar sua descida parecendo um boneco de neve, em seu primeiro dia nas pistas de principiantes, porque então ela talvez não topasse sua idéia. Não se importava de parecer um pouco inexperiente, desde que não parecesse um idiota completo e, por isso, tinha ficado olhando imbecilmente para os pés, em vez de vigiar para onde ia — e estava indo direto para um velho e encarquilhado pinheiro, com a tira vermelha de aviso pintada no tronco. Os únicos sons eram do vento em seus ouvidos e da neve deslizando secamente sob os esquis, e ambos tinham o mesmo som brando e mitigante: Shhhhh...

Foram os versos que irromperam em sua memória, fazendo-o parar perto do posto da Mobil. Os versos surgiram e ficaram, marcando compasso com seu coração e a cabeça latejante. Na noite passada e na noite anterior, Tommyknockers, Tommyknockers, batendo à porta.

Gard escarrou, sentiu o desagradável sabor de cobre do próprio sangue, e sua cusparada foi uma matéria sanguinolenta, na terra entulhada de lixo do acostamento. Recordou ter perguntado à mãe quem ou o que eram Tommyknockers. Não conseguiu lembrar o que ela respondera — se é que respondera alguma coisa — porém sabia que sempre os imaginara como assaltantes, ladrões que roubavam à claridade da lua, matavam na sombra e sepultavam na parte mais escura da noite. E não passara ele uma torturante e interminável meia hora na escuridão de seu quarto, antes que o sono finalmente decidisse ser misericordioso e reclamá-lo, pensando que eles poderiam ser canibais, além de ladrões? Que, em vez de enterrarem as vítimas, no escuro da noite, bem poderiam cozinhá-las e... hum...

Gardener cruzou os braços magros (parecia não haver restaurantes, no alto do ciclone) em torno do peito e estremeceu.

Cruzou para o posto da Mobil, que estava embandeirado, mas ainda fechado. Os avisos na fachada diziam SUPER SEM MISTURA. 89, DEUS ABENÇOE A AMÉRICA e NÓS AMAMOS BEBERRÕES! O telefone público ficava a um lado do prédio. Gardener alegrou-se ao constatar que era um dos modernos, permitindo ligações interurbanas sem depositar qualquer dinheiro. Pelo menos, isto lhe poupava a indignidade de gastar parte de sua última manhã na terra pedindo dinheiro a estranhos.

Apertou o zero, depois teve que parar. Sua mão tremia loucamente, era difícil firmá-la. Enganchou o fone entre a cabeça e o ombro, deixando livres as duas mãos. Depois aferrou o pulso direito com a mão esquerda, a fim de mantê-lo firme... o mais firme possível, afinal. Então, mirando como um atirador diante de um alvo, usou o indicador para pressionar as teclas, com lenta e horrível deliberação. A voz robotizada lhe disse que pressionasse o número de seu cartão de crédito (tarefa que Gard decidiu ser incapaz totalmente de desempenhar, ainda que possuísse tal cartão) ou o zero, que correspondia à telefonista. Gardener apertou o zero.

— Olá, feliz feriado, aqui é Eileen! — trinou vivamente uma voz. — Quer me dar o seu número, por favor?

— Olá, Eileen, feliz feriado para você também — respondeu Gard. — Eu gostaria que fosse uma chamada a cobrar, da parte de Jim Gardener.

— Tudo bem, Jim.

— Obrigado — disse ele, acrescentando subitamente: — Não, mude isso. Diga a ela que é Gard chamando.

Enquanto o telefone de Bobbi começava a tocar, lá em Haven, Gardener se virou e olhou para o sol que nascia. Estava ainda mais vermelho do que antes, subindo para o apertado monte de nuvens semelhantes a escamas de cavalinha, como uma enorme bolha redonda no céu. O conjunto de sol e nuvens trouxe-lhe à mente outra rima da infância: De noite, vermelho o céu, pro marinheiro é pitéu. De manhã, vermelho o céu, pro marinheiro é escarcéu. Gard ignorava a respeito de céu vermelho de manhã ou de noite, mas sabia que aquelas nuvens em forma de delicadas escamas eram um confiável prognóstico de chuva.

Que droga, são rimas demais para a última manhã de um homem sobre a terra, pensou irritadamente, e depois: Vou acordar você Bobbi, vou acordar você, mas prometo que nunca mais farei isso.

Entretanto, não havia nenhuma Bobbi para ele acordar. O telefone simplesmente continuou tocando. Ring... e ring...e ring...

— A pessoa que chamou não atende — informou a telefonista, como se ele fosse surdo ou talvez houvesse esquecido o que fazia durante alguns segundos, segurando o fone contra o traseiro, em vez do ouvido. — Não prefere tentar novamente mais tarde?

Sim, talvez. Só que teria de ser através do tabuleiro Ouija, Eileen.

— Certo — respondeu. — Tenha um bom dia.

— Obrigada, Gard!

Ele afastou o fone do ouvido, como se houvesse levado uma dentada. Ficou olhando para o objeto em sua mão. Por um momento, ela soara tão semelhante a Bobbi... tão infernalmente semelhante...

Tornou a levar o fone ao ouvido.

— O que foi que você...

Então se calou, percebendo que a alegre Eileen havia desligado.

Eileen. Ela era Eileen, não Bobbi Só que...

Ela o chamara de Gard. Bobbi era a única pessoa que...

Não, mude isso. Diga a ela que é Gard chamando.

Pronto. Uma explicação perfeitamente razoável.

Então, porque não parecia assim?

Gardener desligou lentamente. Ficou parado ao lado do posto da Mobil, com suas meias molhadas, as calças amarfanhadas e as abas da camisa soltas para fora, a sombra muito e muito comprida. Um grupo de motociclistas passou pela Rota 1, a caminho do Maine.

Bobbi está em apuros.

Por favor, quer parar de insistir nisso? É besteira, como diria a própria Bobbi. Besteira! Alguém lhe disse que o único feriado quando se vai em casa é no Natal? Ela voltou a Utica para o Glorioso Quatro de Julho, eis tudo.

Sim. Claro. Era tanta a probabilidade de Bobbi voltar a Utica, em comemoração ao Quatro de Julho, quanto a dele em candidatar-se como estagiário na nova central atômica de Bay State. Anne sem dúvida comemoraria o feriado cravando alguns foguetões na cona de Bobbi e disparando-os.

Bem, talvez ela tenha sido convidada para ser comissária da parada — ou xerife-comissária, ba-ba — em uma daquelas cidadezinhas vaqueiras sobre as quais vive escrevendo. Deadwood, Abilene, Dodge City, algum lugar desses. Você Já fez o que pôde. Agora, termine o que começou!

Sua mente não fez qualquer esforço para argumentar; ele poderia enfrentar isso. Pelo contrário, apenas insistiu em sua tese original: Bobbi está em apuros.

Isto não passa de uma desculpa, seu galinha covarde!

Ele não pensava assim. A intuição solidificava-se em certeza. E se fosse ou não besteira, aquela voz continuava insistindo que Bobbi se metera em alguma enrascada. Enquanto não tivesse certeza absoluta a respeito, ele supôs que poderia adiar sua questão pessoal. Conforme tinha dito para si mesmo, não muito tempo antes, o oceano não iria a lugar nenhum.

— Talvez os Tommyknockers a tenham apanhado — disse em voz alta.

Depois riu — uma risada assustada, breve, de garganta seca. Ele estava ficando louco, sem dúvida.

 

GARDENER CHEGA

Shushhhhh...

Ele está de cabeça baixa, contemplando seus esquis, duas ripas lisas de madeira castanha que deslizam sobre a neve. Começara a observá-los, apenas para certificar-se de que os mantinha em boa posição e paralelos, não querendo parecer um exibicionista, que nada tivesse a fazer ali. Agora, está quase hipnotizado pela líquida velocidade dos esquis, pelo brilho de cristal da neve, passando entre eles em uniforme faixa branca de uns quinze centímetros de largura. Só percebe seu estado de semi-hipnose, quando Annmarie grita: “Cuidado, Gard! Cuidado!”

É como ser despertado de um transe brando. Apenas então, repara que esteve em um semitranse, que ficou tempo demais olhando para baixo, para aquela brilhante e fluida faixa nevada.

Annmarie grita: “Stem christie!* Gard! Stem Christie!”

Ela torna a gritar agora para ele cair, simplesmente cair? Ora, a gente pode quebrar uma perna fazendo isso,

Naqueles últimos segundos anteriores ao impacto da colisão, ele ainda não entende como a coisa ficou séria tão depressa.

De algum modo, começara a desviar-se para além do lado esquerdo da trilha. Pinheiros e abetos, os galhos cinza-azulados pesados de neve, desfilam como um borrão, a menos de três metros dele. Avista uma rocha que se projeta da neve; seu esqui esquerdo a perdeu por centímetros.

Com gélido terror ele sente que perdeu inteiramente o controle, que esqueceu tudo quanto Annmarie lhe ensinara, manobras que pareciam tão fáceis, quando feitas nas trilhas de descida para crianças.

E agora está indo... a quanto? Trinta quilômetros à hora? Cinqüenta? Sessenta? O ar frio bate cortante em seu rosto, e ele avista a linha de árvores marginando a trilha Straight Arrow — Flecha Direta — ficando cada vez mais perto. Sua própria flecha direta se tornou uma leve diagonal. Leve, mas suficiente para ser fatal, de qualquer modo. Ele vê que seu rumo logo o tirará completamente da trilha. Então, fará alto, sem dúvida, poderá parar com rapidez

Annmarie torna a gritar esganiçadamente, e ele pensa: Stem christie?

Foi isso mesmo que ela disse? Bolas! Nem ao menos sei fazer um snowplow* e ela ainda quer que eu faça um stem christie?

Ele tenta virar para a direita, porém os esquis permanecem teimosamente no mesmo rumo. Agora, já pode ver a árvore em que colidirá, um enorme, venerável pinheiro antigo. Uma tira vermelha foi pintada em redor de seu tronco engelhado — um aviso de perigo, inteiramente desnecessário.

Tenta desviar-se novamente, porém esqueceu como fazê-lo.

A árvore se agiganta, parecendo correr em sua direção, enquanto ele próprio permanece imóvel; pode perceber nós denteados, galhos desfolhados e afiados, nos quais poderá empalar-se, vê entalhes no tronco vetusto, vê gotejamentos onde a tinta vermelha escorreu.

Annmarie torna a gritar agudamente e ele percebe que também está gritando.

Shusshhhhhh...

 

— Ei, você! Está se sentindo mal?

Gardener se ergueu subitamente, assustado, esperando pagar pelo movimento com uma devastadora pontada de dor varando-lhe a cabeça. Nada disso aconteceu. Por um momento, ele sentiu a nauseante vertigem que podia ser resultante da fome, porém a cabeça estava clara. A dor de cabeça havia passado, à sua maneira súbita, enquanto ele dormia — talvez até enquanto sonhava com seu acidente.

— Estou bem — respondeu, olhando em torno.

Sua cabeça estonteou agora — mas ao bater contra um tambor. Uma jovem vestindo um jeans de denim, cujas pernas tinham sido recortadas para transformá-lo em bermuda, começou a rir.

— Supõe-se que aí a gente deva usar baquetas, cara, não a sua cabeça. Você estava resmungando no sono.

Ele viu que se encontrava em um furgão — e então tudo se encaixou no lugar.

— Estava?

— No duro. E parecia agoniado.

— Não tive um bom sonho — disse Gardener.

— Dê uma tragadinha — ofereceu a jovem, estendendo-lhe um baseado. O pregador que segurava a pequena guimba era dourado e antigo, com a figura de Richard Nixon de terno azul, os dedos erguidos formando o característico V duplo, um gesto que provavelmente nem o mais velho dos outros cinco ocupantes daquele furgão recordaria. — É garantida para a cura de qualquer sonho ruim — acrescentou a jovem solenemente.

Era o que me diziam sobre o álcool, gentil senhorita. Entretanto, às vezes eles mentem. Pode crer às vezes eles mentem.

Gardener deu uma leve tragada na guimba, apenas por polidez, mas sentiu que sua cabeça começava a marear quase imediatamente. Devolveu o baseado à jovem, que se sentava contra a porta corrediça do furgão.

— Eu preferiria comer alguma coisa — disse.

— Temos uma caixa de biscoitos — disse o motorista, estendendo-a para trás. — Comemos tudo o mais que havia. Beaver comeu até as malditas ameixas secas. Sinto muito.

— Beaver come qualquer coisa — disse a jovem de bermudas.

O rapazinho sentado no banco do passageiro olhou para trás. Era rechonchudo, de rosto largo e simpático.

— Inverdade! — declarou. — Inverdade. Nunca comi minha mãe!

Ao ouvi-lo, todos começaram a rir como loucos, Gardener inclusive. Quando conseguiu falar, ele disse:

— Os biscoitos estão ótimos. Falo sério.

E estavam mesmo. A princípio ele comeu devagar, tenteante, alerta a quaisquer sinais de rebelião do organismo. Nada acontecendo, passou a comer cada vez mais depressa, até ver-se enfiando os biscoitos aos punhados na boca, com o estômago roncando e se abrindo para recebê-los.

Quando comera pela última vez? Não sabia dizer. Tudo ficara perdido no negrume daqueles últimos dias. Por experiências anteriores, Gardener estava a par de que nunca comia muito, ao ocupar-se em tentar beber o mundo — e grande parte do que tentava comer terminava em seu colo ou pela camisa abaixo. Aquilo o fez pensar na grande e gordurosa pizza que comera — tentara comer — na noite do Dia de Graças, em 1980. A noite em que baleara Nora no rosto.

...ora, você poderia ter-lhe seccionado um ou os dois nervos ópticos! gritou furiosamente o advogado de Nora para ele, dentro de sua cabeça. Seria a cegueira parcial ou total! A paralisia! A morte! Tudo quanto essa bala precisava fazer, era estilhaçar um dente, que sairia voando em qualquer direção, qualquer maldita direção, entendeu? Bastava um! E não fique aí sentado, arquitetando alguma asneira, como não ter tido a intenção de matá-la. Você baleou uma pessoa na cabeça, o que mais estaria querendo fazer?

A depressão começou a aproximar-se — grande, negra, com um quilômetro de altura. Devia ter-se matado, Gard. Não devia ter esperado.

Bobbi está em apuros.

Bem, talvez esteja. Entretanto, receber ajuda de um sujeito como você, é como contratar um piromaníaco para consertar um motor de carro que queima óleo em excesso.

Cale-se!

Você está liquidado, Gard. Frito. O que aquele garoto lá da praia chamaria de queimado.

— Tem certeza de que está bem, amigo? — perguntou a jovem.

Os cabelos dela eram ruivos, cortados bem curtos, à moda punk. As pernas lhe chegavam aproximadamente ao queixo.

— Está tudo bem comigo — disse ele. — Dou outra impressão?

— Por um minuto, parecia aterrorizado — respondeu ela, em tom grave.

Aquilo o fez sorrir — não o que ela dissera, mas a solenidade com que havia falado — e a jovem sorriu também, aliviada.

Espiando pela janela, ele percebeu que rumavam para o norte, pela estrada de pedágio do Maine — e os marcadores da rodovia indicavam trinta e seis milhas, de modo que não devia ter dormido tanto tempo. As penugentas escamas de cavalinha, que o céu mostrara duas horas atrás, começavam a fundir-se em um cinza fosco, prometendo chuva à tarde — antes dele chegar a Haven. Provavelmente já seria noite e estaria encharcado.

Após desligar o telefone no posto de gasolina, tirara as meias e as jogara na lata de lixo instalada em uma das ilhas onde ficavam as bombas do combustível. Depois caminhara pela Rota 1, em direção ao norte, descalço, até parar em um acostamento, com a velha mala-mochila na mão e o polegar da outra erguido, mostrando o norte.

Vinte minutos mais tarde passara este furgão — um Dodge Caravel razoavelmente novo, com chapas do Delaware. Nas laterais estavam pintadas duas guitarras elétricas, os braços dos instrumentos cruzados no alto, como espadas, e mais o nome do grupo que viajava no veículo: BANDA DE EDDIE PARKER. O furgão parou e Gardener correu para ele, ofegando, a mochila batendo na perna, a dor de cabeça pulsando de dor lancinante em sua têmpora esquerda. Apesar da dor, achara divertido o slogan cuidadosamente pintado através das portas traseiras do furgão: SE EDDIE ESTIVER ROCKANDO, NÃO BATA NEM VÁ ENTRANDO.

Agora, sentado no piso à traseira e forçando-se a lembrar que não devia girar rapidamente e bater contra a caixa do tambor, Gardener viu que se aproximava a saída para Old Orchard. Ao mesmo tempo, as primeiras gotas de chuva bateram no pára-brisa.

— Ouça — disse Eddie, freando. — Não gosto de deixar você na estrada com esse tempo. Está começando a chover e não tem um maldito sapato nos pés!

— Não se incomode comigo. Tudo vai dar certo.

— Você não me parece muito legal — disse suavemente a jovem de bermudas.

Eddie tirou seu boné (NÃO JOGUEM A CULPA EM MIM, EU VOTEI EM HOWARD, O PATO, estava escrito na viseira) e disse:

— Vocês aí, caras, comecem a soltar algum!

Surgiram carteiras de notas; moedas tilintaram em bolsos de jeans.

— Não! Ei, obrigado, mas não é preciso!

Gardener sentiu o sangue subir ao rosto e ficar queimando nas faces. Não de constrangimento, mas de pura vergonha. Em algum lugar dentro dele, sentiu um forte e doloroso baque — não chocalhou seus dentes ou ossos. Devia ser, pensou, sua alma, levando alguma queda final. Isso soava infernalmente melodramático. Quanto ao que sentia... bem, era apenas real.

Aí estava a parte horrível da coisa. Apenas... real. Tudo bem, pensou. Tem de ser assim mesmo. A vida inteira você ouviu gente falando sobre chegar ao fundo do poço — a sensação é esta. Nada mais, nada menos. James Gardener, que pretendia ser o Ezra Pound de sua geração, recebendo uns trocados de uma banda que atua nos bares do Delaware.

— Falo sério... não...

Eddie Parker continuou passando o boné, assim mesmo. Nele havia um punhado de moedas e algumas notas de um dólar. Beaver foi o último a contribuir. Deixou cair duas moedas de vinte e cinco centavos.

— Escutem — disse Gardener, — sou muito grato a vocês, mas...

— Como é, Beaver? — disse Eddie. — Esqueça a sovinice agora!

— É verdade, tenho amigos em Portland! Basta ligar para alguns e... bem, acho que deixei meu talão de cheques com um cara que conheci em Falmouth — acrescentou Gardener insensatamente.

— Bea-ver é um sovina — começou a cantarolar alegremente a jovem de bermudas. — Bea-ver é um sovi-na, Bea-ver é um sovi-na!

Os outros começaram a cantarolar também, até que Beaver, entre risadas e trejeitos dos olhos girando nas órbitas, acrescentou outra moeda de vinte e cinco centavos, mais um bilhete da Loteria de Nova Iorque.

— Pronto, fiquei duro — disse ele. — A menos que queiram esperar por aí, até que as ameixas secas apareçam!

Os rapazes da banda e a jovem de bermudas recomeçaram a dar risadas como loucos. Olhando resignadamente para Gardener, como se dissesse, Vê só com que imbecis tenho de andar? Dá pra entender?, Beaver estendeu o boné para Gardener, que se viu na obrigação de aceitá-lo; se não o apanhasse, as moedas teriam rolado por todo o piso do furgão.

— Francamente — disse, tentando devolver o boné a Beaver. — Estou perfeitamente bem...

— Não está — replicou Eddie Parker. — Portanto, pare de dizer bobagens. O que vai dizer agora?

— Acho que vou dizer obrigado — falou Gardener. — No momento, não consigo pensar em outra coisa.

— Bem, não é o suficiente para que tenha de declarar em seu imposto de renda — disse Eddie, — mas dá para comprar alguns hambúrgeres e um par daquelas sandálias de borracha.

A jovem fez deslizar a porta lateral do Caravel.

— Cuide-se, entendeu? — disse ela. Então, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ela o abraçou e beijou, a boca úmida, amistosa, entreaberta e exalando maconha. — Cuide-se bem, grandalhão.

— Vou tentar. — Já prestes a descer, ele de repente a abraçou também, apertadamente. — Obrigado. Obrigado a todos vocês!

Ficou parado na faixa divisória da rampa, a chuva agora caindo um pouco mais forte, espiando enquanto a porta corrediça do furgão era puxada de novo. A jovem acenou. Gardener acenou em resposta, e então o furgão começava a descer a rampa, ganhando velocidade, para finalmente entrar na faixa que o levaria a seu destino. Gardener ficou olhando, uma das mãos ainda erguida em um aceno, para o caso deles olharem para trás. As lágrimas agora lhe corriam livremente pelo rosto, misturados à chuva.

 

Ele não teve oportunidade de comprar um par de sandálias de borracha, mas chegou a Haven antes do escurecer e não precisou caminhar os últimos quinze quilômetros mais ou menos até a casa de Bobbi, como havia pensado; poder-se-ia pensar que as pessoas tendem mais a recolher um sujeito pedindo carona na chuva, porém o mais provável é que sigam em frente sem parar. Quem desejaria uma poça humana no banco do passageiro?

Entretanto, ele conseguiu uma carona nos arredores de Augusta, com um fazendeiro que se queixou constante e amargamente do governo, durante todo o trajeto até a periferia urbana de China, onde Gard desembarcou. Caminhou uns três quilômetros, fazendo sinal para os carros que passavam, perguntando-se se seus pés iam virar pedras de gelo ou era apenas sua imaginação. Foi quando um caminhão madeireiro parou ruidosamente ao seu lado.

Gardener içou-se para a boléia o mais depressa que pôde. O recinto cheirava a lascas velhas de lenha e suor azedo de madeireiros... porém estava aquecido.

— Obrigado — disse.

— Não foi nada — disse o motorista. — Sou Freeman Moss.

Estendeu a mão. Não fazendo a mais remota idéia de que iria encontrar este homem no futuro não-muito-distante e sob condições bem menos agradáveis. Gardener apertou-lhe a mão.

— Jim Gardener. Obrigado mais uma vez.

— Não tem que agradecer. Como disse, não foi nada — respondeu Freeman Moss.

O caminhão começou a rodar. Estremeceu ao longo da margem da estrada, ganhando velocidade, pensou Gard, não apenas com má vontade, mas sentindo dor real. Tudo balançava. A junta universal gemeu abaixo deles, como uma bruxa em um canto de lareira. A escova de dentes mais antiga do mundo, cujas cerdas erodidas estavam de graxa empregada para seduzir ao movimento alguns dentes sujos e coagulados da transmissão ou cremalheira, chilreou ao longo do painel de instrumento, à sua passagem produzindo o velho refrigério que produzida uma mulher nua, de seios abundantes, Moss pisou o pedal da embreagem, conseguiu encontrar a segunda, após um tempo interminável rilhando marchas, e entrou em luta com o caminhão madeireiro, a fim de fazê-lo retornar à estrada.

— Você parece quase afogado. Tenho meia garrafa térmica de café, sobra do meu jantar no “Drunken Donuts”, em Augusta... vai querer?

Gardener bebeu o café, agradecidamente. Era forte, estava quente e muito doce. Também aceitou um cigarro do motorista. Tragou fundo a fumaça, com prazer, embora lhe ardesse na garganta, que cada vez ficava mais dolorida.

Moss o deixou precisamente nos limites urbanos de Haven, faltando quinze minutos para as sete. A chuva cessara e o céu iluminava-se no lado oeste.

— Acho que Deus vai permitir um pôr-do-sol — disse o motorista. —Diabo, eu gostaria de arranjar-lhe um par de sapatos, chefe — em geral trago comigo um par de tênis velhos atrás do assento, mas hoje chovia tanto, que vim apenas com minhas botas de borracha.

— Obrigado, mas não há problema. Minha amiga mora a menos de um quilômetro e meio, estrada acima.

Em realidade, Bobbi morava a uns cinco quilômetros dali, mas ele nada disse ao motorista, porque então Moss insistiria em levá-lo até lá. Gardener estava cansado, cada vez mais febril, ainda com as roupas úmidas, mesmo depois de quarenta e cinco minutos das rajadas secas do aquecedor... porém naquele dia não podia suportar mais gentilezas. Em seu estado mental do momento, isso poderia deixá-lo fora de si.

— Tudo bem. Boa sorte!

— Obrigado.

Gardener desceu e acenou, quando o caminhão desviou-se para uma estrada lateral e continuou sacolejando a caminho de casa.

Mesmo depois de Moss e seu caminhão peça de museu terem desaparecido, Gardener permaneceu ali um pouco mais, a mala-mochila molhada em uma das mãos, os pés descalços, pálido como lírios da Páscoa, em pé no solo macio do acostamento, olhando para o poste indicador, plantado uns seis metros antes do ponto em que se achava. O lar é o lugar onde, quando chegamos lá, eles têm de acolher-nos, havia dito Frost. Entretanto, para ele era melhor lembrar que não estava em casa. Talvez o pior erro que um homem pudesse cometer, seria imaginar que a casa de um amigo era sua, especialmente esse amigo sendo uma mulher, cuja cama ele um dia partilhara.

Não havia lar algum — mas ele estava em Haven.

Começou a caminhar, subindo a estrada em direção à casa de Bobbi.

 

Uns quinze minutos mais tarde, quando as nuvens no oeste finalmente se abriram e deixaram visível o sol que se punha, algo estranho aconteceu: pela cabeça de Gardener passou um jato de música, alto, nítido e breve.

Ele parou, olhando na direção do sol, cuja claridade banhava ondulados quilômetros de florestas molhadas e campos de feno no oeste, cintilando como os dramáticos raios solares em um épico bíblico de DeMille. A Rota 9 começava a elevar-se naquele ponto, permitindo a visão de um longo, maravilhoso e solene panorama no lado oeste, a luminosidade do anoitecer possuindo algo de inglês e pastoral, em sua límpida beleza. A chuva emprestara à paisagem uma aparência lustrosa e lavada, de cores mais acentuadas, como se preenchesse a tessitura das coisas. De repente, Gardener ficou muito satisfeito por não se ter suicidado — não de alguma forma piegas à Art Linkletter, mas porque lhe fora permitido este momento de beleza e maravilha perceptivas. Ali parado, agora já quase no final de suas energias, febril e indisposto, ele sentiu o êxtase puro de uma criança.

Tudo estava parado e silencioso, naquela claridade final do pré-anoitecer. Não havia qualquer sinal de indústria ou tecnologia. De humanidade, sim: um grande celeiro vermelho junto a uma casa branca de fazenda, galpões, um ou dois trailers, mas era tudo.

A luminosidade. Aquela luminosidade é que o impressionara com tanta força.

Sua doce claridade, tão antiga e profunda — aqueles raios diagonais de sol, projetando-se quase horizontalmente através das nuvens desemaranhadas, enquanto aquele longo, confuso e exaustivo dia aproximava-se do fim. Aquela luz imemorial parecia negar o próprio tempo, e Gardener quase esperou ouvir um caçador soprando sua trompa, anunciando “Todos Montados”. Ele ouviria cães, patas de cavalos e...

...e foi então que a música, dissonante e moderna, estrondeou através de sua cabeça, dispersando qualquer pensamento. Suas mãos voaram às têmporas, em um gesto espantado. O jorro musical durou pelo menos cinco segundos, talvez prolongando-se a dez, e o que ele ouviu foi perfeitamente identificável; era Dr. Hook, cantando “Baby Makes Her Blue Jeans Talk”.

A letra era metálica, mas suficientemente nítida — como se a ouvisse em um pequeno rádio transistorizado, do tipo que as pessoas costumavam levar para a praia, antes que o grupo de punk-rock “Walkman and the Ghetto-Blasters” tivesse tomado conta do mundo. Entretanto, a melodia não lhe penetrava pelos ouvidos; ela vinha da frente de sua cabeça... do lugar onde os médicos haviam tapado um buraco em seu crânio com um pedaço de metal.

 

“A rainha dos notívagos,

Uma artista no escuro,

Calada, não diz palavra,

Mas meu bem faz seu blue jeans falar.”

 

O volume era tão alto, que se tornava quase insuportável. Acontecera com ele antes, essa música dentro da cabeça, depois que enfiara o dedo em um soquete de luz — e estava bêbado daquela vez? Meu caro, um cachorro mija no hidrante?

Ele havia descoberto que tais visitas musicais não eram alucinatórias e nem assim tão raras — pessoas haviam captado transmissões de rádio nos flamingos que enfeitavam seus gramados; em obturações dentárias, nos aros de aço de seus óculos... Em 1957, durante uma semana e meia, uma família residente em Charlotte, Carolina do Norte, recebera sinais de uma estação de música clássica, da Flórida. Primeiro as ouviram emitidas do copo d‘água no banheiro. Em breve, outros copos da casa passaram também a captar o som. Antes que a coisa terminasse, a casa inteira se enchia com a fantasmagórica sonoridade dos copos irradiando Bach e Beethoven, a música apenas interrompida ocasionalmente para informarem as horas. Por fim, com uma dúzia de violinos sustendo uma nota aguda e prolongada, quase todos os copos da casa estilhaçaram-se espontaneamente, assim cessando o fenômeno.

Gardener, portanto, sabia que não estava só e tivera certeza de que não estava enlouquecendo — porém isso não era grande consolo e jamais ouvira algo assim tão alto, depois do incidente com o soquete da luz.

O som de Dr. Hook desapareceu tão rapidamente quanto surgiu. Gardener ficou tenso, esperando que voltasse. Não voltou. Em vez disso, o que chegou, mais alto e mais insistente do que antes, foi uma repetição daquilo que o pusera em movimento, antes de mais nada! Bobbi está em apuros!

Virando as costas para a paisagem do lado oeste, ele recomeçou a subir a Rota 9. E, embora febril e muito cansado, caminhou depressa — de fato, em pouco tempo estava quase correndo.

 

Eram sete e meia, quando ele finalmente chegou à casa de Bobbi — o que os moradores locais continuavam chamando propriedade do velho Garrick, mesmo após aqueles anos. Gardener chegou cambaleando pela estrada, ofegante, com o rosto mostrando uma vermelhidão doentia. Ali estava a caixa de correspondência rural, a portinhola ligeiramente aberta, da maneira como Bobbi e Joe Paulson, o carteiro, costumavam deixar, a fim de Peter poder abri-la mais facilmente com a pata. Ali estava o caminho para carros, com a picape azul de Bobbi estacionada nele. O que poderia estar na carroceria, tinha sido coberto com uma lona, ficando protegido da chuva. E ali estava a casa em si, com uma luz brilhando na janela que dava para o leste, junto da qual Bobbi tinha a cadeira de balanço e costumava ler.

Tudo parecia correto; não havia uma só nota destoante. Cinco anos antes — talvez três — Peter teria latido ante a presença de um estranho no lado de fora, porém o cachorro envelhecera. Diabo, todos eles tinham de envelhecer.

Parado ali fora, ele percebia que a moradia de Bobbi guardava a mesma espécie de agradável e pastoral quietude que sentira ao contemplar a vista do oeste, nos limites da cidade — aquele lugar representava todas as coisas que Gardener gostaria de possuir. Um senso de paz, talvez apenas um senso de lugar onde morar. Certamente, nada via de estranho enquanto permanecia ali, junto da caixa de correspondência. Tudo parecia — dava a sensação — da residência de uma pessoa satisfeita consigo mesma. Alguém não inteiramente relegado ao repouso, precisamente, não aposentado ou isolado das preocupações mundanas... mas alguém firme em suas raízes. Aquela era a casa de uma mulher saudável e relativamente feliz. Não havia sido construída no raio de ação do ciclone.

De qualquer modo, alguma coisa estava errada.

Ele continuou parado, um estranho lá fora, no escuro,

(ora, mas eu não sou um estranho, sou um amigo, um amigo dela, um amigo de Bobbi... não sou?)

e dentro dele cresceu um súbito, amedrontador impulso: ir embora. Apenas dar meia volta sobre os pés descalços e sumir dali. Porque, de repente, Gardener não sabia se queria descobrir o que estava acontecendo no interior daquela casa, em que espécie de apuros Bobbi se metera.

(Tommyknockers, Gard eis o que amáveis Tommyknockers)

Ele estremeceu.

(tarde na noite passada e na noite anterior Tommyknockers, Tommyknockers à porta de Bobbi e não sei se você pode)

Pare com isso.

(porque Gard tem muito medo do homem Tommyknocker)

Ele passou a língua pelos lábios, tentando dizer para si mesmo que se sentia tão ressequido somente por causa da febre.

Vá embora, Gard! Sangue na lua!

O medo agora era muito, muito profundo e, se fosse outra pessoa que não Bobbi — alguém que não a última pessoa verdadeiramente amiga — ele se teria desintegrado. A casa parecia rústica e agradável, a luz escapando da janela do leste era aconchegante, tudo parecia bem... mas as tábuas e vidraças, as pedras na entrada de carros, o próprio ar que lhe pressionava o rosto... todas estas coisas gritavam para que partisse, fosse embora dali, que as coisas dentro daquela casa eram ruins, perigosas, talvez até mesmo malignas.

(Tommyknockers)

Entretanto, Bobbi estava ali, apesar do que quer que também estivesse na casa. Ele não viajara todos aqueles quilômetros, a maioria deles debaixo de chuva, para dar meia volta e fugir no último segundo. Assim, a despeito do medo, Gardener afastou-se da caixa de correspondência e começou a caminhar pela entrada de carros, movendo-se lentamente, pestanejando com as pedrinhas aguçadas que lhe espetavam a sola dos pés.

Então, a porta da frente escancarou-se, assustando-o a tal ponto, que seu coração foi parar na garganta em um único salto. Ele pensou, É um deles, um dos Tommyknockers, vai correr para mim, agarrar-me a comer-me! Gardener mal conseguiu sufocar um grito.

A silhueta à porta era magra — magra demais, pensou ele, para ser Bobbi Anderson, que nunca fora gorda, mas tinha uma sólida estrutura, agradavelmente arredondada nos lugares certos. A voz, no entanto, embora aguda e oscilante, era indiscutivelmente de Bobbi... e ele relaxou um pouco, pois o pavor dela parecia ainda maior do que o seu, enquanto permanecia parado, não muito distante da caixa de correspondência e olhando para a casa.

— Quem é? Quem está aí?

— Sou eu, Bobbi. Gard!

Houve uma longa pausa. Soaram pisadas na varanda. Depois a voz cautelosa:

— Gard? É você mesmo?

— Sim, sou eu. — Ele recomeçou a caminhar sobre as pedrinhas duras e cortantes da entrada de carros, até chegar ao gramado. Então fez a pergunta que o levara até ali, a pergunta que o induzira a adiar o suicídio: — Você está bem, Bobbi?

O tremor desapareceu da voz de Bobbi, mas Gardener ainda não podia vê-la claramente — o sol há muito se escondera atrás das árvores e as sombras eram espessas. Ele se perguntou onde estaria Peter.

— Estou ótima.

Bobbi disse isso, como se sempre houvesse sido tão terrivelmente magra, como se sempre acolhesse os que surgiam à sua porta, com aquela voz aguda, cheia de medo.

Ela desceu os degraus da varanda, saindo da sombra projetada pelo teto. Foi quando Gardener conseguiu vê-la melhor, à claridade fosca do crepúsculo. Sentiu-se tomado de horror e espanto.

Bobbi caminhava para ele, sorrindo, obviamente deliciada em vê-lo. Seus jeans oscilavam e flutuavam à volta dela, o mesmo acontecendo com a blusa. O rosto estava encovado, os olhos fundos nas órbitas, a testa pálida, de certo modo grande demais, a pele retesada e brilhante. Os cabelos despenteados aninhavam-se contra a nuca e jaziam sobre os ombros como algas lançadas a uma praia. A blusa tinha sido abotoada errado. A braguilha do jeans mostrava o zíper fechado em apenas um quarto do comprimento.

Ela exalava um cheiro de sujeira, suor e... bem, como se houvesse tido algum acidente com as calças, depois tendo esquecido de trocá-las.

Um quadro surgiu repentinamente na mente de Gardener: uma foto de Karen Carpenter, tirada pouco antes de sua morte que, alegadamente, resultara de anorexia nervosa. A ele, parecera a foto de uma mulher já morta, porém de certo modo viva, uma mulher que mostrava os dentes inteiramente em um sorriso, com terríveis olhos febris. Bobbi estava semelhante a ela, agora.

Seguramente, ela não havia perdido mais de dez quilos — era tudo quanto conseguiria perder e ainda manter-se sobre os pés — porém a chocada mente de Gard continuava insistindo que a perda fora mais provavelmente de uns quinze quilos, tinha de ser.

Ela parecia encontrar-se nos últimos estágios da pura exaustão. Seus olhos, como os daquela pobre mulher perdida, na capa da revista, estavam enormes e brilhantes seu sorriso era como o imenso e atoleimado sorriso de um pugilista nocauteado, pouco antes dos joelhos se dobrarem,

— Última! — repetiu aquele trôpego, sujo e vacilante esqueleto, e quando Bobbi chegou mais perto, Gardener captou de novo o tremor em sua voz — não de medo, como pensara, mas de total exaustão, — Pensei que me tinha esquecido! É bom ver você, cara!

— Bobbi... Bobbi, meu Deus, o que...?

Bobbi estendia a mão para que ele apertasse. Os dedos tremeram visivelmente no ar, e Gardener viu como o braço de Bobbi Anderson ficara fino, espantosa e incrivelmente magro.

— Há um bocado de coisas acontecendo — gaguejou ela, em sua voz trêmula. — Muito trabalho já feito, muito ainda por fazer, mas eu chego lá, ora se chego, você verá...

— Bobbi, o que...?

— Ótima, eu estou ótima — repetiu ela e caiu para diante, semiconsciente, nos braços de Gardener.

Ainda tentou dizer algo, mas apenas um gorgolejar incoerente e um pouquinho de saliva saíram de sua boca. Os seios eram pequenos e frouxos acolchoados contra o antebraço dele.

Gardener a ergueu nos braços, espantado ao sentir o quanto estava leve. Sim, deviam ter sido quinze quilos, no mínimo quinze quilos. Era incrível mas, desgraçadamente, inegável. Ele reconheceu algo que tanto tinha de chocante, como de infeliz: Isto não é Bobbi, de maneira nenhuma... Sou eu. Eu, no fim de uma bebedeira.

Com Bobbi nos braços, ele subiu rapidamente os degraus da varanda e entrou na casa.

 

MODIFICAÇÕES

Depositando Bobbi no sofá, ele se dirigiu pressuroso para o telefone. Ergueu o fone, decidido a discar 0 e perguntar à telefonista que número discaria para falar com a mais próxima unidade de pronto-socorro. Bobbi teria que ir imediatamente para o Hospital de Derry. Gardener achava que ela sofrera um colapso (embora a verdade é que estava tão confuso, que mal conseguia concatenar os pensamentos). Devia ser alguma espécie de colapso. Bobbi parecia a última pessoa no mundo a “passar para o outro lado”, porém tudo indicava que tal havia acontecido.

Ela disse qualquer coisa, no sofá. Gardener não entendeu a princípio; a voz de Bobbi era pouco mais do que um murmúrio roufenho.

— O que é, Bobbi?

— Não ligue para ninguém — disse ela. Conseguiu falar mais alto desta vez, porém mesmo esse esforço quase parecia exauri-la. Suas faces estavam afogueadas, mas o resto do rosto mostrava profunda palidez e os olhos brilhavam, estavam tão febris e faiscantes como duas pedras azuis lapidadas — diamantes ou safiras, talvez. — Não... Gard, ninguém!

Roberta arriou contra o sofá novamente, ofegando com rapidez. Ele desligou o telefone e aproximou-se, alarmado. Bobbi precisava de um médico, isso era óbvio. Gardener queria conseguir-lhe um... porém agora a visível agitação dela era mais importante.

— Ficarei aqui com você — disse, tomando-lhe a mão, — se é isso que a preocupa. Deus sabe que já estava comigo através de suficiente mer...

Ela, no entanto, estivera sacudindo a cabeça, com crescente veemência.

— Só preciso dormir — sussurrou. — Dormir... e comer de manhã. O sono é o principal. Não tenho dormido nada... há três dias. Talvez quatro.

Gardener tornou a fitá-la, novamente chocado. Somou o que acabara de ouvir, com a aparência dela.

— Em que foguete andou voando? — e por quê? acrescentou a mente dele. — Benzedrina? Maconha?

Pensou em cocaína, mas rejeitou a idéia. Evidentemente, Bobbi tinha dinheiro para comprar coca, se quisesse, porém Gardener não acreditava que isso manteria um homem ou uma mulher sem dormir por três ou quatro dias, e também derretendo uns quinze quilos de peso. Quinze quilos a menos em — ele calculou o tempo, desde que a vira pela última vez — não mais de três semanas.

— Nenhuma droga — disse Bobbi. — Nada disso.

Os olhos dela giraram e cintilaram nas órbitas. A saliva escorria pelos cantos da boca e Bobbi a sugou de volta. Por um instante, Gardener viu em seu rosto uma expressão que não lhe agradou... que o amedrontou um pouco. Era uma expressão de Anne. Velha e astuta. Então, as pálpebras de Bobbi desceram lentamente, fechos reveladores, contrastando com a delicada tonalidade purpúrea da exaustão total. Quando ela tornou a abrir os olhos, era apenas Bobbi jazendo ali... e Bobbi precisava de ajuda.

— Vou telefonar pedindo uma ambulância — disse Gardener, tornando a levantar-se. — Francamente, você não me parece nada bem, B...

A mão fina de Bobbi se moveu e agarrou o pulso dele, quando já se virava para o telefone. Segurou-o com surpreendente força. Gardener olhou para ela e, embora ainda lhe parecesse terrivelmente cansada e quase desesperadamente exaurida, aquele brilho febril desaparecera dos olhos. Agora, as pupilas o fitavam diretamente, claras e saudáveis.

— Se você chamar alguém — disse Bobbi, com voz ainda algo trêmula, porém quase normal, — nossa amizade estará encerrada para sempre, Gard. Falo sério. Ligue para o pronto-socorro, para o Hospital de Derry ou mesmo para o velho Dr. Warwick, na cidade, e será o fim da linha para nós... Você nunca mais tornará a entrar em minha casa. A porta estará fechada para você!

Gardener olhou para ela com crescente desânimo e horror. Se pudesse convencer-se de que, naquele momento Bobbi delirava, faria a ligação com prazer... porém era evidente que estava muito lúcida.

— Bobbi, você...

... sabe o que está dizendo? Bem, ela sabia e aí estava o horror da situação. Bobbi ameaçava terminar com a amizade deles, se Gardener não lhe fizesse a vontade. Usava a amizade de ambos como um trunfo, pela primeira vez em todos os anos desde que a conhecia. E havia algo mais nos olhos de Bobbi Anderson: o conhecimento de que sua amizade talvez fosse a última coisa na terra a que ele desse valor.

Faria muita diferença, se eu lhe dissesse o quanto parece com sua irmã, Bobbi?

Não — ele viu no rosto dela que nada faria qualquer diferença.

— ...não sabe o quanto parece mal — terminou ele, de modo pouco convincente.

— É, não sei — concordou ela, com um fantasma de sorriso perpassando-lhe o rosto. — Contudo, faço uma idéia, pode crer. Seu rosto... é melhor do que qualquer espelho. Enfim, Gard, sono é tudo de que preciso. Preciso dormir e... — Seus olhos se fecharam novamente, mas ele tornou a abri-los, com visível esforço. — Desjejum — completou. — Dormir e desjejum.

— Isso não é tudo de que precisa, Bobbi.

— Eu sei. — A mão dela não largara o pulso de Gardener e agora apertou-o de novo. — Também preciso de você. Eu o chamei. Com a mente. E você ouviu, não ouviu?

— Sim, ouvi — respondeu ele, pouco à vontade. — Acho que ouvi.

— Gard... — A voz dela extinguiu-se; Gard esperou, a mente em torvelinho. Bobbi precisava de socorro médico... mas o que havia dito sobre terminar a amizade deles, se Gardener chamasse alguém... O beijo suave que ela lhe depositou na palma suja de terra o surpreendeu. Olhou com espanto para os olhos dilatados de Bobbi. O brilho da febre os abandonara e tudo quanto Gard viu neles foi uma súplica.

— Espere até amanhã — pediu ela. — Se amanhã eu não me sentir melhor... mil vezes melhor... irei ao médico. Certo?

— Bobbi...

— Está bem assim? — A pressão da mão aumentou, exigindo a confirmação dele.

— Está bem... acho que está...

— Quero que me prometa.

— Eu prometo.

Talvez, acrescentou Gardener mentalmente. — Se você não dormir e começar a respirar esquisito. Se quando eu vier observá-la pela meia-noite, você não estiver mais com esses lábios dando a impressão de que andou contendo uvas-do-monte. E se não estiver desmaiada.

Isto era idiotice. Uma idiotice perigosa, covarde... mas idiotice acima de tudo. Ele escapara do grande ciclone negro, convencido de que matar-se seria a melhor maneira de liquidar toda a sua infelicidade e garantir que não causaria mais infelicidade aos outros. Sua intenção era séria; sabia que era. Estivera prestes a saltar para aquela água fria. Então, surgira a intuição de que Bobbi estava em apuros

(Eu o chamei e você ouviu, não ouviu?)

e agora ele estava ali. Muito bem, senhoras e senhores, ele parecia ouvir Allen Ludden dizer, com sua voz rápida e leve de mestre em testes, aqui está a sua questão decisiva. Dez pontos, se puderem me dizer por que fim Gardner se preocupa com a ameaça de Bobbi Anderson em terminar a amizade de ambos, quando o próprio Gardener pretendia encerrá-la, suicidando-se. Como? Ninguém sabe? Pois aqui está uma surpresa! Eu também não sei!

— Tudo bem — dizia Bobbi. — Tudo bem, ótimo.

A agitação que quase havia sido terror, dissipou-se — o arquejar rápido da respiração diminuiu e um pouco do afogueamento sumiu de suas faces. Então, pelo menos a promessa valera alguma coisa.

— Durma, Bobbi. — Ele ficaria ali sentado, vigiando qualquer mudança. Estava cansado, mas tomaria café (e também um ou dois do que quer que Bobbi estivesse tomando, se os encontrasse). Devia a ela uma noite de vigilância. Houvera noites em que ela o ficara vigiando. — Durma agora.

Gardener soltou delicadamente o pulso que a mão dela prendia. Ela sorriu, um sorriso tão doce, que Gardener começou a amá-la novamente. Bobbi tinha esse poder sobre ele.

— Será apenas... como nos velhos tempos, Gard.

— Certo, Bobbi. Como nos velhos tempos.

— Eu... amo você...

— Também amo você. Durma.

A respiração dela ficou mais profunda. Gardener sentou-se perto de Bobbi por três minutos, depois cinco, contemplando aquele sorriso de madona, cada vez mais convencido de que ela dormia. Então, muito lentamente, com grande esforço, os olhos dela se abriram de novo.

— Fabuloso — sussurrou.

— Como? — perguntou Gardener, inclinando-se para adiante, pois não ouvira bem o que ela havia dito.

— O que aquilo é... o que aquilo pode fazer... o que aquilo fará...

Ela fala dormindo, pensou Gardener, mas tornou a arrepiar-se. Aquela expressão astuta retornara ao rosto de Bobbi. Não sobre o rosto, mas no rosto, como se houvesse crescido por baixo da pele.

— Você devia tê-lo descoberto... Acho que era para você, Gard...

— De que está falando?

— Dê uma espiada pela casa — disse Bobbi, a voz extinguindo-se. — Você verá como a coisa resolve os... problemas... todos os problemas...

Gardener precisava inclinar-se bem para diante, a fim de ouvir alguma coisa.

— De que está falando, Bobbi? — repetiu.

— Olhe pela casa — insistiu ela.

A última palavra apagou-se, enrouquecida, tornou-se um ressonar. Bobbi tinha adormecido.

 

Gardener quase retornou ao telefone. Ficava perto dele. Levantou-se, mas chegando ao meio da sala de estar, mudou de rumo e caminhou para a cadeira de balanço de Bobbi. Ficaria vigilante durante algum tempo, pensou. Vigiaria por algum tempo, e tentaria pensar no que tudo aquilo significava.

Engoliu em seco e pestanejou com a dor na garganta. Estava febril e desconfiava que sua febre não era nenhum caso de primeiro grau tampouco. Sentia-se mais do que indisposto; sentia-se irreal.

Fabuloso... O que aquilo é... o que aquilo pode fazer...

Ficaria sentado ali algum tempo e pensaria um pouco mais. Então, prepararia um bule de café forte e desmancharia seis aspirinas dentro dele. Isso cuidaria das dores e da febre, pelo menos temporariamente. Talvez também ajudasse a mantê-lo acordado.

o que aquilo fará...

Gard fechou os olhos, entrando em sonolência. Tudo bem, poderia cochilar, mas não por muito tempo. Nunca conseguiria dormir sentado. E Peter estaria para aparecer a qualquer momento; veria seu velho amigo Gard, saltaria em seu colo e lhe machucaria os colhões. Sempre era assim. Quando se tratava de pular na cadeira, no colo de Gard e colidir em seus colhões, Peter nunca falhava. Que diabo de despertador, se por acaso ele estivesse dormindo quando da chegada de Peter... Cinco minutos, nada mais do que isso. Quarenta piscadelas. Não faria mal algum.

Você devia tê-lo descoberto. Acho que era para você...

Ele cochilou e seu cochilo aprofundou-se rapidamente para o sono, um sono tão forte que se aproximava do coma.

 

Shusshhhhh...

Ele está de cabeça baixa, contemplando seus esquis, duas ripas lisas de madeira castanha deslizando sobre a neve, hipnotizado por sua líquida velocidade. Só percebe seu estado de quase hipnose, quando uma voz à sua esquerda diz: “Uma coisa que vocês, bastardos, nunca se lembram de mencionar em seus desgraçados comícios comunistas contra a energia nuclear é apenas isto: em trinta anos de desenvolvimento pacífico de energia nuclear, não fomos apanhados uma só vez.”

Ted está usando um suéter de pele de rena sobre jeans desbotados. Ele esquia depressa e bem. Por outro lado, Gardener está inteiramente sem controle.

“Você vai bater!” diz uma voz à sua direita. Ele espia, e é Arglebargle. Arglebargle começou a decompor-se. Sua cara gorda, que estivera corada pelo álcool na noite da festa, agora mostra um amarelo-cinza de cortinas velhas, penduradas em janelas sujas. Sua carne pende para baixo, pesando e fendendo-se. Arglebargle nota seu espanto e terror Os lábios acinzentados se distendem em um sorriso.

“É isso ai!” diz ele. “Estou morto. Foi mesmo um ataque do coração. Nada de indigestão, nada de vesícula. Tive um colapso, cinco minutos depois de sua saída. Chamaram uma ambulância, e o rapazinho que contratei para cuidar do bar fez meu coração voltar a bater, com um ressuscitamento cardiopulmonar, porém morri de vez na ambulância.”

O sorriso estira-se; fica tão atoleimado, como o sorriso de uma truta morta, jazendo na praia deserta de um lago envenenado.

“Morri em um sinal de trânsito vermelho, na Storrow Drive”, diz Arglebargle.

“Não”, sussurra Gardener. Isto... Isto é o que sempre temeu. O ato embriagado, final e irrevogável.

“Sim”, insiste o homem morto, enquanto descem velozmente a encosta, desviando-se para mais perto das árvores. “Convidei-o à minha casa, dei-lhe comida e bebida, mas você retribuiu matando-me em uma discussão de bêbado.”

“Por favor... eu...”

“Você o quê? Você o quê?” a voz vem novamente de sua esquerda. A pele de rena da suéter de Ted desapareceu, sendo substituída pelos símbolos amarelos de aviso sobre radiação. “Você não tem nada para dizer, eis a verdade! De onde pensam vocês, os Reacionários do último dia, que vem toda essa energia?”

“Você me matou!” troveja Arberg à sua direita, “mas vai pagar. Você vai sofrer um acidente, Gardener.”

“Pensam que a conseguimos com o Mago de Oz?” grita Ted.

Em seu rosto irrompem subitamente úlceras purulentas. Surgem bolhas em seus lábios, os quais descascam, racham e começam a supurar. Um de seus olhos cintila com um leitoso de catarata. Com crescente horror, Gardener percebe que olha para um rosto exibindo sintomas de um homem nos últimos estágios avançados da contaminação radioativa.

Os símbolos da radiação, na camisa de Ted, estão empretecendo.

“Pode apostar que vai acidentar-se”, berra Arglebargle. “Bater!”

Ele agora está chorando de terror, como chorou depois de balear a esposa, de ouvir a incrível informação sobre a arma que tinha na mão, de ver como ela recuava aos tropeções contra o balcão da cozinha, uma das mãos colada ao rosto, como uma mulher proferindo um chocado “Oh, Deus! NUNCA PENSEI!” E então, o sangue começou a escorrer-lhe por entre os dedos, enquanto a mente dele fazia um último e desesperado esforço para negar tudo aquilo, pensando, É catchup, relaxe, é apenas catchup. Em seguida, começou a chorar, como chorava agora.

“No que diz respeito a vocês, caras, toda a sua responsabilidade termina na placa da parede onde ligam a tomada. “O pus agora escorre e pinga pelo rosto de Ted. Seu cabelo caiu. As úlceras cobrem-lhe o crânio. Sua boca se distende em um sorriso tão atoleimado quanto o de Arberg. Agora, no paroxismo do terror, Gardener percebe que está esquiando sem controle, descendo a Straight Arrow, flanqueado por homens mortos. “Contudo, vocês nunca nos deterão e sabem disso. Ninguém será capaz compreenda, o reator está fora de controle. Esteve assim desde... oh, por volta de 1939, admito. Atingimos a massa crítica em 1965, aproximadamente. Está fora de controle. Breve haverá a explosão.”

“Não... não...”

“Você andou voando muito alto, mas para os que voam mais alto, pior é a queda”, estrondeia Arberg. “Assassinar um anfitrião é o pior homicídio de todos. Você vai bater... vai bater... bater!”

Quanto havia de verdade nisto! Ele tenta virar, porém seus esquis permanecem teimosamente no mesmo rumo. Agora pode ver o pinheiro, gigantesco, velho, engelhado. Arglebargle e Ted, o Homem Energia, desapareceram. Ele pensa! Eles seriam Tommyknockers, Bobbi?

Ele pode ver uma tira vermelha de tinta em volta do rugoso tronco do pinheiro... e então repara que começa a lascar-se e partir-se. Enquanto desliza irremediavelmente para a árvore, observa que ela ficou viva, que se abriu para engoli-lo. A árvore bocejante aumenta e incha, parece correr para ele, cria tentáculos e há uma horrível escuridão apodrecida em seu centro, contornada por tinta vermelha, como o batom de alguma sinistra prostituta. Então, ele ouve ventos sombrios uivando naquele negrume, naquela boca escancarada e ele não acorda então, tanto quanto parecia ter acordado — todos sabem que mesmo os sonhos mais extravagantes parecem reais, que inclusive podem ter sua própria lógica espúria, porém este não é real, não pode ser. Ele simplesmente trocou um sonho por outro. É algo que acontece o tempo todo.

Este sonho, foi sobre seu antigo acidente de esquis — pela segunda vez nesse dia, dá para alguém acreditar? Só que desta vez, a árvore com a qual colidiu, aquela que quase o matou, ganha uma boca apodrecida, como um bocejante nó na madeira. Ele acorda sobressaltado e se vê sentado na cadeira de balanço de Bobbi, aliviado demais por apenas acordar, para incomodar-se com o corpo todo rígido, a garganta agora tão dolorida, que dá a impressão de forrada com arame farpado.

Ele pensa: Vou levantar e preparar para mim uma dose de café e aspirina. Não era o que eu ia fazer antes? Começa a levantar-se, e então Bobbi abre os olhos. Também é quando Gard sabe que está sonhando, deve estar sonhando, porque raios de luz verde partem dos olhos de Bobbi — ele recorda a visão de raio X do Super-homem, nas revistas de histórias em quadrinhos, da maneira como o artista sempre a desenhou, em raios de tonalidade esverdeada. Entretanto, a luz que parte dos olhos de Bobbi dá uma sensação de pantanosa, de algo terrível... existe qualquer coisa de putrefata naquilo, como o luzir saltitante do fogo-de-santelmo em um pântano, durante uma noite quente.

Bobbi se senta lentamente e olha em torno... olha para Gardener Ele tenta lhe dizer que não... Por favor não ponha essa luz sobre mim.

Nem uma só palavra lhe sai da boca e, quando aquela luz verde o atinge, pode ver que os olhos de Bobbi cintilam com ela — na fonte, a luz é verde como esmeralda, brilhante como o fogo solar. Ele não pode encará-la, precisa desviar os olhos. Tenta erguer um braço para proteger o rosto, mas não pode, o braço pesa demais. Vai queimar-se, pensa Gard, vai queimar-se, e então, dentro de alguns dias, surgirão as primeiras bolhas, a princípio dando a impressão de serem espinhas, porque essa é a aparência da doença da radiação quando tudo começa, apenas um punhado de espinhas, com a diferença de que estas espinhas nunca saram, só vão ficando pior... e pior...

Gardener ouve a voz de Arberg, um remanescente descorporificado do sonho anterior, e agora parece haver triunfo em sua voz que estrondeia: “Eu sabia que você ia acidentar-se, Gardener.”

A luz o toca... banha-o por inteiro. Mesmo com os olhos fechados apertadamente, ela ilumina a escuridão de verde, como mostradores de rádio dos relógios. Entretanto, nos sonhos não existe dor real, e aqui nada existe. A brilhante luz verde não é quente nem fria. Não é nada. Exceto que...

Sua garganta.

Sua garganta não está doendo mais.

E ele ouve isto, clara e indiscutivelmente: “...por cento de desconto! Este é o tipo de baixa de preços que jamais poderá ser repetido! TODOS têm crédito! Cadeiras reclináveis! Colchões d’água! Móveis para sala de estar...”

A placa em seu crânio, falando novamente. A voz desapareceu quase logo após começar.

Como sua garganta dolorida.

E aquela luz verde também desapareceu.

Gardener abre os olhos... cautelosamente.

Bobby está deitada no sofá, de olhos fechados, profundamente adormecida... exato como antes. Afinal, que história foi esta sobre raios disparando dos olhos? Santo Deus!

Ele torna a sentar-se na cadeira de balanço. Engole. Não sente dor. A febre também baixou um bocado.

Café e aspirina, pensa. Você ia levantar-se, preparar café e aspirina, lembra-se?

Claro, pensa ele, ajeitando-se mais confortavelmente na cadeira de balanço e fechando os olhos. Só que ninguém prepara café e aspirina em um sonho. Farei isso assim que acordar.

Gard, você está acordado.

Oh, mas é claro que não pode ser isso. No mundo de vigília, as pessoas não emitem faixas verdes dos olhos, luzes que curam febres e gargantas doloridas. Em sonhos, sim, na realidade, não.

Ele cruza os braços sobre o peito e vagueia para longe. Durante o resto daquela noite nada mais sabe — seja dormindo ou acordado.

 

Quando Gardener acordou, uma viva claridade banhava seu rosto, penetrando pela janela do oeste. Suas costas doíam como o diabo e, ao levantar-se, seu pescoço produziu um esquisito rangido artrítico, que o fez pestanejar. Faltavam quinze para as nove da manhã.

Olhando para Bobbi, sentiu um relance de asfixiante medo — naquele momento, teve certeza de que ela havia morrido. Então, percebeu que apenas se encontrava profundamente adormecida, em um sono tão imóvel, que dava uma boa impressão de estar morta. Era um erro que qualquer um poderia cometer. O peito de Bobbi elevava-se em movimentos lentos e regulares, com pausas longas, mas também regulares entre cada respiração. Fazendo uma avaliação, Gardener viu que ela não respirava mais de seis vezes por minuto.

Entretanto, a aparência dela era melhor esta manhã — não muita coisa, porém bem melhor do que o fantasmagórico espantalho que havia saído da casa para recebê-lo na noite anterior.

Duvido que minha aparência fosse muito melhor, pensou ele, caminhando para o banheiro de Bobbi, a fim de fazer a barba.

O rosto que o espiou do espelho não estava tão ruim como temera, porém notou, com certa apreensão, que seu nariz havia sangrado novamente no correr da noite — não muito, porém o bastante para sujar as narinas e a maioria do lábio superior. Tirou uma toalha do armário à direita da pia a abriu a torneira da água quente, a fim de molhá-la.

Deixou a água correndo da torneira quente na toalha, com todo o alheamento de um longo hábito — com o aquecedor de água de Bobbi, tinha-se tempo para uma xícara de café e um cigarro, antes de conseguir-se uma água morna — e isso era o fim do m...

— Aiii!

Gardener puxou a mão para fora da água quente, que estava soltando fumaça. Muito bem, aí estava o que tinha ganho, ao presumir que Bobbi ia continuar seguindo a estrada da vida, sem se dar ao trabalho de mandar consertar o maldito aquecedor de água.

Ele levou à boca a palma escaldada, enquanto olhava para a água escorrendo da torneira. Já tinha empanado a borda inferior do espelho de fazer a barba, nas costas do armário de remédios. Estendendo a mão, encontrou a torneira quase quente demais para ser tocada e usou a toalha a fim de fechá-la. Depois colocou o tampão, deixou cair um pouco mais de água quente — com todo cuidado! — e acrescentou uma generosa porção de água fria. A parte carnuda sob o polegar esquerdo ficara um pouco avermelhada.

Abrindo o armário de remédios, Gardener remexeu entre as coisas que ali estavam, até encontrar o frasco receitado de Valium, com seu próprio nome no rótulo. Se essa coisa melhora com a idade, deve estar formidável, pensou. O frasco permanecia quase cheio. Bem, o que estava esperando? Evidentemente, Bobbi estivera tomando seu remédio — o dela — e fosse lá o que fosse, tão certo como o demônio, devia ter sido o oposto do Valium.

Gardener também não o queria. O que procurava devia estar atrás daquele frasco, se estivesse...

Ah! Achei!

Tirou um aparelho de barbear de lado duplo e um pacote de lâminas.

Olhou com certa tristeza para a camada de poeira no barbeador — fazia muito tempo desde a última vez que se barbeara pela manhã, ali na casa de Bobbi — e o limpou com água. Pelo menos, ela não o jogou fora, pensou. Isso seria ainda pior do que a poeira acumulada...

Barbear-se, certamente o deixaria sentindo-se melhor. Concentrou-se nisso e começou a barbear-se, enquanto seus pensamentos seguiam o próprio curso.

Terminou, recolocou os apetrechos de barba atrás do frasco de Valium e limpou a pia. Depois olhou pensativamente para a torneira com o Q impresso no alto e decidiu ir ao porão, verificar que magnífico aquecedor de água Bobbi lá instalara. A única outra coisa a fazer era vigiar o sono de sua amiga, porém tudo indicava que ela estava se saindo perfeitamente bem sozinha.

Entrou na cozinha, pensando que de fato se sentia bem, em particular agora, quando as dores provenientes de uma noite na cadeira de balanço de Bobbi começavam a desaparecer de suas costas e pescoço. Você é o tal cara que jamais conseguiu dormir sentado, certo? zombou suavemente de si mesmo. Desabar em quebra-mares faz mais o seu estilo, certo? Esta zombaria, no entanto, nada tinha do autodesprezo rude e quase incoerente do dia anterior. A única coisa que Gard sempre esquecia, quando no auge da bebedeira e nas terríveis depressões de ressaca, era aquele senso de regeneração, que às vezes chegava mais tarde. A pessoa pode acordar um belo dia, percebendo que não introduziu veneno algum no organismo na noite anterior... na semana anterior... talvez em todo o mês anterior... e sentir-se realmente bem.

Quanto ao que estivera receando como talvez um início de gripe, até mesmo pneumonia — também tinha desaparecido. Não sentia mais a garganta dolorida. Não sentia mais o nariz entupido. Não tinha mais febre. Deus sabia que ele havia sido o alvo perfeito para um vírus, após oito dias de bebedeira, de dormir mal e finalmente voltar para o Maine, de carona e descalço, durante uma tempestade. Entretanto, tudo acabara no correr da noite. Às vezes, Deus era bondoso.

Gard fez alto no meio da cozinha, seu sorriso diluindo-se em uma expressão momentânea de surpresa e certa inquietude. Um fragmento de seu sonho — ou sonhos — insistia em retornar

(comerciais pelo rádio durante a... terão algo a ver com o fato de sentir-me bem esta manhã?)

e depois tornar a desaparecer. Rejeitou a idéia, satisfeito com o fato de que se sentia bem e que Bobbi parecia bem — melhor, enfim. Se ela não acordasse lá pelas dez da manhã, dez e meia no máximo, ele a despertaria. E se estivesse se sentindo melhor e falando racionalmente, ótimo. Poderiam discutir o que quer que tivesse acontecido a ela (ALGO certamente aconteceu, pensou Gardener, perguntando-se alheadamente se não teriam sido notícias terríveis de casa... um boletim que, indubitavelmente a irmã Anne fornecera). Baseariam-se nisso. Se, mesmo remotamente, ainda se assemelhasse à Bobbi Anderson dopada e arrepiante que o recebera na noite anterior, Gardener chamaria um médico, querendo ela ou não.

Abriu a porta que levava ao porão e tateou em busca do antiquado interruptor da parede. Encontrou-o. O interruptor era o mesmo. A luz é que não era. Em vez da claridade mortiça emitida por duas lâmpadas de sessenta watts — única iluminação no porão-adega de Bobbi, desde que se lembrava — o recinto ficou banhado por um vivo clarão branco. Parecia tão iluminado como se, ali embaixo, houvesse uma seção de loja de departamentos. Gardener começou a descer, a mão procurando o velho corrimão desconjuntado. Em vez dele, encontrou outro, forte, sólido e novo. Havia sido firmemente preso à parede com novos prendedores de latão. Alguns dos degraus da escada, que tinham sido decididamente nauseantes, também estavam substituídos.

Gardener chegou ao fim da escada e parou, olhando em torno, a surpresa agora beirando uma emoção mais forte — era quase choque. O cheiro ligeiramente mofado daquele porão, também se fora.

Ela parecia uma mulher perdida no tempo, sem brincadeira. Em posição absolutamente crítica. Nem mesmo conseguia lembrar por quantos dias ficara sem dormir. Não é de admitir. Ela falou em melhorias na casa, porém isto aqui é ridículo. Bobbi não poderia ter feito tudo sozinha, creio eu. Ou poderia? Não, é claro que não.

Gardener, no entanto, desconfiava que, de algum modo, tudo aquilo tinha sido obra dela.

Se tivesse despertado ali, em vez de no quebra-mar em Arcádia Point, sem qualquer lembrança do passado imediato, jamais saberia que se encontrava na adega de Bobbi, embora já houvesse estado ali vezes incontáveis antes. O único indício a dar-lhe certeza disso agora, era ter chegado à adega vindo diretamente da cozinha de Bobbi.

Aquele cheiro bolorento não desaparecera por completo, porém estava diminuído. O piso de terra do porão havia sido inteiramente aplainado — não, não apenas aplainado, ele podia ver isso. A terra de um porão-adega fica velha e rançosa após algum tempo; se a gente está pretendendo passar muito tempo no subsolo, tem que fazer algo a respeito. Aparentemente, Roberta colocara ali uma nova carga de terra e a espalhara para secar, antes de aplainá-la com um ancinho. Gardener supôs que, por isso, o ambiente do lugar ficara suavizado.

Lâmpadas fluorescentes haviam sido instaladas em fileiras no teto, cada uma delas pendendo das vigas antigas por correntes e mais prendedores de latão. Espargiam um clarão uniforme, muito branco. Todas as instalações consistiam de lâmpadas simples em tubos, exceto as que ficavam acima da mesa de trabalho; ali, cada pendente tinha um par de lâmpadas, de maneira a emitir tão brilhante luminosidade, que o fez lembrar uma sala de cirurgia. Caminhou até a mesa de trabalho. A nova mesa de trabalho de Bobbi.

Antes, ela utilizava uma mesa comum de cozinha, coberta com um sujo papel contact. A iluminação provinha de um abajur de estúdio com haste flexível e a mesa vivia exibindo algumas ferramentas, a maioria delas em condição não muito boa, além de várias caixas de plástico com pregos, parafusos, porcas, coisas assim. Era a bancada para pequenos reparos, pertencente a uma mulher não muito boa e nem muito interessada em pequenos reparos.

A velha mesa de cozinha se fora, agora substituída por três mesas compridas e leves, do tipo onde são expostos os artigos à venda, especial-mente os bolos, nos bazares da igreja. Haviam sido colocadas extremidade contra extremidade, ao longo do lado esquerdo do porão, formando uma só mesa comprida. Estavam entulhadas de ferragens, ferramentas, rolos de fio encapado, grossos e finos, latas de café cheias de pregos sem cabeça, grampos, prendedores... dúzias de outros itens. Ou centenas.

Havia também as pilhas.

Gardener viu uma caixa de papelão delas debaixo da mesa, uma enorme coleção variada de pilhas e baterias de longa duração, ainda em suas embalagens de plástico duro: pilhas tipo C, D, A-duplo, A-triplo, de nove volta. Aí deve haver uns duzentos dólares de pilhas, pensou Gardener, sem contar as que estão pela mesa. Diabo, mas o que...?

Confuso, ele caminhou ao longo das mesas, como um homem verificando a mercadoria e decidindo se deve ou não comprá-la. Parecia que Bobbi andava fazendo várias coisas diferentes ao mesmo tempo... e Gardener não podia afirmar, com segurança, o que seria uma delas. Ali, no meio do sentido do comprimento das mesas estava uma grande caixa quadrada, com o painel frontal corrido para um lado, revelando dezoito botões diferentes. Ao lado de cada botão, havia o título de uma canção popular: “Raindrops Keep Fallin’ on My Head”, “New York, New York”, “Laras Theme”, etc., etc. Ao lado, uma folha de instruções, perfeitamente pregada à mesa com tachinhas, identificava o aparelho como a primeira e única Campainha Digital para Portas Sineta de Prata (Made in Taiwan).

Gardener não conseguia imaginar para que Bobbi desejaria uma campainha em sua porta, com um microchip embutido, permitindo que o usuário programasse uma canção diferente, sempre que quisesse — ela pensaria que Joe Paulson apreciasse o “Tema de Lara”, quando chegasse à porta com uma encomenda vinda pelo correio? Enfim, isso não era tudo. Gardener compreenderia, pelo menos, o uso da Campainha Digital para Portas Sineta de Prata, se não a motivação de Bobbi em instalar uma. Não obstante, ela parecia em vias de modificar o artefato de algum modo — de fato, acoplando-o à aparelhagem de uma caixa de rádio com antena, do tamanho de uma pequena mala de viagens.

Meia dúzia de fios — quatro finos e dois moderadamente grossos enrodilhavam-se entre o rádio (cuja folha de instruções também fora perfeitamente pregada a percevejos sobre a mesa) e as entranhas abertas da Sineta de Prata.

Gardener contemplou aquilo por algum tempo e passou adiante.

Colapso. Ela teve uma espécie muito singular de colapso mental. Do tipo que Pat Summerall adoraria.

Bem, ali estava algo mais que identificou — um acessório para estufa, chamado respiradouro secundário. É adaptado ao fumeiro e presume-se que recircule algum do calor que normalmente ficaria perdido. O tipo de apetrecho que Bobbi veria em um catálogo, talvez na loja de Ferragens “Confiança”, de Augusta, e falaria em comprá-lo. Na verdade, jamais o compraria, porque então precisaria instalá-lo.

Só que, agora, ela aparentemente o comprara e instalara.

Não se pode dizer que ela esteja tendo um colapso e “isso é tudo“, porque quando alguém realmente criativo supera isso, raramente existe um caso de “isso é tudo”, Colapsos nervosos talvez nunca sejam interessantes, mas quando alguém como Bobbi tropeça, pode tornar-se algo espantoso, Basta olhar para esta bosta aqui.

Alguém acreditaria?

Bem, eu acredito. Não pretendo dizer que pessoas criativas são de certo modo mais refinadas ou mais sensíveis, desta maneira tendo colapsos nervosos mais refinados e sensíveis — quem quiser que poupe toda essa besteira para os adoradores de Sylvia Plath. Acontece apenas, que pessoas criativas têm colapsos criativos. Para quem não acreditar, eu repito: vejam só esta bosta aqui.

Acima dali estava o aquecedor de água, um volume branco e cilíndrico, à direita da parte baixa da porta para o porão. Parecia o mesmo, mas no entanto...

Gardener subiu até lá, querendo ver como Bobbi o “envenenara” de maneira tão radical.

Ela atravessou uma louca fase de melhoramentos domésticos. E a coisa mais curiosa, é que parece não ter diferenciado coisas como consertar o aquecedor de água e modificar campainhas de portas. Corrimão de escada novo. Terra nova, trazida para cá e espalhada no piso do porão. E só mais Deus sabe o quê. Não é de admirar que esteja exausta. E, por falar nisto, Gard, exatamente onde Bobbi adquiriu o know-how para mexer em todas essas coisas? Se foi em um curso por correspondência da Mecânica Popular deve ter virado noites estudando.

Sua primeira surpresa difusa, ao chegar até aquela louca bancada de trabalho no porão de Bobbi, se tornava cada vez mais uma forte inquietude. Não era apenas a evidência de um comportamento obsessivo que tinha visto ao longo daquela mesa — montes de equipamento excessivamente ordenados, todos os quatro cantos das folhas de instrução pregados com esmero — que o preocupava. Tampouco a evidência da mania, no aparente fracasso de Bobbi para discriminar entre as renovações convenientes e as inúteis (aparentemente inúteis, emendou Gardener).

O que o deixava com arrepios, era pensar — tentar pensar — nas imensas, pródigas quantidades de energia que tinham sido gastas ali. Para dar andamento apenas às coisas que ele vira até então, Bobbi devia ter trabalhado como louca. Havia projetos já completados, como o da iluminação fluorescente. Havia aqueles ainda pendentes. Havia as viagens a Augusta, necessárias para a compra de todo o equipamento, ferragens e pilhas. Além da terra fresca para substituir a bolorenta. Não esqueça isto!

O que a teria impelido a isso?

Gardener não sabia, não gostava de imaginar Bobbi ali correndo de um lado para outra trabalhando em dois, cinco ou dez projetos “faça-você-mesmo”, tudo de uma só vez. A imagem era demasiado clara. Bobbi com as mangas da blusa arregaçadas, abertos os três botões do alto do decote, gotas de suor escorrendo por entre os seios, os cabelos repuxados para trás em tosco rabo-de-cavalo os olhos queimando, o rosto pálido, exceto por duas febricitantes manchas vermelhas em cada face. Bobbi seria como uma Sra. Mago enlouquecida, ficando mais e mais insana, à medida que ia apertando parafusos, torcendo porcas, soldando fios, jogando terra fresca no piso e subindo em sua escada de mão, onde ficaria inclinada para trás como dançarina de balé, o suor correndo pelo rosto, os tendões salientando-se no pescoço, enquanto pendurava a nova iluminação. Oh, e já que falamos no assunto, não esqueçamos Bobbi colocando a nova fiação e consertando o tanque do aquecedor de água.

Gardener tocou o lado esmaltado do tanque e tirou a mão rapidamente. Parecia o mesmo, porém não era. Estava quente como o inferno. Agachando-se, ele abriu o postigo, na parte inferior do tanque.

Foi quando Gardener se sentiu, realmente, catapultado no espaço.

 

Anteriormente, o aquecedor de água funcionava com gás de baixa pressão. Os tubos de cobre de pequeno diâmetro que levavam o gás até o queimador do tanque provinham de bujões afixados atrás da casa. O caminhão de entregas da Companhia de Gás Dead River, em Derry, aparecia uma vez por mês e substituía os bujões que precisavam ser trocados — em geral precisavam, porque estavam tão vazios quanto ineficientes... duas coisas que em geral andavam juntas, agora que Gard pensava nisso. A primeira coisa em que reparou, foi a ausência dos canos de cobre que chegavam ao tanque. Agora pendiam livres atrás dele, suas pontas entupidas com pano.

Minha nossa, como estará ela esquentando água? pensou ele, e então espiou dentro do postigo. Por um momento, ficou inteiramente gélido.

Sua mente parecia clara o suficiente, sem dúvida, mas retornara a velha sensação de desligamento, flutuante — o senso de separação. O velho Gard subia de novo, como um balão prateado de gás para criança. Ele se sabia com receio, porém tal conhecimento era mínimo, mal importava, se comparado à lúgubre sensação de estar desligado de si mesmo. Não, Gard, céus! exclamou uma voz soturna, muito fundo dentro dele.

Gardener recordou uma vez que tinha ido à feira de Fryeburg, ainda menino, com não mais que dez anos. Entrara no labirinto dos espelhos com a mãe, os dois acabaram separando-se. Foi a primeira vez quando experimentou essa singular noção de desligamento de si mesmo, de vagar para longe — ou para cima — uma separação do corpo físico e (se tal coisa existisse) da mente física. Ele podia enxergar sua mãe, claro que podia — cinco mães, uma dúzia, cem mães, umas baixas, outras altas, algumas escanifradas. Ao mesmo tempo, via cinco uma dúzia, cem Gards. Em certas ocasiões avistava um reflexo seu, juntando-se a um dos dela. Então estendia a mão, quase alheadamente, esperando tocar os slacks da mãe, mas encontrava apenas o ar vazio... ou outro espelho.

Ficara muito tempo perambulando lá dentro e supôs que sentira pânico, porém o que sentia não se assemelhava a pânico e, até onde podia recordar, ninguém teria representado como ele (caso houvesse pânico), ao finalmente descobrir o caminho da saída. Tinha levado uns quinze minutos no labirinto, dobrando esquinas, virando, retornando e colidindo com barreiras de vidros transparentes. Sua mãe havia franzido ligeiramente a testa por um momento, depois voltara ao normal. Isso tinha sido tudo. No entanto, ele havia sentido pânico, da maneira como também o sentia agora: aquela impressão de sentir a mente desgarrar-se de si mesmo, como uma peça de mecanismo se soltando, em zero-g.

Isso vem... mas vai. Espere, Gard. Apenas espere que termine.

Assim, permaneceu agachado de cócoras, espiando pelo postigo aberto na base do tanque de água de Bobbi. Esperou que aquilo terminasse, como um dia esperara que seus pés o conduzissem pelo trajeto certo e para fora daquele terrível labirinto dos espelhos, na feira de Fryeburg.

A remoção da instalação do gás deixara na base do tanque uma área côncava e arredondada. Esta área havia sido preenchida com um desorden-do novelo de fios elétricos — verdes, vermelhos, azuis e amarelos. No centro do emaranhado havia uma caixa de papelão para acondicionar ovos. FAZENDAS HILLCREST, dizia um letreiro impresso em azul. TIPO GRANDE. Assentada em cada compartimento para os ovos, ele viu uma pilha Eveready alcalina, elemento D, com o terminal positivo para cima. Uma pequena engenhoca em forma de funil encapava os terminais e todos os fios tanto pareciam começar como terminar naquelas cápsulas. Enquanto observava melhor, em um estado que não dava precisamente a impressão de pânico,

Gardener notou que a idéia original — a de que os fios compunham um monte desordenado — não era mais verdadeira do que sua idéia original sobre a confusão do material amontoado na bancada de trabalho de Bobbi. Não, havia ordem na maneira como os fios entravam ou saíam daquelas doze cápsulas em forma de funil — enquanto um mínimo de dois fios entravam ou saíam de algumas, um máximo de seis entravam ou saíam de outras. Havia ordem, inclusive no formato que compunham — era um pequeno arco. Alguns fios retornavam aos funis encapadores acima de outras pilhas, porém a maioria se dirige até placas de circuito, escoradas contra os lados do compartimento aquecedor do tanque d‘água. Gardener supôs que fossem originárias de brinquedos eletrônicos fabricados na Coréia — placas de compensado muito baratas, com soldas prateadas sobre a superfície corrugada. Tudo aquilo compunha um estranho conglomerado... porém aquele estranho conglomerado de componentes estava executando algo. Oh, sim! Antes de mais nada, aquecia água com rapidez suficiente para provocar bolhas na pele.

No centro do compartimento, diretamente acima da embalagem de papelão para ovos, no arco formado pelos fios, cintilava uma brilhante bola de luz, não maior do que uma moeda de vinte e cinco centavos, porém aparentemente tão brilhante quanto o sol.

Gardener erguera automaticamente o punho para bloquear aquele brilho ofuscante a selvagem, o qual emergia do postigo em uma sólida barra branca de luz, lançando a sombra dele comprida e para trás, contra o piso de terra do porão. Só conseguia fitar aquela claridade, apertando os olhos em duas fendas estreitíssimas e então afastando ligeiramente os dedos.

Tão brilhante quanto o sol.

Isso mesmo — só que, em vez de amarela, sua tonalidade era de ofuscante branco-azulado, como uma safira. Seu brilho pulsava e desviava-se ligeiramente, depois permanecia constante, tornando a pulsar e desviar-se em seguida: era um ciclo.

E onde está o calor? pensou Gardener, e isso começou a fazê-lo cair em si. Onde está o calor?

Erguendo uma das mãos, tornou a puxá-la sobre a lateral lisa e esmaltada do tanque — mas apenas por um segundo. Puxou-a de volta, recordando a maneira como a água saíra fumegando, na torneira do banheiro. Havia água quente no tanque, sem qualquer sombra de dúvida, e bastante — para estar fervendo a ponto de explodir fumaça e explodir o tanque de Bobbi Anderson, atirando fragmentos por todo o porão. Obviamente, contudo, nada disso acontecia, o que era um mistério... porém um mistério secundário, se comparado ao fato de que ele não sentia qualquer calor escapando pelo postigo — absolutamente calor algum. Devia ter queimado os dedos na pequena maçaneta de abrir o postigo e, depois que o abrisse, aquele sol do tamanho de uma moeda deveria ter-lhe queimado inteiramente a pele do rosto. No entanto...?

Muito devagar, hesitando, Gardener estendeu a mão esquerda para a abertura, mantendo o punho direito à frente dos olhos, para bloquear o pior do brilho. Sua boca se repuxara em uma careta, pois já antecipava uma queimadura.

Seus dedos unidos e afunilados deslizaram pela abertura do postigo... e então colidiram em algo que impedia a passagem. Mais tarde, refletiu que era mais ou menos como empurrar os dedos em uma meia de náilon espichada — com a diferença de que isto no aquecedor cedia um pouco e então parava. Os dedos nunca se afundavam, como afundariam empurrando-os em uma meia de náilon.

Só que não havia barreira alguma. Pelo menos, nenhuma que ele pudesse ver.

Parou de pressionar e a membrana invisível empurrou suavemente seus dedos, fazendo-os cair pela abertura do postigo. Gardener olhou para os dedos e viu que tremiam.

É um campo de força, daí o motivo de não me ter queimado. Alguma espécie de campo de força, que abafa o calor, Santo Deus, penetrei em uma estória de ficção científica, extraída de Histórias Chocantes. Acho que foi por volta de 1947. Terei eu feito a capa? E se fiz, quem me forçou? Virgil Finlay? Hannes Bok?

Sua mão estava começando a tremer com mais força. Ele tateou pelo postigo, falhou, tornou a encontrá-lo e o bateu bruscamente cortando aquele ofuscante fluxo de luz branca. Baixou lentamente a mão direita, porém ainda podia ver uma pós-imagem daquele sol diminuto, da maneira como vemos uma lâmpada, depois dela nos ser afastada do rosto. Entretanto, Gardener via somente um grande punho verde flutuando no ar, com um vivo azul ectoplásmico entre os dedos.

A pós-imagem desapareceu. Os tremores, não.

Gardener nunca desejara tanto um drinque na vida.

 

Encontrou um na cozinha de Roberta.

Bobbi não era de beber muito, mas guardava o que chamava “gêneros de primeira necessidade” em um armário, por trás das panelas: garrafa de gim, garrafa de uísque, garrafa de bourbon, garrafa de vodca. Gardener puxou a de bourbon — a marca não era das melhores, porém quem precisa não pode ser exigente — despejou uns três centímetros em um copo plástico e o bebeu de um gole.

É bom ficar de olho no que faz, Gard. Está tentando O destino!

Não estava, entretanto. Naquele exato momento, quase teria abençoado uma bebedeira, porém o ciclone fora soprar em qualquer outro lugar... pelo menos por enquanto. Despejou mais uma dose de seis centímetros de bourbon no copo, contemplou a bebida por um momento, e então entornou a maioria na pia. Tornou a colocar a garrafa no lugar e acrescentou água e cubos de gelo, transformando o que fora dinamite líquida em um drinque civilizado.

Refletiu que o menino da praia teria aprovado.

Supôs que a calma sonhadora que o envolvera ao sair do labirinto dos espelhos — a mesma que tornava a sentir agora — fosse uma defesa contra ficar deitado no chão e gritar até perder a consciência. Quanto à calma, tudo bem. O que o assustava, era a rapidez com que sua mente começara a tentar convencê-lo de que nada disso era verdade — que tudo aquilo havia sido uma alucinação. Incrivelmente, a sugestão era de que, ao abrir o postigo na base do aquecedor, o que tinha visto era uma lâmpada de grande potência — uma lâmpada de duzentos watts, digamos.

Não era uma lâmpada e não era alucinação. Era alguma coisa como um sol, muito pequenino, quente e brilhante,flutuando em um arco de fios, acima de uma caixa de papelão para ovos, cheia de pilhas. Agora, fique biruta se quiser, vomite, embriague-se, mas você viu justamente o que viu, portanto, nada de dourar a pílula, certo? Certo.

Foi dar uma espiada em Bobbi e constatou que continuava dormindo como uma pedra. Decidiu acordá-la por volta das dez e meia, se antes não houvesse acordado por si mesma. Olhou para seu relógio e ficou surpreso, ao constatar que eram apenas nove e vinte. Estivera no porão por menos tempo do que imaginava.

Ao pensar no porão, evocou a visão surreal daquele sol em miniatura, pendendo suspenso em seu arco de fios, cintilando como uma bola de tênis superquente... e, com isso, ele ficou novamente cônscio da desagradável sensação de que sua mente se decompunha. Procurou expulsar a idéia. Ela se recusou a largá-lo. Esforçou-se mais, dizendo para si mesmo que simplesmente não pensaria mais nisso, enquanto Bobbi não acordasse e lhe contasse o que vinha acontecendo por ali.

Olhou para seus braços e reparou que estava suando.

 

Gardener levou seu drinque para o exterior, onde descobriu mais evidências do surto de atividade quase sobrenatural de Bobbi.

O trator Tomcat, de propriedade dela, estava parado diante do espaçoso galpão à esquerda do jardim — nada havia de incomum quanto a isto, pois era ali que ela costumava deixá-lo, quando o meteorologista anunciava que o tempo não seria chuvoso. Entretanto, mesmo a seis metros de distância, Gardener já podia notar que Roberta fizera algo radical no motor do Tomcat.

Não. Agora chega. Esqueça esta merda. Gard. Vá para casa!

Nada havia de sonhador nem desligado sobre essa voz — era ríspida, vitalizada pelo pânico e assustada aflição. Por um momento, Gard viu-se tentado a ouvi-la... e então pensou que traição abismal seria isso — uma traição a Bobbi, a si mesmo. Refletiu que Bobbi o impedira de suicidar-se, ainda na véspera. E, não se matando, ele achava que a impedira de fazer a mesma coisa. Os chineses têm um provérbio: “Quando você salva uma vida, torna-se responsável por ela.” Contudo, se Bobbi precisasse de ajuda, de que maneira ele poderia fornecê-la? Descobrir essa maneira, não começaria por tentar verificar o que estivera acontecendo ali?

Bebeu o restante do drinque, deixou o copo vazio no degrau mais alto da varanda e caminhou para o Tomcat. Tinha uma vaga noção dos grilos cricrilando no capim alto. Não estava bêbado, não empilecado, até onde poderia dizer; o álcool parecia ter feito uma passagem expressa por todo o seu sistema nervoso. Ignore a tolice, como dizem os ingleses.

(à maneira dos leprechauns cujos sapatos fazem plóc-plóc-plócplóc-plóc enquanto o sapateiro dorme)

Só que Bobbi não havia dormido, havia? Ela havia sido impelida até cair — literalmente cair — nos braços de Gardener.

(plóc-plóc-plóc-plóc-plóc tóc-tóc-tóc-tóc-tóc bem tarde na noite passada e na noite anterior antes que os Tommyknockers Tommyknockers batessem à porta)

Em pé junto ao Tomcat, espiando o interior aberto do compartimento do motor, Gardener não apenas estremeceu — ele tiritou como um homem morrendo de frio, os dentes superiores encravando-se no lábio inferior, o rosto pálido, as têmporas e a testa cobertas de suor.

(eles consertaram o aquecedor de água e também no Tomcat há montes de coisas que os Tommyknockers fazem)

O Tomcat era um pequeno veículo para trabalho, que se tornaria quase inútil em uma grande extensão de terras, nas quais a lavoura fosse a atividade principal. Era maior do que um cortador de grama motorizado, porém menor do que o menor trator já fabricado pela Deere ou Farmall, sendo do tipo exato para alguém com uma horta apenas um pouco grande demais para ser chamada de quintal — como era o caso aqui. A horta de Bobbi tinha mais de meio hectare — feijões, ervilhas, milho, pepinos, rabanetes e batatas. Nada de cenouras, repolhos, abóboras ou abobrinhas. “Não planto o que detesto,” havia dito ela a Gardener certa vez. “A vida é curta demais.”

O Tomcat era razoavelmente versátil; tinha que ser — até mesmo um cavalheiro agricultor e bem de vida, teria problemas para justificar a compra de um minitrator de 2.500 dólares, tendo por base uma plantação com menos de meio hectare. Aquele veículo podia arar, aparar grama através de um acessório e cortar feno adaptando-se um outro; conseguia puxar carga pesada em terreno acidentado (ela o usara para puxar toras no outono e, que Gardener soubesse, Bobbi ficara atolada apenas uma vez) e, quando no inverno, acoplado a um limpa-neve, permitia que ela limpasse seu trecho de estrada em meia hora. Era impulsionado por um robusto motor de quatro cavalos.

Ou tinha sido.

O motor continuava ali, mas agora surgia adornado com a mais estranha coleção imaginável de dispositivos e acessórios — Gardener viu-se pensando naquele misto de campainha/rádio sobre a mesa de Bobbi, no porão, e perguntou-se se ela pretenderia instalar aquilo no Tomcat, dentro em breve... talvez como uma espécie de radar ou coisa assim. De sua garganta escapou apenas uma risada solitária e casquinada, cheia de perplexidade.

Um vidro de maionese projetava-se a um lado do motor. Continha um fluido demasiado incolor para ser gasolina, estando aparafusado a um fixador de latão, no cabeçote do motor. Assentado sobre a cobertura removível do motor, ele viu algo que ficaria mais adequado em um Chevrolet Nova ou SuperSport: o carburador, especial para uma máquina alimentada com mistura muito rica.

O velho e modesto carburador tinha sido substituído por algum “contrabandeado” carburador de quatro difusores. Bobbi precisara fazer um buraco através da cobertura do motor, a fim de conseguir espaço para ele.

Havia ainda a fiação — fios por todo o canto, serpenteando para dentro e para fora, para cima e para baixo, contornando, estabelecendo conexões que não faziam o menor sentido... pelo menos, não que Gardener pudesse entender.

Ele olhou para o rudimentar painel de instrumentos do Tomcat, ia virando o rosto... mas então tornou a olhar rapidamente, arregalando os olhos.

O Tomcat possuía alavanca de mudança e o esquema para engatá-las tinha sido impresso sobre um quadrado de metal, aparafusado ao painel, acima do indicador de pressão do óleo. Gardener já vira aquele quadrado metálico por vezes mais do que suficientes; ele próprio dirigira o Tomcat com freqüência, no correr dos anos. Antes, o esquema sempre havia sido:

 

1          3

         N     4

2               R

 

Agora, contudo, algo novo fora acrescentado — algo que era simples o bastante para ser amedrontador:

 

1          3     SUBIR

         N     4

2               R

 

Não está acreditando nisso, está?

Não sei.

Ora, vamos, Gard — tratores voadores? Corta essa!

Ela colocou um sol em miniatura no aquecedor de água.

Tolice. Acho que poderia ter sido uma lâmpada, uma lâmpada potente, com uns duzentos watts... 

Aquilo não era uma lâmpada!

Certo, tudo bem, fique frio. Isto apenas soa como uma publicidade para alguma paródia de E.T, nada mais. “Você acreditará que um trator pode voar.”

Cale a boca.

Ou “John Deere, ligue para casa”. O que me diz?

Novamente parado na cozinha de Roberta, ele ficou olhando ansiosamente para o armário em que estava a bebida. Desviou os olhos — não era fácil, porque era como se tivessem adquirido peso — e caminhou de volta à sala de estar. Viu que Bobbi mudara de posição e que sua respiração tinha agora um ritmo mais rápido. Primeiros sinais de despertar. Tornando a consultar seu relógio, Gardener viu que eram quase dez horas. Foi até a estante de livros de Bobbi, querendo encontrar algo para ler até que ela acordasse, algo que lhe deixasse a mente afastada de tudo aquilo, durante alguns momentos.

O que viu na secretária de Bobbi, ao lado da surrada e antiga máquina de escrever, de certo modo foi o pior choque de todos. De qualquer forma, um choque suficiente para que mal percebesse outra mudança: um rolo de papel perfurado para computador, pendendo da parede, mais acima e atrás da secretária com a máquina de escrever, como um gigantesco rolo de toalhas de papel.

 

OS GUERREIROS DO BÚFALO

Novela de Roberta Anderson

 

Gardener deixou a folha-título a um lado, com a face para baixo, e viu seu próprio nome — ou, antes, o diminutivo que somente ele e Bobbi usavam.

 

A Gard, que sempre estava perto quando precisei dele.

 

Outro estremecimento percorreu-lhe o corpo. Gardener deixou a segunda folha de lado, com a face voltada sobre a primeira.

 

Naqueles tempos, pouco antes do Kansas começar a sangrar, os búfalos ainda abundavam em manadas nas pradarias — de qualquer modo, em quantidade bastante para que os pobres, tanto brancos como índios, fossem antes sepultados em couros de búfalo, do que em ataúdes.

“No dia em que você provar carne de búfalo, nunca mais vai querer comer carne de vaca”, diziam os veteranos, e certamente acreditavam no que diziam, pois esses caçadores das pradarias, esses guerreiros dos búfalos, pareciam habitar um mundo de peludos fantasmas de dorsos arqueados — eles carregavam consigo a lembrança do búfalo, o cheiro do búfalo — o cheiro, sim, porque muitos espalhavam sebo de búfalo no pescoço, rosto e mãos, para impedir que o sol da pradaria os queimasse e enegrecesse. Usavam dentes de búfalo em colares no pescoço, algumas vezes também nas orelhas; fabricavam seus calçados com couro de búfalo — e numerosos desses nômades levavam consigo um pênis de búfalo, como amuleto de boa sorte ou garantia de permanente potência.

Fantasmas eles próprios, seguiam as manadas que cruzavam a relva curta e áspera, como as grandes nuvens cobrindo a pradaria com suas sombras; as nuvens permaneceram, mas as grandes manadas desapareceram... e com elas os guerreiros do búfalo, insanos das grandes vastidões, que até então jamais haviam conhecido uma cerca, homens que surgiam de nenhures e retomavam a esses mesmos lugares, homens com mocassins de couro de búfalo nos pés e ossos tilintando à volta dos pescoços; fantasmas retardatários, vindos de um lugar que existira pouco antes do país inteiro começar a sangrar.

À tarde de 24 de agosto de 1848 ia avançada, quando Robert Howell, que perderia a vida em Gettysburg menos de quinze anos depois, acampou perto de um pequeno riacho nos confins do enclave do Nebraska, naquela soturna região conhecida como Sand Hill Country O riacho era insignificante em tamanho, mas a água sabia bem ao paladar...

 

Gardener já se adiantara quarenta páginas na história e estava profundamente entretido na leitura, quando ouviu Bobby Anderson chamar, em voz sonolenta:

— Gard? Ainda está por aqui, Gard?

— Estou aqui, Bobbi — disse ele, e levantou-se.

Temia o que aconteceria em seguida e já quase acreditava que havia ficado insano. Só podia ser isso, claro. Não existia nenhum sol pequenino no fundo do tanque de água quente de Bobbi, muito menos uma nova marcha em seu Tomcat, que sugerisse levitação... mas teria sido mais fácil para ele acreditar nessas duas coisas, do que acreditar que Bobbi escrevera uma novela de quatrocentas páginas, intitulada Os guerreiros do búfalo, naquelas três semanas aproximadamente, desde que a vira pela última vez — uma novela que, apenas incidentalmente, era a melhor coisa que ela já escrevera. Impossível, sim. Era mais fácil — diabo, mais lúcido — acreditar que ele ficara biruta de todo, e simplesmente deixar as coisas como estavam.

Isso, se pudesse.

 

ROBERTA PRODUZ UMA HISTÓRIA

Bobbi saía lentamente do sofá, pestanejando, como uma mulher de idade.

— Bobbi... — começou Gardener.

— Oh, céus... Todo o corpo me dói! — lamentou-se ela. — E preciso trocar meu... Não vem ao caso. Quanto tempo dormi?

Gardener consultou seu relógio.

— Umas quatorze horas, creio. Acho que um pouco mais. Escute, Bobbi, seu novo livro...

— Certo. Aguarde com isso um pouquinho, até eu voltar.

Caminhou devagar em direção ao banheiro, desabotoando a blusa com que tinha dormido. Enquanto a via cambalear para lá, Gardener pôde espiar bem — de fato, espiou melhor do que pretendia — e avaliou quanto peso Bobbi perdera. Ela estava magérrima, chegara ao ponto de emaciação.

Roberta parou, como se adivinhasse que era observada e, sem olhar para trás, disse:

— Eu posso explicar tudo, você sabe.

— Pode mesmo? — perguntou ele.

 

Roberta ficou muito tempo no banheiro — demorou mais do que o necessário para servir-se do vaso e trocar o absorvente — Gardener tinha quase certeza de ser isso o que ela havia ido fazer. O rosto de Bobbi tinha aquela exata expressão de estou-com-a-peste. Procurou ouvir ruído de água da ducha e, nada ouvindo, começou a ficar inquieto. Bobbi lhe parecera perfeitamente lúcida ao acordar, mas isso significava, necessariamente, que estava? Começou a ter desconfortáveis visões dela espremendo-se pela janela do banheiro e depois correndo para a floresta, usando apenas seus blue jeans, gargalhando desatinadamente.

Levou a mão direita ao lado esquerdo da testa, onde ficava a cicatriz. Sua cabeça começara a latejar um pouco. Esperou mais um ou dois minutos e então, levantando-se, caminhou para a porta do banheiro, esforçando-se para pisar em silêncio, uma idéia não de todo inconsciente. Visões de Bobbi fugindo pela janela do banheiro para evitar explicações tinham sido substituídas por outra em que ela cortava tranqüilamente a garganta com uma das lâminas de barbear do próprio Gard, desta maneira evitando explicações para todo o sempre.

Ele decidiu apenas ouvir. Se captasse ruídos normais de movimentação, continuaria até a cozinha, coaria café e talvez fritasse alguns ovos. Se não ouvisse nada...

Sua preocupação foi desnecessária. A porta do banheiro não havia sido trancada quando Bobbi entrara e, esquecendo-se as outras melhorias existentes por ali, as portas sem tranca daquela casa, aparentemente continuavam com o velho costume de deixar uma fresta. Ela talvez tivesse que colocar cunhas em todo o norte da casa para tal conserto. É possível que seja o projeto da semana que vem, pensou Gardener.

A porta se abrira o suficiente para permitir-lhe ver Bobbi em pé diante do espelho, onde ele próprio estivera, não muito tempo antes. Ela estava com a escova de dentes em uma das mãos e um tubo de dentifrício na outra... porém ainda não destampara o tubo. Olhava para o espelho, com uma intensidade quase hipnótica. Havia arreganhado os lábios, deixando os dentes expostos.

Bobbi captou movimento pelo espelho e se virou, sem fazer qualquer esforço particular para cobrir os seios nus.

— Gard, você acha que meus dentes estão direitos?

Gardener olhou para eles. Pareciam-lhe do jeito de sempre, embora não recordasse algum dia tê-los visto tão expostos — e isso o fez lembrar-se novamente daquela terrível foto de Karen Carpenter.

— Claro que sim. — Gardener procurava não olhar para as costelas salientes sob a pele, a dolorosa projeção dos ossos pélvicos acima da cintura do jeans — as calças escorregavam, apesar do cinto afivelado tão apertada-mente, que mais parecia um pedaço de fio de varal, amarrado à cintura de um maltrapilho. — Bem, é o que acho. — Ele sorriu cautelosamente. — Enfim, não há cáries.

Roberta tentou retribuir o sorriso, com os lábios ainda repuxados sobre as gengivas; o resultado da experiência foi algo mais ou menos grotesco. Ela colocou um indicador contra um molar e fez pressão.

— Ee aança cango aho iho?

— O quê?

— Ele balança quando faço isso?

— Não. Pelo menos, não que eu perceba. Por quê?

— É apenas um sonho que venho tendo. Ele... — Ela baixou os olhos para si mesma. — Saia daqui, Gard. Não estou composta.

Não se incomode, Bobbi. Eu não pretendia saltar sobre seu esqueleto. Principalmente porque seria bastante aproximado do que eu realmente faria.

— Desculpe — disse ele. — A porta estava aberta. Pensei que você tinha saído.

Gardener fechou a porta, agora com o trinco. Através da porta fechada, ela disse claramente:

— Sei o que está intrigando você.

Ele ficou calado — apenas continuou parado ali. No entanto, tinha o pressentimento de que Bobbi sabia — sabia — de sua presença ainda no mesmo lugar. Como se pudesse enxergar através da porta.

— Você está querendo saber se perdi o juízo.

— Não — respondeu ele então. — Não é nada disso. Bobbi, mas...

— Estou tão lúcida quanto você — replicou ela, através da porta. — Sinto o corpo tão enrijecido que mal consigo andar, tenho uma atadura enrolada em torno do joelho direito, por algum motivo que não consigo lembrar, estou faminta como um urso e sei que perdi muito peso... mas estou saudável, Gard. E antes do dia terminar, você talvez às vezes se perguntará se está em seu juízo perfeito. A resposta é: ambos estamos.

— O que está acontecendo por aqui, Bobbi? — perguntou Gardener, em um tom que soava impregnado de incompreensão.

— Preciso tirar a maldita atadura e ver o que existe debaixo dela — respondeu Bobbi, do outro lado da porta. — Tenho a impressão de haver dado uma joelhada das boas. Lá na floresta, provavelmente. Depois vou tomar uma ducha quente e vestir roupas limpas. Enquanto faço isso, você podia ir preparando um desjejum para nós. Então, eu lhe contarei tudo.

— Contará mesmo?

— Contarei.

— Está bem, Bobbi.

— Fico contente por você estar aqui, Gard — disse ela. — Tive um mau pressentimento, uma ou duas vezes. Como se você talvez não estivesse se saindo muito bem.

Gardener sentiu a visão duplicar-se, triplicar-se e depois desfazer-se na distância, em primas. Passou um braço pelo rosto.

— O que os olhos não vêem, o coração não sente — falou. — Tudo bem, vou preparar o desjejum.

— Obrigada, Gard.

Gardener afastou-se então, mas precisou caminhar devagar, porque por mais que enxugasse os olhos, sua visão continuava insistindo em voltar.

 

Parou assim que entrou na cozinha, para então retornar à porta fechada do banheiro, ao ocorrer-lhe um novo pensamento. Agora, ouviu o ruído de água correndo lá dentro.

— Onde está Peter, Bobbi?

— O quê? — perguntou ela, acima da água tamborilante da ducha.

— Eu perguntei, onde está Peter? — ele gritou agora.

— Morto! — gritou Bobbi em resposta, a fim de ser ouvida. — Eu chorei, Gard, mas ele estava... você sabe...

— Velho — murmurou Gardener. Então se lembrou e ergueu a voz novamente. — Quer dizer que foi velhice?

— Foi! — gritou ela, acima do barulho da água.

Gardener ainda ficou ali um momento e depois retornou à cozinha, perguntando-se por que achava que Bobbi mentia sobre Peter e como o cão havia morrido.

 

Gard preparou seis ovos mexidos e bacon frito na grelha de Bobbi. Percebeu que fora instalado um forno de microondas acima do convencional, após sua última passagem pela casa. Havia também uma sucessão de luzes acima das áreas principais de trabalho e da mesa da cozinha, onde ela costumava fazer a maioria das refeições — em geral com um livro na mão livre.

Preparou café bem forte e começava a levar tudo para a mesa, quando Bobbi chegou, usando calças limpas em tecido canelado e uma camiseta ilustrada por um mosquito borrachudo e a legenda AVE DO ESTADO DO MAINE. Os cabelos molhados estavam envoltos em uma toalha.

Ela supervisionou a mesa.

— Sem torradas? — perguntou.

— Faça você mesma suas queridas torradas — disse Gardener, em tom amistoso. — Não pedi carona por trezentos quilômetros, para vir bancar o mordomo em seu café da manhã.

Ela o encarou fixamente.

— Você fez o quê? Ontem? Naquela chuva?

— Isso mesmo.

— Pelo amor de Deus, o que aconteceu? Muriel disse que você estava fazendo uma turnê de leituras e que sua última aparição seria a 30 de junho!

— Você telefonou para Muriel? — Ele ficou absurdamente emocionado. — Quando?

Ela fez um gesto vago de mão, como se aquilo não importasse — e provavelmente não importava.

— O que aconteceu? — perguntou de novo.

Gardener pensou em contar-lhe — queria contar-lhe, percebeu com aflição. Era para isso que ela servia, então? Bobbi Anderson, em realidade, não seria mais do que o muro em que ele se lamentava? Hesitou, querendo contar a ela... mas não contou. Isso podia ficar para mais tarde.

Talvez.

— Depois eu conto — falou. — Agora, quero saber o que tem acontecido por aqui.

— Primeiro o desjejum — disse Roberta, — e isto é uma ordem!

 

Gard passou para ela a maioria dos ovos e do bacon. Bobbi não se fez de rogada — avançou neles, como alguém que houvesse levado muito tempo sem comer. Vendo-a devorar tudo, Gardener recordou uma biografia de Thomas Edison, que havia lido quando ainda muito novo — não teria mais do que dez ou onze anos. Edison se vira envolvido em um turbilhão de trabalho, no qual uma idéia seguia outra idéia, uma invenção seguia outra invenção. Durante tais momentos, havia ignorado esposa, filhos, banhos e até mesmo comida. Se a esposa não lhe tivesse levado as refeições em uma bandeja, o homem poderia ter literalmente morrido de fome, entre a lâmpada e o fonógrafo. O livro mostrava uma foto dele, com as mãos enfiadas na cabeleira em terrível desalinho — como se quisesse chegar ao cérebro por baixo dos cabelos e do crânio, o cérebro que não o deixava descansar — e Gardener recordava ter pensado que o homem parecia totalmente louco.

Além disso, pensou, tocando o lado direito da testa, Edison havia sofrido de enxaquecas. Enxaquecas e fortes depressões.

Em Bobbi, contudo, não notou qualquer sinal de depressão. Ela devorou os ovos, comeu sete ou oito tiras de bacon enroladas em uma fatia de pão com manteiga e bebeu dois copos duplos de suco de laranja. Quando terminou, deixou escapar um sonoro arroto.

— Falta de educação, Bobbi.

— Em Portugal, um bom arroto é considerado um cumprimento ao cozinheiro.

— E o que fazem eles, depois de uma boa trepada? Peidam?

Roberta jogou a cabeça para trás e deu enormes gargalhadas. A toalha lhe caiu da cabeça e, imediatamente, Gard sentiu vontade de levá-la para a cama, estivesse ela um saco de ossos ou não.

Sorrindo um pouco, ele disse:

— Certo, esta foi uma boa. Obrigado. A qualquer domingo eu lhe prepararei alguns elegantes ovos Benedict. Agora, solte tudo.

Roberta esticou a mão atrás dele e pegou um maço de Camels pela metade. Acendeu um cigarro e empurrou o maço para Gardener.

— Não, obrigado. É o único vício que já consegui abandonar.

No entanto, antes que Bobbi terminasse de falar, Gardener havia fumado quatro deles.

 

— Você espiou por aí — disse Roberta. — Recordo ter-lhe dito para fazer isso — é uma lembrança vaga — mas sei que andou espiando. Sua expressão está como a minha, depois que encontrei a coisa na floresta.

— Que coisa?

— Se lhe contar agora, vai pensar que fiquei louca. Mais tarde eu lhe mostrarei mas, neste momento, acho que seria melhor apenas conversarmos. Diga-me o que viu pela casa. Que mudanças notou.

Gardener começou a enumerar: as melhorias no porão, os retalhos de projetos, o peculiar solzinho no aquecedor da água. As estranhas alterações no motor do Tomcat. Ele vacilou um instante, pensando no acréscimo feito no diagrama da mudança de marcha, e deixou passar. De qualquer modo, supôs que Bobbi estada por dentro, sabia que ele já vira.

— E em algum momento, no meio de tudo isso — prosseguiu, — você ainda encontrou tempo para escrever outro livro. Um livro volumoso. Estive lendo as primeiras trinta ou quarenta páginas, enquanto a esperava acordar, e achei que tanto tem de bom, quanto de longo. A melhor novela que já escreveu, provavelmente... e note-se que tem escrito ótimas.

Ela assentia, envaidecida.

— Obrigada. Eu também achei. — Apontou para a última fatia de bacon na travessa. — Você quer?

— Não.

— Não quer mesmo?

— Não.

Ela pegou a fatia e a devorou em dois tempos.

— Quanto tempo levou escrevendo o livro?

— Não sei bem ao certo — disse Roberta. — Talvez três dias. Seja como for, não mais de uma semana. Escrevi a maioria durante o sono.

Gard sorriu.

— Não estou brincando, fique certo — disse ela.

Ele parou de sorrir.

— Minha noção de tempo está uma merda — admitiu ela. — Sei que não trabalhava no livro no dia 27. Foi o último dia em que o tempo — tempo seqüencial — me pareceu totalmente claro. Você chegou aqui, à noite passada, 4 de julho, e ele estava pronto. Portanto... uma semana, no máximo. Entretanto, em realidade penso que não levei nele mais de três dias.

Gardener ficou boquiaberto. O rosto dela mostrava a mais absoluta calma, enquanto limpava os dedos em um guardanapo.

— Bobbi, isso é impossível! — exclamou ele, finalmente.

— Se você acha que é, então deixou de examinar minha máquina de escrever.

Gardener olhara de relance para a antiga máquina de Bobbi no momento em que se sentara, porém isso fora tudo — sua atenção havia sido atraída imediatamente pelo livro terminado. Já vira a velha e preta Underwood milhares de vezes. O manuscrito, por outro lado, era coisa recente.

— Se observasse melhor, veria o rolo de papel para computador, afixado na parede atrás dela. E mais outro daqueles acessórios, também atrás da máquina. Embalagens para ovos, pilhas potentes e tudo. E então? Aceita um?

Empurrou o maço de cigarros para ele, que tirou um.

— Não sei como funciona, e a verdade é que não sei mesmo como qualquer deles funciona — incluindo aquele dispositivo que produz toda a claridade aqui dentro. — Ela sorriu, ao ver a expressão de Gardener. — Estou fora das garras da Central Elétrica do Maine, Gard. Larguei as tetas. Pedi que interrompessem o fornecimento de energia... é como eles dizem, como se soubessem perfeitamente a ânsia em que iremos querê-la de volta, antes de muito tempo. Isso foi... vejamos... há quatro dias. Que me lembre.

— Bobbi...

— Na caixa de ligação, nos fundos da casa, há um dispositivo como a coisa no aquecedor de água e o colocado atrás da máquina de escrever, mas esse é o vovô de todos os demais. — Roberta riu — era o riso de uma mulher tomada por agradáveis reminiscências. — Nesse de que falo, há vinte ou trinta elementos D. Acho que Poley Andrews, do supermercado Cooder’s, pensa que fiquei biruta de vez. Comprei todas as pilhas e baterias que ele tinha no estoque e depois fui a Augusta comprar mais.

Com a testa franzida, ela perguntou, como que a si mesma:

— Terá sido esse o dia em que providenciei a terra para o porão? — O rosto desanuviou-se em seguida. — Sim, acho que foi. A Corrida Histórica pelas Pilhas, de 1988, abrangeu sete casas de comércio diferentes. Voltei com centenas de pilhas e baterias; fiz uma parada em Albion e negociei um caminhão de terra argilosa, para melhorar o piso do porão. Tenho quase certeza absoluta de haver feito as duas coisas no mesmo dia.

O cenho franzido retornou e, por um momento, Gardener pensou que ela parecia novamente assustada e exaurida — é claro que continuava esgotada. Um esgotamento do tipo que ele vira na noite anterior, chegava até os ossos. Uma única noite de sono, pouco importando o quanto esse sono fosse demorado e profundo, não apagaria aqueles sinais. Havia ainda aquela conversa louca, alucinatória — livros escritos enquanto ela dormia; toda a energia elétrica de corrente alternada, na casa, funcionando à base de pilhas tipo D, idas a Augusta para providências incomuns...

Exceto que a prova estava ali, bem em torno dela. Gardener a tinha visto.

— ...e aquilo — disse Roberta, rindo.

— O que, Bobbi?

— Já lhe disse que tive uma trabalheira infernal, instalando a engenhoca que gera o fluxo aqui na casa e também lá, na escavação.

— Que escavação? Está falando na coisa na floresta, que pretende mostrar-me?

— Exatamente. Dentro em breve. Dê-me apenas mais alguns minutos. — O rosto dela tornou a assumir aquela expressão de prazer em contar, e Gardener pensou subitamente que devia ser a mesma expressão no rosto de todos com histórias que não apenas querem contar, mas que devem contar — precisam contar — desde o maçante de sala de conferências, que tomou parte em uma expedição à Antártida em 1937 e ainda tem seus desbotados slides para prová-lo, a Ishmael, o Marinheiro, único sobrevivente do infortunado Pequod, que encerra seu relato com uma frase semelhante a um grito de desespero, mal e superficialmente disfarçado como informação: “Sobrei apenas eu para contar-lhes.” Seria desespero e demência, que detectava abaixo das animadas e desconexas recordações de Bobbi sobre os Dez Alucinados Dias em Haven? Era o que Gardener achava... o que sabia ser. Quem estaria melhor apetrechado para receber os indícios? O que quer que Bobbi tivesse enfrentado ali, enquanto ele lia poesia para matronas obesas e seus maridos entediados, por pouco não danificara a mente dela.

Roberta acendeu outro cigarro com mão que tremia ligeiramente, fazendo com que a chama do fósforo vacilasse de leve. Era o tipo de coisa que alguém só perceberia se estivesse atento a qualquer anormalidade.

— A essa altura, eu estava sem embalagens para ovos, e o negócio ia exigir pilhas demais, para contar com apenas uma ou duas caixas vazias. Assim, peguei uma das caixas de charuto do tio Frank — deve existir uma dúzia de antigas caixas de madeira no sótão; provavelmente, até mesmo Mabel Noyes, do “Junque-a-Torium”, pagaria alguns dólares por elas, e você sabe o quanto ela é mão fechada — e recheei-as de papel sanitário, tentando formar ninhos no papel, a fim de que as pilhas ficassem em pé. Está entendendo como? Ninhos para as pilhas...?

Ela fez gestos de furar algo com o indicador direito e depois fitou Gard com olhos brilhantes, querendo adivinhar se ele entendera. Gardener assentiu. Aquela sensação de irrealidade voltava, a sensação de que sua mente se preparava para escapar pelo alto do crânio e flutuar até o teto. Um drinque daria um jeito nisso, pensou, e a pulsação na cabeça aumentou.

— A questão é que as pilhas continuavam caindo e escorregando. — Ela esmagou a ponta do cigarro e imediatamente acendeu outro. — Eles estavam agitados, simplesmente agitados. Eu também. Então, tive uma idéia.

Eles?

— Fui até onde mora Chip McCausland. Fica mais abaixo, na Estrada de Dugout. Sabe onde é?

Gardener meneou a cabeça. Nunca tinha ido à Estrada de Dugout.

— Bem, ele vive lá com uma mulher e uns dez filhos. Parece que não são casados. Cara, ela é a imagem do desmazelo... aquela sujeira no pescoço, Gard ... você só conseguiria limpá-la, usando um britador primeiro. Acho que ele foi casado antes e... ora, não vem ao caso... apenas... eu não tinha ninguém com quem falar... quero dizer, eles não falam, não são como a maioria dos... e aqui estou eu, misturando coisas que não importam, com coisas realmente importantes e...

As palavras de Roberta começaram a sair depressa, cada vez mais depressa, até que agora umas quase atropelavam as outras. Ela está aumentando a velocidade, pensou Gardener, com certo alarme, e logo irá começar a gritar ou chorar. Ele não sabia o que mais temia e tomou a pensar em Ishmael, Ishmael perambulando pelas ruas de Bedford, Massachusetts, cheirando mais a loucura do que a óleo de baleia, para finalmente deter algum infortunado transeunte e gritar: Escute! Sou o único fodido que sobrou para contar-lhe, portanto é melhor que me ouçam, raios! É melhor que me ouça, se não quiser usar este arpão como um fodido supositório! Eu tenho uma história para conta, é sobre a tal fodida baleia branca e VOCÊ VAI TER QUE OUVIR!

Estendeu o braço sobre a mesa e tocou-lhe a mão.

— Você pode contar em qualquer velha maneira que quiser. Estou aqui e vou ouvir. Temos tempo; como você disse, este é o seu dia de folga. Portanto, fale com calma. Se eu pegar no sono, saberá que foi muito além do assunto principal. Certo?

Ela sorriu e relaxou visivelmente. Gardener sentiu vontade de tornar a perguntar o que estava acontecendo na floresta. Mais do que isso; gostaria de saber quem eram eles. Entretanto, achou melhor esperar. Todas as coisas ruins chegam àquele que espera, pensou. Bobbi prosseguiu, após uma pausa para coordenar os pensamentos:

— Chip McCausland tem três ou quatro galinheiros, aí está o que eu pretendia dizer. Por umas duas pratas, consegui todas as embalagens de papelão para ovos que quis... até mesmo algumas das folhas grandes de embalar. Cada uma delas tem dez dúzias de “caminhas”.

Roberta riu animadamente, acrescentando algo que deixou Gardener com a pele arrepiada:

— Ainda não usei nenhuma destas, mas quando fizer isso, imagino que conseguiremos energia bastante para que a cidade de Haven inteira se desligue das tetas da Central Elétrica do Maine. E ainda sobrará o suficiente para Albion e a maior parte de Troy!

Afinal, consegui instalar a energia aqui... céus, eu já me perdia em devaneios novamente... Adaptara a engenhoca à máquina de escrever e... realmente dormi... cochilei, afinal... e foi aí que paramos, não?

Gardener assentiu. Ainda tentava digerir a idéia de que tanto podia ser fato como alucinação, a casual afirmativa de Bobbi sobre ser capaz de fabricar uma “engenhoca” que forneceria energia elétrica a três cidades, partindo de uma fonte que consistia de cento e vinte pilhas do tipo D.

— O que o dispositivo preso à máquina de escrever faz, é... — Ela franziu o cenho. Bandeou ligeiramente a cabeça, quase como se ouvisse uma voz. — Acho que seria mais fácil uma demonstração a você. Vá até lá e coloque uma folha de papel no rolo da máquina, está bem?

— Certo. — Ele se encaminhou para a porta que dava para a sala de estar, depois se virou e fitou Bobbi. — Você não vem?

Ela sorriu.

— Vou ficar aqui — disse.

Gardener entendeu. Entendeu e, inclusive compreendeu, em certo nível mental onde era permitida apenas a lógica pura, que assim poderia ser — não havia o próprio imortal Holmes dito que, eliminado o impossível, temos que acreditar no que restou, pouco importando o quanto seja improvável? E existia uma nova novela, repousando na mesa, ao lado do que Bobbi às vezes chamava de seu acordeão de palavras.

Sim, exceto que máquinas de escrever não redigem livros sozinhos, Gard, meu velho. Sabe o que provavelmente diria o imortal Holmes? Ele diria que o fato de haver uma novela ao lado da máquina de escrever de Bobbi, mais o fato adicional de ser ela uma novela nunca antes vista por você, não significam que o livro seja novo. Holmes diria que Bobbi o escreveu em algum tempo qualquer do passado. Então, enquanto você esteve fora e ela ia ficando de parafusos frouxos, Bobbi colocou a novela junto da máquina de escrever. Inclusive, pode até estar acreditando no que lhe diz, porém isto não torna o fato verdadeiro.

Gardener aproximou-se do entulhado canto da sala de estar, que funcionava como gabinete de trabalho de Bobbi. A estante de livros ficava ao alcance, de modo que bastava ela inclinar-se para trás, sobre as pernas da cadeira, e apanharia quase tudo quanto quisesse. É boa demais para ser uma novela guardada no baú.

Ele também sabia o que o imortal Holmes diria sobre isso: Holmes concordaria na improbabilidade de Os guerreiros do búfalo ser uma obra que ficara no baú; no entanto, argumentaria que escrever um livro em três dias — e não permanecendo o tempo inteiro à máquina de escrever, mas enquanto a autora tirava cochilos, entre repetidos acessos de atividade — era im-diabolicamente-possível.

Exceto que a novela não saíra de baú nenhum. Gardener podia afirmar isso, porque conhecia Bobbi. Ela seria tão incapaz de conservar no baú um livro bom como aquele, como ele era incapaz de permanecer racional, em uma discussão sobre o tema da energia nuclear.

Dane-se, Sherlock, e dane-se a carruagem de aluguel que você e o Dr. W. utilizam. Céus, eu quero um drinque!

A ânsia — a necessidade — de beber, retornara com total e aterradora força.

— Está aí, Gard? — perguntou Roberta.

Desta vez, ele viu conscientemente o rolo de papel para computador. Pendia frouxamente para baixo. Olhou atrás da máquina e, de fato, encontrou outra das “engenhocas” de Bobbi. Esta aqui era menor — meia embalagem de ovos, com as duas últimas concavidades vazias. Havia pilhas tipo D nas outras quatro concavidades, cada uma encimada por um daqueles pequeninos funis (observando-os melhor agora, Gard decidiu que eram pedacinhos de lata de flandres, recortados cuidadosamente, tendo furos diminutos ao centro), e de cada uma saindo um fio que passava pelo funil, acima do sinal +... Um fio vermelho, um azul, um amarelo e um verde. Os fios dirigiam-se para outro painel de circuito. Este agora dava a impressão de ter vindo de um rádio, sendo mantido na vertical por dois pedaços curtos e achatados de madeira, colados à mesa, com o painel imprensado entre ambos. Aquelas peças de madeira, cada uma assemelhava-se ao repositório do giz, ao pé de um quadro-negro, eram tão absurdamente familiares a Gardener que, por um momento, foi incapaz de identificá-las. Então recordou. Eram os repositórios de fichas em que são colocadas as letras, quando se está jogando Scrabble, a brincadeira em que se compõe palavras sobre um tabuleiro quadriculado, usando-se letras impressas em fichas de madeira.

Um único fio elétrico, quase tão grosso como um fio de corrente alternada, ia do painel de circuito à máquina de escrever, na qual penetrava.

— Coloque papel no rolo! — gritou Roberta. Ela riu. — Foi essa a parte que quase esqueci, não é uma burrice? Folhas comuns não faziam efeito e quase arranquei os cabelos, antes de adivinhar a solução. Estava no banheiro um dia, sentada no vaso, desejando finalmente ter um daqueles processadores de palavras, mas então, quando estendi a mão para o rolo de papel... eureka! Poxa, cheguei a ficar tonta! Basta enrolar uma ponta, Gard!

Nada disso. Vou dar o fora daqui agora mesmo, pegar uma carona até o Purple Cow, em Hampden, e ficar tão fodidamente empilecado, que vou esquecer tudo isto. Nem mesmo quero saber quem ¨Deles¡¬ são!

Não obstante, girou o rolo da máquina, fez deslizar sob ele a extremidade perfurada da primeira folha e girou novamente a maçaneta, no lado da antiquada máquina, até ajeitar o papel no lugar. Seu coração batia depressa e forte.

— Pronto! — gritou para Bobbi. — Quer que eu... hum.. ligue alguma coisa? Ainda não vira qualquer botão mas, mesmo que tivesse visto, não desejaria tocar nele.

— Não é preciso! — gritou ela de volta.

Gardener ouviu um clique. O clique foi seguido por um zumbido — o som do transformador de um trem elétrico de criança. Uma luminosidade esverdeada começou a brotar da máquina de escrever de Roberta.

Gardener deu um trêmulo e involuntário passo atrás, sobre pernas rígidas como madeira. Aquela luminosidade vinha de entre as teclas, em jatos esquisitos e divergentes. Havia painéis de vidro instalados nas laterais de Underwood, que agora cintilavam como as paredes de um aquário.

De repente, as teclas da máquina começaram a mover-se, cedendo por si mesmas, para cima e para baixo, como as teclas de um piano automático. O carro se movia rapidamente e as letras foram sendo impressas através da página:

 

Meu pai jaz a cinco braças completas

 

Ding! Bang!

O carro da máquina retornou.

Não. Eu não estou vendo isto. Não acredito que estou vendo isto.

 

Essas são pérolas que foram seus olhos.

 

A doentia luz verde espargia-se através do teclado e sobre as palavras, como rádio.

Ding! Bang!

 

Minha cerveja é Rhinegold, a cerveja seca

 

A linha escrita surgiu no espaço de um segundo, assim parecia. As teclas martelavam a tal velocidade, que mal eram vistas. Era como ver um teleimpressor do noticiário.

 

Pense em Rhinegold onde quer que compre cerveja!

 

Santo Deus, estará ele realmente fazendo isto? Ou é um truque?

Com a mente vacilando de novo, à vista desta nova maravilha, ele começou a apegar-se ansiosamente a Sherlock Holmes — um truque, claro que era algum truque, tudo aquilo uma parte do colapso da pobre Bobbi... de seu colapso nervoso tão criativo.

Ding! Bang! O carro da máquina tornou a voltar.

 

Não há nenhum truque, Gard.

 

O carro voltou de novo e as teclas martelantes datilografaram isto, diante de seus olhos fixos e esbugalhados:

 

Você acertou da primeira vez. Estou fazendo isto da cozinha. A engenhoca atrás da máquina de escrever é sensível ao pensamento, da maneira como uma célula fotoelétrica é sensível à luz. Esta coisa parece captar meus pensamentos claramente, até uma distância de oito quilômetros. Se me afastar mais do que isso, as coisas começam a ficar embaralhadas. Além de quinze quilômetros, aproximadamente, não funciona em absoluto.

 

Ding! Bang! A grande alavanca cromada, à esquerda do carro da máquina, funcionou sozinha duas vezes, girando o papel no rolo por algumas linhas — um papel que agora exibia três mensagens perfeitamente datilografadas. Depois, as teclas recomeçaram a trabalhar.

 

Como pode ver não precisei ficar sentada à máquina de escrever para trabalhar em minha novela — veja, cara, sem usar as mãos! Esta pobre e velha Underwood correu como uma bastarda por aqueles dois ou três dias, Gard, e durante todo esse tempo em que ela trabalhava, eu estava na floresta, trabalhando em coisas diversas na casa ou então no porão. Contudo, como disse, na maior parte do tempo eu dormia. É engraçado... mesmo que alguém me tivesse convencido da existência de tal engenhoca, eu não acreditaria que ela funcionaria comigo, porque sempre fui péssima para ditar. Tenho que escrever minhas cartas, foi o que sempre disse, porque preciso ver as palavras no papel. Para mim, era impossível imaginar como alguém conseguiria ditar um livro inteiro para um gravador, por exemplo, embora pareça que certos escritores façam isso. No entanto, isto aqui não é como ditar, Gard — é como uma ligação direta ao subconsciente, mais sonhando do que escrevendo... porém o que resulta é diferente dos sonhos, que com freqüência são irreais e desconectados. Isto aí não é mais uma máquina de escrever, em absoluto. É uma máquina de sonhos. Uma máquina que sonha racionalmente. Existe algo de cosmicamente curioso, quanto a eles me darem isso, a fim de que eu escrevesse Os guerreiros do búfalo. Você está certo, é de fato a melhor coisa que já escrevi, porém continua sendo o mesmo folhetim básico. É como inventar o moto-perpétuo, a fim de que seu filhinho deixe de chateá-lo para que lhe troque as pilhas do carro de brinquedo! Já imaginou quais seriam os resultados, se F. Scott Fitzgerald tivesse tido uma dessas engenhocas? Ou Hemingway? Faulkner? Salinger?

 

Após cada interrogação, a máquina silenciava momentaneamente e então explodia com outro nome. Parou por completo, após escrever Salinger. Gardener ia lendo, à medida que as palavras surgiam, porém de maneira automática, quase sem digeri-las. Seus olhos voltaram ao início do escrito. Eu pensava que fosse truque, que Bobbi podia ter armado a máquina de escrever de algum modo, a fim de que escrevesse aqueles dois fragmentos de verso. E a máquina escreveu...

A máquina havia escrito: Não há truque nenhum, Gard.

Ele pensou de repente: Você consegue ler minha mente. Bobbi?

Ding! Bang! O carro voltou subitamente, assustando-o a ponto de quase fazê-lo dar um salto e gritar.

 

Posso, mas somente um pouco.

 

O que fizemos no 4 de julho do ano em que parei de lecionar?

 

Fomos de carro até Derry. Você disse conhecer um sujeito que nos venderia alguns fogos de segunda mão. Ele nos vendeu os fogos, mas todos estavam defeituosos, não prestavam. Você estava completamente bêbado. Quis voltar lá para acabar com a raça do sujeito. Não consegui dissuadi-lo, e então fomos. Encontramos a maldita casa do cara pegando fogo. Ele guardava um bocado de mercadoria em bom estado no porão, e deixou cair um toco de cigarro dentro de uma caixa de bombas. Quando você viu o incêndio e os carros de bombeiros, teve um ataque de riso tão forte, que caiu sentado na rua.

 

Aquela sensação de irrealidade jamais havia sido tão forte como agora. Gardener lutou contra ela, procurando mantê-la à distância, enquanto seus olhos vasculhavam as passagens anteriores, em busca de algo mais. Encontrou o que queria, após um ou dois segundos: Existe algo de cosmicamente curioso quanto a eles me darem isso...

E, anteriormente, Bobbi tinha dito: As pilhas continuavam caindo e escorregando, eles estavam agitados, simplesmente agitados...

Suas faces estavam quentes e afogueadas, como se com febre, porém a testa permanecia tão fria como uma compressa gelada — até o firme latejamento de dor acima de seu olho esquerdo parecia frio... pontadas rasas, repetindo-se com uma regularidade de metrônomo.

Olhando para a máquina de escrever, banhada naquela luz esverdeada e algo espectral, Gardener pensou: Bobbi, quem são “eles”?

Ding! Bang!

As teclas movimentaram-se em ímpeto chocalhante, as letras formando palavras, as palavras formando uma parelha de vemos infantis:

 

Na noite passada e na noite anterior

Tommyknockers, Tommyknockers, batendo à porta.

 

Jim Gardener gritou.

 

Suas mãos finalmente pararam de tremer — o suficiente para que pudesse levar o café quente à boca, sem derramá-lo inteiramente sobre si mesmo, assim encerrando as lunáticas festividades da manhã com mais algumas queimaduras.

Roberta o espiava do outro lado da mesa da cozinha, com olhos preocupados. Ela guardava uma garrafa de excelente brandy nas mais escuras entranhas da despensa, bem longe dos “gêneros alcoólicos de primeira necessidade”, e oferecera misturar um pouco no café de Gard. Ele recusara não apenas com tristeza, mas verdadeira dor. Precisava daquele brandy — a bebida amorteceria a dor em sua cabeça, talvez a liquidasse por completo. Mais importante ainda, ela faria sua mente retornar ao foco. Desapareceria aquela sensação de acabei-de-ser-catapultado-do-mundo.

O único problema era: ele finalmente atingira “aquele” ponto, não é mesmo? Correto. Aquele ponto onde nada cessaria com uma simples dose de brandy no café. Houvera demasiado “input”, desde que abrira o postigo na parte inferior do aquecedor de água de Bobbi e depois subira para um gole de uísque. Então, havia sido seguro; agora, no entanto, o ar estava daquela espécie instável, propiciando ciclones.

Em vista disto, nada mais de drinques. Nada além de um adoçante irlandês no café, até ficar a par do que estava acontecendo ali. Incluindo-se o que acontecia a Bobbi. Isso, acima de tudo.

— Lamento aquela última parte — disse Roberta, — mas não sei se conseguiria detê-la. Eu lhe disse que essa era uma máquina de sonhos; pois é também uma máquina subconsciente. Na verdade, estou captando muito pouco de seus pensamentos, Gard. Experimentei com outras pessoas e, na maioria dos casos, é tão fácil como fincar o polegar em bosta recente. A gente pode penetrar todo o trajeto até o que, imagino, você chamaria o id... embora seja terrível nessas profundezas, é tudo cheio das mais monstruosas... poderiam até ser chamadas de idéias... imagens, creio ser o que você diria. Simples como garatujas de crianças, mas a verdade é que são vivas. Como aqueles peixes encontrados muito fundo no oceano, os que explodem, quando trazidos à superfície. — Bobbi estremeceu de repente. — Elas estão vivas — repetiu.

Por um segundo, o único som foi o dos pássaros trinando lá fora.

— Seja como for, tudo quanto capto de você são coisas superficiais, a maioria delas sem sentido, confusas. Se você fosse como as outras pessoas, eu saberia o que está indo em seu íntimo, por que parece tão esquisito...

— Obrigado, Bobbi. Eu sabia que existia um motivo para a minha vinda aqui. Como não se trata da culinária, deve ser a lisonja.

Gardener sorriu, mas era um sorriso nervoso — e acendeu outro cigarro.

— Acontece — prosseguiu Bobbi, como se ele não tivesse falado, — que posso fazer algumas corteses deduções, baseando-me no que lhe aconteceu antes, mas você teria que fornecer os detalhes... Eu não conseguiria espionar, mesmo querendo. Não sei se poderia captar uma idéia nítida, ainda que você empurrasse tudo para a frente da mente e colocasse um tapetinho de boas-vindas. Entretanto, quando perguntou quem eram “eles”, aqueles versinhos sobre os Tommyknockers subiram e flutuaram como uma bolha gigantesca. Então, a máquina começou a escrevê-los.

— Tudo bem — disse Gardener, embora nada estivesse bem... absolutamente nada, — mas quem são eles, além dos Tommyknockers? Serão duendes? Leprechauns? Grem...

— Falei a você que desse uma espiada em torno, porque queria que fizesse uma idéia do quanto tudo isto é grande — disse Roberta. — Com as implicações têm um longo alcance.

— Eu percebi isso, claro — disse Gardener, com um sorriso apenas emergindo nos cantos da boca. — Com somente um pouco mais de implicações de longo alcance, estarei pronto para a camisa-de-força.

— Seus Tommyknockers vieram do espaço — disse Roberta, — como acho que, a esta altura, já deve ter deduzido.

Gardener supôs que o pensamento tivesse feito algo mais do que cruzar sua mente — mas sentia a boca seca, as mãos geladas em torno da xícara de café.

— Eles estão por aí? — perguntou.

Sua voz parecia vir de longe, muito longe. De repente, ele sentiu medo de virar-se, medo de poder ver alguma coisa retorcida, com três olhos e um chifre onde deveria ser a boca, um ser que saísse valsando da despensa, algo pertencente apenas a um filme de cinema, talvez a um épico de Guerra nas estrelas.

— Acredito que eles — os reais eles físicos — têm estado mortos por muito tempo — disse Roberta calmamente. — É provável que houvessem morrido muito antes de existirem seres humanos na terra. Seja como for... Caruso está morto, porém continua cantando através de discos, como o diabo, não é mesmo?

— Bobbi — disse Gardener —, conte-me o que aconteceu. Quero que comece do começo e termine dizendo: “Então, você surgiu na estrada, exatamente em tempo de agarrar-me, quando desmaiei.” Pode fazer isso?

— Não inteiramente — disse ela, e sorriu, — mas farei o melhor que puder.

 

Roberta falou durante muito tempo. Quando terminou, já passava do meio-dia. Sentado do outro lado da mesa da cozinha e fumando, Gard escusou-se apenas uma vez para ir ao banheiro, onde tomou mais três aspirinas.

Roberta começou com seu tropeção, depois contou que voltara à floresta e começara a cavar mais em torno da nave — o suficiente para perceber que encontrara algo absolutamente único — então voltando lá uma terceira vez. Não falou a Gardener sobre a marmota, o animal morto sobre o qual não havia moscas voejantes; não mencionou o retraimento da catarata de Peter e tampouco falou sobre sua visita a Etheridge, o veterinário. Passou tais detalhes por alto, tranqüilamente, dizendo apenas que ao voltar para casa, após o primeiro dia inteiro trabalhando na floresta, encontrara o cão morto na varanda da frente.

— Foi como se ele estivesse dormindo — disse.

Em sua voz havia uma nota de exagerada sentimentalidade, tão imprópria da Bobbi sua conhecida, que Gardener ergueu bruscamente os olhos... e então tomou a baixá-los para suas mãos. Roberta chorava de leve.

Após alguns momentos, ele perguntou:

— E depois?

— Depois, você surgiu na estrada, exatamente em tempo de agarrar-me, quando desmaiei — disse ela, sorrindo.

— Não entendo o que quer dizer.

— Peter morreu a 28 de junho — disse Roberta. Nunca fora muito boa em mentiras, mas esperava que a de agora soasse tranqüila e natural. — É o último dia de que me lembro, com clareza e seqüencialmente.

Ao falar, ela sorriu para Gardener, aberta e francamente, porém isto era também uma mentira. Suas lembranças claras, seqüenciais e desemaranhadas, terminavam no dia anterior, 27 de junho, quando ficara em pé na encosta, olhando para aquela coisa titânica enterrada no solo, a mão aferrada ao cabo da pá. As lembranças terminavam quando ela sussurrara “Tudo está ótimo” e então começara a escavar. Havia mais coisas para contar naturalmente, todos os tipos de coisas mais, porém ela não conseguia recordá-las seqüencialmente e o que podia recordar teria que ser analisado... cuidadosamente analisado. Por exemplo, não poderia contar a Gard a verdade sobre Peter. Ainda não. Eles lhe tinham dito para não contar, mas quanto a isto, a advertência era desnecessária.

Também lhe tinham dito que um Gardener teria que ser vigiado, muito, muito de perto. Não por muito tempo, claro — em breve Gard se tomaria.

(parte de nós)

da equipe. Sim. E seria formidável tê-lo na equipe, porque se havia alguém no mundo que Roberta amava, era Jim Gardener.

Bobbi, quem são “eles”?

Os Tommyknockers. Essa palavra, que emergira da bizarra opacidade na mente de Gard, como uma bolha prateada, era um nome tão bom como outro qualquer, não? Sem dúvida. Melhor do que alguns.

— E agora? — perguntou Gardener, acendendo o último cigarro dela. Tinha uma expressão ao mesmo tempo aturdida e circunspecta. — Não digo que consegui engolir tudo isto... — Ele riu, um tanto aloucadamente. — Aliás, talvez seja porque minha garganta não tem largura suficiente para permitir que tudo desça imediatamente.

— Eu compreendo — disse Roberta. — Acho que o principal motivo de me lembrar tão pouco sobre a última semana ou coisa assim, é por tudo ter sido tão... singular. É como ter-se a mente presa a um trenó-foguete.

Ela não gostava de mentir para Gard, pois isso a deixava pouco à vontade. Entretanto, todas as mentiras em breve seriam esclarecidas. Ele se tornaria... se tornaria...

Bem... persuadido.

Quando visse a nave. Quando sentisse a nave.

— Não importa quanto eu acredito ou não, acho que sou forçado a acreditar na maioria do que contou.

— Quando removemos o impossível, o que quer que permaneça é a verdade, por mais improvável que pareça.

— Também captou isso?

— Apenas a forma. Eu talvez nem mesmo soubesse o que era, se não o tivesse ouvido dizendo isso, uma ou duas vezes.

Gardener assentiu.

— Bem, creio que isso define a situação que temos aqui. Se eu não acreditar na evidência de meus sentidos, terei de acreditar que estou louco. Aliás, Deus é testemunha de que no mundo há gente de sobra que ficaria feliz em afirmar que não sou outra coisa.

— Você não está louco, Gard.

Roberta falou suavemente e pousou a mão sobre a dele. Gardener virou a mão e apertou a dela.

— Bem, sabe como é... um homem que baleou a esposa... Certas pessoas diriam ser uma evidência bastante convincente de insanidade, sabia?

— Ora, Gard, isso foi há oito anos atrás!

— Certo. E o sujeito em quem dei uma cotovelada na maminha, bem isso foi há oito dias atrás. Também persegui um cara pelo corredor da casa de Arberg e sua sala de estar, atacando-o com um guarda-chuva, já lhe contei? Meu comportamento nestes últimos oito dias foi cada vez mais autodestrutivo...

— Olá, pessoal! Sejam todos bem-vindos, uma vez mais, à Hora Nacional da Autopiedade! — cantarolou Bobbi Anderson alegremente. — O convidado desta noite é...

— Eu pretendia matar-me ontem de manhã — disse Gardener, em voz sumida. — Se não houvesse captado essas vibrações — vibrações realmente fortes — de que você estava em apuros, a estas horas já seria comida de peixe.

Roberta encarou-o fixamente. Sua mão apertada pela dele estava doendo.

— Está mesmo falando sério? Cristo!

— É claro que estou. Quer saber a que ponto a situação ficou arruinada? Pareceu-me a coisa mais lúcida a fazer, em vista das circunstâncias.

— Não acredito!

— É a verdade. Então me surgiu aquela idéia. A idéia de que você estava em apuros. Assim, adiei o suicídio, até ligar para você. Só que não a encontrei em casa.

— É provável que estivesse na floresta — disse Roberta. — E então, você veio correndo. — Ela levou a mão dele à boca e a beijou delicadamente. — Se toda essa loucura nada mais significa, pelo menos quer dizer que você está vivo, seu cretino.

— Como sempre, fico impressionado pelo alcance quase gaulês de seus cumprimentos, Bobbi.

— Se isso o impressiona tanto, farei com que seja escrito em sua sepultura, Gard. CRETINO, em letras esculpidas com profundidade suficiente para não se gastarem, pelo menos durante um século.

— De qualquer modo, obrigado — disse Gardener. — Porém não precisará preocupar-se com isso por algum tempo. Porque continuo na mesma.

— Como assim?

— Ainda com aquela sensação de que você está em apuros.

Ela tentou desviar os olhos, tentou puxar a mão.

— Olhe para mim, Bobbi, raios!

Por fim, com relutância, Roberta olhou para ele, o lábio inferior ligeira-mente espichado para fora, naquela expressão de teimosia que Gardener conhecia tão bem — só que não parecera um tanto sem jeito? Ele achava que sim.

— Tudo isto parece tão maravilhoso — a casa inteira com eletricidade fornecida por pilhas tipo D, livros que se escrevem sozinhos. Deus sabe o que mais... Então, por que eu deveria sentir que você está em apuros?

— Não sei — disse ela maciamente.

Então, levantando-se, foi lavar os pratos.

 

— É claro que trabalhei como uma condenada, até quase cair de exaustão — disse Roberta. Estava agora de costas para ele, e Gardener tinha a impressão de que ela achava isso ótimo. Os pratos chocalhavam na água quente e espumosa de sabão. — E eu não diria apenas: “Alienígenas vindos do espaço, mediocridades, energia elétrica boa e barata, telepatia, um grande negócio”, sabe como é. Meu carteiro está enganando a esposa, eu sei — e não quero ficar sabendo, droga, não fico espionando, mas a coisa estava lá, Gard, bem na frente da cabeça dele! Não enxergá-la seria como não enxergar um anúncio de néon com trinta metros de altura. Cristo, eu estive balançando e girando!

— Entendo — disse ele, e pensou: Ela não está dizendo a verdade, pelo menos não toda, mas talvez nem saiba disso. — Resta a pergunta: o que faremos agora?

— Não sei. — Ela se virou, mas viu as sobrancelhas erguidas de Gard e acrescentou: — Pensou que eu lhe daria a resposta em um claro e pequeno ensaio, de quinhentas palavras ou menos? Não posso. Tenho tido algumas idéias, mas só isso. Talvez nem mesmo sejam aproveitáveis. Creio que a primeira providência é levá-lo até lá, a fim de que possa

(ser persuadido)

dar uma olhada na coisa. Depois então... bem...

Gardener ficou olhando para ela por um longo momento. Bobbi não desviou os olhos desta vez; manteve-os bem abertos e francos. Não obstante, ali havia algo errado, havia uma nota falsa e desafinada. Como aquela falsa nota de enternecimento na voz, quando ela mencionara Peter. Talvez as lágrimas houvessem sido reais, porém esse tom... aquele tom... estavam inteiramente deslocados.

— Está bem. Daremos uma espiada em sua nave na terra.

— Oh, primeiro vamos almoçar — disse ela, placidamente.

— Está com fome novamente?

— Claro. Você não?

— Céus, não!

— Então, comerei por nós dois — disse Roberta.

E foi exatamente o que fez.


 

GARDENER DECIDE

— Santo Deus!

Gardener sentou-se pesadamente sobre um montículo fresco de terra. Ali, a questão era sentar-se ou cair. A sensação era de ter sido duramente esmurrado no estômago. Não; era mais estranho e mais radical do que isso. A impressão foi de que alguém lhe enfiasse na boca a mangueira de um aspirador de pó industrial e o ligasse, de maneira a sugar todo o ar de seus pulmões em um segundo.

— Santo Deus! — repetiu ele, em voz sumida e sem fôlego, como se isso fosse tudo quanto pudesse fazer.

— É um negócio e tanto, não acha?

Estavam na metade da encosta, não muito longe de onde Roberta encontrara o cadáver da marmota. Antes, a encosta havia sido profusamente coberta de vegetação. Agora fora aberta uma alameda entre as árvores, a fim de permitir a passagem de um estranho veículo, que Gardener quase reconheceu. Estava parado na borda da escavação de Roberta, seu tamanho minimizado pela própria escavação e a coisa que estava sendo desenterrada.

No momento, a trincheira tinha uns setenta metros de comprimento e uns sete de largura, em cada extremidade. O corte chegava a dez metros aproximadamente de largura, por talvez quatorze metros de comprimento total da fenda — o desenho assemelhava-se aos quadris de uma mulher, visto silhuetado. A borda acinzentada da nave, com sua curvatura agora triunfalmente revelada, erguia-se daquela fenda como a beirada de um gigantesco pires de chá metálico.

— Santo Deus! — Gardener ofegou novamente. — Olhe só para essa coisa!

— Eu tenho olhado — disse Bobbi com um pequeno sorriso distante, brincando em seus lábios. — Durante mais de uma semana, não venho fazendo outra coisa. Jamais vi nada mais lindo. E irá resolver um bocado de problemas, Gard. “Chegou um cavaleiro cavalgando e cavalgando...”

Isso varou o nevoeiro. Gardener se virou e olhou para Roberta, que bem podia ter estado à deriva nos lugares escuros de onde tinha vindo aquela coisa incrível. A expressão no rosto dela o deixou gelado. Os olhos de Bobbi não estavam perdidos na distância. Eram como janelas vazias.

— O que quer dizer?

— Humm? — Ela olhou em torno, como que saindo de profundo transe.

— O que quis dizer com isso de cavaleiro?

— Quis dizer você, Gard. Quis dizer eu. Contudo, acho que... acho que me referi principalmente a você. Vamos descer até lá e dar uma espiada.

Ela começou a descer rapidamente a encosta, com a graça casual da experiência anterior. Talvez houvesse descido uns quatro metros, antes de perceber que Gardener não a acompanhava. Olhou para trás. Ele se levantara do montículo, mas era tudo.

— Essa coisa não irá mordê-lo — disse Roberta.

— Não? E o que fará comigo, Bobbi?

— Nada! Eles estão mortos, Gard! Seus Tommyknockers eram suficientemente reais, porém também eram mortais, e esta nave deve ter estado aqui pelo menos cinqüenta milhões de anos. A geleira se rompeu em torno dela! Cobriu-a, mas não podia movê-la. Nem mesmo todas aquelas toneladas de gelo foram capazes de movê-la! Assim, a geleira se fendeu em torno dela. A gente pode espiar dentro da escavação e vê-la, como uma onda congelada. O Dr. Borns, da universidade, ficaria babando de euforia com este negócio... mas eles estão bem mortos, Gard.

— Você já esteve lá dentro? — perguntou ele, ainda imóvel.

— Não. O postigo — eu acho, sinto que existe algum — ainda está enterrado. Entretanto, isso não altera o que eu sei. Eles estão mortos, Gard. Mortos!

Eles estão mortos, você ainda não entrou na nave, mas esteve inventando coisas em um acesso de velocidade, como Thomas Edison, e consegue ler mentes. Portanto, eu repito; o que essa coisa irá fazer a mim?

Então, ela lhe disse a maior mentira de todas — disse-a calmamente, sem qualquer remorso.

— Nada que você não queira que lhe faça, Gard.

Após falar, ela recomeçou a descida, sem olhar para trás, a fim de ver se ele a seguia.

Gardener vacilou, a cabeça latejando miseravelmente, e então começou a descer atrás dela.

 

O veículo junto à trincheira era o velho caminhão de Bobbi — só que, antes disso, ele havia sido uma camioneta Country Squire. Roberta rodara nela de Nova Iorque ao Maine, quando tinha vindo para a universidade. Isso acontecera treze anos antes, a camioneta ainda era nova. Roberta viajara em sua camioneta pelas estradas até 1984, quando até mesmo Elt Barker, do posto Shell — único posto de gasolina e garagem de Haven — não se preocupava mais em aplicar um selo de inspeção no veículo. Então, em um fim de semana de trabalho frenético — eles haviam estado bêbados a maior parte do tempo, e Gardener ainda considerava uma espécie de milagre, o fato de ambos não terem ido pelos ares por causa da velha aparelhagem do maçarico de Frank Garrick — os dois recortaram o teto da camioneta, partindo da retaguarda do assento dianteiro e dali para trás, desta maneira transformando o veículo em um estropiado e mal planejado caminhãozinho.

—Veja só, Gard-velho-Gard! — proclamara solenemente Bobbi Anderson, contemplando o que restara da camionete. — Nós dois conseguimos fabricar um verdadeiro bombardeiro de campanha!

Em seguida, inclinando-se para diante, ela vomitara. Gardener a tomara nos braços e carregara para a varanda (com Peter cruzando ansiosamente por entre seus pés, o tempo todo). Ao chegar com Bobbi na varanda, ela havia desmaiado. Gardener a depositara cuidadosamente no chão, e depois também perdera os sentidos.

O dilapidado veículo, velho e grandalhão produto das fábricas de Detroit, havia sido um osso duro de roer durante seu resto de vida ativa, mas finalmente entregara os pontos. Roberta o colocara à venda, em um canto do jardim, alegando que ninguém desejaria comprá-lo, nem mesmo as peças. Gardener achava que ela apenas se mostrara sentimental a respeito.

Agora, o pequeno “caminhão” ressuscitara — embora mal exibisse alguma semelhança com o veículo, exceto pela tinta azul e pelos remanescentes laterais de madeira falsa que haviam sido uma das características comerciais do Country Squire. A porta do motorista e a maioria da extremidade dianteira tinham desaparecido por completo. Esta última, havia sido substituída por um estranho aglomerado de equipamento para cavar e remover terra. Aos olhos perturbados de Gardener, o caminhão de Roberta agora assemelhava-se a uma desordenada máquina de terraplenagem de criança. Algo com a aparência de uma gigantesca lâmina de chave de fenda, projetava-se do lugar onde estivera o radiador. O motor parecia ter sido inteiramente arrancado do bojo de um velho Caterpillar D-9.

Onde foi que arranjou esse motor, Bobbi? Como conseguiu removê-lo de onde estava, para onde se encontra agora? Minha nossa!

Tudo isto, no entanto, por mais extraordinário que fosse, foi incapaz de reter sua atenção por mais de um ou dois momentos. Ele caminhou através da terra removida até onde estava Bobbi, em pé e com as mãos nos bolsos, espiando a fenda feita no solo.

— O que acha disto, Gard?

Ele não sabia o que achar e, por outro lado, estava sem fala.

A escavação chegava a uma profundidade realmente surpreendente: dez a quinze metros, supôs Gardener. Se o ângulo do sol não estivesse precisamente reto, seria impossível avistar o fundo da trincheira. Havia um espaço de cerca de um metro, entre o lado da escavação e o volume liso da nave. A superfície metálica era absolutamente uniforme, sem fendas. Não existiam números, símbolos, figuras ou hieróglifos sobre ela.

No fundo da escavação, a coisa desaparecia na terra. Gardener meneou a cabeça. De boca aberta, ainda sem encontrar palavras, tornou a fechá-la.

A parte do casco em que Roberta havia tropeçado e depois tentara mover com a mão — imaginando que fosse uma lata ali esquecida, após um fim de semana de lenhadores — agora ficava diretamente à frente do nariz de Gardener. Ele poderia tê-la tocado sem dificuldade, através daquele espaço de um metro, como a própria Roberta havia feito, apenas duas semanas atrás... com uma diferença: quando ela tocara a borda da nave pela primeira vez, estava ajoelhada no chão. Gardener estava em pé. Ele havia notado vagamente a transformação que houvera naquela encosta — terra acidentada e lodosa, árvores que tinham sido cortadas e removidas dali, troncos arrancados como dentes apodrecidos — porém além dessa observação momentânea, passara a pensar em outras coisas. Teria observado melhor, se Roberta lhe houvesse dito quanto da encosta tinha escavado. A elevação do terreno naquele ponto, dificultava a escavação... e então ela simplesmente removera metade do lado da elevação, para facilitar sua tarefa.

Disco voador, pensou Gardener fracamente, e então: Eu dei o salto. Isto é uma fantasia da morte. A qualquer segundo recuperarei os sentidos e me verei tentando respirar água salgada. A qualquer segundo. Apenas um velho segundo.

Exceto que nada disso aconteceu ou aconteceria, porque tudo ali era real. Aquilo era um disco voador.

E isso, de certo modo, era o pior. Não se tratava de uma espaçonave, de alguma nave alienígena ou de veículo extraterrestre. Era um disco voador. Eles haviam sido rejeitados pela Força Aérea, por cientistas racionais, por psicólogos. Nenhum escritor de ficção científica que se prezasse colocaria um em sua história e, se o colocasse, nenhum editor que se prezasse poria tal publicação no mercado. Os discos voadores haviam saído de moda, mais ou menos ao mesmo tempo que Edgar Rice Burroughs e Otis Adelbert Kline. Eram a mais velha piada existente. Discos voadores se tinham tornado passé; em si, a idéia era uma anedota, naqueles dias alcançando espaço mental apenas entre criaturas extravagantes, religiosos excêntricos e, naturalmente, os jornais tablóides, onde qualquer provisão semanal de notícias tinha que incluir pelo menos uma história de discos, como FILHA DE SEIS ANOS ENGRAVIDADA POR ALIENÍGENA DE DISCO VOADOR, REVELA MÃE EM LÁGRIMAS.

Por alguma singular razão, tais histórias sempre pareciam originar-se do Brasil ou New Hampshire.

No entanto, ali estava uma dessas coisas — estivera ali o tempo todo, enquanto séculos passavam acima de seu casco com minutos. Subitamente ocorreu-lhe uma linha do Gênese, fazendo-o estremecer, como se ao seu lado houvesse passado uma rajada de vento gélido: Naqueles dias havia gigantes na terra.

Ele se virou para Roberta, com olhos quase suplicantes.

— Isto é real? — perguntou, em não mais do que um sussurro.

— Sim, é real. Toque-o.

Ela bateu no casco com os nós nos dedos, novamente produzindo aquele som cavo de dedos contra mogno. Gardener esticou o braço... mas tornou a puxá-lo de volta. Uma expressão aborrecida surgiu no rosto de Roberta, passando como uma sombra.

— Eu já lhe disse, Gard, isso não irá mordê-lo.

— Não me fará nada que eu não queira que faça.

— Exatamente!

Gardener refletiu — tanto quanto lhe era possível refletir, em seu atual estado de candente confusão — que um dia acreditava nisso, com relação à bebida. E já que pensava no assunto, tinha ouvido pessoas dizerem — a maioria delas seus alunos de faculdade, em inícios dos anos 70 — a mesma coisa sobre várias drogas. Muitas haviam terminado em clínicas ou sessões de orientação sobre drogas, com sérios problemas no nariz.

Diga-me uma coisa, Bobbi: você pretendia trabalhar até cair? Desejava tanto perder peso, a ponto de parecer uma anoréxica? Acho que tudo quanto realmente quero saber é: você agiu por impulso próprio ou foi impulsionada? Por que mentiu sobre Peter? Por que não ouço pássaros nestas árvores?

—Vamos — disse Roberta, pacientemente. — Já conversamos um pouco e teremos que tomar sérias decisões. Não quero vê-lo indo embora a meio caminho, alegando ter decidido que tudo não passava de alucinação, escapada de uma garrafa de bebida.

— É asqueroso falar dessa maneira.

— Também é asqueroso a maioria das coisas que as pessoas realmente têm a dizer. Você já teve delirium tremens antes. Sabe disso tanto quanto eu.

Sim, mas a Bobbi de antigamente jamais abordaria isso... ou, pelo menos, não dessa maneira.

— Toque a coisa e acreditará. É tudo quanto posso dizer.

— Fala de um jeito que isso parece importante para você.

Roberta mudou o peso do corpo para o outro pé, inquietamente.

— Tudo bem — disse Gardener. — Tudo bem, Bobbi.

Tornou a esticar o braço e aferrou a borda da nave, mais ou menos como fizera Roberta, naquele primeiro dia. Ficou cônscio — demasiado cônscio — da expressão de pura ansiedade que se espalhou sobre o rosto dela. Era o rosto de alguém esperando a explosão de um artefato pirotécnico. Aconteceram várias coisas, quase simultaneamente.

A primeira foi um senso de vibração que penetrava por sua mão — a espécie de vibração que se poderia sentir, ao colocarmos a mão sobre um poste de energia que sustente fios de alta-voltagem. Por um momento, ele teve a sensação de que sua carne entorpecida, como se a vibração se movesse a uma velocidade incrivelmente alta. Depois a sensação passou. Enquanto isso, a cabeça de Gardener se encheu de música, porém tão alta, que mais pareciam gritos do que notas musicais. Em comparação, o que tinha ouvido na noite anterior era como um sussurro — agora, a impressão era de encontrar-se dentro de um alto-falante estéreo, com o volume ligado ao máximo.

 

O dia me entedia, mas acho que não ligo,

Trabalhar em escritório não me leva aonde quero.

Quando possível, vou em casa pr...

 

Ele estava abrindo a boca para gritar, quando o ruído cessou de todo, abruptamente. Gardener conhecia a canção, muito popular quando ainda estava no curso primário. Mais tarde, ele cantaria o trecho que ouvira, marcando no relógio enquanto isso. A seqüência parecia ter durado um ou dois segundos, em vibração de alta velocidade; um jato de música ensurdecedora, mal durando doze segundos; depois, o nariz sangrando.

Dizer que o ruído quase lhe explodira os tímpanos, era errado. Ele quase lhe explodira a cabeça. Não o captara através dos ouvidos, em absoluto. Ele penetrara em sua cabeça como uma flecha, partindo da maldita placa metálica em sua testa.

Viu que Roberta recuava em passos incertos, as mãos abertas em um gesto que parecia alertá-lo. Sua expressão de ansiedade passou para uma de surpreso medo, perplexidade e dor.

A última coisa, foi que a dor de cabeça dele parou.

De maneira absoluta e total.

Seu nariz, entretanto, não estava apenas sangrando: jorrava sangue.

 

— Vamos, pegue. Pelo amor de Deus, Gard, você está bem?

— Logo estarei ótimo — respondeu ele, a voz ligeiramente amortecida pelo lenço dela, que havia dobrado e colocado sobre o nariz, pressionando com firmeza. Jogou a cabeça para trás e o sabor limoso do sangue começou a encher-lhe a garganta. — Já tive piores do que isto.

Claro que tivera... mas fora há muito tempo.

Os dois haviam-se afastado cerca de dez passos da borda da escavação e estavam sentados sobre um tronco caído. Bobbi olhava para ele, ansiosa.

— Por Deus, Gard, eu não sabia que ia acontecer uma coisa assim. Acredita em mim, não?

— Claro — respondeu ele. Ignorava o que, precisamente, Bobbi estivera esperando... porém não era aquilo. — Você ouviu a música?

— Não a ouvi, propriamente — disse ela. — Captei-a de sua cabeça, em segunda mão. Quase me rompeu os ouvidos.

— É mesmo?

— É. — Bobbi riu, um tanto trêmula. — Quando estou entre várias pessoas, eu as desligo e...

— Você pode fazer isso?

Gardener tirou o lenço de sobre o nariz. Estava encharcado de sangue — poderia ser torcido entre os dedos e expeliria sangue, em um pequeno filete. O fluxo, no entanto, finalmente começava a diminuir... graças a Deus. Ele largou o lenço e rasgou um pedaço da fralda da camisa.

— Posso — disse Roberta. — Bem... não de todo. Não consigo desligar os pensamentos completamente, mas posso baixar-lhes o volume, de maneira a se tornarem como... bem, como um fraco murmúrio no fundo de minha mente.

— Isso é incrível!

— Isso é necessário — disse ela, em tom seco. — Se não conseguisse fazer isso, acho que nunca mais sairia desta maldita casa. Estive em Augusta, no sábado, e abri a mente, para ver como seria.

— E descobriu.

— Sim, descobri. Era como ter um furacão dentro da cabeça. E, o pior da coisa, era a dificuldade para tornar a fechar a porta.

— Essa... barreira... seja o que for... como é que a constrói?

Roberta meneou a cabeça.

— Não sei explicar, da mesma forma como um sujeito capaz de mexer as orelhas não saberia explicar como faz isso.

Ela pigarreou e baixou os olhos para os pés por um momento — pés calçados em lamacentas botas de trabalho, como Gardener pôde ver. Pareciam não ter deixado os pés dela por muito tempo, nas duas últimas semanas.

Bobbi sorriu de leve. Era um sorriso constrangido e dolorosamente humorista ao mesmo tempo — e, naquele momento, assemelhava-se em tudo à velha Bobbi. Aquela que continuara sua amiga, depois que ninguém mais queria sê-lo. Era a expressão tímida de Bobbi — Gardener a tinha visto assim que a conhecera, quando Bobbi era aluna caloura de Inglês e Gardener um professor calouro de Inglês, esforçando-se pateticamente em uma tese para PhD que, sem dúvida, talvez já soubesse que jamais a terminaria. De ressaca e sentindo-se irritável, Gardener perguntara a seu bando de novos calouros qual era o caso dativo. Ninguém respondeu, e Gardener já se preparava para ter o maior prazer deixando-os em apuros, quando Anderson, Roberta, 5ª fileira, 3º assento, ergueu a mão e acabou com a alegria dele. Sua resposta foi hesitante... mas correta. Não surpreendentemente, ela se revelou a única da turma que tivera Latim no ginásio. O mesmo sorriso tímido que ele via agora, estivera então no rosto de Bobbi, e Gard sentiu uma onda de afeição impregná-lo. Merda, Bobbi havia passado um mau pedaço... mas esta era Bobbi. Não havia dúvidas quanto a isso.

— Mantenho as barreiras erguidas a maior parte do tempo, afinal — ela estava dizendo. — Caso contrário, seria como espionar em janelas. Lembra-se de eu lhe ter dito que meu carteiro, Paulson, estava tendo um caso com alguém?

Gardener assentiu.

— Aí está algo que não me interessa saber. Tampouco me interessa se alguma pobre coitada é cleptomaníaca ou se algum cara costuma beber às escondidas... como vai seu nariz?

— O sangramento parou — Gardener havia jogado o pedaço ensangüentado de camisa ao lado do lenço dela. — Então, você mantém os bloqueios levantados, hein?

— Isso mesmo. Prefiro mantê-los assim, sejam quais forem os motivos —morais, éticos ou apenas para não encher minha cabeça com o maldito barulho. Com você não me dou a esse trabalho, porque captava mal, mesmo me esforçando. Tentei umas duas vezes e posso compreender se ficar zangado, mas foi apenas curiosidade, já que ninguém mais é... em branco... desse jeito.

— Ninguém mais?

— Isso mesmo. Deve existir algum motivo para isso, qualquer coisa como ter um tipo de sangue muito raro. Aliás, talvez seja isso.

— Lamento, mas sou tipo O.

Roberta riu e levantou-se.

— Sente-se bem para voltarmos, Gard?

É a placa em minha cabeça, Bobbi. Ele quase disse isto, mas então, por algum motivo, resolveu ficar calado. A placa em minha cabeça impede que você leia meus pensamentos. Não sei como descobri isso, mas tenho certeza.

— Sim, agora estou ótimo — respondeu. — Eu podia tomar

(um drinque)

uma xícara de café, eis tudo.

— Prometido. Vamos indo!

 

Enquanto uma parte dela estivera reagindo a Gard com o calor e sincera afeição que sempre dedicara a ele, mesmo durante os piores momentos, outra parte (aquela que, estritamente falando, não era mais Bobbi Anderson) permanecia de lado com frieza, vigiando tudo cautelosamente. Avaliando. Questionando. E a primeira pergunta era se

(eles)

ela realmente desejava Gardener por perto. Ela

(eles)

achara (acharam) a princípio que todos os seus problemas estavam resolvidos, que Gard tomaria parte na escavação. Assim, ela não teria mais que fazer aquilo... bem, esta parte inicial... sozinha. Gard tinha razão em uma coisa: tentar fazer tudo aquilo sozinha, quase e matara. Entretanto, a mudança que esperara ver nele não havia acontecido. Somente aquele assustador sangramento nasal.

Se a coisa fizer seu nariz sangrar dessa maneira, ele não tornará a tocá-la. Não vai querer tocá-la e certamente não quererá entrar lá.

Talvez não haja necessidade. Afinal, Peter nunca a tocou. Não queria nem chegar perto, mas seu olho... e a reversão de idade...

Não é a mesma coisa. Gard é um homem, não um idoso cão beagle. E, enfrente isto, Bobbi, com exceção do sangramento do nariz e daquele jato de música, não houve qualquer mudança, em absoluto.

Nenhuma mudança imediata.

Será por causa da placa de aço em seu crânio?

Talvez... mas por que algo assim faria alguma diferença?

Aquela frígida parte de Bobbi não sabia; imaginava apenas que podia ser uma probabilidade. A própria nave irradiava alguma espécie de força, tremenda e quase animada; o que quer que existisse dentro dela estava morto, Roberta tinha certeza de que não mentira sobre isso, mas a nave em si estava quase viva, irradiando aquele gigantesco padrão energético através de sua pele metálica... e, quanto a isto não havia dúvidas, a área transmissora aumentava seu leque aos poucos, à medida que cada centímetro de superfície ia ficando livre na escavação. Essa energia se tinha comunicado a Gard. Só que então ela havia — o quê?

Havia sido convertida, de algum modo. Primeiro convertida, depois transmitida em uma curta, mas ferozmente potente irradiação radiofônica.

E agora, o que faço?

Ela ignorava, mas sabia que não importava.

Eles lhe diriam o que fizer.

Chegada a hora, eles lhe diriam.

Nesse meio tempo, ficaria à espreita, valia a pena vigiá-lo. Se pelo menos pudesse lê-lo! Seria tão mais simples, se pudesse lê-lo!

Uma voz respondeu friamente: Embebede-o. Então, conseguirá lê-lo. Então, conseguirá lê-lo perfeitamente bem.

 

Eles tinham ido no Tomcat, que não voava em absoluto, mas rodava pelo solo como sempre fizera — só que, em vez do chocalhar anterior e do ronco do motor, ele agora rodava em um silêncio tão completo, que chegava a ser sobrenatural.

Saíram das matas e seguiram ao longo da borda da horta. Roberta estacionou o Tomcat no lugar em que estivera parado pela manhã.

Gardener ergueu os olhos para o céu, que começava a ficar novamente nublado.

— É melhor colocá-lo no galpão, Bobbi — aconselhou.

— Ele ficará bem aqui — replicou ela, lacônica.

Guardando a chave no bolso, começou a caminhar para a casa. Gardener relanceou os olhos na direção do galpão, acompanhou Bobbi e então olhou para trás. Havia um enorme cadeado Kreig na porta do galpão.

Aquilo era mais uma nova adição. E a floresta, sem brincadeira, já parecia cheia delas.

O que você guarda lá dentro? Uma máquina do tempo, também funcionando à base de pilhas e baterias? O que a Nova e Melhorada Bobbi tinha lá dentro?

 

Quando ele entrou na casa, Bobbi remexia na geladeira. Tirou de lá duas cervejas.

— Falava sério sobre o café ou prefere uma destas?

— Que tal uma Coca? — perguntou Gardener. — Discos voadores combinam melhor com Coca, eis o meu lema — acrescentou, rindo um tanto intempestivamente.

— Tudo bem — disse Bobbi, mas então parou, quando ia guardar as latas de cervejas e pegar duas de Coca. — Eu fiz, não fiz?

— O quê?

— Levei você lá e lhe mostrei. A nave. Não foi?

Jesus, pensou Gardener. Jesus Cristo!

Durante um momento, parada junto à geladeira com as latas nas mãos, ela percebeu alguém com a doença de Alzheimer.

— Sim — disse Gardener, sentindo a pele gelar. — Você levou.

— Que bom! — exclamou ela, aliviada. — Eu achava que tinha levado.

— Bobbi... você está bem?

— Claro — respondeu ela, para acrescentar descuidadamente, como se fosse algo de pouca ou nenhuma importância: — Acontece apenas que não recordo grande coisa, desde que saímos de casa até agora. Enfim, acho que isso não importa muito, certo? Tome, aqui tem sua Coca. Façamos um brinde à vida em outros mundos, o que me diz?

 

Assim, eles beberam à vida em outros mundos e então Roberta perguntou-lhe o que deveriam fazer com a espaçonave em que havia tropeçado, no seio da floresta aos fundos da casa.

— Nós não vamos fazer nada. Você é que fará alguma coisa.

— Já estou fazendo, Gard — disse ela suavemente.

— É claro que está — replicou ele, algo teimosamente, — mas eu me refiro a alguma decisão final. Terei prazer em dar-lhe todos os conselhos que quiser — nós, os bêbados poetas arruinados, somos ótimos para aconselhar — mas no fim, você irá ter que fazer alguma coisa. Algo de alcance um pouco maior do que apenas continuar escavando. Porque aquilo lá é seu. Está enterrado em sua terra, portanto, é seu.

Roberta pareceu chocada.

— Você não está realmente pensando que aquela coisa pertence a alguém, está? Ora, só porque o tio Frank me legou sua propriedade por testamento? Porque ele tinha um título de posse legítimo, recuando até parte de terras da coroa que o Rei George III surrupiou dos franceses, depois que os franceses as surrupiaram dos índios? Santo Deus, Gard, aquela coisa tinha cinqüenta milhões de anos de idade, quando os antepassados de toda a maldita raça humana ficavam acocorados em suas cavernas e esgaravatavam o nariz!

— Estou certo de que essa é a mais pura verdade — declarou Gardener secamente, — porém não modifica a lei. E, por outro lado, pretende ficar aí sentada e me dizer que não se sente dona daquilo?

Roberta pareceu perturbada e pensativa ao mesmo tempo.

— Dona? Bem... eu não diria isso. Sinto-me com responsabilidade sobre aquilo, não possessividade.

— Seja lá como for. No entanto, já que pediu minha opinião, eu a darei. Ligue para a Base Aérea em Limestone. Diga a quem atender, que você encontrou um objeto não identificado enterrado em sua terra, aparentando ser uma avançada máquina voadora de alguma espécie. É possível que enfrente algum problema inicial, mas conseguirá convencê-los. Em seguida...

Bobbi Anderson riu. Riu com vontade, forte e ruidosamente. Eram risadas sinceras, nada havendo de mesquinho a respeito, mas mesmo assim.

Gardener ficou muito pouco à vontade. Ela riu, até as lágrimas lhe descerem pelas faces. Quanto a ele, acabou ficando tenso com aquilo.

— Sinto muito — disse Roberta, vendo a expressão dele. — Apenas... custo a crer que esteja ouvindo isto, logo de você. Compreende... para mim é... — Ela recomeçou a rir. — Bem, é um choque. Como ouvir um pregador batista, dizendo que beber é ótimo para conter a luxúria.

— Não entendo o que quer dizer.

— É claro que está. Estarei ouvindo o sujeito que foi preso em Seabrook com uma arma na mochila, o sujeito que acha que o governo só ficará realmente feliz quando todos cintilarmos no escuro como mostradores de rádio dos relógios, dizer-me que ligue para a Força Aérea, a fim de que eles venham aqui e tomem posse de uma espaçonave interestelar?

— A terra é sua...

— Ora, merda, Gard! Minha terra é tão vulnerável ao domínio eminente do governo dos Estados Unidos como a de qualquer outra pessoa. É o domínio eminente que providencia a construção das estradas de pedágio.

— E, algumas vezes, de reatores nucleares.

Bobbi ficou olhando para ele em silêncio.

— Reflita no que está dizendo — falou pouco depois. — Três dias após eu ter feito semelhante ligação, nem a terra e nem a nave seriam mais “meus”. Seis dias depois, eles teriam cercado com arame farpado a propriedade inteira e colocariam sentinelas a cada quinze metros. Seis semanas mais tarde, você provavelmente descobriria que oitenta por cento da população de Haven vendeu o que tinha, foi expulsa... ou simplesmente desapareceu. Eles fariam isso, Gard. Você sabe que podem fazer. E então eu pergunto ainda quer que eu pegue o telefone e chame a Polícia de Dallas?

— Bobbi...

— Sim, tudo se resume nisto. Descobri urna espaçonave alienígena e você quer que eu a transfira à Polícia de Dallas. Acredita que eles viriam aqui e diriam: “Por favor, acompanhe-nos a Washington, Srta. Anderson. Os chefes do estado-maior estão sumamente ansiosos em ouvir o que tem a dizer sobre a questão, não apenas porque é proprietária — bem, era proprietária — da terra em que se encontra a coisa, mas porque os chefes do estado-maior sempre consultam escritores de faroeste antes de decidirem o que fazer sobre tais assuntos. Além disso, o Presidente a quer na Casa Branca, a fim de saber o que pensa. Em adição, ele pretende dizer-lhe o quanto gostou de ler Rimfire Christimas”. Acredita mesmo nisso?

Roberta jogou a cabeça para trás e, desta vez, suas gargalhadas foram desatinadas, histéricas, francamente assustadoras. Gardener, contudo, mal prestou atenção. Teria mesmo pensado que eles iriam ali e seriam polidos? Tendo em jogo algo tão potencialmente gigantesco como este? A resposta era não. Eles se apoderariam da terra. Ele e Bobbi seriam amordaçados, impedidos de falar... mas isso talvez não fosse suficiente para eles se sentirem à vontade. Talvez até arquitetassem algum local que fosse uma singular mistura de gulag russo e refinado balneário Club Méditerranée. Onde tudo é de graça, havendo um único embargo: você nunca sai de lá.

Era bem possível que nem isso bastasse... portanto, presentes ao velório, omitam as flores. Então — e só então — os novos zeladores da nave dormiriam tranqüilos à noite.

Afinal de contas, o achado não era precisamente um artefato, como um vaso etrusco ou uma galeria de explosivos escavada do solo, no local de alguma batalha muito longínqua da Guerra Civil, certo? A mulher que encontrara a nave, posteriormente conseguira eletrificar toda a sua casa com pilhas tipo D... e ele estava agora pronto a crer que, embora a nova marcha do Tomcat ainda não estivesse funcionando, em breve o estaria.

E o que, exatamente, a faria funcionar? Microchips? Semicondutores? Não. Bobbi era o ingrediente extra adicionado, a Nova e Melhorada Bobbi Anderson. Bobbi. Ou talvez fosse alguém que estivesse próximo da coisa. E não se poderia permitir que... bem, que um cidadão comum ficasse de posse daquilo, certo?

— O que quer que seja aquilo — murmurou ele, — a maldita coisa deve ser um infernal dinamizador do cérebro. Ela a transformou em gênio.

— Não — disse Roberta calmamente. — Em idiot savant.

— O quê?

— Idiot savant. Há talvez uma meia dúzia deles em Pineland — é a instituição do estado para os seriamente retardados. Trabalhei lá dois verões, em um programa de estudo-trabalho, quando estava na universidade.

Havia um cara que podia multiplicar, de cabeça, dois números de seis dígitos, dando a resposta certa em menos de cinco segundos... ao mesmo tempo em que tanto era capaz de urinar nas calças ou não, enquanto fazia Isso.

Havia ainda um garoto de doze anos, com hidrocefalia. Sua cabeça era tão grande como uma abóbora premiada. No entanto, datilografava com perfeição, escrevendo uma média de cento e sessenta palavras por minuto. Não falava, não lia, não pensava, mas datilografava como um ciclone.

Roberta tirou um cigarro do maço e o acendeu. Destacando-se no rosto afilado e desfigurado, seus olhos concentraram-se fixamente em Gardener.

— Eis aí o que sou. Um idiot savant. É tudo quanto sou, e eles sabem disso. Essas coisas — aperfeiçoar a máquina de escrever, consertar o aquecedor de água — só me lembro delas em trechos fragmentados. Quando as estou fazendo, tudo parece claro como água. Mais tarde, no entanto... — Ela fitou Gardener com ar suplicante. — Você entendeu?

Ele assentiu.

— As instruções vêm da nave, como transmissões de rádio, emitidas por uma torre transmissora. Contudo, só porque um rádio consegue captar transmissões e enviá-las a um ouvido humano, isto não significa que esteja falando. O governo ficaria eufórico se me detivesse, trancasse em algum lugar e depois me picasse em pedacinhos, para verificar se houvera mudanças físicas... tão depressa quanto um infortunado acidente comigo daria a eles motivo para uma autópsia, sem mais nem menos.

— Tem certeza de que não está lendo minha mente, Bobbi?

— Tenho. Entretanto, acha mesmo que eles teriam escrúpulos, designando algumas pessoas para estudar uma coisa destas?

Gardener meneou a cabeça lentamente,

— Então, aceitar seu conselho se resumiria nisto — disse ela. — Primeiro, chamar a Polícia de Dallas; segundo, ser posta em custódia pela Polícia de Dallas; e terceiro, ser morta pela Polícia de Dallas.

Gard olhou para ela, perturbado, e depois disse:

— Tudo bem, entrego os pontos. No entanto, qual a alternativa? Terá que fazer alguma coisa. Cristo, esse negócio está acabando com você!

— Quê?

— Você perdeu quinze quilos — que tal, para começar?

— Quin... — Ela pareceu sobressaltada e inquieta. — Oh, não, de maneira nenhuma, Gard! Uns sete ou oito, talvez, mas afinal eu já estava ficando com culotes e...

— Pois então, pese-se — disse Gardener. — Se conseguir levar o ponteiro além das quarenta e oito, mesmo calçada e vestida, eu como a balança. Você adoecerá, caso perca mais alguns quilos! No estado em que se encontra, poderia apresentar um quadro de arritmia e morrer em dois dias.

— Eu precisava emagrecer. E estava...

— ...ocupada demais para comer, não era o que ia dizer?

— Bem, não exatamente nessas pal...

— Quando a vi ontem à noite, você parecia um sobrevivente da marcha da morte de Bataan. Sabia quem eu era... mas nada mais. E ainda não está andando nos trilhos. Cinco minutos depois de voltarmos para casa, depois de termos visitado seu realmente espantoso achado, você me perguntava se já havia me levado lá.

Os olhos dela continuavam pousados na mesa, porém ele podia ver-lhe a expressão: era dura e carrancuda. Gardener a tocou delicadamente.

— Tudo quanto lhe digo é: pouco importa o quão maravilhosa seja aquela coisa na floresta, porque ela tem feito coisas no seu corpo e mente, coisas que estão sendo terríveis para você.

Bobbi recuou, afastando-se dele.

— Se está querendo dizer que sou louca...

— Não, pelo amor de Deus, não estou dizendo isso! Entretanto, você poderá enlouquecer, se não diminuir o ritmo. Nega que tem tido períodos de amnésia?

— Isto é um interrogatório, Gard.

— Bem, para uma mulher que me pedia conselho há quinze minutos, você está sendo uma testemunha infernalmente hostil.

Os dois encararam-se com dureza por sobre a mesa, durante um momento. Ela cedeu primeiro.

— Amnésia não é a palavra correta. Não tente comparar o que lhe acontece ao beber demais, com o que vem acontecendo comigo. Não são a mesma coisa.

— Não vou discutir semântica com você, Bobbi. Está fugindo ao assunto e sabe disso. Aquele negócio lá no mato é perigoso. Para mim, apenas isso importa.

Roberta olhou para ele, com expressão impenetrável.

— Você acha que é — disse ela, suas palavras não sendo interrogativas nem afirmativas saíram absolutamente monótonas, sem inflexão.

— Você não apenas tem tido ou recebido idéias — disse Gardener. — Está sendo impulsionada

— Impulsionada.

A expressão dela não se modificou. Gardener esfregou a testa.

— Sim, impulsionada. Impulsionada da mesma forma que um homem ruim e idiota impulsionaria um cavalo, até ele cair morto... depois chicoteando-lhe a carcaça, porque o maldito animal teve a coragem de morrer. Um homem assim é perigoso para os cavalos, e o que quer que haja naquela nave... acho que representa perigo para Bobbi Anderson. Se eu não tivesse aparecido aqui...

— O quê? Se você não tivesse aparecido aqui, o que aconteceria?

— Penso que você continuaria fazendo o mesmo, trabalhando dia e noite, sem comer... e que, no fim de semana, estaria morta.

— Acho que não — disse Bobbi friamente, — mas apenas por amor à discussão, digamos que você está certo. Bem, estou nos trilhos agora.

— Você não está nos trilhos novamente, como não está bem.

Aquele ar distante voltam ao rosto dela, um olhar sugerindo que Gard dizia bobagens, as quais não mereciam ser ouvidas.

— Escute aqui — disse Gardener. — Estou com você em pelo menos uma coisa, sem tirar uma vírgula. Este é o maior, mais importante e totalmente espantoso negócio que já aconteceu. Quando for tornado público, as manchetes do Times de Nova Iorque vão fazê-lo parecer o National Enquirer. As pessoas irão trocar suas drogas de religião por causa disto, sabia?

— Claro.

— Isto não é um barril de pólvora; é a própria bomba A. Certo?

— Certo — concordou ela.

— Pois então, tira do rosto essa expressão ofendida. Se vamos falar a respeito da coisa, droga, vamos falar a respeito dela!

Roberta suspirou.

— Sim. Tudo bem. Sinto muito.

— Admito que errei, quanto a chamar a Força Aérea.

Eles conversaram juntos, riram juntos, e isso foi bom. Ainda sorrindo, Gard disse;

— Alguma coisa tem de ser feita.

— Também acho — disse Roberta.

— Ora, Bobbi, santo Deus! Fui reprovado em química e mal passei da física elementar. Não sei exatamente como será, mas posso dizer que... bem... vai ser desalentador ou coisa assim.

— Precisamos de alguns entendimentos.

— Isso! — exclamou Gardener, apegando-se à idéia. — Peritos!

— Gard... todos os peritos fazem trabalho forense para a Polícia de Dallas...

Gardener ergueu as mãos, desalentado.

— Agora que você está aqui — disse ela, — eu estarei bem. Tenho certeza.

— O contrário é mais provável. A primeira coisa a acontecer é que eu começarei tendo períodos de amnésia.

— Acho que o risco valeria a pena — disse Roberta.

— Você já tinha decidido, não é mesmo?

— Eu decidi o que quero fazer, claro. E o que quero fazer é ficar quieta a respeito, terminando a escavação. Nem mesmo será preciso escavar tudo, até o fim. Creio que tão logo eu — tão logo nós, espero — escavarmos a coisa até uma profundidade de mais quinze ou vinte metros, poderemos encontrar um postigo. Se conseguirmos entrar...

Os olhos de Bobbi cintilaram e Gardener sentiu um excitamento crescer dentro de si, em resposta à idéia. Todas as dúvidas do mundo não seriam capazes de anular tal excitamento.

— Se conseguirmos entrar? — repetiu ele.

— Se conseguirmos entrar, poderemos chegar aos controles. Então, farei aquela tralha voar, sair do solo.

— Acha que pode fazer isso?

— Sei que posso.

— E depois?

— Depois... não sei — disse Bobbi, encolhendo os ombros. Foi a melhor e mais eficiente mentira já dita até então... mas Gardener achou que era uma mentira. — Sei apenas que acontecerá o que tiver de acontecer.

— Bem, você disse que a decisão seria minha.

— Sim, é isso aí. No relacionado ao mundo exterior, tudo quanto posso fazer é continuar não dizendo. Se você decidir que vai contar, bem, o que eu poderia fazer para detê-lo? Baleá-lo com a espingarda do tio Frank? Eu não poderia. Talvez um personagem de um livro meu pudesse, mas não eu. Infelizmente, esta é a vida real, onde não há respostas reais. Creio que, na vida real, eu apenas ficaria aqui, de braços cruzados, vendo você ir.

— Entretanto, seja quem for que você chamar, Gard — cientistas da universidade lá de Orono, biólogos dos Laboratórios Jennings, físicos do MIT — quem quer que você chame, em realidade estará chamando a Polícia da Dallas. Você verá gente vindo para cá, em caminhões lotados de arame farpado e de homens armados. — Ela sorriu de leve. Pelo menos, eu não iria sozinha para aquele Clube Méditerranée da polícia estadual.

— Não?

— Não. Você também está metido nisto. Quando me levarem para lá, você estará bem ao meu lado, no assento vizinho. — O sorriso esmaecido ampliou-se, porém não havia muito humor nele. — Bem-vindo à jaula dos macacos, meu amigo. Está satisfeito por ter vindo?

— Encantado — disse Gardener e, de repente, os dois estavam gargalhando.

 

Cessada a hilaridade, Gardener percebeu que o ambiente na cozinha de Bobbi melhorara consideravelmente. Roberta perguntou;

— O que pensa que será da nave, caso a Polícia de Dallas se aposse dela?

— Já ouviu falar do Hangar 18? — perguntou Gard.

— Nunca.

— Segundo contam, supõe-se que o Hangar 18 seja parte da base da Força Aérea, nos arredores de Dayton. Ou de Dearborn. Ou de qualquer outro lugar. Algum lugar nos EUA. É onde se imagina que estejam os corpos de cerca de cinco homenzinhos, com feições de peixe e guelras no pescoço. Tripulantes de disco voador. É apenas uma daquelas histórias que se ouve contar, mais ou menos sobre como alguém encontrou uma cabeça de rato no hambúrguer do almoço ou como existem crocodilos nos esgotos de Nova Iorque. Somente agora, no entanto, eu me pergunto se isso é um conto de fadas. Seja como for, creio que seria o fim.

— Quer ouvir um daqueles contos de fadas modernos, Gard?

— Pode soltar.

— Já ouviu aquele — perguntou ela — sobre o sujeito que inventou uma pílula para substituir a gasolina?

 

O sol descia no poente, em meio a vivos clarões de tons avermelhados, amarelos e purpúreos. Gardener sentou-se em um grande toco de árvore no quintal de Bobbi Anderson, vendo-o ir-se embora. Haviam conversado pela maior parte da tarde, às vezes discutindo, em outras raciocinando ou argumentando. Bobbi encerrara a falação, declarando-se novamente faminta. Fez uma enorme panela de macarrão e fritou algumas grossas costeletas de porco. Gardener a acompanhara à cozinha, querendo continuar a discussão — os pensamentos rolavam em sua mente, como bolas em uma mesa de bilhar. Ela não quis. Ofereceu-lhe uma bebida, que Gardener, após uma longa e reflexiva pausa aceitou. O uísque desceu bem, o sabor era agradável, porém ele parecia necessitar de uma segunda dose — bem, não era uma necessidade forte. Agora, sentado ali após ter comido e bebido, olhando para o céu, ele supôs que Bobbi tinha razão. Haviam tido toda a conversa construtiva que era para terem.

Chegara o momento da decisão.

Bobbi comera até não poder mais.

— Vai acabar vomitando, Bobbi — disse Gardener, em tom sério, mas sem poder deixar de rir.

— Negativo — replicou ela placidamente. — Nunca me senti melhor. —Arrotou. — Em Portugal, isto é um cumprimento ao cozinheiro.

— E depois de uma boa trepada...

Gard levantou uma perna e peidou. Bobbi riu gostosamente.

Os dois lavaram os pratos. (Ainda não inventou nada que faça este serviço, Bobbi? — Inventarei, dê-me tempo.). Foram para a sala de estar, pequena e sem vida, não tendo mudado muito desde os tempos do tio dela, a fim de verem o jornal da noite. Nada ia bem. O Oriente médio fumegava de novo, com Israel lançando ataques aéreos contras as forças de terra sírias, no Líbano (e casualmente atingindo uma escola — Gardener pestanejou, vendo as crianças queimadas e chorosas), os russos atacavam fortes dos rebeldes afegãos nas montanhas, houvera um golpe de estado na América do Sul.

Em Washington, a NRC* elaborara uma lista de noventa instalações nucleares em trinta e sete estados, que apresentavam problemas de segurança indo de “moderados a sérios”.

Moderados a sérios, formidável, pensou Gardener, sentindo a velha e imponente raiva despertar e retorcer-se, ferindo-o como ácido. Se perdermos Topeka, serão moderados. Se perdermos Nova Iorque, serão sérios...

Percebeu que Bobbi o fitava com tristeza.

— A mesma história de sempre, não é? — disse ela.

— Sem tirar nem pôr.

Terminado o noticiário, ela anunciou que ia para a cama.

— Às sete e meia?

— Ainda estou enfraquecida — respondeu ela, e parecia mesmo.

— Tudo bem. Também logo irei dormir. Como vê, estou cansado. Foram dois dias loucos, mas com tanta coisa zumbindo em minha cabeça, não sei se conseguirei pegar no sono.

— Quer um Valium?

Gardener sorriu.

— Já vi que continuam lá. Não, obrigado. Você é que podia ter tomado um ou dois tranqüilizantes, nestas duas últimas semanas.

O preço do Estado do Maine por concordar com a decisão de Nora, quanto a não forçar as acusações, foi de que Gardener tomasse parte em um programa de aconselhamento profissional. O programa durara seis meses; o Valium, aparentemente, duraria para sempre. Em realidade, Gardener não tomara nenhum em quase três anos, mas de vez em quando — em geral quando viajava — mandava aviar uma receita. Caso contrário, algum computador podia arrotar seu nome, e um psicólogo, recebendo algumas pratas extras como cortesia do Estado do Maine, poderia dar as caras, a fim de certificar-se de que sua cabeça permaneceria reduzida a um tamanho conveniente.

Depois que ela foi para a cama, Gardener desligou a televisão e sentou-se durante algum tempo na cadeira de balanço, lendo Os guerreiros do búfalo. Dentro em pouco, podia ouvir Bobbi roncando. Gardener imaginou que aqueles roncos também fossem parte de uma conspiração para mantê-lo acordado, mas no fundo não se incomodava — Bobbi sempre roncara, aquilo era o resultado de um desvio de septo. Os roncos sempre o tinham irritado mas, na última noite, Gardener descobriu que certas coisas eram piores. O silêncio espectral em que ela dormira no sofá, por exemplo. Isso era muito pior.

Ele assomara com a cabeça por um instante, vira Bobbi em uma postura adormecida muito mais típica de Bobbi Anderson, vestindo apenas a parte de baixo do pijama, os pequeninos seios nus, os lençóis enrolados em desalinho entre suas pernas, uma das mãos enrodilhada sob a bochecha, a outra junto do rosto, o polegar quase enfiado na boca. Bobbi estava bem.

Em vista disto, ele saíra da casa para tomar sua decisão.

A horta de Bobbi daria uma bela produção — Gardener jamais vira pés de milho mais altos, em sua vinda de Arcádia Beach para o norte, e os tomates mereceriam o primeiro prêmio em uma exposição. Alguns tomateiros chegavam aos joelhos de um homem caminhando entre as fileiras plantadas. No meio deles havia um maciço de girassóis gigantes, agourentos como trífidos, assentindo à brisa ligeira.

Quando Bobbi lhe perguntara se já ouvira falar na chamada “pílula de gasolina”, ele sorrira, assentindo. Tudo bem, mais contos de fadas do século XX. Ela então havia perguntado se ele acreditava nisso. Ainda sorrindo, ele respondera que não. Bobbi recordou-lhe o caso do Hangar 18.

— Está dizendo que acredita na existência dessa pílula? Que ela existe? Uma coisa que bastava você deixar cair no tanque de gasolina, para rodar o dia inteiro com seu carro?

— Não — respondeu Bobbi placidamente. — Nada que já tenha lido sugeriu a possibilidade de uma tal pílula. — Ela se inclinou para diante, com os antebraços pousados sobre as coxas. — Entretanto, eu lhe direi em que acredito: se essa pílula existisse, não estaria no mercado. Algum grande cartel ou talvez o próprio governo logo a compraria... ou roubaria.

— Sim — concordou Gard.

Várias vezes ele já meditara nas loucas ironias inerentes em todo status quo: abrir as fronteiras dos Estados Unidos e deixar sem trabalho todo o pessoal das alfândegas? Legalizar a droga e destruir o DEA*? Seria como tentar lançar o homem à lua, com uma esfera de rolamento.

Gard começou a rir. Bobbi olhou para ele, intrigada, mas também rindo um pouco.

— O que foi? Também quero saber.

— Eu só estava pensando que, se houvesse uma pílula assim, a Polícia de Dallas fuzilaria seu inventor e depois o colocaria ao lado dos sujeitos verdes do Hangar 18.

— Não se falando em toda a família dela — concordou Bobbi.

Gard não riu desta vez. Ele agora não parecia tão divertido.

— Visto sob o mesmo prisma — havia dito ela. — olha para o que fiz aqui. Nem ao menos sou boa em trabalhos manuais e muito menos cientista de alguma coisa; a força que trabalhou através de mim produzido um punhado de engenhocas mais semelhantes aos diagramas da revista Boy’s Life, do que a qualquer outra coisa — por falar nisto, construído por um garoto razoavelmente incompetente.

— Engenhocas que funcionam — replicou Gard.

Roberta concordara. Sim, elas funcionavam. Bobbi tinha uma vaga noção da maneira como funcionavam — seria através de um princípio que poderia ser denominado “fusão de moléculas esvaziadas”. Era algo não-atômico, inteiramente inócuo. A máquina de escrever telepática, explicara, dependia da fusão de moléculas esvaziadas como fluxo, porém o verdadeiro princípio da coisa era muito diferente, ela não o entendia. Havia uma unidade de alimentação interna, que ganhava vida como demolidora de partículas finas mas, além disso, ela nada mais sabia adiantar.

— Se você trouxer para cá um bando de cientistas, sejam eles do escalão superior ou do inferior, provavelmente terão apreendido tudo isto com perfeição, dentro de seis horas — disse Roberta. — Eles irão de um lado para outro, como se alguém lhes tivesse chutado os colhões, perguntando uns aos outros como, diabo, deixaram escapar tais conceitos elementares por tanto tempo. E sabe o que acontecerá em seguida?

Gardener refletiu bastante na pergunta, de cabeça baixa, uma das mãos apertando a lata de cerveja que Bobbi lhe dera, a outra apertando a testa. De repente, recuou àquela festa hedionda e ouviu Ted, o Homem Energia, defendendo a central de Iroquois que, ainda agora, estava acondicionando bastões de núcleo: Se déssemos a esses maníacos opositores da energia nuclear o que eles querem, fariam meia volta um mês mais tarde e começariam e choramingar que não eram capazes de usar seus secadores de cabelo ou que seus eletrodomésticos não funcionavam, quando queriam preparar um bocado de comida macrobiótica. Ele se viu acompanhando Ted, o Homem Energia, até o bufê de Arberg — viu a cena tão claramente, como se tivesse acontecido... merda, como se estivesse acontecendo, nesse minuto. Sobre a mesa, entre as batatas fritas e a travessa de vegetais crus, estava um dos dispositivos de Bobbi. As pilhas eram conectadas a um painel de circuito; este, por seu turno, era ligado a um interruptor comum de parede, do tipo encontrado em qualquer loja de ferragens, por cerca de um dólar Gardener se viu ligando aquele interruptor e, de repente, tudo em cima da mesa — batatas fritas, vegetais crus, a mesinha rotativa sustentando suas cinco espécies diferentes de molho, os restos de carnes frias picadas e a carcaça da galinha, os cinzeiros, os drinques — tudo aquilo se ergueu por cinco centímetros no ar e simplesmente ficou imóvel em levitação, suas sombras formando decorosas manchas debaixo deles, em cima do atoalhado branco. Ted, o Homem Energia, olhou para o quadro por um momento, um tanto irritado. Então, arrancou o dispositivo de sobre a mesa. Os fios se soltaram. Pilhas rolaram para cá e para lá. Tudo voltou a cair em cima da mesa com ruído, copos entornaram, cinzeiros viraram, espalhando tocos de cigarro. Ted despiu seu paletó esporte e cobriu os remanescentes do dispositivo, da maneira como se cobre o cadáver de um animal atropelado e morto na estrada. Feito isto, tornou a virar-se para sua pequena platéia cativa e recomeçou a falar. Estas pessoas acham que podem continuar tendo seu bolo, que comerão dele eternamente. Estas pessoas presumem que sempre haverá uma posição de dependência. Estão enganadas. Não existe posição de dependência. É tudo muito simples: os reatores ou nada! Gardener ouviu-se gritar, em uma fúria inteiramente sóbria, para variar: E quanto à coisa que você acabou de quebrar? O que me diz disso? Ted se inclinara e recolhera o paletó esporte, tão graciosamente como um mágico exibindo a capa, diante de uma platéia embevecida. Nada havia no chão abaixo, exceto algumas batatas fritas. Nenhum sinal do dispositivo, de engenhoca. O menor sinal. De que coisa está falando? perguntou Ted, o Homem Energia, encarando Gardener com uma expressão de simpatia, em que havia de mistura uma boa dose de irritação. Ele se voltou para seus ouvintes. Alguém aqui viu alguma coisa?... Não, responderam todos em uníssono, como crianças recitando: Arberg, Patricia McCardle e todo o resto; até Ron Cummings e o jovem barman se juntaram ao coro. Não, nós não vimos nada, não vimos absolutamente nada, Ted, nada mesmo, você tem razão, Ted, são os reatores ou nada. Ted sorria. Se querem saber, a próxima coisa que ele nos dirá é aquela velha piada sobre a tal pílula que se pode colocar no tanque da gasolina e rodar um dia inteiro com o carro. Ted, o Homem Energia, começou a rir. Todos os outros riram também. Estavam todos rindo dele, Gardener.

Erguendo a cabeça, Gardener pousou em Bobbi um olhar agoniado.

— Você acha que eles fariam... o quê? Declarariam tudo isto oficialmente secreto?

— Você acha que não? — Após um momento, em voz muito suave, ela insistiu: — Então, Gard?

— Sim — respondeu ele após algum tempo e, por um instante, sentiu-se bem de perto das lágrimas. — Eles fariam isso. Tenho certeza de que fariam.

 

Agora, sentado em um toco de árvore no quintal de Bobbi, ele não tinha a menor idéia de que havia uma espingarda carregada, apontada para seu crânio.

Estava sentado ali, pensando em seu replay mental da festa. Era tão horrendo e tão absolutamente óbvio, que supôs poder ser perdoado pelo tempo que demorara a ver o quadro e captá-lo. A nave na terra não poderia ser encarada tendo em vista apenas o bem-estar de Bobbi ou o bem-estar de Haven. Pouco importando o que fosse, o que estivesse provocando em Bobbi ou mais alguém nas circunvizinhanças, o destino definitivo daquela espaçonave na terra teria que ser decidido tendo como base o bem-estar do mundo. Gardener trabalhara em dúzias de comitês, cujos objetivos iam do possível ao irrefletidamente insano. Fizera marchas de protesto; contribuíra com mais do que podia, para ajudar a pagar anúncios em jornais, relacionados a duas fracassadas campanhas para o fechamento da Yankee do Maine, por plebiscito; como estudante universitário, marchara em protesto contra o envolvimento dos Estados Unidos no Vietnã; pertencia ao Greenpeace; apoiava entidades ecológicas do país. Em meia dúzia de confusas maneiras, tentara trabalhar pelo bem-estar mundial, mas seus esforços, embora nascidos do pensamento individual, sempre haviam sido expressos como parte de um grupo. E agora...

Compete a você, Gard-velho-Gard. Apenas a você. Ele suspirou, e foi como que um soluço. Deixe de lado aquelas mudanças emocionais, garoto branco... isso mesmo. Só que, primeiro, pergunte a si mesmo quem quer que o mundo mude. Os desnutridos, os necessitados, os sem-teto, certo? Os pais daquelas crianças na África, de barriga inchada e olhos moribundos. Os negros da África do Sul. A OLP, Ted, o Homem Energia, desejará um bom punhado de mudanças emocionais? Morda a língua! Não Ted, não o Politburo russo, não o Knesset, o parlamento israelense, não o Presidente dos Estados Unidos, não Sete irmãs, não a Xerox, não Barry Manilow

Oh, não, não os que ocupam a cúpula, não aqueles com o poder verdadeiro, aqueles que dirigem a Máquina do Status Quo. O moto deles era: “Os medrosos caiam fora.”

Houve uma época em que ele não vacilaria um momento, e essa época não era um passado tão distante. Bobbi não precisaria de argumentos; o próprio Gard seria o sujeito chicoteando o cavalo, até o coração do animal explodir... com a diferença de que ele também estaria galopando ao lado e com arreios. Aqui, pelo menos, havia uma fonte de energia não prejudicial, tão abundante e de fácil produção, que poderia perfeitamente ser tornada grátis. Dentro de seis meses, cada reator nuclear nos Estados Unidos seria condenado a parar de estalo. Dentro de um ano, aconteceria o mesmo a cada reator no mundo. Energia barata. Transporte barato. Viagem a outros planetas, inclusive a outros sistemas estelares... sim, parecia possível — afinal de contas, a espaçonave de Bobbi não chegara a Haven, no Maine, trazida pela bondosa nave espacial Pirulito. Ela era, de fato — que rufem os tambores para nós, maestro, por favor! — A RESPOSTA PARA TUDO.

Você acha que a bordo dessa nave existem armas?

Ele começa a fazer tal pergunta a Bobbi, porém algo lhe fechara a boca. Armas? Era possível. Então, se Bobbi conseguia receber o suficiente daquela “força” residual para criar uma máquina de escrever telepática, não poderia também criar uma arma paralisante, tipo Flash Gordon, que realmente funcionasse? Um desintegrador? Um trator movido a laser? Alguma coisa que, em vez de apenas fazer Brmmmmmmmmmm ou Rá-tá-tá-tá-tá, de fato transformasse pessoas em pilhas de cinza fumegante? Possivelmente. E, se não, alguns dos hipotéticos cientistas de Bobbi não teriam condições para adaptar coisas, como aquela engenhoca do aquecedor de água ou o motor alterado do Tomcat, assim criando algo que se tornaria um sofrimento radical para as pessoas? Sem dúvida. Afinal de contas, muito antes de se pensar em torradeiras, secadores de cabelo e aquecedores de ambiente, o Estado de Nova Iorque já utilizava a eletricidade para torrar assassinos na penitenciária de Sing-Sing.

O que sobressaltava Gardener, era o fato de que as armas possuíam certa dose de atração. Uma parte dessa atração, segundo supunha, era apenas interesse próprio. Se viesse uma ordem para colocarem um paletó esporte sobre a trapalhada, então ele e Bobbi, sem a menor dúvida, seriam uma parte do que ficaria coberto. Além disso, no entanto, havia outras possibilidades. Uma delas, alucinante, mas não sem atrativos, era a de que ele e Bobbi estariam em situação de chutar um bocado de traseiros que mereciam pontapés. A idéia de desejar boa-viagem para a Zona Fantasmal a indivíduos como o Aiatolá, era tão deliciosa, que quase o fez rir para si mesmo. Por que esperar que israelitas e árabes resolvessem seus problemas? E, para os terroristas de quaisquer ideologias... adeus, amigos! Até nunca!

Formidável, Gard! Estou adorando isto! Será tudo televisado em cadeia! Vai ser melhor do que Miami Vice! Em vez de dois intemeratos perseguidores de narcotraficantes, teremos Gard e Bobbi cruzando os ares do planeta em seu disco voador! Alguém me arranje um telefone! Preciso ligar para a CBS!

Você não está sendo nada engraçado, pensou Gardener.

E é para achar graça? Não está falando exatamente isso? Você e Bobbi brincando de Zorro e Tonto?

E daí, se for mesmo? Quanto tempo passará, antes que essa opção comece a parecer boa? Quantas mulheres mortas a tiros em toaletes de embaixada? Quantas crianças mortas? Até quando permitiremos que isso continue?

Adorei a tirada, Gard, — Muito bem, que todos no Planeta Terra cantem em coro com Gard e Bobbi — basta que sigam o compasso da festa: “A respooosta, meu amigo, está ecoaaando pelos ares...”

Você é irritante.

E você está começando a parecer sumamente perigoso. Lembra-se de como ficou assustado, quando aquele policial encontrou a pistola em sua mochila? Como ficou apavorado, porque nem ao menos se lembrava de tê-la colocado lá? Pois está tudo começando de novo. A única diferença é que agora está falando de um calibre maior. Santo Deus, como é que pode?

Quando era mais novo, tais perguntas nunca lhe tinham ocorrido... e se tinham, ele simplesmente as enxotava para um lado. Aparentemente, Bobbi já pensara nessas perguntas. Fora ela, afinal de contas, que mencionara o cavaleiro.

O que quer dizer, quando fala de um cavaleiro?

Quero dizer nós, Gard, mas acho que penso... penso referir-me principalmente a você.

Quando eu tinha vinte e cinco anos, Bobbi, ficava inflamado o tempo todo. Aos trinta, inflamava-me por algum tempo. Entretanto, o oxigênio por aqui deve estar ficando rarefeito, porque agora só fico inflamado quando estou bêbado. Tenho medo de montar esse cavalo, Bobbi. Se a história já me ensinou alguma coisa, foi que cavalos gostam de desembestar.

Ele remexeu o corpo sobre o toco da árvore, e a espingarda o seguiu. Roberta estava na cozinha, sentada em uma banqueta, e movia ligeiramente os canos da espingarda, pousados no peitoril da janela, em cada movimento de Gardener. Estava captando muito pouco dos pensamentos dele, o que era frustrante, enlouquecedor. Não obstante, captava o suficiente para perceber que ele se aproximava de uma decisão... e quando a tomasse, ela achava que conseguiria saber qual seria.

Se fosse a decisão errada, explodiria o crânio dele, pela parte de trás, depois enterrando o corpo na terra macia, ao pé da horta. Odiava fazer isso, mas se fosse preciso, não vacilaria.

Roberta esperava calmamente pelo momento, sua mente sintonizada ao vago correr dos pensamentos de Gardener, estabelecendo a tênue conexão.

Agora não ia demorar muito.

 

O que de fato o assusta, é a chance de atuar de uma posição de força, pela primeira vez em sua confusa e miserável vida.

Ele se sentou mais ereto, com uma expressão desalentada no rosto. Isto não era verdade, era? Certamente que não.

Oh, Gard, pois é sim! Você, inclusive, torce para times de beisebol que são cataclísmicos perdedores. Assim, nunca terá de se preocupar sobre ficar deprimido, caso um deles seja o lanterninha na Série Mundial. O mesmo acontece com os candidatos e causas que apóia, não é mesmo? Porque se seus políticos nunca tiveram a chance de ser postos à prova, você não se preocupará em descobrir que o novo chefe é igualzinho ao velho chefe, concorda?

Não estou assustado. Não com isto.

Uma ova que não está! Cavaleiro? Você? Cara, é para morrer de rir! Você teria um ataque do coração, se alguém lhe pedisse que montasse um triciclo. Sua própria vida pessoal, nada mais tem sido além de um permanente esforço para destruir cada base de poder que possui. Veja seu casamento. Nora era rija, você precisou baleá-la para livrar-se dela, mas se a situação ficava precária, não vacilava, certo? Em seu favor, admito que seja um homem capaz de nivelar-se a cada ocasião. Conseguiu ser demitido como professor, assim eliminando outra base de poder. Levou doze anos despejando álcool na fagulha de talento que Deus lhe deu, em quantidades suficientes para exterminá-la. Agora, isto! Acho melhor dar no pé, Gard.

Isso não é justo! Francamente, não é!

Não? Nisto não há verdade bastante para que receba um merecido castigo?

Talvez. Talvez houvesse. Fosse como fosse, ele descobriu que a decisão já tinha sido tomada. Ficaria com Bobbi, pelo menos por algum tempo, agindo à maneira dela.

As satisfeitas afirmativas de Bobbi quanto a tudo estar correndo otimamente, não combinavam muito bem com sua exaustão e perda de peso. O que a nave enterrada na terra podia fazer a Bobbi, provavelmente faria a ele. O que hoje acontecera — ou deixara de acontecer — nada provava; ele não esperava que todas as mudanças surgissem imediatamente. No entanto, a nave — e qualquer que fosse a força emanando dela — tinha uma grande capacidade para fazer o bem. Esta era a questão principal e... bem, que se fodesse o homem Tommyknocker.

Levantando-se, Gardener caminhou para a casa. O sol já se pusera e o crepúsculo se tornava acinzentado. Suas costas doíam. Espreguiçou-se. Na ponta dos pés, fazendo uma careta ao ouvir a espinha estalar. Na penumbra, olhou para o vulto escuro e silencioso do Tomcat e depois para a porta do galpão, com seu novo cadeado. Pensou em ir até lá, dar uma espiada através de uma de suas janelas sujas e embaciadas... mas decidiu pelo contrário. Talvez receasse que algum rosto pálido surgisse do outro lado da janela obscura, seu sorriso mostrando uma fileira de dentes canibalescos, em mortal sucessão. Olá, Gard, quer conhecer alguns legítimos Tommyknockers? Entre! Há um bando de nós aqui!

Gardener estremeceu — quase podia ouvir dedos finos e malignos arranhando as vidraças. Neste dia e no anterior já tinham acontecido coisas demais. Sua imaginação se exaurira. Esta noite ela caminharia e falaria. Ele ignorava se podia esperar pelo sono ou se este ficaria à distância.

 

Quando se viu dentro de casa, sua inquietude começou a desaparecer. Com ela, desapareceu também parte da ânsia por bebida. Tirou a camisa e depois espiou o quarto de Roberta. Bobbi continuava da maneira como estivera antes, os lençóis presos entre as pernas terrivelmente finas, uma das mãos estirada ao acaso, roncando.

Nem ao menos se moveu. Cristo, ela deve estar mesmo cansada!

Tomou uma ducha demorada, abrindo a água o mais quente que pôde suportar (com o novo aquecedor de água de Bobbi, isto significava mal girar a torneira cinco graus a oeste da temperatura absolutamente fria). Ao ver que a pele começava a avermelhar-se, saiu para um banheiro tão nebuloso como Londres, no auge de um fog Sherlockiano. Enxugou-se com a toalha, escovou os dentes com um dedo — preciso trazer alguns sortimentos para cá, pensou — e foi para a cama.

Uma vez deitado, seu pensamento vagou novamente para a última coisa que Bobbi havia dito, durante sua discussão. Ela acreditava que a espaçonave na terra começara a afetar os moradores da cidade. Quando ele quis saber mais, ela se tornou vaga, depois mudando de assunto. Gardener supôs que, se tão aloucada situação, tudo seria possível. Embora a propriedade do velho Frank se situasse em área remota e pouco povoada, ficava quase exatamente no centro geográfico da municipalidade. Havia uma pequena cidade — Havem Village — mas localizada oito quilômetros ao norte.

— Você deixa a impressão de que a nave estaria expelindo algum gás venenoso — havia dito ele, esperando não deixar transparecer sua inquietude. — Paraquat*oriundo do Espaço. Eles vêm do Agente laranja.

— Gás venenoso? — repetira Bobbi. Parecia novamente alheada. O rosto, agora tão afilado, se mostrava fechado e distante. — Não, nada de gás venenoso. Chame de emanações, se quiser chamá-lo de algo. Contudo, é mais do que apenas a vibração, quando a pessoa toca a nave.

Gardener nada disse, não querendo interrompê-la.

— Emanações? Não é isso também, mas gosto de emanações. Se o Departamento de Proteção Ambiental aparecer aqui com farejadores, duvido que eles descubram qualquer poluente. Se no ar existe qualquer resíduo real e físico da nave, será além do mais ínfimo traço.

— Acredita em tal possibilidade, Bobbi? — perguntara Gardener, em voz muito baixa.

— Acredito. Não estou lhe dizendo que sei o que acontece, porque a verdade é que não sei. Não tenho qualquer informação de dentro. Contudo, acho que uma camada muito exígua do casco da nave — e quando falo em exígua, quero dizer talvez não mais de uma ou duas moléculas de espessura — poderia estar-se oxidando, à medida que a vou descobrindo e que o ar a toca. Isto quer dizer que recebi a primeira e mais pesada... e depois tudo seria carregado pelo vento, com precipitação radioativa. Os moradores da cidade receberiam a maior parte disso... porém “maior parte” seria, de fato, “infernalmente pouco”, neste caso.

Bobbi remexeu-se na cadeira de balanço e deixou a mão direita pender. Era um gesto que Gardener presenciara muitas vezes antes, e seu coração abraçou aquela amiga, ao ver a expressão de tristeza cruzar o rosto dela. Bobbi tomou a pousar a mão no colo.

— Entretanto, compreenda, não tenho certeza, em absoluto, do que está acontecendo. Há uma novela de um homem chamado Peter Straub, intitulada FIoating Dragon — já a leu?

Gardener meneara a cabeça.

— Bem, ela postula algo similar ao seu Agente Laranja vindo do Espaço ou Paraquat dos Deuses — ou qualquer nome que lhe queira dar.

Gardener sorrira.

— Na história, um produto químico é sugado para a atmosfera e cai sobre um trecho suburbano do Connecticut. Esse material é realmente venenoso — uma espécie de gás da insanidade. As pessoas envolvem-se em lutas sem motivo algum, um sujeito resolve pintar a casa inteira — incluindo as janelas — de vermelho-vivo, uma mulher faz jogging até cair morta por um ataque coronariano maciço, e assim por diante.

— Existe um outro livro, este chamado Brain Wave, da autoria de... — Roberta franziu a testa, procurando lembrar. Sua mão tornou a pender pelo lado direito da cadeira de balanço, depois voltou ao colo. — Ele tem o mesmo sobrenome que eu. Anderson. Paul Anderson. Nesse livro, a terra passa através da cauda de um cometa e parte da precipitação radioativa torna os animais mais inteligentes. O livro começa com um coelho literalmente raciocinando qual a maneira de escapar de uma armadilha.

— Mais inteligentes — repetira Gardener.

— Exato. Quem possuía um QI de 120, antes da terra passar através do cometa, depois ficava com um QI de 180. Entendeu?

— Inteligência perfeita, simétrica?

— Isso mesmo.

— No entanto, o termo que usou antes, foi idiot savant. Trata-se do oposto exato de uma inteligência simétrica não? É uma espécie de... de excrescência.

Roberta não ligou para o comentário.

— Não vem ao caso — disse.

Agora, deitado na cama, a caminho do sono, Gardener sentia-se curioso.

 

Nessa noite ele teve um sonho. Era bastante simples. Estava em pé no escuro, ao lado do galpão, entre a casa de moradia e a horta. A sua esquerda, o Tomcat era uma forma escura. Gardener pensava exatamente o que estivera pensando horas antes — que iria até lá, dar uma espiada pela janela. E o que veria? Bem, os Tommyknockers, é claro. Entretanto, não tinha medo. Em vez de amedrontado, estava deliciado, cheio de alegria. Porque os Tommyknockers não eram monstros, nem canibais; eram como os duendes, naquela história sobre o bondoso sapateiro. Ele espiaria pela janela suja do galpão, como uma criança deliciada espiando pela janela de um quarto, em uma ilustração de “A véspera do Natal” (e o que era Papai Noel, aquele velho e alegre duende, senão um grandalhão e velho Tommyknocker em um traje vermelho?). Então, poderia vê-los, rindo e conversando, sentados a uma comprida mesa, montando geradores de energia, skates que levitavam e televisões que apresentavam filmes de mente, em vez dos tradicionais.

Vagou para junto do galpão e, de repente, a construção foi iluminada pela mesma claridade que vira irradiar-se da máquina de escrever modificada de Bobbi — era como se o galpão virasse um singular jack-o’-lantern, a lanterna feita de uma abóbora, recortada como um rosto humano, com a diferença única de que esta luz não tinha um cálido tom amarelo, mas uma horrível e ordinária cor verde. Ela brotava por entre as tábuas: atirava raios através dos nós da madeira e tatuava malignos olhos de gato no solo, além de inundar as janelas. E agora ele sentia medo, porque amistosos e pequeninos alienígenas, vindos do espaço, jamais produziriam uma cor semelhante; se o câncer tivesse cor, seria aquela brotando de cada tenda, cada buraco, nó oco de madeira e janela do galpão de Bobbi Anderson.

Ainda assim, ele se aproximou mais, pois nos sonhos, nem sempre agimos conforme queremos. Chegou mais perto e não tinha vontade de espiar, era como o garoto que não desejaria olhar pela janela de seu quarto e ver Papai Noel, na véspera do Natal, dando passadas pelo teto inclinado e coberto de neve da casa, tendo em cada mão enluvada uma cabeça degolada, o sangue dos pescoços em frangalhos fumegando no frio.

Por favor, não, por favor; não...

Ainda assim, aproximou-se e, quando penetrou naquele halo esverdeado, sua cabeça se encheu de música de rock, em um fluxo paralisante e devastador. Eram George Thorogood e os Destroyers. E ele sabia que, quando George começava a tocar aquela lustrosa guitarra, seu crânio vibraria por um momento em letal harmonia, para então simplesmente explodir, como explodiram os copos d‘água da casa sobre a qual certa vez falara a Bobbi.

Nada disso importava. O que importava era o medo, nada mais — o medo dos Tommyknockers, no galpão de Bobbi. Ele os pressentiu, quase podia farejá-los, sentia um cheiro intenso e elétrico, como de ozônio e sangue.

E... havia os sons espectrais, líquidos e chapinhantes. Era possível ouvi-los, ainda acima da música em sua cabeça. Soavam como uma antiquada máquina de lavar, exceto que o som não era de água, que o som estava errado, errado, errado.

Enquanto se punha na ponta dos pés para ver o interior do galpão, o rosto tão verde como o de um cadáver retirado de areias movediças, George Thorogood começou a tocar langorosamente aquela guitarra lustrosa e Gardener se pôs a gritar de dor — e então foi quando sua cabeça explodiu e ele acordou, sentando-se de um salto na velha cama de casal do quarto de hóspedes, o peito inundado de suor, as mãos tremendo.

Gardener se deitou novamente, pensando: Cristo! Se você vai ter pesadelos sobre isso, espere o amanhã. Dê folga à sua mente!

Ele havia esperado pesadelos, em decorrência de sua decisão. Ficou deitado, pensando que este seria apenas o primeiro. Entretanto, por aquela noite não houve mais sonhos.

Aquela noite.

No dia seguinte, ele se juntou a Bobbi na escavação.

 

HISTÓRIAS DE HAVEN

 

O terrorista ficou chumbado!

O Presidente ficou dopado!

A Segurança estava tonta!

O Serviço Secreto meio grogue!

E todos estão de porre,

Todos estão drogados,

E nada irá mudar isto,

Porque todos estão de porre,

Todos estão drogados,

Todos bebem no emprego.

 “Drinkin’ on the Job”

THE RAINMAKERS

 

Então, ele foi para a cidade correndo e gritando

“A coisa veio do céu!”

 “It Came Out of the Sky”

CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL

 

A CIDADE

Antes de tornar-se Haven, a cidade possuíra quatro nomes.

Sua existência municipal tivera início em 1816, como Plantação Montville, e pertencia inteiramente a um homem chamado Hugh Crane. Ele a tinha comprado do Commonwealth de Massachusetts, do qual o Maine era então uma província, no ano de 1813. Crane havia sido tenente na Guerra da Independência.

O nome Plantação Montville era uma chacota. O pai de Crane jamais se aventurara a leste de Dover em sua vida, tendo permanecido um leal tory, um sincero conservador, quando do rompimento com as colônias. Terminou a vida como par do reino, décimo-segundo conde de Montville. Sendo o filho mais velho, Hugh Crane se tomaria o décimo-terceiro conde de Montville, mas seu pai enfurecido o tinha deserdado. Não ligando nem um pouco para tal fato, Crane continuou sua vida prazerosamente, dando a si mesmo o nome de primeiro Conde do Maine Central e, às vezes, o de Duque de Nenhures.

A área de terra que Crane denominava Plantação Montville, abrangia cerca de vinte e dois mil acres. Quando ele apresentou a petição e obteve o status de emancipação, a Plantação Montville passou a ser a centésima-nonagésima-terceira cidade a ser assim incorporada à província do Maine, Massachusetts. Crane adquiriu a terra, porque era rica em boa madeira e, além disso, Derry — de onde os troncos poderiam flutuar rio abaixo até o mar — ficava a apenas trinta quilômetros de distância.

Que preço havia custado a área de terra que, com o tempo, seria chamada de Haven?

Hugh Crane comprara tudo aquilo pelo equivalente a mil e oitocentas libras.

Naturalmente, naqueles tempos uma libra valia um bocado.

 

Quando Hugh Crane faleceu, em 1826, havia cento e três habitantes na Plantação Montville. Os lenhadores duplicavam essa população durante seis a sete meses do ano, porém eles não contavam de fato, uma vez que levavam seu dinheirinho para Derry e era lá que geralmente se radicavam, ao ficarem velhos demais para o trabalho nas florestas. Naquela época, a expressão “velhos demais para o trabalho nas florestas” significava, em geral, aproximadamente vinte e cinco anos de idade.

Não obstante, por volta de 1826, a colônia que mais tarde viria a chamar-se Haven Village, começava a expandir-se ao longo da estrada lamacenta que seguia para o norte, na direção de Derry e Bangor.

Qualquer que fosse o nome dado a ela (com o tempo, passou a ser apenas a simples e velha Rota 9, exceto na lembrança dos veteranos idosos, como Dave Rutledge), essa estrada era a única que os lenhadores tinham de seguir, quando iam a Derry no fim de cada mês, gastar seu pagamento em bebida e bordéis. Eles reservavam os gastos maiores para a cidade grande, porém a maioria gostava de fazer alto na Taberna e Pousada de Cooder, a caminho de Derry, para assentar a poeira com uma ou duas cervejas. Isto não era muito, mas bastava para propiciar ao estabelecimento um pequeno e lucrativo comércio. O Mercantil Geral, do outro lado da estrada (pertencente ao sobrinho de Hiram Cooder e dirigido por ele), era menos bem-sucedido, mas mesmo assim fazia proveitosos negócios marginalmente. Em 1828, foi inaugurada a Barbearia e Pequenas Cirurgias (pertencente ao primo de Hiram Cooder e dirigida por ele), ao lado do Mercantil Geral. Naqueles tempos, não era incomum alguém entrar naquele movimentado e progressista estabelecimento, e ver um lenhador reclinado em uma das três cadeiras, enquanto lhe cortavam os cabelos, costuravam um cone no braço e tinha repousando, acima de cada olho fechado, duas grandes sanguessugas tiradas do pote ao lado da caixa de charutos, passando de cinzentas a vermelhas ao mesmo tempo em que inchavam, simultaneamente protegendo contra qualquer infecção do corte e fazendo desaparecer a doença então conhecida como “dor nos miolos”. Em 1830, abriu-se na extremidade sul do vilarejo uma hospedaria e casa de refeições (pertencente a George, irmão de Hiram Cooder e dirigida por ele).

Em 1831, Plantação Montville passou a chamar-se Coodersville.

Ninguém ficou muito surpreso com isso.

O nome Coodersville permaneceu até 1864, quando foi mudado para Montgomery em homenagem a Ellis Montgomery, um rapaz do lugar que havia caído na Batalha de Gettysburg, onde, dizem alguns, o 20º do Maine preservou a União, lutando sozinho. A mudança de nome pareceu uma ótima idéia. Afinal de contas, o único Cooder remanescente da cidade, o velho e louco Albion, tinha ficado arruinado e suicidara-se, dois anos antes.

Nos anos seguintes à Guerra Civil, o estado foi varrido por uma mania, tão inexplicável como a maioria das manias. Esta mania não era por saias-balão ou costeletas; era uma mania de que nomes clássicos fossem dados às pequenas cidades. Daí, existe uma Sparta (Esparta), no Maine; uma Carthage (Cartago); uma Athens (Atenas) e, naturalmente, havia Troy (Tróia), bem próxima. Em 1878, os moradores da cidade votaram pela mudança do nome da cidade, novamente, desta vez de Montgomery para Ilium (Ílio). Isto provocou, na assembléia da cidade, uma lacrimosa tirada da mãe de Ellis Montgomery. Em verdade, a tirada era mais senil do que lúcida, uma vez que a mãe do herói já estava carregada de anos — setenta e cinco deles, para ser exato. Segundo a legenda da cidade, os moradores ouviram pacientemente, com certo senso de culpa, e a decisão poderia ter sido anulada (alguns achavam que a Sra. Montgomery tinha toda razão, ao dizer que quatorze anos dificilmente significariam a “homenagem imortal” que fora prometida a seu filho morto, quando das cerimônias de mudança de nome, acontecidas em 4 de julho de 1864), se a bexiga da boa senhora não escolhesse aquele particular momento para afrouxar. Ela foi retirada do salão em que tinha lugar a assembléia de moradores, ainda vociferando sobre os ignorantes ingratos que se arrependeriam daquele dia.

Mesmo assim, Montgomery se tornou Ilium.

Passaram-se vinte e dois anos.

 

Um belo dia, aportou em Ilium um pregador de oratória convincente e dedicado ao reavivamento da fé. Por algum motivo, ele se desviara de Derry e escolhera Ilium para erguer sua tenda. Atendia pelo nome de Colson, mas Mirtle Duplissey, autodesignada historiadora de Haven, eventualmente ficou convencida de que o nome verdadeiro dele era Condes sendo filho ilegítimo de Albion Cooder.

Quem quer que fosse ele, arrebanhou a maioria dos cristãos da cidade para a sua própria e animada versão da fé, à época em que o milho estava pronto para ser colhido — com grande desespero do Sr. Hartley que ministrava religião aos metodistas de Ilium e Troy, e do Sr. Crowell, que cuidava do bem-estar espiritual dos batistas em Ilium, Troy, Etna e Unity (naqueles tempos, a piada era que o presbitério de Emory Crowell pertencia à cidade de Troy, mas que suas hemorróidas pertenciam a Deus). Fosse como fosse, as exortações dos dois eram vozes clamando no deserto. A congregação do pregador Colson continuou aumentando, até chegar à conclusão no quase perfeito verão de 1900. Dizer que as colheitas daquele ano tinham sido “abundantes”, seria menosprezá-las; o solo ralo do norte da Nova Inglaterra, geralmente tão sovina como um Scrooge, nesse ano demonstrou uma munificência que parecia nunca terminar, O Sr. Crowell, o batista cujas hemorróidas pertenciam a Deus, ficou cada vez mais deprimido e silencioso, até que três anos mais tarde, enforcou-se no porão do presbitério de Troy.

O Sr. Hartley ministro metodista, ficou cada vez mais alarmado, ao presenciar o fervor evangélico que se abatera sobre Ilium como uma epidemia de cólera. Talvez isto acontecesse porque os metodistas, em circunstâncias ordinárias, são os menos demonstrativos adoradores de Deus; eles não ouvem sermões, mas “mensagens”, geralmente oram em decoroso silêncio, e consideram que os únicos e apropriados améns falados pela congregação são aqueles no final do Pai-nosso e dos poucos hinos não cantados pelo coro.

No entanto, tais pessoas anteriormente nada demonstrativas, agora estavam fazendo tudo, desde falar em idiomas a contorções beatificas. Segundo o Sr. Hartley, em seguida elas estariam manuseando serpentes. As reuniões na tenda de reavivamento religioso, ao lado da Estrada de Derry programadas para as terças, quintas e domingos, se foram tornando cada vez mais francamente barulhentas, arrebatadas e mais emocionalmente explosivas.

— Se isso estivesse acontecendo em uma tenda de parque de diversões, seria chamado de histeria — disse o Sr. Hartley a Fred Perry, diácono da igreja e seu único amigo íntimo, certa noite em que conversavam entre copos de sherry, na reitoria da igreja. — Como acontece em uma tenda de reavivamento religioso, eles podem continuar com a coisa, chamando-a de Fogo Pentecostal,

As suspeitas do Reverendo Hartley a respeito de Colson, ficaram amplamente justificadas no correr do tempo, mas antes disso Colson fugiu, tendo feito uma excelente colheita de dinheiro sonante e de ardentes mulheres, em vez de abóboras-morangas e batatas. Só que, ainda antes disso, ele apôs seu duradouro carimbo na cidade, trocando-lhe o nome pela derradeira vez.

Naquela quente noite de agosto, seu sermão começou pelo tema da colheita como símbolo da grande recompensa de Deus, em seguida passando para o tema daquela precisa cidade. A essa altura, Colson já havia tirado a sobrecasaca. Os cabelos molhados de suor lhe caíam nos olhos. As irmãs começavam a reunir-se no canto em que eram entoados os améns, embora ainda demorasse um pouco o início da falação em idiomas e das santas contorções.

— Considero santificada esta cidade! — disse Colson para seus ouvintes, as mãos enormes aferradas aos lados do púlpito — ele poderia considerá-la santificada por algum outro motivo, além do fato de seu honorável eu a ter escolhido como local onde espalhar sua tenda (não se falando em sua semente), porém se assim foi, não o disse. — Eu a considero um porto-seguro*! Sim! Aqui descobri um refúgio que me faz recordar meu refúgio-natal, uma terra adorável, não muito diferente daquela que Adão e Eva conheceram, antes de colherem o fruto daquela árvore em que não deveriam tocar. — Santificada! — bradou o Pregador Colson.

Anos mais tarde, membros de sua congregação ainda comentavam com admiração, a maneira daquele homem gritar por Jesus, fosse ele ou não um salafrário.

— Amém! — entoou a congregação.

A noite, apesar de quente, talvez não fosse quente o bastante para explicar inteiramente os rubores em tantas faces e cenhos femininos; tais rubores se tinham tornado comuns, desde que o Pregador Colson chegara à cidade.

— Esta cidade é, antes de tudo, uma glória para Deus!

— Aleluia! — gritou a congregação jubilosamente.

Peitos se inflaram. Olhos cintilaram. Línguas se moveram, molhando os lábios.

— Esta cidade obteve uma promessa! — bradou o Pregador Colson, agora andando rapidamente de um lado para outro, de vez em quando atirando para trás da testa os negros anéis dos cabelos, em um gesto brusco que exibia vantajosamente o pescoço forte. — Esta cidade obteve uma promessa e essa promessa é a abundância da colheita, uma promessa que deve ser cumprida!

— Louvado seja Jesus!

Colson retornou ao púlpito, aferrou-o e encarou os ouvintes assustadoramente.

— Então, irmãos, por que querem ter uma cidade que promete a colheita de Deus e o porto-seguro de Deus — por que querem ter uma cidade que fala destas coisas, mas com um nome homenageando alguma coisa latina, está além do que consigo imaginar. Posso apenas deduzir que deve ter sido obra do demônio, trabalhando em alguma época na última geração!

Já no dia seguinte, começaram os comentários sobre a mudança do nome da cidade, de Ilium para Haven. O Reverendo Sr Crowell esboçou alguns protestos, mas o Reverendo Sr. Hartley protestou com bastante vigor. Os membros do conselho municipal de Ilium mostraram-se neutros, exceto na questão de apontarem que a cidade teria de pagar vinte dólares pela mudança dos Documentos de Incorporação, arquivados em Augusta, e provavelmente mais vinte pela troca de nomes nas placas sinalizadoras das estradas municipais, não se falando nos timbres impressos dos documentos e papelada burocrática da cidade.

Muito antes da assembléia da cidade em março, para discussão e votação do Artigo 14 — “Verificar se a cidade aprovará a mudança do nome da Cidade nº 193 Incorporada ao Maine, de ILIUM para HAVEN” — o Pregador Colson já havia desmontado sua tenda, literalmente, e fugido no meio da noite. O desmonte e a fuga aconteceram na noite de 7 de setembro, em seguida ao que Colson havia denominado, durante semanas, a Campanha Local da Colheita de 1900. No correr de um mês, pelo menos, estivera deixando bem claro tê-la considerado a mais importante assembléia que faria esse ano na cidade; talvez a mais importante assembléia que jamais fizera e faria, mesmo que se radicasse ali, algo que sentia ser cada vez mais a vontade de Deus em relação a ele — e semelhante notícia não era para deixar o coração das damas batendo aceleradamente? Segundo ele, seria uma grande oferenda de amor a um amoroso Deus, que concedera à cidade uma estação propícia a tão maravilhoso crescimento das Lavouras e espetacular colheita.

Colson também fez algumas colheitas pessoais. Começou lisonjeando as freqüentadoras, bajulando-as para que dessem a maior “oferenda-amorosa” por sua permanência na cidade, e terminou arando e plantando em não duas, não quatro, mas seis jovens donzelas, no campo atrás da tenda, depois da assembléia.

— Os homens gostam de falar empolado, mas acho que a maioria deles enfia derringers nas calças, pouco importando o quão empolado eles falam — comentou o velho Duke Barfield na barbearia, certo anoitecer. Se fizessem um concurso de Homem mais fedorento da cidade, o velho Duke ganharia disparado. Ele fedia como um ovo de picles que houvesse passado todo um mês em uma poça de lama. Também era ouvido, mas à distância e contra o vento, se houvesse vento para tomar isto possível. — Ouvi falar de homens com armas de cano duplo nas calças, mas confesso que só de vez em quando. Uma vez, até ouvi dizer que um sujeito tinha uma pistola de três tiros, mas aquele fodido do Colson é o único a andar com um de seis tiros, segundo dizem por ai.

Três das conquistas do Pregador Colson eram virgens, antes da invasão do pica-pau pentecostal.

A oferenda de amor, naquela noite de final do verão de 1900 foi deveras generosa, embora as fofocas no barbeiro divergissem apenas em quanto fora generosa a parte monetária da mesma. Todos concordavam em que, ainda antes do grande Reavivamento Local da Colheita, quando a pregação continuara até às dez, o canto evangélico até meia-noite e a trepada-campal até bem depois de duas da madrugada, houvera uma grande afluência de dinheiro sonante. Alguns também apontavam que Colson tampouco tivera muitas despesas durante sua permanência ali. As mulheres praticamente disputavam o privilégio de trazer-lhe refeições, o sujeito que agora era dono da hospedaria emprestara-lhe uma charrete a longo prazo... e, naturalmente, ninguém em absoluto lhe cobrava por seus divertimentos noturnos.

Na manhã de 8 de setembro, tenda e pregador haviam desaparecido. Ele fizera uma boa colheita... e semeara com igual sucesso. Entre 1º de janeiro e a reunião da cidade, em fins de março de 1901, na área nasceram nove bebês ilegítimos, três meninas e seis meninos. Todos esses nove “filhos do amor” apresentavam notável semelhança física entre si — seis tinham olhos azuis e todos haviam nascido com exuberantes mechas de cabelos negros. As fofocas na barbearia (e nenhum grupo de homens sobre a terra seria capaz de casar tão bem a lógica e a lubricidade como aqueles ociosos, peidando em cadeiras de vime, enquanto enrolavam cigarros ou acertavam balas marrons de tabaco mascado em escarradeiras de lata) também apontavam que um bom número de mulheres casadas do lugar tinham tido filhos entre janeiro e março. Sobre estas mulheres, quem podia ter certeza? As fofocas na barbearia, entretanto, diziam do que acontecera em 29 de março, depois que Faith Clarendon dera à luz um robusto menino de quatro quilos. Um forte e molhado vento norte assobiava nos beirais da casa Clarendon, despejando a última grande carga de neve até novembro. Cora Simard, a parteira que aparara o bebê, estivera meio cochilando junto à estufa da cozinha, à espera do marido Irwin chegar em meio à tormenta, a fim de levá-la para casa. Ela viu Paul Clarendon aproximar-se do berço em que jazia seu novo filho — o berço ficava do outro lado da estufa, no canto que era mais quente — e ficar cerca de uma hora, olhando fixamente o recém-nascido. Cora cometeu o terrível engano de considerar o olhar fixo de Paul Clarendon como sendo de admiração e amor. Os olhos dela se fecharam. Quando despertou de seu cochilo, Paul Clarendon estava parado junto ao berço, com a navalha de barba na mão. Ele suspendeu o bebê pelas espessas mechas de cabelos negro-azulados e, antes que Cora pudesse soltar o grito preso na garganta, Paul cortava a garganta do recém-nascido. Depois saiu dali, sem uma palavra. Um momento mais tarde, ela ouviu molhados sons gorgolejantes que vinham do quarto. Quando um aterrorizado Irwin Simard finalmente ganhou coragem para entrar no quarto dos Clarendon, encontrou marido e mulher em cima da cama, de mãos dadas. Clarendon havia degolado a esposa, deitado ao lado dela, tomado a mão direita da mulher em sua esquerda e então cortara a própria garganta. Tudo isto aconteceu dois dias depois da cidade ter votado para a mudança de seu nome.

 

O Reverendo Sr. Hartley se opôs obstinadamente à mudança do nome da cidade para aquele sugerido por um homem que se revelara um ladrão, fornicador, falso profeta e uma serpente traiçoeira. Muitas destas coisas ele havia dito de seu púlpito, tendo observado os assentimentos dos paroquianos com um prazer soturno e quase vingativo, bastante contrário ao seu temperamento. Compareceu à reunião da cidade, a 27 de março de 1901, certo de que o Artigo 14 receberia ressoantes votos contrários. Nem mesmo ficou surpreso com a brevidade da discussão, entre a leitura do artigo pelo amanuense municipal e o lacônico, “Qual é a sua vontade, senhores?” do chefe do Conselho Municipal, Luther Ruvall. Se tivesse a menor desconfiança, Hartley teria falado veementemente, até furiosamente, talvez pela única vez na vida. Entretanto, jamais tivera a mais leve suspeita.

— Aqueles a favor, pronunciem-se dizendo “aye” — pediu Luther Ruvall.

Ao ouvir o sólido — se não muito apaixonado — Aye! que fez estremecer as vigas do teto, Hartley teve a sensação de que lhe tinham esmurrado o estômago. Olhou aturdidamente em torno, porém era tarde demais. O vigor do Aye! o pegara inteiramente desprevenido e não fazia idéia de quantos membros de sua congregação o tinham traído, votando da outra maneira.

— Um momento... — falou, em uma voz estrangulada que ninguém ouviu.

— Quem é contra?

Houve alguns dispersos e esporádicos Nays. Hartley tentou gritar o seu, mas o único som a escapar de sua garganta foi uma sílaba sem sentido — Nik!

— A moção foi aprovada — disse Luther Ruvall. — Agora, passemos ao Artigo 15...

O Reverendo Hartley de repente sentiu calor — demasiado calor. Em verdade, teve a sensação de que ia desmaiar. Abriu caminho por entre grupos de homens em pé, vestindo camisas quadriculadas em preto e branco e sujas calças de flanela, através de nuvens de fumaça acre, apelidas de cachimbos de sabugo de milho e charutos baratos. Ainda se sentia fraco, porém agora achava que também poderia vomitar, antes de perder os sentidos. Uma semana depois, não era capaz de entender que a profundidade de um choque tão forte era realmente horror. Um ano depois, nem mesmo entendia que houvesse sentido tamanha emoção.

Ficou no alto da escada da sede da municipalidade, aspirando alentados haustos de ar a uma temperatura de quatro graus, aferrado ao corrimão da grade com mortal pressão, e espiou para a neve em degelo, através dos campos. Em alguns lugares, ela já derretera o suficiente para mostrar a terra lamacenta de baixo. Com uma mórbida crueza, também avessa ao seu feitio, pensou que os campos pareciam salpicos de merda sobre a barra de uma camisola de dormir. Pela primeira e única vez, ele sentiu uma inveja amarga de Bradley Colson — ou Cooder, se esse fosse seu nome verdadeiro. Colson fugira de Ilium... oh, perdão, de Haven. Fugira, e agora Donald Hartley viu-se desejando fazer o mesmo. Por que eles agiram assim? Por quê? Eles sabiam quem era esse sujeito, eles sabiam! Então, por que...

Uma mão forte e cálida caiu sobre suas costas. Virando-se, ele viu seu bom amigo Fred Perry O rosto comprido e modesto de Fred parecia angustiado e preocupado, e Hartley sentiu um sorriso cruzar-lhe a face.

— Você está bem, Don? — perguntou Fred Perry

— Sim, estou. Houve um momento, lá dentro, em que me senti tonto. Foi a votação. Eu não esperava por isso.

— Nem eu — respondeu Fred.

— Meus paroquianos foram parte disto — falou Hartley — Só podiam ter sido. Foi uma aprovação em que todos gritaram muito alto e eles devem ter tido sua parte, você não acha?

— Bem...

O Reverendo Sr. Hartley sorriu de leve.

— Aparentemente, não conheço tão bem a natureza humana como pensava que conhecesse.

— Entre de novo, Don. Eles agora vão votar a pavimentação da Ridge Road.

— Creio que ficarei aqui fora mais algum tempo — disse Hartley, — meditando na natureza humana. — Fez uma pausa e, quando Fred Perry já se virava para entrar, ele perguntou, quase em um apelo: — Você compreende, Fred? Compreende por que eles fizeram isso? É quase dez anos mais velho do que eu. Você compreende?

Fred Perry que havia gritado seu próprio Aye! por trás da mão fechada, meneou a cabeça e disse que não; não compreendia, em absoluto. Ele gostava do Reverendo Sr. Hartley. Respeitava o Reverendo Sr. Hartley. No entanto, a despeito de tais coisas (ou talvez — apenas talvez — por causa delas), sentira um mesquinho e desdenhoso prazer ao votar por um nome que Colson sugerira: Colson, o falso profeta, Colson, o vigarista, Colson, o ladrão, Colson, o sedutor.

 

‘BECKA PAULSON

Rebecca Bouchard Paulson era casada com Joe Paulson, um dos dois carteiros de Haven e a terça parte da equipe postal da cidade. Joe estava traindo a esposa, algo que Bobbi Anderson já sabia. Agora, também ‘Becka Paulson ficara sabendo. Tomara conhecimento da traição naqueles três últimos dias. Nos últimos três dias, mais ou menos, Jesus lhe contara as coisas mais espantosas, terríveis e contristadoras. Eram coisas que a deixaram passando mal, destruíam seu sono e estavam destruindo sua sanidade... mas também não tinham o seu lado maravilhoso? Poxa, e como! E ela parava de ouvir, talvez pusesse Jesus deitado sobre Sua própria face, gritava para Ele calar a boca? Absolutamente não. Em primeiro lugar, havia uma espécie de mórbida compulsão em saber o que Jesus tinha para contar-lhe. Em segundo, Ele era o Salvador.

Jesus estava em cima da televisão Sony dos Paulson. Fazia seis anos que permanecia ali. Antes disso, já estivera em cima de duas Zenith. ‘Becka achava que Jesus levara quase dezesseis anos mais ou menos no mesmo lugar. Era uma representação natural, em 3-D. Corinne, irmã mais velha de ‘Becka e residente em Portsmouth, dera-lhe o quadro como presente de casamento. Quando Joe comentou que a cunhada tinha predileção por coisas baratas, ‘Becka lhe disse para calar a boca. Não que ela ficasse demasiado surpresa; não se podia esperar que um homem como Joe entendesse o fato de ser impossível colocar-se uma etiqueta de preço na verdadeira beleza.

No quadro, Jesus vestia uma túnica branca e simples, tendo na mão um bordão de pastor. O Cristo sobre a televisão de ‘Becka penteava os cabelos mais ou menos como Elvis, ao sair do Exército. Sim, ele até parecia bastante com Elvis, em G.I. Blues. Tinha olhos castanhos e doces. Por trás Dele, em perspectiva perfeita, ovelhas tão brancas como as roupas apresentadas nos comerciais televisados de sabão em pó, afastavam-se e caminhavam até o horizonte. ‘Becka e Corinne tinham sido criadas em uma fazenda de carneiros, em New Gloucester, e ela sabia, por experiência própria, que ovelhas jamais seriam tão brancas e de lanugem tão uniforme, como pequenas nuvens de tempo bom, caídas à terra. Entretanto, raciocinava ela, se Jesus pudera transformar água em vinho e trazer mortos de volta à vida, nada O impedia de fazer desaparecer toda a bosta amontoada em torno de um bando de carneiros saltitantes, se esta fosse a Sua vontade.

Por duas vezes, Joe tentara retirar aquele quadro de cima da televisão e agora ela imaginava saber por que, oh, como não? Poxa, e como! Joe, naturalmente, tinha suas justificativas arquitetadas.

— Não me parece direito termos Jesus em cima da televisão, enquanto estamos vendo Magnum ou Miami Vice — ele dizia. Por que não colocá-lo em cima de sua cômoda, ‘Becka? Ou... tive uma idéia! Por que não colocá-lo em sua cômoda até o domingo? Depois o traria para cá, enquanto estiver vendo Jimmy Swaggart e Jack van Impe! Aposto que Jesus prefere Jimmy Swaggart, muito mais do que Miami Vice.

Ela recusou a sugestão. De outra feita, Joe disse:

— Os rapazes não gostam disso, quando é a minha vez de jogar pôquer nas noites de quinta-feira. Aliás, ninguém gosta de ter Jesus Cristo espiando, quando compra cartas para uma seqüência sigilosa.

— Talvez eles não se sintam bem, porque sabem que o jogo é obra do demônio — retrucou ‘Becka.

Joe, um bom jogador de pôquer, pegou a deixa:

— Então, foi a obra do demônio que lhe comprou seu secador de cabelos e aquele anel com sinete de que gosta tanto... É melhor devolvê-los à loja e entregar ao Exército da Salvação o dinheiro que receber de volta. Acho que tenho ainda os recibos em minha secretária.

Em vista disso, ela permitiu que Joe virasse de costas o retrato de Jesus em 3-D, na única noite de quinta-feira por mês, em que ele trazia para jogar pôquer os amigos que diziam palavrões e derramavam cerveja por toda parte... mas isso foi tudo.

Agora, contudo, ela sabia que o verdadeiro motivo de Joe querer livrar-se do retrato era outro. Ele devia ter tido a idéia ao considerar que aquele podia ser um retrato mágico. Oh, ela supunha que sagrado fosse uma palavra melhor, a magia era para pagãos, caçadores de cabeças, canibais, católicos e pessoas similares, mas todos eram mais ou menos a mesma coisa, não? De qualquer modo, Joe devia ter pressentido que o retrato era especial, que seria o meio através do qual seu pecado ficaria a descoberto.

Oh, ‘Becka supunha saber que algo estava acontecendo. Joe nunca mais a procurara à noite e, embora isso significasse alívio (sexo era justamente o que sua mãe lhe dissera, repugnante, brutal, às vezes doloroso, sempre humilhante), ela também sentia cheiro de perfume nos colarinhos dele de vez em quando, e isso não constituía nenhum alívio. ‘Becka achava que talvez ignorasse indefinidamente a conexão — o fato de terem cessado as investidas sexuais, ao mesmo tempo em que o cheiro ocasional de perfume começam a surgir nos colarinhos dele — se o quadro de Jesus, em cima da Sony, não tivesse começado a falar, no dia 7 de julho. Ela poderia, inclusive, ter ignorado um terceiro fator: mais ou menos quando haviam terminado as investidas sexuais e começado os cheiros de perfume, o velho Charlie Estabrooke pedira aposentadoria da agência postal, e uma mulher chamada Nancy Voss viera dos correios de Augusta para ficar em seu lugar. ‘Becka imaginava que a tal Voss (sobre quem agora pensava apenas como A Desavergonhada) teria uns cinco anos a mais do que ela e Joe, o que a deixaria por volta dos cinqüenta, embora fosse uma cinqüentona esbelta, bem conservada e atraente. ‘Becka admitia que engordara um pouco durante o casamento, passando de sessenta e três para cento e dois quilos, a maioria deles adquirida depois que Byron, único filho do casal, fora embora de casa.

Ela teria ignorado isso, ignoraria isso, talvez até mesmo tolerasse a situação com alívio; se A Desavergonhada apreciava o canibalismo do congresso sexual, com seus grunhidos, estocadas e aquele esguicho final de coisa pegajosa, cheirando levemente a bacalhau e parecendo detergente barato para pratos, então isso apenas provava que A Desavergonhada não passava, ela própria, de um animal. Além do mais, isso livrava ‘Becka de uma obrigação enfadonha, mesmo sendo ocasional. Ela teria ignorado isso, de fato, se o retrato de Jesus não houvesse falado a respeito.

Aconteceu pela primeira vez, pouco depois de três da tarde de quinta-feira. ‘Becka vinha da cozinha para a sala de estar trazendo um lanche ligeiro (meio bolo de café e uma caneca de cerveja cheia de refresco de cereja), a fim de ver Hospital Geral. Não estava mais acreditando que Luke e Laura voltassem, porém não perdera inteiramente a esperança.

Estava inclinada para ligar a televisão, quando Jesus disse:

— ‘Becka, Joe está transando com aquela Desavergonhada no toalete, em cada folga para o almoço e às vezes também depois de encerrado o expediente. Uma vez estava tão fogoso, que transou com ela quando devia estar ajudando-a a separar a correspondência. E sabe de uma coisa? Ela nem mesmo disse: “Pelo menos, espere até eu separar as cartas registradas.”

— E ainda não é tudo — prosseguiu Jesus. Ele caminhou por metade do quadro, Sua túnica flutuando à volta dos tornozelos, indo sentar-se em uma rocha que aflorava do solo. Segurou o bordão entre os joelhos e olhou gravemente para ela. — Há muita coisa acontecendo em Haven. Você não acreditaria na metade disso!

‘Becka deu um grito e caiu de joelhos.

— Senhor! — bradou, esganiçadamente.

Um de seus joelhos aterrou diretamente sobre o pedaço de bolo de café (que tinha mais ou menos o tamanho e espessura da Bíblia da família), esguichando framboesa do recheio na cara de Ozzie, o gato, que rastejara de baixo da estufa para ver o que acontecia.

— Senhor, meu Senhor! — tornou a guinchar ‘Becka.

Ozzie correu para a cozinha, bufando, onde tornou a rastejar para baixo da estufa, com o recheio vermelho gotejando de seus bigodes. Permaneceu li o resto do dia.

— Bem, nenhum dos Paulson jamais foi grande coisa — disse Jesus. Uma ovelha aproximou-se Dele, mas Ele a afugentou com Seu cajado, mostrando uma alheada impaciência que fez ‘Becka recordar seu falecido pai. A ovelha se foi, tremulando ligeiramente, por causa do efeito tridimensional. Ela desapareceu, parecendo de fato encurvar-se, quando sumiu na borda do quadro... mas isso era apenas uma ilusão de óptica, ‘Becka tinha certeza. — Não, senhor! — exclamou Jesus. — O tio-avô de Joe foi um assassino, como bem sabe, ‘Becka. Assassinou o filho, a esposa, e depois matou-se. E quando ele veio para cá, sabe o que Nós dissemos? “Não há lugar!” foi isso que Nós dissemos. — Jesus inclinou-se para diante, apoiado no bordão. — “Vá procurar o Sr. Splitfoot, lá embaixo,” Nós dissemos. — “Você terá seu lar em Haven, tudo bem, mas o novo senhorio pedirá um diabo de aluguel alto e nunca diminui o aquecimento”, foi o que Nós dissemos.

Incrivelmente, Jesus piscou para ela... e foi então que ‘Becka saiu de casa, correndo e gritando agudamente.

 

Ela parou no pátio dos fundos, ofegando, os desalinhados cabelos louros pendendo sobre o rosto, o coração batendo tão depressa, que a deixou amedrontada. Ninguém ouvira seus gritos e alvoroços, graças ao Senhor; ela e Joe viviam distantes da Estrada de Nista, tendo como vizinhos mais próximos os Brodsky que moravam em um trailer desconjuntado. Os Brodsky viviam a quase um quilômetro dali. Isso era bom. Se alguém a tivesse ouvido, pensaria que havia uma louca na casa dos Paulson.

E há mesmo, não há? Quem achar que aquele quadro começou a falar, ora, só pode estar louco. Meu pai me deixaria com três vergões arroxeados por dizer tal coisa — um por mentir, outro por acreditar nisso e um terceiro por gritar. Retratos não falam, ‘Becka.

Não... e nem ele falou, disse uma voz subitamente. Aquela voz saiu de sua própria cabeça, ‘Becka. Não sei como isso pode acontecer... e nem como você saberia tais coisas... mas foi o que aconteceu. Você fez aquele quadro de Jesus falar por seu próprio eu, da maneira como Edgar Bergen costumava fazer Charlie McCarthy falar, no Ed Sullivan Show.

De algum modo, tal idéia parecia ainda mais aterradora, mais absolutamente louca, do que a idéia de que o quadro falara. Ela se recusava a permitir espaço mental a isso. Afinal de contas, milagres aconteciam todos os dias. Havia aquele sujeito mexicano que encontrara um retrato da Virgem Maria, dentro de uma enchillada ou coisa assim. Havia aqueles milagres em Lourdes. Para não falar naquelas crianças que tinham sido manchetes em um tablóide — elas choravam pedras. Eram milagres de boa fé (o das crianças que choravam pedras, decididamente, era um bocado forte), todos tão elevadores como um sermão de Pat Robertson. Ouvir vozes era birutice.

Pois foi o que aconteceu. E você já vem ouvindo vozes há um certo tempo, não? Você vem ouvindo a voz dele. De Joe. Dele é que vem a voz. Não de Jesus, mas de Joe...

— Não — disse ‘Becka, trêmula. — Não tenho ouvido vozes em minha cabeça!

Ficou parada perto do varal de roupas, no pátio dos fundos, espiando alheadamente para a floresta, no outro lado da Estrada de Nista. O calor tornava as árvores nebulosas. A pouco mais de quinhentos metros, no seio daquela floresta, em linha reta, Bobbi Anderson e Jim Gardener desenterravam firmemente mais e mais de um titânico fóssil no solo.

Você ficou louca, tangeu implacavelmente em sua cabeça, a voz do pai falecido. Enlouqueceu com o calor. Venha até aqui, ‘Becka Boucbard, e vou deixá-la com três vergões roxos, por sua falação maluca!

— Não tenho ouvido vozes em minha cabeça — gemeu ‘Becka. — Aquele quadro falou mesmo, eu juro, não sei fazer ventriloquismo!

Melhor que fosse o quadro. Se fosse o quadro, era um milagre, e milagres vinham de Deus. Um milagre pode deixar a pessoa maluca — e o bom Deus era testemunha de que ela parecia estar ficando maluca ainda agora — mas isto não significava que alguém fosse louco, para começar. Ouvir vozes na cabeça, contudo, ou acreditar que se pudesse ouvir os pensamentos de outra pessoa...

‘Becka olhou para baixo e viu sangue pingando de seu joelho esquerdo. Tornou a gritar agudamente e entrou em casa de novo, pensando em ligar para o médico, para o pronto-socorro, alguém, alguma coisa. Estava outra vez na sala, discando um número e com o fone no ouvido, quando Jesus disse:

— Isso aí é apenas o recheio de framboesa do seu bolo de café, ‘Becka. Por que não se acalma um pouco, antes de ter um ataque do coração?

Ela olhou para a Sony, deixando o fone cair sobre a mesa, com um baque seco, Jesus continuava sentado na pedra que aflorava do chão. Agora parecia ter cruzado as pernas. De fato, era surpreendente a semelhança Dele com seu pai... apenas Ele não parecia autoritário, pronto para enfurecer-se a qualquer momento. Olhava para ela com uma espécie de exasperada paciência.

— Experimente e veja se não tenho razão — disse Jesus.

Ela tocou o joelho delicadamente, piscando, antecipando a dor. Não sentiu nenhuma. Viu as sementes do recheio vermelho e relaxou. Lambeu o recheio de framboesa que lhe ficara nos dedos.

— Além disso — prosseguiu Jesus, — precisa tirar da cabeça essas idéias sobre ouvir vozes e ficar maluca. Quem está falando sou Eu, e posso falar com quem quiser, de qualquer maneira que escolher.

— Porque tu és o Salvador — sussurrou ‘Becka.

— Correto — disse Jesus. Olhou para baixo. Na tela, abaixo Dele, duas animadas tigelas de salada estavam dançando, ansiosas pelo Tempero Rancho do Vale Escondido, que em breve receberiam. — E se quiser agradar-me, por favor, desligue essa droga. Caso não se importe. Não podemos conversar com esse negócio ligado. Além disso, faz cócegas em Meus pés.

‘Becka aproximou-se da Sony e desligou a televisão.

— Meu Senhor! — sussurrou.

 

Na tarde do domingo seguinte, Joe Paulson tinha ferrado no sono, escarrapachado na rede do pátio dos fundos, com Ozzie, o gato, enrodilhado sobre seu amplo estômago. ‘Becka permanecia na sala de estar, com a cortina da janela puxada para um lado, espiando o marido lá fora. Joe, dormindo na rede. Sonhando com sua Desavergonhada, sem dúvida — sonhando que a jogava sobre uma grande pilha de catálogos e circulares de propaganda, para então — como diriam ele e seus asquerosos companheiros de pôquer? “malhar a boneca”.

Ela erguia a cortina com a mão esquerda, porque com a direita segurava um punhado de baterias quadradas, de 9 volts. Levou as baterias para a cozinha, onde estava montando algo sobre a mesa. Jesus lhe dissera para fazer aquilo. Ela havia respondido que não sabia fazer tais coisas, era muito desajeitada, seu pai sempre lhe dissera isso. Pensou em acrescentar como, às vezes, ele Lhe dizia ficar surpreso por ela conseguir limpar a própria bunda sem um manual de instruções, mas então decidiu que este não era o tipo de coisas que se comentasse com o Salvador.

Jesus lhe disse para deixar de ser tola, que, se seguisse uma receita, conseguiria montar essa coisinha de nada. ‘Becka ficou deliciada, ao descobrir que Ele tinha razão. Não apenas era fácil, como também divertido! Sem dúvida, mais divertido do que cozinhar, porque para isto também nunca tivera jeito. Seus bolos solavam e seus pães nunca cresciam. Começara a montar esta coisinha na véspera, usando a torradeira, o motor de seu velho liquidificador Hamilton Beach e uma curiosa placa cheia de coisas eletrônicas, uma placa que havia sido as costas de um velho rádio, agora guardado no galpão. ‘Becka achava que teria tudo pronto bem antes de Joe acordar, para ver o jogo dos Red Sox na televisão, às duas horas.

Pegou o pequeno maçarico dele e o acendeu com perícia, usando um fósforo da cozinha. Uma semana antes, acharia graça se alguém lhe dissesse que agora estaria trabalhando com um maçarico de propano. No entanto, era fácil. Jesus lhe dissera exatamente como fazer, e onde soldar os fios ao painel eletrônico do velho rádio.

Isto não era tudo quanto Jesus lhe havia dito, no decorrer daqueles três últimos dias. Ele contara coisas que lhe tinham liquidado o sono, coisas que a faziam ter medo de ir à cidade para as compras do entardecer de sexta-feira, por recear que seu rosto demonstrasse tudo quanto sabia agora (Sempre sei quando você fez algo errado, ‘Becka, costumava dizer seu pai, porque tem um rosto que não sabe guardar um segredo); pela primeira vez na vida, isso a tinha feito perder o apetite. Inteiramente voltado para seu trabalho, os Red Sox e sua Desavergonhada, Joe nem daria por algo fora do normal... embora tivesse visto ‘Becka roendo as unhas na noite anterior, quando viam Hill Street Blues — e roer unhas era algo que ela jamais fizera antes. De fato, era uma das coisas que censurava nele. Joe Paulson considerou o fato, por todos os doze segundos antes de tornar a olhar para a televisão Sony, e perder-se em sonhos com os generosos seios alvos de Nancy Voss.

Entre outras coisas, estas eram algumas das que Jesus contara a ela, fazendo com que seu sono fosse irregular e levando-a a roer unhas, à avançada idade de quarenta e cinco anos:

Em 1973, Moss Harlingen, um dos parceiros de pôquer de Joe, tinha assassinado o pai. Eles caçavam gamos em Greenville e tudo fora considerado um daqueles trágicos acidentes, mas os tiros que mataram Abel Harlingen nada tiveram de acidentais. Moss simplesmente se agachara atrás de uma árvore caída, com seu rifle, e lá ficara esperando, até seu pai cruzar um pequeno riacho, a uns cinqüenta metros de onde ele se escondia. Abatera o pai tão facilmente, como um pato de cerâmica, em uma barraca de tiro na feira. Moss achava que havia matado o pai por dinheiro. Seu ramo de negócios, a firma Big Dich Construction, devia duas notas promissórias a dois diferentes bancos e teria que pagá-las dentro de seis semanas. Uma não podia ter o pagamento adiado por causa da outra. Ele procurou o pai, que se recusou a ajudá-lo, embora podendo. Assim, Moss matou o pai e herdou um monte de dinheiro, depois que o legista do condado deu seu veredicto de morte acidental. As dívidas foram pagas e Moss Harlingen realmente acreditava (exceto, talvez, em seus sonhos mais profundos), que cometera um homicídio por lucro. O motivo real era bem outro. Muito atrás no passado, quando Moss tinha dez anos e seu irmão Emory sete, a mãe deles viajou para Rhode Island e lá ficou todo um inverno. O irmão dela havia falecido subitamente, e sua esposa precisava de ajuda, a fim de firmar-se nos próprios pés. Enquanto durou a ausência da mãe, em casa dos Harlingen ocorreram vários incidentes de sodomia. Tais incidentes cessaram quando a Sra. Harlingen voltou para casa, nunca mais se repetindo. Moss havia esquecido tudo a esse respeito. Não recordava como tinha ficado acordado no escuro, tomado de mortal terror e vigiando a porta, à espera de que surgisse nela o vulto do pai. Não tinha qualquer lembrança, em absoluto, da maneira como apertava a boca contra o antebraço, com lágrimas salgadas de vergonha e ódio brotando dos olhos febris e percorrendo o rosto gélido até os lábios, enquanto Abel Harlingen untava o pau com gordura e depois o fazia penetrar a “porta traseira” do filho, com um grunhido e um suspiro. Tudo isso deixara tão pouca impressão em Moss, que ele esquecera como mordia o braço até sangrar, para assim não gritar. Tampouco era capaz de lembrar o choro fraco e ofegante de Emory na cama vizinha — “Por favor, papai, não, papai, esta noite, comigo não, por favor, papai!” Crianças esquecem com muita facilidade, claro. Entretanto, alguma lembrança certamente persistira, porque quando Moss Harlingen realmente puxara o gatilho para alvejar o pederasta filho da puta, enquanto os ecos primeiro rolaram para longe e depois rolaram para trás, até finalmente desaparecerem no profundo silêncio florestal daquela agreste parte superior do Maine, Moss sussurrou:

“Esta noite não será você, Em.”

Alice Kimball, que lecionava na Escola Primária de Haven, era lésbica. Jesus contou isto a ‘Becka na sexta-feira, não muito depois que a dama em questão, parecendo grandalhona, sólida e respeitável em um terninho verde, havia parado em sua casa, recolhendo donativos para a Sociedade Americana do Câncer.

Darla Gaines, a bela jovem de dezessete anos que trazia o jornal do domingo, tinha quinze gramas de “maconha de primeira” entre o colchão e o estrado de molas de sua cama. Jesus contou isto a ‘Becka, pouco depois de Darla aparecer no sábado, a fim de cobrar os jornais das últimas cinco semanas (três dólares, mais uma gorjeta de cinqüenta centavos, que agora ‘Becka se arrependia de ter dado). Ele também contou que Darla e seu namorado fumavam a maconha na cama dela, antes de terem sexo, e que os dois consideravam ter sexo “dançar jazz na horizontal”. Eles fumavam maconha e “dançavam jazz na horizontal” quase todos os dias, de duas e meia até mais ou menos três da tarde. Os pais de Darla trabalhavam na sapataria Splendid Choe, em Derry, só chegando em casa bem depois das quatro.

Hank Buck, outro parceiro de pôquer de Joe, trabalhava em um grande supermercado de Bangor. Sentia tanto ódio do patrão, que no ano anterior despejara meia caixa de Ex-Lax no shake de chocolate do homem, quando este o mandara apanhar seu lanche no McDonald’s, certo dia. O patrão de Hank tivera mais do que uma espetacular diarréia; às três e quinze daquele dia, fizera nas calças algo equivalente a uma bomba-A de merda. A bomba-A — ou bomba-M, se alguém preferir — havia sido acionada quando ele cortava fatias de carne para o almoço, na lanchonete de Paul, a Down-East SuperMarket. Hank conseguir manter a seriedade até a hora de deixar o trabalho, mas quando entrou no carro, de volta a casa, ria tanto, que quase borrou as próprias calças. E continuou rindo tão desbragadamente, que por duas vezes precisou parar o carro.

— Deu gargalhadas — Jesus contou a ‘Becka. — O que acha disso?

‘Becka achou que era uma brincadeira de muito mau gosto, além de baixa. Aliás, parecia que tais coisas eram apenas o começo. Jesus estava a par de algo desagradável ou perturbador sobre todo mundo que ela conhecia, segundo tudo indicava.

Era impossível viver com tão terrível dilúvio de informação.

Tampouco era impossível viver sem aquilo.

Uma coisa era certa; ela precisava fazer algo a respeito.

— E vai fazer — disse Jesus.

Ela estava de costas quando Ele falou, de seu quadro em cima da Sony. É claro que Ele havia falado. A idéia de que a voz Dele vinha do interior de sua própria cabeça — de que ela estava... bem... de algum modo lendo os pensamentos dos outros... isso era apenas uma terrível e passageira ilusão. Só podia ser. A alternativa era terrível.

Satã. Feitiçaria.

— Em verdade — disse Jesus, confirmando Sua existência com aquela voz seca e não-absurda, tão semelhante à de seu pai, — você já quase acabou com esta parte. Basta soldar aquele fio vermelho nesse ponto à esquerda do troço comprido... não, ali, não... aqui. Boa garota! Nada de exagero na solda, lembre-se! Isso é como Brylcreem, ‘Becka. Um tiquinho dá pro gasto.

Que estranho, ouvir Jesus Cristo falar em Brylcreem!

 

Joe acordou às quinze para as duas da tarde, empurrou Ozzie para fora de sua barriga, caminhou até o final do gramado, limpando pêlos de gato aderidos à sua camiseta, e urinou confortavelmente na hera venenosa que crescia ali. Depois caminhou para a casa. Yankees e Red Sox. Um jogo e tanto. Abriu a geladeira, olhando de relance para os pedacinhos de fio elétrico em cima do balcão e perguntando-se que diabo significava o que a imbecil da ‘Becka estivera preparando. Logo esqueceu. Agora pensava em Nancy Voss. Gostaria de saber o que sentiria, gozando entre os seios dela. Talvez fosse possível descobrir na segunda-feira. Tinha discutido com ela; céus, às vezes brigavam como cão e gato, no calor de agosto. Isso parecia não acontecer apenas com eles dois; ultimamente, tinha-se a impressão de que todos estavam com pavio curto. Entretanto, quando o negócio era trepar... sai de baixo! Ele não se sentia tão fogoso desde que tinha dezoito anos e com ela era a mesma coisa. Como se nenhum dos dois se sentisse saciado. Ele havia até gozado duas vezes à noite. Como se estivesse novamente com dezesseis anos. Pegando uma cerveja, encaminhou-se para a sala de estar. Era quase certo que Boston hoje vencesse. Seu palpite era de oito contra cinco. Ultimamente parecia ter uma espantosa cabeça para palpites. Havia um sujeito em Augusta que fazia apostas, e Joe já ganhara quase quinhentas pratas nas últimas três semanas... mas não que isto fosse do conhecimento de ‘Becka. O dinheiro estava bem escondido. Acontecia algo curioso: ele sabia exatamente quem ia ganhar e por quê, mas quando descia a Augusta, esquecia o por que, lembrava-se apenas do quem. Ora, afinal, isto era o que importava, não? Da última vez, o sujeito de Augusta não gostara, pagando três por um, em uma aposta de vinte dólares. Era o jogo dos Mets contra os Piratas. Com Gooden na pequena elevação, parecia café pequeno para os Mets, mas Joe escolhera os Piratas e eles haviam ganho, 5-2. Joe não sabia por quanto tempo mais o sujeito de Augusta aceitaria suas apostas mas, se ele recusasse, e daí? Sempre havia Portland. Lá encontraria dois ou três bookmakers. Parecia que ultimamente ficava com dor de cabeça sempre que deixava Haven — talvez precisasse de óculos — porém quando a gente está ganhando uma grana firme, uma dorzinha de cabeça era um pequeno preço a pagar. Quando juntasse dinheiro suficiente, eles dois poderiam dar o fora. Deixar ‘Becka com Jesus. Afinal, era com quem ela gostaria de estar casada.

Fria como gelo, assim era ela. E quanto a Nancy? Que fogueira! E inteligente, além disso! Ainda hoje, ela o tinha levado à agência dos correios, a fim de mostrar-lhe algo.

— Veja! Veja só o que inventei! Acho que deveria patentear meu invento, Joe! Acho mesmo!

— Qual foi a idéia? — perguntou Joe.

A verdade é que estava irritado com ela. A verdade é que estava mais interessado em suas tetas do que em suas idéias e, nesse momento, começava a sentir tesão. De fato, era como ser adolescente outra vez. Não obstante, o que ela lhe mostrou foi suficiente para fazê-lo esquecer tudo sobre o desejo que o consumia. Pelo menos, por uns quatro minutos.

Nancy Voss havia tomado um transformador de trem Lionel, para crianças, e de algum modo o conectara a um punhado de pilhas tipo D. O dispositivo fora ligado a sete peneiras de trigo, cujas telas haviam sido retiradas. As peneiras jaziam sobre os lados. Quando Nancy ligou o transformador, vários fios com filamento de diâmetro mínimo, conectados a algo semelhante a um liquidificador, começaram a selecionar cartas registradas de uma pilha e as lançavam no chão, dentro das peneiras, aparentemente ao acaso.

— O que isso está fazendo? — perguntou Joe.

— Separando as cartas registradas — disse ela. Apontou para uma das peneiras, depois para outra. — Para esta vão as cartas da cidade... e para aquela as da RFD 1, a Estrada de Derry, você sabe... ali ficam as da Estrada de Hidge... aqui as da Estrada de Nista... e lá...

A principio ele não acreditou. Imaginou que fosse alguma piada e perguntou-se o que ela diria, se lhe desse um tapa na cabeça. Por que você faria isso? ela gemeria. Alguns homens não entendem uma piada, responderia ele, como Sylvester Stallone naquele filme Cobra, mas não sou um deles. Exceto que, então, viu a coisa funcionando realmente. Era uma perfeita engenhoca, sem tirar nem pôr, mas eficiente. O som daqueles fios arranhando o chão, no entanto, era um pouco arrepiante. Eles chiavam e raspavam, como as patas de enormes e velhas aranhas. O negócio funcionava, é verdade; ele não saberia dizer como, diabo, mas funcionava.

Viu um dos fios selecionar uma carta para Roscoe Thibault e empurrá-la para a peneira certa — RDF 2, que era a estrada de Hammer Cut — embora erroneamente endereçada para Haven Village.

Quis perguntar a ela como aquilo funcionava, mas não desejando parecer imbecil, em vez disto perguntou apenas onde conseguira os fios.

— Eram daqueles telefones que comprei na loja Rádio Shack — disse ela. — A que fica no Bangor Mall. Estavam em liquidação! Aí também há mais material dos telefones. Tive que fazer uma modificação completa, mas foi fácil. Foi apenas... sabe como é... uma idéia que me deu. Entende?

— Hum-hum — disse Joe lentamente, pensando na cara dos bookmakers, quando ele fora receber suas sessenta pratas, depois que os Piratas derrotaram Gooden e os Mets. — Nada mau... para uma mulher.

Por um momento, Nancy franziu o cenho e ele pensou: Você quer dizer alguma coisa? Quer brigar? Vá em frente. Tudo bem. Será uma briga igual às outras.

O rosto dela então voltou ao normal. Sorriu.

— Agora, podemos fazer aquilo demorar ainda mais. — Seus dedos deslizaram sobre o volume endurecido nas calças dele. — Está querendo agora, não está, Joe?

Joe queria. Os dois abaixaram-se para o chão e ele esqueceu tudo sobre estar irritado com ela, esqueceu como, de repente, parecia capaz de intuir as probabilidades em tudo, de jogos de beisebol a corridas de cavalo e partidas de golfe, num piscar de olhos. Deslizou para dentro dela, Nancy gemeu e Joe esqueceu também o tenebroso som roçagante produzido por aqueles fios, separando as cartas registradas e jogando-as na fila de peneiras de trigo.

 

Quando Joe entrou na sala de estar, ‘Becka estava sentada em sua cadeira de balanço, fingindo ler o último exemplar de The Upper Room. Apenas dez minutos antes dele chegar, ela terminara o acoplamento da engenhoca que Jesus lhe mostrara como montar, à parte traseira da televisão Sony. ‘Becka seguiu as instruções Dele ao pé da letra, porque Ele avisou que é preciso tomar-se cuidado, quando mexemos nas entranhas de uma televisão.

— Você pode torrar-se — advertiu Ele. — Mesmo com o aparelho desligado, aí dentro há mais perigo do que em um depósito de drogas.

A televisão agora estava desligada, e Joe disse, irritado:

— Pensei que você tivesse aquecido isto para mim.

— Acho que você sabe como ligar a maldita televisão — disse ‘Becka, falando a seu marido pela última vez.

Joe ergueu as sobrancelhas. Maldita era uma palavra danada de estranha, vindo de ‘Becka. Pensou em chamar-lhe a atenção sobre isso, mas resolveu deixar o barco correr. Talvez, dentro em breve, houvesse uma velha e gorda mula vivendo sozinha naquela casa.

— Sim, penso que sei — disse Joe, falando a sua esposa pela última vez.

Ele apertou o botão que ligava a Sony. Então, mais de dois mil volts de corrente invadiram seu corpo — a tensão de corrente contínua, que havia sido elevada, convertida na letal corrente alternada, e a carga do circuito elétrico foi novamente intensificada. Os olhos dele esbugalharam-se e então rebentaram, como uvas em um microondas. Joe começara a colocar a cerveja em cima da televisão, perto de Jesus. Quando a eletricidade o atingiu, sua mão se crispou com força suficiente para quebrar a garrafa. Farpas de vidro marrom penetraram-lhe nos dedos e na palma. A cerveja espumou e escorreu. Espalhou-se no topo da televisão (a caixa de plástico já formava bolhas) e transformou-se em vapor, com cheiro de levedo.

— IIIIOOOOOARRRRHMMMMMM! — gritou Joe Paulson.

Seu rosto começou a ficar negro. Por seus cabelos e ouvidos escapava uma fumaça azulada. Seu dedo ficara preso ao botão “On” da Sony.

Uma imagem brotou na tela da televisão. Era Dwight Gooden, fazendo a jogada que deixaria Joe Paulson quarenta dólares mais rico. A imagem foi cortada e surgiu outra, mostrando ele e Nancy transando no chão da agência postal, em meio a uma profusão de catálogos e Congressional Newsletters, entre propagandas de companhias de seguro dizendo que você teria toda a cobertura necessária, mesmo já tendo passado dos sessenta e cinco, nenhum vendedor bateria à sua porta, não seria exigido qualquer exame médico e seus entes queridos estariam protegidos, ao custo de apenas alguns pennies por dia.

— Não! — gritou ‘Becka, e a imagem tornou a desaparecer.

Ela agora via Moos Harlingen, postado atrás de um pinheiro caído, apontando seu .30-.30 para o pai e murmurando Esta noite não será você, Em. A imagem foi substituída pela de um homem e uma mulher escavando o solo na floresta, ela atrás dos controles de algo um pouco parecido a uma ogiva nuclear e um pouco parecido a uma caricatura feita por Rube Goldberg, o homem enrolando uma corrente à volta de um tronco. Além deles, um gigantesco objeto em forma de disco projetava-se da terra. Era prateado, mas fosco; o sol batia em alguns pontos de sua superfície, porém não emitia reflexos.

As roupas de Joe Paulson irromperam em chamas.

A sala de estar ficou impregnada com o cheiro de eletricidade e cerveja cozida. O quadro em 3-D de Jesus sacolejou-se um pouco e então explodiu.

‘Becka deu um grito estridente, compreendendo que, gostando ou não, havia sido obra dela o tempo todo, dela, dela, dela, e que ela estava assassinando seu marido.

Correu para ele, agarrou-lhe a mão que se agitava, espasmódica... e foi também, ela própria, galvanizada.

Oh, Jesus, Jesus, salve-o! Salve-me! Salve nós dois! ela pensou, enquanto a corrente penetrava em seu corpo, erguendo-a na ponta dos pés, a mais pesada bailarina do mundo, en pointe. Então uma voz insana e cacarejante, a voz de seu pai, brotou-lhe no cérebro: Enganei você, ‘Becka, não foi? Enganei direitinho! Vou ensinar você a mentir! Ensinar de uma vez por todas!

O fundo da televisão, que ela tornara a aparafusar no lugar, depois de acrescentar suas modificações, voou contra a parede, em um ofuscante jato de luz azul. ‘Becka desabou no tapete, puxando Joe consigo. Ele já estava morto.

Quando o chamejante papel de parede atrás da televisão propagou o fogo às cortinas de chintz, ‘Becka Paulson também estava morta.

 

HILLY BROWN

O dia em que Hillman Brown produziu o truque mais espetacular de sua carreira como mágico amador — o único truque espetacular, em realidade, de sua carreira como mágico amador — foi um domingo, 17 de julho, exatamente uma semana antes da explosão na sede da municipalidade de Haven. O fato de Hillman Brown nunca ter antes encenado um truque verdadeiramente espetacular, nada tinha de surpreendente. Afinal de contas, ele estava com dez anos apenas.

Seu nome havia sido o sobrenome de solteira de sua mãe. Tinha havido Hillmans em Haven, recuando à época em que o lugar se chamava Montgomery e, embora Marie Hillman não se arrependesse por ter-se tornado Marie Brown — afinal, ela amava o sujeito! — quisera preservar o nome e Bryant concordara. O recém-nascido ainda não passara uma semana inteira em casa, quando todos começaram a chamá-lo de Hilly.

Hilly cresceu nervoso. Ev, o pai de Marie, dizia que ele tinha bigodes de gato como nervos e que levaria a vida inteira em franca atividade. Não era um comentário que Bryant e Marie Brown desejassem ouvir, mas após seu primeiro ano com Hilly, isso deixou de ser novidade, tornando-se apenas um fato da vida. Alguns bebês procuram consolar-se balançando-se em seus berços ou caminhas; outros, chupando o polegar. Hilly balançava-se no berço quase constantemente (chorando irado ao mesmo tempo, isto acontecendo quase sempre) e chupava os dois polegares — chupava-os com tanto vigor, que aos oito meses de idade tinha dolorosas bolhas em ambos.

— Ele agora irá parar com isso — disse-lhes confiantemente o Dr. Lester, em Derry após examinar as feias bolhas orlando os polegares da criança.

Marie havia chorado por aquelas bolhas, como se fossem suas. No entanto, Hilly não parou. Sua necessidade de consolo era, aparentemente, maior do que qualquer dor que sentisse nos polegares. Com o tempo, as bolhas se transformaram em calos duros.

— Ele sempre será muito ativo — profetizava o avô do garoto, quando alguém lhe perguntava (e mesmo quando ninguém perguntava; aos sessenta e três anos, Ev Hillman era um tagarela-tendendo-a-enfadonho). — Ele tem bigodes de gato por nervos, se tem! Esse Hilly viverá dando surpresas ao pai e à mãe!

Hilly não se fartava de surpreendê-los, certamente. Havia cepos de árvores marginando os dois lados da entrada de carros na residência dos Brown, ali postos por Bryant, a instâncias de Marie. Sobre cada cepo ela colocou um vaso e, em cada vaso, havia uma diferente espécie de planta ou apanhado de flores. Quando Hilly tinha três anos, certo dia escapou da caminha de grades, onde se presumia que estivesse tirando uma soneca (“Por que preciso de uma soneca, mãe?” — perguntava Hilly. “Porque eu preciso de descanso, Hilly,” — respondia sua exaurida mãe), arrastou-se sobre o peitoril da janela e foi para fora. Então, derrubou todos os doze vasos, com cepos e tudo. Quando Marie viu o que Hilly havia feito, chorou tão inconsolavelmente como havia chorado pelos pobres polegares do menino. Vendo-a chorar, Hilly também debulhou-se em lágrimas (ao redor dos polegares, pois tentava chupar os dois ao mesmo tempo). Não havia derrubado os cepos e vasos por ser um menino mau; apenas lhe parecera uma boa idéia, naquele momento.

— Você esqueceu o quanto eles custaram, Hilly — disse seu pai, nessa ocasião.

Ele repetiria isso muitas vezes, antes daquele domingo, 17 de julho de 1988.

Aos cinco anos de idade, Hilly montou em seu trenó e deslizou em disparada pela entrada de carros dos Brown, coberta de gelo nesse dezembro, indo parar na estrada. Mais tarde, disse para sua mãe, cujo rosto ficara acinzentado de pânico, que nunca lhe ocorrera a idéia de que alguém poderia estar vindo pela estrada para Derry; ao levantar-se, vira a camada de gelo que caíra e seu único pensamento era descobrir se seu trenó “Voador Flexível” desceria pela entrada de carros. Marie o tinha visto, como também vira o caminhão-tanque de combustível descendo a Rota 9. Gritou o nome do filho tão alto, que nos dois dias seguintes mal conseguia falar acima de um sussurro. Nessa noite, tremendo nos braços de Bryant, contou-lhe que vira lousa da sepultura do menino em Homeland — que realmente vira isto: Hillman Richard Brown, 1978-1983, Levado de nós cedo demais.

— Hiiillyyyyyy!

A cabeça de Hilly se virou, ao grito da mãe, para ele soando tão alto como um avião a jato. Em resultado, caiu do trenó pouco antes deste chegar ao pé da entrada de carros. A entrada de carros era asfaltada, a camada de gelo ainda estava muito fina, e Hilly Brown jamais teve o dom com que um Deus benévolo abençoa a maioria das crianças ativas e traquinas — o dom de cair com sorte. Ele fraturou o braço esquerdo pouco acima do cotovelo e recebeu tal pancada na cabeça, que perdeu os sentidos.

Seu “Voador Flexível” disparou para a estrada. O motorista do caminhão-tanque reagiu, ainda antes de poder ver que não havia ninguém no trenó. Girou o volante, e o caminhão-tanque dançou para uma margem da estrada, em direção a uma camada baixa de neve, com a graça volumosa dos elefantes dançarinos de balé em Fantasia. Só conseguiu parar quando aterrou na vala marginal, alarmantemente inclinado para um lado. Menos de cinco minutos depois, o motorista esgueirou-se para fora pela porta do passageiro e correu para Marie Brown. Tombado sobre um lado, o caminhão ficou sobre a grama gelada como um mastodonte morto, enquanto o dispendioso óleo combustível nº 2 escapava em gorgolejos por seus três respiradouros.

Marie corria estrada abaixo com o filho inconsciente nos braços, gritando sem parar. Em seu terror e confusão, tinha certeza de que Hilly devia ter sido atropelado, mesmo tendo visto claramente quando ele escorregou para fora do trenó, no final da entrada de carros.

— Ele está morto? — gritou o motorista do caminhão-tanque. Seus olhos estavam arregalados, o rosto branco como papel, os cabelos em pé. Havia uma mancha escura espalhando-se nas entrepernas das calças. — Oh, misericordioso Jesus, ele está morto, dona?

— Eu acho que sim — chorou Marie. — Acho que está, oh, acho que ele está morto!

— Quem está morto? — perguntou Hilly, abrindo os olhos.

— Oh, Hilly, graças a Deus! — bradou Marie, abraçando-o.

Hilly gritou de volta, com grande entusiasmo. No abraço, ela apertava as extremidades lascadas do osso quebrado no braço esquerdo do menino.

Hilly ficou os três dias seguintes no Hospital de Derry.

— Isso pelo menos irá acalmá-lo — disse Bryant Brown na noite seguinte, durante um jantar de feijões cozidos e cachorros-quentes.

Ev Hillman casualmente jantava com eles naquela noite, como fazia de vez em quando, desde que sua esposa falecera. Eram cinco jantares em média, por semana.

— Quer apostar como não? — disse Ev, dando uma risadinha enquanto mastigava um pedaço de pão de milho.

Bryant fitou o sogro de soslaio, com ar carrancudo, e não disse nada.

Como sempre, Ev tinha razão — este era um dos motivos que deixavam Bryant tão freqüentemente irritado com ele. Em sua segunda noite no hospital, muito depois que as outras crianças da seção de Pediatria estavam dormindo, Hilly decidiu sair em exploração. Como conseguiu passar pela enfermeira de plantão, foi um mistério, mas passou. As três da madrugada, deram por falta dele. Uma busca inicial na enfermaria pediátrica resultou em nada. Tampouco uma busca por todo aquele andar. A segurança foi acionada. Montou-se então uma busca por todo o hospital — administradores que a princípio tinham ficado apenas um tanto preocupados, agora se mostravam nervosos — e nada foi descoberto. Os pais de Hilly foram chamados e compareceram em seguida, parecendo em estado de choque. Marie chorava, mas devido à laringe inchada, emitia apenas um ronco resfolegante.

— Achamos que talvez ele tenha saído do edifício, de algum modo — disse-lhes o chefe dos Serviços Administrativos.

— Como, diabo, um garotinho de cinco anos pode simplesmente sair do edifício? — gritou Bryant. — Que tipo de lugar vocês dirigem aqui?

— Bem... bem... tente compreender, Sr. Brown. Isto aqui nada tem de uma prisão e...

Marie interrompeu os dois.

—Vocês têm de encontrá-lo! — falou em um sussurro. — A temperatura lá fora é de seis graus negativos. Hilly estava de pijama. Ele pode estar... estar...

— Oh, Sra. Brown, sinceramente, acredito que tais preocupações são prematuras — disse o chefe dos Serviços Administrativos, com um sorriso franco.

A verdade é que ele não as achava prematuras, em absoluto. Sua primeira providência, após presumir que o menino poderia ter deixado o hospital desde a checagem das onze horas nos leitos, tinha sido verificar qual a temperatura durante a noite. A informação resultou em uma ligação ocasional para o Dr. Elfman, especialista em casos de hipotermia — e houvera muitos casos semelhantes, nos invernos do Maine. O prognóstico do Dr. Elfman foi grave.

— Se ele saiu, provavelmente está morto — declarou.

Outra ampla busca pelo hospital, esta agora aumentada pela polícia e bombeiros de Derry resultou em nada. Marie Brown foi sedada e posta na cama. As únicas boas notícias eram de natureza negativa; até então, ninguém encontrara o cadáver de Hillman, vestido de pijama e congelado. Evidentemente, pensou o chefe dos Serviços Administrativos, o Rio Penobscot ficava perto do hospital. Sua superfície estava congelada. Era bem possível que o menino houvesse tentado cruzar o gelo e afundara. Oh, como ele desejava que os Brown, de Haven, houvessem levado sua pestinha para o Eastern Maine Medical!

As duas daquela tarde, Bryant Brown sentou-se entorpecidamente em uma cadeira, ao lado da esposa adormecida, perguntando-se como diria a ela que o filho único de ambos estava morto, caso isto fosse necessário. Mais ou menos à mesma hora, um servente que estava no porão, verificando os boilers da lavanderia, viu à sua frente um quadro espantoso: um garotinho, usando apenas calças de pijama e tendo um braço engessado, caminhava despreocupadamente entre duas das gigantescas fornalhas do hospital.

— Ei! — gritou o servente. — Ei, garoto!

— Olá — disse Hilly, aproximando-se. Seus pés estavam negros de sujeira, os fundilhos do pijama mostravam manchas de graxa. — Poxa, cara, como este lugar é grande! Acho que me perdi.

O servente conduziu Hilly aos pavimentos superiores, diretamente para o gabinete da administração. O Chefe fez Hilly sentar-se em uma grande poltrona (após forrá-la prudentemente com páginas duplas do Daily News de Bangor) e pediu a sua secretária que trouxesse uma Pepsi-Cola e um saco de balas para o pestinha. Em outras circunstâncias, ele próprio teria ido buscá-los, assim impressionando o menino com sua solicitude de avô. Em outras circunstâncias — e com isto quero dizer, pensou taciturnamente o Chefe, se também o menino fosse outro. Ele receava deixar Hilly sozinho.

Quando a secretária voltou com as balas e o refrigerante, o Chefe tornou a dar-lhe outra incumbência... agora a de avisar Bryant Brown. Bryant era um homem forte, mas ao ver Hilly sentado na cadeira de braços do Chefe; com os pés sujos pendurados a dez centímetros do tapete e as folhas de jornal estalando sob seu fundilho, enquanto ele chupava as balas e bebia Pepsi, foi incapaz de reter as lágrimas de alívio e gratidão. Isto, naturalmente, levou Hilly — que nunca em sua vida tinha feito alguma coisa conscientemente por maldade — a também desandar no choro.

— Meu Deus, Hilly, por onde foi que andou?

Hilly contou a história o melhor que pôde, deixando Bryant e o Chefe extraírem dela a verdade objetiva, o melhor que ambos podiam. Ele se tinha perdido, ficara perambulando no porão (“Eu estava seguindo um duende”, Hilly contou a eles), e então tinha rastejado para baixo de uma das fornalhas, a fim de dormir. Lá estava tão quente, contou ele, tão quente, que havia tirado a blusa do pijama, passando-a cuidadosamente sobre o braço engessado.

— Também gostei dos cachorrinhos — disse ele. — Podemos ter um cachorrinho, papai?

O servente que encontrara Hilly, encontrou também sua camisa do pijama, debaixo da fornalha nº 2. Quando puxou a camisa para fora, chegou a igualmente ver os “cachorrinhos”, embora estes houvessem fugido da claridade de sua lanterna. Não os mencionou ao Sr. e Sra. Brown, que simplesmente poderiam ter um colapso, se defrontados com mais um choque. O servente, um homem que tinha consideração pelos semelhantes, pensou que para eles seria muito melhor ignorarem que seu filho passara a noite com um bando de ratos de porão, alguns deles realmente parecendo tão grandes como cachorrinhos, quando fugiram do facho de sua lanterna.

 

Se interrogado a respeito de suas percepções sobre tais coisas — e incidentes similares (embora menos espetaculares) que ocorreram nos cinco anos seguintes de sua vida — Hilly teria dado de ombros, dizendo:

— Acho que estou sempre me metendo em enrascadas.

Com isto, ele quereria dizer que tinha propensão a acidentes, porém ninguém ainda lhe ensinara tão valiosa frase.

Quando estava com oito anos — dois após o nascimento de David — ele trouxe para casa um bilhete da Sra. Underhill, sua professora do terceiro grau, solicitando a presença do Sr. e Sra. Brown para uma breve conferência. Os Brown compareceram, não sem certa trepidação. Ficaram sabendo que, na semana anterior, os alunos do terceiro grau de Haven haviam sido submetidos a testes para avaliação do QI. Bryant estava secretamente convencido de que a Sra. Underhill lhes comunicaria ser o coeficiente de inteligência de Hilly muito abaixo do normal e os aconselharia a colocarem o filho em aulas de recuperação. Marie estava convencida (também secretamente) de que Hilly era disléxico. Nem ela nem o marido haviam dormido direito aquela noite.

O que a Sra. Underhill lhes explicou, foi que Hilly estava inteiramente fora da escala — em poucas palavras, o menino era um gênio.

— Deverão levá-lo a Bangor e fazer com ele o Teste Wechsler, se realmente quiserem saber até onde chega seu QI — aconselhou a Sra. Underhill. — Fazer Hilly passar pelo Teste Tompall de QI é como tentar-se determinar um QI humano através de um teste de inteligência destinado a cabras.

Marie e Bryant discutiram o assunto... e resolveram encerrá-lo por ali mesmo. Em verdade, não queriam saber o quão inteligente era seu filho Hilly. Bastava saberem que não era mentalmente deficiente... e, como Marie comentou essa noite, na cama, isso explicava muita coisa: a intensa atividade de Hilly, sua aparente incapacidade para dormir além de seis horas por noite, seus ardentes interesses que surgiam como ciclones, depois extinguindo-se com idêntica rapidez. Certo dia, quando Hilly estava com nove anos, ela fora ao correio com David, ainda bebê, e ao voltar encontrara a cozinha imaculada, quando partira quinze minutos antes, na mais absoluta desordem. A pia estava cheia de tigelas sujas de trigo. Havia uma poça de manteiga derretida sobre o balcão. E alguma coisa estava sendo assada no forno. Marie largou rapidamente David em seu cercadinho e abriu a porta do forno, esperando ser recebida por nuvens de fumaça e cheiro de queimado. Em vez disto, encontrou um tabuleiro cheio de biscoitos de preparo rápido que, embora malformados, estavam bastante gostosos. Os biscoitos foram saboreadas no jantar daquela noite... mas antes disso, Marie dera algumas palmadas no traseiro de Hilly e o mandara, chorando desculpas, ficar em seu quarto. Então, sentada à mesa da cozinha, ela havia chorado e terminara rindo, enquanto David — um bebê plácido e despreocupado, que era um ensolarado Taiti, em comparação ao Cabo das Tormentas de Hilly — em pé dentro de seu cercadinho e firmando-se nas grades, olhava comicamente para ela.

Um ponto muito favorável para Hilly era seu sincero amor pelo irmão. E, embora Marie e Bryant hesitassem em deixá-lo segurar o novo bebê ou até deixá-lo sozinho no mesmo aposento com David por mais de, digamos, trinta segundos seguidos, aos poucos foram relaxando.

— Diabo, vocês poderiam mandar Hilly e David para uma temporada no acampamento lá em Allagash, e os dois voltariam ótimos — disse Ev Hillman. — Ele adora a irmãozinho. E é bom para o pequenino.

Tais palavras se revelaram verdadeiras. A maioria — se não quase todas — das “enrascadas” de HilIy, tanto provinha de um honesto desejo de ajudar os pais, como de melhorar-se. Apenas, tudo quanto ele fizesse dava errado. Com David, no entanto, que adorava o chão que o irmão mais velho pisava, Hilly sempre acertava...

Até o dia 17 de julho, isto é, quando Hilly fez o truque.

 

O Sr. Robertson Davies (que sua morte seja adiada por mil anos) sugeriu em sua Deptford TriIogy, que nossa atitude em relação à mágica e aos mágicos em grande parte indica nossa atitude em relação à realidade, e que nossas atitudes sobre a questão da realidade indicam nossas atitudes em relação ao inteiro mundo de maravilhas em que nos encontramos — somos crianças na floresta, mesmo o mais idoso de nós (deve-se crer que inclusive o Sr. Davies), onde algumas das árvores mordem e outras conferem grandes favores místicos — uma propriedade existente em suas cascas, sem dúvida.

Hilly Brown acreditava firmemente que existia em um mundo de maravilhas. Esta sempre fora a sua atitude e jamais mudou, pouco importando em quantas “enrascadas” se metesse. O mundo era tão misticamente belo, como as bolas de vidro que sua mãe e seu pai penduravam na árvore de Natal todos os anos (Hilly adoraria também pendurar algumas, porém a experiência já lhe ensinara — como ensinara a seus pais — que se pusesse as mãos em algumas delas, seria a morte certa daquela bola de vidro). Para ele, o mundo era tão espetacularmente intrigante como o Cubo de Rubik que ganhara em seu nono aniversário (o cubo permanecera espetacularmente intrigante por duas semanas, enfim, depois do que Hilly passou a solucioná-lo como coisa rotineira). Sua atitude no tocante à mágica, portanto, já era previsível — adorava-a. A mágica tinha sido feita para Hilly Brown. Infelizmente, como Dunstable Ramse, na Deptford Trilogy de Davies, Hilly Brown não tinha sido feito para a mágica.

Por ocasião do décimo aniversário de Hilly, Bryant Brown teve que passar pelo centro comercial de Derry a fim de escolher outro presente para o filho. Marie lhe havia telefonado, durante a folga do café.

— Meu pai esqueceu de comprar alguma coisa para Hilly, Bryant. Ele queria saber se você poderia dar uma chegada no centro comercial e comprar-lhe algum brinquedo ou coisa assim. Disse que pagará a você, assim que seu cheque chegar.

— Claro — respondeu Bryant, pensando: E quando porcos voarem em cabos de vassouras.

— Obrigada, meu bem — disse ela, agradecida.

Marie sabia perfeitamente que seu pai — agora jantando com eles seis ou sete noites por semana, em vez das cinco anteriores — era a pedra no sapato de seu marido. Entretanto, Bryant nunca se queixara e, por causa disto, ela o amava ainda mais.

— E o que ele acha que Hilly gostaria?

— Papai disse que confia em sua escolha — responde Marie.

Bem típico dele, pensou Bryant. Assim, naquela tarde, ele se viu pesquisando nas duas lojas de brinquedos do centro comercial, olhando os jogos, bonecos (os bonecos para meninos, apresentados pelo eufemismo de “figuras de ação”), modelos e kits (Bryant viu um grande conjunto de química, pensou em Hilly misturando coisas em tubos de ensaio, e estremeceu). Nada parecia adequado; aos dez anos, seu filho mais velho atingira uma idade em que era velho demais para brinquedos de bebês e jovem demais para artigos tão sofisticados como papagaios de empinar com estrutura em forma de caixa ou modelos de aviões movidos a gasolina. Nada parecia adequado e ele tinha pouco tempo disponível. A festa do aniversário de Hilly tinha sido programada para as cinco da tarde e agora já eram quatro e quinze. Mal teria tempo de chegar em casa.

Pegou o conjunto de mágica quase ao acaso. Trinta novos truques! anunciava a caixa. Ótimo. Horas de divertimento para o jovem prestidigitador! anunciava a caixa. Também ótimo. Idades: 8-12, anunciava a caixa. Excelente. Segurança garantida para o jovem mágico, anunciava a caixa, e isto era o melhor de tudo. Bryant a comprou e entrou com ela em casa, escondida debaixo do paletó, enquanto Ev Hillman ensaiava Hilly, David e três amigos de Hilly em um barulhento e desafinado coro de “Sweet Betsy from Pike”.

— Chegou bem na hora para o bolo de aniversário — disse Marie, beijando-o.

— Quer embrulhar isto primeiro? — Ele lhe entregou o conjunto de mágica. Ela deu um rápido olhar à caixa e assentiu. — Como vai indo tudo?

— Perfeito — disse ela. — Quando chegou a vez de Hilly pregar a cauda do jumento, ele tropeçou em um pé da mesa e espetou o alfinete no braço de Stanley Jernigan, mas foi só, até agora.

Bryant alegrou-se imediatamente. As coisas de fato estavam correndo bem. No ano anterior, durante uma brincadeira de esconde-esconde, ao contorcer-se para entrar no esconderijo que Hilly preferia o tempo todo, Eddie Golden lacerara a perna em um pedaço de arame farpado enferrujado. Hilly nunca fora ferido por aquele arame e, de fato, nunca reparara nele. Eddie precisou ir ao médico, que lhe fez três suturas e aplicou uma antitetânica. O pobre Eddie tivera uma péssima reação à injeção e passara os dois dias após o nono aniversário de Hilly, confinado no hospital.

Agora, Marie sorriu e tornou a beijar Bryant.

— Papai agradece a você — disse ela. — E eu também.

Hilly abriu todos os seus presentes com prazer, mas sua alegria não teve limites, quando chegou a vez da caixa de mágicas. Correu para o avô (que a esta altura já conseguira devorar metade do bolo de chocolate do aniversariante e cortava mais uma fatia para si mesmo) e o abraçou, eufórico.

— Obrigado, vovô! Obrigado! Era justamente o que eu queria! Como foi que adivinhou?

Ev Hillman sorriu calorosamente para o neto.

— Acho que ainda não esqueci tudo sobre ser um menino — disse.

— É um barato, vovô! Poxa! Veja, Stanley! Trinta e quatro truques! Veja, Barney...

Girando para mostrar seu presente a Barney Applegate, Hilly esbarrou com a quina da caixa na xícara de café de Marie, quebrando-a. O café entornou-se e escaldou o braço de Barney, que gritou.

— Oh, desculpe, Barney! — exclamou Hilly, ainda saltitante. Seus olhos brilhavam tanto, que quase pareciam em fogo. — Bem, agora veja isto! Não é legal? Que chocante!

Bryant e Marie haviam economizado para comprar os três ou quatro presentes que ainda seguravam, tendo-os encomendado pelo correio com grande antecipação, a fim de que chegassem em tempo para o aniversário. Agora, no entanto, ante a alegria de Hilly com o presente do avô, viam-se relegados à posição de portadores de lanças, em um épico da selva. Os dois esposos trocaram um olhar telepático.

Oh, meu bem, eu sinto muito, disseram os olhos dela.

Bem, que diabo... esta é a vida com Hilly, replicaram os dele.

Os dois desataram a rir.

Os que estavam mais perto se viraram para fitá-los por um momento — Marie jamais esqueceu os olhos redondos e solenes de David — e então tornaram a concentrar-se em Hilly, que abria seu conjunto de mágicas.

— Eu gostaria de saber se sobrou um pouco do sorvete de nozes e bordo — perguntou Ev, em voz alta.

Naquela tarde considerando seu avô o maior homem sobre a terra, Hilly correu para trazer-lhe o sorvete.

 

Em sua Deptford Trilogy, o Sr. Robertson Davies também sugeriu que o mesmo grande truísmo aplicável a escrever, pintar, escolher cavalos na pista e contar mentiras de uma forma sinceramente crível, é igualmente aplicável à mágica: algumas pessoas têm talento para ela, outras não. Hilly não tinha.

Em Fifth Business, o primeiro dos livros Deptford de Davies, o narrador, fascinado pela mágica (é um menino tendo aproximadamente a idade de Hilly), faz vários truques — mal — para uma platéia aprovadora e não-crítica de uma só pessoa (um menino bem mais novo, com mais ou menos a idade de David), conseguindo este irônico resultado: o menino mais velho descobre que o mais novo possui o grande talento natural para a prestidigitação que lhe falta. Este menino mais novo deixa o narrador totalmente envergonhado, de fato, logo na primeira vez que tenta empalmar um xelim.

Neste último ponto, a similaridade não existe: David Brown não possuía mais talento para a mágica do que Hilly Brown. Não obstante, David adorava o irmão e permaneceria sentado, em paciente, atento e amoroso silêncio se, em vez de fazer os valetes fugirem da casa em chamas ou fazer Victor, o gato da família, saltar de sua cartola de mágico (a dita cartola foi jogada fora em junho, quando Victor fez suas necessidades nela), Hilly lhe fizesse uma preleção sobre a termodinâmica do vapor ou lesse para ele toda a genealogia de Jesus Cristo, do Evangelho Segundo Mateus.

Não que Hilly fosse um total fracasso como mágico; de maneira alguma. Aliás, o PRIMEIRO GRANDE ESPETÁCULO DE MÁGICAS DE HILLY BROWN, acontecido no gramado do pátio dos fundos, em casa dos Brown, no dia em que um Gardener partiu de Troy para juntar-se à Caravana de Poesia da Nova Inglaterra, foi considerado um grande sucesso. Umas doze crianças — a maioria composta de amigos de Hilly, mas incluídos alguns coleguinhas de David na escola maternal, como medida de segurança — mais quatro ou cinco adultos, estavam presentes para ver Hilly executando quase doze truques, aceitos com tolerância. A maioria de tais truques funcionou, não devido a qualquer talento ou real habilidade, mas em resultado da férrea determinação com que o menino havia treinado. Nem toda a inteligência e determinação do mundo podem criar a arte sem haver uma pitada de talento, porém inteligência e determinação podem criar algumas grandes contrafações.

Por outro lado, algo deve ser dito sobre o conjunto de mágicas que Bryant escolhera quase ao acaso: seus criadores, sabendo que a maioria dos aspirantes a mágicos em cujas mãos caísse sua criação, provavelmente seria de desajeitados e sem talento, tinham-se baseado principalmente em dispositivos mecânicos. A pessoa precisava esforçar-se para atarraxar as Moedas Multiplicantes, por exemplo. O mesmo era válido para a Guilhotina Mágica, um modelo diminuto (tendo em sua base de plástico discretamente impressos os dizeres MADE IN TAIWAN) que funcionava com uma lâmina de barbear. Quando um nervoso membro da platéia (ou um David perfeitamente blasé) colocava o dedo na concavidade da guilhotina, acima de um orifício que sustinha um cigarro, Hilly deixava a lâmina despencar, cortava o cigarro em dois... mas deixava o dedo miraculosamente intato.

Nem todos os truques dependiam de dispositivos mecânicos para seu efeito. Hilly ficou horas praticando para embaralhar cartas com as duas mãos, o que lhe permitia fazer “flutuar” uma carta do fundo do baralho para o topo. De fato, ficou bastante bom nisto, ignorando que uma hábil “flutuação” de cartas era muito mais útil para um trapaceiro em jogos, como “Pits” Barfield, do que para um mágico. Em uma platéia de mais de vinte pessoas, fica perdido o ambiente de intimidade da sala de estar, em geral falhando até o efeito do mais espetacular truque com cartas. A platéia de Hilly, contudo, era pequena o bastante para que ele pudesse fasciná-la — tanto adultos, como crianças — quando, despreocupadamente, tirava do topo do baralho cartas que tinham estado inseridas no meio, ao fazer Rosalie Skehan encontrar em sua bolsa uma carta que ela havia escolhido e depois devolvido ao baralho e, naturalmente, fazendo com que os valetes corressem da casa em chamas, este talvez sendo o melhor truque de baralho já inventado.

Houve falhas, naturalmente. Nessa noite, na cama, Bryant comentou que Hilly sem gafes seria como o McDonald’s sem hambúrgueres. Quando ele tentou despejar um jarro de água em um lenço que pedira a Joe Paulson, o carteiro que seria eletrocutado cerca de um mês mais tarde, conseguiu apenas molhar o lenço e a frente de suas calças. Victor recusou-se a saltar da cartola. Mais embaraçoso ainda, as Moedas Desaparecidas, um truque que Hilly suara sangue para dominar, fora um fiasco. Ele fez as moedas desaparecerem (na realidade, rodinhas de chocolate envoltas em papel de estanho dourado e vendidas sob o nome comercial de Munchie Money — Dinheiro Comível) sem qualquer problema, mas quando se virava, todas elas escaparam de sua manga, para hilaridade geral e enlouquecedores aplausos de seus amigos.

Ainda assim, o coro de palmas no final do espetáculo de Hilly foi legítimo. Todos concordaram que Hilly Brown era um perfeito mágico, “levando-se em conta que só tinha dez anos”. Apenas três pessoas discordaram de tal julgamento: Marie Brown, Bryant Brown e o próprio Hilly.

— Ele ainda não descobriu o quê, não é mesmo? — perguntou Marie essa noite ao marido, quando estavam na cama.

Os dois compreendiam que o quê significava aquilo que Deus reservara para Hilly fazer, usando o holofote que lhe colocara no cérebro.

— Não, não descobriu — disse Bryant, após uma longa e reflexiva pausa.

— Penso que não. Enfim, ele se esforçou ao máximo, não? Praticou e trabalhou como um burro de carga.

— Sim — disse ela. — Fiquei contente em vê-lo atuando. É bom saber que Hilly pode fazer algo, em vez de apenas ficar pulando de uma coisa para outra. Entretanto, isto também me entristeceu um pouco. Ele treinou para aprender aqueles truques, da maneira como um aluno de universidade estuda para as provas finais.

— Eu sei.

Marie suspirou.

— Ele teve o seu espetáculo. Suponho que agora o deixará de mão e se interessará por qualquer outra coisa. Eventualmente, ele descobrirá o quê.

 

A princípio, pareceu que Marie estava certa, que o interesse de Hilly pela mágica se dissiparia, da mesma forma que o interesse dele por viveiros de formigas, rochas da lua e ventriloquismo. A caixa do conjunto de mágicas foi removida de baixo de sua cama, onde ficava mais ao alcance, caso ele acordasse no meio da noite com alguma idéia, para cima de sua entulhada mesa de estudo. Marie reconheceu isto como a cena de abertura de uma velha peça. O último ato aconteceria, quando a caixa de mágicas fosse finalmente relegada aos poeirentos recessos do sótão.

A mente de Hilly, entretanto, não havia desistido — a coisa não era assim tão simples. As duas semanas seguintes ao seu espetáculo de mágico foram períodos de depressão razoavelmente profunda para ele. Isto foi algo que seus pais não perceberam e nunca souberam. David sabia, porque aos quatro anos, nada mais havia que ele pudesse fazer, além de esperar que Hilly se animasse.

Hilly Brown tentava enfrentar a idéia de que, pela primeira vez na vida, falhara em algo que realmente queria fazer tinha ficado satisfeito com os aplausos e congratulações, e não era tão autocensurável a ponto de tornar como polidez um elogio sincero... porém havia uma parte inflexível dele — a parte que, em outras circunstâncias, poderia torná-lo um artista de qualidade — que não se satisfazia com o elogio sincero. Essa parte inflexível insistia em que elogios sinceros eram aquilo que incompetentes despejavam na cabeça dos que mal eram competentes.

Resumindo, o elogio sincero não bastava.

Hilly não refletia nisto tudo em termos tão adultos, evidentemente... mas era como pensava. Se sua mãe pudesse conhecer-lhe os pensamentos, teria ficado bastante zangada com ele por seu orgulho... algo que, conforme a Bíblia ensinara a ele, precedia uma queda. Sem dúvida, ficaria ainda mais zangada com ele, do que na época em que Hilly quase deslizara para a estrada à frente do caminhão-tanque de combustível ou do que quando tentara dar em Victor um banho de bolhas, no bojo do vaso sanitário. O que você quer, Hilly? teria perguntado, erguendo as mãos. Elogios falsos?

Ev, que via muito, e David, que via ainda mais, poderiam ter dito a ele:

Ele queria deixar os olhos da platéia tão arregalados, como se fossem pular fora. Ele queria fazer as meninas gritarem e os meninos berrarem. Ele queria fazer todo mundo rir; quando Victor saísse da cartola com uma fita no rabo e uma moeda de chocolate na boca. Ele trocaria todos os elogios sinceros e legítimos aplausos do mundo por apenas um grito, uma gostosa gargalhada, uma mulher desmaiando, como o folheto diz que aconteceu com elas, quando Harry Houdini fez sua famosa escapada do latão de leite. Isto porque, elogios sinceros apenas significam que a atuação foi boa. Se as pessoas gritam, dão gargalhadas e desmaiam, isto significa que a atuação foi formidável.

Entretanto, ele desconfiava — não, ele sabia — que jamais chegaria a ser formidável, que tudo quanto queria no mundo não modificaria tal fato.

Era um golpe amargo. Não tanto do fracasso em si, mas de saber que isso não podia ser modificada de certa maneira, era como o fim de Papai Noel.

Assim, enquanto seus pais imaginavam que ele houvesse perdido o interesse, levado por outro desvio no caprichoso vento de primavera que sopra através da maioria das infâncias, isto era, de fato, a primeira conclusão adulta de Hilly: se nunca chegaria a ser um grande mágico, devia deixar aquele brinquedo de lado. Não adiantava tê-lo por perto e limitar-se a fazer um truque de vez em quando, como passatempo. Seu fracasso doera demais para isso. Era uma equação ruim. Seria melhor apagar tudo e começar de novo com outra coisa.

Se os adultos pudessem rejeitar suas obsessões com a mesma firmeza, certamente o mundo seria um lugar melhor. Robertson Davies não disse isto em sua Deptford Trilogy... mas deu fortes indicações a respeito.

 

Foi no dia 4 de julho que, ao entrar no quarto de Hilly, David o viu mexendo outra vez em seu conjunto de mágicas. Ele espalhara um bom punhado de truques à frente... e também mais alguma coisa. Pilhas. David achou que eram as pilhas do rádio grande do papai.

— O que você tá fazendo, Hilly? — perguntou David, amistosamente.

Hilly franziu o cenho. Ficou em pé de repente e empurrou o irmão para fora do quarto, com tanta força, que David ficou surpreso demais para chorar.

— Fora daqui! — gritou Hilly. — Não pode ficar olhando os novos truques! Os príncipes Médici costumavam executar as pessoas que eram apanhadas espiando truques de seus mágicos favoritos!

Tendo feito tal pronunciamento, Hilly bateu a porta na cara de David. O menino gritou para que ele o deixasse entrar, mas de nada adiantou. Tão desacostumada intransigência por parte de seu estouvado, mas geralmente agradável irmão, era a tal ponto incomum, que David voltou para o térreo, ligou a televisão e chorou até dormir, diante da Vila Sésamo.

 

O interesse de Hilly pela mágica se reacendera abruptamente, mais ou menos à época em que o quadro de Jesus começara a falar com ‘Becka Paulson.

Um único e poderoso pensamento invadira sua mente: os truques mecânicos, como a Multiplicação das Moedas, eram os melhores que podia fazer, então inventaria seus próprios truques mecânicos. Os melhores que alguém já vira! Faria algo superior ao mecanismo de Thurston ou aos espelhos articulados de Blackstone! Se o necessário para produzir olhos esbugalhados, gritos e gargalhadas estrondosas era antes a invenção do que a manipulação, assim seria.

Ultimamente, ele se sentia capaz de inventar coisas.

Ultimamente, sua cabeça parecia entulhada de idéias para invenções.

Esta era a primeira vez que a idéia de inventar lhe passava pela mente, porque suas idéias anteriores haviam sido vagas, motivadas mais por devaneios do que princípios científicos — espaçonaves feitas de caixas de papelão, armas disparadoras de raios, suspeitosamente parecidas a pequenos galhos de árvore, feitas com pedaços de isopor para embalagens introduzidos nos canos, coisas assim. Ele havia tido boas idéias de quando em quando, idéias que quase eram práticas, mas sempre as deixara de lado, por não saber como realizá-las — Hilly era capaz de pregar um prego sem entortar e serrar uma tábua, porém era tudo.

Agora, entretanto, as maneiras de fazer pareciam claras como água.

Grandes Truques, pensou, montando fiação, pregando e aparafusando coisas entre si. Quando sua mãe lhe disse, a 8 de julho, que ia a Augusta fazer compras (ela falava um tanto alheadamente; mais ou menos durante a última semana, Marie vinha tendo dores de cabeça, e a notícia de que Joe e ‘Becka Paulson haviam morrido em uma casa incendiada, em nada contribuía para melhorá-las), Hilly pediu a ela que passasse pela loja Rádio Shack, na Capitol Mall, e lhe comprasse algumas coisinhas. Entregou-lhe a lista que tinha feito e os oito dólares restantes do dinheiro ganho em seu aniversário, perguntando se ela podia “por favor, emprestar-lhe” o resto.

 

Dez (10) pontos de contato tipo mola a $ 0.70 cada (N°1334567)

Três (3) contatos “T” (tipo mola) a $1.00 cada (N°1334709)

Um (1) plugue com “isolante” para cabo coaxial $2.40 (N°19776-C)

 

Se não fosse por sua dor de cabeça e uma apatia geral, Marie sem dúvida gostaria de saber para que era aquele material. Sem dúvida, gostaria de saber como Hilly conseguiria aquela informação tão exatamente — chegando aos números de relação — sem ter feito uma ligação interurbana para a loja Rádio Shack, em Augusta. Inclusive, poderia ter desconfiado que Hilly finalmente encontrara o quê.

Em um terrível sentido, era precisamente isto que acontecera.

No entanto, ela apenas concordou em comprar o material e “fazer o favor de emprestar-lhe” os aproximadamente quatro dólares a mais.

Quando ela e David retornaram de Augusta, tinham-lhe ocorrido algumas de tais perguntas. A viagem a deixara sentindo-se bem melhor; sua dor de cabeça desaparecera por completo. E David, que havia permanecido calado e introspectivo desde que Hilly o expulsara de seu quarto — não mais o garotinho saltitante, tagarela e borbulhante — também parecia ter-se animado. Falava pelos cotovelos e foi através dele que Marie ficou a par de uma coisa: Hilly havia programado seu SEGUNDO GRANDE ESPETÁCULO DE MÁGICA, no pátio dos fundos da casa, para dentro de nove dias.

— Ele vai fazer montes de truques novos — disse David, parecendo deprimido.

— Vai mesmo?

— Vai — respondeu David.

— Você acha que serão truques bons?

— Não sei — disse o menino, pensando na maneira como o irmão o expulsara do quarto.

Estava à beira das lágrimas, porém Marie não percebeu. Dez minutos antes haviam passado por Albion, agora chegavam a Haven e sua dor de cabeça retornava... e com ela, aquela impressão anterior — agora um pouco mais forte — de que não tinha mais os pensamentos sob controle, como antes. Pareciam demasiados, antes de mais nada. Por outro lado, nem ao menos sabia dizer o que significava um punhado deles. Era como — ela pensou cuidadosamente e, por fim, encontrou uma similitude. No ginásio, fizera parte da sociedade dramática (Marie achava que Hilly herdara dela muito de seu gosto pelo drama), e os pensamentos em sua mente agora eram como o murmúrio de uma platéia, ouvido através do pano de boca do palco, antes de iniciado o espetáculo. Não se sabia o que diziam as pessoas, porém sabia-se que elas estavam lá.

— Não sei se serão tão bons como ele diz — falou David por fim.

Estava olhando pela janela do carro e, de repente, seus olhos pareciam os de um prisioneiro, solitários e confinados. Ele avistou Justin Hurd em sua plantação, rastelando o solo com o trator. Rastelando, embora aquela já fosse a segunda semana de julho. Por um momento, a mente de Justin Hurd, com quarenta e dois anos de idade, ficou inteiramente aberta para David, com quatro anos, e o menino compreendeu que o homem estava acabando com sua plantação, derrubando o milho ainda não amadurecido, dilacerando a área reservada às ervilhas, transformando em polpa os novos melões, esmagados sob as rodas do trator. Justin Hurd pensava que era maio. Maio de 1951, mais precisamente. Justin Hurd tinha ficado louco.

— Não sei se serão tão bons como ele diz — repetiu David.

 

Havia umas vinte pessoas presentes ao PRIMEIRO GRANDE ESPETÁCULO DE MÁGICA de Hilly. No segundo, havia apenas sete: sua mãe, seu pai, seu avô, David, Barney Applegate (que, como Hilly, tinha dez anos), a Sra. Crenshaw, moradora na cidade (ela tinha ido à casa de Marie, na zona rural, esperando vender-lhe algum produto Avon) e o próprio Hilly. Tal queda drástica de presença não era o único contraste com o espetáculo anterior.

Da primeira vez, a platéia estivera animada — até um tanto atrevida (como por ocasião dos sarcásticos aplausos dirigidos ao Dinheiro Comível quando caíra da manga de Hilly, por exemplo). Nesta segunda vez, os presentes mostravam-se taciturnos e apáticos, parecendo manequins de loja de departamentos, sentados nas cadeiras dobráveis que Hilly e seu “assistente” (um pálido e silencioso David) tinham arrumado. O pai de Hilly, que tinha rido, aplaudido e dado gargalhadas no espetáculo anterior, interrompeu o discurso de abertura de Hilly sobre “os mistérios do Oriente”, dizendo que não podia dedicar muito de seu tempo àqueles mistérios, se Hilly não se incomodasse; acabara de cortar a grama e de semear na horta, agora estando louco por um chuveiro e uma cerveja.

O tempo também havia mudado. O dia do PRIMEIRO GRANDE ESPETÁCULO DE MÁGICA estivera límpido, cálido e verdejante, o mais esplêndido dia de final de primavera que o norte da Nova Inglaterra pode oferecer. Este dia de julho estava tórrido e insociavelmente úmido, com um sol quente em um céu cor de cromo. A Sra. Crenshaw estava sentada e abanando-se com seus próprios catálogos da Avon, ansiosa pelo término daquilo. Uma pessoa até podia desmaiar, sentada ali fora ao sol quente. E aquele garotinho trepado em um palco feito de caixotes de laranja, com roupas pretas e um bigode pintado com polidor de sapatos... mimado... exibido... De repente, a Sra. Crenshaw sentiu vontade de matá-lo.

Desta vez, as mágicas eram muito melhores — de fato, admiráveis — porém Hilly se sentia aturdido e furioso, ao constatar que, ainda assim, sua platéia se mostrava francamente entediada. Podia ver o pai remexendo-se na cadeira, pronto para ir embora dali. Isso deixou Hilly frenético, porque queria impressionar o pai, mais do que quaisquer outros.

Bem, o que mais eles querem? perguntou-se iradamente, suando sob seu terno preto de domingo, com tanta liberalidade como a Sra. Crenshaw. — Estou sendo formidável — até mesmo melhor do que Houdini — mas eles não gritam, não riem nem ficam de boca aberta. Por que não? Droga, o que há de errado?

No centro do palco de caixotes de laranja de Hilly, havia uma pequena plataforma (outro caixote de laranja, este coberto com um lençol). Escondido em seu interior estava um dispositivo que Hilly inventara, usando as pilhas que David vira em seu quarto e as entranhas de uma calculadora Texas Instrument, que ele havia roubado (sem o menor constrangimento) do fundo da secretária de sua mãe, no vestíbulo perto da entrada. O lençol cobrindo o caixote de laranja caída em dobras nas bordas e, escondido em uma dessas dobras, encontrava-se outro dos insolentes furtos de Hilly — o pedal do motor da máquina de costura Singer de sua mãe. Hilly conectara o pedal ao dispositivo que montara. Para isso, utilizara dois dos conectadores de mola que sua mãe lhe comprara na loja Rádio Shack, em Augusta.

O dispositivo que ele inventara fazia as coisas desaparecerem e depois as trazia de volta.

Hilly considerou isto espetacular, intrigante. A reação de sua platéia, no entanto, começara baixa e só diminuiu, daí por diante.

— Como meu primeiro truque, teremos o Tomate Desaparecido! — anunciou com voz ostentórea. Pegou um tomate em sua caixa de “suprimentos mágicos” e o ergueu para mostrá-lo. — Eu gostaria de um voluntário da platéia, a fim de verificar se isto é um tomate verdadeiro e não uma falsificação ou coisa assim. O senhor aí! Obrigado!

Hilly apontou para o pai, que apenas tinha acenado cansadamente.

— É um tomate, Hilly — disse ele. — Posso ver que é.

— Muito bem! Agora, vejam só os Mistérios do Oriente... atenção!

Hilly inclinou-se, colocou o tomate no centro do lençol branco que cobria o caixote e depois o cobriu com uma das echarpes de seda de sua mãe. Acenou com sua varinha mágica, acima do montículo circular debaixo da echarpe azul.

— Abracadabra! — gritou.

Ao mesmo tempo, pisou disfarçadamente no escondido pedal da máquina de costura. Houve um breve e suave zumbido. O volume sob a echarpe desapareceu, deixando-a achatada em cima do lençol. Hilly a ergueu, a fim de mostrar que o topo da plataforma estava limpo, e então esperou complacentemente pelas aclamações e gritos de espanto. O que recebeu foram aplausos.

Aplausos polidos, nada mais.

Claramente, isto brotou da mente da Sra. Crenshaw: Um alçapão. Nada mais do que isso. Não posso acreditar que estou sentada aqui fora, debaixo do sol, vendo esse pestinha mimado passar tomates por alçapões, apenas para que eu possa vender um frasco de perfume para sua mãe. Francamente!

Hilly começou a ficar danado da vida.

— Agora, outro Mistério do Oriente! A Volta do Tomate Desaparecido! —Ele olhou para a Sra. Crenshaw, com expressão formidável. — E para aqueles imaginando algo idiota como alçapões, bem, acho que mesmo pessoas idiotas fariam um tomate descer por um alçapão, mas elas teriam que suar um bocado, tentando fazê-lo subir, não acham?

A Sra. Crenshaw limitou-se a continuar sentada, as nádegas sobrando nas bordas da cadeira de jardim que ela ia lentamente afundando no solo, sorrindo prazerosamente. Seus pensamentos haviam desaparecido da cabeça de Hilly, como um sinal de rádio ruim.

Ele tornou a colocar a echarpe sobre a plataforma. Agitou sua varinha. Pisou no pedal. A echarpe azul inchou em uma esfera. Hilly a ergueu triunfalmente, para revelar o tomate outra vez.

— Aí está! — gritou.

Agora, surgiriam gritos e bocas abertas.

Mais aplausos polidos.

Barney Applegate bocejou.

Hilly teria dado um tiro nele, alegremente.

Havia planejado sua atuação, começando com o truque do tomate até seu Grande Final, e tudo indicava que seria uma boa idéia. Contudo, não durou o bastante. Em seu perdoável excitamento por ter inventado uma máquina que realmente fazia coisas desaparecerem (ele pensara em talvez doá-la ao Pentágono ou algo similar, após ter seu retrato na capa de Newsweek, como o maior mágico da história), Hilly passara dois pontos por alto. Primeiro, que apenas criancinhas e imbecis, em qualquer espetáculo de mágica, acreditam que os truques são reais; segundo, que fazia essencialmente o mesmo truque, uma vez após outra. Cada novo exemplo diferia do último apenas em grau.

Após o Tomate Desaparecido e a Volta do Tomate Desaparecido, Hilly aplicou-se implacavelmente ao Rádio Desaparecido (o rádio de seu pai, agora bastante mais leve, sem suas oito pilhas tipo D, que estavam nas entranhas da engenhoca debaixo da plataforma) e à Volta do Mesmo.

Polidos aplausos.

A Cadeira de Jardim Desaparecida, foi seguida pela Volta do Já-se-sabe-o-Quê.

Sua platéia permanecia apática, como atordoada pelo sol... ou talvez atordoada pelo que quer que agora havia no ar de Haven. Se existia alguma coisa oxidando-se no casco da espaçonave e penetrando na atmosfera, certamente estava bem forte nesse dia, em que não corria a mais leve brisa.

Preciso fazer alguma coisa, pensou Hilly, em pânico.

No ímpeto do momento, decidiu omitir a Estante de Livros Desaparecida, a Bicicleta Ergométrica Desaparecida (de mamãe) e a Motocicleta Desaparecida (de papai, mas no presente estado de espírito em que via seu pai, Hilly duvidava muito que ele se oferecesse para levar a moto até o alto da plataforma). Passou direto para o Grande final:

O Irmãozinho Desaparecido.

— E agora...

— Hilly, eu sinto muito, mas... — começou o pai.

— Farei o meu truque final! — acrescentou Hilly rapidamente, e viu o pai tornar a recostar-se na cadeira, relutante. — Preciso de um voluntário de assistência. Vem cá, David!

David adiantou-se, tendo no rosto uma expressão em que medo e conformação estavam perfeitamente equilibrados. Embora não lhe tivesse sido dito em detalhes, David sabia qual era o truque final. Sabia demasiado bem.

— Eu não quero — disse para Hilly.

— Você vai querer — disse Hilly, com ar severo.

— Eu tô com medo, Hilly! — insistiu David, com ar suplicante, os olhos cheios de lágrimas. — E se eu não voltar?

— Você voltará — sussurrou Hilly. — As outras coisas voltaram, todas elas, não voltaram?

— Eu sei, mas você não fez desaparecer nada que fosse vivo — gemeu David, agora com as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Olhando para o irmão a quem tanto tinha amado e com tamanho sucesso (ele fora mais bem-sucedido em amar David, do que em fazer qualquer outra coisa em que pusera as mãos, incluindo-se a mágica), Hilly sentiu um instante de terrível dúvida. Era como despertar temporariamente de um pesadelo, antes de ser outra vez sugado por ele. Você não vai fazer uma coisa destas, não é mesmo? Não o lançaria em uma rua movimentada, pois acabou de pensar que nem todos os carros parariam em tempo, certo? Você nem ao menos sabe para onde vão estas coisas, quando não estão mais aqui!

Então, Hilly olhou para a platéia — entediada e desatenta, o único parecendo meio vivo sendo Barney Applegate, ocupado em cuidadosamente extirpar a casca de um arranhão no cotovelo — e seu ressentimento voltou a crescer. Deixou de ver as lágrimas amedrontadas nos olhos de David

— Suba na plataforma, David! — sussurrou autoritariamente para o irmão.

O rostinho de David começou a tremer... mas ele caminhou para a plataforma. Nunca desobedecera a Hilly, pois o tinha idolatrado em todos os mil quinhentos e tantos dias de sua vida. Não iria desobedecer agora. Não obstante, suas pernas gorduchas mal o sustentavam, quando subiu para o caixote de laranja coberto pelo lençol, debaixo do qual estava a máquina biruta.

David encarou a platéia, um garotinho rechonchudo, de shorts azuis e uma camiseta desbotada, ostentando o letreiro: ELES ME CHAMAM DE DR. AMOR. As lágrimas pingavam de seu rostinho.

— Sorria, droga! — sibilou Hilly, colocando o pé sobre o pedal da máquina de costura.

Embora chorasse ainda mais, David conseguiu esboçar uma horrenda paródia de sorriso. Marie Brown não viu as lágrimas do filho mais novo, nem o seu terror. A Sra. Crenshaw trocara de assentos (metade das pernas de alumínio da cadeira que ocupava, agora havia submergido no gramado, e agora preparava-se para ir embora. Pouco estava ligando se venderia algum Avon para aquela cretina idiota ou não. Esta tortura não valia o trabalho).

— E AGORA! — bradou Hilly para sua alheada assistência. — O maior segredo entre todos do Oriente! Conhecido de poucos e praticado por ainda menos! O Humano Desaparecido! Prestem a máxima atenção!

Jogou o lençol sobre a forma trêmula de David. Enquanto o tecido ia caindo nos pés do garotinho, um audível soluço escapou de sob o pano. Hilly sentiu outro estremecimento do que poderia ter sido o medo ou a sanidade, lutando fracamente para se reafirmarem.

— Hilly, por favor... por favor, tô com medo...

Ao ouvir o amortecido sussurro que vinha de baixo do lençol, Hilly hesitou. Então, de repente pensou: Pare com isso! Saiba que você pode! Porque aprendeu este truque... com o Homem Tommyknocker!

Foi pouco depois disso, que Hilly Brown real e verdadeiramente perdeu sua mente.

— Abracadabra! — gritou ele.

Agitou sua varinha para a trêmula forma coberta pelo lençol sobre a plataforma — David — e pisou no pedal.

Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmm..

O lençol foi baixando preguiçosamente, como quando um homem ou mulher o joga sobre uma cama, deixando-o assentar-se.

Hilly o puxou para um lado.

— Aí está! — gritou, esganiçadamente.

Sentia-se meio delirante com uma mescla de triunfo e medo, ambos perfeitamente equilibrados no momento, como crianças do mesmo peso sentadas em uma gangorra.

David tinha desaparecido.

 

Por um momento, foi rompida a apatia geral. Barney Applegate parou de escarafunchar sua cicatriz. Bryant Brown sentou-se empertigado na cadeira, boquiaberto. Marie e a Sra. Crenshaw interromperam sua sussurrada conversa, enquanto Ev Hillman franzia a testa, parecendo preocupado... embora tal expressão não fosse exatamente nova. Já fazia alguns dias que Ev parecia e se sentia preocupado.

Ahhh! pensou Hilly, e bálsamo fluiu sobre sua alma. Sucesso!

Tanto o interesse da platéia como o triunfo de Hilly foram de curta duração. Truques envolvendo pessoas são sempre mais interessantes do que aqueles envolvendo coisas ou animais (tirar um coelho de uma cartola está perfeitamente bem, mas nenhum mágico merecedor do nome já decidiu, baseando-se nisto, que uma platéia preferiria ver um cavalo serrado ao meio, em vez de uma bela jovem, de formas generosas e roupas justas)... mas afinal de contas, ainda assim, o truque é o mesmo. Os aplausos foram mais altos desta vez (e Barney Applegate soltou um eufórico Aíííí, Hilly), mas que logo morreu. Hilly reparou que sua mãe voltava a cochichar com a Sra. Crenshaw. Seu pai levantou-se.

— Vou tomar uma ducha, Hilly — sussurrou. — Foi um espetáculo muito bom.

— Sim, mas...

Soou uma buzinada na entrada de carros.

— É minha mãe! — disse Barney, saltando da cadeira tão depressa, que quase derrubou a Sra. Crenshaw. — Chau, Hilly! Grande truque!

— Ora, mas... — começou Hilly, sentindo as lágrimas arderem nos olhos.

Barney caiu de joelhos e acenou, como que para baixo da plataforma.

— Chau, David! Bom trabalho!

— Droga, ele não está aí embaixo! — gritou Hilly

Barney, entretanto, já se afastava correndo. A mãe de Hilly e a Sra. Crenshaw caminhavam para a porta dos fundos, examinando um catálogo Avon. Tudo estava acontecendo muito depressa.

— Cuidado com a linguagem, Hilly — advertiu sua mãe, sem olhar para trás. — E faça David lavar as mãos, quando entrarem em casa. Está sujo aí embaixo.

Restou apenas Ev Hillman, o avô de David. Ev olhava para Hilly, com a mesma expressão preocupada.

— Por que não vai embora também? — perguntou-lhe Hilly, com furiosa amargura, toldada apenas pela voz algo indistinta.

— Se seu irmão não está aí embaixo, Hilly — disse Ev, em um tom inteiramente diverso do costumeiro —, então onde é que ele está?

Eu não sei, pensou Hilly, e foi quando a gangorra começou a desequilibrar-se. A raiva foi para baixo. Até o fim. E o medo foi subindo, subindo até o alto. Com o medo, chegou a culpa. Um instantâneo de David chorando e aterrorizado. Um instantâneo de seu próprio rosto (cortesia de uma boa imaginação), parecendo zangado e quase enfurecido — fanfarrão e tirânico, sem dúvida. Sorria, droga! David tentando sorrir, em meio às lágrimas.

— Oh, ele está aí debaixo, claro! — disse Hilly. Prorrompeu em ruidosos soluços e sentou-se em seu palco, de joelhos levantados, o rosto quente encostado neles. — Lógico que está aí debaixo, todo mundo adivinhou meus truques e ninguém gostou deles, eu odeio mágica, se quer saber gostaria que nunca tivesse me dado esse idiota conjunto de mágica...

— Hilly... — Ev inclinou-se para diante, parecendo agora tão angustiado quanto preocupado. Ali havia algo errado... ali e em toda Haven. Ele podia senti-lo. — O que há de errado?

— Vá embora daqui! — soluçou Hilly. — Eu odeio você! ODEIO você!

Avôs são tão sujeitos à dor, vergonha e confusão, como qualquer outra pessoa. Ev Hillman sentia os três agora. Doía-lhe ouvir Hilly dizer que o odiava — doía-lhe, embora fosse evidente que o menino estava emocionalmente exaurido. Ev envergonhou-se por ter sido seu presente que provocara as lágrimas do neto... pouco importando se a caixa de mágica tivesse sido escolha de seu genro; Ev o considerara um presente seu, quando ele encantara Hilly; supôs que devia também considerá-lo como seu agora, embora fizesse o menino chorar, com o rosto contra os joelhos sujos. Sentia-se confuso, porque algo mais estava acontecendo ali... porém, o quê? Não saberia dizer. Sua única certeza era de que começara a acostumar-se à idéia de estar ficando senil — oh, os efeitos ainda eram muito pequenos, mas a condição acelerava-se um pouquinho a cada ano — e no transcorrer do verão de agora. E, neste verão, todos pareciam estar ficando senis... mas exatamente o que ele queria significar com isso? Uma expressão nos olhos? Curiosos lapsos, esquecendo nomes que deviam ser lembrados rápida e facilmente? Sim, eram essas coisas. No entanto, havia mais. Apenas, ele não podia colocar o dedo sobre o que mais podia ser.

Esta confusão, tão contrária à vacuidade afligindo os outros que tinham assistido ao SEGUNDO GRANDE ESPETÁCULO DE MÁGICA, fez com que Ev Hillman, a única pessoa ali cuja mentis era realmente compos*(naqueles dias, em suma, era ele a única pessoa em Haven cuja mentis era de fato compos — Jim Gardener também era relativamente não afetado pela nave na terra, mas por volta do dia 17, ele voltara com firmeza à bebida), tornasse uma decisão que mais tarde lamentou amargamente. Ao invés de agachar-se sobre os joelhos artríticos e rangentes para espiar debaixo do palco improvisado de Hilly, a fim de ver se David Brown verdadeiramente estava ali, saiu de cena, retraiu-se. Retraiu-se, tanto da idéia de seu presente de aniversário ter causado a atual angústia de Hilly, como de tudo o mais. Deixou o neto sozinho, pensando em retornar “quando o menino estivesse mais controlado”.

 

Enquanto via o avô afastar-se em passos arrastados, Hilly sentiu-se duplamente culpado e infeliz... e então ficou trêmulo. Esperou até que Ev se fosse, para então levantar-se e retornar à plataforma. Pousou o pé sobre o pedal escondido da máquina de costura e pressionou.

Hummmmmmmmmmm.

Esperou que o lençol se inflasse, na forma de David. Então, arrancaria o lençol de sobre ele e diria, Pronto, bebezinho, viu só? Isso não foi NADA, foi? Poderia, inclusive, dar um bom safanão em David, por amedrontá-lo e deixá-lo sentindo-se tão cretino. Ou, talvez, apenas...

Nada estava acontecendo.

O medo começou a inchar a garganta de Hilly. Começou... ou teria estado lá o tempo todo? O tempo todo, pensou ele. Só que agora estava... inchando, sim era a palavra correta. Inchando dentro dele, como se alguém lhe houvesse enfiado um balão de gás pela garganta abaixo e agora começasse a enchê-lo. Este novo medo fez com que, em comparação, a infelicidade parecesse boa e a culpa absolutamente doce. Ele tentou engolir, porém não conseguiu empurrar uma só gota de saliva por aquela inchação.

— David? — sussurrou, tornando a pisar o pedal.

Hummmmmmmmmmm.

Hilly decidiu que não daria um safanão em David. Ele abraçaria o irmão. Quando David voltasse, Hilly cairia de joelhos e o abraçaria, diria a ele que podia ficar com todos os seus soldadinhos, todos os G. I. Joe durante uma semana inteira (exceto, talvez, Olhos de Serpente e Bola de Cristal).

Nada estava acontecendo ainda.

O lençol que havia coberto David jazia amarfanhado sobre aquele cobrindo o caixote, em cima de sua máquina. Não se inflava, absolutamente, em uma forma-David. Hilly permaneceu inteiramente só no pátio dos fundos de sua casa, com o quente sol de julho caindo sobre ele, seu coração batendo cada vez mais rápido no peito, aquele balão inchando na garganta. Quando ele finalmente ficar bastante grande para estourar, pensou, acho que vou gritar!

Pare com isso! Ele voltará! Claro que voltará! O tomate voltou, também o rádio e a cadeira de jardim. E todas aquelas coisas que experimentei em meu quarto, todas voltaram. Ele... ele...

— Você e David, entrem para lavar-se, Hilly! — gritou sua mãe.

— Sim, mamãe! — gritou Hilly de volta, em uma voz trêmula, insanamente alegre. — Daqui a pouquinho!

E pensou: Por favor; Deus, faça ele voltar! Sinto muito, Deus. Farei qualquer coisa, ele pode ficar com todos os G.I. Joe para sempre, juro que pode, ele pode ficar com o Batmóvel e até mesmo a Cúpula do Terror; mas Deus, meu bom Deus, POR FAVOR, FAÇA ISTO FUNCIONAR DESTA VEZ E DEIXE ELE VOLTAR!

Hilly tornou a apertar o pedal.

Hummmmmmmmmmm...

Ele olhou para o lençol amarfanhado, através de lágrimas que empanavam a visão. Por um instante, pensou que alguma coisa estava acontecendo, mas foi apenas uma ligeira rajada de vento, movendo o pano enrugado.

Um pânico tão cintilante como lâminas de metal passou a contorcer-se na mente de Hilly. Dentro em pouco começaria a gritar, arrastando sua mãe da cozinha e o pai do banheiro, ainda gotejante, com uma toalha à volta da cintura e xampu escorrendo pelo rosto, os dois perguntando-se o que ele teria feito desta vez. O pânico seria misericordioso, em um sentido: quando se instalasse, obliteraria o pensamento.

As coisas, contudo, ainda não tinham chegado tão longe, infelizmente. Dois pensamentos ocorreram a Hilly, em rápida sucessão.

O primeiro: Nunca fiz desaparecer nada que fosse vivo. Até o tomate foi colhido, e papai disse uma vez que, quando colhemos alguma coisa, ela não está mais viva de verdade.

O segundo pensamento: E se David não puder respirar; onde quer que esteja? E se ele não puder RESPIRAR?

Hilly se preocupara bem pouco sobre o que acontecia às coisas que fazia “desaparecer”, até então. Agora, contudo...

Seu último pensamento coerente, antes que o pânico o cobrisse como uma mortalha — ou um véu lutuoso — foi, em realidade, uma imagem mental. Viu David jazendo no meio de uma paisagem estranha e inamistosa.

Parecia a superfície de um mundo rude e morto. A terra acinzentada era seca e fria; havia fendas que se abriam como bocas mortas reptilianas, ziquezagueando em todas as direções. No alto, havia um céu mais negro do que veludo de joalheria, e um bilhão de estrelas causava a mais viva impressão a quem estivesse abaixo — eram mais brilhantes do que quaisquer estrelas que alguém já tivesse visto da superfície da terra, porque o lugar para onde Hilly espiava, com o olho dilatado e horrorizado da imaginação, era quase ou inteiramente sem atmosfera.

E, no meio daquela desolação alienígena, jazia seu rechonchudo irmão de quatro anos, vestindo shorts e uma camiseta com um dístico, dizendo ELES ME CHAMAM DR. AMOR. David aferrava a garganta, tentando respirar o ar inexistente de um mundo que talvez ficasse a um trilhão de anos-luz do seu lar. David ofegava, estava ficando roxo. O frio intenso traçava padrões mortais através de seus lábios e unhas. Ele...

Ah, mas então, o pânico misericordioso finalmente suplantou tudo.

Ele puxou com violência o lençol que usara para cobrir David e virou o caixote que havia escondido a máquina. Pisou o pedal da máquina de costura uma vez após outra, então começando a gritar. Só quando sua mãe apareceu, percebeu que ele não estava apenas gritando, que em toda aquela gritaria também havia palavras.

— Todos os G. I. Joes! — guinchava Hilly. — Todos os G. I. Joes! Todos os G. I. Joes! Para sempre e sempre! Todos os G. I. Joes!

E depois, em voz infinitamente aguda:

— Volte, David! Volte, David! Volte!

— Santo Deus, o que ele quer dizer com isto? — exclamou Marie.

Bryant segurou o filho pelos ombros e o fez virar-se, a fim de ficarem cara a cara.

— Onde está David? Para onde ele foi?

Hilly, entretanto, tinha desmaiado e, em realidade, nunca voltou a si. Não muito depois disto, mais de cem homens e mulheres, Bobbi e Gard entre eles, internavam-se na floresta do outro lado da estrada, vasculhando a mata em busca de David, o irmão de Hilly

Se pudessem interrogá-lo, Hilly lhes teria dito que, em sua opinião, estavam procurando muito perto de sua casa.

Perto demais.

 

BENT E JINGLES

Ao anoitecer de 24 de julho, uma semana após o desaparecimento de David Brown, o policial Benton Rhodes dirigia uma viatura da polícia por volta de oito e meia, saindo de Haven. Peter Gabbons, conhecido pelos colegas policiais como “Jingles”, ocupava o banco do passageiro. O crepúsculo dava lugar à noite, desfazendo-se em cinzas. Eram cinzas metafóricas, naturalmente, ao contrário daquelas nas mãos dos dois tiras estaduais. Estas eram reais. A mente de Rhodes voltava incessantemente para o braço e a mão desunidos do corpo, bem como para o fato de que soubera instantaneamente a quem tinham pertencido. Jesus!

Pare de pensar nisso! ordenou à sua mente.

Está bem, concordou a mente, continuando a pensar nisso.

— Tente o rádio novamente — disse ele. — Aposto que estamos tendo interferência daquela maldita antena parabólica que puseram lá em Troy.

— Certo — Jingles pegou o microfone. — Aqui, Unidade 16 para Base. Está ouvindo, Tug? Desligo.

Ele soltou o botão e os dois ficaram ouvindo. O que ouviam era uma gritante e peculiar estática, com vozes fantasmagóricas sepultadas bem fundo em seu seio.

— Quer que eu tente outra vez? — perguntou Jingles.

— Não. Logo estaremos ouvindo com nitidez.

Bent rodava com os pisca-alerta ligados, fazendo cento e dez ao longo da Rota 3, em direção a Derry. Onde, diabo, estavam as unidades de reforço? Não houvera problema de comunicações para e de Haven Village; as transmissões pelo rádio eram tão claras, que quase pareciam fantasmagóricas. Aliás, o rádio não tinha sido a única coisa fantasmagórica sobre Haven, essa noite.

Certo! concordou sua mente. E, por falar nisto, você identificou o anel imediatamente, não foi? Ninguém se engana quanto ao anel de um policial, mesmo no dedo de uma mulher, hein? E reparou na maneira como os tendões dela pendiam em tiras? Como um pedaço de carne cortada em um açougue, não? Um pernil de carneiro ou coisa assim. O braço dela arrancado! O braço...

Pare com isso, já falei! Porra, pare com isso! ESQUEÇA!

Certo, certo, tudo bem. Esqueça, por um segundo, que não deseja pensar a respeito. Aquela carne tostada, hein? E todo aquele sangue!

Pare, por favor, pare, gemeu ele.

Está bem, certo, sei que vou acabar maluco se ficar pensando nisso, mas acho que penso assim mesmo, porque, simplesmente, não consigo parar.

A mão dela, seu braço, estavam horríveis, piores do que em qualquer acidente de trânsito que já vi, mas e quanto aquelas outras coisas? As cabeças arrancadas? Os olhos, os pés? Poxa, deve ter sido uma baita explosão de fornalha, sim, senhor!

— Onde está nosso reforço? — perguntou Jingles, inquieto.

— Não sei.

Entretanto, quando visse os reforços, poderia praticamente tropeçar neles, não?

Tenho um quebra-cabeças para vocês, diria. Nunca irão solucioná-lo. Como é possível haver corpos espalhados por todo um lugar; após uma explosão, mas com somente um morto? E, por falar nisso, como é possível que o único dano produzido por uma explosão de fornalha fosse derrubar a torre da sede da municipalidade? E já que estamos no assunto, como é que o chefe do conselho municipal, aquele tal Berringer não foi capaz de identificar o corpo, quando até mesmo eu sabia de quem era? Desistiram, caras?

Ele havia coberto o braço com uma manta. Nada podia ser feito acerca de todas as demais partes do corpo e, afinal, supôs que isso não importava. Entretanto, cobrira o braço de Ruth.

Fizera isso na calçada da praça, em Haven Village. Fizera isso, enquanto o imbecil chefe dos bombeiros voluntários, Allison, ficava sorrindo, como se aquilo houvesse sido uma sopa de feijões, em vez de uma explosão que matara uma excelente mulher. Era tudo loucura. Loucura máxima.

Peter Gabbons tinha o apelido de Jingles, por causa de sua voz cascalhante de Andy Devine — Jingles era um personagem que Devine representara em um antigo seriado de faroeste na televisão. Quando Gabbons chegara da Georgia, Tug Ellender, o despachante, começara a chamá-lo assim, e o apelido pegara. Agora, falando em uma voz aguda e estrangulada, completamente diversa de sua costumeira voz de Jingles, Gabbons disse:

— Pare o carro, Bent! Estou passando mal!

Rhodes freou apressadamente, bem na borda de um plano inclinado, que quase fez o veículo entrar na vala à beira da estrada. Pelo menos, Gabbons tinha sido o primeiro a falar; já era alguma coisa.

Jingles deslizou do banco da viatura policial pela direita. Bent Rhodes fez o mesmo pela esquerda. À luz azulada do giroscópio da viatura da polícia estadual, os dois vomitaram tudo que tinham no estômago. Bent cambaleou de volta e recostou-se na lataria do carro, limpando a boca com uma das mãos e ouvindo os ruídos de vômito que continuavam brotando dentre o mato rasteiro, além da margem da estrada. Virou a cabeça para o céu, vagamente grato pela brisa.

— Já estou melhor — disse Jingles finalmente. — Obrigado, Bent.

Bent se virou para o parceiro. Os olhos de Jingles eram dois furos chocados e sombrios no rosto. Tinha a expressão do homem que está processando todos os seus dados, sem chegar a qualquer conclusão racional.

— O que foi que aconteceu lá? — perguntou Bent.

— Você ficou cego? A torre da sede da municipalidade voou como um foguete.

— Como é que uma explosão de fornalha podia arrancar a torre?

— Sei lá!

— Pois eu cuspo nisso. — Bent tentou cuspir. Não conseguiu. — Você acreditou? Uma explosão de fornalha em julho, que explode a torre da sede da municipalidade?

— Não. Esse negócio cheira mal.

— Certo, cara. E o fedor sobe aos céus. — Bent fez uma pausa. — O que você achou, Jingles? Sentiu alguma coisa esquisita por lá?

Jingles respondeu, cauteloso:

— Talvez. Talvez eu tenha sentido alguma coisa.

— O quê?

— Não sei — respondeu Jingles. Sua voz começou a esganiçar-se, a ganhar aquelas inflexões irregulares e trinadas de uma criança pequena à beira das lágrimas. Acima deles, brilhava uma galáxia de estrelas. Grilos cricrilavam, em flagrante silêncio de verão. — Só sei dizer que estou danado de satisfeito por ter saído de...

Então Jingles, sabendo que provavelmente estaria de volta a Haven no dia seguinte, a fim de dar assistência à sindicância e investigação, começou a chorar.

 

Após alguns momentos, eles continuaram rodando. Do céu desaparecera qualquer remanescente da luz do dia. Bent ficou satisfeito. De fato, não queria olhar para Jingles... e, de fato, não queria que Jingles olhasse para ele.

Por falar nisso, Bent, falou agora sua mente, foi um negócio francamente espantoso, não? Infernalmente espantoso. As cabeças soltas e as pernas com os sapatinhos ainda na maioria dos pezinhos... E aqueles torsos! Você reparou neles? O olho! Aquele único olho azul! Você viu? Só pode ter notado! Chutou-o para a sarjeta, quando se abaixou para recolher o braço de Ruth Mccausland. Todos aqueles braços, pernas, cabeças e torsos decepados, mas Ruth foi a única pessoa que morreu. Sem dúvida, um enigma para um campeonato de enigmas!

A visão das partes dos corpos havia sido horrível. Os dilacerados restos dos morcegos — uma quantidade incrível deles — também. No entanto, nada havia sido tão terrível como o braço de Ruth, tendo no terceiro dedo da mão direita o anel do marido, porque a mão e o braço dela tinham sido reais.

As cabeças, pernas e torsos decepados, a princípio tinham-lhe dado um tremendo choque — por um atordoado instante, perguntara a si mesmo, sendo ou não férias de verão, se alguma turma de alunos estivera excursionando pela sede da municipalidade, quando a mesma explodira. Então, sua mente aturdida percebeu que nem mesmo criancinhas do jardim da infância teriam membros tão pequeninos e que criança alguma possuía braços e pernas que não sangravam, quando arrancados de seus corpos.

Ao olhar em torno, vira Jingles segurando uma pequena e enfumaçada cabeça em uma das mãos e, na outra, uma perna parcialmente derretida.

— Bonecas — Jingles havia dito. — Fodidas bonecas. De onde vieram todas estas malditas bonecas, Bent?

Ele ia responder, dizer que não sabia (embora mesmo então alguma coisa sobre aquelas bonecas lhe tivesse surgido na mente; acabaria lembrando de tudo, com o tempo), quando percebeu que ainda havia pessoas comendo, no Haven Lunch. Pessoas continuavam fazendo compras no supermercado. Um gélido frio lhe tocara o coração, como um dedo feito de gelo. Aquela havia sido uma mulher que a maioria deles tinha conhecido a vida inteira — conhecido, respeitado e, em muitos casos, amado — mas todos continuavam cuidando da própria vida.

Cuidando da própria vida, como se nada houvesse acontecido.

Fora nesse momento que Bent Rhodes começara a desejar — a seriamente desejar — estar fora de Haven.

Agora, baixando o volume do rádio, que continuava emitindo apenas estática sem sentido, Bent recordou o que lhe tinha espicaçado a mente mais cedo.

— Ela, a Sra. McCausland, tinha bonecas.

Ruth, pensou Bent. Eu gostaria de tê-la conhecido o suficiente, para chamá-la de Ruth, como Monstro. Aliás, como ele a chamava. Todos gostavam dela, que eu saiba. Dai por que me pareceu tão esquisito ver todos eles ocupados em cuidar da própria vida...

— Acho que já ouvi falar nisso — disse Jingles. — Era um hobby dela, não? Penso que ouvi falarem no Haven Lunch. Ou talvez no Cooders, quando bati um papo com os moradores mais antigos.

O mais provável é que tenha sido uma cerveja com os moradores mais antigos, pensou Rhodes, porém apenas assentiu.

— Sim, era um hobby dela. Aquelas eram as suas bonecas, naturalmente. Na primavera passada, eu conversava certo dia sobre a Sra. McCausland com o Monstro, e...

— Monstro? — interrompeu Jingles. — Monstro conhecia a Sra. McCausland?

— Acho que bastante bem. Antes do marido dela morrer, Monstro e ele eram parceiros. Bem, afinal, ele me disse que ela tinha umas cem, talvez duzentas bonecas. Eram apenas um hobby da Sra. McCausland e já tinham sido exibidas em Augusta, uma vez. Segundo Monstro, ela ficara tão orgulhosa daquela exibição, como de qualquer das coisas que já fizera pela cidade — e parece que foram muitas, em benefício de Haven.

Eu gostaria de ter podido chamá-la de Ruth, tornou a pensar.

— Monstro disse que, com exceção das bonecas, ela trabalhava o tempo todo. — Bent considerou isto, depois acrescentou: — Da maneira como ele falava, fiquei com a impressão de que... hum, era caído por ela. — Isto soava tão malditamente ultrapassado como um faroeste de Roy Rogers, porém assim é que Butch Monstro Douglas sempre se mostrara sobre Ruth McCausland. — O mais provável é que não seja você o cara que irá dar a notícia a ele, mas se for, ouça um conselho: não banque o engra&cce