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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS GUERREIROS DE NIN / Stephen Lawhead
OS GUERREIROS DE NIN / Stephen Lawhead

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Saga do Rei Dragão

2º VOLUME

OS GUERREIROS DE NIN

 

A diabólica ameaça que pende sobre o reino de Mensandor e a perigosa demanda empreendida por Quentin, um dos jovens acólitos do templo do deus Ariel.

A ascensão da Estrela do Lobo, arauto de Nin, lançou uma sombra de terror sobre o reino do Rei Dragão. A cada noite que passa, a Estrela do Lobo fica maior e mais ameaçadora, aumentando o poder maléfico de Nin. Mais uma vez, é Quentin quem tem o destino do reino nas mãos. A última esperança de salvação reside numa espada: Zhaligkeer, a Brilhante. Mas o segredo do "lanthanil", o metal vivo com que tem de ser forjada, perdeu-se há muito na noite dos séculos...

 

Quentin estava de pé junto do alto parapeito sobranceiro à floresta tranquila. Os seus olhos perscrutavam as colinas suaves, vestidas com os tons de verde do início do Verão, esbatidos na luz dourada da tarde pela névoa que se formava, anunciando o crepúsculo. Na sua mão apoiada na fria balaustrada de pedra esvoaçava um fino rolo de pergaminho ao sabor da brisa suave. Aos seus pés encontrava-se uma caixa de couro, da qual tirara o rolo que lera havia apenas uns momentos. A caixa tinha estampada a insígnia real que conhecia tão bem: o terrível, ondulante dragão vermelho do Rei Dragão.

Embora o calor dos últimos raios de sol lhe batesse em cheio no rosto, Quentin sentiu-se percorrido por um arrepio. Suspirou profundamente e baixou a cabeça, abanando-a devagar. Ouvindo um roçagar atrás de si e os passos leves de uns pés batendo na pedra, virou-se e viu Toli deslizando na sua direcção.

O jovem alto sentou-se facilmente na borda do parapeito, cruzou os braços por cima do peito, mirou Quentin com os seus olhos castanhos e zombeteiros e encheu os pulmões com aquele ar límpido e fresco.

- Ouve - disse, pondo a cabeça de lado. - É o som da terra em paz.

Quentin pôs-se à escuta e ouviu os trinados longínquos dos pássaros que esvoaçavam entre as bagas, as folhas a abanarem ao sabor da brisa e vozes que murmuravam num pátio algures lá em baixo.

- Disseram-me que tinha chegado um cavaleiro de Askelon com uma mensagem para ti. Então pensei que era melhor vir aqui ver se o meu amo precisa de alguma coisa.

Quentin olhou para o amigo e sorriu.

- Ou seja, a curiosidade levou-te a sair das tuas queridas estrebarias. É verdade, recebi uma mensagem do rei. - Levantando o pergaminho, estendeu-o a Toli, que começou a ler.

Depois, Toli levantou a cabeça e deu com os olhos nos de Quentin, que o examinava.

- Aqui não diz qual é o problema.

- Pois não, mas também não é um convite para uma visita de amigo. Parece um pedido de ajuda e é urgente. Se fosse pouco importante, Eskevar teria esperado. De qualquer forma, ficámos de voltar para Askelon daqui a umas semanas.---

- E aqui diz que é melhor irmos já. Pois, estou a ver.. Mas há mais alguma coisa? - Os penetrantes olhos de Toli examinaram Quentin, que se endireitou, tentando esconder-se da intensidade daquela observação.

- Porque dizes isso?

Toli riu suavemente.

- Conheço o meu Kenta bem de mais. Não estarias com esse ar se não suspeitasses do que se esconde por trás desta convocatória tão inocente,

- Inocente? - Baixou-se e pegou na caixa de couro. - Mas tens razão, Toli. Tenho um certo medo. Ao ler a mensagem, senti-me invadido por uma sensação de profunda tristeza, de perda...

Toli observou Quentin atentamente e ficou à espera que ele continuasse.

- Tenho medo de que se formos agora para Askelon nunca mais voltemos a Dekra.

- Viste isso?

Quentin limitou-se a abanar a cabeça.

- Bem, então pode não ser assim. Talvez o teu pressentimento seja só um aviso do que pode acontecer se não formos já.

Quentin voltou a sorrir; desta vez, brilhou-lhe nos olhos um relâmpago de alívio.

- Talvez tenhas razão. Como de costume, o servo salvou o seu amo de si próprio.

- Podemos partir hoje à noite. Vai ser bom voltar a dormir por esses caminhos. Há muito tempo que não o fazemos juntos.

- Pois, mas esta noite não. já te esqueceste de que vamos jantar com o Yeseph? E, se não me engano, só temos tempo para nos arranjarmos e irmos para casa dele. Está à nossa espera. Portanto, partimos de madrugada - disse Quentin-

- Como queiras - retorquiu Toli, inclinando a cabeça numa ligeira vénia. - Vou tratar de arranjar tudo quando acabarmos de jantar com o Yeseph e os anciões.

Quentin assentiu, pegou no rolo de pergaminho que Toli lhe estendia e voltou a metê-lo na caixa. Depois, viraram-se e dirigiram-se aos aposentos de Quentin.

Vestiram-se os dois com os seus melhores mantos de lã, enfiaram os pés em finas botas de couro e partiram a caminho da humilde morada de Yeseph.

Yeseph vivia num bairro da cidade em ruínas, perto da biblioteca. Enquanto seguiam juntos, Quentin mirava a cidade que aprendera a amar. Os seus olhos, há muito acostumados às estruturas retorcidas que de todos os lados lhe saltavam à vista, pareciam não reparar na destruição: o que viam era como tudo fora no tempo dos poderosos Ariga.

No seu espírito, via as pedras outra vez empilhadas umas sobre as outras, os arcos reconstruídos com azulejos coloridos, as portas, maravilhosamente entalhadas, abertas de par em par, os pátios cheios de plantas em flor, as ruas ecoando de risos e canções. Via tudo como imaginava que tinha sido. Quentin tinha sempre a mesma sensação mágica quando passeava pela cidade. Vivia em Dekra havia dez anos, e nunca deixara de se extasiar nem de sentir que o seu lugar era ali, que jamais encontraria outro lar como Dekra.

- Há-de voltar a ser - disse Toli, enquanto caminhavam ao longo das ruas silenciosas, pisando as pedras das calçadas, cujas arestas tinham sido limadas pelo tempo.

- O quê? - perguntou Quentin com um ar ausente.

- Esta cidade há-de voltar a ser como foi, como tu a vês na tua cabeça.

- Achas que sim?

- Tu não?

- Acredito que sim. Quero acreditar. -Mas, às vezes, parece que o trabalho anda tão devagar! Há tanto para fazer, Era bom se tivéssemos mais gente.

- Mas repara no que se fez desde que aqui chegámos. E somos mais a cada ano que passa. Whist Orren abençoa os nossos esforços com os dele.

Era verdade. Os trabalhos de restauração da antiga cidade, que ia sendo povoada com pessoas que partilhavm o sonho de lhe devolver a glória de outrora e de estudar os Ariga e o seu deus, sucediam-se a um ritmo excelente. Fizera-se muito em dez anos. Todavia, ainda faltava o trabalho de uma vida. E era isso que espicaçava a impaciência de Quentin.

O velho professor de Quentin, de costas curvadas, esperava-os de pé ao portão do seu pátio. O seu rosto fluminou-se quando viu os dois jovens que se aproximavam.

- Olá, olá, meus amigos! - gritou Yeseph, correndo ao seu encontro. - Tenho estado à vossa espera. Ainda não chegou ninguém. Esperava que fosse assim, porque quero falar convosco. Arrastou-os para a sombra e indicou-lhes uns bancos de pedra situados debaixo de uma árvore de copa muito larga. No pátio, limpíssimo, havia tudo o que podia ver-se em qualquer jardim cujo proprietário adorasse plantas e flores.

- Sentai-vos, por favor. Sentai-vos. Ornani! - Logo que os seus convidados se sentaram debaixo da árvore, Yeseph bateu as palmas. Uma jovem esbelta apareceu com um tabuleiro de taças de madeira e uma garrafa de pedra. Quase flutuando graciosamente, a rapariga pousou o tabuleiro junto do cotovelo de Yeseph.

- Podes servir, minha linda - disse docemente.

A jovem serviu as bebidas. Quando se virou para se ir embora, Yeseph recomendou-lhe:

- Serve a refeição quando os outros chegarem. Acho que já não devem demorar muito. - Sorrindo sempre, ela fez uma vénia e retirou-se para dentro de casa.

Os Curatak não tinham servos, Mas era frequente rapazes ou raparigas ligarem-se às casas dos chefes curatak mais velhos ou dos artesãos para os servirem e com eles aprenderem até decidirem o que queriam fazer na vida. Assim, os que precisavam da ajuda de um servo tinham-na sempre e os jovens podiam ser úteis até entrarem no mundo dos adultos.

Um tanto melancolicamente, Yeseph ficou a ver a rapariga desaparecer na ombreira escura. Reparando na sua expressão, Quentin comentou:

- Ela é uma ajudante preciosa, Yeseph. Tiveste sorte.

- É verdade, e tenho pena de a perder.

- Porque é que havias de a perder?

- E porque não? Ela tem quase dezoito anos. Quer casar em breve. Talvez no Verão. Vai casar com o Rulan, um antigo aluno meu. Ele é bom rapaz e muito inteligente. Vai ser um bom casamento. Mas eu perco uma excelente cozinheira e fico sem companhia. Sinto que ela podia ser minha filha.

- Porque não te casas outra vez? - perguntou Toli.

De repente, Yeseph pareceu muito agitado.

- Com quem é que tens andado a falar?

- Com ninguém. Perguntei por perguntar.

- Bem, mas é verdade. Era isso que queria dizer-vos. Vou mesmo casar. Anuncio os banhos esta noite.

- Parabéns! - gritou Quentin, que se pôs em pé de um salto, percorreu a distância que o separava do seu antigo professor e abraçou-o, beijando-lhe ambas as faces. - Quem é a felizarda?

- Karyll, a costureira.

- A viúva do Lendoe, que morreu há uns anos num acidente na forja?

- Essa mesmo. Uma excelente mulher. E há tanto tempo que está sozinha...

Quentin riu-se.

- Não precisas de nos dar explicações: já tens a nossa autorização. Tenho a certeza de que ides ser muito felizes.

- Vamos mesmo. Por mim, já me sinto muito feliz por partilhar esta notícia com os meus amigos. Sabeis, vós sois quase meus filhos.

- Foste nosso professor e nosso pai muitas e muitas vezes.

- Por isso é natural que sejais os primeiros a saber.

- A venerada mulher vem cá hoje à noite? Gostava de lhe dar os parabéns.

- Vem... aliás, parece-me que estou a ouvir a sua voz.

O som de vozes alegres e risonhas chegou ao pátio, vindo da rua. Yeseph precipitou-se para o portão, a receber a noiva e as suas duas companheiras. Corando e sorrindo, guiou-a até Quentin e Toli, que aguardavam de pé com a alegria estampada no rosto.

- Meus amigos, esta é a Karyll, a minha prometida.

A mulher baixa e de rosto redondo devolveu-lhes o sorriso caloroso. O seu cabelo castanho, onde Quentin viu alguns fios prateados, estava recatadamente apanhado atrás, preso numa rede ornamentada. Envergava um vestido branco e largo e trazia um xaile azul-vivo nos ombros. Era uma mulher graciosa.

Quando Yeseph a cingiu com o braço, lançou à futura esposa um olhar tão afectuoso que Quentin se sentiu invadido pela saudade da sua amada.

- Olá, Karyll. Parabéns. O Yeseph já nos disse que se vão casar. Fico muito satisfeito com isso.

- Obrigado, Quentin. Somos muito felizes. - Virando-se, mergulhou os olhos nos de Yeseph e acrescentou: - O Yeseph está sempre a pôr-vos nos píncaros. Ainda bem que ele vos escolheu para serdes os primeiros a saber dos nossos planos.

- Quando vai ser o casamento? - perguntou Toli.

- Eu e o Yeseph pensámos que seria agradável casarmo-nos em meados do Verão.

- É verdade - concordou o noivo. -Na realidade, não há nada que nos impeça de casarmos imediatamente. já somos os dois crescidos. - Deu uma gargalhada, a que se juntou outra de Karyll. Mas o riso desvaneceu-se quando Yeseph viu que nem Quentin nem Toli partilhavam a sua alegria. Tinham ficado estranhamente calados. A luz da felicidade extinguíra-se-lhes do olhar.

- Que se passa? O nosso plano não vos agrada?

- Agrada e muito. No entanto, parece-me que não vamos estar entre os felizes convidados.

- Posso saber porque não?

- íamos dízer-te esta noite. O rei convocou-nos. Temos de partir para Askelon.

- Sim, já sei... daqui a umas semanas, mas...

- Não. já. Chegou hoje um cavaleiro. Temos de partir imediatamente.

- Então vamos esperar até vós regressardes - prontificou-se Yeseph. Karyll assentiu com a cabeça.

Quentin sorriu com tristeza.

- Não, isso não quero. Nem sei quando poderemos voltar. Não espereis por nós, por favor.

Toli tentou aligeirar o tom da conversa.

- O Kenta quer dizer que, se estivesse no teu lugar, Yeseph, não deixaria que uma criatura tão adorável fugisse para os braços de outro. Deves casar-te como planeaste. Quanto a nós, voltaremos muito em breve para dar os parabéns ao feliz casal.

Yeseph procurou os olhos de Quentin. Como de costume, lia mais neles do que o seu amigo queria.

- Há algum problema?

- Parece-me que sim - suspirou Quentin. - A mensagem não o dizia directamente e o mensageiro também não lhe acrescentou nada. Mas partiu imediatamente, sem esperar pela resposta. Yeseph observou Quentin, de pé à sua frente. O jovem desajeitado e impetuoso crescera e tomara-se um homem directo e sensível. Era alto e esbelto como os jovens, mas sem o ar descuidado que estes muitas vezes têm. Apesar do seu porte régio, Quentin não se dava absolutamente nenhuns ares de grande senhor nem tinha a arrogância que é frequente acompanhar os espíritos nobres. O ancião sentiu uma dor no coração ao ver o seu aluno e protegido como que balançando à beira de um grande abismo. Apeteceu-lhe estender a mão e puxá-lo, mas sabia que não podia. Quentin pertencia a Deccra, mas também era de Askelon, e não podia negar a sua lealdade a nenhuma das duas cidades.

- Claro que tens de ir. - Yeseph esforçou se por sorrir. - Quando partes?

- Amanhã de madrugada. É melhor...

- Claro, claro. Não vale a pena adiar. Quanto mais cedo fores, mais cedo voltas. Desta vez, pode ser que tragas a Bria contigo.

Ao ouvir este nome, Quentin sobressaltou-se e voltou a sorrir calorosamente. A sombra fria que caíra sobre o alegre grupo afastou-se e, à medida que o cintilante crepúsculo avançava suavemente, começaram a falar ao mesmo tempo de tudo o que fariam quando voltassem a encontrar-se.

Apesar do seu desejo de partirem cedinho na manhã seguinte, Quentin e Toli foram Os últimos a sair de casa de Yeseph, onde tinham cantado, comido e conversado muito. Os anciões haviam abençoado a jornada dos jovens e todos tinham ouvido histórias e canções dos antigos Ariga, cantadas por um dos jovens músicos curatak. Depois, haviam-se despedido, mas ninguém o fizera tão ardentemente como Quentin.

- Olha, Kenta - disse Toli, enquanto caminhavam pelas ruas escuras e vazias. A lua cheia brilhava sobre a cidade, iluminando tudo com uma luz líquida e prateada.

Quentin seguiu o olhar de Tolí, que se erguia para o céu.

- Que estás a ver?

- Já desapareceu. Era só uma estrela cadente.

- Hummm. - Quentin voltou a refugiar-se nos seus devaneios escutando o eco dos seus passos na calçada e sentindo-se envolvido pela Paz silenciosa de Dekra. De repente, sem motivo, arrepiou-se todo, como se tivesse atravessado um poço de ar frio. Toli reparou o estremecimento de ombros de Quentin e olhou para o amigo.

- Também sentiste?

Quentin ignorou a Pergunta. Por fim, depois de terem dado mais alguns passos, indagou:

- Achas que alguma vez voltaremos aqui?

- A noite não é boa altura para pensar nessas coisas.

Voltaram os dois em silêncio para o palácio do governador e encaminharam-se para os seus aposentos.

- Vai ser bom voltar a ver Askelon e todos os nossos amigos - disse Quentin ao despedir-se. - Boa noite.

- Boa noite. Eu acordo-te de manhã.

Quentin deixou-se ficar muito tempo deitado na cama, sem fechar os olhos. Ouviu, no quarto ao lado, Toli fazendo silenciosamente os preparativos para a viagem e os passos suaves do Jher, que foi tratar dos cavalos antes de ir para a cama. Por fim, virou-se para o lado e adormeceu imediatamente. A Lua brilhava através das portas da varanda, espreitando para dentro como um rosto amável.

 

Quentin encontrou-se com Toli nas cavalariças, que eram um agrupamento de estruturas baixas, de pedra, que Toli destinara à criação de cavalos. No tempo que passara em Dekra, o Jher tomara-se um excelente treinador e criador de cavalos. De facto, com a ajuda do mestre dos estábulos de Eskevar, estava a desenvolver uma raça de animais notáveis, produto do cruzamento dos cavalos de guerra de mais porte, como Balder, com os mais leves e ligeiros, que eram o orgulho de Pelagia. O resultado seria uma raça suficientemente forte e corajosa para a guerra, mas que também teria a capacidade de percorrer depressa grandes distâncias sem se cansar.

Quentin passou por baixo do largo arco de pedra e parou em frente da baia de Balder. Ao ver o seu dono aproximar-se, o velho cavalo de guerra relinchou baixinho. Estendendo a mão, Quentin deu-lhe umas palmadinhas e acariciou o focinho macio e enorme.

Desta vez, podes ficar aqui, meu velho. Toma conta dele, Wilton disse por cima do ombro para o jovem ajudante de Toli. - De vez em quando, dá-lhe mais uma cenoura. - Depois, dando umas palmadas na testa do cavalo, cujo pêlo formava uma estrela branca, rematou:

- Quando eu voltar, havemos de dar um grande passeio.

As cavalariças cheiravam a funcho-doce, a palha e aos corpos quentes dos cavalos. O cheiro lembrava a Quentin as jornadas que fizera. De facto, estava ansioso por partir. Dirigiu-se a Toli, que verificava os alimentos e o jaez das suas montadas.

- Bom dia, Kenta. Ia mesmo agora acordar-te.

- Como vês, estou pronto. Não dormi muito. Está tudo preparado. - Virou-se e deu uma palmada num garanhão de um branco de leite - Então, Blazer? Estás mortinho por esticar essas patas compridas? O cavalo lançou para a frente a crina esvoaçante e mirou Quentin com os seus olhos preto-azulados, como se dissesse: "Embora! Vamos embora!"

- Só tenho de dar mais algumas instruções ao Wilton - respondeu Toli. - Depois, podemos pôr-nos a caminho.

Toli. que se considerava servo de Quentin para toda a vida, era objecto de devoção dos Curatak. O simpático Jher tinha vários ajudantes que tratava tão bem como qualquer amo fazia a um servo dedicado. O facto era que consideravam Toli tão príncipe como Quentin; e numa cidade onde cada homem era servo do outro, isto constituía a mais elevada das honras.

Toli voltou, pegou nas rédeas dos dois cavalos e conduziu-os para as ruas silenciosas. Seguindo à direita de Toli, Quentin escutava o bater das patas dos cavalos nas pedras das ruas antigas. Para leste, o céu brilhava envolto numa neblina violeta, iluminando-se e adquirindo um matiz vermelho-dourado à medida que o Sol ia ficando mais alto.

Toli cheirou o ar e anunciou:

- O vento sopra de oeste, por cima do mar. Vamos ter bom tempo para a viagem.

- Ainda bem. Espero estar em Askelon antes da lua nova. Achas que conseguimos?

- É possível. Com bons cavalos e a estrada do rei em bom estado até depois de Pelgrin...

- Os nossos cavalos têm asas, meu amigo. E a estrada de Eskevar já vai até ao Anári. De facto, vamos voar.

Chegaram às portas da cidade e saíram. Eram portas pouco vigiadas, pois Dekra não temia os intrusos nem tinha verdadeira necessidade de se defender.

Na porta pequena que se abria dentro da maior, Quentin parou e lançou um último e demorado olhar à cidade que tanto amava. A pedra vermelha luzia com o matiz rosado do Sol nascente. As torres e as espiras erguiam-se majestosamente no ar límpido e fresco da manhã, brilhando e cintilando como cristal resplandecente. Os sons normais da cidade que acordava ecoavam nas ruas vazias: um cão ladrava, uma porta abria-se e fechava-se. Atrás dele, Blazere Riv, o lustroso cavalo preto de Toli, agitavam os freios, impacientes por partir. Quentin levantou um braço, a despedir-se de Dekra, e virou-se para o seu cavalo.

- Vamos depressa' - gritou, saltando para a sela. - Vamos. Blazer! - O cavalo ergueu as patas dianteiras do chão, deu um pequeno coice e saltou em frente, seguindo o seu caminho.

Impaciente por chegar, Quentin forçou o percurso através de colinas baixas e entrou nas miseráveis terras pantanosas. O seu plano era pararem em Malmarbv, seguindo o mais possível na orla dos pântanos. Em Malmarby, alugariam um barco para atravessarem a enseada e navegarem ao longo da costa oeste até depois da Muralha de Celbercor. Depois, o caminho tornar-se-ia mais fácil. Dirigir-se-iam para o rio Arvin, para o local onde este surgia límpido e frio de dentro dos Fiskills, cavalgariam ao longo da estrada nova do rei, passando os sopés selvagens que ficavam acima de Narramoor e atravessariam Pelgrin depressa, em direcção a Askelon.

Os primeiros dias de viagem passaram sem novidades, A caça era abundante e, graças à habilidade de caçador de Toli, nunca lhes faltou nada que houvesse nas florestas.

Chegaram à aldeia de Malmarby numa manhã de sol. pelo caminho mais largo, que dava para a povoação e que saía do labirinto de pântanos e terrenos alagadiços que a rodeavam.

Quando se aproximavam da aldeia, Toli endireitou-se na sela e puxou as rédeas ao cavalo, fazendo-o parar. Quentin imitou-o, mas sem saber o que tinha alarmado o amigo.

- O que é? O que é que estás a ver?

- Falta qualquer coisa na aldeia. Sinto-o.

- Parece muito pacata. Mas vamos com cuidado.

Seguindo em frente com os cavalos a passo, iam perscrutando os arbustos e o denso matagal que ladeava o caminho, procurando qualquer sinal que pudesse confirmar as apreensões de Toli. Não viram ninguém nem ouviram nada até chegarem mesmo à aldeia. Quentin parou o cavalo, ergueu-se na sela e olhou em volta. O caminho enlameado que fazia as vezes de rua principal de Malmarby estava vazio. Não se via vivalma entre as casas de madeira; a povoação encontrava-se silenciosa como um túmulo.

- Parece que não há ninguém por aqui. Onde... ?

Ainda não acabara de falar quando quatro homens saltaram do arbusto mais próximo e agarraram os arreios dos cavalos. Dois dos homens estavam armados com lanças e os outros dois com espadas curtas. Pareciam aterrorizados: nos seus rostos graves e pálidos lia-se a preocupação e o medo.

Foi o olhar que lançou a estes rostos miseráveis que imobilizou a mão de Quentin.

- Espera, Toli! Não precisamos de ter medo destes homens. Quentin falou alto e com calma, para que os seus potenciais atacantes soubessem que não queriam fazer-lhes mal.

Ouviu-se um roçagar no arbusto e apareceu, ou antes, caiu outro homem na estrada. Quentin reconheceu o rosto magro e sulcado pelas preocupações do conselheiro da aldeia.

- Bom dia, conselheiro. É assim que tratais os forasteiros? Se calhar, queríeis convidar-nos para tomar o pequeno almoço...

O homem magro e careca pestanejou e precipitou-se para a frente, olhando de viés para os viajantes com o seu único olho bom.

- Quentin? Para trás, homens, é o príncipe! Larguem-nos!

Quentin sorriu ao ouvir aquele título. Não era o príncipe, mas a sua lenda crescera tanto entre o povo simples de Mensandor que para ele era, de facto, o detentor de uma posição tão elevada. Por isso, tinham-lhe conferido o título mais alto em que haviam pensado: para eles, Quentin era, muito simplesmente, o príncipe.

- Sim, sou o Quentin. Mas díz-me, Milan, a que se deve esta recepção? Onde estão as pessoas? A aldeia parece deserta.

- Desculpai, senhores. Não queríamos fazer-vos mal. - O chefe da aldeia parecia ter o coração despedaçado pela dor. Torcia as mãos enquanto falava, como se temesse alguma retaliação.

- É que... bem, todo o cuidado é pouco. Ouvimos histórias de muita maldade. Achámos melhor vigiar a estrada.

- Ladrões? - indagou Quentin.

Milan ignorou-o e perguntou a um dos seus homens:

- Tu não viste nada?

Não, nada.

Quentin encolheu os ombros e olhou para Toli, que estudou o rosto dos homens que tinham à frente e permaneceu calado.

- Bem, talvez os nossos receios sejam infundados. Ficais connosco?

- Não, desta vez não. Se puseres à nossa disposição um dos teus excelentes barcos, partiremos imediatamente. Temos de ir para Askelon o mais depressa possível.

O conselheiro da aldeia fitou Quentin com um olhar estranho e entendido e virou-se:

- Vai à frente avisar os da aldeia. Não há nada a temer - ordenou a um dos homens. Depois, acrescentou para Quentin: - O barco é vosso. Podeis levar o meu, que é o maior de todos. O meu filho acompanhar-vos-á.

- Obrigado pela tua amabilidade - respondeu Quentin. Começaram a caminhar todos juntos.

Passaram pelas habitações simples que se amontoavam ao longo do caminho que seguia até à beira da água. Ao princípio, Quentin ainda viu um rosto fugidio numa janela ou a espreitar de uma porta, mas, quando chegaram ao grande molhe de madeira que servia de embarcadouro para os barcos de pesca da povoação, já a maioria dos habitantes de Malmarby andava nas suas ocupações quotidianas, como se nada de invulgar tivesse acontecido. Muitos deles desceram também até ao molhe e muitos outros saudaram a passagem dos régios viajantes.

Os barcos de Malmarby eram largos, com o feitio de caixas e suficientemente robustos para suportarem a fúria do mais enraivecido dos mares, que, aliás, era coisa que nunca faziam, pois os enormes barcos serviam apenas para bordejar a abrigada enseada de um lado ao outro.

O barco de Milan era mais do que adequado às suas necessidades, mas os cavalos mostraram-se um tanto agitados ao serem guiados a bordo de uma embarcação tão estranha.

Com o filho de Milan, Rol, ao remo da popa, afastaram-se da multidão que se apinhava no molhe. As mãos fortes de Rol manejando o remo depressa os fizeram entrar num canal mais profundo, onde foram empurrados por uma corrente mais rápida. Então, içaram a pequena vela no mastro atarracado e continuaram a vogar velozmente.

- Onde quereis desembarcar, senhores? - gritou Rol, sentado à popa.

- Onde achares melhor, desde que seja a oeste da muralha.

Quentin calou-se e observou o robusto mocetão de ombros fortes e espessa cabeleira castanha, lembrando-se dos tempos em que o simpático jovem era um rapaz magrinho que corria ao lado do cavalo de qualquer viajante que atravessasse a aldeia, assim como ele e Toli tinham feito tantas vezes.

- De que é que têm medo na aldeia? - perguntou Quentin, aproximando-se de Rol. - O que aconteceu desde a última vez que por aqui passámos?

O jovem encolheu os ombros musculosos e continuou a manejar o remo.

- Não sei. Histórias! Não é preciso muito para aterrorizar uma aldeia tão pequena.

- Que histórias são essas de que falas? De onde vieram?

Tolí aproximou-se para ouvir Rol.

- Esta Primavera, apareceram pessoas do Suth a dizer que tinham sido atacadas por demónios, que lhes queimaram as casas.

- Os demónios não queimam casas - observou Toli.

Rol voltou a encolher os ombros.

- Não sei se queimam ou não. Foi o que as pessoas disseram.

- Hum... é estranho. Como eram esses demónios?

- Gigantes e ferozes. Cuspiam fogo pela boca e cada um tinha dez braços com patas em vez de mãos.

- Disseram de onde vieram esses demónios?

- Ninguém sabia. Alguns diziam que vieram do outro lado do mar, para lá do Gerfallon. Outros que lhes viram na testa o sinal da Estrela do Lobo. Se calhar, vieram do céu.

- É uma história esquisita - disse Quentin a Toli quando se afastaram.

- Para que haviam de queimar uma aldeia de camponeses no Suth? - inquiriu Toli. - Não há lá nada e ninguém ganha com isso.

- Sei lá! Há pelo menos dez anos que não acontece nada assim. O reino está em paz. Não nos podemos esquecer de dizer ao rei o que ouvimos.

Rol mostrou ser um excelente marinheiro: ao fim do dia encontravam-se perto do seu destino. Na linha da costa, por cima da água, formara-se uma ligeira neblina que entrava pela enseada. Através da névoa cinzenta, com as sombras alongando-se sobre a terra, viram a superfície plana e escura da Grande Muralha projectando-se nas águas profundas.

Rol fez o barco contornar o indefinido lado da muralha e guiou-o para a costa rochosa. Enquanto passavam por aquela forma imponente, ninguém falou. O chapinhar constante do comprido remo de Rol era o único som que quebrava o silêncio.

Quentin contemplava a névoa enrolando-se em volta da muralha e pensou que. assim, parecia que a grande estrutura flutuava numa espiral de nuvens, enquanto o céu, que escurecia com a aproximação do crepúsculo, parecia ficar duro e sólido como pedra. Mas sobressaltou-se quando ouviu uma pancada surda e sentiu o leve abanão que lhe disse que tinham tocado em terra.

- Ficas connosco esta noite, Rol? Vamos acampar perto do caminho, ali em cima. - Quentin apontou para uma elevação arborizada que orlava a costa. - O Toli vai fazer uma fogueira num instante e, depois, podemos comer qualquer coisa quente.

- Obrigado, senhor. Estou cansado... e com fome. Não sei o que é pior.

- Prestaste-nos um bom serviço. Toma a tua recompensa. Quentin meteu a mão na bolsa de couro macio que tinha pendurada no cinto. - Um ducado de ouro pelo trabalho e outro pela tua amabilidade.

Estendendo a mão calejada, Rol fez uma profunda vénia:

- É de mais, senhor. Eu não devia aceitar tanto. - Apalpou as moedas de ouro e quis devolvê-las a Quentin.

- Não, ganhaste-as bem. E também ao nosso apreço! Guarda-as e não digas mais nada. Mas, olha! O Toli já está a acampar. Se não nos despachamos, ainda chegamos atrasados ao jantar.

Reclinaram-se os três a conversar em volta da fogueira, enquanto as estrelas surgiam na imensa abóbada celeste. Na costa, a água batia docemente nos seixos macios e arredondados e, nas árvores, uma ave nocturna chamava a sua companheira. Os pinheiros altos erguiam-se acima deles e o ar cheirava a vento fresco e a bálsamo.

Quentin, que cabeceava de sono e se deixou adormecer por várias vezes, acabou por desejar boa-noite aos companheiros e por se enrolar na sua capa. Toli pôs mais uma acha na fogueira, levantou-se para ver os cavalos e foi-se deitar. A julgar pelo ritmo lento e regular da sua respiração, Rol já dormia como uma pedra. Toli espreguiçou-se e irgueu os olhos para o céu, que cintilava com mil luzinhas minúsculas. Ao percorrer os céus com o olhar, teve uma curiosa visão. Por um momento, deixou-se ficar a contemplar o que estava a ver. Depois, virou-se e agachou-se silenciosamente perto de Quentin.

- Kenta... - Abanou docemente o seu amo adormecido. - Kenta, quero que vejas uma coisa.

Quentin virou-se e sentou-se, perscrutando intensamente o rosto de Toli, iluninado de um lado pela luz da fogueira, mas este estava inespressivo.

- O que foi? Conseguiste ver o Veado Branco?

- Não, não é nada assim tão importante. - Toli ignorou o gracejo. - Pensei que talvez quisesses ver isto... - Conduziu Quentin para um local pouco afastado da fogueira e dos ramos pendentes das árvores.

- Olha para leste... ali, mesmo acima da muralha. Estás a ver?

- Uma estrela? Estou a ver... uma estrela muito brilhante.

- Repara como cintila. Não achas estranho?

- É a Estrela do Lobo. Mas tens razão: está diferente. Que achas? Toli observou a estrela brilhante e acabou por se afastar, dizendo: - Não sei. Só queria que a visses.

Quentin não ficou satisfeito com esta resposta. Era evidente que Toli escondia alguma suspeita, mas permaneceu calado. E não valia a pena tentar arrancar nada ao Jher até este estar pronto para falar. Quentin pensou que, fosse o que fosse que andasse às voltas naquela cabeça, acabaria por se revelar mais cedo ou mais tarde, mas só quando Toli assim o quisesse. Então, esperaria. Quentin suspirou, voltou a enrolar-se na capa e adormeceu.

 

A julgar pelo som gorgolejante que enchia o desfiladeiro orlado de rochas, a primeira catarata do Arvin, ficava mesmo em frente. Blazer e Riv escolhiam o melhor caminho entre as pedras soltas do chão do desfiladeiro, enquanto Quentin e Toli perscrutavam os elevados penhascos. À sua volta, agigantavam-se denteadas espirais de rocha. Movimentavam-se com cuidado, como se atravessassem a floresta petrificada de um gigante.

Passaram entre dois grandes afloramentos de pedra castanha, sobre os quais se erguia uma grande laje que formava os postes e o someiro de uma ombreira enorme.

- A Porta de Azmel - murmurou Quentin, ao passarem-na rapidamente. Depois, consideravelmente mais alegre, acrescentou: - Olha! A estrada de Eskevar. - Apontou para o outro lado das velozes águas do Arvin, para o ponto onde começava a estrada.

Sem hesitar, Quentin fez avançar o cavalo para dentro da água fria. A rápida corrente bateu contra as patas do animal e molhou o seu cavaleiro até aos joelhos. Quentin sentiu que aquelas picadas geladas eram o tónico para fazer desaparecer o pressentimento opressivo que o assaltava sempre que cavalgava pelo fantasmagórico desfiladeiro que terninava na Porta de Azrael. Mas, com este para trás e com a estrada larga à frente, sentiu que o ânimo lhe voltava.

- Agora já não falta muito - gritou por cima do ombro para Toli que. naquele momento, entrava, chapinhando, no rio. - Amanhã à noite jantaremos com o Durwin. e, no dia seguinte, estaremos à mesa do Rei Dragão.

Pensava que tinhas pressa - replicou Toli. - Podemos fazer melhor do que isso! - Proferidas estas palavras, bateu com as rédeas nos ombros de Riv e inclinou-se na sela. O cavalo deu um salto para a frente, fazendo erguer torrentes de água gelada, passou por Quentin, saiu do rio batendo com os cascos no chão e precipitou-se para a estrada.

- Uma corrida! - gritou Quentin para a figura de Toli, que se afastava. Depois, agitou as rédeas de Blazer, que saiu da água e partiu como uma flecha atrás de Tolí.

Lá no alto, nos sopés solitários, o som da corrida ecoava e tornava a ecoar de uma rocha nua para a outra. Os seus gritos de júbilo percorriam regatos e fendas e retiniam nos espaços entre as rochas e nas cavernas. Os cavalos quase voavam e os seus cascos arrancavam faíscas do chão de pedra.

Por fim, exaustos e sem fôlego, pararam numa cumeeira. Abaixo deles, os sopés iam desaparecendo em arcos suaves, esbatendo-se na distância brumosa em tons que iam do violeta ao azul. Para sul, erguiam-se os despenhadeiros majestosos e cobertos de neve dos Fiskills, onde os ventos eternos uivavam entre os picos aguçados.

- Ah! - suspirou Quentin, respirando profundamente. - Que vista! É uma terra muito bonita, não é?

- Lindíssima. O meu povo tem uma palavra... acho que nunca ta disse: AI-affira.

- Não, nunca a tinha ouvido. Que quer dizer?

- Não existe nenhum significado exacto na tua língua, mas quer dizer qualquer coisa como "a terra da paz abundante".

- AI-allira. Gosto. Ajusta-se na perfeição. - Começaram a descer juntos. - E não há dúvida que está em paz. Olha para aqueles vales. Estes últimos anos foram bons. A terra produziu muito. As pessoas estão satisfeitas. Não posso deixar de pensar que o deus abençoou este reino, como recompensa pelos tempos atribulados que passou, quando Eskevar estava afastado do trono.

- Tens razão, têm sido uns anos muito bons. Tempos dourados. Só espero que continuem assim.

Quentin lançou um olhar de lado ao seu companheiro. Os olhos de Toli estavam fixos nalgum horizonte distante. Parecia em transe. Como não queria alterar a boa disposição que reinava, Quentin não perguntou nada, e continuaram a descer a encosta sem falar.

O dia seguinte amanheceu limpo e claro, aquecido por um vento suave que soprava de oeste. já os viajantes se tinham posto a caminho há muito tempo quando o Sol espreitou por cima do Erleraros, o pico mais alto dos Fisküls. Como a estrada lhes facilitava o andamento, forçaram o passo e chegaram às terras baixas cerca do meio-dia.

Comeram uma refeição apressada entre pedras cobertas de musgo, à sombra de um antigo carvalho, e recomeçaram a jornada. Ainda não tinham ido longe quando Toli disse:

- Olha ali para a estrada. Temos companhia.

Quentin ergueu o olhar e viu com dificuldade, lá muito ao longe, o que parecia ser um grupo de viajantes caminhando na sua direcção. Mal os entreviu, e logo foram escondidos por uma curva da estrada.

- Serão mercadores? - indagou Quentin para si próprio em voz alta. Acontecia muitas vezes os comerciantes que vendiam os seus produtos de cidade em cidade viajarem em grupo, tanto para se distraírem uns aos outros como para se protegerem.

- Se forem, compro uma jóia para a Bria.

Prosseguindo o seu caminho, Quentin pensou em tudo aquilo de que a sua amada gostaria. Rodearam o flanco de um monte coberto de erva e de flores silvestres escarlates e aproximaram-se do local onde tinham visto os viajantes.

- Que estranho! - observou Quentin. - já devíamos tê-los encontrado. Talvez tenham parado na estrada, atrás daquele maciço de árvores. - Apontou em frente, para um amontoado de árvores cujos ramos pendiam sobre a estrada, escondendo de vista todos os que estivessem do outro lado.

Cada vez mais perplexos, seguiram em frente.

Quando chegaram às árvores, voltaram a poder ver o fundo da estrada, mas não se distinguia vivalma.

- Isto é cada vez mais estranho - comentou Quentin.

Toli desmontou e caminhou ao longo da estrada, procurando na poeira quaisquer sinais que pudessem explicar o desaparecimento do grupo que ambos tinham visto com toda a nitidez apenas uns minutos atrás.

Avançaram lentamente, Quentin examinava as árvores, que ficavam do lado direito da estrada. De repente, Toli parou, ajoelhou-se e traçou com o dedo um círculo em volta de umas pegadas impressas na poeira.

- Pararam aqui antes de saírem da estrada... ali. - Apontou para as árvores.

- Quantos eram?

- Isto não chega para dizer. Mas eram homens, mulheres e também crianças.

- UP - resfolegou Quentin confusamente. - Porque será que terão ido a correr para o bosque? De certeza que não foi por terem visto dois cavaleiros.

Toli encolheu os ombros e voltou a montar:

- Está aqui mais uma coisa que não podemos esquecer-nos de contar ao rei.

- Pois não.

Ao escurecer, acamparam numa clareira cheia de erva, mesmo ao lado da estrada. O sol lançava raios cor de rubi através das delicadas núvens que se moviam graciosamente pela abóbada violeta dos céus. Quentin foi postar-se num campo salpicado de flores amarelas, cujas corolas prenhes de pólen lhe roçavam pelas pernas. De braços cruzados no peito e um olhar de sonhadora concentração, contemplou a forma imponente que tinha à frente: no cimo do trilho estreito, que subia como um fio de fumo branco elevando-se do chão, encontrava-se o planalto onde se erguia o Grande Templo de Ariel.

- Confessa que tens saudades da tua antiga casa - disse Toli, aproximando-se por trás.

- Não... - respondeu Quentín com um ar ausente. Depois, mexeu-se e riu-se, fitando os olhos castanho-escuros de Toli. - É como quem tem saudades da sombra quando anda ao sol. Só estava a pensar no tempo que passei naquele templo. Para mim, foram dias de solidão e frustração, de estudos infindáveis, sem encontrar quem realmente procurava. Não teria dado um bom sacerdote... nunca percebi para que servia ungir a rocha sagrada do templo. Sempre me pareceu que era desperdiçar um óleo muito caro, mas havia quem achasse que era uma dádiva. E os sacrifícios... as pulseiras de ouro, as taças de prata e os animais muito bem tratados... só serviam para tornar os sacerdotes mais ricos e mais gordos do que já eram.

- Whist Orren quer mais do que pulseiras, taças ou carne. E não vive só nos templos feitos pelos homens, mas nas suas vidas.

- Sim, o Altíssimo oferece aos homens a liberdade; o preço é uma devoção sem limites. Os deuses menores não exigem tanto, mas quem pode conhecê-los? São como neblinas sobre a água: quando o sol as toca, desaparecem.

Viraram-se e foram acomodar-se para passar a noite. Depois de comerem, Toli pôs os cavalos a pastarem na erva. O crepúsculo envolvia a tranquila clareira com as suas compridas vestes purpúreas.

Quentin deitou-se com a cabeça repousando na sela e observou o céu, coberto de lantejoulas. "As estrelas nunca mudam", pensou. Depois, ainda a formular este pensamento, lembrou-se da conversa que tivera com Toli. Virou a cabeça para leste e viu a estrela estranha e cintilante para a qual Toli lhe chamara a atenção algumas noites atrás.

- A Estrela do Lobo parece mais brilhante - comentou Quentin.

- Tenho andado a pensar o mesmo, Kenta.

- Que diria o sumo sacerdote Biorkis a um presságio assim? Os sacerdotes devem ter as suas explicações.

- Vai lá e pergunta-lhe.

- O quê? Achas que me atrevo?

- Porque não? Que mal tem?

- Nem acredito no que estou a ouvir! O meu servo a dizer-me para procurar um presságio numa fonte impura! Toli, sabes melhor do que ninguém que me afastei de símbolos e de presságios. Sigo um deus diferente... tal como tu.

- Não estou a sugerir que peças um presságio a Ariel nem que renuncies às verdades que aprendeste, mas só que perguntes ao teu amigo de antigamente a sua opinião sobre um acontecimento estranho. Não há mal nenhum nisso. Além disso, Whist Orren, que mantém as estrelas nas suas rotas, por vezes revela a sua vontade através de portentos assim. Quem quer que olhe pode ver o que lá está escrito.

- Tens razão, Toli. O biorkis ainda é meu amigo. E até me apetece dar um passeio. Anda. - Com passos largos, Quentin atravessou o campo em direcção ao carreiro que levava ao templo, e que, pelo luar brilhante, parecia um fio de prata serpenteando pela encosta acima.

Chegaram ao carreiro e iniciaram a subida em círculos. Enquanto subiam, Quentin contemplava a noite inundada pela luz da Lua. O vale brilhava frouxamente; os contornos das folhas das árvores e as ervas pareciam tecidos em prata. Ao longe, nos montes distantes, as fogueiras dos pastores cintilavam como estrelas caídas na Terra.

Por fim, chegaram ao cimo e entraram no grande pátio branco de pavimento de pedra, em cujo centro se erguia um pilar de pedra trabalhada com uma tocha em cima. A sua chama bruxuleante lançava um amplo círculo de luz em volta da base e reflectia-se nas portas fechadas do templo.

- Agora vamos ver se peregrinos assim como nós são bem recebidos à noite - murmurou Quentin.

Atravessaram o pátio e subiram os muitos degraus que iam dar à entrada principal. Quando chegaram às portas enormes, Quentin tirou o punhal da bainha que tinha presa no cinto e bateu com o cabo nas sólidas traves.

Sabia que àquela hora deviam estar todos a dormir e que tinha que esperar que algum sacerdote acordasse. Enquanto esperava, sentiu-se invadido pela estranha sensação de que voltava a ser o magrinho acólito do templo de tantos anos atrás. Por um momento, viu a pedra escura do templo e o pátio banhado pelo luar com os olhos da sua mocidade

Tornou a bater e ouviu logo um arrastar de pés do outro lado.

- Vai-te embora, peregrino. Volta amanhã. Os sacerdotes estão a dormir - disse a voz abafada do outro lado.

- Há alguém que nos deixará entrar se lhe disseres quem somos.

- Só o sumo sacerdote vos pode deixar entrar.

- Excelente! É ele que procuramos!

- Não, vão-se embora! Voltai amanhã. Não vou acordá-lo agora - Ouviram os passos arrastados afastando-se do outro lado da porta.

- Bem, ele não quer facilitar-nos nada - disse Quentin. - Mas há outra entrada nas traseiras do templo. já que viemos aqui, vamos tentar.

Movimentando-se como sombras debaixo do alto pórtico do templo, chegaram ao lado virado a sul, sobranceiro ao tranquilo vale. Enquanto andavam, o luar banhava-os com os seus raios oblíquos, que formavam tiras de luz e sombra por baixo das enormes caleiras.

- Ouve - disse Toli. - Vozes.

Quentin parou e pôs a cabeça de lado. O ar parado transportava as vozes que lhes chegavam de um ponto situado lá à frente, um pouco abaixo deles. O som era apenas um murmúrio surdo que mal se reconhecia.

Prosseguiram com mais cautela e as vozes ficaram mais distintas.

Dali a pouco, os viajantes estavam agachados atrás das imensas colunas do templo, observando um pequeno círculo de homens de vestes compridas inclinados sobre um objecto brilhante.

- Estão a estudar as estrelas - comentou Quentin, muito excitado. - E olha para aquele do meio. Parece-me que o conheço.

Com toda a ousadia, Quentin saiu da sombra da coluna e desceu alguns passos em direcção ao grupo. Inspirando profundamente, disse em voz alta:

- Sacerdotes de Ariel, recebeis dois peregrinos curiosos?

Os sobressaltados sacerdotes viraram-se rapidamente e observaram as figuras de dois jovens encaminhando-se para eles.

O sacerdote que estava no meio dos outros deu um passo em frente e respondeu:

- Os peregrinos são sempre bem-vindos ao santuário de Ariel, mas a maioria prefere fazer as suas oferendas à luz do dia.

- Não viemos fazer oferendas nem perguntar nada ao deus Ariel, mas sim a um sacerdote.

- Os sacerdotes são apenas servos do seu deus; é ele que declara a sua vontade.

- Nós também não queremos o interesse do deus por qualquer coisa que nos possa ter acontecido - replicou Quentin, aproximando-se do sacerdote. Naquele momento, já conseguia ver completa mente o rosto do homem à luz do luar, e sabia que estava em frente

do seu antigo protector. - Queremos falar contigo de homem para homem.

Quentin sorriu quando um leve clarão de reconhecimento fluminou a cara do sacerdote.

O meu coração diz-me que devia conhecer-vos, senhor – disse lentamente o sumo sacerdote. Os seus olhos de velho procuravam nas feições do jovem alguma pista que lhe indicasse quem era a pessoa com quem falava. - Mas não me vem aos lábios nenhum nome. já nos conhecemos?

Quentin aproximou-se mais e pousou as mãos nos ombros arredondados do sacerdote.

- A vida de um sacerdote é assim tão ocupada que nem lhe dê tempo para recordações?

- As recordações não andam pelos pátios dos templos à noite nem se encontram cara a cara com aqueles que as têm.

- Então talvez te lembres disto. - Quentin meteu a mão na bolsa que trazia à cintura e tirou uma moeda de prata, que estendeu ao sacerdote.

- Esta moeda é do templo. Então deveis ser...

- Tu próprio me deste essa moeda há muitos anos, Biorkis.

- Quentin? És o Quentin, o acólito? - perguntou precipitadamente o ancião.

- Sou. Voltei para te ver, meu velho amigo... foi sempre assim que te considerei.

- Mas como mudaste e te fizeste homem! Vejo que estás bom. que te traz aqui hoje?

Os outros sacerdotes olhavam para esta reunião com um ar de interrogação, aproximando-se mais para verem quem seria aquele desconhecido.

- Podemos falar a sós? - indagou Quentin. - Tenho uma coisa para te perguntar.

Afastaram-se os dois, seguidos de perto por Toli. Os sacerdotes juntaram-se a murmurar o seu espanto e a falar entre eles.

- O teu nome espalhou-se pela terra - disse Biorkis, enquanto se encaminhavam para um afloramento rochoso situado de um dos lados do planalto.

- Sim? Aqui também se ouvem esses contos?

- Ouvimos o que queremos ouvir. Os camponeses não se cansam de nos trazer informações. Algumas são úteis. Mas tu és conhecido como o príncipe que salvou o Rei Dragão e derrotou o monstruoso feiticeiro Nimrood.

- Não fui eu que derrotei o Nimrood, e sim aqui o Toli, meu servo e meu amigo.

Biorkis fez uma vénia para Toli e indicou que deviam sentar-se todos nas rochas.

Também dizem que estás a construir uma cidade nas Terras Selvagens, que se ergue por magia das pedras do chão.

- Mais uma vez, não se deve a mim. Dekra só é a minha cidade porque os gentis Curatak me deixaram participar no seu trabalho para lhe devolver a sua antiga glória.

- Quem o diz são as pessoas, não sou eu. Quanto a mim, suponho que a verdade destas histórias se encontra no coração como o caroço de um damasco. Mas, pelo menos, vou sabendo que o meu antigo acólito está bem e que é muito estimado pelos seus conterrâneos.

Mas porque me procuraste agora? Durante estes anos, as portas do templo não estiveram fechadas para ti.

- Viemos saber a tua opinião sobre uma coisa que vimos. - Quentin virou-se para leste e apontou para lá do vale tranquilo e banhado pela lua. - Aquela estrela que nasce ali. A Estrela do Lobo. Não tem mudado ultimamente? Os sacerdotes detectam algum aumento do seu poder?

- Portanto, não renunciaste completamente aos teus estudos. Continuas a procurar sinais nos céus nocturnos.

Não, tenho de admitir que já não estudo as estrelas. Foi o Toli que me chamou a atenção para isto aqui há umas noites.

- O teu Toli tem razão. De facto, há muitos meses que seguimos esta estrela com interesse. Esta noite, como viste, estávamos mais uma vez a examinar as cartas, procurando uma resposta para este mistério.

- Então não sabes o que pressagia este sinal?

- Alguma vez se sabe? - Biorkis riu-se. - Porque é que fazes um ar tão chocado? Um sacerdote pode ter dúvidas- até o sumo sacerdote as pode ter. Mas temos as nossas teorias. Sim, muitas teorias.

- Foi isso que viemos ouvir: as vossas teorias. O que é que achas que significa?

 

Durwin percorria apressadamente os corredores escuros do castelo de Askelon, varrendo o chão com as suas compridas vestes castanhas. Tinha o caminho iluminado por tochas, cujas chamas bruxuleavam com a agitação do ar que Durwin provocava ao passar apressadamente por elas. À sua frente, via duas portas abertas para um pedaço do céu noctumo, banhado pelos brilhantes raios da Lua.

Atravessando a soleira, entrou na varanda e parou. Ali, a alguns passos dele, encontrava-se a silhueta delgada de uma mulher, cujo cabelo escuro, perpassado de reflexos, caía em cascatas de anéis e caracóis, e cujo rosto erguido revelava a beleza do seu pescoço esbelto e bem modelado. Envergava um vestido branco e largo, preso na elegante cintura por uma comprida fita azul que quase tocava no chão.

- Vossa Majestade - disse Durwin, anunciando-se suavemente. Estou aqui.

A mulher virou-se e sorriu.

- Meu bom Durwin, obrigado por teres vindo tão depressa.

- Bria... Pensei...

- Pensaste que eu era a rainha, bem sei. Mas fui eu que pedi para cá vires.

- Pareces-te tanto com a tua mãe assim com a luz da Lua a bater-te no cabelo...

- Isso para mim é o melhor dos cumprimentos, bom antigo. Mas deves estar cansado da jornada. Não vou demorar-te muito, mas tenho de falar contigo. Senta-te, por favor.

Levantou o braço, indicando-lhe um banco de pedra ali perto. Durwin pegou-lhe na mão e caminhou com ela ao longo da varanda.

- Está uma noite linda, não está? - perguntou.

- Está.. muito bonita. - A jovem falava como se só naquele momento tivesse descoberto que era de noite. O eremita percebeu que ela tinha qualquer coisa que a inquietava.

- Preferia não te ter incomodado, mas achei que ninguém podi ajudar-me melhor. O Theido partiu e Ronsard foi com ele.

- Não faz mal, senhora. Fico muito contente por saber que este velho eremita ainda pode ser útil aos habitantes do castelo de Askelon. Se soubesse, tinha vindo mais cedo... o teu mensageiro ainda perdeu algum tempo à minha procura. Eu andava na floresta a apanhar erva, para tratar a mulher doente de um camponês que mora ali perto.

- Eu sabia que vinhas logo que pudesses. Eu... - A princesa interrompeu-se, incapaz de dizer o que lhe ia pelo coração.

Durwin ficou à espera e, depois, disse:

- O que se passa, Bria? Podes falar à vontade. Sou teu amigo.

- Oh, Durwin! - As mãos tremeram-lhe e deixou cair a cabeça. Enterrou o rosto nas mãos, e ele pensou que ia chorar. Mas ela inspirou profundamente e ergueu o rosto para a Lua, com os olhos enxutos. Nesse momento, a jovem lembrou-lhe mais do que nunca uma outra mulher que tinha uma imensa força interior em tempos de aflição: a rainha Alinea.

Por fim, Bria falou:

- É o rei. Oh, Durwin, estou muito preocupada. Nem parece o mesmo. Acho que está muito doente, mas não quer ser visto por nenhum dos seus médicos. Ri-se de mim sempre que lhe sugiro que cuide da sua saúde. A minha mãe também anda preocupada, mas não pode fazer nada. E há outra coisa.

Durwin. ficou pacientemente à espera que ela continuasse.

- Não sei o que é... algum problema, algures. - Virou-se e fitou o eremita com um sorriso que, embora lhe suavizasse a boca, não lhe iluminou o olhar, como normalmente acontecia. - O quentin vem aí.

- Eu sei. Daqui a umas semanas. Vamos todos celebrar juntos o Dia do Meio do Verão.

- Não, ele vem agora. O rei Eskevar mandou-o chamar. Mesmo sabendo que ele viria para o Dia do Meio do Verão, o meu pai mandou um mensageiro especial para o ir buscar. É por isso que sei que alguma coisa se passa.

- Pode ser que ele queira vê-lo mais cedo... por capricho.

Bria sorriu novamente.

- Muito obrigado pelas tuas palavras, mas conheces o Rei Dragão tão bem como eu. Não faz nada por capricho. Tem qualquer razão para o querer aqui. Mas nem desconfio do que possa ser.

- Então, vamos esperar e logo veremos. Quando é que o Quentin chega?

- Se partiu logo que recebeu a mensagem, deve estar aqui depois de amanhã ou, no máximo, no dia a seguir.

- Isso quer dizer que a espera não será muita, vais ver. Entretanto, vou tentar descobrir o que aflige o rei tanto fisicamente como no espírito. Farei tudo o que puder ser feito. Não te preocupes mais, senhora.

- Obrigado, bom amigo. Não lhes dizes que te mandei chamar?

- Se preferes que não, digo-lhes que me cansei dos livros e das mezinhas e que queria o calor do convivio com os meus amigos. Vim mais cedo para a celebração, pronto.

-já me sinto melhor por saber que estás aqui.

- Fico satisfeito com isso, mas tenho a certeza de que preferias que um certo jovem estivesse no meu lugar.

Bria sorriu e, desta vez, os seus profundos olhos verdes cintilaram.

- Não o posso negar. Mas não me importo de esperar. De certo modo, é bom saber que ele vem mais cedo.

Falaram mais um pouco e, depois, levantaram-se e Bria desejou uma boa-noite a Durwin. Este acompanhou-a à porta que dava para dentro do castelo e vírou-se para vaguear sozinho pela varanda.

Apoiando os braços no parapeito, inclinou-se para ver os jardins e descortinou uma figura solitária passeando entre os canteiros de rosas cor de rubi, que o luar tomava azuis. Não sabia quem poderia ser, mas, a julgar pela maneira como vagueava, era óbvio que o caminhante se deixara apanhar pela melancolia. inclinava-se para a frente e cruzava os braços, parava e recomeçava a andar.

Durwin continuou a olhar, até que a figura pareceu pressentir que estava a ser observada: parou, endireitou-se e virou-se rapidamente para a varanda. Durwin afastou-se, não sem antes ver o que já tinha adivinhado. No momento em que o rosto se voltara, o luar fluminara-o e Durwin certificara-se de que pertencia a Eskevar, o Rei Dragão.

A barba branca, comprida e entrançada de Biorkis, símbolo da sua ocupação, luzia ao luar como uma brilhante cascata gelada. O seu rosto enrugado, ainda redondo e rechonchudo como sempre, parecia uma lua mais pequena que reflectia a sua luz para um progenitor maior. Biorkis contemplou o céu durante muito tempo. Por fim, disse:

- Pode ou não ser qualquer coisa. Os céus estão cheios de sinais e portentos, e nem todos têm a ver com os homens.

- Se pensasses isso ias estudar as estrelas à noite?

- Não, provavelmente não. Mas este fenómeno é muito estranho. É um sinal que só se vê uma vez na vida.. ou que talvez nunca se veja. Para além de qualquer significado que o seu estudo possa vir a revelar, é sempre útil registar o que se passa.

- Não estás a querer responder-me, Biorkis. Porquê? Claro que todos podemos ver a estrela e pensar o que quisermos.

Uma expressão de grande fadiga apareceu no rosto do sumo sacerdote, que se virou para fitar Quentin:

- Tanto quanto sei, esta estrela é um sinal do mal.

Falara com simplicidade e suavidade, mas as suas palavras gelaram o sangue de Quentin, a quem pareceu que o ar arrefecera subitamente.

Quentin tentou aligeirar o comentário de Biorkis:

- Os presságios são sempre bons ou maus, conforme quem os lê.

- Pois, mas quanto maior for o sinal maiores serão as suas consequências. E este sinal é muito grande... imenso.

Quentin ergueu os olhos para leste e mirou a estrela atentamente. Era verdade que estava brilhante, mas havia outras estrelas que brilhavam quase tanto como ela. Voltou a fitar Biorkis; com uma interrogação no olhar.

- Só ainda agora começou a mostrar-se - disse o sumo sacerdote, respondendo àquele olhar. - Fica mais brilhante a cada noite que passa, assim como o mal que pressagia.

- Sabes qual é a natureza desse mal?

- o mal é o mal. Que interessa? De qualquer modo, o sofrimento vai ser muito. Inundações, fome, peste, guerra... é tudo o mesmo: destruição.

- Dizes bem. É verdade. Mas, se souberem de onde virá, os homens podem fazer muito para enfrentarem esse mal.

- Aí entram as nossas teorias. Alguns dizem que a estrela vai crescer até encher o céu, tapando o Sol, a Lua e as estrelas. Depois, toca na Terra e semeia a insanidade, antes de consumir tudo pelo fogo.

"Outros dizem que cada nação tem uma estrela e que esta Estrela do Lobo representa uma nação feroz e brutal que se ergue contra outras nações e tenta eliminá-las com o seu poder.

"Outros ainda consideram isto o princípio do fim da humanidade na Terra. Esta estrela é o símbolo de Nin, o deus destruidor, que faz descer os seus exércitos para lutarem contra as nações da Terra.

- E tu, Biorkis, que dizes tu?

- Acredito que todos têm razão. A verdade há-de ser composta por parte de cada uma destas suspeitas.

- E quando é que essa verdade se tornará evidente?

- Quem sabe? Muito do que é pressagiado nunca chega a acontecer. As nossas melhores adivinhações não passam de resmunguices de cegos. - Biorkis virou a cara. - Nada é certo - rematou baixinho. Nada é certo.

Levantando-se, Quentin encaminhou-se para o ancião e pousou-lhe uma mão no ombro.

- Anda connosco. já viveste o suficiente para veres os deuses como eles são. Deixa-nos mostrar-te um deus digno da tua devoção, o Altíssimo, Senhor de Tudo. Nele encontrarás a paz que procuras. Uma vez, disseste-me que buscavas uma luz mais brilhante.

Biorkis fitou o com um ar cansado.

- Ainda te lembras disso?

- Disso e de mais. Lembro-me que eras o único amigo que eu tinha no templo. Anda connosco e deixa-nos mostrar-te a luz que procuras há tanto tempo.

Biorkiis suspirou, e foi como se toda a terra gemesse de uma imensa exaustão.

- Estou velho... velho de mais para mudar. Sim, estes olhos procuraram a verdade que lhes foi negada. Sei que é em vão que sirvo deuses menores, mas sou o sumo sacerdote. Não posso ir convosco. Houve, talvez, uma altura em que pude afastar-me, como o Durwin e como tu... mas já passou. Agora é muito tarde.

Quentin olhou tristemente para o seu velho amigo.

- Tenho pena.

Toli levantou-se e afastou-se. Quentin virou-se e olhou para trás, na direcção de Biorkis, que permanecia empoleirado numa rocha, contemplando o tranquilo vale.

- Não é tarde de mais. Basta-te procurares e logo o encontrarás. A decisão é tua.

Sem uma palavra, Quentin e Toli desceram lado a lado o trilho sinuoso. Quando chegaram ao campo e à fogueira, cujas brasas luziam frouxamente, Quentin perguntou:

- Sabias que a estrela era um sinal do mal, não sabias?

- Sabia. Sempre pensei isso.

- Mas sugeriste que fôssemos ao templo. Porquê?

- Quis ouvir a opinião de outros sábios. Apesar de todas as incertezas espirituais, os sacerdotes não deixam de ser homens de grande sabedoria.

- E o Biorkís confirmou os teus piores receios?

- O biorkís falou do que pode acontecer, não do que vai acontecer. Isso só o Deus Altíssimo, o sabe. A sua mão está sempre estendida para os que o servem.

- Então, se as especulações do Biorkis; estiverem certas, vamos precisar dessa mão forte muito em breve.

 

- A Terra move-se por meio de estádios, épocas. As lendas antigas falam de estádios anteriores da Terra... de quatro, pelo menos. Vivemos na quinta idade do homem. Cada idade faz o seu percurso e, depois, dá lugar a outra idade. - Durwin pousou as mãos na mesa. Quentin, com o queixo apoiado nas mãos, fitava o santo eremita com uma atenção extasiada. Encontravam-se nos aposentos de Durwin. À sua volta, as velas bruxuleavam e enchiam o quarto de um brilho enevoado e amarelo.

"Estas idades podem durar mil ou dez mil anos. Claro que ninguém pode saber a sua duração, mas os antigos acreditavam que o mundo é lançado num grande turbilhão antes do fim de cada idade. Iniciam-se grandes migrações de pessoas, nações em guerra levantam-se contra nações, os céus estão cheios de sinais e de portentos. Depois, vem o dilúvio: a Terra inteira é inundada ou coberta de gelo. Então, o fogo incendeia a Terra e apaga todos os sinais da idade anterior. É um tempo de caos e trevas, grandes cataclismos e morte. Mas de tudo isto surge uma nova idade, melhor e superior à anterior.

Enquanto Durwin falava, Quentin sentiu-se invadido por uma fantasmagórica sensação de fascínio. Tentando libertar-se dela, indagou:

- Mas a Terra tem de ser completamente destruída para nascer uma nova idade?

Durwin. meditou na pergunta, mas, antes de abrir a boca para falar, Toli respondeu:

- Entre o meu povo, existem muitas histórias dos tempos anteriores a este. Diz-se que os Jher surgiram na terceira idade, quando o mundo era ainda muito jovem e os homens falavam com os animais e viviam em paz uns com os outros.

"São lendas muito antigas, cuja origem é anterior ao mais velho dos nossos contadores de histórias. Mas diz-se que a destruição do mundo pode ser evitada por um grande feito, embora não se saiba qual.

"Conta-se que Tilgal, o filho do Fazedor de Estrelas, salvou o mundo na segunda idade, amarrando os seus cavalos à quadriga do pai e levando Morhesh, o Grande Senhor do Mal, depois de o ter ferido com um punhal feito de um único raio de luz. Como o atirou para o Poço da Noite, a estrela de Morhesh extinguiu-se e a Terra não ardeu.

Durwin assentiu prontamente:

- É verdade! Como eu ia a dizer, crê-se que nem todas as idades têm de acabar em calamidade. A destruição pode ser minimizada completamente evitada... em geral, Por um acto de heroísmo, um sacrifício supremo ou o aparecimento de um líder poderoso, que conduz a humanidade para a nova idade.

- Acreditas nisso? - Perguntou Quentin.

- Acredito que o que aconteceu no passado aconteceu mesmo. que o testemunharam explicaram-no o melhor que podiam, com as palavras e as ideias de que dispunham. Claro que há muito Por esclarecer, mas é estranho que todas as raças tenham memórias deste tipo no seu passado.

Inclinando-se para a frente, Quentin pousou os cotovelos na mesa e enclavinhou os dedos das mãos Uns nos outros.

- Quer dizer, acreditas que a estrela que vemos no céu é um indício do fim desta idade?

Durwin esticou o queixo e coçou-o. Lançando a Quentin uma rápi da mirada COM os seus olhos pretos, sorriu subitamente.

- Sim, acredito que se aproxima uma nova idade como o mundo jamais conheceu. Um tempo de grandes convulsões e mudanças. E eu não acredito que haja mudanças sem lutas e sofrimento. É assim!

Isso tudo parece-me muito sinistro - admitiu Quentin.

Não deves pensar na dor - retorquiu Toli. - Pensa antes na maior glória da nova idade.

Toli e Quentin haviam cavalgado de Narramoor até à cabana de Durwin, na floresta de Pelgrin. Como tinham ido depressa, haviam chegado ao fim da tarde, na altura em que o Sol se escondia por trás das copas das árvores.

- O durwin não está em casa - disse Toli ao aproximarem-se da cabana. Depois de terem olhado em volta, Quentin entrara lá dentro e voltara sem pistas que lhes indicassem onde estaria o eremita.

- Pode ter saído por pouco tempo, se calhar para tratar alguém aqui perto. Talvez volte ao cair da noite, mas não me parece. Tem o saco de remédios lá dentro, mas a capa e a bolsa não.

Por isso, tinham decidido cavalgar durante a noite, e haviam chegado às imponentes portas de Askelon quando a Lua desaparecia a oeste. Não querendo perturbar os criados nem acordar o rei e a rainha, tinham-se dirigido para os aposentos reservados a Durwin sempre que este se encontrava no castelo. Aí, para sua surpresa e satisfação, tinham encontrado o eremita afundado na sua cadeira, com um pergaminho enrolado no regaço. Dormia tão profundamente que até ressonava.

Depois de terem entrado, e apesar das tentativas para não fazerem barulho, Durwin despertara e saudara-os calorosamente:

- Cavalgastes toda a noite! Deveis estar com fome. Vou buscar à cozinha alguma coisa para comerdes.

Saíra depressa, com uma vela na mão, enquanto Quentin e Toli tiravam as capas e mergulhavam as mãos na água da bacia, tentando lavar a fadiga. Exaustos, tinham-se então acomodado numas cadeiras e passado pelo sono até que Durwin voltara com pão, queijo e fruta que roubara da despensa.

- Pronto, sentai-vos a esta mesa e comei enquanto eu vos conto o que tenho feito desde a última vez que nos encontrámos. - Durwin falara-lhes dos seus estudos e do seu trabalho de curandeiro entre os camponeses e Quentin informara-o da audiência com Biorkis e da sua discussão sobre a estrela que brilhava mais de noite para noite.

Tinham falado muito e até tarde. Por fim, haviam-se levantado da mesa e acomodado nas cadeiras para dormir. Nesse preciso momento, ouvira-se alguém bater muito levemente à porta de Durwin.

- Durwin, parece-me que tens visitas. Costumas receber assim tão tarde? - indagara Quentin.

Como muito bem sabes, nem sequer uma pessoa eu esperava nos meus aposentos esta noite e, afinal, encontro duas. Por isso, a partir de agora, tudo é possível. Abre a porta e deixa-os entrar, se faz favor.

Quentin encaminhara-se para a porta e abrira-a, sem estar preparado para ser saudado como fora.

- Quentin, meu amor! Estás aqui! - Quentin abrira instantaneamente os braços para erguer uma jovem de vestido comprido branco de lã, e enterrara o rosto no seu cabelo.

- Bria! Até agora, nem sabia como tinha saudades tuas!

Os dois apaixonados tinham-se apertado num longo abraço e haviam-se afastado subitamente ao terem-se lembrado de que não estavam sós. Quentin voltara a pousar a sua dama no chão e arrastara-a, para dentro do quarto. Durwin e Toli olhavam-nos e sorriam.

- O que te traz tão tarde aos aposentos deste eremita? - perguntara Quentin em tom de brincadeira.

- Ia a passar lá fora e ouvi vozes. Pareceu-me que uma delas era tua, meu amor.

- Ah! Os teus lábios dão a resposta que os meus ouvidos querem ouvir. Mas olha, tenho muito para te contar. Aconteceu muita coisa desde a última vez que estive contigo.

- Mas não será aqui! - replicara Durwin. - Daqui a pouco, neste quarto só vai ouvir-se o ressonar dos que querem dormir! Meus pombinhos, vão arrulhar para outro lado! - Sorrira alegremente e enxotara -os para fora da porta.

Quentin e Bria tinham percorrido de mãos dadas o corredor mergulhado na escuridão e haviam saído para a mesma varanda onde a princesa e Durwin tinham estado apenas uma noite antes.

Ao abrir a porta da varanda, Quentin dera com a luz fraca de um céu incandescente. A leste, os dedos carmesim da madrugada erguiam-se para o céu, mas, como o Sol se demorava atrás da linha do horizonte, ainda se viam uma ou duas estrelas.

- Tive saudades tuas, meu querido - suspirara Bria. - O meu coração tem chorado a tua ausência.

- Agora estou aqui contigo. É quando estou a teu lado que me sinto mais feliz.

- Mas vais partir outra vez temo que bem depressa. O meu pai tem uma tarefa para ti, e ficaremos novamente separados.

- Sabes o que é?

Bria abanara a cabeça.

- Então como sabes que vou partir tão de repente?

- Uma mulher sabe

- Nesse caso, teremos de tornar ainda mais doce cada momento que passemos juntos. - Dizendo isto, Quentin puxara-a suavemente e beijara-a. Ela rodeara-o com os braços e pousara a cabeça no seu peito.

Quentin contemplava o plácido céu vermelho-róseo, que se iluminnava e adquiria um tom dourado. A subtil alquimia da madrugada parecia ter transformado por magia as pedras das imponentes muralhas do castelo de Askelon, que luziam como ouro polido.

- Quentin... - começara Bria, num tom de voz fraco e assustado.

- Que se passa?

- Tenho medo, mas não sei de quê. O rei guarda os seus pensamentos para si próprio e não quer ver ninguém. E quando quero saber dos assuntos do reino, sorri, dá-me palmadinhas na mão e diz-me que uma princesa só deve pensar em coisas felizes e não se preocupar com questões mundanas. Ando inquieta por causa dele. Oh, Quentin, quando o vires, vais perceber o que quero dizer. Ele não está bem. Anda pálido e abatido. Tem qualquer preocupação a afligi-lo.

Nem eu nem a minha mãe sabemos o que havemos de fazer.

- Acalma-te, Bria, meu amor. Se eu puder fazer alguma coisa para o aliviar, garanto-te que não me pouparei a esforços. E se os remédios puderem curá-lo, o Durwin tratará disso.

"No entanto, devo confessar que também ando inquieto, mas não é por nada que se explique assim tão facilmente. Quem me dera que fosse! Dava uma fortuna a quem acalmasse o turbilhão que sinto crescer em mim.

"Vêm aii problemas, Bria. Sinto-o, embora tudo à minha volta me pareça sereno e em paz. Assusto-me com as sombras e a noite não me traz descanso; é como se o próprio vento me sussurrasse palavras de alarme aos ouvidos, mas não ouço nenhum som.

Bria suspirara profundamente e apertara-o com mais força.

- O que se passa? O que é que vai ser de nós, meu querido?

- Não sei. Mas garanto-te uma coisa: hei-de amar-te para sempre.

Tinham-se mantido abraçados durante algum tempo, enquanto o Sol nascia e enchia o céu com a sua luz dourada.

- Olha como o Sol expulsa as trevas. Tal como ele, também o amor há-de afastar de nós todos estes problemas, garanto-te.

- Achas que o amor consegue tanto? - perguntara Bria sonhadoramente.

- Consegue tudo.

 

- Meu bom Theido, acho que devemos regressar. já viemos longe de mais e é tempo de voltarmos a Askelon. Daqui a pouco o rei vai pensar que desaparecemos, se é que isso não aconteceu já.

- Mas ainda não vimos o que viemos ver: o inimigo, se de facto existe algum. Se voltássemos agora, estaríamos a ser descuidados. A nossa tarefa não está completa.

Ronsard estava inclinado na sela, com uma mão pousada na maçaneta e a outra atrás, massajando o fundo das costas.

- Se não desmonto depressa deste cavalo, posso nunca mais voltar a andar.

- Desde quando gostas de andar? O comandante-chefe do Reino devia dar melhor exemplo aos seus homens - gracejou Theido, voltando-se na sela para lançar um olhar aos quatro cavaleiros que os seguiam.

- Os meus homens conhecem-se bem - retorquiu Ronsard. Mas não estou a brincar quando digo que devemos voltar ímediatamente. Não é de animo leve que se faz esperar um rei.

- Nem é próprio levar-lhe informações inúteis. Os seus propósitos seriam tão frustrados de uma maneira como da outra. - Theido virou o cavalo e aproximou-se de Ronsard. - Mas eu digo-te o que vamos fazer, para não ouvir mais as tuas queixas: mandamos um cavaleiro para trás com o encargo de comunicar o que descobrimos até agora e de informar da nossa intenção de continuarmos até estarmos satisfeitos.

- Muito bem. Manda também dizer que regressaremos o mais cedo e o mais rapidamente possível, com um relatório completo.

- De acordo. - Theido virou o rosto queimado pelo sol na direcção onde os cavaleiros esperavam, descansando as suas montadas, antes de prosseguirem a jornada. - Martran! Anda cá! - chamou.

O cavaleiro aproximou-se dos seus chefes a pé e saudou-os.

- Martran, vais imediatamente ter com o rei e transmitir-lhe esta mensagem: continuamos a nossa missão e lamentamos o atraso. Diz-lhe também que regressaremos logo que tivermos obtido aquilo que procuramos ou que pudermos ter respostas satisfatórias para lhe dar. Compreendes?

- Sim, meu senhor - replicou vivamente o cavaleiro.

- Repete a mensagem - ordenou Ronsard.

O cavaleiro repetiu a mensagem palavra por palavra, dando à mesma a inflexão de Ronsard.

- Muito bem - aprovou Ronsard. - Põe-te a caminho. Não pares por nada nem por ninguém.

O cavaleiro tornou a saudá-los, regressou para junto do cavalo, montou e partiu imediatamente, sem olhar para trás.

- Agora - disse Theido, abanando as rédeas impacientemente - vamos em frente.

Ronsard ergueu-se na sela e gritou para os restantes cavaleiros:

- Montai! A caminho!

Desde que tinham partido de Askelon que cavalgavam para sul, primeiro na direcção de Hinsenby e, depois, ao longo da costa, que se inclinava para a região de Suth de Mensandor. No caminho, haviam passado por Persch e por um grupo de aldeias cujos nomes não apareciam mencionados em nenhum mapa.

Naquele momento, aproximavam-se de uma faixa rochosa da costa, cujos íngremes penhascos se erguiam à beira-mar. Era a extremidade mais a sul dos montes Fiskills. Os despenhadeiros desciam para o mar e a terra abatia, como se tivesse sido dividida pelo golpe de um machado. O mar estava juncado de imensas rochas denteadas, algumas delas do tamanho de ilhas, mas que, apesar das suas dimensões, se projectavam nuas e sem vida acima das ondas, servindo apenas de poleiro para milhares de aves marinhas, que enchiam o ar com os seus gritos.

Um trilho estreito e traiçoeiro subia através dos penhascos e retorcia-se entre os picos rochosos. Ora passava por um desfiladeiro tão estreito que um homem de braços estendidos podia tocar em ambas as paredes de rocha, ora ia dar a um penhasco nu, onde um único passo em falso faria cavalo e cavaleiro caírem às cambalhotas na espuma do mar enraivecido.

Pararam.

- Acho que o melhor é passarmos a noite aqui. Não confio naquele

trilho à noite; já é suficientemente mau à luz do dia.

- Está bem - concordou Ronsard. - Parece-me que também prefiro percorrê-lo logo de manhã.

Afastando-se um pouco do trilho, começaram a levantar o acampamento para passarem a noite. O sol deslizava por trás do horizonte escuro do mar e os pássaros esvoaçavam para os seus poleiros rochosos, fazendo o crepúsculo estremecer com os seus gritos barulhentos.

Dali a momentos, a Lua elevou-se no céu, banhando a paisagem com a sua luz pálida. Os homens, cansados, dormitavam e conversa em voz abafada.

- Ouvi! - exclamou Ronsard abruptamente. Fez-se silêncio, e todos se puseram a escutar a doce brisa do mar. O único som que lhes chegou aos ouvidos foi o longínquo enrolar das ondas batendo contra as rochas e lambendo os penhascos.

Theido lançou um olhar de interrogação ao seu velho amigo.

- Oh, se calhar não foi nada - disse Ronsard, que, no entanto, continuava a perscrutar a noite atentamente, como se esperasse que o som se repetisse.

Dali a pouco levantou-se e, com um ar inquieto, pôs-se a percorrer o acampamento, do lado de fora do círculo de luz projectado pela fogueira. Depois, deu uns passos ao longo do caminho e ficou muito de tempo a olhar para o trilho entre os penhascos. Theido, que o observava intensamente, não ficou surpreendido quando viu o musculoso cavaleiro regressar a correr.

- O que se passa?

- Vem aí alguém! Ali em cima, nos penhascos tenho a certeza!

Num sussurro áspero, ordenou aos seus cavaleiros:

- Apagai a fogueira e levai os cavalos para mais longe. Escondei-vos e ficai à espera de um sinal meu!

O pequeno acampamento ficou deserto num abrir e fechar de olhos. Nenhum sinal indicava que, apenas uns momentos atrás, tinham estado ali cinco cavaleiros.

Ronsard e Theido sentaram-se à espera, no escuro, ao lado do caminho, escondidos atrás de um maciço baixo de filitos. Em pouco tempo, começaram a ouvir-se os sons fracos de um grupo de pessoas correndo, tentando desesperadamente passar sem serem vistas: o matraquear de uma pedra deslocada por descuido, o chiar abafado de uma roda, um ataque de tosse.

Depois, à medida que se aproximavam, as sombras escuras começaram a distinguir-se, recortando-se no céu nocturno. Vinham a pé, e havia sombras mais pequenas entre as maiores. Mais do que caminhando em fila ao longo do trilho, apinhavam-se umas contra as outras, formando como que um nó apertado. Era evidente que temiam mais a separação do que a detecção.

- Não é nenhum exército - murmurou Ronsard entre dentes. Respirando devagar, acrescentou: - Mas agora temos de descobrir quem são e porque se arriscaram a passar os penhascos à noite... exactamente o que nós evitámos fazer.

- Nós tínhamos alternativa, e se calhar eles não - replicou Theido.

Ronsard endireitou-se e avançou para perto do trilho, parando em frente do caminho do cabecilha dos viajantes nocturnos. Quando o homem se aproximou, Ronsard disse em voz alta e firme:

- Pára, amigo! Em nome do Rei Dragão!

Ouviu-se um guincho e uma praga abafada, vindos do meio do grupo. Mas o homem parou imediatamente e olhou em volta, procurando a origem daquela ordem inesperada. Ronsard deu uns passos em frente e o luar bateu-lhe em cheio no rosto. Sorrindo, levantou os braços, mostrando aos assustados viajantes que não queria fazer-lhes mal.

- O q... que é que q... ueres? - conseguiu gaguejar o homem que vinha à frente.

- Só quero falar convosco. Não vou deter-vos por muito tempo. - Ronsard continuava a falar na mesma voz firme e num tom suficientemente alto para todos ouvirem.

- Quem és tu?

- Sou o comandante-chefe de Mensandor - respondeu Ronsard.

- Quem sois vós e para onde correis à luz da Lua?

- Senhor! - arquejou o homem com alívio. - Não estais a brincar? Sois mesmo um homem do rei?

- Às vossas ordens! Que se passa?

A estas palavras, as pessoas do grupo avançaram precipitadamente e rodearam Ronsard, como se procurassem a protecção do seu título, de que era como um escudo sobre as suas cabeças. Toda a gente começou a falar em voz alta.

Theido gatinhou para fora do seu esconderijo e foi pôr-se ao lado de Ronsard, que levantou as mãos e pediu silêncio.

- Parece-me que é melhor ouvir a história de uma só boca de

cada vez. Tu és o chefe do grupo. - Apontou para o homem com

quem tinha falado primeiro. - Começa tu.

Ao luar, o rosto do homem apresentava-se pálido, mas Theido ficou com a impressão de que também estaria pálido à luz do dia. Nas suas

feições desenhavam-se profundos sulcos de medo. Os seus olhos não

paravam quietos: varriam tudo da direita para a esquerda, como se tentassem detectar a iminente aproximação do inimigo.

- Eu... nós... - A boca do homem abria-se e fechava-se constantemente, mas as palavras custavam a sair.

- Está tudo bem. Por enquanto, estás a salvo. Tenho soldados comigo, que te defenderão se for preciso. - Ronsard levantou o braço e os seus cavaleiros avançaram e postaram-se ao longo do trilho, com as mãos pousadas nos punhos das compridas espadas. A sua presença pareceu assustar mais o homem do que acalmá-lo.

- Vá, podes falar à vontade - incitou Theido em tom bondoso.

- Somos de Dom - conseguiu finalmente o homem guinchar. - Deixámos as nossas casas e trouxemos todos os nossos haveres. Vamos para o Grande Templo. - Calou-se, engoliu em seco e rematou: - Não sabemos para onde mais havemos de ir.

- É uma peregrinação muito estranha, meu amigo – observou Ronsard. - Porque deixaram as vossas casas e fogem assim à noite?

- Não sabeis? Eles vêm aí uma hoste terrível terrível. Aterraram em Halidom e vêm aí. Corremos para salvar a vida, para que Ariel nos proteja. Só o deus nos pode salvar.

Quem é que vem aí? Viste alguém?

O homem olhou para Ronsard com os olhos muito abertos, como se não acreditasse no que ouvia.

- A sério que não sabeis? Como é possível? A terra inteira está revirada! Corremos para salvar a vida!

As pessoas começaram novamente a falar em voz alta, dizendo o que lhes ia pela alma e implorando aos homens do rei que as ajudassem a fugir. Ronsard e Theido ouviram tudo e afastaram-se para conferenciar.

- Houve qualquer coisa que os assustou muito, isso é óbvio. Mas o quê, é um mistério. Não percebo nada. - Ronsard coçou o queixo.

Theido chamou o cabecilha, que se aproximou.

- Bom amigo, viste alguém? Viste o inimigo de quem fugis? Sabes de onde vem?

O homem hesitou.

- Bem... não vimos ninguém. Mas não nos atrevemos a esperar. Há dois dias, apareceram em Dorn uns homens de Halidom, nas terra do Suth, e contaram-nos as coisas terríveis que aconteceram lá. Surgiu um inimigo poderoso, que leva tudo à frente. A cidade deles foi incen diada e nas ruas corria o sangue das crianças e das mulheres. Os que conseguiram ficar vivos fugiram para as montanhas. Por isso corremos enquanto ainda podemos.

Mas esse inimigo... tem nome?

É terrível de mais para dizer! - O homem ergueu as mãos para o céu, numa súplica.

- Pode ser terrível, mas queremos ouvi-lo. Diz-nos o que sabes ordenou Ronsard. O seu tom autoritário pareceu acalmar o assustado camponês, que olhou de um para o outro e disse, num murmúrio tenso:

- É Nin, o Destruidor!

 

Theido olhou inexpressivamente para Ronsard e depois voltou a fitar o apavorado camponês. Os olhos do homem, muito abertos e redondos, cintilavam ao luar. Mal pronunciara o nome do inimigo, a língua gelara-se-lhe na boca. Mas por muito terrível que o nome fosse para o camponês, pelo menos o suficiente para pôr uma aldeia inteira em fuga, não significava nada nem para Theido nem para Ronsard.

- Nunca ouvi esse nome - disse Theido. Ronsard abanou a cabeça e olhou fixamente para o camponês.

- Esse inimigo é conhecido por algum outro nome? Não conhecemos nenhum Nin nem os seus exércitos.

- Não... que eu saiba não.

- Halidom foi destruída? Os homens que chegaram a Dom viram-na destruída?

- Foi o que disseram. Alguns tinham perdido tudo: casa, família e haveres... Tudo.

Theido virou-se para Ronsard:

-já sabemos onde encontrar a nossa resposta: em Halidom.

- É o que parece. Vamos lá ver o que puder ser visto. De qualquer forma, o rei há-de querer saber o que se passou. - Voltando-se novamente para o cabecilha do grupo em fuga, perguntou: - Dizes que esse Nin de que falas estava a dirigir-se para Dom? Como sabes se não o viste?

- Foram os homens de Halidom. que nos disseram. O inimigo vai varrer toda a região. Não há sítio que esteja a salvo. É por isso que vamos ao Grande Templo de Narramoor pedir ao deus para nos proteger.

- Há um lugar talvez ainda mais seguro do que o templo - disse Theido. - Em Erlott, tenho terras que precisam do trabalho de muitos braços. Vai lá e apresenta-te ao meu mordomo, que se chama Toffiii. Diz-lhe que o seu amo ordena que vos dê abrigo, comida e terra para trabalhar. E dá-lhe isto. - Theido tirou um pequeno objecto redondo da bolsa que tinha no cinto: um quadrado de barro cozido com o seu sinete estampado.

O camponês fitou o sinete e, depois, Theido. Parecia tão receoso dele como do próprio Nin.

- Vamos ser vendidos como escravos só porque não temos para onde ir? Deixámos as nossas casas para sermos escravos dos homens do rei? - Como falara em voz alta, ouviu-se um murmúrio vindo do resto do grupo, que estava um pouco afastado.

- A minha oferta é honrosa - explicou Theido. - Podeis aceitar ou não. Não a retiro. Não tenho escravos; todos os que trabalham as minhas terras são livres e têm direito ao fruto do seu trabalho em partes iguais. Se duvidais das minhas palavras, ide ver com os vossos próprios olhos. De qualquer forma, depois de terdes visto, sois livres de partir ou de ficar. Ninguém vos obriga a nada.

-Sabeí apenas isto: se ficardes, tereis de fazer a vossa parte e trabalhar a terra que vos for dada. Senão, o vosso lugar será dado a outros que o façam.

O homem olhou para o quadrado de barro que Theido tinha na mão. Lançando um olhar de lado para o resto do grupo, estendeu a mão hesitantemente:

- Também nós somos honrados, embora de baixo nascimento. Arrebatou o quadrado da mão de Theido. - iremos às vossas terras de Erlott falar com o vosso mordomo; veremos como nos recebe. Se mostrar a boa vontade do seu amo, encontrar-nos-eis a trabalhar nos vossos campos quando voltardes dos vossos deveres. - Inclinando-se rigidamente pela cintura, virou-se para partir. Mas parou e virou-se outra vez: - Se for como dizeis, estamos-vos muito gratos, senhor.

- Não quero agradecimentos, mas apenas que cumprais o acordado. Para mim, isso significa mais do que a gratidão.

O homem fez outra vénia e encaminhou se para o local onde o seu. grupo o esperava, para saber o resultado da entrevista. Trocaram-se rapidamente algumas palavras, ouviram-se murmúrios abafados e, de repente, as pessoas puseram-se novamente a caminho, mas, desta vez, de um modo mais ousado e com outra disposição de espírito. Ao passarem por Theido, vários refugiados acenaram-lhe em sinal de agradecimento e, enquanto desciam apressadamente o trilho, todos falavam ao mesmo tempo.

- Bem, esta noite, prestaste-lhes um bom serviço. Espero que nunca venhas a ter razões para te arrependeres da tua bondade - disse Ronsard depois de o grupo ter partido.

- Nunca ninguém se arrepende por ser bom, meu amigo. Mas não duvido de que ganhei tanto como eles.

- Como é isso?

- A boa terra precisa de ser trabalhada e cuidada pelo lavrador. Se eu não tivesse homens para me trabalharem os campos, eles depressa se tornariam estéreis e improdutivos. Estes homens prestam-me um grande serviço ao ajudarem-me a tratar das minhas terras, que, se forem bem cuidadas, produzirão mais do que o suficiente para toda a gente.

- Bem, espero que a tua confiança neles seja recompensada. Mas porque não? O reino tem estado em paz durante estes anos todos e, por enquanto, ainda continua assim.

- Será? - indagou Theido. - Será?

Quentin percorria apressadamente os largos corredores forrados de tapeçarias que iam dar aos aposentos do Rei Dragão. Quando acordara, fora convocado para a câmara privada do rei, e vestira roupa lavada: uma túnica, umas calças novas verde-floresta e uma capa curta, de Verão, azul, debruada a verde e dourado. A capa, finamente bordada, apertada no ombro com um alfinete de ouro, esvoaçava atrás de si.

Exactamente no momento em que parou à porta que se abria para os aposentos de Eskevar, esta girou para dentro, fazendo aparecer Oswald, o camareiro da rainha:

- Senhor, anda con-úgo. A minha senhora quer falar-te.

Oswald pronunciou estas palavras a sorrir, mas a insistência perpassava os seus olhos cinzentos. Por isso, Quentin assentiu com a cabeça e seguiu o camareiro até um quarto que ficava do outro lado do corredor, mesmo em frente dos aposentos do rei. Oswald bateu à porta e entrou.

- Vossa Majestade, o Quentin está aqui.

Quentín entrou no quarto atrás do camareiro e viu a rainha Alinea sentada num banco colocado no meio do quarto, com as mãos dobradas no regaço. Tinha os olhos postos no chão, mas parecia longe dali. Rugas de preocupação sulcavam-lhe a nobre fronte. Depois de ele ter entrado, a rainha endireitou-se, e um lindo sorriso transformou o seu rosto. O quarto sombrio pareceu encher-se de luz. Ela levantou-se e estendeu os braços para o saudar. Quentin abraçou-a e roçou os lábios pelas faces pálidas e ela deu-lhe dois beijos.

- Quentin, vieste! Sinto-me tão contente por estares aqui! Espero que a tua viagem não tenha sido muito desagradável. É bom ter-te aqui de novo. Os meses passam mais devagar quando não estás cá. - Pegando-lhe na mão com as suas, indicou-lhe o banco. - Por favor, senta-te um bocadinho comigo. - Reparando no olhar de Quentin, acrescentou: - Eu sei que o rei está à espera, mas é importante. Quero dar-te uma palavrinha antes de ires à sua presença.

Os seus cintilantes olhos verdes, profundos e serenos, semelhantes a lagos da floresta, procuraram os dele por um instante, como se ela quisesse decidir se Quentin seria suficientemente forte para ouvir o que tinha a dizer.

- Quentin - começou docemente -, o rei está muito doente.

- Foi o que a Bria me disse. - Corou. - Encontrámo-nos hoje de manhã quando cheguei. Contou-me que andava muito preocupada com a saúde dele.

- Mas nem a Bria desconfia a que ponto ele caiu. Ela adora o pai de todo o coração, mas não o conhece tão bem como eu. Há qualquer coisa que anda a consumí-lo, que o rói por dentro, roubando-lhe a força e enfraquecendo-lhe o espírito.

Em resposta ao olhar de Quentin, continuou:

- Não te admires com o que digo: em breve verás com os teus próprios olhos. Ele mudou muito desde a última vez que o viste. Tenho de me esforçar muito para não chorar na sua presença. - Naquele momento, parecia estar à beira das lágrimas.

- Minha rainha, sou um vosso criado. Ordenai e eu obedecerei.

- Só quero que, quando o vires, faças de conta que está tudo bem. Age normalmente. Não o deixes perceber que pensas que ele está doente nem que eu falei contigo sobre o seu estado.

- Prometo. Mas não posso fazer mais nada?

- Não. - Ela deu-lhe umas palmadinhas na mão. - Sei que o farias se pudesses. Mas mandei chamar o Durwin. e encarreguei-o de uma tarefa bem pesada. Curar o rei pode tirar-lhe todos os poderes curativos... se é que eles ainda servem para alguma coisa.

- Vou rezar ao Altíssimo para que as curas do Durwin. possam surtir efeito.

- Eu também faço isso. - A rainha sorriu e a sala voltou a encher-se de luz, pois, enquanto conversavam, uma nuvem negra passara sobre o coração de Quentin. Mais animado, levantou-se.

- Agora vai vê-lo, meu filho. E não te esqueças do que te disse.

- Assim farei, minha senhora. Não temais.

Quentin deixou o quarto silenciosamente. Ao sair para o corredor, encontrou Oswald, que o esperava. O camareiro voltou a conduzi-lo aos aposentos do rei, bateu e anunciou-o.

- O quentin está aqui, Vossa Majestade.

Quentin inspirou profundamente e atravessou a soleira da porta. No meio da sala de tecto alto encontrava-se uma mesa de carvalho pesada e redonda, da forma da própria câmara, situada numa das muitas torres de Askelon. Pequenas janelas redondas de vidraças cor de âmbar emprestavam uma tonalidade quente à luz da tarde. Eskevar estava de costas voltadas para eles, de pé no meio de um raio de luz vindo de uma destas janelas, contemplando o pátio lá em baixo.

Houve um momento de pouco à vontade: Quentin não podia falar e parecia que o rei não ouvira as palavras do camareiro. Sentindo-se de repente encurralado, Quentin hesitou. Nessa altura, o rei virou-se devagar e olhou-o fixamente. Nos seus lábios surgiu um débil sorriso.

- Quentin, meu filho, vieste!

Se não tivesse sido o aviso da rainha, Quentin não saberia o que fazer. Mordeu o lábio inferior para abafar um grito, recompôs-se e fez um sorriso forçado.

- Vim logo que pude. Os cavalos do Toli são excelentes. Parece que têm asas. Viemos a voar...

Ainda a sorrir, embora, para Quentin, o seu sorriso triste e fraco fosse o de um moribundo, o rei avançou e estendeu a mão. Quentin pegou nela sem hesitar, mas reparou como estava fria e como o aperto de mão do rei se tornara fraco.

A pele de Eskevar adquirira uma palidez de cera e nos seus olhos parecia arder uma luz baça e febril. Tinha os lábios gretados e esfolados, e o cabelo, aquela coroa de glória feita de caracóis abundante escuros, pendia flacidamente e sem energia e estava quase completamente grisalho.

Quentin deu por si a fitar o rosto de um estranho, que o observava intensamente com os seus olhos cavados, rodeados de círculos escuros. Afastando rapidamente o olhar, disse:

- Esta sala é muito alegre. Vamos ficar a sós ou esperais mais alguém?

- Vem mais gente, mas não é já. Primeiro, quero falar contigo a sós. Senta-te, Por favor. - O rei deixou-se cair devagar numa cadeira arrumada na mesa redonda, e Quentin imitou-o. Apetecia-lhe chorar a ver Eskevar, o poderoso Rei Dragão, transformado num velho titubeante.

Quentin não deixava de se perguntar como teria aquilo acontecido Como podia uma mudança daquelas dar-se em tão pouco tempo? Nun escassos oito ou nove meses, o rei debilitara-se a um ponto que chegava a chocar. Só lhe apetecia sair depressa da sala e ir para bem longe da criatura sentada a seu lado, que usava a coroa do rei.

Eskevar fitou os olhos do jovem com uma simpatia inexprimível; subitamente, floresceu nele uma compaixão paterna que Quentin nunca antes lhe vira. Sentindo-se estranhamente comovido, esqueceu por um momento a saúde despedaçada do rei.

- Quentin - começou Eskevar, depois de o contemplar por um momento -, como sabes, não tenho filhos varões, Só a Bria é herdeira do meu trono. O meu irmão, o príncipe Jaspin, foi banido e jamais voltará.

-Creio que é chegada a altura de escolher um sucessor.

- Não, senhor - proferiu Quentin rapidamente. - Agora não é altura de pensar nessas coisas. Ainda tendes muitos anos à frente. Ainda estais forte.

Carregando ligeiramente o cenho, Eskevar abanou a cabeça devagar.

_ Não, não é assim. Quentin - continuou, com o mesmo sorriso doce e triste e o mesmo olhar paternal -, Quentin, estou a morrer.

- Não!

- Sim! Ouve! - O rei levantou a voz. - Pode ser devagar, mas estou a morrer. Não viverei o suficiente para ver outra Primavera. Chegou a altura de pôr a minha casa em ordem.

Tenciono escolher-te para me sucederes... espera! Como não és do meu sangue, a minha decisão terá de ser apresentada ao Conselho de Regentes, que, suponho, não levantará qualquer problema. Como fui eu próprio a escolher-te, de bom grado vão ratificar a minha opção.

Sem falar, Quentin ficou sentado a olhar para as mãos. As palavras do rei tinham-no emudecido.

Depois do que lhe pareceram horas, ergueu o olhar e viu Eskevar observando-o calmamente, mas intensamente.

- Concedeis-me uma grande honra, Vossa Majestade, mas não sou digno de uma posição tão elevada. Sou órfão e de baixo nascimento. Não sou digno de ser rei.

- Tu, Quentin, és o meu filho adoptivo. És como um filho para mim, que te vi crescer e tornares-te adulto. Quero que sejas tu, e nenhum outro, a usar a minha coroa.

- Não sei o que hei-de dizer, meu senhor.

- Diz apenas que farás o que te ordeno. Alivia o meu coração.

Quentin levantou-se da cadeira e ajoelhou-se perante o rei.

- Sou um vosso servo, senhor. Obedecer-vos-ei.

Eskevar pousou uma mão na cabeça de Quentin e disse:

- Estou satisfeito. Agora, o meu coração pode descansar em paz. - Tocou Quentin no braço: - Levantai-vos, senhor! Um rei não se ajoelha aos pés de outro. Daqui em diante, és o herdeiro do trono de Mensandor.

Nesse momento bateram à porta e ouviu-se a voz de Oswald:

- Os outros chegaram, Vossa Majestade.

Toli e Durwin. entraram. Ao ver o rei, Toli hesitou, mas Durwin avançou decididamente. Encaminhando-se para a mesa, fez uma vénia rápida e começou a falar das suas viagens, mas sempre sem deixar de observar o monarca doente, como se avaliasse o remédio que poderia dar-lhe.

- Muito bem, muito bem, Sentem-se. Temos um assunto para discutir.

O rei fitou-os atentamente e, antes de começar, soltou um suspiro profundo e cansado.

- Há algum tempo que ando inquieto. Desassossegado, desconcentrado e irrequieto. Ao princípio, atribuí-o à doença que me consome, mas temo que seja mais do que isso. A minha inquietude persiste por causa de Mensandor. Há qualquer coisa que não vai bem no reino.

O rei Dragão falava suave e distintamente, e Quentin percebeu que Eskevar reinava há tanto tempo naquela terra que desenvolvera uma espécie de sexto sentido, sabendo instintivamente quando alguma coisa não ia bem. Era como se uma parte de si próprio tivesse sido magoada e ele sentisse a ferida. O rei pressentira o perigo mesmo antes de qualquer deles ter suspeitado do mais pequeno remoinho na corrente de paz e prosperidade que atravessava o reino.

Com um sobressalto, pensou, ao princípio absurdamente mas, depois, cada vez com mais convicção, que o que afligia a terra era, talvez, a causa da angústia do rei.

- Para comprovar a minha intuição, convoquei os meus fiéis Theido e Ronsard, dei-lhes uma pequena força e mandei-os descobrir de onde vêm os problemas.

"já deviam ter regressado. Não tive mensagens nem sinais deles, e estou ansioso pelo que possa ter-lhes acontecido. Foi por isso que vos convoquei - fez um gesto de cabeça na direcção de Quentin e de Toli. - É cada vez mais urgente descobrirmos a origem do problema, antes que seja tarde de mais. O mal está por perto; sinto-o. É mais forte a cada dia que passa. Se não o encontrarmos e o esmagarmos...

- Senhor - observou Toli -, vimos portentos que talvez confirmem os vossos receios.

- Eu também - concordou Durwin.

Toli e Durwin informaram o rei dos sinais que tinham observado, presságios de um mal iminente que não sabiam identificar. Quentin reparou que, enquanto os seus companheiros falavam, e especialmente quando mencionavam a Estrela do Lobo, Eskevar parecia decair mais, vergado pelo peso do perigo que o seu reino corria.

Depois de uns momentos de um silêncio desconfortável, o rei falou solenemente:

- Quentin e Toli, bravos amigos, temos de descobrir onde reside verdadeiramente o perigo. O meu povo precisa da vossa coragem.

- Partiremos imediatamente em busca do mal. E pode ser que encontremos os nossos bons Theido e Ronsard - prontificou-se Toli ousadamente.

Sem dizer nada, Quentin passeava o olhar pelos rostos reunidos em volta da mesa.

- Muito bem - suspirou o rei. - Sabeis que não vos mandaria assim se pensasse que era uma coisa sem importância ou se pudesse pôr alguém no vosso lugar.

Virando-se, olhou Durwin pensativamente:

- Quanto a ti, não te convoquei, mas, como de costume, deve tê-lo feito alguém que me conhece melhor do que eu próprio. - Sorriu novamente e, por um breve momento, Quentin entreviu o homem que Eskevar fora. O rei continuou: - Quero que fiques comigo, bom eremita. Posso vir a precisar dos teus remédios muito em breve e é possível que as tuas artes sejam mais úteis aqui do que na garupa de um cavalo.

- Assim é - replicou Durwin. - Farei como quiserdes.

O rei levantou-se com alguma dificuldade e mandou-os sair, não sem antes perguntar aos seus dois guerreiros:

- Quando partireis?

- Imediatamente, Vossa Majestade - respondeu Toli.

- Muito bem. Mas, pelo menos, ficai e comei hoje à noite à minha mesa. Quero ver os meus amigos todos juntos antes de... - Não terminou o pensamento.

Os três companheiros levantaram-se, fizeram uma vénia e saíram em silêncio. já à porta, Quentin virou-se e fez menção de falar. Mas olhou para Eskevar, os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas e não conseguiu pronunciar palavra. Demasiadamente triste para dizer o que lhe ia pelo coração, inclinou-se rapidamente e saiu.

 

- A aldeia foi conquistada, Excelentíssimo. - O cavaleiro fez uma vénia profunda na sela. Atrás dele, o fumo subia numa coluna espessa e escura, depois espalhada pelo vento que soprava do mar. O seu pónei castanho-avermelhado, com o pêlo manchado de fuligem e sangue seco, sacudia as rédeas e abanava a cabeça. - Não houve resistência.

Uns olhos selvagens observavam o mensageiro detrás do aro de um elmo de ferro ornamentado com plumas pretas que esvoaçavam como asas ao vento. Sem dizer nada, o comandante virou o cavalo e pô-lo lentamente a passo. O mensageiro esporeou a montada e foi postar-se ao lado do seu chefe, que se afastava.

- Estais desagradado com alguma coisa, meu amo? - A voz tremia de ansiedade.

- Não, está tudo bem. A nossa missão está completa. Vou regressar aos navios. Acompanha-me. Posso precisar de um mensageiro. Erguendo-se na sela, chamou vários cavaleiros que esperavam a alguma distância. Estes, com os elmos debaixo do braço, observavam impassivelmente o fumo que, à sua frente, subia no ar. - Vós os quatro - o comandante fez um gesto com a mão enluvada - ficai com os homens e ocupai este lugar. Os outros vêm comigo. Vamos imediatamente. Sigam-me.

- Mas o que vamos fazer com os prisioneiros, Excelentíssimo? gritou o mensageiro para a forma escura que se afastava.

O guerreiro não se virou nem olhou em volta, mas o mensageiro ouviu as palavras que lhe chegavam lá da frente:

Matem-nos - disse o seu comandante.

A fragrância pungente de incenso queimado enchia a sala. Nuvens do aromático vapor vogavam em volta da grande figura sentada num trono de almofadas de seda. Pequenas avezinhas coloridas, metidas em gaiolas, esvoaçavam e chilreavam, sendo as suas canções acompanhadas pelas notas calmas de uma flauta.

O tilintar de uma sineta soou no corredor, seguido de um roçagar. A forma gigantesca sentada no trono parecia estar a dormir, pois não se mexeu nem de qualquer outra forma deu a entender que se apercebera desta intromissão. A enorme cabeça continuou encostada a uma grande arca. As mãos papudas, com os dedos enclavinhados uns nos outros e os polegares juntos, permaneceram imóveis no imenso regaço.

- Trago notícias, ó Imortal - disse o ministro que entrara tão silenciosamente. Ficou à espera ajoelhado, com a testa encostada ao chão, braços esticados à frente e palmas das mãos viradas para cima.

- Podes falar, UzIa. - Embora estas palavras tivessem sido pronunciadas calmamente, a voz pareceu encher a pequena sala.

- Os vossos guerreiros regressaram. E trazem notícias de vitória. As aldeias da costa foram conquistadas.

- Encontraram alguma residência apropriada para mim?

- Infelizmente não, ó Imortal. Eram aldeias pequenas, que não possuíam acomodações dignas de vós. Por causa desta afronta, as aldeias foram incendiadas e as suas cinzas espalhadas, não fosse a vista delas desagradar-vos.

Nin, o Destruidor, olhou sinistramente o ministro em quem mais confiava.

- Esta terra vai sentir a minha ira! - gritou. Os pássaros tremeram nas gaiolas e a música parou. UzIa, o primeiro-ministro, acobardou-se.

- Os patifes desta terra maldita falam de muitos castelos no Norte. Há um, em especial, que pode servir as vossas necessidades enquanto estais aqui a subjugar esta terra à vossa vontade.

- Como se chama esse palácio?

- Askelon. É a fortaleza do rei desta terra, conhecido por Rei Dragão.

- Ah - exclamou Nin suavemente. - O som dessas palavras agrada-me. Di-las outra vez.

- É em Askelon que habita o Rei Dragão.

- Habitarei lá e serei o Rei Dragão. Isso agrada-me. Nunca matei nenhum dragão... ou matei, UzIa?

- Não, minha Divindade. Que eu saiba, não. - E apressou-se a acrescentar: - A não ser que fosse numa outra vida, claro.

- Então vou ansiar por esse acontecimento e saborear o momento da sua realização. - Levantou-se lentamente. - Onde estão os meus comandantes? - perguntou Nin com uma profunda voz de trovão.

- Estão à vossa espera na praia - replicou UzIa. - Vou mandá-los chamar.

- Não, eu vou lá. Como satisfizeram o meu desejo, serão recompensados, e verão o seu deus aproximar-se deles.

- Às tuas ordens, ó Poderoso.

UzIa inclinou-se novamente e levantou-se do chão. Virando-se, retirou-se para o átrio, bateu as palmas e gritou:

- A Divindade vai a passar! Ajoelhai todos! - Depois seguiu à frente do seu soberano, batendo as palmas e gritando o mesmo aviso. Nin seguiu-o lentamente, balançando o seu corpo imenso sobre as pesadas pernas.

Quando chegaram a um pequeno lanço de escadas, no cimo das quais ficava o convés do navio-palácio, UzIa voltou a bater as palmas e oito serviçais trouxeram um trono montado sobre estacas, pousando-o à frente do seu rei, que se sentou nele. Depois, retesando todos os músculos, os carregadores subiram os degraus com todo o cuidado, de modo a manterem o trono na horizontal, para não incorrerem na fúria do seu temperamental deus. Dali a pouco, estavam no convés.

Mais dois serviçais esperavam com grandes sombrinhas feitas de penas brilhantes. Mal o trono de Nin surgiu à entrada do convés, abrigaram logo a enorme cabeça do sol radioso de um lindo dia de Verão. Embora oscilando sob o peso do seu fardo, os serviçais desceram uma comprida rampa que fora construída por cima da água baixa, desde o navio-palãcio até à costa. A rampa terminava numa plataforma na praia, que formava um estrado do qual Nin, o Destruidor, podia comandar os seus súbditos, Quando viram esta procissão descendo lentamente a rampa, os quatro comandantes desmontaram, aproximaram-se do estrado e prostraram-se na areia. Os carregadores chegaram à plataforma e pousaram o trono móvel exactamente no meio do estrado, por baixo de um grande dossel de seda azul. Depois retiraram-se, ajoelharam-se, com o rosto tocando os joelhos, e ficaram à espera das ordens do seu rei.

A seda azul agitava-se ao sabor da suave brisa marítima. Acima do estrado, gaivotas esvoaçavam no ar e soltavam os seus guinchos para aquele espectáculo. Nin levantou as mãos e disse:

- Erguei-vos, meus senhores da guerra. Podeis olhar para a vossa Divindade.

Os comandantes, que envergavam armaduras pesadas, levantaram-se rigidamente e ficaram ombro a ombro perante o seu protector.

- Vi a vossa vitória de longe - continuou Nin. - Assisti às chamas da destuição com os meus próprios olhos. Estou muito satisfeito. Agora, dizei-me, meus comandantes: que força tem esta terra? Há algum exército que faça frente à lâmina do Destruidor? - Olhando os quatro guerreiros, fez um sinal de cabeça a um deles, que deu lentamente um passo em frente. - Gurd?

O guerreiro bateu no coração com a mão fechada; a cota de malha do punho produziu um ruído semelhante ao arrastar de correntes de ferro contra a couraça de bronze. Tinha o cabelo comprido, liso e preto puxado atrás, formando uma grossa trança. Os seus olhos pretos e vivos, enquadrados por um rosto regular, angular e vermelho, fitaram Nin intensamente.

- Não vi soldados no Sul, ó Imortal. As aldeias de camponeses estavam indefesas.

- Amut.

O guerreiro de raça amarela avançou. Tinha a cabeça reluzente completamente rapada, excepto no sítio onde usava uma curta madeixa de cabelo apanhada num nó apertado. Nas suas faces e testa viam-se estranhas tatuagens azuis e uma cicatriz irregular riscava-lhe o rosto do canto de um olho em forma de amêndoa, à base do pescoço grosso e musculoso.

- No Norte não encontrámos soldados, ó Poderoso. A cobarde populaça voou à frente das nossas setas como folhas durante uma tempestade.

- Luhak - chamou Nin. O terceiro comandante deu um passo em frente.

Luhak tocou na barba com uma mão castanha. Tinha a cabeça coberta por um elmo de pêlo branco de cavalo, do centro do qual nascia uma pluma curta feita de cauda de cavalo. Era alto e magro e, quando abriu a boca para falar, cintilou uma fiada de dentes brancos e pontiagudos.

- No interior montanhoso desta terra só encontrei uma aldeia, chamada Gaalinpor - disse o guerreiro. - Nenhum exército pode atravessar aquelas montanhas sem ser visto. Podemos voltar os nossos olhos para outro lado.

- Boghaz.

O último comandante, um preto enorme, cujas feições estavam escondidas por um véu negro que lhe tapava a parte inferior do rosto, revelando apenas os olhos grandes e escuros, avançou para o lado dos outros. Tinha a cabeça metida num elmo de couro coberto de chifre e envergava uma couraça feita de discos planos também de chifre, ligados uns aos outros por aros de ferro. Uma comprida capa vermelha caía-lhe desde os ombros até aos calcanhares das botas pretas. Tal como todos os outros, trazia de lado uma curiosa espada curva com a lâmina fina e esguia muito afiada nos dois gumes.

- Eu também não vi soldados. As aldeias não ofereceram resistência, o sangue dos teimosos tingiu o chão de vermelho e as cinzas subiram ao céu em vossa honra, imortal Nin. - Dito isto, o guerreiro preto tocou na testa e fez uma profunda vénia.

- Que terra é esta que não constrói muros à volta das cidades e deixa as aldeias sem protecção? Temos a riqueza à mão, meus guerreiros. Vamos para norte, em direcção a Askelon, onde estabelecerei o meu palácio, para poder estar confortável enquanto domino esta terra.

"Agora ide e avisai-me quando o castelo for meu, para eu ir imediatamente apropriar-me do que desejo. Mas não sacrifiqueis o rei. Quero ter eu próprio esse prazer: o seu sangue há-de correr só para mim. Ouvi e obedecei.

Os quatro comandantes saudaram Nin e recuaram uns passos. Depois voltaram-se, montaram os seus cavalos e partiram, a galope. Nin bateu as palmas e os serviçais deram um salto em frente, dando início ao laborioso processo de transportarem o seu deus pela rampa acima, para dentro do magnífico navio-palácio.

 

As folhas ainda mostravam pesadas gotas de orvalho quando os primeiros raios dourados da manhã iluminaram a paisagem. Era normal haver orvalho perto do mar, mas Quentin nunca deixava de se maravilhar ao ver o sol batendo nas minúsculas gotas de humidade e transformando-as em jóias cintilantes. Cada outeiro, cada arbusto, parecia adquirir um valor incalculável.

Os animados cavalos de Toli, bem descansados, cabriolavam e corriam ao ar fresco da manhã. O próprio Quentin elevou a voz num hino ao novo dia. Toli juntou-se-lhe, e as suas vozes soaram nos pequenos vales, ao fundo de encostas arborizadas.

- Como é bom estar vivo! - gritou Quentin, mais pela alegria de gritar do que para conversar.

- Hoje já parece que gostas da sela - disse Toli, balançando-se atrás dele. - Não foi a impressão que me deste ontem à noite.

- De manhã, o mundo volta a ser criado. Tudo é novo... incluindo as selas.

- Alegro-me por ver o meu amo de tão bom humor. Não é por nada, mas nos últimos três dias foi fácil confundir-te com um urso a grunhir.

Quentin fez de conta que não ouvia, e continuaram como antes. Os arreios dos cavalos, que se lançavam num galope breve, tilintavam alegremente.

- Desculpa se tenho andado de mau humor - disse Quentin, passado algum tempo. - Tenho andado com muito em que pensar nestes últimos dias. Foi como uma sombra que pairasse sobre mim. Mas, agora, voltei a ver tudo claramente.

- Isso é bom para os dois - replicou Toli no seu habitual estilo elíptico.

Os dois cavaleiros aproximaram-se da encosta de um outeiro comprido e começaram a subi-lo. No cimo, pararam durante algum tempo, contemplando a estrada e o vale que ficava para lá dela, no centro do qual se erguia a aldeia de Persch.

- Vê como tudo é tranquilo - comentou Quentin, observando o cenário. - Tanta paz! E é assim há mil anos... - A sua voz diminuiu de intensidade.

- Rezemos para que possa ser assim durante mais mil - respondeu Toli. Abanando as rédeas, começou a descer a estrada, que não passava de um estreito carreiro de terra batida, conquistado à erva verde, comprida e espessa que cobria as colinas. À medida que se aproximavam da aldeia marítima, Toli ia ficando tenso e cada vez mais concentrado. Reparando na mudança de atitude do seu companheiro, Quentin perguntou-lhe:

- O que é? O que vêem esses teus olhos de águia?

- Nada, meu amo. E é isso que me preocupa. Não estou a ver ninguém... nenhuma actividade na aldeia.

- Se calhar, as pessoas de Persch deitam-se tarde e levantam-se tarde - retorquiu Quentin descuidadamente, tentando manter o espirito de tranquilidade que acabava de ser despedaçado pela observação de Toli.

- Ou, se calhar, têm razões para ficar em casa num dia como este, e de certeza que essas razões têm a ver com o medo.

Quentin suspirou.

- Não é a primeira vez que damos com ele nas nossas jornadas.

Pousando a mão livre no punho da espada, ajeitou-a ligeiramente, de modo a estar pronta a ser usada. Os seus olhos perscrutavam toda a aldeia, que se aproximava lentamente a cada passo que davam. Nem nas ruas nem na estrada havia sinais de vida. Não se viam nem homens nem animais. Era estranho. Normalmente, os primeiros raios da luz da manhã encontravam as ruelas estreitas cheias de pessoas atarefadas na sua vida de todos os dias: os mercadores montavam as suas tendas no mercado e os artesãos os seus toldos; os lavradores ofereciam queijo, melões e ovos em troca de tecidos e de vários utensílios de metal; as mulheres iam buscar água ao poço do largo da aldeia, as crianças escondíam-se nas esquinas e corriam de um lado para o outro em brincadeiras barulhentas e os cães da aldeia ladravam e esquivavam-se por entre as suas pernas nuas, queimadas pelo sol.

Mas naquela manhã não havia azáfamas nem algazarras. As ruas vazias pareciam assombradas pelos ecos de risos infantis e pela fantasmagórica ausência dos aldeãos.

Os cavaleiros entraram na rua principal, e Quentin ouviu os cascos dos cavalos esmagando suavemente os minúsculos fragmentos de conchas com as quais os habitantes de Persch pavimentavam as suas ruas. Quentin sempre pensara que isto dava a todas as vilas marítimas uma aparência de frescura e limpeza. No entanto, naquele dia, as ruas esbranquiçadas pareciam desoladas como sepulcros.

Ainda que de fugida, nenhum rosto aparecia a uma porta ou numa janela escurecida. Não se ouvia nenhum som a não ser o sopro da suave brisa marítima por entre as caleiras, que sussurrava notas de completo abandono.

- Não está cá ninguém - observou Toli, cuja voz pareceu morrer no ar vazio.- Não acredito. Não podem ter partido todos. Deve ter ficado alguém. Uma aldeia inteira não desaparece assim... tem de haver uma boa razão para isso.

Chegaram ao largo da aldeia, que era um rectângulo irregular formado pelos frontispícios dos principais edifícios de Persch: a estalagem, que se dizia servir um excelente peixe estufado, a casa do povo (como não havia nobres a viver em Persch, os habitantes tinham construído aquela casa, na qual celebravam as festas e os dias santos), o mercado e as tendas dos vendedores, o pequeno templo e o santuário erigidos ao deus Ariel e as habitações dos artesãos.

No centro deste rectângulo encontrava-se um grande poço e, ao lado, numa pequena elevação, erguia-se um cedro imenso, cujos ramos e galhos emaranhados ofereciam a sua sombra a todos os que ali se reuniam. Quentin e Toli aproximaram-se da fonte e desmontaram. Toli pegou num balde de madeira que estava ao lado da borda de pedra do poço e tirou água para os cavalos. Quentin encheu uma cabaça, bebeu abundantemente aquela água fria e fresca e depois passou-a a Toli.

- Hum - cismou Quentin -, nem um som e não se vê ninguém. No entanto, sinto que não estamos sozinhos.

- É verdade. Sinto a presença de alguém aqui muito perto. E também sinto o medo. - Toli voltou a pôr o balde no lugar e fez sinal a Quentin para que tomasse a montar. Ele obedeceu com um olhar de interrogação e, juntos, atravessaram o resto da aldeia.

Quando chegaram à última habitação, Toli chamou Quentin de lado e sussurrou:

- Havia mais alguém perto do poço. Senti o olhar de alguém sobre nós. Vamos deixar aqui os cavalos e voltar por outro caminho.

Deslizaram silenciosamente por um beco estreito, ladeado de várias construções, e voltaram ao largo. Não havia nada para ver: tudo parecia estar como apenas uns momentos antes.

- Bom, parece que temos de procurar noutro lado. Podemos tentar encontrar alguém numa destas casas.

- Espera só mais um bocadinho.

Mal Toli acabou de falar, ouviram um raspar e um silvo, parecido com o som produzido por uma cobra em areia seca, que parava e recomeçava a um ritmo regular. Puseram-se à escuta. O som parecia diminuir rapidamente. Foi então que Quentin percebeu que estivera alguém muito perto deles, talvez por trás da mesma casa feita com canas onde se escondiam naquele momento, espreitando na sombra. O som eram os passos leves e arrastados de alguém que caminhava com todo o cuidado pela rua de conchas.

- Está a ir-se embora! - murmurou bruscamente Quentin, dobrando depressa a esquina da casa, mesmo a tempo de ver uma perna e um braço desaparecerem por detrás de um denso emaranhado de teixos.

- Dirige-se para a doca! - gritou Toli. - Se formos por aqui, apanhamo-lo. - Puxando o braço de Quentin, apontou para trás, na direcção do sítio onde a estreita ruela descrevia uma curva e começava a descer, tomando-se um carreiro, como tantos nas vilas marítimas, que ia dar à beira-mar, ao local onde os aldeões guardavam os seus barcos de pesca.

Toli largou a correr e Quentin seguiu nos seus calcanhares.

Precipitaram-se juntos pelo carreiro abaixo e saltaram os degraus de pedra construidos do lado da duna que separava a aldeia da praia. A sua frente estendia-se a doca, a pequena angra que constituía o porto de Persch. Ali, entre dois barcos de pesca com os cascos negros voltados para o céu, viram um barco leve com uma vela branca e triangular, que fora empurrado para a areia. A figura pequena de um jovem caminhava agilmente pela areia em direcção ao barco.

Quentin largou a correr para a praia em sua perseguição. Depois de dar uns passos, parou, levantou a mão e gritou:

- Pára! Não queremos fazer mal! Só queremos falar!

O jovem deu meia volta, e só então viu os dois homens que o observavam. Embora Quentin e Toli ainda estivessem longe de mais para poderem distinguir-lhe o rosto, o resultado das palavras de Quentin não lhes deixou quaisquer dúvidas.

- Assustaste-o! - disse Toli, vendo a figura que estava na praia cambalear, tropeçar, cair, levantar-se e correr como um veado para o barco. - Anda! - gritou o ligeiríssimo jher, deslizando pela areia.

O jovem estranho, que, entretanto, chegara ao barco, empurrava-o com todas as suas forças. Para Quentin, ou encalhara nalguma coisa ou a maré baixara desde que o barco ali ficara, tomando mais difícil metê-lo na água.

Mas, com a força do desespero, o rapaz conseguiu lançar à água o pequeno barco à vela e, agitando-se com água pelos joelhos, tentava virar o barco para depois saltar de lado lá para dentro, como um peixe.

Toli chegou primeiro à beira-mar. Quentin seguiu-o, e ambos patinharam até ao barco. O estranho, remando furiosamente com um remo comprido, lançou um olhar aterrorizado por cima do ombro. Quentin reparou na sua estrutura sólida e nos seus ombros esbeltos. O rapaz envergava o colete de couro e as calças castanhas de tecido grosseiro usados pelos pescadores. O chapéu mole e disforme, também tradicional entre os habitantes das povoações marítimas do sul de Mensandor, estava puxado para baixo, escondendo o jovem rosto.

Quentin avançou para um lado do barco e Toli patinhou para o outro. Apesar de o seu ocupante agitar prodigiosamente o remo, o barco não estava a avançar para o mar alto tão rapidamente como o desejado; por isso, nenhum deles teve problemas em alcançá-lo nalgumas passadas.

Uma vez dentro do seu raio de acção, o remo assobiou-lhes em cima da cabeça. Tentando acalmar o desconhecido, Quentin disse:

- Está quieto, amigo! Pára com isso! Ai! - Malhando a torto e a direito, o remo aproximou-se perigosamente. - Não queremos fazer mal!

Enquanto Quentin ocupava assim a atenção do rapaz, Toli passava-lhe por trás, na direcção da proa. Virando-se, o rapaz deu com toda a força com o remo na borda do barco, precisamente no sítio onde os dedos de Toli tinham estado um momento antes. Vendo que o desconhecido ficara momentaneamente desequilibrado devido à pancada que desferira, Quentin agarrou-se à popa com as duas mãos e deu um poderoso abanão ao barco. O rapaz lançou um grito de surpresa e, com os braços abertos e as mãos tentando apoiar-se no ar, saiu pela borda fora, mergulhando de cabeça e deixando o remo tombar no fundo do barco. Quentin desviou-se dos salpicos e Toli rodeou o barco, indo pôr-se em frente de Quentin. O chapéu de pescador flutuava entre os dois. Quentin enfiou o braço na água pouco profunda, agarrou o colarinho do desconhecido e levantou-o até ele ficar de pé.

- Bem, que temos aqui? - perguntou Quentin amistosamente. Toli, acho que apanhámos... - Calou-se abruptamente. Era a vez de Quentin ficar surpreendido,

- Uma rapariga! - exclamou Toli, terminando o pensamento de Quentin.

Quentin tinha nas mãos o chapéu molhado, que mais parecia um saco preto encharcado e olhava com perplexidade para as tranças compridas e escuras, naquele momento ensopadas e pegajosas, que rebrilhavam ao sol. A rapariga abriu e fechou as pestanas escuras, deixando entrever os olhos claros, de um azul de gelo, e limpou a água que lhe escorria pelo rosto. As suas feições eram suaves e perfeitas e nas faces coradas tinha a cor de rubi da excitação.

- Larga-me! - gritou. - Não sou ninguém! Não tenho dinheiro! Larga-me!

- Paz - disse Quentin suavemente. - Não vamos fazer-te mal, minha senhora.

A rapariga olhou de um para o outro dos seus captores, observando-os com desconfiança.

- Não somos ladrões, se é isso que estás a pensar - comentou Toli. - Somos homens do rei.

- Desde quando é que os homens do rei prendem pessoas inocentes sem qualquer razão? - desafiou ela altivamente.

- As pessoas inocentes não têm nada a temer de nós. Porque é que fugiste?

A rapariga lançou um olhar furtivo na direcção da aldeia e murmurou:

- Estava apavorada. Encontrei a aldeia deserta e...

- E ouviste-nos chegar e escondeste-te.

- Pois foi - assentiu ela com um ar carrancudo, passando uma manga encharcada pela cara. Depois, lançou a Quentin um olhar de desafio. -Agora, larga-me!

- A seu tempo. Espicaçaste a nossa curiosidade, e primeiro queremos que respondas às nossas perguntas. Bem - continuou Quentin, estendendo-lhe a mão -, mas não é preciso ficarmos na água. Vamos secar-nos na praia.

Virou-se e começou a patinhar para a costa. De repente, sentiu os joelhos vergarem-se-lhe e afundou-se para a frente com um grito estrangulado. Alguém lhe desferia ferozes socos nas costas e nos ombros. Voltou-se debaixo de água e, quando tentava pôr-se novamente de pé, o ataque parou. Veio à superfície e limpou a água dos olhos. Toli agarrava os braços da jovem, que arranhava e dava pontapés, e que assim seguiu empurrada pelo seu servo até à praia.

No rosto de Toli estava estampado um sorriso estranho e ridículo.

 

- Como é possível? - Theido abanou a cabeça, sem querer acreditar. Os seus olhos perscrutavam a planície enegrecida onde outrora ficara a aldeia de Halidom.

- As perspectivas são muito más, mas alguma coisa deve ter ficado. - Ronsard fez sinal aos seus cavaleiros, e todos começaram a descer a suave colina que ficava acima do vale plano de Halidom. Cada homem tinha no rosto uma interrogação lúgubre e no espírito o pensamento de Theido: como era possível que uma aldeia inteira tivesse sido aniquilada tão completamente?

De Halidom apenas restava um círculo enegrecido na terra. Não ficara nem um pau de pé, nem uma pedra sobre outra. A área arrasada da povoação não passava agora de um caos de destruição.

- Até as aves acabaram o serviço - observou Ronsard enquanto se aproximavam do perímetro do círculo queimado.

- Não completamente. Olha ali. - Theido estava a observar um ponto a curta distância deles. Ronsard seguiu-lhe o olhar e viu um grande busardo fechando as asas e empoleirando-se no que restara de um tronco de árvore. Três corvos rabugentos levantaram voo do local onde tinham estado atarefados a debicar no chão.

- Vamos ver o que lhes chama a atenção. - Ronsard virou-se para os seus homens. - Espalhai-vos e procurai nas cinzas sinais que nos indiquem quem é este inimigo. - Depois, ele e Theido conduziram os cavalos para o local onde o busardo saltitava ao longo do tronco queimado. A ave observava qualquer coisa no chão, mas não conseguiam distinguir o quê.

Foram atravessando a aldeia destruída. Entre as cinzas estavam espalhados os vestígios carbonizados da vida quotidiana dos aldeãos: um tripé de ferro com a panela amolgada ali perto, uma pequena estátua de pedra de um deus doméstico, os cacos enegrecidos de uma caneca de vinho. E aqui e ali encontravam-se os restos dos infelizes habitantes da povoação: uma caveira coberta de fuligem contemplando o céu com o seu olhar vazio, um bocado de tíbia comprido e numa carcaça curva de um conjunto de costelas erguendo-se na desolação.

À aproximação dos cavalos, o busardo levantou voo de mau humor e ergueu-se lentamente no céu, pondo-se a descrever círculos juntamente com os corvos.

- Pelos deuses! - gritou Theido, já perto do sítio para onde se dirigiam.

- O que ... ? - começou Ronsard. Depois, também ele viu o que Theido vira. - Por Orphe... não!

Theido, que já saltara da sua montada, puxava as correias da sela para tirar o odre de água. Ronsard, hipnotizado pelo que via, desmontou devagar, aproximou-se, pôs a mão no punho da espada, e já estava a desembainhá-la quando Theido lhe tocou no braço:

- Não é preciso. já está para além da dor e do sofrimento.

Enquanto Theido falava, o objecto da sua atenção, o torso queimado de um corpo, agitou-se convulsivamente e um olho amarelo rodou na sua direcção. Quando os viu, o meio cadáver desfeito soltou um gemido desesperado. Theido ajoelhou-se bondosamente ao lado da carcaça e estendeu-lhe o odre.

- Paz, amigo. Toma água para a tua garganta ressequida. - De joelhos, Theido chegava suavemente a extremidade do odre à boca estalada, deixando sair algumas gotas de água, que humedeceram os lábios do homem. A língua preta apareceu à entrada da boca e lambeu a água. As pálpebras rachadas agitaram-se e os globos oculares secos rolaram nas suas órbitas. Como que por milagre, a água pareceu exercer algum efeito, e nos olhos apareceu um clarão de reconhecimento.

- Como é possível este pobre diabo ainda estar vivo? - indagou Ronsard, inclinando-se ao ouvido de Theido.

- Não sei. - O cavaleiro calou-se e deixou sair mais um fiozinho de água. - Mas antes de Heoth o vir buscar, talvez ele possa dizer-nos o que aconteceu aqui.

- Consegues falar, meu amigo? Somos homens do rei e as tuas respostas são muito importantes.

Ronsard afastou-se do cheiro que lhe entrava pelas narinas. O homem estava horrivelmente queimado. Tinha grandes áreas do peito e dos braços completamente calcinadas; a parte inferior do seu corpo fora esmagada pela árvore ao cair. jazia numa depressão pouco funda do chão, meio torcido de lado. O cabelo de um lado da cabeça ardera todo: do outro lado do crânio nu ainda saíam uns fios escuros, que voavam ao sabor da brisa.

As aves já o tinham debicado, abrindo-lhe feridas no ombro e nas costas, por onde se entreviam os ossos brancos.

- Deixemo-lo morrer em paz - disse Ronsard, virando-se. Tinha a voz tensa e sufocada.

- N... n... ão. - O som era pouco mais do que um sussurro ao vento. Os dois homens fitaram aqueles olhos, que uma luzinha agarrava à vida. O aldeão estava a tentar falar.

- Calma. Estamos a ouvir. Deixa-me aproximar. - Theido inclinou-se para a frente e pôs o ouvido mesmo por cima dos lábios do homem. Falava suavemente e com uma serenidade quase inacreditável para Ronsard. - Conta-nos o que aconteceu, se puderes.

Embora Ronsard não percebesse como, as palavras formaram-se no ar e, apesar de muito débeis, eram compreensíveis.

- Tenho estado à espera que apareça alguém - murmurou o homem. A sua voz era um arranhar seco, como o som de uma folha murcha empurrada pelo vento sobre a areia. - À espera... à espera...

- Agora estamos aqui. A tua vigília chegou ao fim. Consegues contar-nos alguma coisa?

- Todos mortos... tudo destruído... tudo incendiado.

- Nós sabemos. Sabes quem fez isto?

- Ahh... - ofegou longamente. - O deus destruidor... três metros de altura... deitava fogo pela boca... tudo destruído.

- O deus estava sozinho?

As palavras estavam a tornar-se mais fracas e ténues.

N... não... ahh... muitos soldados... dizem... - O homem tossiu violentamente, e o torso foi atormentado por outra convulsão.

- Dizem o quê?

- Ahh...

- Diz-me só isso. Depois, o deus leva-te para descansares.

- Cuidado... Nin, o Destruidor... Ahh... ahh.

Os olhos amarelados toldaram-se e aquietaram-se. O homem não teve fôlego suficiente para arquejar uma última vez, mas Ronsard sentiu a vida escapar daquele corpo despedaçado, que a mantivera presa durante tanto tempo contra sua vontade.

Theido levantou-se lentamente.

- Vamos enterrar imediatamente este bravo.

As aves guinchavam, como se soubessem que iam ficar privadas da sua refeição.

Depois de enterrarem o patético cadáver com a suavidade que os cavaleiros conseguiram reunir, Ronsard e Theido afastaram-se uns passos para conversar.

-já viste que chegasse, meu amigo? - perguntou Ronsard, encostado à espada.

- Aqui já. Mas gostava de ver este inimigo que ataca aldeias indefesas e mata os inocentes.

- Suponho que não falta muito para o encontrarmos. Mas não é agora. Devíamos regressar imediatamente e contar o que vimos. Quando voltarmos a cavalgar, será com mil homens atrás de nós.

- Isso... tiraste-me as palavras da boca... hum. - Theido calou-se e pareceu contemplar alguma coisa no horizonte.

- O que é, Theido? Estás preocupado?

Theido inspirou profundamente. Quando se virou novamente para Ronsard, tinha uma luz estranha a brilhar-lhe nos olhos. Voltando-se outra vez para o horizonte, falou num tom de voz que parecia vir de muito longe. Ao mesmo tempo, uma sombra passou por sobre o vale.

- Tenho medo, Ronsard.

- Medo? Tu? Conheceis-vos muito mal, senhor!

- Não sentes? - O seu olhar era rápido e penetrante. - Não? Porque...

- Em que pensas, Theido? Não me escondas nada agora. Estás com um pressentimento, bem vejo. Diz lá' Não tenhas medo de me inquietar em vão. Sou bastante homem para dar rédea curta aos meus pensamentos, garanto-te.

- Muito bem... tens razão, claro. Mas não é fácil pô-lo em palavras. Agora mesmo. enquanto conversávamos. tive a sensação de que estávamos a cavalgar por um caminho estreito abaixo. No fim, havia a escuridão. As trevas caíam sobre tudo. Só isto. Mas fiquei com medo.

Ronsard estudou o amigo com toda a atenção e, por fim, falou em voz firme mas suave:

- Estávamos juntos, tu e eu? Então isso chega-me. Para intimidar estes dois cavaleiros, o caminho tem de ser mesmo muito escuro. Mas vamos, deixemos este lugar do mal. Regressemos imediatamente a Askelon, para falar com o rei. já estivemos ausentes tempo de mais.

- Vamos regressar como dizes, bom amigo. - Theido endireitou os ombros e bateu com a mão nas costas de Ronsard. - Mas preferia ter visto este inimigo misterioso e saber a sua força. Sentia-me melhor se lhe pudéssemos ver a cara.

- Eu também, mas não deve faltar muito. Ainda podemos dar com ele antes de chegarmos a Askelon... e estamos mal preparados para a batalha.

- Não estou nada interessado em me engalfinhar com um inimigo desconhecido, meu bravo amigo, mas só em espiar os seus métodos. E ainda mais porque este parece ser inacreditavelmente fantástico.

Enquanto falavam, caminhavam para o sítio onde estavam os cavalos. Quando lá chegaram, Ronsard montou e gritou para os seus cavaleiros:

- Montai, homens! Vamos para Askelon!

Os cavaleiros obedeceram e começaram a subir a colina por onde tinham descido, mas desta vez evitaram o círculo carbonizado da planície.

Theido ainda ficou por um momento ao lado do cavalo, contemplando a distância. Quando ouviu Ronsard. chamar atrás de si, encolheu os ombros, montou o seu grande palafrém preto e apressou-se a juntar-se aos outros. Ao chegar ao cimo da colina, o sol do fim da tarde bateu-lhe em cheio no rosto, fazendo-o sentir que a melancolia o abandonava, empurrada pela torrente de calor dourado que o inundou. Sem olhar para trás, esporeou o cavalo.

 

Durwin levantou a túnica acima dos joelhos e entrou no lago rodeado de canaviais. O sol da tarde caía em raios oblíquos através de grandes carvalhos e de vidoeiros com folhas prateadas, que cintilavam em reflexos tremeluzentes na água límpida. Peixes minúsculos afastaram-se precipitadamente dos seus pés. O grito líquido e cristalino de uma cotovia empoleirada num ramo dividiu o silêncio verde da floresta em duas metades palpitantes.

Durwin avançou cuidadosamente para a água mais profunda. Enquanto ia patinhando, perscrutava o fundo coberto de seixos. Por um momento, pensou em despir a túnica e mergulhar nas frias profundezas do lago, como costumava fazer na floresta de Pelgrin, nas quentes tardes de Verão.

Mas, por mais convidativo que fosse este pensamento, reflectiu melhor e resolveu continuar como estava. Não tardou que ficasse satisfeito por ter continuado vestido, pois, ao passear pelo lago, baixando-se de vez em quando, reparou numa coisa branca que brilhava na água. Olhando outra vez, percebeu que se tratava de um reflexo na superfície espelhada do lago. Com um sobressalto, levantou o olhar e viu uma mulher toda vestida de branco, de pé, na margem alagadiça e coberta de ervas.

- Minha senhora! - exclamou. - Que grande susto! Não sabia que me estáveis a ver.

- Desculpa, Durwin. Não queria alarmar-te - riu Alinea, cuja voz retiniu no valezinho. Há muito que não a ouvia rir. - Estavas tão concentrado que tive medo de perturbar os teus pensamentos. Perdoa-me.

- Agradeço a vossa consideração, mas não era necessário. Só estou a apanhar cicuta para fazer uma tisana.

- Cicuta? É um veneno mortal, não é?

- Conheceis as plantas do campo e da floresta?

- Só algumas. A minha mãe, a rainha Ellena, conhecia muitos remédios e fazia-nos mezinhas. Quando era pequena, ajudava-a a apanhar as ervas.

- Então sabeis que as plantas não são mortais nem perigosas, e que isso só depende da intenção do curandeiro. É verdade que algumas são muito poderosas, mas, se forem usadas com sabedoria, até a mais venenosa delas todas pode proporcionar uma cura maravilhosa.

- E sem dúvida que não há neste reino sabedoria maior do que a tua, bom eremita. As tuas mezinhas são muito eficazes.

- Oh, minha senhora! Não sabeis como as vossas palavras me entristecem.

- Disse alguma coisa que não devia? Fala, por favor. - A rainha aproximou-se da borda da margem. Durwin caminhou na sua direcção.

- Não, a intenção não era má, mas as vossas palavras escarnecem da minha inaptidão, pois o doente que eu mais gostaria de curar com a minha humilde arte continua prostrado na cama... não está melhor agora do que quando comecei a tratá-lo. A sua doença resiste a toda a minha arte.

- É um estado de enfraquecimento muito subtil.

- É verdade!

Durwin sondou os profundos olhos verdes de Alinea e leu neles a preocupação que se adensava a cada dia que passava. Sentiu-se impotente para a ajudar, tal como se sentia quando ia assistir ao nascimento de um bebé prematuro, que morria antes de ter começado a viver. Embora fosse um fardo bem pesado, não se importaria de o tomar sobre si, mas não podia fazer nada senão assistir ao facto, humilhado pela sua inutilidade.

- Achas que o Deus Altíssimo ouve as nossas orações pelo doente?

- Acho que sim. Ele ouve todas as orações e a todas responde na devida altura.

- Então a oração há-de fazer o que as poções não conseguem.

- Envergonhais-me com a vossa fé. Na minha busca de um medicamento, negligenciei gravemente esse remédio. Mas não o farei mais.

A rainha suspirou e levantou os olhos para o céu azul e limpo, que brilhava docemente à luz da tarde. Longínquos farrapos de nuvens deslizavam lentamente ao sabor da brisa que, de tempos a tempos, fazia roçagar docemente as árvores. O lagozinho era como um vidro polido que reflectia tudo o que se passava lá em cima. Alinea colheu uma florzinha vermelha de um maciço que tinha aos pés e pôs-se a sondá-la. como se procurasse um sinal do seu criador.

Durwin continuou a patinhar, inclinando-se aqui e ali para arrancar uma planta pela raiz. Quando reuniu o suficiente, saiu da água e subiu para a margem, na qual Alinea esperava à sombra.

- O que se passa, Durwin? - Fez a pergunta em voz baixa. mas a incerteza que a perpassou e a preocupação que espreitava nos seus olhos deu-lhe o impacte de um grito. Antes de ele poder acalmá-la, continuou: - Parece-me que uma coisa muito má e envolta nas trevas está a crescer, a aproximar-se. Às vezes, paro sem razão e sou percorrida pelo medo. Vai tão depressa como veio, mas fica a pairar no ar como um arrepio e nada volta a ser como dantes.

- Também já o senti. Mas não consigo explicá-lo. Acho que anda alguma coisa na terra... alguma coisa má. Por enquanto, não se sabe o que é, mas em breve se revelará.

- Embora as tuas palavras não sejam alegres, anima-me ouvir-te falar. Pelo menos, sei que um amigo muito querido me compreende e sente o mesmo que eu.

- Se pudesse, acalmar-vos-ia.

- Cumpriste bem a tua missão. Vim aqui com a esperança de te encontrar e de descansar um bocadinho. Ultimamente, nem tenho visto os montes nem os bosques, e já estamos quase na força do Verão.

- Isto é muito calmo. A paz é tanta que, quando venho aqui, quase me parece que estou no coração de Pelgrin. Acredito que até num tempestuoso mar de problemas se encontram ilhas de serenidade. Nada pode tocar nelas.

A rainha mexeu-se, preparando-se para se levantar, e Durwin estendeu-lhe a mão.

- Ficai um pouco mais, se quiserdes, senhora. Eu tenho de ir tratar disto - disse, abanando a cicuta, de onde saíram cintilantes gotas de água.

- Não, vamos juntos. Tenho de ir ver o rei.

Caminharam até aos cavalos, montaram e regressaram ao castelo de Askelon no doce calor da companhia um do outro.

- De onde és? - perguntou Quentin, torcendo o corpete. como é que te chamas?

- Não digo enquanto não souber quem mo pergunta. - Os olhos da rapariga faiscaram em desafio.

- Está bem, nome por nome. Chamo-me Quentin e este é o meu amigo e criado Toli. - Ao dizer os seus nomes, pareceu-lhe ver um clarão de reconhecimento atravessando as feições agradáveis da joven - Estes nomes dizem-te alguma coisa?

- Não. Deviam dizer? - atirou ela.

- Há quem já os tenha ouvido.

- Suponho que deve haver muita gente que já ouviu falar de duas pessoas assim tão barulhentas e brigonas.

Quentin irritou-se com a língua afiada da rapariga.

- Nós dissemos-te os nossos nomes, mas tu não nos disseste o teu - retorquiu com ar zangado.

- Só digo o meu nome a quem quero. E só quero ser conhecida dos meus amigos. - Abanando o cabelo liso e molhado, virou a cara.

- Se soubesses quem está a falar contigo... - começou Quentin acaloradamente. A altivez da obstinada rapariga estava a fazê-lo ficar fora de si.

- Se soubesses quem maltrataste... - Com a rapidez de um gato, virou-se novamente para Quentin e saltou-lhe em cima, com as mãos como se fossem garras.

Toli voltou a agarrar-lhe os braços, dizendo:

- Paz! O que o meu amo está a tentar explicar-te, senhora, é que jurámos proteger todos os súbditos do reino. Estamos às tuas ordens. - Falou em voz baixa e largou-a quando ela acalmou.

Pois bem, não precisais de vos preocupar por minha causa retorquiu ela, num tom de voz mais brando. - Não sou súbdita do vosso rei.

- Não és de Mensandor? Ah, agora já estamos a entender-nos observou Quentin com ar azedo.

A rapariga olhou para cada um deles por trás das suas pestanas escuras, como se estivesse a medi-los.

- Muito bem, vou confiar em ti... mas só porque o teu criado tem tento na língua. - Lançou a Quentin um olhar sombrio. - Chamo-me Esme. Vivo em Elsendor.

- Então estás muito longe de casa. O que é que te trouxe a Mensandor e a esta aldeia tão modesta?

- Garanto-te que a aldeia não era o meu destino, mas a minha história não é para os teus ouvidos, embora já saiba que vais implicar comigo por causa disso.

- E quem melhor do que os homens do rei para ouvir a tua história? - indagou Quentin.

- O próprio rei! - Cruzando os braços, mirou-os com um olhar zangado.

- Então permite-me que te ofereça a protecção do rei até obteres uma audiência com ele - disse Toli com uma vénia. Esme sorriu triunfantemente e fez que sim com a cabeça. Quentin ergueu os olhos para o céu. como se implorasse paciência.

- Aceito a vossa protecção. Parece que as mulheres precisam dela nesta terra de mal-educados. - Depois de ajeitar as roupas, fitou-os gravemente. - Encarrego-vos de me levardes imediatamente ao rei.

- Toli fez bem em oferecer-te a protecção do rei, para junto de quem regressaremos... mas não já. Temos uma missão de que fomos encarregados pelo próprio rei e só podemos voltar quando a cumprirmos.

A jovem carregou o cenho e ia começar a interpelá-los furiosamente, mas Toli intercedeu de novo:

- O que o meu amo diz é verdade. Se a nossa missão não fosse urgente, de bom grado te conduziríamos directamente ao castelo. Nós próprios vamos regressar lá o mais cedo possível.

- Então vou sozinha. Com a vossa protecção ou sem ela, a minha missão não pode esperar.

- Como? No teu barco? Ias demorar muito mais tempo do que pensas. A corrente do Herwydd é muito forte. Não é fácil subi-la e Askelon fica longe. Ou estás a pensar em ir a pé?

- Ou tu podes dar-me o teu cavalo - respondeu ela.

- O meu amo está a sugerir-te prudência, senhora. Talvez não faltem muitos dias para completarmos a nossa missão. Temos bons cavalos e, se for preciso, podemos chegar rapidamente a Askelon. Anda connosco... - hesitou - para tua protecção e para chegares mais depressa junto do rei.

Antes de se decidir, a impetuosa jovem passou o olhar de um para o outro.

- Está bem, irei convosco. Acho que não tenho outro remédio. Ditas estas palavras, virou-se e começou a caminhar de volta à abandonada aldeia de Persch.

Toli e Quentin seguiram atrás dela. Quando chegaram ao largo da povoação, Esme voltou-se para eles, anunciando:

- Volto já. - E desapareceu dentro de uma das habitações.

- Vou esperar aqui pela nossa orgulhosa companheira - disse Quentin. - Vai buscar os cavalos. Partiremos logo que ela regresse.

Toli obedeceu e pôs-se a redistribuir pequenos artigos de viagem.

- O que é que estás a fazer? - inquiriu Quentin, observando-o.

- Como não me parece que queiras que ela vá contigo no teu cavalo, estou a arranjar o meu.

- O meu dever é assumir eu essa responsabilidade.

- Como? Eu sou teu servo. O dever é meu. E foi por causa da minha língua que ficaste com este fardo às costas. Portanto, vou ajudar-te a carregá-lo.

- Se isso te dá prazer, Toli, até podes levá-la nos braços todo o caminho. Faz como quiseres.

- Estou pronta - gritou uma voz atrás deles. Voltaram-se os dois, e viram uma jovem bem diferente da que tinham pescado no mar. Esnie apanhara o cabelo, prendendo-o com uma tira de couro. Envergava calças de montar, de corte mais requintado do que as dos homens, com complicados desenhos bordados ao longo das costuras. Atirada por cima de um ombro, tinha uma capa curta também cuidadosamente bordada, que condizia com as calças. Tanto a capa como a macia túnica curta que trazia por baixo eram azul-escuras. Na cintura, um cinto fino de couro novo segurava um punhal comprido. Umas botas de couro macio cobriam-lhe os pés e chegavam-lhe quase aos joelhos.

Seria difícil prever uma transformação tão notável. Toli e Quentin pestanejaram surpreendidos. Esme parecia uma princesa guerreira, mas nunca tal se ouvira em Mensandor.

- Que cavalo monto? - inquiriu.

- Toli leva-te com ele.

Sem mais palavras, subiram para as selas. Toli estendeu a mão e puxou a jovem, que se sentou atrás de si. no largo lombo de Riv! Dali a pouco, a aldeia silenciosa ficava para trás.

Quando o pôr do Sol lhes alongou as sombras sobre as verdes colinas, pararam para passar a noite junto de umas finas faias pretas, perto de um regato. Quentin e Toli começaram a levantar o acampamento e Esme foi sentar-se num sítio cheio de ervas, puxou os joelhos para cima e pôs-se à espera. Só se aproximou quando Toli já tinha a carne no espeto e o caldo borbulhante na panela pouco funda.

- Pode ser que amanhã comamos melhor - observou Quentin.

- Não pudemos arranjar as provisões de que gostaríamos. - Inclinou a cabeça na direcção de Persch.

- Para mim, é um banquete - replicou Esme, que, com os olhos a brilhar, observava Toli a virar os espetos. - Há dois dias que não como.

A confissão envergonhou Quentin, que corou violentamente.

- Eu... eu peço desculpa pelo meu comportamento, senhora. Não devia ter feito o que fiz.

- Eu também te julguei mal - admitiu ela. - Mas talvez me perdoes o meu erro. Por vezes, uma mulher tem de desencorajar os avanços e as inconveniências dos desconhecidos. Pensei que querias aproveitar-te de mim.

- Ficava com muita pena era do homem que tentasse.

- Não te acontecerá nada enquanto estiveres connosco, senhora - disse Toli muito sério.

- Obrigado, senhor. - Quando os seus olhos se encontraram, Toli virou rapidamente a cara e acabou de preparar a refeição. Uma vez esta pronta, sentaram-se a comer. Toli passou um prato de carne em volta e encheu as tigelas de caldo. Depois, partiu umas côdeas de pão duro, que molharam no caldo para amolecer e ser mais fácil de mastigar. Esme comeu com um apetite muito pouco próprio de uma senhora, mas Quentin e Toli fizeram de conta que não viram nada.

- É muito simpático da vossa parte não reparardes nas minhas maneiras. A comida aquece tanto um estômago vazio!

- Como podemos reparar naquilo que também fazemos? - perguntou Quentin. - Não queres mais? Serve-te à vontade.

- já comi que chegasse, obrigado. Toli, cozinhas comida simples como ninguém. Gostava de ver o que consegues fazer com vitualhas mais exóticas.

Toli não disse nada e sorriu misteriosamente.

- Agora queres dizer-nos o que fazias sozinha na aldeia? - indagou Quentin passado algum tempo.

Esme observou o interior da sua tigela de caldo, como se a resposta estivesse lá escrita. Depois, inclinando a cabeça para um lado, disse:

- Não tenho culpa se estava sozinha. Como talvez calculeis, fui lá à procura das roupas com que me vistes vestida, Ao encontrar a aldeia vazia, tal como vós, tratei eu de arranjar as roupas.

- Querias andar disfarçada... porquê?

- já te disse: uma mulher tem de se rodear de cuidados quando viaja sozinha. O disfarce não era lá grande coisa, bem sei. Mas pensei que servia até eu descobrir outro ou até - fez um grande sorriso - os disfarces já não serem necessários.

- Conheces Mensandor assim tão mal para pensares que todos os homens são uns patifes?

- Não pensei em experimentar os súbditos de Mensandor, mas não é deles que tenho medo. Falem-me da vossa missão. Qualquer coisa me diz que os nossos objectivos estão mais próximos do que parece à primeira vista.

- Vamos procurar uns companheiros que deviam ter aparecido há muito - esclareceu Toli. - Foram mandados...

- Apurar a verdade de certos boatos que se espalharam na terra - rematou Quentin cheio de tacto.

A testa de Esme enrugou-se subitamente.

- Os vossos amigos foram para sul?

- Foram para sul ao longo da costa. Porquê?

- Bons amigos, tenho muito medo por eles. - A voz tremeu-lhe de preocupação. - Não me admira que já devam ter chegado há muito... ou que nem sequer nunca mais regressem.

Imensamente atento, Quentin inclinou-se para a frente. Toli pôs os utensilios de lado e olhou fixamente para Esme.

- O que é que sabes disso? - perguntou Quentin com uma calma que não lhe disfarçava a ansiedade.

- Só isto... - Como vira o efeito que o que dissera tinha provocado, Esme escolheu as palavras com todo o cuidado: - Foi entre Dorn e Persch que, há dois dias, perdi os meus companheiros.

 

- Estás aí? - indagou Quentin em voz baixa, aproximando-se sem fazer barulho e pondo-se de pé ao lado de Toli. - Eu devia ter adivinhado que estavas a observar as estrelas.

- Não podia deixar de o fazer, Kenta. A estrela está a crescer. - A luz do céu nocturno iluminava o rosto virado para cima do Jher.

- A mim parece-me igual - retorquiu Quentin sem convicção. Daqui a pouco é madrugada: talvez seja melhor prepararmo-nos para partir. As palavras da nossa nova companheira preocuparam-me. Fico mais descansado quando estivermos a caminho. Não me agradaria nada pensar que o Theido e o Ronsard foram apanhados porque nós não os avisámos nem o impedimos.

- É verdade, a estrela cresce a cada noite que passa e o mal também aumenta - tomou Toli, que se virou para Quentin e o fitou com os grandes olhos escuros cheios de uma luz que Quentin raramente vira. - Vou aprontar os cavalos e acordar a nossa companheira. Temo que o dia já esteja estragado.

Afastando-se sem barulho, Toli deixou Quentin cismando nas suas palavras e sondando a estrela que, a leste, brilhava intensamente. Quentin ouviu uns passos leves como uma sombra atrás de si e Esme apareceu ao seu lado.

- Então também sabes da estrela - disse ela.

- Temo-la observado... mas não sabemos bem o que pressagia.

- Não precisas de me poupar às tuas piores suspeitas. Os nossos sacerdotes conhecem bem os sinais celestes e também fazem a leitura dos portentos. Sei o que dizem da Estrela de Rapina, mas não tenho medo.

- Então és mais corajosa do que eu, senhora, porque tenho de reconhecer que, às vezes, ao olhá-la, sinto muito medo.

Toli trouxe os cavalos e montaram os três. Deixando o abrigo do bosque de faias pretas, deslizaram para a noite que se desvanecia e começaram a atravessar os montes iluminados pelas estrelas. Atrás deles erguia-se a parede escarpada dos Fiskills e o trilho estreito que seguia ao lado do mar. Tinham passado este corredor apertado ao fim da tarde e haviam forçado o andamento até às encostas que ficavam do outro lado, onde tinham acampado durante a noite.

Embora estivesse mortinho por saber mais de Esme, Quentin não lhe pedira que contasse pormenorizadamente a sua história, nem ela parecia inclinada a falar da perda dos seus companheiros ou da missão que a levava para junto do rei Eskevar. Mas as reservas que pusera quanto a segurança de Theido e de Ronsard tinham-no inquietado, pois ele próprio andava a sentir uma certa preocupação. Ela mais não fizera do que dar voz à sua dúvida, tornando-a real e urgente.

- Eles devem ter ido para sul, por Halidom - raciocinara Quentin, quando, depois do jantar, se tinham sentado em volta da fogueira. - Senão, a Esme e o seu grupo tê-los-iam encontrado na estrada entre Dorn e Persch.

- Mas porque é que haviam de ir para tão longe? - perguntara Tolí.

Quentin encolhera os ombros.

- Hei-de perguntar-lhes quando nos encontrarmos. Talvez tenham visto alguma coisa. Para me dar volta à cabeça, já chegam estas povoações desertas.

Depois, tinham-se calado e tentado descansar. O espírito irrequieto de Quentin atirava-se às suas perguntas por responder como um cão a um osso. Mas, naquela altura, novamente em movimento, sentia-se melhor.

Pôs-se a escutar a cadência dos passos dos cavalos na zona mais profunda da noite. Dali a pouco, o horizonte começaria a iluminar-se a leste e o sol empurraria a escuridão, preparando-se para mais um dia. Mas, naquela altura. seguiam como filhos da noite, deslizando, invisíveis pelo mundo adormecido.

Quentin seguiu outra vez pela estrada da costa, um carreiro largo e rochoso que ligava as póvoas marítimas. Se alguma vez encontrassem Ronsard e os seus cavaleiros, seria, com certeza, naquela estrada; claro que havia outros caminhos para norte, através das castanhas Terras Selvagens, mas era mais raro viajar-se por eles. Tratava-se de trilhos usados pelos mercadores para atravessarem as vastas e vazias terras do Suth, em direcção às regiões mais populosas do Norte.

As aldeias vazias (primeiro, Persch e, depois, Yallo e Biskan) tinham-no inquietado muito; embora não se cansasse de procurar uma explicação lógica, não lhe surgia nenhuma. Theido e Ronsard também as teriam descoberto? Se as tinham atravessado, com certeza que sim, mas as povoações também podiam haver sido abandonadas depois da passagem dos cavaleiros. Não havia forma de se saber há quanto tempo tinham passado na estrada, onde tinham ficado ou quem tinham visto.

Embora a razão lhe dissesse que seis cavaleiros armados podiam enfrentar quase tudo, Quentin esperava que eles não tivessem encontrado o que quer que fosse que surpreendera o grupo de Esme.

Cavalgaram durante uma hora ou mais, seguindo a sinuosa senda que subia e descia as suaves colinas ondulantes da costa. No cimo de cada uma, viam o mar imenso, escuro e calmo, estendendo-se na distância. Gerfallon não se incomodava com os tormentos de simples mortais: dormia no seu leito profundo, rodeado das suas criaturas.

No cimo de uma colina, Quentin parou e esperou que Toli, com Esrne sentada atrás, de mãos nos joelhos, subisse e se pusesse ao seu lado. impaciente com a demora, Blazersaltitava de lado.

- O que achas que é aquilo? - perguntou Quentin, fazendo um sinal de cabeça na direcção dos montes escuros que ficavam a norte. Na distância, distinguia-se a custo uma mancha de chumbo luzindo no céu. - Se não soubesse, diria que, hoje, o Sol está a nascer a norte... isto é, um falso sol.

-já muitas vezes vi este falso nascer do Sol e podes ter a certeza de que vem por aí alguma desgraça.

- O que é? - inquiriu Esme.

- Fogo - respondeu Toli.

- De certeza? Não me parece nenhum incêndio - disse Quentin, inclinando-se na sela para ver melhor. - Para isso era preciso uma pilha de madeira do tamanho de...

- Uma aldeia - completou Toli com a palavra que faltava.

- Não me digas;... - gritou Quentin, cada vez mais alarmado.

- Illem fica naquela direcção!

- É. A mais ou menos uma légua para norte.

- Então estamos a perder tempo a falar - rematou Quentin, virando o cavalo de frente para o clarão. - Talvez possamos ajudar. Vamos!

- Segura-te bem. senhora - recomendou Toli, agitando as rédeas. Riv saltou do carreiro e lançou-se em perseguição da forma em voo de Quentin.

À medida que os cavalos se aproximavam, galopando a toda a velocidade. o clarão do horizonte ficava mais brilhante e maior, A meia légua de distância, já cobria os montes, adensando-se num feio tom avermelhado. O fumo preto recortava-se na cortina mais escura da noite.

A leste, o advento da madrugada tornara o céu cor de pérola, o que fazia com que o clarão parecesse ainda mais agoirento e pouco natural.

No fundo de uma ravina, Quentin puxou as rédeas ao cavalo, que parou. Na Primavera, os degelos dos FiskilIs enchiam o leito seco de água gelada. Naquela altura estava juncado de ervas e arbustos, pois há muito que as águas se tinham esvaziado para o mar.

- Parece-me que Illem fica mesmo atrás deste cume - disse Quentin. A ravina atravessava uma depressão comprida, limitada, em três lados, por cumes baixos. Do fundo do leito seco do regato, parecia que o norte do céu brilhava como ferrugem. O vento que soprava para terra espalhava as colunas de fumo.

- Passa-se qualquer coisa - observou Toli. - Vamos andando com cuidado até descobrirmos onde está o inimigo.

- Concordo - assentiu Esme. - Somos só três sabe-se lá contra quantos.

Surpreendido, Quentin mirou-a. Era claro que ela se considerava protectora e não protegida.

- Porque é que há-de haver um inimigo? Com certeza não pensas... - Quentin calou-se. Conhecia o misterioso instinto de Toli suficientemente bem para saber que até as suas mais leves extravagâncias deviam ser levadas a sério, pois haviam tido razão de ser tantas vezes que não era nada prudente não lhes ligar. - Está bem, vamos continuar pelo vale até ficarmos ao nível da povoação. Depois, podemos descer ao abrigo da crista.

Recomeçaram a andar, mas a um passo mais lento. Quentin seguia à frente, perscrutando os cumes dos montes, à procura de sinais de actividade anormal. Um pouco mais à frente, o carreiro dava uma curva apertada.

- Espera! - murmurou Toli asperamente. - Ouve!

Vindo do fim da curva, ouvia-se um som estranho e abafado, como se um animal grande estivesse a fossar no solo macio do leito seco. Arrastando-se, respirava pesadamente, com um suspiro imaterial. Ouvindo este som, tanto Blazer como Riv levantaram as orelhas.

- O que será? - indagou Esme, cujo sussurro quase se perdeu, dado que a intensidade do som aumentava rapidamente.

- Seja o que for, vem para cá - disse Quentin. - Por aqui! - E esporeou Mazer na direcção da rampa mais próxima, para se desviar do caminho do bicho.

Mas foi tarde de mais. Quando Blazersaltava para a frente, a coisa apareceu, agitando-se na curva. Quentin entreviu um corpo enorme, ondulante, disforme e mal definido. A criatura também o viu e soltou um latido que pareceu sair de uma dúzia de gargantas ao mesmo tempo. Foi então que Quentin percebeu do que se tratava.

- Parai! - gritou Quentin, puxando as rédeas bem de lado, para que Mazer recuasse nas patas traseiras e rodasse sobre si próprio. A sua ordem ecoou na encosta mais afastada. Toli apareceu imediatamente ao seu lado.

O animal gritou e desfez-se em cem pedaços, cada um fugindo numa direcção diferente. De facto, o estranho bicho era apenas o amontoado dos aldeões de Illem, que fugiam juntos das suas casas incendiadas, O som que tinham ouvido era o de muitos pés correndo pelo leito seco e o murmúrio do medo.

- Parai! - berrou Quentin novamente. - Em nome do Rei Dragão!

As pessoas pararam. À vista do cavalo e do cavaleiro que assim apareciam de repente, ficaram pregados ao chão. Por um momento, ninguém se atreveu a mexer-se. Quentin calculou que, ao todo, deviam ser cinquenta, incluindo homens, mulheres e crianças.

Um homem mais corajoso deu um passo em frente:

- Não nos entraveis o caminho, senhor. Não sei o vosso nome, mas se sois amigo deixai-nos ir! - O homem aproximou-se lentamente de Quentin. Os outros, que se encontravam atrás dele, estavam apavorados de mais para se mexerem ou falarem.

- Podeis estar descansados que não vos faremos mal - disse Quentin.

O homem olhou por cima do seu ombro e gritou:

- O destruidor está atrás de nós! Só escapámos com as nossas vidas... deixem-nos ir! Ele vem atrás de nós!

- Quem é esse Destruidor? Nós vamos ao seu encontro e...

- Não, é tarde de mais! - Fez um gesto rápido para os seus seguidores. Mal recomeçaram a andar, o homem ergueu a mão para o ar. - Ahh! Encontraram-nos!

Quentin olhou para trás do homem e viu qualquer coisa a descer pelos lados da ravina, à luz de tochas. Então, desembainhou a espada de trás da sela e, ao mesmo tempo, ouviu o tinido da lâmina de Toli.

- Correi! - gritou Quentin aos aldeões. - Nós protegeremos a vossa fuga.

Toli lançou-se para a frente e Quentin viu mais tochas ardendo pela ravina abaixo. Inclinando-se sobre o pescoço de Blazer, Quentin precipitou-se para a ladeira, na direcção do que lhe estava mais próximo. Depois, ouviu a lâmina de Toli fendendo o ar e o bater de metal, seguido de um grito abafado. Com a espada erguida, saltou o leito plano do regato e foi dar ao meio de um confuso grupo de soldados envergando cotas de malha, que desciam a ladeira desordenadamente. Dois deles provaram a sua lâmina e outros dois deram meia volta e largaram a correr ladeira acima.

Virando-se, Quentin descobriu que tinha o caminho cortado. Mazer recuou e começou a escoicinhar, com cascos que pareciam voar. A espada de Quentin, a abrir passagem até ao lado de Toli, parecia um escudo cintilante. A ponta de uma lança surgiu duas vezes da escuridão, mas a espada rachou-a das duas vezes. Ora ficava um broquel cortado ao meio, ora um elmo...

Era óbvio que os soldados não estavam à espera de encontrar homens a cavalo. Não sabiam o que fazer e corriam uns para os outros, esforçando-se por ficarem fora do alcance dos corcéis bem treinados de Toli e Quentin. Este facto levou Quentin a pensar que, embora estivessem em desvantagem, conseguiriam dominá-los.

Mas, uma vez passada a surpresa inicial, os soldados reagruparam-se rapidamente e rodearam os cavaleiros.

- Estamos encurralados! - gritou Quentin, galopando ao lado de Toli. - Temos de arranjar uma passagem. Onde fica o ponto mais fraco?

- Ali... vês aquele buraco? - respondeu Esme. Quentin viu-a apontar com o punhal.

Olhando para o sítio indicado, descobriu um espaço entre dois soldados que corriam para eles.

- Boa, rapariga! Segue-me! - Agitou as rédeas e Blazer deu um salto em frente. Ao aproximar-se do buraco, viu uma vedação de arbustos baixos. Antes de ter tempo para pensar, Blazer estava no ar, passando-lhe por cima.

Toli não teve a mesma sorte. Com o peso de mais um cavaleiro, Riv saltou e passou os arbustos com as patas da frente, mas as de trás emaranharam-se nos ramos. Caíram os três e os soldados convergiram instantaneamente para eles.

Blazer estacou, batendo com os cascos, e Quentin fê-lo dar meia volta e regressar ao meio da confusão.

- Whist Orren, protege o teu servo! - gritou, desesperado.

Nos escassos momentos de batalha, o céu clareara o suficiente para se verem os soldados recortados contra um fundo mais escuro. Quentin lançou um grito de batalha e preparou-se para a inevitável colisão. Entretanto, viu Rív sacudindo a cabeça e voltando a pôr-se de pé. Toli e Esme estavam perdidos por baixo de uma dúzia de sombras pretas de soldados que formigavam sobre eles.

Quentin foi malhando a torto e a direito na desordem de lanças e espadas, ouvindo os arquejos de dor e sentindo a espada penetrar bem fundo. Depois de baixar o braço uma e outra vez, a turva massa de corpos dividiu-se.

Depois, sentiu que alguém lhe puxava a capa, desequilibrando-o para trás. Os soldados estenderam as mãos e agarraram-lhe os braços; com um golpe seco, tiraram-lhe a espada da mão. Blazer recuava e saltava, mas Quentin estava firmemente preso e foi içado da sela.

Ao cair no chão, viu Esme saltando do nada e passando por ele a correr. Por um instante, os seus olhos encontraram-se. Quentin ainda pensou que ela ia em sua ajuda, mas Esme afastou-se e, num abrir e fechar de olhos, estava na sela de Toli. Caído no chão, Quentin sentiu um pé esmagar-lhe a garganta.

Enquanto o mundo girava à sua frente, ouviu o som dos cascos de Riv, que se afastava.

 

Pesados reposteiros tapavam as janelas do quarto do Rei Dragão. Um fio mínimo de luz brilhava por entre uma abertura dos cortinados corridos e caía num simples raio sobre o alto leito real. De resto, o quarto estava tão escuro como uma caverna cavada no fundo de um monte.

Durwin entrou sem fazer barulho e ficou um momento ao pé da porta. Pondo um dedo no queixo, aproximou-se. escutando a respiração irregular e leve da forma imóvel que se encontrava na cama. Parando junto do enfraquecido rei, inclinou-se para observar o rosto do homem adormecido. Foi nessa altura que detectou o leve cheiro pútrido da morte.

O santo eremita deu meia volta e pousou a taça de madeira, que tinha na mão, numa mesa ali perto. Depois, encaminhou-se para a janela alta e estreita, agarrou nos reposteiros com as duas mãos e puxou com toda a força. As dobras fechadas do tecido rasgaram-se e caíram ao chão, deixando entrar uma avalancha de estonteante luz da manhã. que inundou o quarto sombrio.

O ar fresco, limpo e quente varreu o quarto arrefecido pela noite, banindo aquele fedor horrível. O homem deitado na cama, pálido e niirrado entre os montes de grossas mantas, mexeu-se debilmente. Um queixume, onde se notava a falta de ar, escapou-lhe dos lábios.

- Acordai, meu rei! - gritou Durwin, inclinando-se. - Ouvis? Digo-vos que acordeis e que afasteis de vós o sono da morte!

Durwin pegou na taça e, enfiando a mão por baixo da cabeça de Eskevar, chegou-a aos lábios do inválido. O líquido amarelo escorreu pelo queixo e pescoço do rei, manchando os lençóis.

Mas pelo menos uma parte do remédio entrou na boca do doente. O rei arquejou debilmente e o eremita deu-lhe mais líquido. esvaziando a taça. Dali a pouco, as pálpebras cinzentas agitaram-se e abriram-se, pondo a descoberto dois olhos escuros, toldados e entorpecidos.

- Acordai, Eskevar. Ainda não chegou a vossa hora. - Os olhos imóveis fitavam-no por entre a névoa. - Oh, será que cheguei tarde de mais? - murmurou Durwin para si próprio.

- O que é? Durwin, o que acon... - A rainha assomou à porta aberta. Avançando dois passos, viu o marido imóvel, olhando para cima. - Oh! - gritou, precipitando-se para junto da cama.

- Ele ainda está connosco, senhora, mas não sei por quanto tempo. - Enquanto falava, Alinea agarrou-se ao seu braço, procurando apoio, e atirou-se para cima do leito, enterrando o rosto nos lençóis. Dali a pouco, ouviam-se os seus soluços abafados e indistintos.

Durwin deixou-se ficar de lado, contemplando a rainha e o seu rei moribundo. Tinha o coração apertado de piedade e dor.

- Deus Altíssimo - rezou -, vós dais vida aos homens e tornais a recebê-la deles quando a sua passagem sobre a Terra está completa. Todas as coisas crescem no seu tempo, de acordo com os vossos desígnios. Com certeza que vos é odioso que a vida se acabe antes do que foi destinado.

-Uma doença má aflige o nosso rei, apertando-o num abraço mortal. Libertai-o dele. Fazei-o voltar a subir o caminho que agora desce e devolvei-o aos seus entes queridos e ao seu reino.

A oração de Durwin pairou no ar como um bálsamo. A brisa soprou suavemente, transportando o perfume das rosas dos jardins lá de fora e atravessando a quietude do quarto com o seu doce sussurro. Depois, tudo voltou a ficar silencioso.

- Durwin... olha! - exclamou Alinea. Ajoelhada ao lado de Eskevar, apertava-lhe uma mão nas suas. O rei observava-os calmamente, com os olhos marejados de lágrimas.

- Oswald! - chamou Durwin. O camareiro da rainha,

que não saía de junto da porta, entrou a medo. - Vai buscar o frasco que está na minha mesa de trabalho. - O preocupado servo desapareceu imediatamente e voltou mesmo antes de Durwin acrescentar: - E despacha-te!

O eremita tirou a rolha do frasco e administrou o líquido, que escorreu pela garganta do rei abaixo. Desta vez, Eskevar tossiu, fechou os olhos como se tivesse dores e disse. numa voz que mal se ouvia:

Caí assim tanto que até sou envenenado no meu próprio leito?

O rei queixa-se... é bom sinal. - A rainha virou o rosto ansioso para o eremita. - Senhora, por agora, não há problema, mas ele ainda não está fora de perigo.

Durwin. deu a volta à cama e começou a puxar para trás as mantas de lã e pêlo.

- No entanto, fui tolo e de compreensão lenta. Talvez o rei não tivesse decaído tanto, quase a um ponto sem regresso, se eu fosse mais observador. Temos de o levantar. senhora.

Alinea pôs um ar de dúvida:

Achas....

Sim. Ele tem de poupar a força que ainda possui. Tem de a usar para arranjar mais. Ajudai-me a pô-lo de pé.

Pegando no corpo do rei, leve como uma pluma, não oferecendo qualquer resistência, levantaram-no com todo o cuidado, carregando-o pelos braços, puxaram-no suavemente da cama e pousaram os pés descalços no chão.

- Ahhh! - gritou Eskevar, cheio de dores. A rainha lançou um olhar preocupado a Durwin, que se limitou a assentir com a cabeça, como se quisesse dizer: "Continuai, tem de ser."

Cuidadosamente, ajudaram-no a andar passo a passo, de trás para diante. parando sempre em frente da janela para o deixarem recuperar o fôlego. Caminharam assim durante muito tempo. A cabeça do rei, que estava quase inconsciente, balançava-lhe nos ombros.

Ao meio-dia, Eskevar já se mexia à vontade, embora ainda precisasse de se apoiar no braço da sua rainha. Tinha a testa húmida de suor e uma tosse violenta atormentava o seu corpo encolhido, fazendo-o tremer todo. Exausto, desfaleceu.

Durwin e Oswald transportaram-no de novo para a cama, observados por Alinea, que retorcia as mãos.

- Suponho que agora vai dormir profundamente. Daqui a pouco.

acordamo-lo para comer. E tem de andar outra vez antes de o Sol se pôr. Ficarei com ele à noite.

Durwin afastou-se do leito, abanando lentamente a cabeça de trás para diante.

- Como pude deixá-lo decair tanto?

- Na verdade, a culpa não é tua. Fizeste o que pudeste. Aliás, acabas de lhe salvar a vida. - Alinea deu umas palmadinhas no braço de Durwin e sorriu calmamente.

- O deus abriu-me os olhos a tempo. senhora. Devo dar graças por isso. Mas não podemos afrouxar outra vez a nossa vigilância, se não queremos perdê-lo para sempre. Está muito fraco, a sua força é muito frágil.

- Anda recompor-te à cozinha. Também tu vais precisar da tua força nas horas que se aproximam, assim como todos nós.

Quentin retorceu-se no chão. Sentia uma dor aguda, que o penetrava de lado. Tinha um olho fechado devido ao inchaço e a sua boca, que sabia a sangue, latejava com uma dor surda. Levantando a cabeça devagar, olhou em volta com todo o cuidado. O fumo da aldeia incendiada ainda pairava em nuvens que rolavam pelo chão, picando-lhe nos olhos e congestionando-lhe o nariz. O sol, que ainda mal nascera, parecia uma bola vermelha que ardia intensamente por entre a névoa preta que enchia o ar e se afundava nas encostas da ravina onde se encontrava.

Um soldado que estava ali perto viu o ligeiro movimento de Quentin e deu-lhe um golpe no ombro com o cabo da lança. Quentin tornou a baixar a cabeça e ficou quieto; já vira o que queria ver. A grande maioria dos soldados já partira; só tinham ficado uns poucos para guardar os prisioneiros... se é que havia prisioneiros, pois Toli não se via por lado nenhum.

Quentin tentou mexer os dedos, mas estavam entorpecidos. As cordas que o amarravam tinham sido bem atadas e apertadas. Tinha as duas mãos juntas atrás das costas, um laço à volta do pescoço e outro passando-lhe pelos pés. Se movesse as mãos ou os pés, o nó do pescoço esticava e estrangulava-o. Mas, periodicamente, Quentin rastejava para um lado ou para o outro, tentando avaliar melhor o que o rodeava.

Só estava vivo graças ao deus. No caótico momento da sua captura ficara instantaneamente inconsciente. Logo que caíra no chão a deitar sangue, um carrancudo guerreiro erguera um machado de dois gumes por cima dele. Quentin vira o clarão da lâmina baixando-se e descrevendo um arco na direcção do seu coração.

Fora salvo no último momento por uma mão que agarrara o braço que segurava o machado no ar. Depois, rebentara uma discussão. Embora Quentin não percebesse as palavras mal articuladas daquela língua áspera, sabia que tinham a ver com o seu provável destino. O soldado que empunhava o machado queria matá-lo imediatamente. O outro parecia insistir em que se esperasse, possivelmente pela aprovação de um superior. Por isso. Quentin fora amarrado e deixado a meditar no que o esperava.

Mas não esperou muito.

Passado pouco tempo, ouviu o som oco dos cascos de um cavalo. De repente, houve uma grande agitação à sua volta, uma voz áspera gritou uma ordem e dois guerreiros sinistros agarraram-lhe pelos braços e, aos sacões, puseram-no de joelhos. A voz berrou outra ordem e uma mão pegou-lhe no cabelo e puxou-lhe a cabeça violentamente para trás. Fechou os olhos com a dor.

Quando tornou a abri-los, deu com os olhos frios e duros de um dos comandantes de Nin.

O guerreiro observava-o impiedosamente. Envergava um estranho vestuário de batalha feito de bronze, que, ao Sol nascente, luzia com um brilho acobreado que condizia com a cor da sua pele. Tinha os braços cobertos por mangas de cota de malha que lhe iam dos ombros às mãos largas e pesadas e, dos joelhos aos tornozelos, usava polainas de bronze. Não trazia nenhum elmo, e o cabelo preto e comprido estava puxado para trás e preso numa trança comprida e grossa, que lhe descia pelas costas. Da maçaneta da sua sela pendia uma espada comprida e curva, com a lân-fina fina manchada de fios carmesins de sangue.

O cavalo do comandante, largo e pesado, abanou a crina entrançada e relinchou. Um dos soldados que agarravam Quentin começou a falar. Era um som estranho aos ouvidos de Quentin, que não fazia a mínima ideia de que língua se tratava, pois não percebia nem uma palavra. Mas o mais natural era que o soldado estivesse a contar a captura do prisioneiro ao seu comandante.

A dada altura, o comandante, que ouvia atentamente, interrompeu para fazer uma pergunta. Pareceu então a Quentin ver um clarão de interesse iluminando-lhe as feições selvagens. A uma ordem rápida, dois soldados precipitaram-se para lhe desamarrarem as pernas, puseram-no de pé e obrigaram-no a andar. O comandante ficou a vê-lo afastar-se, esporeou o cavalo e começou a descer a ravina.

Quentin foi forçado a subir a margem íngreme do leito seco. Através do fumo que pairava no campo, viu soldados reunidos em volta de várias carroças grandes, envergando o mesmo vestuário escuro e grosseiro e transportando brutais machados de batalha de dois gumes. A uma ordem, entregaram todos as suas armas, que foram recolhidas e metidas dentro das carroças. A outra, deram-lhes grandes cestos. Depois, regressaram todos a correr para as ruínas fumegantes de Illem.

Quentin foi levado até uma das carroças mais próximas e encostado a uma roda enorme... tão grande que era da sua altura. Desamarraram-no e, depois, prenderam-lhe os pulsos e os tornozelos à roda. Naquela posição, não teve outro remédio senão observar a estranha actividade que se desenrolava nas ruínas.

Vários soldados em linha surgiram da cortina de fumo, transportando sacos de grão e pipas de vinho. Estes e outros alimentos, que constituíam as provisões da povoação, foram empilhados num grande monte e, depois, carregados em carrinhos de mão, que os levaram dali para fora.

À sua frente começaram então a desfilar pares de soldados com cestos, que se encaminhavam para os montes. Quentin não conseguia ver para onde iam, mas sabia que se dirigiam para norte. Os homens transportavam os cestos aos ombros, e alguns iam bem curvados sob o peso do que levavam. Quentin ficou a pensar no que teriam os cestos.

Mas embora observasse a actividade que o rodeava, estava sempre a voltar-lhe à ideia o pensamento que mais temia. Mais do que a sua segurança, preocupava-o o que acontecera a Toli. O seu amigo, companheiro e servo desaparecera. Sabia que havia duas explicações possíveis: ou Toli fora morto durante o ataque e, nesse caso, o seu corpo jazia abandonado lá no fundo da ravina, ou o astuto jher conseguira escapar na confusão da batalha.

Quentin rezava para que Toli se tivesse salvo.

Nesse momento, ouviu um sinal, um estrondoso toque de trombeta. e uma fileira de homens a cavalo passou pelas carroças. Cada um deles transportava um machado, um escudo e a estranha espada curva. Os cavalos também tinham armaduras. Grandes discos de couro endurecido, ligados por aros de ferro e entrançados de maneira a formarem tiras, passavam pela cernelha e pela garupa dos animais e quase arrastavam no chão. Por cima dos cascos, tinham filas de espigões afiados; além disso, mais dois espigões compridos e cruéis despontavam da placa frontal de cada cavalo.

Quentin pensou que, fossem quem fossem, tinham chegado preparados para a guerra.

Depois de os cavaleiros passarem, ouviu outro toque de trombeta e, para seu horror, as carroças puseram-se em movimento. Pensando que se tinham esquecido dele, Quentin desatou a gritar, enquanto a roda à qual estava amarrado começava a rolar. Mas os seus gritos só originaram gargalhadas nos soldados que passavam. Percebeu então que não se tinham esquecido dele. Estava destinado a viajar com eles naquela tortura e a morrer lentamente na roda que girava.

 

Yeseph encontrava-se sentado no pátio, cabeceando contra o peito. À sua volta, os doces sons do crepúsculo erguiam-se para o ar. O sol já deslizara para trás dos montes de Dekra e, embora o céu ainda estivesse de um azul brilhante, raiado de nuvens cor de laranja, as compridas sombras do fim da tarde mergulhavam na noite o pátio limpo e varrido do estimado ancião.

Ao seu lado. as folhas perfumadas de um loureiro novo matraqueavam ao sabor da brisa. Como delicadas pétalas de uma flor, as leves notas de uma melodia cadenciada deslizavam pelo muro e caíam no pátio. A taça, na qual não tocara, estava pousada perto da sua mão. Yeseph respirava pesadamente.

Ouviu-se um passo miudinho e apressado e um frufru, de saias, e Karyll, a sua mulher, apareceu a seu lado e baixou o olhar para ele. fazendo-o sentir o calor da sua presença.

- O meu marido está cansado do dia de trabalho - disse ela. Meu querido, acorda. A refeição da noite está pronta. - A sua voz era tão leve e tranquilizante como a brisa que brincava na árvore.

Yeseph levantou a cabeça e, à medida que retomava a consciência, ela viu-lhe nos olhos o reconhecimento gradual do sítio onde se encontrava. Mas reparou também nas profundas rugas de preocupação que lhe sulcavam a testa e se lhe juntavam em volta dos olhos. Yeseph sorriu quando a viu, mas o seu sorriso era triste, sem brilho.

- O que se passa, meu marido? - Ficou à espera que ele lhe respondesse.

- Tive um sonho - explicou Yeseph com toda a simplicidade.

- E o teu sonho inquietou-te, porque foi um sonho de trevas e não de luz.

- Como vós, mulheres, podeis ver longe! É verdade, foi um sonho de trevas: uma visão. Vi... - começou, interrompendo-se logo de seguida. - Não, ainda não devo contar o que acabo de ver. Primeiro. tenho de reflectir muito.

- Então podes comer enquanto reflectes. Anda. que o jantar ainda arrefece.

Karyll deu meia volta e regressou a casa com os seus passos abafados. Yeseph ficou a vê-la afastar-se, pensando na sorte que tivera em encontrar uma mulher tão sensata e compreensiva para compartilhar a velhice. Depois de articular uma acção de graças a Whist Orren pela sua felicidade, ergueu-se lentamente e entrou atrás dela.

Enquanto jantavam. Karyll observava atentamente o seu companheiro, que não comia com o apetite habitual, limitando-se a debicar na comida. À luz cintilante das velas pousadas na mesa baixa. Yeseph deixou-se absorver ainda mais nos seus pensamentos. Por duas vezes levou a comida à boca e por duas vezes voltou a pô-la no prato com um ar ausente.

- Yeseph - murmurou Karyll docemente -, não comeste bem esta noite. O teu sonho perturbou-te. Se não mo queres contar. então conta-o aos anciões.

- Sim, tenho de fazer isso. - Levantando-se imediatamente do banco, encaminhou-se para a porta, onde parou, virando-se para ela. A sua silhueta escura recortava-se no céu da noite. De repente, pareceu voltar outra vez a si. - Vou convocar os outros anciões para hoje à noite. Não esperes por mim, meu amor. Talvez chegue muito tarde.

- Não faz mal. Tenho com que me ocupar enquanto não estiveres aqui. Agora, vai-te embora. Quanto mais depressa fores, mais depressa terei o meu Yeseph de volta.

Yeseph esperava pelos anciões numa câmara interior do Grande Templo dos Ariga. Não deviam demorar, pois mandara mensageiros, três jovens que serviam no templo, buscar os outros chefes curatak. Logo que chegassem, a reunião podia começar. Entretanto, acendia as muitas velas colocadas nos seus compridos suportes em volta da sala despida.

No meio encontravam-se quatro cadeiras direitas, de costas altas, dispostas em círculo, de frente umas para as outras. Depois de acender as velas, Yeseph sentou-se no seu lugar e juntou as mãos no regaço, em silenciosa meditação. Dali a pouco, as cortinas penduradas à entrada da câmara abriram-se, deixando passar a figura familiar de Jollen, que vinha a alisar as vestes usadas no conselho.

- Boa noite, ancião Yeseph. Ao convocares-me, salvaste-me de uma tarefa bem desagradável... é que tinha prometido começar a traduzir uma canção às crianças.

- Desagradável? Não deves estar a falar a sério, mas, se estás, o melhor é ires-te embora e deitares mãos à obra.

- Oh, vê se percebes. Adoro as crianças e faço tudo o que posso por elas, mas a canção que escolheram é no dialecto antigo dos Ariga. Trata-se de uma história muito triste sobre um jovem infeliz que é transformado num salgueiro por causa das suas lamentações. Tentei persuadi-las a escolherem uma coisa mais alegre, mas só quiseram esta.

- No fim, ainda vais aprender muito - riu Yeseph. - Uma excursão ao dialecto antigo é excelente para apurar os sentidos.

Jollen fez uma careta.

- Se não soubesse, dizia que foste tu que lhes deste a ideia. É mesmo de ti.

O próximo a entrar foi Patur, o chefe não oficial do grupo. Era ele quem normalmente assumia a responsabilidade de informar os Curatak das decisões dos anciões em assuntos de interesse público. Orador muito hábil e influente, normalmente conduzia as orações feitas no templo. Era uma autoridade na religião dos desaparecidos Ariga.

- Saudações, sábios amigos - disse, ajustando a túnica que vestira logo que entrara na câmara. Os seus olhos brilhavam de ansiedade pelo trabalho da noite, pois, fosse o que fosse, pô-lo-ia em comunhão com outros espíritos sagazes, coisa que ele não perdia.

- Saudações, Patur. Obrigado por teres vindo tão depressa. Só temos de esperar... Ah, cá está ele! - Yeseph fez um gesto de cabeça para o cortinado, e Clemore, a mais recente aquisição do grupo depois da morte de Asaph, o membro mais velho, entrou, fazendo uma grande vénia.

- Boa noite, irmãos. Faço votos para que estejais bons. - Os outros baixaram a cabeça e sentaram-se todos nos seus lugares. Yeseph passeou o olhar pelos rostos familiares. Estavam ali os amigos em quem mais confiava; Clemore tinha razão: os seus irmãos. Podia contar-lhes o seu sonho e eles ajudá-lo-iam a carregar o fardo, por mais pequeno ou grande que viesse a ser. Só o facto de estar na sua presença já o fazia sentir-se melhor. Será que algum deles sentiria o mesmo em relação a ele? A julgar pelas vezes que se tinham ido aconselhar só com ele ou em conjunto com os outros, supunha que sim. Naquele momento. era a sua vez de lhes apresentar um problema.

- Bom Yeseph, não nos faças esperar mais. Diz-nos o que te preocupa, pois bem vejo que tens o espírito inquieto - disse Patur.

- Tens razão. Estou preocupado. - Fez uma pausa, enquanto ordenava os pensamentos. e olhou para cada um deles à vez. - Esta noite tive um sonho. Foi breve mas muito estranho.

- Acreditas que pressagia alguma coisa de importante? - perguntou Clemore.

- Acredito.

- E tens alguma interpretação para ele?

- Não. Foi por isso que vos pedi que viessem aqui esta noite. Achei que, juntos, talvez conseguíssemos compreendê-lo.

- Muito bem - disse Jollen -, conta-nos o teu sonho tal como o tiveste. Pediremos ao Altíssimo que nos ilumine e nos faça ver o seu significado.

Yeseph assentiu lentamente e, fechando os olhos, começou a narrar o sonho:

- Tinha eu acabado de entrar no pátio quando fui invadido por uma grande sonolência, embora ainda não tivesse comido. Sentei-me, adormeci logo e comecei a sonhar. O sonho foi assim:

"Vi um rio que atravessava a terra. Ao tocá-la, esta lançava abundantes rebentos verdes e árvores, proporcionando comida a todos os seres vivos. A água era límpida e boa: os homens iam beber à beira do rio, e as criaturas selvagens bebiam e ficavam satisfeitas.

"Mas começou a soprar de leste uma tempestade escura. O rio continuava a correr, mas a água começou a mudar e a ficar da cor do sangue. Ao princípio, só uma sugestão de vermelho turvou a água límpida, que, no entanto. continuou a escurecer até ficar preta. O rio começou a cheirar mal.

-já ninguém podia beber e continuar vivo; os homens e os animais que bebiam aquela água morriam. As árvores, a erva e as flores que tinham brotado nas margens do rio murcharam e morreram. A terra ficou erma, porque todas as coisas dependiam do rio para viver. Chegaram os ventos. levantando a poeira, que encheu o ar de grandes nuvens que cobriram a terra. O rio secou."

Yeseph fez uma pausa, inspirou e continuou. No silêncio da câmara interior, as suas palavras pareciam o dobrar de sinos:

- As trevas caíram sobre a terra, e ouvi uma voz a chamar. Era a voz de uma criança aterrorizada, que perguntava: ---Ondeestá o meu pai', Tenho medo. Onde está o meu protector?"

As trevas revolveram-se em resposta à criança. Falavam com a voz da noite. dizendo:---Osossos do teu pai são pó espalhado ao vento. A espada do teu protector está quebrada. Vais viver para sempre nas trevas, porque, agora, és filho da noite.---

"Chorei ao ouvir aquelas palavras. As minhas lágrimas caíram sobre a terra como uma imensa chuvada. E a terra, que se transformara numa taça, recolheu aquela chuva de lágrimas.

"Uma outra voz. mais poderosa do que a primeira, trovejou:

- Ondeestão os meus servos? O que aconteceu àqueles a quem chamo?---

"Eu respondi: '"Estou aqui, mas estou sozinho... os outros pereceram.- A minha dor era tanta que caí de rosto virado para o chão.

"Voltei a ouvir a voz: 'levanta-te, pega na taça e despeja-a."

Peguei na taça com as mãos, despejei-a e ela transformou-se numa espada de luz viva que lançava clarões nas trevas, afugentando-as. --Empunha a espada!", ordenou a voz.

"Comecei a tremer todo, porque sabia que não conseguiria erguê-la. -Nunca toquei numa espada e não sei como se usa", protestei.

"-'Então. dá-a a esse menino", respondeu a poderosa voz. "Ele vai usá-la, guiado por ti.---

"_Mas quando procurei a criança para lhe dar a brilhante espada tinha desaparecido. A noite engolira-o, embora eu ainda o ouvisse chorar na escuridão que o empurrava cada vez para mais longe.

Yeseph voltou a abrir os olhos e fitou os seus irmãos, que envergavam as vestes do conselho. Estes estavam sentados, imóveis, meditando nas suas palavras. Tinham uma expressão grave, e os seus rostos reflectiam a preocupação que o sonho de Yeseph lhes causara.

- Irmãos - entoou Patur em voz profunda -, este sonho é muito inquietante. Pressinto nele um aviso urgente. Vamos pedir ao Altíssimo que nos guie na nossa interpretação, pois acredito que esta noite nos foi dada para contrariarmos o poder das trevas anunciado no sonho.

Mal acabou de falar, os anciões de Dekra juntaram as mãos e começaram a rezar.

 

O lustroso corcel preto parecia correr como água a descer as colinas e a atravessar os vales. Bastava a Esme fazer força com os joelhos ou mexer a mão à direita ou à esquerda, que o cavalo respondia, como se estivesse em sintonia com os seus pensamentos. O animal estava soberbamente treinado... tanto que Esme começou a temer pela sua saúde. Riv preferiria correr até o coração lhe rebentar a abrandar o passo e desobedecer ao seu cavaleiro.

Apesar de o cenário daquele malfadado combate já ter ficado muito para trás, o cavalo continuava a correr. A espuma da transpiração subia-lhe do pescoço em flocos arrastados pelo vento. Esme viu à frente a linha escura de uma enseada, serpenteando através de uma planície. "No sítio onde a enseada rodeava o verdejante sopé de um monte, erguia-se um bosquezinho de vidoeiros novos, ao qual a luz da manhã emprestava um tom branco e brilhante. Pensou de si para si que era um bom sítio para descansar.

- Ô, Riv!- exclamou, inclinando-se para a frente na sela e puxando as rédeas muito ao de leve. O cavalo abrandou para um galope mais leve e, depois, passou a andar a trote. Esme deixou-o arrefecer antes de chegarem ao ribeiro, pois sabia que não seria bom o animal beber ainda quente e sem fôlego por causa da corrida. E, para chegar a Askelon, precisaria do cavalo.

Os vidoeiros rodeavam e davam sombra a uma clareira onde cresciam ervas compridas, alimentadas pelo regato. Como estava meio escondida, seria invisível para alguém que viesse atrás dela. De um dos lados da clareira, via-se o sopé rochoso do monte, onde o ribeiro formava um lago pouco fundo.

Esme escorregou da sela e conduziu lentamente Riv para dentro do bosque sombrio. A clareira estava fresca, silenciosa e cheia de manchas douradas de luz e de sombras verdes. Muito cansada, avançou na direcção do curso de água, que cantava alegremente ao passar sobre uma fiada de seixos. Acima dela, ouviu o trinado de uma ave na colina e o silvo produzido pelas patas do cavalo na erva. Além da água borbulhante, não havia mais nada. Sim, ali estaria a salvo.

Esme conduziu a montada para a beira do lago e ficou a ver o cavalo mergulhar o nariz na água. Riu bebia abundantemente e. depois, tirava a cabeça do regato e sacudia a luzidia crina à luz do Sol, atirando ao ar cintilantes pérolas de água, que voltavam a cair no lago cristalino. O cavalo repetiu várias vezes esta operação e, ao vê-lo, Esme ia esquecendo que acabara de escapar por um triz.

Riv relinchou, desviou-se da água e olhou-a calmamente, como se quisesse dizer: "Podes beber... eu fico de vigia." Esme ajoelhou-se na erva comprida, juntou as mãos e levou a água límpida à boca. Quando acabou, conduziu Rív a um sítio onde cresciam cravinhos e deixou-o pastar, sem sequer se dar ao trabalho de o amarrar, pois sabia que um cavalo tão bem treinado como aquele nunca se iria embora, abandonando o seu cavaleiro.

Portanto. deixou o cavalo a pastar e virou a sua atenção para a colina, que era o ponto mais alto de onde podia observar as cercanias. Como fugira da zaragata da ravina pensando apenas em salvar a pele, não sabia muito bem onde estava. Tentara, tanto quanto possível, seguir na mesma direcção por onde tinham entrado na ravina. pois o seu objectivo era retomar a mesma estrada. Uma vez que a encontrasse, viraria para norte e dirigir-se-ia para Askelon.

Esme subiu a íngreme encosta da colina que se elevava no valezinho, acima das árvores, à luz do Sol, o ar estava mais quente e cheio de abelhas e borboletas, que iniciavam as suas tarefas diárias. Um vento fresco fazia ondular a erva alta. O céu azul brilhava, indiferente aos actos escuros da noite e de homens desesperados. Ali, quase conseguia esquecer o que se passara apenas uns momentos atrás.

Mas não podia esquecer os dois homens galantes que tão corajosamente tinham voado em defesa dos inocentes aldeões e que, sem fazerem perguntas, lhe haviam oferecido a sua protecção. Ao chegar à crista da colina. virou os olhos para Illem, agora a léguas de distância. Mas não havia nada para ver; não ficara nem uma mancha de fumo no horizonte.

Por uns momentos, sentiu-se indecisa: deveria voltar e tentar descobrir o que acontecera aos seus amigos ou continuar para completar a sua missão e transmitir a mensagem ao rei?

Era uma escolha com pouco significado. Bem, sabia. O inimigo que os vencera na ravina de Illem era o mesmo que a surpreendera a si e aos seus companheiros na estrada. Agora. mais duas vidas se tinham acrescentado à lista, pois tinha poucas dúvidas de que Quentin e Toli estavam mortos. E se não fosse a importância da sua missão, teria ficado a compartilhar o seu destino.

Não havia nada a fazer senão continuar.

Observando a terra. varreu o horizonte com os olhos escuros, a procura de algum marco reconhecível. Para sul, viu uma fina faixa de azul-brilhante, que se fundia no céu. "O mar", pensou. "Não me enganei muito." Se forçasse um pouco os olhos, quase conseguia ver a estrada. abraçando as dunas. Esme lançou um último olhar por cima do ombro. para ver se fora seguida, mas atrás de si encontravam-se apenas o céu radiante e as colinas estivais. Por isso, com o coração pesado. virou-se, preparando-se para partir.

Quando descia a encosta da colina, Esme ouviu o relinchar excitado de um cavalo. Seria Riv ou algum outro? Estacou. com o coração palpitando de pânico, e pôs-se à escuta.

Do caramanchão coberto de folhas que ficava directamente abaixo dela, saiu outro queixume de um cavalo em sofrimento. Devido ao emaranhado de folhas e ramos, não conseguia ver o animal nem o seu atacante. Percorreu então o resto do caminho, deslizando o mais rápida e silenciosamente possível, com todo o cuidado, para não se mostrar abertamente.

Uma vez abaixo das copas das árvores, viu Rív de patas abertas e cabeça baixa, encostado ás rochas, abanando a crina e mostrando os dentes, Mas não descobriu nada que o pusesse naquele estado. Estava tudo na mesma. Não havia sinais de um único intruso, fosse homem ou bicho.

Esme saltou para o chão e, durante um momento, ficou agachada na erva. Não ouvindo nem vendo nada de inquietante, levantou-se e foi acalmar o assustado animal.

- Então, Riv? Calma. - Deu-lhe umas palmadinhas no focinho lustroso e passou-lhe o braço delgado em volta do pescoço. - Calma. Que foi... há? O que foi que assustou o meu cavalinho?

O cavalo acalmou com as suas festas e com a sua voz tranquila, relinchou baixinho e abanou a cabeça. Mas continuou a fitar o outro lado do regato, sem que Esme conseguisse descobrir porquê.

- Então, então? Não vês? Está tudo bem. Não há nada...

Antes de Esme acabar de falar, Riv sacudiu a cabeça, rolou os olhos aterrorizado, pondo o branco à mostra, e fugiu-lhe. Ela puxou as rédeas, que estavam penduradas, mas o cavalo deu um salto, atravessou a correr a erva crescida e pôs-se a relinchar do outro lado da clareira.

- Riv!- gritou Esme impaciente. - Seu mau! Anda cá! - Com as mãos nas ancas, ficou a observar o cavalo, que arqueava as costas e recuava, descrevendo círculos de medo. "O que terá dado a este animal?", interrogou-se Esme. Nunca tinha visto nada assim.

Vai-te embora, bicho feio! E leva a tua cavaleira... Ou põe-te quieto Efica à sua beira.

A estas estranhas palavras, recitadas em tom monocórdico, numa voz áspera e pouco clara, Esme girou nos calcanhares e a sua mão voou para o punhal comprido que tinha preso no cinto.

Não há lâmina oufaca Nem nó de enforcado Quefaçam a vida desta sibila Passar um mau bocado!

Esme nem acreditava no que via. Numa rocha no meio do regato encontrava-se uma velha corcunda, envolta numa confusão de trapos. Numa mão tinha um bastão comprido e agitava a outra à sua frente, como se enxotasse abelhas. Enquanto Esme a observava. muda de espanto. a velha saltou de pedra em pedra, com a leveza de um grilo, atravessando assim o regato sem molhar um único farrapo.

Quando aterrou na margem, a velhota agitou os trapos e bateu três vezes com o bastão no chão. Depois, encaminhou-se a mancar na direcção de Esme, que a fitava com a boca aberta de espanto. De onde teria vindo?

- Quem és, tiazinha? - perguntou Esme cautelosamente. A mirrada criatura não respondeu; em vez disso. aproximou-se no seu andar saltitante e esquisito. balançando o bastão e deitando os bofes pela boca fora. O seu cabelo pendia num emaranhado de novelos grisalhos, ornamentados com pedaços de folhas e de galhos. O rosto engelhado parecia uma maçã seca, uma massa de rugas e sulcos tostada pelo vento e cozida pelo sol. Quando a mulher se mexia, Esme imaginava ouvir os seus ossos quebradiços batendo uns nos outros. Parecia tão velha como as rochas soterradas por baixo da colina.

- Quem és? - repetiu Esme.

A mão da velhota agitou-se à sua frente. Esme viu-lhe as mãos ásperas e as unhas sujas, e também reparou no cheiro a fumo e a porcaria que pairava em redor dela.

Se a rocha e a colina A água e a ilha São a pedra do lar, De Orphe sou filha.

Virando manhosamente para Esme o rosto gasto pelo tempo, abriu a boca num riso irónico e desdentado. Foi então que Esme lhe viu as órbitas cavadas onde outrora tinham estado os olhos. A mulher era completamente cega.

- Vives aqui... nesta clareira?

- É verdade. Razão tens. -Agora diz-me De onde vens.

- Eu? Chamo-me Esme. Não era minha intenção invadir a tua casa. Ouvi o cavalo... - Virou-se e reparou que Riv se acalmara, estando naquele momento a observá-las, assentindo prudentemente com a cabeça, como se tivesse sido enfeitiçado. - Não quero incomodar-te mais. Vou partir imediatamente.

De partidas Ainda é cedo para falar Pois ainda não disseste Aquilo que me vais dar A mulher estendeu a mão, apoiou o queixo no bastão e ficou à espera. Parecia uma árvore inclinada e nodosa, assente num tronco seco, com um único ramo espetado para a frente. O seu vestuário esfarrapado esvoaçava como folhas ao sabor da brisa.

- Não tenho nada para te dar, tiazinha - volveu Esme, esforçando-se por pensar depressa. Não era bom aborrecer um oráculo, especialmente tratando-se de um membro da casta que se autodenominava "filhas de Orphe", pois estas eram muito poderosas e sábias. - Mas vou rezar uma oração em teu nome logo que encontrar um santuário.

A feia mulher atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Esme viu dois solitários dentes castanhos agarrados como líquenes às gengivas da velhota. O riso da vidente retiniu como uma saraivada num pote vazio.

Não tenho necessidade De uma oração. Prefiro antes Uma nobre acção.

Esme sobressaltou-se ao ouvir a velhota usar a palavra "nobre".

- Que acção esperas de mim? - perguntou, desconfiada.

O coelho preso Daquele lado Sabe melhor Se for assado.

A velhota entortou um dedo nodoso para o curso de água que ficava atrás delas. Esme seguiu-o com o olhar e viu um maciço de pilriteiros que abanava vigorosamente como se, na verdade, estivesse lá alguma coisa presa.

- Queres que te cozinhe uma refeição? É essa a acção que pretendes de mim? - A ideia não agradava a Esme, que estava ansiosa por recomeçar a jornada. A região não era segura: o inimigo vagueava à vontade em busca de presas. já tivera dois encontros: não lhe apetecia um terceiro. Oxalá tivesse alguma coisa de valor para dar à velhota e poder ir-se embora! - Muito bem - disse devagar, indo relutantemente buscar o coelho que sabia estar preso nos pilriteiros.

A filha de Orphe virou-se, seguiu-a com as suas órbitas cegas e sorriu. fazendo o velho rosto enrugado contorcer-se numa careta perspicaz. onde não se viam os lábios. Depois, tagarelando alegremente de si para si, saltitou como uma ave aleijada e foi empoleirar-se, à espera, numa pedra que estava ali perto.

Esme não teve qualquer dificuldade em apanhar o coelho. Quando o viu debatendo-se, enfiou a mão pelo meio dos pilriteiros e puxou-o pelo cachaço. Ao pegar-lhe, sentiu o seu pequeno coração batendo loucamente. Mas o aterrorizado coelho deu uma sapatada e saltou-lhe dos braços. Esme ficou a vê-lo fugir aos pulinhos. Tinha medo que a velha a amaldiçoasse por ter falhado. Mas o coelho, que, aliás, era uma rechonchuda lebre, deu dois saltos vacilantes e caiu para a frente... morto. Esme correu para a lebre e apanhou-a do chão. O seu coração parara. Pegando no punhal, Esme cortou-lhe a cabeça para a sangrar. Depois, deixou-a pendurada num ramo pelas patas traseiras e foi procurar lenha para fazer uma fogueira.

Quando, por fim, o lume crepitava e a lebre, esfolada e sem miúdos. assava num espeto, Esme aproximou-se da vidente e anunciou:

- A tua refeição está quase pronta, tiazinha. E encontrei uma maçã que podes comer com a carne. - Esme descascara cuidadosamente a maçã e partira-a aos cubos para dentro de uma tigela de madeira que retirara da bagagem de Toli, arrumada atrás da sela. Depois, com o cabo do punhal, fizera os cubos dourados em puré.

Sem dizer nada, a velhota saltitou para mais perto da fogueira e sentou-se. Esme foi até ao regato e encheu uma segunda tigela de água.

- Talvez a filha de Orphe queira lavar as mãos antes de comer disse Esme gentilmente, segurando a tigela à sua frente. A velhota assentiu majestosamente, mergulhou as mãos com toda a elegância dentro da tigela e esfregou-as. A água ficou turva com a sujidade. Depois, limpou as mãos molhadas à roupa nojenta e sorriu.

Esme foi buscar-lhe outra tigela de água, tirou a carne cozinhada do espeto e cortou-a em tiras e, depois, em bocados mais pequenos.

- A vossa refeição, senhora - disse Esme, pois, ao ser-lhe apresentada a tigela de maçã e coelho cuidadosamente cortado, a vidente assumira um ar de rainha.

Esme recuou e pôs-se a observar a velhota, que jantava com evidente prazer, lambendo os dedos e estalando os lábios. Quando acabou, estendeu a tigela a pedir mais. Esme encheu-a outra vez e sentou-se a seu lado, à espera. O sol atingiu o seu zénite, reduzindo a nada as sombras da clareira, e a velhota continuava atarefada à volta da tigela. Esme apertou a mão em volta dos joelhos e obrigou-se a esperar o mais pacientemente possível. Por fim, a velha acabou de comer a sua ração, pousou as tigelas no chão, a seu lado, e levantou-se com muitos rangidos e estalos nas articulações. Abanou-se na direcção de Esme, parou à sua frente e encostou-se novamente ao bastão. Fê-lo sem hesitar e com tanta segurança que Esme percebeu que a velhota via tanto com os olhos da alma como os outros com uma visão perfeita. E estremeceu ao pensar que, provavelmente, a mulher tirara os olhos em criança para aumentar o seu estranho dom.

Muita arte Teve esta acção Como é próprio De um nobre coração. Não preciso de ver mais. Só por isso sei Que és princesa E que o teu pai é rei.

Esme soltou uma exclamação e pôs-se em pé de um salto. A velha falara verdade, mas assustava-a que o seu segredo fosse conhecido assim tão facilmente.

- Vês o que não pode ser visto só com os olhos, sacerdotisa. Visto que te servi como me pediste, deixa-me partir com a tua bênção.

Pedes uma bênção Vais recebê-la bem O teu segredo estará seguro Se não desiludires ninguém. É muito raro Encontrar quem Arrisque a vida Por amor a alguém. Mas tu fazes isso E será assim: Quando dois forem soltos A tua missão terá fim.

A velhota deu meia volta e retirou-se apressadamente. Esme sentiu um pequeno toque no cotovelo e viu que Riv se aproximara e que estava ansioso por partir e afastar-se da estranha velhota.

Esme subiu para a sela e ficou a observar o disforme monte de trapos que voltava a atravessar o regato, saltando de pedra em pedra.

- obrigado pela bênção, filha de Orphe. Que a tua profecia seja verdadeira.

Ouvindo estas palavras, a velha parou, virou-se outra vez para Esme, levantou o bastão acima da cabeça com ambas as mãos e deu três voltas muito depressa. Esme admirou-se por ela não cair do seu precário poleiro, no meio do regato.

A voz áspera da anciã ergueu-se e encheu a clareira:

Eu digo o que é e não o que pode ser Mas já que tu queres Minha profecia te vou dizer!

A vidente ergueu o rosto para o céu e murmurou um extenso encantamento. enquanto o bastão se agitava para trás e para diante por cima da sua cabeça. Depois, baixou com força o nodoso punho do bastão, e ouviu-se um estalido quando deu na pedra onde ela estava empoleirada. A sua mão lançou-se para o ar, com os dedos abertos, como uma garra. As palavras que proferiu ecoaram no valezinho:

Procura a espada E não a largues por nada! Para matar o inimigo Por um rei tem de ser empunhada.

Com dois saltos, a feiticeira desapareceu tão rápida e misteriosamente como tinha aparecido. Mas mesmo muito tempo depois de ela se ter ido embora as suas palavras soavam nos ouvidos de Esme como o claro toque de um sino.

 

Quentin pendia inerte da roda da carroça. Tinha o espírito toldado pela dor que lhe fazia palpitar todas as extremidades do corpo partido. Gemia baixinho, mas sem perceber que estava a produzir algum som... só tinha consciência da latejante e insistente agonia.

A roda girara todo o dia por cima de pedras e raizes, ao pó e dentro de água. E Quentin, amarrado à roda, fora lentamente torturado até à inconsciência. Não deu por a roda ter finalmente parado, nem pelo pôr do Sol, nem pela chegada da noite, que acabou com a sua tortura.

Pendendo da roda, soltava gemidos baixos e lamentosos, enquanto a escuridão se adensava à sua volta.

Entre a confusão ordenada do exército de Nin, que levantava o acampamento para passar a noite, a lua cheia começou a brilhar no céu e, com ela, a Estrela do Lobo. Sem pestanejar, Quentin observava a Lua com olhos que não viam. Alguma parte do seu espírito contemplava-a curiosamente, como se fosse um animal assustado a espreitar da toca para onde fugira na tentativa de escapar aos caçadores.

Passado algum tempo, pareceu a Quentin que a Lua se deslocava na sua direcção, desviando a sua rota no céu preto para se aproximar cada vez mais. Via-a serpenteando sobre si, brilhando com uma luz suave. Tinha dois olhos escuros que o fitavam com um ar estranho. Apetecia-lhe estender o braço e pousar a mão na sua superfíicie macia e luminosa, mas os membros não lhe obedeciam. Depois, a Lua desapareceu.

Passados anos (ou seriam apenas uns momentos?), Quentin sentiu qualquer coisa fresca na testa. Abrindo os olhos, viu que a Lua regressara. Estava a olhar para ele e a murmurar-lhe qualquer coisa, mas, embora as palavras lhe zumbissem suavemente aos ouvidos, não conseguia ouvi-las. Fez um esforço para levantar a cabeça e falar, mas faltaram-lhe as forças. Por isso, deixou que a Lua o confortasse com a sua frescura.

- Kenta, estás a ouvir? Sou o Tolí. Kenta...

Quentin pestanejou e, com o olhar baço. perscrutou o rosto redondo e brilhante da Lua. Abriu a boca para falar, mas tinha-se esquecido de como se articulavam as palavras.

-Não tentes falar. Ouve. Vim libertar-te. Kenta, estás a ouvir?

Quentin gemeu. Porque era aquela lua tão persistente? O que queria? A ele, só lhe apetecia deslizar outra vez para o suave vazio da inconsciência.

- Tens aqui água. - Sentiu qualquer coisa contra os lábios e um líquido fresco escorreu-lhe suavemente para dentro da boca. Engoliu debilmente uma e outra vez. - Bebe devagar - sussurraram-lhe.

Depois, Quentin sentiu que lhe tocavam na mão, mas, embora o sentisse, parecia-lhe que esta estava muito longe e já não fazia parte dele. Quando a mão se soltou, caiu-lhe inerte e sem vida ao longo do corpo. A seguir, a Lua inclinou-se e cortou as cordas que lhe amarravam os pés. Depois, a outra mão soltou-se, e ele caiu de joelhos para a frente, indo esbarrar nos sólidos braços da Lua, que lhe sussurrou ao ouvido:

- Consegues mexer-te?

Quentin não respondeu. Sentiu-se docemente pousado no chão e, depois, foi meio levantado, meio arrastado para debaixo da carroça. Levantaram-lhe a cabeça, e o líquido fresco escorreu-lhe pela boca. Depois, deitaram-no novamente. Toli começou a esfregar-lhe os membros dilacerados, tentando trazê-los à vida, e ele mergulhou outra vez na paz da inconsciência.

- Kenta, acorda. - A voz era apenas um sussurro. Uma respiração quente fazia-lhe cócegas no ouvido. - Temos de ir.

- Toli? - perguntou Quentin num queixume indistinto.

- Chiu! Mais baixinho. Estou aqui. Graças ao deus, estás vivo. Pensei que te tinha perdido.

- O que aconteceu? Ooohh... - O seu ombro recomeçara a latejar, e a dor e o frio da noite despertaram-no um pouco. - Onde... onde estou?

- Agora não há tempo, Kenta. Daqui a pouco é manhã. Temos de nos ir embora. Consegues mexer-te?

- Eu... não sei. Acho que não.

- Tens de tentar. Anda, eu ajudo-te. - Com todo o cuidado, Toli sentou o seu amo. mas até este pequeno esforço provocou negras ondas de tonturas em Quentin, que, sem conseguir controlar-se, tornou a gemer.

- Parece-me que tens o braço direito partido, Kenta. Aperta-o de lado e tenta não o mexer.

- Não sinto nada. Mas o meu ombro... ahh! - Toli enfiara as mãos por baixo do braço de Quentin, para o arrastar de debaixo da carroça.

- Os soldados estão a dormir, mas há sentinelas a toda a volta do acampamento. Como não esperam nada esta noite, estão despreocupadas. É a nossa oportunidade. Consegues pôr-te de pé?

- Eu... - Com a ajuda de Toli, conseguiu levantar-se e ficou a balançar hesitantemente. A dor cortou-lhe a respiração.

- Eu seguro-te. mas temos de ir. - Toli guiou-o nos seus primeiros passos vacilantes. Indefeso, Quentin tropeçava para a frente, tentando que as pernas se mexessem em harmonia. Mas o esforço foi em vão: caiu a poucos passos de onde saíra.

- Muito bem - grunhiu Toli. - Vamos tentar outra vez. Encosta-te a mim. - Tornando a pôr Quentin em pé, recomeçaram a caminhar.

Quentin tentou levantar a cabeça, mas, com o esforço, argolas de dor atravessaram-lhe o cérebro. Por isso, deixou-a a oscilar no peito, enquanto Toli o empurrava. O chão parecia-lhe esquisito, como se a cada passo lhe fugisse debaixo dos pés. As suas pernas embaraçavam-se constantemente, fazendo-o tropeçar; no entanto, sem parar, Toli conseguia sempre pô-las direitas.

- Ali à frente há um barranco... mais ou menos a cinquenta passos. Podemos esconder-nos lá e descansar um bocado. Mas temos de estar o mais longe possível antes de o dia nascer.

Cambaleando. foram avançando pela escuridão fora, enquanto Toli, com os seus olhos de noitibõ, atentava ao mínimo sinal de terem sido descobertos. Estavam a afastar-se do acampamento, as carroças encontravam-se entre eles e os amontoados de soldados inimigos adormecidos. Mas, à frente. situava-se o círculo de sentinelas nos seus postos.

O barranco, pouco mais do que uma depressão coberta de ervas cavada no solo. abriu-se à sua frente. Quentin deixou-se deslizar e deitou-se de costas para baixo, ofegante. Doía-lhe a cabeça e nos olhos formigavam-lhe formas escuras como asas de corvos.

- Ouve - disse Toli. rastejando até à orla do barranco e olhando na direcção das carroças. - Parece-me que deram pela nossa fuga. Está alguém a andar à volta da carroça. Temos de sair daqui depressa.

Toli levantou Quentin e, tão agachados quanto era possível, voltaram a avançar cambaleando.

Quentin esforçava-se por se manter direito e por pôr um pé a frente do outro. e Toli tinha a responsabilidade de o fazer andar. Era o máximo que Quentin podia fazer, além de não gritar de dor sempre que o seu ombro era sacudido.

- Há ali umas árvores. Se conseguirmos lá chegar, talvez possamos descansar mais um bocado.

Quando Toli acabou de falar, ouviram um grito e o matraquear de homens armados correndo.

--Já sabem! - gritou Toli, avançando mais depressa.

As árvores erguiam-se como uma massa preta lançada contra o céu preto. A Lua já se pusera há muito tempo- Toli escolhera a hora mais escura da noite para a sua fuga. Quentin tropeçou duas vezes, estatelando-se ao comprido no chão, sem que Toli o pudesse evitar. E. embora a agonia o cegasse, Quentin voltou a levantar-se corajosamente das duas vezes.

Acabaram por chegar às árvores. Toli empurrou Quentin para o lado de um tronco disforme e deixou-o lá, segurando o braço com a mão boa. Embora fizesse frio, Quentin estava alagado em suor, cujo sabor salgado lhe chegava aos lábios. Quando via as asas negras esvoaçando mais perto, lutava para permanecer consciente. Sentia que não tinha um único osso que não tivesse sido torcido e deslocado.

Toli regressou logo para o seu lado.

- Andam à nossa procura. Sabem que fugiste. Ainda não viraram a atenção para as árvores. mas é só uma questão de tempo. Vão encontrar o barranco e depois seguem-no, como nós fizemos. Não podemos ficar aqui.

Quentin arquejou e assentiu. As têmporas palpitavam-lhe com a dor. que o penetrava cada vez mais profundamente. Sentia que as forças lhe fugiam. Com Toli ao lado, recomeçou a andar, mas às cegas, pois. entre o suor que lhe escorria para os olhos e a escuridão do bosque, não conseguia ver nada.

Naquele momento. já se viam tochas bruxuleando na paisagem. Os soldados procuravam-nos em grupos de três ou mais, espalhando-se por todo o lado. Dali a pouco, continuando a esquivar-se e a avançar hesitantemente pelo meio das árvores, Quentin ouviu as suas vozes ecoando atrás de si. De uma vez, pareceu-lhe ver o clarão de uma tocha à sua direita, movendo-se a par deles. As vozes dos perseguidores, excitados pela caçada, soavam mais perto.

- Tenho um cavalo à espera ali em baixo - disse Toli.

Quentin percebeu vagamente que se encontravam no cimo de um outeiro, cuja encosta estava revestida de espinheiros. Ainda antes de conseguir falar, Toli fê-lo mergulhar nas silvas da ladeira, sem querer saber dos espinhos que lhes rasgavam a carne. Quentin foi avançando e, com Toli sempre ao lado, já quase tinha chegado ao fundo quando o seu pé bateu numa raiz e ele tombou pela encosta abaixo de cabeça para a frente. Sem poder amparar a queda com as mãos, caiu em cheio no chão e ouviu um estalido, ao mesmo tempo que sentia qualquer coisa ceder no seu ombro magoado. Punhais de dor esfaquearam a ferida e ele não conseguiu reprimir um grito de espanto, que lhe rasgou a garganta.

Toli passou a correr por ele. Sentindo um movimento mesmo à sua frente, Quentin percebeu que aterrara quase debaixo do cavalo que Toli conseguira arranjar e esconder para a sua fuga. Depois, sentiu as mãos fortes de Toli abanando-o, pondo-o outra vez de pé e empurrando-o para a sela, onde ficou como um saco de cevada, com a cabeça para um lado e os pés para o outro. Toli montou logo atrás dele, segurando-o com uma mão e agitando as rédeas com a outra.

O cavalo deu um salto e Quentin via a terra girar de lado, num caos de formas confusas: ramos, pedras, céu e chão. Viu uma luz e depois outra. Ouviu um grito muito próximo e a resposta mais afastada. Rangia os dentes, agarrando-se à sela, indefeso. Depois, foram cercados pelos berros do inimigo. Uma sombra escura saiu dos espinheiros e precipitou-se para eles. Toli chicoteou-a com as rédeas. De repente, a pequena mata ficou iluminada com as tochas. Toli sacudiu as rédeas com força e virou o cavalo para a encosta, mas esta era demasíadamente íngreme para o assustado animal, O cavalo debateu-se, escorregou, tentou agarrar o ar e caiu para trás, agitando furiosamente as patas.

Quentín foi atirado ao chão e Toli caiu-lhe em cima. Num abrir e fechar de olhos, foram cercados e feitos prisioneiros pelos soldados. Quentin viu o clarão de uma tocha e um terrível rosto mal-humorado, que o fitava ironicamente; depois, foi agarrado por umas mãos pretas, que começaram a arrastá-lo. Ouviu uma voz gritando de desespero, e percebeu que era a sua, mas não conseguiu distinguir as palavras.

Rodou a cabeça para ver o que acontecera a Toli, mas só deu com os olhos nas tochas que se agitavam atrás de si. "Como os tições são brilhantes", pensou. Faziam-lhe doer os olhos. "Corre, foge!", disse-lhe outra voz. desta vez dentro da sua cabeça. Sim. tinha de fugir. Se ao menos o soltassem, correria, correria e não deixaria de correr até estar bem longe.

"Para onde me levarão?", pensou. "O que me vai acontecer?" As perguntas formavam-se no seu espírito, mas não lhe chegava qualquer resposta. Muito bem, não interessava. já nada interessava. Deixara de sentir fosse o que fosse. Entorpecido pela dor, começou a ter uma visão alucinatória.

Houve um bater de asas negras e, de repente, Quentin estava a voar, a cair, a rebolar, a flutuar bem acima da terra. Quentin olhou para baixo e viu uma estranha procissão de pessoas com tochas marchando por um vale arborizado, transportando os corpos de dois infelizes. Quem seriam? Quentin teve pena deles. Cheio de tristeza, desviou o olhar e viu a escuridão da noite avançando sobre ele.

Foi como se um véu de seda lhe tivesse passado em frente dos olhos, não o deixando ver mais nada. Quentin deixou-o tocar-lhe e envolvê-lo no seu abraço escuro. Depois, sentíu-se abandonado pelos últimos fios de força e de vontade e perdeu os sentidos.

 

Os tocos das velas ainda bruxuleavam nos seus suportes altos: algumas tinham ardido todas e a câmara interior dos anciões cheirava a cera quente e a sebo. Os anciões estavam sentados, imóveis como pedras, inclinados para a frente, de cabeça baixa e mãos enclavinhadas uma na outra. Se não fosse a sua respiração ritmada, o silêncio seria total.

A noite já ia a meio e continuavam sentados. À espera. à escuta. À procura, dentro de si próprios, de uma resposta para o sonho de Yéseph... um sonho muito perturbador.

A dada altura, a espera acabou, finalmente, quando Clemore ergueu as mãos e começou a cantar:

- Peran nim Panrai, ilgelle des onus "íst Orren. Entona blesor! amatílI kor des voel belforas. - Cantava na língua antiga dos Ariga. Rei dos reis, cujo nome é Altíssimo, o teu servo adorará o teu nome para sempre.

Os outros três levantaram lentamente a cabeça e fitaram Clemore. que tinha os olhos fechados e as mãos erguidas de cada lado do rosto.

- Fala, ancião Clemore. Diz-nos o que te foi revelado - incitou Patur em voz baixa. Os outros assentiram e encostaram-se ao espaldar alto das cadeiras de madeira: a vigília chegara ao fim. De olhos ainda fechados, Clemore começou a falar:

- O rio é a Verdade e a água a Paz. E o rio atravessa a terra., dando vida a quem o procura, pois a Verdade é a vida.

"Mas o turbilhão da guerra desce sobre ele, e o seu mal profana a água. A Verdade é envenenada e sufocada pela mentira. Quando a Verdade perece e a Paz murcha, a terra morre. E os ventos da guerra sopram sobre a terra, enchendo o céu de nuvens de morte, que são o pó. Depois, as trevas... o Mal cobre tudo, tapando a luz do Bem.

"O menino que chora na escuridão é um Filho da Luz que perdeu o seu pai, a rectidão. A espada do seu pai é o conhecimento da Verdade, que foi destruido.

"Mas ficaram alguns que não se entregaram à morte e às trevas e que ainda se lembram do Rio, da Água e da Terra Viva. São o homem que chora. As lágrimas são as orações dos Sagrados. que lamentam a vinda do Mal.

"As orações são esvaziadas e transformam-se numa Espada de Luz, que é a Fé. A Espada lança clarões contra a escuridão do _Mal porque nela vive o Espírito do Altíssimo. A Espada vai ser dada ao -Menino, mas. infelizmente, este foi dominado e levado pela Noite.

Quando Clemore acabou de narrar o sonho à sua maneira, começaram todos a falar ao mesmo tempo, concordando com a sua interpretação, mas a voz de Yeseph ergueu-se acima das outras:

- Irmãos' Não devemos esquecer-nos de que os sonhos podem ter vários significados, todos eles verdadeiros. Não ponho em dúvida que a interpretação que acabámos de ouvir é, verdadeiramente. do Altíssimo. Mas há uma coisa que me preocupa.

- O que é? - perguntou jollen, que abriu a mão na direcção de Yeseph, convidando-o a falar à vontade. - Afinal de contas, foste tu que tiveste o sonho.

- Sinto que há um perigo mais presente ainda por revelar.

- O sonho é terrível - retorquiu Parur.

- E a sua interpretação um aviso muito claro - acrescentou Clemore.

- Sim. um aviso do que está para vir - disse Yeseph lentamente

mas também um reflexo do que está a acontecer neste momento.

- Tens razão, Yeseph. Também penso assim. - jollen inclínou-se e bateu-lhe no braço. - A interpretação foi-nos dada para podermos preparar-nos para o que vai acontecer. O sonho foi-nos dado para sabermos que se abateu um perigo sobre nós.

Clemore assentiu gravemente e Patur puxou a barba grisalha.

- O que te diz o coração, Yeseph? O que devemos fazer? - perguntou Patur.

- Não sei bem. Mas sinto-me muito atormentado. E a minha aflição tem vindo a aumentar durante toda a noite. - Lançou um olhar aos outros. - Sinto que devemos rezar pelo Filho da Luz, que mandamos para fora do nosso seio.

- Quem é ele. Yeseph? - perguntou Clemore.

- O quentin.

- O quentin? Mas ele está em Askelon.

- O quentin, sim... e o Toli também. Sinto que estão numa situação desesperada.

- Então - replicou Jollen -, para o sonho ter um fim. pode ser que as nossas orações sejam muito necessárias neste momento. - Virando-se para os outros: - Também fiquei perturbado com o sonho do Yeseph, que não sugere nenhum fim, o que significa que este ainda está em dúvida. Portanto, temos de unir os nossos espíritos e os do nosso povo para conseguirmos o fim que o Altíssimo nos vai mostrar.

- Faço minhas as tuas palavras - disse Yeseph.

- Então, não percamos mais tempo. As nossas orações têm de começar imediatamente. - Jollen levantou a mão e fechou os olhos. Os outros seguiram-lhe o exemplo.

Dali a pouco, a câmara do templo estava cheia do murmúrio das orações dos anciões, que subiam ao trono de V-bist Orren. Fora do templo, para leste, a luz prateada da madrugada começava a tingir a cortina cinzenta da noite.

Com a madrugada, veio um frio lúgubre. Embora o céu parecesse bastante claro, o horizonte mostrava um tom de vermelho feio, baço e carregado. O vento mudara com a chegada da manhã; Toli, que estava amarrado ao lado do seu amo, reparara nisso. Quentin quase não respirava. O fio que o prendia à vida era muito ténue. Antes de o dia nascer, Toli tivera de encostar muitas vezes o ouvido ao peito de Quentin, para se certificar de que ainda estava vivo.

No acampamento, os soldados andavam atarefados, preparando-se para a marcha do dia. Toli, a cujos olhos não escapava nada, tinha o pressentimento de que ele e Quentin não iriam com os outros, pois vira um grupo de soldados às voltas com cordas e correias, e os três guardas que se encontravam ali naquele momento riam-se e apontavam para eles. Toli sabia que a sua execução estava a ser preparada.

As fogueiras lançavam fumo branco, que flutuava pelo acampamento. A guarda dos prisioneiros foi mudada, para os que tinham estado de vigia durante a noite poderem comer. Toli suspeitou que, quando todos tivessem acabado de comer e estivessem prontos, se reuniriam para assistir à execução, que constituiria uma espécie de diversão, uma lembrança que os entreteria ao longo do dia de marcha.

Toli passou os últimos momentos da sua vida rezando pelo amo, que não podia orar por si próprio.

Foi arrancado da sua meditação com um pontapé brutal nas costas. A pancada fê-lo rolar sobre si próprio. Tolí olhou para cima e viu o rosto cheio de ódio de um gigante, empunhando um machado de batalha com a lâmina da largura da cintura de um homem.

O gigante, que tinha o rosto todo costurado com cicatrizes que se entrecruzavam, apontou para os cativos e grunhiu. Os guardas agarraram-nos e arrastaram-nos para o prado onde o exército tinha acampado, abrindo caminho através de um amontoado de soldados, que formava um sólido muro em volta de um objecto que lhes prendia a atenção.

Toli e Quentin foram empurrados pelo meio da multidão e atirados para dentro de uma roda larga, formada pelos escudos dos soldados. No meio da roda encontravam-se dois cavalos, um virado para leste e o outro para oeste. Entre os cavalos estava um emaranhado de cordas e dois objectos pesados, parecidos com cangas. Do outro lado da roda, via-se o corcel preto do comandante, sacudindo a cabeça e abanando o braço do soldado que o segurava pelo freio.

De repente, houve uma agitação nas fileiras que ocupavam o perímetro da roda, que se abriu, formando uma larga avenida, por onde Toli viu chegar um homem com uma couraça de bronze e um elmo também de bronze, com duas grandes plumas fixas em cima, como asas. Tinha uma capa presa a um ombro, e viam-se os contornos da fina lâmina da espada cruelmente curva que trazia por baixo. Toli não teve dúvidas de que estava a ver o comandante.

Aproximando-se do seu corcel, o guerreiro parou momentaneamente, enquanto dois dos seus homens se atiravam para a frente e se lançavam aos seus pés. Um deles deitou-se no chão, o outro pôs-se de gatas e o comandante subiu para a sela, pisando o corpo dos seus homens. Depois, fez um sinal, levantando a mão. Tremendo todo por dentro, Toli engoliu em seco e lançou um último olhar a Quentin, que jazia inconsciente.

- Continua a dormir, Kenta, e não tenhas medo - sussurrou para si próprio. - Eu vou antes de ti.

Mas não ia ser assim. A um sinal do comandante, dois soldados avançaram. Um deles transportava uma cabaça cheia de água. Sem qualquer tipo de delicadeza, viraram Quentin, fazendo-o rolar e provocando-lhe um queixume. Toli debateu-se, tentando libertar-se, mas um soldado que estava atrás dele deu-lhe uma pancada na cabeça.

O soldado que tinha a cabaça ajoelhou-se, debruçou-se em cima de Quentin, encostou-lhe o recipiente ao nariz e começou a esvaziá-lo.

- Ele assim vai morrer! - berrou Toli, recebendo outra pancada na cabeça, virando-se contra o soldado e levando um pontapé nas costelas.

Quentin tossiu violentamente e engasgou-se. A água esguichou-lhe da boca e do nariz e ele acordou, cuspindo. As pálpebras tremeram-lhe e, virando os olhos turvos para Toli, ajoelhado ao seu lado, arquejou:

- Meu amigo... lamento muito.

Parecia que Quentin sabia o que ia acontecer.

Os prisioneiros foram obrigados a levantar-se, aos safanões; Quentin manteve-se de pé no meio de dois soldados mal-encarados, um dos quais lhe agarrou numa mão-cheia de cabelo, para que a sua cabeça ficasse direita.

O comandante fez um segundo sinal, e houve uma súbita agitação atrás dos dois cativos. Um terceiro prisioneiro foi atirado para a roda. Tratava-se de um soldado que, tal como Quentin e Toli. tinha as mãos e os pés amarrados.

- Uma das sentinelas de ontem à noite - murmurou Toli, suspeitando de que o comandante faria dele a primeira vítima.

O rosto do homem, que tremia como varas verdes, estava cinzento. O suor empapava-lhe o cabelo e escorria-lhe pelo rosto, que não passava de uma hedionda massa de vergões arroxeados, pois o homem já fora muito espancado. O infeliz soldado foi rapidamente puxado e levantado por dois outros guardas, que. depois, o despiram, cortando-lhe as roupas com as facas. Os que estavam a assistir ao espectáculo desataram a rir-se.

O miserável foi obrigado a ir até ao meio da roda, onde o gigante com o machado o esperava entre os dois cavalos. Empurraram-no para o chão e, enquanto se contorcia angustiadamente, amarraram-lhe os braços e as pernas às pesadas cangas de madeira. Então. a um sinal, os dois cavalos, acorrentados às cangas, foram afastados lentamente, em direcções opostas.

As cordas retesaram-se. O gigante pôs-se em posição sobre a sua presa. A vítima foi levantada do chão e ficou suspensa em agonia, enquanto o seu corpo ia esticando lentamente. Os cavalos inclinavam-se para a frente e o homem gritava terrivelmente. Quando cediam, as articulações e os ligamentos produziam um som horrível, que enchia a roda. Quando a vítima lançou o seu último grito, o gigante, rápido como um relâmpago, fez girar o machado num círculo de luz em volta da cabeça e, com um golpe poderosíssimo, baixou a mão.

O sacão do golpe quase derrubou os cavalos, que, quando as cordas ficaram frouxas de repente, tiveram de se apoiar nos joelhos. O pobre miserável ficou perfeitamente cortado ao meio. Entretanto, as hostes aclamavam selvaticamente, batendo com as armas e soltando vivas.

Toli lançou um olhar temeroso a Quentin, que observava o horrível espectáculo com um olhar vazio. Embora os olhos do seu amo estivessem abertos, Toli não sabia se tinham visto a cena que acabava de se desenrolar, pois o ar de Quentin era vago e ausente.

O comandante mandou tirar o cadáver das cangas e atravessou a roda com o seu corcel, dirigindo-se para o local onde Toli e Quentin esperavam. Toli apertou os dentes com força e olhou teimosamente em frente. Por um momento, o guerreiro baixou para os prisioneiros um olhar furibundo. Depois, disse qualquer coisa numa língua ininteligível. Toli ergueu o rosto desafiador e, por um breve instante, os seus olhares cruzaram-se. Então, o outro pegou nas rédeas e chicoteou Toli, vergastando-o no rosto uma, duas, três vezes...

O sangue esguichou de um lenho por cima do olho e escorreu-lhe pelo rosto. O comandante berrou-lhe qualquer coisa e lançou um rápido olhar a Quentin, que parecia ainda não saber o que estava a acontecer à sua volta. Depois. o chefe dos soldados virou a montada e voltou a trote para o meio da roda.

Então, percorreu lentamente com o olhar todo o círculo de rostos do seu exército e proferiu um curto discurso, que. a julgar pelas expressões sombrias que estes, subitamente, adquiriram, Toli achou ser uma repreensão. Quando acabou, fez um sinal de cabeça, e alguns soldados começaram a reajustar as cangas e as correias. Toli pensou que chegara o seu último momento. Fechando os olhos, pediu aos céus força e dignidade para enfrentar a provação que o esperava.

Do outro lado da roda. soou uma trombeta. Toli abriu os olhos e contemplou os montes e as árvores. decidido a que a sua última recordação não fosse a do seu carrasco nem a do grotesco cadáver que jazia cortado ao meio ao lado da cruel lâmina. Sentiu uma pontada de dor por não ir poder confortar o seu amo no seu último momento nem sequer despedir-se dele condignamente, mas, de qualquer forma, duvidava de que Quentin o ouvisse ou o compreendesse.

Os soldados que tinha ao lado apertaram-no mais e arrastaram-no para a frente. O coração começou a bater-lhe loucamente no peito e a sua visão tornou-se, de repente, extremamente apurada. Viu todas as ervinhas que tinha aos pés, e todas as folhas de todos os ramos das árvores destacaram-se com uma nitidez impressionante.

O tempo pareceu avolumar-se. expandindo-se para dimensões incomensuráveis. Caminhava passo a passo, maravilhosamente consciente de cada momento que passava, agarrando-o, saboreando-o. Ora levantava um pé. para dar um passo, que demorava tanto tempo!, ora era o outro que estava no ar. Ainda faltavam cerca de vinte passos até ao homem do machado, e cada um parecia durar uma eternidade.

Estava consciente do ar que lhe enchia os pulmões, do seu sabor e da sua frescura. Ao sentir o sol na nuca, pensou que, se tentasse conseguiria contar cada raio que o tocava. Como era estranho que todos os nervos e fibras do seu ser estivessem tão vivos e tão próximos da morte!

Mas foi atingido por um pensamento horrível. Dado estar tão desperto, seria capaz de ver a lâmina do carrasco brilhando no ar ao descrever o seu arco indolente. Conseguiria sentir esticar cada fibra dos seus músculos. sentiria os ossos arrancados das articulações, ouviria o estalido da sua própria coluna vertebral. No mais hediondo dos momentos, já com um comprimento muito maior do que o normal, veria a cruel lâmina mordendo-lhe a carne e separando os ossos dos músculos. Ver-se-ia a si próprio cortado ao meio e sentiria os seus órgãos esguichando terrivelmente.

Conheceria a sua morte no seu aspecto mais horrível. Não morreria instantaneamente, como pareceria aos que estivessem a observar o espectáculo. Morreria com uma lentidão torturante. Gradualmente. Aflitivamente pouco a pouco.

 

- Há semanas que não tendes o excelente aspecto desta manhã, senhor. - Durwin vira o rei do outro lado do jardim e, antes de se aproximar, ficara a observá-lo por alguns momentos. Eskevar estava tranquilamente sentado num banquinho de pedra, no meio de uma explosão de cor das flores de todos os tons e formas possíveis. Todas as plantas e arbustos dos cantos mais remotos do reino tinham um lugar no jardim do Rei Dragão.

Quando o rei levantou a cabeça e viu o seu físico, que se aproximava, as sombras desapareceram-lhe do rosto.

- Graças aos tratamentos do meu bom eremita, acho que ainda vou incomodar este mundo com a minha existência.

Durwin lançou a Eskevar um olhar circunspecto.

- Dizeis isso de uma forma muito estranha, senhor. julguei que ficaríeis contente por estardes melhor e afastaríeis de vós as tristezas.

- Então conheces-me mal. Não posso alegrar-me quando os rneus... os meus homens, por ordem minha, ainda não estão aqui.

- Mas é o Meio do Verão! - disse Durwin, com uma alegria um pouco forçada. Também ele se sentia inquieto por Quentin, Toli e os outros estarem fora há tanto tempo. - Não me admirava nada que estivessem a desfrutar a hospitalidade de uma daquelas alegres póvoas marítimas.

Eskevar abanou a cabeça com gravidade.

- Fazes tudo para me animar, Durwin. Agradeço-te muito a tentativa, mas não consegues nada. Sei que se passa qualquer coisa em Mensandor, que não vai nada bem.

Durwin aproximou-se mais do monarca e pousou-lhe uma mão no ombro. O rei fitou os olhos do eremita e sorriu tristemente.

- Senhor, eu também sinto um grande medo a rastejar pela terra. Às vezes, o meu coração começa a palpitar inesperadamente ou sinto-me percorrido por um arrepio quando estou sentado no quarto. à frente da lareira, e sei que há qualquer coisa a solta na terra que não ama a paz. Creio que, muito em breve. teremos de enfrentar um inimigo odioso.

"Mas também sei que a luz do deus nos ilumina e que não há trevas que possam extingui-la.

- Quem me dera ter fé para acreditar no teu deus. Infelizmente, conheço a religião bem de mais para acreditar. - Eskevar suspirou e pôs-se lentamente em pé. Durwin estendeu a mão e ajudou-o a manter-se direito.

Durante muito tempo, os dois velhos amigos passearam em silêncio, lado a lado, pelos carreiros do jardim. Durwin tinha a mão por baixo do braço do rei.

- Creio que não conseguiria sobreviver a outra campanha, a outra guerra - disse Eskevar, depois de terem percorrido todo o jardim no sentido do comprimento e da largura.

- Estais cansado, senhor. Estivestes muito doente. Não deixeis que esses pensamentos vos preocupem. Garanto-vos que vos sentireis diferente quando tiverdes recuperado a força.

- Talvez. - O rei voltou a ficar silencioso.

O sol brilhava alegremente. e todo o jardim parecia gritar com a exuberância da vida. A água de uma fonte corria num recanto sombrio, perto de um muro coberto de campainhas brancas. Ao passarem por ele, flutuou no ar perfumado uma delicada canção. Pararam a escutá-la.

- A vossa filha canta tão bem, senhor!

- Se não pode fazer mais nada... - O rei riu-se suavemente e os seus olhos iluminaram-se. - É mulher e está apaixonada.

Vendo como o seu paciente se animava ao pensar na filha. Durwin virou-se e dirigiu os seus passos para a fonte e para a jovem vestida de samito branco, que resplandecia como umvivo raio de luz.

- Cantas maravilhosamente, senhora - disse Durwin quando se aproximaram. Bria, ocupada a entrançar uma grinalda de hera salpicada de campainhas, levantou a cabeça e sorriu.

- Pensava-vos sérios de mais para dardes atenção às tolices de uma jovem - riu-se Bria. A música encheu o ar e as sombras retiraram-se. Lembrando-se, talvez, de uma outra, cujo riso o encantava, Eskevar pareceu rejuvenescer. - Vinde para aqui, pai. E tu também, Durwin. Sentai-vos ao meu lado e dizei-me de que tendes estado a falar esta manhã.

- Sentar-nos-emos contigo, mas és tu que tens de nos contar os teus pensamentos - retorquiu Durwin.

Sentaram-se em bancos de pedra, perto da fonte. Eskevar instalou-se ao lado da sua linda filha e não despregou os olhos dela. Bria começou a narrar as trivialidades do seu dia e a contar como estava entusiasmada com a aproximação da celebração do Meio do Verão. que se realizaria naquela noite. Na sua voz só havia muita alegria e um grande contentamento.

"Como é parecida com a mãe!", pensou Durwin. "Como é sensata e boa! Devia estar com Quentin no pensamento e uma grande saudade no coração. ansiando pela sua presença numa altura tão alegre; no entanto, não deixara escapar nada a não ser a maior das satisfações e das felicidades. Durwin sabia que ela o fazia pelo pai.

Passado pouco tempo. Durwin afastou-se silenciosamente, deixando o seu paciente nas mãos de uma curandeira ainda mais hábil do que ele e cuja presença, só por si, já era um bálsamo.

Ao chegar à estrada, Esme tivera de tomar uma decisão difícil. A norte ficava Askelon e a sua meta: a sul, o perigo e a probabilidade de voltar a ser capturada. -Mas supunha que qualquer ajuda que pudesse arranjar também viria do sul. Era a direcção que os seus protectores, Quentin e Toli, seguiam quando a tinham encontrado, pois era de lá que esperavam que os seus amigos regressassem.

A decisão ocupara-a a maior parte da tarde, desde que deixara a vidente. E quando chegara ao trilho, à beira-mar, continuara indecisa. O mais provável era que Quentin e Toli estivessem mortos. E era quase certo que os seus amigos, fossem eles quem fossem, tinham caído numa emboscada e haviam sido mortos. como acontecera aos seus guarda-costas. Afastar-se naquele momento de Askelon parecia-lhe um gesto fútil: não ganhava nada em andar por aí a vaguear e a perder tempo.

No entanto, as palavras da filha de Orphe martelavam-lhe a cabeça:

Mas tu fazes isso E será assim:

Quando dois forem soltos A tua missão terá fim.

O que mais poderiam estas palavras querer dizer se não que Quentin e Toli (os dois) ainda estavam vivos, mas que não permaneceriam assim se ela não fosse libertá-los? A acreditar na profecia, só cumpriria a sua missão quando os libertasse.

Não fazia sentido. "Mas desde quando é que os deuses fazem sentido para os mortais?", pensara Esme amargamente.

Por isso, contra toda a lógica, voltara Riv para sul. Com as sombras adensando-se e alongando-se ao fim da tarde, tinham partido à procura de amigos numa terra pouco amistosa.

A longa noite cheia de frios duradouros transformara-se numa manhã soturna. O sol vermelho e carregado brilhava sobre a linha do horizonte. Esme já estava levantada e a sacudir as folhas e o orvalho da capa, quando ouviu o vivo chocalhar de cavalos que caminhavam pela estrada. Embora débil e distante, era um som que conhecia bem: o de homens armados deslocando-se depressa e com algum objectivo. As suas armas tiniam a cada passo dos cavalos.

Esme deslizou do caramanchel que fora a sua cama naquela noite, e que ficava ligeiramente abaixo da estrada, bem escondido ao fundo de uma encosta, e subiu até à beira da estrada, sondando-a com o olhar. Como não viu ninguém e o som desapareceu por um momento, pensou se não teria sido imaginação sua. Mas, naquelas redondezas cheias de colinas, a estrada subia e rodeava os muitos outeiros ali existentes. Por isso, dali a pouco voltou a ouvir o mesmo som.

Esme retirou-se novamente para o refúgio coberto de folhas, onde foi buscar Riv, que conduziu ao longo de um carreiro paralelo à estrada. Desceram para um valezinho e voltaram a subir até ao cimo de um pequeno outeiro arborizado. Desse ponto, Esme poderia observar a estrada que passava mais abaixo, sem ter medo de ser vista.

Ficou à espera. O carrancudo Sol erguia-se devagar, lançando uma luz mal-humorada; o ar estava húmido, frio e bafiento. Embora não se visse nem uma nuvem, o céu dava a sensação de estar a preparar uma tempestade. Pensando que dias assim não pressagiavam nada de bom, Esme esperou não ter nada para lamentar quando chegasse a noite.

Na manhã parada, ouviu novamente o mesmo tinido, desta vez mais perto e distinto. Pondo-se à escuta, pareceu-lhe ouvir o bater dos cascos dos cavalos, à medida que o grupo, que não era grande, se ia deslocando estrada fora. Depois, Esme viu o brilho avermelhado de uma lâmina ou elmo em que o sol bateu por um breve instante. Por fin, trepidando, surgiram dois cavaleiros, seguidos de perto por mais três.

Embora ainda observasse os seus movimentos durante algum tempo, Esme soube imediatamente que não tinha nada a temer daqueles homens. Eles não pertenciam à horda destruidora com que se defrontara por duas vezes. Para mais, do seu poleiro secreto, conseguiu ver, ainda que indistintamente, o brasão do escudo de um dos cavaleiros, que pendia ao seu lado, no flanco do cavalo: o serpenteante dragão vermelho do Rei Dragão.

Quando o grupo de cavaleiros ficou a par do seu esconderijo, Esme puxou Riv cautelosamente e apressou-se a descer até à estrada, para ir ao seu encontro. Vendo-a deslocar-se rapidamente na sua direcção, um dos cavaleiros disse qualquer coisa aos companheiros e saiu a galope, para a interceptar. Ao juntar-se a ela, não falou, limitando-se a observá-la prudentemente enquanto a conduzia para o local onde os outros tinham parado à sua espera.

Quando, por fim, os alcançaram, houve um momento de silêncio. Os dois cavaleiros da frente entreolharam-se brevemente. Era óbvio que não sabiam o que pensar de uma dama que cavalgava sozinha pelos montes.

- Chamo-me Ronsard. Sou o comandante-chefe de Mensandor. Estou às vossas ordens, senhora. - Tratava-se do cavaleiro cujo brasão Esnie reconhecera.

A rapariga falou sem hesitar:

- Chamo-me Esme... - começou. Mas foi interrompida pelo segundo cavaleiro, um homem escuro que lhe parecia vagamente conhecido.

- Eu conheci uma Esme que, na altura, não passava de um projecto de rapariga e que era tímida como um veado jovem.

- É um nome muito vulgar - retorquiu ela, na defensiva. Quem seria aquele homem? Tinha a certeza de que já o vira.

- É verdade. A Esme que conheci vivia em Elsendor e nunca gostou de cavalos, mas vejo que deveis gostar para montardes assim. Um sorriso dissimulado brincou nos cantos da boca do cavaleiro. Estaria a rir-se dela?

- O reino de Elsendor ainda é grande - volveu ela. - Lembrais-vos da casa onde vistes a rapariga que tem o meu nome?

- Lembro-me. - O cavaleiro riu-se. - Fiquei lá muitas vezes, gozando de uma hospitalidade real. - Demorou-se na palavra "real", acentuando-a muito.

Ronsard passou curiosamente o olhar de um para o outro:

- Não faz mal nenhum perdermos o nosso tempo a dar à língua, mas não haverá por aí alguma piada escondida que esta cabeça bronca não consegue apreender?

- Senhor, se é uma piada, não é minha - respondeu ela, um tanto confusa. - Tenho uma missão importante que, penso, diz respeito a amigos vossos.

- Então, senhora, sugiro que nos digais imediatamente o que quereis de nós. Também fomos encarregados de uma missão importante.

- Ora, ora, Ronsard. Não sejas tão apressado. Para ti, esta dama é uma desconhecida, mas o seu pai não.

- Vós... vós conheceis o meu pai? - Esme observou-o com atenção. - As vossas palavras confundem-me, senhor, mas há alguma coisa em vós que não me é completamente estranha.

- Sim - disse Ronsard, começando a ficar impaciente. - Se pensas que sabes alguma coisa, diz lá o que é!

- Muito bem - suspirou Theido. - Até pode ser que esteja enganado. Se calhar estou mesmo, pois nenhum dos filhos do rei Troen deixaria de conhecer aquele a quem chamavam tio.

Os olhos escuros da jovem esbugalharam-se de espanto e ela abanou a cabeça duvidosamente, agitando a trança esguia que tinha na nuca.

- Theido? - Uma alegre expressão de alívio inundou-lhe o rosto quando viu o desconhecido escuro atirar a cabeça para trás e rir às gargalhadas.

Ronsard fez estalar a língua e rodou os olhos:

- Mas que encontro este! É inacreditável!

- Pois podes acreditar, Ronsard. Permite-me apresentar-te a princesa Esme de Elsendor. Ela pode estar longe de casa, mas não está longe dos amigos.

- Theido! Eu também não acredito, senhor - disse ela para Ronsard. -Juro que ele era o último homem que eu esperava encontrar hoje.

- Bem posso dizer o mesmo de ti, Esme. Sabes, Ronsard, passei muito tempo com o rei Troen quando o patife do Jaspin se apoderou das minhas terras. Fui feito fora-da-lei no meu país, mas a rainha Besmir recolheu-me, embora o seu marido andasse na guerra com Eskevar.

- E, no entanto, reconheceste-me? Eu mal me lembro de ti.

- És muito parecida com a tua mãe e tão ousada como o teu pai. O nome Esme não é assim tão vulgar como nos querias fazer acreditar. Quando te vi, percebi logo que eras tu.

Os outros cavaleiros murmuravam, surpreendidos. Virando-se para eles, Ronsard perguntou:

- Qual é a admiração, senhores? Sabeis bem que Theido é um nome bem conhecido de todas as famílias do reino, sejam elas de lavradores ou de príncipes.

Riram-se todos, incluindo Theido, que disse:

- Tenho muitos amigos, e é verdade que há poucos homens em Mensandor que nunca ouviram o meu nome, mas isso deve-se mais ao meu pai do que a mim.

- Mas o melhor é pormo-nos a caminho. junta-te a nós, senhora, e conta-nos a tua missão enquanto andamos. Nós vamos para Askelon.

- Por mim, convém-me...

- Parece-me que mencionaste uns amigos nossos, não foi? Que notícias tens para nos dar? - O grupo recomeçou a jornada.

- Muito más, senhor. Quem me dera não ser eu a dá-las! Se és amigo de um tal Quentin e do seu servo e amigo Toli, prepara-te para o pior. - Esme lançou um olhar temeroso aos seus dois companheiros, cujos rostos se carregaram de preocupação ao ouvi-la pronunciar aqueles nomes. - Vejo que não me enganei.

- Pois não. Conta-nos o que sabes.

- Nós andávamos a vossa procura, senhores, e viajávamos de noite. Vimos um incêndio... eles disseram que era Illem... e corremos a ajudar. Mas encontrámos um inimigo terrível, e o Quentin e o Toli foram apanhados. Eu consegui escapar.

Profundos sulcos apareceram em volta da boca de Theido. Ronsard avançou o queixo.

- Agrada-me a vossa sorte - disse este último. - E mais ainda a franqueza das vossas palavras.

- O meu pai disse-me muitas vezes que as notícias amargas não se adoçam na boca e que o melhor é contá-las depressa. Se soubesse que as minhasmaneiras vos chocariam, ter-vos-ia poupado.

- Não, não nos poupeis. Dizei-nos só se ainda podemos ter esperanças.

- Ontem pensava que não, mas, por acaso, encontrei uma vidente ao pé de um lago. E ela deu-me razões para ter esperanças e para vos procurar.

- Uma vidente, dizes? - Theido encolheu os ombros. - Bom, para a aflição em que estamos, qualquer ajudinha serve. Mas não devemos demorar-nos mais. Os meus gracejos já fizeram com que nos atrasássemos muito. Vamos na direcção de Illem. Teremos de esperar para ouvir o resto da tua história, senhora, que deve ser muito interessante.

- Vamos para Illem! - gritou Ronsard para os seus cavaleiros.

Todos sacudiram as rédeas e esporearam os flancos dos cavalos, que partiram à desfilada pelas colinas, na direcção do círculo queimado e enegrecido que outrora fora Illem.

 

A luz do crepúsculo demorava-se a dourar as árvores. Durwin estava de pé no grande torreão sobranceiro ao magnífico jardim do rei, naquele momento iluminado por mil lanternas. A música dos menestréis, uma delicada tapeçaria de melodia, que parecia tecida com as pétalas das flores estivais, flutuava sobre todas as coisas.

jovens nervosos escoltavam felizes meninas ao longo das veredas do jardim. Crianças brincavam entre os caramanchéis e o seu riso, límpido e cristalino, parecia música tocada. em instrumentos de prata. Nobres senhores e finas damas de vestidos alegres deslocavam-se graciosamente por entre os pavilhões às riscas azuis e amarelas, onde se serviam acepipes. Cheirando o perfume das flores, que impregnava o ar, Durwin pensou que a celebração do Meio do Verão no castelo de Askelon era uma festa para os sentidos e de uma beleza rara.

- Porque estás tão triste, bom eremita? - A voz era tão leve como a brisa que levantava docemente as folhas no jardim. Durwin virou-se e fez uma vénia à sua rainha.

- Senhora, os vossos olhos são tão apurados como belos - suspirou ele.

- O que te preocupa num dia como o de hoje? Estamos na noite em que se sonha tudo o que há de bom... e tu bem sabes que, às vezes, os sonhos podem tornar-se realidade.

- Será mesmo assim? Às vezes, o bem parece tão frágil contra o mal, a luz tão impotente contra as trevas... - A sua voz arrastou-se e o pensamento ficou por acabar.

Isso não é do Durwin que eu conheço. Parece mesmo que estiveste a aconselhar-te com o rei.

- AI! e estive. O espírito do homem é tão instável, tão dependente das suas emoções! Um catavento que gira conforme a direcção dos ventos. - De repente, ríu-se, recuperando alguma alegria. - Ora, ora Que tolo sou! Para que serve um físico que recusa os seus próprios remédios?

Alinea deu-lhe suavemente o braço e encaminhou-o para os grandes degraus que desciam até ao jardim.

- Passeia um pouco comigo, meu bom amigo. Também eu preciso de ouvir palavras que me consolem. - Uma sombra atravessou-lhe o rosto gracioso. Durwin sentiu-a como uma pontada.

- Se as palavras podem ajudar-vos, podeis crer que as direi.

- Hoje tenho andado preocupada. A alma pesa-me com uma subtil inquietude, que não percebo. Não tenho razões para isso. Muitas vezes, dou comigo a pensar no Quentin.

- Se pudesse, acalmar-vos-ia, mas sei que as minhas palavras não o farão. Também eu tenho andado todo o dia a pensar no Quentin... e em pouco mais. Quando chegastes ao pé de mim, embora ainda não o soubesse, estava a pensar outra vez nele e no Toli.

- Achas que podem estar numa situação difícil? Parece tolice, bem sei...

- De modo nenhum, senhora, de modo nenhum. É natural que o Altíssimo junte os nossos corações com os dos nossos entes queridos tanto em tempo de aflição como em tempo de alegria. Embora sem saber o que é deles, tenho rezado todo o dia.

Gostava de ter o conhecimento do Altíssimo que tu possuis, para não me sentir tão vulnerável às tolices de um coração de mulher.

- Mas tendes uma coisa igualmente preciosa: a capacidade de acreditar sem necessidade de razões ou de grandes sinais e portentos. A vossa fé é forte.

- E a tua?

- A minha é forte, mas tem por trás anos de lutas íntimas e de esforços vãos. Cheguei à minha fé por um caminho muito serpenteante e rochoso, e não sei o que é melhor. Penso que o deus dá a cada alma aquilo de que ela necessita, e a diferença reside aí.

- Apesar de tudo, gostava de saber o que aprendeste na tua busca. Não faz mal saber.

- É verdade, senhora. Tendes razão. De bom grado vos ensinarei o pouco que sei. Mas não vos admireis se, no vosso coração, já souberdes a verdade. Acontece muitas vezes.

Quando desceram o último degrau e entraram no festivo mundo dos foliões do Meio do Verão, estavam silenciosos. Alinea virou-se e, com toda a seriedade, fitou o rosto largo e marcado pelo tempo de Durwin:

- O que podemos fazer pelo Quentin e pelo Toli?

- Nada que não tenha sido já feito: rezar. O que não é pouco.

- Deixa-me ir ter contigo quando a celebração acabar. Rezaremos juntos. Se um só coração pode ter algum efeito, então dois podem acelerar a cura. E a segurança das tuas orações guiará as minhas.

- Como quiserdes, minha rainha. Ficarei à vossa espera.

Precisamente nesse momento, o som das trombetas ribombou do torreão que tinham acabado de deixar e eles viraram-se para verem os pajens do rei, de compridas trombetas na mão, pondo-se em sentido. O rei Eskevar debruçou-se na balaustrada de pedra, observando os festejos. À medida que todos os olhos se foram voltando para ele, o silêncio caiu lentamente sobre o jardim- Até as crianças que brincavam ficaram caladas ao sentirem que estava para acontecer alguma coisa de importante, que, no entanto, era para elas mais uma interrupção dos jogos do que uma ocasião solene. Os mais velhos entreolharam-se interrogativamente, pois não era costume o rei dirigir-se assim aos seus convidados.

todos ficaram à espera de ouvir o que ele tinha a dizer.

- Cidadãos de Mensandor, meus amigos. Não vos afastarei por muito tempo dos vossos festejos. Em breve, eu próprio me juntarei a vós. Mas quero dizer-vos algumas coisas que têm andado no coração do vosso rei.

Houve um murmúrio de preocupação, em parte devido a estas palavras e em parte por causa do aspecto do rei, a quem o vestuário festivo não conseguira disfarçar as feições macilentas.

- O que vou dizer-vos pode causar-vos alguma preocupação, mas quero que saibais que não é minha intenção inquietar-vos nem provocar alarmes desnecessários.

- O que está ele a fazer - sussurrou Durwin.

- Não sei. - A rainha Alinea abanou a cabeça. Uma ruga de preocupação apareceu-lhe na testa. - Não falou de nada comigo.

- Como vosso rei - continuou Eskevar, com uma solenidade que desceu sobre o jardim como uma chuva de chumbo - seria muito injusto se, sabendo que o reino corre perigo, não avisasse imediatamente o meu povo de que a sua segurança está a ser ameaçada.

Elevou-se um clamor e uma voz gritou:

- Essa piada do Meio do Verão não tem graça nenhuma!

Uma outra disse:

- Deixai o rei falar! Quero ouvi-lo em paz!

- Não é nenhuma brincadeira- leais arnigos. O meu coração não pode rejubilar quando do outro lado da bela Mensandor se reúnem os cruéis e irados ventos da guerra. - Ergueu a mão para silenciar o burburinho levantado por esta revelação. - Neste momento, os meus generais estão em campo, para me darem notícias deste inimigo, de modo a sabermos a sua força e podermos armar-nos contra ele. Pela nossa terra, lutaremos contra qualquer inimigo e venceremos!

A voz do rei adquirira um tom declamatório, que o fazia parecer um tanto louco, embora as suas palavras fossem de uma grande sanidade. Um silêncio pasmado caiu sobre os foliões do Meio do Verão. Eskevar pareceu voltar a si e percebeu o que fizera. A mão tremia-lhe ligeiramente quando disse:

- Agora retomai os festejos, pois podem ser os últimos que teremos durante muitos dias de trevas. - Girando nos calcanhares, afãstou-se da balaustrada e desapareceu dentro do castelo, deixando os convidados a tartamudear de confusão e alarme.

- Qual é o significado disto? Oh, Durwin... - Alinea virou-se para o eremita com os olhos marejados de lágrimas. - Ele está ... ?

- Não, não. Não vos alarmeis. Ele está tanto no seu juízo perfeito como eu ou vós... ou talvez ainda mais. O grande coração dele sente mais esta terra do que o de qualquer outra pessoa. É como se fosse parte dele: quando a terra está ferida, ele sente a dor. Mas tenho a certeza de que não estou a dizer-vos nada que não saibais já.

- Talvez, mas é bom ouvir outra pessoa dizê-lo. Há muito tempo que sei que ele é incapaz de se divertir quando existe alguma infelicidade que pode curar, mas nunca chegou a extremos destes.

- Rezai para que me engane, senhora, mas pode acontecer que muito em breve consideremos o despropositado aviso de Eskevar um acto de uma alma corajosa e nobre. julgo que ele sente qualquer coisa que ainda não é aparente para nós. E temo que não falte muito para partilharmos os seus presságios.

- Dê-me licença, Durwin, mas tenho de ir ver se ele precisa de alguma coisa. Ele deve estar indignado consigo próprio por causa da sua explosão. Vai precisar de uma mão que lhe refresque o rosto.

Durwin. fez uma vénia, e a bela Alinea afastou-se apressadamente, com um frufru, das saias de seda. Virando-se, viu que todos os olhos se tinham voltado para a rainha depois do estranho discurso de Eskevar. Durwin fez o sorriso mais aberto que pôde, levantou as mãos e, com a jovialidade que foi capaz de arranjar, gritou:

- Amigos, voltemos à nossa celebração! Pode ser que venham aí muitos problemas, mas este é um bom dia e é possível que em breve precisemos desta alegria. Por isso, enchamos os nossos corações de felicidade e deixemos as tristezas para amanhã!

Durwin fez um floreado com a mão. Como se esperassem a sua deixa, os menestréis recomeçaram a tocar e a música foi aumentando de volume até encher o jardim. Sentindo que a interrupção das suas brincadeiras acabara, as crianças deram largas à sua alegria temporariamente reprimida, fazendo ouvir os seus risos em todos os cantos. Dali a pouco, o jardim estava transformado num cenário de alegria e divertimento. Aquela nuvem agoirenta passara tão rapidamente como fora inesperada ao aparecer.

A noite chegou como um sonho. Quentin tinha uma vaga lembrança de um dia que parecera estender-se eternamente, sem fim. Toli e ele tinham sido atirados para dentro de uma das carroças e deixados a pensar no seu destino. Não havia um único momento daquele dia interminável que não o fizesse reviver o horror do que sofrera ao nascer do Sol.

A um sinal do chefe dos guerreiros, fora empurrado através da roda. A meio caminho do sangrento local, vira o carrasco afastar-se. Olhara em volta: o comandante caminhava pela multidão de soldados, que dispersavam; a roda estava a desfazer-se. De repente, percebera que o comandante dera ordem para acabar com as execuções. Por qualquer razão que só mais tarde viria a conhecer, Toli e ele haviam sido poupados. No entanto, só ficara aliviado quando vira o gigantesco carrasco afastar-se, esfregando a cruel lâmina do seu machado com uns farrapos de roupa do morto.

Pouco depois de a carroça se ter posto em movimento, com um ruído surdo, Quentin mergulhara num sono profundo, interrompido apenas pelas persistentes cotoveladas de Toli, que insistia para que comesse. De facto, por sorte, tinham sido atirados para uma carroça que transportava provisões tiradas de Illem. Alargando um pouco as cordas, Toli conseguira chegar a alguns alimentos, e queria que Quentin comesse para poder recuperar uma parte da sua força e preparar-se para o que viesse a seguir.

Depois de uma refeição de grão seco, queijo de cabra e pão duro, Quentin adormecera novamente e só voltara a mexer-se ao pôr do Sol do Dia do Meio do Verão.

- Decidiste permanecer ainda algum tempo neste mundo? - perguntou-lhe Toli quando abriu os olhos. Estavam sentados entre um desordenado amontoado de alimentos, à meia-luz da carroça tapada.

- Parámos! - Quentin tentou endireitar-se, mas foi como se facas quentes se lhe espetassem no ombro e no braço. Doía-lhe o corpo todo. - Au!

- Descansa enquanto podes, Kenta. Já parámos há algum tempo. Acho que estão a montar o acampamento. Daqui a pouco, vêm buscar provisões.

- O que será de nós nessa altura? - Olhando para o seu servo, sempre expedito, abanou a cabeça. - Pensei que estavas morto. Devias ter fugido enquanto podias.

O rosto de Toli iluminou-se com um sorriso:

- Bem sabes que era impossível. Não podia fugir sem o meu Kenta. Isso é ji'yanasb... impensável.

- Bem, amanhã podemos pagar os dois com as nossas vidas, mas ainda bem que estás aqui comigo, Toli. Esme, pelo menos, conseguiu escapar.

- Pois foi - retorquiu Toli sem entusiasmo. Quentín sentiu que tocara numa ferida aberta.

- Pensei... ahh! - Quentin contorceu o rosto numa careta de dor.

- Dói muito?

- A dor vai e vem. Parece-me que me tiraram os ossos, os meteram num saco e os misturaram bem misturadinhos e os recolocaram por ordem do que primeiro vinha à mão.

- Quando te vi atado à roda da carroça, tive medo de que tivesses morrido. - Tornou a sorrir, e Quentin perguntou-se como podia estar tão animado numa altura daquelas. - Mas estavas mais sensato e cuidadoso do que normalmente. Se não fosse o miserável daquele guarda, ter-te-ia soltado e já estaríamos longe.

- Pagou o seu erro com a vida. - Quentin calou-se, pensando no hediondo espectáculo que testemunhara e no qual não participara por uma unha negra. - Se calhar, era só um aviso e ele não tencionava nada matar-nos... pelo menos, por enquanto.

- O importante é que agora temos tempo para fugir outra vez. Hoje à noite vamos ter uma oportunidade excelente.

- Hoje à noite?

Toli fez que sim com a cabeça.

- É o Meio do Verão... vão estar ocupados nas suas folias. As sentinelas estarão descontraídas e desatentas. Talvez tenhamos uma hipótese.

A cabeça de Quentin doeu-lhe ao lembrar-se da sua anterior tentativa de fuga. Pareceu-lhe recordar-se de qualquer coisa relacionada com o Meio do Verão, qualquer coisa que despertava nele uma breve sensação de prazer, mas que se desvaneceu mal ele se esforçou por a agarrar.

- O meio do Verão... Achas que estes.---- não sabia como havia de lhes chamar - que estes bárbaros também o festejam?

- Eu diria que é muito provável que sim. Os Jher também celebram o Dia do Longo Sol. É assim com quase todos os povos; este não deve ser diferente.

- Quem é esta gente? Porque é que veio para Mensandor?

Antes de poderem meditar melhor no assunto, apareceram dois soldados, que puxaram a grade da parte de trás da carroça. Os prisioneiros foram sacudidos para fora do ninho e cada um deles arrastado para uma roda, à qual foi atado de braços estendidos e pernas abertas e amarradas até ao joelho. Imobilizados naquela posição, só conseguiam virar a cabeça e entreolhar-se com um ar indefeso.

Depois, os dois guardas foram postar-se ali perto, o que lhes permitia vigiarem atentamente os prisioneiros. Sentando-se num tronco de madeira, a pouca distância, ficaram a olhar para eles com uma malevolência fria. Era óbvio que nenhum dos guardas estava muito contente com aquela tarefa que, possivelmente, considerando o que acontecera de manhã a um deles, era muito arriscada.

Dado que os soldados os vigiavam tão de perto, Quentin decidiu não fazer quaisquer movimentos para tentar libertar-se; por isso, ignorou os guardas e tentou compreender a intensa actividade que se desenrolava à sua volta.

O exército escolhera um prado plano, encimado por um renque comprido e baixo de choupos e faias, para acampar. Alguns soldados andavam ocupados a arrastar as árvores caídas do renque e a lançá-las para um grande monte no meio do campo. já tinham sido acesas algumas fogueiras para cozinhar, e o fumo prateado pairava no ar parado do fim da tarde. Outros levavam os cavalos até um regato que ficava fora do ângulo de visão. Quentin vislumbrou por duas vezes o comandante, que cavalgava pelo acampamento, dirigindo o trabalho dos seus homens, e que nem sequer lançou um olhar na direcção dos seus prisioneiros.

A azáfama do acampamento foi diminuindo à medida que o cheiro a comida se elevava das fogueiras. Os soldados apertaram-se em volta das fogueiras e, a pouco e pouco, formaram grupos mais pequenos. Os homens sentaram-se no chão com trinchos de madeira e começaram a comer com as mãos. Quentin e Tolí ouviam-nos a estalar os lábios e a lamber ruidosamente as escudelas.

Quentin decidiu tentar contar os soldados. Havia vinte fogueiras espalhadas pelo prado e, segundo os seus cálculos, cada uma servia cem homens ou mais. Mas andavam outros por ali, tratando dos cavalos, apanhando lenha e cumprindo várias outras tarefas. Sendo assim, os soldados deviam ser, pelo menos, dois mil mas, possivelmente, eram muitos mais.

Também reparou que o comandante tinha um corpo de segurança especial, constituído por cerca de cinquenta homens, todos ocupados perto da sua tenda circular e em forma de cúpula. Estes soldados comiam à parte e não faziam nenhuma das tarefas inferiores dos outros.

Precisamente quando Quentin observava a tenda, saiu da sua abertura em forma de túnel um homem que se dirigiu para eles. Mesmo à distância, Quentin pôde ver que ele tinha qualquer coisa de diferente: era vagamente distinto dos outros soldados que apinhavam o largo campo. Havia alguma coisa no seu porte e na sua aparência que o fazia sobressair.

O homem, alto e envergando uma túnica larga de um azul muito escuro ornamentada com correntes de ouro, usava um invulgar chapéu mole e liso, de um tipo que Quentin nunca vira. Por baixo do chapéu aparecia um rosto orlado por uma barba curta e áspera. A barba era escura como breu, no que contrastava nitidamente com as suas feições claras e até um tanto amareladas. Com passos largos, dirigiu-se decidida e directamente à carroça, à frente da qual parou de mãos nas ancas, fitando os prisioneiros com ar de poucos amigos. Quentin fixou ousadamente os olhos pretos e impertinentes do emissário-chefe do comandante (pois foi assim que passou a considerá-lo), que falou rapidamente para os dois guardas, sem, no entanto, virar a cabeça nem deixar de observar os cativos.

Em resposta ao barbudo, os guardas resmungaram com maus modos. Este tornou a falar-lhes asperamente e lançou-lhes um olhar apressado por cima do ombro. Os soldados puseram-se imediatamente em pé, de um salto, e, ainda a resmungar, começaram a desamarrar os prisioneiros, soltando-os das rodas da carroça. Depois, o emissário deu meia volta e dirigiu-se novamente à tenda.

Quentin e Toli foram postos de pé aos sacões e empurrados atrás dele. Os guardas não pareciam nada contentes por terem esta tarefa a seu cargo. Quentin só gostaria de saber o que quereriam deles. Enquanto marchavam pelo acampamento Toli devolveu-lhe o olhar de interrogação. Quentin reparou que os soldados por quem passavam os seguiam com olhares onde se misturavam o medo e o temor.

Quando o emissário e os dois prisioneiros se aproximaram da tenda do comandante, dois soldados abriram e seguraram na aba da entrada. O homem alto inclinou-se e entrou sem uma palavra; Quentin e Toli foram empurrados lá para dentro. Contentes por se terem livrado dos seus fardos, os guardas foram jantar a correr.

Como teve de se inclinar muito, Quentin arfou de dor, tropeçou e vacilou hesitantemente. Tinha as mãos rígidas e entorpecidas por causa das cordas. Quando se recompôs, viu que o interior abobadado da tenda era escuro e semelhante ao céu nocturno. Pequenas lanternas douradas, suspensas de correias douradas, ardiam vivamente, e cada uma era como uma estrela acesa na abóbada celeste. O emissário da túnica virou-se para eles e levantou a mão, indicando-lhes, assim, que deviam permanecer onde estavam. Depois, deu meia volta e desapareceu por trás de um reposteiro ricamente bordado.

- Nunca vi nenhum pavilhão de comandante como este - disse Quentin, observando aquela decoração estranha e um tanto fantástica. Para onde quer que se virasse, dava com os olhos no suave brilho do ouro e da prata.

- Isto é um palácio real ambulante. - Também Toli se mostrava surpreendido pelo contraste existente entre o temível chefe dos guerreiros e os seus homens e a riqueza da sua tenda.

Nesse momento, o emissário barbudo voltou a aparecer e fez-lhes sinal para avançarem, afastando o cortinado. Quentin deu um passo em frente e o mordomo-mor socou-o violentamente no pescoço, indicando-lhe que devia baixar a cabeça na presença do comandante.

Quentin entrou de olhos baixos no santuário interior. Durante algum tempo, ficaram de pé ao lado um do outro, em silêncio. Ninguém se mexia nem falava. Da sua frente e de um pouco acima chegava-lhes aos ouvidos a respiração lenta e regular do comandante, e até pareceu a Quentin sentir o seu olhar frio, enquanto meditava no destino que havia de lhes dar.

O chefe dos guerreiros proferiu uma ordem e o seu servo avançou e fez uma vénia. Depois, fez um discurso tonitruante na sua língua insondável. O mordomo-mor voltou a inclinar-se e disse suave e educadamente:

- O meu senhor decidiu que podeis sentar-vos na sua presença. Quer que comais com ele, mas só deveis falar se ele vos fizer alguma pergunta; nesse caso, devereis responder sem hesitar. Se algum de vós não responder imediatamente, ele saberá que está a forjar uma mentira, mandará cortar-lhe a língua e obrigará o outro a comê-la, para que ele não se esqueça de não lhe seguir o exemplo.

Bateu as palmas e entraram dois servos com almofadas que pousaram aos pés dos prisioneiros.

 

- Parece que acamparam aqui ontem à noite - disse Ronsard, afastando-se das cinzas frias que estivera a examinar.

- E deviam ser perto de três mil homens, com carroças e cavalos. - Os olhos de Theido varreram o amplo prado onde o exército acampara. Tudo o que existia naquele momento eram os vestígios da sua passagem: a erva acamada onde os homens tinham dormido, os bocados de solo chamuscados onde haviam ardido as fogueiras, os sulcos das carroças e as marcas das ferraduras dos cavalos. Mas o exército já se deslocara.

- Não vai ser difícil segui-los. Os sinais são muito claros - comentou Ronsard, lançando um olhar ao Sol, que caminhava para oeste. - Quanto achas que um exército deste tamanho pode percorrer num dia? Quatro léguas? Cinco?

- Talvez quatro léguas. Mais não. Não parecem estar com grande pressa. É estranho...

- O quê?

- Que uma força assim se desloque pela terra levando tudo à sua frente e que, no entanto... - Calou-se, à procura das palavras apropriadas.

_ Não parecem ter medo de que lhes vão ao encontro e lhes façam frente. - A voz pertencia a Esme, que, sentada na sua montada, observava os dois cavaleiros e seguia a sua conversa.

- Sim, é isso - concordou Theido. - Se eu estivesse a invadir um país estrangeiro, havia de pensar na resistência que se faria sentir mais cedo ou mais tarde. Há aqui uma arrogância que me gela até à espinha.

Um dos cavaleiros de Ronsard chamou-os do outro lado do prado.

- Encontrou alguma coisa - disse Ronsard. Dirigiram-se todos para o local onde o homem estava ajoelhado. Ao aproximarem-se, repararam na expressão de nojo que contorcia as feições do soldado.

- O que foi, Tarkio? O que encontraste?

- Eu... mataram alguém aqui, senhor.

o soldado tinha razão. A mancha vermelho-escura do solo só podia ter sido feita de uma maneira.

Theido contemplou-a de lábios apertados, formando uma linha fina e descolorida.

- Podia ser um veado - sugeriu Esme, sem grande convicção. Também ela temia o pior.

- O que fizeram ao corpo? - A voz de Ronsard estava tensa. Quando se desviou da feia nódoa da erva, Esme reparou no clarão escuro e irado que lhe fluminou o olhar.

- Parece-me que sei o que lhe fizeram - redarguiu Tarkio, num tom de voz vazio de qualquer expressão. Falou de uma maneira tão estranha que os outros o fitaram e, depois, lhe seguiram o olhar até às árvores que ficavam ali perto.

- Por Azrael!

- Os demónios!

- Desvia os teus olhos, senhora. Isto não é espectáculo próprio para uma mulher - disse Ronsard, lançando a Theido um olhar cheio de aflição. Por um momento, pairou entre eles uma pergunta que ninguém fez. - Tem de ser - pronunciou baixinho. - Precisamos de ter a certeza.

- Eu vou contigo - volveu Theido calmamente. - Fica aqui com o Tarkio, Esme. Vimos já.

Theido desmontou e, juntamente com Ronsard, encaminhou-se para um grande carvalho de ramos largos, onde balouçava o cadáver do infeliz soldado.

Não se assemelhava mais a um corpo humano do que à carcaça de algum animal pendurada para secar. Os pássaros tinham andado a picar-lhe a cara todo o dia e as suas entranhas não passavam de uns farrapos. As duas metades estavam penduradas lado a lado num ramo baixo e baloiçavam lentamente na corda que atava os pés e as mãos.

- Um deles? - perguntou Theido em voz rouca, com uma expressão de repulsa.

Ronsard assentiu.

- Este aqui não nasceu em Mensandor. - Desviando o olhar daquela visão macabra, continuou: - Estou satisfeito. Pode ser que o Quentin e o Toli ainda estejam vivos, embora eu não acredite muito nisso.

- Eu também não. Mas, pelo menos, temos uma esperança para continuarmos a nossa perseguição. - Theido olhou para o céu, que, naquele momento, brilhava com o tom dourado do Sol que se punha. - Ainda temos umas horas de luz. Podemos continuar.

- E vamos cavalgar toda a noite. Devemos apanhá-los antes de amanhecer.

Sem mais palavras, regressaram ao local onde eram esperados por Esme e Tarkio, aos quais se haviam juntado os outros dois cavaleiros.

- Podes ficar descansada, senhora. Aquele miserável nunca foi nosso amigo. Provavelmente, era um deles. - Ronsard lançou um olhar interrogador aos dois cavaleiros, que, como Tarkio, tinham passado o local a pente fino, na tentativa de descobrirem sinais do destino dos cativos. Mas eles limitaram-se a abanar a cabeça, pois não tinham visto nada. - Então, vamos continuar. O caminho não é difícil. Da próxima vez que virmos água, paramos para os cavalos descansarem. O .N'obren e o Kenby vão à frente e, depois, o Tarkio e a Esme. Eu e o Theido seguiremos atrás. - Enquanto os outros montavam, virou-se para Theido: - Precisamos de ter um plano antes de chegarmos ao acampamento.

Theido fez que sim com a cabeça.

- Vamos rezar para que nos lembremos de alguma coisa durante o caminho. Não sei o que mais podemos fazer.

Fixados em mastros compridos colocados de ambos os lados do palanque baixo de Gurd, dois crânios humanos fitaram Quentin com o seu olhar vazio. O próprio Gurd parecia um crânio, só que um pouco mais animado. Estava sentado imóvel, e a suave luz das lanternas enchia-lhe de sombras as depressões do rosto chupado. Só as cintilantes órbitas dos seus olhos pretos mostravam que dera pela sua presença.

Tal como os seus relutantes convidados, o guerreiro encontrava-se sentado numa almofada. Tinha o peito nu, pois envergava um colete curto, aberto até à cintura, muito ornamentado com brocados que formavam delicadas figuras, as quais Quentin nunca vira. Mas foi o peito do homem que atraiu a atenção de Quentin, pois até à luz bruxuleante das lanternas se via que era uma massa de cicatrizes compridas, denteadas e horríveis. Nem acidentes nem ferimentos de batalha poderiam tê-las causado com tal abundância; umas eram, obviamente, mais recentes, pois sobrepunham-se a outras, e havia algumas com muito pouco tempo. Com um sobressalto, Quentin percebeu que as feridas, aquelas mutilações horríveis, eram auto-inflingidas.

O mordomo-mor, sentado à direita do comandante, entre os prisioneiros e o seu amo, bateu as palmas, e logo entraram dois escravos com grandes tigelas de comida. Um outro escravo pousou umas tigelas mais pequenas, que os outros começaram a encher com a comida das maiores. Quando acabaram, os escravos deixaram as tigelas em frente dos convivas e retiraram-se apressadamente.

O comandante pegou na sua e desatou imediatamente a comer, sem olhar para os seus convidados.

A comida, uma espécie de grão cozido com bocados de carne e um molho espesso, muito condimentado, estava a fumegar. Para o paladar pouco conhecedor de Quentin, pareciam alimentos exóticos, de outro mundo, que, uma vez engolidos, deixavam um travo quente na língua. Comeram com os dedos, encostando as tigelas aos lábios. Quentin conseguiu equilibrar a sua na parte interior do joelho e comeu com a mão esquerda, visto que não podia usar a direita, que pousara no regaço.

A meio da refeição, apareceu um escravo com um jarro e começou a encher umas latas douradas com um líquido cor de âmbar, que pousou em frente de cada um antes de partir. A bebida era uma espécie de vinho. Quentin reconheceu o seu travo ligeiramente metálico, mas nunca saboreara nada semelhante: era uma bebida aveludada, quase espessa e maravilhosamente doce. Bastava um gole para apagar o fogo deixado na língua pelos condimentos da comida.

O comandante comeu vorazmente duas tigelas sem levantar o olhar. Quando acabou, pousou a tigela, colocou as mãos sobre os joelhos, arrotou uma vez e disse qualquer coisa muito depressa.

- A refeição acabou - informou o mordomo-mor. Embora a tigela de Quentin ainda estivesse meio cheia, este colocou-a à sua frente e, imitando o dono da casa, pousou a mão no joelho.

- O meu senhor Gurd quer que saibais que só come na presença de quem respeita e que só partilha a sua comida com aqueles que admira. - O emissário fez-lhes um sinal de cabeça, indicando-lhes que se esperava deles uma resposta de natureza semelhante.

- Quem somos nós para ele nos respeitar ou admirar?

O emissário traduziu a pergunta de Quentin e o comandante soltou um rísinho abafado e proferiu uma resposta curta.

- O meu senhor Gurd diz que a vossa coragem vos enobreceu. Tu, de pele clara, sobreviveste à prova da roda. Se fosses um cobarde, terias morrido. Tu - prosseguiu, dirigindo-se a Toli - arriscaste a vida para salvares o teu amigo. Mesmo sendo uma loucura, é um feito valioso. O meu senhor Gurd admira a coragem. Vai ter pena de vos matar na devida altura, mas o vosso sangue correrá por ele, como oferenda à sua imortalidade. Isso agrada-lhe.

Esta resposta confundiu e zangou Quentin, que abriu a boca para responder, mas que, ao sentir o braço tocado ao de leve por Toli, inquiriu:

- Porque invadis a nossa terra? Quem sois vós?

O mordomo-mor falou para o comandante, que sorriu ligeiramente, como uma serpente.

- Informei o meu senhor Gurd de que vos sentis honrados por ele vos julgar dignos de estar ao seu serviço. - Em resposta ao olhar cortante e irado de Quentin, acrescentou: - Mais vale não o fazer zangar, ou ainda vos manda arrancar as tripas para lhe devolverdes a comida que comestes com ele.

- O que é que ele quer de nós? - indagou Toli.

- Só ele sabe.

Gurd pegou na sua taça e bebeu o líquido doce. Depois, fez um longo discurso para o emissário, que o traduziu assim:

- O meu senhor Gurd quer saber a que distância fica a grande cidade a que chamam Askelon, como são as suas fortificações e por quantos soldados é guardada.

- Porque pensa ele que eu sei responder a essas perguntas? volveu Quentin.

Depois de uma breve consulta ao seu amo, o homem replicou:

- O meu senhor Gurd sabe que tendes cavalos e que, portanto, sois homens importantes. Viu as vossas armas e roupas e acredita que pertenceis a uma alta linhagem. O facto de terdes atacado sozinhos os seus soldados diz-lhe que conheceis bem os assuntos militares e que, de facto, até estais bem treinados.

Quentin hesitou. Os pensamentos de Toli eram insondáveis.

- Se estais a pensar se haveis de responder ou não, deixai-me lembrar-vos que, como vos disse, para o meu senhor Gurd, as respostas onde haja alguma hesitação são mentiras. Para o acalmardes, respondei-me imediatamente.

- Askelon fica longe daqui, a muitas léguas de distância. É verdade que é uma grande cidade. Não há nenhuma como ela. O castelo de Askelon nunca foi nem nunca será conquistado.

- E quantos soldados defendem esse lugar?

- Diz ao teu senhor Gurd que o exército do Rei Dragão é suficiente para qualquer eventualidade.

O chefe dos guerreiros observou atentamente esta troca de palavras, e não ficou muito satisfeito com a reacção de Quentin, mas assentiu de bom grado quando o intérprete acabou de traduzir. Depois, sorriu para Quentin e Toli e dirigiu-se-lhes na sua língua densa e incompreensível.

- O meu senhor Gurd está satisfeito com as vossas respostas. Por isso, decidiu deixar-vos viver até chegarmos a Askelon, onde sereis sacrificados para que ele conquiste a cidade mais rapidamente. Ele quer

garantír-vos que o vosso sangue correrá só para ele, o que é uma grande honra.

- É uma honra a que preferíamos renunciar - disse Quentin,

numa voz perpassada por um tom subtilmente sarcástico -, mas talvez possamos vir a retribuir essa distinção.

O emissário sorriu dissimuladamente e traduziu as respostas de Quentin ao seu amo, que se inclinou ligeiramente e bocejou. Depois, acenou com a mão para o servo, o qual se levantou, dizendo:

- A audiência chegou ao fim. Fazei uma vénia e recuai, não lhe virando as costas.

Recuando, retiraram-se todos da presença do chefe dos guerreiros, para o outro lado do cortinado, atravessaram a tenda e saíram novamente lá para fora. As sombras da noite adensavam-se e Quentin sentiu que a atmosfera do acampamento palpitava com uma excitação mal contida. Os soldados acotovelavam-se em vários grupos e por toda a parte se ouviam risos roucos. O sol estava mesmo a pôr-se e o céu adquirira um tom carmesim para as bandas do oeste. "Quando a luz desaparecer", pensou Quentin, - estes bárbaros vão entrar num frenesim louco." Como se lhe tivesse lido os pensamentos, o mordomo-mor disse:

- Vai haver uma grande celebração, porque é Hegnrutha. a Noite dos Espíritos Animais.

Falas bem a nossa língua, senhor - observou Quentin cautelosamente.

Os olhos escuros adquiriram uma expressão manhosa.

- Falo muito bem onze línguas.

- O que disseste lá dentro? - perguntou Quentin, vendo os seus guardas apressando-se na sua direcção para os levarem.

O criado pessoal do comandante sorriu, pondo à mostra uma fila de dentes brancos, que pareciam brilhar à luz que se desvanecia.

- Disse-lhe que era uma honra que vós retribuiríeis de bom grado. Ele sentiu-se muito lisonjeado.

- Porque nos proteges? - indagou Toli, enquanto os guardas voltavam a amarrar-lhes as mãos. - O que te interessa a nossa vida ou a nossa morte?

- Agora não tenho tempo para explicar. Irei ter convosco esta noite, quando o caos se tiver instalado. - O emissário girou nos calcanhares e voltou a entrar na tenda. Quentin e Toli foram obrigados a marchar de volta às carroças, mas, desta vez, Quentin sentiu que se movimentavam rodeados de uma aura de respeito. Os olhares dos soldados pelos quais passavam eram temerosos e quase reverentes. Vendo-os, Quentin pensou que, provavelmente ao contrário da maioria dos que entravam na tenda, eles tinham saído vivos.

 

Durwin permaneceu junto dos convivas o tempo suficiente para lhes apaziguar o medo causado pelo estranho comportamento do rei. Andara por ali, a todos saudando como se fosse o próprio rei, e a sua presença parecera acalmar os sentimentos de inquietação criados pelo discurso do rei. A música trinava e rodopiava, qual rio ondulante, afastando as preocupações do momento.

O chefe dos menestréis deu início a um cotilhão e os pares começaram a escolher os melhores dançarinos presentes para o dirigirem. Como nem Eskevar nem Alinea tinham regressado, Durwin aproveitou para se escapulir discretamente. Preocupava-o vagamente que alguma coisa de mais grave pudesse ter transpirado.

Assim, subiu depressa as escadas de pedra e encaminhou-se para a entrada da galeria do castelo; as grandes portas de madeira estavam escancaradas e filas de tochas acesas iluminavam o largo corredor. Alguns convivas curiosos passeavam pela galeria, maravilhando-se com o interior do castelo de Askelon. Sem querer parecer estar com pressa, Durwin estugou o passo até aos aposentos do rei. Tinha poucas dúvidas de que Eskevar estaria aí.

Quando Durwin irrompeu pelo corredor, Oswald estava à porta.

- Oswald, está tudo bem?

Oswald baixou ligeiramente a cabeça, à laia de vénia, e respondeu:

- Sim, senhor. O rei e a rainha estão lá dentro. Chegou um mensageiro.

As sobrancelhas de Durwin arquearam-se.

- Quem?

- Não sei. Não o vi chegar. A sentinela trouxe-o logo para aqui.

- Muito bem, então vamos ver o que se passa.

Oswald abriu a porta e entrou. Quando se preparava para seguir o velho camareiro, Durwin sentiu que lhe tocavam ao de leve no braço.

- Bria, pensei que estavas no jardim.

- Vim atrás de ti. - A sua testa macia enrugou-se de preocupação. - O que é?

- Chegou um mensageiro. Espera só um bocadinho que eu já venho dizer-te o que puder.

- Não. Quero ir contigo. - Dizendo isto, atravessou a soleira da porta e arrastou Durwin com ela.

- Durwin! Ia mandar-te chamar. - Eskevar estava sentado numa cadeira grande e esculpida. Alinea encontrava-se de pé, com a mão pousada no seu ombro. Ambos olhavam atentamente para o cavaleiro, esfarrapado, exausto e com as roupas e a armadura leve sujas da poeira da estrada. De pé, à sua frente, o soldado vacilava de cansaço.

- É o Martran, um cavaleiro do Ronsard - indicou Eskevar com a mão aberta. - Ele ia mesmo agora comunicar-nos a sua mensagem.

O cavaleiro fez uma vénia e anunciou, com a voz rouca devido ao pó que engolira:

- O meu senhor Ronsard manda dizer: "Continuamos a nossa missão e lamentamos o atraso em voltarmos para Askelon. Regressaremos logo que tivermos obtido aquilo que procuramos ou pudermos ter respostas satisfatórias."

É tudo, senhor cavaleiro? Podes falar à vontade.

- É tudo, meu senhor. É esta a minha mensagem.

Com os olhos cheios de tristeza e preocupação, Eskevar afagou o queixo com a mão.

- Porque é que ele te mandou com uma mensagem assim, meu bravo?

- Suponho que tinha medo de que a sua longa ausência vos alarmasse. Theido sugeriu que eu voltasse com uma mensagem a dizer se podiam continuar a sua missão.

- Mas porquê... não vistes nada digno de ser relatado?

- Não, Vossa Majestade. Não vimos nada de anormal. Mas... - hesitou, como se não soubesse se a sua posição lhe permitiria dizer mais.

- Mas o quê, meu amigo? - perguntou Durwin, aproximando-se. - Fala sem medo. Nada do que possas dizer te fará incorrer no desagrado do teu rei. Mas pode ser um erro não nos dizeres o que estás a pensar. Fala, por favor, e deixa-nos ser nós a julgar.

- Muito bem, senhor. - O cavaleiro fez uma vénia dirigida a Durwin. - É isto: senti que alguma coisa estava a preocupar os meus senhores. Eles andavam a procurar não sei o quê, mas não encontravam nada. Isto inquietava o meu senhor Theido, que andava furiosamente de um lado para o outro e queria cavalgar toda a noite. Mas o meu senhor Ronsard não o deixava. Falavam muitas vezes os dois sobre isso.

"Mas, ao vir para cá, vi uma coisa que me baralhou. Acho que, se o meu senhor Theido a tivesse visto, haveria de ser ainda mais inflexível.

- O que foi que viste? - perguntou suavemente Eskevar, que observava o mensageiro com olhos de águia.

- Uma das aldeias que tínhamos atravessado uns dias antes estava vazia quando voltei a passar por ela. Achei estranho não ver ninguém, mas também não parei para investigar.

- Vazia?

- Sim, Vossa Majestade. Completamente abandonada.

- E que mais? Não viste indícios de nada?

- Não. Parecia que tinha sido abandonada muito depressa, embora sem razões aparentes. Mas, como disse, não parei para investigar. Continuei o meu caminho.

- Estou a ver. Muito bem, Martran, podes ir deitar-te. Mereces bem o teu descanso.

"Oswald, leva o Martran para a cozinha, dá-lhe de comer e arranja-lhe uma cama onde não possa ser incomodado. - Virando-se para o cavaleiro, acrescentou: - Não te afastes muito; posso querer fazer-te mais algumas perguntas. Agora vai e descansa.

Oswald acompanhou o cavaleiro, que cambaleava.

- Só mais uma coisa - observou Durwin, quando Oswald abria a porta. - Não nos disseste se encontraste o Quentin e o Toli na estrada. Mas deves ter passado por eles. Saíram daqui há quinze dias para vos irem procurar.

O cavaleiro abanou a cabeça.

- Não passei por ninguém, o que também achei estranho. Até chegar a Hinsenby, tive as estradas por minha conta.

- Obrigado, Martran. Dorme bem.

Durwin fitou o rei com um olhar cheio de interrogações.

- O que ele nos contou é mesmo muito esquisito. Não sei o que hei-de pensar.

- É como eu disse: passam-se coisas estranhas na terra. O mal cresce, mas nós não o vemos.

- Entretanto, o que aconteceu ao Quentin? - indagou Bria, mostrando-se preocupada.

- Não sabemos, senhora - respondeu Durwin. - Mas a terra é grande. Eles podem ter seguido por outro caminho. - O tom de voz não lhe saiu tão tranquilizador como gostaria.

- De qualquer forma, em breve saberemos. Proponho-me a ir à sua procura - declarou Eskevar. O rei Dragão pôs-se em pé e deu uns passos em frente, como se quisesse partir imediatamente.

- Não digas isso, senhor! - suplicou Alinea. - Ainda não recuperaste suficientemente as tuas forças para te pores em cima de uma sela.

- Se quiserdes, ide, Vossa Majestade. A escolha é vossa. Mas, se fordes, arriscais-vos a perder o regresso do vosso enviado. E por onde iríeis começar a procurá-los?

Eskevar lançou um olhar magoado ao eremita.

- Que hei-de fazer? Não posso ficar aqui para sempre à espera, enquanto o inimigo se vai fortalecendo.

- Ninguém viu nenhum inimigo - comentou a rainha.

Eskevar virou-se para ela e resmungou:

- Pensas que não existe? Mas existe! - Bateu no peito. - Sinto-o aqui. Ele vem aí... sinto-o.

- Mais uma razão para esperardes. Recuperai as forças. Se isso que dizeis for verdade, em breve tereis a acção que quereis procurar.

Frustrado, o rei Eskevar deixou-se cair outra vez na cadeira. O seu nobre semblante fervilhava de desespero. Enfiou as mãos pelo cabelo.

- Mensandor chama o seu protector, que fica na cama a tremer de medo! Quem nos salvará da nossa fraqueza?

- Ide-vos embora - disse Alinea, tomando Durwin e Bria de parte. - Eu trato dele. É o dever de uma esposa e rainha.

- Com vossa licença, senhora, retiro-me para os meus aposentos. Se precisardes de alguma coisa, mandai-me chamar. - Durwin pegou no braço de Bria e conduziu-a para fora do quarto.

- Nunca o vi assim - comentou Bria, com a voz embargada pelas lágrimas.

- Estes são tempos difíceis e ele não está muito habituado às dificuldades. Mas não te preocupes. Vi nele sinais de recuperação. Ele vai voltar a ser o Rei Dragão.

A grande mão fechou-se sobre o corpinho branco da ave e retirou-se da gaiola, no meio de um bater de asas minúsculas e de um trinado de surpresa. A pomba debateu-se debilmente, com a cabeça espreitando através do círculo formado pelo polegar e pelo indicador gigantescos. Um olhinho de contornos vermelhos fitou aterrorizadamente o rosto distorcido do poderoso Nin.

Nin, o Imortal, sentiu na mão o rápido bater do coraçãozinho da pomba e o seu corpo quente e macio. Depois, apertou. A ave debateu-se e guinchou. Nin apertou mais. O bico amarelo escancarou-se e a pequena cabeça rolou para o lado. Nin, cujas frotas se estendiam por toda a largura de Gerfallon, abriu a mão lentamente. O monte de penas estremeceu e imobilizou-se.

Com um grito de satisfação, Nin, o Destruidor, atirou o pássaro morto para o outro lado da sala, onde aterrou, perto da porta, com um baque suave. Um redemoinho de penugem branca flutuou docemente até ao chão, e desceu como flocos de neve em redor do corpo sem vida.

Nin continuava a olhar para a sua obra quando ouviu o som da sineta do outro lado do corredor. A grotesca cabeça de Uzia espreitou da porta.

- Trago notícias, ó Imortal. - Os olhos do ministro vaguearam até ao pequeno monte de penas brancas que jazia no chão à sua frente.

- Entra e fala. - A voz de Nin parecia um trovão.

Uzia avançou em bicos de pés e prostrou-se perante o seu amo.

- Levanta-te. É o teu deus que to ordena. Fala, UzIa, e que da tua boca saiam palavras de adoração ao Eterno.

- Quem se compara ao nosso Nin? Como hei-de descrever a sua grandeza, mais brilhante do que os mais brilhantes feitos dos homens? A sua sabedoria é eterna. - UzIa pôs as mãos no rosto, como se quisesse proteger os olhos dos penetrantes raios do Sol.

- As tuas palavras agradam-me. Agora dize-me: que notícias trazes? Askelon já foi conquistada? Estou a ficar impaciente com esta espera. Dize-me o que eu quero ouvir, UzIa.

- Talvez as minhas notícias sejam mais apropriadas noutra altura e noutro lugar, muito nobre Nin. Não sei nada de Askelon, mas que seja como dizeis.

- Então o que é? Fala depressa... estou a ficar cansado dos teus disparates.

- O comandante da vossa frota em Elsendor mandou dizer que estamos a vencer. Os barcos do rei Troen foram destruídos e a batalha em terra já começou.

O grande rosto sem pêlos dividiu-se num amplo sorriso de satisfação, a carne das suas faces rolou para os lados como montanhas formando-se ao longo de um abismo profundo. Os seus olhos escuros e sinistros reduziram-se a pequenos buracos pretos e o seu queixo afundou-se nas pregas do pescoço.

- Muito bem! Quantos prisioneiros me foram sacrificados? - A sala abanou com a alegria da sua voz de trovão.

O olhar de UzIa adquiriu momentaneamente uma expressão de consternação.

- Não sei, Majestade Infinita. O comandante não disse, mas creio que podemos deduzir que foram muitos. É sempre assim.

- Pois, pois. Estou satisfeito. Vou fazer uma festa para comemorar!

- Posso atrever-me a lembrar à Luz Suprema do Universo que hoje é Hegnruffia? Hoje à noite há uma festa, que já está a ser preparada.

- Ah, é verdade! Veio mesmo a calhar. Então vai e dize-me quando estiver tudo pronto. E ordena aos escravos que preparem o meu banho de óleo. Quero ungir-me antes de a celebração começar. Hoje à noite, os meus súbditos vão encher os olhos com o meu esplendor. É esta a minha vontade. Ouve e obedece.

UzIa prostrou-se de novo e recuou para fora da sala. A sua voz quebradiça ouviu-se dali a pouco, reunindo os escravos para prepararem os perfumados óleos nos quais o seu soberano ia banhar-se.

Nin ergueu o seu rosto de lua cheia e deu uma gargalhada; as notas profundas saíram-lhe da garganta e vibraram em todos os cantos do enorme navio-palácio. Os que as ouviram estremeceram. Quem, de entre eles, seria chamado a divertir o Imortal durante a noite? Provavelmente, quem quer que tivesse essa honra na noite de Hegnrutba não voltaria a ver um outro dia.

 

A torre de chamas erguia-se bem alto na noite, derramando-se na vasta escuridão e maculando as estrelas com o seu brilho escarlate. Embora se encontrassem bem afastados do braseiro, Quentin e Toli, acorrentados às rodas da carroça, sentiam no rosto o calor da enorme fogueira. À medida que as chamas se lançavam para o céu, a pândega levantava voo com as suas asas maldosas, tomando uma forma febril e inflamada.

O tumulto fora aumentando progressivamente ao longo do fim da tarde e, naquele momento, os bosques em redor ecoavam com os gritos desenfreados dos celebrantes. A tumultuosa massa contorcia-se em volta da fogueira numa roda cada vez mais frenética. A Quentin e Toli, que tudo observavam mudos de espanto, parecia que alguma coisa se apossara dos espíritos dos soldados, puxando-lhes cada corda como um menestrel enlouquecido tocando o seu instrumento num êxtase torturado.

Ao clarão da fogueira, Quentin viu alguma coisa a mover-se na escuridão, para lá do círculo do acampamento. Por entre os tremeluzentes lençóis de calor libertados pelo fogo, entreviu o que lhe pareceu um bicho colossal, uma silhueta escura surgida da escuridão que a rodeava e que se arrastava pesada e vagarosamente.

- Olha ali... do outro lado - sussurrou para Toli. Não sabia bem a razão por que se dera ao trabalho de sussurrar, pois os guardas nem sequer fingiam estar a vigiá-los. Continuavam sentados nos seus postos, tinham-se entregado às celebrações dos seus camaradas e estavam era mortinhos por se juntarem ao barulho.

- O que é? Não consigo ver bem.

- Espera, está a aproximar-se. - Mal Quentin acabara de falar, a criatura emergiu do seu escuro cativeiro. surgindo no turvo círculo de luz. Com o clarão das chamas brilhando-lhe na hedionda pele preta, agigantou-se à luz bruxuleante. Era uma criatura de uma beleza terrível, pavorosa e tremenda; parecia um habitante do abandonado mundo subterrâneo de Heoth, uma coisa destilada de mil pesadelos. E surgiu cambaleando da floresta para o meio dos celebrantes, como se tivesse sido chamada das profundezas do seu mundo subterrâneo. para reinar sobre o revoltante Hegnruffia.

Ao princípio, Quentin pensou que estivesse viva. mas, à medida que se aproximava. viu que estava amarrada a cordas puxadas por cerca de cem homens, que se apinhavam aos seus pés. Por fim, chegou à beira da fogueira, onde ficou de mãos estendidas em perpétua bênção ou praga.

Tratava-se de uma estátua: era a enorme imagem esculpida de um animal com pernas e tronco de homem, cabeça de leão e barriga de chacal. Dois grandes chifres curvos saíam-lhe de ambos os lados da cabeça e tinha a boca aberta, num rugido de raiva.

- É o ídolo deles - disse Toli, com os olhos cheios da visão que tinha à sua frente. Quase gritou, pois, com a presença do gigantesco ídolo. O frenesim irrompera num clímax de exuberância e insanidade. A terra quase tremeu com o pandemónio. Os seus dois guardas deram um salto e começaram a dançar, agitando os braços e guinchando num abandono histérico.

Depois, os soldados atiraram mais lenha para a base da estátua e

empurraram-na para as chamas. Enquanto Quentin e Toli observavam

as línguas de fogo rodeando o monstruoso ídolo, uma sombra destacou-se da miríade de projecções vacilantes e encaminhou-se para eles ao longo do círculo do acampamento. Dali a pouco, e sem sentir a presença de ninguém, Quentin ouviu um sussurro rouco:

- Vou soltar-te as mãos. Não te mexas.

Quentin obedeceu e sentiu as cordas caírem. O seu braço direito balançou, inerte, e ele pegou-lhe com a mão esquerda e segurou-o contra o peito. Sem esperar por mais instruções, rolou e escondeu-se debaixo da carroça.

juntaram os três as cabeças ao abrigo da caixa da carroça. Toli esfregou os pulsos e perguntou:

- Porque fazes isto?

Quando o emissário do comandante sorriu, viu-se um breve clarão branco na escuridão.

- Eles também me prenderam a mim. Há muito que planeio fugir, mas, para sobreviver, preciso da ajuda dos que conhecem este país. Com os olhos cintilando à luz da fogueira, fitou-os a ambos: - Não podemos perder tempo. Temos de ir.

Se se afastassem das carroças, teriam poucas hipóteses de serem descobertos. Naquela noite, ninguém estava de sentinela, mas havia grupinhos de foliões reunidos em volta de fogueiras mais pequenas, no perímetro do acampamento, e ouviam-se outros batendo os bosques num êxtase histérico. Os seus gritos rasgavam a noite, deixando a Quentin poucas dúvidas da realidade dos espíritos animais, aos quais a noite era dedicada.

As três figuras agachadas percorreram a orla do acampamento, correndo furtivamente através do jogo de luz e escuridão. Nas árvores que os rodeavam, as enormes sombras alongadas cabriolavam, numa imitação grotesca dos ritos selvagens, cuja intensidade não diminuía.

A travessia do perímetro exterior do acampamento foi um trabalho moroso, mas, por fim, conseguiram chegar ao bosque, onde as sombras os cobriram como uma capa.

- Escondi os nossos cavalos mesmo ali. - O mordomo-mor fez um gesto de cabeça na direcção onde as sombras se adensavam ainda mais. - Consegui recuperar a tua montada - olhou para Quentin

mas não encontrei a tua.

Toli riu-se e replicou:

- Aquele cavalo não era meu... tirei-o do meio dos que estavam amarrados.

Apesar da escuridão, Quentin viu as sobrancelhas do seu guia arqueando-se de surpresa e os seus olhos brilhando de divertido descrédito.

- Eu bem tinha razão. A manha também faz parte das vossas habilidades. Não me enganei na escolha dos meus parceiros.

O ar parecia mais fresco nos bosques. Embora por toda a parte retinissem os uivos e os guinchos dos celebrantes de Hegnrutha, começaram a deslocar-se cada vez com mais confiança. Os bosques pareciam desolados e entregues às sombras sem lar que vagueavam na noite.

Quentin tremia interiormente e lutava para acompanhar os outros. Quando chegaram aos cavalos, que esperavam pacientemente numa pequena galeria coberta de giestas, Quentin arfava de fraqueza. O bocadinho de forças que ainda conseguira reunir chegara praticamente ao fim.

- Agora, segui-me. Sei por onde se sai do bosque - disse o emissário. - Depois, sigo-vos eu a vós.

- Muito bem - retorquiu Toli. - Vai em frente.

Montaram os dois rapidamente e guiaram os cavalos para norte e para longe do acampamento. Toli lançou um olhar por cima do ombro e viu Quentin pendurado na sela com uma mão, demasiadamente fraco para conseguir subir para o cavalo.

- Espera! - gritou Toli, deslizando da sua montada. - Meu amo, desculpa... Eu devia ter percebido...

- Não... eu estou bem. Ajuda-me só a subir.

Ao luar que inundava docemente o bosque, Toli viu a camada de suor que luzia na testa de Quentin.

- Anda comigo. Podemos ir os dois no meu cavalo.

- Eu fico bem logo que sairmos daqui - insistiu Quentin.

- Despacha-te. Ajuda-me a subir para a sela. Não há tempo para discussões.

Toli prendeu o pé do seu amo e içou-o. Bem via que o braço direito de Quentin lhe pendia inutilmente do ombro. Quentin agarrou nas rédeas com a mão esquerda, puxou a direita para o colo e segurou-a por baixo da capa.

- Vamos embora - disse roucamente.

Toli saltou para a sua montada e seguiram em frente. Pisando o tojo, os cavalos avançaram na direcção da floresta. "Apesar da sua aventura, o Blazer parece estar na mesma", pensou Quentin, aliviado por estar novamente na sua sela. Ao menos, com Blazer não precisava das duas mãos para montar, pois parecia que o cavalo adivinhava as ordens do seu amo. Quentin só tinha de se aguentar, e tentou desesperadamente consegui-lo.

Dali a pouco, estavam na floresta, onde os grossos troncos das árvores dividiam o luar prateado em raios espalhados a toda a volta. Como as vozes que se ouvem em sonhos, atrás deles os gritos dos foliões enfraqueciam, diminuindo rapidamente com a distância e com o adensamento da floresta. "Isto é um sonho", pensou Quentin, seguindo os passos das silhuetas esquivas que voavam à sua frente por entre os jogos de luz e sombra, "um sonho horrível que vai acabar quando eu acordar". Mas a vergastada ocasional de um ramo e a frescura do ar da noite no seu rosto eram muito reais. Sabia que se tratava de um sonho que não se esvaneceria à luz do dia. O pesadelo era real e abatera-se em força sobre Mensandor.

 

"É altura de fazer alguma coisa", disse para si próprio o sumo sacerdote de Ariel, percorrendo a cela nua de um lado para o outro. "É altura de agir." A vela grossa pingava de cada vez que Biorkis passava, agitando o ar à sua volta. Uma pilha de rolos de pergaminho baloiçava precariamente na mesa, roçagando como folhas outonais ao sabor da brisa.

"É tempo... é tempo". repetiu. Depois precipitou-se para a porta da cela, entrou no corredor sombrio, atravessou a correr o templo vazio e passou por uma entrada lateral usada apenas pelos sacerdotes. Percorreu então o átrio banhado pelo luar, abriu um portão estreito fixado no muro e parou de um dos lados do planalto, contemplando o silencioso vale que se estendia a seus pés. Voltando-se, virou os seus velhos olhos de águia para o oriente. Tinha a Lua acima da sua cabeça, mas, a leste, uma estrela brilhava intensamente, com uma luz mais forte do que a de qualquer das suas irmãs. À sua volta parecia juntar-se uma película de luz, que fluía do centro da estrela. A porção da noite onde se encontrava a estrela brilhava com uma luminosidade pálida e, fosse para onde fosse que a vista vagueasse ao examinar aquela cúpula escura, voltava a ser atraída para a estrela: a Estrela do lobo.

- Sim! Sim, é tempo de agir! - gritou Biorkis, cuja voz ecoou no pátio vazio e na colunata do templo, do outro lado do muro. Depois, virou-se, passou a correr pelo amontoado de rochas, voltou a atravessar o pátio e entrou de novo no templo. Esbaforido, caminhou com as suas pernas curtas e robustas até um dos muitos gongos do templo. Pegou no instrumento para lhe bater e. ao cabo de uma última pausa para reflexão, malhou várias vezes no gongo, numa rápida sucessão.

- Isto deve fazê-los vir a correr - disse. E tinha razão.

Dali a pouco, o vestíbulo estava cheio de sacerdotes ensonados, que esfregavam os olhos e resmungavam por o seu sono ter sido interrompido.

- Amigos sacerdotes! - A voz de Biorkis estava muito alta para os seus ouvidos cheios de sono. Mas ele gritava de propósito para os despertar completamente. - Há duas noites que a minha cama fica vazia, bem podeis aguentar só este bocadinho. Quero falar-vos. - Ouviu-os resmungar entre os sacerdotes.

- Para que é isto tudo, Biorkis?

- Porque nos arrancaste às nossas devoções?

- As tuas vésperas e ressonadelas não são importantes - atirou Biorkis ao seu insolente interlocutor. - É tempo de agir! Sabeis da estrela que brilha lá fora e que cresce a cada noite que passa? Já sei o seu significado.

- E isso não podia esperar até amanhã? - Quem assim falou foi PluelI, o subsumo sacerdote e seu próprio assistente. Pelo menos, este tinha, tal como Biorkis em tempos, o privilégio de interrogar o sumo sacerdote.

- Penso que não. já esperou tempo de mais. Enquanto contemplávamos às cegas o seu significado, a estrela crescia e, com ela, a força do mal que pressagia. Mensandor está cercada por forças de países distantes. O mundo que conhecemos treme à beira da destruição.

Ouviu-se um murmúrio entre os sacerdotes. Pluell inclinou-se para conferenciar com vários dos seus irmãos.

- Admira-me que estejas tão preocupado, Biorkis. Não é nada teu. Tu sempre nos disseste que era loucura pensarmos muito nos reis mortais e nas suas desprezíveis preocupações.

"Assusta-me ouvir-te falar assim. Não devíamos primeiro discutir isto um com o outro?

Biorkis levantou a cabeça ao ouvir esta sugestão:

- Porque será que sinto na tua voz uma nota de ambição, Pluell? Porque não hão-de os nossos irmãos ouvir o que tenho a dizer?

O subsumo sacerdote aproximou-se do seu superior e pousou-lhe uma mão no braço, como se quisesse puxá-lo de lado.

- Não é altura de te dares esses ares infundados à frente dos nossos irmãos. Anda comigo. Estás cansado, e a vigilia tornou-te... digamos, um tanto irracional.

- Irracional? Nunca estive tão lúcido nesta minha vida tão longa e cheia de acontecimentos. Não percebo os teus modos. Por que me olhas assim?

- É tarde, irmãos. Voltai para as vossas celas e descansai. De certeza que amanhã vamos ter uma discussão mais proveitosa.

Alguns sacerdotes fizeram menção de partir e outros hesitaram, sem saberem se haviam de ficar ou de ir, como lhes fora ordenado.

- O sumo sacerdote sou eu! - gritou Biorkis iradamente. - Ou já vos esquecestes? Ficai todos onde estais e ouvi-me! Proponho que o rei Eskevar seja informado da nossa descoberta.

- Da tua descoberta, Biorkis. Com certeza não esperas que a aprovemos. - A voz calma de Pluell não mostrava quaisquer sinais de sono ou de cansaço.

De repente, Biorkis percebeu o que se passava: Pluell dava largas à sua desmedida ambição, contida durante muito tempo. Estava a jogar a sua cartada para arrebatar o sumo sacerdócio. Biorkis tremeu de cólera quando a compreensão deste facto o atingiu como uma facada. "Que tolo tenho sido", pensou. "Enquanto fico acordado à procura de uma resposta para o enigma daquela estrela, ele manobra para me tirar o poder."

- Não será assim, víbora! - gritou Biorkis. A sua inesperada explosão deu lugar aos olhares de interrogação dos sacerdotes ali reunidos. - Tira a tua mão de cima de mim! Ouvi-me, irmãos. Eu sou o sumo sacerdote e vós conheceis-me há muito tempo. Alguma vez vos propus uma insensatez ou a desonra do deus que servimos?

Por todo o lado houve olhares lamentosos e um grande barulho de pés batendo no chão. Ninguém se atrevia a falar. Pluell estava calado à direita de Biorkis, com os olhos franzidos de ódio.

- Porque há-de a minha sugestão de uma mensagem para o rei causar tanta preocupação a alguns dos nossos irmãos? - Enquanto falava, o sumo sacerdote olhou em volta e percebeu que se encontravam ali pessoas que deviam pertencer à facção de Pluell. Sabia que estava em grande desvantagem, mas a cólera aqueceu-lhe o coração, clarificando-lhe o pensamento. - Que problema há em eu informar o rei? Será que há gente que tem razões para guardar para si o conhecimento do que vai acontecer? Será que querem retirar ao Alto Templo o estatuto de servo dos súbditos do reino?

Pluell soltou uma gargalhada, mas não havia alegria na sua voz:

- Vês como és, Biorkis? Não há nada que te impeça de comunicares com o rei, se quiseres.

- Claro que não. Eu sou o sumo sacerdote. Os meus votos sagrados conferem-me a autoridade de ir a Askelon, pois assim o quero. E darei a mesma autoridade a quem quer que me sirva.

- Então porque não vais tu próprio? - sibilou PluelI.

- Eu? Eu sou velho. Um jovem pode ir mais depressa. Vou pôr o meu selo numa carta que deve ser levada por quem eu escolher.

- Não me parece que encontres ninguém assim tão ansioso por quebrar os seus votos.

- já disse que ninguém vai violar os seus votos. Porque insistes? - De repente, Biorkis sentiu-se fraco e doente. Embora Biorkis não tivesse percebido a altura em que isso acontecera, o facto era que o manhoso Pluell virara a discussão a seu favor. O sumo sacerdote sabia que estava condenado, mas não percebia como.

- Quem melhor do que um sumo sacerdote para falar com um rei? Que sejam os teus lábios a proferir as notícias.

- -Muito bem - disse Biorkis; iradamente. - Eu vou. Quem vem comigo? - Passeou o olhar encolerizado pelo círculo de rostos confusos.

Ninguém se ofereceu.

- O quê? Ninguém quer acompanhar o sumo sacerdote nesta árdua jornada? Posso ordenar a cada um de vós que vá!

- Talvez agora seja melhor falarmos à parte - tornou a sugerir Pluell. Parecia brilhar de satisfação.

- Não tenho mais nada a dizer-te! - Biorkis ergueu o seu bastão e bateu com ele no chão de pedra.

- Como quiseres, irmão. Então, não me resta senão informar os sacerdotes de Ariel das transgressões feitas pelo sumo sacerdote e aconselhar-me com eles.

Que transgressões? Podes dizê-las... não tenho medo, Em toda a minha vida de sacerdote sempre fui fiel aos meus votos e ao meu deus.

- Obrigas-me a isso. Ouvi então, sacerdotes - disse Pluell. fazendo um gesto de cabeça para um sacerdote que se aproximara e que lhe estendeu um rolo. Pluell pegou nele e desenrolou-o vagarosamente, para que todos vissem. Em voz estridente e acusadora, o subsumo sacerdote começou a ler uma lista de crimes imaginários que Biorkis alegadamente cometera contra o templo e os seus votos. Os sacerdotes pareciam divididos; alguns aprovavam as acusações, acenando com a cabeça, e outros tinham no rosto expressões de espanto e descrédito.

Quando acabou de ler, Pluell virou-se para Biorkis:

- O que tens a dizer sobre estas acusações?

- Que Azmel fique com as tuas acusações! Não são verdadeiras. Quem quer que me conheça, sabe-o bem. Mas parece-me que não interessa nada o que eu possa dizer. Tu já decidiste como é que isto vai acabar. Podes continuar.

Pluell virou-se para a assembleia e disse, nos seus modos afáveis e imperturbáveis:

- Ouvistes com os vossos próprios ouvidos que ele não tenciona negar as acusações. Portanto, só podemos fazer uma recomendação: que o Biorkis seja banido do sacerdócio e que um novo sumo sacerdote assuma os seus deveres. O biorkis deve ser expulso de entre nós. Há aqui alguém que esteja contra esta recomendação?

A sala ficou silenciosa como um túmulo. Ninguém mexeu um único músculo.

O tempo passou. Por fim, Pluell virou-se para Biorkis e falou com um ar decidido e calmo, numa voz perpassada por uma falsa tristeza:

- Tenho pena de que tudo acabe assim. Teria sido melhor para ti que te tivesses ido embora sozinho enquanto podias. Eu ter-te-ia poupado a esta indignidade.

- Não me poupes, falso amigo! Partirei imediatamente, mas, antes, ouvi-me, sacerdotes de Ariel. - Fitou-os um por um. Muitos deles eram bons amigos que, envergonhados pelo seu silêncio, desviaram os olhos do seu rosto escaldante. - O mal entrou esta noite neste templo. Se vós não o arrancardes e o expulsardes imediatamente, destruir-vos-á um por um.

Em resposta a um sinal de Plueli, quatro guardas do templo avançaram com as suas tochas e agarraram nos braços de Biorkis.

- Vou-me embora - gritou o sumo sacerdote. - Mas não vos esqueçais das minhas palavras. Uma sombra caiu sobre a terra. Em breve nenhum lugar será seguro... nem sequer o Grande Templo de Ariel. Não quereis seguír-me e fazer o que tem de ser feito, pelo menos olha com olhos de ver para aquele a quem escolhestes.

"O povo do reino vai procurar a vossa protecção e implorar ao deus que os defenda. E vós não podereis fazê-lo, pois as vossas preces não serão escutadas.

- Levai-o! - gritou Pluell. - Está outra vez a delirar.

Os guardas obedeceram; as grandes portas de madeira do templo já estavam abertas. O ar da noite soprou entre os sacerdotes reunidos, provocando-lhes um arrepio, como se quisesse lembrá-los das terríveis previsões de Biorkis.

Os guardas do templo desceram os longos degraus de pedra, carregando o seu anterior chefe no ar, e empurraram-no para o pátio. Biorkis deu alguns passos vacilantes e, depois, virou-se para os seus acusadores, que se tinham espalhado pelos degraus para o verem partir. O ancião de cabelo branco ergueu o seu bastão, que os guardas se tinham esquecido de lhe arrancar, e disse, numa voz cortante e dura como o aço:

- Aproxima-se o fim da idade em que vivemos. Salvai-vos por vós próprios, pois os deuses não vos ajudarão. Este templo não vai ficar de pé!

Com estas palavras, atirou o bastão para o chão, onde se quebrou em mil bocados. Depois, virou-se e desapareceu a coxear na noite.

 

- Se os olhos e os ouvidos não me enganam, o acampamento do inimigo é naquele bosque. - Ronsard inclinou-se sobre a maçaneta da sela e fitou a planície arborizada que se estendia lá em baixo e que, ao luar, parecia negra e sinistra.

- Bem podes apostar - replicou Theido. Também ele estava cansado e, para esticar os músculos doridos, arqueou as costas.

Os cavaleiros de Ronsard tinham desmontado e andavam de um lado para o outro, descontraindo as pernas. Só Esme se mantinha tão fresca como quando tinham recomeçado a caminhada, de manhã bem cedinho.

- Que rituais serão estes? - indagou Esme, ouvindo o terrível estridor que lhes chegava do bosque. Os gritos trespassavam a noite como os berros dos torturados e dos moribundos.

- É difícil dizer, senhora. Mas talvez seja melhor para nós. Assim, podemos aproximar-nos enquanto eles estão entretidos com a sua folia selvagem.

- Se o Quentin e o Toli estiverem ali, havemos de os encontrar - disse Ronsard resolutamente. - Vamos? - Mexeu na espada embainhada; a lâmina deslizou com toda a facilidade, lançando um clarão prateado à luz da Lua. Depois, virou-se para Esme: - Senhora, seria um grande descanso para mim se ficasses aqui à nossa espera.

- Nada temas, senhor. Talvez preciseis dos meus parcos serviços. O meu braço não é forte como o vosso, mas a minha lâmina é cortante e mais rápida do que o dente da serpente.

- Como quiseres. Não vou desencorajar-te. Parece-me bem que sabes tomar conta de ti. Portanto, segue-me e faz o que eu disser. Ronsard abanou as rédeas e gritou aos cavaleiros: - Montai! Vamos aproximar-nos do bosque em fila. Que as lâminas e os escudos não se vejam. Vamos deixar os cavalos no bosque e seguimos a pé para o acampamento. Se correr tudo bem, pode ser que consigamos fugir sem nos detectarem.

_ Meu senhor Ronsard - interrompeu um dos cavaleiros -, está alguém ali no bosque. Ali... Ao longo daquela ravina, para lá das árvores.

- Estou a ver' - replicou Theido. - São três. Achas?... - Lançou a Ronsard um olhar esperançado.

- Pelo menos, vale a pena descobrir quem são. - Ronsard observou as três figuras, que cavalgavam para fora do bosque a uma velocidade considerável e que não passavam de umas formas pálidas flutuando sobre o mar cinzento constituído pela erva que crescia mesmo acima da linha preta de um regato seco. - Acho que podemos encontrar-nos com eles ali. - Apontou com a mão enluvada para uma curva onde a ravina rodeava o sopé de um monte. - Vamos. Vejamos quem assim foge desta gente horrível durante a noite.

Só a sua força de vontade fazia com que Quentin se mantivesse agarrado à sela. Sentia-se esgotado e fraco. A sua força fora-se esvaindo durante a fuga. Por isso, deixara de guiar Blazer e concentrava-se apenas em manter-se direito na sela. Sabia que não ia poder continuar por muito mais tempo: dali a pouco, teria de parar para descansar. Mas pensava que teria de se aguentar até ao nascer do Sol, pois nessa altura já estariam suficientemente longe e a paragem não os poria em perigo.

Portanto, agarrado à sela, deixava-se levar por Blazer, que seguia tilintando e balançando. Parecia que o seu cérebro entorpecido entrara num sonho no qual montes, céu e bosques se tornavam os seus perseguidores, soltando atrás dele gritos de raiva e fúria. Ele fugia através de uma névoa cinzenta num cavalo que voava como o vento, mas não conseguia acabar com a perseguição. No seu sonho acordado, viu um exército surgindo nos montes e abatendo-se sobre o seu flanco. Com um barulho de trovão, os cavaleiros do sonho desceram para os interceptar: quando se aproximaram, viu-lhes o rosto ao luar e sentiu na cara o bafo quente dos cavalos. Parecia magia.

Mas havia qualquer coisa de esquisito no sonho. Para o espantar. Abanou a cabeça e tornou a olhar: o sonho continuava ali. Quentin fez um esforço para distinguir tudo com mais nitidez. Mas viu outra vez os cavaleiros, que desciam a encosta na sua direcção.

- Toli! - gritou. cambaleando na sela e pondo o braço bom de lado. O jher lançou um olhar rápido por cima do ombro e deixou-se atrasar até ficar ao lado de Quentin. - Eles descobriram-nos! - berrou. Toli virou a cabeça na direcção que Quentin apontava e o seu olhar espantado confirmou imediatamente que não se tratava de um sonho. Estavam a ser perseguidos. Então. lançou um assobio agudo, que fez o mordomo-mor dar meia volta, e todos os três viraram imediatamente os cavalos para o outeiro que tinham ao lado.

Apoiados nas poderosas patas, os cascos de Blazer martelaram a terra macia, levantando-a para o céu. O cavalo esticou o pescoço e começou a subir a encosta. Num esforço para manter o seu precário equilíbrio, Quentin deitou-se sobre o pescoço de Blazer. As patas dos cavalos dos desconhecidos troavam mais perto e pareceu-lhe ouvir um grito. Inclinando-se mais, olhou para trás e viu dois cavaleiros descendo a ravina baixa. Um outro saltou-a e continuou.

Durante este momento de desatenção. a montada de Quentin deu um salto em frente e tropeçou numa pedra mais saliente, atirando o seu cavaleiro para o lado e debatendo-se para se manter de pé. Os dedos de Quentin, fechados com toda a força em volta da maçaneta, soltaram-se. e ele sentiu-se a deslizar para trás, por sobre os quadris do animal. O seu braço ferido ergueu-se sem vida e a mão boa tentou agarrar-se à brida. Mas não foi suficientemente rápido. Mesmo antes de saber o que estava a acontecer, deu um trambolhão da sela e estatelou-se na encosta do outeiro.

O choque esvaziou-lhe o ar dos pulmões. De repente, a noite piscou com a luz de estrelas brilhantes, cujos raios cintilantes lhe atravessaram o cérebro. Rolou, sem fôlego, tentando fazer o ar entrar-lhe novamente nos pulmões. Apoiando-se com esforço num joelho, puxou a capa, que se lhe enrolara à volta do braço. Com um sobressalto, percebeu que não tinha nenhuma espada nem nenhum punhal com que se defender.

Ouvindo alguém gritar, olhou para o outeiro e viu Toli rodando o cavalo para ir em seu socorro. Mas já era tarde de mais. Quando se virou outra vez, deu com os olhos no primeiro dos seus perseguidores. O cavalo recuou e o cavaleiro baixou o olhar para ele. À luz pálida da Lua, pareceu a Quentin reconhecer aquele rosto; havia nele alguma coisa de familiar, mas não tinha a certeza. Abanou devagar a cabeça que quase lhe estourava, e ouviu atrás de si a sua montada a relinchar.

- Estás ferido? - inquiriu o cavaleiro, agigantando-se por cima de si. Quentin nem acreditava no que ouvia: uma língua que conhecia. O cavaleiro inclinou-se e fitou-o de perto.

Sim, o rosto parecia-lhe conhecido, como um que vira num son há muito tempo. Mas era real e perscrutava-o atentamente, com olhos brilhando à luz suave.

- Quentin? Pelas barbas do deus, Quentin! - gritou o cavaleiro, saltando do cavalo.

Estonteado, Quentin abanou a cabeça e passou a mão pela frente dos olhos.

- Quem és?

Ouviu um grito atrás de si:

- Theido! É verdade? - A voz pertencia a Toli, que, dali a pouco estava ao seu lado, abanando-o.

- Theido? Como .... ? - Quentin não conseguiu falar mais. Caiu para trás. Cobriram-no pesados vapores de escuridão e foi perdendo rapidamente os sentidos. Ouviu muitos gritos e vozes e o som do galope dos cavalos. Debateu-se para continuar com os olhos abertos, mas as pálpebras pesavam-lhe como chumbo e já não tinha forças para lutar. Pareceu-lhe que ficara leve como uma pluma, pois sentiu-se levantar como por uma rajada e voou nas asas do vento, que lhe soprou aos ouvidos.

 

Ao sentir uma mão fresca tocando-lhe na testa, Quentin despertou do sono mais profundo que jamais conhecera. Algures por cima dele, ouviu uma voz dizer:

- Vede! Voltou a si. Heoth não o quis!

Abrindo os olhos, viu um círculo de rostos que lhe sorriam. A bonita testa de Esme, cheia de rugas de preocupação, rapidamente se desanuviou.

- Parece que não consigo ver-me livre de ti - comentou Quentin, fazendo um esforço para se sentar. Ouviram-se risos a toda a volta e estenderam-se várias mãos para lhe dar umas palmadinhas nas costas.

- Nós sabíamos que não ias conseguir fugir-nos por muito mais tempo - disse Ronsard. - Por Ariel, é bom ver-te de novo.

- Ronsard, Theido... Ainda devo estar a sonhar. Como é que nos encontrastes?

- Isto não é nenhum sonho, jovem senhor. Se não fosse esta dama - Ronsard fez um gesto de cabeça na direcção de Esme, sentada a seu lado -, teríamos passado por vós, a caminho de Askelon, sem darmos por nada. E, se não te tivéssemos encontrado, talvez não escapasses, porque estás muito debilitado.

- Tu voltaste - disse Quentin.

- Tinha de proteger os meus protectores, não achas? - replicou Esme. O sorriso dela pareceu aquecê-lo por dentro. - Além disso, como já tinha perdido uma escolta, estava decidida a não perder outra. - De repente, os seus olhos escuros ficaram marejados de lágrimas. -

Desculpa-me por te ter abandonado. Quando te vi puxado do cavalo quis ir em teu socorro. mas só consegui pensar na minha missão. Desculpa.

Toli enfiou a cabeça no meio das que o rodeavam. O cheiro da comida que levava fez lembrar a Quentin a fome que tinha.

- Come, Kenta. Nós já comemos. Podemos falar enquanto dejejuas. - Toli pousou-lhe à frente uma tigela fumegante e Quentin atirou-se a ela, cheio de apetite.

- O Myrmior esteve a contar-nos a vossa captura. Tendes muito que lhe agradecer - disse Theido.

- Myrmior? - Quentin não conhecia aquele nome.

- Quer dizer que ele arriscou a vida para te tirar do acampamento inimigo e que tu nem sequer sabes o seu nome?

- Não havia tempo para salamaleques. já bastava tentarmos manter-nos vivos. E mesmo assim...

- Mas eu tenho uma grande vontade de sobreviver. - A voz profunda e ressonante pertencia ao mordomo-mor. - Tenho muito prazer em conhecer-te, meu senhor Quentin.

- Não sou o teu senhor, Myrmior.

- É mais do que isso - interveio Ronsard. - É o próprio filho do rei.

- O seu protegido - corrigiu Quentin.

- Protegido ou filho, vejo que escolhi bem a quem salvar. Daqui para a frente, estou às vossas ordens, senhores. Sentir-me-ei ofendido se não me permitirdes servir-vos como quiserdes. - Myrmior inclinou-se numa vénia e tocou na testa com as pontas dos dedos.

- Já serviste suficientemente o Rei Dragão. Poderás escolher a tua recompensa quando chegarmos a Askelon e o rei Eskevar souber que salvaste os seus de uma morte certa.

- Isto também me conveio a mim, que fui preso contra minha vontade pelos terríveis Ningaal. Mesmo assim, o risco era pequeno. Myrmior sorriu abertamente para Quentin e acrescentou: - Sejam quais forem os deuses que governam esta terra, o facto é que abençoaram este aqui com os seus favores. Nunca vi um homem sobreviver à roda, e foi isso que me permitiu convencer Gurd a poupar-te a vida.

"Quanto a ti - continuou, virando-se para Toli -, a tua tentativa quase custou a tua cabeça e a minha. Mas aqui o Myrnior é cheio de manhas. Consegui virar o bico ao prego, mas tiveste de superar a angústia de assistir à execução do guarda e de temer a proximidade da tua.

- Pelo menos, não foi tão grave como podia ter sido se eu fosse executado - retorquiu Toli.

- Como apareceste no meio dos... que nome lhes deste? Ningaal?

- O nome Ningaal significa o terror de Nin, o seu exército. A maneira como fui ter ao meio deles não é segredo nenhum, mas trata-se

de uma história que prefiro contar ao vosso Rei Dragão.

- Aposto que tens muito que contar - interrompeu Ronsard - mas o Sol já vai bem alto e é prudente pormos o maior número possível de léguas entre nós e os Ningaal. O rei Dragão aguarda-nos em Askelon e não podemos esquecer as terríveis notícias que temos para lhe contar. Teremos muito para discutir quando nos sentarmos juntos. Por ora, devemos chegar ao rei o mais rapidamente possível.

- Também penso assim, bom amigo.

- É claro que o Quentin não pode montar. Se quiserdes, ficarei com ele e partiremos amanhã, quando ele estiver mais capaz de suportar a jornada - ofereceu-se Esme.

Ronsard coçou o queixo:

- Não me lembrei de que ele não ia ser capaz...

- Eu consigo montar. Não estou assim tão mal. - Para provar as suas palavras, Quentin debateu-se para se pôr em pé, vacilou hesitantenente, deu dois passos e cambaleou para a frente. Theido estendeu a mão para o amparar, mas ele caiu redondo no chão.

- É o teu braço, não é? Não o consegues mexer.

Quentin pôs-se de joelhos e embalou o braço ferido:

- Isto passa. Não é nada.

- É o suficiente. Porque é que não disseste nada? - Theido inclinou-se para observar o braço magoado, que estava inchado, sem cor e quente.

- Bem, aqui não podemos fazer nada, mas o aspecto do braço não me agrada. Se calhar, o Toli e a Esme deviam ficar contigo, mas tenho de confessar que ainda gosto menos dessa solução.

- Não fica ninguém e o meu amo também não precisa de montar - disse Toli. - Ronsard, manda dois cavaleiros buscar dois vidoeiros novos para fazer uma deroit.

- Excelente! - gritou Ronsard. - Eu já devia saber que havias de ter uma solução: uma padiola. Os meus cavaleiros irão buscar tudo aquilo de que precisares.

Apesar dos protestos de Quentin, que se iam tornando mais fracos com o passar do tempo, a padiola foi construída ao estilo dos nómadas jher. A deroit, acabada, foi amarrada a Blazer e. antes de o Sol ter percorrido o espaço correspondente a uma hora, os viajantes tornaram a partir para Askelon. Esme montava Mazer. Quentin resmungava por ser transportado como simples bagagem, mas, de si para si, agradecia a Toli ter-lhe proporcionado uma maneira de descansar durante a viagem. É que, apesar do que dissera a Theido, o seu braço preocupava-o muito, pois não conseguia mexê-lo, de facto, até nem o sentia. Lembrava-se muito bem de ter sentido qualquer coisa a partir-se quando caíra no matagal, na noite da fuga mal sucedida; nessa altura, deixara de conseguir mexer o braço ou de sentir fosse o que fosse desde o ombro às pontas dos dedos.

Os viajantes, cansados, deixaram para trás a floresta que haviam prcorrido durante todo o dia. Quando saíram de debaixo dos ramos das árvores e entraram no caminho de terra batida que os levaria às portas de Askelon, o Sol declinava envolto numa neblina escarlate, por entre as nuvens em fogo.

- Esta noite vamos dormir em camas feitas de lavado - disse Ronsard. - E vamos jantar no salão do Rei Dragão.

- Oxalá o fizéssemos com o coração mais leve - suspirou Theido. - Como lamento as novas que lhe levamos! São um fardo que não desejo a ninguém.

- Creio que também nós teremos de o carregar - cismou Ronsard.

Os viajantes descreveram uma curva da estrada e chegaram à beira de um vale largo e pouco fundo. Do outro lado, ficava a grande cúpà de rocha sobre a qual se erguia o castelo de Askelon, que o anoitecer transformava numa cidade de luz. A comprida sombra que se estendia através do vale ainda não chegara à rocha que suportava Askelon; o castelo surgia da sombra púrpura e luzia à luz cor de rubi. Parecia uma jóia com espiras e torres e graciosos torreões empoleirados nos seus altos muros.

Como é lindo! - exclamou Esme, com a voz respeitosa e sem fôlego, devido à admiração. - Nunca sonhei---

- É o palácio de um deus! Há ali seres mortais? - comentou Myrmior. - Nem as lendas que o descrevem conseguem captar o seu brilho.

Quentin, pesadamente deitado na deroit, estendeu o pescoço para ver os familiares contornos do seu amado Askelon, que nunca se cansava de ver e que conseguia sempre comovê-lo estranhamente.

- Sim, é maior do que as histórias que os homens contam dele. Que palavras conseguem descrevê-lo completamente? - observou, contemplando orgulhosamente a magnífica estrutura, que o azul cada vez mais escuro do céu crepuscular tornava rósea. Toli, que cavalgara sempre ao lado do seu amo, fitava impassivelmente a jóia cintilante que se erguia do outro lado do bonito vale.

- O que dizes, Toli? Estamos quase em casa.

Toli não olhou para Quentin quando finalmente falou, numa voz distante:

- Parece-me que agora está tão longe como quando começámos esta jornada.

Como de costume, Toli via qualquer coisa muito diferente dos outros. E Quentin já aprendera que não valia a pena tentar descobrir o que o Jher queria dizer com as suas afirmações místicas, Ronsard, que seguia à cabeça, espicaçou a montada. Os outros seguiram-no e todos começaram a descer a suave encosta. Os penugentos tufos de neblina da noite erguiam-se no vale. O ar, parado e silencioso, era como um doce suspiro sobre a terra. Ao contemplarem o vale, que as searas dos camponeses iam tornando verde, e ao percorrerem com o olhar a larga planície já envolta nas sombras da noite que se estendia para leste, nenhum deles poderia fazer uma descrição que desse uma imagem tão perfeita de paz.

De toda aquela imobilidade surgiu o pungente trinado de despedida de uma ave que esvoaçou para o ninho. Com ele, a tristeza abateu-se sobre o grupo de viajantes. Pareceu a Quentin que fora pronunciada alguma palavra final e que Askelon nunca mais voltaria a ser o mesmo.

 

- Vieste mesmo a tempo, meu rapaz. - De olhar carregado, Durwin examinava o braço inchado de Quentin. - Parece que o osso do braço se partiu e começou a soldar.

- Isso é bom, não é? - perguntou ansiosamente Bria, que, aninhada contra Quentin, segurava a sua mão esquerda, enquanto o eremita lhe apalpava o braço direito ferido. Quentin tirara a túnica suja e enrolara à volta do peito um manto macio. Tinha o braço pousado numa almofada colocada numa mesa baixa que fora empurrada até à sua cama.

- Vou ficar bom, não vou, Durwin? - Quentin obrigou-se a formular a pergunta que mais temia fazer, mas Durwin ignorou-a e respondeu antes à de Bria.

- Parece-me que não é bom, senhora. Geralmente, é, mas desta vez não. Tal como está, o braço nunca ficará em condições.

- Oh!

Durwin apressou-se a acalmá-los aos dois:

- Mas já tive casos assim. O braço vai ficar bom... - fez uma pausa, para avaliar o efeito das palavras que ia proferir a seguir - mas tenho de o partir outra vez e de o ajustar como deve ser.

Quentin estremeceu e formou-se uma lágrima no canto do olho de Bria.

- Dói-me ver-te sofrer, meu amor - disse ela.

- A dor não é muita. Ao princípio, sim, mas agora não. Eu aguento bem.

Durwin. voltou a inclinar-se e a examinar-lhe o braço e o ombro.

- É isso que me preocupa, Quentin. Devia doer-te... e muito. Nunca soube que fosse de outro modo. Tenho medo de que aqui haja qualquer coisa mais grave do que um osso partido. O quê, não sei.

Ouviu-se bater à porta e Theido entrou no quarto.

- Então, Durwin? A asa do nosso jovem guerreiro vai voltar a voar? - Mas, ao ver a expressão preocupada de Durwin, acrescentou: - Se falei de mais, peço desculpa.

- Não, não. Tens razão - redarguiu Durwin. - Estou a ser um velho tonto. Claro que o braço vai ficar bom. Vamos pô-lo já direito.

-já? - Quentin fechou os olhos.

- É melhor.

- Pelo menos, depois do jantar - sugeriu Theido. - A refeição está a ser servida no salão. É melhor fazer as coisas de barriga cheia, não achas?

- Não há mal nenhum. Tinha-me esquecido de que fizeste uma longa viagem. É verdade, vai haver uma excelente refeição para comemorar o vosso regresso. Podemos esperar até depois de comermos.

- Então, vamos já - volveu Theido. - Eu, pelo menos, preciso de alegria hoje à noite. Vai haver pouca nos dias que estão para vir.

- Isso quer dizer o quê? - perguntou Durwin.

- Eskevar anunciou um conselho de guerra. Começa amanhã.

- Tão cedo?

Theido fez gravemente que sim com a cabeça e saiu.

Durwin e Bria ajudaram Quentin a levantar-se, puseram-lhe o braço ferido ao peito e envolveram-no com a capa. Depois, encaminharam-se juntos para o grande salão do Rei Dragão.

O salão, iluminado por uma centena de tochas douradas, era ainda maior e mais esplêndido do que Quentin se lembrava. Parecia-lhe que tinham passado muitos anos desde a última vez que estivera ali. linpregnado de uma majestade dramática que despertava a emoção, era o seu lugar preferido em todo o castelo e intrigava-o profundamente desde a primeira vez que o vira, ainda em criança.

Os estalidos da fogueira ouviam-se na enorme lareira, e as chamas brilhavam nas filas de colunas de pedra preta dispostas a todo o comprimento do salão. Grandes mesas postas a partir do centro terminavam na plataforma onde se erguia a mesa do rei, sobre a qual pendia graciosamente um baldaquino azul debruado a prateado, com o brasão do rei.

O grande salão estava cheio de gente. Criados passavam apressadamente aqui e ali, transportando enormes pratos de carne, peixe, aves, veado, porco e dezenas de espetadas. Cavaleiros e senhores, alguns com os seus falcões nos braços, passeavam com as suas damas. Menestréis vagueavam por entre a multidão ou tocavam para grupos mais pequenos, quando lhes pediam. Donzelas com flores no cabelo namoriscavam recatadamente os jovens que passavam. O salão era uma twbulência de cor, uma sinuosa corrente de alegria.

Quentin sentiu o coração inchado ao observar o esplendor do salão do Rei Dragão.

Quando entraram os três, dois criados aproximaram-se rapidamente deles com uma bacia da forma de um dragão, que continha água quente perfumada com rosas. Quentin mergulhou nela a mão boa e Bria lavou-lha e limpou-lha com uma toalha de linho macio que um dos criados lhe estendeu. Depois de Durwin ter lavado as mãos, os dois jovens servos afastaram-se depressa para irem oferecer os seus serviços a outros convidados recém-chegados.

Mesmo quando se juntavam à corrente dos joviais convidados, as trombetas soaram do outro lado do salão.

- Chegámos mesmo a tempo' - disse Durwin. - Vamos para os nossos lugares.

Com Quentin e Bria atrás de si, encaminhou-se imediatamente para a mesa alta. Toli e Esme juntaram-se-lhes quando subiam o estrado. Os servos davam corridinhas, enchendo as taças de õnix de vinho e cerveja. Esme quase brilhava com o seu vestido coberto de jóias. Quentin pensou que, ao menos daquela vez, tinha o ar da princesa que de facto era.

- Isto é lindíssimo - arrulhou ela. - Bria, foste muito amável em me emprestares um dos teus lindos vestidos. Depois de tantos dias passados a cavalo, é bom sentir-me mulher outra vez. - As duas jovens riram-se. Olhando-as, Quentin e Toli sorriram. - O Toli tem andado a mostrar-me o castelo e estou muito impressionada. já ouvi muitas histórias sobre a riqueza de Askelon, mas isto nem por sombras se lhes compara.

- És muito bem-vinda, Esme - disse Bria calorosamente. - Um dia destes, temos de conversar as duas. Parece-me que vamos ser muito boas amigas.

- Gostava que assim fosse. Cresci no meio dos meus irmãos, e na casa do meu pai falta um toque feminino. Quando acabar o que vim fazer, talvez me demore aqui contigo.

- Isso dar-me-ia muito prazer.

- Parece que as nossas duas jovens são muito parecidas, não achas, Toli? Enquanto as senhoras cavaqueavam alegremente, Quentin aproximara-se do seu servo.

- As nossas jovens? - Toli corou subitamente.

- A Bria e a Esme, claro. Pensas que não vejo a maneira como olhas para a Esme? já vi essa cara de parvo no dia em que a pescámos.

- Não é do braço que não estás bom; é da cabeça. Não sabes o que dizes; se calhar, eu devia chamar o Durwin. para te levar. Esta atmosfera perturba-te o juizo.

- A minha cabeça está muito bem e os meus olhos não se enganam, meu bom amigo.

Toli corou outra vez. Ouviu-se o último toque das trombetas, e Bria disse:

- Sentemo-nos. Toli e Esme, tendes de vos sentar ao pé de nós. Eu trato disso.

Depois de uma certa agitação, sentaram-se todos juntos. Quentin olhou para o outro lado da mesa, para lá dos pratos de carne e pastéis, dos trinchos de peltre e prata, dos cestos de pão e das terrinas de legumes, e examinou os convivas que partilhavam a mesa principal. Sentado com Myrmior de um lado e Theido do outro, Ronsard viu o seu olhar e acenou-lhe, mas, dali a pouco, já estava outra vez na conversa com o cavaleiro magro e alto que tinha ao lado. Durwin encontrava-se sentado à esquerda de Toli e à direita do rei, cuja cadeira delicadamente embutida permanecia vazia. Ao lado encontrava-se a cadeira da rainha, mais pequena mas igualmente elegante e também vazia.

Quentin espreitou por trás do baldaquino, esperando que o rei surgísse a qualquer momento. Mas nesse instante o silêncio caiu sobre o barulhento salão. As trombetas produziram um som floreado e o rei Eskevar e a rainha Alinea entraram e atravessaram lentamente o salão até à mesa principal, parando de vez em quando para saudarem os seus convidados.

Quentin sentiu-se muito aliviado ao ver que Eskevar, embora sério e magro, andava com uma certa vivacidade e com a cabeça bem direita; a coroa rodeava-lhe a cabeça com um penetrante aro de ouro vermelho. Pelo menos, a recente doença do rei dera-lhe um aspecto de força, determinação e invencibilidade.

O casal real subiu para o estrado e, antes de ir ocupar o seu lugar, parou perto de Quentin, do outro lado da mesa.

- Alegra-me ver-te outra vez a salvo debaixo do meu tecto, meu filho. - O rei pousou as mãos nos ombros de Quentin. - Deixa-me repetir que lamento muito o que te aconteceu.

- É sempre uma grande alegria sentar-me à mesa convosco, senhor. já falámos que chegue das provas que eu e o Toli tivemos de passar. E também sei que, daqui a pouco, o meu braço vai ficar como novo.

- Que boas novas, Quentin! - exclamou Alinea, sorrindo com um calor que os fez sentir a todos bem-vindos e à vontade.

- Anda ter comigo hoje à noite, depois dos jogos, para nos sentarmos a conversar - disse Eskevar. Quentin ia a falar, mas Alinea antecipou-se-lhe rapidamente.

- Meu senhor, esqueces-te que os jovens têm coisas mais divertidas a fazer numa noite de Verão tão agradável do que sentarem-se num quarto a conversar.

- Claro! - Eskevar riu-se. - Desculpa. É verdade, tinha-me esquecido. Temos tempo para conversar. Diverti-vos, meus jovens amigos. Ver-nos-emos amanhã.

Quando se afastaram, Bria inclinou-se para Quentin e murmurou:

- É a tua primeira noite aqui e eu tinha medo de que fosses prisioneiro do meu pai. - Os seus olhos verdes mergulharam nos dele. - Oh, nunca mais voltes a partir!

- Não há lugar onde eu mais quisesse estar do que aqui contigo. Mas parece-me que, embora Eskevar não tenha planos para mim, tem-nos o Durwin. já te esqueceste?

- Meu pobre querido, desculpa-me. Sou muito egoísta. Quero ter-te sempre para mim. Mas não podemos dar só uma voltinha pelo jardim? É tão bonito e eu tive tantas saudades tuas!

Uma volta pelo jardim deu lugar a outra e depois a outra. Os dois jovens casais tinham partido juntos, mas Quentin não tardou a perder de vista Toli e Esme entre os carreiros sinuosos.

O ar estava brando, quente e cheio do perfume das plantas e das flores, cujos matizes claros brilhavam docemente ao luar. Tinham falado de nada, dito tolices e rido das suas brincadeiras íntimas, mas, naquele momento, passeavam em silêncio.

- Foi muito mau? - perguntou Bria de repente, de uma maneira abstracta, que fez Quentin pensar no que ela quereria dizer.

- Ser capturado? Foi. Espero nunca mais passar por aquilo.

- Há outro tipo de cativeiro que também é terrível.

- E qual é?

- Não saber. Quando alguém que amamos está longe e não podemos ir ter com ele nem estar com ele, quando não sabemos o que pode acontecer-lhe... eu estava preocupada contigo. Sabia que tinha acontecido uma coisa horrível.

Continuaram a andar sem voltarem a falar durante muito tempo. Bria soltou um suspiro profundo e Quentin murmurou:

- Tens mais alguma coisa, meu amor. O que é? Diz-me.

- Sinto-me envergonhada por o pensar - admitiu Bria relutantemente. - Sei que vai haver uma guerra...

- Quem te disse isso?

- Ninguém, e também não é preciso que ninguém mo diga. Sei-o. Desde que voltastes que só vejo o olhar carregado do Theido. Quanto ao Ronsard, passa a vida a mandar mensageiros para trás e para a frente. Como tu também não o negas, deve ser assim.

- É verdade. É muito possível que haja guerra. - concordou Quentin.

- É quase certo - corrigiu ela. - Não quero que vás. Como estás ferido, ninguém te obrigará a ir. Podias ficar aqui comigo.

- Sabes tão bem como eu que isso não é possível.

- Sei-o bem de mais. Há muito que as mulheres da minha família mandam os seus homens para a guerra... algumas até cavalgaram ao seu lado. É por isso que me sinto tão envergonhada, Não quero saber de nada disto... só que estejas em segurança.

- Àh, Bria! Conheço-te tão mal! Tens uma vontade de ferro e um espírito que treme por tudo o que acontece nos céus. Não duvido de que fosses capaz de lançar mil navios e de mandar legiões inteiras para a guerra... e, no entanto, tremes só de pensar na partida de um simples soldado,

- É verdade, como me conheces mal, se pensas que, para mim, não és mais do que um soldado! - A voz saiu-lhe magoada e zangada.

Quentin, pouco satisfeito por ter feito um comentário tão desajeitado, ia fazer mais uma tentativa para a acalmar, quando um berro de Durwin troou atrás deles.

- Estás aí! Bem me queria parecer que te encontraria aqui, no único lugar onde os namorados podem estar respeitosamente a sós. É natural que queiras adiar o que te espera, mas quanto mais depressa melhor para ti.

- Embora o teu remédio não me agrade lá muito, tens razão, Durwin. Vamos. - Virou-se para Bria com o intuito de lhe pedir licença para se retirar.

- Eu também vou. Pode ser precisa a mão de uma mulher. Além disso, se não tiveres ninguém ao pé de ti, Durwin, podes partir o braço que está bom.

- Por favor! - gritou Quentin, fingindo-se horrorizado. - É do meu braço que estás a falar. Tem tento no que dizes! - Bria soltou uma gargalhada, Quentin pôs-se sério, e afastaram-se os três.

 

- Quentin, estás a dormir? - Toli aproximou-se silenciosamente do leito alto e amplo no qual descansava o seu amo. Quentin abriu os olhos quando Toli chegou ao pé de si.

- Não, só a descansar. - Olharam os dois para o braço ligado de novo, com talas feitas de lascas de osso e envolto em tiras de linho lavado. À volta do braço, que tinha pousado no peito, haviam-lhe posto uma ligadura verde, para condizer com a capa.

- Chegou o momento?

- Chegou. O conselho vai começar daqui a pouco. Queres que vá em vez de ti?

- Não. Sinto-me muito melhor. Vamos os dois. já chegou toda a gente? - Quentin soergueu-se e passou as pernas para fora da cama. Toli pôs-lhe a mão por baixo do braço e ajudou-o.

- Os senhores das terras planas ainda não chegaram, mas é natural que venham atrasados. Têm uma longa jornada pela frente. Mas o rei Eskevar acha que é melhor não adiar nada.

"Os outros, ou já estão aqui ou vão chegar em breve. já vi o Rucid, o Dilg, o Benniot e o Fincher, o Wertwin, o Ameronis e o Lupollen.

- Chegam para ratificar qualquer decisão que o rei possa tomar. Mas acredito que não haverá oposição.

- Não estejas muito certo disso. Mensandor está em paz há muito tempo, e os homens amolecem. Alguns vão querer evitar o conflito a qualquer preço.

- Então, temos de os fazer ver que é impossível. - Quentin olhou tristemente para o amigo. - Toli, sabes muito bem que não gosto da guerra. -Mas vi o suficiente para saber que teremos de a enfrentar, quer queiramos quer não. Para esta terra permanecer livre, não temos escolha.

Saindo dos aposentos de Quentin, encaminharam-se para a abobadada câmara do Conselho, na torre norte, passando pelo átrio murado, onde, por vezes, o rei fazia vigílias, quando queria meditar em assuntos mais graves. O átrio, inundado de sol, estava limpo e fresco.

Ao entrarem, viram Theido e Ronsard, que discutiam apaixonadamente um com o outro e que lhes acenaram.

- Quentin! Parece que o Durwin. não te poupou. Como te sentes?

- Muito bem. Ele queria dar-me uma poção para eu ficar na cama, mas recusei. O tempo já é um bom elixir.

- Conheces o senhor Wertwin? - Theido apresentou o homem que estava com eles.

- Tem umas histórias interessantes para contar no Conselho acrescentou Ronsard.

- Pois, as tuas terras ficam a sul daqui, não é? - perguntou Quentin.

- É verdade. Para lá de Pelgrin, acima de Persch. - O homem sorriu calorosamente e Quentin reparou que lhe faltava um dente de baixo, o que, juntamente com o rosto de pele dura e batida pelas intempéries, lhe dava a vigorosa aparência de um tenaz combatente.

- Senhor, não leves a mal a minha pergunta, mas como conseguiste chegar tão cedo? Um mensageiro precisa de dois dias para chegar até ti.

- Normalmente, sim. Mas eu já estava a caminho... como dizia ainda agora ao Theido e ao Ronsard.

Quentin nem precisou de perguntar a razão da viagem de Wertwin, mas reparou na sua oportunidade. Conversaram durante mais algum tempo, até que um pajem surgiu da entrada da torre, atravessou o pátio e lhes pediu que entrassem e tomassem os seus lugares.

Seguiram em fila para dentro da torre e subiram um curto lanço de escadas em espiral, até um andar superior. Uma luz difusa entrava pelas finas seteiras, iluminando a estreita passagem que dava para uma grande câmara redonda de soalho polido. As janelas, escancaradas para deixarem entrar a luz do Sol, davam à câmara um aspecto aberto e arejado, quase fazendo esquecer que a rodeavam paredes de cinco metros de espessura.

No meio da sala encontrava-se um círculo de cadeiras, uma para cada membro do Conselho. Mas havia outras. "Quem. irá ocupá-las?", pensou Quentin. Por trás de cada cadeira via-se um estandarte com as armas e o brasão de cada participante. Alguns membros do Conselho já estavam sentados e, por trás das suas cadeiras, encontrava-se um escudeiro ou um pajem, pronto a acudir à vontade do seu amo. Outros membros do Conselho tinham-se afastado e, de cabeças juntas, conversavam em voz baixa; por toda a sala se ouvia o zunzum das suas conversas.

Quentin encaminhou-se para a sua cadeira, marcada com o seu brasão: uma espada em chamas por cima do emblema de um pequeno dragão. Quando o viu, sorriu de si para consigo. Só via a sua divisa quando estava em Askelon. Ao lado da sua cadeira encontrava-se a de Tolí, cujo emblema era um veado branco correndo num campo verde. Depois, identificou o de Ronsard: uma clava e um malho cruzados e erguidos por uma mão enluvada. O de Theido reconhecia-se logo: um falcão preto de asas abertas. Havia outros que Quentin nunca vira e várias cadeiras que nem sequer tinham estandarte.

O círculo era constituído por quinze cadeiras, mas havia mais, encostadas à parede, caso viessem a ser necessárias. Um a um, os restantes membros do Conselho tomaram os seus lugares e a sala ficou silenciosa. Todos esperavam a entrada do rei.

Passado pouco tempo, uma porta lateral que se abria para uma câmara privada girou nos seus gonzos de ferro e Durwin surgiu sem cerimónia, seguido pelo rei. "Tem um aspecto tão cansado!", pensou Quentin. "Nào é rei para encorajar os seus nobres a pegarem em armas."

Eskevar encaminhou-se para a sua cadeira e Durwin sentou-se na que estava ao seu lado, e que não tinha nenhum estandarte. O rei começou imediatamente:

- Meus nobres amigos, obrigado por terdes vindo. - Olhou um a um todos os que se encontravam no círculo. - O coração pesa-me com o pensamento do que deve ser feito hoje. A guerra não me é estranha e não sou cobarde. Alguns de vós estivestes comigo em muitas campanhas gloriosas e noutras onde não houve glória para nenhum dos lados.

"Os homens prudentes não buscam a guerra, que não traz nada bom. Mas os homens de valor não a evitam quando são chamados a defender a sua pátria de inimigos rapaces.

"É este o caso presente. Mensandor está a ser invadida. Neste momento, exércitos estrangeiros incendeiam as nossas cidades da costa meridional. As gentes dali não têm senhores que as protejam; por isso fogem para os montes e para as montanhas.

Esta última afirmação provocou um burburinho de surpresa e indignação entre os nobres ali reunidos. Lupollen, cujas terras ficavam no norte, abaixo de Woodsend, elevou a voz acima das outras e perguntou:

- Que inimigo é esse? Não sei de invasão nenhuma.

Depois de todos terem voltado a acalmar-se, o rei respondeu:

- Como tinha certas suspeitas, mandei o comandante-chefe e o nobre Theido, um amigo em quem deposito toda a confiança, tentarem descobrir a origem das minhas preocupações. Eles vão dizer-vos o que descobriram.

Ronsard foi o primeiro a falar:

- Meus senhores: acompanhados por quatro cavaleiros, eu e o Theido dirigimo-nos primeiro para sul. Não vimos nada de anormal até chegarmos ao desfiladeiro marítimo que fica abaixo de Persch, onde encontrámos um grupo de aldeões que fugia para norte pela calada da noite.

-Estes aldeões falaram-nos de um inimigo que se movimentava para norte, ao longo da costa. Também nos disseram que Halidom tinha sido completamente destruída. Por isso, resolvemos ir a Halidom ver com os nossos próprios olhos a veracidade desta história. Os aldeões pareciam aterrorizados e talvez estivessem a exagerar.

- Halidom, estava mesmo destruída? - perguntou um dos senhores.

- Estava. De Halidom só existia um bocado de terra chamuscada.

 

- O quê? Deves estar a brincar.

- De maneira nenhuma. - A voz pertencia a Theido. - É como ele disse. E não foi só Halidom. Illem também desapareceu.

- Mas não viste esse inimigo?

- Não vimos inimigo nenhum, mas apenas um sobrevivente da destruição, que morreu à nossa frente.

- Isto é ridículo. Queres que acreditemos... - vociferou Lupollen.

Acredita no que quiseres, senhor - cortou Ronsard. Só dizemos o que os nossos olhos viram.

- Devo dizer-vos que estou consternado com estas novas, Vossa Majestade - disse Ameronis. - Parece impossível! Há mais de dez anos que estamos em paz e há muito mais que um inimigo não ousa pôr os pés no solo de Mensandor. Estamos perante um grupo de assaltantes que aterroriza as aldeias? Isso pode ser atalhado imediatamente e não é preciso nenhum conselho de guerra para o ratificar.

- É verdade - concordou Rucid. -, é como quando os Vrothgar subiram o Plinn de Baixo e entraram nas Terras Selvagens. Logo que tiveram quem se lhes opusesse, partiram bem depressa.

Eskevar levantou as mãos a pedir silêncio.

- Por favor, meus compatriotas, se eu achasse que um resoluto corpo de cavaleiros bastava para deter esta ameaça, tê-lo-ia posto imediatamente em marcha. Mas tenho razões para acreditar que o perigo que ora enfrentamos é maior do que o representado por uma mão-cheia de bárbaros assaltando o nosso gado e as nossas searas. - Fez um aceno de cabeça para Wertwin.

- Nobres amigos, vim aqui hoje de minha livre vontade e encontrei o mensageiro do rei no caminho. Concordo com o rei Eskevar: isto merece ser considerado com muita seriedade. Há talvez mais de quinze dias que recebo nas minhas defesas um considerável número de refugiados. Alguns de perto, de Persch, e outros de longe, de Dom: aldeões, mercadores, camponeses. Chegaram pedindo refúgio e protecção contra um terrível inimigo que os atacou... na verdade, diga-se que poucos deles o viram.

Rucid desafiou-o em voz alta:

- Não é nada estranho que uns poucos de camponeses se agitem sem razão nenhuma. O facto de ninguém ter visto este inimigo temível e misterioso prova bem que, se existe, não passa de um bando de rufiôes que pode ser esmagado de um só golpe. - Quando Rucid. acabou de falar, houve murmúrios de aprovação e um acenar de cabeças em sinal de assentimento.

- Eu vi este inimigo! - disse Quentin ousadamente. Todos os olhos se viraram para ele. - E posso dizer que não é um mero bando de rufiões ou de bárbaros em busca de carne e de cereal. Eu e o Toli fomos capturados em Illem, na noite em que esta cidade foi saqueada e incendiada.

Esperou que as suas palavras assentassem.

- Estivemos presos durante dois dias, e só fugimos com a ajuda de um oficial do próprio inimigo. - Fez uma pausa, para medir cuidadosamente as suas palavras.

"O que vimos naquele acampamento chegou-nos para perceber que o exército de Nin não é nenhuma tribo de ladrões bárbaros nem um punhado de assaltantes em busca de pilhagens. Os Ningaal são um exército altamente treinado e disciplinado, que está a marchar contra toda a Mensandor.

- Não acredito! - gritou Lupollen iradamente. - Se tal inimigo existisse, com certeza que o saberíamos.

- É, obviamente, de uma astúcia inacreditável! - invectivou Ameronis sarcastica e friamente.

- Acreditai! - A voz aguda e cortante pertencia a uma mulher. Todos os nobres se viraram ao mesmo tempo nas cadeiras, para verem quem se atrevia a invadir a câmara do Conselho do Rei.

Quentin viu Esme de pé em frente da porta da antecâmara. A jovem entrara sem ter sido detectada e ouvira o que fora dito.

- Quem é esta mulher, Vossa Majestade? Mandai-a embora! O conselho de Guerra não é lugar para mulheres. - Ouviram-se outros protestos de natureza semelhante.

- Meus senhores, ouvi-a. Fui eu que lhe pedi para vir até aqui e, já agora, podemos ouvir a sua história. Continua, senhora, mas, primeiro, deixa-me informar esta assembleia de que está perante a princesa Esme, filha do rei Troen de Elsendor.

Esme, com toda a aparência da princesa que, de facto, era, com um fino aro de prata na testa e envolta num vestido escarlate-escuro, sem dúvida pertencente a Bria, aproximou-se da cadeira do rei e enfrentou o Conselho. O cabelo escuro caía-lhe em anéis até aos ombros e os seus olhos pretos cintilavam com uma chama intensa.

- Vim a Askelon por ordem do meu pai, para fazer um aviso e pedir ajuda. O que hoje ouvi faz-me temer pelas nossas duas terras.

- já esta Primavera ia adiantada quando um dos barcos do meu pai foi atacado no mar, mas conseguiu repelir o atacante e regressar ao porto. Troen mandou que descobrissem quem era este inimigo e ordenou ao comandante da sua embarcação pessoal que procurasse e enfrentasse o pirata. O navio nunca mais voltou, mas a resposta veio na mesma: dois dias mais tarde, um barco de pesca avistou uma centena de barcos inimigos na nossa costa meridional. O meu pai mandou a frota ao seu encontro; os meus irmãos assumiram o comando dos nossos barcos. Eu fui mandada para aqui com o aviso de que um grande e poderoso inimigo se levantara e se apoderaria das nossas terras. E também vim pedir ao rei Eskevar que nos ajude em tempo de necessidade.

Depois da narrativa de Esme, ninguém disse nada. Por fim, o rei Eskevar perguntou:

- Então? Não tendes nada a dizer relativamente a estas novas?

"Embora eles não acreditem na minha história, têm de acreditar na dela", pensou Quentin. Esme falara com tanta força e determinação!

- Contado por ti, senhora, parece um conto muito convincente. Mas queres dizer-nos que acreditas que o suposto inimigo que temos dentro das nossas fronteiras é o mesmo que enfrentou a frota do teu pai? Acho isso muito pouco provável. - Com este discurso, Ameronis ganhou um acenar de cabeças, em sinal de assentimento.

Eskevar teve uma explosão de ira:

- Pareces inclinado a repudiar quaisquer provas que te apresentemos. Porquê, Ameronis?

Ameronis replicou friamente:

- Há muitos anos que o reino está em paz. Não quero ver desfazer-se assim tão facilmente esta paz ganha à custa de tanto esforço. Eu, pelo menos, não vejo razão para reunir tropas e enfrentar um inimigo que ninguém viu e cujas intenções são inexplicáveis.

- Ah! Por fim, chegamos ao âmago da questão! - disse o Rei Dragão, com a testa e o rosto muito vermelhos. Os seus olhos, encovados e com olheiras devido à sua longa doença, brilhavam vivamente. Eskevar fez um sinal de cabeça para um dos pajens, que desapareceu na antecâmara e reapareceu passado pouco tempo na companhia de um forasteiro alto. Este entrou, envolto num vestuário solto, azul, com correntes de ouro à volta do pescoço, e inclinou-se profundamente perante os senhores ali reunidos. A sua barba preta parecia-se com os espinhos de um ouriço-cacheiro e os seus olhos eram penetrantes e directos.

- Apresento-vos Myrmior, primeiro-ministro do grande-suserano de Khai-I-Quair. Foi ele que possibilitou a fuga do meu pupilo e do seu servo. Diz-nos o que tens a dizer, meu bravo.

Myrinior tornou a fazer uma vénia e tocou na testa com as pontas dos dedos.

- Não era minha intenção apresentar-me assim perante vós, mas, como o rei o quis, eu obedeço. - Falava suavemente, mas as suas palavras afiadas acertavam em cheio no orgulho dos senhores ali reunidos, que o fitavam iradamente.

"Fui capturado há quatro anos, quando a minha pátria foi dominada por Nin, a quem chamam o Destruidor. Depois de uma guerra longa e sangrenta, que durou cinco anos, o grande-suserano foi decapitado como um ladrão na praça pública. Eu, seu ministro, tornei-me escravo de um dos comandantes de Nin.

"Ví muito nestes anos de cativeiro. Vi cair nação após nação; os reinos dos poderosos foram esmagados; terras inteiras foram devastadas por Nin. e pela sua horda. Cada vitória torna os Ningaal mais fortes e espicaça a fome insaciável do seu chefe por conquistas ainda maiores. O seu império já vai de Sanarrath a Pelagia e de Haldorland à Artasia. E não parará até governar o mundo, até todas as terras serem suas e todos os homens seus escravos.

"Agora, virou os olhos para oeste, para as nações dos reis poderosos. Se as conquistar, como conquistou todas as outras terras onde soltou os seus guerreiros, nunca mais ninguém o fará parar. Conseguirá realizar os intentos do seu coração maldoso: Nin será o deus perante o qual todos os homens se inclinam em adoração.

A voz de Myrinior fora-se elevando à medida que este discursava. Naquele momento, as suas últimas palavras troaram por toda a câmara do Conselho. Ninguém se mexia nem respirava. Todos os olhos estavam postos neste misterioso mensageiro do caos.

- Não vos iludais, senhores de Mensandor. Não podeis esconder-vos nos vossos castelos atrás dos vossos muros. Assim como a cobra apanha a ratazana, assim ele vos tirará cá para fora e vos destruirá.

"Ouvi as minhas palavras e tende cuidado! Ele virou-se para o vosso reino e quere-o para si. Não há nada que ele não possa fazer e nada a que não se atreva, pois a sua estrela está a crescer e não tarda que todos os homens conheçam o terror do seu nome.

 

- A culpa não é vossa, Majestade. Fizestes tudo o que era possível fazer. Tentaremos de novo - disse Theido apaziguadoramente.

Estavam todos sentados, com um ar sombrio, em volta de uma grande mesa de carvalho, na câmara privada do rei. Eskevar fitava apaticamente as mãos, que tinha juntas à sua frente. Encolerizara-se, zangara-se, ameaçara: em vão. O conselho de Guerra acabara num beco sem saída. Lupollen e Ameronis haviam-se mostrado abertamente contra o levantamento de um exército, Wertwin e Fincher tinham-nos

apoiado e os restantes haviam ficado indecisos.

Eu devia ter esperado pelos outros. Fui demasiado apressado demasiado apressado.

- Não - objectou Durwin. - Agistes bem. Os outros só devem chegar amanhã ou depois. E nós temos de fazer qualquer coisa imediatamente. Quem sabe o que pode trazer-nos um atraso de dois dias? Já houve reinos que caíram em menos tempo.

- Entretanto, o Lupollen e o Ameronis têm muito tempo para purem os outros para o seu lado. - Eskevar suspirou e a sala pareceu ficar mais escura.

- Virão todos para junto de nós quando virem o perigo - observou Ronsard.

- Mas não será tarde de mais? - interveio Theido. - Por mim, acho que devíamos mandar os cavaleiros do rei fazerem frente aos invasores e deterem-nos até levantarmos um exército. Não podemos deixar que cheguem a Askelon sem oposição.

- Nobres senhores, posso fazer uma observação? - Era Myrmior, que estava sentado em silêncio desde que o conselho privado começara. O seu apaixonado apelo perante o Conselho fora em vão; por isso, tal como os outros, fechara-se num mau humor carrancudo.

"Só a força total pode detê-los. Os exércitos de Nin estão bem treinados e prontos para a batalha. E há muitos mais do que imaginais. O exército que aprisionou o Quentin e o Toli é apenas um dos quatro que estão neste momento dentro das fronteiras de Mensandor e que se movimentam, na direcção de Askelon por caminhos diferentes.

_ Mas porquê? - perguntou Ronsard. - Porque é que não vêm em massa?

- Nin aprendeu há muito tempo que, ao invadir uma terra estranha cujas forças desconhece, o melhor é movimentar-se em formações mais pequenas, que, assim, dividem a defesa.

"Um punhado de homens valorosos, dispondo de vantagem táctica, podem fazer face a muitos... não é assim? - Um acenar de cabeças em volta da mesa confirmou estas palavras. - Mas é quase impossível fazer uma defesa em quatro frentes ao mesmo tempo. E é isso que vos propondes fazer.

- E com muito poucos cavaleiros - comentou o rei amargamente.

A nossa causa está perdida mesmo antes de as trombetas terem sido tocadas ou as espadas desembainhadas.

- Não digais isso, Majestade. Podemos fazer muito com os homens que temos. Os outros vão apoiar-nos quando perceberem que a ameaça é real e não imaginada. - Ronsard deu um murro na mesa e olhou em volta, procurando apoios para o seu ponto de vista.

- O ronsard tem razão - disse Durwin lentamente. - Podemos fazer muita coisa. E quanto mais cedo começarmos, melhor. É do nosso interesse...

Precisamente nessa altura, ouviu-se uma pancada na porta do aposento. Entrou uma sentinela, que disse, depois de fazer uma vénia:

- Majestade, está ali fora um sacerdote que vos quer falar imidiatamente. já lhe foi dito que estais em conselho, mas ele não desiste.

- Ele identificou-se? - inquiriu o rei.

- Diz que se chama Biorkis - volveu a sentinela.

- O sumo sacerdote? Aqui? - Quentin olhou para Toli, que se limitou a assentir misteriosamente.

- Que o sumo sacerdote entre. Vamos recebê-lo.

A porta foi aberta de par em par e, pouco tempo depois, Biorkis entrou, envergando as suas grosseiras vestes castanhas. Afivelara um sorriso triste no rosto enrugado e branco:

- Vejo que Ariel não abandonou o seu servo. Está tudo como eu queria.

Durwin deu um salto que fez com que o seu banco tombasse no chão com estrondo:

- Biorkis! Por fim renegaste os teus votos? - O eremita precipitou-se para junto do seu velho amigo e abraçou-o.

O sacerdote abanou a cabeça tristemente; a sua barba branca e entrançada balançou de um lado para o outro.

- Fui libertado dos meus votos, quer quisesse quer não. - As sobrancelhas de Durwin arquearam-se. - Isto é - continuou o sacerdote

fui expulso do templo.

- Mas porquê? Só podia ser por uma ofensa muito grave... vinda de ti, não posso imaginar qual seja.

Durwin empurrou-o para a mesa, e o antigo sumo sacerdote virou-se para os outros, fazendo uma saudação especial a Quentin.

- Foi por uma ofensa gravíssima, senhores. Fui culpado de entravar o caminho a uma grande ambição. As acusações foram apenas trivialidades; insisti em ver perigo onde não havia e em ler nas estrelas presságios que ameaçavam a segurança do templo.

Durwin assentiu compreensivamente:

Nós hoje fomos derrotados mais ou menos pelas mesmas razões. Mas falaremos disso mais tarde. Sei que o que vieste dizer-nos não foi atenuado pelos teus problemas. Sumo sacerdote ou não, uma vez que tomes uma decisão, o teu coração mantém-se inabalável.

- Lembras-te bem de mim, Durwin. Sempre soubeste ler no mais íntimo de um homem. É verdade, vim com uma mensagem, mas, ao ver-vos aqui, acredito que cheguei tarde de mais para que a minha mensagem vos seja de alguma utilidade.

- Mas di-la - insistiu Eskevar -, e deixa-nos julgar o seu valor. O facto de te ter custado o teu lugar no templo é um dado bem importante, mas falaremos disso mais tarde. O que queres dizer-nos?

Biorkis; fez uma vénia na direcção de todos eles. Durwin. apanhou o banco, pô-lo direito, ofereceu-o ao sacerdote e foi ele próprio buscar outro. Quando se sentou, Biorkis; espalmou as mãos em cima da mesa e começou:

- Senhores, na minha posição de sumo sacerdote, trabalhei incansavelmente no exame dos elementos, para descobrir o destino dos homens e das nações. Acredito que a religião deve servir assim o homem.

"Quando se apresenta um presságio, é cuidadosamente estudado, em ordem à determinação da sua importância e consequências. Digo isto por causa do seguinte: surgiu um presságio como nunca houve outro no nosso tempo. Trata-se de uma estrela, vulgarmente conhecida por Estrela do Lobo. Imutável desde o início dos tempos, começou agora a crescer com um brilho pouco habitual. Cresceu tão depressa que até é inacreditável para quem não a tiver seguido como eu.

- É a estrela de que falaste, não é? - Eskevar virou-se para Myrmior, que se limitou a baixar a cabeça em sinal de assentimento.

- Vejo que sabeis o que se passa. Portanto, não preciso de vos dizer como o facto é curioso. Andei à procura nos registos do templo... cada vez mais para trás no tempo, até onde vão os registos... há milhares de anos. - Biorkis sorriu e inclinou a cabeça branca na direcção de Quentin.

"Fi-lo depois da tua visita daquela noite. A tua curiosidade sobre a estrela mostrou-me que o estudo podia revelar alguma coisa mais do que a simples novidade.

- Se bem me lembro, as tuas previsões foram bastante lúgubres - retorquiu Quentin. - Disseste que era o mal.

- Ah, pois foram! Agora sei que tinha razão. Os registos sagrados do templo mostram que já houve sinais assim. Aconteceu por duas vezes: há muito tempo, houve estrelas que cresceram no céu. E, embora a escrita antiga seja de difícil discernimento e o significado das palavras pouco claro, posso afirmar com toda a certeza que estes presságios anunciavam as piores catástrofes para a humanidade.

- O fim de uma era! - exclamou Durwin.

- O fim de uma era - concordou Biorkis. - No meio do caos e da morte. Uma destruição a que nem homem nem bicho conseguem sobreviver. São varridas nações da face da Terra e reinos desaparecem num abrir e fechar de olhos, para nunca mais voltarem. O planeta muda para sempre. Terras erguem-se dos mares e continentes inteiros ficam submersos. Tudo o que existia muda com o temível trovão provocado pelos céus a rasgarem-se. As estrelas caem e os mares elevam-se. Os rios ardem e a Terra esboroa-se.

"É assim o fim de uma era. Um fim que se aproxima.

As declarações de Biorkis fizeram com que Quentin se lembrasse vivamente da conversa que tivera com Toli nos aposentos de Durwin, quando tinham chegado a Askelon. A conversa prosseguia em volta da mesa; as vozes de Ronsard, Theido, Eskevar e Durwin soavam-lhe aos ouvidos, mas Quentin não lhes prestou atenção. Foram cada vez mais diminuindo de intensidade, até não as ouvir mais.

Pareceu-lhe então que entrava num sonho acordado:

Estendia-se perante si um horizonte escuro e ilimitado. As trevas murmuravam e retorciam-se como um bicho esfomeado à espreita da sua presa. Quentin viu uma figurinha brilhante subindo uma encosta rochosa e postando-se no cimo de um monte. Era um cavaleiro de armadura. Ao olhar mais atentamente, viu que esta brilhava com um fogo frio, como se tivesse sido feita de um único diamante; o cavaleiro tinha um escudo que faiscava com uma cintilação fria, espalhando a luz como um prisma. O cavaleiro virou-se de frente para as trevas sussurrantes, pôs a mão no punho da espada, desembainhou-a e esta faiscou com uma ardente luz branca.

O cavaleiro levantou a espada e as trevas recuaram. Depois, com um poderosíssimo arremesso, atirou-a para o ar, onde ficou a girar, soltando linguas de fogo que encheram o céu. Ao mesmo tempo, gritou, numa voz ressonante que pareceu ecoar nos ouvidos de Quentin:

A arderá com chamas de fogo.

As trevas morrerão,- conquistadas, fogem com asas dofalcão.

A conversa à volta da mesa interrompeu-se. Todos os olhos se voltaram para Quentin, que, de pé, abanava a cabeça e pestanejava, como se acordasse de um sonho. A surpresa estampada em cada rosto e as bocas abertas de espanto fizeram-lhe saber que não se limitara a ouvir estas palavras: também as pronunciara em voz alta à frente de toda a gente. O som que ecoava nos seus ouvidos era a sua própria voz.

- O que é que ele disse? - sussurrou alguém, no meio do silêncio aterrado que se fizera na sala.

- Eu... eu peço desculpa, senhores - gaguejou Quentin. Toli examinou-o de olhos semicerrados. Por todo o lado se viam olhares de espanto.

- Onde ouviste isso? - Inquiriu Durwin, dando um salto.

- Não sei. Ouvi-o agora mesmo... num sonho. Parece que tive um sonho enquanto vós faláveis. Não sei porquê.

- Eu sei! - Biorkis quase gritou. - Isso é das Crónícas dos Reis do Norte.

- Pois é. A "Profecia do Rei Sacerdote". - Durwin agigantou-se sobre Quentin, olhando-o de cima. Os seus olhos faiscavam com uma ferocidade que nunca ninguém lhe vira. Quentin remexeu-se desconfortavelmente no banco, sentindo-se tolo e irreflectido.

"Diz-me que nunca o leste em lado nenhum nem nunca o ouviste, e eu acreditarei em ti.

- É verdade, Durwin, nunca. Sejam de onde forem, como dizes, estas palavras não significam nada para mim. Não as conheço.

- É possível que as tenhas ouvido em Dekra - matutou Durwin - Mas acho que não. Se assim fosse, havias de lembrar-te delas.

- O que é isto? - perguntou Eskevar num tom de voz espantado.

Theido e Ronsard limitavam-se a observar com surpresa o que estava a acontecer à sua frente; Myrmior, de olhos semicerrados, passava distraidamente a mão pelo queixo.

- Meu Deus, é um prodígio! Um sinal dos mais poderosos. - Biorkis fechou os olhos e começou a recitar a antiga profecia. A cabeça do velho sacerdote abanava com a cadência e a sua voz aumentou de volume até encher a sala.

"As estrelas vigiarão os actos dos homens e produzirão sinais e prodígios.

"As cidades de outrora ainda se vêem: o destro trabalho de gigantes, a habilidade do trabalho em pedra.

"O vento é o mais veloz dos mensageiros. As nuvens voarão livres para sempre.

O trovão fala com uma voz poderosa; os templos oscilam nas suas fundações. A rocha sagrada abrir-se-á em duas.

"A espada batendo no escudo fará a guerra.

"A águia subirá com asas de força; as suas crias serão honradas entre os homens.

"A coragem estará no guerreiro. O anel terá uma jóia alta e grande.

"O homem bom terá actos de glória no seu país. A serpente será trespassada nos seus aposentos.

"O valor do cavaleiro será de ferro; o seu nome é cantado nos salões dos seus pais.

"O lobo da floresta será cobarde. O javali dos bosques é ousado na força das suas presas.

"O rei terá um trono. O sacerdote usará uma coroa.

"A espada arderá com chamas de fogo. As trevas morrerão; conquistadas, fogem com asas de falcão.

"Debaixo do monte, o dragão será antigo, majestoso, ousado e destemido.

"Os deuses de altos lugares serão destronados; deles será a raiva da morte. O altíssimo não suportará mais a sua presença.

"Ele chamou o seu servo de fora do templo; os seus desígnios serão exaltados.

 

Quando saíram da câmara do Conselho, tinham Bria e Esme à sua espera. Embora não estivesse muito bem-disposto, Quentin sorriu ao vê-las. As duas jovens haviam-se tornado tão amigas que eram vistas juntas em todo o lado, e agradava a Quentin pensar que, embora fossem muito diferentes, também tinham muito em comum, especialmente no que dizia respeito à determinação de ferro em assuntos que as tocavam bem fundo. "São a imagem viva da palavra "princesa"., reflectiu.

Quentin ainda não falara desde que saira da câmara. Sentia-se fraco e assustava-o o que pudesse dizer a seguir. A visão e a profecia tinham-no enervado, fazendo-o sentir que já não podia confiar que se comportaria normalmente. Toli conduzira-os para um local tranquilo na cozinha, onde poderiam sentar-se, mordiscando umas maçãs, e estar sozinhos.

Passado algum tempo, Quentin recuperou algum do seu bom humor habitual e começou a falar do que acontecera. Falou da conversa havida em volta da mesa, do seu sonho, da profecia que proferira e da excitação de Durwin e de Biorkis depois de a terem ouvido. Foi então que Esme relatou a sua experiência com a filha de Orplie e a profecia que esta lhe fizera em troca da refeição que ela própria cozinhara.

Esme recitou a estranha profecia e Quentin até ficou chocado com a estranha semelhança que ela tinha com a que ele próprio dissera: ambas falavam de uma espada de poder que venceria os invasores de um só golpe. Quando Esme acabou a sua história, ficaram todos calados durante muito tempo, não se atrevendo a quebrar o encantamento que descera sobre o pequeno grupo.

Quentin apreciou muito aquele tempo de silêncio, durante o qual pensou e repensou nas palavras, agarrando-as à medida que lhe surgiam no espírito. A visão que lhe fora dado ter, havia tanto tempo, na sua bênção dos Ariga no templo de Dekra parecia estar a tomar forma, a revelar-se e a levá-lo com ela. A sua visão! Durante muito tempo, meditara nela e guardara-a no coração. Uma parte dele queria correr para ela e abraçar o que estivesse à sua frente, pois Quentin sabia que só assim ficaria em paz. Mas outra parte queria afastá-la, correr para longe da sua glória terrível e feroz. E Quentin sentia-se dividido entre as duas.

Quentin e Toli pararam na passagem que a noite escurecera e bateram. Ouviram um arrastar de pés do outro lado da pesada porta e esta abriu-se lentamente. O rosto largo e agradável de Ronsard devolveu-lhes o sorriso.

- Entrai, amigos - disse. - Estamos à vossa espera.

- Que chamado é este, que nos tira da cama? Ou antes, que não nos deixa deitar. Ronsard, Theido, que secretismo é este? - Quentin entrou nos aposentos de Durwin, róseos à luz de grandes velas dispostas em volta da sala nos seus altos suportes.

- Muito em breve vais arrepender-te dessas palavras tão desagradáveis, senhor - retorquiu Theido calmamente. Quentin falara a brincar, mas, embora Theido sorrisse, ele bem via a inquietude dos modos do cavaleiro.

- Vós ides embora! - exclamou Quentin, consternado. Passeando-lhes rapidamente o olhar pelo rosto, soube que adivinhara.

- Pois vamos - replicou Ronsard amavelmente. - Antes do nascer do Sol.

- Mas... não compreendo. Porquê tão depressa?

- Tem de ser - explicou Theido. - Vamos conduzir os cavaleiros do rei contra os Ningaal. Temos de ir já, antes de eles terem tempo de reunir forças.

- Entra e senta-te. Ainda temos algum tempo para nos despedirmos como amigos - disse Durwin calorosamente.

Quentin avançou inexpressivamente para uma cadeira colocada em frente da lareira apagada. Toli instalou-se no braço da cadeira pousada ao seu lado. Embora os seus olhos tivessem endurecido, não se distinguia qualquer sentimento no rosto do Jher dos olhos escuros.

- Sei que é um choque para ti, Quentin, mas é assim que tem de ser. - O tom de voz de Theido era calmo e confiante. - Sei que querias vir connosco, mas acho que não percebes que não pode ser. Com o braço assim, não aguentarias nem o primeiro embate.

Quentin sentiu-se lisongeado ao pensar que Theido tinha a sua coragem em tão alta estima. Na verdade, não tinha vontade nenhuma de voltar a encontrar-se com os brutais Ningaal.

- Embora me sinta muito honrado, não é essa a causa das minhas apreensões. Não podeis enfrentar os Ningaal só com o séquito do rei: seria um desastre! São muitos soldados e muito disciplinados. Eu vi-os.

- Não nos atrevemos a esperar mais - disse Ronsard. - Cada dia a mais que passemos aqui pode vir a custar-nos muito caro. Mas não te preocupes muito; não vamos totalmente sozinhos. O Wertwin irá ao nosso encontro com as suas tropas... vai mobilizar cem vigorosos cavaleiros e dar armas a todos eles.

- O que são quatrocentos ou quinhentos contra os milhares do Gurd? E, se o Myrmior disse a verdade, ele é apenas um de um total de quatro.

- Parece-me que podemos dizer que o Myrmior não mentiu - riu Ronsard. - Ele vai connosco, para nos ajudar a planear a nossa estratégia contra os guerrilheiros de Nin.

- E não é pouco - acrescentou Theido. - Não tenho dúvidas de que a sua ajuda será preciosa. - Inclinando-se para a frente, examinou o rosto de Quentin com os olhos escuros muito sérios.

- Temos de ir, Quentin. Temos de ganhar tempo até o rei Eskevar trazer os outros senhores para o nosso lado.

"Não esperávamos que os nossos pares se comportassem assim. Mas é a vida! No fim, verão que a guerra chegou e juntar-se-ão a nós. Disso não tenho medo.

- Mas entretanto, enquanto eles se decidem, vós sereis todos mortos! - disse Quentin amargamente. - Isto não me agrada.

- Mas será assim - volveu Ronsard, levantando-se, dirigindo-se a Quentin e pondo-lhe a mão no ombro. - Não temas por nós, pois nós não tememos. Um cavaleiro só pode morrer uma vez, e ou é com honra ou não vale a pena. já vi batalhas que chegassem para não ter medo delas. Estou satisfeito.

-Não temos intenções de sermos imprudentes. Na verdade, não haverá dois homens mais cautelosos e prudentes do que nós. Mas temos de dar ao rei tempo para reunir os senhores; senão, a nossa causa estará perdida antes de começar. Pelo menos, o Myrmior mostrou-nos isso.

"Além disso, também não me parece que vás ficar ocioso. Se bem percebi, o Durwin tenciona empregar os teus esforços. Nem vais ter tempo para pensar em nós.

Quentin levantou-se da cadeira e agarrou o braço de Ronsard com a mão boa.

- Hei-de pensar sempre em vós! Vós os dois fostes mais do que meus companheiros. Quem me dera ir convosco e estar sempre ao vosso lado! Gostaria muito de poder voltar a estar convosco no campo de batalha.

- E hás-de estar. Aposto que ainda teremos batalhas que cheguem para todos. - Theido pôs-se ao lado de um Quentin lacrimejante.

- Vou sentir muito a vossa falta. - Quentin passou o braço em volta de Ronsard e deu-lhe umas palmadinhas nas costas. Depois, abraçou Theido, enterrando o rosto no ombro do cavaleiro. As lágrimas rolavam-lhe pelo rosto, mas eram lágrimas masculinas, e ele não tinha vergonha.

- A pancada que me faz ficar aqui foi mais dolorosa do que pensava. Ide e que o Altíssimo vos proteja.

- E a ti - disseram os dois cavaleiros em uníssono.

Encaminharam-se relutantemente para a porta. Toli, que seguia atrás de Quentin, apertou-lhes as mãos e desejou-lhes, na sua límgua nativa, "espadas que cantam e escudos que nunca caem.. Depois voltando-se para Durwin, indagou:

- Bom eremita, queres pedir ao Altíssimo pelos nossos irmãos?

- Claro que sim. Eu próprio ia sugeri-lo. - O eremita de Pelgrín avançou e levantou as mãos à frente dos dois cavaleiros. Ronsard pôs um joelho em terra e Theido ajoelhou-se ao seu lado.

- Deus Altíssimo, que guiais os nossos passos e ouvis as nossas preces - disse suavemente -, ouvi-nos agora. Sede para estes nossos valentes companheiros a lâmina afiada, a força do seu braço e a protecção do seu escudo. Fazei com que sejam poderosos perante o inimigo; fazei com que sejam audazes e destemidos. Ide à sua frente para a batalha como uma lança, para afastar o mal das nossas costas. Servi-lhes de conforto e de guia; animai-os quando estiverem cansados e apoiai-os quando já não conseguirem ter-se em pé.

"Bani o medo dos seus corações e dai-lhes sabedoria para conduzirm os seus homens à vitória. Sede para eles a glória que brilhará por entre as trevas e trazei-os de volta para nós.

Os cavaleiros levantaram-se devagar.

- Esse teu deus, Durwin, consegue fazer assim tanto? - perguntou Ronsard suavemente.

- Consegue fazer tudo, meu amigo. Não hesites em o invocar se tiverdes necessidade. Ele responde sempre ao chamado dos seus servos.

- Então, daqui para a frente vou servi-lo, a esse Deus Altíssimo. Riu-se para Quentin. - Vês, não és o único a dar ouvidos a este eremita tagarela. A minha alma também me preocupa.

- Então, vê lá se te preocupas em mantê-la intacta até voltarmos a ver-nos, bravo cavaleiro. - Quentin avançou e estendeu-lhes a mão. -Adeus, meus amigos.

- Adeus, Quentin. Adeus.

 

Por muito triste que fosse a despedida de Theido e Ronsard, não foi nada comparada com a dor da partida de Quentin e Toli de Askelon. Depois do adeus dos cavaleiros, haviam passado dois dias a reunir provisões e a preparar-se. Chegado o dia da partida, bem cedinho, antes de o Sol se ter erguido acima dos compridos contornos escuros de Pelgrin, Toli conduziu os cavalos e os animais de carga para o pátio interior, passou a cortina interior e entrou no pátio exterior, onde o esperavam Durwin e Quentin.

Alinea, Bria e Esme tinham ido ali ao seu encontro. As mulheres punham-lhes gulodices nas mãos e trocavam beijos.

- O eskevar pediu-me para me despedir de vós - disse Alinea.

- Ele gostaria de vir em pessoa, mas um rei não diz adeus. Por isso, despeço-me por mim e por ele. Que viajeis depressa e volteis sãos e salvos. Os nossos corações vão convosco.

Depois, Bria e Quentin afastaram-se um pouco, para falarem dos sentimentos especiais que os uniam. Esme, que tinha flores no cabelo, pegou numa e deu-a a Toli, que a prendeu no cinturão e a pôs por cima do coração.

As três mulheres acompanharam-nos até ao outro lado da ponte levadiça e ficaram ali. As suas lágrimas escorriam para o chão como chuva miiudinha. De braços erguidos, acenaram-lhes até as ruas estreitas de Askelon os esconderem de vista.

A tristeza da partida ficou a pesar na alma de Quentin. Durante a màior parte dos três dias que se seguiram, nas horas em que estava acordado, não deixou de pensar nela. Quentin falava pouco e andava como se estivesse a dormir. Por isso, não reparou que Toli e, de certa forma, Durwin se comportavam exactamente da mesma maneira.

Na sua meditação solitária, Quentin cismava e voltava a cismar nos acontecimentos dos movimentados últimos dias passados em Askelon e, especialmente, na reunião havida nos aposentos de Durwin, que se arrastara por quase toda a noite. Agora, parecia-lhe nebulosa e indistinta, como se observasse fios de fumo curvando-se e erguendo-se no ar da noite. Mas, na altura, fora bem real. Aliás, era devido a esse acontecimento que estavam, naquele momento, apressadamente a caminho.

Enquanto atravessavam os carreiros escuros da floresta de Pelgrin, verdejantes devido ao Verão, que descera em força sobre cada um dos galhos das árvores, Quentin reviu mais uma vez os acontecimentos dessa noite.

Depois de Theido e Ronsard terem deixado os aposentos de Durwin, mas antes de o som dos seus passos haver diminuído no corredor, Biorkis irrompera por ali dentro carregado de rolos, pergaminhos e mapas. Este desaparecera desde o conselho privado com Eskevar, no dia anterior; Quentin não o vira desde que ouvira o velho sacerdote recitar a antiga profecia que ainda lhe martelava nos ouvidos.

Como tinham vindo a descobrir, Biorkis fechara-se no ateneu do castelo, onde, sem parar nem para comer nem para dormir, desenterrara os estranhos materiais com que lhes aparecera.

"Encontrei aquilo de que precisamos, Durwin. Não foi fácil: a biblioteca do rei nem por sombras está tão organizada como a do templo... mas era de esperar. Nem uns olhos conhecedores conseguem distinguir alguns destes textos, que estão bastante incompletos. Mas onde os pergaminhos falharem ajudar-nos-á a minha memória e, claro, a tua, Durwin."

O velho sacerdote afadigava-se num frenesim tão prodigioso à volta dos seus textos que Quentin se rira alto:

- Não me digas que vamos ter de aguentar uma das tuas intermináveis lições! Poupa-nos!

Biorkis inclinara a cabeça para um lado:

- Não te fazia mal nenhum, senhor. Provavelmente, esqueceste tudo o que te ensinei.

- Depois do conselho do rei, eu e o Biorkis; pusemos as nossas cabeças a funcionar - explicara Durwin. - Penso que te interessará saber o que descobrimos. - Embora Durwin não o tivesse dito, Quentin percebera, pelo brilho que iluminara os olhos do eremita e pela atmosfera de excitação que, de repente, percorrera a sala, que o assunto daquela reunião tinha a ver com a profecia e com a estranha maneira como a proferira no dia anterior.

- É verdade, está tudo aqui. Ou, pelo menos, o suficiente para agirmos, embora gostasse de ter acesso aos meus livros que ficaram no templo. - Biorkis; suspirara tristemente.

- E eu aos meus, que deixei em casa - acrescentara Durwin.

- No entanto, li-os tantas vezes que me atrevo a dizer que os sei de cor.

- Isso quer dizer que vós acreditais que essa tal "Profecia do Rei Sacerdote" tem alguma coisa a ver connosco? - indagara Quentin, indicando-se a si próprio e a Toli.

- Connosco, não, senhor - retorquira Biorkis jovialmente.

- Contigo!

Quentin quase conseguira afastar de si a tremenda sensação de responsabilidade originada pelo pensamento de que podia ter sido escolhido para alguma grande missão. Quase se sentia novamente ele próprio... quase, mas não inteiramente, pois a inexprimívei noção de ter sido apanhado na rápida corrente da História, de estar a ser empurrado por uma mão invisível para um destino desconhecido e de que tudo isto tinha a ver com a sua visão da espada em chamas não deixava de o assaltar, escondendo-se por trás dos seus pensamentos como uma sombra ou pairando como um sonho.

-Como sabes, existem muitos sinais que nos permitem avaliarestas coisas - continuara o sacerdote. - Digamos que passei um dia e uma noite a vasculhar tudo o que é conhecido da profecia e dos acontecimentos envolventes e que não tenho nenhuma razão para duvidar que os sinais apontam para ti.

- E também há boas razões para acreditarmos que é chegado o tempo de a profecia ser cumprida - acrescentara Durwin. Nessa altura, Toli erguera a voz:

- Embora nunca tenha sabido da profecia antes de a ouvir na câmara do rei, posso dizer-vos que também os Jher têm uma lenda que fala de um rei de raça branca que surgirá para introduzir a idade da luz. Será chamado Lotheneil, o Fazedor do Caminho, porque guiará o espírito dos homens para Winoek, o Deus altíssimo. - Toli fitara o amo com um olhar sabedor e cruzara os braços, como se o assunto estivesse resolvido.

- Não julgueis isto má vontade da minha parte - volvera Quentin

mas tendes de me mostrar em que é que isto me diz respeito. Não sei nada da profecia...

- E, no entanto, citaste-a palavra por palavra, ou quase. No original, é mais ou menos assim:

A espada ardrá co'chamas de foigo As trevvas morrerão; derribadas, voarão nas asas do falco.

"Teria ficado muito surpreendido se a tivesses dito no dialecto antigo. Mesmo assim, fiquei muito impressionado. Não há quatro homens em Mensandor que saibam e consigam citar esta obscura profecia. Que dois deles estivessem na mesma sala na altura em que foi proferida... bem, é espantoso. Incrível.

- Eu não disse a profecia toda... só parte. - Quentin remexia-se na sua cadeira de costas altas e Toli encontrava-se empoleirado ao seu lado, como uma ave de rapina. - Pode ter sido coincidência.

- Quentin - ralhara brandamentc Durwin -, sabes tão bem como eu que, para os servos do Altíssimo, não existem coincidências. E a citação de uma linha que seja de uma profecia equivale à invocação do todo. Os anciões de Dekra devem ter-te ensinado isto.

Era verdade; ouvira muitas vezes os anciões referindo vários acontecimentos dos textos sagrados, citando uma parte e implicando o resto. Sabia que Durwin conseguiria detectar qualquer tentativa da sua parte para se distanciar dos acontecimentos que se formavam de todos os lados. Parecia-lhe que uma teia de circunstâncias se apertava cada vez mais à sua volta. Em breve seria apanhado por um destino que não previra e que não tinha a certeza de conseguir cumprir.

Mas, para além da sua relutância pessoal, que lhe pesava nas costas como uma pedra, também sentia que, se o que Biorkis e Durwin diziam era verdade, tinha a responsabilidade de seguir em frente, fosse para onde fosse. Se, de facto, tinha algum papel na salvação do reino, devia aceitá-lo e fazer o que fosse necessário, independentemente dos seus sentimentos.

Fora este Quentin mais racional que respondera:

- Muito bem. Vamos lá ver aonde é que os vossos boatos nos levam. Parece que não há outro remédio.

- Parece que estás a começar a pensar, não, Quentin? Isso é bom. Muito bom. - Biorkis cofiara a comprida barba branca e entrançada. - Vou dizer-vos o que descobri.

As horas seguintes tinham parecido o tremeluzir da chama de uma vela. Um pestanejar, um acenar de cabeça... e haviam passado. Logo que o seu antigo professor começara a falar, Quentin sentira-se enfeitiçado, petrificado pelo indizível mistério da história de estranhos acontecimentos havia muito esquecidos, que se tinham passado várias eras atrás. Apenas alguns sábios ainda se lembravam dela e, naquele momento, reviviam-na na sua presença. Ele escutava atentamente, sem perder nenhuma palavra, como um homem sequioso abre a boca ressequida para a chuva, não deixando escapar nem uma gota.

Biorkis e Durwin, com o rosto corado de excitação, tinham-lhe falado da espada, uma espada diferente das outras, com poderes sagrados, de minas secretas por baixo de montanhas escondidas em terras meio esquecidas, da bigorna de ouro usada para forjar a poderosa arma, da ânsia com que as pessoas tinham esperado, geração após geração, acreditando que veriam a espada e aquele que a empunharia, e das canções e orações que, em tempos de trevas e de desespero, suplicavam que a mão digna de empunhar a espada se erguesse e fizesse justiça.

O nome que os antigos haviam dado à espada era Zhaligkeer, a Brilhante.

Quentin pronunciara este nome antigo para si próprio. O facto de o saber ligava-o àqueles que tinham vivido e morrido à espera de verem a espada. Quantos homens teriam murmurado este nome numa hora de aflição? E quantos teriam desesperado de a verem e se haveriam afastado?

Quando a história chegara ao fim, Quentin levantara-se, espreguiçara-se e começara a andar de um lado para o outro da sala, em passos rápidos e inquietos:

- Então, sugeris que vamos procurar a espada, que está escondida numa caverna dos altos Fiskills?

Biorkis abanara a cabeça com um ar cansado:

- Procurá-la, não. A espada não existe. Tem de ser feita. A Zhaligkeer tem de ser forjada a partir da mão que a empunhará.

Quentin suspirara:

- Perdoai, mas não compreendo. Vós não me falastes de bigornas de ouro, minas secretas e por aí fora? Pensei que fazia tudo parte da lenda.

- E faz - retorquira Durwin. - Mas acreditamos que as lendas indicam a maneira como a espada deve ser feita, e não como foi feita. Penso que nunca ninguém fez mesmo a espada.

- Porque não? Não percebo qual seria a hesitação. O que é que impedia alguém de tentar?

Durwin inclinara a cabeça para um lado e sorrira presunçosamente.

- Nada... e tudo. Sem dúvida que muitos tentaram, aplicando a profecia a si próprios e ao tempo em que viviam. Mas para que a espada se torne Zhaligkeer, a Brilhante, são precisas duas coisas: o metal das minas secretas e a mão daquele que é mencionado na profecia. Mesmo que o metal tenha sido encontrado, o que é natural que alguns hajam conseguido, ficou a faltar aquilo que faria da espada a Zhaligkeer: a mão do escolhido. Sabes, o que dá poder à espada não é só a lâniina; é também a mão do Altíssimo.

- Se, como dizes, há muito que os homens procuram a Brilhante, porque é que nunca ouvi falar dela até agora

- Isso não tem nada de anormal, senhor! - rira Biorkis.

- É sempre assim. Quando tudo corre bem, os homens não pensam na mão que os ajuda. Só quando os tempos vão maus é que clamam por justiça. Em Mensandor, os anos trouxeram ao povo paz e prosperidade. Os homens esqueceram-se dos velhos tempos em que os pais lutavam pelas terras. Esqueceram-se da espada. Se não fossem uns poucos, a profecia ter-se-ia perdido completamente.

Quentin passara a mão boa pelo cabelo. Tinha os olhos a arder. Sentia-se cansado. A noite já ia avançada e precisava de dormir.

Não sei como se fazem espadas nem o caminho para as minas secretas do alto dos Fiskills. E mesmo que já tivesse a espada, não sei o que faria com ela, pois não tenho mão para a empunhar.

Durwin atravessara o aposento e pousara-lhe a mão firme no ombro:

- Estás cansado. Devias ir descansar, como ali o Toli. - Durwin fizera um aceno de cabeça na direcção do Jher, que se enroscara num assento vazio e dormia a sono solto. - Vai para a cama. já falámos o suficiente para uma noite. Amanhã conversaremos mais. Acredita que ainda temos muito a discutir antes de partirmos.

Quentin acreditara. Tinha mil perguntas esvoaçando-lhe em volta da cabeça como corvos sobre um campo acabado de semear, mas sentia-se exausto e só pensava em dormir.

- Mais alguém sabe da... da... - Faltavam-lhe as palavras. já não conseguia pensar.

- Não, por enquanto não, embora o Ronsard e o Theido saibam que não ficaremos parados. Mencionei ao rei Eskevar as minhas suspeitas relativamente a estes acontecimentos, mas ele não sabe nada da espada. Ninguém, para além de nós os quatro, sabe nada daquilo que falámos esta noite.

- Boa noite, Quentin. Vai para a cama. Voltaremos a falar amanhã de manhã.

Como se obedecesse a um sinal, Toli acordara e deslizara até à porta, levando o seu amo consigo. Dali a pouco, Quentin afundava-se no seu leito. Atirara-se para cima da cama sem se dar ao trabalho de se despir, e parecera-lhe que mergulhara num mar quente e silencioso. Adormecera quando as ondas se haviam fechado sobre ele.

O dia seguinte fora um amontoado de mapas e pergaminhos, tão velhos e cheios de pó que ninguém se atrevia a respirar em cima deles, e de estonteantes conversas. Sentindo que se aproximava rapidamente a altura de viajar, Toli começara a escolher animais e provisões para a jornada. Quentin vira várias vezes Durwin e Toli de cabeças encostadas, verificando um ou outro pormenor do plano de Toli.

Quentin perguntava-se porque não era consultado sobre os preparativos, mas, ao mesmo tempo, sentia-se satisfeito por não ter de pensar neles. já tinha tantas coisas com que se ocupar, que quase sentia a cabeça a estalar. Além disso, sentia a falta de Bria. Só a via de fugida durante as refeições que tinha de engolir apressadamente.

Sabia bem que ela percebera que ele ia partir. Diziam-lho os seus olhares silenciosos, os seus sorrisos amargos e os seus gestos furtivos. Mas ela não lhe falava em nada nem tentava retê-lo perto de si. mesmo uma característica da sua maneira de ser que ela, na medida humanamente possível, pusesse os seus sentimentos de lado e tentasse tornar-lhe os últimos dias mais fáceis. E Quentin amava-a ainda mais por isso.

Quando, por fim, reunira coragem suficiente para lhe dar a terrível notícia da sua partida, Bria pousara-lhe os dedos nos lábios, dizendo:

- Não fales. Sei que tens de me deixar. Soube-o logo que te vi sair da câmara do Conselho. Tens muito a fazer, grandes missões a cumprir e eu não te prenderei com promessas.

"Vai, meu amor. E, quando regressares, encontrar-me-ás à tua espera. As mulheres da minha posição estão habituadas a esperar. Não te preocupes comigo, meu querido. Passarei melhor este tempo se te souber em paz.

Apesar do braço partido, Quentin cingira-a a si durante muito tempo, pensando se alguma vez voltaria a vê-la.

Com a pressa que tinham, dispunham de pouco tempo para a meditação ou para a tristeza... isso viria depois. Naquele momento, havia muito a fazer. Em dois dias, tinham conseguido fazer aquilo que normalmente levaria uma semana.

Haviam passado muitas horas reunidos em conselho com o rei que, embora com alguma hesitação, imediatamente aprovara o seu plano. Com as colinas e os campos transformados em esconderijo dos Ningaal, que ninguém sabia onde estavam exactamente, Eskevar sentia uma certa relutância em deixá-los partir sem uma escolta armada.

Mas, por fim, haviam conseguido convencê-lo de que isso só viria dificultar a sua missão. Era melhor passarem pelo mundo sem serem anunciados e sem terem de movimentar muitos homens e cavalos em segredo.

Quentin, Toli e Durwin iriam. Biorkis, demasiadamente velho para aguentar os rigores da jornada, ficaria em Askelon para ajudar e aconselhar no que fosse preciso. Se houvesse batalha, as suas aptidões de físico seriam necessárias para socorrer os feridos. Além disso, e embora não o dissesse a ninguém, Durwin receava que Eskevar, ainda não completamente recuperado da sua misteriosa doença, precisasse de ser vigiado por alguém competente durante a sua ausência. Se não fosse isso, Durwin teria partido com o coração mais leve.

Os carreiros escuros e frescos de Pelgrin, encimados por galhos frondosos, que só não impediam a passagem dos raios de sol mais determinados, foram acalmando o espírito de Quentin. O pesar abandonou-o a pouco e pouco e foi substituído pelo entusiasmo da sua missão. Embora ainda lhe fosse difícil aceitar que tinha um papel crucial a desempenhar (afinal de contas, sentia-se o mesmo Quentin de sempre), deixou-se embalar, numa espécie de êxtase, pela história da poderosa Zhaligkeer, a Espada do Fogo Sagrado.

 

- Onde vamos arranjar um mestre armeiro que nos ajude a forjar a espada? Não me lembro de teres falado nisso. Ou estás à espera de que o façamos sem nenhuma orientação? - Quentin descansava com as costas encostadas a um tronco musgoso, numa clareira verde situada no coração de Pelgrin. Toli andava atarefado a espreitar os fardos dos animais de carga, para arranjar alguma coisa para comerem. já cavalgavam desde o nascer do Sol e aquela era a primeira vez que paravam.

- Parece-me que sei onde poderemos encontrar alguém competente - retorquiu Durwin, com as mãos por trás da cabeça e os olhos virados para o céu. - O nome Inchkeith. faz-te lembrar alguma coisa?

- Inchkeith! Diz-se que nunca houve armeiro mais hábil. Foi ele que fez a armadura do primeiro Rei Dragão e que concebeu as vestes que o rei Eskevar levou para as guerras contra o Goliah. Toda a gente conhece esse nome! Mas ele ainda é vivo?

- E bem vivo! Mas faze-lo mais velho do que realmente é. Foi o pai dele, Inchkeith, o Vermelho, quem fez a armadura do primeiro Rei Dragão e de vários reis antes dele. Há muito que descansa no seu túmulo.

"Mas o filho continuou o trabalho começado pelo pai e tornou o nome ainda mais conhecido. Não admira que as lendas abundem sempre que haja homens a apertar caneleiras e gorjais. Diz-se que as armaduras feitas pelo Inchkeith são as melhores do mundo.

Durwin sorriu e pestanejou em resposta ao olhar de completo espanto de Quentin:

- Então, que dizes? Achas que serve para fazer a espada?

- Feita pelo mestre Inchkeith, até uma fisga serviria! Claro que sim!

Comeram a refeição e falaram do caminho a percorrer. Toli esteve quase sempre calado, e Quentin suspeitou que ele estava concentrado na reactivação da sua adormecida habilidade de caminhante: havia muito que o astucioso jher não tinha oportunidade de praticar as lendárias aptidões do seu povo. As pequenas jornadas de e para Askelon não contavam, pois a estrada era boa. Mas para onde iam precisariam da sua destreza quase animal, porque não existiam estradas, nem caminhos, nem sequer carreiros. Havia mil anos que os homens não punham os pés naqueles lugares tão altos.

Quentin pensava em tudo isto quando percebeu que, da mesma maneira que não sabia como ia fazer a espada, também não tinha um conhecimento exacto do sítio para onde se dirigiam.

- Durwin, onde ficam as minas? Como vamos encontrá-las?

- Trouxe comigo uns mapas, tirados tal e qual dos pergaminhos antigos. Posso mostrar-tos agora. Estão ali. - O eremita foi até um dos animais de carga e regressou com um comprido rolo de couro.

"É por aqui que vamos - disse, desenrolando-o. - Este mapa é muito antigo e a terra está mudada: desapareceram rios dos seus cursos e houve outeiros que ficaram planos, florestas que se extinguiram e cidades que foram construídas e destruídas. Mas servirá para nos guiar.

Quentin apalpou a pele curtida na qual o mapa estava pintado.

- Não parece assim tão antigo como dizes. Durwin. Tem ar de ter sido feito ontem.

- E foi! - Durwin soltou uma gargalhada. - Não me atrevi a trazer o original. Ou antes, os originais, porque este mapa foi feito a partir de fragmentos que eu e o Biorkis; encontrámos ao longo dos anos. Estava fora de questão trazer esses fragmentos, devido à sua idade, pois desfazer-se-iam logo que soprasse a primeira brisa.

"Não, este mapa foi feito por mim e pelo Biorkis, e ainda é melhor exactamente por causa disso. Ele tinha informações que eu não possuía e vice-versa. Foi uma sorte ter aparecido. Mesmo que não faça mais nada, já ajudou muito.

- Durwin - ironizou Quentin -, não sabes que sorte e coincidência são palavras que não existem para os servos do Altíssimo?

O eremita riu-se e levantou as mãos:

- É verdade! Rendo-me! O aluno deu uma lição ao professor.

- Vês que nem sempre sou tapado? - Quentin tornou a olhar para o mapa, que pouco mais parecia do que um esboço. - Seja como for, isto não nos indica quase nada. Nem sequer vejo minas assinaladas aqui.

- Pois é. Mas não temos mais nada... além do enigma.

- Enigma? - inquiriu Toli, indo pôr-se ao pé deles a olhar para o mapa.

- Não vos falei do enigma? Não? Então falo agora. Houve tanto que fazer em tão pouco tempo que não me admira que vos sintais pouco preparados para iniciardes esta jornada. Pensei que vos tinha falado do enigma. É assim:

Em cima de dentes, por baixo depatas, vai com cuidado.

Onde as montanhas dormem, mantém-te vigilante e verás melhor o caminho. Quando ouvires risos entre as nuvens, uma cortina de vidro verás. Não cuides de nada, ou nunca passarás. A cortina e o trovão dividirás e o caminho estreito procurarás; O dia pela noite darás e a luz reterás. E assim o dia ganharás.

- Parece muito fácil - disse Quentin. - Onde o descobriste?

- Veremos. Tenho a certeza de que nos vai parecer bastante mais difícil quando chegar a altura de desvendarmos o seu significado. Quanto ao sítio onde o descobri, já devias saber.

- Como?

- Foi em Dekra que descobri o pouco que sei disto. O Yeseph traduziu-me o enigma.

- Ele nunca me disse nada.

- Porque havia de dizer? Foi há muitos anos, quando eu, ainda rapaz, não lhe largava os livros, feito um rato de biblioteca. Dei com o enigma por acaso, num livro que mencionava as minas dos Ariga.

- São as minas que procuramos?

Durwin assentiu:

- Sabes, a espada tem de ser feita de lantbanil.

- A pedra que brilha - acrescentou Toli. - O meu povo já ouviu falar dela. Diz-se que, antigamente, os Ariga davam aos Jher presentes de pedra brilhante, em reconhecimento pela sua amizade no tempo da morte branca. Quem tocasse na pedra ficava curado e sem ferimentos. Chamavam-lhes khoen ravish, pedras que curam.

- Pelo menos disso também ouvi falar. Mas pensei que, tal como muitos conhecimentos dos Ariga, também o lantbanil tinha desaparecido deste mundo.

-Julgo que não, mas vamos ver - retorquiu Durwin - O altíssimo mostrar-nos-á se tenho razão. Não nos esqueçamos de que é ele que nos guia. Não precisamos de nos afligir muito com aquilo que não podemos prever. Sem dúvida que já nos bastam as coisas que temos à frente dos olhos.

Theido e Ronsard, seguidos por trezentos cavaleiros montados, dirigiam-se para sul o mais depressa que os seus corcéis conseguiam cavalgar. Queriam encontrar-se com Wertwin no terceiro dia e, depois, ir ao encontro do inimigo antes de este poder deslocar-se muito mais e fortalecer-se com os despojos de Mensandor.

Ao meio-dia do terceiro dia chegaram ao local de encontro. Enquanto esperavam que o exército de Wertwin chegasse, os cavaleiros desmontaram e espalharam-se pelo campo de erva. Os escudeiros foram dar de beber aos cavalos e cuidar das armaduras dos seus amos; alguns puseram-se a polir couraças e a pintar divisas apagadas pelo tempo e outros a tirar as pedras para afiarem lâminas que havia muito não eram usadas; nas suas carroças, os ferreiros alisavam as mossas dos elmos e dos braçais sobre as suas bigornas.

O dia era preenchido pelo ruído de um exército cuidando do seu armamento. Theido e Ronsard tinham ido pôr-se à sombra de uma árvore, onde esperavam o seu camarada. À medida que a tarde se ia aproximando, Ronsard adormeceu e Theido começou a passear para trás e para diante.

- Ele ainda não chegou? - perguntou um Ronsard sonolento, levantando-se e espreguiçando-se.

- Não, e estou aqui a pensar se não será melhor mandarmos urn batedor ver o que lhe aconteceu. Ele devia estar aqui à nossa espera e, em vez disso, somos nós que esperamos e ele não aparece.

"Vou mandar o Tarkio um bocadinho à frente, para ver se consegue descobrir o que aconteceu ao nosso atrasado amigo. Talvez nada. Não é fácil mobilizar uma força de cavaleiros num único dia. Se calhar, começou tarde.

- Esperemos que tenha sido isso - volveu Theido, que nem precisou de mencionar a outra explicação que lhe veio à ideia, pois ambos sabiam qual era e nenhum deles queria falar ou acreditar nela.

Ronsard mandou um escudeiro chamar o cavaleiro e ficaram os dois à espera que o mensageiro estivesse pronto.

- Estás a abrir um caminho na erva. Os teus passos puseram a terra a descoberto.

- isto agrada-me cada vez menos, Ronsard. Aconteceu alguma coisa. Sinto-o aqui. - Deu com o punho no estômago liso.

Ronsard contemplou o seu sombrio amigo:

- Quando se trata de batalhas, os teus instintos são apurados. O que pensas que devemos fazer?

Antes de Theido poder responder, ouviram uma trombeta de batalha no bosque. Os seus toques de alarme pareciam rodeá-los. Virando-se e olhando para o outro lado do campo, viram um cavaleiro surgindo do bosque. Um dos seus fê-lo parar; houve um agitar de armas. Depois, o cavaleiro olhou para eles e esporeou a montada. Dali a um momento, galopava na direcção de Theido e de Ronsard.

- Nobres cavaleiros, senhores! Venho da parte do meu senhor Wertwin - anunciou o soldado a ofegar, saltando da sela. - Quando vínhamos para aqui, o inimigo cortou-nos o caminho... - Engoliu em seco; o suor escorria-lhe do pescoço para dentro da túnica. Tinha a armadura amolgada e manchada de sangue.

- Muito longe daqui? - perguntou Ronsard.

- A cerca de uma légua, senhor - arquejou o cavaleiro.

- Para que lado pendia a sorte quando te mandaram vires ter connosco?

O cavaleiro abanou lentamente a cabeça; a sua expressão era grave:

- As esperanças são poucas. O inimigo é forte e numeroso. O meu senhor foi rodeado por três lados e ficou de costas para o lago situado no princípio da floresta.

- Não há tempo a perder! - gritou Ronsard. - Tocai a trombeta! Partimos imediatamente! - Precipitando-se para o cavalo, desatou a berrar ordens aos homens que se tinham reunido para saberem a razão de toda aquela agitação.

Num abrir e fechar de olhos, o campo transformou-se numa confusão de cavaleiros afivelando as armaduras e subindo para as selas. Mas do caos surgiu uma hoste temível e a postos para a luta. Theido e Ronsard tomaram os seus lugares, cada um à cabeça de uma coluna, e o exército partiu a galope, deixando os armeiros e os escudeiros a carregarem as carroças. Mais tarde segui-lo-iam.

O clamor da batalha ouvia-se muito antes de se ver, As forças do rei desceram a encosta arborizada e penetraram na depressão larga e cheia de erva, salpicada de montículos verdes, que constituía o lado mais alto da bacia do lago. Uma vez abaixo do nível das árvores, viram que, realmente, o inimigo cercara as tropas de Wertwin e tentava empurrá-las para o lago.

Theido e Ronsard desdobraram o exército ao longo da orla da bacia e, quando os cavaleiros ficaram em posição, mandaram tocar a atacar. Depois, desceram rapidamente do bosque, rodearam o campo e lançaram-se sobre o grosso das forças inimigas. Os espantados Ningaal viraram-se, deram de caras com uma carga inesperada e encontraram-se frente a frente com um inimigo fresco que nem uma alface. Ronsard tinha algumas esperanças de que, ao verem os numerosos cavaleiros do rei descendo sobre eles, os soldados da horda fugissem em debandada para o bosque, onde seriam abatidos como coelhos.

Mas os homens do comandante Gurd estavam acostumados à batalha: atirando-se de cabeça, aguentaram a carga de frente. Houve muitos que perderam a vida neste primeiro ataque. Mas, com uma ousadia aparentemente imune ao medo, os que sobreviveram à chacina limitaram-se a passar por cima dos corpos dos seus camaradas e continuaram a lutar.

Theido abriu à força uma passagem para a borda do lago e foi dando golpes a torto e a direito até ao sítio onde Wertwin lutava, mesmo no coração da batalha. Quando Theido lá chegou, viu que as patas traseiras do cavalo do bravo comandante já estavam dentro de água. Vários valorosos cavaleiros haviam caído das selas e, incapazes de se levantarem, tinham-se afogado em águas pouco profundas.

Havia baixas por todo o lado. Tanto o sangue de amigos como de inimigos manchava de um vermelho ferrugento os seixos cinzentos.

Ronsard conduziu o seu contingente para a retaguarda, entalando o inimigo entre as suas forças e as de Theido. À custa de muita força (Os cavaleiros estavam montados e o inimigo a pé), Ronsard juntou-se rapidamente a Theido, conseguindo dividir os Ningaal em duas metades isoladas.

- Eles são mais do que nós! - gritou Ronsard quando se aproximou o suficiente para o seu camarada o ouvir.

- Os nossos cavalos e armaduras equilibram a balança' - retorquiu Theido.

As espadas dos cavaleiros faiscavam ao sol e os seus escudos suportavam o embate de poderosos golpes. Montados, os cavaleiros eram quase invulneráveis, fortalezas vivas de aço, cujas armaduras só não aguentavam os golpes mais directos. A pé, no entanto, o peso das armaduras tornava-lhes os movimentos lentos, pondo-os em desvantagem relativamente aos Ningaal, mais mal protegidos mas muito mais ágeis.

A sorte da batalha pendia ora para um lado ora para o outro. O ruído do aço entrechocando-se e os gritos dos feridos e dos moribundos enchiam o ar. Tendo provado o sabor do sangue no vento, aves necrófagas voluteavam no céu. A um sinal desconhecido, os Ningaal soltaram um grito terrivel e lançaram-se, de repente, para o outeiro que Theido e Ronsard haviam conseguido conquistar. Esta táctica permitiu-lhes reunir as duas metades que tinham sido divididas.

- Não vamos aguentá-los por muito tempo - disse Ronsard de dentes cerrados; a espada assobiava-lhe em volta da cabeça. - Ou atacamos agora ou ficamos outra vez encurralados entre eles e o lago.

- Pois é. Tens alguma sugestão? - resmungou Theido, rodando na sela e desferindo golpes de espada à esquerda e à direita.

- Carregamos à beira da água e depois voltamos para os bosques! - berrou Ronsard.

- Retiramos? - perguntou Wertwin. - Prefiro morrer com os meus homens.

- Digamos que vamos lutar para um terreno mais favorável – gritou Theido. - Se ficarmos aqui muito mais tempo, seremos novamente empurrados para o lago. Eles são muito fortes para nós. - Virando-se, gritou as suas ordens ao corneteiro, que, obedientemente. fez soar a trombeta.

Os cavaleiros do Rei Dragão reuniram-se e abriram caminho ao longo da linha de água do lago azul; os que estavam espalhados por mais longe pararam de lutar e seguiram-nos. juntaram-se-lhes vários cavalos sem cavaleiro e cavaleiros a pé, que não queriam ficar para trás.

Quando chegaram ao bosque, onde o terreno começava a subir, Ronsard fez alto e mandou os seus homens virarem-se novamente de frente para o inimigo. Os cavaleiros de Theido e de Wertwin passaram por eles e foram embrenhar-se no bosque. Ronsard gritou aos seus cavaleiros que se preparassem para desmontar logo a seguir ao primeiro embate. Ali mesmo, no espaço apertado do bosque, decidira que seria melhor os seus homens combaterem a pé, tirando proveito da maior elevação do terreno.

Mas os Ningaal não os seguiram até ao bosque.

- O que é isto? Eles estão a retirar! - gritou Ronsard, incrédulo.

Theido pôs-se a seu lado num abrir e fechar de olhos:

- Não compreendo. Ainda falta muito para o Sol se pôr e eles já estão a retirar...

- Vamos atrás deles! - sugeriu Wertwin.

Mas Ronsard, cauteloso, retorquiu:

- Deixá-los ir. Não creio que seja por medo que não nos seguem. Ali em baixo, lutaram de igual para igual. Eles não estão a fugir. Pode ser uma armadilha.

- Mas nós esmagá-los-íamos! - protestou Wertwin.

- Nem pensar, senhor! - objectou Theido. - Ainda há pouco estávamos em dificuldades. E isso não mudou só porque eles optaram por retirar. O ronsard tem razão: não é por fraqueza que eles retiram do campo de batalha.

Theido passeou o olhar pelo campo verde, onde agora jaziam os corpos dos mortos e dos moribundos. No cimo do outeiro que tinham acabado de deixar, viu uma figura solitária montada num robusto cavalo preto. A figura levantou a viseira do elmo emplumado e virou o rosto para o bosque, na direcção de Theido, Wertwin e Ronsard. Depois, saudou-os, erguendo bem alto a cruel espada de lâmina curva.

- É o comandante - disse Theido.

- Está a desafiar-nos! - acrescentou Wertwin.

- Talvez seja uma saudação... ou um aviso - replicou Ronsard sombriamente.

O guerreiro baixou a espada, virou-se e seguiu atrás do seu exército, que se deslocava ao longo do outro lado do lago, deixando o campo entregue às aves e aos gemidos dos feridos e dos moribundos.

- Que um grupo de soldados vá recolher os nossos feridos e retirar as armaduras aos nossos mortos. Hoje não vai haver mais nenhum ataque - disse Theido. - Depois, voltemos ao acampamento para nos reunirmos em conselho. Gostaria de saber o que Myrmior tem a dizer sobre o que aconteceu hoje aqui. Pode ser que ele tenha muito a contar.

 

Os senhores de Mensandor, reunidos em conselho, encontravam-se sentados nas suas cadeiras de espaldar, sob os seus estandartes azuis, dourados e vermelhos. Com as mãos finas e nodosas apertadas como garras em volta dos braços do trono, colocado em cima do palanque, Eskevar lançava um olhar colérico ao Conselho.

- O inimigo fortalece-se a cada dia que passa. Quanto tempo mais esperareis, senhores? Quanto tempo? Até aos vossos castelos arderem? Até o sangue das vossas mulheres e filhos tingir a terra de vermelho?

"E para quê? Pensais que ao esconder-vos dentro das vossas portas salvareis o vosso precioso ouro? Pois digo-vos que não! O inimigo vem aí! Aproxima-se. É tempo de agir!

As palavras do Rei Dragão ecoaram com uma força e um vigor surpreendentes para um homem que, de tão alquebrado pela doença, não parecia ele nem sombra dele. Os senhores ali reunidos, naquele momento na totalidade (excepto, Wertwin, que já tomara a sua decisão e estava com Theido e Ronsard), permaneceram em silêncio. Ninguém queria ser o primeiro a ir contra o rei.

- Duvidais de que seja necessário? - perguntou Eskevar num tom de voz mais suave. - Eu digo-vos: mandei a minha escolta pessoal, os meus trezentos homens, contra os Ningaal. São conduzidos pelo Theido e pelo comandante-chefe Ronsard, aos quais se juntou o Wertwin com o seu exército de cem homens. São cavaleiros galantes e corajosos... mas não chegam. Se queremos esmagar os Ningaal e expulsá-los das nossas costas, temos de os apoiar com dez vezes mais cavaleiros homens armados.

Num tom de voz calmo, Ameronis disse:

- Esse é precisamente o ponto que gostaríamos de ver melhor explicado, Majestade. Esse inimigo... esse Nin, ou lá como se chama... não sabemos nada dele. Como podemos ter a certeza de que ele é tão forte e que tem tantos homens? Parece-me que seria mais prudente mandarmos uma força de batedores saber estes e outros pormenores antes de embarcarmos numa guerra total contra um inimigo imaginário, de força desconhecida.

- Como falas bem, Ameronis! Como tiveste muito tempo para ordenar os pensamentos, imagino que já sabes muito bem o que hás dizer. - O rei fez uma pausa, para que o seu sarcasmo atingisse o alvo.

"O Ameronis opôs-se a pegar em armas! - gritou Eskevar de repente - Quem mais desafia o seu rei?

Vendo que Eskevar desmascarara a subtil oposição de Ameronis, a assembleia ficou chocada e, nesse momento, vários senhores que tinham concordado em constituir uma coligação de nobres contra a formação e o financiamento de um exército começaram a hesitar. Era perigoso desafiar assim um rei, especialmente um rei tão poderoso como Eskevar. No fim, talvez não pagasse o ouro que poderiam poupar.

Mas Ameronis recuperou rapidamente:

- Compreendeis-me mal, Majestade. Não me oponho a uma acção claramente necessária. Quando chegar a altura de ir para a batalha, estarei à frente dos meus cavaleiros e ao vosso lado.

Lupollen, vizinho e amigo de Arneronis e o seu mais fiel aliado no Conselho, falou a seguir:

- Se o inimigo é tão poderoso como dizeis, Majestade, não é estranho que nunca tenhamos ouvido falar dele? É isso que me confunde.

Ouviu-se um mumúrio de assentimento. Eskevar lançou um olhar

cortante a Lupollen e retorquiu:

- A ti também te conheço, senhor. O facto de o rei ter mandado os seus cavaleiros para a batalha deveria bastar como prova àqueles que são leais à Coroa. Porque duvidas do teu rei?

A seguir aos comentários de Eskevar, fez-se silêncio. o rei fitou à vez cada um dos seus senhores, como se quisesse gravar na memória a posição exacta de cada queixo e a expressão estampada em cada rosto.

- Disse tudo o que podia, senhores de Mensandor. E, quando o julguei mais vantajoso, deixei que outros falassem. - Referia-se a Esme, que, mais uma vez, pedira ajuda ao Conselho nesse dia. - Não tenho mais nada a dizer. É convosco. Se quisermos que Mensandor sobreviva, não podemos ficar de braços cruzados.

Descendo do estrado, Eskevar penetrou no círculo das cadeiras do Conselho. Depois, num gesto pouco característico do Rei Dragão (o que não deixou de produzir efeito), estendeu as mãos e implorou:

- Não espereis muito. Entrego o assunto nas vossas mãos.

Deixou o Conselho de Guerra num silêncio total. Ninguém se atreveu a falar até ele estar bem longe. Só então começou um duro debate: Ameronis, Lupollen e os seus amigos opunham-se ao chamamento às armas do rei, e Benniot, Fincher e vários outros apoiavam-no com igual firmeza.

A discussão foi amarga, acalorada e longa: durou todo o dia. Eskevar regressou aos seus aposentos para meditar sombriamente na teimosa cegueira dos seus independentes e auto-suficientes senhores.

Cada légua que percorriam aproximava-os do sopé dos Fiskills, que passaram de um violeta nebuloso a azul, acima do verde mosqueado dos montes arborizados. O grupo partira para leste, em direcção ao grandioso coração da acidentada cordilheira montanhosa. Naquela região de Mensandor, os FiskilIs pareciam erguer-se abruptamente das colinas ondulantes que subiam suavemente até ao seu sopé. Eram uma muralha, como fora a intenção de Celbercor, uma fortaleza alcandorada nas alturas, que só não desencorajava os mais tolos ou os mais determinados. Foi esta fortaleza que Quentin, Toli e Durwin ousaram assaltar. A terra elevava-se a cada dia que passava. Quentin imaginava que sentia o vento a ficar mais frio e o ar fresco nas alturas a soprar sobre eles em momentos inesperados. Na paz do campo, com as suas aldeias pequenas e bem tratadas, tornava-se cada vez mais difícil acreditar nos ameaçadores acontecimentos que, em Askelon, tinham sido fonte de tantas preocupações. Até a experiência de Quentin no acampamento dos Ningaal parecia que acontecera a uma outra pessoa e que ele só ouvira falar disso. Se não fosse o seu braço ferido, pendurado ao peito, não acreditaria em nada.

Só à noite era espicaçado pela lembrança, que lhe chegava sob a forma da estrela, ligeiramente maior a cada noite que passava e que, por essa altura, parecia ofuscar o brilho de qualquer outra estrela, seu quadrante. Sólida e brilhante, lançava um halo de raios leitosos a partir do seu centro quente e branco. "Agora, todos a devem ver", pensava Quentin à noite, enrolado na sua capa. "De certeza que todos sentem o mal que pressagia."

Mas, com a chegada da manhã, a Estrela do Lobo desaparecia, assim como todas as outras luzes menores do céu. O feitiço da cintilante estrela quebrava-se com o nascer do dia.

- Falta muito para chegarmos a casa do Inchkeith? - perguntou Quentin uma manhã, quando se preparavam para partir.

- Se tivermos sorte, esta noite dormiremos em colchões de penas - respondeu Durwin.

- Então estamos assim tão perto? - Quentin não fazia ideia onde ficava a casa do lendário armeiro, mas parecia-lhe que as rochosas terras altas que, naquele momento, atravessavam não eram lugar onde se encontrasse um mestre da sua arte.

Durwin subiu a pé a encosta do pequeno monte onde haviam acampado. Quentin seguiu-o, semicerrando os olhos quando a luz da alvorada carmesim lhe bateu em cheio no rosto.

- Estás a ver aquele cume rochoso do outro lado do vale?

Quentin fez que sim com a cabeça ao ver a muralha escarpada cinzenta que lançava uma sombra preta sobre a cortina verde do vale coberto de pinheiros.

- Ele vive do outro lado do cume?

- Do outro lado, não... vive no cume! - riu Durwin. - Ou antes, quase, como vais ver. O Inchkeith é um homem estranho, com maneiras estranhas. Mas é dele que precisamos.

- Tu conhece-lo, Durwin? Até há bem pouco, nunca te tinha ouvido falar nele. - Embora não fosse nada improvável que Durwin mantivesse relações com um homem assim, Quentin observou o eremita seu amigo com uma certa desconfiança.

- Há muita coisa de que nunca me ouviste falar, meu jovem. Na minha cabeça só cabe metade do que sei de cada vez! - Piscou o olho e soltou uma gargalhada, que fez a sua voz ecoar na límpida manhã.

Toli assobiou lá de baixo. Quando se lhe juntaram, estava tudo pronto.

- Para dormirmos hoje à noite em colchões de penas e não em agulhas de pinheiro, é melhor partirmos. Vede como as sombras já se alongam. - Os olhos escuros de Toli faiscavam de bom humor, pois ele encontrava-se mais uma vez no seu elemento natural. A cada dia que passava, parecia voltar mais a ser a pessoa calma e enigmática que era quando Quentin o conhecera, anos atrás. "Com as peles de veado e a faca de osso", pensou Quentin, "voltaria a ser um príncipe jher."

- Aposto que preferias as agulhas de pinheiro, Toli. Mas vamos embora! Como tu dizes, o dia está a fugir-nos! - Com alguma dificuldade, mas sem ajuda, Quentin saltou para a sela de Blazer e virou o rosto para o calor do Sol nascente.

Lá para o meio-dia, passavam por cima deles imensos bancos de nuvens empurrados do norte, cinzentos como fumo, em baixo, e brancos como algodão, em cima. A massa em turbilhão crescia e ondulava, formando um tecto alcandorado no cume, que os fortes ventos achatavam.

- Vai chover - disse Toli.

- Achas que o tempo ainda se aguenta assim até chegarmos ao nosso destino?

- É possível - replicou Toli, olhando de esguelha para o céu.

- Mas já está a ficar mais fresco. O trovão sussurra no vento. Não sei se choverá já.

Quentin não ouvia nenhum trovão, mas, a partir do momento em que Toli o mencionara, pareceu-lhe reparar que a suave brisa que levantava as folhas das árvores estava, de facto, mais fria.

- Então, é melhor não ficarmos parados a dar à língua! - gritou Durwin. - Se pudermos manter-nos secos, tanto melhor. Se não comermos agora, desforrar-nos-emos depois com um jantar quente.

- Concordo plenamente! - exclamou Quentin, esporeando Blazer - Vamos embora!

Durwin incitou o seu cavalo castanho e Toli seguiu-o com os dois animais de carga; Quentin foi atrás deles, sempre de olho nas nuvens que se juntavam lá em cima. Nessa manhã, tinham andado bem, pois só haviam parado para renovar a água dos odres num regato impetuoso, no coração do vale. Sempre que Quentin erguia o olhar parecia-lhe que a grande muralha de pedra cinzenta, indistinto baluarte entre os recortados ramos dos pinheiros, se aproximava cada vez mais depressa.

Por fim, Quentin ouviu o chapinhar que a água de um ribeiro fazia ao passar sobre as pedras. O grupo deixou o abrigo dos pinheiros e chegou a um canal rochoso, escavado por um rio pouco profundo, que fazia espuma ao ressaltar sobre as pedras pretas e redondas como pães. Apesar da sua impetuosidade, a água mal chegava aos topetes dos cavalos, mas o rio era da largura do pátio interno de um castelo. Durwin percorreu a margem barrenta e virou para nascente. paralelamente ao cume.

Ao longo da margem, as peças de água espelhavam as imensas nuvens negro-azuladas. O vento estava mais frio e Quentin sentia na terra o cheiro bafiento da chuva.

O ribeiro descrevia uma curva ladeada por pinheiros altos, muito finos. de agulhas compridas, que sussurravam ao vento que se levantava.

- A chuva vem aí! - gritou Durwin.

- Espero que ainda não falte muito - retorquiu Quentin, pondo-se ao seu lado. - Se calhar, devíamos abrigar-nos e esperar que o primeiro aguaceiro passasse.

- Se não me engano, não temos muito que andar. Olha ali à frente. - O eremita apontou para os penhascos cinzentos que tinham novamente à frente. - Estás a ver o ponto em que a água sai da base da parede do cume? É mesmo em frente.

- Parece uma parede toda inteira - observou Quentin.

- Vais ver, vais ver.

- Se não nos despachamos, Inchkeith, o armeiro, vai receber três viajantes encharcados - comentou Toli. Quando acabou de falar, as primeiras gotas de chuva, muito grossas, começaram a cair nas poças e no caminho, levantando pequenas nuvens de poeira.

Com um vigor renovado, esporearam as montadas. As pesadas gotas pingavam à sua volta e faziam-lhes manchas escuras na roupa.

Ao aproximarem-se do local indicado por Durwin, Quentin viu na parede rochosa uma dobra em que ainda não reparara. No ponto em que o ribeiro aparecia à superfície, o lado esquerdo do penhasco curvava abruptamente e o direito sobrepunha-se-lhe. Vista de longe, a parede parecia contínua, Mas, de facto, ao seguirem o rio em direcção à vasta base rochosa, abriu-se à sua frente.

Ao encontrar-se com a cumeeira, o terreno elevava-se ligeiramente, os pinheiros cresciam mesmo até à face da parede cinzenta. Os cascos dos cavalos martelaram num talude de pedra e atravessaram o penhasco. Assim, chegaram a uma paisagem de tirar a respiração. Apesar das gotas de chuva que caíam à sua volta, Quentin, maravilhado, parou para admirar a vista. Um vasto campo ondulante e muito verde estendia-se de cada lado do ribeiro, agora mais estreito e profundo. Rodeando o prado e encimando-o por todos os lados, erguiam-se suaves muralhas de pedra muito lisa, azuis, sob o céu negro. Do outro lado do prado, que Quentin calculou ter uma légua de largura e meia légua de comprimento, erguia-se uma enorme casa de pedra branca, luzindo como as velas brancas de um barco num mar cor de esmeralda.

- Aquela é a casa do Inchkeith - indicou Durwin. - Chegámos mesmo a tempo.

O barulho de um trovão atravessou o cume e fez ouvir a sua voz ribombante por todo o prado. A erva alta começou a baixar-se e a elevar-se como as ondas de Gerfallon ao sabor do vento.

Com a chuva, agora mais violenta, picando-lhes o rosto, galoparam pelo lindo prado. Quentin sentiu um arrepio de excitação quando um relâmpago cruzou os céus, imprimindo neles uma faiscante linha em ziguezague. O trovão que se seguiu encheu o desfiladeiro azul e ribombou através do vale, atrás deles.

A casa de Inchkeith tinha o tamanho de um castelo pequeno, e esta impressão era reforçada por uma única torre imponente, que servia de portão de entrada para um pátio grande, com pavimento de pedra. Em volta da casa principal viam-se várias estruturas mais pequenas. também da mesma pedra branca. O ribeiro, de curso profundo e calmo através do prado, formava uma graciosa cascata ao cair da superfície nua da rocha, por trás da habitação do mestre armeiro. Do outro lado, no sítio em que a água descia para o prado, uma grande roda girava lentamente na rápida corrente.

Quando os viajantes se detiveram em frente da torre, não se via ninguém. Uma grade de ferro finamente trabalhado barrava-lhes o caminho para o pátio.

- Não há nenhum guarda, porque ele não espera viajantes e tem poucas visitas - observou Durwin.

O eremita deslizou do seu cavalo e encaminhou-se para a arcada. De um nicho de pedra pendia uma corda entrelaçada. Durwin agarrou-a e puxou-a duas vezes, muito depressa. Ouviu-se uma sineta repicando no pátio.

- Isto deve chegar para virem a correr ver quem é - disse Durwin. A chuva caía com mais força; dali a pouco, estariam encharcados até aos ossos. Do outro lado do prado, de onde tinham vindo, grandes lençóis brancos e cintilantes de chuva dirigiam-se para eles, empurrados pelo vento como se fossem velas. A água formava poças em volta das patas dos cavalos e escorria pelas paredes da mansão.

- Quem quer entrar na casa do meu amo? - Quentin não vira o jovem franzino sair de uma porta e atravessar o pátio a correr. Naquele momento, com a capa por cima da cabeça, espreitava através das grades trabalhadas.

- Diz ao teu amo que o santo eremita de Pelgrin, Durwin, e os seus amigos Quentin e Toli estão aqui ao serviço do rei, para lhe falar. Diz-lhe que lhe pedimos respeitosamente a hospitalidade devida aos viajantes. E diz-lhe tudo isto depressa, para não ficarmos num estado lastimável. - Durwin limpou o fio de água que lhe escorria pelo nariz.

O jovem pareceu pesar cuidadosamente a sua decisão:

- Vós não pareceis indisciplinados. Entrai e abrigai-vos da chuva enquanto eu vou falar com o amo. - Dizendo isto, desapareceu num recanto ao lado da grade; dali a momentos, a pesada porta de ferro começou a subir suavemente, sem um único estalido ou rangido. Era óbvio que fora feita com a maior habilidade.

Os molhados viajantes apressaram-se a abrigar-se debaixo do arco do portão à espera que o jovem servo voltasse. Quentin e Toli desmontaram e ficaram a pingar no escuro túnel da arcada. Quentin estava impressionado com a simplicidade de tudo o que via ao seu redor. Nem postes nem portais possuíam um bocadinho que fosse de ornamentação. Em volta do pátio não havia nada que parecesse deslocado e o próprio pátio estava impecável. A mansão de Inchkeith era toda feita de linhas direitas e ângulos bem desenhados; via-se que fora construída com todo o rigor. Não havia fendas nem buracos por lado nenhum.

No conjunto, o efeito fazia lembrar a Quentin a arquitectura de Dekra, embora nem por sombras derivasse dela. Mas impressionava-o a aparência perfeita de tudo o que os seus olhos encontravam, pois revelava umas mãos que não deixavam nada por fazer e um espírito que se preocupava com todos os pormenores. Quentin ouviu um grito e viu o jovem servo acenando-lhes de dentro da entrada abobadada do salão da mansão. Correndo pelo canto do pátio, juntaram-se-lhe todos por baixo do pórtico.

- Vinde comigo. Não vos preocupeis com os cavalos. Mandarei alguém tratar deles. O meu amo convida-vos a acompanhá-lo à mesa, no grande salão, se assim o desejardes.

- Claro que sim! - quase gritou Quentin. Tinha fome e frio e estava molhado. Naquele momento, uma refeição quente parecia-lhe a coisa mais deliciosa do mundo. - Vamos!

O jovem magricela, de ossos compridos, conduziu-os ao longo da curta passagem que dava para a entrada do salão, empurrou a porta de gonzos de ferro e mandou-os entrar. O salão era amplo e gracioso, mas obedecia ao mesmo estilo simples, quase severo, do exterior. Admirado, Quentin olhou em volta. Vários servos atarefavam-se de um lado para o outro, preparando tudo para a refeição. Em frente de uma única mesa comprida, com bancos corridos de ambos os lados, encontrava-se uma lareira larga, na qual ardiam vivamente vários troncos dispostos com perfeição. A chaminé devia ter uma excelente tiragem, pois Quentin reparou com satisfação que não se viam vestígios de fuligem nas paredes ou no tecto do salão. Estava tudo tão limpo como se nunca tivesse sido usado, mas, ao mesmo tempo, quente e acolhedor.

O aspecto da morada de Inchkeith desenhou no espírito de Quentin a imagem de um senhor (assim passou a considerá-lo) severo, rigoroso e de porte real., de um homem irascível, com uma vontade tão forte como a porta de ferro que tinha à entrada e uma capacidade de julgamento precisa e sem falhas, de uma pessoa que nunca aceitaria de ânimo leve a imperfeição ou a desonra. De um homem poderoso, forte e gracioso. De um homem de uma perfeição inflexível e fervorosa, obedecido por todos os que o rodeavam com uma eficiência silenciosa e uma cortesia sem falhas.

- Durwin! Meu velho resmungão! - troou atrás deles uma voz clamorosa. - Bem-vindos! Bem-vindos, bons amigos! Bem-vindos à Mansão Branca!

Quentin virou-se, esperando ver o homem que imaginara, A imagem que desenhara tão cuidadosamente no seu espírito ruiu completamente quando o jovem deu com os olhos no senhor da Mansão Branca.

 

- Devieis ter-me deixado acompanhar-vos - disse Myrmior.

- Eu podia ter-vos ajudado contra eles.

- Não. - Ronsard abanou a cabeça severamente. - És um aliado demasiadamente precioso. Ajudas-nos mais com o teu conhecimento dos Ningaal do que com o teu braço forte. Se tivesses sido morto hoje, como o foram muitos homens bons, não teríamos ninguém para nos ajudar a preparar-nos contra eles.

- Como quiseres, meu senhor Ronsard. Obedecer-te-ei. Mas queria que soubesses que não tive medo e que, quando chegar a altura de erguer a minha espada contra os meus antigos algozes, fá-lo-ei com toda a coragem.

- Nós não duvidamos do teu valor, bravo Myrmior. Claro que, na altura apropriada, irás connosco. Mas o Ronsard tem razão: vales mais para nós como guia para os pensamentos e o coração dos Ningaal do que como guerreiro. Homens decididos temos muitos, mas tu és único.

Wertwin, sentado ali perto, não falava. Estava pesaroso com a perda de tantos homens bons; como fora ele que aguentara o embate da batalha, via-se agora privado de quase metade das suas tropas.

Depois do ousado salvamento do exército de Wertwin pelas forças de Theido e de Ronsard, tinham voltado todos ao campo, para aí acamparem durante a noite. Enquanto estavam sentados trocando opiniões, o ferreiro e o físico reparavam armas e homens, e ouviam-se por todo o acampamento as pancadas do martelo na bigorna e os gemidos dos feridos. Para a vigília da noite, haviam-se colocado sentinelas nos seus postos e acendido fogueiras. Theido, Ronsard, Myrmior e Wertwin voltaram mais uma vez a sua atenção para os brutais acontecimentos daquele dia.

- Não podemos voltar a ir contra eles como fomos hoje - observou Ronsard sombriamente. - Eles são muito fortes e disciplinados.

- Disciplinados! - resmungou Myrmior. - O que acontece é que têm mais medo do seu chefe do que de vós. Só podeis matá-los, mas ele tem poder sobre as suas almas!

- Ele é assim tão poderoso? No meu tempo, ouvi coisas assim - volveu Theido.

Myrmior encolheu os ombros:

- Se é verdade ou não, não sei, mas é o que os Ningaal acredítan por isso, tanto para eles como para vós, vai tudo dar ao mesmo. Eles preferem lutar até à morte a renderem-se. E acreditam que cada inimigo que matarem é mais um degrau que sobem na longa escadaria da imortalidade.

- Seja o que for que lhes dá tanta ferocidade, é indomável. Não estou a ver como vamos enfrentar um inimigo assim. Embora as suas arma< sejam ligeiras e os nossos homens estejam bem protegidos, eles esmagam-nos em número. Só hoje perdemos setenta e cinco bravos cavaleiros.

- Não vos esqueçais de que só vistes uma fracção do total. Fora das vossas fronteiras, há mais três comandantes com os seus exércitos. Quando se reunirem novamente, nada os deterá - anunciou Myrmior sombriamente. Wertwin lançou-lhe um olhar zangado e praguejou:

- Por Azrael! Que queres que façamos, meu selvagem? Caímos sobre as nossas espadas e acabou? Se sabes tanto, porque não nos orientas? Em vez disso, atormentas-nos com as tuas mentiras!

Myrmior ouviu esta explosão em silêncio. A sua expressão só mostrava compreensão pela difícil situação do comandante:

- Só disse o que disse para que não crieis falsas esperanças e não penseis que podeis vencer os Ningaal no campo de batalha - retorquiu calmamente. - Eles não podem ser vencidos assim. Pelo menos, não com as tropas de que dispomos.

Fez uma pausa. O silêncio caiu sobre a tenda. Lá fora, o crepúsculo adensava-se e, com a chegada da noite, o céu ia ficando negro-aZulado. Ouviam-se as pancadas do martelo no aço e os estalidos de uma fogueira ali perto. As sombras dos homens projectavam-se nos lados da tenda, fazendo parecer que estavam rodeados pelos fantasmas dos seus camaradas caídos em combate.

- Durante o meu longo cativeiro, não me deixei arrastar pelo ócio. Aprendi muito da maneira como os homens fazem a guerra. Estudei os que foram vencidos pelos Ningaal e observei as coisas que dão mais esperanças de vitória, que, no entanto, são muito poucas.

Então diz-nos - implorou Ronsard. - O que podemos fazer?

É bom não esquecer que daqui a pouco teremos mais homens. O conselho ainda está reunido e penso que dentro em breve teremos ajuda - acrescentou Theido esperançadamente.

- Não devemos contar com isso - objectou Myrmior. - O que vou propor agora servir-nos-á para esperarmos tanto por muito como por pouco tempo.

- Isso mesmo. Então, diz lá. Estamos prontos a ouvir a tua sugestão.

- Os soldados do vosso país conhecem bem o manejo do arco e da flecha? - perguntou Myrmior.

- Claro que sim! - riu Ronsard. - É uma coisa útil, embora não seja arma em que se confie no campo de batalha, por ser muito imprecisa e não ter hipóteses contra o aço da armadura de um cavaleiro.

- É mais apropriada para aborrecer as criaturas da floresta e para atacar de uma distância segura. Não é arma para um cavaleiro - concordou Theido. - Não pode manejar-se o arco da sela de um cavalo a galope.

Wertwin só resmungou:

- Arcos e flechas! Hum!

- Pelo menos, tendes essas armas - interveio Myrmior rapidamente. - Não condeneis o meu plano antes de o ouvirdes por inteiro.

"Não proponho que levemos archeiros para o campo de batalha, mas também não proponho que voltemos lá. Vou ser muito franco: hoje, tivestes muita sorte. Os vossos deuses sorriram-vos. Em todo o tempo que estive com o guerreiro Gurd, nunca o vi mostrar piedade nem abandonar o campo de batalha se houvesse a mínima hipótese de vitória.

"O que ele fez hoje é raro, mas não inverosímil. Ele deu-vos a oportunidade de vos reagrupardes e preparardes para outra batalha, porque, mais do que a própria batalha, ele adora um opositor à sua altura. Para ele, não tem piada nenhuma matar um inimigo fraco e indefeso. Isso é só uma chacina, e não se conquista grande imortalidade a tirar a vida aos fracos.

"Vós enfrentastes o seu exército, e ele respeita-vos por isso. Quando retirastes, reconheceu em vós inimigos ardilosos, cuja morte lhe traria muita honra. Ele quis que vós vos reagrupásseis para saborear a satisfação pela vossa derrota.

"Tal como o viticultor que, cheio de cuidados, prova o fruto das suas vinhas, assim o chefe guerreiro vos experimentou, encontrando um oponente digno da sua arte.

- E o que é que isso tem a ver com arcos e flechas? - perguntou Wertwin com um ar carrancudo. Tinha o coração apertado e o humor sombrio carregava-lhe as feições.

- São a arma que nos vai permitir arrebatar essa saborosa vitória da pança desse guerreiro.

- Derrotá-los com brinquedos de criança? Ah!

- Espera - interveio Theido. - Deixa-o falar. Parece-me que estou a começar a perceber.

Myrmior fez uma vénia na direcção de Theido:

- És muito astuto, senhor. Proponho que não voltemos ao campo de batalha para combater os Ningaal... pelo menos, não por enquanto, não por bastante tempo. Em vez disso, não lhes demos sossego de noite, assaltando-lhes o acampamento e atirando-lhes uma chuva de flechas de cada vez que eles tentarem perseguir-nos.

"Se nos recusarmos a enfrentá-los, o Gurd arderá de raiva. E, se tivermos sorte, a sua raiva consumi-lo-á.

- Que honra há nisso? - gritou Wertwin. - Atacar pela calada da noite, como reles ladrões, disparando flechas às sombras! É um disparate, um absurdo! Não tomarei parte nisso!

- Esta guerra não será ganha com a tua honra. Os teus homens morreram hoje com honra, e agora jazem nos seus túmulos. Em que é que isso te pode ajudar? Ouvi-me bem, senhores: apegai-vos à honra e perdereis a vossa terra!

- O myrmior tem razão - replicou Ronsard lentamente, lançando a Wertwin um olhar zangado. - Não há honra nenhuma em perdermos a nossa terra. Mesmo que morramos como heróis, quem se lembrará? Quem cantará os nossos louvores na casa dos nossos pais?

"É melhor tratarmos primeiro desta questão, e só depois do nosso bom nome. Por mim, gostaria de viver até ver Mensandor livre desta ameaça... consiga-se isso como se conseguir.

- Concordo - retorquiu Theido pensativamente -, mas preocupa-me uma coisa: o que sugeres é bom para este chefe guerreiro e o seu contingente. Mas... e os outros? Vamos permitir que os seus iguais assolem os campos sem oposição?

Myrmior abanou lentamente a cabeça e coçou o queixo barbudo com a mão pálida.

- Essa é a parte mais difícil do plano, senhores. Se o vosso conselho mandasse depressa as tropas de que precisamos, tudo estaria resolvido, mas, assim, só vejo uma solução: proceder da mesma maneira contra todos os comandantes... um de cada vez. Penso que o plano dará resultado, pois não são necessários muitos homens para o porem em prática. Mas precisamos de archeiros.

- A maioria dos nossos cavaleiros está bem treinada no arco, embora haja poucos prontos a admiti-lo. Podemos arranjar archeiros mandando uma mensagem para Askelon... o que temos de fazer para obtermos os arcos e as flechas.

- Então, façamos isso imediatamente. Entretanto, retiraremos e manter-nos-emos um pouco à frente dos Ningaal, até termos armas para iniciarmos os nossos ataques.

- O quê? Não vamos fazer nada para travar o avanço dos Ningaal? Vamos ficar parados a vê-los marchar livremente pelos nossos campos?

- Há semanas que eles o fazem, Wertwin - respondeu Ronsard. - Se temos de os suportar um pouco mais para conseguirmos os nossos objectivos, assim seja. Isso, pelo menos, temos de arriscar. Além disso - acrescentou, com um sorriso malicioso -, ficarão a pensar no que estamos a preparar.

- É verdade - concordou Myrn-iior -, a ira do Gurd aumentará! O que vamos tentar fazer é atormentá-los tanto que eles se encolerizem o suficiente para cometerem qualquer disparate, qualquer erro de estratégia que possamos aproveitar em nosso favor. E, entretanto, provocar-lhes-emos baixas a pouco e pouco, como a água batendo na pedra e erodindo-a com o tempo.

Theido levantou-se e espreguiçou-se; fora um longo dia:

- O teu plano é bom, Myrmior. Vou mandar imediatamente um mensageiro a Askelon. Amanhã começaremos a instruir os nossos cavaleiros nesta nova maneira de combater. Só espero ter tempo suficiente para realizar a mudança.

- Terá de ser assim, quer queiramos quer não - retorquiu Myrmior. - Acreditai, meus bravos senhores. Não há outro caminho.

Wertwin fitou os seus camaradas com um ar carregado e, a resmungar, saiu da tenda em grandes passadas.

- Não lhe ligueis muito - amenizou Ronsard. - O seu coração acabará por sarar e, daqui a pouco, estará firmemente ao nosso lado. - Depois, também ele se pôs em pé e se espreguiçou. - Obrigado, Myrmior. Deste-nos conselhos sábios e ponderados. Creio que, tal como o Wertwin, não teria acreditado em ti se não tivesse visto hoje o inimigo frente a frente e sentido a sua astúcia e a sua força. Agora sei que tens razão e, assim como o Theido, só rezo para que não seja tarde de mais.

- Sem dúvida que és um ministro fiel ao teu monarca - acrescentou Theido. - Ele deve ter tido os teus serviços em alta estima, mas não mais do que nós os temos agora. Ainda antes de tudo isto acabar, teremos razões para recompensar devidamente o teu engenho e lealdade. Talvez um dia possas voltar ao teu país na qualidade de rei.

Myrmior voltou para eles uns olhos grandes e tristes:

- Nunca mais poderei regressar. A terra que conheci e a amei desapareceu. Escolhi ficar aqui, como o devia ter feito há muito tempo no meu país. Nessa altura, tive medo, mas isso acabou. Convivi diariamente com a morte mais horrível que se possa imaginar e nunca mais voltarei a sentir-me aterrorizado.

Os três homens ficaram a olhar longamente uns para os outros. Ninguém falou. Um caloroso laço de amizade uniu os dois cavaleiros ao homem de Khas-I-Quaír. Para o mostrarem, puseram-lhe as mãos nos ombros.

- Boa noite, senhores. - Ronsard bocejou e esfregou os olhos.

- Amanhã, voltarei a pegar na arma da minha juventude. Por isso, tenho de descansar.

Theido e Myrrnior soltaram uma gargalhada e foram dormir para as suas tendas.

 

Estarrecido, Quentin fitava o seu hospedeiro de boca aberta. Esperava um comandante guerreiro ou, pelo menos, um cavaleiro para quem a batalha e as necessidades dos soldados e das suas armas não tivessem segredos, mas a pessoa que atravessava o salão na sua direcção era exactamente o oposto da imagem mental de Quentin.

Inchkeith, o lendário armeiro, era um homem pequeno, de cara fina e enrugada. Os tendões, semelhantes a cordas, sobressaíam-lhe do pescoço, como que a impedirem que a cabeça quase imóvel lhe caísse dos ombros fortes. Era baixo e apresentava uma inclinação pouco natural, o que, como Quentin viu imediatamente, se devia ao facto da coluna vertebral do mestre armeiro estar curvada de uma forma grotesca. Caminhava sobre as pernas magras, dando uma espécie de saltinhos, e nem por sombras tinha o andar lento e digno do homem que Quentin imaginara. Mas as suas mãos eram as de um artista: largas, generosas e destras. Eram mãos fortes, de movimentos seguros, graciosas, e que nem por um momento estavam quietas. Estas mãos notáveis encontravam-se ligadas a uns braços poderosos e a uns ombros bem musculados, que pareciam de um jovem. Para Quentin, alguém pregara uma partida cruel ao ancião de pernas magras, colocando-lhe o peito e os braços fortes de um lavrador ou de um soldado no corpo franzino e deformado de um moço de cozinha.

- Há muito tempo que não tenho o prazer da tua companhia, Durwin. Mas agora estás aqui e alegra-me muito ver-te. - Inchkeith tinha uma voz profunda, que contrastava estranhamente com o seu aspecto mirrado. Com dois saltinhos, encontrou-se nos braços de Durwin e os dois homens abraçaram-se como irmãos que havia muito não se viam

- É bom voltar a ver-te, Inchkeith. Não mudaste nada. Trouxe comigo uns amigos que gostava de te apresentar.

- Estou a ver! Estou a ver! Bons senhores, sois muito bem-vindos agora e sempre à Mansão Branca. Espero que vos sintais à vontade para ficardes o tempo que quiserdes. Nunca temos muitos hóspedes por aqui e, assim, vamos celebrar a vossa vinda. - O mestre armeiro fez-lhes uma vénia grotesca e piscou-lhes o olho. Quentin não se conteve e riu-se alto:

- Mestre Inchkeith, honras-nos com a tua amável hospitalidade.

- Estes são o Quentin e o seu companheiro Toli - indicou Durwin.

- Ah, Durwin, vejo que viajas em boa companhia. - Para mostrar o respeito que sentia, Inchkeith virou os olhos para cima e ergueu as mãos à altura do rosto. - Vós os dois sois bem conhecidos por aqui. Dentro destas paredes cantam-se muitas vezes os vossos feitos, assim como os grandes feitos de todos os bravos.

Em resposta a este cumprimento, Quentin corou e fez uma vénia:

- As histórias não contam tudo. Fiz apenas o que qualquer homem teria feito, e sem grande bravura.

- Está bem, mas quem o fez foste tu e não outro qualquer. Inchkeith apontou o indicador para o ar. - A diferença está aí! - Nesse momento, abriu-se uma porta de um dos lados do salão e entraram vários jovens marchando como se fossem soldados a treinar-se.

- Vinde! - gritou Inchkeith, afastando-se a mancar. - Tendes de conhecer os meus filhos. Tenho a certeza de que eles também querem dar-vos as boas-vindas.

Os viajantes seguiram-no; Quentin e Toli, de sorriso aberto, sentíam-se irresistivelmente atraídos para aquele homem tão original, tão diferente da ordem exacta e escrupulosa que o rodeava. Os filhos eram sete, todos rapazes bem constituídos e de boas maneiras. Só falavam quando o pai lhes fazia alguma pergunta ou lhes indicava o momento de responderem a alguma questão. Quentin e Toli cumprimentaram-nos um a um, reparando que eles eram todos imagens vivas uns dos outros: cabelos e olhos castanhos e suaves, lábios carnudos, faces castanhas e testas altas e fortes. E todos tinham pernas bem firmes e direitas; nenhum deles herdara a deformidade do pai.

- São o meu exército, o meu prazer, o meu orgulho - disse o seu pai, com o rosto aberto num sorriso, enquanto eles se sentavam no banco com as costas direitas e as mãos pousadas no colo.

"E agora, o meu ouro e as minhas jóias! - Inchkeith virou-se e acenou com a mão. Como se obedecesse a um sinal, uma mulher alta e elegante, vindo do lado mais próximo do salão, entrou seguida de cinco lindas raparigas. - A minha senhora e as minhas filhas.

As jovens aproximaram-se, sufocando o riso com as mãos; ao moverem-se todas juntas, os seus simples vestidos de musselina produziram um agradável roçagar. Mas quando foram apresentadas a Quentin, cada uma, à vez, estendeu a mão, como uma senhora bem-nascida, e fez uma vénia. E, embora sentindo-se um pouco tolo, ele beijou-lhes a mão, obtendo a risonha aprovação da mãe. Toli sentiu-se obrigado a seguir o exemplo do seu amo.

- Sois muito bem-vindos à nossa casa, meus senhores - disse a mulher de Inchkeith. - Se precisardes de alguma coisa, estamos prontos a servir-vos.

- Sois muito amável...

- Chamo-me Camilla - informou ela, estendendo a mão para Quentin, que a beijou, fazendo ela uma vénia. Reparando que a mulher era muitos anos mais nova do que o marido, Quentin pensou se todos os filhos ali reunidos seriam dela. Era possível: todos eles possuíam a sua cor escura; mas, nesse caso, ela conseguira manter uma aparência muito jovem.

- Obrigado pela tua amabilidade, senhora. Ainda mal chegámos, e já me sinto bem-vindo.

- Então, não nos demoremos mais - observou Inchkeith com satisfação, esfregando as mãos uma na outra, como se quisesse aquecê-las. - Sentai-vos, bons amigos, e partilhai o nosso pão connosco.

Inchkeith pegou no braço de Durwin e levou-o consigo para a cabeceira da mesa, deixando Toli e Quentin entregues aos cuidados das jovens, que os instalaram em frente dos rapazes, sentando-se em seguida. Todos começaram imediatamente a falar, fazendo perguntas sobre o que se passava na corte, qual era a última moda em Askelon e que novas do mundo havia.

Mostraram-se tão curiosos que Quentin mal conseguiu responder a todas as perguntas, para muitas das quais não tinha resposta, pois teve de admitir que não sabia mais do que eles sobre os seus interesses. Apesar do isolamento em que, aparentemente, viviam, as suas perguntas revelavam um sólido conhecimento do mundo. Em resumo, devido a um interrogatório tão cerrado, Quentin mal teve tempo de levar a comida à boca. Antes do fim da refeição, Quentin já pensava que aquela era, de longe, a família mais notável que jamais conhecera.

Quando todos acabaram de comer a carne, o pão, o caldo e a fruta, os filhos de Inchkeith saíram todos a marchar, e as filhas, juntamente com a mãe, começaram a ajudar os servos a levantar os trinchos e as bandejas. Quentin e Toli aproximaram-se da cabeceira da mesa, onde Inchkeith e Durwin. se encontravam sentados a conversar. Inchkeith puxara de um cachimbo comprido e estava a acendê-lo.

- Embora me agrade muito a vossa visita, sei que não viestes só para ver o velho Inchkeith. - Temos assuntos a tratar, não é?

- É - assentiu Durwin. - Realmente, temos um assunto a discutir contigo.

O artesão aspirou profundamente o cachimbo e as suas faces meteram-se para dentro. Depois de terem ido novamente ao sítio quando ele soltou uma longa e fina baforada de fumo, continuou: - Excelente, Mas talvez o vosso assunto não seja tão urgente que não possa esperar até eu vos mostrar alguns dos meus últimos trabalhos.

- Com certeza que sim - retorquiu Quentin. - Gostaria muito de ver as tuas obras.

- Convenceste-me, senhor! - riu Inchkeith, levantando-se da mesa. - Segue-me e, atrevo-me a dizer, vais ver coisas muito do teu agrado.

Saíram do salão iluminado por uma porta lateral e entraram imedíatamente numa divisão baixa e escura, onde se perfilavam em sentido muitas armaduras polidas e vazias, que esperavam que os seus cavaleiros lhes dessem vida. Viram tantas espadas, broquéis, elmos e couraças que lhes pareceu encontrarem-se na sala de armas de um rei.

Atravessando esta divisão de traves baixas, penetraram noutra mais pequena e mais escura, que continha lanças de todas as formas e feitios e um sem número de alabardas. As armas de setas compridas encontravam-se atadas em feixes, como molhos de espigas acabadas de ceifar, prontas a serem debulhadas. Na semiobscuridade, Quentin viu, ao passar, as luzidias pontas de aço das lanças e as lâminas muito afiadas das alabardas.

- Ah! Cá estamos! Cuidado... Pronto. Este é o meu verdadeiro lar: a minha oficina! - gritou Inchkeith, elevando a voz acima do retinir que passou a ouvir-se.

Tinham descido para uma divisão quente, devido ao calor da forja, e ruidosa, por causa do barulho do aço batendo no aço. O compartimento, do tamanho do salão, ou ainda maior, estava numa grande actividade, com os filhos de Inchkeith e vários servos afadigando-se na tarefa de transformar o aço e o ferro em armas. De uma ponta à outra da sala oblonga víam-se mesas e dispositivos esquisitos, capazes de desafiar qualquer tentativa de descrição. Rodeado por curiosos instrumentos, a cada mesa trabalhava um homem, aqui fixando a lâmina ao punho, ali cobrindo de pele o escudo de madeira e mais além colocando a couraça numa armadura truncada.

Quentin estava maravilhado, pois nunca vira nada assim. Inchkeith conduziu-os através daquele labirinto, parando ao pé de cada mesa para comentar o trabalho do homem que aí laborava. E, fosse onde fosse que os olhos pousassem, davam sempre com um brilhante exemplo da arte do armeiro. Quentin duvidou de que houvesse no mundo alguma coisa que se comparasse à oficina de Inchkeith.

Quentin olhou para cima da mesa e, entre uma variedade de estranhos instrumentos, cuja utilidade só vagamente conhecia, viu uma espada comprida e larga, de aspecto muito sólido. O punho era de ouro, com jóias incrustadas e a bainha de prata gravada, representando cenas da captura de um urso. Toda ela era uma obra excelente, que demonstrava uma grande mestria.

- Gostas? - perguntou Inchkeith, seguindo o olhar de Quentin.

- Se gosto? É uma espada como não há outra, senhor. Um tesouro.

- Toma lá. Podes examiná-la mais de perto.

Com a mão esquerda, e lamentando não poder usar a direita, desembainhou a espada e ouviu o raspar frio do aço a deslizar na bainha.

Fora concebida para ser usada com as duas mãos; no entanto, não era muito mais pesada do que a sua congénere mais curta e apresentava um equilíbrio soberbo. Mesmo com a mão esquerda, Quentin sentiu a elevação da lâmina e a maneira pouco esforçada como esta seguia o movimento da mão. Quentin passou a arma a Toli, que a fez assobiar no ar, e viu a luz de admiração que saltou aos olhos escuros do Jher.

- A lâmina é de aço especial que comecei a fazer e que até corta o ferro. Esta foi feita para o rei SeIric, de Drin. Ainda não está acabada. - Falava como se se tratasse de um peixe entre mil que tinha na rede. Depois, pousou cuidadosamente a espada e virou-se para eles, com os olhos a cintilar. - Agora, vou mostrar-vos a minha obra-prima.

Inchkeith saltitou da mesa até uma porta baixa e abobadada, que ficava num recanto da parede. Ao passar pelo fundo da mesa, pegou numa lanterna e acendeu-a com uma vela. Depois de a ajustar, levantou o pesado ferrolho que trancava a porta.

- Por aqui - disse, desaparecendo pela ombreira escura.

Seguindo o seu curvado guia, entraram os três numa pequena câmara redonda. Os seus olhos ainda demoraram um momento a ajustar-se à escuridão e à luz difusa da lanterna. Quando, por fim, conseguiu ver bem, uma exclamação escapou dos lábios de Quentin. Tinha perante si a armadura mais elegante que podia imaginar. Mas não foi só isso que lhe tirou a respiração.

À frente dos seus olhos encontrava-se a armadura da sua visão. Era real. Existia mesmo e faiscava à luz da lanterna como se tivesse sido feita a partir de um único diamante. Muito polida e brilhante como a água, cintilava perante os seus olhos ofuscados e incrédulos. Como se o objecto lhe tivesse acenado do seu suporte, Quentin aproximou-se, sem prestar atenção aos outros. A armadura, de brilho claro e prateado à luz da lanterna, não possuía qualquer ornamento. Todas as suas superfícies, com o brilho puro e límpido de uma gema, reflectiam uma luz radiosa. O elmo era magnífico: tinha uma viseira simples, com uma ranhura, e era todo liso da testa à nuca. Incompreensivelmente, dos ombros pendia uma capa feita da cota de malha mais requintada que Quentin alguma vez vira. Não resistiu a tocar-lhe: apalpou-a com a ponta de um dedo, e a cota ondulou como prata líquida, cintilando e dançando à luz bruxuleante. Os minúsculos aros da malha estremeceram com o seu toque e suspiraram como neve a cair sobre o solo gelado.

- É leve como a penugem de um ganso - disse-lhe uma voz ao ouvido. Inchkeith espreitava por cima do ombro de Quentin, com a face iluminada de prazer pelo indescritível espanto de Quentin.

- Para quem é? - conseguiu Quentin soletrar com esforço.

- Ah, o mais espantoso é isso! - A voz do artesão não passava de um suspiro. - Para ninguém... pelo menos, por enquanto. Copiei-a de um sonho que tive. Vi-a e soube que tinha de a fazer. Acredito que o seu proprietário virá reclamá-la um dia. Até lá... - Deixou a frase por acabar.

- Reparei que não tinha espada - observou Quentin de repente. - Porque não?

Inchkeith, o mestre armeiro, inclinou a cabeça para um lado e franziu as sobrancelhas:

- Tocaste no ponto certo, senhor. Como não vi nenhuma espada no sonho, não fiz nenhuma.

- Então, anda, mestre Inchkeith. - interveio Durwin. - É altura de conversarmos.

 

Eskevar percorria a antecâmara com passos compridos e impacientes. Tinha as mãos atrás das costas e os olhos postos no chão.

- Os loucos! Os loucos! - murmurou para si próprio. - Vão destruir o reino.

Havia dois dias que estava na sua torre a andar, preocupado, de um lado para o outro. Durante esse tempo, comera e dormira muito pouco, e as suas feições, mais angulosas e marcadas do que nunca, mostravam os efeitos da sua aflição. já houvera muitas ocasiões em que se angustiara com a teimosia dos seus nobres, mas, naquele momento, via claramente que o destino da nação estava nas suas mãos e que eles pareciam indiferentes à ameaça.

Lamentava e tornava a lamentar o poder, ou a falta dele, que não o deixava tomar medidas mais drásticas. Outrora, teria mandado os seus vassalos para a batalha com um simples aceno de mão; e eles teriam de obedecer, sob pena de perderem as terras e os privilégios. E em tempos ainda mais recuados, no reinado do primeiro Rei Dragão, a terra era governada pela vontade do todo poderoso monarca; nessa altura, não houvera senhores a questionar as ordens do rei.

Mas, antes disso, fora o tempo dos reis do Norte, quando qualquer homem podia ser rei, dependendo da força da sua espada, e o reino estava dividido em vários territórios de déspotas conflituosos, que se consideravam muito importantes e que se vangloriavam dos seus principados, prejudicando-os por uma batalha ou pela oportunidade de aumentarem as suas terras, destronando os monarcas dos arredores.

Depois, os reis do Norte tinham-se unido, formado uma aliança e estabelecido a ordem em grande parte do reino, pois todos agiam em harmonia e para o interesse comum. Ninguém ousava opor-se-lhes, porque rejeitar ou desafiar um era recusar e declarar guerra a todos. Os mesquinhos reis do Sul não tinham conseguido fazer-lhes frente. Por fim, depois de muitos anos, o poder havia-se consolidado no Norte e aí tinha ficado.

Eskevar cismava em tudo isto enquanto andava de um lado para o outro do aposento ou se sentava a meditar na grande cadeira esculpida. De uma vez, parou à janela, escancarada para aquele esplendoroso dia de Verão, e suspirou ao contemplar as familiares colinas verdes e o azul-esverdeado mais escuro da floresta e a preguiçosa curva do Herwydd, que descrevia um arco prateado e se dirigia sem pressa para sul, em direcção ao seu imutável destino.

- Os problemas dos reis e dos reinos não te dizem respeito, grande rio. Se calhar, não têm mesmo nenhuma importância.

O mensageiro que bateu à porta, e entrou. encontrou-o ainda à janela, contemplando a distância.

- Vossa Majestade, querem falar convosco.

Eskevar pareceu não ouvir; por isso, o pajem repetiu a mensagem. Quando, por fim, o rei se virou para o perplexo jovem, tinha um sorriso triste no rosto cansado.

- Que entrem para a antecâmara. Vou já recebê-los.

"já chegaram a uma conclusão", pensou Eskevar. "Qual será?"

Lá fora, a chuva caía incessantemente; o som do seu chapinhar no pátio era entremeado pelo ruído dos trovões, que marchavam nos céus a lutar contra os picos das montanhas. Quentin imaginou que as montanhas eram gigantes, e o trovão a voz com que lhe gritavam. Chamavam-no, desafiando-o a ir arrebatar-lhes o seu segredo... se tivesse coragem para isso.

Havia muito que ninguém falava. Toli estava enroscado como um gato numa enorme cadeira estofada, colocada perto da lareira. Durwin. encontrava-se sentado com as mãos em cima da barriga e a cabeça baixa. Quentin achava-se afundado na cadeira, com o queixo apoiado na palma da mão. Só Inchkeith parecia ainda alerta e activo. Inclinado para a frente, com as mãos agarrando o comprido cachimbo, soltava baforadas de fumo que lhe pairavam em volta da cabeça e olhava periodicamente para os seus convidados.

- Eu fá-la-ei! - exclamou por fim, dando um salto. - Pelas barbas do deus. fá-la-ei!.

O inesperado desta explosão fez Quentin dar um salto e Durwin endireitar-se bruscamente.

- O que foi? - Durwin abanou a cabeça grisalha. - Oh, Inchkeith, assustaste-me. Devo ter adormecido. O dia foi longo. Desculpa.

- Podeis ter a certeza de que pensei cuidadosamente no assunto - disse o mestre armeiro. - Irei convosco procurar o lantbanil e farei a espada. Como posso recusar? - O deformado artesão sorriu e Quentin viu a sua inquieta energia brotando desse sorriso. - É a oportunidade de uma vida... de muitas vidas. Se não estais enganados e as minas existem mesmo, pago o que for preciso para trabalhar o lantbanil. Vós pondes à minha disposição o maior sonho do artesão. Sim, por todos os deuses que possam existir, fá-la-ei.

- Sabia que podíamos contar contigo, Inchkeith. Tenho a certeza de que encontraremos as minas. A profecia está a ser realizada. - Durwin indicou Quentin com a mão.

- Pouco me interessa a profecia ou se aqui o Quentin é o Rei Sacerdote de que falas. Mas interessa-me muito que o nosso reino não seja tomado pelos bárbaros. Por Orphe!, claro que sim. E se a espada que vou fazer representar um golpe para eles, se puder mudar a sorte da batalha, então farei uma arma como nunca nenhum homem viu. Eu farei a Zhaligkeer!

Quentin ouvia os dois homens a conversar e não dizia nada. Escutara toda a noite e falara pouco. A inquietude apoderara-se novamente dele, mas. desta vez, sabia qual era a causa: o seu braço.

Durwin parecia ter esquecido que Quentin, o escolhido para desempenhar o papel principal quando chegasse a altura de erguer a espada contra o inimigo, tinha o braço partido ou até pior. No seu íntimo, Quentin desconfiava que era mesmo pior, que o seu braço ferido não tinha apenas um osso partido. Havia muito que não sentia nada no braço, que parecia entorpecido, morto.

Nunca falara a ninguém das suas suspeitas. Nem sequer Durwin percebera que ele não sentira nada na noite em que lhe pusera o osso no sítio e lhe ligara o braço, pois ele fizera caretas e gemera (sobretudo por causa do nervoso e do medo), como se lhe tivesse doído muito. Tinha qualquer coisa de muito grave no braço, naquele momento, com a noite preenchida por espadas e profecias, sentia-se obrigado a encará-lo.

Enquanto cismava nesta infelicidade, ocorreu-lhe o pensamento de que, afinal de contas, talvez não fosse o temível Rei Sacerdote das lendas. Talvez o Altíssimo nunca o tivesse designado, e sim a outro, ainda desconhecido.

Por muito estranho que fosse, esta ideia aliviou Quentin. Sim, claro era isso. Sem braço para o fazer, não era possível empunhar a lendária espada. A verdade da profecia indicava um outro. Talvez Eskevar, que afinal de contas, era rei. E a profecia da velha adivinha dizia que a espada devia ser empunhada por um rei. Era isso.

Quando, por fim, se levantaram para se irem deitar, Durwin aproximou-se de Quentin e disse:

- Estiveste muito calado toda a noite, meu rapaz. Porquê?

- Não temos problemas que cheguem, Durwin?

- Isso é verdade. Mas pareceu-me que estás preocupado com outra coisa qualquer. - Inchkeith acercou-se deles com uma luz que brilhava vivamente numa lanterna de contornos delicados. Durwin aceitou-a e comentou: - Nós daremos com o caminho, senhor. Obrigado. Não te preocupes mais connosco.

- As preocupações só agora começaram, senhor! - riu Inchkeith. - Mas há muito que escolhi o meu campo. Descansai bem, senhores. Amanhã, estarei pronto para vos acompanhar na vossa jornada.

- Muito bem. Partiremos o mais cedo possível. Mas não antes de comermos mais uma vez à tua mesa.

- Para variarmos das sementes e das bagas do Toli - gracejou Quentin. - Mas não devemos ficar tempo de mais.

- Estranho, nunca te vi recusar a minha comida - observou sarcasticamente Toli, que acordara e fora para junto deles. - A chuva parará antes da manhã, mas o regato subirá durante a noite. Logo bem cedo, irei ver se podemos passá-lo.

- Não é preciso. De manhã já se poderá passar. É sempre assim.

Não tenhas medo. Amanhã partiremos secos, pelo menos. E não te preocupes com os cavalos. Terei tudo pronto. Os meus filhos tratarão disso. Agora, boa noite.

Pegando na vela que estava em cima da mesa, Inchkeith saltitou pelo salão escurecido; a esfera de luz seguia à sua frente como uma estrela que o guiasse.

Um homem extraordinário - disse Durwin.

É verdade, extraordinário - concordou Quentin. E todos se arrastaram até às suas camas, onde adormeceram embalados pelo longínquo som da chuva batendo nas pedras da Mansão Branca.

 

O enorme navio-palácio de Nin, o Destruidor, Divindade Imortal, Imperador Supremo, Conquistador dos Continentes, Rei dos Reis, balouçava suavemente nas ondas, que subiam e desciam como a respiração ritmada de um gigantesco animal marinho, chapinhando contra as traves largas dos lados e sussurrando ao longo da poderosa quilha.

O barco, de casco quadrado, tinha três gigantescos mastros e dois grandes lemes a meio. Era, verdadeiramente, um palácio marítimo, feito com madeiras caras e cheio de ornamentos exóticos vindos dos vários países que Nin subjugara. O convés era de teca e pau rosa das ilhas Haphasian. Os adornos de latão que, por toda a parte, brilhavam como ouro vermelho, tinham vindo da Deluria e das Beldenlands Orientais. Sedas e lustrosos samitos da Pelagia esvoaçavam em delicados biombos colocados no convés e nos aposentos em forma de favo. As cordas grossas e as amplas velas azuis haviam sido feitas em Katah, com as matérias-primas de Khas-I-Quair.

O próprio barco fora feito nos estaleiros de Tarkus, sob a direcção do mestre Syphrian. Os seus construtores tinham previsto todas as necessidades e desejos do principal habitante do barco, realizando-os das maneiras mais engenhosas. A bordo do barco, -não faltava nada para satisfazer os muitos e vorazes apetites de Nin.

O barco flutuava bem assente na água. Qualquer onda pequena o embalava docemente, mas nem a pior das tempestades conseguiria virá-lo. E, se se deslocava muito lentamente, como o seu proprietário, que mal havia nisso? 0 tempo não significava nada para o imortal Nin.

O Imperador dos Imperadores estava deitado num leito com almofadas de seda, escutando a respiração regular do mar e balouçando com a mínima inclinação do convés. O seu Corpo volumoso elevava-se e balançava Perigosamente para um lado e para o outro. o movimento estava a enjoá-lo e a irritá-lo. A cada movimento do barco a sua cabeça enorme, de boi, rolava apaticamente. Os seus olhos fitavam o vazio num Sofrimento crescente. Por um supremo esforço de vontade, Nin soergueu-se, apoiando-se num cotovelo, pegou num macete que se encontrava pendurado numa correia dourada que tinha perto da cabeça, fez um movimento de rotação para trás COM o pulso e o macete bateu num gongo de bronze martelado. Enquanto as vibrações se repercutiam por todo o aposento, deiXou-se cair outra vez nas almofadas, com um gemido, pondo a mão enorme na testa, num gesto de imenso sofrimento.

Dali a pouco, ouviu-se uma voz tímida, abafada pela posição prostrada do seu dono:

- Chamastes-me, ó Poderoso? Que ordenais que faça?

Com esforço, _Nin virou a cabeça e fitou a forma patética do seu ninistro:

- Uzla, meu cão! Porque demoraste? Há horas que estou à tua espera. Vou mandar esfolar-te vivo para saberes o que é andar depressa. - Os grandes olhos fecharam-se sonolentamente.

- Permiti-me, Vossa Omnipotência, lamentar o meu atraso e a cegueira que me impediu de prever o vosso chamado. No entanto, encontrava-me mesmo aqui, e estou pronto a obedecer às vossas ordens.

- Porco arrogante! - trovejou Nin, voltando à vida. - Só por me teres dirigido a palavra assim devia mandar-te limpar o convés com a tua língua podre.

- Às vossas ordens, ó Generoso Mestre. Obedecerei. - Uzla fez menção de sair para ir começar a lamber o convés do navio-palácio.

- Sou eu que te digo quando deves ir e quando deves vir. Não te chamei aqui? ouve.

- Sim, ó Imortal. - A voz de Uzla tremia devidamente.

- Os meus comandantes não mandaram nenhuma mensagem?

- Lamento informar Vossa Alteza que não. Mas, como provavelmente deveis saber, talvez venha alguma mensagem a caminho.

- Nin não espera que as mensagens cheguem! Nin sabe tudo! Louco!

- É a minha fraqueza, ó Grandiosidade. Far-me-íeis um grande favor se me mandásseis arrancar a língua.

Nin apoiou-se novamente no cotovelo e ficou a oscilar, como uma montanha pronta a ruir ao mínimo toque.

- Chamo os vossos carregadores, Supremo Conquistador? Eles ajudam-vos a levantar-vos.

- Estou a ficar cansado de esperar, Uzla. - Os olhos sonolentos semicerraram-se dissimuladamente. - Não quero ficar mais aqui.

- Deveis querer estar noutro lado, ó Amo do Tempo e do Espaço. Comunico os vossos desejos ao vosso comandante?

- já fui paciente de mais com este país despovoado. A conquista está a demorar muito. - Com a mão papuda coçou impacientemente o queixo lustroso. - Vamos subir a costa para norte e preparar-nos para entrar em Askelon, a minha nova cidade. Tenho dito. Ouve e obedece.

- Assim será, meu amo. Vou dizer ao comandante para içar imediatamente as velas.

- Sinto-me um vulgar ladrão - resmungou Wertwin, em voz baixa. - Preferia muito mais comandar o assalto montado ao acampamento.

- já falámos nisso, senhor - explicou Theido pacientemente.

- Para isso, o Ronsard é melhor do que qualquer de nós. A sua experiência nas guerras com o Goliah podem ajudá-lo.

- Eu também estive nas guerras com o Goliah - lamentou-se Wertwin.

- Está bem, mas ainda antes do fim da noite e da nossa campanha daremos graças pela ousadia do Ronsard. Por mim, digo-te francamente que não me agradaria nada atacar o acampamento dos Ningaal.

- HumpP. - resmoneou Wertwin, arrastando-se para o posto que lhe fora atribuído, numa depressão cheia de arbustos, onde os seus homens, agora armados com arcos e flechas, estavam escondidos.

O exército do Rei Dragão tinha andado a treinar-se com as novas armas, recuperando habilidades um tanto enferrujadas. Naquele momento, estava pronto a experimentá-las em combate com os Ningaal e, com uma astúcia e um cuidado extremos. deslocara-se para muito perto do acampamento inimigo. Os archeiros encontravam-se escondidos atrás das árvores e dos arbustos e no meio dos tojos e das giestas. Apesar dos resmungos que tinham acompanhado o anúncio da mudança de táctica, havia no ar uma sensação de entusiasmo enquanto os homens se preparavam para a emboscada.

- Theido, os teus archeiros já estão em posição? - murmurou Ronsard. inclinando-se na sela para melhor ser ouvido. Era muito tarde; para ocidente, a Lua já ia baixa no céu, só ligeiramente acima do horizonte. O rosto do cavaleiro brilhava tenuemente e as suas feições mal se distinguiam.

- Estão. - Por um breve instante, os dois homens olharam um para o outro. Theido estendeu a mão e apertou o braço do seu amigo. - Não corras riscos desnecessários. As coisas já são arriscadas que chegue.

- Não te preocupes. Desta vez, pelo menos, a surpresa está do nosso lado.

- Que o Deus Altíssimo vá contigo, meu amigo.

Ronsard inclinou ligeiramente a cabeça:

- Achas que ele se importa com coisas como esta?

- Acho que sim. Porque perguntas?

- É que nunca orei a nenhum deus antes de uma batalha. Não considerava próprio invocar a ajuda dos poderes celestes em questões terrenas. Se o assunto é humano, deve ser resolvido pela mão do homem.

- O altíssimo preocupa-se com o bem-estar dos seus servos. Só a sua mão nos apoia em tudo o que fazemos.

Ronsard endireitou-se na sela, puxou as rédeas e fez o cavalo dar meia volta.

- Tenho muito que aprender sobre esse novo deus, Theido. Espero ter tempo para isso!

O cavaleiro regressou ao local onde o esperavam os seus homens, já montados e ansiosos por entrarem em acção. Ronsard olhou em volta, para ver se tudo estava a postos. A fim de poderem ter os movimentos mais livres e ágeis, ordenara aos seus cavaleiros que, das armaduras, envergassem apenas a cota de malha e a couraça. Além disso, cada um deles tinha uma espada e, nos antebraços, um pequeno broquei em forma de lágrima.

No fim da inspecção, Ronsard assentiu com a cabeça:

- Pela honra! Pela glória! Por Mensandor!

Dizendo isto, deu meia volta e conduziu os seus homens para dentro da mata arborizada onde os Ningaal estavam acampados. Theido observou o amigo a desaparecer no bosque escuro e pareceu-lhe, que ele erguia a mão direita num gesto de saudação. Os quinze homens montados a cavalo, os melhores de Ronsard, deslizaram para a escuridão. Ao vê-los passar, Theido rezou por eles e, depois. também ele assumiu a sua posição, de espada em riste.

Esperou. De repente, a noite ficou muito quieta. No entanto, não ouvia nada, excepto os suspiros do vento por entre as árvores e o piar de um noitibó que voava por entre as nuvens dispersas.

Por fim, ouviu um grito de espanto, logo interrompido. Passado um bocado, mais gritos e o frio retinir do aço no aço. Depois, os sons tornaram-se confusos: cavalos relinchando e homens soltando gritos de batalha. Dali a pouco, ouviu o som dos cascos dos cavalos no bosque, mas fazendo muito mais barulho do que quando tinham entrado.

- Lá vêm eles! - gritou Theido aos archeiros, erguendo a espada acima da cabeça. Da escuridão surgiu um cavaleiro, que galopava inclinado na sela e que, em vez de parar ao chegar junto dos archeiros escondidos, continuou a descer o vale pequeno.

- Preparai os arcos! - berrou Theido. Num abrir e fechar de olhos, ouviu-se o sussurro das pontas das flechas roçando nos arcos. Do bosque surgiram mais cavaleiros a galope e ouvia-se o inconfundível som da perseguição.

- Aguentai-vos! - gritou Theido, quando o último cavaleiro passou que nem uma seta a um passo do local onde estava agachado à espera. Depois, mordeu o lábio: não vira Ronsard sair do bosque.

Continuaram à espera, com os arcos retesados.

Subitamente Ronsard apareceu na abertura do bosque por onde entrara alguns momentos antes, parou e acenou com a espada. Os gritos dos seus perseguidores enchiam o bosque e ecoavam no pequeno vale. Theido via as tochas tremeluzindo por entre o bosque.

- Vá! Vai-te embora! - murmurou Theido. Quando o primeiro Ningaal surgiu a correr atrás de si, Ronsard fez meia volta, galopou para a clareira e desceu o vale.

- Disparai! - gritou Theido. Nesse instante, a noite encheu-se de projécteis escuros.

A primeira fileira de soldados de Ningaal caiu para a frente e tombou para o chão sem um ai. Os seus camaradas surgiram logo atrás e hesitaram, sem saberem o que acontecera aos da frente. Nesse momento de incerteza, a morte caiu sobre eles na forma de flechas que riscavam os ares em direcção aos seus alvos. Gerou-se a confusão entre o inimigo, que recuou para o escuro do bosque, no meio de pragas e de gritos de terror. Quando mais forças vindas do acampamento se juntaram à primeira, pareceu a Theido ouvir os gritos roucos e autoritários do próprio chefe dos guerreiros. Os Ningaal surgiram da floresta quase imediatamente, mas, desta vez, quase colados ao chão e com os escudos redondos erguidos à sua frente, o que os tomava alvos muito difíceis para os archeiros de Theido.

- Preparai-vos! - ordenou Theido. Os Ningaal deslocavam-se agora mais rapidamente.

- Disparai! - gritou Theido. Em resposta às suas palavras, ouviu-se o arranhar das pontas das flechas embatendo contra os escudos dos Ningaal. Algumas delas atingiram o alvo, e a noite foi rasgada por gritos e pragas.

- Retirar! - gritou Theido ao ver o chefe dos guerreiros galopar para a clareira, rodeado pela sua guarda pessoal.

O cavaleiro e os archeiros não ficaram à espera que ele se aproximasse para o saudarem. Em vez disso, deram um salto e correram aos gritos para o pequeno vale, tal como Ronsard e os seus cavaleiros tinham feito. Acreditando que tinham posto o exército do rei em fuga, os Ningaal soltaram um grito que atroou os ares e lançaram-se atrás dos archeiros em fuga, pisando os corpos dos seus camaradas.

Theido guiou os seus homens pela encosta abaixo, entrou no vale, atravessou o pequeno regato que lá existia, subiu a um outeiro e desapareceu. Os triunfantes Ningaal, berrando a dar graças ao seu deus destruidor, lançaram-se em sua perseguição, sem quererem saber da escuridão que os rodeava. Sem pararem para reflectir, precipitaram-se vale adentro.

Quando Theido e os seus homens desapareceram do outro lado do outeiro, já os primeiros Ningaal, berrando e praguejando, passavam o regato a vau. Outras centenas de companheiros saíram do bosque e seguiram-nos, para se lhes juntarem no vale, onde foram momentaneamente detidos pelo obstáculo que o ribeiro constituía. Nesse momento, a morte voltou a silvar, riscando os céus, pois os archeiros de Werwin, escondidos dos lados do estreito vale, atiraram as suas setas contra eles. Os Ningaal guincharam de dor e de medo, como animais aterrorizados mortalmente feridos por assaltantes invisíveis.

As flechas choviam sobre eles de todos os lados. Os Ningaal que saíam a correr do bosque caíam por cima dos seus camaradas e cortavam o caminho aos que tentavam fugir daquela emboscada mortal. E os que desciam o vale não voltavam a levantar-se. Dali a pouco, todos os que se haviam precipitado para o vale jaziam imóveis. Não vieram mais Ningaal do bosque. Ninguém se mexia.

- Vamos fugir enquanto podemos - sussurrou Theido. - Se não ficarmos aqui, a vitória será nossa. Mas eles vão voltar não tarda nada.

Sem falar, Ronsard fez um sinal, e os cavaleiros e os archeiros começaram a desaparecer na noite, tão rápida e silenciosamente como as nuvens que passavam à frente da Lua. As forças de Wertwín juntaram-se-lhes e todos saíram do campo de batalha, deixando-o entregue aos Ningaal mortos.

Nessa noite, o comandante Gurd perdeu quinhentos homens e o Rei Dragão nem um único.

 

O céu lavado pela chuva parecia uma cúpula azul, alta e ilimitada. O ar estava fresco e cheirava a bálsamo, a pinheiro e a terra molhada. A erva ainda retinha algumas gotas de chuva, que cintilavam como diamantes à luz da manhã. O grupo comera uma excelente refeição à mesa de Inchkeíth e, graças aos filhos do mestre armeiro, partira sem erguer uma mão, excepto para beber as taças cheias com a saborosa cidra aquecída de Camilla. Quentin, bem alimentado e descansado, esquecera as suas apreensões da noite anterior e convencera-se de que o seu braço estava melhor e que ia sarar completamente. Ainda assim, não percebia como queriam que empunhasse uma espada antes de os seus ossos soldarem. Por isso, o facto de esperarem que fosse o misterioso e lendário Rei Sacerdote parecia-lhe remoto, quase ridículo. A luz de um brilhante novo dia, sentiu-se envergonhado e embaraçado por haver tido a audácia de julgar que o seu papel era imperioso para o cumprimento da profecia.

Claro que fora uma presunção encorajada por Bíorkis, Durwin e, tanto quanto supunha, pelo próprio Toli. Mas ele permitira que o levassem a pensar que a profecia talvez o indicasse a si. Tudo aquilo era uma tolice, um disparate. Naquele momento, percebia-o bem. Assim o disse a si próprio e assim acreditou.

À primeira luz da manhã, os cavalos tinham matraqueado no pátio da Mansão Branca. Através da fenda aberta na parede da cumeeira, os dourados raios do Sol penetravam como lâminas na sombra violeta do desfiladeiro. Enquanto passavam pelo portão e entravam no largo prado, com os cavalos galopando branda e alegremente, pareceu a Quentin que se deslocavam num trilho de luz, dourado, verde e cintilante. Tudo o que via, as árvores, as pedras, os picos das montanhas, parecia limpo, novo e vibrante de vida. Era como se o mundo tivesse sido criado de novo durante a noite e o velho houvesse sido deitado fora, como patética e pálida paródia do verdadeiro. Quentin imaginou estar a ver tudo pela primeira vez e que, no princípio dos tempos, o mundo tinha aquele aspecto.

Ouvindo um som estranho atrás de si, virou-se e, à luz dourada, viu o rosto radiante de Durwin, que ria com a boca aberta e a cabeça atirada para trás. Depois, de repente, também ele estava a rir. Toli começou a cantar, dirigindo-os a todos numa canção a que chamava Pella Ofia Scear ou Canção da Estrela da Manhã.

Ao cantarem, as suas vozes subiram a superfície de rocha nua da parede da cumeeira e ecoaram num sussurro. Quando se aproximaram da fenda, notaram que a água do regato corria com um vigor renovado, saltando no seu leito rochoso e lançando para o ar uma chuva muito brilhante. o ribeiro, ao qual Inchkeith dera o nome de Corredor de Pedra, formava uma estrada de prata que corria a saudar o dia. Cavalgando por entre os abetos perfumados, seguiram o Corredor de Pedra durante muito tempo. Depois, com o Sol já mais alto, atravessaram-no e seguiram em direcção ao árido sopé dos Fiskills.

- A que distância ficam as minas perdidas? - perguntou Quentin, depois de terem cavalgado algum tempo em silêncio. Durwin, que seguia à frente, lançou-lhe um olhar por cima do ombro e soltou uma gargalhada:

- Se alguém o soubesse, meu amigo. não haveria necessidade de irmos lá, porque, por esta altura, já o lantbanilteria desaparecido todo.

- Sabes muito bem o que quero dizer, velho feiticeiro! - gritou-lhe Quentin.

- Pois é! Que impaciente! julgo que antes de dez sóis se porem chegaremos à entrada das minas perdidas dos Ariga. Isto é, se as montanhas não se tiverem alterado muito desde que os mapas foram desenhados. De qualquer modo, não vai ser nada fácil dar com elas.

- Temos o enigma - lembrou Quentin.

- É verdade, mas sabes tão bem como eu que os enigmas escondem tanto como revelam. Veremos quando chegar a altura. O altíssimo terá de nos mostrar tudo muito claramente.

Inchkeith, que estava a ouvi-los, virou-se para eles e disse:

- Sabes, Durwin, quando nos conhecemos, falaste muito dessas tuas minas perdidas. Fizeste imensas perguntas sobre o lantbanil - querias saber se eu já o vira ou o trabalhara. Lembras-te?

- Muito bem. Também me lembro da tua resposta, e tu, se calhar, não. Olhaste para mim cheio de piedade e disseste: "Achas que se eu alguma vez tivesse tocado no metal dos deuses ainda usaria a capa de um corcunda?"

"Reconheço que as minhas perguntas eram tolas, mas não te esqueças que tinha acabado de saber da existência do lantbanil e que não sabia nada das suas propriedades.

Inchkeith fez um sorriso estranho:

- Nós, os artesãos, temos as nossas lendas sobre o lantbanil, mas não sei o que há nelas de verdade.

- já ouvi os anciões falarem do lantbanil uma ou outra vez disse Quentin. - Para os Ariga, valia mais do que ouro ou prata. Os artesãos que o trabalhavam eram tratados quase como sacerdotes. Mas nunca ouvi ninguém referir-se-lhe como uma cura.

- Kboen Navish - lembrou-lhe Toli. Quentin virou-se e viu que Toli se atrasara para se pôr a par com ele e que, naquele momento, ouvia a conversa com toda a atenção.

- É verdade, as Pedras Que Curam.

Durwin pôs um ar zombeteiro e perguntou:

- Não adivinhas a resposta? - Quentin franziu pensativamente o sobrolho e, por fim, encolheu os ombros. - Pensa um bocado - continuou o eremita. - Os Ariga não precisavam de curas para nenhum padecimento. Viviam em perfeita saúde, nunca caíam doentes e jamais se soube de qualquer caso de ferimentos. Se a história do Toli é verdadeira, eles deviam saber das propriedades curativas da pedra, mas não as mencionam como tal, e isto porque não precisavam delas para si próprios.

"Quanto ao facto de os artesãos serem sacerdotes... de certa maneira, eram. Os artesãos ariga tinham jeito para todas as artes: digamos que eram poetas. Trabalhavam o metal, a madeira e a pedra como os nossos poetas trabalham as palavras. E, para os Ariga, era quase a mesma coisa. Digo "quase" porque os Ariga maravilhavam-se com o que era bem feito, pois até no mais pequeno dos utensílios viam o rosto do Altíssimo. Por isso, os artesãos eram sacerdotes porque permitiam que as pessoas vissem o seu deus nas coisas que as rodeavam. E respeitavam -nos muito. Não falaram mais durante muito tempo. Enquanto cavalgava, Quentin pensou em Dekra, e percebeu que tinha saudades dos amigos que lá deixara. O que eles estariam a fazer? Também sentiriam a falta dele? O que diria Yeseph se soubesse que o seu protegido andava em busca das minas perdidas dos Ariga? O que diria ele se soubesse que Quentin ia ter um papel importante quando chegasse a altura de forjarem a Zhaligkeer?

Eskevar encontrava-se sentado, de ombros caídos, na sua cadeira em forma de trono. A sua expressão doentia mostrava abertamente o seu desagrado. Os senhores de Mensandor, reunidos à sua frente, cerravam os punhos e carregavam determinadamente o sobrolho.

- E os outros, senhores? - perguntou Eskevar, sem tentar moderar a malícia que lhe perpassava a voz. - Eles tencionam ficar sentados junto do campo de batalha, juntando-se ao lado que fizer a chacina do dia?

- Não sabemos o que os outros senhores tencionam fazer, Vossa Majestade - retorquiu Benniot moderadamente. - Quanto a nós, viemos aqui pôr à vossa disposição as nossas espadas e as dos nossos cavaleiros. Bater-nos-emos ao lado do Rei Dragão.

- Até à morte, se for necessário - acrescentou Rudd. - Por Azrael, o meu rei não combaterá sozinho enquanto eu tiver uma espada. Os meus homens são vossos, Majestade.

- Os meus também! - exclamou outro nobre. Os restantes presentes também declararam a sua lealdade.

- Muito bem, senhores - disse, por fim, Eskevar, que, apesar de apreciar muito a decisão dos nobres que lhe eram leais, estava irritado com os que, passados dois dias de acaloradas discussões, e que eram um grupo considerável, chefiado por Ameronis e Lupollen.

permaneciam inabaláveis na sua decisão de não participarem naquilo que consideravam a guerra do rei.

- Vamos imediatamente reunir e armar as nossas tropas. Depois, marcharemos o mais cedo possível. - Enquanto falava, Fincher pousou a mão no punho da sua espada curta. - Será um prazer voltar a combater ao lado do Rei Dragão.

- Não será prazer nenhum, senhores! Que ninguém se iluda! replicou Eskevar lenta e cuidadosamente. - Parece-me que este será o teste definitivo ao nosso poder e à nossa força. Se falharmos, o mundo escurecerá e a liberdade morrerá.

- Então, deixai-nos ir depressa, Majestade. Regressaremos daqui a três dias - interpôs Rucid. - E marcharemos convosco ao encontro do Theido, do Ronsard e do Wertwin.

- Ide, ide imediatamente. E lembrai-vos, senhores: não poupeis nada. Se falharmos, não nos deixarão fortunas que valha a pena reclamar. Falarei novamente com os outros, para ver se as minhas palavras ainda podem levá-los a mudar a sua decisão. Temo bem que, ainda antes de esta guerra acabar, vamos precisar de todos os braços fortes.

-Agora, ide. Esperarei aqui por vós, pronto para marchar imediatamente.

Ouviu-se um roçagar de vestuários brocados quando os nobres fizeram uma vénia em simultâneo e saíram, cada um para, juntamente com o seu séquito, ir até às suas terras preparar-se para a guerra.

Depois de partirem, Eskevar chamou Oswald e disse:

- Vai procurar o armeiro. Quero falar com ele.

Osswald hesitou e franziu as sobrancelhas, fazendo com que as suas velhas feições se enrugassem numa teia de sulcos e de linhas profundas.

_ Não me olhes assim! já te disse para ires imediatamente procurar o armeiro!

Sem responder, o mordomo-mor fez uma vénia e saiu. Dali a pouco, bateram à porta dos aposentos do rei. Oswald entrou, seguido por um homem trigueiro, com músculos que se avolumavam e tremiam de cada vez que ele se mexia.

- O Tilbert, Majestade. - Oswald apresentou-o e saiu sem olhar para o rei.

- Tilbert - disse Eskevar. O homem assentiu com a cabeça e permaneceu em sentido, com o rosto sério e alerta. - Prepara a minha armadura e as minhas armas. Vou precisar delas daqui a três dias. E prepara-te a ti e aos instrumentos que achares melhor, porque vais precisar deles.

Nesse momento, a porta abriu-se e a rainha Alinea entrou. Tilbe fez-lhe uma vénia.

- Senhor - cumprimentou a rainha, com uma vénia. Parecia ligeiramente sem ar. - Porque está este homem aqui? - Indicou Tilberi que fez um ar confundido.

- Estou a falar com ele.

- E não é difícil adivinhar sobre o quê. Meu marido, não deves estar a pensar em ir para a guerra!

O rei mexeu-se e despediu Tilbert, fazendo um gesto rápido com a mão. O armeiro curvou-se pela cintura e fez menção de sair.

- Espera! - ordenou a rainha, virando-se novamente para o rei e fitando-o com os olhos em fogo. - Como o Durwín não está cá, pensas que podes fazer o que te apetecer, não é? Ainda estás muito fraco, Eskevar! Pensa na tua saúde!

- Agora, podes ir, Tilbert - disse Eskevar. O homem saiu silenciosamente do aposento. Alinea foi até à cadeira do rei e caiu de joelhos ao lado de Eskevar, apertando a mão direita dele nas suas.

- Imploro-te, meu rei. Não vás! Será a tua morte!

Eskevar lançou-lhe um olhar furioso; sentia-se ofendido.

- O patife do Oswald foi-te dizer.

- Que interessa isso? Meu querido, estiveste doente e ainda não recuperaste totalmente as forças. Pelo menos, espera até te sentires mais forte.

Eskevar pousou-lhe a mão na linda cabeça e passou-lhe os dedos pelo cabelo.

- Senhora, oxalá eu pudesse ficar! Mas não posso, assim como não posso esperar nem mais um dia depois de ter reunido o exército.

- Mas porquê? Deixa os teus senhores servirem-te. O Theido e o Ronsard dir-te-iam o mesmo se estivessem aqui. Eles já estão no campo de batalha; deixa-os assumirem o comando. - A voz da rainha tremia, pois ela estava à beira das lágrimas.

- Não pode ser - retorquiu ele docemente. - A maior parte do Conselho ainda se opõe ao meu chamamento às armas. Não estão convencidos de que há razões suficientes para irem para a guerra e supõem que isto não passa de um capricho e de um delírio do seu monarca.

"Não percebes? Eles julgam que eu estou doente e perturbado. Pensam que eu quero lutar contra meras sombras. Por isso, tenho de sair à cabeça do meu exército para os convencer de que estou de perfeito juízo e em condições de comandar. Talvez nessa altura se juntem a nós. Espero que sim, ou será tarde de mais.

- Mas não há outra maneira? - As lágrimas corriam livremente pelas faces de Alinea, caindo em manchas escuras no seu vestido azul.

- Tenho de ir. É a nossa única esperança - volveu suavemente o Rei Dragão.

- Meu Deus! - chorou Alinea. - É um dia maldito aquele que te tira assim de mim.

- É verdade, minha rainha. Bem verdade.

 

Mal o Sol deslizava para trás do horizonte celeste, a ocidente, via-se a Estrela do Lobo cintilando com a sua luz fria e brilhante. Era a primeira a ver-se e a última a desaparecer. Mesmo que não tivessem reparado nela antes, os habitantes de Mensandor fitavam-na agora com olhares circunspectos. Os arautos da destruição iam de cidade em cidade, espalhando rumores de morte e devastação e fazendo profecias sobre o fim do mundo. Os fracos de espírito acreditavam nestes boatos e refugiavam-se nos templos, abrigando-se em solo sagrado, onde os deuses os protegeriam. Os cidadãos mais intrépidos não arredavam pé e ficavam à espera, observando tudo. Mas todos escutavam o vento e faziam pausas nas suas tarefas diárias, erguendo os olhos para o horizonte distante, como se esperassem a qualquer momento a aproximação de algo que não se atreviam a dizer em voz alta.

Tendo enfraquecido o exército do comandante Gurd, Theido e bnsard tinham virado a sua atenção para o exército de Luhak, que vançava rapidamente para norte. Um dia em que o inimigo viajara dez .gw praticamente sem descansar e acampara já muito tarde, as forças, o rei tinham voltado a fazer o seu ataque-surpresa da meia-noite. Mais uma vez, haviam apanhado o inimigo desprevenido, matando muitos omens.

Na tentativa seguinte, no entanto, um sinal mais confuso quase derrotara o exército do Rei Dragão. As tropas do comandante Luhak esperavam numa ravina arborizada e os cavaleiros de Ronsard tinham ido ao seu encontro. Mas antes de Ronsard se ter retirado, os archeiros haviam atacado, matando muitos homens bons. Os homens do rei tinham retirado do campo de batalha, deixando os Ningaal exultantes.

Quanto a Quentin e ao seu grupo, subiam os quatro os sopés desertos das recortadas montanhas, escalando-as até às suas desoladas alturas. Apesar de terem animais seguros e de disporem do conhecimento de Durwin dos sítios por onde se passava melhor, a caminhada estava a ser lenta e difícil. De uma vez, haviam-se perdido e passado três árduos dias atravessando e voltando a atravessar o mesmo trilho, até que tinham desistido, acampando no mesmo lugar onde haviam acampado três noites atrás. Um dos animais de carga perdera uma ferradura ao passar sobre as rochas e tivera de ser solto. Para não sobrecarregarem os outros animais, haviam abandonado muitas provisões.

As sombras da escuridão adensavam-se sobre a terra. Mensandor parecia um país oscilando à beira do precipício. De dia, as estradas enchiam-se de viajantes correndo daqui para ali, na tentativa de encontrarem abrigo. Os pátios dos templos estavam juncados de camponeses em busca de refúgio. O carreiro que levava ao Grande Templo, acima de Narramoor, transformara-se numa cidade de tendas, que o ocupava completamente, desde a base até à parte de cima do planalto. Ao longo do caminho estreito, as pessoas acotovelavam-se nas suas tendas, esperando o que lhes tinham dito que ia chegar: o deus destruidor, que saciaria a sede com o seu sangue. E, à noite, os habitantes de Mensandor viam a estrela ficar mais brilhante e tremiam de medo da iminente destruição assim proclamada.

Apesar dos esforços de Theido e de Ronsard, que, corajosa e valentemente continuavam a dar luta ao inimigo, os Ningaal iam seguindo sempre para norte, aproximando-se de Askelon. Os cavaleiros do rei estavam nitidamente em desvantagem e não tardara muito que o inimigo passasse a ter cuidado com os truques dos engenhosos defensores. Em resultado disto, era cada vez mais difícil fazer os Ningaal caírem em armadilhas ou emboscadas.

Continuando firmemente a abrir caminho, o inimigo acabara por conseguir o que o exército do Rei Dragão mais temia: os quatro comandantes haviam reunido as suas forças. Os soldados de Boghaz e de Amut tinham-se juntado ao que ainda restava das tropas de Gurd e ao regimento, quase intacto, de Luhak, à entrada da floresta de Pelgrin.

Não havia memória de invasores que tivessem chegado tão longe. Nunca nenhum inimigo desafiara os cavaleiros do Rei Dragão como os Ningaal, cujas forças combinadas humilhavam os decididos defensores do reino.

Seguindo a inspirada estratégia de Myrmior, o exército do Rei Dragão refugiara-se na floresta para empreender uma guerra de emboscadas e retiradas por entre caminhos que conhecia tão bem. Isto aumentara a raiva do inimigo, e esta raiva levara-o a cometer erros e a perder homens. Apesar de tudo, a imparável caminhada para Askelon continuava lentamente e com segurança e uma precisão mecânica. Parecia que nada poderia parar o astuto invasor.

- Não podemos continuar assim - disse Theido com um ar fatigado. Estava-se no fim de outro longo dia de correrias por entre os carvalhos de Pelgrin. Os cavaleiros achavam-se sentados na tenda de Ronsard, com o rosto cor de cinza devido à bruxuleante luz das tochas. Apesar de termos menos baixas do que esperávamos, graças ao Myn-nior, estamos a ceder muito terreno. Julgo que é altura de mandar dizer ao rei que se prepare para o cerco. Embora eu esperasse que não chegássemos a isto, creio que é melhor que no castelo estejam a postos para o nosso regresso.

- Se tivéssemos mais homens, parece-me que, com o tempo, conseguiríamos derrotar os Ningaal - observou Ronsard. - Não podíamos mandar o Wertwin suplicar aos outros senhores que pegassem em armas? Ou é agora ou nunca. O facto é que ja não podem deixar de reconhecer que o perigo é real.

- Concordo contigo, senhor, mas não tenho esperança de que alguém consiga persuadir esses chacais a juntarem-se a nós. já tiveram muitas oportunidades e nunca o fizeram. E agora estamos apenas a dez léguas de Askelon!

- Mesmo assim, deixai-me ir falar com o Ameronis e com os outros - pediu Wertwin. - Eles não são cobardes e, quando se aperceberem da nossa necessidade, mostrar-se-ão razoáveis. Eu trago-os até nós.

- Então, vai, senhor. Faz o que puderes. Mas vai depressa. Não temos muito tempo a perder. Recuamos um pouco a cada dia que passa.

O nobre levantou-se e, embora estivesse muito cansado e até cambaleasse, disse:

- Partirei esta noite com apenas dois homens. Os outros ficarão sob o comando do Ronsard. - Com uma vénia rápida, saiu. Os outros voltaram uma vez mais ao seu exercício nocturno, conduzido por Myrmior, que escutava atentamente a narrativa do ataque do dia, concentrando-se depois na criação de uma nova estratégia para o dia seguinte. Myrmior parecia ter um sexto sentido, que o ajudava a prever as movimentações do inimigo, e uma grande habilidade para imaginar manobras de diversão e de surpresa, que permitiam aos homens do rei assustar e atormentar os Ningaal.

- Pelo que me contastes, vejo que os Ningaal cerraram as suas fileiras e marcham agora com os seus mais intrépidos guerreiros à cabeça - observou Myrmior, contemplando o mapa que tinha à frente. Isso é bom; significa que os nossos ataques começam a preocupá-los. Mas também quer dizer que, daqui para a frente, será muito mais difícil encurralá-los e impossível fazer-lhes qualquer emboscada.

- Como se já não fosse difícil - comentou Ronsard. - Creio que o tempo de desafiarmos a força do inimigo chegou ao fim. E, no entanto, não nos atrevemos a enfrentá-lo cara a cara. Se ao menos soubéssemos que em breve teríamos mais tropas...

- Não sei o que havemos de fazer - replicou Theido. - Mas tens razão. Não podemos carregar contra eles nem enfrentá-los como estamos acostumados a fazer. Por enquanto, submeto-me aos conselhos do Myrmior.

- É muita honra, senhores. Não tenho segredos e digo-vos livremente o que sei, para que percebais como a nossa posição é perigosa. A situação é muito grave, meus amigos. Não estou a ver nenhuma fraqueza que possamos explorar. Desta vez, eles precaveram-se contra todas as nossas artimanhas.

Myrmior tornou a olhar para o mapa, com a cabeça inclinada para baixo e os olhos vermelhos das noites sem dormir, estudando e ponderando as movimentações do inimigo, que lhe eram relatadas pelos companheiros.

- A que distância estamos deste rio? - perguntou, apontando o mapa com um dedo.

- Deixa ver - retorquiu Theido. - Isso é um afluente do Arvin e fica duas ou três léguas a oeste. Não é tão grande como parece no mapa, garanto-te.

- Mesmo assim, descobri um plano que talvez nos faça ganhar mais algum tempo. - Myrmior sorriu triunfantemente. - Um plano muito subtil.

 

O vento frio que soprava por entre as afiadas saliências rochosas chicoteava o rosto de Quentin, já ensurdecido pelos uivos que produzia ao passar pelos picos nus e ao descer, silvando, para lugares infinitos e desérticos. Quentin, com a capa virada para cima, de modo a tapar as orelhas, só desejava ter levado roupa mais quente. Embora só tivessem passado quatro dias desde que tinham atingido a parte mais alta dos Fiskifls, parecia-lhe que havia séculos não sentia o calor do sol nem via o verde das colinas estivais. Via sempre o mesmo para onde quer que voltasse o olhar: uma imensidão de picos cinzentos e brancos nitidamente recortados no céu azul-claro.

Os dias eram muito semelhantes uns aos outros: frios e sempre ventosos. À noite, acampavam sob o céu estrelado, em rebordos, fendas ou fissuras abrigadas do vento, mas as rochas eram frias e duras. De manhã, acordavam com a luz penetrante e branca de um sol que não aquecia o dia, excepto quando, por acaso, descobriam algum local abrigado do vento, onde podiam parar e comer alguma coisa antes de prosseguirem viagem. Nessas alturas, Quentin sentia-se invadido por um pouco de calor, que, como as chamas bruxuleantes de uma fogueira, lhe provocava formigueiros na pele.

Mas as pausas eram raras e nunca duravam o suficiente, pois Durwin, cada vez mais silencioso e obstinado, impunha um ritmo impiedoso ao longo do caminho feito de rochas escarpadas. Os viajantes, ao princípio cheios de vontade e de boa disposição, arrastavam-se agora lugubremente, cada um perdido nos seus próprios pensamentos, com o rosto tão cinzento e desanimado como a rocha nua que os rodeava.

Os pensamentos de Quentin voltavam-se para Theido e Ronsard e para as batalhas que imaginava estivessem a travar lá longe. Desejava encontrar-se a seu lado, em vez de andar a chafurdar ali, perdido num mundo rochoso, de luz branca e penetrantes céus azuis, frequentemente toldados por farrapos de nuvens cinzentas, que se rasgavam nos picos e deixavam cair uns chuviscos gelados, que apagavam qualquer centelha de esperança de verem o fim de uma jornada aparentemente interminável.

À noite, ficava acordado a observar a medonha estrela lançando os seus terríveis raios através do ar rarefeito das alturas. A sua luz já iluminava todo aquele quadrante e. com excepção da própria Lua, era o objecto mais brilhante do céu. Quentin começava mesmo a acreditar que a estrela ia crescer cada vez mais, consumindo o céu e a Terra, e que acabaria por tocar no mundo, provocando a conflagração que iria preparar a Terra para a nova idade. Estes e outros pensamentos davam a Quentin uma sensação de desespero como nunca tivera. E, à medida que a busca entre as rochas prosseguia dia após dia, começava a pensar que a destruição acabaria por chegar e que já era muito tarde para evitar o inevitável.

Uma manhã, Quentin foi sacudido dos seus sinistros devaneios por Toli, que se adiantara para verificar o caminho, que ameaçava ficar mais estreito e fazer com que os cavalos escorregassem.

Ouvindo um grito, levantou a cabeça e viu Toli,

que, corado de excitação e do cansaço da corrida, voava por cima das pedras do caminho.

- Lindo! - berrou Toli, quando chegou ao alcance dos seus ouvidos. - Vinde ver! Um vale... - Parou para recuperar o fôlego. - É maravilhoso! Vinde!

O rosto de Durwin fluminou-se instantaneamente:

- É? Creio que, por fim, encontrámos o que procurávamos!

E Durwin começou a subir o caminho atrás de Toli, que saltitava, ligeiro como uma cabra das montanhas, por cima das lascas de pedra lisa, apontando e acenando freneticamente.

Quentin virou-se e fitou Inchkeith.

- Bem, parece-me que uma paisagem mais suave seria bem-vinda para estes olhos em fogo... - disse o curvado armeiro - mesmo que não seja o fim da nossa viagem.

- Então, contemplemos a paisagem! - respondeu Quentin em tom sarcástico. - Quero ver o que arrancou tantos louvores ao sempre calado Toli.

Ignorando o comentário de Quentin, Inchkeith virou-se e lançou-se por cima das pedras, em perseguição de Toli, que, naquele momento, desaparecia do outro lado do cume. Quentin ficou maravilhado com a força e a agilidade do deformado armeiro, que, apesar do corpo defeituoso e do andar saltitante, conseguiu aguentar-se mesmo nas passagens mais difíceis.

Sombriamente. Quentin começou a subir com dificuldade o íngreme carreiro, que não era mais do que uma estreita fenda aberta na rocha por um riacho que transportava a neve derretida da Primavera. Quando se aproximou do cimo, já não viu nenhum dos outros. Depois de lá chegar, ainda deu uns passos pela encosta oposta abaixo antes de se lembrar de levantar os olhos. O panorama que tinha perante si estarreceu-o tanto que teve de se sentar.

Através de um vasto e ilimitado precipício de névoa prateada, viu uma depressão enorme, orlada a toda a volta por picos cheios de neve, semelhantes a dentes brancos. E a depressão, com bordos que encurvavam suavemente, tinha uma vegetação cintilante, macia e musgosa, da cor das esmeraldas ao serem batidas pela luz do Sol. Escavando o meio do lindo vale, corria um rio que ondulava graciosamente, brilhando como prata derretida, e que enchia uma bacia, formando um lago do feitio da ponta de uma lança. O lago, de um azul profundo e cristalino, reflectia os picos cobertos de branco que orlavam o insondável céu azul.

Mas Quentin só assimilou tudo isto um pouco depois. No seu primeiro olhar de êxtase, só viu o temível esplendor das imensas quedas de água, espumantes e magníficas, que alimentavam o rio e formavam o lago.

- São as cataratas de Shennydd Vellyn - dir-lhe-ia Durwin mais tarde - As cataratas do Espelho do Senhor do Céu. O lago é o espelho, claro, e Senhor do Céu é outro nome que os Ariga davam a...

- Whist Orren, já sei - replicaria Quentin, num tom de voz maravilhado - já ouvi falar em Shermydd Vellyn. -Mas nunca pensei...

- Pois, é difícil acreditar que uma beleza assim ainda exista no mundo dos homens - interviria Toli em voz baixa, como se tivesse medo de quebrar o encanto.

- Ainda é mais difícil acreditar que do outro lado destas montanhas abandonadas há homens a lutar e a morrer - observaria Inchkeith. Dos três, seria o que parecia menos afectado pela paisagem.

Mas tudo isto viria depois; naquele momento, Quentin sentia-se subjugado pela mais espectacular paisagem de beleza natural que alguma vez lhe fora dado contemplar. A água das cataratas saía de alguma nascente escondida na vertente da montanha e mergulhava no lago depois de percorrer três grandes ressaltos. Era esta a origem da névoa prateada que flutuava como gaze, emprestando ao ar rarefeito o seu brilho cintilante, como se houvesse um arco-íris sempre ao alcance da mão.

Contemplando tudo isto, Quentin acreditou que os Ariga se tinham outrora sentado onde ele estava naquele momento e haviam observado o mesmo que ele. Nesse instante, pareceu-lhe que a imensa barreira do tempo que o separava da feliz época em que os Ariga tinham caminhado sobre a terra, fora empurrada para o lado. Inexplicavelmente, aquietou-se no seu peito a constante ânsia que sentia. nem que fosse por um só vislumbre, desse tempo desaparecido. Por fim, ali estava, intacto, o que restava de outrora.

Quentin desatou então a correr pelo íngreme declive abaixo, em direcção ao lago cristalino, rindo e gritando de alegria.

Alinea despediu-se a chorar de Eskevar, que partia ao encontro dos exércitos reunidos dos seus nobres. Por muito que quisesse mostrar-lhe uma expressão corajosa, o certo é que não conseguiu. Em toda a sua vida de rainha, nunca se despedira dele com lágrimas nos olhos; independentemente do que pudesse ter chorado de medo e solidão depois de ele partir, não queria que ele levasse consigo uma última recordação de uma mulher chorosa.

Mas, desta vez, não conseguiu reprimir os seus sentimentos. As lágrimas brotaram-lhe do coração e correram-lhe pelas faces brancas, cintilando à luz da manhã.

Eskevar, habituado ao rosto intrépido que a mulher sempre mantivera. pareceu confundido com o que considerava ser uma súbita mudança.

- Senhora, não fiques triste. Voltarei logo que puder. Isto não é nada que nunca tenhamos vivido antes, meu amor.

- Temo que seja, senhor. - Com um pedaço de renda, enxugou os cantos dos olhos cor de esmeralda. O rei tirou-lhe o lencinho e enfiou-o dentro da couraça.

- Guardarei isto junto do coração, para não me esquecer das lágrimas que derramarás durante a minha ausência. Assim, não me esquecerei de me apressar para enxugar os teus olhos o mais cedo possível. Erguendo a mão enluvada, afagou-lhe o cabelo castanho-aloirado e fitou-a intensamente nos olhos. - É a última vez, Alinea. Prometo-te que nunca mais te deixarei.

Ela contemplou-o, de pé, no pátio interior do castelo, mesmo em frente da porta de guerra, e pareceu-lhe que os anos não tinham passado e que, através das lágrimas, voltava a ver o jovem Rei Dragão fitando-a de olhos brilhantes e em fogo, ansioso por partir em defesa do reino.

- Vai, senhor. Mas não digas que é a última vez, pois sei bem que tens sempre de estar onde a maldade ameace o teu reino. Vai e não tenhas pena de me deixar. Promete-me só que regressarás depressa, mal tenhas conseguido restaurar a paz na terra.

Quando acabou de falar, Alinea lançou-lhe os braços em volta do pescoço e beijou-o. Ele cingiu-a a si, apertando a sua carne macia contra a armadura de aço.

- Adeus. minha rainha.

Ela virou-se e atravessou a correr a pequena porta abobadada aberta na parede. Eskevar ficou a vê-la desaparecer e, depois, voltou-se para a sentinela, que, de olhos desviados, segurava as rédeas da sua montada. O rei subiu os três degraus de pedra e içou-se para a sela. A sentinela correu para o portão de ferro e empurrou-o. Do outro lado, estavam à espera o armeiro e os escudeiros do rei.

Sem proferir uma só palavra, o rei conduziu-os através da casa das sentinelas, passou por cima da prancha e começou a descer a comprida ladeira serpenteante e muralhada que constituía a entrada das traseiras de Askelon. Depois, atravessaram o fosso seco e seguiram pela planície ao encontro dos senhores de Mensandor e dos seus exércitos reunidos, que esperavam pelo rei no meio de esvoaçantes estandartes e do brilho do aço.

- Vem além o Rei Dragão! - gritou Rudd, que perscrutava a planície com os olhos semicerrados por causa do sol. - Tocai a trombeta!

O cornetim chegou a trombeta de batalha aos lábios e lançou para o ar um toque longo e límpício. Imediatamente se ergueu um grito:

- O rei Dragão! Vem aí! O rei Dragão cavalga connosco! - Os cavaleiros reunidos na planície martelaram com as espadas nos escudos, numa saudação barulhenta, e gritaram de alegria.

- É bom que ele venha - disse Benniot, inclinando-se ao ouvido de Rudd. - Os rumores de que estava a morrer quase tiraram a vontade de lutar aos meus homens.

- E aos meus - acrescentou Fincher. - Mas, agora, podem ver com os seus próprios olhos que ele não se esconde no alto da sua torre nem jaz na cama. Pelos deuses, como é bom voltar a vê-lo escarranchado num cavalo!

Os três nobres observaram o seu rei, que atravessava a planície a galope, na sua direcção. Atrás dele, os escudeiros transportavam um esvoaçante estandarte com a inconfundível divisa do rei: o terrível e serpenteante dragão vermelho. Na parte de cima do elmo trazia uma coroa de ouro, que brilhava ao sol como uma fita de luz à volta da sua cabeça.

Eskevar cavalgou para o meio do seu exército, por entre as aclamações dos cavaleiros e dos soldados. A sua recepção foi tão ruidosa que ainda lhe levou algum tempo a acalmá-los para conseguir fazer-se ouvir. Mas, por fim, o exército, constituído por mais de dois mil homens, ficou silencioso e aguardou ansiosamente as suas palavras.

- Leais súbditos, homens de Mensandor! - Mais aclamações. Vamos marchar hoje ao encontro de um inimigo forte e mortal, As mensagens dos que já o estão a combater indicam que ele chegou aos limites da floresta de Pelgrin, apenas dez léguas a leste daqui. - A multidão foi perpassada por uma onda de murmúrios de surpresa e incredulidade. - O inimigo deixou atrás de si um rasto de destruição, devastou as nossas cidades e as nossas aldeias e matou os inocentes. Ouviram-se gritos de cólera e de vingança.

Eskevar passeou o olhar pelos rostos voltados para cima dos soldados reunidos à sua frente. -Muitos deles estavam ajoelhados, apertando o punho da espada com a mão direita. Então, desembainhou a espada e ergueu-a bem alto:

- Por Mensandor! - gritou em voz forte.

- Por Mensandor! - responderam muitas vozes ao mesmo tempo.

- Pela honra! Pela glória! - berrou o Rei Dragão.

- Pelo rei e pelo reino! - volveram os soldados.

Com a espada apontada para leste, Eskevar esporeou o cavalo por entre os exércitos reunidos. À sua frente abriu-se um caminho, ladeado por espadas e lanças erguidas e muralhado com escudos e esvoaçantes estandartes coloridos. O rei Dragão passou por entre esta exibição de armamento, no meio das aclamações dos soldados. O caminho fechou-se atrás dele e os cavaleiros e os soldados de infantaria pegaram nas armas e seguiram o seu rei para a batalha.

 

- Só por isto, os trabalhos que passámos valeram bem a pena disse Quentin alegremente, sentado num local cheio de erva e agitando os pés descalços na água fria e límpida de Shennyeld Vellyn. - Não há recompensa como esta. - Sentia que o cansaço da dura jornada e a fadiga dos dias aparentemente infindáveis passados na sela e, ultimamente, a pé, conduzindo os cavalos, iam desaparecendo, levados por aquelas águas calmantes. Sentia-se reviver.

- É verdade! Mas, embora me pareça que, por fim, estamos num lugar onde podemos começar a procurar as minas, o certo é que ainda não as encontrámos. - O eremita achava-se mais uma vez debruçado nos mapas e apontamentos, procurando a chave ou qualquer sinal que o iluminasse e o pusesse no caminho da descoberta das minas.

Toli, alegre e transbordante de animação, quase inebriado pela beleza que o rodeava, aproximou-se deles a passos largos:

- Soltei os cavalos para pastarem à vontade. Vede como correm! Na verdade, os cavalos cabriolavam como potros no ar balsâmico da grande depressão do vale. Galopavam, saltavam e empinavam-se por cima da erva macia e espessa, verde como os primeiros e delicados rebentos da Primavera.

- Vamos ter um trabalhão a tentar apanhá-los outra vez - resmungou Inchkeith. Quentin e Toli entreolharam-se. Inchkeith resmungava sombriamente desde que tinham descoberto o vale encantado. O seu mau humor fora piorando na proporção da boa disposição dos outros, cuja alegria parecia ter asas. Naquele momento, estava bastante azedo.

- Não te preocupes com isso, mestre Inchkeith. Logo que o Toli assobiar, virão a correr. Ele tem poder sobre eles. - Inchkeith desviou o olhar e não disse nada.

- Agora, ouvi outra vez o enigma - disse Durwin. - E pensai!

Em cima de dentes, por baixo depatas, vai com cuidado.

Onde as montanhas dormem, mantém-te vigilante e verás melhor o caminho.

Quando ouvires risos entre as nuvens, uma cortina de vidro verás.

Não cuides de nada, ou nunca passarás.

A cortina e o trovão dividirás e o caminho estreito procurarás; O dia pela noite darás e a luz reterás.

E assim o dia ganharás.

Durwin olhou-os um a um, pestanejando sem perceber.

- Bem - suspirou, exasperado. - Tal como eu pensava. Agora não é assim tão simples, pois não? Agora que chegou a altura de resolvermos o mistério...

- Quanto a mim, é tempo perdido! - cortou Inchkeith abruptamente. - É uma loucura andarmos por estes rochedos desolados em busca de um sonho. Olhai para nós, a balbuciarmos como crianças sobre enigmas e disparates que tais. Ali em baixo... - abriu o braço num gesto de cólera e frustração - ali em baixo há homens a morrer. O sangue de homens bons é derramado e encharca o chão, enquanto nós brincamos às adivinhas entre as nuvens!

Quentin escutava de testa franzida e olhos semicerrados. de certa forma chocado pela denúncia que o armeiro fazia da sua missão.

Durwin falou por fim, quebrando o silêncio que se fizera depois da rancorosa explosão de Inchkeith:

- Será que os serviríamos melhor se pegássemos nas espadas e nos lançássemos na luta? Achas que as nossas espadas são assim tão importantes?

- E é importante resolver enigmas e quebrar os ossos nestas malditas montanhas? Para quê?

- Pensava que estavas connosco, Inchkeith - interveio Quentin.

- Pensava que acreditavas, como nós, na importância da nossa jornada. Tu acreditavas! Tenho a certeza que sim!

- Talvez tenha acreditado. Mas tive tempo para pensar. Foi um erro ter vindo. O meu lugar não é aqui. Eu devia voltar para a forja e a bigorna. Está a ser travada uma guerra, pelos deuses!

Então Durwin, falando docemente, como se se dirigisse a uma criança, disse uma frase surpreendente:

- Não tenhas medo, Inchkeith. Aos outros foi destinado combater... e morrer. Mas o nosso destino é procurar a espada e levá-la ao rei. E ainda que haja só uma hipótese remota de a espada ser a Zhaligkeer, creio que não temos melhor maneira de despendermos os nossos esforços do que procurá-la, independentemente de o mundo inteiro se afogar em sangue.

Não tenhas medo.

Estas palavras penetraram profundamente no coração de Quentin. Sim, era isso. Inchkeith tinha medo de fracassar, de nunca encontrar as minas perdidas. E talvez tivesse ainda mais medo de o conseguir e de forjar a lendária espada... medo de acreditar que a profecia podia ser cumprida. Era melhor não saber. No fundo do coração, Quentin também se sentia assim.

Ao princípio, empolgado pela perspectiva de grandes feitos e pela promessa de glória, Quentin, cada vez mais relutante, acabara por considerar que a sua missão era pouco meritória no que lhe dizia respeito. Sonhar com a possibilidade de ser o desejado Rei Sacerdote era uma coisa, mas era outra bem diferente partir em busca dos meios que transformassem o sonho em realidade.

A aura de fantasia mística evaporara-se no caminh, levada pelo vento uivante e pelas noites passadas sem dormir, em cima das rochas frias e nuas, sob o brilho colérico de estrelas distantes e pouco amigáveis. E a verdade era que ia ficando com mais medo à medida que se aproximava a realização dessa promessa.

Não tenhas medo.

Embora estas palavras tivessem sido dirigidas a Inchkeith, provocavam em Quentin um estranho remoinho de emoções. Apeteceu-lhe logo gritar para Durwin: Porque não hei-de ter medo? Tenho boas razões para isso. Nunca pedi para ser esse novo rei, sobre cujos ombros pesa a responsabilidade da paz no mundo. Nunca o quis.

Mas Quentin não disse nada. Virando o rosto. contemplou a água cintilante do Espelho do Senhor do Céu.

Nessa noite, acamparam ao lado do lago. A leste, os picos cobertos de branco lançavam uma luz rósea sobre a depressão verde, agora imersa em sombras azuis muito escuras. A Estrela do Lobo, que brilhava com ferocidade no céu, reflectia-se nas profundezas cristalinas de Shennvdd Vellvn.

Quentin achava-se sentado sozinho, silencioso e pensativo. Só se mexia quando os passos leves de Durwin. assinalavam a presença do eremita.

- Pronto! - disse Durwin, e a sua voz pareceu ressoar na água. - Por fim, chegaste lá.

Quentin lançou-lhe um olhar de interrogação. Pegando na túnica, Durwin acocorou-se ao seu lado:

- Chegaste ao local escuro e estreito por onde devem passar todos os servos do Altíssimo.

Quentin deu um piparote num seixo, que caiu no lago:

- Não sei onde cheguei.

- Ai isso é que sabes! E é isso que te preocupa. É um bichinho que te anda a roer desde que partimos de Askelon. Estava a preocupar-te na noite que passámos em casa do Inchkeith. Vi-o claramente nessa altura. Até te falei nisso, mas tu fugiste à minha pergunta.

- Não é possível estarmos todos enganados quanto à profecia? Na minha opinião, não sou eu o escolhido. Se fosse, não o saberia?

- Talvez estejamos enganados. É possível que tenhamos lido mal os sinais. Mas não interessa muito se és ou não o escolhido.

Quentin inclinou a cabeça abruptamente; não estava à espera que o eremita dissesse aquilo.

- Não - continuou Durwin. - O que interessa é saber se, apesar da tua descrença, estás disposto a seguir o Altíssimo.

- Não... não sei o que queres dizer.

- Claro que sabes. De uma forma ou de outra, passaste a tua vida a servir os deuses. Aprendeste depressa a esperar dos deuses antigos apenas aquilo que eles são capazes de dar: um ou dois sinais insignificantes, um pequeno favor que se pede vagamente. Depois, conheceste )"ist Orren, o Deus Altíssimo, o Deus único e Verdadeiro. Serviste-o lealmente durante muitos anos e aprendeste muito sobre os seus desígnios. Mas agora é a primeira vez que tens de confiar realmente nele e de te entregar nas suas mãos... e estás com medo.

Quentin fez menção de protestar, mas Durwin levantou as mãos.

- Sim. medo! Agora, tens de pôr a tua fé à prova. E que prova'.... minas perdidas, espadas chamejantes e o cumprimento de profecias.

- Porque é que eu havia de ter medo?

- Não é muito difícil adivinhar a razão. Acontece o mesmo com todos os homens. Tens medo de pôr a tua fé à prova. porque isso significa pôr o Altíssimo à prova. Bem no fundo do teu coração, receias que ele fracasse. E, se assim for, ficarás irremediavelmente sozinho. tanto nesta vida como para além dela: e não te restará mais nada em que possas acreditar.

Quentin abanou a cabeça.

- Não, Durwin. O meu medo não é esse.

- Então. diz-me qual é.

Quentin encheu os pulmões de ar, olhou para o eremita e desviou rapidamente a vista:

- Tenho medo de ser o Rei Sacerdote. Não sei porquê, mas a simples menção de espadas e minas enche-me de pavor. Olha para o meu braço! Como posso empunhar a Brilhante com um braço morto como madeira para queimar?

- Ao fim e ao cabo, é a mesma coisa, não é? Tens medo de aceitar uma coisa que o Altíssimo destinou para ti.

- É a mesma coisa como?

- Claro que é. O facto de aceitares a coroa de Rei Sacerdote significa confiares inteiramente no Altíssimo. Quer dizer que tens de confiar que ele sabe o que é melhor para ti e que te conhece melhor do que tu te conheces a ti próprio. Significa confiar nele para além da confiança, mesmo quando o caminho é pouco claro... especialmente quando o caminho é pouco claro.

"Quando confiamos assim, necessariamente testamos a capacidade do deus de nos conservar junto a si, E não te apetece... assim como a nenhum de nós... exigir isso dos teus deuses. Se confiarmos só um pouco, ficaremos só um pouco desapontados, não é' Se eu não acreditar, mas, de qualquer modo, o seguir, isso não é escarnecer do Altíssimo e desafiar a sua vontade?

- Pelo contrário, meu amigo. Segui-lo sem ver o que está no fim do caminho... sem acreditar, como dizes... é, na verdade, a maior prova de confiança.

- Apenas uma confiança cega - objectou Quentin. As palavras do eremita faziam sentido, mas ele ainda achava que não podia aceitá-las sem lutar.

- Confiança cega, não. Nem por sombras. Os que confiam nos deuses sem poder da terra e do céu... esses é que confiam cegamente. Quentin, olha para mim - ordenou o eremita docemente. - Não podes servir o Altíssimo sem confiar inteiramente nele, pois haverá sempre uma altura em que ele te porá à prova. Para ele, é tudo ou nada. Não pode haver meios-termos. É uma das exigências que faz aos seus seguidores.

Por um instante, ambos os homens se calaram. A grande depressão do vale adensara-se num crepúsculo cor de violeta. A ocidente, os picos ainda mostravam um débil brilho de chama, mas também isso estava a desvanecer-se rapidamente.

- Vê as coisas assim: porque havias de ter medo de pôr o Altíssimo à prova? - prosseguiu Durwin. - Se é ele que to pede! Tu vês o teu braço ferido como uma prova contra a sua vontade. Aquele que criou os ossos não consegue também curá-los? E o que o impede de decidir elevar um acólito órfão à coroa do reino?

Quentin sorriu com aquelas palavras.

- Queres então dizer que devo levar para diante tudo isto, independentemente dos meus sentimentos.

- Exactamente. Não procures esconder nem disfarçar as tuas dúvidas e os teus temores. Dá-lhos. Deixa-o aceitá-los. Afinal de contas, fazem parte de ti.

Quentin ficou a pensar durante muito tempo. Depois, perguntou:

- O que quiseste dizer quando aconselhaste o Inchkeith a não ter medo?

Durwin sorriu:

- Mais ou menos o que estou a dizer-te agora. Não devemos temer pelo Altíssimo, que sabe muito bem tomar conta de si. Só devemos preocupar-nos connosco e com o facto de permanecermos fiéis ao seu chamado. Sei que é muito em que pensar só de uma vez. Eu levei muitos anos a compreender isto e, agora, peço-te para o entenderes nuns breves instantes...

"O Inchkeith não conhece o altíssimo, mas não é um ignorante. E ainda tem medo de acreditar que possa existir uma coisa tão boa e tão poderosa. Como te disse, é aqui que muitos homens desistem.

"Mas, se ultrapassares os teus medos e as tuas dúvidas e seguires em frente... ah!, podem acontecer coisas estranhas e maravilhosas. Sim, os órfãos podem vir a ser reis, das espadas podem brotar chamas e os grandes inimigos podem ser derrotados de um só golpe.

De tão perdido que estava nos seus próprios pensamentos. Quentin não ouviu Durwin retirar-se. Mas, depois de ter erguido o olhar para o céu. naquela altura pululante de estrelas luminosas, soube que estava sozinho. Os pensamentos incomodavam-no e fervilhavam dentro dele. E, em vez de acalmarem o seu espírito perturbado, as palavras de Durwin só tinham aumentado a confusão... pelo menos, era o que parecia.

Quentin deitou-se e embrulhou-se na capa. para melhor observar a cintilação das estrelas e meditar nas palavras do eremita. Ficou a pensar durante muito tempo. Depois, caiu lentamente num sono perturbado. E. deitado no espelhado Shennydd Vellyn, teve um sonho cheio de pormenores estranhos e maravilhosos.

 

O lamacento afluentezinho que Myrmior indicara no mapa ficava no caminho dos Ningaal, que teriam de o atravessar para avançarem mais. Como Theido dissera, não era lá muito grande, mas era fundo e. ao passar por uma das partes mais densas de Pelgrin, tinha as margens íngremes cheias de raízes. Pouco se falava nele, mas o seu nome era Deorkenrill, devido ao ar escuro e sinistro que o rodeava. As suas águas cinzentas e túrgidas deslizavam silenciosamente, seguindo um curso serpenteante. atravessavam lamaçais malcheirosos e poças estagnadas e nauseabundas e, por fim, desaguavam no poderoso Arvin, muitas léguas a norte.

Apesar da sua insalubridade, foi junto dele que Myrmior propôs que o exército do Rei Dragão fizesse uma paragem final, para tentar travar o inexorável avanço dos invasores em direcção a Askelon.

O plano era simples, concebido para dividir o grosso dos Ningaal em grupos mais pequenos, que, depois, poderiam ser mais eficazmente combatidos pelos defensores. Mas, tal como a maioria dos estratagemas de guerra, o plano de Myrmior também comportava o seu elemento de risco. Os fatigados defensores fechavam os olhos ao perigo e pensavam que valia a pena correrem todos os riscos, pois aquela era, provavelmente, a sua última esperança de travarem os Ningaal antes de estes chegarem às planícies de Askelon.

Numa extensão de várias léguas para norte e para sul, só havia um local apropriado para um exército atravessar o Deorkenrill: uma depressão situada no fundo de um pequeno outeiro. onde o regato se abria um pouco, formando um vau natural.

- Isto é melhor do que eu esperava - observou Myrmior ao vê-lo. - Parece que foi feito especialmente para nós.

- Bem, não é sítio que eu escolhesse para combater - comentou Theido. passeando o olhar pelo bosque, onde o crepúsculo se adensava. - Esperemos que os Ningaal pensem o mesmo e não suspeitem de nenhuma emboscada aqui.

- -Na verdade, eles andam cada vez mais desconfiados. Agora, os seus batedores vão bem à frente do corpo principal e já não é fácil evitá-los - fez notar Ronsard. - Mas o Theido tem razão. Isto não é lugar para combater. Olhai em volta: lama, árvores. trepadeiras. Mal se consegue desembainhar a espada.

- Senhores. é exactamente por isso que este lugar é o melhor para nós. Quer eles desconfiem quer não, têm de atravessar esta água. E eu proponho que lho dificultemos ao máximo. Mas temos de deitar mãos à obra. Há muito a fazer antes da primeira luz da manhã. Vamos precisar de trabalhar toda a noite.

- Muito bem - disse Theido com um ar decidido. - já dissemos o que tínhamos a dizer e não sabemos de nenhum plano melhor.. Pomo-nos às tuas ordens. O que queres que façamos?

Myrmior olhou em volta, à luz do crepúsculo enevoado. Dos vales pantanosos situados ao longo das margens do Deorkenrill elevava-se um vapor malcheiroso, que deslizava devagar por entre os troncos cinzentos das árvores.

- Mi! - exclamou, apontando para a clareira que o inimigo teria de atravessar para chegar ao rio. - Começaremos por abrir um canal até à clareira, que encheremos hoje à noite e esvaziaremos de manhã. Por essa altura, a lama já deve estar bem espessa. E mandai alguns homens começarem a carregar água para a outra margem. Quero que ela também fique lamacenta e escorregadia.

Assim, deram início aos trabalhos. Embora não estivessem preparadas para escavar e transportar água, as forças do Rei Dragão serviram-se do que tinham à mão para realizarem estas tarefas. Os cavaleiros, mais à vontade na garupa do cavalo do que em terra firme, chapinhavam incansavelmente na lama e na água fedorenta, cavando com as suas nobres espadas ou de mãos nuas, abrindo um canal para levar água à clareira. Trabalhavam à luz bruxuleante das tochas, ouvindo os gritos perdidos dos mochos e de outras criaturas atraídas por aquela invulgar actividade.

Outros trepavam às árvores mais altas que cresciam nas duas margens e construíam plataformas de ramos e galhos, de onde os archeiros fariam chover as suas flechas sobre o inimigo. Enrolando trepadeiras, faziam-se cordas que se esticavam de uma árvore até à outra. E, para grande surpresa de Myrmior, os homens do rei cortaram três das maiores árvores que havia na margem junto à clareira, deixando-as muito perto de caírem e, por meio de cordas, ataram os seus ramos superiores às árvores vizinhas, para que não tombassem logo. Depois, disfarçaram as marcas do machado, enchendo-as de lama e folhas.

Esta actividade prosseguiu pela noite fora. Quando o céu, que se entrevia irregularmente por entre as árvores, começou a clarear, Theido, Ronsard e Myrmior foram à outra margem observar a sua obra.

- Só falta esvaziar outra vez a clareira. E precisaremos de carvão em brasa para atar às flechas - disse Myrmior, muito satisfeito com o que estava a ver.

- Depois, ficamos à espera. Ainda devemos ter algumas horas para os homens descansarem antes de os primeiros Ningaal passarem por aqui - observou Ronsard.

- Concordo. Trabalhámos bem. Rezemos para que tenha valido a pena - replicou Theido numa voz cansada e rouca, devido às horas que passara a gritar ordens. - Vamos fazer o que ainda falta e distribuir os homens pelos seus postos.

Dizendo estas palavras, os senhores afastaram-se imediatamente, para irem acabar as suas tarefas. Depois, quando a luz fraca da manhã começou a filtrar-se no valezinho sombrio, instalou-se o silêncio. Estava tudo pronto e não havia nada que indicasse que as coisas não se encontravam como deviam, que não eram o que pareciam. Havia um exército invisível à espreita por entre os fetos, em cima das árvores e por trás dos outeiros cobertos de erva.

Os primeiros Ningaal que atravessaram a clareira foram os batedores. Sem se aperceberem do exército que esperava de ambos os lados, passaram o rio a vau e prosseguiram no seu caminho. Depois, passaram várias fileiras de cavaleiros. Como Myrmior esperava, os cavalos transformaram a clareira num lodaçal e fizeram da outra margem, já escorregadia com a lama que os homens de Ronsard tinham produzido. uma traiçoeira armadilha. Mas também eles passaram sem serem incomodados.

A tensão infiltrava-se no ar. Theido não entendia como era que o inimigo também não a sentia. Quanto a ele. tinha um nó no estômago e os nervos esticados como as cordas de um arco. Embora não visse os seus homens do sítio onde estava escondido entre os bafientos fetos, sabia que eles deviam sentir o mesmo. Forçando-se a permanecer calmo, continuou à espera.

O sol caminhava para o zénite quando os primeiros soldados começaram a atravessar o vau. Centenas de homens dispostos em fileiras chapinhavam com água pela cintura e resvalavam ao subirem com dificuldade a outra margem. Theido via-os chegarem à clareira e notou, com satisfação, que os soldados iam andando mais lentamente à medida que o atoleiro ficava mais profundo e lhes prendia os pés.

Ouviu um som e um grito rápido e, de repente, apareceu um cavaleiro junto do vau. Tratava-se de um comandante montado no seu corcel preto, e via-se bem que não estava satisfeito com o tempo que os seus soldados levavam a atravessar o rio. Mesmo sem entender patavina da sua rude língua, Theido percebeu que ele ordenava aos seus homens que se mexessem mais depressa, o que era exactamente o que ele faria se estivesse no seu lugar. O comandante endireitou-se na sela e olhou longamente a montante e a jusante do Deorkenrill. Theido susteve a respiração. Teria ele dado por alguma coisa? A sua armadilha teria sido descoberta?

Mas o sinistro senhor fez o cavalo dar meia volta e tornou a gritar para as dezenas de homens que avançavam com dificuldade por aquele pantanal. Depois, entrou no regato, atravessou-o e desapareceu do outro lado.

Os soldados de Nin começaram a passar aos cem de cada vez: cambaleavam, cheios de lama, até ao vau, passavam-no e lançavam-se na subida da outra margem como peixes saltando fora de água.

Apareceu outro comandante. rodeado por vinte cavaleiros. Tal como o anterior, ficou a ver os homens atravessando o rio e, depois, seguiu atrás deles.

A floresta estremeceu com o som de qualquer coisa muito pesada esmagando o matagal. "As carroças!", pensou Theido. "Preparai-vos!."

Era das carroças que estavam à espera. Ao que Myrmior sabia sobre as movimentações dos Ningaal, estes costumavam viajar com as armas e os mantimentos nas carroças. seguindo à frente metade dos homens e o resto atrás. Os defensores iam atacar a segunda metade da hoste dos Ningaal.

Espreitando cuidadosamente através dos fetos da altura de um homem, Theido viu os primeiros vagões atolados quase até aos eixos na clareira, que fora transformada num lodaçal pelas centenas de pés e de cascos que haviam passado anteriormente. Em volta de cada roda, cerca de vinte soldados gemiam, esforçando-se por empurrar a carroça, e os quatro cavalos que a puxavam inclinavam-se para a frente de cada vez que ouviam o estalido do chicote do condutor.

A mão de Theido procurou o punho da espada. Ele sabia que, naquele momento. mil flechas estavam a ser assestadas nos arcos, em preparação para o sinal que não tardaria muito. Cada archeiro aprontou a sua latinha com carvões em brasa e as suas flechas com as pontas envoltas em tecido embebido em palbab, ou seja, líquido inflamável. Ao ver o gesto inconsciente de Theido, Myrmior pousou-lhe a mão no braço e murmurou:

- Ainda não. Dá aos outros tempo para se porem a postos e aos que passaram agora para se distanciarem da emboscada.

Theido tirou a mão do punho da espada, passou-a pelo rosto suado e soltou a respiração por entre os dentes cerrados.

À custa do esforço de muitos homens, os Ningaal tinham conseguido içar as carroças e transportá-las para junto do vau, mas, naquele momento, começaram a entrar na clareira outras, que imediatamente se afundaram no atoleiro. Dali a pouco, a clareira estava juncada de carroças atoladas e de centenas de soldados amontoados à sua volta, esforçando-se por as tirar dali.

- Agora! - sussurrou Nyrmior com a voz esganiçada. - Agora!

Em silêncio, Theido desembainhou a espada e saiu calmamente do meio dos fetos. Sabendo que todos os olhos estavam postos nele, ergueu a espada e baixou-a de repente. O ar foi atravessado por um som semelhante ao produzido por um enorme bando de pássaros quando levantam voo das copas das árvores. O valezito húmido e frio, penmnentemente mergulhado na semiobscuridade, iluminou-se instantaneamente com as flechas em chamas, que, como estrelas cadentes, descreviam um arco antes de atingirem o seu objectivo.

Os Ningaal, que não tinham desconfiado de nada, soltaram um confuso grito de alarme quando as setas em fogo chegaram aos seus alvos: as carroças. Num abrir e fechar de olhos, os vagões estavam a arder e os confundidos soldados cegos de terror. Mas os archeiros do Rei Dragão, sem darem tréguas ao inimigo, começaram a disparar as suas setas contra eles. Os Ningaal tombavam no sítio onde estavam, sem verem os seus atacantes nem ouvirem o assobio da seta que os abatia.

No entanto, a zaragata mal começara quando surgiram os dois comandantes que faltavam. Um deles, rodeado pela sua guarda pessoal, saiu do bosque a galope. Ouviram-se gritos e ordens e, dali a momentos, o caos desfez-se, apesar de a maioria dos Ningaal continuar sem as armas, arrumadas em várias carroças a arder.

Mas também isso foi resolvido. Em resposta a uma ordem do comandante, um grupo de soldados precipitou-se para uma das carroças, saltou para o meio das chamas e começou a atirar armas aos seus camaradas. Quando um dos homens era consumido pelo fogo, um outro saltava a tomar o seu lugar.

O outro comandante, com a sua guarda pessoal montada, apontou a espada para o outro lado do rio, e os seus guerreiros atravessaram o vau a galope, em direcção ao local onde Theido e Myrmior esperavam juntamente com uma dezena de cavaleiros. As flechas apanharam dois homens a meio do regato, arrebatando-os das selas. Um outro cavaleiro conseguiu passar, e Theido deu por si a desviar-se de espadeiradas selvagens, que cortavam os fetos e faziam voar a vegetação.

Então, ergueu a espada, para aparar os golpes, e agarrou na banda do cavalo do inimigo, puxando-lhe a cabeça para baixo. O animal caiu de joelhos e Theido atirou-se para cima do adversário, arrancando-o da sela. Antes de o guerreiro conseguir desembaraçar-se da sua montada caída, o punhal do cavaleiro fez o seu trabalho.

No bosque sombrio ecoavam sons de batalha. Os homens lançavam gritos de guerra e entravam furiosamente na refrega. As espadas golpeavam escudos e elmos e os machados giravam, desfazendo o que quer que tentasse travar as mortais lâminas. Theido afastou-se do cavalo sem cavaleiro e viu uma dezena de soldados com machados patinhando na sua direcção. Alguns deles gritavam empunhando os machados, cujos cabos ainda fumegavam.

Quando o primeiro guerreiro levantou o machado, Theido acertou-lhe na garganta. Mas ainda não retirara a lâmina e já um segundo estava sobre ele. Ao ver o brilho da lâmina que girava no ar, ergueu o escudo, esperando que o golpe iminente lhe esmagasse o braço.

Mas o golpe não chegou a ser desferido, Theido desviou-se para o lado e viu o rosto familiar de Ronsard, sombriamente determinado. O sangue escorria da sua espada e o homem ferido que tinha aos pés contorcia-se, agonizante. Por trás de Ronsard, surgiram vários cavaleiros do bosque, onde tinham estado escondidos.

- Quero um comandante para mim! - gritou Ronsard, saltando para a sela que o cavaleiro que jazia aos pés de Theido acabara de deixar vaga.

Enquanto voava através do Deorkenrill, o comandante-chefe abateu dois Ningaal que carregavam contra ele; naquele momento, já boiavam na água dezenas de cadáveres inimigos.

Com um domínio perfeito, o comandante, que usava um elmo de pele branca e um penacho feito com a cauda de um cavalo, fez a sua montada dar meia-volta, para receber de frente a carga de Ronsard. A espada deste último faiscou uma e outra vez, mas sem grande resultado, pois o chefe guerreiro foi aparando e desviando cada golpe que ele desferia. Nenhum deles conseguia ficar em vantagem e, dali a pouco, Ronsard estava rodeado por soldados inimigos. Por isso, como não queria ser derrubado da sela e esfaqueado através de alguma fenda na armadura, foi forçado a desistir do combate e a correr novamente para a outra margem.

Os archeiros disparavam as suas setas, que caíam como uma chuva mortal sobre o campo de batalha. Quando as revoadas de setas cruzavam os ares, tombavam dezenas de Ningaal. As aziagas águas do Deorkenrffl tingiram-se de vermelho com o sangue dos mortos. E do outro lado, na margem escorregadia transformada em armadilha mortal, os que tinham tombado jaziam como troncos cortados. No atoleiro da clareira. os vivos corriam em frente, pisando os corpos dos seus camaradas.

O combate fora tão bem planeado que era em vão que os Ningaal se esforçavam por ficarem em vantagem. Myrmior corria ao longo da outra margem, gritando ordens, reforçando a posição dos defensores onde era necessário e chamando a atenção dos archeiros para os novos e ameaçadores alvos que iam surgindo do bosque mergulhado na semiobscuridade. Se tivesse havido mais tempo ou se as forças do Rei Dragão fossem mais, os corajosos defensores teriam tido o seu dia de vitória. Mas não seria assim.

De repente, ouviu-se por trás da posição dos defensores um grito terrível, que ecoou como um trovão no pequeno vale. Ao escutá-lo, até o mais corajoso dos cavaleiros sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias. Tratava-se do uivo enfurecido dos Ningaal que já tinham passado o Deorkenrill e que agora voltavam, atraídos pelo fragor da batalha. Dali a momentos, os homens do Rei Dragão estavam rodeados e teriam sido instantaneamente esmagados se Myrmior, sempre alerta para o inesperado, não tivesse planeado um último truque.

O mordomo-mor barbudo, sem querer saber do perigo que corria, subiu a uma pequena colina situada na outra margem e ficou lá a agitar as mãos. Ao princípio, pareceu que não ia haver qualquer reacção ao seu sinal, pois ninguém deu atenção ao comandante, que assim se expunha tão inesperadamente, mesmo no meio da luta. Mas, então. ouviu-se um ruído tal que parecia que a terra estava a rasgar-se, a romper-se por dentro. O sílêncio abateu-se sobre os espantados invasores, que pararam à escuta, olhando em volta.

Houve um outro rugido, e mais outro, que cruzaram o bosque como um trovão fantasmagórico, acentuado por estalidos, estremeções e rangidos horríveis, parecia que algum animal pré-histórico estava a triturar os ossos da sua enorme presa. Depois, o próprio céu pareceu inclinar-se e balouçar.

A primeira árvore caiu em cheio em cima de um grupo de soldados Ningaal, demasiadamente espantados para fugirem. Os seus camaradas desviaram-se para o lado a gritar, mas foram apanhados pela segunda árvore, que caiu perpendicularmente à primeira e calou muitas vozes quando os seus ramos esmagaram e pregaram ao chão os que lhe ficaram por baixo.

Parecia que a floresta estava a abater-se sobre os apavorados Ningaal.

Muitos deles largaram as armas, voltaram a atravessar o rio a correr e fugiram para a floresta, onde foram abatidos pelas flechas. A terceira árvore tombou sobre o vau, cortando a retirada aos que procuravam fugir pelo sítio por onde tinham chegado. Uma coorte de defensores lançou-se em perseguição dos Ningaal em fuga, que corriam aos gritos pelo bosque, e matou muitos homens.

No entanto, o terror inspirado por esta última armadilha foi de curta duração. Dali a instantes, a vontade de ferro dos comandantes invasores restabeleceu a ordem entre os seus homens. Com uma eficiência terrível, estes comandantes aproximaram-se rapidamente dos tenazes cavaleiros, abrindo caminho por entre as suas vacilantes defesas, e a sorte da batalha virou-se contra as forças do Rei Dragão. Mesmo assim, e apesar de se encontrarem em desvantagem numérica e de se acharem exaustos, os leais cavaleiros aguentaram-se durante todo o meio do dia.

Várias equipas de soldados Ningaal, alguns com machados e outros com escudos em cima da cabeça, começaram a cortar as árvores onde se encontravam os archeiros, lançando a morte aos que estavam em baixo. Assim protegidos, os Ningaal conseguiam abater as árvores, mas não logravam deter completamente os archeiros que fugiam no último momento, balançando-se nas cordas que haviam escondido entre as trepadeiras. Mas, por fim, a ameaça vinda das copas das árvores acabou por ser aquietada. e os terríveis chefes dos guerreiros voltaram a sua atenção para os cavaleiros de armadura, que se reagrupavam na outra margem.

- É altura de fugirmos - ofegou Ronsard, que sangrava de uma dúzia de ferimentos ligeiros e tinha o rosto sujo, coberto de sangue e cinzento devido à exaustão. -já fizemos o que podíamos.

Theido fez um gesto de assentimento:

- Vai. meu bom amigo. Leva os teus homens daqui para fora. Eu ficarei aqui a cobrir a tua retirada e seguir-te-ei logo que estejas a salvo.

Myrmior apareceu, muito pálido e a segurar o braço. Tinha uma mancha vermelha na manga.

- Infelizmente, é muito tarde, senhores. Acabei mesmo agora de fazer um último reconhecimento da nossa posição. Estamos cercados por todos os lados. Não há fuga possível.

- Temos a retirada completamente cortada? – perguntou Ronsard. As forças pareceram abandoná-lo e a espada tombou-lhe para o lado.

- Era o que eu temia. Eles são muitos. - Theido desviou o rosto severo e ordenou em voz forte que os defensores do reino se reunissem e preparassem para fazer pagar bem cara a sua morte.

Dali a pouco, o que restava da exausta força de combate reunia-se, a arrastar-se, em volta da colinazita onde Theido se encontrava, com a espada erguida. Os Ningaal recuaram, reorganizando-se para a chacina final. Por um breve momento, deixou de se ouvir o clamor da batalha.

- Corajosos cavaleiros de Mensandor, lutastes como bravos - disse Theido. - Não deixastes ficar mal a honra do vosso rei e do vosso país. Os vossos feitos serão cantados enquanto os feitos de valor foram lembrados. - os cavaleiros, entre os quais havia alguns ajoelhados à sua volta, ergueram o rosto.

Theido continuou calmamente:

- Que o momento da morte não vos arrebate a honra que agora mereceis. Custa pouco. Depois, virá o descanso e o sono e nunca mais conhecereis a dor. Não tenhais medo e permanecei ousados até ao fim.

- Pela glória' - gritou um cavaleiro.

- Pela honra' - berraram vários outros.

- Pelo rei e pelo reino! - gritou um coro de vozes chefiado por Ronsard, que se colocou à cabeça dos seus guerreiros.

Os cavaleiros puseram-se em pé, baixaram as viseiras e viraram-se para enfrentar o inimigo pela última vez. Observando-os de todos os lados, os Ningaal fizeram uma pausa. Depois, os quatro comandantes ergueram as espadas curvas e, com um grito feroz, os Ningaal voltam a lançar-se para a refrega.

_ O melhor é que acabe depressa - disse Ronsard, com os atacantes formigando à sua volta. - Não tenho remorsos de nada.

- Nem eu, meu amigo - retorquiu Theido -, mas pesa-me no coração que o nosso país vá cair nas mãos destes bárbaros. Fiz o que pude.

- Adeus, bom amigo - volveu Ronsard. - Esta é a estrada escura de que me falaste? Como isso parece distante!

- Pode muito bem ser. Mas... espera! - Virando-se, subiu mesmo ao cimo da colinazinha. - Cornetim! - gritou. - Toca a trombeta! Toca até não poderes mais! Ouves? já te disse para tocares!

Com o rosto brilhante e novamente animado, virou-se outra vez:

- Continuai a lutar, senhores! - gritou, descendo a correr para o meio da batalha. - Aguentai-vos!

Ronsard lançou-se de cabeça atrás dele e os dois homens, com as espadas silvando no ar, foram avançando, como se, sozinhos, quisessem expulsar os invasores. Animados pelo exemplo dos seus destemidos chefes, os cavaleiros que os rodeavam encostaram os escudos uns aos outros e seguiram em frente. Se a morte viesse naquele momento, encontrá-los-ia corajosos até ao fim.

 

Quentin levantou-se e ficou a contemplar o outro lado da superfície polida do Espelho do Senhor do Céu. O lindo vale encontrava-se envolto no manto da noite e a Lua caminhava baixo no céu, por trás dos picos ocidentais dos Fiskills, inundando os seus cumes nevados de um brilho branco, que se reflectia no insondável lago. A miríade de estrelas que ardiam como fogo de prata na cúpula negra do céu também aí se reflectia com uma nitidez espantosa. Ao subtil luar, a erva verde-viva do vale parecia cinzenta e as saltitantes quedas de água escorriam como luz líquida, lançando no ar da noite o seu fantasmagórico chuveiro encaracolado e turbilhonante.

Na distância, Quentin ouvia a água das cataratas caindo entre as rochas, produzindo um som semelhante a risos transportados pelo vento. Era o único som que quebrava o silêncio do vale. Toli, Durwin e Inchkeith dormiam embrulhados nas suas capas; estavam tão quietos e calados que pareciam pedras ou torrões de terra.

Quentin nunca soube o tempo que ficou a contemplar a paisagem. Parecia que ali, no vale, o tempo não tinha nenhum significado especial. De repente, Quentin apercebeu-se de um outro som, ou antes, teve a impressão de ouvir um som que já se sentia há algum tempo. Talvez fosse o que o acordara.

Era um tinido fino e agudo, como o produzido pelas agulhas ao caírem num chão de pedra. Ou, se fosse possível ouvi-lo, o som do gelo a formar-se no Inverno. Parecia vir lá de cima. Virando o rosto para o céu, viu a Estrela do Lobo, que brilhava directamente por cima dele e enchia o céu de uma luz em fogo, tão viva que lançava sombras na terra. Como a luz lhe provocou arrepios, Quentin embrulhou-se rnelhor na capa.

Não conseguia desviar os olhos da estrela, que, parecendo mover-se, estender-se, ficar mais fina e empurrar as outras estrelas para a sua dança, girava e brilhava na escuridão do céu como um ser vivo. -As estrelas fundiram-se num único raio de luz, frio e duro como gelo. Era um raio fino e esguio, que ia de oriente a ocidente, de uma ponta à outra da noite.

Quentin percebeu que o tinido não passava da música das estrelas e que o faiscante raio de luz era a lâmina de uma temível espada.

Num súbito lampejo, Quentin percebeu que estava a ver a Zhaligkeer.

A espada, com o punho feito de cintilantes estrelas douradas, incrustado de majestosas jóias, rubis, ametistas, topázios e esmeraldas, começou a erguer-se lentamente, inclinando-se para cima, como uma espada levantada em triunfo. Depois, a ponta mergulhou, deslizou e começou a cair através do vazio do céu, girando e iluminando a escuridão com clarões de fogo.

A Brilhante lançou-se para a terra num arco de fogo branco. O brilho daquele mergulho ofuscou Quentin, que, no entanto, continuou a olhar sem hesitar. A espada parou mesmo acima dos picos, do outro lado do vale, onde as cataratas de Shennydd Veflyn jorravam da vertente da montanha. Pairando ali por um instante, acabou por deslizar lentamente para baixo, como uma espada a ser embainhada. Depois, permaneceu assim por um breve momento, enquanto o seu brilho diminuía rapidamente e se desvanecia na névoa.

Quando Quentin caiu em si, estava a olhar para as quedas de água e a noite adensava-se à sua volta. As montanhas haviam adormecido e só se ouvia o riso da água a cair. Mas tinha a imagem da espada gravada a fogo no cérebro. E, sem a sombra de uma dúvida, soube onde poderia encontrá-la.

 

- Durwin! Acorda! - sussurrou Quentin em voz rouca. - Acorda, por favor, antes que seja tarde de mais' - Abanou o ombro do eremita adormecido e, depois, pôs-se a olhar mais uma vez para o redemoinho de névoa.

- O que foi? - indagou Toli, levantando-se silenciosamente.

- O que aconteceu?

- Vi a Zhaligkeer. Sei onde está. Olha para as cataratas! Vês?

Durwin balbuciou qualquer coisa e levantou a cabeça.

- Ah, és tu, Quentin - disse, ainda estremunhado. - Pensava que sabias que dá azar perturbar o sono de um eremita.

- Vi a espada, a Zhaligkeer! Sei onde vamos encontrá-la.

- Não estou a ver nada - observou Toli, ainda a olhar para as quedas de água.

Quentin deu meia volta e apontou com a mão esquerda:

- Está ali. Eu... - No seu rosto estampou-se uma expressão de profundo desapontamento. - Não, já desapareceu. Mas estava ali! Eu vi-a!

Quentin afastou-se apressadamente a passos largos.

- Acorda o Inchkeith, Toli - suspirou o ensonado eremita. - Vamos atrás dele, já que não temos outro remédio.

- O Inchkeith já está acordado - disse o armeiro. - O que se passa aqui?

- O meu amo teve uma visão - explicou Toli, enquanto corriam todos atrás de Quentin. - Diz que viu a Brilhante e que sabe onde ela está.

Quentin conduzia-os pela margem coberta de erva do lago, em direcção às cataratas. A Lua estava escondida por trás das montanhas, a ocidente, mas a luz anormalmente brilhante da Estrela do Lobo iluminava-lhes o caminho. Quentin não despregava os olhos das cataratas, como se tivesse medo de não se lembrar do que vira se desviasse o rosto nem que fosse só por um momento. Os outros seguiam-no aos saltinhos. Toli corria para trás e para a frente, ora pondo-se ao lado do seu amo, ora indo dizer aos outros para se apressarem. Depois de andarem uma hora quase sem respirarem, chegaram junto da base das cataratas. Quentin já estava ao pé das gigantescas quedas de água quando Durwin e Inchkeith, ofegantes, se aproximaram dele.

O rugido das cataratas já não se assemelhava a risos. Era, antes, um poderoso troar qu