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OS GÊMEOS RIVAIS / Robert Ludlum
OS GÊMEOS RIVAIS / Robert Ludlum

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS GÊMEOS RIVAIS

 

9 de Dezembro de 1939 Salónica, Grécia

Um a um, sob a luz que antecedia o alvorecer de Salónica, os camiões trepavam penosamente a íngreme estrada. Todos eles aceleravam um pouco a marcha no cimo; os condutores estavam ansiosos por regressar à escuridão da estrada campestre descendente que sulcava as florestas em redor.

Todos os condutores se viam, porém, obrigados a dominar a ânsia. Nenhum deles podia deixar o pé escorregar do travão ou pisar o acelerador para além de um determinado ponto; tinham de semicerrar os olhos, para firmar melhor a vista, atentos a qualquer súbita paragem ou a uma curva inesperada no escuro.

Tudo estava escuro. Não havia faróis acesos; a coluna deslocava-se unicamente à luz da noite grega, com nuvens deslizando baixas a coar o luar grego.

A jornada era um exercício de disciplina. E a disciplina não era estranha para aqueles condutores, nem tão-pouco para os viajantes que seguiam ao lado dos condutores.

Todos eles eram sacerdotes. Frades. Da Ordem de Xenope, a mais austera irmandade monástica sob a autoridade do Patriarcado de Constantino. A obediência cega coexistia com a autoconfiança: eram disciplinados até ao instante da morte.

No camião que abria a marcha, o jovem sacerdote barbado despiu a sotaina, sob a qual trazia vestuário de trabalhador - uma camisa rústica e calças de tecido grosso. Enrolou a sotaina e colocou-a no vão atrás do assento de espaldar alto, enfiando-a sob peças desgarradas de lona e tecido. Dirigiu-se ao condutor de batina à sua ilharga.

- Já só faltam uns oitocentos metros. O trecho de linha férrea corre paralelamente à estrada cerca de noventa metros. Em descampado; há-de ser suficiente.

- O comboio estará lá? - perguntou o frade de meia-idade, a constituição robusta, com os olhos na escuridão.

- Sim. Quatro carruagens de mercadorias e um único maquinista. Não leva fogueiro. Não leva mais pessoal nenhum.

- Nesse caso vai servir-se de uma pá - disse o sacerdote mais velho, sorrindo mas sem ironia no olhar.

- Vou servir-me da pá - retorquiu simplesmente o mais jovem. - Onde está a arma?

- No compartimento das luvas.

O sacerdote vestido de trabalhador estendeu a mão para a frente e accionou o fecho da tampa do compartimento, que se abriu. Enfiou a mão no recesso e

tirou de lá uma pesada pistola de grosso calibre. Habilidosamente, o sacerdote retirou o carregador da coronha, verificou as munições e voltou a introduzi-lo com um estalido. O som metálico tinha o seu quê de peremptório.

- Um instrumento poderoso. Italiana, não é?

- É - respondeu o sacerdote mais velho, sem comentários, unicamente com tristeza na voz.

- Condiz. É uma bênção, creio bem. - O mais jovem introduziu a arma no cinto. - Telefona à família?

- Foram as ordens que me deram... - Era manifesto que o condutor tinha vontade de dizer qualquer coisa mais, mas dominou-se. Silenciosamente, agarrou-se ao volante com mais firmeza do que era necessário.

O luar rompeu momentaneamente através das nuvens nocturnas, iluminando a estrada que sulcava a floresta.

- Costumava brincar aqui em criança - disse o mais jovem. - Corria pelos bosques e encharcava-me nos ribeiros... Depois secava-me nas grutas da montanha e fingia ter visões. Fui feliz nestes montes. O Senhor quis que voltasse a vê-los. É misericordioso. É bom.

A lua desapareceu. Sobreveio novamente a escuridão.

Os camiões entraram numa curva ampla para oeste; o matagal tornou-se mais esparso e ao longe, quase indistintos, surgiram os contornos de postes telegráficos, hastes negras recortando-se contra a noite cor de cinza. A estrada tornava-se mais recta e larga, fundindo-se com uma clareira que se estendia talvez cem metros entre um maciço e outro: uma zona plana e árida inserida na miríade de montes e matas. No centro da clareira, com a carcaça obscurecida pelas trevas, encontrava-se um comboio.

Imóvel mas não destituído de movimento. Da locomotiva saíam anéis de fumo que se erguiam em espirais pela noite dentro.

- Em tempos que já lá vão - disse o sacerdote jovem - os agricultores reuniam as ovelhas e traziam os seus produtos para aqui. Havia sempre uma grande confusão, contava-me o meu pai. Estalavam constantemente disputas acerca do que pertencia a quem. Eram histórias divertidas... Lá está ele!

O feixe de uma lanterna rompeu as trevas. Descreveu um duplo círculo e a seguir imobilizou-se, agora com o foco branco assestado sobre o último vagão de mercadorias. O sacerdote trajado de operário tirou do bolso da camisa uma lanterna tipo lapiseira, apontou-a para diante e premiu o botão rigorosamente durante dois segundos. O reflexo, atravessando o pára-brisas, iluminou fugazmente o pequeno recinto. O olhar do mais novo foi rapidamente atraído para o rosto do seu irmão de confraria. Notou que o companheiro mordera o lábio; escorregou-lhe pelo queixo um fio de sangue, que se tornou baço na barba grisalha aparada rente.

Não havia motivo para tecer comentários ao facto.

- Encoste ao lado do terceiro vagão. Os outros vão dar a volta e começar a descarregar.

- Eu sei - disse simplesmente o condutor. Girou suavemente o volante para a direita e apontou o camião ao terceiro vagão de mercadorias.

O maquinista, de fato-macaco e barrete de pele de cabra, aproximou-se do camião quando o jovem sacerdote abriu a porta e saltou para o solo. Os dois homens olharam um para o outro e a seguir abraçaram-se.

Ficas diferente sem a sotaina, Petride. Já me tinha esquecido do teu aspecto...

- Ora vamos. Quatro anos em vinte e sete não é propriamente a maior parte do tempo.

- Não te vemos suficientemente amiúde. Toda a família comenta o facto. O maquinista retirou as mãos grandes e calosas dos ombros do sacerdote. A

lua voltou a romper por entre as nuvens e iluminou o semblante do ferroviário. Era um rosto vigoroso, mais próximo dos cinquenta que dos quarenta, sulcado pelas rugas de um homem que está constantemente a expor a pele ao vento e ao sol.

- Como vai a mãe, Annaxas?

- Bem. Um pouco mais fraca a cada mês que envelhece, mas sempre esperta.

- E a tua mulher?

- Outra vez grávida, e desta vez não lhe dá para rir. Resmunga comigo.

- É natural. És um desgraçado de um velho lúbrico, meu irmão. Mas mais vale servir a Igreja, folgo em dizê-lo. - O sacerdote riu-se.

- Eu conto-lhe que disseste isso - ripostou o maquinista, sorrindo. Registou-se um momento de silêncio antes que o jovem retorquisse.

- Isso. Conta-lhe. - Voltou-se para a actividade que se desenrolava nos vagões de mercadorias. As portas de carregamento tinham sido abertas e havia lanternas penduradas no interior, derramando a sua luz amortecida, suficiente para a carga, mas não tão intensa que se tornasse visível do exterior. As figuras dos sacerdotes com os hábitos começaram a movimentar-se velozmente de cá para lá entre os camiões e as portas, carregando engradados, caixas de cartão duro com armações de madeira. Cada um dos engradados exibia bem visível o crucifixo e os espinhos da Ordem de Xenope.

- É a comida? - inquiriu o maquinista.

- É - respondeu o irmão. - Fruta, hortaliça, carnes secas, cereais. As patrulhas da fronteira vão ficar satisfeitas.

- E então onde? - Não era necessário ser mais claro.

- Neste vagão. Na zona central da carruagem, debaixo das redes de tabaco. Tens os vigias a postos?

- Nos carris e na estrada; em ambas as direcções ao longo de mais de quilómetro e meio. Não te preocupes. Antes do romper do dia numa manhã de domingo, só vocês, padres e noviços, têm trabalho a fazer e sítios onde ir.

O jovem sacerdote deitou uma olhadela ao quarto vagão de mercadorias. O trabalho progredia velozmente. Todas aquelas horas de treino estavam a mostrar quanto valiam. O frade que servia de condutor deteve-se brevemente sob a luz amortecida da porta de carregamento, com uma caixa de cartão nas mãos. Trocou um olhar com o mais jovem e depois desviou a atenção com esforço, regressando à caixa de cartão, que lançou para o vão da carruagem de mercadorias.

O padre Petride voltou-se para o irmão.

- Quando pegaste no comboio, falaste com alguém?

- Só com o expedidor. Evidentemente. Tomámos chá preto.

- Que disse ele?

- Palavras com as quais eu não te ofenderia, no essencial. Os papéis dele diziam que os vagões seriam carregados pelos padres de Xenope nos depósitos afastados. Não fez qualquer pergunta.

O padre Petride lançou um olhar ao segundo vagão de mercadorias, à sua direita. Daí a minutos tudo estaria consumado: encontrar-se-iam prontos para o terceiro vagão.

- Quem preparou a locomotiva?

- Fogueiros e mecânicos. Ontem à tarde. As ordens diziam que se tratava de uma reserva; é coisa normal. O equipamento passa a vida a avariar. Em Itália riem-se de nós.

- O expedidor tinha alguma razão que o levasse a telefonar para os depósitos de carregamento? Onde é que estamos supostamente a carregar os vagões?

- Estava a dormir, ou pouco faltava, antes de eu sair da torre dele. O horário da manhã não começa... - o maquinista ergueu a vista para o negro céu pardacento - ... senão daqui a uma hora, no mínimo. Ele não teria motivo para telefonar a quem quer que fosse a não ser que o rádio comunicasse um acidente.

-? Os fios sofreram um curto-circuito: água numa caixa de terminais...

- Porquê?

- Para o caso de teres mesmo problemas. Não falaste com mais ninguém?

- Nem sequer com alguém de passagem. Revistei as carruagens para me certificar de que não havia ninguém lá dentro.

- A esta hora já analisaste o nosso horário. Que achas?

O ferroviário assobiou baixinho, abanando a cabeça.

-Acho que estou espantado, meu irmão. Será que tanta coisa... pode ser assim combinada?

- As combinações estão tratadas. E quanto ao tempo? O factor importante é esse.

- Se não houver deficiências nos carris, a velocidade pode ser mantida. A polícia de fronteira de Bitola está sedenta de subornos, e um carregamento grego em Banja Luka é trigo limpo. Não teremos problemas em Serajevo nem em Zagrebe; esses andam à cata de caça mais grossa que comida para os religiosos.

- O tempo; não são os subornos.

- Os subornos são realmente tempo. A pessoa sempre regateia.

?- Só se o facto de não regatear pudesse ser suspeito. Conseguiremos chegar a Monfalcone em três noites?

- Se as combinações que fizeram funcionarem, conseguem. Se perdermos tempo, podemos recuperá-lo durante o dia.

- Só como último recurso. Viajamos de noite.

- São obstinados.

- Somos cautelosos. - O sacerdote voltou a olhar em redor. O primeiro e o segundo vagões de mercadorias estavam prontos e o quarto ficaria carregado e estivado não tardaria um minuto. Virou-se de novo para o irmão: - A família pensa que vais levar um carregamento a Corinto?

- Pensa. A Navpaktos. Aos estaleiros do estreito de Patrai. Não me esperam de volta praticamente antes de uma semana.

- Há greves em Patrai. Os sindicatos andam assanhados. Se demorasses mais uns dias, haviam de compreender.

Annaxas fitou detidamente o irmão. Parecia surpreendido com os conhecimentos mundanos do jovem sacerdote. Houve uma certa hesitação na sua resposta.

- Haviam de compreender. A tua cunhada compreenderia.

- Óptimo. - Os frades tinham-se reunido junto ao camião de Petride e fitavam-no aguardando instruções. -Já vou ter contigo à locomotiva.

- Está bem - disse o ferroviário, enquanto se afastava, lançando um olhar aos sacerdotes.

O padre Petride tirou a lanterna tipo lapiseira do bolso da camisa e abeirou-se dos outros frades, junto do camião. Procurou e localizou o homem de compleição robusta que era o seu condutor. O frade percebeu e apartou-se dos outros, juntando-se a Petride ao lado do veículo.

- É a última vez que falamos - disse o jovem sacerdote.

- Que as bênçãos de Deus...

- Por favor - interrompeu Petride. - Não há tempo. Limite-se a guardar na memória cada um dos movimentos que aqui fazemos esta noite. Tudo tem de ser exactamente reproduzido.

- Sê-lo-á. As mesmas estradas, a mesma ordem nos camiões, os mesmos condutores, documentos idênticos à passagem das fronteiras até Monfalcone. Nada mudará, excepto faltar um de nós.

- É essa a vontade de Deus. Para glória de Deus. É um privilégio que ultrapassa o meu merecimento.

Havia dois cadeados no taipal do camião. Petride tinha uma chave; o seu condutor empunhou a outra. Juntos, aproximaram-se dos fechos e introduziram as chaves. Os aros saltaram; os ferrolhos foram levantados dos ganchos de aço, os ganchos desprenderam-se e as portas abriram-se. Penduraram uma lanterna bem alto na borda do taipal.

No interior encontravam-se os engradados com os símbolos do crucifixo e dos espinhos gravados dos lados entre as ripas de madeira. Os frades principiaram a retirá-los, manobrando como bailarinos, com os hábitos caindo soltos sob a luz fantasmagórica. Transportaram os caixotes até à porta de carregamento do terceiro vagão de mercadorias. Dois homens saltaram para o pavimento de grossas travessas da carruagem e começaram a empilhar as caixas numa das extremidades.

Decorrido um breve período, metade do camião estava vazio. No centro do furgão, separado dos caixotes circundantes, encontrava-se um único engradado envolvido por um pano preto. Era um tanto ou quanto maior que as embalagens de géneros e de forma não rectangular. Ao invés, era um cubo perfeito: um metro de altura, um metro de largura e um metro de fundo.

Os sacerdotes reuniram-se em semicírculo diante dos taipais abertos do camião. Raios de alvo luar filtrado misturavam-se com o jorro amarelo da lanterna. O efeito combinado da estranha conjugação de luz, do cavernoso camião e das figuras envolvidas nos hábitos fez o padre Petride pensar numa catacumba, bem no interior da terra, albergando as verdadeiras relíquias da Cruz.

A realidade não era muito diferente. Com a excepção de aquilo que se encontrava encerrado na arca de ferro - pois disso se tratava - ser infinitamente mais significativo que a madeira petrificada da crucificação.

Diversos frades tinham cerrado os olhos em oração; outros olhavam fixamente, paralisados pela presença do objecto sagrado, de pensamentos suspensos, com a fé a extrair sustento daquilo que julgavam estar dentro do cofre semelhante a um túmulo - ele próprio um cadafalso.

Petride observava-os, sentindo-se apartado deles, e era assim que devia ser.

seu espírito recuou, errante, àquilo que parecia apenas horas antes, mas que

na realidade eram seis semanas. Tinha recebido ordem para abandonar os

campos e fora conduzido aos aposentos de cimento branco do superior de

Xenope. Haviam-no levado à presença desse piedosíssimo padre; estava um outro sacerdote com o velho prelado, e mais ninguém.

- Petride Dadakos - principiara o santo homem, sentado à grossa mesa de madeira -, foi escolhido entre todos os restantes aqui em Xenope para a mais exigente tarefa da sua existência. Para glória de Deus e preservação da sanidade cristã.

O segundo sacerdote fora apresentado. Tratava-se de um homem de aparência ascética, com uns olhos grandes e penetrantes. Falava lentamente, com meticulosidade.

- Somos guardiões de uma arca, um sarcófago, se quiser, que durante mais de mil e quinhentos anos se conservou encerrado num túmulo nas profundezas da terra. Dentro dessa arca estão documentos que dilacerariam o mundo cristão, de tal maneira devastador é aquilo que rezam. São a prova definitiva das nossas mais sagradas crenças, e, não obstante, a sua divulgação lançaria religião contra religião, seita contra seita, povos inteiros uns contra os outros. Numa guerra santa... O conflito alemão está a alastrar. A arca tem de ser levada para fora da Grécia, pois há décadas que correm rumores sobre a sua existência. A busca visando a sua posse seria tão exaustiva como uma caça aos micróbios. Foram tomadas disposições com o objectivo de transferi-la para um local onde ninguém consiga encontrá-la. Melhor diria, a maior parte das disposições. É o irmão o componente final.

A viagem fora explicada. E as disposições igualmente. Em toda a sua majestade. E terror.

- Estará em contacto com um homem apenas. Savarone Fontini-Crísti, um grande padrone' do Norte de Itália, que vive nas extensas propriedades de Campo di Fiori. Eu próprio me desloquei lá e conversei com ele. É um homem extraordinário, de uma integridade sem paralelo e extrema dedicação aos homens livres.

- Pertence à Igreja Romana? - perguntara incredulamente Petride.

- Não pertence a Igreja nenhuma, e não obstante é de todas as Igrejas. É uma força poderosa para homens que fazem ponto de honra em pensarem por si próprios. É amigo da Ordem de Xenope. È ele quem vai esconder a arca... O irmão e ele apenas. E depois o irmão... Mas lá chegaremos; é o mais privilegiado dos homens.

- Dou graças ao meu Deus.

- E bem pode dá-las, meu filho - disse o santo padre de Xenope, de olhos fitos nele. Consta-nos que tem um irmão, maquinista dos caminhos-de-ferro.

- Tenho, sim.

- Confia nele?

- Confiar-lhe-ia a vida. Não conheço homem melhor.

- Fitará os olhos do Senhor - disse o santo padre - e não vacilará. Nos Seus olhos descobrirá a graça perfeita.

- Dou graças ao meu Deus - disse de novo Petride.

Sacudiu a cabeça e piscou os olhos, obrigando as reflexões a arredarem-se-lhe do espírito. Os sacerdotes junto do camião mantinham-se ainda imóveis; de lábios movendo-se rapidamente na escuridão provinha o sussurro de cânticos segredados.

Não havia tempo para meditação ou rezas. Não havia tempo para nada a

 

' Em italiano no original: «patrão», «proprietário». (N. do T.)

 

não ser movimento veloz: cumprir as determinações da Ordem de Xenope. Petride apartou suavemente os sacerdotes diante de si e saltou para o camião. Sabia por que razão fora escolhido. Era capaz de tal dureza; o santo padre de Xenope tinha-lho tornado claro.

Havia um tempo para homens como ele.

Deus lhe perdoasse.

- Vamos -- disse baixinho aos que estavam em terra. - Vou precisar de ajuda.

Os frades mais próximos do camião entreolharam-se com incerteza. Depois, um por um, cinco homens subiram para o furgão.

Petride retirou o manto negro que cobria a arca. Sob este, o piedoso receptáculo achava-se envolvido pelo cartão espesso, pelas armações de madeira e pelos símbolos gravados de Xenope, idêntico a todos os outros engradados excepto nas dimensões e forma. Porém o invólucro era a única semelhança. Foram precisas seis espáduas vigorosas, aos empurrões e puxões, para o impelirem até à extremidade do camião e passá-lo para o vagão de mercadorias.

Assim que ocupou o seu lugar, recomeçou a actividade, que lembrava uma dança. Petride manteve-se no vagão de mercadorias, dispondo os engradados por forma a encobrirem o objecto sagrado, tornando-o um entre tantos. Nada de invulgar, nada que desse nas vistas.

O vagão de mercadorias ficou cheio. Petride cerrou as portas e enfiou o cadeado de ferro. Olhou para o mostrador luminoso do relógio: a operação durara ao todo oito minutos e trinta segundos.

Tinha de ser, imaginava, mas mesmo assim contrariava-o: os seus colegas sacerdotes ajoelharam em terra. Um jovem - mais jovem que ele, um vigoroso servo-croata que ainda mal deixara o noviciado - não se conteve. Enquanto as lágrimas lhe corriam pela face, o jovem padre encetou o cântico de Niccia. Os outros juntaram-se-lhe e Petride ajoelhou também, com as suas vestes de operário, escutando as palavras sagradas.

Mas sem as pronunciar. Não havia tempo! Acaso não percebiam?

Que estava a acontecer-lhe? Com o objectivo de libertar o espírito dos piedosos murmúrios, enfiou a mão por dentro da camisa e verificou a bolsa de couro que trazia presa ao peito. Dentro daquela achatada e desconfortável pasta de viagem estavam as ordens que o conduziriam ao longo de centenas de quilómetros de incerteza. Vinte e sete páginas soltas. A bolsa estava bem presa; as tiras cravavam-se-lhe na pele.

Terminada a oração, os sacerdotes de Xenope ergueram-se em silêncio. Petride postou-se em frente deles e um de cada vez aproximou-se dele, abraçou-o e estreitou-o com amor. O último foi o seu condutor, o amigo mais querido que tinha na ordem. As lágrimas que lhe marejavam o rebordo dos olhos e escorriam pelo rosto vigoroso diziam tudo quanto havia a dizer.

Os frades precipitaram-se de novo para os camiões; Petride correu para a frente do comboio e trepou para a cabina do maquinista. Fez um aceno ao irmão, que começou a accionar alavancas e a girar volantes. A noite encheu-se

de silvos rangentes de metal contra metal.

Daí a minutos, a composição de mercadorias deslocava-se a grande velocidade.

Começara a viagem. A viagem para a glória de um Deus todo-poderoso. Petride aferrou-se a uma barra de ferro que sobressaía da antepara de ferro.

Fechou os olhos e deixou que o martelar das vibrações e o vento impetuoso lhe entorpecessem os pensamentos. Os receios.

A seguir abriu os olhos - por breves instantes - e viu o irmão debruçado à janela, com a robusta mão direita no registo e o olhar fixo nos carris à sua frente.

«Annaxas, o Forte», era como toda a gente lhe chamava. Mas Annaxas era mais do que forte: era bom. Quando o pai morrera, fora Annaxas quem tinha ido para os depósitos - um robusto rapaz de treze anos - e trabalhara durante as longas e penosas horas que deixavam os adultos exaustos. O dinheiro que Annaxas levara para casa mantivera-os todos unidos, possibilitara aos irmãos e irmãs obterem os estudos possíveis. E um irmão alcançara mais. Não para a família, mas para a glória de Deus.

O Senhor Deus punha os homens à prova. Como agora estava a pôr.

Petride inclinou a cabeça e as palavras, com um rasto de fogo, sulcaram-lhe o cérebro e escaparam-se-lhe da boca, num murmúrio que não chegava a ser audível.

«Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor, Jesus Cristo, nascido do Pai, Deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado...»

Chegaram ao desvio de Edessa; houve uma agulha accionada por mãos invisíveis, não autorizadas, e a composição de mercadorias proveniente de Salonica mergulhou na escuridão do norte. A polícia fronteiriça de Bitola estava tão ávida de notícias gregas como de subornos gregos. O conflito do porte alastrava velozmente e os exércitos de Hitler estavam tresloucados; os Balcãs seriam os próximos a tombar, toda a gente o dizia. E os instáveis italianos enchiam as piazzas, a ouvir os gritos de guerra vociferados pelo louco Mussolini e pelos seus pomposos fascisti. Por toda a parte não se falava noutra coisa que não fosse invasão.

Os eslavos aceitaram vários engradados de fruta - a fruta de Xenope era a melhor da Grécia - e desejaram a Annaxas melhor sorte do que julgavam que ele teria, especialmente dado que se dirigia para norte.

Durante a segunda noite desfilaram rapidamente até Mitrovica. A Ordem de Xenope tinha feito o seu trabalho: foi libertada uma via na qual não havia qualquer comboio previsto e a composição de mercadorias vinda de Salonica continuou para leste, na direcção de Serajevo, onde um homem saiu das sombras e falou com Petride.

- Daqui a doze minutos vai ser feita uma agulha na linha. Dirigir-se-ão para norte, rumo a Banja Luka. Durante o dia permanecerão nos depósitos. Estão cheios de gente. Serão contactados ao cair da noite.

Nos enxameados depósitos de mercadorias de Banja Luka, precisamente às seis e um quarto da tarde, aproximou-se deles um homem de fato-macaco.

- Fizeram um bom trabalho - disse ele a Petride. - De acordo com os horários que o expedidor tem afixados, vocês não existem.

Às seis e trinta e cinco foi dado um sinal; houve outra agulha accionada e o comboio de Salonica entrou na via para Zagrebe.

À meia-noite, nos tranquilos depósitos de Zagrebe, outro homem, surgindo de outras sombras, entregou a Petride um comprido sobrescrito de papel pardo.

- São documentos assinados pelo Ministro di Viaggio de Duce. Dizem que a vossa composição de mercadorias faz parte do Ferrovia de Veneza. É o orgulho de Mussolini: ninguém o detém seja para o que for. Aguardarão no depósito de

Sezana e apanharão o Ferrovia à saída de Trieste. Não terão problemas com as patrulhas fronteiriças de Monfalcone.

Três horas mais tarde, aguardavam na via de Sezana, com a enorme locomotiva em ponto-morto. Sentado nos degraus, Petride via Annaxas manipular as válvulas e alavancas.

- És extraordinário - disse, sincero no elogio.

- Não é grande talento - retorquiu Annaxas. - Não são precisos estudos: basta fazê-lo uma porção de vezes.

- Eu acho que é um talento extraordinário. Nunca seria capaz de o fazer. O irmão baixou os olhos para ele; o brilho das brasas derramava-se-lhe pelo

rosto graúdo, de olhos afastados, tão firme, vigoroso e suave. Era um autêntico touro, aquele irmão. Um homem às direitas.

- Serias capaz de fazer o que quer que fosse - disse desajeitadamente Annaxas. - Tens uma cabeça para pensamentos e palavras que deixa a minha a perder de vista.

- Que disparate! - riu-se Petride. -Já foi tempo em que me davas uma palmada nas costas e me dizias que tratasse das minhas tarefas com mais miolos.

- Eras jovem; isso foi há muitos anos. Cuidaste dos teus livros, foi o que fizeste. Era melhor que os depósitos de mercadorias; livraste-te deles.

- Apenas devido a ti, meu irmão.

- Repousa, Petride. Temos ambos de repousar.

Já não havia nada em comum entre eles, e a razão para que não houvesse residia na bondade e generosidade de Annaxas. O irmão mais velho tinha propiciado meios para o mais novo se libertar, evoluir para além daquele que o proporcionara... até não haver nada em comum. O que tornava a realidade insofrível era que Annaxas compreendia o abismo que actualmente existia entre ambos. Em Bitola e Banja Luka tinha igualmente insistido para repousarem, em vez de falar. Teriam pouco tempo para dormir depois de atravessarem a fronteira em Monfalcone. Em Itália não dormiriam mesmo nada.

O Senhor Deus punha à prova.

No silêncio reinante na cabina aberta, com o negro céu por cima e a terra sombria por baixo, com o esforço incessante da caldeira da máquina a encher a noite, Petride experimentou uma invulgar suspensão do pensamento e das sensações. A razão e os sentimentos relegados, como se estivesse a analisar as experiências de um outro, postado em algum plano elevado, olhando para baixo através de um vidro. principiou a meditar sobre o homem com quem se encontraria nos Alpes italianos. O homem que tinha fornecido à Ordem de Xenope os complicados horários dos transportes através do Norte de Itália. Os círculos dentro de círculos que iam alargando e conduziam inexoravelmente ao outro lado da fronteira da Suíça, de tal maneira que era impossível descobrir a pista.

O nome era Savarone Fontini-Cristi. A sua propriedade chamava-se Campo de Fiori. Os superiores de Xenope diziam que os Fontini-Cristi eram a familia mais poderosa de Itália a norte de Veneza. Muito possivelmente, a mais rica a norte de Roma. O poder e a riqueza eram indubitavelmente testemunhados pelas vinte e sete folhas separadas na bolsa de couro, que tão bem presa trazia à volta do peito. Quem, a não ser um homem extraordinariamente influente, poderia proporcioná-los? E como teriam os superiores chegado a ele? Por que meios? E por que razão prestaria um homem chamado Fontini-Cristi,

cujas origens haviam forçosamente de ser da Igreja Romana, semelhante auxílio à Ordem de Xenope?

As respostas a estas perguntas ultrapassavam-no, mas apesar disso as perguntas queimavam. Sabia o que se encontrava encerrado na arca de ferro que vinha no terceiro vagão de mercadorias. Era mais do que aquilo que os sacerdotes seus companheiros acreditavam.

Muitíssimo mais.

Os superiores tinham-lho dito, para que compreendesse. Era na realidade a mais sagrada das motivações compulsivas que lhe permitiriam fitar Deus nos olhos sem dúvida ou hesitação. E precisava dessa garantia.

Inconscientemente, enfiou a mão por debaixo da camisa grosseira e apalpou a bolsa. Tinha-se formado uma erupção à volta das tiras; sentia o inchaço e a superfície áspera e abrasiva da pele. Não tardaria a infectar. Mas não antes de os vinte e sete papéis surtirem o seu efeito. Depois já não tinha importância.

Repentinamente, a oitocentos metros de distância na via norte, viu-se o Ferrovia de Veneza desfilando velozmente, vindo de Trieste. O contacto de Sezana saiu precipitadamente da torre de controlo e ordenou-lhes que seguissem sem demora.

Annaxas aumentou a pressão e acelerou a locomotiva, em ponto-morto, o mais possível e precipitaram-se para norte atrás do Ferrovia em direcção a Monfalcone.

Os guardas da fronteira aceitaram o sobrescrito pardo e deram-no ao oficial que os comandava. Este gritou a plenos pulmões ao mudo Annaxas que pusesse rapidamente a máquina em marcha. Sigam! A composição de mercadorias fazia parte do Ferrovia! O maquinista não devia atrasar-se!

A loucura principiou em Legnago, quando Petride deu ao expedidor o primeiro dos papéis de Fontini-Cristi. O homem empalideceu e tornou-se o mais obsequioso dos funcionários públicos. O jovem sacerdote bem via o expedidor a sondar-lhe o olhar, tentando desvendar o nível de autoridade que Petride representava.

Porque a estratégia congeminada por Fontini-Cristi era brilhante. A sua força residia na simplicidade, no seu poder sobre homens baseado no medo: a ameaça de imediata retaliação por parte do Estado.

A composição de mercadorias grega não era nenhuma composição de mercadorias grega. Era um dos comboios de investigação altamente secretos enviados pelo Ministério dos Transportes de Roma, o inspector-geral da rede ferroviária italiana. Comboios destes sulcavam as vias por todo o país, guarnecidos por funcionários com ordens para examinar e apreciar todas as operações ferroviárias e apresentar relatórios que alguns diziam serem lidos pelo próprio Mussolini.

O mundo ironizava sobre os caminhos de ferro do Duce, mas por detrás do humor havia respeito. A rede ferroviária italiana era a melhor da Europa. Mantinha a sua supremacia pelo método veneravelmente antigo do estado fascista: classificações secretas de eficiência, compiladas por investigadores desconhecidos. A subsistência de um homem - ou a sua ausência - dependia dos juízos dos esaminatori. Suspensões, promoções e despedimentos eram muitas vezes o resultado de uns breves instantes de observação. Era evidente que, quando um esaminatore se identificava, lhe eram prestadas absoluta colaboração e confidencialidade.

A composição de mercadorias de Salónica era agora um comboio italiano

com a dissimulada sanção de Roma por escudo. Os seus movimentos estavam apenas sujeitos às autorizações constantes dos papéis fornecidos aos expedidores. E as ordens que essas autorizações continham eram suficientemente excêntricas para serem provenientes das tortuosas maquinações do próprio Duce.

Iniciou-se o sinuoso trajecto. As cidades e vilas iam desfilando - San Giorgio, Latisana, Motta di Levenza - à medida que o comboio de mercadorias de Salónica se metia nos carris atrás de vagões de bagagens e composições de passageiros italianos. Treviso, Montebelluna e Valdagno, depois para oeste, em direcção a Malcesine, no lago de Garda; atravessando a ampla extensão de água no vagaroso barco de transporte e logo para norte, direito a Breno e a Passo delia Presolana.

Apenas encontravam temerosa colaboração. Em todo o lado.

Ao alcançarem Como, terminaram as voltas e principiou a desfilada. Lançaram-se velozmente para norte pela rota de terra e inflectiram para sul, rumo a Lugano, seguindo o caminho traçado pelas fronteiras com a Suíça para sul e novamente para oeste até Santa Maria Maggiore e penetrando na Suíça em Sans Fee, onde o comboio de mercadorias de Salónica reassumiu a sua identidade com uma alteração de somenos importância.

Foi esta determinada pela vigésima segunda autorização na bolsa de Petride. Fontini-Cristi proporcionara uma vez mais a explicação simples: a Comissão de Ajuda Internacional Suíça em Genebra tinha dado autorização à Igreja do Oriente para atravessar as fronteiras e reabastecer o seu retiro nos arredores de Vai de Gressoney. Aquilo que estava inplícito era que as fronteiras não tardariam a fechar-se a esses comboios de reabastecimento. A guerra ganhava um ritmo tremendo; não tardaria que não houvesse comboios alguns dos Balcãs ou da Grécia.

A partir de Saas Fee, a composição de mercadorias deslizou para sul, até aos depósitos de Zermatt. Era de noite; aguardariam que os depósitos cessassem as operações e um homem que viria ao seu encontro a confirmar que outra agulha fora accionada. Fariam a incursão para sul penetrando nos Alpes italianos de Champoluc.

Quando faltavam dez minutos para as nove, um ferroviário surgiu ao longe, emergindo das sombras e recortando-se contra os depósitos de mercadorias de Zermatt. Percorreu as últimas centenas de metros em corrida e ergueu a voz.

- Depressa! A via está desimpedida até Champoluc. Não há tempo a perder! A agulha está feita para uma linha principal; pode ser localizada. Ponham-se a andar daqui!

Annaxas entregou-se mais uma vez à tarefa de libertar as enormes pressões desenvolvidas nas fornalhas da fuselagem de ferro e o comboio precipitou-se de novo na escuridão.

O sinal apareceria nos montes, bem alto, perto de um desfiladeiro alpino. Ninguém sabia precisamente onde.

Apenas Savarone Fontini-Cristi.

Caía uma ligeira neve, juntando a sua fina camada à cobertura de alabastro do solo iluminado pelo luar. Atravessaram túneis escavados na rocha, inflectindo para oeste em volta da orla dos montes, com as íngremes gargantas ameaçadoramente abaixo deles à direita. Estava muito mais frio. Petride não contara com isso; não pensara em temperaturas. Na neve e no gelo; e agora havia gelo nos carris.

Cada quilómetro que progrediam dir-se-ia dez, cada minuto que decorria parecia uma hora. O jovem sacerdote espreitou pelo pára-brisas, vendo o feixe do farol do comboio a reflectir-se na neve que caía. Debruçou-se para o exterior: só conseguia ver as gigantescas árvores que se erguiam nas trevas.

Onde estaria? Onde estava o padrone italiano, Fontini-Cristi? Talvez tivesse mudado de ideias. Oh, Deus misericordioso, não podia ser! Não podia permitir-se pensamentos desses. O que transportavam naquela arca sagrada precipitaria o mundo no caos. O italiano sabia-o; o Patriarcado depositava inteira confiança no padrone...

Petride tinha a cabeça a doer e latejavam-lhe as têmporas. Sentou-se nos degraus do tênder; tinha de dominar-se. Olhou para o mostrador luminoso do relógio. Deus misericordioso! Tinham ido longe de mais! Daí a meia hora teriam saído das montanhas!

- Ali tens o teu sinal! - gritou Annaxas.

Petride pôs-se em pé de um salto e debruçou-se a um dos lados, com o pulso descontrolado e as mãos a tremer ao agarrar-se à escada do tejadilho. Quatrocentos metros adiante na via, quando muito, alguém estava a levantar e baixar uma lanterna, cuja luz bruxuleava através das delgadas cortinas de neve.

Annaxas aplicou os travões à locomotiva. A máquina emitiu os seus rugidos como gigantesca fornalha a apagar-se que era. Ao longe, iluminado pela neve e pelo luar, com a ajuda do único farol da locomotiva, Petride viu um homem de pé ao lado de um veículo de estranhas formas, numa pequena clareira ao lado dos carris. O homem vestia roupas grossas, de gola e barrete de peles. O veículo era um camião e ao mesmo tempo não o era. As rodas traseiras eram muito maiores que as da frente, como se pertencessem a um tractor. Contudo, a capota do motor não era de camião, nem de tractor, pensou o sacerdote. Assemelhava-se a outra coisa.

Que seria?

Percebeu então, e não conseguiu deixar de sorrir. Nos últimos quatro dias tinha visto centenas de equipamentos daqueles. À frente da capota do motor do estranho veículo estava uma plataforma de carga de comando vertical.

Fontini-Cristi era tão pródigo em recursos como os frades da Ordem de Xenope. E a verdade é que a bolsa que trazia presa ao peito já lho dissera.

- É o sacerdote de Xenope? - A voz de Savarone Fontini-Cristi era profunda, aristocrática e muito acostumada à autoridade. Era um homem alto e esguio por debaixo das roupagens alpinas, de olhos grandes e penetrantes engastados nos traços aquilinos do rosto. E era muito mais velho do que Petride o julgara.

- Sou, sim, signore - disse Petride, apeando-se na neve.

- É muito jovem. Os santos homens confiaram-lhe uma responsabilidade aterradora.

- Eu falo a língua. Sei que aquilo que faço está certo. O padrone fitou-o.

- Tenho a certeza de que sabe. Que mais lhe resta?

- Não acredita?

O padrone respondeu simplesmente:

- Só acredito numa coisa, meu jovem padre. Há unicamente uma guerra que tem de ser travada. Não pode haver divisões entre os que combatem os fascistas. Aí tem a dimensão daquilo em que acredito. - Fontini-Cristi ergueu abruptamente os olhos para o comboio: - Venham. Não há tempo a perder.

Temos de regressar antes do romper do dia. Há roupa para si no tractor. Recolha-a. Eu dou as instruções ao maquinista.

- Ele não fala italiano.

- Eu falo grego. Depressa!

O tractor foi colocado junto à composição de mercadorias. Passaram-se correntes de accionamento lateral à volta da arca sagrada e o pesado contentor de ferro envolvido em ripas de madeira foi puxado, a gemer sob a tensão, para a plataforma. Depois amarraram-no com as correntes na parte dianteira, e apertaram-no com cintas bem retesadas passadas por cima.

Savarone Fontini-Cristi experimentou a amarração por todos os lados. Dando-se por satisfeito, postou-se um pouco atrás, com o feixe da lanterna a iluminar os símbolos monásticos gravados no invólucro.

- Com que então, passados mil e quinhentos anos, sai da terra. Apenas para ser devolvida à terra - disse baixinho Fontini-Cristi. - Terra, fogo e mar. Devia ter escolhido os dois últimos, meu jovem sacerdote. O fogo ou o mar.

- Não é essa a vontade de Deus.

- Ainda bem que a sua comunicação é tão directa. Vocês, religiosos, nunca param de me espantar com o vosso sentido do absoluto. - Fontini-Cristi virou-se para Annaxas e falou fluentemente em grego: - Pare, para eu poder desimpedir os carris. Há uma via estreita do outro lado do arvoredo. Estaremos de volta antes do alvorecer.

Annaxas fez um aceno afirmativo com a cabeça. Sentia-se pouco à vontade na presença de um homem como Fontini-Cristi.

- Sim, excelência.

- Não sou semelhante coisa. E você é um esplêndido maquinista.

- Obrigado. - Annaxas, embaraçado, encaminhou-se para a locomotiva.

- Aquele homem é seu irmão? - perguntou Fontini-Cristi em voz baixa a Petride.

- É.

- Ele não sabe?

O jovem sacerdote abanou a cabeça.

- Nesse caso vai precisar do seu Deus. - O italiano virou-se com rapidez e dirigiu-se ao lugar do condutor do tractor coberto. - Vamos, padre. Temos trabalho a fazer. Esta máquina foi construída para as avalanches. Levará o nosso carregamento aonde nenhum ser humano poderia transportá-lo.

Petride trepou para o assento. Fontini-Cristi pôs o potente motor em funcionamento e engrenou habilmente as mudanças. A plataforma na frente da capota do motor foi abaixada, facultando a visibilidade, e o veículo precipitou-se para a frente, vibrando ao atravessar os carris e internar-se na floresta alpina.

O sacerdote de Xenope recostou-se no assento e cerrou os olhos em oração. Fontini-Cristi manobrou a potente máquina através do arvoredo ascendente na direcção dos trilhos mais elevados das montanhas de Champoluc.

- Tenho dois filhos mais velhos que o senhor - disse Fontini-Cristi decorrido um bocado. E depois acrescentou: - Vou levá-lo ao túmulo de um judeu. Acho que vem a propósito.

Regressaram à clareira alpina quando o céu negro estava a tornar-se cin zento. Fontini-Cristi fitou Petride enquanto o jovem sacerdote se apoiava na estranha máquina.

- Sabe onde eu vivo. A minha casa é sua.

- Todos residimos na casa do Senhor, signore.

- Assim seja. Deus esteja consigo.

- Se Ele assim quiser.

O italiano pôs a alavanca das mudanças na posição e afastou-se rapidamente, descendo a estrada, que mal se via abaixo dos carris. Petride compreendeu. Agora Fontini-Cristi não podia perder um minuto. Cada hora que estivesse ausente da sua propriedade contribuiria para aumentar o número de perguntas que podiam ser formuladas. Havia muita gente em Itália que considerava os Fontini-Cristi inimigos do Estado.

Eram vigiados. Todos eles.

O jovem sacerdote correu pela neve em direcção à locomotiva. E ao irmão.

O alvorecer surgiu sobre as águas do lago Maggiore. Encontravam-se na barcaça de transporte de Stresa; o seu passaporte era a vigésima sexta autorização da bolsa. Petride perguntava a si próprio o que os esperaria em Milão, embora se apercebesse de que na verdade não importava.

Agora nada importava. A viagem estava a chegar ao fim.

O objecto sagrado estava no seu lugar de repouso. Para não mais ser desenterrado durante anos; talvez para se conservar sepultado um milénio. Não havia maneira de saber.

Deslizaram velozmente para sueste na via principal, passando por Varese, até Castiglione. Não esperaram pelo cair da noite... Agora nada importava. Nos arredores de Varese, Petride viu um letreiro na estrada sob o luminoso sol italiano.

Campo di Fiori. 20 kil.

Deus escolhera um homem de Campo di Fiori. O piedoso segredo pertencia agora a Fontini-Cristi.

A paisagem campestre desfilava; o ar estava claro, frio e alegre. O perfil de Milão tornou-se visível. A névoa do fumo de fábricas imiscuía-se no céu de Deus e mantinha-se suspensa como um liso encerado cinzento sobre o horizonte. A composição de mercadorias afrouxou e entrou na via dos desvios dos armazéns. Detiveram-se num sinal de paragem até que um indiferente spedizio-niere com a farda dos caminhos-de-ferro estatais apontou para uma curva nos carris onde um disco verde se erguia em frente de outro vermelho. Era o sinal para entrar nos depósitos de Milão.

- Chegámos! - gritou Annaxas. - Um dia de descanso, e depois o regresso! Tenho de dizer que vocês são extraordinários.

- Sim - disse simplesmente Petride. - Somos extraordinários.

O sacerdote olhou para o irmão. Os ruídos do depósito de mercadorias eram música para Annaxas; estava a cantar uma canção grega, com toda a parte superior do corpo a oscilar ritmicamente consoante os compassos rápidos e bem marcados da melodia.

Era estranha, a canção que Annaxas cantava. Não se tratava de uma canção dos caminhos-de-ferro; pertencia ao mar. Um cântico que era um dos preferidos dos pescadores de Thermaikos. Havia qualquer coisa de apropriado, pensou Petride, numa canção daquelas em semelhante momento.

O mar era a fonte de vida de Deus. Fora do mar que Ele criara a terra.

«Creio em um só Deus... criador de todas as coisas...»

O sacerdote de Xenope tirou a grande pistola italiana de dentro da camisa. Deu dois passos em frente, na direcção do seu amado irmão, e ergueu o cano da arma. Estava a centímetros da base do crânio de Annaxas.

«...visíveis e invisíveis... e em um só Senhor, Jesus Cristo... nascido do Pai...»

Premiu o gatilho.

A explosão invadiu a cabina. Sangue, carne, e coisas do mais terrível voaram pelos ares e formaram uma amálgama com o vidro e o metal.

«...consubstanciado ao Pai... Deus de Deus... luz de luz... Deus verdadeiro de Deus verdadeiro...»

O sacerdote de Xenope fechou os olhos e gritou, em exaltação, segurando a arma de encontro à própria têmpora:

- «...gerado, não criado! Olharei nos olhos o Senhor e não vacilarei!»

Disparou.

 

29 de Dezembro de 1939 Milão, Itália

Savarone passou pela secretária do filho a caminho do gabinete deste e atravessou o chão coberto por uma grossa alcatifa, dirigindo-se à janela que dava para o extenso complexo fabril que eram as Indústrias Fontini-Cristi. Claro que o filho não se encontrava em parte alguma. O seu filho, o filho mais velho, raramente se encontrava no respectivo gabinete; aliás, raramente se encontrava em Milão. O primeiro filho, o herdeiro presuntivo de tudo quanto era Fontini-Cristi, era incorrigível. E arrogante, e demasiado preocupado com o seu próprio conforto material.

Vittorio era também brilhante. Um homem muito mais brilhante do que o pai, que o tinha instruído. E esse facto apenas servia para enfurecer mais ainda Savarone; um homem possuidor de tais dotes tinha maiores responsabilidades que os outros homens. Ele não se satisfazia com as realizações quotidianas que surgiam naturalmente. Não andava em pândegas, metido com prostitutas, no jogo da roleta e do bacará. Nem desperdiçava noites em claro com as nuas filhas do Mediterrâneo. Tão-pouco virava costas aos acontecimentos que mutilavam o seu país, arrastando-o para o caos.

Savarone ouviu um leve tossicar atrás de si e virou-se. A secretária particular de Vittorio entrara no gabinete.

- Deixei recado para o seu filho na Borsa Valori. Julgo que se ia encontrar esta manhã com o corretor.

- Você pode julgar que sim, mas duvido que encontre tal coisa na agenda dele. - Savarone viu que a rapariga corava. - Desculpe. Você não é responsável pelo meu filho. Embora provavelmente já o tenha feito, sugiro que experimente os números particulares que ele porventura lhe tenha dado. Este gabinete é-me familiar. Eu espero.

Despiu o sobretudo de pêlo de camelo claro e tirou o chapéu tirolês, de feltro verde, atirando-os para cima da cadeira de braços que estava ao lado da secretária.

- Com certeza. - A rapariga saiu rapidamente, fechando a porta atrás de si.

Era mesmo um gabinete familiar, pensou Fontini-Cristi, embora tivesse sido preciso chamar a atenção da rapariga para o facto. Até há dois anos, fora o seu. Actualmente, muito pouco restava da sua presença: apenas os lambris de madeira escura. Toda a mobília fora substituída. Vittorio aceitara as quatro paredes; nada mais.

Savarone instalou-se na ampla cadeira articulada atrás da secretária. Não gostava daquelas cadeiras: era demasiado velho para deixar o corpo rodopiar subitamente e ser projectado para trás por molas invisíveis e rolamentos de esferas ocultos. Meteu a mão no bolso e tirou de lá o telegrama que o trouxera de Campo di Fiori até Milão, o telegrama proveniente de Roma dizendo que os Fontini-Cristi estavam marcados.

Mas marcados para quê? Por quem? Por ordem de quem?

Perguntas estas que não podiam ser feitas pelo telefone, visto que o telefone era um instrumento do Estado. Sempre o Estado. Visível e invisível. Observando, seguindo, escutando, espiolhando. Não se podia utilizar nenhum telefone nem podia ser dada resposta alguma pelo informador de Roma que utilizava os códigos simples.

«Não obtivemos resposta de Milão, pelo que tomámos a liberdade de escrever-lhe pessoalmente. Cinco remessas de martelos-pilÕes defeituosos. Roma insiste na substituição imediata. Repito: imediata. Favor confirmar telefonicamente até ao fim do dia».

O número «cinco» referia-se aos Fontini-Cristi, pois eram ao todo cinco os homens da família: pai e quatro filhos. Qualquer coisa relacionada com a palavra «martelo» significava perigo súbito e extremo. A repetição da palavra «imediato» não carecia de explicação: não havia um instante a perder, tinha de confirmar-se telefonicamente a recepção para Roma minutos decorridos sobre a chegada do telegrama a Milão. Outros homens seriam então contactados, analisar-se-iam estratégias e estabelecer-se-iam planos. Agora era demasiado tarde.

O telegrama fora enviado a Savarone nessa tarde. Vittorio devia tê-lo recebido às onze. E contudo o filho não respondera a Roma nem o alertara para Campo di Fiori. O dia estava quase a chegar ao fim. Tarde de mais.

Era imperdoável. Havia homens que arriscavam diariamente a própria vida e a dos familiares na luta contra Mussolini.

Nem sempre assim fora, pensou Savarone, mantendo os olhos cravados na porta, à espera de que a secretária do filho aparecesse a qualquer momento com notícias do paradeiro de Vittorio. Em tempos tudo fora bem diferente. Ao princípio, os Fontini-Cristi tinham sancionado il Duce. O fraco e indeciso Emanuel 1 estava a deixar morrer a Itália. Benito Mussolini propunha uma alternativa; fora pessoalmente a Campo di Fiori encontrar-se com o patriarca dos Fontini-Cristi, procurando uma aliança - tal como Maquiavel outrora buscara apoio dos príncipes - e mostrara-se animado, empenhado e cheio de promessas para toda a Itália.

Isso fora dezasseis anos atrás; desde então Mussolini alimentara-se da sua própria retórica. Privara a nação do direito de pensar e as pessoas da liberdade de escolher; enganara os aristocratas: utilizara-se deles e renegara os seus objectivos comuns. Mergulhara o país numa guerra completamente inútil em África. Tudo para glória pessoal daquele Cesar Maximus. Saqueara a alma da Itália, e Savarone jurara detê-lo. Fontini-Cristi reunira os «príncipes» do Norte e, silenciosamente, a revolta estava a dar-se.

Mussolini não podia arriscar-se a um corte aberto com os Fontini-Cristi. A menos que a acusação de traição pudesse ser sustentada com tanta clareza que até os mais incondicionais apoiantes tivessem de concluir que haviam sido

 

1. Trata-se de Vítor Emanuel III, que apoiou o regime fascista, tendo Mussolini como primeiro-ministro. (N. do T.)

 

- no mínimo - estúpidos. A Itália estava a preparar-se para entrar ela própria na guerra alemã. Mussolini tinha de ser cauteloso. Aquela guerra não gozava de popularidade, e os Alemães menos ainda.

Campo di Fiori convertera-se no local de encontro dos descontentes. Os extensos hectares de relvados, florestas, colinas e cursos de água prestavam-se à natureza clandestina dos colóquios, que geralmente se efectuavam à noite. Mas nem sempre: havia outras reuniões que decorriam de dia, nas quais os homens mais jovens eram adestrados por outros homens com experiência nas artes de uma nova e estranha guerra: a da navalha, corda, corrente e foice. Tinham até inventado um nome para si próprios: partigiani. Os resistentes. Um termo que alastrava de nação em nação.

Eram estes os jogos da Itália, pensou Savarone. «Os jogos da Itália», era como o filho lhes chamava, denominação proferida com escárnio por um aristocrático arrogante e egocêntrico que só levava a sério os seus prazeres... Não, aquilo não era inteiramente verdade. Vittorio levava também a sério a administração da Fontini-Cristi, desde que as pressões do mercado se conformassem com os seus horários. E fazia com que assim acontecesse. Utilizava impiedosamente o seu poder financeiro e os seus conhecimentos - os conhecimentos que adquirira junto do pai - com arrogância.

O telefone tocou; Savarone sentiu-se tentado a atendê-lo, mas não o fez. O gabinete era do filho, e o telefone também. Ao invés, levantou-se da terrível cadeira e cruzou a sala até à porta. Abriu-a. A secretária estava a repetir um nome.

- ... Signore Tesca?

Savarone interrompeu de modo desabrido:

- É o Alfredo Tesca?

A rapariga acenou afirmativamente.

- Diga-lhe que não desligue. Eu falo com ele.

Savarone regressou rapidamente ao gabinete do filho e ao telefone. Alfredo Tesca era o capataz de uma das fábricas; além disso, era partigiano.

- Fontini-Cristi - disse Savarone.

- Padrone? Ainda bem que é o senhor. A linha está desimpedida; verificamo-la todos os dias.

- Nada muda. Apenas se acelera.

- Pois é, padrone. Há uma emergência. Chegou um homem de Roma por via aérea. Tem de se encontrar com alguém da sua família.

- Onde?

- Na casa do Olona.

- Quando?

- O mais depressa possível.

Savarone olhou para o sobretudo e para o chapéu que atirara para cima da cadeira.

- Tesca? Lembra-se de há dois anos? Do encontro no apartamento do Duomo?

- Lembro, sim, padrone. São quase seis horas. Estarei à sua espera.

Fontini-Cristi pousou o aparelho e pegou no sobretudo e no chapéu. Colocou-os e consultou o relógio de pulso. Eram cinco e quarenta e cinco; tinha de esperar uns minutos. O trajecto até à fábrica pelo pátio de cimento era curto. Tinha de fazer tempo por forma a entrar no edifício na altura da maior aglomeração de gente, correspondente à saída do turno de dia e à chegada ao trabalho do turno da noite.

O filho tinha tirado o máximo partido da máquina de guerra de Il Duce. As Indústrias Fontini-Cristi trabalhavam vinte e quatro horas por dia. Quando o pai admoestara o filho, este retorquira:

-Nós não fabricamos munições. Não estamos equipados para isso. A conversão seria demasiado dispendiosa. Limitamo-nos a tirar lucros, pai.

O seu filho. O mais capaz de todos eles tinha qualquer coisa de oco.

O olhar de Savarone virou-se para a fotografia com uma moldura de prata na secretária de Vittorio. A própria existência desta era uma ironia cruel que ele infligia a si próprio. O rosto da fotografia era o de uma mulher jovem, bonita, com os traços petulantes e obstinados de uma criança mimada a atingir uma maturidade igualmente mimada. Fora mulher de Vittorio. Havia dez anos.

Não fora um casamento bem sucedido. Tinha sido mais uma aliança industrial entre duas famílias imensamente ricas. E a noiva pouco trouxera à união: era uma mulher mal-humorada e comodista cuja perspectiva era orientada pelos haveres.

Morrera num desastre de automóvel em Monte Carlo, de manhã cedo, depois de os casinos fecharem. Vittorio nunca falava dessa manhãzinha: não era ele quem ia com a mulher. Era outro.

O filho tinha passado quatro anos de turbulento mal-estar com uma mulher que não suportava, e apesar disso conservava a sua fotografia na secretária. Passados dez anos. Savarone perguntara-lhe certa vez porquê.

- O facto de ser viúvo confere uma certa respeitabilidade ao meu modo de vida.

Faltavam sete minutos para as seis. Era tempo de principiar. Savarone saiu do gabinete do filho e falou com a secretária.

- Faça o favor de telefonar lá para baixo e mandar trazerem-me o carro de volta até ao portão oeste. Diga ao meu motorista que tenho um encontro no Duomo.

- Sim, senhor... Quer deixar algum número para onde o seu filho possa contactar consigo?

- Campo di Fiori. Mas à hora a que ele telefonar hei-de estar com certeza a dormir.

Savarone tomou o elevador particular para o andar térreo e saiu pela entrada dos executivos para o cimento. A trinta metros dali, o seu motorista encaminhava-se para a limosina com o brasão dos Fontini-Cristi nos painéis das portas. Houve uma troca de olhares entre os dois homens. O motorista fez um leve aceno: sabia o que fazer. Era partigiano.

Savarone atravessou o pátio, consciente de que havia pessoas a observá-lo. Era bom: era como se passara dois anos antes, quando a polícia de Il Duce vigiava todos os seus movimentos, tentando descobrir o paradeiro de uma célula antifascista. As sereias da fábrica soaram; o turno de dia acabava e daí a minutos o pátio e os corredores estariam apinhados de gente. Os operários que entravam - que deviam encontrar-se nos seus postos às seis e um quarto - cruzavam em magote o portão oeste.

Subiu os degraus para a entrada dos empregados e penetrou no corredor enxameado e barulhento, despindo o sobretudo e tirando o chapéu na confusão. Tesca estava junto da parede, a meio caminho das portas que conduziam aos vestiários dos trabalhadores. Era alto e esguio, muito à semelhança de

Savarone, e pegou-lhe no sobretudo e no chapéu, ajudando Fontini-Cristi a envergar a sua própria coçada gabardina com um jornal no bolso. Depois passou a Savarone um grande boné de pala, de fazenda. A troca consumou-se sem palavras no meio da multidão que se acotovelava. Tesca aceitou o auxílio de Savarone para vestir o sobretudo de pêlo de camelo; o patrão reparou que o empregado se dera ao trabalho - tal como fizera havia dois anos - de vestir umas calças passadas e uma camisa branca, com gravata, bem como sapatos engraxados.

O partigiano juntou-se ao fluxo de tráfego humano em direcção às portas de saída. Savarone seguiu-lhe no encalço a dez metros de distância e depois postou-se imóvel na plataforma pejada de gente à saída das portas constantemente a abrir, fingindo ler o jornal.

Viu aquilo que pretendia ver. O sobretudo de pêlo de camelo e o chapéu tirolês verde distinguiam-se no meio dos puídos blusões de couro e roupas amarrotadas dos operários. Dois homens na retaguarda da multidão fizeram sinal um ao outro e iniciaram a perseguição, abrindo caminho o melhor que podiam por entre a turba, num esforço para lhe ganharem terreno. Savarone enfiou-se na torrente de trabalhadores e alcançou o portão a tempo de ver a porta da limosina dos Fontini-Cristi a fechar-se e o enorme automóvel entrar no trânsito da Via di Sempione. Os dois perseguidores estavam no passeio; um Fiat cinzento encostou à berma e eles entraram.

O Fiat retomou a perseguição. Savarone meteu para norte e caminhou velozmente em direcção à paragem de autocarro na esquina.

A casa à beira do rio era uma relíquia que em tempos, talvez há uma década, tinha sido pintada de branco. Do exterior afigurava-se degradada, mas lá dentro, as divisões, pequenas, estavam asseadas e organizadas; eram locais de trabalho: um quartel-general antifascista.

Savarone entrou na sala cujas janelas davam para as sombrias águas do rio Olona, que a escuridão da noite tornava negras. Três homens ergueram-se de cadeiras de espaldar direito dispostas à volta de uma mesa e cumprimentaram-no cordial e respeitosamente. Dois eram seus conhecidos; quanto ao terceiro, pressupôs que devia ser o proveniente de Roma.

- Esta manhã foi enviado o código do martelo - disse Savarone. - Que significa?

- O senhor recebeu esse telegrama? - perguntou incredulamente o homem de Roma. - Todos os telegramas para Fontini-Cristi, em Milão, foram interceptados. É por isso que aqui estou. Todas as comunicações para as suas fábricas foram interrompidas.

- Recebi o meu em Campo di Fiori. Pela estação telegráfica de Varese, estou em crer, e não a de Milão. - Savarone sentiu um pequeno alívio por saber que o filho não desobedecera. - Tem informações?

- Nem todas, padrone- retorquiu o homem. - Mas o suficiente para saber que é extremamente grave. E está iminente. De repente, os militares tornaram-se preocupadíssimos com o movimento do norte. Os generais querem-no neutralizado; fazem tenção de desmascarar a sua família.

- Como quê?

- Como inimigos da nova Itália.

- Com que bases?

- Por efectuar reuniões com carácter de alta traição em Campo di Fiori.

Por espalhar mentiras contra o Estado; por tentar minar os objectivos de Roma e corromper o braço industrial do país.

- Palavras...

- Não obstante, querem dar um exemplo. Exigem-no, dizem.

- Que disparate! Roma não se atreveria a dar um passo contra nós com bases tão frágeis.

- O problema é esse, signore - disse o homem, hesitante. - Não é Roma. É Berlim.

- O quê?

- Os alemães estão em toda a parte, dando ordens a toda a gente. Consta que Berlim quer os Fontini-Cristi privados de influência.

- Não há dúvida de que eles têm os olhos postos no futuro, não é? - declarou um dos outros dois homens, um partigiano mais velho, que tinha ido até à janela.

- Como se propõem eles conseguir isso? - perguntou Savarone.

- Intervindo numa reunião em Campo di Fiori e obrigando os que lá estiverem a testemunhar as traições dos Fontini-Cristi. Estou em crer que seria menos difícil do que pensa.

- De acordo. É essa a razão pela qual temos sido cautelosos... Quando acontecerá isso? Tem alguma ideia?

- Parti de Roma ao meio-dia. Só posso presumir que a palavra de código «martelo» foi correctamente utilizada.

- Há uma reunião hoje à noite.

- Nesse caso o «martelo» foi apropriado. Cancele-a,padrone. É evidente que houve uma fuga.

- Vou precisar da sua ajuda. Vou dar-lhe nomes... Os nossos telefones não são seguros. - Fontini-Cristi começou a escrever num bloco de apontamentos com um lápis fornecido pelo terceiro partigiano.

- Para quando é que está marcada a reunião?

- Dez e meia. Há tempo suficiente - redarguiu Savarone.

- Espero bem que sim. Em Berlim são minuciosos. Fontini-Cristi parou de escrever e olhou para o homem.

- É estranho que diga semelhante coisa. Os alemães podem vociferar ordens à vontade no Campidoglio; não estão em Milão.

Os três resistentes trocaram olhares. Savarone percebeu que havia notícias que não lhe haviam chegado. O homem de Roma falou por fim.

- Como lhe disse, as nossas informações não são completas, mas sabemos determinadas coisas. O grau de interesse de Berlim, por exemplo. O alto comando alemão quer que a Itália se declare abertamente. Mussolini vacila; por muitas razões, a menor das quais não será a oposição de homens tão poderosos como o senhor... - O homem interrompeu-se; sentia-se inseguro. Não, aparentemente, das suas informações, mas de como transmiti-las.

- Aonde quer chegar?

- Dizem que o interesse de Berlim pelos Fontini-Cristi é inspirado pela Gestapo. São os nazis quem exige o exemplo, quem tenciona esmagar a oposição a Mussolini.

- Isso entendi eu. E daí?

- Têm pouca confiança em Roma, e nenhuma na província. O grupo de assalto será comandado por alemães.

- Um grupo de assalto alemão nos arredores de Milão?

O homem fez um aceno afirmativo.

Savarone pousou o lápis e ficou a olhar para o homem de Roma. Os seus pensamentos, porém, não iam para ele: iam para uma composição de mercadorias grega proveniente de Salónica com a qual se encontrara no alto das montanhas de Champoluc. Para o carregamento que esse comboio transportava: uma arca do Patriarcado de Constantino, presentemente enterrada no solo gelado das terras mais altas.

Parecia incrível, mas o incrível era lugar-comum nestes tempos de loucura. Teria Berlim sabido do comboio de Salónica? Teriam os alemães conhecimento da arca? Mãe de Cristo, era preciso evitar que eles o soubessem! Eles e todos - todos - os que eram como eles!

- Têm a certeza dessa informação?

- Temos.

Roma podia ser convencida, pensou Savarone. A Itália precisava das Indústrias Fontini-Cristi. Porém, se a intrusão alemã estivesse relacionada com a arca de Constantino, Berlim não teria minimamente em consideração as necessidades de Roma. A posse da arca era tudo. E, por conseguinte, a protecção da arca era essencial, a todo o custo. Acima de tudo, o segredo não podia cair nas mãos do inimigo. Nunca numa altura destas. Talvez nunca na vida, mas por certo que não numa altura destas.

A chave era Vittorio. Era sempre Vittorio, o mais capaz de todos eles. Porque, a despeito de tudo o mais, Vittorio era um Fontini-Cristi. Honraria o compromisso da família; ele estava à altura de Berlim. Tinha chegado a ocasião de pô-lo a par do comboio vindo de Salónica. De especificar as combinações da família com a ordem monástica de Xenope. A ocasião era a indicada, a estratégia estava consumada.

Uma data inscrita na pedra, gravada para um milénio, era apenas uma sugestão, uma pista em caso de uma repentina falha do coração, de morte por causas abruptas, naturais ou não. Não bastava.

Vittorio tinha de ser posto ao corrente, sobrecarregado com uma responsabilidade que excedia o que quer que fosse na sua imaginação. Os documentos de Constantino faziam tudo o mais empalidecer até à insignificância.

Savarone ergueu os olhos para os três homens.

- A reunião de hoje à noite vai ser cancelada. O grupo de assalto encontrará apenas uma grande reunião de família. Um jantar de festa. Todos os meus filhos e os filhos deles. No entanto, para estar completa, é preciso que o meu filho mais velho esteja em Campo di Fiori. Tentei toda a tarde telefonar-lhe. Agora têm de encontrá-lo. Usem os vossos telefones. Liguem para toda a gente em Milão se preciso for, mas encontrem-no! Para o caso de se fazer tarde, digam-lhe que use a estrada das cavalariças. Entrar com o grupo de assalto de nada lhe valeria.

 

28 de Dezembro de 1939 Lago de Como, Itália

O Hispano-Suiza branco, de doze cilindros, com a capota de couro quase branca meio recolhida para trás, deixando a descoberto o banco da frente, de couro vermelho, entrou na longa curva a alta velocidade. Em baixo, do lado esquerdo, ficavam as águas azuis-inverno do lago de Como, e do lado direito as montanhas da Lombardia.

- Vittorio! - gritou a rapariga ao lado do condutor, segurando o cabelo desgrenhado pelo vento com uma das mãos e a gola de potro russo com a outra. - Vou ficar toda despenteada, meu cordeiro!

O condutor sorriu, com os olhos semicerrados firmes na estrada que desfilava sob a luz do sol e as mãos a sentir destramente, quase delicadamente, a folga no volante de marfim.

- O Suiza é um carro muito melhor que o Alfa-Romeo. O Rolls britânico não se lhe compara.

- Não precisas de mo provar a mim, querido. Meu Deus, recuso-me a olhar para o velocímetro! E vou ficar numa perfeita desgraça!

- Óptimo. Se o teu marido estiver em Bellagio, não te reconhecerá. Apresentar-te-ei como uma prima de Verona que é uma tremenda doçura.

A rapariga riu-se:

- Se o meu marido estiver em Bellagio, há-de ter uma tremenda doçura de uma prima para nos apresentar a nós.

Riram-se ambos. A curva terminou, a estrada tornou-se rectilínea e a rapariga deslizou para junto do condutor. Introduziu a mão sob a manga do casaco de camurça bege, enchumaçada pela grossa lã da camisola de gola alta branca que ele trazia por baixo; por instantes, encostou o rosto ao ombro dele.

- Foste um amor em telefonar. Tinha mesmo de escapar-me.

- Eu sabia. Via-se nos teus olhos ontem à noite. Estavas morta de tédio.

- Bem, meu Deus, e tu não estavas? Que jantar enfadonho! Conversa, conversa e mais conversa! Guerra para aqui, guerra para acolá. Roma isto, Roma aquilo, Benito a toda a hora. Estou positivamente farta! Gstaad fechada! Saint-Moritz cheio de judeus a atirarem o dinheiro à cara de toda a gente! Monte Carlo um completo fiasco! Os casinos estão para fechar, sabes? Toda a gente o diz. É tudo uma destas maçadas!

O condutor deixou tombar a mão direita do volante e procurou a dobra do casaco da rapariga. Afastou a pele e acariciou o interior da coxa tão habilmente como manejava o volante de marfim. Ela gemeu de desejo e estendeu o pescoço, colando-lhe os lábios ao ouvido e aflorando-o com a língua.

- Continua com isso, que ainda acabamos dentro de água. Desconfio que

deve estar fria como o diabo.

- Quem começou foste tu, meu adorável Vittorio.

- Eu paro - disse ele sorrindo e voltando a colocar a mão no volante.

Há-de passar muito tempo até que possa comprar outro carro como este. Hoje em dia é tudo tanques. Os tanques dão muito menos proveito.

- Por favor! Nada de conversas da guerra.

- Daqui não ouvirás nenhuma - disse Fontini-Cristi, voltando a rir. - A menos que queiras negociar uma compra por parte de Roma. Vendo-te o que quiseres, desde correias de transporte até motocicletas e fardas.

- Vocês não fazem fardas.

- Somos donos de uma empresa que as faz.

- Tinha-me esquecido. Os Fontini-Cristi são donos de tudo a norte de Parma e a oeste de Pádua. Pelo menos, é o que diz o meu marido. Com bastante inveja, claro.

- O teu marido, o conde sonolento, é um homem de negócios terrível.

- Não o faz por querer.

Vittorio Fontini-Cristi sorriu ao travar o comprido automóvel branco antes de uma curva a descer na estrada que levava à margem do lago. A meio da descida, no promontório que era Bellagio, ficava a elegante Villa Lario, baptizada em honra do antigo poeta de Como. Tratava-se de um pavilhão de veraneio famoso tanto pela extraordinária beleza como pelo vincado carácter selecto.

Quando a elite se transferia para o norte, divertia-se em Villa Lario. Dinheiro e família eram os seus métodos de admissão. Os commess eram tímidos e falavam em voz baixa, conhecedores de todas as propensões da sua clientela e extremamente atentos à marcação das reservas. Era pouco vulgar um marido ou mulher, um amante ou uma amante receberem um telefonema abafado de alerta a sugerir outra data de chegada. Ou uma rápida partida.

O Hispano-Suiza flectiu para o parque de estacionamento de ladrilhos azuis; dois recepcionistas uniformizados saíram correndo da cabina aquecida para ambos os lados do automóvel, abrindo as portas e fazendo uma reverência.

O recepcionista do lado de Vittorio disse:

- Bem-vindo a Villa Lario, signore.

Nunca era «Muito prazer em vê-lo novamente, signore».

- Obrigado. Não trazemos bagagem. Passamos apenas o dia de hoje. Veja o óleo e a gasolina. O mecânico está por aí?

- Está, sim, senhor.

- Diga-lhe que verifique o alinhamento. Está com demasiada folga.

- Com certeza, signore.

Fontini-Cristi saiu do carro. Era um homem alto, com mais de um metro e oitenta. O cabelo liso, castanho-escuro, caía-lhe para a testa; os traços eram angulosos - tão aquilinos como os do pai - e os olhos, ainda semicerrados sob o sol radioso, eram ao mesmo tempo passivos e vigilantes. Passou pela frente da capota branca do motor, apalpando distraidamente a tampa do radiador, e sorriu para a companheira, a Condessa d'Avenzo. Caminharam juntos até aos degraus de pedra que levavam à entrada da Villa Lario.

- Aonde disseste aos criados que ias? - perguntou Fontini-Cristi.

- A Treviglio. És um adestrador de cavalos que me quer vender um cavalo árabe.

- Lembra-me de te comprar um.

- E tu? Que foi que disseste no escritório?

- Para dizer a verdade, nada. As únicas pessoas que poderiam perguntar por mim eram os meus irmãos; todos os outros esperam pacientemente.

- Mas os teus irmãos não. - A Contessa d'Avenzo sorriu. - Gosto disso. O importante Vittorio é perseguido nos negócios pelos irmãos.

- Nem por isso! Os meus ricos irmãos mais novos têm no conjunto três mulheres e onze filhos. Os problemas deles são sempre e continuamente domésticos. Às vezes penso que sou um árbitro. O que é estupendo: eles mantêm-se ocupados e longe dos negócios.

Postaram-se no terraço do exterior das portas envidraçadas que davam para o átrio de entrada da Villa Lario e contemplaram lá em baixo o enorme lago e do outro lado as montanhas, mais afastadas.

- É lindo - disse a condessa. - Marcaste um quarto?

- Uma suite. O apartamento sobre o telhado. A vista é magnífica. -Já ouvi falar. Nunca estive lá em cima.

- Não há muita gente que tenha estado.

- Presumo que o tenhas alugado ao mês.

- Para dizer a verdade, não é preciso - disse Fontini-Cristi, voltando-se para as enormes portas envidraçadas. - É que por acaso sou dono de Villa Lario, sabes?

A Contessa d'Avenzo riu-se. Entrou no átrio à frente de Vittorio.

- És um homem impossível, um amoral. Enriqueces à custa da tua própria casta. Meu Deus, serias capaz de fazer chantagem com metade da Itália!

- Apenas da nossa Itália, minha querida.

- Essa basta!

- Nem por isso. Mas nunca tive de fazê-lo, se é que isso te sossega o espírito. Sou pura e simplesmente um hóspede. Espera aqui, por favor.

Vittorio caminhou até à recepção. O empregado de smoking que estava atrás do balcão de mármore cumprímentou-o.

- A sua visita dá-nos muito prazer, Signore Fontini-Cristi.

- Vai tudo bem?

- Às mil maravilhas. Deseja por acaso...?

- Não, não desejo - interrompeu Vittorio. - Presumo que os meus aposentos estejam prontos.

- Evidentemente, signore. Tal como pediu, está a ser confeccionado um jantar cedo. Caviar do Irão, pato enformado frio, Veuve Cliquot de vinte e oito.

- E mais?

- Há flores, evidentemente. O massagista está preparado para cancelar todas as outras marcações.

- E mais...?

- Não há complicações para a Contessa d'Avenzo - respondeu o empregado pronta e rapidamente. - Não se encontra cá ninguém do seu círculo.

- Obrigado. - Fontini-Cristi fez meia volta, para logo ser detido pela voz do empregado.

- Signore?

- Sim?

- Bem sei que não quer ser incomodado a não ser em caso de emergência, mas telefonaram do seu escritório.

- Do meu escritório disseram que era uma emergência?

- Disseram que o seu pai andava a tentar localizá-lo.

- Isso não é nenhuma emergência. É uma veneta.

- Acho que no fim de contas é capaz de ser o tal cavalo árabe, meu cordeiro - devaneou a condessa em voz alta, deitada ao lado de Vittorio no leito de penas. Tinha o edredão arredado até à cintura nua. - És maravilhoso. E muitíssimo paciente.

- Mas não suficientemente paciente, penso eu - retorquiu Fontini-Cristi. Sentou-se na cama, apoiando-se no travesseiro e baixou os olhos para a rapariga; fumava um cigarro.

- Não suficientemente paciente - concordou a Contessa d'Avenzo, virando o rosto e sorrindo-lhe; - Porque não apagas esse cigarro?

- Já apago. Podes ter a certeza. Queres vinho?- Fez um gesto na direcção do balde de gelo em prata ao alcance do braço. Estava em cima de um tripé; uma garrafa aberta, envolvida por um guardanapo, estava mergulhada no gelo moído a derreter.

A condessa fitou-o, com a respiração acelerada.

- Serve tu o vinho. Eu bebo do meu.

Com movimentos rápidos e suaves, a rapariga virou-se e procurou com ambas as mãos por debaixo da macia colcha o baixo-ventre de Vittorio. Levantou as cobertas e meteu a cara por baixo delas, por cima de Vittorio. A colcha voltou a tombar, tapando-lhe a cabeça, ao mesmo tempo que os gemidos dele aumentavam de intensidade e o corpo se lhe contorcia.

Os empregados retiraram os pratos e levantaram a mesa e um commesso acendeu o lume na lareira e serviu aguardente.

- Foi um dia encantador - disse a Contessa d'Avenzo. - Podemos fazer isto com frequência?

- Acho que devíamos estabelecer um horário. De acordo com o teu calendário, claro.

- Claro. - A rapariga soltou uma risada gutural. - És um homem muito prático.

- Porque não? É mais fácil.

O telefone tocou. Vittorio deitou-lhe um olhar de relance, contrariado. Levantou-se da cadeira em frente da lareira e cruzou iradamente o aposento até à mesa-de-cabeceira. Levantou o aparelho e falou com rispidez:

- Está?

A voz do outro lado era vagamente familiar.

- Fala Tesca. Alfredo Tesca.

- Quem?

- Um dos capatazes das fábricas de Milão.

- É o quê? Como é que teve o atrevimento de me ligar para aqui? Como foi que obteve este número?

Tesca manteve-se calado por momentos.

- Ameacei de morte a sua secretária, jovem padrone. E tê-la-ia matado se ela não mo desse. Pode despedir-me amanhã. Sou seu capataz, mas antes do mais sou um panigiano.

- Está mesmo despedido. Já. A partir deste momento!

- Assim seja, signore.

- Não quero ter nada que ver...

- Basta! - gritou Tesca. - Não há tempo! Anda toda a gente à sua procura. O padrone corre perigo. Toda a sua família corre perigo! Vá a Campo di Fíori! Imediatamente! O seu pai diz para ir pela estrada das cavalariças.

O telefone emudeceu.

Savarone atravessou o imenso átrio, entrando na enorme sala de jantar de Campo di Fiori. Tudo estava como devia ser. A sala estava cheia de filhos e filhas, maridos e mulheres e uma multidão extremamente ruidosa de netos. Os criados tinham colocado travessas de prata de antipasto1 em cima das mesas de mármore. Um esguio pinheiro que chegava ao tecto alto era uma majestosa árvore de Natal, com a sua miríade de luzes e ornamentações cintilantes a encher a sala de reflexos coloridos, que fazia realçar as tapeçarias e a mobília entalhada.

Lá fora, no largo circular fronteiro aos degraus de mármore da entrada, estavam quatro automóveis iluminados pelos projectores que incidiam dos beirais. Podiam ser tomados por veículos absolutamente vulgares, que era o que Savarone pretendia. Porque, quando o grupo de assalto chegasse, tudo o que se lhe depararia seria uma inocente e festiva reunião de família. Um jantar de festa. Nada mais.

A não ser um patriarca de um dos mais poderosos clãs de Itália autoritariamente ofendido. O padrone dos Fontini-Cristi, que exigiria saber quem era o responsável por tão bárbara intrusão.

Só faltava Vittorio; e a sua presença era vital. Podiam suscitar-se perguntas que levassem a outras perguntas. O relutante Vittorio, que escarnecia do trabalho deles, podia tornar-se um injustificado alvo de suspeitas. Que espécie de jantar festivo de família seria sem a presença do filho mais velho, o herdeiro principal? Além disso, se Vittorio surgisse durante a intrusão, arrogantemente avesso - como era seu costume - a dar contas da sua pessoa a quem quer que fosse, poderia haver complicações. O filho recusava-se a reconhecer até que ponto, mas Roma estava mesmo debaixo da pata de Berlim.

Savarone fez um gesto na direcção do segundo mais velho, o sisudo António, que estava junto da mulher, enquanto esta admoestava um dos filhos do casal.

- Sim, pai?

- Vai às cavalariças. Fala com o Barzini. Diz-lhe que, se o Vittorio chegar durante a visita dos fascistas, deve dizer que o demoraram numa das fábricas.

- Posso telefonar-lhe para as cavalariças.

- Não. O Barzini está a envelhecer. Finge que não, mas anda a ficar surdo. Certifica-te de que ele compreende.

O segundo filho assentiu obedientemente. - Sim, com certeza, pai. Como queiras.

Que fora, santo nome de Deus, que o pai fizera? Que podia ele fazer que desse a Roma a confiança, a desculpa, para avançar abertamente contra a casa dos Fontini-Cristi?

Em italiano no original: «antepasto», «aperitivo». (N. do T.)

«Toda a sua família corre perigo».

Absurdo!

Mussolini fazia namoro aos industriais do Norte; precisava deles. Sabia que na sua maioria eram velhos e conservadores, arreigados nos seus hábitos, e que podia conseguir mais com mel do que com vinagre. Que importava que uns quantos Savarones se entregassem aos seus disparatados jogos? A sua época já passara.

Contudo, a verdade é que havia apenas um Savarone. Distinto e à parte de todos os outros homens. Tinha-se tornado, talvez, nessa coisa terrível que era um símbolo. Com os seus disparatados e amaldiçoados partigiani. Lunáticos de meia-tigela que corriam pelos campos e pelos bosques de Campo di Fiori a fingir que eram membros de alguma tribo primitiva a caçar tigres e leões assassinos.

Jesus! Crianças!

Bem, tudo aquilo havia de acabar. Padrone ou não, se o pai fora demasiado longe e os deixara mal colocados, haveria uma confrontação. Havia dois anos, esclarecera bem Savarone de que, quando tomasse as rédeas das Indústrias Fontini-Cristi, isso queria dizer que ficaria com todas elas nas mãos.

De repente, Vittorio recordou-se. Havia duas semanas, Savarone tinha ido a Zurique por uns dias. Pelo menos, dissera que ia a Zurique. Não ficara bem claro: ele, Vittorio, não estava a ouvir com grande atenção. Durante aqueles escassos dias, porém, fora inesperadamente necessário apor a assinatura do pai em diversos contratos. Tão necessário que telefonara para todos os hotéis de Zurique, tentando localizar Savarone. Não o encontrara em parte alguma. Ninguém o vira, e o pai não era pessoa que passasse facilmente despercebida.

Além disso, de regresso a Campo di Fiori, negara-se a dizer onde tinha estado. Fora enlouquecedoramente enigmático, dizendo ao filho que daí a uns dias explicaria tudo. Registar-se-ia um incidente em Monfalcone e, quando ele se desse, Vittorio seria posto ao corrente. Vittorio tinha de ser posto ao corrente.

De que diabo estaria o pai a falar? Qual incidente em Monfalcone? Porque havia de dizer-lhes respeito algo que se passasse em Monfalcone?

Absurdo!

Todavia, Zurique não era de modo nenhum absurdo. Os bancos ficavam em Zurique. Teria Savarone manipulado dinheiro em Zurique? Teria ele transferido grandes quantias da Itália para a Suíça? Presentemente havia leis específicas contra isso. Mussolini precisava de cada lira que pudesse guardar. E Deus bem sabia que a família tinha reservas suficientes em Berna e Genebra; não havia falta de capital Fontini-Cristi na Suíça.

Fosse o que fosse que Savarone fizera, seria o seu último gesto. Se o pai se votava a tal empenhamento político, que fosse arranjar prosélitos para qualquer outro lado. Para a América, porventura.

Vittorio abanou lentamente a cabeça, destroçado, ao meter o Hispano-Suiza na estrada que saía de Varese. Que estava para ali a pensar? Savarone era... Savarone. O chefe da casa dos Fontini-Cristi. Por maiores que fossem os dotes ou os conhecimentos do filho, não era ele o padrone.

«...ir pela estrada das cavalariças».

Qual era o objectivo de tal coisa? A estrada das cavalariças principiava no extremo norte da propriedade, a cinco quilómetros do portão leste. Não obstante, usá-la-ia; o pai devia ter qualquer razão para dar essa ordem. Sem dúvida tão improvável como os disparatados jogos a que se entregava, mas impunha-se uma superficial obediência filial: o filho ia ser muito firme com o pai.

Que acontecera em Zurique?

Passou o portão principal na estrada que saía de Varese e continuou até à estrada para oeste que se cruzava com ela cinco quilómetros adiante. Virou à esquerda e percorreu quase três quilómetros até ao portão norte, tornando a meter para norte em direcção a Campo di Fiori. As cavalariças ficavam a um quilómetro da entrada; a estrada era de terra. Era mais suave para os cavalos, pois era essa a estrada utilizada pelos cavaleiros para os campos e veredas a norte e oeste da floresta que ficava no centro de Campo di Fiori. A floresta atrás da grande casa que era atravessada pelo largo curso de água que corria das montanhas de norte.

À luz dos faróis viu a figura do velho Guido Barzini a acenar com os braços, fazendo-lhe sinal para que parasse. O encarquilhado Barzini era qualquer coisa: uma peça do inventário que passara toda a vida ao serviço da casa.

- Depressa, Signore Vittorio! - disse Barzini pela janela aberta. - Deixe o carro aqui. Já não há tempo.

- Tempo para quê?

- O padrone falou comigo ainda não há cinco minutos. Disse que, se o senhor entrasse agora, devia falar-lhe pelo telefone das cavalariças antes de se dirigir à casa. Já passa quase meia hora do tempo.

Vittorio olhou para o relógio do painel de instrumentos. Passavam vinte e oito minutos das dez.

- Que se passa?

- Depressa, signore! Por favor! Os fascisti!

- Quais fascisti?

- O padrone. Ele lhe dirá.

Fontini-Cristi apeou-se do carro e seguiu Barziní, descendo a calçada de pedra para a entrada das cavalariças. Era um compartimento de artigos de montar: havia freios, arreios, cabeções e objectos de couro ordenadamente pendurados nas paredes, cercando inúmeras placas e fitas, testemunhos da superioridade das cores dos Fontini-Cristi. Igualmente na parede estava o telefone que ligava as cavalariças à casa grande.

- Que se passa, pai? Faz alguma ideia de quem me telefonou para Bellagío?

- Basta! - regougou Savarone pelo telefone. - De um momento para o outro eles estarão aqui. Um grupo de assalto alemão.

- Alemães?

- Sim. Roma pensa que surpreenderão ospartigiani em plena reunião. Sair-lhes-á o tiro pela culatra, é evidente. Apenas se lhes deparará um simples e inocente jantar de família. Não te esqueças! Tínhamos um jantar de família marcado. Demoraram-te em Milão.

- Que têm os alemães a ver com Roma?

- Eu explico-te mais tarde. Não te esqueças é...

De repente, pelo telefone, Vittorio ouviu os ruídos de pneus a chiar e de motores potentes. Uma coluna de automóveis, vinda do portão leste, avançava velozmente em direcção à grande casa.

- Pai! - gritou Vittorio. - Isto tem alguma coisa que ver com a tua deslocação a Zurique?

Houve um silêncio ao telefone. Por fim, Savarone falou.

- Pode ser que tenha. Tens de permanecer onde estás...

- Que sucedeu? Que sucedeu em Zurique?

- Não foi Zurique. Foi Champoluc.

- O quê?

- Mais tarde! Tenho de voltar para junto dos outros. Fica onde estás! Onde não te vejam! Falaremos depois de eles se irem embora.

Vittorio ouviu o estalido. Virou-se para Barzini. O velho encarregado das cavalariças estava a esquadrinhar uma cómoda baixa cheia de freios e arreios desemparelhados; descobriu aquilo que procurava: uma pistola e um binóculo. Tirou-os de lá e deu-os a Vittorio.

- Venha! - disse, com ira nos olhos cansados. - Vamos observar. O padrone vai dar-lhes uma lição.

Correram pela estrada de terra abaixo, em direcção à casa e aos jardins que ficavam acima e atrás dela. Quando a terra batida passou a pavimentação, cortaram à esquerda e subiram o talude sobranceiro ao largo da entrada. Estavam na escuridão; toda a área em baixo se achava banhada pela luz dos projectores.

Três automóveis passaram à desfilada pela estrada do portão leste: veículos compridos, negros e potentes, cujos faróis emergiam da escuridão, abafados pelos projectores que inundavam a área de luz branca. Os carros entraram no largo, guinando para a esquerda dos outros automóveis e parando de súbito, equidistantes uns dos outros, defronte dos degraus de pedra que conduziam às grossas portas de carvalho da entrada principal.

Dos carros saltaram homens. Homens vestidos de igual, de fato preto e sobretudo preto; homens armados.

Armados!

Vittorio ficou a olhar à medida que os homens - sete, oito, nove - subiam correndo os degraus até à porta. Um homem alto na dianteira assumiu o comando; levantou a mão para os que vinham atrás, ordenando-lhes que flanqueassem as portas, quatro de cada lado. Puxou a corrente da campainha com a mão esquerda, enquanto com a direita empunhava a pistola à ilharga.

Vittorio levou o binóculo aos olhos. O rosto do homem estava voltado para a porta, mas a arma que ele tinha na mão surgiu no seu campo visual. Tratava-se de uma Luger alemã. Vittorio virou o binóculo para os que estavam de um e outro lado das portas.

As armas eram todas alemãs. Quatro Luger e quatro pistolas-metralhadoras Bergmunn MP 38.

Vittorio sentiu uma repentina convulsão no estômago e uma fogueira consumiu-lhe o espírito ao observar com incredulidade. Que tinha Roma permitido? Era inacreditável!

Assestou o binóculo sobre os três automóveis. Havia um homem no interior de cada um deles; achavam-se todos na penumbra, vendo-se-lhes somente a nuca pelo vidro traseiro. Vittorio concentrou-se no carro mais próximo, no homem que se encontrava dentro desse carro.

O homem mudou de posição no assento e olhou para trás, para o lado direito, incidindo-lhe a luz no cabelo. Tinha-o curto, grisalho, mas com uma mancha branca que nascia na testa. Havia nele qualquer coisa de familiar- a forma da cabeça, a malha branca no cabelo -, mas Vittorio não conseguia localizá-lo.

A porta da casa abriu-se; apareceu uma criada no limiar, que se sobressaltou ao ver o homem alto com a pistola. Vittorio cravou os olhos, enfurecido, na cena lá em baixo. Roma pagaria pelo insulto. O homem alto empurrou a criada para o lado e irrompeu pela porta adentro, seguido pelo grupo de oito homens, que empunhavam as armas à sua frente. A criada desapareceu na falange de corpos.

Roma havia de pagar caro!

Ouviram-se gritos provenientes do interior. Vittorio distinguiu o bramido do pai e as subsequentes objecções vociferadas pelos irmãos.

Ouviu-se um es trépido sonoro, um misto de vidro e madeira partidos. Vittorio deitou a mão à pistola que tinha no bolso e sentiu uma mão vigorosa a travar-lhe o pulso.

Era Barzini. O velho encarregado da cavalariça prendia a mão de Vittorio, mas estava a olhar por cima do seu ombro, fitando a cena que se desenrolava lá em baixo.

- Há demasiadas pistolas. Não vai resolver coisa nenhuma - disse simplesmente.

Ouviu-se outro estrépito lá em baixo, desta vez mais próximo. A almofada da esquerda da enorme porta dupla de carvalho tinha sido aberta de par em par e viam-se silhuetas a sair. As crianças primeiro, desconcertadas, algumas chorando de medo. Depois as mulheres, as suas irmãs e as mulheres dos irmãos. A seguir a mãe, de fronte desafiadora, com a criança mais jovem nos braços. Seguiam-se o pai e os irmãos, violentamente empurrados pelas armas empunhadas pelos homens de fato preto.

Foram reunidos no passeio do largo da entrada. A voz do pai bramava por sobre as outras, exigindo saber quem era o responsável pela afronta.

Mas a afronta ainda não principiara.

Quando tal aconteceu, o cérebro do Vittorio Fontiní-Cristi estalou. Foi ensurdecido por trovões e cegado por relâmpagos. Lançou-se para a frente, cada grama do corpo a tentar libertar a mão do aperto de Barzini, torcendo-se, revolvendo-se, tentando desesperadamente soltar o pescoço e o queixo do aperto estrangulador de Barzini.

Porque os homens de fato preto lá em baixo tinham aberto fogo. As mulheres arremessavam-se sobre os filhos, os irmãos precipitavam-se contra as armas que dilaceravam a noite com fogo e morte. Os gritos de terror, sofrimento e afronta cresceram sob a luz ofuscante do campo de execução. Ergueram-se ondulações de fumo; havia corpos que ficavam paralisados em pleno ar, suspensos de roupagens empapadas de sangue. Crianças eram cortadas ao meio, bocas e olhos arrebatados pelas balas. Pedaços de carne, crânios e intestinos eram projectados através dos turbilhões de névoa. Um corpo de criança explodiu nos braços da mãe. E Vittorio Fontini-Cristi continuava a ver-se incapaz de soltar-se, de seguir os seus próprios ditames.

Sentiu um peso morto a empurrá-lo para baixo e a seguir um repuxar arrebatador e sufocante do maxilar inferior, que lhe silenciou todo o som dos lábios.

Foi então que as palavras trespassaram a cacofonia de tiros e gritos humanos lá de baixo. A voz era medonha e o seu troar retalhado pelo fogo de pistolas-metralhadoras, mas não silenciado.

Era o pai. Gritando-lhe sobre os abismos de morte:

- Champoluc... Zurique é Champoluc... Zurique é o rio... Ckampoluuuc...

Vittorio rangeu os dentes de encontro aos dedos que tinha dentro da boca arrancando o maxilar da articulação. Com um sacão, libertou momentaneamente a mão - a mão que empunhava a pistola - e tentou erguê-la e disparar lá para baixo.

Mas de repente não conseguiu. O mar de opressão estava de novo sobre ele e tinha o pulso intoleravelmente torcido; a pistola soltou-se com um sacão, A mão enorme que lhe tinha aferrado o maxilar estava a empurrar-lhe o rosto contra a terra fria. Sentiu o sangue na boca, nos lábios, misturado com lama.

E o horrível grito vindo do vórtice de morte chegou-lhe mais uma vez aos ouvidos:

- Ckampoluc!

E logo foi silenciado.

 

30 de Dezembro de 1939

«Champoluc... Zurique é Champoluc... Zurique é o rio...»

As palavras eram gritos e a agonia tornava-as indistintas. Os olhos da sua mente estavam inundados de luz branca, explosões de fumo e profundos laivos rubros de sangue; os seus ouvidos captavam os gritos de sobressaltado abalo, de terror, da afronta perante a dor infinita e a terrível chacina.

Tinha acontecido. Ele fora testemunha do quadro da execução: homens fortes, crianças trémulas, esposas e mães. A sua.

Oh, meu Deus!

Vittorio torceu a cabeça e enterrou a cara no pano grosseiro da cama primitiva, com as lágrimas a correrem pela cara. Era tecido, e não a lama fria e áspera; tinha sido deslocado. A última coisa que recordava era a sua cara a ser comprimida com uma força enorme contra a dura terra do talude. Comprimida e furiosamente imobilizada, os olhos cegos, os lábios cheios de sangue morno e terra fria.

Com os ouvidos apenas por testemunhas da angústia.

«Champoluc!»

Mãe de Deus, tinha acontecido!

Os Fontini-Cristi haviam sido chacinados sob as luzes brancas de Campo dí Fiori. Todos os Fontini-Cristi menos um. E esse um obrigaria Roma a pagar. O último Fontini-Cristi retalharia, camada por camada, a carne do rosto de il Duce; a última coisa seriam os olhos: a lâmina havia de entrar lentamente.

- Vittorio. Vittorio.

Ouvia o seu nome e no entanto não o ouvia. Era um sussurro insistente, e os sussurros eram sonhos de angústia.

- Vittorio.

O peso estava novamente sobre os seus braços; o sussurro vinha de cima, na escuridão. O rosto de Guido Barzini estava a escassos centímetros do seu; os olhos tristes e vigorosos do encarregado das cavalariças reflectiam-se num raio de luz débil.

- Barzini? - foi tudo quanto conseguiu dizer.

- Desculpe-me. Não havia por onde escolher, não havia outro processo. Teria sido morto juntamente com os outros.

- Sim, eu sei. Executado. Mas porquê? Em nome de Deus, porquê?

- Os alemães. É tudo quanto sabemos de momento. Os alemães queriam os Fontini-Cristi mortos. Querem-no morto. Os portos, os aeroportos, as estradas, todo o Norte da Itália está sob vigilância.

- Roma permitiu-o. - Vittorio ainda sentia o sabor do sangue na boca.

ainda sentia a dor no maxilar.

- Roma cala-se - disse abafadamente Barzini. - Só uns quantos falam.

- Que dizem eles?

- O que os alemães querem que eles digam. Que os Fontini-Cristi eram traidores, mortos pela sua própria gente. Que a família estava a ajudar os franceses enviando armas e dinheiro para além-fronteiras.

- Absurdo.

- Roma é absurda. E está cheia de cobardes. O informador foi descoberto. Está pendurado pelos pés, nu, na Piazza del Duomo, com o corpo crivado de balas e a língua pregada à cabeça. Houve um partigiano que pôs um letreiro por baixo a dizer: «Este porco traiu a Itália: o seu sangue corre dos estigmas dos Fontini-Cristi».

Vittorio virou a cara. As imagens queimavam: o fumo branco sob a luz branca, os corpos suspensos, abruptamente imobilizados na morte, um milhar de súbitas manchas de espesso vermelho; a execução de crianças.

- Champoluc - segredou Vittorio Fontini-Cristi.

- Como disse?

- O meu pai. Quando estava a morrer, quando o tiroteio o destroçava, gritou o nome «Champoluc». Aconteceu qualquer coisa em Champoluc.

- Que quer isso dizer?

- Não sei. Champoluc fica nos Alpes, em plenas montanhas. «Zurique é Champoluc. Zurique é o rio», foi o que ele disse. Gritou-o ao morrer. Contudo, não há nenhum rio no Champoluc.

- Não posso ajudá-lo - disse Barzini, sentando-se na cama, com ansiedade nos olhos interrogadores e no acanhado esfregar das grandes mãos uma na outra. - Não há muito tempo para insistir nisso, ou para pensar. Agora não.

Vittorio ergueu os olhos para o enorme e embaraçado criado de lavoura sentado na borda da primitiva cama. Encontravam-se num quarto construído de pranchas de madeira grossa. Havia uma porta, apenas parcialmente aberta, a três ou quatro metros. Notou a ausência de janelas. Viam-se várias outras camas; não sabia dizer quantas. Tratava-se de uma camarata para trabalhadores.

- Onde estamos?

- Do outro lado do Maggiore, a sul de Baveno. Numa herdade de criação de cabras.

- Como viemos aqui parar?

- Foi uma viagem tremenda. Os homens da beira-rio tiraram-nos de lá de carro. Vieram ter connosco num automóvel veloz, à estrada a poente de Campo di Fiori. O partigiano de Roma sabe de remédios: deu-lhe uma injecção hipodérmica.

- Você carregou comigo desde a margem até à estrada de poente?

- Sim.

- É mais de um quilómetro e meio.

- Talvez. O senhor é forte, mas não é assim tão pesado. - Barzini pôs-se de pé.

- Salvou-me a vida. - Vittorio apoiou as mãos com força no cobertor grosseiro e ergueu-se até ficar sentado, com as costas contra a parede.

- Não é na própria morte que a pessoa encontra a vingança.

- Compreendo.

- Temos ambos de partir. O senhor para fora de Itália, eu para Campo di Fiori.

- Vai regressar?

- É lá que mais posso fazer de bem. De mal.

Fontini-Cristi fitou Barzini por um momento. Quão rapidamente o inimaginável se transformava na realidade prática! Quão rapidamente os homens reagiam barbaramente ao que era bárbaro; e quão necessária era essa reacção! Mas não havia tempo. Barzini tinha razão: a reflexão viria mais tarde.

- Há alguma maneira de eu sair do país? Você disse que todo o Norte da Itália estava sob vigilância.

- Todas as vias habituais. É uma caçada ao homem montada por Roma e dirigida pelos alemães. Há outras maneiras. Os britânicos vão ajudar, ao que consta.

- Os britânicos?

- É o que corre. Estiveram a noite inteira em rádios de partigiani.

- Os britânicos? Não compreendo.

O veículo era um velho camião agrícola com maus travões e a embraiagem a patinar, mas suficientemente robusto para o mau piso das estradas do interior. Não se comparava com as motocicletas ou os automóveis oficiais, mas era excelente para viajar de um ponto a outro na região rural: um camião mais transportando umas quantas cabeças de gado que sacolejavam irregularmente na caixa aberta de ripas.

Vittorio estava vestido, tal como o seu condutor, com a roupa suja, entranhada de estrume e manchada de suor de um trabalhador rural. Tinham-lhe arranjado um sebento e mutilado bilhete de identidade que lhe conferia o nome de Aldo Ravena, ex- soldato semplicé do Exército italiano. Podia pressupor-se que a sua instrução escolar era mínima; qualquer conversa que porventura tivesse com a polícia seria simples, rude e talvez um tudo-nada hostil.

Rolavam desde o alvorecer, para sudoeste, rumo a Turim, onde inflectiram para sueste, em direcção a Alba. Caso não houvesse interrupções de monta, alcançariam Alba ao cair da noite.

Num café da praça principal de Alba, San Giorno, estabeleceriam contacto com os britânicos: dois operacionais enviados pelo MI 6. A sua missão consistiria em conduzirem Fontini-Cristi até ao litoral, passando pelas patrulhas que vigiavam cada quilómetro da costa de Génova até San Remo. Pessoal italiano, eficiência alemã, soubera Vittorio.

Aquela zona da costa no golfo de Génova era considerada a mais propícia a infiltrações. Durante anos fora uma rota de abastecimento primordial para os contrabandistas corsos. Efectivamente o Urdo Corso reivindicava como suas as praias e as escarpas rochosas do oceano. Chamavam àquela costa a barriga mole da Europa; conheciam-na a palmo.

O que era óptimo, pela parte que tocava aos britânicos. Contratavam os corsos, cujos serviços eram postos à disposição de quem fizesse a melhor oferta. O Corso ajudaria Londres a fazer passar Fontini-Cristi pelas patrulhas

 

' Em italiano no original: «Soldado raso». (N.. do T.)

No original, «expresso bar», isto é, um café onde se serve essencialmente a típica bebida que lhe dá o nome. (N.. do T.)

 

e até ao mar, onde, num encontro prefixado a norte de Rogliano, na costa corsa, um submarino da Royal Navy viria à superfície e recolhê-lo-ia.

Foram estas as informações prestadas a Vittorio- pela ralé de lunáticos de que escarnecera como sendo crianças entregues a jogos primitivos. Os maltrapilhos e esgazeados loucos que haviam estabelecido uma indefensável aliança com homens como o seu pai tinham-lhe salvo a vida. Estavam a salvar-lhe a vida. Franzinos e rufiões camponeses que tinham comunicações directas com os longínquos britânicos... Longínquos, mas não tão distantes como tudo isso. Não mais distantes que Alba.

Como? Porquê? Que estavam os ingleses a fazer, santo nome de Deus? Por que razão o faziam? Que estavam a fazer homens que ele mal reconhecera, aos quais mal falara alguma vez na vida - a não ser para dar ordens e ignorá-los -, que estavam eles a fazer? E porquê? Ele não era um amigo; não seria porventura um inimigo, mas amigo é que não era.

Eram estas as perguntas que atemorizavam Vittorio Fontini-Cristi. Um pesadelo explodira em luz branca e morte, e ele não era capaz de compreender - mesmo que o quisesse - a sua própria sobrevivência.

Estavam a treze quilómetros de Alba, numa sinuosa estrada de terra que corria paralelamente à auto-estrada principal de Turim. O partigiano que conduzia estava fatigado, com os olhos injectados pelo longo dia de sol radioso. As sombras do entardecer começavam a pregar-lhe partidas à visão; doíam-lhe visivelmente as costas do esforço constante. Excepto as raras paragens para reabastecer, não se levantara do assento. O tempo era vital.

- Deixe-me conduzir um bocado.

- Estamos quase a chegar, signore. Não conhece a estrada, e eu conheço. Vamos entrar em Alba pelo lado oriental, pela auto-estrada de Canelli. Pode haver soldados na fronteira do município. Lembre-se do que deve dizer.

- O menos possível, penso eu.

O camião entrou no trânsito moderado da Via Canelli e manteve uma velocidade constante juntamente com os outros veículos. Tal como o condutor dissera, havia dois soldados na fronteira do município.

Por uma qualquer de dezenas de razões, o camião foi mandado parar. Saíram da estrada, encostando à berma de areia, e aguardaram. Um sargento aproximou-se da janela do condutor e uma praça postou-se laconicamente junto à de Fontini-Cristi.

- De onde é que vocês são? - perguntou o sargento.

- De uma herdade a sul de Baveno - respondeu o partigiano.

- Vêm lá de cascos de rolha para uma remessa tão pequena? Vejo aí apenas cinco cabras.

- Gado reprodutor. São animais melhores do que parecem. Dez mil liras os machos e oito mil as fêmeas.

O sargento ergueu o sobrolho. Não sorriu ao falar.

- Tu não pareces valer isso, paisan'. A tua identificação?

O resistente meteu a mão no bolso de trás e puxou de uma carteira coçada. Tirou de lá o bilhete de identidade e estendeu-o ao soldado.

- Aqui diz que és de Varallo.

- Sou natural de Varallo. Trabalho em Baveno.

 

' Existe a forma napolitana paisà, por paesatw, «patrício». (N. do T.)

 

- A sul de Baveno - corrigiu friamente o soldado.

- Tu! - disse o sargento, dirigindo-se a Vittorio. - A tua identificação. Fontini-Cristi enfiou a mão no blusão, passando ao lado da coronha da

pistola, e tirou o cartão. Estendeu-o ao condutor, o qual o passou ao soldado.

- Estiveste em África?

- Estive, sim, meu sargento - retorquiu Vittorio abruptamente.

- Que regimento?

Fontini-Cristi manteve-se calado. Não tinha resposta. Principiou a pensar a toda a velocidade, tentando recordar das notícias um número ou um nome.

- O Sétimo - respondeu.

- Estou a ver. - O sargento devolveu-lhe o cartão, e Vittorio respirou fundo. Mas o alívio foi de pouca dura. O soldado deitou a mão ao puxador da porta, baixou-o com um puxão e abriu a porta de rompante. - Saiam! Os dois!

- O quê? Porquê? - objectou o resistente com um queixume sonoro. - Temos de fazer a entrega até ao anoitecer! Já quase não temos tempo.

- Cá para fora. - O sargento tinha sacado o revólver do coldre de couro preto e apontava-o aos dois homens. Sobre a capota do motor, regougou a ordem à praça: - Tira-o cá para fora! Cobre-o!

Vittorio olhou para o condutor. O olhar do resistente disse-lhe que fizesse o que lhe mandavam. Mas que se mantivesse preparado para entrar em acção: o olhar do homem dizia-lhe também isso.

Fora do camião, na berma de areia, o sargento ordenou aos dois homens que se dirigissem para o posto da guarda, que ficava junto de um poste telefónico. Um fio de telefone pendia em arco de uma caixa dejunção e estava ligado ao telhado do pequeno cubículo; a porta, estreita, estava aberta.

Na Via Canelli o trânsito do crepúsculo era agora mais intenso; ou então parecia mais intenso a Fontini-Cristi. Havia sobretudo automóveis, com uma diminuta quantidade de camiões, que não deixavam de parecer-se com o camião agrícola que eles conduziam. Uma porção de condutores afrouxava perceptivelmente ao ver os dois soldados, de armas aperradas, escoltando os dois civis até ao posto da guarda. Depois aceleravam, ansiosos por se afastarem dali.

- Não têm o direito de nos deter - exclamou o resistente. - Não fizemos nada de ilegal. Não é nenhum crime ganhar a vida!

- É um crime prestar informações falsas, paisan.

- Nós não prestámos informações falsas! Somos trabalhadores de Baveno e, pela Mãe de Deus, é a pura verdade!

- Tem cuidado - disse sarcasticamente o soldado. - Olha que acrescentamos o sacrilégio às acusações. Lá para dentro!

O posto da guarda à beira da estrada parecia ainda mais pequeno do que se afigurava da Via Canelli. Não tinha mais de metro e meio de fundo, e talvez dois de comprimento. Quase não havia espaço para os quatro. E a expressão do olhar do resistente disse a Vittorio que a proximidade era uma vantagem.

- Revista-os - ordenou o sargento.

A praça pousou a espingarda no chão, com o cano para cima. O condutor resistente fez uma coisa estranha. Levantou os braços cruzados sobre o peito, preventivamente, por cima do casaco, como se fosse um acto consciente de desafio. Porém, o homem não estava armado; tinha-o esclarecido bem com Fontini-Cristi.

- Vocês vão-me roubar! - disse, mais alto do que era preciso, fazendo vibrar a choupana de madeira com as palavras. - Os soldados roubam!

- Não queremos saber das tuas liras para nada, paisan. Há carros na auto-estrada que dão mais nas vistas. Tira as mãos do casaco.

- Até em Roma se dão razões! Il Duce em pessoa diz que não se devem tratar assim os trabalhadores! Eu marcho com os guardas fascistas; o meu passageiro serviu em África!

«Que estava o homem a fazer?», pensou Vittorio. «Por que razão se comportava daquela maneira? Apenas irritaria os soldados».

- Estás a pôr a minha paciência à prova, sebentão! Andamos à procura de um homem do Maggiore. Todos os postos de estrada procuram esse homem. Vocês foram mandados parar porque a matrícula do vosso camião é do distrito de Maggiore... Levanta os braços!

- Baveno! Não é Maggiore! Nós somos de Baveno! Onde é que estão as mentiras?

O sargento olhou para Vittorio.

- Não há nenhum soldado que diga que esteve em África no Sétimo Regimento. Essa unidade ficou desonrada.

Mal o guarda do exército acabava, quando o resistente gritou a sua ordem:

- Agora, signore! Agarre o outro!

A mão do motorista baixou, descrevendo um arco, precipitando-se para o revólver que o sargento empunhava, a centímetros apenas do seu estômago. A brusquidão da atitude e o rugido demolidor da voz do resistente no acanhado cubículo tiveram o efeito de uma colisão inesperada. Vittorio não teve tempo de observar; só pôde fazer votos para que o seu companheiro soubesse o que estava a fazer. A praça tinha mergulhado para se apossar da espingarda, com a mão esquerda no cano e a direita a lançar-se à coronha. Fontini-Cristi arremessou todo o seu peso sobre o homem, lançando-o contra a parede, com ambas as mãos dos lados da cabeça da praça, esmagando-a de encontro à rija superfície de madeira. O boné da praça caiu; o sangue alastrou imediatamente por toda a extensão da raiz do couro cabeludo e escorreu pela cabeça do homem, que se abateu no solo.

Vittorio voltou-se. O sargento estava encurralado no canto da pequena casa da guarda, com o resistente por cima dele, a golpeá-lo repetidamente com a própria pistola. A cara do soldado era uma massa de carne dilacerada, de sangue e de pele rasgada.

- Depressa! - gritou o resistente quando o sargento tombou. - Traga o camião para a entrada! Mesmo para a entrada: enfie-o entre a estrada e o posto da guarda. Mantenha o motor a trabalhar.

- Muito bem - disse Fontini-Cristi, aturdido pela brutalidade e pelo desfecho da acção.

- E, signore! - exclamou o resistente, quando Vittorio tinha já um pé fora da porta.

- Sim?

- A sua arma, por favor. Deixe-me usá-la. Este armamento da tropa faz uma barulheira que parece um trovão.

Fontini-Cristi hesitou e a seguir sacou da arma e passou-a ao homem. Depois, o resistente estendeu a mão para o telefone de manivela da parede e arrancou-o.

Vittorio levou o camião para a frente do posto da guarda, com os pneus da

esquerda necessariamente sobre a superfície dura da auto-estrada; não havia espaço suficiente na berma para encostar deixando completamente a estrada. Fez votos para que os farolins traseiros fossem suficientemente potentes para os carros que passavam à desfilada - agora em muito maior número - verem o obstáculo e contornarem-no.

O resistente saiu da casa da guarda e falou pela janela.

- Acelere o motor, signore. Com tanta força e barulho quanto possa. Fontini-Cristi assim fez. O resistente regressou correndo ao posto da

guarda. Na mão direita empunhava a pistola de Vittorio.

Os dois disparos foram cavos e distintos: detonações abafadas que constituíram explosões súbitas e terríveis dentro dos sons do trânsito que passava impetuosamente e do motor em regime acelerado. Vittorio ficou a olhar, tendo como emoções um misto de respeitoso temor, medo e, inexplicavelmente, pesar. Tinha entrado num mundo de violência que não compreendia.

O resistente emergiu do posto da guarda, fechando a estreita porta atrás de si. Saltou para o camião, bateu com a porta do seu lado e fez um aceno de cabeça a Vittorio. Fontini-Cristi aguardou durante alguns momentos uma aberta no trânsito e depois aliviou a embraiagem. O velho camião avançou aos sacões.

- Há uma garagem na Via Monte que vai esconder o camião, pintá-lo e trocar as chapas de matrícula. Fica a menos de um quilómetro e meio da Piazza San Giorno. Vamos da garagem para lá a pé. Eu digo-lhe onde voltar.

O resistente estendeu a pistola a Vittorio.

- Obrigado - disse Fontini-Cristi, acanhadamente, ao enfiar a arma no bolso do blusão. - Matou-os?

- Claro - foi a resposta simples,

- Suponho que tinha de o fazer.

- Naturalmente. Quanto a si, estará em Inglaterra, signore. Eu, em Itália, podia ser identificado.

- Compreendo - respondeu Vittorio, com hesitação na voz.

- Não pretendo faltar-lhe ao respeito, Signore Fontini-Cristi, mas não me parece que compreenda mesmo. Para os senhores, de Campo di Fiori, tudo isto é novidade. Para nós não é novidade nenhuma. Há vinte anos que estamos em guerra; eu, por mim, há dez.

- Guerra?

- Sim. Quem é que pensa que dá instrução aos vossos partigiani?

- Que quer dizer com isso?

- Sou comunista, signore. Quem mostra aos poderosos, aos capitalistas Fontini-Cristi como lutar são comunistas.

O camião avançava velozmente; Vittorio segurava firmemente o volante, admirado mas estranhamente impassível perante as palavras do seu companheiro.

- Não sabia disso - respondeu.

- É singular, não é? - tornou o resistente. - Nunca ninguém perguntou.

 

28 de Dezembro de 1939 Alba, Itália

O café estava à cunha, as mesas cheias e as vozes soavam altas. Vittorio seguiu o resistente por entre a mole de mãos a gesticular e corpos que se afastavam relutantemente contra o balcão; mandaram vir café com Strega.

- Além - disse o resistente, indicando uma mesa ao canto com três operários sentados, cuja condição era testemunhada pelas roupas sujas e barba crescida. Havia uma cadeira vaga.

- Como é que sabe? Pensava que tínhamos ficado de encontrar-nos com dois homens, e não três. E britânicos. Além disso, não cabemos: só há uma cadeira.

- Olhe para o homem mais corpulento, à direita. A identificação está nos sapatos. Têm salpicos de tinta cor de laranja, não muitos, mas visíveis. Esse é que é o corso. Os outros dois são ingleses. Vá até lá e diga: «A nossa viagem correu sem novidade», e mais nada. O homem dos sapatos há-de levantar-se; ocupe o lugar dele.

- E você?

- Vou ter convosco daqui a um minuto. Tenho de falar com o corso. Vittorio fez o que o outro lhe dizia. O homem corpulento dos pingos de tinta

nos sapatos levantou-se, soltando um suspiro de incómodo; Fontini-Cristi sentou-se. O britânico que estava defronte dele falou: o seu italiano era gramaticalmente correcto, mas hesitante; tinha aprendido a língua, mas não a maneira de falar.

- Os nossos mais sentidos pêsames. Absolutamente horrível. Vamos levá-lo daqui.

- Obrigado. Não prefere falar inglês? Eu falo-o fluentemente.

- Óptimo - disse o segundo homem. - Não tínhamos a certeza. Tivemos pouco tempo para nos documentarmos a seu respeito. Enfiaram-nos esta manhã num avião em Lakenheath. Os corsos foram buscar-nos a Pietra Ligure.

- Aconteceu tudo muito depressa - disse Vittorio. - O choque ainda não passou.

- Nem vejo como poderia ter passado - disse o primeiro homem. - Mas ainda não estamos a salvo. Vai ter de conservar a cabeça no lugar. As nossas ordens são para garantirmos, sob palavra de honra, o seu regresso a Londres: não voltar sem o senhor, isso é ponto assente.

Vittorio olhou alternadamente para ambos os homens.

- Posso perguntar-lhes porquê? Compreendam, por favor, que estou agradecido, mas a vossa preocupação parece-me invulgar. Por que razão sou eu tão importante para os britânicos?

- Diabos nos levem se sabemos - retorquiu o segundo agente. - Mas o que lhe posso dizer é que ontem à noite andou tudo numa fona. Toda a noite. Estivemos desde a meia-noite até às quatro da manhã no Ministério da Aeronáutica. Todos os quadrantes dos rádios em todas as salas de operações brilhavam como doidos. Estamos a trabalhar com os corsos, sabe?

- Sim, já me disseram.

O resistente abriu caminho até à mesa por entre a multidão. Puxou uma cadeira vaga e sentou-se, com um copo de Strega na mão. A conversa prosseguiu em italiano.

- Tivemos um problema na estrada de Canelli. Um posto de controlo. Foi preciso suprimir dois guardas.

- Qual é o intervalo? - perguntou o agente à direita de Fontini-Cristi. Era um homem esguio, um tanto ou quanto mais enérgico que o parceiro. Ao ver a expressão intrigada do rosto de Vittorio, esclareceu: - Quanto tempo pensa ele que temos até ser dado o alarme.

- Meia-noite. Quando chegar o turno da meia-noite. Ninguém se rala com telefones que não respondem. O equipamento está constantemente a avariar.

- Bom trabalho - disse o agente do outro lado da mesa. Tinha uma cara mais cheia do que o compatriota; falava mais devagar, como se estivesse constantemente a escolher as palavras. - Imagino que é bolchevista.

- Sou, sim - respondeu o resistente, com a hostilidade a vir ao de cima.

- Não, não, por favor - aduziu o agente. - Eu gosto de trabalhar com a vossa gente. É muito meticulosa.

- O MI Seis é delicado.

- A propósito - disse o britânico à direita de Vittorio -: eu sou o «Maçã», e ele é o «Pêra».

- Sabemos quem o senhor é - disse «Pêra» a Fontini-Cristi.

- O meu nome não tem importância - disse o resistente com uma ligeira risada. - Eu não vou com vocês.

- Vamos tratar disso, sim? - «Maçã» estava ansioso, mas controlado ao ponto de ser reservado. - Da ida. Além disso, Londres quer estabelecer comunicações mais sólidas.

- Sabíamos que Londres havia de querê-lo.

Os três homens entregaram-se a uma conversa profissional que Vittorio achou extraordinária. Falavam de rotas, códigos e frequências de rádio como se estivessem a discutir cotações na Bolsa. Abordaram a necessidade de suprimir, aniquilar diversas pessoas em posições específicas - não homens, não seres humanos, mas factores que tinham de ser eliminados.

Que género de homens eram aqueles três? «Maçã», «Pêra», um bolchevista sem nome, apenas um bilhete de identidade falso. Homens que matavam sem raiva, sem remorso.

Pensou em Campo di Fiori. Sobre ofuscantes projectores brancos, tiroteio e morte. Ele agora podia matar, perversa, selvaticamente, mas não era capaz de falar da morte como aqueles homens falavam.

- ... arranjar-nos um arrastão conhecido das patrulhas costeiras. Compreende? - «Maçã» estava a falar com ele, mas ele não o escutara.

- Desculpe - disse Vittorio. - estava a pensar noutra coisa.

 

Em italiano no original: «seis». (A. do T.)

 

- Temos muito para andar - retrucou «Pêra». - Mais de oitenta quilómetros até à costa e a seguir um mínimo de três horas na água. Pode acontecer muita coisa.

- Procurarei manter-me mais atento.

- Faça melhor do que tentar - redarguiu «Maçã», num tom de irritação controlada. - Não sei o que fez o senhor aos Negócios Estrangeiros, mas o certo é que é um indivíduo de elevada prioridade. Se não o sacamos daqui, dão-nos cabo do canastro. Portanto, escute! Os corsos vão transportar-nos até à costa. Haverá quatro mudanças de veículos...

- Espere! - O resistente estendeu a mão sobre a mesa e agarrou o braço de «Maçã». - O homem que estava aqui sentado convosco, o dos sapatos salpicados de tinta: onde foi que o apanharam? Depressa.

- Aqui em Alba. Há uns vinte minutos.

- Quem foi que estabeleceu contacto primeiro?

Os dois ingleses olharam um para o outro. Fugazmente, com imediata preocupação.

- Foi ele - respondeu «Maçã».

- Ponham-se a andar daqui. Já! Usem a cozinha!

- O quê? - «Pêra» estava a olhar para o balcão do café.

- Vai a caminho da saída - disse o resistente. - Devia esperar por mim. O homem corpulento abria caminho por entre a turba até à porta. Fazia-o o

mais discretamente possível: dir-se-ia porventura um bebedor dirigindo-se aos lavabos.

- Que acha? -.- perguntou «Maçã».

- Acho que há uma boa quantidade de homens por Alba fora com tinta nos sapatos. Estão à espera de estrangeiros cujos olhos vagueiam pelo chão. - O comunista levantou-se da mesa. - O código de contacto foi furado. Acontece. Os corsos vão ter de mudá-lo. Agora, desandem!

Os dois ingleses levantaram-se das cadeiras sem quaisquer mostras de pressa. Vittorio aproveitou a deixa e pôs-se de pé. Estendeu a mão e tocou na manga do resistente. O comunista ficou espantado: tinha os olhos pregados no homem corpulento, que estava prestes a enfiar-se pelo meio da multidão.

- Quero agradecer-lhe.

O resistente fitou-o por um instante.

- Está a desperdiçar tempo - observou.

Os dois britânicos sabiam exactamente onde ficava a cozinha e, por conseguinte, a saída para onde dava a cozinha. O beco lá fora era imundo: havia latas de lixo em fila contra as paredes de estuque, com o entulho a transbordar. O beco fazia ligação entre a Piazza San Giorno e a rua traseira, mas tão mal iluminado e semeado de porcaria que as pessoas não o utilizavam.

- Por aqui - disse «Maçã», virando à esquerda, afastando-se da piazza. - Depressa, agora.

Os três homens abandonaram o beco em corrida. A rua estava suficientemente cheia de transeuntes e lojistas para lhes proporcionar cobertura. «Maçã» e Pêra» assumiram um passo descuidado; Vittorio seguiu-lhes o exemplo. Apercebeu-se de que os agentes se tinham disposto de maneira a enquadrá-lo.

- Não sei bem se o bolchevistazito teria razão - comentou «Pêra». - O nosso corso podia simplesmente ter visto um amigo. Foi tremendamente convincente.

- Os corsos têm a sua própria linguagem - interpôs Vittorio, pedindo desculpa quando por pouco não chocou com um transeunte que vinha em sentido contrário.

- Não poderia descobrir falando com ele?

- Não faça isso - disse incisivamente «Maçã»,

- O quê?

- Não seja tão tremendamente delicado. Não condiz lá muito com a maneira como está vestido. Para responder à sua pergunta, os corsos utilizam contactos regionais por toda a parte. Todos o fazemos. São de nível inferior, meros mensageiros.

- Estou a ver. - Fontini-Cristi olhou para o homem que se intitulava «Maçã». Caminhava descuidadamente, mas os olhos não paravam de perscrutar toda a rua envolta na noite. Vittorio virou a cabeça e fitou «Pêra». Estava a fazer precisamente o mesmo que o seu compatriota: observava os rostos na multidão, os recessos nos edifícios de cada um dos lados da rua.

- Aonde vamos? - perguntou Fontini-Cristi.

- Até um quarteirão de distância do local onde o nosso corso nos disse para estarmos - respondeu «Maçã».

- Mas pensava que vocês suspeitavam dele. Foi «Pêra» quem falou:

- Eles não nos verão porque não sabem o que procurar. O bolchevista vai apanhar o corso napiazza. Se tudo estiver em regra, chegarão juntos. Se não, e se o seu amigo for competente, será ele o único.

A zona das lojas flectia para a esquerda, em direcção à entrada sul da Piazza San Giorno. A entrada era assinalada por uma fonte, com a bacia circular da base emporcalhada de lixo de origem vária. Havia homens e mulheres sentados na borda a mergulhar as mãos na água suja; crianças gritavam e corriam nas pedras da calçada, sob o olhar vigilante dos pais.

- A estrada que fica para lá - disse «Maçã, acendendo um cigarro e fazendo um gesto na direcção do largo passeio que se via através do repuxo da fonte - é a Via Ligata. Leva à auto-estrada costeira. Duzentos metros abaixo fica uma rua lateral onde o corso disse que estaria um táxi à espera.

- Não será a rua lateral por acaso um beco sem saída? - «Pêra» formulou a pergunta com um certo desdém. Não esperava verdadeiramente uma resposta.

- Não é mesmo uma coincidência? Estava a pensar a mesma coisa. Vamos tirá-lo a limpo. O senhor - disse «Maçã», a Vittorio - fica com o meu parceiro e faz exactamente o que ele disser.

O agente atirou o fósforo para o chão, puxou uma grande baforada do cigarro e encaminhou-se rapidamente para a fonte. Quando se achou a uns metros da bacia, afrouxou e a seguir, para espanto de Vittorio, desapareceu, completamente perdido na multidão.

- Faz aquilo com bastante limpeza, não faz? - perguntou «Pêra».

- Não consigo distingui-lo. Não o vejo.

- Não está previsto que veja. Um bom corre-e-some, feito à luz devida, pode ser muito eficiente. - Encolheu os ombros: - Vamos andando. Mantenha-se ao meu lado e converse um bocado. E faça gestos. Vocês gesticulam como doidos.

Vittorio sorriu perante a banalidade do inglês. No entanto, à medida que avançavam para o interior da turba, tomou consciência de mãos a mexer, braços fustigando o ar e súbitas exclamações. O britânico conhecia os italianos. Conservou-se a par do agente, fascinado pelo espírito decidido do homem. De repente, «Pêra» apertou o braço a Vittorio e puxou-o para a esquerda, indo ambos em direcção a um espaço que vagara recentemente na borda do fontanário. Fontini-Cristi ficou surpreendido: pensava que o objectivo era alcançar a Via Ligata o mais rápida e discretamente possível.

Foi então que percebeu. Os olhos experientes e profissionais do britânico tinham visto aquilo que o amador não vira: o sinal.

Vittorio sentou-se do lado direito do agente, de cabeça baixa. Os primeiros objectos em que a sua vista se focou foram um par de sapatos estafados com salpicos de tinta cor de laranja no couro gasto. Um único par de sapatos imóveis nas sombras animadas de corpos em movimento. Depois Vittorio ergueu a cabeça e quedou-se paralisado. O resistente que servira de condutor amparava o corpo entroncado do contacto corso, como se estivesse a auxiliar um amigo que tivesse bebido de mais. Mas o contacto não estava bêbado. Tinha a cabeça tombada e os olhos abertos, cravados na escuridão móvel em baixo. Estava morto.

Vittorio recostou-se na borda da bacia, hipnotizado pelo que os seus olhos viam ali em baixo. Um fino e regular fio de sangue empapava as costas da camisa do corso, escorrendo pela pedra da parede interna do fontanário, misturando-se com a água e fazendo círculos e remoinhantes semicírculos sob a luz intermitente dos candeeiros da piazza.

A mão do resistente estava fincada no tecido, amarfanhando a camisa em volta da zona encharcada de sangue, com os nós dos dedos e o pulso ensopados. E tinha no punho o cabo de uma faca.

Fontini-Cristi procurou recuperar do abalo.

- Estava a fazer votos por que você parasse - disse o comunista ao inglês.

- Pouco faltou para que não parasse - retorquiu «Pêra», no seu italiano excessivamente gramatical. - Foi só quando vi aquele par levantar-se daqui. - O agente apontou para a borda onde ele e Vittorio estavam sentados. - São seus, imagino.

- Não. Quando vocês estavam mais perto, disse-lhes que o meu amigo estava à beira de vomitar. É uma cilada, claro. Do tipo rede de pesca: não sabem o que irão apanhar. Furaram o código; ontem à noite. Há para aí uma dúzia de provocatori1 na área, a obrigar a exporem-se quantos alvos podem. Uma batida.

- Nós dizemos aos corsos.

- Não servirá de grande coisa. O código muda amanhã.

- Nesse caso, o ardil é o táxi?

- Não. É o segundo engodo. Eles não estão a correr riscos. O táxi leva os alvos até à rede. A única pessoa que sabe onde fica é o motorista: está ao nível mais elevado.

- Deve haver outros próximos. - «Pêra» levou a mão à boca; era um gesto de reflexão.

- Com certeza.

- Mas quais?

- Há uma maneira de descobrir. Onde está o «Maçã»?

 

' Em italiano no original: «provocadores». (N. do T.)

 

- A estas horas, na Via Ligata. Quis que nos separássemos, para o caso de você ter problemas.

- Vão ter com ele. O problema não foi meu.

- Sim. Bem vejo...

- Mãe de Deus! - exclamou Vittorio em voz abafada, incapaz de manter silêncio. - Estão agarrados a um morto no meio da piazza e põem-se para aqui a tagarelar como mulheres!

- Temos coisas a dizer, signore. Esteja calado e escute. - O resistente volveu o olhar para o inglês, que quase não dera atenção à explosão de Fontini-Cristi. - Vou dar-lhe dois minutos para alcançar o «Maçã». Depois deixo o nosso amigo corso deslizar para o tanque, de costas para cima e com a faca à vista. Vai ser um pandemónio. Serei eu mesmo a iniciar a gritaria. Há-de ouvir-se longe. Será o bastante.

- E nós mantemos os olhos no táxi - interrompeu «Pêra».

- Sim. À medida que a gritaria for aumentando, veja quais as pessoas que falam uma com a outra. Veja quem é que sai para investigar.

- Depois apanhem o raio do táxi e ponham-se a mexer - acrescentou peremptoriamente o agente. - Saiu-se muito bem. Terei muito prazer em voltar a trabalhar consigo.

O britânico pôs-se de pé; Vittorio fez o mesmo, sentindo a mão de «Pêra» no braço.

- O senhor - disse o resistente, erguendo os olhos para Vittorio ao mesmo tempo que amparava o corpo frouxo e entroncado na escuridão ruidosa que se acotovelava, repleta de sombras. - Uma coisa a não esquecer. Uma conversa no meio de muita gente é na maioria das vezes a mais segura. E uma faca na multidão é o mais difícil de investigar. Não se esqueça destas coisas.

Vittorio baixou o olhar para o homem, sem saber bem se o comunista pretendia ou não que as palavras fossem ofensivas.

- Não me esquecerei - respondeu Vittorio.

Seguiram velozmente para a Via Ligata. «Maçã» encontrava-se do outro lado, a abrir lentamente caminho rumo à rua lateral onde o contacto corso dizia que o táxi estaria à espera. Os candeeiros eram mais mortiços que os da piazza.

- Agora, depressa. Lá está ele - anunciou «Pêra» em inglês. - Dê passadas largas, mas não corra.

- Não devíamos ir ter com ele? - inquiriu Vittorio.

- Não. Uma pessoa a atravessar a rua dá menos nas vistas que duas... Pronto. Pare agora..

«Pêra», tirou do bolso uma caixa de fósforos e riscou um. Assim que este se acendeu, apagou-o com uma sacudidela, arremessando-o para o passeio - como se a chama lhe houvesse queimado o dedo - e riscou imediatamente outro, levando-o ao cigarro que tinha posto nos lábios.

Tinham passado menos de dois minutos quando «Maçã» se lhes reuniu junto a um prédio. «Pêra» pô-lo a par da estratégia do resistente. Caminharam os três em silêncio, pelo meio dos transeuntes, percorrendo o passeio até ao fim do quarteirão fronteiro à rua lateral. Do outro lado, sob o débil clarão branco da luz dos candeeiros de iluminação pública, estava o táxi, a cem escassos metros da esquina.

- Não é mesmo uma coincidência? - comentou «Maçã», erguendo o pé contra uma saliência baixa do prédio e puxando a peúga para cima. - É um beco sem saída.

- As tropas não podem estar longe. Aplicou o silenciador?

- Sim. Monte o seu.

«Pêra» virou-se para o prédio e tirou uma automática do interior do blusão. Levou a outra mão ao bolso e extraiu um cilindro com cerca de dez centímetros de comprimento, crivado de perfurações na superfície do ferro, e enroscou-o no cano da arma. Voltou a meter a pistola no blusão, precisamente no momento em que se começou a ouvir gritos provenientes da piazza.

A princípio isolados, quase inaudíveis, depressa se tornaram num pandemónio:

«Polizia! «A quale punto polizia!»; «Assassínio!»; «Omicidío! Mulheres e crianças fugiam correndo da praça; seguiam-se-lhes homens gritando ordens e informações para ninguém e para toda a gente. Entre os gritos surgiram as palavras: «Uomo con arancia scarpe»2, um homem com sapatos cor de laranja. O resistente executara bem o seu trabalho.

A seguir surgiu o próprio resistente no meio da multidão, correndo pelo passeio. Parou a três metros de Fontini-Cristi e dos dois ingleses e berrou em voz alta para quem quer que ouvisse:

- Eu vi-o! Vi-os! Estava mesmo ao lado dele! Aquele homem... tinha os sapatos pintados... Cravaram-lhe uma faca nas costas!

Do sombrio recesso de um edifício, apareceu uma figura correndo pela rua, em direcção ao resistente.

- Você! Chegue aqui!

- O quê!

- Sou da Polícia. Que foi que você viu?

- A polícia. Graças a Deus! Venha comigo! Eram dois homens! De camisola...

Antes que o agente pudesse acertar o passo pelo dele, o resistente largou a correr por entre a turba de regresso à entrada da piazza. O polícia hesitou e a seguir olhou para a rua, frouxamente iluminada. Três homens caminhavam juntos uns metros à frente do táxi. O polícia gesticulou; dois dos homens separaram-se e precipitaram-se no encalço do polícia, que agora corria direito a San Giorno e ao resistente que desaparecia.

- O homem que ficou ao pé do carro. É o condutor - disse «Maçã». - Vamos a isto.

Os momentos que se seguiram foram como que uma névoa. Vittorio seguiu os dois agentes pela Via Ligata até à rua lateral. O homem junto ao táxi tinha-se instalado no lugar do condutor. «Maçã» abeirou-se do carro, abriu a porta e, sem dizer uma palavra, ergueu a pistola. Uma explosão abafada irrompeu da boca do revólver, e o homem tombou para diante; «Maçã» fê-lo rolar sobre o assento até à porta do outro lado. «Pêra» dirigiu-se a Fontini-Cristi:

- Lá para trás! Agora depressa!

 

«Maçã ligou a ignição; o táxi era velho, mas o motor novo e potente.

1. Em italiano no original. Embora um tanto estropiado, parece corresponder a: «Polícia»; «Polícia àquele sítio!»; «Assassínio!»; «Homicídio!». (N. do T.)

' Em italiano no original, todavia com a particularidade de o autor, sem dúvida familiarizado com a construção inglesa, colocar erradamente o adjectivo antes do substantivo. A frase correcta seria Uomo con scarpe arancia. (N. do T.)

 

A marca do automóvel era a trivial Fiat, pensou Víttorio, mas o motor era um Lamborghini.

O carro precipitou-se em frente, virou à direita na esquina e ganhou velocidade na Via Ligata. «Maçã» falou por cima do ombro, dirigindo-se a Pêra»:

- Verifica aí no compartimento das luvas, sim? Este raio desta geringonça pertence a gente muito importante. Iria jurar que não se portaria nada mal em Le Mans.

«Pêra» debruçou-se no assento do carro à desfilada, sobre o encosto de feltro e do cadáver do italiano. Abriu a portinhola do compartimento das luvas e pegou nos documentos, segurando-os num maço na mão. Quando fazia pressão no painel dos instrumentos para regressar ao assento, o carro guinou: «Maçã», tinha virado o volante a fim de ultrapassar dois automóveis. O corpo do italiano morto caiu por cima do braço de «Pêra», que lhe agarrou no pescoço e arremessou violentamente o cadáver de novo para o canto.

Vittorio contemplou a cena embasbacado, com repugnância e incompreensão. Atrás deles, um homem encorpado flutuava sem vida num fontanário da piazza, com o cabo de uma faca a sair da camisa empapada de sangue. Ali, num carro da polícia sem identificação, lançado a toda a velocidade e dissimulado de táxi, estava um homem tombado no banco da frente, com uma bala no corpo inanimado. A quilómetros dali, num pequeno posto da guarda da Via Canelli, jaziam outros dois homens sem vida, mortos pelo comunista que lhe salvara a vida. O pesadelo constante estava a aniquilar-lhe a mente. Susteve a respiração, tentando desesperadamente encontrar um instante de sanidade.

- Ora aqui está! - exclamou «Pêra», brandindo uma folha rectangular de papel grosso que estivera a examinar à débil luz. - Meu Deus, é uma autêntica porta aberta!

- Um salvo-conduto interno, espero bem - disse «Maçã», afrouxando à aproximação de uma curva da estrada.

- É mesmo! O diabo do veícolo está distribuído ao ufficiale segreto. Essa malta tem acesso ao próprio Mussolini.

- Tinha de ser qualquer coisa assim - concordou «Maçã», acenando com a cabeça. - O motor que esta chocolateira tem dentro é uma autêntica maravilha.

- É um Lamborghini - disse Vittorio em voz baixa.

- O quê? - «Maçã» levantou a voz a fim de fazer-se ouvir sobre o rugido do motor na estrada, agora em linha recta. Aproximavam-se os arredores de Alba.

- Disse que é um Lamborghini.

- Sim - retorquiu «Maçã», manifestamente desconhecedor do motor. - Bem, continue a sair-se com coisas desse género. Coisas em italiano, quero eu dizer. Vamos precisar das suas palavras antes de chegarmos ao litoral.

«Pêra» virou-se para Fontini-Cristi. O rosto simpático do inglês mal se distinguia na escuridão. Falou com suavidade, mas a calma insistência da sua voz era inconfundível.

- Estou certo de que tudo isto é muito estranho para si e estou em crer que

 

1 Aqui como mais adiante, incorrectamente grafado Lamborgini. (N. do T.)

 

2 Em italiano no original. Provavelmente o autor pretende com a expressão (à letra, oficial secreto), designar um serviço secreto. (N. do T.)

 

tremendamente desagradável. Mas aquele bolchevista tinha razão. A parte mais difícil deste trabalho não é o fazer: é a pessoa habituar-se a fazê-lo se é que me faço entender. Aceitar que o facto é real, esse é que é o empurrão de que um fulano precisa. Todos nós passámos por isso. É tudo tremendamente revoltante, de certo modo. Mas alguém tem de fazê-lo; é o que nos dizem a nós. E eu sempre lhe direi uma coisa: está a ter um treino em acção bem prático. Não concorda?

- Sim - disse baixinho Vittorio, virando-se para a frente, com os olhos hipnotizados pela estrada que ia desfilando, delineada pelos feixes dos faróis, e a mente paralisada pela súbita pergunta que não conseguia evitar: treino para o quê?

 

31 de Dezembro de 1939 Celle Ligure, Itália

Foram duas horas de loucura. Abandonaram a auto-estrada costeira e transportaram o corpo do motorista para um campo, despindo-o por completo e retirando toda a identificação.

Voltaram à auto-estrada e avançaram velozmente para sul, em direcção a Savona. Os controlos de estrada eram semelhantes aos da Via Canelli: postos de guarda simples ao lado de cabinas telefónicas, com dois soldados de serviço em cada um. Havia quatro postos de controlo; três foram passados com facilidade. O grosso documento oficial que proclamava o veículo como atribuído ao ufficiale segreto era lido com respeito e não pouco temor. Em qualquer dos três postos, foi Fontini-Cristi quem se encarregou das despesas da conversa.

- O senhor é rápido como o diabo - disse «Maçã» lá da frente, abanando a cabeça de comprazida surpresa. - E tinha razão quanto ao ficar aí atrás. Abre essa janela como um príncipe do Penjabe.

O letreiro da estrada revelou-se sob a luz dos faróis.

Entrare Montenotte Sud!

Vittorio reconheceu o nome: era uma daquelas cidades de dimensão média que circundavam o golfo de Génova. Conhecia-a de uma década atrás, quando ele e a mulher tinham percorrido a estrada litoral na sua última viagem a Monte Carlo. Uma jornada que havia culminado uma semana depois em morte. Num automóvel lançado em plena noite.

- A costa fica a cerca de vinte e cinco quilómetros daqui, julgo eu - disse «Maçã», de modo hesitante, interrompendo os pensamentos de Fontini-Cristi.

- Mais para os treze - emendou Vittorio.

- Conhece esta zona? - perguntou «Pêra».

- Fui várias vezes a Cap Ferrat e Villefranche. - «Por que razão não dizia Monte Carlo? Seria que o nome constituía um símbolo?» - Normalmente pela estrada de Turim, mas muitas vezes pela estrada interior que vem de Génova. Montenotte Sud é conhecida pelas suas pousadas.

- Sendo assim, conhece por acaso uma estrada de terra que vai do norte de Savona (pelo meio de uns montes, ao que sei) a Celle Ligure?

- Não. Montes, há-os por todo o lado... Mas conheço Celle Ligure. Fica à

 

1 Sic. A forma correcta seria Entrate Montenotte Sud, ou seja: «Estão a entrar em Montenotte Sud». (N. do T.)

 

beira-mar, logo a seguir a Albisolla. É para lá que vamos?

- É - respondeu «Maçã». - É o nosso ponto de encontro de recurso com os corsos. Caso acontecesse alguma coisa, ficámos de ir até Celle Ligure, a um porto de pesca que fica a sul da marina. Há-de estar assinalado por uma manga de vento verde.

- Bem, alguma coisa, como eles dizem, aconteceu mesmo - interpôs «Pêra». - Tenho a certeza de que há um corso a deambular por Alba perguntando a si mesmo onde estaremos.

Alguns metros adiante, sob o clarão dos faróis, estavam dois militares postados no meio da estrada. Um tinha uma espingarda cruzada à frente do corpo; o outro levantava a mão, fazendo-lhes sinal de paragem. «Maçã» abrandou o andamento do Fiat, obrigando o motor a soltar os sons abafados da potência a ser reduzida.

- Faça o seu papel de grande senhor - disse para Vittorio. - Seja arrogante como o caraças!

O britânico manteve o carro no meio da estrada, sinal de que os ocupantes não esperavam qualquer interrupção: era escusado encostar à berma.

Um dos militares era um tenente, e o companheiro um cabo. O oficial aproximou-se da janela aberta de «Maçã» e fez uma elegante continência ao desleixado civil.

Demasiado elegante, pensou Vittorio.

- A sua identificação, signore - disse cortesmente o militar. Demasiado cortesmente.

«Maçã» ergueu o grosso documento oficial e gesticulou na direcção do desleixado civil. Era a deixa de Vittorio.

- Somos o uficiale segreto, divisão de Génova, e vamos cheios de pressa. Temos trabalho a fazer em Savona. Já fez o seu trabalho; deixe-nos passar imediatamente.

- As minhas desculpas signore. - O oficial pegou no grosso papel na mão de «Maçã» e examinou-o detidamente. Franzia as rugas à medida que os olhos iam esquadrinhando o papel à luz debilíssima. Continuou delicadamente: - Tenho de ver a vossa identificação. Há pouquíssimo trânsito na estrada a esta hora. Todos os veículos têm de ser controlados.

Com súbita irritação, Fontini-Cristi desferiu um murro no cimo do encosto do banco dianteiro:

- Você está a exorbitar! Não se deixe iludir pela nossa aparência. Encontramo-nos em serviço oficial e estamos atrasados para Savona!

- Sim. Bem, tenho de ler isto...

Mas não estava a lê-lo, reflectiu Vittorio. Um homem com luz inadequada não dobrava uma folha de papel para si; se acaso a dobrasse, seria para fora - a fim de apanhar mais luz. O militar estava a ganhar tempo. Quanto ao cabo, tinha-se deslocado para a parte dianteira do Fiat, com a espingarda ainda em diagonal contra o peito, mas com a mão esquerda a segurar o cano mais abaixo. Qualquer caçador conhecia a postura: estava pronto a disparar.

Fontini-Cristi recostou-se no assento, praguejando furiosamente ao fazê-lo.

- Exijo o seu nome e o do seu comandante!

Na parte da frente, «Maçã» tinha deslocado sub-repticiamente os ombros para a direita, tentando ver pelo retrovisor, incapacitado de o fazer sem se tornar evidente. Na sua fingida ira, porém, Fontini-Cristi não experimentava semelhante dificuldade. Levantou a mão num gesto brusco atrás dos ombros

de «Pêra», como se a irritação houvesse atingido o ponto de ruptura.

- Talvez não me tenha ouvido, militar! O seu nome e o do seu comandante!

Viu-o pelo espelho retrovisor. Bastante longe, para lá do alcance nítido do espelho, não se distinguindo facilmente sequer pelo vidro. Um carro saíra da estrada, metendo para a berma... tanto, que se encontrava meio enfiado no campo que ladeava a auto-estrada. Dois homens apeavam-se dos assentos dianteiros, mal se lhes distinguindo as figuras, que se moviam lentamente.

- ... Marchetti, signore. O meu comandante é o coronel Balbo. Regimento de Génova, signore.

Vittorio captou a expressão de «Maçã» no retrovisor, acenando levemente, e deslocou a cabeça num lento arco em direcção ao vidro traseiro. Ao mesmo tempo, tamborilou rapidamente com os dedos no pescoço de «Pêra» em plena escuridão. O agente percebeu.

Sem aviso, Vittorio abriu a sua porta. O cabo que empunhava a espingarda fez um movimento brusco com ela para a frente.

- Largue isso, cabo. Uma vez que o seu superior acha bem tomar o meu tempo, vou ocupá-lo em qualquer coisa de útil. Sou o major Aldo Ravena, ufficiale segreto, de Roma. Vou inspeccionar as vossas instalações. E aproveito para fazer uma necessidade.

- Signore. - gritou o oficial, do lado de lá da capota do motor do Fiat.

- Está a dirigir-se a mim? - perguntou arrogantemente Fontini-Cristi.

- As minhas desculpas, major. - O oficial não se conteve: lançou uma rápida olhadela para o lado direito, na direcção da estrada. - Não há instalações sanitárias no posto.

- Com certeza que o senhor não há-de ter as entranhas imaculadas. O campo deve ser incómodo. Talvez Roma trate desse assunto. Hei-de ver.

Vittorio adiantou-se velozmente até à porta da pequena estrutura. Tal como esperava, o cabo foi com ele. Entrou rapidamente pela porta dentro. Mal o cabo cruzou a porta atrás de si, Fontini-Cristi virou-se e cravou-lhe a pistola sob o queixo. Enterrou a arma na garganta do militar e, com a mão esquerda, apossou-se do cano da espingarda.

- Se você tossir, só por isso, ver-me-ei obrigado a matá-lo - sussurrou Vittorio. - Não sinto vontade de fazer tal coisa.

Os olhos do soldado arregalaram-se sob o efeito do abalo: não tinha estômago para heroísmos. Fontini-Cristi pegou na espingarda e deu a ordem em voz baixa e com precisão.

- Chame o oficial. Diga que eu estou a utilizar o seu telefone e que não sabe o que fazer. Diga-lhe que estou a falar para o regimento de Génova. Para o coronel Balbo. Já!

O cabo gritou as palavras, transmitindo quer a sua confusão quer o medo. Vittorio coseu-se à parede junto da porta. A resposta do tenente denunciava medo; talvez tivesse cometido um tremendo erro:

- Estou apenas a cumprir ordens! Recebi ordens de Alba!

- Diga-lhe que o coronel Balbo vem ao telefone - segredou-lhe Fontini-Cristi. -Já!

O cabo assim fez. Vittorio ouviu os passos do oficial a correr do Fiat para o posto da guarda.

- Se quer manter-se vivo, tenente, tire o cinturão da pistola (limite-se a desapertar ambas as correias) e junte-se ao cabo além na parede.

O tenente ficou aturdido. Deixou descair o maxilar e os lábios descerraram-se-lhe de temor. Fontini-Cristi empurrou-o com a espingarda, espicaçando-o com o cano no estômago. O desconcertado oficial estremeceu e arfou ao fazer o que lhe diziam. Vittorio gritou para o exterior, em inglês:

- Já os desarmei. Agora não sei bem o que fazer. Chegou-lhe a exclamação semi-sussurrada de «Pêra»:

- O que fazer? Meu Deus, o senhor é uma autêntica maravilha! Torne a mandar o oficial cá para fora. Certifique-se de que ele sabe que temos as nossas armas assestadas sobre ele. Diga-lhe que volte imediatamente para o pé da janela do «Maçã». Depois é connosco.

Fontini-Cristi traduziu as instruções. O oficial, empurrado pelo cano da pistola de Vittorio, transpôs a porta a cambalear e atravessou-se velozmente à frente do feixe dos faróis do carro, dirigindo-se para a janela do lado do condutor.

Dez segundos mais tarde ouviram-se os gritos do oficial lá fora na estrada:

- Ó homens de Alba! Não é este o veículo! Houve um engano. Decorreu um momento até responderem outras vozes. Duas, altas e irritadas.

- Que foi que aconteceu? Quem são eles?

Vittorio distinguiu as figuras de dois homens emergindo da escuridão do campo. Eram soldados e traziam pistolas à cintura. O oficial respondeu:

- São segreti de Génova. Também andam à procura do veículo de Alba.

- Mãe de Cristo! Quantos é que há, afinal?

Subitamente, o oficial afastou-se da janela de rompante, gritando ao mesmo tempo que mergulhava direito à frente do automóvel:

- Disparem! Abram fogo! São...

Fizeram-se ouvir as explosões abafadas das pistolas britânicas.

«Pêra» saltou da porta traseira do lado direito, coberto pelo automóvel, e disparou contra os soldados que se aproximavam. Uma espingarda replicou: foi um tiro às cegas que produziu um baque surdo no asfalto da estrada, disparado por um homem a morrer. O tenente do posto de controlo pôs-se em pé de um salto e principiou a correr em direcção ao campo do outro lado, na escuridão. «Maçã» fez fogo: três disparos abafados acompanharam os clarões nítidos e abruptos da sua pistola. O oficial gritou e arqueou as costas, tombando na terra da berma.

- Fontini! - gritou «Maçã». - Mate o seu homem e venha para aqui! Os lábios do cabo tremeram e os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas. Tinha

ouvido as explosões abafadas e compreendera a ordem.

- Não - ripostou Fontini-Cristi.

- Diabos o levem! - rugiu «Maçã». - Faça o que lhe digo! O senhor está sob as minhas ordens! Não podemos perder tempo nem correr riscos!

- Engana-se. Perderíamos mais tempo e correríamos mais riscos se não conseguíssemos descobrir a estrada para Celle Ligure. Este soldado há-de por certo conhecê-la.

E conhecia. Vittorio ocupou-se do volante, com o soldado junto a si no assento dianteiro. Fontini-Cristi conhecia a área; se surgissem problemas, poderia desenvencilhar-se. Já o provara.

- Descontraia-se- disse Vittorio em italiano ao atemorizado cabo. Continue

 

' italiano no original: «secretas». (N. do T.)

 

a ser prestável, que não lhe acontece nada.

- Que vai ser de mim? Hão-de dizer que abandonei o meu posto.

- Nada disso. Foi vitima de uma emboscada, forçado à ponta de uma pistola a acompanhar-nos e a servir de escudo. Não teve outro remédio.

Entraram em Celle Ligure às dez e quarenta; as ruas da vila de pescadores estavam quase desertas. A maioria dos habitantes começava o dia às quatro da manhã; dez da noite era tarde. Fontini-Cristi meteu o carro na área arenosa de estacionamento que ficava em frente da ampla marginal. Do outro lado ficava a parte principal da marina.

- Onde estão as sentinelas? - perguntou «Maçã». - Onde é que se encontram?

Inicialmente o cabo pareceu confundido. Vittorio explicou:

- Quando está de serviço aqui, onde é que faz meia volta?

- Estou a ver. - O cabo ficou aliviado; estava manifestamente a tentar ajudar. - Não é aqui, não é nesta zona. É mais lá para cima; quero eu dizer, mais lá para baixo.

- Diabos o levem! - «Maçã» adiantou-se do banco traseiro, agarrando o italiano pelos cabelos.

- Assim não vai a lado nenhum - disse Vittorio em inglês. - O homem está assustado.

- Também eu estou! - contrapôs o agente. - Há além uma doca com uma manga de vento verde, e um barco dentro dessa doca que temos de descobrir! Não sabemos o que aconteceu na nossa retaguarda; há soldados armados no cais: um tiro alertará toda a área. E não fazemos ideia das ordens que terão sido transmitidas por rádio às patrulhas no mar. Estou muito assustado!

- Já me lembro! - exclamou o cabo. - A esquerda. Ao cima da rua, à esquerda! Os camiões paravam e nós seguíamos pelo cais fora e esperávamos pelo homem de serviço. Ele dava-nos a folha de patrulha e era rendido.

- Onde? Exactamente onde, cabo? - Havia um tom de premência na voz de «Pêra».

- Na próxima rua. Tenho a certeza.

- São mais ou menos cem metros, não lhe parece? - perguntou «Pêra», olhando para Fontini-Cristi. - E a rua abaixo desta outros cem, mais coisa, menos coisa.

- Que ideia é sua? - «Maçã» tinha largado o cabo, mas conservava as mãos ameaçadoramente sobre o encosto do assento.

- A mesma que a sua - retorquiu «Pêra». - Dominar a sentinela a meio caminho; há menos hipóteses de ser vista aí. Depois de ela sair, caminhamos para sul em direcção à manga de vento, onde, espero bem, há-de aparecer um corso ou dois.

Atravessaram a marginal, rumo a um beco que dava para o complexo portuário. O cheiro a peixe e os ruídos de meia centena de barcos rangendo em rítmico repouso nas estacas enchiam a escuridão. Havia redes penduradas por toda a parte; ouvia-se o marulhar das ondas para lá do passadiço de pranchas que ficava em frente do cais. Umas quantas lanternas oscilavam, suspensas de cabos sobre os conveses; uma concertina tocava ao longe uma melodia simples.

Vittorio e Pêra» saíram descuidadamente do beco, com os passos abafados pelas tábuas molhadas. O passadiço era resguardado por uma balaustrada de tubos metálicos sobre a água que esparrinhava.

- Está a ver aquela sentinela? - perguntou baixinho Fontini-Cristi.

- Não, mas oiço-a - respondeu o agente. - Está a dar pancadinhas no tubo à medida que caminha. Escute.

Vittorio levou vários segundos a conseguir distinguir os ténues sons de metal no meio dos rangidos rítmicos de madeira na água. Mas lá estavam eles. O inconsciente tamborilar incerto de um homem enfastiado a desempenhar uma tarefa enfadonha.

Uma ou duas centenas de metros a sul no passadiço, a figura do soldado surgiu sob o jorro de luz de um candeeiro do cais, com a espingarda segura no braço esquerdo obliquamente ao solo. Estava ao lado da balaustrada, com a mão direita a martelar vagamente o ritmo dos passos.

- Quando chegar aqui, peça-lhe um cigarro - disse baixinho «Pêra». - Finja que está bêbedo. Eu faço outro tanto.

A sentinela aproximou-se. Assim que os viu, ergueu prontamente a espingarda e armou a culatra, imobilizando-se a cinquenta metros de distância.

- Alto! Quem está aí?

- Dois pescadores sem cigarros - respondeu Fontini-Cristi, arrastando as palavras. - Seja boa pessoa e dê-nos um par deles. Nem que seja um; nós dividimo-lo.

- Está bêbedo - disse o soldado. - Esta noite foi decretado o recolher obrigatório no cais. Como é que vocês andam aqui? Passou-se todo o dia a anunciá-lo pelos altifalantes.

- Estivemos com duas prostitutas em Albisolla - retorquiu Vittorio, cambaleando e amparando-se à balaustrada. - A única coisa que ouvimos foi música num gira-discos e camas a ranger.

- Bem bom - resmoneou «Pêra».

A sentinela abanou a cabeça, em ar de reprovação. Baixou a espingarda e aproximou-se, metendo a mão no bolso da capa à procura de cigarros.

- Vocês, os Ligurini, são piores que os Napolitani. Já fiz serviço por lá.

Atrás do soldado, Vittorio distinguiu «Maçã» emergindo das sombras. Tinha obrigado o cabo a manter-se deitado na esquina do beco; o homem não se mexeria. Nas mãos de «Maçã» estavam dois novelos de cordel.

Antes que Vittorio conseguisse aperceber-se do que estava a acontecer, «Maçã» saltou do passadiço, de braços estendidos e virados para cima. Em dois rápidos movimentos, as mãos do agente abateram-se sobre a cabeça da sentinela e, enfiando-lhe o joelho pelas costas dentro, deu-lhe um violento puxão, fazendo o guarda arquear espasmodicamente o corpo para logo tombar por terra.

O único ruído foi uma abrupta e sinistra eliminação de ar e a muda queda do corpo do homem na madeira mole e molhada.

«Pêra» precipitou-se para o cabo e encostou-lhe a pistola à têmpora:

- Nem um pio, entendido? - Era uma ordem que não admitia discussão. O cabo ergueu-se silenciosamente.

Fontini-Cristi baixou os olhos, à luz mortiça, para o guarda no passadiço, e desejou não ter visto o que viu. O pescoço do homem estava meio separado do corpo e o sangue escorria, num fio vermelho-escuro, do que outrora fora a garganta. Por um espaço largo na balaustrada, «Maçã» fez rebolar o corpo, que caiu na água com um chape abafado. «Pêra» empunhou a espingarda e falou em inglês.

- Vamos embora. Por aqui adiante.

- Venha - disse Fontini-Cristi, com a mão no braço do trémulo cabo. - Não tem por onde escolher.

A manga de vento verde pendia, frouxa, na ausência de qualquer brisa que lhe enfunasse o pano. O cais, que se achava com poucos barcos acostados, parecia prolongar-se mais pela água dentro que os outros. Desceram os quatro os degraus, «Maçã» e Pêra» à frente, com as mãos nos bolsos. Os dois ingleses estavam obviamente hesitantes, o que não passava despercebido a Vitorio.

Sem aviso nem quaisquer ruídos, apareceram repentinamente alguns homens de um e outro lado deles, de armas em punho. Estavam nos conveses dos barcos; cinco, não, seis homens vestidos de pescadores.

- Você ser Jorge Quinto? - perguntou a voz áspera do homem mais próximo do agente, de pé no convés de um pequeno arrastão.

- Graças a Deus! - disse «Pêra», aliviado. - Passámos um mau bocado. Ao ouvir-se o inglês falado, as armas voltaram aos cinturões e aos bolsos. Os

homens juntaram-se-lhes, e começaram a falar ao mesmo tempo. A língua era o corso. Um homem, obviamente o chefe, virou-se para «Maçã»:

- Vá até ao fim do cais. Temos um dos arrastões mais velozes de Bastia. Nós encarregamo-nos do italiano. Hão-de levar um mês a encontrá-lo!

- Não! - Fontini-Cristi adiantou-se para o meio dos dois homens. - Demos a nossa palavra que, se colaborasse, poupar-lhe-íamos a vida.

«Maçã» replicou, como alternativa, com a voz sussurrante forçada por efeito da irritação:

- Ora muito bem, escute cá. O senhor ajudou-nos, não vou negá-lo, mas não é o senhor que está à frente disto. Vá para o raio do barco.

- Só quando este homem tiver regressado ao passadiço. Demos a nossa palavra! - Dirigiu-se ao cabo. - Volte para trás. Ninguém lhe faz mal. Risque um fósforo quando alcançar uma passagem para a marginal.

- E se eu disser que não? - disse «Maçã», agarrando a capa do soldado.

- Nesse caso ficarei aqui.

- Raios! - «Maçã» libertou o soldado.

- Caminhe com ele durante parte do trajecto - disse Fontini-Cristi ao corso. - Certifique-se de que os seus homens o deixam passar.

O corso cuspiu no cais.

O cabo correu com tanta velocidade quanta podia em direcção à base da doca. Fontini-Cristi fitou os dois ingleses.

- Desculpem - disse simplesmente. -Já houve mortes que cheguem.

- O senhor é um tonto chapado! - replicou «Maçã».

- Depressa - disse o chefe corso. - Quero largar. O mar está bravo para lá dos rochedos. E vocês são doidos!

Caminharam até ao extremo do longo cais, saltando um a um sobre a borda para o convés do grande arrastão. Ficaram dois corsos na doca junto aos cabeços, a largar os grossos cabos gordurosos enquanto o apressado capitão punha os motores a trabalhar.

Aconteceu sem aviso.

Uma fuzilaria proveniente do passadiço. A seguir o feixe ofuscante de um projector rasgou a escuridão, acompanhado dos gritos de soldados no começo do cais. Distinguia-se a voz do cabo.

- Além ao fundo! No extremo da doca! O arrastão! Lancem o alarme!

Um dos corsos foi atingido e atirou-se para o chão, libertando no derradeiro segundo o cabo do cabeço.

- A luz! Disparem sobre a luz! - gritava o corso da casa do leme aberta embalando os motores em direcção ao mar largo.

«Maçã» e Pêra» desenroscaram os silenciadores para conseguir maior precisão. «Maçã» foi o primeiro a erguer-se sobre a protecção da borda; premiu repetidamente o gatilho, firmando a mão na amurada de madeira. Ao longe, o projector estilhaçou-se. Simultaneamente, houve uma projecção de fragmentos de madeira em volta de «Maçã» e o agente cambaleou para trás, gritando de dor.

Tinha a mão despedaçada.

O corso, porém, tinha levado o veloz arrastão para o negrume protector do mar. Estavam safos de Celle Ligure.

- O nosso preço aumenta, inglês! - gritou o homem do leme. - Seus filhos da mãe, seus filhos de uma prostituta! Hão-de pagar por esta loucura! - Olhou para Fontini-Cristi agachado atrás da borda, a estibordo. Os olhares de ambos cruzaram-se e o corso cuspiu com fúria.

«Maçã» recostou-se, transpirando, de encontro a um rolo de cabos. A luz da noite, que reflectia o espumejar das vagas, Vittorio viu que o inglês estava a olhar fixamente para a sangrenta massa de carne que era a sua mão, segurando-a pelo pulso.

Fontini-Cristi pôs-se de pé e avançou até junto do agente, rasgando parte da camisa enquanto o fazia.

- Deixe-me ligar-lha. Estancar o sangue...

«Maçã» ergueu a cabeça com um sacão e falou com surda ira:

- Mantenha-se mas é longe de mim, caraças! Os seus princípios saem demasiado caros.

O mar estava agitado, o vento rijo e as ondas violentas e abruptas. Havia quarenta minutos que sulcavam as ondas do mar aberto, que tudo encharcavam. Haviam sido tomadas disposições e o bloqueio fora furado; os motores do arrastão estavam agora em marcha lenta.

Para lá das vagas, Vittorio distinguiu um pequeno disco azul cintilante: acendia durante um segundo, apagava durante outro segundo. O sinal de um submarino. O corso à popa, que tinha uma lanterna, principiou o seu próprio sinal. Levantava e baixava a candeia, utilizando a borda como obturador, a imitar o ritmo do disco azul, a meia milha de distância nas águas.

- Não pode comunicar com ele por rádio? - «Pêra» gritou a pergunta.

- As frequências estão sob controlo - redarguiu o corso. - Os barcos de patrulha viriam cercá-lo; não podemos subornar toda a gente.

Os dois navios iniciaram as cautelosas manobras no mar revolto, cabendo a maior parte delas ao arrastão, até que o enorme submarino ficou mesmo pelo través de estibordo. Fontini-Cristi ficou hipnotizado com o seu tamanho e negra imponência.

Os dois barcos deixaram-se vogar ao sabor das águas até ficarem a quinze metros um do outro, o submarino consideravelmente mais alto nas vagas alterosas. Viam-se três homens no convés; estavam agarrados a uma balaustrada metálica, tentando os dois do meio manobrar uma máquina qualquer.

Uma grossa espia fustigou o ar e caiu a meia-nau do arrastão. Dois corsos precipitaram-se para ela, agarrando-a desesperadamente, como se o cabo tivesse uma vontade própria hostil. Passaram o cabo a um guincho de ferro a meio do convés e fizeram sinal aos homens do submarino.

A acção foi repetida. Porém, o segundo cabo não foi a única coisa a ser disparada do submarino. Havia um saco de lona com aros metálicos nas bordas, e de um desses aros saía um grosso cabo de arame que se estendia até à guarnição no convés do submarino.

Os corsos abriram o saco de lona e tiraram de lá umas alças. Fontini-Cristi reconheceu-as imediatamente: era um aparelho utilizado para atravessar fendas nas montanhas.

Amparando-se ao mesmo tempo que avançava, cambaleando, pelo convés oscilante, «Pêra» abeirou-se de Vittorio:

- É um tanto ou quanto arrepiante, mas é seguro! - gritou. Vittorio berrou a réplica:

- Mande primeiro o seu homem, «Maçã». Precisa de tratar da mão.

- A prioridade é o senhor. E, com franqueza, se essa porcaria não aguentar, prefiro que o descubramos consigo!

Fontini-Cristi sentou-se no beliche de ferro dentro do acanhado compartimento metálico e bebeu o café pela grossa caneca de porcelana. Passou o cobertor da Royal Navy pelos ombros, sentindo por baixo as roupas molhadas. O desconforto não o incomodava: sentia-se grato por estar sozinho.

A porta do pequeno compartimento de metal abriu-se. Era «Pêra». Trazia uma braçada de roupa, que deixou cair no beliche.

- Aqui tem uma muda de roupa seca. Não convinha nada ir agora desta para melhor com uma pneumonia. Era de caírem os tomates aos pés a uma pessoa, não acha?

- Obrigado - disse Vittorio, pondo-se de pé. - Como está o seu amigo?

- O médico de bordo receia que perca o uso da mão. O médico não lhe disse nada, mas ele sabe.

- Lamento. Fui ingénuo.

- Pois foi - concordou simplesmente o britânico. - Foi ingénuo. Saiu, deixando a porta aberta.

Nos estreitos corredores metálicos exteriores ao minúsculo compartimento, houve um súbito ruído. Pela porta passavam homens à desfilada, correndo todos eles na mesma direcção, para a proa ou para a popa, Fontini-Cristi não conseguia distinguir. Pelo sistema de transmissão de ordens do navio ouviu-se um lancinante e ensurdecedor apito que guinchava sem parar; portas de metal fechavam-se violentamente e a gritaria aumentava.

Vittorio precipitou-se para a porta aberta e parou de respirar. Apossou-se dele o pânico da impotência debaixo do mar.

Chocou com um marinheiro britânico. Porém, o rosto do homem não estava desfigurado pelo medo. Nem pelo receio. Nem por qualquer outra coisa que não fosse o riso descuidado.

- Feliz ano novo, camarada! - exclamou o marinheiro. - É meia-noite, parceiro! Estamos em mil novecentos e quarenta. Numa década nova, caramba!

O marinheiro correu para a escotilha mais próxima, que abriu. Para lá dela, Fontini-Cristi distinguiu o refeitório. Havia homens reunidos em volta, com canecas na mão, nas quais os oficiais deitavam uísque. Os gritos amalgamavam-se em gargalhadas. Os compartimentos de metal principiaram a encher-se de Auld Lang SjineK

A nova década.

A velha culminara em morte. Morte por todo o lado, da maneira mais horrível, sob a branca luz ofuscante de Campo di Fiori. Pai, mãe, irmãos, irmãs. As crianças. Desaparecidos. Desaparecidos num momento de desintegradora violência que estava gravada a fogo no seu espírito. Uma recordação com a qual viveria a vida inteira.

Porquê? Porquê? Nada fazia sentido.

Foi então que se lembrou: Savarone dissera que fora a Zurique. Mas não a Zurique: tinha ido a outro sítio qualquer.

Era nesse outro sítio qualquer que se encontrava a resposta. Mas o quê?

Vittorio entrou no pequeno compartimento do submarino e sentou-se na borda de ferro da cama.

Principiara a nova década.

1. Nome de uma canção extremamente popular, da autoria de Robert Burs (1789), que celebra os tempos idos. (N. do T.)

 

2 de Janeiro de 1940 Londres, Inglaterra

Sacos de areia.

Londres era uma cidade de sacos de areia. Por todo o lado. Nas soleiras das portas, nas janelas, nas montras das lojas, empilhados aos molhos às esquinas das ruas. O saco de areia era o símbolo. Do outro lado da Mancha, Adolf Hitler jurara a destruição de toda a Inglaterra; calmamente, os ingleses acreditavam na ameaça e fleumática e firmemente couraçavam-se de antemão.

Vittorio tinha chegado tarde ao aeródromo militar de Lakenheath na noite anterior, no primeiro dia da nova década. Tinham ido esperá-lo a um avião sem identificação enviado de Maiorca e haviam-no despachado logo para operações cujo objectivo consistia em confirmar a sua identidade junto do Ministério da Marinha. Agora que se achava a salvo no país, as vozes tornavam-se subitamente calmas e solícitas: quereria repousar depois da esgotante viagem? Talvez no Savoy, não? Constava que os Fontini-Cristi se hospedavam no Savoy quando passavam por Londres. Dar-lhe-ia jeito uma reunião amanhã à tarde, pelas catorze horas? No Almirantado, Sector Cinco das Informações. Operações Estrangeiras.

«Com certeza. Claro que sim, pelo amor de Deus! Por que razão fizeram vocês, ingleses, o que fizeram? Tenho de sabê-lo, mas manter-me-ei calado até que vocês mo digam».

A recepção do Savoy pós à sua disposição artigos de higiene e roupa de dormir, incluindo um roupão do hotel. Tinha posto a correr um banho muito quente na enorme banheira e manteve-se dentro dele durante tanto tempo que ficou com a pele das pontas dos dedos toda encarquilhada. Depois meteu-se a beber demasiados copos de aguardente e caiu na cama.

Pedira que o acordassem às dez, mas, evidentemente, fora desnecessário: às oito e meia já estava completamente desperto e às nove tinha o chuveiro tomado e a barba feita. Mandou vir um pequeno-almoço inglês pelo empregado do piso e, enquanto esperava, telefonou para Norcross, Limited, em Savile Row. Precisava de roupa. Não podia andar a passear-se por Londres com uma gabardina emprestada, uma camisola de lã e as calças que lhe assentavam mal fornecidas por um agente chamado «Pêra» num submarino em águas do Mediterrâneo.

Ao pousar o telefone no descanso, Vittorio deu-se conta que não tinha dinheiro para além das dez libras, graças às dispersões de Lakenheath. Partiu do princípio de que tinha crédito; mandaria transferir fundos da Suíça. Não tivera tempo para se concentrar nos aspectos logísticos da vida: andara demasiadamente ocupado a manter-se vivo.

Ocorreu a Fontini-Cristi que tinha muitas coisas a fazer. E - quanto mais não fosse para afastar a terrível recordação, a dor infinita, de Campo di Fiori - urgia manter-se activo. Obrigar o espírito a concentrar-se primeiro nas coisas simples, nas coisas do dia-a-dia. Porque, quando as grandes coisas lhe apareciam nítidas, sentia-se à beira da loucura quando ponderava nelas.

«Por favor, meu bom Deus, as pequenas coisas! Concede-me tempo para recuperar o equilíbrio».

Viu-a pela primeira vez no outro extremo do átrio do Savoy enquanto esperava que o gerente lhe providenciasse algum dinheiro. Estava sentada numa poltrona a ler o Times, envergando o austero uniforme de um ramo do serviço feminino, qual não fazia a menor ideia. Sob o boné de oficial, o cabelo escuro da morena tombava em cachos pelos ombros, emoldurando-lhe o rosto. Era um rosto que já vira anteriormente: tratava-se de uma cara que não se esquecia. Mas era uma versão mais jovem daquela cara que permanecia gravada na sua recordação. A mulher andaria porventura pelos trinta e tal; o rosto de que se lembrava não tinha mais de vinte e dois ou vinte e três. Os malares eram altos e o nariz mais celta do que inglês: afilado, ligeiramente arrebitado e fino sobre os lábios carnudos. Não conseguia distinguir bem os olhos, mas sabia como eles eram: de um azul intenso, tão azul como jamais vira nos olhos de uma mulher.

Era aquilo que recordava. Uns irados olhos azuis erguidos para os seus, fitando-o. Irados e carregados de desdém. Não se lhe tinha deparado muitas vezes essa reacção, e sentira-se irritado.

Por que razão se lembrara? Quando fora?

- Signore Fontini-Cristi. - O gerente do Savoy saiu vivamente do arco da caixa com um sobrescrito na mão. - Tal como pediu, mil libras.

Vittorio pegou no sobrescrito e enfiou-o no bolso da gabardina.

- Obrigado.

- Arranjámos-lhe a limosina, senhor. Deve estar a chegar. Se quiser voltar para a sua suite, telefonamos-lhe assim que ela aparecer.

- Espero aqui. Se vocês conseguem suportar esta roupa, também eu consigo.

- Por favor, signore. É sempre um imenso prazer acolher um membro da família Fontini-Cristi. O seu pai virá ter consigo nesta deslocação? Esperamos que esteja bem.

«A Inglaterra marchando ao som dos repentinos tambores de guerra e o Savoy a perguntar pela família das pessoas».

- Não vem ter comigo, não. - Vittorio não viu motivo para mais explicações. A notícia ainda não chegara a Inglaterra, ou, caso tivesse chegado, os despachos de guerra tornavam-na insignificante. - A propósito, conhece aquela senhora? A que está sentada. De farda.

O gerente lançou um olhar discreto ao átrio pouco concorrido.

- Conheço, sim, senhor. É Mistress Spane. Devia dizer antes que era Mistress Spane: divorciaram-se. Creio que voltou a casar. Não é frequente aparecer por aqui.

- Spane?

- Sim, senhor. Vejo que está na Defesa Aérea. É uma gente que não anda a brincar, isso posso garantir-lho.

- Obrigado - disse Vittorio, despedindo cortesmente o gerente. - Vou

ficar à espera do carro.

- Com certeza. Se houver alguma coisa que possamos fazer para tornar-lhe a estada mais agradável, não hesite em contactar connosco.

O gerente fez um aceno de cabeça e afastou-se. Fontini-Cristi voltou a olhar para a mulher. Esta lançou uma mirada ao relógio de pulso e regressou à leitura.

Lembrava-se do nome Spane devido à sua fonética e, por arrastamento, do indivíduo. Fora há onze; não, há doze anos: tinha acompanhado o pai a Londres a fim de o observar em negociações com a British Havilland, constituindo essa observação parte do seu adestramento. Spane fora-lhe apresentado uma noite em Les Ambassadeurs, um homem bastante jovem, dois ou três anos mais velho do que ele. Achara o inglês algo divertido, mas basicamente cansativo. Spane era um produto de Mayfair que se satisfazia integralmente com o usufruto das actividades ancestrais, não contribuindo ele próprio com grande coisa, a não ser os seus conhecimentos em matéria de corridas. O pai não gostava de Spane e confiara-lho, o que, muito naturalmente, levara o filho a manter com ele relações superficiais.

Não obstante, Vittorio recordou-se repentinamente porquê. O facto de não lhe ter vindo antes à mente apenas constituía uma prova adicional de que ele banira da mente a recordação da sua existência: não da mulher sentada no átrio, mas da sua mulher.

A mulher dele tinha vindo para Inglaterra com eles havia doze anos, achando o padrone que a sua presença exerceria uma influência moderadora num filho obstinado e inconstante. Mas Savarone não conhecia assim tão bem a nora; veio a conhecê-la mais tarde, mas na altura não. A atmosfera capitosa de Mayfair no auge da temporada era para ela um tónico.

A mulher dele sentira atracção por Spane; um dos dois seduzira o outro. Ele não prestara grande atenção; também andava ocupado.

E em determinada ocasião tinha havido uma confrontação desagradável. Houvera recriminações gritadas e os irados olhos azuis tinham-se erguido para fitar os seus.

Vittorio atravessou o átrio em direcção à poltrona. A senhora Spane ergueu a vista à sua aproximação. Houve um momento de hesitação nos seus olhos, como se estivesse insegura. A seguir ficou mesmo segura e não houve qualquer hesitação: a hesitação foi substituída pela expressão desdenhosa de que ele se recordava tão vividamente. Os olhares cravaram-se um no outro por um segundo - não mais - e ela regressou ao jornal.

- Mistress Spane? Ela ergueu os olhos:

- O nome é Holcroft.

- Já nos conhecemos.

- Pois já. É Fontini... - Fez uma pausa.

- Fontini-Cristi. Vittorio Fontini-Cristi.

- Sim. Há muito tempo. Há-de desculpar, mas tenho um dia muito cheio. Estou à espera de uma pessoa e não vou ter ocasião de tornar a dar uma vista de olhos no jornal. - Voltou à leitura.

- Vê-se livre de mim de uma maneira eficiente - disse Vittorio, sorrindo.

 

' A pronúncia do nome equivale à de Spain, isto é, «Espanha». (N. do T.)

 

- Acho muito simples fazê-lo - retorquiu ela, sem olhar para ele.

- Mistress Holcroft, já lá vai uma porção de tempo. Um poeta inglês diz que não há nada que se transforme tanto em mudança como os anos.

- O poeta inglês sustenta igualmente que ninguém muda a sua maneira de ser. Palavra que estou muito ocupada. Bom dia.

Vittorio preparava-se para se afastar com um aceno, quando viu que lhe tremiam muito ligeiramente as mãos. Mrs. Holcroft estava um tanto ou quanto menos confiante do que o seu comportamento dava a entender. Não tinha bem a certeza da razão pela qual permaneceu; era uma ocasião para estar só. As horríveis recordações de luz branca e morte escaldavam: não lhe apetecia compartilhá-las. Por outro lado, sentia desejos de falar. Com uma pessoa qualquer. Fosse do que fosse.

- Acha que é tarde de mais para apresentar desculpas por um comportamento infantil de há uma década?

A tenente olhou para ele:

- Como está mesmo a sua mulher?

- Morreu num desastre de automóvel há dez anos.

A expressão dos olhos dela era firme; a hostilidade abrandou. Pestanejou, pouco à vontade, moderadamente embaraçada:

- Sinto muito.

- É a minha vez de pedir desculpa. Há doze anos a senhora procurava uma explicação. Ou consolo. E eu não tinha nem uma coisa nem outra para dar.

A mulher permitiu-se a sombra de um sorriso. Os seus olhos azuis tinham qualquer coisa - se era apenas qualquer coisa - de cordial.

- O senhor era um jovem cheio de arrogância. E eu receio bem que fosse pouco compreensivo sob pressão. É claro que tudo muda.

- A senhora valia mais do que as brincadeiras a que nos entregávamos. Eu devia ter percebido.

- Isso é uma frase bastante desarmante... E acho que já falámos o suficiente sobre o assunto.

- A senhora e o seu marido quererão ter a gentileza de jantar comigo esta noite, Mistress Holcroft? - Ouviu as palavras que pronunciara, sem ter bem a certeza de tê-las dito. Fora o impulso do momento.

Ela fitou-o por breves instantes antes de responder:

- Está a ser sincero, não está?

- Com certeza. Parti de Itália um tanto ou quanto à pressa, graças ao seu Governo, como tenho estas roupas graças aos seus compatriotas. Há vários anos que não venho a Londres. Tenho muito poucos conhecimentos cá.

- Ora aí está o que se chama uma frase estimulante.

- Como?

- Que partiu de Itália à pressa e traz a roupa de outra pessoa. Levanta questões.

Vittorio hesitou, e depois falou calmamente:

- Gostava que a senhora tivesse a compreensão que me faltou há dez anos. Preferia que essas questões não fossem levantadas. Mas gostaria de jantar consigo. E com seu marido, evidentemente.

Ela sustentou-lhe o olhar, fitando-o com curiosidade. Os seus lábios distenderam-se num sorriso suave: tinha tomado uma decisão.

- O nome do meu marido era Spane. Holcroft é o meu. Jane Holcroft. E vou jantar consigo.

O porteiro do Savoy interrompeu:

- Signore Fontini-Cristi, o seu carro já chegou, senhor.

- Obrigado - respondeu ele, com os olhos em Jane Holcroft. -Já lá vou.

- Pois sim, senhor. - O porteiro fez um aceno e afastou-se.

- Posso vir buscá-la ao fim da tarde? Ou mandar o meu carro buscá-la?

- A gasolina está a rarear. Encontro-me consigo aqui. Oito horas?

- Oito horas. Arrivederci!

- Até logo.

Percorreu o comprido corredor do Almirantado escoltado por um tal comandante Neyland, que tinha vindo recebê-lo ao balcão de entrada. Neyland era um homem de meia-idade, adequadamente militar, e bastante impressionado com a sua própria pessoa. Ou talvez os italianos não o impressionassem nada. A despeito da fluência do inglês de Vittorio, Neyland insistia em empregar os termos mais simples, e levantava a voz como se estivesse a falar com uma criança atrasada. Fontini-Cristi estava convencido de que Neyland não tinha ouvido as suas respostas; um homem não ouvia falar em perseguições, morte e fuga respondendo com banalidades tais como «Não me diga...» «Estranho, não é?...» «O golfo de Génova em Dezembro é por vezes muito agitado, não é?»

À medida que iam caminhando, Vittorio contrabalançava a reacção negativa ao capitão-de-mar-e-guerra com a gratidão para com o velho Norcross, de Savile Row.

Enquanto o capitão-de-mar-e-guerra gaguejava, Norcross cumpria. O velho alfaiate tinha-o vestido em questão de horas.

As pequenas coisas; concentrara-se nas coisas do dia-a-dia.

Sobretudo, conservar um domínio que roçasse o gelo durante a reunião com o que quer, ou quem quer, que constituísse o Sector Cinco das Informações. Havia imensas coisas a apreender, a entender. Imensas coisas que estavam para além do seu entendimento. No frio relato dos acontecimentos que constituíam o horror de Campo di Fiori, não podia deixar que a angústia lhe obnubilasse as percepções; o relato, por conseguinte, seria mesmo frio e comedido.

- Por aqui, meu velho - disse Neyland, indicando um vão de porta em forma de arco de catedral que mais lembrava qualquer venerável clube masculino que um edifício militar. O capitão-de-mar-e-guerra abriu a pesada porta, a reluzir de ferragens, e Vittorio entrou.

Não havia nada na ampla sala que desmentisse a noção de um clube masculino portentosamente equipado. Duas janelas enormes davam para um pátio; tudo era pesado e cheio de enfeites: os cortinados, a mobília, os candeeiros, e em certa medida os três homens que se achavam sentados à volta da pesada mesa de mogno no centro. Dois estavam fardados: as insígnias e as medalhas ao peito proclamavam postos elevados que Fontini-Cristi desconhecia. O homem trajando à civil tinha um ar sobremaneira diplomático, completado por um elegante bigode. Homens daquele género tinham entrado e saído em Campo di Fiori. Falavam em surdina e com palavras ambíguas: era uma gente que procurava a elasticidade. O civil ocupava a cabeceira da mesa e os oficiais sentavam-se de um e outro lado. Havia uma cadeira vaga, que lhe

 

1. Em italiano no original: «até à vista». (N. do T.)

 

estava obviamente destinada.

- Meus senhores - disse o capitão-de-mar-e-guerra Neyland, como se estivesse a anunciar um requerente no Tribunal de St. James. - O Signore Savarone Fontini-Cristi, de Milão.

Vittorio olhou fixamente para o fátuo inglês: não ouvira uma única palavra do que ele dissera.

Os três homens que estavam à mesa levantaram-se simultaneamente. Foi o civil quem falou:

- Dá-me licença que me apresente? Chamo-me Anthony Brevourt. Durante uma porção de anos fui embaixador da Coroa junto da corte grega de Jorge Segundo em Atenas. À minha esquerda, está o vice-almirante Hackett, da Royal Navy. À minha direita o general de brigada Teague, das Informações Militares.

Inicialmente, houve formais acenos de cabeça à guisa de reconhecimento, mas Teague logo quebrou o formalismo contornando a cadeira e estendendo a mão a Vittorio.

- Folgo em vê-lo entre nós, Fontini-Cristi. Recebi os relatórios preliminares. O senhor passou por coisas tremendas.

- Obrigado - respondeu Vittorio, apertando a mão ao general.

- Sente-se, sente-se - disse Brevourt, indicando a cadeira destinada a Vittorio e voltando à sua. Os dois oficiais ocuparam os lugares respectivos, Hackett de modo muito formal, mesmo pomposamente, e Teague com bastante descontracção. O general do exército tirou do bolso uma cigarreira e ofereceu-a a Fontini-Cristi.

- Não, obrigado - disse Vittorio. Fumar na companhia daqueles homens sugeriria um à-vontade que não sentia nem queria que eles pensassem que sentia. Uma lição de Savarone.

Brevourt prosseguiu rapidamente.

- Creio que o melhor é começarmos com isto. Estou certo de que o senhor está informado do motivo da nossa urgência. A encomenda grega.

Vittorio olhou para o embaixador e a seguir para os dois oficiais. Estes fitavam-no, aparentemente na expectativa.

- Grega? Não sei nada de nenhuma «encomenda grega». No entanto, sei da gratidão que sinto. Não há palavras para a exprimir em nenhuma das línguas. Os senhores salvaram-me a vida; houve homens que se sacrificaram por mim. Que mais posso dizer?

- Acho - disse lentamente Brevourt - que gostaríamos de ouvi-lo dizer qualquer coisa sobre uma entrega bem incomum feita à família Fontini-Cristi pela Irmandade Oriental de Xenope.

- Como diz? - Vittorio estava aturdido. As palavras não tinham para ele o menor significado. Houvera algum tremendo engano.

- Já lhe disse. Fui embaixador da Coroa em Atenas. Durante o exercício do meu cargO estabeleceram-se relações diplomáticas por todo o país, incluindo, evidentemente, com os religiosos. Porque, apesar do tumulto em que a Grécia está mergulhada, a hierarquia da Igreja continua a ser uma força poderosa.

- Não tenho dúvidas de que assim seja - concordou Vittorio -, mas não faço ideia do que tenha isso a ver comigo.

Teague inclinou-se para diante, com o fumo a descrever espirais diante da cara e olhos cravados em Fontini-Cristi.

Por favor. Nós fizemos a nossa parte, bem sabe. Como disse (acho que

com toda a propriedade), salvámos-lhe a vida. Enviámos os nossos melhores homens, pagámos milhares aos corsos, corremos riscos consideráveis em aventuras perigosas com um submarino (coisa que temos em pouquíssima quantidade) e accionámos uma rota de fuga aérea ainda mal estabelecida. E tudo isto para o tirar de lá. - Teague fez uma pausa, pousou o cigarro e sorriu muito levemente: - Toda a vida humana é porventura sagrada, mas há limites para os custos em que uma pessoa incorre para a prolongar.

- Falando pela Marinha - disse Hackett com controlada irritação

cumprimos cegamente o determinado, dispondo unicamente de escassíssimos elementos, compelidos pelas mais eminentes figuras do Governo. Pusemos em perigo úma área de operações vital, decisão que pode custar um bom número de vidas no futuro próximo. Os nossos gastos foram consideráveis. E ainda não apareceu a conta toda.

- Estes cavalheiros (o próprio Governo) agiram com base nos meus mais instantes pedidos - disse o embaixador Anthony Brevourt com comedida precisão. - Eu estava convicto, para além de qualquer dúvida, de que, fosse qual fosse o custo, era imperioso tirá-lo de Itália. Posta a questão com toda a simplicidade, Signore Fontini-Cristi, não era a sua vida. Era a informação de que o senhor é detentor relativa ao Patriarcado de Constantino. Foi essa a minha directriz. Agora, se faz favor, o local da entrega. Onde está a arca?

Vittorio devolveu o olhar fixo de Brevourt até sentir os olhos a arderem. Ninguém falou; o silêncio era tenso. Faziam-se alusões a coisas que moviam os mais altos escalões do governo e Fontini-Cristi sabia ser ele mesmo o fulcro. Mas era tudo quanto sabia.

- Não posso dizer-lhes aquilo de que nada sei.

- O comboio de mercadorias de Salónica. - A voz de Brevourt era cortante. A palma da sua mão abateu-se delicadamente sobre a mesa, sendo a macia palmada da carne contra a mesa tão surpreendente como abrupta. - Dois homens mortos nos depósitos dos caminhos-de-ferro de Milão. Um deles sacerdote. Algures a seguir a Baja Luka, a norte de Trieste, depois de Monfalcone, algures em Itália, ou na Suíça, o senhor foi ao encontro do comboio. Ora bem, onde?

- Não fui ao encontro de nenhum comboio, signore. Não sei nada acerca de Banja Luka nem de Trieste. De Monfalcone sim, mas tratou-se apenas de uma frase, e sem significado para mim. Um «incidente» havia de «dar-se em Monfalcone». Foi tudo. O meu pai não entrou em pormenores. A posição dele era que a informação me seria dada depois do incidente em Monfalcone, não antes.

- E os dois homens mortos em Milão? Nos depósitos dos caminhos-de-ferro? - Brevourt não descansava; a sua intensidade era eléctrica.

- Li qualquer coisa sobre os homens de que fala: abatidos a tiro nos depósitos de mercadorias de Milão. Veio um artigo nos jornais. Não me pareceu excepcionalmente importante.

- Eram gregos.

- Eu percebi.

- O senhor avistou-se com eles. Fizeram a entrega a si.

- Não me avistei com gregos nenhuns. Ninguém me fez entrega alguma.

- Oh, meu Deus! - Brevourt deixou escapar as palavras num sussurro dolorido. Era evidente para todos que o diplomata se via subitamente a braços com o seu próprio temor privado; não estava a simular para efeitos negociais.

- Calma - disse tolamente o vice-almirante Hackett.

O diplomata recomeçou a falar, lenta e cautelosamente, como se estivesse a pôr os pensamentos em ordem.

- Houve um acordo estabelecido entre os superiores de Xenope e os italianos Fontini-Cristi. Tratava-se de uma questão de incalculável prioridade. Numa dada ocasião, entre os dias nove e dezasseis de Dezembro (as datas em que o comboio saiu de Salónica e em que chegou a Milão), alguém foi ao encontro dele e tirou um engradado do terceiro vagão de mercadorias. Esse carregamento era de um valor tal que o itinerário do comboio foi preparado por fases isoladas. Havia um único plano director, ele próprio uma sequência de documentos, na posse de um só homem, um sacerdote de Xenope. Também estes foram destruídos antes de o sacerdote ter executado o maquinista e suicidar-se. Só ele sabia onde se efectuaria o transbordo, onde devia ser descarregada a arca. Ele e os responsáveis pela sua remoção. Os Fontini-Cristi. - Brevourt fez uma pausa, de olhos fundos cravados em Vittorio: - Isto são factos, senhor; foram-me comunicados por um mensageiro do Patriarcado. Em conjunção com as medidas que o meu governo tomou, presumo que sejam suficientes para o convencerem a facultar-nos a informação.

Fontini-Cristi mudou de posição na cadeira e desviou o olhar do rosto serenamente enérgico do embaixador. Tinha a certeza de que os três homens pensavam que estava a dissimular; teria de dissuadi-los dessa convicção. Mas primeiro tinha de pensar. Com que então, era aquela a razão. Um comboio desconhecido proveniente de Salónica levara o Governo britânico a tomar medidas excepcionais para - o que fora que Teague dissera? - prolongar a sua vida. Contudo, não era a vida dele que se revestia de importância, conforme Brevourt deixara claro. Era a informação que eles supunham estar na sua posse.

Coisa que, evidentemente, não acontecia.

Nove a dezasseis de Dezembro. O pai partira a doze para Zurique. Mas Savarone não tinha ido a Zurique. E recusara-se a dizer ao filho onde estivera... Brevourt podia muito bem ter motivos para as suas inquietações. Ainda assim, havia outras questões: o quadro era nebuloso. Vittorio voltou-se de novo para o diplomata.

- Seja indulgente comigo. Alude aos Fontini-Cristi. Emprega o plural. Um pai e quatro filhos. O nome do pai era Savarone. O vosso comandante Neyland apresentou-me erradamente com esse nome.

- Sim. - A voz de Brevourt mal se ouvia, como se ele estivesse a ser obrigado a uma conclusão que se negava a aceitar. - Dei-me conta disso.

- Por conseguinte, Savarone é o nome que receberam dos gregos. É isso?

- Ele não podia tê-lo feito sozinho. - Brevourt tornou a falar com uma voz que quase não passava de um sussurro. - O senhor é o filho mais velho; é o senhor quem dirige as empresas. Ele havia de tê-lo informado. Precisava da sua ajuda. Havia mais de vinte documentos individuais a preparar, isso sabemos nós. Precisava de si!

- Isso é o que aparentemente, talvez desesperadamente, os senhores querem acreditar. E, como acreditaram, tomaram medidas excepcionais para me salvar a vida, para me evacuarem de Itália. É evidente que sabem o que se passou em Campo di Fiori.

Foi o brigadeiro Teague quem falou:

- Soubemo-lo primeiro pelos resistentes. Os gregos não estavam muito

atrás. A Embaixada grega em Roma andava a vigiar de perto os Fontini--Cristi; ao que parece, não estava informada do motivo. A conduta de Atenas chegou ao embaixador e este, por sua vez, entrou em contacto connosco.

- E agora o senhor dá a entender - acrescentou glacialmente Brevourt - que foi tudo para nada.

- Não dou nada a entender. Estou a afirmá-lo. Durante o período que referem, o meu pai disse que ia a Zurique. Lamento não ter prestado grande atenção na altura, mas alguns dias mais tarde surgiu-me um motivo urgente para pedir-lhe que regressasse a Milão. Tentei contactar com ele: telefonei para todos os hotéis de Zurique e não o localizei em nenhum. Nunca me disse onde esteve. É esta a verdade, meus senhores.

Os dois oficiais olharam para o diplomata. Brevourt recostou-se lentamente na cadeira: era um gesto de impotência e exaustão; cravou os olhos no tampo da mesa. Finalmente, falou:

- O senhor tem a sua vida. Signore Fontini-Cristi. Para bem de todos nós, espero que o preço não tenha sido demasiado alto.

- Não posso responder a isso, claro. Por que razão foi esse acordo estabelecido com o meu pai?

- A isso sou eu quem não pode responder - retorquiu Brevourt, de olhos ainda pregados na mesa. - Aparentemente, alguém, algures, acreditava que ele era suficientemente engenhoso, ou suficientemente poderoso, para o cumprir. Uma ou ambas as coisas têm de ser confirmadas. Talvez nunca venhamos a saber...

- O que é que estava no comboio de Salónica? O que é que havia na arca para os levar a fazer o que fizeram?

Anthony Brevourt ergueu a vista e olhou para Vittorio, mentindo:

- Não sei.

- Isso é absurdo.

- Não tenho dúvidas de que assim há-de parecer. Só conheço as... implicações da sua importância. Essas coisas não têm preço. Trata-se de um valor abstracto.

- E foi com base nesse juízo que tomou estas decisões, que convenceu as suas autoridades supremas a tomarem-nas? Que persuadiu o seu governo?

- Foi, sim, senhor. E fá-lo-ia de novo, e é tudo quanto direi sobre o assunto, - Brevourt levantou-se da mesa. - É escusado prosseguir. Outros podem contactar consigo. Passe bem, Signore Fontini-Cristi.

A atitude do embaixador surpreendeu os dois oficiais, que, no entanto, nada disseram. Vittorio levantou-se da cadeira, fez um aceno de cabeça e encaminhou-se silenciosamente para a porta. Virou-se e fitou Brevourt: a expressão do homem era reservada.

No exterior, Fontini-Cristi surpreendeu-se ao ver o comandante Neyland em sentido no meio de duas praças. O Sector Cinco das Informações, Operações Estrangeiras, não corria riscos. A porta da sala de reuniões estava a ser guardada.

Neyland voltou-se, com o espanto gravado no rosto. Era evidente que esperava que o encontro durasse muito mais.

- Vejo que foi libertado.

- Não sabia que estava detido - ripostou Vittorio.

- Figura de retórica.

- Nunca me tinha apercebido do quanto é antipática. Vai escoltar-me até à recepção?

- Sim, vou autorizar a sua saída.

Aproximaram-se da enorme secretária de entrada do Almirantado. Neyland consultou o relógio e deu o último nome de Vittorio ao guarda. Pediram a Fontini-Cristi que rubricasse a hora de saída; ele assim fez e, ao endireitar-se diante da secretária, foi saudado com a continência muito formal do capitão-de-mar-e-guerra. Dirigiu-lhe um aceno - com formalismo -, fez meia volta e percorreu o pavimento de mármore até às enormes portas duplas para a rua.

Ia no quarto degrau quando lhe vieram à mente as palavras. Trespassavam as remoinhantes névoas de luz branca e o stacatto desintegrador dos tiros.

«Champoluc... Zurique é Champoluc... Zurique é o rio!»

E depois mais nada. Apenas os gritos, a luz branca e os corpos suspensos na morte.

Deteve-se no degrau de mármore, sem ver nada além das visões terríveis da sua mente.

«Zurique é o rio! Champoluc...»

Vittorio dominou-se. Parou e respirou fundo, apercebendo-se vagamente de que as pessoas no passeio e nos degraus estavam a olhar fixamente para ele. Perguntou a si mesmo se devia voltar a franquear as portas do Almirantado e cruzar um longo corredor até ao arco de catedral que era a sala de reuniões do Sector Cinco das Informações.

Calmamente, tomou a sua decisão. «Outros poderão contactá-lo». Os outros que viessem. Não compartilharia nada com Brevourt, o homem em busca da elasticidade que lhe mentira.

- Se me dá licença, Sir Anthony - disse o vice-almirante Hackett -, acho que havia muito mais terreno que podíamos ter coberto...

- Concordo - atalhou o general de brigada Teague, notando-se-lhe a irritação. - O almirante e eu temos as nossas divergências, mas nisto não, sir. Mal esgaravatámos a superfície. Realizámos um investimento excepcional e não obtivemos nada em troca; havia que extrair mais.

- Era escusado - disse fatigadamente Brevourt, aproximando-se lentamente da janela com cortinados que dava para o pátio. - Lia-se-lhe nos olhos. O Fontini-Cristi estava a dizer a verdade. Ficou aturdido com a informação. Não sabe de nada.

Hackett aclarou a garganta, prelúdio para um juízo:

- Não me pareceu que estivesse a espumar. Afigura-se-me que aceitou a coisa com bastante naturalidade.

O diplomata olhou distraidamente pela janela ao responder baixinho:

- Se ele tivesse espumado, eu tê-lo-ia mantido naquela cadeira durante uma semana. Comportou-se exactamente da maneira como um homem do género reage a notícias profundamente perturbadoras. O abalo foi demasiado grande para teatros.

- Admitindo a sua premissa - redarguiu friamente Teague -, isso não elimina a minha. Ele pode não se aperceber do que sabe. As informações secundárias conduzem frequentemente a uma fonte primária. No nosso ofício isso acontece quase sempre. Tenho de objectar, Sir Anthony.

- Tomo nota da sua objecção. Tem toda a liberdade de estabelecer futuros contactos; deixei isso claro. Mas não apurará mais do que apurámos esta tarde.

- Como é que pode estar tão seguro? - inquiriu prontamente o homem das Informações, cuja irritação depressa se transformava em fúria.

Brevourt virou as costas à janela, com uma expressão dolorida e olhar reflexivo.

- Porque conheci Savarone Fontini-Cristi. Há oito anos, em Atenas. Era um emissário neutral, penso que é o termo, de Roma. O único homem em quem Atenas confiava. As circunstâncias não interessam para aqui; o que interessa são os métodos de Fontini-Cristi. Era um homem possuidor do sentido da discrição. Era capaz de mover montanhas económicas, de negociar os mais difíceis acordos internacionais, porque todas as partes sabiam que a sua palavra valia mais do que qualquer contrato escrito. De uma forma estranha, era por isso que o temiam: cuidado com o homem de integridade total. A nossa única esperança era que ele tivesse chamado o filho. Caso precisasse dele.

Teague digeriu as palavras do diplomata e a seguir inclinou-se para diante, com os braços em cima da mesa.

- O que é que havia no comboio de Salónica? Nessa amaldiçoada arca?

 

Brevourt fez uma pausa antes de responder. Os dois oficiais compreenderam que, fosse o que fosse que o embaixador dissesse, seria tudo quando diria.

- Documentos escondidos do mundo durante catorze séculos. Poderiam dilacerar o mundo cristão, lançar Igrejas contra Igrejas... porventura nações contra nações; obrigar milhões de pessoas a tomar partido numa guerra como a de Hitler.

- E, ao fazê-lo - interrompeu Teague à guisa de pergunta -, dividir os que combatem a Alemanha.

- Sim, Inevitavelmente.

- Nesse caso o melhor é rezarmos para que não sejam encontrados - concluiu Teague.

- Reze fervorosamente, general. É estranho. Ao longo dos séculos, houve homens que deram de bom grado a vida para proteger a santidade desses documentos. Agora desapareceram. E todos os que sabiam onde eles estão morreram.

 

Janeiro de 1940 a Setembro de 1945 Europa

O telefone tocou na secretária antiga da suite do Savoy. Vittorio estava à janela de caixilhos a olhar o Tamisa, vendo as barcaças a subir e descer vagarosamente o rio sob a chuva da tarde. Consultou o relógio: eram exactamente quatro e meia. A chamada tinha de ser de Alec Teague, do MI 6.

Nas últimas semanas, Fontini-Cristi tinha sabido muitas coisas acerca de Teague: uma delas era que o homem era extremamente pontual. Se dissesse que telefonava por volta das quatro e meia, fazia-o às quatro e meia. Alec Teague governava a vida pelo relógio, o que dava azo a conversas abruptas.

Vittorio levantou o auscultador:

- Sim?

- Fontini? - O homem das Informações era também dado a abreviar no que tocava a nomes. Aparentemente, não via razão para acrescentar o Cristi quando Fontini era suficiente.

- Viva, Alec, estava à sua espera.

- Tenho os papéis - disse rapidamente Teague. - E as suas ordens. Os Negócios Estrangeiros estavam relutantes. Tanto podiam estar preocupados com o seu bem-estar como pensarem que você apresentaria uma conta à Coroa.

- A última é que sim, pode ter a certeza. O meu pai era uma «águia para os negócios», acho que é este o termo. Francamente, nunca percebi a frase: alguma vez se pode ser uma pomba nos negócios?

- Diabos me levem se sei - Teague não estava na verdade a ouvi-lo. - Acho que devíamos encontrar-nos imediatamente. Como é que está a sua noite?

- Vou jantar com Mistress Holcroft. Dadas as circunstâncias, posso cancelá-lo, claro.

- Holcroft? Ah, sim, a Spane.

- Acho que ela prefere Holcroft.

- Sim, não posso criticá-la. Ele é um pateta alegre. Mesmo assim, não pode renegar a etiqueta.

 

' O trocadilho original, de difícil reconstituição em português, é feito entre a expressão idiomática to drive a hatd bargain, isto é, «conseguir um negócio extremamente lucrativo», e a oposição entre o significado literal da palavra hard e o seu antónimo soft: o que Vittorio na realidade refere é a sua incredulidade perante a possibilidade de os negócios (bargains) poderem alguma vez ser soft, isto é, «macios», «brandos». (N. do T.)

 

- Ela faz o que pode por isso, acho eu. Teague riu-se:

- A danada da rapariga é tesa como tudo. Acho que havia de gostar dela.

- O que quer dizer que não a conhece, e quer que eu saiba que deu ordens para me seguirem. Nunca lhe referi o nome de casada dela.

Teague voltou a rir-se:

- Para seu próprio bem, não para o nosso.

- Quer que eu cancele?

- Não se mace. Quando é que estará despachado?

- Despachado?

- Do jantar. Oh, diabo, já me esquecia: você é italiano.

Vittorio sorriu. A lembrança de Alec surgira com toda a sinceridade.

- Posso acompanhar a senhora a casa às dez e meia... dez horas. Depreendo que quer encontrar-se comigo hoje à noite.

- Receio bem que tenha de ser. As suas ordens exigem que parta amanhã. Para a Escócia. De manhã.

O restaurante em Holborn chamava-se Fawn's. As janelas estavam cobertas por cortinas negras corridas, retesadas e fixadas com pregos, de modo a impedir a passagem de todo e qualquer raio de luz do interior para o exterior. Ele achava-se no bar, sentado num banco de canto, com a vista desimpedida para o salão e a entrada encoberta. Ela devia estar a chegar de um momento para outro, e sorriu para consigo, apercebendo-se de que queria imenso vê-la.

Sabia quando tinha começado com Jane, aquela relação de rápido avanço que daí a pouco conduziria ao esplêndido conforto da cama. Não fora o encontro no átrio do Savoy; nem a primeira noite que haviam passado um com o outro. Essas eram distracções agradáveis: ele não procurava mais, não pretendia mais.

O início fora cinco dias depois, quando estava sozinho, sentado nos seus aposentos. Ouvira uma batida na porta do átrio de entrada. Abrira. Jane estava de pé na entrada. Tinha na mão um exemplar levemente manuseado do Times. Ele não o vira.

- Por amor de Deus, que aconteceu? - perguntou ela.

Ele tinha-a feito entrar sem responder, sem saber bem o que quereria ela dizer. Ela estendera-lhe o jornal. No canto inferior esquerdo da primeira página, via-se um pequeno artigo circundado a lápis vermelho:

«Milão, 2 de Janeiro (REUTER) - Um véu de silêncio desceu hoje nesta cidade relativamente a qualquer notícia sobre as Indústrias Fontini-Cristi, quando funcionários governamentais assumiram o controlo da gestão empresarial. Desconhece-se o paradeiro de qualquer dos membros da família e a polícia selou a propriedade em Campo di Fiori. Correm inúmeros boatos quanto ao destino desta poderosa família, chefiada pelo financeiro Savarone Fontini-Cristi e pelo seu filho mais velho, Vittorio. Fontes dignas de crédito indicam que poderão ter sido mortos por patriotas enfurecidos com as recentes decisões da empresa, que muitas pessoas tinham por hostis aos interesses da Itália. Soube-se que o corpo mutilado de um "informador" (que o jornalista não viu) apareceu enforcado na Piazza del Duomo, com um letreiro que parece confirmar os rumores de execução. Roma emitiu uma declaração segundo a qual os Fontini-Cristi eram inimigos do Estado».

Vittorio pousara o jornal e atravessara o compartimento, afastando-se da rapariga. Sabia que a intenção dela era boa; não lhe censurava o cuidado. Não obstante, ficara profundamente contrariado. A angústia era somente sua e não estava disposto a compartilhá-la. Ela intrometera-se.

- Desculpa - disse ela baixinho. - Foi um atrevimento da minha parte. Não tinha o direito de fazer o que fiz.

- Quando foi que leste isso?

- Há menos de meia hora. Tinham-no deixado em cima da secretária. Falei de ti a pessoas amigas. Não via razões para não o fazer.

- E vieste logo para aqui?

- Sim.

- Porquê?

- Fiquei em cuidado - foi a singela resposta da rapariga. A honestidade da réplica comovera-o. - Agora vou-me embora.

- Por favor...

- Queres que fique?

- Sim. Acho que sim.

E, desta maneira, contara-lho. Primeiro num tom comedido, em que as frases iam ganhando ímpeto à medida que se aproximava da noite hedionda de luz branca e morte que era Campo di Fiori. Sentia a garganta seca. Não tinha vontade de continuar.

E Jane fez uma coisa estranha. Afastada dele pela curta distância entre as cadeiras defronte uma da outra, sem esboçar um movimento para encurtar essa distância, obrigou-o a continuar.

- Por amor de Deus, di-lo. Tudo!

Disse isto num sussurro, mas o sussurro era uma ordem e, na sua confusão e angústia, ele acatou-a.

Quando terminou, sentiu-se inundado de alívio. Pela primeira vez em vários dias, tinha-se libertado de um peso insuportável. Não definitivamente: ele havia de voltar. Mas de momento recobrava a sanidade; recobrara-a mesmo, não se tratava de uma simulação imposta que lhe deixava sempre a respiração um pouco oprimida.

Jane tinha visto aquilo que ele não compreendera. E dissera-o:

- Julgavas que podias continuar a guardar tudo lá dentro? Sem dizeres as palavras, sem as ouvires? Que espécie de homem julgas afinal que és?

Que espécie de homem? Não sabia bem. Nunca tinha pensado realmente na espécie de homem que era: não se tratava de uma questão que o tivesse preocupado para além de determinados limites. Era Vittorio Fontini-Cristi, filho primogénito de Savarone. Agora ia descobrir o que mais era. Perguntava a si mesmo se Jane poderia fazer parte do seu novo mundo. Ou se o ódio e a guerra fariam estiolar tudo. Sabia apenas que a guerra - e o ódio - eram os seus trampolins para voltar à vida.

Razão essa pela qual encorajara Alec Teague quando o homem do MI 6 contactara com ele na sequência da desastrosa reunião no Sector Cinco das Informações. Teague pretendia documentação sobre antecedentes: conversas aparentemente desprovidas de importância, observações espontâneas, palavras singularmente repetidas - tudo quanto pudesse relacionar-se com o comboio de Salónica. Mas Vittorio queria também qualquer coisa. De Teague. Por conseguinte, isolou os fragmentos dispersos de informação: um rio

que podia estar ou não relacionado com Zurique, um distrito dos Alpes italianos que tinha o nome de Champoluc, mas não incluía rio nenhum. Fosse qual fosse o enigma, as peças permaneciam por juntar. Mesmo assim, Teague sondava.

E, enquanto ele sondava, Vittorio inferia as opções concebíveis que o MI 6 poderia ter para ele. Falava fluentemente inglês e italiano e era mais que versado em francês e alemão; possuía um íntimo conhecimento prático de uma porção de indústrias europeias e tinha negociado com as principais figuras financeiras de toda a Europa. Isso era decerto qualquer coisa.

Teague disse que iria ver. Ontem Teague dissera que lhe telefonaria hoje às quatro e meia; podia ser que houvesse alguma coisa. Nessa tarde, às quatro e meia em ponto, Teague telefonara; tinha as «ordens» de Vittorio. Houvera mesmo qualquer coisa. Fontini-Cristi perguntava a si mesmo o que seria, e mais ainda, o porquê do carácter repentino da sua partida para a Escócia.

- Estás há muito tempo à espera? - perguntou Jane Holcroft, subitamente ao seu lado no bar debilmente iluminado.

- Oh, desculpa! - Vittorio sentia-se efectivamente em falta: não a tinha visto no salão. - Não, não, quase nada.

- Estavas a quilómetros daqui. Olhaste mesmo para mim e, quando eu sorri, carregaste o sobrolho. Espero bem que isso não seja sintomático.

- Não, santo Deus! Tinhas razão: estava a quilómetros daqui. Na Escócia.

- Como?

- Conto-te à mesa. O que sei... o que é bem pouco. Foram conduzidos à mesa e mandaram vir bebidas.

-Já te falei do Teague - disse ele, acendendo-lhe o cigarro e aproveitando a chama do fósforo para o seu.

- Sim. O homem das Informações. Não disseste grande coisa acerca dele. Apenas que parecia ser boa pessoa e que fez uma porção de perguntas.

- Não tinha outro remédio. A minha família exigia-o. - Fontini-Cristi não falara a Jane do comboio de mercadorias de Salónica: não merecia a pena. - Há uma data de semanas que ando a serraziná-lo para me arranjar trabalho.

- No serviço?

- Em qualquer serviço. Era o homem lógico a abordar: conhece gente em toda a parte. Concordámos ambos que tenho qualificações que podem ser úteis para alguém.

- Que vais fazer?

- Não sei, mas, seja o que for, principia na Escócia.

O criado chegou com as bebidas. Vittorio agradeceu com um aceno de cabeça, cônscio de que Jane mantinha o olhar no seu rosto.

- Há campos de treino na Escócia - disse ela baixinho. - Há muitos que se contam entre os altamente classificados- São muito secretos e fortemente guardados.

Vittorio sorriu.

- Não hão-de ser demasiado secretos.

A rapariga devolveu-lhe o sorriso, com a explicação integral nos olhos e apenas metade nas palavras.

- Há um complicado sistema de retransmissores de alarme de defesa aérea ao longo das áreas. Sectores sobrepostos: extremamente difíceis de penetrar por aviões. Especialmente monomotores ligeiros.

-Já me esquecia. O gerente do Savoy disse que vocês não eram para graças.

- Também recebemos uma instrução muito completa sobre todos os sistemas existentes. Bem como dos que estão em fase de desenvolvimento. Os sistemas variam consideravelmente de um sector para outro. Quando é que partes?

- Amanhã.

- Estou a ver. Por quanto tempo?

- Não sei.

- Claro. Já o tinhas dito.

- Fiquei de encontrar-me com o Teague à noite. Depois do jantar, mas não há necessidade de pressas. Só vou ter com ele às dez e meia. Presumo que nessa altura saberei mais.

Jane manteve-se calada durante alguns instantes. Cravou os olhos nos dele e a seguir falou com simplicidade:

- Depois de acabar o teu encontro com o Teague, vais ter comigo? Ao meu apartamento? Contar-me o que puderes?

- Vou, sim.

- Não importa as horas que sejam. - Poisou a mão sobre a dele. - Quero que estejamos juntos.

- Também eu.

O general de brigada Teague desfez-se do amarrotado boné de oficial e do sobretudo do Exército e atirou-os para cima da cadeira do Savoy. Desabotoou o jaquetão e o colarinho e aliviou a gravata. Inclinando-se, descansou a larga e poderosa ossatura no macio sofá e exalou um suspiro de descontracção. Dirigiu um largo sorriso a Fontini-Cristi, que estava de pé junto de uma poltrona em frente e tinha as mãos postas numa atitude suplicante.

- Dado que ando nisto desde as sete da manhã, acho que devia oferecer-me uma bebida. Uísque puro seria esplêndido.

- Com certeza. - Vittorio dirigiu-se ao pequeno bar junto à parede, encheu dois copos baixos e regressou com as bebidas.

- Mistress Spane é uma mulher muitíssimo atraente - disse Teague. - E tem toda a razão, sabe? Prefere mesmo o nome de solteira. No Ministério da Aeronáutica, o «Spane» fica entre parênteses. Tratam-na por tenente-aviadora Holcroft.

- Tenente-aviadora? - Vittorio não sabia porquê, mas o título afigurava-se-lhe levemente divertido. - Nunca a tinha imaginado em termos tão militares.

- Sim, compreendo o que quer dizer. - Teague terminou rapidamente a bebida e pousou o copo na mesinha de café. Vittorio fez menção de servir-lhe outra bebida. - Mais não, obrigado. Está na hora de falarmos de coisas sérias. - O homem das Informações consultou o relógio de pulso; Fontini-Cristi perguntou a si próprio se Teague estabeleceria mesmo meio minuto preciso para conversas sociais.

- Que há na Escócia?

- O seu local de residência durante o próximo mês, ou perto disso. Caso aceite as condições de emprego. O ordenado não é exactamente aquilo a que está habituado, receio bem. - Teague voltou a exibir um sorriso rasgado. - Para dizer a verdade, equiparámo-lo um tanto ou quanto arbitrariamente ao de um capitão. Não tenho os números de cor.

- O que me preocupa não são os números. Diz que eu tenho a prerrogativa da escolha, mas anteriormente disse que as minhas ordens tinham chegado. Não compreendo.

- Não temos qualquer controlo sobre você. Pode rejeitar o emprego, e eu anulo as ordens. É tão simples como isto. Contudo, a fim de poupar tempo, fiz o ajuste antecipadamente. Para falar com franqueza, no intuito de certificar-me de que podia ser feito.

- Muito bem. De que se trata?

- É bastante difícil de responder assim do pé para a mão. Se é que é sequer possível. Não sei se está a ver: depende muito de si.

- De mim?

- Sim. As circunstâncias de que se rodeou a sua evacuação de Itália foram excepcionais, todos compreendemos isso. Mas você não é o único continental que fugiu da Europa. Temos dezenas e dezenas deles. E já não falo dos judeus e dos bolchevistas: esses são aos milhares. Refiro-me a muita gente como o senhor. Homens de negócios, profissionais, cientistas, engenheiros, universitários, que, por uma ou outra razão (nós gostamos de pensar que foi por repugnância moral), não conseguiam funcionar no local onde viviam. É mais ou menos onde estamos.

- Não compreendo. Onde é que vocês estão?

- Na Escócia. Juntamente com quarenta ou cinquenta vulgares continentais (todos eles bastante bem sucedidos nas suas actividades anteriores) à procura de um chefe.

- E acha que esse chefe podia ser eu?

- Quanto mais penso nisso, mais convencido fico. Qualidades mais ou menos naturais, creio. Você movimentava-se nos círculos das pessoas endinheiradas, fala as línguas. Acima de tudo, é um homem de negócios, criou mercados em toda a Europa. Meu Deus, homem, as Indústrias Fontini-Cristi são imensas e você era o seu principal gestor. Adapte-se à situação. Faça aquilo que fez maravilhosamente durante a última meia dúzia de anos, ou perto disso. Simplesmente, faça-o do ponto de vista contrário. Má gestão.

- Mas do que é que o senhor está a falar?

O general de brigada prosseguiu, falando rapidamente:

- Temos na Escócia homens que trabalharam em muitas ocupações e profissões em todas as principais cidades da Europa. Um passo leva sempre a outro, não é assim?

- É com isso que o senhor está a contar, não é? Ambos fazemos perguntas. Teague inclinou-se para diante, repentinamente meditativo:

- Vivemos tempos febris e complexos. Há mais perguntas do que respostas. Mas havia uma resposta que estava mesmo diante do seu nariz, só que você não a viu. Estávamos a treinar estes homens para as coisas erradas! Isto é, não sabíamos bem para o quê é que estávamos a treiná-los: vagamente para contactos clandestinos, surtidas de informação de rotina, era tudo amorfo. Há qualquer coisa de melhor; diabolicamente engenhoso, ainda que seja eu próprio a dizê-lo. A estratégia, o conceito, é mandá-los de volta para desmembrarem o mercado, causarem estragos: não tanto sabotagem física, que nisso já temos gente que chegue, mas o caos burocrático. Deixá-los operar nos seus antigos cargos. Gabinetes de contabilidade sistematicamente com as contas erradas, conhecimentos de carga constantemente inexactos, prazos de entrega a trouxe-mouxe, confusão nas fábricas: exemplar má gestão a todo o custo!

Teague estava excitado e o seu entusiasmo era contagiante. Vittorio experimentou dificuldade em concentrar-se na essência da questão inicial.

- Mas por que razão tenho de partir de manhã?

- Para falar com toda a franqueza, disse que poderia perdê-lo se houvesse qualquer demora mais.

- Mais? Como é que pode dizer uma coisa dessas? Cheguei aqui ainda não há...

- Porque - atalhou Teague - apenas cinco pessoas em Inglaterra sabem por que razão efectivamente o evacuámos de Itália. A sua total falta de informações acerca do comboio de Salónica deixou-as estupefactas. Correram um risco extraordinário e perderam. O que você me disse não leva a nada; os nossos agentes em Zurique, em Berna, em Trieste, em Monfalcone... não podem seguir pista alguma. De maneira que me saí com uma versão diferente do motivo por que lhe deitámos a mão e salvei umas quantas cabeças com o negócio. Disse que esta nova operação era ideia sua. Eles deitaram-se a ela como gato a bofe! No fim de contas, você é um Fontini-Cristi. Aceita?

Vittorio sorriu:

- «Má gestão a todo o custo» Trata-se de um lema que duvido tenha precedentes. Sim, estou a ver as possibilidades. Agora se são imensas, ou teóricas, é o que resta ver. Aceito.

Teague sorriu maliciosamente.

- Há mais uma coisa. Quanto ao seu nome...

- Victor Fontine? - Jane desatou a rir, ao seu lado no sofá do apartamento de Kensington, aquecido pelo fulgor das achas a arder na lareira. - Se isso não é descaramennto inglês, não sei o que seja! Colonizaram-te!

- E no meio disso fizeram-me oficial - riu entre dentes o capitão Victor Fontine, erguendo o sobrescrito na mão e deixando-o cair na mesinha de café. - O Teague foi divertido. Abordou a questão mais ou menos da maneira como uma pessoa espera no cinema. «Temos de arranjar-lhe um nome. Qualquer coisa que seja imediatamente identificável, fácil de usar em telegramas». Fiquei intrigado. Iam dar-me um nome de código, qualquer coisa bastante teatral, imaginava eu. Uma pedra preciosa, talvez, com um número. Ou o nome de um animal. Em vez disso, limitou-se a anglicizar o meu nome e cortar-lhe um bocado. - Victor riu-se. - Hei-de habituar-me a ele. Não é para toda a vida.

- Eu não sei se serei capaz, mas vou tentar. Para falar com franqueza, é uma bela decepção.

- Todos nós temos de fazer sacrifícios. Não estou enganado pressupondo que um capitano é hierarquicamente superior a um tenente-aviador?

- O tenente-aviador» não tenciona dar ordens. Não me parece que nenhum de nós seja lá muito militar. E Kensington tão-pouco. E quanto à Escócia?

Ele contou-lho vagamente, não especificando os factos que conhecia. Enquanto falava, via e sentia os seus olhos invulgarmente azuis-claros sondando os dele, a olharem para lá das frases improvisadas, cientes decerto de que havia mais, ou viria a haver. Vestia um confortável roupão amarelo-pálido, que lhe realçava o cabelo castanho muito escuro e fazia sobressair o azul dos olhos. Por baixo do roupão, entre as lapelas largas, ele distinguia o branco suave da camisa de noite e percebeu que ela queria que ele a visse e lhe apetecesse tocá-la.

Era tudo extremamente confortável, pensava Fontine. Não dava a noção de urgência nem de estratagema. A certa altura do monólogo, tocou no ombro dela; ela ergueu lenta e brandamente a mão e apertou a dele, com os dedos a acariciarem os de Victor. Guiou-lhe a mão até ao regaço e cobriu-lha com a outra mão quando ele terminou.

- Portanto, aí está. «Má gestão a todo o custo» onde quer que possa ser implantada.

Ela manteve-se calada por momentos, com os olhos ainda a sondá-lo, e depois sorriu:

- É uma ideia maravilhosa. O Teague tem razão: as possibilidades são imensas. Quanto tempo vais estar na Escócia? Ele disse?

- Não especificamente. «Umas quantas semanas». - Retirou a mão da sua e, de uma maneira descuidada, natural, passou o braço por cima dos ombros dela e puxou-a para si. Ela apoiou a cabeça na parte superior do peito dele, que lhe beijou o cabelo macio. Ela endireitou-se para trás e ergueu os olhos para ele - sempre a perscrutá-lo. Descerrou os lábios ao mover-se para ele, pegou-lhe na mão e, de uma maneira descuidada, perfeitamente natural, conduziu-a por entre as lapelas do roupão e colocou-a no seio. Quando os lábios de ambos se encontraram, Jane gemeu e abriu mais a boca, acolhendo toda a humidade da dele.

- Foi muito tempo - sussurrou por fim.

- És maravilhosa - respondeu ele, afagando-lhe o cabelo macio com a mão e beijando-lhe os olhos.

- Quem me dera que não tivesses de partir! Não quero que vás! Estavam de pé em frente do pequeno sofá. Ela ajudou-o a despir o casaco,

fazendo uma pausa para comprimir o rosto de encontro ao peito dele. Voltaram a beijar-se, abraçando-se primeiro com suavidade, mas depois com crescente intensidade. Por um brevíssimo espaço de tempo, Victor poisou-lhe as mãos e fê-la recuar; o rosto encantador da rapariga estava em plano inferior ao seu e ele falou para os seus olhos azuis:

- Vou sentir terrivelmente a tua falta. Deste-me imenso.

- E tu deste-me aquilo que eu receava encontrar - respondeu ela, esboçando com os lábios um sorriso suave e calmo. - Receava procurar, aliás. Meu Deus, ficava paralisada!

Pegou na mão dele e atravessaram a sala até uma porta, a do quarto; um único candeeiro de marfim estava aceso numa mesa-de-cabeceira; a luz branco-amarelada iluminava as paredes azuis-claras e a mobília simples, cor de marfim. A colcha de seda que cobria a cama era, também ela, azul e branca e coberta dos complicados círculos de um desenho floral. Era tudo tão sereno,

tão distante, tão encantador como Jane era encantadora.

É . . um quarto muito íntimo. E cheio de calor - disse Fontine, impressionado com a singela beleza. - É um quarto extraordinário, porque é o teu quarto e tu gostas dele. Pareço-te disparatado?

- Pareces italiano - respondeu ela baixinho, sorrindo, com os olhos repletos de amor e urgência. - A intimidade e o calor são para tu partilhares. Quero que os compartilhes.

Dirigiu-se para um dos lados da cama, e ele para o outro. Juntos, dobraram para trás a colcha de seda; as mãos de ambos tocaram-se e olharam um para o outro. Jane contornou a cama, direita a ele. Ao fazê-lo, levantou as mãos e desabotoou a parte de cima do penteador, após o que desapertou a fita da

camisa de noite. O tecido escorregou-lhe pelo corpo e os seus seios redondos e cheios emergiram das dobras da seda, com os bicos rosados e tesos.

Ele tomou-a nos braços, com os lábios a procurar os dela, numa excitação húmida e suave. Jane apertou o corpo contra o dele. Victor não se lembrava de alguma vez se ter sentido tão completo, tão totalmente excitado. As compridas pernas dela tremiam e voltou a apertá-lo contra si. Abriu a boca e os seus lábios cobriram os dele, arrancando-lhe da garganta gemidos abafados de doce prazer.

- Oh, meu Deus, toma-me, Vittorio. Depressa, depressa, meu amor!

O telefone tocou na secretária de Alec Teague. Ele olhou para o relógio de escritório da parede e a seguir para o de pulso. Faltavam dez minutos para a uma hora da manhã. Levantou o auscultador.

- Fala Teague.

- Aqui Reynolds, de sentinela. Temos o relatório. Ainda está em Kensington, no apartamento da Holcroft. Pensamos que vai passar lá a noite.

- óptimo! Estamos à tabela. Tudo conforme o plano.

- Quem me dera saber o que foi dito! Podíamos ter arranjado isso, sir.

- Perfeitamente escusado, Reynolds. Registe uma anotação para os dossiers, amanhã de manhã: contactar com Parkhurst, do Ministério da Aeronáutica. Há que ter uma certa condescendência e flexibilidade para com a tenente-aviadora Holcroft, incluindo uma deslocação aos retransmissores de alarme de Loch Torridon, na Escócia, se isso se puder arranjar discretamente. Agora, vou-me embora, ver se durmo um bocado. Boa noite.

Loch Torridon ficava a oeste das terras altas de noroeste, à beira de água, a origem do braço de mar que levava às Hébridas. No interior havia muitas ravinas profundas, com rios que se precipitavam das regiões mais elevadas, água gélida e transparente e formava bolsas de charcos. O aquartelamento ficava entre a costa e os montes. O terreno era acidentado. Isolado, invulnerável, patrulhado por guardas armados e cães. Oito quilómetros a nordeste ficava uma pequena vila com uma única rua principal que serpenteava por entre umas quantas lojas e se transformava numa estrada de terra na periferia.

Os montes propriamente ditos eram alcantilados e os desfiladeiros, abruptos, profusamente cobertos de árvores altaneiras de espessa folhagem. Era nos montes que os continentais se submetiam aos rigores do treino físico. Mas o treino era lento e laborioso. Os recrutas não eram soldados, mas homens de negócios, professores e profissionais, pouco preparados para suportar esforços físicos violentos.

O denominador comum era o ódio aos Alemães. Vinte e dois tinham raízes na Alemanha e na Áustria; havia também oito polacos, nove holandeses, sete belgas, cinquenta e três cidadãos outrora respeitáveis que tinham feito os seus próprios cálculos meses atrás.

Sabiam que um dia seriam enviados de volta para as suas pátrias. Mas, como Teague observara, era um tipo de objectivo informe. E esta participação indefinida, aparentemente inferior, era inaceitável para os continentais; ouviam-se correntes subterrâneas de descontentamento nas quatro casernas ao meio do campo. Quando as notícias de vitórias alemãs surgiram com alarmante rapidez pela rádio, as frustrações redobraram.

«Por amor de Deus! Quando? Onde? Como? Estamos a perder-nos!»

O comandante do campo saudou Victor Fontine com não pouca fadiga. Era um oficial do exército regular sem papas na língua e licenciado pelas diversas escolas de operações secretas do MI 6.

- Não vou fingir que percebo muita coisa - disse ele na primeira reunião. - As minhas instruções são nebulosas, como se pretende que sejam, imagino eu. Vai passar três semanas, mais ou menos, até que o general Teague nos dê a ordem, a treinar com o nosso grupo como qualquer um dos homens. Fará tudo o que eles fizerem, nada de fora do vulgar.

- Sim, com certeza.

Com estas palavras, Victor entrou no mundo de Loch Torridon. Um mundo estranho, embrulhado, que tinha pouco de comum com tudo o que lhe acontecera até então. E compreendia, embora não tivesse a certeza da razão, que as

lições de Loch Torridon se fundiriam com os ensinamentos de Savarone e moldariam os restantes anos da sua vida.

Deram-lhe um fato-macaco de combate e equipamento da ordenança, incluindo uma espingarda e uma pistola (sem munições), uma baioneta de carabina que se dobrava como um canivete, uma mochila de campanha e um cobertor. Passou às casernas, onde foi cumprimentado sem grande deferência, com o menor número de palavras possível e sem curiosidade. Aprendeu depressa que não havia grande camaradagem em Loch Torridon. Aqueles homens viviam dentro e na companhia do seu passado próximo: não procuravam amizades.

As horas do dia eram longas e fatigantes; as noites, passadas a decorar códigos e mapas e no sono profundo necessário para aliviar o corpo dorido. De certo modo, Victor começou a encarar Loch Torridon como um prolongamento de outros jogos recordados. Dir-se-ia que estava de regresso à universidade, em competição com os colegas no campo, nos recintos desportivos, nos tapetes, ou nas encostas a correr pela vertente abaixo em contra-relógio. Com a diferença de que os colegas de Loch Torridon eram diferentes; na sua maioria eram mais velhos do que ele e nenhum tinha conhecido, mesmo que vagamente, o que era ser um Fontini-Cristi. Isso apurou ele através de breves conversas; era fácil manter-se fechado em si mesmo e por conseguinte competir consigo próprio. Tratava-se da mais cruel competição.

- Viva. O meu nome é Mikhailovic. - O homem que sorria e falava com Victor atirou-se para o chão, respirando profundamente. Aliviou as correias da mochila de campanha e deixou o volumoso saco de lona escorregar-lhe pelas costas. Estavam a meio de um intervalo de dez minutos entre uma marcha forçada e um exercício de manobras tácticas.

- O meu é Fontine - respondeu Victor. O homem era um dos dois novos recrutas que tinham chegado a Loch Torridon, havia menos de uma semana. Tinha vinte e tal anos e era o instruendo mais novo do aquartelamento.

- É italiano, não é? Da Caserna Três?

- Sim.

- Eu sou servo-croata, Caserna Um.

- O seu inglês é muito bom.

- O meu pai é exportador... era, digo. O dinheiro está nos países de língua inglesa.

Mikhailovic tirou um maço de cigarros do bolso do fato-macaco e ofereceu-o a Fontine.

- Não, obrigado, ainda agora acabei um.

- Estou com o corpo todo dorido - disse o eslavo, acendendo um cigarro. - Não sei como é que os velhos se safam.

- Já cá andamos há muito tempo.

- Não me refiro a si. Refiro-me aos outros.

- Obrigado. - Victor perguntou a si mesmo por que razão se queixaria Mikhailovic. Era um homem entroncado, de constituição vigorosa, pescoço de toiro e ombros largos. Havia ainda outra coisa nele que era estranha: não se via a menor transpiração na testa de Mikhailovic, ao passo que a de Fontine estava coberta de suor.

- Saiu de Itália antes que Mussolini fizesse de si um lacaio da Alemanha, não?

- Mais ou menos isso.

- O Machek vai pelo mesmo caminho. Não há-de tardar muito que mande na Jugoslávia inteira, tome nota do que lhe digo.

- Não sabia disso.

- Não há muita gente que saiba. O meu pai sabia. - Mikhailovic puxou uma fumaça do cigarro, alongando o olhar pelos campos fora. - Acrescentou em voz baixa: - Executaram-no.

- Lamento. É doloroso, bem sei.

- Sabe? - O eslavo virou-se: havia uma expressão desconcertada nos seus olhos.

- Sei. Mais tarde falamos. Temos de concentrar-nos na manobra. O objectivo é alcançar o cimo do próximo monte pelo meio do arvoredo sem sermos seguidos. - Victor pôs-se de pé e estendeu a mão. - O meu primeiro nome é Victor... Victor. Qual é o seu?

O servo-croata aceitou firmemente o aperto de mão.

- Petride. É grego. A minha avó era grega.

- Bem-vindo a Loch Torridon, Petride Mikhailovic.

À medida que os dias passavam, Victor e Petride funcionavam bem em conjunto. Tão bem, aliás, que os sargentos do aquartelamento os emparelhavam contra grupos numericamente superiores nos exercícios de infiltração. Petride foi autorizado a transferir-se para a caserna de Victor.

Para Victor, foi como se um dos seus irmãos mais novos tivesse voltado repentinamente à vida: curioso, muitas vezes desconcertado, mas forte e obediente. Em certos aspectos, Petride preenchia um vazio, mitigava a dor das suas recordações. Se havia algum ónus no relacionamento entre eles, era meramente o do exagero por parte do servo-croata. Petride era demasiado falador, passava o tempo a fazer perguntas e estava constantemente a prestar informações espontâneas sobre a sua vida particular, esperando que Victor retribuísse.

A partir de determinado ponto, Fontine não era capaz. Não estava pura e simplesmente inclinado a fazê-lo. Tinha compartilhado a angústia de Campo di Fiori com Jane; não haveria mais ninguém. De vez em quando, achava necessário repreender Petride Mikhailovic.

- Você é meu amigo, e não o meu padre.

- Tinha algum padre?

- Para dizer a verdade, não. Era uma figura de retórica. - A sua família era religiosa. Deve ter sido.

- Porquê?

- O seu verdadeiro nome. «Fontini-Cristi». Quer dizer «fontes de Cristo», não quer?

- Numa língua que tem vários séculos. Não somos religiosos no sentido convencional; desde há muito tempo.

- Eu sou muito religioso.

- Está no seu direito.

A sexta semana começou e terminou e continuava a não haver notícias de Teague. Fontine perguntava a si mesmo se não fora esquecido, se o MI 6 não teria reconsiderado o conceito de «má gestão a todo o custo». Independentemente disso, a vida em Loch Torridon tinha-lhe varrido do espírito as autodestruidoras recordações; sentia-se na realidade novamente forte e capaz.

Os tenentes do aquartelamento haviam idealizado aquilo a que chamavam um exercício de «perseguição longa» para esse dia. As quatro casernas operavam em separado, ocupando cada uma delas quarenta e cinco graus da agulha magnética num raio de dezasseis quilómetros centrado em Loch Torridon. Era dado um quarto de hora de avanço a dois homens de cada caserna antes de os recrutas se lançarem na sua peugada, consistindo o exercício na tentativa de os perseguidos escaparem aos perseguidores durante o maior espaço de tempo possível.

Era natural que os sargentos escolhessem os dois melhores de cada caserna para iniciar o exercício. Victor e Petride foram os primeiros fugitivos da Caserna Três.

Correram pela encosta rochosa abaixo, direitos ao arvoredo de Loch Torridon.

- Depressa agora! - ordenou Fontine. ao embrenharem-se na densa folhagem do bosque. - Metemos pela esquerda. Pela lama; entre pela lama dentro! Quebre o maior número de galhos que possa.

Não chegaram a correr mais de cinquenta metros, batendo com os pés na húmida picada de terra macia que se internava pelo bosque. Victor deu a segunda ordem:

- Alto! Já estamos suficientemente longe. Agora, com cuidado. Vamos deixar pegadas na terra seca... Já chega. Muito bem; agora caminhe para trás, com os pés mesmo em cima das pegadas. Pelo meio da lama... óptimo. Agora vamos voltar para trás.

- Voltar para trás? - perguntou Petride, desorientado. - Voltar para trás para onde?

- Para a orla do bosque. Para onde entrámos. Ainda temos oito minutos. É o suficiente.

- Para quê? - O servo-croata olhava para o amigo mais velho como se Fontine fosse divertidamente louco.

- Para subirmos a uma árvore. Onde não nos vejam.

Victor escolheu um alto pinheiro-bravo no meio de um tufo de árvores de menor porte e principiou a trepar, alcandorando-se até ao primeiro nível de ramadas. Petride seguiu-lhe no encalço, com o rosto infantil exultante. Chegaram ambos a três quartos da altura do pinheiro, agarrando-se bem ao tronco. Embora ficassem quase escondidos pelas ramagens, conseguiam ver o terreno em redor.

- Temos ainda cerca de dois minutos - murmurou Victor, olhando para o relógio. - Faça força com os pés para deitar abaixo alguma pernada solta. Assente solidamente o peso do corpo.

Decorridos dois minutos e trinta segundos, os perseguidores passaram bem longe lá em baixo. Fontine inclinou-se para o jovem servo-croata.

- Vamos dar-lhes dois minutos de avanço e depois descemos. Seguimos direito ao outro lado do monte, onde há uma zona que fica em frente de uma ravina. É um bom esconderijo.

- À distância de uma pedrada da linha de partida! - observou Petride com um sorriso largo. - Como é que se lembrou de tal coisa?

- Você nunca teve irmãos com quem brincar. O jogo das escondidas era uma das brincadeiras preferidas.

O sorriso de Mikhailovic desvaneceu-se.

 -Tenho muitos irmãos - disse enigmaticamente, desviando o olhar. Não havia tempo para aprofundar a afirmação de Petride. Nem tão-pouco

Victor o desejava. No decurso dos últimos oito dias, mais ou menos, o jovem servo-croata tinha-se comportado de uma maneira bem estranha, ora taciturno, ora grotesco, e a fazer incessantes perguntas que passavam os limites de uma amizade de seis semanas. Fontine consultou o relógio.

- Desço eu à frente. Se não houver ninguém à vista, puxo os ramos. E o sinal para você me seguir.

No chão, Victor e Petride agacharam-se e correram para leste pela orla do arvoredo, o sopé do monte de partida. A trezentos metros, em torno da periferia do monte, havia uma vertente de rochedos escarpados sobranceiros a uma profunda ravina. Tinha sido esculpida no monte pela fractura de um glaciar eras atrás, um refúgio natural. Avançaram literalmente através do desfiladeiro. Respirando pesadamente, Fontine baixou-se, ficando sentado, com as costas apoiadas na escarpa rochosa. Abriu o bolso do blusão de campanha e tirou de lá um maço de cigarros. Petride sentou-se defronte dele, com as pernas sobre a borda da saliência. O poleiro isolado não tinha mais de dois metros de largura e talvez metro e meio de fundo. Victor tornou a olhar para o relógio. Agora já não havia necessidade de falar em surdina.

- Daqui a meia hora, subimos ao cume e surpreendemos os tenentes. Um cigarro?

- Não, obrigado - respondeu abruptamente Mikhailovic, de costas para Fontine.

A entoação de zanga não podia passar despercebida.

- Que foi? Magoou-se?

Petride virou-se. Os seus olhos poisaram em Victor.

- Por assim dizer, magoei-me.

- Não vou tentar perceber isso. Ou se magoou ou não se magoou. Não estou interessado em coisas que são por assim dizer.

Fontine resolveu que, se aquele ia ser um dos períodos de depressão de Mikhailovic, podiam muito bem passar sem conversas. Começava a pensar que, por detrás daquela inocência de olhos arregalados, Petride Mikhailovic era um jovem perturbado.

- Você escolhe o que lhe interessa, não escolhe, Victor? Desliga o mundo a seu bel-prazer. Com um interruptor na sua cabeça, é tudo vazio. Nada.

O servo-croata fitava Fontine à medida que falava.

- Esteja calado. Aprecie a paisagem, fume um cigarro e deixe-me em paz. Está a tornar-se maçador.

Mikhailovic puxou lentamente as pernas para si por cima do rebordo, com os olhos ainda cravados em Victor.

- Não deve repelir-me. Não pode. Partilhei os meus segredos consigo. Abertamente, de livre vontade. Agora você deve fazer o mesmo.

Fontine olhou para o servo-croata, subitamente apreensivo.

- Acho que está enganado acerca da nossa relação. Ou talvez tenha sido eu que me enganei acerca das suas preferências.

- Não me insulte.

- Simples clarificação...

- O meu tempo esgotou-se! - Petride levantou a voz; as suas palavras formaram um grito, ao mesmo tempo que os olhos permaneciam muito abertos, sem pestanejar. - Você não é cego! Não é surdo! No entanto, finge sê-lo!

- Saia daqui - ordenou calmamente Victor. - Volte para a linha de partida. Para junto dos sargentos. O exercício terminou.

- O meu nome - sussurrou Mikhailovic, com uma perna puxada para

cima, sob o vigoroso corpo acocorado. - Desde o princípio que se recusa a reconhecê-lo! Petride!

- É o seu nome. Eu reconheço-o.

- Nunca o ouviu? É isso que está a dizer?

- Se ouvi, não me causou impressão especial.

- Isso é mentira! É o nome de um sacerdote. E você conheceu esse sacerdote! - As palavras voltaram a erguer-se nos ares, um grito solto em desespero.

- Conheci uma porção de sacerdotes. Nenhum com esse nome...

- Um sacerdote num comboio! Um homem devotado à glória de Deus! Que trilhava na graça da Sua santa obra! Você não pode, não deve renegá-lo!

- Mãe de Cristo! - Fontine falou inaudivelmente: o choque foi avassalador. - Salónica. O comboio de mercadorias de Salónica.

- Sim! Esse sacratíssimo comboio: documentos que são o sangue, a alma, da Igreja una, incorruptível, imaculada! Você tirou-no-los!

- Você é um sacerdote de Xenope - disse Victor, incrédulo perante a revelação. - Meu Deus, você é um monge de Xenope!

- Com todo o meu coração! Com toda a minha mente, a minha alma e o meu corpo!

- Como veio aqui parar? Como é que penetrou em Loch Torridon? Mikhailovic puxou a outra perna para si; agora estava inteiramente agachado, um animal louco preparado para o salto.

- Não interessa. Tenho de saber para onde é que a arca foi levada, onde foi escondida. Diga-mo, Vittorio Fontini-Cristi! Não tem outro remédio!

- Dir-lhe-ei o mesmo que disse aos britânicos. Não sei nada! Os ingleses salvaram-me a vida; por que razão havia de mentir?

- Porque.deu a sua palavra. A outro.

- A quem?

- Ao seu pai.

- Não! Mataram-no antes de ele poder dizer as palavras! Se você sabe alguma coisa, há-de saber isso!

Os olhos do sacerdote de Xenope ficaram repentinamente imóveis. O seu olhar era velado, as pálpebras dilatadas. Meteu a mão por baixo do blusão de campanha e tirou de lá uma pequena automática, de forma achatada. Com o polegar, destravou a patilha de segurança.

- Você é insignificante. Somos ambos insignificantes - murmurou. - Não somos nada.

Victor susteve a respiração. Puxou os joelhos para si; aproximava-se a fracção de segundo em que teria a única oportunidade de salvar a vida, em que lançaria os pés para diante contra o sacerdote alienado. Uma bota contra a arma, a outra na perna de Mikhailovic que lhe sustentava o peso, lançando-o no precipício. Era tudo quanto restava... se pudesse fazê-lo.

Abruptamente, numa surpreendente transição vocal, o sacerdote falou num tom de quem entoasse um cântico:

- Você está a dizer-me a verdade - disse, fechando os olhos. - Disse-me a verdade - repetiu hipnoticamente.

- Sim. Fontine inspirou profunda, muito profundamente. Quando expirasse, sabia que dispararia as pernas para a frente: chegara o momento.

Petride pôs-se de pé, dilatando-se-lhe o peito vigoroso por baixo das vestes de soldado. Mas a pistola já não estava apontada a Victor. Ao invés, ambos os braços de Mikhailovic estavam estendidos numa postura de crucificação. O sacerdote ergueu a cabeça para o céu e gritou.

- Creio num só Deus, Pai todo-poderoso! Fitarei nos olhos o Senhor e não vacilarei!

O sacerdote de Xenope curvou o braço direito e encostou o cano da automática à têmpora. Disparou.

- Foi a sua primeira morte - disse despreocupadamente Teague, sentado numa cadeira em frente da secretária de Fontine, no abafado cubículo.

- Não o matei!

- Não interessa como acontece nem quem puxa o raio do gatilho. O resultado é o mesmo.

- Pela razão errada! Aquele comboio, aquele amaldiçoado, aquele medonho comboio! Quando é que acabará? Quando se irá embora?

- Era seu inimigo. É tudo quanto eu estou a dizer.

- Se fosse, você devia tê-lo sabido, tê-lo detectado! Você é um trouxa, Alec. Teague mudou a posição das pernas, irritado.

- Isso é uma linguagem bastante desabrida para um capitão empregar com um general de brigada.

- Nesse caso, terei o maior prazer em tomar conta do seu comando e pôr as coisas no lugar - disse Victor, voltando aos papéis dentro de sobrescritos de papel pardo na secretária.

- Na vida militar não há disso.

- É a única razão da vossa continuidade. Se você fosse um dos meus quadros, não durava uma semana no lugar.

- Não posso acreditar! - exclamou Teague, espantado. - Eu aqui sentado, a ser demitido por um reles macarrone!

Fontine soltou uma gargalhada.

- Não exagere. Estou só a fazer aquilo que me mandou. - Fez um gesto na direcção dos sobrescritos de papel pardo em cima da secretária. - Aperfeiçoar Loch Torridon. Nesse processo, tentei descobrir como foi que aquele sacerdote de Xenope, o tal Mikhailovic, conseguiu enfiar-se lá.

- E descobriu?

- Acho que sim. É uma deficiência básica em todos estes dossiers. Não há avaliações financeiras claras; há palavras, histórias, juízos intermináveis... mas muito poucos números. Isto deve ser corrigido onde quer que seja possível antes de tomarmos as decisões finais em termos de pessoal.

- De que diabo está você a falar?

- De dinheiro. Os homens orgulham-se dele: é um símbolo da sua produtividade. Pode ser detectado, confirmado, de uma dúzia de maneiras diferentes. Há registos a dar com um pau. Sempre que possível, quero relatórios financeiros de cada recruta de Loch Torridon. Não havia nenhum de Petride Mikhailovic.

- Relatórios financeiros...

- Um relatório financeiro - completou Fontine - é uma visão extraordinariamente aprofundada do carácter de um homem. Aqui há, em termos gerais, homens de negócios e profissionais. Hão-de prestar-se a isso da melhor vontade. Aqueles que o não fizerem, interrogá-los-emos a fundo.

Teague descruzou as pernas e disse com voz respeitosa:

- Lá chegaremos: há maneiras de fazer esse tipo de coisas.

- Caso contrário - disse Victor, erguendo fugazmente a vista, - qualquer

banco ou casa de corretagem pode fornecê-los. Quanto mais complexos melhor.

- Sim, claro. E, afora isso, como vão as coisas?

Fontini encolheu os ombros, voltando a abanar a mão sobre a rima de pastas de arquivo em cima da secretária.

- Devagar. Li várias vezes todos os dossiers, tomando notas, catalogando-os por profissões e profissões correlativas. Separei padrões geográficos, compatibilidades linguísticas. Mas aonde me conduziu tudo isso, ainda não sei bem. Vai levar tempo.

- É uma data de trabalho - interrompeu Teague. - Lembre-se do que eu lhe dizia.

- Sim. E disse também que valeria a pena. Espero que não se engane. Teague inclinou-se para a frente:

- Tenho um dos melhores peritos do serviço para trabalhar consigo. Será o seu homem das comunicações durante a cena toda. É um barra: conhece mais códigos e cifras que quaisquer dez dos nossos melhores criptógrafos. E tremendamente decidido, um ás em decisões rápidas. Que é o que você vai querer, claro.

- Só daqui a muito tempo.

- Antes do que pensa.

- Quando é que o conheço? Como é que ele se chama?

- Geoffrey Stone. Trouxe-o comigo até cá.

- Está em Loch Torridon?

- Sim. Sem dúvida na secção cripto. Quero que ele se inteire desde o início. Victor não soube bem porquê, mas a informação de Teague perturbou-o.

Queria trabalhar sozinho, sem distracções.

- Muito bem. Suponho que o verei ao jantar no refeitório. Teague voltou a sorrir e consultou o relógio:

- Bem, não sei bem se você quererá jantar no refeitório de Torridon.

- Uma pessoa nunca janta no refeitório, Alec. Come.

- Sim; bem, apesar da cozinha. Tenho uma notícia para si. Tem uma pessoa amiga no sector.

- Sector? Loch Torridon é um sector?

- Para retransmissões de alarmes aéreos.

- Meu Deus! A Jane está cá?

- Descobri-o anteontem à noite. Anda numa deslocação pelo Ministério da Aeronáutica. Claro que não fazia ideia de que você estava na área, a não ser quando contactei com ela ontem. Estava em Moray Firth, no litoral.

- Você é um manipulador tremendo! - riu-se Fontine. - E não disfarça nada! Onde diabo está ela?

- Juro-lhe - disse Teague com convincente inocência - que não sei nada. Pergunte-lho você. Há uma estalagem nos arredores da cidade. Ela estará lá às cinco e meia.

«Meu Deus, senti a falta dela! Senti mesmo a falta dela». Era uma coisa excepcional: não se tinha apercebido da profundidade do que sentia. O rosto dela, com os seus traços vigorosos e no entanto delicados; o cabelo escuro e macio que lhe caía tão graciosamente nos ombros; os olhos, de um azul tão intenso, tudo isso estava gravado no seu espírito.

- Suponho que me dará um salvo-conduto para eu poder sair do aquartelamento.

Teague acenou afirmativamente.

- E arranjo-lhe uma viatura. Mas ainda tem tempo antes de se pôr a caminho. Vamos ocupá-lo com os pormenores. Bem sei que ainda agora começou, mas deve ter chegado a uma ou duas conclusões.

- Pois cheguei. Estão aqui cinquenta e três homens. Duvido que vinte e cinco resistam a Loch Torridon, da maneira como julgo que deveria ser orientado...

Falaram durante cerca de uma hora. Quanto mais Fontine expunha as suas opiniões, mais completamente, ao que se dava conta, Teague as aceitava, óptimo, pensou Victor. Ia fazer muitos pedidos, incluindo uma contínua caça ao talento de Loch Torridon. Mas agora os seus pensamentos concentravam-se em Jane.

- Acompanho-o à sua caserna - disse Teague, apercebendo-se da impaciência do outro, - Podemos passar pelo clube de oficiais por um minuto... Prometo que não será mais que isso. A esta hora o capitão Stone deve lá estar; tem de travar conhecimento com ele.

Contudo, não foi necessário passar pelo clube de oficiais para encontrar o capitão Geoffrey Stone. Quando iam a descer as escadas do complexo, Victor distinguiu a figura de um homem alto com um sobretudo militar. Estava de pé a cerca de quinze metros de distância no aquartelamento, de costas para eles, a falar com o sargento-mor. Havia qualquer coisa de familiar na estatura do oficial, uma espécie de descaimento dos ombros pouco militar. A mão direita do homem chamava especialmente a atenção. Achava-se envolvida por uma luva vários tamanhos acima para ser normal. Tratava-se de uma luva medicinal: a mão estava ligada por baixo do couro negro.

O homem virou-se; Fontini imobilizou-se a meio do caminho, com a respiração suspensa.

O capitão Geofrey Stone era o agente chamado «Maçã», que fora alvejado no cais em Celle Ligure.

Abraçaram-se. Nenhum deles falou, pois as palavras eram desnecessárias. Tinham passado dez semanas desde que haviam estado juntos. Dez semanas desde os momentos esplendorosos e excitantes do acto de amor.

Na estalagem, a velhota que estava sentada numa cadeira de baloiço atrás do balcão da recepção cumprimentou-o.

- A tenente-aviadora Holcroft chegou há uma hora. Penso que o senhor seja o capitão, embora a roupa não diga que o é. Ela disse para o senhor subir, se está para aí virado. É uma cachopa directa. Aquela não se põe com palavras fingidas. Ao cimo das escadas, vire à esquerda, quarto número quatro.

Tinha batido à porta de leve, com um latejar no peito ridiculamente adolescente. Perguntou a si mesmo se ela experimentaria a mesma tensão.

Estava de pé no interior do quarto, com a mão no puxador da porta e os olhos inquiridores mais azuis e perscrutadores do que ele jamais se recordava de tê-los visto. A tensão estava lá, mas no entanto havia também confiança.

Entrou e pegou-lhe na mão. Fechou a porta; venceram a distância entre eles e estenderam lentamente os braços um para o outro. Quando os lábios de ambos se tocaram, todas as perguntas foram sepultadas, as respostas óbvias no silêncio.

- Estava com medo, sabes? - sussurrou Jane, segurando o rosto dele nas mãos e beijando-lhe os lábios terna e repetidamente.

- Sim. Porque eu também estava com medo.

- Eu não sabia bem o que ia dizer.

- Nem eu. E, portanto aqui estamos a falar das nossas incertezas. É saudável, penso eu.

- E provavelmente infantil - disse ela, delineando-lhe a testa e a face com os dedos.

- Eu acho que não. Querer... precisar de alguém... com tamanho sentimento é uma coisa ímpar. A pessoa receia que não seja retribuído.

Tirou a mão dela do seu rosto e beijou-a, beijando-lhe depois os lábios e a seguir o macio cabelo, que tombava, emoldurando a pele suave do rosto encantador. Passou o braço em torno dela e atraiu-a a si, abraçando-a muito e segredando:

- Preciso mesmo de ti. Senti a tua falta.

- És um amor em dizê-lo, meu querido, mas é supérfluo. Eu não tenho necessidade disso, nem to pedirei.

Victor afastou-se suavemente e envolveu-lhe o rosto com as mãos, olhando-a bem nos olhos, muitíssimo próximos dos seus.

- Não se passa o mesmo contigo?

- Passa-se qualquer coisa de muito parecido. - Inclinou-se para ele, com os lábios encostados ao seu rosto. - Penso em ti com demasiada frequência. E sou uma rapariga muito ocupada.

Ele sabia que Jane o desejava tão total e completamente como ele a ela. A tensão que um e outro sentiam transferiu-se para os corpos, só podendo encontrar-se alívio no acto do amor. Contudo, a crescente e dolorosa urgência que havia neles não exigia rapidez. Ao invés, enlaçaram-se na tépida excitação do leito e exploraram-se mutuamente com ternura e progressiva insistência. E falavam mansamente em sussurros à medida que a excitação de ambos aumentava.

«Oh, senhor, amava-a tanto!»

Estavam deitados, nus debaixo das cobertas, esgotados. Ela soergueu-se sobre o cotovelo e passou a mão por cima do seu corpo, tocando-lhe o ombro e percorrendo-lhe a pele com os dedos até às coxas. O seu cabelo escuro caía sobre o peito dele; atrás dele, por baixo da face delicada e dos penetrantes olhos azuis, os seios dela estavam suspensos sobre a pele de Victor. Este mexeu a mão direita e estendeu-a para ela, um sinal de que o acto de amor ia começar de novo. E ocorreu repentinamente a Vittorio Fontini-Cristi, enquanto ali estavam ambos deitados, nus, que não queria perder nunca aquela mulher.

- Quanto tempo é que podes ficar em Loch Torridon? - perguntou ele, fazendo a cara dela descer para junto da sua.

- És um horroroso e manipulador assaltante de raparigas já não muito novas - segredou ela, rindo baixinho junto do seu ouvido. - Ando presentemente num estado de ânsia erótica, com a lembrança de faíscas e prazer erógeno ainda a agitar o mais íntimo do meu ser... e perguntas-me quanto tempo posso ficar! Para todo o sempre, evidentemente. Até regressar a Londres dentro de três dias.

- Três dias! É melhor que dois dias. Ou que vinte e quatro horas.

- Para quê? Para ficarmos ambos reduzidos a dois idiotas balbuciantes?

- Estaremos casados.

Jane ergueu a cabeça e olhou para Victor. Olhou-o durante muito tempo antes de falar, com os olhos cravados nos dele.

- Passaste por muito sofrimento. E uma terrível confusão.

- Não queres casar comigo?

- Mais do que a vida, querido. Meu Deus, mais que tudo no mundo...

- Mas não dizes que sim.

- Sou tua. Não precisas de casar comigo.

- Eu quero casar contigo. Tem algum mal?

- É o que de melhor eu posso imaginar. Mas tens de ter a certeza.

- Tu tens a certeza?

Ela baixou a face sobre a dele.

- Tenho. Tu é que não. Tu tens de ter a certeza.

Ele afastou-lhe o macio cabelo da face e respondeu-lhe com os olhos.

O embaixador Anthony Brevourt estava sentado à enorme secretária do seu gabinete vitoriano. Era quase meia-noite, a criadagem recolhera-se e a cidade de Londres estava às escuras. Havia por toda a parte homens e mulheres nos telhados, no rio e nos parques, falando em voz baixa para aparelhos de rádio e a olhar para os céus. Esperando o cerco que pressentiam, mas ainda não principiara.

Era questão de semanas; Brevourt sabia-o e os relatórios perspectivavam-no. Mas não podia manter a atenção nos horrores que haviam de alterar a história tão inevitavelmente como os acontecimentos progrediam. Achava-se assoberbado por outra catástrofe. Menos imediatamente espectacular, mas, sob muitos aspectos, não menos profunda. Constava do dossier que tinha na frente. Olhou fixamente o nome de código que tinha inventado para si próprio. E para um escasso número - muito escasso - de outros.

Salónica

Tão simples na leitura e contudo tão complexo no significado!

«Como, em nome de Deus, podia aquilo ter acontecido? Que imaginavam eles? Como podiam os movimentos de uma única composição de mercadorias, através de meia dúzia de fronteiras, ser impossíveis de reconstituir? A chave tinha de estar na posse do sujeito».

Em baixo, numa gaveta fechada da secretária, um telefone tocou. Brevourt abriu a gaveta e levantou o auscultador.

- Sim?

- Loch Torridon - foi a resposta concisa.

- Sim, Loch Torridon? Estou sozinho.

- O sujeito casou ontem. Com a candidata.

Brevourt parou momentaneamente de respirar. A seguir inspirou profundamente. A voz do outro lado da linha tornou a falar.

- Está lá, Londres? Está a ouvir-me?

- Estou, sim, Torridon. Ouvi, sim. É mais do que poderíamos esperar, não é? O Teague está satisfeito?

- Nem por isso. Acho que preferia uma relação cómoda. Não o casamento. Não me parece que estivesse preparado para isso.

- É provável que não. A candidata pode ser considerada um obstáculo. O Teague terá de conformar-se, Salónica tem uma prioridade muitíssimo maior.

- Nunca diga semelhante coisa ao MI 6, Londres.

- Nesta conjuntura - disse friamente Brevourt -, espero bem que todos os arquivos relativos a Salónica tenham sido retirados do MI 6. Era esse o nosso entendimento, Loch Torridon.

- Está correcto. Nada lá resta.

- óptimo. Vou com o Churchill a Paris. Pode comunicar comigo através do canal oficial dos Negócios Estrangeiros, Código Maginot. Permaneça em contacto; o Churchill quer ser mantido ao corrente.

 

Londres

Fontine entrou na correnteza de transeuntes que se dirigiam para a estação de Paddington. Havia nas ruas um torpor, uma sensação de incredulidade que se traduzia em bolsas de silêncio. Os olhares sondavam-se entre si, os estranhos davam-se conta dos outros estranhos.

A França capitulara.

Victor virou para Marylebone; viu pessoas a comprarem jornais em silêncio. Tinha acontecido; tinha acontecido na realidade. O inimigo estava do outro lado da Mancha, vitorioso, invencível.

Os barcos de Dover vindos de Calais já não traziam multidões de risonhos turistas em férias. Agora havia um tipo diferente de viagens; toda a gente tinha ouvido falar nelas. Os barcos de Calais navegavam a coberto da noite, enquanto homens e mulheres, ensanguentados uns, incólumes outros, todos eles desesperados, vinham acocorados sob o convés, escondidos por redes ou lonas, trazendo consigo as histórias de sofrimento e derrota que eram a Normandia, Ruão, Estrasburgo e Paris.

Fontine recordou-se das palavras de Alec Teague: « O conceito, a estratégia, é enviá-los de volta para desmembrarem o mercado... causarem estragos! Má gestão a todo o custo!»

O mercado era presentemente toda a Europa Ocidental. E o capitão Victor Fontine estava pronto para expedir os seus maus gestores de Loch Torridon para esse mercado.

Dos primitivos cinquenta e três continentais, restavam vinte e quatro; outros se lhes juntariam - devagar, selectivamente -- consoante as baixas exigissem. Esses vinte e quatro eram tão diferentes quanto consumados, tão inventivos como tortuosos. Tratava-se de alemães, austríacos, belgas, polacos, holandeses e gregos, mas as suas nacionalidades eram secundárias. Todos os dias era expedida mão-de-obra pelas fronteiras. Porque, em Berlim, o Reich-rninisterium da Indústria estava a integrar à força no serviço gente de todos os territórios ocupados: era uma política global que iria ser acelerada à medida que novas terras fossem caindo sob o seu domínio. Não era invulgar um holandês trabalhar numa fábrica de Estugarda. Dias apenas após a queda de Paris, já havia belgas a serem enviados para fábricas ocupadas em Lião.

Agindo com base neste conhecimento, os chefes da Resistência andavam a passar a pente fino as listas de transferência de mão-de-obra. Objectivo: encontrar «emprego» especializado temporário para vinte e quatro profissionais qualificados.

Na confusão que resultava da obsessão alemã da máxima produtividade, desencantavam-se vagas em toda a parte. A Krupp eal.G. Farben estavam a exportar tantos especialistas para pôr fábricas e laboratórios a funcionar em países ocupados que os industriais germânicos se queixavam amargamente a Berlim. Isto conduzia a uma organização improvisada e a uma gestão descurada e reduzia a eficiência das fábricas e escritórios alemães.

Era neste atoleiro que os franceses, holandeses, belgas, polacos e resistentes alemães se infiltravam. Directivas de recrutamento para lugares vagos eram expedidas por correios da espionagem para Londres, a fim de serem analisadas pelo capitão Victor Fontine.

Rubrica: Francoforte, Alemanha. Fornecedor subsidiário da Messerschmidt. Três capatazes de fábrica, precisam-se.

Rubrica: Cracóvia, Polónia. Divisão de eixos, fábrica de automóveis. Desenhadores precisam-se.

Rubrica: Antuérpia, Bélgica. Estaleiro de caminho-de-ferro. Divisões de mercadorias e de horários. Escassez de gestores.

Rubrica: Manheim, Alemanha. Serviços da imprensa oficial. Necessidade imperiosa de tradutores técnicos bilingues.

Rubrica: Turim, Itália. Aviões de Turim. Origem partidária. Engenheiros mecânicos em falta.

Rubrica: Linz, Áustria. Berlim reclama sistemático pagamento em excesso a companhia de têxteis. Analistas de custos, precisam-se.

Rubrica: Dijon, França. Departamento jurídico da Wehrmacht. Advogados, pretendem as forças de ocupação... («Era mesmo característico dos franceses», pensara Victor. «No meio da derrota, o espírito gaulês procurava o debate em legalismos práticos».)

E assim por diante. Uma porção de «requisitos», dezenas de possibilidades que havia de aumentar de número à medida que as exigências de produtividade dos Alemães crescessem.

Havia trabalho a obter, a realizar, pela pequena brigada de continentais de Loch Torridon. Agora não era mais que uma questão de distribuição apropriada, e Fontine supervisionava pessoalmente os pormenores. Levava na pasta uma tira muito pequena de fita adesiva reutilizável que podia ser presa a qualquer parte do corpo. A cola tinha a resistência do aço, mas podia ser removida com uma simples solução de água, açúcar e sumo de citrino.

Dentro dessa fita estavam vinte e quatro pontos, contendo cada um deles um microfilme. Em cada microfilme havia uma fotografia microscopicamente reduzida e um breve resumo de talentos. Seriam utilizados de acordo com os chefes da Resistência. Encontrar-se-iam vinte e quatro postos de emprego... temporariamente, está bem de ver, pois pessoal tão qualificado havia de ser desejável em muitos lugares durante os meses próximos.

Mas cada coisa a seu tempo, e a primeira rubrica da agenda de Fontine era uma viagem de negócios de duração indeterminada. Seria largado de pára-quedas em França, na província da Lorena, perto da fronteira franco-suíça. A sua primeira reunião efectuar-se-ia na pequena cidade de Montbéliard, onde permaneceria durante vários dias. Tratava-se de um ponto geográfico estratégico, que permitia uma acessibilidade máxima aos resistentes a partir do Norte e Centro da França e do Sul da Alemanha.

De Montbéliard seguiria para norte, pelo Reno, até Wiesbaden, onde contingentes de anti-reichistas de Bremen, Hamburgo, Berlim e pontos a norte e oeste convergiriam para reuniões. A partir de Wiesbaden seguiria as rotas da

resistência para leste, rumo a Praga, e depois para noroeste, penetrando na Polónia e em Varsóvia. Seriam criados horários, aperfeiçoar-se-iam códigos e fornecidos documentos de trabalho oficiais para eventual reprodução em Londres.

De Varsóvia regressaria à Lorena. Seria então decidido se rumaria para sul, em direcção à sua amada Itália. O capitão Geoffrey Stone manifestava-se em princípio contra isso. O agente que Fontine conhecera como «Maçã» esclareceu bem esse ponto. Tudo o que era italiano enchia Stone de relutância, remontando essa repulsa a um cais em Celle Ligure e a uma mão esfacelada por causa da ingenuidade e traição italianas. Stone não via motivo para desperdiçarem os seus recursos em Itália: havia demasiados outros pontos de pressão. A nação de incompetentes era o pior inimigo que ela própria tinha.

Fontine chegou a Paddington e esperou pelo autocarro de Kensington. Tinha descoberto os autocarros em Londres; até aí, nunca na vida andara em transportes públicos. A descoberta era em parte defensiva. Sempre que se utilizavam carros oficiais, havia que compartilhá-los, o que suscitava conversas entre os passageiros. Num autocarro ninguém era interpelado.

Havia, evidentemente, ocasiões em que levava para casa matéria altamente sensível para ler, ocasiões essas em que Alec Teague se recusava pura e simplesmente a conceder-lhe a sua recém-descoberta indulgência. Era demasiado perigoso. Esta noite tinha sido o caso, mas Victor contrariara o seu superior: o automóvel oficial tinha mais dois passageiros e ele queria pensar. Era a sua última noite em Inglaterra. Tinha de contar a Jane.

- Por amor de Deus, Alec! Vou percorrer muitos milhares de quilómetros em território hostil. Se perdesse uma pasta que levo amarrada ao pulso com uma fechadura de segredo, acho que estávamos todos metidos num enorme sarilho!

Teague capitulara, verificando ele próprio a corrente e a fechadura.

O autocarro encostara à berma e ele subira, abrindo caminho pela coxia apinhada até um lugar à frente. Era junto de uma janela; pôs-se a olhar lá para fora e deixou o pensamento deter-se primeiramente em Loch Torridon.

Estavam realmente prontos. O conceito era mesmo válido. Podiam efectivamente colocar o seu pessoal em sucessivos postos de gestão. Agora só faltava despoletar a estratégia e era sobre isso que iria tratar na sua deslocação. Encontraria os postos indicados para o pessoal indicado... e o caos e os estragos não tardariam a emergir.

Estava pronto para o momento da partida. Contudo, não estava verdadeiramente preparado para aquilo que presentemente se lhe deparava: dizer a Jane que chegara finalmente o momento.

Tinha-se mudado para o andar dela em Kensington ao regressar da Escócia. Ela rejeitara a sua oferta de aposentos consideravelmente mais amplos. E as últimas semanas haviam sido as mais felizes da sua vida.

E agora era chegado o momento e o medo substituiria o conforto da existência quotidiana na companhia um do outro. Não fazia diferença que milhares e milhares estivessem a passar pela mesma experiência: a matemática não era consolação.

A sua paragem era a próxima. O crepúsculo de Junho lavava as árvores e esfregava as casas. Kensington estava sereno, a guerra longínqua. Apeou-se do autocarro e começou a descer a rua tranquila, quando de repente a sua atenção foi desviada do portão da entrada. Tinha aprendido no decurso dos últimos meses a não trair a sua preocupação, de forma que fingiu dirigir um aceno a um vizinho invisível numa janela do outro lado. Fazendo isso, ao mesmo tempo que semicerrava os olhos de encontro ao sol que se punha, logrou ver mais distintamente o pequeno Austin estacionado do lado oposto da rua, a cinquenta metros em diagonal adiante de si. Era cinzento. Já tinha visto aquele Austin cinzento. Exactamente há cinco dias. Lembrava-se vividamente. Ele e Stone tinham ido de carro a Chelmsford para entrevistar uma judia que trabalhara no funcionalismo civil de Cracóvia até pouco antes da invasão. Haviam parado numa estação de serviço à saída de Brentwood.

O Austin cinzento viera de trás deles e dirigira-se à bomba ao lado. Victor só reparara porque o empregado que metera a gasolina fora sarcástico ao ver a bomba registar menos de nove litros... e o depósito do Austin ficar cheio.

«Ele sempre há gente muito gulosa!», dissera o homem.

O condutor, algo embaraçado, ligara a ignição e arrancara pela estrada fora.

Fontine tinha notado porque o condutor era um padre. O condutor do Austin cinzento que estava agora do outro lado era um padre. Via-se-lhe distintamente o colarinho branco.

E o homem, sabia-o, estava a olhá-lo fixamente.

Fontine caminhou descuidadamente até ao portão de entrada da casa. Levantou o ferrolho, entrou, virou-se e fechou o portão; o padre do Austin cinzento mantinha-se imóvel, de olhos - por detrás daquilo que pareciam ser uns óculos grossos - ainda assestados nele. Victor aproximou-se da porta e entrou. Mal se achou no vestíbulo, fechou a porta e deslocou-se rapidamente para a estreita coluna de janelas que flanqueava o caixilho da porta. Havia uma cortina de ocultação de luzes corrida por cima do vidro; arredou-a na orla e espreitou para o exterior.

O sacerdote deslizara até ao vidro da direita do carro e estava a olhar para fora, erguendo os olhos para a fachada do prédio. O homem era grotesco, pensou Fontine. Extremamente pálido e franzino, tinha óculos de lentes grossas.

Victor deixou a cortina voltar à posição inicial e encaminhou-se rapidamente para as escadas, subindo os degraus a dois e dois até ao terceiro andar, aquele que ocupavam. Ouviu música lá dentro: o rádio estava ligado; Jane encontrava-se em casa. Ao fechar a porta atrás de si, ouviu-a cantarolando no quarto. Não havia tempo para gritar nenhuma saudação; queria alcançar a janela. E não pretendia alarmá-la, desde que pudesse evitá-lo.

O binóculo achava-se na estante da parede da lareira. Tirou o estojo do meio de uma secção de livros, sacou o binóculo, dirigiu-se à janela e focou as lentes lá para baixo.

O sacerdote estava a falar com alguém no assento traseiro do pequeno automóvel. Fontine não tinha visto mais ninguém no carro. O banco de trás achava-se na penumbra e ele concentrara-se no condutor. Desviou lentamente o binóculo para trás do padre e reajustou a focagem.

Victor ficou paralisado e subiu-lhe o sangue à cabeça.

Era um pesadelo! Um pesadelo que se repetia! Que se alimentava de si próprio!

A malha branca no cabelo cortado rente! Tinha visto aquela mancha branca de um talude... dentro de um automóvel... sob as luzes ofuscantes... que daí a pouco haviam de romper em fumo e morte em Campo di Fiori!

O homem no banco de trás do Austin cinzento era o que ocupava outro assento traseiro! Fontine vira-o de cima, da escuridão, e agora estava a vê-lo a milhares de quilómetros de distância, numa rua de Kensington! Um dos comandantes alemães! Um dos carrascos alemães!

- Santo Deus! Assustaste-me - disse Jane, entrando na sala. - Que estás tu a...?

- Telefona ao Teague. Imediatamente! - gritou Victor, deixando cair o binóculo e debatendo-se com o fecho de segredo da pasta.

- Que se passa, querido?

- Faz o que te disse! - Lutou para conservar o autodomínio. Os números apareceram e o fecho abriu-se.

Jane ficou a olhar para o marido; marcou rapidamente o número do telefone, sem fazer mais perguntas.

Fontine correu ao quarto. Tirou o revólver de serviço do meio de uma pilha de camisas e arrancou-o do coldre, regressando a correr à sala de estar, direito à porta.

- Victor! Pára! Pelo amor de Deus!

- Diz ao Teague que venha cá! Diz-lhe que está ali em baixo um alemão de Campo di Fiori!

Precipitou-se para o corredor e lançou-se pela estreita escada abaixo, movimentando o polegar por baixo do cano a fim de destravar a patilha de segurança. Ao alcançar o cimo do primeiro lanço, ouviu o acelerar de um motor. Soltou um grito e correu em direcção ao vestíbulo; alcançou a porta da frente, dando um puxão enfurecido na maçaneta e abrindo a porta com tal força que ela embateu na parede com fragor. Disparou direito ao portão do exterior..

O Austin cinzento já seguia velozmente pela rua abaixo; havia peões nos passeios. Fontine perseguiu-o, evitando dois carros que vinham em sentido contrário, cujos pneus chiaram ao travar. Homens e mulheres gritaram-lhe; Victor compreendeu: um homem a correr em plena rua às sete da tarde, de pistola em punho, assustava toda a gente. Mas não podia deter-se em tais pensamentos; havia apenas o Austin cinzento e o homem no banco traseiro com uma malha branca no cabelo.

O carrasco!

O Austin virou à direita na esquina! Oh, Senhor! O trânsito na artéria era reduzido, apenas poucos táxis e carros particulares! O Austin acelerou, ganhando velocidade, e meteu-se por entre os outros veículos. Passou um sinal vermelho, evitando por pouco um camião de carga, que travou com um sacão, impedindo a passagem e a visão para o outro lado da rua.

Tinha-o perdido. Parou, com o coração a bater violentamente e o suor a escorrer-lhe pela cara abaixo, de arma em punho. Mas não perdera tudo. A chapa de matrícula do Austin cinzento tinha seis algarismos. Conseguira fixar quatro deles.

- O automóvel em questão está registado em nome da Embaixada grega. O adido a quem está distribuído argumenta que deve ter sido retirado do recinto da embaixada ao fim da tarde de hoje.

Teague falava rapidamente, contrariado não só com a sua informação presumivelmente falsa, mas com todo o incidente em si. Era um obstáculo, um

obstáculo sério. A operação Loch Torridon não podia tolerar entraves naquele momento.

- Porquê o alemão? Quem é ele? O que ele é, sei eu. - Victor falava serenamente, com imenso sentimento.

- Estamos a juntar todos os indícios que podemos desencantar. Temos uma dúzia de homens com experiência de campo a passar os arquivos em revista. Estão a recuar anos, a pegar em tudo quanto possuímos. A descrição que você fez ao artista é boa; o esboço dele é bastante rigoroso, segundo você disse. Se lá figurar, havemos de encontrá-lo.

Fontine levantou-se da cadeira, dirigiu-se à janela e viu que tinham sido corridas espessas cortinas negras, tapando completamente a luz. Virou-se e olhou distraidamente para um grande mapa da Europa na parede de Teague. Havia dezenas de alfinetes de cabeça vermelha que sobressaíam do papel grosso.

- É o comboio proveniente de Salónica, não é? - Fez a pergunta em voz baixa, sem precisar de resposta.

- Isso não explicaria o alemão. Se é que ele é alemão.

- Eu já lhe disse - interrompeu Victor, voltando-se de frente para o brigadeiro. - Ele estava lá. Em Campo di Fiori. Lembrei-me nessa altura que me parecia já o ter visto antes.

- E nunca foi capaz de se recordar onde?

- Não. Há alturas em que isso me põe doido. Não sei!

- Não é capaz de associar? Recue no tempo. Pense em termos de cidades, ou de hoteis; principie por contactos de negócios, contratos. A Fontini-Cristi tinha investimentos na Alemanha.

- Tentei tudo isso. Não há nada. Apenas a cara, e mesmo essa não é lá muito nítida. A malha branca no cabelo, essa é que me ficou na memória. - Fatigadamente, Victor regressou à cadeira e voltou a sentar-se. Recostou-se para trás, com ambas as mãos sobre os olhos fechados. - Oh, meu Deus, Alec, sinto um medo de morte.

- Não tem razão para isso.

- Você não estava em Campo di Fiori naquela noite.

- Não se há-de repetir em Londres. Nem em nenhum outro sítio, aliás. Amanhã de manhã a sua mulher será acompanhada ao Ministério da Aeronáutica, onde passará todo o trabalho (arquivos, cartas, mapas, tudo) a outro oficial. O ministro garantiu-me que a entrega pode ficar concluída ao princípio da tarde. A seguir, será conduzida de automóvel a aposentos muito confortáveis no campo. Isolados e totalmente seguros. Manter-se-á ali até você regressar, ou até encontrarmos o nosso homem. E dominarmo-lo.

Fontine baixou as mãos dos olhos e mirou inquiridoramente Teague.

- Quando é que você tratou disso? Não tem havido tempo.

Teague sorriu, mas não foi o sorriso inquietante a que Victor estava habituado. Se alguma característica tinha, era ser suave.

- Tem sido um plano de recurso desde que você casou. Passadas horas, para dizer a verdade.

- Ela ficará em segurança?

- Não haverá uma pessoa em Inglaterra que o esteja mais. Para falar com franqueza, tenho um duplo motivo. A segurança da sua mulher está directamente relacionada com o seu estado de espírito. Você tem um trabalho a fazer, de forma que eu faço o meu.

Teague olhou para o relógio de parede e depois para o de pulso. O relógio de parede tinha-se atrasado quase um minuto desde que o acertara. Quando fora mesmo isso? Devia ter sido há oito, dez dias; teria de levá-lo novamente ao relojoeiro da Leicester Square.

Era uma preocupação pueril, ao que supunha, aquela obsessão com o tempo. Tinha ouvido os nomes: «Cronometro Alec», «Teague Temporizador». Os colegas repreendiam-no frequentemente: não teria aquela tremenda mania do tempo se tivesse mulher e miúdos a fazerem barulho pelos cantos. Mas ele tomara essa decisão havia anos: na sua profissão estava melhor sem tais prisões. Não era nenhum monge. Houvera, evidentemente, mulheres. Mas nada de casamento. Estava fora de questão: era um empecilho, um obstáculo.

Esses pensamentos passivos deram origem a uma consideração activa: Fontine e o seu casamento. O italiano era o coordenador perfeito para a Operação Loch Torridon, e contudo presentemente havia um obstáculo: a mulher.

Diabos levassem aquilo! Tinha colaborado com Brevourt porque queria mesmo utilizar Fontini-Cristi. Se uma relação adequada com uma rapariga inglesa servia ambos os objectivos, estava na disposição de alinhar. Mas não até àquele ponto!

E agora, onde raio estava Brevourt? Tinha desistido. Sumira-se depois de ter feito tremendas exigências a Whitehall em nome de um desconhecido comboio de mercadorias proveniente de Salónica.

Ou teria pura e simplesmente fingido que se sumira?

Parecia que Brevourt sabia quando minimizar os prejuízos, quando recuar de um malogro embaraçador. Não houvera mais instruções relativamente a Fontine: presentemente, ele era propriedade do MI 6. Assim do pé para a mão. Era como se Brevourt quisesse colocar-se o mais longe possível do italiano e do amaldiçoado comboio. Quando o relatório do sacerdote de Xenope infiltrado foi dado a Brevourt, este simulou apenas um interesse moderado, atribuindo o episódio a um fanático solitário.

Para um homem que tinha conseguido levar o seu governo a fazer o que fizera, aquilo não era natural. Porque o sacerdote de Xenope não tinha agido sozinho. Teague sabia-o; Brevourt sabia-o também. O embaixador estava a reagir com demasiada simplicidade, o seu súbito desinteresse era demasiado evidente.

E aquela rapariga, a mulher de Fontine. Quando aparecera, Brevourt tinha-se apoderado da existência dela como se fosse um verdadeiro funcionário do MI 6. Ela era uma âncora de amarra curta. Podia ser solicitada, utilizada. Se o comportamento de Fontine se tornasse repentinamente estranho, se encetasse ou procurasse contactos anormais que pudessem ser relacionados com o comboio de Salónica, chamá-la-iam e dar-lhe-iam as instruções: «Comunique tudo». Era uma patriota inglesa. Havia de obedecer.

Contudo, ninguém tinha sequer encarado o casamento. Isso sim, é que era má gestão a todo o custo! A uma cómoda amante podiam dar-se instruções; a uma esposa não.

Brevourt havia acolhido a novidade com uma equanimidade que, também ela, não era natural.

Tinha acontecido qualquer coisa que Teague não compreendia. Experimentava a incómoda sensação de que Whitehall estava a utilizar o MI 6 e isso queria dizer utilizá-lo a ele, tolerar Loch Torridon porque este poderia levar

Brevourt a um objectivo maior do que a dispersa desagregação da indústria inimiga.

Voltando ao comboio de Salónica.

Por conseguinte, havia duas estratégias paralelas que estavam a ser seguidas: Loch Torridon e a busca dos documentos de Constantino. Admitiam-no na primeira; arredavam-no da segunda.

Arredavam-no e deixavam-no com um oficial das Informações casado: a espécie mais vulnerável.

Faltavam dez minutos para as três da manhã. Daí a seis horas estaria a conduzir rumo a Lakenheath com Fontine para se despedir dele.

Um homem com uma mancha branca no cabelo. Um esboço que escapava a milhares de fotografias e descrições de arquivo, uma perseguição que não levava a lado algum. Uma dúzia de funcionários do MI 6 estavam encafuados nos arquivos prosseguindo a busca. O agente no campo que descobrisse a identidade não seria esquecido quando houvesse distribuição de missões seleccionadas.

O telefone tocou, sobressaltando-o.

- Sim?

- É Stone, sir. Acho que tenho qualquer coisa.

- Vou já aí abaixo.

- Se para si for indiferente, preferia ir eu aí acima. É um bocado louco. Gostava mais de falar consigo a sós.

- Muito bem.

Que teria Stone descoberto? O que poderia ser tão singular que exigisse segurança mesmo dentro da casa?

- Aqui está o esboço que o Fontine aprovou, meu general - disse o capitão Geoffrey Stone, de pé em frente da secretária de Teague, poisando o retrato a carvão no mata-borrão. Tinha um sobrescrito desajeitadamente apertado entre o braço e o peito, por cima da mão direita imóvel, enluvada. - Não condizia com nada nos arquivos do Himmler, nem em nenhuma outra fonte alemã (ou aparentada com fontes alemãs), incluindo círculos colaboracionistas na Polónia, Checoslováquia, França, nos Balcãs e na Grécia.

- E Itália? Quanto aos italianos?

- Foi essa a nossa primeira suposição. Independentemente do que o Fontine sustente ter visto naquela noite em Campo di Fiori, ele é, afinal, italiano. Os Fontini-Cristi granjearam inimigos entre os fascistas. Mas não encontrámos nada, ninguém que se pareça minimamente com o sujeito em questão. Foi então, com toda a franqueza, sir, que comecei a pensar no homem. No casamento dele. Não estávamos à espera disso, pois não, sir?

- Não, capitão. Não estávamos à espera disso.

- Um pequeno vicariato na Escócia. Uma cerimónia anglicana. Não é propriamente o que se pensaria.

- Porquê?

- Eu já fiz os sectores italianos, sir. A influência católica é muito generalizada.

- O Fontine não é religioso. Aonde diabo quer você chegar?

- Apenas a isso. Tudo é uma questão de grau, não é? Uma pessoa nunca é exactamente isto ou aquilo. Especialmente um homem que deteve tanto poder. Voltei ao dossier dele; temos fotocópias de todo o raio de coisas a que conseguimos deitar a mão. Incluindo o requerimento e a certidão de casamento. Sob o

título «religião», ele colocou uma palavra: «Crista».

- Vá direito ao assunto.

- É o que estou a fazer. Uma coisa leva sempre a outra. Uma família imensamente rica e poderosa num país católico, e o filho sobrevivente renega deliberadamente qualquer ligação à sua igreja.

Teague semicerrou os olhos.

- Continue, capitão.

- Ele estava a renegá-la. Talvez inconscientemente, não sabemos. «Cristã» não é nenhuma religião. Estávamos à procura dos italianos errados, a retirar os dossters que não interessam. - Stone ergueu o sobrescrito com a mão esquerda, desenrolou o pequeno cordel e abriu a dobra. Tirou de lá um recorte de jornal, uma fotografia recortada de um homem de cabeça descoberta com uma mancha branca no cabelo escuro. O homem de cabeça descoberta envergava as vestes negras da igreja; a fotografia tinha sido tirada no altar de S. Pedro. O homem estava ajoelhado, virado para a cruz. Sobre ele via-se um par de braços abertos que seguravam o barrete de três bicos dos cardeais.

- Meu Deus! - espantou-se Teague, erguendo os olhos para Stone.

- Os arquivos do Vaticano. Mantemos registos de todas as elevações eclesiásticas.

- Mas este...

- É, sim, sir. O nome do sujeito é Guillamo Donatti. É um dos mais poderosos cardeais da Cúria.

MONTBÉLIARD

O avião iniciou a sua rotação de noventa graus. Encontravam-se a novecentos metros de altitude, a noite estava limpa e o vento que soprava junto da escotilha aberta tinha uma força tal que Fontine pensou que ia ser sugado para o exterior antes que a luz vermelha por cima dele se apagasse e fosse substituída pelo brilho da lâmpada branca, que era a sua indicação para saltar. Agarrou-se às pegas de um e outro lado da escotilha, preparando-se; tinha as grossas botas firmemente assentes no pavimento de aço do bombardeiro Haviland: esperava a ocasião de saltar.

Pensou em Jane. Inicialmente, formulara vigorosas objecções ao confinamento. Conquistara a posição que detinha no Ministério da Aeronáutica e semanas e meses de «puro e simples trabalho de moura» eram agora postos de lado numa questão de horas. Depois parara abruptamente ao ver - ele tinha a certeza disso - a dor nos seus olhos. Queria-o de volta. Se o isolamento no campo contribuísse para o seu regresso, iria.

Pensou, também, em Teague: em parte no que ele dissera, mas principalmente no que não dissera. O MI 6 tinha uma orientação relativamente ao carrasco alemão, ao homem-monstro da mancha branca no cabelo que assistira friamente ao horror de Campo di Fiori. O serviço tinha-o por membro importante do Geheimdienst Korps, a polícia secreta de Himmler, um homem que ficava bem distante na retaguarda, nunca esperando ser identificado. Alguém que tivesse porventura estado colocado no Consulado grego em Atenas.

«Tinha-o por...»; «Porventura...» Palavras equívocas. Teague estava a ocultar informações. A despeito de toda a sua experiência, o homem das Informações não conseguia esconder as suas omissões. E tão-pouco era inteiramente convincente quando encetava subtilmente um assunto que pouco tinha a ver com o que quer que fosse.

- ...È procedimento de rotina; Fontine. Quando um homem parte em missão, registamos a sua religião. É como uma certidão de nascimento ou um passaporte...

Não, não tinha religião formal. Não, não era católico, e isso nem sequer era invulgar: havia mesmo gente não católica em Itália. Sim, Fontini-Cristi era uma combinação derivativa que se traduzia por «fontes de Cristo»; sim, a família tinha sido durante séculos aliada da Igreja, mas havia umas décadas rompera com o Vaticano. Mas não, ele não colocava uma ênfase indevida nessa ruptura; raramente pensava nisso.

Que procurava Teague?

A luz vermelha apagou-se. Victor flectiu os joelhos como tinha aprendido e susteve a respiração.

A lâmpada branca começou a piscar. Ouviu-se a pancada: nítida, segura, sólida. Fontine lançou as mãos de forma a agarrar-se ao contrário aos manípulos do fecho, inclinou-se para trás e impeliu o corpo através da escotilha aberta contra a furiosa deslocação de ar produzida pelas hélices do avião. Foi violentamente arrebatado da enorme fuselagem, sentindo o corpo esmagado pela força do vento com a súbita velocidade e peso de uma gigantesca onda.

Estava em queda livre. Fez força para colocar as pernas em V, sentindo as correias do pára-quedas a enterrarem-se nas coxas. Estendeu os braços para a frente e em diagonal para os lados. A configuração de águia de asas estendidas fez o que se esperava que fizesse: estabilizou-lhe a queda através do céu, apenas o suficiente para Victor se concentrar na terra escura lá em baixo.

Viu-os! Dois minúsculos fachos à sua esquerda.

Encolheu a mão contra o vento impetuoso e puxou uma pequena argola ao lado do dispositivo de largada do pára-quedas. Houve um clarão momentâneo acima dele, como um crepitar imediatamente apagado de um tubo de fogo-de-artificio. Seria o bastante para ser avistado pelos que estavam no solo. O momento dissipou-se de novo na escuridão; ele deu um puxão na argola de abertura do pára-quedas. As enfunadas dobras do tecido dispararam do invólucro: sobreveio o forte sacão, que o fez deitar o ar fora, com todos os músculos tensos para contrabalançar o puxão.

Flutuou, oscilando em quartos de círculo no céu nocturno, em direcção ao solo.

As conferências em Montbéliard correram bem. Era estranho, pensou Victor, mas, a despeito do ambiente rústico, mesmo primitivo - um armazém abandonado, um celeiro, um pasto semeado de rochedos -, as conferências não deixavam de assemelhar-se a reuniões de gestão serenamente conduzidas, com ele a servir de consultor enviado da sede. O objectivo de todas as conversações com as equipas de chefes da Resistência que faziam as suas incursões até à Lorena era o mesmo: recrutamento projectado para o agrupamento de pessoal qualificado presentemente exilado em Inglaterra.

Havia procura de gestores em toda a parte, pois em todo o lado do crescente âmbito do Terceiro Reich as unidades produtivas eram imediatamente anexadas e orientadas para a máxima produção. Mas havia uma deficiência essencial na obsessão alemã com a eficiência máxima: a direcção permanecia em Berlim. Os pedidos eram tratados pelo Reichsministerium da Indústria e Armamento; eram autorizadas e emitidas ordens a milhares de quilómetros do local de origem.

As ordens podiam ser interceptadas no trajecto; os pedidos podiam ser alterados na origem, dentro dos ministérios, e ser objecto de infiltrações a nível de funcionários de secretaria.

Podiam inventar-se postos de trabalho; o pessoal podia ser substituído. No caos que era a febre berhnense da eficiência imediata e total, o medo era inerente. As ordens raramente eram postas em questão.

Em toda a parte o ambiente burocrático estava maduro para Loch Torridon.

Vai ser conduzido até ao Reno e metido a bordo de uma barcaça fluvial em Neuf-Brisach - disse o francês, dirigindo-se à pequena janela da casa de

hóspedes que dava para a Rue de Bac de Montbéliard. - O seu acompanhante trará os papéis. Ao que sei, descrevem-no como escumalha do rio de costas fortes e cabeça fraca. Um estivador de carga que passa a maior parte do tempo acordado bêbedo com vinho barato. - Isso deve ser interessante.

O Reno

Não era. Era fatigante, fisicamente exaustivo e tornado quase intolerável pelo fedor reinante abaixo do convés. Patrulhas alemãs deambulavam pelo rio, mandando continuamente parar barcos e submetendo as tripulações a infindáveis interrogatórios. O Reno era uma rota de mensageiros da Resistência; não era preciso ser muito perspicaz para o saber. E, como a «escumalha» do rio não merecia melhor, as patrulhas deliciavam-se em brandir mocas e coronhas de espingardas quando o objecto do impacte eram ossos e carne. O disfarce de Fontine era bem sucedido, conquanto repugnante. Bebia bastante vinho ordinário e provocava suficientes vómitos para lhe dar ao hálito o fedor pútrido de um consumado e desleixado alcoólico.

O que o impediu de perder por completo a sensibilidade foi o companheiro. O nome do homem era Lúbok, e Victor sabia que, fossem quais fossem os riscos que corresse, os de Lubok eram bem maiores.

Lúbok era um judeu homossexual. Tratava-se de um mestre de bailado, de meia-idade, de cabelo loiro e olhos azuis, cujos pais, checoslovacos, tinham emigrado para Berlim havia trinta anos. Fluente tanto nas línguas eslovacas como em alemão, dispunha de documentos que o identificavam como tradutor para a Wehrmacht. Juntamente com os documentos havia diversas cartas timbradas do Alto Comando que proclamavam a lealdade de Lubok ao Reich.

Os documentos e os cabeçalhos das cartas eram genuínos, mas a lealdade falsa. Lúbok tinha operado como mensageiro da resistência através das fronteiras checoslovaca e polaca. Nessas ocasiões utilizava escandalosamente as inclinações homossexuais que tinha de reserva; era do conhecimento comum que existiam círculos desses no seio dos oficiais. Os postos de verificação nunca sabiam quem era obsequiado por homens vigorosos que preferiam dormir com outros homens. E o mestre de bailado de meia-idade era uma enciclopédia de verdades, meias verdades e boatos no tocante às práticas sexuais e aberrações exercidas pelo Alto Comando alemão num dado sector ou zona em que entrava. Era o seu inventário; era a sua arma.

Lúbok oferecera-se à missão de Locn Torridon, para ser o acompanhante do Mi 6 de Montbéliard, através de Wiesbaden, para leste até Praga e para norte até Varsóvia. E, à medida que a jornada prosseguia e os dias e os quilómetros se iam sucedendo, Fontine sentia-se grato. Lúbok era do melhor. Por baixo dos fatos bem cortados havia um homem poderoso cuja língua ácida e olhar fulminante eram penhor de um génio arrebatado mas inteligente.

Varsóvia, -Polónia

Lubok conduzia a motocicleta com Victor no sidecar, envergando o uniforme de um Oberst da Wehrmacht em serviço nos Transportes de^ Ocupação. Percorreram velozmente Lodz pela estrada para Varsóvia, alcançando o último posto de verificação um pouco antes da meia-noite.

Lúbok representava escandalosamente diante das patrulhas, atirando com os nomes de «Kommandanten» e «Oberíuhrerin» com desenvoltura e insinuando toda a gama de represálias se o seu veículo fosse demorado. Os guardas, embaraçados, não mostravam grande empenho em examiná-lo. Fizeram sinal para a motocicleta passar; entraram na cidade.

Reinava o caos. Embora estivesse escuro, distinguia-se entulho por todo o lado. Rua após rua, todas estavam desertas. Ardiam velas nas janelas: enormes zonas da cidade estavam privadas de electricidade. Viam-se fios eléctricos a oscilar, automóveis e camiões imobilizados; uma porção deles encontravam-se de rodas para o ar, tombados como gigantescos insectos de aço à espera de serem empalados numa mesa de laboratório.

Varsóvia estava morta. Os seus assassinos armados passavam em grupos, eles próprios com medo do cadáver.

- Vamos direitos ao Gasímir - disse baixinho Liibok. - A resistência está à sua espera. Fica apenas a umas dez ruas daqui.

- O que é o Casimir?

- É um antigo palácio no Bulevar Kraków. No meio da cidade. Durante anos foi a universidade; presentemente os alemães utilizam-no para aquartelamento e gabinetes.

- E nós vamos entrar lá? Lúbok sorriu na escuridão. .

- Podem meter-se nazis na universidade, que isso não é garantia de instrução. As equipas de manutenção de todos os edifícios são podziemna. Para si, resistentes. Ou pelo menos o embrião disso.

Lúbok enfiou a motocicleta entre dois carros oficiais no Bulevar Kraków, a meio do quarteirão, do lado oposto ao portão principal de entrada no Casimir. Excepto os guardas na guarita junto do portão, a rua encontrava-se deserta. Só estavam dois candeeiros de iluminação pública acesos, mas no interior do Casimir havia projectores cujos feixes apontavam da relva para o ar, iluminando as frontarias ornamentadas dos edifícios.

Das trevas, um soldado alemão surgiu, uma praça. Abeirou-se de Lúbok e falou baixinho em polaco. Lubok fez um aceno afirmativo; o alemão continuou em diagonal através do amplo bulevar em direcção ao portão do Casimir.

- Está com os podziemna - disse Lubok. - Costumava corrigir códigos. Disse que você devia entrar à frente. Pergunte pelo capitão Hans Neumann, Bloco Sete.

- Capitão Hans Neumann - repetiu Victor. - Bloco Sete. E depois?

- É o contacto desta noite no Casimir. Ele levá-lo-á aos outros.

- E você?

- Eu devo esperar dez minutos e entrar a seguir. Fiquei de perguntar por um tal Oberst Schneider, Bloco Cinco.

Lúbok parecia preocupado. Victor compreendia. Até então nunca se tinham separado nos pontos de contacto com os dirigentes da resistência.

- É um procedimento pouco habitual, não é? Você parece perturbado.

- Devem ter as suas razões.

- Mas você não sabe quais elas são. E aquele fulano não lhas disse.

- Não deve saber. É um mensageiro.

- Pressente alguma cilada?

Lúbok olhou de frente para Fontine. Estava a pensar ao mesmo tempo que falava.

- Não, isso não é realmente possível. O comandante deste sector foi comprometido. Em filme. Não vou maçá-lo com pormenores, mas a sua propensão para as crianças foi devidamente registada. Os resultados foram-lhe mostrados e dito que existiam negativos. Ele vive atemorizado, e nós vivemos com ele... É um menino bonito de Berlim, amigo íntimo de Goering. Não, não é uma cilada.

- Mas você está preocupado.

- Escusadamente. Ele tinha os códigos: são complicados e muito precisos. Até depois.

Victor apeou-se do acanhado sidecar e atravessou o bulevar em direcção às portas do Casimir. Mantinha uma postura erecta, preparado para exibir arrogantemente os documentos falsos que lhe franqueariam a entrada.

Ao percorrer o recinto do Casimir iluminado pelos projectores, distinguia soldados alemães caminhando aos pares e aos trios pelos arruamentos. Havia um ano aqueles homens poderiam ser estudantes ou professores, a rever as notas do dia académico. Agora eram conquistadores, pacificamente arredados da devastação que se via por todo o lado fora das paredes do Casimir. Havia morte, fome e mutilação ao alcance das suas vozes de comando, e contudo falavam em voz baixa em arruamentos bem cuidados, alheados das consequências dos seus actos.

«Campo di Fiori. Havia projectores em Campo di Fiori. E morte acompanhada de mutilação».

Arredou com esforço as imagens do espírito: não podia permitir que a concentração enfraquecesse. O portal de entrada com o arco de filigrana a emoldurar as grossas portas duplas sob o número sete encontrava-se mesmo em frente. Um guarda da Wehrmacht estava postado em sentido no único degrau de mármore.

Fontine reconheceu-o: era o soldado que tinha segredado em polaco a Lúbok no Bulevar Kraków.

- Você é eficiente - disse Victor baixinho em alemão.

O guarda respondeu com um aceno de cabeça, estendeu a mão para a porta e abriu-a.

- Agora apresse-se. Tome mesmo pela escadaria à sua esquerda. Virão ao seu encontro no primeiro patamar.

Fontine cruzou rapidamente a porta, entrando na enorme antecâmara de mármore, dirigiu-se às escadas e principiou a subir. A meio caminho do patamar afrouxou o passo. Houve como que um alarme accionado pelo seu cérebro.

A voz do guarda, o seu alemão. As palavras eram esquisitas, estranhamente inusitadas: «Apresse-se... Tome mesmo pela escadaria...»

«Atenção à ausência de construções idiomáticas, ao excessivamente gramatical; ou, inversamente, às sílabas finais desirmanadas» (Loch Torridon).

O guarda não era alemão. No entanto, porque havia de sê-lo? Pertencia aos podziemna. No entanto, mais uma vez, não haviam de arriscar-se...

Apareceram dois oficiais alemães no patamar, de pistolas em riste e apontadas na sua direcção. O homem da direita falou.

- Bem-vindo ao Casimir, Signore Fontini-Cristi.

- Por favor não pare, padrone. Temos de nos despachar - disse o segundo homem.

A língua que falavam era italiano, mas a maneira de falar não era de naturais. Victor reconheceu a origem. Os oficiais que estavam ali em cima eram tão alemães como o guarda. Eram gregos. O comboio de Salónica voltava a aparecer!

Ouviu-se o estalido de uma culatra de pistola atrás de si, seguido de rápidas passadas. Passados segundos, enfiavam-lhe o cano nos rins, impelindo-o pela escada acima.

Não havia qualquer acção a tomar, nenhuma diversão a que pudesse recorrer para distrair os opositores. Estava coberto por armas, havia olhos a fitarem-lhe as mãos e balas metidas nas câmaras.

Lá em cima, algures num corredor desconhecido, ouviu risos. Talvez se gritasse, dando o alarme a um inimigo dentro do campo inimigo; o círculo concêntrico do pensamento era entorpecedor.

- Quem são vocês? - Palavras. Começar por palavras. Se conseguisse levantar a voz em sequência, numa sequência natural que minimizasse a probabilidade de os gatilhos serem premidos... - Vocês não são alemães!

Mais alto. Agora mais alto.

- Que estão vocês a fazer aqui?

O cano da pistola subiu-lhe pelas costas acima e enterrou-se-lhe na base do crânio. O sacão fê-lo parar. Um punho fechado atingiu-o no rim esquerdo; tombou para a frente, amparado pelos gregos silenciosos e expectantes à sua frente.

Começou a gritar; não havia outra maneira. O riso lá em cima tornava-se mais alto, mais próximo. Havia outros homens a descer a escada.

- Aviso-os...

De repente, puxaram-lhe ambas as mãos para trás, torcendo e imobilizando-lhe os braços, com os pulsos virados para dentro. Enfiaram-lhe um grande pano grosseiro de encontro à cara, saturado de um líquido acre e malcheiroso.

Vendaram-no; estavam a impor-lhe um vácuo opressivo, sem luz, sem ar. Arrancaram-lhe o dólman, arrebatando-lhe do peito as tiras cruzadas. Tentou libertar os braços com um arranco.

Ao fazê-lo, sentiu a comprida agulha a entrar na carne; não sabia bem onde. Instintivamente, ergueu as mãos num protesto. Estavam soltas, e eram tão inúteis como a sua resistência era vã.

Ouviu novamente o riso: era ensurdecedor. Apercebeu-se de que era empurrado para a frente e para baixo.

Mas isso foi tudo.

- Trai aqueles que lhe salvaram a vida.

Abriu os olhos; lentamente, as imagens foram-se tornando nítidas, havia uma sensação de queimadura no braço, ou ombro, esquerdo. Levou lá a mão: o contacto foi doloroso.

- Está a sentir o antídoto - disse a voz da figura indistinta algures à sua frente. - Deixa um vergão, mas não é nocivo.

A visão de Fontine principiou a aclarar. Estava sentado num chão de cimento, encostado a um muro de pedra. Do outro lado, talvez a uns seis metros, estava um homem de pé diante de outra parede. Encontravam-se numa qualquer plataforma elevada num largo túnel. O túnel parecia situar-se a grande profundidade, escavado na rocha, desaparecendo ambas as extremidades na escuridão. No pavimento do túnel viam-se carris antigos e estreitos! estavam quebrados, enferrujados. A luz provinha de diversas velas grossas enfiadas em antigos suportes nas paredes.

Com as imagens mais focadas, Fontine concentrou-se no homem à sua frente. Estava vestido de preto, e em volta do pescoço tinha um colarinho branco. O homem era padre.

Era calvo, mas não da idade. Tinha a cabeça rapada; o homem não teria mais de quarenta e cinco ou cinquenta anos e possuía um rosto ascético e um corpo franzino.

Ao lado do sacerdote estava o guarda com a farda da Wehrmacht. Os dois gregos que se faziam passar por oficiais alemães achavam-se de pé junto de uma porta de ferro na parede da esquerda virada para o túnel. O sacerdote falou.

- Seguimo-lo desde Montbéliard. Está a mil e seiscentos quilómetros de Londres. Os ingleses não podem protegê-lo. Temos rotas para o sul de que eles não têm conhecimento.

- Os ingleses? - Fontine olhou, aparvalhado, o sacerdote, tentando compreender. - Vocês são da Ordem de Xenope.

- Somos, sim.

- Por que motivo lutam contra os ingleses?

- Porque Brevourt é um mentiroso. Falta à palavra.

- Brevourt? - Victor estava atordoado; nada fazia sentido. - Não está bom da cabeça! Tudo, tudo quanto ele fez foi em vosso nome! Por vós!

- Por nós, não! Pela Inglaterra. Ele pretende a arca de Constantino para a Inglaterra! Churchill exige-o! É uma arma mais poderosa do que cem exércitos e todos eles o sabem! Nunca mais a veríamos! - O sacerdote tinha os olhos muito abertos, enfurecido.

- Acredita nisso?

- Não seja idiota! - disparou o monge de Xenope. - Da mesma maneira que Brevourt faltou à sua palavra, nós furámos o código Maginot. Houve mensagens interceptadas; comunicações entre.. digamos, partes interessadas.

- É doido! - Fontine tentou pensar. Anthony Brevourt tinha-se sumido; nunca mais se ouvira nada dele... ou sobre ele... havia meses. - Diz que me seguiram desde Montbéliard. Porquê? Eu não tenho aquilo que querem! Nunca o tive! Não sei nada do amaldiçoado comboio!

- O Mikhailovic acreditou em si - disse baixinho o padre. - Eu não.

- O Petride... - A visão do infantil monge a atentar contra a vida na saliência rochosa de Loch Torridon veio novamente à lembrança de Victor.

- O nome dele não era Petride...

- Vocês mataram-no! - exclamou Fontine. - Mataram-no tão seguramente como se tivessem sido vocês mesmos a premir o gatilho. São loucos! Todos vocês.

- Ele falhou. Sabia o que o esperava. Estava determinado.

- Vocês são doentes! Contagiam todos aqueles que tocam! Podem acreditar em mim ou não, mas estou a dizer-vo-lo pela última vez! Não tenho a informação que pretendem!

- Mentiroso!

- Vocês são doidos!

- Nesse caso porque foi que se deslocou com o Lubok? Diga-me isso, Signore Fontini-Cristi! Porquê o Lubok?

Victor recuou: o abalo do nome de Lubok fê-lo arquear as costas de encontro à pedra.

- Lubok? - sussurrou incredulamente. - Se conhecem o trabalho dele, sabem a resposta a isso.

- Loch Torridon? - perguntou sarcasticamente o padre.

- Nunca na vida tinha ouvido falar em Lubok. Só sei que cumpre a sua missão. É judeu, é... Corre grandes riscos.

- Trabalha para Roma! - rugiu o sacerdote de Xenope. - Faz chegar ofertas a Roma! As suas ofertas!

Victor calou-se; o seu espanto era tão completo que não tinha palavras. O monge de Xenope prosseguiu, em voz baixa, penetrante.

- Estranho, não é? De todos os acompanhantes nos territórios ocupados, o escolhido é o Lubok. Aparece assim sem mais nem menos em Montbéliard. Espera que acreditemos nisso?

- Acreditem no que quiserem. Isto é loucura.

- É traição! - voltou a exclamar o padre, afastando-se vários passos da parede. - Um degenerado que é capaz de pegar num telefone e fazer chantagem com metade de Berlim! E absolutamente escandaloso... para si... um cão que trabalha para o monstro de...

- Fontine! Mergulhe! - A ordem lancinante vinha do buraco negro do túnel. Tinha sido gritada na voz aguda de Lubok, cujo som ressoava nas paredes cavadas na rocha, sobrepondo-se aos gritos do sacerdote.

Victor cambaleou e saltou para a frente, rebolando ao longo da parede de pedra e atirando-se da plataforma para o rijo solo junto aos velhos carris enferrujados. Sobre ele ouviu o crepitar de balas rasgando o ar, seguido por duas atordoadoras detonações de Lugers sem silenciador.

A luz bruxuleante distinguiu as figuras de Lubok e vários outros cambalearem da escuridão, apontando as armas, fazendo rápida e rigorosa pontaria, disparando e rodando novamente para a protecção da rocha.

Terminou em segundos. O sacerdote de Xenope tombara; fora atingido no pescoço e a orelha direita fora-lhe arrebatada da cabeça. Rastejara até à borda da plataforma, moribundo, cravando os olhos em Fontine lá em baixo. Na iminência da morte a sua voz murmurante produzia um som áspero.

- Nós... não somos seus inimigos. Pela misericórdia divina, traga-nos os documentos...

Ouviu-se um derradeiro crepitar abafado e a fronte do sacerdote explodiu por cima dos olhos fixos.

Victor sentiu um aperto no braço esquerdo, que lhe causou dores lancinantes ao longo de todo o ombro e peito. Estava a ser posto de pé aos puxões.

- Levante-se! - foi a ordem de Lubok. - Os tiros podem ter sido ouvidos. Corra!

Precipitaram-se pelo túnel dentro. O feixe de uma lanterna, na mão de um dos homens de Lubok lá à frente, rasgou as trevas. O homem segredou as suas instruções em polaco. Lubok traduziu-as para Fontine, que corria ao seu lado.

- Cerca de duzentos metros lá para o fundo há uma gruta de um monge. Estaremos em segurança.

- Uma quê?

- Gruta de um monge - respondeu Lubok, respirando apressadamente. - A história do Casimir remonta a séculos atrás. Eram precisas vias de fuga.

Rastejaram por um estreito e escuro corredor aberto na rocha, que conduzia às profundas de uma gruta. O ar modificou-se repentinamente: havia uma abertura algures ali adiante na escuridão.

- Tenho de falar consigo - disse rapidamente Victor.

- Para responder às suas perguntas, o capitão Hans Neumann é um dedicado oficial do Reich com um primo na Gestapo. O Oberst Schneider não constava do alarde: isso foi complicado. Sabíamos que era uma armadilha... Para falar com toda a franqueza, não esperávamos encontrá-lo no túnel. Foi um golpe de sorte. íamos a caminho do Bloco Sete. - Lubok virou-se para os seus camaradas. Falou em polaco e a seguir fez a tradução para Fontine. - Ficamos aqui um quarto de hora, deve ser o suficiente. Depois continuamos até ao ponto de encontro no Sete. Vai tratar do seu assunto a horas.

Fontine agarrou Lubok pelo braço e afastou-o dos podziemna. Dois dos homens tinham acendido as lanternas. Havia luz suficiente para se ver a cara do correio de meia-idade, e Victor sentiu-se grato por isso.

- Não foi nenhuma armadilha dos alemães! Aqueles homens de há bocado eram gregos! Um deles era padre! - sussurrou Fontine, mas a intensidade da voz era iniludível.

- Está doido - disse Lubok despreocupadamente, com o olhar inexpressivo.

- Eram de Xenope.

- De quê?

- Bem me ouviu.

- Ouvi, mas não faço a menor ideia daquilo de que está a falar.

- Diabos o levem, Lubok! Quem é você?

- Muita coisa para muita gente, graças aos céus.

Victor agarrou o loiro checo pelas bandas do casaco. Os olhos de Lubok tornaram-se subitamente distantes, enchendo-se de uma raiva fria.

- Eles disseram que você trabalhava para Roma. Que faria chegar ofertas a Roma! Que ofertas? Que quer isso dizer?

- Não sei - respondeu lentamente o checo.

- Para quem trabalha você?

- Trabalho para muita gente. Contra os nazis. É tudo quanto você tem de saber. Mantenho-o vivo e velo por que você complete as suas negociações. A maneira como o faço não é da sua conta.

- Não sabe nada de Salónica?

- É uma cidade da Grécia, no mar Egeu... Agora tire as mãos de cima de mim. Fontine manteve o aperto e não abrandou a pressão.

- Não vá... não vá por acaso, incluir homens interessados nesse comboio de Salónica; eu não sei nada. Nunca soube.

- Se o assunto alguma vez surgir, e não posso imaginar porque há-de vir à baila, eu transmito a informação. Agora poderei concentrar-me nas suas negociações em Varsóvia? Temos de arrumá-las hoje à noite. De manhã foram tomadas disposições para dois correios seguirem de avião na carreira militar de Berlim. Eu próprio verificarei o aeródromo antes do alvorecer. Sairemos em Múlheim. Fica perto da fronteira franco-suíça, é uma noite de viagem até Montbéliard. O que tem a fazer na Europa fica terminado.

- De avião? - Victor retirou as mãos. - Num avião alemão?

- Gentilmente cedido por um comandante de Varsóvia muito perturbado. Viu demasiados filmes em que desempenhava um papel principal. Pura pornografia.

Corredor aéreo, Munique-Oeste

O trimotor Fokker achava-se na pista enquanto equipas de manutenção verificavam os motores e um camião de combustível enchia os depósitos. Estavam em Munique; tinham partido de Varsóvia de manhã cedo, com escala em Praga. A maioria dos passageiros tinha saído em Munique.

A próxima escala era Miilheim, a última etapa da sua jornada. Victor estava incomodamente sentado ao lado de Lubok, aparentemente descontraído, a bordo do avião. Havia outro passageiro: um cabo de licença, já maduro, cujo destino era Estugarda.

- Ficava mais satisfeito se houvesse mais umas quantas pessoas à boleia - segredou Lubok. - Sendo tão poucos, o piloto é capaz de insistir para que toda a gente permaneça a bordo em Mulheim. Pode reabastecer-se rapidamente e continuar viagem. Mete a maioria dos passageiros em Estugarda.

Foi interrompido pelo som martelado de passos nos degraus de metal à entrada do avião. Um riso rouco e desinibido acompanhava o martelar inseguro, subindo de intensidade à medida que os novos passageiros se aproximavam da porta da cabina. Lubok olhou para Fontine e sorriu aliviado. Voltou ao jornal fornecido pelo assistente de bordo e tornou a afundar-se no assento. Victor voltou-se: o contingente de Munique surgiu à vista.

Eram três oficiais da Wehrrnacht e uma mulher. Estavam embriagados. A rapariga trazia um casaco de fazenda de cor clara; foi empurrada através da estreita porta por dois dos homens da Wehrmacht e arremessada para um banco pelo terceiro. Não objectou: ao invés, riu-se e fez caretas. Um brinquedo solícito, participante.

Tinha vinte e bastantes anos e era simpática, mas não atraente. O seu rosto tinha qualquer coisa de frenético, uma intensidade que a fazia parecer algo gasta. O cabelo, castanho-claro, desgrenhado pelo vento, era um pouco basto de mais: não se soltara com o vento. A pintura em redor dos olhos era demasiado pronunciada, o bâton excessivamente vermelho e o rouge demasiado carregado.

- Para onde está você a olhar?

A pergunta, vociferada, ouviu-se sobre o rugido dos motores a embalarem. Quem a formulou fora o terceiro oficial da Wehrmacht, um homem de tronco largo, musculado, dos seus trinta e tal anos. Passou à frente dos dois camaradas e dirigiu-se a Victor.

- Desculpe - disse Fontine, com um sorriso pálido. - Não foi minha intenção ser grosseiro.

O oficial semicerrou os olhos; tratava-se de um fanfarrão, não havia que enganar.

- Olha um delicadinho! Oiçam-me só o calças-de-renda!

- Não quis ofender.

O oficial virou-se para os camaradas: um deles tinha puxado a rapariga nada relutante, para o colo; o outro estava na coxia.

- O calças-de-renda não quis ofender! Não é bonito?

Os dois camaradas do oficial gemeram de modo escarninho. A rapariga riu-se: demasiado histericamente, pensou Victor. Virou-se para a frente, fazendo votos para que o rústico da Wehrmacht se fosse embora.

Em lugar disso, uma mão enorme estendeu-se para o assento e agarrou-o pela omoplata.

- Isso não chega. - O oficial olhou para Lubok. - Mudem os dois lá para a frente.

Os olhos de Lúbok procuraram os de Victor. A mensagem era clara: faça o que o homem diz.

- Com certeza.

Fontine e Lubok levantaram-se e avançaram prontamente pela coxia fora. Nenhum deles falou. Fontine ouviu garrafas a serem desrolhadas. A festa da Wehrmacht começara.

O Fokker percorreu velozmente a pista e levantou voo. Lubok tinha-se instalado no assento da coxia, deixando-lhe a janela. Cravou os olhos no céu, retirando-se para dentro da sua própria concha, esperando produzir um vazio que fizesse a viagem até Miilheim passar mais depressa. Não podia passar suficientemente depressa.

O vazio não surgia. Em lugar disso, involuntariamente, pensou no sacerdote de Xenope no túnel do Casimir.

Você desloca-se com o Lubok. O Lubok trabalha para Roma».

Lubok.

«Não somos seus inimigos. Pela misericórdia divina, traga-nos os documentos».

Salónica. Sempre presente. A arca de Constantino era capaz de dividir violentamente homens que combatiam um inimigo comum.

Ouviu risos provenientes da retaguarda da cabina e a seguir uma voz sussurrada atrás de si.

- Não! Não se volte. Por favor! - Era o assistente de bordo, mal se ouvindo através do acanhado espaço entre os assentos. - Não se levante. São Komandos. Estão simplesmente a descarregar, de modo que não se ralem. Finjam que não é nada.

- Komandos? - sussurrou Lubok. - Em Munique? Eles estão colocados a norte, nas regiões do Báltico.

- Estes não. Estes operam nas montanhas nos sectores italianos. Equipas de execução. Há muitas...

As palavras atingiram-no com o impacte de trovões silenciosos. Victor inspirou; os músculos do estômago retesaram-se-lhe numa parede de pedra.

«... equipas de execução...»

Aferrou-se aos braços do assento e arqueou as costas. Depois, comprimindo as espáduas contra o banco, esticou o pescoço e virou os olhos para a parte de trás da cabina, sobre o rebordo de metal do encosto de cabeça. Não pôde acreditar no que viu.

A rapariga de olhar tresloucado achava-se por terra, com o casaco aberto; estava nua, com excepção da roupa interior rasgada, tinha as pernas abertas e movia as nádegas. Um oficial da Wehrmacht, com as calças e as cuecas arriadas pelo joelho, descia sobre ela, trespassando-a com o pénis. De joelhos, por cima da cabeça da rapariga, encontrava-se um segundo alemão com as calças despidas e uma erecção a despontar pela abertura das cuecas. Segurava a rapariga pelos cabelos e investia com a sua erecção à volta do rosto dela; ela abria a boca e aceitava-a, gemendo e tossindo. O terceiro achava-se sentado, curvado por cima do braço da cadeira sobre a violação. Respirava ofegantemente por entre os lábios entreabertos, de mão esquerda estendida, a esfregar os seios da rapariga a um ritmo condizente com os movimentos de masturbação da mão direita.

- Animal! - Fontine saltou do assento, arrancando os dedos de Lubok do seu pulso e precipitando-se em frente. Os da Wehrmacht ficaram demasiado aturdidos para se mexerem, completamente avassalados pelo choque. O oficial que estava no braço do assento abriu a boca de espanto. A mão aberta de Fontine agarrou-o pelos cabelos e arremessou a cabeça do homem de encontro ao rebordo metálico do assento. O crânio estalou; um jorro de sangue esparrinhou a cara do alemão que estava deitado entre as pernas abertas da rapariga. O oficial tropeçou com os joelhos nas calças; tombou de borco por cima da rapariga, fustigando o ar com as mãos à procura de apoio. Rolou sobre as costas, apertando a rapariga na estreita coxia. Fontine ergueu o tacão da bota direita e disparou-o contra a garganta mole do da Wehrmacht. O golpe foi terrível: as veias do pescoço do alemão intumesceram, transformando-se em enormes tubos de um negro-azulado sob a pele. Os olhos rolaram-lhe nas órbitas, as pupilas convertidas numa gelatina branca inexpressiva e hedionda.

Os gritos da rapariga por baixo dele misturavam-se agora com os berros de sofrimento do terceiro oficial, que se lançara para a frente, saltando do pavimento do Fokker em direcção à antepara de ré. A roupa interior do homem estava coberta de sangue.

Fontine precipitou-se sobre ele; o alemão esquivou-se, rebolando histerica-mente. Levou a mão ensanguentada e trémula ao interior do dólman; Victor sabia o que ele procurava: o punhal de dez centímetros dos Komandos, amarrado junto à carne sob a axila. O alemão sacou da faca - curta, afiada como uma lâmina - e vibrou uma cutilada em diagonal em frente dele. Fontine levantou-se da posição de agachado, preparado para saltar.

De súbito, um braço apertou-se em torno do pescoço de Victor. Ripostou com os cotovelos, mas o aperto era impossível de vencer.

O pescoço foi puxado para trás e uma longa faca cruzou velozmente os ares, enterrando-se profundamente no peito do alemão. O homem morreu antes de o corpo se abater no pavimento da cabina.

O pescoço de Fontine foi abruptamente libertado. Lubok pregou-lhe uma bofetada, com um golpe poderoso, magoando-lhe a carne.

- Basta! Pare com isso! Não estou para morrer por si!

Atordoado, Victor olhou em redor. Às gargantas dos outros dois da Wehrmacht tinham sido cortadas. A rapariga afastara-se, rastejando, vomitava e

'Em italiano no original: «animais». (N. do T.)

chorava entre dois assentos. O assistente de bordo jazia estendido na coxia morto ou inconsciente, não havia maneira de saber.

E o cabo veterano, que olhava o vazio - de medo - ainda há minutos estava de pé, junto da porta da cabina de pilotagem, empunhando uma pistola.

Subitamente a rapariga pôs-se a gritar, ao mesmo tempo que se erguia.

- Eles matam-nos! Oh, meu Deus! Porque fez você isso?

Aturdido, Fontine ficou a olhar para a rapariga e falou baixinho, com o fôlego que lhe restava.

- Você? Como é que você pode fazer semelhante pergunta?

- Sou! Oh, meu Deus! - Embrulhou-se o melhor que podia no casaco sujo. - Eles matam-me. Eu não quero morrer!

- Não há-de querer viver daquela maneira.

Ela devolveu-lhe tresloucadamente o olhar fixo, com a cabeça a tremer.

- Eles trouxeram-me dos campos -- sussurrou. - Eu compreendi. Davam-me drogas quando eu precisava, quando eu queria. - Arregaçou a manga direita: tinha uma porção de marcas que iam do pulso até ao antebraço. - Mas eu compreendi. E mantive-me viva!

- Basta! - troou Victor, dando um passo na direcção da rapariga e levantando a mão. - O facto de você viver ou morrer não é importante para mim. Não agi por sua causa.

- O que fez está feito, capitão - disse rapidamente Lúbok, tocando-lhe no braço. - Deixe lá isso! Já teve a sua confrontação, e não pode haver mais nenhuma. Percebeu?

Fontine viu a força nos olhos de Lúbok. Respirando pesadamente, Victor apontou com espanto para o cabo quarentão silenciosamente postado junto da porta da cabina, de arma em riste.

- É um dos seus, não é?

- Não - respondeu Lúbok. - É um alemão dotado de consciência. Não sabe quem somos nem o que somos. Em Múlheim há-de estar inconsciente, um inocente espectador que lhes pode contar o que quiser. Suspeito que não contará coisa nenhuma. Fique com a rapariga.

Lúbok tomou conta das operações. Voltou aos corpos dos alemães e tirou-lhes os documentos e as armas. No dólman de um deles encontrou um estojo hipodérmico e seis ampolas de narcótico. Deu-os à rapariga, que estava sentada junto da janela ao lado de Fontine. Ela aceitou-os gratamente e, sem sequer olhar para Victor, passou imediatamente à acção de quebrar uma cápsula, encher a seringa e introduzir a agulha no braço esquerdo.

- Sente-se melhor? - perguntou Fontine.

Ela virou-se e olhou para ele. Agora o seu olhar era mais calmo, apenas se espelhando nele o desdém.

- Compreenda uma coisa, capitão. Eu não sinto. Não há sentimentos. Uma pessoa vai pura e simplesmente vivendo, e mais nada.

- Que vai você fazer?

Ela desviou os olhos dele e voltou à janela. Respondeu-lhe de modo sereno, sonhador:

- Viver, se puder. Não depende de mim. Depende é de si.

Na coxia, o assistente de bordo mexeu-se. Sacudiu a cabeça e pôs-se de joelhos. Antes que conseguisse focar a vista, Lúbok estava diante dele, com a Pistola encostada à sua cabeça.

- Se quiser salvar a pele, terá de me obedecer cegamente quando chegarmos a Miilheim.

Lia-se a concordância nos olhos do soldado. Fontine pôs-se de pé.

- E a rapariga? - sussurrou.

- Que tem? - contrapôs Lubok.

- Gostava de levá-la connosco.

O checo passou uma mão exasperada pelo cabelo.

- Oh, Cristo! Bem, ou isso ou matá-la. Sei que me denunciaria por uma gota de morfina. - Baixou o olhar para a rapariga. - Ela que se arranje. Há uma gabardina lá atrás. Pode vesti-la.

- Obrigado - disse Victor.

- Deixe-se disso - retorquiu Lubok. - Se pensasse que era a melhor solução, matava-a já. Mas ela pode ser valiosa: esteve numa unidade de Komandos numa zona onde nós desconhecíamos que existisse alguma.

Os combatentes da Resistência esperavam o automóvel numa estrada secundária de Lonrach, perto da fronteira franco-suíça. Victor recebeu roupa lavada mas andrajosa para substituir o uniforme alemão. Atravessaram o Reno ao cair da noite. A rapariga foi levada para um campo da Resistência nos montes; estava demasiado drogada, demasiado insegura para fazer a viagem para sul até Montbéliard.

O assistente de bordo foi pura e simplesmente levado. Fontine guardou os seus projectos para si. Já houvera outro cabo de outro exército num cais em Celle Ligure.

- Agora vou deixá-lo - disse Lubok, vindo até junto dele na margem do rio. O checo tinha a mão estendida.

Fontine ficou surpreendido. O plano previa que Lubok o acompanharia até Montbéliard. Londres podia ter novas instruções para ele. Apertou a mão de Lubok, protestando.

- Porquê? Pensava...

- Bem sei. Mas as coisas mudam. Há problemas em Wiesbaden. Victor tomou a mão direita do checo na sua, cobrindo-a com a esquerda.

- É difícil saber o que dizer. Devo-lhe a vida.

- Fosse o que fosse que eu fiz, você teria feito o mesmo. Nunca duvidei disso.

- Você, além de valente, é generoso.

- Aquele tal padre grego disse que eu era um degenerado capaz de fazer chantagem com metade de Berlim.

- E era capaz?

- Provavelmente era - respondeu rapidamente Lubok, olhando lá para diante, para um francês que lhe fazia sinal para entrar no barco. Correspondeu com um aceno de cabeça. Voltou-se novamente para Victor: - Escute-me - disse baixinho, retirando a mão. - Esse padre disse-lhe outra coisa. Que eu trabalhava para Roma. Você disse que não sabia o que isso queria dizer.

- E não sei, especificamente. Mas não sou cego; tem a ver com o comboio de Salónica.

- Tem tudo a ver com ele.

- Nesse caso, trabalha mesmo para Roma? Para a Igreja?

- A Igreja não é sua inimiga. Acredite.

- A ordem de Xenope sustenta que ela não é minha inimiga. No entanto o certo é que tenho um inimigo. Mas não respondeu à minha pergunta. Trabalha para Roma?

- Sim. Mas não da maneira que você pensa.

- Lubok! - Fontine agarrou no checo de meia-idade pelos ombros. - Eu não penso coisa alguma! Não sei! Será que não percebe isso?

Lubok ficou a olhar para Victor; à difusa luz nocturna, os seus olhos eram perscrutadores.

- Acredito em si. Dei-lhe uma dúzia de oportunidades, e você não aproveitou nenhuma delas.

- Oportunidades? Que oportunidades?

O francês que estava junto do barco tornou a chamar, desta vez imperiosamente.

- Você! «Pavão»! Vamos embora daqui.

- Vamos já - respondeu Lubok, com os olhos ainda em Fontine. - Pela última vez. Há homens... de ambos os lados... que acham que a guerra é insignificante comparada com a informação que julgam que você possui. Sob certos aspectos, concordo com eles. Mas você não a tem, nunca a teve. E esta guerra tem de ser travada. E ganha. Na verdade, o seu pai era mais esperto que todos eles.

- Savarone? Que é que você...?

- Agora vou-me embora. - Lubok ergueu as mãos, com força mas sem hostilidade, e retirou os braços de Victor. - Por esta ou outras razões, fiz aquilo que fiz. Muito em breve saberá. Aquele padre no Casimir tinha razão: são monstros. Ele próprio o era. Há outros. Mas não culpe as Igrejas: estão inocentes Albergam os fanáticos, mas são inocentes.

- «Pavão»! Não se atrase mais!

- Lá vou - disse Lubok num sussurro gritado. - Adeus, Fontine. Se pensasse por um minuto que você não era o que diz ser, eu próprio o teria torturado para me dar a informação. Ou matava-o. Mas você é aquilo que é, apanhado no meio de tudo isto. Agora vão deixá-lo em paz. Por uns tempos.

O checo tocou leve e suavemente o rosto de Victor e correu para o barco.

As luzes azuis piscaram sobre o campo de Montbéliard precisamente à meia-noite e cinco. De repente, acenderam-se duas fiadas de pequenas chamas: a pista estava assinalada e o avião descreveu um círculo a fim de aterrar.

Fontine atravessou o campo a correr, levando a pasta. Ao chegar junto do avião, que deslizava pela pista, a escotilha abriu-se; havia dois homens de pé enquadrados no vão da abertura, de braços estendidos. Victor atirou a pasta para o interior e estendeu a mão que agarrou a do homem à sua direita. Aumentou a velocidade da corrida, saltou e foi içado pela abertura, ficando deitado de borco no pavimento. A escotilha foi fechada com força, houve uma ordem gritada ao piloto e os motores roncaram. O avião lançou-se em frente com um sacão, e pouco depois estavam no ar.

Fontine ergueu a cabeça e rastejou até à parede logo a seguir à escotilha. Puxou a pasta para junto de si e respirou profundamente, deixando a cabeça tombar de encontro ao metal.

- Oh, meu Deus! - ouviram-se as palavras pronunciadas sobressaltadaente na escuridão. - É você!

Victor rodou instantaneamente a cabeça para a esquerda, na direcção do

vulto que falava com tanto alarme na voz. Os primeiros raios de luar infiltraram-se pela janela da cabina de pilotagem, que estava aberta. Os olhos de Fontine foram atraídos pela mão direita do homem que falara. Estava coberta por uma luva preta.

- Stone? Que faz você aqui?

Porém, Geoffrey Stone estava incapacitado de responder. O luar tornou-se mais claro, iluminando a concha vazia que era a cabina do aparelho. Stone tinha os olhos arregalados e os lábios entreabertos, imóveis.

- Stone? É mesmo você?

- Oh, Jesus! Fomos levados. Eles conseguiram!

- De que está você a falar?

O inglês prosseguiu, em tom monocórdico:

- Foi referenciada a sua morte. Capturado e executado no Casimir, Disseram-nos que só um homem escapara. Com os seus documentos...

- Quem?

- O correio, Lubok.

Victor pôs-se inseguramente de pé, agarrando-se a uma pega de metal saliente da parede do avião, que vibrava. As peças geométricas começavam a juntar-se.

- Onde obteve essa informação?

- Foi-nos transmitida esta manhã.

- Por quem? Quem foi que a captou? Quem foi que a retransmitiu?

- A Embaixada grega - respondeu Stone, numa voz que pouco mais era que um murmúrio.

Fontine voltou a deixar-se cair no pavimento do avião. Lubok tinha dito estas palavras: «Dei-lhe uma dúzia de oportunidades, e você não aproveitou nenhuma. Há homens que acham que esta guerra é insignificante... Por esta e outras razões fiz o que fiz. Muito em breve saberá... Agora vão deixá-lo em paz. Por uns tempos».

Lubok fizera a sua jogada. Verificara um aeródromo em Varsóvia antes do raiar do dia e enviara uma mensagem falsa para Londres.

Não era precisa grande imaginação para saber o que essa mensagem continha.

- Estamos imobilizados. Expusemo-nos e fomos postos fora de combate. Agora vigiamo-nos uns aos outros, mas ninguém pode dar um passo, nem reconhecer aquilo que procuramos. Ninguém pode permitir-se esse luxo. - Brevourt falava de pé junto da janela de caixilhos de chumbo que dava para o pátio das Operações Estrangeiras. - Xeque-mate.

Do outro lado da sala, de pé junto à comprida mesa de reuniões, estava um enfurecido Alec Teague. Encontravam-se sós.

- Não quero saber disso para nada! O que me preocupa é a sua estrondosa manipulação das Informações Militares! Você pôs toda um rede em xeque. Loch Torridon pode muito bem ter ficado inutilizado.

- Invente outra estratégia - disse Brevourt distraidamente, olhando pela janela. - É esse o seu trabalho, não é?

- Diabos o levem!

- Por amor de Deus, Teague, pare com isso! - Brevourt fez meia volta, afastando-se da janela. - Alguma vez lhe passou pela cabeça que eu fosse a autoridade última?

- Acho que você comprometeu essa autoridade! Eu devia ter sido consultado!

Brevourt começou a ripostar, mas depois parou. Acenou com a cabeça ao mesmo tempo que atravessava lentamente a sala até à mesa em frente a Teague.

- Pode ser que tenha razão, general. Diga-me, você que é o especialista. Qual foi o nosso erro?

- O Lubok - disse friamente o general de brigada. - Ele cobriu a vossa parada. Abotoou-se com o vosso dinheiro e virou-se para Roma, e a seguir decidiu-se. Era o homem errado.

- Era o vosso homem. Das vossas fichas.

- Não para esse trabalho. Você interferiu.

- Pode ir para qualquer parte da Europa - continuou Brevourt quase lamuriosamente, como se Teague não tivesse interrompido. - É intocável. Se o Fontini-Cristi se tivesse escapado, o Lúbok podia tê-lo seguido para onde quer que fosse. Mesmo até à Suíça.

- Você estava à espera disso, não estava?

- Para falar com franqueza, estava. Você é demasiado bom vendedor, general. Acreditei em si. Pensei que Loch Torridon fosse mesmo fruto da cabeça do Fontini-Cristi. Tudo parecia tremendamente lógico. O italiano regressa sob um disfarce perfeito para tomar as suas próprias disposições.

Brevourt sentou-se fatigadamente, entrelaçando as mãos sobre a mesa à sua frente.

- Não lhe ocorreu que, se fosse esse o caso, ele ter-se-ia dirigido a nós? A si?

- Não. Nós não podíamos devolver-lhe as terras ou as fábricas.

- Não o conhece - concluiu Teague peremptoriamente. - Nunca se deu a esse trabalho. Foi esse o seu primeiro erro.

- Sim, quer-me parecer que foi. Tenho passado a maior parte da vida no meio de mentirosos. Os corredores da falsidade. A verdade simples é esquiva. - Brevourt ergueu subitamente os olhos para o homem das Informações. O seu rosto era patético, a tez pálida e as órbitas cavadas testemunhos de exaustão. - Você não acreditou, pois não? Não acreditou que ele tivesse morrido.

- Não.

- Eu não podia correr o risco, compreende? Aceitei o que você disse, que os alemães não o executariam, que se poriam na pista dele, descobririam quem ele era, utilizá-lo-iam. Mas o relatório dizia outra coisa. Portanto, se ele tivesse mesmo morrido, isso quereria dizer que quem o matara eram os fanáticos de Roma ou de Xenope. E eles não fariam tal coisa, a não ser... a não ser... que tivessem obtido o seu segredo.

- E, se o tivessem obtido, a arca seria deles. Não sua. Não da Inglaterra. Para já, nunca foi sua.

O embaixador desviou os olhos de Teague e voltou a afundar-se na cadeira, fechando os olhos.

- E tão-pouco se podia deixar que ela caísse nas mãos de loucos. Nesta altura, não. Sabemos quem é o louco em Roma. Agora o Vaticano vai andar de olho no Donatti. O Patriarcado vai suspender as actividades; foi-nos dada essa garantia.

- O que era o objectivo de Lubok, claro.

Brevourt abriu os olhos.

- Seria mesmo?

- Na minha opinião, era. O Lúbok é judeu. Brevourt virou a cabeça e cravou o olhar em Teague.

- Não vai haver mais interferências, general. Continue lá com a sua guerra. A minha está em suspenso.

Anton Lubok atravessou a Praça Venceslau, de Praga, e subiu os degraus da catedral bombardeada. Lá dentro, o sol do final da tarde coava-se por entre as enormes fendas na pedra onde as bombas da Luftwaffe tinham explodido. Haviam sido destruídas secções inteiras da parede da esquerda, e por toda a parte se viam andaimes primitivos à guisa de escoramento.

Parou na nave mais à direita e consultou o relógio. Estava na hora.

Um velho padre saiu da abside coberta por um reposteiro e passou pela frente dos confessionários. Deteve-se por breves instantes na sala. Era o sinal de Lúbok.

Percorreu cuidadosamente a nave, fixando a atenção na dúzia de fiéis, aproximadamente, que havia na igreja. Ninguém o observava. Afastou as cortinas e entrou no confessionário. Ajoelhou diante do pequeno crucifixo da Boémia; a luz bruxuleante da vela de orações projectava sombras nas paredes revestidas de cortinas.

- Perdoai-me, padre, porque pequei - principiou baixinho Lúbok. - Pequei em excesso. Aviltei o corpo e o sangue de Cristo.

- Não podemos aviltar o Filho de Deus - ouviu-se a resposta adequada por detrás das cortinas. - Só podemos aviltar-nos a nós próprios.

- Mas nós somos feitos à imagem de Deus. Como Ele próprio era.

- Uma imagem fraca e imperfeita - foi a resposta. Lúbok expirou lentamente: o exercício estava terminado.

- O senhor é Roma?

- Sou o canal - disse a voz, com serena arrogância.

- Não julgava que fosse a cidade, seu palerma dos diabos!

- Estamos na casa de Deus. Cuidado com a língua.

- E o senhor ultraja esta casa - sussurrou Lubok. - Todos os que trabalham para Donatti a ultrajam.

- Silêncio. Nós somos o caminho de Cristo!

- Vocês são lama! O vosso Cristo cuspiria sobre vós.

A respiração do outro lado da cortina estava cheia de controlada aversão.

- Rezarei pela sua alma - ouviram-se as palavras forçadas. - Que há do Fontini-Cristi?

- Não tinha outro objectivo a não ser Loch Torridon. As vossas extrapolações estavam erradas.

- Isso não serve! - O sussurro do padre era estridente. - Ele tinha de ter outros objectivos! Temos a certeza absoluta!

- Nunca saiu de ao pé de mim desde o momento em que nos conhecemos, em Montbéliard. Não houve mais nenhuns contactos a não ser aqueles de que tínhamos conhecimento.

- Não! Não acreditamos nisso!

- Daqui a uma questão de dias não fará qualquer diferença aquilo que acreditam. Estão arrumados. Todos vocês. Há gente boa que se encarregará disso.

Que fez você, judeu? - A voz por detrás das cortinas era agora abafada, e a aversão total.

- O que tinha de ser feito, padre.

Lubok pôs-se de pé e levou a mão esquerda ao bolso. Com a direita puxou repentinamente as cortinas na sua frente.

O padre surgiu à vista. Era enorme; as vestes negras davam-lhe uma aparência de imensidão. O seu rosto era o rosto de um homem que odiava profundamente; os olhos eram os olhos de um predador.

Lubok tirou um sobrescrito do bolso e deixou-o cair no genuflexório, diante do padre estupefacto.

- Aqui tem o seu dinheiro. Devolva-o a Donatti. Queria saber qual era o seu aspecto.

O padre respondeu calmamente:

- O melhor é saber o resto. O meu nome é Gaetamo. Enrici Gaetamo. E hei-de voltar à sua procura.

- Duvido - retorquiu Lubok.

- Não duvide - disse Enrici Gaetamo.

Lubok manteve-se de pé por um momento a olhar para o padre, sentado. Quando os olhares de ambos se cravaram um no outro, o loiro checo humedeceu os dedos da mão direita e estendeu-os para a vela de orações, extinguindo a chama. Tudo ficou na escuridão. Afastou as cortinas e saiu do confessionário.

 

A casa de campo ficava nos terrenos de uma extensa propriedade a oeste de Aylesbur, no Oxfordshire. A área era cercada por altos postes metálicos unidos por arame farpado electrificado. O enorme conjunto achava-se guardado por ferozes cães.

Havia uma única entrada, um portão, no início de um comprido caminho de acesso rectilíneo flanqueado por relvados abertos. Na casa principal, a quatrocentos metros do portão, a álea bifurcava-se para a direita e para a esquerda, voltando depois a dividir-se em diversos caminhos mais pequenos que levavam às várias casas de campo.

Havia ao todo catorze casas de campo, erigidas dentro e à volta do arvoredo da propriedade. Os ocupantes eram homens e mulheres que necessitavam de segurança: desertores e suas famílias, agentes duplos, correios que tinham sido expostos - alvos marcados para a bala de um assassino.

A casa de campo de Jane tornou-se o lar de ambos e Victor sentia-se grato pelo seu carácter recôndito. Porque todas as noites a Luftwaffe sulcava os céus, os incêndios de Londres aumentavam e a batalha da Inglaterra tinha começado.

E também Loch Torridon.

Durante períodos de várias semanas, Victor afastava-se da pequena casa do Oxfordshire e de Jane com o espírito sereno porque ela estava em segurança. Teague transferiu o quartel-general de Loch Torridon para as caves do MI 6. Noite e dia não tinham significado especial. Os homens trabalhavam a toda a hora com arquivos e rádios de onda curta e com equipamento que reproduzia perfeitamente os documentos necessários nas terras ocupadas: papéis de trabalho, autorizações de viagem, salvo-condutos do Reichsministerium dos Armamentos e Indústria. Outros homens eram chamados às caves e recebiam instruções dadas pelos capitães Fontine e Stone. E eram enviados para Lakeheath e lugares mais afastados.

Da mesma maneira que Victor num crescente número de ocasiões. Em tais alturas, sabia que Alec Teague tinha razão: «A segurança da sua mulher está directamente relacionada com o seu estado de espírito. Você tem um trabalho a fazer; eu farei o meu».

Jane não podia ser tocada pelos loucos de Roma ou Xenope. Era tudo quanto importava. O comboio de mercadorias de Salónica tornou-se uma estranha e dolorosa recordação. E a guerra continuava.

24 de Agosto de 1940 Antuérpia, Bélgica

(Despacho interceptado - duplicado - do comandante das Forças de Ocupação, Antuérpia, para o Reichsminister Speer, Armamento.)

«Os estaleiros ferroviários de Antuérpia estão um caos! Os comboios de abastecimento que atravessam o rio Escalda são sobrecarregados devido a incúria nas ordens de carregamento, o que origina fendas em toda a estrutura da ponte. Horários e códigos alterados sem o devido aviso. A partir de serviços dirigidos por pessoal alemão! Represálias caricatas. Irresponsabilidade estrangeira. Há comboios a cruzar-se com outros em direcção oposta na mesma via! Há composições de mercadorias a pararem em cais e armazéns onde não aparecem camiões! Não há remessas! A situação é intolerável e tenho de instar com o Reichsministerium para que coordene mais minuciosamente...»

19 de Setembro de 1940 Verdun-sur-Meuse, França

(Excertos de uma carta recebida no gabinete jurídico do segundo comando do Gesetzbuch Besitzergreifung - remetida por um tal coronel Grepschedit, Verdun-Meuse.)

«... Ficou acordado que redigiríamos normas de ocupação específicas para arbitrar disputas entre nós e os vencidos que depuseram as armas. A regulamentação foi implementada. Depara-se-nos agora regulamentação adicional - posta em circulação pelos seus serviços -, que colide com secções inteiras do normativo anterior. Estamos em constante discussão mesmo com aqueles que nos receberam de bom grado! Gastam-se dias a fio com audiências de ocupação. Os nossos oficiais vêem-se confrontados com ordens contraditórias dos vossos correios - tudo isto devidamente assinado e autenticado com os vossos selos. Estamos em ponto de ebulição devido a incongruências. Estamos a perder a cabeça...»

 

20 de Março de 1941 Berlim, Alemanha

(Acta extraída da reunião entre estabilizadores de contas do Finanzminis-terium e dos funcionários do Reichsordnung. Dossier retirado - duplicado.)

«... A essência das intermináveis dificuldades da Manutenção deve ser assacada aos sistemáticos enganos do Finanzministerium nas atribuições de fundos. Passam-se meses que as contas não são corrigidas, os pagamentos são mal calculados, são transferidas verbas para os entrepostos de distribuição errados... Frequentemente para sectores geográficos errados! Há batalhões inteiros que não receberam os vencimentos porque os fundos se encontravam algures na Jugoslávia, quando deviam estar em Amesterdão!...»

 

23 de Junho de 1941 Brest-Litovsk, frente russa

(Despacho através de um correio do general Guderian para o seu comandante, general Bock, Quartel-General em Pripet, na Polónia. Intercepção: Bialystok. Não chegou ao destinatário.)

«... Em dois dias de ofensiva estamos a quarenta e oito horas de Minsk. O Dniepre vai ser atravessado em questão de semanas; o Don e Moscovo não estão muito mais longe! A rapidez da nossa progressão exige comunicações imediatas, essencialmente comunicações de rádio, mas existem crescentes dificuldades com o nosso equipamento de transmissões. Especificamente, naquilo que os engenheiros me dizem ser a calibração da frequência. Mais de metade do equipamento sob a nossa jurisdição está regulado em frequências diferentes. A menos que se tomem extremas cautelas, há comunicações enviadas em frequências insólitas, muitas vezes frequências inimigas. Trata-se de um problema de fabrico. A nossa preocupação reside na impossibilidade de determinar quais os equipamentos que vêm com calibração defeituosa. Eu próprio iniciei uma comunicação com Kleist, no flanco sul de Rundstedt, e dei por mim a falar com a Lituânia Oriental...»

 

2 de Fevereiro de 1942 Berlim, Alemanha

(Retirado do arquivo de correspondência de Manfried Probst, funcionário do Reichsindustrie, por Hiru Kayanaka, adido à Embaixada do Japão em Berlim.)

«Caro Reichsofíiziell Probst:

Uma vez que somos actualmente tanto camaradas de batalha como camaradas em espírito, temos de tentar esforçar-nos mais pela perfeição que os nossos chefes esperam de nós.

Passemos ao assunto, meu caro Reichsoffiziell. Como sabe, os nossos governos encetaram experiências de radar conjuntas.

Enviámos por via aérea - com grande risco - os nossos mais eminentes cientistas de electrónica a Berlim para participarem em conferências com o vosso pessoal. Isto passou-se há seis semanas e ainda não se realizou qualquer conferência. Fui informado de que os nossos mais ilustres sábios foram, por engano, enviados por via aérea para Greifswald, no mar Báltico. Eles não estão interessados em experiências com foguetes, mas sim com radar, meu caro Reichsoffiziell. Infelizmente, nenhum deles fala a vossa língua e os intérpretes que vocês lhes destinaram não são propriamente fluentes na nossa.

Chegou há uma hora à minha secretária notícia de que os nossos mais eminentes cientistas estão presentemente a caminho de Wiirzburg, onde há transmissores de rádio. Meu caro Reichsoffiziell, nós não sabemos onde fica Wurz-DUrg. E os nossos mais eminentes cientistas não estão interessados em transmissores de rádio, mas sim em radar!

Poderá por favor localizar os nossos mais eminentes cientistas? Quando são

as conferências sobre radar? Com que objectivo andam os nossos mais eminentes cientistas a viajar por toda a Alemanha?...»

 

25 de Maio de 1942 St. Valéry-en-Caux, França

(Relatório elaborado pelo capitão Victor Fontine, largado de pára-quedas na retaguarda das linhas, no distrito de Héricourt. Regressado via arrastão, ilha de Wight.)

«... As remessas de armamento ao longo das regiões costeiras são primordialmente de natureza ofensiva, dando-se pouca importância ao armamento defensivo. Os carregamentos são expedidos de Essen, via Dusseldórfia, passando a fronteira até Roubaix e seguindo depois até à costa francesa. A chave é o combustível. Colocámos homens nossos nos depósitos de gasolina. Eles recebem contínuas «instruções» do Reichsministerium da Indústria no sentido de desviarem remessas de gasolina directamente de Bruxelas para Roterdão, donde partem vagões para a frente russa. Segundo as últimas notícias, havia duzentos e trinta quilómetros de veículos com armamento convencional bloqueados nas estradas entre Lovaina e Bruxelas, com os depósitos vazios. E, evidentemente, não houve represálias. Calculamos que o empreendimento permanecerá em condições de ser processado durante mais quatro dias, findos os quais Berlim será obrigada a entrar e o nosso pessoal terá de sair. Coordenar ataques aéreos nessa ocasião...»

(Nota: Comando de Loch Torridon. Para arquivar. Despacho do general de brigada Teague: concedida licença ao capitão Victor Fontine após o regresso de Wight. Recomendação para promoção a major aceite...)

Fontine saiu velozmente de Londres pela estrada de Hempstead, rumo ao Oxfordshire. Pensara que o briefing com Teague e Stone nunca mais acabaria! Meu Deus! As repetições! O seu co-administrador, Stone, ficava sempre furioso quando ele regressava de uma das suas deslocações à retaguarda das linhas alemãs. Era um trabalho que Stone fora treinado para executar, mas que agora lhe era impossível. A mão esfacelada punha fora de causa incursões daquelas, e ele descarregava a ira em Victor. Costumava submeter Fontine a um interrogatório rápido, desabrido e repetitivo, procurando erros em todas as fases de uma missão. Todo e qualquer carinho que outrora Victor tivesse sentido pelo criptógrafo desaparecera ao longo dos meses. Meses? Mãe de Cristo, já lá iam quase dois anos e meio!

Contudo, esta noite as tácticas dilatórias de Stone eram imperdoáveis. Os ataques da LuftwafFe sobre a Inglaterra tinham abrandado, mas não terminado. Caso as sereias de alarme aéreo começassem a tocar, podia ser-lhe impossível sair de Londres.

E Jane estava perto do fim do tempo. Os médicos tinham dito que era questão de uma quinzena. Isso fora há uma semana, quando ele seguira de avião de Lakenheath para França e fora largado nos campos de pastagem de Héricourt.

Alcançou os arredores de Aylesbury e olhou para o relógio, segurando-o por baixo da luz mortiça do painel de instrumentos do automóvel. Eram duas e

vinte da manhã. Ambos haviam de rir daquilo: ele estava constantemente a voltar para junto dela a horas disparatadas. Mas voltava. Daí a dez minutos chegaria ao complexo.

Atrás de si, ao longe, ouviu o gemido das sereias aumentando e diminuindo de intensidade em lamuriosas fugas. Não sentiu a ansiedade acompanhada de um baque e da opressão no peito que costumava acompanhar o som terrível. O próprio som tinha acabado por revestir-se de um certo cansaço: a repetição embotara-lhe o terror.

Rodou o volante do automóvel para a direita; encontrava-se presentemente na estrada secundária que levava à propriedade do Oxfordshire. Mais quatro ou cinco quilómetros e estaria com a mulher. Carregou com o pé no acelerador. Não havia carros na estrada: podia andar depressa.

Instintivamente, os ouvidos puseram-se à escuta do ribombar distante do bombardeamento. Mas não se ouviu nenhum trovejar longínquo; apenas o incessante gemido das sereias. De repente, houve sons que se intrometeram onde não devia haver sons; susteve a respiração, apercebendo-se de imediato do regresso da esquecida ansiedade. Perguntou a si mesmo por um momento se a sua exaustão não lhe estaria a pregar partidas...

Não era partida! Não se tratava de partida nenhuma! Os sons estavam por cima dele e eram inconfundíveis. Tinha-os escutado demasiado amiúde, tanto sobre Londres como em pleno canal, numa porção de lugares diferentes, secretos.

Aviões Heinkel. Bombardeiros bimotores alemães de longo alcance. Tinham passado Londres. E, se Londres tinha sido passada em claro, havia boas probabilidades de que os Heinkel rumassem em direcção ao distrito de Birmingham e às fábricas de munições.

Meu Deus! Os aviões estavam a perder altitude! Estavam a picar, numa descida rápida.

Mesmo por cima dele!

À sua frente!

Um bombardeamento! Um ataque aéreo em pleno campo, no Oxfordshire! Em nome de Deus, que...?

O complexo!

O único lugar em Inglaterra que não tinha paralelo em segurança. De terra, mas não dos ares!

Tinha sido ordenado um ataque aéreo a baixa altitude contra o complexo!

Fontine pisou o acelerador a fundo, com o corpo a tremer e a respiração a sair-lhe em curtos arrancos, de olhos cravados na estrada que ia desfilando velozmente.

O céu explodiu. Os silvos dos aviões em voo picado misturaram-se com o trovejar de origem humana: detonações atrás de detonações. Enormes clarões brancos e amarelos - angulosos, informes, horríveis - invadiram os espaços abertos sobre e entre o arvoredo de Oxfordshire.

Alcançou a entrada do complexo, fazendo guinchar os pneus ao travar a fim de entrar numa curva. Os portões de ferro estavam abertos.

Evacuação.

Enterrou o pé no pedal do acelerador e percorreu a toda a velocidade a extensa recta do arruamento de acesso. Ao fundo havia fogo por toda a parte, explosões por toda a parte, pessoas correndo em pânico - por toda a parte.

A casa principal fora atingida em cheio. Toda a parede fronteira do lado

direito voara pelos ares; o telhado ruía num sobrenatural esplendor informe, numa cascata de tijolo e pedra que desabava no solo. O fumo evolava-se em turbilhões verticais de cor negra e cinzenta e deixava ver os focos de incêndios amarelos, aterradores.

Um estrondo ensurdecedor: o carro foi sacudido, o solo elevou-se e as janelas estilhaçaram-se, projectando fragmentos de vidro em todas as direcções. Fontine sentiu sangue a escorrer-lhe pela cara, mas conseguia ver, e isso era tudo o que importava.

A bomba acertara a menos de cinquenta metros à sua direita. À luz dos incêndios viu a terra escalavrada do relvado. Guinou para a direita, contornou a cratera e cortou a direito pela relva em direcção à estrada de terra que levava à casa de campo que ocupavam. As bombas não acertavam duas vezes no mesmo alvo, pensou.

A estrada achava-se obstruída: tinham abatido árvores e o fogo consumia-as - por toda a parte.

Saltou do carro e correu por entre as barreiras em chamas. Viu a casa deles. Um enorme carvalho fora arrancado do solo e o seu maciço tronco abatera-se sobre o telhado de telha ondulada.

- Jane! Jane!

«Deus do ódio, não me faças isso! Não voltes a fazer-me isso!» Atirou-se contra a porta, fazendo-a saltar dos gonzos. Lá dentro reinava a mais completa destruição: havia mesas, candeeiros e cadeiras espalhadas, de pernas para o ar, estilhaçadas em mil e um fragmentos. Havia fogo - no sofá, no telhado aberto onde o carvalho se abatera.

- Jane!

- Aqui...

A voz dela vinha da cozinha. Cruzou o estreito vão da porta em corrida e sentiu por um instante que devia tombar de joelhos numa súplica. Jane estava de pé, agarrada à borda do balcão, de costas para ele, o corpo a tremer e a cabeça a acenar para cima e para baixo. Precipitou-se para ela e agarrou-a pelos ombros, encostando o rosto à sua face, sem que o ritmo espasmódico dos movimentos dela se interrompesse.

- Minha querida.

- Vittorio... - De súbito, Jane teve uma contracção violenta, ofegando ao mesmo tempo: - Lençóis... Lençóis, meu amor. E cobertores. Acho que não tenho bem a certeza, palavra...

- Não fales. - Pegou nela e viu-lhe a dor no rosto, na escuridão. - Vou levar-te à clínica. Há uma clínica, um médico, enfermeiras...

- Não conseguimos lá chegar! - gritou ela. - Faz o que te digo. - Tossiu, num espasmo de dor: - Eu mostro-te. Pega em mim.

Apertava uma faca na mão. Estivera a esterilizá-la com água quente, preparando-se para provocar o parto, sozinha.

No meio das detonações incessantes, Victor conseguiu ouvir os aviões a subir, rumo a maiores altitudes. O ataque estava a terminar: os rugidos longínquos e furiosos dos Spitfire convergindo para o sector eram um sinal que a nenhum piloto da Luftwaffe passava despercebido.

Fez o que a mulher lhe dizia, segurando-a nos braços e recolhendo desajeitadamente o que quer que ela lhe mandava.

Abriu caminho a pontapé por entre os destroços e as chamas que alastravam e carregou a mulher para o exterior. Como um animal buscando um

refúgio, correu para o arvoredo e descobriu um antro que era só deles

Estavam juntos. O frenesi de morte que se encontrava a várias centenas de

metros de distância não podia deter a vida. Ajudou a mulher a trazer ao

mundo duas crianças do sexo masculino. Tinham nascido os filhos de Fontini-Cristi.

A fumaça erguia-se preguiçosamente em espirais, rolos verticais de vapor digno e morto que se interpunha na trajectória dos raios do sol do princípio da manhã. Havia macas por todo o lado. Cobertores tapavam a cara dos mortos; os vivos e os parcialmente vivos olhavam fixamente para cima, de boca aberta, num estado de choque estupidificado. Viam-se ambulâncias por toda a parte. E bombas de incêndio e veículos da polícia.

Jane jazia numa ambulância, uma unidade médica móvel, que eles tinham chamado. Os filhos dele estavam com a mãe.

O médico saiu do avançado de lona no prolongamento do estranho veículo e atravessou o curto trecho de relvado até junto de Victor. O rosto do médico apresentava um ar macilento: tinha escapado à morte mas vivia entre os moribundos.

- Ela passou um mau bocado, Fontine. Eu disse-lhe que, em circunstâncias normais, ela havia de...

- Ela vai ficar bem? - interrompeu Victor.

- Vai ficar bem, sim. No entanto, vai precisar de um repouso muito prolongado. Tinha-lhe dito há vários meses que desconfiava de um parto múltiplo. Ela não estava... digamos... concebida para um parto desses. De certo modo, até é de admirar que se tenha safado.

Fontine ficou a olhar para o homem.

- Ela nunca me falou disso.

- Era de esperar que não. Você anda numa vida precária. Não pode ter demasiadas coisas em que pensar.

- Posso vê-la?

- Só daqui a mais um tempo. Ela está profundamente adormecida; as crianças estão sossegadas. Deixe-a estar.

O médico pousou-lhe suavemente a mão no braço, arredando-o da ambulância na direcção ao que restava da casa principal. Um oficial abeirou-se deles e chamou Victor de parte.

- Encontrámos aquilo de que andávamos à procura. Sabíamos que havia de estar por cá, ou isso ou coisa parecida. O ataque foi demasiado preciso. Nem os instrumentos alemães seriam capazes de tal coisa, e o voo nocturno está fora de causa; verificámos isso. Não havia marcações nem fachos.

- Aonde é que vamos? De que está você a falar? - Victor ouvira o oficial, mas as palavras dele eram crípticas.

- ... transmissor de arco voltaico.

As palavras continuavam a não entrar.

- Desculpe. Que foi que disse?

- Disse que o compartimento ficou de pé. Fica nas traseiras da ala direita. O filho da mãe estava a operar um simples transmissor de arco voltaico.

- Um transmissor?

- Sim. Foi assim que os boches acertaram mesmo em cheio. Foram guiados por uma emissão rádio. Os tipos do MI Cinco e Seis não põem objecções a que eu lhe mostre. Aliás, acho que até ficaram satisfeitos. Receiam que, no meio desta confusão toda, alguém remexa nas coisas. O senhor pode confirmar que não o fizemos.

Abriram caminho através do entulho e dos montes de destroços fumegantes, até ao flanco direito da casa grande. O major abriu a porta e meteram à direita por um corredor que parecia estar dividido há pouco tempo, como se fosse para formar gabinetes.

- Uma emissão de rádio poderia trazer uma esquadrilha até à área - disse Fontine, caminhando ao lado do oficial. - Mas apenas até à área, não ao alvo. Eram bombardeiros. Eu vinha na estrada; eles mergulharam até à altitude crítica. Teriam de ser orientados por equipamento mais sofisticado que um simples transmissor de arco voltaico...

- Quando eu disse que não havia marcações nem fachos - interrompeu o major -, referia-me a determinado esquema: de um ponto A para um ponto B, e deste para um ponto C. Logo que os alemães sobrevoaram o alvo, o filho da mãe limitou-se a abrir a janela e a lançar foguetes iluminantes. Nessa altura utilizou realmente fachos. Um sacana de um caixote inteiro, a julgar pelo que encontrámos no terreno.

Ao fundo do corredor havia uma porta guardada por dois soldados. O oficial abriu-a e entrou, seguido de Victor.

A sala estava imaculada, miraculosamente poupada à carnificina circundante. Numa mesa encostada à parede via-se uma mala aberta, da qual saía uma antena circular, ligada a um equipamento de rádio por baixo, encerrado na mala.

O oficial fez um gesto para a esquerda, na direcção da cama, que não era visível à primeira vista do vão da porta.

Fontine quedou-se imobilizado. Os seus olhos ficaram pregados à visão que tinha naquele momento diante de si.

Na cama estava o corpo de um homem, com a nuca esfacelada e uma pistola na mão direita. Na mão esquerda segurava um grande crucifixo.

O homem envergava as vestes negras dos sacerdotes.

- É estranho como os diabos! - comentou o major. - Os documentos dele dizem que era membro de uma dada irmandade monástica grega. A Ordem de Xenope.

Jurou-o! Não haveria mais.

Jane e os dois bebés foram secretamente levados para a Escócia. Para norte de Glásgo, para uma casa isolada no campo em Dunblane, Victor não estava disposto a confiar em complexos «sem paralelo em segurança», nem tão-pouco em garantias algumas por parte do MI 6 ou do Governo britânico. Ao invés, utilizou os seus próprios fundos, contratou antigos soldados, exaustivamente investigados por ele próprio, e transformou a casa e o terreno anexo numa pequena mas inexpugnável fortaleza. Negou-se a tolerar quer as sugestões, quer as objecções, quer as desculpas de Teague. Estava a ser perseguido por forças que não conseguia compreender, por um inimigo impossível de controlar, independente da guerra e contudo parte dela.

Perguntava a si próprio se seria assim durante o resto da vida. Mãe de Cristo, porque não acreditavam nele? Como podia chegar até aos fanáticos e aos assassinos e vociferar os seus desmentidos? Não sabia nada! Nada! Um comboio tinha largado de Salónica havia três anos, na madrugada do dia 9 de Dezembro de 1939, e ele não sabia nada! Apenas da sua existência. Nada mais!

- Tenciona manter-se aqui até ao fim da guerra?

Teague tinha ido passar o dia a Dunblane; passeavam pelos jardins das traseiras da casa, à vista do alto muro de tijolos e dos guardas. Fazia cinco meses que se haviam encontrado, embora Victor permitisse chamadas através de telefones com misturadores de voz, retransmitidos. Fazia demasiado parte de Loch Torridon; os seus conhecimentos eram vitais.

- Você não tem qualquer poder sobre mim, Alec. Eu não sou britânico. Não lhe jurei fidelidade.

- Nunca me pareceu que isso fosse necessário. No entanto, a verdade é que o promovi a major. - Teague sorriu.

- Sem que eu fosse sequer formalmente admitido ao serviço? Você é a vergonha da tradição militar.

- Disso não há dúvida. Consigo que as coisas se façam. - O general de brigada interrompeu-se. Curvou-se a fim de colher uma longa folha de erva e ergueu-se, olhando para Fontine. - O Stone não pode fazê-lo sozinho.

- Porque não? Você e eu falamos várias vezes por semana. Eu digo-lhe o que puder. O Stone acelera as decisões. É uma combinação sólida.

- Não é a mesma coisa, e você sabe-o.

- Terá de servir. Eu não posso travar duas guerras. - Fontine fez uma pausa, recordando: - Savarone tinha razão.

- Quem?

- O meu pai. Devia saber que aquilo que o comboio transportava, fosse o que fosse, podia tornar os homens inimigos mesmo quando lutavam pela sobrevivência comum.

Alcançaram a beira do caminho. Havia um guarda a trinta metros, para lá do relvado, junto ao muro; sorriu e afagou o pêlo de um cão dinamarquês preso, que rosnou ao ver e farejar o estranho.

- Um dia terá de decidir-se - disse Teague. - Você, a Jane, as crianças: não pode viver com isso às costas durante a vida inteira.

-Já o disse a mim mesmo vezes sem conta. Mas não sei bem como poderá ser.

- Talvez eu saiba. Pelo menos, estou na disposição de tentar. E tenho à minha disposição o melhor serviço de informações que existe.

Victor deitou-lhe um olhar de soslaio, interessado:

- Por onde começaria?

- A questão não é onde, mas sim quando.

- Então, quando?

- Quando esta guerra terminar.

- Por favor, Alec, mais palavras não; nada de estratégias. Nem de estratagemas.

- Não há estratagema nenhum. É uma combinação simples, sem qualquer complicação. Preciso de si. A guerra levou uma reviravolta; Loch Torridon está a entrar na fase mais importante. Tenciono velar por que alcance o seu objectivo.

- Você está obcecado.

- Também você. E com toda a razão. Mas não há-de descobrir nada de «Salónica. é o nome de código do Brevourt, a propósito) enquanto não se ganhar a guerra, pode crer. E a guerra há-de ser mesmo ganha.

Fontine sustentou o olhar de Teague:

- Quero factos, e não retórica.

- Muito bem. Temos nomes que você não tem; e tão-pouco lhos vamos revelar, para sua própria segurança e segurança da sua família.

- O homem que estava no carro? Em Kensington, em Campo di Fiori? O da malha branca? O carrasco?

- Sim.

Victor susteve a respiração, dominando um impulso quase irresistível de agarrar o inglês e arrancar-lhe as palavras pela força.

- Você ensinou-me a matar; seria capaz de matá-lo por isso.

- Com que objectivo? Eu protegê-lo-ia com a minha própria vida, e você sabe-o. A questão é que ele está imobilizado. Dominado. Se é que, efectivamente, foi ele o carrasco.

Victor expeliu lentamente o ar. Os músculos do maxilar doíam-lhe da tensão.

- Que outros nomes?

- Dois superiores do Patriarcado. Por intermédio do Brevourt. São eles que chefiam a Ordem de Xenope.

- Nesse caso são responsáveis por Oxfordshire. Meu Deus, como é que você pode...?

- Não são, não - atalhou rapidamente Teague. - Ficaram, se isso é possível, mais abalados do que nós. Conforme foi realçado, a última coisa que pretendiam era a sua morte.

- O homem que orientou aqueles aviões era um sacerdote! De Xenope!

- Ou alguém preparado para passar por tal.

- Matou-se - disse baixinho Fontine - da maneira estabelecida.

- Ninguém tem um contingente de fanáticos.

- Continue. - Victor empreendeu o caminho de regresso pela vereda, afastando-se do guarda e do cão.

- Aqueles indivíduos são a pior espécie de extremistas. São místicos; julgam que estão empenhados numa guerra santa. A sua guerra só permite a confrontação pela violência, e não a negociação. Mas nós conhecemos os pontos de pressão, aqueles cuja palavra pode ser desobedecida. Podemos provocar uma confrontação através da pressão de Whitehall, se preciso for, e exigir uma resolução. Pelo menos uma que o arrede das preocupações deles, de uma vez por todas. Você não pode fazê-lo por si só. Nós podemos. Voltará?

- Se voltar, tudo isso será posto em movimento? Fazendo eu próprio parte do planeamento?

- Montá-lo-emos com a precisão com que montámos Loch Torridon.

- O meu disfarce em Londres manteve-se integralmente?

- Sem uma mossa. Você está algures no País de Gales. Todos os nossos telefonemas são dirigidos para a área de Swansea e transferidos para norte. A correspondência é expedida para uma caixa de correio na vila de Gwynliííen, onde é discretamente metida noutros sobrescritos e remetida apenas para mim. Neste preciso momento, se precisar de mim, o Stone faz uma chamada para um número de Swansea.

- Ninguém sabe onde nós estamos? Ninguém?

- Nem sequer o Churchill.

- Eu falo com a Jane.

- Uma coisa - disse Teague, com a mão no braço de Fontine -: dei a minha palavra ao Brevourt. Não vai haver mais deslocações ao lado de lá do canal para si.

- Ela vai gostar disso.

Loch Torridon ia de vento em popa. O princípio da má gestão a todo o custo tornou-se um espinho na carne alemã.

Nas oficinas de impressão de Manheim, 130 000 Manuais do Comandante para Ocupação saíram da tipografia com todas as negativas em restrições vitais. Remessas destinadas às fábricas Messerschmidt de Francoforte eram desviadas para as linhas de montagem Stuka, de Leipzig. Em Kalach, na frente russa, verificou-se que três quartos do material de transmissão estava presentemente a operar em frequências diversificadas. Nas fábricas Krupp, de Essen, erros de cálculo de engenharia redundaram em deficiências nos mecanismos de disparo de todos os canhões com o número de alma 712. Em Cracóvia, na Polónia, nas fábricas de uniformes, o tecido não passou por um processo de saturação química e foram expedidas 200 000 unidades sujeitas a inflamabilidade espontânea. Em Turim, na Itália, onde os alemães dirigiam as fábricas de aviões, foram executados projectos que provocavam fadiga do metal após vinte horas de voo; houve secções inteiras de esquadrilhas que se desintegraram estruturalmente em pleno voo.

Em fins de Abril de 1944, Loch Torridon concentrou-se nas patrulhas ao largo de toda a costa da Normandia. Foi concebida uma estratégia que alterava os horários de patrulha tal como eram comunicados ao pessoal da Marinha alemã pela base em Barfleur. O general de brigada Teague trouxe o relatório ao Quartel-General Supremo do Comando Aliado e entregou-o pessoalmente a Dwight Eisenhower.

«As patrulhas alemãs antes do alvorecer vão ser retiradas das zonas da Normandia durante os primeiros onze dias de Junho. É esse o alvo em termos de datas. Repito: 1 a 11 de Junho».

O comandante supremo teve a resposta apropriada:

- Macacos me mordam...

A operação Overlord foi executada e os exércitos invasores avançaram. Sob a direcção de Badoglio e Grandi, as linhas gerais da colaboração italiana foram negociadas em Lisboa.

Tratou-se de uma deslocação que Alec Teague permitiu ao major Fontine. Ele tinha direito a ela.

E, num pequeno compartimento em Lisboa, fora um Badoglio fatigado que se confrontara com Victor.

- Com que então o filho de Fontini-Cristi traz-nos o ultimato. Deve haver nisto uma certa satisfação para si.

- Não - replicou simplesmente Victor. - Apenas desdém.

 

26 de Julho de 1944 WOLFSSCHANZE, PrÚSSIA ORIENTAL

{Enxertos do inquérito da Gestapo à tentativa de assassínio de Adolf Hitler no Quartel-General do Alto Comando em Wolfschanze. Ficha retirada e destruída.)

«... Os cúmplices do traidor general Claus von Staufenberg fraquejaram e descreveram uma conspiração generalizada envolvendo generais como Ol-bricht, Von Falkenhausen, Hoepner e possivelmente Kluge e Rommel. Esta conspiração não poderia ter sido coordenada sem auxílio inimigo. Foram evitados todos os canais normais de comunicação. Utilizou-se uma rede de correios desconhecida, e veio à tona um nome de código que nunca fora ouvido anteriormente. É de origem escocesa e trata-se do nome de um distrito ou vila: Loch Torridon... Capturámos...»

Alec Teague estava de pé em frente do mapa de parede do gabinete. Fontine encontrava-se sentado numa cadeira junto da secretária de Teague e fitava-o.

- Foi uma jogada - disse Teague. - Perdemos. Não podemos esperar ganhar de todas as vezes. Vocês tiveram derrotas a menos, o vosso problema é esse: não estão habituados a elas. - Tirou três alfinetes do mapa e regressou à secretária. Sentou-se devagar e esfregou os olhos. - Loch Torridon foi uma operação extremamente eficaz. Temos todos os motivos para nos orgulharmos.

Fontine sobressaltou-se:

- Pretérito perfeito?

- Sim. A ofensiva terrestre aliada em direcção ao Reno vai encetar o esforço máximo no dia um de Outubro. O Comando Supremo não quer complicações; antevêem deserções generalizadas. Nós somos uma complicação, possivelmente uma coisa nociva. Loch Torridon vai ser desmantelado no decurso dos próximos dois meses.

Victor observou Teague, enquanto o general de brigada pronunciava a sentença. Uma parte do velho soldado morria com as palavras. Era doloroso olhar para Alec. Loch Torridon era o seu momento de glória militar: jamais estaria tão perto, e a inveja não estava fora de causa no seu encerramento. Mas as decisões tinham sido tomadas. Eram irrevogáveis, e contestá-las era questão que nem se punha. Teague era um soldado.

Fontine analisou os seus próprios pensamentos. Inicialmente não experimentou júbilo nem depressão: tratava-se mais de uma suspensão, como se o tempo houvesse parado abruptamente. Depois, lenta e dolorosamente, sobreveio a sensação momentânea de: e agora? Que é feito do meu objectivo? Que faço?

E logo, repentinamente, estes vagos cuidados foram prontamente substituídos. A obsessão que nunca estava longe do seu espírito tornou-se vividamente distinta. Ergueu-se da cadeira e postou-se diante da secretária de Alec.

- Nesse caso reclamo a sua dívida - disse serenamente a Teague. - Há outra operação que tem de ser montada «com toda a precisão de Loch Torridon». Foi dessa maneira que você exprimiu.

- E sê-lo-á. Dei-lhe a minha palavra. Os Alemães não podem durar um ano: já nos chegam indícios de rendição por parte dos generais. Seis, oito meses, e a guerra terá terminado. «Salónica» será montada nessa ocasião. Com toda a precisão de Loch Torridon.

Foram precisas doze semanas para fechar os livros e trazer os homens de volta para Inglaterra. Loch Torridon terminava: tudo o que restava eram vinte e dois gabinetes de realizações. Foram fechados, selados e a documentação guardada nos cofres das Informações Militares.

Fontine regressou do complexo isolado na Escócia, para junto de Jane e dos gémeos, Andrew e Adrian - baptizados em honra do santo britânico e de qualquer um dos diversos romanos aceitáveis. Mas não eram santos nem imperiais: tinham dois anos e meio e toda a energia que a idade implicava.

Victor passara toda a vida adulta rodeado pelos filhos dos irmãos, mas estes eram seus. Já de si eram diferentes. Seriam os únicos a perpetuar o nome dos Fontini-Cristi. Jane não podia ter mais filhos: os médicos tinham sido unânimes quanto a isso. Os ferimentos em Oxfordshire haviam sido demasiado extensos.

Era estranho. Depois de dez anos de furiosa actividade e tensão, achava-se súbita, abrupta e totalmente passivo. Os cinco meses em 42 que permanecera em Dunblane não podiam considerar-se um período de tranquilidade. A recuperação de Jane fora lenta e melindrosa; a consolidação do complexo tinha-o obcecado. Nessa altura não houvera alívio da pressão.

Ele dava-se agora. E a transição era insuportável. Tão insuportável como a espera pelo início de «Salóníca». Era a inactividade que o consumia: não era homem para estar ocioso. Apesar de Jane e das crianças, Dunblane tornou-se o seu cárcere. Havia homens lá fora, do lado de lá do canal, profundamente internados na Europa e no Mediterrâneo, que o procuravam tão denodadamente como ele os procurava a eles. Não haveria nada até poder iniciar-se esse passo.

Teague não voltaria com a palavra atrás; Victor apercebia-se disso. Mas tão-pouco ele se afastaria dela. O final da guerra assinalaria o início da estratégia que levaria aos homens de Salónica. Não seria antes. A cada nova vitória, a cada nova penetração na Alemanha, o cérebro de Fontine desarvorava. A guerra estava ganha; não acabara, mas estava vencida. Em todo o mundo havia vidas que tinham de ser retomadas, peças que era preciso voltar ajuntar e decisões a tomar, pois era necessário refazer a vida. Para ele, para Jane, tudo dependia das forças que procuravam uma arca que saíra da Grécia havia cinco anos: ao alvorecer do dia 9 de Dezembro.

A inactividade era o seu inferno privado.

Durante a espera tomara uma decisão: não regressaria a Campo di Fíori após a guerra. Quando pensava na sua casa e olhava para a mulher, via outras mulheres chacinadas, nas névoas brancas de luz. Quando via os filhos via outros filhos, impotentes, aterrados, dilacerados pela metralha. Os tormentos do espírito achavam-se ainda demasiado nítidos. Não podia regressar ao campo do morticínio nem a nada ou ninguém com ele relacionado. Construiriam uma nova vida noutro local qualquer. As Indústrias Fontini-Cristí ser-lhe-iam devolvidas: o Tribunal de Reparações de Roma fizera-o saber a Londres.

E ele mandara dizer de volta, por intermédio do MI 6, que as fábricas, as oficinas, todas as terras e propriedades - excepto Campo di Fiori - iriam para o maior licitante. Relativamente a Campo di Fiori, tomaria disposições independentes.

Era a noite de 10 de Março. As crianças estavam a dormir no outro extremo do corredor; os últimos ventos do Inverno sopravam em rajadas no exterior da janela do quarto deles. Victor e Jane estavam debaixo das cobertas, com as brasas da lareira a projectar no tecto um fulgor alaranjado. E falavam em voz baixa, como sempre falavam nas derradeiras horas do dia.

- É o Barclay quem vai tratar de tudo - disse Victor. - Trata-se de um leilão simples, na verdade. Estabeleci um valor mínino para o total; a maneira como repartirão a venda global é com eles.

- Há compradores? - perguntou Jane, deitada sobre o cotovelo, a olhar para ele.

Fontine riu-se baixinho:

- Montes deles. Especialmente na Suíça, e também americanos. Há fortunas a ganhar na reconstrução. Os que possuírem bases de fabricação estarão em vantagem.

- Pareces um economista a falar.

- Espero sinceramente que pareça. O meu pai ficaria terrivelmente desapontado se assim não fosse. - Calou-se. Jane afagou-lhe a testa, arredando o cabelo.

- Que foi?

- Estava só a pensar. Não tarda a terminar. Primeiro a guerra, depois «Salónica»; isso há-de terminar também. Confio no Alec. Há-de levar a coisa a bom termo, nem que tenha de fazer chantagem com todos os diplomatas dos Negócios Estrangeiros. Os fanáticos serão obrigados a aceitar o facto de que eu não sei patavina do seu amaldiçoado comboio.

- Estava convencida de que o consideravam tremendamente abençoado. - Sorriu.

- Inconcebível. Que espécie de deus o permitiria?

- Xeque-mate, meu querido.

Victor soergueu-se na almofada. Olhou para as janelas: uma neve de Março deslizava suavemente pelas escuras vidraças, batida pelo vento. Virou-se para a mulher:

- Não posso voltar a Itália.

- Eu sei. Já mo disseste. Eu compreendo.

- Mas não quero ficar aqui. Em Inglaterra. Aqui hei-de ser sempre Fontini-Cristi. Filho da família de padrones chacinada. Realidade, lenda e mito em partes iguais.

- Mas és mesmo Fontini-Cristi.

Victor baixou os olhos para Jane à luz mortiça da fogueira.

-Já lá vão cinco anos que sou Fontine. Já estou bastante habituado. Que achas tu?

- Não perde grandemente com a tradução - disse Jane, tornando a sorrir. - Excepto, porventura, um certo sabor a pequena nobreza fundiária.

- Isso é parte do que eu quero dizer - retorquiu ele prontamente. - O Andrew e o Adrian não têm de ser sobrecarregados com disparates desses. Os tempos já não são o que eram; essa época jamais voltará.

- É possível que não. É um pouco triste vê-la desaparecer, mas creio bem que é pelo melhor. - A mulher pestanejou de súbito e ergueu interrogativamente o olhar para ele. - Sem ser a Itália, ou a Inglaterra, então onde?

- Na América. Serias capaz de viver na América? Jane olhou-o fixamente, com o olhar ainda perscrutador.

- Claro. Acho que isso é deveras emocionante... Sim, está certo. Para todos nós.

- E o nome? Não te importas mesmo, pois não?

Ela riu-se, estendendo a mão para lhe acariciar o rosto.

- Não tem importância. Casei com um homem, não com um nome.

- Quem tem importância és tu - disse ele, puxando-a para si.

Harold Latham saiu do velho elevador de grades de bronze e olhou para as setas e números na parede. Há três anos que fora transferido para o teatro de operações da Birmânia; fazia muito tempo que não andava pelos corredores do MI 6 de Londres.

Puxou as bandas do casaco novo. Agora era civil; tinha de estar continuamente a recordá-lo a si próprio. Não tardaria que houvesse milhares e mais milhares de novos civis. A Alemanha soçobrara. Tinha apostado cinco libras em como o anúncio formal da rendição surgiria antes do princípio de Maio. Faltavam três dias, e não queria saber das cinco libras para nada. Estava terminada, e isso era tudo quanto importava.

Principiou a percorrer o átrio de entrada em direcção ao gabinete dv1 Stone. O velho, pobre e agastado Geofrey Stone. A «Maçã» da sua «Pêra». Fora um grande azar, a mão do velho «Maçã» esfacelada por causa de um macarrone empertigado; e ainda por cima logo no início.

Mesmo assim, aquilo podia muito bem ter-lhe salvo a vida. Um sem--número de operacionais com as duas mãos não lograram regressar. Em certos aspectos, Stone era um felizardo dos diabos. Apanhara com pedaços de metal nas costas e no estômago, mas se tivesse cuidado ficaria fino, praticamente normal, diziam eles. E além disso passara à disponibilidade mais cedo.

«Maçã» e Pêra» tinham sobrevivido. Haviam conseguido! Que diabo, aquilo estava mesmo a pedir um mês de uísques!

Tentara telefonar a Stone, mas não conseguira contactar com ele. Telefonara dois dias a fio, mas sempre sem resposta. Não valia a pena deixar recados; os seus planos eram tão baralhados que não tinha a certeza do tempo que poderia estar em Londres.

Era melhor assim. Entrar por ali adentro sem mais nem menos e perguntar por que razão tinha o velho «Maçã» levado tanto tempo a ganhar a guerra.

A porta estava fechada à chave. Bateu, e não houve resposta. Raios! Stone tinha a entrada registada na recepção; isso queria dizer que não registara a saída na noite anterior, nem na anterior a essa, o que nos tempos que corriam não era invulgar. Nos tempos que corriam os sofás dos gabinetes tornavam-se

camas. Todos os serviços das Informações trabalhavam vinte e quatro horas por dia, correndo os arquivos, destruindo dossiers que podiam ser embaraçosos e provavelmente salvando com isso uns quantos milhares de vidas. Quando a poeira da vitória e da derrota assentava, os informadores eram os sobreviventes que gozavam de menor popularidade.

Bateu com mais força. Nada.

No entanto, via-se luz através da estreita nesga lateral da porta. Talvez Stone tivesse saído por um minuto. Para ir à casa de banho ou à cantina.

Foi então que o olhar de Latham, circunvagando, pousou no canhão da fechadura. Havia qualquer coisa de estranho, qualquer coisa que não estava bem. Dir-se-ia que havia uma mancha cinzenta baça agarrada ao latão, com uma minúscula arranhadura por cima, à direita do buraco da fechadura. Latham olhou mais de perto: puxou de um fósforo e riscou-o, quase temeroso do que estava prestes a descobrir.

Segurou a chama mesmo por baixo da substância cinzenta. Derreteu-se instantaneamente e escorreu: solda.

Era também um estratagema obscuro, mas longamente provado, da predilecção de «Maçã». Tinha-se servido dele em numerosas ocasiões em que haviam trabalhado juntos.

Latham nem se lembrava de mais alguém alguma vez o usar.

Derreter a ponta de um pequeno fio de solda e enfiar o líquido mole dentro da fechadura juntamente com a chave. Encravava os picoletes mas não impedia a chave de entrar.

Evitava apenas que qualquer chave abrisse a fechadura. Em situações calmas, isso proporcionava um pouco de tempo enquanto um homem se esgueirava de um alçapão, concedia esse tempo sem despertar quaisquer alarmes súbitos. Uma fechadura de aspecto absolutamente vulgar que não funcionava bem; a maior parte das fechaduras eram velhas. Uma pessoa não ia arrombar a porta: chamava um serralheiro.

Teria «Maçã» precisado de tempo? Haveria um alçapão?

Havia mesmo qualquer coisa que não estava bem.

- Bom Deus! Não mexam em nada! Chamem um médico! - gritou Teague, precipitando-se pelo gabinete adentro através da porta arrancada dos gonzos. - E mantenham sigilo sobre isto!

- Está morto - disse Latham baixinho ao lado do general de brigada.

- Isso sei eu - retorquiu concisamente Teague. - O que eu quero saber é há quanto tempo está morto.

- Quem é ele? - perguntou Latham, baixando os olhos sobre o morto. O corpo havia sido despojado da roupa; restavam apenas as cuecas e os sapatos. Havia um único ferimento, limpo, de uma bala na parte superior do peito nu; o fio de sangue secara.

- Coronel Aubrey Birch. Oficial dos cofres. - Teague virou-se e falou com os guardas que seguravam a porta. Um terceiro soldado tinha ido chamar o médico privativo do MI 6 ao segundo piso. - Tornem a colocar a porta. Não deixem entrar ninguém. Não digam nada. Venha comigo, Latham.

Seguiram no elevador até às caves. Latham notou que Teague não estava apenas em estado de choque: achava-se amedrontado.

- Que pensa que sucedeu, sir?

Dei-lhe anteontem à noite os papéis de licenciamento. Ele ficou a detestar-me por isso.

Latham ficou calado por um momento. Depois falou sem olhar para Teague, com os olhos fixos à sua frente.

- Sou civil, e por conseguinte vou dizê-lo. Foi um raio de uma coisa horrível que o senhor fez. O Stone foi em tempos o melhor homem que o senhor teve.

- Tomo boa nota da sua objecção - disse o general de brigada com frieza. - Não é você o homem a quem chamavam «Pêra»?

- Sou.

Teague lançou um olhar ao agente das Informações licenciado; a luz do painel indicava que tinham chegado às caves.

- Pois bem, a Maçã» azedou, senhor «Pêra». Ficou rançosa. O que me preocupa agora é até onde entrou a podridão.

A porta abriu-se. Saíram do elevador e viraram à direita encaminhando-se para uma parede de aço que limitava o corredor. No centro da parede via-se uma grossa porta de aço, cuja moldura mal se distinguia. Tinha uma placa de vidro à prova de bala na porção superior, com um botão preto à esquerda, uma estreita ranhura de borracha por baixo e um letreiro de metal por cima.

área de segurança

Proibida a Entrada sem Devida Autorização. Toque a Campainha - Deposite a Autorização na Ranhura

de Vácuo

Teague aproximou-se do vidro, carregou no botão e falou com firmeza.

- Código Jacinto. Nada de demoras, por favor; proceda à confirmação visual. Fala o general de brigada Teague. Estou acompanhado por um tal Mister Harold Latham, autorizado por mim.

Ouviu-se um zumbido e a porta de aço recuou, após o que foi manualmente afastada para o lado. Um oficial do outro lado fez continência.

- Boa tarde, meu general. Aqui não chegou nenhuma comunicação de Jacinto.

Teague correspondeu à continência com um aceno de cabeça.

- Sou eu mesmo que estou a fazê-la, major. Não pode sair nada daqui até nova ordem. Que diz o livro de registo acerca do coronel Birch?

O oficial voltou-se para uma secretária metálica junto à parede.

- Aqui está, sir - disse, mantendo aberto um livro de registo de couro preto. - O coronel Birch registou a saída anteontem à noite às dezanove zero zero. Deve voltar de manhã. Às zero sete zero zero, sir.

- Estou a ver. Estava alguém com ele?

O major voltou a consultar o grande livro de registo.

- Estava, sim, sir. O capitão Stone, sir. A hora de saída foi a mesma.

- Obrigado. Mister Latham e eu estamos no Cofre Sete. Pode dar-me as chaves, se faz favor? E os números do segredo.

- Com certeza..

Dentro do compartimento de metal havia vinte e dois armários de arquivo. Teague parou junto do quarto, encostado à parede mais afastada do lado oposto à porta. Olhou para a página de números que tinha na mão e começou a manobrar a fechadura de segredo do lado superior direito do armário de arquivo. Ao mesmo tempo que o fazia, estendeu a página com os números a Latham.

- Economize tempo - disse bruscamente, com voz rouca - : localize o arquivo que tem o dossier Brevourt. B-r-e-v-o-u-r-t. Tire-o cá para fora.

Latham pegou no papel, regressou à parede do lado esquerdo e descobriu o arquivo.

O fecho saltou. Teague estendeu a mão e puxou a segunda gaveta do arquivo. Os seus dedos separaram rapidamente os dossiers.

Depois voltou a separá-los. Lentamente, percorrendo-os um por um.

Não estava lá. O dossier sobre Victor Fontine tinha desaparecido.

Teague fechou a gaveta do arquivo e endireitou-se. Olhou para Latham, que estava ajoelhado junto da gaveta de baixo do armário de arquivo, com uma pasta aberta na mão. Fitava-a com uma expressão de aturdida estupefacção.

- Pedi-lhe que a localizasse, e não que a lesse - observou glacialmente o general de brigada.

- Não há nada para ler - tornou serenamente Latham, retirando da pasta uma única folha. - Excepto isto... Que raio fizeram vocês, seus filhos da mãe?

O papel era uma fotocópia. Tinha uma cercadura preta, com espaço na parte inferior para dois selos de homologação. Ambos os homens sabiam exactamente do que se tratava.

Uma ordem de execução. Uma autorização oficial para matar.

- Quem é o alvo? - perguntou Teague em tom monocórdico, mantendo-se junto do arquivo.

- Vittorio Fontini-Cristi.

- Quem foi que a homologou?

- Tem o selo dos Negócios Estrangeiros e a assinatura de Brevourt.

- Quem mais? Têm de ser duas pessoas!

- O primeiro-ministro.

- E o executor é o capitão Stone...

Latham fez um aceno de cabeça, embora Teague não tivesse feito uma pergunta.

- Sim.

Teague respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Abriu-os e falou.

- Até que ponto é que conhecia o Stone? Os métodos dele?

- Trabalhámos dezoito meses juntos. Éramos como irmãos.

- Irmãos? Nesse caso recordo-lhe, Mister Latham, que, apesar do seu licenciamento do serviço, continua vinculado ao Decreto sobre Segredos Oficiais.

Teague falou pelo telefone com frases precisas e tom cortante.

- Desde o princípio que ele era o seu homem. Desde o dia em que o colocámos em Loch Torridon. As suas interrogações, as perguntas intermináveis. O nome de Lúbok nos nossos arquivos, as armadilhas. Todos os movimentos de Fontine lhe eram comunicados.

- Não vou apresentar desculpas - replicou Anthony Brevourt do outro lado da linha. - Por razões que bem conhece. «Salónica» era, e ainda continua a ser, uma das mais elevadas prioridades para os Negócios Estrangeiros.

- Quero uma explicação para aquela ordem de execução! Nunca foi autorizada, nunca foi comunicada...

- Nem era para ser - atalhou Brevourt. - Essa ordem era o nosso recurso. O senhor pode acreditar na sua própria imortalidade, general, mas nós não. Pondo de parte os ataques aéreos, o senhor é um estrategista de operações secretas: um alvo potencial para ser assassinado. Se o senhor fosse morto, aquela ordem daria ao Stone acesso imediato ao paradeiro de Fontini-Cristi.

- O Stone convenceu-o disso?

Registou-se uma pausa antes de o embaixador responder:

- Sim. Há vários anos.

- O Stone também lhe disse que detestava o Fontine?

- Não simpatizava com ele; não era o único.

- Eu disse detestava! Roçando o patológico.

- Se tinha conhecimento disso, porque não o substituiu?

- Porque, raios, ele dominava isso! Desde que tivesse motivos para o fazer. Agora não tem nenhuns.

- Não vejo...

- Você é um pateta dos demónios, Brevourt! O Stone deixou-nos uma fotocópia, e guardou o original. Você está manietado e ele quer que o saiba.

- De que está a falar?

- Ele anda para aí com um documento oficial que lhe dá autorização para matar o Fontine. Revogá-la agora não tem significado. Não teria significado há dois anos! Ele tem o papel e é um profissional. Tenciona levar a cabo a missão e pôr esse documento onde você não possa alcançá-lo. Poderá o Governo britânico, poderá você, ou o ministro dos Estrangeiros, ou o próprio Churchill, justificar essa execução? Estará qualquer de vocês na disposição de falar sobre ela?

Brevourt respondeu pronta e urgentemente.

- Era uma reserva. Eis tudo o que era.

- Era o melhor - concordou rispidamente Teague. - Suficientemente sensacional para evitar muito formalismo administrativo. Suficientemente espectacular para demolir paredes burocráticas. Até parece que estou a ouvir o Stone a construir a sua argumentação.

- Tem de descobrir-se o Stone. Tem de ser detido. - Ouvia-se através da linha a respiração de Brevourt.

- Chegámos a uma área de acordo - disse fatigadamente o general de brigada.

- Que vai fazer?

- Para começar, contar tudo ao Fontine.

- Acha que é assisado? - É justo.

 - Esperamos ser mantidos ao corrente. Se necessário for, de hora a hora.

Teague olhou distraidamente para o outro extremo da sala, na direcção do relógio de parede. Eram nove e quarenta e cinco; o luar coava-se pelas janelas, agora sem cortinas que o bloqueassem.

- Não sei bem se será possível.

 - O quê?

- Você está preocupado com uma arca retirada da Grécia há cinco anos.

Eu estou preocupado com a vida de Victor Fontine e da família.

 - Não lhe terá ocorrido - perguntou Brevourt, arrastando as palavras que uma coisa e a outra são indissociáveis?

- Tomo boa nota da sua conjectura. - Teague desligou e recostou-se na

cadeira. Agora teria de telefonar a Fontine. A avisá-lo.

Houve uma batida na porta.

 - Entre.

 Harold Latham foi o primeiro a entrar, seguido por um dos melhores funcionários de investigação do MI 6. Um homem de meia-idade, ex-perito forense

da Scotland Yard. Trazia na mão um sobrescrito de papel pardo.

Umas semanas atrás, «Pêra» não teria entrado no gabinete de Teague a fumar um cigarro. Agora fazia-o: era importante para ele. No entanto, pensou Teague, a hostilidade de Latham tinha abrandado. «Pêra» era antes de mais nada e acima de tudo um profissional. A situação de civil em nada alteraria isso.

- Encontrou alguma coisa? - perguntou Teague.

- Arranhadelas - respondeu Latham. - Pode ser que signifiquem alguma coisa e pode ser que não. Aqui o seu homem é vivo. E capaz de desencantar um livro numa cabeça de alfinete.

- Ele sabia para onde havia de me orientar - aduziu o analista. - Estava familiarizado com os hábitos do indivíduo.

- Que apurámos nós?

- No edifício, nada: o gabinete dele estava limpo. Nada a não ser processos, dossiers marcados para os incineradores, tudo perfeitamente legítimo. Foi extremamente meticuloso. Mas a disposição dos cabides nos roupeiros, as roupas na cómoda, o suprimento de artigos de higiene, tudo isso indica que Stone andava a fazer tenção de partir havia algum tempo.

- Compreendo. E essas arranhadelas?

Foi «Pêra» quem respondeu. O profissional que havia nele precisava de reconhecimento.

- O Stone tinha um costume irritante. Deitava-se na cama a tomar apontamentos. Palavras, parênteses, figuras, setas, nomes... Gatafunhos, é como eu lhes chamo. Mas antes de se recolher para dormir, rasgava as páginas e queimava-as. Encontrámos um bloco-notas na prateleira da mesa-de-cabeceira. Não tinha nada escrito, claro, mas aqui o homem da Yard sabia o que fazer.

- Havia vincos, sir. Não foi difícil: tirámo-los por espectrografia. - O funcionário estendeu a pasta a Teague por cima da secretária. - Aqui estão os resultados.

Teague abriu a pasta e olhou fixamente para o espectrograma. Conforme «Pêra» referira, havia números, parênteses, setas, palavras. Era um quebra-cabeças desarticulado, um desordenado diagrama de incoerentes meandros.

Foi então que o nome ressaltou do amontoado de incoerências.

Donatti!

O homem da malha branca no cabelo. O carrasco de Campo di Fiori. Um dos mais poderosos cardeais da Cúria.

«Salónica» tinha principiado.

- ...Guíllamo Donatti.

Fontine ouviu o nome e este desencadeou a recordação encerrada na sua mente. O nome era a chave, o fecho abrira-se e a recordação fora desvendada.

Era uma criança, não teria mais de nove ou dez anos. Era de noite e os irmãos estavam no andar de cima preparando-se para se deitarem. Ele descera de pijama para procurar um livro, quando ouvira gritos no escritório do pai.

A porta estava aberta, não mais que uns trinta centímetros, e a criança, curiosa, aproximara-se dela. O que vira lá dentro chocara-o de tal modo que se quedara hipnotizado. Estava um padre defronte da secretária do pai, a gritar com Savarone, pregando murros no tampo da mesa e de rosto congestionado de irritação e olhos congestionados de furor.

O facto de alguém poder comportar-se daquela maneira na presença do pai, mesmo - talvez especialmente - um padre, causou tal espanto à criança que, involuntariamente, arfara de modo audível.

Quando o fizera, o sacerdote dera meia volta, de olhos em brasa assestados na criança, e fora então que Victor vira a malha branca no cabelo preto. Correra para fora da sala de estar e pelas escadas acima.

Na manhã seguinte Savarone tinha chamado o filho de parte e explicara-lhe: o pai nunca deixava as explicações em suspenso. O tempo apagara o motivo da violenta discussão que o pai esclarecera, mas Fontine recordava-se de que ele identificara o sacerdote como sendo Guillamo Donatti, um homem que era a vergonha do Vaticano... Uma pessoa que promulgava decretos para os desinformados e os fazia cumprir pelo medo. Tratava-se de palavras que ficavam na memória de uma criança.

Guillamo Donatti, o incendiário da Cúria.

- Agora o Stone está a actuar .por sua conta e risco - disse Teague pelo telefone, de Londres, chamando Victor ao presente. - Ele quere-o a si, e a qualquer preço. Andávamos a procurar nas áreas erradas; agora descobrimos-lhe a pista. Utilizou os papéis do Birch e partiu de Lakenheath num voo militar. Para Roma.

- Para o cardeal - emendou Fontine. - Ele não está disposto a correr riscos com negociações a longa distância.

- Nem mais. Há-de voltar à sua procura. Nós estaremos à espera.

- Não - disse Victor pelo telefone. - Não é esse o processo. Não ficamos nada à espera; vamos atrás dele.

- Ah, sim? - Havia dúvida na voz de Teague.

- Sabemos que o Stone está em Roma. Vai manter-se oculto, provavelmente junto de células de informadores: eles estão habituados a esconder gente.

- Ou junto do Donatti.

- Isso é duvidoso. Há-de bater-se por um terreno neutro. Donatti é perigoso, imprevisível. O Stone tem consciência disso.

- Não me interessa o que você está a pensar, mas não posso...

- Não pode pôr a correr um boato proveniente de fontes dignas de crédito? - atalhou Fontine.

- Que espécie de boato?

- Que eu estou prestes a fazer aquilo que toda a gente espera que faça: regressar a Campo di Fiori. Por razões desconhecidas muito particulares.

- De maneira nenhuma! Isso está fora de questão!

- Por amor de Deus! - exclamou Victor. - Não posso passar o resto da vida a esconder-me! Não posso viver no terror de que, cada vez que a minha mulher e o meu filho saiam de casa, haja um Stone ou um Donatti ou uma equipa de execução à espera deles! Você prometeu-me uma confrontação. Quero-a já!

Houve um silêncio na linha de Londres. Finalmente, Teague falou.

- Há ainda a Ordem de Xenope.

- Um passo conduz a outro. Não foi essa sempre a sua premissa? Xenope há-de ser obrigada a reconhecer aquilo que é , e não aquilo que acha que devia ser. O Donatti e o Stone serão a prova. Não pode haver outra conclusão.

- Temos homens em Roma, não muitos...

- Não queremos muitos. Muito poucos. O facto de eu estar em Itália não deve ser associado ao MI 6. O disfarce será o Tribunal de Reparações. O Governo quer controlar as nossas fábricas, as propriedades. Cada semana que passa, o tribunal licita mais alto: não querem os americanos.

- Tribunal de Reparações - disse Teague, manifestamente a tomar apontamento.

- Há um homem chamado Barzini - continuou Fontine. - Guido Barzini. Dantes estava em Campo di Fiori, era o encarregado das cavalariças. Poderia fornecer-nos indicações. Ponham alguém à procura dele no distrito de Milão. Se for vivo, poderá ser localizado através dos partigíani.

- Barzini, Guido - repetiu Teague. - Vou precisar de factores de segurança.

- Também eu preciso, mas que não dêem nas vistas. Queremos forçá-los a exporem-se, e não mais clandestinidades.

- Partindo do princípio de que a isca pega, que fará você?

- Obrigá-los a ouvir. É tão simples como isso.

- Não me parece que seja - objectou Teague.

- Nesse caso, mato-os - tornou Victor.

Soube-se a novidade. O padrone estava vivo; tinha regressado. Num pequeno hotel a vários quarteirões de Duomo, tinham-no visto. Fontini-Cristi estava em Milão. A notícia chegou mesmo a Roma.

Ouviu-se uma batida na porta do hotel. Barzini. Era o momento que Victor simultaneamente ansiava e temia. As lembranças de luz branca e morte adquiriram inadvertidamente nitidez no seu espírito. Arredou-as enquanto percorria o quarto até à porta.

O velho criado de lavoura encontrava-se no umbral, o corpo outrora musculoso agora magro e franzino, perdendo-se dentro do tecido grosseiro do casaco preto barato. Tinha o rosto enrugado e os olhos remelosos. As mãos que lhe haviam comprimido contra o solo o corpo sacudido por estremecimentos e contorções, os dedos que se lhe tinham cravado no rosto e salvo a vida estavam mirrados, nodosos. E tremiam.

Para desgosto e embaraço de Fontine, Barzini caiu de joelhos, com os braços descarnados estendidos, agarrando-se às pernas de Victor.

- É verdade! Está vivo!

Fontine obrigou-o a pôr-se de pé e abraçou-o. Em silêncio, conduziu o ancião ao quarto, encaminhando-o para o sofá. Além dos estragos da idade, era visível que Barzini estava doente. Victor ofereceu-lhe de comer e Barzini pediu chá e aguardente. As bebidas foram rapidamente trazidas pelos criados do hotel e, uma vez terminadas ambas, Fontine foi posto ao corrente dos factos mais salientes de Campo di Fiori desde a noite da chacina.

Durante meses após os assassínios perpetrados pelos alemães, as tropas fascistas montaram guarda à propriedade. Deixaram os criados recolher os seus pertences e partir; a criada que assistira ao tiroteio foi assassinada nessa noite. Ninguém fora autorizado a viver em Campo di Fiori excepto Barzini, que sofria visivelmente de deficiência mental.

- Não era difícil. Os fascisti sempre acharam que toda a gente era doida menos eles. Era a única maneira de poderem pensar e encararem-se a si mesmos na manhã seguinte.

Na sua posição de criado de lavoura e zelador da terra, Guido pôde observar a actividade em Campo di Fiori. O mais surpreendente foram os padres. A propriedade era franqueada a grupos de sacerdotes; nunca mais de três ou quatro de cada vez, mas havia muitos grupos desses. Guido pensara que tivessem sido enviados pelo santo padre para rezarem pelas almas da casa dos Fontini-Cristi. Mas os sacerdotes em missões sagradas não se comportavam como aqueles padres. Esquadrinharam a casa principal, depois os anexos e finalmente as cavalariças, procurando com minúcia. Rebuscavam tudo: arredavam a mobília, sondavam as paredes na busca de locais ocos e arrancavam os lambris; levantavam soalhos, não de raiva, mas como o fariam carpinteiros experientes: levantavam-nos e tornavam a assentá-los. E o terreno foi passado a pente fino como se de campos de ouro se tratasse.

Perguntei a vários padres jovens o que procuravam. Eles respondiam sempre: «Caixotes volumosos, ancião. Embalagens de aço e ferro». Foi então que reparei que havia um padre mais velho, que aparecia todos os dias. Andava continuamente a controlar o trabalho dos outros.

- Um homem dos seus sessenta anos - disse Victor, baixinho -, com uma malha branca no cabelo.

- Sim! Era ele! Como é que soube?

- Era esperado. Durante quanto tempo continuaram as buscas?

- Durante perto de dois anos. Foi uma coisa inacreditável. E depois parou. Toda a actividade cessara, segundo Barzini, excepto a actividade alemã. Os

oficiais da Wehrmacht apossaram-se de Campo di Fiori, convertendo-o num sofisticado retiro para os comandantes de patente mais elevada.

- Fez o que o inglês de Roma lhe disse, meu velho amigo? - Fontine serviu mais aguardente a Barzini; o tremor tinha acalmado em parte.

- Fiz, padrone. Durante os últimos dois dias vou aos mercados de Laveno, de Varese e de Legnano. Digo a mesma coisa a uns quantos tipos escolhidos: «Esta noite vou falar com o padrone. Ele volta! Vou a Milão esperá-lo, mas é preciso que ninguém saiba!» Eles hão-de saber, filho de Fontini-Cristi. - Barzini sorriu.

- Alguém lhe perguntou porque é que eu insisti para você vir a Milão?

- A maioria perguntou. Só disse que o senhor quer falar comigo em particular. Digo-lhes que me sinto honrado. E sinto.

- Deve ser o suficiente. - Victor ergueu o telefone do descanso e deu um número à central telefónica do hotel. Enquanto esperava que a ligação fosse estabelecida, virou-se para Barzini; - Quando isto terminar, quero que regresse comigo. Para Inglaterra, e a seguir para a América. Casei, meu velho amigo. Há-de gostar da signora. Tenho filhos, dois rapazes. Gémeos.

Os olhos de Barzini brilharam.

- Tem filhos? Dou graças a Deus...

Não havia resposta na linha. Fontine ficou em cuidado. Era imperioso que o homem do MI 6 estivesse junto daquele telefone! Encontrava-se colocado a meio caminho entre Varese e Campo di Fiori. Era o contacto para os outros, espalhados pelas estradas que saíam de Stresa, Lugano e Morcote; era o ponto focal das comunicações. Onde diabo estaria ele?

Victor desligou o telefone e tirou a carteira do bolso. Procurou outro número de telefone. De Roma.

Deu-o à telefonista.

- Que quer dizer você com isso de ninguém responder? - inquiriu a precisa voz inglesa que atendeu.

- Há alguma maneira mais clara de o dizer? - retorquiu Fontine. - Ninguém responde. Qual foi a última vez que teve notícias dele?

- Há umas quatro horas. Estava tudo de acordo com o horário. Ele encontrava-se em contacto rádio com todos os veículos. Você recebeu o recado, evidentemente.

- Que recado?

- Ele disse que poderia ter sido detectado, mas que não devíamos preocupar-nos. Iria ter consigo ao hotel quando você chegasse. Foi ele próprio quem descobriu o carro. Estava na estrada que atravessa o portão principal de Campo di Fiori. Não contactou consigo?

Victor dominou o desejo de gritar.

- Não contactou comigo. Não havia nenhum recado para mim. Que carro?

- Um Fiat verde. A matrícula era de Savona, que fica no golfo de Génova. Uma das descrições correspondia à de um corso que tem cadastro na polícia. Um contrabandista que Londres julga ter trabalhado para nós. Os outros são também corsos, pensamos nós. E ele.

- Presumo que queira dizer...

- Sim. O quarto homem é o Stone.

«Stone tinha mordido a isca. Maçã voltara a Celle Ligure, tornara aos corsos para descobrir os seus recrutas. E Maçã, o profissional, havia retirado o contacto em Varese».

«Eliminar os correios. Paralisar as comunicações», Loch Torridon.

- Obrigado - disse Victor ao homem em Roma.

- Escute cá, Fontine! - ouviu-se a voz atormentada ao telefone. - Você não vai fazer nada! Mantenha-se onde está!

Sem responder, Victor voltou a colocar o telefone no descanso e regressou para junto de Barzini.

- Preciso de alguns homens. Homens nos quais possamos confiar, que estejam dispostos a correr riscos.

Barzini desviou a vista; o ancião estava embaraçado.

- As coisas já não são como eram, padrone.

- Partigiani? - disse Fontine.

- Na maioria comunistas. Hoje em dia preocupam-se com eles próprios. Com os seus panfletos, as suas reuniões, Eles... - Barzini parou. - Espere. Há dois homens que não se esquecem. Esconderam-se nos montes; eu levei-lhes comida, notícias das famílias. Podemos confiar neles.

- Terão de servir- disse Victor, começando a dirigir-se para o quarto. - Vou mudar de roupa. Pode contactar com eles?

- Há um número de telefone - respondeu Barzini, levantando-se do sofá.

- Telefone-lhes. Diga-lhes que vão ter comigo a Campo di Fiori. Pressuponho que haja guardas...

- Presentemente só há um vigilante de noite. De Laveno. E eu. Fontine parou e voltou-se para Barzini.

- Esses homens conhecerão por acaso a estrada secundária a norte das cavalariças?

- Podem descobri-la.

- óptimo. Diga-lhes que comecem já e esperem por mim no caminho para cavaleiros nas traseiras das cavalariças. Ainda lá está, não está?

- Ainda lá está, sim. Que vai fazer, padrone?

Victor apercebeu-se, enquanto falava, de que estava a repetir as palavras que empregara ao telefone para com Teague havia cinco dias.

- O que toda a gente espera que eu faça. Virou costas e dirigiu-se ao quarto.

Os ensinamentos de Loch Torridon estavam sempre presentes, pensou Victor, enquanto permanecia de pé diante da recepção do hotel, com os braços no balcão de mármore, vendo o empregado da noite a satisfazer o seu pedido. Tinha pedido um carro de aluguer em voz suficientemente alta para atrair as atenções. Tratava-se de uma solicitação difícil, atendendo à hora: já era suficientemente complicado aparecerem carros durante o dia, quanto mais a meio da noite. Mas podiam arranjar-se, se o dinheiro fosse bastante.

Além disso, altercar junto da recepção era suficientemente desagradável para alertar qualquer observador. Havia ainda a roupa que trazia vestida: calças cinzento-escuras, botas e um blusão escuro de caçador. Não era a época da caça.

Havia apenas uns quantos retardatários no átrio de entrada: diversos homens de negócios que se dirigiam, numa trajectória insegura, para os respectivos quartos, depois de longas reuniões bem regadas; um jovem nervoso e rico a inscrever-se no registo de entrada com uma prostituta que aguardava discretamente numa cadeira. E um homem muito trigueiro com um rosto duro, curtido do mar, sentado numa poltrona a ler uma revista, aparentemente alheado da cena nocturna do hotel. Um corso, pensou Victor. Precisamente o homem que podia levar o recado a outros corsos. Ao inglês chamado Stone.

Era simplesmente questão de coordenar a sequência que se avizinhava. Assegurar-se de que havia um Fiat verde na rua, provavelmente na penumbra, pronto a ocupar uma posição discreta quando o carro alugado arrancasse. Se não existisse tal automóvel, Victor podia encontrar razões para fazer tempo até à sua chegada.

Não foi necessário fazer tempo. Via-se o Fiat a meio do quarteirão seguinte. O automóvel achava-se postado em frente do carro de Fontine, virado para oeste, na direcção da estrada para Varese. Para Campo di Fiori.

Barzini ia sentado ao lado de Victor. A aguardente surtira o seu efeito. A cabeça do velho estava continuamente a descair sobre o peito.

- Durma - disse Victor. - A viagem é longa e quero-o repousado quando chegarmos lá.

Passaram pelos portões abertos e penetraram na longa e sinuosa entrada de Campo di Fiori. Conquanto estivesse preparado para isso, a visão da casa encheu-lhe o peito de dor: experimentou um latejar que lhe queimava as têmporas. Aproximou-se do cenário da execução. As visões e os sons desse tormento regressaram, mas ele sabia que não podia permitir que o dominassem.

Os ensinamentos de Loch Torridon: «A concentração dividida era perigosa».

Contraiu os músculos do estômago, retesando-os, e parou o carro.

Barzíni estava acordado, a olhá-lo fixamente. O guarda da noite emergiu das grossas portas de carvalho a seguir aos degraus de mármore, examinando o carro e os seus ocupantes sob o feixe da lanterna.

- Trago o filho de Fontini-Cristi. É o padrone desta casa.

O guarda assestou o feixe sobre Victor, que se havia apeado do carro e estava de pé junto do capot. A voz dele era respeitosa. E um tanto ou quanto amedrontada.

- É uma honra, padrone.

- Pode voltar para Laveno - disse-lhe Fontine. - Se não se importa, siga pela estrada do norte. Provavelmente é o que faria, fosse como fosse. É o caminho nais curto.

- Muito mais curto, signore. Obrigado, signore.

- É possível que estejam dois amigos meus à espera nas cavalariças. Não se alarme; eu pedi-lhes para entrarem pelo portão norte. Se os vir, faça o favor de lhes dizer que daqui a pouco lá estarei.

- Com certeza, padrone. - O guarda da noite fez um aceno de cabeça e desceu velozmente os degraus de mármore até ao caminho de acesso. Havia uma bicicleta na penumbra, junto aos arbustos. Montou-a e afastou-se, pedalando pela escuridão adentro, em direcção às cavalariças.

- Depressa - disse Victor, voltando-se para Barzini. - Diga-me uma coisa. Os telefones estão como antigamente? Ainda há uma linha que liga a casa às cavalariças?

- Há. No escritório do seu pai e no átrio de entrada.

- Óptimo. Entre e acenda as luzes do átrio de entrada e da sala de jantar. Depois regresse ao escritório, mantendo as luzes de lá apagadas. Ponha-se ao pé de uma janela. Quando eu contactar com os seus amigos, chamo-o dos estábulos e digo-lhe o que há-de fazer. Não tarda que os corsos apareçam. A pé, tenho a certeza. Esteja atento, a ver se avista lanternas. Diga-me o que vê.

- Muito bem. Padrone?

- Sim?

- Não tenho pistola. As armas estão proibidas.

- Fique com a minha. - Victor levou a mão ao cinto e retirou a sua Stníth & Wesson - Não me parece que vá precisar dela. Não dispare a não ser que a sua vida dependa disso.

Trinta segundos depois as luzes do grande vestíbulo brilhavam através das janelas de vidro fumado por cima das enormes portas de entrada. Victor caminhou apressadamente, cosido com o flanco da casa, e aguardou junto da aresta do edifício. Os candelabros da sala de jantar estavam acesos. Toda a parte norte da casa era um deslumbramento de luz, ao passo que a parte sul estava às escuras.

Continuava a não haver sinais de vida na estrada: nem focos de lanternas nem archotes nem fósforos. Assim é que devia ser. Stone era um profissional. Quando desse um passo, havia de ser com extremas cautelas.

Pois que assim fosse. Os seus passos seriam igualmente cautelosos.

Victor correu para a estrada norte, em direcção às cavalariças. Mantinha-se agachado rente ao solo e atento, à escuta de algo invulgar. Stone poderia ter optado pelos portões norte como entrada, mas era pouco provável. Stone estava ansioso: havia de avançar com celeridade, seguindo de perto a sua presa, e fechar as saídas.

- Partigianí. É Fontini-Cristi. - Victor desceu a vereda para cavaleiros nas traseiras das cavalariças. Os poucos cavalos que restavam lá dentro estavam velhos e cansados, e os seus relinchos eram intermitentes.

- Signore. - O sussurro provinha do matagal à direita da vereda; Fontine aproximou-se. De repente, o clarão de uma lanterna brotou do lado oposto. Da esquerda. E outra voz falou.

- Fique onde está! Não se volte!

Sentiu a mão do homem atrás de si, nos rins, mantendo-o imobilizado. A luz da lanterna deslocou-se para diante por sobre o seu ombro, incidindo-lhe no rosto e cegando-o.

- É ele - disse uma voz na escuridão.

A lanterna foi desviada. Fontine pestanejou e esfregou os olhos, tentando apagar a imagem da luz a piscar. O partigiano saiu das trevas. Era um homem de estatura elevada, quase tão alto como Victor, e envergava um coçado blusão de campanha americano. O segundo homem apareceu por detrás: era muito mais baixo que o seu camarada e barrigudo.

- Porque está aqui? - perguntou o homem alto. - O Barzini está velho e não raciocina com clareza. Acordámos em vigiá-lo, em avisá-lo... Nada mais. Fazêmo-lo porque devemos muita coisa ao Barzini. E em memória dos velhos tempos: os Fontini-Cristi combateram contra os fascistas.

- Obrigado.

- Que querem os corsos? E aquele inglês? - O segundo homem deslocou-se para o lado do amigo.

- Uma coisa que julgam que eu tenho, mas não tenho. - Victor calou-se. Ouviu-se das cavalariças um leve resfolegar cansado, seguido de um escarvar de cascos. Os resistentes ouviram-no também: a lanterna foi apagada.

O estalar de uma perna. Um seixo deslocado debaixo de um pé. Aproximava-se alguém, seguindo o mesmo trajecto que Fontine tomara. Os resistentes separaram-se; o homem entroncado deslocou-se para a frente e desapareceu no meio da folhagem. O camarada fez o mesmo na direcção oposta. Victor avançou para a direita e acocorou-se à beira do caminho.

Silêncio. Os passos tornaram-se mais audíveis. De súbito, a figura estava ali, a centímetros apenas diante de Fontine, recortando-se na noite do bosque.

Foi então que aconteceu. Da escuridão brotou um potente feixe de luz, rasgando o matagal do lado contrário; no mesmo instante ouviu-se a detonação de uma pistola, cujo ruído era abafado por um silenciador.

Victor pôs-se de pé de um salto, cingindo o pescoço do homem com o braço esquerdo e lançando o direito para diante à procura da arma, forçando-a a baixar. Quando as costas do homem se arquearam, Victor enterrou-lhe o joelho na base da espinha. O homem expulsou o ar dos pulmões; Fontine puxou com toda a força o pescoço retesado sob o seu férreo aperto. Ouviu-se um estalido, nauseante e final. A lanterna rolou pelo carreiro.

O partigiano alto saiu correndo do matagal, calcando a lanterna sob os pés e de pistola em riste. Ele e Victor internaram-se na folhagem, reconhecendo ambos mudamente o temor de que o seu aliado estivesse morto.

Não estava. A bala tinha-lhe causado apenas um rasgão no braço. Jazia de olhos arregalados devido ao choque, de boca aberta e respirando ruidosamente. Fontine ajoelhou ao seu lado, rasgando a camisa do resistente para

acudir-lhe ao ferimento. O amigo mantinha-se de pé, com a pistola, no carreiro das cavalariças.

- Mãe de Cristo! Maldito palerma! Porque não disparou sobre ele? - O partigiano ferido encolheu-se de dor: - Mais um segundo e ele matava--me!

- Eu não tinha arma - respondeu tranquilamente Victor, limpando o sangue do homem.

- Nem sequer uma faca?

- Não. - Fontine ligou o ferimento e deu um nó no tecido. O partigiano olhava-o fixamente.

- Você tem tomates -disse.- Podia ter esperado onde não o vissem. O meu camarada tem uma pistola.

- Vamos, levante-se. Há mais dois corsos algures. Quero-os. Mas sem tiroteio. - Victor baixou-se e recolheu a pistola do morto. Havia quatro balas na câmara; o silenciador era dos melhores. Fez sinal ao resistente para sair da vereda e falou a ambos. - Vou pedir-vos um favor. Podem recusar, que eu compreenderei.

- Qual é? - perguntou o homem mais forte.

- Os outros dois corsos estão lá para trás. Um está provavelmente a vigiar a estrada principal; o outro poderá estar atrás da casa, nos jardins, sabe-se lá. O inglês vai manter-se escondido, próximo da casa. Tenho a certeza de que os corsos não me matarão. Vão vigiar todos os meus movimentos, mas não abrirão fogo.

- Esse - disse o resistente ferido, apontando para o morto - não hesitou em carregar no gatilho.

- Há três corsos que me conhecem de vista. Ele bem viu que você não era eu.

A estratégia era perfeita. Victor era a isca; caminharia a descoberto pelo largo de entrada e viraria na direcção dos jardins, nas traseiras da casa. Os resistentes deviam segui-lo, mantendo-se ocultos no meio do arvoredo. Se Fontine não se enganava, apareceria um corso. E seria capturado. Ou abatido sem ruído. Não fazia diferença: estes corsos assassinavam italianos.

A manobra seria então repetida na estrada da entrada principal, atravessando os resistentes muito para trás do talude e encontrando-se com ele numa bifurcação a quatrocentos metros de distância. Algures entre o largo de entrada e os portões, estaria postado o terceiro e último corso.

As posições eram lógicas, e Stone era o mais lógico que um homem pode ser. E minucioso. Havia decerto de bloquear as saídas.

- Não se sintam forçados a fazer isto por mim - disse Victor. - Pagarei generosamente, mas compreendo...

- Guarde o seu dinheiro - interrompeu o ferido, olhando primeiro para o camarada. - O senhor não tinha de fazer o que fez por mim.

- Há um telefone nas cavalariças. Tenho de falar com o Barzini. Depois começo a descer a estrada.

A conjectura foi confirmada. Stone tinha coberto tanto as estradas como os jardins. E os restantes corsos foram capturados, após o que os punhais dos resistentes os eliminaram.

Encontraram-se nas cavalariças. Fontine estava convicto de que Stone tinha estado a vigiá-lo do talude. A presa caminhava no campo da morte; o regresso

foi doloroso. Loch Torridon tinha-os ensinado a ambos a preverem reacções. Era uma arma.

- Onde está o vosso carro? - perguntou Victor aos partigiani.

- Junto ao portão norte - respondeu o alto.

- Aceitem os meus agradecimentos. Levem o vosso amigo a um médico. O Barzini há-de saber para onde posso mandar uma forma mais concreta de gratidão.

- Quer o inglês para si?

- Não haverá problemas. É um homem com uma só mão, e sem os seus corsos. O Barzini e eu sabemos o que fazer. Vão procurar um médico.

- Adeus, signore - disse o alto. - As nossas dívidas estão saldadas. Para com o Barzini. Para consigo, talvez. Em tempos os Fontini-Cristi foram bons para esta terra.

- Muito obrigado.

Os resistentes fizeram um último aceno de cabeça e empreenderam velozmente a subida da estrada, internando-se na escuridão rumo ao portão norte. Fontine desceu a vereda e entrou nas cavalariças por uma porta lateral. Passou as baias, deixou para trás os cavalos e o pequeno quarto de Barzini e entrou na divisão dos equipamentos de montar. Localizou uma caixa de madeira e começou a enchê-la de arreios e freios e de bolorentas menções honrosas emolduradas das paredes. Dirigiu-se ao telefone junto da porta e premiu o botão.

- Está tudo bem, velho amigo.

- Graças a Deus.

- E o inglês?

- Está à espera do outro lado do caminho de acesso, na relva alta. No talude. O mesmo...

-Já percebi. Vou começar a andar neste momento. Já sabe o que tem a fazer. Não se esqueça: junto à porta, fale devagar, com clareza. Nos últimos anos o inglês não tem falado italiano.

- Os velhos falam mais alto do que deviam - disse Barzini, com humor na voz. - Como ouvimos mal, tem de passar-se o mesmo com toda a gente.

Fontine voltou a colocar o telefone no descanso e verificou a pistola que os resistentes lhe tinham deixado. Desenroscou o silenciador e meteu a pistola no bolso. Pegou na caixa e saiu a porta da divisão do equipamento de montar.

Desceu lentamente a estrada para o largo de entrada, que ficava do lado oposto ao talude. Diante dos degraus, sob o jorro de luz das janelas, fez uma pausa, deu aos braços um momento de descanso, dando a entender que a caixa era mais pesada do que o seu tamanho poderia indicar.

Continuou a subir os degraus até às amplas portas de carvalho. Depois fez a coisa mais natural que lhe ocorreu: deu um pontapé na porta da direita.

Daí a segundos a porta era aberta por Barzini. A troca de palavras entre eles foi simples, isenta de esforço. O ancião falou com clareza.

- Tem a certeza de que não quer que lhe leve nada, padrone? Uma chávena de chá, café?

- Não, obrigado, meu velho amigo. Vá dormir um bocado. Temos muito que fazer amanhã de manhã.

- Muito bem. Hoje os cavalos vão comer cedo. - Barzini passou por Victor, descendo os degraus e alcançando o largo de entrada. Virou à esquerda em direcção às cavalariças.

Victor ficou de pé no amplo vestíbulo: tudo estava como dantes. Os alemães sabiam quando não deviam desfigurar uma coisa bela. Virou para a parte sul, na escuridão, dirigindo-se à enorme sala de visitas e encaminhando-se para as portas do escritório do pai. À medida que atravessava aquele espaço bem conhecido, sentia dores de angústia no peito e a respiração presa na garganta.

Entrou no escritório do pai, o sanctum sanctori1 de Savarone. Instintivamente, virou à direita na escuridão: a imensa secretária estava onde sempre estivera. Pousou a caixa e acendeu o candeeiro de quebra-luz verde, do qual se lembrava: era o mesmo candeeiro. Nada mudara.

Sentou-se na cadeira do pai e tirou a pistola do bolso. Colocou-a na secretária, por trás da caixa de madeira, ocultando-a.

A espera começara. E pela segunda vez a sua vida estava nas mãos de Barzini. Não podia imaginar ajuda mais firme. Porque Barzini não chegaria às cavalariças. Subiria o caminho das cavalariças e entraria no arvoredo, voltando atrás aos jardins, direito às traseiras da casa. Entraria depois por uma das portas do pátio e aguardaria que o inglês aparecesse.

Stone estava encurralado.

Os minutos arrastavam-se penosamente. De modo distraído, Victor abriu as gavetas da secretária do pai. Encontrou folhas timbradas da Wehrmacht e dispô-las metodicamente, folha por folha, em rimas separadas, numa paciência com enormes cartas em branco.

Esperou.

De início, não ouviu qualquer som. Em contrapartida, sentiu a presença. Era inconfundível, enchendo o ar entre ele e o intruso. A seguir, o ranger de uma tábua do soalho rasgou o silêncio, seguido por duas passadas distantes, ousadas, perceptíveis; a mão de Fontine moveu-se em direcção à pistola.

Subitamente, cruzando o espaço negro, um objecto colorido pela luz surgiu pelos ares através da penumbra, direito a ele, contra ele! Victor retraiu-se quando a vista se lhe fixou no objecto, que deixara atrás de si pequenos fios de sangue no ar. Ouviu-se um choque distinto - de carne contra madeira - e a coisa horrível embateu no tampo da secretária e rolou obscenamente sob o jorro de luz da lanterna.

Fontine expeliu o ar num instante de revulsão total.

O objecto era uma mão. Uma mão decepada, grosseiramente cortada acima do pulso. Os dedos eram velhos e mirrados e dir-se-iam garras, numa contracção espasmódica, com os tendões paralisados no instante da primitiva ablação.

Era a mão de Guido Barzini. Arremessada por um louco que tinha perdido a sua num cais em Celle Ligure.

Victor ergueu-se de chofre da cadeira, sufocando a repulsa que transbordava ao seu lado e lançando a mão à pistola.

- Nem um gesto! Se o fizer, morre! - As palavras de Stone foram arremessadas em inglês. Acocorou-se nas sombras no extremo oposto da sala, por detrás de uma cadeira de braços de espaldar alto.

Victor retirou a mão. Tinha de fazer um esforço para pensar. Para sobreviver.

Em latim no original: «o santo dos santos», equivalente latino do nome que os Judeus davam ao local mais retirado e mais santo do templo. (N. do T.)

- Você matou-o.

- Hão-de encontrá-lo no arvoredo. É esquisito eu tê-lo descoberto lá, não acha?

Fontine deixou-se ficar imóvel, aceitando a notícia terrível, suspendendo a emoção.

- Ainda é mais esquisito - ripostou tranquilamente - que o seu corso o não tenha descoberto.

Os olhos de Stone reagiram: apenas um lampejar de reconhecimento, mas a reacção lá estava.

- A caminhada que você fez. Eu bem me interroguei. - O inglês acenou com a cabeça: - Sim, você podia ter feito aquilo. Podia tê-los suprimido.

- Não fui eu. Foram outros.

- Desculpe, Fontine, mas essa não pega.

- Como é que pode ter tanta certeza?

- Porque, se houvesse outros, você não se serviria de um velho para o último trabalho: era uma estupidez. Você é um filho da mãe arrogante, mas estúpido não é. Estamos sozinhos. Apenas eu e você e aquela caixa. Meu Deus! Devia estar num buraco dos diabos. Andou bastante gente à procura dela.

- Nesse caso estabeleceu o seu acordo com o Donatti?

- Ele pensa que sim. Estranho, não é? Você tirou-me tudo. Escapei-me de Liverpul a pulso e fui trepando, e você tirou-me isso tudo num sacana dum cais macarrone há cinco anos. Agora recuperei tudo e mais alguma coisa. Sou capaz de fazer o maior leilão de que alguma vez se ouviu falar.

- De quê? De velhos prémios de caça? De sumidas menções honrosas?

Stone armou a pistola, colocando-a em posição de fogo. A luva negra desferiu uma palmada na cadeira e os olhos cravaram-se nele através da escuridão.

- Não se ponha com graças!

- Não é graça nenhuma. Eu não sou estúpido, lembra-se? E você não está em posição de premir esse gatilho. Tem apenas uma possibilidade de entregar o conteúdo daquela arca. Se não o fizer, pode facilmente ser emitida outra ordem de execução. Os homens poderosos que o contrataram há cinco anos não gostam de especulações embaraçosas.

- Cale a boca! Pare com isso! - Furiosamente, Stone alçou da luva, semelhante a uma garra, acima da cadeira e deixou-a tombar com violência. - Essas tácticas comigo não resultam, seu filho da mãe! Antes de você ouvir sequer falar de Loch Torridon, já eu as usava.

- Loch Torridon baseava-se no erro. Cálculos errados! Má gestão! Era essa a premissa. Lembra-se?- Fontine deu um passo à retaguarda, empurrando a cadeira com as pernas e estendendo as mãos num gesto de impotência. - Venha cá. Veja com os seus próprios olhos. Você não me mataria sem saber primeiro quanto lhe custava a bala.

- Recue! Para mais longe! - Stone contornou a cadeira, com a mão imóvel estendida mesmo à sua frente como uma lança em riste. A mão esquerda empunhava a pistola pronta a disparar; a mais ligeira pressão no gatilho e a bala sairia.

Victor fez o que ele lhe ordenava, de olhos cravados na pistola. O seu momento chegaria; tinha de chegar.

O inglês acercou-se da secretária, sendo cada passo seu o movimento de um homem repleto de aversão e cansaço, preparado para destruir numa fracção de

segundo de desequilíbrio. Desviou a vista de Fontine e olhou fixamente o tampo da mesa. Para a mão decepada, mutilada, de Guido Barzini. Para a caixa. Para a pilha de restos dentro da caixa.

- Não - sussurrou. - Não!

O momento chegara: o choque da revelação era patente nos olhos de Stone. Não apareceria outra vez.

Victor deu um salto para a frente, por cima da secretária, lançando as mãos à arma; ele vacilara apenas uma fracção de segundo, mas isso era tudo quanto ele podia esperar.

A detonação ensurdeceu-os, mas o aperto de Fontine tinha desviado o disparo. Centímetros apenas, mas era o bastante. A bala estilhaçou o tampo da mesa, arremessando lascas de madeira em todas as direcções. Victor agarrou no pulso de Stone e torceu-o com toda a força de que era capaz, sentindo as pancadas que lhe eram desferidas na cara e no pescoço pela rígida mão enluvada. Stone alçou o joelho direito e golpeou o baixo-ventre e o estômago de Fontine; não havia maneira de lhe tirar a pistola. O inglês gritou e entrou num paroxismo de frenesi. Não iria, não podia, deixar-se levar unicamente pela força.

Victor fez a única coisa que lhe restava. Por um instante, suspendeu todo o movimento e a seguir puxou o pulso de Stone para diante como se estivesse a enfiar a arma no seu próprio estômago. Quando a pistola estava quase a tocar no blusão, torceu repentinamente o corpo e o pulso de Stone, invertendo a arma, e impeliu-a para cima com todo o seu peso.

Deu-se a explosão. Por um segundo, Fontine ficou cego, com a pele gelada pela queimadura, e durante esse instante julgou que fora atingido.

Até que sentiu o corpo de Geoffrey Stone abater-se, arrastando-o consigo para o solo.

Abriu os olhos. A bala tinha penetrado por baixo do maxilar de Stone, e numa trajectória ascendente, atravessara o crânio e estoirara com o alto da cabeça de Stone.

E junto da massa de sangue e de tecidos estava a mão decepada de Guido Barzini.

Levou o corpo de Barzini do arvoredo para as cavalariças. Depositou o cadáver mutilado na cama e cobriu-o com um lençol. Manteve-se de pé junto ao corpo, por tempo indeterminado, tentando compreender o sofrimento, o terror e a afeição.

Campo dí Fiori estava sereno. Para ele, o seu segredo estava sepultado, para não mais vir a conhecer-se. O mistério de Salónica era uma confidência que Savarone não partilhara. E o filho de Savarone não insistiria mais nele. Outros que o fizessem, se lhes apetecesse. Teague que cuidasse do resto. Ele tinha terminado.

Percorreu a pé a estrada norte desde as cavalariças até ao acesso defronte da casa e entrou no carro alugado. Raiava o alvorecer. O sol alaranjado do Verão despontou sobre o campo italiano. Lançou um derradeiro olhar à casa da sua infância e ligou a ignição.

As árvores iam desfilando à sua passagem, convertendo-se a folhagem numa mancha indistinta de cor de laranja, amarelo e branco. Olhou para o velocímetro. Mais de oitenta. Oitenta quilómetros por hora na sinuosa estrada de acesso que sulcava a floresta. Devia diminuir a velocidade, bem sabia. Era imprudente, se não perigoso. Não obstante, o pé não obedecia à mente.

Oh, meu Deus! Tinha de sair dali!

Havia uma comprida curva quase a cento e oitenta graus antes de se chegar aos portões. Nos velhos tempos - há anos -, costumava tocar a buzina à aproximação da curva. Agora não havia motivo para o fazer, e sentiu alívio ao verificar que o pé afrouxava a pressão no acelerador. O instinto mantinha-se intacto. Mesmo assim, entrou na curva a cinquenta, fazendo guinchar os pneus ao sair dela e meter direito aos portões. Automaticamente, na recta, acelerou. Passaria a toda a velocidade pelos pilares do portão e abandonaria a estrada, na direcção de Varese. A seguir Milão.

A seguir Londres!

Não tinha a certeza de quando o vira. Os vira. O seu espírito divagara, enquanto ele mantinha os olhos pregados no solo imediatamente adiante do capot. Soube apenas que carregara no travão com tal força que foi arremessado de encontro ao volante, ficando a cabeça a centímetros do pára-brisas. O carro guinou, os pneus chiaram, ergueram-se ondas de poeira das rodas e o automóvel derrapou em diagonal ao cruzar os portões, parando a metros apenas dos dois grandes automóveis pretos que tinham convergido vindos do nada, obstruindo a estrada a seguir aos pilares de pedra.

O seu corpo foi violentamente lançado de novo contra o assento; o carro inteiro estremeceu na súbita e violenta travagem. Atordoado, Fontine levou vários segundos a sacudir os efeitos da colisão iminente. Pestanejou, recuperando prontamente a nitidez de visão. A sua fúria foi sustida pelo espanto perante o que via.

Postados à frente dos dois carros pretos estavam cinco homens de fato preto e colarinho eclesiástico branco. Ficaram a olhar impassivelmente para ele. Depois a porta traseira do carro da direita abriu-se e saiu de lá um sexto homem. Tinha cerca de sessenta anos e envergava as negras vestes clericais.

E tinha uma malha branca no cabelo.

O cardeal possuía olhos de fanático e falava com uma voz forçada e sincopada de possesso. Tinha movimentos vagarosos, fluidos, nunca permitindo que a atenção da sua assistência vacilasse. Era ao mesmo tempo teatral e sinistro. Tratava-se de uma aparência cultivada, aperfeiçoada ao longo dos anos nos corredores do Vaticano. Donatti era uma águia que se alimentava de pardais. Estava para lá da rectidão: era a rectidão.

Ante a visão do homem, Victor perdeu a tramontana. O facto de aquele assassino da Igreja poder aproximar-se de Campo di Fiori era uma obscenidade que ele não podia suportar. Precipitou-se sobre a torpe figura de sotaina, com todo o sentido de razão, de sobrevivência e da própria sanidade esquecido no instante da lembrança.

Os sacerdotes estavam preparados para ele. Convergiram, da mesma maneira que os carros, e interceptaram-lhe a trajectória da arremetida. Prenderam-no, torcendo-lhe os braços bem alto atrás das costas; uma mão de dedos poderosos apertou-lhe a garganta, obrigando a cabeça a um arquear torturante, sufocando a fala, mas não a visão ou o ouvido.

- O carro - disse baixinho Donatti.

Os dois sacerdotes que não estavam a dominar Fontine correram para o carro alugado e iniciaram a busca. Victor ouviu as portas, o porta-bagagens e o capot serem abertos. A seguir o rasgar dos estofos e o estrépito de metal à medida que o carro era desmantelado. O esquadrinhar prosseguiu durante perto de um quarto de hora. No decurso de todo esse tempo, os olhos de Fontine mantiveram-se cravados nos do cardeal. Só no final da busca o sacerdote da Cúria olhou para o automóvel, quando os dois homens se abeiraram e falaram em uníssono.

- Não há nada, eminência.

Donatti fez um gesto na direcção do padre cuja mão poderosa apertava a garganta de Victor. A pressão foi aliviada; Fontine engoliu repetidamente. Continuavam a manter-lhe os braços tensamente repuxados atrás das costas. O cardeal falou:

- Os heréticos de Constantino escolheram bem: os apóstatas de Campo di Fiori. Os inimigos de Cristo.

- Animal! Sanguinário! - Victor mal podia sussurrar: os músculos do pescoço e da traqueia tinham sido gravemente afectados. - Você assassinou-os! Eu vi-o!

- Sim. Eu calculava que devia ter visto. - O cardeal falava com serena virulência, - Eu próprio teria disparado as armas, se preciso fosse. E ao pensar assim, tem toda a razão. Teologicamente falando, fui eu o carrasco. Os

olhos de Donatti abriram-se muito. - Onde está o engradado de Salónica?

- Não sei.

- Há-de dizer-mo, herege. Pode acreditar na palavra de um verdadeiro sacerdote. Não tem alternativa.

- Está a prender-me contra a minha vontade! Em nome de Deus, imagino! - disse Fontine com frieza.

- Em nome da preservação da Santa Madre Igreja! Não há quaisquer leis que tenham precedência sobre isso. Onde está o carregamento de Salónica?

Os olhos e a voz estrídula desencadearam a lembrança de anos atrás: uma criança de tenra idade à entrada da porta de um escritório.

- Se o sabê-lo era tão importante para si, porque executou o meu pai? Ele era a única pessoa que sabia...

- Mentira! Isso é mentira! - Donatti conteve-se, com os lábios a tremer.

Fontine compreendeu. Tinha sido exposto um nervo sensível. Fora cometido um erro de extraordinárias dimensões, e o cardeal não suportava confrontar-se com ele.

- Bem sabe que é verdade - disse tranquilamente Victor. - Agora sabe que é verdade e não a suporta. Porquê? Porque foi ele morto?

O clérigo baixou a voz:

- Os inimigos de Cristo enganaram-nos. Os hereges de Xenope encheram-nos de mentiras. - E Donatti vociferou abruptamente, uma vez mais: - Savarone Fontini-Cristi foi o transmissor dessas mentiras!

- Que mentiras podia ele ter-lhe dito, a si? O senhor nunca acreditou nele quando lhe disse a verdade.

O cardeal voltou a tremer. Mal se conseguiu ouvi-lo:

- Houve dois comboios de mercadorias provenientes de Salónica. Com três dias de intervalo. Do primeiro não soubemos nada; o segundo, apanhámo-lo em Monfalcone, certificando-nos de que Fontini-Cristi nunca iria ao seu encontro. Não sabíamos na altura que ele já tinha entrado em contacto com o primeiro comboio. E agora você vai dizer-nos o que queremos saber. O que temos de saber.

- Não posso dar-vos aquilo que não tenho. Donatti olhou para os sacerdotes e disse uma palavra.

- Agora.

Victor nunca se recordaria do período de tempo, pois não houve tempo, mas tão-somente dor. Excruciante, pungente, acerada, convulsiva. Foi arrastado para o interior dos portões de Campo di Fiori e conduzido para o bosque. Ali, os piedosos padres apostólicos iniciaram a tortura. Principiaram pelos seus pés descalços: quebraram-lhe todos os dedos e torceram-lhe os tornozelos até estalarem. Seguiram-se as pernas e os joelhos: esmagados, revirados, estirados. E depois o baixo-ventre e o estômago («Oh, Deus! Apetecia-lhe morrer!»). E sobre ele, continuamente, esfumado na visão de lágrimas de dor, estava o sacerdote da Cúria que tinha uma malha branca no cabelo.

- Diz-nos! Diz-nos! Inimigo de Cristo!

Fizeram-lhe saltar os braços das articulações. Torceram-lhe os pulsos para dentro até lhe rebentar os capilares, espalhando um fluido cor de púrpura por toda a pele. Havia momentos de abençoado vazio, aos quais subitamente punham termo mãos que o faziam recuperar a consciência à bofetada.

- Diz-nos! Diz-nos! - As palavras convertiam-se numa centena de milhares de martelos, ecos dentro de ecos. - Diz-nos! Inimigo de Cristo!

E tudo voltou a ser o vazio. E, através dos escuros túneis da sensação, pressentia o ritmo de vagas e ar e suspensão. Um flutuar que, no fundo do cérebro, lhe dizia que estava próximo da morte.

Houve um derradeiro embate convulsivo, e contudo ele não podia senti-lo. Já estava para além da sensação.

Ouviu, todavia, as palavras muito, muito ao longe, proferidas num canto-chão:

- In nomine Patris, et Filii et Spiritus sancti. Amen. Dominus vobiscum... A extrema-unção.

Tinham-no abandonado à morte.

Sobreveio novamente o flutuar. As vagas e o ar. E vozes, indistintas, demasiado longínquas para serem verdadeiramente ouvidas. E tocaram-no. Sentiu que o tocavam, provocando-lhe cada contacto dores dardejantes por todo o corpo. Todavia, não era o tocar de torturas; as vozes longínquas não eram vozes de torturadores.

As imagens esfumadas tornaram-se finalmente nítidas. Estava num quarto branco. Ao longe havia frascos reluzentes com tubos que caíam em cascata pelo ar.

E sobre ele estava um rosto. O rosto que ele sabia não mais voltar a ver. O que lhe restava da mente estava a pregar-lhe terríveis partidas.

O rosto chorava: as lágrimas escorriam pelas faces.

A sua mulher, Jane, segredava:

- Meu amor. Meu amor querido. Oh, meu Deus, que te fizeram eles? O seu rosto bonito estava junto ao dele. A tocar o dele.

E não havia dor.

Fora encontrado por homens do MI 6, preocupados. Os padres tinham-no metido num carro, levando-o para o largo da entrada e deixado à morte em Campo di Fiori. O facto de não ter morrido era algo que os médicos não conseguiam explicar. Devia ter morrido. A recuperação levaria meses, talvez anos. E, na verdade, nunca recuperaria por completo. Com cuidado, porém, readquiriria o uso dos braços e das pernas; poderia andar, e isso já por si era um milagre.

Ao fim de oito semanas já conseguia sentar-se na cama. Terminou o que tinha a tratar com o Tribunal de Reparações. As terras, as fábricas e as propriedades foram vendidas por setenta e cinco milhões de libras esterlinas. Tal como prometera a si próprio, a transacção não incluía Campo di Fiori.

Para Campo di Fiori tomara disposições independentes por intermédio de um advogado de confiança de Milão. Também essa propriedade seria vendida, mas não queria conhecer o nome do comprador. Havia duas restrições inquestionáveis: o adquirente não poderia ter tido qualquer ligação com os fascistas e tão-pouco deveria possuir qualquer tipo de associação com organismo religioso algum.

Na oitava semana, um inglês foi enviado de Londres por via aérea com instruções do seu governo.

Sir Anthony Brevourt sentou-se aos pés da cama de Fontine, de maxilar firme e olhos compassivos, embora não isentos de dureza.

- O Donatti morreu, sabe? Atirou-se da balaustrada de São Pedro.

Ninguém o chora, e a Cúria menos que quem quer que seja.

- Sim, bem sei. No final, um acto de insanidade.

- Os cinco padres que o acompanhavam foram castigados. Três foram excomungados, acusados e condenados à prisão por várias décadas. Os outros dois estão a cumprir penitência perpétua no Transval. O que foi feito em nome da Igreja horroriza os seus dirigentes.

- Quer-me parecer que há demasiadas igrejas que permitem os fanáticos e depois olham para trás com espanto, assombradas com o que se fez em «nome delas». Não se limita a Roma. O aspecto exterior disfarça muitas vezes objectivos, não é verdade? Isto aplica-se igualmente aos governos. Quero respostas a determinadas perguntas!

Brevourt pestanejou várias vezes perante a veemência de Fontine e respondeu com prontidão, mecanicamente:

- Estou preparado para as dar no que puder. Recebi instruções para não ocultar nada.

- Primeiro, o Stone. A ordem de execução foi explicada; não tenho comentários a fazer. Quero saber o resto. Tudo.

- Precisamente aquilo que lhe foi dito. Eu não confiava em si. Estava convencido, quando você chegou a Londres, que estava decidido a não revelar nada sobre o comboio de Salónica. Esperava que você tomasse as suas próprias disposições, nas suas próprias condições. Não podíamos deixar que isso acontecesse.

- O Stone comunicou os meus movimentos nessa altura?

- Todos. Você fez onze deslocações ao outro lado da Mancha e uma a Lisboa. Com a ajuda do Stone, mantivemo-lo sob controlo. Na eventualidade de você ser capturado, estávamos preparados para negociar uma troca com o inimigo.

- E supondo que eu fosse abatido?

- Inicialmente foi um risco que calculámos, eclipsado pelo facto de você poder ter-se escapulido e estabelecido contacto com respeito a Salónica. E em Junho de quarenta e dois, a seguir a Oxfordshire, Teague concordou em não o mandar mais ao outro lado.

- Que aconteceu em Oxfordshire? O padre (se é que era mesmo um padre) que orientou aqueles aviões era grego. Da Ordem de Xenope. A vossa primeira clientela, creio eu.

Brevourt comprimiu os lábios e respirou fundo. Estavam a reconhecer-se coisas que o magoavam e embaraçavam ao mesmo tempo.

- Stone, novamente. Havia dois anos que os alemães tentavam localizar o complexo em Oxfordshire. Ele bufou as coordenadas exactas a Berlim e ao mesmo tempo tomou as suas próprias disposições com os gregos. Convenceu-os de que havia uma maneira de o vergarem. Valia a pena tentar: um homem vergado fala. Ele não queria saber de Salónica para nada, mas o ataque contribuía para o seu objectivo primordial. Colocou um sacerdote fanático no complexo e coordenou o ataque.

- Por amor de Deus, porquê?

- Para matar a sua mulher. Se ela perecesse, ou se ficasse gravemente ferida, ele pressupunha que você havia de virar costas a tudo quanto fosse britânico e sairia do MI 6. E tinha razão. Você por pouco não o fez, sabe? Ele odiava-o: responsabilizava-o por ter dado cabo de uma carreira brilhante. No meu entendimento, tentou mantê-lo em Londres nessa noite.

Victor recordou-se da horrível noite. Stone, o psicopata metódico, contara os minutos, deduzira a velocidade do carro. Fontine estendeu a mão para os cigarros na mesa-de-cabeceira.

- A última pergunta. E não me minta. O que havia no comboio de Salóica?

Brevourt afastou-se da cama. Foi até à janela e manteve-se calado por um momento.

- Pergaminhos, manuscritos do passado que, a serem tornados públicos, poderiam trazer o caos ao mundo religioso. Especificamente, dilacerariam o mundo cristão. Haveria acusações e desmentidos lançados de um lado para outro e os governos poderiam ter de escolher partido. Acima de tudo, os documentos nas mãos do inimigo seriam uma arma ideológica para além de tudo o que é imaginável.

- Os documentos podem fazer tal coisa? - perguntou Fontine.

- Estes documentos podem - retorquiu Brevourt, virando costas à janela. - Já ouviu alguma vez falar na Cláusula Filioque?

Victor encheu o peito de ar. A sua mente recuou aos anos de ensinamentos imparciais da meninice.

- Faz parte do Credo de Niceia.

- Mais propriamente, do Credo de Niceia do ano trezentos e oitenta e um; houve muitos concílios, alterações subtis ao credo. O Filioque foi um acrescentamento ulterior que de uma vez por todas estabeleceu a figura de Cristo como consubstancial a Deus. Ele é rejeitado pela Igreja do Oriente como induzindo em erro. Para a Igreja do Oriente, especialmente para as seitas que seguiam o sacerdote e estudioso Ário, Cristo como filho de Deus era o mestre; a sua divindade não era igual à de Deus. Naquele tempo não podia haver para eles semelhante igualdade. Quando pela primeira vez foi proposto o Filioque, o Patriarcado de Constantino reconheceu-o como aquilo que era: uma divisão doutrinária que favorecia Roma. Um símbolo teológico que era a desculpa para dividir e conquistar novos territórios. E tinham toda a razão. O Santo Império Romano tornou-se uma força global... tal como se conhecia o Globo. A sua influência alastrou ao mundo inteiro baseada nessa única premissa, nessa divindade especializada de Cristo: conquistar em nome de Cristo. - Brevourt calou-se, como se procurasse as palavras. Regressou vagarosamente junto à cama.

- Nesse caso, os documentos daquela arca - disse Victor - refutam o Filioque? Se é assim, desafiam o fundamento da Igreja Romana e de todas as divisões cristãs que se lhe seguiram.

- Assim é, com efeito - retorquiu calmamente Brevourt. - Colectivamente, chama-se-lhes refutações: as refutações do Filioque. Compreendem acordos entre coroas e césares tão longínquos como a Espanha, no século sexto, onde teve origem o Filioque, por aquilo que muitos pensam serem razões puramente políticas. Outros encontram indícios daquilo que rotulam de «corrupção teológica»... Mas, se isso fosse tudo o que tivessem feito, o mundo poderia viver com elas. Filho de Deus, mestre, consubstancial. Trata-se de distinções teológicas, matérias para discussão de estudiosos da Bíblia. Fazem mais, infelizmente. No fervor de negar o Filioque, o Patriarcado enviou sacerdotes para revolverem a Terra Santa, encontrar-se com os estudiosos aramaicos e desenterraram tudo quanto alguma vez tivesse existido respeitante a Jesus. Eles desencantaram mais do que aquilo que procuravam. Havia rumores de pergaminhos escritos durante os anos imediatamente anteriores e posteriores ao marco do século primeiro. Localizaram-nos, descobriram vários e trouxeram-nos novamente a Constantino. Diz-se que um dos pergaminhos aramaicos levanta dúvidas profundas e muito específicas relativamente ao homem conhecido por Jesus, que pode nunca ter existido.

O transatlântico fez-se ao largo do canal. Fontine achava-se de pé no convés, a olhar para a silhueta de Southampton. Jane, junto a si, enlaçava-lhe com uma mão suavemente a cintura, enquanto a outra pousava na sua, apoiada no corrimão da balaustrada. As muletas com as grandes braçadeiras de metal que lhe seguravam os antebraços achavam-se à sua esquerda, com os reluzentes semicírculos de aço inoxidável a brilhar ao sol. Fora ele próprio que as projectara. Já que ia ser necessário, ao que os médicos diziam, usar muletas durante um ano ou mais, podía muitíssimo bem aperfeiçoar o produto existente.

Os dois filhos de ambos, Andrew e Adrian, estavam com a preceptora de Dunblane - uma das pessoas que tinham optado por ir para a América com os Fontine.

A Itália, Campo di Fiori, o comboio de Salónica pertenciam ao passado. Os cataclísmicos pergaminhos que tinham sido retirados dos arquivos de Xenope achavam-se algures na vasta cordilheira dos Alpes italianos. Enterrados por um milénio; talvez para não mais serem encontrados.

Era melhor assim. O mundo tinha atravessado uma era de devastação e dúvida. A razão exigia que se recobrasse alguma serenidade, pelo menos por uns tempos, quanto mais não fosse à superfície. Não era ocasião para a arca de Salónica.

O futuro principiava com os raios do sol da tarde nas águas do canal da Mancha. Victor inclinou-se para a mulher e encostou o rosto ao dela. Nenhum dos dois falou; ela apertou-lhe a mão em silêncio.

Houve uma agitação no convés. Trinta metros mais à ré, os gémeos tinham-se envolvido numa disputa. Andrew zangara-se com seu irmão Adrian e houvera uma troca de pancadas infantis. Fontine sorriu.

Crianças...

 

Junho de 1973

Homens.

Eram homens, pensou Victor Fontine ao ver os filhos caminhando separadamente pelo meio dos convidados sob o sol radioso. E gémeos, em segundo lugar. Tratava-se de uma distinção importante, achava ele, embora não houvesse necessidade de se deter no facto. Dir-se-ia que haviam decorrido anos desde que alguém se lhes referira como gémeos. Excepto Jane e ele próprio, claro. Irmãos sim, mas não gémeos. Era estranho como a palavra caíra em desuso.

Talvez a festa o ressuscitasse por algum tempo. Jane havia de gostar. Para Jane eles eram sempre os gémeos. Os seus gémeos.

A festa na casa de North Shore, em Long Island, era dedicada a Andrew e Adrian: tratava-se do seu aniversário. Os relvados e os jardins das traseiras da casa, sobranceiros à arrecadação dos barcos e à água, tinham sido transformados numa enorme fite champêtre' ao ar livre, como Jane lhe chamava. «Um maldito de um piquenique para gente crescida! Já ninguém os faz. Nós faremos um».

Na orla sul do terraço, uma pequena orquestra tocava, servindo a sua música de fundo para um cento de conversas. Havia compridas mesas a abarrotar de comida montadas na longa amplidão de relva bem aparada; dois bares funcionavam em cada um dos extremos do bufete rectangular. Fête champêtre. Victor nunca ouvira o termo. Em trinta e quatro anos de casamento, nunca o ouvira.

Como os anos tinham passado a correr! Dir-se-ia que três décadas haviam sido comprimidas numa cápsula temporal e disparadas pelos céus a uma velocidade incrível, apenas para aterrarem, serem abertas e esquadrinhadas por protagonistas que tinham meramente envelhecido.

Andrew e Adrian estavam agora próximos um do outro. Andy tagarelava com os Kempson junto da mesa dos canapés. Adrian encontrava-se no bar, falando com vários jovens cuja indumentária era o único vago indício do respectivo sexo. De certo modo, estava certo que Andrew estivesse junto dos Kempson. Paul Kempson era presidente da Gentaur Electronics; tratava-se de uma pessoa bem vista pelo Pentágono. Como, evidentemente, Andrew o era. Adrian fora sem dúvida encurralado por diversos estudantes universitários que pretendiam interrogar o advogado singularmente franco que era o filho de Victor.

 

' Em francês no original: «festa campestre». (N. do T.)

 

Victor notou com certa satisfação que ambos os gémeos eram mais altos do que as pessoas que os rodeavam. Era de esperar: nem ele nem Jane eram baixos. E eram de certo modo parecidos, mas não idênticos. O cabelo de Andrew era muito claro, quase loiro, e o de Adrian mais escuro, castanho-aloirado. As feições de um e outro eram angulosas, uma combinação das suas e das de Jane, mas cada um possuía a sua identidade própria. O único elemento físico que partilhavam eram os olhos: eram os de Jane. Azuis-claros e penetrantes.

Por vezes, com sol muito intenso ou na sombra difusa, podia confundir-se um com o outro. Mas só em tais ocasiões e nessas condições. Um e outro eram muito independentes.

Andrew, o do cabelo claro, estava no Exército e era um profissional dedicado. A influência de Victor tinha conseguido uma nomeação do Congresso para West Point, onde Andrew se tornara notado. Fizera duas comissões no Vietname, embora desprezasse a maneira como a guerra era travada. «Ganhar ou retirar» era o seu credo, mas ninguém lhe dava ouvidos, e ele não sabia bem se isso fazia alguma diferença. Não havia maneira de ganhar para perder. A corrupção em Saigão atingira proporções jamais vistas.

Contudo, Andrew não era, de modo algum, um neutro dentro das fileiras. Victor compreendia isso. O filho era uin crente. Profundo, interessado, resoluto: os militares eram a força da América. Uma vez esgotadas as palavras, restava apenas o poder disponível. Para ser usado com sensatez, mas para ser usado.

Para Adrian, o do cabelo escuro, não havia que impor limite algum ao emprego das palavras, e não existia justificação alguma para o confronto armado. Adrian, o advogado, era à sua maneira tão dedicado como o irmão, conquanto o seu comportamento pudesse parecer desmenti-lo. Adrian tinha um andar desleixado, que sugeria uma aparência de indiferença onde não existia indiferença alguma. Os adversários juristas tinham aprendido a não se deixarem embalar pelo seu humor ou pela aparente falta de interesse. Adrian era interessado. Nas salas de audiências era um ás. Pelo menos fora-o efectivamente no gabinete do promotor de Justiça em Boston. Presentemente encontrava-se em Washington.

Adrian tinha ido da escola preparatória para Princeton e daí para a Harvard Law, com um ano perdido a vadiar, a deixar crescer a barba, a tocar guitarra e a dormir com raparigas disponíveis de São Francisco até Bleecker Street. Fora um ano do qual Victor e Jane não tinham boas recordações.

No entanto, a vida da estrada larga, as limitações provincianas de meia dúzia de comunidades tinham saturado Adrian. Não conseguia aceitar a ausência de finalidade da experiência não provocada, da mesma maneira que acontecera a Victor quase trinta anos antes, ao terminar a guerra na Europa.

As reflexões de Fontine foram interrompidas. Os Kempson vinham direitos à sua cadeira, pedindo licença à medida que abriam caminho por entre a multidão. Não haviam de esperar que ele se levantasse - nunca ninguém contava com isso -, mas Victor aborrecia-se com o facto de não o conseguir. Sem auxílio.

- Um rapaz às direitas - observou Paul Kempson. - Tem a cabeça bem no seu lugar, isso é que o Andrew tem. Disse-lhe que se alguma vez quiser arrumar a farda a Centaur tem lugar para ele.

- Eu disse-lhe que devia era andar fardado - aduziu vivamente a mulher

de Kempson. - É um homem tão elegante!

- Estou certo de que ele acha que seria desconcertante- disse Fontine, de modo algum seguro. - Ninguém gosta que lhe lembrem a guerra numa festa de anos.

- Durante quanto tempo vai ele estar em casa, Victor? - perguntou Kempson.

- Em casa? Aqui? Apenas uns dias. Agora está colocado na Virgínia. No Pentágono.

- O seu outro rapaz está também em Washington, não está? Acho que li qualquer coisa a respeito dele nos jornais.

- Sim, tenho a certeza de que leu. - Fontine sorriu.

- Ah, nesse caso ficam juntos. Isso é bom - comentou Alice Kempson. A orquestra terminou um número e encetou outro. Os pares mais jovens

debandaram para o terraço: a festa começava a animar. Os Kempson foram-se afastando com acenos de cabeça e sorrisos. Por breves instantes, Victor pensou no comentário de Alice Kempson: «... ficam juntos. Isso é bom». Mas Andrew e Adrian não estavam juntos. Trabalhavam a vinte minutos um do outro mas tinham vidas separadas. Por vezes, pensava Fontine, demasiadamente separadas. Não se riam em coro como faziam antigamente, em crianças. Já homens, tinha acontecido qualquer coisa entre eles. Fontine interrogava-se sobre o que teria sido.

Jane reconheceu, talvez pela centésima vez, que a festa era um êxito. Uma afirmação. Graças a Deus que o tempo se aguentara. Os fornecedores tinham jurado que podiam armar os toldos em menos de uma hora, se fosse necessário, mas ao meio-dia estava um sol radioso, confirmando-se a promessa de um belo dia.

Não, contudo, uma bela noite. Lá muito ao longe, sobre as águas, nas proximidades do Connecticut, o céu estava pardacento. As previsões meteorológicas previam aguaceiros nocturnos dispersos com precipitação gradualmente crescente, fosse o que fosse que aquilo queria dizer. Porque não diziam pura e simplesmente que iria chover mais tarde?

Das duas às seis da tarde. Boas horas para uma fête champêtre dominical. Tinha-se rido da ignorância do termo por parte de Victor. Era tão pretensiosamente vitoriano! A piada estava em utilizá-lo. Tinha um ar ridículo nos convites. Jane sorriu, e a seguir abafou uma risada. Devia realmente dominar as suas patetices, ao que supunha. Era demasiado velha para essas coisas.

No outro extremo do relvado, entre a multidão, Adrian sorria-lhe. Ter-lhe-ia lido os pensamentos? Adrian, o seu gémeo do cabelo escuro, herdara o seu sentido do humor inglês um tanto ou quanto louco.

Tinha trinta e um anos. Eles tinham trinta e um anos. Que fora feito desses anos? Parecia que tinham decorrido apenas meses desde o momento em que haviam aportado a Nova Iorque. Seguidos de meses de actividade que haviam posto Victor a voar por todos os Estados Unidos e de novo para a Europa, construindo furiosamente.

E Victor conseguira. Fontine, Ltd. convertera-se numa das mais procuradas firmas de consultores da América. Os conhecimentos de Victor apontavam primordialmente para a reconstrução europeia. O nome Fontine na apresentação de uma empresa era uma vantagem industrial. O conhecimento de um determinado mercado estava assegurado.

Victor tinha-se envolvido por completo, não exclusivamente por uma questão de orgulho, ou de produtividade instintiva, mas por algo mais. Jane sabia-o, e sabia ao mesmo tempo que não podia fazer nada para ajudá-lo. Aquilo desviava-lhe a mente do sofrimento. O marido raramente deixava de sentir dores: as operações prolongavam-lhe a vida, mas pouco faziam para minorar a dor.

Olhou para Victor, do lado de lá do relvado, sentado na rija cadeira de pau de espaldar direito, com a reluzente bengala de metal ao lado. Tinha ficado tão ufano quando as duas muletas haviam sido substituídas pela bengala simples que lhe permitia andar sem parecer tão chocantemente aleijado!

- Viva, Mistress Fontine - disse um jovem de cabelo muito comprido. - A festa está estupenda! Obrigado por me deixar trazer os amigos. Eles queriam mesmo conhecer o Adrian.

Quem falara era Michael Reilly. Os Reilly eram os seus vizinhos mais próximos, a cerca de um quilómetro e meio mais abaixo na praia. Michael estava a frequentar Direito em Columbia.

- Isso é muito lisonjeiro!

- Escute, ele é fantástico! Arrumou aquele antitrust da Tesco, em Boston, mesmo quando os tribunais federais o achavam demasiado vago. Toda a gente sabia que era uma empresa da Centaur, mas foi preciso o Adrian para lhe cortar as vasas.

- Não discutas isso com Mister Kempson.

- Não se preocupe. Vi-o no clube e ele disse-me para cortar o cabelo. Ora bolas, isso também o meu pai me disse.

- Ao que vejo, ganhaste. Michael exibiu um sorriso rasgado.

- Está pior que uma barata, mas não pode dizer nada. Estou no quadro de honra. Fizemos um acordo.

- Bravo! Obriga-o a conformar-se com isso.

O moço Reilly soltou uma gargalhada e curvou-se, dando-lhe um beijo na face.

- A senhora é especial! - Voltou a arreganhar os dentes num sorriso e foi-se embora, chamado com um sinal por uma rapariga na orla do pátio.

A gente jovem gostava dela, pensou Jane. Tratava-se de uma verificação consoladora nestes tempos em que os jovens encontravam tão pouca coisa de que gostar ou com a qual concordar. Gostavam dela apesar do facto de ela se recusar a fazer concessões à juventude. Ou à idade. Tinha o cabelo listrado - meu Deus, mais que listrado - de brancas; o rosto com rugas - como era natural que as tivesse - e não havia discussões acerca de uma repuxadela da pele aqui, de uma prega acolá, como tantas das suas amigas tinham feito. Agradecia à sua boa estrela ter conservado a figura. Tomando tudo em linha de conta, não estava mal para sessenta anos... e tal, raios!

- Dá-me licença, Mistress Fontine? - Era a criada; tinha vindo do reboliço que era a cozinha.

- Sim, Grace? Algum problema?

- Não, minha senhora. Está um senhor à porta. Perguntou pela senhora ou por Mister Fontine.

- Diga-lhe que venha aqui fora.

- Ele disse que preferia não vir. É um senhor estrangeiro. Um padre. Pensei que com tanta gente, Mister Fontine...

- Sim, fez bem - interrompeu Jane, compreendendo as preocupações da criada. Victor não apreciava caminhar entre os convidados da maneira como era obrigado a caminhar. - Eu vou atendê-lo.

O sacerdote estava postado na soleira da porta, com um fato preto que lhe caía mal, e era velho, o rosto chupado e gasto. Parecia constrangido, assustado.

Jane falou com frieza. Não pôde evitá-lo.

- Sou Mistress Fontine.

- Sim, é a signora - respondeu o sacerdote, com um grande sobrescrito manchado na mão. - Eu vi as fotografias. Não queria incomodar. Tantos automóveis!

- O que é?

- Venho de Roma, signora. Trago uma carta para o padrone. Quer fazer o favor de certificar-se de que lhe chega às mãos? - E o padre estendeu-lhe o sobrescrito.

Andrew observou o irmão no bar com os estudantes de cabelo comprido, envergando as suas indumentárias de ganga e camurça e com medalhões ao pescoço. Adrian nunca havia de aprender: a sua roda era composta por inúteis. Eram embusteiros. Não era simplesmente a profusão de cabelo mal cuidado que incomodava o militar; isso eram apenas sintomas. Tratava-se, isso sim, do fingimento que andava de par com aquelas superficiais expressões de inconformismo. De um modo geral eram insuportáveis: gente hostil de cabeça mal arrumada.

Falavam com enorme calor, enorme sapiência, de «movimentos» e contra-movimentos» como se fossem protagonistas, factores de inflexões no pensamento político. Este mundo... o terceiro mundo. E o mais engraçado de tudo era isso, porque nem um único num milhar deles saberia como agir como revolucionário. Não possuíam nem o empenhamento nem a fibra nem os miolos.

Eram inadaptados que atiravam sacos de plástico de merda quando ninguém prestava atenção aos seus frenesis. Eram... freaks e, Deus meu, se havia coisa que ele não suportasse eram os freaks. Mas Adrian não entendia: o irmão procurava valores onde não existia valor algum. Adrian era um tolo; mas a verdade é que se tinha dado conta disso sete anos atrás. Sete anos atrás descobrira até que ponto o irmão era tolo. Adrian era um inadaptado na pior acepção: tinha todas as razões para não o ser.

Adrian ergueu o olhar de relance para ele, do bar, e virou costas. O irmão era um maçador, e a visão dele a fazer proselitismo naquela assistência específica tornava-se-lhe repugnante.

Nem sempre o militar fora dessa opinião. Dez anos atrás, ao sair de West Point, não odiava com a veemência que agora sentia. Não tinha em grande conta Adrian e a sua corte de inadaptados, mas não existia aversão. Da maneira como a pandilha de Johnson começara a tratar o Sudoeste asiático, havia alguma coisa a dizer a favor da atitude dos dissidentes: Vão-se embora. Traduzindo: «Varram Hanói do mapa. Ou então vão-se embora».

Tinha explicado vezes sem conta a sua posição. Aos freaks. A Adrian. Mas ninguém queria ouvi-lo da boca de um militar. «Soldadinho», era o que eles lhe chamavam. E cabeça de granada» e dedos de míssil» e maluquinho das bombas».

Mas não eram os nomes. Qualquer pessoa que tivesse passado por West Point e Saigão podia bem com isso. Em última análise, era a estupidez. Eles não se limitavam a fazer as pessoas que importava perderem o interesse: hostilizavam-nas, enfureciam-nas e por último embaraçavam-nas. E essa era a estupidez decisiva. Levavam mesmo aqueles que estavam de acordo com eles a posições contrárias.

Sete anos atrás, em São Francisco, Andrew tentara fazer o irmão ver isso, tentara fazê-lo compreender que aquilo que ele andava a fazer era errado e estúpido - e muito perigoso para o irmão, que era militar.

Regressara de dois anos e meio no delta do Mekong e com uma das melhores folhas de serviço do Exército. A sua companhia fora a que sofrera menos baixas no batalhão; tinha sido condecorado por duas vezes, não passando um mês em tenente sem que lhe impusessem os galões de capitão. Era aquele artigo raro nas forças armadas: um jovem e brilhante estrategista militar proveniente de uma família imensamente rica e influente. Ia bem lançado para altos voos - que eram o lugar que lhe competia. Tinha sido repatriado para mudar de situação, o que constituía uma outra maneira de o Pentágono dizer: «Esse é dos nossos. Fiquem de olho nele. Esplêndida e sólida matéria-prima futura para o Conselho de Chefes dos Estados-Maiores. Mais umas comissões em zona de campanha - e é o War College».

O Pentágono nunca perdia nada em privilegiar um homem como ele, especialmente quando se justificava. O Exército precisava de homens e famílias poderosas: tinha pouquíssimos.

Porém, independentemente daquilo que o Pentágono privilegiava, ou o Exército precisava, tinham aparecido agentes da G21 quando ele se apeara daquele avião na Califórnia havia sete anos. Tinham-no conduzido a um gabinete, passando-lhe um jornal de há dois meses. Na segunda página vinha um artigo acerca de uma insurreição no Presídio Militar de São Francisco. A acompanhar o artigo apareciam fotografias dos distúrbios, uma delas mostrando um grupo de civis desfilando em apoio às praças amotinadas. Um rosto fora circundado a lápis vermelho.

Era Adrian. Parecia impossível, mas lá estava ele! Não era de esperar que ali estivesse: encontrava-se no último ano do curso de Direito. Em Boston. Mas não estava em Boston: estava em São Francisco, albergando três desertores condenados que haviam fugido: fora isso que os homens da G2 haviam dito. O seu irmão gémeo estava a trabalhar para o inimigo! Com os diabos, era isso que eles eram e era isso que ele andava a fazer! O Pentágono não havia de achar grande piada àquilo. Jesus! O irmão! O seu irmão gémeo!

De forma que a G2 o levara de avião para o norte e, à paisana, ele deambulara pelas ruas de Haight-Ashbury até encontrar Adrian.

- Aquilo não são homens, são miúdos baralhados - dissera o irmão num bar sossegado. - Nem sequer lhes disseram nunca quais eram as suas alternativas legais: foram metidos na cadeia sob falsos pretextos.

- Prestaram juramento como todos os outros. Não se podem abrir excepções - contrapusera Andrew.

- Ora, com franqueza! Dois deles não sabiam o que significava esse juramento, e o outro mudou genuinamente de ideias. Mas ninguém quer ouvir. Os

 

' Sigla pela qual é conhecida a Secção de Informações dos Estados-Maiores. (N. do T.)

 

juizes auditores querem exemplos, e os advogados de defesa não estão para fazer ondas.

- Às vezes têm de dar-se exemplos - insistira o militar.

- E a lei diz que eles têm direito a uma defesa competente. Não a compinchas de copos das casernas que querem causar boa impressão...

- Deixa-te disso, Adrian! - interrompeu ele. - Lá fora há uma guerra! O fogo é real! Filhos da mãe como esses custam vidas!

- Se estiverem cá, não.

- Ai, isso é que custam! Porque há-de haver outros que começarão a perguntar a si próprios por que razão estão lá.

- E talvez devam fazê-lo.

- Por amor de Deus, estás a falar de direitos, não estás? - perguntou o militar.

- Podes ter a certeza de que estou.

- Bem, e então o pobre filho da mãe em patrulha num arrozal não os tem? Talvez ele não soubesse no que se estava a meter; limitou-se a ir com os outros porque a lei dizia que tinha de ir. Talvez ele tenha mudado de ideias. Mas não tem tempo para pensar nisso: está a tentar manter-se vivo. Começa a ficar confundido, torna-se desleixado e deixa-se matar!

- Não podemos chegar a toda a gente; é um dos lapsos da lei, um abuso incorporado no sistema. Mas fazemos o que podemos.

Adrian recusara-se a dar-lhe qualquer informação sete anos atrás. Negara-se a dizer-lhe onde se escondiam os desertores. Assim, o militar despedira-se no bar sossegado e esperara numa viela de São Francisco até o irmão sair. Seguira Adrian durante três horas através das ruas da droga. O militar era um especialista em seguir a pista de patrulhas perdidas na selva; São Francisco era apenas uma selva mais.

O irmão contactou com um dos desertores a cinco quarteirões da baía. O rapaz, um negro, era alto e com a barba crescida e condizia com a fotografia que Andrew tinha no bolso. O seu gémeo deu dinheiro ao desertor; foi simples questão de seguir o negro até junto da baía, rumo a um sórdido prédio de apartamentos, que era um esconderijo tão bom como qualquer outro da zona.

Foi feito o telefonema à Polícia Militar. Dez minutos decorridos, três desertores condenados eram arrancados ao sórdido prédio de apartamentos para passarem oito anos na choldra.

O bando de inadaptados entregou-se ao seu trabalho: juntaram-se as turbas, guinchando os seus epítetos, bamboleando-se ao ritmo dos seus inúteis cânticos de adolescentes. E atirando os seus sacos de plástico de excrementos.

O irmão aproximou-se dele nessa noite, no meio da multidão, e durante um prolongado espaço de tempo limitou-se a fitá-lo. Finalmente disse:

- Impeliste-me a regressar. Obrigado.

A seguir, Adrian tinha-se afastado velozmente para as barricadas dos pretensos revolucionários.

As reflexões de Andrew foram interrompidas por Al Winston, de seu nome originário Weinstein, um engenheiro que tinha uma empresa aerospacial. Winston chamara-o pelo nome e caminhava na sua direcção. Al Winston tinha grande peso nos contratos da Força Aérea e vivia nos Hamptons. Andrew não gostava de Winston-Weinstein. Sempre que o encontrava lembrava-se de outro judeu - e comparava-os. O judeu em que pensava estava colocado no Pentágono, depois de quatro anos nas piores zonas do delta. O capitão Martin Greene era um filho da mãe teso, um grande soldado - e não um flácido Winston-Weinstein dos Hamptons. E Greene não extorquia lucros através de sobrefacturações; em lugar disso vigiava-as, catalogava-as. Marty Greene era um deles. Pertencia ao Corpo de Vigilantes.

- Muitos parabéns, major - disse Winston, erguendo o copo.

- Obrigado, Al. Como vai?

- Iria bem melhor se pudesse vender alguma coisa à vossa rapaziada. Não recebo apoio das forças terrestres. - Winston arreganhou os dentes num sorriso.

- Governa-se bastante bem com o que não é terrestre. Li que está metido no contrato da Grumman.

- Migalhas. Tenho um dispositivo de orientação por laser que pode ser adaptado à artilharia pesada. Mas não consigo lá chegar.

Andrew divertiu-se com a ideia de mandar Winston-Weinstein falar com Martin Greene. Quando Greene o despachasse, Al Winston havia de desejar nunca ter ouvido falar no Pentágono.

- Verei o que posso fazer. Não estou nas aquisições...

- Eles a si dão-lhe ouvidos, Andy.

- Nunca pára de trabalhar, Al.

- A casa é grande, as contas também e a miudagem é ruim - Winston voltou a arreganhar os dentes num sorriso, e a seguir parou de sorrir o tempo suficiente para fazer chegar o recado ao seu destino. - Dê lá uma palavrinha a meu respeito. Eu farei com que lhe valha a pena.

- Com quê? - perguntou Andrew, deixando vaguear a vista pela arrecadação dos barcos, o Chris-Craft e os barcos à vela na água. - Dinheiro?

O sorriso largo de Winston voltou, agora nervoso, atrapalhado.

- Não se ofenda - disse brandamente o engenheiro.

Andrew fitou o judeu, voltando a pensar no capitão Martin Greene e na diferença entre os dois homens.

- Não me ofendo - disse, afastando-se.

Senhor! A seguir a.osfreaks, detestava os corruptores! Não, isso não era verdade. A seguir aos corruptores, detestava os que se deixavam corromper. Estavam em toda a parte. Sentados em salas de conselho, a jogarem golfe nos campos da Geórgia e de Palm Springs, a tratarem-se à grande e à francesa nos clubes campestres de Evanston e Grosse Pointe. Eram capazes de vender a sua posição!

Coronéis, generais, capitães de mar-e-guerra, almirantes. Toda a amaldiçoada instituição militar estava enxameada de um novo bando de ladrões. Homens que piscavam o olho e sorriam e apunham a sua assinatura em pareceres de comissões, em despachos favoráveis sobre aquisições, em contratos, em sobrefacturações. Porque havia entendimentos estabelecidos. O general de brigada de hoje era o «consultor» ou o «representante de Washington» de amanhã.

Senhor! Era fácil odiar! Os inadaptados, os corruptores, os corruptos...

Fora por essa razão que se constituíra o Corpo de Vigilantes. Um grupo muito reduzido e seleccionado de oficiais que estavam fartos até aos cabelos da apatia, da corrupção e da venalidade que reinavam em todos os ramos das forças armadas. O Corpo de Vigilantes era a resposta, o cáustico que havia de curar a doença. Porque o Corpo de Vigilantes andava a compilar registos de Saigão a Washington. Os homens do Corpo de Vigilantes estavam a juntar tudo: nomes, datas, ligações, lucros ilegais.

As chamadas vias hierárquicas que fossem para o diabo: até ao topo da cadeia de comando. Ao inspector-geral. Ao secretário do Exército. Quem é que se responsabilizava pelo comando? E pela IG? Quem é que, no seu juízo perfeito, se responsabilizaria pelos civis?

Não confiavam em ninguém. Sendo assim, seriam eles próprios a fazê-lo. Todos os oficiais generais - todos os generais de brigada e almirantes - todo aquele que tolerasse qualquer forma de desvio seria expurgado e confrontado com os seus crimes.

O Corpo de Vigilantes. Eis do que se tratava. Um punhado dos melhores oficiais jovens em campo. E um belo dia entrariam pelo Pentágono adentro e tomariam conta dele. Ninguém se atreveria a interpor-se no seu caminho. As acusações do Corpo de Vigilantes haviam de quedar-se suspensas como granadas sobre a cabeça das altas patentes. As granadas deflagrariam se eles não se pusessem a andar, deixando os lugares a homens do Corpo de Vigilantes. O Pentágono pertencia-lhes. Dar-lhe-iam novamente significado. Força. A sua força.

Adrian Fontine encostou-se ao bar e dispôs-se a escutar os jovens estudantes a discutir, consciente de que o irmão tinha os olhos cravados neles. Ergueu o olhar para Andrew: os frios olhos do militar mantinham o seu habitual desdém velado e a seguir desviaram-se, à aproximação de Al Winston, que ergueu o copo na direcção do major.

Andrew estava a começar a mostrar o desdém demasiado abertamente, pensou Adrian. O irmão perdera alguma da sua bem conhecida frieza; hoje em dia as coisas ofendiam o militar com demasiada rapidez.

Meu Deus, como tinham mudado de opiniões relativamente um ao outro! Antigamente haviam sido muitíssimo chegados. Os gémeos... irmãos, gémeos, amigos. Os gémeos eram os melhores! E a certa altura - ainda na adolescência, na escola preparatória -, tudo principiara a mudar. Andrew começara a pensar que era melhor do que os melhores e Adrian principiara a ficar menos que convencido de que era capaz. Andrew nunca punha as suas capacidades em questão; Adrian não estava bem certo de possuir muitas.

Hoje tinha essa certeza. Os terríveis anos de indecisão eram coisa do passado; experimentara a incerteza e encontrara o seu próprio caminho. Graças em larga medida ao seu positivíssimo irmão, o militar.

E hoje, no aniversário de ambos, teria de confrontar-se com o irmão e fazer-lhe perguntas bem perturbantes. Perguntas que iriam direitas ao âmago da força de Andrew, por mais vigilante que ele estivesse.

Vigilante? Vinha mesmo a propósito, mas noutra acepção.

«Corpo de Vigilantes» era o nome que eles haviam de desvendar. O irmão estava na lista. Oito elitistas iludidos que ocultavam as provas para os seus próprios fins. Um reduzido grupo de oficiais que se tinham convencido de que deviam dirigir o Pentágono através daquilo que redundava em chantagem. A

 

' O trocadilho original é estabelecido com base na pronúncia equivalente das palavras inglesas Corps (Corpo) e core (âmago). Dada a manifesta impossibilidade de reproduzir ojogo de palavras em português, tentou-se não o deturpar demasiado, ou pelo menos não o eliminar completamente, através desta adaptação. (N. do T.)

 

situação poderia ser cómica, apenas com a diferença de que as provas existiam e o Corpo de Vigilantes tinha-as. O Pentágono não estava imune à manipulação pelo medo. O Corpo de Vigilantes era perigoso: havia que extirpá-lo.

Contentar-se-iam com isso. Entregariam uma intimação colectiva aos advogados do Exército e deixá-los-iam tratar calmamente dela. Desde que os advogados do Exército lhe dessem mesmo seguimento, e não se pusessem a encobrir. Talvez não fosse altura para julgamentos desmoralizantes e longas penas de prisão. A culpa era muitíssimo generalizada e as motivações extremamente complexas. Havia, porém, uma condição irredutível. «Dispam a farda aos elitistas; façam a limpeza à vossa casa militar».

A ironia daquilo, Jesus! Em São Francisco, fora Andrew quem ditara cruamente as regras em nome da lei militar. Agora, sete anos volvidos, era ele, Adrian, quem ditava as regras. Menos cruamente, esperava ele, mas a lei não era menos específica. A acusação era obstrução à justiça.

Havia tanta coisa que mudara! Nove meses atrás, ele era ajudante do promotor de Justiça em Boston, satisfeito com o que fazia, granjeando uma reputação que podia conduzir praticamente onde quer que fosse. Granjeando-a ele próprio. Sem que lha entregassem de bandeja por ele ser Adrian Fontine, filho de Victor Fontine, Limitada, irmão do célebre major Andrew Fontine, de West Point, guerreiro sem mácula.

Fora então que um homem lhe telefonara no princípio de Outubro, convidando-o para uns copos no Bar Copely ao fim da tarde. Chamava-se James Nevins e era negro; era também advogado e trabalhava no Departamento de Justiça em Washington.

Nevins era o porta-voz de um pequeno contingente de advogados governamentais molestados e desafectos que se inflamavam sob a táctica do Departamento de Justiça, mais politizado de que havia memória. A frase «fala da Casa Branca» significava pura e simplesmente que estava a processar-se outra manipulação. Os advogados andavam preocupados, genuinamente preocupados. Tais manipulações estavam a conduzir o país a qualquer coisa de demasiado próximo do espectro de um estado policial.

Os advogados precisavam de auxílio. Do exterior. De alguém a quem pudessem transmitir as suas informações. De alguém que fosse capaz de organizar e avaliar, de constituir e sustentar um centro de comando onde se pudessem encontrar em privado e discutir os seus progressos. De alguém, em suma, que fosse imune a pressões. Por razões mais ou menos óbvias, havia um tal Adrian Fontine que preenchia os requisitos. Aceitaria ele?

Adrian não quisera deixar Boston. Tinha o seu trabalho; tinha a sua rapariga. Uma rapariga ligeiramente louca, esperta, que ele adorava. Barbara Pierson, professora agregada dos Laboratórios de Antropologia da Universidade de Harvard. A do riso fácil e profundo, do cabelo castanho-claro e dos olhos castanhos-escuros. Viviam juntos havia ano e meio; não era fácil partir. Mas Barbara tinha-lhe feito as malas e pusera-o a caminho porque sabia que ele tinha de ir.

Tal como tivera de ir sete ou oito anos antes. Nessa altura fora igualmente compelido a deixar Boston. Vira-se assolado por uma depressão. Era o filho único de um pai poderoso; irmão gémeo de um homem que o Exército exibia em despachos como uma das jovens luminárias mais brilhantes das forças armadas.

Que restava? Para ele? Quem era ele?

Assim, fugira do aparato de uma vida inteira, para ver o que poderia encontrar por si mesmo. Isso era seu! Era coisa própria sua; não podia explicá-la a ninguém. E fora parar a São Francisco, onde havia uma luta, um combate que era capaz de compreender. Onde podia ajudar. Até que o guerreiro sem mácula aparecera e dera cabo do cenário.

Adrian sorriu, recordando-se da manhã seguinte à terrível noite em São Francisco. Apanhara uma bebedeira de caixão à cova e acordara em casa de um conselheiro jurídico em Cape Mendocino, mal-disposto e a vomitar.

- Se você é quem diz ser, pode fazer muito mais do que qualquer de nós - disse o advogado de Cape Mendocino nessa manhã. - Com os diabos, o meu velho era porteiro na May Company.

Nos sete anos entretanto decorridos, Adrian tentara. Mas sabia que apenas principiara.

- É uma ambiguidade constitucional! Não é verdade, Adrian?

- O quê? Desculpe, não ouvi o que disse.

Os estudantes do bar estavam a discutir entre si; agora todos os olhares estavam fixos nele.

- A liberdade de imprensa em contraposição com os juízos preconcebidos anteriores ao julgamento - disse uma jovem muito viva, embrulhando-se nas palavras.

- Creio bem que se trata de uma zona cinzenta - retorquiu Adrian. - Cada caso é julgado de per si.

Os jovens queriam mais do que aquilo que ele lhes dera, de forma que recomeçaram a gritar uns com os outros.

Uma zona cinzenta. O Corpo de Vigilantes de Saigão ainda há uma semana era uma zona cinzenta. Tinham chegado a Washington boatos de que um pequeno quadro de jovens oficiais superiores andava regularmente a molestar praças nas docas e armazéns, insistindo em cópias de manifestos de carga e relações de destinos. Pouco depois, num dos inúmeros casos de antitrust indiferentemente conduzidos na Justiça, registou-se a alegação por parte de um queixoso de que tinham sido roubados documentos dos escritórios da empresa em Saigão, desse modo constituindo provas ilegalmente obtidas. O caso seria arquivado.

Os advogados da Justiça perguntavam a si próprios se haveria alguma relação entre o estranho grupo de oficiais que esquadrinhavam os manifestos de carga e empresas com contratos do Pentágono. Teriam os militares ido tão longe? A conjectura fora suficiente para enviar Jim Nevins a Saigão.

O advogado negro encontrou aquilo que procurava num armazém da área de carga de Tan Son Nhut. Um funcionário apanhado em flagrante a transcrever ilegalmente informações relacionadas com segurança sobre fornecimentos de armamento. Ameaçado, o funcionário fora-se abaixo, e o Corpo de Vigilantes tinha sido totalmente exposto como aquilo que era. Havia oito funcionários; o homem apanhou os nomes de sete. O oitavo estava em Washington, era tudo quanto sabiam.

Andrew Fontine encabeçava a lista dos identificados.

O Corpo de Vigilantes. Boa gente, pensou Adrian. Precisamente aquilo de que o país precisava: tropas de assalto lançadas à salvação da pátria.

Sete anos antes em São Francisco o irmão não lhe tinha feito qualquer aviso antes de a acção ser desencadeada e as sereias começarem a soar em Haight-Ashbury. Adrian seria mais compreensivo. Ia dar cinco dias a Andrew. Não haveria sereias nem túmullos... nem sentenças de oito anos de choldra. Mas o célebre major Andrew Fontine abandonaria o Exército.

E, embora o trabalho em Washington não estivesse nem perto de achar-se concluído, Adrian regressaria a Boston por uns tempos. Voltaria para Barbara.

Estava cansado. E repugnado com o que o esperava daí a uma hora, ou coisa assim. A dor era autêntica. Fosse Andrew aquilo que fosse, era seu irmão.

Os últimos convidados tinham saído. Os músicos estavam a arrumar os instrumentos e os fornecedores limpavam o relvado. O céu começava a escurecer, tanto devido às nuvens ameaçadoras sobre as águas como por causa da aproximação do anoitecer.

Adrian atravessou o relvado até aos degraus de laje e desceu à arrecadação dos barcos. Andrew estava à sua espera; dissera ao militar para o esperar ali.

- Feliz aniversário, advogado - disse Andrew quando Adrian cruzou a porta dos barcos. O militar encostou-se à parede, de braços cruzados, a fumar um cigarro.

- Igualmente - respondeu Adrian, detendo-se na borda da rampa. - Passas cá a noite?

- E tu? - perguntou Andrew.

- Estava a pensar que era capaz disso. O velho está com bastante mau aspecto.

- Nesse caso não fico eu - disse delicadamente o militar.

Adrian fez uma pausa; sabia que o irmão esperava que ele falasse. Não sabia ao certo como principiar, de forma que, em alternativa, olhou em redor da arrecadação dos barcos.

- Divertimo-nos aqui à grande.

- Estavas em maré de recordações? Foi por isso que me pediste para vir até aqui?

- Não... Quem me dera que fosse assim tão simples! O militar lançou o cigarro à água com um piparote.

- Ouvi dizer que deixaste Boston. Que estás em Washington.

- Estou. Por uns tempos. Estou sempre a pensar que somos capazes de dar de caras um com o outro.

- Duvido - contrapôs o major, sorrindo. - Não frequentamos os mesmos círculos. Estás a trabalhar numa firma do distrito de Colúmbia?

- Não. Acho que se pode dizer que sou um consultor.

- Esse é o melhor emprego de Washington.. - A voz de Andrew continha laivos de sereno desdém. - Quem estás tu a aconselhar?

- Umas pessoas que andam muito preocupadas...

- Ah, uma associação de consumidores; olha que bonito! - Era uma afirmação insultuosa. - Que bom!

Adrian olhou fixamente o irmão; o militar devolveu-lhe a mirada.

- Não me descartes, Andy. Não estás em posição de o fazer. Estás em dificuldades. Não estou aqui para te ajudar, não posso fazer isso. Estou aqui para te advertir.

- De que diabo estás tu a falar? - perguntou brandamente o major.

- Um dos nossos homens recolheu o depoimento de um oficial em Saigão. Temos uma declaração completa acerca das actividades de um grupo de oito homens que se intitula Corpo de Vigilantes.

Andrew endireitou-se de chofre contra a parede, de rosto aflito, os dedos retesados, imóvel. Dir-se-ia paralisado; falou numa voz que pouco mais era que um sussurro, destacando bem as palavras.

- Quem vem a ser esse «nós»?

- Não tardarás a saber a origem. Está na intimação.

- Intimação?

- Sim. O departamento de Justiça, uma divisão de especialistas. Não te vou nomear os advogados em particular, mas dir-te-ei que o teu nome encabeçava a lista do Corpo de Vigilantes. Sabemos que são oito; sete foram identificados e o oitavo está no Pentágono. Nas aquisições. Havemos de encontrá-lo.

Andrew conservou-se na mesma posição, encostado à parede; tudo nele se mantinha imóvel, excepto os músculos dos maxilares, que se moviam lenta e continuamente. Uma vez mais, a sua voz soou baixo, em tom comedido:

- Que fizeram vocês? Que fizeram vocês, seus filhos da mãe?

- Detivemo-vos - respondeu Adrian com simplicidade.

- Que sabem vocês? Que foi que vos disseram?

- A verdade. Não temos razões para duvidar dela.

- Para uma intimação são precisas provas.

- São precisas causas prováveis. E essas, temo-las.

- Um depoimento! Nada!

- Hão-de seguir-se outros. Que diferença faz? Vocês estão arrumados. A voz de Andrew acalmou-se. Falou em tom formal:

- Há oficiais que se queixam. Em toda a parte, todos os dias há oficiais que se queixam...

- Desta maneira, não. Não há fronteira equívoca entre queixas e chantagem. É muito definida, muito distinta. Vocês cruzaram-na.

- Com quem é que nós fizemos chantagem? - perguntou Andrew. - Com ninguém!

- Foram mantidos registos, sonegaram-se provas; a intenção foi clara. Está no depoimento.

- Não há quaisquer registos!

- Ora vamos, eles hão-de estar algures - disse fatigadamente Adrian. - Mas, repito, quem é que quer saber disso? Vocês estão arrumados.

O militar mexeu-se, respirou fundo e postou-se erecto contra a parede.

- Escuta-me - disse baixinho, numa voz tensa. - Não sabes o que estás a fazer. Dizes que és consultor de homens que andam preocupados. Ambos sabemos o que isso quer dizer; somos os Fontine. Quem é que precisa de recursos quando nos tem a nós?

- Não é assim que eu o vejo - atalhou Adrian.

- É a verdade! - gritou o militar. E logo baixou a voz: - Não tens de dizer com todas as letras aquilo que andas a fazer; isso já os jornais de Boston fizeram. Vocês desmascaram os tipos importantes, os direitos adquiridos, é como vocês lhes chamam. São bons. Bem, que diabo pensas tu que eu ando a fazer? Também andamos a desmascará-los. Detenham o Corpo de Vigilantes e liquidam os melhores jovens oficiais em campo, homens que querem extirpar o.

lixo! Não faças isso, Adree! Junta-te a nós! A sério.

- Juntar-me... - Adrian repetiu incredulamente a palavra. A seguir acrescentou baixinho: - Não estás bom da cabeça. O que é que te leva a pensar que isso seja realmente possível?

Andrew afastou-se um passo da parede; tinha os olhos cravados no irmão.

- É que queremos a mesma coisa.

- Isso é que não queremos.

- Pensa, pelo amor de Deus! «Direitos adquiridos». Tu usas imenso isso, «direitos adquiridos». Li o teu resumo final no caso da Tesco; passaste o tempo a repeti-lo.

- Aplicava-se. Uma companhia que é dona de muitas a estabelecer uma política única quando deveria haver concorrência. Aonde queres tu chegar?

- Tu empregas o termo pejorativamente porque é assim que o encaras. Muito bem, vou acreditar nisso. Mas sustento que há outra maneira de o ver. Pode haver bons direitos adquiridos. Como nós. Os nossos direitos não somos nós próprios: nós não precisamos de nada. Os nossos direitos são o país e os nossos recursos são consideráveis. Estamos em posição de fazer alguma coisa. E estou a fazê-lo. Pelo amor de Deus, não me detenhas!

Adrian afastou-se do irmão e caminhou sem objectivo pelas tábuas molhadas da arrecadação dos barcos, em direcção à enorme abertura que conduzia à água. As ondas embatiam contra a estacaria.

- És muito fluente, Andy. Foste sempre muito fluente, muito seguro e verdadeiramente confiante. Mas não vai resultar. - Virou-se de novo e enfrentou o militar diagonalmente, do outro lado da rampa. - Dizes tu que não precisamos de nada. Eu acho que precisamos; precisamos... queremos... ambos qualquer coisa. E aquilo que tu queres atemoriza-me porque faço uma ideia de qual seja o teu conceito de melhor. Francamente, causa-me um medo tremendo. A ideia de os vossos «melhores oficiais superiores» a controlarem o equipamento deste país é o suficiente para me pôr a correr direito à biblioteca a fim de reler a Constituição.

- Isso é uma palermice arrogante! Tu não os conheces!

- Conheço a maneira como eles operam, a maneira como tu operas. Se isso te faz sentir melhor, em São Francisco fazias algum sentido. Eu não gostei, mas reconhecia-o. - Adrian voltou para trás, pela rampa adiante. - Agora não estás a fazer sentido, e é por isso que estou a advertir-te. Salva o que puderes do pescoço; devo-te pelo menos isso. Sai o mais honrosamente que te seja possível.

- Não me podes obrigar - disse Andrew incisivamente. A minha folha de serviços é das melhores. Quem diabo és tu? Um miserável depoimento de um oficial descontente em zona de campanha. Balelas!

- Vou dizer-to com todas as letras! - Adrian deteve-se junto à porta da arrecadação dos barcos, erguendo a voz: - Daqui a cinco dias (na sexta-feira próxima, para ser preciso) será apresentada uma intimação colectiva ao ajudante-geral dos Tribunais de Justiça Militar. Ele vai ter o fím-de-semana para negociar as suas disposições. As disposições podem ser negociadas, mas há uma condição irrevogável. Vocês vão-se embora! Todos.

O militar adiantou-se e a seguir parou, com o pé na borda da rampa, como se estivesse prestes a saltar por cima dela, precipitando-se sobre o inimigo. Dominou-se; sentia-se como assolado e percorrido por vagas de fúria.

- Eu podia... matar-te - sussurrou. - És tudo quanto desprezo.

- Suponho que sim - disse Adrian, fechando os olhos por breves instantes e esfregando-os, de cansaço. - O melhor é seguires para o aeroporto - continuou, agora olhando para o irmão. - Tens uma porção de coisas a fazer. Sugiro que comeces por essa chamada prova que tens estado a guardar para ti. Consta-nos que andas a reuni-la há quase três anos, com os diabos! Fá-la chegar às autoridades competentes.

Em enfurecido silêncio, o militar avançou com rápidas passadas, contornando a rampa, passando por Adrian e encaminhando-se para os degraus da arrecadação dos barcos. Principiou a subir, galgando as escadas de laje a duas e duas.

Adrian deslocou-se rapidamente até à porta, fazendo parar o irmão à beira do relvado.

- Andy!

O militar quedou-se imóvel. Mas não se voltou nem falou. Assim, o advogado prosseguiu:

- Admiro a tua força, sempre a admirei. Da mesma maneira que admiro a do pai. Tu és parte dele, mas não és todo ele. Falta-te qualquer coisa, de forma que vamos a ver se nos entendemos. És tudo quanto eu considero perigoso. Acho que isso quer dizer que és tudo quanto eu desprezo.

- Nós entendemo-nos um ao outro - disse Andrew, repetindo monocordiamente as palavras. Principiou a subir o relvado em direcção à casa.

Os músicos e o restante pessoal foram-se embora. Andrew foi conduzido ao aeroporto de La Guardia. Havia um avião às nove horas para Washington.

Adrian permaneceu na praia durante perto de meia hora após a partida do irmão. Finalmente subiu vagarosamente até casa a fim de falar com os pais. Dissera-lhes que tencionava passar lá a noite, mas agora achava que devia ir-se embora. Tinha de regressar a Washington.

- Devias ter ido com o teu irmão - disse Jane, na porta da frente.

- Pois devia - disse Adrian com brandura. - Não pensei nisso. Despediu-se.

Quando ele saiu, Jane foi para o terraço, levando consigo a carta trazida pelo padre. Estendeu-a ao marido, incapaz de esconder o temor.

- Um homem trouxe isto. Era um padre. Disse que vinha de Roma. Victor ergueu o olhar para a mulher. Não havia qualquer comentário nos

seus olhos, mas, pela sua ausência, era como se houvesse.

- Porque esperaste?

- Porque era o aniversário dos teus filhos.

- Eles são dois estranhos um para o outro - observou Fontine, pegando no sobrescrito. - São ambos meus filhos, mas estão muito afastados um do outro.

- Não há-de durar. É a guerra.

- Espero que tenhas razão - disse Victor, abrindo o sobrescrito e retirando a carta. Enchia várias folhas, numa caligrafia miúda mas precisa. - Conhecemos um homem chamado Aldobrini?

- Quem?

- Guido Aldobrini. É a assinatura. - Fontine ergueu a última página.

- Acho que não - respondeu Jane, sentando-se na cadeira mais próxima, com os olhos no céu ameaçador. - Consegues ver com esta luz? Está a escurecer.

- É suficiente. - Victor pôs as páginas por ordem e principiou a ler.

Signor Fontini-Cristi:

O senhor não me conhece, embora nos tenhamos encontrado há muitos anos. Esse encontro custou-me a melhor parte da vida. Passei mais de um quarto de século no Transval em piedosa penitência por um acto indigno. Eu propriamente não lhe toquei, mas não levantei a voz Para clamar por misericórdia, o que foi um acto indecoroso e ímpio.

Sim, signore, eu era um dos sacerdotes que estavam com o cardeal Donatti naquela

madrugada em Campo di Fiori. Por aquilo que julgávamos ser a preservação da Madre Igreja de Cristo, o cardeal convenceu-nos de que não havia leis de Deus ou de misericórdia que se interpusessem entre as nossas acções e a preservação da Igreja de Deus. Toda a nossa formação escolástica e juramento de obediência - não só aos nossos superiores, mas à autoridade suprema da consciência -foram desvirtuados por força da influência de Donatti. Passei vinte e cinco anos a tentar compreender, mas isso é outra história que não vem ao caso. Seria preciso conhecer o cardeal para entender.

Abandonei o hábito. As doenças das florestas africanas cobraram o seu tributo, e, graças sejam dadas a Deus, não temo a morte. Porque me dei tão inteiramente quanto soube. Estou purificado e aguardo o julgamento de Deus.

Antes de enfrentar o nosso misericordioso Senhor, porém, há uma informação que devo transmitir-lhe, pois ocultá-la agora não seria pecado menor do que aqueles pelos quais cumpri a santa penitência.

A obra de Donatti prossegue. Um homem, um dos três sacerdotes despadrados que foram condenados à prisão pelo tribunal civil devido ao ataque contra si perpetrado, foi posto em liberdade. Como porventura saberá, um pôs termo à vida e o outro morreu de morte natural durante o encarceramento. Este terceiro homem sobreviveu e, por motivos que ultrapassam o meu entendimento, dedicou-se novamente à procura dos documentos de Salónica. Digo que ultrapassam o meu entendimento porque o cardeal Donatti foi desacreditado nos mais elevados círculos do Vaticano. Os documentos gregos não podem afectar a Santa Madre Igreja. A revelação divina não pode ser transgredida pela mão dos mortais.

Esse sacerdote despadrado dá pelo nome de Enrici Gaetamo e tomou o uso do colarinho que lhe foi denegado por decreto apostólico. Ao que sei, os anos que passou na instituição penal em nada contribuíram para iluminar-lhe a alma ou mostrar-lhe os caminhos de um Cristo misericordioso. Pelo contrário, consta-me que é uma encarnação de Donatti. Um homem a temer.

Presentemente investiga minuciosamente todos os pormenores que consegue descobrir relativamente ao comboio de Salónica de há trinta e três anos. As suas viagens levaram-no dos estaleiros de Edessa, passando pelos Balcãs e pelas ligações ferroviárias para lá de Monfalcone, até às regiões alpinas do norte. Procura todos quantos possa encontrar que tenham conhecido o filho de Fontini-Cristi. É um homem possesso, que subscreve o código de Donatti. Não existe lei divina ou humana capaz de interferir com a sua «jornada para Cristo», como ele a define. E tão-pouco revela a quem quer que seja o objectivo da sua jornada. Mas eu sei-o, e agora o senhor sabe-o também. E pouco falta para que eu me despeça desta vida.

Gaetamo reside numa pequena choupana de caçadores nos montes de Varese. Estou certo de que não lhe escapará a proximidade de Campo di Fiori.

É tudo quanto posso dizer-lhe; é tudo quanto sei. Que ele há-de tentar contactar consigo, tenho a certeza. Que o senhor esteja precavido e permaneça seguro nas mãos de Deus, é a minha prece.

Com arrependimento e pesar pessoal pelo meu passado, sou, Guido Aldobrini

Ouviu-se um trovão. Fontine fez votos para que disso não adviesse qualquer simbolismo. Agora havia nuvens por cima deles; o sol desaparecera e principiara a chover. Olhou para Jane. Estava a fitá-lo; de algum modo, tinha-lhe comunicado a sua profunda inquietação.

- Vai para dentro- disse ele com suavidade. - Eu já lá vou ter, daqui a um minuto ou dois.

- A carta...?

- Claro. - Respondeu à muda pergunta dela ao mesmo tempo que tornava a meter as folhas no sobrescrito e lho estendia. - Lê-a.

- Vais ficar encharcado. A chuva vai-se tornar mais intensa.

- É refrescante; bem sabes que gosto da chuva. Ergueu o rosto sorridente para ela: - Depois talvez me ajudes a mudar o colete enquanto conversamos.

Ela manteve-se de pé, numa posição sobranceira a ele, durante um momento, e ele sentiu-lhe os olhos cravados em si. Porém, como sempre, deixava-o sozinho quando ele queria.

Sentia-se gelado pelos pensamentos, que não pela chuva. A carta de Aldo-brini não constituía a primeira vez que Salónica ressurgia. Não contara nada a Jane, pois não havia nada de concreto, apenas uma série de acontecimentos obscuramente perturbantes e aparentemente desprovidos de significado.

Três meses atrás fora a Harkness para mais uma operação correctiva.Vários dias depois da intervenção, recebera um visitante cuja aparição o sobressaltara: um monsenhor da Arquidiocese de Nova Iorque. O nome era Land, dissera ele. Regressara aos Estados Unidos depois de muitos anos em Roma e quisera conhecer Victor por causa de informações que se lhe depararam nos arquivos do Vaticano.

O eclesiástico fora solícito; o que surpreendera Fontine fora o facto de o clérigo saber muita coisa sobre a sua condição física, muito mais do que um visitante acidental poderia saber.

Tinha sido uma meia hora singular. O sacerdote era um estudioso de História, ao que dizia. Encontrara documentos de arquivo que levantavam questões profundamente perturbadoras entre a casa dos Fontini-Cristi e o Vaticano. Questões históricas que haviam conduzido ao rompimento entre os padroni do norte e a Santa Sé. Quando Victor ficasse novamente bom, talvez pudesse discutir o passado. O passado histórico. Terminara as despedidas com uma alusão directa ao ataque a Campo di Fiori. O sofrimento e a angústia infligidos por um prelado tresloucado não podiam ser imputados à alma da Igreja, dissera.

Cerca de cinco semanas mais tarde, houvera um segundo incidente. Victor estivera no seu escritório de Washington a fim de depor perante uma comissão do Congresso que investigava as concessões fiscais de que gozavam os armadores americanos que navegavam sob bandeira paraguaia, quando o seu inter-comunicador dera sinal.

- Mister Fontine. Está aqui Mister Theodore Dakakos. Diz que quer apresentar os seus respeitos.

Dakakos era um dos jovens gigantes entre os armadores gregos, um importante rival de Onassis e Niarchos, e bem mais estimado. Fontine disse à secretária que o mandasse entrar.

Dakakos era um homem forte, com uma expressão franca e aberta no rosto que mais poderia quadrar a um jogador de futebol americano do que a um armador milionário. Andava pelos quarenta anos; o seu inglês era preciso e a linguagem a de um estudante.

Tinha vindo a Washington de avião a fim de assistir às audiências, talvez para aprender qualquer coisa, dissera, sorrindo. Victor rira-se; a reputação de integridade de que o grego gozava só era igualada pela legenda do seu penetrante sentido do negócio. Fontine assim lhe disse.

- Tive imensa sorte. Em muito tenra idade gozei dos benefícios de ser educado por uma irmandade religiosa compreensiva mas distante.

- Teve, realmente, sorte.

- A minha família não era rica, mas servia a sua igreja, ao que me dizem. A maneira como o fazia não entendo.

O jovem magnata grego estava a insinuar qualquer coisa para lá das palavras, mas Victor não conseguia determinar o que fosse.

- Os caminhos da gratidão, tal como os de Deus, são, por conseguinte, insondáveis - disse Victor, sorrindo. - A sua reputação é excelente. Você faz jus aos que o auxiliaram.

- O meu primeiro nome é Theodore, Mister Fontine. O meu nome completo é Theodore Annaxas Dakakos. Durante o tempo de escola era conhecido por Annaxas, «o Moço». Significa isto alguma coisa para si?

- Em que aspecto?

- O nome Annaxas.

- Lidei literalmente com centenas de compatriotas seus ao longo dos anos. Acho que nunca se me deparou o nome Annaxas.

O grego mantivera-se calado durante alguns instantes. A seguir falara serenamente.

- Acredito-o.

Dakakos saíra pouco depois.

O terceiro acontecimento fora o mais estranho de todos: trouxera tão vividamente uma recordação de violência ao espírito de Fontine que o ar lhe faltara. Acontecera apenas dez dias antes, em Los Angeles. Estava no Hotel Beverly Hills para uma reunião entre duas empresas grandemente divergentes que tentavam conciliar os respectivos interesses. Ele fora convocado para salvar o que pudesse; a tarefa era impossível. Razão pela qual estava apanhar sol ao princípio da tarde, em vez de achar-se sentado numa sala do hotel a ouvir advogados tentando justificar as suas avenças. Estava a beber um Campari numa mesa junto à piscina, admirado com o número de gente bonita que aparentemente não tinha de trabalhar para ganhar a vida.

- Guten Tag, mein Herr1.

Quem falara fora uma mulher de quarenta e bastantes ou cinquenta e poucos anos, de idade bem escondida pelo aspecto próspero. Era de estatura mediana, bastante bem proporcionada, de cabelo loiro matizado. Vestia umas calças brancas justas e blusa azul. Trazia uns grandes óculos escuros de aros dourados. O seu alemão era natural, não estudado. Respondeu no seu, académico, menos natural, ao mesmo tempo que se punha desajeitadamente de pé.

- Boa tarde. Conhecemo-nos? Desculpe, mas parece que não me lembro.

- Sente-se, faça favor. É doloroso para si, bem sei.

- Sabe? Nesse caso conhecemo-nos mesmo.

 A mulher sentou-se defronte dele. Prosseguiu em inglês:

 - Pois conhecemos. Mas nessa altura não padecia de tais dificuldades. Na época era militar.

 - Durante a guerra?

 - Houve um voo de Munique para Míilheim. E uma prostituta dos campos escoltada nesse voo por três porcos da Wehrmacht. Mais porcos do que ela, tento eu convencer-me.

 

Em alemão no original: «Bom dia, senhor». (N. do T.)

 

- Meu Deus! - Fontine susteve a respiração. - Você era uma criança. Que foi feito de si?

Ela contou-lhe rapidamente. Fora levada pelos combatentes da Resistência francesa para um campo de trânsito a sudoeste de Montbéliard, onde se submetera a uma cura de desintoxicação durante vários meses e onde padecera o que o Diabo não quereria. Tentara numerosas vezes suicidar-se, mas a gente da Resistência tinha outras ideias. Haviam apostado no facto de, uma vez eliminada a toxicodependência, a sua experiência emergeria e a tornaria uma eficaz agente clandestina. Já era dura: até aí viam eles.

- Claro que tinham razão - dissera a mulher, havia dez dias, à mesa do Hotel Beverly Hills. - Mantiveram-me sob vigilância dia e noite, homens e mulheres. Os homens divertiam-se mais; os franceses nunca desperdiçam nada, pois não?

- Sobreviveu à guerra - retorquiu Fontine, sem vontade de sondar.

- Com uma batelada de medalhas. Croix de guerre, Légion d'honneur, Légion de résistance 1.

- E assim tornou-se uma grande estrela de cinema e eu fui demasiado estúpido para a reconhecer. - Victor sorriu com brandura.

- Nem por isso. Embora tenha tido ocasião de estar ligada, por assim dizer, a muita gente de primeiro plano da indústria cinematográfica.

- Desculpe, mas não compreendo.

- Tornei-me (correndo o risco de parecer imodesta; ainda o sou) a madame com mais êxito do Sul de França. O Festival de Cinema de Cannes proporciona por si só um rendimento suficiente para uma subsistência absolutamente satisfatória. - Foi a vez de a mulher sorrir. Era um sorriso bom, pensou Fontine. Genuíno, vivo.

- Nesse caso fico muito feliz por si. Sou suficientemente italiano para encontrar uma certa dignidade na sua profissão.

- Eu sabia que era. E que a encontraria. Estou aqui à descoberta de talentos. Teria muito prazer em satisfazer qualquer pedido seu. Está uma porção de raparigas minhas além na piscina.

- Não, obrigado. É muito amável, mas, conforme disse, já não sou o homem que era.

- Eu acho que é magnífico - disse ela com simplicidade. - Sempre achei. - Sorriu-lhe: - Tenho de me ir embora. Reconheci-o e quis falar-lhe, mais nada. - Ergueu-se da mesa e estendeu-lhe a mão. - Não se levante.

O seu aperto de mão era firme.

- Foi um prazer e um alívio) voltar a vê-la - disse ele. Ela manteve o olhar preso no dele e falou serenamente:

- Aqui há meses estive em Zurique. Encontraram-me o rasto através de um homem chamado Lúbok. E foram dar a si. Era um checo. Maricas, ao que consta. Era o homem que ia connosco no avião, não era?

- Sim. Um homem extraordinariamente corajoso, devo acrescentar. Na minha opinião, de maricas não tinha nada 2. - Victor ficara tão surpreendido

 

1 Em francês no original. (N. do T.)

2 O trocadilho original explora duas diferentes acepções da palavra inglesa queen, que além do significado literal (rainha) é um termo empregado para designar um invertido. Assim, quando a interlocutora de Fontine se refere a Lubok como sendo um queen, aquele retruca que, na sua opinião, ele é um rei (king). (N. do T.)

 

que respondera instintivamente, sem entender. Havia anos que não pensava em Lubok.

- Sim, eu lembro-me. Salvou-nos a todos. Fizeram-no ir-se abaixo. A mulher largara-lhe a mão.

- Ir-se abaixo? Acerca de quê? Meu Deus, o homem, se é vivo, tem a minha idade ou mais. Setenta ou para cima disso. Quem é que estaria interessado em homens tão velhos? De que está você a falar?

- De um homem chamado Vittorio Fontini-Cristi, filho de Savarone.

- Está a dizer disparates. Disparates que eu entendo, mas não vejo como possa isso interessar-lhe. Nem o Lúbok.

- Não sei nada mais. Nem quero saber. Em Zurique, um homem apareceu no meu hotel e fez-me perguntas a seu respeito. Naturalmente, não pude responder-lhe. O senhor era pura e simplesmente um oficial das Informações aliadas que salvou a vida a uma prostituta. Mas ele sabia de Anton Lubok.

- Quem era esse homem?

- Um sacerdote. É tudo quanto sei. Adeus, Kapitão. - Virara-se e afastara-se, acenando e sorrindo a diversas raparigas que chapinhavam na piscina e riam demasiado ostensivamente.

Um sacerdote. Em Zurique.

«... Procura todos quantos possa encontrar que tenham conhecido o filho de Fontini-Cristi...»

Agora compreendia o enigmático encontro à beira da piscina em Los Angeles. Um sacerdote tinha sido posto em liberdade após perto de trinta anos de prisão e ressuscitara a perseguição aos documentos de Constantino.

«A obra de Donatti prossegue», dizia a carta. «Presentemente investiga minuciosamente todos os pormenores que consegue descobrir... As suas viagens levaram-no dos estaleiros de Edessa, passando pelos Balcãs... para lá de Monfalcone, até às regiões alpinas do norte.

Procura todos quantos possa encontrar que tenham conhecido o filho de Fontini-Cristi».

E a milhares de quilómetros, na cidade de Nova Iorque, outro sacerdote - esse em pleno exercício - aparece num quarto de hospital e fala de um acto bárbaro que não podia ser dissociado daqueles documentos. Perdidos há três décadas e ainda procurados.

E em Washington, um jovem gigante da indústria entra num gabinete e, sem qualquer razão aparente, diz que a família servia a Igreja de formas que ele não entendia.

«... Tive... os benefícios... por uma irmandade religiosa compreensiva mas distante...»

A Ordem de Xenope. De súbito, tudo se tornava extremamente claro.

Nada era coincidência.

Regressara. O comboio de Salónica atravessara trinta anos de sono e despertara novamente. Tinha de ser dominado antes que os ódios colidissem, antes que os fanáticos transformassem a busca numa guerra santa, como haviam feito três décadas atrás. Victor sabia que devia isso ao pai, à mãe, aos entes queridos chacinados sob as brancas luzes de Campo di Fiori; aos que haviam morrido em Oxfordshire. A um jovem frade transviado, de seu nome Petride, que pusera termo à vida numa vertente rochosa em Loch Torridon; a um homem chamado Teague; a um resistente chamado Lúbok; a um velho chamado Guido Barzini que o tinha salvo de si próprio.

Não podia permitir-se que a violência regressasse.

A chuva caía agora com mais força, em torrentes diagonais batidas pelo vento. Fontine estendeu a mão para a cadeira de ferro forjado junto de si e pôs-se penosamente de pé, com o braço fincado na cinta de aço da bengala.

Ficou de pé no terraço, a olhar para a água. O vento e a chuva aclararam-lhe o espírito. Sabia o que tinha a fazer, onde tinha de ir.

Aos montes de Varese.

A Campo di Fiori.

O grande carro aproximou-se dos portões de Campo di Fiori. Victor olhou fixamente pela janela, ciente do espasmo nas costas: o olhar registava, o espírito evocava.

A sua vida fora alterada, com sofrimento, no trecho de terreno a seguir aos portões. Tentou dominar a recordação; não conseguia eliminá-la. As imagens que observava eram arredadas pelos olhos do espírito e substituídas por fatos negros e colarinhos brancos.

O carro atravessou os portões; Victor reteve a respiração. Tinha vindo de Paris para Milão por via aérea o mais discretamente possível. Em Milão alojara-se num quarto de pessoa só no Albergo Milano, inscrevendo-se simplesmente como V. Fontine, cidade de Nova Iorque.

Os anos tinham surtido o seu efeito. Não houve sobrancelhas erguidas nem relances de curiosidade; o nome não desencadeava surpresas. Trinta anos atrás, um Fontine ou um Fontini em Milão seria razão suficiente para comentários. Hoje em dia não.

Antes de partir de Nova Iorque procurara uma única informação - qualquer outra poderia ter causado alarme. Tinha-se documentado sobre a identidade dos proprietários de Campo di Fiori. A compra fora feita havia vinte e sete anos; desde então não houvera transferência de propriedade. No entanto, o nome não tinha impacte em Milão. Ninguém ouvira falar dele.

«Baricours, Père et Fils». Uma empresa franco-suíça nosarredores de Grenoble, eis o que diziam os papéis de transmissão. Contudo, não havia nenhum Baricours, Père et Fils em Grenoble. Não se conseguiam obter pormenores sobre o advogado que negociara a venda, o qual morrera em 1951.

O automóvel deixou para trás o talude, penetrando no largo de entrada fronteiro à casa principal. Ao espasmo nas costas de Victor aliava-se uma aguda sensação de picada por detrás dos olhos; latejava-lhe a cabeça ao entrar de novo no recinto da execução.

Apertou o pulso e enterrou os dedos na própria carne. A dor ajudou: conseguiu olhar pela janela e ver o que ali estava agora, e não trinta e três anos atrás.

O que viu foi um mausoléu. Morto, mas cuidado. Tudo estava como era, mas não para os vivos. Até os raios alaranjados do sol-poente tinham qualquer coisa de morto: majestosamente ornamentais, mas sem vida.

- Não há encarregados da propriedade nem homens nos portões? - perguntou.

O motorista virou-se no assento.

Esta tarde, não, padrone - respondeu. - Não há guardas. Nem sacerdotes da Cúria.

Fontine precipitou-se para diante no assento; a bengala de metal escorregou-lhe. Ficou a olhar para o motorista.

- Fui intrujado.

- Observado. Aguardado. Intrujado, propriamente, não. Lá dentro, está um homem à sua espera.

- Um homem?

- Sim.

- O nome dele será Enrici Gaetamo?

-Já lhe disse que não há aqui sacerdotes da Cúria. Por favor, entre. Precisa de ajuda?

- Não, eu cá me arranjo. - Victor apeou-se vagarosamente do carro, cada movimento uma luta, a dor nos olhos abrandando, o espasmo nas costas a atenuar-se. Compreendeu. O seu espírito estava a sintonizar-se de novo. Tinha vindo a Campo di Fiori em busca de respostas. Para uma confrontação. Mas não esperara que fosse daquele modo.

Subiu os amplos degraus de mármore até à porta de carvalho da sua infância. Parou e esperou por aquilo que pensava ser inevitável: uma sensação de desgosto avassalador. Mas ela não surgiu, pois não existia vida ali.

Ouviu o acelerar do motor atrás de si e virou-se. O condutor tinha feito o carro entrar na curva e deixara atrás de si o talude, entrando no caminho que seguia para o portão principal. Quem quer que fosse, queria pôr-se ao fresco o mais rapidamente possível.

Enquanto observava, Victor ouviu o som metálico de um fecho. Virou-se novamente para a enorme porta de carvalho: tinha-se aberto.

O choque era impossível de esconder. E tão-pouco se deu ao trabalho de o esconder. A fúria dentro de si recrudescia: todo o seu corpo tremia de raiva.

O homem que estava à porta era um sacerdote! Envergando as negras vestes da Igreja. Era um homem idoso e franzino. Se não fosse esse o caso, Fontine poderia ter-se atirado sobre ele.

Ao invés, ficou a olhar para o ancião e falou serenamente.

- O facto de estar um sacerdote nesta casa é extremamente doloroso para mim.

- Lamento que pense assim - replicou o sacerdote num italiano de estrangeiro, com voz sumida mas firme. - Nós respeitávamos muito o padrone dos Fontini-Cristi. Depusemos nas suas mãos os nossos mais preciosos tesouros.

Os olhares de ambos mantínham-se cravados um no outro; nenhum deles vacilou, mas o furor dentro de Victor foi lentamente substituído pela incredulidade.

- O senhor é grego - disse, quase inaudivelmente.

- Pois sou, mas isso não vem ao caso. Sou monge de Constantino. Entre, faça favor. - O idoso sacerdote recuou para dar passagem a Victor. Acrescentou com brandura: - Veja à vontade. Deixe os olhos divagar. Pouca coisa mudou: foram tiradas fotografias e feitos inventários de cada compartimento. Conservámos tudo tal como era.

Um mausoléu.

- Também os alemães. - Fontine passou ao enorme vestíbulo. - É estranho que aqueles que tanto fizeram para se apossarem de Campo di Fiori não queiram modificá-lo.

- Não se lapida uma grande jóia nem se desfigura uma pintura valiosa. Não há nada de estranho nisso.

Victor não respondeu. Em lugar disso, aferrou-se à bengala e caminhou penosamente até à escadaria. Deteve-se frente ao arco que dava para a enorme sala de visitas, à esquerda. Tudo estava efectivamente como dantes. Os quadros, as meias mesas encostadas às imponentes paredes, os polidos espelhos antigos por cima das mesas, os tapetes orientais que cobriam o chão encerado, a larga escadaria, cuja balaustrada reluzia.

Olhou através do arco norte para a sala de jantar. As sombras do crepúsculo derramavam-se sobre a mesa imensa, agora nua, envernizada, vazia, onde outrora se sentava a família. Visualizou-os nesse momento: ouvia mesmo as conversas e as risadas. Discussões e anedotas, conversações intermináveis: os jantares eram acontecimentos importantes em Campo di Fiori.

As figuras imobilizaram-se e as vozes desapareceram. Era tempo de desviar a vista.

Victor voltou-se. O monge fez um gesto na direcção do arco sul.

- Vamos para o escritório do seu pai?

Avançou à frente do ancião pela sala de visitas. Involuntariamente - pois não tinha vontade de dar vida às recordações -, o seu olhar tombou no mobiliário, repentinamente tão familiar. Todas as cadeiras, todos os candeeiros, todas as tapeçarias, candelabros e mesas se encontravam rigorosamente como recordava.

Fontine respirou fundo e fechou os olhos por um momento. Era macabro. Estava a percorrer um museu que em tempos fora uma parte viva da sua existência. Em determinados aspectos, tratava-se da mais cruel forma de angústia.

Prosseguiu, cruzando a porta que dava para o escritório de Savarone; nunca fora seu, embora a sua vida por pouco não tivesse terminado naquele compartimento. Atravessou a moldura da porta pela qual uma sangrenta mão decepada havia sido arremessada na penumbra.

Se houve algo que o sobressaltasse, foi o candeeiro da secretária e a luz que incidia no pavimento, coada pelo quebra-luz verde. Estava precisamente como havia três décadas. A recordação que dele guardava era nítida, pois fora a luz daquele candeeiro que se derramara sobre o crânio esfacelado de Geoffrey Stone.

- Não quer sentar-se? - perguntou o sacerdote.

- É só um minuto.

- Posso?

- Como diz?

- Posso sentar-me à secretária do seu pai? - inquiriu o monge. - Eu observei-lhe os olhos.

- A casa é sua, e a secretária também. Eu sou uma visita.

- Mas não um estranho.

- Evidentemente. Estou a falar com um representante da Baricours, Père et Fils?

O sacerdote fez um mudo aceno afirmativo. Contornou vagarosamente a secretária, puxou a cadeira e descansou nela o corpo franzino.

- Não censure o advogado de Milão; ele não podia saber. Baricours correspondia às nossas condições, assegurámo-nos disso. Baricours é a Ordem de Xenope.

- E minha inimiga - disse Victor em voz baixa. - Em mil novecentos e quarenta e dois havia um complexo do MI 6 em Oxfordshire. Vocês tentaram matar a minha mulher. Muitos inocentes perderam a vida.

- Houve decisões tomadas para além do controlo dos superiores. Os extremistas levaram a sua avante; não conseguimos detê-los. Mas não espero que o senhor aceite isso.

- E não aceito. Como soube que eu estava em Itália?

-Já não somos aquilo que éramos, mas ainda temos recursos. Há uma pessoa em particular que mantém vigilância sobre o senhor. Não me pergunte quem é, que não lho direi. Porque voltou? Decorridos trinta anos, porque voltou a Campo di Fiori?

- Para encontrar um homem chamado Gaetamo - respondeu Fontine. - Enrici Gaetamo.

- Gaetamo vive nos montes de Varese - disse o monge.

- Ele ainda anda à procura do comboio de Salónica. Partiu de Edessa, cruzou os Balcãs e atravessou a Itália até às montanhas do norte. Porque se manteve o senhor aqui todos estes anos?

- Porque a chave está aqui - retorquiu o monge. - Foi firmado um pacto. Em Outubro de trinta e nove, vim a Campo di Fiori. Fui eu quem negociou a participação de Savarone Fontini-Cristi, fui eu quem enviou um devotado sacerdote naquele comboio com o irmão, um maquinista. E reclamei a morte de ambos em nome de Deus.

Victor olhou fixamente o monge. O jorro de luz do candeeiro iluminava a carne pálida e retesada e os olhos tristes e mortiços. Fontine recordou-se do visitante do seu escritório em Washington.

- Veio ter comigo um grego dizendo que a família dele servira a Igreja em tempos de formas que ele não entendia. O irmão desse sacerdote era o maquinista, de nome Annaxas?

A cabeça do velho clérigo levantou-se de chofre e os olhos adquiriram vida por breves instantes.

- Onde foi que ouviu esse nome?

Fontine desviou a vista, e o seu olhar tombou num quadro sob uma Madona na parede. Uma cena de caça, com aves a serem levantadas de uma moita por homens armados de espingardas. Outros pássaros voavam por cima.

- Vamos trocar informações - disse serenamente. - Porque foi que o meu pai concordou em trabalhar com Xenope?

- Já sabe a resposta. Ele só tinha uma preocupação; não dividir o mundo cristão. A derrota dos fascistas era tudo quanto lhe importava.

- Para começar, por que razão foi a arca evacuada da Grécia?

- Os alemães eram saqueadores e Constantino estava na lista. Foram essas as informações que recebi da Polónia e da Checoslováquia. Os comandantes nazis pilhavam museus, desmantelavam retiros e mosteiros. Não podíamos correr o risco de deixá-la lá. Foi o seu pai quem engendrou a remoção. De modo brilhante. Donatti foi enganado.

- Pelo emprego de um segundo comboio - aduziu Victor. - De composição e itinerário idênticos. Expedido três dias mais tarde.

- Sim. Fez-se chegar isso aos ouvidos de Donatti, por intermédio dos alemães, que não tinham noção do significado da arca de Constantino. Eles procuravam tesouros (pinturas, esculturas, objectos de arte) e não obscuros escritos que lhes diziam possuírem valor apenas para os estudiosos. Mas Donatti, o fanático, não conseguiu resistir: havia décadas que se ouviam rumores sobre as refutações do Filioque. Tinha de possuí-las. - À dolorosa evocação, o sacerdote de Xenope fez uma pausa. - Os interesses do cardeal e dos alemães coincidiam. Berlim queria liquidar a influência de Savarone Fontini-Cristi; Donatti queria mantê-lo afastado daquele comboio. A todo o custo.

- Por que razão se envolveu Donatti, no fim de contas?

- Mais uma vez, o seu pai. Ele sabia que os nazis tinham um poderoso amigo no Vaticano. Queria Donatti exposto como aquilo que era. O cardeal não podia ter tido conhecimento daquele segundo comboio a não ser que os alemães lho tivessem dito. O seu pai tencionava fazer uso deste facto. Foi o único preço que Fontini-Cristi nos pediu. Da maneira como as coisas vieram a passar-se, esse preço deu azo às execuções de Campo di Fiori.

Victor ouvia a voz do pai rompendo através das décadas... «Promulga decretos para os desinformadores e fá-los cumprir pelo medo... Uma vergonha para o Vaticano.»... Savarone conhecia o seu inimigo, mas não os extremos da sua perversidade.

A cinta que apertava as costas de Fontini-Cristi vincava-lhe a carne. Tinha estado de pé durante demasiado tempo. Agarrou na bengala e caminhou até à cadeira diante da secretária. Sentou-se.

- Sabe o que estava nesse comboio? - perguntou com brandura o sacerdote.

- Sei. Brevourt disse-mo.

- Brevourt nunca soube. Contaram-lhe parte da verdade. Não a totalidade. Que foi que ele lhe disse?

Victor ficou subitamente alarmado. Voltou a cravar os olhos no sacerdote.

- Falou-me das refutações do Filioque, de estudos que rejeitavam a divindade de Cristo. O mais precioso dos quais era um documento aramaico que levantava questões relativamente à própria existência de Jesus. A conclusão afigurava-se ser que não.

- Nunca foram as refutações. Nunca foi o documento. Era... é... uma confissão escrita na íntegra que precede todos os outros documentos. - O sacerdote desviou a vista. Levantou as mãos: os dedos ossudos roçaram a tez pálida da face. - As refutações do Filioque são artefactos para os estudiosos ponderarem. Como um deles, o documento aramaico, era ambíguo, como os manuscritos do mar Morto eram ambíguos quando estudados mil e quinhentos anos depois. Contudo, há trinta anos, no auge de uma guerra moral (se isso não é uma contradição nos termos), a divulgação desse manuscrito podia ter sido catastrófica. Era o bastante para Brevourt.

Fontine estava hipnotizado.

- O que era essa confissão? Nunca ouvi falar em tal.

O sacerdote voltou a pousar os olhos em Victor. Durante um breve silêncio que antecedeu a sua fala, o velho traiu a dor da sua decisão imediata.

- É tudo. Foi escrita num pergaminho retirado de uma prisão romana no ano sessenta e sete. Sabemos a data porque o documento fala da morte de Jesus em termos do calendário hebraico, que situa a data em trinta e quatro anos. Coincide com os estudos antropológicos. O pergaminho foi escrito por um homem que deambulava às cegas: fala de Getsamani e Cafarnaum, Gene-saré e Corinto, do Ponto, da Galácia e da Capadócia. O seu autor não pode ser outro que Simão de Betsaida, baptizado Pedro pelo homem a quem chamava Cristo. O que consta nesse pergaminho ultrapassa tudo quanto possa existir na sua imaginação. Tem de ser encontrado.

O sacerdote calou-se e fixou os olhos em Victor.

- E destruído? - perguntou baixinho Fontine.

- Destruído - retorquiu o monge. - Mas não por qualquer razão que possa pensar. Porque nada se modifica, e no entanto tudo é modificado. Os meus votos proibem-me de contar-lhe mais. Somos velhos; não temos muito tempo. Se puder ajudar, deve fazê-lo. Esse pergaminho pode alterar a História. Devia ter sido destruído há séculos, mas prevaleceu a arrogância. Podia mergulhar uma grande parte do mundo numa terrível agonia. Ninguém pode justificar o sofrimento.

- Mas o senhor diz que nada se modifica - retorquiu Victor, repetindo as palavras do monge -, e no entanto tudo é modificado. Uma coisa anula a outra; não faz sentido.

- A confissão naquele pergaminho faz sentido. Em toda a sua angústia. Não lhe posso dizer mais.

Fontine sustentou o olhar do padre.

- O meu pai sabia do pergaminho? Ou só lhe contaram o que contaram a Brevourt?

- Sabia - disse o monge de Xenope. - As refutações do Filioque eram como os vossos artigos de impugnação americanos, acusações para debate canónico. Até o mais prejudicial (como lhe chamou), o manuscrito aramaico, foi sujeito a interpretações linguísticas na Antiguidade. Fontini-Cristi ter-se-ia dado conta dessas questões; Brevourt não se apercebeu delas. Mas a confissão desse pergaminho não é passível de debate. Era a única coisa, a coisa pavorosa, que exigia o empenhamento de Fontini-Cristi. Ele compreendeu e aceitou-o.

- Uma confissão num pergaminho retirado de uma prisão romana. - Fontine falou com serenidade; a questão era clara. - E isso é que vem a ser a arca de Constantino.

- É.

Victor deixou o momento passar. Inclinou-se para a frente na cadeira, com a mão na bengala de metal.

- O senhor disse que a chave estava aqui. Mas porquê? Donatti procurou: em todas as paredes, em todos os soalhos, em cada centímetro do terreno. O senhor permanece aqui há vinte e sete anos, e continua a não haver nada. Que lhe resta?

- As palavras do seu pai, ditas neste compartimento.

- Quais foram elas?

- Que as marcas haviam de estar aqui em Campo di Fiori. Gravadas por um milénio. Foi esta a frase que empregou: «Gravadas por um milénio». E que o filho compreenderia. Fazia parte da infância dele. Mas ao filho nada foi dito. Isso viemos nós a saber.

Fontine recusou uma cama na imensa casa. Repousaria nas cavalariças, na cama onde tinha depositado Barzini, morto havia uma vida inteira.

Queria estar sozinho, e acima de tudo fora da casa, longe das relíquias mortas. Tinha de pensar, de remontar uma e outra vez ao horror até encontrar o elo de ligação que faltava. Porque agora estava ali: o padrão existia. O que continuava a faltar era a linha que completava o desenho.

Parte da infância dele. Não, aí não; ainda não. Não começar por aí; havia de vir mais tarde. Começar por aquilo que a pessoa sabia, pelo que a pessoa via, pelo que ouvia por si.

Chegou às cavalariças e percorreu os compartimentos vazios, deixando atrás de si as baias desertas. Actualmente, não havia electricidade; o velho monge tinha-lhe dado uma lanterna. O quarto de Barzini encontrava-se como o recordava. Nu, sem ornamentos: a cama estreita, a estafada cadeira de braços e o baú simples para os escassos pertences.

A divisão do equipamento de montar estava também conforme a vira pela última vez. Freios e rédeas de couro pendurados nas paredes. Sentou-se num pequeno banco de montar em madeira, soltando uma exclamação de dor ao fazê-lo. Apagou a lanterna. O luar brilhava através das janelas. Inspirou profundamente e obrigou o espírito a recuar à horrível noite.

O matraquear de metralhadora atroou-lhe os ouvidos, evocando a lembrança que abominava. Lá estavam as nuvens de fumo em espiral, os corpos arqueados dos entes queridos em sucessivos instantes de morte, vistos à luz ofuscante dos projectores.

«Champoluc é o rio! Zurique é o rio!»

As palavras foram gritadas e a seguir repetidas, duas, três vezes! Bradadas na sua direcção, lá para cima, mas destinadas a um ponto ma