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Os Fuzileiros / Bernard Cornwell
Os Fuzileiros / Bernard Cornwell

 

 

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Os Fuzileiros

 

     Um major espanhol esforçava-se por salvá-lo, enquanto um coronel de Caçadores da Guarda Imperial de Napoleão, que o perseguia, recebera ordens para o capturar. O francês recebera ordens para desempenhar aquela tarefa; tinham-lhe dito que poderia destruir ou matar aquilo ou quem o tentasse impedir.

     O cofre era afinal uma arca feita de madeira, tão antiga que parecia negra e brilhante como o carvão. A madeira estava ligada por duas fitas metálicas que, embora manchadas de ferrugem antiga, ainda eram fortes. A antiga arca tinha setenta centímetros de comprimento, quarenta de largura e outros tantos de altura. Estava trancada com dois ferrolhos ligados com cadeados de metal. Sobre as dobradiças, entre a tampa arqueada e a arca propriamente dita, havia selos vermelhos, alguns deles tão antigos que já não eram mais do que farrapos de cera embebidos nos grãos da antiga madeira. O cofre fora envolvido num pano encerado para ficar protegido das intempéries, ou antes, para proteger o destino de Espanha que lá dentro estava escondido.

     No segundo dia de 1809, o coronel de Caçadores quase capturou o cofre. Tinham-lhe atribuído um regimento de dragões franceses e esses cavaleiros chegaram perto dos espanhóis à entrada da cidade de Leão. Os espanhóis apenas conseguiram escapar subindo às altas montanhas, onde se viram forçados a abandonar os cavalos, pois os animais não conseguiam trepar as veredas íngremes e escorregadias do gelo, onde o major Blas procurou refúgio.

     Era Inverno, o pior Inverno de que havia memória em Espanha e a pior época para se permanecer nas montanhas do Norte do país, porém, os franceses não deram outra alternativa ao major Vivar. Os exércitos de Napoleão tinham tomado Madrid em Dezembro e Blas Vivar fugira com o cofre apenas uma hora antes de os cavaleiros inimigos terem entrado na capital. Cavalgava com cento e dez caçadores que, montados, transportavam uma espada de lâmina direita e uma carabina de cano curto. Porém, os caçadores tinham-se transformado em perseguidos, pois, numa viagem de pesadelo através de Espanha, Vivar vira-se obrigado a fazer vários desvios e a dar várias voltas para escapar aos perseguidores franceses. Tivera esperança de alcançar a segurança a norte, junto do exército do general Romana, mas, apenas dois dias antes de os dragões o terem empurrado para as montanhas, Romana foi derrotado. Vivar estava agora só, restando-lhe apenas noventa dos seus homens espalhados pelas montanhas. Os outros tinham morrido.

     Morreram pelo cofre que os sobreviventes transportavam através do campo gelado. A neve tornava as passagens quase intransponíveis. As abertas vinham apenas em forma de chuva; uma chuva torrencial que transformava as veredas das montanhas numa lama que endurecia pois congelava durante as longas noites. As frieiras devoravam os caçadores. Nas noites mais frias, os sobreviventes abrigavam-se em grutas ou nos palheiros abandonados das quintas.

     Num dia assim, em que o vento trazia de oeste um nevão gelado, os homens de Vivar acocoravam-se no miserável abrigo de uma ravina estreita no cimo de uma montanha. O próprio Blas Vivar encontrava-se à beira da ravina a olhar para o vale através de um comprido telescópio. Observava o inimigo.

     As capas castanhas escondiam as casacas verdes-claras dos dragões franceses. Esses franceses haviam seguido Vivar a par e passo nessa terrível viagem, mas, enquanto o major enfrentava as difíceis montanhas, eles cavalgavam pelos vales, onde havia estradas, pontes e abrigos. Em certos dias o mau tempo impedia os franceses e Vivar atrevia-se a ter esperança de os ter despistado mas, sempre que a neve deixava de cair por algumas horas, as temidas formas apareciam de novo. Agora, naquele vento gelado, Vivar via os cavaleiros inimigos desmontar numa pequena aldeia ao fundo do vale. Os franceses teriam fogueiras e alimentos na aldeia, os cavalos teriam abrigo e feno, enquanto os seus homens soluçavam por causa do frio que açoitava as encostas da montanha.

     - Estão lá? - perguntou o segundo comandante de Vivar, o tenente Davila, que subira, vindo da ravina.

     - Estão lá.

     - O caçador?

     - Sim. - Vivar olhava directamente para os dois cavaleiros na rua da aldeia. Um era o coronel de Caçadores da Guarda Imperial, elegante na sua peliça escarlate, capote verde e um chapéu redondo feito de espessa pele negra.

     O outro não usava uniforme; vestira uma casaca de montar negra e cintada, sobre as botas brancas. Vivar temia mais o homem da casaca negra do que o caçador, pois era ele que conduzia a perseguição dos dragões. O homem da casaca negra sabia para onde se dirigia Blas Vivar. Sabia onde podia ser detido e conhecia o poder do objecto escondido na arca fechada.

     O tenente Davila acocorou-se na neve ao lado de Vivar. já nenhum deles parecia um soldado. Estavam cobertos por capas feitas de serapilheira. Tinham as botas, as mãos e o rosto cobertos de farrapos. Porém, por baixo desses improvisados agasalhos estavam os uniformes escarlates da companhia de elite dos caçadores e qualquer dos dois era tão duro e eficiente como todos os homens que combatiam nas campanhas francesas.

     Davila serviu-se do óculo de Vivar e observou o vale. A neve obstruía-lhe a visão mas conseguiu divisar a mancha da peliça escarlate sobre o ombro direito do caçador.

     - Porque não usará um capote? - resmungou.

     - Quer mostrar que é duro - disse Vivar laconicamente.

     Davila mudou o óculo e viu que ainda mais dragões se aproximavam da aldeia. Alguns franceses conduziam cavalos coxos. Todos traziam espadas e carabinas.

     - Pensei que nos tinham perdido o rasto - disse tristemente.

     - Só nos perdem o rasto quando enterrarmos o último. - Vivar afastou-se do cimo do monte. Tinha um rosto endurecido pelo sol e pelo vento, um rosto de lutador, onde uns olhos escuros que podiam brilhar com humor e compreensão o salvavam da rudeza. Agora, vendo os seus homens tremer na estreita garganta, esses olhos estavam avermelhados. - Que provisões nos restam?

     - O suficiente para dois dias.

     - Se eu não soubesse como era - a voz de Vivar mal se ouvia sobre o ruído do vento - pensaria que Deus abandonou Espanha.

     O tenente Davila nada disse. Uma rajada de vento arrancou a neve do cimo do monte e fê-la rodopiar numa onda cintilante sobre as cabeças de ambos. Pensou amargamente que os franceses estariam a roubar comida, lenha e mulheres no vale. As crianças fugiriam aos gritos. Os homens na aldeia seriam torturados para revelar se tinham ou não visto um bando esfarrapado de caçadores transportando uma arca. Sem faltar à verdade, negá-lo-iam tê-lo visto, mas os franceses matá-los-iam. do mesmo modo e o homem da casaca negra e botas brancas assistiria, sem uma centelha de emoção a perpassar-lhe o rosto. Davila fechou os olhos. Não conhecera o ódio até àquela guerra ter começado e agora ignorava se conseguiria desenraizá-lo da alma.

     - Vamos separar-nos - afirmou Vivar subitamente.

     - Don Blas? - Davila, com os pensamentos longe dali, não tinha ouvido bem.

     - Levarei a arca e oitenta homens - Vivar falava lentamente. - O nosso tenente ficará aqui com os restantes homens. Quando partirmos e quando os franceses partirem, vá para sul. Não saia daqui enquanto não tiver a certeza de que o vale está vazio. Esse caçador é muito inteligente e pode já ter adivinhado o que estou a pensar. Por isso aguarde, Diego! Aguarde até ter a certeza e depois deixe-se ficar ainda mais um dia. Compreende?

     - Compreendo.

     Vivar, apesar do extremo cansaço e do frio que se lhe entranhara nos ossos, sentiu algum entusiasmo para incutir uns laivos de esperança às suas palavras.

     - Diego, vá até Orense e veja se nos sobraram homens. Diga-lhes que preciso deles! Diga-lhes que preciso de cavalos e de homens. Leve esses homens e esses cavalos para Santiago e, se eu não estiver lá, siga para leste até me encontrar.

     Davila acenou afirmativamente. Havia uma questão óbvia a colocar, mas não se atrevia a fazê-lo.

     De qualquer modo, Davila compreendeu.

     - Se os franceses capturarem a arca, o tenente há-de vir a saber - disse com ar soturno. - Eles hão-de anunciar a sua captura por toda a Espanha, Diego, e assim saberá que a guerra está perdida.

     Davila estremeceu por baixo da capa de farrapos.

     - Don Blas, se for para oeste, poderá encontrar os ingleses?

     Vivar cuspiu para mostrar a sua opinião acerca do exército britânico.

     - Ajudá-lo-iam? - insistiu Davila.

     - Confiaria aos ingleses aquilo que esconde na arca?

     Davila reflectiu sobre a resposta a dar e encolheu os ombros.

     - Não.

     Vivar subiu de novo ao cimo do monte e olhou lá para baixo, para a aldeia.

     - Talvez que esses demónios se encontrem com os ingleses. Então uma matilha de bárbaros poderia matar outra - estremeceu de frio. - Se eu tivesse homens suficientes, Diego, encheria o inferno com as almas desses franceses. Mas não tenho esses homens. Por isso, vá buscar-nos!

     - Vou tentar, Don Blas - era o máximo que Davila se atrevia a oferecer, pois naqueles primeiros dias de 1809 nenhum espanhol se sentiria esperançoso. O rei de Espanha estava preso em França e o irmão do imperador francês tinha sido entronizado em Madrid. Os exércitos de Espanha, que tinham mostrado uma tão grande valentia no ano anterior, foram esmagados por Napoleão, e o exército inglês, enviado para os socorrer, fora vergonhosamente perseguido até ao mar. À Espanha restavam apenas fragmentos dos seus debilitados exércitos, o desafio do orgulho do povo, e a arca.

     Na manhã seguinte, os homens de Vivar levaram a arca para oeste. O tenente Davila vira os dragões franceses selar os cavalos e abandonarem a aldeia que tinham saqueado e de onde o fumo se erguia no céu frio. Os dragões poderiam ignorar onde estava Blas Vivar, mas o homem da casaca negra e das botas brancas sabia perfeitamente para onde ia o major e, por isso, os franceses obrigaram os cavalos a seguir para oeste. Davila aguardou um dia inteiro; depois, debaixo de uma chuva torrencial que derretia a neve e transformava os atalhos numa lama espessa, partiu para sul.

     Os caçadores e as suas presas movimentaram-se de novo, seguindo os intricados caminhos através da terra invernosa. Os perseguidos procuravam o milagre que poderia ainda salvar a Espanha e arrancar à derrota uma gloriosa vitória.

    

     Mais de cem homens foram abandonados na aldeia. Ninguém poderia fazer nada por eles. Estavam embriagados.

     Uma dezena de mulheres ficou também. Também elas estavam embriagadas.

     Não apenas embriagadas, mas insensíveis. Os homens tinham entrado à força no armazém de uma taberna e encontrado enormes barris da colheita do ano anterior na qual diluíram a sua tristeza. Agora, naquela manhã escura, encontravam-se pelas ruas da aldeia como vítimas da peste.

     Os bêbados eram casacas-vermelhas. Tinham-se juntado ao exército britânico devido ao crime ou ao desespero e porque o exército lhe dava um terço de quartilho de rum por dia. Na noite anterior tinha encontrado refúgio na miserável taberna de uma miserável vila espanhola, numa miserável estrada em terreno rochoso que conduzia ao mar. Tinham-se embriagado e agora ficariam à mercê dos franceses.

     Um tenente alto com a casaca verde dos Fuzileiros, andava por entre os corpos que se encontravam no pátio do estábulo da taberna saqueada. O seu interesse não eram os estupidificados bêbados, mas sim alguns caixotes de madeira que teriam sido descarregados de um carro de bois para arranjar espaço para os homens feridos ou queimados pela geada. Os caixotes, como tantas outras coisas que o exército estava agora demasiado fraco para transportar, teriam sido deixados para os perseguidores franceses, se o tenente não tivesse descoberto que continham munições de espingarda. Estava a resgatá-las. já tinha enchido os sacos e alforges do batalhão com todos os cartuchos que os fuzileiros podiam transportar; agora juntamente com um companheiro, acabava de encher os cestos da última mula do batalhão.

     O soldado Cooper terminou o trabalho e ficou a olhar para os restantes caixotes.

     - Que fazemos com eles, meu Tenente?

     - Queima-os a todos.

     - Com mil raios! - Cooper soltou uma pequena gargalhada, apontando depois para os bêbados que estavam no pátio. - Vais matá-los a todos!

     - Se não formos nós, matam-nos os franceses. - O tenente tinha a cicatriz de um corte que lhe conferia ao rosto um ar taciturno e violento. Queres que sejam os franceses a matar-nos com a nossa própria pólvora?

     Pouco importava a Cooper o que fizessem os franceses. Nesse momento estava preocupado com uma rapariga francesa, que jazia embriagada a um canto do pátio.

     - É uma pena matá-la, meu Tenente. É tão bonita.

     - Deixa-a para os franceses.

     Cooper levantou-se e abriu o corpete da rapariga, revelando-lhe os seios. Ela estremeceu no ar frio, mas não acordou. Tinha manchas de vomitado nos cabelos, o vestido sujo de vinho, mas, mesmo assim, era muito bonita. Teria talvez quinze ou dezasseis anos e era casada com um soldado que decidira acompanhar na guerra. Agora, que estava completamente embriagada, os franceses levá-la-iam.

     - Acorda! - exclamou.

     - Deixa-a! - Ao mesmo tempo, o tenente não conseguiu resistir a atravessar o pátio para olhar para a nudez da jovem.

     - Cabra estúpida! - disse, com azedume. Um major apareceu à entrada do pátio.

     - Oficial da manutenção?

     O tenente voltou-se.

     - Sim, meu Major!

     O major tinha um pequeno bigode eriçado e expressão de poucos amigos.

     - Quando terminar de despir essa mulher, tenente, talvez queira ter a bondade de se reunir connosco.

     - Ia primeiro queimar estes caixotes, meu Major.

     - Ao diabo os caixotes, oficial de manutenção. Apresse-se!

     - Sim, meu Major.

     - A menos que prefira ficar aqui. Duvido que o exército tenha saudades suas.

     O tenente não respondeu. Seis meses antes, quando entrara para aquele batalhão, nenhum oficial falaria assim diante dos soldados, mas a retirada incendiara humores e trouxera à superfície antagonismos escondidos. Homens que normalmente se teriam tratado com cauteloso respeito ou até mesmo forçada cordialidade, agiam agora como cães raivosos. E o major Warren. Dunnett odiava o oficial de manutenção. Era um ódio lívido, irracional, devorador, e a reacção irritante do tenente era ignorá-lo, o que juntamente com o seu ar de competência provocava no major Dunnett uma raiva terrível.

     - Em nome de Cristo, mas quem pensa ele que é? - explodiu para o capitão Murray, que se encontrava à porta da taberna. - Pensa que o raio do exército vai esperar todo por ele?

     - Está só a fazer o que lhe compete, não é verdade? - John Murray era um homem calmo e justo.

     - Não está a fazer o que lhe compete. Está a olhar para as mamas de uma puta qualquer - proferiu Dunnett, raivoso. - Não o queria de maneira nenhuma neste batalhão e continuo a não o querer. O coronel recebeu-o só para fazer um favor a Willie Lawford. Mas a que diabo vai chegar este maldito exército? Não passa de um sargento que subiu de patente! Nem sequer é um oficial de verdade! E logo nos Fuzileiros!

     Murray suspeitava que Dunnett tivesse inveja do oficial de manutenção. Era uma coisa rara entrar-se para o exército britânico como soldado raso e subir até à messe de oficiais. O oficial de manutenção conseguira-o. Tinha empunhado uma espingarda nas alas dos casacas-vermelhas, fora promovido a sargento e, depois, como recompensa por um acto de coragem suicida no campo de batalha, subira a oficial. Os outros sentiam uma certa cautela em relação ao passado do tenente, temendo que a competência do novo oficial no campo de batalha pusesse em evidência a inexperiência deles. Não seria necessário terem-se preocupado, pois o coronel afastara o novo tenente do campo de batalha, encarregando-o da manutenção no batalhão; a nomeação foi baseada no pressuposto de que qualquer homem que tivesse servido como sargento conheceria os truques do contrabando do abastecimento.

     Abandonando os bêbados e as restantes munições aos franceses, o oficial de abastecimento saiu do pátio da taberna. Começou a chover. Era uma chuva fria como granizo, vinda de leste, que caía sobre os trezentos fuzileiros que aguardavam na rua da aldeia. Estes fuzileiros eram a retaguarda do exército, uma retaguarda esfarrapada, como um arremedo de soldados, um monstruoso exército de pedintes. Soldados e oficiais estavam vestidos e enrolados nos bocados de pano que tinham esmolado ou roubado durante a marcha, as solas atadas às botas por cordéis. Os rostos por barbear estavam enrolados em lenços sujos que os protegiam do vento gélido. Tinham os olhos inflamados, de expressão vaga, as faces cavadas e as sobrancelhas cobertas de geada. Havia homens que tinham perdido a barretina e usavam chapéus de camponeses com abas moles. Pareciam uma unidade derrotada da ralé, mas, não obstante, eram Fuzileiros, todas as espingardas tinham os mecanismos oleados e, dentro do cão, um sílex afiado.

     O major Dunnett comandava este meio batalhão, conduzindo-o para oeste. Marchavam já desde a véspera de Natal e a primeira semana de janeiro estava prestes a terminar. Afastavam-se sempre para ocidente dos avassaladores franceses, cujos números invadiam Espanha, e todos os dias da marcha era uma tortura de frio, fome e dor. Nalguns batalhões, toda a disciplina tinha desaparecido e as alas dessas unidades estavam cheias de corpos dos homens que tinham desistido de ter esperança. Alguns dos mortos eram mulheres; tinham permitido às esposas viajar com o exército para Espanha. Outros eram crianças. Os sobreviventes estavam agora tão endurecidos pelo horror, que conseguiam pisar o corpo gelado de uma criança sem nada sentir.

     Porém, se o exército se desbaratara devido às tempestades de neve e de um vento gelado que cortava como o sabre de um caçador, alguns homens marchavam ainda em boa formação e, quando lhes ordenavam, voltavam-se para manter os franceses à distância. Eram homens duros, homens bons; os Guardas e a Infantaria Ligeira, a elite do exército de Sir John Moore, que marchara para o Centro de Espanha para interromper as vias de abastecimento de Napoleão. Tinham marchado na esperança da vitória, mas o imperador voltara-se contra eles com uma velocidade selvagem e um espantoso número de homens, de modo que aquele pequeno exército britânico retirava agora em direcção aos navios que os levariam à pátria.

     Os trezentos fuzileiros de Dunnett pareciam sós num deserto gelado. Algures, lá mais adiante, encontrava-se a massa enorme do exército em retirada e, ainda mais atrás, perseguiam-nos os franceses, mas o mundo dos fuzileiros era o grupo de homens na vanguarda, o granizo, o seu cansaço e a dor nos ventres, com cãibras de fome.

     A uma hora da aldeia chegaram a uma ponte de pedra que atravessava um ribeiro. A cavalaria britânica esperava-os aí com a notícia de que parte da artilharia patinhava numa encosta, a três quilómetros de distância. O comandante da cavalaria sugeriu que os fuzileiros de Dunnett esperassem junto à ponte.

     - Dê-nos tempo para ajudar a artilharia a chegar ao cimo do monte, depois voltamos para vos vir buscar.

     - Daqui a quanto tempo? - perguntou Dunnett teimosamente.

     - Apenas uma hora.

     Os fuzileiros aguardaram. já o tinham feito uma dezena de vezes na última semana e sem dúvida fá-lo-iam muito mais. Eram a pedra no sapato do exército. Se naquele dia tivessem sorte, os franceses não os incomodariam, mas a probabilidade era de que, em qualquer altura na hora seguinte, a vanguarda do inimigo surgisse. Seria uma vanguarda de cavalos cansados. Os franceses fariam um ataque simbólico, os fuzileiros disparariam algumas rajadas; depois, porque nenhum dos lados estaria em vantagem, os franceses deixariam os casacas-verdes marchar penosamente. Era assim a guerra: aborrecida, fria, desanimadora e um ou dois fuzileiros mais um ou dois franceses morreriam por causa dela.

     Os fuzileiros formaram em companhias para barrar a estrada a ocidente da ponte. Tremiam de frio e olhavam para leste. Os sargentos seguiam a passo atrás das suas alas. Os oficiais, que tinham perdido os seus cavalos por causa do frio, mantinham-se à frente das companhias. Ninguém falava. Talvez alguns homens sonhassem com os navios da marinha que deveriam esperá-los no final daquela longa estrada, mas o mais provável era que os seus pensamentos fossem apenas o frio e a fome.

     O tenente que fora promovido a oficial de manutenção do batalhão afastava-se sem destino da ponte de pedra e olhava fixamente para o granizo torrencial. Era agora o homem mais próximo do inimigo, vinte passos à frente da linha dos casacas-verdes. O major Warren Dunnett sentiu-se melindrado vendo uma arrogância muda na posição escolhida pelo tenente.

     - Que se lixe. - Dunnett passou para o lado do capitão Murray.

     - É inofensivo - Murray falou com a sua habitual suavidade.

     - É um zé-ninguém de cabeça quente. Murray sorriu.

     - É um encarregado de manutenção muito eficiente, Warren. Quando foi que os seus homens já tiveram tantas munições?

     - O seu dever é arranjar-me cama para esta noite. Não andar por aí na esperança de provar que sabe combater bem. Olhe para ele! - Dunnett olhava para o oficial de manutenção como se este lhe provocasse comichões. - Pensa que ainda está nas fileiras, não é verdade? Uma vez camponês, sempre camponês, é essa a minha opinião. Porque é que anda de espingarda?

     - De facto, isso não lhe sei dizer.

     A espingarda era a excentricidade do oficial de manutenção e realmente era pouco adequada, pois ele necessitava, isso sim, de listas, penas e paus de sebo, não de uma arma. Precisava de ser capaz de procurar alimentos e arranjar abrigos em locais aparentemente já superlotados. Precisava de faro para detectar carne estragada, balança para pesar a ração de farinha e teimosia para resistir à depredação dos outros oficiais de manutenção. Não precisava de armas. Porém, o novo tenente trazia sempre uma espingarda tal como o sabre do regulamento. As duas armas pareciam ser uma declaração de intenções: preferia lutar a ser encarregado da manutenção, porém, para a maioria dos casacas-verdes as armas eram uma presunção bastante patética quando usadas por um homem que nada mais era do que um tenente envelhecido.

     Dunnett bateu com os pés frios na estrada.

     - Vou mandar regressar as companhias dos flancos em primeiro lugar, Johnny. Pode cobrir.

     - Sim, meu Major. Esperamos pelos cavalos?

     - Ao diabo a cavalaria - Dunnett exibiu o desprezo automático de um soldado apeado para com outro com montada. - Vou esperar mais cinco minutos. Não será preciso mais tempo para retirar da estrada esses malditos canhões. Vê alguma coisa, encarregado do abastecimento? - a pergunta foi feita em tom de troça.

     - Não, meu Major. - O tenente retirou a barretina e passou a mão pelo cabelo comprido, negro e oleoso dos dias de campanha. Tinha o capote aberto e não usava nem cachecol nem luvas. Ou não conseguira arranjá-los ou queria gabar-se de que era demasiado duro para tais confortos. Aquela arrogância fez com que Dunnett desejasse que o tenente, que tanto desejava uma luta, fosse trucidado pelos cavaleiros inimigos.

     Mas a cavalaria inimiga não estava à vista. Talvez que a chuva, o vento e o maldito frio tivessem obrigado os franceses a abrigarem-se na última aldeia. Ou talvez que as mulheres embriagadas se tivessem mostrado um isco irresistível. Fosse como fosse, não havia franceses à vista, apenas granizo e nuvens baixas empurradas por um turbilhão de vento gelado.

     O major Dunnett praguejou nervosamente. As quatro companhias pareciam estar completamente sós num deserto de chuva e geada, quatro companhias de soldados esquecidos, numa guerra perdida; Dunnett resolveu não esperar mais.

     - Vamos andando.

     Soaram os apitos. As duas alas deram meia volta e, como mortos vivos, patinharam estrada a cima. As duas companhias centrais mantiveram-se na ponte sob as ordens do capitão Murray. Em cerca de cinco minutos, quando as alas se detiveram para oferecer cobertura, seria a vez de Murray retirar.

     Os fuzileiros gostavam do capitão John Murray. Era um perfeito cavalheiro, diziam, mas também um consumado canalha, se o quisessem enganar; porém, aos que eram honestos, o capitão tratava-os com justiça. Murray tinha um rosto magro e bem-disposto, de sorriso fácil e gracejo rápido. Era devido à existência de oficiais como ele que os fuzileiros ainda transportavam armas ao ombro e marchavam com o eco do élan que tinham aprendido na parada de Shorncliffe.

     - Meu Capitão! - Era o oficial de manutenção que ainda se encontrava na ponte e chamou a atenção de Murray para leste, onde uma figura se movimentava através do granizo. - Um dos nossos - exclamou logo a seguir.

     A solitária figura, hesitante e arrastando os pés, era um casaca-vermelha. Não tinha mosquete, barretina ou botas. Os seus pés nus deixavam manchas de sangue no tapete de pedra da estrada.

     - Aquilo há-de ensinar-lhe - disse o capitão Murray. - Estão a ver rapazes, os perigos da bebida?

     Não tinha muita graça, pois era mera imitação de um pregador que lhes havia feito um sermão acerca dos perigos do álcool, mas os fuzileiros sorriram. Podiam ter os lábios gretados e feridos do frio, mas um sorriso era sempre melhor do que o desespero.

     O casaca-vermelha, um dos bêbados, abandonado na última aldeia, parecia fazer um fraco aceno em direcção à retaguarda. Um qualquer instinto surgira nele e atraíra-o para a estrada, obrigando-o a viajar para ocidente, para ficar em segurança. Tropeçou na carcaça gelada de um cavalo e depois tentou fugir.

     - Atenção, cavalaria! - gritou o novo tenente.

     - Fuzileiros - gritou o capitão Murray. - Presente!

     Os trapos foram arrancados aos fechos das espingardas. As mãos dos homens, mesmo dormentes do frio, moveram-se rapidamente.

     Na névoa branca do granizo e do gelo, divisavam-se outras figuras. Cavaleiros.

     As formas eram grotescas, aparições na chuva cinzenta. Formas escuras, bainhas, capas, plumas e coldres de carabinas faziam os recortados contornos da cavalaria francesa. Dragões.

     - Firmes, rapazes, firmes! - a voz do capitão Murray era calma. O novo tenente dirigira-se à ala esquerda da companhia, onde estava peada a sua mula.

     O casaca-vermelha saltou para fora da estrada, ultrapassou uma vala gelada e depois gritou como um porco num matadouro. Um dragão apanhara-o e abrira-lhe o rosto da testa até ao queixo com uma espada longa e estreita. O sangue salpicou a terra gelada. Outro cavaleiro vindo da outra ala, brandiu a sua lâmina de aço para cortar o escalpe ao fugitivo. O casaca-vermelha, embriagado, caiu de joelhos a gritar e os Dragões pisaram-no com os cavalos. Depois espicaçaram os animais em direcção às duas companhias que barravam a estrada. O pequeno ribeiro não seria obstáculo à sua carga.

     - Serrez! Serrez! - A palavra de ordem francesa foi claramente entendida pelos fuzileiros. Significava ”fechou”! Os dragões juntaram-se, joelho contra joelho e o novo tenente teve tempo para ver as estranhas trancinhas que lhes emolduravam os rostos, antes que o capitão Murray gritasse a ordem de disparar.

     Dispararam oitenta espingardas, talvez. As restantes estavam demasiado húmidas, mas oitenta balas, a menos de oitenta metros, transformaram um único esquadrão num turbilhão de cavalos em fuga, homens caídos e pânico. O relinchar de um cavalo moribundo atravessou o dia gelado.

     - Recarregar!

     O sargento Williams estava na ala direita da companhia de Murray. Pegou numa espingarda húmida que não tinha sido disparada, retirou a fuligem enlameada da caçoleta, recarregou-a com pólvora seca do seu próprio polvorinho.

     - Escolham os alvos! Disparem à vontade!

     O novo tenente espreitou através do fumo cinzento e sujo para encontrar um oficial inimigo. Viu um cavaleiro a disparar contra a tropa desbaratada. Fez pontaria e a espingarda disparou, apesar de lhe ter magoado o ombro. Pensou ter visto o francês cair, mas não teve a certeza. Um cavalo sem cavaleiro afastou-se da estrada a galope com sangue a escorrer do pano da sela.

     Dispararam mais. As chamas cuspiam a dois passos da boca das armas. Os franceses tinham-se espalhado, servindo-se do granizo como biombo para se ocultarem da pontaria das espingardas. A primeira carga, apenas destinada a descobrir que tipo de retaguarda os esperava, tinha falhado e, agora, contentavam-se em espicaçar os casacas-verdes à distância.

     As duas companhias que tinham retirado para oeste sob as ordens de Dunnett estavam já formadas. Soou um apito, indicando a Murray que poderia recuar em segurança. Os franceses, do outro lado da ponte, tinham aberto um fogo irregular e pouco certeiro com as suas carabinas de cano curto. Disparavam da sela, tornando ainda menos provável que as balas encontrassem um alvo.

     - Retirar! - gritou Murray.

     Algumas espingardas dispararam uma última vez, depois os homens deram meia volta e subiram a estrada a muito custo. Esqueceram a fome, o cansaço e o desespero; o medo deu-lhes asas e correram para as duas companhias formadas que poderiam manter à distância a carga dos franceses. Nos minutos seguintes seria um jogo do gato e do rato entre a cavalaria estafada e a infantaria completamente gelada, até que os franceses desistissem do esforço ou a cavalaria inglesa chegasse para afastar o inimigo.

     O fuzileiro Cooper cortou a peia da mula do oficial encarregado da manutenção e arrastou o animal recalcitrante pela estrada a cima. Murray desferiu uma espadeirada no traseiro da mula, fazendo-a saltar para a frente.

     - Porque não a deixas em paz? - perguntou ao tenente.

     - Porque preciso mesmo dela.

     O tenente ordenou a Cooper que tirasse a mula da estrada e a fizesse subir a encosta norte para deixar o campo livre para as duas companhias de Dunnett dispararem. Os casacas-verdes eram treinados para escaramuças, para as cadeias soltas de homens que se escondiam e disparavam furtivamente contra o inimigo, mas nesta retirada os homens de verde formavam alas tão apertadas como as dos casacas-vermelhas e usavam as espingardas para disparar de rajada.

     - Formar! Formar! - gritava o sargento Williams para a companhia de Murray. Os franceses avançavam desastradamente para a ponte. Eram talvez uma centena, uma vanguarda montada em cavalos que pareciam desesperadamente cansados e fracos. Nenhum daqueles animais deveria andar em campanha em tais condições atmosféricas e tão terríveis estradas das montanhas, mas o imperador lançara os franceses para acabarem com o exército inglês e, portanto, os cavalos seriam chicoteados até à morte desde que isso significasse a vitória. Os cascos estavam envoltos em trapos para impedir que deslizassem nas estradas escorregadias.

     - Fuzileiros! Fixar espadas! - gritou Dunnett. As longas baionetas foram retiradas das bainhas e colocadas nos canos das espingardas carregadas.

     A ordem era provavelmente desnecessária. Os franceses não pareciam querer tentar nova carga, mas as espadas fixas eram de regra, quando se enfrentava a cavalaria, por isso Dunnett ordenou-o.

     O tenente carregou a espingarda. O capitão Murray limpou a humidade da lâmina da sua espada da Cavalaria Pesada que, como a espingarda do tenente, era uma excentricidade. Os oficiais fuzileiros deviam usar um sabre curvo, mas Murray preferia usar a espada de lâmina direita que poderia esmagar o crânio de um homem apenas com o peso.

     Os dragões inimigos desmontaram. Deixaram os cavalos na ponte e formaram uma linha irregular que se espalhou de ambos os lados da estrada.

     - Não querem arriscar - disse Murray zangado, dando meia volta na esperança de avistar a cavalaria inglesa. Não o conseguiu.

     - Recuem por companhias! - gritou o major Dunnett. - Johnny! Leve as duas que lhe pertencem!

     - Cinquenta passos, vão! - As duas companhias, acompanhadas pelo oficial de manutenção e pela sua mula, recuaram com alguma dificuldade os cinquenta metros e formavam uma nova linha de um lado ao outro da estrada.

     - Ala da frente, de joelhos! - gritou Murray.

     - Estamos sempre a fugir. - Fora o soldado Harper que falara. Era um homem enorme, desordeiro, um gigante irlandês num exército de baixa estatura. Tinha um rosto largo e liso com sobrancelhas alouradas, agora esbranquiçadas pelo gelo. - Porque não vamos lá abaixo estrangular aquelas bestas até à morte. Devem ter alimentos aos montes. - Voltou-se para olhar para ocidente. - E onde raio está a nossa maldita cavalaria?

     - Silêncio! Volte-se para a frente! - Foi o oficial de manutenção que emitiu a ordem.

     Harper lançou-lhe um olhar demorado, cheio de insolência e desdém, depois voltou-se para ver as companhias do major Dunnett retirar. Os dragões eram figuras sombrias à meia distância. Por vezes uma espingarda disparava e o vento arrebatava uma mancha de fumo cinzento. Um casaca-verde foi atingido numa perna e praguejou contra o inimigo.

     O novo tenente calculou que faltassem então cerca de duas horas para o meio-dia. A retirada conturbada deveria estar terminada ao princípio da tarde e depois deveria apressar-se para encontrar um qualquer estábulo ou igreja onde os homens pudessem passar a noite. Esperava que um oficial comissário aparecesse com um saco de farinha que, misturado com agua e cozido sobre um lume de estrume de vaca teria de servir de ceia e pequeno-almoço. Com sorte, um cavalo morto fornecer-lhes-ia carne. De manhã, os homens despertariam com cãibras no estômago. De novo formariam alas; marchariam e depois regressariam para dar luta àqueles mesmos dragões, que pareciam agora satisfeitos por deixar partir os fuzileiros.

     - Hoje não estão dispostos - resmungou o tenente.

     - Estão a sonhar com o lar - disse Murray, nostálgico. - Com galinha cozinhada com alho, bom vinho tinto e uma rapariga gorducha na cama. Se é isso que os espera, quem quer morrer num local desgraçado como este?

     - Retiraremos por colunas de meias companhias! - Dunnett, convencido que o inimigo não se atreveria a fechar a brecha, planeava voltar-lhes as costas e partir simplesmente.

     - Capitão Murray? Primeiro os seus homens, por favor.

     Mas antes que Murray pudesse emitir a ordem, a voz do novo tenente fez um aviso urgente.

     - Atenção, cavalaria à retaguarda!

     - São os nossos, estúpido! - Dunnett: não conseguia disfarçar o desagrado pelo oficial responsável pelo aprovisionamento.

     - Oh, valha-me Deus! - Murray tinha-se voltado para olhar para a estrada pela qual as quatro companhias deveriam retirar. - Ala da retaguarda! Volver! Major Dunnett! São os franciús!

     Sabe-se lá como, mas um novo inimigo tinha aparecido por trás. Não havia tempo para imaginar de onde surgira, apenas para se voltarem e enfrentarem três esquadrões de tropas frescas de dragões. A cavalaria francesa aproximava-se com as capas abertas, revelando as casacas-verdes de paramentos rosados. Empunhavam espadas. Curiosamente eram conduzidos por um oficial de Caçadores de casaca-vermelha, peliça escarlate e chapéu de pele negra da Guarda Imperial do Imperador. Juntamente com ele, montado num enorme cavalo malhado, vinha uma estranha figura; um homem com um fato de montar negro e reluzentes botas brancas.

     Dunnett abriu a boca de espanto perante o novo inimigo. Os fuzileiros recarregaram freneticamente as armas vazias. O oficial de manutenção ajoelhou, apoiou a espingarda, enrolando a alça no cotovelo esquerdo e atirou contra o caçador.

     Falhou. O soldado Harper troçou.

     Soou um clarim do lado do inimigo. Havia morte na sua nota estridente. O caçador erguera o sabre. A seu lado o homem que envergava o casaco civil puxou de uma espada fina e estreita. A cavalaria partiu a trote e o novo tenente ouviu as patas dos animais pisarem o chão gelado. O Regimento dos Dragões continuava a deslocar-se em esquadrões que se distinguiam pela cor dos cavalos. O primeiro montava animais negros, o segundo baios e o terceiro castanhos; era um costume vulgar em tempo de paz, mas raro nas batalhas, que geralmente diluíam o padrão com a troca de montadas. Os corneteiros montavam os cinzentos, tal como os três homens que transportavam os estandartes em longos bastões. As pequenas bandeiras destacavam-se brilhantes contra as nuvens baixas. As longas espadas dos dragões eram ainda mais brilhantes, como lâminas de gelo pálido.

     O major Dunnett percebeu que os seus fuzileiros corriam o risco de ser aniquilados.

     - Formar quadrado! Formar! Formar!

     Os casacas-verdes reuniram-se em quadrado; uma formação destinada à protecção dos homens contra a cavalaria. Qualquer soldado que se encontrasse na vanguarda ajoelhava e apoiava a coronha da espingarda na turfa para que a lâmina da espada baioneta se mantivesse rígida. Outros carregavam as espingardas esfolando os nós dos dedos congelados nas longas lâminas das baionetas, enquanto as carregavam. Cooper e a sua mula abrigaram-se no meio do quadrado.

     O esquadrão de cavalos castanhos afastou-se do alcance da carga francesa, puxou das carabinas e desmontou. Os outros dois esquadrões lançaram os cavalos num trote rápido. Continuavam a uma centena de passos e não os poriam a galope até estarem muito próximo do alvo.

     - Disparar! - gritou Dunnett.

     Os fuzileiros, que tinham recarregado as armas, dispararam. Esvaziaram uma dúzia de selas. Os fuzileiros trocaram apressadamente de posições, formando alas de modo a que todas as espingardas pudessem disparar de um verdadeiro quadrado. Havia agora três alas, cada uma ornada com baionetas.

     - Disparar! - Mais espingardas cuspiram, mais elementos da cavalaria caíram, depois o oficial de Caçadores, em vez de insistir na carga, afastou o cavalo e os dois esquadrões desviaram-se para pôr a descoberto os homens que tinham desmontado e que agora abriam fogo com as suas carabinas. Os primeiros dragões, a companhia que tinha aguardado junto à ponte, fecharam-se no lado oriental do quadrado.

     O quadrado transformou-se num alvo perfeito para os dragões a pé. Se os fuzileiros se alinhassem para varrer a infantaria improvisada, então a cavalaria poria em movimento os cavalos e os casacas-verdes seriam completamente arrasados. O coronel de Caçadores, pensou o tenente, era um patife inteligente, um patife francês inteligente que hoje acabaria por matar alguns dos melhores fuzileiros.

     E esses fuzileiros começaram a cair. Em breve o centro do quadrado se transformaria numa vala comum com feridos, sangue, gritos e preces inúteis. A chuva caía ainda mais forte, encharcando a caçoleta das espingardas, mas a pólvora negra fazia ainda disparar as balas para os inimigos que se acocoravam na erva, tornando-se alvos pequenos e esquivos.

     Os dois esquadrões a cavalo tinham-se afastado para oeste e formado de novo. Carregariam ao longo da linha da estrada e o aço gelado das suas espadas pesadas e direitas queimaria como fogo quando cortasse o alvo. Só que, enquanto os fuzileiros permanecessem juntos e desde que as alas contínuas mostrassem as suas lâminas claras, a cavalaria não lhes faria mal.

     Mas as carabinas do inimigo emitiam um troar assustador. E quando já tivessem caído fuzileiros suficientes, a carga de cavalaria destruiria o quadrado enfraquecido com a facilidade de uma faca que corta uma maçã podre.

     Dunnett sabia-o e procurava a salvação. Viu-a na nuvem baixa que humedecia a encosta duzentos metros para norte. Se os casacas-verdes pudessem esconder-se na obscuridade dessas nuvens, estariam em segurança. Hesitou em tomar a decisão. Um sargento caiu para dentro do quadrado, morto instantaneamente com uma bala no cérebro. Um fuzileiro gritou ao ser atingido por uma bala no baixo-ventre. Outro ainda, baleado num pé, engoliu um gemido de dor enquanto voltava a carregar a arma.

     Dunnett ergueu os olhos para o monte e para a nuvem que lhes poderia servir de refúgio. Afagou o seu eriçado bigode, coberto de gotas de chuva e decidiu-se.

     - Subir o monte! Subir o monte! Manter as alas!

     O quadrado ergueu-se aos poucos pela encosta. Os feridos gritavam ao serem transportados. As balas francesas atingiam o alvo e a formação de casacas-verdes tornava-se irregular quando os homens se detinham para responder ao fogo ou ajudar as baixas. O avanço era desesperadamente lento, demasiado lento para os nervos em franja do major Dunnett.

     - Separai-vos e correi! Separai-vos e correi!

     - Não! - O novo tenente gritou a contra-ordem, mas foi ignorado. A ordem de Dunnett fora dada e seguiu-se uma corrida. Se os casacas-verdes conseguissem abrigar-se antes de a cavalaria os apanhar, sobreviveriam, mas se o oficial de Caçadores tivesse calculado acertadamente a distância, venceria.

     E o oficial de casaca-vermelha tinha-a de facto calculado correctamente. Os casacas-verdes fugiram, mas, sobrepondo-se ao som da sua respiração ofegante e ao bater das botas no chão, ouvia-se o tropel dos cascos, cada vez mais próximos.

     Um homem voltou-se e viu os dentes arreganhados de um cavalo. Ouviu o silvo de uma espada sobrepondo-se ao som do clarim. O fuzileiro gritou.

     Depois seguiu-se o caos e a carnificina.

     A cavalaria desbaratou os fuzileiros e prosseguiu com a matança. As enormes espadas esquartejavam tudo. O novo tenente vislumbrou um homem com as trancinhas balançando por baixo da pala do capacete. Desviou-se para o lado e sentiu no rosto a deslocação do ar causada pela espada do dragão. Outro cavaleiro veio na sua direcção, mas conseguiu erguer a espingarda e atingir o focinho do cavalo com a boca da arma. O animal relinchou, recuou, e o tenente fugiu. Gritava para que os homens o cobrissem, mas os casacas-verdes estavam espalhados e tentavam salvar-se. A mula do batalhão fugira para oeste e Cooper, que teimosamente quisera salvar os seus pertences, atados aos alforges do animal, fora morto por um golpe de espada.

     O major Dunnett caíra por terra. Um tenente de dezassete anos fora capturado por dois dragões. O primeiro cegou-o com um golpe cortante, o segundo apunhalou-o no peito. Mesmo assim, a cavalaria prosseguia. Os cavalos estavam cheios de feridas por terem sido montados durante muito tempo, mas era exactamente para esse fim que tinham sido treinados. A face de um fuzileiro tinha-lhe sido arrancada do rosto e a sua boca borbulhava de sangue e saliva. Os franceses gemiam, mas atacavam. Era o paraíso dos soldados de cavalaria: uma infantaria desbaratada e solo firme. O novo tenente continuava a gritar enquanto subia o monte:

     - Fuzileiros! A mim! A mim! A mim! - O caçador devia tê-lo escutado, pois deu meia volta e esporeou o seu enorme cavalo negro em direcção ao inglês.

     O tenente viu-o aproximar-se, balançou a espingarda vazia e empunhou o sabre.

     - Vem, canalha!

     O caçador empunhou o seu próprio sabre na mão direita e, para facilitar o desferir do golpe mortal, conduziu o cavalo para a esquerda do fuzileiro. O tenente aguardou para brandir a lâmina curva na direcção do focinho do animal. O corte impediria a carga, fazendo o cavalo recuar e dar meia-volta. Com um golpe assim, já ele pusera em fuga vários soldados de cavalaria. A habilidade estava em desferi-lo com exactidão e o tenente esperava que a fuga assustada do animal fizesse cair o cavaleiro. Queria matar aquele inteligente caçador.

     Um toque de esporas do francês pareceu obrigar o cavalo a avançar para o golpe mortal; o tenente brandiu o sabre e apercebeu-se de que tinha sido enganado. O cavalo deteve-se e voltou-se numa manobra que demonstrava horas de paciente treino. O caçador não era dextro mas sim canhoto e tinha mudado de mão quando o cavalo se dirigira para a direita. A lâmina cintilou quando a brandiu na direcção do pescoço do fuzileiro.

     O tenente fora enganado. Brandira o sabre demasiado cedo e no vazio, de modo que se desequilibrara. O cavaleiro considerando morto o inglês, planeava já o próximo golpe, mesmo ainda antes de o seu sabre ter atingido o alvo. Matara já inúmeros inimigos com aquele simples artifício. Acrescentaria agora um oficial de Fuzileiros a todos os austríacos, prussianos, russos e espanhóis, que não tinham sido suficientemente hábeis.

     Mas o sabre do caçador não atingiu o tenente. Com uma espantosa velocidade, o fuzileiro conseguiu recuperar a sua arma e esquivar-se. Os sabres encontraram-se com uma força que fez tremer os braços dos dois homens. A lâmina de quatro guinéus do tenente estremeceu, mas não sem aparar a força do golpe cortante desferido pelo francês.

     O movimento do animal do caçador posicionou-o diante do fuzileiro inglês. O francês voltou-se, estupefacto com tal manobra e viu-o voltar-se e correr encosta acima. Por uns instantes, sentiu-se tentado a segui-lo, mas havia outros alvos mais fáceis no sopé do monte. Picou o cavalo e afastou-se.

     O tenente livrou-se do sabre quebrado e arrastou-se em direcção à nuvem baixa.

     - Fuzileiros! Fuzileiros! - Os homens ouviram-no e fecharam-se sobre ele. Subiram o monte com dificuldade e formaram um grupo suficientemente grande para evitar o inimigo. Os dragões procuravam indivíduos, isolados homens que matavam com mais facilidade, vingando assim com prazer todos os soldados de cavalaria que tinham caído pelas balas das carabinas, todos os franceses que tinham vacilado e se tinham esvaído em sangue na longa perseguição e todos os insultos que os fuzileiros tinham lançado no ar gelado nas últimas e amargas semanas.

     O capitão Murray veio ter com o novo tenente.

     - Excedeu-nos em esperteza, c’os diabos! - parecia surpreendido.

     O pequeno grupo de fuzileiros chegou em segurança ao nevoeiro, onde o solo rochoso impedia os dragões de os seguirem. Aí Murray deteve os seus homens e ficou a olhar, abismado, para a carnificina que via a seus pés.

     Os dragões cavalgavam por entre os mortos e os vencidos. Os fuzileiros de rostos cortados cambaleavam entre eles, outros deixavam-se ficar imóveis até que mãos ávidas voltavam os cadáveres e começavam a saquear bolsas e algibeiras. O oficial de manutenção viu o major Dunnett ser posto de pé para lhe revistarem o uniforme. Dunnett poderia dar-se por feliz. Estava vivo e fora feito prisioneiro. Um fuzileiro correu encosta abaixo tentando ainda fugir, mas o homem de casaca negra e botas brancas cavalgou atrás dele e, com uma habilidade assustadora, matou-o de um só golpe.

     - Canalhas! - Sabendo que a luta terminara, Murray embainhou a sua espada da Cavalaria Pesada. - Malditos canalhas franciús!

     Cinquenta fuzileiros das quatro companhias tinham sobrevivido à batalha. O sargento Williams estava entre eles, bem como o soldado Harper. Alguns deles sangravam. Um sargento tentava estancar um golpe terrível no ombro. Um jovem tremia com os lábios arroxeados. Murray e o novo tenente eram os únicos oficiais que tinham escapado ilesos ao massacre.

     - Vamos seguir para leste - disse Murray calmamente. - Talvez consigamos atingir o exército depois de escurecer.

     O irlandês enorme praguejou lentamente e os dois oficiais olharam para o vale e viram que, por fim, a cavalaria inglesa aparecia por entre a chuva. O caçador viu-os também e o corneteiro francês tocou para que os dragões se reunissem. Os ingleses, vendo o inimigo de prevenção e não encontrando sinais da infantaria, afastaram-se.

     Os fuzileiros, ocultos pela nuvem, invectivaram a sua cavalaria em retirada. Murray voltou-se rapidamente.

     - Silêncio!

     Mas os gritos tinham chamado a atenção dos dragões, apeados na encosta mais abaixo, fazendo-os acreditar que os gritos de troça lhes eram dirigidos. Alguns pegaram nas carabinas, outros apoderaram-se das espingardas caídas e dispararam uma rajada na direcção do pequeno grupo de sobreviventes.

     As balas zumbiram e chicotearam os casacas-verdes. A rajada falhou, excepto uma bala fatal que, fazendo ricochete numa pedra, atingiu o capitão Murray na cintura. A força do projéctil obrigou-o a dar meia volta e fê-lo cair de bruços na encosta. Com a mão esqerda agarrou-se à erva fina, enquanto com a direita apalpava o sangue da cintura.

     - Vão! Deixem-me aqui! - a voz pouco mais era que um murmúrio. O soldado Harper desceu a encosta de um salto e ergueu Murray nos seus braços enormes. O capitão soltou um terrível gemido de dor quando foi levantado. Lá em baixo os franceses esforçavam-se por subir o monte, ansiosos por completar a vitória, prendendo aqueles últimos fuzileiros.

     - Sigam-me! - O tenente conduziu o pequeno grupo através do nevoeiro. Os franceses dispararam de novo e as balas passavam rente aos fuzileiros agora perdidos por entre a bruma. Pelo menos, por enquanto estavam a salvo.

     O tenente encontrou uma concavidade nas rochas que oferecia algum abrigo do frio. Os feridos foram aí deitados enquanto se fizeram piquetes para vigiar o perímetro. Murray estava branco como a cal da parede.

     - Nunca pensei que nos pudessem derrotar, Dick.

     - Não sei de onde surgiram. - O rosto marcado do tenente, pensou Murray, fazia lembrar uma execução. - Não passaram por nós. Seria impossível!

     - Passaram com certeza - suspirou Murray, fazendo depois um gesto ao soldado Harper que, com uma gentileza que parecia estranha num homem tão grande, desafivelou primeiro o cinto da espada do capitão, e lhe descobriu a ferida. Percebia-se que Harper sabia o que estava a fazer, de modo que o tenente foi espreitar a colina envolta em nevoeiro em busca do inimigo. Nada viu nem ouviu. Provavelmente os dragões tinham considerado o bando de sobreviventes demasiado insignificante para lhes causar preocupações. Os cinquenta fuzileiros tinham-se transformado em destroços de guerra, meros estilhaços, sobreviventes de um naufrágio e se os franceses soubessem que os fugitivos eram conduzidos por um oficial de manutenção, poderiam sentir-se ainda mais desdenhosos.

     Mas esse oficial começara a combater contra os franceses havia quinze anos e desde esses tempos que lutara contra eles. Os fuzileiros abandonados poderiam chamar-lhe o novo tenente e talvez investissem na palavra ”novo” todo o desprezo dos velhos soldados, mas apenas porque não conheciam o homem. Consideravam-no apenas um sargento que subira de patente e enganavam-se. Era um soldado e chamava-se Richard Sharpe.

    

     Durante a noite o tenente Sharpe conduziu uma patrulha para oeste ao longo do alto cume do monte. Tinha esperança de poder determinar se os franceses se mantinham no local em que a estrada atravessava o cimo, mas, na escuridão gelada e entre as muitas pedras, desorientou-se e voltou aborrecido para a gruta onde os fuzileiros se abrigavam.

     O nevoeiro levantou antes da madrugada, deixando que o primeiro raio de luz revelasse o corpo principal dos perseguidores franceses no vale que se estendia a sul. A cavalaria inimiga já tinha partido para oeste e Sharpe observou a infantaria do marechal Soult, que seguia em perseguição cerrada ao exército de Sir John Moore.

     - Estamos isolados, raios - afirmou a Sharpe o sargento Williams, em tom pessimista, mas aquele, em vez de responder, acocorou-se junto aos feridos. O capitão Murray tinha um sono inquieto, estremecendo, abrigado do frio sob meia-dúzia de capotes. O sargento, que tinha recebido o golpe no pescoço e nos ombros, morrera durante a noite. Sharpe cobriu o rosto do homem com uma barretina.

     - Este não vale nada. - Williams olhou as costas de Sharpe com ar malévolo. - Não é um oficial, Sharpe. Pelo menos um oficial de verdade.

     O soldado Harper afiava o seu sabre-baioneta, executando o trabalho com a obcecada concentração de quem sabe que a sua vida depende das armas.

     - Não é um oficial como deve ser - continuou Williams. - Nem um cavalheiro. Apenas um sargento que foi promovido, não é verdade?

     - Só isso. - Harper olhou para o tenente e viu-lhe as cicatrizes do rosto e a linha dura do queixo.

     - Se pensa que me dá ordens, está muito enganado. Não é mais do que eu, não achas?

     A resposta de Harper foi um resmungo e não o assentimento que encorajaria Williams a prosseguir conforme desejava. Williams esperava o apoio de Harper, mas o irlandês limitou-se a semicerrar os olhos espreitando a lâmina da sua baioneta, para logo a embainhar cuidadosamente.

     Williams cuspiu.

     - Basta pôr-lhes uma maldita faixa e dar-lhes a porcaria de uma espada e julgam-se Deus Todo-Poderoso. Não é um verdadeiro fuzileiro, apenas um maldito oficial de manutenção, Sharpe!

     - E mais nada - concordou Harper.

     - Não passa de um armazenista promovido, não achas?

     Sharpe voltou-se rapidamente e Williams, embora tal fosse impossível, pensou ter sido ouvido. Os olhos do tenente eram duros como pedras.

     - Sargento Williams!

     - Meu Tenente! - Apesar da sua declaração de desobediência, Williams aproximou-se do tenente Sharpe como lhe era devido.

     - Abrigo. - Sharpe apontou para baixo, para o vale a norte, onde lá muito em baixo, à medida que o nevoeiro levantava lentamente, ia surgindo uma quinta em ruínas. - Vamos levar os feridos para lá.

     Williams assobiou em tom de dúvida por entre os dentes amarelados.

     - Não sei como os poderemos deslocar, meu Tenente. O nosso capitão...

     - Eu disse que vamos levar para lá os feridos, sargento - Sharpe afastara-se, mas agora voltara atrás. - Não pedi um debate sobre o maldito assunto. Mexa-se.

     Levaram a maior parte da manhã, mas conseguiram transportar os feridos para a quinta em ruínas. O edifício mais seco era um celeiro de pedra, construído sobre pilares de rocha, cuja intenção era manter à distância a bicharada, e com um telhado suportado por traves cruzadas de modo que, ao longe, parecia uma tosca igrejinha. A casa em ruínas e a vacaria continham madeira húmida e cheia de fungos que, depois de partida e salpicada com pólvora deu para acender uma fogueira que aos poucos foi aquecendo os feridos. O soldado Hagman, um homem do Cheshire, desdentado e já de meia-idade, partiu em busca de alimentos, enquanto o tenente pôs piquetes nos caminhos de cabras que levavam para leste e oeste.

     O sargento Williams pressionou Sharpe, quando este voltava do celeiro:

     - O capitão Murray está muito mal, meu Tenente. Precisa de um cirurgião.

     - O que é praticamente impossível, não é verdade?

     - A menos que nós... isto é... - o sargento, um homem atarracado e de rosto vermelho, não conseguia dizer o que tinha na ideia.

     - A menos que nos rendamos aos franceses? - perguntou friamente Sharpe.

     Williams olhou o tenente nos olhos. Eram olhos curiosos, semelhantes aos de um réptil de tão frios. O sargento conseguiu encontrar truculência para justificar o seu argumento.

     - Pelo menos os franciús têm cirurgiões, meu Tenente.

     - Daqui a uma hora vou inspeccionar as espingardas de todos os homens - a voz de Sharpe implicava nem sequer ter ouvido as palavras de Williams. - Trate de que se encontrem como deve ser.

     Williams olhou para o oficial com ar beligerante, mas não arranjou coragem necessária para desobedecer. Fez um curto aceno e deu meia volta.

     O capitão Murray estava encostado a um monte de fardos dentro do celeiro. Lançou a Sharpe um fraco sorriso.

     - Que tenciona fazer?

     - O sargento Williams pensa que eu o deveria levar a um cirurgião francês.

     Murray fez uma careta.

     - Perguntei-lhe o que tencionava fazer. Sharpe sentou-se ao lado do capitão.

     - Juntar-me ao exército.

     Murray acenou afirmativamente. Tinha uma caneca de chá nas mãos, preciosa oferta de um fuzileiro que encontrara as folhas no fundo da sua bolsa de víveres.

     - Pode deixar-me aqui.

     - Não posso...

     - Estou a morrer - Murray fez um gesto deprecatório para mostrar que não queria compaixão. A ferida não sangrava demasiado, mas tinha o ventre inchado e roxo, sinal de que havia uma hemorragia interna. Apontou com o queixo para os outros três feridos graves, todos eles com enormes cortes no rosto ou no peito. - Deixe-os também. Para onde vai? Para a costa? Sharpe abanou a cabeça.

     - Agora já não conseguimos apanhar o exército.

     - Provavelmente não - Murray fechou os olhos.

     Sharpe aguardou. Começara a chover de novo e uma goteira no telhado de pedra pingava insistentemente para dentro da fogueira. Estava a pensar nas opções. A mais convidativa seria seguir o exército de Sir John Moore, mas este retirava a toda a pressa e os franceses controlavam agora a estrada que Sharpe deveria tomar, portanto, sabia que deveria resistir a essa tentação, já que seriam apenas conduzidos ao cativeiro. Deveria ir para sul. Sir John partira de Lisboa, deixando algumas tropas a proteger a capital portuguesa. Talvez essa guarnição ainda existisse e Sharpe a conseguisse encontrar.

     - A que distância fica Lisboa? - perguntou a Murray. O capitão abriu os olhos e encolheu os ombros.

     - Só Deus sabe. Seiscentos, setecentos quilómetros? - encolheu-se com uma ferroada de dor. - Provavelmente serão quase oitocentos, por estes caminhos. Acha que ainda temos tropas lá?

     - Pelo menos podíamos encontrar um navio.

     - Se os franceses não chegarem lá primeiro. E Vigo?

     É mais provável que os franceses lá estejam do que em Lisboa.

     É verdade. - A Brigada Ligeira fora enviada para Vigo por uma estrada mais a sul. Apenas algumas tropas, como aqueles fuzileiros, tinham sido retidos para proteger a retirada de Sir John Moore. - Talvez seja melhor Lisboa. - Murray olhou por cima do ombro de Sharpe e viu os homens a escovar e a olear o fecho das espingardas. - Não seja muito severo com eles suspirou.

     - Não sou - Sharpe ficou imediatamente na defensiva. O rosto de Murray iluminou-se com um sorriso.

     - Alguma vez foi comandado por um oficial saído das fileiras? Sharpe, sentindo a crítica, ofendeu-se um pouco, mas logo percebeu que Murray tentava ser-lhe útil.

     - Não, meu Capitão, nunca.

     - Os homens não gostam. Realmente é estúpido. Crêem que os oficiais nascem, não se fazem - Murray fez uma pausa para tomar fôlego, o que o fez estremecer de dor. Viu que Sharpe lhe ia ordenar que se calasse, mas abanou a cabeça. - Não tenho muito tempo. Posso bem usar aquele que me resta. Pensa que estou a ser indelicado?

     - Não, meu Capitão.

     Murray fez uma pausa para beber um gole de chá.

     - São bons rapazes.

     - Sim, meu Capitão.

     - Mas fazem uma estranha ideia daquilo que é adequado. Esperam que os oficiais sejam diferentes, sabe. Querem-nos privilegiados. Os oficiais são homens que decidiram combater, não foram forçados a fazê-lo para fugir à pobreza. Compreende isso?

     - Sim.

     - Pensam que o nosso Tenente é um deles, um dos malditos; querem que os oficiais sejam tocados por algo superior. - Murray abanou tristemente a cabeça. - Não é um conselho muito bom, pois não?

     - É muito bom - mentiu Sharpe.

     O vento gemia nos cantos do celeiro de pedra, fazendo agitar as chamas da pequena fogueira. Murray sorriu tristemente.

     - Deixe-me pensar num conselho mais prático para si. Um conselho que o conduza a Lisboa - franziu a testa por instantes, voltando para Sharpe os olhos injectados de sangue. - Veja se consegue pôr Patrick Harper do seu lado.

     Sharpe voltou-se para olhar para os homens que se tinham reunido no lado oposto do celeiro. O irlandês enorme parecia ter sentido que o seu nome fora mencionado, pois lançou a Sharpe um olhar hostil.

     - É conflituoso, mas os homens ouvem-no. já uma vez tentei fazer dele um ”homem escolhido” - Murray utilizou instintivamente o antigo termo dos fuzileiros para designarem um cabo. - Mas ele não quis. Havia de ser um bom sargento. Que diabo, até um bom oficial, se soubesse ler. Mas os homens ouvem-no. Domina completamente o sargento Williams.

     - Eu dou conta de Harper. - Sharpe pronunciou as palavras sem convicção. No curto espaço de tempo que passara naquele batalhão, Sharpe reparara várias vezes no irlandês e apercebera-se, ele próprio, da verdade na afirmação do capitão Murray, de que o homem era um líder natural. Os homens juntavam-se em redor da fogueira de Harper não só para contar as suas histórias, como também para procurar a sua aprovação. Aos oficiais de quem gostava, o irlandês oferecia uma fidelidade humorística, enquanto, aos que lhe desagradavam, apenas oferecia o seu desprezo. E havia algo de muito intimidante no soldado Harper; não apenas por causa do seu tamanho mas também pelo seu ar de autoconfiança.

     - Não tenho dúvida de que Harper pensa que pode dar conta de si. É um homem duro - Murray fez uma pausa e depois sorriu. - Mas é um sentimental.

     - Então tem uma fraqueza - disse Sharpe asperamente.

     - Será uma fraqueza? - Murray encolheu os ombros. - Duvido. Mas agora o tenente vai pensar que eu sou um fraco. Sabe, quando eu morrer... - e de novo teve de impedir que Sharpe o interrompesse. - Quando eu morrer repetiu - quero que fique com a minha espada. Vou dizer a Williams que é para si.

     Sharpe olhou para a espada da Cavalaria Pesada, inserida na sua bainha de metal e encostada à parede. Parecia uma arma enorme e desajeitada mas, naquele momento Sharpe não podia fazer qualquer objecção ao presente.

     - Obrigado - disse, pouco à vontade. Não estava habituado a receber favores pessoais, nem aprendera a agradecê-los quando os aceitava.

     - Não é lá uma grande arma - disse Murray - mas, substituirá aquela que perdeu. E se os homens o virem com ela... - foi incapaz de terminar a frase.

     - Considerar-me-ão um verdadeiro oficial? - As palavras traíam o ressentimento de Sharpe.

     - Pensarão que eu gostava de si - corrigiu delicadamente Murray. - E isso há-de ajudá-lo.

     Censurado pelo tom de voz do moribundo, Sharpe murmurou de novo os seus agradecimentos.

     Murray encolheu os ombros.

     - Estive a observá-lo ontem. O tenente é muito bom numa luta, não é verdade?

     - Para um oficial de manutenção? Murray ignorou a falta de auto-estima.

     - Já esteve em muitas batalhas?

     - Sim.

     - Não foi muito diplomata da sua parte - Murray sorriu. - Os novos tenentes não devem ter mais experiência do que os seus superiores. - O capitão ergueu os olhos para o telhado rachado. - Que local tão estúpido para morrer, não acha?

     - Vou mantê-lo vivo.

     - Suspeito que é capaz de fazer muitas coisas, tenente Sharpe, mas milagres não.

     A seguir Murray adormeceu. Naquele dia todos os fuzileiros descansaram. A chuva caía insistente e a meio da tarde, transformou-se num nevão pesado que, ao cair da noite, tinha coberto as encostas dos montes mais próximos. Hagman caçara dois coelhos, pouca coisa, mas que iria dar algum sabor aos poucos feijões e bocados de pão que os soldados tinham guardado nas mochilas. Não havia panelas, mas os homens serviram-se das suas canecas de lata para cozinhar.

     Sharpe saiu do celeiro ao crepúsculo e dirigiu-se ao abrigo gelado da quinta arruinada para ver a noite cair. A casa não era grande coisa, apenas quatro paredes de pedra que tinham sido cobertas por um telhado de madeira e terra. Havia uma porta voltada para leste, outra para oeste e, da primeira, Sharpe avistava um vale agora coberto de neve rodopiante. Num determinado momento, quando o vento ergueu a neve, pensou ver a mancha cinzenta de uma coluna de fumo no fundo do vale, prova talvez da existência de uma pequena aldeia, onde poderiam arranjar abrigo, mas a neve cobriu tudo de novo. Estremeceu, parecendo-lhe impossível que aquilo fosse Espanha.

     Voltou-se ao ouvir passos. O soldado Harper baixou a cabeça para entrar pela porta oeste da pequena casa, viu Sharpe e deteve-se. Apontou com a mão para umas tábuas que estavam metidas nas pedras e na erva.

     - Madeira, meu Tenente - explicou. - Para a fogueira.

     À vontade. - Sharpe ficou a olhar, enquanto o irlandês se apoderava das tábuas podres e as retirava do local onde estavam. Harper pareceu não gostar de ser observado, pois endireitou-se e olhou para o tenente.

     - Que vamos fazer, meu Tenente?

     Por instantes Sharpe ofendeu-se com o tom mal-humorado, mas logo percebeu que Harper apenas perguntava o que todos os homens da companhia queriam saber.

     - Vamos regressar.

     - Regressar a Inglaterra?

     - Regressar ao exército, quero eu dizer - naquele momento, Sharpe desejou ter de enfrentar a viagem sozinho, sem o empecilho de homens ressentidos. - Teremos de ir para sul. Para Lisboa.

     Harper dirigiu-se à porta onde se baixou para olhar para leste. Nunca pensei que se referisse a Donegal.

     É essa a sua terra?

     Sim. - Harper via a neve cair no vale escurecido. - Donegal parece-se com isto. Só que esta é uma terra melhor.

     - Melhor? - Sharpe mostrou-se surpreendido. Sentia-se também obscura-mente satisfeito que aquele homem enorme se tivesse dignado a conversar com ele, o que o tornava, de repente, mais simpático. - Melhor? - Sharpe teve de repetir a pergunta.

     - Os ingleses nunca mandaram aqui, pois não, meu Tenente? - Voltara a insolência. Harper, de pé, olhava para Sharpe, que estava sentado, e na sua voz havia apenas desprezo. - Esta terra está intacta, é isso.

     Sharpe sabia que tinha sido atraído para a questão que causava a ironia daquele homem.

     - Pensei que tinha vindo buscar madeira.

     - Pois vim.

     - Então agarre nela e vá-se embora.

     Mais tarde, depois de ter visitado os piquetes gelados, Sharpe voltou ao celeiro e sentou-se encostado à parede, onde ouviu as vozes em surdina dos homens que se reuniam em redor do soldado Harper. Riam baixo, mostrando a Sharpe que o excluíam da companhia dos homens, mesmo dos amaldiçoados. Estava só.

     Murray morreu nessa noite. Fê-lo sem alarido, deslizando decorosamente para a morte.

     - Os rapazes querem enterrá-lo - disse Williams, como se esperasse que Sharpe não concordasse.

     Este encontrava-se à porta do celeiro.

     - Claro.

     - Disse que lhe entregasse isto - Williams estendeu-lhe a pesada espada. Foi um momento embaraçoso e Sharpe teve consciência do olhar dos homens quando pegou na arma incómoda.

     - Obrigado, sargento.

     - Dizia sempre que era melhor que um sabre num combate, meu Tenente - comentou Williams. - Fazia o medo de Deus chegar aos franciús. Uma faca de carniceiro, nem mais.

     - Claro.

     Aquele momento de intimidade forjado pelo presente da espada, pareceu dar confiança a Williams.

     - Ontem à noite estivemos a conversar, meu Tenente.

     - Estivemos?

     - Eu e os rapazes.

     - E então? - Sharpe saltou da entrada elevada do celeiro para um mundo ofuscante devido à neve recém caída. Todo o vale cintilava sob um pálido sol, ameaçado pelas nuvens cada vez mais densas.

     O sargento seguiu-o.

     - Eles não vão, meu Tenente. Não vão para sul - falava num tom respeitoso mas muito firme.

     Sharpe afastou-se do celeiro. As botas rangiam na neve fresca. Deixavam também entrar a humidade porque, tal como as botas dos homens que comandava, estavam rotas, abertas e quase não se aguentavam presas pelos farrapos e pelo cordel; não era de modo algum o calçado adequado a um oficial privilegiado que estes assustados fuzileiros deveriam seguir pelo vale da sombra e da morte.

     - Quem foi que tomou essa decisão, sargento?

     - Todos, meu Tenente.

     - Nosso Sargento, desde quando é que este exército se transformou numa... - fez uma pausa, tentando recordar-se de uma palavra que escutara uma vez num jantar da messe. - Numa democracia?

     Williams nunca ouvira a palavra.

     - Numa quê, meu Tenente?

     Sharpe não sabia explicar o significado, de modo que tentou uma abordagem diferente.

     - Desde quando é que as ordens dos sargentos ultrapassam as dos tenentes?

     - Não é isso, meu Tenente - disse Williams embaraçado.

     - Então o que é?

     O sargento hesitou, mas estava a ser observado pelos homens que se tinham reunido à entrada do celeiro e, sob o seu olhar crítico, conseguiu arranjar coragem e à vontade.

     - É uma loucura, meu Tenente, é o que é. Não podemos ir para sul com este tempo! Vamos morrer de fome! E nem sequer sabemos se ainda há uma guarnição em Lisboa.

     - É verdade. Não sabemos.

     Então vamos para norte, meu Tenente - disse Williams confiante, como se, com aquela sugestão estivesse a fazer um grande favor a Sharpe.

     - Lá em cima há portos, meu Tenente, e arranjaremos um barco. Isto é, a marinha ainda está ao largo, meu Tenente. Hão-de encontrar-nos.

     - Como sabe que a Marinha ainda lá está? Williams encolheu modestamente os ombros.

     - Não sou eu que sei, meu Tenente.

     - É o Harper?

     - Sharpe? Meu Deus, claro que não. Não passa de um irlandês burro, não é verdade? Não sabe nada, meu Tenente. Não, é o soldado Tongue, meu Tenente. É um homem esperto. Sabe ler. É a bebida que dá cabo dele, sabe, meu Tenente. Apenas a bebida. Mas é um homem culto, meu Tenente, e disse-nos que a marinha está ao largo da costa, que podemos seguir para norte e apanhar um barco, meu Tenente. - Williams, encorajado pelo silêncio de Sharpe, apontava para as íngremes montanhas a norte. - A costa não pode estar muito longe. Talvez três dias, quatro?

     Sharpe afastou-se uns passos do celeiro. A neve tinha cerca de cinco centímetros de espessura, embora fosse mais profunda nas depressões do terreno. Não estava demasiado alta para caminhar, única preocupação de Sharpe naquela manhã. As nuvens tinham começado a cobrir o Sol enquanto Sharpe olhava para o rosto do sargento.

     - Sargento, já lhe ocorreu que os franceses estão a invadir este país pelo norte e pelo leste.

     - Estão, meu Tenente?

     - E que se formos para norte, vamos direitos a eles? Ou será exactamente isso que quer? Ontem estava disposto a render-se.

     - Temos de ser inteligentes, meu Tenente. Ocultarmo-nos um pouco. Williams fazia com que o problema de evitar os franceses parecesse um jogo de escondidas para crianças.

     Sharpe ergueu a voz para ser ouvido por todos os homens.

     - Vamos para sul, sargento. Hoje desceremos até ao vale e encontraremos abrigo para esta noite. Depois, voltaremos para sul. Partimos dentro de uma hora.

     - Meu Tenente...

     - Uma hora, sargento! Por isso, se deseja cavar a sepultura para o capitão Murray, comece já. E se quiser desobedecer-me, sargento Williams, faça também a cova suficientemente grande para si. Compreendeu?

     Williams fez uma pausa, desejando desafiá-lo, mas hesitou diante do olhar de Sharpe. Houve um momento de tensão, em que o equilíbrio da autoridade vacilou. Depois o sargento acatou a ordem com um aceno.

     - Sim, meu Tenente.

     - Então trate de tudo.

     Sharpe voltou-se. Estremecia interiormente. Aparentara bastante calma ao dar as suas ordens ao sargento Williams, mas não estava seguro de que estas fossem cumpridas. Aqueles homens não estavam habituados a obedecer-lhe. Tinham frio, estavam longe de casa, rodeados pelo inimigo e convencidos de que uma viagem para norte os conduziria à segurança muito mais rapidamente do que uma jornada em direcção ao sul. Sabiam que a táctica do seu próprio exército não resultara e que este fora obrigado a retirar. Tinham visto que o resto dos exércitos espanhóis tinha sido igualmente separado e dizimado. Os franceses espalhavam-se vitoriosos pela terra e aqueles fuzileiros sentiam-se despojados e assustados.

     Sharpe também se sentia assustado. Aqueles homens facilmente desafiariam a sua ténue autoridade. Pior ainda, se o considerassem uma ameaça à sua sobrevivência, nada mais poderia esperar do que uma faca nas costas.

     O seu nome ficaria gravado como o de um oficial morto no colapso da retirada de Sir John Moore, ou talvez que a sua morte nem fosse notada, pois não tinha família. Nem mesmo tinha a certeza de ainda ter amigos, já que, quando um homem é promovido da messe dos soldados para a dos oficiais, deixa-os a todos para trás.

     Sharpe supôs que deveria voltar-se para impor a sua vontade a improvisada companhia, mas sentia-se demasiado agitado e relutante em enfrentar o ressentimento dos homens. Convenceu-se de que tinha uma tarefa útil a realizar na quinta em ruínas onde, com uma horrível sensação de estar a evitar aquilo que era o seu verdadeiro dever, resolveu pegar no telescópio.

     O tenente Sharpe não era um homem rico. Vestia um uniforme que não era melhor do que o dos homens que conduzia, com a diferença de que as suas calças esfiapadas tinham botões de prata nas costuras. Tinha as botas desfeitas, as suas rações eram más e as armas encontravam-se no mesmo estado do que o restante equipamento dos fuzileiros. Porém, possuía um objecto de valor e beleza.

     Era o telescópio, um belo instrumento fabricado em Londres por Matthew Burge e oferecido ao sargento Richard Sharpe pelo general Arthur Wellesley. Tinha uma placa de metal com a data da batalha da índia gravada, batalha essa em que Sharpe, nessa altura um casaca-vermelha, salvara a vida do general. Aquele acto tinha-lhe também conferido uma promoção por feitos no campo de batalha que, espreitando agora pelo telescópio, lhe desagradava ter conseguido. Tinha feito dele um homem à parte, um inimigo dos seus companheiros. Tempos houvera em que os homens se reuniam em redor da fogueira de Richard Sharpe, procurando a sua aprovação, mas isso ja não acontecia.

     Sharpe observou o vale, onde, durante a tempestade de neve, lhe parecera avistar a mancha de fumo das chaminés de uma aldeia. Agora, através das lentes bem graduadas, divisava casas de pedra e o pequeno arco de um campanário de igreja. Havia então uma aldeia a algumas horas de marcha e, por muito pobre que fosse, teria guardados alguns alimentos: haveria grão e feijão em panelas vedadas e presuntos pendurados nas chaminés. A ideia da comida foi subitamente perturbante e avassaladora.

     Girou o telescópio para a direita, perscrutando o brilho da neve. Nas lentes apareceu uma árvore enfeitada com pingos de gelo. Um súbito movimento fez com que Sharpe imobilizasse o óculo, mas era apenas um corvo que batia as asas contra a encosta branca. Por trás do corvo, uma linha de pegadas ondulantes mostrava o sítio por onde os homens tinham descido o monte para o campo da morte.

     Sharpe ficou a olhar. Os trilhos eram recentes. Porque não teriam os piquetes dado o alarme? Baixou o óculo para olhar para o baixo sulco na neve que marcava a linha do caminho de cabras e viu que os piquetes tinham desaparecido. Praguejou em surdina. Os homens tinham-se amotinado. Malditos! Fechou com força os tubos do óculo, levantou-se e deu meia volta.

     Foi nesse momento que viu o soldado Harper no alpendre da porta que dava para oeste. Devia ter-se aproximado, furtivo como um gato, pois Sharpe nada ouvira.

     - Não vamos para sul - disse simplesmente o irlandês. Parecia um pouco espantado por Sharpe se ter movido com tanta rapidez, mas manteve a voz implacável.

     - Pouco me importa aquilo que pensa. Saia daqui e despache-se.

     - Não.

     Sharpe colocou o telescópio sobre a mochila que tinha preparado juntamente com a sua nova espada e a espingarda avariada no parapeito da janela da casa arruinada. Havia agora uma decisão a tomar. Poderia discutir e tentar convencer, insistir e implorar, ou exercer a autoridade do seu posto. Tinha muito frio e muita fome para tomar o caminho mais longo, por isso, escolheu a autoridade.

     - Considere-se preso, fuzileiro.

     Harper fingiu não ter ouvido aquelas palavras.

     - Não vamos, meu Tenente e pronto.

     - Sargento Williams! - gritou Sharpe através da porta do alpendre que dava para o celeiro. Os fuzileiros encontravam-se em redor da cova que tinham cavado na neve. Observavam a cena e a sua imobilidade era prova de que, naquela manhã, Harper era o seu emissário e porta-voz. Williams não se mexeu.

     - Sargento Williams!

     - Ele não vem - disse Harper. - É muito simples, meu Tenente. Não vamos para sul. Vamos para norte, em direcção à costa. já falámos do assunto e, portanto, é isso mesmo que vamos fazer. O meu Tenente pode vir ou ficar. Tanto nos faz.

     Sharpe manteve-se completamente imóvel, disfarçando o medo que lhe arrepiava a pele e agitava o ventre esfomeado. Se fosse para norte, aceitaria tacitamente o motim e perderia assim toda a sua autoridade. Porém, se insistisse em marchar para sul, estaria a convidar ao seu próprio assassínio.

     - Vamos para sul.

     - O meu Tenente não está a compreender.

     - Oh, estou sim. Compreendo muito bem. Decidiram ir para norte, mas têm um medo de morte que eu possa ir sozinho para sul e chegar à guarnição de Lisboa. Depois, denunciar-vos-ei por desobediência e motim. Apanhá-lo-ão, Harper, e fuzilá-lo-ão.

     - Nunca conseguirá chegar a sul, meu Tenente.

     - O que me está a dizer, Harper, é que foi aqui mandado, para se assegurar de que eu não sobreviva. Um oficial morto não pode trair um motim, não é verdade?

     Pela expressão do irlandês, Sharpe viu que as suas palavras tinham sido acertadas. Harper agitou-se pouco à vontade. Era um homem enorme, seis centímetros mais alto do que Sharpe, que já tinha um metro e oitenta e com um corpo largo que evidenciava uma grande força. Sem dúvida que os restantes fuzileiros se tinham dado por satisfeitos em deixar a Harper o trabalho sujo e talvez que ele tivesse realmente coragem para o fazer. Ou talvez que o ódio da sua nação pelos ingleses transformasse aquele crime num prazer.

     - Então - insistiu Sharpe. - Tenho, ou não tenho razão?

     Harper humedeceu os lábios e poisou depois a mão sobre a coronha da baioneta.

     - Pode vir connosco, meu Tenente.

     Sharpe deixou que o silêncio se arrastasse e, depois, como se se rendesse ao inevitável, acenou com a cabeça com ar cansado.

     - Parece que não tenho grande escolha, não é verdade?

     - Não, meu Tenente. - A voz traía o alívio de não ter de matar o oficial.

     - Traga essas coisas. - Sharpe apontou com a cabeça para a mochila e para as armas.

     Harper, algo espantado por ter recebido uma ordem tão peremptória, baixou-se, mesmo assim, para pegar na mochila. Ainda estava nessa posição quando percebeu que tinha sido enganado. Voltou-se mas, antes de conseguir proteger-se, Sharpe desferira-lhe um pontapé no ventre. Fora um pontapé enorme, que atingira com toda a força a carne rija do soldado e a que se seguiu um golpe, desferido com as duas mãos na nuca de Harper.

     Sharpe ficou estupefacto pelo facto de o irlandês conseguir manter-se em pé. Outro homem qualquer teria vacilado e ficado atordoado, mas ele não. Abanou a cabeça como um urso encurralado, hesitou, recuou e conseguiu endireitar-se para receber os golpes que Sharpe continuou a desferir sobre ele. O punho direito do oficial bateu com força no ventre do fuzileiro, logo seguido do esquerdo.

     Era como bater em madeira. Os socos magoaram Harper, mas não o bastante. O irlandês gemeu e depois lançou-se para diante. Sharpe baixou-se, investiu de novo, mas depois a cabeça pareceu explodir-lhe como se um canhão tivesse sido disparado quando um punho enorme o atingiu do lado do crânio. Lançou o rosto para a frente sentindo-o esmagar-se na face do outro, depois os seus braços e peito foram apertados num abraço de partir as costelas.

     Sharpe ergueu o pé direito e desferiu um golpe na canela de Harper. Deve ter-lhe doído, mas o abraço continuou igualmente apertado e o tenente não possuía outra arma senão a boca. Mordeu a face do irlandês, fechando os dentes com força, sentindo o sabor do sangue; a dor foi suficiente para obrigar Harper a soltar o abraço, quando quis bater na cabeça do oficial.

     Sharpe foi mais rápido. Tinha sido criado num pardieiro onde aprendera todos os truques de logros e brutalidade. Esmurrou a garganta de Harper e lançou-lhe a bota de encontro ao baixo-ventre. Qualquer outro homem estaria já por terra, tentando evitar a dor, mas Harper apenas parecia estremecer e voltar a atacar com a sua força avassaladora.

     - Canalha - Sharpe sussurrou a palavra em tom sibilante, baixou-se, simulou o ataque, recuou com força para ganhar balanço de encontro à parede enegrecida e aproveitou o movimento de recuo para lançar os punhos de encontro ao ventre do outro. A cabeça de Harper apareceu-lhe à frente e Sharpe investiu de novo; depois, através de um turbilhão de luzes que lhe manchavam a visão, balançou os punhos e lançou-os de encontro ao rosto do irlandês.

     Harper não recuou. Devolveu os socos; fez saltar o sangue do nariz e dos lábios de Sharpe, obrigando-o depois a recuar. Sharpe escorregou na neve, tropeçou no lixo que havia no chão e caiu. Viu a enorme bota aproximar-se e escapou-lhe. Levantou-se, praguejando por entre o sangue e agarrou o cinto de Harper. Por sua vez, o irlandês desequilibrou-se e Sharpe obrigou-o a voltar-se, abanou-o e empurrou-o. Harper girou, vacilou e caiu contra a parede. Uma pedra rasgou-lhe a face esquerda, fazendo-o sangrar mais.

     Sharpe estava magoado. Doíam-lhe as costelas, sentia a cabeça a girar e tinha o rosto ensanguentado. Viu que os outros casacas-verdes se aproximavam do local da luta. Os seus rostos pareciam incrédulos e Sharpe sabia que nenhum deles estaria disposto a intervir para prestar auxílio a Harper. Tinham encarregado o gigante irlandês daquele trabalho e deixá-lo-iam terminar sozinho.

     Harper cuspiu, olhou para Sharpe através de uma máscara de sangue e pôs-se de pé. Procurou a baioneta e empunhou-a.

     - Usa-a, canalha irlandês, e eu mato-te.

     Harper nada disse e o seu silêncio tinha algo de assustador.

     - Canalha - repetiu Sharpe. Olhou para a sua nova espada, mas o irlandês tinha dado a volta para o impedir de se servir dela.

     Harper avançou, lentamente, com a baioneta erguida como uma faca. Investiu com ela, empurrando Sharpe para o lado; depois investiu de novo, rapidamente e com força, na esperança de desequilibrar o oficial.

     Sharpe, esperando a segunda investida, evitou-a. Viu uma centelha de espanto no rosto do gigante. Harper era bom, mais jovem do que Sharpe, porém nunca tinha combatido contra um homem tão rápido como ele. E havia muito tempo que ninguém o feria daquela maneira. A centelha transformou-se em dor quando os punhos de Sharpe lhe atingiram os olhos. Harper investiu com a baioneta, utilizando-a apara afastar o atacante. Este deixou que a lâmina o atingisse e lhe cortasse o braço, fingindo não a sentir e avançando com o pulso para partir o nariz do irlandês e arrancar-lhe os olhos com os dedos. O irlandês torceu-se violentamente e Sharpe desequilibrou-o mais uma vez. O fogo queimava-lhe o braço, o fogo do sangue quente provocado pelo aço, mas a dor desapareceu ao ver Harper cair.

     Sharpe agiu rapidamente, Atingiu o soldado uma, duas vezes, esmagando-lhe as costelas com a bota: a seguir agarrou na baioneta e cortou-lhe os dedos, depois de lhe bater com o calcanhar no punho. Harper soltou a arma. Sharpe engatou-a. Ofegava, com a respiração a deixar sair vapor de água no ar gelado. Escorria-lhe sangue da mão para a lâmina. Havia também sangue na neve que tinha entrado pelo telhado do celeiro e pelas portas abertas.

     O irlandês viu a morte aproximar-se. Rolou e investiu contra Sharpe com uma pedra na mão. Bateu com ela na lâmina que descia na sua direcção paralisando com o choque o braço do tenente. Este nunca tinha aparado uma tal força, nunca. Tentou baixar de novo a arma, mas Harper erguera-se e Sharpe gritou quando a pedra o atingiu no ventre. Caiu contra a parede ainda sem sentir a mão que segurava a baioneta.

     Viu que o rosto de Harper se tinha transformado. Até àquele momento o irlandês enorme parecera-lhe tão desinteressado como um carniceiro, mas agora observava-lhe no olhar uma expressão de guerreiro louco. Era o rosto de um homem em quem fora provocada a fúria da batalha. Sharpe entendeu então que, até ali, Harper tinha estado a desempenhar uma tarefa que considerara necessária, mas que subitamente se transformara numa paixão. O irlandês falou então pela primeira vez desde que a luta começara, mas utilizando o gaélico, língua que Sharpe nunca soubera falar. Contudo sabia que aquelas palavras eram UM insulto, o canto lúgubre da sua morte, já que Harper iria utilizar a pedra para lhe esmagar o crânio.

     - Vem, canalha! - Sharpe tentava massajar o braço para o voltar a sentir. - Escumalha irlandesa, canalha nojento. Vem!

     Harper arreganhou os lábios ensanguentados mostrando os dentes no mesmo estado. Gritou um desafio, investiu e Sharpe utilizou o artifício do oficial de Caçadores. Mudou a espada da mão direita para a esquerda e gritou o seu próprio desafio.

     Avançou. Depois, o mundo explodiu.

     Um ruído como o trovão do juízo final explodiu junto ao ouvido de Sharpe e uma centelha de luz ardeu-lhe junto do rosto com um súbito calor. Estremeceu e ouviu a chicotada de uma bala a fazer ricochete na parede do celeiro.

     Sharpe pensou que um dos outros fuzileiros tivesse arranjado coragem para ajudar Harper. Sentindo o desespero de um animal encurralado, voltou-se, rosnando com o cheiro do fumo da pólvora e viu que o irlandês estava tão espantado como ele. Continuava a empunhar a pedra na mão enorme e olhava para um recém-chegado que se encontrava à porta.

     - Pensei que se encontravam aqui para combater os franceses - a voz era divertida, trocista, superior. - Ou será que os ingleses não têm mais que fazer do que discutir como ratazanas?

     Quem falara fora um oficial de Cavalaria com o uniforme escarlate dos caçadores espanhóis, ou antes, com os restos desse uniforme, pois estava tão rasgado e gasto que mais parecia o fato de um mendigo. O galão dourado que lhe debruava o colarinho amarelo escurecera e as correntes que lhe prendiam a espada estavam cobertas de ferrugem. As botas negras, até meio das coxas estavam feitas em tiras. Uma capa de serapilheira cobria-lhe os ombros. Os seus homens, que tinham deixado os trilhos na neve e que agora formavam um tosco cordão a oriente da quinta, encontravam-se nas mesmas condições, mas Sharpe reparou, com olho de soldado, que todos aqueles elementos da cavalaria espanhola tinham mantido as suas espadas e carabinas. O oficial possuía uma pistola de canos curtos que baixara junto ao corpo.

     - Quem diabo sois? - Ainda empunhando a baioneta, Sharpe continuava pronto a investir. Parecia de facto uma ratazana encurralada; cuspindo sangue e saliva e com expressão malévola.

     - Sou o maior Blas Vivar. - Vivar era um homem de estatura média e rosto duro. Tal como os seus homens, parecia ter atravessado o inferno nos últimos dias, porém a exaustão não impedia a sua voz de trair o desprezo que sentia pela cena que acabara de testemunhar.

     - E vós quem sois?

     Sharpe teve de cuspir sangue antes de responder.

     - Sou o tenente Sharpe do 95 de Fuzileiros - acrescentou.

     - E ele? - Vivar olhou para Harper.

     - Ele está preso - disse Sharpe. Lançou a baioneta para o chão e empurrou Harper. - Fora! Fora daqui! - Empurrou-o até à porta, onde os outros casacas-verdes aguardavam na neve. - Sargento Williams!

     - Meu Tenente - Williams olhou, estupefacto, para os rostos ensan-guentados. - Meu Tenente?

     - O soldado Harper está sob prisão - Sharpe empurrou Harper uma última vez, fazendo-o cair na neve e voltando-se depois para enfrentar o olhar trocista do espanhol.

     - Parece que está com problemas, tenente. - O desprezo de Vivar era mais evidente pelo tom divertido da sua voz.

     A vergonha da situação humilhou Sharpe, ao mesmo tempo que o tom de voz do espanhol o espicaçava.

     - Não é da sua conta.

     - Senhor Tenente? - censurou-o o major Vivar.

     - Não é da sua conta, meu Major.

     Vivar encolheu os ombros.

     - Estamos em Espanha, senhor Tenente. O que aqui se passa é mais da minha conta do que da sua, não acha? - O seu inglês era excelente e falado com uma delicadeza fria que fez com que Sharpe se sentisse ainda mais teimoso.

     Mas o inglês não o ajudou.

     - Só queremos sair desta maldita terra - disse Sharpe limpando o sangue à manga verde escura.

     A raiva renovou-se no olhar do espanhol.

     - Julgo que me agradará vê-lo partir, senhor Tenente. Talvez seja melhor ajudá-lo.

     Bom ou mau, Sharpe tinha encontrado um aliado.

    

     A derrota destrói a disciplina - disse BLAS VIVAR. - Ensina-se um exército a marchar, a combater, a obedecer às ordens. A cada virtude era acentuada pelo movimento de sacudir a navalha ensaboada para o chão da cozinha. - Porém - encolheu os ombros - a derrota traz a ruína.

     Sharpe sabia que o espanhol tentava encontrar desculpas para o desgraçado espectáculo a que assistira no celeiro em ruínas. Era muita bondade a dele, mas Sharpe não estava disposto a sentir-se assim e não conseguia arranjar mais nada para dizer.

     - E aquela quinta é azarenta - Vivar voltou-se para o fragmento de espelho que colocara no parapeito da janela. - Sempre o foi. No tempo do meu avô, houve ali um assassínio. Uma mulher, naturalmente. E no do meu pai foi um suicídio - fez o sinal da cruz com a navalha e depois barbeou cuidadosamente o ângulo do queixo. - Está assombrada, tenente. A noite aparecem lá fantasmas. É um local mau. Tem sorte em eu o ter encontrado. Quer servir-se desta navalha?

     - Tenho a minha.

     Vivar limpou a navalha e guardou-a juntamente com o espelho na sua bolsa de cabedal. Depois ficou a olhar Pensativamente, enquanto Sharpe comia o feijão com orelha de porco que o padre da aldeia lhes oferecera como ceia.

     - Acha que, depois da vossa escaramuça, os dragões seguiram o vosso exército?

     - Não vi.

     - Esperemos que sim. - Vivar encheu o seu próprio prato com a mistura. - Talvez pensem que me juntei à retirada inglesa, não acha?

     - Talvez. - Sharpe gostaria de saber por que razão estava Vivar tão interessado nos dragões franceses comandados por um oficial de Caçadores de casaca-vermelha e por um civil de casaca negra. Tinha questionado ansiosamente Sharpe sobre todos os pormenores da luta junto à ponte, mas o que mais interessava ao espanhol era a direcção tomada pela cavalaria inimiga após o combate. Contudo, a este interrogatório, Sharpe podia apenas oferecer a suposição de que os dragões tinham partido em perseguição do exército de Sir John Moore.

     - Se tiver razão, tenente - Vivar ergueu um púcaro de vinho numa saúde irónica -, são as melhores notícias que recebo em duas semanas.

     - Porque o perseguiam a si?

     - Não me perseguiam - respondeu Vivar. - Suponho que persigam qualquer um que use uniforme. Acontece que me farejaram há uns dias. Quero ter a certeza de que não estão à minha espera no próximo vale. - Vivar explicou a Sharpe que viajava para ocidente, mas que fora obrigado a meter-se nas montanhas e perdera todos os cavalos e um grande número de homens. Fora empurrado para aquela pequena aldeia pela necessidade desesperada de víveres e abrigo.

     Os alimentos tinham sido oferecidos de boa vontade. Quando os soldados entraram no pequeno povoado, Sharpe não pôde deixar de notar como os aldeãos tinham ficado felizes ao verem o major Blas Vivar. Alguns homens tinham mesmo querido beijar-lhe a mão, enquanto o padre da aldeia, saindo apressadamente de sua casa, ordenara às mulheres que acendessem os fornos e abrissem os armazéns com as provisões guardadas para o Inverno. Os soldados, ingleses e espanhóis, tinham sido calorosamente recebidos.

     - O meu pai - explicava agora Vivar a Sharpe - era um dos senhores destas montanhas.

     - Quer dizer que o meu Major também o é?

     - Sou o filho mais novo. O meu irmão é o actual conde. - Vivar persignou-se ao falar do irmão, gesto que Sharpe tomou por um sinal de respeito. - Claro que eu sou um hidalgo - continuou -, por isso estas gentes me chamam Don Blas.

     Sharpe encolheu os ombros.

     - Hidalgo?

     Vivar escondeu delicadamente a sua surpresa pela ignorância de Sharpe.

     - Um hidalgo, tenente, é um homem que pode traçar a sua árvore genealógica até aos antigos cristãos de Espanha. Sangue puro, compreende, sem mancha de mouros ou judeus. Sou um hidalgo - disse-o com um orgulho que tornou a afirmação ainda mais impressionante. - E o seu pai? Também é Lorde?

     - Não sei quem é ou quem foi o meu pai.

     - Não sabe... - a primeira reacção de Vivar foi de curiosidade, depois a implicação de bastardia obrigou-o a abandonar o assunto. Era evidente que Sharpe descera ainda mais na opinião do espanhol. O major olhou pela janela para o dia que terminava. - Que vai então fazer agora, tenente?

     - Vou para sul, para Lisboa.

     - Para apanhar o navio para a pátria?

     Sharpe ignorou o leve tom de desprezo que sugeria que ia fugir à luta.

     - Para apanhar o navio para a pátria - confirmou.

     - Tem um mapa?

     - Não.

     Vivar partiu um bocado de pão para ensopar no molho.

     - Vai ver que nestas montanhas não há estradas para Sul.

     - Nenhuma?

     - Nenhuma que seja aceitável durante o Inverno e muito menos neste Inverno. Terá de ir para leste, até Astorga, ou para oeste em direcção ao mar, antes de encontrar uma estrada aberta para sul.

     - Os franceses estão para leste?

     - Os franceses estão por todo o lado. - Vivar encostou-se e olhou para Sharpe. - Vou para oeste. Quer vir comigo?

     Sharpe sabia que eram ténues as suas hipóteses de sobrevivência naquela terra desconhecida. Não tinha um mapa, não falava espanhol, nem fazia a mínima ideia da geografia daquele país, porém, ao mesmo tempo, não sentia qualquer desejo em se aliar àquele espanhol aristocrático que presenciara a sua desgraça. Não podia haver prova maior do fracasso de um oficial no comando do que ser encontrado a lutar contra um dos seus homens, e aquela sensação de vergonha obrigava-o a hesitar.

     - Ou será que se sente tentado a render-se? - perguntou asperamente Vivar.

     - Nunca - a resposta de Sharpe foi igualmente áspera.

     O seu tom, inesperadamente firme, fez o espanhol sorrir. Depois Vivar olhou de novo pela janela.

     - Partimos dentro de uma hora, tenente. Esta noite atravessamos a estrada principal, o que tem de ser feito de noite - voltou-se para olhar para o inglês. - Põe-se sob o meu comando?

     E Sharpe, que de facto não tinha grandes alternativas, concordou.

     O mais humilhante para Sharpe era o facto de os fuzileiros terem aceite imediatamente o comando de Vivar. Naquele crepúsculo, formados na neve pisada diante da pequena igreja, os casacas-verdes escutavam a explicação do espanhol. Vivar disse que seria uma tolice seguirem para norte, pois o inimigo marchava para garantir os portos costeiros. Tentarem reunir-se de novo com o exército britânico seria igualmente uma tolice, pois significava seguir os passos dos franceses e bastaria que o inimigo desse meia volta para os fazer prisioneiros. A melhor estrada levava ao sul, mas primeiro, seria necessário que marchassem para oeste. Sharpe olhou para os rostos dos fuzileiros e odiou-os, por instantes, ao vê-los acenar com a cabeça, aceitando tudo de bom grado.

     Portanto, naquela noite, disse Vivar, deveriam atravessar a estrada pela qual viajava a maior parte do exército francês. Duvidava que a guarnição estivesse presente, porém, os fuzileiros deveriam preparar-se para um breve combate. Sabia que combateriam bem. Não eram eles os tão elogiados casacas-verdes ingleses? Sentia-se orgulhoso de lutar a seu lado. Sharpe viu os homens a sorrir. Viu também como Vivar agia com o à-vontade de um oficial nato e, por instantes, também odiou o espanhol.

     O soldado Harper não estava presente nas fileiras. O irlandês encontrava-se sob prisão, por ordem de Sharpe, com os pulsos ligados por um bocado de corda à cauda da mula que o major requisitara a um dos aldeões. A mula transportava uma enorme arca quadrada envolvida em oleado e guardada por quatro espanhóis de Vivar que, à falta de melhor, serviam também de guardas ao prisioneiro.

     - É irlandês? - perguntou Vivar a Sharpe.

     - Sim.

     - Gosto dos irlandeses. Que vai fazer com ele?

     - Não sei. - Sharpe gostaria de ter pura e simplesmente fuzilado Harper, contudo, temia transformar o desagrado dos outros fuzileiros em puro ódio. Além do mais, ultrapassar o cauteloso processo disciplinar do exército, e matá-lo à revelia, seria demonstrar um desdém pela autoridade equivalente àquele que fizera Harper merecer o castigo.

     - Não marcharíamos mais rapidamente se ele não estivesse atado? - perguntou Vivar.

     - E encorajávamo-lo a desertar para os franceses?

     - A disciplina dos seus homens é consigo, tenente - disse Vivar delicadamente, insinuando assim que Sharpe não tinha tratado bem do problema. Fingiu não se aperceber do tom de reprovação. Sharpe sabia que Vivar o desprezava, pois até ali nada mais vira do que incompetência da sua parte, incompetência ainda mais acentuada pela autoridade natural do major. Vivar não só libertara os soldados ingleses do seu precário refúgio na velha quinta, mas também do seu oficial e todos os fuzileiros daquela improvisada companhia o sabiam.

     Sharpe ficou só, enquanto as tropas formavam para a marcha. Os espanhóis seguiriam adiante, depois viria a mula com a carga em forma de caixa e os fuzileiros constituiriam a retaguarda. Sharpe sabia que deveria dizer alguma coisa aos seus homens, que os deveria encorajar ou inspeccionar o equipamento, algo que afirmasse a sua autoridade, mas não conseguia enfrentar-lhes o olhar trocista, de modo que se manteve à parte.

     O major Vivar, aparentemente alheio à tristeza de Sharpe, dirigiu-se ao padre da aldeia e ajoelhou-se na neve para receber a bênção. Depois recebeu do sacerdote um pequeno objecto, mas Sharpe não percebeu de que se tratava.

     Estava uma noite gélida. A neve fina deixara de cair ao crepúsculo e, gradualmente, as nuvens afastavam-se no céu a oriente, revelando o brilho das estrelas frias. Um vento espasmódico obrigava a neve caída a tomar formas aéreas e fantásticas que se encaracolavam cintilantes sobre o atalho pelo qual os homens seguiam como animais amaldiçoados. Tinham os rostos envolvidos em farrapos para se protegerem do frio impiedoso e as cargas que transportavam feriam-lhes os ombros. Mesmo assim, o major Vivar parecia imbuído de uma inesgotável energia; percorria a coluna de um lado a outro, encorajando os homens em espanhol e em inglês, dizendo-lhes que eram os melhores soldados do mundo. O seu entusiasmo era contagioso, obrigando Sharpe a admirá-lo, malgrado seu, pois via como a cavalaria de uniforme vermelho quase venerava o oficial.

     - São galegos. - Vivar apontou para os seus caçadores.

     - São homens daqui? - perguntou Sharpe.

     - Os melhores de Espanha - era notório o seu orgulho. - Troçam de nós em Madrid, tenente. Dizem que nós, os galegos, somos camponeses tolos, mas, numa batalha, prefiro conduzir um camponês tolo do que dez homens da cidade.

     - Eu venho da cidade - Sharpe parecia ressentido. Vivar riu-se, mas nada disse.

     À meia-noite, atravessaram a estrada que levava ao mar e viram provas de que os franceses já por lá tinham passado. A superfície lamacenta fora sulcada pelas armas e voltara a congelar. De ambos os lados, montes brancos mostravam o local onde os cadáveres tinham sido deixados por enterrar. Não havia qualquer soldado inimigo à vista, não apareciam luzes de vila ou aldeia no vale, os soldados estavam sozinhos numa imensidão de gelo branco.

     Uma hora mais tarde, chegaram a um rio. Nas suas margens cresciam pequenos carvalhos nus. Vivar procurou para leste até encontrar um local onde a água gelada corresse baixa entre as pedras e as rochas que oferecessem apoio aos homens cansados, mas, antes de permitir que um único homem tentasse a travessia, retirou um pequeno tubo da sua bolsa, desrolhou-o e salpicou algum líquido no rio.

     - Agora é seguro.

     - Seguro? - Sharpe ficara intrigado.

     - É água benta, tenente. O padre da aldeia deu-ma. - Vivar parecia considerar a explicação suficiente, mas Sharpe quis saber mais.

     - Xanes, claro - disse o espanhol, depois voltou-se e ordenou ao sargento que tomasse o comando.

     - Xanes? - Sharpe tropeçou na palavra estranha.

     - Espíritos das águas. - Vivar não estava, de modo algum, a gracejar. Vivem em todos os ribeiros, tenente, e podem ser malévolos. Se não os assustamos, podem extraviar-nos.

     - Fantasmas? - Sharpe não conseguia esconder a sua estupefacção.

     - Não. Um fantasma, tenente, é uma criatura que não pode escapar da terra. Um fantasma é a alma atormentada de alguém que viveu e ofendeu os Santos Sacramentos. Um xana nunca foi humano. Um xana é uma criatura - encolheu os ombros. - Como uma lontra, um rato de água. Uma coisa que vive no rio. Com certeza que também existem em Inglaterra.

     - Que eu saiba, não.

     Vivar pareceu espantado e depois benzeu-se.

     - Passa agora?

     Sharpe atravessou o rápido ribeiro, livre de espíritos maliciosos e ficou a ver os seus fuzileiros seguirem-no. Evitavam olhá-lo. O sargento Williams que transportava a mochila de um ferido, preferiu atravessar em aguas mais fundas, para não ter de subir a margem no mesmo local onde se encontrava o oficial.

     A mula foi picada para atravessar o ribeiro e Sharpe reparou no cuidado com que os soldados guardavam a arca coberta de oleado. Supôs que contivesse as roupas e outros pertences do maior Vivar. Harper, ainda atado ao animal cuspiu na sua direcção, gesto que Sharpe decidiu ignorar.

     - Agora subimos - disse Vivar com uma nota de satisfação, como se a dificuldade seguinte fosse bem vinda.

     E subiram. Subiram com dificuldade um vale íngreme, onde as pedras estavam cobertas de gelo e as árvores pingavam neve sobre as suas cabeças. Levantou-se vento e o céu toldou-se mais uma vez.

     Começou a cair granizo. O vento uivava-lhes junto aos ouvidos abrigados. Os homens soluçavam de tristeza e devido ao esforço, mas Vivar mantinha-os em movimento.

     - Para cima! Para cima! Onde não chega a cavalaria, não é verdade? Continuem! Mais para cima! Vamos juntar-nos aos anjos! Que tens, Marcos? O teu pai teria subido esta encosta a dançar, com o dobro da tua idade! Queres que os ingleses pensem que um espanhol não tem forças? Que vergonha! Sobe!

     De madrugada tinham chegado a uma plataforma nas montanhas. Vivar conduziu os homens exaustos para uma gruta oculta por loureiros cobertos de gelo.

     - Aqui matei eu um urso - disse orgulhosamente a Sharpe. - Tinha doze anos e o meu pai mandou-me para aqui sozinho para matar um urso. - Partiu um ramo e lançou-o na direcção dos homens que estavam a acender uma fogueira. - Foi há vinte anos - falava como se se sentisse espantado por ter passado tanto tempo.

     Sharpe reparou que Vivar tinha exactamente a sua idade, mas, como era nobre era já major, enquanto Sharpe tinha vindo da sarjeta e só por um extraordinário golpe do destino tinha sido promovido a tenente. Duvidava conseguir receber outra promoção, mas também, considerando o mal que tinha resolvido a situação com os casacas-verdes, não pensava merecê-la.

     Vivar vigiou o descarregamento da arca do dorso da mula e colocou-a à entrada da gruta. Sentou-se ao seu lado, com um braço protector sobre a sua tampa abaulada e Sharpe reparou que tratava a caixa quase com reverência. Pensou imediatamente que nenhum homem, tendo suportado o inferno gelado que Vivar atravessara, teria tais cuidados em proteger uma arca, se esta apenas contivesse roupas.

     - Que está aí dentro? - perguntou Sharpe.

     - Apenas documentos. - Vivar fitou os olhos na madrugada que se aproximava. - A guerra moderna gera papelada, não é verdade?

     Não era uma pergunta que exigisse resposta, mas sim um comentário para desencorajar mais perguntas. Sharpe não as fez.

     Vivar tirou o tricórnio da cabeça e retirou cuidadosamente um charuto meio fumado de dentro da fita interior. Fez um gesto de desculpas por não ter outro para oferecer a Sharpe e acendeu-o com a sua caixa de pederneira.

     O aroma pungente do tabaco implicou com as narinas de Sharpe.

     - Guardei-o para quando estivesse próximo de casa - disse Vivar.

     - Muito próximo?

     Vivar fez um gesto com o charuto para abranger toda a paisagem.

     - O meu pai era o senhor de todas estas terras.

     - Vamos para sua casa?

     - Primeiro quero ver-vos em segurança no vosso caminho para sul. Sharpe espicaçado pela curiosidade que os pobres sentem em relação aos senhores ricos, ficou estranhamente desapontado.

     É uma casa muito grande?

     Que casa? - perguntou secamente Vivar. - São três, todas elas grandes. Uma é um castelo abandonado, outra fica na cidade de Orense e a terceira no campo. Todas elas pertencem ao meu irmão, mas Tomaz nunca gostou da Galiza. Prefere viver onde haja reis e cortesãos, de modo que, com permissão sua, considero-as minhas.

     - Sorte sua - disse Sharpe amargamente.

     - Por viver numa casa grande? - Vivar abanou a cabeça. - A sua casa pode ser humilde, tenente, mas pelo menos pode chamar-lhe sua. A minha fica num país ocupado pelos franceses - olhou para o soldado Harper que, ainda atado à cauda da mula, se acocorava na neve molhada. - Tal como ele vive numa terra ocupada pelos ingleses.

     A amargura da acusação surpreendeu Sharpe que, tendo começado a admirar o espanhol, ficou desconcertado ao sentir aquela súbita hostilidade. Talvez que o próprio Vivar pensasse ter falado com demasiada aspereza, pois encolheu os ombros na direcção do tenente.

     - Tem de entender que a mãe da minha mulher era irlandesa. A família dela estabeleceu-se aqui para escapar às vossas perseguições.

     - Foi assim que o meu Major aprendeu inglês?

     - Assim e com bons preceptores - Vivar puxou uma fumaça do charuto. Um bocado de neve, que se soltara da gruta com o calor da fogueira, deslizou do alto da rocha. - O meu pai acreditava que devíamos falar a língua do inimigo - dizia-o com uma espécie de troça. - Agora parece-me estranho que eu e o tenente estejamos os dois do mesmo lado, não é verdade? Fui criado a acreditar que os ingleses são bárbaros pagãos, inimigos de Deus e da verdadeira fé; agora tenho de me convencer de que são nossos amigos.

     - Pelo menos temos os mesmos inimigos - disse Sharpe.

     - Talvez essa seja uma afirmação mais exacta - concordou Vivar. Os dois oficiais deixaram-se ficar sentados num silêncio embaraçado. O fumo do charuto de Vivar rodopiava por cima da neve para desaparecer na bruma da manhã. Sharpe, sentindo que o silêncio pesava já entre ambos, perguntou se a mulher do major o aguardava numa das três casas.

     Vivar fez uma pausa antes de responder e, quando o fez, a sua voz era tão soturna como a região que observavam.

     - A minha mulher morreu há sete anos. Eu estava numa comissão de serviço na guarnição da Florida e a febre-amarela levou-a.

     Como a maioria dos homens a quem o major revelava aquele facto, Sharpe não fazia ideia de como responder.

     - Lamento muito - disse, pouco à vontade.

     - Morreram ela e os nossos dois filhos pequenos - continuou Vivar inexoravelmente. - Tive esperanças de que o meu filho viesse aqui para, tal como eu, matar o seu primeiro urso, mas Deus não o quis - seguiu-se outro silêncio, ainda mais embaraçoso do que o primeiro. - E o senhor, tenente? É casado?

     - Não me posso dar ao luxo de casar.

     - Então arranje uma mulher rica - disse Vivar com inflexível honestidade.

     - Nenhuma mulher rica me quererá - disse Sharpe e, depois, ao ver o espanto no rosto do espanhol, explicou: - Não nasci numa família decente, meu Major. A minha mãe era uma rameira. Aquilo a que aqui se chama uma puta.

     - Conheço a palavra, tenente. - Vivar falava num tom de igualdade, mas não conseguia esconder o seu desagrado.

     - Não tenho a certeza de acreditar em si - disse por fim. Sharpe ficou zangado pela imputação de desonestidade.

     - Por que diabo me haveria de importar com o que o meu Major acredita?

     - Suponho que não. - Vivar enrolou e guardou cuidadosamente os restos do seu charuto e depois encostou-se à arca. - Tenente, fique agora de vigia para eu dormir uma hora. - Puxou o chapéu para cima dos olhos e Sharpe viu-lhe o sujo ramo de rosmaninho espetado na copa. Todos os homens de Vivar o usavam, por isso Sharpe pensou que se tratasse de uma tradição do regimento.

     Abaixo deles, Harper agitou-se. Sharpe desejou que o frio lhe chegasse à medula dos ossos. Desejava que o nariz partido do irlandês, oculto sob um lenço coberto de neve, lhe doesse como um raio. Como se sentisse aqueles pensamentos malévolos, Harper voltou-se para olhar fixamente o oficial e aquele olhar, sob as sobrancelhas cobertas de geada, disse a Sharpe que, enquanto o soldado irlandês fosse vivo e as noites fossem escuras, deveria acautelar-se.

     Duas horas depois de a manhã nascer, o granizo transformou-se numa chuva persistente que abriu regos na neve; pingava das árvores e transformou o mundo colorido num local cinzento e sujo, de frio e tristeza. A arca foi reposta sobre o dorso da mula e as sentinelas retomaram os seus lugares. Harper a quem, por fim, tinham permitido que se abrigasse na gruta, foi atado de novo à cauda do animal.

     A estrada ficava no sopé do monte. Seguiam o leito de um ribeiro que caía para o fundo de um enorme vale, onde a centena de soldados que o atravessava parecia insignificante. Diante deles abria-se outro vale ainda maior, que se encontrava em diagonal ao primeiro. Era um espaço imenso de vento e granizo.

     - Atravessamos aquele vale - explicou Vivar - trepamos àqueles montes ao longe e, depois, descemos o caminho dos peregrinos, que vos levará à estrada da costa.

     No entanto, e em primeiro lugar, os dois oficiais usaram os seus telescópios para vasculhar o largo vale. Não divisavam qualquer cavaleiro, nem qualquer sinal de vida quebrava a cinzenta monotonia da sua paisagem.

     - O que é o caminho dos peregrinos? - perguntou Sharpe.

     - A estrada para Santiago de Compostela. Já ouviu falar?

     - Nunca.

     Vivar ficou claramente aborrecido com a ignorância do tenente inglês.

     - já ouviu falar de São Tiago?

     - Julgo que sim.

     - Era um apóstolo, tenente, e está enterrado em Santiago de Compostela. Santiago é o seu nome. É o santo padroeiro de Espanha e, nos tempos antigos, milhares e milhares de cristãos visitavam o santuário. Não apenas os espanhóis, mas os devotos de toda a Cristandade.

     - Nos tempos antigos? - perguntou Sharpe.

     - Alguns ainda o visitam, mas o mundo já não é o que era dantes. O diabo anda à solta no estrangeiro, tenente.

     Atravessaram um rio e Sharpe reparou que, desta vez, Vivar não tomou precauções contra os espíritos das águas. Perguntou-lhe porquê e o espanhol respondeu que os xanes ficavam inquietos apenas de noite.

     Sharpe refutou a afirmação.

     - Já atravessei milhares de ribeiros durante a noite e nunca fui incomodado.

     - Como sabe? Talvez tenha dado milhares de voltas mal dadas! O tenente parece um cego a descrever as cores!

     Sharpe apercebeu-se da raiva nas palavras do espanhol, mas não recuou.

     - Talvez só os que acreditam nos espíritos das águas sejam incomodados. Eu não acredito.

     Vivar cuspiu para a esquerda e para a direita, para afastar o demónio.

     - Sabe como Voltaire chamava aos ingleses?

     Sharpe nem sequer tinha ouvido falar de Voltaire, mas um homem das fileiras que é promovido a oficial, torna-se perito em esconder a sua ignorância.

     - Tenho a certeza de que nos admirava.

     Vivar soltou uma exclamação de desprezo ao ouvir o comentário.

     - Disse que os ingleses são um povo sem Deus. Penso que é verdade. Acredita em Deus, tenente?

     Sharpe apercebeu-se da intensidade da pergunta, mas não conseguia corresponder com o interesse que ela lhe provocara.

     - Nunca penso nisso.

     - Nunca pensa nisso? - Vivar parecia horrorizado. Sharpe irritou-se.

     - Por que raio haveria de pensar?

     - Porque sem Deus nada existe. Nada, nada, nada! - A súbita paixão do espanhol transformara-se em fúria. - Nada! - gritou de novo a palavra, espantando os homens cansados que se voltaram para ver o que tinha causado tal explosão.

     Os dois oficiais caminharam num silêncio embaraçado, quebrando com as botas um campo de neve virgem. A chuva caía sobre ela amarelando-a nos sítios em que a derretia e a transformava em poças de água. Havia uma aldeia três quilómetros à direita, mas Vivar marchava agora depressa e não queria fazer desvios. Atravessaram um bosque e Sharpe perguntou a si próprio porque não teria o espanhol achado necessário enviar piquetes adiante das tropas que marchavam. Porém, concluiu que Vivar deveria ter a certeza de que os franceses ainda não tinham penetrado tão longe nas estradas principais. Não tinha vontade de o mencionar, pois a atmosfera já era bastante tensa entre eles.

     Atravessaram o vale maior e começaram de novo a subir. Vivar usava as veredas que conhecia desde a infância, veredas que subiam dos campos gelados para uma traiçoeira estrada de montanha, num perigoso ziguezague pela encosta íngreme. Passaram por uma orada à beira do caminho, onde Vivar se benzeu. Os seus homens seguiram-lhe o exemplo, tal como os irlandeses presentes entre os casacas-verdes. Eram quinze. Quinze desordeiros que detestavam Sharpe por causa do soldado Harper.

     O sargento Williams pensou certamente o mesmo, pois veio ter com Sharpe e, com uma expressão tímida, acompanhou-lhe o passo.

     - A culpa não foi do Harper, meu Tenente.

     - O que é que não foi culpa dele?

     - O que aconteceu ontem, meu Tenente.

     Sharpe sabia que o sargento tentava apaziguar as coisas, mas o seu embaraço por ter perdido a dignidade, fez com que a resposta lhe saísse áspera.

     - Quer dizer que todos concordaram?

     - Sim, meu Tenente.

     - Todos concordaram em assassinar um oficial? Williams estremeceu com a acusação.

     - Não foi isso, meu Tenente.

     - Não me diga o que foi ou não foi, seu canalha! Se todos concordaram, sargento, então todos merecem castigo, embora nenhum tivesse a coragem de ir ajudar o Harper.

     Williams não gostou de ser acusado de cobardia.

     - O Harper insistiu em fazê-lo sozinho, meu Tenente. Disse que não haveria combate se não fosse justo.

     Sharpe estava demasiado furioso para se sentir afectado pela curiosa revelação da honra do amotinado.

     - Quer que chore por ele? - Sabia que tinha tratado aqueles homens de maneira completamente incorrecta, mas também ignorava como se deveria ter comportado. Talvez que o capitão Murray tivesse razão. Talvez que os oficiais já nascessem para esse fim. Talvez fosse necessário um nascimento privilegiado para ter a autoridade fácil de Vivar. Assim, o ressentimento de Sharpe fê-lo gritar com os casacas-verdes que passavam por ele a cambalear na estrada molhada.

     - Deixem de se arrastar! São soldados e não meninos de coro! Levantem os pés!

     Eles mexeram-se. Um dos casacas-verdes resmungou uma palavra de ordem e o resto acertou o passo, levou as armas ao ombro e começou a marchar como apenas a Infantaria Ligeira o sabia fazer. Mostravam ao tenente que ainda eram os melhores. Mostravam o desprezo que sentiam por ele, exibindo as suas capacidades e o major Vivar recuperou o bom humor com esta demonstração de arrogância. Viu os casacas-verdes ultrapassarem os seus homens, depois ordenou-lhes que abrandassem e que retomassem o seu lugar na vanguarda da coluna. Ria-se ainda quando Sharpe o apanhou.

     - Parecia um sargento, tenente - disse Vivar.

     - Fui sargento. Fui o melhor sargento que existiu no maldito exército. O espanhol ficou surpreendido.

     - Foi sargento?

     - Acha que o filho de uma rameira pode entrar no exército como oficial? Fui sargento e, antes disso, soldado raso.

     Vivar fitou o inglês como se, de repente, a este lhe tivessem saído chifres.

     - Não sabia que o seu exército fazia promoções a partir das fileiras - fosse qual fosse a raiva que sentira em relação a Sharpe na hora anterior, esta evaporara-se e tinha-se transformado numa fascinada curiosidade.

     - É raro. Mas os homens como eu não se transformam em verdadeiros oficiais, meu Major. É uma recompensa, sabe, dada a quem é idiota. A quem foi estupidamente corajoso. Depois fazem de nós instrutores ou oficiais de manutenção. Pensam que podemos executar essas tarefas. Não nos dão ordens para combater. - A amargura de Sharpe parecia grosseira na manhã fria. O tenente pensou que fazia aquela penosa confissão porque explicava as suas falhas ao competente oficial espanhol. - Pensam que todos apreciamos a bebida e talvez seja verdade. Afinal, quem quer ser oficial?

     Mas Vivar não estava interessado na tristeza de Sharpe.

     - Então participou em muitos combates?

     - Na índia. E, no ano passado, em Portugal.

     Vivar mudava aos poucos a sua opinião a respeito de Sharpe. Até ali, vira o inglês como um tenente já idoso e falhado, que não conseguira nem comprar nem merecer a sua promoção. Percebia agora que a promoção de Sharpe fora extraordinária, muito para além dos sonhos de um homem vulgar.

     - Gosta de combater?

     Parecia uma pergunta estranha para Sharpe, que lhe respondeu o melhor que sabia:

     - Não sei fazer mais nada, meu Major.

     - Então penso que dará um bom oficial, tenente. Vamos ter muito que combater antes de pormos Napoleão a assar no inferno.

     Subiram ainda quase dois quilómetros, até que a encosta passou a ser terreno plano e as tropas marcharam por entre rochedos imensos que se erguiam sobre a estrada. Vivar, que recuperara a simpatia, disse a Sharpe que já se tinha travado uma batalha naquele ninho de águias. Os mouros tinham usado aquela mesma estrada e sido emboscados pelos arqueiros cristãos de ambos os lados das rochas.

     - Obrigámo-los a recuar e esta mesma estrada fedia com o seu sangue. Vivar olhava para os pedregulhos sobranceiros, como se na pedra ainda ecoassem os gritos dos infiéis moribundos. - Aconteceu há talvez novecentos anos - falava como se tivesse sido no dia anterior e ele próprio tivesse combatido. - Todos os anos os aldeãos celebram uma missa para recordar esse acontecimento.

     - Há aqui uma aldeia?

     - A cerca de dois quilómetros, para lá da garganta. Podemos descansar aí.

     Sharpe viu que o desfiladeiro era um local ideal para uma emboscada. As forças cristãs, escondidas nos altos rochedos teriam tido uma visão de águia sobre a estrada e observado os mouros passo a passo, subindo a garganta, para começarem a disparar as flechas mortais.

     - E como sabe que os franceses não estão à nossa espera? - Encorajado pela renovada simpatia de Vivar, levantou a questão que anteriormente o preocupara. - Não temos piquetes.

     - Porque os franceses nunca chegariam a este lugar de Espanha - respondeu Vivar confiante. - E se tivessem chegado, os aldeãos já teriam mandado avisos pelos caminhos. Mesmo que esses avisos não nos chegassem, sentiríamos o cheiro dos cavalos franceses. - Os franceses, sempre descuidados com as montadas da sua cavalaria, usavam-nas até que as feridas causadas pela sela e pelos arreios cheirasse a quilómetros de distância. Um dia - acrescentou alegremente Vivar - os franceses chicotearão o seu último cavalo até à morte e nós entraremos nesse país horrível. - O pensamento deu-lhe uma energia renovada que o fez voltar-se para os homens que marchavam. - Antes, não podemos descansar.

     Neste momento, do cimo da garganta onde os mouros tinham sido emboscados e diante de Sharpe, onde a estrada descia para o caminho dos peregrinos, os franceses abriram fogo.    

    

     Sharpe viu Vivar saltar para a direita da estrada e por sua vez lançou-se para a esquerda. A sua espada grande, e a que não estava habituado, bateu com força numa rocha, pegou então na espingarda que tinha ao ombro e arrancou dela o bocado de pano que protegia a caçoleta da chuva. Uma bala francesa cavou a neve três centímetros à sua direita, outra abriu uma fenda perigosa na superfície de pedra a seu lado. Um homem gritou atrás dele. Dragões. Malditos dragões. Casacas-verdes com paramentos rosados. Sem cavalos. Dragões desmontados, com espingardas de cano curto. Sharpe, recuperado do seu espanto pela emboscada, tentou raciocinar, no meio do caos de medo e ruído que surgira no frio do Inverno. Num arco à sua frente, via tufos de fumo cinzento, sujos como a neve em degelo. Os franceses tinham montado uma baixa barricada de pedras que atravessava a estrada, a cerca de sessenta passos da boca do desfiladeiro. Ficava a uma grande distância para as carabinas dos franceses, mas isso não tinha importância. Os dragões apeados que se alinhavam nos picos dos imensos e perigosos rochedos, de ambos os lados da garganta, eram os homens que mais danos causavam. Sharpe caiu de costas. Uma bala atingiu a neve no local onde, segundos antes, estivera a sua cabeça. Via os dragões à beira do abismo, disparando para a armadilha mortal que era a estrada onde, novecentos anos antes, os mouros tinham sido dizimados.

     Os homens de Vivar tinham-se espalhado. Acocoravam-se na base das pedras e atiravam para cima. Vivar gritava-lhes, ordenando-lhes que formassem uma coluna para avançarem. Planeava carregar sobre os homens que barravam a estrada. Instintivamente, Sharpe percebeu que os franceses tinham previsto aquela manobra e era por isso que não tinham montado a barricada na garganta, mas sim por trás. Queriam atrair os emboscados para o planalto e apenas poderia haver uma razão para tal. Era aí que a cavalaria francesa os aguardava, com as suas espadas longas e direitas, prontas para dizimar a desprotegida infantaria.

     Ao mesmo tempo que se apercebeu disso, Sharpe apercebeu-se também que estava a agir como um soldado e não como um oficial. Tinha-se abrigado e procurava um alvo, sem saber o que os seus homens estavam a fazer na garganta. Não que desejasse recuar para a armadilha de pedras e balas, mas como era esse o dever de um oficial, levantou-se e correu.

     Abriu caminho por entre os espanhóis que se reuniam, viu que a mula estava por terra, escoiceando ensanguentada e teve consciência do zumbido e dos estalos junto aos seus ouvidos. As balas de carabinas cuspiam para a garganta, com um violento ricochete, enchendo o ar com o som da morte. Viu um casaca verde deitado de bruços. O sangue brotava-lhe da boca e manchava um metro quadrado de neve derretida. Uma espingarda disparou à esquerda de Sharpe, depois outra à direita. Os casacas-verdes tinham-se abrigado onde lhes fora possível e tentavam matar os franceses que se encontravam por cima. Ocorreu-lhe que estes deveriam ter colocado mais homens nos cumes e que o ruído do fogo não era suficiente para abarcar toda a estrada. A ideia foi tão surpreendente que ficou muito quieto a olhar a linha do horizonte.

     Tinha razão. Os franceses apenas tinham colocado nos cumes os homens suficientes para a emboscada, porém a matança seria executada por outros. Essa certeza deu esperança a Sharpe e indicou-lhe o que deveria fazer. Começou a dirigir-se para o centro da estrada, gritando aos seus homens.

     - Fuzileiros! A mim! A mim!

     Os fuzileiros não se moveram. Uma bala bateu na neve, ao lado de Sharpe. A cavalaria francesa, mais habituada à espada do que à carabina, apontava alto de mais, mas esse defeito habitual era uma parca consolação por entre os disparos. Sharpe gritou mais uma vez para que os fuzileiros se juntassem a ele, mas, como era natural, estes preferiram o fraco abrigo oferecido na base dos rochedos. Arrastou então um dos homens para fora da concavidade na rocha

     - Corre! Por ali! Espera por mim no fundo da garganta! - Incitou-os De pé! Mexam-se! - Obrigou outros a levantarem-se com um pontapé. - Sargento Williams?

     - Meu Tenente? - A resposta veio lá de baixo, do abismo, algures entre as colunas de fumo das espingardas que ficavam presas nas paredes de rocha.

     - Se ficarmos aqui, morremos. Fuzileiros! Sigam-me!

     E os soldados seguiram-no. Sharpe não teve tempo para reflectir na ironia daqueles homens que tão recentemente o tinham tentado matar e que, agora, obedeciam às suas ordens. Os casacas-verdes faziam-no porque Sharpe sabia como deviam actuar, com uma certeza tão forte que obrigava os soldados a sair do seu precário abrigo nas rochas. Também o seguiam porque Harper, o único homem para além do tenente, em quem poderiam ter confiado, não estava com eles e continuava amarrado à cauda da mula ferida.

     - Sigam-me! Sigam-me! - Sharpe saltou por cima de um espanhol ferido, deu meia volta quando uma bala lhe rasou o rosto e virou à direita.

     Conduzira os homens quase até à boca do desfiladeiro, mesmo por detrás do local onde Vivar ainda alinhava a sua cavalaria apeada. Uma vez, anos antes, a queda de uma rocha tinha provocado a formação de uma saliência de entulho e turfa e, embora a encosta fosse perigosamente íngreme e a neve escorregadia a tornasse ainda mais perigosa, oferecia um atalho para a encosta que, por sua vez, levava lá acima, aos cumes. Sharpe subiu com dificuldade a rocha caída, usando a espingarda para se apoiar e atrás dele seguiam os fuzileiros sozinhos ou dois a dois.

     - Atacar! - Sharpe fez uma pausa no cimo da primeira ladeira íngreme, para livrar os ombros da bagagem incómoda. - Espalhem-se!

     Alguns fuzileiros aperceberam-se do que se esperava deles. Deveriam assaltar uma ladeira íngreme e escorregadia no cimo da qual os franceses estavam protegidos pelos bastiões naturais dos vários pedregulhos. Houve quem hesitasse e procurasse abrigo.

     - Rápido! - A voz de Sharpe era mais alta do que a explosão de uma arma de fogo. - Rápido! Atacar! Rápido!

     Assim fizeram, não porque tivessem confiança em Sharpe, mas porque o hábito de obediência sob o fogo de batalha lhes estava arreigado. Sharpe sabia que permanecer naquela garganta seria morrer. Os franceses queriam-nos ali, empurrados lá de cima pelas suas carabinas para serem dizimados pelos dragões, que carregariam vindos da barreira da estrada. A única forma de desfazer aquela emboscada seria atacar um dos seus lados. Iriam morrer homens nessa tentativa, mas não tantos como os que morreriam no horror de sangue e lama em que ficaria a estrada.

     Sharpe ouviu Vivar dar uma ordem em espanhol, mas fingiu não o ter ouvido. O major deveria fazer o que pensasse adequado e Sharpe o que julgasse ser melhor; a estranha exaltação da batalha apoderou-se subitamente dele. Ali, naquele fedor de fumo e pólvora, sentia-se em casa. Havia dezasseis anos que era aquela a sua vida. Outros homens tinham aprendido a arar a terra ou a trabalhar a madeira, mas Sharpe aprendera a utilizar um mosquete, uma espingarda, uma espada e uma baioneta, vencer uma ala do inimigo ou assaltar uma fortaleza. Conhecia o medo, companheiro de todos os soldados, mas sabia também como transformar em vantagem o medo do inimigo.

     Por cima de Sharpe, recortado contra as nuvens cinzentas, um oficial francês reposicionava os seus homens para enfrentar a nova ameaça. Os dragões apeados que se tinham alinhado à beira do desfiladeiro deviam virar à direita para enfrentar aquele inesperado ataque no seu flanco. Movimentavam-se ansiosamente e as primeiras balas francesas sibilaram no ar gelado com a rapidez de um chicote.

     - Quero fogo! Quero fogo! - gritava Sharpe enquanto subia e foi recom-pensado pelos estalos das espingardas Baker. Os fuzileiros desempenhavam a missão para que tinham sido treinados. Um homem disparava enquanto o seu companheiro avançava. Os dragões, procurando ainda novas posições sobre as rochas altas, haviam de ouvir as balas girarem-lhe junto aos ouvidos. Os franceses não usavam espingardas, preferindo o mosquete, que era mais rápido, mas esta arma é um pouco desajeitada, comparada com a Baker.

     Uma bala zumbiu junto a Sharpe. Pensou que pudesse provir da espingarda disparada atrás dele e perguntou a si próprio se algum dos seus homens, que o odiavam, não lhe teria feito pontaria às costas. Contudo não teve tempo para tal receio, embora fosse de considerar, já que na índia tivera conhecimento de mais de um oficial pouco apreciado morto pelas costas.

     - Mais rápido! Mais rápido! Esquerda! Esquerda!

     Sharpe confiava no seu instinto, calculando que os homens que tinham estado posicionados nos cumes mal seriam suficientes para manter a emboscada cá em baixo e esperava estar a diminuir-lhes o número. Dirigiu-se mais para a esquerda, obrigando de novo os franceses a mudarem de posição. Mais adiante, nas rochas, viu um rosto de bigode, emoldurado pelas estranhas trancinhas dos dragões franceses. Sharpe lembrou-se de que Dragons era o nome francês e espanhol desses soldados e, ao mesmo tempo que o rosto desaparecia por detrás de um tufo de fumo, ouviu de novo o estalo distinto de uma bala de espingarda. Uma espingarda! Uma Baker! Teve a certeza de que aqueles deveriam ser os mesmos homens que tinham desbaratado na ponte as quatro companhias de fuzileiros de Dunnett e que utilizavam as espingardas capturadas aos ingleses. A recordação dessa derrota provocou-lhe uma nova raiva que o impeliu para diante.

     Sharpe voltou-se abruptamente para o centro da linha enfraquecida do inimigo. Algures atrás de si, na encosta do monte, abandonara a espingarda por disparar e empunhara a sua nova espada. A arma faria dele uma referência para os dragões, um oficial a abater, mas torná-lo-ia também visível aos seus homens.

     Doíam-lhe as pernas do esforço da subida. A ladeira era íngreme e coberta de gelo e cada passo recuava antes de avançar. A raiva incentivara-o a subir o monte, mas agora o medo fazia-o fraquejar. Sharpe arquejava, demasiado cansado para gritar, apenas consciente da necessidade de encurtar a distância que o separava dos franceses. Subitamente, teve a certeza de que morreria. Morreria ali, porque mesmo um dragon não poderia deixar de o matar a uma distância tão curta. Mas, mesmo assim, subia. O importante era conseguir abrir um lado daquela armadilha, para os homens de Vivar poderem escapar monte acima. O coração de Sharpe batia-lhe descompassado no peito, os músculos ardiam-lhe, as nódoas negras doíam-lhe e perguntava a si próprio se sentiria a bala que o iria matar. Atingi-lo-ia imediatamente, atirando-o pela encosta abaixo no meio do sangue e do gelo? Pelo menos os seus homens saberiam que não era cobarde. Haveria de mostrar àqueles canalhas como morria um verdadeiro soldado.

     Uma rajada espanhola soou por baixo dele, mas era já outra a batalha. Mais adiante ouviu-se um clarim, que nada tinha a ver com Sharpe. O seu mundo limitava-se a uns metros de lama com pedras à frente. Viu um estilhaço branco, arrancado da rocha por uma bala e percebeu que os seus homens disparavam para lhe dar cobertura. Ouvia os outros fuzileiros que o tinham seguido a praguejar, quando escorregavam nas rochas. Via centelhas verdes sobre as pedras - dragões - e afastou-se para o lado de um tufo de fumo, quando o disparo de uma carabina lhe soou aos ouvidos. Perguntou a si próprio se estaria a sonhar, se já estaria morto, mas logo a seguir a sua bota esquerda encontrou um apoio firme numa saliência da rocha e içou-se desesperadamente.

     As armas disparavam contra ele. Sharpe gritava agora de forma incoerente; era um grito de puro medo que se transformava numa raiva mortífera. Odiava o mundo inteiro. Viu um dragão recuar com dificuldade empunhando a vareta da espingarda e a grande espada, presente de Murray, desceu para esmagar as costelas do homem. Houve um momento em que a lâmina ficou presa na carne, mas ele libertou o aço e o sangue jorrou na direcção do rosto do oficial francês que quis atingir o ventre de Sharpe com a sua própria espada. Sharpe deixou a lâmina do inimigo aproximar-se, saltou para o lado e depois bateu com o punho da pesada espada no rosto do francês. Um osso estalou, jorrou mais sangue, o oficial caiu ao chão e Sharpe esmagou-lhe a face com o copo da espada. Um casaca verde passou a correr com o sabre-baioneta já ensanguentado, depois outro fuzileiro apareceu por entre as rochas.

     Sharpe levantou-se, reverteu o movimento da espada e apunhalou. Na longa encosta abaixo de si, viu dois homens que, nas suas casacas-verdes jaziam por terra como duas bonecas de trapo. Uma carabina disparou à esquerda de Sharpe e aí, sem estar protegido do vento, o fumo elevava-se claro, para mostrar um dragão assustado que dava meia volta para se pôr em fuga.

     O sargento Williams matou o homem e depois apunhalou-o com a baioneta. Gritava como um possesso. Outros fuzileiros atingiram o cume. Um grupo de franceses tentou formar um quadrado na beira do desfiladeiro mas Sharpe ordenou aos seus homens que atacassem. Os casacas-verdes mexeram-se com dificuldade pelos tapetes de neve manchada de vermelho. Os seus rostos estavam manchados da pólvora e tinham os lábios arrepanhados num esgar enquanto se deslocavam como uma matilha de lobos na direcção dos dragões, que não esperaram pela carga para dispersar e fugir.

     As balas zumbiam, disparadas pelos franceses colocados no outro extremo da garganta. Um fuzileiro girou, caiu e cuspiu sangue enquanto tentava pôr-se de gatas.

     - Sargento Williams! Mate esses canalhas! - Sharpe apontava para o outro lado do desfiladeiro. - Arranque-lhes as malditas cabeças!

     - Sim, meu Tenente!

     O clarim soou de novo e Sharpe voltou-se para a encosta que tinha subido. A seus pés, Vivar tinha formado os homens, mas os franceses esperavam-no. A sua força principal fora barricada na estrada e, agora, do flanco esquerdo dos espanhóis uma companhia de dragões preparava-se para atacar.

     - Tu! - Sharpe agarrou um casaca verde. - Tu! - Outro. - Mata esses canalhas.

     As espingardas dispararam contra os cavaleiros.

     - Disparem baixo! - O vento levava-lhe a voz. - Baixo! - Um cavalo caiu. Um homem foi derrubado da sela. Sharpe encontrou uma espingarda por entre as pedras, carregou-a e disparou para baixo. O sargento Williams tinha uma dúzia de homens emboscados para disparar furtivamente sobre o desfiladeiro, mas os restantes casacas-verdes despejavam agora fogo sobre a cavalaria. Não impediriam a carga, mas conseguiriam desorganizá-la. Um cavalo sem cavaleiro partiu à desfilada pela neve, enquanto outro arrastava atrás de si um homem ensanguentado pela frente da carga.

     Vivar recuou. A sua ténue linha teria sido transformada em carniça para as espadas dos dragões, de modo que o major se abrigou na garganta. O comandante francês devia ter percebido que a sua carga estava amaldiçoada, pois ordenou aos cavaleiros que recuassem. Se a cavalaria se tivesse metido por entre as rochas sem a cobertura dos soldados que se encontravam nos cumes, teria sido massacrada pelo fogo das espingardas.

     Um empate. Algures, um homem ferido soluçava num tom terrivelmente gemebundo. Um cavalo coxo tentou juntar-se às alas da cavalaria, mas caiu. O conteúdo dos cartuchos fumegava na neve. Sharpe não sabia se tinham passado dois minutos ou duas horas. Sentia o frio chegar-lhe aos ossos; um frio que fora vencido por uma súbita ansiedade. Sorriu para consigo, orgulhoso do feito dos seus casacas-verdes. Tudo acontecera com uma rapidez implacável que desequilibrara o inimigo e lhes retirara vantagem. Agora chegara-se a um empate.

     Os franceses barravam ainda a estrada, mas os fuzileiros de Sharpe podiam atacar os que se abrigavam sob a pequena barricada e faziam-no com a terrível satisfação de homens que se vingam. Nos cumes, tinham sido feitos prisioneiros franceses; dois miseráveis dragões foram metidos numa reentrância da rocha e vigiados por um soldado de aspecto selvagem. Sharpe calculava que nunca houvera mais do que uma dúzia de dragões de cada lado do abismo e não via mais do que sessenta ou setenta por trás da barricada ou nas alas da carga abortada. Podia tratar-se apenas de um destacamento, de uma mão-cheia de homens, enviados para as montanhas.

     - Tenente! - gritou Vivar por baixo de Sharpe. O espanhol estava oculto pela sombra dos rochedos.

     - Meu Major?

     - Se eu chegar à barricada, pode fazer fogo?

     - Não vai conseguir! - Se Vivar atacasse a barricada, o seu flanco ficaria mais uma vez aberto à cavalaria. Sharpe sabia o que os dragões podiam fazer a uma infantaria desorganizada e temia pelos caçadores apeados de Vivar. A carabina não era a verdadeira arma dos dragões; apreciavam a força das suas espadas longas e finas e rezavam para que aparecessem idiotas em quem experimentar as mortíferas lâminas.

     - Inglês! - gritou de novo Vivar.

     - Meu Major?

     - Estou-me nas tintas para a sua opinião! Faça fogo!

     - Louco - resmungou Sharpe, mas depois gritou aos seus homens. - Não os deixem levantar as cabeças!

     Os homens de Vivar partiram três a três. Da primeira vez que atacara, Vivar formara uma linha, mas agora queria os seus homens formados como um aríete humano em direcção à barreira da estrada. Os galegos avançavam a correr, não a marchar. Da barricada saía fumo e os homens de Sharpe abriram fogo.

     Os dragões a cavalo, apenas quarenta, viram aparecer em campo aberto o inimigo de casaca-vermelha. Os cavalos moveram-se e passaram a trote. Vivar ignorou-os. Um espanhol caiu e os seus camaradas rodearam o corpo e formaram adiante dele. Soou um clarim estridente e, por fim, o major deteve os seus homens e voltou-os para a ala ameaçada.

     Sharpe viu então o que Vivar planeava e percebeu que a sua coragem tocava as raias da idiotice. Ignorando os dragões que se encontravam por trás da barricada, despejaria todo o fogo sobre a cavalaria, confiando em que os fuzileiros mantivessem ocupados os dragões apeados. Sharpe andava para trás e para diante ao longo da sua linha de atiradores, ordenando-lhes os alvos em que deveriam acertar.

     - O canalha junto à árvore! Mata-o! - viu um homem disparar a pressa e deu-lhe um pontapé. - Faz pontaria como deve ser, minha besta! - Sharpe procurou sinais denunciadores de pólvora desperdiçada que pudessem trair soldados que não carregavam devidamente as espingardas para poupar o ombro ao coice da arma; contudo, nenhum dos fuzileiros usava esse desprezível expediente.

     Tinham caído dois homens na ala direita de Vivar. Eram o preço que o major tinha de pagar. A cavalaria galopava agora a grande velocidade, com os cascos a levantarem grandes pedaços de neve suja e terra.

     - Apontar! - Vivar continuou a expor o flanco direito, o que estava mais próximo da barricada e onde havia maior perigo. Ergueu a espada. - Aguardar! Aguardar!

     A neve era fina sobre o solo liso ao lado da estrada. As patas dos cavalos pisavam a turfa e as longas espadas reflectiam a pálida luz. O clarim tocou para os impelir ainda com maior velocidade e os cavaleiros gritaram o seu primeiro desafio. Os espanhóis não tinham formado um quadrado, mas arriscavam tudo numa rajada esmagadora, disparada por homens alinhados. Apenas tropas tão disciplinadas poderiam aguentar, enquanto alinhadas, uma carga de cavalaria.

     - Fogo! - A espada de Vivar cintilou.

     As carabinas espanholas foguearam. Os cavalos caíram. Sangue, homens e neve formavam um caos rodopiante. Ouviu-se um grito, mas Sharpe não sabia se provinha de um homem ou de uma montada. Depois, por cima do grito, ouviu-se o grito de guerra de Vivar.

     - Santiago! Santiago!

     Os galegos responderam com uma ovação. Não na direcção da barricada, mas na dos cavaleiros caídos.

     - Jesus Cristo! - resmungou um fuzileiro próximo de Sharpe, logo baixando a arma. - São loucos varridos!

     Mas era uma loucura magnífica. Os homens de Sharpe ficaram a olhar, mas ele gritou-lhes que continuassem a fazer fogo na direcção do inimigo que se ocultava na barricada. Permitiu-se ficar a ver os bravos soldados galegos largarem as suas armas de fogo e empunharem as espadas. Subiam aos cavalos mortos e apunhalavam os entorpecidos dragões. Outros pegavam nas rédeas e arrastavam os cavaleiros.

     Os franceses por detrás da barricada ergueram-se para disparar a sua carga, mas Sharpe gritou um aviso a Vivar, sabendo, porém, que ele não o escutaria. Voltou-se.

     - Sargento Williams! Mantenha aqui os seus homens. O resto vem comigo! Sigam-me!

     Os fuzileiros correram numa confusão frenética pelo monte abaixo. Transformaram-se numa carga irregular que apanharia os últimos dragões do flanco e, de facto, os franceses viram-nos chegar, hesitaram e fugiram. Os homens de Vivar faziam prisioneiros ou apanhavam montadas sem cavaleiros, enquanto os franceses sobreviventes tentavam pôr-se em segurança. A batalha tinha terminado. Os emboscados, num número muito menor, tinham arrancado uma vitória impossível e fediam agora a sangue e a fumo.

     Depois soaram tiros de espingarda do desfiladeiro, por detrás de Sharpe. Vivar voltou-se, com o rosto acinzentado.

     Uma espingarda disparou e o som foi amplificado pelo eco das paredes de rocha.

     - Tenente! - Vivar fez um gesto desesperado na direcção do desfiladeiro. - Tenente! - Na sua voz havia um verdadeiro desespero.

     Sharpe voltou-se e correu para o abismo. Os tiros tinham sido súbitos e bruscos. Viu o sargento Williams a disparar para baixo e percebeu que deveria haver mais franceses escondidos no outro extremo do desfiladeiro; homens para bloquearem a aterrorizada retirada, que calculavam provocar. Avançavam agora, subindo o desfiladeiro para atacar Vivar e Sharpe pelas costas.

     Só que tinham sido detidos por um homem. O soldado Harper encontrara a espingarda de um homem morto e, usando o corpo da mula como bastião, mantinha à distância um pequeno número de dragões. Cortara as cordas que lhe prendiam os pulsos, mas, apesar das feridas ensanguentadas, carregava e disparava a sua espingarda com uma temível precisão. Um cavalo francês morto e um dragão ferido testemunhavam a sua habilidade. Gritava aos outros o seu desafio em gaélico, provocando-os para que se aproximassem. Voltou-se, com um olhar selvagem, quando Sharpe se aproximou para logo se virar de novo para os franceses com uma expressão de desprezo.

     Sharpe alinhou os seus fuzileiros na estrada.

     - Apontar! - O caçador de peliça vermelha e barretina de pele negra encontrava-se na garganta. A seu lado, cavalgava o homem alto de casaca de montar negra e botas brancas.

     - Fogo! - gritou Sharpe.

     Ouviram-se os disparos de uma dúzia de espingardas. As balas gemeram fazendo ricochete e caíram mais dois cavaleiros. O homem de vermelho e o homem de negro estavam a salvo. Por momentos pareceram fitar intensamente os olhos de Sharpe, mas a fuzilaria vinda de cima obrigou-os a picar os cavalos e a afastarem-se a toda a pressa. Os fuzileiros invectivaram-nos, mas Sharpe ordenou-lhes silêncio.

     - Recarregar!

     Os franceses tinham partido. A água escorria dos pingos de neve que pendiam das rochas. Um cavalo ferido relinchava. O fumo malcheiroso da pólvora esvoaçava na garganta. Um fuzileiro vomitou sangue e soltou um suspiro. Outro homem chorava. O cavalo ferido foi silenciado por um tiro de espingarda e o sol estalou em ecos brutais nas paredes de rocha.

     Soaram passos por trás de Sharpe. Era Blas Vivar, que passava por ele e pelos casacas-verdes e se ajoelhava junto à mula. Desatou cuidadosamente o cofre dos arreios do animal morto. Depois, pôs-se de pé e olhou para Harper.

     - Salvou-a, meu amigo!

     - Salvei, Meu Major? - Era evidente que o irlandês não fazia a mínima ideia do valor que Vivar dava à arca.

     O espanhol estendeu os braços para o gigante e beijou-o em ambas as faces. Um dos fuzileiros de Sharpe soltou uma risadinha, mas foi imediatamente silenciado pela solenidade do momento.

     - Salvou-a - repetiu Vivar, com lágrimas nos olhos. Depois, ergueu a arca e levou-a de volta para o desfiladeiro.

     Sharpe seguiu-o. Os homens, em silêncio e cheios de frio, desceram à estrada. Não houve exaltação na vitória, pois, muito para lá da abandonada barricada francesa, erguia-se no ar do Inverno uma mancha de fumo cinzento em que ninguém ainda reparara. Vinha de uma aldeia. O fumo era tão escuro como a capa de um pobre e trazia o cheiro da morte e do fogo.

     E dela, como neve escura, caíam cinzas sobre a terra ensanguentada.

    

     Os aldeãos não poderiam ter avisado da presença francesa pois já não existiam; nem eles nem a aldeia.

     Os incêndios deviam ter sido ateados ao mesmo tempo que a emboscada era preparada, pois as casas ainda ardiam lentamente. Porém, os cadáveres estavam completamente congelados. Os franceses tinham morto as pessoas e depois haviam-se abrigado nas suas casas enquanto esperavam que a pequena coluna de Vivar chegasse ao alto do desfiladeiro.

     Nunca fora uma aldeia importante; era um local pobre, com cabras, ovelhas e pessoas que tiravam o seu sustento das pastagens de montanha. As casas encontravam-se numa cova, protegida por carvalhos-anões e castanheiros. Houvera batatas semeadas nalgumas pequenas parcelas ladeadas por amoreiras silvestres e tojo. As casas haviam sido meras cabanas com telhados de colmo e montes de estrume às portas. Tinham sido partilhadas igualmente por homens e animais, tais como aquelas que os próprios soldados de Sharpe tinham conhecido em Inglaterra, de modo que essa parecença nostálgica acrescentava-se à intensidade daquele dia. Se alguma coisa se lhe podia acrescentar, seria a dor dos bebés mortos, das mulheres violadas ou dos homens crucificados. O sargento Williams, que já assistira à sua parte de horrores neste mundo cruel, vomitou. Um dos homens da infantaria espanhola voltou-se em silêncio para um prisioneiro francês e, antes que Vivar pudesse interferir, esventrou-o. Só nesse momento o caçador soltou um urro de ódio.

     Vivar ignorou a morte e o urro. Com uma estranha formalidade dirigiu-se para Sharpe.

     - Importa-se... - começou, mas achou difícil continuar. O fedor dos cadáveres que ardiam dentro das casas era muito forte. Engoliu em seco. - Não se importa de estabelecer piquetes, tenente?

     - Não, meu Major.

     Aquilo, pelo menos, afastava os fuzileiros dos cadáveres das crianças dizimadas e dos alpendres a arder. Tudo o que restava das construções da aldeia eram as paredes de pedra da igreja, impossíveis de queimar, embora  tecto de madeira ainda ardesse e cuspisse fumo para a entrada do vale onde, por entre as árvores, Sharpe colocara as suas sentinelas. Os franceses, se ainda por ali andavam, continuavam invisíveis.

     - Porque fazem isto, meu Tenente? - Dodd, um homem calado, apelou para Sharpe.

     Sharpe ignorava a resposta.

     Gataker, o maior patife que existia no exército, lançava um olhar vazio pela paisagem. Isaiah Tongue, cuja educação se desgastara pela acção do gim, estremeceu quando um terrível grito soou na aldeia; depois, apercebendo-se de que o grito deveria ter saído da boca de um francês capturado, cuspiu para mostrar que não se sentira incomodado.

     Sharpe avançou, colocando mais sentinelas, chegando, por fim, a um ponto de onde, por entre dois pedregulhos de granito, podia avistar uma grande distância para sul. Ali se sentou sozinho, olhando para o céu imenso que, porém, prometia mau tempo. Empunhava ainda a espada e, quase ofuscado, tentava embainhá-la na sua bainha de metal. A lâmina estava peganhenta do sangue e emperrou a meio. Foi nessa altura que viu que, para seu espanto, uma bala se tinha alojado na bainha e metido o metal para dentro.

     - Meu Tenente?

     Sharpe olhou em volta e viu o sargento Williams muito nervoso.

     - Que se passa, sargento?

     - Perdemos quatro homens, meu Tenente.

     Sharpe esquecera-se de perguntar e amaldiçoou-se pela omissão.

     - Quem?

     Williams nomeou os mortos, embora esses nomes nada dissessem a Sharpe.

     - Pensei que tivéssemos perdido mais - disse estupefacto.

     - Sims está ferido, meu Tenente. E Cameron. Ainda há outros, meu Tenente, mas estes são os que estão em pior estado. - O sargento cumpria apenas o seu dever, mas tremia de nervosismo, enquanto falava com o oficial.

     Sharpe tentou concentrar-se, mas a recordação das crianças mortas embotava-lhe os sentidos. Já as vira muitas vezes, e quem as não vira? Nas últimas semanas passara por uma dezena de crianças do exército, que haviam sucumbido ao frio durante a terrível retirada, mas nenhuma delas fora assassinada. Vira crianças espancadas ao ponto de sangrarem, mas não até à morte. Como podiam os franceses ter esperado na aldeia, sem antes terem escondido a sua obscena matança? E como teriam sido capazes de a cometer?

     Williams, perturbado pelo silêncio teimoso de Sharpe, resmungou qualquer coisa acerca de encontrar um ribeiro onde os homens pudessem encher os cantis. Sharpe acenou afirmativamente.

     - Assegure-se de que os franceses não inquinaram a água, sargento.

     - Claro, meu Tenente.

     Sharpe voltou-se para olhar para o homem corpulento.

     - E os homens comportaram-se muito bem. Muito bem.

     - Obrigado, meu Tenente - Williams parecia aliviado. Estremeceu quando outro grito se ouviu na aldeia.

     - Comportaram-se muito bem - disse-o apressadamente, como se tentasse distrair os seus pensamentos do grito. Os prisioneiros franceses estavam a ser interrogados e depois morreriam. Sharpe olhava para sul, perguntando a si próprio se as nuvens enviariam chuva ou neve. Recordava-se do oficial de Caçadores de casaca vermelha, pertencente à Guarda Imperial e do homem de casaca negra a seu lado. Porquê de novo aqueles dois homens? Porque, pensou, sabiam da vinda de Vivar, porém os franceses não tinham contado com os fuzileiros. Sharpe pensou no momento, no cimo do monte, em que o primeiro casaca-verde passara por ele com o sabre-baioneta montado e apercebeu-se de mais um erro seu. Não ordenara aos homens que os montassem, mas estes tinham-no feito por si.

     - Os homens comportaram-se muito bem - repetiu Sharpe. - Diga-lhes isso.

     Williams hesitou.

     - Meu Tenente. Não seria melhor ser o meu Tenente a dizer-lhes?

     - Eu? - Sharpe voltou-se repentinamente para o sargento.

     - Fizeram-no por si, meu Tenente. - Williams parecia embaraçado e ainda mais porque Sharpe não reagia às suas embaraçadas palavras. - Tentaram provar-lhe algo, meu Tenente. Todos tentámos. E esperávamos que...

     - Esperavam o quê? - a pergunta fora feita com demasiada aspereza e Sharpe sabia-o. - Desculpe.

     - Esperávamos que soltasse Harper, meu Tenente. Os homens gostam dele, sabe, e o exército liberta sempre os homens castigados, quando os camaradas combatem bem, meu Tenente.

     A raiva que Sharpe sentia pelo irlandês era demasiado forte para o deixar aceder imediatamente ao pedido.

     - Vou dizer aos homens que se comportaram bem, sargento - fez uma pausa. - E vou pensar no caso de Harper.

     - Sim, meu Tenente. - O sargento Williams estava visivelmente satisfeito por, pela primeira vez desde que se encontrava sob as ordens de Sharpe, o tenente o tratar com algum civismo.

     Sharpe apercebeu-se do mesmo e ficou perturbado. Tinha-se sentido nervoso por ter de comandar aqueles homens e assustado com a sua insubordinação, mas não compreendera que também eles o receavam. Sharpe sabia-se um homem duro, mas sempre se considerara razoável; porém agora, reflectindo no nervosismo de Williams, apercebia-se de que era muito pior: um homem violento que utilizava a pouca autoridade da sua patente para intimidar os seus soldados. De facto, exactamente o tipo de oficial sob cujas ordens mal-humoradas Sharpe sempre detestara encontrar-se. Sentia remorsos por todos os erros que cometera em relação àqueles homens e gostaria de saber como poderia fazer as pazes. Era demasiado orgulhoso para pedir desculpas, por isso fez uma envergonhada confissão ao sargento.

     - Não tinha a certeza de que os homens me seguissem monte acima. Williams resmungou, meio divertido, meio compreensivo.

     - Estes rapazes, meu Tenente, segui-lo-iam sempre. Tem aqui a nata do batalhão.

     - A nata? - Sharpe não conseguia esconder a sua surpresa.

     - Pelo menos os mais velhacos - Williams sorriu. - Eu não, meu Tenente. Nunca fui grande coisa. Nunca pensei ter de ganhar a vida assim - riu-se. Mas estes rapazes, meu Tenente, a maior parte deles são uns bons patifórios - o termo foi dito em tom de admiração. - É lógico, meu Tenente, se pensar bem. Eu vi os rapazes quando os franciús atacaram a ponte. Alguns estavam dispostos a desistir, mas estes não. Trataram de conseguir. O meu Tenente comanda os mais fortes. Excepto eu. Tive apenas sorte. Mas se der aos rapazes uma oportunidade de combater, meu Tenente, eles hão-de segui-lo.

     - Também o seguiram a si - disse Sharpe. - Vi-o no cimo daquele monte. Portou-se muito bem.

     Williams tocou nos galões da manga direita.

     - Se não o fizesse envergonharia as minhas divisas. Mas não, foi o meu Tenente. Foi uma loucura carregar por aquele monte acima. Mas deu resultado! Sharpe encolheu os ombros, sem querer dar importância ao cumprimento; contudo, reconheceu que este lhe era devido e intimamente ficou muito satisfeito. Podia não ter nascido oficial, mas por Deus, nascera soldado. Era filho de uma rameira, abandonado por Deus, mas muito bom soldado.

     Encontraram pás na aldeia, levaram-nas para a beira do desfiladeiro e abriram covas para enterrar os franceses mortos.

     Vivar acompanhou Sharpe ao local onde as sepulturas baixas estavam a ser cavadas na terra dura. O espanhol deteve-se junto de um dos dragões que morrera durante a carga de cavalaria e cujo corpo fora completamente desnudado. A pele do cadáver estava tão branca como a neve pisada, enquanto o rosto parecia acastanhado pela exposição ao vento e ao sol. O rosto ensanguentado estava emoldurado por trancinhas.

     - Cadenettes - disse Vivar bruscamente. - É assim que lhes chamam. E vocês? Chamam-lhes tranças?

     - Trancinhas. É a marca deles - falava em tom amargo. - Que indica que são especiais. Uma elite.

     - Como o rosmaninho nos chapéus dos seus homens?

     - Não, não é de modo algum o mesmo - a negação abrupta de Vivar tornou difícil a troca de palavras entre os dois homens. Deixaram-se ficar num silêncio embaraçado sobre o inimigo morto.

     Sentindo-se pouco à vontade, Sharpe foi o primeiro a falar.

     - Nunca teria acreditado que fosse possível homens apeados vencerem cavaleiros.

     O elogio deliciou o major.

     - Nem eu acreditaria que fosse possível a infantaria tomar aquele monte. Foi estúpido da sua parte, tenente, muito estúpido, e mais corajoso do que alguma vez pensei ser possível. Agradeço-lhe.

     Sharpe, que como sempre não se sentia à vontade com os elogios, tentou desvalorizá-lo.

     - Foram os meus fuzileiros.

     - Fizeram-no para lhe agradar, julgo eu - Vivar falava num tom signifi-cativo, para oferecer alguma segurança ao inglês, e quando este não respondeu a sua voz tornou-se mais intensa. - Os homens comportam-se sempre melhor quando sabem o que se espera deles. Os homens deveriam sempre saber o que os oficiais querem que eles façam, Dou três regras aos meus caçadores. Não devem roubar, a menos que morram se não o fizerem, devem ter mais cuidados com os seus cavalos do que consigo próprios e devem lutar como heróis. São apenas três regras, mas funcionam. Dê regras firmes aos homens, tenente, e eles hão-de segui-lo.

     Sharpe, de pé no planalto solitário e gelado, sabia que estava a receber um presente da parte do major Vivar. Talvez não houvesse regras para se ser oficial e talvez os melhores oficiais já nascessem para aquele destino, mas o espanhol oferecia a Sharpe a chave do sucesso. Este, sentindo o valor da oferta, sorriu.

     - Muito obrigado.

     - Regras! - continuou Vivar, como se Sharpe não tivesse falado. As regras fazem os verdadeiros soldados, não assassinos de crianças como estes canalhas - deu um pontapé num francês morto e depois estremeceu. Havia outros cadáveres franceses a ser arrastados pela neve suja para a sepultura rasa. - Vou mandar um dos meus homens fazer umas cruzes com a madeira queimada.

     De novo, Sharpe ficou surpreendido com aquele homem. Tinha-o visto dar um pontapé no corpo nu de um inimigo e logo a seguir preocupar-se em marcar com cruzes as sepulturas dos franceses. Vivar viu a sua surpresa.

     - Não se trata de respeito, tenente.

     - Não, meu Major?

     - Receio os seus estadea, os seus espíritos. As cruzes manterão debaixo da terra as suas almas nojentas. - Vivar cuspiu para cima do cadáver.

     - Pensa que eu sou louco, mas já os vi, tenente. Os estadea são os espíritos perdidos dos mortos amaldiçoados e parecem uma miríade de velas na humidade da noite. O seu gemido ainda é mais terrível do que isto - apontou com a cabeça na direcção da aldeia, de onde provinha outro grito de morte.

     - Ainda merecem pior, inglês, só pelo que fizeram às crianças.

     Sharpe não podia discutir a justificação do major.

     - Porque o fizeram? - Não era capaz de se imaginar a matar uma criança, nem como um homem poderia sequer sonhar em cometer tal acto. Vivar afastou-se dos cadáveres franceses, dirigindo-se para a extremidade do pequeno planalto de onde a cavalaria tinha carregado.

     - Quando os franceses aqui vieram, tenente, eram nossos aliados. Amaldiçoada seja a nossa tolice, mas fomos nós que os convidámos. Vieram para atacar os nossos inimigos, os portugueses, mas uma vez aqui, decidiram-se a ficar. Pensaram que a Espanha estava enfraquecida, podre, indefesa. - Vivar fez uma pausa, olhando para o enorme vazio do vale. - E talvez estivesse. Não o povo, tenente. Nunca pense tal coisa, nunca! Mas o Governo, sim cuspiu. - Por isso os franceses nos desprezaram. Pensaram que estávamos suficientemente maduros para ser colhidos e, provavelmente, tinham razão. Os nossos exércitos? - Vivar encolheu os ombros, impotente. - Os homens não podem lutar se forem mal conduzidos. Mas as pessoas não estão podres. A terra não está podre - bateu com o tacão da bota no solo coberto de neve.

     - Isto é a Espanha, tenente, amada por Deus e Deus não nos há-de abandonar. Porque pensa que hoje vencemos?

     Era uma pergunta que esperava uma resposta e Sharpe não a tinha. Vivar olhou para os montes longínquos, onde já se viam as primeiras manchas escuras da chuva.

     - Os franceses desprezaram-nos - retomou a sua ideia anterior -, mas aprenderam a odiar-nos. É-lhes difícil vencer em Espanha. Provaram até o sabor da derrota. Obrigámos um exército a render-se em Bailen e, quando cercaram Saragoça, o povo humilhou-os. Por isso os franceses nunca nos perdoarão. Agora inundam-nos com exércitos e pensam que, se nos matarem a todos, poderão vencer-nos.

     - Mas porque matam as crianças? - Sharpe estava assombrado pela recordação dos pequenos corpos terrivelmente mutilados.

     Vivar fez uma careta ao ouvir a pergunta.

     - O tenente combate contra homens fardados. Sabe quem é o seu inimigo porque usa uma casaca azul e pendura nelas fitas vermelhas que servem de alvo às suas espingardas. Mas os franceses não sabem quem são os seus inimigos. Qualquer homem com uma faca o pode ser e é por isso que nos temem. Para nos deterem vão colocar muito alto o preço da nossa inimizade. Vão espalhar um terror maior por toda a Espanha. Um medo disto! - Voltou-se e espetou o dedo na direcção da mancha de fumo que ainda se erguia da aldeia. - Temem-nos, mas vão tentar que ainda os temamos mais. E talvez o consigam.

     Aquele súbito pessimismo era espantoso, vindo de um homem indomável como Blas Vivar.

     - Acha mesmo que será assim, meu Major? - perguntou Sharpe.

     - Acho que os homens devem temer a morte dos seus filhos. - Vivar, que tinha enterrado os seus, falava em tom lúgubre. - Mas não creio que os franceses vençam. Agora, sentem-se vitoriosos, enquanto os espanhóis choram os seus filhos e perguntam a si próprios se lhes resta alguma esperança; porém, se conseguirem uma pequena réstia, apenas uma centelha na escuridão, hão-de lutar! - pronunciou estas palavras com um esgar, depois, mudando rapida-mente de humor, sorriu para Sharpe, à laia de desculpas.

     - Tenho um favor a pedir-lhe.

     - Claro, meu Major.

     - O irlandês, Patrick Harper. Solte-o.

     - Soltá-lo? - Sharpe foi apanhado de surpresa, não tanto pelo pedido como tal, mas pela súbita mudança nos modos de Vivar. Um momento antes parecera vingativo e duro, agora parecia timidamente delicado, como um suplicante.

     - Bem sei - disse Vivar apressadamente - que o pecado do irlandês é grave. Merece ser chicoteado quase até à morte, senão mais ainda, mas prestou-me um serviço inestimável.

     Sharpe embaraçado pelo tom humilde de Vivar, encolheu os ombros.

     - Mas claro.

     - Vou falar com ele e falar-lhe dos seus deveres de obediência.

     - Pode ser solto - Sharpe já se tinha praticamente convencido da necessi-dade de levantar o castigo a Harper, nem que fosse para provar ao sargento Williams como era razoável.

     - Já o libertei - confessou Vivar -, mas pensei que seria melhor procurar o seu consentimento - sorriu, viu que Sharpe não apresentava qualquer protesto e depois inclinou-se para apanhar o capacete caído de um francês. Arrancou a cobertura de lona que protegia o metal de boa qualidade ao mesmo tempo que impedia o sol de se reflectir nele e trair a posição do dragão.

     - Uma bela bugiganga - disse distraidamente. - Uma coisa para pendurar na escada quando a guerra acabar.

     Sharpe não estava interessado num amolgado capacete francês; pensava, sim, que o serviço inestimável que Harper prestara a Vivar fora a protecção do cofre. Recordou-se do horror do rosto do espanhol quando pensou que a arca se poderia ter perdido. Como um raio de sol que penetra as nuvens negras, Sharpe compreendeu por fim. O oficial de Caçadores perseguia Vivar e essa perse-guição tinha inconscientemente atraído os dragões para a cauda do exército britânico, onde, por acaso, tinham dizimado quatro companhias de Fuzileiros, mas depois tinham prosseguido. Não atrás da retirada, mas atrás do cofre.

     - O que contém a arca, meu Major? - perguntou em tom acusador.

     - Já lhe disse que continha documentos - respondeu Vivar com ar descui-dado, rasgando as últimas tiras de lona de cima do capacete.

     - Os franceses vieram com intenções de capturar a arca.

     - Os prisioneiros disseram-me que tinham vindo em busca de víveres. Tenho a certeza de que falavam verdade, tenente. Os homens que enfrentam a morte geralmente fazem-no e todos me contaram a mesma história. Era um grupo de pilhagem. - Vivar puxou com a manga o lustro do capacete de metal e depois ergueu-o diante de Sharpe para que este o inspeccionasse.

     - Trabalho inferior. Está a ver como a correia do queixo fica mal presa? Sharpe ignorou de novo O capacete.

     - Vieram aqui em busca da arca, não foi? Vieram atrás de si e devem ter sabido que o meu Major ia atravessar as montanhas neste local.

     Vivar olhou para o capacete de testa franzida.

     - Acho que não o quero. Hei-de encontrar um muito melhor antes de a matança ter acabado.

     - São os mesmos homens que atacaram a nossa retaguarda. Tivemos sorte em que não mandassem todo o regimento para aqui, meu Major!

     - Os prisioneiros disseram que apenas os homens com cavalos capazes podiam vir até aqui - em parte parecia uma confirmação das suspeitas de Sharpe, mas Vivar negou imediatamente o resto. - Garanto-lhe que apenas vieram até aqui com intenções de pilhagem e em busca de comida. Disseram-me que tinham esgotado as aldeias do vale, de modo que agora tinham de vir cá a cima em busca de víveres.

     - O que está na arca, meu Major? - insistiu Sharpe.

     - A curiosidade! - lançou o braço para trás e atirou o capacete para o vazio, para a íngreme descida do planalto. O capacete cintilou e depois caiu com um estrondo nos arbustos. - A curiosidade, tenente, é uma doença inglesa que conduz à morte. Evite-a.

     As fogueiras apagaram-se na noite, todas excepto uma, numa casa ainda a arder que os homens de Vivar alimentavam de madeira cortada das árvores circundantes, para assarem bocados de carne de cavalo cortados com as suas espadas. Os fuzileiros cozinhavam a carne nas varetas das espingardas. Todos estavam satisfeitos por terem enterrado os cadáveres dos aldeãos. Os piquetes tinham sido mandados recuar até aos limites da aldeia queimada e tremiam no vento frio. A chuva da tarde parara ao crepúsculo e durante a noite houve mesmo abertas entre as nuvens altas, que permitiam que um raio de luar iluminasse as montanhas recortadas, onde a neve se tinha em parte derretido, deixando a paisagem com um ar extremamente leproso. Algures nas montanhas um lobo uivou.

     Os homens de Sharpe fizeram o primeiro quarto de sentinela. À meia-noite, este fez a ronda pela aldeia e trocou umas tímidas palavras com todos eles. As conversas eram formais, pois nenhum dos casacas-verdes conseguia esquecer a manhã em que tinham conspirado para matar o Tenente; porém, Jenkins, um galês, mais loquaz que os outros, perguntou onde estaria agora o exército de Sir John Moore.

     - Só Deus sabe - respondeu Sharpe. - Muito longe.

     - Derrotado, meu Tenente?

     - Talvez.

     - Mas o Boney (Nome que os ingleses davam a Napoleão. [N. da T.]) partiu mesmo, meu Tenente? - A pergunta era feita com ansiedade, como se a ausência do imperador imbuísse os fuzileiros de uma esperança renovada.

     - Foi o que nos disseram - Pensava-se que Napoleão tivesse já saído de Espanha, mas poucas razões havia para optimismos. Não tinha necessidade de ficar. Os seus inimigos retiravam em toda a parte e confiava que os seus marechais, que tinham conquistado toda a Europa, terminassem agora com a Espanha e com Portugal.

     Sharpe passou pelas casas queimadas. A sola da sua bota direita estava solta e tinha as calças rasgadas nas coxas. Pelo menos reparara a bainha da espada pois, de contrário, o uniforme penderia da sua pessoa como os farrapos do corpo de um espantalho. Dirigiu-se ao local em que a estrada subia na direcção do desfiladeiro e onde, junto da vala onde as mulheres daquela aldeia tinham lavado a roupa, havia colocado um piquete de três homens.

     - Viram alguma coisa?

     - Nada de nada, meu Tenente. Tudo mais sossegado do que uma taberna sem bebida.

     Fora Harper quem respondera e erguia-se agora enorme e formidável das sombras da vala. Os dois homens olharam-se nos olhos e depois, o irlandês tirou desajeitadamente a barretina numa saudação formal.

     - Peço desculpas, meu Tenente.

     - Não tem importância.

     - O nosso Major falou comigo. Nós estávamos assustados, sabe, meu Tenente e...

     - Já disse que não tinha importância!

     Harper acenou com a cabeça. O seu nariz nunca mais seria direito e estava ainda inchado. O irlandês enorme sorriu.

     - Dê-me licença que lhe diga, meu Tenente, mas o meu Tenente tem um directo dos diabos.

     O comentário poderia ter sido considerado uma oferta de paz, mas a recordação que Sharpe tinha do combate na quinta ainda estava demasiado fresca e inflamada para que ele o aceitasse.

     - Libertei-o do seu castigo, soldado Harper, mas isso não lhe dá o raio do direito de dizer tudo o que lhe vem à cabeça. Por isso ponha a porcaria do chapéu e volte ao trabalho.

     Sharpe deu meia volta e afastou-se, pronto para se voltar de novo se fosse pronunciado um único som insolente, mas Harper teve o bom senso de manter a boca fechada. O vento era o único ruído, um suspiro que passava pelas árvores antes de erguer no céu da noite as faúlhas da enorme fogueira. Sharpe aproximou-se do fogo, para que o lume lhe aquecesse o uniforme frio e molhado. Pensou que tinha agido com demasiada aspereza, que teria sido melhor aceitar as palavras amigáveis como a oferta de paz que sem dúvida significavam, mas o seu orgulho tinha-o levado para a brutalidade.

     - Devia dormir um pouco, meu Tenente - era o sargento Williams, abrigado contra o vento, que aparecia à luz da fogueira. - Eu olho pelos rapazes.

     - Não consigo dormir.

     - Não - a palavra tinha um tom de concordância. - É de pensar nos miúdos mortos.

     - Sim.

     - Canalhas - disse Williams. Estendeu as mãos para o braseiro. - Havia um que devia ser da idade da minha Mary.

     - Quantos anos tem ela?

     - Cinco, meu Tenente. É muito bonitinha. Não sai ao pai. Sharpe sorriu.

     - A sua mulher veio para Espanha consigo?

     - Não, meu Tenente. Ajuda o pai na padaria. O meu sogro não ficou nada satisfeito quando a filha casou com um soldado, mas também nunca ficam.

     - Lá isso é verdade.

     O sargento espreguiçou-se.

     - Mas vou ter algumas histórias estranhas para contar, quando estiver de regresso a Spitalfields. - Ficou em silêncio durante um instante, talvez a pensar na família. - Realmente, tem graça.

     - O quê?

     - Que estes canalhas tenham percorrido todo este caminho para conseguir os víveres. Não foi isso que o nosso Major estava a dizer, meu Tenente?

     - Sim. - As forças francesas deveriam viver da terra, roubando aquilo que pudessem para se manterem vivas, mas Sharpe, tal como Williams, não acreditava que os cavaleiros inimigos tivessem subido até àquela aldeia remota quando havia, aqui nos vales, outras mais tentadoras.

     - Eram os mesmos homens que nos atacaram na estrada - disse, o que, de certo modo funcionara vantajosamente para Sharpe, pois os dragões franceses, incapazes de resistir utilizando espingardas capturadas, tinham provado ser ineptos com as armas a que não estavam habituados.

     O sargento Williams acenou afirmativamente.

     - Um fulano de casaca vermelha, não é verdade?

     - Sim, e um civil de negro.

     - Segundo creio, andam atrás da caixa que os espanhóis transportam

     - Williams baixou a voz como se um dos caçadores adormecidos o pudesse ouvir. - Parece uma daquelas caixas em que se transportam jóias, não é verdade? Nesse cofre poderia estar o resgate de um rei, meu Tenente.

     - O major Vivar diz que apenas contém papéis.

     - Papéis! - Exclamou o sargento, em tom de desprezo.

     - Pois bem, não creio que o possamos descobrir - disse Sharpe. - E não lhe recomendo que seja demasiado insistente, sargento. O major não aprecia muito a curiosidade.

     - Não, meu Tenente - Williams parecia desapontado com a falta de entusiasmo de Sharpe.

     Mas o tenente estava unicamente a encobrir o seu próprio interesse porque, após alguns momentos de conversa formal e depois de dar as boas noites ao sargento, dirigiu-se furtiva e lentamente para a igreja. Fazia-o como tinha aprendido na enxovia de Londres, onde vivera quando era pequeno, e onde se uma criança não roubava, morria de fome.

     Caminhou em redor da igreja e depois deixou-se ficar durante muito tempo, oculto pelas sombras, junto da porta. Pôs-se à escuta. Ouviu o estalar do fogo e o gemido do vento, mas nada mais. Mesmo assim, esperou, esforçando-se por ouvir um ruído que fosse de dentro do antigo edifício de pedra. Não ouviu nada. Sentira o cheiro das madeiras caídas e queimadas dentro do edifício, mas não sentia qualquer presença humana. Os espanhóis mais próximos encontravam-se a trinta passos de distância, adormecidos e enrolados nas suas capas.

     A porta da igreja estava entreaberta. Sharpe esgueirou-se por ela e, uma vez dentro da igreja, deteve-se mais uma vez.

     O luar iluminou o santuário. As paredes estavam enegrecidas do fogo, o altar tinha desaparecido, porém os homens de Vivar tinham começado a limpar a profanação afastando as traves queimadas do tecto para fazer um caminho que levasse aos degraus do altar. No cimo desses degraus, tão negro como as paredes, encontrava-se o cofre.

     Sharpe aguardou. Olhou em redor do pequeno interior do edifício em busca de movimento, mas não se apercebeu de nenhum. Uma pequena janela negra abria-se na parede sul da igreja, mas essa era a única abertura. Nada se via para além dela, excepto escuridão, o que poderia sugerir que a pequena janela se abria para um armário ou para uma prateleira mais funda.

     Sharpe avançou por entre as traves caídas, algumas delas ainda fumegantes. Pisou um bocado enegrecido de madeira queimada com a sola direita solta da sua bota, mas foi esse o único som que se ouviu.

     Parou antes dos dois degraus que levavam ao altar e aí se acocorou Enrolado sobre a tampa da arca estava um terço de azeviche, com o seu pequeno crucifixo brilhando ao luar. Dentro desta caixa, pensou Sharpe, está alguma coisa que atraiu os soldados franceses para as altas terras geladas. Vivar dizia que se tratava de papéis, mas nem o mais religioso dos homens guarda papéis com um crucifixo.

     A arca estava enrolada num oleado que fora cosido em seu redor. Durante o combate, duas balas tinham-se incrustado nela, rasgando o pano e Sharpe metendo o dedo nos buracos e passando pelas balas, sentiu a suavidade da madeira. Traçou as formas dos fechos e dos cadeados por baixo do oleado. Estes eram antiquados e apercebeu-se imediatamente que era capaz de os abrir em segundos, com um alfinete de limpar espingardas.

     Recuou e ficou a olhar para a arca. Tinham morrido quatro fuzileiros por causa dela e poderiam morrer ainda mais, de modo que, por isso, Sharpe pensava ter o direito de saber o que continha. Sabia que não seria capaz de disfarçar que a arca tinha sido aberta, mas não queria roubar o seu conteúdo, de modo que não sentia o mínimo escrúpulo em rasgar o oleado e abrir os cadeados.

     Meteu a mão no bolso da casaca e tirou dele o canivete que usava para cortar a comida. Abriu a lâmina e estendeu o braço para cortar o pano.

     - Toque-lhe, inglês, e morre,

     Sharpe voltou-se para a direita. O estalo do fecho da espingarda soou, vindo da pequena janela.

     - Meu Major?

     - Os doentes podiam ouvir missa através da janela, tenente - a voz de Vivar soava, vinda da escuridão. - É um belo lugar para uma sentinela.

     - O que guarda a sentinela?

     - Apenas papéis. - Vivar falava com voz fria. - Guarde a faca, tenente, e fique aí.

     Sharpe obedeceu. No instante seguinte, Vivar surgiu à porta da igreja.

     - Não volte a fazer isso, tenente. Matarei para proteger esta caixa. Sharpe sentiu-se um rapazinho apanhado por um vigilante, mas atreveu-se ao confronto.

     - Papéis?

     - Papéis - afirmou Vivar com ar lúgubre. Ergueu os olhos ao céu onde as nuvens prateadas corriam rápidas junto à lua. - Não é uma noite para mortes, inglês. Os estadea já estão inquietos - caminhou pela nave. - Penso que agora deveria tentar dormir. Temos muito que andar amanhã de manhã.

     Sharpe, envergonhado, passou por Vivar e dirigiu-se para a porta da igreja. Com uma mão na ombreira, voltou-se para olhar para a arca. Vivar, de costas para ele, estava já, de joelhos, diante da estranha caixa.

     Sharpe, embaraçado por ver um homem a rezar, fez uma pausa.

     - Sim, tenente - Vivar não se voltara.

     - Os seus prisioneiros disseram-lhe quem era o oficial de Caçadores? O homem de vermelho que os conduziu até aqui?

     - Não, tenente - o espanhol falava num tom paciente, como se, ao responder, estivesse a ceder ao capricho de uma criança. - Não pensei em perguntar-lhes.

     - Nem a identidade do homem de negro? Do civil? Vivar fez uma pequena pausa.

     - O lobo sabe o nome dos caçadores?

     - Quem é ele, meu Major?

     As contas do terço entrechocaram-se.

     - Boa-noite, tenente.

     Sharpe sabia que nunca conseguiria aquelas respostas, apenas mais mistérios que rivalizassem com a insubstancialidade dos estadea. Encostou a porta queimada e dirigiu-se para a sua cama gelada de terra nua, para escutar os gemidos do vento naquela noite assombrada. Um lobo uivou algures e um dos cavalos capturados relinchou baixinho. Um homem rezava na capela. Sharpe adormeceu.

    

     Os caçadores e os fuzileiros seguiram para oeste, mas, receando os dragões franceses, Vivar evitou os atalhos mais fáceis do caminho dos peregrinos, insistindo em que havia mais segurança nas terras altas. A estrada, se é que esse nome se lhe podia aplicar, serpenteava por entre as passagens das altas montanhas e atravessava ribeiros gélidos engrossados pelo degelo e pela insistente chuva torrencial. As veredas eram escorregadias como se as tivessem coberto de gordura. Os feridos e os que tinham apanhado febre devido ao frio eram transportados nos cavalos capturados aos franceses, mas esses preciosos animais tinham de ser conduzidos com infinitas cautelas, para sobreviverem nos caminhos mais traiçoeiros. Um deles transportava o cofre.

     Não havia notícias dos franceses. Durante os primeiros dois dias de marcha, Sharpe esperou ver as perigosas silhuetas dos dragões recortadas na linha do horizonte, mas o oficial de Caçadores e os seus homens pareciam haver desaparecido. As poucas pessoas que viviam nas aldeias da montanha garantiam a Vivar não os ter visto. Alguns nem sabiam que havia um inimigo estrangeiro em Espanha e, ao ouvir a língua estranha dos fuzileiros de Sharpe, olhavam estes desconhecidos com desconfiada hostilidade.

     - Como se o dialecto deles não fosse também estranho - comentou alegremente Vivar. Depois, utilizando o galego tão fluentemente como se fosse a mais elegante língua de Espanha, garantia aos camponeses que não deviam temer os homens que envergavam as esfarrapadas casacas-verdes.

     Passados os primeiros dias, e satisfeito por ter perdido o rasto aos franceses, Vivar desceu para o caminho dos peregrinos, que era afinal uma sucessão de veredas serpenteando pelos vales mais profundos. As estradas mais importantes tinham sido reforçadas com pederneira, para poderem ser utilizadas por carroças e carruagens e, embora o Inverno tivesse afogado em lama essa pederneira, os homens marchavam mais depressa e com maior facilidade numa superfície mais firme. Frondosos castanheiros e ulmeiros cresciam na berma da estrada que conduzia a uma região até ali livre da pilhagem dos exércitos. Os homens comiam bem. Havia milho, centeio, batatas, castanhas e carne salgada, guardada para o Inverno. Uma noite comeram até carne de carneiro fresca.

     Porém, apesar da comida e dos caminhos mais fáceis, a região era dura. Uma vez, a meio do dia, ao lado de uma ponte que atravessava um ribeiro profundo e escuro, Sharpe viu três cabeças humanas espetadas em paus. As cabeças estavam ali, havia seis meses, e os corvos tinham-lhe comido os olhos, as línguas e a carne mole, enquanto os bocados de pele deixados sobre os crânios acinzentados eram negros como o carvão.

     - Rateros - disse Vivar. - Salteadores de estradas. Consideram os pere-grinos presas fáceis.

     - Vão muitos peregrinos a Santiago de Compostela?

     - Não tantos como nos tempos antigos. Alguns leprosos ainda se dirigem para lá em busca de cura, mas até estes deixarão de o fazer por causa da guerra. - Vivar acenou com a cabeça na direcção das caveiras, com madeixas de cabelo. - Estes cavalheiros terão então de utilizar as suas habilidades assassinas contra os franceses. - A ideia alegrou-o, tal como a marcha fácil através do caminho dos peregrinos alegrava os fuzileiros de Sharpe. Por vezes cantavam. Voltaram a descobrir antigos confortos. Vivar comprou grandes bocados de tabaco que tinham de ser cortados em tiras antes de serem fumados, e alguns dos fuzileiros imitavam os soldados espanhóis e enrolavam o tabaco em papel, em vez de o fumarem em cachimbos de barro. As pequenas aldeias ofereciam-lhes sempre generosas quantidades de cidra forte e áspera. Vivar ficou espantado com a capacidade dos fuzileiros para aguentar a bebida e ainda mais espantado quando Sharpe o informou de que a maioria dos homens estava no exército apenas para conseguir a sua ração diária de um terço de quartilho de rum.

     Não havia rum para beber, mas, talvez devido à abundância de cidra, os homens estavam felizes; até aceitavam Sharpe com certa cautela. Os casacas-verdes tinham readmitido Harper nas suas fileiras com um contentamento impossível de ocultar e o tenente viu mais uma vez que o gigante era o verdadeiro líder daqueles homens. Gostavam do sargento Williams, mas, instintivamente, esperavam que Harper tomasse as decisões por ele; Sharpe notou, irritado, que era Harper, e não ele, que tinha conseguido juntar os sobreviventes de quatro companhias, separadas numa única unidade.

     - Harper é um homem decente, meu Tenente - o sargento Williams insistia no seu papel de pacificador entre os dois homens. - Agora confessa que foi errado aquilo que fez.

     Sharpe irritou-se com aquele cumprimento em segunda mão.

     - Pouco me importo com o que ele diz.

     - Diz que nunca na sua vida lhe bateram com tanta força.

     - Bem sei que ele diz isso. - Sharpe gostaria de saber se o Sargento falava assim com todos os oficiais e chegou à conclusão de que não o fazia.

     Partiu do princípio que Williams só era capaz de usar aquela intimidade por saber que ele tinha sido sargento. - Pode dizer ao soldado Harper - comentou Sharpe com deliberada aspereza - que se volta a sair da linha, vou bater-lhe com tanta força que então não se lembrará de nada!

     Williams soltou uma gargalhada.

     - Harper não sairá da linha, meu Tenente. O nosso major Vivar falou com ele. Só Deus sabe o que lhe disse, mas pregou-lhe um susto terrível - abanou a cabeça em sinal de admiração pelo espanhol. - O major é um homem duro, meu Tenente, e muito rico. Leva a maldita fortuna naquela arca!

     - Já lhe disse que são apenas papéis - disse Sharpe, em tom descuidado.

     - São jóias, meu Tenente - Williams sentia um prazer evidente em poder revelar um segredo. - Tal como eu calculava. Diamantes e coisas assim. Foi o que o nosso Major disse ao Harper, meu Tenente. O Harper diz que as jóias pertencem à família do nosso Major e se nós as fizermos chegar em segurança a esse tal Santo-átrio, então o nosso Major dar-nos-á uma peça de ouro.

     - Que disparate! - exclamou Sharpe irritado, sabendo que a sua fúria era provocada por um ciúme irracional. Porque haveria Vivar de dizer ao soldado Harper aquilo que não lhe tinha querido dizer a ele? Seria pelo facto de o outro ser irlandês e católico? Mas então porque seria que Vivar guardara com tanta reverência as jóias da família dentro de uma igreja? E umas simples jóias poderiam ter obrigado os dragões inimigos a cruzar as invernosas montanhas e a montar uma emboscada?

     - São jóias antigas - o sargento Williams não se apercebia das dúvidas de Sharpe. - Uma delas é um colar feito com os diamantes de uma coroa. A coroa de um rei mouro, meu Tenente! Era um rei antigo, meu Tenente, um pagão. - Era evidente que os casacas-verdes tinham ficado impressionados e receosos. Os fuzileiros podiam marchar à chuva, por maus caminhos, mas as suas dificuldades eram dignas, pois escoltavam jóias pagãs de um antigo reino.

     - Não acredito numa única palavra - comentou Sharpe.

     - O nosso Major disse que o meu Tenente não haveria de acreditar disse Williams, em tom respeitoso.

     - O Harper viu as jóias?

     - Isso traria azar, meu Tenente - Williams tinha a resposta pronta. - Se a arca fosse aberta, sem a autorização de toda a família, então os espíritos malignos apanhar-nos-iam! Compreende, meu Tenente?

     - Perfeitamente - respondeu Sharpe, mas a crença do sargento nas jóias estava para além das irónicas dúvidas de Sharpe.

     Nessa tarde, num campo inundado pela chuva, Sharpe viu duas gaivotas a voar para ocidente. O facto encheu-o de esperança, embora não lhe prometesse o final da viagem. Ainda seria difícil chegar ao mar; indicaria o fim do caminho para oeste e o início de outro para sul e, na sua ansiedade, imaginou até sentir o cheiro do sal no ar chuvoso.

     Nessa noite, uma hora antes do crepúsculo, chegaram a uma pequena cidade construída em redor de uma ponte que atravessava um rio profundo e rápido. Era dominada pelo vulto de uma fortaleza, mas o bastião tinha sido abandonado havia muito tempo. O alcaide, o presidente da câmara, garantiu ao major Vivar que não havia franceses cinco léguas em redor, o que o convenceu a descansar ali.

     - Partiremos cedo - disse a Sharpe. - Se o tempo se aguentar, amanhã, por esta hora, estaremos em Santiago de Compostela.

     - Onde eu voltarei para sul.

     - Onde voltará para sul.

     O alcaide ofereceu a sua própria casa a Vivar e os estábulos aos caçadores, enquanto os fuzileiros foram aboletados no mosteiro cistercense, cujos monges, tendo feito juramento de oferecer hospitalidade aos peregrinos, agiam de forma igualmente generosa para com os soldados ingleses. Havia carne de porco, acabado de matar com feijões, pão e cantis de vinho tinto. Havia até garrafas negras de uma bebida áspera e forte chamada aguardiente, oferecidas por um monge musculoso, cujas cicatrizes e tatuagens lhe davam o aspecto de antigo soldado. O monge trouxe-lhes também um saco com pão e indicou-lhes por gestos que seria para levarem durante a marcha, A generosidade dos monges convenceu Sharpe de que, após os gélidos horrores das últimas semanas, ele e os seus fuzileiros estavam finalmente em segurança. O perigo do inimigo parecia finalmente distante e, aliviado da responsabilidade de estabelecer piquetes contra os sobressaltos nocturnos, adormeceu.

     Mas foi acordado nas profundezas da noite.

     Um monge, de vestes brancas, segurando uma lanterna, procurava-o entre as formas escuras dos fuzileiros adormecidos na arcada do claustro. Sharpe resmungou e ergueu-se sobre um cotovelo. Ouvia barulho lá fora, na rua; o troar de rodas e o estalar de cascos.

     - Senhor! Senhor! - o monge dirigia-se ansiosamente a Sharpe que, prague-jando por lhe terem interrompido o sono, pegou nas botas e nas armas e seguiu o monge pelo átrio do mosteiro, gelado e iluminado por velas.

     Aí, com um lenço a tapar a boca, como se temesse o contágio, encontrava-se uma mulher de proporções assustadoras. Tinha a mesma altura de Sharpe, a mesma largura de ombros de Harper e a cintura do tamanho de um tonel de vinho. Vestia uma multiplicidade de capas que tornavam ainda maior o seu tamanho, enquanto o rosto, de olhos pequenos e lábios finos, estava coroado por uma pequena touca de ridícula delicadeza. Fingiu não ouvir os importunos monges que clamavam na sua direcção em tom suplicante. As enormes portas do mosteiro estavam abertas nas suas costas e à luz dos archotes colocados na rua, Sharpe viu uma carruagem. Quando ele chegou, a mulher meteu o lenço na manga.

     - O senhor é um oficial inglês?

     Sharpe estava tão espantado que não respondeu. Não era a pergunta que o surpreendia, nem sequer a voz estrondosa que a fizera, mas o facto de a enorme mulher ser, sem sombra de dúvidas, inglesa.

     - Então? - insistiu.

     - Sim, minha senhora.

     - Não posso dizer que me sinta satisfeita por encontrar um oficial que tenha jurado fidelidade a um rei protestante num local como este. Calce as botas. Despache-se, homem! - A mulher ignorou os monges que tentavam atrair a sua atenção, tal como uma vaca leiteira teria ignorado o balir das ovelhas. - Diga-me o seu nome - ordenou a Sharpe.

     Sharpe, minha senhora. Tenente Richard Sharpe, dos Fuzileiros. Descubra-me o oficial inglês de patente mais elevada. E abotoe a casaca.

     - Eu sou o oficial de patente mais elevada, minha senhora. A mulher olhou para ele com malévola desconfiança.

     - O senhor?

     - Sim, minha senhora.

     - Então, terá de bastar. Tire as suas mãos nojentas de cima de mim! - Estas últimas palavras eram dirigidas ao abade que, com extrema delicadeza, tentara atrair a atenção da mulher, colocando a mão trémula na orla de uma das suas volumosas capas. - Arranje-me alguns homens! - ordenou a Sharpe.

     - Quem é a senhora?

     - Sou a senhora Parker. já ouviu falar no almirante Sir Hyde Parker?

     - Claro que sim, minha senhora.

     - Era parente do meu marido, antes de Deus ter decidido trasladá-lo para a sua imensa glória. - Depois de se ter afirmado de patente superior a Sharpe, pelo menos pelo casamento, a senhora Parker regressou ao seu tom mais vituperante. - Despache-se, homem!

     Sharpe, calçando as botas rasgadas, tentou perceber o que faria, pela calada da noite, uma mulher inglesa num mosteiro espanhol.

     - A senhora deseja que lhe traga alguns homens?

     A senhora Parker olhou-o como se tivesse vontade de lhe torcer o pescoço.

     - Está surdo, homem? Bebeu? Ou é simplesmente idiota? Tire as suas mãos papistas de cima de mim! - Esta última admoestação foi, de novo, dirigida ao abade cistercense que, como se tivesse sido picado, deu um salto para trás. - Fico à espera na carruagem, tenente. Despache-se! - A senhora Parker, para evidente alívio dos monges, voltou para o seu veículo.

     Sharpe afivelou a espada, pôs a espingarda ao ombro e, sem se incomodar em levar mais homens, saiu para a rua que estava cheia de carroças, coches e cavaleiros. Havia na multidão uma sensação de pânico, criada pelas pessoas que sabiam dever partir para um local seguro, mas ignoravam para onde. Sharpe, pressentindo uma desgraça, dirigiu-se à carruagem da senhora Parker. No seu interior de veludo, iluminado por uma lanterna protegida viu um homem alto e extremamente magro que tentava ajudar a mulher a sentar-se no seu lugar.

     - Então é aí que está! - conseguindo por fim enfiar o seu enorme corpo no banco de couro, a senhora Parker franziu a testa na direcção de Sharpe.

     - Trouxe os homens?

     - Para que os quer, minha senhora?

     - Para que os quero? Ouviu, George? Um dos oficiais de Sua Majestade encontra uma mulher indefesa, perdida num país papista e ameaçada pelos franceses e ainda faz perguntas! - A senhora Parker inclinou-se e encheu a entrada da carruagem. - Vá buscá-los!

     - Porquê? - berrou Sharpe num tom que assustou a senhora Parker, pois, sem dúvida, não estava habituada a ser contrariada.

     - Para os Testamentos - foi o homem que respondeu. Espreitou por trás da senhora Parker e lançou a Sharpe um tímido sorriso. - Chamo-me Parker, George Parker. Tenho a honra de ser primo do falecido almirante Sir Hyde Parker - pronunciou estas últimas palavras num tom triste, revelando que toda a glória que o senhor Parker pudesse ter obtido nesta terra era unicamente devida à magnificência do seu primo. - Eu e a minha mulher precisamos da sua ajuda.

     - Temos traduções espanholas, do Novo Testamento escondidas na cidade, tenente - interrompeu a senhora Parker. - Os espanhóis confiscam essas Escrituras, a menos que as escondamos. Precisamos que os seus homens as vão buscar. - A explicação fora feita em tom conciliatório e o marido recompensou-a com um aceno de cabeça.

     - Querem que os meus fuzileiros vão buscar os Testamentos para os esconder dos espanhóis? - perguntou Sharpe na maior confusão.

     - Dos franceses, idiota! - gritou a senhora Parker do fundo da carruagem.

     - Os franceses estão aqui?

     - Entraram ontem em Santiago de Compostela - disse tristemente o senhor Parker.

     - Com mil raios!

     A invocação teve o feliz efeito de silenciar a senhora Parker. O marido, ao aperceber-se do choque de Sharpe, inclinou-se para diante.

     - Não ouviu falar do que se passou na Corunha? Sharpe pensou que seria melhor não o ouvir.

     - Não sei de nada, senhor Parker.

     - Travou-se uma batalha, tenente. Parece que o exército inglês conseguiu fugir para o mar, mas a custo de muitas vidas. Diz-se que Sir john Moore morreu. Parece que os franceses dominam agora esta parte de Espanha.

     - Valha-me Deus!

     - Falaram-nos da vossa presença, quando aqui chegámos - explicou George Parker. - Agora pedimos a vossa protecção.

     - Claro! - Sharpe olhou rua acima, compreendendo o pânico. Os franceses tinham tomado os portos atlânticos do Noroeste de Espanha. Os ingleses tinham fugido, os exércitos espanhóis haviam sido desbaratados e, em breve, as tropas de Napoleão voltar-se-iam para sul, para completar a vitória. - A que distância daqui fica a Corunha?

     - Onze léguas? Doze? - O rosto de George Parker, pálido à luz das velas parecia cansado e preocupado. E não admirava, pensou Sharpe. Os franceses encontravam-se a pouco mais de um dia de marcha.

     - Importa-se de se despachar? - A senhora Parker, recuperada do choque da blasfémia de Sharpe, inclinava-se para diante com ar vingativo.

     - Um momento, minha senhora - Sharpe correu para o mosteiro. - Sargento Williams! Sargento Williams!

     Os fuzileiros levaram dez minutos para se levantar e arrastar ensonados até lá fora onde, à luz dos archotes, Sharpe os metia nas fileiras. O hálito dos homens fumegava à luz do lume, quando sentiu as picadas das primeiras gotas de chuva. Generosamente, os monges entregavam pequenos sacos de pão aos soldados, estupefactos pelo caos e gritaria que se estabelecera na pequena rua.

     - Despache-se, tenente! - era a senhora Parker que fazia gemer as molas da carruagem quando se inclinou para diante. Foi então que o soldado Harper soltou um estridente assobio, os outros homens soltaram uma ovação e Sharpe deu meia volta para fazer uma descoberta pouco agradável.

     Havia uma terceira pessoa na carruagem; uma pessoa que, até àquele momento, estivera escondida pelo enorme corpo da senhora Parker. Possivel-mente seria uma criada, talvez uma dama de companhia ou então uma filha, mas se assim era, a menina não se parecia com a mãe. Nem por sombras. Sharpe viu um rosto de olhos brilhantes, caracóis negros e sorriso malicioso, o que entre os soldados apenas era sinónimo de problemas.

     - Oh, merda! - resmungou.

     Sharpe mandara os homens levantar e formar, sem saber agora o que fazer com eles e, enquanto esperava que Blas Vivar aparecesse, vindo de casa do alcaide, para onde um conselho dos grandes da cidade fora apressadamente convocado, deixou que os seus homens fossem resgatar os Novos Testamentos em espanhol do estábulo do livreiro que tinha escondido os livros de George Parker.

     - A Igreja de Roma não concorda, compreende? - George Parker, longe da mulher, mostrava ser uma personagem delicada e algo triste. - Desejam manter o seu povo na escuridão da ignorância. O arcebispo de Sevilha confiscou um milhar de Testamentos e queimou-os. Pode dar-se crédito a tal comportamento? Foi por isso que viemos para o Norte. Julguei que Salamanca fosse um terreno mais fértil para as nossas tentativas mas o arcebispo daqui ameaçou-nos da mesma forma. Fomos então para Santiago e, no caminho, escondemos os nossos livros em casa deste bom homem. - Parker apontou para a casa do livreiro. - Acho que vende uns quantos por sua conta, mas não o posso censurar por isso. De facto, não. E se ele espalha o Evangelho que não foi adulterado pelos padres de Roma, tenente, só pode ser para a glória de Deus, não concorda?

     Sharpe estava demasiado confuso pelos estranhos acontecimentos dessa noite para poder ou não concordar. Ficou a olhar para outra pilha de livros de capa negra que estava a ser transportada para a rua e a ser metida na caixa das bagagens da carruagem.

     - Está em Espanha para distribuir bíblias?

     - Só depois do tratado de paz entre os nossos dois países ter sido assinado - respondeu Parker, como se aquilo explicasse tudo, mas depois, ao ver que a confusão se mantinha no rosto de Sharpe, ofereceu-lhe mais informações. - Compreenda que eu e a minha querida mulher somos seguidores do falecido John Wesley,

     - O metodista?

     - Exacta e precisamente - afirmou Parker, abanando veementemente a cabeça. - E quando o meu falecido primo, o almirante, teve a amabilidade de se lembrar de mim no seu testamento, a minha querida mulher sugeriu que o dinheiro fosse apropriadamente utilizado na iluminação das trevas papistas que envolvem o Sul da Europa. Tomámos o tratado de paz entre Inglaterra e Espanha como uma providência de Deus, que guiou os nossos passos até aqui.

     - E tiveram muito êxito? - Sharpe não conseguiu resistir a perguntar, embora a resposta fosse evidente no rosto lúgubre de Parker.

     - Ai de mim, tenente, o povo de Espanha mostra-se obstinado em manter a sua heresia romana. Mas basta-me conseguir que uma alma tome conhecimento da salvação divina e da graça protestante, para que eu me sinta amplamente recompensado. - Parker fez uma pausa. - E o senhor, tenente? Posso perguntar-lhe se conhece o Senhor nosso Salvador.

     - Sou um fuzileiro, senhor Parker - respondeu Sharpe com firmeza, ansioso por evitar um ataque protestante à sua alma já sitiada pelos católicos.

     - A nossa religião mata os franciús e outros pagãos que não gostam do bom rei Jorge.

     O tom beligerante da resposta de Sharpe silenciou Parker durante algum tempo. Aquele homem de meia-idade olhava com ar lúgubre para os refugiados que se encontravam na rua e depois suspirou.

     - O senhor é soldado, claro. Mas talvez me perdoe, tenente.

     - Perdoar-lhe, senhor?

     - O meu primo, o falecido almirante era muito dado a uma linguagem forte. Não desejo ofendê-lo, tenente, mas a minha querida mulher e a minha sobrinha não estão habituadas à maneira de falar da tropa e... - a voz desvaneceu-se-lhe.

     - Peço desculpa, senhor Parker. Vou tentar lembrar-me. - Sharpe apontou para a casa do livreiro, onde a senhora Parker e a jovem se tinham temporaria-mente abrigado. - A menina é sua sobrinha, senhor Parker? Não será demasiado jovem para viajar por um local tão violento?

     Se Parker suspeitou que Sharpe procurava informações, não mostrou qualquer ressentimento.

     - Louisa tem dezanove anos, tenente, mas infelizmente ficou órfã. A minha querida mulher ofereceu-lhe a ocupação de dama de companhia. Claro que não tínhamos ideia de que a guerra decorreria de um modo tão, pouco vantajoso. Julgámos que, com um exército inglês em Espanha, seríamos bem recebidos e estaríamos sob protecção.

     - Talvez que, nestes últimos tempos, Deus seja francês - comentou Sharpe em tom alegre.

     Parker ignorou a leviandade. Preferiu observar a corrente de refugiados que atravessava a noite com as suas trouxas de roupa. As crianças choravam, uma mulher puxava duas cabras por uma corda. Um coxo passou, a balançar-se sobre as muletas. Parker abanou a cabeça.

     - Aqui têm muito medo dos franceses.

     - Perdão, senhor Parker, mas são uns canalhas. - Sharpe corou. - Estava em Santiago de Compostela quando lá chegaram?

     - A cavalaria chegou à parte norte da cidade ontem à noite, o que nos deu tempo de fugir. Penso que o Senhor foi muito providencial.

     - É verdade.

     O sargento Williams, com um sorriso de orelha a orelha, fez continência diante de Sharpe.

     - Já carregámos todos os livros, meu Tenente. Deseja que vá buscar as senhoras?

     Sharpe olhou para Parker.

     - Vai seguir viagem esta noite?

     Parker ficou confundido com a pergunta.

     - Faremos o que o senhor achar melhor, tenente.

     - O senhor é que sabe.

     - Eu?

     Era óbvio que George Parker era tão indeciso como o seu primo, Sir, Hyde, cuja actuação quase causara a derrota na Batalha de Copenhaga. Sharpe tentou explicar-lhe as opções que a família tinha.

     - Esta estrada, senhor Parker, vai ou para oeste ou para leste e há franceses em ambas as direcções. Suponho que agora que os seus livros estão, a salvo, o senhor vai ter de escolher uma delas. Dizem que os franceses, são muito bondosos para com os inocentes viajantes ingleses. Sem dúvida’ que sereis interrogados e que haverá alguns incómodos, mas, provavelmente, dar-vos-ão autorização de viajar para sul. Posso sugerir Lisboa, senhor Parker? Ouvi dizer que ainda aí havia uma pequena guarnição inglesa, mas mesmo que esta já tenha partido, devem conseguir encontrar algum navio mercante.

     Parker fitou Sharpe com ar preocupado.

     - E o senhor, tenente? Quais são as suas intenções?

     - Infelizmente não posso depender da clemência francesa. Esperávamos tomar a estrada de Santiago de Compostela, mas como os cana..., como os franceses estão aqui, senhor, vamos cortar caminho pelos montes - Sharpe bateu numa das rodas lamacentas da enorme carruagem. - Não há qualquer possibilidade de esta coisa seguir connosco, por isso receio que tereis de pedir autorização aos franceses para atravessar o seu território.

     Parker abanou a cabeça durante alguns segundos.

     - Garanto-lhe, tenente, que eu e a minha mulher não temos qualquer intenção de nos humilharmos diante do inimigo, desde que haja para nós uma possibilidade de fuga. Viajaremos convosco para sul. E posso garantir-lhe que há uma estrada muito boa para sul a partir desta cidade. Ali! apontou para a ponte. - Do outro lado do rio.

     O assombro de Sharpe emudeceu-o por instantes.

     - Aqui há uma estrada para sul?

     - Pode ter a certeza absoluta. De contrário dificilmente me atreveria a vir até aqui com os meus Testamentos.

     - Mas disseram-me... - de repente, Sharpe apercebeu-se de que não valeria a pena comentar que o major Vivar afirmara não existir tal estrada. Tem a certeza, senhor Parker?

     - Viajei por ela há um mês. - Parker percebeu a hesitação de Sharpe. Tenho um mapa, tenente. Quer vê-lo?

     Sharpe seguiu Parker até casa do livreiro.

     A senhora Parker, comodamente sentada junto à lareira, lançou ao casaca-verde um olhar desconfiado.

     - Todos os Testamentos se encontram a salvo, minha amiga - disse Parker timidamente. - É queria saber se podemos espreitar o mapa?

     - Louisa? - pediu a senhora Parker à sobrinha. - O mapa. Obediente, a jovem dirigiu-se à maleta de cabedal e procurou entre os papéis. Sharpe desviou deliberadamente o olhar dela. Pelo que já vira, Louisa Parker era espantosamente bela. Tinha um porte alto e gracioso, um rosto inteligente e inquiridor e uma pele clara sem qualquer marca de imperfeição ou doença. Uma jovem capaz de perturbar os sonhos de um soldado, pensou Sharpe, mesmo sendo uma maldita metodista.

     Louisa trouxe o mapa para a mesa. George Parker tentou apresentá-la.

     - Louisa, minha querida, a menina ainda não foi apresentada ao tenente...

     - Louisa! - interrompeu a senhora Parker, certamente consciente dos peri-gos que os soldados representavam para as jovens meninas. - Venha sentar-se aqui!

     Sharpe abriu o mapa no silêncio que se seguiu.

     - Não é um mapa muito correcto - disse Parker humildemente, como se ele próprio fosse o responsável por aquelas imprecisões. - Mas posso garantir-lhe que a estrada existe - traçou uma fina linha negra, mas esta pouco significava para Sharpe que ainda tentava entender a folha mal impressa para saber onde se encontrava. - A estrada encontra-se aqui com o caminho da costa, bem a sul de Villagarcia - continuou Parker. - Pensei que pudéssemos arranjar um barco aqui, em Pontevedra. Julgo que a Marinha Real patrulha esta costa e, se Deus quiser, talvez um pescador simpático se deixe convencer a levar-nos num dos seus barcos.

     Sharpe não o estava realmente a ouvir. Olhava para o mapa, tentando descobrir a estrada tortuosa que seguira com Vivar. Não conseguia identificar o caminho exacto da jornada, mas uma coisa era-lhe muito clara: nos últimos dias, ele e os seus fuzileiros tinham passado pelo menos por duas estradas que seguiam para sul. Vivar dissera repetidamente a Sharpe que não existia qualquer caminho nessa direcção e que os fuzileiros teriam de seguir até Santiago de Compostela, antes de virarem para Lisboa. O espanhol mentira-lhe.

     George Parker tomou por pessimismo a expressão lúgubre de Sharpe.

     - Asseguro-lhe que a estrada existe.

     Sharpe teve de repente consciência do olhar da jovem sobre ele e todos os seus instintos protectores de soldado se puseram em acção.

     - Disse-me que haveis viajado por essa estrada há um mês atrás, senhor Parker?

     - Exactamente.

     - E uma carruagem consegue passar lá durante o Inverno?

     - Claro que sim.

     - Tenciona pôr-se a andar esta noite? - A senhora Parker ergueu-se ameaçadora. - Ou os soldados ingleses já não se preocupam com o destino das senhoras britânicas?

     Sharpe dobrou o mapa e, sem pedir autorização, enfiou-o no bolso.

     - Podemos partir muito em breve, minha senhora, mas primeiro tenho de tratar de um assunto na cidade.

     - Um assunto! - A senhora Parker lançava fagulhas da sua terrível raiva. - Que assunto pode ter um tenente, senhor Sharpe, que tenha precedência sobre a nossa segurança?

     Sharpe abriu a porta de rompante.

     - Devo demorar, no máximo, um quarto de hora. Faça-me a fineza, minha senhora, de estar pronta daqui a dez minutos. Tenho dois homens feridos que necessitam viajar no interior da sua carruagem. - Viu que ela se preparava para fazer novo protesto. - E as bagagens dos meus homens seguirão no tejadilho. De contrário, minha senhora, pode encontrar sem mim o caminho para sul - esboçou uma leve vénia. - Um seu criado, minha senhora.

     Sharpe voltou as costas à senhora Parker antes que esta pudesse argumentar com ele e quase jurou ter ouvido uma gargalhada divertida da boca da jovem. Maldição! Maldição! Maldição! já tinha o suficiente com que se preocupar sem aquele perene problema de soldado. Partiu em busca de Vivar.

     - Boas notícias! - Vivar cumprimentou Sharpe no momento em que este apareceu em casa do alcaide. - Os meus reforços encontram-se a meio dia de marcha daqui! O tenente Davila encontrou cavalos e tropas frescas! já lhe falei de Davila?

     - Também não me falou da estrada, pois não?

     - Que estrada?

     - Disse-me que tínhamos de seguir para oeste, antes de podermos voltar para sul! - Sharpe não tencionara falar com tanta raiva, mas não conseguia esconder a sua irritação. Ele e os seus homens tinham atravessado uma região gélida, subido a montes húmidos, atravessado, a muito custo, ribeiros gelados e tudo para nada. Havia muito que podiam ter virado a sul. Naquele momento poderiam ter já atravessado a fronteira portuguesa. Afinal estavam a algumas horas de marcha do inimigo.

     - A estrada - bateu na mesa com o mapa de George Parker. - Há uma estrada, Vivar! Uma maldita estrada! E obrigou-nos a deixar para trás dois malditos caminhos! E os malditos franceses estão a um dia de marcha daqui. Mentiu-me!

     - Menti-lhe? - A raiva de Blas Vivar ficou tão incendiada como a de Sharpe. - Salvei as vossas miseráveis vidas! Pensa que os seus homens teriam durado uma semana em Espanha sem mim? Se não lutais entre vós, estais completamente embriagados! Fiz uma matilha de bêbados inúteis atravessar Espanha e não recebo qualquer agradecimento. Cuspo no seu mapa! Vivar pegou no precioso mapa e, em vez de lhe cuspir em cima, rasgou-o em pedaços e deitou-o no lume.

     O alcaide, juntamente com o padre e meia-dúzia de outros homens idosos e sérios, assistia ao confronto no meio de um silêncio perturbado.

     - Maldito! - Sharpe agarrara no mapa demasiado tarde.

     - Maldito? Eu? - gritou Vivar. - Eu combato por Espanha, tenente. Não fujo como um rapazinho assustado. Mas é o que os ingleses costumam fazer, não é verdade? Um obstáculo e correm para as saias da mãe. Muito bem! Fuja! Mas não vai encontrar uma guarnição em Lisboa, tenente! Também eles fugiram!

     Sharpe ignorou os insultos para fazer a pergunta que lhe causava tanta indignação.

     - Porque nos trouxe a todos para aqui, seu canalha? Vivar inclinou-se sobre a mesa.

     - Porque por uma vez na sua abençoada vida, tenente, pensei que um inglês pudesse fazer algo por Espanha. Algo por Deus. Algo útil! Sois uma nação de piratas, de bárbaros, de pagãos! Só Deus sabe porque pôs os ingleses neste mundo, mas pensei que, por uma vez, pudésseis fazer algo em prol da Sua criação!

     - Proteger o seu precioso cofre? - Sharpe apontou para a misteriosa arca que estava encostada à parede. - Teria perdido essa maldita coisa sem nós, não é verdade? E porquê, senhor Major? Porque os seus preciosos exércitos espanhóis são completamente inúteis, nada mais!

     - E o seu exército está desbaratado, derrotado e fugiu. É menos do que inútil. Agora ponha-se a andar! Fuja!

     - Só espero que os franceses lhe apanhem a maldita arca. - Sharpe voltou-se e ouviu o raspar de uma espada a ser desembainhada. Recuou, sacando também a sua da bainha remendada, enquanto Vivar, já de lâmina em riste, brilhando à luz das velas, se aproximou dele.

     - Basta! - O prior lançou-se entre os dois homens em fúria. Suplicou a Vivar que olhava Sharpe com desprezo. Sem compreender nada da conversa, o fuzileiro manteve a posição da espada.

     Vivar relutantemente convencido pelo padre, deixou cair a sua.

     - Não vai durar um dia sem mim, tenente, mas saia!

     Sharpe cuspiu no chão para mostrar o seu próprio desprezo e depois, com a espada ainda erguida, voltou a entrar na noite. Os franceses tinham conquistado o Norte e ele tinha de fugir.

    

     Os avanços do primeiro dia da viagem para Sul foram melhores do que Sharpe se atrevera a esperar. A carruagem dos Parker era desajeitada mas tinha rodas de aros largos, próprias para aguentarem as estradas esburacadas e lamacentas e um paciente cocheiro espanhol que dominava habilmente o grupo de seis cavalos de tiro. Nesse primeiro dia foi apenas necessário os fuzileiros empurrarem a carruagem duas vezes, para a fazerem sair de dificuldades; a primeira vez numa ladeira íngreme e, a segunda vez, quando uma roda caiu para um pântano ao lado da estrada. Sharpe não viu Louisa Parker, pois a tia da jovem assegurava-se de que ela ficasse bem protegida correndo as pesadas cortinas de cabedal castanho.

     As dimensões e o custo da carruagem impressionaram Sharpe. A missão de iluminar os pagãos espanhóis a que os Parker se tinham autoproposto não mostrava dificuldades e George Parker, que preferia caminhar com Sharpe à companhia da sua mulher, explicou-lhe que fora a herança do almirante que tornara possíveis tais confortos.

     - O almirante era um homem religioso? - perguntou Sharpe.

     - Valha-me Deus, não! Longe disso. Mas era muito rico, tenente. Todavia também não vejo razão - Parker estava evidentemente incomodado pelas perguntas de Sharpe acerca do custo da carruagem - para que a obra do Senhor seja restringida pela precariedade de fundos, não acha?

     - Concordo plenamente - disse Sharpe com satisfação. - Mas porque veio para Espanha, senhor Parker? Sempre pensei que houvesse pagãos suficientes em Inglaterra sem ser preciso vir incomodar os espanhóis.

     - Porque os espanhóis trabalham nas trevas de Roma, tenente. Tem ideia do que isso significa? O horror que não é? Posso contar-lhe histórias do comportamento dos padres que o fariam estremecer! Sabe que superstições albergam estas pessoas?

     - Faço ideia, senhor Parker - Sharpe voltou-se para verificar os progressos da carruagem. Os dois feridos viajavam no tejadilho, banidos para aí, a insistências da senhora Parker. - Mas permita-me que lhe diga que os Dons não parecem preparados para o Metodismo.

     É um caminho pedregoso - concordou Parker em tom lúgubre. Sabe, conheci um oficial na índia que converteu os pagãos ao cristianismo - disse Sharpe em tom animado. - Teve muito êxito.

     - Verdade? - O senhor Parker parecia satisfeito por ter esta prova da graça de Deus. - Era um homem santo?

     - Completamente louco, senhor Parker. Pertencia ao Exército Irlandês e nenhum desses soldados regula muito bem.

     - Mas disse-me que teve êxito.

     - Ameaçou-os de que lhes fazia explodir as cabeças com um MOSquete se não quisessem baptizar-se. A fila dava duas voltas ao armeiro e chegava atrás da casa da guarda.

     O senhor Parker ficou em silêncio, mergulhado numa tristeza apenas igualada pelo humor rebelde dos fuzileiros. A própria alegria de Sharpe era forçada, pois tinha de admitir de má vontade que os fracos progressos que até aí fizera para ganhar a confiança dos homens tinham ficado sem efeito quando tomara a decisão de partir sozinho para sul. Dissera para consigo que o aborrecimento dos homens tinha a ver com a falta de sono, enquanto na verdade sabia que era por terem sido forçados a deixar o major. Confiavam em Vivar, enquanto a autoridade de Sharpe estava ainda a ser posta à prova e o facto de ter consciência disso pressionava a sua frágil dignidade.

     A confirmação do desagrado dos fuzileiros veio da parte do sargento Williams, que se aproximou de Sharpe, enquanto a pequena coluna marchava por entre enormes pomares de macieiras.

     - Os rapazes queriam ter ficado com o major, meu Tenente.

     - Meu Deus, porquê?

     - Por causa das jóias, meu Tenente! Ia dar-nos o ouro quando chegássemos ao Santo-átrio.

     - Sargento, não seja idiota. Nunca pensou em dar-vos ouro. Pode haver jóias naquela maldita caixa, mas a única razão por que queria a nossa presença era para que o protegêssemos. - Sharpe tinha a certeza de que assim era. O encontro de Vivar com os fuzileiros quase duplicara a pequena força do major e o dever de Sharpe não era para com um maldito cofre, mas sim para com o Exército Britânico. - De qualquer forma nunca teríamos chegado a Santiago. Está cheio de franciús.

     - Sim, meu Tenente - disse Williams em tom obediente, mas pesaroso. Nessa noite pararam numa pequena cidade onde o domínio que George Parker tinha da língua espanhola lhes garantiu lugar numa estalagem. Os Parkers alugaram o grande quarto da taberna para eles, enquanto os fuzileiros puderam utilizar o estábulo.

     Os restos do pão oferecido pelos monges era o único alimento dos homens e Sharpe sabia que precisavam de mais. O estalajadeiro tinha carne e vinho, mas nada lhes serviria se Sharpe não pagasse. Este não tinha dinheiro, portanto abordou George Parker que confessou, com alguma tristeza, ser a sua esposa a controlar a bolsa da família.

     A senhora Parker, que se despojava de capas e lenços, pareceu inchar de indignação em face do pedido.

     - Dinheiro, senhor Sharpe?

     - Os homens precisam comer carne, minha senhora.

     - Teremos de fazer uma subvenção ao exército?

     - Tudo vos será retribuído, minha senhora. - Sharpe sentiu sobre si o olhar de Louisa, mas, no interesse do apetite dos seus homens, resistiu a retribuir o olhar da sobrinha, com receio de ofender a tia.

     A senhora Parker sacudiu a sua bolsa de couro. É dinheiro de Cristo, tenente.

     Trata-se apenas de um empréstimo, minha senhora. E os meus homens não vos poderão proteger, se estiverem com fome.

     Aquele argumento, apresentado com tanta humildade, pareceu convencer a senhora Parker. Exigiu a presença do estalajadeiro com o qual negociou a compra de uma panela de ossos de cabra que, segundo disse a Sharpe, poderiam dar um caldo muito nutritivo.

     Depois de feito o negócio, Sharpe hesitou antes de passar o recibo que a senhora Parker lhe exigia.

     - E alguma coisa para o vinho, minha senhora?

     George Parker ergueu os olhos ao céu, Louisa ocupou-se dos pavios das velas e a senhora Parker voltou-se horrorizada para Sharpe.

     - Vinho?

     - Sim, minha senhora.

     - Os seus homens tomam bebidas fortes?

     - Têm direito a beber vinho, minha senhora.

     - Direito? - a inflexão ardorosa pressagiava problemas.

     - São os regulamentos do exército inglês, minha senhora. Um terço de quartilho de uma bebida espirituosa por dia, minha senhora, ou um quartilho de vinho.

     - Cada um?

     - Claro, minha senhora.

     - Não enquanto escoltarem o povo cristão à salvação, tenente Sharpe a senhora Parker meteu a bolsa numa algibeira da sua saia. - O dinheiro do nosso Senhor e Salvador, tenente, não será desperdiçado em álcool. Os seus homens podem beber água. O meu marido e eu não bebemos senão agua.

     - Ou cerveja fraca - apressou-se George a corrigi-la.

     A senhora Parker fingiu não o ouvir.

     - O recibo, tenente, se faz favor.

     Obediente, Sharpe assinou o bocado de papel e seguiu o estalajadeiro até à sala onde, por falta de outro tipo de moeda, arrancou quatro botões de prata cosidos nas costuras exteriores das calças do uniforme. Os botões compraram as borrachas de vinho suficientes para servir uma caneca a cada homem. Esta questão, tal como as cartilagens de cabra, foi recebida com um silêncio mal-humorado, apenas quebrado por resmungos irritados quando Sharpe anunciou a partida para as quatro da manhã. Ofendido por esta nova prova do comportamento pouco cooperante da parte dos fuzileiros, gritou que os homens que quisessem ficar como prisioneiros dos franceses podiam partir naquele momento. Apontou para a porta do estábulo, por trás da qual a geada já começara a cobrir o pátio.

     Ninguém falou ou se moveu. Sharpe via os olhos de Harper cintilarem ao fundo do estábulo e reparou de novo como os homens se agrupavam em redor do irlandês enorme. Mas não valia a pena olhar para ele para lhe pedir auxílio pois Harper, mais do que qualquer outro homem, parecia ofendido por ter abandonado Vivar. Sharpe não conseguia imaginar o que esperavam eles ter ganho se ficassem ao lado do major.

     - Quatro horas! E estaremos em marcha às cinco!

     A senhora Parker não ficou mais satisfeita do que os fuzileiros com aquela novidade.

     - Levantar-me às quatro? Pensa que um corpo pode sobreviver sem sono, tenente?

     - Penso, minha senhora, que será melhor viajarmos antes que os franceses nos apanhem. - Sharpe hesitou em fazer outro pedido àquela mulher tão pouco prestável, mas sabia que não podia confiar em si mesmo para calcular as horas nas trevas da noite.

     - Minha senhora, por acaso não terá um relógio de qualquer espécie?

     - Para calcular as horas, tenente? - A senhora Parker fez a pergunta para ganhar tempo e reunir forças para uma nova rejeição.

     - Por favor, minha senhora.

     Louisa sorriu a Sharpe do seu assento na tarimba onde se encontrava a cama. A tia, ao ver o gesto, fechou a cortina da alcova com um puxão.

     - Claro que o senhor vai dormir aqui à porta, tenente.

     Sharpe a pensar em relógios foi tomado de surpresa pela exigência peremptória.

     - Como disse, minha senhora?

     - Há mulheres indefesas neste quarto, tenente! Mulheres inglesas!

     - Certamente que ficareis ambas em segurança, minha senhora. - Sharpe apontou para a pesada tranca do lado de dentro da porta.

     - Não tem ideia das suas redes, tenente? - A senhora Parker avançava raivosa. - Não me espanta que nunca tenha conseguido uma promoção da sua patente tão baixa.

     - Minha senhora, eu...

     Não me interrompa! Não vou tolerar aqui as suas maneiras de caserna, tenente. já viu as criaturas papistas que bebem como animais nesta taberna? Sabe os horrores que as bebidas fortes provocam? E deixe-me recordar-lhe que o senhor Parker pagou os seus impostos em Inglaterra, o que nos dá o direito de recorrer à sua protecção.

     George Parker que tentava ler as Escrituras à luz de um coto de sebo, olhou para Sharpe com ar suplicante.

     - Por favor, tenente?

     - Durmo lá fora, minha senhora, mas preciso de saber as horas. A senhora Parker sorriu, satisfeita com a sua pequena vitória.

     - Se nos vai guardar, tenente, então desejará manter-se acordado. Se tiver de voltar uma ampulheta não adormecerá profundamente. George? George Parker procurou na sua mala e retirou de lá uma ampulheta que entregou a Sharpe, com ar pesaroso. A senhora Parker acenou com a cabeça, satisfeita.

     - Faltam vinte e cinco minutos para as dez horas, tenente, e a ampulheta leva uma hora para se esgotar - acenou com a mão num gesto imperioso de despedida.

     Sharpe encostou-se à parede, fora da porta dos Parker. Colocou a ampulheta no parapeito da janela e viu a passagem dos primeiros grãos. Maldita mulher. Não admirava que o exército não aprovasse o metodismo nas suas fileiras. Contudo, até certo ponto, Sharpe sentia-se satisfeito por servir de guarda-costas, mesmo a uma pessoa tão antipática como a senhora Parker, pois dava-lhe uma desculpa para não regressar ao estábulo onde os seus soldados tornariam de novo bem claro o seu desdém e desagrado. Tempos houvera em que a companhia daqueles homens tinha sido a sua vida e lhe dera prazer, mas agora, como era oficial, ficara privado dela. Sentia um imenso desânimo e desejava o fim daquela maldita viagem.

     Cortou mais um botão das calças que já se abriam para mostrar um bocado de coxa cheia de cicatrizes e comprou para si uma borracha de vinho. Bebeu-a rapidamente e com tristeza e arrastou um banco para junto da porta do quarto. Os clientes da taberna, desconfiados com aquele soldado estrangeiro de rosto duro e esfarrapado, afastaram-se dele. O banco estava junto a uma janela sem portas de madeira que oferecia a Sharpe uma vista para os estábulos. Quase suspeitava que os fuzileiros pudessem tentar outro motim, talvez se escapassem nas trevas, para se irem juntar ao seu querido major Vivar, mas, exceptuando alguns homens que apareceram no pátio do estábulo para urinar, tudo parecia calmo. Calmo, mas não quieto. Sharpe ouvia as gargalhadas dos fuzileiros, o que o fez sentir ainda mais solitário. Aos poucos, os risos transformaram-se em silêncio.

     Não conseguiu dormir. A taberna esvaziou-se, ficando apenas dois vaqueiros que ressonavam alegremente junto às brasas da lareira e o criado, que fez a cama debaixo do balcão. Sharpe sentiu o princípio de uma dor de cabeça. De súbito, teve saudades de Vivar. A alegria e a certeza do espanhol tinham tornado suportável aquela longa marcha e agora sentia-se à deriva no caos. E se a guarnição inglesa já tivesse partido de Lisboa? Ou se não houvesse navios de guerra na costa? Estaria condenado a vaguear pela Espanha até que, por fim, os franceses lhe resolvessem o problema, fazendo dele prisioneiro? E se assim fosse? A guerra deveria terminar em breve com a vitória dos franceses e estes mandariam os prisioneiros para a pátria. Sharpe voltaria a Inglaterra como qualquer outro oficial falhado que teria de se sustentar com metade do soldo. Deu a volta à ampulheta e fez um novo risco na parede caiada.

     Havia uma borracha de vinho, tombada ao lado dos vaqueiros adorme-cidos, e Sharpe surripiou-a. Escorreu o líquido malcheiroso para dentro da boca, na esperança que o sabor áspero lhe aliviasse a dor de cabeça cada vez maior. Sabia que não seria assim. Sabia que, de manhã, estaria maldisposto e irritado. E, sem dúvida, do mesmo modo se sentiriam os seus homens. A recordação do seu mau humor só o deprimiu ainda mais. Malditos. Maldito Williams. Maldito Harper. Maldito Vivar. Maldito Sir John Moore, por ter dado cabo do melhor exército que alguma vez saíra de Inglaterra. E amaldiçoada fosse a Espanha, mais os Parkers e o frio que lentamente entrava na taberna enquanto a lareira se apagava.

     Ouviu a tranca erguer-se na porta atrás de si, sub-repticiamente e com extrema cautela. Depois, após aquilo que pareceu uma eternidade, a porta entreabriu-se. Um par de olhos nervosos fitaram Sharpe.

     - Tenente?

     - Menina?

     - Trouxe-lhe isto. - Louisa fechou a porta com todo o cuidado e aproximou-se do banco. Entregou-lhe um enorme relógio de prata.

     - É um relógio que dá as horas - disse em voz baixa. - Acertei-o para que tocasse às quatro.

     Sharpe pegou no pesado relógio.

     - Muito obrigado.

     - Tenho de lhe pedir desculpa - disse Louisa apressadamente.

     - Não...

     - Claro que tenho. Passo muitas horas a pedir desculpas pelo comportamento de minha tia. Talvez que amanhã tenha a bondade de me devolver o relógio sem que ela repare?

     - Com certeza.

     - Também pensei que gostasse disto, tenente - esboçou um sorriso malicioso quando retirou a garrafa negra de debaixo da capa. Para espanto de Sharpe, continha brandy espanhol. - É do meu tio - explicou -, embora ele não deva beber. Vai pensar que foi a minha tia que a encontrou e a deitou fora.

     - Obrigado - Sharpe engoliu um pouco da forte bebida. Depois, com desajeitada cortesia limpou o bocal da garrafa e ofereceu-a a Louisa.

     - Não, obrigada - sorriu do gesto embaraçado, mas, reconhecendo nele um convite amigável, sentou-se decorosamente na outra ponta do banco de Sharpe. Ainda tinha o vestido, a capa e a touca.

     - O seu tio bebe? - perguntou Sharpe espantado.

     - O senhor não beberia, se estivesse casado com ela? - Louisa sorriu da expressão dele. - Acredite, tenente, vim com a minha tia apenas pela oportunidade de conhecer a Espanha. Não foi por desejar ficar meses na sua companhia.

     - Compreendo - disse Sharpe, embora não fosse verdade e percebendo ainda muito menos porque procurava aquela jovem a sua companhia a altas horas da noite. Não acreditava que se tivesse atrevido a desafiar a raiva da tia só para lhe emprestar um relógio, mas parecia ansiosa por falar e, embora a sua presença o fizesse parecer tímido e carrancudo, queria que ela ficasse. A lareira apagada lançava luz suficiente para dar um brilho rosado ao rosto dela. Pensou que era muito bonita.

     - A minha tia é invulgarmente grosseira - disse Louisa, num prolonga-mento das suas desculpas. - Não tinha nada que comentar a sua patente do modo como o fez.

     Sharpe encolheu os ombros.

     - Ela tem razão. Sou velho para ser tenente, mas, há cinco anos, era sargento.

     Louisa olhou para ele com renovado interesse. - De verdade?

     - De verdade.

     Sorriu apontando dardos de desejo à alma de Sharpe.

     - Penso que o senhor deve ser um homem notável, tenente, embora lhe deva dizer que a minha tia o considera extremamente grosseiro. Exprime continuamente o seu espanto por o tenente ter conseguido uma comissão de Sua Majestade, afirmando que Sir Hyde nunca teria permitido que um rufião como o senhor fosse oficial num dos seus navios.

     Por uns instantes a já esgotada auto-estima de Sharpe fê-lo sentir-se irritado por esta crítica; depois viu que o rosto de Louisa tinha uma expressão mais maliciosa do que séria. Percebeu também a simpatia da jovem, uma simpatia que Sharpe havia muitos meses não recebia de ninguém; porém, ao mesmo tempo que lhe agradava, embaraçava-o. Pensou com alguma amargura que um oficial nato saberia como reagir ao humor dela, mas, assim, apenas foi capaz de lhe fazer uma pergunta.

     - Sir Hyde era seu pai?

     - Era primo de meu pai, um primo muito distante, até. Disseram-me, que ele não era bom almirante. Considerava Nelson um mero aventureiro - imobilizou-se assustada por um súbito ruído, mas fora apenas um tronco que caíra no braseiro. - Mas tornou-se um almirante muito rico - continuou Louisa. - E a família beneficiou do dinheiro da captura dos navios.

     - Então a menina é rica? - Sharpe não pôde deixar de perguntar.

     - Eu não. Mas a minha tia recebeu o suficiente para criar problemas neste mundo - Louisa falava em tom sério. - O senhor tem ideia, tenente Sharpe, de como é embaraçoso tentar espalhar o protestantismo em Espanha? Sharpe encolheu os ombros.

     A menina veio por vontade própria.

     É verdade. E o embaraço é o preço que se paga por ver Granada e Sevilha - os seus olhos iluminaram-se ou talvez fosse o reflexo das brasas acesas. - Teria gostado de ver mais.

     - Mas vai voltar para Inglaterra?

     - A minha tia acha que é o mais sensato - a voz de Louisa era cautelosa-mente trocista. - Sabe, os espanhóis não receberam bem as suas tentativas de os libertar das algemas de Roma.

     Mas a menina gostaria de ficar.

     É praticamente impossível, não é verdade? As jovens, senhor Sharpe, não têm liberdade neste mundo. Devo regressar a Godalming, onde me espera um tal senhor Bufford.

     Sharpe viu-se obrigado a sorrir com o tom de voz dela. O senhor Bufford?

     É perfeitamente respeitável - disse Louisa como se Sharpe tivesse sugerido o contrário. - E é, evidentemente, metodista. O dinheiro vem-lhe de uma fábrica de tinta, uma indústria tão proveitosa que a futura senhora Bufford pode esperar uma casa grande e uma vida de grande conforto e tédio, que certamente nunca será descorada pela tinta que é fabricada na longínqua Deptford.

     Sharpe nunca antes havia conversado com uma rapariga com a educação de Louisa, nem ouvira falar com tanto desprezo da classe endinheirada. Sempre acreditara que qualquer pessoa, nascida no conforto e na riqueza, ainda que pudesse sentir tédio, não ficasse eternamente grata por ter essa sorte.

     - A menina é a futura senhora Bufford?

     - A intenção é essa, sim.

     - Mas não deseja casar-se?

     - Acho que sim, que desejo - Louisa franziu a testa. - O tenente é casado?

     - Não sou suficientemente rico para me casar.

     - Isso raramente impediu outros de o fazerem, penso eu. Não, senhor Sharpe. Simplesmente não desejo casar-me com o senhor Bufford, embora, a minha relutância seja certamente egoísta. - Louisa encolheu os ombros sem querer dar importância às suas indiscrições. - Mas não quis encontrá-lo acordado para lhe impor os meus pequenos desgostos. Desejava perguntar-lhe, tenente, se a nossa presença torna mais provável a sua captura e a dos seus homens pelos franceses.

     A resposta era certamente afirmativa, mas evidentemente que Sharpe não iria dizê-lo.

     - Não, menina. Desde que prossigamos a uma velocidade razoável, podemos mantermo-nos adiante dos cana... deles.

     - Se me tivesse respondido com a verdade, tenente, eu tê-lo-ia proibido de nos abandonar a esses cana... a eles - Louisa sorriu com a sua expressão gravemente maliciosa.

     - Nunca a abandonaria, menina - disse Sharpe, embaraçado mas satisfeito, porque a semiobscuridade lhe disfarçava o rubor.

     - A minha tia provoca grande lealdade.

     - Exactamente - Sharpe sorriu e o sorriso transformou-se numa gargalhada que Louisa silenciou levando um dedo aos lábios.

     - Muito obrigada, tenente - ergueu-se. - Espero que não se aborreça por sermos um empecilho para si.

     - Agora não o são, menina.

     Louisa dirigiu-se cuidadosamente para a porta.

     - Durma bem, tenente.

     - A menina também - Sharpe viu-a esgueirar-se pela porta e conteve a respiração até ouvir a tranca deslizar em segurança do lado oposto. O seu sono seria agora inquieto, pois todos OS seus pensamentos, desejos e sonhos tinham sido revolvidos por um sorriso doce e trocista. Richard Sharpe estava longe de casa, ameaçado por um inimigo conquistador e, para tornar as coisas piores, apaixonara-se.

     Às quatro da manhã Sharpe foi acordado pelo ruído estridente do relógio de prata de Louisa. Bateu com força na porta dos Parkers até que um resmungo lhe garantiu que a família estava acordada. Depois, foi ao estábulo e descobriu que os seus homens não tinham fugido durante a noite. Estavam todos presentes e encontravam-se quase todos embriagados.

     Não estavam tão mal como aqueles que tinham sido abandonados aos franceses durante a retirada, mas quase. Todos, excepto uma mão-cheia deles, estavam insensíveis, embriagados e inconscientes. As borrachas de vinho que Sharpe comprara estavam todas vazias no chão, mas entre a palha que lhes servira de cama havia também numerosas garrafas vazias de aguardente. Perce-beu então que os monges cistercenses as tinham secretamente acrescentado ao seu presente de sacos de pão. Sharpe praguejou.

     O sargento Williams estava um pouco titubeante, mas conseguiu pôr-se de pé.

     - Os rapazes estavam inquietos, meu Tenente.

     - Porque não me falou do brandy?

     - Falar-lhe, meu Tenente? - Williams parecia espantado por ele esperar tal coisa.

     - Malditos - Sharpe sentia a cabeça pesada e dores no ventre, mas a sua ressaca era mínima, comparada com o estado dos casacas-verdes. - Levante esses canalhas!

     Williams soltou um soluço. A lanterna revelou como seria inútil a tarefa de obrigar os fuzileiros a levantarem-se, mas, assustado pelo mau humor de Sharpe, fez uma fraca tentativa de empurrar o homem que estava mais próximo.

     O tenente empurrou Williams para o lado. Gritou aos homens. Acordou-os a pontapé, arrastou-os do estupor e esmurrou-lhes os ventres doridos de modo que os homens indispostos vomitaram para o chão do estábulo.

     - De pé! De pé! De pé!

     Os soldados ergueram-se numa enorme confusão. Era o perigo daquele exército. Os homens juntavam-se para beber. Apenas podiam ser mantidos nas fileiras com a ração diária de rum. Aproveitavam todas as oportunidades para se afogarem em álcool. Enquanto casaca-vermelha, Sharpe fizera o mesmo, mas agora era oficial e a sua autoridade fora, mais uma vez, desafiada. Empunhou a sua espingarda, carregou-a com pólvora seca e fechou a caçoleta. O sargento Williams estremeceu a espera do ruído. Sharpe puxou o gatilho e a explosão ecoou pelo estábulo.

     - De pé, seus canalhas! De pé, de pé! - Sharpe agrediu-os de novo a pontapé, a sua raiva maior ainda devido ao facto de ignorar a existência do brandy. Tinha a perfeita consciência do que Miss Louisa Parker iria pensar de tudo aquilo.

     Às cinco e um quarto, sob uma chuva miudinha que prometia durar o dia inteiro, Sharpe conseguiu finalmente formar os homens na estrada. A carruagem dos Parkers fazia já a manobra no pátio da taberna enquanto Sharpe, à luz de uma lanterna que o sargento Williams segurava, inspeccionava as armas e o equipamento. Cheirou todos os cantis e despejou para a estrada todos os restos de brandy.

     - Sargento Williams?

     - Meu Tenente?

     - Vamos o mais depressa possível! - A marcha rápida dos fuzileiros era incrivelmente veloz e os homens gemeram, antecipando as dores que iriam sentir. - Silêncio! - berrou. - Fuzileiros, à direita! Direita, volver! - Os homens não se tinham barbeado, tinham os rostos inchados, os olhos injectados de sangue e o porte pouco aprumado. - Em frente, marche!

     E marcharam numa madrugada cinzenta e triste. Sharpe forçou tanto o passo, que alguns tiveram de desistir para vomitar em valas cheias de água. O tenente obrigou-os a voltar à forma. Naquele momento pensou que provavel-mente odiava aqueles homens e queria que eles o desafiassem para poder praguejar e insultar os canalhas indisciplinados. Obrigou-os a marchar tão depressa, que a carruagem dos Parkers ficara para trás.

     Sharpe ignorou o seu lento progresso. Obrigou mesmo os fuzileiros a celerarem o passo, até que o sargento Williams, temendo um motim da parte dos mal-humorados soldados, veio ter com ele. Neste ponto, a estrada começava a descer uma encosta até um rio caudaloso, atravessado por uma ponte de pedra.

     - Os homens não conseguem, meu Tenente.

     - Mas conseguem embebedar-se, não é verdade? Então agora que sofram. O sargento Williams também sofria. Estava pálido e ofegante, arrastava os pés e parecia prestes a vomitar. Outros homens encontravam-se num estado bem pior.

     - Lamento muito, meu Tenente - disse em voz fraca.

     - Devia ter-vos abandonado aos franceses. A todos vós - a ira de Sharpe era ainda maior devido ao remorso. Sabia que a culpa era sua, Deveria ter tido a coragem de inspeccionar os estábulos durante a noite, mas preferira esconder-se do desagrado dos homens, deixando-se ficar na estalagem. Recordou-se dos bêbados que tinham sido deixados para trás durante a retirada do exército de Sir John Moore; homens desesperados, abandonados à mercê dos cruéis franceses e, embora os tivesse ameaçado com o mesmo destino, Sharpe sabia que não os abandonaria. Agora era uma questão de orgulho. Salvaria da desgraça aquele grupo de fuzileiros. Poderiam não lhe agradecer, poderiam não gostar dele, mas ele fá-los-ia atravessar o inferno, se isso os pusesse em segurança. Vivar dissera que não seria possível, mas Sharpe fá-lo-ia.

     - Lamento muito, meu Tenente - Williams tentou de novo apazíguá-lo. Sharpe nada disse. Estava a pensar em como aquela provação seria mais fácil se tivesse um sargento capaz de controlar os homens. Williams preocupava-se mais em que gostassem dele, mas não havia mais ninguém para tomar as rédeas. Gataker era demasiado esquivo e ansioso da boa opinião dos seus colegas fuzileiros. Tongue era educado, mas o mais bêbado da companhia. O galês Parry Jenkins poderia dar um bom sargento, mas Sharpe desconfiava que ele não tinha a rudeza necessária. Hagman era muito preguiçoso. Dodd, o homem mais calado, era lento e tímido. Havia ainda Harper e Sharpe sabia que ele nada faria para ajudar o desprezado oficial de manutenção. Restava-lhe Williams, tal como a Williams e à companhia restava o tenente Sharpe que, quando chegou à ponte de pedra, ordenou aos homens que fizessem alto.

     Eles obedeceram. Nos seus rostos lia-se-lhes o alívio. Não se via a carruagem, ainda a ultrapassar os pedregulhos para lá do cimo do monte.

     - Companhia! - A voz alta de Sharpe fez estremecer alguns homens. Descansar!

     Houve ainda maior alívio quando poisaram no chão as armas pesadas e desafivelaram as baionetas e as bolsas. Sharpe separou a mão-cheia de homens que, naquela manhã, se encontravam sóbrios e ordenou ao resto, que se desfizesse das mochilas, capotes e botas.

     Os homens julgaram-no louco, mas todos os soldados estavam habituados a obedecer a oficiais excêntricos, de modo que descalçaram as botas sob o olhar irritado do tenente. A carruagem aproximava-se do alto da encosta e Sharpe gritou aos soldados que se voltassem para a frente e não olhassem para ela. O guincho dos travões era como uma unha a raspar na ardósia.

     - Não tinham autorização para se embriagarem - Sharpe falava agora em voz calma, já sem estar zangado. - Como tal, espero que a vossa disposição seja muito má.

     Os homens percebiam que a raiva de Sharpe tinha passado e alguns deles sorriam para mostrar que, de facto, estavam indispostos.

     Sharpe sorriu.

     - Ainda bem. Pois agora saltem para dentro do rio. Todos!

     Os soldados ficaram a olhar para ele. O troar e o ranger das rodas da carruagem já se aproximava.

     Sharpe carregou a espingarda com os movimentos rápidos de um militar há muito treinado. Os homens incrédulos viram-no encostar ao ombro a parte metálica e fazer pontaria à fila da frente.

     - Eu disse para saltarem para o rio! Rápido! Apontou a espingarda.

     Os homens saltaram.

     A queda do parapeito da ponte era talvez de cerca de três metros e o rio, engrossado pelo degelo e pelas chuvas do Inverno, tinha provavelmente dois metros de profundidade. A água estava gelada, mas Sharpe deixou-se ficar no parapeito e ordenou a cada um dos homens que saltasse lá para dentro. Usou a espingarda como método de encorajamento.

     - Mergulhe, Harper! Mergulhe, homem, mergulhe!

     Apenas os sóbrios, os feridos e, por deferência à sua ténue autoridade, o sargento Williams foram poupados a tal provação.

     - Sargento, mande formar três a três na margem. Rápido!

     Os homens saíram do rio a bater o dente e formaram três miseraveis colunas sobre a erva. A carruagem deteve-se e George Parker, com ar nervoso, - saiu de rompante pela porta.

     - Tenente, a minha querida mulher está preocupada que nos possa abandonar, seguindo a tanta velocidade, - Parker viu então a parada de homens encharcados e ficou de boca aberta.

     - Estão bêbados - disse Sharpe em voz alta, para que todos os soldados o ouvissem. - Borrachos. Embriagados. Malditos inúteis! Tenho estado a ver se consigo livrar os canalhas dos efeitos do álcool.

     Parker acenou com a mão, para protestar contra a blasfémia, mas Sharpe fingiu não entender. Preferiu gritar para os seus homens:

     - Todos despidos!

     Os homens ficaram nus. Quarenta homens gelados, pálidos e infelizes sob a chuva miudinha.

     Sharpe olhou-os.

     - Pouco me importa que morram todos! - Aquilo chamou-lhes a atenção. - Agora, a qualquer momento, seus canalhas, os malditos franceses podem aparecer por essa estrada - apontou com o polegar para o monte atrás de si. - Parece-me que tenho vontade de vos deixar aqui à espera deles. Não prestam para nada! Pensei que fossem fuzileiros! Pensei que fossem os melhores! já vi o raio de umas milícias comportarem-se melhor! Já vi homens de cavalaria mais parecidos com soldados! - Seria difícil arranjar um insulto pior, mas mesmo assim, Sharpe tentou. - já vi metodistas bem, melhores!

     A senhora Parker abriu a cortina de couro da carruagem com toda a força para exigir o fim daquele tipo de linguagem, mas viu os homens nus e soltou um grito. A cortina fechou-se.

     Sharpe ficou a olhar para os homens. Não os censurava por estarem receosos, pois a qualquer soldado poderia ser perdoado o terror quando a derrota e o caos destruíam um exército. Aqueles homens andavam à deriva, longe de casa e abandonados e ofendidos com o comissário que os vestia e alimentava, mas continuavam a ser soldados, sob disciplina, e essa palavra recordava a Sharpe as simples regras do major Vivar. Com uma simples mudança, aquelas três regras servir-lhe-iam bem.

     Tomou um tom de voz menos áspero.

     - A partir de agora, vou estabelecer três regras. Apenas três regras. Quebrem uma delas e dou cabo de vocês. Nenhum de vocês pode roubar seja o que for a menos que para isso tenha permissão. Nenhum de vocês se poderá embebedar sem a minha permissão. E terão de lutar como canalhas quando o inimigo aparecer. Estamos entendidos?

     Silêncio.

     - Perguntei se estávamos entendidos? Mais alto! Mais alto! Mais alto! Os homens nus gritavam o seu assentimento; gritavam freneticamente, gritavam para se verem livres daquele louco. Já pareciam muito mais sóbrios. Sargento Williams!

     - Meu Tenente?

     - Capotes vestidos. Têm duas horas. Acendam fogueiras, sequem as roupas e depois formem de novo três a três. Eu ficarei de guarda.

     - Sim, meu Tenente.

     A carruagem continuou imobilizada, com o inexpressivo cocheiro espanhol sobre o seu assento lá no alto. Só quando os fuzileiros envergaram os capotes secos é que a porta se abriu de rompante e a senhora Parker apareceu furiosa.

     - Tenente!

     Sharpe sabia o que aquela voz agourava. Voltou-se num repente.

     - Silêncio, minha senhora!

     - Eu quero...

     - Silêncio, com mil raios! - Sharpe dirigiu-se à carruagem e a senhora Parker, temendo a violência, bateu com a porta.

     Mas afinal Sharpe dirigiu-se à caixa da bagagem de onde retirou uma mão cheia de Testamentos em espanhol.

     - Sargento Williams? Achas para a fogueira! - Lançou os livros para cima da erva, enquanto George Parker, que pensava que o mundo tinha enlouque-cido, preferiu manter-se calado.

     Duas horas depois, num tímido silêncio, os fuzileiros marcharam para sul.

     Ao meio-dia deixou de chover. A estrada ia ter a outra maior, mais larga e mais lamacenta, que obrigava o progresso da pesada carruagem a abrandar. Porém como que uma promessa de coisas melhores, Sharpe viu uma mancha de água à sua direita. Era demasiado larga para se tratar de um rio, portanto seria ou um lago ou um braço de mar que, como um loch escocês, se estendia para o interior da terra. George Parker foi de opinião que era de facto uma ria, um vale inundado pelo mar que poderia, portanto, conduzi-los aos navios-patrulha da Marinha Real Inglesa.

     Tal ideia, tal como a região que agora atravessavam, provocou optimismo. A estrada conduzia-os através de pastagens interrompidas por pequenos bosques, muros de pedra e pequenos ribeiros. As encostas eram suaves e as poucas quintas tinham uma aparência próspera. Tentando recordar o mapa que Vivar destruíra, Sharpe calculava que se encontrassem bastante a sul de Santiago de Compostela. O seu desespero nocturno estava a ser apagado pela esperança causada por aquela estrada, que o levava a sul e pela expressão submissa no rosto dos seus homens. A visão do mar ajudara. Talvez que na cidade seguinte encontrassem pescadores que pudessem conduzir aqueles refugiados aos navios-patrulha ingleses. George Parker, que acompanhava Sharpe, concordou.

     - Se assim não for, tenente, também não será necessário chegar a Lisboa.

     - Como assim, senhor Parker?

     - Há-de haver barcos ingleses a carregar vinho no Porto. E não devemos estar a mais de uma semana de distância dessa cidade.

     Uma semana e estariam em segurança! Sharpe alegrou-se com a ideia. Uma semana de dura marcha e botas rotas. Uma semana para provar que eram capazes de sobreviver sem Blas Vivar. Uma semana para manter aqueles fuzileiros numa unidade disciplinada. Uma semana com Louisa Parker e depois, pelo menos, mais duas semanas no mar, enquanto o navio seguisse para norte, atravessando os ventos do golfo da Biscaia.

     Duas horas depois do meio-dia, Sharpe mandou fazer alto. O mar conti-nuava invisível, porém sentia-se já o cheiro a sal entre os pinheiros dispersos, por baixo dos quais os cavalos foram alimentados com milho seco e feno. Os fuzileiros, depois de dividirem o resto do pão do mosteiro, deitaram-se no chão, exaustos. Tinham acabado de atravessar uma faixa de prados inundados, onde a terra se transformara num lamaçal, do qual os homens tinham tido de soltar a carruagem. Agora a estrada subia suavemente entre muros musgosos em direcção a uma quinta de pedra que se encontrava a menos de dois quilómetros para sul, no cimo do monte.

     Os Parkers sentavam-se em mantas ao lado da carruagem. A senhora Parker recusava-se a olhar para Sharpe desde a última explosão junto ao ribeiro, mas Louisa lançara-lhe um sorriso feliz e conspiratório que imediatamente envergonhara Sharpe e o fizera recear que os seus homens concluíssem, com toda a razão, que o tenente estava enamorado. Para evitar trair os seus sentimentos, Sharpe afastou-se do pinhal e aproximou-se do único piquete que colocara junto à estrada.

     - Alguma coisa? - perguntou.

     - Nada, meu Tenente - era Hagman, o soldado mais velho e um dos poucos que não ficara completamente embriagado na noite anterior. Mascava tabaco e os seus olhos não abandonavam a linha do horizonte a norte.

     - Vai chover de novo.

     - Achas que sim?

     - Tenho a certeza, meu Tenente.

     Sharpe acocorou-se. As nuvens pareciam intermináveis, negras e cinzentas, rolando de um mar invisível.

     - Porque vieste para o exército? - perguntou.

     Hagman, cuja boca sem dentes, dava ao seu feio rosto o perfil de um quebra-nozes, sorriu.

     - Fui apanhado a caçar furtivamente, meu Tenente. O juiz deu-me a escolher. A pildra ou a tropa, meu Tenente.

     - És casado?

     - Foi por isso que escolhi a tropa, meu Tenente. - Hagman soltou uma gargalhada e depois cuspiu um fio de saliva amarelada para dentro de uma poça de água. - A cabra da minha mulher é a bruxa mais enfadonha deste mundo.

     Sharpe soltou uma gargalhada, mas logo ficou em silêncio.

     - Meu Tenente! - disse Hagman em voz baixa.

     - Estou a vê-los. - Sharpe ergueu-se, voltou-se e gritou, pois a sul, na linha do horizonte, recortados contra as nuvens negras, via-se a cavalaria.

     Os franceses tinham-nos apanhado.

    

     Era um local mau para serem apanhados; uma faixa de campo aberto onde a cavalaria podia fazer manobras quase à vontade. Era verdade que ali havia pântanos que, tal como a estrada, se encontravam rodeados por baixos muros de pedra, mas Sharpe sabia que seria uma operação difícil libertar os seus homens do inimigo.

     - Tem a certeza de que são franceses? - perguntou Parker.

     Sharpe nem se preocupou em responder. Um soldado que não soubesse reconhecer as silhuetas do inimigo não merecia sobreviver; o mesmo se passava com um que tivesse dúvidas.

     - Siga! Siga - disse ao cocheiro que, incentivado pela súbita fúria de Sharpe, fazia estalar o longo chicote na parelha da frente. Os tirantes entre-chocaram-se, as barras de tracção estremeceram com o puxão e a carruagem avançou com um solavanco.

     Os fuzileiros arrancaram os farrapos dos fechos das espingardas. Sharpe pronunciou em silêncio uma oração para agradecer ao deus dos soldados o ter-lhes deixado ficar com tantas munições, no dia em que os tinha separado do exército. Precisariam delas, pois eram em número terrivelmente reduzido e a sua única esperança estava na capacidade de as espingardas atrasarem a perseguição do inimigo.

     Sharpe calculou que os cavaleiros franceses levariam cerca de dez minutos a chegar ao pinhal que, naquele momento, ocultava os fuzileiros. Não havia fuga possível para leste ou para oeste, onde apenas havia campos vazios. Precisava de chegar ao cimo do monte que ficava para sul, onde se encontrava a quinta e, a seguir e por obra de um milagre, encontrar um obstáculo inultrapassável para os homens da cavalaria. Se de facto não houvesse fuga possível, então a quinta teria de ser barricada e transformada numa fortaleza. Mas dez minutos não eram tempo suficiente para chegar à quinta, portanto Sharpe escolheu uma dúzia de homens no pinhal. O resto, sob o comando de Williams, seguiu com a carruagem.

     Sharpe manteve consigo Hagman, pois o antigo caçador furtivo era extremamente hábil com a espingarda e fez o mesmo a Harper e aos seus amigos mais chegados, pois suspeitava que fossem os melhores combatentes.

     - Não poderemos detê-los por muito tempo - disse aos homens -, mas talvez consigamos ganhar algum. Porém, quando nos movimentarmos teremos de correr como o diabo.

     Harper fez o sinal da cruz.

     - Deus salve a Irlanda.

     Havia pelo menos duzentos dragões a encher a estrada lamacenta que atolara a carroça uma hora atrás.

     Os fuzileiros encontravam-se junto às árvores. Deveriam ainda manter-se invisíveis aos franceses, que estavam a quase um quilómetro de distância. Sharpe avisou os soldados

     - Deixem-se ficar em silêncio. Apontem aos cavalos. Vai ser difícil. Para abrir fogo, gostaria de ter esperado até que o inimigo se encontrasse apenas a duzentos metros, mas isso permitiria aos cavaleiros aproximarem-se muito. Preferiu ser obrigado a disparar até ao limite do alcance das espingardas, na esperança de que as balas criassem surpresa e pânico suficientes, que lhe permitissem verificar o avanço dos franceses por preciosos momentos.

     Sharpe, oculto pela escuridão dos pinheiros, manteve-se alguns passos atrás dos homens. Pegou no telescópio e firmou o longo cano no tronco de uma árvore.

     Viu casacas verdes-claras, com paramentos rosados e homens de trancinhas. O telescópio aumentava a coluna francesa que avançava, e as lentes pareciam cheias de homens que subiam e desciam sobre as suas selas. Bainhas, carabinas e bolsas estremeciam. Àquela distância, o rosto dos franceses, escurecidos pelos casquetes, pareciam inexpressivos e ameaçadores. Havia estranhas trouxas atadas por trás das selas, que Sharpe calculou serem redes de forragem para alimentar os cavalos. Os franceses detiveram-se.

     Sharpe praguejou em voz baixa.

     Movimentou o telescópio da direita para a esquerda. Os dragões tinham já deixado para trás a parte mais difícil do pântano, espalhando-se em linha e estavam agora praticamente imóveis. Os cavalos baixavam as cabeças para pastarem na erva húmida.

     - Meu Tenente - chamou Hagman. - Olhe a estrada, meu Tenente. Está a ver os patifes?

     Sharpe voltou bruscamente o telescópio para o centro da linha inimiga. Um grupo de oficiais aparecera aí com os seus galões dourados a cintilar ao sol de Inverno e, no meio deles, encontrava-se o oficial de Caçadores de peliça vermelha e o civil de casaca negra e botas brancas. Sharpe perguntou a si próprio por meio de que estranha habilidade conseguiam aqueles dois homens seguir-lhe a pista, através da terra invernosa.

     Por sua vez, o oficial de Caçadores abriu também um telescópio, dando a Sharpe a sensação de que estava a fixar o seu círculo de lentes. Manteve o vidro imóvel até o outro óculo ser bruscamente fechado. Depois viu o oficial de Cavalaria dar uma ordem a um dragão, provavelmente um ordenança, que pôs o cavalo a galope para oeste.

     O resultado da ordem foi que um pequeno destacamento de dragões ergueu os pesados capacetes que traziam pendurados nos arções das selas. Os seis homens enfiaram-nos na cabeça, sinal seguro que tinham recebido ordem de avançar. Consciente do facto de que o pinhal podia ocultar uma emboscada, o oficial enviava adiante um piquete. Sharpe não deixou de se surpreender, pois embora o inimigo não soubesse que ele o esperava, preparara-se para o que desse e viesse. Fechou com força o óculo e amaldiçoou a cautela do comandante francês, que agora lhe impunha uma decisão delicada.

     Sharpe poderia matar seis homens, mas seria que esse facto iria deter os dragões? Ou seria que eles, julgando as suas forças pelo número exíguo de tiros disparados, dariam instantaneamente início a um galope, o que traria numerosos cavaleiros para dentro das árvores antes de os fuzileiros chegarem ao monte a sul? Em vez de dez minutos, talvez tivesse só cinco.

     Hesitou. Mas se aprendera uma coisa como soldado era que tomar uma decisão, por muito má que fosse, era melhor do que não tomar nenhuma.

     - Vamos recuar. Rápido! Mantenham-se escondidos!

     Os fuzileiros recuaram lentamente, deixando-se ficar no local onde as árvores os ocultavam dos franceses e depois seguiram Sharpe até à estrada. Correram então.

     - Com mil raios! - a imprecação saiu da boca de Harper e foi causada pela visão da carruagem dos Parkers que, a duzentos metros de distância, se encontrava imobilizada. O cocheiro, na sua pressa, tinha batido com uma roda contra um muro de pedra na curva da estrada. Williams e os seus homens tentavam em vão libertar o veículo.

     - Larguem a carruagem! - gritou Sharpe. - Larguem!

     A cabeça da senhora Parker apareceu à janela da carruagem para contra-riar as suas ordens.

     - Empurre! Empurre!

     - Saia! - berrou Sharpe, debatendo-se na lama da estrada. - Saia! - Para a carruagem ser resgatada seria necessário convencer os cavalos a recuar e a dar a volta, depois teriam de ser chicoteados para avançarem e tudo isso levaria tempo, coisa que ele não tinha. A ideia teria por isso de ser abandonada.

     Mas a senhora Parker não estava disposta a desistir do conforto do seu veículo. Ignorou Sharpe, inclinando-se perigosamente da janela para ameaçar o cocheiro com a sombrinha fechada. - Dê-lhes com o chicote, seu idiota! Mais força!

     Sharpe agarrou-se ao fecho da porta e puxou.

     - Fora! Saia daí!

     A senhora Parker brandiu a sombrinha na direcção de Sharpe, enfiando-lhe a barretina bolorenta até aos olhos, porém, o tenente agarrou-lhe o pulso, puxou-a e ouviu-a gritar enquanto caía na lama.

     - Sargento Williams?

     - Sim, meu Tenente.

     - Dois homens para retirarem a bagagem do tejadilho! - continham todas as munições disponíveis de Sharpe. Gataker e Dodd subiram com dificuldade, cortaram as cordas com os seus sabres-baionetas e lançaram as pesadas caixas para os fuzileiros, que as receberam cá em baixo. George Parker tentava falar com Sharpe, mas o oficial não tinha tempo para o seu nervosismo.

     - Vai ter de fugir, senhor Parker. Para a quinta! - Sharpe usou a sua força para o obrigar a dar meia volta e apontou-o na direcção à casa de pedra e ao celeiro, únicos refúgios possíveis no meio do campo nu.

     Havia um brilho emocionado e nervoso nos olhos de Louisa, mas logo a jovem foi empurrada pela senhora Parker que, enlameada pela sua queda e falando incoerentemente devido à perda da carruagem e da bagagem, tentava chegar junto de Sharpe. Porém ele ordenou a toda a família que fugisse.

     - Quer morrer, mulher? Mexa-se! Sargento Williams! Acompanhe as senhoras! Leve-as para a quinta! - a senhora Parker gritou a pedir a sua malinha e o senhor Parker, tremendo como varas verdes, foi buscá-la ao interior da carruagem. Depois, rodeada pelos fuzileiros, a família subiu a encosta a toda a pressa.

     - Bloqueamos a estrada, meu Tenente? - perguntou Harper a Sharpe apontando para a carruagem.

     Sharpe não teve tempo para se mostrar espantado pela súbita disponibili-dade do irlandês. Reconheceu, porém o valor da sugestão. Se a estrada fosse bloqueada, os franceses seriam obrigados a contornar os muros de pedra que barravam os campos de ambos os lados. Não levaria muito tempo, mas até um minuto ajudaria aquela luta desesperada. Acenou afirmativamente.

     - Se pudermos.

     - Não há qualquer problema, meu Tenente. - Harper soltou os tirantes,’ as barras de tracção e as de condução, enquanto outros cortavam os arneses e as rédeas. O irlandês deu uma palmada na garupa dos cavalos para os soltar e fazer correr encosta acima.

     - Pronto, rapazes! Vamos voltar o monstro!

     Os fuzileiros juntaram-se do lado direito da carruagem. Sharpe olhava para as árvores, aguardando o piquete do inimigo, mas não pôde resistir a voltar-se, para ver o irlandês no comando dos homens que tinham de erguer a carruagem.

     Por instantes, esta recusou mexer-se, mas depois, Harper pareceu tomar todo o peso do veículo sobre o seu enorme corpo e erguê-lo em direcção ao céu. As rodas moveram-se na lama e o eixo principal raspou na pedra onde estava preso.

     - Para cima! - Harper lançou a ordem num longo berro, ao mesmo tempo que a carruagem se erguia no ar. Por um segundo ameaçou cair de novo e esmagar os casacas-verdes, de modo que Sharpe correu para ir ajudar a estabilizar o veículo com o peso do seu corpo. A carruagem ainda estremeceu por um segundo, mas depois, com um enorme golpe, caiu de lado no meio da estrada. A bagagem e as almofadas dos assentos tombaram lá dentro e os Testamentos espanhóis ficaram espalhados pela lama.

     - A cavalaria meu Tenente! - gritou Hagman.

     Sharpe voltou-se para norte e viu seis cavaleiros inimigos descrevendo a curva à entrada do pinhal. Apontou imediatamente, mas com demasiada rapidez, e o tiro falhou. Hagman apontou um segundo depois, fazendo com que um dos cavalos recuasse de dor. Os outros dragões puxaram as rédeas. Ouviram-se mais dois tiros antes que o piquete do inimigo conseguisse esconder-se entre os pinheiros.

     - Corram! - ordenou Sharpe.

     Os fuzileiros obedeceram. Subiram a estrada a muito custo, com as bainhas a esvoaçar e as mochilas a bater-lhes nas costas. Uma bala de carabina, disparada a enorme distância rasou a cabeça de Sharpe. Viu a senhora Parker a ser arrastada por dois casacas-verdes e o espectáculo deu-lhe vontade de rir, de ridículo que era. Fora apanhado pela cavalaria e apetecia-lhe desatar às gargalhadas.

     Sharpe apanhou o grupo do sargento Williams. A senhora Parker, furiosa, não lhe conseguiu gritar, de ofegante que estava, e, ao mesmo tempo, era demasiado gorda para se mover com rapidez. Sharpe procurou Harper.

     - Arrasta-a!

     - Não está a falar a sério, meu Tenente!

     - Se for preciso leva-a ao colo!

     O irlandês empurrou o traseiro da senhora Harper. Louisa soltou uma gargalhada, mas Sharpe ordenou à jovem que se apressasse. Ele próprio, com o resto do seu esquadrão, entrou no campo ao lado da estrada onde, abrigado por um muro de pedra, vigiou o inimigo.

     Sharpe ouvia os clarins da cavalaria comunicarem entre si. Os piquetes tinham enviado o aviso de que o inimigo fora avistado e que fugia, de modo que os outros dragões deviam picar os cavalos para avançar, trocando as barretinas por capacetes cobertos de lona. As espadas seriam sacadas das bainhas, as carabinas retiradas dos ombros.

     - Têm de atravessar o pinhal, de modo que vamos lançar uma rajada na direcção desses canalhas e depois fugir! Apontem para onde a estrada atravessa as árvores, rapazes! - Sharpe tinha esperança de atrasar os dragões pelo menos por um minuto, ou talvez mais. Quando a cabeça da coluna do inimigo apareceu por baixo das árvores, daria cabo dela com uma rajada bem apontada, e os cavaleiros que se seguiriam levariam mais tempo a contornar os cavalos feridos.

     Hagman recarregou cuidadosamente a espingarda com a melhor pólvora e disparou. Rejeitou os cartuchos feitos com pólvora mais grosseira, preferindo carregar a arma com a outra mais fina, que todos os fuzileiros traziam num chifre. Envolveu a bola num pedacinho de couro que, quando a arma disparasse, accionaria as sete estrias em espiral que conferiam à bala a velocidade rotativa. Fê-la passar pela resistência do cão e colocou sobre o fecho uma pitada de boa pólvora. Era preciso muito tempo para carregar assim uma espingarda, mas o tiro daí resultante podia ser extremamente preciso. Quando Hagman terminou, colocou a arma sobre o muro de pedra e cuspiu para o chão um fio de saliva amarelada.

     - Aponta um passo para a esquerda, na direcção do vento.

     Uma bátega de água tombou sobre o muro junto a Sharpe. Este rezou para que a chuva durasse o tempo suficiente para as espingardas dispararem. Andava de um lado para o outro atrás dos homens.

     - Vejam se os tiros os atingem! Uma rajada e começamos a correr.

     - Meu Tenente? - um homem no final da linha apontava para as árvores a leste da estrada e, olhando para elas, Sharpe imaginou ver movimento entre os pinheiros. Desabotoou o bolso em que guardava o telescópio, mas antes mesmo de o poder retirar da sua caixa protectora, o inimigo saiu do meio das árvores, formando uma enorme linha.

     Sharpe calculara que se alinhassem em coluna para atravessarem o local onde a estrada dividia o pinhal, mas enganara-se; os dragões tinham-se espalhado para a esquerda e para a direita do bosque e agora, de capacete e empunhando as espadas, toda a força do inimigo era visível à luz do dia.

     - Fogo!

     Foi uma rajada insignificante. Se as espingardas tivessem podido concen-trar as balas na cabeça de coluna de cavalaria, teriam transformado a estrada num cemitério de cavalos a relinchar e homens feridos. Mas do modo como surgiram os cavaleiros, todos espalhados e numa única linha, as balas pouco mais incómodas eram do que as moscas dos cavalos. Apenas um animal vacilou e caiu, atingido pela cuidadosa bala de Hagman.

     - Fujam! - gritou Sharpe.

     Os fuzileiros fugiram como se o diabo os perseguisse. Os franceses tinham pressentido a rajada, resguardaram-se e apareciam agora em campo aberto, gritando e avançando como caçadores no rasto de sangue. Os outros fuzileiros corriam para a quinta adiante de Sharpe. Este viu que Louisa transportava a mochila de Cameron, o soldado ferido, e que puxava o homem pela mão.

     - Os canalhas estão à direita! - avisou Hagman com um grito, e Sharpe voltou-se para ver que os cavaleiros a leste se encontravam sobre terreno firme e seria assim mais provável que conseguissem apanhar aquele pequeno grupo. Os dragões executavam uma perseguição terrível, já com a vitória nas narinas. Um intervalo num muro de pedra conferiu-lhes ainda mais velocidade e fê-los juntarem-se e prepararem-se para descrever a curva. Sharpe viu a água espirrar dos cascos dos animais quando a cavalaria pisou um terreno molhado. Logo a seguir aconteceu uma coisa extraordinária: o sangue apareceu em dois cavalos, uma espada circulou no ar, um homem girou na sela, caiu e foi arrastado por um animal espantado, a relinchar aflitivamente. Só depois se ouviu o estalar das espingardas lá mais à frente.

     Harper abandonara a senhora Parker e formara uma linha de fuzileiros junto ao muro exterior da quinta. Aquela rajada fizera debandar a cavalaria a leste para dar ao grupo de Sharpe um sopro de esperança.

     - Fujam! Fujam!

     Os homens puseram as espingardas ao ombro e obedeceram. Sharpe ouvia atrás de si os cascos dos cavalos inimigos. Ouvia o estalar das selas e as ordens dos oficiais e sargentos. Mais balas de espingarda passavam por ele, disparadas da quinta para lhe dar cobertura. Louisa olhava para tudo com grande espanto.

     - À esquerda, meu Tenente - gritou um homem. - À esquerda! Os soldados da cavalaria vinham de oeste; eram homens que tinham contornado o bloqueio e que agora obrigavam os animais a saltar o muro de pedra que delineava a estrada. Um homem, que montava um cavalo em voo, foi atingido por uma bala e caiu para o lado. Os outros escaparam ilesos e Sharpe sabia que o seu esquadrão fora apanhado. Soltou a enorme espada, firmou os pés e deixou que o primeiro francês viesse na sua direcção.

     - Fujam! - gritou aos seus homens. - Fujam!

     O primeiro francês era um oficial dos Dragões, que se baixou na sela e tentou espetar a espada, de modo a abrir o ventre de Sharpe, como se usasse uma lança. O fuzileiro brandiu a sua arma com as duas mãos, da esquerda para a direita, dirigindo o golpe ao focinho do cavalo. Acertou e o animal caiu para o lado; Sharpe escondeu-se atrás do seu corpo de modo que a espada do francês não o atingiu. Tentou erguer-se para chegar ao cavaleiro e arrastá-lo da sela, falhou, ficou sem a barretina, foi atirado ao chão pelo saco da forragem. A pata traseira do cavalo bateu-lhe na anca, mas logo o dragão desapareceu e Sharpe pôs-se de pé, a muito custo.

     - Para baixo! - tratava-se da voz de Harper, a que ele instintivamente obedeceu, quando outra rajada estalou por cima da sua cabeça. Um cavalo relinchou, depois escorregou e caiu na lama da estrada. Um dos cascos do animal passou a um centímetro da cabeça de Sharpe.

     - Corra! - gritou Harper.

     Sharpe apercebeu-se da carnificina na estrada. A rajada de Harper, lançada contra o ajuntamento formado pela proximidade dos muros de pedra, tinha causado a morte dos cavaleiros. Sharpe correu para o portão da quinta. Era necessário atravessar uma pastagem, antes de ficar em segurança. Os fuzileiros já tinham entrado na casa e a primeira gelosia era já empurrada para o lado pelo cano de uma espingarda.

     - Atrás de si! - De novo o ruído dos cascos, desta vez à esquerda, e Sharpe soltou uma exclamação de raiva quando se voltou. Brandiu a espada na direcção do cavalo que se afastava e obrigou o cavaleiro a tentar atingi-lo. Atirando-se para a frente, o fuzileiro sentiu a sua própria espada picar a coxa esquerda do dragão. O ímpeto do homem e do cavalo retiraram a espada ao cavaleiro. Mais espingardas dispararam, uma bala passou tão perto de Sharpe que este a sentiu como um sopro de vento.

     - Corra, meu Tenente! - gritou de novo, Harper.

     Sharpe assim fez. Chegou à quinta, logo atrás do último fuzileiro. Harper estava pronto a fechar a porta e a trancá-la com uma pesada arca.

     - Obrigado! - disse Sharpe ofegante, ao entrar a toda a pressa pela porta. Harper fingiu não o ouvir.

     Sharpe encontrou-se num corredor que atravessava a quinta de norte a sul. Nele havia portas para o exterior e mais duas que levavam à casa. Escolheu a porta da esquerda, que se abria para uma cozinha espaçosa, onde, tremendo de medo, um homem e uma mulher se encontravam acocorados junto à lareira, onde, suspenso de um gancho, se via o fumegante panelão da barrela. O cocheiro dos Parkers explicava os acontecimentos ao casal, ao mesmo tempo que carregava rapidamente um enorme pistolão. Louisa tentava retirar de um pequeno estojo uma delicada pistola de coronha de marfim.

     - Onde está a sua tia? - perguntou Sharpe.

     - Ali - apontou para a porta ao fundo da cozinha.

     - Vá para lá.

     - Mas...

     - Eu disse para ir para lá! - Sharpe fechou o estojo da pistola e, apesar da indignação de Louisa, empurrou-a para a despensa, onde o tio e a tia se escondiam entre altas talhas de pedra. Coxeou até à janela mais próxima e viu que os dragões se juntavam atrás do pequeno celeiro. Os seus homens disparavam tentando atingi-los. Um cavalo ergueu-se nas patas traseiras, um francês agarrou-se ao braço ferido e soou um clarim.

     Os dragões espalharam-se. Não se afastaram muito; apenas procuraram abrigo por trás do celeiro de pedra ou nos muros dos campos e Sharpe sabia que, dentro de segundos e desmontados, começariam a atacar a quinta a fogo de carabina.

     - Quantas janelas há, sargento?

     - Não sei, meu Tenente. - Williams estava ofegante do esforço que fizera a correr encosta acima.

     Uma bala entrou na cozinha, vinda de fora. Atingiu uma trave do tecto, por cima de Sharpe.

     - Mantenham as cabeças baixas! E respondam!

     Havia três compartimentos no andar de baixo; a grande cozinha que tinha uma janela virada a norte e outra a sul. A pequena despensa onde os Parkers se escondiam, não tinha nenhuma. No outro extremo do corredor, havia um compartimento muito maior, também sem janelas, que servia de estábulo aos animais. Os seus únicos ocupantes eram dois porcos e uma dúzia de galinhas assustadas.

     Uma escada levava da cozinha ao andar superior, onde havia um único quarto de dormir. A prova da relativa prosperidade da quinta estava na enorme cama e na cómoda. O quarto tinha igualmente duas janelas, uma virada a norte e outra a sul. Sharpe colocou fuzileiros em ambas, depois ordenou ao sargento Williams que se encarregasse do quarto lá de cima e que fizesse buracos redondos nas paredes leste e oeste.

     - E também no telhado.

     - No telhado? - Williams ficou a olhar para as enormes traves e barrotes que ocultavam as telhas.

     - Para manter a vigilância para leste e oeste - ordenou Sharpe. Enquanto não conseguisse ver os flancos dos franceses, sentir-se-ia vulnerável a um ataque de surpresa.

     De novo lá em baixo, Sharpe ordenou que fosse feito um novo orifício junto ao corpo da chaminé. O lavrador espanhol, entendendo o que era preciso fazer, apareceu com uma picareta e começou a bater na parede. O crucifixo, que nela estava pendurado, caiu com a força das pancadas do homem.

     - Canalhas à direita! - gritou Harper da janela. As espingardas estalaram. Os casacas-verdes que disparavam, baixavam-se, deixando outros tomar o seu lugar. Os dragões apeados tinham tentado correr até à quinta, mas três deles encontravam-se agora numa poça de lama; dois debateram-se e conseguiram pôr-se em segurança a coxear, o terceiro ficou imóvel. Sharpe viu que a chuva caía sobre a água ensanguentada.

     Depois, por alguns momentos, houve uma paz relativa.

     Nenhum dos homens de Sharpe fora ferido. Estavam ofegantes e encharcados, mas ilesos. Mantiveram-se acocorados sob a ameaça do fogo das carabinas, que atingia as janelas, mas as balas apenas causavam prejuízo a casa. Sharpe espreitou e viu que o inimigo estava escondido em valas ou por trás do monte de estrume. A mulher do lavrador oferecia nervosamente rodelas de chouriço aos casacas-verdes.

     George Parker saiu de gatas da despensa. Esperou até conseguir a atenção de Sharpe e, quando a conseguiu, aproveitou para lhe perguntar que acção tencionava seguir.

     O tenente Sharpe informou o senhor Parker que tencionava esperar pelo cair da noite.

     Parker engoliu em seco.

     - Isso pode levar horas!

     - Pelo menos cinco, senhor Parker - respondeu Sharpe, enquanto carregava mais uma vez a espingarda. - A menos que Deus queira parar o Sol. Parker ignorou a leviandade de Sharpe.

     - E depois?

     - Atacar, senhor Parker. Mas não antes da calada da noite. Atacar os canalhas quando eles menos esperarem. Matar alguns, na esperança de confundir os outros. - Sharpe endireitou a espingarda e pressionou a caçoleta. - Não nos podem fazer muito mal, desde que não façamos barulho.

     - Mas... - Parker estremeceu quando uma bala se incrustou na parede por cima da sua cabeça. - Tenente, a minha querida mulher deseja que nos garanta que a nossa carruagem nos será devolvida.

     - Receio bem que não, senhor Parker - Sharpe ajoelhou, viu uma sombra mexer-se ligeiramente por trás do monte de estrume e disparou a espingarda. Uma espiral de fumo saiu da arma e um bocado de papel a arder fumegou até ao chão.

     - Não vai haver tempo, senhor Parker. - baixou-se, retirou o cartucho da bolsa e mordeu a bala.

     - Mas e os meus Testamentos?

     Sharpe não teve vontade de revelar que, quando os vira pela última vez, estes estavam espalhados pela lama espanhola. Cuspiu a bala para dentro da espingarda.

     - Os seus Testamentos, senhor Parker, estão agora nas mãos do exército de Napoleão. - Meteu a bola, o papel e a pólvora no cano da espingarda. O salitre deixou-lhe a boca seca e a saber mal.

     - Mas... - mais uma vez o estalo de uma bala de carabina silenciou Parker. Esta bateu num tacho pendurado numa trave. A bala fez um buraco no metal, bateu na trave seguinte e caiu aos pés de Sharpe. Este pegou nela, fazendo-a saltar na mão porque estava muito quente e depois cheirou-a. Parker franziu a testa, perplexo.

     - Correm rumores de que os franciús envenenam as balas, senhor Parker - Sharpe disse-o em voz alta, para que os seus homens, que em parte, acreditavam na história, o pudessem escutar. - Mas não é verdade.

     - Não é?

     - Não, senhor Parker. - Sharpe meteu a bala na boca, sorriu e engoliu-a. Os homens riram da expressão do rosto de George Parker. Sharpe voltou-se para ver os progressos feitos pelo lavrador com o buraco da parede. Esta, como todas as da quinta, era extremamente grossa e, embora a picareta já tivesse feito um furo de mais de trinta centímetros, ainda não se via a luz do sol através dele.

     Uma rajada de tiros de carabina embateu na janela das traseiras. Os fuzileiros, incólumes, gritavam em sinal de desafio, mas Parker, homem de cabelos brancos, não partilhava aquele entusiasmo.

     Estão condenados, tenente!

     - Senhor Parker, se não tem nada melhor para...

     - Tenente, nós somos civis! Não vejo razão para aqui ficarmos e morrermos convosco! - George Parker encontrara coragem debaixo de fogo, coragem para mostrar a sua alma timorata e exigir uma rendição.

     Sharpe empunhou a espingarda. O senhor quer ir-se embora?

     Quero uma bandeira branca, homem! - Parker estremeceu, quando outra bala fez ricochete sobre a sua cabeça.

     - Se é isso que quer, senhor Parker... - mas antes de Sharpe poder terminar a frase, ouviu-se o grito de pânico vindo lá de cima do sargento Williams, a que se seguiu o estalar de uma enorme rajada de fogo inimigo que atingiu a frente da casa. Um fuzileiro foi empurrado da janela, com sangue a jorrar-lhe da cabeça. Dispararam duas espingardas, também lá de cima e depois a janela do lado norte ficou tapada pelos dragões que tinham atacado o oculto ângulo ocidental da casa. Sharpe e vários soldados dispararam, mas os dragões puxavam as cadeiras que bloqueavam a janela. Apenas foram reprimidos quando a mulher do lavrador, gritando desesperada e usando uma força que parecia impossível numa pessoa tão magra, arrancou o panelão do gancho e lançou a água da barrela para cima do inimigo. O líquido a ferver, afastou os franceses, como se um canhão tivesse sido disparado contra eles.

     - Meu Tenente! - Harper encontrava-se à porta da cozinha. Ouviu-se um estalo no corredor, quando os franceses deitaram abaixo a porta sul que o irlandês não tinha bloqueado com tanta segurança como a porta norte. Um grupo de dragões tinha-se aproveitado do ataque, para lançar uma carga contra o outro lado da casa e estava agora dentro do corredor central. Harper disparou a espingarda pela porta da cozinha que instantaneamente se partiu em dois lugares quando os franceses replicaram. As duas balas atingiram a mesa.

     A cozinha estava cheia de fumo de pólvora. Os homens faziam turnos para disparar pelas janelas e depois voltavam a carregar com uma velocidade fantástica. O cocheiro esvaziara o pistolão pela porta e foi recompensado com um grito de dor.

     - Abra! - disse Sharpe.

     Harper obedeceu. Um francês estupefacto, erguendo a carabina, encontrou-se diante da espada de Sharpe que avançou com tanta violência que a ponta da arma tocou na parede oposta depois de ter atravessado o corpo do dragão. Harper, lançando os seus estranhos gritos guerreiros, seguiu Sharpe com um machado que arrancara da parede da cozinha. Fê-lo cair sobre outro homem, tornado a passagem escorregadia de tanto sangue.

     Sharpe puxou e libertou a sua espada. A lâmina de um francês raspou-lhe o braço, fazendo jorrar o sangue quente; depois lançou-se contra outro homem, empurrando-o contra a parede do corredor e batendo-lhe no rosto com o punho da espada. Uma espingarda explodiu-lhe ao lado da cabeça e arrancou da porta outro dragão. Os porcos guincharam aterrorizados, enquanto Sharpe passava por cima de um francês que rastejava sangrando do ventre. Ouviu-se outra espingarda no corredor e Harper gritou que o inimigo tinha partido.

     A bala de uma carabina ecoou, fazendo ricochete nas paredes e enterrando-se na porta em frente. Sharpe entrou no compartimento onde se encontravam os animais e viu uma tina que poderia servir para barricar a passagem. Arrastou-a para fora e os porcos aproveitaram a oportunidade para fugir antes que ele fechasse a porta exterior e a trancasse com a tina.

     - Os franceses são uns felizardos - disse Harper. - Carne de porco para o jantar.

     A acção acalmou de novo. Guinchos horríveis anunciavam a morte dos porcos e silenciaram momentaneamente a fuzilaria dos tiros das espingardas que enchiam a quinta. Não apareceram mais franceses a servir de alvo. Na cozinha havia um fuzileiro morto e outro ferido. Sharpe dirigiu-se à escada.

     - Sargento Williams?

     Não houve qualquer resposta.

     - Sargento Williams! Como estão esses orifícios?

     Foi Dodd quem respondeu.

     - O nosso Sargento morreu, meu Tenente. Levou um tiro num olho.

     - Valha-me Deus!

     - Estava a vigiar do telhado, meu Tenente.

     - Veja se alguém continua a olhar lá para fora!

     Williams estava morto. Sharpe sentou-se no fundo da escada a olhar para Patrick Harper. Era o óbvio substituto, a única escolha possível, mas Sharpe suspeitava que o gigantesco irlandês rejeitaria a sua oferta. Portanto, pensou, não deveria oferecer-lhe a promoção, mas impor-lha simplesmente.

     - Harper?

     - Meu Tenente?

     - Passa a ser sargento.

     - Não passo, não senhor.

     - Já é sargento!

     - Não, meu Tenente. Neste maldito exército, não.

     - Com mil raios! - Sharpe cuspiu a blasfémia para o homem enorme, mas Harper limitou-se a dar meia volta para olhar pela janela, onde espirais de fumo traíam a posição de alguns dragões dentro da vala.

     - Senhor Sharpe? - Uma mão tímida tocou no braço ferido de Sharpe. Era de novo George Parker. - A minha querida mulher e eu discutimos o assunto, tenente, e gostaríamos que comunicasse com o comandante francês - de repente, Parker viu que tinha nos seus dedos o sangue de Sharpe. Empalideceu e gaguejou. - Por favor, não pense que queremos desertar numa altura destas, mas...

     - Bem sei - Sharpe interrompeu-o. - Pensa que estamos condenados. Falava bruscamente, não porque reprovasse o desejo de segurança de Parker, mas porque se os Parkers partissem ele perderia Louisa. Poderia tê-los deixado na estrada, em segurança, dentro da sua carruagem, mas fizera-os entrar em pânico e fugir porque não quisera perder a companhia da jovem. Porém, Sharpe sabia não ter agora outra alternativa, pois as duas mulheres não deveriam ter de aguentar o assalto das tropas francesas, nem o perigo de uma bala perdida. Louisa teria de partir.

     Sobre a mesa onde se encontrava o fuzileiro morto entre a loiça partida, com o sangue ainda a escorrer-lhe do cabelo, havia um bocado de pano fino que, apesar de cinzento e sujo, poderia passar por uma bandeira de paz. Sharpe prendeu-o na ponta da sua espada e depois dirigiu-se à janela. Os fuzileiros abriram caminho.

     Estendeu o braço e ergueu bem alto a bandeira branca. Agitou-a da esquerda para a direita e foi recompensado com um grito lá fora. Houve uma pausa, durante a qual Sharpe se deixou ficar muito direito,

     - O que deseja, inglês? - gritou uma voz.

     - Conversar.

     - Então, saia. Mas sozinho!

     Sharpe arrancou o pano da espada, embainhou-a e dirigiu-se ao corredor, Passou por cima de um dragão morto, afastou a arca da porta norte e depois, sentindo-se estranhamente nu e exposto, dirigiu-se para a chuva. Para falar com o homem da peliça vermelha.

    

     Uma dezena de franceses feridos encontravam-se no celeiro, enchendo o seu cavernoso espaço com o fedor do sangue, pus e vinagre canforado. As baixas jaziam num extremo sobre toscos catres de feno, enquanto no outro, por detrás de um monte de manjedouras, os oficiais tinham montado um improvisado posto de comando sobre um barril de água voltado ao contrário. Meia-dúzia de oficiais encontrava-se junto do barril e, entre eles, encontrava-se o oficial de Caçadores, de peliça vermelha, que cumprimentou calorosamente Sharpe num inglês fluente.

     - Sou o coronel Pierre de I’Eclin e tenho a honra de pertencer aos Caçadores da Guarda Imperial de sua Majestade.

     Sharpe retribuiu a sugestão de uma vénia.

     - Tenente Richard Sharpe, dos Fuzileiros.

     - Com que então dos Fuzileiros? Pelo tom como fala parece ter muito orgulho. - De l’Eclin era um homem bem-parecido, tão alto como Sharpe, de forte constituição, queixo quadrado e cabelo loiro. Fez um gesto na direcção de um cantil de vinho que se encontrava sobre a improvisada mesa.

     - O fuzileiro aceita um pouco de vinho?

     Sharpe não tinha a certeza se se tratava de troça ou de um cumprimento.

     - Muito obrigado, meu Coronel.

     O caçador despediu um tenente com um aceno, insistindo em ser ele a encher duas pequenas taças de prata. Estendeu uma na direcção de Sharpe mas, antes que o fuzileiro lhe pudesse pegar, De l’Eclin puxou-a ligeiramente para si, como se quisesse ter oportunidade de estudar o seu rosto cicatrizado.

     - Não nos conhecemos já, tenente?

     - Junto à ponte. O meu Coronel partiu-me o sabre.

     De l’Eclin pareceu encantado. Entregou a taça a Sharpe e fez estalar os dedos quando se lembrou.

     - E o tenente aparou os golpes! Foi extraordinário! Ou terá sido sorte?

     - Foi provavelmente sorte, meu Coronel.

     - Os soldados devem ter sorte e considere que a tem, já que hoje eu não o apanhei em campo aberto. De qualquer forma, tenente, saúdo a excelente defesa dos seus fuzileiros. É uma pena que tenha de terminar assim.

     Sharpe bebeu o vinho para absorver o gosto amargo da pólvora que sentia na boca.

     - Ainda não terminou, meu Coronel.

     - Ah não? - De l’Eclin ergueu delicadamente o sobrolho.

     - Meu Coronel, eu estou aqui apenas em nome de uns civis ingleses que se viram encurralados dentro da quinta e que desejam partir. Estão dispostos a confiar na sua bondade.

     - Na minha bondade? - De l’Eclin soltou uma estrondosa gargalhada. Tenente, já lhe disse que era um caçador da Guarda Imperial. Um homem não chega a uma posição de honra, muito menos ao posto de coronel, por bondade. Mesmo assim, estou grato por aquilo que é indubitavelmente um cumprimento. Quem são esses civis?

     - Viajantes ingleses, meu Coronel.

     - E estes livros pertencem-lhes? - De l’Eclin apontou para dois enlameados Testamentos em espanhol, que se encontravam sobre o barril voltado ao contrário. Os franceses tinham evidentemente sentido curiosidade pelos livros, curiosidade essa, que Sharpe tentou satisfazer. São missionários metodistas, meu Coronel, que tentam arrancar Espanha ao papado.

     De l’Eclin observou Sharpe em busca de sinais de troça e, como não os encontrou, soltou uma gargalhada.

     - Será mais fácil terem esperança de transformar tigres em vacas! Um soldado tem sempre o privilégio de encontrar pessoas tão estranhas. Dá-me a sua palavra que esses metodistas não transportam armas?

     Sharpe esqueceu propositadamente a pequena pistola de Louisa.

     - Dou sim, meu Coronel.

     - Pode mandá-los sair. Só Deus sabe o que faremos com eles, mas não vamos matá-los.

     Muito obrigado, meu Coronel - Sharpe deu meia volta para partir. Mas não parta ainda, tenente. Gostaria de falar consigo - De l’Eclin viu uma centelha de preocupação no rosto de Sharpe e abanou a cabeça. - Não vou retê-lo contra a sua vontade. Respeito as bandeiras de tréguas.

     Sharpe dirigiu-se à porta do celeiro e gritou para dentro da casa que a família Parker podia sair. Sugeriu também que os três espanhóis que se encontravam na quinta aproveitassem para fugir, mas, aparentemente, nenhum deles quis arriscar a hospitalidade francesa, pois apenas a família Parker surgiu da casa sitiada. A senhora Parker foi a primeira a aparecer, batendo com os pés na lama e nas poças de água, transportando a sua sombrinha como uma arma.

     - Santo Deus - murmurou De l’Eclin, atrás de Sharpe. - Porque não a recrutam?

     George Parker saiu, hesitante, para a chuva, depois surgiu Louisa e De L’Eclin soltou uma expressão de apreço.

     - Parece que temos de lhe agradecer.

     - Vai ver que não, meu Coronel, assim que conhecer a tia.

     - Não tenciono levar a tia para a cama. - De L’Eclin ordenou ao capitão que se encarregasse dos civis e depois atraiu de novo Sharpe para o celeiro. - E então, meu caro tenente dos Fuzileiros, que tenciona fazer agora?

     Sharpe ignorou o tom de superioridade e fingiu não compreender.

     - Como disse, meu Coronel?

     - Deixe-me descobrir os seus planos - o francês alto, com a elegante peliça a cobrir-lhe os ombros, percorria o celeiro de um lado para o outro. Conseguiu furar as paredes do quarto superior da quinta, o que significa que não poderei surpreendê-lo, senão depois do cair da noite. Um ataque nocturno poderá ser bem-sucedido, mas será arriscado, principalmente, porque, sem dúvida, terá um bom arsenal de combustível dentro da casa, com o qual planeia certamente iluminar o exterior - lançou um olhar divertido para observar a reacção do tenente, mas este nada deixou transparecer. De L’Eclin fez uma pausa para voltar a encher a taça de Sharpe. - Parece-me que julga poder sobreviver, pelo menos a mais um ataque, e calcula também que, se o ataque falhar, eu vou esperar pela madrugada. Portanto, cerca das duas ou três da manhã, quando os meus homens estiverem mais cansados, vai realizar a sua incursão. Imagino que se dirigirá para ocidente, pois existe uma ravina cheia de mato a uma centena de passos. Uma vez lá, sentir-se-á relativamente em segurança e há atalhos ladeados de árvores pelo monte acima. De L’Eclin começara de novo a percorrer o celeiro, mas voltou-se repentinamente para Sharpe. - Não tenho razão?

     O caçador fora extremamente preciso. Sharpe não tinha conhecimento da ravina, embora a pudesse ter visto do buraco do telhado, escolhendo-a, sem dúvida, para fazer o seu ataque naquela direcção.

     - E então? - insistiu De l’Eclin.

     - Os meus planos eram um pouco diferentes - respondeu Sharpe.

     - Ah sim? - O oficial de Caçadores parecia extremamente delicado.

     - Planeava capturar os seus homens e oferecer-lhes o mesmo tratamento que eles eram àqueles aldeãos espanhóis, nas montanhas.

     - Violá-los? - sugeriu De l’Eclin e depois desatou a rir. - Alguns até poderiam gostar, mas garanto-lhe que a maioria ofereceria resistência à vossa brutal, mas sem dúvida muito britânica luxúria.

     Sharpe nada disse, sentindo-se a fazer figura de tolo perante a arrogância do francês. Tinha consciência do seu esfarrapado uniforme. A casaca rasgada e ensanguentada, perdera o chapéu, as calças abertas à falta dos botões de prata e as botas baratas feitas em tiras. Pelo contrário, De l’Eclin estava magnificamente fardado. O caçador trajava um dólmen vermelho e justo, com alamares e botões de ouro, coberto pela sua peliça escarlate, que era uma peça de vestuário perfeitamente inútil, mas a grande moda entre os oficiais de cavalaria. A peliça não era mais que um casaco a cobrir um ombro como se fosse uma capa. A de De L’Eclin tinha um cordão dourado a enfeitá-la, estava presa no pescoço com uma corrente de ouro e era forrada com pêlo macio de ovelha negra. As mangas vazias chegavam às correntes douradas do cinto do sabre. A parte interior e a bainha das calças escuras tinham sido reforçadas com cabedal negro para melhor resistirem ao roçar da sela, enquanto as costuras exteriores estavam cobertas por fitas vermelhas enfeitadas com botões de ouro. As botas altas eram de couro macio. Sharpe imaginou o preço de um tal uniforme, calculando que seria superior ao seu salário de um ano.

     De l’Eclin abriu a bolsa e retirou lá de dentro dois charutos, Ofereceu um ao fuzileiro, que não viu razão para o recusar. Os dois homens partilharam, de bom grado, a chama da pederneira e o francês, lançando uma espiral de fumo por cima da cabeça de Sharpe, suspirou.

     - Tenente, na minha opinião, o senhor e os seus fuzileiros deviam render-se.

     Sharpe manteve um teimoso silêncio. De l’Eclin encolheu os ombros.

     - Vou ser honesto para consigo, tenente... - fez uma pausa. - Sharpe, não foi o que disse?

     - Sim, meu Coronel.

     - Vou ser honesto para consigo, tenente Sharpe. Não desejo que os meus homens estejam aqui de noite. Temos a honra de ser a vanguarda do nosso exército e, como tal, estamos expostos. Os camponeses espanhóis sentem-se por vezes tentados a transformarem-se num aborrecimento. Se eu aqui estiver esta noite, posso perder alguns soldados por conta das facas na escuridão. Esses homens terão uma morte horrível e não penso que a melhor cavalaria do mundo deva sofrer uma morte tão ignóbil e dolorosa. Assim, espero que se rendam antes do cair da noite. De facto, se não o fizerem já, mais tarde não aceitarei a rendição. Fiz-me compreender?

     Sharpe escondeu o seu espanto pela ameaça.

     - Perfeitamente, meu Coronel. Apesar do assentimento de Sharpe, De l’Eclin não resistiu a reforçar a sua ameaça.

     - Morrerão todos, tenente. Não lentamente, como matámos os camponeses espanhóis, mas mesmo assim hão-de morrer. Amanhã o exército virá ter comigo e eu usarei a artilharia para esmagar os fuzileiros. Será uma lição para os outros inimigos de França não desperdiçarem o tempo do imperador,

     - Sim, meu Coronel.

     De L’Eclin sorriu com ar simpático.

     - Essa afirmativa significa que se rendem?

     - Não, meu Coronel. Sabe, meu Coronel, eu não acredito nas vossas armas. Carregam todos redes de forragem. - Sharpe apontou para os cavalos dos oficiais que se encontravam para lá da porta de trás do celeiro, escondidos dos fuzileiros. Todos eles tinham pesados sacos de rede, cheios de feno, pendurados na sela. - Se o vosso exército viesse ter convosco, meu Coronel, teríeis carroças para transportar o feno. Andam em patrulha, mais nada, e se eu resistir o tempo suficiente, acabarão por partir.

     Durante alguns segundos, o coronel francês olhou-o com ar pensativo. Era certo que, tal como minutos antes, ele tinha adivinhado a táctica de Sharpe, o tenente adivinhara a sua. De L’Eclin encolheu os ombros.

     - Admiro a sua coragem, tenente. Mas não lhe servirá de muito. Não há outra alternativa. O seu exército foi derrotado e vai fugir para a pátria, os exércitos espanhóis estão divididos e espalhados. Ninguém o ajudará. Pode render-se agora ou pode continuar a ser teimoso, o que significa que todos os seus homens serão feitos em tiras pelas minhas espadas - a voz do coronel perdera o tom brilhante e trocista e passara a ser terrivelmente séria. - De uma maneira ou de outra, tenente, vê-los-ei a todos mortos.

     Sharpe sabia que não teria possibilidades de vencer aquele cerco, mas era demasiado casmurro para ceder.

     - Preciso de tempo para pensar no assunto, meu Coronel.

     - Tempo para nos demorar, é isso? - O caçador encolheu os ombros com ar de desprezo. - Não adianta, tenente. Acha realmente que eu vim até aqui para deixar fugir o major Vivar? - Sharpe olhou para ele, sem compreender. De l’Eclin não entendeu também a expressão de Sharpe, pensando que se tratava de um espanto culpado. - Sabemos que está consigo, tenente. Ele e o seu precioso cofre!

     - Ele... - Sharpe não sabia o que dizer.

     - Está a ver, tenente, agora não vou abandonar a caça. Fui encarregado pelo próprio imperador de levar esse cofre para Paris e não pretendo desiludi-lo - De l’Eclin sorriu, condescendente. - Claro que, se me entregar o major e a sua arca, poderei deixar-vos prosseguir para sul. Duvido que alguns fuzileiros esfarrapados ponham em perigo o futuro do império.

     - Ele não está comigo! - protestou Sharpe.

     - Tenente! - gritou De l’Eclin.

     - Pergunte aos metodistas! Há dois dias que não vejo o major Vivar!

     - É mentira - disse uma voz por trás das manjedouras dos carneiros, de onde surgiu o civil de casaca negra e botas de montar brancas. - Está a mentir, inglês.

     - Vá para o diabo, seu canalha - rosnou Sharpe, respondendo ao insulto feito em sua honra.

     O coronel De l’Eclin avançou rapidamente para se colocar entre os dois homens furiosos. Dirigiu-se em inglês ao homem de casaca negra, embora este continuasse a olhar para o fuzileiro.

     - Parece-me, meu caro conde, que o seu irmão espalhou com êxito um boato falso. Afinal não está de viagem para o sul para conseguir novas montadas.

     - Vivar é irmão dele? - A confusão de Sharpe era completa. Vivar, cujo ódio pelos franceses era tão avassalador, tinha um irmão que cavalgava com o inimigo? Que deveria ter assistido à violação e morte das mulheres e crianças espanholas? O seu assombro foi por certo tão evidente que, De L’Eclin, espantado por Sharpe ignorar a relação, apresentou-os formalmente.

     - Permita-me que lhe apresente o conde de Mouromorto, tenente. É, de facto, irmão do major Vivar. Deve entender que, ao contrário das mentiras contadas pelos jornais ingleses, há muitos espanhóis que apreciam a presença francesa. Acreditam que é tempo de varrer as velhas superstições e práticas que tolheram a Espanha durante tanto tempo. O conde é um desses homens. - De l’Eclin fez uma vénia no final da descrição, mas o conde limitou-se a olhar fixamente o inglês.

     Sharpe devolveu-lhe o olhar hostil.

     - Deixou que este canalha matasse o seu próprio povo?

     Por um segundo, o conde pareceu querer atirar-se a ele. Era mais alto do que Blas Vivar, mas agora, que se encontrava mais perto, Sharpe via as seme-lhanças. Tinha o mesmo queixo forte e olhos ardentes que agora fitavam Sharpe com hostilidade.

     - Que sabe o senhor de Espanha, tenente? - perguntou o conde, - Ou das desesperadas necessidades de Espanha? Ou dos sacrifícios que o seu povo deve fazer se quiser conhecer a liberdade?

     - Que sabe o senhor de liberdade? Não passa de um assassino canalha e sanguinário.

     - Basta! - De l’Eclin ergueu a mão esquerda para conter a ira de Sharpe. - Diz então que o major Vivar não está consigo?

     - Não está comigo, nem ele nem o seu maldito cofre. Se é que isso é da sua conta, o que julgo não ser. Separei-me do major Vivar, zangado com ele, e não me importo se não o voltar a ver! Mas ele enganou-vos, não é verdade? De l’Eclin pareceu divertido com a raiva de Sharpe.

     - Talvez, mas o senhor é que foi o enganado, tenente. O senhor e os seus fuzileiros. - O coronel parecia fascinado pela palavra. Conhecia hussardos, caçadores, lanceiros, dragões e artilheiros, estava familiarizado com sapadores, couraceiros e granadeiros, mas nunca ouvira descrever um homem como ”fuzil”. - Por outro lado, se o major Vivar estiver consigo, o senhor vê-se obrigado a negar a sua presença, não é verdade? Tal como se vê obrigado a defendê-lo, o que talvez explique a sua persistência nessa luta desesperada.

     - Ele não está aqui - disse Sharpe, cansado. - Perguntai aos metodistas.

     - Pode estar certo de que vou perguntar à jovem - disse alegremente De l’Eclin.

     - Faça-o! - Sharpe cuspiu as palavras. Pensou que Blas Vivar tinha sido soberbamente inteligente, ao usar um boato para convencer os franceses de que tinha fugido para sul, com os fuzileiros, sacrificando-os, portanto. Mas Sharpe não conseguia sentir raiva contra ele, apenas uma relutante admiração. Lançou o charuto para o chão. - Vou voltar.

     De l’Eclin acenou afirmativamente.

     - Dou-lhe dez minutos para se resolver a respeito da rendição. Au revoir, Lieutenant.

     - Também pode ir para o inferno.

     Sharpe voltou à quinta. Tinha sido enganado e encontrava-se em maus lençóis. Até certo ponto era aquela a vingança de Vivar pelo abandono e pela troça que dele fizera. Nada mais havia a fazer senão entrar em combate.

     - O que queria o idiota, meu Tenente? - perguntou Harper.

     - A nossa rendição.

     - Logo vi - Harper cuspiu as palavras para o fogo.

     - Se não nos rendermos já, não deixarão que o façamos mais tarde.

     - Quer dizer que tem o vento a empurrá-lo, não é verdade? Tem medo da noite?

     - Exactamente.

     - Que vamos fazer, meu Tenente?

     - Vamos dizer-lhe que vá para o inferno e promover-te a sargento. Harper fez uma careta.

     - Não, meu Tenente.

     - Por que raio é que não? O gigante abanou a cabeça.

     - Não me importo de dizer aos camaradas o que hão-de fazer durante um combate, meu Tenente. O capitão Murray deixava-me sempre fazê-lo e assim hei-de continuar, quer o meu Tenente queira, quer não. Mas não desejo mais. Não me encarregarei dos castigos ou dos louvores no lugar do meu Tenente.

     - Oh meu Deus, mas porque não?

     - Por que raio haveria de o fazer?

     - Para que raio me salvaste a vida ali fora? - Sharpe apontou para lá da quinta, onde, na confusão para fugir aos dragões, fora salvo pelas rajadas de Harper.

     O gigante irlandês parecia embaraçado.

     - Deve ter sido culpa do major Vivar, meu Tenente.

     - Que raio estás tu a dizer?

     - Bom, meu Tenente, ele disse-me que, com excepção de um homem, o meu Tenente era o melhor combatente que ele já vira. E que, enquanto os pagãos ingleses estivessem a lutar por uma Espanha livre e católica, eu deveria mantê-lo vivo.

     - O melhor?

     - Com uma excepção.

     - Quem?

     - Eu, meu Tenente.

     - O major é um mentiroso - disse Sharpe. Pensou que deveria aceitar o apoio que lhe era oferecido, o apoio de Harper no campo de batalha. Até isso seria melhor do que não ter qualquer ajuda. - Então, já que és um combatente tão bom, porque não me dizes como havemos de sair deste maldito buraco?

     - Provavelmente não conseguimos sair, a verdade é essa. Mas vamos dar aos canalhas uma luta dos diabos e eles não se vão mostrar tão presumidos da próxima vez que encontrarem os fuzileiros.

     Uma bala de carabina entrou pela janela da cozinha. Os dez minutos de De l’Eclin tinham terminado e a luta já recomeçara.

     De um dos buracos do telhado, Sharpe viu a ravina coberta de mato de que l’Eclin tinha falado. A norte, num recinto murado, pastava a maioria dos cavalos dos dragões.

     - Hagman!

     O velho caçador furtivo subiu a escada.

     - Meu Tenente?

     - Põe-te em posição de disparar e começa a matar cavalos. Os canalhas vão ficar entretidos.

     Lá em baixo, a dona da quinta ocupava-se da comida. Apresentou uma panela de pescadinhas e carapaus salgados, prova de como o mar se encontrava ali perto, e distribuiu os alimentos pelos soldados. O marido, tendo completado o buraco, carregara uma caçadeira com pólvora e disparava-a para oriente, com um ruído ensurdecedor.

     Os franceses levaram os cavalos mais para norte. Do celeiro vinha o cheiro perturbador da carne de porco a ser cozinhada. A chuva caiu com mais força, mas depois parou. O fogo da carabina continuou, mas sem causar grandes danos. Um fuzileiro foi atingido ao de leve, mas quando soltou um gemido, os colegas troçaram dele com desprezo.

     Ao fim da tarde, alguns dragões lançaram uma carga pouco eficaz através do pomar que se encontrava a norte, mas facilmente se desencorajaram. Sharpe, correndo de janela para janela, perguntava a si próprio que esquema estaria De l’Eclin a preparar. Gostaria também de saber o que faria Blas Vivar com o tempo que ganhara ao lançar De l’Eclin naquela falsa perseguição. O cofre era ainda mais importante do que Sharpe suspeitara; tão importante, que o próprio imperador enviara o oficial de Caçadores para o capturar. Sharpe calculava que nunca viria a saber o que ele continha. Seria capturado ou morto ali mesmo, ou então, quando os franceses se cansassem daquela vigília, partiriam e Sharpe continuaria para sul. Arranjaria um navio para a pátria, juntar-se-ia ao grosso do exército e, supunha ele, com um baque no seu coração, voltaria a ser o oficial encarregado da manutenção. Até àquele momento ainda não se tinha apercebido do quanto odiava o maldito posto.

     - Meu Tenente! - gritou uma voz assustada. - Meu Tenente! Sharpe correu para a janela da frente da cozinha.

     - Fogo!

     Os franceses tinham-se protegido com as sebes das pastagens. Tinham-nas partido e juntado para formar pesados biombos de vidoeiros e canas com altura suficiente para esconder meia-dúzia de homens e resistentes para poderem deter as balas das espingardas. Os improvisados escudos tinham sido empurrados pelo pátio fora, aproximando-se cada vez mais. Sharpe sabia que, uma vez que chegassem perto da casa, os franceses usariam machados e paus para partirem as portas. Disparou a sua própria espingarda, sabendo de antemão que a bala se perderia contra a madeira leve. O troar dos disparos era de novo ensurdecedor.

     Sharpe deu a volta à mesa para olhar pela janela que dava para norte. O fumo da pólvora saía do pomar, mostrando que os dragões já lhes impediam aquela saída, mas, mesmo assim, era a sua única esperança. Gritou para o cimo da escada.

     - Todos para baixo! Voltou-se para Harper.

     - Levaremos os espanhóis connosco. Vamos para sul.

     - Vão apanhar-nos.

     - Será melhor do que morrer como ratazanas dentro de um poço. Fixar as baionetas!

     Olhou para o quarto lá de cima.

     - Depressa!

     - Meu Tenente! - Era Dodd que o chamava; o silencioso Dodd que espreitava pelo buraco do telhado e que parecia estranhamente emocionado. - Meu Tenente!

     Porque um novo clarim desafiava o céu.

     O major Vivar desembainhou a espada. Ergueu-a bem alto e, depois, quando o clarim fez soar a sua nota mais alta, baixou a lâmina com força.

     Os cavalos avançaram. Eram uma centena; todos os que o tenente Davila trouxera de Orense. Subiram a ravina, encontraram solo firme na pastagem e carregaram.

     O galego de uniforme escarlate, que segurava o estandarte, baixou-o. A bandeira ondulou ao vento. Os dragões franceses, apeados, voltaram-se em estado de choque.

     - Santiago! Santiago! - Vivar soltou a última sílaba do seu grito de guerra enquanto os seus caçadores cavalgavam atrás dele. O resto da sua companhia de elite de uniformes escarlates encontrava-se aqui, reforçada pelos camaradas de casaca azul, que tinham vindo para norte com o tenente Davila. Voavam pelo ar torrões de terra soltos pelas patas dos cavalos. - Santiago! - Havia uma ravina mais adiante, ladeada por dragões que tinham estado a disparar contra a quinta e que agora se erguiam, davam meia volta e atiravam contra a cavalaria espanhola. Uma bala assobiou junto ao rosto de Vivar.

     - Santiago! - O major chegou à ravina, saltou-a e a sua espada sibilou para fazer jorrar o sangue do rosto de um francês.

     A lança bateu num dragão, enterrando-lhe a bandeira no peito. O porta-estandarte puxou o pau, soltando o seu próprio grito de guerra e, depois, foi atingido no pescoço por uma bala de carabina. Um cavaleiro, que veio por trás, agarrou no estandarte e ergueu-o de novo, encharcado em sangue.

     - Santiago!

     Os dragões apeados fugiam pela quinta, perseguidos pela cavalaria espanhola que os esmagava. As espadas cortavam. Os cavalos estrebuchavam, assustados, tentando morder com os dentes amarelos e agredir com os cascos. As espadas entrechocavam-se, soando como martelos de ferreiros. Um espanhol caiu da sela, um francês gritou quando uma espada o prendeu contra a parede do celeiro. A protecção feita com as sebes fora abandonada na lama.

     A carga expulsara os franceses do pátio e provocara uma carnificina na ravina a oriente. O corneteiro tocava a reunir, enquanto Vivar puxava as rédeas, para obrigar o cavalo a dar meia volta e recuar. Um dragão francês, que recuara no primeiro ataque, fez uma fraca investida em direcção ao major e foi recompensado com um corte no pescoço.

     - Fuzileiros! Fuzileiros! - gritava Vivar.

     Alguns oficiais franceses saíram do celeiro a correr, mas Vivar lançou o cavalo contra eles, seguido de perto pelos seus homens. Os franceses voltaram-se e fugiram. Os caçadores dirigiram-se para o celeiro, curvaram-se para entrar e cá fora soaram gritos. Os dragões montados apareceram e Vivar ordenou aos homens que formassem uma linha, que carregassem e que combatessem por Santiago.

     Foi então que os fuzileiros apareceram, vindos de dentro da casa, partindo a porta cravejada de balas e correndo para o pátio com as baionetas em riste. Ovacionavam os espanhóis.

     - Para leste! - gritou Vivar, fazendo-se ouvir por cima dos gritos e apontando com a espada. - Para leste!

     Os fuzileiros obedeceram, afastando-se do mar, dirigindo-se à ravina arborizada, onde estariam temporariamente a salvo dos dragões franceses. Estes, depois de se terem recuperado do choque do ataque de Vivar, e apercebendo-se de que eram em muito menor número do que os cavaleiros espanhóis, retomaram os seus postos na estrada abaixo da quinta. O clarim francês tocou para avançar.

     Vivar deixou chegar o contra-ataque. Cedeu terreno e deixou que os franceses ocupassem a quinta, enquanto ele recuava para a ravina. Os seus homens disparavam montados. Quando recarregavam as espingardas, metiam as balas pelo Cano, com varetas ligadas por uma manga articulada à boca das armas, de modo a não as deixarem cair. O lavrador, a mulher e o cocheiro dos Parkers fugiram com os casacas-verdes.

     O último dos caçadores espanhóis caiu pela encosta da ravina. Os fuzi-leiros de Sharpe alinharam-se lá em cima, disparando contra os franceses, cujo avanço, embora entusiástico, estava condenado. A vegetação e os espinheiros da ravina obrigavam os dragões a afunilarem-se por atalhos estreitos cobertos pelos fuzileiros e, apercebendo-se do perigo, De l’Eclin fez os homens recuar. Alguns franceses, totalmente furiosos, picavam os cavalos para diante. Sharpe ficou a observar, enquanto as balas das espingardas destruíam a carga.

     - Cessar fogo!

     - Sigam-nos! - ordenou Vivar, do cimo da ravina.

     - Meu Tenente! - O grito de Harper obrigou Sharpe a dar meia volta. Louisa Parker corria pela pastagem, segurando a saia com a mão direita e a touca com a esquerda. Um grito de raiva soou na quinta, certamente o protesto desesperado da tia, que a jovem fingiu não ouvir. Contornou um cavalo caído e a sangrar. Um francês começou a correr em sua perseguição, mas Hagman fez cair o homem com um único tiro.

     - Tenente! Tenente! - gritava Louisa.

     - Deus todo-poderoso! - Harper riu-se ao ver a jovem ofegante e com os olhos muito abertos pela emoção do momento, atirar-se para a ravina e cair nos braços de Sharpe, como se ele a pudesse proteger de todo o mal do mundo.

     Sharpe, encantado pela chegada de Louisa, abriu os braços para a amparar no seu voo. Durante um segundo, ela agarrou-se a ele, rindo ofegante, mas depois afastou-se. Os homens de Sharpe soltaram uma ovação pela coragem da jovem.

     - Tenente! - Vivar picou o cavalo, para apressar a retirada dos fuzileiros e olhava agora, estupefacto, para a jovem que Sharpe tinha a seu lado. Tenente?

     Mas não havia tempo para explicações, não havia tempo para nada senão para uma fuga em pânico para leste, para longe da segurança do mar, regres-sando aos mistérios contidos na arca de Blas Vivar. O engano surtira efeito.

    

     Viajaram noite fora, subindo cada vez mais e suportando sempre um vento que trazia o frio da neve das ravinas da parte superior das encostas. Depois da meia-noite, Sharpe viu, ao longe, de um contraforte coberto de árvores, o brilho do mar a ocidente. Muito mais próximo, e por baixo dele no escuro emaranhado das terras baixas, as manchas das fogueiras que traíam homens acampados.

     - Os franceses - murmurou Vivar.

     - Quem diria que eu havia de o escoltar para sul - disse Sharpe em tom acusador.

     - Depois! Depois! - respondeu Vivar, tal como já o fizera a qualquer outra tentativa de Sharpe para levar o espanhol a explicar o seu comportamento. Atrás de Vivar, os fuzileiros curvavam-se ao peso das mochilas e subiam a vereda do monte. Os caçadores levavam os cavalos pelas rédeas, para não cansarem os animais, tendo em vista a longa jornada que os esperava. Apenas um ferido teve autorização para montar. Mesmo Louisa Parker foi avisada de que tinha de seguir a pé. Vivar, ao ver a jovem passar por eles, mostrou-se mal-humorado.

     - Deixo-o sozinho durante dois dias e encontra logo uma menina inglesa?

     Sharpe percebeu o tom hostil na voz do espanhol e decidiu responder em tom cordial.

     - Ela fugiu aos tios.

     Vivar cuspiu na direcção das luzes distantes.

     - Já sei tudo sobre eles! São os Parkers, não é verdade? Intitulam-se missionários, mas eu julgo que são uns metediços. Disseram-me que o bispo os ia expulsar de Santiago de Compostela, mas já vejo que os franceses o fizeram por nós. Porque foi que ela fugiu?

     - Creio que anda em busca de emoções mais fortes.

     - Poderemos oferecer-lhas - afirmou Vivar amargamente. - Mas nunca considerei os soldados companhia adequada para uma jovem; mesmo que seja uma jovem protestante.

     - Quer que lhe dê um tiro? - sugeriu acidamente Sharpe. Vivar voltou-se para o atalho.

     - Se ela me causar dificuldades, sou eu mesmo que o faço, tenente. Temos a nossa missão e não devemos pô-la em risco.

     - Missão? Que missão?

     - Depois! Depois!

     Subiram ainda mais, deixando o abrigo das árvores para emergir numa encosta batida pelo vento, coberta de erva fina e rochas traiçoeiras. A noite estava escura, mas os homens da cavalaria conheciam o caminho. Cruzaram um vale a grande altitude, atravessaram um ribeiro e subiram ainda mais.

     - Vou para um local remoto - disse Vivar. - Para um local em que os franceses não nos incomodem - percorreu alguns passos em silêncio. - Esteve então com Tomas?

     Sharpe apercebeu-se de que Vivar fizera um enorme esforço para fazer a pergunta em tom natural. Tentou responder do mesmo modo descuidado.

     É esse o nome do seu irmão?

     Se é que é meu irmão. Não considero irmão quem é traidor - a vergonha e a amargura de Vivar eram agora bem patentes. Antes não se mostrara disposto a discutir o conde de Mouromorto, porém, o assunto era agora inevitável. Sharpe conhecera o conde e precisava de explicações. Claro que Vivar decidira que tinha chegado o momento certo, naquela escuridão fria.

     - Como lhe pareceu ele?

     - Zangado - disse Sharpe, pouco à vontade.

     - Zangado? Deveria estar cheio de vergonha. Pensa que a única esperança de Espanha é aliar-se a França. - Caminhavam pelo cume do monte e Vivar tinha de gritar para se fazer ouvir por cima do ruído do vento. - Chamamos afrancesados a esses homens. Acreditam nas ideias francesas, mas, na verdade, não passam de traidores impiedosos. Tomas sempre se mostrou seduzido pelas ideias do Norte, mas tais coisas não trazem felicidade, tenente, apenas uma grande infelicidade. Seria capaz de cortar o coração de Espanha e pôr uma enciclopédia francesa no seu lugar. Esquecer-se-ia de, Deus para entronizar a razão, a virtude, a igualdade, a liberdade e todas as outras tolices que fazem com que os homens se esqueçam de que O pão cura o dobro do preço e apenas as lágrimas aumentaram.

     - O meu Major não acredita na razão? - Sharpe deixou que a conversa se afastasse do assunto doloroso da lealdade do conde de Mouromorto.

     - A razão é a matemática do pensamento, nada mais. Não conduzimos a nossa vida por meio de disciplinas tão áridas. A matemática não pode explicar Deus, a razão também não, e eu acredito em Deus! Sem Ele nada mais somos do que corrupção. Mas esqueci-me de que não é crente.

     - Não - confirmou Sharpe timidamente.

     - Mas a incredulidade é melhor do que o orgulho de Tomas. Pensa que é maior do que Deus, mas antes do final deste ano, tenente, hei-de entregá-lo à justiça divina.

     - Os franceses podem não ser da mesma opinião.

     - Pouco me importa o que pensam os franceses. Preocupo-me apenas com a vitória. Foi por isso que o vim socorrer. É por isso que, esta noite, viajamos na escuridão. - Vivar nada mais explicaria, pois todas as suas energias eram necessárias para incentivar os homens a avançar e a subir mais. Louisa Parker, completamente exausta, foi içada para cima de um cavalo. A vereda continuava a subir.

     De madrugada, por baixo de um céu limpo de nuvens, em que a estrela da manhã desaparecia sobre a terra gelada, Sharpe viu que viajavam na direcção de uma fortaleza construída no cimo da montanha.

     Não era um forte moderno, construído por trás de muralhas de terra inclinadas que pudessem lançar um tiro de canhão bem alto sobre ravinas e revelins, mas uma alta fortaleza de ar sombrio e ameaçador. Também não era um local agradável ou a residência de um senhor elegante, mas sim um bastião construído para defender uma terra até ao fim dos tempos.

     O forte permanecera vazio durante cem anos. Ficava distante de tudo e a uma altitude que parecia tornar impossível o seu abastecimento e Espanha nunca precisara de lugares assim. Mas agora, numa madrugada fria, Blas Vivar entrara à frente dos seus cansados caçadores, passando por baixo do arco antigo e coberto de musgo, num pátio empedrado, cheio de ervas daninhas. Alguns dos seus homens, comandados por um sargento, tinham feito a guarnição da velha fortaleza durante a ausência do major e o cheiro das fogueiras das cozinhas era bem-vindo, depois do frio da noite. Pouco mais parecia agradável; as ameias estavam cheias de arbustos, a masmorra era habitação de corvos e morcegos, a cave estava inundada, mas a satisfação de Vivar enquanto mostrava as muralhas a Sharpe era contagiosa.

     - O primeiro Vivar construiu este local há quase mil anos! Era a nossa casa, tenente. A nossa bandeira ondulava na torre e os mouros nunca a conquistaram.

     Conduziu Sharpe para o bastião mais a norte que, como o ninho de uma enorme ave de rapina, sobressaía sobre aquele incomensurável local. O vale lá em baixo era uma mancha de ribeiros e caminhos cobertos de geada. Dali, durante séculos, homens com armaduras de aço tinham observado o reflexo do sol sobre os longínquos escudos dos infiéis. Vivar apontou para uma fenda profunda e sombria nas montanhas a norte, onde a geada mais parecia neve.

     - Vê aquela passagem? Um conde de Mouromorto ocupou aquela estrada durante três dias contra uma horda de muçulmanos. Encheu o inferno com as almas desses infiéis, tenente. Dizem que ainda se podem encontrar pontas de setas enferrujadas e elos das cotas de malha nas frestas do local.

     Sharpe voltou-se, para olhar para a torre mais alta.

     - O castelo pertence agora ao irmão do meu Major? A pergunta pareceu espicaçar o orgulho de Vivar.

     - Ele desonrou o nome da família. É por isso que é meu dever recuperá-lo. O que farei, com a ajuda de Deus.

     As palavras reflectiam a sua alma orgulhosa e eram uma pista para explicar a ambição que conduzia o espanhol. Contudo Sharpe tencionava conseguir outra resposta e procurou-a directamente.

     - E ele não saberá que o meu Major se encontra aqui?

     - Com certeza que sim. Mas os franceses precisarão de dez mil homens para rodear esta montanha e mais cinco mil para assaltar a fortaleza. Não virão. Começaram agora a descobrir que problemas a vitória lhes pode arranjar.

     - Problemas? - perguntou Sharpe. Vivar sorriu.

     - Tenente, os franceses estão a aprender que, em Espanha, os grandes exércitos podem morrer de fome e os pequenos exércitos são derrotados. Aqui, apenas se pode vencer se houver quem forneça os alimentos e o povo está a aprender a odiar os franceses - dirigiu-se as ameias. - Pense na posição dos franceses! O marechal Soult perseguiu o vosso exército para noroeste, até onde? Até parte nenhuma! Está espalhado pelas montanhas e, em redor dele, nada mais há do que neve, estradas más e camponeses vingativos. Tem de encontrar tudo o que come e, no Inverno, na Galiza, não se encontram alimentos se o povo quiser escondê-los. Não. Está desesperado. Os seus mensageiros já estão a ser mortos, as suas patrulhas caem em emboscadas e, até aqui, apenas uma mão-cheia de gente lhe tem feito frente! Quando todo o país se erguer contra ele, a sua vida será um tormento ensanguentado.

     Tratava-se de uma profecia aterrorizadora que, ao ser pronunciada com tanta convicção, convenceu Sharpe. Recordou-se de como De l’Eclin tinha exprimido francamente o seu receio da noite, o medo das navalhas dos camponeses na escuridão.

     Vivar voltou-se de novo, para olhar o desfiladeiro nas montanhas, onde o seu antepassado tinha esmagado o exército muçulmano.

     - Parte do povo já combate, tenente, mas o resto tem receio. Vêem as vitórias dos franceses e sentem-se abandonados por Deus. Precisam de um sinal. Se preferir, precisam de um milagre. São camponeses. Não conhecem a razão, mas conhecem a sua Igreja e a sua terra.

     Sharpe sentiu a pele arrepiar-se, não com o frio da manhã, mas de apreensão por qualquer coisa, para além da sua imaginação.

     - Um milagre?

     - Depois, meu amigo, depois! - Vivar riu-se do mistério que deliberada-mente provocara e desceu os degraus a correr até ao pátio. A sua voz tinha um tom subitamente malicioso, absurdo e cheio de alegria. - Ainda não me agradeceu por eu o ter socorrido!

     - Por me ter socorrido! Valha-me Deus! Eu estava prestes a destruir aqueles canalhas, quando o meu Major interferiu! - Sharpe seguiu-lhe os passos. - O meu Major ainda não me pediu desculpa por me ter mentido.

     - Nem tenciono fazê-lo. Por outro lado, perdoo-lhe ter-se irritado comigo da última vez que nos encontrámos. Bem lhe disse que não aguentaria um dia sem mim!

     - Se não tivesse mandado aquele maldito francês atrás de mim, ja estaria a meio caminho do Porto!

     - Mas havia uma razão para o fazer! - Vivar tinha chegado ao último degrau que descia das ameias e aguardou a chegada de Sharpe. - Queria afastar os franceses de Santiago de Compostela. Pensei que, se o perseguissem, eu poderia entrar na cidade quando tivessem partido. Por isso espalhei o boato, acreditaram, mas, mesmo assim, a cidade tinha uma guarnição. Portanto ... - Encolheu os ombros.

     - Por outras palavras, não consegue ganhar uma guerra sem mim.

     - Pense em como estaria aborrecido, se tivesse ido para Lisboa! Nenhum francês para matar, nenhum Blas Vivar para admirar! - Vivar deu o braço a Sharpe, à íntima maneira espanhola. - A sério, tenente, peço-lhe que me perdoe o meu comportamento. Posso justificar as minhas mentiras, mas não os meus insultos. É por eles que peço desculpa.

     Sharpe sentiu-se instantaneamente embaraçado.

     - Também eu me comportei mal. Perdoe-me. - Depois recordou-se de outro dever. - E agradeço ter-nos salvo. Sem o meu Major, seríamos homens mortos.

     A efervescência de Vivar regressou.

     - Agora tenho de tratar de outro milagre. Temos de trabalhar, tenente! Trabalhar! Trabalhar! Trabalhar!

     - Um milagre?

     Vivar soltou o braço de Sharpe para o poder olhar de frente.

     - Meu amigo, vou dizer-lhe tudo, se puder. Se for possível, esta noite depois da ceia. Mas hão-de vir cá uns homens e preciso da permissão deles para revelar o que está dentro do cofre. Confia em mim até eu ter falado com eles?

     Sharpe não tinha outra alternativa.

     - Claro.

     - Então temos de trabalhar. - Vivar bateu as palmas, para atrair a atenção dos seus soldados. - Trabalhar! Trabalhar! Trabalhar!

     Tudo o que os homens de Vivar necessitavam teve de ser levado montanha acima. Os animais da cavalaria transformaram-se em bestas de carga para transportar lenha, combustível e forragem. Os víveres vinham das aldeias das montanhas, algumas delas a quilómetros de distância, sobre o dorso de mulas ou às costas dos homens. O major avisara a terra que pertencera a seu pai, que necessitava de víveres e, espantado, Sharpe assistiu à resposta.

     - O meu irmão - disse Vivar com austera satisfação - ordenou ao povo que nada fizesse para desagradar aos franceses. Ah!

     Durante todo esse dia, os víveres chegaram ao castelo. Havia potes de grão e feijão, caixas de queijos, sacos de rede com pães e odres de vinho. Havia feno para os cavalos. Pilhas de madeira eram arrastadas pela íngreme vereda e chegavam feixes de lenha para atear o lume. Uma parte foi transformada em vassouras para varrer o calabouço. As mantas das selas transformaram-se em cortinas e em tapetes, enquanto as fogueiras aqueciam as pedras frias.

     Os homens que Vivar esperava chegaram ao meio-dia. Um toque de clarim, já prenúncio de celebração, anunciou a aproximação dos visitantes. Alguns caçadores desceram a vereda íngreme para escoltar os dois homens até à fortaleza. Os recém-chegados eram padres.

     Sharpe observou a chegada da janela do quarto de Louisa Parker. Fora até lá para tentar descobrir a razão da sua fuga à família. Louisa dormira toda a manhã e parecia agora completamente recuperada dos esforços da noite anterior. Olhou por cima do ombro de Sharpe para os dois padres que desmontavam e estremeceu exageradamente, fingindo-se horrorizada.

     - Nunca consegui libertar-me da sensação de que há qualquer coisa de muito sinistro no clero romano. A minha tia está convencida de que têm caudas e chifres. - Olhou para os padres que avançavam por entre a guarda de honra até ao local onde Blas Vivar aguardava para os cumprimentar. Julgo que realmente têm caudas e chifres, bem como cascos fendidos. Não concorda?

     Sharpe afastou-se da janela. Sentiu-se embaraçado e pouco à vontade.

     - A menina não deveria estar aqui.

     Louisa abriu muito os olhos.

     - Está a falar com muita severidade.

     - Desculpe - Sharpe falava em tom mais abrupto do que desejaria. - Só que... - a voz desvanecia-se-lhe.

     - Julga que os seus soldados ficarão perturbados pela minha presença? Sharpe não gostara do modo como Blas Vivar já se tinha sentido perturbado pelo acto impulsivo de Louisa.

     - Não é um local adequado para si - preferiu dizer. - A menina não está habituada a este tipo de coisas - fez um gesto com a mão a abranger o quarto, como se quisesse demonstrar as suas deficiências, embora, verdade fosse dita, os caçadores de Vivar tudo tivessem feito para que a rapariga estrangeira tivesse todo o conforto. O quarto, embora pequeno, tinha uma lareira na qual ardiam os troncos. Havia uma cama de fetos cortados e cobertores de sela escarlates. Louisa não tinha outros pertences, nem sequer uma muda de roupa. Pareceu pesarosa com o tom severo de Sharpe.

     - Lamento, tenente.

     - Não - Sharpe tentou evitar o pedido de desculpas, mesmo tendo sido ele a provocá-lo.

     - A minha presença embaraça-o?

     Sharpe voltou-se para a janela e viu os caçadores reunidos junto aos dois padres. Alguns fuzileiros observavam curiosos.

     - Gostaria que eu voltasse para os franceses? - perguntou Louisa em tom azedo.

     - Claro que não.

     - Penso que sim.

     - Não seja assim tão estúpida, mas que raio! - Sharpe voltou-se violenta-mente, mas logo se sentiu envergonhado. Não queria que soubesse o quão se sentia feliz por ela ter fugido aos tios, mas, no esforço para esconder a sua alegria, deixara que o tom de voz se lhe descontrolasse.

     - Desculpe, menina.

     Louisa estava também contrita.

     - Não, eu é que peço desculpa.

     - Não deveria ter praguejado.

     - Não consigo imaginar que deixe de praguejar, nem sequer por minha causa. - Ao ver nela um traço da sua antiga malícia e a sombra de um sorriso, Sharpe sentiu-se satisfeito.

     - Só que os seus tios vão ficar preocupados consigo - disse em tom pouco convincente. - Provavelmente voltaremos a combater e uma batalha não é lugar para uma mulher.

     Por momentos, Louisa nada disse, depois encolheu os ombros.

     - Contra o francês? De l’Eclin? Ele ofendeu-me. Penso que me considerou um despojo de guerra.

     - Foi ofensivo?

     - Imagino que pensou que estava a ser muito galante. - Louisa, ainda com o vestido azul e o casaco com que tinha fugido da carruagem, andava de um lado para o outro no pequeno quarto. - Estou a ofendê-lo quando digo que prefiro a sua protecção à dele?

     - Sinto-me lisonjeado, menina. - Sharpe sentiu que ela o atraía para a sua conspiração. Viera avisá-la de que Blas Vivar não concordava com a sua presença e que devia evitar encontrar-se com o espanhol sempre que possível, mas afinal sentia-se atraído pela sua vivacidade.

     - Senti-me tentada a ficar com os franceses - confessou Louisa. - Não devido aos encantos intrínsecos do coronel, mas porque o povo de Godalming teria ficado de boca aberta ao saber das minhas aventuras com o exército do ogre corso, não acha? Talvez fôssemos enviados para Paris e obrigados a desfilar diante da multidão, como os romanos faziam com os antigos britânicos.

     - Duvido - declarou Sharpe.

     - Eu também. Antevi, isso sim, um tempo extraordinariamente aborrecido durante o qual seria obrigada a escutar as intermináveis queixas da minha tia acerca da guerra, dos Testamentos perdidos, da falta de conforto, da cozinha francesa, das suas poucas aptidões, tenente, da timidez do marido, da minha ousadia, do tempo, dos seus joanetes... deseja que prossiga? Sharpe sorriu.

     - Não.

     Louisa brincou com os caracóis negros e depois encolheu os ombros.

     - Vim, tenente, por causa de um capricho. Porque, se tenho de me ver metida numa guerra, prefiro que seja do meu lado e não do lado do inimigo.

     - Penso que o major Vivar receia que a menina seja um estorvo para nós.

     - Oh - disse Louisa com ar trocista e agourento, encaminhando-se para a janela. Aí franziu a testa, ao ver que o espanhol continuava a conversar com os dois padres. - O major Vivar não gosta de mulheres?

     - Penso que gosta.

     - Mas acha que elas são um estorvo?

     - Nas batalhas são. Com as minhas desculpas, menina. Luísa lançou a Sharpe um sorriso de desprezo.

     - Prometo não ficar no caminho da sua espada, tenente. E lamento ter-lhe causado este inconveniente. Agora, pode dizer-me exactamente porque estamos aqui e o que planeia fazer? Não posso afastar-me do seu caminho, a menos que saiba onde ele conduz, não concorda?

     - Não sei o que se está a passar, menina. Luísa fez uma careta.

     - Significa isso que não confia em mim?

     - Significa que não sei - Sharpe falou-lhe do cofre e do segredo de Vivar, da longa jornada que fora interrompida pelos dragões franceses. - Só sei que o major quer levar a arca para Santiago, mas ignoro porquê, bem como o que contém.

     Louisa ficou encantada com o mistério.

     - Mas vai descobrir?

     - Espero que sim.

     - Vou perguntar directamente ao major Vivar!

     - Não creio que o deva fazer, menina.

     - Claro que não. O ogre papista espanhol não quer que eu Seja um estorvo na sua aventura.

     - Não se trata de uma aventura, menina, mas sim de uma guerra.

     - Senhor Sharpe, a guerra é o momento em que perdemos os laços das convenções, não acha? Eu, sim. E são laços muito constrangedores, principalmente em Godalming. Insisto em saber o que contém a arca do major Vivar! Acha que são jóias?

     - Não, menina.

     - A coroa de Espanha! Um ceptro e uma esfera! Claro, senhor Sharpe. Napoleão deseja colocar a coroa na sua cabeça e o seu amigo nega-lho! Não vê? Transportamos as insígnias de uma dinastia para as pormos em segurança! - Bateu as palmas, encantada. - Insistirei em ver esses tesouros. O major Vivar vai revelar-lhe tudo, não é verdade?

     - Disse-me que talvez o fizesse depois da ceia. Julgo que depende desses padres.

     - Nesse caso talvez nunca o saibamos - Louisa fez uma careta. - Mas posso cear consigo?

     O pedido embaraçou Sharpe, que duvidava que Vivar quisesse ter Louisa presente. Contudo também não sabia como havia de dizer à jovem, com tacto, que esta estava a ser demasiado insistente.

     - Não sei - disse em voz fraca.

     - Claro que posso jantar consigo! Não espera que eu morra de fome, pois não? Esta noite, senhor Sharpe, prepare-se para observar as jóias de um império! - Louisa parecia encantada com a ideia. - Ah, se ao menos o senhor Bufford me pudesse ver!

     Sharpe recordou-se de que o senhor Bufford era o metodista, fabricante de tinta, que esperava casar-se com Louisa.

     - Sem dúvida que rezaria por si.

     - Com toda a devoção - Louisa soltou uma gargalhada. - Mas é uma crueldade troçar dele, senhor Sharpe, principalmente porque estou apenas a atrasar o momento em que vou aceitar a sua mão - o entusiasmo evaporou-se-lhe visivelmente do rosto, em face da realidade. - Calculo que assim que tiver resolvido o mistério partirá para Lisboa, não é verdade?

     - Claro, se ainda existir lá alguma guarnição.

     - E eu terei de o acompanhar - suspirou como uma criança em face do fim de um divertimento que ainda não começara. Depois, a expressão do seu rosto ficou de novo límpida e deliciosamente encantadora. - Mas vai pedir ao major Vivar autorização para que eu jante com os cavalheiros? Prometo comportar-me bem.

     Para surpresa de Sharpe, Blas Vivar não ficou surpreendido com o pedido de Louisa.

     - Claro que pode cear connosco.

     Está muito curiosa a respeito do cofre - avisou Sharpe. É natural. O tenente também não está?

     Assim, Louisa estava presente nessa noite, quando Sharpe descobriu por fim por que razão Blas Vivar lhe tinha mentido, por que razão os caçadores tinham ido em seu socorro e por que motivo o major Vivar viajara obsessiva-mente para oeste, através do caos do Inverno e da derrota.

     Foi também nessa noite que Sharpe se sentiu mais atraído para um mundo estranho e misterioso, um mundo onde os estadea vagueavam como chamas na noite e os espíritos habitavam os ribeiros; o mundo de Blas Vivar.

     Sharpe, Louisa, Vivar e o tenente Davila jantaram numa sala rodeada de grossos pilares que suportavam o tecto abobadado. Os dois padres fizeram-lhes companhia. Acendeu-se a lareira, cobriu-se o chão com cobertores e foram servidos pratos de milho, feijão, peixe e carne de carneiro. Um dos sacerdotes, o padre Borellas, era um homem baixo e gordo, que falava um inglês aceitável e parecia gostar de o praticar com Sharpe e Louisa. Borellas disse-lhes que tinha uma paróquia em Santiago de Compostela, muito pequena e pobre. Servindo o vinho a Sharpe e insistindo para que o prato deste nunca estivesse vazio, parecia ansioso por exagerar o seu humilde estatuto. O outro padre, explicou, era um homem de posição elevada, um verdadeiro hidalgo e um futuro príncipe da Igreja.

     O outro sacerdote era o cónego da catedral de Santiago, que tornou claro, desde o princípio, que não gostava e que desconfiava do tenente Richard Sharpe. Se o padre AIzaga falava inglês não deu a conhecer ao tenente essa sua capacidade. De facto, AIzaga mal parecia dar pela presença do fuzileiro, limitando-se a conversar com Blas Vivar, que talvez considerasse socialmente seu igual. A sua hostilidade era tão gritante e desagradável, que Borellas se sentiu constrangido a explicá-la.

     - Não gosta dos ingleses.

     - Muitos espanhóis não gostam - comentou Louisa, secamente, parecendo invulgarmente tímida devido à hostilidade que reinava na sala.

     - Considera-vos hereges, sabe. E o vosso exército fugiu - disse o padre em voz baixa, como que a pedir desculpas, - Política, política. Não percebo nada de política. Não passo de um humilde sacerdote, tenente.

     Mas Borellas era um humilde sacerdote, cujos conhecimentos dos becos e pátios de Santiago de Compostela tinham salvo o cónego dos franceses. Contou a Sharpe como se tinham escondido no pátio de um estucador, enquanto a cavalaria francesa revistava as casas.

     - Mataram muita gente - persignou-se. - Bastava um homem ter uma caçadeira para dizerem que era um inimigo. Pum! Se alguém protestava por causa dessa morte, pum! - Borellas esmigalhou um bocado de pão duro. Nunca pensei viver o suficiente para ver um exército inimigo em solo espanhol. Estamos no século xix, não no século XII!

     Sharpe olhou para o arrogante AIzaga. que não esperara nem se sentia satisfeito por ver soldados ingleses protestantes em solo espanhol.

     - O que é um cónego?

     - É o tesoureiro da catedral. Não é um secretário, entenda - Borellas desejava que Sharpe não menosprezasse o sacerdote alto -, mas sim o guardião dos tesouros da catedral. Não é por isso que está aqui, mas sim porque é um clérigo muito importante. Don Blas gostaria que o bispo tivesse vindo, mas o bispo não falaria comigo e o homem mais importante que consegui encontrar foi o cónego AIzaga. Detesta os franceses, sabe - estremeceu enquanto a voz do cónego se erguia furiosa e, como que para ocultar o seu embaraço, ofereceu a Sharpe mais peixe seco, começando uma longa explicação sobre as espécies pescadas na costa da Galiza.

     Porém, nenhuma discussão a respeito dos peixes podia esconder o facto de que Vivar e Alzaga estavam envolvidos numa amarga altercação, cada um deles fortemente entrincheirado em opiniões opostas que, conforme era igualmente evidente, envolviam Sharpe. Vivar insistia num ponto qualquer, apontando para o tenente dos Fuzileiros. AIzaga, refutava-o parecendo falar com desprezo na direcção do tenente. O tenente Davila concentrou-se no seu jantar, não querendo, evidentemente, tomar parte na feroz discussão, enquanto o padre Borellas, abandonando as tentativas para distrair a atenção de Sharpe, concordou, com alguma relutância, em explicar o que estava a ser dito.

     - O padre AIzaga. quer que Don Blas use tropas espanholas - falou em voz baixa para que o outro não o ouvisse.

     - Tropas espanholas, para quê?

     - Don Blas é que terá de explicar. - Borellas ficou mais um momento à escuta. - Don Blas está a dizer que, para encontrar a infantaria espanhola, teria de convencer um capitão-general, e todos os capitães-generais estão escondidos; de qualquer modo, todos eles hesitariam ou diriam que precisavam de obter autorização da junta da Caliza, e a Junta fugiu da Corunha, de modo que teria de se dirigir à Junta Central em Sevilha e, dentro de um ou dois meses, o capitão-general poderia dizer que talvez houvesse homens, mas depois insistiria para que um dos seus oficiais preferidos fosse colocado no comando da expedição. De qualquer modo, segundo diz Don Blas, nessa altura já seria tarde de mais - o padre Borellas encolheu os ombros. - Julgo que Don Blas tem razão.

     - Tarde de mais para quê?

     - Dom Blas é que terá de explicar.

     Vivar falava agora com dureza, agitando a mão em gestos violentos que pareciam emudecer a oposição do padre. Quando terminou, AIzaga pareceu ceder, com relutância, numa parte do argumento e a concessão fez com que Blas se voltasse para Sharpe.

     - Importa-se de descrever a sua carreira, tenente?

     - A minha carreira?

     - Lentamente? Um de nós poderá traduzi-la.

     Sharpe, embaraçado pelo pedido, encolheu os ombros.

     - Nasci...

     - Essa parte não, julgo eu - disse Vivar, apressadamente. - A sua carreira militar, tenente. Onde foi a sua primeira batalha?

     - Na Flandres.

     - Comece por aí.

     Durante dez desconfortáveis minutos, Sharpe descreveu a sua carreira militar, falando das batalhas em que tinha participado. Falou primeiro da Flandres, onde tinha sido um dos dez mil infelizes do duque de Iorque, depois, com mais confiança, da índia. A sala de pilares, iluminada pelo lume dos troncos de pinheiro e por lamparinas baratas, parecia um local estranho para se falar de Seringapatam, Assaye, Argaum e Gawilghur. Porém, os outros escutavam avidamente, e até mesmo AIzaga parecia intrigado pelas histórias traduzidas das longínquas batalhas em planícies áridas. Louisa, com os olhos a brilhar, seguia a história de perto.

     Quando Sharpe terminou a descrição do violento ataque às muralhas lamacentas de Gawilghur, ninguém falou durante alguns segundos. A resina brilhava ao fogo. AIzaga, na sua voz áspera, quebrou o silêncio e Vivar traduziu.

     - O padre AIzaga diz que ouviu dizer que o sultão Tippoo tinha uma figura de corda que representava um tigre a matar um inglês.

     Sharpe fitou os olhos do padre.

     - Em tamanho natural, é verdade, sim. Vivar traduziu de novo

     - Ele gostaria muito de ter visto essa figura.

     - Julgo que agora se encontra em Londres - afirmou Sharpe.

     O padre deve ter reconhecido o desafio naquelas palavras, pois este disse uma coisa que Vivar não interpretou.

     - Que foi que ele disse? - perguntou Sharpe.

     - Nada - respondeu Vivar, com um ar talvez demasiado descuidado. Onde combateu depois da índia, tenente?

     - O padre AIzaga disse - Louisa sobressaltou todos os que se encontravam na sala, ao erguer a voz e com os seus evidentes conhecimentos de espanhol, que tinha ocultado até àquele momento - que esta noite vai rezar pela alma do sultão Tippoo, porque ele matou muitos ingleses.

     Até àquele momento, Sharpe sentira-se embaraçado por ter de descrever a sua carreira, mas o desprezo espicaçou o seu orgulho de soldado.

     - E eu matei o sultão Tippoo.

     - Matou? - A voz do padre Borellas tinha um tom agudo de incredulidade.

     - No túnel da entrada de água em Seringapatam.

     - Não tinha guarda-costas? - perguntou Vivar.

     - Seis homens - respondeu Sharpe. - Os seus guerreiros de elite. - Olhou todos os rostos, um a um, sabendo que não precisava de dizer mais nada. AIzaga exigiu a tradução e resmungou quando a ouviu.

     Vivar, que se sentia satisfeito com a actuação de Sharpe, sorriu para o fuzileiro.

     - E depois da índia, onde combateu, tenente? Esteve em Portugal no ano passado?

     Sharpe descreveu as batalhas portuguesas de Roliça e Vimeiro onde, antes de ser chamado a Inglaterra, Sir Arthur Wellesley trucidara os franceses.

     - Era apenas o oficial encarregado do abastecimento - disse. - Mas vi o combate.

     De novo se fez silêncio e Sharpe, observando o padre hostil, sentiu que tinha passado uma espécie de teste. AIzaga falava de mau modo e as palavras fizeram Vivar sorrir de novo.

     - Tem de entender, tenente, que eu preciso da bênção da Igreja para aquilo que tenho de fazer e, se me vai ajudar, a Igreja tem de dar a sua aprovação. A Igreja preferia que eu utilizasse tropas espanholas, mas, ai de mim, isso é impossível. Portanto, com alguma relutância, o padre AIzaga aceita que a sua experiência de combate possa ser de algum uso.

     - Mas o quê...

     - Depois - Vivar ergueu a mão. - Primeiro, diga-me aquilo que sabe acerca de Santiago de Compostela.

     - Apenas o que o meu Major me disse.

     Então Vivar descreveu como um milhar de anos antes, os pastores tinham visto uma miríade de estrelas a cintilar na bruma, sobre o monte no qual a cidade estava agora erigida. Os pastores contaram a sua visão a Teudemiro, bispo de Iria Flávia, que a reconheceu como sinal do céu. Ordenou a escavação do monte e, nas suas profundezas, foi encontrado o túmulo havia muito perdido de São Tiago. Desde então, a cidade passou a ser conhecida por Santiago de Compostela. São Tiago do campo de estrelas.

     Qualquer coisa na voz de Vivar fez estremecer Sharpe. A chama das velas lançava sombras incertas por trás dos pilares. Algures, nas ameias, uma sentinela batia com os pés no chão. Até mesmo Louisa parecia intimidada pelo tom gelado da voz do espanhol.

     Um santuário fora construído sobre a tumba, havia tanto desaparecida e, embora os exércitos muçulmanos tivessem capturado a cidade e destruído a primeira catedral, o túmulo em si tinha sido poupado. Fora construída uma nova catedral, depois de os pagãos terem sido expulsos e a cidade do campo das estrelas transformara-se num destino de peregrinação apenas inferior a Roma. Vivar olhou para Sharpe.

     - Sabe quem foi São Tiago, tenente?

     - O meu Major disse-me que foi um apóstolo.

     - Foi muito mais - Vivar falava em voz baixa, com reverência, num tom que arrepiou a pele de Sharpe. - São Tiago, irmão de São João Evangelista. São Tiago o santo padroeiro de Espanha. São Tiago, Filho do Trovão. São Tiago, o Grande Santiago. - O tom da sua voz aumentava e agora parecia encher o tecto abobadado com o último, o maior e o mais ressonante dos títulos do santo: - Santiago Matamoros!

     Sharpe ficou completamente imóvel.

     - Matamoros?

     - O Matador de Mouros. O matador dos inimigos de Espanha - da parte de Vivar, aquilo parecia um desafio.

     Sharpe aguardou. Não se ouviu qualquer som, excepto o crepitar do fogo e o ranger das botas nas ameias. Davila e Borellas baixaram os olhos para os pratos vazios, como se, ao moverem-se ou ao falarem, pusessem em perigo aquele momento.

     Foi AIzaga que o quebrou. O cónego protestou, mas Vivar impediu-o imediatamente com aspereza. Os dois homens discutiram durante algum tempo, mas via-se que Vivar tinha vencido o combate da noite. Como que para assinalar a sua vitória, pôs-se de pé e atravessou uma arcada escura.

     - Venha tenente.

     Do lado de lá da arcada ficava a antiga capela da fortaleza. No seu altar de pedra, havia uma simples cruz de madeira entre duas velas. Louisa apressou-se para assistir à revelação do mistério, mas Vivar impediu-lhe a entrada na capela até ela ter coberto a cabeça. A jovem puxou apressadamente o xaile para cima dos seus caracóis negros.

     Sharpe passou-lhe à frente e olhou para o objecto que tinha diante do altar, o objecto que sempre soubera ali estar: o próprio coração do mistério, o isco que atraíra os dragões franceses, através de uma terra gelada e o tesouro pelo qual o próprio Sharpe fora trazido a esta alta fortaleza.

     O cofre.

    

     Vivar afastou-se para o lado, para que Sharpe se pudesse aproximar dos degraus do altar. O espanhol acenou com a cabeça na direcção do cofre.

     - Abra-o - falava em tom brusco e ponderado, quase como nunca tivessem tido lugar as artimanhas para não revelar o seu conteúdo.

     Sharpe hesitou. Não era medo, mas sim a sensação de que o momento deveria ser acompanhado por um ritual. Ouviu os sacerdotes entrarem na capela atrás de si, enquanto Louisa ficou ao lado de Vivar. O rosto da jovem tinha uma expressão solene.

     - Continue - encorajou-o Vivar.

     O oleado já tinha sido cortado e os cadeados retirados das fechaduras da arca. Sharpe inclinou-se para os erguer, sentiu a resistência das antigas dobradiças e olhou para Vivar, como se quisesse receber a sua bênção.

     - Prossiga, tenente - disse Vivar. O padre AIzaga protestou por uma última vez, mas Vivar fez-lhe um aceno antes de sossegar Sharpe. - É certo que tem direito a saber o que eu pretendo de si. Não duvido que vá considerar isso uma tolice, mas há coisas em Inglaterra que certamente serão consideradas sagradas e que a mim me pareceriam idênticos disparates.

     Quando Sharpe se ajoelhou, a sua bainha metálica arranhou o chão de pedra da capela. Não fez o gesto por reverência, mas sim porque, de joelhos, ser-lhe-ia mais fácil explorar o interior da arca. Empurrou a pesada tampa e estremeceu quando os enormes gonzos chiaram e rangeram.

     Lá dentro estava outra caixa, feita de couro, que parecia tão antiga como a de madeira que a continha. O couro tinha sido vermelho, mas estava agora desbotado e gasto e parecia cor de sangue seco. A caixa era muito mais pequena do que a arca; tinha quase meio metro de comprimento, trinta centímetros de altura e outro tanto de largura. Na tampa estava cravado um desenho que já fora coberto a folha de ouro, da qual restavam apenas alguns fragmentos. Tratava-se de uma cercadura complicada, rodeando uma espada de lâmina grossa e curva.

     - Santiago foi morto por uma espada - disse Vivar em voz baixa. Este é ainda o seu símbolo.

     Sharpe ergueu a caixa de couro da arca, endireitou-se e colocou-a no altar.

     - Santiago foi morto aqui?

     - Trouxe o cristianismo para Espanha - houve uma nota levemente relutante no tom da explicação de Vivar. - Depois regressou à Terra Santa, onde foi feito mártir. A seguir colocaram o seu corpo num navio que não tinha remos, nem velas, nem sequer tripulantes, mas que o trouxe de volta para a costa da Galiza, onde desejava ser sepultado. - Fez uma pausa. - Eu bem disse que haveria de achar isto uma tolice, tenente.

     - Não. - Sharpe, emocionado pelo momento, tocou na lingueta de ouro que fechava a caixa de cabedal.

     - Abra-a devagar - disse Vivar. - Mas não toque no que encontrar lá dentro.

     Sharpe ergueu a lingueta de ouro. A tampa estava de tal forma perra que receou partir a dobra de couro que servia de gonzo, mas forçou-a de novo e a caixa abriu-se diante dele.

     Os dois sacerdotes e os dois oficiais espanhóis benzeram-se e Sharpe escutou a voz profunda do cónego AIzaga entoando uma prece em surdina. A luz das velas era fraca. O pó pairava sobre a caixa recém-aberta. Louisa susteve a respiração e pôs-se em bicos de pés, para ver o que se encontrava lá dentro.

     A caixa de couro estava forrada de tafetá que Sharpe calculou já ter sido de cor púrpura real, mas estava agora tão debotado e gasto que se transformara no mais pálido e fino lilás. Dentro do tafetá encontrava-se uma bolsa de tapeçaria bordada, com as dimensões aproximadas às de um cantil de um fuzileiro. A bolsa era volumosa e estava apertada com um cordão dourado. A tapeçaria tinha um desenho de espadas e cruzes bordado.

     Vivar lançou um fraco sorriso a Sharpe.

     - Como vê, não são papéis.

     - Não. - Também não eram jóias de família, nem sequer a coroa de Espanha; apenas uma bolsa de tapeçaria.

     Vivar subiu os degraus do altar.

     - Há quase trezentos anos, os tesouros do santuário de Santiago foram escondidos. Sabe porquê?

     - Não

     - Por causa dos ingleses. O vosso Francis Drake andou perto de Santiago de Compostela e receou-se que chegasse à catedral.

     Sharpe nada disse. Vivar mencionara Drake num tom de voz tão amargo, que não havia dúvida que o melhor seria manter-se em silêncio.

     Vivar olhou para o estranho tesouro.

     - Em Inglaterra, tenente, ainda têm o tambor de Drake. já o viu?

     - Não.

     A luz das velas fez com que o rosto do espanhol parecesse estar gravado numa pedra incendiada.

     - Mas conhece a lenda do tambor de Drake?

     Consciente de que todos na sala o olhavam, Sharpe abanou a cabeça. Louisa interrompeu em voz suave:

     - Diz a lenda que, quando a Inglaterra está em perigo, o tambor toca para que Drake saia do seu túmulo, sob as águas, e expulse os espanhóis do oceano.

     - Só que agora já não se trata dos espanhóis, não é verdade? - O tom de voz de Vivar ainda era amargo. - O tambor pode soar com qualquer inimigo? Louisa acenou afirmativamente.

     - Parece que sim.

     - E não há ainda outra história, no vosso país, que diz que se a Grã-Bretanha tiver de encarar a derrota, o rei Artur levantar-se-á do seu túmulo em Avalon para conduzir uma vez mais os seus cavaleiros na batalha?

     - Sim - concordou Louisa. - Tal como os habitantes de Hesse acreditam que Carlos Magno e os seus cavaleiros dormem em Oldenburgo, prontos a despertar quando o Anticristo ameaçar a Cristandade.

     As palavras de Louisa agradaram a Vivar.

     - Está a olhar para a mesma coisa, tenente. Está a olhar para o estandarte de Santiago - avançou rapidamente e curvou-se diante da bolsa. AIzaga tentou protestar, mas Vivar ignorou-o. Meteu os dedos fortes e rudes no cordão dourado e, em vez de desfazer o nó, rebentou-o simplesmente. Abriu a bolsa de tapeçaria e Sharpe viu que esta continha um pano branco, dobrado e cheio de pó. Pensou que fosse de seda, mas não conseguiu certificar-se, uma vez que o tecido dobrado era tão antigo que o toque de um único dedo o poderia ter transformado em pó. - já há muitos anos que o estandarte é um tesouro real e os seus guardiães têm sido sempre membros da minha família. Foi por isso que o resgatei, antes que os franceses o roubassem. Está à minha responsabilidade, tenente.

     Sharpe sentiu uma centelha de desapontamento por o tesouro não ser uma coroa real, ou um monte de jóias que captassem a luz das velas, porém, não podia negar o assombro que enchia a capela devido ao pano de seda. Olhou-o, tentando entender que magia continham os seus vincos poeirentos. Vivar afastou-se da caixa.

     - Há mil anos, tenente, parece que os Muçulmanos queriam conquistar toda a Espanha. A partir daqui, os seus exércitos partiriam para norte, atravessariam os Pirenéus e fariam um assalto a toda a Cristandade. A sua heresia ainda hoje governaria a Europa. A cruz não existiria, mas apenas o crescente.

     Um vento frio entrou pela janela estreita e fez estremecer a luz das velas. Sharpe mantinha-se ainda transfigurado pelo estandarte, enquanto a voz de Vivar continuava a antiga história.

     - Tem de entender, tenente, que, embora os Mouros tivessem conquistado quase toda a Espanha, foram derrotados nestas montanhas do Norte. Estavam dispostos a quebrar a nossa resistência aqui, de modo que vinham aos milhares, enquanto nós não passávamos de centenas. Não podíamos vencer, mas não nos podíamos render, de modo que os nossos cavaleiros tomaram parte em várias batalhas desiguais. - Vivar falava agora muito baixo, mas num tom de voz que mantinha imóveis todos os que se encontravam na sala. - E perdemos muitas batalhas. Os nossos filhos foram levados como escravos, as nossas mulheres foram capturadas para darem prazer ao Islão e os nossos homens atirados para os seus campos e masmorras. Estávamos a perder, tenente! A luz da Cristandade não passava do brilho moribundo de uma vela, que tinha de desafiar a luz de um sol muito intenso mas muito cruel. Depois, teve lugar a nossa derradeira batalha.

     Blas Vivar fez uma pausa. A seguir, numa voz tão orgulhosa quanto a própria Espanha, contou como um pequeno bando de cavaleiros cristãos, cavalgando os seus extenuados corcéis, enfrentara o exército muçulmano. Contou a história tão bem, que Sharpe teve a sensação de estar a ver os cavaleiros espanhóis baixarem as lanças e carregavam a galope, sob os pendões coloridos como o sol. As espadas chocavam contra as cimitarras. Os homens cortavam, arrancavam e aparavam as estocadas. As setas zumbiam das cordas dos arcos e os pendões caíam sobre a poeira ensanguentada. Os homens, com as entranhas de fora, eram pisados pelos cavalos de guerra e os gritos dos moribundos eram abafados pelo troar dos novos ataques e pelos gritos da vitória pagã.

     - Os hereges venciam, tenente - Vivar falava, como se ele próprio tivesse mordido o pó naquele longínquo campo de batalha. - Mas no derradeiro momento, no último tremeluzir da luz da vela, um cavaleiro invocou o nome de Santiago. Fora Santiago que trouxera para Espanha as novas de Cristo; poderia o santo permitir que o Salvador fosse expulso? Assim, o cavaleiro rezou e o milagre aconteceu!

     Sharpe sentiu a pele arrepiar-se-lhe. Olhara durante tanto tempo para a bolsa de tapeçaria, que as sombras da capela pareciam ondular e moverem-se como estranhos animais em seu redor.

     - Santiago apareceu! - O tom de voz de Vivar era agora elevado e triunfante. - Apareceu num cavalo branco, tenente, a sua mão empunhava uma espada do mais fino aço e, com ela, abriu caminho por entre o inimigo, como um anjo vingador. Os mouros morreram aos milhares! Nesse dia enchemos o inferno com as suas miseráveis almas e detivemo-los, tenente! Detivemo-los, matando-os. Levaríamos séculos a limpar a Espanha da sua presença, séculos de batalhas e cercos, porém, tudo começou no dia em que Santiago recebeu o nome de Matamoros. E isto - Vivar aproximou-se da caixa e tocou ao de leve no pano de seda que se encontrava dentro da bolsa aberta - é o pendão que ele levava, tenente. O pendão de Santiago, o seu estandarte, que tem estado a cargo da minha família desde o dia em que o primeiro conde de Moromorto rezou para que Santiago aparecesse e arrancasse uma vitória em nome da morte de Cristo.

     Sharpe olhou para a esquerda e viu que Louisa, parecia estar em transe. Os sacerdotes olhavam-no, tentando avaliar o efeito da história no soldado estrangeiro.

     Vivar fechou a caixa de couro e voltou a colocá-la cuidadosamente dentro do cofre.

     - Há duas lendas a respeito do estandarte, tenente. A primeira diz que se for capturado pelos inimigos de Espanha, a própria Espanha será destruída. É por isso que o cónego AIzaga não quer a sua ajuda. Acredita que os ingleses serão para sempre os nossos inimigos e que a actual aliança é apenas um expediente que não há-de perdurar. Receia que o tenente roube o estandarte de São Tiago.

     Incomodado, Sharpe voltou-se para o cónego. Não sabia se AIzaga falava inglês, mas tentou de modo um pouco desastrado garantir-lhe que não tinha tal intenção. Sentiu-se idiota por estar a fazê-lo e o silêncio desprezível de AIzaga piorou a perturbação de Sharpe.

     Tal como o cónego, Vivar ignorou o seu protesto.

     - A segunda lenda é mais importante, tenente. Diz que, se a Espanha estiver em perigo, se mais alguma vez os bárbaros entrarem no nosso país, então o estandarte tem de ser aberto diante do altar-mor do santuário de Santiago. Então, o Matamoros erguer-se-á para lutar. Trará a vitória. É esse o milagre que eu desejo que aconteça, para que o povo de Espanha, por muitas vidas que possa perder, saiba que Santiago combate.

     As dobradiças rangeram quando Vivar fechou a tampa do cofre. O vento parecia subitamente mais frio e mais ameaçador, ao entrar pela janela estreita, fazendo estremecer as chamas das velas.

     - O irmão do meu Major - gaguejou Sharpe - quer levar o estandarte para França?

     Vivar acenou afirmativamente.

     - Tomas não acredita na lenda, mas tem a noção do seu poder. Tal como o imperador Napoleão. Se o povo de Espanha soubesse que o estandarte de Santiago era mais um troféu de Paris, cairia no desespero. Tomas compreende isso, tal como compreende que se o estandarte puder ser desdobrado em Santiago, os espanhóis, o bom povo espanhol, acreditará na vitória. Não importará, tenente, se milhares e milhares de franceses cavalgarem pelas nossas estradas porque, se Santiago estiver connosco, nenhum imperador nos poderá derrotar.

     Sharpe afastou-se do altar.

     - Então o estandarte tem de chegar a Santiago de Compostela.

     - Sim.

     - Que está nas mãos dos franceses?

     - Exactamente.

     Sharpe hesitou, mas declarou imediatamente.

     - Quer então a minha ajuda para atacar a cidade? - Ao mesmo tempo que falava, dava-se conta de como aquilo parecia uma loucura, mas a atmosfera da capela libertou-lhe o tom de voz de todo o cepticismo. Olhou fixamente para o cofre, enquanto continuava. - Teremos de atravessar as suas defesas, penetrar na catedral e mantê-la em nosso poder o tempo suficiente para a cerimónia. Será assim?

     - Não. Precisamos de uma vitória, tenente. Têm de assistir a uma vitória de Santiago! Não pode ser um feito obscuro, levado a cabo em segredo e à pressa. Não será um ataque. Não. Tomaremos a cidade aos franceses. Capturá-la-emos, tenente, e mantê-la-emos o tempo suficiente para que o seu povo saiba que este novo inimigo pode ser humilhado. Será uma grande vitória, tenente, em nome de Espanha!

     Sharpe fitou-o, incrédulo.

     - Valha-me Deus!

     - Com a ajuda dele, claro - Vivar sorriu. - E como não consigo arranjar infantaria espanhola, talvez possa contar com a ajuda dos seus fuzileiros? De facto, Sharpe não pensou que houvesse escolha. Pelo contrário, apenas pelo facto de ter tomado conhecimento do segredo de Vivar, concluíra que tinha entrado na conspiração. Agora, ali, na fria capela, sabia que deveria recusar. Vivar pretendia uma loucura. Uma mão-cheia de homens derrotados, britânicos e espanhóis, deveriam tomar uma cidade a um inimigo conquistador e, não só tomá-la, como mantê-la contra o enorme exército francês, que se encontrava apenas a um dia de marcha.

     - Então? - perguntou Vivar impaciente.

     - Claro que ele o vai ajudar! - disse Louisa com um fervor que era evidente no brilho dos seus olhos.

     Os homens ignoraram-na, mas, mesmo assim, Sharpe não disse nada.

     - Não posso obrigá-lo a ajudar-me, tenente - disse o major em voz baixa. - E, se recusar, forneço-lhe víveres e guio-o em segurança para sul. Talvez que os ingleses ainda estejam em Lisboa. Senão, há-de encontrar um navio, algures ao longo da costa. A boa prática militar exige que esqueça este disparate supersticioso e que marche para sul, não é verdade?

     - Sim - respondeu Sharpe tristemente.

     - Contudo, a vitória nem sempre é obtida pelo bom senso, tenente. A lógica e a razão podem ser substituídas pela fé de que um antigo milagre funcione e eu sou impelido pelo orgulho. Devo vingar a traição do meu irmão ou, de contrário, o nome Vivar apodrecerá nos anais de Espanha. - Vivar disse estas palavras de modo natural, como se querer vingar a traição fraterna fizesse parte de uma existência vulgar. Agora olhava Sharpe nos olhos e falava num tom diferente. - Por isso, imploro a sua ajuda. O tenente é um soldado e creio que Deus mo entregou como instrumento da Sua obra.

     Sharpe sabia como era difícil para Vivar fazer aquele apelo, uma vez que era um homem orgulhoso, pouco habituado a súplicas. O cónego AIzaga protestou com resmungos incoerentes e guturais, enquanto Sharpe ainda hesitava. Passou um momento antes do inglês se decidir falar.

     - A minha ajuda tem um preço, meu Major. Vivar refreou-se imediata-mente.

     - Um preço?

     Sharpe disse-lhe e ao dizê-lo a Vivar, aceitou a loucura. Para bem dos seus fuzileiros, ergueria um santo do seu sono eterno. Iria à cidade do campo de estrelas e torná-la-ia do inimigo.

     Mas só por um preço.

     No dia seguinte, depois da parada da manhã, Sharpe deixou a fortaleza e dirigiu-se a um local de onde podia avistar quilómetros e quilómetros através da paisagem de Inverno. Os montes longínquos eram agrestes e pálidos, aguçados como o aço contra a brancura do céu. O vento era frio; um vento que esgotava a força dos homens e dos animais. Pensou que, se Vivar não avançasse em breve, os cavalos espanhóis não conseguiriam marchar.

     Sharpe estava sentado, sozinho, à beira do caminho que descia abrupta-mente o monte. Apanhou uma mão-cheia de pedras, todas do tamanho de uma bala de mosquete e começou a lançá-las pela encosta, contra um pedregulho branco que ficava vinte metros mais abaixo. Disse para consigo que se lá batessem cinco seguidas, seria seguro marchar até à cidade da catedral. As primeiras quatro pedras acertaram em cheio, saltando para as ervas e seixos da encosta. Quase se sentia tentado a lançar a quinta às cegas, mas a pedra caiu na vertical do centro do pedregulho. Maldição, como era louco! Na noite anterior, vencido pela solenidade da ocasião, permitira-se ser arrebatado pela história do antigo mito, habilmente contada por Vivar. O estandarte de um santo morto havia dois mil anos! Lançou outro seixo e viu-o passar por cima da pedra grande para ir cair sobre umas ervas conhecidas em Espanha pelo nome de ervas-de-santiago.

     Olhou ao longe e viu que a geada cobria os contrafortes dos montes, onde o sol ainda não tinha tocado. O vento açoitava a alta torre e os fortes baluartes que estavam por detrás de si. Soprava extraordinariamente limpo e frio, como uma dose de bom senso depois da escuridão imbecil e do cheiro das velas da noite anterior. Era uma loucura, uma maldita loucura! Sharpe deixara-se convencer e sabia que tinha sido influenciado pelo entusiasmo de Louisa por toda aquela questão idiota. Lançou uma mão-cheia de pedrinhas que, como a metralha que sai da boca de um canhão, se espalhou sobre o pedregulho branco.

     Atrás de Sharpe soaram passos, que se detiveram a curta distância. Houve uma pausa e depois uma voz mal-humorada.

     - Mandou-me chamar, meu Tenente?

     Sharpe levantou-se. Endireitou a espada, deu meia volta e enfrentou o olhar ressentido de Harper.

     Este hesitou e depois tirou o chapéu, fazendo-lhe uma saudação formal.

     - Meu Tenente.

     - Harper.

     Nova pausa. Harper desviou o olhar do oficial, mas depois fitou-o de novo.

     - Não é justo, meu Tenente, nada justo.

     - Não seja patético. Desde quando é que há justiça na vida de um soldado?

     Harper ficou rígido ao ouvir o tom de voz de Sharpe, mas não estremeceu.

     - O sargento Williams era um homem justo. E o capitão Murray também.

     - Mas estão mortos. Não nos mantemos vivos por sermos agradáveis, Harper. Mantemo-nos vivos por sermos mais rápidos e cruéis do que o inimigo. Já tem as suas divisas?

     Harper hesitou mais uma vez, depois acenou afirmativamente, mas com certa relutância. Do saco das munições retirou as divisas de sargento que tinham sido cosidas em seda branca. Mostrou-as a Sharpe e depois abanou a cabeça.

     - Continuo a dizer que não é justo, meu Tenente.

     Fora aquele o preço de Sharpe: que Vivar convencesse o irlandês do seu dever. Se Harper aceitasse o posto de sargento, então Sharpe marcharia para Santiago de Compostela. O major ficara divertido com o pedido, mas concordara.

     - Não aceito as divisas para lhe agradar, meu Tenente. - Harper mostrava-se deliberadamente provocador, como se esperasse mudar a opinião de Sharpe mostrando-se insolente. - Só o faço pelo major. Ele falou-me da sua bandeira, meu Tenente, vou levá-la para a catedral e depois devolvo-lhe a si as minhas divisas.

     - Harper, o senhor é um sargento às minhas ordens. Durante o tempo que eu quiser e precisar de si. É esse o meu preço e é isso que o sargento vai aceitar.

     Fez-se silêncio. O vento rodopiava no cimo do monte, fazendo ondular as divisas de seda na mão de Harper. Sharpe perguntou a si próprio onde teria um material tão rico e lustroso sido encontrado naquela fortaleza remota, depois esqueceu-se das especulações, quando, mais uma vez, reparou que estava a seguir um caminho errado. Mostrara a sua hostilidade, em vez de demonstrar o quanto precisava da cooperação daquele homem. Tal como Blas Vivar se tinha humilhado para pedir a ajuda de Sharpe, Sharpe deveria agora mostrar alguma humildade para o atrair para o seu lado.

     - Também eu não quis as divisas quando mas ofereceram - disse Sharpe, pouco à vontade.

     Harper encolheu os ombros, como se quisesse dar a entender que a confissão de Sharpe não tinha qualquer interesse para ele.

     - Não me queria tornar no cão de guarda de um oficial - continuou Sharpe. - Os meus amigos eram os soldados, os meus inimigos eram os sargentos e os oficiais.

     Aquilo devia ter tocado uma corda de solidariedade no irlandês, que o levou a fazer uma careta ao mesmo tempo mal-humorada e divertida. Sharpe inclinou-se e apanhou alguns seixos. Lançou um de encontro à rocha branca e viu-o, fazer ricochete e saltar monte abaixo.

     - Quando voltarmos ao batalhão, provavelmente vão voltar a colocar-me no aprovisionamento e o sargento pode voltar às fileiras. - Sharpe disse-o para satisfazer o orgulho do irlandês, quase como uma promessa de que Harper não seria obrigado a manter as divisas brancas, mas não conseguia afastar o ressentimento do seu tom de voz. - Fica satisfeito assim?

     - Sim, meu Tenente - a concordância de Harper não pareceu nem sincera nem triste, apenas o reconhecimento de umas tréguas obtidas pelo cansaço.

     - Não é obrigado a gostar de mim - disse Sharpe. - Mas lembre-se que eu já combatia quando este batalhão ainda estava a ser formado. Quando o sargento era pequeno, já eu andava com um mosquete. E ainda estou vivo. E não estou vivo por ser justo, mas sim por ser bom nisto. E se quisermos sobreviver a esta luta, Harper, teremos todos de ser bons.

     - Somos bons. O major Vivar já o disse - Harper falava na defensiva.

     - Somos quase bons - disse Sharpe, com súbita sinceridade. - Mas vamos ser os melhores, que raio! Vamos ser os galos sobre o monte de esterco mais fedorento da Europa. Vamos obrigar os franceses a tremer só de pensar em nós. Vamos ser bons!

     Os olhos de Harper eram impenetráveis; frios e duros como as pedras da encosta do monte, mas havia agora algum interesse na sua voz.

     - E o meu Tenente precisa de mim para isso?

     - Preciso, sim. Não para ser um cãozinho de companhia. O seu trabalho é lutar pelos homens. Não como o Williams, que queria que todos gostassem dele, mas fazendo deles bons soldados. Deste modo todos teremos oportunidade de regressar a casa quando a guerra terminar. Quer voltar à Irlanda, não quer?

     - Claro que quero.

     - Pois bem, não a voltará a ver se lutar ao mesmo tempo contra o seu lado e contra os franceses.

     Harper soltou um enorme suspiro, quase exasperado. Era evidente que aceitara as divisas, mas com relutância e porque Vivar o obrigara. Agora, com igual relutância, sentia-se quase convencido por Sharpe.

     - Alguns de nós não voltarão a ver a pátria - disse timidamente. - Pelo menos se formos tomar essa catedral para o nosso major.

     - Pensa que não deveríamos ir? - perguntou Sharpe com genuína curiosidade.

     Harper reflectiu. Não estava a pesar a resposta que deveria dar, pois ja se tinha resolvido, mas sim o que deveria utilizar. Poderia mostrar-se severo, garantindo assim que Sharpe tivesse conhecimento da sua hostilidade ou poderia seguir o tom conciliatório do tenente. Resolveu não fazer nada disso e falou antes num tom simples e obediente.

     - Penso que devemos ir, meu Tenente.

     - Para ver um santo montado num cavalo branco?

     De novo o irlandês hesitou ao fazer a sua escolha. Olhou para o horizonte nu e depois encolheu os ombros, ao mesmo tempo que escolhia um novo caminho.

     - Nunca se deve questionar um milagre, meu Tenente. Se nos pomos a investigar muito, ficamos sem nada.

     Sharpe percebeu a aquiescência e soube que o seu preço estava a ser pago. Harper iria cooperar, mas Sharpe desejava que essa cooperação fosse oferecida de bom grado. Queria que aquelas frágeis tréguas fossem algo mais do que um acordo de conveniência.

     - É um bom católico, sargento? - perguntou, curioso por saber que tipo de homem era o seu novo sargento.

     - Não sou tão devoto como o nosso major, meu Tenente. Não há muitos assim, pois não? - Harper fez uma pausa. Estava a fazer as pazes com Sharpe, mas não haveria uma declaração formal do fim das hostilidades, nem lamentações de qualquer das partes. Haveria antes um recomeço que deveria ter o seu hesitante início naquela encosta fria. Eram ambos demasiado orgulhosos para pedirem desculpas, portanto estas teriam de ser esquecidas.

     - A religião é para as mulheres, acho eu - continuou Harper. - Mas faço-lhe as minhas honras sempre que posso e espero que Deus não esteja a olhar quando eu não quero que Ele veja o que eu faço. Mas sou crente, isso sim.

     - E pensa que servirá de alguma coisa levarmos o antigo estandarte até à catedral?

     - Sim - respondeu Harper com simplicidade, franzindo depois a testa como se tentasse encontrar uma explicação para a sua fé sem fundamento.

     - O meu Tenente viu aquela pequena igreja em Salamanca onde a imagem da Virgem tinha olhos que mexiam? O padre disse que era milagre, mas podia ver-se o cordel com que ele fazia mexer os olhos de madeira! - já mais descontraído, ria-se da recordação. - Porquê dar-se ao trabalho de ter um cordel?, perguntei para comigo. Porque as pessoas querem um milagre e pronto. E só porque há pessoas que inventam milagres, não quer dizer que não os haja verdadeiros, não é verdade? É exactamente o contrário. Porque se haveria de imitar uma coisa que não existe? Talvez seja o verdadeiro estandarte. Talvez consigamos ver o próprio São Tiago, em toda a sua glória, a cavalgar pelo céu. - Harper franziu a testa por uns segundos. - Mas se não tentarmos, nunca o saberemos, não é verdade?

     - É. - A concordância de Sharpe não foi muito convincente, pois não dava crédito à superstição de Vivar. Porém, tinha querido a opinião de Harper, pois sentia de facto sobre os seus ombros a preocupação quanto à decisão que tomara naquela noite. Que direito tinha um mero tenente de obrigar os seus homens a entrar em combate? Decerto que o seu dever seria conduzir aqueles homens em segurança e não fazê-los marchar contra uma cidade que se encontrava nas mãos dos franceses. Porém, era levado pelo impulso da aventura que o conduzira até ali e Sharpe quisera saber se Harper sentia a mesma atracção. Tudo indicava que sim, o que significava que o mesmo fariam os outros casacas-verdes. - Pensa que os homens estarão dispostos a combater? - perguntou Sharpe abertamente.

     - Um ou dois talvez possam recalcitrar. - Harper sentia algum desprezo perante tal perspectiva. - Atrevo-me a dizer que Gataker vai resmungar, mas eu trato-lhe da saúde. Todavia, meu Tenente, vão querer saber a razão porque combatem - fez uma pausa. - Porque raio lhe chama um estandarte? Não passa da porcaria de uma bandeira.

     Sharpe, que já tivera de fazer a mesma pergunta a Vivar, sorriu.

     - Um estandarte é diferente. É um pendão comprido que se pendura sobre dois paus cruzados. Uma coisa muito antiga.

     Seguiu-se um silêncio embaraçoso. Como cães desconhecidos que se encontram, tinham rosnado um ao outro, tinham feito as pazes com relutância e mantinham-se agora cautelosamente distantes. Sharpe pôs fim ao silêncio, apontando com o queixo para o vale muito abaixo da alta vereda, onde via chegar uma multidão. Eram aldeãos: rudes galegos do domínio de Moromorto: criadores de gado, mineiros, ferreiros, pescadores e pastores.

     - Acha que numa semana conseguimos transformá-los em soldados de infantaria? - perguntou a Harper.

     - Teremos de o fazer, meu Tenente?

     - O major arranja-nos os intérpretes e nós ensinamo-los a ser soldados.

     - Numa semana? - Harper parecia realmente estupefacto.

     - Acredita em milagres, não é verdade, sargento? - perguntou Sharpe com ar distraído.

     Harper retorquiu do mesmo modo. Abanou as divisas que tinha na mão e sorriu.

     - Acredito em milagres, meu tenente.

     - Então ao trabalho, sargento.

     - Com mil raios - era a primeira vez que Harper ouvia alguém dirigir-se-lhe pela sua nova patente. Pareceu surpreendido, depois lançou um sorriso desconfiado a Sharpe, que também já tinha pisado aquele caminho anos antes e sabia que o irlandês se sentia secretamente satisfeito. Harper podia ter lutado contra as divisas, mas estas eram um reconhecimento do seu valor e, sem dúvida, acreditava que não havia outro homem na companhia que as merecesse. Assim, Harper tinha-as e Sharpe conseguira um sargento.

     E ambos tinham de realizar o milagre.

    

     À noite os homens cantavam em redor das fogueiras do pátio. Não seriam as turbulentas marchas que faziam esquecer os quilómetros sob as duras botas, mas as melancólicas e doces melodias da pátria. Cantavam as jovens que haviam deixado para trás, as mães, os filhos, o lar.

     Todas as noites ardiam fogueiras no vale profundo, por baixo das ameias, onde os voluntários de Vivar, chegados dos domínios de Moromorto, tinham assentado arraiais. Tinham acampado no souto, junto do riacho, numa curva abrigada do monte e construído cabanas com lama e madeira. Eram camponeses que obedeciam à antiga chamada às armas, tal como os seus antepassados tinham posto ao ombro uma cimitarra e marchado para enfrentar os mouros. Não abandonavam as mulheres atrás de si e, à noite, sombras de saias ondulavam por entre as fogueiras e ouvia-se o choro das crianças nas cabanas de lama. Sharpe ouviu Harper avisar os fuzileiros contra a tentação das mulheres.

     - Toquem-lhes com um dedo e racho-vos a cabeça como se partisse um ovo. - Não houve problemas e Sharpe ficou encantado com a facilidade com que Harper assumira a autoridade que, mau grado seu, aceitara.

     Durante o dia havia muito trabalho, trabalho urgente para fazer nascer da derrota, uma vitória. Os sacerdotes desenharam um mapa da cidade, no qual, com cuidadoso pormenor, Vivar calculou as defesas francesas. Chegavam diariamente notícias dos preparativos do inimigo, trazidas para os montes por refugiados que tinham escapado ao invasor e contavam histórias de prisões e mortes.

     A cidade continuava cercada pelas decadentes muralhas das suas defesas medievais. Tinham desaparecido em determinados sítios e, noutros, as casas tinham saído para fora delas, transformando-se em subúrbios. Mesmo assim, os franceses baseavam a sua defesa numa antiga linha de baluartes. Tinham erguido barricadas nos locais onde as pedras haviam caído. As defesas não metiam medo; Santiago de Compostela não era uma cidade de fronteira rodeada por fortes e ravelins, mas as muralhas podiam ser ainda um terrível obstáculo a um ataque de infantaria.

     - Atacaremos antes do nascer do Sol - anunciou Vivar, no início da semana.

     Sharpe concordou com um resmungo.

     - E se houver piquetes atrás das muralhas?

     - Claro que há. Ignoramo-los.

     Sharpe percebeu que seria aquele o primeiro risco que correriam, a primeira dificuldade a eliminar na corrida desesperada para uma vitória impossível. Vivar confiava na escuridão e no cansaço para aturdir o espírito dos franceses. Porém, bastaria apenas que um soldado tropeçasse na noite, para que o mosquete disparasse e o inimigo se apercebesse da sua chegada. Vivar propôs que atacassem sem os mosquetes carregados. Haveria tempo para os homens carregarem as armas, disse, após a surpresa inicial. Sharpe como bom soldado de infantaria confiava na sua arma mais do que qualquer homem de cavalaria, e não gostou da ideia de Vivar. O major insistiu, mas Sharpe não foi mais além do que dizer que pensaria no assunto.

     Os planos ficaram mais pormenorizados e, enquanto isso, os receios de Sharpe aglomeravam-se como nuvens negras na linha do horizonte. Era fácil obter uma vitória no papel. Não havia cães a ladrar, nem pedras em que um homem tropeçasse, não havia chuva para ensopar o pó e o desempenho do inimigo seria tão sonolento como Sharpe pretendia; no papel.

     - Saberão que vamos a caminho? - perguntou-lhe Sharpe.

     - Terão as suas suspeitas - concedeu Vivar. Seria impossível os franceses não terem conhecimento da aglomeração que havia nas montanhas, embora pudessem não a considerar uma verdadeira ameaça. Afinal, tinham derrotado os exércitos de Espanha e da Grã-Bretanha, portanto, o que teriam a recear de meia-dúzia de camponeses? Mesmo assim, o conde de Moromorto e o coronel De l’Eclin conheciam exactamente a ambição que impelia Blas Vivar, e estavam ambos em Santiago. Os refugiados já o tinham confirmado. A cavalaria do marechal Ney tinha tomado a cidade, regressando a seguir à Corunha, para se juntar ao marechal Soult, deixando dois mil soldados franceses dentro do circuito das muralhas destruídas.

     Não tinham ali ficado para impedir que um antigo estandarte chegasse a um santuário, mas sim para recolher forragem nos vales da costa da Galiza. Tendo expulsado os ingleses de Espanha, o marechal Soult planeava agora marchar para sul. Os seus oficiais gabavam-se nas tabernas da Corunha, falando abertamente dos planos, e as suas palavras eram fielmente relatadas a Vivar. Os franceses, uma vez tratadas as suas fileiras, feridas pelos combates e pela geada, voltar-se-iam para sul e seguiriam para Portugal. Conquistariam o país e expulsariam os ingleses de Lisboa. A costa da Europa ficaria assim selada contra o comércio inglês e o bastião do imperador seria completo.

     O caminho de Soult para sul passaria por Santiago de Compostela e, por isso, ordenara que a cidade fosse transformada numa base avançada de abastecimento. O seu exército recolheria esses abastecimentos para impelir o ataque meridional. A cavalaria francesa patrulhava agressivamente o campo em busca de alimentos e forragem que, segundo os refugiados contaram a Vivar, estavam a ser armazenados em casas, em redor da praça da catedral.

     - Portanto, já vê, tenente - disse Vivar a Sharpe, uma noite, já no final da semana, quando se encontraram, como de costume, para estudar o mapa da cidade e rever o plano de assalto. - Temos uma boa razão para os atacar.

     - Ah sim?

     - Já pode afirmar que não está apenas a agradar a um espanhol louco. Vai proteger a sua guarnição em Lisboa, destruindo os víveres dos franceses. Não será verdade?

     Mas Sharpe não estava com vontade de aceder. Olhava para a planta da cidade, imaginando as sentinelas francesas a fitar a noite.

     - Saberão que vamos a caminho - Sharpe não conseguia livrar-se do medo de encontrar o inimigo alerta.

     - Mas não saberão onde nem quando atacaremos.

     - Preferia que De L’Eclin não estivesse lá.

     Vivar desprezou aqueles receios.

     - Julga que a Guarda Imperial não dorme? Sharpe fingiu não o ter ouvido.

     - Ele não está lá para recolher forragem. O seu dever é tomar o estandarte e sabe que lho levaremos. Seja qual for o plano, meu Major, já o delineou. Está à nossa espera! Está pronto para nos receber!

     - Está com medo dele, tenente! - Vivar encostou-se à parede da sala da torre onde guardavam o mapa. A luz da fogueira cintilava lá em baixo, no pátio, onde um espanhol entoava uma canção triste.

     - Ele assusta-me porque é muito bom - confirmou Sharpe. - Demasiado bom.

     - Só é bom no ataque. Não sabe defender-se! Quando atacou a emboscada dele, tenente, ou eu o ataquei na quinta, não pareceu assim tão inteligente, pois não?

     - Não - concordou Sharpe.

     - E agora está a tentar defender uma cidade! Pertence ao regimento dos caçadores, é um caçador, mas não sabe defender-se. - Vivar recusava-se a mostrar derrotismo. - Claro que venceremos! Graças às suas ideias, venceremos.

     O louvor tinha sido calculado para conseguir o entusiasmo de Sharpe que havia sugerido um esquema para o assalto, do interior para o exterior da cidade. Não tentariam tomá-la casa a casa, ou rua a rua, pelo contrário, seriam rápidos e duros, dirigindo-se ao centro. Depois, divididos em dez grupos, um para cada uma das estradas que interrompiam o circuito das antigas defesas, os atacantes expulsariam os franceses para o campo.

     - Deixá-los fugir! - comentara Sharpe. - Desde que nós tomemos a cidade.

     Se eles tomassem a cidade, coisa que Sharpe duvidava, não poderiam esperar retê-la por mais de trinta e seis horas. A infantaria de Soult, marchando a partir da Corunha e reforçada pela soberba artilharia francesa, arrasaria os homens do major.

     - Preciso apenas de um dia - hesitou Vivar. - Capturamo-la de madrugada, encontramos os traidores ao meio-dia, destruímos os víveres e, nessa noite, içamos o estandarte. No dia seguinte saímos triunfantes.

     Sharpe dirigiu-se à janela estreita. Os morcegos, acordados do seu sono’ de Inverno pela chegada dos soldados à fortaleza, esvoaçavam na luz vermelha. Os montes estavam às escuras. Algures, nas negras encostas, o sargento Harper conduzia uma patrulha de fuzileiros numa marcha longa e circular. A intenção não era apenas que a patrulha procurasse um acampamento francês, mas também que os homens se habituassem às dificuldades da marcha nocturna. Toda a pequena força de Vivar, incluindo os mal treinados voluntários, teria de fazer uma viagem assim e, tendo experimentado o caos em que uma marcha nocturna podia transformar as tropas, Sharpe estremeceu interiormente. Pensou também nos terríveis adversários. Havia dois mil soldados da cavalaria francesa em Santiago de Compostela. Nem todos lá estariam, quando Vivar atacasse; alguns encontrar-se-iam acampados nas quintas que teriam pilhado, mas, mesmo assim, a preponderância do inimigo seria muito forte.

     Contra eles marchariam cinquenta fuzileiros, cento e cinquenta caçadores, dos quais apenas uma centena tinha cavalos, e perto de trezentos eram voluntários mal treinados.

     Uma loucura. Sharpe voltou-se para o espanhol.

     - Porque não espera até os franceses terem partido para o sul, meu Major?

     - Porque a espera transformar-se-ia numa história para ser contada em todas as tabernas. Porque eu tenho um irmão que tem de morrer. Porque, se esperar, hão-de considerar-me tão cobarde como os outros oficiais que fugiram para sul. Porque jurei fazê-lo. Porque não posso acreditar na derrota. E iremos em breve, o mais depressa possível. - Vivar quase falava sozinho, olhando para as marcas de carvão que mostravam as defesas dos franceses.

     - Assim que os nossos voluntários estiverem preparados, partimos.

     Sharpe nada disse. A verdade é que, naquele momento, acreditava que o ataque era uma loucura, mas era uma loucura que tinha ajudado a planear e que jurara apoiar.

     Tal como o inocente arranhar de um pequenino mocho num sótão poderia ser transformado, pelo receio de uma criança, nos passos nocturnos de um terrível monstro, assim Sharpe deixava que os seus temores se alimentassem e aumentassem à medida que os dias passavam.

     Não podia contar a ninguém a sua certeza de que aquele assalto terminaria em desgraça. Não queria ganhar o desprezo de Vivar, admitindo-o, e não havia mais ninguém em quem confiar. Harper, tal como o major espanhol, parecia imbuído por uma cega confiança de que o ataque resultaria.

     - Sabe, meu Tenente, o nosso major terá de esperar mais uma semana. A ideia de um adiamento provocou alguma esperança em Sharpe.

     - Terá de esperar?

     - São os voluntários, meu Tenente. Não estão prontos, nem pensar. Harper que tinha tomado para si a missão de treinar os voluntários na arte do fogo de pelotão, parecia genuinamente preocupado.

     - Já avisou o major?

     - Ele vem inspeccioná-los amanhã de manhã, meu Tenente.

     - Estarei presente.

     E nessa manhã, debaixo de uma chuva que escurecia as rochas e gotejava das árvores, Sharpe desceu o vale, onde o tenente Davila e o sargento Harper demonstraram a Blas Vivar os resultados de uma semana de treino.

     Foi um desastre. Vivar pedira simplesmente que os trezentos homens aprendessem os rudimentos dos exercícios com o mosquete; assim, como se fossem metade de um batalhão, poderiam manter-se em três fileiras e disparar rajadas de pelotão, para impedir uma força atacante.

     Mas os voluntários não conseguiam manter-se perfilados em alas rígidas que concentravam o fogo de mosquete para canais mortíferos. O problema começou quando os homens da última ala recuaram instintivamente para conferirem a si próprios um espaço que lhes permitisse segurar as longas varetas, enquanto a ala central também recuou para se distanciar dos homens da frente. Assim, toda a formação ficou desordenada. Debaixo de fogo, o instinto seria continuar esse recuo e, com apenas algumas rajadas, os franceses pô-los-iam em fuga. Também não treinavam com munições, pois não havia pólvora suficiente para esse fim. Limitavam-se a aprender os movimentos do mosquete. Sharpe nem se atrevia a pensar como reagiriam os homens da ala da frente à precursão dos tiros das espingardas nos seus ouvidos.

     Os ”mosquetes” eram qualquer arma que um homem pudesse empunhar. Havia antigas caçadeiras, mosquetões, pistolas e até mesmo uma antiga espingarda de mecha. Alguns mineiros nem sequer possuíam armas e tinham vindo, empunhando as suas picaretas. Sem dúvida dariam temerários combatentes, se conseguissem aproximar-se do inimigo, mas os franceses nunca tal permitiriam. Arrasá-los-iam.

     Os voluntários não tinham falta de coragem; só a sua presença naquele vale remoto testava a sua vontade de lutar, todavia, não podiam ser transformados em soldados. Eram precisos meses para fazer um soldado de infantaria. Era necessária uma disciplina férrea para ensinar um homem a ficar na linha de batalha e enfrentar os tambores e as cintilantes baionetas de um ataque francês. A coragem natural ou a temerária teimosia não substituíam o treino; este facto tinha sido várias vezes provado pelo imperador, enquanto os seus veteranos destruíam os mal treinados exércitos da Europa.

     Um ataque da infantaria francesa era digno de respeito. Estas tropas não atacavam em linha, mas em vastas colunas. Fileira após fileira, os homens muito juntos, erguiam as baionetas acima das cabeças e marchavam ao ritmo dos tamborezinhos ocultos no meio deles. Quando atacavam em colunas, caíam soldados na frente e nos flancos; por vezes uma bala de canhão esfolava as suas fileiras compactas, mas os franceses fechavam-nas de novo e seguiam em frente. A visão era terrível, a sensação de poder era aterrorizadora e até mesmo os mais corajosos quebravam perante ela, a menos que meses de treino os tivessem ensinado a aguentar firmes.

     - Nós não vamos enfrentar a infantaria. - Vivar tentava encontrar uma réstia de esperança perante a desgraça. - Apenas a cavalaria.

     - Não há infantaria? - Sharpe parecia ter dúvidas.

     - Há alguns soldados para proteger os aquartelamentos franceses disse Vivar, sem dar muita importância ao facto.

     - Mas se estes se comportarem assim - Sharpe apontou para os desani-mados voluntários -, nunca poderão enfrentar a cavalaria, quanto mais a infantaria.

     - A cavalaria francesa está cansada - Vivar sentia-se claramente irritado pelo permanente pessimismo de Sharpe. - Deram cabo dos cavalos.

     - Deveríamos esperar - disse Sharpe. - Esperar até que tivessem marchado para sul.

     - Pensa que não deixarão uma guarnição na Galiza? - Vivar teimava na sua recusa em esperar. Fez um gesto para que Davila e Harper se juntassem a ele. - Quanto tempo mais precisam para pôr os voluntários em forma?

     Davila disse que não pertencia à infantaria e olhou para Harper. O irlandês encolheu os ombros.

     - É um desespero, meu Major. Um completo desespero.

     O tom da resposta de Harper foi tão diferente do seu entusiasmo habitual que desanimou até mesmo Vivar. O espanhol precisava que aqueles voluntários agissem com um mínimo de eficiência, antes de lançar o ataque, mas a tristeza do irlandês parecia pressagiar infinitos adiamentos, senão um abandono completo.

     Harper aclarou a garganta.

     - Mas aquilo que não compreendo, é a razão porque o meu Major os quer transformar em soldados.

     - Será para vencerem uma batalha? - sugeriu Sharpe despeitado.

     - Se houver uma luta directa entre estes rapazes e os dragões franceses, nunca poderemos vencer, com as minhas desculpas, meu Major. - Harper fez uma pausa. Nenhum dos oficiais pronunciou palavra. A voz do sargento tinha um tom autoritário, como a de um homem prático que demonstrava a imbecis uma coisa extremamente fácil. - De que serve treiná-los para um combate aberto, quando não é aquilo que esperamos? Para que precisam de aprender a fazer fogo de pelotão? Estes rapazes têm de lutar nas ruas, meu Major. Luta corpo a corpo e pronto, e nisso calculo que sejam tão bons como qualquer francês. Leve-os para a cidade e solte-os. Eu não gostaria de ter de enfrentar estes canalhas.

     - Dez homens treinados podem dar conta de uma multidão - disse asperamente Sharpe, vendo afastarem-se as esperanças de um adiamento.

     - Sim, mas temos duzentos homens treinados - disse Harper. - E vamos colocá-los onde de facto houver necessidade deles.

     - Meu Deus! - Vivar pareceu subitamente eufórico. - Sargento, tem toda a razão!

     - Ora essa, meu Major! - Harper estava evidentemente encantado com o elogio.

     - Tem razão! - Vivar bateu no ombro do irlandês. - Deveria tê-lo percebido. É o povo e não o exército que há-de libertar a Espanha, portanto, porquê transformar o povo num exército? E esquecemo-nos, meus senhores, das forças que estarão do nosso lado dentro da cidade. Os próprios cidadãos! Levantar-se-ão e lutarão por nós e nunca pensaremos em recusar a sua ajuda por não estarem treinados! - O optimismo de Vivar, originado pelas palavras de Harper, era imenso. - Poderemos então partir em breve. Cavalheiros, estamos prontos!

     Então, pensou Sharpe, até o treino ia ser abandonado. Um número bastante inferior de homens ia atacar uma cidade. Vivar fazia que tudo parecesse muito simples, como encher um poço de ratazanas e depois soltar-lhes os cães de caça. Só que o poço era uma cidade e estas ratazanas estavam à espera.

     Os voluntários de Vivar poderiam não ser soldados treinados, mas o major insistiu para que jurassem servir a Coroa espanhola. Os padres conduziram a cerimónia e o nome de cada um dos homens era solenemente registado num papel, como sendo soldado ajuramentado de sua Cristianíssima Majestade, o rei Fernando VII. Agora, os franceses não podiam ter qualquer desculpa para tratar os voluntários de Vivar como criminosos civis.

     Porém, os soldados precisavam de uniformes e não havia tecido tingido para fazer as coloridas casacas, nem outras peças do fardamento, como barretinas, cintos, bolsas ou polainas. Mas tinham uma tosca fazenda castanha, tecida em casa e, desse humilde material, Vivar ordenou que fossem feitas túnicas simples. Havia também linho branco, que chegara de um convento a trinta quilómetros de distância, e que serviu para as faixas. Era um uniforme muito rudimentar, apertado com cordões que rodeavam botões de osso, mas, se as regras da guerra pudessem ser aplicadas à expedição de Vivar, as túnicas castanhas passariam por casacas de soldados.

     As mulheres dos voluntários cortaram e coseram as túnicas castanhas, enquanto Louisa Parker, no cimo da fortaleza, ajudou os fuzileiros a remendar as suas casacas-verdes, rasgadas, esfiapadas e queimadas. E a jovem provou ter uma capacidade extraordinária com a agulha. Pegou na casaca verde de Sharpe e, em menos de um dia, fê-la parecer quase completamente nova.

     - Até engomei os percevejos - disse alegremente e dobrou uma costura do colarinho para provar que os piolhos tinham verdadeiramente sido extermi-nados por um bocado de sabre partido que tinha utilizado como ferro de engomar.

     - Muito obrigado. - Sharpe pegou na casaca e viu como ela tinha virado o colarinho, cerzido as mangas e remendado o forro preto. As calças não puderam ser arranjadas com a cor cinzenta original, mas Louisa cosera remendos de tecido castanho sobre os piores rasgões.

     - Tenente, parece um arlequim.

     - Um imbecil?

     Foi na noite do dia em que Harper convencera Vivar da inutilidade do treino dos voluntários. Tal como em noites anteriores, Sharpe caminhava pelas ameias com Louisa. Adorava aqueles momentos. À medida que os receios da derrota cresciam nele, aquelas conversas arrebatadoras eram passagens de esperança. Gostava de olhar para a luz da fogueira reflectida no rosto dela, gostava da doçura que por vezes lhe suavizava a vivacidade. E agora ela encostava-se delicadamente ao parapeito.

     - Acha que os meus tios estão em Santiago?

     - Talvez.

     Louisa estava embrulhada na capa escarlate de um caçador e usava uma touca cingida ao rosto.

     - Talvez que a minha tia não me receba de volta. Talvez esteja tão escandalizada pelo meu comportamento que me expulse da Igreja e do lar.

     - Acha provável?

     - Não sei - Louisa parecia melancólica. - Por vezes, tenho a impressão de que é isso mesmo que eu quero que aconteça.  Quer? - Sharpe estava surpreso.

     - Ser lançada no meio da maior aventura do mundo? Porque não? Louisa soltou uma gargalhada. - Quando era pequena, tenente, disseram-me que era perigoso atravessar o parque da aldeia porque os ciganos me podiam levar. E se os soldados alguma vez aparecessem na aldeia... - abanou a cabeça para demonstrar a enormidade do perigo se tal viesse a suceder. - Agora vejo-me no meio de uma guerra e acompanhada apenas por soldados! - Sorriu da situação e lançou a Sharpe um olhar que era um misto de curiosidade e afecto. - Don Blas diz que o tenente é o melhor soldado que jamais conheceu.

     Sharpe achou estranho ouvi-la usar o nome próprio de Vivar, mas depois pensou que talvez fosse um modo educado de se referir ao hidalgo.

     - Exagera.

     - O que ele realmente disse - Louisa falava agora mais devagar e Sharpe teve a sensação de que ela lhe estava a transmitir um recado - foi que se o tenente tivesse mais confiança em si próprio, seria o melhor. Suponho que não lhe devia ter dito isto.

     Sharpe ficou a pensar se a crítica era verdadeira e Louisa, pensando erradamente que o seu silêncio era sinal de ofensa, pediu desculpas.

     - Tenho a certeza que é verdade - disse Sharpe apressadamente.

     - Gosta de ser soldado?

     - Sempre sonhei ter uma quinta. Só Deus sabe porquê, pois não sei nada do assunto. Provavelmente plantaria os nabos ao contrário. - Olhou para as fogueiras acesas no vale profundo, pequenas fagulhas de calor e luz na imensidão da noite fria. - Imaginei que teria cavalos num estábulo, um rio para pescar - fez uma pausa e encolheu os ombros. - Filhos.

     Louisa sorriu.

     - Eu sonhava que havia de viver num grande castelo com muitas passagens secretas, masmorras, cavaleiros misteriosos que traziam mensagens a meio da noite. Penso que teria preferido viver nos tempos da rainha Isabel. Os padres católicos escondidos e os espanhóis no Canal. Só que esses velhos inimigos são agora nossos amigos, não é verdade?

     - Até os padres?

     - Não são os ogres que eu pensava que fossem - Louisa ficou por momentos em silêncio. - Mas, quando somos educados com demasiada firmeza no que diz respeito a uma questão, é compreensível que sintamos curiosidade pelo inimigo, não acha? E nós, os ingleses, fomos sempre habituados a odiar os católicos.

     - Eu não.

     - Mas entende o que eu quero dizer. Não sente curiosidade pelos franceses?

     - Nem por isso. Louisa franziu a testa.

     - Eu sinto curiosidade pelos católicos. Neste momento sinto por eles um afecto muito pouco protestante. Tenho a certeza de que o senhor Bufford ficaria escandalizado.

     - Será que ele alguma vez virá a saber? - perguntou Sharpe. Louisa encolheu os ombros.

     - Terei de lhe descrever as minhas aventuras. E terei de lhe confessar que a Inquisição não me torturou, nem me tentou queimar na fogueira. - Olhou fixamente a noite. - Um dia, tudo isto me parecerá um sonho.

     - Acha que sim?

     - Para si, não - disse ela tristemente. - Mas um dia, custar-me-á acreditar que tudo isto aconteceu. Serei a senhora Bufford de Godalming, uma senhora muito respeitável e enfadonha.

     - Podia ficar aqui - afirmou Sharpe, sentindo-se imensamente corajoso por conseguir dizer tal coisa.

     - Acha? - Louisa voltou-se para ele. Havia um brilho do lado esquerdo, onde um fuzileiro fumava o seu cachimbo, mas ambos o ignoraram. Voltou-se de costas e traçou no parapeito um desenho vago. - Está a dizer-me que o exército inglês vai ficar em Portugal?

     A pergunta surpreendeu Sharpe, que pensava ter conseguido chegar a um nível mais íntimo da conversa.

     - Não sei.

     - Julgo que a guarnição de Lisboa já deve ter partido - disse Louisa, com simplicidade. - Se assim não fosse, de que serviria uma guarnição tão pequena quando os franceses marchassem para sul? Não, tenente, o imperador ensinou-nos uma lição inteligente e receio que não nos atrevamos a pôr de novo em risco o nosso exército.

     Sharpe perguntou a si próprio onde teria ela arranjado opiniões tão firmes em estratégia militar.

     - O que eu quis dizer quando afirmei que podia ficar aqui... - começou ele timidamente.

     - Eu sei, perdoe-me - Louisa interrompeu-o rapidamente e houve um incómodo silêncio entre eles até ela o quebrar de novo. - Sei muito bem do que está a falar e sinto-me muito sensibilizada com a honra que me dá, mas não quero que me peça nada - as palavras formais foram ditas em voz baixa.

     Sharpe tinha querido dizer que lhe ofereceria tudo o que estivesse ao seu alcance. Poderia não ser muito; em termos de dinheiro, nada seria, porém, estava à sua disposição como seu escravo e admirador. Todavia, Louisa tudo percebera, devido à sua incoerência, e ele agora sentia-se incomodado e rejeitado.

     Louisa devia ter sentido o seu embaraço e lamentou tê-lo causado.

     - Tenente, por enquanto não quero que me peça nada. Pode esperar até que a cidade seja capturada?

     - Claro. - A esperança surgia de novo em Sharpe, num misto de vergonha pela sua desastrada declaração. Pensou ter falado demasiado cedo e ter sido muito impetuoso, porém o desejo evidente de Louisa ficar em Espanha e evitar o casamento com o senhor Bufford fora a causa das suas palavras.

     Mais adiante, a sentinela andava de um lado para o outro e o cheiro do tabaco pairava ao longo das ameias. No pátio, as labaredas subiram mais quando um homem lançou um tronco para dentro da fogueira. Louisa voltou-se para olhar o rodopiar das fagulhas até à altura das ameias da torre. Do fundo da fortaleza surgiu o gemido de uma gaita-de-foles galega que inevitavelmente provocava gritos de medo fingido da parte dos homens de Sharpe. Ela sorriu ao ouvir aqueles sons, depois franziu a testa e olhou para Sharpe com ar acusador.

     - O tenente não acredita que Don Blas consiga tomar a cidade, pois não?

     - Claro que eu...

     - Não - interrompeu-o ela. - Eu tenho-o escutado. Pensa que estão dema-siados franceses em Santiago. E, em privado, diz que é uma loucura da parte de Don Blas.

     Sharpe ficou de certo modo desconcertado com aquela acusação. Nunca admitira a Louisa os seus verdadeiros medos, porém, era verdade que ela os percebera.

     - É uma loucura - afirmou na defensiva. - Até o próprio major Vivar o admite.

     - Diz que é uma loucura de Deus, o que é diferente - replicou Louisa, num tom de leve reprovação. - Mas seria bem melhor se houvesse menos franceses na cidade, não é verdade?

     - Seria bem melhor - repetiu secamente Sharpe - se eu tivesse quatro batalhões de bons casacas-vermelhas, duas baterias de nove canhões e mais duzentos fuzileiros.

     - Suponha... - começou Louisa, mas depois mediu as palavras.

     - Continue.

     - Suponha que os franceses pensavam que o tenente tinha marchado para um esconderijo perto da cidade. Um local onde quisesse aguardar durante o dia, para atacar apenas depois de a noite cair. E suponha - apressou-se a dizer, para que ele não a interrompesse - que os franceses sabiam onde o tenente se escondia.

     Sharpe encolheu os ombros.

     - Enviariam os homens para dar cabo de nós, claro está.

     - E se estivesse num local completamente diferente? - Louisa falava com o mesmo entusiasmo com que aceitara o mistério do cofre. - Já poderia atacar a cidade, enquanto eles estivessem fora!

     É tudo muito complicado - disse Sharpe numa muda crítica. Mas supondo que fosse eu a dizer-lhes isso.

     Sharpe, estupefacto, nada disse. Depois abanou subitamente a cabeça.

     - Não seja ridícula!

     - Não, de verdade! Se eu fosse a Santiago - Louisa ergueu o tom de voz para não ouvir o protesto dele. - Se eu lá fosse e dissesse que era isso que o tenente ia fazer, eles acreditavam-me! Diria que não queriam deixar-me ir convosco e que insistiam para que fosse sozinha para Portugal, de modo que preferira ir em busca dos meus tios. Acreditavam-me!

     - Nunca! - Sharpe desejava terminar aquela absurda explosão. - O major Vivar já lhes pregou uma partida. Espalhou o boato de que viajava comigo, obrigando os franceses a virem para sul. Não vão cair outra vez. - Lamentou refrear um tal entusiasmo, mas a ideia dela era impossível. - Mesmo que diga aos franceses que nós estamos escondidos algures, não mandarão a cavalaria à nossa procura, senão depois do nascer do sol. E nessa altura será demasiado tarde para atacar. Se houvesse um modo de afastar a guarnição à noite... - encolheu os ombros, o que significava que lhe parecia impossível.

     - Era só uma ideia. Louisa, mais calma, olhava para os morcegos que esvoaçavam na noite por entre as ameias.

     - Foi muito simpático da sua parte querer ajudar.

     - Mas eu quero ajudar.

     - Ajuda só pelo facto de aqui estar - Sharpe tentou ser galante. A sentinela deu a volta no extremo das ameias e caminhou lentamente em direcção a eles. Sharpe teve a sensação de que a jovem em breve se iria retirar para o quarto e, embora se arriscasse a um novo embaraço, não quis deixar passar o momento sem reforçar as suas ténues esperanças.

     - Ofendia-a há pouco? - perguntou, timidamente.

     - Não pense nisso. Fiquei lisonjeada. - Louisa olhou para as luzes do vale profundo.

     - Não acredito que vamos fugir de Espanha. - Se fosse aquela a objecção de Louisa para o aceitar, então Sharpe opor-se-ia, não por saber que a guarnição de Lisboa se manteria no seu posto, mas sim por não poder aceitar que a intervenção britânica tinha sido derrotada.

     - Vamos ficar. A guarnição de Lisboa será reforçada e voltaremos a atacar! - Fez uma pausa e regressou de novo ao cerne da questão. - Há mulheres de oficiais que acompanham o exército. Algumas vivem em Lisboa, outras mantêm-se a um ou dois dias de distância do exército, mas não é raro que o façam.

     - Senhor Sharpe - Louisa poisou a mão enluvada na manga de Sharpe. Dê-me tempo. Sei que me vai dizer que se deve aproveitar o momento, mas eu não sei se esta será a altura apropriada.

     - Desculpe.

     - Não tem de pedir desculpas. - Embrulhou-se mais na capa. - Permite que me retire? Estou muito cansada de costurar.

     - Boa-noite, menina.

     Sharpe pensou que nunca um homem se sentia tão imbecil como quando era rejeitado. Todavia convenceu-se de que ela não o rejeitara, mas que lhe prometera responder depois da tomada de Santiago de Compostela. Era a sua impaciência que o obcecava e o atraía para uma cidade de onde regressaria triunfante ou derrotado, para receber a ambicionada resposta.

     O dia seguinte era domingo. A missa foi celebrada no pátio do forte e, depois, um grupo de cavaleiros chegou, vindo do sul. Eram homens de aspecto feroz, armados, que tratavam Vivar com cautelosa cortesia. Mais tarde, este disse a Sharpe tratarem-se de rateros, salteadores de estradas, que, naquela altura, tinham voltado a sua violência contra o inimigo comum.

     Os rateros traziam novidades de um mensageiro francês, capturado com a sua escolta quatro dias antes, que transportava uma mensagem codificada. O conteúdo exacto perdera-se, mas o resumo fora sacado ao oficial francês antes da sua morte. O imperador estava impaciente. Soult esperara demasiado. Portugal teria de cair e os ingleses, se ainda continuassem em Lisboa, seriam expulsos antes de Fevereiro. O marechal Ney teria de ficar no Norte para varrer das montanhas todas as forças hostis. Assim, mesmo se Vivar esperasse até Soult partir, continuaria a haver tropas francesas em Santiago de Compostela.

     Mas se Vivar atacasse agora, enquanto Soult continuava doze léguas a norte e a preciosa forragem estava ainda armazenada na cidade, poderia desferir um golpe duplo: destruir os víveres e hastear o estandarte.

     Vivar agradeceu aos cavaleiros e, logo a seguir, dirigiu-se à capela do castelo, onde, durante uma hora, rezou sozinho.

     Quando de lá saiu, encontrou Sharpe.

     - Partimos amanhã!

     - Porque não hoje? - Se o tempo urgia, porquê esperar mais vinte e quatro horas?

     Mas Vivar mostrou-se inflexível.

     - Amanhã. Marchamos amanhã de manhã.

     Na madrugada seguinte, ainda antes de fazer a barba e engolir a caneca de chá amargo que os fuzileiros tanto apreciavam, Sharpe descobriu por que razão Vivar esperara mais um dia. O espanhol tentava enganar os franceses com outra falsa pista, para cujo fim, na noite anterior, tinha enviado Louisa da fortaleza. O quarto dela estava vazio, a cama fria e ela tinha desaparecido.

    

     Porquê? - A pergunta de Sharpe era ao mesmo tempo, um desafio e um protesto.

     - Ela queria ajudar - disse Vivar em tom jovial. - Estava ansiosa por fazê-lo e não vi razão em contrário. Além do mais, a menina Parker comeu da minha comida e bebeu do meu vinho durante vários dias, porque não haveria então de pagar a minha hospitalidade?

     - Eu disse-lhe que era um absurdo! Os franceses vão adivinhar a história num minuto!

     - Acredita que sim? - Vivar estava sentado perto da barrica da água junto à porta do forte, onde embebia as meias em gordura de porco que fora distribuída aos soldados, para prevenir as bolhas nos pés. Interrompeu o desagradável trabalho para olhar fixamente para Sharpe. - Porque haveriam os franceses de achar estranho o facto de uma jovem desejar regressar à família? Eu penso que não, tenente. Nem julguei necessário obter a sua aprovação ou o que pensava do assunto.

     Sharpe fingiu não ouvir a reprimenda.

     - Mandou-a de noite, sem mais nem menos?

     - Não seja ridículo. Dois dos meus homens foram escoltá-la até o mais longe possível e, depois, pode percorrer sozinha a restante distância até à cidade. - Vivar embrulhou o pé direito num dos panos gordurentos e depois voltou-se com espanto fingido, como se tivesse acabado de entender a verdadeira causa do desagrado de Sharpe. - Está apaixonado por ela!

     - Não! - protestou Sharpe.

     - Então não percebo por que razão está tão perturbado. Deveria mesmo estar encantado. A menina Parker vai informar, com relutância, os franceses que a ideia de um ataque nosso foi abandonada. - Vivar calçou a bota direita. Sharpe ficou de boca aberta.

     - Disse-lhe que o ataque tinha sido cancelado? Vivar começou a cobrir o pé esquerdo.

     - Também lhe disse que iríamos capturar a cidade de Padrón, amanhã de madrugada. A cidade fica a pouco mais de vinte quilómetros a sul de Santiago de Compostela.

     - Nunca acreditarão em tal coisa!

     - Pelo contrário, tenente, vão achar que a história é muito plausível, muito mais do que o disparatado ataque a Santiago de Compostela! De facto, sentir-se-ão divertidos pelo facto de eu nem sequer ter contemplado tal ideia, e o meu irmão perceberá perfeitamente a razão pela qual escolhi a cidade menos importante de Padrón. Foi a esse ponto da costa espanhola que chegou o barco fúnebre de Santiago, e é considerado um local sagrado. Concordo que não seja tão santificado como o local onde se encontra o túmulo do santo, mas as outras indiscrições de Louisa explicarão porque Padrón, será suficiente.

     - Que outras indiscrições?

     - Vai dizer-lhes que o estandarte está tão gasto pelo tempo e tão estragado que não poderá ser hasteado. Por isso, o meu plano é desfazer as suas tiras em pó e espalhá-lo sobre o mar. Desse modo, embora não consiga realizar o milagre conforme é meu desejo, posso, pelo menos, garantir que nunca passe para as mãos dos inimigos de Espanha. Resumindo, tenente, a menina Parker vai dizer ao coronel De l’Eclin que eu estou disposto a abandonar o ataque, pois receio a força das suas defesas. Devia apreciar a força desse argumento, tenente, não concorda? Disse-me várias vezes que o nosso inimigo é terrível.

     - Vivar calçou o pé esquerdo e levantou-se. - A minha esperança é que o coronel De I’Eclin deixe a cidade esta noite, para preparar uma emboscada à nossa marcha sobre Padrón.

     Pelo menos a pista falsa de Vivar era plausível, o que não acontecera com as ideias entusiásticas de Louisa, mas, mesmo assim, Sharpe estava estupefacto por Vivar ter posto em risco a vida da jovem. O major quebrou a cobertura de gelo do barril de água e pegou na sua navalha que se encontrava na borda.

     - Os franceses terão juízo e nunca sairão da cidade durante a noite.

     - E se pensarem que tem possibilidades de fazer uma emboscada à nossa marcha e capturarem o estandarte? julgo que sim. Louisa também os informará que discutimos e que o tenente levou os seus fuzileiros para sul, em direcção a Lisboa. Dirá que foram as suas atenções pouco cavalheirescas que a levaram a procurar a protecção da família. Assim, De l’Eclin não receará os seus fuzileiros e penso que o poderemos fazer sair da toca. E se assim não for? Que temos nós a perder?

     - Poderemos perder Louisa! - disse Sharpe com mais insistência do que seria natural. - Podem matá-la!

     - É verdade, mas se estão tantas mulheres a morrer por Espanha, porque não há-de a menina Parker morrer por Inglaterra? - Vivar despiu a camisa, pegou na navalha e no seu fragmento de espelho. - Julgo que gosta dela - disse em tom acusador.

     - Não em especial - Sharpe tentou parecer indiferente. - Mas sinto-me responsável por ela.

     - O que é uma coisa muito perigosa de sentir por uma jovem; a responsabilidade pode conduzir ao afecto e o afecto assim nascido julgo que não seja tão duradouro como... - a voz de Vivar desvaneceu-se. Sharpe tirara pela cabeça a sua camisa esfarrapada e o espanhol olhou horrorizado para o seu tronco nu. - Tenente?

     - Fui flagelado. - Sharpe, habituado como estava àquelas terríveis cicatrizes, ficava sempre surpreendido quando as outras pessoas as julgavam dignas de nota. - Foi na índia.

     - O que fez para isso?

     - Nada. Um sargento não gostava de mim e pronto. O canalha mentiu Sharpe mergulhou a cabeça na água gelada e retirou-a, ofegante, a escorrer. Abriu a navalha e começou a raspar os pêlos curtos e escuros do queixo. - já foi há muito tempo.

     Vivar estremeceu, mas percebendo que Sharpe não desejava falar mais do assunto, mergulhou também a sua navalha dentro de água.

     - Pessoalmente, não creio que os franceses matem Louisa.

     Sharpe resmungou como se quisesse dar a entender que não dava importância ao que se pudesse passar.

     - Julgo que os franceses não odeiam tanto os ingleses quanto odeiam os espanhóis - prosseguiu Vivar. - Além do mais, Louisa é uma mulher de grande beleza e jovens assim provocam nos homens sentimentos protectores. - Brandiu a sua navalha na direcção de Sharpe, como prova da sua afirmação. - Creio que o seu ar tão inocente também a há-de defender e fazer, ao mesmo tempo, com que De l’Eclin acredite nela - fez uma pausa para raspar um ângulo do queixo. - Os homens acreditam sempre nas mulheres chorosas.

     - Isso pode fazer com que ele lhe arranque a cabeça - desabafou aspera-mente Sharpe.

     - Lamentarei muito, se o fizer - confessou lentamente Vivar. - Mesmo muito.

     - Ah, sim? - Pela primeira vez, Sharpe ouviu uma genuína emoção traída pelo tom de voz do espanhol. Olhou para Vivar e repetiu a pergunta em tom acusador. - Ah, sim?

     - Porque não? Claro que mal a conheço, mas parece-me uma jovem admirável. - Vivar fez uma pausa para reflectir sobre as virtudes de Louisa e em seguida encolheu os ombros. - É pena que se trate de uma herege, mas é melhor ser metodista do que descrente, como o tenente. Pelo menos vai a meio caminho do céu.

     Sharpe sentiu o tormento do ciúme. Percebeu que Blas Vivar estava mais interessado em Louisa do que parecia, ou do que Sharpe julgara possível. - Não que tenha alguma importância - disse Vivar, como que por acaso. - Mas espero que não morra. E se morrer? Então rezarei pela sua alma.

     Sharpe estremeceu de frio, pensando quantas almas não necessitariam de orações, antes que terminassem os dois dias seguintes.

     A expedição de Vivar atravessou a chuva fina que começou a cair ao fim do dia.

     Seguiram pelos atalhos das montanhas, que serpenteavam pelos contra-fortes e atravessavam vales desertos. Passaram por uma aldeia saqueada pelos franceses. Nem uma única casa permanecera intacta, não se via uma única pessoa, nenhum animal sobrevivera. Os homens de Vivar não pronunciaram palavra enquanto olhavam pelas tábuas queimadas de onde gotejava lenta-mente a chuva.

     Tinham partido muito antes do meio-dia, pois teriam de percorrer muitos quilómetros antes da madrugada. À frente, seguiam os caçadores de Vivar. Um esquadrão montado da cavalaria patrulhava o terreno mais à frente. Atrás desses piquetes vinham os caçadores apeados, com os cavalos pelas rédeas. Depois os voluntários. Os dois sacerdotes cavalgavam adiante dos fuzileiros de Sharpe, que formavam a retaguarda. O cofre viajava com os dois padres. A preciosa carga fora atada a um macho, um muar cujas cordas vocais tinham sido cortadas para não relinchar, avisando assim o inimigo.

     O sargento Patrick Harper estava satisfeito por ir entrar em combate. As divisas de seda branca brilhavam-lhe na manga rasgada.

     - Os rapazes estão óptimos, meu Tenente. Os meus rapazes estão muito satisfeitos.

     - São todos seus rapazes - dissera Sharpe, querendo dar a entender que a responsabilidade especial de Harper se estendia para além do grupo de soldados irlandeses.

     Harper acenou com a cabeça.

     - É verdade, meu Tenente, é verdade que sim. - Lançou um rápido olhar aos casacas-verdes e ficou certamente satisfeito, considerando que a sua marcha não necessitava ser apressada. - Estão satisfeitos por irem atacar esses canalhas, pode ter a certeza.

     - Alguns deles não estarão preocupados? - perguntou Sharpe, na esperança de conseguir que Harper lhe contasse um incidente acerca do qual se falara no princípio da semana. Contudo o sargento fingiu não perceber e disse com ar satisfeito:

     - Não lutamos contra os malditos franciús sem nos sentirmos preocu-pados, meu Tenente, mas pense na preocupação dessa gente quando souber que os fuzileiros vão a caminho. E fuzileiros irlandeses também!

     Sharpe decidiu interrogá-lo directamente.

     - O que aconteceu entre si e o Gataker?

     Harper lançou-lhe um olhar da mais perfeita inocência.

     - Absolutamente nada, meu Tenente.

     Sharpe não insistiu no assunto. Tinha ouvido dizer que Gataker, um homem finório e inquieto, se tinha oposto à participação no esquema de Vivar. Afirmara que os casacas-verdes não deveriam tomar parte em batalhas particulares, principalmente quando era quase certo daí resultarem numerosos mortos e estropiados. O pessimismo poder-se-ia ter espalhado rapidamente, mas Harper pusera-lhe fim de modo algo violento, explicando posteriormente o olho negro do soldado com uma queda nas escadas das ameias.

     - As escadas são muito escuras - foi tudo o que Harper disse sobre o assunto.

     Era devido àquela capacidade para uma rápida resolução de problemas que Sharpe exigira a promoção do irlandês e acabara de ter a prova do seu mais completo êxito. Harper tinha assumido facilmente a autoridade e, se esta autoridade resultava mais da sua força e personalidade do que das suas divisas de seda na manga direita, tanto melhor,

     As palavras do moribundo capitão Murray tinham-se mostrado avisadas; com Harper do seu lado, os problemas de Sharpe tinham ficado reduzidos a metade.

     Os fuzileiros marchavam na noite escura como o Hades e, embora surgisse de vez em quando um maciço granítico mais escuro do que as trevas que os rodeavam, parecia a Sharpe que seguiam como cegos numa paisagem sem características.

     Contudo, era aquela a região dos voluntários de Blas Vivar. Entre eles havia criadores de gado que conheciam aqueles montes tão bem como Sharpe conhecia, desde a infância, os becos de St. Ciles nos arredores de Londres. Aqueles homens estavam espalhados pelas colunas para servirem de guias, os seus serviços, incitados por charutos, que Vivar distribuíra entre a sua pequena força. Tinha a certeza de que não haveria franceses naqueles montes para notarem o cheiro do tabaco e as luzinhas cintilantes agiam como pequenos faróis para manterem unidos os homens que marchavam.

     Todavia, apesar dos guias e dos charutos, o passo abrandou na noite e tornou-se ainda mais lento, à medida que a chuva tornava os atalhos escorregadios. Os ribeiros frequentes estavam muito cheios e Vivar insistia para que todos eles fossem salpicados com água benta, antes de serem atravessados pela vanguarda. Os homens sentiam-se cansados, com fome e, na escuridão, os seus receios tornaram-se traiçoeiros; eram os temores dos homens que vão travar uma batalha desigual e que sentem a apreensão degenerar para se aproximar do terror.

     A chuva parou, duas horas antes do nascer do Sol. Não havia vento. A geada tornara a erva quebradiça. Os charutos tinham-se acabado, mas, de qualquer forma, também já não faziam falta, pois a bruma cobria os últimos vales anteriores à cidade.

     Quando deixou de chover, Vivar ordenou que se fizesse uma paragem. Deteve-se porque havia perigo de os franceses terem posto numerosos piquetes nas aldeias dos montes, em redor da cidade. Os refugiados de Santiago de Compostela não tinham conhecimento dessas precauções, porém Vivar prevenia-se, ordenando que qualquer peça de equipamento que pudesse estalar ou fazer qualquer tipo de ruído fosse atada. Mosquetes e alças de espingardas, cantis e potes, tudo foi camuflado. Mesmo assim, continuava a parecer a Sharpe que as tropas faziam um ruído suficiente para acordar os mortos: as ferraduras batiam nas pedras, os saltos metálicos das botas batiam na terra coberta de geada, mas nenhum piquete francês interrompeu a escuridão com uma rajada de mosquete para avisar a cidade distante.

     Os fuzileiros conduziam agora a marcha. Vivar seguia atrás com a sua cavalaria, mas os casacas-verdes iam à frente, pois eram a infantaria experi-mentada e abririam o ataque. A cavalaria não poderia assaltar uma cidade barricada; apenas a infantaria o poderia conseguir e, desta vez, teria de o fazer sem as armas carregadas. Sharpe concordara com relutância que os seus fuzileiros fizessem o assalto apenas à baioneta.

     Uma espingarda de pederneira era uma coisa precária. Mesmo desenga-tilhada, a arma podia disparar, se o cão tocasse num pequeno ramo, fosse puxado para trás e depois solto. Um tiro assim, embora acidental, alertaria as sentinelas francesas.

     Uma coisa era ordenar aos soldados que não disparassem; dizer-lhes que as suas vidas dependiam de uma aproximação silenciosa, mas na escuridão húmida anterior à madrugada, quando a temperatura do sangue de um homem desce e os receios aumentam, o miar de um gato pode ser suficiente para o assustar, obrigando-o a disparar às cegas na escuridão. Bastaria um desses tiros, para que os franceses viessem a correr das suas guaritas.

     Portanto, apesar de, por ter cedido nesse ponto, se sentir ainda mais receoso, Sharpe percebera a importância do pedido de Vivar e concordara com o avanço de armas descarregadas. Assim, nenhum tiro poderia sobressaltar a noite.

     Mesmo assim, os franceses poderiam estar avisados. Estes temores eram os tumultuosos companheiros de Sharpe durante a longa e ainda mais hesitante marcha nocturna. Talvez que os franceses tivessem os seus próprios espiões nas montanhas que, tal como os refugiados tinham trazido informações a Vivar, tivessem traído Vivar na cidade? Ou talvez De l’Eclin, um homem cuja impiedade era absoluta, tivesse sacado a verdade a Louisa? Talvez tivessem ido buscar a artilharia à Corunha e os esperassem, carregados de metralha, para receber os desastrados atacantes? Atacantes cansados, cheios de frio e com as armas descarregadas. Os primeiros momentos de um combate desses seriam uma carnificina.

     Os receios de Sharpe agigantavam-se e, longe da indómita alegria de Vivar, o tenente permitia que as dúvidas o invadissem. Não se atrevia a expressá-las, pois que, sem dúvida, destruiriam qualquer confiança que os homens pudessem ter na sua chefia. Só lhe restava pretender ter a mesma certeza de Patrick Harper que parecia percorrer ansiosamente os últimos e íngremes quilómetros. A certa altura, quando atravessavam uma terra enlameada, por baixo de uma escura fileira de pinheiros, Harper falou entusiasmado de como seria maravilhoso voltar a ver a menina Louisa.

     - É uma rapariga corajosa, meu Tenente.

     E tonta - replicou amargamente Sharpe, ainda zangado por ela ter arriscado a vida.

     Contudo Louisa era o reverso do medo de Sharpe; era o consolo que, como uma pequena réstia de luz numa imensa escuridão, o fazia continuar. Era a sua esperança, mas, ligada a ela, estavam os demónios do seu medo. Esses demónios tornavam-se mais sinistros, a cada paragem forçada. O guia de Sharpe, um ferreiro da cidade, conduzia-os por um caminho circular que evitava as aldeias, e detinha-se frequentemente para farejar o ar, como se encontrasse o caminho só pelo cheiro. Quando se sentia satisfeito, apressava o passo.

     Os fuzileiros deslizaram por um monte íngreme, chegaram a um rio que havia inundado os prados e transformado o fundo do vale num pântano baixo de água gelada. O guia de Sharpe deteve-se na margem do paúl.

     - Agua, senhor.

     - Que quer ele? - perguntou Sharpe em tom sibilante.

     - Está a dizer qualquer coisa a respeito da água - respondeu Harper.

     - Eu sei que se trata da maldita água. - Sharpe aproximou-se, mas o guia atreveu-se a puxar a manga do fuzileiro.

     - Agua bendita! Senhor!

     Ah! - Harper compreendeu. - Quer água benta.

     Sharpe praguejou com a idiotice do pedido. Os fuzileiros estavam atrasados e aquele idiota queria salpicar um pântano com água benta?

     - Vamos embora!

     - Tem a certeza... - disse Harper.

     - Vamos embora! - A voz de Sharpe era mais áspera, devido ao medo que crescera dentro dele. Toda aquela expedição era disparatada e uma perfeita loucura! Contudo, o orgulho não o deixava voltar para trás, nem obedecer aos espíritos das águas de Vivar. - Eu não tenho essa maldita agua benta! - rosnou. - Seja como for, tudo isso não passa de superstição, é o mais completo disparate, e o sargento sabe-o muito bem.

     - Não sei, não, meu Tenente.

     - Vamos embora! - Sharpe foi o primeiro a atravessar o ribeiro e amaldiçoou-se porque as suas botas esburacadas deixavam entrar a água fria. Os fuzileiros, sem perceberem a causa da pequena demora à beira de água, seguiram-no. A bruma parecia mais cerrada ao fundo do vale e o guia, que tinha entrado com Sharpe no curso de água, hesitava na margem oposta.

     - Depressa! - rosnava Sharpe, embora fosse inútil, pois o ferreiro não falava inglês. - Depressa! Depressa!

     O guia, muito afogueado, indicou um estreito caminho de cabras que serpenteava encosta acima. Enquanto subia, Sharpe apercebeu-se de que deviam estar muito perto da cidade, pelo cheiro putrefacto das suas ruas, o que lhe pareceu uma previsão do horror que esperava os seus homens.

     De súbito, percebeu que as batidas e o ruído do movimento da cavalaria tinham ficado para trás e que Vivar deveria ter mandado os caçadores pelo caminho em direcção a norte para que ficassem longe dos ouvidos das sentinelas francesas. A destreinada infantaria voluntária estava provavelmente a duzentos ou trezentos metros atrás de Sharpe. Os fuzileiros estavam isolados, à cabeça do ataque e já muito próximos da cidade santa de Santiago.

     E estavam atrasados, pois a bruma era agora cor de prata, com os primeiros raios de uma falsa madrugada. Sharpe via Harper a seu lado com as gotas de humidade no alto da barretina. Perdera a sua na batalha travada na quinta e usava um boné dos caçadores, cinzento-claro, o que lhe provocou, de súbito, o medo irracional que aquela cor clara fizesse da sua cabeça um alvo fácil para um atirador francês, lá de cima, do monte. Arrancou-o e lançou-o para uns espinheiros. Sentia o bater do coração. Tinha o ventre mole e a boca seca.

     O ferreiro seguia agora muito cauteloso, conduzindo os fuzileiros através de uma mal cuidada pastagem até um bosque de ulmeiros que cresciam no alto do monte. Os ramos nus gotejavam e a bruma esvoaçava na escuridão. Sharpe sentia o cheiro de uma fogueira, embora não a conseguisse divisar. Perguntava a si próprio se não pertenceria a um dos postos de guarda franceses e, ao pensar nas sentinelas que os aguardavam, sentiu-se horrivelmente só e vulnerável. O dia começava a nascer. Era nesse momento que deveria atacar, mas o nevoeiro tinha camuflado os marcos que Vivar lhe indicara. À direita, deveria haver uma igreja, à esquerda o vulto da cidade e ele não se deveria encontrar no alto do monte, mas sim numa profunda ravina que esconderia o avanço dos fuzileiros.

     Sem esses marcos, Sharpe supôs que teria de avançar ainda mais, que teriam ainda de descer a ravina, mas o ferreiro procurava debaixo das árvores e, por gestos, indicava que a cidade ficava à esquerda.

     - Santiago! Santiago!

     - Que Deus me valha - Sharpe pôs um joelho em terra.

     - Meu Tenente? - Harper ajoelhou ao lado dele.

     - Estamos no local errado!

     - Deus salve a Irlanda! - A voz do sargento pouco mais era do que um murmúrio. O gula, incapaz de conseguir uma resposta compreensível da parte dos casacas-verdes, desaparecera na escuridão.

     Sharpe praguejou de novo. Estava no local errado. O erro preocupava-o e irritava-o, mas, o que mais o enfurecia, era a certeza de que Vivar diria que aquilo acontecera porque os espíritos do ribeiro, os xanes, tinham sido igno-rados. Maldito, tudo aquilo era um disparate! Mesmo assim, Sharpe perdera-se, estava atrasado e não sabia onde se encontravam as tropas de Vivar. O medo apoderou-se dele. Não era assim que um ataque deveria começar! Deveria haver clarins e pendões na bruma! Afinal, estava sozinho, perdido, longe dos caçadores e voluntários. Dissera para consigo que sempre soubera que aquilo iria acontecer! já antes se passara, na índia, onde um bom exército, obrigado a um ataque nocturno, acabara perdido, assustado e derrotado.

     - Que fazemos, meu Tenente? - perguntou Harper.

     Sharpe não sabia o que responder. Sentiu-se tentado a dizer que deviam recuar, abandonando completamente o ataque, mas, nesse momento, uma sombra moveu-se à sua esquerda, umas botas rasparam a erva coberta de geada e o ferreiro reapareceu na bruma, com Blas Vivar a seu lado.

     - Avançou de mais - murmurou Vivar.

     - Raios, eu bem sabia!

     O ferreiro tentava explicar como os fuzileiros se tinham arriscado à maldade dos xanes, mas Vivar não tinha tempo para tais lamentações. Despediu o homem com um gesto e ajoelhou ao lado de Sharpe.

     - Estamos a duzentos passos da igreja. Por ali - Vivar apontou para a esquerda. A igreja deveria estar à direita.

     A força de Vivar tinha circulado por fora da cidade durante toda a noite e aproximava-se agora pelo lado norte. Havia muito que a muralha se encontrava destruída neste ponto pois a pedra fora retirada para a construção de casas mais novas, que se espalhavam para lá da linha de fortificações medievais, ao longo da estrada que conduzia à Corunha. Escolhera aproximar-se por essa estrada, não só por não existir a barreira da muralha medieval, mas também porque os guardas podiam pensar que quaisquer tropas que se aproximassem seriam francesas, provenientes do exército de Soult.

     A igreja, que servia o novo subúrbio, tinha-se transformado num posto da guarda francesa. Ficava a trezentos metros fora da principal linha de defesa composta por barricadas. Todas as estradas para a cidade tinham uma casa da guarda, para dar o alarme no caso de a cidade de Santiago ser assaltada. As sentinelas daqueles postos podiam ser mortas num ataque, mas o ruído do seu sacrifício serviria de aviso às principais defesas da cidade.

     - Penso que Deus está connosco - murmurou Vivar a Sharpe. Enviou-nos o nevoeiro.

     - Enviou-nos para um local errado.

     Os fuzileiros deveriam encontrar-se trezentos e cinquenta metros mais a sul, na ravina pantanosa e deveriam ter estado lá uma hora antes. A ravina serpenteava por trás da igreja e levava às casas, fora das defesas exteriores. Tinham perdido a oportunidade de fazer essa aproximação em segredo. Tão perto do inimigo e da traiçoeira hora do lobo da madrugada, não tinham tempo para recuar através da bruma.

     - Deixe a casa da guarda comigo - disse Vivar.

     - Quer que siga em frente, passando por ela? - Sim.

     Para Vivar era fácil pedi-lo, mas significava uma mudança de planos que punha em perigo todo o assalto. Como tinham chegado tarde e ao local errado, os fuzileiros perderiam o elemento surpresa. Vivar propunha que o assalto de Sharpe ignorasse a casa da guarda. Era possível, mas as sentinelas francesas não fingiriam não os ver. A sua reacção levaria tempo, já que os homens atónitos perdem segundos preciosos. Mais tempo poderiam perder se os seus mosquetes, humedecidos pela bruma, não conseguissem disparar. A escuridão poderia mesmo ter engolido os fuzileiros antes de os franceses dispararem, mas disparariam de qualquer modo, inquietando a madrugada muito antes de os casacas-verdes terem coberto os trezentos metros da igreja até às defesas da cidade. Seriam avisados os guardas das barricadas. Estariam à espera; no melhor, a força de Vivar encontrar-se-ia junto de algumas casas do lado norte da cidade e, à medida que o dia avançava e a bruma levantara, a cavalaria impediria a sua retirada. Sharpe sabia que, por volta do meio-dia, poderiam ser todos prisioneiros dos franceses.

     - Então? - Pelo silêncio de Vivar e pela imobilidade das tropas, Vivar apercebeu-se de que os fuzileiros já consideravam a batalha perdida.

     - Onde está a cavalaria, meu Major? - perguntou Sharpe, não por falta de interesse, mas para atrasar a terrível decisão.

     - Está a ser comandada por Davila. Estarão no seu lugar. Os voluntários estão na pastagem ali atrás. - Sem receber resposta, Vivar tocou no braço de Sharpe. - Sem si, ou consigo, tenente, vou em frente. Tenho de o fazer. Não me importo que o imperador em pessoa e todas as forças do Inferno guardem a cidade, tenho de o fazer. Não há outro modo de expugnar a vergonha da minha família. Tenho um irmão que é um traidor, portanto a traição terá de ser lavada em sangue do inimigo. E Deus olhará misericordiosamente para esse desejo. O tenente diz que não acredita, mas penso que, à beira de uma batalha, todos os homens sentem o sopro de Deus.

     Fora um belo discurso, mas Sharpe não se convencia.

     - Deus vai manter em silêncio essa casa da guarda?

     - Se o desejar, sim. - A bruma era agora mais leve. Por cima da sua cabeça, Sharpe conseguia ver os ramos nus e pálidos do ulmeiro. Cada segundo de demora era mais uma ameaça para o ataque e Vivar sabia-o. Então? - perguntou mais uma vez. Mesmo assim, Sharpe nada disse e o espanhol, com um gesto de desagrado, levantou-se. - Nós, os espanhóis, fazemo-lo sozinhos.

     - Com um raio, não fazem nada! Fuzileiros! - Sharpe ergueu-se. Pensou em Louisa; ela dissera qualquer coisa acerca de aproveitar o momento e, apesar dos seus demónios, Sharpe pensou que poderia perdê-la se não agisse naquele instante. - Largar capotes e mochilas! - Os fuzileiros obedeceram, para poderem combater desembaraçados. - E carregar!

     Em tom sibilante, Vivar admoestou-o contra o carregamento das armas, mas Sharpe não atacaria sem o elemento surpresa e ainda por cima com as armas descarregadas. Teria de se correr o risco de um tiro mal disparado. Aguardou até a última vareta ter sido empurrada para o cano e todos os mecanismos estarem a postos.

     - Fixar baionetas!

     As lâminas arranharam, emitindo um som metálico, quando as molas das baionetas carregadas foram enfiadas no cano das espingardas. Sharpe pôs ao ombro o seu próprio fuzil e empunhou a enorme espada.

     - Formar, sargento. Diga aos homens que não soltem pio! - Olhou para Vivar. - Não vou deixar que pense que não temos coragem.

     Vivar sorriu.

     - Nunca teria pensado em tal. Tome.

     Ergueu a mão e tirou o raminho seco de rosmaninho do chapéu enfiando-o numa casa sem botão da casaca de Sharpe.

     - Quer dizer que sou um da sua elite? - perguntou Sharpe. Vivar abanou a cabeça.

     - É uma erva que afasta o mal, tenente.

     Sharpe sentiu-se quase tentado a rejeitar a superstição mas, depois, lembrando-se de como tinha desafiado os xanes, deixou ficar o ramo de rosmaninho onde estava. A tarefa dessa manhã tinha-se tornado tão desesperada que até se sentia preparado para acreditar que uma erva morta o podia proteger.

     - Avante!

     Agora tinha de ir até ao fim, pensou, porque, com os diabos, dera a sua aprovação à loucura de Vivar na capela do forte, quando se deixara embriagar pelo mistério do estandarte, como se este se tratasse de vapores capitosos de um qualquer vinho escuro e morno. Agora não era altura para que os receios detivessem a sua insanidade.

     Por isso, avante. Avante por entre as árvores. Atravessariam a muralha de pedra. De súbito as botas de Sharpe rasparam na pedra e ele viu que tinham chegado à estrada. Um enorme edifício destacava-se na noite, enquanto diante dele podia, pelo menos, avistar a fogueira da casa da guarda. As chamas eram fracas, vagamente manchadas pela bruma, mas fora acesa fora da igreja e iluminava a estrada. A qualquer segundo poderia soar o aviso.

     - Aproximem-se! - murmurou Sharpe. - Tirem o dedo do gatilho!

     - Aproximem-se - murmurou Harper. - E não disparem, com mil raios! Sharpe propunha-se passar a correr pela casa da guarda. O barulho começaria nesse momento, mas não o podia evitar. Teria início com o fogo de um mosquete e de uma espingarda e terminaria na cacofonia da morte. Todavia, por enquanto, ouvia-se apenas o arranhar das botas na pedra, o bater camuflado do equipamento e o respirar ofegante dos homens já cansados por horas e horas de marcha.

     Harper benzeu-se. O outro irlandês da companhia imitou-o. Sorriram, não de prazer, mas de medo. Os fuzileiros tremiam, com vontade de esvaziarem os ventres. Maria, mãe de Deus, repetia Harper para consigo uma vez e outra. Pensou em rezar uma oração a São Tiago, mas não conhecia nenhuma, por isso repetia nervosamente a invocação que lhe era mais familiar. Acompanhai-me agora e na hora da nossa morte. Ámen.

     Sharpe conduziu-os. Caminhava lentamente, sem tirar os olhos da mancha de luz da fogueira dos guardas. As chamas cintilavam na lâmina da espada que mantinha baixa. Para lá dessa luz, via agora as outras fogueiras que deviam arder na beira da principal defesa francesa. A bruma era cor de prata, mais luminosa, o que o fez pensar que conseguia ver o leve emaranhado de pináculos e cúpulas que se recortavam na linha do horizonte da cidade. Vivar dissera que era uma cidade pequena; uma meia-dúzia de casas em redor da abadia, estalagens, catedral e praça, mas mesmo assim era uma cidade ocupada pelos franceses, que deveria ser tomada por aquele pequeno exército tão diversificado.

     Um pequeno exército diversificado, vestido de castanho, mal treinado, inspirado pela fé de um único homem. Vivar, pensou Sharpe, deveria estar embriagado da presença de Deus para acreditar que aquela tira de seda comida pelas traças poderia realizar um milagre. Era uma loucura. Se o exército inglês soubesse que um ex-sargento conduzia os fuzileiros para uma missão daquelas, Julgá-lo-iam em conselho de guerra. Sharpe considerou-se tão louco quanto Vivar. A única diferença era que Vivar era espicaçado por Deus e Sharpe pelo orgulho estúpido e teimoso de um soldado que não quer admitir a derrota.

     Contudo, recordou-se Sharpe, outros homens tinham obtido a glória com sonhos igualmente impraticáveis. Os poucos cavaleiros que mil anos antes tinham sido obrigados a defender as montanhas da invasão avassaladora dos exércitos de Maomé, deveriam ter sentido o mesmo desespero. Esses cavaleiros tinham puxado as rédeas e erguido as lanças dos apoios dos estribos, olhando para o enorme crescente do inimigo por baixo dos pendões rasgados, que tinham trazido sangue do deserto. Nesse momento deveriam ter sabido que era aquela a hora da sua morte. Mesmo assim, tinham baixado as viseiras dos elmos, picado os cavalos com as esporas e carregado.

     Uma pedra resvalou debaixo de um pé de Sharpe, obrigando-o a voltar ao presente. Estavam agora numa rua e o campo ficara para trás. As janelas das casas silenciosas tinham barras de ferro. A rua subia, e, mesmo sem ser íngreme, era suficientemente inclinada para dificultar a carga. Uma forma moveu-se junto ao fogo, depois Sharpe viu que havia uma tosca barreira na estrada que lhes impediria aquela louca corrida contra as principais defesas da cidade. A barreira era formada apenas por dois carros de mão e algumas cadeiras, mas, mesmo assim, era uma barreira.

     A forma que se movera junto à fogueira era afinal uma silhueta humana; um francês que se inclinara para acender o cachimbo com uma acha que retirou do lume. O homem não suspeitou de nada, nem olhou para o local onde poderia ver o reflexo das chamas nas baionetas fixas.

     Depois, um cão ladrou numa casa à direita de Sharpe. Este estava tão tenso que saltou para o lado. O cão ficou nervoso. Outro cão começou a dar o alarme e um galo desafiou a manhã. Os fuzileiros apressaram instintivamente o passo.

     O francês, que se encontrava junto ao fogo, endireitou-se e deu meia volta. Sharpe viu distintamente a forma da barretina do homem; era um soldado de infantaria. Não se tratava de um soldado de cavalaria apeado, mas de um maldito francês, que pertencia à infantaria e que retirou o mosquete do ombro e o apontou na direcção dos fuzileiros.

     - Qui vive?

     O desafio começou o combate do dia. Sharpe respirou fundo e começou a correr.

    

     O extraordinário como, uma vez tudo terminado, os receios desapare-ceram.

     Sharpe começou a correr monte acima. A sola da bota, cosida com tanto cuidado no dia anterior, soltou-se de novo. Embora pisasse a superfície de pedra dura da estrada, parecia-lhe estar a bater na lama espessa e pegajosa. Mesmo assim os seus temores terminaram porque os dados estavam lançados e o jogo em breve chegaria ao fim.

     - Qui vive?

     - Ami! Ami! Amí! - Vivar ensinara-lhe uma frase completa em francês para que pudesse confundir uma sentinela inimiga, porém Sharpe fora incapaz de decorar as palavras estrangeiras, e decidira-se a usar a palavra mais simples que significava ”amigo”. Gritou-a mais alto, apontando ao mesmo tempo para trás de si, como se fugisse de um qualquer inimigo, escondido na bruma.

     A sentinela hesitou. À porta de igreja apareceram mais quatro franceses. Um tinha as divisas de sargento na manga azul, mas claro que não desejava a responsabilidade de disparar contra um camarada, pois gritou para dentro da igreja, chamando um oficial.

     - Capitaine! Capitaine!

     A seguir, sem a barretina e ainda abotoando a casaca azul, o sargento voltou-se para os fuzileiros que se aproximavam.

     - Halte Là!

     Sharpe ergueu a mão esquerda, como se ordenasse aos homens que abrandassem. Também ele marchou mais devagar, repetindo ofegante:

     - Ami! Amí!

     Pareceu tropeçar para diante, exausto, e o desastrado subterfúgio aproximou-o dois passos do sargento inimigo. Depois, olhou para os olhos do francês e leu neles o súbito terror de quem tinha compreendido tudo.

     Demasiado tarde. Todos os temores de Sharpe desapareceram com o primeiro golpe de espada. Um passo adiante, uma estocada feroz, o sargento dobrou-se sobre a lâmina e a primeira sentinela abriu a boca para gritar, enquanto a baioneta de Harper lhe entrava no ventre. Com o espasmo, o dedo do francês apertou o gatilho do mosquete. Sharpe estava tão próximo do soldado que não viu o fogo do disparo, apenas o ruído da explosão na caçoleta. Enquanto girava e arrancava a espada da carne do francês, uma centelha de pólvora a arder fervilhou sobre a sua cabeça e o fumo rodopiou em seu redor. O sargento caiu para trás, para dentro da fogueira e o seu cabelo ateou imediatamente e ergueu-se em chamas por uns instantes.

     Os três restantes franceses recuavam na direcção do pórtico, mas os fuzileiros foram mais rápidos. Mais um tiro de mosquete inquietou a madrugada e, depois, os sabres-baioneta completaram a sua obra. Um francês soltou um grito horrível.

     - Silenciem o canalha! - ordenou Harper bruscamente. Uma lâmina raspou, ouviu-se um som abafado e depois mais nada.

     Uma pistola soou na porta da igreja. Um casaca-verde soltou uma exclamação ofegante, voltou-se e caiu dentro da fogueira. Duas espingardas dispararam, lançando de novo uma forma escura para dentro do interior da igreja. O fuzileiro a arder gritava terrivelmente quando foi arrastado das chamas. Os cães uivavam como os guardas do inferno.

     Desaparecera o elemento surpresa e faltavam ainda trezentos metros de estrada a percorrer. Sharpe desviava o carro de mão, para abrir a estrada à cavalaria que deveria vir a seguir.

     - Deixem esses cretinos! - Havia ainda franceses dentro da igreja mas seria necessário ignorá-los para que o assalto tivesse possibilidades de êxito. Até mesmo os feridos de Sharpe seriam abandonados no caso de a cidade cair. - Deixem-nos para trás! Venham!

     Os fuzileiros obedeceram. Um ou dois deixaram-se ficar para trás, procurando a segurança nas sombras, mas Harper exigiu saber se preferiam lutar contra ele ou contra os franceses e os medrosos ganharam coragem. Seguiram Sharpe na bruma escura, agora um pouco mais clara. Ouviam-se os clarins na cidade, ainda sem alarme, tocando apenas a alvorada, mas os toques apenas serviram para apressar os casacas-verdes. A urgência obrigou-os a perder qualquer semelhança com a ordem militar; avançavam, não em fila, nem em linha, mas como uma vasta massa que corria encosta acima em direcção à cidade próxima.

     Aí as defesas já deveriam ter sido alertadas. Mais uma vez o medo invadiu-os e o susto foi ainda maior quando Sharpe viu como os franceses tinham deitado abaixo as casas mais próximas da antiga cidade, de modo a que os guardas atrás das barricadas tivessem um campo livre de fogo.

     Os tiros vinham lá de trás, da igreja onde se encontravam os franceses. Uma bala passou-lhes por cima da cabeça, outra saltou entre os fuzileiros para se esmagar mais adiante, num muro em ruínas. Sharpe imaginou os mosquetes e as carabinas deslizando sobre as barricadas da cidade. Imaginou um oficial francês ordenando às tropas que aguardassem, até que o inimigo Se encontrasse mais próximo. Era agora o momento da morte. E se as defesas tivessem canhões, estes vomitariam munições dez metros ao longo de estrada fria.

     Esses tiros não se ouviram e Sharpe apercebeu-se que os defensores da cidade deveriam estar confusos pelos que tinham sido disparados da igreja. Um homem da defesa principal julgaria provavelmente que os fuzileiros que se aproximavam eram os que restavam da guarnição das casas da guarda, perseguidos pelos mosquetes de um inimigo distante. Gritou o mais alto possível a palavra mágica, na esperança de reforçar o equívoco da sua identidade.

     - Ami! Ami!

     Sharpe via agora as defesas principais. Uma carroça alta tinha sido atravessada na saída da rua seguinte, para fazer uma barricada temporária que, durante o dia, podia ser puxada para o lado, de modo a deixar as patrulhas da cavalaria entrarem ou saírem da cidade. Estava iluminada por uma fogueira que mostrava também as formas dos homens que subiam à carroça. Sharpe via-os com as baionetas em riste. À esquerda da carroça via também uma vala sobre a qual os varais formavam o único obstáculo.

     Ouviu-se um grito vindo das carroças, mas Sharpe não tinha outra resposta que não fosse a palavra ”Ami!” Ofegava devido à subida do monte, mas conseguiu lançar uma ordem aos seus homens.

     - Não se reúnam! Espalhem-se!

     Depois, da igreja que ficava por trás, ouviu-se um clarim.

     Deveria ser um sinal combinado, provavelmente atrasado pela morte do oficial e do sargento de piquete. Fora dado o alarme; estridente e desesperado, provocou uma rajada imediata, vinda da carroça.

     Os mosquetes soaram, mas os defensores tinham atirado demasiado depressa e demasiado alto, como era habitual nas tropas que disparavam pela encosta abaixo. Essa percepção deu a Sharpe uma réstia de esperança. Lançava agora um grito de guerra, nada coerente, apenas um grito de raiva assassina que o poderia levar à beira da posição do inimigo. Harper estava a seu lado, batendo com os pés e os fuzileiros espalhavam-se pela estrada para não se transformarem num alvo compacto, para os soldados franceses que esbarraram contra a carroça ao substituírem os homens que tinham disparado.

     - Tirez! - A espada de um oficial inimigo cortou os ares.

     As chamas do mosquete lambiam tudo a um metro de distância do cano das armas francesas; o fumo saía, escondia a carroça e um fuzileiro caiu para trás como se uma corda o tivesse içado no ar.

     Sharpe dirigira-se para o lado esquerdo da estrada, onde tropeçou nos destroços das casas. Viu um fuzileiro deter-se para fazer pontaria e gritou-lhe que continuasse a correr. Seria agora impossível fazerem qualquer pausa, pois se se perdesse o ritmo do ataque, o inimigo esmagá-lo-ia simplesmente.

     Sharpe preparou-se para o terrível momento em que teria de enfrentar a vala.

     Saltou para dentro dela, soltando um grito de desafio para assustar quem esperava por ele. Estavam lá três franceses de baioneta em riste e a espada de Sharpe batia ora nas lâminas, ora no cano dos mosquetes. Tropeçou no varal da carroça e caiu para o lado, enquanto o sargento Harper atravessava o fosso estreito. Outros fuzileiros agarravam-se ao lado da carroça tentando trepar por ela. Um francês investia com a baioneta, mas foi obrigado a recuar pela bala de uma espingarda. Mais armas dispararam. Um francês apontou para Sharpe, mas, de tão nervoso, esquecera-se de carregar a arma. A pederneira fez faísca na caçoleta vazia, o homem gritou, Sharpe recuperou o equilíbrio e avançou com a sua espada. Harper puxou o seu sabre-baioneta das costelas do inimigo. Alguns fuzileiros agrupavam-se na vala, cortando e brandindo as armas, enquanto outros subiam à carroça para obrigarem os franceses a recuar. Os defensores eram muito poucos e tinham esperado demasiado tempo antes de o clarim ter transformado a sua incerteza em acção. Agora morriam ou fugiam.

     - A carroça! A carroça! - Sharpe soltava a sua espada do homem que se esquecera de carregar a arma. Harper bateu com a coronha da espingarda para atordoar o último francês, depois berrou para os fuzileiros retirarem a carroça do caminho. - Puxem, cretinos, puxem! - Os casacas-verdes lançaram-se às rodas e, lentamente, a carroça rangeu no espaço que os franceses tinham limpo para o transformar num campo de morte.

     Os piquetes franceses tinham fugido quase todos pela rua estreita e empedrada, onde havia uma sarjeta central. As outras ruas conduziam à esquerda e à direita, seguindo a linha das antigas muralhas. Em todas elas os franceses saíam das casas, detendo-se alguns para atirar contra os fuzileiros. Uma bala de pistola fez ricochete na grade de uma janela, mesmo por cima da cabeça de Sharpe.

     - Carreguem! Carreguem! - Sharpe apagava com o pé as fogueiras de vigia, tentando arranjar uma passagem para os cavaleiros de Vivar. Queimando as botas e as calças, desviou a pontapé o entulho em chamas para um beco. Os fuzileiros abrigaram-se nas soleiras das portas, utilizando as varetas de ferro para meter as balas nos canos das espingardas. Chegavam gritos da rua e os primeiros fuzileiros a terem as armas carregadas, disparavam contra o inimigo. Sharpe voltou-se e viu os três campanários da catedral a duzentos metros de distância. A rua estreita subia a encosta, curvando ligeiramente à direita, a cinquenta passos dali. A bruma estava mais clara e luminosa, embora a madrugada propriamente dita ainda não tivesse despontado. Alguns franceses de calças, botas e camisa corriam ainda das casas, agarrados com força às armas e aos capacetes. Um couraceiro inimigo, em pânico, correu na direcção dos casacas-verdes e foi atingido na cabeça pela coronha de um fuzil. Outros abrigaram-se na soleira das portas para disparar contra os invasores.

     - Fogo! - ordenou Sharpe. Ouviu-se o estalar de outras espingardas para empurrar mais para dentro da cidade o inimigo desorganizado. A arma de Sharpe escoiceava-lhe no ombro, como uma mula, e a pólvora em chamas da caçoleta mordia-lhe as faces. Harper arrastava para o lado cadáveres franceses, puxando-os através do solo gelado para a vala central.

     Fez-se um curioso silêncio. Os fuzileiros tinham conseguido a surpresa, e o silêncio marcava os preciosos e precários momentos, enquanto os franceses tentavam perceber o que era aquele súbito alarme. Sharpe sabia que o contra-ataque não se faria esperar, mas agora sentia-se uma calma misteriosa, inesperada e ameaçadora. Quebrou-o, gritando aos homens que regressassem aos seus lugares. Colocou um esquadrão a cobrir a rua a oeste, um segundo a vigiar do lado oriental, e manteve o maior número de fuzileiros a guardar o caminho estreito que levava ao centro da cidade. A sua voz ecoava nas muralhas. De súbito, sentiu a impertinência daquilo que tinha feito, daquilo que Blas Vivar se atrevera a ordenar que fizessem naquele gelado momento da madrugada. Um clarim francês tocou a alvorada e depois, traindo os avisos já espalhados deu o alarme. Ouviu-se um sino a tocar um clamor urgente e mil pombos esvoaçaram dos pináculos da catedral para encher o ar com as suas asas assustadas. Sharpe voltou-se para norte e perguntou a si próprio, quando chegaria a força principal de Vivar.

     - Meu Tenente! - Harper abrira com um pontapé a porta da casa mais próxima, de onde fugiram meia-dúzia de franceses, assustados e meio entontecidos, que logo se esconderam na casa da guarda. O lume ardia na lareira e as camas estavam em desalinho no chão de madeira nua. Tinham estado a dormir e os seus mosquetes encontravam-se ainda arrumados junto à porta.

     - Retirem as armas - ordenou Sharpe. - Sims! Tongue! Cameron! Os três fuzileiros correram para ele.

     - Cortem os cintos, suspensórios, atacadores de botas, cintos e botões. Depois deixem os canalhas no sítio onde estão. Levem as baionetas. Levem tudo o que quiserdes, mas andem depressa!

     - Sim, meu Tenente!

     Harper acocorou-se ao lado de Sharpe, na rua junto à casa da guarda.

     - Foi tudo mais fácil do que eu pensava.

     Sharpe imaginava que o gigante irlandês não sentia medo, mas as palavras indiciavam um alívio que ele partilhava. Eram palavras sinceras. Quando correra, encosta acima, em direcção à igreja, Sharpe esperara que uma defesa avassaladora irrompesse a ferro e fogo da linha de construções; mas, pelo contrário, meia-dúzia de soldados de piquete, ainda atordoados, tinham disparado duas rajadas e depois mais nada.

     - Não nos esperavam - sugeriu como explicação.

     Os sons de outro clarim inimigo rivalizaram com o ladrar dos cães e o repique dos sinos. As ruas mais próximas estavam então vazias e a bruma cobria os vultos dos dois franceses mortos ao saírem dos seus abrigos. Sharpe sabia que era aquele o momento de o inimigo contra-atacar. Se um oficial francês fosse inteligente e tivesse ao seu dispor duas companhias de homens, então os fuzileiros estariam derrotados. Olhou para a direita, mas não viu sinal dos caçadores.

     - Carreguem as armas e continuem a disparar.

     Sharpe carregou o seu próprio fuzil. Quando mordeu a bala, que retirou da cartucheira ficou com um sabor amargo e desagradável na boca. Depois de mais alguns tiros soube que sentiria uma sede insuportável devido ao gosto salgado da pólvora. Cuspiu a bala para dentro do cano do fuzil e empurrou-a com a vareta. Depois premiu a caçoleta.

     - Meu Tenente! Meu Tenente! - Era Dodd, um dos homens que cobria a rua que conduzia a oeste e que disparava. - Meu Tenente!

     - Firme! Firme! - Sharpe correu para a esquina e viu um único oficial francês a cavalo. A bala de Dodd tinha falhado o alvo, que se encontrara a setenta passos de distância. - Firme agora! - exclamou Sharpe. - Mantenham o fogo!

     O oficial francês, um couraceiro, afastou a bainha da sua capa, num gesto tão desdenhoso quanto arrojado. A sua couraça de aço brilhava pálida na luz da bruma. O homem sacou da sua longa espada. Sharpe ergueu o fuzil.

     - Harvey! Jenkins!

     - Meu Tenente? - os dois fuzileiros responderam imediatamente.

     - Atinjam o canalha, quando ele se aproximar.

     Sharpe voltou-se, perguntando a si próprio onde diabo estariam os caçadores de Vivar. O som dos cascos fê-lo voltar à posição inicial e viu que o oficial já percorria a rua, a trote. Das ruas laterais tinham surgido outros couraceiros que se juntavam a ele. Sharpe contou dez cavaleiros e depois mais dez. Era tudo o que o inimigo podia apresentar. Os outros soldados da cavalaria da cidade deveriam estar ainda a selar os cavalos ou a aguardar ordens.

     O francês, corajoso como poucos que Sharpe já vira, gritou uma ordem: Casques en tête! Os soldados colocaram os capacetes emplumados. A rua tinha largura apenas suficiente para a passagem de três cavaleiros, lado a lado. Os couraceiros ergueram as espadas.

     - Estúpido canalha - exclamou Sharpe, condenando violentamente o oficial francês que, na sua busca pela fama, conduzia os homens à destruição.

     - Apontem! - Sharpe quase sentiu ódio por aquele momento. Havia meia-dúzia de fuzis para cada um dos franceses que comandava e que, quando morressem, bloqueariam a rua aos que vinham atrás. - Firmes, rapazes! Vamos acabar com esses canalhas! Apontem para baixo!

     Os fuzis foram colocados em posição, os cães das armas obrigados a recuar. Hagman pôs o joelho direito em terra, depois recuou para se acocorar sobre o tornozelo e para que a mão esquerda, apoiada pelo joelho esquerdo, pudesse suportar melhor o peso do fuzil e da baioneta. Alguns fuzileiros tomaram uma posição idêntica, enquanto outros apoiavam as armas nos lintéis das portas. Os restos das fogueiras de vigia fumegavam nas ruas, ocultando a vista aos cavaleiros, que agora picavam os cavalos para seguirem a trote. O oficial francês ergueu a espada.

     - Vive I’Empereur! - Baixou a arma, para investir.

     - Fogo!

     Os fuzis cuspiram fogo. Sharpe ouviu o martelar das balas sobre as couraças. Pareciam seixos lançados com força de encontro a uma folha de lata. Um cavalo relinchou, recuou e o cavaleiro tombou na frente de um animal por terra. A espada bateu no empedrado da rua. O oficial estava no chão, estrebuchando e vomitando sangue. Um cavalo sem cavaleiro meteu-se por uma rua. Um couraceiro voltou-se e fugiu. Outro, sem montada, coxeou em direcção a uma porta aberta. Os soldados de cavalaria na retaguarda não tentaram forçar o caminho, mas deram meia volta e fugiram.

     - Recarregar!

     O fumo saía das janelas para a rua. Uma bala esbarrou violentamente contra uma pedra ao lado de Sharpe, enquanto outra fazia ricochete no empedrado e se alojava na perna de um fuzileiro. O homem assobiou de dor, caiu e tocou no sangue que brotava espesso das suas calças escuras. Era difícil avistar os franceses atrás das janelas de grades negras e mais difícil ainda atingi-los. Apareciam mais, ao fundo da rua, como se fossem sombras, e delas saíam chamas de mosquete que atingiam os fuzileiros. lá havia claridade suficiente para que Sharpe avistasse a tricolor francesa, ondulando na alta cúpula da catedral. Percebeu que o dia seria límpido e frio, um dia de morte e, a menos que Vivar aparecesse, em breve, com a sua força, seriam os fuzileiros que a sofreriam.

     Depois, lá atrás, soou uma trombeta.

     Os caçadores combateram não só pelo orgulho ou pelo seu país, embora qualquer dessas causas os pudesse ter até levado a cruzar os portões do inferno; combatiam pelo santo padroeiro de Espanha. Por Santiago de Compostela, onde os anjos tinham lançado uma nuvem de estrelas para iluminar um túmulo esquecido e a cavalaria espanhola carregara por Deus e por Santiago, pela Espanha e por Santiago, por Blas Vivar e por Santiago.

     Chegaram como um terrível dilúvio. Quando os cavalos passaram por Sharpe, os seus cascos lançavam centelhas pela estrada. As espadas arremes-savam raios de luz na madrugada cinzenta. Mergulharam no coração da cidade, conduzidos por Blas Vivar que gritava um incompreensível agradecimento, enquanto cavalgava por entre os fuzileiros.

     E atrás dos caçadores, esforçando-se por sair da ravina onde Sharpe se deveria encontrar à primeira luz da manhã, seguia a infantaria voluntária. Também eles lançavam um grito de guerra com o nome do santo. Apesar das túnicas castanhas e faixas brancas que serviam de improvisados uniformes, pareciam mais uma multidão vingadora, armada de mosquetes, picaretas, espadas, facas, lanças e sabres.

     Quando passaram a correr, Sharpe lançou aos homens que não tinham armas de fogo, os mosquetes capturados aos franceses, mas os voluntários estavam demasiado ansiosos por chegarem ao centro da cidade. Pela primeira vez, Sharpe pensou que poderiam vencer, não por meio de hábeis tácticas, mas recorrendo ao ódio de uma nação.

     - Que fazemos, meu Tenente? - perguntou Harper, saindo da casa da guarda com um monte de baionetas capturadas.

     - Vamos segui-los! Avante! Vigiem os flancos! Atenção às janelas altas! Nenhum conselho seria seguido. Os fuzileiros estavam contagiados pela loucura da manhã e tudo o que importava era conquistar a cidade. Os receios da noite longa e fria tinham desaparecido e sido substituídos por uma onda de extraordinária confiança.

     Avançaram para o caos. Os franceses, acordados e logo chacinados, corriam pelas ruelas, onde espanhóis vingativos os caçavam e matavam. Os habitantes da cidade juntavam-se à perseguição, cúmplices dos homens de Vivar, espalhando-se pelos arcos das ruas medievais que, no centro, formavam um labirinto em redor dos antigos edifícios. Por todo o lado soavam gritos e tiros. O som das botas dos caçadores, separados em esquadrões, ouvia-se de rua em rua. Alguns franceses combatiam ainda das janelas de cima dos seus aquartelamentos, para serem mortos um a um. Sharpe viu o ferreiro, seu improvisado guia, esmagar com um martelo o crânio de um lanceiro. As sarjetas estavam cheias de sangue espesso. Um padre ajoelhava-se junto a um voluntário moribundo.

     - Não se separem! - Sharpe receava que, no horror do momento, um fuzileiro de uniforme escuro pudesse ser tomado por um francês. Chegou a uma pequena praça, escolheu ao acaso uma esquina e conduziu os seus homens por uma rua, onde havia três franceses mortos, numa poça de sangue borbulhante. Nos degraus de uma igreja, uma mulher despia o uniforme a um soldado. Um quarto francês encontrava-se ainda moribundo, enquanto duas crianças, nenhuma delas com mais de dez anos, o apunhalavam com facas de cozinha. Um aleijado sem pernas, ávido do saque, balançava-se sobre os nós dos dedos calejados, para chegar ao lado de um cadáver.

     Sharpe voltou à esquerda para outra rua e chegou-se à parede para deixar passar a cavalaria espanhola. Um francês saiu de uma casa adiante de um cavaleiro, gritou, depois uma espada caíu-lhe sobre o rosto e fê-lo cair para baixo das pesadas ferraduras. Algures na cidade, ouviu-se uma rajada de tiros de mosquete semelhante a um trovão. Um soldado da infantaria francesa saiu de uma ruela, viu Sharpe e caiu de joelhos, implorando literalmente para que o fizessem prisioneiro. Sharpe empurrou-o para trás, para que ficasse à guarda dos fuzileiros, enquanto mais franceses saíam do beco. Despojaram-se das armas, desejando apenas ficar sob protecção.

     Mais adiante, havia já mais luz e mais espaço, em contraste com a sombra apertada das pequenas ruas. Sharpe conduziu os seus homens em direcção à larga praça que rodeava a catedral. Sentiu o incongruente cheiro do pão, vindo de uma padaria, mas a esse aroma caseiro sobrepôs-se imediatamente o fedor do fumo da pólvora. Os fuzileiros avançavam cautelosamente em direcção à praça, de onde outra enorme rajada irrompeu manhã fora. Sharpe via os cadáveres sobre as ervas que cobriam as lajes da praça. Viam-se cavalos e uma dezena de homens mortos, na sua maioria espanhóis. O fumo dos mosquetes era mais espesso que a bruma.

     - Os canalhas detiveram-se - gritou Sharpe a Harper.

     Avançou para a esquina da rua. À sua esquerda ficava a catedral. Nos degraus viam-se três homens de túnicas castanhas com o sangue a borbulhar dos corpos. À direita de Sharpe, mesmo em frente da catedral, havia um edifício ricamente decorado. Uma bandeira tricolor ondulava sobre a porta central e todas as janelas estavam envoltas em fumo de pólvora. Os franceses tinham-no transformado numa fortaleza que dominava a praça.

     Não era altura de combater contra um bando encurralado de desesperados franceses, mas sim de tratar da tomada do resto da cidade. Os fuzileiros usaram as estreitas ruas que rodeavam as traseiras da praça. Os prisioneiros ficaram com eles, aterrorizados com a vingança que as pessoas da cidade exerciam sobre os outros franceses capturados. A cidade produzira uma multidão vingativa e os soldados de Sharpe viram-se obrigados a utilizar as coronhas dos fuzis para manterem os prisioneiros em segurança.

     Sharpe conduziu os seus homens para sul. Passaram por um cavalo moribundo e Sharpe matou-o. Imediatamente duas mulheres atacaram o cadáver com facas, cortando enormes pedaços de carne quente. Um corcunda com a cabeça a sangrar sorria enquanto cortava as trancinhas de um dragão morto e, nesse momento, ocorreu a Sharpe que o morto era o primeiro dragão que via em Santiago de Compostela. Gostaria de saber se a mentira de Louisa resultara realmente e se grande parte da cavalaria francesa se teria de facto dirigido a sul.

     - Aqui! - Sharpe viu um pátio à sua esquerda e empurrou os prisioneiros pelo arco da entrada, Deixou meia-dúzia de casacas-verdes a guardá-los e, a seguir, regressou ao labirinto medieval onde se desenrolava a confusão da luta. Alguns becos estavam ainda calmos, enquanto noutros se travavam combates breves e furiosos, quando os franceses desesperados se sentiam emboscados. Um couraceiro, apanhado num beco, defendeu-se com a espada e pôs em fuga seis voluntários, antes que um disparo de balas de mosquete esmagasse a sua defesa. A maioria dos franceses barricou-se nos locais em que estavam aboletados. Os espanhóis abriam as portas com os mosquetes, alguns morriam na carga pelas escadas acima, mas eram mais numerosos que os franceses. Duas casas incendiaram-se e ouviram-se gritos horríveis enquanto os homens eram queimados vivos.

     A maioria dos sobreviventes inimigos, excepto os que ainda detinham o edifício grande da praça, encontrava-se a sul da cidade onde, num conjunto de casas, os oficiais lhes tinham imposto uma forte defesa. Os homens de Sharpe tomaram o cimo de dois edifícios e, com a sua fuzilaria, puseram em fuga os franceses que se encontravam nas janelas e nos telhados. Vivar conduziu uma carga apeada de caçadores, enquanto Sharpe observava a cavalaria de uniformes vermelhos e azuis invadir as casas ocupadas pelo inimigo.

     O cuidadoso plano de Vivar, que teria enviado soldados para cada uma das saídas da cidade, tinha caído por terra no calor da vitória, de modo que os homens que deveriam ter conduzido o inimigo para leste matavam e saqueavam tudo o que podiam. Porém, foi exactamente esta selvajaria que conduziu os atacantes através da cidade e fez fugir os franceses ou para o campo ou para o quartel-general na praça.

     O sol erguera-se para revelar que a bandeira tricolor tinha desaparecido da alta cúpula da catedral. Em seu lugar, brilhante como uma Jóia, o estandarte espanhol ondulava na brisa fraca. Nela via-se a cota de armas da realeza espanhola; era um pendão celebrando a manhã, mas não o de Santiago, que seria aberto na catedral. Sharpe apercebeu-se da beleza da linha do horizonte da cidade naquela madrugada: era uma complicada mistura de espirais, zimbórios, pináculos, cúpulas e torres, envolvida pelo fumo e pela luz do Sol. Por cima de todo este cenário, via-se a própria catedral. Um grupo de franceses, de casaca azul, apareceu na balaustrada de um dos campanários. Disparavam para baixo, mas, depois, uma rajada obrigou-os a recuar. Uma das balas espanholas incrustou-se num sino. Os outros sinos da cidade repicavam para celebrar a vitória, ainda que a fuzilaria provasse existirem vestígios da resistência francesa.

     Ao lado de Sharpe, um fuzileiro divisou dois franceses em cima de um telhado, a cinquenta metros de distância, tentando fugir. Disparou, sentindo o coice da arma no ombro, e um dos inimigos escorregou ensanguentado pelas telhas, indo cair no meio da rua. O outro, desesperado, tentou passar para o outro lado do telhado e desaparecer. Os homens de Vivar tinham avançado de sabre e carabina em punho e Sharpe avistava os soldados franceses a correrem pelos campos a sul. Disse aos homens que continuassem a disparar, e, a seguir, conduziu-os pela rua onde a beleza da linha do horizonte fora substituída pelo desagradável cheiro do sangue coalhado. Um dos fuzileiros soltou uma gargalhada, porque uma criança transportava uma cabeça humana. Um cão lambia o sangue de uma sarjeta e rosnou quando o fuzileiro se aproximou dele.

     Sharpe voltou à entrada da praça, onde o fogo de mosquete ainda continuava a fazer-se ouvir por cima das lajes. No vasto espaço, apenas se encontravam mortos e moribundos. Os franceses continuavam barricados dentro do edifício, enorme e elegante, de onde surgia um troar de fogo de mosquete, sempre que um espanhol se atrevia a entrar na praça.

     Sharpe manteve os seus fuzileiros escondidos. Esgueirou-se para todos os cantos da rua, onde pôde ver a enorme riqueza que um santo morto trouxera ao centro da cidade. A larga praça estava rodeada por edifícios de uma beleza espectacular. Um grito fê-lo voltar-se e ver um francês ser lançado de um dos campanários da catedral. O corpo girou enquanto caía, para logo ser misericordiosamente escondido por um terraço mais baixo. A catedral era um milagre de pedra, delicadamente trabalhada, com um complicado desenho, mas, naquele dia, no labirinto dos seus entalhados tectos, os homens morriam. Mais um estandarte espanhol foi içado noutro campanário, depois da morte do último soldado francês que lá se encontrava. Os enormes sinos começaram o seu alegre repicar, embora as rajadas de fuzilaria do lado da praça, ainda ocupada pelos franceses, tentasse vingar-se dos espanhóis, que tinham içado a bandeira na madrugada.

     Um espanhol saiu de rompante das portas ocidentais da catedral, brandindo uma bandeira francesa capturada. Imediatamente estalou a fuzilaria do lado oeste da praça e as balas zumbiram e estalaram em seu redor. Sobreviveu, por milagre e, sabendo claramente que naquele dia seria ao mesmo tempo invencível e imortal, desceu aos saltos e com ar trocista os degraus da catedral e passou por cima dos cadáveres espalhados pela praça. Cada passo que o homem dava com a bandeira inimiga capturada era recebido pelo assobio das balas, mas escapou e os fuzileiros aclamaram-no quando, por fim, conseguiu esconder-se na rua e por a salvo o seu esfarrapado troféu.

     Oculto nas sombras, Sharpe observara o edifício ocupado pelos franceses e tentava calcular o número de mosquetes ou carabinas que tinham disparado da sua fachada. Estimava pelo menos cem tiros e sabia que, se os franceses tivessem outros tantos homens, em lados alternados do enorme edifício, o local seria difícil de tomar.

     Voltou-se quando ouviu cascos atrás de si. Era Blas Vivar que deveria saber o que o aguardava na praça, pois deslizara da sela um pouco antes do final da rua.

     - Viu a menina Louisa?

     - Não!

     - Nem eu - Vivar escutou a fuzilaria na praça. - Continuam no palácio?

     - Em força - respondeu Sharpe.

     Vivar dirigiu-se à esquina e observou o edifício. Estava sob o fogo dos homens que se encontravam no telhado da catedral. Os vidros das janelas estilhaçavam-se. Os mosquetes franceses respondiam ao fogo, lançando fumo em direcção ao nascer do Sol.

     - Não posso deixá-los no palácio! - praguejou.

     - Será o diabo para os fazer sair de lá - escorria sangue da lâmina da espada de Sharpe. - Encontrou artilharia?

     - Não vi nenhuma. - Vivar recuou, quando a bala de um mosquete bateu na parede perto da sua cabeça. Sorriu, como se quisesse pedir desculpa pela sua fraqueza. - Talvez se rendam.

     - Não se rendem se pensarem que vão ser dizimados. - Sharpe fez um gesto para a rua detrás, onde o cadáver esventrado de um francês testemu-nhava o destino de qualquer inimigo que fosse apanhado pelas gentes da cidade.

     Vivar afastou-se da esquina.

     - Podem render-se a si.

     - A mim?

     - O tenente é inglês. Eles confiam nos ingleses.

     - Terei de lhes prometer que não morrem.

     Um espanhol deveria ter aparecido algures na praça, pois houve o súbito ecoar do fogo de mosquete que testemunhou até que ponto os franceses esta-vam barricados dentro do palácio. Vivar aguardou até as rajadas terminarem.

     - Diga-lhes que, se não se rendem, incendeio o palácio.

     Sharpe duvidou que o edifício de pedra pudesse ser incendiado, e não seria essa a ameaça que os franceses mais temiam. Temiam a tortura e a morte violenta.

     - Os oficiais poderão ficar com as espadas? - perguntou. Vivar hesitou, mas depois acenou afirmativamente.

     - Sim.

     - E garante que todos os franceses ficarão a salvo?

     - Claro.

     Sharpe não desejava negociar a rendição; sentia que aquela diplomacia deveria ser levada a cabo por Blas Vivar, mas o espanhol parecia convencido de que um oficial inglês teria mais crédito junto dos franceses. Um trombeteiro dos caçadores fez soar o cessar-fogo.

     Encontraram um lençol, ataram-no ao cabo de uma vassoura e acenaram com ele à esquina da rua. O trombeteiro repetiu o sinal, mas foi preciso um bom quarto de hora para convencer os vingativos espanhóis que andavam nas imediações da praça de que o chamado era genuíno. Passaram mais dez minutos antes que uma voz francesa, vinda do palácio, soasse em tom desconfiado.

     Vivar traduziu.

     - Só falarão com um homem. Espero que não seja um truque, tenente.

     - Eu também - Sharpe embainhou a espada.

     - E pergunte-lhes por Louisa!

     - Ia perguntar - disse Sharpe e saiu para a luz do Sol.

    

     Sharpe não foi recebido com fuzilaria; apenas com silêncio. O sol-nascente lançava o elaborado jogo de sombras dos pináculos da catedral sobre a pedra cravejada de balas do palácio, através da névoa da madrugada que se adensara devido ao fumo dos mosquetes. O som dos seus passos ecoava nos edifícios. Um homem ferido gemia e revolvia-se no seu próprio sangue. Sharpe poderia contar parte dos acontecimentos da manhã pelo modo como os feridos e mortos se encontravam na praça. Os franceses, na sua fuga em busca da segurança do palácio, tinham sido abatidos pelos espanhóis que os perseguiam e que, por sua vez, tinham sido detidos pelas rajadas dos franceses que já estavam em segurança lá dentro. Esses franceses viam-no agora percorrer o seu caminho por entre os extraordinários destroços da batalha.

     Havia corpos com as mãos enclavinhadas. Um cavalo morto arreganhava ao céu da manhã os dentes amarelados. A couraça já um pouco baça de um soldado encontrava-se ao lado de um pau de tambor abandonado. Sobre as lajes havia restos do papel queimado e encaracolado dos carregadores. Um bocado de argila branca tinha-se transformado em pó. Uma espora espanhola, que se separara da bota, brilhava junto a uma vareta dobrada. Havia uma bainha de sabre, vazia, a cobertura de um capacete, barretinas e cartuchos franceses, abandonados sobre as ervas que surgiam por entre as fendas das lajes. Um gato mostrou os dentes a Sharpe e depois fugiu rapidamente.

     Sharpe avançou através do lixo, consciente dos olhos que o observavam do palácio. Sentia-se, também, pouco preparado para a missão diplomática que ia enfrentar. A sola solta das botas arranhava as lajes do chão. Não tinha chapéu e as costuras das calças tinham-se aberto de novo, enquanto sabia ter o rosto e os lábios manchados de pólvora. Trazia a espingarda ao ombro direito e pensou que a deveria ter deixado para trás, por ser pouco apropriada para a sua missão.

     Sharpe reparou nas barras de ferro negro que barravam as janelas do andar inferior do palácio; barras que tornariam necessário um assalto para atacar as portas duplas. Enquanto se aproximava, uma das portas foi cautelosamente entreaberta. Havia buracos na madeira. Estilhaços de vidro, quebrado pelos franceses com a coronha dos mosquetes, encontravam-se no chão junto a balas desperdiçadas. A pólvora, a cheirar a ovos podres, cobria a fachada do palácio.

     Sharpe pisou cuidadosamente o vidro partido. Da porta, uma voz perguntou-lhe qualquer coisa num espanhol áspero.

     - Inglês - respondeu. - Inglês. - Houve uma pausa e a porta abriu-se. Sharpe entrou e encontrou-se num vestíbulo alto onde um grupo de soldados da infantaria francesa o enfrentava com baionetas. Os homens estavam posicionados por detrás de uma barricada improvisada por volumosas sacas, prova de que tinham calculado que as portas pudessem ser assaltadas. Decerto, raciocinou Sharpe, os franceses não lhe permitiriam ver tão cuidadosos preparativos se não tivessem decidido render-se. Esse pensamento deu-lhe confiança.

     - É inglês? - perguntou a voz de um oficial, vinda das sombras, à esquerda de Sharpe.

     - Sou inglês. Chamo-me Sharpe e comando um destacamento do 95 Batalhão de Fuzileiros de Sua Majestade, presente nesta cidade. - Naquele momento parecia-lhe melhor não confessar a sua baixa patente, para não impressionar mal, homens numa posição tão difícil como aqueles franceses.

     Não que o pequeno engano durasse muito, pois ouviu-se outra voz, vinda da escuridão da grande escadaria que tinha diante de si.

     - Tenente Sharpe! - Era o irmão de Vivar, o conde de Mouromorto. Foi o melhor emissário que eles conseguiram arranjar?

     Sharpe nada disse. Limpou o rosto com a manga, manchando assim as faces com a fuligem da pólvora. Algures, à saída da cidade, soou o troar da fuzilaria e, depois, uma ovação, mais perto da praça. O oficial francês endireitou o cinto da sua espada.

     - Por aqui, tenente! - Conduziu-o pelas escadas acima, passou pelo conde que os seguiu, vestido como sempre com a sua casaca de montar negra e as estranhas botas brancas. Sharpe perguntou a si próprio se Louisa estaria no palácio. Sentiu-se tentado a perguntar ao oficial, mas supôs que a questão deveria ser colocada ao coronel De l’Eclin ou a quem o aguardasse lá em cima, para negociar a rendição.

     - Devo congratulá-lo, tenente - o oficial francês, tal como Sharpe, tinha a voz rouca de gritar as ordens durante a batalha. - Percebi que tinham sido os seus homens a fazer o primeiro assalto.

     - De facto, assim foi. - Sharpe achava sempre ridícula a delicadeza daquelas tréguas. Ao nascer do Sol os homens tinham tentado esventrar-se e, uma hora depois, conversavam com cumprimentos floreados.

     - O tenente foi suficientemente tolo para sacrificar os seus homens à loucura do meu irmão - era claro que o conde de Mouromorto não estava disposto a cumprimentos, floreados ou não. - Pensei que os ingleses tivessem mais juízo.

     Sharpe e o oficial francês ignoraram o comentário. Da presença do conde, Sharpe deduziu que o coronel De l’Eclin estaria de facto à espera no cimo das escadas e apercebeu-se de que receava o encontro. Não pensava conseguir convencer De l’Eclin a render-se; o oficial de Caçadores era muito bom e Sharpe sabia que a sua frágil confiança vacilaria diante do olhar conhecedor e céptico do coronel.

     - Por aqui, tenente - o oficial francês conduziu-o através de outra barricada a meio do patamar, depois até às portas que se abriam para uma sala de tecto alto e outrora graciosa, que servia de passagem para outras semelhantes. À direita ficavam as janelas do palácio, onde a infantaria se acocorava, com as armas carregadas por entre estilhaços de vidro. Junto dos homens, em posição de disparar, viam-se as barretinas voltadas para cima, cheias de cartuchos. A parte superior da parede, ao fundo da sala estava picada pelos chumbos, bem como os belos relevos do estuque do tecto. Um espelho enorme sobre a lareira fora transformado em enormes estilhaços que pendiam perigosamente da moldura dourada. O retrato de um homem severo, com uma antiga gola de canudos, estava cheio de buracos de bala. Os soldados voltaram-se para observar Sharpe com uma curiosidade silenciosa e hostil.

     Na sala seguinte, havia também uma dezena de soldados emboscados nas janelas. Tal como os soldados da primeira sala, pertenciam quase todos à infantaria, a que se juntavam alguns couraceiros e lanceiros apeados. Sharpe reparou que ali não se encontravam dragões. Os homens estavam protegidos por almofadas ou peças de mobiliário, voltadas ao contrário, ou então por sacas que, rasgadas pelo fogo dos mosquetes, tinham deixado verter farinha ou cereais, no chão de madeira. Sharpe começava a perder a confiança de que os franceses se rendessem. Via que aquele quartel-general francês tinha homens e munições suficientes para um cerco. Ao ser conduzido até à terceira sala, pisou os estilhaços de um lustre e deparou-se-lhe um grupo de oficiais que aguardava a sua chegada.

     Para alívio de Sharpe, De I’Eclin não se encontrava entre os franceses que se endireitaram quando ele surgiu à porta. Foi um coronel de infantaria, fardado de azul, que avançou e se inclinou levemente.

     - Meu Coronel! - Sharpe retribuiu o cumprimento, embora a sua voz mais parecesse um grasnido, devido à rouquidão.

     O coronel tinha o braço esquerdo ao peito e, na face, um arranhão causado por um estilhaço, que lhe fizera brotar o sangue que ensopava o colarinho branco. Tinha também a ponta esquerda do bigode descolorida pelo sangue.

     - Coursot - disse laconicamente. - Coronel Coursot. Tenho a honra de comandar o Quartel-General da Guarda desta cidade.

     - Sharpe. Tenente Sharpe. Pertenço ao 95 Batalhão de Fuzileiros, meu Coronel.

     Tendo subido a escada em silêncio atrás de Sharpe, o conde de Mouro- morto dirigiu-se a uma das janelas para olhar para a fachada sombria da catedral. Parecia desdenhar dos procedimentos, como se o destino de Espanha estivesse acima daquelas insignificantes negociações.

     Porém, a declaração do coronel Coursot pareceu a Sharpe, tudo menos insignificante. O francês tirou um relógio do bolso do colete e tocou no botão da mola para lhe abrir a tampa.

     - Tem uma hora para deixar a cidade, tenente.

     Sharpe ficou abismado. Viera na esperança de entregar um ultimato,, mas, em vez disso, encontrara-se com aquele francês alto e de cabelos brancos que ditava os termos com tanta confiança. Coursot fechou o relógio com um estalo.

     - Deveria saber, tenente, que se aproxima desta cidade um corpo do exército, vindo do norte. Chegará numa questão de horas.

     Sharpe hesitou, não sabendo o que dizer. Sentia a boca seca e para ganhar tempo, desrolhou o cantil, lavou a língua do sabor da pólvora e cuspiu a água para as cinzas da lareira.

     - Não acredito - era, e Sharpe sabia-o, uma fraca resposta, mas provavel-mente verdadeira. Se o marechal Soult ou o marechal Ney tivessem saído da Corunha, as notícias já teriam chegado a Vivar.

     - É seu privilégio não acreditar, tenente - disse Coursot. - Mas garanto-lhe que o exército vem a caminho.

     - E eu garanto-lhe - respondeu Sharpe - que o derrotaremos, antes de eles chegarem.

     - Essa conclusão é também privilégio seu, tenente - disse o coronel no mesmo tom. - Mas não vai fazer com que me entregue à sua pessoa. Presumo que tenha vindo até aqui em busca da minha rendição.

     - Sim, meu Coronel.

     Fez-se um silêncio tenso. Sharpe gostaria de saber se os outros oficiais, reunidos naquela sala, teriam exigido uma rendição a Coursot; aqueles franceses eram em número muito pequeno, estavam cercados e, por pouco tempo que fosse, o combate contínuo faria mais baixas, que se juntariam aos feridos espalhados pelos cantos da sala.

     - Se não vos renderdes agora - insistiu Sharpe, pouco à vontade -, não haverá uma segunda oportunidade. O meu Coronel deseja que incendiemos o palácio?

     Coursot soltou uma gargalhada.

     - Garanto-lhe, tenente, que um edifício de pedra não se incendeia facilmente. Julgo que vos falta a artilharia. Então o que esperais? Que São Tiago vos envie o fogo celestial?

     Sharpe corou. O conde de Mouromorto traduziu o trocadilho e a tensão na sala desanuviou-se, pois todos os oficiais desataram a rir.

     - Ora, sei tudo do vosso milagre - disse Coursot com ar de troça. - O que me espanta é encontrar um oficial inglês envolvido em semelhante disparate. Ah, o café! - voltou-se, quando um ordenança entrou na sala, com um tabuleiro de chávenas. - Tem tempo para beber um café? - perguntou a Sharpe. - Ou deve apressar-se para rezar pela chegada de um raio divino?

     - Vou dizer-lhe o que penso fazer. - Sharpe desistiu dos seus esforços de diplomacia e falou com violência cortante. - Vou colocar naqueles campanários os meus melhores fuzileiros - apontou para a catedral através da janela. - Os vossos mosquetes não têm tanto alcance, mas os meus homens podem arrancar os olhos da cara dos franceses a uma distância duas vezes maior. Têm todo o dia para o fazer, meu Coronel, e transformarão estas salas numa casa mortuária. Francamente, tanto se me faz. Prefiro disparar contra um francês do que falar com ele.

     - Acredito. - Se o coronel ficara perturbado pela ameaça de Sharpe não o denunciava, mas também não insistiu em falar na aproximação do exército, coisa que Sharpe pensava ter sido feita apenas por pura formalidade. Colocou então uma chávena de café sobre a mesa, diante do fuzileiro.

     - Pode matar muitos dos meus homens, tenente, e eu posso tornar-me bastante incómodo para o vosso milagre. - Coursot pegou na chávena que o ordenança lhe estendia e depois olhou divertido para Sharpe. - O estandarte de Santiago? É isso, não é verdade? Não acha que se está a agarrar a uma causa perdida, se precisa de uma ninharia assim para a vitória?

     Sharpe não o confirmou, nem o negou. O coronel sorveu um gole de café.

     - Claro que eu não sou entendido, mas imagino que os milagres se realizam melhor numa atmosfera de paz e reverência, não concorda? - Esperou uma resposta, mas Sharpe manteve-se em silêncio. Coursot sorriu. - Estou a sugerir tréguas, tenente.

     - Tréguas? - Sharpe não conseguiu ocultar o espanto na sua voz.

     - Tréguas! - Coursot repetiu a palavra como se a estivesse a dar explicações a uma criança. - Julgo que não pensa que a vossa ocupação de Santiago de Compostela será eterna. Bem me parecia. Vieram até aqui para realizar o vosso pequeno milagre e depois haveis de querer partir. Muito bem. Prometo não disparar contra os seus homens, nem contra qualquer outra pessoa desta cidade, nem sequer contra o próprio São Tiago, desde que me prometa não disparar contra os meus homens, nem atacar este edifício.

     O conde de Mouromorto protestou veementemente contra a sugestão e, como Coursot fingiu não o ver, voltou as costas com desagrado. Enquanto bebia o café, Sharpe pensou entender o sentimento do conde. Tentara várias vezes capturar o estandarte e agora deveria manter-se à parte, enquanto o desdobravam na catedral. Mas seria que os franceses não interfeririam? Coursot apercebeu-se da hesitação de Sharpe.

     - Tenente, tenho duzentos e trinta homens neste edifício; alguns estão feridos. Que transtorno lhe posso causar? Deseja inspeccionar o palácio? Esteja à sua vontade. Deve até fazê-lo!

     - Posso revistá-lo? - perguntou Sharpe, com algumas suspeitas.

     - De alto a baixo! E verá que lhe falo verdade. Duzentos e trinta homens. Há também cerca de vinte espanhóis que, como o conde de Mouromorto, são amigos da França. Pensa realmente, tenente, que eu entregaria esses homens à vingança dos seus compatriotas? Venha! - Coursot abriu a porta num gesto quase zangado. - Reviste o local, tenente! Veja como meia-dúzia de homens o podem assustar!

     Sharpe não se moveu.

     - Não estou em posição de aceitar a sua sugestão, meu Coronel.

     - Mas o major Vivar está? - O coronel parecia irritado por Sharpe não ter recebido a sua oferta de uma trégua com entusiasmo imediato. - Julgo que seja o major Vivar quem esteja no comando - insistiu.

     - Sim, meu Coronel.

     - Então diga-lhe! - Coursot acenou com a mão como se se tratasse de um recado sem importância. - Acabe de beber o café e vá dizer-lhe! Entretanto, quero uma garantia da sua parte. Julgo que tenham feito hoje alguns prisioneiros franceses. Ou já os mataram a todos?

     Sharpe ignorou o tom amargo da pergunta do francês.

     - Tenho prisioneiros, meu Coronel.

     - Quero a sua palavra de oficial inglês de que serão tratados adequada-mente.

     - Serão sim, meu Coronel - Sharpe fez uma pausa. - E o senhor? Não tem uma família, inglesa sob a sua protecção?

     - Temos uma jovem inglesa no palácio. - Coursot parecia ainda ofendido pelas suspeitas acerca da trégua que propusera. - A menina Parker, julgo eu. A família partiu para a Corunha na semana passada, mas garanto-lhe que a menina Parker está inteiramente em segurança. julgo saber que no-la enviaram para nos enganar.

     A calma com que a frase foi feita não indicava se o engano dera ou não resultado. Porém, naquele momento, Sharpe estava apenas preocupado com o destino de Louisa. Ela estava viva na cidade e, assim, ele continuava também a ter as suas esperanças.

     - Não sabia que ela tinha sido mandada para o enganar, meu Coronel disse em tom delicado.

     - Pois saiba que foi! - disse teimosamente Coursot. O conde de Mouromorto fez um gesto zangado em direcção a Sharpe, como se o fuzileiro fosse pessoalmente responsável.

     - A menina Parker enganou-o? - Sharpe tentou conseguir mais informação, sem trair a sua ansiedade.

     Coursot hesitou e depois encolheu os ombros.

     - O coronel De l’Eclin. saiu às três da manhã, tenente, com um milhar de homens. Acredita que o tenente foi para sul e que o major Vivar está em Padrón. Congratulo-o pelo êxito da sua ruse de guerre.

     Sharpe sentiu o coração sobressaltar-se. Funcionara! Tentou manter o rosto inexpressivo, mas tinha a certeza de que deveria trair a sua alegria. Coursot fez uma careta.

     - Mas pode ter a certeza, tenente, que o coronel De l’Eclin regressará esta tarde, e aconselho-o a terminar o seu milagre antes disso. Agora! Vai pedir ao major Vivar que considere a minha proposta?

     - Sim, meu Coronel - Sharpe não se mexeu. - Posso então concluir que vai libertar a menina Parker sob a nossa protecção?

     - Se ela o desejar, entregar-lha-ei quando o tenente regressar com a resposta do major Vivar. Recorde-se, tenente! Não disparamos sobre si se o tenente não der ordem de fogo sobre nós! - Com mal disfarçada impaciência, o coronel francês conduziu Sharpe até à porta. - Dou-lhe meia hora para voltar com a resposta, de contrário partimos do princípio que recusou a nossa generosa oferta. Au revoir, tenente.

     Assim que Sharpe saiu da sala, Coursot foi colocar-se numa das sacadas. Abriu de novo o relógio e ficou a olhar com aparente incompreensão para os seus ponteiros de filigrana. Só ergueu os olhos depois de ouvir o som dos passos de Sharpe sobre as lajes da praça. Coursot viu o fuzileiro afastar-se. Morde, peixinho, morde - disse em voz muito baixa.

     É suficientemente estúpido para morder - o conde de Mouromorto, escutara-lhe as palavras. - Tal como o meu irmão.

     - Quer dizer que têm o sentido da honra? - perguntou Coursot com surpreendente malevolência, mas, depois, sentindo a exagerada aspereza das suas palavras, sorriu. - Creio que precisamos de mais café, cavalheiros. Mais café para os nossos nervos.

     Blas Vivar ficou menos surpreendido com a proposta de Coursot do que Sharpe esperara.

     - Não é invulgar - disse. - Não posso dizer que me sinto encantado, mas a ideia não é assim tão má. - O espanhol aproveitou o cessar-fogo para sair para a praça e olhar a fachada do palácio. - Acha que o podemos capturar?

     - Sim - afirmou Sharpe. - Mas teremos cinquenta mortos e o dobro dos feridos graves. E serão os nossos melhores homens. Não pode enviar voluntários mal treinados contra aqueles canalhas.

     Vivar acenou afirmativamente.

     - O coronel De l’Eclin foi para sul?

     - Foi o que disse Coursot.

     Vivar voltou-se e gritou na direcção dos civis que enchiam as ruas junto à praça. Respondeu-lhe um coro de vozes, todas a confirmarem que sim, que a cavalaria francesa tinha saído a meio da noite, e em direcção a sul. Quantos soldados de cavalaria, perguntou, e disseram-lhe que centenas e centenas de homens montados tinham atravessado a cidade.

     Vivar olhou de novo o palácio, sem ver a sua severa beleza, mas avaliando a espessura das suas paredes de pedra. Abanou a cabeça. Aquela bandeira terá de descer - apontou para a tricolor, furada pelas balas, que pendia sobre a porta - e terão de concordar em fechar as portadas das janelas. Podem manter observadores numa única janela de cada lado do edifício, mas nada mais.

     - As portas podem ser barricadas do exterior? - perguntou Sharpe.

     - Porque não - Vivar olhou para o relógio. - E porque não lhes hei-de dizer quais os nossos termos? Se eu não voltar dentro de quinze minutos atacai!

     Sharpe queria ser ele a receber Louisa e a trazê-la sã e salva do quartel-general francês.

     - Não deveria ser eu a lá voltar, meu Major?

     - Julgo que não haverá problemas - respondeu Vivar. - E quero ser eu a revistar o palácio. Não é que não confie em si, tenente, mas creio que a responsabilidade é minha.

     Sharpe acenou afirmativamente. Convencera-o a boa vontade dos franceses em deixarem que o palácio fosse revistado, mas, se ele fosse Vivar, também insistiria em ser ele a conduzir a busca. A sua reunião com Louisa teria de esperar e não seria menos interessante por ter sido adiada.

     Vivar não partiu imediatamente; preferiu bater as palmas encantado e de tão alegre, executou dois desajeitados passos de dança.

     - Conseguimos, meu amigo! Conseguimos mesmo! Tinham conseguido a vitória.

     - Vitória dava trabalho. As carabinas e os mosquetes capturados aos franceses foram empilhados na praça do lado sul da catedral e os prisioneiros franceses fechados na prisão da cidade, onde ficaram à guarda dos casacas-verdes. As mochilas e os capotes dos fuzileiros foram trazidos dos ulmeiros a norte da cidade. Os cadáveres foram arrastados para a vala, e as defesas adequadamente erguidas. Sharpe foi de posto da guarda em posto da guarda, para se assegurar de que os voluntários de Vivar estavam preparados. A sul da cidade, viam-se ainda alguns fugitivos franceses, mas uma rajada de fuzilaria fê-los fugir. Sharpe viu que a estrada para sul estava coberta de bosta de cavalo e de marcas dos cascos, testemunho da ausência do coronel De l’Eclin. Os observadores nos campanários da catedral e os piquetes dos caçadores nas estradas circundantes avisariam do regresso dos dragões e, contra esta eventualidade, ordenou aos seus homens que limpassem os fuzis e afiassem as baionetas.

     Fora conseguida uma vitória e poderiam apoderar-se dos despojos, Havia uniformes dos aboletados franceses e cavalos dos seus estábulos. Todas as casas que os franceses tinham ocupado continham um pequeno armazenamento de provisões. Havia sacas de pão, de farinha, de chouriços, de presuntos curados, de carne de porco salgada, de bacalhau seco, odres de vinho e queijos de casca dura. A maior parte dos víveres fora levada pelas gentes da cidade, mas os caçadores de Vivar tinham conseguido encher uma dezena de alforges de mula.

     Sharpe procurou um saque maior; a forragem que fora recolhida nas últimas semanas e armazenada para o avanço de Soult para sul. Em duas das igrejas da cidade encontrou feno, farinha e vinho, mas as quantidades mal davam para alimentar os homens e os cavalos do marechal. Numa terceira, cujos tesouros tinham sido saqueados, tal como acontecera a todas as igrejas de Santiago de Compostela, Sharpe encontrou os restos de mais víveres. As lajes do chão estavam cobertas de aveia e manchadas dos traços deixados pelas sacas que tinham sido arrastadas dali. O padre da paróquia, num inglês hesitante, explicou que os franceses tinham esvaziado a igreja dos seus víveres na tarde anterior e tinham levado as sacas para o Palácio Raxoy.

     - O Palácio Raxoy? Na praça?

     - Sim, senhor.

     Sharpe praguejou em surdina. Os franceses tinham começado a reunir os víveres num ponto central de distribuição e a captura de Vivar tinha interrom-pido o processo demasiado tarde. A maior parte da preciosa forragem estava nas sacas que Sharpe vira no interior do palácio; sacas que agora serviriam de apoio aos franceses encurralados no seu interior. Ficou furioso ao aperceber-se. Houvera apenas três justificações para tomar a cidade. A primeira era desfraldar o estandarte, uma loucura supersticiosa. A segunda, libertar Louisa, capricho pessoal de Sharpe e pouco relevante para a guerra. A terceira, destruir os víveres de Soult, era a única justificação verdadeiramente válida e tinha falhado quase completamente.

     Porém, se a maioria dos víveres se encontravam em segurança dentro do palácio, Sharpe poderia ainda negar ao marechal Soult aquilo que restava. As redes de feno foram levadas para os cavalos de Vivar, enquanto a farinha foi entregue às gentes da cidade. Ordenou que o vinho fosse despejado.

     - Despejado? - Harper parecia estupefacto.

     - Quer os homens embriagados se De l’Eclin contra-atacar?

     É um pecado desperdiçá-lo, meu Tenente, pode ter a certeza. Despeje-o! - Depois de ter dito estas palavras, Sharpe rasgou com a sua espada um monte de odres de vinho. O líquido vermelho brotou sobre as lajes da igreja e escorreu pelas fendas para a cripta que ficava por baixo.

     - E se algum homem se embriagar - ergueu a voz -, terá de responder pessoalmente perante mim!

     - Muito bem, meu Tenente! - Harper esperou que Sharpe se retirasse e chamou Gataker. - Arranja um taberneiro, trá-lo aqui e vê quanto oferece. Vai depressa!

     Sharpe levou um esquadrão de fuzileiros para procurarem outros escon-derijos de cereal ou feno. Não encontraram nada. Descobriram um armazenamento de mochilas da infantaria francesa, feitas de pele de porco e muito melhores que as dos ingleses. Foram logo requisitadas, tal como uma dúzia de pares de botas de montar, embora, para desagrado de Sharpe, nenhuma deles fosse suficientemente grande para ele. Os fuzileiros encon-traram os cartuchos franceses para substituírem os seus; as balas de mosquete, um pouco mais pequenas do que as equivalentes inglesas, podiam ser usadas nas espingardas Baker, embora as munições inimigas servissem como último recurso, já que a áspera pólvora francesa estragava os canos das espingardas. Encontraram capotes e meias, camisas e luvas, mas mais trigo e feno, não.

     Os habitantes da cidade também se dedicaram à pilhagem. Os cidadãos de Santiago de Compostela não se preocupavam que a maior parte da forragem francesa estivesse dentro do palácio, sabiam apenas que, pelo menos por um dia, eram livres. Tinham-no transformado num Carnaval, mascarados com o saque, de modo que a cidade parecia habitada por uma alegre multidão de soldados inimigos meio vestidos. Até as mulheres tinham envergado casacos e barretinas francesas.

     Ao meio-dia, um comboio de mulas transportou grande parte da forragem, juntamente com as mochilas dos fuzileiros, até um local seguro nos montes orientais. Vivar não queria que os seus homens ficassem embaraçados pelos seus pertences, se a cidade tivesse de ser defendida. Assim as mochilas e os troféus teriam de esperar para ser recolhidos após a retirada. Depois que as mulas partiram, Sharpe ordenou aos fuzileiros que descansassem enquanto ele, combatendo uma enorme fadiga, partiu em busca de Blas Vivar. Dirigiu-se primeiro à grande praça que encontrou quase deserta; apenas lá estava um piquete dos caçadores que, cansados, vigiavam as janelas fechadas do palácio. Havia também alguns civis que construíam uma improvisada barreira com móveis, barris vazios de vinho e carroças e que, por fim, cercariam todo o edifício, convenientemente rodeado por três ruas.

     Havia uma única janela aberta na fachada do palácio, embora nela não fosse visível qualquer observador. A bandeira desaparecera do cimo das portas duplas que se encontrava barricada por tábuas, apoiadas em contrafortes de madeira. Os franceses estavam assim encurralados dentro do enorme edifício.

     Eram também insultados pela multidão que, impedida pelos caçadores de encher a praça grande, escarnecia deles, a partir dos pequenos espaços abertos e a norte a sul da catedral. Soltaram uma ovação ao avistar Sharpe, mas logo a seguir continuaram a insultar os franceses escondidos. As gaitas-de-foles juntavam o seu ruído agudo à confusão. As crianças dançavam, troçando do inimigo, enquanto os sinos da cidade ainda tocavam na sua louca cacofonia da vitória. Sharpe, sorrindo, cansado e feliz às comemorações dos cidadãos, subiu o lance de escadas que levava à ornamentada entrada oeste da catedral. Deteve-se a meio caminho, não por estar cansado, mas porque se sentiu subitamente dominado pela beleza da fachada. Pilares e arcadas, estátuas e balaustradas, brasões e espirais: tudo soberbamente gravado para glória de Santiago, sepultado no interior. Depois de semanas de dificuldades e de frio, de combates e de raiva, a catedral parecia tornar insignificantes as ambições dos homens que lutavam por toda a Espanha. Depois pensou que aquela catedral era como a ambição de Vivar. O espanhol lutava por uma coisa em que acreditava, enquanto que Sharpe combatia como um pirata, com um orgulho teimoso e sangrento.

     - Será que me apercebo da admiração nos olhos de um soldado? A pergunta, feita numa voz levemente trocista, vinha de uma figura que avançou de uma plataforma de pedra, no alto de um lance de escadas.

     Sharpe esqueceu instantaneamente as glórias da catedral.

     - Menina Parker? - Sabia que sorria como um tolo, mas não o conseguia evitar. Era apenas o orgulho de pirata que o fizera combater, mas a recordação daquela jovem que, na sua saia azul e capa cor de ferrugem, lhe sorria. Voltou-se e apontou para o silencioso palácio ocupado pelos franceses. - Mas não será perigoso estar aqui?

     - Meu caro Tenente, estive dentro da toca do ogre durante um dia inteiro! Pensa que agora que o senhor conseguiu esta vitória, corro um perigo maior?

     Sharpe sorriu devido ao cumprimento e depois de chegar ao cimo das escadas retribuiu-o.

     - Uma vitória, menina Parker, para a qual a menina contribuiu em grande parte - inclinou-se para ela. - As minhas mais humildes felicitações. Eu estava enganado, a menina estava certa.

     Encantada com o elogio, Louisa soltou uma gargalhada.

     - O coronel De l’eclin acredita que o vai emboscar no vale do Ulla a leste de Padrón. Vigiei-o esta noite, às três horas da manhã - dirigiu-se para o centro da plataforma da catedral que formava uma espécie de palco a dominar a enorme praça. - Esteve neste mesmo lugar, tenente, e fez um discurso aos seus homens. Enchiam a praça! Fileira após fileira de capacetes cintilando à luz dos archotes, todos os soldados aclamavam o coronel. Nunca pensei ver uma coisa assim! Aclamavam-no e depois partiram para o grande combate vitorioso.

     Sharpe pensou em como a margem da sua vitória tinha sido escassa naquele dia. Mais de um milhar de homens sob o comando impiedosamente eficiente De l’Eclin seria destruído pelo ataque de Vivar. Porém, o coronel de Caçadores, completamente enganado por Louisa, fora atraído para sul.

     - Como foi que o convenceu?

     - Com lágrimas copiosas e uma evidente relutância para lhe dizer fosse o que fosse. Porém, conseguiu arrancar-me a verdade final. - Louisa parecia troçar da sua própria esperteza. - Por fim, deu-me uma alternativa. Poderia ficar na cidade ou juntar-me à minha tia na Corunha. Julgo que pensou que, se eu decidisse aqui ficar, era porque tinha esperança de ser salva e se exprimisse essa esperança seria sinal de que lhe mentira. Assim, implorei-lhe que me deixasse juntar-me à minha desgostosa família e o coronel partiu - fez uma pirueta de alegria. - Deveria partir para a Corunha hoje ao meio-dia. Viu a que destino me poupou?

     - Não teve medo de aqui ficar?

     - Claro. Não teve medo de vir até aqui? Sharpe sorriu.

     - Pagam-me para ter medo.

     - E para meter medo. Parece-me assustador, tenente. - Louisa encaminhou-se para uns caixotes que se encontravam abertos junto à porta da catedral e sentou-se sobre um deles, afastando um caracol teimoso dos olhos.

     - Estes caixotes - disse - contiveram o saque da catedral. Os franceses levaram a maior parte a semana passada, mas Don Blas salvou alguma coisa.

     - Deve ter ficado satisfeito.

     - Nem por isso - disse Louisa em tom mordaz. - Os franceses dessacrali-zaram a catedral. Saquearam o tesouro e rasgaram quase todos os panos do altar-mor. Don Blas não está satisfeito. Mas o estandarte chegou são e salvo e está bem guardado, para que se possa realizar o milagre.

     - Ainda bem. - Sharpe sentou-se, sacou da espada e, com a lâmina entre os joelhos, raspou o sangue que a mancharia de ferrugem se não fosse retirado.

     - Don Blas está lá dentro a preparar o altar-mor para esse absurdo, Louisa suavizou a palavra com um sorriso. - Sem dúvida que o tenente desejava que ele o fizesse rapidamente para poder retirar.

     - De facto, assim é.

     - Mas ele não o fará - disse Louisa firmemente. - Os sacerdotes insistem para que o disparate seja feito como deve ser e com a devida cerimónia. Trata-se de um milagre, tenente, que tem de ser observado por testemunhas que possam levar as notícias do que aconteceu através de toda a Espanha. Temos de aguardar a chegada de alguns monges e frades - riu deliciada. É como se estivéssemos na Idade Média, não acha?

     - De facto.

     - Mas Don Blas não está a brincar, portanto teremos ambos que o tratar com a mais profunda gravidade. Vamos entrar para ir ter com ele? - perguntou Louisa com um súbito entusiasmo. - Deveria também ver a Porta da Glória, tenente, é realmente uma impressionante peça de alvenaria. Muito mais impressionante do que as portas de uma sala de convívio metodista, embora seja monstruosamente desleal da minha parte dizer tal coisa.

     Sharpe ficou em silêncio por alguns segundos. Não queria ver a Porta da Glória, fosse o que fosse que isso pudesse ser, nem partilhar aquela jovem com os espanhóis que tinham preparado a catedral para o acto sem sentido daquela noite. Queria sentar-se ali, dividindo com ela o momento da vitória.

     - Creio que estes foram os dias mais felizes da minha vida - disse Louisa. - Invejo-o.

     - Inveja-me?

     - É a falta de restrições, tenente. De repente já não há regras, sabe? Deseja mentir? Mente! Deseja desfazer uma cidade? Pode fazê-lo! Deseja atear um incêndio? Basta usar a pederneira! Talvez eu devesse transformar-me num dos seus fuzileiros.

     Sharpe soltou uma gargalhada.

     - Aceito.

     - Contudo - Louisa cruzou os braços, com ar reservado -, tenho de viajar para sul, até Lisboa, e apanhar um navio para Inglaterra.

     - Tem mesmo? - perguntou bruscamente Sharpe.

     Louisa ficou por uns momentos em silêncio. O cheiro a fumo, de uma das casas incendiadas, pairou sobre a praça e foi depois disperso por um golpe de vento.

     - Não é isso que vai fazer? - perguntou. A esperança invadiu-o.

     - Depende de haver ou não guarnição em Lisboa. Mas tenho a certeza que há - acrescentou num tom pouco convencido.

     - Parece pouco provável, depois das nossas derrotas. - Louisa voltou-se para observar um grupo de jovens espanhóis que tinha conseguido passar pelos caçadores que guardavam a praça. Os rapazes seguravam uma bandeira tricolor a que haviam deitado fogo e que agitavam na direcção do inimigo encurralado. Se esperavam abalar os franceses do palácio desafiando-os daquela maneira, não estavam a ter qualquer sucesso.

     - Estou então condenada a regressar a casa. - Louisa olhava entretanto para os entusiasmados jovens. - E para quê, tenente? Em Inglaterra vou regressar aos meus bordados e passar horas a pintar aguarelas. Durante algum tempo, serei sem dúvida considerada uma curiosidade; o fidalgo da terra desejará, certamente, escutar as minhas invulgares aventuras. O senhor Bufford voltará a fazer-me a corte, garantindo-me que nunca mais, enquanto houver um sopro de vida no seu corpo, serei exposta a um perigo tal! Vou tocar piano e levar semanas para me decidir se hei-de comprar fitas cor-de-rosa ou azuis para os vestidos do ano seguinte. Darei esmolas aos pobres e tomarei chá com as senhoras da cidade. Será tudo tão pouco trabalhoso, tenente Sharpe.

     Sharpe sentia-se à deriva com aquela ironia demasiado inteligente para a poder compreender.

     - Decidiu então casar-se com o senhor Bufford? - perguntou, trémulo, receando que a resposta acabasse com as suas frágeis esperanças.

     - Não sou uma rica herdeira, de modo que não hei-de atrair ninguém mais interessante - disse Louisa, fingindo ter pena de si própria. Escovou das saias umas partículas de cinza. - Mas é sem dúvida a coisa mais sensata para eu fazer, não acha, tenente? Casar-me com o senhor Bufford e viver na sua agradável casa? Haverá rosas plantadas junto à parede sul e, de vez em quando, muito de vez em quando, lerei um parágrafo no jornal que me falará de uma longínqua batalha e me fará recordar do horrível cheiro do fumo da pólvora e de como é triste ver um soldado raspar o sangue da sua espada.

     Estas últimas palavras, por parecerem tão íntimas, fizeram com que Sharpe recuperasse o optimismo e olhasse para ela.

     - Sabe, tenente - Louisa antecipara tudo o que ele poderia dizer -, há um momento na vida em que as pessoas têm de fazer uma escolha. Não concorda?

     A esperança, tão mal fundamentada, tão impossível, tão irresistível, invadiu Sharpe.

     - Sim - respondeu. Não sabia exactamente como poderia ela ficar no exército, ou como a falta de dinheiro, empecilho para a maioria dos romances, poderia ser resolvida, mas se as esposas dos outros oficiais tinham casas em Lisboa, porque não haveria Louisa também de ter uma?

     - Não estou convencida de querer rosas e bordados. - Louisa parecia, de súbito, nervosa e febril, como um cavalo impossível de domar, aproximando-se, impaciente, da linha de batalha. - Sei que deveria desejar essas coisas e sei que sou tola porque as desprezo, mas gosto de Espanha! Gosto da emoção que aqui há. Não existe em Inglaterra.

     - Não - Sharpe mal se atrevia a mover-se, com receio de a assustar e de que ela não o aceitasse.

     - Pensa que faço mal em desejar emoção? - Louisa não esperou pela resposta, fazendo logo outra pergunta. - Pensa que um exército inglês ficará, de facto, para combater em Portugal?

     - Claro!

     - Não creio. - Louisa voltou-se para observar os jovens que pisavam as cinzas da bandeira francesa incendiada. - Sir John Moore morreu - continuou. - O seu exército desapareceu e, nem sequer sabemos se a guarnição continua em Lisboa. E, se assim for, tenente, como poderá uma guarnição tão insignificante resistir aos exércitos franceses?

     Sharpe agarrava-se teimosamente à sua crença de que o exército inglês não tinha desistido das suas esperanças.

     - As últimas notícias que tivemos de Lisboa diziam que a guarnição se mantinha. Pode ser reforçada! No ano passado, vencemos duas batalhas em Portugal, porquê não vencer mais este ano?

     Louisa abanou a cabeça.

     - Creio que nós, os ingleses, fomos severamente castigados, tenente, e suspeito que abandonaremos a Espanha ao seu destino. Se há cem anos que um exército inglês não vence na Europa, porque haveremos de pensar que poderemos agora ter êxito?

     Sharpe sentiu, por fim, que as ambições de Louisa e as suas esperanças não eram semelhantes. O nervosismo dela não era o de uma jovem que aceita timidamente uma proposta de casamento, mas sim o de uma mulher ansiosa de não provocar dor com a sua rejeição. Ele olhou-a.

     - Acredita nisso, menina Parker? Ou será que é essa a opinião do major Vivar?

     Louisa fez uma pausa e, depois, falou tão baixo que mal conseguiu elevar-se acima do toque dos sinos.

     - Don Blas pediu-me que ficasse em Espanha, tenente.

     - Oh! - Sharpe fechou os olhos como se a luz do Sol que iluminava a praça o magoasse. Não sabia o que dizer. Não havia nada mais ridículo do que um homem rejeitado.

     - Posso converter-me à religião - disse Louisa - e posso tornar-me parte deste país. Não quero fugir de Espanha. Não quero regressar a Inglaterra e pensar nos acontecimentos emocionantes que aqui têm lugar. E não posso... - deteve-se embaraçada.

     Não precisava terminar. Não podia entregar-se a um vulgar soldado, a um tenente já velho de mais, a um pedinte de uniforme rasgado, cujas expectativas eram a decadência num aquartelamento rural.

     - Sim - respondeu Sharpe, desesperado.

     - Não posso ignorar o momento - disse ela, dramaticamente.

     - A sua família... - começou Sharpe.

     - Vai odiar a ideia! - Louisa soltou uma gargalhada forçada. - Estou a tentar convencer-me de que não é essa a única razão pela qual tenciono aceitar a proposta de Dom Blas.

     Sharpe fez um esforço para olhar para ela.

     - Vai casar-se?

     Ela fitou-o com ar grave.

     - Sim, senhor Sharpe, vou casar-me com Don Blas. - Havia alívio na sua voz, agora que dissera a verdade. - Trata-se de uma decisão súbita, bem sei, mas tenho de ter coragem, para aproveitar o momento.

     - Pois sim - Sharpe não conseguiu dizer mais nada.

     Louisa olhou-o em silêncio. Tinha lágrimas nos olhos, mas o tenente não as viu.

     - Lamento - disse ela.

     - Não - Sharpe levantou-se. - Eu não tinha quaisquer esperanças.

     - Folgo em ouvi-lo - disse formalmente Louisa. Recuou, enquanto Sharpe se dirigia para a beira da plataforma, depois franziu a testa ao vê-lo descer os degraus da catedral. - Não queria falar com Don Blas?

     - Não - Sharpe já não se importava. Embainhou a espada e afastou-se. Sentia que tinha lutado em vão, que ja não havia nada por que valesse a pena combater e que as suas esperanças eram como as cinzas da bandeira queimada na praça vazia. Tudo para nada.

    

     Para o tenente Richard Sharpe aspirar À mão da menina Louisa Parker era, até certo ponto, um atrevimento tão grande como o plano de Vivar para ocupar uma cidade tomada pelo inimigo. A jovem vinha de uma respeitável família que, embora por vezes estremecesse à beira da pobreza fidalga, estava muito acima da posição ignóbil de Sharpe. Este era camponês de nascimento, oficial por acidente e pobre de profissão.

     E o que teria ele esperado da jovem, perguntava a si próprio. Teria imaginado que Louisa seguiria, de boa vontade, atrás de um exército em campanha ou que aceitaria uma casa esquálida, perto dos aquartelamentos, completando o seu magro salário com bocados de carne e pão duro? Deveria abandonar os vestidos de seda para usar camisas de lã? Ou teria ele esperado que ela o seguisse até à guarnição das índias Ocidentais, onde a febre-amarela dizimava regimentos inteiros? Disse para consigo que as suas esperanças tinham sido tão estúpidas quanto irrealistas, mas, mesmo assim, não era o sabê-lo que lhe curava a dor do coração. Disse para consigo que agira de modo infantil, até por sentir o desgosto, mas isto não a tornava mais fácil de suportar.

     Saiu do sol invernal que iluminava a praça e mergulhou no horrível fedor de um beco onde, por baixo de uma arcada, encontrou uma taberna. Sharpe não tinha dinheiro para pagar o vinho, mas o seu aspecto e o golpe que o seu punho desferiu no balcão convenceram o taberneiro a encher um jarro no barril. Sharpe pegou no jarro e numa caneca de estanho e levou-os consigo para uma alcova ao fundo da sala. Os poucos clientes, encolhidos em redor da lareira e vendo a sua expressão desagradável, ignoraram-no: excepto uma prostituta que, a pedido do taberneiro, se foi sentar na borda do banco, junto ao soldado estrangeiro. Sharpe sentiu-se por instantes tentado a mandá-la embora, mas resolveu pedir uma segunda caneca.

     O taberneiro limpou uma ao avental e colocou-a sobre a mesa. Com ar inquiridor segurou a cortina que pendia do arco da alcova.

     - Sim - disse Sharpe asperamente. - Si.

     A cortina caiu, mergulhando Sharpe e a rapariga nas sombras profundas. Ela soltou uma gargalhadinha, lançou-lhe os braços ao pescoço e murmurou algumas frases ternas em espanhol, até ele a calar com um beijo.

     A cortina foi arrancada, e a rapariga gritou de susto. Blas Vivar encontrava-se sob a arcada.

     - É muito simples seguir um estrangeiro pelas ruas de Espanha. Esperava esconder-se de mim, tenente?

     Sharpe rodeou a prostituta com o braço esquerdo e puxou-a para ele de modo a que a cabeça dela ficasse encostada ao seu ombro. Tocou-lhe o seio com a mão.

     - Estou ocupado, meu Major.

     Vivar ignorou a provocação e sentou-se no banco, em frente de Sharpe. Enrolou um charuto sobre a mesa.

     - Não acha que a esta hora já o coronel De l’Eclin terá percebido que a menina Parker lhe mentiu? - perguntou.

     - Com certeza - respondeu Sharpe, em tom descuidado.

     - Vai regressar. Em breve há-de encontrar alguém que tenha fugido desta cidade e aperceber-se da gravidade do seu erro.

     - Sim - Sharpe começou a puxar as fitas do corpete da prostituta. A rapariga fez, em vão, um esforço para o deter, mas ele insistiu e conseguiu abrir-lhe o vestido.

     Vivar falava em tom paciente.

     - Então já estava à espera que l’Eclin nos atacasse, não é verdade?

     - Creio que nos atacará. - Sharpe meteu a mão sob o vestido desapertado da rapariga e desafiou Blas Vivar a emitir um protesto.

     - A defesa está a postos? - perguntou Vivar, em tom calmo e educado. Pela atenção que lhe dava, era como se a prostituta da taberna não existisse. Sharpe não respondeu imediatamente. Serviu-se de vinho com a mão livre, bebeu uma caneca e serviu-se de mais.

     - Em nome de Deus, Vivar, porque é que não acaba de uma vez com o seu disparate? Estamos aqui nesta cidade, que não passa de uma maldita armadilha, para realizar um truque na catedral. Faça então o que tem a fazer, e depressa, para nos podermos pôr a andar!

     Vivar acenou com a cabeça como se as palavras de Sharpe fizessem sentido.

     - Deixe-me ver então. Enviei caçadores para patrulharem a norte e a sul. Vou levar duas horas a reuni-los, talvez mais. Ainda temos de encontrar todos os homens na cidade que cooperaram com os franceses, e as buscas continuarão provavelmente por mais uma hora. Os víveres foram todos destruídos?

     - Os malditos víveres não existem. Os franciús meteram-nos ontem no palácio.

     Vivar estremeceu ao ouvir as novas.

     - Já o receava. Vi enormes montes de trigo e feno quando espreitei os celeiros do palácio. É uma pena.

     - Então trate de fazer o seu milagre e fuja. Vivar encolheu os ombros.

     - Aguardo a chegada de alguns clérigos e enviei soldados para destruírem as pontes mais próximas sobre o Ulla, o que não estará terminado antes desta tarde. Não me parece que haja assim tanta pressa. Ao pôr do Sol devemos estar a postos na catedral e poderemos partir esta noite e não amanhã, mas julgo que nos deveremos preparar para defender a cidade contra De l’Eclin, não concorda?

     Sharpe chegou o rosto da prostituta ao seu e beijou-a. Sabia que estava a ser grosseiro, porém a dor era forte e o ciúme tornava-o febril.

     Vivar suspirou.

     - Se o coronel De l’Eclin não tiver tomado a cidade ao cair da noite, não poderá fazê-lo durante a noite e nós partiremos à vontade. É por isso que julgo ser melhor aguardar até lá para partirmos.

     - Ou será para desdobrar o seu estandarte mágico no escuro? Os milagres funcionam melhor nas trevas, não é verdade? Para que ninguém possa perceber o seu maldito truque.

     Vivar sorriu.

     - Sei que o meu pendão mágico não tem tanta importância para si como para mim, tenente, mas é por isso que aqui estou. E, quando for desfraldado, quero o maior número de testemunhas possível. A notícia tem de sair desta cidade; tem de chegar a todas as cidades e aldeias de Espanha. Mesmo até no longínquo sul precisam saber que Santiago se mexeu no túmulo e que ergueu de novo a sua espada.

     Apesar de todo o cepticismo, Sharpe estremeceu.

     Se Vivar viu sinais de emoção da parte do tenente, fingiu não se ter apercebido deles.

     - Calculo que o coronel De l’Eclin esteja aqui dentro de duas horas. Vai aproximar-se, vindo do sul da cidade, mas suspeito que nos atacará vindo de oeste na esperança de que o sol nos ofusque. Quer encarregar-se da defesa?

     - De repente precisa dos malditos ingleses, não é verdade? - O ciúme de Sharpe incendiara-se. - Pensa que os ingleses vão fugir? Que abandonaremos Lisboa? Que a sua preciosa Espanha terá de vencer os franceses sem a nossa ajuda? Pois pode fazê-lo sem mim!

     Por uns instantes a imobilidade de Vivar mostrou que a sua orgulhosa fúria poderia explodir, tal como o gênio de Sharpe. A prostituta encolheu-se, à espera de violência, mas quando Vivar se mexeu foi apenas para estender a mão sobre a mesa e apanhar o jarro de vinho. Falava em tom controlado e plácido.

     - Tenente, uma vez disse-me que ninguém esperava que os oficiais saídos das fileiras do exército inglês fossem bem-sucedidos. Como foi que me explicou? Que era porque a bebida os destruía - fez uma pausa, mas Sharpe não respondeu. - Julgo que se pode transformar num soldado de grande reputação, tenente. Entende de batalhas. Fica calmo quando os outros homens se assustam. Mesmo se não gostam de si, os seus homens seguem-no, porque compreendem que lhes há-de trazer a vitória. O senhor é muito capaz. Mas talvez não seja suficientemente capaz. Talvez sinta tanta autocomiseração que se queira destruir com a bebida ou - Vivar dignou-se por fim a reparar na rapariga de cabelos desgrenhados - com a sífilis.

     Enquanto durou o discurso, Sharpe olhara para o espanhol como se desejasse sacar da enorme espada, para bater com ela em cima da mesa. Vivar levantou-se e entornou o resto do jarro de vinho sobre as tábuas do chão. Depois deixou-o cair com desdém.

     - Canalha - exclamou Sharpe.

     - Já me considera igual a si? - Vivar fez nova pausa para deixar Sharpe responder, mas este continuou em silêncio. O espanhol encolheu os ombros.

     - Sente pena de si próprio porque não nasceu na classe dos oficiais. Mas já pensou que aqueles de nós, que considera tão afortunados, por vezes também o lamentamos? Pensa que não nos sentimos aterrorizados pelos homens duros e tristes dos pardieiros e espeluncas? Pensa que não olhamos para homens como o tenente e sentimos inveja?

     - O senhor é um canalha e julga-se superior! Vivar fingiu não perceber o insulto.

     - Quando a minha mulher e os meus filhos morreram, tenente, decidi que não havia mais nada por que viver. Entreguei-me à bebida. Dou agora graças a Deus por um homem se ter preocupado comigo e me ter aconselhado como se se considerasse superior a mim. - Pegou no seu chapéu de borlas. Se lhe dei razões para me detestar, tenente, lamento. Não foi de propósito; de facto, fez-me acreditar que não haveria razão para aborrecimentos entre nós. - Foi o mais que Vivar se aproximou de uma referência a Louisa. - Tudo o que lhe peço é que me ajude a terminar este trabalho. Há um monte a ocidente da cidade que deveria ser ocupado. Quero pôr lá Davila sob o seu comando com uma centena de caçadores. Reforcei os piquetes a sul e a oeste. E muito obrigado por tudo o que fez até aqui. Se não tivesse tomado aquela primeira barricada, ainda andaríamos a fugir por esses montes com os lanceiros a espetarem-nos o traseiro. - Vivar afastou-se do banco. - Mande-me dizer quando tiver as suas defesas posicionadas e eu farei uma inspecção. Não quis saber de resposta e limitou-se a sair da taberna.

     Sharpe pegou na caneca de vinho que ainda estava cheia. Olhou-a. Tinha ameaçado castigar os seus soldados se algum deles se embriagasse, porém agora desejava afogar a sua desilusão num nevoeiro alcoólico. Mas resolveu atirar a caneca para o lado e levantar-se. A rapariga, vendo que perdia o seu lucro, choramingou.

     - Malditos - disse Sharpe. Arrancou dois dos restantes botões de prata das calças, e com eles um grande bocado de pano, e atirou-os para o colo da rapariga. - Malditos. - Pegou nas armas e partiu.

     O taberneiro olhou para a rapariga que atava de novo o corpete. Encolheu os ombros, compreensivo.

     - O inglês, não é? Louco. São todos loucos. Hereges. Loucos - fez o sinal da cruz para se defender do mal dos pagãos. - Como todos os soldados - prosseguiu o taberneiro. - Todos loucos.

     Sharpe dirigiu-se para o lado oeste da cidade acompanhado do sargento Harper e esforçou-se por esquecer Louisa e o seu vergonhoso comportamento na taberna. Tentou calcular por onde se aproximariam os franceses, se quisessem atacar Santiago de Compostela.

     Os dragões tinham ido para Padrón e a estrada dessa pequena cidade aproximava-se de Santiago, vinda de sudoeste, o que tornava mais provável um ataque vindo de sul ou de oeste. De L’Eclin poderia competir com Vivar e fazer um assalto do lado norte, mas Sharpe duvidava que o oficial de Caçadores escolhesse essa abordagem, se desejava atacar de surpresa. O solo a leste da cidade era irregular e defendia-se mais facilmente. A terra a sul estava cercada por sebes e valas, enquanto a ocidente, de onde Vivar acreditava que viria o ataque, o terreno estava aberto e parecia convidativo como o parque de uma aldeia inglesa.

     O campo aberto a ocidente, tinha a sul o pequeno monte onde Vivar queria pôr a guarnição e, sobre o qual, Sharpe esperava agora ordens. Os franceses, conhecendo o valor do monte, haviam cortado quase todas as árvores da colina e formado uma improvisada fortificação de arbustos entre os troncos caídos. Mais adiante ficava um campo de mortos onde os dragões De l’Eclin se podiam juntar sem serem vistos. Sharpe deteve-se à entrada desse terreno mais baixo e voltou-se para olhar para a cidade.

     - Talvez tenhamos de ocupar este maldito sítio até depois do cair da noite. Instintivamente, Harper olhou para a posição do Sol.

     - Só estará completamente escuro daqui a seis horas - disse, pessimista e será um crepúsculo lento, meu Tenente. Não há uma maldita nuvem para nos esconder.

     - Se Deus estivesse do nosso lado - Sharpe experimentava uma das piadas de caserna - teria dado mamas às espingardas.

     Pela piada, Harper apercebeu-se de que o mau humor de Sharpe melhorara e sorriu com simpatia.

     - Aquilo da menina Louisa é verdade, meu Tenente? - A pergunta fora feita em tom descuidado e sem qualquer embaraço, fazendo Sharpe pensar que nenhum dos seus homens suspeitava do seu interesse pela jovem.

     - É verdade. - Sharpe pareceu dar pouca importância ao assunto. - Terá de se tornar católica, claro.

     - Há sempre espaço para mais uma, sabe, - Harper olhou para o chão enquanto falava. - Sempre pensei que não era bom um soldado ser casado.

     - E porque não?

     - Não podemos dançar com um pé preso ao chão, não é verdade, meu Tenente? Mas o major não é um soldado como nós. Vem daquele grande castelo! - Harper ficara evidentemente impressionado com a fortuna da família Vivar. - O major é um homem importante, lá isso é!

     - E nós o que somos? Os malditos?

     - Pois, mas também somos fuzileiros, meu Tenente. O senhor e eu, meu Tenente, somos os melhores soldados do mundo.

     Sharpe soltou uma gargalhada. Umas semanas antes, andava de candeias às avessas com os fuzileiros que agora estavam do seu lado. Não sabia como receber o cumprimento de Harper, de modo que decidiu recorrer a uma frase sem significado.

     - Vivemos num mundo curioso.

     - É difícil fazer um bom trabalho em seis dias, meu Tenente - disse Harper com ar estranho. - Tenho a certeza de que Deus fez o melhor que pôde, mas que sentido faz ter posto a maravilhosa Irlanda tão perto da Inglaterra?

     - Provavelmente sabia que os malditos irlandeses precisavam de uma boa sova. - Sharpe voltou-se para sul. - Mas como raio vamos dar a sova neste cretino francês para o fazer entrar nos eixos?

     - Se ele atacar.

     - Vai atacar. Julga-se melhor do que nós e está muito aborrecido por ter sido de novo enganado. Vai atacar. - Sharpe dirigiu-se para o lado sul do terreno, que parecia um parque e, depois, voltou-se para olhar para a cidade. Estava a imaginar-se nas botas brilhantes de De l’Eclin, vendo o que os franceses viam, tentando adivinhar os seus planos.

     Vivar tinha a certeza de que De l’Eclin viria de oeste, que o oficial de Caçadores esperaria que o pôr do Sol se transformasse numa ofuscante cortina por detrás da sua carga, e só depois lançaria os seus dragões pelo campo aberto.

     Todavia, raciocinou Sharpe, uma carga de cavalaria teria um valor dúbio para os franceses. Poderia varrê-los num estilo aparatoso até aos limites da cidade, mas, aí, os cavalos haviam de esbarrar contra as muralhas e as barricadas e a glória seria transformada em sangue e horror pelos mosquetes e fuzis que os aguardavam. O ataque de De l’Eclin, tal como o de Vivar, deveria ser antes levado a cabo pela infantaria, de modo a poder abrir a cidade à feroz carga de cavalaria; e a melhor aproximação para a infantaria seria pelo sul.

     Sharpe apontou para o extremo sudoeste da cidade. É dali que virá o ataque.

     - Depois de escurecer?

     - Ao pôr do Sol. - Sharpe franziu o sobrolho. - Talvez mais cedo. Harper seguiu-o e atravessaram uma vala e um aterro. Os dois fuzileiros dirigiam-se a uma fileira de casas que, como um braço, saía do extremo sudoeste da cidade e que poderia abrigar os soldados de De I’Eclin, quando estes se aproximassem.

     - Teremos de colocar homens dentro das casas - disse Harper. Sharpe pareceu não o escutar.

     - Não me agrada isto.

     - Mil dragões? A quem agradariam?

     - De L’Eclin é muito inteligente - Sharpe parecia falar consigo próprio.

     - E é especialmente inteligente nos seus ataques - voltou-se para olhar as ruas barricadas da cidade. Os obstáculos eram manobrados pelos caçadores e pelos voluntários de fardas castanhas, que empilhavam lenha para as fogueiras destinadas a iluminarem um ataque nocturno. Imitavam, de facto, o que os franceses tinham feito na noite anterior. Não anteciparia então o coronel De L’Eclin todos estes preparativos? Que fariam os franceses? - Ele vai ser extremamente inteligente, sargento, e eu nem sei até que ponto.

     - Voar não pode - disse estoicamente Harper. - Também não tem tempo para escavar um túnel, portanto terá de atravessar uma das ruas, não será assim?

     O bom senso do sargento fez Sharpe pensar que talvez antevisse um perigo inexistente. O melhor, pensou, ainda será confiar nos primeiros instintos.

     - Vai enviar a cavalaria por ali, para nos enganar - apontou para o terreno liso a oeste. - E quando pensar que estamos todos voltados para lá, fará entrar os homens apeados pelo sul. Terão ordens para destruir aquela barricada - apontou para a rua que levava à igreja - e a cavalaria dará meia volta e segui-los-á.

     Harper voltou-se para ver por si próprio e pareceu julgar convincentes as palavras de Sharpe.

     - Desde que estejamos no monte ou naquelas casas - apontou para os edifícios dispersos no exterior das muralhas - poderemos assassinar o canalha. - O gigantesco irlandês pegou num raminho de louro e dobrou o pau fino entre os dedos. - Mas o que realmente me preocupa, meu Tenente, não é afastar o canalha, mas sim o que possa acontecer, quando nos retirarmos. Inundarão estas ruas, como demónios, todos de uma vez.

     Sharpe estava também preocupado com o momento da retirada. Uma vez terminado o que Vivar queria fazer dentro da catedral, seria dado um sinal e uma enorme massa humana fugiria para leste. Dela fariam parte voluntários, fuzileiros, caçadores, sacerdotes e os habitantes da cidade, que já não quisessem ficar sob a ocupação francesa; todos eles correndo ao acaso na escuridão. Vivar tinha um plano para que a sua cavalaria protegesse a retirada, mas Sharpe sabia que o violento caos podia ultrapassar os seus homens nas ruas, quando os dragões franceses se apercebessem de que as barricadas tinham sido abandonadas. Encolheu os ombros.

     - Teremos de fugir como o diabo.

     - É verdade - concordou Harper, em tom lúgubre, deitando fora o raminho quebrado.

     Sharpe ficou a olhar para o ramo de louro. - Valha-me Deus!

     - Que foi que eu fiz?

     - Jesus me valha! - Sharpe fez estalar os dedos. - Quero metade dos homens naquelas casas - apontou para a fileira de edifícios que saiam da barri-cada a sudoeste e se enfiavam no extremo sul da cidade. - E o resto no monte! - Começou a correr em direcção à cidade. - já volto, sargento!

     - Mas o que se passará com ele? - perguntou Hagman, quando o sargento regressou ao cimo do monte.

     - A mulher virou-o do avesso - disse Harper, satisfeito. - Deves-me um xelim, Dan. Afinal ela vai casar com o major e pronto!

     - Pensei que andava a arrastar a asa ao tenente Sharpe! - disse Hagman, irónico.

     - Tem juízo suficiente para não se casar com ele. Não está ainda pronto para ser acorrentado, não achas? Ela precisa de uma pessoa mais assente, é o que é.

     - Mas estava apaixonado por ela.

     - Qual é o espanto? Vai apaixonar-se por tudo o que usa saias. já vi outros assim. Parecem carneiros estúpidos, no que diz respeito às mulheres. - Harper cuspiu. - Ainda bem que me tem a mim para tomar conta dele.

     - A ti!

     - Eu dou conta dele, Dan. Tal como dou conta de todos vocês, escumalha protestante! Hoje os franceses vêm cear connosco, por isso temos de nos preparar para os receber!

     As espingardas recém-oleadas apontavam para sul e para oeste. Os casacas-verdes aguardavam o crepúsculo e a chegada de um oficial de Caçadores.

     A ideia fervia na cabeça de Sharpe, enquanto este corria monte acima em direcção ao centro da cidade. O coronel De l’Eclin poderia ser inteligente, mas os defensores também o eram. Deteve-se na praça principal e perguntou a um caçador onde estaria o major Vivar. O soldado de Cavalaria apontou para uma praça mais pequena, que ficava a norte, para lá da ponte que ligava o palácio do bispo à catedral. Essa praça estava ainda cheia de gente que, em vez desafiar aos gritos os franceses encurralados, mantinha um misterioso silêncio. Até os sinos se tinham calado.

     Sharpe abriu caminho aos empurrões através da gente e viu Vivar no alto de um lanço de escadas que levavam ao transepto da catedral. Louisa acompanhava-o. Sharpe desejou não a ver ali. A recordação do seu indelicado comportamento com o espanhol embaraçava-o e sabia que deveria pedir desculpa, mas a presença da jovem inibia qualquer arrependimento público. Preferiu gritar a sua ideia, enquanto subia os degraus cheios de gente.

     - Estrepes!

     - Estrepes? - perguntou Vivar. Louisa, incapaz de traduzir a palavra desconhecida, encolheu os ombros.

     Sharpe pegara em duas farripas de palha durante a sua corrida pela cidade e agora, tal como Harper inadvertidamente fizera com o pauzinho de louro, dobrava-as. - Estrepes! Mas não temos muito tempo! Conseguiremos pôr os ferreiros a trabalhar?

     Vivar olhou para a palha e depois praguejou por não ter tido ele próprio aquela ideia.

     - Hão-de trabalhar! - Desceu os degraus a correr.

     Louisa, junto de Sharpe, olhava para as palhas dobradas que ainda nada significavam para ela.

     - Estrepes?

     Sharpe apanhou de dentro da sola da bota um bocado de lama húmida e fez com ela uma bola. Partiu a palha em quatro pauzinhos, cada um deles com pouco mais de três centímetros de comprimento e espetou-os na bola de lama para formar uma estrela de três pontas. Colocou a estrela na palma da mão e enterrou o quarto pico na bola de lama para que ficasse na posição vertical.

     - Um estrepe - explicou. Louisa abanou a cabeça. Ainda não entendo.

     É uma arma medieval, feita de ferro. A perspicácia está em que, onde quer que caia, há sempre um pico voltado para cima - demonstrou-o, voltando o estrepe e Louisa viu como um dos picos que fazia parte da estrela de três pontas ficava sempre nessa posição.

     Compreendeu então.

     - Oh, não!

     - Oh, sim!

     - Pobres cavalos!

     - Pobres de nós, se os cavalos nos apanharem. - Sharpe amassou a bola de lama e deitou-a fora. Os fuzileiros em retirada espalhariam pelas estradas estrepes bem feitos, com pregos de ferro fundidos e martelados ao fogo. Os picos espetariam com facilidade o tecido mole dentro das ferraduras dos cavalos e os animais ergueriam as patas, dariam meia volta, cairiam e entrariam em pânico. - Mas os cavalos recuperam - garantiu a Louisa, que parecia perturbada pela simples maldade da arma.

     - Como sabia da existência deles? - perguntou.

     - Foram usados contra nós na índia... - a voz de Sharpe diminuiu de tom, pois, pela primeira vez desde que subira os degraus da catedral, viu por que razão a multidão se juntara na praça naquele silêncio sepulcral.

     No centro fora erguido um estrado improvisado de tábuas de madeira sobre barris de vinho. Sobre ele via-se uma cadeira de costas altas que Sharpe, à primeira vista, julgou ser um trono.

     A impressão de que se tratava de uma cerimónia real foi aumentada pela estranha procissão que, ladeada por caçadores de uniforme vermelho, se aproximava do estrado. Os homens que desfilavam usavam vestes cor de enxofre e tinham na cabeça barretes vermelhos em forma de cone. Cada um deles trazia na mão um papel.

     - O papel - disse Louisa em voz baixa - e uma profissão de fé. Foram perdoados, sabe, mas mesmo assim, têm de morrer.

     Sharpe compreendeu então. A cadeira alta, longe de ser um trono era um garrote. No seu alto espaldar havia um instrumento metálico, um colarinho com um parafuso, que era o método de execução favorito dos espanhóis. Era a primeira dessas máquinas que via em Espanha.

     Os padres acompanhavam os condenados.

     - São todos afrancesados - disse Louisa. - Uns serviram de guia à cavalaria francesa, outros traíram os membros da resistência.

     - Tenciona assistir? - Sharpe parecia chocado. Se Louisa empalidecera com a ideia das patas dos cavalos a serem espetadas, como poderia suportar a visão de um homem a quem partiam o pescoço?

     - Nunca vi uma execução. Sharpe olhou-a.

     - E quer ver?

     - Parece-me que vou ser obrigada a assistir a muitas coisas estranhas nos próximos anos, não acha?

     O primeiro homem foi empurrado para o estrado e obrigado a sentar-se na cadeira. Colocaram-lhe o colarinho de ferro em redor do pescoço. O padre AIzaga, o deão, deixou-se ficar junto do carrasco.

     - Pax et misericordia et tranquilitas! - gritou estas palavras junto ao ouvido da vítima, enquanto o carrasco passava para trás da cadeira e voltou a gritá-las enquanto a alavanca era apertada para fazer girar o parafuso.

     Este apertou o colarinho com uma velocidade impressionante, e, quase antes de a última invectiva em latim estar terminada, o corpo sentado na cadeira estrebuchou e caiu para trás. A multidão pareceu suspirar.

     Louisa voltou as costas.

     - Quem me dera... - começou, mas não foi capaz de terminar.

     - Foi muito rápido - disse Sharpe, estupefacto.

     Ouviu-se um ruído surdo e o som de arranhar, quando o cadáver foi arrastado do estrado. Louisa, que já não olhava, manteve-se em silêncio até que o grito seguinte do padre AIzaga anunciou que outro traidor tinha morrido.

     - Pensa muito mal de mim, tenente?

     - Por estar a assistir a uma execução? - Sharpe aguardou que o segundo cadáver fosse retirado do colarinho. - Por que diabo haveria de pensar? Há geralmente mais mulheres que homens nos enforcamentos públicos.

     - Não é isso.

     Ele olhou-a e ficou imediatamente embaraçado.

     - Nunca pensaria mal de si.

     - Foi aquela noite na fortaleza - havia um tom de súplica na voz de Louisa, como se necessitasse desesperadamente de que Sharpe compreendesse o que tinha acontecido. - Recorda-se? Quando Don Blas nos mostrou o estandarte e nos contou a história da última batalha? Pensei que nessa altura estava encurralada.

     - Encurralada?

     - Gosto dos absurdos dele. Fui educada para odiar os católicos; para os desprezar pela sua ignorância e temer pela sua maldade, mas nunca ninguém me falou na sua glória!

     - Glória?

     - Estou farta das capelas nuas - enquanto falava, Louisa observava as execuções, embora Sharpe duvidasse de que ela tinha consciência de que os homens morriam naquele improvisado cadafalso. - Estou farta de que me digam que sou uma pecadora e de que a minha salvação depende apenas de um insistente arrependimento. Quero, nem que seja uma só vez, ver a mão de Deus tocar-nos em toda a sua glória. Quero um milagre, tenente. Quero sentir-me muito pequena diante desse milagre. Mas isto não faz qualquer sentido para si, pois não?

     Sharpe viu um homem morrer.

     - Quer o estandarte?

     - Não! - Louisa exclamou num tom quase desdenhoso. - Nem por um segundo acredito, tenente, que Santiago tenha arrebatado essa bandeira do céu. Julgo que o estandarte seja apenas um antigo pendão que um dos antepassados de Don Blas levou para a batalha. O milagre está naquilo que o estandarte faz, não naquilo que, de facto, é! Se sobrevivermos ao dia de hoje, tenente, teremos então conseguido um milagre. Mas não o faremos, nem sequer tentaremos fazer, sem o estandarte! - Fez uma pausa, como que para aguardar o assentimento de Sharpe, mas este nada disse. Encolheu tristemente os ombros. - Continua a pensar que tudo isto é um absurdo, não é verdade?

     Mesmo assim, Sharpe manteve-se em silêncio. Para ele, absurdo ou não, o estandarte era irrelevante. Não fora por ele que viera a Santiago de Compostela. Pensara ter sido por aquela jovem, mas esse sonho também morrera. Porém, havia mais qualquer coisa que o trouxera àquela cidade. Viera provar que um sargento, filho de uma prostituta, acalentado por um exército superior e promovido a oficial encarregado da manutenção, podia ser tão bom como qualquer oficial nascido nessa classe. Isso não poderia ser comprovado sem a ajuda dos homens de casaca verde que aguardavam o inimigo. Sharpe sentiu um súbito afecto pelos seus fuzileiros; era um afecto que não sentia desde que fora sargento e detivera o poder da vida e da morte sobre uma companhia de casacas-vermelhas.

     Um grito chamou-lhe a atenção para a praça, onde um prisioneiro recalcitrante se tentava livrar das mãos que o empurravam para o estrado. A luta do homem era inútil. Colocaram-lhe o garrote à força e foi acorrentado à cadeira. O ferro rodeou-lhe o pescoço e a lingueta do colarinho foi inserida na fenda para apertar o parafuso. AIzaga fez o sinal da cruz.

     - Pax et misericordia et tranquilitas!

     O corpo do prisioneiro vestido de amarelo agitou-se num espasmo quando o colarinho lhe apertou o pescoço e lhe partiu a espinha, ao mesmo tempo que o sufocava. As mãos magras agarravam com força os braços da cadeira, e depois o corpo caiu inerte. Sharpe pensou que aquela morte rápida teria sido o destino do conde de Mouromorto, se este não se tivesse refugiado dentro do palácio ocupado pelos franceses.

     - Porque foi que o conde ficou na cidade? - perguntou subitamente a Louisa.

     - Não sei. Acha que tem importância? Sharpe encolheu os ombros.

     - Nunca o tinha visto separado de De L’Eclin. E esse coronel é um homem muito inteligente.

     - O tenente também é inteligente - disse calorosamente Louisa. - Quantos soldados sabem o que são estrepes?

     Vivar abriu caminho por entre a multidão e subiu os degraus.

     - Já mandei aquecer as forjas. Às seis da tarde terá algumas centenas dessas coisas. Onde as quer?

     - Mande-mas e pronto - disse Sharpe.

     - Quando ouvir o próximo toque dos sinos, saberá que o estandarte foi desenrolado. Nessa altura pode retirar.

     - Trate de que seja mais cedo!

     - Logo depois das seis - disse Vivar. - Não consigo adiantar mais. já viu o que os franceses fizeram à catedral?

     - Não! - Mas isso não importava. O que preocupava Sharpe era um inteligente coronel de Caçadores francês, membro da Guarda Imperial. Depois, ouviu um tiro de espingarda, vindo de sudoeste e desatou a correr.

    

     Um tiro avisava-o, não da chegada de De L’eclin, mas da aproximação de uma patrulha de caçadores. Os cavalos estavam cobertos de sangue e espuma. Vivar, que regressara com Sharpe para se inteirar de quem tinha disparado o tiro, traduziu a mensagem do piquete.

     - Viram os dragões franceses.

     - Onde?

     - Cerca de duas léguas a sudoeste.

     - Quantos eram?

     - Centenas. - Vivar interpretava o ansioso relato da sua patrulha. Os franceses perseguiram-nos e tiveram sorte em conseguir escapar - escutou palavras ainda mais emocionadas. - E avistaram o oficial de Caçadores. Vivar sorriu. - Pronto! Agora já sabemos onde se encontram. Basta-nos mantê-los fora da cidade.

     - Sim. - Até certo ponto, a notícia de que o inimigo por fim se aproximava serviu para acalmar a apreensão de Sharpe. Grande parte desse nervosismo concentrara-se na inteligência do coronel De l’Eclin, mas a prosaica notícia que lhe dava a conhecer a localização do inimigo e a que distância se encontravam as suas forças, transformavam-no num opositor muito menos temível.

     Vivar seguiu os cavaleiros cansados pela abertura da barricada.

     - Está a ouvir os martelos? - perguntou, voltando-se para trás.

     - Os martelos? - Sharpe franziu a testa, e depois ouviu de facto o seu eco nas bigornas. - Os estrepes?

     - Vou mandar-lhos, tenente. - Vivar começou a subir o monte. - Divirtam-se!

     Sharpe deixou o major afastar-se, depois num impulso, atravessou a barricada e seguiu-o pela rua empedrada.

     - Meu Major?

     - Sim, tenente.

     Sharpe assegurou-se de que não podia ser ouvido pelos seus homens.

     - Quero apresentar as minhas desculpas pelo que aconteceu na taberna, meu Major, eu...

     - Que taberna? Não entrei em nenhuma taberna durante todo o dia. Talvez amanhã, depois de nos livrarmos desses canalhas, possamos descobrir uma taberna. Mas hoje? - O rosto de Vivar apresentava uma expressão perfeitamente séria. - Não sei de que está a falar, tenente.

     - Sim, meu Major. Muito obrigado.

     - Não gosto que me trate por ”meu Major” - disse Vivar a sorrir. - Significa que não está a ser beligerante. Preciso da sua beligerância, tenente. Preciso de saber que os franceses vão morrer.

     - Hão-de morrer, meu Major.

     - Já pôs os homens dentro das casas? - Vivar referia-se às casas da estrada, fora do per&iacu