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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS FANTOCHES DE MADAME DIABO VOLUME III-2 / X.M.
OS FANTOCHES DE MADAME DIABO VOLUME III-2 / X.M.

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS FANTOCHES DE MADAME DIABO

VOLUME III

Segunda Parte

 

RASGÕES NO VÉU DO CRIME

No dia seguinte Mariana Gilberto voltou à Rua do Bac, a casa da dama a quem andava tratando.

Soube ali que o médico autorizara a doente, como ia melhor, a ir para o campo.

Por isso pagaram à antiga ama de Helena, e notificaram-lhe que não voltasse no dia seguinte.

Ora naquele dia era o enterro da Duquesa, cuja morte Mariana não podia suspeitar, por ter estado ausente do bairro na véspera até as onze e meia.

A velha criada passou toda a manhã em sua casa, a tratar da roupa de que não fazia uso havia algum tempo em conseqüência das suas ocupações quotidianas

Por volta das duas horas sentindo a cabeça pesada, saiu para tomar ar, e abastecer-se das suas modestas provisões.

Quando entrava num padeiro próximo da praça Beauveau, uma operária ainda nova conversava com o dono da casa ao pé do balcão.

— Viu o enterro, senhor Gaudin? perguntava.

— Isso é que não, menina Liza.

— Pois olhe que perdeu.

— Então era bonito o enterro?

— O que se pode imaginar de melhor.

— Como assim?

— Olhe, eu lho conto.

— Vamos lá a ouvir.

— Seis cavalos com xaireis e plumas como no Hipódromo! Penachos por todos os lados, e um coche de enterro que parecia de praia maciça.

— Safa!

— Aquilo devia custar bem bom dinheiro!

— Também não admira! replicou o padeiro. Aqueles Chaslin são ricos...

 

Mariana que até ali escutara de um modo distraído, estremeceu.

— De que Chaslin fala o senhor? perguntou com angústia.

— Falo do Chaslin que tem aquele grande palácio no arrabalde Saint-Honoré, não muito longe daqui.

— Pois morreu alguém no palácio Chaslin?

— Sim, minha querida senhora.

— Então quem foi?

— A Duquesa: pessoa muito caritativa, segundo parece. Vão levá-la para o cemitério.

— A senhora Duquesa morreu! exclamou Mariana com desvario. Ah! meu Deus, meu Deus, que desgraça!

A antiga ama de Helena correu para fora da loja, partiu com rapidez, e parou ofegante à porta do palácio onde puxou a campainha com todas as forças.

O guarda-portão veio abrir.

— Mariana! Mariana, em Paris! murmurou com grande assombro.

Julgava que Mariana, como as outras criadas, tinha ido para a província.

— Mentiram, não é verdade? balbuciou a boa da mulher. A senhora Duquesa está viva, não é assim? responda, responda!

— Ai, minha pobre Mariana, disse o guarda-portão baixando a cabeça, a notícia fatal é verdade, e bem verdade... a senhora Duquesa morreu... terrível desgraça para o senhor Rogério, para o senhor Duque, e para a menina Helena, que choram a bom chorar.

Mariana estremeceu.

No mesmo instante perguntou impetuosamente.

— O senhor Rogério, a menina Helena?

— O senhor Rogério veio esta manhã, a menina Helena veio há uma hora...

— A menina Helena acompanhou o enterro?

— Não, a pobre menina chegou muito tarde...

— Onde está ela?

— No quarto da senhora Duquesa, onde está a orar, enquanto a família não volta.

— Ah! exclamou a velha criada meio sufocada pelos soluços... Helena está no palácio! Helena! minha filha! Quero vê-la!

E atravessando o pátio, galgando os degraus, chegou ao quarto da morta repetindo:

— Helena! Helena!

A jovem, sempre ajoelhada, ouviu e reconheceu aquela voz que lhe era querida.

Levantou-se e estendeu os braços para a recém-chegada, balbuciando através das lágrimas:

— Ah! Ama, minha mãe morreu... Não a tornei a ver.

— Querida filha... querida Helena!... replicou Mariana cobrindo de beijos as faces úmidas de Helena. Morta! a minha querida senhora! e eu sem saber nada! E não fui eu quem lhe prestou os últimos deveres! E levaram-na para o cemitério sem mim! Compreende? Sem mim!

A menina de Chaslin olhou para a sua interlocutora com um espanto misturado de susto.

— Não sabia nada! disse. Tu que não deixavas minha mãe!!

— Ai de mim! já cá não estava!

— Pois tu não estavas ao pé de minha mãe doente, agonizante?

— Não.

— Abandonaste-a?

— Expulsaram-me daqui.

— Expulsaram-te! repetiu a jovem. Tu, a minha ama! Tu, a guia dos meus primeiros passos! Tu, a personificação do dever, pois expulsaram-te!

— Sim, expulsaram-me como uma miserável... como uma criatura indigna e perigosa!

— De que te acusavam?

— De perceber muito bem os manejos da menina de Lasseny.

— Da menina de Lasseny!... A menina de Lasseny não é a dama de companhia de quem as cartas de minha mãe falavam com tantos elogios?

— Sim, um demônio que eu adivinhava, e de quem a senhora Duquesa, com a sua bondade de anjo, era vítima. Disse em voz muito alta o que pensava... fecharam-me a boca e expulsaram-me!

Helena estremeceu de horror e exclamou:

— Que se passava então aqui? A minha pobre mãe estava então em perigo havia muito tempo?

— Não, cem vezes não! A doença do coração seguia a sua marcha lenta. Nada fazia pressagiar um fim próximo...

— Quem tratava de minha mãe?

— Sempre o mesmo médico... o doutor Frébault... Afirmava que a senhora Duquesa tinha ainda anos a viver...

— E a menina de Lasseny? estava sempre ao pé dela?

— Sempre... Era ela quem lhe fazia tomar os seus grânulos e as suas poções. Aquele monstro de hipocrisia demonstrava uma grande dedicação.

— Um monstro de hipocrisia! repetiu a menina de Chaslin.

— Por Deus e pela salvação eterna o juro!

— Que sabes então a respeito dessa rapariga?

 

Mariana perturbou-se ao pensar que era preciso atacar o Duque perante Helena, o pai perante a filha...

— O que sei... balbuciou. Não sei nada...

— Se não soubesse alguma coisa, não falarias assim. Terias o cuidado de não acusar sem motivos.

— Helena... Helena... por piedade não me interrogue!... Não me peça que lhe responda... Tenho medo..., bem vê que tenho medo...

— Mariana, as tuas palavras assustam-me, e o teu silêncio assusta-me ainda mais!... Acode-me ao espírito uma dúvida horrível... Cometeu-se algum crime nesta casa?

A velha criada tornou-se lívida.

— Um crime, um crime! repetiu ela alucinada. Valha-me Deus, que acabas de me dizer?

— Que idéia! Abre-me os olhos. Quando foi que a Duquesa morreu?.

— Na noite de anteontem, subitamente...

— O telegrama que me chamava foi expedido ontem pela manhã.

— Na noite de anteontem, tornou Mariana, falando em voz alta sem saber, como os sonâmbulos, num sonho magnético.

— Na noite em que as janelas da Duquesa estavam iluminadas, as do senhor Duque, e as da tal Adriana... Na noite em que eu estava de observação na Avenida Gabriel, e vi entrar pela portinha do jardim um homem que tornava a sair no fim de um quarto de hora e tomava a fuga.

A antiga ama calou-se.

Helena agarrou-lhe nas mãos.

— Ah! disse ela, faz-me tremer! Fala, explica-te, continua até ao fim! Disseste que tinha entrado um homem no jardim do palácio!

— Sim, e tenho a certeza de não me ter enganado.

— Sabes quem era esse homem?

— Não, o nevoeiro não mo deixou reconhecer, julguei a princípio que era o senhor Duque.

— Meu pai!

— Mas bem vejo agora que não me iludia, porque um pouco mais tarde...

Mariana tornou a calar-se.

— Acaba, acaba, disse Helena suplicante, um pouco mais tarde o quê?

— Não. não me pergunte nada. Não sei, enlouqueço. Mas tinha adivinhado tudo, previsto tudo. A desgraça entrava nesta casa ao mesmo tempo que Adriana de Lasseny. Oh! minha Helena, minha querida filha! oh! minha pobre senhora!

Neste momento várias carruagens pararam à porta do palácio, e ouviu-se tocar a campanhia.

Mariana não pôde conter um movimento de susto, ei-los, são eles, disse ela com uma espécie de delírio, oculto-me. Helena, porque assim é preciso, o Duque está a chegar, e não quero que ele me veja. Não o quero ver.

Não, mais vale fugir que ocultar-me. Parto, sairei sem ser vista pela porta do jardim... Minha filha, minha querida filha, quando tiver necessidade de mim, far-me-á prevenir, Rua de Miromenil, 92, não tornarei a sair da minha água-furtada. Estarei sempre na expectativa.

— Minha ama, não me deixes ainda, conclui o que começaste, esclarece-me completamente.

E a menina de Chaslin esforçava-se por deter Mariana, porém Mariana retorquiu soltando-se dos braços de Helena:

— É preciso partir. Se me visse em presença desta miserável, matá-la-ia. Na Rua Miromenil n.° 92. Lembre-se.

Fugiu, atravessou o gabinete de toilette e o quarto da falsa Adriana, tomou pelo corredor de serviço pela escada particular, e alcançou as ruas mais assombreadas do jardim.

 

— Meu Deus, meu Deus! pensara Helena que ficara só. Parece-me que tenho um mau sonho. Que quis ela dizer? Que devo eu recear? Essa Adriana a quem minha mãe amava, saiu um monstro, um demônio. O túmulo que se acabou de fechar oculta por acaso um crime? Preciso de o saber!

Na escada ouviu-se um rumor de passos.

O Duque, seu filho Rogério e Armando de Logeryl, transpuseram o limiar da câmara mortuária.

Helena caiu desfalecida nos braços do pai.

À recrudescência de dor, de lágrimas, de soluços, causados por aquela dilacerante entrevista, sucedeu, como era inevitável, um momento de tranqüilidade.

A recordação da conversa que tivera com Mariana voltou à memória da jovem, que acometida de um calafrio, olhou para o pai cujos olhos se fixavam com indizível expressão de angústia no leito onde Joana estivera morta.

Uma piedade terna e profunda apoderou-se de Helena à vista daquele ancião prostrado pela dor, com o rosto cavado, as órbitas encovadas, as pupilas embaciadas.

Henrique de Chaslin padecia horrivelmente.

Não podia haver dúvida a tal respeito.

A jovem afugentou do espírito as vagas suspeitas invocadas pelas reticências da ama.

Aproximou-se do Duque sentado numa poltrona, junto da qual se conservavam em pé, silenciosos e sombrios. Rogério e o senhor de Logeryl.

— Meu pai, disse ela com uma voz lenta e meiga, a desgraça que nos fere, é daquelas cuja recordação nunca se apagará... Nós perdemos a nossa mãe muito amada, mas resta-nos o pai... O pai perdeu a querida e santa companheira da sua vida, mas restam-lhe os filhos... os seus três filhos, porque Armando também é seu filho. Pai, deixe correr as lágrimas, mas apegue-se à existência para nos amar como outrora... para nos amar por muito tempo ainda...

O Senhor de Chaslin escutava enternecido as palavras da filha.

Tinha as faces inundadas de lágrimas, mas parecia-lhe que aquelas lágrimas tinham menos amargura.

Com as mãos trêmulas puxou para si a cabeça de Helena, e beijou-a nos lábios, na fronte, nas faces, nos cabelos.

— Querida... querida filha, balbuciou ele.

A menina de Chaslin. tomando uma atitude erecta, chamou de lado o senhor de Logeryl, e em voz muito baixa formulou esta pergunta que já fizera a Mariana:

— Então a minha pobre mãe estava em grande perigo havia muito tempo?

— Não, querida Helena, respondeu o substituto, a hipertrofia do coração não chegava ao seu último período, e nada pressagiava uma morte fulminante...

Esta resposta, idêntica no fundo, senão na forma, à da ama. impressionou a jovem, que continuou, mas de uma voz mais alta, olhando para o pai:

— E ela morreu de repente?

O Duque, levantando a pesada fronte, respondeu:

— De repente, sim. Foi uma mulher que entrando aqui ontem de manhã, soltou o primeiro grito de alarma.

— E na véspera, a minha mãe já não estava incomodada?

— Não... Parecia ir até um pouco melhor... Conversou até às dez e meia da noite com a menina de Lasseny, a quem muito amava.

Ao ouvir o nome da dama de companhia, Helena recebeu cm cheio no coração uma espécie de choque.

Fez-se pálida, e as suas sobrancelhas contraiam-se repentinamente.

Como ninguém olhava para ela aqueles sintomas de revolta passaram despercebidos.

 

SUSPEITAS

Passado um momento. Helena tornou:

— A menina de Lasseny de quem me falava minha mãe numa das suas cartas...

— Um anjo de dedicação, interrompeu Rogério.

— uma encantadora jovem que não deixava a Duquesa, apoiou o senhor de Logeryl. Há de amá-la, Helena.

— E na noite fatal ela velava junto de minha mãe? perguntou a menina de Chaslin.

O substituto respondeu-lhe:

— Até às dez horas e meia, e às instâncias da Duquesa a menina Adriana retirara-se para o quarto, antes ocupado, por Mariana Gilberto.

— Visto isso, tornou Helena com uma expressão dilacerante, a minha velha ama também não estava presente?

— Mariana havia quinze dias que deixara o palácio.

— Como! tornou Rogério estupefato, Mariana deixara o palácio?

Helena como não queria ainda confessar a entrevista que acabava de ter com a fiel criada, fingiu ignorar tudo, e perguntou:

— Por que se retirou? Julgava que Mariana nunca abandonaria esta casa, que se passou?

Era embaraçosa a pergunta formulada pela jovem.

O senhor de Logeryl deitou um olhar ao Duque de Chaslin.

O Duque respondeu, mas não sem se mostrar contrafeito:

— Se Mariana se retirou, foi porque o seu caráter cioso e violento se tornava insuportável. Tinha tomado ódio à menina de Lasseny, e não perdia nenhuma ocasião de a ofender.

— Que me está a dizer, meu pai?

— A verdade.

— A verdade! repetiu a menina de Chaslin com amargura. Então aquela que me sustentou com o seu leite, que me criou, que foi uma segunda mãe para mim, o senhor baniu-a sem piedade, porque ela se dava mal com uma estrangeira! Era muito duro, era muito cruel! Mariana Gilberto expulsa para deixar o lugar livre à menina de Lasseny, é uma coisa que profundamente me ofende, confesso.

— Helena, Helena, exclamou Rogério, não acuses a menina Adriana!

O Duque levantara-se.

— Minha filha, disse ele num tom quase severo, fique certa de que eu e a Duquesa julgamos proceder bem. A pessoa de quem fala merecia o respeito de toda a gente. O nosso dever era fazê-la respeitar.

— Não a conheço, interrompeu Helena.

O ancião interrompeu logo:

— Mas há de conhecê-la, e avaliá-la melhor.

— Talvez! exclamou a jovem com uma voz tão baixa, que não se ouviu esta palavra.

Depois acrescentou:

— E meu pai a que horas saiu desse quarto?

— Um pouco depois das dez... respondeu o senhor de Chaslin, que não suspeitava o terrível pensamento de Helena.

— Como estava minha mãe?

— Parecia melhor, repito. Não tinha sono e queria concluir uma carta principiada. Abracei-a, segundo o costume, e saí. Quem me havia de dizer que não a tornaria a ver? Quem se havia de lembrar de que aquele beijo seria o último!

 

Esta recordação comoveu o Duque profundamente. Rompeu em soluços.

Helena sentiu-se impressionada com as suas lágrimas evidentemente sinceras.

Novamente impôs silêncio ás suas suspeitas, e tornou:

— Depois de deixar minha mãe, quando chegou ao seu quarto, não ouviu nada? algum grito ou ruído?

O senhor de Chaslin fitou em Helena um olhar espantado, inquieto, e repetiu:

— Um ruído! Um grito?

— Sim, no aposento onde minha mãe soltava o último suspiro.

— Não podia ouvir nada; não me achava no palácio.

A jovem lembrou-se das palavras de Mariana, e com uma voz trêmula perguntou:

— Onde é então que estava meu pai?

— Senti-me incomodado, prostrado. Saí para tomar o fresco

— E saiu pela porta principal?

— Pelo jardim...

— E recolheu-se muito tarde?.

— Pela uma hora, parece-me.

— E o que fez então?

— Fui descansar.

— Sem tornar a abraçar minha mãe?

— Julgando-a adormecida, seria correr o risco de a despertar.

— O que disse o médico habitual da casa quando soube da catástrofe terrível, inesperada?

— Ai, minha querida Helena, as desgraças nunca vêem sós! Na mesma noite em que a Duquesa morreu, morria também o nosso amigo Frébault.

Helena teve um sobressalto. Fez-se lívida.

— O que está dizendo? E de que morte?

— De morte acidental... em seguida a um grande jantar em casa do Príncipe de Castel-Vivant.

— Extraordinária coisa! Mas os outros médicos? Suponho que os deviam ter chamado, e se deve saber qual a sua opinião?

— O médico enviado pela mairie, declarou que a ruptura de um aneurisma lhe parecia a causa única da morte.

Após alguns instantes de silêncio. Helena, cuja respiração sibilante incomodava, e cujo rosto se decompunha cada vez mais, continuou:

— Meu pai não supôs que nessa noite alguém pudesse aproveitar-se da sua ausência para se introduzir no palácio?

O Duque olhou para a filha com um ar espantado, e balbuciou:

— Introduzir-se no palácio durante a minha ausência?

— Sim, chegar até à cama de minha mãe sem ser visto.

— Meu Deus! Mas o que pensas tu? perguntou o ancião pegando nas mãos de Helena.

— O que julgas, minha irmã? acrescentou Rogério.

— Penso, creio, respondeu a noiva de Armando de Logeryl, que há na desgraça que nos fere certas coisas inexplicáveis, e que essas coisas me assustam.

— Helena, explique-se! disse então o substituto em quem se despertava o instinto do magistrado.

— Pois muito tem, corro no risco de passar por louca a seus olhos, mas afirmo que esta catástrofe que nos fulminou a todos nós, sobreveio muito antes da hora devida... Afirmo que a morte de minha mãe resulta não de uma causa natural, mas de um crime...

— Um crime!... repetiram ao mesmo tempo os três.

— Sim. um crime! o mais covarde de todos os crimes!

— Mas isso é impossível! tornou Rogério tremendo. Quem se lembraria do pensamento monstruoso de atentar contra a vida da melhor, da mais santa das mulheres?

O senhor de Chaslin, cuja prostração, muito antes, lhe parecia absoluta, recuperou as forças para intervir e suspender as palavras nos lábios da filha.

— Nem mais uma palavra. Helena! ordenou ele num tom imperioso e ameaçador. Delira, e o pesar perturba-lhe a razão... O que! pois o crime havia de transpor o limiar dessa morada, e eu, <> dono da casa, não saberia defender contra o atentado a nossa morta bem amada! Sou eu então cego ou cúmplice? Entre estas duas hipóteses, escolha! O teu cérebro doente engendra fantasmas! Cale-se. Em nome de sua mãe ordeno-lhe! Não quero ouvir nada! replicou o Duque.

E com o rosto contraído, o olhar cintilante de cólera, deixou o aposento fúnebre.

 

Armando e Rogério apertaram a mão silenciosamente. Os seus olhares concentravam-se em Helena com uma expressão aterrada e compadecida.

A jovem baixava a cabeça, e parecia prostrada.

— Minha irmã... minha irmã... disse Rogério. Tenho medo de te compreender.

— Quer dizer que me compreendes...

— Sob as tuas palavras misteriosas entrevejo uma terrível suspeita.

— E tens razão.

— Querida Helena, acrescentou o senhor de Logeryl, tome cuidado!

— Com quê?

— O Duque dizia há pouco: O seu cérebro engendra fantasmas. Creio firmemente que ele tinha razão.

— Ah! exclamou a jovem muito agitada, julga isso!.Ah! aceita a morte de minha mãe. essa morte súbita, incompreensível, que nada fazia pressentir, e não teve uma suspeita!! Como, pois na noite de anteontem minha mãe vivia, minha mãe velava, sossegada e risonha, e horas depois já não existia. Pois havia uma mulher encarregada de cuidar dela. e essa mulher só despertava pela manhã, ao grito de alarme da criada! E o doutor Frébault, o médico hábil, o velho amigo, morria na mesma noite que nossa mãe, ferido por mão desconhecida! E não acham assustadoras estas coincidências! Não vêem em tudo isto nada de suspeito? Não desconfiam de coisa alguma? Se ouvissem como eu Mariana Gilberto, estariam ambos menos surdos e menos cegos...

— Mariana Gilberto! repetiram ao mesmo tempo Armando e Rogério.

— Sim. Mariana! que expulsa daqui, viu na noite em que minha mãe morria, introduzir-se um homem no jardim, pela porta que deita para os Campos-Elysios... Naquele homem julgou a princípio reconhecer o Duque de Chaslin. mas enganava-se.

— Que dizes?

— Aquele desconhecido misterioso não era, não podia ser-meu pai...

— Que me está a dizer? exclamou Armando estupefato.

— A verdade, juro-lhe! Mariana afirma-me que viu, e eu creio-a, porque a sua afeição pela nossa família é uma prova da sua absoluta sinceridade! A menina de Lasseny, a quem chamam o anjo da dedicação, com uma agitação febril, estava ou devia estar no quarto próximo. Uma criatura que morre solta um grilo... brada por socorro... o anjo da dedicação não ouvira nada! o tal anjo tinha então abandonado o seu posto no momento do perigo?

— Oh! minha irmã... minha irmã... exclamou Rogério. A jovem continuou:

— Não atrairia, a menina de Lasseny, o Duque para fora do palácio, a fim de aí deixar penetrar um cúmplice? Tenho o direito de o supor...

— Helena, disse Armando por seu turno, suplico-lhe, cale-se.

— Que me cale quando tudo me grita, quando tudo me prova que assassinaram covardemente minha mãe! Ah! compreendo agora muito bem as reticências de Mariana.

— O que?

— O seu instinto revelava-lhe a infame comédia que uma aventureira sem pudor representava junto do ancião...

— Está ofendendo seu pai, murmurou o substituto.

— E insultas gratuitamente uma jovem a quem nossa mãe deveu as suas últimas alegrias, e consagrava os seus últimos pensamentos... exclamou Rogério com fogo. Lê esta carta, Helena... esta carta que minha mãe escrevia quase no momento em que a feriram de morte, e acusa em seguida, se te atreves, a menina de Lasseny.

 

Helena pegou com mão trêmula na carta que o irmão lhe dava e devorou-a com os olhos.

Enquanto ela lia, a sua fisionomia expressiva manifestava ao mesmo tempo o terror e a revolta.

Quando concluiu, exclamou:

— Adriana de Lasseny tua esposa! Adriana de Lasseny minha irmã! Oh! nunca! nunca!

— Pois não compreendeste que devo obedecer ao desejo supremo da nossa amada mãe? Entre as palavras de Mariana louca de ciúme, e as da querida morta, por quem choramos, hesitarias tu? Hesitar seria um crime, sabes, Helena?

— Não sei senão uma coisa: a idéia de chamar a esta mulher minha irmã, faz-me calafrios, transtorna todo o meu ser, causa-me em suma uma invencível repulsão! O instinto que me adverte não poderia enganar-me...

— Engana-a o instinto, querida Helena, disse o senhor de Logeryl pegando nas mãos da noiva, terá disso a prova quando conhecer Adriana de Lasseny, e as suas suspeitas desvanecer-se-ão sob o seu primeiro olhar, como a neve se funde aos raios do sol.

— Minha mãe amava-a do fundo dalma, tornou Rogério; e ela pagava na mesma moeda o amor de minha mãe. Más de também amá-la.

Dominada por uma perturbação mais fácil de compreender, que de descrever. Helena perguntava a si própria:

— Que devo acreditar? Minha mãe estaria cega? Andaria Mariana iludida? Onde procurar a explicação deste enigma sombrio?...

E acrescentou em voz muito alta:

— Apresente-me a menina de Lasseny...

 

O ANJO BOM E O ANJO MAU

No momento em que a menina de Chaslin proferia as palavras que acabamos de produzir, a porta do gabinete contíguo ao quarto mortuário abriu-se.

Branca apareceu.

Trazia o rosto lívido, as feições cavadas, as pálpebras rubras.

Helena cravou nela um olhar fixo e desconfiado.

— Minha irmã, disse Rogério, dirigindo-se ao encontro da jovem, eis a menina de Lasseny...

Branca aproximou-se de Helena, que olhava para ela dizendo baixinho:

— Esta palidez... esta atitude modesta! Iludir-se-á Mariana?

A falsa Adriana inclinou-se, murmurando com voz fraca:

— Acabo de saber, minha senhora, da sua chegada, e tenho pressa de saudar na senhora a filha da minha querida protetora. Para poder tornar a vê-la viva seria capaz de dar a vida... Deus bem o sabe, e de todo o meu coração.

Estas últimas palavras foram proferidas de um modo quase indistinto, e terminaram por um soluço.

— Afirmam-me que a senhora mostrava grande dedicação por minha mãe, replicou a irmã de Rogério num tom glacial, quero crê-lo e agradeço-lhe. Sinto que não pudesse, amando tanto minha mãe, receber o seu último suspiro, na falta de meu pai ausente.

— É mais uma dor acrescentada ao meu desespero, murmurou Branca limpando as lágrimas: mas, ao menos, se o meu coração se despedaça, a minha consciência nada me exproba... Quando deixei este quarto à hora habitual, obedeci às ordens da senhora Duquesa. Demais, eu estava perfeitamente sossegada, porque o doutor Antonino Frébault viera naquela tarde, e nada fazia recear uma catástrofe fulminante...

— Fulminante e inexplicável, não é verdade? volveu Helena.

— A isso não posso responder... Infelizmente a ciência tudo explica... médico, chamado muito tarde, não pareceu surpreendido com aquela morte que nos cobre de luto. Apesar de estranha na sua família, perdi com a morte da senhora de Chaslin.

Helena observava-a com profunda atenção.

Branca continuou:

— Achei nela uma segunda mãe... Ela restituíra-me a fé e a esperança no futuro. Dignava-se chamar-me filha... Se soubesse como eu a amara!... A ternura que ela me testemunhou, ficará sendo a mais cara recordação da minha vida... O meu reconhecimento por ela e pelos seus nunca terá fim.

— Oh! minha irmã, disse Rogério em voz muito baixa ao ouvido de Helena, pode duvidar ainda...

Branca continuou:

— A morte da minha protetora bem amada, e o seu regresso à casa de que vai ser a senhora, mudam completamente a minha situação.

— Que diz?

— O caminho que devo seguir já está traçado. Abandono já, hoje, este palácio, onde a minha presença deixa de ser útil, e seria indiscreta.

— Deixar o palácio! exclamou Rogério. Por quê?

— Porque o devo fazer, e com certeza que o senhor seu pai, a menina Helena e o senhor de Logeryl me hão de aprovar. Não quero por forma alguma perturbar neste momento a solidão e a dor do senhor Duque, e peço que lhe participe a resolução em que estou. Mais tarde, quando o sossego e a resignação tiverem sucedido à amargura dos primeiros momentos, terei a honra de informar à menina Helena do lugar para onde vou, e espero que algumas vezes se dignará pensar na órfã que há de chorar incessantemente lembrando-se daqueles a quem ela amava, e que não tornará a ver...

Branca ocultou o rosto nas mãos soluçando.

— A sua resolução é irrevogável? perguntou a menina de Chaslin que não partilhava a ternura visível do irmão e do noivo.

— Irrevogável, sim...

— Não procurarei combatê-la, e demais aprovo-a...Assim que tiver escolhido a sua nova residência, faça-ma saber.

— Prometi e cumprirei a minha palavra.

— Temos que lhe pagar, menina, dívidas de mais de urna qualidade, e dívidas de dinheiro.

Branca retorquiu com altivez:

— Essas não existem! e quanto às primeiras, pagando com uma ternura filial uma afeição maternal. não fazia mais que o meu dever. Adeus, minha senhora, levo a esperança de que um dia me fará justiça. Senhor Rogério, os meus cumprimentos... Senhor de Logeryl, adeus...

Branca foi ajoelhar-se diante da cama onde Joana jazera, e pareceu durante alguns segundos orar com fervor.

Levantando-se, inclinou-se profundamente, mas sem humildade, primeiramente diante de Helena, depois diante dos dois mancebos e saiu.

Rogério seguiu-a.

 

Quando se achou fora do quarto, disse-lhe com voz suplicante:

— Não esqueça, menina, as últimas palavras de minha mãe... Lembre-se do seu voto supremo. Ela chamava-lhe filha.

— Nada me esqueci, senhor, volveu Branca em voz muito baixa; mas devo lembrar-me que se deixo aqui amigos, deixo também uma inimiga...

— Uma inimiga! Então quem?

— A menina Helena...

— Minha irmã não poderia odiá-la.

— Não queira iludir-me... Estava há pouco no meu quarto... a menina de Chaslin falava muito alto, e eu ouvi sem querer. Ah! senhor Rogério que odiosa acusação! Suspeitar assim de mim é horrível!

— Seja indulgente com Helena, a quem o desespero alucina.

— Perdôo-lhe! mas posso por ventura esquecer? O senhor defendeu-me, e do fundo do coração lhe agradeço... Retirando-me levo comigo a sua estima e o meu reconhecimento eterno, pelos benefícios de sua mãe... Adeus, senhor Rogério, adeus...

Rogério não se atreveu a prolongar uma entrevista que de um momento para o outro Helena podia interromper.

Apertou nas mãos, e chegou respeitosamente aos lábios, as mãos de Branca que lhe lançou um olhar indefinível.

Em seguida afastou-se, cismador, fascinado, esquecendo quase a mãe para só pensar na falsa Adriana.

Armando de Logeryl, assim que Branca deixou o aposento mortuário, disse para a noiva com vivacidade:

— O que! pois deixa aquela jovem retirar-se assim! Nem ao menos a beijou!! É ser má e cruel. Duvida da sua dor e supõe que ela representa a comédia das lágrimas?

— Sim, suponho hipócrita a sua dor, e mentirosas as suas lágrimas, replicou a menina de Chaslin com uma voz abafada.

— Que dizes! exclamou Rogério.

— Quis há pouco reagir contra as minhas suspeitas, e tentei-o debalde. Adriana de Lasseny é uma criatura fatal... Vi os seus olhos vacilarem sob o meu olhar. Metia-lhe medo! Adverte-me o instinto de que nesta casa se realiza um atentado tenebroso... A mulher infame a quem defende, matou minha mãe! Dia virá, dia que não está longe, talvez, em que não se duvidará do que digo.

Exausta pela comoção, a jovem deixou-se cair muna cadeira e baixou a cabeça.

— Helena, querida Helena... Tornou Armando de Logeryl, peço-lhe que sossegue! A sua imaginação perturbada pelo desgosto exalta-se. Está alimentando suscitas que a lógica e o bom senso repelem! Considere, Helena, que a acusação se chama calúnia quando não tem base, e não se apoia em prova alguma!

— Provas! fala-me em provas! repetiu a noiva de Armando... tê-las-ei.

— Aonde as vai buscar?

— Mariana mas dará... Daqui a pouco tornarei a travar com ela a conversa interrompida por meu pai. Obterei que ela se explique sem hesitação, sem reticência, e quando souber tudo, veremos se ainda defende contra mim essa aventureira.

— Aflige-me, Helena... replicou o substituto, aflige-me profundamente! Bem sabe que é a pessoa a quem mais amo no mundo; mas a justiça deve estar acima da afeição ainda a mais legítima e a mais santa! Correndo o risco de a fazer zangar, o que para mim seria um grande desgosto, defenderei a menina de Lasseny enquanto estiver convencido da sua inocência...

— E quando deixar de estar convencido?

— Quando deixar de estar convencido, quando me for demonstrado que se cometeu um crime, e que Adriana era cúmplice desse crime, não terei como a senhora senão um pensamento, um desejo: vingar sua extremosa mãe!

Enquanto escutava o senhor de Logeryl, Helena olhava para o tapete sem ter disso consciência.

De repente um glóbulo de cor pardacenta. pouco maior que um grão de milho, atraiu a sua atenção.

Baixou-se para apanhar aquele objeto minúsculo, pegou-lhe com as pontas dos dedos e colocou-o na palma da mão.

O substituto, dando-lhe que cismar aquele movimento, inclinou -se para ela.

— O que é isto, sabe? perguntou-lhe a jovem.

Armando pegou por seu turno no glóbulo, examinou-o, e respondeu:

— É um dos grânulos de digitalina que o nosso pobre amigo o doutor Antonino Frébault, receitava para uso cotidiano...

— Como está esse glóbulo ai?

— Caiu de certo do tubo de vidro que o continha.

— Poder-se-á encontrar esse tubo?

— De certo.

O senhor de Logeryl aproximou-se do pequeno móvel colocado detrás do leito.

Estava ali um frasco.

O substituto pegou nele e deu-o a Helena.

Helena desrolhou-o logo, deitou alguns grânulos no côncavo da mão.

— Pedia a prova do crime! exclamou. Talvez possa dar-lhe imediatamente.

— A prova?

— Sim... Estes grânulos não têm exatamente a mesma cor, nem absolutamente o mesmo volume desse que o senhor tem na mão. Com certeza que não saem do mesmo tubo! Ora veja...

— É verdade, murmurou o substituto, mas não seja precipitada nas conclusões.

— Não concluo, procuro... e Deus há de permitir que eu descubra. Armando, em nome do amor que me tem, em nome da afeição que votava à minha pobre mãe, saiba o que esse granulo contém.

— Sabê-lo-ei, mas serei prudente... Se Deus a inspira, se as suas suspeitas se confirmam, justiça será feita, juro-lhe...

— Conte comigo... volveu a menina de Chaslin... Calar-me-ei, e a paciência não me faltará!

Armando embrulhou em um papel o grânulo encontrado por Helena, meteu-o num compartimento do seu "porte-monaie", e guardou na algibeira do colete o tubo ainda com metade dos grânulos.

 

Na noite precedente. Branca abandonando por alguns momentos a sua vigília sacrílega junto do leito da sua vítima, descera ao jardim, e dentre o musgo do vaso de Delft tirara o seguinte bilhete trazido por Pedro Rédon:

"Quando chegar o momento de retirar, mandar por um moço de recados pedir no escritório da rua da Vitória, em nome da menina Adriana, as chaves de um palacete mobiliado, alugado desde ontem no "boulevard Flandrin, n.°... Escrever logo, avisando, para o Chalet da rua Compons, para o nome de Margarida."

No momento de deixar a casa da rua do arrabalde Saint-Honoré, a filha de Clara Gaillet sabia para onde ia, apesar de na presença de Rogério, de Helena, e de Armando de Logeryl fingir a mais completa ignorância a tal respeito.

Duas horas depois chegava de trem ao boulevard Flandrin.

Ficou alegre ao deparar com uma casa de proporções restritas,, porém mais que suficiente, mobiliada com modesta simplicidade.

A sala do "rez-de-chaussée" abria para uma estufa envidraçada bastante vasta, cheia de flores, e à qual se seguia um jardim pequenino como um lenço de assoar, ensombrado por uns três castanheiros bem desenvolvidos.

No fundo deste jardinzinho havia uma pequenina porta oculta sob a hera que deitava para uma rua geralmente deserta, a rua Ahéry.

— Aqui estarei muito bem, murmurou Branca, só sairei para voltar triunfante ao palácio de Chaslin.

 

No quarto de dormir achavam-se muito à vista em cima da mesa papel, envelopes, penas e um tinteiro.

Branca escreveu estas poucas palavras:

 

"Participar a Pedro que estou instalada."

 

Escreveu no envelope a morada de Margarida, no chalet da rua Compons.

Foi ela própria deitar no correio aquele bilhete lacônico.

Em seguida, mandou um moço de recados buscar a sua modesta bagagem ao palácio do arrabalde Saint-Honoré, dirigiu-se a Passy, a uma agência, onde tomou uma cozinheira e uma criada de quarto que deviam principiar o seu serviço no dia seguinte muito cedo.

Jantou só num gabinete do restaurante Ia Muette. e voltou para casa.

Aí pôs-se a refletir, e, se assim nos podemos exprimir, deitou balanço à sua situação.

— Acabo de jogar, disse ela consigo, uma terrível partida, cujo selo consiste na coroa ducal, e nos milhões de Chaslin. Pedro Rédon, o meu sombrio companheiro, partiu o baralho abrindo duas covas... É a vitória ou o cadafalso... Qual das duas coisas me reserva o futuro? Tenho contra mim Helena e Mariana, mas tenho do meu lado Rogério... O filho da Duquesa vai amar-me... ama-me já... Hei de ganhar a partida!

A recordação do velho Duque já não existia para Branca!

 

No dia seguinte pela manhã as cridas tomadas na véspera vieram tomar posse do seu lugar.

Próximo do meio dia, um moço de recados trazia à menina de Lasseny um bilhete de Pedro Rédon.

Anunciava-lhe a sua visita para aquela noite, às oito horas.

Às oito em ponto César de Fossaro, ou antes Pedro Rédon tocava à porta do palacete do boulevard Flandrin.

A criada de quarto, conformando-se com as ordens dadas, introduziu-o logo.

Pedro Rédon principiou por dizer:

— Primeiro tenho que te felicitar... Estou contente contigo. Foi tudo conduzido de um modo magistral. O Duque entrou tarde, não é verdade?

— Próximo da uma hora da manhã, mas tenho medo de que da ausência do senhor de Chaslin não resulte algum perigo... retorquiu a jovem.

— Algum perigo para nós?

— Sim.

— Como?

Branca explicou o que ouvira na véspera, através da porta. Entrou em todos os pormenores da acusação formulada tão precisamente por Helena.

Acrescentou que Mariana, asseverou que tinha visto um homem entrar e sair pela portinha do jardim. Fossaro contraiu o sobrolho.

— Era eu, disse. Depois?

— Não será bastante para nos comprometer?

— Não... Mariana sabe que tu saíste para ires ter com o Duque fora do palácio, e que voltasse com ele?

— Ignoro, mas é possível.

— Nesse caso, se as suspeitas recaíssem sobre ti, o Duque havia de parecer teu cúmplice. Seria a salvação, porque os filhos não entregariam o pai à justiça. Demais, para acusar, seriam precisas provas.

— Se se examinasse o cadáver?

— A autópsia daria resultado conforme com a declaração do médico, provando que a Duquesa sucumbiu à ruptura de um aneurisma.

— Mas se encontrassem um dos últimos grânulos que o senhor me levou, e se deram à senhora de Chaslin em lugar dos grânulos? do doutor?

— É impossível, porque me restituíste o frasco, replicou César.

— É verdade que lhe restitui, mas no último momento tremia-me a mão... um dos glóbulos que escapou do tubo, rolou sobre o tapete onde debalde o procurei...

Pedro Rédon franziu o sobrolho por segunda vez, mas serenou no mesmo momento.

— A tua falta de jeito, disse, pouca importância tem.

— Não me parece.

— Eu te digo. Supondo, coisa inverossímil, que esse glóbulo venha a cair em mãos inimigas, não poderia servir de base a uma convicção séria.

— Como?

— Quando os grânulos de que se trata estão expostos ao ar livre durante vinte quatro horas, o dissolvente que encerram desaparece quase completamente pela evaporação. Portanto, não há nada que recear. Se nos atacarem, tenho com que me defender.

— Que devo fazer?

— Estar muitos dias sem dar novas tuas ao Duque; depois, quando a mágoa se desvanecer cedendo o lugar ao amor, dirigir-lhe uma palavra de gratidão dando-lhe a tua morada, e acrescentando que estimaria vê-lo e confundir as tuas lágrimas com as suas.

— Far-se-á. Mais nada?

— Mais nada... Ah! uma pergunta ainda: Qual foi a atitude de Rogério e do senhor de Logeryl quando a menina Helena lhe deu parte das suas suspeitas?

— Tomaram ambos o meu partido.

— Perfeitamente.

— Acha?

— Não te inquietes! Hás de ser Duquesa.

Branca sorriu-se com orgulho.

Fossaro continuou:

— Durante uma semana não te verei, porque me vou ausentar.

— Como nos havemos de corresponder?

— Se tiveres alguma coisa muito urgente, muito grave a comunicar-me, escreve Margarida. Ela sabe para onde há de mandar-me algum telegrama. Compreendeste?

— Compreendi.

— Então até à vista, e não esqueças nada.

Fossaro retirou-se deixando Branca muito satisfeita com a ausência que acabava de lhe anunciar.

Completamente livre, e não sentindo pesar sobre si uma vigilância oculta, nada lhe impedia que visse Rogério, e lhe exaltasse o amor nascente.

 

As suspeitas de Helena tinham despertado a suspeita no espírito do senhor de Logeryl, mas entre esta dúvida e a convicção existia um abismo.

Entretanto, queria habilitar-se para dar à jovem uma resposta afirmativa ou negativa.

Por isso deliberara fazer analisar quanto antes o glóbulo suspeito, e interrogar ele próprio Mariana Gilberto.

Dirigiu-se no dia seguinte a casa de um químico, com quem tratara muitas vezes, em conseqüência das suas funções judiciais, e encarregou-o da análise, acrescentando que pouca importância ligava ao seu resultado.

O químico prometeu fazer-lhe conhecer aquele resultado no dia seguinte.

Durante o dia Armando voltou ao palácio do arrabalde Saint-Honoré, e pediu a Helena que lhe desse a morada de Mariana Gilberto.

— Que lhe quer? perguntou a jovem.

— Pretendo interrogá-la.

— A pobre mulher não poderá responder-lhe neste momento, meu amigo.

— Então por quê? exclamou o substituto muito surpreendido. — Queria vê-la... Fui por isso a sua casa esta manhã...

— E depois?

— Encontrei-a de cama com um médico e lima enfermeira ao pé de si. O desgosto que lhe causou a morte da nossa mãe, pô-la às portas da morte... Tem uma febre cerebral, e o médico, chamado a toda a pressa, prometeu salvá-la.

— Reconheceu-a?

— Não. Estava em delírio.

— Por todas as razões é uma desgraça, tornou o senhor de Logeryl, porque só dela espera as revelações que podem lançar luz em meio das trevas espessas em roda de nós.

— Deus não há de permitir que ela sucumba! murmurou a jovem. Viu o clínico? acrescentou:

— Sim.

— Que lhe disse?

— Que à primeira vista não parecia inofensivo, mas que não ousava emitir uma opinião. Só depois de amanhã saberei o resultado da análise.

— Quanta demora, meu Deus!

— Esteja sossegada, e arme-se de paciência. A hora da justiça há de chegar infalivelmente, embora se faça esperar. Falou com Rogério a respeito da menina de Lasseny?

— Mal vi esta manhã meu irmão, A sua profunda dor torna-o silencioso. Foi ao ministério da guerra pedir uma licença.

— O senhor de Chaslin sabe que a menina Adriana deixou o palácio?

— Disse-lhe esta manhã.

— Que disse ele?

— Pareceu muito espantado com semelhante notícia.

— E depois?

— Pobre menina, murmurou ele. A sua prostração pareceu aumentar desde ontem. Perguntou se a menina de Lasseny indicara a sua nova morada. Respondi-lhe negativamente.

O senhor de Logeryl observou:

— Tinha o maior interesse em saber essa morada

— E por quê?

— Por muitos motivos.

— Posso dar-lhe.

— Então conhece-a?

— Quase.

— Como?

— Graças a um acaso muito simples. Ontem de tarde veio um moço buscar a bagagem daquela rapariga.

— Mandou-o seguir?

— Não,o moço disse à criada de quarto que ele levava aquela bagagem para muito longe, para Passy, boulevard Flandrin, para um palacete.

— Disse o número?

— Não.

— Pouco importa, bastará essa informação.

— Sabe onde é o boulevard Flandrin?

— Se bem me lembro, começa na grade do Arocadero. Não fica longe, facilmente se encontrará.

O substituto escreveu uma nota na sua carteira:

— Desta noite em diante, o palacete será vigiado, acrescentou.

— Para que serve essa vigilância?

— Vai compreender-me, minha querida Helena.

— Explique-se então.

— Supondo, o que eu estou longe de admitir, que sua mãe não morresse naturalmente e houvesse crime, Adriana só poderia ser a cúmplice nesse crime.

— Cúmplice de quem?

— O principal criminoso seria, portanto, o homem que Mariana afirma ter visto entrar no jardim do palácio durante a noite fatal, e tornar a sair passado um quarto de hora. Se o fato é verdadeiro, se a cumplicidade existe, esse homem irá com certeza visitar Adriana, e nós ficá-lo-emos conhecendo. Eis porque se torna indispensável uma vigilância rigorosa.

— Faça o que entende, meu amigo; os acontecimentos hão de provar que o meu instinto não me enganava.

 

Depois de deixar a sua noiva. Armando de Logeryl fez-se apresentar no quarto do Duque, que ali se conservava enclausurado.

O ancião emagrecido, desconhecível, parecia sair de uma longa doença.

Daquela aparência vigorosa que dias antes alguns homens de trinta anos lhe poderiam invejar, nada restava.

As costas alquebravam-se-lhe, as mãos tremiam-lhe.

Contudo, no fundo dos olhos encovados, brilhava-lhe um fulgor sombrio.

Estendeu a mão para o sobrinho:

— Meu querido sobrinho, disse-lhe ele, estimo vê-lo. A sua presença seria um lenitivo à minha dor, se a minha dor pudesse ser su avisada.

Depois sem transição, acrescentou:

— Sabe que a menina de Lasseny deixou o palácio?

— Bem sei, respondeu o substituto, e aprovo absolutamente a resolução que ela entendeu dever tomar, a morte da senhora Duquesa não lhe permitia ficar aqui.

— Helena tornou a falar-lhe nas idéias loucas e criminosas que lhe assaltaram o cérebro?

— Sim, tomou a falar, querido tio.

— E ralhou com ela?

— Com certeza. Mas a perturbação momentânea do seu espírito, resultante de um golpe tanto mais terrível, quanto era imprevisto, merece uma grande indulgência.

— Sabe para onde se retirou a pobre menina?

— Ignoro-o; mas devo acrescentar que antes de se ir embora, prometeu participar a Helena o lugar para onde se retirava.

Um fulgor de alegria perpassou pelas pupilas embaciadas do ancião, que se levantou e levou ambas as mãos à fronte ardente.

O substituto seguia-lhe os movimentos, e estudava-lhe a fisionomia com uma atenção desconfiada.

Como se não esquecera das cenas violentas de que M ariana Gilberto fora causa, perguntava com terror a si próprio, se na verdade o Duque não sentia por Adriana um amor senil.

O ancião murmurou de repente:

— Vamos, está tudo acabado, bem o sinto. A minha vida está por pouco! Não obstante, quereria viver ainda...

— Deve viver, respondeu o substituto. Deve... por causa dos seus filhos.

— Por causa dos meus filhos, repetiu o Duque meneando a cabeça; sim, por causa dos meus filhos.

E consigo acrescentou:

— Por causa dela, por causa dela sobretudo.

Armando de Logeryl despediu-se e retirou-se. principiava a estar muito inquieto. O aspecto embaraçado do tio parecia-lhe de mau agouro.

Contudo não se atrevia a tirar nenhuma conclusão

Rogério, como ouvimos Helena dizer, fora ao ministério pedir uma licença.

As razões de família com que fundamentava o seu pedido, eram infelizmente muito sérias.

Prometeram-lhe uma resposta breve e muito favorável.

A morte da Duquesa, ia pôr os seus dois filhos de posse da fortuna trazida por ela, mas não era por este motivo de herança a regular, que Rogério desejava não voltar ao regimento.

Vira as últimas linhas traçadas por Joana moribunda, vira a falsa Adriana de Lasseny, ferida pelo raio, como se dizia no século passado, e o seu coração transbordava de amor pela jovem a quem a senhora de Chaslin chamava um anjo.

Como o anjo prometera fazer dentro em pouco conhecer a sua nova morada, esperava com impaciência febril o momento de ir novamente manifestar-lhe o seu reconhecimento, pelos cuidados prodigalizados por ela à Duquesa, e para ao mesmo tempo cair a seus pés, e pedir-lhe que aceitasse o seu nome.

Não se lembrava sequer das acusações formuladas pela irmã, ou se se lembrava, atribuía-as a uma crise de delírio que o desespero promovera.

Na sua opinião a prova de que eram absurdas tais suposições, era que o senhor de Logeryl, o homem grave, o magistrado desconfiado, não as admitira, e até dirigira afetuosas mas severas exprobações àquela que as proferira.

Saindo do palácio de Chaslin, Armando dirigiu-se para a prefeitura de polícia, ao chefe da segurança que imediatamente o recebeu e lhe perguntou com a sua habitual cortesia:

— Em que lhe posso ser útil ou agradável?

— Venho pedir-lhe, respondeu Armando, que ponha à minha disposição, por causa de um negócio que diretamente me diz respeito, um dos seus agentes mais hábeis, mais discretos, mais seguros, um homem, em suma. investido da sua confiança absoluta.

— Trata-se de alguma investigação judicial?

— Não, mas de uma investigação puramente particular, realizada, repito-lhes, num interesse quase pessoal... Este passo que dou não tem nada de judicial. É um serviço absolutamente particular que solicito do senhor...

 

JUSTIÇA EM CAMPO

Como facilmente se compreende, o senhor de Logeryl não queria confiar, fosse a quem fosse, o segredo de um negócio que tão intimamente lhe dizia respeito.

Se coisa alguma viesse a justificar as suspeitas de Helena, importava evitar todo o escândalo e todo o ruído inútil.

— Conhece Daniel Gaillet? perguntou o chefe da polícia de segurança.

— Conheço, e sei que se pode contar com ele.

— É um homem por quem posso responder. É inteligente, zeloso, e de absoluta discrição.

— Não está encarregado de pesquisar com respeito a uma certa Fanny Vernaut, acusada de infanticídio?

— Está... As suas investigações até hoje só têm dado resultado negativo. Mas ele não desanima, e suponho que há de vir a conseguir alguma coisa.

— Deus o queira.

— Quer servir-se de Daniel Gaillet?

— Porque não?

— Hoje não está de serviço... vou mandá-lo chamar, e se o encontrarem em casa. o que me parece provável, dentro de uma hora estará no seu gabinete.

— Mil vezes obrigado.

Como Armando tinha uma hora diante de si, aproveitou-a para se dirigir ao químico.

O químico quando o viu entrar, perguntou-lhe:

— Vem para a análise do glóbulo?

— Sim. meu amigo. K a análise está terminada?

— Desde ontem.

— O que conclui?

— Nada de positivo. O princípio corrosivo contido no grânulo é tão fraco, que a sua dose centuplicada, não seria suficiente para ocasionar a morte... Não creio que este princípio tenha podido servir de base a um envenenamento. Todos os dias os médicos fazem uso de substâncias tóxicas muito mais perigosas... Mas, se se acha em face de uma morte aparentemente suspeita, poder-se-ia desenterrar o cadáver, e procurar nas vísceras os vestígios do veneno que aqui me escapa.

— Uma exumação! uma autópsia! exclamou o senhor de Logeryl com terror.

— Bem sei que não é agradável, replicou o químico, mas quem quer os fins, usa dos meios...

 

Armando, muito pálido, fez-se conduzir ao palácio da justiça, e entrou no seu gabinete.

No fim de cinco minutos, anunciavam-lhe o agente enviado pelo chefe da polícia.

— Senhor Gaillet, disse-lhe o jovem magistrado, de todas as vezes que tenho tratado com o senhor, só lenho tido motivos de me felicitar pelos seus serviços.

— Agradeço ao senhor substituto a sua benevolência, murmurou Daniel Gaillet.

— Hoje.continuou Armando, tenho precisão do senhor... O negócio de que lhe vou falar confidencialmente, não está ainda a estas horas entregue à justiça... não se fez nenhuma queixa, nenhuma denúncia, e talvez não haja nunca motivo de se proceder a tal respeito.

— Compreendo muito bem. disse Daniel, trata-se de suspeitas vagas, a respeito de um crime possível, mas não certo, e o senhor, senhor substituto, quer conhecer o bem ou o mal fundado de tais suspeitas, antes de proceder legalmente, e de entregar o caso à justiça.

— Isso mesmo; acrescentarei que os esclarecimentos que o senhor obtiver serão para mim de grande valor.

Daniel Gaillt tirou da algibeira uma carteira, abriu-a e perguntou:

— Que pontos temos a esclarecer?

— Uma jovem, chamada Adriana de Lasseny, mora desde ontem num pequeno palacete situado no boulevard Flandrin...

Daniel Gaillet repetiu:

— Adriana de Lasseny... boulevard Flandrin... Que número? perguntou.

— Ignoro.

— Será fácil de encontrar.

— É preciso saber o nome e a morada das pessoas que vierem visitar a menina de Lasseny:

— Supõe que ela recebe muita gente?

— Segundo toda a probabilidade não deve receber ninguém, e é justamente por isso que todas as suas visitas se tornarão suspeitas, e que é preciso estabelecer nos arredores do palácio uma vigilância de dia e de noite.

— Compreendi, senhor substituto, e far-se-á: mas por grande que seja o meu zelo, não poderei eu só desempenhar a tarefa... Preciso de agentes que me substituam no meu posto de observação.

— O senhor tem carta branca... A gente que o senhor empregar para esse serviço particular, será paga por mim.

— Para onde deverei dirigir os meus relatórios quotidianos?

— Não me mandará relatórios escritos...

— Então como há de ser?

— Dir-me-á aqui, verbalmente, o que descobrir... se alguma coisa descobrir...

— Fica entendido.

— Proceda o mais depressa possível...

— Dentro de duas horas hei de saber a morada exata, hei de comparecer no local, e já terei colegas prontos a servirem-me.

— Bem.

— Uma palavra mais. senhor substituto...

— Fale.

— Se a menina de Lasseny sair de casa, deverei segui-la?

— De certo!... é essencial saber aonde é que ela vai...

— Muito bem.

— Aceite isto. senhor Gaillet.peço-lhe.

E Armando tirou da algibeira uma nota de mil francos e apresentou-a ao polícia.

— Isto é apenas adiantamento... Há de ter despesas a fazer. Girando o dinheiro lhe faltar, previna-me.

Daniel Gaillet inclinou-se.

Fez uma continência militar, e retirou-se.

 

O enterro do doutor Frébault efetuou-se no mesmo dia em que tiveram lugar as exéquias da Duquesa de Chaslin.

Atrás do trem que levava o féretro, ia grande multidão.

Heitor de luto carregado, ainda muito fraco, não podendo dar a pé a grande caminhada, ia de carruagem.

César de Fossaro não era homem que cometesse a falta de não ir ao enterro do homem que acabava de assassinar.

Podia-se notar e comentar a sua falta.

Foi dar um aperto de mão ao Príncipe que parecia profundamente triste, e apenas trocou com ele algumas palavras.

No dia seguinte, César apresentou-se segundo o costume, no palácio da Rua Francisco I.

Responderam-lhe que o senhor de Castel-Vivant tinha saído...

E disseram-lhe também, que cansado de negócios se preparava para uma viagem, e resolvera não receber ninguém até nova ordem.

O senhor de Fossaro tinha, contudo, o mais vivo desejo de ver Heitor, e ouvir da sua boca certas particularidades de que precisava muito para proceder.

O Príncipe, ao anunciar o seu futuro casamento, não nomeara a noiva.

Porém, César, tinha toda a certeza de que se tratava de Lucília Gonthier.

Lucília, princesa, o testamento roubado tornava-se um papel sem valor, o edifício tão laboriosamente arquitetado para o roubo dos milhões de Heitor desabava logo.

Ficando Lucília sendo o objeto principal, era preciso primeiro que tudo suprimir esse obstáculo, e obrar precipitadamente, porque a órfã ia com toda a certeza deixar Paris na companhia do Príncipe.

Depois, a sua supressão teria um duplo fim, porque poria na posse do Barão e do seu sócio os milhões da herança de Nova York, e tornaria impossível toda a contestação.

Assim que a viu perguntou-lhe:

— Sabes o que se passa?

— Sei pelo menos que tudo vai mal, respondeu, porque recebi de Heitor uma carta de rompimento, acompanhada de um cheque de trezentos mil francos.

— Cem mil escudos não é mau. observou então Fossaro.

— Mas é uma triste consolação quando se esperava uma fortuna enorme.

— O caso não é ainda para desesperar.

— Que ouço?

— Devo primeiro informar-te de que Antonino Frébault morreu.

— Ignorava que ele estivesse doente...

— Não estava doente, nem para lá caminhava... A panóplia das flechas envenenadas caiu em cima dele... Uma armadilha minha, muito engenhosa, para nos livrar daquele importuno.

— Não tenho desejo nenhum de deitar luto por ele.

— Deixa-me continuar.

— Continua.

O Barão prosseguiu confidencialmente:

— A minha invenção tinha mais em mira o Príncipe de que o médico.

— Então como foi isso?

— Heitor saiu incólume por milagre, o que para nó* é inconveniente, porque ele vai casar.

— Vai casar, repetiu Genoveva fazendo-se pálida.

— Pelo menos está para isso.

— Então fica tudo perdido.

— Ainda não.

— Com quem casa ele?

— Com uma costureirinha assaz bonita, mas sem um sou, por quem ele se apaixonou tolamente... A jovem de véu que o doutor levou à Rua Francisco I, como te eleves lembrar, certo dia em que o criado de Heitor quase te pôs no olho da Rua.

Genoveva, com os olhos faiscantes, os punhos cerrados, exclamou:

— Ah! que se eu apanhasse essa rapariga...

— Que farias?

— Esganá-la-ia com as minhas próprias mãos!

— E terias muita razão, porque uma vez esganada, os milhões do Príncipe ficar-me-iam pertencendo...

— Como?

— Possuo o testamento sem data em teu favor, e uma carta que me nomeia testamenteiro. Encarrego-me de Heitor.

— Heitor é invulnerável, observou Genoveva ironicamente.

— Nem todos os dias se há de operar um milagre que o salve. Acha tu um meio de suprimir Lucília, (é assim que se chama a futura Princesa de Castel-Vivant), e o testamento tornar-se-á válido. Faltará só datá-lo.

—Ah! murmurou Genoveva com ar sombrio, se pudéssemos atrair Lucília bem sei eu aonde...

— Aonde? perguntou Fossaro com curiosidade.

— Conheces a casinha que me pertence numa ilhota do Marne, junto de Creteil?

— O chalet da ilha Passe, uma gaiola onde a água sobe até ao primeiro andar por ocasião das grandes cheias, e que um capricho absurdo te levou a comprar por doze mil francos.

Ao fim de oito dias, como o capricho passara, abandonavas a casa, e não tomavas a pôr lá os pés!

— Uma loucura!

— A loucura talvez nos venha a servir.

— Explica-te.

— Se a futura Princesa de Castel-Vivant ali fosse... de noite

— Com certeza que se se ela lá fosse secretamente, sem que se pudesse saber nos arredores, havia grandes probabilidades de não tornar a sair.

— Isso é verdade.

— Mas o meio de a atrair?

— Já tens esse meio?

— Estou a procurá-lo.

— Suponhamos que o encontras, e que as coisas caminham conforme os nossos desejos...

— É preciso prever tudo. Pode-se encontrar um cadáver, proceder-se a pesquisas, e descobrir-se que a gaiola em questão foi teatro de um crime.

— E então?

— Então descobririam o nome do proprietário, e viriam direitos aqui.

— Genoveva abanou a cabeça.

— Fanny Vernot está morta e bem morta, não é verdade? perguntou.

— É verdade, porque tenho na minha mão os documentos autênticos provando que te chamas Genoveva Leinen.

— Então quaisquer pesquisas não poderiam dar resultado, porque a aquisição foi feita em nome de Fanny Vernot, por aquele estudante que eu arruinei, e fez saltar os miolos ein conseqüência de se ver comprometido numa falsificação.

— Então tudo corre às mil maravilhas. Irei ver outra vez a casa. Quem tem as chaves?

— Eu.

— Dá-mas.

Genoveva abriu uma gaveta, e tirou uma chave um pouco enferrujada, e deu-a a Fossaro que a guardou na algibeira.

 

— Agora só nos resta achar o meio de atrair a intrigante.

— Há de ser difícil, mas não impossível.

— Essa operária que quer casar com o Príncipe, vive só?

— Vive com uma tia cega.

— Que nos importa essa mulher, visto que ela é cega?

— É tão capaz, como outra qualquer pessoa, de gritar por socorro. Reclamará a sobrinha em grande berreiro.

— Quem lhe responderá? O Mame! Bem sabe que o rio é mudo.

— A estas últimas palavras sucedeu um instante de silêncio. Fossaro rompeu o silêncio por uma exclamação alegre.

— Encontraste? perguntou Genoveva com vivacidade.

— Encontrei.

— Então o que foi?

— O amor arrebatou-nos Heitor: o amor nos entregará Lucília!

— Como?

— Explicar-me-ei mais tarde quando o meu plano estiver maduro. Hei de ter de certo necessidade de ti. Sentes-te disposta a auxiliar-me?

— Ora essa! Em qualquer hora, e por todos os meios possíveis.

— Enche-te então de paciência, porque vou meter mãos à obra. O Barão deixou Genoveva, e voltou para a Rua de Francisco I.

Pelo caminho ia pensando:

— Se for preciso transgrido as ordens; custe o que custar, preciso de saber quando é que partem.

O Príncipe acabava de entrar para casa.

César mandou-lhe o seu bilhete de visita, no qual escrevera algumas palavras a lápis.

Heitor, sabendo que o visitante vinha por segunda vez. consentiu em recebê-lo.

O Barão, triunfante, foi introduzindo.

 

MAIS UMA TEIA DE ARANHA

César apertou a mão de Heitor.

— Se insisti tanto para ser recebido, querido Príncipe, é porque devo ausentar-me por alguns dias, e sabendo que o Príncipe também vai deixar Paris, tinha grande interesse em lhe dizer até à vista, antes do Príncipe se retirar.

— Quando parte. Barão? perguntou o mancebo.

— De um momento para o outro, talvez amanhã.

— Vai viajar?

— Vou a Gênova, minha pátria, aonde me chamam questões de herança.

— Efetivamente não me tornava a ver. Dentro de cinco dias hei de pôr-me a caminho. Quanto tempo deve durar a sua viagem?

— Umas três semanas.

— Portanto deve estar de volta para a época do meu casamento, que se deve celebrar dentro de seis semanas. Espero me fará a honra de ser um dos meus padrinhos.

— Estimarei muito, e muito me lisonjeará.

Sabendo o que queria saber, o senhor de Fossaro não prolongou a sua visita.

Heitor partia dentro de cinco dias, e Lucilia de certo o acompanharia.

Era preciso pôr-se em ação quanto antes.

 

No dia seguinte, muito cedo. Fossaro dirigiu-se à sua casa da Rua Philipe de Girard, donde saiu metamorfoseado em Pedro Rédon.

Um trem conduziu-o, à praça da Bastilha, e tomou a estrada ferro com direção a Saint-Maur-les-Foussés.

Desta estação dirigiu-se pedestremente para a ponte. Atravessou-a e encaminhou-se para o lugar onde uma extensa alameda de alamos se enxerta em ângulo reto na estrada de Creteil.

Por esta alameda, um caminho ladeado de sebes, servia às pequenas propriedades espalhadas nas ilhas, muito profundas naquele sítio, e apertados entre praias cobertas de arvoredo.

As casinholas construídas nas ilhas, só são habitadas nos belos dias da primavera ou do estio.

Assim que chegam as chuvas do outono, e as cheias do rio, a água invade os "rez-de-chaussée", chegando por vezes aos primeiros andares.

Depois de uma caminhada de uns vinte minutos, o Barão parou defronte de uma pequena ponte vacilante, feita de tábuas grosseiramente reunidas, e que levavam a uma cancela fechada a cadeado.

Ali deitou um olhar em roda.

Tudo estava deserto.

Transpôs a ponte, abriu a cancela, e achou-se num jardim em que as ervas altas e as plantas parasitas cresciam com um vigor tão luxuriante, que as ruas tinham desaparecido sob os seus entrelaçamentos.

 

A casinha comprada por Fanny Vernaut para satisfação de um capricho, chamava-se o chalet da ilha Basse, e elevava-se do meio das grandes árvores, neste momento quase despojadas das suas folhas.

Na força do estio, quando as roseiras e as flores de tons vivos decoravam alegremente o jardim bem tratado, era bonito e adoravelmente pitoresco.

No estado de abandono absoluto em que a propriedade se achava, não se podia imaginar coisa mais lúgubre e desoladora.

Uma rede de trepadeiras, que o jardineiro há muito já não podava, subia até ao telhado, e quase ocultava as persianas fechadas.

Fossaro fez, com alguma dificuldade, girar a porta nos gonzos.

O interior exalava um insuportável cheiro de bafio.

A grande cheia de 1878 deixara no sobrado uma camada de limo esverdeado e ressequido.

Depois de abrir à força, quebrando as trepadeiras, uma das janelas, e uma das persianas, para entrar alguma claridade e algum ar. examinou as salas de que só lhe restava uma confusa recordação, e disse com um sorriso:

— É quanto basta... O principal é ela entrar aqui, e há de entrar, respondo por isso!... O rio fica a vinte passos! Há de ser muito esperto quem descobrir donde vinha a jovem afogada por acidente... Se alguma vez a tornarem a encontrar...

Fechou a persiana, a janela e a porta, tornou a atravessar o jardim, e examinou o braço do Marne, espécie de pequeno canal, da largura de uns doze pés o muito...

 

Como se lembram, o ano de 1879, tinha sido muito chuvoso...

Em fins de setembro, as chuvas incessantes produziam inundações gerais.

O Marne engrossava a olhos vistos.

As águas lodacentas chegavam ao nível das terras, e, com certeza, transporiam dentro em pouco esse nível.

Vendo aquilo, Fossaro exclamou:

— Safa! Se continua assim, difícil será chegar aqui... Felizmente que há dois dias e o tempo está bonito... se a chuva continuasse, ficaria tudo inundado...

César transpôs a ponte, e subiu até à barragem formada de tábuas meio podres que gemiam parecendo prestes a desligar-se sob a pressão da massa liquida.

A barragem por acaso se desfizesse, o chalet correria grande perigo.

O senhor de Fossaro voltou a Paris, retomou a sua aparência habitual, e chegando a noite, fechado o escritório, penetrou no gabinete do seu sócio. Malpertuis, a caminho, naquele momento, para New York.

Uma carta que estava entre outras em cima da secretária, despertou-lhe a atenção.

Esta carta era a da Marquesa de la Tour-du-Roy.

Lazarine queixava-se com alguma amargura ao ex-advogado por ele não ter cumprido aquilo a que se obrigara para uma época fixa. que já passara havia alguns dias.

Rogava-lhe que ativamente se ocupasse dos seus negócios, deixando tudo o mais, e terminava por estas palavras duas vezes sublinhadas: Toda a urgência!

Fossaro exclamou:

— Parece que tem pressa! Homem prático o tal Fernando Volnay! O empregado responderia! Vamos ver!

 

O copiador das cartas estava na prensa.

Fossaro pegou no copiador, examinou as últimas folhas, e leu esta resposta lacônica:

"Não tenho conhecimento do negócio da senhora Marquesa. O senhor de Malpertuis está ausente. É indispensável esperar o seu regresso."

— É quanto hasta... disse o Barão tornando a pôr o livro no seu lugar.

Voltou para os seus aposentos, e abrindo um indicador dos caminhos de ferro na coluna que tinha por título: Paris a Tours e Bordeaux por Orleans, procurou as horas em que os comboios partiam para Amboise.

— O comboio n.° 17 parte às oito horas e quarenta e cinco minutos da noite, murmurou, e chega a Amboise à uma hora e oito minutos da manhã... De Amboise a Vézelay, são cinco quilômetros por caminhos transversais... Posso chegar ao domínio às duas horas e meia o mais tardar, fazer o que tenho que fazer, tornar a tomar o expresso, e estar de volta a Paris às dez horas e cinqüenta e sete minutos. Corre tudo muito bem.

Tomou nota na agenda das horas que acabava de verificar, e continuou o seu monólogo nestes termos:

— Depois da catástrofe toda a gente perderá a cabeça... Só pela manhã é que se mandará ao Príncipe um telegrama... partirá para Vézelay sem a menor demora, deixando-nos assim o campo livre. Seria melhor que não visse Lucília antes de subir para o comboio, mas ainda quando a visse não haveria grande comprometimento... É preciso agora escrever e trabalhar.

 

César abriu uma gaveta da sua secretária, pegou numa das folhas de papel com o timbre dos Castel-Vivant, que ele roubara do gabinete de trabalho de Heitor, e no sinete que lhe dera o ferro-velho da Rua de Lappe.

Depois, imitando a letra do Príncipe, com o seu maravilhoso talento de falsificador, traçou as seguintes linhas:

 

''Minha querida Lucília.

"Graves interesses me forçam a afastar-me repentinamente de Paris por quatro ou cinco dias, obrigando-me a partir sem lhe dizer adeus de viva voz...

"Isto há de por força demorar a nossa viagem.

"Este adiamento desgosta-a por certo, e sente-o, mas os acontecimentos podem mais do que eu.

"Sempre seu...

"Heitor de Castel-Vivant."

 

O principezinho, se se desse o caso de ver este bilhete, teria perguntado se havia ou não escrito e assinado aquelas linhas glaciais, tão bem imitada estava a sua letra e a sua assinatura.

César meteu a carta no sobrescrito, dirigiu-se a Lucília, e pôs-lhe em lacre vermelho o sinete de Heitor.

Feito isto, pegou numa folha de papel de cartas, e com uma letra fingida, que não parecia nem a sua, nem a de Heitor, redigiu as seguintes frases:

 

"Menina Lucília.

"Enganam-na. Se quer saber de que natureza são os graves negócios que forçam o senhor de Castel-Vivant a afastar-se sem a tornar a ver, não tem mais que dirigir-se esta tarde a Creteil, ao chalet da ilha Basse. Apear-se-á no caminho de ferro na estação de Saint-Maur-des-Fossés. Assim que atravessar a ponte de Creteil, o primeiro transeunte que lhe aparecer, indicar-lhe-á o caminho, porque sabe quanto o seu amor é puro e desinteressado. Bastar-lhe-á talvez uma palavra para arrancar aquele a quem ama das garras de uma mulher indigna, que só trata de se apoderar do título e da fortuna de Heitor.

"Salve-o de uma perda certa. Seja corajosa até ao heroísmo. Mostre ao Príncipe de Castel-Vivant o abismo para onde se deixa arrastar. A sua honra, a sua própria vida, estão em perigo, porque a criatura por quem ele a atraiçoa é capaz de todos os crimes! Ela já cometeu um infanticídio; mostrar-se-lhe-á o meio de dar uma prova disso ao Príncipe.

"Não hesite, menina, e creia na palavra de um homem de bem, amigo do doutor Antonino Frébault, que sabendo muito bem quanto vale, muito a estima."

 

No sobrescrito da carta anônima, como no da carta precedente, César traçou a morada de Lucília, meteu as cartas na carteira, deitou-se e adormeceu.

 

No dia seguinte, só saiu de casa pelas quatro horas da tarde, depois de dizer ao criado de quarto:

— Vou a Maison Lafitte. Não me recolho esta noite.

Jantou num restaurante do boulevard, e, como na véspera, dirigiu-se para a Rua de Philippe de Girard.

Dali a uma hora um homem cego de um olho, vestido de camponês, levando na mão um saco de noite muito cheio, subia para um trem na estação de Ia Chapelle, e dava ao cocheiro ordem para o conduzir à gare de Orleans.

Às oito horas e quarenta e cinco minutos, o cego de um olho subia para um compartimento de segunda classe, parecia adormecer profundamente, e só acordar na estação de Amboise, onde se apeava à uma hora e oito minutos da manhã.

Atravessou a ponte do Loire, meteu-se rapidamente por um caminho transversal que seguia à esquerda pelos campos fora.

O domínio de Vézelay, situado nos limites da floresta de Amboise, no ponto onte esta confina com a de Loches, compunha-se de um pequeno palácio, de um parque imenso, e de esplêndidas cavalariças de criação.

1 leitor, atacado por certo tempo do fraco do sport, desejoso de ganhar os louros das corridas, e além disto persuadido de que adorava a caça, tinha comprado havia três anos este domínio, e apressara-se a prover as cavalariças de animais de primeira ordem.

Depois, alugara nos arredores consideráveis terrenos de raça, e tinha uma matilha de quarenta ou cinqüenta cães.

A pequena residência de Vézelay servia de morada ao velho Príncipe de Castel-Vivant, o pai adotivo do pintor transformado em milionário. Heitor Bégourde.

O grande senhor que os nossos leitores conhecem há muito, o antigo amigo do Marquês Roberto de la Tour-du-Roy, e de Júlio Leroux, atacado havia dois anos de uma paralisia, que o privava do uso das pernas, já não saía de Vézelay.

Ali a sua única distração consistia em longos passeios através do parque, num carrinho de verga puxado por dois poneys microscópicos, tão bem ensinados, que documente obedeciam à mão enfraquecida do velho.

Heitor nutria pelo senhor de Castel-Vivant uma sincera afeição, e vinha de dois em dois ou de três em três meses, passar um dia com ele.

César de Fossaro, tendo sido convidado às caçada-; de Vézelay. conhecia admiravelmente o domínio.

Sabia que nas proximidades da residência, separados dela unicamente por alguns massiços de verdura. e por um renque de árvores, havia os armazéns das forragens, contíguos ao recinto onde estavam as cavalariças, o picadeiro e os quartos dos palafreneiros e dos grooms e tudo em suma quanto dizia respeito à coudelaria do Príncipe.

O falso camponês em lugar de seguir até ao fim o caminho de carros que conduzia diretamente à grade do parque, meteu-se pelas terras encharcadas das últimas chuvas, tomou por um atalho entre o mato, tornejando por detrás das cavalariças e deixando à esquerda o sítio onde estavam os cães.

Por este modo evitava que o vento do sul denunciasse a sua presença aos cães que não teriam deixado de dar o sinal de alarma com furiosos latidos.

Pedro Rédon, ou antes César de Fossam, costeou o muro do recinto, e chegou a uma portinha aberta nesse muro.

Sem dificuldade abriu a portinha, servindo-se de gazua, e entrou no recinto.

Ali tirou do velho saco de noite que tinha na mão, lima pequena lanterna de furta-fogo, acendeu-a, e serviu-se dela para examinar o lugar onde se achava.

Era um pátio rodeado de telheiros cheios de lenha.

— Primeira estação! murmurou.

E tornando a meter a mão no saco, tirou uma garrafa cuja rolha fez saltar.

Despejou o que ela continha por cima de um molho de lenha.

Imediatamente espalhou-se o cheiro abominável e penetrante do petróleo...

Em menos de um segundo toda a atmosfera estava impregnada.

 

O INCENDIÁRIO

O camponês tornou a meter a garrafa no saco. Fechando a lanterna, disse:

— Agora às cavalariças! Primeiramente tratarão de salvar os cavalos, e durante este tempo o resto caminhará por si.

Tornando a costear. mas inteiramente, o muro do circuito, dirigiu-se para os armazéns das forragens, cuja grande porta apenas estava fechada com a tranqueta.

Fazendo novamente brilhar a lanterna, espalhou sobre um montão de feixes de palha o conteúdo de uma segunda garrafa de petróleo.

Acendeu, então, fósforo, atirou-o para cima da palha, viu as chamas rebentarem, deitou a correr, voltou aos telheiros, e pôs, também, fogo ali.

Passados cinco minutos o incendiário estava já longe, atalhando caminho e precipitando a sua carreira nos atalhos da floresta.

O suor inundava-lhe a fronte, as artérias batiam-lhe com força, e a respiração faltava-lhe. Teve de moderar o passo.

Repentinamente um clarão imenso iluminava o horizonte.

Ao mesmo tempo soaram os gritos: fogo, fogo! misturados com os relinchos dos cavalos e os uivos dos cães.

O cego parou de repente soltando uma gargalhada.

O sino de alarma da residência respondeu-lhe.

Tornou a partir pelos campos a fora, e chegou ao princípio da floresta onde o darão do incêndio era cada vez mais intenso.

Ao longe viu passar as bombas das aldeias próximas que acudiam.

Em menos de três quartos de hora chegou à ponte de Amboise.

Aproximando-se do parapeito, certificou-se de que era absoluta a escuridão, e atirou para o Loire o saco de viagem.

Continuando a sua jornada, passou o resto da noite nos subterrâneos de uma casa que se estava demolindo, e às seis e meia tomou o comboio que parou na gare de Paris às dez e cinqüenta e sete minutos.

Duas horas depois o bandido, vestido como um moço de recados, fazia sentinela em frente do palácio do Príncipe.

Vendo os criados andarem de um lado para o outro com um aspecto muito sossegado, disse consigo:

— Não se sabe nada ainda... esperemos. Foi de curta duração a sua expectativa.

Por volta da uma e meia, no momento em que ele observava, olhando pelo postigo entreaberto, que no pátio estavam pondo um trem, naturalmente para conduzir o Príncipe à Rua Julien Lacroix, um empregado do telégrafo dirigiu-se para o palácio, tocou e entrou,

— Atenção! pensou Fossaro.

 

Roguemos aos nossos leitores que nos acompanhem ao quarto de dormir de Heitor.

O ex-Bégourde concluía a sua toilette e preparava-se para fazer à Lucília a sua visita quotidiana.

Manifestava na fisionomia uma profunda melancolia.

Por muito absorvente que fosse a sua paixão pela Toutinegra, não deixava por isso de pensar em Antonino Frébault.

Não podia consolar-se da morte do pobre doutor.

O criado de quarto entrou.

Trazia uma carta numa bandeja de prata dourada.

— Um telegrama para o Príncipe... disse.

Heitor pegou no telegrama com indiferença, e rasgou distraída-mente o sobrescrito, mas assim que decifrou as primeiras palavras, tornou-se lívido.

Eis o texto do telegrama:

 

"Terrível incêndio esta noite em Vezelay. Príncipe Reginaldo de Castel-Vivant arrancado com dificuldade do meio das chamas muito perigosamente ferido. O palácio em ruínas. Cavalariças destruídas. Doze cavalos queimados vivos. Presença do senhor Príncipe urgente em Vezelay."

 

Seguia-se a assinatura do feitor.

— As perdas materiais não querem, dizer nada! exclamou o mancebo. Mas o meu pobre pai adotivo perigosamente ferido... na sua idade!... Ah! os mais rudes golpes sucedem-se continuamente. Vou a Vezelay.

Heitor pegou num indicador e consultou-o.

Às duas horas e vinte e cinco minutos partia um comboio que chegava a Amboise às oito e cinqüenta e sete.

— Tenho tempo apenas para escrever duas palavras a Lucília. explicando-lhe a minha ausência, e chegarei à gare no último momento.

Pegou numa folha de papel e traçou rapidamente as seguintes linhas: 1

"Minha querida Lucília. !

"Acabo de receber uma notícia duplamente fatal. O meu palácio de Vezelay, ao pé de Amboise, está sendo devorado pelas chamas, e o meu pai adotivo, o velho Príncipe de Castel-Vivant, foi ferido no incêndio de um modo muito grave. Vou já pôr-me a caminho com o grande desgosto de partir sem a ver. Espero voltar amanhã. Se me demorar mandarei um telegrama.

"Adoro-a, ame-me..

"Heitor."

 

O Príncipe meteu a carta no envelope, escreveu a direção e olhou para a janela.

— O trem, já posto, esperava-o no pátio, cujo portão acabavam de abrir de par em par.

Heitor desceu.

— Luiz, disse ao criado de quarto, dando-lhe o bilhete destinado a Lucília, esta carta para o seu destino imediatamente... entende, imediatamente!

— Sim, senhor Príncipe...

— Vou a Vezelay... Não voltarei esta noite... acrescentou o mancebo.

Depois saltou para a carruagem, dizendo ao cocheiro:

— Estação de Orleans... lado da partida. A toda a brida.

O moço de recado ouvira, ao pé da porta, as últimas palavras de Príncipe, e esfregava as mãos.

O criado de quarto murmurou:

— Vou mandar esta carta por um moço de recados. Parece que isto é com pressa.

Atravessando o pátio, saiu à rua.

Aos primeiros passos que deu no passeio, deparou com o moço de recados.

O seu fato verde-garrafa, e a medalha de cobre atraíram logo a sua atenção.

Travou-se o diálogo seguinte:

—..... Você é moço de recados?

...... Sim. senhor, para o servir.

— Esta aqui uma carta para se levar.

— Isso é num pronto. Para onde?

— Para Belleville, Rua de Julien Lacroix.

— Bem sei... sou de Belleville.

— Perguntará pela menina Lucília Gonthier.

— Basta.

— Aqui tem três francos pelo seu trabalho.

— Muito obrigado. Isto tem resposta?

— Não, entregará a carta, mais nada.

O moço de recados ia abalar.

— O número da medalha, se faz favor, acrescentou o criado.

— É justo. Veja.

E o homem apresentou a medalha ao criado.

— 1.537, disse este. Está bom, meu amigo, pôde dar à perna.

 

O criado voltou para dentro, ao mesmo tempo que o moço se afastava depois de meter na carteira a carta do príncipe.

Chamou o primeiro trem que passava sem gente.

Fez-se conduzir a casa de Genoveva, com quem conversou por muito tempo de coisas muito interessantes de certo, que não tardaremos a saber.

Por volta dás oito horas da noite, o falso moço de recados apeava-se no ângulo da Rua Julien Lacroix, dirigia-se para a casa que a Toutinegra habitava, entrava no cubículo do porteiro, e perguntava com uma voz roufenha:

— É aqui, minha querida, que mora a menina Lucilia Gonthier?

— É no quinto andar... porta à esquerda. Que lhe quer?

— Está aqui uma carta para ela.

— Da parte de quem?

— Não sei... Entregaram-me isto na Rua Francisco I.

— Bem sei. Tem resposta?

— Não. Só me disseram que a entregasse à senhora porteira, que logo a levaria a cima com todo o gosto... e como me pagaram generosamente, aqui estão vinte sous pelo seu incômodo.

A porteira meteu na algibeira a moeda de prata, fechou a porta do cubículo, e subiu o primeiro degrau da escada, dizendo:

— Vou já a correr!

— Isto vai perfeitamente... murmurou o cego de um olho. Dentro de meia hora, a segunda carta chegará muito a propósito, e produzirá o seu efeitozinho.

Encaminhou-se para a Rua de Paris, instalou-se num café de medíocre aparência, e pediu um boch, menos para beber, que para se dar uns certos ares.

 

Galguemos os cinco andares de Lucília.

Depois das quatro horas da tarde, a jovem tornara-se inquieta, preocupada, nervosa.

Heitor faltava pela primeira vez à sua visita quotidiana, depois que as suas forças lhe permitiam sair, e era o noivo oficial da jovem.

Chegava todos os dias às duas horas com a regularidade de um cronômetro.

Uma demora involuntária podia explicar-se sem dificuldade, logo que ela fosse de pequena duração.

Por isso, até às quatro horas, Lucilia não se apoquentou demasiado; mas quando chegou a essa hora, não pôde deixar de confessar no seu íntimo que a demora se tornava inexplicável.

Enquanto trabalhava com mão febril, a órfã olhava sem cessar para o relógio de cuco pendurado na parede, e à medida que o ponteiro dos minutos corria sobre o mostrador, a sua inquietação tornava-se angustiosa, causando-lhe cada vez mais dolorosa opressão.

Às cinco horas levantou-se do seu lugar, dirigiu-se para a janela, abriu-a, e debruçando-se do corrimão, esteve a olhar muito tempo para a rua.

— Que terá sucedido? perguntava ela de si para si. Nunca faltou... Parece-me que esta ausência é de mau agouro.

Deslizou-lhe pelas faces uma lágrima.

Fechou a janela, e ocupou-se maquinalmente em preparar a refeição da noite para si e para a tia cega.

Precisaremos de afirmar que lhe foi impossível absorver um átomo de alimento?

A septuagenária jantou só.

Em seguida adormeceu na sua poltrona.

O ponteiro grande prosseguia sobre o mostrador a sua marcha lenta e monótona.

Duas vezes deu o seu giro circular.

Lucilia conhecia que perdia a cabeça.

 

Pouparemos aos nossos leitores a análise dos pensamentos confusos que se debatiam no cérebro da pobre criança.

Aos sofrimentos das primeiras horas, juntava-se uma dor pungente, que para ela era ainda desconhecida.

O estilete agudo, empeçonhado do ciúme, torturou-a sem cessar.

Esta circunstância predispunha-a fatalmente para cair no laço armado pelo Barão de Fossaro.

Finalmente, um pouco depois das oito horas, não se podendo conter, e querendo a todo o custo saber o que se passava, preparava-se para sair e correr à Rua Francisco I, com risco de se comprometer e descontentar Heitor.

Bateram naquele momento duas leves pancadas na porta.

Lucilia teve um estremecimento de alegria, e correu a abrir.

A porteira estava no limiar da porta.

Apresentou-lhe uma carta, acompanhando-a com um sorriso e com estas palavras:

— Um moço de recados acaba de lhe trazer isto, menina Toutinegra. Parece que é urgente Vem da Rua Francisco I.

— Obrigada, respondeu a jovem agarrando na carta, e olhando para a tia, cujo sono tranqüilo não fora interrompido pelo ruído da porta, quando se abriu, nem pelas palavras proferidas em voz alta.

Lucilia aproximou-se do candieiro, e deitou os olhos para o sobrescrito.

— É a letra de Heitor... balbuciou! Não pôde vir e escreve-me... Ah! já estou sossegada.

Quebrou o sinete e leu, não o verdadeiro bilhete do príncipe, — será preciso dizê-lo — mas as linhas glaciais escritas por César, com o seu incomparável talento de falsário, e que os nossos leitores já conhecem.

As primeiras linhas, uma mortal palidez espraiou-se pelo rosto da Toutinegra; os lábios tremeram-lhe, tremeram-lhe as mãos, tremeu-lhe todo o corpo.

— Partiu! murmurou com uma voz sufocada. E é com esta sequidão desesperadora que me anuncia a sua retirada e o adiamento da nossa viagem! Nem uma só palavra de sincero afeto! Nada do coração! Oh! os meus pressentimentos!

Tornou a ler a primeira frase e repetiu:

— Grandes interesses! Pois além do nosso amor deviam existir outros interesses! Esta jornada repentina é apenas um pretexto precursor do seu rompimento. Heitor já não me ama! E amou-me ele alguma vez?

Lucilia deixou-se cair numa cadeira, ocultando o rosto nas mãos, e chorando silenciosamente para não despertar a cega. Prolongou-se por muito tempo esta crise de dor muda. De repente a jovem ergueu a fronte. Acabava de ouvir bater por segunda vez à porta da água-furtada.

— Será mais algum novo desgosto? perguntou indo abrir.

 

A AVE E A ARMADILHA

A porta estava um homem cego e barbudo, vestido de moço de recados.

— Que quer, senhor? perguntou a jovem.

— A senhora é que se chama Lucilia Gonthier? perguntou em lugar de responder.

— Sim, senhor.

— Então, isto é para a senhora.

E o moço de recados deu uma carta à órfã que pegou nela maquinalmente.

Muito surpreendida, ela ia interrogá-lo mas o homem tinha fechado a porta, e já descia a escada.

A cega acabava de despertar.

— Que é isso, pequena? murmurou.

— É uma carta, minha tia.

— Do príncipe, de certo. Ele não veio?

— Não, minha tia...

— E é tarde?

— Oito horas e alguns minutos.

— Bem, pois vou deitar-me. Estou a cair de sono, apesar do adiantamento que já tomei por conta da noite.

— Venha, tia, que eu a dispo.

— Não, não, lê primeiro a carta.

— Não há pressa, depois a leio. Venha.

E a jovem conduziu a anciã para o quarto próximo, onde a despiu v a meteu na cama.

 

O fato é que a órfã, vendo no sobrescrito letra desconhecida, sentiu um terror instintivo e adiava o momento de abrir a carta, donde, parecia-lhe, devia sair a nova de alguma desgraça.

Depois da septuagenária se deitar e de adormecer, a Toutinegra ainda esperou alguns minutos.

Mas afinal, envergonhada da sua hesitação, rasgou o sobrescrito e devorou a carta anônima que nos parece conveniente expor novamente aos olhos do leitor:

"Menina Lucilia.

"Enganam-na. Se quer saber de que natureza são os graves negócios que forçam o senhor de Castel-Vivant a afastar-se sem a tornar a ver, não tem mais do que dirigir-se esta tarde a Creteil, ao chalet da ilha Basse. Apear-se-á na estrada de ferro na estação de Saint-Maur-les-Fossés. Assim que atravessar a ponte de Creteil, o primeiro transeunte que lhe aparecer, indicar-lhe-á o caminho que deve seguir para ir ao chalet. A pessoa que lhe escreve interessa-se pela senhora, porque sabe quanto o seu amor é puro e desinteressado. Bastar-lhe-á talvez uma palavra para arrancar aquele a quem ama das garras de uma mulher indigna, que só trata de se apoderar do título e da fortuna de Heitor.

"Salve-o de uma perda certa. Seja corajosa até ao heroísmo. Mostre ao Príncipe de Castel-Vivant o abismo para onde se deixa arrastar. A sua honra, a sua própria vida, estão em perigo, porque a criatura por quem ele a atraiçoa é capaz de todos os crimes! Ela já cometeu um infanticídio; mostrar-se-lhe-á o meio de dar uma prova disso ao Príncipe.

"Não hesite, menina, e creia na palavra de um homem de bem, amigo do doutor Antonino Frébault, que sabendo muito bem quanto vale muito a estima.

 

Depois de ler até à última linha, Lucilia ficou imóvel durante alguns segundos, com a boca entreaberta, os olhos espantados, e como assombrada.

De repente ergueu-se.

Estava transfigurada, febril, e dos lábios saíram-lhe estas palavras:

— Ah! não será debalde que se terá feito apelo à minha coragem, à minha dedicação... Que me importa a vida? Quero salvar Heitor, ou pelo menos tentar salvá-lo. Se ele sucumbir, de que me servirá viver?

Ao mesmo tempo que dizia isto, a órfã metia na algibeira as duas cartas que acabava de receber sucessivamente, deixando, por esquecimento, ficar em cima da mesa os sobrescritos com as armas do príncipe.

Pôs na cabeça um chapéu sombrio, embuçou-se numa capa de peles, pegou no seu "porte-monaie", certificou-se de que a tia dormia sossegadamente, deixou a água-furtada, desceu rapidamente a escada, e passou sem se deter por diante da porteira que não a viu sair.

A atmosfera úmida e pesada, pressagiava a volta próxima das grandes chuvas na bacia do Sena.

No boulevard de Belleville, Lucília olhou para o relógio da estação dos trens.

— Nove e um quarto! murmurou. A pé não chegarei nunca....Subiu para um trem, deu ordem para o cocheiro a conduzir à

estrada de ferro de Vincennes, e pôs-se a chorar amargamente.

As lágrimas fizeram-lhe adquirir uma tranqüilidade relativa.

Apeou-se na gare, quatorze minutos antes de principiar a venda dos bilhetes.

Tinha pois de esperar com inexprimível angústia.

Finalmente, pode comprar o seu bilhete para Saint-Maur-les-Fossés, donde se devia dirigir para a ponte de Creteil, segundo as informações ministradas pela carta anônima.

Em Saint-Maur fez perguntas.

Um empregado da estação informou-a.

O céu estava como breu.

O vento soprava com lufadas violentas.

No horizonte, grandes relâmpagos rasgavam as nuvens.

Principiava a cair a chuva.

Lucilia não andava, corria.

Que lhe importava a tempestade ribombando por cima da sua cabeça?

Tratava-se da salvação de Heitor.

Era pelo menos o que ela julgava.

A sua sublime dedicação tudo lhe fazia esquecer.

Chegando à ponte de Creteil, as casas já não a abrigavam.

Ouvia os queixumes lúgubres do vento, e o ruído assustador das águas muito volumosas, engolfando-se pelos arcos que eram agora estreitos para elas.

Alguns fregueses mais demorados, fumavam e conversavam ainda no café restaurante da testa da ponte.

Pela porta entreaberta saía um raio luminoso.

A órfã empurrou a porta, parou à entrada e perguntou:

— Têm a bondade de me dizer por onde devo tomar para ir ao chalet da ilha Basse?

Os fumadores olharam uns para os outros espantados.

Foi o dono da casa quem respondeu:

— Atravessem a ponte, e tomem pela grande avenida dos alamos á sua esquerda.

 

Estava no estabelecimento, acantoada em sítio sombrio, com o traje de camponesa dos arredores de Paris, embuçada num manto de estofo grosseiro, e o rosto oculto por uma capota muito grande.

— Com um tempo destes, menina, disse ela, vai perder-se por aí. Eu dirijo-me para o mesmo lado. Se quiser, iremos juntas.

— Ah! minha senhora, retorquiu Lucilia, aceito de boa vontade.

— Então venha.

Lucilia e a desconhecida meteram-se pela ponte ao lado uma da outra.

A tempestade desencadeava-se com duplo furor.

A grande massa líquida bramia de encontro aos pilares.

O vento uivava arrancando as últimas folhas das arvores plantadas nas margens do rio.

As duas mulheres chegaram finalmente à avenida dos alamos.

O ruído dos elementos desencadeados era ali um pouco menos atroador. e permitia trocarem-se algumas palavras.

A órfã perguntou:

— Estamos ainda longe do chalet da ilha Basse?

— Num pequenino quarto de hora estaremos na Cova das Carpas, e daí à ilha, bastam uns cinco ou seis minutos.

— Acompanha-me até lá?

— De certo, porque moro do lado de lá do chalet, a uns cem metros, na vertente.

E passado um momento, acrescentou:

— Avie-se, menina, a tempestade que está uivando vai desencadear-se com toda a força. Tenha o cuidado de ir por onde eu vou. O caminho trilhado é por aqui.

De segundo em segundo, grandes relâmpagos inundavam com uma claridade branca a estrada úmida onde se abriam profundos regueiros.

Ouviu-se ruído de passos.

Passou pelas duas mulheres um camponês.

— Muito mau tempo para irmos para os lados da barragem, minhas santinhas. Vai ser o bom e o bonito, não tarda nada!

 

A desconhecida e Lucilia continuaram o seu caminho sem responder.

O vendaval aumentava de intensidade.

As gotas de chuva tornavam-se cada vez mais grossas e mais freqüentes.

A camponesa deixou a avenida para tomar o caminho coberto por onde vimos embrenhar-se Fossaro.

À esquerda, por detrás das sebes, um braço muito cheio do Marne corria impetuosamente.

Eis-nos próximo da Cova das Carpas... disse a companheira de Lucilia. Não tarda que cheguemos. Por acaso vai passar a noite no chalet?

— Não sei, respondeu Lucilia. Vou falar com alguém que ali deve aparecer esta noite. Conhece os donos do chalet? acrescentou.

— Os donos são uma senhorita... uma parisiense... uma bonita rapariga que tem dentes como pérolas, e olhos como luzes. As borboletas vão queimar-se nelas, e contam-se histórias muito esquisitas a respeito do que se passa no chalet. Dizem que tem ali ido homens que não têm tornado a sair, mas não deve ser verdade, embora eu julgue a parisiense capaz de tudo.

A órfã não respondeu. Pensava.

As palavras da desconhecida confirmavam ponto por ponto a carta anônima.

— Ele está ali ao pé daquela odiosa criatura! dizia consigo a pobre menina. Se não fosse eu, ele ficaria de certo perdido! Deus há de permitir que o salve.

Durante alguns minutos as duas caminharam em silêncio. Afinal a companheira de Lucilia fez alto.

— Chegamos? murmurou a Toutinegra.

— Sim, menina.

— Não distingo nada.

— É que a noite está muito escura. Eis a pontezinha. Três tábuas pouco sólidas, ligadas nem mal nem bem, e que conduzem a uma portinha sempre aberta. Vê a luz por detrás das tabuinhas?

Lucilia sondou o melhor que pode as trevas espessas, e acabou por distinguir na sua frente uma claridade pálida.

Deu um passo em frente, e pôs o pé na ponte frágil, lançada sobre as águas quase sempre dormentes, mas agora impetuosas.

A trepidação das tábuas abaladas meteu-lhe medo.

Recuou.

— Vou conduzi-la ao chalet, menina, tornou a desconhecida. Ah! eu conheço muito bem a propriedade.

— Indique-me o caminho, peço-lhe. Ficar-lhe-ei muito reconhecida.

— Deixe-me então ir adiante... Chegaremos juntas à porta, mas eu não entrarei. Já não terá medo de estar só, porque encontrará toda a gente em pé lá dentro... Fazem pândega até pela manhã, e de dia descansam. São borboletas noturnas os tais parisienses, tanto homens como mulheres!

Dizendo isto a camponesa metera-se pela ponte pouco segura, e pegando-lhe na mão ajudava Lucilia a conservar o equilíbrio.

Uivou uma formidável lufada, acompanhada de relâmpagos e trovões.

Assustada, de certo, a companheira da Toutinegra soltou um grande grito.

Uma gargalhada que partiu do chalet, pareceu-lhe responder.

Esta gargalhada fez vibrar uma fibra dolorosa no coração de Lucilia.

As águas mugiam na praia.

Ouviam-se bater com um ruído sinistro na pequena barragem ou dique situado na ponta da ilha, e cujo mau estado vimos Fossaro verificar.

As duas mulheres tinham entrado no jardim.

— Siga-me, tornou a desconhecida, levando pela mão Lucilia gelada de terror.

De repente, Lucilia retesou o corpo.

— Que tem? perguntou-lhe a camponesa.

— É que vamos caminhando pela água.

— São as poças da chuva. Não ê nada, venha depressa.

Lucilia obedeceu.

Chegavam aos três degraus de pedra que conduziam à porta do chalet.

— É ali, tornou a desconhecida. Já não precisa de mim. Bata que hão de abrir-lhe. Agora deixo-a.

— Obrigada, senhora... Obrigada.

— Não tem nada que me agradecer.

E a camponesa voltando para trás, desapareceu na escuridão. Ouviu-se novo ribombo do trovão.

A chuva caía agora, como se as cataratas do céu acabassem de se abrir todas a um tempo.

Lucilia subiu os degraus.

O clarão deslumbrador de um relâmpago, mostrou-lhe a chave na fechadura, muito ao alcance da mão.

— Vou surpreendê-los... disse ela consigo, E em lugar de bater, abriu.

 

CONTINUAÇÃO

Apenas a porta girou nos gonzos, duas mãos vigorosas agarraram na jovem pelos pulsos e arrastaram-na para o fundo do quarto alumiado pelas velas de um pequeno candelabro.

Lucilia soltou uma exclamação de terror, e quis resistir, mas o único resultado desta tentativa foi provar-lhe a sua fraqueza.

Achava-se só na presença de um homem cego de um olho, de rosto sinistro.

Pareceu-lhe reconhecer naquele homem o moço de recados que duas horas antes fora à sua água-furtada.

O desconhecido disse-lhe com um riso de fera:

— Ora até que a apanhei, menina dos milhões, futura Princesa. Vem aqui procurar o seu amante. O ciúme fê-la cair às cegas no laço! Tanto pior para si, minha linda! Não sairá do chalet!

A órfã escutava, como se fosse em sonhos, aquelas palavras proferidas com uma voz abafada, que entretanto não se confundia com o sibilar da tempestade, nem com o estrondo das águas rugidoras.

Metida a um canto do quarto, muda e toda trêmula, olhava alucinada para o bandido que estava na sua frente.

Tirando uma navalha da algibeira, ele continuou:

— Em menos de uma hora, pequena, a ilha Basse ficará submersa, e as águas do Marne arrastarão o teu cadáver...

A iminência do perigo restituiu um pouco as forças a Lucilia. Atreveu-se a balbuciar:

— Que lhe fiz eu? Não o conheço... Por que é meu inimigo? Por que me armou este laço? Por que vai assim assassinar covardemente uma criatura sem defesa? Ferindo-me, quer ferir o Príncipe? Cometi algum crime, amando-o do fundo dalma? Ah! se a minha morte o deve salvar, mate-me. mate-me depressa, deixe-o viver a ele!

— O Príncipe está também condenado! disse ele erguendo a arma cujo aço a luz das velas fez cintilar.

 

Quando ia cravar o ferro, ouviu-se um estalido. O chalet estremeceu da base ao teto.

A ligeira construção parecia oscilar nos seus alicerces, como que sacudida por um tremor de terra. A órfã deixou-se cair de joelhos.

— Perdão! murmurou, pondo as mãos. Tenha piedade de mim! Perdoe-me!

— Com mil raios! bradou o desconhecido cheio de raiva. Eis a cheia! O Marne vai-nos levar! É preciso acabar com isto.

Por segunda vez ergueu a faca!

Lucilia sentiu-se perdida... Saiu-lhe dos lábios um gemido. Fechou os olhos e rolou sem sentidos pelo sobrado coberto de lama. Em vista daquilo, o homem disse consigo:

— Desmaiada! De que serve feri-la? Um golpe deixa sempre vestígios. É inútil o crime quando o acidente basta.. É preciso que o cadáver não fale!

Debruçando-se então para a jovem, revistou-lhe as algibeiras, e tirou-lhe as duas cartas que conhecemos.

Chegando-as à luz de uma vela, reduziu-as a cinzas.

Voltando em seguida para Lucilia,tomou-a nos braços, e carregado com este leve fardo, dirigiu-se para a porta.

Quando ali chegava, atingiu o furacão a sua máxima intensidade.

Era de ensurdecer o fragor dos elementos desencadeados.

Com um vigoroso pontapé, o bandido abriu a porta: mas em lugar de sair, recuou aterrado.

Ao clarão de um relâmpago.descobriu uma torrente impetuosa envolvendo por todos os lados o chalet, e cobrindo a ilha Basse.

Em menos de um quarto de hora a água subira oitenta centímetros arrancando árvores arrastando tudo na sua passagem.

Ouviu-se uma voz dos lados da praia bradar:

— Pedro! gritava a voz, toma cuidado, é a cheia!

— Lá vou! respondeu o cego de um olho.

Arremessou o corpo de Lucilia para longe. A corrente apoderou-se dela como de uma palha Depois atirando-se à água que lhe dava pela cintura atravessou o jardim inundado chegou à porta atravessou a ponte pequenina coberta pelas ondas e reuniu-se à mulher de capota que o esperava sobre um ponto elevado da estrada

— A caminho! disse-lhe ele, e depressa! Escapo de boa, mas o nosso segredo há de ficar bem guardado!

O cego e a sua cúmplice. Fossaro e Genoveva, dirigiram-se para Creteil.

De repente, soou detrás deles um ruído sinistro.

Atravessou O espaço um grito de agonia, vibrou por algum tempo, e não se ouviu em seguida mais que o fragor do vento e das águas.

O chalet da ilha Basse, abalado, minado, escavado, havia dois anos pelas cheias sucessivas acabava de se afundar...

 

Segundo o seu costume, a tia cega tinha-se deixado dormir até muito tarde.

Por volta das nove horas da manhã, após uma noite de sono muito sossegado, despertou e chamou Lucilia.

A Toutinegra, infelizmente, não podia responder-lhe.

— Saiu para algumas compras... disse a septuagenária. E esperou sem grande impaciência.

O tempo passava.

— Enganar-me-ia eu? tornou a cega no fim de um quarto de hora. Será por acaso noite ainda? Mas não. é impossível... Ouço andar pela casa... Está toda a gente ainda de pé... demais, tenho o estômago a dar horas, e este é um relógio que nunca se transtorna...

Tornou a chamar Lucilia com mais força ainda.

Como os seus brados não tivessem resultado, apoderou-se dela uma inquietação muito natural.

Trêmula, saltou da cama. dirigiu-se com os braços estendidos para a porta que separava o seu quarto do da sobrinha, abriu-a, e. às apalpadelas, aproximou-se do leito que achou muito em ordem.

— A cama está feita... pensou a cega. A pequena deve ter saído esta manhã... Mas como se demora! Não é o seu costume!! One horas são?

A anciã aproximou-se do relógio de cuco suspenso da parede, passou muito de leve os dedos por cima do mostrador. consultou os ponteiros, e descobriu sem custo que eram dez horas.

— Dez horas! murmurou. Porque será esta ausência tão prolongada? Ontem à noite ela recebeu um bilhete do Príncipe. O que lhe diria a carta? Meu Deus. se aquele homem tivesse abusado da ingenuidade de Lucilia... do seu amor!! Os homens são capaz-es de tudo! Não. não, não quero crer. Lucilia demora-se, não é mais nada. Daqui a cinco minutos volta...

Passaram os cinco minutos, depois outros cinco, e a final um quarto de hora.

A septuagenária, dominada então por uma angústia indizível, voltou para o quarto, vestiu-se à pressa, dirigiu-se para a porta da escada, abriu-a, e gritou:

— Senhora Verdier! senhora Verdier!

— Ei-la! ei-la! respondeu a vizinha, apressando-se a abrir a porta. Que determina, minha cara senhora? acrescentou.

A cega fê-la entrar, fechou a porta e perguntou:

— São dez horas,não é verdade?

— Por que me faz essa pergunta? Que há de novo? Vejo-a tão alvoroçada!

— Viu hoje Lucilia? tornou a cega.

— Não vi... Não está cá?

— Não, não está. Tem a certeza de que não a ouviu sair esta manhã?

— Oh! essa certeza, tenho-a! mas isso não prova nada... podia não a ter ouvido... Há alguma coisa que a inquieta? Supõe que sucedesse alguma coisa?

— Não sei o que suponha... alguma coisa extraordinária se passa... tenho medo...

— É preciso sossegar,minha querida senhora... A porteira pôde dar-nos algumas informações... Quer que vá em baixo e a interrogue?

— Sim, sim, peço-lhe...

— Vou a correr.

E a senhora Verdier, no fundo excelente pessoa, e muito impressionada, porque sinceramente amava a Toutinegra, correu para fora do quarto.

Passados cinco minutos entrava ofegante, depois de subir de um fôlego os cinco andares.

— Nada! disse ela com uma voz entrecortada. A porteira tem estado toda a manhã a trabalhar no seu cubículo, não arredou pé. Devia ter visto passar Lucilia... Nada viu.

— Então é que a pequena não se recolheu ontem à noite! exclamou a septuagenária com desespero.

— Não se recolheu! repetiu a senhora Verdier, levantando as mãos ao céu. Pois ela havia de passar a noite fora de casa na véspera do casamento!

— Oh! nada de suposições injuriosas! replicou a cega. Conheço Lucilia... tenho-a por incapaz de uma fraqueza!... A pobre pequena não pecou, foi algum laço que lhe armaram, ou deixou-se levar pelo desespero.

— Oh! minha boa vizinha, está a assustar-me. De que laço-me fala? a que propósito esse desespero?

— Ontem, a minha sobrinha recebeu uma carta... É preciso encontrar essa carta, que talvez, nos mostre algum indício. Procure-a, peço-lhe.

A senhora Verdier olhou para a mesa de trabalho de Lucilia,. viu d sobrescrito que ali deixara a jovem, e exclamou:

— Uma carta... ei-la.

— Leia, leia depressa! leia em voz muito alta! Bem vê que estou sobre brasas!

A senhora Verdier lançou mão do sobrescrito, e com grande surpresa sua, nada achou dentro.

— Não temos sorte! disse, o envelope está vazio!

— Mas para quem era dirigido?

— À menina Lucilia Gonthier, rua Julien Lacroix. Há um sinete quebrado... um belo sinete de lacre vermelho com uma coroa...

— O sinete do Príncipe! murmurou a velha. Ah! bem me dizia o coração, Lucilia foi atraída a algum laço por aquele miserável que falava de. casamento para disfarçar os seus vergonhosos projetos!... É infame!... E não posso ir em socorro da minha pobre menina sem defesa! Sou velha... fraca... Estou cega e impotente! Deus é desapiedado para mim!

E a septuagenária pôs-se a soluçar contorcendo as mãos.

— Vejamos... Vejamos... tia Gonthier... disse a ex-formosa hervanária enxugando os olhos arrasados de lágrimas. Não se apoquente tanto... Não temos a prova de que sucedesse alguma desgraça...

A cega não escutava.

— Senhora Verdier, disse, se tivesse de permanecer nesta incerteza, morreria dentro de uma hora. Venha comigo.

— Vizinha, que quer fazer?

— Quero ir à rua Francisco I, pedir minha filha à irmã do Príncipe de Castel-Vivant.

— Mas é impossível.

— Impossível, por quê? A vizinha pôde levar-me muito bem até urna carruagem, não é verdade?

— Até, se for preciso, acompanhá-la-ei a qualquer outra parte.

— Obrigado, recuso o oferecimento... não tenho necessidade de ninguém para obrigar o Príncipe a dizer-me o que fez de Lucilia.

Venha então, visto que assim o quer absolutamente.

 

A senhora Verdier conduziu a septuagenária a um trem de praça.

Depois de a meter dentro do trem disse ao cocheiro:

— A pobre mulher é cega, tenha cuidado com ela.

— Sossegue... Aonde vamos?

— À rua de Francisco I, palácio do Príncipe de Castel-Vivant. Não sei o número... mas toda a gente no sítio lhe indicará o palácio.

Três quartos de hora depois, o trem parava no lugar designado. O cocheiro saltou da almofada, e perguntou:

— Toco a campainha, freguesa?

— Sim, se faz favor.

— Vou primeiro ajudá-la a apear-se.

O bom do cocheiro fê-la atravessar o passeio, e puxou pela campainha.

Quase no mesmo instante o porteiro abriu então a porta.

— Quem é? perguntou dirigindo-se primeiramente ao cocheiro

— Foi esta senhora cega que me encarregou de a conduzir aqui, respondeu o cocheiro.

O porteiro voltando-se então para a tia de Lucília retorquiu:

— Que deseja, minha senhora?

— Desejo falar ao Príncipe de Castel-Vivant.

— O senhor Príncipe está ausente.

— É mentira! exclamou a septuagenária.

— Como! como é mentira! repetia o porteiro pasmado. Não é delicada minha querida senhora.

A tia de Lucilia compreendeu que seguia caminho errada.

— É verdade, senhor... balbuciou, mas peço-lhe que me desculpe, sou tão infeliz! Juro-lhe que preciso falar ao senhor de Castel-Vivant. Depende disso o meu sossego... a minha vida!

O criado tornou muito seriamente:

— Afirmo-lhe novamente, minha senhora, que meu amo saiu de Paris ontem à tarde...

— A que horas?

— Cedo

— O senhor quer enganar-me! retorquiu a septuagenária. A minha sobrinha Lucilia que mora em Belleville, recebeu uma carta de seu amo muito mais tarde.

— Lembro-me efetivamente que o senhor Príncipe quando se retirava, entregou uma carta para Belleville ao primeiro criado de quarto. Esta carta mandada por um moço de recado, era dirigida à menina Lucilia Gonthier. Proferiram este nome diante de mim.

A pobre anciã tornou:

— É que seu amo preparava o laço abominável em que Lucilia caiu. Tão verdade como existir um Deus, não me irei daqui enquanto não souber o que o Príncipe fez da minha querida menina! E se for desapiedado, se me expulsar deste pátio de entrada, esperarei na rua!

Exatamente naquele momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parava à porta que ficara entreaberta. A porta abriu-se de par cm par. Heitor apareceu à entrada.

 

INVESTIGAÇÕES

Ao ver a cega, o principezinho soltou uma exclamação de surpresa.

Correu para ela.

— A senhora Gonthier aqui! exclamou.

A cega reconheceu-lhe a voz.

Agarrou-se a ele por um braço, e disse:

— Não era então mentira a sua partida! Eu bem adivinhara!

Ei-lo! Apanhei-o! não o largarei enquanto não me responder!

Heitor fez-se pálido.

Assustou-o uma vaga angústia.

— Responder-lhe! balbuciou. Mas a mim é que me pertence interrogá-la, e tenho pressa de o fazer, porque a sua presença mete-me medo. Venha, minha senhora, venha.

E levou a septuagenária até à sala do "rez-de-chaussée", e depois de fechar a porta, disse com vivacidade:

— Então que há de novo, senhora Gonthier?

A cega cravou no Príncipe os seus olhos sem vista. Depois, com uma voz abafada, perguntou-lhe:

— Que fez da minha sobrinha?

Heitor estremeceu, como se recebesse, em cheio, no coração, uma facada.

Transtornou-se-lhe o rosto, agitou-lhe as mãos um tremor nervoso, ao mesmo tempo que o suor em bagas lhe umedecia as raízes do cabelo.

— O que fiz da sua sobrinha? repetiu o mancebo alucinado. Não compreendo! Onde está Lucilia?

— O senhor é que me há de dizer, o senhor que ma roubou! respondeu a septuagenária.

— Lucilia abandonou a sua casa? bradou o Príncipe desorientado.

— O senhor bem o sabe!

— Pela minha honra, pelo meu amor, juro-lhe une não sei nada!

O tom de sinceridade com que Heitor proferiu estas palavras, produziu certa impressão na anciã.

Contudo, prosseguiu:

— De que serve mentir? O senhor espera fazer me crer que não é o raptor de Lucilia? A não ser o senhor, quem havia de ser? Em todo o caso atrever-se-ia a negar que lhe escreveu? Os seus criados desmenti-lo-iam!

O principezinho retorquiu com vivacidade:

— Não nego isso! Não podendo ir à rua Julien Lacroix, como era minha tenção, escrevi a Lucilia.

— Para lhe aprazar uma entrevista, aonde ela foi... Heitor sentia baralharem-se-lhe as idéias.

— Uma entrevista! repetiu. Como lhe podia eu dar uma entrevista, tendo saído de Paris?

— O senhor deixou Paris? É mais uma mentira! Qual foi o motivo dessa retirada imprevista?

— Fui chamado a Vezelay, perto de Amboise, onde o incêndio acabava de consumir uma residência que me pertence, pondo em perigo a vida de meu pai adotivo. Podia, por acaso, deixar de ir? O tempo urgia... Escrevi a Lucilia um bilhete de três linhas... Anunciava-lhe um regresso quase imediato... Não acredita?

— Continue.

— Dizia-lhe: Adoro-a... Pedia-lhe que me amasse... Hei de admitir que ela duvidou de mim? que supôs que eu a enganava? ou que tomando o meu bilhete como um precursor de um rompimento, ela perdesse a cabeça, e o seu louco ciúme a levasse a um ato de desespero?

— Tudo é admissível, retorquiu a cega, tudo é verossímil, pois que desapareceu. Oh, minha filha, minha pobre filha! Está a estas horas talvez morta! Meu Deus! meu Deus!

Heitor chorava.

— O que havemos de fazer? balbuciou.

— Procurá-la sem perda de um instante... revolver Paris Oh! se eu tivesse vista! Infelizmente sou cega!

— Sim. tem razão, corro...

— E eu não o largarei... exclamou a senhora Gonthier tornando a agarrar no braço do mancebo. Quero acompanhá-lo por toda a pane, segui-lo nas suas diligências. É o meu dever e o meu direito. Quero, em suma, tornar a encontrar a minha sobrinha, viva ou morta.

— Morta! repetiu o Príncipe cheio de terror.

— Sim, morta!

— Não profira semelhante palavra! cale-se! cale-se! Deus não há de ter permitido semelhante desgraça! Com certeza protegeu o anjo a quem amamos. Havemos de tornar a encontrar Lucilia!

Partamos, partamos depressa!Diga-me, porém, primeiramente, que

já não me acusa...

— Oh! não, cem vezes não, perdoe-me, estava louca... Mas lembre-se do que sofria... do que ainda sofro!

— Coragem, senhora! Mostre-se forte... Deus terá piedade.

 

Heitor tocou uma campainha.

— O coupé está posto? perguntou ao criado de quarto.

— Sim, senhor... está à espera...

— Venha, senhora Gonthier, nós partimos...

O trem vindo de Belleville, foi generosamente pago.

A septuagenária tomou lugar no trem, ao lado do mancebo.

— Aonde vamos primeiramente? perguntou-lhe ela.

— A Morgue.

Tão sinistra palavra gelou o sangue nas veias da cega. cujos soluços aumentavam.

É na Morgue que se expõem os cadáveres dos desconhecidos

Não lhe fez mais perguntas.

O coupé partiu a toda a brida.

Infelizmente a primeira paragem não deu resultado

Um só cadáver, o de um homem, jazia nas lages inclinadas da Morgue.

Heitor dirigiu-se ao escritório.

Receando de uma desgraça que não queria admitir, deu os sinais de Lucilia, e a sua própria morada, para que o avisassem sem demora se aparecesse o corpo da pobre menina.

Da Morgue dirigiu-se à prefeitura da polícia, onde tomaram nota rigorosa das suas declarações.

Obteve ali a promessa de que a brigada de segurança iria imediatamente ocupar-se da jovem desaparecida.

Da prefeitura o cocheiro recebeu ordem de ir à rua Julien Lacroix.

Talvez Lucilia houvesse voltado para casa.

Baldada esperança!

A órfã não apareceu.

Heitor esquadrinhou por toda a parte, esperando encontrar um indício qualquer que o pusesse na posta e facilitasse as pesquisas.

O sobrescrito que ficara em cima da mesa do trabalho, atraiu-lhe o olhar.

Pegou nele e examinou-o com atenção.

Era exatamente a sua letra, o seu papel e o seu sinete.

Uma só coisa lhe causou admiração.

Habitualmente escrevia a morada no alto do sobrescrito, e o nome do destinatário por baixo; ora no sobrescrito que tinha à vista, havia uma disposição inversa, pois que as palavras Julien Lacroix estavam por baixo do nome de Lucilia Gonthier.

Lembrou-se porém da sua grande preocupação quando escrevia, a sua admiração diminuiu.

Entretanto, meteu sempre o sobrescrito na sua carteira.

— Então? perguntou a cega.

— Nada, respondeu o mancebo com desespero. Nada que nos possa guiar!

A septuagenária deixou-se cair de joelhos.

— Meu Deus, balbuciou ela,que vai ser de mim. Eu só vivia por Lucilia, de Lucilia cessou de viver, que fico eu cá fazendo neste mundo? Deus me chame para si! A morte seria um alívio.

O que vai ser de si? exclamou o Príncipe comovido. Eu vou lhe dizer, neste mesmo quarto, neste mesmo lugar, há poucos dias, a senhora chamava-nos, a mim e a sua sobrinha, seus filhos. Esse título, ainda o mereço, ainda o reclamo. Continuará n viver para Lucilia viva, e até ao dia ditoso em que ela for minha mulher, a senhora não me deixará.

E chegando ao coração a cega que chorava, abraçou-a com um:', ternura verdadeiramente filial.

 

Cinco minutos depois, tornavam a descer em sua companhia os cinco andares, e fazia-a novamente subir para a carruagem, depois de dar dez luizes à porteira, que prometeu correr à rua Francisco T se soubesse alguma coisa.

Depois de instalar a senhora Gonthier num quarto próximo do seu, Heitor dirigiu-se à loja de bebidas da rua Victoria, onde encarregou um dos empregados da casa de levar à agência Malpertuis um bilhete dirigido a Estanislau Picolet, e assim concebido:

 

"Senhor Sta-Pi."

"Espero-o no pequeno café."

"Muito urgente."

"Heitor."

 

Um instante depois, o falso polícia vinha muito risonho procurar o Príncipe cujo rosto sombrio o impressionou.

Dirigindo-se com um respeitosos interesse, perguntou:

— Meu senhor, há alguma coisa que não corria à medida dos seus desejos?

— Sou muito desgraçado, senhor Sta-Pi... volveu o ex-Bégourde.

— Desgraçado, meu Príncipe? — Sim.

— Por que,então?

— Desapareceu Lucilia Gonthier.

A fisionomia expressiva do falso polícia, manifestou o mais profundo espanto.

— Pois a lourinha mandou passear o Príncipe, que é tão rico e tão generoso! murmurou. Não sabe a gente em quem se fie! E o Príncipe conhece o cúmplice desta fuga inverossímil?

— Não calunie um anjo de virtude! exclamou o Príncipe. Não se pôde suspeitar de Lucilia. Tenho toda a certeza de que ela não é culpada, e tenho medo até de que já não existia...

— O quê, pois julga que ela morreu?

E Sta-Pi franziu o sobrolho.

— Temos algum crime? acrescentou.

— Diga antes um suicídio...

— Um suicídio na sua idade! Mas porque, santo Deus! Heitor referiu o pouco que sabia.

O agente de Malpertuis tornou:

— Então acha que a menina Lucilia se suicidou por se julgar abandonada pelo Príncipe?

— Repito-lhe que o receio bem.

— Então a carta escrita à jovem no momento de se retirar, prestava-se muito ao equívoco?

— Era simplesmente lacônica...

— Esqueceu os termos em que ela era concebida?

— Se não me lembro das expressões, lembro-me pelo menos do sentido..

 

O Príncipe invocou as suas recordações, e repetiu quase textualmente as poucas linhas do bilhete que os leitores conhecem. Sta-Pi tomou nota delas no seu livro de lembranças.

— Não há nisto nenhum motivo de suicídio... disse ele. Nada denuncia, nestas curtas frases, um pensamento reservado de abandono... Se a menina Lucilia é de gênio desconfiado e ciumento, teria, o muito, suposto que era mentiroso o anúncio da sua partida, e nesse caso correria a sua casa para se certificar disso...

— Não se apresentou no palácio...

— Fez algumas pesquisas em casa da jovem?

— Sim, procurei por toda a parte.

— Não achou nada?

— Nada... exceto o envelope da minha carta.

— É um bom sinal... As mulheres que se matam por desespero de amor têm por costume escreverem ao seu infiel antes de acenderem o rescaldo da asfixia ou de se atirarem ao rio...

— Que me diz!...

— É regra quase sem exceção... tem o envelope de que acaba de me falar?

— Tenho... Quer examina?lo?

— Mais tarde nos ocuparemos disso. A que horas escreveu?

— No momento de partir, um pouco antes das duas horas.

— A quem confiou a sua carta?

— Ao meu criado de quarto. Luiz.

— E ele levou-a imediatamente ao seu destino?

— Ignoro.

— É preciso sabê-lo... Viu a menina Lucilia pela manhã?

— Não.

Sta-Pi agarrou na fronte com as mãos ambas e durante alguns segundos conservou-se silencioso.

— Em que pensa? perguntou-lhe o Príncipe inquieto com aquele mutismo.

— Em muitas coisas... Era conhecida a sua ligação co ma menina Lucilia?

Heitor abanou a cabeça.

— Tem a certeza disso? continuou Sta-Pi.

— Ninguém ouvira falar da menina Gonthier, ninguém, exceto o meu pobre amigo o doutor Frébault, que já não existe.

— Isso é o que resta verificar... Deu já alguns passos e contou a alguém a estranha desaparição que tanto o aflige?

— Fui à Morgue e avisei a polícia.

Picolet encolheu imperceptivelmente os ombros.

— Enfim, murmurou, se isso não faz bem, também não faz mal. Porém, a minha confiança é limitada.

— O que conclui?

— Por agora nada... Tenho precisão de refletir e de passar a noite a procurar o meio de desembrulhar este negócio... Poderia amanhã pela manhã apresentar-me no seu palácio? Examinarei o envelope da carta dirigida à menina Lucilia, e interrogarei o criado de quarto incumbido de levar essa carta.

— Esperá-lo-ei com impaciência febril.

— Tomo a liberdade de rogar ao Príncipe que não dê nenhum passo, que não volte à Morgue, nem à Polícia. Eu me encarrego de tudo...

— Conheço o seu zelo e inteligência... Tenho confiança...

— O Príncipe tem muita bondade para comigo! Na verdade o Príncipe enche-me de favores.

— Tem precisão de dinheiro?

— Se respondesse: não, o Príncipe não me acreditaria.

— Aqui estão dois mil francos. Será bastante para as primeiras despesas?

— É bastante.

— E lembre-se, senhor Sta-Pi,, que se o senhor encontrar viva a minha Lucilia, a sua fortuna fica por minha conta.

— Ah! meu senhor, meu senhor! exclamou o falso polícia com um entusiasmo sincero, para o servir seria capaz de fazer milagres.

— Basta fazer um só para vir a ser rico.

 

Os dois separaram-se.

No dia seguinte pela manhã. Luiz. o criado de quarto veio anunciar ao Principezinho que o senhor Estanislau Picolet, que recebera ordem de introduzir assim que se apresentasse, esperava no gabinete de trabalho.

Heitor apressou-se a ir ter com ele.

O empregado do escritório de Malpertuis apurara muito particularmente a sua toilette.

Parecia um empregado de tribunal com traje de domingo e dias de festa.

— Ora seja muito bem vindo.senhor Picolet... disse-lhe o Príncipe com uma comoção fácil de compreender. Traz-me notícias?

— Só uma, senhor; venho da Morgue, e ali coisa alguma confirma o suicídio... Demais só hoje. e depois de ter a honra de conversar com o senhor Príncipe, é que dou princípio às minhas investigações....

 

O FARO DE STA-PI

— Então, conversemos quanto antes... disse Heitor, porque a ansiedade que me domina quase me enlouquece!...

— O Príncipe, tornou Picolet, tem a bondade de me mostrar o envelope da carta que escreveu à menina Lucilia?

Ei-lo.

Sta-Pi examinou muito atentamente o quadrado de papel velino que o Príncipe lhe estendia.

— Esta e na verdade a sua letra?

— É... mas fiz um reparo.

— Qual?

— Tenho por costume escrever a morada por cima do nome da pessoa a quem a carta é destinada, e nesta dá-se inteiramente o contrário...

O Príncipe estava com muita pressa e muito inquieto, o que explica mais que suficientemente uma distração. Contudo, sempre tomo nota desta pequena circunstância.

Sta-Pi voltou o envelope, olhou para as armas, estudou o sinete de Heitor e verificou que a marca em lacre vermelho reproduziu perfeitamente o sinete.

— Até agora nada vejo de suspeito, disse. Tem a bondade de me apresentar o criado de quarto a quem confiou a carta?

Heitor tocou.

O criado de quarto apareceu.

O Príncipe disse-lhe indicando Picolet:

— Este senhor vai dirigir-lhe algumas perguntas. Responda-lhe o mais precisamente possível.

— Anteontem, começou Sta-Pi, seu amo, no momento de partir, entregou-lhe uma carta.

— Sim, senhor, respondeu Luiz, uma carta dirigiria à menina Lucilia Gonthier, rua Julien Lacroix, cm Belleville....

— O senhor mesmo é que a levou?

— Não, senhor... O senhor Príncipe não me deu essa ordem.

— Então mandou-a?

— Imediatamente.

— Por algum dos seus companheiros?

— Não, senhor.

— Então, por quem?

— Por um moço de recados.

— Do sítio?

— Não, senhor...

— Então como foi isso?

— No momento em que saía do palácio, passava pela frente da poria um moço de recados com a respectiva medalha.. Vendo-me uma carta na mão. ofereceu-se para se encarregar dela... Como não tinha nenhum motivo para rejeitar o oferecimento, confie'-lhe a carta e paguei o recado. Quando sonhe que se tratava de ir à rua Julien Lacroix, disse: — Conheço... sou de Belleville...

Picolet franziu os sobrolhos.

— Ah! ah! exclamou, esse homem passava?

— Sim, senhor, com o seu gancho ao ombro.

— Reparou-lhe na cara?

— Não reparei muito... Mas parece-me que tinha muita barba, e era cego de um olho.

— Seria capaz, de o reconhecer?

— Talvez... Não, não atreverei a afirmá-lo... Mas se o quiserem tornar a encontrar, será fácil.

— Como?

— Tomei nota do número da sua medalha.

Os olhos de Sta-Pi cintilaram.

— Bravo! exclamou. E o número?

— É 1:547.

Sta-Pi tomou nota do número na sua carteira.

— Era tudo quanto eu queria saber... tornou. O criado de quarto retirou-se.

— Outro coisa, continuou o policia, finando se achou a sós com Heitor.

— Diga.

— Talvez o Príncipe vá julgar que me afasto da questão; mas num inquérito bem conduzido, num dado momento, tudo se torna. ou pelo menos pôde tornar-se útil... O incêndio da sua residência de Vezelay foi importante?

— Foi. Uma ala e metade do corpo principal do edifício foram consumidas pelas chamas... as cavalariças e as suas dependências já não existem. Perdi muitos cavalos de grande preço. Receei a princípio uma desgraça muito maior. O telegrama que recebi fazia-me recear pela vida de meu pai adotivo, gravemente ferido, diziam. Felizmente não sucedeu assim. A ferida do velho Príncipe não tem gravidade real, o que me permitiu voltar no fim de algumas horas...

— Como pegou o fogo?

— Não se sabe, e devo a este respeito indicar-lhe um fato incompreensível... pelo menos para mim.

— Que fato?

— Segundo o testemunho unânime dos meus criados, prova-se que o incêndio rebentou, no mesmo momento, em dois lugares diferentes, bastante afastados um do outro.

Sta-Pi apurou o ouvido.

— Ah! ah! exclamou, aí está uma circunstância muito interessante! Dois lugares diferentes, muito afastados um do outro?

— Sim.

— A que horas se manifestou o fogo? — Antes das três da manhã.

— Que distância medeia entre os dois lugares?

— Mais de duzentos metros. Mas que. relação pôde estabelecer entre este incêndio e a desaparição de Lucilia?

— O senhor Príncipe acha que me extravio? perguntou Sta-Pi sorrindo.

— Concordo.

— Previra isso. Permita-me o Príncipe lhe repita que se engana... Se bato mato à esquerda e à direita, sei o que faço, e procuro um rasto.

— Bem.

— Supõe-se por ação que o fogo fosse deitado por maldade?

— Não. A maldade seria inexplicável... Não tenho inimigos na localidade.

— Então o Príncipe supõe apenas um acidente puro e simples?

— Sim, como toda a gente...

— A notícia do sinistro chegou a Paris por volta das duas horas? — Às duas menos vinte minutos... Escrevi a Lucilia e parti... — E foi nessa mesma noite que a menina Lucilia desapareceu?

— Naquela mesma noite...

— Bem, exclamou Sta-Pi levantando-se, resta-me um bonito trabalho a fazer. De hoje em diante vou declarar ao chefe, do escritório de Malpertuis, que preciso de uma licença. Se me recusar, pedirei a minha demissão... e toca a investigar!

Sta-Pi despediu-se.

No coração do Principezinho brilhou um vago raio de esperança.

 

Retrocedamos, e conduzamos novamente os leitores às margens do Marne.

A tempestade furiosa no momento em que Fossaro e Genoveva atentavam contra a vida de Lucilia Gonthier, continuou toda a noite.

A cheia do Marne atingia proporções assustadoras.

Quando apareceu o dia, toda a planície apresentava o aspecto de um casto lago de águas lodacentas.

Os moradores de um grande número de propriedades marginais tiveram de se refugiar nos andares superiores para escapar à inundação que os afogava no "rez-de-chaussée", e achavam-se isolados nas suas habitações como em ilhas.

À tempestade serenara pela manhã, e os camponeses armados de compridos forçados, diligenciavam puxar a si os destroços arrastados pelas ondas.

Do lado de Créteil e dos campos que conduziam à ilha Basse, o mal excedia toda a suposição.

Muitas casas tinham desabado, fazendo numerosas vítimas.

Barqueiros corajosos arrastavam nos seus catraios os lugares mais perigosos, levando socorros aos inundados, e apanhando os cadáveres.

Os representantes da autoridade local e o comissário de polícia assistiam aos trabalhos de salvação em companhia de dois médicos.

Um dos médicos dirigia uma importante casa de saúde.

Esta casa gozava na localidade grande e legítima reputação.

Chamava-se o doutor Auger.

Acompanhava-o a esposa, mulher nova e formosa, que a todos prodigalizava palavras de consolo e de animação.

— Sabe, senhor comissário, dizia um conselheiro municipal, que o chalet da ilha Basse se desmoronou esta noite?

— Há pouco, quando passei, vi o lugar onde ontem se elevava. Estava habitada?

— Nesta estação não é muito provável...

— Mandou alguns barcos para aqueles lados?

— Ainda não... É muito difícil a passagem por causa da rutura da barragem das duas ilhas...

 

Naquele momento tiravam da água um cadáver.

Era o cadáver de uma criança de doze anos esmagada com a mãe sob as ruínas de uma casa.

No respectivo auto mencionou-se esta triste descoberta.

O doutor Auger e o seu confrade ligavam a perna a um desgraçado, quebrada pela queda de uma viga.

Um morador da margem que vinha do lado da ilha Basse correu gritando:

— Por aqui! por aqui! há uma mulher a salvar.

— Uma mulher! repetiram muitas vozes.

E os curiosos partiram na direção indicada.

— Senhor Auger, disse o comissário de polícia ao diretor da casa de saúde, cuja existência há pouco indicamos, quer vir conosco?

O médico apressou-se a aceitar a este convite, deixando o colega concluir a tarefa principiada.

A sua jovem esposa seguiu-o.

Chegaram a cento e cinqüenta metros da ilha Basse.

Ao longe viam-se algumas vigas do chalet desmoronado, seguras por grandes árvores formar um simulacro de barragem, de encontro á qual as águas de despedaçavam com furor.

— Onde está essa mulher? perguntou o comissário.

O homem que bradara por socorro respondeu, designando um ponto situado a cem metros do sítio elevado onde parara a inundação.

— Acolá está ela, senhora, por trás daquele grupo de árvores, sobre os ramos de um salgueiro desarreigado que ficou preso entre dois olmeiros.

Todos os olhares para ali se dirigiram.

— Sim, sim, bem vejo... disse o comissário. Desgraçada! Um barco... Depressa um barco!

Um barco não poderá passar pelo meio destas sebes e deste enredamento de plantas, observou alguém desanimado.

— É preciso porém chegar a todo o custo aonde está aquela mulher, interrompeu o doutor Auger. O salgueiro pôde oscilar de um momento para o outro, e a pobre criatura ficará irremediavelmente perdida.

E dirigindo-se a um homem de rosto enérgico e bronzeado, acrescentou:

— O senhor é um barqueiro experimentado e intrépido... dedique-se! Salve esta mulher!

— Oh! doutor, estou pensando nisso, e procuro um meio... Mas o meu barqueiro nunca poderá navegar lá dentro, e subir semelhante corrente. É impossível.

— Pois bem, Lambert, faça o impossível.

— Sim, sim, repetiram os circunstantes... faça o impossível...

— Mil raios! exclamou o barqueiro... Pelo menos tentá-lo-ei!... Trata-se de trazer até aqui o barco à força de braços. Preciso de dez rapazes forçosos.

Apresentaram-se logo vinte homens.

— Sigam-me, companheiros, tornou Lambert, vamos buscar a pequerrucha.

E partiu com os homens de boa vontade.

Da praia gritavam à mulher deitada e imóvel sobre o salgueiro:

— Coragem! coragem! vão em seu socorro! A infeliz não fazia movimento algum.

— Estará viva? perguntou o comissário.

O doutor Auger tirou da algibeira um binóculo. Assestou-o para aquele lado.

— Não está morta, respondeu, acabo de lhe ver mexer a cabeça.

A multidão repetiu com dobrada energia.

— Coragem! coragem!

Lambert e os seus companheiros tinham chegado à pequena angra onde estava o barco meio enterrado no lodo.

— Cinco de cada lado! ordenou o salvador, e força!

Dez homens obedeceram. Ao sinal dado por Lambert, reuniram as forças.

O barco pesado deslizou deixando um sulco no terreno lodacento, e achou-se completamente a seco.

— Agora, continuou o barqueiro, trata-se de levantar o barco, e de o pôr aos ombros. Compreenderam?

— Compreendemos.

— Bem, então que todos se deitem á faina. Pronto? Atenção!... Um. dois, três. iça!...

Quarenta braços vigorosos levantaram como uma pena a embarcação que um instante depois descansava sobre os ombros de doze homens, entre os quais figurava Lambert.

— O pior está feito! disse ele. Agora a caminho, e marquemos o passo. Um, dois...

Os doze homens puseram-se em movimento, e tomaram a passo ginástico a direção da ilha Basse.

Em menos de um quarto de hora chegaram ao sítio onde os esperava o comissário, o doutor, a sua jovem esposa, e um grupo de curiosos.

Segundos depois, o batel estava na água, tripulado por Lambert e por mais dois barqueiros.

Os corações batiam com força despedaçadora.

 

UMA SITUAÇÃO COMOVENTE

Lambert ordenou:

— Salta aos remos, e remar com força rio acima, para que a corrente não nos alague. Eu vou ao leme... Deixar-nos-emos descair sobre o salgueiro, e quando lá chegarmos, eu me encarrego de amarrar o barco sòlidamente... Vá...

Os barqueiros agarraram nos remos e principiaram a lutar vigorosamente contra a corrente.

Em terra, os espectadores não respiravam, assistindo àquela luta imponente, bem depressa coroada de êxito.

Lambert, em pé, na popa do barco, cujas violentas oscilações não lhe faziam perder o equilíbrio, tinha numa das mãos o seu croque, e na outra a amarra.

— Agora deixem descair o barco, disse ele no fim de alguns minutos, e procuremos evitar o choque... Bem vejo a pobre criatura, parece que está a olhar para nós...

Efetivamente a mulher que queriam salvar, voltara à cabeça ao ouvir o ruído dos remos, e fixara no barco olhos espantados.

O doutor Auger seguia com o binóculo os movimentos da infeliz, cujo rosto podia agora ver.

— É uma jovem muito nova ainda! exclamou muito comovido, quase uma criança.

O barco de Lambert estava apenas a alguns metros de salgueiro desarraigado que a violência das águas abalava.

A jovem, trêmula de frio, o rosto lívido, os lábios desmaiados. os cabelos soltos e encharcados, agarrava-se aos ramos com toda a força dos dedos contraídos.

— Atenção! disse o barqueiro. Abordemos o salgueiro de través. A manobra foi habilmente executada, e o barco impelido pela corrente, veio encostar a borda aos ramos copados da árvore, e ali imobilizou.

Da praia elevaram-se exclamações de imensa alegria.

— Deve um círio bento ao santo da sua devoção, minha filha, porque ei-la salva! exclamou Lambert. Vamos, coragem, e alguma força! Pegue na minha mão, levante-se, e salte para o barco...

O bom do homem estendia a mão à jovem, mas esta não se movia.

Parecia não ouvir, e olhava para ele com olhos embaciados e fixos.

— Dir-se-ia que não compreende nada... murmurou um dos barqueiros.

— Valha-me Deus, ela está regelada... replicou Lambert É preciso pegar nela e transportá-la, porque julgo-a incapaz de se mexer. Vou saltar no tronco... Está sòlidamente seguro entre os olmeiros. Demais, se houver perigo, tanto pior... Chegar bem o barco.

O barqueiro pôs resolutamente os pés no salgueiro que não cedeu sob o peso do corpo.

Debruçou-se, desprendeu, não sem custo, os dedos contraídos dos ramos que enlaçaram, levantou-a brandamente, e deitou-a no barco, saltando em seguida para junto dela.

Os espectadores soltaram vivas e bateram palmas.

O mais difícil estava feito.

O barco, entregue à corrente, chegou à praia em alguns segundos, e dez homens puxaram-no sobre o terreno encharcado.

Lambert tornou a tomar a jovem nos braços, e depôs o leve fardo sobre uma elevação coberta de erva, à beira do caminho.

A jovem era Lucília, comi os nossos leitores devem ter já adivinhado.

Devemos explicar porque acaso, ou antes porque milagre, a noiva do principezinho ainda estava viva.

Fossaro julgara desembaraçar-se para sempre da órfã, atirando-a desmaiada às ondas engrossadas do Marne.

A impressão da água gelada reanimou subitamente a pobre Toutinegra, levada pela corrente por entre os destroços que o rio impetuoso arrastava.

A corrente levou-a para um ponto elevado do rio.

Ali agarrou-se aos ramos pendentes de um salgueiro, e assim se manteve durante alguns segundos, transida, assustada, mais morta que viva, e julgando-se ludibrio de um terrível sonho.

De repente o salgueiro oscilou, como uma árvore cujo tronco e atacado pelo machado do lenhador.

A violência da corrente escavava o solo em roda das raízes.

Subitamente Lucília sentiu vacilar a árvore, e cair nas águas lodosas.

Agarrou-se com mais força aos ramos, soltando aquele grito de agonia que Fossaro e Genoveva tinham ouvido.

O Marne transbordante arrastou a jovem e o salgueiro.

A árvore deslizava pela corrente com uma rapidez vertiginosa.

De repente parou. Dois olmeiros muito próximos um do outro, entre os quais se arremessara como uma cunha, embaraçavam a sua doida carreira.

Sabemos o resto.

 

Lucília, sentada na praia, olhava com assustadora fixidez para o grupo, formado em roda dela.

A mulher do doutor aproximou-se dela, pegou-lhe nas mãos úmidas, frias como pedra, e disse-lhe com uma voz meiga e caridosa:

— Salva! balbuciou. Estou salva! E ele, ele?

— Ele quem? perguntou o médico.

— Ele... por quem eu queria dar a vida? ele que estava no chalet da ilha Basse com aquela mulher miserável.

— De que mulher fala, minha filha?

— Não sei... Não sei nada.

E Lucília cujos olhos desvairavam de momento para momento, pôs-se a balbuciar palavras soltas frases sem nexo.

Os espectadores desta cena olhavam uns para os outros espantados.

— Infelizmente! disse o doutor Auger, o susto paralisou-lhe o cérebro. A pobre menina está louca!

— Pouca! repetiu a mulher do médico. Isso é verdade?

— Infelizmente não posso duvidar...

— Que resolução tomar? perguntou o conselheiro municipal.

— Mandá-la para Paris para a prefeitura, respondeu o comissário. É desconhecida na terra... ninguém sabe quem ela é...

Então a senhora Auger exclamou com as lágrimas nos olhos:

— Transportá-la para Paris no estado em que se acha? seria cruel, e talvez perigoso para a vida dessa pobre menina...

— Efetivamente, senhora, é muito triste, volveu o comissário, mas não podemos escolher.

A senhora Auger não se deu por vencida. Voltou-se para o marido:

— Meu amigo, disse-lhe ela, não há falta de lugar na casa de saúde. É preciso conduzir esta pobre menina para nossa casa, em Creteil. Quem sabe se poderás pô-la boa?

— Eu quero o que tu queres, minha querida mulher, exclamou o doutor, tratarei de muito boa vontade esta nova pensionista... Vamos levá-la.

— É uma resolução que lhe faz honra, senhor Auger, e que da sua parte não me admira, exclamou o comissário, mas é preciso primeiro que tudo levantar auto do salvamento, e revistar o fato da vítima. Talvez aí achemos alguns indícios que nos permitam estabelecer a sua identidade.

Revistaram as algibeiras de Lucília: só encerravam um "porte-monaie" contendo uma pequena quantia.

Fossaro, como sabemos, tivera cuidado de tirar e queimar as duas cartas recebidas na véspera na rua Julien Lacroix.

— Nada, disse o comissário.

— Ela falou no chalet da ilha Basse... observou o doutor Auger. É talvez onde ela morava.

— Eu julgava o chalet deserto. Contudo dirigirei as minhas investigações para este ponto. Doutor, deixo-o. Devo ir ver pessoalmente se posso ir mais longe tentar outros salvamentos.

— Eu vou conduzir esta menina à casa de saúde, e depois nos tornaremos a encontrar.

— Fica entendido.

O doutor convidou Lucília a levantar-se.

A jovem quis obedecer, foi-lhe impossível conservar-se de pé; as pernas vergavam-lhe, tornou a cair sobre o solo.

— Esta criança não está em estado de andar, meu amigo, observou a senhora Auger, era preciso uma maça.

— Vamos improvisar uma, disse Lambert.

 

Num momento, por meio de remos e de ramos partidos, o barqueiro formou uma espécie de maça, sobre a qual estenderam Lucília. Dois homens encarregaram-se de a levar rapidamente à casa de saúde do doutor, onde o triste cortejo chegou sem embaraço.

Bem depressa ali encontraremos a noiva do principezinho.

Primeiramente devemos encontrar o Barão de Fossaro, sombrio ensaiador dos sinistros dramas que estamos contando.

Voltando para casa, na rua Provence, César achou um telegrama de Malpertuis.

Anunciava ele o seu êxito completo, e o seu regresso para breve.

Uma das frases do telegrama, era assim concebido:

"Pensar em Marcello Aubertin."

Marcello Laugier, talvez os nossos leitores não se tenham esquecido, tomara na Suíça este nome de Aubertin, para transviar as pesquisas de que ele era objeto, havia seis anos, a pedido da Marquesa de la Tour-du-Roy, que o acusava do rapto do filho.

Ainda antes de ele ter recebido o telegrama do seu sócio, Fossaro resolvera proceder sem demora, no que dizia respeito ao ex-tenente.

Julgava-se desembaraçado de Lucília Gonthier, como já o estava da Duquesa de Chaslin e de Antonino Frébault.

Nada urgente o detinha em Paris.

No dia seguinte partiu para Gênova, munido dos esclarecimentos os mais precisos, os mais minuciosos, e levando um plano já esboçado.

Devemos acrescentar que já conhecia a Suíça, e explorara numa viagem precedente, as margens pitorescas do Leman.

Hospedou-se em Genebra, num pequeno hotel muito simples, o hotel de Ia Gare, sob o nome de Jorge Dutil, negociante parisiense, que ia fazer compras de relojoaria e bijouteria, e tencionava visitai-as principais fábricas da cidade e dos arredores.

Entregou o seu passaporte no escritório do hotel, tomou um quarto muito confortável, e declarou que pagava e conservava este quarto, mesmo durante as suas freqüentes ausências.

Depois do almoço saiu do hotel, deixou a sua bagagem, levando consigo apenas um pequeno saco de viagem.

Alugando um trem fechado, a pretexto de passeio, fez-se conduzir para os lados de Garouge, e valendo-se dos objetos contidos na mala, modificou a sua aparência de modo que parecia um capitão da marinha mercante.

Um gorro de pano azul, ornado de uma âncora de ouro e de três galões, substituiu o seu chapéu de viagem, e completou o seu disfarce.

Voltando para Genebra tomou um quarto no hotel da Coroa, apresentou um segundo passaporte, muito em regra, no nome de Bernardo Gentil, capitão de longo curso, e contou que. desejando estabelecer-se na Suíça com a família, tencionava visitar as margens do lago até ao limite do cantão de Vaud, para aí procurar uma propriedade que lhe conviesse.

Na sua opinião, esta dupla individualidade desnortearia as pesquisas mais minuciosas da polícia.

— Desejava comprar ou alugar um barco de recreio... disse a um dos empregados do hotel; a quem me devo dirigir para esse fim?

— Olhe, capitão, vai ao cais de Rive, ao pé da ponte.

— E depois?

— Procure por Samuel Render, construtor... Só terá a dificuldade da escolha...

 

Fossaro dirigiu-se ao lugar indicado.

Falou com o construtor, e mediante a quantia de seis mil francos, obteve um barquinho a vapor, munido de uma maquininha de hélice, fácil de manobrar sem o auxilio de uma maquinista.

No dia seguinte, muito cedo, aqueceu a caldeira, e partiu só para Varsóvia, aldeia situada a dez quilômetros de Genebra.

Chegando à foz do rio que dá o seu nome à aldeia, parou, largou ferro, embarcou no you-you que levava a reboque, e dirigiu-se ao hotel da Balança.

Almoçou, e ao mesmo tempo que regava de vinho branco de Yvorne um, ferra, peixe delicioso, muito apreciado pelos verdadeiros gastrônomos, entabulou conversa com a dona cio hotel, o pediu que lhe dissesse, se por acaso conhecia nas margens do lago um pequeno domínio que se alugasse ou vendesse.

— Há a propriedade do senhor Monestier, respondeu a dona do hotel, Está ausente, e quer desfazer-se dela... É vasta e está numa situação esplêndida.

— Poderia visitá-la?

— De certo, falando com o vizinho do senhor Monestier... É quem tem as chaves... Havia de gostar de travar conhecimento com ele... É homem muito amável... um francês viúvo, segundo se supõe.

— Como se chama esse francês?

— O senhor Aubertin. Fossaro sorriu dissimuladamente.

— Vamos lá. pensou, tive sorte. li em voz alta acrescentou:

— O senhor Aubertin é ainda rapaz?

— Pode ter trinta e dois ou trinta três anos.

— É viúvo? disse. Vive só?

— Com o seu pequeno, criança de cinco para seis anos, linda como os anjos. Tem também consigo duas criadas, um jardineiro, e um criado que lhe serve de marinheiro, porque o senhor Aubertin e o pequeno estão todo o dia no lago.

As informações ministradas pela dona do hotel eram rigorosamente conforme com as informações contidas nos papéis do escritório Malpertuis.

A boa da mulher continuou:

— O senhor Aubertin é rico, e faz muito bem... Adoram-no na terra... Quem quisesse fazer mal, quer ao pai, quer ao filho, sair-lhe-ia caro, afianço-lhe...mas poderiam procurar à vontade, que não lhe encontrariam nenhum inimigo.

O senhor de Fossaro disse hipocritamente:

— Estimaria muito entrar em relações com esse mancebo. Onde fica situada a sua propriedade?

— Exatamente no canto do porto, e no porto verá os seus barcos... tem verdadeiramente uma flotilha.

Levantando-se da mesa, César dirigiu-se para a casa habitada pelo ex-tenente dos hussardos. Marcello Laugier, com seu filho Raul, o filho da Marquesa Lazarine de la Tour-du-Roy.

Era um chalet de extraordinária elegância, situado no meio de um jardim, do tamanho de um parque, e maravilhosamente tratado.

 

Seriam onze horas da manhã quando o suposto Bernardo Gentil tocava à grade.

Marcello, que voltara na véspera após uma excursão de quinze dias com Raul no Oberland, percorria os jornais acumulados durante a sua ausência na secretária de uma grande casa que servia de gabinete de trabalho.

Este gabinete tinha duas grandes janelas que deitavam para o lago.

De repente contrairam-se-lhe as sobrancelhas, ao mesmo tempo que uma palidez de morte se lhe espraiava no rosto.

Acabava de casualmente deparar com a notícia do suicídio do príncipe Emmanuel de Brada, fazendo saltar os miolos no palácio da villa Montesan, em meio da ceia oferecida por Fernando Volnay, ceia presidida pela Marquesa de la Tour-du-Roy, amante declarada do comediante.

— Em que lodaçal se revolve a infeliz! murmurou. Oh! Raul, meu querido filho, pertences-me, pertences-me só a mim! Não saberás nunca o nome de tua mãe! Tua mãe nunca te encontrará! Far-te-ia talvez matar para herdar de ti!

Neste momento a porta abriu-se, e um pequenito louro, de olhos azuis, belo como um anjo (como dissera a dona do hotel de Balança), entrou no gabinete com a petulância graciosa da sua idade, e saltou sobre os joelhos de Marcello, abraçando-o de um modo sufocador.

— Meu pai, disse-lhe ele com uma voz engraçada, os nossos amigos, os pobres, estão lá embaixo no jardim; não os tenho visto há quinze dias, e venho perguntar-te se me deixas ir lá abaixo.

— Vai pequeno, e faze tu mesmo a distribuição novamente Marcello, para festejar o nosso regresso, queres que eu divida entre eles as minhas economias da viagem? Tenho trinta francos na minha algibeira, sabes? Aumentará em mais de vinte souls o quinhão de cada um. Fico tão contente! Dás licença, não é verdade? Dize, dás licença?

Aos olhos do ex-tenente assomou uma lágrima.

— Sim, meu querido amor, replicou ele muito comovido, sim. permito, vai depressa.

— Como tu és bom, meu pai!

O rapazinho saiu tão depressa como entrara, e com o rosto radiante correu à distribuição das suas esmolas.

— Coração generoso! Alma celeste! murmurou Marcello Laugier, vendo-o afastar-se. Ah! graças a Deus, esta criança não se parece nada com a mãe!

Em seguida desceu a fim de afugentar as suas idéias sombrias, vendo Raul realizar os seus atos de caridade.

Um rapaz de vinte anos, alto, magro, pálido, com os olhos avermelhados, segurando na mão um belo chapéu de feltro rodeado de um fumo, foi o último a vir receber a sua esmola.

— És tu, Luis? disse-lhe Raul. Quando partimos, a tua mãe estava muito doente, agora está melhor?

O Luiz não respondeu.

Com um gesto consternado apontou para o fumo.

Grossas lágrimas lhe deslizaram pelas faces.

— Morreu? Pois ela morreu, balbuciou o pequeno com tristeza. Ah! pobre mulher! Pobre Luiz! E tu não podes ainda trabalhar? A ferida do teu braço ainda te faz sofrer?

— Ainda, senhor Raul.

— Pois bem não te inquietes, o papai disse-me que tu eras um bom rapaz. Prometo-te que ele terá o cuidado de evitar que passes necessidades enquanto não te pões bom completamente, bem sabes como o papai é bom. Quando rezares por tua mãe, não te esqueças de rezar pelo meu pai.

— Ah! exclamou o rapaz alto e magro, seria muito ingrato se deixasse de o fazer.

E retirou-se abençoando o pai e o filho.

Marcello tornou nos braços, e apertou contra o coração Paul que chorava.

— Que tens tu, meu querido? perguntou-lhe ele, por que choras?

— Meu pai, respondeu o pequeno, eu também já não tenho mãe. e foi por pensar na minha mãe que chorei.

 

Um violento abalo agitou os nervos de Marcello. Lembrou-se da que acabava de ler minutos antes.

Lembrou-se da Marquesa de la Tour-du-Roy, perdida e infamada, desacreditada publicamente e tragando sem pudor o cálix da vergonha.

— Chora, meu filho, disse ele abraçando Raul. Tens razão de chorar.

Ouviu-se um toque de sineta, e o sineiro veio anunciar que alguém desejava falar ao senhor Aubertin.

Ao mesmo tempo avançava César de Fossaro, com o seu traje de velho lobo do mar.

— O importuno que o vem incomodar sou eu, senhor. Não tenha receio, serei breve.

Marcello olhou para o recém-chegado, cujo rosto lhe desagradou. Sabia porém que as aparências enganam muitas vezes, e respondeu com delicadeza:

— Não me incomoda, senhor; em que lhe posso ser útil?

— É uma coisa muito simples, senhor, replicou o barão com franqueza e jovialidade.

— Chamo-me Bernardo Gentil, ex-capitão de longo curso, fiz uma fortuna sofrível, renuncio à navegação. Abandono as viagens, desejo estabelecer-me na Suíça com a minha família. Varsóvia agrada-me, e a dona do hotel da Balança, disse que eu devia dirigir-me ao senhor, para obter autorização de visitar uma propriedade que está para vender e toca na sua.

— Essa propriedade pertence ao senhor Monestier, de quem sou amigo, e a quem negócios importantes chamam à Áustria por tempo indeterminado, volveu Marcello. Pediu-me que me ocupasse, e eu consenti. Vou conduzi-lo.

— Ficar-lhe-ei muito reconhecido.

O ex-tenente de hussardos chamou o criado, e deu-lhe urdem para que fosse buscar as chaves do senhor Monestier.

Raul tinha-se afastado para ocultar as lágrimas, no momento da chegada do visitante desconhecido.

César estremeceu à vista do rapazinho, e perguntou:

— Este encantador menino, pertence-lhe?

— Sim, senhor, respondeu Marcello com orgulho.

— Que bonita cabeça loura! Que inteligente fisionomia! Ah! compreendo, senhor, o seu orgulho; meu jovem amigo, permita-me, que lhe dê um beijo.

Raul olhou para o pai, e obedecendo a um sinal afirmativo, aproximou-se de Fossaro que lhe chegou com os lábios à fronte.

Ao contato deste beijo, o pequeno estremeceu, mas sem explicar o que sentia.

Trouxeram as chaves, os dois homens que seguiam Raul dirigiram-se à propriedade do senhor Monestier. e visitaram-na minuciosamente.

Depois da visita, Fossaro disse:

— Se o preço for razoável, convém-me.

— O senhor Monestier encarregou,-me de pedir setenta e cinco mil francos, compreendendo os móveis.

— Faria algum abatimento?

— Talvez.

— Não pode fazê-lo em seu lugar?

— Não posso; mas se o senhor formular alguma proposta, eu lha transmitirei.

— E a resposta?

— A resposta vem dentro de três dias. e em caso de acordo, nada obstará a que se ultime o negócio com o tabelião.

— Ofereço sessenta e cinco mil francos a pronto pagamento.

— Vou já escrever a Monestier.

— Procurá-lo-ei então daqui a três dias.

— Venha só daqui a quatro dias, peço-lhe, e eis a razão porque: Amanhã de manhã vamos a Vevey, eu e meu filho, no meu yacht... Passarei em Vevey dois dias livres. is,o é. só me retirarei na tarde do terceiro dia.

— Então viaja de noite sobre o lago? exclamou Fossaro.

— Muito à minha vontade, e com lodo o tempo.

— Então está combinado... Na manhã do quarto dia estarei aqui.

 

Depois de saírem da propriedade Monestier, passaram pelo velho porto.

Um bonito yacht de recreio, chamado o Rhône, eslava amarrado à ponte.

Na tolda estava um homem.

Fossaro reconheceu naquele homem o criado de Marcello.

Estava ocupado em içar as velas.

— Antônio, disse-lhe o ex-tenente, não ficará em atraso?

— Não, senhor... Faço secar as velas que se molharam ontem.

— Este yacht pertence-lhe? exclamou o pseudo capitão de longo curso,

— Sim, senhor, e é bem insignificante ao lado dos seus grandes navios, mas é quanto basta a nós os marinheiros de água doce...

— Galante barco que deve correr magnificamente!...

— Aguenta-se no lago com os ventos mais fortes, que tornam o Leman muito perigoso.

— Navega muito?

— Quase todos os dias, com meu filho... Ensino-lhe a manejar uma escota, a ferrar uma vela.

— Foi marinheiro?

— Não, senhor, respondeu Marcello sorrindo, apenas fui barqueiro, mas barqueiro entusiasta.

— Compreendo isso perfeitamente... Se me instado aqui, o que é provável, hei de fazer aquisição de um yacht como o seu, e o meu prazer maior será manobrá-lo...

— Ofereço um antegosto desse prazer... Devo ir hoje a Thonon... Acompanhe-me... Tomará o leme, e por esta leve brisa do sul poderá avaliar quão manejável e obediente é o barco. Às quatro horas estaremos de volta.

— Quando partiremos?

— Assim que tiver escrito a Monestier, para lhe transmitir a sua proposta.

— Pois muito bem, aceito de boa vontade.

 

Enquanto se trocavam estas palavras, Raul silencioso, olhava para o falso Bernardo Gentil, com uma desconfiança irrefletida.

— Meu filho, disse-lhe Marcello, vai vestir o teu fato de passeio.

— Permita-me, senhor, que o deixe só por um quarto de hora... Vou escrever a Monestier, e transmitir-lhe os seus oferecimentos...

Faz-me a honra de me dizer o seu nome?

— Bernardo Gentil... respondeu César, ex-capitão de longo curso da marinha francesa... Provisoriamente em Genebra, hotel da Coroa... Parece-me desnecessário indicar-lhe referências, porque tenho tenção de pagar de pronto.

Fossaro ficando só no jardim enquanto o ex-tenente entrava no chalet, tirou da algibeira uma carteira, abriu-a, e tomou algumas notas à pressa.

Marcello e Raul vieram ler com ele no fim de vinte minutos, e dirigiram-se para o velho porto.

O yacht estacionava, o escaler estava amarrado à popa, e uma canoa tripulada por Antônio, esperava os excursionistas.

Embarcaram.

O pretendido Bernardo Gentil, examinava como entendedor a embarcação muito baixa e deslocando muita água.

— Borda muito fraca, pensou, o menor choque arrombá-la-ia. Feita esta observação, perguntou:

— Tem, segundo me parece, muito lastro...

— Muito, respondeu Marcello. Se naufragássemos iríamos a pique, mas não é de recear no lago, e o lastro mantém o equilíbrio quando há mau tempo. Largamos, capitão... tome o leme...

César de Fossaro, muito amador de todo o gênero de divertimentos, era barqueiro muito hábil.

Demonstrou a sua habilidade dirigindo a embarcação para a barra muito estreita do porto, com a destreza de um marinheiro consumado.

Marcello fez-lhe os seus cumprimentos. O vento refrescava.

Em menos de uma hora chegou-se a Thonon, e o regresso efetuou-se de maneira não menos agradável e rápido.

Os dois separaram-se no cais de Varsóvia, trocando um aperto de mão. e aprazando um encontro para dali a quatro dias.

— Meu pai, disse Raul a Marcello depois de Fossaro os deixar, como me sinto agora satisfeito...

— Satisfeito, por quê? perguntou o ex-tenente muito embaraçado.

— Porque esse ruim homem se foi embora...

— Que significa?... perguntou Marcello com uma severidade que não tinha por costume.

— Não te zangues, querido pai... tornou o pequeno com voz meiga... Quando me beijou pareceu-me que os seus lábios me gelavam. Quando o convidaste para vir no nosso yacht. tive desejos de chorar... Quando lhe apertaste a mão, senti uma dor aqui...

E Raul indicava o lado esquerdo do peito.

— Isso é verdade, pequeno, replicou Marcello... Desconfia de repulsões sem motivo... O capitão Gentil desagrada-te hoje, e é possível que dentro de oito dias estejas doido por ele. Afugenta essas idéias insensatas, e vamos para a mesa.

 

DESASTRE

Depois do jantar, Antônio, o marinheiro criado, veio receber ordens para a excursão do dia seguinte.

— Partiremos ao meio dia em ponto, disse-lhe Marcello. e na previsão de uma calmaria podre meterá a bordo dois pares de grandes remos, e os competentes bancos.

— Bem. senhor.

Naquela noite, o ex-tenente dormiu mal.

Os artigos dos jornais relativos a Lazarine, e as reflexões de Paul, povoaram de pesadelos o seu sono agitado, interrompido muitas vezes.

Voltemos a César Fossaro.

No caminho para Genebra, o suposto capitão de longo curso, examinou e mediu a roda de proa do barco com minucioso cuidado.

— Isto é capaz de romper uma borda da grossura de cinco centímetros! murmurou. Isto não cede!

Antes de entrar para o hotel da Coroa, comprou várias folhas de papel de desenho de grandes dimensões, lápis e uma régua. Jantou. Depois subiu para o seu quarto.

Fechou-se ali, e servindo-se de várias medidas tiradas da roda de proa do seu barquito. executou um desses desenhos a lápis, a que os construtores de máquinas e os arquitetos chamam plantas.

No dia seguinte, pela manhã, regulou as suas contas, foi a bordo do seu vapor metamorfosear o capitão Bernardo Gentil em Jorge Dutil, viajante do comércio de relojoaria Suíça, almoçou no hotel de Ia Gare, onde sabemos que tinha um quarto, dirigiu-se cm seguida a um maquinista, e disse-lhe apresentando-lhe a planta:

— O senhor pode executar-me isto à risca, no mais breve prazo?

— Em ferro forjado, senhor? perguntou o maquinista.

— Sim, e as portas salientes de vinte centímetros de aço.

— Ti o prazo?

— Posso dar-lhe para este trabalho, até esta tarde às quatro horas, mas não mais.

— Far-se-á... Agora, outra coisa...

— O que?

— Aonde se deve ir para a colocação?

— A parte nenhuma... Entregar-me-ão aqui as peças, e eu mesmo as colocarei...

— O senhor é construtor?

— Um pouco...

— Há de permitir, que lhe pergunte, por simples curiosidade, a que se vai adaptar este engenho que parece, em ponto pequeno, um esporão de navio couraçado?

Fossaro sorriu.

— É efetivamente um esporão, e destino-o a uma canoa de recreio no Doubs.

— Vou mandar principiar já este trabalho.

— Quando lhe devo?

— Depois direi.

— Pago adiantado.

O mecânico estipulou uma quantia, e o barão contou o dinheiro.

 

A hora aprazada, a peça de serralheria eslava pronta, e de uma execução irrepreensível.

O sócio de Malpertuis fê-la embrulhar em papel grosso, levou-a consigo, dirigiu-se para o barquito a vapor que teve o cuidado de abastecer de carvão, acendeu a caldeira, levantou ferro, fez-se ao largo, e passou a noite no lago.

Desde o romper do dia pôs-se a trabalhar com ardor, fixando o esporão na proa do barco, o qual guarnecido das suas duas pontas de aço, se tornava um instrumento de destruição temível, e despedido com toda a força contra uma embarcação ligeira, devia forçosamente arrombá-la e fazê-la a pique.

O esporão não era seguro por nenhum parafuso.

As cavilhas de tirar e pôr que o fixavam na roda de proa não o deixavam mover-se.

Porém, depois de um choque, o movimento de recuo do hélice devia fazer com que ele ficasse na perfuração feita.

Pelas cinco horas da tarde, o vaporzinho tripulado por um só marinheiro de estranha fisionomia, e falando só inglês, veio abordar a Eviau, onde o marinheiro jantou e passou a noite.

No dia seguinte a embarcação acendeu as caldeiras, e veio cruzar nas águas de Vevy.

Com o auxílio de um óculo de muito alcance, o marinheiro inglês inspecionou o porto.

Exclamou em muito bom francês:

— Bem, Estou vendo o yacht de Marcello Laugier! O factótum do ex-tenente arranja o aparelho e larga as velas. Anteciparia ele o momento de partir? Pouco me importa. Estou pronto!

 

O dia deslizou sem trazer nenhum incidente notável e imprevisto. Sobrevindo a noite, Fossaro largou ferro, embarcou no seu escaler e veio rondar em volta da embarcação de Marcello. Depois de um breve exame, murmurou:

— Tomei tem as minhas medidas; o esporão fura o yacht a dez centímetros abaixo da linha de flutuação.

Feitas estas reflexões, foi à cidade comprar provisões, e voltou para o barquito a vapor, onde dormiu.

Na noite do terceiro dia, o oculto fez-lhe ver Antônio embarcando muitos fardos.

— É para esta noite... pensou o barão, — às oito horas partirá, disse-me... às nove horas estará no grande lago... Às dez estará tudo terminado, espero, e desembarcarei em Genebra antes da meia noite.

 

O tempo estava sombrio.

O vento soprava do nordeste, amontoando pesadas nuvens sobre as montanhas que formam o horizonte do lago.

As águas estavam revoltas, mas a sua agitação nada oferecia de inquietador.

Esfregou as mãos pensando que aquele ponto luminoso o guiaria nas trevas, e não deixaria fugir-lhe a sua presa.

Às oito horas menos um quarto Marcello e o seu filho, acompanhados do amigo, em casa do qual acabavam de passar três dias, chegavam à ponte.

Raul exclamou logo:

— Ah! papai, com está escuro!

— Efetivamente, disse o amigo do ex-tenente deitando um olhar para as montanhas, os cumes estão cobertos de nevoeiro, o vento refresca, e torna-se muito sério, havemos de apanhar mau tempo pelo caminho.

— Mais rapidamente iremos, retorquiu Marcello. O nosso farol nos alumiará o caminho... Depressa estaremos em Lausanne, e de Lausanne a Versoix levaremos vento pela popa.

Raul apertava-se contra o pai, em cuja mão pegou tremendo.

—Tens medo, meu querido? perguntou-lhe Marcello.

— Não tenho medo em rigor, mas gostaria mais que fosse dia.

Marcel pôs-se a rir, e gritou:

— Antônio!

Ouviu-se a voz do marinheiro, que respondeu:

— Por aqui, senhor. Estou perto da escada... o mar engrossa... Trocaram-se apertos de mão cordiais.

Dali a cinco minutos, os dois homens e a criança estavam a bordo do yacht.

— Prenda sòlidamente o escaler à popa. ordenou Marcello. mas com uma simples laçada.

— Pronto, senhor.

— Senta-te ao pé de mim, meu filho, disse ele a Raul. O ex-tenente pôs-se ao leme, e pegou na escota.

O pequeno assim fez.

Fossaro viu acender-se um farol, e conservar-se fixo na proa do yacht.

Passando um momento recomendou-lhe:

— Cobre-te bem, o vento está fresco.

— Não tarda que nos dê que fazer, murmurou Antônio com melancolia.

As velas foram orientadas.

O yacht deslizou.

Soou um assobio, agudo, estridente, em meio das trevas.

Marcello exclamou:

— Aí vem um vapor que se põe a caminho como nós. exclamou Marcello.

— É um barquinho de recreio, senhor... replicou o marinheiro. Há dois dias que está à vista... Parece que espreitava alguma coisa...

Fossaro acabava de se fazer ao largo, afastando-se do yacht. Fazia porém caminho de conserva com ele, e não perdia de vista o farol.

O céu cada vez se tornava mais negro.

As nuvens baixas formavam sobre o lago um crepe fúnebre.

Nos desfiladeiros o vento soprava e gemia.

As ondas engrossavam.

Raul estava silencioso.

Marcello perguntou-lhe:

— Dormes, pequeno?

—Não, meu pai.

— Em que estás a pensar?

— Não sei; em muita coisa.

— Se queres desce para o camarote. Dormirás...

O pequeno chegou-se muito para o pai, respondeu com vivacidade:

— Não... não... não quero deixar-te.

Marcello abraçou-o.

 

O yacht corria com uma rapidez prodigiosa, fazendo espumar a água sob a roda de proa.

Iam entrar no grande lago. isto é. no lugar mais largo e mais profundo do Léman.

Naquele ponto a sonda denuncia profundidade de cento e cinqüenta braças.

Uma ventania repentina abalou o yacht no seu cavername.

A chuva principiava a cair.

As ondas tornavam-se muito violentas.

— Eis a brisa... disse Marcello. E gritou para Antônio:

— Olha que levamos muito pano: é preciso ferrar os papa-figos

— Sim, senhor.

O pano foi ferrado.

O yacht não perdeu porém a sua velocidade vertiginosa. O vento refrescava cada vez mais.

As vagas levantavam a embarcação que não perdia o equilíbrio. por ter bastante lastro.

A chuva transformava-se em aguaceiro torrencial.

— Vai, pequeno, peço-te, para o camarote.

Ao longe avistavam-se as luzes de uma cidade, sobrepondo-se pela encosta da montanha.

— É Lausanne, disse Antônio. Vamos aproveitar a corrente e o vento, para descermos a Versoix.

— Tudo vai bem... estamos apenas molhados.

 

A tempestade tornava-se formidável.

— Senhor... senhor... gritou Antônio, cuja voz apenas se ouvia no meio de um estrondo de ensurdecer, deixe-se cair para a term.

— Teremos mais vaga?

— É verdade, mas em caso de desgraça, estaremos mais perto da terra.

— A estibordo, senhor, a estibordo,ou daremos em cheio ruim vapor que marcha para nós!

O pai de Raul executou a manobra indicada, e gritou com uma voz trovejante:

— Oh! do vapor! Atenção!

Vinte braças apenas separavam as embarcações.

Marcello e o seu marinheiro repetiram:

— Atenção! atenção!

Ainda não tinham acabado de proferir este grito de alarma, quando o vapor caiu sobre eles, batendo com a sua roda de proa na borda do yacht.

Ouviu-se um estalido sinistro.

— Miserável! uivou Marcello. Raul agarrava-se a ele.

O barqueiro, descarregando o vapor, recuava já. deixava o seu duplo esporão no flanco do yacht arrombado.

O Barão, graças à força adquirida, continuava a sua marcha. Elevou-se uma voz.

— Boa viagem para o outro mundo. Marcello Laugier, disse aquela voz com rancor.

Depois, o vapor girando sobre si mesmo, desapareceu no escuro.

 

Marcello era valente.

Contudo, ao ouvir proferir aquele nome em tais circunstâncias, sentia-se aterrado.

Aquele terror ainda aumentou, quando Antônio disse com uma voz balbuciante:

— Vamos a pique; aquele infame patife acaba de arrombar o yacht.

Efetivamente a água subia até à tolda.

Marcello, em face do perigo, recuperou o seu sangue frio de soldado.

Saltou para o escaler e embarcou com Raul nos braços.

Em seguida chamou Antônio.

O marinheiro quis saltar, mas os pés embaraçaram-se-lhe na escota do leme.

Caiu, e o yacht indo a pique, arrastou-o ao fundo do abismo.

O ex-tenente soltou um grito de horror, e abraçou o filho mais estreitamente.

O escaler balouçava-se sobre a vaga como uma casca de noz sobre um tanque agitado por cisnes.

Era preciso prever tudo.

De um minuto a outro, o frágil esquife podia e devia perecer não deixando aos náufragos senão uma probabilidade de salvação, alcançar a praia a nado.

Marcello despiu-se quase completamente para ter os movimentos livres, pegou nos remos do escaler, e disse a Raul que não cessava de se agarrar a ele:

— Não tens medo, meu filho?

— Não tenho medo, porque estou contigo, respondeu a criança. Mas poderás salvar o pobre Antônio?

No momento em que Marcello ia responder, uma vaga furiosa desfez-se sobre o escaler, que sossobrou voltando a quilha, mas não foi ao fundo.

— Segura-te bem a mim, gritou o ex-tenente ao filho, nadando para o casco do frágil barquinho.

Naquele momento Raul exclamou:

— Meu pai, meu pai, uma tábua, aí... muito perto... ao teu alcance.

Esta tábua era uma do escaler, que se soltara no momento da submersão do yacht, e que flutuava seguindo a vaga.

Marcello agarrou-a na passagem.

Ao mesmo tempo alcançou o escaler, assentou o filho em cima da quilha, sustentando-o com um só braço ao mesmo tempo que ele se sustentava na água com o auxilio do banco.

Agora, meu filho, disse ele, ficamos à conta de Deus! Pede-lhe que nos proteja, porque não tenho esperança senão nele.

O pequeno pôs as mãos e orou.

 

AS CONSEQÜÊNCIAS NO NAUFRÁGIO

As ondas e o vento impeliam os náufragos para o lado da margem, mas a distância era considerável, e Marcello sentia a fadiga e o entorpecimento apoderarem-se dele.

Durante mais de uma hora lutou, rolando com o escaler, mas não o largando, e agarrando sempre Raul.

No fim dessa hora, extensa como um século, em semelhante situação, disse:

— Vamos, vamos, está tudo acabado. Deus não teve piedade de nós... estamos perdidos! O miserável que nos mata fica seguro da impunidade!

— Coragem, pai, coragem, disse o pequeno de repente, vejo árvores exatamente em frente de nós... olha...

Marcello achava-se no cume de uma vaga, olhou para a frente, e viu efetivamente o vulto de grandes árvores recortando-se no céu sombrio.

Por baixo estendia-se uma praia de areia, cuja brancura sobressaía em meio das trevas.

As ondas despedaçavam-se ali com o ruído de uma catarata, e formavam turbilhões de escuma.

— Uma praia! é a salvação, exclamou Marcello. trepa sobre os meus ombros, meu filho, e passa os teus braços em roda do meu pescoço. Abandono o escaler. e vou nadar até terra.

Depois, animado pela esperança que renascia, o ex-tenente abandonando o seu ponto de apoio, pôs-se a nadar vigorosamente.

As braçadas sucediam às braçadas, as vagas rolavam-no como o destroço de um naufrágio, cobrindo a cada instante Raul. que balbuciava com voz extinta:

— Meu pai, já não vejo, já não posso respirar. Marcello fez um supremo esforço.

A onda arremessou-o à praia.

Levantou-se de um salto, atraiu-a aos braços, e apertou contra o peito a criança, cujas mãos se soltaram. Raul soltou um suspiro.

 

Deus de bondade. Deus de justiça, exclamou Marcello caindo de joelhos. Vós não haveis de querer arrebatar-me no momento em que eu o salvei!

O tempo tornara-se muito frio, e a brisa soprava constante. Como aquecer aquele pobre corpinho encharcado e gelado? O pai desesperado, relanceou em roda um olhar. A tempestade atingia ao seu termo; o céu limpava em certos pontos; uma pálida claridade caia das estrelas.

À direita elevava-se uma montanha caprichosamente recortada.

— Estamos perto de Nyon, disse Marcello reconhecendo a forma daquela montanha. A casa do meu amigo Lourenço Féral fica a duzentos passos.

Deitou a correr.

Subiu a praia alcançar a estrada, ferindo os pés descalços nas asperezas do caminho.

Não dava por isso, e no fim de cinco minutos parava em frente de uma grade, e puxava repetidas vezes a campainha com violência.

— Abriu-se uma janela. Uma voz perguntou:

— Quem está aí?

— Sou eu. Marcello Aubertin, abra depressa.

 

Exatamente no momento em que o pai e o filho entravam na casa de Lourenço Féreal, o senhor de Fossaro chegava à vista de Genebra.

Lançou ferro. Ein seguida pegou na mala, e mudando de fato para novamente se transformar em Jorge Dutil, viajante do comércio, acendeu um fogo infernal debaixo da caldeira meio vazia, saltou para a pequena embarcação, que estava à popa, desamarrou-a, e fez força de remos para a margem.

A chuva já não caía.

César chegou são e salvo.

Saltou em terra e empurrou com o pé a canoa, que as ondas arrastaram a distância para os quebra-mares, onde se afundou.

Decorreram dez minutos.

O Barão imóvel e voltando para o lago, esperava. De repente, uma explosão formidável soou a quinhentos metros ao largo.

Um facho de chamas subiu ao céu em meio de uma nuvem de fumo. e de um chuveiro de faíscas.

Depois mais nada.

A caldeira, aquecida em excesso, acabava de rebentar, deslocando o barquito, e fazendo-o ir a pique, como fizera ir o yacht de Marcello Laugier.

Fossaro esfregou as mãos.

Dirigindo-se sossegadamente para o hotel da Gare, recebeu a chave e a vela no cubículo do porteiro, subiu ao seu quarto, deitou-se e adormeceu profundamente, como homem sem remorsos na consciência.

Levantando-se às dez horas, almoçou, acendeu um charuto e dirigiu-se para o lago.

O céu estava admiravelmente puro, mas o vento soprava com uma intensidade de mau agouro, e os bons genebreses, habituados a estes ventos do norte, agasalhavam-se muito bem e diziam consigo:

— Temos para oito dias!

Fossaro julgava-se absolutamente seguro de que o yacht soçobrara, arrastando aos abismos Marcello, seu filho, e o criado que os acompanhava.

Queria porém que o rumor público confirmasse a sua certeza.

Dirigiu-se ao caminho de ferro, e tomou um bilhete para Versoix.

O comboio chegava à estação que precedia Versoix, no momento em que ia partir outro comboio que vinha do lado oposto com direção a Genebra.

Maquinalmente, o Barão meteu a cabeça pela portinhola.

Retirou-a porém no mesmo instante pálido de terror.

Acabava de avistar num compartimento de primeira classe, o ex-tenente de hussardos, cuja morte, um minuto antes, ele firmara!

— Será ele? perguntou César, ele vivo! Ou serei ludibrio de uma semelhança? Como conseguiu ele sair do abismo? Que foi feito do filho?

O comboio tornava a pôr-se em marcha.

— Hei de saber o que se passa! continuou mentalmente Fossaro. Ninguém reconhecerá no comerciante Jorge Dutil, o capitão Bernardo Gentil, em que ninguém deve ter reparado.

Saltou para a gare, entrou num café. mandou vir um copo de absinto, e não querendo correr o risco de se comprometer com perguntas, esperou.

 

Porque é que Marcello se achava só no caminho de ferro e a caminho de Genebra

Vamos dizê-lo em poucas palavras aos nossos leitores.

Retrocedamos algumas horas.

Lourenço Féreal, assim que pai e filho transpuseram a porta da sua habitação, falou em despertar uma criada, mandar buscar um médico, de que Raul parecia ter grande necessidade, por continuar desmaiado.

Marcello deteve-o com estas palavras:

— Ninguém deve saber que meu filho está aqui! É de uma importância capital...

O amigo a quem se dirigia, olhou para ele espantado. O ex-tenente, ao ver aquele assombro, exclamou:

— Admira-se!

— De certo.

— Tenha um pouco de paciência... Assim que o pequeno estiver quente e reanimado, dar-lhe-ei a explicação do enigma...

Dali a cinco minutos, Raul volvia a si num bom leito, murmurava algumas palavras indistintas, e adormecia com um sono reparador.

Marcello vestiu um fato de Lourenço, e bebeu um grande copo de aguardente antiga.

Apesar de prostrado de fadiga, sentiu renascerem-lhe as forças.

— Espera a explicação prometida? disse ele ao amigo. É muito simples... O naufrágio desta noite é resultado de um crime...

— Um crime! repetiu Lourenço Féral espantado.

— Avalie...

O pai de Raul contou o drama terrível a que o lago servira de teatro, e que os nossos leitores conhecem.

— Então? perguntou.

— Tem razão... Há crime?

— O que supõe?

—O homem do barquinho a vapor queria matá-lo.

— Queria a minha vida. de certo, mas queria ainda mais a de Raul.

— Que supõe então?

— Como é que não adivinha, o senhor, a quem confiei o segredo do meu passado? O assassino desta noite, o homem que me gritou o meu verdadeiro nome no momento em que me achava irremediavelmente perdido, é um bandido por conta da Marquesa de la Tour-du-Roy.

— Pois a Marquesa havia de fazer matar o filho!... exclamou Lourenço Féral com horror.

— Afirmo-o.

— Por quê?

— Para herdar dele...

— Julga-a capaz de tão monstruosa infâmia?

— Julgo-a capaz de tudo.

— Custa a crer!

— Se até quis queimar-me em vida, unicamente para se desembaraçar de mim... Pôde muito bem afogar o filho, cuja fortuna, hoje mais que nunca, se lhe torna necessária...

— Mas as provas?

— Tê-las-ei.

— Para fazer condenar esse miserável?

— Não, mas piara ter o direito de realizar um plano que concebi

— Espera tornar a encontrar o homem?

— Senão ele, pelo menos um espião que se apresentou em minha casa há três dias, e que,tenho disso a certeza, procedia por conta dele. Não se denunciarão um ao outro.

Marcello referiu a visita de Bernardo Gentil, dizendo-se capitão de longo curso, e continuou:

— Este homem, convencido de que eu estou morto e mais meu filho, também espera que a notoriedade pública permita tirarem-se as certidões de óbito de que a Marquesa tem precisão para ser livre e para ser rica. Pelo menos há de ter uma certidão.

— Qua delas? perguntou Lourenço Féral com dobrado assombro.

— A de Raul, que lhe permitirá pôr mão na fortuna cobiçada, e não tornar a tentar contra a criança. Por isso importa ocultar de todos a presença de Raul nesta casa.

— Raul morreu, Raul pereceu no naufrágio do yacht, ao mesmo tempo que o meu marinheiro. Só eu me pude salvar! Tal é a declaração que farei amanhã.

— Não esqueça que uma declaração falsa é crime previsto e punido por lei!

— Que me importa? Se é um crime,o motivo que o originou desculpa-o e habilita-o! Há muito que eu procurava meio de meu filho ser exclusivamente meu. O acaso dá-me, e aproveito o acaso.

— Mas Raul ficará sendo um bastardo, uma criança sem nome?

— Adotá-lo-ei, e dar-lhe-ei o meu nome... Amanhã farei constar que Raul pereceu... Porei luto no chapéu... Tomarei uma fisionomia consternada... Deixarei Versoix, e refugiar-me-ei num retiro que o senhor com a sua boa amizade poderá encontrar para mim. e onde viverei feliz junto de meu filho...

— Esse retiro está achado.

— Onde?

— Próximo de Bale... nas margens do Rheno... Tenho ali uma pequena propriedade que ponho à sua disposição.

— Quando poderemos partir?

— Amanhã à noite. Já, se quiser. Acompanhá-lo-ei até Bale para se instalar... Uma vez Raul posto ao abrigo, virá a Versoix buscar tudo o que lhe for necessário. Farei afastar os criados para levar o pequeno, e irei esperar pelo senhor no hotel do Caminho de ferro, donde partiremos juntos...

— Aceito, e de muito boa vontade! Os dois deram um aperto de mão.

 

No momento em que Fossaro o vira passar, Marcello dirigia-se para Genebra, ao hotel da Coroa, para esclarecer as suas dúvidas a respeito daquele que fora a sua casa sob um fútil pretexto, e a quem considerava como um espião pago por Lazarine.

Entrou no hotel e perguntou:

— O senhor Bernardo Gentil?

— Bernardo Gentil! repetiu o empregado.

— Sim, um capitão de longo curso.

— Bem sei, bem sei.,.um antigo marinheiro... um belo homem, mas que tinha só um olho.

— Isso... Queria falar-lhe... Estará em casa? O empregado folheou um registro, e respondeu:

— Retirou-se há três dias, senhor...

— Tem a certeza disso? exclamou Marcello, muito atordoado com a notícia.

— Toda a certeza. Só cá ficou duas noites.

— E para onde foi, sabe?

— Não disse nada, mas há todos os motivos para crer que se retirou para França.

— Muito bem, senhor, agradeço-lhe...

E deveras desapontado, Marcello afastou-se.

 

CONTINUAÇÃO

A súbita retirada do suposto capitão de longo curso, tornava em certeza as suposições de Marcello.

Em lugar de vir buscar a resposta relativa à aquisição da propriedade Monestier, Bernardo Gentil deixara Genebra. Portanto, era efetivamente espião e cúmplice do assassino. Seria por conseguinte inútil procurá-lo por mais tempo.

O ex-tenente dirigiu-se a casa do seu banqueiro, ajustou contas, e tomou o comboio para Versoix.

Ali estava tudo em movimento e agitação.

Acabavam de apanhar, trazidos pelas ondas que a brisa ainda agitava, cabos, bancos, reinos, mostrando até à evidência que se dera um sinistro no lago.

Ora, remos e bancos tinham marcados a ferro em brasa o nome de Marcello Aubertin e o nome do yacht Rhone.

Teriam pois perecido o senhor Aubertin e o seu marinheiro?

Infelizmente parecia a coisa muito provável.

A multidão assustada, correu a casa para se informar.

O jardineiro e as criadas não sabiam nada, senão que seu amo estava em Vevey havia três dias, na companhia de Raul e de Antônio, e devia fazer-se de vela na véspera à noite.para regressar a Versoix.

— Então pereceram com toda a certeza! exclamou o "maire", amigo particular do senhor Aubertin.

As lágrimas deslizaram de todos os olhos: os soluços rebentaram. Naquele momento apareceu Marcello. lívido. e com o rosto transtornado.

Ouviram-se exclamações de alegria.

Todas as mãos estendidas quiseram apertar a sua.

— Chorem! chorem! exclamou ele com uma vez abafada. Estou vivo, mas Raul morreu, e o bom serviçal que nos acompanhava, seguiu-o ao abismo.

As lágrimas rebentaram novamente, os soluços aumentaram.

Adoravam Raul, como já dissemos, e o Antônio era filho daquela terra.

Marcello entrou em casa na companhia do "maire".

A multidão afastou-se, silenciosa, consternada.

George Dutil, ou antes o Barão de Fossaro. confundido com a multidão, ouvira o que precede, e dizia consigo:

— Pouco importa que Marcello Laugier escapasse por milagre! A Marquesa de la Tour-du-Roy não tem nada agora a recear dele. O ponto principal era herdar, e ela herda. O "maire" e o ex-hussardo vão com certeza tirar o auto mortuário do pequeno Raul. É quanto precisamos. Depressa saberei o que devo pensar...

E voltou para a aldeia.

 

Sigamos o "maire" e Marcello ao gabinete deste último.

Instado pelo amigo, Marcello contou a catástrofe,mas teve todo o cuidado de não lhe dar por causa uma abordagem premeditada, porque a violência da tempestade justificava plenamente o naufrágio.

O yacht fora a pique, ao largo do grande lago, quase na altura de Nyon.

O ex-tenente representando com um grande talento o papel que a si próprio se impusera, cortou de lágrimas a sua lúgubre narrativa, que teve de interromper por mais de uma vez, sufocado por uma fingida comoção.

— Agora, meu amigo, disse-lhe depois de um momento de silêncio, quando concluiu, resta-lhe uma tarefa dolorosa a cumprir, a de levantar o auto do meu amado Raul, mas primeiro devo fazer-lhe uma confidencia, ou antes uma confissão...

— Uma confidencia! Uma confissão! repetiu o "maire".

— Sim, e a sua surpresa será profunda.

Marcello abriu uma das gavetas da sua secretária, pegou nuns papéis e continuou:

— Raul não era meu filho, segundo a lei pelo menos.

O "maire" fez um gesto de assombro.

Marcello prosseguiu.

— Pouco depois do seu nascimento arrebatei-o a uma mãe indigna. Queria fazer dele um homem! Segundo o axioma legal: Is patre est que nnuptia demonstrant, é o filho póstumo e legítimo de um grande fidalgo, o Marquês de la Tour-du-Roy. É uma história sombria que desperta em mim terrível recordações. Amava Raul do fundo da alma. Era na verdade o meu sangue que lhe corria nas veias, e nunca me refarei do golpe que esta noite me feriu.

Marcello ocultou durante alguns segundos o rosto nas mãos. Em seguida ergueu a fronte, limpou os olhos, e tornou, apresentando um papel selado ao "maire":

— Eis a certidão de nascimento da pobre criança, que não tornarei a ver!

— Coragem, meu amigo!

— Não tenho... Concentrara em Raul todas as minhas afeições e todas as esperanças... Quero ir ter com ele, depressa irei ter com ele...

— Tenha ânimo!... Compreendo o seu sofrimento e partilho-o. mas não lhe ficava próprio deixar-se abater!... Lute contra o pesar... Procure distrações... Viage...

— É o que vou fazer... Sairei de Versoix e só voltarei dentro de alguns dias... Tem precisão de mim para a confirmação do óbito?

— Não... Infelizmente a morte de Raul não pôde ser posta em dúvida, como não o pôde ser a do pobre Antônio...

— No meu regresso tirarei na "maire" um extrato mortuário, e fazê-lo-ei chegar às mãos da Marquesa de la Tour-du-Roy...

 

Dali a uma hora Marcello Laugier partia para Nyon, com uma mala cheia de roupa e de fato, e reunia-se no hotel da Gare a Raul e a Lourenço Féral.

César de Fossaro pusera-se de observação num café próximo da "mairie" onde não tardou que visse o oficial do estado civil, seguido de um personagem de cabelos compridos e lisos que um dos fregueses designou como sendo o mestre escola, fazendo as vezes de secretário do conselho.

— Vão lavrar o auto... pensou o barão. E tornou a partir para Genebra.

Dali a três dias voltava para Varsóvia.

Depois de se certificar da ausência de Marcello Aubertin, dirigiu-se à "mairie" e pediu uma certidão do filho do Marquês, Roberto de Tour-du-Roy e de Lazarine Leroux, viúva do Marquês.

Munido desta certidão, César voltava para Paris onde Malpertuis, tendo chegado na véspera, aguardava impaciente.

Pôs o seu sócio ao fato do que se passara.

Malpertuis apesar de no fundo sentir sérias apreensões cumprimentou-o com entusiasmo a respeito dos resultados obtidos.

— Temos em nosso poder toda a fortuna de Lucilia Gonthier e a Marquesa de la Tour-du-Roy vai cumprir o seu contrato... atreveu-se em seguida a dizer. Portanto estamos já hoje ricos... Não te parecia prudente parar?

César encolheu os ombros.

— E havemos de abandonar os milhões do Príncipe Heitor, os milhões do Duque de Chaslin, os milhões de Maria de Vergis e de Arnaldo de Trois Monts! exclamou. Estás doido? Iremos até ao fim... Primeiro a Marquesa de la Tour-du-Roy.

— Apenas está comprometida por um milhão...

— Eu encarrego-me de lhe fazer triplicar a quantia... Nesta ocasião deve ela debater-se em meio de grandes dificuldades de dinheiro.

— Por quê?

— Como um filho de família namorado de uma dançarina, assinará tudo quanto quiserem para receber de uma só vez uma grande quantia... Talvez lhe compremos as propriedades da Tour-du-Roy. para onde iremos viver como grandes fidalgos...

— E Branca?

— De hoje em diante ocupar-me-ei dela, mas estou sossegado a seu respeito. Sempre é do meu sangue!

 

Três dias depois da sua instalação em Passy, a falsa Adriana de Lasseny, cujo amor a Rogério de Chaslin ia aumentando, resolvera-se a recebê-lo.

Apenas, porém, para que no seu procedimento não houvesse motivos de suspeitas, escrevera, não ao filho, mas ao pai, fazendo-lhe saber para onde se retirara.

Henrique de Chaslin, a quem a separação e a inquietação atormentavam, sentiu-se reviver, ao receber aquela carta, e naquele mesmo dia dirigiu-se ao "boulevard" Flandrin.

Branca que esperava aquela visita, mandou responder que tinha saído.

No dia seguinte, escreveu nova carta ao velho Duque, para lhe dizer que tendo a sua fama em mais estima que nenhuma outra coisa, só o receberia acompanhado do filho e do senhor de Logeryl.

O senhor de Chaslin conhecia a vontade inflexível de Adriana.

Teve de se submeter.

Apresentou-se portanto com Rogério e com o substituto.

Abriram-lhe a porta.

O senhor de Logeryl tendo sabido por Daniel Gaillet que uma carta da menina de Lasseny havia sido dirigida para o palácio de Chaslin, achou logo a remessa suspeita. Mas vendo que o Duque não fazia mistério da carta, tranqüilizou-se e disse ao inspetor da segurança que cessasse momentaneamente uma vigilância que dava resultados negativos, pois que a ex-donzela de companhia da Duquesa Joana, vivia numa solidão absoluta.

Daquele dia em diante,os três homens tornaram-se assíduos visitantes, e passavam no boulevard Flandrin quase todas as noites.

Sabemos que sentimentos ali levavam o pai e o filho.

O motivo da assiduidade do senhor de Logeryl era diferente.

Depois das dúvidas despertadas no seu espírito pelas palavras de Helena, o jovem magistrado estudava sem cessar o tio e o primo.

Daquele estudo resultava para ele a convicção de que ambos nutriam pela menina de Lasseny uma profunda paixão.

Às vezes perguntava a si próprio se o amor do Duque, com certeza anterior à morte da Duquesa, não dava um terrível cunho de verossimilhança às terríveis suspeitas da menina de Chaslin.

Não se atrevia a responder.

Ao mesmo tempo uma outra pergunta se oferecia ao seu espírito.

Em que viria a dar aquele amor do pai e do filho pela mesma mulher, e que tempestade rebentaria no dia em mie os dois homens soubessem da sua rivalidade?

Este segundo enigma ficava não menos insolúvel que o primeiro.

Como a falsa Adriana falasse de Helena a Rogério, afirmando que ela estimaria muito vê-la, o mancebo balbuciara, não sem manifesto embaraço, que o luto tão recente não lhe permitia nem sair, nem receber visitas.

Branca mostrou nos lábios um sorriso de indizível amargura, e não insistiu.

Quanto mais vezes Rogério via a feiticeira, mas tímido o tornava a sinceridade da sua paixão.

Não se atrevera a falar-lhe do seu amor, de mais a ocasião faltava-me.

A filha de Pedro Carnot esperava ansiosamente uma confissão, mas obedecendo às exigências do seu papel, não queria provocá-la,

O Duque por muitas vezes tentara volver ao passado.

Branca como sabia que ele era incapaz de se conter, assim que encetava este perigoso assunto, não deixava de o interromper logo às primeiras palavras.

O senhor de Logeryl, frio observador, não podia deixar de confessar que a atitude e o procedimento da menina de Lasseny eram absolutamente corretos.

Helena não ignorava as freqüentes visitas do pai, do irmão, e do noivo, ao boulevard Flandrin.

Ela estimava que assim sucedesse, convencida de que de um momento para o outro a intrigante esquecer-se-ia de pôr a máscara, e ao menos por um segundo, deixaria ver o seu verdadeiro rosto.

Inabalável nas suas convicções, esperava que fosse possível interrogar Mariana convencida de fazer brecha na incredulidade do senhor de Logeryl.

A criada fiel, apesar de sempre de cama, estava em via de restabelecimento, e não tardaria a recuperar as forças.

Poder-se-ia então tentar arrancar-lhe o segredo de que Helena só conhecia metade.

Eis em que ponto estavam as coisas no momento em que o senhor de Fossaro voltava de Genebra trazendo a certidão de óbito do filho de Marcel Laugier, ou antes do jovem Marquês Raul de la Tour-du-Roy.

 

Eram nove horas da noite.

O Duque Rogério e o senhor de Logeryl achavam-se reunidos no boulevard, no salão que deitava para a estufa, e que ficava separado de um boudoir muito pequeno, por um reposteiro de tapeçaria.

Branca preparou o chá que ia oferecer às suas visitas.

Henrique de Chaslin viera naquela noite com a idéia fixa de obter uma explicação decisiva, e esperava o momento de alcançar um tête-a-tête.

Rogério também louco de amor, resolvera dominar a própria timidez, e declarar à menina de Lasseny os sentimentos que por ela nutria, e pedir-lhe, que aceitasse o seu nome.

A criada de quarto entrou na sala.

— Que quer? perguntou-lhe Branca.

— Menina, respondeu a camareira, acabam de bater à porta que deita para a rua Thery, e não tenho chave.

A falsa Adriana designou com um gesto uma das jarras colocadas em cima do fogão, e replicou:

— Tire a chave que está na jarra da esquerda, e depois torne a trazê-la.

Passados três minutos a criada de quarto apareceu novamente, trazendo a chave que tornou a pôr no lugar donde a tirara.

— Quem tocava? interrogou Branca.

— Um desconhecido que se enganava na porta.

 

AMOR E VIOLÊNCIA

Um pouco depois das dez horas, Henrique de Chaslin, muito pálido e com um fulgor sombrio nos olhos. levantou-se repentinamente, e pegou no chapéu que estava em cima da mesa ao pé dele.

Branca disse-lhe com uma gentileza felina:

— Espero, senhor Duque, que não se lembrará de nos deixar.

O ancião replicou:

— Desculpe, minha senhora, mas estou um pouco incomodado, e volto para casa.

— Quer que o acompanhe, meu pai, perguntou Rogério movido de mu sentimento filial.

— Recuso absolutamente... A minha doença não tem gravidade... Amanhã, pela manhã, já não se tratará disso... O mancebo teve todo o cuidado em não insistir.

O senhor de Chaslin deu um aperto de mão ao filho e ao sobrinho, e apertou também as mãos de Branca.

A jovem acompanhou-o até à porta da sala.

A criada de quarto esperava-o no vestíbulo.

O duque aproximou-se dela com vivacidade, apresentou-lhe alguns bilhetes de banco e disse-lhe em voz baixa:

— Aqui estão cinco mil francos... Vou sair para mandar o trem embora, depois voltarei em segredo, e ocultar-me-á até ao momento em que a sua ama estiver só. Se a menina Lasseny a mandar embora por me haver servido, receberá dez mil francos.

 

Dez mil francos em perspectiva, e cinco mil já recebidos!

Não era preciso tanto para comprar a consciência da camareira, e a própria camareira ainda por cima.

A sua resposta foi um sinal de adesão.

Henrique de Chaslin saiu.

Falou com o cocheiro, e deu-lhe ordem para o ir esperar no ângulo do boulevard Flandrin, e na avenida de Eylau; depois quando o trem partiu, introduziu-se na pequena residência.

Havia uma copa, dependente da sala de jantar, que também comunicava com a sala por meio de duas grandes portas.

Às onze horas o senhor de Logeryl e o primo despediram-se por seu turno da falsa Adriana.

Enquanto esta reconduzia o Duque, Rogério, encostando-se ao fogão, apoderara-se da chave que abria a porta da rua Thery.

Branca acompanhou os dois mancebos mais longe do que tinha acompanhado o velho fidalgo.

Em pé na plataforma da escadaria, cujos degraus iam ter ao boulevard Flandrin, viu-os subir juntos para a carruagem do substituto.

De cabeça baixa, com os olhos afogados em lágrimas, murmurou voltando para a sala:

— Quando será que ele dirá: Amo-a!

Levantou o reposteiro de tapeçaria para entrar no gabinete de vestir, a fim de apagar as luzes, e ficou estupefata vendo diante de si Henrique de Chaslin, que estendia para ela as mãos suplicantes.

Branca ficou deveras assombrada:

— O senhor Duque! balbuciou. Como é que está aqui?

— Pouco importa corno, respondeu o ancião. O importante é estar.

— Não pode aqui ficar mais tempo.

— Não me irei embora enquanto não me ouvir. — Que me quer?

— Bem sabe o que quero? É a primeira vez depois que saiu do palácio, que me vejo a sós com a senhora. É a primeira vez que lhe posso falar livremente. Escute-me então e responda-me! Amo-a com uma paixão que aumenta de hora para hora, requeimando-me o sangue, gastando-me a vida! Quando lhe confessei o meu amor, existia entre nós um obstáculo, separava-nos uma barreira. A senhora permitiu-me que tivesse esperanças. Tive de me contentar com isso. Hoje o obstáculo já não existe. Está suprimida a barreira. Cumpra o compromisso contraído. Lembre-se de mim!

Branca exclamou desdenhosamente:

— Sua amante!

— Minha mulher! É o título de Duquesa e o nome de Chaslin que deponho a seus pés. Aceita?

— Recuso.

Henrique vacilou como fulminado.

— Recusa! exclamou estupefato. Pois recusa ser Duquesa?

— Sem hesitar.

— Mas por quê?

— Porque tenho no coração o luto daquela que já não existe, e que o senhor esquece muito depressa! A minha dor é sincera, e a sua mentirosa! O meu orgulho, excitado pelas nossas diligências, fizera-me perder a cabeça. Compreendo agora e arrependo-me. Permitindo-lhe a esperança, como o dizia há pouco, cometi uma ação odiosa e criminosa! Ao ouvir as suas palavras de amor adúltero, ofendia gravemente a duquesa viva. Não ofenderei gravemente a Duquesa morta tomando o seu lugar. Não serei nunca sua mulher.

— Nunca! repeliu o senhor de Chaslin com voz extinta.

— Nunca!

E deixou-se cair numa cadeira com os olhos espantados, a face lívida, e escondeu o rosto nas mãos.

— Ah! tartamudeou passado um instante, a senhora mata-me.

Branca não respondeu.

Após um novo silêncio o velho tornou, mostrando o rosto transtornado, assustado, de um homem agonizante.

— Tenha dó de mim... Engana-me... Deixe-me crer que talvez um dia, mais tarde... comovida com o excesso dos meus sofrimentos, cessará de ser implacável, e aceitará o que hoje recusa...

— Nunca! exclamou a falsa Adriana pela terceira vez.

O senhor de Chaslin deitou a Branca um olhar de uma expressão estranha, o olhar de um infeliz cão condenado que de corda no pescoço pedisse perdão ao dono estimado.

A jovem voltou a cabeça.

O Duque compreendeu então que a decisão era irrevogável.

— Que castigo! balbuciou, que castigo!

Levantou-se hirto, e dirigiu-se com um passo automático para a porta, saiu da sala, depois do palácio, e desapareceu nas trevas pouco menos densas do boulevard Flandrin.

Depois dele se retirar, Branca sentou-se exatamente no lugar que ele acabava de deixar, e mergulhou numa meditação profunda, cuja natureza parece supérfluo indicar.

O senhor de Logeryl morava na rua de Varenne.

Depois de ter conduzido o primo até ao arrabalde Saint-Honoré fez-se conduzir para casa.

Rogério esperou que o trem se afastasse.

Em lugar de tocar à porta do palácio, voltou para trás, dirigiu-se para o boulevard, tomou um trem e disse ao cocheiro:

— Avenida d'Eylau, no recanto da rua Dufresnoy,

Meia hora depois apeava-se, e com o coração agitado por uma perturbação desconhecida, dirigiu-se rapidamente para a rua Théry, onde ficava a porta, cuja chave sabemos que ele tinha na algibeira.

— Assiste-me porventura o direito de proceder por esta forma? perguntou. O meu procedimento será o de um cavalheiro? Por que não? A sinceridade do meu amor não será a desculpa de uma tão louca resolução? Amo Adriana no fundo dalma, e quero que ela seja minha mulher. Se a comprometer, restituir-lhe-ei a honra.

 

No momento em que o trem que acabava de trazer Rogério de Chaslin à rua Dufresnoy parava no lugar indicado, chegava um homem à rua Thery, à porta do pequeno jardim de Branca.

Aquele homem, cujo único olho brilhava de noite como o dos gatos, era César de Fossaro, ou antes Pedro Redon, o cego de um olho.

Tirou do bolso uma chave, introduziu-a na fechadura, fê-la girar nos lemes com infinitas precauções, entrou, fechou-a após si, e parou de olho à espreita.

Dentro e fora reinava profundo silêncio.

O sócio de Malpertuis avançou até ao pé da estufa que formava um anexo do rés-do-chão, e cuja porta de vidraça nunca era fechada à chave.

Através daquela vidraça César via distintamente o interior da sala iluminado pelas velas de dois candelabros.

A princípio aquela sala pareceu-lhe deserta.

— Ninguém! murmurou. Onde está, então Branca Se ela se retirou para o seu quarto, coisa possível àquela hora, pois que não me espera, por que são aquelas luzes?

Mais atento exame, fez-lhe ver a jovem sentada, ou antes estendida numa chaise-longue, com a cabeça caída para trás, e o olhar perdido no vago.

— Que atitude prostrada! pensou Fossaro. Não dorme... pensa... Em que pensa?

Após um momento de meditação, acrescentou: — Vou saber.

E estendeu a mão para o botão de cobre polido. Não concluiu porém o gesto principiado, e estremecendo de súbito, pôs novamente o ouvido à escuta.

 

Detrás do muro do jardim ouviu-se um passo rápido.

O passo parou em frente da porta.

Na fechadura rangeu uma chave, e a porta girou sobre os gonzos.

O cego de um olho exclamou com um frêmito de inquietação:

— Alguém entra aqui! que significa isto? quem virá aqui? Seria o Duque?

Ocultou-se detrás de um maciço de plantas de ramagem perene. Agachando-se quase sobre o solo úmido, esperou. Foi breve a sua expectativa.

Um vulto de mulher jovem e flexível passou rapidamente por diante dele, abriu a estufa no bico dos pés, e dirigiu-se para a sala. O recém-chegado não era o Duque. Fossaro cerrou os punhos enraivecido.

— O que é isto? perguntou. A infame terá um amante?

O visitante noturno subiu os três degraus, que da estufa conduzia à sala.

Apesar de andar muito levemente, Branca arrancada à sua meditação por um inesperado ruído, ergueu os olhos.

Reconhecendo Rogério, soltou um grito de alegria, que o mancebo tomou por um grito de terror.

Por isso Rogério exclamou com uma voz apenas distinta.

— Oh! perdoe-me! Não chame ninguém! Não me expulse. Não tem nada a recear, bem sabe... Por que é que havia de ter medo?

— Não tenho medo... respondeu Branca.

Vendo o seu sonho realizado, readquiriu a presença de espírito, e queria ficar senhora da situação.

— Não teimo medo, continuou, porque tenho a certeza de impor respeito, mas o meu espanto não tem limites. Por onde foi que entrou aqui?

— Pela porta do jardim.

— Quem lha abriu?

— Ninguém... ocultei a chave e voltei.

— Por quê? não acabava de sair de junto de mim?

— Porque a senhora nunca me recebe só. e eu queria ;t todo o custo estar a sós com a senhora.

— Que tem a dizer-me?

Rogério apelou para a sua coragem desfalecida, e respondeu:

— Tenho a dizer-lhe que a amo.

Branca sentiu o coração bater-lhe com força desesperadora. Estava finalmente proferida a palavra esperada por tanto tempo.

— O senhor... balbuciou ela.

— Pois ignorava? retorquiu o mancebo. Um simples olhar que lhe deitei tornou-me seu escravo. Entreguei-me completamente à senhora quando a vi chorar junto do leito onde minha mãe acabava de morrer. Adriana tenho direito de lhe falar assim. Não estamos nós ligados um ao outro pela vontade suprema daquela a quem ambos amávamos?

— Cale-se! cale-se! exclamo Branca com um terror que não era fingido.

A recordação de Joana de Chaslin assassinada por ela, aterrava-a.

Rogério continuou:

O desejo supremo da minha mãe, como não pode ter esquecido, era chamar-lhe sua filha.

A falsa Adriana tornou-se pálida e pôs-se a tremer.

O fantasma vingador da Duquesa, evocado pelo filho, erguia-se diante dos seus olhos.

— Ah! tornou, não me fale de sua mãe.

— Por quê?

— Repito, cale-se.

— Do alto do céu ela está a ver-nos, espera por nós. e suplico-lhe que advogue a minha causa. Pense em minha mãe. Adriana, e amar-me-á.

Cedendo a um impulso, irresistível, Branca murmurou:

— Para que se há de advogar essa causa? Ela está gasta de antemão...

— Adriana... Adriana... exclamou Rogério agarrando nas mãos da jovem que teve um calafrio por todo o corpo, compreendi bem as suas palavras, amar-me-á?

— Sim, respondeu a sereia, não resistindo aos braços que a enlaçavam, amo-o.

O zarolho aproximara-se durante a conversa precedente, e oculto detrás do reposteiro, escutava.

Nenhuma frase poderia pintar a expressão sinistra do seu rosto, e o brilho fulgurante do seu olho único.

Rogério puxara Branca, e estreitava-a contra o peito.

— Adriana, oh! minha adorada! exclamou. Torne a dizer-me essas palavras embriagadoras, essas palavras que transformam a terra num céu. Repita-me que me ama...

— Amo-o... repetiu a jovem. Amo-o, Rogério... amo-o!

 

IDÍLIO E VIOLÊNCIA

Rogério chegou os lábios aos cabelinhos soltos, de um ouro pálido, que estremeciam na nuca de Branca.

Foi tão viva a sensação produzida por aquele beijo, que a filha de Pedro Carnot sentiu faltarem-lhe as forças.

Teve medo de si mesma, vendo-se meio desfalecida e sem forças para a resistência, nos braços de Rogério, ébrio de amor.

Procurando desprender-se, balbuciou:

— Não me faça arrepender de uma imprudente confissão. Deixe-me!

O mancebo, em vez de obedecer, estreitou mais o seu amplexo.

— Que pode recear sobre o meu coração! perguntou. Bem sabe que será minha mulher...

Fossaro fez um gesto de cólera.

— Adriana, duvida de mim? continuou Rogério.

— Não! oh! não, não duvido! exclamou Branca com voz moribunda. É leal, e tenho a certeza do que ama. Proteja-me.

— Contra quem?

— Contra mim mesma. Nos seus braços a minha razão desvaira. Bem vê que enlouqueço. Não me obrigue a corar amanhã, na sua presença, peço-lhe! Por favor, por piedade, deixe-me digna do nome que me oferece, e que eu recusaria, juro-lhe, se devesse manchá-lo aceitando-o. Deixe-me...

— Exige-o?

— Não exijo, imploro de joelhos... A maior prova de amor que neste momento me pode dar, é afastar-se.

— É cruel!

— Não sou, sou digna e prudente.

— Bem, obedeço... Obedeço levando a esperança, ou antes a certeza de uma próxima felicidade... Voltarei amanhã...

— Sim, amanhã.

— E será dentro em pouco minha, só minha, será a minha mulher idolatrada, a minha amante sedutora.

— Sim, dentro em pouco.

— Dê-me pois um beijo... um só... e retiro-me. Se me demorasse mais, não partiria nunca...

Rogério inclinou-se para Branca, que lhe oferecia os lábios. Sob a chama daquele ósculo, ela torceu-se como uma cobra. Soltando-se repentinamente, arrastou o mancebo para a saída do vestíbulo, balbuciando:

— Retire-se! assim é preciso... Retire-se depressa...

 

Decorreram alguns segundos.

Ouviu-se uma porta fechar-se.

Branca tornou a aparecer.

Parecia em êxtase.

Iluminava-lhe o rosto uma alegria sobrehumana.

Os seus lábios moviam-se.

— Ama-me! dizia ela em voz baixa, ama-me e eu adoro-o! O amor é o único rei, o único senhor, mais ainda, é um verdadeiro demônio.

De repente a jovem tornou-se lívida. Escapou-lhe da garganta um grito de terror.

Mão rude acabava de lhe agarrar o pulso.

Pedro Rédon estava diante dela. ao mesmo tempo zombeteiro e ameaçador.

Branca recuou.

Sentia assombro e terror.

César de Fossaro perguntou-lhe:

— De que tens medo? É a minha presença que te faz assim tremer?

— Estava tão longe de esperar...

— Ver-me esta noite? concluiu Fossaro.

— De certo.

— Má razão essa! Deves constantemente esperar a minha visita, nunca te deves admirar! Venho perguntar-te o que se passou desde a minha retirada.

— Chega talvez neste momento, pensou Branca. Nana sabe, nada ouviu... Posso mentir e ganhar tempo.

— Fala. disse o zarolho sentando-se. Branca respondeu:

— Obedeci às suas ordens... Fiz o que me ordenou.

— O Duque?

— Cada vez mais apaixonado. Esta noite ofereceu-me o seu nome e a sua fortuna.

— Tu respondeste?...

— Que aceitaria ambas as coisas, mas que o túmulo da Duquesa mal se acabara de cerrar, e era preciso esperar.

 

Pedro Rédon levantou-se de um pulo e respondeu:

— Mentes!

— Digo a verdade!

— Repito-te que mentes! Despediste o Duque, porque o teu fraco coração, que julgavas tão forte e tão bem couraçado, se deixou cativar de amor! Sacrificas o velho ao mancebo! Entre o pai e o filho preferes e amas o filho!

— O senhor escutava-me! disse. Armava-me um laço... Sabe tudo! pois tanto melhor! Uma vez para sempre expliquemo-nos!

— Pois vamos a ouvir a explicação.

— Modifiquei os seus planos, mas que importa, visto que eles não deixam por isso de ficar de pé? Queria que fosse Duquesa. Prometo-lhe sê-lo. Henrique de Chaslin é um velho, cujos dias estão contados... Rogério herda o título de seu pai, e eu serei mulher de Rogério!

— Tu arranjas assim as coisas! exclamou o zarolho com um riso mau.

— Não estão arranjadas conforme os seus desejos?

— Julgas então que matei a Duquesa, para tu poderes pôr-te a rolar com um donzel?

— E eu pedi-lhe esses crimes?

— Impunha-nos o meu interesse. É só do meu interesse que se trata, é só o meu interesse que te ordena me sirvas.

— Recuso, se for hostil ao meu amor. Mas porque havia de ser hostil!

— Vais compreender. Dois dias antes da tua admissão ao serviço da Duquesa, fiz-te traçar na parte inferior de uma folha de papel selado estas poucas palavras: — "Confirmo o que acima está escrito" — seguido da assinatura de Adriana Lasseny. Lembras-te?

— Lembro-me.

" — Muito bem, por cima destas poucas palavras e da assinatura, escrevi eu: — "Prometo a pagar ao senhor Pedro Rédon a soma de três milhões, um mês depois do dia em que eu ficar viúva do Duque Henrique de Chaslin."

Branca murmurou aterrada:

— Escreveu isso!

— Amanhã te mostrarei esse pequeno documento, se quiseres... Ora, casando com o velho de que me encarrego de te fazer viúva em breve prazo, receberas um donativo da quota disponível de todos os seus bens, o que te permitirá honrares a assinatura... Pelo contrário, desposando o filho, transformado em rival de seu pai, fatalmente deserdado por esse motivo tanto quanto for possível, ficando apenas possuidor da sua parte da herança materna, ver-te-ias à frente de uma fortuna infinitamente modesta, com a qual não me contentaria, e de que aliás não poderia dispor sem preceito. Eis as razões por que hás de renunciar de bom grado a Rogério de Chaslin, e serás mulher do velho Duque. Exagero o meu interesse! Compreendeste?

 

Branca ergueu a fronte.

Cruzando os braços no peito, replicou em tom provocador:

— E se eu recusar?

Fossaro olhou para ela espantado, não podendo acreditar que acabava de ouvir.

— Se tu recusares? repetiu com o olho injetado, os lábios contraídos.

— Sim.

— Revoltar-te-ias contra a minha vontade?

— Revoltar-me-ia, revolto-me...

— Toma cuidado!

— Em que? Na morte? Ora adeus! eu encaro a morte! Digo-lhe que me revolto... Ergo a cabeça... Despedaço as minhas cadeias! Há já muito que trabalho pelo senhor! Quero finalmente trabalhar para mim!

Habituado a ver ceder tudo diante da sua vontade. César de Fossaro espumava de cólera.

— Donde te vem essa audácia, infame criatura? perguntou ele. E a cólera fazia-lhe tremer a voz.

Branca respondeu com toda a simplicidade:

— Do amor!

O zarolho, no paroxismo do furor, levantou os punhos fiara a jovem, como para a esmagar.

Porém um pensamento que lhe acudiu, sossegou-o repentinamente.

A expressão feroz do seu olhar desapareceu, o rubro fulgor da sua pupila apagou-se, a expressão terrível tornou-se chocarreira, e o ritus da fera tornou-se numa gargalhada.

— Palavra, que sou absurdo! exclamou. Ameaças não são razões, e a cólera nada prova. Vamos conversar, minha querida. Escuta-me sem reserva, põe de lado o teu coração, porque me dirijo à tua inteligência, e entender-nos-emos sem dificuldade... Rogério de Chaslin quer casar com a menina de Lasseny... Para casar são precisos papéis... apresentarás os teus, os teus títulos de família, a sua certidão de nascimento, não é verdade?

— De certo respondeu Branca, em quem esta pergunta despertou vaga inquietação.

— Pois eu, interveio o zarolho, intervirei em tempo oportuno! Ao lado desses apresentarei outro, um só, indiscutível, esse; e demonstrando até à evidência que não és Adriana de Lasseny, filha legítima de um fidalgo, mas Branca Gaillet, filha bastarda de Clara Gaillet, assassinada pelo amante... por mim... por teu pai.

Branca estremeceu de horror, e exclamou:

— O senhor, meu pai!

— Pois julgas que Rogério de Chaslin, quando conhecer a tua origem, te há de continuar a querer por mulher? perguntou o zarolho rindo.

— O senhor, meu pai! repetiu a jovem. Ah! não o creio. O senhor inventou essa fábula absurda, para impedir que eu quebrasse a cadeia. O senhor, meu pai! Ora adeus!... Por acaso meu pai, mesmo admitindo que ele fosse infame, me havia de ensinar o crime? Pois Deus havia de permitir semelhante coisa?

— Devaneias!

— Não, não, sou uma criança roubada pelo senhor, industriada pelo senhor, formada na sua escola, e o senhor pode perder-me, é verdade, mas não é meu pai, e arrastá-lo-ei ao abismo! Fez de mim Adriana de Lasseny... Ficarei sendo para todos Adriana de Lasseny, e desafio-o a que quebre o pedestal edificado por suas mãos!...

— Dou-te cinco dias para refletires... concluiu Fossaro brevemente. Dentro de cinco dias, às dez horas da noite, esperarei no chalet da rua Compans, Branca Gaillet.

— Ah! não profira semelhante nome... balbuciou a falsa.Adriana.

— É o teu nome, minha filha! Daqui a cinco dias. às dez horas da noite, virás dizer-me o que te houver respondido o Duque, a quem vais escrever que consentes em ser sua mulher... É uma resposta escrita que me é precisa. Compreendeste-me, não é verdade?

 

O sangue frio daquele homem era aterrador. Apesar da sua energia, Branca teve medo.

— Obedecerás? perguntou-lhe Pedro Rédon.

— Sim, respondeu ela com uma voz que parecia um sopro.

— Ora aí estás razoável! Bravo! Deita-te, e dorme. O sono acalmará os teus nervos excitados, e amanhã compreenderás melhor ainda quanto era louca a tua resistência. Boa noite, minha filha.

Segundos depois a falsa Adriana, ficando só, caía aniquilada numa cadeira.

Foi de curta duração este estado de prostração absoluta. Levantou-se, e exclamou:

— Disse que obedecia... Sustentada pelo amor julgava-me forte e tentei revoltar-me, mas Pedro Rédon é mais forte do que eu, e tornei a curvar a cabeça... Tem-me segura, e não posso arrancar-me das suas garras.

Esboçou um gesto de protesto, e tornou após um instante:

— Mas domina-me ele efetivamente? Sou verdadeiramente sua filha? A prova de que ele fala existirá? Os documentos que tenho em meu poder atestam que tenho direito ao nome de Adriana de Lasseny... Se aquele dissesse o contrário, ninguém o acreditaria. Depois, perder-me-ia, querendo perder-se a si... Esposar o velho Duque! Esquecer Rogério! ah! nunca! É daqui a cinco dias que Pedro me espera no chalet da rua Compans, e dentro de cinco dias passam-se muitas coisas! Veremos...

Apagou as luzes da sala e do gabinete, e meteu-se no seu quarto.

 

Estanislau Picolet deixara o principezinho, dizendo-lhe que ia pedir uma licença no escritório de Malpertuis, dar a sua demissão no caso de recusa, e tratar de investigar. t

Obteve sem dificuldade licença de um mês, de que tinha necessidade, segundo disse, para negócios de família.

Bem munido de dinheiro, entrevendo num futuro uma fortuna que havia de exceder os seus sonhos, deu começo ao seu pequeno trabalho.

Das notas que tomara, havia uma que mais particularmente lhe chamava a atenção.

Era a nota relativa ao moço de recados encarregado de levar à rua Julien Lacroix a carta escrita por Heitor a Lucília Gonthier.

Saindo do escritório, Sta-Pi dirigiu-se à prefeitura de polícia, e familiarizado com os membros do grande estabelecimento da segurança pública, foi direito à repartição das reclamações respectivas aos moços de recados autorizados.

ü empregado a quem se dirigiu, estava a ler um jornal. Levantou a cabeça sem dizer nada. mas a sua expressão significava claramente:

— Por que é que me vem incomodar?

—Senhor, respondeu Picolet, peço-lhe o favor de uma informação. Trata-se de um moço de recados de medalha.

— Algum moço de recados de quem tem motivo de queixa?

— Não sei.

— Explique-se.

— Há dias, senhor, confiei uma caria a esse homem, recomendando-lhe que trouxesse a resposta a um lugar indicado, a um pequeno café da rua da Vitória. Não veio. Não o acuso de má intenção. Talvez não tivesse entendido bem, ou já não se lembrasse do lugar indicado, tenho porém precisão de o interrogar, e peço-lhe que me entregue a sua morada.

 

STA-PI EM CAMPO

Em lugar de responder, o empregado interrogou:

— Então esse homem não estava no seu lugar regulamentar quando o encarregou da sua carta? perguntou a Sta-Pi.

— Não, senhor, respondeu Sta-Pi, passava pela rua à volta de um recado... Tomei o número da medalha.

— E que número era?

— 1.547.

— Bem. Sente-se.

Picolet sentou-se num banco, e o empregado tirou de uma prateleira um grande livro. Pôs-se a folheá-lo.

— 1.547, disse passado um instante. Achei... Sta-Pi levantou-se logo e aproximou-se.

— O moço de recados com a medalha n.° 1.547 chama-se Carlos Chauvin, continuou o burocrata. Mora na rua Saint-André-des-Arts. n.° 27. A sua estação regulamentar é na praça Saint-Michel.

Sta-Pi ao mesmo tempo franziu o sobrolho de um modo extraordinário, tomava a nota daquela informação na sua carteira. O empregado continuou:

— Se das indagações a que vai proceder, vir que tem motivo de queixa desse homem, não deixe de o vir participar a esta prefeitura, quer por escrito, quer verbalmente. Retirar-se-á a medalha.

Não deixarei de o fazer, senhor. Obrigado pela sua atenção.

O falso polícia saiu da repartição com o rosto mais sombrio que era possível imaginar.

— Tá, tá, tá, exclamou acendendo um pedaço de charuto. Principia a coisa a complicar-se! O moço de recados, a quem o criado confiou a carta, na rua Francisco I, dizia que era de Belleville, e este mora na arrabalde de Saint-Germain. Enfim, vamos ver...

 

Da prefeitura à praça Saint-Michel vai apenas um passo.

Picolet depressa transpôs esse espaço.

Examinou as esquinas das ruas, e avistou no ângulo da cais e da praça, ao pé da estação do ônibus, um banquinho de engraxador, e um gancho de moço de recados.

O próprio moço, em pé, à porta do café, escutava uma discussão entre consumidores.

Sta-Pi aproximando-se, perguntou-lhe:

— Olá, amigo, você é que tem a medalha n.° 1.547?

— Não, senhor... eu sou o n.° 2.059. O lugar do meu colega, o a.° 1.547, é no canto da rua de la Harpe. Mas parece-me que há algum tempo não o vejo.

Picolet dirigiu-se à rua Saint-André-des-Arts, perguntou por Carlos Chauvin, e foi mandado pela porteira ao sexto andar.

Encontrou uma mulher a chorar ao pé de uma pobre cama.

Nessa cama repousava um homem de cerca de sessenta anos, com a barba e os cabelos já brancos, que parecia sofrer muito.

Era Carlos Chauvin.

Tinha uma perna quebrada.

— Meu amigo, principiou Picolet, o senhor é efetivamente o titular da medalha n.° 1.547?

— Sim, senhor, há vinte e sete anos... respondeu o doente, Bem vê que no espaço de vinte e sete anos o oficio não me enriqueceu. Já éramos bem pobres, e para cúmulo da desventura quebrei uma perna.

— Quebrou uma perna! repetiu o falso polícia. Há quanto tempo foi isso?

— Há oito dias, senhor.

Picolet apurou o ouvido.

Fez logo a seguinte observação:

— Mas nesse caso estando há oito dias no bairro dos Campos Elyseos, recebeu de um criado uma carta para a rua Julien Lacroix, em Belleville?

— Há cinco dias estava eu já nesta cama. donde não me torno talvez a levantar.

— Ninguém o substituiu?

— Não nos fazemos substituir, senhor. A medalha e a licença só podem servir ao titular. Se por fraqueza ou por interesse emprestássemos a medalha seria uma contravenção, e a prefeitura riscaria dos cadernos o nome do culpado.

— Como pode então suceder que haja um colega seu com o mesmo número?

— Isso não é possível, senhor.

— Mas assim sucede. O moço de recados a quem se entregou uma carta há cinco dias, tinha na botoeira da veste o n.° 1.547.

— Repito-lhe que é impossível... devem ter lido mal o número,

— Talvez assim fosse, disse Picolet sem a menor convicção.

Meteu uma moeda de cinco francos na mão do pobre diabo, e desceu os seis andares, murmurando em meia voz:

— Seria para admirar que o criado de quarto lesse o número... a medalha devia ser falsa... Isto agora vai num sino. É em Belleville que é preciso procurar.

O agente do Príncipe alugou um trem e fez-se conduzir à rua Julien Lacroix.

A porteira, a senhora Lambert, estava só no seu cubículo. Sta-Pi principiou nestes termos:

— Minha querida senhora, pertenço à polícia, e venho pedir-lhe informações a respeito de uma pessoa que morou na sua casa.

O efeito da polícia é infalível sobre os porteiros. Picolet bem o sabia.

— Completamente à sua disposição, senhor... volveu a senhora Lambert com afã. De que se trata?

— Da menina Lucília Gonthier.

— Ah! pobre pequena! exclamou a porteira, há notícias suas? Encontraram-na?

— Ainda não, minha senhora, infelizmente, e é por isso que estou aqui. O senhor chefe da segurança pensa que a senhora pode ministrar indicações úteis...

— É muita honra para mim... não sei muito, mas estou pronta n dizer o que sei.

— Procedamos por ordem... exclamou Sta-Pi. Vou interrogá-la.

— Interrogar-me, senhor, responder-lhe-ei ao pé da letra.

— Lembra-se de um moço de recados que na véspera do dia em que a jovem desapareceu, veio trazer-lhe uma carta?

— Lembro-me muito bem... Uma carta da rua Francisco I. Metia medo aquele homem... Faltava-lhe um olho.

— Bem, e depois?

— Perguntou pela menina Lucília Gonthier. Indiquei-lhe o andar e a porta. Em lugar de subir, deu-me a carta, pedindo-me que a levasse. Deu-me até vinte sous pelo meu incômodo.

— Que horas eram?

— Quase oito horas da noite. Mas isto não é tudo, e é o que me dá que cismar. Vinte e cinco minutos ou meia hora depois, outro moço de recados, que se parecia muito com o primeiro, tanto quanto pude avaliar, entrou no prédio. Como passasse muito lépido por diante da porta, gritei-lhe: "Onde é que vai nessa pressa"? Ele respondeu-me: "Vou a casa da menina Lucília Gonthier. Trago uma carta para ela."

— Então trouxeram duas cartas uma atrás da outra? perguntou Picolet muito confuso.

— Sim, senhor... O que é para admirar muito, porque nunca, ninguém escrevia à Toutinegra.

— O primeiro moço de recados era do bairro?

— Reconhecê-lo-á agora?

— Oh! isso com certeza. Mostrem-mo, digo logo, ê ele.

— Sabe se existe em Belleville algum moço de esquina que seja zarolho?

— Não, senhor; ignoro, mas isso não quer dizer nada.

— Como assim?

— Se tem interesse em o saber, poder-lho-ão dizer na "mairie". — Tem razão... uma pergunta mais. Seria capaz de reconhecer

o segundo moço de recados?

— Talvez, por causa da sua semelhança com o primeiro. Mal o vi; não fez mais que passar pela frente da porta.

Da rua Julien Lacroix Picolet dirigiu-se, não à "mairie", mas ao gabinete do comissário de polícia.

Soube ali que nenhum zarolho exercia em Belleville a profissão de moço de esquina.

— Teria apostado a cabeça que não me enganava! murmurou voltando para Paris. A medalha era falsa, e o homem disfarçado! Onde procurar agora essa pista que se oculta? Donde vinha a segunda carta?

Sta-Pi voltou o seu albergue.

O seu bestunto trabalhava sem descanso. Debalde, nada tirava satisfatório.

Após uma noite de insônia quase completa, apresentou-se muito cedo no palácio da rua Francisco I, onde havia ordem para imediatamente o introduzirem.

Heitor que andava consumido pela febre da angústia, tinha o rosto transtornado, as faces cavadas, e as pálpebras vermelhas.

— Traz-me alguma notícia favorável? perguntou dirigindo-se precipitadamente ao encontro de Picolet.

— Ainda não, senhor... respondeu o falso polícia. Heitor ficou consternadíssimo.

— Nesse caso Lucília está perdida!

— Nada prova isso, e tenho boas esperanças de que a havemos le achar, mas...

— Mas o que?

— Parece-se mais que provável, que ela foi atraída nalgum laço.

— Em que se funda essa triste probabilidade?

— Em primeiro lugar o moço de recados encarregado por Luiz, o seu criado de quarto, de levar a sua carta, era falso, tenho a prova disso, e falsa também a medalha, cujo número ele mostrou... Esse homem sabia que o príncipe ia escrever, porque estava à espreita da carta... Como sabia ele isso, ou antes, por que circunstância, que nós desconhecemos, estava ele nos casos de prever esse fato? Quando tivermos a chave deste enigma, teremos conseguido o nosso fim...

— Esse homem levou contudo a minha carta.

— Sim, mas às oito horas, e ela foi-lhe entregue às duas.

— E o que concluiu daí?

— Durante esse intervalo um falsificador hábil não poderia ter mudado o sentido do que o senhor escreveu?

— O Príncipe foi o primeiro a notar que a disposição do sobrescrito diferia da sua maneira habitual.

— Não nego, mas a letra idêntica?

— Falei de um falsificador hábil.

— E o sinete das minhas armas? É impossível obter um igual.

— Efetivamente, isso parece impossível, mas algum dia se explicará. Devo informá-lo de uma particularidade muito importante. Meia hora depois da chegada da primeira carta, a menina Lucília recebia segunda, e tenho a convicção de que aquela a atraía a alguma armadilha.

— Uma armadilha!... exclamou o príncipe. Quem a teria preparado?

— Algum amante desprezado e cioso, talvez...

— Lucília não tinha namorado. Tinha uma tal fama de casta, que apesar da sua grande beleza, ninguém se lembrava de lhe fazer a corte.

— Então algum inimigo?

Heitor fez um gesto de protesto.

— Como podia a Toutinegra ter inimigos, ela, a própria doçura, a bondade em pessoa, dividindo a vida modesta entre o seu trabalho e as suas canções?

— Assim será, mas o Príncipe também os tem... Heitor fez um gesto de negação.

— Oh! não diga que não!... Um homem na posição do Príncipe sempre tem alguns inimigos. Ora procure quem pode ter interesse vingativo em fazer desaparecer aquela a quem ama.

— Mas por que tal vingança? Nunca fiz mal a ninguém.

— Mas o Príncipe tem tido amantes... tem-nas deixado, e há mulheres que nunca perdoam. A última, por exemplo, aquela que lhe fazia bonitas cenas... a carraça.

— Genoveva! disse Heitor com vivacidade. Por que é que ela me havia de querer mal? Indenizei-a generosamente... Garanti-lhe o futuro.

— Isso não é uma razão, senhor.

— Demais, Genoveva é uma boa rapariga... de uns ciúmes intoleráveis, excessivamente enfadonha, mas boa rapariga, afinal.

— Não se fie muito nisso! As mulheres, como sabe, são o demônio! Admito que haja exceções, mas poucas. Na minha opinião, senhor Príncipe, deveríamos, sem mais demora, ir a casa da menina Genoveva, e interrogá-la. Surpreendida e perturbada pela nossa visita, é possível que ela deixe escapar alguma confissão no caso de culpada ou cúmplice...

Heitor abanou a cabeça...

— Não espero nenhum bom resultado desse passo... replicou ele. Mas não devemos desprezar coisa alguma. Vamos...

 

Cinco minutos depois, o jovem e o seu agente surgiam para um trem, a fim de se dirigirem ao boulevard Malesherbes.

Depois dos últimos acontecimentos conhecidos dos nossos leitores. Genoveva Leinen, obedecendo às ordens do Barão, vivia muito retirada, pensando na sua fortuna futura, exaltando-se na solidão, com a idéia em Fernando Volnay, que jurara mais cedo ou mais tarde raptar à Marquesa de la Tour-du-Roy, lendo romances, e deitando cartas.

No momento em que o coupé de Heitor parava à porta, Genoveva, de penteador e os cabelos caídos, estava sentada no seu toucador. a uma pequenina mesa de pelúcia.

Em cima da mesa estava um baralho de catas disposto em forma de leque.

Genoveva dizia a meia voz:

— É espantoso o dinheiro que tenho no meu jogo! Paus e sempre paus! Há apenas um sujeitinho que me incomoda!

E punha o dedo no valete de espadas.

— Ao lado dele a dama de espadas... Mulher ruim! O rei de paus... Um homem muito rico! Terei muitos inimigos, mas também verei dinheiro e amor.

A campainha soou.

Anunciava uma visita.

Genoveva apanhou as cartas e meteu-as dentro da gaveta da mesa.

 

BATALHA PERDIDA

Heitor e Sta-Pi, no patamar da escada, esperavam que lhes abrissem a porta.

— Permite-me que seja eu quem interrogue? perguntou o polícia.

— Sim. mas vá direito ao fim.

— Sossegue, sei como se trata esta gente.

A porta abriu-se.

Apareceu uma criada de quarto.

— O senhor de Castel-Vivant! exclamou ela muito surpreendida, porque não ignorava o rompimento do Príncipe com a ama.

— A senhora está em casa?

— Está no boudoir. Devo anunciar o Príncipe?

— É inútil... Eu mesmo me anunciarei.

E o mancebo sempre acompanhado, ou antes seguido de Sta-Pi, atravessou duas salas, e bateu duas leves pancadas na poria do gabinete...

— Entre, disse a dona da casa. Heitor abriu e levantou o reposteiro.

Genoveva. por extraordinária que fosse a sua surpresa, soube manter um aspecto tranqüilo.

As lições e os conselhos de Fossaro, tinham-na feito muito senhora de si.

Perguntou então se o amor ou o hábito não lhe restituíam Heitor, agora que Lucília, sua rival, estava suprimida.

— Ah! Querido Príncipe! exclamou estendendo as mãos para o mancebo: Eis uma visita que não me atrevia a esperar, e que me torna muito feliz.

Heitor deu alguns passos à frente.

Não pegou porém nas mãos da ex-favorita.

Sta-Pi, que vinha atrás dele, apareceu repentinamente.

Genoveva olhou para ele espantada.

O Príncipe explicou:

— Este senhor vem comigo.

A cocotte cumprimentou sumariamente.

Perguntava de si para si quem poderia ser aquele personagem desconhecido, cujo tipo e apresentação não indicavam estar ali um homem da sociedade.

Após rápido exame, olhou novamente para Heitor, e tornou:

— Mas o que tem? As suas feições estão alteradas... Parece profundamente triste... Suceder-lhe-ia alguma coisa desagradável?

O Príncipe murmurou tristemente:

— Tenho um grande desgosto.

— Um grande desgosto! murmurou Genoveva com uma comoção muito bem fingida.

— E vimos perguntar-lhe, senhora, se não lhe é possível pôr termo... disse Picolet por seu turno.

— Ouço-o, senhor, mas não o compreendo, retorquiu a jovem. Como me havia de ser possível suavizar um desgosto de Castel-Vivant, se infelizmente eu já nada represento para ele?

O empregado de Malpertuis tornou:

— Já vai compreender melhor, minha senhora; primeiro que tudo devo dizer-lhe sob que qualidade me apresento em sua casa. Pertenço à polícia secreta, de que sou inspetor.

Genoveva ficou sem pingo de sangue, e tornou-se pálida de morte.

 

Estaria comprometida? Iriam prendê-la?

Resolveu contudo fazer boa cara, e respondeu com uma aparente firmeza, desmentida pelo tremor da sua voz:

— O que me diz aumentou o meu espanto... Não tenho contas a ajustar com a polícia e peço uma explicação imediata.

— Não se fará esperar. A senhora associou-se a uma intriga odiosa.

— Eu! exclamou a cúmplice de Fossaro. Eu!...

— A senhora mesmo!

— Ora essa! o senhor está doido! de que é que me acusam?

— Genoveva, disse o Príncipe, não vimos aqui como inimigos e de ameaça na boca... Dê-nos o meio de reparar o mal que fez, e eu serei o primeiro a fazer valer em seu favor circunstância atenuantes. Amei-a durante muito tempo, depois arrebatado por outro amor, quebrei de um modo um pouco inesperado os laços que nos uniam. Ofendida por semelhante rompimento, obedecendo aos maus conselhos do ciúme e do despeito, resolveu vingar-se e pôs em execução os seus projetos.

Ao ouvir estas palavras a beldade tranqüilizou-se.

Compreendeu que a acusava de ter suprimido Lucília.

Portanto, para se salvar do aperto, bastava-lhe uma pouca de audácia.

— O enigma complica-se! replicou ela com frieza que não era fingida. Qual é então esse projeto de vingança que eu concebi e executei. Confesso que me dá que cismar...

Fitando-a. Sta-Pi respondeu:

— A jovem por quem o senhor de Castel-Vivant a sacrificara desapareceu.

— Desapareceu! exclamou a antiga amante de Heitor com ar espantado. Que me está a dizer? Realmente não há nada mais desagradável; mas não pretende, suponho, tornar-me responsável por essa desaparição que se fosse real podia explicar-se por muitas maneiras...

— Nós pretendemos, senhora, retorquiu Picolet com aprumo, que incitada pelo ciúme fizesse desaparecer a menina Lucília Gonthier para se vingar do senhor de Castel-Vivant... Por muito criminoso que seja o fato, tem reparação, por que a acusamos, não de um crime cometido na pessoa da jovem, mas sim de um simules seqüestro... Restitua-nos a menina Gonthier, e eu tomo sobre mim o afirmar-lhe que apesar do caráter semi-oficial da minha visita, o negócio não irá para diante.

— Restitua-me Lucília, acrescentou Heitor com vivacidade, e dou-lhe um milhão.

 

Genoveva cruzou os braços sobre o peito e olhou primeiro para o Príncipe e depois para Picolet com uma expressão altiva e desprezadora.

— Os senhores sabem que me estão Insultando! exclamou ela em seguida. As suas acusações são odiosas e os seus oferecimentos humilhantes! Que fiz eu para merecer semelhante coisa? Amei apaixonadamente o senhor de Castel-Vivant... amo-o talvez ainda mais, mau grado meu. O seu abandono dilacerou-me o coração... Amaldiçoei a minha rival, convenho mas o sofrimento que então passei não têm comparação com os que hoje me infligem! Com que direito suspeitam de mim? Por que me acusam sem provas, sem pretextos? Por que me julgam capaz de uma ação criminosa e me oferecem dinheiro para.sua reparação? O que estão fazendo senhores, é cobarde e cruel! Ultrajar uma mulher sem defesa, é indigno de um cavalheiro, indigno de um homem de bem. Ouve Príncipe de Castel-Vivant.

Depois desta tirada majestosamente profunda, a beldade ocultou o rosto nas mãos e chorou verdadeiras lágrimas.

— Genoveva, balbuciou o principezinho, se soubesse o que eu sofro!

— Estou consternada por vê-lo sofrer, mas será minha a culpa?

— Procuro por toda a parte... perco a cabeça... julguei que se tinha tornado minha inimiga...

— Sua inimiga, volveu a jovem com ímpeto. Eu! sua inimiga, em cujo coração ainda não o esqueceu! Oh! quão mal me conhece:! Hoje ainda, desdenhada, desprezada, abandonada pelo senhor, daria a vida para lhe poupar uma dor... para lhe restituir a jovem a quem ama... a minha feliz rival! Heitor, suplico-lhe, peço-lhe de joelhos, não continue a acusar-me!

Falando assim, Genoveva dobrava efetivamente os joelhos. O principezinho exclamou um pouco abatido:

— Viemos aqui para tirarmos informações, não para acusarmos!

— Infelizmente, nada sabendo, nada posso dizer, senão que sou inocente, juro-lhe. Duvida ainda?

— Não, não duvido, respondeu Heitor.

— Bem, pois apesar de entre nós estar tudo acabado, faça-me a esmola de um bom olhar, de uma boa palavra... Prometa-me que pensará sem zanga na pobre pecadora que muito o amou.

— Prometo-lhe.

— Dê-me então a sua mão.

Genoveva agarrou-a, chegou-a febrilmente aos lábios e balbuciou com uma voz alterada, deixando-se cair numa cadeira.

— Obrigado! obrigado! O senhor tem muita bondade! O Príncipe e Picolet tinham-se levantado.

— Perdoe-me, senhora, exclamou o falso polícia muito contrariado com o resultado negativo.

A cocote respondeu apenas com soluços.

Os dois cumprimentaram e bateram cm retirada.

 

Assim que a porta se fechou após eles, Genoveva levantou-se com olhos faiscantes.

— Vai-te Príncipe imbecil! disse ela quase em voz alta num tom de raiva espantosa. Sim, fui eu que levei a tua Lucília para o chalet da ilha Basse onde a esperava a morte, ü teu instinto de amante não te enganou. Apanhaste o rasto... Mas arranja provas!... Soube dominar a minha perturbação e mentir. Fossaro ter-me-ia admirado... A tarefa era pesada, mas agora não há nada a recear... Heitor há de ir fazer companhia a Lucília e a nós os seus milhões. Serei rica e ficarei vingada.

Heitor e Sta-Pi, ambos sombrios, tinham subido novamente para o trem.

— Que lhe parece, senhor Picolet? perguntou o Príncipe.

— Parece-me que aquela velhaca é de grande força.

— Não está convencida da sua inocência?

— Não.

— Contudo, na sua voz havia um imutável tom de verdade.

— Nada prova senão que é hábil comediante.

— Que vai fazer?

— Procurar, procurar sem descanso, até ao dia em que tiver encontrado...

— Sta-Pi, as minhas esperanças já não são nenhumas.

— Pelo contrário, é preciso ter esperança, e contar comigo.

O principezinho abanou a cabeça e tornou:

— Aonde quer que eu o conduza?

— Atrevo-me a pedir ao senhor que me ponha no boulevard.

— Quando o tornarei a ver?

— Dentro de três dias.

Picolet apeou-se ao pé da Madalena.

Dirigiu-se a pé para o seu domicílio. Ali preparou uma pequena mala, consultou o indicador dos caminhos de ferro, fez-se conduzir de trem à gare de Orleans e tomou um bilhete para Amboise.

Ia explorar as ruínas do palácio de Vezelay incendiado.

 

Uma hora depois da visita a que os nossos leitores assistiram, Genoveva dirigiu-se à rua de Provence, ao palacete de Fossaro.

O criado de quarto informou-se de que seu amo se afastara de Paris por algum tempo.

Genoveva deixou um dos seus bilhetes no qual escreveu a lápis:

"Peço-lhe me venha ver assim que voltar, para coisa muito importante."

 

Fossaro chegou no outro dia pela manhã, e à noite apresentou-se em casa da ex-favorita de Heitor.

— Esperava-te com impaciência! exclamou.

— Há então alguma coisa de novo?

— Há.

— O que é?

— O Príncipe veio ver-me.

— Ah! ah!

— Não ia só! Acompanhava-o um inspetor da polícia.

César franziu o sobrolho e perguntou:

— Que querem eles?

A jovem narrou miudamente a sua entrevista com os dois homens. O sócio de Malpertuis escutou atentamente. Mostrou alguma inquietação.

— Tens a certeza de que o companheiro do príncipe era efetivamente inspetor de polícia?

Esta pergunta foi feita depois de ter refletido por algum tempo. — Ele assim o disse.

— Deu-te provas disso.

— Bem deves ver que me atreveria a perguntar-lhe. Eu mostrava boa cara, mas no fundo estava com um grande medo.

— Pois minha filha, caçoaram contigo.

— Ora adeus!

— Com toda a certeza. Um agente da polícia não podia ter ordem para interrogar, porque não está isso nas suas atribuições... Supondo que o príncipe se tenha queixado de ti à justiça, o que não é admissível, porque nem sequer existe uma sombra de indícios, um juiz de instrução, encarregado do negócio pelo tribunal, ter-te-ia mandado ordem para te apresentares. O homem que te apareceu na companhia de Heitor, devia ser simplesmente algum polícia particular, como há tantos em Paris, e que aliás não são os menos hábeis. Demais, pouco nos importa. Desafiamos os mais espertos porque as nossas medidas estavam bem tomadas. Em todo o caso não desgostaria de saber com quem lidamos. Podes dar-me sinais desse sujeito?

— Perfeitamente. É o que se chama um tipo... alto e magro... bigode grisalho, eriçado por baixo do nariz... cabelos grisalhos, olhos pequenos mas muito vivos... nariz de papagaio.

— Ora essa! os demônios me levem, exclamou César, tornando a carregar o sobrolho, estás a dar-me sinais de Sta-Pi.

— Quem é esse Sta-Pi?

— Um desses polícias de que te falava há pouco. Como são as mãos?

— Umas pás.

— E os pés?

— Umas toezas.

— É ele exatamente. De mais, terei dentro em pouco certeza a esse respeito, e se o velhaco se tornar perigoso, eu o chamarei à ordem. Podes dormir em paz.

 

A LOUCA

Fossaro deixou Genoveva.

Diante da jovem pareceu não ligar a menor importância à ingerência do polícia nos negócios do Principezinho, no fundo não se iludia a respeito da gravidade da notícia que acabava de saber.

— Sta-Pi, se fosse ele, pertencia à oficina nefasta donde partira o golpe que feriu Lucilia.

Quem sabe se aquele personagem de duas caras, trabalhando ao mesmo tempo por Malpertuis e por Heitor de Castel-Vivant, não conhecia alguns dos segredos da agência Malpertuis?

O Barão voltou imediatamente para casa, na rua de Provence, por meio da campainha elétrica que conhecemos, que tinha necessidade de se pôr em comunicação imediata com ele.

Malpertuis respondeu telefonicamente que estava livre.

César entrou pela porta secreta.

— Sabes que me inquietas! exclamou Malpertuis.

— Talvez tenhas razão.

— Que há de novo?

— uma coisa que pôde ser muito séria.

— Explica-te depressa.

— Responde-me primeiramente.

— O que faz Sta-Pi neste momento?

— Não faz coisa que nos possa interessar. Está ausente do escritório.

— Por que motivo ou que pretexto? Por acaso o despediste?

— Não despedi. Pediu e obteve do empregado do escritório na minha ausência, uma licença de um mês para ir à sua terra pôr em ordem certos negócios de família.

— Supões então que ele esteja na província?

— Suponho.

— Pois não saiu de Paris, foi pôr-se à disposição de Castel-Vivant, e procura Lucilia Gonthier.

— Tinhas razão, replicou Malpertuis, se isso é verdade é uma coisa séria, mas será verdade?

— Avalia.

E Fossaro repetiu o que Genoveva acabava de lhe contar.

— Isso parece provável, disse Malpertuis. Mau negócio! Sta-Pi é um espertalhão, e pode encontrar um rasto.

— Não achará nada. Se ele é espertalhão, também eu o sou, e tenho muito cuidado de não deixar após mim nenhum vestígio da minha passagem, mas é bom tomar todas as precauções. É preciso vigiá-lo.

— Como?

— Primeiramente trata de saber se ele está em Paris, sa estiver manda-o procurar, diz-lhe com toda a delicadeza que o escritório já não tem necessidade dos seus serviços. Dá-lhe uma boa gratificação para que se vá embora contente e sem desconfiança. Em seguida vigiem-no com habilidade, e tragam-nos em dia com todos os seus passos.

— Fica combinado.

 

Voltemos a Creteil.

Conduzida pelos cuidados da jovem esposa do doutor Auger à casa de saúde, dirigida pelo marido, Lucilia Gonthier fora colocada num quarto, e rodeada de cuidados assíduos.

A senhora Auger tinha uma profunda simpatia pela jovem desconhecida, a quem uma catástrofe acabava de perturbar a razão.

O "maire" de Creteil e o comissário de polícia tinham feito o seu relatório à autoridade competente, mas este relatório apresentava um número considerável de incidentes de toda a espécie, resultado da inundação.

Na prefeitura não se tinham preocupado com aquela jovem retirada das águas, viva e louca.

— Talvez eu fizesse bem em falar a pessoa competente da minha nova pensionista? disse um dia o doutor à mulher.

— Se a deixares ir embora, que será feito dela? perguntou a senhora Auger.

— Virão buscá-la, transportá-la-ão para a enfermaria do Depósito, e daí para um asilo de alienados.

— Aí tratá-la-ão mal, e pobre, sem família, sem amigos, servirá para as experiências dos professores e dos internos!

— Não deixa de ser verdade.

— Admites que a luz possa brilhar um dia naquele cérebro obscurecido?

— Pelo menos creio que não é impossível.

— Porque se há de então arremessar essa criança para um desses túmulos antecipados que se chamam casas de doidos? Ela ali nunca se curaria, enquanto que tu eras capaz de lhe fazeres reviver a inteligência. Então ela te dirá quem é, e terás a alegria de fazeres gente feliz. Foi Deus quem a enviou. Conservêmo-la. Eu gosto dela.

O doutor abraçou ternamente a mulher, e respondeu:

— Nós a conservaremos, visto que a amas.

A loucura da jovem era a tal ponto silenciosa, que o médico perguntava às vezes, se o terror, ferindo os lóbulos cerebrais, não tinha causado uma paralisia quase completa das cordas vocais.

Teve a prova do contrário nas seguintes circunstâncias:

Vagou um quarto próximo do quarto particular de senhora Auger.

A jovem pediu ao marido que instalasse ali a louca da ilha Basse, de que poderia ocupar-se mais assiduamente.

O Senhor Auger não resistia nunca à mulher.

Consentiu.

Numa linda manhã, a dona da casa dirigiu-se acompanhada de uma enfermeira, à célula ocupada pela sua pensionista.

Vestiu Lucilia com o traje da casa de saúde, e fê-la descer ao jardim de que era preciso atravessar uma parte para chegar ao ponto do edifício onde ia habitar.

Naquele momento o doutor saindo da sua visita, veio ter com eles acompanhado do seu ajudante.

— Conduza-a muito devagar porque ela está muito fraca, disse ele. Passe por pé do tanque, será mais perto.

A senhora Auger seguiu o caminho indicado pelo marido.

No meio do tanque de que o doutor acabava de falar, havia uma bacia na qual repuxo iluminado com as cores do arco íris, cada continuadamente com um pequeno ruído monótono.

A alguns passos do tanque. Lucilia parou trêmula.

A senhora Auger procurou levá-la com brandura, dizendo-lhe:

— Venha, minha filha.

A jovem resistiu.

Os olhos fixos, o rosto aterrado, apontou para o tanque murmurando:

— Escute, escute, ouve? É a chuva que cai, a água sabe, a água vai-me levar e engolir. Socorro! Acudam-me. salvem-me!

Depois, soltando um grito de aflição, ocultou o rosto nas mãos, para não ver o terrível espetáculo que a sua imaginação evocava.

— Lembra-se? exclamou o doutor, é de um feliz agouro. Curar-se-á. Mas é preciso afastá-la depressa desse jacto de água que a aterra.

Auxiliado pelo mancebo que o acompanhava, levaram-na ambos nos braços até ao quarto que ela devia habitar dali em diante.

Ali tornou-se sombria e silenciosa.

O senhor Auger dirigiu-lhe a palavra por muitas vezes; ela pareceu não a ouvir.

Daquele dia em diante as suas forças aumentaram rapidamente, mas pareceu cair outra vez num mutismo absoluto.

Passava horas inteiras a olhar para o céu enevoado, onde a instantes caíam as neves precoces do terrível inverno de 1879 a 1880.

O doutor resolveu começar sem mais demora um tratamento em que muito confiava para chegar ao restabelecimento.

 

No palácio de Chaslin a situação era muito violenta.

Ü velho Duque, pensando noite e dia no seu amor transtornado, nas suas esperanças aniquiladas, sentia a paixão senil que o consumia, requeimar-lhe o sangue e atacar-lhe o cérebro.

Tinha prometido amar-me, e não me ama. repetia ele sem cessar. Não me ama! Quem ama ela então?

Completamente absorto nas suas idéias negras, obstinando-se em procurar a chave do enigma insolúvel. fechava-se no seu aposento, e recusava ver Helena e Rogério.

Este, certo de ser amado pela falsa Adriana, continuava, como Ruy Blas, no seu sono estrelado!

Entre estas estrelas, havia porém mais de uma nebulosa.

Parecendo-lhe ainda sentir nos lábios os lábios da jovem palpitante, estava sob o encanto daquele beijo encantador.

Prometera á menina de Lasseny que ela seria sua mulher, mas não podia cumprir aquela promessa, sem primeiramente solicitar e obter o consentimento do pai.

Ora, um vago instinto fazia-lhe recear uma resistência imprevista e difícil de vencer.

Desejoso de saber sem demora o que devia pensar. Rogério pediu ao velho Duque uma entrevista, que foi recusada.

Voltou ao boulevard Fladrin.

Branca mandou-lhe dizer que o não receberia.

Escreveu por isso uma carta extensa e apaixonada. Esta caria ficou sem resposta.

 

Helena de Chaslin, esperando que Mariana Gilberto se achasse em estado de responder às suas perguntas, imobilizava-se na sua dor incurável.

Não falava da menina de Lasseny nem ao irmão, nem ao seu noivo Armando de Logeryl.

Entretanto, orava, rogando a Deus que a conduzisse à descoberta da verdade, e lhe desse o meio de vingar sua mãe.

Todos os dias ela ia visitar a sua antiga ama. cuja convalescença fazia progressos rápidos.

Contudo ainda receava fatigá-la com as suas perguntas.

Foi Mariana que lhe deu ocasião de o fazer.

A fiel criada obtivera do doutor autorização de se levantar da cama.

Pela primeira vez, depois que principiara a convalescença, sentara-se num velho fauteuil diante do fogão onde ardia um bom lume.

Uma mulher do bairro, que lhe servia de enfermeira, dera-lhe um caldo, um ovo quente, e um pouco de vinho de Bordeaux mandado por Helena.

A menina de- Chaslin entrou no momento em que Mariana acabava de descansar.

— Oh! minha querida filha, quão feliz me sinto por boje a ver! disse-lhe a velha criada estendendo para ela as mãos trêmulas.

— E eu também, minha ama. sinto-me feliz por vê-la... replicou Helena com vivacidade. e principalmente por te ver levantada, ao pé de um bom lume, tomando alguma coisa... eis-te boa!

A enfermeira perguntou:

— A menina vai de certo ficar alguns momentos a sós com a senhora Gilberto?

— Meia hora pelo menos, respondeu a irmão de Rogério.

— Então aproveitarei a ocasião para levar ao farmacêutico a receita escrita pela manhã pelo senhor doutor, e não voltarei sem que esteja aviada.

— Vá descansada... Ainda me encontrará aqui...

— Helena, querida Helena, exclamou Mariana, como é boa!

— Pois é bondade ser tua amiga? murmurou a jovem. Não és para mim uma segunda mãe? Posso por acaso esquecer que me criaste? que cresci nos teus braços, sob as tuas carícias?

— Outros indivíduos se têm esquecido disso! exclamou Mariana com amargura.

— É preciso perdoar, ama... Torna-os esquecidos funestas influências.

— Oh! sim, funestas influências! bem funestas, repetiu a criada. Após um momento de silêncio, acrescentou, não sem sensível inquietação:

— O senhor de Logeryl não fez mudança, não? Continua a amá-la?

— Continua e continuará! redarguiu Helena com ingênuo orgulho. Temos um pelo outro um amor leal e puro, que não acabará nunca...

Um raio de alegria iluminou o rosto devastado de Mariana. Mas esse fulgor apagou-se logo, e cedeu o lugar a uma expressão de tristeza profunda.

— Ah! balbuciou, se a minha querida ama pudesse presenciar a ventura da sua filha! Teria sido tão feliz a pobre mártir! E o senhor Duque que faz?

Helena pareceu hesitar.

— Por que não me responde, minha filha? perguntou a ama Por acaso no palácio passam-se coisas impróprias?

A jovem meneou a cabeça.

— Mas finalmente que faz o senhor Duque?

— Tem envelhecido muito depois da morte de minha mãe... é tão infeliz!

A convalescente repetiu, acompanhando as suas palavras com um sorriso de incredulidade:

— Depois da morte de sua mãe!

— Sim, ama... Há já alguns dias que não sai do seu quarto... Só uma vez o vi. A sua palidez, os seus olhos encovados, a sua fisionomia lúgubre... tem-me aterrado.

— O remorso! exclamou Mariana com um tom de sombrio triunfo. Deus é justo!

— Por que é que meu pai havia de ter remorsos?... Parecia que já o acusavas por ocasião da nossa primeira e consternadora entrevista na câmara fúnebre, no momento da minha chegada, depois da catástrofe.

— Não fale mais nisso, menina... São recordações muito desagradáveis.

E para mudar de conversa, Mariana acrescentou:

— Infelizmente, Rogério está bem mudado.

— Ele amava tanto a minha querida ama!

— Não é só á morte de minha mãe que eu atribuo a mudança de que te falo... Creio que meu irmão ama.

— Então! isso é próprio da sua idade. Quem é que ele ama, sabe?

— Tenho medo de saber, tenho medo de adivinhar...

— Diz que tem medo! por quê? Quem julga então une ele ama?

— A menina de Lasseny.

 

PROVAS

Ao ouvir o nome que Helena acabava de proferir, Mariana estremeceu como sob a ação de uma pilha elétrica muito carregada. E o seu rosto tomou uma expressão de horror.

— Ama a menina de Lasseny! exclamou, a menina de Lasseny que matou sua mãe!

— É horrível! tornou a jovem. E explicou:

—Acusei diante dele aquela criatura... Defendeu-a! Quer casar com ela. estou convencida.

— Porque julga que a menina acusa sem fundamento. Helena só tem suspeitas... Não pôde provar coisa alguma. Seria monstruoso semelhante casamento... Não se fará...

— Só uma pessoa no mundo o pôde impedir, ama, és tu! Não tenho senão suspeitas, é verdade, mas tu possuis provas...

— Mariana, querida Mariana, é preciso revelares o segredo que tu sabes. Esperava o teu restabelecimento para te interrogar. Hoje tens forças para responder. Desvenda o crime cometido no palácio de Chaslin. Esclarece-me. Se a menina de Lasseny é na verdade culpada, arranca-lhe a máscara. É do teu dever vingar minha mãe e salvar Rogério... Não hesites, peço-te. Em nome da honra da nossa família... em nome da tua ternura, e da tua dedicação, imploro-te! Fala, dize-me tudo...

A fiel servidora murmurou:

— Bem! falarei!...

— Ah! louvado seja Deus!

— Direi toda a verdade, mas não à menina Helena

— Não a mim! Por quê?

— Porque é impossível!

— A quem dirás?

— Ao senhor de Logeryl!... É da família... é seu noivo!... representa a justiça. A ele é que direi tudo... só a ele! Ele que venha, que me ouça, e veremos depois se Rogério de Chaslin teima em desposar Adriana de Lasseny...

 

Naquele momento a enfermeira entrava com o remédio preparado na farmácia.

Helena levantou-se.

— Vou buscar o senhor de Logeryl.

— Que venha, espero por ele.

A jovem beijou a sua antiga ama. e voltou para a carruagem que a trouxera.

Fez-se conduzir à rua de Varenne, à residência do primo.

Aí soube que o substituto estava no palácio da justiça.

Ali se dirigiu logo, perguntou pelo gabinete do jovem magistrado, e deu o seu bilhete a um porteiro que logo o foi entregar.

Armando deu ordem de imediatamente introduzirem a visitante.

Correndo para ela com inquietação, exclamou:

— Por aqui, querida Helena! por aqui.

— Armando, venho buscá-lo.

— Buscar-me! Mete-me medo. Que há de novo nu palácio?

— Não é ao palácio que o quero levar, é a casa de Mariana Gilberto.

— Falou-lhe esta manhã?

— Acabo de estar com ela.

— Que lhe disse?

— A mim não me disse nada.

— Ora essa!

— Por um motivo que não posso compreender, recusa dizer-me o seu segredo. É só ao senhor que ela quer dizer tudo. Ao senhor, representante da lei e da justiça.

— Vou acompanhá-la. A sua carruagem está lá em baixo?

— Está.

— Venha. Vou primeiro levá-la à casa.

— Não quero, porque tenciono acompanhá-lo a casa de Mariana.

— Não lhe aconselho que o faça, seria inútil, e poderia comprometer tudo. Mariana Gilberto não falaria na sua presença, visto que recusou responder às suas perguntas.

Helena reconheceu que o senhor de Logeryl tinha razão.

— Leve-me então ao arrabalde Saint-Honoré, disse ela. Mas com que impaciência o vou esperar.!

— Irei procurá-la logo que possa, bem sabe.

— E repetir-me-á tudo?

— Prometo-me.

 

Armando deu ordem de parar no palácio de Chaslin.

Em seguida fez-se conduzir à rua de Miromenil.

Mariana, tornara-se a deitar, dominada por uma agitação violenta.

Aquela agitação fora causada pela notícia imprevista do amor de Rogério por Adriana de Lasseny.

Tivera um acesso de febre ao lembrar-se do terrível alcance das revelações que ia fazer.

Não hesitava porém.

O senhor de Logeryl aproximou-se da convalescente.

Mariana leal aos hábitos de familiaridade que não excluíam o respeito, estendeu para ele a mão emagrecida pela doença, e murmurou:

— Sede benvindo, senhor Amando. Tinha pressa de lhe falar. O substituto aproximou-se do leito.

Reparando no rosto pálido, nas feições apoquentadas da ama de Helena, exclamou:

— Minha boa Mariana, esteve bastante doente.

— Oh! sim, bastante doente!

— Vai melhorando, disse-me a minha prima, e deve estar dentro *m pouco completamente restabelecida.

Estou ainda muito fraca, contudo já tenho força para falar. Armando deitou um olhar para a enfermeira que os escutava. A boa mulher compreendeu a significação daquele olhar, e dando como pretexto um recado urgente, saiu com toda a discrição. Mariana tornou:

— Sente-se ao pé de mim, peço-lhe, senhor de Logeryl. Mais perto ainda. Fatigar-me-ia muito o falar muito alto.

Armando tratou de fazer logo o que a convalescente lhe pedia.

— É Helena quem me manda, disse ele, segundo parece, tem coisas graves a dizer-me?

— Oh! sim, coisas graves, muito graves. Mas em primeiro lugar, será verdade que o senhor Rogério de Chaslin ame Adriana de Lasseny?

— Apesar de Rogério não me ter feito a confidencia do seu amor, tenho a certeza que esse amor existe, e que é sério.

— Não falou ainda da sua paixão ao senhor Duque?

— Se o não fez, fá-lo-á dentro em pouco com certeza.

— Então há de passar-se alguma coisa terrível entre o pai e o filho i exclamou Mariana erguendo as mãos postas.

— Alguma coisa terrível? repetiu o substituto.

— Porque o senhor Duque está também enamorado da menina de Lasseny, a qual é sua amante.

— Parece-me isso impossível, replicou o senhor de Logeryl. Como a menina de Lasseny é de uma beleza maravilhosa, pôde- se admitir que sem ela o saber talvez, o Duque se tenha apaixonado da sua beleza, mas esse honrado homem era incapaz de instalar o adultério no seu lar doméstico, no momento em que a mãe dos seus filhos se abeirava do túmulo.

— Do túmulo que mãos infames lhe abriam! replicou Mariana com uma voz abafada.

O senhor de Logeryl franziu o sobrolho e disse:

— É chegada a hora das explicações. Acabaram-se as palavras vagas, e as reticências. Chamou-me, e aqui estou. É preciso dizer-me o que viu, o que sabe, ou pelo menos o que julga saber. Não é ao noivo de Helena que vai falar, é ao magistrado.

— Oh! eu direi tudo. Quero que a minha querida ama, assassinada covardemente, seja vingada!

— Sossegue, Mariana, e responda-me.

— Como responderei a Deus, juro.

— Não gostava da menina Lasseny?

— Odiava-a.

— Por quê?

— Em primeiro lugar, por instinto! Adivinhava que faria mal àqueles a quem amo. Reparei logo que o senhor Duque olhava muito para ela, e que ela se deixava olhar com modos de sonsinha, que não me diziam nada bom. Quanto mais cuidados tinha na senhora, mais eu desconfiava, lia no jogo da velhaca.

— O que supunha então?

— Que ela amimava o marido, e esperava com impaciência a morte da mulher, para se tornar Duquesa.

— Uma tal suspeita! pensou o substituto.

— Não é suspeita, interrompeu Mariana. É uma certeza. Eu vi.

— O que?

— Adriana sair do palácio sob pretexto de ir fazer as suas devoções à Magdalena, e o Duque segui-la... porque a seguia e ia juntar-se com ela. tão verdade como eu me chamar Mariana Gilberto. Algumas palavras imprudentes nessa ocasião deram lugar à cena terrível que me fizeram expulsar do palácio.

— Sei tudo isso, replicou o substituto. Deplorei essa cena e as suas conseqüências; mas supondo, o que não esta ainda provado, que Adriana tenha sido amante do senhor de Chaslin, não se segue daí que ela cometesse um crime.

Mariana perguntou com ímpeto:

Onde estava ela enquanto a Duquesa morria?

— No seu quarto, repetiu-o muitas vezes na minha presença.

— Mentia! e o senhor Duque onde estava?

— No seu quarto, para onde voltara depois de breve ausência.

— Também ele mentia!

— Como assim?

— Tendo saído do palácio que dá para a avenida Gabriel, voltavam juntos, entende-me, voltavam juntos quando já passara uma hora da manhã! Eu lá estava de vigia, em meio do nevoeiro.

Atinando sentiu um calafrio.

— O que diz! exclamou.

— A verdade.

— O Duque e Adriana estiveram juntos fora do palácio, e juntos regressaram?

— Assim o afirmo.

— A senhora reconheceu-os?

— Como agora o reconheço ao senhor. Eu estava oculta, mas via bem. Depois, ouvi a voz do senhor de Chaslin...

— Que motivo a levou a vigiar o palácio?

— Voltava da rua do Bac onde andava tratando de uma doente, e para não me perder no nevoeiro, viera costeando as Tulherias. e seguira as arcadas da rua Rivoli.

Armando escutava com a maior atenção.

— Chegando ao recanto da rua Boissy d'Anglas, parou detrás de mim um trem particular, continuou Mariana.

"Mal tinha andado cinqüenta passos na avenida, ouvi passos atrás de mim.

"Atravessei a calçada, e continuei o meu caminho por baixo das árvores.

"Continuavam a caminhar pelo passeio.

"Quando me achei defronte da grade do jardim de Chaslin. parei maquinalmente.

"Era o meu costume, para deitar um olhar para aquele jardim. para mim tão cheio de recordações.

"Ao mesmo tempo do que eu. parava a pessoa que seguia o passeio oposto.

"Olhei."

Armando de Logeryl observou:

— O nevoeiro não a devia deixar ver bem.

— Não me seria possível reconhecer as feições, mas distinguia perfeitamente um homem bastante alto. vestido com elegância.

— O Duque, por certo?

— Não era o Duque. Ouvi o ruído de uma chave que introduziam na fechadura, e a portinha abriu-se para o homem entrar.

"A porta fechou-se assim que ele entrou."

O substituto estava muito impressionado com aquela narrativa.

— E depois? perguntou.

— Depois, respondeu Mariana, esperei. Quanto tempo? Não poderei dizê-lo, porque os minutos me pareciam séculos; depois a portinha tornou a abrir-se. O homem saiu do jardim e desapareceu nas trevas.

Um suor frio molhava as fontes de Armando de Logeryl.

— Continue, disse. Depois do homem desaparecer, que fez?

— Muito inquieta, dirigi-me para o faubourg Saint-Honoré, na firme intenção de tocar à porta do palácio, e de contar o que vi. Não me atrevi. O senhor de Chaslin metia-me medo.

"Voltei para a avenida Gabriel e por volta da uma hora da manhã, vi o senhor Duque entrar na companhia de Adriana de Lasseny.

"Infelizmente, tinha compreendido tudo.

"Ao tempo que aquela rapariga arrastava o fraco ancião, a um "rendez-vous" de amor. o assassino industriado pela infame, introduzia-se no palácio e matava a minha adorada ama!

Mariana Gilberto calou.

 

Armando Logeryl meditava.

A lembrança do grânulo encontrado por Helena na alcatifa do quarto de dormir, voltava-lhe ao espírito.

As suspeitas vagas até aquele momento, iam tomando corpo.

O substituto levantou-se.

— Mariana, disse ele. está pronta a repetir diante do juiz o que acaba de me dizer?

— Estou disposta a tudo para vingar a minha querida ama! O senhor compreendeu como eu que mataram a Duquesa de Chaslin, mas também deve reconhecer que me era impossível dizer a Helena que eu vira seu pai com a cúmplice do assassino.

— Compreendo.

— E aprova o que diz?

— Aprovo!

— Então até depois, Armando.

O substituto apertou a mão que a ama de Helena lhe estendia, e retirou-se da mansarda.

 

PAI E FILHO

Eis o que se passava no palácio de Saint-Honoré, ao tempo que se efetuava esta entrevista na rua de Miromenil.

Rogério apresentara-se três vezes nos aposentos do Duque, a fim de lhe confessar o seu amor, e de pedir o seu consentimento ao casamento projetado.

Três vezes o senhor de Chaslin recusara recebê-lo.

Para um amante apaixonado, era insustentável a situação.

— Meu pai há de ouvir-me, disse o mancebo consigo, não continuarei a resignar-me à derrota. Se preciso for, violarei as ordens dadas.

E resolveu arrostar a cólera do Duque. Foi novamente bater-lhe à porta. Foi o criado de quarto quem abriu. Rogério perguntou-lhe:

— Como passa hoje meu pai?

— Infelizmente, o senhor Duque está cada vez mais sombrio e absorto, respondeu Francisco, não quer ver ninguém.

— Nem mesmo os filhos?

— O senhor Duque não faz nenhuma exceção...

— É preciso contudo que ele me receba... Tenho precisão de lhe falar. Anunciem-me.

— Não me atreveria a transgredir as ordens do senhor Duque...

— Meu pai desculpá-lo-á quando lhe disser da minha parte que se trata de uma comunicação urgente...

— Mas, senhor Rogério...

— Ordeno-lhe que vá levar o meu recado, exclamou imperiosamente o mancebo.

O criado de quarto inclinou-se e dirigiu-se para a sala onde estava o Duque.

Passado um segundo, ouviu-se a voz do fidalgo.

— Quero estar só, dizia ele irritado, deixem-me sossegar.

 

Rogério ouvira.

Sem esperar o regresso de Francisco, abriu a porta e parou ò entrada.

O Duque de Chaslin dirigiu-se para ele. com o furor nos olhos, a ameaça no gesto.

— Desde quando se atreve o senhor a desobedecer-me? exclamou.

— Desobedeço-lhe, mau grado meu, respondeu Rogério. Não esqueço, não esquecerei nunca, o profundo respeito que lhe devo e se transgrido umas ordens inexplicáveis, é porque preciso falar-lhe quanto antes.

— Que me quer?

— Desejaria que ninguém nos ouvisse.

— Então entre o seja conciso.

Rogério entrou na sala.

O senhor de Chaslin fechou depois a porta.

O mancebo contemplava o pai com assombro.

Mal o conhecia, tão terrível era a mudança que nele se operara havia quatro dias.

Os dois olhos amortecidos sumiam-se no fundo das órbitas rodeadas por um circulo azulado.

Sulcavam-lhe a fronte profundas rugas.

Tinha a barba crescida e maltratada.

No rosto mostrava, uma expressão de idiotismo.

O Duque de Chaslin parecia um homem morto pelo deboche e excessos de toda a espécie.

Rogério sentiu comiseração.

— Meu pai, perguntou ele com uma voz afetuosa, sofre muito, não é verdade?

— E eu queixei-me?

— Não, meu pai, mas há no seu rosto vestígios de dor...

O Duque sentou-se sem dar resposta.

Passou as mãos pela fronte, guardou silêncio por um instante como para reunir as idéias, e disse de repente:

— O senhor entrou contra minha vontade no lugar do meu refúgio, sob pretexto de uma comunicação importante. Explique-se, e repito-lhe, seja conciso.

— Bem sabe, meu pai. que eu não voltarei ao regimento, tornou Rogério. Alcancei uma licença renovável, que equivale a uma baixa definitiva.

O senhor de Chaslin fez um gesto de indiferença.

Que lhe importava aquilo?

— Quero casar, continuou o irmão de Helena.

— César! repetiu o Duque: na sua idade!

— Sou ainda muito novo, é verdade, mas conheço a vida, porque a tenho gozado, e talvez abusado dela. Os prazeres fáceis já não têm atrativos para mim. O meu ideal agora é tornar-me homem sério, pai de família, conhecedor dos seus deveres e cumprindo-os. Nunca e cedo de mais para isso. O que lhe parece, meu pai?

Henrique de Chaslin estremeceu, e deitou ao filho um olhar a furto.

Parecia recear que naquelas palavras se ocultasse algum pensamento reservado.

Depois, baixou a fronte, e respondeu:

— Penso que tem razão. Se o senhor tem confiança em si, não posso deixar de o aprovar... O senhor tem um grande nome... Vai entrar na posse da parte que lhe pertence da herança materna... Portanto, pôde e deve pretender a mão de uma jovem de velha nobreza, possuidora de uma riqueza pelo menos igual à sua...

— Aquela a quem amo, pôde unir o seu nome ao meu, sem que me fique mal, murmurou Rogério. Não suponho porém que ela seja rica.

O Duque mostrou-se muito surpreendido, e exclamou:

— Aquela a quem ama! O que, já a encontrou?

— Sim. meu pai.

— Depois que voltou para Paris?

Rogério fez um sinal afirmativo e acrescentou:

— Amo-a, e desposarei a jovem que minha santa mãe designou...

Por segunda vez o senhor de Chaslin levantou a cabeça e olhou par ao filho.

— Sua mãe indicou-lhe alguma senhora? exclamou. Nunca me falou em semelhantes projetos.

— Contudo, esta é a verdade.

— Ela escreveu-lhe a tal respeito?

— Sim, meu pai, na carta que a morte não lhe permitiu concluir, e eu encontrei junto do leito fúnebre...

— Como é possível que eu não tivesse conhecimento dessa carta?

— Só a mim era dirigida... Vi a senhora que minha mãe me destinava... Amei-a, porque ela é pura... Amei-a, finalmente, porque o senhor Duque foi seu protetor, seu amigo, e ela captou as simpatias e o respeito de meu pai.

O senhor de Chaslin levantou-se repentinamente.

Pairava-lhe a angústia no coração.

Tinha as mãos trêmulas, e os olhos lampejavam-lhe.

— Quem é então a jovem, perguntou com uma voz rouca, quem é a jovem de quem tenho sido o protetor, o amigo, e a quem sua mãe lhe designava como mulher num escrito supremo?

— Leia, meu pai...

E Rogério estendeu para o Duque a carta por concluir, que ja mostramos aos nossos leitores.

 

O Senhor de Chaslin estava todo numa tremura.

Compreendia que daquela folha aparentemente muda, ia desprender-se um segredo terrível.

Os seus olhos fixaram-se na letra da morta.

Leu, ou antes devorou as poucas frases que nós conhecemos.

Quando concluiu, cambaleou.

À palidez lívida, sucedeu-lhe nas faces uma vermelhidão de um tom sombrio.

Arrancou a gravata para não ficar sufocado.

— Que tem, meu pai? perguntou Rogério alucinado... Mete-me medo!

— Adriana de Lasseny, tua mulher! exclamou o Duque com um riso estridente que incomodava. Estás doido quando pensas em semelhante coisa, e eu estou doido por considerar semelhante coisa possível! Tua mãe não escreveu isso.

Rogério, cujo assombro aumentava de segundo em segundo, replicou com energia:

— Escreveu-o, bem sabe, porque acaba de o ler...

— Não escreveu! não, não escreveu! vociferou o senhor de Chaslin rasgando a carta com furor, e pisando com os pés os fragmentos espalhados.

Rogério fez-se muito pálido.

— Meu pai, balbuciou, que faz!

— Aniquilo a prova de um momento de demência, cuja recordação deve desaparecer. Casares com Adriana, tu! Ora adeus!

— E por que não, meu pai?

— Gostas dela?

— Amo-a com todas as veras da minha alma.

— Ela é que não te ama!...

— Pelo contrário, disse que me amava.

— Pois ela disse-te isso?

— Não estava nesse direito? Não é ela livre?

 

O Duque soltou um grito de raiva, correu para o filho e agarrou-o pelos pulsos.

Com uma voz rouca e lenta, exclamou:

— Não repitas que ela te ama! Não repitas que ela te disse. Matar-te-ia, ouves, matar-te-ia!

— Matar-me-ia! repetiu Rogério, cuja tranqüilidade aparente fazia grande contraste com a excitação furiosa do velho. Al eu pai, que loucura o acometeu neste momento?

— Perguntas que loucura? Pois sim, é verdade, estou doido! <le amar, como tu! Ah! amas Adriana, e vens dizer-me... Olha, vai-te, vai-te! Repito-te, matar-te-ia! Vai-te, perdôo-te, mas não desposarás Adriana!

— Meu pai, hei de casar com ela.

— Vai-te! Não vês que as minhas mãos procuram uma arma, que o sangue sobe ao meu cérebro! Louco! és amado por ela, e vens dizer-me a mim que morro por ela! Vai-te.

Foi agora o mancebo quem empalideceu e estremeceu. Mostrou-se horrorizado e exclamou:

— O que! meu pai! ama-a!

— Como tu! mais que tu! Ela há de pertencer-me a mim, ou a mais ninguém! Coitado daquele que quiser criar-me embaraços! Se és meu rival, já não és meu filho!Renego a família e só creio no amor! Vai-te!

Rogério cruzou os braços.

— Meu pai, retorquiu friamente, mate-me se tem coragem para isso. Amo Adriana, e ela corresponde-me.

O Duque, estimulado pela raiva, quis lançar as mãos às goelas do filho para o estrangular.

Porém, o mancebo agarrou-lhe nos braços com força, embora sem violência, constrangeu-o à imobilidade, e continuou:

— Perdôo-lhe em nome de minha mãe.que já não existe, mas ela, representa um ultraje para a sua memória, e pôde fazer supor que meu pai só esperava a sua morte para realizar o projeto criminoso que, graças a Deus, não pôde realizar-se. Reflita- nisto, meu pai.

— Cala-te! ordenou o velho debatendo-se. Faltas-me ao respeito.

— Calar-me-ei, meu pai, e lembrar-me-ei de que sou seu filho; mas Adriana de Lasseny há de ser minha mulher.

Exatamente naquele momento ouviu-se uma voz no quarto contíguo.

Era a voz de Armando de Logeryl.

— Preciso de falar com o senhor Duque, dizia o substituto. Preciso, quero, e as ordens que se invocam não me detêm.

 

Abriu-se a porta.

Rogério largou os pulsos do pai, que se deixou cair esmagado, aniquilado, numa cadeira.

— Armando! exclamou o mancebo, tens o rosto transtornado. Que sucede?

— Preciso de falar ao senhor Duque... respondeu o magistrado, com uma voz trêmula pela comoção.

— Fala! Exclamou Rogério.

— Só devo falar com ele a sós...

— A sós... repetiu o velho assustado.

— Sim, senhor Duque...

— Retiro-me, meu amigo... exclamou Rogério assustado, pressentindo nova desgraça.

— Retira-te, disse o pai para Rogério, depois nos tornaremos a ver.

O irmão de Helena inclinou-se diante do pai e saiu. O substituto e o Duque acharam-se em frente um do outro. Não podia ocultar a sua terrível agitação o primeiro. O segundo, com a cabeça inclinada, os olhos vacilantes, o lábio pendente, parecia atacado de um súbito amolecimento de cérebro.

— Senhor Duque, disse de repente Armando de Logeryl, ouve-me? Acha-se em estado de ouvir?

O ancião enxugou a fronte molhada de suor, e balbuciou:

— Estou escutando.

O substituto principiou:

— Tinha a honra de ser parente da senhora Duquesa, principiou o substituto; tenho também a honra de ser noivo da menina de Chaslin, que há de ser minha mulher, assiste-me pois o dever de me preocupar com o que diz respeito à sua família, que a minha, e de apartar dela a vergonha, se tanto for preciso...

Nos olhos amortecidos do velho, brilhou um clarão.

— A vergonha! repetiu.

— Profiro esta palavra, e por desagradável que seja, não a retiro.

Depois desta frase proferida por um modo incisivo. Armando continuou:

— No dia em que conduzimos a senhora de Chaslin à sua última morada, Helena que chegara de Besançon muito tarde para a cerimônia, viu-se só no palácio, no quarto mortuário, e terríveis suspeitas lhe invadiram a alma a respeito da morte de sua mãe. Formulou o seu pensamento em voz alta na sua presença... eu estava presente... O senhor Duque cheio de cólera impôs-lhe silêncio, afirmando que o crime não tinha podido transpor o limiar de uma habitação onde o senhor Duque velava...

— O senhor, naquela dia, defendeu aquela a quem caluniavam, balbuciou o senhor de Chaslin. Hoje, como naquele dia, repito cheio de convicção, que o crime não pode aqui entrar.

— Que sabe o senhor Duque a esse respeito? perguntou de súbito o jovem magistrado.

 

COMEÇO DE INVESTIGAÇÕES

A pergunta fulminadora de Armando acabou de desnortear o velho Duque, cuja razão vacilava sobre tantos choques sucessivos. Contudo quis responder. Sem lhe dar tempo a isso, o senhor de Logeryl continuou:

— Sim, defendi como o senhor Duque aquela a quem acusavam! Também a julgava um anjo! Hoje já não a defendo, acuso-a.

— Acusa a menina de Lasseny, balbuciou Henrique de Chaslin com gesto de protesto.

— Sim, acuso a sua amante.

Ao ouvir estas palavras, o velho recuperou um pouco de energia. Levantou-se da poltrona, e colocando-se diante do substituto, retorquiu com uma voz pouco firme:

— Mais uma mentira! Mais uma calúnia! O ódio cega-o. A menina de Lasseny não é minha amante, e nunca o foi. Ela é digna de todos os seus respeitos.

Armando retorquiu:

— É ao senhor a quem o amor cega! Adriana de Lasseny atraía-o nos seus laços, ao mesmo tempo que preparava a morte da Duquesa cujo lugar queria tomar.

— Mentira, mentira, repetiu o Duque.

— Então por que foi que durante a noite fatal, saiu o senhor Duque do seu palácio às onze horas pela porta da avenida Gabriel, e por que foi que só voltou à uma hora, pela mesma porta, em companhia da menina de Lasseny?

O Duque aterrado, não ousando suportar o olhar com que o fitavam, ocultou o rosto nas mãos e balbuciou:

— Pois sim, é verdade. Amava-a. Queria dizer-lhe fora de casa. Ela compareceu, reconduzi-a, mas pela minha fé de gentil homem, juro que não era minha amante.

— Então era sua vítima!

— Sua vitima, repetiu o senhor de Chaslin erguendo para Armando de Logeryl uns olhos sem expressão.

— Sim, vítima de uma criatura infame, que o levava para longe do seu palácio, para aí deixar entrar na sua ausência um assassino. Ao mesmo tempo que falava de amor à menina de Lasseny, introduzia-se um indivíduo no palácio e matava a Duquesa.

Henrique estava todo numa tremura.

Perguntou com uma voz que nada tinha de humana:

— Tem as provas disso?

— Tenho as provas morais. Quanto às provas materiais, não tarda que também as tenha.

— E se na verdade se cometeu algum crime, o que me custa a crer, serei acusado de cumplicidade com o assassino? balbuciou o Duque assustado.

— Não será acusado, vingarei a senhora de Chaslin, mas evitarei que se pronuncie o seu nome, pouparei a Helena e a Rogério a vergonha e o pesar de saberem que o senhor Duque amava uma intrigante junto de sua mãe prestes a morrer! Calar-me-ei, senhor Duque, não pelo senhor, mas por eles!

 

Depois da assim falar, Armando de Logeryl dirigiu-se lentamente para a porta.

Quando ali chegava parou e voltou-se.

O Duque parecia quase não dar pela sua presença

Os olhos tinham-se-lhe tornado fixos, movia os lábios sem articular uma palavra.

Inspirava ao mesmo tempo dó e piedade.

O substituto pensou:

— Eis ao que o amor pecaminoso pode conduzir um homem, um ancião.

Depois dirigiu-se para a sala, onde Helena o esperava com impaciência

Ao vê-lo entrar, a jovem correu para ele e disse-lhe:

— Sonhe que estava em conferência com meu pai. Viu Mariana?

— Sim, querida Helena.

— Revelou-lhe coisas terríveis, não é verdade? Deu-lhe as provas do crime?

Armando de Logeryl, como sabemos, queria sozinho estudar o tenebroso mistério em que o senhor de Chaslin se achava comprometido.

Era preciso portanto iludir Helena.

— Infelizmente, replicou ele, não me deu provas de coisa alguma.

— De coisa alguma! exclamou a menina de Chaslin. Falou-me de um homem que entrou no jardim do palácio durante a noite em que a minha mãe morreu.

— Ela julgou ver esse homem, sustenta que o viu, mas a densidade do nevoeiro que cobria Paris, podia porventura permitir-lhe distinguir nitidamente as coisas? Com certeza que não! Demais, ela não se acha em estado de reforçar as suas afirmativas com provas, e o seu testemunho não teria valor algum.

— Mas sendo assim, ponderou a jovem com mágoa, minha mãe não ficará vingada?

— Tenha confiança em mim, querida Helena, replicou o substituto, não deixarei o crime impune se ele existir. Caminho em meio das trevas, mas hei de fazer a luz, juro-lhe!

"Hei de alcançar a chave do enigma sombrio... Paciência e coragem! Não fale nem ao Duque, nem a Rogério, peço-lhe, a respeito da minha visita a Mariana.

— Prometo-lhe... Que tal achou meu pai?

— Causou-me profundo pesar o seu estado de sofrimento e de abatimento. Rogério estava junto dele... Tem-no visto?

— Não... saiu do palácio quase logo depois que o senhor chegou.

Armando de Logeryl a quem muito embaraçava uma conversa em que era preciso mentir a cada palavra, despediu-se da sua noiva no fim de alguns minutos, e voltou para a rua de Miromenil...

Queria recomendar à ama de Helena, que até nova ordem, guardasse o maior segredo a respeito dos fatos que lhe revelara. Mariana comprometeu-se a isso.

 

Ao deixar o senhor de Chaslin. Rogério encarara de um modo relativamente plácido a situação que este acabava de lhe proporcionar com a sua confissão.

O ancião declarando com incrível cinismo que era rival do filho, causava-lhe maior desgosto que terror.

— No cérebro de meu pai há desequilíbrio! disse ele consigo. O seu olhar ora fixo ora vacilante, a incoerência das suas falas, os seus acessos de súbito furor, revelam uma loucura nascente... De um doido não há nada a esperar... Recusará o seu consentimento... Passarei sem ele para o preenchimento das formalidades legais... Amo Adriana, a quem minha mãe amava, e queria dar o nome de filha! Adriana há de ser minha mulher!

 

O mancebo vestiu-se rapidamente, saiu, e Fez-se conduzir ao "boulevard" Flandrin.

Haviam decorrido quatro dias depois das últimas cenas a que servira de teatro o pequeno palácio.

Durante os quatro dias Branca não tomara decisão alguma; mas dominada pelas ameaças de Pedro Carnot não se atrevia nem a receber Rogério, que se apresentara, duas vezes, nem a responder à carta mie ele lhe escrevera.

É verdade que também já não escrevia ao Duque...

E contudo, dentro de vinte e quatro horas, tinha de se dirigir ao chalet da rua Compans, onde Pedro Rédon esperava a prova material da sua obediência.

Padecia um verdadeiro tormento debatendo-se no círculo de ferro onde a encerrara o homem que se intitulava seu pai, mas não entrevia nem os meios, nem a possibilidade de uma evasão.

A criada de quarto veio anunciar que o senhor Rogério de Chaslin se apresentava, e que insistia de tal modo para ser recebido que não sabia como o despedisse.

Branca murmurou cheia de alegria:

— Rogério! é talvez a salvação! Depois, em voz alta:

— Introduza o senhor de Chaslin na sala... Daqui a nada irei ter com ele.

Branca lançou um rápido olhar para o espelho, pois os seus esplêndidos cabelos numa desordem estudada, e foi receber o mancebo.

Rogério correu para ela.

Pegou-lhe nas mãos apesar do simulacro de resistência que ela julgou dever opor-lhe.

— Adriana... querida Adriana, exclamou com paixão, até que enfim a vejo!... Há quatro dias,tinha-me dito:

"Amanhã! No dia seguinte, infelizmente, achei fechada a sua porta! Duas vezes de seguida recusou receber-me. E escrevi-lhe, e a senhora não me fez a esmola de uma resposta! Por quê?

— Por quê?... replicou a falsa Adriana... Quer sabê-lo, meu amigo? Lutava contra mim mesmo, em risco de despedaçar o seu coração e o meu... O senhor ama-me, e eu amo-o... Pois bem, tinha medo de o ver... tinha medo de lhe ouvir falar no seu amor...

— Mas isso era loucura...

— Não, era juízo. O futuro assusta-me. Junto de si o futuro seria muito belo. eu seria muito feliz, e não estou muito costumada à felicidade!! O senhor fez-me conhecer um sentimento que eu receava, e que daqui será a minha vida... Aonde me levará esse sentimento? Junto do senhor esqueço o resto do mundo... Se me faltasse... que vácuo... que solidão!... morreria!

— Adriana, nunca lhe faltarei...

— É verdade isso?

— Tão verdade como eu amá-la. — E amar-me-á sempre?

— Até ao meu último suspiro.

— Se me quisessem fazer mal, defender-me-ia, não é verdade?

— Defendendo-a, defendo-me a mim, porque será minha mulher.

— Sua mulher! repetiu a jovem com uma entoação melancólica.

— Duvida?

— Não duvido do senhor... duvido do meu destino... Repito-lhe, estou pouco costumada a ser feliz! Parece que nasci sob má estrela... Para dar o nome de Chaslin à pobre órfã, não hasta a sua vontade... A menina Helena, como sabe, é minha inimiga! Recusar-me-á aceitar por irmã! Terá o consentimento de seu pai?

Estas últimas palavras atacando uma questão irritante, foram proferidas com uma perturbação que a falsa Adriana não pode disfarçar.

— Meu pai! retorquiu Rogério com uma voz abafada... Ah! não me fale de meu pai!

— Por quê?

— Seja franca... Ignorava que o Duque a amava?

— O que, ele disse-lhe? exclamou Branca aterrada.

— Disse-me, e a senhora tinha-me ocultado!

— Pois devia eu acusar um pai perante um filho? Não, cem vezes não. Mas visto que o senhor de Chaslin não corou da sua vergonha, saberá tudo. mesmo porque as coisas mal compreendidas: mal interpretadas poderiam parecer-me desfavoráveis.

 

Neste momento, nas pálpebras de Adriana brilhava um fulgor estranho.

A diabólica criatura acabava de achar no espaço de um segundo o que debalde procurava havia quatro dias.

Entrevira um meio de despedaçar a sua cadeia, e de se subtrair ao domínio tirânico de Pedro Rédon.

Este meio, terrivelmente audacioso, podia conduzi-la ao abismo.

Branca era porém dessas criaturas que se dirigem ao seu fim. sem se importarem com o perigo.

Conduzindo Rogério para um divã, onde se reclinou junto dele, de maneira que o embriagasse com as emanações capitosas da sua mocidade e da sua beleza, disse-lhe:

— Sente-se aqui, junto de mim. Ouça-me, mas não olhe para mim.

— Por quê?

— Se sentisse os seus olhos fitos em mim. não me atreveria a falar.

— Meu Deus, balbuciou o mancebo, que vai dizer-me?

— A verdade, isto é, um segredo terrível. Na noite em que sua mãe morreu, achava-me fora do palácio com o senhor Duque.

— Estava fora do palácio... com o Duque... na noite em que morreu minha mãe, repetiu Rogério estremecendo. Parece-me que tenho um sonho mau.

— Não, não sonha, e vai compreender... Sem respeito pela casa em que a sua nobre e pura companheira se finava amando-o, o senhor de Chaslin não deixava de me perseguir... Quis acabar com este estado de coisas, porque sentia coragem suficiente para deixar a Duquesa, a quem era tão afeiçoada, e só a minha retirada poderia pôr termo a insuportáveis perseguições.

Rogério fez um gesto de desgosto.

Branca continuou:

— Aceitei, pois. ou melhor dizendo, promovi eu própria um encontra noturno, durante o qual disse franca, brutalmente ao Duque, que julgava vir a uma entrevista de amor, quanto o seu procedimento era odioso, desleal, indigno de um cavalheiro e de um grande fidalgo... Pareceu compreendê-lo, e prometeu não abandonar nunca o respeito que eu merecia. Seria capaz de cumprir a palavra? Não sei, apenas me atrevo a acreditá-lo.

"No dia seguinte, a minha querida e muito amada protetora, a sua santa mãe, que me chamava filha, não despertava, e eu deixava o palácio de Chaslin em circunstâncias que são suas conhecidas.

"Ai de mim! o Duque vendo-se viúvo não desistiu dos projetos insensatos que havia concebido.

"Há quatro dias, nesta mesma sala, no lugar em que estamos, poucos minutos antes da sua chegada, pela porta de cuja chave se apoderou, seu pai oferecia-me nome. título, fortuna...

"Respondi-lhe que se tivesse de escolher entre a morte e a desgraça de ser sua mulher, preferia a morte.

"Retirou-se desesperado.

Rogério exclamou logo:

— Ah! compreendo agora o seu furor...

— Por quê? perguntou Branca espantada.

— Porque, quando lhe disse que a amava, e que a senhora me correspondia, atirou-se a mim como um louco... Quis matar-me!

Branca, verdadeiramente comovida, fez-se pálida, e toda trêmula envolveu Rogério nos braços.

— Matá-lo! balbuciou. Seu pai quis matá-lo! Ah! é pois maldito o nosso amor!

 

UMA ESPANTOSA CONFIDENCIA

— Adriana, querida Adriana, tornou o mancebo impetuosamente, por que há de ser maldito este amor puro. abençoado por sua mãe. simplesmente por haver perdido o juízo o Duque de Chaslin?

— E sabia que me queriam constranger a ser mulher de semelhante homem! murmurou Branca continuando a desempenhar o papel que a si própria impusera.

Rogério repetiu estupefato:

— Queriam constrangê-la? Então quem!

— Não lho posso dizer.

— Quero sabê-lo.

— Por que não há de ser já?

— Não teime, peço-lhe... Amanhã falarei... em presença do senhor de Logeryl,

— Em presença do noivo de minha irmã?

— Sim, é na sua presença que devo revelar um segredo que me sufoca... Venha aqui buscar-me, para me conduzir ao palácio da justiça...

— Não seria melhor trazer-lhe aqui Armando?

— Não, porque já não é ao amigo quo devo dirigir-me, é ao magistrado...

— Como assim!

— No momento de me tornar sua mulher, quero que as suspeitas odiosas que sobre mim pairam se dissipem! Quero que me lastimem as pessoas que me acusavam. Quero provar, que escreva, recusarei obedecer às ordens de um senhor implacável, e rejeitei com horror a coroa de duquesa que me queriam impor!

 

Rogério não podia compreender aquelas palavras misteriosas, mas a voz de Branca soava-lhe aos ouvidos como embriagadora música e encantava-o.

Não insistiu por uma explicação imediata e retirou-se. mais apaixonado, mais louco que nunca, dizendo à sereia:

— Até amanhã!

— Vamos, murmurou a jovem vendo-o afastar-se. Está lançada a sorte. Jogarei amanhã a minha vida!

De regresso ao palácio, Rogério encontrou a irmã ainda mais sombria que de costume.

Por isso perguntou-lhe logo:

— Tens mais algum novo desgosto?

— Sim. estou apoquentada. O criado de quarto inquieto com o estado em que viu o Duque, foi buscar um médico, o médico saiu agora daqui... interroguei-o.

— Que respondeu ele:

— Acha-lhe o cérebro muito abalado, e receia pela sua razão. Rogério conservou-se silencioso.

Pensava.

— Provesse a Deus que meu pai estivesse realmente doido! Seria a sua desculpa!

 

Na noite que se seguiu à sua conferência com Mariana Gilberto e com Henrique de Chaslin, o noivo de Helena dormia pouco e dormira muito.

Persistia na resolução tomada na véspera de empreender um inquérito secreto a respeito das circunstâncias ainda não explicadas da morte da Duquesa.

A ausência do seu chefe hierárquico, procurador da república, de quem era o primeiro substituto, deixava-lhe o campo livre, e punha à sua disposição poderes discricionários.

Podia portanto proceder sem que ninguém tivesse direito de lhe pedir contas das suas ações.

Logo pela manhã escreveu uma espécie de auto das respostas de Mariana e do senhor de Chaslin.

Foi muito cedo para o palácio da justiça, aviou expediente, escreveu ao chefe de segurança para lhe mandar quanto antes Daniel Gaillet, e mandou-lhe o seu bilhete de visita por um contínuo.

Este voltou no fim de dez minutos com a seguinte resposta:

— O inspetor Daniel Gaillet está de serviço. Assim que ele voltar, o senhor chefe da segurança mandá-lo-á pôr às ordens do senhor substituto.

— Bem. Prevenir-me-á assim que ele chegar...

Armando ficando só, puxou pela sua carteira, e tornou a ler as notas escolhidas por ele antes de sair: depois, apoiando a fronte nas mãos. pôs-se a procurar a chave do enigma trágico.

O crime parecia indiscutível.

O homem que Mariana vira introduzir-se no jardim do palácio, ao tempo que a menina de Lasseny e o Duque se achavam fora, era com certeza o assassino.

Um só ponto estava duvidoso, a cumplicidade de Adriana.

Parecia porém muito leve aquela, dúvida.

O contínuo tornou a aparecer.

Apresentando um bilhete ao senhor de Logeryl, disse-lhe:

— Senhor substituto, estas pessoas solicitam uma audiência.

Armando deitou os olhos para o bilhete e fez um gesto de surpresa, ao ler o nome de Rogério de Chaslin, e por baixo a lápis, o nome de Adriana de Lasseny.

— Ela! Na companhia de Rogério! Que vêm aqui fazer? perguntou o jovem magistrado. Mande entrar, acrescentou em voz alta.

Um momento depois, o contínuo introduzia os visitantes e retirava-se.

Armando estendeu a mão para Rogério, e inclinou-se diante da falsa Adriana com fria delicadeza.

Depois, sem dizer palavra, indicou cadeiras e esperou.

Branca estava horrivelmente pálida.

Um grande círculo lívido que lhe rodeava as pálpebras, demonstrava uma noite de insônia.

Rogério principiou:

— Meu querido Armando, a nossa presença no teu gabinete causa-te alguma admiração, não é verdade?

— Confesso.

— Venho com a menina Lasseny, que deseja, na minha presença, fazer-te uma comunicação.

O substituto olhou para Branca como para a interrogar.

— Efetivamente é uma comunicação muito grave, disse Branca, e mais que uma comunicação, pode talvez chamar-se-lhe um depoimento.

— Um depoimento? repetiu o substituto.

— Sim, senhor.

A atitude da jovem era decidida, mas a voz tremia-lhe.

— Fale. minha senhora.

— Senhor de Logeryl, principiou Branca, o senhor, até hoje, tem sido para mim um amigo, um protetor, um defensor até, quando sobre mim pairaram injustas suspeitas, das quais apagarei a mais simples recordação... Creia que lhe estou muito grata.

Armando inclinou-se ligeiramente.

— Aonde quererá ela chegar? pensava. Branca tornou:

— Bem sabe, senhor, que o Conde e a Condessa de Lasseny, meus pais, foram obrigados a expatriar-se, que morreram pobres em Inglaterra, deixando-me de tenra idade, e que fui recolhida por um industrial de Londres.

— Bem sei disso, menina.

— Mas o que o senhor ignora, o que toda gente ignora, é que vivo há dez anos numa situação intolerável, terrível, escrava de um homem.

— Escrava de um homem! exclamou o senhor de Logeryl, que julgou ver um raio de luz despontar em meio das trevas.

— Há dez anos que me vejo constrangida a uma obediência absoluta, cega, às vontades de um miserável...

— Mas como é isso?

— O industrial que me recolhera não era nem caridoso, nem compassivo... era simplesmente hipócrita e pronto a cometer todas as infâmias a troco de ouro. Adivinhando que eu viria a ser formosa, esperava fazer de mim a base de uma especulação vergonhosa, e quando chegasse a idade de ser vendida, vender-me a algum lord milionário.

 

Como que sufocada pela comoção. Branca calou-se durante um ou dois segundos.

Lívido de horror, Rogério escutava.

O senhor de Logeryl, vendo, ou julgando ver, o ponto luminoso aumentar, esperava com impaciência.

A jovem continuou:

— Um dia, haverá dez anos. um amigo desse homem, tão infame como ele, e talvez mais, veio ter com ele a Londres. Devia ser algum fugido das galés! Assim que o vi, meteu-me medo... e ele dando por isso, e servindo-se do meu terror para me dominar, fascinando-se com o seu olhar, como a serpente fascina a ave, avassalou-me, submeteu-me com a sua vontade de ferro,e não cessou de me repetir que os devia um dia enriquecer...

— Oh! É horrível! exclamou Rogério.

— Oh! Sim, muito horrível, e eu nada podia. Se eu tivesse mostrado alguma veleidade de resistência, aqueles homens que só viam em mim instrumento de fortuna, ter-me-ia esmagado. Um deles morreu, o outro, o último que aparecera, trouxe-me consigo para França e confiou-me a uma mulher, uma digna criatura, que não era sua cúmplice, e não adivinhava os seus projetos odiosos, Por um momento, esperei que fosse recuperar a liberdade. Era um sonho que bem cedo, havia de desvanecer-se...

— Apanhei o assassino da Duquesa, pensou o senhor de Logeryl.

— Aquele homem tornou a aparecer, continuou Branca, voltava todos os dias continuando a sua obra de domínio, esforçando-se por me persuadir que tudo é permitido e legítimo para chegarmos ao fim desejado, seja qual for esse fim.

O senhor de Logeryl escutava cada vez com mais atenção.

— Um dia, anunciou-me que acabava de me inscrever em muitas agencias, para ver se me arranjava uma colocação de dama de companhia. Esta notícia encheu-me de satisfação. Disse comigo que uma posição, mesmo subalterna, poria termo à minha escravidão, e dar-me-ia uma liberdade relativa.

— Mas, interrompeu ti substituto, nada lhe impedia, parece-me, o conquistar uma liberdade completa.

— Como?

— Colocando-se sob a salva-guarda da lei, pedindo-lhe essa proteção que a lei nunca recusa aos fracos e aos oprimidos.

— Em que motivos devia ter fundamentado a minha queixa? Não sofria nenhuma violência material, não me faltava coisa alguma. a minha denúncia havia de parecer um ato de ingratidão, e depois aquele homem metia-me medo, sentia-o capaz de tudo. À primeira suspeita da revolta matar-me-ia, e hoje no momento em que lhe falo, a minha vida está ameaçada.

— Tranqüilize-se, querida Adriana! exclamou Rogério. Hoje já não tem nada a recear. Eu e Armando velamos; está sob a dupla égide do amor e da justiça!

O substituto exclamou:

— Continue a esclarecer-me, menina.

Branca tornou:

— Um dia, o diretor de uma agência da Rua da Vitória, avisou-me de que se oferecia uma colocação. Dirigi-me à agência, e o proprietário mandou-me procurar o doutor Frébault, que me conduziu ao palácio de Chaslin. A senhora Duquesa teve a bondade de se agradar de mim. Senti-me então verdadeiramente feliz, julguei-me livre, infelizmente, que ilusão!

— Esse homem perseguia-a até ao asilo inviolável que lhe oferecia a Duquesa de Chaslin? perguntou o jovem magistrado com vivacidade.

— Perseguiu-me até lá, sim! Encontrou meio de transpor o limiar desse asilo para me lembrar que aí como em qualquer outra parte, eu era sua escrava.

Rogério mudo, pálido, com as sobrancelhas contraídas, o olhar sombrio, cerrava os punhos cheio de raiva.

— Mas, finalmente, exclamou o senhor de Logeryl, o que queria esse homem?

— Vai sabê-lo, balbuciou a jovem enxugando as lágrimas que lhe corriam pelas faces.

— Diga. senhora interrompeu o substituto dominado por uma ávida curiosidade.

— Previno-o de que é horrível, disse Branca. Uma manhã ia eu fazer as minhas orações à igreja da Madalena, encontrei-o nos degraus.

— Então ele sabia que devia sair?

— Não, mas estava sempre à espreita; chegou-se a mim, deu-me ordem para o acompanhar a uma capela, e ali me expôs o plano que devia, na sua opinião, enriquecer-nos a ambos.

— E que plano era esse? perguntou o substituto.

— A senhora de Chaslin, disse-me ele, sofrendo uma doença do coração, e condenada pelos médicos, só tem alguns meses de vida, algumas semanas talvez. O Duque dentro em pouco será um homem livre. É preciso que a menina de Lasseny se faça amar dele, e se torne Duquesa.

— Ah! O infame, o infame, exclamou Rogério com uma voz sibilante.

— E o Duque amou-a! murmurou o substituto.

— O Duque amou-me, mas eu juro que nada fiz para isso; perante Deus que me ouve, afirmo, não me servi de nenhuma provocação. O senhor de Chaslin falava-me do seu amor, eu escutava, mas sem lhe responder, os seus discursos apaixonados. Para me esquivar o mais possível às suas perseguições, mal saía do quarto da senhora Duquesa. Mariana Gilberto notando os manejos do Duque, julgou-os animados por mim. A este respeito travou-se entre o Duque, a Duquesa e Mariana uma discussão violenta, da qual o senhor de Logeryl não pode ter completamente a lembrança. Quis deixar o palácio... Resolvera partir no dia seguinte... E no meio da noite, o meu perseguidor informado, não sei como, do que acabara de se passar, entrou no meu quarto, e proibiu que realizasse o meu projeto, sob pena de morte. Sabia que a ameaça seria logo seguida da sua realização. Curvei a cabeça, e fiquei.

Neste ponto o substituto perguntou:

— Por que não disse isso, quando após a catástrofe a menina Helena e Mariana tiveram terríveis suspeitas?

— Não me atrevi... Era perder-me... e mais que nunca, eu desejava viver... amava.

— Era designar o assassino da senhora Duquesa! exclamou o senhor de Logeryl.

— O assassino de minha mãe! apoiou Rogério.

— O assassino! repetiu Branca fingindo surpresa e terror. O que diz? Julga que efetivamente se cometeu um crime?

 

JUSTIÇA EM FAMÍLIA

— O crime é demasiado certo, respondeu Armando de Logeryl.

Branca pareceu refletir durante alguns segundos, depois murmurou como se falasse consigo mesma:

— Não, não, é impossível, materialmente impossível...

— Materialmente impossível? repetiu o substituto. Por quê?

— Só eu apresentava à senhora Duquesa os remédios receitados pelo médico. Só eu lhe fazia tomar os grânulos de digitalina...

— O homem a quem acusamos, entrava de noite no palácio. A senhora foi a própria que o disse. Pode ter trocado os frascos que continham os grânulos.

A jovem pareceu aterrada por aquela revelação.

— Santo Deus! balbuciou, pois ele fez semelhante coisa?

— Sim, respondeu Armando. E a prova é que a menina Helena achou sobre o tapete do quarto, junto do leito onde sua mãe tinha morrido, um glóbulo que eu fiz analisar... E esse glóbulo continha veneno.

— Oh! O infame! O infame! Mas nesse caso torno-me eu suspeita! Posso passar por cúmplice do infame.

Rogério acudiu logo:

— Nunca! Nunca! Eu sei por que a senhora saiu do palácio com meu pai durante a noite fatal, e nenhuma acusação a pode ferir! O seu tirano não se atrevendo a ordenar-lhe o crime, ele próprio o executava. Se a senhora fosse sua cúmplice, não teria ele entrado no palácio... É evidente, é indiscutível!

— Menina Adriana, exclamou Armando de Logeryl, estamos à espera do nome do assassino.

Branca pareceu possuída de terror. O substituto continuou:

— Entregar-nos esse homem, é vingar a senhora Duquesa que a amava, e era amada pela senhora, é demonstrar a sua inocência de quem ninguém no mundo terá direito a duvidar e que eu serei o primeiro a proclamar.

— Ah! Não hesito! volveu a falsa Adriana. Denunciá-lo é jogar a minha vida, bem sei, porque a sua vingança saberá alcançar-me em toda à parte. Que importa, porém?

— Diga então, insistiu o substituto.

— Estou pronta a morrer para que se faça justiça!... O miserável chama-se Pedro Rédon...

— Pedro Rédon já comprometido no negócio de Courbevoie... murmurou o substituto escrevendo o nome. Onde é que poderemos encontrar? acrescentou:

— Ignoro a sua morada; sei somente que me esperará esta noite às dez em ponto, no chalet da Rua Compans.

— Para que vai ele lá? perguntou Rogério.

— Intimou-me, sob pena de morte, para ali lhe declarar que consinto em casar com o Duque de Chaslin.

— Ficará livre dele, mas por muito grande e muito legítimo que seja o horror que ele lhe inspira, terei de a confrontar com ele.

Branca ficou numa tremura.

— Mas isso é indispensável? perguntou.

— É indispensável... É preciso que diga: "Este homem é Pedro Rédon, o meu perseguidor, o infame de quem eu era escrava, e me impeliu ao crime."

 

O tremor de Branca aumentou.

— Dizer isso na sua presença, balbuciou ela. Terei forças para tanto?

Armando de Logeryl franziu o sobrolho, e perguntou num tom severo:

— Que receia então?

Branca adivinhou as suspeitas renascente do substituto. Compreendeu que não devia deixá-las tomar corpo. Apressou-se a responder:

— Não receio nada, mas comparo esse homem ao réptil cujo olhar fascina a ave. Na sua presença o sangue gela-me, a minha vontade aniquila-me; torno-me outra vez escrava.

— A situação estará completamente mudada... Não terá nada que recear. A obra da fascinação não se realizará.

— Sim, terei força, terei coragem. Direi: É ele, é Pedro Rédon, o miserável que tornava a minha vida num suplício, e queria tornar-me numa vergonha!

— Muito bem, querida Adriana! exclamou Rogério.

— Obrigado, minha senhora, acrescentou o substituto. A senhora acaba de prestar um grande serviço à sociedade e à justiça. Agora temos armas para vingar a Duquesa de Chaslin... para a senhora mesma se vingar!

— A minha vingança, essa não estará completa senão no dia em que vir Pedro Rédon frente a frente, e ele fizer a confissão do seu crime proclamando-me inocente.

E voltando-se para Rogério, prosseguiu:

— Agora, senhor Rogério, deixe-me a sós com o senhor de Logeryl. Tenho a dizer-lhe alguma coisa que deve ficar em segredo, mesmo para o senhor, pelo menos neste momento. E não espere por mim, voltarei só para o palácio...

O mancebo, admirado e inquieto, mas não podendo recusar-se a obedecer, deixou o gabinete de Armando.

 

O substituto quase tão admirado como o próprio Rogério, perguntou:

— Minha senhora, não me disse tudo o que diz respeito a Pedro Rédon?

— Sim. senhor, mas falta-me falar, não ao magistrado, mas ao amigo e aliado da família de Chaslin, de uma resolução que entendo dever tomar, resultante do que se passa.

— Explique-se, minha senhora. Branca ia falar.

Bateram devagar à porta do gabinete.

— Entre, disse Armando.

O contínuo tornou a aparecer.

— O que temos? perguntou o senhor de Logeryl com impaciência.

— Senhor substituto, a pessoa cujo bilhete apresento, pede para lhe falar sem demora...

Armando deitou os olhos para o quadrado de papel onde havia um nome a lápis.

— Helena de Chaslin! exclamou.

— A menina Helena... exclamou Branca levantando-se.

— Peca à menina de Chaslin que tenha a bondade de esperar um momento, disse o jovem magistrado.

— Não, senhor, interrompeu a falsa Adriana. Pelo contrário ficar-lhe-ei agradecida se imediatamente receber a menina Helena; terminarei diante dela a comunicação principiada.

— Faça entrar, disse o substituto.

O contínuo saiu do gabinete.

A visitante entrava pouco depois.

Ao ver uma mulher junto do senhor de Logeryl, a menina de Chaslin parou surpreendida.

Branca achava-se na sombra.

Venha querida Helena... tornou Armando.

A filha de Pedro Carnot deu então dois passos à frente, colocando-se em plena luz.

Ao vê-la. a irmã de Rogério tornou-se pálida, e maquinalmente fez um movimento para se retirar.

— Helena, venha, peço-lhe, continuou o substituto, um motivo grave e respeitável traz aqui a menina Adriana. Sabendo que me queria falar, mostrou desejos de concluir na sua presença a conferência principiada comigo.

Helena proferiu com esforço:

— Decerto que esta senhora veio falar-lhe do seu próximo casamento.

— Do seu próximo casamento? repetiu o senhor de Logeryl estupefato.

— Sim. com meu irmão Rogério. É verdade que o Duque recusa o seu consentimento; mas meu irmão tenciona passar sem ele. Se ignora esta nova, eu lha digo.

Armando olhou para Branca que se conservava impassível. Depois, passado um momento de silêncio, redarguiu:

— Ignorava; mas Rogério está na idade de saber o que deve fazer. Por que não há de ele casar com a menina de Lasseny, se ele a ama, e se ele julga encontrar a felicidade nessa união?

A noiva de Armando exclamou impetuosamente:

— Se casar com ela, ficará desonrado, ficará perdido, ficará maldito!

— Helena, peço-lhe, meça as suas palavras! exclamou o substituto muito agitado.

— Medir as minhas palavras! Para quê? Para essa rapariga poderão nunca ser assaz cruéis as minhas palavras?

— Helena, conhece todo o respeito, toda a ternura que me inspira, continuou o mancebo, mas a afeição não me cega. Estamos aqui no santuário da justiça, e não posso admitir ditos ultrajantes.

— É que todo o meu sangue se revolta à idéia da infame aliança que me querem impor!

— Suspenda, Helena, peço-lho de mãos postas. Não devo, não quero ouvir mais...

 

Branca estava mortalmente pálida, tinha os lábios cerrados, e nos seus olhos havia um sombrio fulgor.

— Agradeço-lhe a sua generosa intervenção, senhor de Logeryl, disse ela. Não duvide da minha gratidão, mas pertence-me responder a menina de Chaslin, e vou fazê-lo serenamente.

A falsa.Adriana voltou-se para Helena e continuou:

— Principiarei por uma pergunta: Por que me odeia, senhora, e por que me insulta?

— Por que repetiu a jovem trêmula, atreve-se a perguntar-mo?

— Atrevo-me! Que lhe fiz? De que me acusa?

— Já é audácia!

— Isso não é responder... e espero uma resposta.

— Acuso-a de ter trazido à casa de meu pai a hipocrisia, a cobiça, o vício!... Acuso-a de me haver feito órfã! Acuso-a de ter matado minha mãe!

— Senhor de Logeryl, disse Branca por seu turno, ouve! Acusa-me de um assassinato! Representante da lei e da justiça, emprazo-o a que me defenda...

— Defendê-la-ei, menina.

— Mesmo contra mim! exclamou Helena alucinada.

— Mesmo contra si... É o meu dever...

— Meu Deus! Meu Deus! balbuciou a irmã de Rogério ocultando o rosto nas mãos.

— Agora, senhor substituto, tornou Branca, deitando a Helena um olhar de triunfo, vou concluir.

Armando olhou para Helena cheio de curiosidade. Branca prosseguiu:

— O senhor Duque, há cinco dias, ofereceu-me o seu nome, o seu título, e a sua fortuna... Recusei indignada. Ontem, o senhor Rogério de Chaslin pediu-me para ser sua mulher... Amo-o, mas recuso.

— Recusa! exclamou o senhor de Logeryl.

— Recuso e recusarei enquanto em volta de mim não se fizer a luz! Enquanto a menina Helena, corando das acusações que ela hoje formula, não venha dizer-me: Seja minha irmã— Não volto hoje para o boulevard Flandrin. Quero desaparecer até o momento em que o senhor me ponha em presença daquele que sabe... A minha única probabilidade de salvação é que aqui até lá ele perca o meu rasto... Só ao senhor farei saber o lugar do meti refúgio momentâneo. O próprio Rogério o ignorará. Peço-lhe que o tranqüilize a meu respeito... Obrigado mais uma vez, senhor, e até a vista.

Branca dirigiu-se para a porta.

Armando deteve-a com um gesto e disse-lhe:

— Tenho precisão de hoje em diante de saber que asilo escolhe.

— Só depois de sair daqui o escolherei, queira pois, senhor substituto, mandar-me acompanhar.

Armando de Logeryl tocou uma campainha, e disse ao contínuo que apareceu:

— Ponho-o à disposição desta senhora... vai acompanhá-la... ela dar-lhe-á alguma coisa que depois virá transmitir-me.

Branca tornou:

— Não se esqueça, senhor substituto, das notas que tomou. Mande esta noite, às dez horas, ao hotel da Rua Compans...

— Esquecer-me... terei todo o cuidado de não me esquecer.

 

Helena escutava sem compreender.

A filha de Pedro Carnot inclinou-se diante dela e murmurou:

— Deus é testemunha, menina, de que lhe perdôo! Ou eu muito me engano, ou há de vir a ter grande remorso de me haver insultado...

Depois cumprimentou e saiu... O contínuo seguiu-a. A porta fechou-se após eles. Helena ergueu-se de um ímpeto.

— E deixa-a ir-se embora! exclamou dirigindo-se ao senhor de Logeryl com uma espécie de alucinação.

— Então o que queria?

— O senhor tinha-a no seu gabinete, no palácio da justiça... bastava proferir uma palavra, bastava fazer um gesto para a reter presa... e o senhor não fez esse gesto, não proferiu essa palavra! Esta jovem fica livre, e o senhor defende-a! Armando não amava minha mãe, e não me ama a mim...

Ao ouvir estas palavras, o substituto tornou-se muito pálido e sentiu o coração oprimir-se-lhe.

— Helena... Helena... balbuciou com uma voz angustiada. É possível que tão mal me avalie! Pois bem deve saber que a minha vida lhe pertence, e que sem a senhora a vida seria para mim um vácuo.

— Se me amasse, pensaria como eu, acusaria quando eu acuso...

— Querida Helena, a justiça, numa alma reta, deve falar mais alto que o próprio amor... Defendi a menina de Lasseny... defendê-la-ei até o dia em que tiver a prova de que ela é culpada... e, não tenho remédio senão confessá-lo, neste momento, julgo-a inocente...

—Então o senhor é cego?

— Não, sou imparcial... A menina de Lasseny veio leal, livremente, confiar-me o segredo doloroso da sua vida... Prestou-me um minucioso serviço... Vai entregar-me o homem que deve ter sido o assassino de sua mãe...

— Conhece-o, é portanto sua cúmplice!... exclamou Helena.

— Será cúmplice inconsciente, irresponsável.

— Oh! Meu Deus... Meu Deus... Ainda a defende!

— E continuarei a defendê-la, repito-lhe, enquanto a sua inocência me parecer certa... Mas não duvide de mim, Helena... A Duquesa será vingada, juro-lhe, e eu amá-la-ei sempre!

Naquele momento bateram discretamente à porta do gabinete.

 

NOVOS ENREDOS

Era o contínuo que se apresentou depois de receber ordem de entrar.

— O que temos? perguntou-lhe o senhor de Logeryl.

— Senhor substituto, é o inspetor da segurança, Daniel Gaillet.

— Que espere...

O empregado saiu.

— Minha querida Helena, tornou Armando, a nossa conversa não deve prolongar-se por mais tempo. Vou trabalhar na obra comum... Tenha confiança, e sobretudo, ame-me, como eu a amo...

O jovem magistrado reconduziu a noiva até ao vestíbulo, e mandou entrar Daniel Gaillet.

— O senhor chefe da segurança recomendou-me que viesse pôr-me às ordens do senhor substituto... exclamou o inspetor.

— Sim, senhor Gaillet... Preciso do senhor para um negócio que tem relação direta com o negócio de que o encarreguei...

— Devo recomeçar a vigilância do boulevard Flandrin?

— Não. Trata-se de uma prisão. Tome notas.

Daniel tirou da algibeira uma carteira, e dispôs-se a escrever.

— Irá esta noite, às dez horas, à Rua Compans, em Belleville n.°... e aí. num pavilhão situado em meio de um jardim que se chama Chalet, achará o homem que é preciso prender... Esse homem espera uma mulher às dez em ponto, e abrir-lhe-ão a porta sem desconfiança.

— Poderei perguntar ao senhor substituto, qual o motivo da prisão?

— O homem é acusado de assassinato.

— Tenho então necessidade de uma ordem de prisão regular...

— Vou assiná-la.

— Deverei conduzi-lo ao Depósito?

— Não, mas à prisão da Santé.

Gaillet não pôde disfarçar um movimento de surpresa.

— Tenho razões para assim proceder, tornou o senhor de Logeryl; quero durante alguns dias estar senhor do negócio, porque tenho suspeitas, e não provas... Dar-lhe-ei uma carta para o diretor da Santé, que é meu amigo, e me dará meio de evitar um escândalo inútil...

— Bem, senhor substituto, deverei efetuar alguma busca?

— Depois de levar o homem para lugar seguro, lançará mão de todos os papéis e entregar-mos-á, a mim só, amanhã pela manhã... Às nove horas já estarei no meu gabinete.

— O homem resistirá?

— Talvez... Dizem que é capaz de tudo. Tome por isso as suas medidas.

— Irá só?

— É de crer.

— Bem, senhor substituto.

 

Armando encheu uma ordem de prisão, assinou-a, e deu-a a Daniel.

O agente olhou para ela. ao mesmo tempo que escrevia ao diretor da prisão.

Estremeceu de súbito, e soltou uma exclamação de alegria selvagem.

— Que tem? perguntou Armando.

— Li bem, é verdade? Este nome é com efeito o que o senhor escreveu: Pedro Rédon?

— Sim.

— Ah! justiça de Deus! exclamou Daniel Gaillet. A final entrega-se! Há muito já que o esperava.

— Que quer dizer? Conhece esse homem que se acha envolvido no mistério do infanticídio de Courbevoie?

— Esse homem, senhor, esse Pedro Rédon, respondeu o agente, não é outro senão Pedro Carnot, o assassino de minha filha, condenado por esse fato à pena de cinco anos de trabalhos públicos! Desde que saiu das galés estou à espera que ele cometa outros crimes, e que esses crimes me permitam entregar a sua cabeça ao carrasco. As minhas esperanças vão realizar-se!

— Sossegue, senhor Gaillet, replicou o substituto tornando a, escrever, e tome cuidado não deixe escapar esse patife.

— Deixá-lo escapar! murmurou o agente com uma voz abafada, e como que falando consigo mesmo, deixá-lo escapar, quando há mais de dez anos que eu o procuro! Ah! Mais depressa perderei a vida! Pedro Rédon há de esta noite ficar preso!

Armando concluíra o seu bilhete lacônico dirigido ao diretor da Santé.

Deu-o a Daniel Gaillet, e concluiu por estas palavras:

— Vá, senhor Gaillet... Até amanhã... Confio no senhor.

O inspetor saiu.

Quase no mesmo instante chegou o contínuo, que acabava de acompanhar a filha de Pedro Carnot.

Trazia uma carta da falsa Adriana.

Branca anunciava ao substituto que até nova ordem iria morar para uma pequena casa mobiliada da Rua Notre Dame des Champs.

O senhor de Logeryl meteu esta carta nos autos relativos á morte da Duquesa de Chaslin, guardou estes autos à chave e saiu.

 

César de Fossaro, cuja perigosa atividade os nossos leitores têm tido muitas vezes ocasião de verificar, não perdera o seu tempo desde a sua entrevista com Branca no palacete do boulevard Flandrin.

Deixando Malpertuis, depois de haver conversado por muito tempo sobre o caso de Picolet, ocupara-se de Fernando Volnay. e da Marquesa de la Tour-du-Roy.

O comediante, a quem primeiramente foi visitar na vila Montespan. e que achou só, recebeu-o de braços abertos.

A primeira representação do drama em que Fernando se estreava 110 Ambigu, tinha tido, dias antes, um grande êxito para a peça, e um grande êxito para o ator.

— Por que não esteve em Paris, querido Fiarão? exclamou o ex-galã de Belleville. Tanto eu como a Marquesa sentimos bastante a ausência desagradável que me privava dos seus bravos.

— Meu querido artista, os jornais informaram-me do seu triunfo e dou-lhe os meus sinceros parabéns.

— Obrigado, mil vezes obrigado.

— O senhor é um homem feliz! Como vão os amores?

— Quais? perguntou Volnay rindo.

— Quais! exclamou César. Por acaso a Marquesa está destronada?

— Ainda não o está de todo, mas já não reina absolutamente, e sem partilha.

— Temos rivais?

— Uma pelo menos, linda como os amores, e que me adora... Deu-me cinqüenta luíses por um camarote de frente para a minha representação, e todas as noites me ai ira no fim do terceiro ato, um ramalhete de quinze luíses.

— Já se vê que Lazarine tem ciúmes?

— Como uma leoa. Mas achei meio de a tornar razoável.

— Que meio foi?

— Oh! Um meio elementar, e de um efeito muito seguro... a receita está à disposição de toda gente. Olhe...

E Fernando fez um gesto de quem dá uma bofetada.

— Per Bacco! exclamou César com uma careta significativa. É como quem diz o jogo da mão morta!

— Da mão morta! repetiu o artista soltando uma gargalhada. Barão, é um dito engraçado... muito engraçado... deixe-me saboreá-lo.

— E como foi que a Marquesa de la Tour-du-Roy aceitou o presente?

— Ora, chorou muito, gemeu menos mal; falou mini rompimento, e à noite estava mais terna que nunca...

— Muitíssimo bem! Uma mulher que não se revolta contra uma familiaridade dessas, é uma mulher enfeitiçada. É chegado o momento psicológico...

— Explique-se.

— O senhor não tem mais que uma palavra a dizer, para que Lazarine atire com a coroa de Marquesa para trás das costas, a fim de se tornar a senhora Fernando Volnay.

O comediante apenas respondeu com um amuo muito pronunciado César perguntou muito inquieto:

— Por acaso não lhe sorri a idéia de casamento?

— Mesmo nada.

— Por quê?

— Sou homem prático, bem sabe. querido Barão, e por mais de uma vez me tem felicitado. Isto de casamento é um negócio... Não devemos alienar a nossa liberdade senão com muita vantagem, em troca de compensações suficientes...

— Já se vê.

—Ora, o senhor ilude-se, creio, a respeito da fortuna da Marquesa.

— Lazarine possui um milhão e o usufruto de seis milhões...

— O milhão pessoal já há muito foi devorado. A pequena casa onde residimos, a sua mobília, e algumas pequenas compras, absorveram o resto... Quanto ao usufruto, não chega para pagar as nossas despesas e as nossas fantasias... Lazarine vendeu os diamantes, e tinha tenção de vender a mobília que guarnece o palácio da Rua Murillo.

— O demônio! E ela disse-lhe isso?

— Não tenho precisão de que o diga para o saber... tenho olhos... Seria pois absurdo desposar uma pessoa interessante, que no dia da maioridade do seu filho não tivesse um sou. Seria a miséria.

— Miséria relativa...

— Uma miséria muito decente! Seria eu a sustentar a mulher com os meus honorários! Ora muito obrigado?

— A criança pode morrer, e o senhor ficaria rico.

— Tá, tá, tá! Quem espera por sapatos de defuntos, toda a vida anda descalço...

— Em tese geral, sim; mas se lhe provassem que há probabilidade séria de que a criança não viva muito?

— Isso seria muito diverso... Fala-se em seis milhões, mas não creio nisso... O muito que admito é metade... A quem me provasse que a Marquesa possui dois, muito bem apurados, abandonaria de boa vontade o resto.

Um riso de mau agouro descerrou os lábios do senhor de Fossaro.

— E eu casaria dentro de vinte e quatro horas, concluiu Fernando Volnay.

— E o senhor tem em que empregar imediatamente esses milhões? perguntou César.

— Sim, querido Barão... Posso contar-lho, porque o senhor é um amigo discreto... Sonhei com alguma cousa de gigantesco, com um estabelecimento único no mundo... As Folies Bergéres decuplicadas. Uma Tertália mágica onde se pudesse passar os dias, as tardes, e as três quartas partes das noites em meio de prazeres variados. Restaurantes, cervejarias, cafés-concêrtos, carreira de tiro, barracas de feira, teatros de opereta, teatros de baile, quadrilhas doidejantes dançadas ao som de grande orquestra, as mais bonitas garotas de Paris.

— Mas espera lá, isso é uma idéia...

— Se é, e na minha opinião, uma idéia rica! Idéia só minha!

— Seria preciso uma sala imensa!

— O local está à minha disposição no mais belo bairro de Paris, a dois minutos do boulevard Montmartre! Em menos de cinco anos terei dez milhões!

— Arranje capitalistas.

— Isso é que nunca! Enriquecer exploradores, incomodar-me por causa de usurários. isso é que não! Tudo ou nada, eis a minha divisa! Quero voar com as minhas próprias asas, ser senhor absoluto, e não ter contas a dar a ninguém! O êxito é muito seguro! Sou conhecido, sou adorado, o meu nome à frente da empresa fará acudir Paris em peso! Preciso de dois milhões, com estes milhões de pronto realizarei o meu sonho. Tragamos a Marquesa, e desposá-la-ei se o chamar-se a senhora Volnay a faz feliz! Por dois milhões caso seja com quem for...

— Pois muito bem, caro artista, volveu Fossaro rindo, se eu encontrar por acaso uma mulher de dois milhões, expedir-lha-ei imediatamente, e franca de porte.

— Não deixe de o fazer, Barão, seria uma pechincha para mim.

— E para ela?

— Para ela? Isso parece-me menos certo, replicou Fernando rindo também; mas expeça sempre.

 

César deixou o comediante, voltou para a carruagem, e deu ordem para o conduzirem à Rua de Provence, onde conferenciou imediatamente com Malpertuis.

Os dois sócios puseram-se de acordo a respeito do procedimento que deviam seguir.

No outro dia pela manhã, quando voltou para casa, a senhora de la Tour-du-Roy achou uma carta da agência.

Pediam-lhe que se dirigisse ali o mais cedo possível, porque haviam uma comunicação importante a fazer-lhe.

Lazarine saia do seu palacete da Vila Montespan.

Estava muito triste.

Fernando Volnay em lugar de lhe falar de amor como no começo da sua ligação, passara quase toda a noite a repetir-lhe que lhe era preciso dinheiro, muito dinheiro, dois milhões, e que precisava deles imediatamente.

A Marquesa procurava (sem achar, já se vê), o meio de satisfazer as exigências do amante.

O rendimento dos bens de que ela possuía o usufruto, estavam já comidos.

Algumas jóias ainda não vendidas, e os móveis da Rua Murilo, representavam uma quantia relativamente insignificante, que para o apetite do comediante, seria apenas uma dentada.

Apesar de cada vez estar mais apaixonada e mais ciumenta, não se iludia.

À medida que o dinheiro diminuía, o comediante esfriava a olhos vistos.

No dia em que faltassem os fundos, o ex-primeiro galã de Belleville deixaria sem escrúpulos uma amante inútil.

A perversão do senso moral tornara-se tão completa em Lazarine, que apesar de se assustar e de se desesperar com aquele abandono provável e próximo, não se admirava por isso.

A brilhante filha de Júlio Leroux, a deslumbrante viúva do Marquês de la Tour-du-Roy já pertencia à categoria das mulheres galantes que acham natural e justo pagar o amor de um bonito rapaz, o que ele vale, isto é, horrivelmente caro.

A carta de Malpertuis fez-lhe febre.

As pesquisas dos misteriosos agentes teriam a final dado resultado?

Iria a morte da criança roubada por Marcelo Laugier depor finalmente nas suas mãos a fortuna cobiçada?

Deveria, pelo contrário, perder todas as esperanças.

Lazarine formulando a si própria estas perguntas insolúveis, dirigiu-se logo para a Rua da Vitória.

 

MÃE A FERA

O agente deu logo ordem para imediatamente introduzirem a senhora de la Tour-du-Roy.

A Marquesa principiou por dizer:

— Esperava a sua carta com impaciência, senhor Malpertuis, acabo de a receber, e aqui estou.

— Estava convencido da exatidão, volveu o agente sorrindo.

— Encontrou os vestígios do senhor Marcelo Laugier e de meu Filho?

— Sim. minha senhora.

— Finalmente! murmurou Lazarine com um tom de triunfo. Depois acrescentou:

— Está bem certo de que não o enganam com falsas informações?

— Certíssimo. Eu mesmo quis pessoalmente seguir um negócio desta importância, fiz uma viagem para eu próprio verificar as informações dos meus agentes; vi o ex-tenente de hussardos, e o rapazito que ele fazia passar por filho.

— Então não há dúvidas possíveis?

— Oh! São absolutamente impossíveis, o rapazito de que trata chamava-se efetivamente Raul Henrique Roberto de la Tour-du-Roy, prova-o na certidão autêntica.

— Que certidão?

— Uma certidão de óbito.

— O quê! Meu milho morreu! exclamou então a Marquesa.

— Sim, minha senhora.

— O senhor diz que o viu?

— Digo a verdade, e viu-o na véspera do dia em que devia morrer.

— Estava então doente?

Passava pelo contrário às mil maravilhas, e deve convir que era uma perfeita criança.

A Marquesa sentiu um pequeno calafrio. Perguntou com voz trêmula:

— Que sucedeu?

— Um acidente, minha senhora.

— Um acidente, repetiu Lazarine.

— Sim, minha senhora. Foi tudo obra do acaso. Talvez alguém ajudasse o acaso, mas com isso ninguém tem nada.

A senhora de la Tour-du-Roy compreendeu, tornou-se pálida e cambaleou.

A sua comoção teve apenas a duração de um relâmpago.

— Marcel Laugier? tornou ela.

— Marcel Laugier devia perecer com o jovem Raul. Salvou-se por milagre.

— Mas já nada pode contra mim?

— Sim, minha senhora. A arma que constituía a sua força, despedaçou-se nas minhas mãos. A senhora está livre.

— Livre e rica... Herdo de meu filho.

Malpertuis tornou a sorrir.

Volveu com uma voz melíflua:

— É para me entender com a senhora a respeito de semelhante herança, que tive a honra de convidá-la a vir aqui, disse ele.

— Pois não estamos nós já de acordo? perguntou Lazarine. As nossas convenções estavam de antemão assentes. No dia que se seguir à minha posse, entregar-lhe-ei a quantia prometida.

— Um milhão! exclamou o ex-advogado com um beicinho significativo. Estamos muito longe do nosso ajuste.

— Contudo, parece-me...

— Não nos desnorteemos, interrompeu Malpertuis num tom quase brutal. Tempo é dinheiro! A senhora passou-me o recibo de um milhão, a pagar-me no dia em que eu lhe apresentasse a prova da morte de seu filho. Eis esse recibo. Destruo-o. Entre nós deixa de existir convenção escrita.

E o sócio de César rasgou em mil pedacinhos o papel selado, depois de o apresentar aos olhos de Lazarine.

— Parece-lhe?

— Meu filho morreu, portanto herdo dele, e se me convisse negar a minha palavra, nada lhe deveria.

Malpertuis encolheu os ombros e replicou:

— Sim, seu filho morreu, mas desafio a que o prove! Ignora o nome que Marcelo Laugier tomou, não sabe em que terra ela residia, a natureza da catástrofe, e o sítio onde ela se efetuou, são-lhe desconhecidos. A situação fica hoje o que era ontem. Não pode tocar na fortuna de seu defunto marido, nos seis milhões que a final lhe pertencem. É o suplício de Tântalo! Para o fazer cessar é preciso primeiro que tudo apresentar a certidão de óbito que eu tenho na minha mão. Muito bem. vendo-lhe a certidão, ou antes a fortuna.

— Por quanto?

— Por dois milhões.

— Negócio concluído! Vou assinar! exclamou Lazarine. Lembrando-se unicamente de Fernando Volnay, queria dinheiro a

todo transe.

Malpertuis redarguiu:

— Em troca da sua assinatura entregar-lhe-ei a certidão, não tarda em que tratemos disso. Agora que estamos de acordo, restam-me várias coisas a dizer-lhe.

— Estou escutando.

— A senhora despende muito.

— Estou costumada ao luxo, e sou muito inclinada a ele.

— Isso é muito natural, mas a senhora despende sem conta. O milhão que se lhe tinha constituído em dote evaporou-se. Os rendimentos de um ano dos bens do seu falecido filho já estão comidos. A senhora vendeu os seus diamantes, e procura comprador para a mobília da Rua Murillo. Não é o luxo que a conduz à ruína, é o amor...

— Sim. e depois? replicou Lazarine, levantou a cabeça com uma imprudência magnífica. Sim, é verdade, o amor é o meu luxo. Sei o que faço, e sei para onde vou... Caminho sem hesitação por uma senda embriagadora, por onde me acompanha o desprezo do mundo, e que me conduz à ruína... One me importa? Amo e sou feliz. Uns arruínam-se ao jogo, outros na bolsa. Os cavalos de correr, as apostas insensatas, absorvem a fortuna destes, aqueles estragam-na em mil caprichos absurdos... Pois eu. arruinar-me-ei pelo amor, alegremente, sem um pesar, Tenho um amante a quem amo. Era muito capaz de lhe dar o meu sangue, posso muito bem dar-lhe o meu ouro... Quero que ele brilhe... Acho legitimas as suas exigências. Se eu fosse pobre, amar-me-ia muito menos. Por isso preciso de ser rica!

— Não posso dizer que a aprovo, mas compreendo-a, replicou Malpertuis depois de apreciar como entendedor a esplêndida beleza da mulher a quem a paixão tornava deslumbrante. Não me compete governá-la... Coloco-me sob o seu ponto de vista. É preciso receber, sem a menor demora, os milhões da herança. Recebê-lo-á? Eis o lado palpitante da questão...

— Como? Perguntou se os receberei? exclamou a Marquesa. Quem mo havia de impedir? Não tenho a lei por mim?

— A lei, querida senhora, diz o que se quer que ela diga. Depende da maneira de a interpretar...

— Assusta-me.

— Tenho a certeza de que os representantes do ramo cadete de Tour-du-Roy, logo que souberem da morte de seu filho, atacarão o testamento do falecido Marquês.

— Farão guerra ao testamento?

— Não duvide.

— E têm direito para o fazer?

— Há sempre direito de tentar um processo, e isso faz ganhar dinheiro aos advogados, aos procuradores, e a toda a caterva da justiça.

— Mas sempre precisam de um pretexto.

— De um pretexto? Terão para dar e vender, sem se cansarem n procurar muito. Apoiar-se-ão sobre os grandes princípios da moral. Sustentarão que é imoral, inadmissível, escandaloso, ver a fortuna do Marquês de la Tour-du-Roy estragada, dilapidada, aniquilada pela amante de um cômico. Ah! Posso afiançar-lhe que não a poupam.

— Se fosse só isso! murmurou Lazarine com indiferença. Que me importam as injúrias de um advogado? O essencial é saber se os meus adversários ganhariam semelhante processo!

— Podem ganhar.

— Talvez não ganhem.

— Em todo caso, a ação intentada por eles pode impedir que a senhora não toque nos bens em litígio.

— E isso durará por quanto tempo?

— Tribunal de primeira instância oito meses, tribunal da apelação, e tribunal da anulação, idem. Conte pelo menos dois anos.

— Mas nesse caso, exclamou a Marquesa desesperada, é terrível a minha situação. Vou ficar sem recursos, e preciso de dinheiro. Preciso quanto antes, preciso a todo custo.

O ex-procurador fez um gesto que significava claramente: — É triste, mas nada posso fazer.

Lazarine tornou:

— Senhor Malpertuis, o senhor, cuja experiência e habilidade não têm rivais, tire-me destas dificuldades. É tanto o seu interesse como o meu. Para o senhor é negócio de dois milhões. Se a fortuna me foge das mãos, perco-os.

 

O sócio do Barão de Fossaro, encostou os cotovelos à mesa, mergulhou a fronte nas mãos, e pareceu refletir.

Procurava com certeza a solução do problema.

Achá-la-á?

A senhora de la Tour-du-Roy aguardava a sua primeira palavra, com a ansiedade com que o condenado.. morte espera a notícia do seu perdão.

No fim de três ou quatro minutos, Malpertuis levantou a cabeça.

— Vou tomar uma resolução de insigne loucura, disse, e jogar um lance de dados, que me tornará rico, ou me porá na espinha. Tenha a bondade de me escutar sem me interromper... serei breve.

Lazarine era toda ouvidos. Malpertuis continuou:

— A herança representa seis milhões, dos quais dois já me pertencem, em troca da prova legal da morte de seu filho. Abandone-me um dos outros quatro, substitua-se por mim em todos os seus direitos, por meio de um documento em boa e devida forma que eu próprio redigirei. Entregar-lhe-ei três milhões e sustentarei o processo com todo o risco para mim. Tanto pior para mim se ficar vencido. Convém-lhe a minha proposta? Aceite-a, ou recuse-a, mas não a discuta! É pegar ou largar...

— Aceito... disse a Marquesa com vivacidade: mas...

— Oh! minha querida senhora, nada de mais...

— Uma simples pergunta.

— Qual?

— Quando receberei os três milhões?

— Assim que assinar o documento redigido por mim, e a procuração que é indispensável, e que o meu tabelião vai preparar. Dentro de três ou quatro dias, o muito cinco, estaremos habilitados, a senhora assinará e embolsará.

— Pois sejam quatro ou cinco dias, mas daqui até lá, repito-lhe que preciso de dinheiro quanto antes.

— Vou portanto ter a honra de lhe fazer um adiantamento de cem mil francos sobre o seu simples recibo.

— O senhor Malpertuis salva-me a vida... É um procedimento de cavalheiro que não esquecerei.

— Sinto-me muito feliz, senhora Marquesa, por poder ser-lhe agradável. E agora que estamos perfeitamente de acordo sobre todos os pontos, permite-me que lhe dê um conselho muito desinteressado?

— Por que não?

— A senhora ama Fernando Volnay?

— Adoro-o!

—Não é capricho, é paixão?

— Paixão profunda, infinita, absorvente. Se Fernando me deixasse, matar-me-ia, ou perderia o juízo.

— Pois minha querida senhora, acredite na minha velha experiência. Por muito formosa que a senhora seja, esse rapaz fugir-lhe-á mais tarde ou mais cedo, uma vez que esse não esteja ligado à senhora por laços indissolúveis.

— Que laços?

— Os do casamento... Teria de renunciar ao seu título de Marquesa, é verdade, mas Fernando Volnay é um grande artista, e a nobreza artística vale tanto como qualquer outra.

— Ah! exclamou Lazarine, ser mulher de Fernando seria o meu sonho! E esse sonho pode-se realizar? Fernando consentiria em alienar a sua liberdade?

— Consentirá se a senhora quiser encarregar-me da transação.

— O senhor Malpertuis! murmurou a Marquesa muito admirada. Conhece o senhor Volnay?

— Conheço.

— E tem sobre ele alguma influência?

— Uma influência muito grande. Autoriza-me a servir-me dela?

— Sem hesitar, e de todo o meu coração.

— Considere então o negócio como feito, porém com uma condição, é que não falará de mim ao senhor Volnay, e até nova ordem não lhe dirá palavra do importante negócio que aqui acabamos de tratar.

— Às mil maravilhas...

— Queira assinar-me este recibo. Vou contar-lhe cem mil francos.

 

Minutos depois, Lazarine louca de alegria, deixava a agência, levando consigo um pequeno embrulho envolvido num jornal, e composto de dez maços de bilhetes de banco de dez mil francos cada um.

Assim que ela fechou a porta, apareceu Fossaro.

— Bravo, meu belo sócio, exclamou ele rindo, isso é que foi trabalho bem feito! O ramo mais novo dos Tour-du-Roy foi uma verdadeira mina! A formosa Marquesa vai toda alegre como se não deixasse nas nossas mãos as mais brilhantes penas das suas asas!

— Três milhões! exclamou Malpertuis. É uma bonita conta!

— Enquanto esperamos pelo quarto, que nos há de vir de Fernando Volnay, ocupa-te do comediante o mais depressa que possas.

— Vê-lo-ei amanhã, e sei o que lhe devo dizer.

César voltou para os seus aposentos esfregando as mãos.

O ex-procurador tornou a sentar-se à sua secretária, preencheu os intervalos em branco de uma caria de convite para o dia seguinte, meteu a carta no sobrescrito, e endereçou-a paro Fernando Volnay, artista dramático, na vivenda Montespan, e incumbiu um dos empregados do escritório de ir deitá-la no correio.

Lazarine dera ordem ao cocheiro para a conduzir à Avenida de Eylau.

Pelo caminho refletiu no que acabava de se passar, no dinheiro que ela pagava por bom preço, no negócio de burla que ela tão levianamente concluíra, mas teve todo o cuidado de se não deixar possuir de idéias tristonhas.

Tinha ali sobre os joelhos os cem mil francos, realizaria três milhões em breve prazo, e dentro de alguns dias Fernando Volnay seria seu marido.

Não sucedia tudo pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis?

"Risonha e alegre apeou-se da carruagem, à grade da vivenda Montespan, e subiu ligeiramente os degraus do palacete.

Ela tinha toda a certeza de ser bem recebida, porque levava dinheiro ao comediante.

 

UMA AGÊNCIA DE CASAMENTOS

Naquela tarde, no momento em que ia para o teatro, Fernando Volnay recebeu a carta em que Malpertuis lhe pedia que fosse ao escritório no outro dia às quatro horas, para negócios que lhe diziam respeito.

Fernando Volnay não pôde deixar de murmurar:

— Espera lá, os aplausos e o amor fizeram-me esquecer que eu devia dinheiro a este homem e prometera levar-lo. Mas ele lembra-se. Pois muito bem, terá amanhã capital e juros, e restituir-me-á certo papel que eu já há muito tempo devia ter retirado.

No dia seguinte à hora indicada, Miguel, o contínuo de fato pardo, introduzia o comediante no gabinete de Malpertuis.

O ex-procurador levantou-se para o receber e disse-lhe no tom mais amigável:

— Querido senhor Volnay dê-se ao incomodo de se sentar.

— Que mudança! pensou o mancebo sentando-se numa cadeira de trabalho. Há dois meses este agente tratava-me do alto da sua grandeza, hoje ei-lo um torrão de açúcar. O que é a glória!

— Quando o senhor falava do seu talento, do seu futuro, dizia a verdade, continuou Malpertuis. Fi-lo a caminho, ei-lo célebre; põe Paris em alvoroço! Os meus cumprimentos! Fernando retorquiu todo lisonjeado:

— O público efetivamente mostra-me uma grande benevolência, mas isso não devia ter feito esquecer-me que eu sou seu devedor.

— Ora adeus, eu tinha-lhe dado todo o tempo possível. Se lhe pedi que viesse hoje ao escritório, não foi só para lhe lembrar essa bagatela.

— Tem mais alguma de que me falar? exclamou o ator muito surpreendido.

— De cousa muito mais importante.

— O senhor faz-me cismar, confesso.

— Tenha paciência. Vou direito ao meu fim, e a despeito das leis da conveniência, transporei o muro da sua vida privada. A par das suas fortunas de teatro, tem sido fortunas de outro gênero, e fortunas muito lisonjeiras.

— Mas, senhor, interrompeu Fernando.

— Oh! Não negue. Estou ao fato dos seus amores como o mais bem informado dos cronistas da imprensa parisiense. O senhor é amante da Marquesa de la Tour-du-Roy que o adora e faz loucuras por sua causa.

Fernando tornou-se cor de púrpura, e quis falar.

— É inútil interromper-me, continuou Malpertuis com vivacidade, a Marquesa faz loucuras. Está no seu direito, porque é viúva, mas a família do seu marido tem razão para achar desagradável a fama galante que ela dá neste momento ao generoso nome de la Tour-du-Roy. O senhor tem demasiada agudeza de espírito para não compreender isto...

— Compreendo-o, senhor, balbuciou o comediante. Mas com que fim?...

— Com que fim me ocupo de uma cousa que na sua opinião não me diz respeito?

— Exatamente.

— Pois meu querido senhor, sucede que a cousa me diz respeito, pelo contrário, e eis por quê. O representante do ramo mais novo dos Tour-du-Roy, ignorando que eu o conheço, e trabalhando por conta de um conselho de família, incumbiu-me de tomar informações precisas e circunstanciadas, acerca do presente e do passado do senhor Volnay.

O comediante fez-se pálido de cólera...

— São imperiosas tais investigações! exclamou.

— São, pelo contrário, muito naturais. Se a Marquesa dilapida a fortuna, é por sua causa, meu querido senhor. O senhor Volnay é o instigador da sua ruína.

— Eu sou o instigador?

— Com toda a certeza!A Marquesa fez-lhe presente do palacete da Avenida d'Eylau. Estragou um milhão que lhe pertencia propriamente. Vendeu os diamantes... procura vender a mobília... Recebeu e despendeu antecipadamente os rendimentos de um ano. Tudo se funde nas suas mãos... Se estes fatos, mais indiscutíveis uns que outros, chegam ao conhecimento do conselho de família, far-se-á de certo declarar pelos tribunais a incompetência da senhora de la Tour-du-Roy, tirar-lhe-ão a administração dos bens do filho, e por conseguinte gozo dos rendimentos, finalmente, procurar-se-á a sua interdição.

— Então a Marquesa ficará perdida?

— Sim, perdida, se eu falar. Mas eu posso calar-me, ou por outra forma, posso par a seu respeito as melhores informações, e fazê-lo passar como um rapaz um pouco leviano talvez, mas honrado, leal, cheio de futuro...

— Que sucederia então?

— O conselho de família, desejando primeiro que tudo, que a formosa viúva deixe de usar o nome de la Tour-du-Roy, faria a proposta para o senhor a desposar.

Fernando repetiu muito cheio de assombro:

— Desposá-la... e ela consentiria?

— Tem-lhe amor bastante para lhe sacrificar o seu título, esteja certo.

— Mas, senhor, se as rendas de Lazarine estão comprometidas, como diz, e como eu creio, condenar-me-ia à miséria casando com ela.

— Espere lá... A família daria três milhões à Marquesa, e a propriedade absoluta dos três milhões ser-lhe-ia reconhecida.

 

As palavras: três milhões, descerraram aos olhos de Fernando Volnay uma radiante miragem.

Viu-se à testa daquela. Tertúlia gigantesca com que sonhava, e de que falara ao senhor de Fossaro.

— Que pensa de tudo isso? continuou Malpertuis.

— Penso que este casamento, em tais condições, seria a garantia da minha felicidade.

— Este casamento depende do senhor. Dar-me-á muito simplesmente um milhão do dote. Vendo-lhe a minha consciência pos este preço... Se acha que é muito caro, não falemos mais nisso.

— Que sucederia?

— Mandava ao representante do conselho de família informações sérias, e juntava-lhe a declaração escrita pelo senhor aqui mesmo a respeito de certos bilhetes assinados com um nome falso... Talvez se sirvam daquela declaração para o deitarem a perder. É possível. É até provável... Que decide?

— Oh! senhor, não hesite... Era inútil ameaçar-me... Pagar-lhe-ei do dote um milhão...

— Restar-lhe-ão dois... e tenho a firme convicção de que hão de frutificar entre as suas mãos. Um sujeitinho do seu quilate deve ter idéias.

Fernando sorriu-se.

— Sente-se á minha secretária, continuou Malpertuis, e escreva O que vou ditar.

"Eu, abaixo assinado Fernando Volnay, artista dramático e proprietário, morando em Paris, na Avenida d'Eylau, vivenda Montespan, declaro ter recebido do senhor Malpertuis a quantia de um milhão, que me obrigo a pagar-lhe a ele ou à sua ordem, dentro das quarenta e oito horas, que se seguirem ao meu casamento com Lazarine Leroux, viúva do Marquês de la Tour-du-Roy."

— E depois? perguntou Fernando Volnay.

— Date e assine, e mais nada... Fica bem entendido que a Marquesa não deve suspeitar da combinação que houve entre nós... e que até ignore a nossa entrevista.

— Serei mudo.

— Conto com isso. No dia em que eu receber o milhão estipulado, entregar-lhe-ei os bilhetes de Marselha e a sua comprometedora declaração.

— Senhor, eu vinha pagar-lhe e retirar esses papéis.

— E eu quero conservá-los até nova ordem.

— Contudo...

— Oh! não insista... Nunca revogo uma decisão tomada... A nossa conferência está terminada... Até a vista, caro senhor.

O ex-procurador apertou a mão de Fernando, reconduziu-o e fechou após si a porta do gabinete.

Tornando a sentar-se no seu lugar, disse pondo novamente os papéis em ordem.

— Mais um negócio liquidado. Tudo caminha! Basta de trabalho por hoje... Vou regalar-me com um bom jantar no restaurante, e dar uma volta pelas Folies Bergères.

 

Eram nove horas da noite.

Pedro Carnot, o cego de um olho, subiu lentamente a Rua da Crimée, por trás do Largo das Buttes Chaumont, em direção ao chalet da Rua Compans.

Chegando ao muro, tirou uma chave da algibeira, abriu uma portinha, atravessou o jardim, e com auxílio de uma segunda chave, introduziu-se no chalet.

Desde o regresso a Paris do Barão de Fossaro, na sua volta de Genebra, a casinha rústica tinha estado desabitada.

Entendera conveniente mandar Margarida Vernaut passar alguns dias no campo, para os lados de Chantilly.

César entrou na sala principal do rés-do-chão.

Esta sala estava úmida e glacial.

Principiavam os frios que faziam prever um inverno rigoroso.

As primeiras camadas de neve cobriam a terra, e apenas se fundiam no meio-dia.

No fogão havia um montão de lenha já preparada.

O senhor de Fossaro largou-lhe fogo, acendeu uma vela e sentou-se diante do fogão.

Olhou distraidamente para as chamas que crepitavam, e para as achas que estalavam e se fendiam.

Com certeza que o seu pensamento vagava longe dali.

Em que pensava?

No passado cheio de trevas, no futuro resplandecente.

Contemplava em meio de um clarão de apoteose, os milhões acumulados pelos seus crimes, e calculava a soma de prazeres e de gozo que aqueles numerosos milhões lhe iam proporcionar, quando se retirasse do negócio, como um honrado industrial, depois de fazer fortuna.

Fora reinava grande sossego.

A neve principiava a cair.

As ruas daquele bairro isolado estavam desertas e silenciosas.

 

Quatro homens, muito bem agasalhados, com o rosto meio oculta sob fartos cachenês, deslizavam ao longe das paredes como sombras, andando sem ruído.

Estes quatro homens fizeram alto junto da porta por onde Fossaro se introduzira um pouco antes.

Havia um a quem os outros três obedeciam.

Era Daniel Gaillet.

— É aqui, disse ele.

— O que substituiu Daniel, perguntou-lhe:

— Agora que vamos fazer?

— Uma coisa muito simples, respondeu Daniel Gaillet. Eu vou escalar o muro com um de vocês. Quando nos acharmos no jardim, iremos colocar-nos à direita e à esquerda da entrada do chalet. Daqui a cinco minutos o senhor baterá a esta porta.

— Há uma campainha, observou um dos agentes.

— Em vez de bater, tocará a campainha.

— E depois?

— Depois, como o nosso homem não desconfia, porque espera alguém, virá abrir, e filá-lo-emos na passagem. Isto deve caminhar perfeitamente.

— Mas se for preciso prestar-lhe auxílio? tornou o agente subalterno.

— É exato... Abrir-lhe-emos a porta lá de dentro, mas só em caso de necessidade deverá aparecer...

— Fica entendido...

— Sirvam-me de escada, tornou Daniel, sou o primeiro a entrar...

O polícia mais robusto cruzou as mãos no ventre e encostou-se na parede.

Daniel serviu-se daquela escada improvisada, para subir para os ombros do colega, e dali para o muro.

Apesar de já não ser moço, conservava, então, graças à regularidade da sua vida, um vigor pouco comum.

Suspendeu-se pelos pulsos à aresta do muro, e deixou-se cair no jardim.

Um segundo agente seguiu o mesmo caminho, e achou-se ao pé do inspetor.

— Meu amigo, era inútil, era inútil a sua escalada, disse o inspetor abrindo a porta que estava apenas no trinco.

Depois, acrescentou, falando aos outros dois agentes:

— Não se mexam, e de revólver em punho!

Feita esta recomendação, Daniel e o seu companheiro, caminhando pela neve, cuja camada pouco espessa ainda, abafava o ruído dos passos, dirigiram-se para o chalet.

Através das águas de uma das persianas do "rez-de-chaussée" infiltravam-se umas réstias de luz.

Os dois homens postaram-se à direita e à esquerda da porta, empunhando cada um o seu revólver engatilhado, pronto a fazer fogo.

Imóveis e silenciosos como cariátides, esperaram.

O frio chegava ao vivo, repetimos, do negro céu caíam grandes flocos de neve.

Daniel tinha os pés gelados, e contudo, um suor abundante umedecia-lhe a raiz dos cabelos.

A febre escaldava-lhe o sangue.

O coração parecia querer saltar-lhe do peito.

Decorreram assim alguns minutos, depois, no relógio, ao longe, deram dez horas.

À última badalada, respondeu o tinir da campainha, agitada por um dos agentes.

Gaillet já não respirava.

Na chalet Pedro continuava a cismar, atiçando com mão distraída os toros inflamados.

Ao ruído da campainha estremeceu e levantou-se rapidamente.

— É ela, murmurou com um sorriso feroz. Aí está, apesar das suas veleidades de resistência, continuo a dominá-la. Obedece, portanto sente-se vencida, e resigna-se a ser Duquesa. Tinha já a certeza disso.

Levantou-se e correu para a porta que abriu para sair.

Mas parou repentinamente aterrado.

Soltou um grito de raiva.

Dois homens impediam-lhe o caminho.

Apontavam-lhe os seus revólveres.

Ao mesmo tempo dizia-lhe ao ouvido uma voz sibilante:

— Tenho esperado por muito tempo, mas apanhei-te finalmente, Pedro Carnot, e não te tornarei a largar.

 

A FERA NO LAÇO

Ao ouvir o seu verdadeiro nome proferido por aquela voz, o zarolho dirigiu o seu único olho para aquele que acabava de falar. Reconheceu-o logo.

— Daniel Gaillet! exclamou aterrado.

— Sim, replicou o inspetor, sim, Daniel Gaillet, o pai da tua vítima! Não te matei há dezesseis anos porque eu contava com os juízes para a vingança de minha filha, e para te mandarem ao cadafalso... Enganava-me, mas não perdia a esperança, porque sabia que um dia virias fatalmente cair-me nas mãos em conseqüência de novos crimes! Procuro-te há dez anos... Hoje, tenho-te nas mãos, e desta vez não estou com medo de que a justiça se mostre clemente! Condenado fugido das galés, prometo-te a guilhotina! Em nome da lei, prendo-te. Dá cá as mãos para te algemarem!

As palavras de Daniel Gaillet não chegavam ao ouvido de Fossaro senão como um murmúrio quase indistinto.

A idéia de que soçobrava exatamente quando chegava ao porto do destino, fazia-lhe perder a cabeça.

Paralisava-o o desvanecimento dos seus sonhos.

Entrevia o cadafalso no meio de uma nuvem de sangue.

— Dá cá as tuas mãos! repetiu Daniel Gaillet.

Desta vez Fossaro ouviu.

Em lugar de obedecer, recuou de súbito, e ocultou os braços atrás das costas.

— As tuas mãos, ou faço-te saltar os miolos! exclamo o inspetor chegando o cano do revólver às fontes do miserável.

Fossaro compreendendo que Gaillet não hesitaria em dar ao gatilho, submeteu-se.

Puseram-lhe as algemas.

— Vão buscar-me a carruagem! gritou Daniel aos agentes que tinham ficado à porta do jardim.

Um deles partiu a correr, o outro dirigiu-se para casa.

— Agora, prosseguiu o inspetor dirigindo-se a um dos homens, vai ficar aqui até o meu regresso, porque tenho de proceder a uma busca. Fechar-se-á por dentro, não abrirá a porta seja a quem for, finalmente, não dará sinal de vida senão à minha chamada, quando reconhecer a minha vox...

— Está combinado, meu inspetor, volveu o agente.

 

Como os nossos leitores sabem, Fossaro, tanto no moral, como no físico, era de uma tempera vigorosa.

Durante a troca das poucas palavras precedentes, recuperara todo o sangue trio.

— O senhor prende-me, disse ele, tenho o direito de saber em virtude de que mandado...

Daniel tirou da algibeira a ordem entregue pelo substituto, abriu-a e pô-la ao alcance da vista do zarolho.

— Quem assinou isso?

— Veja.

E Gaillet apontou para a assinatura do substituto.

Fossaro leu o nome de Armando de Logeryl, e não pestanejou.

Aquele nome dizia-lhe tudo quanto queria saber.

Tornou:

— É então por ter fugido das galés que me prende? A ordem de prisão não declara nenhum delito.

— A minha missão não é responder.

— Tem razão. Posso pelo menos saber aonde me vai conduzir?

— Verá...

César compreendeu que Daniel Gaillet não falaria. Calou-se.

Tornou ao silêncio.

Mas já não era aniquilamento, era reflexão.

Da banda de fora ouviu-se um rumor abafado, que cessou de repente.

O agente mandado em busca do trem, tornou a aparecer.

— A caranguejola está lá em baixo, disse.

— A caminho! ordenou Daniel Gaillet.

Fossaro dirigiu-se para a porta escoltado pelo inspetor e pelos agentes.

Um dos agentes subiu primeiramente para o trem.

Em seguida subiu o Barão, junto do qual se sentou Daniel.

O terceiro polícia instalou-se na almofada, ao pé do cocheiro.

O trem partiu.

O que ficou de guarda à casa fechou a porta da rua, depois a porta da casa, ateou o lume do fogão, sentou-se. pôs os pés na cinza quente, acendeu o cachimbo e esperou.

 

O trem rodava lentamente.

A neve meio fundida, congelava-se ao tocar na calçada, e tornava difícil o caminhar dos cavalos.

No interior da carruagem, não se proferia uma palavra.

Dava meia-noite quando parou o veiculo.

Daniel saltou com toda a presteza do lado direito, ao mesmo tempo que os outros dois agentes guardavam a portinhola da esquerda.

Num tom breve ordenou:

— Apeie-se!

Fossaro obedeceu, e olhou para a frente do edifício que tinha diante de si.

Reconheceu-o imediatamente.

— A prisão de la Santé, disse consigo. Não é um cárcere. Que significa isto?

O inspetor tocara; a porta abriu-se.

O preso e os guardas penetraram no cárcere.

— Um recluso, disse Daniel ao chefe dos guardas. Eis a ordem de prisão e uma carta do substituto para o diretor.

O chefe dos guardas pegou na carta, examinou a ordem e replicou: — Está em regra... Podem tirar as algemas a esse homem, respondo por ele...

O preso foi desalgemado.

O inspetor tornou:

— Assine-me um recibo. A minha missão está concluída, e vou-me embora...

— Não há nenhuma recomendação particular? perguntou o guarda enquanto passava o recibo.

— Nenhuma.

— Eis o que quer.

— Obrigado.

Daniel deitou para o preso um olhar de triunfo, meteu o recibo na algibeira, e dirigiu-se com os agentes para o trem que devia reconduzi-los à Rua Compans.

 

Fossaro ficou em companhia de dois guardas e do chefe, este perguntou-lhe:

— Não traz armas consigo?

— Já me revistaram, respondeu César.

— E dinheiro?

— Alguns luíses... três ou quatrocentos francos, parece-me.

— Então toma um quarto?

— Tomo.

— Deponha o dinheiro...

O zarolho tirou da algibeira um "porte-monaie" cujo conteúdo deitou em cima da mesa.

O guarda contou e viu que havia trezentos e setenta francos.

— Tem aqui com que se instalar muito convenientemente... disse. Deixo-lhe dois luíses. É permitido ter aqui algum dinheiro. Quando se lhe acabar, peça-me mais.

Fossaro embolsou as duas moedas de ouro.

— Agora, acrescentou o guarda, vou dar-lhe lençóis e conduzi-lo à célula. Amanhã pela manhã fá-lo-ão descer ao escritório, para lhe tomarem os sinais. Venha.

Cinco minutos depois. Fossaro estava só, e perguntava a si próprio de onde podia ter vindo o golpe imprevisto que o fulminava.

Não era duvidosa a resposta a esta pergunta.

A assinatura que figurava na parte superior da ordem, bastara para o esclarecer.

Na sua opinião era evidente e indiscutível que o negócio da Duquesa de Chaslin era a causa da sua prisão.

Mas naquele caso Branca havia falado.

Parecia-lhe impossível.

Branca não podia tê-lo traído.

E contudo, quem, salvo a jovem, podia ter dado a indicação do chalet da Rua Compans?

Quem, excetuando Branca, sabia que ele ali estaria às dez horas da noite?

Como explicar aquilo?

Talvez a filha de Clara Gaillet estivesse presa... talvez louca de terror, houvesse confessado o crime de que se sentia cúmplice, e denunciado, sem querer, toda a verdade.

Como era então que o motivo da acusação não se especializasse na ordem da prisão?

Geralmente, não se têm cerimônias com um homem acusado de um crime capital.

Conduzem-no ao Depósito, depois a Mazas, onde o põem em segredo no começo da instrução.

Com ele não se dava nada disto.

Encarceravam-no, ou melhor dizendo, encerravam-no na casa de la Santé, prisão reservada às pessoas condenadas pelos tribunais correcionais a penas mínimas por delitos sem gravidade.

Muito longe de o meterem no segredo, admitiam-no no quarto particular.

Não existiam portanto contra ele senão suspeitas, e Branca, se estivesse presa, devia achar-se no mesmo caso.

Fossaro lembrava-se do que lhe dissera a falsa Adriana a respeito dos pressentimentos e das suspeitas da menina de Chaslin.

Recordava-se também do grânulo caído do frasco sobre o tapete.

Portanto, o senhor de Logeryl procedia contra ele independentemente do tribunal, e sob a sua própria responsabilidade.

Só se tratava de Pedro Carnot, ou antes de Pedro Rédon.

Não se tratava, não se podia tratar do Barão de Fossaro.

Ninguém, nem mesmo Branca, suspeitava do mistério daquela dupla individualidade.

Era preciso portanto, que Pedro Rédon preparasse os seus meios de defesa, e estivesse apto para arrostar tudo, mesmo uma acusação baseada em fatos positivos.

César de Fossaro sorriu de modo estranho e murmurou:

— O substituto julga que tem a mão cheia de trunfos, mas não é de força a lutar comigo...

 

Tranqüilizado por estas reflexões, deitou-se na cama, e dormitou conforme pôde até pela manhã.

Ao romper do dia estava de pé.

Tirou a sua carteira da algibeira lateral do jaquetão que não tinham revistado.

A carteira continha três bilhetes de mil francos, e vários papéis.

Por um exame atento, o Barão certificou-se que nenhum destes papéis o podia comprometer, como também o não comprometiam as notas inscritas numa das páginas.

Depois disto, fez no pano do seu colchão uma fenda.

Escondeu ali os bilhetes do banco, depois esperou que o viessem buscar para o levarem à casa do assento, o que não tardou.

Inscreveram-no no livro de entrada, tomaram nota dos seus sinais, e tornaram a levá-lo para a célula que devia ficar aberta até a hora regulamentar em que à noite se fechava a prisão.

 

Os presos iam de porta em porta, cumprimentavam-se e conversavam de coisas indiferentes para se distraírem.

O zarolho mostrou-se muito benévolo.

Era um recém-chegado, o quanto bastava para despertar a curiosidade geral.

César de Fossaro julgava-se fisionomista. Tinha presunção de que em dez vezes nove não se enganava, ao avaliar qualquer à primeira vista.

Conversava ao pé da porta da célula com um preso, a quem explicava da maneira mais fantasiosa os motivos da sua prisão, julgando-se condenado por delitos de imprensa.

Um mancebo de vinte e três ou vinte e quatro anos, tendo na mão um pequeno embrulho, aproximou-se e disse ao interlocutor do Barão:

— Antes de me ir embora, venho apertar-lhe a mão. Vão chamar-me para me porem ao fresco. Daqui a meia hora estou ao ar livre.

— Você tem sorte... murmurou o preso... Ainda me faltam oito dias, e principio a aborrecer-me horrivelmente!

— Ora adeus! Uma semana passa depressa! Quer alguma coisa lá para fora?

— Não, meu caro. Vem ver-me de dois em dois dias. Obrigado.

Fossaro estremecera.

— Senhor, disse para o mancebo, cuja fisionomia apresentava uma expressão de franqueza, sou um condenado político, tenho portanto o direito de me dizer honrado... Apesar de ser para o senhor um desconhecido, permita-me que lhe peça um serviço.

— Prestar-lho-ei se estiver na minha mão... De que se trata?

— Simplesmente de deitar um bilhete no correio.

— Isso é fácil, com a condição de que não tenha muito que escrever, porque me vão chamar de um momento para o outro.

— Bastar-me-ão dois minutos...

— Avie-se, portanto...

O primeiro preso tomou a palavra:

— Tendo chegado ontem à noite, disse, é possível que não tenha o que lhe é preciso para uma correspondência... Entre na minha célula, senhor... achará em cima da mesa papel, pena e tinta.

César apressou-se logo a aproveitar este amável oferecimento, e traçou rapidamente as linhas seguintes:

"Estou num quarto particular, na prisão da Santé. Vá a minha casa e tire dos autos do faubourg Saint-Honoré uma carta datada de Roche sur Loire. Terceira prateleira da biblioteca de segredo. Preciso dessa carta, custe o que custar. Não seja inquieto.

Seu P. R.

 

Fechou isso num envelope, e sobrescritou:

 

"Senhor Malpertuis.

Agente de negócios,

Rua da Vitória.

Pessoal."

 

Dirigindo-se novamente ao mancebo, e dando-lhe a carta, disse-lhe:

— Aqui tem, é negócio urgente, muito urgente, afianço-lhe...

 

OS RECURSOS DE MALPERTUIS

O que ia sair solto olhou para a carta, e disse: É escusado deitá-la no correio... Eu mesmo a levarei... vou para os lados da Rua de Provence.

— Presta-me um serviço, um grande serviço! replicou Fossaro.

— Com bem pouco incômodo, senhor... Mas onde demônio hei de meter esta carta, para que os guardas não dêm por ela... Se por acaso me revistassem à saída?...

— No seu chapéu, dentro do forro.

— Espere lá, é uma idéia...

— Não é nova a idéia, mas parece que sempre prova bem.

O mancebo tirou o chapéu, e procedeu à operação indicada por César.

Era tempo.

Um guarda chamou:

— Senhor Lebarrois... ao escritório.

O que saía solto trocou vários apertos de mão, e seguiu o guarda. Uma hora depois, a carta de Fossaro chegava às mãos de Malpertuis.

— A letra de César! murmurou Malpertuis muito intrigado. Rasgou o envelope, e logo às primeiras palavras tornou-se lívido.

— Preso! exclamou com terror. Por quê? Todo trêmulo continuou a leitura. Quando concluiu, tornou:

— Eis um mau negócio! A prisão de Pedro não será o desabamento dos trabalhos de dez anos? Quando ainda era tempo repetia-lhe que parasse. Não quis! Que se passa? Vou viver em terríveis aflições até que me seja revelada a palavra do enigma... Entretanto, César ordena, devo obedecer... Preciso, custe o que custar, de uma carta datada da Roche sur Loire, e que está nos autos do faubourg Saint-Honoré. São os autos da família de Chaslin... Por acaso terá Branca, feito das suas? Tenho dó dela, porque Pedro Carnot mataria a filha como matou a mãe... Terceira prateleira da biblioteca à esquerda... Vamos...

Malpertuis fez girar a porta oculta, e entrou no gabinete de trabalho de Fossaro.

Depois de cinco minutos de pesquisas, voltava para o seu gabinete com a carta datada de la Roche sur Loire. e dirigida pelo Duque à Duquesa.

Como era natural leu-a. Sorriu e exclamou:

— Oh! Oh! Pedro tem razão dizendo-me: Não esteja inquieto! Está perfeitamente defendido com esta carta... Mas como fazer-lha chegar às mãos? Ir ter com ele, para lha entregar secretamente, seria comprometer-nos a ambos... perder-nos talvez... É preciso procurar alguma coisa engenhosa.

 

O ex-procurador pôs-se a refletir.

De repente uma expressão alegre iluminou-lhe o rosto.

Achara o que procurava.

Depois de guardar a preciosa missiva num envelope sem direção que guardou na sua carteira, Malpertuis vestiu o sobretudo, pôs o chapéu, encarregou o empregado principal de atender os clientes na sua ausência, e dirigindo-se ao palácio da justiça, procurou a repartição das multas, onde era muito conhecido, porque ai ali muitas vezes pagar por clientes seus.

Perguntou pelo chefe da repartição.

O empregado que estava na cobrança, respondeu-lhe cumprimentando:

— Sim. senhor Malpertuis, está acolá, no seu gabinete. Oh! pode entrar...

O chefe da repartição acolheu cordialmente o ex-procurador com estas palavras:

— Que bom vento o traz por aqui? Posso ser-lhe útil? — Pode, sim.

— Em quê?

— Pode ajudar-me a reparar um erro imperdoável que cometi.

— Que me diz?

— Imagine que ontem um pobre homem foi levar-me algum dinheiro, para que eu pagasse por ele uma multa resultante de uma sentença correcional proferida há três dias. O bom do homem tinha de partir para o campo. Deixou-me o nome. a morada, a citação, o dinheiro, e perdi tudo, menos o dinheiro...

— Oh! demônio! Se não sabe como se chama o seu cliente, de ocasião, será difícil.

— Se visse o seu nome escrito, talvez me lembrasse.

— É justo, isso sucede muitas vezes... Vou proporcionar-lhe os meios de tentar a experiência...

E o chefe deu ordem ao empregado para mostrar a Malpertuis as sentenças correcionais da semana.

O ex-procurador compulsou uns vinte autos, e tomou a seguinte nota na sua agenda:

"Fernando Gardel, comerciante de feira, Rua das Auvierges, 29, em Belleville, contravenção aos regulamentos, e resistência a um agente de autoridade; cinco dias de prisão, 25 francos de multa. Custas 47 francos e 75 cêntimos."

— Achei o meu homem, disse em voz alta, Fernando Gardel, e vou pagar-lhe por sua conta 72 francos e 75 cêntimos. Passar-me-á um duplicado do boletim, se me faz favor.

— O que quiser.

— Tem cinco dias de prisão, disse o empregado.

— Sim, com o seu recibo e o seu boletim, o nosso homem não tem mais que apresentar-se na Santé, não é verdade?

— Vou dar-lhe um boletim para a Santé.

 

Malpertuis agradeceu e voltou para o trem que o trouxera.

Fazendo-se conduzir a Belleville, à Rua Auvierges, achou Fernando Gardel num pequeno quarto, cuja aparência mais que modesta, indicava senão a miséria, pelo menos a falta de meios.

— O senhor não me conhece, disse ao vendilhão, mas eu conheço-o, e venho aqui para lhe ser útil... com utilidade alheia, já se vê. Eu me explicarei sem perífrases. Venho da repartição das multas... O senhor tem que lá pagar 72 francos e 75 cêntimos...

— Sim, senhor, recebi aviso, e estava agora perguntando a mim mesmo onde e como encontrarei esta quantia, que parece não valer nada. e que para mim é enorme...

— Pois está paga, anunciou Malpertuis.

— Ora adeus!

— Aqui está o recibo.

— E é verdade... Paga! Mas por quem?

— Por mim... Não me pergunte porque, vai saber. Além da multa tem cinco dias de prisão.

— Disseram-me que se quisesse, teria quinze dias para me defender.

— Não tem uma hora. Aqui está o seu boletim para a prisão da Santé, prisão encantadora, onde uma pessoa está como em sua casa... melhor talvez que em sua casa.

— Lá isso é verdade, confirmou o vendilhão olhando em redor de si com ar desanimador.

— Agora aqui tem duzentos francos em ouro para não se privar de coisa nenhuma, e tomar um quarto particular, porque é indispensável.

E dizendo isto. Malpertuis apresentou em cima da mesa de madeira em ouro o recibo, o boletim, o bilhete de mil francos, e as dez moedas de ouro.

— Mas senhor, exclamou Gardel estupefato, tem então precisão de que vá para a prisão da Santé?

— Já se vê!

— Devia ter logo dito isso...

— Estou dizendo...

— O senhor não tem a pedir coisa que seja indigna?

— Avalie: trata-se de passar esta carta de maneira que não seja vista no cartório, e entregá-la a um preso.

— Mais nada?

— Mais nada.

— Estou às suas ordens. O nome do preso? Porque não vejo nada escrito no envelope.

— Pedro Rédon...

— Cá me fica!... Quando nos pomos a caminho?

— Já. Vou acompanhá-lo... Pegue em alguma roupa...

— É escusado... Cinco dias passam-se depressa...

— Não é tanto assim.

— Mudei de roupa esta semana, e não sou homem de luxo. Só preciso do tempo para ocultar a carta.

— Vamos a isso.

— Não leva muito tempo, verá.

Gardel despiu o paletó, um paletó quente, forrado de algodão debaixo dos braços.

Descoseu o forro, meteu a carta e o bilhete de mil francos entre os dois chumaços de algodão, e tornou a fechar a costura com muita habilidade.

— Pronto! disse em seguida, tornando a vestir o paletó. Não se vê, nem se conhece! O mais esperto não seria capaz de descobrir a gíria!

Malpertuis passou duas ou três vezes a mão pelo lugar designado.

Do exame resultou-lhe a certeza de que não era possível encontrar o esconderijo, salvo se houvessem pesquisas minuciosas que provavelmente não se dariam.

— A caminho, disse.

O comerciante pegou no seu cachimbo, no seu tabaco, e na sua chave, e só deixou o agente à porta da prisão, para se entregar na prisão.

 

Desde pela manhã César de Fossaro estava entregue a uma ex-citação nervosa fácil de avaliar.

No seu íntimo, perguntava como é que Malpertuis acharia meio de lhe fazer chegar às mãos a carta preciosa de que parecia depender a sua salvação.

Convencido de que de um momento para o outro seria chamado, ou à presença do juiz de instrução, ou à do procurador da república, ou à do seu substituto, queria ter uma arma para se defender, e sendo necessário, para atacar.

Ora. que arma haveria melhor que a carta do Duque de Chaslin, se alguma imprudência de Branca, a respeito da morte da Duquesa, houvesse dado motivo à sua prisão?

Mas, supondo mesmo que aquela arma chegasse, não chegaria tarde?

Além disto César, censurava a si próprio, não sem amargura, um esquecimento que tivera, e que lhe parecia imperdoável.

Como fora que ele esquecera de acrescentar à sua carta estas palavras: "Saber o que fazia Branca."

A resposta àquela pergunta, bastaria de certo para lançar a luz em meio das trevas.

Aproximava-se a hora da refeição.

 

O moço encarregado de ir buscar os jantares dos presos dos quartos particulares a um restaurante das proximidades, acabava de tomar nota das encomendas, quando um guarda seguido de um indivíduo de fisionomia mais risonha que triste, apareceu na galeria.

O homem trazia dois lençóis no braço.

Ao ruído das chaves e dos passos, tinham aparecido todas as cabeças às portas das células.

— Um novo hóspede... cochichavam as vozes dos presos.

E olhavam todos para o recém-chegado com uma curiosidade que a sua aparência vulgar e sem relevo estava bem longe de justificar. O guarda designou uma célula.

— Aqui é que o senhor fica... disse. Já jantou?

— Não, senhor.

— Quer mandar vir o jantar de fora?

— Quero.

— Muito bem, dirija-se a este rapaz... Ele lhe trará o que o senhor mandar.

— Pronto; não levará muito tempo, porque não sou difícil de contentar.

E Gardel, porque era ele, depois de encomendar uma sopa de cebola, meia dose de carne com convés, duas salsichas, um pedaço de queijo e uma garrafa de vinho, entrou na célula e preparou-se para fazer a cama.

Ta entretanto dizendo consigo:

— Cá estou... Estes cinco dias não me hão de parecer muito compridos. Mil francos! Se quiserem, passarei muitos mais por este preço! Sem falar nos duzentos francos, dos quais gastarei a quarta parte, o muito. Trata-se agora de desempenhar a minha comissão, e depressa, é o que menos me custa. Pagaram-me para isso.

Durante o monólogo, Gardel ia enchendo o cachimbo.

— Bravo! exclamou ele quando concluiu esta operação, não há fósforos! Pois bem, é agora ocasião de travar dois dedos de conversa com os colegas.

Saiu da célula e dirigiu-se para a primeira porta aberta. Parou à entrada.

Um mancebo sentado a uma pequenina mesa, escrevia ao pé da janela.

— Queira perdoar, disse-lhe Gardel, podia ter a bondade de me dar um fósforo? Esqueci os meu sem casa.

— Muito bem, tire-o desta caixa.

— Muito obrigado, meu senhor. Se não é indiscrição, permite-me que lhe pergunte uma coisa?

— Queira dizer.

— Há muito tempo que está aqui?

— Há quinze dias. Exatamente metade do presente que me fez o tribunal.

— Então poderia talvez, dar-me uma informação?

— Qual?

— Conhece um preso chamado Pedro Rédon?

O mancebo ia responder de modo negativo, quando Fossaro saiu da célula vizinha, e disse apresentando-se:

— Pergunta por Pedro Rédon, senhor, sou eu.

Gardel voltando-se, achou-se em frente de Fossaro.

— Nesse caso, senhor, exclamou ele, estou encarregado de lhe transmitir muitos cumprimentos.

— Da parte de quem?

— Da parte de um dos seus amigos da rua da Victoria.

César teve um estremecimento de alegria.

— Ah! exclamou, conhece o meu amigo da rua da Victoria? Venha comigo, vamos falar dele.

Assim que se achou na sua cédula. Fossaro fechou a porta.

— Traz-me uma carta? perguntou com vivacidade e em voz baixa.

— Trago.

— Dê cá.

— Um pouco de paciência, é preciso descoser.

E o comerciante despindo o paletó, repetiu o trabalho que vimos fazer em Belleville.

Depois introduziu dois dedos na abertura, tiro na carta que deu ao Barão, e acrescentou:

— Eis o que é... A minha comissão está desempenhada.

Fossaro rasgou o envelope, que não tinha direção, e tirou a carta do Duque.

Na pupila do seu único olho brilhou um fulgor de triunfo. Sentia-se agora forte, quase invulnerável.

 

OS ARTIFÍCIOS DO CIÚME

A formosa mulher de quem ouvimos Fernando Volnay falar ao Barão de Fossaro, e que depois de ter dado mal francos por um camarote de boca para a primeira representação do drama do Ambigu, mandava todas as noites ao comediante um ramo de quinze luizes, não era outra senão Genoveva, como os nossos leitores hão de ter compreendido.

A ex-amante do principezinho cada vez estava mais apaixonada pelo belo rapaz que quisera raptar á Marquesa de la Tour-du-Roy, e Fernando começava a entusiasmar-se extraordinariamente por aquela admiradora entusiástica do seu talento e da sua pessoa; mas a vigilância incessante de Lazarine. como pouca ou nenhuma liberdade lhe deixara, demorava um desenlace esperado e desejado de parte a parte com febril impaciência.

Por duas ou três vezes, deixando a vivenda Montespan sob pretexto de ensaios, fora ao "boulevard de Malesherbes. na esperança de precipitar esse desenlace.

Genoveva não entendia as coisas assim.

Respondia-lhe redondamente:

— É verdade que estou louca pelo senhor, mas recuso aceitar a esmola de uma hora subtraída à sua amante pública. Tudo ou nada. eis a minha divisa. Tenha a coragem de se libertar. Venha cá depois do espetáculo, achará ceia. agasalho e o mais. Até lá, meu queridinho, nada, mesmo nada.

O comediante, em quem o interesse falava mais alto do que o capricho, recuava diante de um rompimento completo com a Marquesa, e dava tratos à imaginação.

A situação poderia ter-se prolongado assim indefinidamente, mas no dia que se seguiu à sua entrevista com Malpertuis, Lazarine recebeu uma carta anônima que modificou extraordinariamente as coisas.

O autor desta carta, um ator de ínfima ordem, muito invejoso das fortunas de toda a espécie de Fernando Volnay. avisava a "Marquesa de que ela fazia o ridículo papel de um mulher enganada pelo amante com uma rival indigna.

Como já dissemos, a senhora de la Tour-du-Roy era ferozmente ciumenta.

Contudo vigiava tanto o ator, julgava-se tanto ao fato dos seus menores passos, que a sua incredulidade foi a principio completa; a reflexão produziu a desconfiança.

No fim de um quarto de hora. Lazarine já não duvidava: sentia-se atraiçoada, e queria ter disso a certeza.

Como chegar a esse resultado?

Nada mais simples, bastava empregar o antigo meio gasto até no fio. e que dá contudo sempre bom resultado, fingiu uma ausência.

 

Com a intuição particular às mulheres apaixonadas, a Marquesa adivinhou que a sua rival não nomeada devia ser Genoveva Leinen, cúmplice da insolência de Heitor na primeira representação dos Beijos Mortais, e cuja assiduidade ela notara muitas vezes, com exaspero, às representações do Ambigu. sempre na mesma frisa de boca.

— É ela, murmurou Lazarine. Tenho a certeza de que é ela! Hei de obter provas disso, e arrancar a essa rapariga o homem quem eu quero fazer meu marido.

O ciúme torna as mulheres hábeis na arte de dissimular. Naquela tarde a senhora de la Tour-du-Roy falou a Fernando com uma fisionomia extremamente triste.

Como de a interrogasse àquele respeito, respondeu:

— Meu querido, tenho um grande desgosto...

— A propósito de dinheiro? perguntou o comediante franzindo as sobrancelhas.

— Sim, a propósito de dinheiro, mas não como tu o julgas, hei de ter dinheiro, havemos de o ter... e até muito.

— Então tudo corre o melhor possível.

— De certo, somente...

— Somente, o que?

— O meu tabelião de Paris com quem estive há pouco, tem necessidade de certos papéis que estão no escritório do meu tabelião de Orleans.

— É preciso pedir-lhos o mais depressa possível.

— Isso já podia estar feito, mas o tabelião só os entregará a mim, e tenho de os ir buscar.

— A Orleans?

— Infelizmente! É o que me apoquenta. Separar-me de ti!

— Oh! por tão pouco tempo. E quando partes, meu amor?

— Esta noite mesmo.

Ao olhar atento e desconfiado de Lazarine, não podia escapar a expressão de alegria indizível que iluminava o rosto do comediante.

Por isso ela disse consigo amargamente:

— Como ele está satisfeito com a minha partida, a carta anônima não mentia. Continuou em voz alta:

— Parto, esta tarde, no comboio das cinco horas e quinze minutos. Terás tempo de me acompanhar ao caminho de ferro, e de voltar em seguida ao teatro para te vestires?

— Isso não admite dúvida, demais se eu me demorasse alguns minutos, tanto pior! O público teria de esperar.

A Marquesa beijou Fernando, como para o recompensar destas boas palavras.

Mas enquanto o abraçava dizia no seu íntimo:

— Hipócrita e mentiroso!

 

A tarde chegou.

Os dois amantes jantaram juntos.

Em seguida o artista acompanhou a amante à gare, viu-lhe tomar o seu bilhete para Orleans, quiz ele próprio instalá-la no compartimento reservado às damas.

No momento da despedida, jurou que pensaria nela constantemente, e fez-lhe prometer que tomaria no dia seguinte sem falta.

E quando o comboio se punha em movimento, voltou para o seu coupé murmurando:

— Até que enfim ela partiu! Estou livre, tenho a minha noite para mim! Que sorte!

Pelas três horas da tarde, Genoveva Leinen recebera um telegrama concebido nos seguintes termos:

"Irei cear contigo esta noite.

"Fernando."

 

E a velhaca dissera como o ator:

— Até que enfim!

 

Lazarine partira de fato, somente ninguém se admirará ao afirmarmos que ela tencionava parar no meio do caminho.

Apeou-se em Étamps, com grande assombro do empregado, a quem ela apresentou um bilhete com destino a Orleans.

Como não queria entrar em Paris muito cedo para não se expor a comprometer, com alguma imprudência, o êxito do seu projeto, dirigiu-se para a cidade, transpôs- o limiar da hospedaria, tomou um quarto, pediu um caldo, bebeu um copo de vinho de Bordeus, de que tinha grande necessidade para se amparar, porque havia jantado aparentemente no momento da separação.

Um pouco depois da meia noite, voltava ao caminho de ferro, tomava o comboio da uma hora e sete minutos, e chegava a Paris às duas horas e meia da manhã.

Tomando um dos trens que passam a noite nas estações dos caminhos de ferro, preveniu o cocheiro de que por certo tomaria o trem por muito tempo, e fazia-se conduzir à vivenda Montespan.

Enquanto o velho trem de aluguel rodava aos solavancos pela avenida de Trocadero, depois de haver seguido pelos cais intermináveis murmurava:

— Mas se a carta anônima tivesse mentido... se eu me tivesse enganado! Que alegria! Que embriaguez!

Durante a noite caíra uma grande quantidade de neve.

O desgraçado cavalo escorregava a cada passo, e não avançava.

Davam quatro horas, quando chegava ao termo da sua corrida.

A senhora de la Tour-du-Roy apeou-se à entrada da vivenda Montespan, tirou duas chaves da algibeira, e com estas chaves abriu sem ruído a grande do pátio e a porta do vestíbulo.

O seu coração, que até àquele momento batia com violência oprimiu-se-lhe de repente.

Num sócio do vestíbulo gastava-se uma vela lentamente no seu castiçal, e o pavio carbonizado espalhava apenas um incerto clarão.

Esta vela colocada no mesmo lugar todas as noites pelo criado de quarto para o dono da casa. parecia demonstrar até à evidência que Fernando não voltara.

Lazarine pegou no castiçal com mão trêmula, subiu a escada, cujos degraus estavam cobertos com um espesso tapete felpudo, e dirigiu-se para o quarto de dormir cheio para ela de inebriantes recordações.

Meio desfalecida, parou à porta, e pôs o ouvido a escuta.

Reinava profundo silêncio.

Nem um ruído, nem um sopro sequer, denunciavam a presença de qualquer criatura viva.

A Marquesa, com as fontes banhadas de suor, o colo palpitante, fez girar a lingueta e abriu a porta.

A corrente de ar produzida por aquele inesperado movimento apagou a vela, e a jovem achou-se então sem luz.

Pôs-se outra vez a escutar.

Nada ouviu.

Pôs o castiçal no chão, entrou no quarto, e sem hesitar dirigiu-se para o grande leito de colunas torcidas, cujo lugar ela conhecia tão bem.

Apalpou as coberturas, procurando um corpo sob o seu tecido macio, e não o achou.

— Vamos, murmurou, já não me resta dúvida... Sou traída! Procurou em cima da mesa de cabeceira uma caixa de fósforos que sempre ali estava.acendeu um, e deitou os olhos em roda de si.

No quarto de dormir reinava a ordem mais irrepreensível.

A cama não fora calcada, nem desmanchada.

Lazarine percorreu sucessivamente o gabinete de trabalho, a sala, o gabinete de fumar, andando com um passo automático semelhante ao de um sonâmbulo.

Voltou para o quarto, deitou para a cama vazia um olhar consternado, murmurando palavras indistintas, depois, lívida como um morto, e os olhos rodeados de uma orla cor de carvão, voltou para o vestíbulo, apagou a vela. saiu do palácio cuja porta fechou,e do pátio, cuja porta empurrou, e voltou para o trem que a trouxera.

A neve tornando a cair cm espessos flocos, tornava os caminhos quase impraticáveis.

— Para onde, freguesa? perguntou o cocheiro.

— Para o boulevard Malesherbes...

— Ó demônio! A minha cocheira é em Grenelle, e com este tempo de mil demônios, desejava voltar para casa. A minha perua já não se tem nas pernas.

— Dois luizes de gorjeta, volveu Lazarine.

— Adiantados?

— Aqui estão...

— Basta, freguesa... Tanto pior para o bicho... Ele que arrebente se quiser... Não é meu... Boulevard Malesherbes... Que número?

A Marquesa indicou o número da casa onde morava Genoveva Leinen, e acrescentou:

— Deverá parar defronte.

— Compreendi.

A senhora de la Tour-du-Roy tornou a subir para o trem. e como o frio a incomodava, levantou os vidros do trem. O cocheiro fustigou o cavalo. Ao mesmo tempo murmurava com uma voz chocarreira:

— É uma senhorita com ciúmes que corre atrás do amante ou do marido. Vai talvez passar-se o bom e o bonito! Gosto destas coisas de mulheres. Divertem!

 

Agachada a um canto do trem, Lazarine fechava os olhos e deixava o espírito entregar-se ao único pensamento que a preocupava.

Via em imaginação a sua rival no fundo do seu camarote de boca, linda como um Grévin, deliciosa de chic e de elegância, com o seu sorriso provocante e os seus olhos incendiários.

Depois, a cena mudava, os vestidos da formosa beldade desapareciam como um costume de mágica, e Genoveva abandonava-se desvelada e sem pudor nos braços de Fernando, embriagado pela paixão.

Lazarine sentia-se enlouquecer.

O trem fez alto.

A senhora de la Tour-du-Roy tirou com a luva uma pouca da geada espessa que cobria o vidro, e reconheceu que tinha chegado.

Havia muito ela queria saber onde morava aquela mulher, de quem um vago ciúme lhe dizia que desconfiasse.

— Foi ali. murmurou ela. foi ali que ele passou a noite com aquela velhaca. Ah! miserável rapariga, como eu a odeio! Mas paciência!...

Tiram seis horas da manhã.

A pardacenta alvorada começava a despontar, fazendo amarelecer a luz dos bicos de gás.

A Marquesa tornou a cair numa completa prostração.

As suas ligeiras botinhas de estofo tinham bebido água como esponjas, enquanto ela pisava a neve da vivenda Montespan.

Tinha os pés gelados, os dentes batiam-lhe uns nos outros, e todo o corpo lhe tremia sem que ela reparasse nisso.

Deram sete horas... depois oito... depois nove.

O cocheiro que saltara da almofada, sapateava na calçada para aquecer conforme podia.

Lazarine, exausta de forças, parecia dormir de olhos abertos. mas aquele sono era mais aparente que real.

Não perdia de vista a porta da rua.

O seu rosto contraído pelo frio. pela insônia, pela angústia, não parecia o mesmo.

— Cedo ou tarde, ele há de sair. dizia ela consigo, e ainda que eu tivesse de esperar aqui até à noite, hei de obter a prova da sua traição.

 

GELO E FOCO

Às nove e meia, a senhora de la Tour-du-Roy estremeceu.

Levou a mão ao lado esquerdo do peito.

O coração oprimia-se-lhe.

Fernando acabara de aparecer no vão da porta principal.

Vendo o passeio coberto de neve meio fundida, parara.

Ao mesmo tempo abria-se uma janela no primeiro andar, em uma jovem, envolta num penteador mal abotoado e com o cabelo em desalinho, debruçava-se do parapeito da varanda.

Era Genoveva.

O comediante levantou a cabeça.

A sua nova amante gritou-lhe:

— Sobe outra vez; vou mandar-te buscar um trem.

Lazarine não deu tempo a Fernando de responder.

Saltou para a neve e disse:

— Um trem! tenho aqui o meu! Venha, senhor Volnay.

Genoveva reconheceu Lazarine, deitou-se rapidamente para trás e fechou a janela.

O artista estupefato, desconcertado, perdendo toda a presença de espírito, fez-se pálido e corado alternadamente.

Quase sem ter consciência do que dizia, balbuciou:

— Tu. És tu!

— Espero-o desde as seis horas da manhã,.. replicou a senhora de la Tour-du-Roy. Venha, vou levá-lo para casa...

O cocheiro instalara-se na sua almofada.

Sorriu como um filósofo, para quem certos aspectos da vida parisiense não têm segredos.

O belo Fernando, cada vez mais assombrado, não sabia que cara apresentasse.

Lazarine ia pedir-lhe explicações. Apanhado em flagrante delito, que poderia responder?

Recusar seguir a amante, era-lhe impossível.

lá iam parando alguns transeuntes.

Sem dizer palavra, subiu para o trem.

A Marquesa antes de se sentar ao lado dele, voltou-se para deitar os olhos para a janela fechada.

Genoveva arredara a cortina de guipure, e em pé detrás da vidraça, ria-se com um ar insultante.

A senhora de la Tour-du-Roy estremeceu de ódio, e sentiu possuir-se de um desejo de vingança.

— Aonde vamos? perguntou o cocheiro.

— Avenida d'Eylau. vivenda de Montespan.

 

O trem rodou.

Fernando silencioso, tudo corrido, procurava o meio de cortar ou pelo menos de atenuar uma cena inevitável, em que para ele não seria o papel brilhante.

— Lazarine, disse de repente à jovem inerte e muda, querendo pegar-lhe na mão, Lazarine, escuta-me.

— Oh! peço-lhe, interrompeu a Marquesa com uma voz alterada tirando a mão, peço-lhe, não me fale agora... Depois... daqui a bocado.

E desatou a chorar.

O comediante, atirando-se para o seu canto donde não se mexeu mais, pensou:

— É escusado insistir.

 

O trem parou junto à grade da vivenda Montespan. Fernando foi o primeiro a apear-se. Puxou pelo "porte-monaie".

Lazarine, repelindo-o de num bilhete de cem francos ao cocheiro.

— Quanto devo dar de demasia à senhora? perguntou o cocheiro.

— Guarde tudo.

— Obrigado, minha senhora. Quando tiver necessidade de um trem, recomendo-me.

O comediante tinha entrado em casa.

Lazarine seguiu-o.

Foi direito ao seu gabinete de trabalho.

Ela transpôs a porta ao mesmo tempo que ele..

O bonito rapaz acabara de traçar a sua linha de procedimento.

— Tomarei as coisas de alto, disse ele consigo. Serei brutal se preciso for, e sairei da contenda com as honras da guerra!

Por isso fechou a porta de uma maneira tão violenta, que os quadros pendurados nas paredes puseram-se a bater.

Caminhando para Lazarine com uns ares furibundos, exclamou:

— Não quis escândalo na rua, mas aqui estou em minha casa. Falas ou não?

Lazarine endireitou-se. Passou-lhe pelos olhos um relâmpago. Contraiu as narinas. Armou-se-lhe entre as sobrancelhas uma profunda ruga.

— Sim, respondeu, falarei...

— Que tens a dizer-me?

— Em primeiro lugar isto. És um covarde!

Fernando encolheu os ombros.

— Isso é um pé de cantiga! exclamou tornando a adotar a linguagem e o tom da súcia. Deixemos-nos de cantigas! Palanfrório! Frases de teatro! Já passou da moda! Sejamos francos! Passei uma noite com Genoveva... Não posso dizer que não, porque me apanhaste ao saltar da cama. E depois?

— Achas então isso muito simples?

— Ora adeus! Não sou um monge, sou um homem.

— Um homem indigno, é verdade! Parto... Prodigalizas-me os juramentos de amor... deixas-me com beijos jurando-me que levo o teu coração, e mal me sentes longe de Paris vais para casa dessa mulher! É indigno e covarde!

— Sou ou não senhor das minhas ações?

— Não! não! não! cem vezes não! não és senhor! Amei-te. Disseste-me que me amavas... Eu acreditei. Não eras nada, fiz-te o que és, para te elevar até mim, e para não me envergonhar do meu amor.

— Lazarine! Lazarine! interrompeu o ator com uma entoação ameaçadora.

— Não me calarei! Quiseste que falasse... falarei.

— Toma cuidado!

— Em que? Vai-me bater? Já o fizeste! Está nos teus costumes bater nas mulheres. Se não gostas de me ouvir, mata-me, porque é o único meio de me impores silêncio... Eras pobre e enriqueci-te. Eu, a Marquesa de la Tour-du-Roy, aviltei-me ao ponto de frequentar a boêmia teatral para te seguir por toda a parte, para te provar que o meu coração e a minha alma te pertenciam completamente! Não, não és senhor de si! És um bem, uma coisa que me pertence. Comprei-te, Fernando Volnay! Comprei-te, arruinando-me!

Ao ouvir estas palavras, o comediante deu um pulo exasperado, os lábios espumantes, e com as costas da mão esbofeteou a amante.

— Covarde! Covarde! Covarde! bradou Lazarine.

O ator agarrou-lhe nos braços, apertou-lhe os pulsos quase a esmagá-los, quebrando-lhe os braceletes que magoavam as carnes delicadas, disse com uma voz sibilante, os dentes cerrados, os olhos desvairados:

— Escuta-me bem, e não te esqueças! Sou senhor de mim, senhor de mim, senhor absoluto, e posso proceder como entendo. Fui amante de Genoveva, porque o quis ser, e tinha o direito de o querer... Ah! elevaste-me à tua altura e envergonhaste-te do comediante! Pois minha querida, era preciso dizê-lo! Não era o teu coração que te impelia para mim, era a tua fantasia de grande fidalga caprichosa e gasta. Desejaste Fernando Volnay, como desejarias um quadro de mestre, uma parelha puro sangue, um palácio da Renascença. Desconfiava disso, mas fazia diligências para o não crer. Agora tenho a certeza. Pois muito bem, tiveste Fernando Volnay, pagaste-o, estamos quites!

Lazarine estava como doida, enquanto o amante lhe fazia este pequeno discurso que acabamos de reproduzir.

— Ah! balbuciou ela com uma voz extinta, não pensas o que dizes!...

— Eu penso o que tu própria dizes.

— Então não te amei?

— Capricho, minha querida, puro capricho!

— Oh! mas isso é horrível é mais horrível que bater-me... Negas o meu coração! negas a minha alma! negas o meu amor!

— Perfeitamente exato! para ti eu era uma coisa, um objeto de luxo e de fantasia! pois Genoveva teve o mesmo capricho que tu, o que prova que ela é mulher de gosto...

— Ah! não me fale dessa rapariga! gritou Lazarine.

— Por quê? Não tenhas ciúme. Entradas de favor é que nunca! Tu pagaste, ela há de também pagar, visto que segundo as tuas próprias palavras, fica entendido que me compram!

— Oh! cala-te, cala-te! tornou a Marquesa. Esquecerei tudo... tudo, entendes, se me juras não a tomares a ver. Se te comprometei a não proferir o seu nome diante de mim. Confessa somente que fizeste mal, e perdôo-te.

— Teria feito mal se fosse escravo, e houvesse enganado o meu senhor, mas sou livre. Não confesso nada!

Lazarine torcendo as mãos. balbuciou: — Mas então ainda amas essa criatura?

— Acho-a bela e capitosa, e o teu ex-amante, o principezinho de Castel-Vivant, que deve ser entendedor, era da minha opinião. Tem olhos de bailadeira, uma boca embriagadora, um sorriso de Erigona, finalmente o que quer que seja que nos sobe à cabeça, e nos mete o diabo no corpo...

— Visto isso, perguntou a senhora de la Tour-du-Roy com uma espécie de ardor feroz, é a sua beleza, só a sua beleza, que te faz cair nos seus braços? Foram os seus olhos, a sua boca e o seu sorriso que te tornaram perjuro?

— Somente, respondeu Fernando, muito satisfeito do caminho que as coisas iam tomando. Bem deves compreender que para me possuir é preciso ser bonita.

— Mas não lhe tens amor?

— Oh! isso é que não!

— Mas prometeste torná-la, não é verdade? Para que negar se tenho a certeza! Na embriaguez das suas caricias, sob o fogo dos seus beijos, juraste-lhe deixar-me! Ela disse-te: Serás só meu! E fascinado por aquela beleza que tu achas tão capitosa, comprometeste-te a isso. E farás o que disseste?

— Palavra que não. Afinal, zombo de Genoveva... Tu vales muito mais!

Lazarine continuou com uma voz surda e alterada:

— Se soubesses o que sofri por causa daquela mulher, terias piedade de mim! Imagina que entrei esta noite aqui, pelas quatro horas da manhã, em dúvida, mas sempre com esperança. Quando achei o quarto deserto, o leito vazio e frio, julguei endoidecer! Aquela criatura tinha-me roubado o meu amante, tinha-me roubado a felicidade, e isto graças à sua beleza! Oh! a sua beleza, a sua beleza maldita! E há pouco, no momento em que te trazia, via-a rir ironicamente detrás da vidraça fechada. A infame ria-se quando olhava para mim, Lazarine de la Tour-du-Roy!

 

A Marquesa baixou os olhos, e por espaço de alguns segundos guardou silêncio.

A expressão sombria do seu rosto, causava a Fernando uma vaga angústia...

De repente levantou a cabeça, e num tom quase ligeiro, perguntou:

— Queres que tudo acabe? Queres esquecer?

— Francamente?

— Sim, francamente... Façamos as pazes...

— Sem condições?

— Sim, sem condições. Dá-me um beijo.

O comediante abriu os braços...

Lazarine lançou-se-lhe a chorar sobre o peito do amante. Esta crise de sensibilidade foi de curta duração.

— Vamos, está acabado... balbuciou ela em seguida. Foi um sonho mau, não falemos mais nisso.

— Sim, não falemos mais nisso... repetiu o ator maquinalmente, que não achava explicação à mudança repentina da amante.

— Estou gelada... tornou a senhora de la Tour-du-Roy. Não fechei olho em toda a noite, vou voltar para casa, e descansar um pouco. Queres mandar pôr o trem para eu me retirar?

Fernando apressou-se a dar ordens, mas a sua preocupação aumentava.

Estranhou Lazarine. Ao fim de dez minutos o coupé estava pronto.

— Quando te torno a ver? perguntou o comediante com uma voz maliciosa. Esta noite, não é verdade?

— Sim. esta noite... Virei jantar contigo.

— Esperar-te-hei cheio de impaciência e de amor. Ao ver-se na carruagem, a Marquesa disse consigo:

— Já não possuo todo o seu coração. Esta rapariga levou-me metade. Não poderei viver assim!

Assim que se achou no palácio, a senhora de la Tour-du-Roy mandou embora o trem de Fernando; em lugar de se deitar, mandou dizer ao seu cocheiro que pusesse imediatamente o trem, e tratou da sua toilette.

A criada de quarto, que segundo sabemos era muito dedicada à Marquesa, exclamou:

— Como a senhora Marquesa está pálida! Está incomodada?

— Não, filha, estou apenas muito cansada...

— Mas a senhora vai sair?

— É preciso, é indispensável...

— Mas a senhora almoçou ao menos?

— Não. porque não tenho fome... Vista-me primeiro, em seguida dar-me-há um copo de vinho de Jerez e um biscoito...

Lazarine falava com voz breve.

Os olhos cintilavam-lhe no rosto lívido; tinha uns gestos incertos.

Aqueles modos singulares, produziam na criada de quarto uma surpresa em que havia algum terror.

Meia hora depois, terminada a sua toilette, a Marquesa encheu de vinho de Jerez um copo em forma de tulipa, e despejou-o de um trago.

Pelas faces espalhou-se-lhe logo um fraco tom de rosa e o brilho das suas pupilas aumentou.

Olhou para o relógio que marcava duas horas, calçou as luvas. pôs o chapéu e a capa de peles e desceu.

A carruagem esperava diante da escadaria.

— Boulevard Malesherbes. n.°... disse Lazarine ao cocheiro.

Ia a casa de Genoveva.

 

AS DUAS RIVAIS

O coupé parou diante da casa habitada pela ex-amante do Príncipe Totor.

A senhora de la Tour-du-Roy apeou-se do trem, entrou, e sem falar ao porteiro, subiu pela escada que conduzia ao quarto de Genoveva.

A cocote ocupava o primeiro andar.

Lazarine sabia isso, porque a vira pela manhã à janela.

Sobre o patamar havia uma só porta.

Era uma grande porta de duas batentes, fingindo ébano e ornada com filetes de ouro.

A Marquesa tocou com mão febril, ouviu a campainha soar no interior, e em seguida ouviu passos.

Abriu-se uma porta, e apareceu uma criada de quarto.

— A menina Genoveva Leinen? perguntou Lazarine.

— A senhora saiu, respondeu a criada de quarto.

— E isso é verdade?

— Sim, senhora; mas a senhora não tarda.

— Posso esperá-la?

A criada de quarto hesitou antes de responder.

A senhora de la Tour-du-Roy meteu-lhe dois luizes na mão.

O argumento não admitia réplica.

A visitante foi conduzida imediatamente à sala. onde ficou só.

Ai deixou-se cair numa cadeira, e de cabeça baixa refletiu.

No fim de vinte minutos a campainha tornou a soar, um cochichar de vozes atraiu a atenção de Lazarine, e quase no mesmo instante Genoveva entrou.

Ao ver quem a esperava, a cortesã tornou-se um pouco pálida.

— Sou a Marquesa de la Tour-du-Roy, disse Lazarine dando dois passos ao seu encontro.

Genoveva readquirira o seu aprumo.

— Conheço-a, volveu ela em tom desdenhoso, e admira-me a sua presença em minha casa. Que me quer?

— Quero saber, respondeu a Marquesa aparentemente muito sossegada, quero saber em que preço avalia a noite concedida pela senhora ao meu amante. E como sou bastante rica para pagar as suas fantasias de um minuto, os seus caprichos de uma hora, venho pagar a sua conta, o que ele se esqueceu de fazer.

A cortesã não esperava semelhante entrada.

Sob aquele insulto, o rosto transtornou-se-lhe: os lábios descoraram-lhe.

Arrancou a capa e o chapéu que atirou para cima de um móvel, depois, avançando por seu turno para Lazarine, disse com uma voz alterada:

— Olá, senhora, cale-se! Está em minha casa, e não se o que poderia suceder se não cessasse as suas injúrias!

— O que sucederia? perguntou a Marquesa medindo de alto a baixo a sua rival com um desprezo esmagador, sim, o que sucederia?

— Nada, exclamou Genoveva repentinamente. Para que me hei de encolerizar? Seria toleima irritar-me com os seus ultrajes. O orgulho ferido, o ciúme, o despeito enlouquecem-na... Veio, tanto melhor! aproveitarei o ensejo para dizer o que penso da senhora.

— Tome cuidado!...

— Em que? perguntar-lhe-ei eu agora. Chamo-me Genoveva Leinen, e a senhora chama-se Marquesa de la Tour-du-Roy. Muito bem. Marquesa, vamos conversar. Tirei-lhe o amante, e deseja saber porque? Pela razão muito simples de que o amo. Quer que lhe diga quanto me deve pelos beijos que recebeu? Não os vendi, dei-os. Ele não me deve nada. e a senhora deve-me a mim respeito, a mim, rapariga galante, que faço do amor modo de vida, enquanto que a Marquesa mancha o nome e enxovalha o título, tendo um ator por sua conta. Pois esse ator meu igual, tirei-lhe e tornarei a tirar-lhe. faça a senhora o que fizer para o reter. Amo-o! Não é um capricho, desengane-se, é uma paixão! Amo-o tanto, como a senhora o ama. Amo-o mais talvez... adoro-o! E ele amar-me-á... ama-me já!

— Ah! bradou Lazarine, com os olhos dilatados, as mãos empadas, não diga isso!

— Por quê? Digo-o porque é verdade! Tirei-lhe Fernando. Julga talvez que não sou bastante rica para o conservar? Tente lutar. Marquesa, e veremos... Por ele sacrificarei tudo! Amo-o! Arruinar-me-ei por causa dele se for preciso, e demais sou formosa, tão formosa como a senhora.

— E conta com a sua beleza para me tirar o meu amante?

— Conto.

 

Após um momento de silêncio, Lazarine que cessara de ser senhora de si, apesar dos seus esforços, murmurou com voz alterada:

— Sabe que me fez sofrer muito?

— Isso é que para mim é indiferente! Não a conheço.

— Se eu lhe pedisse que não tornasse a ver Fernando?

— Responder-lhe-ia que era louca! Neste mundo cada qual trata de si!

— E é a sua última palavra?

— Pudera!

A senhora dela Tour-du-Roy olhou fixamente para a sua rival durante alguns segundos.

Depois, disse de repente:

— Sim, compreendo que a amem... É verdade... é formosa... mas pode deixar de o ser...

— Na minha idade? ora adeus!

— Quem sabe?

Lazarine, erecta, altiva e desdenhosa, passou pela frente de Genoveva, e dirigiu-se para a porta da sala.

— Adeus, Marquesa! gritou-lhe a prostituta.

A fidalga voltou-se e redarguiu:

— Adeus, até à vista.

E saiu.

Meia hora depois, regressava ao palácio da rua Murillo.

Ali encontrava um bilhete de Malpertuis, pedindo-lhe que fosse às três horas ao escritório, donde iriam juntos a casa do tabelião para se proceder à contextura da procuração.

A senhora de la Tour-du-Roy foi pontual, assinou tudo quanto o advogado lhe quis fazer assinar, recebeu a certidão de dote do filho, e perguntou:

— Quando é que eu recebo os três milhões?

— Logo que estiverem registradas as certidões, isto c, depois de amanhã.

 

Satisfeita com aquela resposta, fez-se conduzir às cinco menos um quarto à vivência Montespan.

Fernando esperava-a.

Ele beijou-a como se nada se houvesse passado horas antes, e sentaram-se à mesa.

A Marquesa diligenciava parecer alegre segundo o costume, mas-não o conseguia.

Esta preocupação visível inquietava Fernando e importunava-o.

— Vejamos, minha Lazarine querida, exclamou abraçando a amante, dize-me o que tens...

— Pois pod