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OS MÉDICOS FANTOCHES / Robin-Cook
OS MÉDICOS FANTOCHES / Robin-Cook

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS MÉDICOS FANTOCHES

 

PROIBIDAS AS PESQUISAS ENVOLVENDO FETOS por HAROLD BARLOW

Especial para o New York Times

WASHINGTON, 12 de Julho de 1974 - O presidente RicHard M. Nixon assinou hoje a Lei sobre as Pesquisas Nacionais. A lei prevê a criação de uma Comissão Nacional para a Protecção dos Seres Humanos nas Investigações Biomédicas e de Comportamentos. Tem aumentado grandemente a preocupação a respeito da ética das pesquisas que envolvem crianças, pessoas atrasadas, prisioneiros, doentes incuráveis e, em particular, as que envolvem o uso de fetos humanos.

Espera-se que depois de criadas as directivas apropriadas sejam obviados os chocantes abusos que ultimamente têm sido tornados públicos, tal como a infecção propositada de hepatite num grande número de crianças atrasadas, para estudar o progresso natural da doença, ou a descoberta, alguns meses atrás, num hospital de Boston, de uma dúzia de fetos humanos desmembrados, provenientes de abortos.

A primeira fase da implementação da lei inclui uma moratória sobre “a pesquisa, nos Estados Unidos, efectuada em fetos humanos vivos, antes ou depois de aborto provocado, a não ser que tais pesquisas se destinem a assegurar a sobrevivência desse mesmo feto”. É óbvio que o problema dos fetos está intimamente ligado com o altamente emocional problema do aborto. As reacções à nova legislação, nos círculos científicos, têm sido muito variadas. O Dr. George C. Marstons, do Centro Médico de Cornell, deu as boas-vindas à nova lei afirmando que “há muito tempo que eram necessárias directivas para um' comportamento ético no que diz respeito às pesquisas feitas sobre seres humanos. A competitiva pressão económica para novos avanços da investigação, cria uma atmosfera onde os abusos são inevitáveis”.

O Dr. Clyde Harrison, dos Produtos Farmacêuticos Arolen, não concorda com o Dr. Marstons, dizendo que uma “política antiaborto só serve para deter o avanço da ciência, evitando, impedindo as tão necessárias investigações sobre a saúde humana”. O Dr. Harrison prosseguiu, afirmando que as pesquisas efectuadas sobre fetos nos proporcionaram muitos e significativos avanços científicos, e que entre os mais importantes se encontra uma possível cura para os diabetes. Está já provado que se se injectar tecido fetal no pâncreas, se reactivam as células que produzem a insulina. É também muito importante a utilização de tecido fetal para o tratamento de paralisias anteriormente incuráveis, resultantes de danos provocados à espinal medula. Injectados no sítio do trauma, esses tecidos desencadeiam uma cura espontânea, provocando o crescimento de novas células saudáveis.

É ainda demasiado cedo para avaliar do impacte desta lei, até que as várias comissões mandatadas façam ás suas recomendações ao secretário Caspar Weinberger. Na área das investigações, a nova lei provocará um impacte imediato, limitando seriamente as fontes de abastecimento de tecidos fetais. Aparentemente, os abortos planeados têm sido a principal fonte de tais tecidos, apesar de não se saber se tal facto tem ou não desempenhado qualquer papel importante nas decisões dos médicos respeitantes aos abortos.

27 de Novembro de 1984 CLÍNICA JULJAN, NOVA IORQUE

 

 

Candice Harley sentiu a agulha a espetar-se-lhe na pele, no fundo das costas, logo seguida por uma aguda sensação de queimadura. Parecia uma mordedura de uma abelha, com a diferença de a dor ter desaparecido rapidamente.

- Estou apenas a aplicar-lhe um pouco de anestésico local, Candy - disse o Dr. Stephen Bumham, um anestesista moreno e de bom aspecto, que garantira a Candy que ela não iria sentir nada. O problema estava em que ela já sentira dor... não muita mas a suficiente para a fazer perder uma parte da fé que ela depositara no que o Dr. Burnham lhe dissera. Ela quisera ser adormecida, mas o Dr. Burnham informara-a que a anestesia epidural era mais segura e que ficaria a sentir-se melhor depois do aborto e do processo de esterilização.

Candy mordeu o lábio inferior. Sentiu outra punhalada de dor, mais uma vez nada de muito severo, mas sentiu-se vulnerável e mal preparada para o que estava a acontecer. Aos trinta e seis anos, Candy nunca estivera anteriormente num hospital, e muito menos numa operação. Sentia-se aterrorizada e dissera-o ao Dr. Burnham. Sentiu de novo a sensação de queimadura e, por reflexo, endireitou as costas.

- Não se mexa agora - admoestou-a o Dr. Burnham.

- Desculpe - murmurou Candy, receosa de que se não cooperasse eles não a tratavam devidamente.

Candy estava sentada num dos lados de uma maca, numa alcova perto de uma sala de operações. Em pé, à sua frente, encontrava-se uma enfermeira e para a direita via-se uma cortina que fora corrida para isolar aquela alcova do atarefado corredor da sala de operações. Do outro lado da cortina Candy ouvia vozes abafadas e o ruído de água a correr. Directamente em frente dela encontrava-se uma porta com uma pequena janela, através da qual via a sala de operações.

Candy estava coberta apenas com a fina bata do hospital, aberta atrás, onde o médico estava muito ocupado a executar uma qualquer tarefa. Este explicara-lhe, de uma maneira muito elaborada, o que é que iria acontecer, mas a capacidade de concentração de Candy estava severamente limitada pelo intimidativo ambiente que a rodeava. Era tudo novo e assustador.

- Uma agulha Abocath, por favor - disse o Dr. Burnham. Candy perguntou a si mesma o que seria aquilo. Era um nome medonho. Ouviu o ruído de uma embalagem de celofane a ser aberta.

O Dr. Burnham observou a agulha de sete centímetros e meio de comprimento, na sua mão, fazendo escorregar o estilete para cima e para baixo, para se assegurar de que ele deslizava livremente. Afastando-se para a esquerda para ter a certeza de que Candy estava sentada direita, colocou a agulha por cima da área que injectara com o anestésico local.

Usando as duas mãos, fez a agulha penetrar nas costas de Candy. Os seus dedos experimentados conseguiam sentir a agulha a abrir caminho através da pele e a deslizar entre as saliências ósseas das vértebras lombares de Candy. Deteve-se exactamente antes do ligamentum flavum, a barreira que cobre o canal espinal. A anestesia epidural era uma coisa difícil e essa era uma das razões que levavam o Dr. Burnham a gostar de a utilizar. Sabia que nem toda a gente a conseguia levar a cabo' tão bem como ele e esse conhecimento dava-lhe uma grande satisfação. Com um floreado, puxou o estilete para fora. Tal como esperava, não surgiu fluido cerebrospinal. Recolocando o estilete, avançou a agulha mais um milímetro e sentiu-a a atravessar o ligamentum flavum. Uma dose de ar, de teste, entrou com facilidade. Perfeito! Substituindo a seringa vazia por uma cheia de tetracaína, o Dr. Burnham deu a Candy uma pequena dose.

- Sinto uma estranha sensação no lado da minha perna - afirmou Candy, preocupada.

- Isso quer dizer que acertámos no sítio em que era preciso acertar - disse o Dr. Burnham.

Com mãos hábeis, removeu a seringa com a tetracaína e a seguir enfiou um pequeno cateter de plástico pela agulha Abocath. Depois de o cateter estar em posição, removeu a agulha. Uma fita de papel cobriu o sítio da punctura.

- E pronto - disse o Dr. Burnham, descalçando as luvas esterilizadas e pousando a mão no ombro de Candy, para a levar a deitar-se. - De certeza que não me vai dizer que doeu assim tanto.

- Mas eu não sinto o anestésico - contrapôs Candy, receosa de que fossem avante com a cirurgia mesmo que o anestésico não estivesse a dar resultado.

- Isso é porque eu ainda não lhe dei nada - disse o Dr. Burnham.

Candy deixou que a deitassem sobre a maca, com a enfermeira a ajudá-la, levantando-lhe as pernas e cobrindo-a a seguir com o fino cobertor de algodão. Candy agarrou-se ao cobertor, por cima do peito, como se este lhe pudesse dar uma qualquer espécie de protecção. O Dr. Burnham remexia num pequeno tubo de plástico que surgia por debaixo dela.

- Ainda se sente muito nervosa? - perguntou-lhe o Dr. Burnham.

- Muito mais! - admitiu Candy.

- Então vou dar-lhe um pouco mais de sedativo - disse o Dr. Burnham, dando-lhe um ligeiro aperto no ombro, para a acalmar.

Enquanto ela observava, ele injectou qualquer coisa no seu tubo intravenoso.

- Pronto, vamos a isto - disse o Dr. Burnham.

A maca onde Candy estava deitada rolou suavemente para a sala de operações, que estava cheia de actividade. Os olhos de Candy perscrutaram a sala. Era fascinantemente branca, com paredes de mosaicos brancos, chão branco e um tecto acústico branco. Ao longo de uma das paredes alinhava-se uma série de visores para chapas de raios X e a outra parede estava coberta de fantástico equipamento electrónico de assistência.

- Muito bem, Candy - disse a enfermeira que estivera a ajudar o Dr. Burnham. - Queremos que passe para aqui.

A enfermeira encontrava-se do outro lado da mesa de operações, a que ela dava palmadinhas encorajadoras. Por instantes Candy sentiu uma certa irritação por a andarem a mandar para um lado e para o outro. Mas essa sensação passou rapidamente, pois na verdade não tinha por onde escolher. Estava grávida com um feto de dezoito semanas. Preferia utilizar a palavra “feto”. Era mais fácil de pensar nela do que em “bebé” ou “criança”. Com umas certas dúvidas, Candy passou para a mesa de operações.

Uma outra enfermeira puxou-lhe a bata para cima e ligou-lhe minúsculos eléctrodos ao corpo. Começou a ouvir uns “bips”, mas Candy levou algum tempo a compreender que aqueles sons correspondiam ao bater do seu coração.

- Vou inclinar a mesa - disse o Dr. Burnham, enquanto Candy sentia a mesa a inclinar-se até que os seus pés ficaram mais baixos do que a cabeça. Naquela posição, conseguia sentir o peso do útero na pélvis. Ao mesmo tempo, sentiu uma certa oscilação, que já notara na semana anterior e que pensara que poderia ser o feto a mover-se dentro do seu ventre. Felizmente, passou depressa.

No instante seguinte a porta para o corredor abriu-se repentinamente e o Dr. Lawrence Foley entrou às arrecuas, com as mãos no ar, a pingarem, tal como se vê os cirurgiões a fazerem, nos filmes.

- Bom - disse ele, na sua voz peculiar, quase sem inflexões -, que tal vai a minha rapariga?

- Não sinto o anestésico - afirmou Candy, ansiosa. Estava aliviada por ver o Dr. Foley. Era um homem alto, de feições magras e um nariz grande e direito que produzia uma certa saliência na frente da sua máscara cirúrgica. Momentos depois, tudo o que Candy conseguia ver do seu rosto, eram os olhos cinzentos-esverdeados, todo o resto estava escondido, incluindo o cabelo de um branco-prateado.

Candy tinha-o já visto, algumas vezes, na assistência ginecológica rotineira e sempre gostara e confiara naquele homem. Não fizera qualquer exame durante o período de dezoito meses anterior à sua gravidez e quando fora ao seu gabinete, algumas semanas atrás, ficara surpreendida ao ver como ele se tinha modificado tanto. Recordava-o como uma pessoa expansiva e com uma pequena dose de um humor seco. Candy interrogava-se agora se parte daquela “nova” personalidade seria devida ao facto dele desaprovar a sua gravidez, sem ser casada.

O Dr. Foley olhou para o Dr. Burnham, que pigarreou para aclarar a garganta:

- Acabei de lhe dar oito miligramas de tetracaína. Estamos a usar uma anestesia epidural contínua.

Afastando-se para o extremo da mesa, levantou o cobertor. Candy conseguia ver os seus pés, que tinham um aspecto excepcionalmente pálido, sob a intensa luz fluorescente proveniente dos visores para observação das chapas de raios X. Via o Dr. Burnham a tocar-lhe aqui e acolá ao longo do seu corpo, mas só sentiu qualquer coisa quando ele lhe tocou logo abaixo dos seios. Sentiu a picada da agulha e disse-o. O médico sorriu e comentou:

- Perfeito!

Durante alguns instantes o Dr. Foley ficou parado no meio da sala, sem se mexer. Ninguém disse nada, todos se limitaram a esperar. Candy perguntou a si mesma em que é que o homem estaria a pensar, pois parecia que estava a olhar directamente para ela. Fizera o mesmo quando ela o fora ver à clínica. Finalmente, pestanejou e disse:

- Tem o melhor anestesista da casa, para cuidar de si. Quero que se descontraia. Vamos acabar com isto antes de você dar por isso.

Candy ouviu alguns movimentos atrás de si e depois o estalido das luvas de borracha, enquanto observava o Dr. Burnham a colocar uma estrutura de arame por cima da sua cabeça. Uma das enfermeiras fixou-lhe o braço esquerdo junto do corpo, com o lençol que cobria a mesa de operações. O Dr. Burnham prendeu-lhe o braço direito firmemente a uma placa que saía da mesa, em ângulo recto. Tratava-se do braço a que estava ligado o tubo intravenoso. O Dr. Foley reapareceu no ângulo de visão de Candy, com a bata e as luvas e ajudou uma das enfermeiras a colocar grandes cortinas por cima dela, bloqueando-lhe quase toda a visão. Por cima, via as garrafas do soro que estavam ligadas ao seu braço. Atrás de si, se rodasse a cabeça, via o Dr. Burnham.

- Estamos prontos? - perguntou o Dr. Foley.

- Prontos - respondeu o Dr. Burnham. Olhou para baixo, para Candy e piscou-lhe o olho. - Corre tudo bem - disse, para a tranquilizar. - Poderá vir a sentir alguma pressão, ou alguns puxões, mas não sentirá qualquer dor.

- Tem a certeza? - perguntou Candy.

- Absoluta.

Candy não podia ver o Dr. Foley, mas ouvia-o, especialmente quando ele disse:

- Bisturi.

Ouviu o som do bisturi a bater na luva de borracha.

Fechando os olhos, Candy esperou a dor. Graças a Deus, não surgiu nenhuma. Tudo o que sentia era a sensação de pessoas inclinadas sobre ela. Pela primeira vez permitiu-se a luxúria de pensar que todo aquele pesadelo acabaria eventualmente por passar.

Tudo começara cerca de nove meses antes, quando decidira abandonar a pílula. Havia cinco anos que vivia com David Kirkpatrick. Ele acreditara que ela era tão devotada à sua carreira de bailarina como ele à sua de escritor, mas algum tempo depois de ter feito trinta e quatro anos, começara a insistir com David para casar com ela e para constituírem família. Quando ele recusara, decidira tentar ficar grávida, certa de que o faria mudar de opinião. Porém, mantivera-se inflexível quando ela lhe propusera a sua condição. E que se ela fosse avante com a gravidez, ele partiria. Depois de dez dias de choro e de incontáveis cenas, concordara finalmente com o aborto.

- Oh! - exclamou Candy quando sentiu uma súbita dor, como a de um ferro em brasa, algures no mais profundo do seu ser. Era semelhante ao que se sente quando o dentista encontra um ponto sensível, num dente. Felizmente, a dor não durou muito.

O Dr. Burnham levantou os olhos da sua tabela de anestesia e depois pôs-se de pé para olhar por cima da cortina que tapava o local da operação.

- Vocês estão a puxar os intestinos delgados?

- Acabámos de os afastar do campo operativo - admitiu o Dr. Foley.

O Dr. Burnham tornou a sentar-se e olhou directamente para os olhos de Candy.

- Está tudo bem. É vulgar algumas pessoas sentirem dores quando o intestino delgado é manipulado, mas eles já não lhes voltarão de novo a mexer. Okay?

- Okay - disse Candy.

Era um alívio ser tranquilizada, saber que tudo corria devidamente. No entanto, não se sentia surpreendida. Apesar dos modos de Lawrence Foley parecerem não ter o mesmo ar caloroso que tinham antigamente, continuava a ter toda a confiança nele, como médico. Fora maravilhoso para com ela, desde o princípio: compreensivo e prestável, especialmente a ajudá-la a decidir-se pelo aborto. Passara várias sessões apenas a conversar com ela, salientando calmamente as dificuldades que uma mãe solteira tem de enfrentar para educar uma criança e sublinhando a facilidade do aborto, apesar de Candy se encontrar já na sua décima sexta semana.

Não havia qualquer dúvida, no espírito de Candy, de que fora o Dr. Foley e o pessoal da Clínica Julian quem lhe tomara possível passar por tudo aquilo, pelo aborto. A única coisa em que ela insistira fora em ser esterilizada. O Dr. Foley tentara, sem êxito, fazê-la mudar de opinião quanto à esterilização. Tinha trinta e seis anos e não queria voltar a sentir-se tentada a desafiar o relógio biológico, ficando grávida, uma vez que era óbvio que o casamento não estava à vista, no seu futuro mais imediato.

- Aparadeira - ordenou o Dr. Foley, fazendo com que a atenção de Candy regressasse ao presente. Ouviu o tilintar de metal contra metal.

Candy rodou os olhos para trás e olhou para o Dr. Burnham. Só conseguia ver os olhos dele, todo o resto do seu rosto encontrava-se oculto pela máscara cirúrgica. Mas conseguia perceber que ele se sorria para ela. Deixou que os seus pensamentos começassem de novo a vaguear e, o que ouviu a seguir, foi o Dr. Burnham a dizer:

- Já terminou tudo, Candy.

Com alguma dificuldade, pestanejou ao tentar conseguir tirar algum sentido da cena que os seus olhos focavam paulatinamente.

Era quase como se uma velha televisão estivesse a aquecer, primeiro ouviam-se sons e vozes e a seguir emergiam, muito lentamente, imagens e significados. A porta que dava para o corredor abriu-se e surgiu um servente empurrando uma maca vazia para dentro da sala.

- Onde está o doutor Foley? - perguntou Candy.

- Vê-lo-á na sala de recuperação - respondeu o Dr. Burn-ham. - Correu tudo perfeitamente. - Passou a garrafa de soro de Candy para a maca.

Candy fez um gesto de assentimento, enquanto uma lágrima lhe deslizava pela face. Felizmente, antes que ela começasse a pensar demasiado no facto de nunca mais poder ter uma criança, uma das enfermeiras pegou-lhe na mão e disse:

- Candy, agora vamos transportá-la para a maca.

Na sala auxiliar, ao lado, o Dr. Foley dirigia a sua atenção para o recipiente de aço inoxidável muito bem tapado com uma toalha branca. Para se assegurar que o espécime estava intacto, levantou uma ponta da toalha. Satisfeito, pegou no recipiente, caminhou ao longo do corredor e desceu as escadas para o Serviço de Patologia.

Ignorando os internos e os técnicos, apesar de vários deles se lhe terem dirigido pelo seu nome, passou através da principal área de cirurgia e entrou num longo corredor. No fim deste, parou em frente de uma porta sem quaisquer indicações. Equilibrando o recipiente com o espécime numa das mãos, puxou das suas chaves e abriu a porta. A sala do outro lado era um pequeno laboratório sem janelas. O Dr. Foley avançou lenta mas deliberadamente, fechou a porta atrás de si e pousou o recipiente.

Durante alguns momentos ficou imóvel, paralisado, até que uma aguda dor nas têmporas o fez recuar, cambaleando. Mirando o grande relógio que se encontrava na parede, ficou surpreendido ao notar que o ponteiro dos minutos parecia ter saltado cinco minutos.

Rápida e silenciosamente, o Dr. Foley levou a cabo diversas tarefas. A seguir dirigiu-se para uma grande caixa de madeira que se encontrava no centro da sala e abriu-a. Dentro dela encontrava-se uma segunda caixa, um contentor com isolamento. Soltando o fecho, o Dr. Foley levantou-lhe a tampa e olhou lá para dentro. Descansando numa camada de gelo seco, encontrava-se um certo número de outros espécimes. O Dr. Foley colocou cuidadosamente o novo exemplar sobre o gelo e fechou a tampa.

Vinte minutos mais tarde, um servente vestido com uma camisa branca e umas calças azuis, empurrou um carrinho para dentro do pequeno laboratório sem identificação, pegou na caixa com o gelo e colocou-a dentro de um caixote de madeira. Usando o elevador de serviço, levou-a para baixo, para a zona de cargas e colocou-a numa carrinha.

Quarenta minutos depois, o caixote de madeira era retirado da carrinha e colocado no compartimento de bagagens de um “jacto” Gulf Stream, no Aeroporto de Teterboro, em Nova Jérsia.

Capítulo primeiro

Os olhos de Adam Schonberg pestanejaram e abriram-se e, na escuridão do seu quarto, escutou o grito ondulante de uma sirene, anunciando mais uma catástrofe. Gradualmente, o barulho diminuiu, enquanto o carro da polícia, ou ambulância, ou carro de bombeiros, ou lá o que fosse, desapareceu na distância. Era manhã, na cidade de Nova Iorque.

Pondo uma mão de fora do calor dos seus cobertores, Adam procurou os óculos e depois virou para ele a frente do rádio-relógio; eram quatro e quarenta e sete da manhã. Aliviado, desligou o despertador, que estava programado para tocar às cinco horas e depois tornou a esconder a mão debaixo dos cobertores. Tinha ainda quinze minutos, antes de se ver forçado a sair da cama para se dirigir para a gelada casa de banho. Normalmente, nunca se arriscaria a desligar o despertador, com medo de adormecer de novo. Porém, ocupado como estava nessa manhã, não existia tal possibilidade.

Rolando para a esquerda, encostou-se à forma adormecida de Jennifer, a sua esposa de vinte e três anos, com quem estava casado havia ano e meio, sentindo o seu peito a subir e a descer ritmicamente, enquanto ela respirava. Deslizando a mão para baixo, passou-a levemente por sobre a sua coxa, elegante e firme por causa do seu trabalho diário, a dança. Tinha uma pele macia e notavelmente lisa, sem uma única sarda a manchar-lhe a superfície. Era uma pele de um delicado tom moreno, que sugeria uma descendência do Sul da Europa, mas não era esse o caso. Jennifer insistia que a sua genealogia era inglesa e irlandesa pelo lado do pai, alemã e polaca pelo lado da mãe.

Jennifer endireitou as pernas, suspirou e deitou-se de costas, obrigando Adam a afastar-se. Sorriu-se. Mesmo a dormir, ela tinha uma personalidade forte. Apesar desse carácter forte por vezes parecer a Adam como sendo frustrantemente teimoso, era também uma das razões porque ele a amava tanto.

Olhando para o relógio, que agora indicava quatro e cinquenta e oito, Adam forçou-se a sair da cama. Enquanto atravessava o quarto, para se dirigir para o chuveiro, embateu com o dedo grande do pé numa velha arca de viagem que Jennifer cobrira com uma toalha, para servir como mesa. Cerrando os dentes para não gritar, coxeou até ao rebordo da banheira, onde se sentou para verificar os estragos no dedo. A sua tolerância à dor era notavelmente baixa.

A primeira vez que Adam compreendera tal facto fora durante a sua desastrosamente curta carreira de futebolista, na escola secundária. Por se tratar de um dos rapazes mais corpulentos, toda a gente, incluindo o próprio Adam, esperava que ele viesse a fazer parte da equipa, especialmente por David, o falecido irmão mais velho de Adam, ter sido uma das estrelas desportivas da cidade. Mas não fora esse o caso. Tudo correra bem até que Adam recebera a bola e lhe disseram que efectuasse uma jogada que ele decorara obedientemente. No instante em que fora blocado, sentira dores e, quando toda a gente se levantara outra vez, Adam chegara à conclusão que aquela era mais uma das áreas em que não podia competir com a reputação do seu irmão.

Afastando aquela recordação, Adam tomou um duche rápido, escanhoou a espessa barba, que já lhe escureceria os queixos lá para as cinco da tarde e penteou o cabelo negro e forte. Enfiou-se nas roupas, mal olhando para o espelho, abstraído do seu bom aspecto de homem moreno.

Menos de dez minutos depois de ter saído da cama, encontrava-se na cozinha de dois por quatro metros, aquecendo o café. Olhou em volta, para o apartamento atafulhado e mal mobilado, jurando mais uma vez que, no instante em que terminasse a Escola Médica, arranjaria a Jennifer um lugar decente para viver. Depois dirigiu-se à secretária que se encontrava na sala e examinou a matéria que estivera a estudar na noite anterior.

Uma onda de ansiedade percorreu-lhe o corpo. Dentro de menos de quatro horas estaria ante o imponente Dr. Thayer Norton, chefe da Medicina Interna. Agrupados em volta estariam os estudantes de Medicina do terceiro ano que ainda restavam e que faziam turnos na Medicina Interna, com Adam. Alguns dos estudantes, tal como Charles Hanson, poderiam eventualmente apoiá-lo. Porém, os restantes estariam mais ou menos à espera que ele fizesse figura de parvo, o que era uma real possibilidade. Adam nunca funcionara bem em frente de um grupo, o que constituíra um outro desapontamento para o seu pai, que era um reconhecido e muito procurado orador. No começo do turno, Adam atrapalhara-se no meio da sua apresentação de um caso e o Dr. Norton nunca o deixara esquecer tal facto. Consequentemente, Adam adiara a apresentação do seu caso principal para o fim deste turno, esperando vir a ficar mais confiante, com o tempo. E ficara, mas não muito. Ia ser duro e fora por isso que ele se levantara antes do nascer do Sol. Queria dar mais uma vista de olhos sobre aquela matéria.

Limpando a garganta e tentando abstrair-se da ruidosa agitação de uma manhã de Nova Iorque, Adam começou de novo a sua apresentação. Falou alto, fingindo que se encontrava ante o Dr. Norton.

Jennifer teria dormido até às dez da manhã, se não tivessem acontecido duas coisas. Tinha uma marcação com um médico, às nove horas, e às sete e quinze a temperatura do quarto subira a um nível tropical. Suando, afastou as roupas da cama e deixou-se ficar imóvel até que o choque da descoberta que fizera no dia anterior se instalasse de novo dentro dela. Ontem... depois de um mês a tentar negar a possibilidade... Jennifer acabara finalmente por sair e ir comprar um teste de gravidez, caseiro. Não só perdera dois períodos como começara a sentir-se mal disposta, de manhã. Haviam sido as náuseas, mais do que qualquer outra coisa, que a tinham feito comprar o teste. Não queria preocupar Adam, que nos últimos meses andava irritável e tenso, até ter uma certeza absoluta. O teste de gravidez caseiro dera um resultado positivo e, hoje, ia visitar o seu ginecologista.

Saiu da cama cuidadosamente, interrogando-se sobre se alguém saberia que as dançarinas, apesar da sua graça ágil no palco, se sentiam sempre emperradas e doridas, pela manhã.

Esticando os músculos das pernas, sentiu o pânico a invadi-la, fazendo-a esquecer-se das náuseas.

“Oh, Deus”, murmurou para si mesma. Se ela estivesse realmente grávida, como é que se iriam governar? O dinheiro que ela ganhava nas Jason Conrad Dancers era a única fonte de rendimento de que dispunham, isto não contando com o dinheiro que a mãe às vezes lhe passava, às escondidas do pai e de Adam. Como é que eles iriam sustentar um bebé? Bom, talvez o teste estivesse enganado. Ela utilizava um aparelho intra-uterino, que se supunha ser o melhor contraceptivo, a seguir à pílula. Bem, pelo menos o Dr. Vandermer acabaria com as dúvidas. Jennifer sabia que fora apenas por Adam ser um estudante de Medicina que o doutor concordara em encaixá-la na sua já cheia lista de pacientes.

Virou-se para olhar o relógio do seu rádio Sony, que a mãe lhe oferecera. Não dissera a Adam que fora um presente, porque este começara a ficar sensível a respeito da generosidade dos pais dela ou, tal como ele a definia, a sua interferência.

Jennifer suspeitava que isso se transformara num ponto de honra para Adam, por causa da avareza do seu próprio pai. Não era segredo para Jennifer de que o Dr. David Schonberg fora tão contrário ao casamento de Adam com ela que, quando Adam tinha seguido decididamente avante e se casara, ficara praticamente deserdado. De certo modo, pensou Jennifer, ela iria tirar algum prazer do facto de saber que o velho médico ficaria louco de raiva se ela na verdade estivesse grávida. Relutantemente, forçando as suas rígidas articulações a colocarem-se numa posição estável, escovou o comprido e brilhante cabelo castanho e verificou cuidadosamente ao espelho o seu rosto, para se assegurar que as suas atraentes superfícies ovais e que os claros olhos azuis não revelavam a sua ansiedade. Não valia a pena preocupar Adam antes de ter realmente de o fazer.

Forçando um sorriso alegre, dirigiu-se para a sala, onde Adam repetia, pela décima vez, o seu discurso.

- Falar sozinho não é um primeiro sinal de demência? - perguntou Jennifer, provocando-o.

- Espertinha! - exclamou Adam. - Especialmente porque eu não esperava que a Bela Adormecida fosse capaz de usar a cabeça para pensar, antes do meio-dia.

- Que tal vais, com a tua apresentação? - perguntou, colocando os braços em volta dele e virando a cara para cima, para um beijo.

- Consegui chegar aos requeridos quinze minutos. É tudo o que posso dizer.

Adam dobrou-se e beijou-a.

- Oh, Adam. Vais ver que te sairás bem. Olha lá, por que é que não fazes essa apresentação para mim?

Serviu-se de um pouco de café e a seguir sentou-se na sala.

- Que doença tem esse paciente?

- Disquinésia tardia, é o diagnóstico corrente.

- Que diabo vem a ser isso? - perguntou Jennifer.

- Uma doença neurológica que envolve toda a espécie de movimentos involuntários. Está associada com certos medicamentos prescritos para problemas psiquiátricos...

Jennifer fez um aceno de compreensão, tentando parecer interessada, mas Adam recitara apenas um minuto do seu discurso e já a atenção dela se virara de novo para a sua possível gravidez.

 

O gabinete do Dr. Clark Vandeimer era junto da Park Avenue, na Rua 36. Jennifer foi até lá tomando o metropolitano na Lexington Avenue até à Rua 33 e caminhando a seguir para norte. O gabinete encontrava-se num enorme edifício de apartamentos, completado com um toldo a cobrir a entrada e um porteiro fardado. A entrada para as suites profissionais encontrava-se à direita da entrada principal do prédio. Quando Jennifer abriu a porta da frente, um vago cheiro a álcool levou-a a hesitar. Nunca gostara de ir ao ginecologista e a ideia de que poderia estar grávida fazia com que esta visita fosse particularmente preocupante.

Jennifer caminhou ao longo de um vestíbulo atapetado, lendo os nomes inscritos nas portas. Passou pelas entradas dos gabinetes de dois dentistas e de um pediatra e chegou a uma porta onde se encontrava a inscrição “Ginecologistas Associados”. Por debaixo, encontrava-se uma lista de nomes. O segundo nome era o do Dr. Clark Vandermer.

Jennifer libertou-se do casaco que comprara em segunda mão no Soho, por trinta e cinco dólares e colocou-o no braço. Estava bastante bem vestida. Por debaixo do casaco usava um vestido camiseiro Calvin Klein que a mãe lhe comprara recentemente, nos Bloomingdale's.

Quando abriu a porta, Jennifer recordou-se do gabinete, das suas visitas anteriores. Na parede em frente à entrada encontrava-se um painel de vidro deslizante, atrás do qual se sentava a recepcionista.

Havia um certo número de mulheres na sala de espera. Jennifer não as contou, mas deviam ser mais de doze, todas bem vestidas e na sua maioria a lerem ou a fazerem malha.

Depois de confirmar a marcação junto da recepcionista, que admitiu não fazer a menor ideia de quanto tempo seria a espera, Jennifer encontrou um assento junto da janela. Pegou num exemplar recente do The New Yorker, que se encontrava em cima de uma mesa baixa, e tentou ler, mas a única coisa que conseguia fazer era preocupar-se com qual seria a reacção de Adam se ela estivesse realmente grávida.

Passaram-se duas horas e quinze minutos até Jennifer ser finalmente chamada. Seguiu a enfermeira até uma sala de observações.

- Tire todas as suas roupas e vista isso - disse a mulher, entregando uma bata de papel a Jennifer. - Voltarei aqui e então o doutor recebê-la-á.

Antes de Jennifer poder perguntar fosse o que fosse, a enfermeira saiu e a porta fechou-se.

A sala teria talvez dez metros quadrados, uma janela com cortinas numa ponta, uma segunda porta para a direita e paredes nuas. A mobília incluía uma balança, um cesto de papéis a deitar por fora, uma marquesa, um armário aberto e um lavatório. Era pouco acolhedora e Jennifer recordou-se que o Dr. Vandermer era brusco, quase rude. Adam enviara-a para ele porque era considerado como sendo o melhor, mas “melhor” era uma designação que não parecia incluir as boas maneiras.

Sem saber se a enfermeira demoraria muito a regressar, Jennifer apressou-se. Pousou o seu enorme casaco e a mala de mão no chão e usou o armário para pendurar as suas roupas. Uma vez nua, tentou perceber como haveria de vestir a bata, pois não sabia se a deveria vestir com a abertura para a frente ou para as costas. Acabou por optar pela frente. A seguir tentou decidir o que fazer. Deveria deitar-se na marquesa ou permanecer de pé? Estava a ficar com os pés frios por causa dos mosaicos do pavimento. Trepou para a marquesa e sentou-se nela.

Instantes depois a enfermeira regressou, apressada.

- Desculpe tê-la feito esperar tanto tempo - disse, num tom agradável, mas aflito. - Estamos cada vez mais ocupados. Deve tratar-se de uma nova explosão de bebés.

Rapidamente, começou a verificar o peso e a pressão arterial de Jennifer e a seguir mandou-a para a casa de banho, para uma amostra de urina. Quando Jennifer regressou, o Dr. Vandermer aguardava-a.

Jennifer nunca se sentira muito à vontade com ginecologistas bonitos e o Dr. Vandermer evocava essa sua velha reserva. Parecia mais um actor a desempenhar um papel do que um verdadeiro médico. Era um homem alto, com cabelo escuro, a ficar prateado nas têmporas, tinha um rosto quadrado, com um queixo bem marcado e uma boca direita. Usava um par de óculos para ver ao pé encavalitados na ponta do nariz e olhava por cima deles para Jennifer.

- Bom dia - disse, numa voz que não convidava à manutenção de uma conversa.

Os seus olhos azuis miraram-na de alto a baixo e depois viraram-se para a ficha médica. A enfermeira fechou a porta por detrás deles e depois atarefou-se com o conteúdo de um recipiente de aço inoxidável que se encontrava junto do lavatório.

- Ah, sim, é Mistress Schonberg, a mulher de Adam Schonberg, o estudante de Medicina do terceiro ano - disse o Dr. Vandermer.

Jennifer não sabia se se tratava de uma declaração ou de uma pergunta, mas acenou que sim e confirmou ser a mulher de Adam.

- Creio que não se trata da altura conveniente para vir a ter um bebé, Mistress Schonberg - afirmou o Dr. Vandermer.

Jennifer ficou chocada. Se não estivesse nua e vulnerável, ter-se-ia zangado. Em vez disso, manteve-se na defensiva.

- Espero não estar grávida - disse Jennifer. - Foi por isso que o senhor me colocou um aparelho intra-uterino, há um ano.

- E que aconteceu ao aparelho? - perguntou o Dr. Vandermer.

- Creio que ainda lá está - respondeu Jennifer.

- Que quer dizer com o “creio que ainda lá está”? - perguntou o Dr. Vandermer. - Não sabe?

- Verifiquei esta manhã. A espiral está lá.

Abanando a cabeça, o Dr. Vandermer deu a entender que a considerava com pouco sentido das responsabilidades. Inclinou-se e escreveu qualquer coisa rapidamente na ficha. A seguir, levantou os olhos e tirou os óculos.

- Na história que nos forneceu, há um ano, disse que tivera um irmão que só viveu durante algumas semanas.

- É verdade - respondeu Jennifer. - Era um bebé mongolóide.

- Que idade tinha a sua mãe, nessa altura? - perguntou o Dr. Vandermer.

- Creio que tinha cerca de trinta e seis anos - respondeu Jennifer.

- Trata-se de uma coisa que a senhora deveria saber - contrapôs o Dr. Vandermer, com uma exasperação muito pouco disfarçada. - Procure ter a certeza. Quero essa informação na ficha.

Pousando a caneta, o Dr. Vandermer pegou no estetoscópio e fez a Jennifer um rápido mas completo exame físico, espreitando-lhe os olhos e as orelhas e escutando-lhe o peito e o coração, deu-lhe pancadinhas nos joelhos e tornozelos, raspou-lhe as palmas dos pés e inspeccionou cada centímetro do seu corpo, trabalhando num silêncio total. Jennifer sentiu-se como uma peça de carne nas mãos de um açougueiro competente.

Sabia que o Dr. Vandermer era competente, mas achava que ele podia ser um pouco mais caloroso.

Quando terminou, o doutor sentou-se e inscreveu as suas descobertas na ficha. A seguir, perguntou a Jennifer qual era a sua história menstrual e a data do último período. Antes de ela poder fazer qualquer pergunta, forçou-a a inclinar e iniciou um exame pélvico.

- Acalme-se, agora - disse o Dr. Vandermer, lembrando-se finalmente que a sua paciente estava por certo bastante ansiosa. Jennifer sentiu um objecto a entrar dentro dela, o que foi feito de uma maneira suave e habilidosa. Não houve dor, apenas uma desagradável sensação de estar cheia. Ouviu o Dr. Vandermer falar com a enfermeira, a seguir pressentiu a porta a abrir-se e a enfermeira a sair.

O Dr. Vandermer levantou-se para que Jennifer o pudesse ver.

- O intra-uterino ainda está no seu lugar, mas parece que está um pouco descaído. Penso que o devemos remover.

- Isso é difícil? - perguntou Jennifer.

- É uma coisa muito simples - respondeu o Dr. Vandermer. - Nancy foi buscar-me um instrumento. Demorará apenas um segundo a tirar.

Nancy voltou com qualquer coisa que Jennifer não conseguiu ver. Sentiu uma rápida pontada de dor. O Dr. Vandermer levantou-se, segurando um enrolamento de plástico na sua mão enluvada.

- Está grávida, definitivamente - disse, sentando-se à secretária e voltando a escrever na ficha.

Jennifer sentiu uma onda de pânico semelhante à que sentira no momento em que vira que o teste de gravidez, caseiro, dera um resultado positivo.

- Tem a certeza? - conseguiu perguntar com a voz trémula.

O Dr. Vandermer não olhou para cima.

- Faremos uma confirmação por intermédio de testes de laboratório, mas tenho a certeza.

Nancy deixou de escrever etiquetas nos tubos das amostras e deu a volta para a ajudar a retirar os pés dos apoios. Jennifer rodou de modo a ficar sentada na borda da mesa.

- Está tudo bem? - perguntou.

- Está tudo perfeitamente normal - garantiu-lhe o Dr. Vandermer.

Acabou de preencher a ficha e depois voltou-se para a encarar. Tinha uma expressão tão neutra como a que apresentara no primeiro momento, quando entrara.

- Pode dar-me alguma ideia do que me espera? - perguntou Jennifer. Dobrou as mãos para se firmar e pousou-as no colo. - Claro. Nancy Guenther será a sua enfermeira-assistente - disse o Dr. Vandermer, fazendo um aceno para a enfermeira. - Ela tratará de coisas como essas, consigo. Vê-la-ei em consultas de rotina, uma vez por mês, durante os primeiros seis meses, e, em seguida, de duas em duas semanas, até ao último mês. Depois semanalmente, a não ser que surja qualquer complicação.

O Dr. Vandermer levantou-se e preparou-se para sair.

- Vê-lo-ei cada vez que cá vier? - perguntou Jennifer.

- Em geral - respondeu o Dr. Vandermer. - Ocasionalmente, poderei vir a estar ocupado com um parto. Então será vista por um dos meus assistentes ou por Nancy. Em qualquer dos casos, eles informar-me-ão. Mais alguma pergunta?

Jennifer tinha tantas perguntas para fazer que não sabia por onde começar. Parecia-lhe que a sua vida estava a rebentar pelas costuras. Tinha também a sensação de que o Dr. Vandermer queria sair, agora que o exame terminara.

- Como é que vai ser quando chegar a data do parto? - perguntou. - Não me importo de ser vista por qualquer outra pessoa, num exame de rotina, mas quando chegar a altura do parto, o caso é diferente. Não está a planear nenhumas férias para essa data, ou está?

- Mistress Schonberg - começou o Dr. Vandermer -, há cinco anos que não faço férias. Vou ocasionalmente a um qualquer congresso médico e estou a planear algumas conferências num seminário, durante um cruzeiro, dentro de um par de meses, o que certamente não irá entrar em conflito com a sua data. Agora, se não tem mais perguntas, deixo-a entregue a Nancy.

- Só mais uma coisa - disse Jennifer. - Perguntou-me a respeito do meu irmão. Acha que tem algum significado o facto de a minha mãe ter dado à luz um filho deficiente? Quer isso dizer que me pode acontecer o mesmo?

- Sinceramente, duvido - disse o Dr. Vandermer, encaminhando-se para a porta. - Deixe o nome do médico da sua mãe à Nancy para nós telefonarmos e sabermos detalhes. Entretanto, penso fazer um simples estudo cromossomático a si. Mas não creio que tenha de se preocupar com isso.

- E uma amniocentese?

- Neste momento, não vejo qualquer necessidade para um tal procedimento, mas mesmo que houvesse, só poderia ser efectuada a partir da décima sexta semana. Agora, desculpe-me, voltarei a vê-la dentro de um mês.

- E a respeito de um aborto? - perguntou Jennifer ansiosamente. Não queria que o Dr. Vandermer se fosse embora. - Se decidirmos não ter esta criança, será difícil fazer um aborto?

O Dr. Vandermer, que tinha uma mão pousada na porta, regressou para junto dela, olhando-a de toda a sua altura.

- Se está interessada num aborto, creio que está a falar com o médico errado.

- Não estou a dizer que quero fazê-lo - contrapôs Jennifer, encolhendo-se ante o olhar que ele lhe lançava. - Trata-se apenas desta não ser uma boa altura para eu estar grávida, tal como o senhor mesmo disse. Ainda não comuniquei ao Adam e não sei qual irá ser a sua reacção. Nós dependemos daquilo que eu ganho.

- Não faço abortos, a não ser que exista uma razão médica para isso - disse o Dr. Vandermer.

Jennifer fez um aceno. De facto o homem era fortemente sensível em relação àquela matéria. Para mudar de assunto, perguntou:

- E o meu trabalho? Sou dançarina. Por quanto tempo poderei continuar a trabalhar?

- Nancy discutirá esses problemas consigo - respondeu o Dr. Vandermer, olhando para o relógio. - Sabe mais desses assuntos do que eu. Agora, se não tem mais nada...

O Dr. Vandermer afastou-se da marquesa.

- Há mais uma coisa - disse Jennifer. - Tenho-me sentido enjoada de manhã. Isso é normal?

- Sim - respondeu o Dr. Vandermer, abrindo a porta para o corredor. - Tais enjoos aparecem em pelo menos cinquenta por cento dos casos de gravidez. Nancy dar-lhe-á algumas sugestões sobre como tratar disso, alterando a sua dieta.

- Poderei tomar alguma coisa? - perguntou Jennifer.

- Não sou defensor do uso de medicamentos para o enjoo matinal, a não ser que tal facto interfira com a nutrição da mãe. Agora, desculpe-me, voltarei a vê-la daqui a um mês.

Antes de Jennifer poder pronunciar qualquer outra palavra, o Dr. Vandermer estava fora da porta. Fechou-a atrás de si, deixando Jennifer com Nancy.

- A dieta é uma parte muito importante da gravidez - disse Nancy, entregando a Jennifer uma série de folhas de papel, com instruções impressas.

Jennifer suspirou e deixou os seus olhos descerem da porta fechada para as folhas de papel que se encontravam nas suas mãos. A sua mente era um redemoinho de pensamentos e emoções em conflito.

Capítulo terceiro

Adam virou para oeste, na Rua 12, enfrentando directamente o vento e a chuva. Estava já muito escuro, apesar do facto de serem apenas sete e trinta. Só lhe faltava caminhar meio quarteirão. Utilizava um chapéu-de-chuva mas estava em muito mau estado, pelo que tinha de lutar com ele para evitar que o vento o virasse. Sentia-se frio e molhado e, o que era pior, estava exausto, mental e fisicamente. A tão importante apresentação do caso de um paciente não lhe correra bem. O Dr. Norton fizera-o parar, não apenas uma vez, mas duas, por causa de erros gramaticais, interrompendo-lhe assim a sua linha de pensamentos. Consequentemente, Adam esquecera-se de uma parte importante do caso do doente. No fim, o Dr. Norton limitara-se a fazer um aceno e pedir ao médico-chefe residente que o informasse sobre um outro paciente.

Depois, para completar o dia, Adam fora chamado à sala das emergências, onde lhe estava reservada a tarefa de proceder à lavagem ao estômago de uma jovem que tentara suicidar-se. Pouco experiente em tal procedimento, Adam fizera a rapariga vomitar e apanhara com tudo em cima do peito. E, como se isso ainda não fosse suficientemente mau, quinze minutos antes de deixar o serviço, teve de aceitar um caso complicado: um homem de cinquenta e dois anos, com uma pancreatite. Era por essa razão que chegava a casa tão tarde.

Ao passar pela ruela que comunicava com o cénico pátio de ventilação, no exterior do apartamento, Adam viu o variegado grupo de latões de lixo que os Serviços de Sanidade Pública despejavam ruidosamente três manhãs por semana. Hoje, os latões estavam a deitar por fora e um par de esqueléticos gatos vadios tinha afrontado a chuva para os investigar.

Adam entrou às arrecuas pela porta principal do seu prédio e fechou o quase inútil chapéu-de-chuva. Durante alguns instantes deixou-se ficar no antiquado vestíbulo, pingando os mosaicos do chão. A seguir abriu a porta interior e começou a subir os lanços de escadas que davam para o seu apartamento.

Para anunciar a sua chegada, carregou no botão da campainha enquanto enfiava a chave na primeira de várias fechaduras. Tinham sido assaltados duas vezes durante o ano e meio que ali viviam. No entanto, nada fora roubado. Os ladrões haviam provavelmente compreendido que tinham cometido um erro, ao avistarem a velha e desconjuntada mobília.

- Jen! - chamou Adam, quando abriu a porta.

- Estou na cozinha! Saio já, é só um segundo!

Adam ergueu as sobrancelhas. Uma vez que o seu horário do hospital era tão irregular, Jennifer esperava em geral que ele chegasse, antes de começar a fazer o jantar. Cheirando o apetitoso odor proveniente da cozinha, dirigiu-se para o quarto e tirou o casaco. Quando regressou à sala, Jennifer esperava-o. Adam ofegou. De repente, pensou que ela estava apenas vestida com um avental. As pernas nuas surgiam por debaixo da bainha inferior do avental, até umas chinelas de salto muito alto. Penteara o cabelo de modo a ficar liso e segurara-o afastado da cara com travessas. A sua face oval parecia estar iluminada por dentro.

Levantando os braços e colocando os dedos numa posição em que parecia estar a dançar bailei clássico, Jennifer rodou sobre si mesma, numa volta lenta. Quando se virou, Adam viu que, por debaixo do avental, ela usava um vestido muito curto, cor de alfazema, trabalhado com rendas.

Adam sorriu-se. Ansioso, esticou-se para levantar a parte da frente do avental.

- Oh, não! - riu-se Jennifer, sem se deixar agarrar. - Não tão depressa!

- Mas que é que se passa? - perguntou Adam, rindo-se.

- Estou a praticar para vir a ser a “Mulher Total” - troçou Jennifer.

- Em nome do céu, onde é que arranjaste essa... coisa?

- Esta coisa chama-se um vestido. - Jennifer levantou a borda do avental e fez nova pirueta. - Comprei-o no Bonwit's, esta tarde.

- Mas para quê? - perguntou Adam, interrogando-se, contra a sua própria vontade, sobre quanto é que teria custado. Não queria negar a Jennifer qualquer coisa que ela pretendesse, mas tinham de ter cuidado com o orçamento.

Jennifer deixou de dançar.

- Comprei-o porque quero ser sempre atraente e sexy, para ti.

- Se fosses mais atraente e sexy para mim do que aquilo que és, nunca conseguiria acabar a Escola Médica. Não precisas de vestir coisas provocantes, para me entusiasmares. Já és suficientemente sexy.

- Não gostas dele. - O rosto de Jennifer ensombrou-se.

- Gosto, sim - murmurou Adam. - Trata-se apenas de que não precisamos dele.

- Gostas, de verdade? - perguntou Jennifer.

Adam sabia que estava a caminhar sobre gelo muito fino.

- Adoro-o. Ficas com um aspecto capaz de pertencer à Playboy. Não, antes à Penthouse.

O rosto de Jennifer iluminou-se.

- Perfeito! Queria que ele me ficasse exactamente nos limites entre o sexy e o ordinário. Agora, volta para a casa de banho e toma um duche. Quando de lá saíres, teremos um jantar que espero te faça sentir como um rei! Agora, marcha!

Jennifer empurrou Adam impetuosamente para o quarto. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, fechou-lhe a porta na cara.

Quando acabou de tomar o duche, descobriu que a sala se tinha transformado. A mesa de jogo que se encontrava na cozinha estava agora no meio da sala e posta para o jantar. A única luz provinha de duas garrafas de vinho, vazias, com velas espetadas. As pratas brilhavam. Tinham apenas um serviço para duas pessoas. O serviço fora um presente dos pais de Jennifer: um no dia do casamento e o outro no primeiro aniversário. Raramente o usavam, deixando-o embrulhado em folha de alumínio e escondido no congelador do frigorífico.

Adam caminhou para a cozinha e encostou-se à ombreira da porta. Jennifer trabalhava febrilmente, apesar da desvantagem oferecida pelas chinelas de salto alto. Adam foi forçado a sorrir. Aquela mulher, caminhando apressada de um lado para o outro na cozinha, não se parecia nada com a Jennifer que ele conhecia. Se ela deu por ele ali, não mostrou sinais disso.

Adam clareou a garganta.

- Jennifer, gostava de saber o que é que se passa. Jennifer não respondeu. Em vez disso, levantou a tampa de um tacho e mexeu o conteúdo. Adam podia ver pela colher, quando ela a pousou sobre o balcão, que se tratava de arroz de pato.

Adam perguntou a si próprio quanto é que aquilo custaria. A seguir avistou o pato assado a arrefecer em cima da tábua de trinchar.

- Jennifer! - chamou Adam, um pouco mais impetuosamente.

Jennifer virou-se e atirou-lhe uma garrafa de vinho e um saca-rolhas, para os braços. Foi obrigado a agarrar as duas coisas antes que caíssem no chão.

- Estou a tratar do jantar - respondeu ela calmamente. - Se queres fazer alguma coisa de útil, trata de abrir essa garrafa.

Espantado, Adam levou a garrafa para a sala e extraiu-lhe a rolha. Deitou um pouco de vinho num copo e colocou-o em frente da chama da vela. Tinha um tom de rubi, rico e profundo. Antes de o poder provar, Jennifer chamou-o à cozinha.

- Preciso aqui dum cirurgião - disse, passando-lhe uma enorme faca.

- Que é que queres que eu faça com isto? - perguntou ele.

- Corta o pato ao meio.

Adam fez uma série de tentativas, com muito pouco sucesso. Finalmente, colocou toda a sua força no corte e dividiu o pato em duas metades.

- E agora, se me dissesses o porquê é tudo isto?

- Quero apenas que te descontraias e aprecies um bom jantar.

- Mas há algum outro motivo para toda esta encenação?

- Bom, tenho uma coisa para te dizer, mas não o farei enquanto não tivermos este festim.

E foi mesmo um festim. Apesar das ervilhas estarem um pouco cozinhadas de mais e do arroz estar um tudo-nada cozinhado de menos, o pato era sensacional e o vinho também. À medida que a refeição progredia, Adam começou a sentir-se ensonado. Fazendo um esforço para se manter acordado, concentrou toda a sua atenção sobre a mulher. Jennifer tinha um aspecto extremamente belo, à luz das velas. Retirara o avental e estava agora com aquele vestido provocantemente transparente, cor de alfazema.

A imagem dela desapareceu-lhe da mente e, por breves momentos, Adam adormeceu sentado à mesa.

- Sentes-te bem? - perguntou Jennifer, que começara a descrever o teste de gravidez caseiro.

- Perfeitamente! - exclamou Adam, sem grande vontade de admitir que se deixara adormecer.

- Assim - continuou Jennifer -, segui as instruções. E adivinha o resultado?

- O quê?

- Foi positivo.

- O que é que foi positivo? - Adam sabia que devia ter perdido uma qualquer frase importante.

- Adam, tens estado a ouvir-me?

- Claro que te tenho estado a ouvir. Mas suponho que me distraí por um momento. Desculpa. Talvez seja melhor começares de novo.

- Adam, estou a tentar explicar-te que estou grávida. Ontem fiz um desses testes caseiros para verificar a gravidez e esta manhã fui ter com o doutor Vandermer.

Durante um minuto, Adam ficou demasiado chocado para poder falar.

- Estás a brincar - acabou por dizer.

- Não estou a brincar - respondeu Jennifer, olhando-o nos olhos.

Jennifer sentia o seu coração a bater num ritmo rápido e, involuntariamente, cerrou os punhos.

- Não estás a brincar? - perguntou Adam, sem saber bem se ia começar a rir ou a chorar. - Estás a falar a sério?

- Muito a sério. Acredita, Adam, estou a falar a sério.

A voz de Jennifer tremia. Esperava que Adam se sentisse feliz, pelo menos inicialmente. Depois poderiam tratar da imensidade de problemas que a sua gravidez iria provocar. Jennifer levantou-se, caminhou até Adam e pousou-lhe as mãos nos ombros.

- Querido, amo-te muito.

- Também eu te amo muito, Jennifer, mas isso não é o mais importante - disse Adam levantando-se e afastando-lhe as mãos.

- Creio que é o mais importante - respondeu Jennifer, vendo-o a afastar-se.

Mais do que qualquer outra coisa no mundo, o que ela desejava agora era ser abraçada e ter a certeza de que tudo iria correr bem.

- Então, e o teu intra-uterino? - perguntou Adam.

- Não funcionou. Creio que temos de pensar neste bebé como sendo uma espécie de milagre. - Jennifer fez um esforço para sorrir.

Adam começou a andar de um lado para o outro, na pequena sala. Um bebé! Como é que eles podiam ter um bebé? Naquele momento e tal como estavam, mal conseguiam manter a cabeça fora de água. E já estavam a dever quase vinte mil dólares...

Silenciosa, Jennifer, observava Adam. A partir do momento em que abandonara o consultório do Dr. Vandermer que ela receara a reacção de Adam. Fora por isso que tivera a ideia do jantar comemorativo. Mas agora que a refeição terminara, deparava de novo com a realidade: estava grávida e o seu marido não ficara satisfeito com o facto.

- Sempre desejaste ter uma criança - disse ela, num tom lamentoso.

Parando no meio do seu passeio de um lado para o outro, Adam olhou para a mulher.

- O problema não está em eu querer ou não uma criança. Claro que quero, mas não agora. Quer dizer, de que é que vamos viver? Vais ter de deixar de dançar imediatamente, não é?

- Muito em breve - admitiu Jennifer.

- Bom, aí tens! Que é que vamos fazer para arranjar dinheiro? Já passou o tempo em que se podia ir distribuir jornais, depois da escola. Oh, Deus, que confusão. Não posso acreditar.

- Temos sempre a minha família - disse Jennifer, lutando com as lágrimas.

Adam ergueu a cabeça. Os seus lábios tinham-se apertado. Jennifer viu aquela expressão e acrescentou rapidamente:

- Sei o que pensas a respeito de aceitar ajuda da minha família, mas se tivéssemos uma criança, seria diferente. Sei que eles gostariam muito de nos ajudarem.

- Oh, claro! - exclamou Adam, sarcástico.

- De verdade - disse Jennifer. - Fui a casa esta tarde e falei com eles. O meu pai disse que éramos bem-vindos, se quiséssemos ir viver para a casa deles, em Englewood. Sabes que é suficientemente grande. Depois, logo que eu puder voltar a dançar ou que tu inicies o teu serviço como interno, podemos mudar-nos outra vez.

Adam fechou os olhos e bateu no alto da cabeça com o punho fechado.

- Não posso acreditar que isto está a acontecer.

- A minha mãe ficará satisfeita em ter-nos lá - acrescentou Jennifer. - Por causa do bebé que ela perdeu, está particularmente preocupada comigo.

- Não tem nada a ver uma coisa com a outra - retorquiu Adam. - Ela teve um bebé mongolóide porque a sua idade já era demasiado avançada.

- Ela sabe isso. Mas é assim que ela sente. Oh, Adam! Não será tão mau como estás a pensar. Teremos muito espaço e poderias usar a sala do sótão como estúdio.

- Não! - gritou Adam. - Muito obrigado, mas não vamos aceitar a caridade dos teus pais. Já interferem demasiado na nossa vida. Tudo isto que se encontra neste maldito buraco veio dos teus pais - disse ele, gesticulando em volta da sala.

No meio da sua ansiedade, Jennifer sentiu a ira a agitá-la. Por vezes Adam conseguia ser frustrantemente obstinado e muito pouco agradecido. Logo no início das suas relações, a rejeição, por parte de Adam da generosidade dos pais dela, fora exagerada. Ela acompanhara-o até certo ponto, um reconhecimento da sua sensibilidade especial, mas agora que estava grávida aquela atitude parecia-lhe irracional.

- Os meus pais não têm andado a interferir. Creio que chegou a altura de controlares o teu orgulho ou lá o que quer que seja que te põe tão zangado cada vez que os meus pais nos tentam ajudar. O facto principal é o de que necessitamos de ajuda.

- Podes chamar-lhe o que quiseres. Eu chamo-lhe interferência. E não a quero, nem hoje, nem amanhã, nunca! Estamos por nossa conta e trataremos disto sozinhos!

- Muito bem - disse Jennifer. - Se não podemos aceitar a ajuda da nossa família, então pede ajuda ao teu pai. Já é tempo de ele fazer qualquer coisa.

Adam deixou novamente de caminhar e olhou para Jennifer.

- Arranjarei um trabalho - disse ele, em voz baixa.

- Como é que podes arranjar um trabalho? - perguntou Jennifer. - Todos os minutos que permaneces acordado, ou estás a estudar ou no hospital.

- Pedirei licença da escola - disse Adam. Jennifer ficou de boca aberta.

- Não podes abandonar a Escola Médica. Eu arranjarei outro trabalho.

- Claro! - exclamou Adam. - Que espécie de trabalho? Vais servir cocktails? Não brinques, Jennifer. Não te quero a trabalhar enquanto estiveres grávida.

- Então farei um aborto - disse Jennifer, desafiadora. Adam virou-se de repente para encarar a mulher. Lentamente, levantou a mão e apontou-lhe o indicador ao nariz.

- Não vais fazer nenhum aborto. Nem sequer quero ouvir essa palavra.

- Então vai ter com o teu pai - disse Jennifer. Adam cerrou os dentes.

- Não teríamos de ir ter com ninguém, se tu não te deixasses engravidar.

As lágrimas que Jennifer tentara suster durante todo o dia escorreram-lhe pelas faces.

- São necessários dois, sabes. Não o fiz sozinha - disse ela, rebentando em soluços.

- Disseste-me para não me preocupar com bebés - retorquiu Adam violentamente, ignorando-lhe as lágrimas. - Disseste que esse assunto era contigo! Não há dúvida que fizeste um bom trabalho!

Jennifer nem sequer tentou responder. Soluçando, correu para o quarto e bateu com a porta.

Durante alguns instantes, Adam ficou a olhar para a porta. Sentia-se doente. Tinha a boca seca, por causa de todo o vinho que bebera. Olhou para a confusão em cima da mesa, com os restos do jantar espalhados na sua frente. Não necessitava de olhar para a cozinha, já sabia qual o aspecto que ela apresentava. O apartamento estava numa enorme confusão, tal como, simbolicamente, a sua vida.

 

O Dr. Lawrence Foley meteu o carro pelo longo e sinuoso caminho que dava para a sua casa. A incaracterística casa de pedra ainda não se encontrava à vista quando ele carregou no botão que abria a porta da garagem. Rodeando o grupo final de ulmeiros, avistou a silhueta das torres, de encontro ao céu nocturno. O castelo neogótico, em Greenwich, fora construído nos primeiros anos da década de vinte por um milionário excêntrico, que acabara por perder tudo na Grande Depressão de 1929 e fizera saltar os miolos com uma espingarda de caçar elefantes.

Laura Foley encontrava-se na sala do andar de cima quando ouviu o Jaguar entrar na garagem. A seus pés, Ginger, o seu caniche miniatura, levantou a cabeça e rosnou, como se fosse um cão de guarda. Pondo para o lado o livro que estava a ler, olhou para o relógio. Faltava um quarto para as dez e ela estava furiosa. Preparara o jantar para as oito horas, mas o Larry nunca se preocupava em telefonar para dizer que ia chegar mais tarde. Era a sexta vez que o fazia naquele mês. Dissera-lhe uma vez, dissera-lhe centenas de vezes para que telefonasse. Era tudo o que pedia. Sabia que os médicos tinham emergências, mas telefonar não demorava mais de um minuto.

Sentada no sofá, Laura pensou em como deveria proceder. Podia ficar ali e deixar que Larry se governasse sozinho, na cozinha, apesar de já ter tentado isso antes, sem obter qualquer resultado. Até muito recentemente, o seu marido fora bastante sensível às reacções dela, porém, por qualquer razão, desde que ele regressara daquele encontro médico quatro meses atrás, portara-se em geral de uma maneira fria e sem consideração por ela.

Pelas escadas das traseiras, ouviu alguns ruídos provenientes da cozinha, que sugeriam que Larry já estava a arranjar qualquer coisa para comer. O facto de não se preocupar em aparecer e dizer “olá” acrescentava um insulto às injúrias. Laura levantou as pernas da almofada, enfiou os pés nas sandálias e levantou-se. Para uma mulher de cinquenta e seis anos, tinha um belíssimo aspecto, mas durante as últimas semanas Larry não mostrara por ela o mínimo interesse sexual, absolutamente nada. Seria essa a razão para a sua nova explosão de entusiasmo profissional? Larry e Clark Vandermer tinham levado vinte anos da sua actividade profissional para atingirem um ponto em que se podiam concentrar na ginecologia, em vez da obstetrícia. E a seguir Larry largara tudo. Depois de regressar daquele encontro médico, tinha calmamente anunciado que ia abandonar os Ginecologistas Associados e que aceitara um trabalho assalariado na Clínica Julian. Na ocasião, Laura ficara tão estupefacta que fora incapaz de responder. Além disso, desde que se empregara na Clínica Julian, Larry aceitara mais casos de obstetrícia, apesar de ganhar sempre o mesmo salário, por muito que trabalhasse.

Um estrondo interrompeu os pensamentos de Laura. Aquele era outro dos problemas. Ultimamente Larry tornara-se desajeitado e tinha também falhas de atenção. Laura interrogou-se sobre se ele estaria à beira de alguma espécie de quebra da sua saúde.

Decidindo que chegara a altura de enfrentar o marido, Laura endireitou o vestido e começou a descer as escadas das traseiras. Ginger seguiu-a, agarrado aos seus calcanhares.

Encontrou Larry no balcão da cozinha, comendo uma grande sanduíche e a ler um jornal médico. Tirara o casaco e lançara-o para cima das costas de uma cadeira. Quando a ouviu entrar, olhou para cima. O seu rosto ostentava aquele curioso ar inexpressivo que lhe surgira nas últimas semanas.

- Olá, querida - disse ele, sem entoação.

Laura parou na base da escada, deixando que a sua ira se acumulasse. O marido olhou para ela por um instante e depois voltou à leitura do jornal.

- Por que é que não telefonaste? - lançou-lhe Laura, furiosa por aquela tentativa de a ignorar.

Larry levantou lentamente a cabeça e virou o rosto para a mulher. Não falou.

- Fiz-te uma pergunta - insistiu Laura. - Tenho direito a uma resposta. Pedi-te uma dúzia de vezes para me telefonares quando vais chegar atrasado.

Larry não se mexeu.

- Estás a ouvir-me?

Laura aproximou-se e olhou para os olhos do marido. Tinha as pupilas dilatadas e parecia estar a olhar através dela.

- Eh! - exclamou Laura, abanando a mão em frente do rosto dele. - Lembras-te de mim? Sou a tua mulher.

As pupilas de Larry contraíram-se e ele pestanejou, como se só agora tivesse dado pela presença dela.

- Desculpa não ter telefonado - disse ele. - Decidimos abrir uma clínica, que funcionará só da parte da tarde, para a vizinhança que reside junto da Julian e a resposta foi muito melhor do que aquilo que prevíamos.

- Larry, que é que se passa contigo? Estás a querer dizer-me que ficaste até depois das nove, para trabalhares numa clínica gratuitamente?

- Não se passa nada comigo. Sinto-me bem. Gostei do trabalho. Descobri três casos de doença venérea insuspeita. - Formidável - disse Laura, erguendo as mãos ao ar e sentando-se numa das cadeiras da cozinha. Ficou a olhar para Larry com um ar exasperado. - Temos de conversar. Passa-se qualquer coisa estranha. Ou és tu que estás a enlouquecer ou sou eu.

- Eu estou bem - disse Larry.

- Pode ser que te sintas bem, mas estás a actuar como se fosses uma pessoa diferente. Tens sempre um aspecto de cansado, como se há semanas que não dormisses. Toda esta ideia de abandonares o teu consultório, é uma loucura. Desculpa, mas é uma loucura abandonar o que levou uma vida inteira a construir.

- Estou farto das consultas privadas, dinheiro em troca de serviços - retorquiu Larry. - A Clínica Julian é bastante mais interessante e posso ajudar imensas pessoas.

- Isso tudo é muito bonito - disse Laura -, mas o problema está em que tens uma família. Tens um filho e uma filha na universidade e uma filha na Escola Médica. Não preciso de te dizer quanto é que custa a educação deles. E a manutenção desta ridícula casa, que insististe em comprar, há dez anos, custa uma fortuna. Não precisamos de trinta quartos, particularmente agora que as crianças se foram embora. O salário que recebes na Clinica Julian mal dá para pagar a mercearia, muito menos para cobrir todas as nossas obrigações.

- Podemos vender a casa - disse Larry, indiferente.

- Sim, podemos vender a casa - repetiu Laura. - Mas as crianças estão a estudar e infelizmente temos muito poucas economias. Larry, tens de voltar para os Ginecologistas Associados.

- Mas eu desisti da minha parte na sociedade - disse Larry.

- Clark Vandermer tornará a aceitar-te - respondeu Laura. - Já o conhecemos há muito tempo. Diz-lhe que cometeste um erro. Se queres mudar a tua situação profissional, deves, pelo menos, esperar até que a educação das crianças esteja terminada.

Laura parou de falar e observou o rosto do marido. Estava como se fosse esculpido em pedra.

- Larry - chamou, mas não obteve resposta.

Laura levantou-se e agitou a mão em frente do rosto do marido. Este não se moveu. Parecia estar em transe.

- Larry! - gritou, abanando-o pelos ombros. O corpo dele estava estranhamente rígido. A seguir pestanejou e olhou para ela. - Larry, tens consciência de que de vez em quando pareces perder o conhecimento?

Manteve as mãos nos ombros dele, enquanto lhe estudava o rosto.

- Não - respondeu Larry. - Sinto-me bem.

- Acho que devias ser visto por alguém. Por que é que não telefonamos ao Clark Vandermer e lhe pedimos para vir cá, para te examinar? Vive apenas a três casas daqui e estou certa de que não se importará. Ao mesmo tempo, poderemos conversar com ele quanto a voltares para o consultório.

Larry não deu resposta. Em vez disso, os seus olhos assumiram de novo um ar de alheamento, enquanto as suas pupilas se dilatavam. Laura observou-o por momentos e a seguir caminhou rapidamente para o telefone da cozinha. A sua irritação transformara-se em preocupação. Olhou para o número dos Vandermer que se encontrava no livro de endereços pendurado no painel de cortiça que servia para fixar recados e quando ia começar a marcar o número, Larry arrancou-lhe o telefone das mãos. Pela primeira vez, em meses, a expressão vazia desaparecera-lhe do rosto. Em vez dela, tinha os dentes arreganhados, num esgar muito pouco natural.

Laura gritou. Não pretendera fazê-lo mas não o pôde evitar. Recuou, deitando abaixo uma das cadeiras da cozinha. Ginger rosnou.

Apesar da horrível expressão no seu rosto, Larry não respondeu ao grito de Laura. Pendurou o telefone e depois virou-se. Num movimento agonizantemente lento, apertou os lados da cabeça com as duas mãos, enquanto dos lábios lhe escapava um lamento angustiado. Laura fugiu pelas escadas das traseiras, cheia de pânico.

Ao chegar ao cimo das escadas, atravessou a sala e correu ao longo do corredor. A enorme casa tinha a forma de um H, com o vestíbulo do andar superior na barra horizontal do H. O quarto de dormir principal encontrava-se por cima da sala, na ala oposta à cozinha.

Ao chegar ao quarto, Laura fechou à chave a sua porta apainelada. Correu para a cama e sentou-se na berma, com a respiração ofegante. Em cima da mesa-de-cabeceira encontrava-se outro bloco com endereços. Abriu-o na letra V. Mantendo o dedo em cima do número dos Vandermer, levantou o auscultador do telefone e começou a fazer a marcação. Porém, antes da chamada começar a soar, ouviu levantar o auscultador de um dos telefones do andar inferior.

- Laura - disse Larry, numa voz fria e mecânica - Vem cá para baixo imediatamente. Não quero que chames ninguém.

Uma onda de terror invadiu o corpo de Laura, contraindo-lhe a garganta. A mão que segurava o telefone tremia.

A ligação fez-se e Laura ouviu o telefone dos Vandermer começar a tocar. Porém, logo que atenderam do outro lado, a linha ficou muda. Laura olhou para o telefone, impotente. Larry devia ter cortado o cabo.

- Meu Deus - murmurou.

Lentamente, tornou a pousar o auscultador e tentou recompor-se. Entrar em pânico não lhe iria resolver o problema. Tinha de pensar. Era óbvio que ele necessitava de ajuda, o problema estava em como a conseguir. Virando a cabeça, olhou lá para fora, pela janela do quarto. Havia luzes acesas nas casas dos vizinhos. Se ela abrisse a janela e gritasse, haveria alguém que a ouvisse e, se ouvissem, responderiam?

Laura tentou convencer-se a si própria que as suas reacções estavam a ser exageradas. Talvez ela devesse na verdade ir lá para baixo, como Larry sugerira e dizer-lhe que ele, na verdade precisava de assistência.

Uma pancada na porta fê-la endireitar-se repentinamente. Escutou e ficou aliviada quando ouviu um latido agudo. Dirigindo-se à porta, encostou a orelha à madeira. Tudo o que conseguia ouvir era Ginger a ganir. Apressadamente, abriu a fechadura, para que o caniche pudesse correr lá para dentro.

A porta abriu-se violentamente, magoando-a na mão e embatendo contra a parede. Para grande surpresa de Laura, Larry encontrava-se na entrada. Ginger correu para os pés de Laura e começou aos saltos, para cima e para baixo, pedindo para ser agarrado.

Laura gritou de novo. A face de Larry continuava grotescamente contorcida. Na sua mão esquerda encontrava-se uma caçadeira Remington de doze milímetros.

Incitada pelo pânico, Laura virou-se e correu para a casa de banho, batendo e trancando a porta. Ginger seguira-a e tremia, junto dos pés dela. Pegou no cão que estremecia e, recuando, ficou a olhar para a porta. Sabia perfeitamente que não era uma grande barreira.

Um estrondo horrendo ecoou na divisão revestida a mosaicos quando parte da porta se estilhaçou e abriu. Os estilhaços que voaram picaram Laura na face e o cão soltou um ganido indefeso.

A casa de banho tinha outra porta e, largando Ginger, Laura lutou com o fecho. Estava estonteada, mas conseguiu abrir a porta e correu para o quarto de vestir, que ligava de novo ao quarto. Olhando por cima do ombro, viu a mão de Larry entrar pelo buraco feito pelo tiro da caçadeira.

Enquanto fugia do quarto, Laura teve um breve relance de Larry a desaparecer no interior da casa de banho. Sabendo que tinha apenas alguns momentos de vantagem, correu para o vestíbulo e desceu as escadas meio a correr meio a cair. Ginger seguia junto dela.

Foi em vão que deu um empurrão à porta principal, porque estava fechada. O velho que construíra aquela casa era tão paranóico que equipara todas as portas com fechaduras que podiam ser fechadas dos dois lados. Havia chaves algures, no armário do átrio, mas Laura não tinha tempo para as procurar. As suas próprias chaves estavam na sua carteira, na cozinha. Ao ouvir Larry, que começava a descer a escada, Laura correu ao longo da galeria do andar térreo.

Normalmente, deixava a sua carteira na mesa, por debaixo do telefone da cozinha, mas não se encontrava lá. Tentou a porta das traseiras mas, tal como previa, também estava fechada. Com pânico crescente, tentou pensar no que deveria fazer. O facto de Larry ter realmente usado a caçadeira, na porta da casa de banho, fazia com que o coração lhe quisesse saltar do peito. Ginger subiu-lhe para os braços e ela apertou-o de encontro a si. Então, ouviu os calcanhares de Larry a baterem no mármore da galeria.

Em desespero, Laura abriu a porta da cave, acendeu as luzes e fechou a porta atrás de si. Tão silenciosamente quanto lhe era possível, desceu a íngreme escada. Havia uma saída da cave que estava fechada com uma tranca de madeira de carvalho, em vez de uma fechadura.

Nunca haviam utilizado a cave por causa da tão grande superabundância de espaço que tinham nos andares de cima. Consequentemente, estava bolorenta e cheia com toda a espécie de sucata deixada pelos anteriores proprietários. A cave era uma confusão de pequenas divisões e mal iluminada, com uma lâmpada aqui e outra acolá. Laura tropeçou em sucata que se encontrava logo à entrada, premindo Ginger contra si, enquanto navegava por aquele estranho e tortuoso percurso. Estava quase a chegar à saída quando as luzes se apagaram.

A escuridão foi súbita e completa. Laura parou de repente, desorientada. O terror consumiu-a. Desesperadamente, agitou a mão esquerda na sua frente, procurando uma parede. Os seus dedos tocaram em madeira áspera. Cambaleando, seguiu caminho ao longo da parede, até chegar ao umbral de uma porta. Atrás de si, ouviu Larry a começar a descer as escadas para a cave. O som dos seus passos era distinto, como se se movesse muito lenta e deliberadamente. Uma luz oscilante indicou-lhe que ele trazia uma lanterna.

Sabendo que nunca conseguiria encontrar a saída em plena escuridão, Laura compreendeu, num frenesim, que teria de se esconder. Com todos aqueles quartos e toda aquela sucata que ali havia, sentiu que tinha algumas probabilidades de êxito. Passou o umbral da porta que descobrira e tacteou a escuridão. Quase imediatamente as suas mãos encontraram persianas de janelas, encostadas a uma parede. Dando-lhes a volta, o seu pé bateu num objecto de madeira. Era um grande barril, deitado de lado.

Depois de verificar que o barril estava vazio, Laura assentou o corpo sobre as mãos e os joelhos e recuou para dentro do barril, puxando Ginger atrás de si. Não teve muito tempo para pensar se o esconderijo seria ou não adequado. Mal acabara de se mover quando ouviu Larry a aproximar-se. Apesar do barril estar virado para o lado oposto à porta, podia avistar um fraco clarão da lanterna que ele empunhava.

Os passos de Larry aproximaram-se mais e mais e Laura forçou-se a respirar silenciosamente. A luz da lanterna entrou naquela divisão e Laura susteve a respiração. Então, Ginger rosnou. O coração de Laura pareceu falhar, quando ouviu a caçadeira a ser engatilhada. Sentiu Larry a dar um pontapé no barril, virando-a de cabeça para baixo. Ginger ganiu e fugiu. Freneticamente, Laura lutou para se endireitar.

 

O avião da Eastern para Washington deu a Adam os primeiros momentos de paz, desde os acontecimentos da noite anterior. Depois de Jennifer bater com a porta do quarto, Adam tentou deitar-se no desconfortável sofá vitoriano. Procurara ler qualquer coisa a respeito de pancreatites, mas descobriu que lhe era impossível concentrar-se. Não tinha maneira nenhuma de continuar na Escola Médica, se perdessem o salário de Jennifer. De madrugada, depois de apenas um par de horas de sono inquieto, telefonou para o hospital e pediu que dessem um recado ao seu colega interno, dizendo-lhe que não iria naquele dia. De uma maneira ou de outra, Adam sabia que tinha de arranjar uma solução.

Adam espreitou pela janela para os tranquilos campos de Nova Jérsia. O comandante anunciou que estavam a passar por sobre o rio Delaware e Adam calculou que lhe faltavam ainda vinte minutos para chegar a Washington. Chegaria à cidade cerca das oito e trinta. Poderia estar no gabinete do seu pai na Administração da Food and Drug cerca das nove horas.

Adam não se encontrava muito ansioso por aquele encontro, especialmente atendendo às presentes condições. Não via o pai desde meados do seu primeiro ano na Escola Médica e esse fora um encontro muito agitado. Nessa altura Adam informara o velho que, definitivamente, ia casar com Jennifer.

Adam estava ainda a tentar decidir qual a melhor maneira de iniciar a conversa quando atravessou a porta giratória do edifício. Enquanto criança, poucas vezes visitara o escritório do pai, mas fizera-o o número suficiente de vezes para sentir um certo desagrado. O seu pai actuara sempre como se o rapaz fosse um embaraço.

Adam fora o filho do meio, entalado entre um irmão mais velho, cheio de êxitos, David, e uma irmã mais nova, Ellen, a querida da família. David fora o elemento mais saliente da família e decidira, ainda adolescente, que queria ser médico como o pai. Adam nunca fora capaz de decidir o que é que queria ser. Durante muito tempo, quisera ser agricultor.

Adam meteu-se no elevador e carregou no botão do oitavo andar. Lembrava-se de ter subido naquele elevador com David, quando este estava ainda na Escola Médica. David era dez anos mais velho que Adam e, no que dizia respeito a este último, parecia-lhe mais um adulto do que um irmão. Adam costumava ser abandonado na sala de espera do pai, enquanto David era levado para se encontrar com colegas médicos.

Adam saiu no oitavo andar e virou para a direita. À medida que os gabinetes se tornavam maiores e mais atraentes, as secretárias eram cada vez mais simples. Adam recordava-se de que fora David quem lhe chamara a atenção para esse facto.

Hesitando um pouco, em frente dos gabinetes dos directores, Adam interrogou-se sobre qual teria sido a sua relação com o pai, se David não tivesse morrido no Vietname. Não foram muitos os médicos que lá tinham sido mortos, mas David conseguira-o. Fora sempre voluntário para tudo. Isso passara-se no último ano da guerra e Adam, na altura, tinha quinze anos.

O acontecimento deixara a família em muito mau estado. A mãe de Adam entrara numa terrível depressão, que acabara por requerer terapia de choque. Mesmo agora ela ainda não era como antigamente. O pai de Adam também não suportara essa notícia muito melhor. Depois de vários meses em que se limitara a um silêncio retirado, Adam tinha ido ter com ele para lhe dizer que queria ser médico. Em vez de ficar agradado, o pai chorara e virara-lhe as costas.

Adam parou em frente do gabinete do pai e a seguir, enchendo-se de coragem, caminhou para a secretária de Mrs. Margaret Weintrob. Era uma mulher enorme, afundada na sua cadeira giratória. O vestido que usava parecia-se com uma tenda feita de algodão com flores estampadas. Os seus antebraços eram grandes rolos de gordura, fazendo com que os braços, de tamanho normal, parecessem delicados, por comparação.

Porém, abstraindo do seu peso, era uma mulher extremamente bem-disposta. Sorriu-se quando viu Adam e, sem se levantar, estendeu a mão para o cumprimentar.

Adam sacudiu aquela mão ligeiramente húmida e devolveu o sorriso. Sempre se tinham dado bem. Afinal, fora a secretária do seu pai, até onde a memória dele podia alcançar, e fora sempre muito compreensiva para com a timidez de Adam.

- Por onde é que tem andado? - perguntou, fingindo estar zangada. - Há séculos que não nos visitava.

- A Escola Médica não nos deixa muito tempo livre - disse Adam.

O seu pai guardava muito poucos segredos para com Margaret e Adam estava certo de que ela sabia por que é que ele não aparecia.

- Como de costume, o seu pai está ao telefone. Estará livre dentro de um minuto. Quer que lhe arranje café ou chá?

Adam abanou a cabeça, dizendo que não e pendurou o sobretudo num bengaleiro de latão. Sentou-se num banco de vinilo. Lembrou-se de que o seu pai não gostava de dar a impressão de que o governo estava a gastar os dinheiros públicos em ninharias como assentos confortáveis. De facto, todo o gabinete exterior tinha um ar utilitário. Para o Dr. Schonberg Sénior, era uma questão de princípio. Era pela mesma razão que recusava o carro e o condutor a que a sua posição dava direito.

Adam sentou-se tentando pôr em ordem os seus argumentos, mas não se encontrava muito convencido deles. Quando telefonara bastante cedo, naquela manhã, para combinar o encontro, o pai mostrara-se rude, como se soubesse que Adam lhe ia pedir dinheiro.

Ouviu-se o som de um besouro. Margaret sorriu.

- O seu pai está à sua espera.

Quando Adam se levantou, com um ar sombrio, ela esticou-se e pousou-lhe a mão no braço.

- Ele ainda sofre por causa da morte de David - disse. - Tenta compreender. Ele gosta muito de ti.

- David morreu há nove anos - respondeu Adam. Margaret fez um aceno de confirmação e deu-lhe umas palmadinhas no braço.

- Só queria que soubesses no que é que ele pensa, no que tem metido na cabeça.

Adam abriu a porta e entrou no gabinete do pai. Tratava-se de uma grande sala quadrada com altas janelas, viradas para um agradável jardim interior. As restantes paredes estavam cobertas com estantes cheias de livros e no meio da sala encontrava-se uma grande secretária de carvalho. Duas secretárias mais pequenas, mas ainda de razoável tamanho, encontravam-se colocadas perpendicularmente a cada uma das pontas da secretária maior, criando uma espaçosa área de trabalho, em forma de U. No seu centro estava sentado o pai.

Adam era suficientemente parecido com o pai para que as pessoas adivinhassem a sua relação. Também o Dr. Schonberg tinha um cabelo espesso e encaracolado, apesar de estar a ficar cinzento nas têmporas. A maior diferença entre os dois homens era o tamanho, pois o pai era cerca de sete centímetros mais baixo do que o filho.

Quando Adam entrou e fechou a porta, o Dr. Schonberg tinha uma caneta na mão. Cuidadosamente, pousou-a no suporte.

- Olá - disse Adam.

Notou que o pai envelhecera desde a última vez que o vira. Tinha muito mais rugas atravessadas na testa.

O Dr. Schonberg respondeu à saudação do filho com um aceno de cabeça. Não se levantou.

Adam avançou para a secretária, olhando para os sombrios olhos do pai, que não se tinham suavizado, pelo que ele podia ver.

- E a que é que devo esta inesperada visita? - perguntou o Dr. Schonberg.

- Como é que está a mãe? - inquiriu Adam, sentindo que os seus receios tinham sido correctos. O encontro já estava a correr mal.

- Uma pergunta simpática, da tua parte. Na verdade, não está muito bem. Teve de fazer de novo um tratamento de choque. Mas não quero preocupar-te com essas notícias, especialmente tomando em consideração que o teu casamento com aquela rapariga teve muito a ver com o estado dela.

- A rapariga chama-se Jennifer. Tinha esperanças de que depois de ano e meio fosse capaz de se lembrar do nome. E o estado da mãe iniciou-se com a morte de David e não com o meu casamento com Jennifer.

- Ela estava a recuperar quando a chocaste de novo, casando com essa rapariga.

- - Com Jennifer! - corrigiu Adam. - E isso foi sete anos depois da morte de David.

- Sete anos, dez anos, o que é que isso interessa? Sabias bem o que o facto de te teres casado fora da tua religião iria provocar na mãe. Preocupaste-te com isso? E comigo? Disse-te para não te casares tão cedo, por causa da tua carreira médica. Mas tu nunca tiveste consideração pela família. Fizeste sempre aquilo que quiseste. Pois bem, tens o que querias.

Adam encarou o pai. Não tinha energia para argumentar, ante tanta irracionalidade. Tentara fazê-lo durante o último encontro entre os dois, um ano e meio antes, mas sem qualquer resultado.

- Não está interessado em saber o que se passa comigo, como me correm os estudos? - perguntou Adam, quase implorando.

- Atendendo às circunstâncias, não - respondeu o Dr. Schonberg.

- Bom, então cometi um erro, ao vir aqui-disse Adam. - Estamos com um problema financeiro e pensei que já tinha decorrido tempo suficiente para ser possível falar consigo sobre isso.

- Portanto, ele agora quer falar de finanças! - disse o Dr. Schonberg, erguendo as mãos ao alto. Olhou para o filho, as pesadas pálpebras semicerradas, numa linha estreita. - Avisei-te de que se continuasses a teimar em casar com essa rapariga, não poderias contar comigo. Pensavas que estava a brincar? Pensavas que o que eu disse era válido apenas durante um par de anos?

- Não há nenhuma circunstância que o possa levar a reconsiderar a sua posição? - perguntou Adam, calmamente.

Sabia qual era a resposta, antes de fazer a pergunta e decidira nem sequer se preocupar em dizer ao pai que Jennifer estava grávida.

- Adam, vais ter de aprender a assumir as responsabilidades pelas tuas decisões. Se decides uma coisa, terás de te sujeitar. Na Medicina, não há espaço para atalhos ou compromissos. Ouves o que eu te digo?

Adam começou a encaminhar-se para a porta:

- Obrigado pelo sermão, pai. Vai ser-me útil.

O Dr. Schonberg levantou-se e deu a volta à secretária.

- Foste sempre um tipo esperto, Adam, porém, há uma lição que tens de aprender, a de assumir as responsabilidades pelas tuas decisões. É desse modo que eu dirijo este departamento.

Adam acenou com a cabeça e abriu a porta. Margaret recuou desajeitadamente, nem sequer se preocupando em fingir que não estivera a escutar. Adam foi buscar o sobretudo.

O Dr. Schonberg seguiu o filho até ao gabinete exterior.

- Dirijo a minha vida pessoal da mesma maneira. O mesmo fez o meu pai, antes de mim. O mesmo deverias tu fazer.

- Tentarei não me esquecer disso, pai. Diga “olá” à mãe. Obrigado por tudo.

Adam encaminhou-se para o corredor e avançou para o elevador. Depois de carregar no botão, olhou para trás. À distância, Margaret fazia-lhe um aceno de adeus. Adam acenou também. Nunca deveria ter ido ali. Não havia maneira nenhuma de conseguir dinheiro do seu pai.

Não estava a chover quando Jennifer saiu do edifício de apartamentos, mas o céu tinha um ar ameaçador. Ela considerava, sob muitos pontos de vista, que Março era o pior mês em Nova Iorque. Apesar da Primavera estar oficialmente para começar em breve, o Inverno ainda mantinha a cidade firmemente segura nas suas garras.

Apertando mais o casaco de encontro ao corpo, dirigiu-se para a 7,a Avenida. Por debaixo do casaco estava vestida para um ensaio, com um velho vestido, calças, perneiras e uma velha camisola cinzenta, com as mangas cortadas. Na verdade, Jennifer não sabia se iria dançar, uma vez que planeava dizer a Jason que se encontrava grávida. Tinha esperanças em que ele lhe permitisse continuar com o grupo, durante mais um par de meses. Ela e Adam precisavam tanto do dinheiro e, além disso, o pensamento de que ele viesse a abandonar a Escola Médica, aterrorizava-a. Se não fosse tão teimoso a respeito de aceitar auxílio dos pais dela...

Atravessou a 7.a Avenida e dirigiu-se para o interior de Greenwich Village. Alguns minutos mais tarde virava para a entrada do Café Cézanne, descia os três degraus num único salto e empurrava a porta de vidro lapidado. Lá dentro, o ar estava pesado com o fumo dos cigarros Gauloise e com o cheiro a café. Como de costume, o local encontrava-se apinhado.

Pondo-se na ponta dos pés, Jennifer tentou perscrutar a multidão, em busca de uma cara familiar. A meio da estreita sala viu uma figura a acenar-lhe. Era Candy Harley, que fora uma das dançarinas de Jason Conrad mas que agora fazia serviços administrativos. Junto dela encontrava-se Cheryl Tedesco, a secretária da companhia, com um ar mais pálido do que lhe era habitual, num fato de treino branco. Era costume tomarem café juntas, antes dos ensaios.

Jennifer libertou-se do casaco, enrolando-o numa grande bola e depositando-o no chão, junto da parede. Por cima, colocou-lhe o flácido saco da roupa. Quando se sentou, Peter, o empregado austríaco, já se encontrava junto da mesa, perguntando-lhe se queria o costume. Disse que sim. Café e um crois-sant com manteiga e mel.

Depois dela se sentar, Candy inclinou-se para a frente e disse:

- Temos boas e más notícias. Quais é que queres ouvir primeiro?

O olhar de Jennifer saltitou de uma para a outra, entre as duas mulheres. Não estava com disposição para brincadeiras, mas Cheryl tinha os olhos postos na chávena de café, tal como se tivesse perdido o seu melhor amigo. Jennifer conhecia-a como sendo uma rapariga bastante melancólica, de vinte anos de idade, e com um problema de peso que ultimamente parecia estar a piorar. Tinha umas feições miúdas com um pequeno nariz arrebitado e grandes olhos. O cabelo, despenteado, era de um louro-sujo. Em contraste, Candy apresentava-se vistosamente imaculada na sua aparência, com o cabelo louro muito bem torcido numa trança francesa.

- Talvez seja melhor que me dêm primeiro as boas notícias - disse Jennifer, incerta.

- Ofereceram-nos a participação num programa especial da CBS - disse Candy. - As Jason Conrad Dancers vão de vento em popa.

Jennifer tentou mostrar-se excitada com a notícia, apesar de saber que muito provavelmente já estaria com a gravidez bem adiantada para poder aparecer na televisão.

- Isso é formidável! - disse, forçando-se a fazê-lo com entusiasmo. - Para quando é que está marcada?

- Não temos a certeza quanto à data exacta, mas deveremos gravar o espectáculo dentro de poucos meses.

- Bom, e quais são as más notícias? - perguntou Jennifer, ansiosa por mudar de assunto.

- As más notícias são que Cheryl está grávida de quatro meses e tem de fazer um aborto amanhã - disse Candy, muito rapidamente.

Jennifer virou-se para Cheryl, que continuava a olhar pára o café, procurando não chorar.

- Mas eu não sabia de nada - disse Jennifer.

- Ninguém sabia - acrescentou Candy. - Cheryl manteve a coisa em segredo até ouvir dizer que eu fizera um aborto. Foi então que se abriu comigo e ainda bem que o fez. Mandei-a ao meu médico, que sugeriu que ela fizesse uma amniocentese porque Cheryl disse que andara a tomar medicamentos durante todo o segundo mês. Ainda não tinha percebido que estava grávida.

- O que é que o teste indicou? - perguntou Jennifer.

- Que o bebé é deformado. Há qualquer coisa errada com os seus genes. E isso o que eles investigam, quando fazem uma amniocentese.

Jennifer virou-se de novo para Cheryl, que continuava com os olhos postos na chávena de café.

- E o que é que o pai pensa? - perguntou. Arrependeu-se imediatamente, porque Cheryl colocou as mãos sobre o rosto e começou a soluçar amargamente. Candy passou o braço em volta de Cheryl enquanto Jennifer olhava para as mesas mais próximas. Ninguém estava a prestar atenção. Só em Nova Iorque era possível ter uma tal privacidade num lugar público. Cheryl tirou um lenço de papel da sua mala de mão e assoou-se ruidosamente.

- O pai chama-se Paul - disse ela tristemente.

- Como é que ele se sente, por teres de fazer um aborto? - perguntou Jennifer.

Cheryl limpou os olhos e examinou uma mancha negra da maquilhagem, no lenço de papel.

- Não sei. Ele foi-se embora e abandonou-me.

- Bom - disse Candy -, isso dá-nos uma boa ideia de como é que ele se sente. Patife. Gostaria que os homens também carregassem com a responsabilidade de ficarem grávidos, digamos, ano sim, ano não. Se assim fosse, talvez se tornassem um pouco mais responsáveis.

Cheryl voltou a limpar os olhos e, subitamente, Jennifer teve a noção de como ela era tão terrivelmente jovem e vulnerável. Fazia com que o problema colocado pela sua própria gravidez se tornasse pequeno, por comparação.

- Tenho tanto medo - disse Cheryl. - Não contei a ninguém, porque se o meu pai descobre, mata-me.

- Bom, espero que não. vás sozinha para o hospital - interveio Jennifer, alarmada.

- Ora, não será assim tão mau - contrapôs Candy, com uma certa segurança. - Eu também estava muito preocupada antes de fazer o aborto, mas tudo correu bem. As pessoas da Clínica Julian são extremamente calorosas e sensíveis. Além disso, Cheryl terá o melhor ginecologista do mundo.

- Como é que ele se chama? - perguntou Jennifer, pensando que não podia dizer o mesmo a respeito do Dr. Van-dermer.

- Lawrence Foley - respondeu Candy. - Foi-me indicado por outra rapariga que também teve de fazer um aborto.

- Parece que ele está a fazer muitos abortos - observou Jennifer.

Candy fez um aceno de confirmação e acrescentou:

- É uma grande cidade.

Jennifer beberricou o seu café, interrogando-se sobre se deveria dizer às suas amigas que também ela acabara de descobrir que estava grávida. Adiou esse momento, virando-se de novo para Cheryl e dizendo:

- Talvez gostasses que eu fosse contigo, amanhã. Ter companhia pode ser útil.

- Adoraria! - exclamou Cheryl, e o seu rosto iluminou-se.

- Mais devagar, Mistress Schonberg - disse Candy. - Temos ensaio.

Jennifer ergueu as sobrancelhas e sorriu.

- Bom, sabem, também eu tenho uma novidade. Descobri ontem que estou grávida de dois meses e meio.

- Oh, não! - exclamou Candy.

- Oh, sim! - retorquiu Jennifer. - E quando eu o disser a Jason, ele é capaz de não se importar muito que eu venha ou não aos ensaios.

Candy e Cheryl estavam demasiado espantadas para falarem. Em silêncio, as três acabaram de beber os cafés, pagaram a conta e dirigiram-se para o estúdio.

Jason não se encontrava lá quando elas chegaram, pelo que Jennifer se' sentiu simultaneamente aliviada e desapontada. Despiu as roupas exteriores e procurou um espaço livre, na pista de dança. Virando-se de lado, levantou a camisola interior para poder ver o seu perfil, no espelho. Tinha de admitir que já se notava um bocadinho.

Adam lavou as mãos na casa de banho dos homens, no primeiro andar do complexo do hospital. Captando no espelho um relance da sua cara encovada, compreendeu que tinha um ar exausto. Bom, talvez isso tornasse o reitor mais compreensivo. Depois do seu desastroso encontro com o pai, Adam chegara à conclusão de que o seu único recurso era um empréstimo estudantil adicional do Centro Médico. Endireitando o colarinho esfiapado, pensou que tinha realmente um aspecto pobre e necessitado e que deveria seguir directamente para o gabinete do reitor, antes que perdesse a coragem.

Irrompendo no gabinete da secretária para pedir uma entrevista, Adam quase ficou assustado quando a mulher lhe disse que pensava que o reitor talvez tivesse alguns momentos livres, entre duas outras entrevistas. Foi verificar. Quando regressou, disse que Adam podia entrar imediatamente.

O Dr. Markowitz estava de pé quando Adam atravessou o umbral da porta do gabinete. Era um homem baixo e forte, com um cabelo escuro e encaracolado, parecido com o de Adam. Tinha um bronzeado profundo, apesar de se estar ainda em Março. Aproximou-se de Adam com a mão estendida. Depois do aperto de mão, a sua outra mão pousou nas costas de Adam.

- Por favor, senta-te. - O reitor fez um gesto a apontar para uma cadeira preta, em frente da sua secretária.

Da cadeira, Adam podia ver a pasta de cartolina castanha com o seu nome escrito na etiqueta, que era o seu processo. Adam encontrara-se com o reitor apenas algumas vezes, mas de todas elas o Dr. Markowitz actuara como se tivesse um conhecimento íntimo da situação dele. Era óbvio que tinha ido buscar o seu processo no minuto ou dois em que Adam tivera de esperar.

Adam clareou a garganta.

- Doutor Markowitz, lamento ocupar o seu tempo, mas tenho um problema.

- Então, vieste ao lugar indicado - disse o Dr. Markowitz, apesar do seu sorriso se ter descontraído bastante.

Adam recordou que o reitor era mais um político do que um médico. Tinha a desagradável sensação de que este encontro não daria melhor resultado do que aquele que tivera com o pai. Cruzou as pernas e segurou o tornozelo, para evitar que as mãos lhe tremessem.

- Acabei de descobrir que a minha mulher está grávida - começou, observando a cara do Dr. Markowitz, em busca de sinais de desaprovação. Não foram nada subtis. Primeiro, o sorriso do reitor desapareceu. À seguir, os olhos estreitaram-se-lhe enquanto ele cruzava os braços sobre o peito. - Escusado será dizer - continuou Adam, tentando conservar toda a sua coragem - de que isto nos vai colocar um problema financeiro. A minha mulher e eu dependemos do que ela ganha, e agora com uma criança a caminho...

A voz de Adam apagou-se. Não era necessário ser clarividente para saber o resto.

- Bom - disse o Dr. Markowitz, com uma gargalhada forçada. - Sou médico de clínica geral, não um obstetra. Nunca fui grande coisa, para assistir ao nascimento de bebés.

Mas que sentido de humor, pensou Adam.

- A minha mulher está a ser assistida pelo doutor Vander-mer - dissse Adam.

- É o melhor - concordou o Dr. Markowitz. - Não é possível obter melhores cuidados de obstetrícia do que os dele. Foi ele quem assistiu ao nascimento dos meus dois filhos.

Houve uma pausa embaraçosa. Adam tornou-se consciente do tiquetaque de um antigo relógio Howard, pendurado na parede à sua esquerda. O Dr. Markowitz inclinou-se sobre a secretária e abriu o processo que estava na sua frente. Leu-o durante alguns momentos e depois olhou para cima.

- Adam, tomou em consideração que esta pode não ser a melhor altura para constituir família?

- Foi um acidente - disse Adam, que queria evitar um sermão, se é que era isso que o reitor pretendia. - Um falhanço do controlo de natalidade. Um daqueles falhanços estatísticos. Mas agora que aconteceu, tenho de encarar o problema. Precisamos de um apoio financeiro adicional, ou então eu terei de abandonar os estudos, durante um ano, ou algo assim. É tão simples como isso.

- Já considerou a hipótese de interromper a gravidez? - perguntou o Dr. Markowitz.

- Pensámos nisso, mas nenhum de nós tem vontade de o fazer.

- E quanto a apoio da família? - perguntou o Dr. Markowitz. - Não creio que abandonar o curso seja uma decisão sensata. Já investiste muito para poderes chegar até ao ponto em que estás. Não gostaria nada de ver tudo isso deitado fora.

- Não há qualquer hipótese de apoio familiar - disse Adam.

Não queria entrar numa conversa sobre a intransigência do seu pai ou sobre a interferência dos sogros.

- A minha única esperança é conseguir pedir mais dinheiro emprestado à escola. Se não for possível, terei de pedir uma suspensão provisória dos estudos.

- Infelizmente, estamos já a emprestar o máximo que nos é permitido - disse o Dr. Markowitz. - Temos recursos limitados no que se refere aos empréstimos a estudantes. Temos de distribuir ao máximo o dinheiro de que dispomos, para que todos os que necessitam de apoio possam conseguir algum. Lamento muito.

Adam levantou-se.

- Bom, agradeço o tempo que me dispensou.

O Dr. Markowitz pôs-se de pé e o seu sorriso reapareceu.

- Gostaria de poder ser mais útil. Não gosto nada de saber que nos vais abandonar. Tens um excelente registo, até este momento. Talvez devas reconsiderar a questão de deixar a gravidez ir até ao fim.

- Vamos ter a criança - disse Adam. - De facto, agora que o choque já passou, até estou ansioso por isso.

- Quando é que queres começar a suspensão dos estudos?

- Dentro de poucos dias terminarei Medicina Interna - disse Adam. - Logo que a acabar, procurarei um emprego.

- Suponho que para essa interrupção de estudos, se trata de uma altura tão boa como qualquer outra. Que é que estás a planear fazer?

Adam encolheu os ombros.

- Ainda não tenho qualquer plano específico.

- Talvez eu te possa arranjar uma posição de investigador, aqui no Centro Médico.

- Agradeço a oferta - disse Adam -, mas a investigação não paga um ordenado suficiente para as necessidades que vou ter. Preciso de um trabalho com um salário decente. Tenho andado a pensar em tentar uma das grandes firmas de medicamentos, em Nova Jérsia. A Arolen deu à nossa classe todas aquelas pastas de médico em couro. Talvez experimente junto deles.

O Dr. Markowitz recuou, como se tivesse sido fisicamente atingido.

- Sim, é aí que está o dinheiro - disse ele, suspirando. - Mas devo dizer que me sinto como se estivesses a desertar para o inimigo. A indústria farmacêutica tem andado a exercer um cada vez maior controlo sobre a pesquisa médica, nos últimos tempos e, no que me diz respeito, sinto-me preocupado com isso.

- A ideia também não me agrada - admitiu Adam. - Mas são os únicos que podem estar seriamente interessados num estudante de Medicina do terceiro ano. Se isso não resultar, talvez volte aqui para esse tal lugar na investigação.

O Dr. Markowitz abriu a porta.

- Lamento muito não termos mais recursos para ajudas financeiras. Desejo-te a melhor das sortes e avisa-me, logo que possas, quando planeares regressar à escola.

Adam saiu, decidido a telefonar para a Arolen nessa tarde. Depois de receber o primeiro salário, teria tempo para se preocupar com a pressão farmacêutica sobre a investigação.

- Estás o quê?! - gritou Jason Conrad, o director das Jason Conrad Dancers. Levantou as mãos ao céu, num desespero exagerado.

Durante os quatro anos que Jennifer o conhecera, Jason sempre tivera tendências para o teatral, quer estivesse a encomendar o almoço ou a dirigir os dançarinos. Consequente-mente, ela previra aquela reacção.

- Bom, vamos lá a esclarecer isto - resmungou. - Estás a querer dizer-me que vais ter um bebé. É isso? Não, por favor, diz-me que me enganei. Diz-me que se trata apenas de um mau sonho. Por favor!

Jason olhou para Jennifer com uma expressão implorativa. Era um homem alto, com um metro e oitenta e sete, que parecia um rapazinho, apesar dos seus trinta e três anos. Jennifer não fazia ideia se ele era ou não homossexual. Nem nenhuma das outras dançarinas. A dança era toda a vida de Jason e, nisso, era um génio.

- Vou ter um bebé - confirmou Jennifer.

- Oh, meu Deus! - gritou Jason, afundando a cabeça nas mãos.

Jennifer trocou olhares com Candy, que se mantivera por ali para lhe dar apoio moral.

- Isto só a mim! - lamentou-se Jason. - No momento da nossa grande oportunidade, uma das principais dançarinas fica grávida. Oh, meu Deus!

Jason parou de andar de um lado para o outro. Com o indicador estendido, olhou para Jennifer.

- E então um aborto? De certeza que essa criança não foi planeada!

- Lamento muito - disse Jennifer.

- Mas mais tarde poderás vir a ter outro filho - protestou Jason.

Jennifer limitou-se a abanar a cabeça.

- Não queres dar ouvidos à razão? - queixou-se Jason. Num gesto dramático, pousou uma das mãos sobre o peito e começou a respirar profundamente, como se estivesse a sentir fortes dores. - Preferes torturar-me deste modo, rebentando-me o coração. Oh, Deus, que dor horrível!

Jennifer sentia-se culpada, por ter ficado grávida no momento em que o grupo tinha a sua maior oportunidade. Não gostava nada de desiludir as pessoas. Porém, a resposta de Jason era egoísta e ela ressentia-se por ele estar a tentar, daquela maneira, manipulá-la para que fizesse uma coisa tão séria como um aborto.

Candy pegou no braço de Jason.

- Espero que estejas a brincar, a respeito da dor no peito.

Jason abriu um dos olhos.

- Eu, a brincar? Eu nunca brinco com estas coisas. Esta mulher está a querer levar-me mais cedo para o túmulo e ainda me perguntas se estou a brincar?

- Provavelmente, eu ainda poderei dançar durante cerca de mais um mês - ofereceu-se Jennifer.

- Oh, não, não, não! - disse Jason, esquecendo-se instantaneamente da dor no peito. Começou a andar de um lado para o outro em frente da velha bilheteira. - Se tu, Jennifer, és suficientemente insensível para me abandonares nesta conjuntura, temos de fazer um ajustamento imediatamente. - Parou e apontou para Candy. - E tu? Serás capaz de dançar a parte de Jennifer?

Candy foi apanhada desprevenida.

- Não sei - balbuciou.

Jason observou Jennifer pelo canto do olho. Sabia que ela e Candy eram amigas. Pensou para si que o ciúme talvez conseguisse o que a razão não conseguira. Necessitava de Jennifer pelo menos até que o programa de televisão fosse gravado, mas Jennifer não se manifestou. Manteve-se silenciosa, até que Candy acabou por replicar:

- Creio que estou em boa forma. Tentarei e farei o melhor que puder.

- Belo! - exclamou Jason. - É bom saber que há aqui alguém disposta a fazer alguns sacrifícios. - Depois disse para Jennifer: - Talvez seja melhor ires ao escritório dizer à Cheryl para te tirar da lista dos pagamentos. Não somos uma organização de caridade.

- Ela devia receber o ordenado base de mais duas semanas - interveio Candy. - É mais do que justo.

Jason fez um sinal com a mão, como se não se importasse e dirigiu-se para o ginásio.

- Além disso - disse ainda Candy -, creio que seria mais fácil, para as nossas contas, se a declarássemos como estando em licença de maternidade.

- O que quiserem - respondeu Jason, com muito pouco interesse. Abriu a porta do ginásio e elas puderam ouvir as outras dançarinas, nos seus exercícios de rotina. - Vamos ao trabalho, Candy - disse ele por cima do ombro, quando desaparecia do outro lado da porta.

As duas mulheres olharam uma para a outra. Ambas se sentiam um pouco embaraçadas. Candy encolheu os ombros.

- Nunca pensei que ele me oferecesse um lugar de dançarina.

- Sinto-me feliz por ti - disse Jennifer. - De verdade. Juntas, regressaram ao ginásio.

A voz esganiçada de Jason reverberava na enorme sala.

- Muito bem, vamos dançar a variação número dois, desde o princípio. Tomem posições! - Bateu as palmas e o eco devolveu o som, que pareceu um tiro. - Vamos, Candy - gritou.

Jennifer observou o ensaio durante alguns minutos. A seguir, tentando libertar-se da sensação de remorsos, dirigiu-se ao longo do átrio, para o escritório de Cheryl.

Esta estava sentada, toda reclinada, lendo um livro de bolso, um romance.

- Declara-me em licença de maternidade - disse Jennifer, resignada.

- Lamento muito - respondeu Cheryl. - Jason fez uma das suas cenas?

Pousou o livro e então Jennifer pôde ver o título: As Chamas da Paixão.

- Uma das melhores - admitiu Jennifer. - Suponho que é compreensível. É uma má altura para eu ir de licença. - Afundou-se numa cadeira em frente da secretária e continuou: - Jason concordou em deixar-me levantar o ordenado base por mais duas semanas. E claro que também tenho as percentagens das minhas últimas actuações.

- Que vais agora fazer? - perguntou Cheryl.

- Não sei - respondeu Jennifer. - Talvez consiga arranjar algum trabalho temporário. Tens alguma ideia? Como é que encontraste este lugar?

- Fui a uma agência - disse Cheryl. - Mas se estás à procura de trabalho em part-time, procura um desses serviços de secretariado temporário. Estão sempre a precisar de gente.

- Não seria capaz de escrever à máquina, nem para salvar. a vida.

- Então tenta numa das grandes lojas. Muitas das minhas amigas têm feito isso.

Jennifer sorriu-se, a ideia parecia prometedora.

- Ainda vais comigo lá, amanhã? - perguntou Cheryl.

- Com certeza - disse Jennifer. - Nunca me passaria pela cabeça deixar-te ir sozinha. Estavas só quando foste fazer a amniocentese?

- Sim - respondeu Cheryl, com orgulho. - Foi uma beleza, quase não senti nada.

- Parece-me que tens mais coragem do que eu - disse Jennifer, pensando de novo no seu irmão mongolóide e interrogando-se se deveria pedir para fazer o mesmo teste.

Cheryl inclinou-se para a frente, baixando a voz:

- Tal como a Candy te disse, eu tomava muitas drogas. Erva, ácido, tudo o que quiseres. O doutor Foley disse que eu deveria fazer o teste de verificação de cromossomas. Mas fê-lo de uma maneira fácil. Se tiveres de o fazer, não te preocupes. Sentia-me muito nervosa, mas agora era capaz de o fazer de novo, num instante.

Reclinou-se de novo, muito satisfeita consigo própria. Jennifer ficou a olhar para Cheryl, recordando-se do Dr. Van-dermer e da sua atitude chauvinista.

- E esse doutor Foley, gostas dele? Cheryl acenou que sim, com a cabeça.

- É o médico mais simpático que já encontrei. Se não fosse por ele, não teria feito nada. E as suas enfermeiras também são simpáticas. Na verdade, toda a Clínica Julian é formidável. Estou certa de que Candy pode telefonar a fazer-te uma marcação, se quiseres. Jennifer sorriu.

- Obrigado, mas o meu marido mandou-me para alguém do Centro Médico. Agora, voltemos ao meu assunto. O que é que eu tenho de fazer para entrar de licença de maternidade?

Cheryl franziu o nariz.

- Para te dizer a verdade, não sei. Terei de perguntar à Candy.

Depois de combinar encontrar-se com Cheryl no dia seguinte de manhã, Jennifer foi buscar o casaco e o saco e saiu para a rua. Caminhando em direcção ao metropolitano, lutou de novo com uma quase esmagadora depressão. Sempre esperara que a gravidez fosse uma experiência maravilhosa, mas agora que transportava uma criança, em vez de se sentir feliz, sentia-se confusa e zangada. E o pior de tudo era o saber que não podia compartilhar os seus sentimentos com ninguém, por estar segura de que ninguém a compreenderia.

Mordendo o lábio inferior, Jennifer decidiu tentar primeiro os Armazéns Macy's.

Eram quase seis da tarde quando Jennifer subiu penosamente as escadas para o seu apartamento. Quando abriu a porta, ficou surpreendida ao ver Adam no sofá. Em geral, ele não chegava a casa tão cedo. A seguir pensou que ele devia ter tirado o resto do dia, depois de se ter encontrado com o pai.

- Que tal correu o encontro? - perguntou, fazendo um esforço para ser agradável. - O teu pai foi prestável?

- Foi uma maravilha - retorquiu Adam. - Deu-me um sermão muito valioso sobre responsabilidade e coerência.

Jennifer pendurou o casaco e voltou atrás, sentando-se ao pé de Adam. Os olhos dele estavam vermelhos, rodeados de círculos negros.

- Foi assim tão mau?

- Ainda pior - respondeu Adam. - Agora, ele pensa que fui eu o causador da depressão da minha mãe.

- Mas essa depressão começou com a morte do teu irmão.

- Parece-me que já se esqueceu disso.

- O que é que ele disse, quando lhe contaste que vamos ter um filho?

- Não lho contei - respondeu Adam. - Nem sequer tive uma oportunidade. Deixou muito claro que só deveria contar comigo próprio, isto antes de eu poder abordar o assunto.

- Lamento muito - disse Jennifer.

Jennifer examinou o rosto de Adam e não gostou do que viu. Parecia distante e frio. Queria conversar com ele a respeito do Dr. Lawrence Foley, mas decidiu não o fazer.

- Creio que vou tomar um duche - disse, com um suspiro, levantando-se e encaminhando-se para o quarto.

Inicialmente, Adam deixou-se ficar sentado, metido com os seus pensamentos. Gradualmente, começou a compreender que estava a actuar como um adolescente. Levantando-se, dirigiu-se para o quarto e libertou-se das roupas. A seguir abriu a porta da casa de banho.

- Deixa a água a correr - gritou, por cima do barulho do chuveiro.

Enquanto escovava os dentes, Jennifer saiu do duche e, sem olhar para ele, pegou na toalha e foi para o quarto. Apesar de ter deixado a água a correr, como lhe tinha sido pedido, era óbvio que estava irritada.

Adam sempre achara difícil ter de pedir desculpa. Talvez devessem fazer qualquer coisa louca, como ir jantar fora. Ao entrar para o chuveiro decidiu que levaria Jennifer a um restaurante chamado “One by Land, Two by Sea”. Era suficientemente perto para poderem ir a pé. Nunca tinham comido ali, mas um dos colegas de Adam tinha lá ido com os pais e dissera-lhe que era fantástico e dispendioso. Que diabo, pensou Adam, ia trabalhar dentro em pouco e tinham de celebrar.

- Tive uma grande ideia - disse Adam, quando entrou no quarto. - E se saíssemos para jantar?

Jennifer desviou os olhos da televisão e abanou a cabeça com um ar sombrio.

- Que queres dizer, não queres sair?-perguntou Adam. - Vamos. Precisamos de sair. Faremos uma verdadeira festa.

- Não podemos gastar dinheiro - disse Jennifer, voltando-se de novo para a televisão, como se o assunto estivesse encerrado.

Adam secou o cabelo com a toalha enquanto considerava aquela inesperada resposta negativa. Em geral, Jennifer estava sempre pronta para sair, para experimentar coisas novas. Sentou-se junto dela e desviou-lhe a cara do écran.

- Olá! - exclamou. - Estou a tentar conversar contigo. Jennifer levantou o rosto e ele reparou que ela tinha um ar tão exausto como o dele.

- Estou a escutar-te - disse. - Comprei coisas na mercearia. Logo que o noticiário acabar, irei tratar do jantar.

- Esta noite, quero qualquer coisa diferente de hambur-gers - disse Adam.

- Não comprei hamburgers - respondeu Jennifer, irritada.

- Foi apenas uma maneira de falar - retorquiu Adam. - Anda daí. Vamos sair para jantar. Creio que precisamos de nos distrair. Fui ter com o reitor esta tarde e ele assegurou-me que não podemos pedir mais dinheiro emprestado. Por isso, disse-lhe que vou suspender os estudos por algum tempo.

- Não precisas de deixar os estudos - disse Jennifer. - Já arranjei outro emprego.

- Que espécie de emprego?

- Nos Macy's. Na secção de sapataria. O único problema está em que terei de trabalhar em fins-de-semana alternados, mas felizmente podemos coordenar isso com os teus turnos. Surpreendentemente, ganharei o mesmo que ganhava a dançar. De qualquer modo, não tens de abandonar o curso.

Adam levantou-se da cama.

- Não vais trabalhar para os Macy's e esta é uma decisão final.

- Oh! - exclamou Jennifer, abrindo os olhos numa surpresa fingida. - Sua Excelência, o Rei, já disse a sua última palavra?

- Jennifer, não é a altura para sarcasmos.

- Não é? - disse Jennifer. - Parece-me que eras tu que estavas a ser sarcástico, ainda há instantes. Está bem para ti mas não para mim?

- Não estou com disposição para discutir - respondeu Adam, dirigindo-se ao armário para tirar roupa interior lavada. - Não vais trabalhar no Macy's. Não quero que estejas de pé horas seguidas, enquanto estiveres grávida. O assunto está encerrado.

- Estás a esquecer-te de que se trata do meu corpo - disse Jennifer.

- Isso é verdade - respondeu Adam. - Mas também é verdade que é o nosso filho.

Jennifer sentiu que o sangue lhe subia à cara.

- De qualquer modo, já me decidi - disse Adam. - Vou suspender os estudos oficialmente, para poder trabalhar durante um ano ou dois. A tua tarefa será a de tomares conta de ti e do bebé, e isso é incompatível com o estares de pé, numa loja.

Esperando acabar com o diálogo, Adam dirigiu-se à sala. Por causa do pequeno tamanho do roupeiro do quarto, o seu vestuário encontrava-se no roupeiro do vestíbulo.

- Por que é que não podemos ficar em casa e discutir o assunto? - gritou-lhe Jennifer.

Adam regressou ao quarto. - Não há mais nada para discutir.

- Oh, isso é que há - retorquiu Jennifer, dando largas à discussão. - Tenho tanto a dizer sobre o assunto, como tu. Ninguém concorda contigo no que respeita a abandonares o curso e a razão é simples: não o devias fazer. Sou perfeitamente capaz de trabalhar até ao último mês, e até à última semana. Por que é que nós dois devemos interromper as carreiras? Uma vez que é óbvio que não posso continuar a dançar, é sensato que seja eu a arranjar um novo trabalho. A tua permanência nos estudos será o melhor para nós dois, a longo prazo. Além disso, eu já tenho trabalho e tu não tens ideia nenhuma do que podes fazer.

- Ah, isso é que tenho - retorquiu Adam. - Vou às Indústrias Farmacêuticas Arolen, em Nova Jérsia. Telefonei-lhes esta tarde e eles estão muito interessados em falar comigo. Tenho uma entrevista marcada para amanhã.

- Mas por que é que estás a ser tão teimoso? - perguntou Jennifer. - Não precisas de abandonar o curso. Eu posso trabalhar.

- Se chamas teimosia ao meu desejo de te manter saudável e evitar que os teus pais interfiram na nossa vida, então, sim, sou teimoso. De uma maneira ou de outra, o assunto está encerrado e a discussão terminou. Vou deixar a Escola Médica e tu não vais trabalhar para os Macy's. Alguma pergunta?

Adam sabia que estava a provocar Jennifer, mas achava que ela o merecia.

- Tenho muitas perguntas - respondeu Jennifer. - Mas estou a perceber que é inútil fazê-las. Pergunto a mim mesma se já notaste até que ponto és parecido com o teu pai.

- Não fales no meu pai! - gritou Adam. - Se há alguém aqui para criticar o meu pai, então sou eu. Além disso, não sou nada parecido com ele.

Deu um pontapé na porta do quarto, que se fechou com um estrondo. Por instantes, permaneceu no meio da sala, interrogando-se sobre o que é que poderia quebrar. A seguir, em vez de fazer qualquer coisa estúpida, acabou de se vestir e secar o cabelo. Já mais calmo, decidiu-se a tentar fazer as pazes com Jennifer. Ia abrir a porta do quarto e ficou chocado quando descobriu que ela estava fechada à chave.

- Jennifer - chamou, por cima do som da televisão. - Vou sair e arranjar qualquer coisa para comer. Gostava que viesses comigo.

- Então vai - respondeu Jennifer. - Quero ficar sozinha durante um bocado.

Adam percebeu que ela estivera a chorar e sentiu-se culpado.

- Jennifer, abre a porta - pediu. A televisão continuou a tocar. - Jennifer, abre a porta.

Não obteve resposta. Adam sentiu que a ira voltava a invadi-lo. Recuando, observou a porta. Por um segundo, pareceu-lhe simbólica de todos os seus problemas. Sem pensar, levantou o pé direito e bateu-lhe com todas as suas forças. A madeira em volta da fechadura deu de si e a porta abriu-se violentamente, batendo de encontro à parede do quarto. Jennifer fez-se numa bola, junto à cabeceira da cama.

Adam percebeu que ela ficara aterrorizada e sentiu-se imediatamente estúpido.

- Já não fazem portas como antigamente - disse, tentando falar com um tom alegre. - Como eu estava a dizer, vamos sair e comer qualquer coisa.

Jennifer abanou a cabeça, dizendo que não. Adam olhou em volta, consciente do que fizera, embaraçado com a sua fúria.

- Está bem - disse ele lentamente. - Volto mais tarde. Jennifer fez um gesto de cabeça mas não falou. Viu Adam sair e ouviu a porta da rua a fechar-se. Que é que lhes estava a acontecer, perguntou a si mesma. Adam parecia uma pessoa diferente. Nunca fora violento e a violência aterrorizava-a. Aquela sua gravidez iria alterar tudo?

Capítulo sexto.

Subindo o terceiro e último lanço de escadas do edifício do apartamento de Cheryl, Jennifer estava horrorizada. Ela pensara que o seu edifício era mau, mas o de Cheryl fazia com que o seu parecesse um palácio. Um par de bêbados - Jennifer esperava que não se tratasse de residentes - tinha acampado no átrio.

Verificando o número do apartamento de Cheryl, Jennifer hesitou antes de bater. A seguir teve de esperar que se ouvissem uma série de estalidos de fechaduras e, finalmente, o som de uma corrente a ser deslocada, até que a porta se abriu.

- Olá! Entra - disse Cheryl - Desculpa ter levado tanto tempo. O meu pai insistiu em colocar aqui toda a espécie de fechaduras.

- Creio que foi uma boa ideia - comentou Jennifer, entrando rapidamente. Cheryl foi para a casa de banho, para acabar de se vestir, enquanto Jennifer observava o desarrumado apartamento. - Espero que tenhas seguido as instruções dos médicos - disse Jennifer, sabendo que Cheryl fora aconselhada a não comer nem beber, excepto uma pequena quantidade de água, quando acordasse.

- Não comi nada - gritou Cheryl em resposta. Jennifer mudou o seu peso de um para o outro pé. Sentindo que todo o edifício era sujo, não queria sentar-se. Toda aquela ideia de ir acompanhar Cheryl estava a começar a preocupá-la, mas não podia deixar que ela fosse sozinha. Pelo menos, acabaria finalmente por ver o fabuloso Dr. Foley, apesar de por enquanto ainda não se encontrar preparada para desafiar Adam, no que dizia respeito ao obstetra. Tinham quase feito as pazes, na noite anterior, mas Jennifer ainda se encontrava perturbada com o pensamento de que Adam ia abandonar a Escola Médica. Cruzara os dedos, para que a sua entrevista na Arolen tivesse sucesso.

- Estou pronta - disse Cheryl, surgindo do quarto. Tinha um pequeno saco com roupa extra, a tiracolo. - Vamos lá para a frente com isto.

A parte mais difícil da viagem para a Clínica Julian era descer a escada de Cheryl sem cair e, a seguir, passar pelos bêbados. Cheryl não estava nada preocupada com eles, dizendo que quando o responsável pelo edifício se levantasse, correria com eles.

Caminharam até ao metropolitano da Lexington Avenue e apanharam a composição número 6, para a Rua 110. A vizinhança não era das melhores, mas melhorou rapidamente à medida que se aproximavam da clínica. Na realidade, todo um velho quarteirão fora deitado abaixo para acomodar o novo centro de saúde. O edifício era uma estrutura moderna de vidro espelhado, com quinze andares, que reflectia a imagem das casas do princípio do século XIX, que o rodeavam.

Durante todo um quarteirão, de cada lado, os velhos prédios tinham sido renovados, limpos e pintados, pelo que brilhavam com um singular esplendor. Para além deles, ainda por mais um quarteirão, eram muitos os edifícios com andaimes, indicando que também eles estavam a ser reparados. Parecia que a clínica estava a tomar conta de toda uma secção da cidade.

Jennifer passou a entrada principal, esperando encontrar as habituais mobílias de hospital, mas foi agradavelmente surpreendida por um vestíbulo que lhe dava a ideia mais de um hotel de luxo do que de um centro médico. Era tudo novo e impecavelmente limpo. A enorme área de recepção estava tão bem guarnecida de pessoal que Jennifer e Cheryl não tiveram de esperar muito tempo antes de uma bonita secretária negra lhes perguntar:

- Em que lhes posso ser útil? - Estava vestida com uma blusa branca e um colete de lã azul e usava uma etiqueta de identificação que dizia: “Olá, sou Luise.”

Cheryl respondeu de uma maneira quase inaudível:

- Tenho uma marcação com o doutor Foley. Quero fazer um aborto.

O rosto de Luise ensombrou-se de preocupação.

- Sente-se bem, Mistress...

- Tedesco - disse Jennifer. - Cheryl Tedesco.

- Estou bem - insistiu Cheryl. - De verdade, que estou bem.

- Temos psicólogos, para darem apoio às admissões. Se quiser falar com algum, diga. Gostaríamos que se sentisse o melhor possível, aqui entre nós.

- Obrigado - agradeceu Cheryl-Tenho aqui uma amiga- articulou apontando para Jennifer. - Queria perguntar se lhe permitirão que suba comigo.

- Absolutamente - respondeu Luise. - Encorajamos os pacientes a terem companhia. Mas primeiro deixe-me pedir o seu registo ao computador para depois informar o pessoal da admissão.

Podem ir as duas descansar para o vestíbulo. Irei ter convosco dentro de alguns minutos.

Enquanto Jennifer e Cheryl passeavam em volta da confortável área de espera, Jennifer disse:

- Começo a compreender por que é que tu e a Candy gostam tanto deste sítio. Se Luise serve de exemplo da maneira como as pessoas são aqui tratadas, então estou verdadeiramente impressionada.

Mal tinham tido tempo de tirar os casacos quando um cavalheiro idoso se aproximou delas, empurrando um carrinho com recipientes com café e chá. Vestia uma jaqueta cor-de-rosa que ele orgulhosamente afirmou ser usada por voluntários.

- As enfermeiras também são assim tão carinhosas? - perguntou Jennifer.

- Aqui, toda a gente é carinhosa - respondeu Cheryl. No entanto, apesar do seu sorriso, Jennifer podia ver que ela se sentia inquieta.

- Como é que te sentes? - perguntou-lhe, estendendo o braço e apertando a mão de Cheryl.

- Optimamente - disse Cheryl, abanando a cabeça para baixo e para cima, como se estivesse a tentar convencer-se a si própria.

- Desculpe-me, é Cheryl Tedesco? - perguntou outra mulher jovem e com um ar agradável, vestida com blusa branca e colete azul. A etiqueta com o nome dizia: “Olá! Sou a Karen.”

- Sou Karen Krinitz - disse, estendendo a mão, que Cheryl apertou, insegura. - Fui indicada para tratar do seu caso e para me assegurar que tudo correrá perfeitamente. Se tiver algum problema, mande chamar-me. - Bateu num pequeno aparelho em plástico que tinha preso num cinto azul, a condizer com o colete. - Queremos que a sua estada aqui seja a mais agradável possível.

- Todos os pacientes têm direito a uma assistente? - perguntou Jennifer.

- Claro que sim - respondeu Karen orgulhosamente. - Aqui, a ideia principal é a de que o cliente está em primeiro lugar. Não queremos deixar nada ao acaso. Há demasiadas oportunidades para incompreensões, especialmente agora, que a medicina se tornou tão altamente sofisticada. Os médicos estão por vezes tão concentrados nos seus tratamentos, que os pacientes são momentaneamente esquecidos. O nosso trabalho é evitar que isso aconteça.

Jennifer ficou a observá-la enquanto ela se despedia e desaparecia por detrás de um enorme vaso com plantas. Havia qualquer coisa estranha nela, mas não conseguia definir com precisão do que se tratava.

- Aquela conversa não te pareceu anormal? - perguntou a Cheryl.

- Não percebi de que é que ela estava a falar. É a isso que te referes?

- Não - respondeu Jennifer, virando-se para ver se conseguia vislumbrar de novo a mulher. - Pensei apenas que havia qualquer coisa de estranho na maneira como ela falava. Mas deve ter sido impressão minha. Creio que o enjoo matinal me está a afectar o cérebro.

- Pelo menos, foi carinhosa - disse Cheryl. - Mas espera até encontrares o doutor Foley.

Alguns minutos mais tarde surgiu um homem que se apresentou como sendo Rodney Murray. Usava uma jaqueta azul feita do mesmo pesado algodão do colete de Karen e com uma idêntica etiqueta de identificação, anunciando o seu nome. A voz dele tinha também aquela qualidade estranha e, quando Jennifer o observou, pareceu-lhe que o homem não pestanejava.

- Está tudo pronto para si, Miss Tedesco - disse, prendendo uma bracelete de identificação em plástico em volta do pulso de Cheryl. - Irei acompanhá-la lá acima, mas primeiro temos de ir ao laboratório para uma análise ao sangue e outros testes.

- Jennifer pode vir connosco? - perguntou Cheryl.

- Com certeza! - respondeu Rodney.

O homem foi extraordinariamente atencioso para com Cheryl e, depois de alguns minutos, Jennifer pôs de parte as suas impressões iniciais, considerando-as como sendo o resultado de uma exagerada imaginação.

O laboratório aguardava Cheryl, pelo que não tiveram de esperar. Jennifer ficou de novo bem impressionada. Nunca estivera num consultório de médico ou num hospital, onde não fosse obrigada a esperar por tudo. Poucos minutos depois, Cheryl estava despachada.

Enquanto subiam no elevador, Rodney explicou que Cheryl ia para uma área especial de que o hospital dispunha, para “interrupção de gravidez”. Jennifer notou que toda a gente, na Clínica Julian, evitava utilizar a palavra “aborto”. Achou que era uma boa ideia. Aborto era uma palavra feia.

Saíram no sexto andar. Mais uma vez, não havia ali nada que fizesse lembrar um hospital. Em vez do escorregadio plástico, o pavimento era coberto a alcatifa. As paredes estavam pintadas de um azul-pálido e decoradas com atraentes reproduções emolduradas.

Rodney levou-as para uma área central, cuidadosamente decorada para não se parecer com uma enfermaria. Em frente do balcão central encontrava-se uma pequena sala preparada com muito bom gosto, onde se viam cinco pessoas vestidas com o que Jennifer pensava ser o uniforme da clínica. Três das pessoas usavam etiquetas com o nome e a indicação de que eram enfermeiras. Jennifer gostava do facto de não estarem vestidas com o tradicional branco imaculado. Tinha a impressão de que Karen estava certa: a Clínica JuKan pensara em tudo. Interrogou-se se o Dr. Vandermer poderia conduzir pacientes para ali, uma vez que estava segura que o pavilhão dedicado aos nascimentos deveria reflectir a mesma atenção e conforto. - Miss Tedesco, o seu quarto é já aqui - disse uma das enfermeiras, que se apresentou como Marlene Polaski.

Era uma mulher forte, de largos ossos e um curto cabelo louro, que olhou em volta do quarto de Cheryl como se estivesse a verificar todos os detalhes. Abriu inclusive a porta da casa de banho. Satisfeita, deu umas palmadinhas na cama e disse a Cheryl para se despir e se instalar confortavelmente.

O quarto, tal como o corredor, estava agradavelmente mobilado, como se fosse o de um bom hotel, excepto no que respeitava à cama, que era uma normal cama de hospital. Havia uma televisão montada na parede, colocada num ângulo tal que podia ser vista tanto da cama como do cadeirão. As paredes eram de um verde-claro, com muitos armários embutidos. O chão estava coberto com uma alcatifa verde.

Depois de vestir o seu próprio pijama, Cheryl trepou para a cama.

Marlene regressou ao quarto trazendo um frasco de soro. Explicou a Cheryl que necessitavam do soro apenas por uma questão de segurança. Habilmente, ligou-o ao braço esquerdo de Cheryl. Jennifer e ela ficaram a ver as gotas a cair na pequena câmara. O quarto deixou imediatamente de ter um aspecto de um quarto de hotel.

- Pronto - disse Marlene, colocando os últimos adesivos.

- Vamos levá-la para baixo, para a sala de tratamento, dentro de alguns momentos. - Depois, virando-se para Jennifer: - Se quiser pode vir connosco, isto, claro, se Cheryl o permitir. Ela é que manda.

- Oh, sim! - esclamou Cheryl, com o rosto a iluminar-se.

- Jennifer, vais comigo, não vais?

Momentaneamente, o quarto pareceu girar. Jennifer sentia-se como se tivesse ido patinhar na beira da água e, em vez disso, a tivessem atirado para o ponto mais fundo do lago. Tanto Marlene como Cheryl olhavam para ela com expectativa.

- Está bem, eu vou - acabou por dizer. Surgiu outra enfermeira, empunhando uma seringa.

- Aqui está um tranquilizante para si - disse ela alegremente, puxando para baixo o lençol que cobria Cheryl.

Jennifer virou-se para a janela, estudando vagamente o cenário de telhados que podia ver através das tiras das persianas. Quando se virou, a enfermeira com a seringa já se tinha ido embora.

- Abram caminho - ordenou outra voz, quando uma enfermeira de bata e touca empurrou uma maca para dentro do quarto e a colocou ao lado da cama de Cheryl.

- Chamo-me Gale Schelin - disse ela para Cheryl. - Sei que na verdade não precisa da maca e que podia ir a pé até lá abaixo, à sala de tratamento, mas este é o procedimento habitual.

Antes de Jennifer ter tempo para pensar, já ela estava a ajudar Cheryl a subir para a maca e a empurrá-la para fora do quarto.

- Todo o caminho até ao fim do vestíbulo - orientou-a Gale.

No exterior da sala de tratamento, vários serventes tomaram conta da maca. Depois das portas se fecharem atrás de Cheryl, Jennifer sentiu-se aliviada. Mas Gale pegou-lhe no braço, dizendo:

- Terá de entrar por aqui.

- Não creio que seja boa ideia... - começou Jennifer.

- Disparate - interrompeu-a Gale. - Sei o que é que vai dizer. Mas esta parte do procedimento não é nada, e o mais importante para Cheryl é o que ela pode ver. Para ela, é importante ter o tipo de apoio que a família pode dar.

- Mas eu não sou da família - disse Jennifer, perguntando a si mesma se deveria acrescentar “e também estou grávida”.

- Família ou amiga - contrapôs Gale, a sua presença é crucial. Tome. Ponha isto por cima das suas roupas e isto a tapar o cabelo. Certifique-se que todo o seu cabelo fica metido lá dentro. - Entregou a Jennifer uma bata e uma touca esterilizadas - Depois entre. - Gale desapareceu por uma porta de ligação.

Maldição, pensou Jennifer. Encontrava-se numa espécie de sala de arrumações, cheia de roupa branca e de uma grande máquina em aço inoxidável, que parecia uma caldeira. Jennifer calculou que fosse para esterilizar. Relutantemente, meteu a touca, enfiando o cabelo lá para dentro, como lhe tinha sido aconselhado. Depois vestiu a bata, que atou à volta da barriga. A porta de ligação abriu-se e Gale voltou, observando Jennifer enquanto abria a porta do esterilizador.

- Está óptima. Entre e ponha-se à esquerda. Se se sentir desmaiar ou qualquer outra coisa, volte para aqui.

Ouviu-se um esguicho de vapor, que se libertou da máquina. Respirando fundo, Jennifer entrou na sala de tratamento.

Esta era exactamente aquilo que ela imaginara que seria. As paredes eram de mosaicos brancos e o chão de uma qualquer espécie de plástico também branco. Havia um lavatório branco montado numa parede e armários com portas de vidro cheios de instrumentos médicos, dispostos ao longo de uma parede.

Cheryl fora transferida para uma mesa de exames, colocada no centro da sala. Junto dela encontrava-se uma mesa que tinha em cima uma bandeja com uma colecção de instrumentos de aço inoxidável e tubos de plástico. Junto à parede mais afastada via-se um carro de anestesia, com os habituais cilindros de gás.

Havia duas enfermeiras na sala. Uma delas lavava o abdómen de Cheryl, enquanto a outra estava muito atarefada abrindo várias embalagens e lançando o seu conteúdo na bandeja com instrumentos.

Abriu-se a porta para a sala de tratamento e entrou um médico de bata e luvas, que se dirigiu imediatamente para a bandeja com os instrumentos e os começou a dispor à sua maneira. Cheryl que se tinha mantido calmamente deitada, ergueu-se sobre um cotovelo.

- Miss Tedesco - disse uma das enfermeiras -, deve manter-se deitada.

- Esse não é o doutor Foley - disse Cheryl. - Onde é que está o doutor Foley?

Por momentos, toda a gente na sala se imobilizou. O médico e a enfermeira trocaram olhares.

- Não vou para a frente com isto, a não ser que o doutor Foley esteja aqui - murmurou Cheryl, com a voz a falhar.

- Sou o doutor Stephenson - disse o homem. - O doutor Foley não pode estar presente, mas a Clínica Julian autorizou-me a tomar o seu lugar. O processo é muito simples.

- Não me interessa - protestou Cheryl. - Só farei o aborto com ele.

- O doutor Stephenson é um dos nossos melhores cirurgiões - disse uma enfermeira. - Por favor, deite-se e deixe-nos tratar do assunto. - Colocou a mão sobre o ombro de Cheryl e começou a empurrá-la para baixo.

- Só um momento - disse Jennifer, surpreendida com a sua própria agressividade. - É óbvio que Cheryl quer o doutor Foley. Não creio que devam obrigá-la, à força, a aceitar qualquer outra pessoa.

Todos os que se encontravam na sala se viraram para Jennifer, como se só naquele momento tivessem dado pela presença dela. O Dr. Stephenson dirigiu-se-lhe e começou a conduzi-la para fora da sala.

- Só um momento - repetiu Jennifer. - Não me vou embora daqui. Cheryl diz que não quer a intervenção a não ser que seja o doutor Foley a fazê-la.

- Compreendemos perfeitamente - disse o Dr. Stephenson. - Se e esse o desejo de Miss Tedesco, claro que respeitaremos os seus sentimentos. Na Clinica Julian o paciente está sempre acima de tudo. Se regressar ao quarto de Miss Tedesco, ela vai já lá ter.

Jennifer olhou para Cheryl, que estava agora sentada na mesa de exame.

- Não te preocupes - disse ela para Jennifer. - Não deixarei que me façam seja o que for, enquanto o doutor Foley não chegar.

Confusa, Jennifer deixou que a conduzissem para fora da sala de tratamentos. A maca que levara Cheryl até ali estava de novo a ser empurrada lá para dentro, o que a fez sentir-se mais tranquila. Removendo a bata e a touca, colocou-as sobre um cesto que se encontrava no corredor.

Marlene Polaski apareceu quase imediatamente.

- Acabei de saber do que se passou - disse para Jennifer. - Lamento imenso. Por muito que tentemos, numa instituição tão grande como esta, há sempre qualquer coisa que corre mal. Tem sido um caos, há vinte e quatro horas. Pensámos que sabiam o que se passou com o doutor Foley.

- Mas de que é que está a falar? - perguntou Jennifer.

- O doutor Foley suicidou-se anteontem à noite - disse Marlene. - Matou a mulher a tiro e a seguir matou-se. Veio em todos os jornais. Pensámos que sabiam.

Jennifer avançou para o corredor. Cheryl passou por ela, na maca. Jennifer suspirou satisfeita por estar a ser assistida pelo Dr. Vandermer.

Quando Adam saiu do autocarro em Montclajr, Nova Jérsia, agradeceu ao condutor que olhou para ele como se se tratasse de um louco. Adam sentia-se de facto com uma estranha mistura de disposições, uma combinação e ansiedade acerca da entrevista que o aguardava e uma sensação de culpa por causa do seu comportamento na noite anterior. Tentara pedir desculpa a Jen-nifer, mas afirmou apenas que lamentara ter rebentado a porta. Não mudara de opinião a respeito dela se manter de pé durante todo o dia, a vender sapatos.

Adam avistou o carro da Arolen exactamente no sítio em que a secretária lhe dissera que ele estaria: em frente do Mont-clair National Bank. Atravessou a movimentada rua comercial e bateu no vidro da janela do condutor. O homem estava a ler o Daily News, de Nova Iorque. Virou-se, passou a mão por cima do ombro e destravou a porta traseira.

Foi uma viagem pequena, entre a cidade e a nova sede da Arolen, recentemente construída. Adam sentou-se com as mãos premidas entre os joelhos, observando tudo o que o rodeava. Pararam num portão de segurança e um guarda uniformizado com um grande bloco na mão olhou para Adam pela janela. O condutor disse “Schonberg” e o guarda, aparentemente satisfeito, levantou a barreira listada de preto e branco.

Enquanto avançavam pelo caminho de acesso, numa ligeira subida, Adam ficou espantado com a opulência. Havia uma enorme piscina, que reflectia a luz, no meio de campos muito bem tratados, rodeados por árvores. O edifício principal era uma enorme estrutura cor de bronze, cuja superfície actuava como um espelho. O edifício tornava-se cada vez mais estreito à medida que se erguia para o céu. Havia outras duas construções mais pequenas, uma de cada lado, ligadas ao edifício principal por pontes transparentes.

O condutor rodeou a piscina e parou directamente em frente da porta principal. Adam agradeceu-lhe e dirigiu-se para a entrada. Enquanto se aproximava, verificou qual era a sua aparência, na superfície que parecia um espelho. Trazia as suas melhores roupas, um blaser azul, camisa branca, gravata às riscas' e calças cinzentas. O único problema era a falta de dois botões na manga esquerda do casaco.

Dentro da porta principal, entregaram-lhe um cartão de identificação especial, para colocar no casaco, e disseram-lhe para tomar o elevador para o décimo segundo andar. Subindo naquele solitário esplendor, reparou numa câmara de televisão que se movia lentamente de um lado para o outro e interrogou-se sobre se estaria a ser observado. Quando as portas se abriram, foi saudado por um homem que teria mais ou menos a sua idade.

- Mister McGuire? - perguntou Adam.

- Não, sou Tad, o secretário de Mister McGuire. Faça o favor de me acompanhar.

Conduziu Adam a uma pequena sala de espera e desapareceu por uma porta onde se podia ler “Director de Vendas do Distrito Nordeste”, depois de lhe ter dito para aguardar.

Adam olhou em volta. O mobiliário era composto por reproduções do estilo Chippendale1, a alcatifa de parede a parede era de um luxuoso tom bege. Adam não conseguiu evitar a comparação com o ambiente do decadente Centro Médico que abandonara recentemente e recordar-se do aviso do reitor. Não teve tempo para segundos pensamentos antes de Clarence McGuire abrir a porta e lhe fazer sinal para entrar. Caminhou para um cadeirão e sentou-se enquanto McGuire dava a Tad algumas instruções finais, antes de o mandar sair.

McGuire era um homem jovial e forte, dois ou três centímetros mais baixo do que Adam. Tinha um ar de quem estava satisfeito consigo próprio e os seus olhos quase se fechavam quando sorria.

- Quer alguma coisa para beber? - perguntou. Adam abanou a cabeça.

- Então, creio que devemos começar - disse McGuire. - O que é que o fez interessar-se pela Arolen?

Nervosamente, Adam pigarreou para aclarar a garganta.

- Decidi abandonar a Escola Médica e pensei que a indústria farmacêutica poderia achar úteis as minhas habilitações. A Arolen ofereceu, a toda a nossa classe, umas pastas de couro preto e o nome ficou-me na cabeça.

- Aprecio a sua franqueza - disse Mr. McGuire sorrindo. - Muito bem, diga-me por que é que está interessado nas farmacêuticas.

Adam hesitou um pouco, pois tinha relutância em dizer quais eram as suas verdadeiras e modestas razões: a gravidez de Jennifer e a sua desesperada necessidade de dinheiro. Em vez disso, tentou os argumentos que ensaiara no autocarro.

- Até certo ponto fui grandemente influenciado pela minha gradual desilusão pela prática da medicina. Tenho a impressão de que os médicos já não consideram o paciente como sendo da Sua responsabilidade principal. A tecnologia e a pesquisa tornaram-se mais compensadoras, tanto intelectual como financeiramente,

1 Thomas Chippendale (1718-1779), marceneiro inglês que criou o primeiro móvel de estilo especificamente inglês. O estilo Chippendale combina elementos do rococó francês, do rendilhado gótico e do artesanato asiático-oriental com formas clássicas (N. do E.).

enquanto a medicina se transformou mais num comércio do que numa profissão.

Adam não sabia ao certo o que queria dizer com aquela frase, mas soava bem, pelo que a deixara ficar. Além disso, Mr. McGuire parecia aceitá-la.

- Durante os dois últimos anos e meio acabei por acreditar que as companhias farmacêuticas têm mais para oferecer aos pacientes, do que os médicos individualmente. Creio poder fazer mais pelas pessoas se trabalhar para a Arolen, do que continuando na medicina.

Adam reclinou-se no cadeirão, pensando que o que acabava de dizer soava muito bem.

- Interessante - disse McGuire. - Parece ter pensado muito no assunto. Contudo, tenho de o avisar que o nosso método usual, para iniciar pessoas como você, está na nossa força de vendas. Naquilo que é geralmente denominado por delegados de propaganda médica. Porém, não sei se isso lhe daria a sensação de estar a servir o público.

Adam inclinou-se para a frente.

- Calculei isso, calculei que começaria nas vendas e que serão necessários alguns anos, antes de realmente poder dar uma contribuição útil.

Observou McGuire, em busca de sinais de cepticismo, mas o homem continuava a sorrir.

- Há uma coisa que eu, muito, em especial, lhe quero perguntar... - disse McGuire. - É o seu pai que está na Administração da Food and Drug?

Adam sentiu os músculos do pescoço ficarem rígidos.

- Sim, o meu pai é David Schonberg da Food and Drug, mas isso não tem qualquer relação com o meu interesse pela Arolen. De facto, eu e o meu pai mal nos falamos, pelo que de modo nenhum poderei influenciar as decisões que ele toma.

- Compreendo - disse Mr. McGuire. - Mas pode estar certo que estamos interessados em si e não no seu pai. Agora, gostaria que me dissesse quais os seus estudos e qual a sua experiência prática.

Cruzando as pernas, Adam começou pelo princípio dos seus estudos e terminou na Escola Médica. Descreveu todos os seus trabalhos durante as férias de Verão. Levou cerca de quinze minutos.

- Muito bem - disse McGuire, quando Adam terminou. - Se quiser esperar lá fora durante alguns minutos, já lá irei ter consigo.

Logo que a porta se fechou, McGuire levantou o telefone e ligou para o seu chefe, William Shelly. Respondeu-lhe a secretária de Shelly e McGuire disse a Joyce para lhe ligar ao vice-presidente.

- De que se trata? - perguntou Bill Shelly, com voz clara e autoritária.

- Acabei agora mesmo de entrevistar Adam Schonberg - disse McGuire - e tinhas toda a razão. É o filho de David Schonberg e é também um dos melhores candidatos que tenho encontrado nos últimos cinco anos. É feito do material indicado para vir a ser um executivo da Arolen, inclusive no que respeita as suas filosofias sobre a prática médica corrente.

- Parece prometedor - concordou Bill. - Se resultar, receberás um prémio.

- Receio não poder receber qualquer prémio por o ter descoberto - disse Clarence. - Foi o rapaz quem veio ter comigo.

- Receberás à mesma o prémio - disse Bill. - Oferece-lhe um almoço e depois trá-lo cá acima ao meu gabinete. Quero conversar pessoalmente com ele.

Clarence desligou o telefone e voltou à sala de espera, no exterior do seu gabinete.

- Acabei de falar com o vice-presidente e ele quer falar consigo depois do almoço. Que me diz?

- Sinto-me lisonjeado - respondeu Adam.

Jennifer virou as costas à janela, no quarto de Cheryl, e olhou para a sua amiga. Parecia quase angélica, com a sua pele branca e o cabelo louro recentemente lavado. O sedativo que lhe tinham dado dera obviamente resultado. Cheryl estava a dormir, a cabeça confortavelmente apoiada numa almofada.

Jennifer não sabia o que fazer. Cheryl fora trazida de volta da sala de tratamento e informada sobre a morte do Dr. Foley. Marlene Polaski tentara convencer Cheryl de que o Dr. Ste-phenson era um médico tão bom como o Dr. Foley e que ela deveria ir avante e continuar com a intervenção. Recordara Cheryl que, por cada dia que passasse, o aborto se tornava cada vez mais arriscado.

Jennifer acabara finalmente por concordar com Marlene e tentara convencer Cheryl a mudar de opinião, mas a rapariga continuava a insistir que ninguém lhe tocaria, excepto o Dr. Foley. Era como se se recusasse a acreditar que o homem se suicidara.

Olhando para a forma imóvel estendida na cama, Jennifer reparou que os olhos da amiga se abriam lentamente.

- Como é que te sentes?

- Bem - disse Cheryl, ensonada.

- Creio que vou andando - disse Jennifer. - Tenho de tratar do jantar antes de Adam chegar a casa. Depois telefono-te. Posso voltar cá amanhã, se quiseres. Tens a certeza de que não queres que o doutor Stephenson faça a intervenção?

A cabeça de Cheryl rolou para o lado. Quando falou, as suas palavras eram indistintas.

- Que é que disseste? Não te ouvi bem...

- Disse que vou andando - respondeu Jennifer, sorrindo, contra sua vontade. - Deram-te champanhe antes de te trazerem para aqui? Pareces bêbeda.

- Nenhum champanhe - murmurou Cheryl, lutando com as roupas da cama. - Acompanho-te até ao elevador.

Cheryl atirou o cobertor para o lado, fazendo oscilar, sem querer, o tubo de soro que ainda estava ligado ao seu braço esquerdo. * - Creio que é melhor ficares onde estás - disse Jennifer.

O seu sorriso desapareceu e sentiu de novo uma certa agitação provocada pelo medo. Aproximou-se para impedir Cheryl de se mover. Cheryl, porém, já colocara as pernas fora da cama e estava a procurar sentar-se. Nessa ocasião reparou que ela retirara o tubo de soro e que estava a sangrar no sítio onde o tubo lhe entrara no braço.

- Olha o que eu fiz - disse Cheryl, apontando para o tubo e, ao fazê-lo, perdeu o equilíbrio.

Jennifer tentou agarrar-lhe os ombros mas, num só movimento, flácido e fluido, Cheryl escorregou da cama para o chão. Tudo o que Jennifer pode fazer foi aparar-lhe a queda. Acabou por cair dobrada ao meio, com o rosto pousado nos seus joelhos.

Jennifer não sabia o que fazer, se pedir socorro se levantar Cheryl. Uma vez que esta se encontrava numa posição tão pouco natural, decidiu ajudá-la a voltar para a cama e a seguir chamar as enfermeiras, mas quando levantou os braços da amiga, tudo o que viu foi sangue.

- Oh, Deus! - gritou.

Escorria sangue do nariz e da boca de Cheryl. Jennifer deitou-a de costas e reparou que ela tinha a pele preta e azul em volta dos olhos, como se tivesse sido esmurrada. Havia mais sangue nas pernas, saindo por debaixo da bata.

Jennifer ficou paralisada durante alguns segundos. A seguir correu para o botão de chamada das enfermeiras e premiu-o repetidamente. Cheryl continuara sem se mover. Abandonando o botão de chamada, Jennifer correu para a porta e, frenética, gritou por socorro. Marlene apareceu quase imediatamente e empurrou Jennifer para o lado. Esta encostou-se à parede do corredor, as mãos premindo a boca. Várias outras enfermeiras entraram rapidamente no quarto. A seguir, alguém saiu a correr e fez soar uma campainha de emergência no até ai silencioso sistema de chamadas da clínica.

Jennifer sentiu que alguém lhe agarrava o braço.

- Mistress Schonberg, pode dizer-nos o que se passou? Jennifer virou-se para encarar Marlene. Havia sangue numa das faces da enfermeira. Jennifer espreitou para o quarto. Estavam a fazer a Cheryl respiração boca a boca.

- Estávamos a falar - disse Jennifer. - Ela não se queixou de nada. Parecia apenas bêbeda. Quando tentou levantar-se da cama caiu e depois... lá estava todo aquele sangue.

Vários médicos, incluindo o Dr. Stephenson, surgiram a correr e entraram no quarto de Cheryl. A seguir apareceu outro médico com o que parecia ser um equipamento de anestesia. Marlene ajudou-o a entrar com aquilo no quarto, deixando Jennifer sozinha. Encostou-se à parede, sentindo-se tonta. Estava vagamente consciente de que havia outros pacientes nas portas dos seus quartos.

Apareceram dois serventes com uma maca. Momentos depois, Jennifer viu Cheryl pela última vez, quando a transportavam de novo para a sala de tratamento. Tinha uma máscara de anestesia, negra, presa ao rosto chocantemente pálido. Havia pelo menos uma dúzia de pessoas agrupada à volta dela, gritando ordens.

- Sente-se bem? - perguntou Marlene, aparecendo repentinamente na frente de Jennifer.

- Creio que sim - respondeu Jennifer. Tinha a voz sem expressão, tal como a do Dr. Stephenson. - Que se passa com a Cheryl?

- Creio que ainda ninguém sabe - asseverou Marlene.

- Vai ficar boa - disse Jennifer, mais como uma declaração do que como uma pergunta.

. - O doutor Stephenson é um dos melhores médicos - afirmou Marlene. - Por que é que não vem para a sala de espera para junto das enfermeiras? Não quero que fique aqui sentada, sozinha.

- A minha mala está no quarto de Cheryl - disse Jennifer.

- Espere aqui, vou buscá-la - respondeu Marlene. Depois de trazer a mala, Marlene conduziu Jennifer para a sala e ofereceu-lhe qualquer coisa para beber, mas Jennifer assegurou-lhe que se sentia bem.

- Sabe o que é que lhe vão fazer? - perguntou Jennifer, não muito segura de querer ouvir a resposta.

- Isso é lá com os médicos - respondeu Marlene. - Certamente que lhe irão tirar o feto. Quanto ao resto, não sei.

- É o bebé que está a provocar a hemorragia?

- Muito provavelmente. Tanto a hemorragia como o choque. É por isso que vão ter de o tirar.

Obrigando Jennifer a prometer que a chamaria se viesse a necessitar de alguma coisa, Marlene regressou ao seu trabalho. Apesar disso, de vez em quando acenava a Jennifer, que lhe retribuía o aceno.

Jennifer nunca gostara de hospitais e a presente experiência confirmava aquela sua antiga aversão. Olhou para o relógio. Eram três e vinte.

Passou quase uma hora antes de o Dr. Stephenson reaparecer, o cabelo emaranhado por sobre a testa e o rosto sombrio. O coração de Jennifer teve um sobressalto.

- Fizemos o melhor que nos foi possível - disse, sentando-se em frente dela.

- Ela está... - começou Jennifer, sentindo-se como se estivesse a assistir um melodrama.

O Dr. Stephenson confirmou com um aceno.

- Está morta. Não a poderíamos salvar. Coagulação intravascular difusa. Trata-se de uma condição que não compreendemos muito bem e que ocasionalmente está associada aos abortos. Só tivemos um outro caso destes aqui na Julian, mas felizmente tudo correu bem para a paciente. Com a Cheryl, contudo, a situação foi complicada por uma hemorragia incontrolável. Mesmo que a tivéssemos conseguido ressuscitar, receio bem que os rins dela voltassem a funcionar.

Jennifer fez um aceno de compreensão, mas na realidade não entendera nada. Era tudo demasiado inacreditável.

- Conhece a família dela? - perguntou o Dr. Stephenson.

- Não - respondeu Jennifer.

- É pena - disse o médico. - Cheryl não nos quis dar o endereço ou o telefone da família. Agora vai ser muito difícil localizá-la.

Marlene e Gale surgiram na frente de Jennifer. Tinham estado a chorar. Jennifer ficou espantada, nunca ouvira dizer que as enfermeiras chorassem.

- Estamos todos muito abalados com isto - disse o Dr. Stephenson. - Este é o principal problema da medicina. Fazemos o melhor que podemos, mas isso por vezes não chega. Perder uma rapariga jovem e vibrante como a Cheryl, é uma tragédia. Aqui, na Clínica Julian, sentimos muito pessoalmente este tipo de falhanços.

Quinze minutos mais tarde Jennifer abandonava a clínica pela mesma porta por onde entrara com Cheryl, apenas algumas horas antes. Não conseguira ainda consciencializar-se inteiramente de que a sua amiga estava morta. Virou-se e olhou para a fachada espelhada da Clínica Julian. Apesar do que acontecera, ainda estava bem impressionada com o hospital: um sítio onde as pessoas eram importantes.

Depois do almoço, ao seguir McGuire para fora do elevador no décimo nono andar, Adam deteve-se momentaneamente. Sentia-se de novo impressionado e assustado com o luxuoso mobiliário. Era todo ele tão requintado que o piso de McGuire, por comparação, lhe parecia agora meramente utilitário.

Apressando o passo, Adam alcançou McGuire exactamente quando este entrava no mais espectacular gabinete que Adam jamais vira. Toda uma parede era em vidro e para lá dela desenrolava-se a paisagem dos campos de Jérsia, com toda a majestade do Inverno.

- Gosta da vista? - perguntou uma voz. Adam virou-se. - Sou Bill Shelly - disse o homem, dando a volta à sua secretária. - Sinto-me muito satisfeito por ter vindo ter connosco.

- O prazer foi meu - respondeu Adam, surpreendido com a juventude de Mr. Shelly.

Adam esperara que um executivo naquela posição tivesse, no mínimo, cinquenta anos. Mr. Shelly não parecia ter mais de trinta. Era sensivelmente da altura de Adam, o cabelo louro cortado curto e penteado para o lado, com um risco que parecia ter sido feito com uma régua. Os olhos eram de um azul espantosamente brilhante. Vestia uma camisa branca com as mangas dobradas, uma gravata cor-de-rosa e calças castanhas.

Mr. Shelly fez um gesto para a janela.

- Aqueles edifícios além, à distância, são Newark. Até Newark tem um bom aspecto, quando vista de longe.

Por detrás de Adam, ouviu-se um risinho de McGuire. Olhando pela janela, Adam apercebeu-se de que também conseguia ver a parte baixa de Manhattan. Havia muitas nuvens dispersas, entre as quais passavam feixes de luz solar, iluminando alguns dos arranha-céus de Nova Iorque e deixando outros imersos numa sombra azulada.

- Que tal uma bebida? - perguntou Mr. Shelly, deslocando-se para uma mesa de café que ostentava um serviço em prata. - Temos café, chá e quase tudo o mais que por aí existe.

Os três homens sentaram-se. McGuire e Adam pediram café. Bill Shelly serviu-se de uma chávena de chá.

- McGuire já me falou um pouco a seu respeito - disse Shelly observando Adam enquanto falava.

Adam começou a falar, repetindo no essencial as mesmas coisas que anteriormente dissera a McGuire. Os dois executivos da Arolen trocaram olhares e acenos imperceptíveis. Bill não tinha dúvidas de que as conclusões de McGuire tinham sido correctas. O conteúdo do perfil de personalidade que Bill ordenara que fosse feito durante a hora do almoço confirmava a sua intuição de que Adam era uma escolha particularmente boa para o programa de treino de gestão. Encontrar candidatos para esse programa era uma das mais importantes prioridades, uma vez que a companhia se estava a desenvolver tão rapidamente. A única reserva que Bill levantava era a da possibilidade do rapaz poder querer regressar à Escola Médica, mas essa era uma coisa de que eles poderiam tratar.

Quando Adam terminou, Bill pousou a chávena de chá e disse:

- Consideramos que a sua atitude para com a profissão médica está muito de acordo com a nossa. Também nós temos a noção da falta de responsabilidade social dos médicos. Creio que veio ter ao sítio indicado. A Arolen pode muito bem vir a ser um perfeito lar para si. Tem algumas perguntas a fazer-nos?

- Se me contratarem, gostaria de permanecer na área de Nova Iorque - disse Adam.

Sentia-se muito relutante em afastar-se da Escola Médica e queria que Jennifer desse à luz no Centro Médico. Bill virou-se para McGuire:

- Creio que poderíamos arranjar uma vaga, não achas, Clarence?

- Acho que sim - concordou Clarence de imediato.

- Mais algumas perguntas? - perguntou Mr. Shelly.

- Nenhuma que me lembre de momento - respondeu Adam.

Pensando que o encontro terminara, começou a levantar-se, mas Bill inclinou-se para a frente, para o deter.

- Aguarde um pouco mais. - Mandando embora o seu colega, disse: - Clarence, dentro de momentos eu vou mandá-lo lá abaixo, ao seu gabinete.

Quando a porta se fechou atrás de McGuire, Bill levantou-se.

- Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que estamos muito interessados em si. As suas habilitações médicas são de primeira classe. Em segundo lugar, quero garantir-lhe que o contrataríamos, pelos seus próprios méritos e não por causa de qualquer influência que possa ter, ou não ter, junto do seu pai.

- Agradeço-lhe muito ter-me dito isso - disse Adam, impressionado com a franqueza de Mr. Shelly.

Levantando da secretária o perfil de personalidade que McGuire organizara durante a hora do almoço, Shelly acrescentou:

- Talvez fique admirado ao saber que já temos um relatório completo a seu respeito.

Adam sentiu uns momentos de indignação pelo facto de a Arolen ter ousado invadir a sua vida privada, mas antes de poder protestar, Bill disse-lhe:

- Tudo o que consta neste relatório encoraja-me não apenas a contratá-lo mas também a oferecer-lhe um lugar no nosso programa de treinos de gestão. Que é que me diz?

Estonteado, Adam tentou recuperar a sua compostura. As coisas estavam a andar muito mais depressa do que aquilo que ele esperara.

- O treino de gestão é feito também aqui? - perguntou.

- Não - respondeu Mr. Shelly. - O treino de vendas está localizado aqui, mas o programa de treino de gestão é levado a cabo no nosso principal centro de investigação, em Porto Rico.

Porto Rico! pensou Adam. E ele que se tinha preocupado por deixar Manhattan.

- É uma oferta muito generosa - disse finalmente. - Mas penso que preferiria começar um pouco mais devagar. A minha ideia inicial era trabalhar nas vendas, para aprender qualquer coisa do mundo dos negócios.

- Aprecio isso - disse Mr. Shelly. - No entanto, a oferta mantém-se de pé. Devo dizer-lhe que a Arolen planeia reduzir a sua força de vendas a partir do próximo ano. Talvez seja bom que tenha isso presente.

- Quer isso dizer que me oferecem um lugar nas vendas? - perguntou Adam.

- Claro que sim - respondeu Bill. - E há mais uma pessoa da nossa organização que eu gostaria de lhe apresentar.

Carregou num botão do intercomunicador e pediu à sua secretária para dizer ao Dr. Nachman que descesse para se encontrar com o novo recruta de que tinham falado anteriormente.

- O dr. Heinrich Nachman é o director do nosso centro de investigações, em Porto Rico. Encontra-se na cidade por causa da reunião de administração que teve lugar hoje de manhã. É um neurocirurgião de nomeada e um indivíduo fascinante. Depois de falar com ele, talvez considere mais seriamente a nossa oferta de Porto Rico.

Adam assentiu e a seguir perguntou:

- Quando é que querem que eu comece? Posso começar já.

- Gosto dessa sua atitude - disse Shelly. - Mandarei que o inscrevam no nosso próximo curso de vendas, que creio que se inicia dentro de uma semana. Antes disso terá de passar um dia com um dos nossos delegados de vendas, mas estou certo de que Clarence McGuire pode tratar disso para si. Quanto ao salário, entrará imediatamente na nossa lista de pagamentos. Além disso, depois de ler aqui a sua ficha, calculo que gostará de saber quais são as nossas regalias de maternidade.

Adam sentiu que as faces se tornavam vermelhas. Foi salvo de ter de dar uma resposta pela entrada do Dr. Heinrich Nachman.

O neurocirurgião era excepcionalmente alto e magro. Tinha um cabelo escuro e hirsuto e olhos que pareciam não deixar escapar nada. Saudou Adam com um largo sorriso e olhou fixamente para ele durante vários minutos. Quando Adam estava quase a contorcer-se debaixo daquele olhar, o médico perguntou:

- Vamos ver este jovem em Porto Rico?

- Infelizmente, não para já - disse Shelly. - Adam acha que gostaria de aprender um pouco do negócio antes de se comprometer a um treino de gestão.

- Compreendo - disse o Dr. Nachman. - Por aquilo que o Bill me disse, você constituirá um verdadeiro valor para a nossa organização. A nossa investigação está a avançar muito rapidamente, muito mais rapidamente do que aquilo que esperávamos. Será uma fantástica oportunidade para si. Nem faz ideia.

- Que áreas é que essa investigação envolve? - perguntou Adam.

- Drogas psicotrópicas e fetologia-respondeu o Dr. Nachman.

Houve uma pausa. Adam olhou de um para o outro homem. Estavam ambos a observá-lo.

- Isso parece muito interessante - respondeu.

- De qualquer modo - disse o Dr. Nachman - seja bem- vindo às Indústrias Farmacêuticas Arolen. - O investigador estendeu-lhe a mão e Adam apertou-lha.

Durante a viagem de autocarro de regresso à cidade, Adam sentiu algumas apreensões. Recordou-se da afirmação do Dr. Markowitz acerca de “desertar para o inimigo”. A ideia de que uma companhia podia fazer tanto dinheiro vendendo medicamentos às pessoas que se encontravam doentes, parecia-lhe contrária a todos os seus ideais. Depois apercebeu-se de que os médicos faziam essencialmente a mesma coisa. Mas havia algo na Arolen que o preocupava, algo que ele não conseguia definir. Talvez tivesse a ver com o facto de eles terem feito um “relatório completo” a seu respeito.

De qualquer modo, não se comprometera para toda a vida e, de momento, necessitava do dinheiro. Se ele e Jennifer fizessem cuidadosas economias, não havia razão para não estar de volta à Escola Médica dentro de dezoito meses.

Quando o autocarro entrou no Túnel Lincoln, Adam puxou pela sua usada carteira e, sub-repticiamente, espreitou para o seu conteúdo. Ali estavam elas, dez notas de cem dólares, novinhas em folha, aninhadas de encontro à meia dúzia de velhas notas de dólar. Adam nunca vira tanto dinheiro. Bill insistira em que recebesse um adiantamento, salientando que talvez necessitasse de novas roupas, pois não podia ir de bata branca para o trabalho.

Mas mil dólares! Adam ainda não conseguia acreditar.

Lutando contra os dois sacos dos Bloomingdale's contendo camisas e um casaco, bem como um vestido novo para Jennifer, muito bem embrulhado como presente, Adam apanhou o metropolitano da Lexington Avenue para a Rua 14 e caminhou até ao apartamento.

Logo que abriu a porta, ouviu Jennifer ao telefone, conversando com a mãe. Espreitou para a cozinha e não viu quaisquer preparativos para o jantar. De facto, nem viu vestígios de compras. Prometendo a si mesmo que não se iria preocupar naquela noite, caminhou para o quarto, onde Jennifer estava a despedir-se da mãe. Pousou o telefone e virou-se para o encarar.

Estava com um aspecto terrível. Tinha as faces manchadas e os olhos vermelhos de chorar. O cabelo, meio amarrado num carrapito e solto, caía-lhe sobre os ombros.

- Deixa-me adivinhar! - disse Adam. - Os teus pais vão mudar-se para o Bangladesh.

Grandes lágrimas surgiram-lhe nos olhos e Adam desejou ter ficado calado. Sentou-se junto dela e passou-lhe o braço pelos ombros.

- Tentei telefonar-te, mais cedo - disse Adam -, mas o telefone estava ocupado.

Jennifer deixou que as mãos lhe caíssem no regaço.

- Por que é que telefonaste?

- Para te dizer que ia chegar um pouco mais tarde. Tenho uma pequena surpresa para ti. Estás interessada?

Jennifer acenou com a cabeça que sim. Adam saiu e foi buscar o embrulho, que ela abriu lentamente. Por fim, depois de retirar o papel exterior com muito cuidado, abriu a caixa.

Esperando entusiasmo, Adam ficou preocupado quando Jennifer se limitou a permanecer sentada, segurando nas mãos o vestido Belle France, enquanto as lágrimas lhe continuavam a rolar pelas faces.

- Não gostas dele? - perguntou.

Jennifer limpou as lágrimas e retirou o vestido da caixa, segurando-o, por debaixo do queixo, para se poder ver ao espelho.

- É maravilhoso - disse -, mas onde é que arranjaste o dinheiro?

Adam encolheu os ombros.

- Se não gostares dele, tenho a certeza de que o poderás trocar.

Jennifer voltou para junto de Adam e, sempre com o vestido apertado contra o peito, beijou-o na boca.

- Adoro-o. É um dos vestidos mais bonitos que jamais vi.

- Então, por que é que estás a chorar?

- Porque passei um dia tão terrível. Encontraste alguma vez a Cheryl, a secretária de Jason?

- Creio que não... - respondeu Adam.

- Não importa - disse Jennifer. - Mas ela tinha apenas dezanove ou vinte anos. Hoje, fui com ela a um lugar chamado Clínica Julian...

- Conheço-a - interrompeu-a Adam. - Uma organização nova e enorme, do género da Clínica Mayo. Alguns dos meus colegas estudantes que lá estiveram de serviço dizem que é um pouco estranha.

- Não foi o lugar que foi estranho - disse Jennifer. - Foi o que aconteceu. Cheryl foi lá para fazer um aborto.

- Maravilhoso! - disse ele, com sarcasmo. - Foste com alguém, por causa de um aborto? - Jennifer, estás louca?

- Ela não tinha mais ninguém - explicou Jennifer. - Não a podia deixar ir sozinha.

bem," - Claro que não - respondeu Adam. - Mas se não te importares que eu te pergunte, onde é que estava a família dela, ou o namorado? Por que é que tinhas de ser tu, Jennifer?

- Não sei - admitiu Jennifer. - Mas fui. E então ela morreu!

- Morreu! - repetiu Adam, com horror. - De que é que ela morreu? Estava doente?

Jennifer abanou a cabeça.

- Aparentemente, encontrava-se perfeitamente saudável. Estavam a preparar-se para a intervenção quando a Cheryl percebeu que o seu próprio médico não estava presente e recusou-se a continuar o processo. Esperava um tal doutor Fo-ley, mas o homem morrera. Suicidara-se. Portanto era um outro médico quem ia fazer o aborto.

- Nalguns sítios, o paciente não pode escolher o médico que lhe apetece - disse Adam.

- Isso pode ser verdade - respondeu Jennifer -, mas parece-me que o paciente deve ser informado com antecedência de que o médico que ele pretende não irá estar presente.

- Contra isso, não posso discutir - disse Adam. - Mas se ela recusou o aborto, como é que morreu?

- Eles disseram que foi por coagulação intravascular difusa. Morreu mesmo na minha frente. Num minuto estava bem e no minuto seguinte caiu no chão, a deitar sangue. Foi horrível.

Jennifer meteu o lábio inferior para dentro e mordeu-o. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

Adam passou-lhe os braços em volta e deu-lhe pancadinhas nas costas.

Durante alguns momentos, nenhum deles falou. Adam deixou que Jennifer se acalmasse enquanto ele meditava naquela história. Como é que Cheryl podia ter morrido, se o aborto fora cancelado? Calculou que se tratasse de um aborto provocado por indução salina e que a intervenção já tinha sido iniciada. Sentia-se tentado a fazer mais perguntas, mas depois pensou que era melhor que Jennifer não tivesse de pensar mais naquela experiência.

Mas Jennifer não queria abandonar o assunto.

- O que é coagulação intravascular difusa?-perguntou. - É uma coisa vulgar?

- Não, não - garantiu-lhe Adam. - É muito rara. Não sei grande coisa a esse respeito. E creio que ninguém sabe. Há qualquer coisa que inicia um processo de coagulação dentro dos vasos sanguíneos. Creio que está associada com traumas extensos, grandes queimaduras e, ocasionalmente, aos abortos. Mas de qualquer modo, é muito rara.

- Não acontece a pessoas que estão apenas grávidas? - perguntou Jennifer.

- De maneira nenhuma! - respondeu Adam. - Vamos lá, não quero que comeces a ter a mania das doenças e que penses que vais apanhar todas as doenças exóticas de que ouvires falar. Agora, gostava que tomasses um duche, pusesses o teu vestido novo e a seguir vamos comer.

- Não comprei nada para comer - disse Jennifer.

- Já dei por isso - respondeu Adam. - Mas não interessa. Tenho uma carteira cheia de dinheiro e vamos sair. Estou morto por te contar tudo. Vamos a um restaurante elegante e fazemos uma festa. Está bem?

Jennifer pegou num lenço de papel e assoou o nariz.

- Está bem - conseguiu dizer. - Espero ser boa companhia. Estou tão transtornada...

Enquanto Jennifer tomava banho, Adam dirigiu-se à sala e foi procurar informações sobre a coagulação intravascular difusa. Tal como esperava, aquela condição nada tinha a ver com a gravidez. Ao colocar o livro de medicina na prateleira, avistou o Simpósio Farmacêutico. Com a curiosidade despertada, retirou o volume da estante e procurou a secção correspondente às Indústrias Farmacêuticas Arolen. Além de uma extensa lista de antibióticos vulgares, a Arolen não tinha muitos medicamentos de sua produção exclusiva. Havia vários tranquilizantes que Adam não reconheceu, bem como preparados antináuseas, incluindo um para as mulheres grávidas, denominado Pregdolen.

Adam perguntou a si próprio como é que a Arolen podia ser tão próspera, com uma tão pequena lista de produtos. Tinham de vender muitos medicamentos, para poderem pagar aquela impressionante sede. Arrumou o livro, decidindo que as bases financeiras da Arolen não lhe diziam respeito. Pelo menos enquanto lhe continuassem a pagar o generoso salário.

Capítulo sétimo

Dois dias mais tarde Adam aguardava na rua, em frente do seu bloco de apartamentos, esperando a chegada de um delegado da Arolen. McGuire tinha-lhe telefonado na tarde anterior para lhe dizer que um tal Percy Harmon se encontraria com ele as oito e trinta e o levaria a assistir a uma série de visitas a médicos.

Adam encontrava-se na rua havia quase vinte minutos, mas apesar do vento frio estava satisfeito por se encontrar fora de casa. Apesar de ele e Jennifer terem já ultrapassado a anterior discussão, ela ainda se encontrava perturbada por ele ter abandonado o curso de Medicina e ter arranjado emprego numa companhia farmacêutica. Sabia que uma das razões que o fazia sentir-se tão aborrecido com a reacção dela era a sua própria ambivalência a respeito do trabalho para a Arolen. No entanto aquele emprego não era para sempre e resolvia-lhes os problemas financeiros. Talvez até os seus sogros acabassem por dizer à filha, quando ela os fosse visitar naquele dia, que ele tinha tomado a posição correcta. Mas duvidava que tal viesse a acontecer.

Um Chevrolet azul abrandava na frente dele. O condutor parou e baixou o vidro da janela.

- Pode dizer-me onde é que é o quinhentos e catorze?

- Percy Harmon? - perguntou Adam.

- Eu mesmo - respondeu o condutor, inclinando-se para abrir a porta do lado do “pendura”.

Apertando o casaco para se proteger da chuva, Adam desceu os degraus a correr e enfiou-se no carro.

Percy pediu desculpa por ter chegado atrasado, explicando que o trânsito na via-rápida estivera terrível, por causa de um acidente na saída para a Rua 49.

Adam gostou imediatamente de Percy, do seu ar amigável. Era um pouco mais velho do que Adam e estava vestido com um fato azul-escuro, um laço vermelho e um lenço de bolso a condizer. Tinha o aspecto de um homem de negócios cheio de êxito.

Viraram para norte na Park Avenue e dirigiram-se para o centro da cidade.

- Clarence McGuire mostrou-se muito entusiástico a seu respeito, ao telefone - disse Percy. - Qual é o segredo?

- Não sei ao certo - respondeu Adam -, mas suponho que é por eu ter sido um estudante de Medicina do terceiro ano, no Centro Médico.

- Oh, meu Deus, claro que é por isso!-exclamou Percy. - Não admira que eles gostem tanto de si. Com essas habilitações, vai passar à frente de todos nós, homens comuns.

Adam não se sentia assim tão convencido. Aprendera muita coisa a respeito de ossos e enzimas e as funções dos linfócitos T. Mas qual era a utilidade dessas informações para a Arolen? Além disso, tais conhecimentos tinham o perturbador hábito de desaparecerem da cabeça de Adam depois de ele ter feito o exame. Observou o interior do carro de Percy. Havia folhetos dentro de caixas, no banco traseiro. Ao lado das caixas estavam blocos-notas de folhas soltas, folhas de computador e uma pilha de ordens de encomenda. Havia folhas com apontamentos e instruções impressas pegadas por todo o lado, ao painel de instrumentos do carro, que tinha o aspecto de um escritório pleno de actividade. Adam não estava nada convencido de que o seu treino na Escola Médica pudesse vir a ser de qualquer utilidade, naquele seu novo trabalho. Observou Percy, muito ocupado a furar por entre o tráfego da cidade de Nova Iorque. O homem parecia descontraído e confiante, o que fez com que Adam se sentisse invejoso.

- Como é que foi parar à Arolen? - perguntou Adam.

- Fui recrutado, logo que terminei os estudos - respondeu Percy. - Na universidade, tirei alguns cursos sobre economia da saúde e estava interessado no campo da saúde em geral. A Arolen descobriu isso, não sei como, e contactou-me para uma entrevista. Fiz umas investigações sobre a companhia e fiquei impressionado. Ser delegado de vendas tem sido agradável, mas ando a tentar subir o próximo degrau. Agora, graças a si, vou partir para o centro de treino de gestão, em Porto Rico.

- Que quer dizer, “graças a mim”?

- Clarence disse-me que você me vai substituir. Há um ano que ando a tentar ir para Porto Rico.

- Ofereceram-me a mesma oportunidade - disse Adam.

- De ir directamente para Porto Rico? - exclamou Percy. - Meu Deus, homem, agarre-se a isso. Não sei se sabe, mas a Arolen é propriedade de um grupo financeiro que está a crescer extremamente depressa. Cerca de dez anos atrás, uns tipos espertos fundaram uma organização chamada MTIC, para investir na indústria da saúde. A Arolen foi uma das suas primeiras aquisições. Quando conseguiram o controlo sobre a companhia, era uma fábrica de medicamentos sem qualquer importância. Agora, já está a desafiar as grandes, como a Lilly e a Merck. Entrando nesta altura, tem todas as possibilidades de subir com a companhia. Com quem é que falou na Arolen, além de Clarence McGuire?

- Com Bill Shelly e com o doutor Nachman.

Percy assobiou e tirou os olhos do trânsito durante o tempo suficiente para lançar a Adam uma olhadela apreciadora.

- Então falou com dois dos fundadores da MTIC. Diz-se que ambos fazem parte do quadro de directores da MTIC e que tem posições executivas na Arolen. Como é que se encontrou com o Nachman? Ele é o director de pesquisas em Porto Rico...

- Encontrava-se cá por causa de uma reunião qualquer - explicou Adam, sem entrar em pormenores.

A reacção de Percy fê-lo de novo pensar se a Arolen estaria realmente interessada nele ou, apesar das garantias dadas, apenas no seu pai.

- Uma outra coisa a respeito de Porto Rico - disse Percy - é o facto do centro que lá existe ser tão luxuoso como um hotel de cinco estrelas. Só lá estive uma vez, mas aquilo é uma coisa do outro mundo. Estou ansioso por frequentar esse curso de treino. Será como ter umas férias pagas.

Observando a chuva a bater no pára-brisas, Adam interrogou-se sobre que espécie de instalações teria a maternidade de lá, em Porto Rico. A ideia de aproveitar o sol brilhante, bem como a hipótese de afastar Jennifer dos pais, tinha uma certa atracção. Suspirou. Era bom sonhar acordado, mas a verdade era que ele queria ficar o mais perto possível do Centro Médico. Porto Rico estava fora de questão.

- Ora aqui estamos - disse Percy, conduzindo o carro para o passeio, em frente de um típico edifício de apartamentos do centro de Nova Iorque. Estacionou numa zona de estacionamento proibido, abriu o porta-luvas e tirou de lá uma pequena tabuleta que dizia “Médico em Visita”.

- Isto representa uma pequena distorção do habitual significado desta frase, mas de qualquer modo é quase verdade - disse, sorrindo para Adam. - Agora, vamos planear o ataque. A sua vinda comigo destina-se a dar-lhe uma ideia de como é feita uma entrevista com um médico típico. Este chama-se doutor Jerry Smith. É um obstetra de grande êxito na Park Avenue. E também um grande burro. Está convencido de que é um gigante intelectual, pelo que é muito fácil dar-lhe graxa. Também gosta muito de amostras gratuitas, uma predilecção que teremos muito gosto em satisfazer. Alguma pergunta, antes da batalha?

Adam disse que não, mas quando saiu do carro sentiu-se perseguido pelo comentário do Dr. Markowitz, a respeito de desertar para o inimigo. Percy abriu o porta-bagagens e pediu a Adam para segurar num enorme chapéu-de-chuva, enquanto ele recolhia um grande monte de amostras de medicamentos.

- Os favoritos de Smith são os tranquilizantes - disse Percy. - Não faço ideia nenhuma do que é que ele faz com tudo isto.

Percy encheu uma caixa de cartão com uma grande variedade de medicamentos e depois fechou o porta-bagagens.

O consultório do Dr. Smith estava cheio de mulheres. O ambiente era abafado e cheirava a lã húmida.

Adam apressou-se atrás de Percy, que se dirigiu directamente à recepcionista. Relutante, Adam olhou em volta e viu muitos pares de olhos a observarem-no, por cima das revistas.

- Ólá, Carol - disse Percy. - Que espantoso vestido. E o cabelo! Tem qualquer coisa de diferente. Não me digas o que é, deixa-me adivinhar. Fizeste uma permanente. Céus, está formidável. Como é que vai o teu rapazinho? Bom, hein? Olha, deixa-me apresentar-te Adam Schonberg, que vai passar a tomar conta dos meus clientes. Olha, podes mostrar-nos essa tremenda fotografia que tens do teu rapaz? A do tapete de pele de urso.

Adam descobriu-se a segurar um cubo de plástico com fotografias diferentes em cada uma das faces. Percy ajustou-lho na mão, para ele observar um bebé bochechudo deitado em cima de uma toalha de banho.

- Então, Carol, e o teu pai? - perguntou Percy, tirando o cubo com fotografias da mão de Adam e tornando a colocá-lo sobre a secretária. - Já saiu do hospital?

Dois minutos depois Percy e Adam encontravam-se no gabinete de consultas do médico, aguardando o aparecimento do Dr. Smith.

- Essa actuação foi um espectáculo - sussurrou Adam.

- Ora, não custa nada - disse Percy, fazendo um gesto com a mão. - Mas vou dizer-lhe uma coisa. A recepcionista ou enfermeira é a pessoa que tem de impressionar e a quem é necessário agradar, no consultório de um médico. É ela que controla o acesso ao médico e se não lidar devidamente com ela, morrerá de velhice antes de poder entrar.

- Mas você actuou como se fosse um grande amigo daquela mulher - disse Adam. - Como é que sabe tudo isso a respeito da vida pessoal dela?

- A Arolen fornece-nos esse tipo de informações - explicou Percy calmamente. - A Arolen mantém ficheiros completos sobre todas as pessoas que trabalham para os médicos, bem como sobre os próprios médicos. Os dados vão para um computador. Quando quiser saber alguma coisa, basta fazer as perguntas. Não há nada de misterioso nisso. Trata-se apenas de prestar atenção aos detalhes.

Adam olhou em volta, observando o gabinete de Smith. Estava elegantemente mobilado, numa composição de armários escuros, laçados, e estantes com livros, do chão ao tecto. Virada para o centro da sala via-se uma enorme secretária de mogno, com um grande monte de jornais. Adam espreitou a data do número do Jornal Americano de Obstetrícia e Ginecologia que se encontrava por cima da pilha. Tinha já mais de um ano. A cinta dos correios ainda o envolvia. Nunca fora aberto.

A porta escancarou-se e o Dr. Smith parou no umbral, dizendo para a recepção:

- Ponha os próximos doentes nas salas seis e sete. Respondeu-lhe uma voz, mas demasiado distante para se poder perceber o que dissera.

- Já sei que estou atrasado - gritou o Dr. Smith. - Que tem isso de especial? - Diga-lhes que estou numa conferência importante.

Entrou no gabinete e fechou a porta atrás dele, com um pontapé.

- Enfermeiras, merda!

Era um homem grande, com uma impressionante barriga. As queixadas pesadas faziam-no parecer-se com um velho buldogue.

- Doutor Smith, como está? - cumprimentou-o Percy, com um ar radiante.

Smith permitiu que o delegado de vendas lhes apertasse a mão e bateu rapidamente em retirada para detrás da secretária, puxando por um maço de cigarros Camel com filtro. Acendeu um e soprou o fumo pelas narinas.

- Gostaria de lhe apresentar Adam Schonberg - continuou Percy, fazendo um gesto para designar Adam. - Iniciou o seu treino com a Arolen e eu estou a acompanhá-lo a uma visita aos nossos clientes de maior prestígio.

O médico sorriu e perguntou:

- Bom, rapazes, o que é que vocês têm para mim, esta manhã?

- Toda a espécie de amostras - respondeu Percy, colocando a caixa de cartão na beira da secretária e abrindo-a.

O Dr. Smith moveu-se ansiosamente para a frente, na sua cadeira.

- Sei que aprecia muito o Marlium, o mais vendido tranquilizante da Arolen, portanto, trouxe-lhe um bom fornecimento. Notará que a embalagem foi melhorada. Os pacientes adoram estes novos e brilhantes frascos amarelos. Tenho também um artigo para si. Os últimos estudos efectuados na clínica Julian indicam que o Marlium é, entre todos os tranquilizantes presentemente existentes no mercado, o que provoca menos efeitos secundários. No entanto, não necessito de lho dizer, pois o senhor tem-nos dito o mesmo há tanto tempo que já nem me lembro.

- Tem toda a razão - disse o Dr. Smith.

Percy arrumou as outras amostras de medicamentos, em filas perfeitas, em cima da secretária do Dr. Smith, mantendo sempre uma conversação fluida sobre a comprovada excelência dos vários produtos. Sempre que lhe era possível, congratulava a perspicácia do Dr. Smith, por receitar medicamentos da Arolen aos seus pacientes.

- E o melhor vem no fim - disse Percy. - Trouxe-lhe cinquenta caixas de amostras de Pregdolen. Sei bem que não necessito de o convencer das virtudes deste medicamento, para as náuseas matinais. O senhor foi um dos primeiros a reconhecer o seu valor. Contudo, tenho aqui uma cópia de um recente artigo que gostaria que o senhor lesse, quando tivesse oportunidade. Faz uma comparação entre o Pregdolen e outros medicamentos semelhantes existentes no mercado e demonstra que o Pregdolen é eliminado pelo fígado muito mais rapidamente do que qualquer outro produto apresentado pela concorrência.

Percy colocou um impresso por cima de uma das pilhas que se encontravam na secretária do Dr. Smith.

- A propósito, como é que vai o seu rapaz, David? Não está já na Universidade de Boston? Adam, devias encontrar-te com ele. Parece-se com o Tom Selleck, mas é melhor do que ele.

- Vai muito bem, obrigado - disse o Dr. Smith, com o rosto iluminado.

Tirou uma última fumaça do cigarro, antes de o esmagar num cinzeiro.

- O rapaz está num curso pré-médico, sabem?

- Sei - respondeu Percy. - Não vai ter qualquer dificuldade em entrar para a Escola Médica.

Quinze minutos depois Adam viu-se de novo a entrar para o lugar do “pendura” no Chevrolet Celebrity. Percy colocou o chapéu-de-chuva no pavimento do banco traseiro e depois sentou-se atrás do volante. Havia uma multa de estacionamento colocada por debaixo do limpa-pará-brisas.

- Oh, bem! - exclamou Percy. - Esta minha tabuleta nem sempre resulta. - Ligou o limpa-pará-brísas e a multa desapareceu. - E pronto - disse, levantando as mãos, como se tivesse acabado de fazer um truque de magia. - O carro está registado em nome da Arolen e o departamento respectivo toma conta deste tipo de coisas. Agora, vamos visitar o seguinte.

Cerca das onze e trinta, depois de saírem do consultório de um médico de clínica geral em Sutton Place South, Percy meteu-se no carro e descansou a cabeça sobre o volante:

- Creio que estou a ter uma crise de hipoglicemia. Tenho de comer qualquer coisa. É ainda demasiado cedo para si?

- Para mim, nunca é demasiado cedo - respondeu Adam.

- Óptimo! - disse Percy. - Uma vez que é a Arolen quem paga, vamos comer decentemente.

No passado, Adam troçara a propósito do “Quatro Estações”, dizendo que se tratava do restaurante que era o símbolo dos ricos, apesar de nunca lá ter estado. Quando Percy sugeriu que lá fossem comer, Adam pensou que ele estava a brincar. Quando o conduziu para o grill. Adam quase desmaiou.

Colocando o guardanapo de linho sobre as pernas, Adam tentou recordar-se como é que as coisas eram, na superlotada cafeteria do hospital. Parecia-lhe que ela estava a um milhão de quilómetros de distância. Um empregado perguntou a Adam se queria uma bebida. Não muito seguro de si, olhou para Percy, que encomendou um Martini. Que diabo, pensou Adam, afirmando rapidamente que também queria um.

- Bom, então qual é a sua impressão sobre o negócio, agora que já tem os pés molhados?

- É interessante - disse Adam de modo evasivo. - Come aqui todos os dias?

- Para dizer a verdade, não, mas McGuire disse-me que o devia impressionar.

Adam riu-se. Gostava da franqueza de Percy.

- Estou já suficientemente impressionado com as suas habilidades. Trabalha muito bem.

Percy abanou a cabeça.

- E fácil. É quase como pescar dentro de um aquário. Por alguma razão inexplicável, os médicos sabem muito pouco a respeito dos medicamentos. Talvez me possa dizer porquê.

Adam pensou durante um momento. Tivera cursos de farmacologia como toda a gente, mas era verdade que sabia muito pouco sobre a real utilização dos medicamentos. Tinham-lhe apenas ensinado quais as suas acções a nível celular. O pouco que conhecia acerca de prescrições, aprendera nas enfermarias. Antes de poder responder à pergunta de Percy, surgiram as bebidas que tinham pedido.

- Uma saúde à sua carreira na Arolen - disse Percy, erguendo o copo.

- O que é que há a respeito desse Pregdolen que tem andado a impingir? - perguntou Adam, lembrando-se das recentes queixas de Jennifer. - A minha mulher tem tido alguns problemas com os enjoos matinais. Talvez fosse bom eu levar um par dessas suas amostras.

- Se eu fosse a si, não o fazia - contrapôs Percy, subitamente sério. - Sei que a Arolen vende toneladas disso e que há muita gente que pensa que é a melhor coisa que existe no mundo, depois da invenção do pão, mas não creio que o medicamento resulte e há uma possibilidade de que seja tóxico.

- Que quer dizer? - perguntou Adam.

- Veio publicado em vários dos mais importantes jornais médicos - disse Percy, bebendo mais um gole da sua bebida. - Claro que não me refiro a esses artigos quando visito os médicos. É óbvio que eles não os leram, porque andam por aí a receitar essa droga como loucos. Isso acaba com o mito de que os médicos obtêm informações sobre os medicamentos, através dos seus jornais. Para a maior parte deles, isso é conversa fiada. Obtêm as informações sobre medicamentos, as poucas que recebem, de tipos como eu e eu só lhes digo o que me interessa.

Percy encolheu os ombros quando notou a expressão chocada de Adam.

- Você, melhor do que ninguém, deve saber que os médicos receitam por palpite ou por hábito. O nosso trabalho é fazer com que a Arolen se torne parte desse hábito.

Adam girou lentamente o copo e ficou a ver a azeitona a rodar. Começava a compreender a que é que teria de fechar os olhos, naquele tipo de trabalho.

Sentindo as dúvidas de Adam, Percy acrescentou:

- Para lhe dizer a verdade, honestamente, será um alívio para mim conseguir fugir a este trabalho de vendas.

- Então porquê? - perguntou Adam. Percy suspirou:

- Não sei bem se lhe deva contar muitas destas coisas. Não quero arrefecer o seu entusiasmo. Porém, na minha área, têm acontecido algumas coisas estranhas. Por exemplo, um certo número de médicos que eu visitava regularmente, foram tirados da minha lista de vendas. Ao princípio pensei que se tinham mudado, ou que tinham morrido, mas depois descobri que a maioria deles tinham ido a um congresso da Arolen, num cruzeiro, e que ao regressarem haviam abandonado os seus consultórios particulares, para irem exercer para a Clínica Julian. “Clínica Julian” despertou de novo uma estranha sensação na boca do estômago de Adam, quando se recordou do nome e da história que Jennifer lhe contara.

- A alguns desses médicos, eu conhecia-os na verdade muito bem - continuou Percy -, portanto, fui visitá-los, apesar da Clínica Julian não fazer parte da minha área. Uma das coisas que imediatamente me chamou a atenção foi o facto deles terem de algum modo mudado. Um bom exemplo é o do Dr. Lawrence Foley, a quem eu visitava desde que comecei a trabalhar para a Arolen. Não tinha grande inclinação para os produtos da Arolen, mas eu visitava-o, porque gostava do homem. Na verdade, até jogávamos ténis aí duas vezes por mês.

- É o Lawrence Foley que se suicidou há pouco? - perguntou Adam.

- Esse mesmo - disse Percy. - E esse suicídio faz parte do tipo de mudanças de que eu lhe estava a falar. Eu pensava que na verdade conhecia bem o homem. Era sócio de um dos mais procurados consultórios de obstetrícia e ginecologia. Então, tomou parte num cruzeiro da Arolen, regressou, largou tudo e foi trabalhar para a Clínica Julian. Quando lá o fui visitar, era um homem diferente. Estava tão preocupado com o trabalho que não conseguia arranjar tempo para jogar ténis. Além disso, ele não era do tipo dos que se suicidam. O homem nunca passara por uma depressão em toda a sua vida, gostava do seu trabalho e da mulher. Quando ouvi falar no que acontecera, nem quis acreditar. Depois de matar a mulher, meteu o cano da caçadeira na boca e...

- Estou a ver, não conte mais - disse Adam rapidamente. - Que vêm a ser esses cruzeiros da Arolen?

- São seminários de medicina muito populares, dados a bordo de um navio em cruzeiro, nas Caraíbas. Os conferencistas são os mais famosos professores e investigadores, nos vários campos. De todas as convenções médicas existentes no país, essas são as que têm a melhor reputação - disse Percy. - Mas isso é tudo o que sei. Como sou curioso, interroguei Clarence McGuire a esse respeito, mas ele afirmou-me que também não sabia muito mais, a não ser que eles são organizados pela MTIC.

- Se está realmente interessado - disse Adam - por que é que não pergunta ao Bill Shelly? Se é verdade o que me disse acerca da Arolen estar interessada em todas as informações sobre os médicos, creio que eles deveriam ficar fascinados com as suas observações. Além disso, posso dizer-lhe que Bill Shel-ly é um tipo surpreendentemente jovem e encantador.

- Não me diga! - exclamou Percy. - Talvez tenha razão. Talvez lá vá ainda esta tarde. Sempre tive vontade de conhecer Mister Shelly e esta pode ser a minha oportunidade.

Quando Adam pediu a Percy para o deixar em frente do Centro Médico, nessa tarde, tinha já a sensação que não iria ser o mesmo médico, depois de ter trabalhado com a Arolen. Tinham visitado dezasseis consultórios médicos e, de acordo com Percy, haviam oferecido mais de quinhentos frascos com amostras de medicamentos. A maior parte dos médicos tinha sido como Smith: ansiosos por conseguirem as amostras, rápidos a aceitarem os elogios de Percy.

Adam entrou no hospital pela porta da Escola Médica e dirigiu-se para a secção dos jornais, na biblioteca. Queria ver o que é que diziam do Pregdolen, nos jornais mais recentes. Os comentários de Percy tinham-no deixado cheio de curiosidade e não lhe agradava nada a ideia de vender um medicamento com efeitos secundários realmente maus.

Encontrou o que procurava num exemplar publicado já há dez meses do New England Journal of Medicine. Seria difícil passar despercebido a qualquer médico obstetra.

Tal como Percy sugerira, o Pregdolen mostrara-se ineficaz quando testado ante um placebo. De facto, em todos os casos, menos em três, o placebo dera muito melhor resultado no controlo dos enjoos matinais. Mas mais importante ainda era o facto de os estudos terem demonstrado que o Pregdolen era muitas vezes teratogénico, causando severas anormalidades no desenvolvimento dos fetos.

Voltando-se para o Journal of Applied Pharmacology, Adam descobriu que apesar da publicidade adversa, as vendas de Pregdolen mostravam uma firme subida ao longo dos anos, com um aumento muito impressionante nos últimos doze meses. Adam fechou o jornal sem saber se deveria ficar mais assustado com as capacidades de marketing da Arolen, ou com a ignorância dos obstetras.

Colocando a revista no seu lugar, chegou à conclusão que tudo aquilo era um jogo de caras ou coroas.

Percy Harmon sentia-se quase como senhor do mundo quando saiu da área de estacionamento do seu restaurante japonês favorito, depois de ter comido o célebre bife sukiyaki. O restaurante era longe, em Fort Lee, Nova Jérsia, mas àquela hora da noite, dez e trinta, não levaria mais de vinte minutos a regressar ao seu apartamento em Manhattan.

Não reparara num homem vulgar, de blazer azul e calças castanhas, que permanecera no bar durante todo o tempo que Percy gastara no restaurante. O homem observou-o até o Chevrolet azul desaparecer da sua vista e depois dirigiu-se à cabina telefónica mais próxima.

- Acabou de deixar o restaurante. Deve estar na garagem dentro de quinze minutos. Vou telefonar para o aeroporto - disse o homem para o auscultador.

Sem esperar resposta, o homem desligou a chamada e meteu mais duas moedas na ranhura. Carregou devagar nos botões, quase mecanicamente.

Conduzindo ao longo da Harlem River Drive, Percy penitenciava-se por nunca antes ter pensado em contactar com Bill Shelly. Não só recebera muito bem as observações de Percy, como até fora extremamente amigável. De facto, levara Percy a um encontro com o vice-presidente executivo. Aquele tipo de contactos, numa organização como a Arolen, era de um valor inapreciável. Percy sentia que o seu futuro nunca fora tão promissor.

Percy parou em frente da garagem que a Arolen lhe tinha destinado, apenas a quatro quarteirões do seu apartamento na Rua 74. Aquela distância só era inconveniente quando chovia. A garagem ficava numa enorme estrutura que parecia um armazém e que dominava a rua esburacada. A entrada estava fechada por uma imponente grade metálica. Percy carregou no botão do sistema de controlo remoto que guardava no porta-luvas e a grade subiu. Por cima da entrada havia um único letreiro que dizia “Recolhas, ao dia, semana ou mês”, seguido por um número de telefone.

Depois de Percy entrar com o carro, a grade metálica reactivou-se e, com um guincho terrível, fechou-se de novo, soltando um som cavo ao embater no chão. Não havia lugares marcados e Percy deu uma volta pelo rés-do-chão, na esperança de encontrar um lugar vazio. Preferia estacionar naquele piso, pois os espaços mal iluminados dos pisos inferiores deixavam-no sempre nervoso.

Por causa da hora tardia, foi obrigado a descer três pisos antes de conseguir descobrir uma vaga. Fechou o carro e caminhou em direcção à escada, assobiando para afugentar o nervoso. Os saltos dos seus sapatos ecoavam no chão de cimento manchado de óleo e, ao longe, ouvia água a pingar. Ao chegar às escadas, abriu a porta e quase desmaiou com o choque. Estavam ali dois homens, vestindo simples casacos azuis e calças de trabalho velhas e fora de moda. Nenhum deles se moveu, nenhum deles falou. Limitaram-se a ficar parados, bloqueando-lhe o caminho.

O medo espalhou-se pelo corpo de Percy como uma faísca eléctrica. Largou a porta e recuou. Um dos homens avançou e com um impulso violento fez a porta bater de encontro à parede. Percy virou-se e fugiu, correndo para as escadas que se encontravam no extremo oposto da garagem. As suas solas de cabedal escorregavam no pavimento, fazendo com que fosse difícil equilibrar-se.

Olhando por cima do ombro, ficou aliviado ao ver que nenhum dos dois homens o perseguia. Atingiu a porta na outra extremidade da garagem e tentou abri-la. A maçaneta não se moveu. O seu coração sentiu um baque. A porta estava fechada!

Tudo o que ouvia era o som áspero da sua própria respiração e o constante pingar de água. A única outra saída era a rampa dos carros e começou a avançar para lá. Estava quase a lá chegar quando viu a figura de um dos homens de pé, imóvel, de braços caídos, junto da base da rampa. Percy escondeu-se atrás de um carro e tentou pensar no que haveria de fazer. Era óbvio que os homens se tinham separado, um vigiava a escadaria e o outro a rampa. Foi então que Percy se lembrou do velho elevador para automóveis, no centro da garagem.

Mantendo-se abaixado, deslocou-se firmemente para o elevador. Quando o alcançou, levantou a grade de madeira, passou por debaixo dela e levantou-se. As outras três paredes do elevador eram fechadas com uma pesada e cerrada rede. A única luz vinha de uma lâmpada colocada por cima da sua cabeça. O dedo de Percy, a tremer, carregou no botão marcado com um “1”.

O elevador entrou em actividade com um estalido, seguido pelo zumbido agudo de um motor eléctrico. Para grande alívio de Percy, a plataforma estremeceu e começou lentamente a subir.

O elevador movia-se a uma velocidade agonizantemente lenta e Percy não estava a mais de um metro e oitenta do nível da rua quando os dois homens apareceram por debaixo dele.

Sem pressa, um deles caminhou para os comandos do elevador e, para grande horror de Percy, inverteu-lhes o sentido de marcha. Tomado pelo pânico, Percy carregou repetidamente no botão, mas o elevador continuou a sua inexorável descida. Gradualmente, compreendeu que eles haviam planeado forçá-lo a utilizar o elevador. Fora por isso que não o tinham perseguido. Queriam-no encurralado.

- Que é que vocês querem? - gritou. - Podem levar o meu dinheiro.

Desesperadamente, puxou da carteira e atirou-a pela grade de madeira, para o pavimento da garagem. Um dos homens dobrou-se e apanhou-a, sem sequer olhar para ela e meteu-a no bolso. O outro homem puxou de algo que Percy pensou tratar-se de uma arma. Porém, quando ficou mais perto, percebeu que era uma seringa.

Percy recuou para a traseira do elevador, sentindo-se como um animal encurralado. Quando a maquinaria parou, um dos homens avançou e ergueu o portão de madeira. Percy gritou de horror e escorregou para o chão.

Pouco mais de uma hora depois, uma carrinha azul entrou na pista do Aeroporto de Teterboro e parou em frente de um “jacto” Gulf Stream. Saíram dois homens, dirigiram-se às traseiras da carrinha e ergueram uma caixa de madeira de razoável tamanho. Silenciosamente, a porta de carga do avião começou a abrir-se.

Capítulo oitavo

Devia estar mais de uma centena de pessoas na sala de conferências. Tinham todos ido ver a graduação dos seus familiares ou amigos, no fim do curso de vendas da Arolen. Arnold Wiseman, o homem que estivera encarregado do curso, estava sentado em frente do pódio, ao lado de BUI Shelly. Para a direita deles via-se uma enorme bandeira americana.

Adam estava um pouco embaraçado com a cerimónia, pois considerava que as quatro semanas de aulas não mereciam o final espectacular que a Arolen preparava. No entanto, a festa condizia, pois Adam tinha já aprendido que nove décimos do que os delegados vendiam era puro espectáculo.

Quando pensou no assunto, Adam ficou espantado com a velocidade com que aquelas quatro semanas tinham passado. Desde o primeiro dia que compreendera que os seus dois anos e meio de Escola Médica o colocavam muito à frente de todos os outros. Metade dos outros estudantes tinham bacharelatos em Farmácia, cinco tinham o mestrado de Gestão de Empresas e os restantes eram provenientes de vários departamentos das Indústrias Farmacêuticas Arolen.

Adam olhou a multidão em busca de Jennifer, pensando que talvez ela houvesse mudado de opinião no último minuto e tivesse resolvido aparecer ali, mas mesmo enquanto o fazia compreendeu que a sua esperança era vã. Desde o princípio que ela se mostrara contrária ao seu emprego na Arolen, mas mesmo que tivesse reprimido o desagrado pelo seu novo trabalho, os seus enjoos matinais eram agora tão intensos que raramente saía de casa antes do meio-dia. Mas mesmo assim não conseguia deixar de olhar para todas aquelas mulheres de cabelos escuros que se encontravam entre a audiência, não fosse dar-se o caso de, por alguma espécie de milagre, ela já ter chegado.

Subitamente, os seus olhos que vagueavam para aqui e para acolá detiveram-se num homem baixo com cabelo escuro e encaracolado, com uma gabardina preta. Estava parado junto da entrada, com as mãos metidas nas algibeiras. Pousados no nariz aquilino ostentava óculos simples, de aros de metal.

Adam virou-se para o outro lado, pensando que os seus olhos o estavam a enganar. A seguir, lentamente, virou-se de novo para olhar o homem. Não havia dúvida. Era o seu pai.

Adam passou o resto da cerimónia num estado de choque. Quando terminaram as formalidades e se iniciou a recepção, abriu caminho até à porta onde o homem se encontrava. Era mesmo o seu pai.

- Pai? - disse Adam.

O Dr. Schonberg virou-se. Segurava um camarão, na ponta de um palito. Não havia qualquer sorriso, nem nos seus lábios nem nos olhos.

- Mas que surpresa - disse Adam, sem saber bem como actuar.

Sentia-se lisonjeado por o pai ali ter ido, mas estava também nervoso.

- Então é verdade - disse o Dr. Schonberg, ríspido. - Estás a trabalhar na Arolen!

Adam confirmou com um aceno.

- Que aconteceu à Escola Médica? - perguntou o Dr. Schonberg, zangado. - Que é que eu vou dizer à tua mãe? E depois de tudo o que passei para ter a certeza de que eras admitido!

- Creio que as minhas boas notas também tiveram alguma coisa a ver com a admissão - disse Adam. - De qualquer modo, voltarei para lá. Limitei-me a suspender os estudos.

- Porquê? - perguntou o Dr. Schonberg.

- Porque nós precisamos do dinheiro - respondeu Adam. - Vamos ter um filho.

Por instante, Adam pensou que vira um abrandamento na expressão do pai. A seguir, o Dr. Schonberg olhou para a sala, com um ar de desagrado.

- Portanto, aliaste-te a estes... - Fez um gesto para a sumptuosidade que o rodeava. - Não me digas que não sabes que estes tipos estão a tentar tomar conta da profissão médica.

- A Arolen fornece um serviço público - disse Adam, na defensiva.

- Poupa-me - retorquiu o Dr. Schonberg. - Não estou interessado na propaganda deles. As indústrias de medicamentos e os grupos financeiros que as controlam, existem para fazer dinheiro, como qualquer outra indústria, no entanto, gastam milhões em publicidade, tentando convencer o público do contrário. Pensar que o meu próprio filho se tornou numa parte disto por causa daquela rapariga com quem casou...

- Chama-se Jennifer - retorquiu Adam, sentindo que o sangue lhe subia à cara.

- Doutor David Schonberg. - Bill Shelly surgira por detrás de Adam, com uma taça de champanhe na mão. – Bem - vindo à Arolen. Tenho a certeza de que se sente tão orgulhoso do seu filho, como nós próprios. Chamo-me Bill Shelly. O Dr. Schonberg ignorou a mão que lhe era estendida.

- Sei quem você é - disse. - Para ser perfeitamente honesto, estou mais assustado do que orgulhoso, por ver o meu filho aqui. A única razão que me fez corresponder ao vosso convite foi para ter a certeza de que a Arolen não espera quaisquer considerações especiais apenas porque Adam se juntou à vossa organização.

- Pai... - murmurou Adam.

- Sempre apreciei a honestidade - disse Bill, retirando a mão que tinha estendida - e posso garantir-lhe que não contratámos Adam por causa do pai dele se encontrar na Administração da Food and Drug.

- Espero que seja verdade - contrapôs o Dr. Schonberg. - Não quero que pensem que a Arolen terá maiores facilidades na aprovação de novos medicamentos.

Sem esperar uma resposta, o Dr. Schonberg atirou com o camarão para um recipiente do lixo e abriu caminho através da multidão, em direcção à porta.

Incrédulo, Adam sacudiu a cabeça.

- Lamento muito - disse, para Bill Shelly.

- Não precisas de te desculpar - interrompeu-o Bill. - Não és responsável pelas crenças do teu pai. Ele tem tido muitas más experiências com outras companhias do nosso ramo, menos honestas. Só lamento que não tenha o contacto suficiente com a Arolen, para poder apreciar a diferença.

- Isso pode ser verdade - disse Adam -, mas não serve de desculpa para o seu comportamento.

- Talvez um dia possamos convencer o teu pai a participar num dos nossos cruzeiros. Já ouviste falar neles?

Adam acenou que sim, recordando-se de Percy Harmon. Havia um mês que não pensava no homem, mas agora perguntava a si mesmo por que motivo o genial delegado de vendas não se mantivera em contacto, tal como prometera.

- Já convidámos o teu pai muitas vezes - continuou Bill. - Não apenas para o cruzeiro, mas também para visitar o nosso centro de investigações em Porto Rico. Talvez o possas convencer a aceitar o nosso convite. Tenho a certeza de que se ele o fizesse mudaria de opinião a respeito da Arolen.

Adam forçou uma gargalhada.

- Neste momento da minha vida nem sequer conseguiria convencer o meu pai a aceitar gratuitamente um quadro de Rembrandt. Mal nos falamos. Para falar com franqueza, fiquei chocado ao vê-lo aqui hoje.

- É uma pena - disse Bill. - Gostaríamos imenso que o teu pai fosse um dos nossos conferencistas. Sabes que esses nossos seminários são os que têm a melhor reputação, no país. Claro que as despesas do teu pai seriam pagas, se ele concordasse em falar no seminário.

- Creio que o melhor é fazerem um apelo à minha mãe - disse Adam rindo-se.

- As esposas não são convidadas - respondeu Bill, conduzindo Adam para junto da mesa onde se encontrava o champanhe.

- Então porquê? - perguntou Adam, servindo-se de uma bebida.

- Porque os cruzeiros são estritamente académicos - respondeu Bill.

- Oh, claro! - comentou Adam.

- Falo a sério - retorquiu Bill. - Os cruzeiros são patrocinados pela Arolen, mas são orientados pelo MTIC. A única razão que levou a companhia a escolher um navio foi para manter os médicos afastados das suas habituais interrupções; não há telefone, não há pacientes, não há corre-tores da Bolsa. Cada um dos cruzeiros concentra-se numa questão particular, clínica ou de investigação, e convidamos os melhores homens, em cada um dos campos, a darem as conferências. A qualidade dos seminários é na verdade soberba.

- Portanto, o navio vai para o mar e lança a âncora? - perguntou Adam.

- Oh, não - respondeu Bill. - O navio parte de Miami, viaja para as ilhas Virgens, depois para Porto Rico e a seguir regressa a Miami. Alguns dos hóspedes, em geral os conferencistas, desembarcam em Porto Rico para visitarem o nosso centro de investigações.

- Portanto, é tudo trabalho e nada de divertimentos. Nem sequer um joguinho?

- Bem, por vezes joga-se um pouco - admitiu Bill com um sorriso. - De qualquer modo sei que o teu pai apreciaria a experiência, portanto, se conseguires ter alguma influência no que diz respeito a isso, podias tentar usá-la.

Adam confirmou com um aceno de cabeça, mas estava ainda a pensar em Percy Harmon. Parecera tão sincero que Adam se encontrava surpreendido por ele não ter telefonado. Ia perguntar a Shelly quando é que o delegado de propaganda deixara Manhattan, mas Bill interrompeu-lhe o pensamento ao dizer:

- Já pensaste um pouco mais na nossa oferta acerca do curso de gestão?

- Para lhe dizer a verdade - respondeu Adam -, estive completamente absorvido com o curso de vendas. Mas prometo-lhe pensar nisso.

- Seria boa ideia - disse Bill, os olhos a brilharem por cima do rebordo da sua taça de champanhe.

Algumas horas depois, nessa mesma tarde, Adam encontrava-se no gabinete de McGuire, tomando conta da sua área de vendas.

- Vais encarregar-te da área de Percy Harmon - disse McGuire. - Normalmente, entregaria esta zona a um delegado mais experiente, mas sabes que temos uma grande confiança em ti. Olha, deixa-me mostrar-te.

Clarence abriu um mapa de Manhattan, com uma larga zona da região este rodeada por um risco feito com um marcador amarelo. Começava na Rua 34 e seguia para norte, virava para oeste junto da 5.a Avenida e para este, junto do rio. Adam ficou desapontado por não incluir o seu Centro Médico, mas o Hospital de Nova Iorque, o Monte Sinai e a Clínica Julian estavam dentro das suas fronteiras.

Como se estivesse a ler os pensamentos de Adam, Clarence disse:

- Claro que compreendes que não és responsável pelos hospitais ou pelas grandes organizações de saúde, como a Clínica Julian.

- Por que não? - perguntou Adam.

- És ambicioso! - exclamou Clarence. - Descansa, posso garantir-te que terás trabalho suficiente só a ocupar-te com os médicos particulares da tua área. Todos os hospitais estão à responsabilidade dos nossos serviços centrais.

- A Clínica Julian é mais do que um hospital - disse Adam.

- É verdade - respondeu Clarence. - De facto, há uma relação especial entre a Arolen e a Julian, uma vez que ambas são controladas pelo MTIC. Consequentemente, a Julian permite à Arolen um acesso directo às informações clínicas e a Arolen concede à Julian oportunidades de educação especiais.

Inclinando-se para a frente, Clarence pegou numa folha de computador e colocou-a sobre as pernas de Adam.

- Se tiveres alguma preocupação quanto a teres pouco que fazer, então dá uma vista de olhos à tua lista de clientes.

O material que se encontrava sobre as pernas de Adam tinha um peso considerável. A primeira página dizia: “Lista de médicos da parte este de Manhattan.” Por baixo, vinha escrito: “Propriedade das Indústrias Farmacêuticas Arolen, Montclair, Nova Jérsia.” No canto inferior do lado direito estava estampada uma única palavra: “Confidencial.”

Adam passou rapidamente as folhas e viu uma lista alfabética de médicos, com a indicação de moradas e números de telefone. O primeiro nome da última página era do dr. Clark Vandermer: Rua 36, Este, número 67.

Enquanto Adam pensava em como se passaria uma visita feita ao obstetra de Jennifer, McGuire lançou-se numa longa descrição dos tipos de médicos que Adam teria de contactar.

- Alguma pergunta? - inquiriu, finalmente.

- Sim - respondeu Adam, lembrando-se da pergunta que se esquecera de fazer a Shelly, naquela manhã. - Sabe o que é que aconteceu a Percy Harmon?

Clarence abanou a cabeça.

- Ouvi dizer que ele ia seguir o curso de gestão em Porto Rico mas não sei se na realidade o fez. Não faço ideia. Por que é que perguntas?

- Por nenhuma razão em particular - respondeu Adam.

- Bom, se não tens mais perguntas, podes ir-te embora. Estaremos sempre à tua disposição, se precisares de nós. Ah, quase me esquecia, estão aqui as chaves do teu carro da Arolen. É um Buick Century.

Adam pegou nas chaves.

- E aqui está o endereço de um edifício de estacionamentos. Foi o mais perto da tua casa que o meu pessoal conseguiu arranjar. Já pagámos a renda.

Adam pegou no papel, mais uma vez espantado com a generosidade da sua companhia. Um lugar para guardar o carro, dentro da cidade, valia tanto como o próprio carro.

- E, finalmente, mas não menos importante, aqui está o teu código de acesso ao computador, tal como te explicámos durante o curso de vendas. O teu computador pessoal está no porta-bagagem do carro. Boa sorte.

Adam pegou no último envelope e mais uma vez trocou um aperto de mão com o director de vendas do distrito. Era agora, oficialmente, um delegado de propaganda da Arolen.

Depois de sintonizar o rádio para o FM, onde estavam a transmitir música rock, Adam fez descer o vidro e, descontrai-damente, apoiou o cotovelo na janela. Viajando a oitenta quilómetros por hora, sentia-se extremamente leve e bem-disposto. A seguir lembrou-se da resmungona descrença do seu pai e o sorriso apagou-se-lhe do rosto.

- Precisamos de dinheiro! - disse, em voz alta. - Se nos tivesses ajudado, eu ainda estaria na Escola Médica!

A sua disposição não melhorou quando chegou ao apartamento e o encontrou vazio, com um bilhetinho colado no frigorífico: “Vou para casa.” Adam rasgou o bilhete e atirou-o para o outro lado da cozinha.

Abriu a porta do frigorífico e espreitou lá para dentro. Ainda tinha uns restos de galinha assada. Pegou-lhe, juntamente com um frasco de maionese e dois bocados de pão de centeio. Depois de fazer uma sanduíche, dirigiu-se para a sala e instalou o seu computador pessoal. Ligando-o, marcou o código de acesso. Que médico é que deveria investigar? Hesitando um instante, marcou o nome do Dr. Vandermer. A seguir tirou o auscultador do telefone do seu apoio e encaixou-o no modem. Quando tudo estava pronto, carregou na tecla de execução, inclinou-se para trás e deu uma grande dentada na sanduíche. Pequenas luzes vermelhas acenderam-se no modem, indicando que já estava ligado ao computador principal da Arolen.

O écran que se encontrava na frente de Adam cintilou e a seguir apareceu um texto. Adam deixou de mastigar por momentos e chegou-se para a frente, para ler.

CLARK VANDERMER, M.D., F.A.C.O.G.

- Dados biográficos - Dados pessoais - Dados económicos - Dados profissionais - Dados de uso de medicamentos (carregue na tecla de espacejamento para selecção).

Com o interesse despeitado, Adam premiu a tecla de espacejamento até o cursor ficar junto de “Dados pessoais”. A seguir premiu a tecla de execução. Surgiu um novo índice:

- DADOS PESSOAIS - História familiar (passada) incluindo pais e parentes - História familiar (presente) incluindo mulher e filhos - Interesses e passatempos.

- Preferências e antipatias - História social (inclui educação)

- História da saúde - Perfil de personalidade (carregue na tecla de espacejamento para selecção).

Meu Deus, pensou Adam, isto é o 1984 de Orwell. Deslocou o curso para “História da família (presente)” e de novo premiu a tecla de execução. O écran encheu-se imediatamente com um extenso texto. Durante os dez minutos seguintes Adam leu dados sobre a mulher e os filhos de Clark Vandermer. Tratava-se quase tudo de detalhes insignificantes, mas também tinha ali coisas importantes. Adam ficou a saber que a mulher de Vandermer fora hospitalizada três vezes por causa de depressões, a seguir ao nascimento da terceira criança. Descobriu também que a criança do meio, uma rapariga, fora diagnosticada como sofrendo de anorexia nervosa.

Adam olhou para o écran, apavorado. Não havia razão para que uma empresa de medicamentos como a Arolen tivesse dados tão completos sobre um médico. Suspeitava que tudo o que lhes poderia ser útil deveria estar registado sob a categoria “Dados de uso de medicamentos”. Para provar o seu ponto de vista, Adam chamou essa categoria e recebeu o que esperava, ou seja, uma análise sobre os hábitos de prescrição de Vandermer, incluindo as quantidades de cada tipo de medicamentos que ele receitava por ano.

Regressando ao índice, Adam pediu ao computador para imprimir, na matriz de alta velocidade, um relatório completo sobre o Dr. Vandermer. A impressora entrou em acção e Adam regressou à cozinha, em busca de uma Coca-Cola.

Passaram-se trinta e dois minutos antes de a impressora finalmente se imobilizar. Adam arrancou a última folha e recolheu a longa fita de papel que se amontoara atrás do computador. Tinha quase cinquenta páginas. Adam perguntou a si próprio se o bom do médico teria alguma ideia sobre a quantidade de informações que a Arolen recolhera a seu respeito.

O conteúdo do relatório era seco e maçadoramente completo. Incluía até os investimentos de Vandermer. Adam saltou muita coisa até chegar às informações sobre a actividade profissional do médico. Descobriu que ele fora um dos fundadores dos Ginecologistas Associados, juntamente com Lawrence Foley! Lawrence Foley, o médico que se suicidara tão inesperadamente. Adam interrogou-se sobre se Jennifer saberia que o Dr. Foley fora sócio do seu próprio médico.

Continuando a ler, ficou a saber que os actuais associados de Vandermer eram os doutores John Stens e June Baumgarten.

Com a curiosidade espicaçada, Adam decidiu que o Dr. Vandermer seria o seu primeiro cliente. Lembrando-se do conselho de Percy Harmon, de que o caminho para atingir um médico passava pela sua recepcionista, marcou o nome dela no computador. Chamava-se Christine Morgan. Tinha vinte e sete anos, casada com David Morgan, pintor, e tinha uma criança, um rapaz, David Júnior, a quem chamavam DJ.

Tentanto manter um ar confiante, como o de Percy Harmon, ligou para os Ginecologistas Associados. Quando Christine respondeu, explicou-lhe que estava a ocupar o lugar de Harmon. Mencionou, de passagem, que o delegado lhe falara muito calorosamente do simpático filho que ela tinha. Devia ter feito a coisa bem-feita, porque Christine disse-lhe para aparecer imediatamente, que ela tentaria fazer com que ele entrasse.

Cinco minutos depois Adam dirigia-se para norte pela Park Avenue, procurando recordar-se quais os medicamentos da Aro-len que devia tentar impingir aos obstetras e ginecologistas. Decidiu que se iria concentrar numa linha de vitaminas que a Arolen aconselhava para o período da gravidez.

Na proximidade da Rua 36 e na Park Avenue e até nas zonas de estacionamento proibido era difícil encontrar um lugar para estacionar. Contentou-se com um espaço reservado a uma boca de incêndio, entre a Park e a Lexington. Depois de fechar o carro, dirigiu-se às traseiras e abriu o porta-bagagens. Estava quase cheio, com um fornecimento completo de amostras gratuitas da Arolen, impressos e outros artigos. Havia também uma dúzia de canetas Cross, com o logotipo da Arolen. Adam podia oferecê-las à sua vontade.

Seleccionou os medicamentos apropriados e os impressos e colocou-os na sua mala. Meteu uma das canetas no bolso do casaco. Fechando a mala do carro, dirigiu-se rapidamente para o consultório de Vandermer.

Christine era uma mulher com uma permanente muito curta e umas maneiras que a faziam parecer-se com um pássaro assustado. Fez deslizar a placa de vidro que se encontrava na sua frente e perguntou se lhe podia ser útil.

- Sou Adam Schonberg, da Arolen - disse ele, com o sorriso mais rasgado que lhe foi possível fazer, enquanto entregava o seu primeiro cartão-de-visita, da Arolen. Ela devolveu-lhe o sorriso e fez-lhe sinal para que entrasse para a área da recepção. Depois de ele ter admirado as suas mais recentes fotos de DJ, Christine fê-lo entrar para um dos consultórios que se encontrava vazio, prometendo ao mesmo tempo que informaria a enfermeira-chefe que ele ali se encontrava.

Adam sentou-se no banco em frente da pequena secretária branca. Observou a marquesa, com os seus apoios em aço inoxidável. Era-lhe difícil imaginar Jennifer ali deitada, como paciente.

Alguns momentos mais tarde a porta abriu-se de repente e o Dr. Clark Vandermer entrou. Para passar o tempo, Adam tinha aberto uma das gavetas da secretária e olhava para a colecção de canetas, blocos de receitas e impressos para análises. Corando profundamente, fechou a gaveta e levantou-se.

- Estava à procura de alguma coisa em especial? - perguntou o Dr. Vandermer, num tom sarcástico. Tinha na mão o cartão-de-visita de Adam e olhava alternadamente para o cartão e para o embaraçado rosto de Adam. - Quem diabo é que o deixou entrar aqui?

- O seu pessoal - conseguiu ele dizer, propositadamente vago.

- Tenho de falar com elas - disse o Dr. Vandermer, virando-se para sair. - Vou pedir a alguém que o ponha lá fora. Tenho pacientes para ver.

- Trago-lhe algumas amostras-disse Adam rapidamente. - E também uma caneta Cross. - Apressadamente, retirou a caneta do bolso e estendeu-a a Vandermer, que se preparava para rasgar o cartão-de-visita ao meio.

- Você estará por acaso relacionado com Jennifer Schonberg? - perguntou o Dr. Vandermer.

- E a minha mulher - respondeu Adam apressadamente, acrescentando: - E uma das suas pacientes.

- Pensei que você era um estudante de Medicina - disse o Dr. Vandermer.

- É verdade - respondeu Adam.

- Então que diabo de parvoíce é esta? - perguntou Vandermer, agitando o cartão da Arolen.

- Pedi uma suspensão dos estudos, na Escola Médica - disse Adam, na defensiva. - Com a Jennifer grávida, precisávamos de dinheiro.

- Não é a altura mais conveniente para vocês terem um bebé - comentou Vandermer, pedantemente. - Mas se são bastante loucos para o fazerem, a sua mulher ainda pode trabalhar.

- Ela é dançarina - disse Adam.

Recordando-se dos problemas pessoais do próprio Vandermer, Adam pensava que não se tratava da pessoa mais indicada para lhe dar conselhos tão simplistas.

- Bom, é um crime ter deixado a Escola Médica. E a trabalhar como delegado de propaganda, para uma firma de medicamentos. Meu Deus, que desperdício!

Adam mordeu o lábio. Vandermer estava a começar a parecer-se com o seu pai. Esperando acabar com as censuras, perguntou a Vandermer se havia alguma coisa que pudesse ser feita para aliviar os enjoos matinais de Jennifer.

- Cinquenta por cento das minhas pacientes sofrem de enjoos matinais - disse Vandermer, fazendo um aceno com a mão. - A não ser que isso conduza a problemas nutricionais, o melhor é tratar do caso sintomaticamente. Não gosto de usar medicamentos quando os posso evitar, em especial se se tratar do Pregdolen da Arolen. E não comece a brincar aos médicos e a dar-lhe uma dessas porcarias. Não é seguro, apesar da sua popularidade.

A opinião do Dr. Adam acerca do Dr. Vandermer, subiu um pouco. Podia ser desagradavelmente brusco, mas, pelo menos, estava em data com as suas leituras médicas.

- Já que está aqui - disse o Dr. Vandermer - sempre poderá poupar-me um telefonema. Fui convidado para dar umas conferências, para a semana, num cruzeiro da Arolen. Qual é a última hora para embarcar, em Miami?

- Não faço a menor ideia - admitiu Adam.

- Maravilhoso - comentou o Dr. Vandermer, voltando ao seu tom sarcástico. - Agora faça o favor de me acompanhar.

Pegando na sua pasta, Adam seguiu o homem para fora do consultório e ao longo do estreito corredor. Depois de cerca de vinte passos, Vandermer parou, abriu uma porta e desviou-se para deixar passar Adam. Quando este o fez, Vandermer atirou-lhe para as mãos o cartão da Arolen e, sem qualquer cerimónia, fechou-lhe a porta na cara. Pestanejando, Adam viu-se de novo na apinhada sala de espera.

- Falou com o doutor? - perguntou Christine.

- Falei, sim - respondeu Adam, enquanto se interrogava por que diabo não tinha discutido os cruzeiros da Arolen, durante o curso de vendas. Se tivesse sabido responder à pergunta de Vandermer, talvez isso lhe proporcionasse a oportunidade para fazer a sua jogada.

- Eu bem lhe disse que o conseguiria fazer entrar - disse Christine, orgulhosa.

Adam ia perguntar-lhe se poderia falar com qualquer um dos outros médicos, quando reparou nas tabuletas com nomes na parede por detrás da recepcionista. Além de Vandermer, Baumgarten e Stens, nas tabuletas constavam também os nomes do Dr. Lawrence Foley e do Dr. Stuart Smyth. Adam não se recordava de ter visto um Dr. Smyth na ficha do Dr. Vander-mer.

Metendo a mão no bolso, puxou pela caneta Cross.

- Tenho uma pequena surpresa para si - disse, estendendo-a a Christine. Sem prestar atenção aos seus agradecimentos, apontou para o nome do Dr. Smyth. - É um novo associado?

- Oh, não - respondeu Christine. - O doutor Smyth faz parte da sociedade já há quinze anos. Infelizmente, está bastante doente. Na verdade, nunca o vi muitas vezes. Marcava a maior parte das suas consultas na Clínica Julian.

Adam voltou a observar as tabuletas com os nomes.

- Aquele é o doutor Foley que se suicidou?

- Sim. Foi uma tragédia - disse Christine. - Era o meu médico favorito. Mas também não o vi muitas vezes, nestes últimos seis meses. Também começou a atender as clientes na Clínica Julian.

O comentário de Christine agitou a memória de Adam. Percy Harmon mostrara-se preocupado pelo facto de tantos médicos, incluindo o Dr. Foley, estarem a abandonar as suas consultas particulares para irem para a Clínica Julian.

- Estava cá quando o doutor Foley se foi embora? - perguntou Adam.

- Infelizmente - respondeu Christine. - Foi um pesadelo. Tivemos de telefonar a todas as suas pacientes e marcar novas consultas.

- Ele fez alguma viagem antes de se ir embora daqui?

- Creio que sim - disse Christine. - Se bem me recordo, esteve num encontro médico qualquer. Creio que foi um cruzeiro.

- E os doutores Baumgarten e Stens? Estão cá hoje?

- Lamento muito - disse Christine -, mas estão ambos na cirurgia.

- Não compreendo - disse Adam duas horas mais tarde, agitando uma costeleta de porco em frente de Jennifer. - Como é que estavas a sentir-te demasiado mal para ires até à Arolen hoje de manhã, mas suficientemente bem para ires às compras com a tua mãe, durante toda a tarde?

Jennifer baixou os olhos, empurrando o esparregado de um lado para o outro, no prato. Anteriormente, tentara explicar a Adam que era importante para ela ter uma conversa com a mãe.

Mas Adam pusera de parte a sua explicação e agora, em vez de dizer qualquer coisa desagradável, preferiu não dizer nada.

Adam tamborilou com os dedos no tampo de fórmica. Desde que Jennifer soubera que estava grávida que eles pareciam incapazes de conversar racionalmente sobre qualquer assunto. Adam receava que se a criticasse mais, ela começasse a chorar.

- Olha - disse -, esqueçamo-nos do dia de hoje. Vamos saborear o jantar. Estás maravilhosa. Esse vestido é novo?

Ela fez um aceno de confirmação e Adam calculou que se tratasse de um presente da mãe.

- É bonito - disse ele diplomaticamente, mas Jennifer não queria ser acalentada.

- O vestido pode ser bonito, mas eu tenho um aspecto horroroso. Pensei que quando estivesse grávida brilharia de feminilidade, mas sinto-me apenas gorda e pouco atraente. - Quando Adam não respondeu, acrescentou: - Creio que muito disto tem a ver com estes malditos enjoos. Não sei por que é que lhe chamam náuseas matinais, quando elas parecem durar todo o dia.

Adam inclinou-se por cima da mesa e apertou-lhe a mão. Esperando alegrá-la, começou a contar-lhe a sua desastrosa visita ao Dr. Vandermer. Enquanto falava, o rosto dela começou a descontrair-se.

- Já te tinha dito que ele tem uns modos terríveis - admitiu Jennifer rindo-se. - Disse-te alguma coisa de útil acerca dos enjoos?

- Não, disse apenas que eles acabarão por passar e que tu vais muito bem.

Jennifer suspirou. Enquanto regressavam do restaurante, a pé, Jennifer pouco disse e logo que chegaram a casa meteu-se na cama e legou a televisão para ver a série Dinastia.

Deprimido com o seu primeiro dia como delegado e preocupado com o silêncio da mulher, Adam virou-se, agitado, para o computador. Sem saber o que fazer, pediu os Ginecologistas Associados, pensando que seria melhor acrescentar o nome do Dr. Smyth. Para sua surpresa, o nome já lá estava. Pensando que tinha cometido um erro naquela tarde, foi procurar as folhas com os dados sobre o Dr. Vandermer. O nome de Smyth não vinha na lista. Para fazer uma verificação, chamou ao écran os dois outros sócios, Stens e Baumgarten. Nem Smyth nem Foley apareciam nas suas fichas.

Adam mordeu o lábio inferior. Deveriam ter verificações dos programas, capazes de notarem uma tal omissão. Ou talvez os programadores se tivessem esquecido de fazer uma verificação. Se fora essa a causa, Adam achava que devia informar a Arolen.

Interrogando-se sobre quais os sócios que apareceriam na ficha de Smyth, Adam marcou o nome do médico. O monitor brilhou e a seguir apresentou uma curta mensagem: “Obste-trícia-Ginecologia, Conferência-Cruzeiro 9.9.83. Curso de reciclagem planeado para 6.5.84 com visita ao centro de investigações de Porto Rico.” Adam esfregou os cantos da boca. Era Óbvio que o computador tinha conhecimento da existência de Smyth mas, aparentemente, não havia dados sobre ele. Adam não podia compreender tal coisa.

Abriu a sua lista de clientes e correu o dedo ao longo dela. Smyth não era mencionado. Adam chegou à conclusão que a Arolen contactava Smyth na Clínica Julian apesar dele ser, tecnicamente, um membro dos Ginecologistas Associados. Mesmo assim, aquilo parecia-lhe muito peculiar.

Intrigado, Adam decidiu ver a ficha do Dr. Lawrence Foley. A máquina imprimiu uma única palavra: “Terminado.”

Belo humor doentio, por parte de algum dos programadores, pensou Adam.

Durante as três semanas seguintes a eficiência de Adam, como vendedor, aumentou grandemente. Enquanto ele fornecesse os médicos da sua lista de clientes com amostras, a maior parte deles ficava muito satisfeita a ouvi-lo louvar as virtudes das Indústrias Farmacêuticas Arolen. Raramente questionavam as suas afirmações ou levantavam perguntas sobre possíveis efeitos secundários. Adam passava-lhes alegremente toda a linha de medicamentos da Arolen, com uma única excepção: o Pregdolen. O artigo do jornal e o aviso de Vandermer tinham-no deixado impressionado e ele não queria sentir-se responsável pelo encorajamento do uso de um medicamento potencialmente perigoso.

Ao fim da tarde, procurava no computador as informações sobre os médicos que iria visitar no dia seguinte, mas apenas em busca de dados que lhe permitissem um melhor contacto e melhores vendas. Decidira não se preocupar com possíveis pmissões ou faltas de precisão dos programas, como a que descobrira nos Ginecologistas Associados.

Então, quando já começava a sentir-se à vontade na sua nova rotina, aconteceu uma coisa que de novo lhe despertou dúvidas. Tinha marcado um encontro com um grupo de atarefados internos, mas quando lá chegou, a recepcionista disse-lhe que tinham todos de cancelar o encontro. Um dos sócios acabara de regressar de um cruzeiro da Arolen e anunciara que iria abandonar a medicina privada e ia trabalhar para a Clínica Ju-lian. Os outros médicos estavam furiosos e extremamente aflitos, tentando acomodar todos os pacientes.

Adam afastou-se, recordando-se de que Percy lhe falara num incidente semelhante. A seguir, isso lembrou-o de que nunca viera a saber por que é que Percy não lhe tinha telefonado. Quando perguntara, em Nova Jérsia, ninguém parecia saber muito bem onde é que Harmon se encontrava, apesar de, aparentemente, não ter ido para Porto Rico, tal como planeara. Uma vez que sabia que Percy estava tão entusiasmado quanto ao curso de gestão, Adam achou tudo aquilo muito perturbador.

Uma tarde em que acabou mais cedo as suas voltas, decidiu ir até à sede para ver se Bill Shelly podia responder a algumas das suas interrogações. Sentia-se cada vez mais curioso acerca dos misteriosos cruzeiros da Arolen. Enquanto não se sentia pronto para se mudar para Porto Rico, achava que um seminário médico de cinco dias, no mar, podia ser fascinante. Sentir-se-ia como se estivesse de volta à Escola Médica. E, além disso, talvez umas pequenas férias pusessem a sua vida de casado de novo numa perspectiva correcta. Os enjoos de Jennifer tinham piorado e ela passava cada vez mais tempo em casa dos pais. Quando Adam a tentava interessar pelo seu novo trabalho, ou persuadir a telefonar a algumas das suas amigas, ela não lhe prestava atenção.

Eram quase três e trinta quando Adam abandonou o carro no estacionamento da Arolen. Shelly dissera que estaria livre até às quatro horas. Um guarda uniformizado confirmou a entrevista com o gabinete de Shelly, antes de deixar Adam entrar. Quando chegou ao andar dos executivos, a secretária de Bill, Joyce, aguardava-o junto da recepcionista.

- Prazer em vê-lo, Mister Schonberg - disse. - Bill está lá em cima. Importa-se de me seguir?

Do outro lado do vestíbulo, Joyce abriu a porta, fechada à chave, de um pequeno elevador. Entrou e, usando a mesma chave, seleccionou o vigésimo segundo andar. Adam ficou espantado quando descobriu que estava a subir no exterior do edifício, dentro de uma caixa de vidro. Não era uma sensação agradável, pelo que fechou os olhos à paisagem dos campos de Jersia, até que o elevador se deteve.

Foi recebido por um homem de grande musculatura, com uma T-shirt e umas calças de caqui.

- Adam Schonberg? - perguntou, antes de conduzir Adam por um corredor inundado de sol.

Toda a parede exterior do edifício era de vidro e Adam caminhou o mais longe dela que lhe foi possível. Não tinha propriamente medo das alturas, mas não as apreciava muito. Sentiu-se melhor quando entraram numa grande sala, que estava vazia. Havia uma televisão ligada para os noticiários. Para lá da sala via-se uma sala “Nautilus” e para lá dela uma divisão com armários e cabinas de massagem. Uma porta branca, no extremo oposto, dava para a piscina.

O homem com a T-shirt abriu-lhe a porta mas não acompanhou Adam para lá dela. A luz do outro lado era tão intensa que durante alguns momentos Adam quase não conseguiu ver. Toda uma parede era inteiramente em vidro, erguendo-se por dois andares e curvando para trás, para formar uma parte do telhado. O pavimento era feito de brilhante mármore branco e a própria piscina era construída de mosaicos brancos com traços azuis. Um nadador solitário dava braçadas vigorosas. Quando chegou ao fim da piscina e deu a volta, avistou Adam e nadou para a borda. Usava uns pequenos óculos que apenas lhe cobriam os olhos e uma touca de borracha preta, como a dos nadadores de competição.

- Que tal um banho? - perguntou Bill Shelly. Adam abanou a cabeça.

- Peço desculpa, mas esqueci-me de trazer um fato de banho.

- Não há necessidade de um fato de banho, neste momento. Estamos na hora dos homens. Estou certo que Paul será capaz de desencantar uma toalha em qualquer lado.

Adam hesitou. Não tinha qualquer razão para recusar e a possibilidade de nadar a vinte e tal andares de altura não surgia todos os dias.

- Está bem - disse. - Onde é que está o Paul?

- Volta ao vestiário, onde estão os armários. Verás um botão na parede. Carrega nele e Paul surgirá, como se fosse um génio.

Adam fez o que lhe tinham dito. Paul levou-o a um armário e forneceu-lhe uma enorme toalha e um roupão de turco branco.

Adam despiu-se e vestiu o roupão. Voltando ao exterior, sentiu-se tremendamente consciente da sua pele branca de Inverno e interrogou-se sobre como seria que Shelly conservava o bronzeado. Sentindo-se demasiado consciente de si próprio, tirou o roupão protector e mergulhou. A água parecia gelo.

- Mantemos a piscina fria, para ser mais estimulante - explicou Bill, quando viu a expressão de dor no rosto de Adam.

Depois de começar a nadar, Adam sentiu-se melhor, mas quando tentou imitar as voltas, em cambalhota, que Bill fazia, conseguiu apenas encher o nariz de água. Veio acima cuspindo e tossindo.

Bill teve pena dele e conduziu-o de novo ao vestiário, sugerindo que levassem os dois uma pequena massagem.

- Muito bem, por que é que querias falar comigo? - perguntou Bill, depois de se instalarem em mesas contíguas.

Adam hesitou. Apesar de Bill ter sido sempre simpático para com ele, nunca abanonava as suas maneiras frias de chefe.

- Queria informar-me melhor a respeito desses cruzeiros-conferências - disse Adam, enquanto Paul lhe indicava que se devia deitar de costas. - Os meus clientes perguntam-me muitas vezes por eles.

- O que é que eles querem saber?

- Quem é que pode ir. Como é que estão planeadas as várias especialidades. Se há alguém na Arolen a quem possam telefonar a pedir informações.

- Podem ligar para o telefone gratuito da MTIC - disse Bill, rigidamente. - E eu que estava à espera que me fosses dizer que querias ir para o curso de gestão...

- Ainda não - respondeu Adam, enquanto Paul lhe continuava a massajar os ombros. - Mas gostaria de saber se seria possível considerar a hipótese de me enviarem num desses cruzeiros. Os delegados de propaganda podem ir?

- Receio bem que não - respondeu Bill, levantando-se e começando a vestir-se. - Há muitas pessoas aqui que gostariam de ir. Infelizmente, o Fiord não é um navio assim tão grande. De qualquer modo, acharias aquilo muito aborrecido. Uma vez que a finalidade do programa é actualizar os médicos e a maior parte das áreas de diversão do navio foram convertidas em salas de conferências.

- Mesmo assim, gostaria de ir.

- Lamento muito - disse Bill, que estava obviamente a perder interesse no assunto. Dirigiu-se para o espelho, para pôr a gravata. - Creio que o melhor que tens a fazer é concentrar-te no trabalho que estás encarregado de fazer.

Adam chegou à conclusão que não era a altura de fazer perguntas a propósito de todos aqueles médicos que tinham abandonado os seus consultórios particulares, depois de terem ido a um cruzeiro. Era visível que Bill Shelly estava a começar a ficar irritado com as perguntas de Adam. Enquanto se vestia e seguia Bill para o elevador, Adam teve o cuidado de responder a perguntas, sem fazer mais nenhuma. Mas, mais tarde, guiando de regresso a Nova Iorque, continuou a ponderar nalgumas das estranhas ocorrências que, agora, associava com os cruzeiros da Arolen. Em particular, uma das coisas mais perturbadoras era o desaparecimento de Percy Harmon. Quando Adam descobrira que Percy não fora para Porto Rico, tentara telefonar-lhe mas ninguém respondera. Quando entrou na cidade, pelo Túnel Lincoln, decidiu passar pelo apartamento de Percy. Talvez algum dos seus vizinhos soubesse onde é que ele estava.

Percy vivia num arruinado edifício de pedra acastanhada a quatro portas de distância da 2.a Avenida. Adam encontrou o nome de Percy Harmon junto do botão do apartamento 3C. Premiu-o e aguardou.

Diagonalmente, do outro lado da rua, um homem com um amarrotado fato azul atirou um cigarro para o chão e esmagou-o com o salto do sapato. Olhando para os dois lados da rua, começou a atravessá-la em direcção à casa de pedra castanha, com a mão a dirigir-se para o bolso interior do casaco.

Adam agitou-se, mudou o peso do corpo de uma perna para a outra e tocou para a porteira do prédio. Quase imediatamente ouviu o rouco zumbido da fechadura eléctrica, que ecoou no pequeno átrio, e empurrou a porta. O interior também estava muito degradado, mas bastante mais limpo do que o edifício onde Adam vivia. No andar inferior, Adam escutou o ruído de uma porta a abrir-se. Avançou para as escadas e espreitou lá para baixo. Um homem por barbear, com uma camisola interior sem mangas, vinha a subir.

- O que é que quer - perguntou o porteiro do prédio.

- Ando à procura de Percy Harmon - respondeu Adam.

- Você e toda a gente - vociferou o homem, muito pouco impressionado. - Não está cá e já não o vejo há mais de um mês.

- Desculpe tê-lo incomodado - disse Adam, enquanto o homem voltava a descer.

Virando-se para se ir embora, Adam hesitou junto das escadas. Ouviu fechar-se a porta e, num súbito impulso, subiu silenciosamente até ao terceiro andar. Bateu no 3C, mas não recebeu resposta. Tentou a porta, mas encontrava-se fechada. Estava a pensar em deixar um bilhete quando viu a janela ao fundo do corredor, dando para a escada de incêndio.

Apesar de nunca ter feito uma coisa assim em toda a sua vida, Adam abriu a janela e soltou para o exterior. Tinha uma intuitiva sensação de que acontecera qualquer coisa a Percy.

Queria espreitar o apartamento, para ver se havia algum sinal que lhe indicasse há quanto tempo ele não se encontrava em casa.

A escada de incêndio era velha e enferrujada e Adam procurou não olhar para baixo, pelas grades de metal, para o pátio de cimento. Avançando devagar, com as mãos agarradas à parede, Adam atingiu finalmente a janela de Percy. Estava aberta cerca de cinco centímetros. Esperando que ninguém o visse e chamasse a polícia, Adam abriu a janela completamente. Já que fora tão longe, pensou que não tinha nada a perder e soltou para dentro do húmido quarto de Percy.

Com o coração a bater violentamente, deu a volta à cama por fazer e abriu a porta do roupeiro. Estava cheio de roupas. Virando-se, olhou para a casa de banho. O nível de água na sanita estava muito baixo, sugerindo que a mesma não era usada há muito tempo.

Adam voltou ao quarto e daí passou para a sala. Havia um jornal sobre a mesa do café, velho de sete semanas. Avançando para a cozinha, Adam verificou que os pratos que se encontravam no lavatório estavam cobertos de bolor, negro e penugento. Tornava-se evidente que Percy pensara voltar a casa, o que era exactamente o que Adam receara. Devia ter-lhe acontecido qualquer coisa inesperada.

Adam decidiu-se a sair e chamar a polícia. Porém, antes de poder abandonar a cozinha, um ligeiro ruído fê-lo imobilizar-se. Ouvira nitidamente o ruído de uma porta a fechar-se.

Adam esperou. Havia apenas silêncio. Espreitou para a sala. A corrente de segurança, na porta da frente, abanava de um lado para o outro.

Adam quase desmaiou. Se fora Percy que entrara, por que é que se estava a esconder? Ficou colado ao chão, na cozinha, esforçando-se por ouvir mais algum ruído. Quando o frigorífico, a seu lado, se ligou de repente, com um estalido, o susto foi tão grande que o fez soltar um gemido. Finalmente, pensando que já tinham passado pelo menos dez minutos e que tudo aquilo não passava de imaginação sua, caminhou para a sala e deu uma mirada ao quarto. A janela para a escada de incêndio estava aberta. As cortinas agitavam-se lentamente no ar. Adam calculou que lhe levaria apenas um segundo a atravessar o quarto e sair.

Nunca o chegou a fazer. Quando correu para a janela, uma figura surgiu de dentro do roupeiro. Antes de Adam poder reagir, um punho atingiu-lhe o estômago, lançando-o para o chão.

 

Quando Jennifer chegou aos Ginecologistas Associados para o seu exame de rotina mensal, reparou que havia muito poucas pessoas à espera, bastante menos do que em qualquer outras das suas visitas anteriores. Sentada num dos bancos, pegou numa revista para a ler, mas não conseguia concentrar-se. Em vez de ler, maravilhava-se por nada de desagradável lhe ter acontecido, ou ao bebé por nascer, enquanto o Dr. Vandermer estivera fora da cidade num qualquer seminário médico. Tivera a certeza de que iria começar a ter hemorragias enquanto ele estivesse fora, mas apesar de ainda não se sentir reconciliada com as suas maneiras abruptas, não queria ser obrigada a visitar outro médico.

Em menos de quinze minutos, Jennifer foi mandada entrar para o consultório. Enquanto tirava as roupas e vestia uma bata de papel, perguntou à enfermeira se o Dr. Vandermer tinha gozado bem as férias.

- Creio que sim - disse Nancy, sem entusiasmo. Entregou a Jennifer o recipiente para a amostra de urina e fez-lhe sinal para a porta da casa de banho.

Algo no seu tom de voz aborreceu Jennifer, mas quando ela saiu da casa de banho, o Dr. Vandermer já a esperava.

- Ainda não despachei Mistress Schonberg - disse Nancy. - Por favor, conceda-me mais uns minutos. Ainda tenho de a pesar e tirar o hematócrito.

- Só queria cumprimentá-la - disse o médico, com uma voz invulgarmente suave, sem os seus habituais tons bruscos - Como está, Jennifer? Tem bom aspecto.

- Estou bem - respondeu Jennifer, surpreendida.

- Bom, voltarei logo que Nancy acabe o que tem a fazer. Quando o Dr. Vandermer fechou a porta, Nancy parou por instantes, ficando a olhar para onde ele saíra.

- Meu Deus! - exclamou. - Se eu não o conhecesse tão bem, diria que ele anda a preparar alguma coisa. Desde que regressou que se anda a comportar de uma maneira estranha. E muito mais simpático para com as pacientes, mas faz com que o meu trabalho seja dez vezes mais difícil. Oh, bem... - Nancy voltou-se para Jennifer: - Vamos lá ver esse sangue e o peso.

Tinha precisamente acabado quando o Dr. Vandermer regressou.

- Agora é a minha vez - anunciou, com aquela mesma voz quase sem expressão. - O seu peso está óptimo. Em geral, como é que se tem sentido?

- Eu ainda não a examinei - interrompeu-o Nancy.

- Não faz mal - respondeu o Dr. Vandermer. - Por que é que não trata do hematócrito, enquanto falo com Jen-nifer?

Com um suspiro audível, Nancy pegou nos tubos com as amostras de sangue e saiu da sala.

- Então, como é que se tem sentido? - perguntou o Dr. Vandermer, mais uma vez.

Jennifer observou o homem que a encarava. Continuava a ter o mesmo bom aspecto, mas tinha o rosto frouxo, como se estivesse exausto. O cabelo estava também um pouco diferente, parecia mais cerrado e em vez de mostrar as suas habituais maneiras apressadas, dava a Jennifer a impressão de querer na verdade saber o que é que ela pensava.

- Creio que me tenho sentido bastante bem - disse.

- Diz isso com um ar que não parece muito entusiástico.

- Bom... - murmurou Jennifer. - Estou menos cansada, mas os enjoos matinais pioraram, independentemente das minhas dietas.

- Como é que se sente, no que respeita à gravidez? - perguntou o Dr. Vandermer. - As emoções, por vezes, desempenham um papel muito importante no seu bem-estar.

Jennifer olhou para o rosto do Dr. Vandermer. Parecia verdadeiramente preocupado.

- Para lhe dizer a verdade - respondeu ela -, as minhas emoções são muito ambivalentes, no que respeita ao facto de estar grávida.

Até àquele momento tivera muita relutância em admiti-lo, mesmo junto da mãe. Mas o Dr. Vandermer não parecia ter um ar desaprovador.

- Os segundos pensamentos são muito comuns - disse ele gentilmente. - Por que é que não me conta como é que na realidade se sente?

Encorajada por aquela atitude, Jennifer descobriu-se a contar-lhe todos os seus receios sobre a sua carreira e sobre as suas relações com Adam. Admitiu que Vandermer tivera razão, não era a ocasião propícia para ter um bebé. Falou durante quase dez minutos e só não chorou apenas por causa de uma estranha falta de afecto na expressão de Vandermer. Este mostrava-se interessado mas de uma maneira algo remota.

Quando terminou, disse suavemente:

- Aprecio o facto de ter desabafado comigo. Não é uma coisa saudável mantermos as nossas emoções fechadas dentro de nós. Na realidade, elas podem estar relacionadas com esses contínuos enjoos matinais, que nesta altura já deveriam ter diminuído. Creio que vamos ter de experimentar um novo medicamento. - Virando-se para Nancy, que acabara de entrar na sala, disse: - Não se importa de ir à sala dos remédios e trazer uma mão cheia daquelas amostras de Pregdolen?

Nancy saiu sem dizer uma palavra.

- Agora - continuou o Dr. Vandermer -, vamos lá a ver como é que você está.

O exame incluiu uma ecografia, que o Dr. Vandermer descreveu como sendo um método através do qual eram produzidas imagens, quando ondas ultra-sónicas faziam eco nos tecidos do bebe. Jennifer não teve a certeza de ter percebido, mas o Dr. Vandermer assegurou-lhe que o processo não envolvia qualquer dor e que era inofensivo tanto para a mãe como para o feto, e, na verdade, assim foi. Apesar de ter surgido um técnico para tomar conta da aparelhagem, o Dr. Vandermer insistiu em ser ele próprio a efectuar o teste. Num écran muito parecido com o de uma televisão, Jennifer viu os contornos do seu bebé.

- Interessa-lhe saber qual o sexo da criança? - perguntou o Dr. Vandermer, endireitando-se.

- Creio que sim - respondeu Jennifer, que ainda não tinha pensado muito no assunto.

- Não posso ter a certeza - disse o Dr. Vandermer -, mas creio que se trata de um rapaz.

Jennifer fez um aceno de compreensão. De momento, ainda não fazia grande diferença tratar-se de um rapaz ou de uma rapariga, mas interrogou-se sobre o que pensaria Adam.

De volta ao consultório, o Dr. Vandermer sentou-se a uma pequena secretária e começou a escrever as suas conclusões na ficha médica. Mandou embora Nancy, que saiu mais uma vez sem dizer uma palavra, claramente desagradada por ver o seu trabalho diminuído.

Jennifer sentou-se, sem saber se se deveria vestir. Finalmente, o Dr. Vandermer virou-se para ela.

- Além dos enjoos matinais, tudo está a correr bem e talvez isto detenha esses enjoos. - Empilhou as amostras junto dela e passou-lhe também uma receita para a compra de mais. "- Tome um comprimido, três vezes ao dia.

Jennifer fez um gesto de concordância. Estava disposta a tentar fosse o que fosse.

- Agora - disse o Dr. Vandermer, na sua nova voz monótona -, quero discutir consigo duas coisas. Em primeiro lugar, a próxima vez que eu a examinar será na Clínica Julian.

Jennifer sentiu o coração a falhar. Num clarão, viu a imagem de Cheryl a cair para o chão, na sua frente. Via o sangue e sentiu a onda de pânico.

- Jennifer, sente-se bem? - perguntou o Dr. Vandermer.

- Talvez fosse melhor deitar-me - respondeu, sentindo-se tonta.

O Dr. Vandermer ajudou-a a deitar-se.

- Lamento muito - disse Jennifer. - Já me sinto bem. Por que é que a próxima visita terá de ser na Clínica Julian?

- Porque decidi juntar-me ao pessoal de lá - respondeu o Dr. Vandermer, verificando-lhe o pulso. - Já não estou interessado na medicina privada. Posso-lhe garantir que, como paciente, terá uma muito melhor assistência na Clínica Julian. Bom, já se sente bem?

Jennifer acenou que sim.

- Foi a primeira vez, durante a gravidez, que se sentiu assim a desmaiar?

- Sim - murmurou Jennifer, que continuou, descrevendo a inesperada morte de Cheryl.

- Que terrível experiência para si - comentou o Dr. Vandermer. - Especialmente estando grávida. Felizmente, esse problema de coagulação é extremamente raro e espero que não lance as culpas para a Clínica Julian. Ouvi falar no sucedido e por acaso sei que Miss Tedesco escondeu certos aspectos da sua história médica. O seu uso prolongado de drogas provocou problemas hematológicos, que não foram localizados pelos testes de rotina feitos no laboratório. Se Miss Tedesco tivesse sido mais franca, ainda hoje estaria viva. Estou a dizer-lhe isto apenas para que não tenha quaisquer dúvidas acerca da Clínica Julian.

- Já tinha ouvido dizer boas coisas acerca dela antes de lá ter ido com a Cheryl. E devo admitir que fiquei muito bem impressionada com a atitude do pessoal.

- Essa é uma das razões porque vou para lá trabalhar. Os médicos não estão envolvidos com a insensata competição que é uma característica da medicina privada.

Jennifer sentou-se, aliviada por descobrir que as tonturas tinham desaparecido inteiramente.

- Tem a certeza de que vai ficar bem? - perguntou o Dr. Vandermer.

- Penso que sim - respondeu Jennifer.

- A segunda coisa que queria discutir consigo é sobre a possibilidade de fazermos uma amniocentese.

Jennifer sentiu outra vaga de tonturas, mas que desta vez passou depressa.

- Mudou de opinião - comentou. Era uma declaração, não uma pergunta.

- É verdade - disse o médico. - Inicialmente, estava convencido de que o problema com o seu irmão fora congénito, ou seja, que houve uma alteração cromossomática depois da concepção. Mas recebi os slides do hospital onde o seu irmão morreu e o laboratório pensa que o problema pode ser hereditário. Dada uma tal possibilidade, seria um erro não tomar partido de toda a tecnologia ao nosso dispor.

- O teste indicará se o meu bebé tem o mesmo problema? - perguntou Jennifer.

- Absolutamente - respondeu o Dr. Vandermer. - Mas devemos fazê-lo em breve, uma vez que leva várias semanas até termos os resultados. Se esperarmos demasiado, será difícil de fazer qualquer coisa, se eles forem positivos.

- Quando diz “ fazer alguma coisa” está a falar de aborto?- perguntou Jennifer.

- Sim - respondeu o Dr. Vandermer. - As probabilidades de existir um problema são muito pequenas, mas com a ambivalência de que me falou, creio que estará em condições de enfrentar uma tal eventualidade.

- Terei de falar com o meu marido e com os meus pais - respondeu Jennifer.

Deixou o consultório nervosa, por causa da perspectiva da amniocentese, mas satisfeita por ter um médico tão cuidadoso como o Dr. Vandermer. Tinha de dizer a Adam que mudara completamente a sua opinião inicial a respeito do homem.

Adam nunca perdeu totalmente a consciência. Estava consciente de ter sido arrastado para a sala de Percy e de ter sido atirado, muito pouco cerimoniosamente, para cima de um sofá. Sentiu que lhe retiravam a carteira e que depois lha voltavam a meter no bolso. Essa pequena sequência não condizia inteiramente com o que ele receara, e, intrigado, procurou recompor-se.

A primeira coisa que fez foi procurar os óculos, que lhe foram de repente atirados para as mãos. Colocou-os e o quarto ficou focado. Sentado na sua frente estava um homem pesado, com um fato azul e uma camisa branca aberta no colarinho.

- Bom dia - disse o homem. - Seja bem-vindo.

Adam mexeu-se. Nada lhe doía, o que era surpreendente.

-A não ser que queira ir dar um passeio até à esquadra da polícia, Mister Schonberg, será melhor dizer-me o que é que estava a fazer neste apartamento.

- Nada - murmurou Adam, rouco. Pigarreou, para limpar a garganta.

- Terá de me dar uma explicação melhor do que essa - disse o homem, acendendo um cigarro e lançando o fumo para o tecto.

- Eu podia perguntar o mesmo a seu respeito - retorquiu Adam.

O estranho inclinou-se e agarrou a frente da camisa de Adam, com tanta força que quase o erguia do sofá.

- Não estou com disposição para espertalhões - rosnou. Adam agitou a cabeça, dizendo que compreendia.

Quase tão subitamente como o tinha agarrado, o homem largou-o.

- Muito bem - disse o estranho. - Vamos começar de novo pelo princípio. Que é que estava a fazer neste apartamento?

- Sou amigo de Percy Harmon - disse Adam rapidamente. - Bom, quase um amigo. Quando eu comecei a trabalhar para as Indústrias Farmacêuticas Arolen, ele deu uma volta de vendas comigo, para me ensinar a rotina.

O homem fez um aceno ligeiro, como se até ali aceitasse aquela história.

- Percy tinha ficado de me telefonar - continuou Adam. - Nunca o fez e não atendia o telefone. Portanto, vim aqui para ver se ele cá estava.

- Isso não explica o facto de ter assaltado o apartamento - disse o homem.

- Foi um impulso - respondeu Adam. - Só queria saber se ele estava bem.

O homem não disse nada. O silêncio e a tensão começaram a fazer efeitos nos nervos de Adam.

- Gostei dele - disse. - Estava preocupado por sua causa. Devia ter ido para Porto Rico frequentar um curso de gestão, mas nunca lá apareceu.

O homem continuou silencioso.

- É tudo o que sei - acrescentou Adam. - Nunca mais o vi.

- Acredito em si - disse o homem, depois de uma pausa.

- Obrigado - respondeu Adam, sentindo-se tão aliviado que era capaz de ter chorado.

O homem esmagou a ponta do cigarro. Metendo a mão no bolso, tirou um cartão-de-visita, que estendeu a Adam. Dizia: “Robert Marlow, investigações particulares.” No canto inferior direito via-se um número de telefone.

- Cerca de seis semanas atrás Percy saiu de um restaurante japonês em Fort Lee, Nova Jérsia. Nunca chegou a casa. Fui contratado pela família para ver o que é que podia descobrir. Tenho estado a vigiar o apartamento. Para além de um par de jovens senhoras, você foi o único que apareceu por aqui.

- Tem alguma ideia do que é que lhe terá acontecido? - perguntou Adam.

- Não faço a menor ideia - respondeu Mr. Marlow. - Mas se ouvir por aí alguma coisa, agradeço que me telefone.

Adam sentia-se ainda em estado de choque quando regressou ao apartamento vazio. A ausência de Jennifer irritava-o. Estava preocupado e queria falar com ela, mas calculou que Jennifer tivesse de novo ido para junto da mãe. Atirou-se para cima da cama e ligou os noticiários. Lentamente, começou a descontrair-se.

A única coisa de que se apercebeu a seguir foi quando ouviu a porta da frente a abrir-se e, por instantes, pensou que ainda se encontrava no apartamento de Harmon.

- Ora muito bem - troçou Jennifer. - A dormir durante a hora do trabalho.

Adam não respondeu.

- Que se passa? - perguntou ela.

- Suponho que estiveste em Englewood - retorquiu Adam, um pouco violento.

Jennifer encarou-o. Não lhe apetecia aturar uma das más disposições do marido. Ficava ressentida por ter de pedir desculpa por visitar os pais. Colocando as mãos nas ancas, disse:

- Sim, fui a casa.

- Já calculava - resmungou Adam, virando-se para a televisão.

- E que quer isso dizer? - perguntou Jennifer.

- Nada de especial - respondeu Adam.

- Olha - disse Jennifer, sentando-se na borda da cama-, tive muito boas razões para ir a casa. O doutor Vandermer sugeriu que eu fizesse uma amniocentese. Fui a casa para discutir se a devo ou não fazer.

- Muito bonito - disse Adam, sarcástico. - Discutes o assunto com os teus pais apesar do filho ser nosso.

- Sabia que não poderia contactar contigo durante o dia - explicou Jennifer, procurando ser razoável. - Claro que pretendia discutir o assunto contigo. Mas quis falar com a minha mãe por ela já ter passado pelo choque de dar à luz um bebé mongolóide.

- Continuo a pensar que a decisão compete a nós - disse Adam. Rolou para o lado e colocou os pés no chão, sabendo que estava a ser injusto. - Além disso, julguei que Vandermer tinha dito que não necessitavas de fazer esse teste.

- É verdade - respondeu Jennifer. - Mas hoje disse-me que depois de verificar os slides do meu irmão, pensa que o devo fazer.

Adam pôs-se de pé e espreguiçou-se. Apesar do pouco que sabia a respeito de genética, pensava que Jennifer não necessitava de uma amniocentese.

- Talvez fosse melhor procurares uma segunda opinião. Quando, inicialmente, andei a perguntar por aí por um bom obstetra, houve muitas pessoas que me recomendaram também o doutor Herbert Wickelman.

Jennifer abanou a cabeça.

- Não preciso de ver mais ninguém. Outra opinião só serviria para aumentar ainda mais a confusão. Estou muito satisfeita com o doutor Vandermer e tenho confiança nele, particularmente agora que as suas maneiras mudaram tanto.

- Que queres dizer com isso?

- Desde que ele regressou da sua conferência médica, parece dispor de mais tempo - disse Jennifer. - Não anda tão apressado.

Adam esqueceu-se da sua zanga.

- E modificou-se de alguma outra maneira? - perguntou.

- Diz que está cansado da medicina privada - disse Jennifer, tirando o vestido e dirigindo-se para a casa de banho. - Decidiu trabalhar na Clínica Julian, e a partir de agora terei de lá ir às consultas.

Lentamente, Adam sentou-se na cama.

- Nunca pensei ter de voltar à Clínica Julian, depois da morte de Cheryl - gritou Jennifer da casa de banho -, mas o doutor Vandermer convenceu-me de que é uma clínica excelente. E sabes bem que gostei muito do pessoal de lá.

Adam ouviu a água a correr para a banheira. Não sabia o que dizer. Não falara a Jennifer no desaparecimento de Percy Harmon nem de qualquer outra das suas suspeitas sobre a Aro-len, mas agora que parecia que o Dr. Vandermer estava envolvido, sabia que tinha de fazer qualquer coisa.

Adam dirigiu-se à casa de banho, onde Jennifer lavava a cara.

- Tenho de insistir contigo para que vejas o doutor Wickelman. Não gosto nada da ideia de Vandermer ir para a Clínica Julian.

Jennifer olhou para cima, surpreendida. Nos últimos tempos Adam actuava, por vezes, de uma maneira estranha.

- Estou a falar a sério - continuou ele, mas parou de repente ao ver um frasco familiar, no rebordo do lavatório.

- Que diabo é isto? - perguntou, pegando-lhe. Jennifer olhou para a cara dele e depois para o pequeno frasco que ele segurava na mão. A seguir virou-se e, silenciosamente, pendurou a toalha.

- Fiz-te uma pergunta - gritou Adam.

- Creio que a resposta é óbvia. É Pregdolen. Para os meus enjoos matinais. Agora, desculpa e deixa-me passar. - Avançou para o quarto mas Adam agarrou-a por um braço.

- Onde é que arranjaste isto? - perguntou ele, agitando o frasco mesmo na frente dela.

Jennifer afastou o frasco.

- Já que queres saber, foi o doutor Vandermer que mo deu.

- Isso é impossível - disse Adam. - Vandermer nunca receitaria este medicamento.

Jennifer libertou-se dele.

- Estás a sugerir que estou a mentir?

Adam regressou à casa de banho e despejou na mão algumas das cápsulas azuis e amarelas. Era mesmo Pregdolen, sem dúvida.

- Ouviste o que eu disse? - interrogou-o Jennifer.

- Não quero que tomes este medicamento - disse ele. - Tens mais algum frasco?

- Vou seguir as instruções do meu médico - retorquiu Jennifer. - Desde que comecei a tomar essas cápsulas, tive o meu primeiro dia sem enjoos, em meses. E lembra-te que foste tu quem, em primeiro lugar, me mandou para o doutor Vandermer.

- Pois bem, não voltarás a lá ir - disse Adam. Pegou na bolsa de Jennifer, que se encontrava na prateleira por cima da sanita e espreitou lá para dentro. As restantes embalagens de Pregdolen estavam logo por cima de tudo.

Tentando agarrar a bolsa, Jennifer gritou:

- Gosto do doutor Vandermer e confio nele. Dá-me o saco!

Adam agarrou as restantes amostras, antes de largar o saco.

- Escuta! - exclamou. - Não quero que tomes isto. É perigoso.

- O doutor Vandermer não mos daria se fossem perigosos- disse Jennifer. - Faço tenção de os tomar. No fim de contas, quem está a sofrer sou eu e não tu. Além disso, parece-me que te deves lembrar de que não és médico. De facto, tudo o que és agora é um vendedor de remédios.

Adam abriu as embalagens das amostras, enquanto levantava a tampa da sanita com um pé.

- Dá-me os meus remédios! - gritou Jennifer, quando percebeu o que ele estava a fazer.

Adam despejou o conteúdo do primeiro frasco dentro da sanita.

Desesperada, Jennifer arrancou um dos frascos das mãos de Adam e correu para o quarto. Confuso, Adam hesitou e depois correu atrás dela. Durante um instante, ficaram frente a frente. A seguir Jennifer correu de novo para a casa de banho e tentou fechar a porta. Mas não foi suficientemente rápida. Adam meteu o pé na porta, seguindo-se um pequeno jogo de forças. Lentamente, a porta foi-se abrindo à medida que Jennifer cedia. Recuou e encostou-se ao chuveiro, escondendo o frasco atrás das costas.

- Dá-me o Pregdolen - ordenou Adam. Jennifer abanou a cabeça. Tinha a respiração ofegante.

- Muito bem! - exclamou Adam, agarrando-a e puxando-lhe violentamente pelos braços.

- Não! - gritou Jennifer.

Um a um, Adam abriu-lhe os dedos, pegou no frasco e despejou-o na sanita. Jennifer começou a bater-lhe nas costas. Para se proteger, Adam levantou a mão direita, atingindo-a acidentalmente no lado da cabeça. A pancada atirou-a a rodar de encontro à parede, momentaneamente atordoada.

Adam despejou os restantes frascos de amostras para dentro da sanita e puxou o autoclismo. A seguir virou-se para pedir desculpa a Jennifer, mas ela estava tão furiosa que não o queria ouvir.

- Não és o meu médico - gritou. - Estou farta de me sentir doente todos os dias, e se ele me dá um medicamento para me fazer sentir melhor, então vou tomá-lo.

Dirigiu-se apressadamente para o quarto e puxou pela mala de viagem que se encontrava por cima do roupeiro.

- Jennifer que é que estás a fazer? - perguntou Adam, apesar de ser evidente o que ela planeava.

Jennifer não respondeu e começou a dobrar roupas e a atirá-las para dentro da mala.

- Jennifer, podemos discutir um com o outro sem que tu fujas de casa - disse Adam.

Jennifer virou-se para o encarar, com as faces vermelhas.

- Vou para casa. Estou cansada, não me sinto bem e não suporto estas brigas.

- Jennifer, eu amo-te. A única razão porque te tirei aquele remédio foi para proteger o nosso filho.

- Não me interessa por que é que o fizeste. Tenho de me ir embora daqui por uns dias.

Pegou no telefone e Adam ficou a ouvi-la a falar com o pai e a combinar com ele tomar um táxi para o seu escritório, para que ele depois a conduzisse a casa.

- Jennifer, por favor, não faças isso - implorou Adam quando ela voltou a tratar da mala, mas Jennifer recusou-se a olhar para ele enquanto fechava a mala, pegava no saco e saía do apartamento.

Depois de ficar sozinho, Adam levou alguns minutos a compenetrar-se de que ela se tinha realmente ido embora. Confuso, foi até à sala e sentou-se em frente do computador. Ligando-o, entrou em contacto com o computador principal da Arolen e procurou chamar ao écran a ficha do Dr. Vandermer. Pretendia verificar se os hábitos de prescrição do médico se tinham alterado, mas o écran manteve-se vazio, excepto no que se referia a uma fria mensagem: “Transferido para a Clínica Julian.”

Chocado, Adam interrogou-se sobre se haveria outras fichas apagadas no computador. Pegou na lista que McGuire lhe dera e pediu à máquina para lhe dar a relação dos médicos da sua área. O computador não lhe indicou o nome do Dr. Vandermer, bem como de seis outros médicos.

Frenético, Adam chamou ao écran cada um desses médicos. Nenhum deles tinha ficha! Quatro tinham entradas como a do Dr. Smyth: “Curso de reciclagem planeado para...”, sugerindo que se um médico participava num cruzeiro da Arolen, deixava de ter de ser visitado pelos delegados de vendas. Dois outros tinham indicações como as de Vandermer: “Transferido para a Clínica Julian.” Adam perguntou a si mesmo se as conferên-cias-cruzeiros impingiam a Clínica Julian tal como impingiam os produtos da Arolen.

Mais confuso do que nunca, Adam pediu ao computador para lhe dar uma lista de todos os médicos em serviço na Clínica Julian. Incansável, a impressora entrou em funcionamento, e cuspiu uma boa quantidade de nomes. Adam correu os olhos por aquela lista e parou de repente, mais ou menos a meio da folha: o Dr. Thayer Norton! Que diabo estava Norton a fazer na Clínica Julian? Era o director da Medicina Interna, na universidade!

Lentamente, Adam fez a entrada do nome de Thayer no computador e pediu a sua ficha. Tudo o que obteve foi: “Transferido para a Clínica Julian.”

A ideia de aquela velha raposa abandonar a sua tão pretendida cadeira médica na universidade, era impensável. Adam perguntou a si próprio se Norton teria estado recentemente num dos cruzeiros da Arolen.

Regressando ao computador, Adam tentou o acesso aos dados estatísticos referentes à Clínica Julian. Descobriu que dos seis médicos que tinham sido transferidos, quatro eram de obstetrícia e ginecologia. Mas isso talvez não provasse nada. Durante mais meia hora Adam introduziu perguntas no computador, mas a maior parte delas foram recusadas com a mensagem de que o seu código de acesso não era reconhecido para os materiais que ele pedia. Mudando de táctica, pediu para ser informado quantas vezes tinham sido feitos testes ao líquido amniótico, na Clínica Julian, durante o ano anterior. Recebeu a resposta: 7112. Quando perguntou quantos desses testes tinham mostrado anormalidades nos fetos, o computador recusou-lhe mais uma vez o seu código de acesso. Adam acabou por perguntar quantos abortos terapêuticos tinham sido levados a cabo durante o mesmo período: 1217.

Totalmente mistificado, Adam desligou o computador e foi para a cama, onde passou a noite confrontando-se, em sonhos, com uma Jennifer ultrajada.

Capítulo décimo

Na manhã seguinte Adam ficou tão preocupado quando acordou e descobriu que o lado da cama que pertencia a Jenni-fer estava vazio, que saiu de casa sem sequer se dar ao trabalho de tomar o pequeno-almoço. Cerca das oito e trinta passeava nervosamente de um lado para o outro em frente dos Ginecologistas Associados, esperando que os consultórios abrissem. No instante em que viu Christine começou imediatamente a tocar a campainha.

- Olá, Adam Schonberg.

Adam pensou que era propício o facto de ela se lembrar do seu nome. Ajustou a sua gravata de malha azul e disse, com o mais sincero sorriso que lhe foi possível conseguir:

- Encontrava-me na vizinhança e lembrei-me de passar por aqui para me pôr em dia com as últimas do DJ...

- Ele está formidável - disse Christine. - Muito melhor do que eu esperava. De facto, na última sexta-feira...

Adam deixou-a falar e tentou organizar os seus pensamentos. Quando Christine parou para respirar, Adam perguntou:

- Quais são as hipóteses de me deixar falar com o doutor Vandermer?

- O doutor Vandermer está na Clínica Julian - disse ela.

- Já foi para lá?

- É verdade. O consultório está numa terrível confusão. Ontem foi o último dia dele aqui, apesar de ter centenas de pacientes com consulta marcada, para os próximos seis meses. Vou andar agarrada ao telefone desde hoje até ao Natal.

- Foi uma coisa inesperada? - perguntou Adam.

- Bastante - disse Christine. - Regressou do cruzeiro e disse aos doutores Stens e Baumgarten que se ia embora. Afirmou estar farto da medicina privada.

Foi exactamente o que Percy disse a respeito de Foley, pensou Adam, enquanto Christine se virava para atender o telefone.

- Que barafunda - disse ela, depois de ter desligado. - E agora todas as pacientes estão zangadas comigo.

- Diga-me uma coisa, o doutor Vandermer portou-se de algum modo estranho, depois de regressar do cruzeiro?

- Eu diria que sim - afirmou Christine, com uma gargalhada. - Nada do que nós fizéssemos estava suficientemente bem-feito. Enlouqueceu-nos a todas, apesar de, por outro lado, mostrar um pouco mais de consideração pelas pessoas. Antes disso, sempre fora muito rude.

Lembrando-se do seu próprio encontro com o médico, Adam sentiu que a palavra “rude” era uma maneira muito generosa de descrever o comportamento do homem.

- O mais estranho em tudo isto - continuou Christine - foi que o doutor Foley, o sócio do doutor Vandermer, fez exactamente a mesma coisa. E nessa altura o doutor Vandermer ficou furioso. Mas com o doutor Foley não foi tão mau, porque havia quatro médicos para atenderem as pacientes. Agora temos apenas dois, porque o doutor Smyth está ainda no hospital, com a sua estranha doença.

- Que espécie de doença?

- Não sei como se chama - disse ela. - Um problema nervoso qualquer. Lembra-me de quando isso começou. - Baixou a voz, como se o que estava a dizer fosse um segredo. - Num momento estava normal e no instante seguinte começava a fazer caretas grotescas. Era ridículo e muito embaraçador.

Uma mulher entrou no consultório e dirigiu-se à recepção. Adam afastou-se do caminho, pensando que o problema de Smyth era semelhante ao caso de disquinésia tardia que ele discutira durante a sua apresentação, na Escola Médica. Nesse caso, a causa fora uma inesperada reacção aos tranquilizantes.

- Sabe se o doutor Smyth tinha alguns problemas psíquicos? - perguntou Adam, depois de a paciente que entrara se ter sentado.

- Não creio que tivesse - disse Christine. - Era um dos jovens mais simpáticos que conheci. Parecia-se um pouco consigo, moreno, cabelo encaracolado.

- Em que hospital é que ele está?

- Foi admitido na universidade mas ouvi uma das enfermeiras a dizer que ia ser transferido para a Clínica Julian.

O telefone tocou de novo e Christine estendeu a mão para ele.

- Uma última pergunta - disse Adam. - Foley ou Smyth estiveram num desses cruzeiros, como o doutor Vandermer?

- Creio que estiveram os dois - respondeu Christine levantando o telefone. - “Ginecologistas Associados, um momento, por favor.” - Virando-se de novo para Adam, perguntou: - Quer falar com o doutor Stens ou com o doutor Baum-garten?

- Hoje não - respondeu Adam. - Fica para outra vez, quando as coisas estiverem mais calmas. Os meus cumprimentos ao DJ.

Christine fez-lhe um sinal com a mão, com o punho fechado e o polegar apontado para cima e carregou no botão que acendia e apagava o telefone.

Deixando o consultório, Adam sabia que já não podia ignorar as estranhas coincidências relacionadas com a Clinica Ju-lian. Por que é que tantos médicos largavam abruptamente os seus pacientes e consultórios, para irem trabalhar para lá? Por que é que, depois de fazer o mesmo, o Dr. Vandermer decidira subitamente prescrever Pregdolen a Jennifer? Por muito desagradável que o último encontro tivesse sido, Adam sabia que não havia outra solução senão a de se confrontar de novo com o obstetra. Tinha de o convencer ou a tratar Jennifer sem medicamentos, ou a desistir de a ter como paciente. Adam sabia que não conseguiria persuadir a mulher a mudar de médico, por sua livre vontade.

Quando se aproximou da parte sul de Harlem, viu a Clínica Julian elevando-se muito acima dos prédios que a rodeavam. Admirando a sua superfície espelhada, Adam concluiu que devia ter sido desenhada pelos mesmos arquitectos que tinham construído a sede da Arolen. Mas o edifício de escritórios estava mais de acordo com o que o rodeava, enquanto a clínica o Chocava, parecia um edifício do século XXI, atirado para o meio de um bairro com duzentos anos.

A meio quarteirão de distância Adam descobriu um lugar para estacionar e fez a manobra em marcha atrás, para lá se encaixar. Pegando na sua pasta, não fosse dar-se o caso de necessitar de disfarçar a sua visita com a desculpa das vendas, Subiu a larga escadaria da entrada da clínica.

No momento em que lá entrou, as suas suspeitas dissiparam-se. Pretendera atravessar o vestíbulo directo ao serviço de ginecologia e obstetrícia, como se fizesse parte do pessoal. Pela Sua experiência na Escola Médica, sabia que se alguém actuasse como se pertencesse ao ambiente, poderia dirigir-se a qualquer lado dentro do hospital. Mas a descontraída atmosfera da Julian fê-lo mudar de ideias. Avançou directamente para o enorme 'balcão das informações e disse que desejava falar com o Dr. Vandermer.

- Certamente - afirmou a recepcionista. Pegou num telefone e transmitiu o pedido de Adam. - O doutor está cá - disse ela, sorrindo largamente. - Sabe como ir ao serviço de ginecologia?

- Talvez seja melhor perguntar ao doutor se tem tempo para me atender. Quero falar-lhe a respeito da minha mulher.

- Claro que falará consigo - retorquiu a jovem, como se Adam tivesse perdido a noção das coisas. - Vou chamar um dos serventes.

Carregou num pequeno botão de campainha, no balcão, e surgiu um jovem de camisa azul e calças brancas. A recepcionista deu-lhe instruções.

O jovem conduziu Adam ao longo do enorme átrio central, passando por uma loja de flores, uma livraria e uma cafeteria com um aspecto muito agradável.

- Este lugar é impressionante - disse Adam.

- Sim - respondeu o jovem, mecanicamente.

Adam mirou-o enquanto caminhavam. Tinha um rosto largo e inexpressivo. Observando-o mais detalhadamente, Adam pensou que ele estava drogado, que era por certo um caso psiquiátrico. Muitos dos pacientes crónicos da psiquiatria trabalhavam em hospitais, o que os fazia sentirem-se muito mais confiantes.

O homem deixou-o numa sala de espera que se parecia mais com a sala de uma casa particular do que com o local de espera de um hospital.

Havia um sofá, duas cadeiras e uma pequena mesa. Estranha clínica, pensou Adam, encaminhando-se para a janela. O vidro escurecido dava um tom peculiar às filas de casas do outro lado da rua. Parecia-lhe estar a olhar para uma velha fotografia.

Caminhou lentamente para o sofá e começou a desfolhar uma das revistas que ali se encontravam. Poucos minutos depois abriu-se uma porta e surgiu o Dr. Vandermer. Adam levantou-se apressadamente.

O homem tinha um ar imponente, talvez devido ao seu impecável casaco branco. Porém, parecia menos hostil do que durante a última vez que se tinham encontrado.

- Adam Schonberg, bem-vindo à Julian - disse ele.

- Obrigado - agradeceu Adam, surpreendido pela cordialidade de Vandermer e, ao mesmo tempo, aliviado. - Estou surpreendido por o encontrar aqui. Pensei que se sentia bem no seu consultório.

- Sim, houve uma época em que me sentia lá bem - disse o Dr. Vandermer. - Mas a medicina em troca de dinheiro é uma coisa do passado. Aqui tentamos manter as pessoas saudáveis, em vez de tentarmos apenas curá-las quando estão doentes.

Adam notou que a voz de Vandermer tinha uma estranha inflexão, era desprovida de tonalidades, como se estivesse a recitar de memória.

- Queria conversar consigo acerca da Jennifer - declarou Adam.

- Calculei que fosse isso - disse o Dr. Vandermer. - Por esse motivo, pedi ao geneticista que passasse por aqui.

- Óptimo. Mas em primeiro lugar queria discutir o Preg-dolen.

- Ajudou a diminuir os enjoos da sua mulher? - perguntou Vandermer.

- Ela pensa que sim - respondeu Adam. - Mas eu suspeito que é apenas auto-sugestão. O que me surpreende é o facto do senhor lhe ter receitado um tal medicamento.

- Há um certo número de medicamentos desse tipo, no mercado - disse o Dr. Vandermer -, mas eu penso que o Pregdolen é o melhor. Normalmente, não gosto de utilizar medicamentos para os enjoos matinais, mas os da sua mulher já duravam há demasiado tempo.

- Mas porquê o Pregdolen? - perguntou Adam, com tacto. - Especialmente depois daquele relatório negativo no New England Journal. - Oh, esse estudo foi muito mal feito - disse o Dr. Vandermer. - Não utilizaram os controlos devidos.

Não pretendendo um choque directo com o Dr. Vandermer, Adam acabou por dizer:

- Mas o senhor disse-me, da última vez que falámos, que o Pregdolen era perigoso. O que é que o fez mudar de opinião?

O Dr. Vandermer abanou a cabeça, intrigado.

- Eu nunca disse que o medicamento era perigoso. Há anos que o utilizo.

- Mas eu lembro-me perfeitamente... - começou Adam, mas, nesse momento, entraram dois outros médicos na sala.

Um deles era um homem alto e magro, com o cabelo cinzento. Foi-lhe apresentado como sendo o Dr. Benjamim Starr, o geneticista da Clínica Julian.

- O doutor Starr e eu estivemos a discutir o caso da sua mulher esta manhã - disse o Dr. Vandermer.

- É verdade - confirmou o Dr. Starr, lançando-se numa detalhada descrição do caso. A sua voz tinha a mesma falta de tonalidades que se notava na de Vandermer, fazendo com que Adam perguntasse a si próprio se todos os médicos da Clínica Julian trabalhariam até à exaustão.

Adam tentou compreender o que Starr lhe estava a dizer, : mas o homem parecia estar deliberadamente a falar por cima da cabeça dele, como se não se lhe dirigisse. Depois de tentar tirar algum sentido das razões dadas para a amniocentese de Jennifer, Adam concluiu que estava a perder o seu tempo. Era como se tanto Starr como Vandermer o estivessem a tentar confundir. Logo que lhe foi possível, Adam disse que tinha de se ir embora. O Dr. Vandermer ofereceu-se para lhe pagar um almoço na cafeteria, mas Adam insistiu em que tinha de partir.

Caminhando ao longo do átrio, concluiu que Jennifer tinha razão. O Dr. Vandermer era um homem diferente, o que o deixava nervoso. De facto, havia qualquer coisa de falso em toda aquela clínica. Observando os quartos maravilhosamente decorados, compreendia por que é que a Julian tinha tanta atracção sobre as pessoas. Parecia o ambiente ideal para um hospital, mas ao mesmo tempo era quase demasiado agradável e, na mente de Adam, até ligeiramente sinistro.

De regresso ao carro, Adam hesitou antes de ligar a ignição. Não tinha quaisquer dúvidas de que, originalmente, o Dr. Vandermer declarara que o Pregdolen era um medicamento perigoso e toda aquela supercientífica retórica acerca de Jennifer necessitar de uma análise ao líquido amniótico, deixava-o alarmado. Com a mulher sequestrada em casa dos pais, tinha as mãos amarradas. A única coisa de que estava certo era de que não queria que Jennifer tomasse Pregdolen, o que ao mesmo tempo significava que não queria que ela visse o Dr. Vandermer. O problema estava na sua cega confiança em Vandermer e não querer por esse motivo mudar de médico.

Avançando para a rua, Adam achava que Jennifer tinha razão em dois pontos: ele não era médico e não percebia nada de obstetrícia. Percebeu então que, para ter alguma esperança de levar Jennifer a mudar de opinião, era melhor que estudasse o assunto.

Não havia lugar para estacionar em nenhum dos quarteirões em volta do hospital da universidade, pelo que Adam estacionou o Buick no parque do hospital. Depois de encontrar um espaço vazio, dirigiu-se ao Centro Médico. O irlandês que se encontrava no balcão das informações reconheceu-o e emprestou-lhe um casaco branco.

Na biblioteca, seleccionou vários livros recentes sobre obstetrícia e começou a informar-se sobre os enjoos matinais e sobre a amniocentese. Quando terminou, virou-se para um capítulo sobre fetoscopia, a visualização do feto dentro do útero, e olhou pasmado para as fotos que lhe mostravam o aspecto que o seu filho devia ter, no actual estágio de desenvolvimento.

Devolvendo os livros, Adam seguiu para o hospital. Depois das carpetas suaves e da brilhante pintura da Clínica Julian, o Centro Médico da universidade parecia um cenário para o Inferno de Dante. Era uniformemente pardo, com a tinta a cair aos bocados e os soalhos manchados. As enfermeiras e o pessoal pareciam demasiado apressados e as suas expressões indicavam que o bem-estar psicológico dos pacientes não merecia uma alta prioridade.

Adam meteu-se no elevador principal, para o serviço de neurologia, no décimo andar. Fingindo que era ainda um estudante de Medicina, colocou-se bem à vista, em frente do suporte metálico onde se encontravam as fichas com as histórias dos pacientes. Havia três enfermeiras, dois serventes e um médico interno, todos a conversarem ali perto, mas nenhum deles se deu ao trabalho de olhar para Adam.

A ficha do Dr. Stuart Smyth encontrava-se no suporte correspondente ao quarto 1066. Depois de uma olhadela furtiva às enfermeiras, Adam agarrou na ficha com a sua base de metal, tirou-a do suporte e recuou para a relativa tranquilidade da sala onde arquivavam outras fichas semelhantes. Encontrava-se lá um médico, mas falava ao telefone, combinando um encontro para um jogo de ténis. Adam sentou-se a uma secretária.

Curiosamente, o diagnóstico do Dr. Smyth era de que ele sofria de disquinésia tardia. Lendo a história clínica, Adam descobriu que o Dr. Smyth não tinha qualquer registo, no seu passado, do uso de drogas psicotrópicas. A causa para a doença era dada como desconhecida e a maior parte do trabalho envolvia sofisticadas tentativas para isolar um vírus.

O único teste positivo que Adam encontrou foi o electroencefalograma, mas o médico escrevera que os resultados, apesar de serem ligeiramente anormais, não eram conclusivos. Em resumo, o Dr. Smyth tinha sido picado, remexido e sangrado para uma infinidade de testes, mas a causa da sua doença ainda não fora descoberta. Tinha entrado e saído do hospital várias vezes, durante os últimos dois meses e meio. Num apontamento mais optimista dizia-se que começara a melhorar, mas ninguém sabia porquê.

Adam devolveu a ficha clínica e caminhou ao longo do corredor até ao quarto 1066. Contrariamente ao que acontecia com os outros quartos, este tinha a porta fechada. Adam bateu e depois de ouvir o que lhe pareceu ser um “Entre!”, abriu a porta e entrou no quarto.

Stuart Smyth estava sentado junto da janela, rodeado por livros e jornais. Quando Adam entrou, olhou por cima e ajustou uns óculos sem aros.

Adam viu imediatamente que a observação de Christine, sobre ele e Smyth serem parecidos, era verdadeira, o que o deixou muito satisfeito, porque Stuart era um homem de muito boa aparência.

Adam apresentou-se dizendo que era um estudante de Medicina e Smyth, cujo rosto era periodicamente contorcido por uma careta, disse a Adam para se sentar e explicou que estava a aproveitar o melhor que podia o seu isolamento, revendo todo o campo da obstetrícia e ginecologia. A sua fala era difícil de compreender porque a língua e os lábios também eram afectados pelos espasmos deformadores.

Apesar desse impedimento, o Dr. Smyth estava ansioso por companhia e de maneira nenhuma envergonhado com a sua doença. Adam esperou pacientemente enquanto ele lhe contava os detalhes, que na sua maioria Adam já entrevira na ficha clínica. Não mencionou o cruzeiro da Arolen e Adam rodeou o assunto, começando por lhe dizer que o Dr. Vandermer estava a cuidar de Jennifer.

- Vandermer é um grande obstetra - afirmou o Dr. Smyth.

- Foi-me recomendado por um dos obstetras internos aqui no hospital - disse Adam. - Ao que parece, ele trata de muito do pessoal da casa.

O Dr. Smyth concordou com um aceno.

- Suponho que já deve ter ouvido dizer que ele acabou de regressar de um cruzeiro da Arolen?

O Dr. Smyth acenou de novo, enquanto a cara se lhe contorcia, num espasmo.

- Já alguma vez foi a um desses cruzeiros? - perguntou Adam.

O livro que o Dr. Smyth estava a ler escorregou-lhe e caiu no chão com um estrondo. Baixou-se e apanhou-o, mas quando quis responder, a língua não cooperou e acabou por dizer que sim com a cabeça.

Adam estava com receio de cansar Smyth com perguntas, mas quando se levantou para sair, o médico fez-lhe sinal para que se sentasse de novo, tornando claro que queria conversar.

- Os cruzeiros são formidáveis - conseguiu Smyth dizer finalmente. - Estive num deles, seis meses atrás e tinha uma marcação para ir novamente esta semana. Desta vez, estava convidado para parar em Porto Rico. Estava muito interessado, mas é óbvio que não vou poder lá ir.

- Quando tiver alta - disse Adam -, estou certo de que terá outra oportunidade.

- Talvez - murmurou Smyth. - Mas é muito difícil conseguir uma reserva, especialmente para Porto Rico.

Adam, em seguida, interrogou-o sobre a Clínica Julian. Smyth respondeu-lhe com alguns comentários superlativos, mas quando foi atingido por uma nova série de contorções, extremamente severas, fez sinal a Adam para se ir embora.

Adam pensou em voltar de novo para junto dele, alguns minutos depois, mas já estava tão atrasado nas visitas a médicos, que tinha de fazer para a Arolen, que decidiu que era melhor começar a trabalhar. Mesmo que sentisse dúvidas a respeito da Arolen, não queria vir a ser despedido.

Quando chegou a casa, um pouco depois das seis, descobriu o apartamento exactamente na mesma desordem em que o deixara. O seu bilhete, que dizia “Bem-vinda a casa. Desculpa. Amo-te”, estava no chão, junto da porta, onde ele o deixara.

Espreitando para o frigorífico lembrou-se então de que não havia lá nada e que teria de sair para comer. Antes de o fazer, ligou para o número dos pais de Jennifer, esperando que fosse ela a atender.

Infelizmente, foi a mãe que atendeu o telefonema.

- Adam! Foi muito simpático da tua parte teres telefonado - disse ela, com uma voz de gelo.

- A Jennifer está aí? - perguntou Adam, o mais polidamente que lhe foi possível.

- Está, sim - respondeu Mrs. Carson. - Tentou telefonar-te, desde manhã cedo.

- Estive a trabalhar - explicou Adam, satisfeito por ela ter querido contactá-lo.

- Fizeste bem - disse Mrs. Carson, - Quero dizer-te que Jennifer fez a análise amniótica esta manhã. Correu tudo bem.

Adam quase deixou cair o telefone.

- Oh, meu Deus, como é que ela está?

- Boa, e não graças a ti.

- Por favor, chame-a ao telefone - pediu Adam.

- Desculpa - disse Mrs. Carson, mas com uma voz que sugeria que não tinha pena nenhuma -, mas a Jennifer está a dormir, neste momento. Quando ela acordar, direi que telefonaste.

Ouviu-se um estalido e Mrs. Carson desligou.

Adam olhou para o auscultador por momentos, como se fosse ele o responsável pela sua frustração. Controlando-se, pousou calmamente o aparelho no seu suporte, mas o nervoso e o medo que sentira quando saíra da Clínica Julian, regressaram subitamente. Porque diabo é que Vandermer não lhe dissera que Jennifer estava na clínica, naquela manhã?

 

Jennifer nunca chegou a telefonar e, na manhã seguinte, quando Adam acordou, continuava cheio de ansiedade. Depois de se barbear, deu por si a passear de um lado para o outro, no quarto. O que é que se passava na clínica? Estava aterrorizado com a ideia de que o estranhamente mecânico Vandermer iria continuar a tratar Jennifer, mas não sabia como evitar que a sua mulher fosse ter com ele. Se ao menos conseguisse perceber por que é que os médicos se transformavam tanto, depois dos cruzeiros... Se ao menos ele próprio pudesse tomar parte num, talvez conseguisse descobrir maneira de convencer Jennifer de que Vandermer era perigoso.

Smyth dissera que o seu cruzeiro estava marcado para partir de Miami, naquela semana. Adam interrogou-se sobre o que é que aconteceria se ele se apresentasse no seu lugar.

- Vão dizer-me para me pôr a andar de lá para fora - disse ele, em voz alta.

Subitamente deixou de palmilhar o quarto, dirigiu-se para a sala e ligou o computador. Quando instalou o telefone no modem, estava certo de que tinha razão.

Trabalhando como habitualmente com dois únicos dedos, marcou no teclado o nome do Dr. Stuart Smyth e foi mais uma vez informado que o médico tinha um curso de reciclagem marcado, num segundo cruzeiro, que era para partir nesse mesmo dia.

Vestindo-se rapidamente, Adam tomou uma decisão. Chris-tine dissera que ele era parecido com Smyth e ele próprio tinha confirmado essa semelhança. Pegou no telefone e ligou para as informações de Miami. Quando a operadora lhe respondeu, pediu-lhe o número dos cruzeiros da Arolen. A operadora disse, numa voz nasal:

- Desculpe, mas não há qualquer número na lista, sob essa designação.

Adam pousou o auscultador. A seguir teve outra ideia. Desta vez pediu pelo número telefónico do Fiord. Não teve melhor sorte. Havia uma agência de viagens Fiord, mas o nome não tinha um som prometedor. Adam pegou num casaco leve, de algodão, e levou-o para a cozinha. O ferro-de-engomar estava em cima do frigorífico e ele ligou-o à tomada que se encontrava na parede, perto do lavatório. Dobrando uma toalha ao comprido, colocou-a sobre a mesa de jogo que se encontrava na cozinha e passou a ferro as rugas mais vincadas do casaco. Foi então que teve a inspiração de ligar para a MTIC.

- Não há nenhuma MTIC na lista - disse a operadora de Miami -, mas temos uma linha de cruzeiros da MTIC.

Encantado, Adam tomou nota do número e tentou ligar. Quando lhe respondeu uma mulher, apresentou-se como sendo o Dr. Stuart Smyth e perguntou se ainda estavam à espera dele para o cruzeiro daquele dia. A sua secretária esquecera-se de confirmar a reserva.

- Só um momento, por favor - respondeu a mulher. Adam conseguia ouvir os fracos sons das teclas de um painel de computador, a serem premidas. - Aqui está - disse ela. - Stuart Smyth, de Nova Iorque. Estamos à sua espera hoje, com o grupo de obstetras e ginecologistas. Deve embarcar antes das dezoito horas.

- Obrigado - agradeceu Adam. - Poderá informar-me de outra coisa? Preciso de um passaporte, ou alguma outra coisa dessas?

- Serve qualquer tipo de identificação - disse a mulher. - Basta que possa provar a cidadania.

- Obrigado - repetiu Adam, desligando. Como diabo ia ele arranjar uma prova de cidadania, de Smyth?

Durante dez minutos Adam deixou-se ficar sentado na berma da cama, tentando tomar uma decisão. Se não considerasse o problema dos documentos, a ideia de se fazer passar por Smyth, no cruzeiro da Arolen, era muito tentadora. Não existiam quaisquer dúvidas no espírito de Adam de que, para modificar a impressão que Jennifer tinha de Vandermer, necessitava de muito boas provas sobre a instabilidade do homem. Participar no cruzeiro parecia-lhe a acção mais prometedora.

Mas conseguiria ele fazer-se passar por um obstetra? E que aconteceria se no cruzeiro se encontrassem amigos pessoais de Smyth? Num impulso, Adam decidiu que valia a pena tentar. Que podia ele vir a perder? Se encontrasse um amigo pessoal de Smyth, diria que o médico o tinha mandado em seu lugar. E se a Arolen descobrisse, limitar-se-ia a dizer que não podia trabalhar bem como delegado de propaganda médica, sem ter mais informações. O pior que lhe poderiam fazer nesse caso era despedi-lo.

Com a decisão tomada, Adam entrou em acção. A sua primeira tarefa foi telefonar para Clarence McGuire, a quem disse que uma crise familiar o iria obrigar a estar fora da cidade, durante alguns dias. Clarence foi instantaneamente compreensivo e exprimiu votos para que a crise passasse.

Adam telefonou a seguir para as companhias de aviação para saber qual o voo que poderia apanhar para Miaini. Entre a Delta e a Eastern, tinha por onde escolher.

Finalmente, encheu-se de coragem e telefonou a Jennifer. Sentiu a boca a ficar seca quando ouviu a ligação a estabelecer-se. Um toque. Um segundo. A seguir, Mrs. Carson levantou o auscultador.

Usando de toda a delicadeza que lhe foi possível conseguir, Adam deu-lhe os bons-dias e perguntou se podia falar com a mulher.

- Vou ver se ela está acordada - respondeu Mrs. Carson, friamente.

Adam ficou aliviado quando Jennifer o saudou com um “olá”.

- Desculpa ter-te acordado - disse Adam.

- Não estava a dormir - respondeu Jennifer.

- Jennifer - disse Adam -, lamento muito o que se passou na outra noite. Não sei o que é que me deu. Queria que regressasses a casa. O único problema está em que eu, por razões de trabalho, vou ter que estar fora da cidade, por uns dias.

- Compreendo - respondeu Jennifer.

- Preferia não ter de o explicar agora, mas é provavelmente melhor para ti que fiques em casa dos teus pais durante mais uns dias.

- Suponho que vais para Porto Rico - murmurou Jennifer, num tom gelado.

- Não, não vou - disse Adam.

- Então para onde é que vais?

- Prefiro não to dizer - respondeu Adam.

- Belo! - exclamou Jennifer. - Faz como quiseres. Caso estejas interessado, informo-te que fiz o teste amniótico ontem.

- Eu sei - respondeu Adam.

- Mas como é que sabes? - interrogou-o Jennifer. - Tentei muitas vezes telefonar-te, a partir das sete da manhã. Não estavas em casa.

Adam compreendeu então que Mrs. Carson nem sequer dissera a Jennifer que ele telefonara, na tarde anterior. Conseguir que a sua mulher regressasse para ele, iria ser uma verdadeira batalha.

- Muito bem, diverte-te, nessa tua viagem - disse Jennifer friamente, desligando antes de Adam poder ter tempo para lhe dizer que a amava muito.

Jennifer pousou o auscultador, perguntando a si própria o que é que poderia ser tão importante que levava Adam a abandoná-la num momento tão difícil para ela. Tinha de ser Porto Rico, mas, no entanto, Adam, pelo menos até aí, nunca lhe mentira.

- Há alguma novidade? - perguntou-lhe Mrs. Carson. Jennifer virando-se para encarar os pais, respondeu:

- Ele vai fazer uma viagem qualquer.

- Que bonito, da sua parte - disse Mrs. Carson. - Onde é que ele vai?

- Não sei - respondeu Jennifer -, não mo quis dizer.

- Estará a ter algum caso com outra mulher? - perguntou Mrs. Carson.

- Oh, meu Deus, oxalá que não! - exclamou Mr. Carson, que baixou o seu Wall Street Journal e olhou para as duas mulheres.

- Não é nada disso - retorquiu Jennifer, irritada.

- Bom, de qualquer modo a actuação dele é muito pouco apropriada - disse a mãe.

Jennifer preparou alguns flocos de cereais e descascou uma banana. Desde que começara a tomar o Pregdolen, os enjoos tinham praticamente desaparecido. Levou o seu pequeno-almoço para cima da mesa e ligou a televisão.

O telefone tocou de novo e ela deu um salto, pensando que era Adam, por ter mudado de ideias quanto à viagem. Mas quando levantou o auscultador descobriu que era o Dr. Vander-mer que estava no outro lado.

- Desculpe estar a telefonar tão cedo - disse -, mas queria ter a certeza de que a apanhava em casa.

- Não tem importância - respondeu Jennifer, sentindo o estômago a contrair-se.

- Gostaria que pudesse vir hoje de novo à clínica - disse o Dr. Vandermer. - Preciso de falar consigo. Poderá ser esta manhã, pelas dez horas. De tarde não posso, tenho cirurgia.

- Claro. Lá estarei, às dez - respondeu Jennifer, desligando o telefone e com receio de perguntar qual o assunto da conversa.

- Quem era, querida? - perguntou Mrs. Carson.

- O doutor Vandermer. Quer falar comigo, esta manhã.

- Sobre quê?

- Não disse - respondeu Jennifer, baixinho.

- Bom, pelo menos não deve ter nada a ver com a amnio-centese - disse Mrs. Carson. - Ele imformou-nos que os resultados demoravam cerca de duas semanas.

Jennifer vestiu-se rapidamente, tentando adivinhar o que era que o Dr. Vandermer lhe iria dizer. O comentário da mãe, sobre o teste, fizera-a sentir-se melhor. A única outra coisa de que se conseguia lembrar era de que uma das suas análises ao sangue mostrara que ela estava com falta de ferro, ou de uma vitamina qualquer.

Mrs. Carson insistiu em conduzir Jennifer à Clínica Julian e em acompanhá-la até junto do médico. Foram imediatamente escoltadas até ao novo gabinete do Dr. Vandermer, que cheirava a tinta fresca.

O Dr. Vandermer levantou-se quando elas entraram e fez sinal a Jennifer e à mãe para se sentarem nas duas cadeiras que se encontravam em frente da secretária. Observando-lhe o rosto, Jennifer ficou a saber que se passava algo de grave.

- Receio ter más notícias para lhes dar - disse ele, numa voz que não traía qualquer emoção.

Jennifer sentiu o seu coração a dar um salto. A sala ficou de imediato intoleravelmente quente.

- Por norma, leva cerca de duas semanas a obtenção dos resultados de uma amniocentese - disse o Dr. Vandermer. - O motivo está em que é necessário fazer culturas de tecidos, para se poder observar devidamente o material dos núcleos das células. Contudo, por vezes, a anormalidade é tão aparente que as células livres que se encontram no líquido amniótíco nos dão logo as indicações necessárias. Jennifer, tal como a sua mãe você transporta um bebé anormal, com a síndroma de Down. E trata-se de um dos casos mais graves.

Jennifer ficou sem fala. Tinha de haver um engano. Não podia acreditar que o seu corpo a iria enganar e produzir uma qualquer espécie de monstro.

- Isso quer dizer que a criança não viverá mais do que algumas semanas? - perguntou Mrs. Carson, numa batalha com as suas próprias recordações.

- Pensamos que a criança não sobreviverá - disse Vandermer, avançando para Jennifer e pousando-lhe a mão sobre o ombro. - Lamento muito ser o portador de tais notícias. Podia ter esperado pelos resultados finais, mas é melhor que o saiba agora. Dá-lhe mais tempo para tomar uma decisão. Poderá não ser uma grande consolação para si, mas procure lembrar-se de que é uma mulher ainda muito nova. Está a tempo de poder vir a ter muitos filhos e, tal como você própria mencionou, esta não é a melhor altura para ter um bebé.

Jennifer escutou, num silêncio chocado. O Dr. Vandermer virou-se e fitou os olhos de Mrs. Carson.

- Creio que deviam ir para casa discutir a situação com a vossa família - continuou o Dr. Vandermer. - Acreditem-me, é melhor tomar uma decisão agora do que depois de um longo e difícil parto.

- Isso posso eu garantir - disse Mrs. Carson. - O doutor Vandermer tem razão, Jennifer. Vamos para casa conversar sobre o assunto. Verás que tudo correrá bem.

Jennifer concordou com um aceno de cabeça e conseguiu até sorrir para o Dr. Vandermer, cujo rosto revelou finalmente um traço de emoção.

- Por favor, telefonem-me sempre que o desejarem - disse ele, quando saíam.

As duas mulheres atravessaram a clínica, desceram até ao parque de estacionamento subterrâneo e meteram-se no carro, sempre em silêncio. Quando subiam a rampa de acesso, Jennifer disse:

- Quero ir para casa, para o meu apartamento.

- Acho que devíamos voltar directamente para Nova Jérsia - contrapôs Mrs. Carson. - O teu pai deve ser informado do que se passa.

- Quero ver o Adam - disse Jennifer. - Ele não me disse a que horas partia. Talvez ainda o apanhe.

- Não será melhor telefonar? - perguntou Mrs. Carson.

- Prefiro ir lá - respondeu Jennifer.

Concluindo que não era a altura própria para estar a argumentar, Mrs. Carson conduziu a filha à parte baixa da cidade. Quando subiram ao apartamento, Jennifer verificou que as duas malas de Adam ainda se encontravam no roupeiro e que as suas roupas pareciam lá estar todas. Sentiu-se razoavelmente confiante de que ele ainda não partira.

- Bom, que é que queres fazer? - perguntou-lhe a mãe.

- Esperar e falar com ele - respondeu Jennifer, num tom que cortava qualquer posterior discussão.

- Vou ter de cobrar uma taxa, se isto voltar a acontecer - troçou o porteiro, no balcão das informações da universidade.

Adam pegou no casaco branco e vestiu-o.

- Não sou capaz de me manter longe deste lugar. Estou com saudades. - As mangas eram quase cinco centímetros mais curtas e tinha uma grande nódoa amarela num bolso. - Isto é o melhor que se arranja? - brincou.

Sentindo-se confiante no seu disfarce de médico, Adam tomou o elevador para a neurologia, dirigiu-se directamente para o serviço das enfermeiras, sorriu à que estava em funções e puxou novamente pela ficha clínica de Smyth, que se encontrava no seu suporte.

Tudo o que pretendia eram as informações que se encontravam na primeira página. Virando as costas para a enfermeira, Adam copiou todas as informações pessoais sobre Smyth: número da assistência social, número de seguro de saúde, nome da mulher e data de nascimento. Já era um bom começo.

Devolvendo a ficha clínica, Adam voltou a tomar o elevador, desta vez para a biblioteca, no andar principal. Um dos assistentes dirigiu-o a um compêndio dos médicos americanos. Procurando Stuart Smyth, Adam verificou as escolas que o homem frequentara, desde o liceu até ser médico interno e ficou interessado ao notar que ele tivera um ano de treino cirúrgico, no Ha vai. Decorou também todas as associações profissionais a que Smyth pertencia.

O seu último acto, antes de abandonar o Centro Médico, foi telefonar a Christine, dos Ginecologistas Associados, sob o pretexto de marcar uma entrevista com os doutores Baumgarten e Stens, para a semana seguinte. Com um pouco de conversa, conseguiu saber que Smyth era um ávido jogador de ténis, um amante da música clássica e também que não gostava de cinema.

De regresso ao Buick, Adam atravessou a cidade e virou à direita na 8.a Avenida. Quando se aproximou da rua 42, a cidade transformou-se, desapareceram os edifícios de escritórios e os armazéns e começaram a surgir berrantes fachadas de cinemas e brilhantes luzes de néon e livrarias para adultos, anunciando filmes pornográficos a vinte e cinco cêntimos. Prostitutas, com sandálias de saltos altíssimos e mini-saias, fizeram-lhe sinais quando estacionou o carro.

Adam vagueou para leste, demorando-se em frente das montras das lojas. Depois de muitas ofertas de drogas, foi abordado por um homem magro que usava um daqueles finos bigodes de que ele se recordava, nos filmes dos anos trinta.

- Está interessado numa mulher a sério? - perguntou o homem.

Adam interrogou-se se uma mulher a sério seria o oposto de uma daquelas que é preciso assoprar para encher. Esteve tentado a fazer a pergunta, mas não tinha a certeza de que o homem apreciasse o seu humor.

- Estou interessado em cartões de identificação - disse Adam.

- De que espécie? - perguntou o homem, como se se tratasse de um pedido comum.

Adam encolheu os ombros.

- Não sei. Talvez uma carta de condução e um cartão de eleitor.

- Um cartão de eleitor?! - repetiu o homem magro. - Nunca ouvi ninguém a pedir isso.

- Não? - disse Adam. - Bom, eu sou... novo nisto. Quero ir num cruzeiro, mas não quero que ninguém saiba quem é que eu na realidade sou.

- Portanto quer um passaporte falso - concluiu o homem. - Quando é que precisa dele?

- Agora mesmo - respondeu Adam.

- Suponho que tem dinheiro?

- Algum - disse Adam, que antes de sair do carro tivera o cuidado de deixar no porta-luvas a maior parte do seu dinheiro e os seus próprios documentos de identidade.

- Isso vai custar-lhe vinte e cinco pela carta de condução e cinquenta pelo passaporte - disse o magricela.

- Ena! - exclamou Adam. - Só tenho cinquenta, comigo.

- É pena - disse o homem, que lhe voltou as costas e se dirigiu para a 8.a Avenida.

Adam observou-o durante um momento e, em seguida, continuou a andar em direcção à Broadway. Depois de ter dado alguns passos, sentiu uma mão a tocar-lhe no ombro.

- Sessenta pelas duas coisas - disse o homem magro. Adam concordou.

Sem pronunciar mais uma palavra, o homem conduziu Adam em direcção à 8.a Avenida e para o interior de uma das muitas lojas cobertas com cartazes escritos à mão que diziam: “Mudança de Ramo! Últimos Três Dias! Tudo em Saldo!” Adam reparou que o cartaz dos “Últimos Três Dias” estava quebradiço, de velho que era.

A loja ostentava o usual fornecimento de máquinas fotográficas, calculadoras e gravadores de vídeo, bem como uma mão-cheia de “autênticos marfins chineses”. Uma mesa central suportava uma fileira de Empire States Buildings em miniatura e Estátuas da Liberdade, bem como canecas para café com um dístico lateral: “Eu Amo Nova Iorque.”

Nenhum dos vendedores se deu ao trabalho de levantar os olhos quando o magricela conduziu Adam a todo o comprimento da loja e saiu pela porta das traseiras. Via-se aí uma espécie de vestíbulo com portas dos dois lados. Adam esperou que não estivesse a meter-se em qualquer coisa que não pudesse vir a dominar. O homem bateu na primeira porta, a seguir abriu-a e fez sinal a Adam para que entrasse numa divisão pequena e escura.

Num dos cantos estava uma máquina Polaroid, montada num tripé. Noutro via-se uma mesa de desenho, colocada por debaixo de uma brilhante luz fluorescente. Um homem com uma careca brilhante estava sentado à mesa. Usava uma daquelas palas verdes que Adam se recordava de ter visto nos jogadores de cartas dos velhos filmes do Oeste.

- Este tipo quer uma licença de condução e um passaporte, por sessenta dólares - disse o magricela.

- Em que nome? - perguntou o homem da pala verde. Adam deu-lhe rapidamente o nome de Smyth, o endereço, data de nascimento e número da segurança social.

Não houve mais conversas. Adam foi colocado em frente da máquina Polaroid e tiraram-lhe várias fotografias. A seguir, o homem da pala debruçou-se sobre a mesa de desenho e começou a trabalhar. O magricela encostou-se à parede e acendeu um cigarro.

Dez minutos mais tarde Adam saía de novo através da loja, segurando os seus falsos documentos de identificação. Só os abriu quando chegou ao carro mas, quando o fez, verificou que pareciam verdadeiros. Satisfeito, virou o carro para a Village. Tinha cerca de uma hora para fazer as malas.

Quando chegou ao apartamento ficou surpreendido ao verificar que a fechadura não estava fechada à chave. Abriu a porta e viu Jennifer e a mãe.

- Olá! - saudou, bastante admirado. - Mas que agradável surpresa.

- Tinha esperanças de te encontrar antes de ires para Porto Rico - disse Jennifer.

- Não vou para Porto Rico - respondeu Adam.

- Acho que não devias ir a lado nenhum - disse Mrs. Carson. - Jennifer passou por um choque e precisa do teu apoio.

Adam pousou as suas coisas na mesa e virou-se para Jennifer, que tinha um aspecto pálido.

- Que é que se passa? - perguntou Adam.

- O doutor Vandermer acaba de lhe dar más notícias - replicou Mrs. Carson.

Adam não tirava os olhos do rosto de Jennifer. Queria dizer a Mrs. Carson que se calasse, mas em vez de o fazer colocou-se directamente em frente da mulher.

- Que é que o doutor Vandermer te disse? - perguntou gentilmente.

- A amniocentese deu um resultado positivo. Disse que o nosso bebé está severamente deformado. Tenho tanta pena, Adam... Creio que terei de fazer um aborto...

- Isso é impossível - disse Adam, batendo com o punho na palma da mão aberta. - São necessárias duas semanas para fazer a cultura de tecidos. Mas que diabo é que se passa com esse doutor Vandermer?

Adam avançou a passos largos para o telefone. Jennifer rebentou em lágrimas.

- A culpa não é do doutor Vandermer - soluçou, explicando que a anormalidade era tão grave que as culturas de tecidos não tinham sido necessárias.

Adam hesitou, tentando lembrar-se do que tinha lido sobre o assunto. Não se recordava de qualquer caso em que não tivesse sido necessária a cultura de tecidos.

- Essa explicação não me satisfaz - disse, fazendo uma chamada para a Clínica Julian. Quando pediu para falar com o Dr. Vandermer, mandaram-no esperar.

Mrs. Carson clareou a garganta e afirmou:

- Adam, creio que devias estar mais preocupado com os sentimentos de Jennifer do que com o doutor Vandermer.

Adam ignorou-a. A telefonista da Clínica Julian surgiu de novo na linha e disse-lhe que o Dr. Vandermer estava no meio de uma intervenção e que depois lhe telefonaria. Adam deu o nome e o número de telefone e pousou o auscultador.

- Isto não é normal - murmurou. - Tive um estranho pressentimento acerca da Clínica Julian. E Vandermer...

- Penso que a Clínica Julian é um dos melhores hospitais em que já entrei - interrompeu-o Mrs. Carson. - E não contando com o meu médico, nunca vi um homem mais preocupado com os pacientes do que o doutor Vandermer.

- Vou lá - disse Adam, ignorando a sogra. - Quero falar com ele pessoalmente. - Pegando nas chaves, Adam encaminhou-se para a porta.

- Então, e a tua mulher? - inquiriu Mrs. Carson.

- Eu já volto.

Saiu, batendo com a porta atrás dele.

Mrs. Carson ficou furiosa. Nem podia crer que fora favorável àquele casamento. Ouvindo o choro de Jennifer, decidiu que era melhor não dizer nada. Dirigiu-se à filha, murmurando:

- Vamos para casa. O pai tomará conta de tudo. Jennifer não levantou objecções, mas quando chegou à porta disse:

- Vou deixar um bilhete ao Adam.

Mrs. Carson fez um gesto de assentimento e observou a filha enquanto ela escrevia um curto bilhete, na secretária de Adam, colocando-o depois no chão, ao pé da porta. Dizia apenas: “Vou para casa. Jennifer.”

Adam guiou para o centro da cidade como se fosse um agressivo taxista de Nova Iorque, parou mesmo em frente da Clínica Julian e saltou do carro. Um guarda de segurança uniformizado tentou detê-lo, mas Adam limitou-se a gritar-lhe por cima do ombro de que era o Dr. Schonberg e que se tratava de uma emergência.

Quando chegou à ginecologia, a recepcionista actuou como se estivesse à espera dele.

- Adam Schonberg - disse -, o doutor Vandermer disse para o senhor esperar no gabinete dele. - Apontou para outro corredor. - É a terceira porta à esquerda.

Adam agradeceu à jovem e dirigiu-se para o gabinete que ela lhe indicara. A sala era impressionante, com as prateleiras cheias de livros e de jornais médicos. Adam relanceou os olhos por uma fileira de modelos de fetos, sentindo uma vontade, muito pouco característica dele, de vandalizar o local. Encaminhou-se para a secretária. Era uma secretária grande, com embutidos e pés em forma de garras. Em cima dela estava uma pilha de notas de serviço escritas à máquina, aguardando assinaturas.

O Dr. Vandermer entrou quase imediatamente. Trazia uma pasta de cartolina castanha, de arquivo, debaixo do braço.

- Não quer sentar-se? - sugeriu.

- Não, obrigado - disse Adam. - Não vou demorar-me muito. Só quero confirmar o diagnóstico que fizeram à minha mulher. Pelo que entendi, pensam que ela tem uma criança com defeitos cromossomáticos.

- Receio bem que sim - respondeu o Dr. Vandermer.

- Pensei que eram necessárias semanas para fazer a cultura de tecidos - contrapôs Adam.

O Dr. Vandermer fitou Adam directamente nos olhos.

- Quase sempre isso é verdade - disse. - Mas no caso da sua mulher havia um número de células suficiente, no líquido amniótico, para nos permitir um exame. Adam, como estudante de Medicina, estou seguro de que compreenderá que estas coisas acontecem. Mas tal como disse à sua mulher, vocês são ambos jovens. Podem ter outros bebés.

- Quero ver as preparações - disse Adam, apressando-se para uma discussão.

Porém, Vandermer limitou-se a fazer um aceno de concordância e a dizer:

- Por que é que não vem comigo?

Adam começou a pensar se não teria sido demasiado precipitado no seu julgamento. O homem parecia na verdade pesaroso por ser portador de tão más notícias.

No quarto andar, Vandermer conduziu Adam ao laboratório de citologia. Pestanejou, quando passou a porta. Era tudo branco: paredes, chão, tecto e os tampos dos balcões. Nas traseiras da sala estava uma bancada de trabalho com quatro microscópios.

Apenas um estava a ser utilizado por uma mulher morena, de meia-idade, que olhou para cima quando o Dr. Vandermer se aproximou.

- Cora - pediu -, desculpe incomodá-la, mas pode trazer-me as preparações de Jennifer Schonberg?

Cora confirmou com um aceno e Vandermer fez um gesto para que Adam se sentasse em frente de um microscópio, com oculares duplas.

- Não sabia se quereria ver as fotos obtidas com a ecogra-fia - disse o Dr. Vandermer -, mas trouxe-as, de qualquer modo.

Abriu a pasta que transportava e entregou as imagens a Adam.

Como estudante de Medicina, Adam ainda não tinha qualquer experiência com as ecografias, pelo que as imagens lhe pareciam borrões de tinta. O Dr. Vandermer tirou-lhe das mãos a fotografia que ele estava a ver, virou-a e contornou o perfil do feto em desenvolvimento com a ponta do dedo.

- Esta técnica está a aperfeiçoar-se cada vez mais, está cada vez melhor - disse. - Aqui, podemos perfeitamente ver os testículos. São muitas as vezes em que, neste período da gestação, ainda não se consegue saber o sexo através dos ultra-sons. Talvez este pequenino saia ao pai.

Adam apercebeu-se de que Vandermer estava a fazer o seu melhor para se mostrar amigável.

A porta abriu-se e surgiu Cora com uma caixa com preparações. Cada uma delas tinha uma pequenina cobertura de vidro, ao centro. O Dr. Vandermer seleccionou uma, que fora marcada com um lápis de cera. Pousou-a debaixo das objectivas do microscópio, colocou-lhe uma gota de óleo e baixou as lentes.

Adam sentou-se e espreitou pelas oculares.

O Dr. Vandermer explicou-lhe que os espécimes tinham sido corados especialmente, para que o material cromossomático pudesse ser visto com facilidade. Disse que teriam de encontrar uma célula a passar por um processo de divisão. Finalmente, desistiu e pediu a ajuda de Cora.

- Devia-a ter deixado fazer isto, logo de inicio - disse, trocando de lugar com a mulher.

Cora levou cerca de trinta segundos a encontrar a célula apropriada. Manipulando o pequeno ponteiro, fino como um cabelo, mostrou a Adam a anormalidade cromossomática.

Adam ficou como que esmagado. Esperara que os resultados tivessem sido ambíguos, mas o problema era bem visível, até para os seus olhos pouco experientes. Cora continuou a apontar outros problemas menores, que tinham sido notados, incluindo o facto de um dos cromossomas X também parecer ligeiramente anormal.

Finalmente, Cora perguntou se ele queria ver outro caso, demonstrativo de uma síndroma de Down, mas de um tipo muito mais comum.

Adam abanou a cabeça.

- Não, mas obrigado por me ter dispensado o seu tempo. Pousou as duas mãos na bancada e começou a levantar-se.

De súbito deteve-se. Algo estava errado. Inclinou-se para a frente e espreitou de novo pelo microscópio.

- Mostre-me de novo a anormalidade do cromossoma X - pediu Adam.

Cora inclinou-se para a frente e colocou os olhos nas oculares. Em breve o pequeno ponteiro indicava um par de cromossomas idênticos. Cora começou a explicar a anormalidade de que se suspeitava, mas Adam interrompeu-a.

- Esses são cromossomas X? - perguntou Adam.

- Sem dúvida nenhuma - respondeu Cora -, mas... Adam interrompeu-a de novo e pediu ao Dr. Vandermer para espreitar.

- Está a ver os cromossomas X?

- Estou - respondeu o Dr. Vandermer -, mas tal como acontece consigo, não me é possível apreciar a anormalidade de que Cora está a falar.

- Não estou preocupado com a anormalidade - disse Adam. - Estou só preocupado com esses dois cromossomas X. Ainda há instantes, na imagem da ecografia, o senhor me apontou o facto de a criança ser um rapaz. Esta preparação que estamos a ver é de uma rapariga.

O Dr. Vandermer endireitara-se quando Adam começara a falar. O seu rosto ficou limpo de qualquer expressão. Cora regressou imediatamente ao microscópio.

- Ele tem razão - disse. - A preparação diz respeito a uma rapariga.

Lentamente, o Dr. Vandermer levou a mão direita à cara. Cora debruçou-se sobre a caixa das preparações e verificou o número. Depois examinou o número da própria preparação. Condiziam. Agarrando no registo principal, verificou o número que lá se encontrava. O nome era o de Jennifer Schonberg. Muito pálido, o Dr. Vandermer disse a Adam para aguardar um pouco.

- Já tinha acontecido alguma vez, uma coisa destas? - perguntou Adam, quando o médico saiu.

- Nunca - respondeu Cora.

O Dr. Vandermer reapareceu, trazendo atrás de si um homem enorme. Tal como Vandermer, usava uma longa bata branca. Vandermer apresentou-o a Adam, dizendo que se tratava do Dr. Ridley Stanford. Adam reconheceu o nome. Era o autor do livro de patologia que Adam usara durante o seu segundo ano na Escola Médica e fora o chefe da patologia do hospital da universidade.

- Isto é um desastre - disse o Vandermer, depois de o Dr. Stanford ter observado a preparação.

- Estou inteiramente de acordo - confirmou o Dr. Stanford, numa voz tão sem emoção como a de Vandermer. - Não consigo imaginar como é que tal coisa poderá ter acontecido. Deixe-me fazer alguns telefonemas.

Alguns minutos depois havia dez outras pessoas amontoadas em volta do microscópio.

- Quantas análises amnióticas foram feitas ontem? - perguntou o Dr. Vandermer.

Cora olhou para os registos.

- Vinte e uma - respondeu.

- Terão todas de ser repetidas - disse o Dr. Vandermer.

- Sem dúvida - confirmou o Dr. Stanford. Virando-se para Adam, o Dr. Vandermer disse:

- Devemos-lhe os nossos agradecimentos. Os outros fizeram eco dos seus sentimentos.

Adam sentiu-se como se lhe tivessem tirado de cima da cabeça uma enorme nuvem negra. O seu filho não era nenhuma espécie de monstro genético. A primeira coisa que queria fazer era telefonar a Jennifer.

- Teríamos muita honra se quisesse ficar para almoçar connosco - disse o Dr. Stanford. - Vamos ter uma fabulosa conferência sobre tumores retroperitoneais, que era capaz de achar interessante.

Adam agradeceu e pediu desculpa por não lhe ser possível ficar e desceu apressadamente para o vestíbulo principal. Não podia crer que, face àquele desastre, eles ainda queriam que ficasse para almoçar e para uma conferência! Era indiscutível que aquele lugar tinha algo de estranho. Passando em frente da porta, a caminho do telefone, Adam ficou satisfeito ao verificar que o seu carro ainda se encontrava onde o deixara.

Adam telefonou primeiro para o apartamento, mas não obteve resposta. Pensando que Jennifer poderia ter ido para casa com a mãe, marcou o número de Englewood, mas também não obteve qualquer resposta.

Depois de um momento de hesitação, Adam decidiu-se a regressar ao apartamento. Saiu a correr da Clínica Julian, meteu-se no carro e dirigiu-se para casa.

A sua excitação, por causa das boas notícias, estava agora a abrir caminho para uma pesada sensação de mal-estar acerca da Clínica Julian e do Dr. Vandermer. Fora apenas um puro golpe de sorte, o facto dele ter notado a discrepância. E se não o tivesse notado e Jennifer fizesse um aborto?

Adam sentiu que todas as suas ansiedades regressavam, numa repentina onda. Evitara uma catástrofe, por muito pouco, mas, a não ser que fosse capaz de afastar Jennifer tanto de Vandermer como da clínica, poderiam surgir outras. Durante alguns instantes, abandonara a ideia de seguir no cruzeiro da Arolen. Agora, parecia-lhe de novo que essa talvez fosse a única maneira de provar que Vandermer era perigoso. Adam olhou para o relógio. Era meio-dia e vinte, ainda tinha tempo para embarcar no Fiord, às seis horas.

Ao chegar à porta do apartamento, ficou desapontado quando a descobriu fechada à chave. Encontrou o bilhete de Jennifer, muito impessoal, e decidiu telefonar de novo para Englewood. Ficou satisfeito quando foi Jennifer quem respondeu, em vez da mãe.

- Tenho boas e más notícias.

- Não estou com disposição para brincadeiras - disse Jennifer.

- As boas notícias são que eles trocaram os testes, na clínica. Era o bebé de outra pessoa qualquer que tinha maus cromossomas. Trocaram as preparações.

Por momentos, Jennifer teve medo de perguntar se Adam estava a falar verdade ou se aquilo era apenas alguma espécie de truque para a fazer perder a fé em Vandermer. A notícia parecia-lhe demasiado boa para ser verdadeira.

- Jennifer, estás a ouvir-me?

- É verdade? - perguntou Jennifer, incerta.

- Sim - respondeu Adam, explicando-lhe como notara a discrepância em relação ao sexo da criança.

- Que é que disse o doutor Vandermer? - perguntou Jennifer.

- Disse que todas as análises amnióticas feitas naquele dia, terão de ser repetidas.

- Essa era a má notícia a que te referias?

- Não - respondeu Adam. - A má notícia é a de que vou à mesma sair da cidade, a não ser que me prometas fazer uma coisa...

- O que é que tenho de prometer? - perguntou Jennifer, céptica.

- Promete-me passares a ver o doutor Wickelman durante o resto da gravidez e deixa de tomar Pregdolen.

- Adam... - murmurou Jennifer, pronunciando o nome arrastadamente, de modo impaciente.

- Estou mais convencido do que nunca de que há algo de estranho quanto à Clínica Julian - disse Adam. - Se concordares em ver o doutor Wickelman, prometo não interferir com o que ele sugerir.

- Os erros acontecem todos os dias, nos hospitais - contrapôs Jennifer. - Lá por ter acontecido um erro na Clínica Julian, isso não significa que eu deva deixar de lá ir. Parece-me o sítio ideal para vir a ter o bebé, agora que já me passou o que senti com o episódio da Cheryl Tedesco. Gosto das pessoas de lá e do ambiente.

- Bom - disse Adam -, tornarei a ver-te dentro de alguns dias.

- Onde é que vais? - perguntou-lhe Jennifer.

- Prefiro não o dizer - respondeu Adam.

- Atendendo às circunstâncias - disse Jennifer -, não achas que devias ficar aqui? Adam, preciso de ti.

- Isso é um pouco difícil de acreditar, contigo a viver em casa dos teus pais e eu sozinho no apartamento. Desculpa, mas tenho de ir. Amo-te, Jennifer.

Adam desligou e telefonou para a Easter Airlines, antes de poder ter tempo para segundos pensamentos. Reservou um lugar num voo que partia para Miami, de LaGuardia, dentro de quarenta e oito minutos.

Adam pegou na sua pequena mala Samsonite, que se encontrava no roupeiro, e começou a tratar da roupa. Quando guardava os seus artigos de higiene, o telefone tocou. Adam estendeu a mão, mas, depois, pela primeira vez na sua vida, ignorou a chamada. Um so minuto de atraso e perderia o avião.

Jennifer esperou, deixando que o telefone tocasse durante longo tempo. Finalmente, desligou. Logo após ter falado com Adam decidira que era melhor ver o Dr. Wickelman, se isso tinha uma tão grande importância para Adam. Podia dar uma oportunidade ao homem, mas se não se sentisse bem com ele, poderia sempre voltar para o Dr. Vandermer. Mas Adam, aparentemente, já tinha partido. Jennifer sentiu-se abandonada. Antes de conseguir tirar a mão do auscultador, o telefone tocou de novo. Esperando que fosse Adam, levantou-o antes de o primeiro toque ter terminado. Era o Dr. Vandermer.

- Suponho que já tem conhecimento da boa notícia.

- Sim, Adam acabou de me contar - confirmou Jennifer.

- Estamos muito gratos ao seu marido - disse o Dr. Vandermer. - É muito pouco vulgar que alguém repare numa anormalidade secundária, face a uma esmagadora descoberta positiva.

- Portanto, é verdade que eu não tenho uma criança com defeitos - disse Jennifer.

- Receio que não seja possível ir tão longe como isso. Ainda não é difícil afirmá-lo - contrapôs o Dr. Vandermer. - Infelizmente, não sabemos qual o resultado do seu teste. Teremos de repetir o procedimento. Lamento muito que isto tenha acontecido. Além de si, tivemos mais vinte pessoas a fazer esse mesmo teste, naquele dia, e todas elas terão de repetir. Claro que serão feitos por conta da clínica.

- Quando é que quer que repita o teste? - perguntou Jennifer.

Gostava da sinceridade do médico, pronto a aceitar a responsabilidade, mesmo apesar do erro ter sido, sem dúvida, cometido por alguém do laboratório.

- O mais depressa possível - disse o Dr. Vandermer. - Lembre-se que teremos um problema de tempo, se houver alguma contrariedade.

- Que tal se eu voltasse aí amanhã de manhã? - perguntou Jennifer.

- Isso seria óptimo. Não é urgente, mas quanto mais depressa fizermos de novo o teste, melhor.

Capítulo décimo segundo

O voo para Miami decorreu sem incidentes. Logo que o avião levantou voo, Adam retirou da carteira a sua própria carta de condução e substituiu-a pela de Smyth. A seguir estudou as moradas e indicações que constavam do passaporte. Se alguém lhe perguntasse onde é que vivia, queria responder sem qualquer espécie de vacilações.

O avião aterrou cinco minutos depois das quatro e, uma vez que Adam levara a bagagem para bordo, já se encontrava numa paragem de táxis às quatro e quinze. O táxi era uma velha e escavacada station Dodge e o condutor só falava espanhol, mas reconheceu o nome do Fiord e compreendeu que Adam ia participar num cruzeiro.

Adam observou a paisagem tropical. Miami era muito mais bonita do que ele imaginara. Em breve passaram por cima de um comprido viaduto e Adam viu o porto. Os navios de cruzeiros estavam atracados em fila e o Fiord era o que ocupava o último lugar. Comparado com os outros, o Fiord não parecia nem muito grande nem muito pequeno. Tal como os outros, estava pintado de branco. Tinha uma única e enorme chaminé, com um desenho que representava duas setas enroladas uma na outra. Adam interrogou-se se aquele seria o emblema da MTIC.

O condutor do táxi não podia parar junto do passeio, pelo que Adam lhe pagou e saiu do carro no meio da rua. De mala na mão, dirigiu-se para a entrada do edifício. O barulho dos apitos dos carros, vozes e motores em ponto morto, era terrível e o ar estava saturado de fumos. Era um alívio, entrar lá dentro.

Dirigiu-se para um balcão de informações, onde os uniformes das recepcionistas lhe fizeram lembrar o vestuário do pessoal da Clínica Julian. Também aqui usavam blusas brancas e jaquetas azuis.

Adam teve de gritar para se fazer ouvir. Queria saber onde é que se devia apresentar e mandaram-no apanhar o elevador para o segundo andar. Adam agradeceu à jovem que o informou, dizendo “obrigado” apenas com os lábios, de uma maneira muito nítida.

Entrar no elevador não foi fácil, especialmente por causa da mala. Enquanto subia, observou a multidão. Apesar de se verem algumas poucas mulheres, a grande maioria eram homens, que na verdade tinham aspecto de médicos, prósperos e satisfeitos consigo próprios. Na sua maior parte vestiam fatos de negócios, apesar de alguns ostentarem camisas desportivas e calças leves.

No segundo andar do terminal via-se uma longa mesa de registo, dividida em segmentos alfabéticos. Adam juntou-se à fila em frente das letras “N-Z”.

Olhando em volta da sala, Adam sentiu subitamente que os pés lhe arrefeciam. Talvez fosse melhor ir-se embora. Ninguém daria por isso. Podia apanhar um táxi para o aeroporto e voltar para casa. Começou a contar o número de pessoas que se encontrava entre ele e a mesa de registo. Nesse momento, os olhos de Adam cruzaram-se com os de um homem que se encontrava muito perto dele, na fila mais próxima. Olhando rapidamente para outro lado, Adam agitou os pés, nervoso. Não havia razão nenhuma para que alguém estivesse a olhar para ele. Gradualmente, Adam permitiu que os seus olhos se deslocassem para a fila seguinte. Infelizmente, o homem continuava a olhar para ele. Quando viu que Adam o olhava, sorriu-lhe. Adam correspondeu ao sorriso. Então, para seu grande horror, o homem avançou para ele.

- Chamo-me Alan Jackson - disse, forçando Adam a pousar a mala e a trocar um aperto de mão.

Nervosamente, Adam apresentou-se como Stuart Smyth. Alan fez um aceno e continuou a sorrir.

Era pelo menos dez anos mais velho do que Adam e tinha ombros largos e uma cintura fina. O cabelo cor de areia estava penteado para a frente, provavelmente para cobrir alguma zona careca.

- Parece-me que te conheço de qualquer lado - disse Alan. - És de Nova Iorque?

Adam sentiu que o sangue lhe fugia do rosto. Ainda nem sequer se tinha registado e já estava metido em problemas.

Nesse momento os altifalantes entraram em acção: “Boa tarde, senhoras e cavalheiros. Para os que têm cartões de embarque, o Fiord estará pronto a recebê-los dentro de poucos minutos. Se ainda não possuem o cartão de embarque, recomendamos que se dirijam imediatamente às mesas de registo.”

- Não está em ortopedia? - perguntou Alan, logo que os altifalantes se silenciaram.

- Não - disse Adam, aliviado. Era claro que o homem não conhecia o verdadeiro Smyth. - Sou de obstetrícia e ginecologia. E tu?

- Ortopedia. Estou na Universidade da Califórnia, San Diego. É o teu primeiro cruzeiro na Arolen?

- Não - respondeu Adam rapidamente. - E para ti, é o primeiro?

- É o segundo - disse Alan, virando-se subitamente. - Meu Deus, está ali o Ned Janson. Ned, velho patife! Aqui!

Adam viu um homem forte e de cabelos escuros, que se encontrava com uma das poucas mulheres que se viam entre a multidão, a levantar os olhos para eles. Vendo Alan, o seu rosto iluminou-se com um sorriso. Pegou na mulher pelo braço e abriu caminho para eles.

Enquanto Alan e Ned executavam o ritual de um encontro com palmadas nas costas, Adam apresentou-se à mulher. Chamava-se Clair Osborn. Era uma mulher de bom aspecto, com cerca de trinta anos, uma cara redonda e saudável e pernas compridas e musculadas. Vestia uma saia curta, preta e branca. Adam estava muito satisfeito com a companhia, até que ela lhe disse que era ginecologista.

- Qual é a tua especialidade? - perguntou Clair. - Ortopedia ou obstetrícia e ginecologia?

- Porquê limitar a escolha apenas a essas duas? - brincou Adam, tentando mudar de assunto.

- Trata-se da minha brilhante intuição - disse Clair. - Mais o pormenor de este cruzeiro ser apenas para ortopedistas e obstetras.

Adam riu-se, nervosamente.

- Oh, bem, estou em obstetrícia.

- Verdade? - disse Clair, satisfeita. - Então iremos às mesmas reuniões.

- Será óptimo - respondeu Adam. - É o teu primeiro cruzeiro?

Adam queria falar sobre qualquer assunto, excepto obstetrícia e ginecologia. Não era suficientemente louco para pensar que poderia manter uma conversa profissional.

- Claro que é - disse Clair. - É também o primeiro para o Ned. Não é verdade, Ned?

Clair agarrou-se ao braço de Ned, para lhe chamar a atenção. Escutando fragmentos de conversação, Adam compreendeu que Alan e Ned tinham estado juntos num mesmo hospital.

- Eh! Isto é formidável! - disse Ned, depois de ser apresentado a Adam. - Por que é que não jantamos todos juntos?

Alan abanou a cabeça.

- O pessoal da Arolen é que marca os lugares. Consideram que as refeições são uma extensão das sessões científicas.

- Ora bolas! - exclamou Ned. - Então o que é isto afinal, um curso de Verão?

O homem que se encontrava na fila à frente de Adam afastou-se, com o cartão de embarque na mão. Adam avançou para a mesa de registo e encarou com um jovem vestido com um impecável casaco branco. No bolso do peito via-se o mesmo emblema que Adam vira pintado nos lados da chaminé do Fiord. Na lapela tinha uma etiqueta com o nome, que dizia “Juan”. Por debaixo via-se o apelido e, escrito em pequenas letras, “MTIC”.

- O nome, por favor? - pediu Juan.

A sua voz soava como se já tivesse feito aquela pergunta tantas vezes que a mesma se tornara automática.

- Stuart Smyth - respondeu Adam, remexendo na carteira para procurar a carta de condução.

Enquanto a procurava, o seu cartão da Arolen caiu em cima da mesa. Felizmente, Juan estava já ocupado a introduzir o nome de Stuart Smyth no computador e não o viu. Adam virou-se para verificar se algum dos seus novos amigos tinha dado por isso, mas eles estavam entretidos a conversar. Virou-se de novo para Juan pensando que quando o cruzeiro terminasse, teria os nervos destroçados. Furtivamente, escondeu o cartão da Arolen no bolso do casaco.

- Passaporte? - pediu Juan.

Depois de um momento de pânico, Adam encontrou o passaporte no bolso interior do casaco e entregou-o. Juan abriu-o. Adam sentiu uma onda de terror, mas Juan observou o documento talvez durante dois segundos e devolveu-o, dizendo:

- Aqui está o seu cartão de embarque. Por favor, apresente-o ao comissário e ele lhe indicará qual a sua cabina. Se sair do navio durante o cruzeiro, certifique-se de que leva o cartão consigo. O seguinte, por favor.

Adam afastou-se para o lado, para que o homem que se encontrava atrás dele se pudesse aproximar da mesa. Até agora, tudo bem.

Depois de Alan receber o seu cartão de embarque, ele, Ned e Clair acompanharam Adam até ao balcão da Arolen. Ali, entregaram-lhes um pacote com “presentes”, como Ned lhes chamou. Começa a coisa, pensou Adam, enquanto observava o presente, uma mala de tiracolo em couro, com o emblema da MTIC num dos lados. Dentro da mala estava um conjunto de lapiseira e esferográfica Cross, um bloco de apontamentos, encadernado a couro e um programa das conferências a bordo do navio. Havia também uma colecção completa de produtos da Arolen, incluindo uma pequena farmácia. Adam observou o presente com interesse, mas sabia que teria de esperar para o examinar detalhadamente.

Os altifalantes entraram de novo em funcionamento e foi anunciado que o navio estava pronto para os receber. Ouviram-se aclamações no meio da multidão quando Adam e os seus novos companheiros caminharam lentamente para o exterior. Um polícia uniformizado verificou-lhes os cartões à entrada do cais e todos eles se precipitaram para a escada de embarque. Quando acabou de subir a rampa, Adam encontrou-se no convés principal. Seria precisa muita imaginação para considerar que se tratava de um navio novo, mas parecia estar bem cuidado e certas zonas tinham o aspecto de terem sido renovadas muito recentemente. O pessoal estava todo vestido como o homem da mesa de registo, com casacos brancos e calças pretas. Os uniformes brilhavam, imaculados e cuidadosamente passados a ferro.

Adam foi abordado por um dos camaroteiros que, muito polidamente, pediu para verificar o cartão de embarque e o conduziu para uma mesa, à direita. Aparentemente havia cartões de várias cores, para os que já tinham participado num | cruzeiro anterior. Ned e Clair foram enviados para uma mesa diferente.

Adam foi enviado para a cabina 407 no convés A, que se encontrava directamente por debaixo do convés principal. Enquanto recebia a chave, reparou que o comissário tinha uma voz | com a mesma inflexão monótona que notara no jovem da mesa de registo.

Alan, que se encontrava logo atrás de Adam, foi enviado : para a cabina 409. Enquanto se afastavam, Adam comentou naquele tom de voz sem inflexões.

- Provavelmente é por terem de dizer sempre as mesmas coisas, vezes sem conta - respondeu Alan. Aproximou-se um camaroteiro que aliviou Adam da mala e do seu novo saco da Arolen. - Obrigado - disse Adam.

O homem não respondeu, limitando-se a indicar que Adam o deveria seguir. - Até logo, Stuart! - gritou Alan.

Adam necessitou de um pequeno instante para se lembrar || que aquele era o seu nome. - Sim, claro - respondeu.

O camaroteiro fê-lo passar por uma loja cheia de malas Gucci e máquinas fotográficas japonesas. Nas traseiras da loja havia vinhos, licores, tabaco e também uma secção de medicamentos. Pela primeira vez, Adam pensou na possibilidade de se vir a sentir enjoado.

- Desculpe - disse -, quando é que a loja abre?

- Cerca de uma hora depois da partida.

- Será que eles vendem Dramamina ou daqueles tampões para os ouvidos, por causa do enjoo?

O camaroteiro olhou para ele, com o rosto sem expressão.

- Não sei se vendem Dramamina ou daqueles tampões para os ouvidos.

O modo como o homem respondera à questão de Adam não convidava a mais perguntas.

As cabinas 407 e 409 ficavam ao lado uma da outra, a bombordo do navio. Alan não estava à vista. O camaroteiro de Adam abriu a porta da 407 e deixou Adam entrar.

Para Adam, que nunca se encontrara a bordo de um navio de luxo, o quarto parecia pequeno. Tinha uma cama simples, à direita, com uma mesa-de-cabeceira. À esquerda via-se uma pequena secretária e uma cadeira. A casa de banho era minúscula, com um chuveiro, sanita e um lavatório, todos em cima uns dos outros, junto de um pequeno armário.

O camaroteiro meteu a cabeça na casa de banho, entrou e reapareceu com um copo de água, que entregou a Adam.

- Para mim? - perguntou Adam. Pegou no copo e bebeu um pequeno gole. A agua sabia a produtos químicos.

O camaroteiro meteu a mão no bolso do casaco e tirou de lá uma cápsula amarela, que estendeu a Adam.

- Bem-vindo a bordo, mais uma vez. Adam sorriu, incerto.

- Sim, é agradável estar aqui - disse, olhando desconfiado para a cápsula amarela. Era claro que o camaroteiro queria que ele a tomasse.

Adam estendeu a mão e o camaroteiro deixou cair a cápsula na sua palma. Não parecia ser Dramamina, mas como é que ele podia saber?

- Isto é para o enjoo? - perguntou.

O camaroteiro não respondeu. O seu olhar fixo, sem pestanejar, fez com que Adam se sentisse desconfortável.

- Aposto que é para o enjoo - disse Adam, metendo a cápsula na boca.

Depois de engolir, devolveu o copo de água ao camaroteiro, que regressou à casa de banho. Enquanto ele se encontrava fora do quarto, Adam tirou a cápsula amarela da boca e meteu-a no bolso do casaco.

O camaroteiro puxou para baixo a coberta da cama, como se esperasse que Adam fosse dormir. Depois colocou a mala de Adam sobre uma prateleira e começou a arrumar-lhe as roupas.

Espantado com um tal serviço, Adam sentou-se na cama e ficou a observar o homem, que executava silenciosamente a sua tarefa. Quando o camaroteiro terminou, agradeceu a Adam e saiu.

Adam deixou-se ficar sentado durante uns momentos, intrigado com o comportamento do camaroteiro. Depois levantou-se e foi buscar a sua nova mala da Arolen. Os medicamentos espalharam-se em cima da cama.

Tirando a cápsula amarela do bolso, verificou se condizia com alguma das amostras. Não condizia. Adam interrogou-se sobre se lhe seria possível encontrar um Simpósio Farmacêutico a bordo. Devia haver uma biblioteca, com os livros de referência básicos. Estava com muita curiosidade a respeito da cápsula amarela. Tinha de ser para o enjoo. Adam olhou para ela uma última vez e depois meteu-a num pequeno frasco de aspirinas.

Pegou na lista de conferências e começou a lê-la. Tinha quase vinte e cinco páginas. A primeira metade tratava de ortopedia e a segunda de obstetrícia e ginecologia. Adam notou que a maior parte das conferências tinha uma orientação clínica e pensou que talvez a sua tão grande popularidade se devesse a isso.

Adam estava convencido de que, se a bordo se levava a cabo qualquer actividade do tipo “lavagem ao cérebro”, esta teria de ser feita durante as conferências. Mas que poderiam eles dizer que fosse capaz de levar um médico como o Dr. Van-dermer a mudar a sua opinião a respeito de um medicamento? Seria alguma espécie de hipnose subliminar? Adam atirou para o lado o programa de conferências. Muito em breve iria saber como é que o faziam

O som de uma sereia sobressaltou-o. A seguir ouviu os motores a entrarem em funcionamento. Resolveu ir até ao convés, para assistir à partida.

Pendurando o seu casaco desportivo e libertando-se da gravata, Adam passou para o corredor. Parou em frente da porta da cabina 409, apercebendo-se de que apesar de terem uma parede comum, não ouvira o menor ruído provocado por Alan. Bateu na porta e esperou, mas não obteve resposta. Passou por ele um outro camaroteiro e Adam teve de se apertar de encontro à parede para lhe dar espaço. Depois bateu de novo. Estava já para se ir embora quando ouviu qualquer coisa a cair dentro da cabina. Com os nós dos dedos, bateu de novo, desta vez com mais força, pensando que talvez Alan se encontrasse na casa de banho. Continuou sem obter resposta. Adam experimentou o fecho. Estava aberto e a porta abriu para dentro.

Alan encontrava-se sentado na berma da cama. A seus pés via-se um copo de água que acabara aparentemente de cair.

- Peço desculpa - disse Adam, embaraçado. Alan murmurou que não fazia mal, mas Adam via que ele deveria ter estado a dormir. - Lamento ter-te incomodado. Ia para cima para assistir à partida e pensei que tu... - Adam não terminou a frase, porque Alan estava lentamente a cair para a frente. Entrando na cabina, agarrou-o antes que ele embatesse no chão e içou-o de novo para a cama. - Sentes-te bem?

Ensonado, Alan acenou que sim.

- Estou apenas cansado.

- Creio que será melhor dormires um pouco - riu-se Adam, olhando para a mesa-de-cabeceira, desconfiado de que Alan tinha bebido um copo ou dois. Mas não havia nenhuma garrafa à vista. Ficou na dúvida se haveria de tapar o homem, mas como ele estava completamente vestido, deixou-o ficar por cima das roupas da cama.

Na área de recepção ainda se viam algumas pessoas à espera que lhes indicassem as cabinas. A escada de embarque, contudo, já fora içada. Adam continuou a subir, mais dois níveis, até ao que era denominado convés de passeio, e saiu para o exterior.

A mudança do fresco ar condicionado para o tórrido calor de Miami, foi um choque. Adam dirigiu-se para a amurada e olhou para baixo, para o cais. Os estivadores estavam muito ocupados a soltar os cabos, libertando o navio do cais. As vibrações do motor aumentaram e o navio começou lentamente a afastar-se do cais. Vindo da popa, Adam ouviu aclamações e a seguir o barulho de uma banda musical.

Caminhando para a frente, Adam atingiu rapidamente uma parede de teca, com uma porta que dava para a proa. Havia um cartaz a dizer: “Só para a tripulação. Não é permitida a entrada a passageiros.” Adam experimentou a porta. Estava aberta, mas decidiu não desafiar a sua sorte, ultrapassando-a.

A sereia soou de novo e, ao mesmo tempo, a vibração do navio alterou-se. Adam calculou que as hélices principais tinham começado a trabalhar. Lentamente, o navio iniciou a sua marcha.

Adam encontrou outros passageiros que exploravam o navio. Toda a gente era expansiva e amigável, prevalecia um ambiente de férias.

Adam desceu para o convés inferior e viu-se rodeado por salas de conferências de todos os tamanhos, que iam desde um teatro completo até salas de seminários para menos de doze pessoas. Quase todas elas estavam equipadas com quadros negros e projectores de slides.

A meio do navio, deparou com uma porta onde se lia “Biblioteca”. Queria entrar e procurar um Simpósio Farmacêutico, mas a porta estava fechada. Partindo do princípio de que a abririam durante a manhã, continuou em frente. Pouco depois o corredor central terminava numa porta fechada, que ele calculou ir dar aos alojamentos da tripulação.

Descendo outro nível, foi dar ao convés principal. Passou pela loja e pela área de recepção e parou para examinar a sala de jantar principal. Era enorme, com candelabros de cristal e grandes janelas panorâmicas. Num dos extremos via-se uma plataforma elevada, com um pódio para oradores. De cada um dos lados da plataforma existiam portas oscilantes que, aparentemente, deveriam dar para a cozinha. Empregados atarefados com a preparação das mesas entravam e saíam por elas, com as suas bandejas. Um cartão colocado junto da entrada informava que o jantar seria servido às nove horas.

Adam desceu mais um nível, para o convés A, onde se encontrava localizada a sua cabina. Algumas das portas das cabinas estavam abertas e podia ver os médicos a desfazerem as malas, a entrarem e a saírem dos quartos uns dos outros.

Descendo ainda outro nível, encontrou mais salas de conferências, um pequeno ginásio, o consultório do médico de bordo e uma pequena piscina interior. Concluindo que já explorara o navio até onde lhe era possível, refez todo o caminho de volta ao convés de passeio, onde se desenrolava um barulhento cocktail party.

Ned Janson avistou-o e arrastou-o consigo para um grupo que se encontrava junto da piscina. Adam não tinha maneira de recusar e, em breve, deu por si a beber uma Heineken gelada.

- Onde diabo está Alan? - perguntou Ned, por cima daquela confusão de vozes.

- Na cabina, a dormir - respondeu Adam.

Ned fez um gesto com a cabeça, como se esperasse um tal facto e depois começou a dar palmadas nas coxas, quando a banda atacou When the Saints Come Marchiríln.

Adam sorriu por cima da mesa, para Clair, que parecia estar a divertir-se e depois olhou em volta, para o grupo. Era uma típica reunião de médicos, barulhenta, física, com montes de palmadas nas costas, anedotas e bebedeiras. No instante em que Adam acabou de beber a sua cerveja, Ned meteu-lhe outra nas mãos.

Muito subitamente, o navio começou a balouçar. Adam olhou para trás e verificou que as luzes de Miami tinha desaparecido. O navio estava agora em pleno Atlântico. O estômago deu-lhe uma espécie de reviravolta e ele pousou apressadamente a cerveja.

Os outros médicos em volta da mesa pareciam não dar pelos movimentos do navio e Adam desejou ter sido capaz de encontrar comprimidos contra o enjoo. Interrogou-se mais uma vez se a cápsula amarela seria para as náuseas. Sentiu-se tentado a perguntar, mas depois chegou à conclusão que não conseguia aguentar as gargalhadas e a barulheira daquele grupo.

Pediu desculpa e afastou-se rapidamente em direcção à proa, procurando um sítio tranquilo junto da amurada. Depois de alguns minutos já se sentia melhor, mas decidiu deitar-se um pouco, na sua cabina. Fechando os olhos sentia-se bem, apesar da cerveja ainda lhe andar a chocalhar dentro do estômago.

Jennifer e o pai tinham saído para dar um passeio pelos campos por detrás da casa. Ela sabia que ele queria discutir a sua gravidez e, durante a última meia hora mantivera-o afastado do assunto com uma verdadeira barragem de futilidades. Finalmente, ao virar-se para regressar a casa, Jennifer decidiu que chegara o momento de encarar esse tema.

- Que achas que devo fazer, pai? Mr. Carson rodeou-a com o braço.

- O que quiseres, estará bem.

- Mas qual é a tua opinião? - perguntou Jennifer.

- Essa e outra questão - respondeu Mr. Carson. - A tua mãe confia de verdade nesse doutor Vandermer. A confusão com os testes amnióticos foi uma infelicidade, mas gostei da maneira como ele tratou do assunto. Penso que deves seguir as recomendações que ele te fizer.

- O doutor Vandermer quer que eu repita o teste imediatamente - disse Jennifer.

- Se ele considera que há uma hipótese de vires a pensar num aborto, então acho que o deves fazer. Tanto a tua mãe como eu somos da opinião que não se deve deixar vir ao mundo uma criança sofrendo de graves deficiências. Não é justo para ninguém, incluindo a criança. Mas isso é o que nós pensamos...

- Creio que penso da mesma maneira - disse Jennifer. - Mas faz-me sentir tão mal...

Mr. Carson apertou a filha, carinhosamente.

- Claro, querida. E o teu marido não está a facilitar as coisas. Não gosto de fazer julgamentos, mas não aprecio a maneira como ele está a actuar. Devia estar aqui a ajudar-te a tomar estas decisões, e não a vagabundear numa qualquer viagem misteriosa.

Chegaram à porta de rede nas traseiras da casa. Ouviam os ruídos feitos por Mrs. Carson, na cozinha, a preparar o jantar.

- Provavelmente tens razão - disse Jennifer, abrindo a porta. - Vou telefonar ao doutor Vandermer, para repetir o teste amanhã.

“Boa tarde, senhoras e cavalheiros. O jantar está agora a ser servido.”

Adam acordou de um sono profundo e levou vários minutos a compreender que a voz provinha de um pequeno altifalante, na parede da cabina. Olhou para o relógio. Eram já nove horas.

Lutando para se pôr de pé, Adam sentiu o navio a rolar e a balançar. A ideia do jantar não era muito atraente. Tomou um duche rápido, tentando manter o equilíbrio, vestiu-se e saiu da cabina. Deteve-se por um minuto e bateu à porta de Alan, mas não obteve resposta. Ou o homem ainda estava a dormir ou já tinha ido jantar. Em qualquer dos casos, não era um assunto que lhe dissesse respeito.

Verificou que a loja do navio estava aberta e entrou para comprar Dramamina, mas o homem por detrás do balcão informou-o que estavam esgotadas e que teria de esperar até à manhã seguinte para ir buscar mais ao armazém de bordo. Desapontado, Adam encaminhou-se para a sala de jantar, onde um empregado lhe perguntou se era obstetra ou ortopedista. Adam disse-lhe que era obstetra e o empregado conduziu-o a uma mesa perto do pódio para os oradores.

Já lá se encontravam mais cinco médicos sentados. Adam estava tão ocupado a recordar-se que se chamava Stuart que durante as apresentações só conseguiu fixar dois dos nomes do seus companheiros: Ted e Archibald.

A conversa era quase inteiramente médica, apesar de versar mais sobre os problemas económicos do que sobre a prática clínica.

Adam pouco disse, preocupado com o seu enjoado estômago. Logo que lhe foi possível, fez sinal ao empregado para lhe retirar o prato, interrogando-se sobre como é que os outros eram capazes de ignorar as oscilações do navio. Depois do café ter sido servido, um homem alto e moreno subiu à plataforma.

- Atenção, atenção-disse ele, verificando o microfone. - Chamo-me Raymond Powell e sou o vosso hospedeiro oficial, da MTIC. Bem-vindos a este cruzeiro de conferências médicas das Indústrias Farmacêuticas Arolen.

As conversas cessaram, quando as pessoas viraram as atenções para o pódio. Powell fez um típico discurso de boas-vindas e depois passou o microfone ao Dr. Goddard, que estava encarregado do programa médico.

Quando Goddard parou de falar, Powell voltou a aproximar-se do microfone e disse:

- E agora, temos uma surpresa. Para vosso entretenimento, deixem-me apresentar-lhes as Caribean Dancers!

Abriram-se portas dos dois lados da plataforma do orador e um grupo de doze elementos, escassamente vestidos, irrompeu na sala. Adam só avistou dois homens. O resto eram raparigas jovens, invulgarmente bonitas. Por detrás delas encontrava-se um grupo rock, com guitarras eléctricas. Muito rapidamente, o bando instalou altifalantes na plataforma.

Enquanto as jovens entretinham a audiência, Adam verificou que Powell e Goddard estavam de pé, num dos lados da sala, como que a verificar o efeito das dançarinas sobre o usualmente comedido grupo de médicos. Depois de alguns minutos, Adam tinha a sua atenção focada numa morena particularmente atraente: ancas estreitas e peitos firmes e subidos. Ela fitou os olhos de Adam apenas por um momento e ele seria capaz de jurar que lhe tinha piscado um olho. Infelizmente, o estômago de Adam não queria cooperar e, no meio do espectáculo, Adam chegou à relutante conclusão de que era melhor ir visitar o convés.

Pedindo desculpa, abriu caminho através da turbulenta multidão, cada vez com mais pressa de se afastar dali. Mal conseguiu chegar até junto da amurada antes do estômago se revirar. Vomitou violentamente para o mar. Um minuto depois olhou em volta para verificar se alguém o tinha visto. Felizmente, o convés estava deserto. Baixando os olhos, inspeccionou a frente da camisa. Estava limpa. Aliviado, Adam caminhou para a proa, contra o vento. Ainda não se sentia pronto para voltar lá para baixo.

Depois de deixar passar alguns minutos sentiu-se um pouco melhor e, quando chegou à porta proibida aos passageiros, limitou-se a abri-la e a passar para o outro lado. As luzes eram muito mais escassas nesta parte do navio e o convés era de um tom cinzento uniforme e não envernizado. Adam avançou todo o caminho até à proa e olhou para baixo, para uma confusão de cabos e correntes. O mar saltava e torcia-se de cada um dos lados. O céu estrelado estendia-se por cima dele. Subitamente, uma mão pousou-lhe sobre o ombro.

- Esta é uma área não autorizada - disse um homem, com acento espanhol.

- Desculpe - disse Adam, nervosamente, tentando distinguir o rosto do homem. - Este é o meu primeiro cruzeiro e andava apenas a passear por aqui. Há alguma hipótese de visitar a ponte? - Adam lembrava-se do velho adágio que dizia que a melhor defesa era o ataque.

- Está drogado?

- Eu?! - disse Adam, surpreendido. - Não, estou bem.

- Sem ofensa - respondeu o homem -, mas já tivemos algumas experiências muito más, no passado, com alguns passageiros. O comandante está na ponte, neste momento. Vou ver se ele o deixa subir.

Depois de perguntar o nome a Adam, o homem desapareceu, tão silenciosamente como chegara. Momentos depois uma voz chamou-o lá de cima, convidando-o a subir. Havia uma escada a estibordo.

Adam deu a volta e encontrou a escada. Lá no alto, o homem com pronúncia espanhola mantinha aberta a porta para a ponte.

No interior, Adam verificou que os instrumentos eram iluminados com luzes vermelhas, dando à sala um ar surrealista. O homem do leme ignorou a presença de Adam, mas houve um outro homem que avançou e se apresentou como sendo o comandante Eric Nordstrom. Parecia mais jovem do que o que Adam esperara e, ao princípio, portou-se de uma maneira muito cautelosa em relação ao seu hóspede.

- José disse que este era o seu primeiro cruzeiro, doutor Smyth. - É verdade - respondeu Adam pouco à vontade, lembrando-se de que Smyth já estivera num cruzeiro da Arolen. O comandante não fez comentários e Adam perguntou:

- Quem é o proprietário do navio?

- Não tenho bem a certeza - respondeu Nordstrom. - A tripulação trabalha para uma companhia chamada MTIC. Se é ela a proprietária do navio ou se o fretou, isso não sei.

- A MTIC é um bom patrão?

O comandante Nordstrom encolheu os ombros.

- Recebemos os cheques de pagamento a tempo e horas. Mas é muito aborrecido fazer sempre o mesmo percurso, para um lado e para o outro e os contactos sociais com esta tripulação são muito reduzidos.

- Nunca se encontra com os passageiros? - perguntou Adam.

- Nunca - respondeu o comandante Nordstrom. - A MTIC é muito rígida no que se refere a evitar que os passageiros e a tripulação confraternizem. O senhor é a primeira pessoa que temos na ponte desde há muito tempo. Já tivemos algumas experiências infelizes com passageiros... bêbados.

Adam fez um aceno de confirmação. Se a quantidade de álcool que os médicos tinham consumido naquela noite era uma indicação, então não se sentia surpreendido.

Afastado da brisa do mar, o balanço do navio começou de novo a incomodar Adam, pelo que decidiu despedir-se.

- José, acompanha o doutor Smyth de volta à zona dos passageiros - disse o comandante Nordstrom.

José moveu-se rapidamente, atravessando a porta na frente de Adam. Desceu a íngreme escada sem parecer notar os balanços do navio e Adam seguiu-o, mas mais cautelosamente.

- Dentro de um dia ou dois já terá pemas de marinheiro - disse José, com uma gargalhada.

Adam não ficou muito certo de que tal viesse a acontecer.

Enquanto caminhavam para a popa, José deu-lhe algumas explicações técnicas acerca do navio. Adam acenou várias vezes que sim, mas muito duvidosamente, pois a maior parte dos termos não significavam nada para ele. Quando chegaram à barreira, José hesitou, apoiando-se ora numa perna ora na outra. Como a luz ali era melhor, Adam já conseguia ver o rosto do homem, dominado por um luxurioso bigode.

- Doutor Smyth... - começou José. - Perguntava a mim mesmo se me podia fazer um favor.

- E que favor era esse? - perguntou Adam, desconfiado. Por aquilo que o comandante dissera, a tripulação e os passageiros não deviam ter contactos e Adam não estava interessado em meter-se em sarilhos. Por outro lado, a ideia de ter um amigo entre a tripulação era sedutora e podia vir a ser útil.

- Eles vendem cigarros na loja do navio - disse José. - Se eu lhe desse o dinheiro, podia comprar-me alguns?

- Então por que é que não os vai lá comprar? - perguntou Adam.

- Nós não podemos passar para lá dessa porta.

Adam considerou o pedido. Parecia suficientemente inofensivo.

- Quantos maços é que quer?

- Tantos quantos puder comprar com isto... - José meteu a mão no bolso e puxou por uma nota de cinquenta dólares.

Adam teve a sensação de que o pedido de José não era afinal assim tão inocente. Estava provavelmente envolvido numa qualquer espécie de mercado negro de tabaco, a bordo do navio.

- Deixe-me principiar apenas com dez dólares - disse Adam.

Muito rapidamente, José substituiu a nota de cinquenta por uma de dez dólares.

Adam pegou no dinheiro e disse a José que se encontraria ali com ele, naquele mesmo sítio, no dia seguinte, às onze horas. Recordava-se de ter lido, no programa das conferências, de que havia um intervalo para café, àquela hora. José ostentou um largo sorriso, com os dentes a brilharem com um branco espantoso, em contraste com o bigode.

Aspirando várias vezes e profundamente o ar do mar, Adam dirigiu-se para o interior e para a sua cabina.

Capítulo décimo terceiro

Adam ouviu uma voz a chamar pelo Dr. Smyth mas não lhe prestou atenção. O nome não tinha nada a ver com ele, além de que preferia manter-se quieto. Então houve alguém que o agarrou por um braço e, com grande esforço, abriu os olhos.

- Os meus óculos - disse Adam, surpreendido por as palavras lhe saírem entarameladas.

Lenta e cuidadosamente, girou as pernas para fora da cama e agarrou-se à mesa-de-cabeceira. A mão bateu-lhe nos óculos, atirando-os para o chão. Baixando-se para os apanhar, lembrou-se repentinamente de que ele era o Dr. Smyth.

O camaroteiro estendeu-lhe um copo de água.

- Obrigado - disse Adam, intrigado.

Então, o camaroteiro estendeu-lhe outra das cápsulas amarelas. Sem hesitação, Adam pegou-lhe e meteu-a na boca. Mas, tal como fizera no dia anterior, não a engoliu e limitou-se a beber um gole de água.

Satisfeito, o camaroteiro levou o copo para a casa de banho e Adam retirou a cápsula da boca.

- Desculpe - disse, falando de um modo muito mais claro. - O que são estas cápsulas amarelas?

- São para o descontrair - respondeu o camaroteiro, com a sua estranha voz mecânica.

- Eh! - exclamou Adam. - Estou descontraído. Talvez um pouco enjoado, mas descontraído. Não seria melhor se me dessem qualquer coisa para o estômago?

- As cápsulas amarelas são para o deixar mais descontraído e receptivo - disse o camaroteiro, abrindo a porta.

- Receptivo a quê? - perguntou Adam.

- Às instruções - respondeu o camaroteiro, enquanto fechava a porta.

Adam levantou-se sentindo-se invulgarmente cansado e fraco. Nunca imaginara que o enjoo pudesse vir a ser tão debilitante. Obrigando-se a ir para a casa de banho, tomou um duche e depois vestiu-se, ainda intrigado com o comentário do camaroteiro.

Ao sair para ir tomar o pequeno-almoço, decidiu verificar se Alan estava levantado. Desta vez, em vez de bater, limitou-se a girar a maçaneta e a porta abriu-se.

Alan continuava estendido na cama, os olhos fechados, uma respiração profunda e regular.

- Alan! - chamou-o Adam.

Lentamente, os olhos do homem piscaram e abriram-se, apenas para se tornarem a fechar de novo. Adam debruçou-se e, com muito cuidado, levantou-lhe as pálpebras. Ao princípio só conseguiu ver o branco do olho, mas depois as córneas desceram e pareceram focar-se.

- Acorda! - disse Adam. Retirou as mãos dos olhos de Alan e, agarrando-lhe nos ombros, colocou-o numa posição sentada. - Que é que se passa contigo?

- Nada - respondeu Alan num tom monótono, que fez com que Adam se lembrasse da voz dos camaroteiros. - Estou apenas cansado. Deixa-me dormir. - Começou a deitar-se para trás, mas Adam agarrou-o.

- Diz-me uma coisa - exigiu Adam. - Como é que te chamas?

- Alan Jackson.

- Onde é que estás? - perguntou Adam.

- Num cruzeiro da Arolen - respondeu Alan, sem qualquer inflexão de voz.

- Em que mês estamos?

- Junho.

- Levanta a tua mão direita - disse Adam. Duvidosamente, Alan levantou a mão direita. Parecia um autómato, ou um paciente sujeito a um sedativo muito forte. De facto, fazia com que Adam se recordasse do seu paciente com disquinésia tardia. Quando o homem entrara pela primeira vez no hospital estava tão cheio de medicamentos que dormira consecutivãmente, um dia inteiro. No entanto quando o acordavam mostrava saber quando e onde estava.

Adam deixou Alan cair para trás, sobre a cama. Depois de o observar durante um ou dois momentos, regressou à sua própria cabina. Fechando a porta, sentiu que, pela primeira vez, estava realmente cheio de medo. Alan fora drogado, não tinha qualquer dúvida a esse respeito.

Era evidente que as cápsulas amarelas eram uma qualquer espécie de tranquilizante. De repente Adam recordou-se de como se sentira estonteado quando o camaroteiro o acordara. Atribuíra esse seu estado a um efeito do enjoo, mas talvez também ele tivesse sido drogado. Mas como é que isso podia ter acontecido? Não tomara as cápsulas amarelas e vomitara quase imediatamente o pouco que comera ao jantar. Talvez fosse a água.

Adam dirigiu-se à casa de banho e encheu o copo. Não tinha cheiro. Provou-a cuidadosamente. Tinha um certo sabor químico, mas isso podia ser da desinfecção com cloro. Despejando-a pelo cano, Adam decidiu ir tomar o pequeno-almoço.

A sala de jantar não mostrava vestígios da agitada festa da noite anterior. No centro da sala via-se um bufete com uma impressionante variedade de comida. Havia pessoas em bicha, esperando pacientemente que chegasse a sua vez. Adam vagueou por entre as mesas à procura de Ned ou Clair, mas não os viu.

O seu estômago não só estava melhor como, na verdade, até tinha fome. O único problema estava em que agora, que já tinha apetite, tinha medo de comer. Encontrava-se verdadeiramente aterrorizado. Inspeccionou a comida. Havia a usual selecção de ovos mexidos, bacon, salsichas, o costume, mas depois Adam viu uma coisa ainda melhor: uma enorme taça cheia de fruta.

Pensando que seria seguro comer fruta não descascada, serviu-se de várias bananas, duas laranjas e uma toranja e a seguir abriu caminho para uma mesa vazia. Quando se sentou, surgiram Ned e Clair. Adam chamou-os e eles dirigiram-se para junto dele, dizendo que já iriam ter com ele.

Adam observou-os enquanto eles percorriam a mesa com a comida. Pareciam cansados e quando se sentaram notou que não se tinham servido de muita comida. Ficou confuso. Se a droga se encontrava na comida e na água, por que é que eles e os outros médicos não se encontravam nos seus quartos, tal como o Alan? Talvez fosse a cápsula amarela. Talvez fosse dada apenas aos que faziam o segundo cruzeiro. Talvez fosse uma combinação da cápsula com o que quer que existisse na comida...

- Aquilo é que foi, ontem à noite... - disse Ned, interrompendo os pensamentos de Adam.

Adam confirmou com um aceno de cabeça.

- Estou exausta - disse Clair. - Nunca pensei que fosse capaz de beber tanto como ontem à noite. Dormi como uma pedra.

- Também eu - respondeu Ned. - Deve ser da brisa marítima.

Procurando assumir um ar casual, Adam perguntou:

- Deram-lhes algumas cápsulas amarelas para o enjoo?

- A mim não - disse Ned, bebendo o café e olhando para Clair.

- A mim também não - respondeu ela. - Por que perguntas?

- Bom, tenho andado à procura de qualquer coisa contra o enjoo. Foi só para saber...

Deixou que a voz se arrastasse um pouco, pois não queria levantar suspeitas. Se ele dissesse alguma coisa acerca dos médicos estarem a ser drogados, pensariam que estava louco. Ned e Clair beberam o café em silêncio. Era óbvio que nenhum deles se sentia muito bem.

Depois do pequeno-almoço, Adam passou pela loja do navio, onde já existia um novo fornecimento de Dramamina e de tampões para os ouvidos. Adam comprou alguns dos tampões e, antes de sair, lembrou-se de comprar dez dólares de Marlboro para José.

Quando regressou à cabina encontrou outra cápsula amarela junto de um copo de água, na sua mesa-de-cabeceira. Desta vez despejou os dois pela sanita.

A primeira conferência da manhã estava marcada para o grande auditório. Dada por um patologista colombiano, foi ridiculamente aborrecida. Adam reparou que um certo número de médicos adormecera e perguntou a si mesmo se o aborrecimento seria por causa das drogas. A segunda conferência foi dada pelo Dr. Goddard e era bastante mais interessante. Goddard fazia um sumário de uma recente experiência que mostrava que o tecido fetal injectado nos adultos, não era rejeitado. Pensava-se que o tecido fetal não desenvolvera antigenes suficientemente fortes para provocarem uma resposta por parte dos anticorpos. O potencial, nas aplicações terapêuticas, era imenso. Repovoar as células dos pâncreas dos diabéticos era apenas uma das hipóteses revolucionárias.

Durante o intervalo para o café, Adam regressou à cabina, pegou nos pacotes de Marlboro e dirigiu-se para o convés de passeio. Esperou até não haver ninguém por ali, caminhou para a barreira e passou a porta. José aguardava-o. Trazia um saco de lona pendurado ao ombro e o tabaco desapareceu lá dentro num instante. Pelo menos este não está drogado, pensou Adam, devolvendo a José a nota de dez dólares que ele lhe tinha dado.

Confuso, o marinheiro examinou a nota, pensando que havia qualquer coisa de errado com ela.

- Tenho uma proposta que não me podes recusar - disse Adam. - Arranjo-te os cigarros se me arranjares comida e água.

José ergueu as sobrancelhas.

- Que é que se passa com a comida, aí desse lado? Pensei que era muito boa.

- Não fazer perguntas faz parte do acordo - disse Adam. - Não te perguntarei o que é que vais fazer com tantos cigarros, e tu não me perguntarás o que é que eu faço à comida.

- Para mim, está bem - disse José. - Quando é que nos encontramos outra vez?

- Às quatro desta tarde, mas gostava de alguma comida agora. José espreitou por cima do ombro e depois disse a Adam para o seguir. Caminharam em direcção à proa, para uma porta numa antepara, porta que José abriu. Verificando se se encontravam sozinhos, José conduziu Adam para a sua cabina, na proa do navio.

Parecia uma cela de uma prisão. Havia um chuveiro e um sanitário sem porta e o ar estava pesado com o cheiro a suor e a cigarros já velhos.

José disse a Adam para se instalar confortavelmente, rindo-se da sua própria piada, enquanto saía. Adam mirou o beliche e sentou-se nele.

Cerca de cinco minutos depois José regressou com um saco de papel cheio de comida, incluindo pão, queijo, fruta e sumos. Entregou o embrulho a Adam, que apontou para uma lata vazia que se encontrava num canto da cabina e que pediu a José para encher na torneira.

- Vocês têm a mesma água que o resto do navio? - perguntou Adam.

- Não sei - respondeu José. - Não sou engenheiro. - Abriu a porta e espreitou lá para fora. - Temos de ser muito cuidadosos. Há por aí algumas pessoas que não gostariam nada de saber que estamos a fazer negócio.

Adam compreendeu a sugestão e apressou-se a regressar à sua cabina, onde abriu a mala e escondeu a comida. Colocou as duas latas de sumos no armário e cobriu-as com uma camisa suja. Verificando as horas, verificou que já estava atrasado para a terceira conferência e saiu rapidamente.

Estendida sobre a mesa de exames, na Clínica Julian, Jenni-fer admirava-se com a sua própria calma. Decidir se devia ou não repetir o teste tinha sido muito mais difícil do que regressar ao hospital. O Dr. Vandermer marcara-lhe a consulta para muito cedo e ela e a mãe estavam à espera que ele chegasse. Não tiveram de esperar muito, mas ele tinha um aspecto tão perturbado, que Jennifer chegou à conclusão que o engano que ocorrera com a análise anterior tivera piores resultados para ele do que para ela. Tinha o rosto inchado e falava de um modo breve e aos repelões, no entanto, levou a cabo o teste ainda melhor do que da primeira vez. O único problema para Jennifer esteve no facto de ela ter sentido a criança a mover-se logo que a agulha foi colocada em posição. Ficou assustada, mas o Dr. Vander-mer assegurou-lhe que não havia razão para alarmes. A seguir, Jennifer sentou-se na mesa e disse:

- Suponho que não necessito de lhe pedir para me contactar logo que saiba alguma coisa.

- Não, não precisa - respondeu. - Eu próprio irei verificar o modo como o laboratório vai trabalhar. Procure descansar e não se preocupe.

- Tentarei - concordou Jennifer.

Agradava-lhe a atenção que o Dr. Vandermer lhe dispensava, mas teria preferido que ele não se mostrasse tão sério. Fazia-a ainda mais nervosa do que já estava.

À hora do almoço, Adam comprou outros dez dólares de cigarros e levou-os para a cabina. Quando ia a sair decidiu mais uma vez ir verificar qual o estado de Alan.

A porta continuava aberta, mas quando Adam a abriu, Alan desaparecera! Verificou a casa de banho, pensando que talvez o homem tivesse caído ali, mas a cabina estava completamente vazia. Adam tinha a certeza de que o homem que ele vira antes do pequeno-almoço não estava em condições de ir dar um passeio. Mas era possível que tivesse melhorado e Adam esperava que fosse essa a explicação. No entanto, também era possível que o tivessem levado, facto cujas implicações eram assustadoras. De uma maneira ou de outra, Adam achava que era importante encontrar Alan.

Verificou primeiro se ele se encontrava na sala de jantar, depois no solário, onde fora colocado um grelhador e onde se preparavam hamburgers e cachorros quentes. Via-se um certo número de passageiros deitados nas cadeiras, dormindo. Adam voltou para trás, através das vazias salas de conferências e seguiu até ao ginásio e ao gabinete do médico de bordo. Havia um letreiro na porta que dizia: “Para emergências, chame o camaroteiro.”

Adam sentia-se cada vez mais e mais ansioso. Tinha de se acalmar ou alguém acabaria por dar por isso e por ficar com suspeitas. Decidiu regressar à sala de jantar. Não queria comer, mas podia observar os outros médicos.

Logo que localizou a sua mesa, descobriu que a rapariga sentada à sua direita era a dançarina morena que ele admirara na noite anterior. Estava decentemente vestida e podia ser confundida com uma passageira.

Olhando em redor da mesa, Adam avistou algumas das outras dançarinas. Sentindo um puxão na manga, virou a sua atenção para a morena a seu lado.

- Chamo-me Heather - disse ela, naquela estranha voz sem inflexões que Adam começava a associar com o cruzeiro. Não lhe disse qual era o apelido.

Os outros hóspedes sentados à mesa pareciam muito concentrados na comida. Em frente de Adam encontrava-se uma terrina de saborosa sopa minestrone. Enquanto ele fingia comer um pouco, Heather recompensou-o com a sua inteira atenção. Adam manteve-se todo o tempo a sorrir e a acenar com a cabeça, até que ela disse:

- Estás a comer muito pouco.

Adam, que estivera a brincar com a comida, respondeu com simplicidade:

- Tenho medo de comer, tenho andado enjoado. - Foi a única desculpa que lhe veio à cabeça.

- Então é melhor comer - disse Heather. - Por estranho que pareça, um estômago vazio é mais vulnerável.

- Ah, sim? - perguntou Adam, evasivamente. Mas depois acrescentou: - Tu também não tens comido muito.

Heather soltou uma gargalhada estridente, que parecia uma espécie de rangido.

- Esse é o problema de ser uma dançarina. Tenho sempre de ter cuidado com o peso.

Adam confirmou com mais um aceno. Sabia, por Jennifer, que as dançarinas tinham a obsessão do peso.

- Gostarias que eu fosse à tua cabina esta noite? - perguntou Heather, tão casualmente como se estivesse a fazer uma pergunta sobre o tempo.

Adam ficou satisfeito por não estar a comer. Se tivesse alguma coisa na boca de certeza que se teria'engasgado. Mas mesmo assim tossiu e olhou em volta para ver se mais alguém tinha ouvido, mas os seus companheiros de mesa continuavam a comer, mergulhados numa espécie de semiletargia. Adam virou-se para Heather. Apesar de ter uma voz estranha, de certeza que não parecia drogada. Adam decidiu continur o jogo, pois talvez ela pudesse responder a algumas perguntas acerca daquele cada vez mais estranho cruzeiro.

- Vai depois do teu último espectáculo - murmurou-lhe.

- Estarei na tua cabina às onze - concordou ela, entusiasticamente.

Adam ficou vermelho como um tomate. Felizmente, os outros convivas pareciam demasiado abstraídos para terem dado por isso. Com um rápido sorriso, Adam disse-lhe que sim, com a cabeça.

Desceu até ao seu camarote e, apressadamente, comeu parte do pão e do queijo de José. Durante a conferência da tarde Adam verificou que existiam cada vez mais lugares vazios. Não havia sinais de Alan, apesar de mais tarde ter encontrado Ned e Clair. Sorriram-lhe, mas não tinham visto Alan e não se mostraram muito faladores. Adam calculou que deviam estar a receber tranquilizantes em doses fracas. Quando chegou a terceira conferência, já um grande número de pessoas, entre a audiência, estava a dormir e Adam ficou convencido que não era apenas por estarem aborrecidas.

Às quatro horas saiu e foi ter com José. Talvez o marinheiro tivesse alguma ideia do local onde Alan se poderia encontrar.

- Gostava de falar contigo - disse Adam, quando José o fez passar a barreira.

- Acerca de quê? - perguntou José.

- De nada em especial - respondeu Adam. - Mas queria fazer-te umas perguntas.

José conduziu-o até à sua cabina e fechou a porta. De um armário vertical, retirou dois copos e uma garrafa de rum bem escuro. Adam recusou, mas o marinheiro encheu à mesma os dois copos.

- Bem, então o que é? - inquiriu.

- Já percorreste todo o navio? - perguntou Adam. José emborcou o rum de um só trago.

- Não! - respondeu, limpando a boca com as costas da mão. - Não todo. Ainda não vi a parte onde dormem esses gajos dos casacos brancos.

- Julguei que eles viviam com a tripulação - disse Adam.

- Quê, está louco? - exclamou José. - Nunca vemos esses tipos tão esquisitos. As cabinas deles são no convés C.

- Onde é que fica isso? Julguei que o B era o mais baixo. José levantou o segundo copo.

- Tem a certeza de que não quer um rum? Adam abanou a cabeça.

- As escadas para os alojamentos dos camaroteiros ficam na messe dos passageiros - disse José, beberricando o segundo rum. - Sei disso apenas porque lá fui uma vez, à procura de qualquer coisa para comer, um dia que estávamos no porto. Infelizmente fui apanhado e quase perdi o emprego. Mas por que é que se rala com esses tipos?

- A razão que me leva a fazer estas perguntas - explicou Adam - é porque o passageiro da cabina ao lado da minha parece ter desaparecido. Primeiro parecia doente e agora evaporou-se.

- Já experimentou ver se ele está na enfermaria? - perguntou José. - Um dos da tripulação disse-me que eles têm um hospital completamente equipado. Ele sabia disso porque ajudou a trazer o equipamento para bordo.

- Onde é isso? - perguntou Adam.

- No convés B - respondeu José. - Por detrás da porta do médico.

Adam pegou na comida que José lhe embrulhara. A enfermaria parecia um lugar prometedor para encontrar Alan.

- Então, e os meus cigarros? - perguntou José.

- Não me esqueci - respondeu Adam. - Amanhã de manhã à mesma hora.

- Está bem - disse José. - Deixe-me verificar se anda por aí alguém. - Pousou o copo e começou a abrir a porta.

- Só mais uma pergunta - continuou Adam. - Sabes alguma coisa acerca das dançarinas?

José olhou para Adam, com um largo sorriso.

- Não tanto quanto gostaria de saber.

- São prostitutas? - perguntou Adam, pensando que seria bom ter a certeza, antes da visita de Heather.

José abanou a cabeça, soltando uma gargalhada.

- Não, são meninas do colégio, a trabalhar para conseguirem dinheiro extra. Que diabo de pergunta é essa?

- Alguma vez as vêem? - perguntou Adam.

- Bem gostaria - respondeu José. - Escute, nunca nos deixam misturar com os tipos que dirigem o cruzeiro. Mas, na realidade, encontrei uma das raparigas numa praia em Porto Rico, há cerca de um ano. Tentei divertir-me um pouco, mas ela não estava interessada. Estava muito bebido e tentei agarrá-la. Foi então que descobri que ela tinha uma cabeleira postiça. A cabeleira saiu e, por debaixo, tinha a cabeça rapada. Havia também cicatrizes redondas, grandes, nas têmporas, uma cicatriz de cada lado. Diga-me lá se não é uma coisa esquisita?

- E o que é que lhe aconteceu? - perguntou Adam.

- Nunca o descobri - respondeu José. - Ela deu-me uma joelhada e eu perdi todo o interesse.

- Mas que cruzeiro! - exclamou Adam, pegando no seu embrulho.

- Mas o que é que se passa? - perguntou José. - Não está a divertir-se?

Quando o telefone tocou, Jennifer teve uma premonição de que era o Dr. Vandermer. Ouviu a mãe atender e, momentos depois, soltar um pequeno grito. Foi então que Jennifer soube. Começou a descer as escadas antes de a mãe a chamar. Quando chegou à cozinha, Mrs. Carson passou-lhe o telefone, sem uma palavra.

- Está, doutor Vandermer? - disse Jennifer, controlando a voz.

- Olá, Jennifer - cumprimentou ele. Houve uma longa pausa. - Receio ter más notícias.

- Já o esperava - respondeu ela. Percebia que o Dr. Vandermer estava à procura das palavras necessárias.

- O teste é indiscutivelmente positivo - disse o médico. - Desta vez, eu próprio supervisei as análises. Não há qualquer probabilidade de erro. Estava lá a mesma anormalidade cromossomática. Na realidade, nunca houve uma troca de espécimes. Receio bem que, em adição ao síndroma de Down, o seu feto tenha uma muito importante anomalia nos órgãos sexuais.

- Oh, Deus! - exclamou Jennifer. - Isso é terrível!

- É verdade - concordou o Dr. Vandermer. - Olhe, se temos de fazer qualquer coisa, creio que é melhor actuar rapidamente.

- Concordo. Pensei nisso muito cuidadosamente e quero fazer o aborto. Quanto mais depressa, melhor.

- Nesse caso, tentarei marcá-lo para amanhã.

- Obrigado, doutor Vandermer-disse Jennifer, desligando. Mrs. Carson passou os braços em volta da filha e disse-lhe:

- Sei como te deves estar a sentir, mas creio que estás a fazer o que é melhor.

- Sei que estou, mas queria falar com o Adam. A boca de Mrs. Carson estreitou-se, zangada.

- Mãe, ele continua a ser o meu marido e não quero fazer isto sem falar com ele.

- Muito bem, querida, faz o que te parecer melhor.

A mãe saiu da cozinha e subiu as escadas, provavelmente para se ir queixar de Adam ao seu marido, no outro telefone.

Logo que ficou sozinha, Jennifer marcou o número do apartamento, pois podia dar-se o caso de Adam ter regressado. Deixou que o telefone tocasse vinte vezes, antes de desligar e ligar de novo para as informações das Indústrias Farmacêuticas Arolen, em Montclair, Nova Jérsia. Quando a telefonista da Arolen a atendeu, pediu para falar com Clarence McGuire. Só conseguiu a ligação depois de uma violenta discussão com a secretária.

- Como está, Mistress Schonberg? - perguntou McGuire quando acabou finalmente por aparecer na linha.

- Não muito bem - respondeu Jennifer friamente. - Queria saber onde é que está o meu marido.

- Lamento, mas eu também não sei. Telefonou-me e disse-me que precisava de sair da cidade por causa de um problema familiar.

- Não me está a mentir, pois não? - perguntou Jennifer. - Julgava que o tinham enviado para Porto Rico.

- Ele recusou a oferta - disse McGuire. - E não há razão nenhuma para que eu lhe esteja a mentir.

Jennifer desligou, sentindo-se confundida. Estivera tão segura de que Adam se encontrava numa viagem da Arolen e que não lhe tinha querido dizer, que agora não era capaz de conceber qualquer outra possibilidade. Num impulso, ligou para o pai de Adam.

- Peço desculpa por o incomodar, doutor Schonberg - disse Jennifer, que nunca anteriormente falara com o homem -, mas ando à procura do Adam e pensei que talvez o senhor soubesse onde é que ele se encontra.

- Não faço a menor ideia - respondeu o Dr. Schonberg -, e você deve saber disso melhor do que ninguém.

Jennifer desligou o telefone quando a mãe regressou à cozinha. Ela devia ter escutado a sua conversa com McGuire.

- É melhor não falares nisso ao teu pai - disse. - Ele já está convencido de que o Adam tem algum caso amoroso.

Adam estava nervoso. Tinham-lhe entregue outra cápsula amarela cerca das seis horas e os camaroteiros vigiavam-no cuidadosamente, durante o jantar. Receoso de que compreendessem que procurava evitar o tratamento, Adam recorreu ao expediente de esconder a comida no seu guardanapo, para fazer crer que estava a comer. Logo que lhe foi possível, abandonou a sala de jantar. A caminho da sua cabina, resolveu ir investigar a enfermaria. Era uma instalação impressionante, com uma sala de operações completa e um equipamento radiológico ultramoderno. Mas não havia nenhum paciente.

Quando passou pela cabina de Alan, abriu a porta, esperando encontrar o quarto vazio. Para sua surpresa, Alan estava na cama praticamente no mesmo estado em que se encontrava antes do seu desaparecimento. Adam acordou-o. Alan parecia saber onde se encontrava e insistia em que nunca tinha saído dali. Adam recostou-o de novo na cama e regressou à sua própria cabina.

Ir àquele cruzeiro para tentar descobrir por que é que Vandermer mudara a sua opinião a respeito do Pregdolen, parecera-lhe uma boa ideia, quando ainda se encontrava na segurança de Nova Iorque. Agora, tudo o que Adam desejava era regressar são e salvo para a sua casa e para a sua mulher. Lembrava-se de que alguém lhe tinha explicado que a razão por que os médicos eram enviados ao cruzeiro era para os libertar das suas preocupações habituais. Mas drogá-los, de modo a que não soubessem o que estavam a fazer, era mais do que radical. Era aterrorizador.

Uma pancada na porta da cabina fez com que o seu pulso se acelerasse. Esperava que não fosse um daqueles camaroteiros de rosto inexpressivo, com mais uma cápsula amarela.

- Oh, Deus! - exclamou Adam, quando viu que se tratava de Heather.

- Estou tão contente por me terem dispensado do último número - disse ela, entrando e olhando em volta, para a pequena cabina.

Usava uma blusa transparente e o que deveria ser a saia mais curta que Adam jamais vira. “Estou louco”, pensou Adam, incapaz de tirar os olhos dela. “Como diabo é que poderei explicar uma cena destas a Jennifer?”

- Heather, por que é que não te sentas, para podermos conversar?

Heather deteve-se, acabando com a pequena dança que executava no espaço livre da cabina.

- Está bem - disse, deixando-se cair na cama ao lado de Adam e encostando a sua coxa nua à perna dele. Com dois elegantes pontapés, atirou os sapatos para longe.

- De que é que queres conversar?

- Sobre ti - respondeu Adam, pensando que era muito difícil não olhar para a curva dos seus seios.

- Prefiro conversar a teu respeito - disse Heather, passando-lhe os braços em volta do pescoço.

- Isso foi o que me disseste à hora do almoço - retorquiu Adam, afastando-a gentilmente -, mas queria na realidade saber qualquer coisa a teu respeito.

- Não tenho grande coisa para contar - contrapôs Heather.

- Olha lá, isto não é o trabalho habitual para uma jovem. Como é que vieste aqui parar?

Heather não respondeu. Ao princípio, Adam julgou que ela estava a pensar, mas quando a observou, pareceu-lhe que a jovem estava em transe.

- Heather? - disse Adam, agitando a mão em frente dos olhos dela.

- Sim - respondeu ela, pestanejando.

- Fiz-te uma pergunta.

- Oh, sim. Como é que vim parar ao Fiord? Bom, é uma longa história. Eu era secretária na Arolen, em Nova Jérsia. Gostaram de mim e ofereceram-me um trabalho na MTIC, em Porto Rico. Comecei também como secretária, mas depois descobriram que eu gostava de dançar e deram-me este trabalho.

Isso explicava a dança, pensou Adam, mas não a prostituição, se é que ela era na verdade uma prostituta. Adam tinha grande vontade de lhe poder dar o benefício da dúvida.

- Tens gostado de estar no cruzeiro? - perguntou Heather, mudando de assunto.

- Tem sido um tempo formidável - respondeu Adam.

- Pois vou fazer com que ele seja ainda melhor - prometeu Heather. - Mas primeiro tenho um presente para ti.

- Não me digas! - exclamou Adam.

- Espera aqui um momento.

Levantando-se, dirigiu-se para a minúscula mala que pousara sobre a mesa. Quando se virou, Adam viu que ela segurava mais duas das cápsulas amarelas. Sentiu um princípio de pânico.

- Podes ir buscar sumo de frutas ao armário? - perguntou Adam. - Não suporto a água.

- Está bem - disse ela, muito agradavelmente. Heather pousou as cápsulas sobre a secretária e foi buscar o sumo. Abrindo a tampa da lata, entregou-a a Adam, que escondeu as cápsulas na mão e as atirou para trás da cama quando ela foi arrumar o resto do sumo.

- Agora, vou fazer com que realmente aprecies o cruzeiro - prometeu a jovem, sentando-se-lhe no colo.

- Espera só um segundo - disse Adam, evitando-lhe os lábios. - Para que eram aquelas cápsulas que me deste?

- Para que te divirtas - respondeu Heather. - Para que te sintas descansado e te esqueças dos teus problemas.

- Também as tomas? - perguntou Adam.

- Eu? Não! - exclamou Heather, com a sua gargalhada característica. - Eu não tenho problemas.

- E por que é que pensas que eu os tenho?

- Todos os médicos têm problemas - respondeu Heather.

- Visitas todos os médicos? - perguntou Adam. - Tu e as outras dançarinas?

- Não - respondeu Heather. - Só aqueles que Mister Powell e o doutor Goddard nos mandam visitar.

- E eles disseram-te para me visitares? Heather acenou que sim.

- E sabes porquê?

- Talvez por não te teres descontraído o suficiente - retorquiu Heather, petulante. - Não estás interessado em mim?

- Claro que estou - respondeu Adam.

Dobrou-lhe a cabeça e beijou-a, enquanto os seus dedos lhe percorriam o cabelo, para verificar se ela usava uma peruca. Não tinha peruca, mas quando os dedos lhe percorreram as têmporas sentiu pequenas marcas duras.

- Heather, quero perguntar-te uma coisa. Isto são cicatrizes?

- Penso que não - disse Heather, com um ar aborrecido. - Onde?

- Aqui, nas têmporas - respondeu Adam. Virou-lhe a cabeça gentilmente para o lado e afastou-lhe o cabelo para poder ver. Eram pequenas cicatrizes, com cerca de um centímetro, tal como José as descrevera.

Heather levantou a mão e apalpou o sítio. Depois encolheu os ombros.

- Tens alguma ideia do que foi isto? - perguntou Adam.

- Não - respondeu Heather. - E, além disso, não me interessa.

- Desculpa, se não sou uma companhia muito agradável - disse Adam. - Creio que estou demasiado relaxado...

Heather pareceu desapontada.

- Talvez tivesse sido melhor ter esperado antes de te dar as cápsulas.

- Mister Powell ficará satisfeito, se eu finalmente me conseguir esquecer de todos os problemas? - perguntou Adam.

Heather acenou-lhe que sim, esfregando-lhe os ombros suavemente.

- Por que é que ele se preocupa tanto com isso?

- Para que possas ir para a sala das instruções - respondeu a jovem.

Adam ficou a olhar para a rapariga. Ela viu-o a olhar e perguntou rapidamente:

- Tens a certeza de que estás muito relaxado?

- Absoluta - respondeu Adam. - Sabes onde é a sala de instruções?

- Claro. Na verdade, tenho de te levar para lá. Mas só quando estiveres pronto.

- Nunca estive tão relaxado na minha vida - disse Adam, deixando cair os braços. - Por que é que não me levas agora?

Em vez de responder, Heather pareceu de novo entrar em transe. Alguns minutos depois recomeçou a conversação, como se não tivesse dado pela pausa.

- Posso levar-te para a sala de instruções se tomares outra cápsula. Preciso de ter a certeza de que adormeces.

- Dá-ma - disse Adam. - Já mal consigo manter os olhos abertos.

Era curiosa a maneira como Heather se deixava enganar tão facilmente. Tal como o camaroteiro, a confiança dela era quase infantil. Momentos depois, Adam deitou-se para trás e fechou os olhos. Dez minutos mais tarde, Heather ajudou-o a levantar-se e guiou-o para o exterior da cabina. Dirigiram-se para a escadaria central, subiram ao convés principal e entraram na sala de jantar. Logo atrás de uma das portas, ao lado do estrado para os oradores, encontrava-se uma copa, com toalhas de mesa, louça, talheres e tabuleiros. Para a direita havia outra porta que dava para uma escada que mergulhava profundamente no interior do navio.

Enquanto desciam, passaram por vários camaroteiros que subiam. Adam procurou evitar-lhe os olhos, pois não queria que ninguém notasse que se estava a fingir drogado.

Quando chegaram ao fundo das escadas, percorreram um longo vestíbulo, até um par de portas duplas.

- Stuart Smyth - disse Heather ao camaroteiro que guardava a entrada - É a segunda vez.

- Cadeira quarenta e sete - disse o camaroteiro, entregando a Heather algo que parecia um cartão de crédito. Ela e Adam entraram.

Quando os olhos de Adam se ajustaram à escuridão, viu que se encontrava no que parecia ser um cinema. Espreitando por cima de uma divisória de madeira, que lhe dava pelo peito, avistou um écran. Não se ouvia um som mas pareceu-lhe ver imagens de médicos, a brilharem na escuridão.

Um camaroteiro recebeu o cartão de Heather e, sem uma palavra, agarrou Adam por um braço e puxou-o para o interior do cinema. Mesmo às escuras Adam verificava sem dificuldades que os assentos eram muito diferentes dos existentes num cinema normal. Cada um deles parecia uma pequena cadeira eléctrica em miniatura, com uma miríade de eléctrodos e cintos. Havia entre quinze a vinte cadeiras em cada fila e eram mais de vinte filas.

Segurando-lhe o braço com uma firmeza muito desconfortável, o camaroteiro conduziu-o ao longo da coxia central. Adam ficou chocado ao ver que os médicos estavam nus e presos por cintos de couro. Todos usavam capacetes com auscultadores e eléctrodos superficiais, para estimulação. Pareciam todos profundamente drogados, tal como Adam, num estado que oscilava entre o sono e o acordar. Havia mais fios em volta dos seus corpos, ligados a agulhas-eléctrodos, colocados em sítios onde se localizavam nervos.

O camaroteiro parou junto de uma cadeira vazia, na fila da frente. A seguir inseriu o cartão numa fenda, no lado da cadeira e começou a ajustar os fios.

Adam quase que tinha medo de respirar. Sentia-se como se tivesse sido lançado num filme de terror. Olhando para o enorme écran, viu a imagem de um médico a oferecer ao paciente um medicamento de uma marca vulgar. No momento em que o nome do medicamento brilhou, num relâmpago, no écran, o rosto do médico contorceu-se de dor e ele deixou cair o frasco. Ao mesmo tempo, Adam ouviu um fantasmagórico lamento a elevar-se dos médicos que se encontravam na sala. A seguir, o médico pegou num produto da Arolen e um largo sorriso rasgou-lhe o rosto. Adam mirou o médico que se encontrava junto dele, o qual ostentava também um sorriso abençoado.

Observando o camaroteiro a preparar os cintos que o iriam prender, Adam compreendeu que estava a ver o que de mais moderno existia no campo das técnicas de controlo mental, envolvendo condicionamento adverso e reforço positivo. À medida que surgiam mais situações clínicas no écran, Adam via os rostos dos médicos que estavam perto dele a contorcerem-se de dor ou de prazer, dependendo das circunstâncias projectadas.

“Meu Deus”, pensou Adam, “estou num pesadelo onde o médico se transformou no paciente! Não admira que Vandermer tenha mudado a sua opinião a respeito do Pregdolen. E pensar que ele está a cuidar de Jennifer!”

O camaroteiro começou a desabotoar a camisa de Adam e o toque dos seus dedos fez com que Adam se tornasse consciente da sua própria vulnerabilidade. Ele não era um observador, queriam ligar-lhe os fios e submetê-lo ao mesmo tratamento.

Estudando a face sem expressão do camaroteiro, que lutava desajeitadamente com os botões, Adam percebeu que o homem estava drogado como os médicos, mas talvez não tão intensamente. De facto, concluiu Adam, todos os camaroteiros deviam estar drogados. Talvez até alguns tivessem passado por psicoci-rurgia, tal como suspeitava que acontecera a Heather.

No écran surgiu uma sequência que condenava a cirurgia desnecessária. Aparentemente, a MTIC não pretendia apenas fazer uma simples lavagem aos cérebros dos médicos, para que prescrevessem unicamente produtos da Arolen.

O camaroteiro já tirara a camisa a Adam e agora procurava abrir-lhe o cinto.

- Sabes o que é que estás a fazer? - rouquejou Adam, incapaz de se manter calado durante mais tempo.

- Estamos a ajudar os médicos a aprender - respondeu o camaroteiro, apanhado de surpresa por aquela pergunta inesperada.

- A que custo? - perguntou Adam, agarrando o pulso do homem.

Lentamente, mas com grande esforço, o camaroteiro arrancou os dedos de Adam do seu pulso. Adam ficou espantado com a força demonstrada pelo homem, apesar da quantidade de drogas que, sem dúvida, lhe tinham administrado.

- Por favor - disse o camaroteiro. - Tem de cooperar. Levantou aquela espécie de capacete, com a intenção de o enfiar na cabeça de Adam.

Sabendo que a surpresa era a sua única arma, Adam apoderou-se do capacete e amachucou-o na cabeça do camaroteiro. Pegando naquela massa de fios, enrolou-os em volta do pescoço do homem e depois virou-se e fugiu, com a esperança de que o camaroteiro fosse incapaz de gritar antes dele conseguir sair da sala.

Enquanto corria pela coxia central, os médicos soltaram mais um lamento angustiado, fazendo-o sentir uma nova onda de terror a correr-lhe ao longo da espinha. Lançou-se sobre a porta, irrompendo no vestíbulo a toda a velocidade. Quando passou pelo guarda, que se encontrava no seu pequeno cubículo, o homem soltou um grito.

Adam subiu as escadas para o convés principal com tanta pressa que quase caiu. Um camaroteiro que descia estendeu a mão para o ajudar, mas não fez qualquer tentativa para o deter.

Na sala de jantar, Adam teve de escolher entre ficar naquele nível ou subir aos níveis superiores. Decidiu que iria subir, uma vez que os níveis inferiores o faziam sentir-se claustrofobico). Ao passar a correr pelas salas de conferência, ouviu uma série de campainhas. A seguir, o sistema de altifalantes do navio entrou em funcionamento:

- Atenção, por favor! O passageiro Smyth está perturbado e deve ser detido.

Parando no alto das escadas, Adam começou a tremer de medo. Desesperadamente, tentou controlar o pânico e pensar num sítio para se esconder. Os vários armários e casas de banho eram locais demasiado óbvios para esconderijos. Além disso, ficaria encurralado. Trepou mais um lanço de escadas. Quando passava o convés de passeio, ouviu homens a gritar, no nível inferior.

Nas garras do terror, emergiu no solário e correu ao lado da piscina. Subitamente, na sua frente, ergueu-se a imponente chaminé branca, na qual avistou uma escada de metal, no lado mais próximo dele. Sem pensar, agarrou-se a ela e começou a trepar. Quando se ergueu acima do abrigo fornecido pelo convés, o vento esbofeteou-lhe o-peito nu. Já subira cerca de quinze metros quando ouviu os seus perseguidores no convés por debaixo de si. Teve uma imagem de um projector a localizá-lo de encontro à chaminé branca e fechou os olhos de medo.

Quando se passaram alguns segundos, sem que ninguém soltasse nenhum grito anunciador de que o tinham descoberto, Adam arriscou-se a olhar para baixo. Vários camaroteiros erguiam metodicamente as lonas que cobriam os salva-vidas e abriam as várias portas e armários ali existentes. Felizmente, não tinham ainda adivinhado o seu esconderijo, mas ao verificar a altura a que se encontrava, acima do convés, sentiu-se tonto. Quando olhou para cima, também não se sentiu melhor. As estrelas pareciam oscilar para um lado e para o outro, no céu.

Depois de alguns minutos, Adam olhou de novo para baixo. Viam-se vários camaroteiros de um lado para o outro, na base da chaminé. Apesar do seu medo das alturas, Adam continuou a subir a escada, muito lentamente. Calculava que lhe faltassem ainda cerca de sete metros e meio, até ao topo. Um pouco abaixo do topo, de cada lado da chaminé, existiam duas aberturas negras, com mais ou menos o tamanho de um homem. Decidiu verificar se se poderia esconder numa delas. Tentando não pensar na possibilidade de cair, Adam atingiu as aberturas. Dentro de cada uma delas havia um pavimento de grade metálica.

Sabendo que não poderia manter-se muito mais tempo naquela posição exposta, agarrou o rebordo da abertura à sua esquerda e pousou o pé na entrada. Suspenso entre a escada e a abertura, quase se descontrolou totalmente. Recorrendo a toda a sua coragem e sem querer pensar que podia ser uma grande queda até lá abaixo, largou a escada e puxou-se para dentro da chaminé.

Depois de se equilibrar, Adam caminhou pela passarela metálica existente no interior da chaminé. Não fazia ideia nenhuma qual poderia ser a utilidade daquele espaço, mas sentia-se muito satisfeito por ele existir. Achando-se mais seguro agora que ninguém o podia ver, começou a tentar pensar no que é que deveria fazer a seguir. Sentia-se perseguido pela imagem daqueles médicos a gemerem de dor. Agora compreendia o que tinham suportado Vandermer e Foley.

Lembrando-se da conferência do Dr. Goddard acerca do interesse da Arolen pela fetologia, compreendeu que a companhia deveria ter uma crescente necessidade de tecidos fetais. Subitamente, percebeu por que é que a Clínica Julian tinha um programa de testes amnióticos tão intenso. A confusão com o teste de Jennifer não fora, provavelmente, um acidente. Adam cobriu-se de suores frios. E se eles tivessem convencido Jennifer a repetir o teste, antes de ele poder regressar a Nova Iorque!?

Adam deixou-se cair sobre os joelhos. Se tivesse corrido para a proa, talvez houvesse conseguido chegar à área da tripulação e talvez lhe tivesse sido possível utilizar o rádio. Tentava descobrir uma maneira de regressar ao convés quando ouviu uma pancada no exterior da chaminé.

Cuidadosamente, Adam arrastou-se até à abertura e olhou por cima do rebordo. A cerca de meia altura da escada, estava um camaroteiro. Entrou de novo em pânico. Estava encurralado. Talvez o homem não trepasse até à abertura, mas era muito improvável.

Adam ouvia o arquejar do homem e, um segundo depois, uma mão agarrou-se ao rebordo, seguida por um pé e, a seguir, pelo próprio camaroteiro. Adam esperou até o homem ficar recortado de encontro à abertura, os braços abertos, para se equilibrar. Atirando-se para a frente, Adam utilizou as duas mãos para agarrar a cabeça do homem e fazè-la bater, com toda a força de que dispunha, contra as chapas de aço da chaminé. Foi obrigado a agarrar o homem pelo casaco, para evitar que ele caísse para trás, pela abertura. Puxou-o e deixou-o escorregar para a passarela metálica. Depois dobrou-se para lhe examinar a cabeça. Pelo menos, não se via sangue.

Colocando o camaroteiro numa posição sentada, Adam esforçou-se para retirar a camisa e o casaco branco do homem.

O laço foi fácil de tirar, por ser um laço falso, preso com uma mola. Levantando-se, Adam experimentou as roupas. Eram um pouco grandes, mas serviam. Depois de abotoar o último botão da camisa, colocou o laço. Passando por cima do corpo, Adam espreitou a escada, concluindo que era melhor sair dali antes que o homem recuperasse a consciência. O melhor seria talvez esconder-se nos alojamentos da tripulação.

Já descera metade da escada quando surgiu um certo número de camaroteiros, lá em baixo, no convés. Bom, teria de passar no meio deles. Quando chegou ao convés, endireitou o laço, alisou o casaco e seguiu em frente.

Teve de lutar contra a vontade de correr, quando passou por um camaroteiro que verificava os armários onde eram guardadas as cadeiras do convés, junto das escadas principais. Felizmente, a escadaria propriamente dita estava deserta e conseguiu chegar ao convés de passeio sem ser visto. O resto dos camaroteiros tinha dispersado, sem dúvida para o procurarem noutro qualquer ponto do navio. Adam saiu para estibordo e avançou para a proa. Quando passou a porta da barreira, compreendeu que o seu disfarce poderia torná-lo suspeito, naquela parte do navio. Despiu o casaco e atirou-o borda fora.

Movendo-se rapidamente, Adam caminhou para a porta por onde já entrara, com José. Abrindo-a, espreitou para um corredor iluminado por lâmpadas nuas, que lançava sombras grotescas sobre as paredes. Vindos da outra extremidade do corredor, ouviu o som de vozes e o tilintar de talheres. Calculou que deveria tratar-se da messe dos tripulantes.

Movendo-se tão silenciosamente quanto lhe era possível naquele pavimento de metal, Adam avançou em bicos de pés para a cabina de José e bateu à porta. Não obteve resposta. Tentou a maçaneta, que girou facilmente e entrou, fechando de imediato a porta atrás de si.

Infelizmente, não havia luz na cabina. Percorreu a parede junto da porta com a ponta dos dedos, mas não encontrou nenhum interruptor. Com cautela, avançou para o interior do quarto, tentando recordar-se da disposição do mobiliário. Lembrava-se de que existia um candeeiro fixado à parede, por cima do beliche.

Subitamente, surgiram uns dedos da escuridão, que o agarraram pela garganta.

- José! - ofegou, antes que a mão o apertasse mais e lhe cortasse a respiração.

Estava já prestes a desmaiar quando a pressão no pescoço se aliviou. Ouviu-se um estalido e a cabina encheu-se de luz. José estava de pé em frente de Adam, olhando para ele com desprezo.

- Está a tentar que o matem? - perguntou, retirando-lhe a mão do pescoço e sentando-se na berma da cama.

- Eu bati - conseguiu Adam dizer, esfregando o pescoço. - Não me respondeste.

- Estava a dormir - respondeu José.

- Desculpa - disse Adam -, mas era uma emergência.

- Uma das meninas do colégio está a persegui-lo? - perguntou José, sarcástico.

- Não é bem isso - respondeu Adam. - São aqueles malucos dos casacos brancos.

- Que diabo querem eles de si? - perguntou José.

- Não me acreditarias, se te contasse. Mas há uma oportunidade de ganhares algum dinheiro. Isso interessa-te?

- O dinheiro interessa-me sempre - respondeu José. - Em que é que está a pensar?

- Quando é que chegamos a São Tomás?

- Que horas são? Adam olhou para o relógio.

- Uma e trinta.

- Dentro de quatro ou cinco horas, mais ou menos.

- Bem, tenho necessidade de ficar escondido até atracarmos e depois preciso de sair do navio, sem ninguém dar por isso.

José limpou o rosto com as costas da mão.

- De que espécie de dinheiro estamos a falar?

Adam puxou pela carteira e contou o dinheiro. No total, tinha quase trezentos dólares.

- Preciso de algum para um táxi, mas duzentos e setenta e cinco são para ti - disse Adam.

José soergueu as sobrancelhas.

- Não posso dar garantias nenhumas, mas posso tentar. No entanto, se for apanhado, terá de jurar que nunca nos encontrámos.

Adam entregou-lhe uma nota de cem dólares.

- Receberás o resto quando eu estiver em terra.

José fez um aceno de concordância e dirigiu-se ao seu armário, de onde tirou um par de calças de caqui, sujas de óleo e uma camisa de flanela, meio rasgada. Atirando tudo aquilo a Adam, disse:

- Vista isso e passará por ser um membro da tripulação. Tenho aí um par de amigos que gostam tanto dos camaroteiros como eu. Talvez eles ajudem. Fique aqui, ninguém o virá incomodar.

Adam tentou dizer a José como se sentia agradecido pela ajuda, mas ele interrompeu-o, dizendo que o dinheiro era tudo quanto queria. Depois enfiou um par de calças e saiu da cabina.

Adam vestiu as roupas sujas e escondeu as suas por detrás do armário. Depois foi observar-se ao espelho, por cima do lavatório. Tinha um ar horrível e, pela primeira vez, sentia-se muito satisfeito por a sua barba crescer tão depressa. Já não se parecia, de maneira nenhuma, com um passageiro.

A porta abriu-se de novo e Adam quase desmaiou, mas era José.

- Da próxima vez, bata à porta - pediu Adam.

- Eh, esta é a merda da minha cabina - disse José, irritado.

Contra aquilo, Adam não podia discutir. José voltou a sentar-se na cama.

- Acabei de falar com um amigo meu, para saber como fazê-lo sair do navio. Ele conhece uma maneira. Parece que a utilizou uma vez, quando a tripulação não foi autorizada a ir a terra em São Tomás. O problema está em que é preciso todo o dinheiro antes de tratarmos disso. Tenho de pagar a dois outros tipos.

Adam abanou a cabeça.

- Escute - disse José. - Se o acordo não lhe agrada, por que é que não se vai embora daqui?

Adam compreendeu o argumento. Estava numa posição sem | saída e se José quisesse podia tirar-lhe o dinheiro à força.

Com um suspiro de resignação, Adam puxou da carteira. Guardando vinte e cinco dólares para si, entregou o resto a José.

- Está a agir como se me estivesse a fazer um favor - disse o marinheiro, metendo o dinheiro no bolso. - Deixe-me dizer-lhe que não sujaríamos as mãos com este dinheiro se não odiássemos esses estupores dos camaroteiros.

- Agradeço-lhes muito - disse Adam, perguntando a si mesmo se não estaria a ser enganado.

- Pode ficar aqui escondido durante o resto da noite. De manhã, quando atracarmos, virei cá buscá-lo. Compreendido?

Adam acenou que sim e perguntou:

- Podes dar-me alguma ideia de qual é o vosso plano? José sorriu.

- Prefiro que venha a ser uma surpresa. Instale-se confortavelmente e não se preocupe.

Adam ouviu as gargalhadas de José, depois deste já ter saído e fechado a porta.

Olhando para o relógio, Adam verificou que iria ter uma noite muito comprida. Pensou estar demasiadamente tenso para poder adormecer, mas foi isso o que aconteceu pouco depois.

Não sabia quantas horas se teriam passado quando foi acordado por gritos no corredor. Adam reconheceu imediatamente a voz.

- Nesta parte do navio sou eu o comandante e não permitirei que se façam buscas sem a minha autorização.

Era o comandante a falar.

Respondeu-lhe uma voz com um tom mais profundo:

- Sou eu o responsável pelo navio, portanto, deixe-me passar.

Adam pensou que talvez se tratasse de Raymond Powell.

Começaram a escutar-se outras vozes a gritar e portas a abrirem-se e fecharem-se com violência.

Em pânico, Adam olhou em volta, para a pequena cabina, procurando um lugar onde se esconder. Não havia nenhum, pois até o armário era demasiado pequeno para ele se meter lá dentro. Então, teve uma ideia. Puxou o cabelo para a frente, para cima da testa e baixou as calças sujas de óleo, até aos joelhos. A seguir dirigiu-se para a sanita, bem à vista e sentou-se nela. Junto da sanita encontrava-se uma revista Penthouse e ele pegou-lhe e colocou-a sobre o colo. Um par de minutos depois ouviu uma chave girar na fechadura e a porta abriu-se.

Adam olhou para cima. Estava um camaroteiro de pé, junto à porta. Logo por detrás encontrava-se Mr. Powell que escutava o comandante Nordstrom, ainda a protestar. Powell lançou a Adam um olhar de desagrado e seguiu. O camaroteiro fechou a porta atrás de si.

Adam não se moveu durante alguns instantes. Ouvia o barulhento grupo a avançar ao longo do corredor. Finalmente, levantou-se e puxou as calças para cima. Levando a Penthouse para o beliche, tentou ler, mas estava com demasiado medo que o grupo de busca voltasse para trás. Finalmente acabou por adormecer, até que um grande estrondo lhe anunciou que tinham atracado. Eram cinco e quinze.

Os setenta e cinco minutos que se passaram a seguir foram os minutos mais longos da sua vida. Ouvia gente a passar no corredor de vez em quando e de todas as vezes tinha a certeza de que o iam buscar.

Às seis e trinta, José regressou.

- Está tudo pronto - disse, dirigindo-se ao armário e pegando na garrafa de rum. - Mas primeiro, penso que é melhor beber um gole disto.

- Achas que preciso disso?

- Sim - disse José, passando-lhe um copo. - Se estivesse no seu lugar, eu tomava-o.

Adam bebeu um pequeno gole, mas a bebida era áspera e amarga. Abanou a cabeça e devolveu o copo a José. Imperturbável, este esvaziou-o.

Repondo a garrafa no armário, José esfregou as mãos.

- Se alguém perguntar, o seu nome é Angel. Mas não creio que tenhamos de falar muito.

José abriu a porta e fez sinal a Adam para que o seguisse.

Capítulo décimo quarto

Jennifer passou uma noite inqueta e já se encontrava na cozinha quando o telefone tocou, às sete e quarenta e cinco. Atendeu-o rapidamente, pensando que os pais ainda estavam a dormir, mas a mãe já levantara o auscultador da extensão.

- Já atendi, mãe - disse Jennifer, quando ouviu a voz do Dr. Vandermer.

- Bom-dia, Jennifer - cumprimentou ele. - Está tudo pronto para as três e trinta. Lamento ser tão tarde, mas estamos muito ocupados que tivemos dificuldade em arranjar tempo para si. Não beba nada, além de líquidos e à noite, já estará tudo despachado e já poderá comer o que quiser, ao jantar.

- Bem - respondeu Jennifer, sem grande emoção. - Quanto tempo terei de ficar aí?

- Provavelmente apenas uma noite. Explicar-lhe-ei tudo, quando já cá estiver.

- A que horas é que me devo apresentar?

- Por que é que não aparece lá pelo fim da manhã? Desse modo, poderemos fazer a rotina de admissão. Além disso, se houver uma aberta no programa de cirurgia, talvez a possamos tratar mais cedo. Entretanto, descanse e deixe que seja eu a preocupar-me com os pormenores.

Jennifer fez um pouco de café e saiu para o jardim. Por instantes, hesitou, mas depois concluiu que ia fazer o que estava certo. Tanto o Dr. Vandermer como os seus pais achavam que não havia outra solução. Mas queria tanto que Adam estivesse ali, para partilhar a decisão...

Adam seguiu José, procurando dar o menos nas vistas que lhe era possível. Avançaram a todo o comprimento do corredor, passaram a messe e desceram uma escada extremamente íngreme. Os membros da tripulação que encontraram pareciam encarar a presença de Adam como sendo uma coisa natural. Mas, mesmo assim, foi uma experiência que lhe arrasou os nervos. Estava sempre à espera que alguém o reconhecesse e desse o alarme.

Quando atingiram o nível mais baixo, começaram a avançar para a popa por um estreito corredor todo forrado a tubos e que cheirava a diesel. Passaram por salas cheias de máquinas, que Adam calculou que fossem geradores. Trabalhava aí um certo número de homens, nus até à cintura, os corpos brilhantes de suor. O ruído era ensurdecedor.

Caminharam até chegarem a uma grande sala muito escura, cheia de enormes contentores de lixo, montados sobre rodas, que cheiravam pessimamente por causa do seu conteúdo. José continuou e guiou Adam até ao canto oposto, onde se viam dois homens sentados no chão jogando às cartas. Quando José se aproximou, o homem mais velho olhou para cima e depois continuou com o jogo.

- Agarra lá esta! - disse ele para o homem mais pequeno, lançando uma carta, enquanto José passava por eles.

Na parede por detrás dos jogadores havia uma grande abertura, através da qual Adam conseguia ver uma parte do cais e da agitação normal de um porto. Um feixe de radiante luz solar, que parecia celestial, no meio daquele ambiente infernal, inundou o compartimento em que se encontravam.

- Aleluia - murmurou Adam, avançando para aquela porta e protegendo os olhos contra a intensa radiação daquele sol tropical. Estava tão perto de terra... e da liberdade! Não fazia diferença que ainda não soubesse como é que iria desembarcar. Olhou de novo para o exterior, para o cais de cimento e toda a sua satisfação desapareceu. Logo à sua direita estava uma prancha de embarque, cuidadosamente guardada por um grupo de camaroteiros de casacos brancos, que escrutinavam muito cuidadosamente todas as pessoas que saíam do navio. - José, não há maneira nenhuma de eu conseguir sair por aqui sem ser detido - disse Adam, tentando controlar a voz.

Sem levantar os olhos do jogo de cartas, José limitou-se a dizer:

- Tem de esperar.

Adam deixou-se ali ficar durante alguns minutos, sem saber o que fazer.

- José, é deste modo que me vais fazer sair do navio? - perguntou Adam fazendo um aceno em direcção à porta.

- Não - respondeu o marinheiro. - O melhor ainda está para vir.

- Que é que estás a planear? - inquiriu Adam, já zangado.

José não respondeu. Regressando para junto da abertura, Adam mirou longamente as colinas verdes que se erguiam em volta da baía. Estavam salpicadas com pequenas vivendas. Preparava-se para interrogar José mais uma vez, quando viu uma fila de camiões de lixo, amarelos, avançando ao longo do cais e soltando fumos de diesel pelos escapes verticais. Pararam não muito longe do casco do navio, uns atrás dos outos. A seguir ouviu-se um terrível apito de uma buzina de ar.

Os jogadores soltaram pragas, largaram as cartas e dirigiram-se para o mais próximo contentor de lixo. Com o tipo grande a empurrar e os outros dois a puxar, rolaram-no ao longo da rampa e até ao camião da frente. Enquanto os homens regressavam para irem buscar outro contentor, o camião começou o seu trabalho. Grandes braços hidráulicos surgiram e agarraram o contentor, erguendo-o por cima da cabina do condutor e despejando-o na caixa, atrás. Era tudo feito com grande limpeza porque o contentor tinha uma tampa metálica que só se abria no último momento. Quando o contentor foi de novo pousado no cimento do cais, José e os outros já tinham um segundo contentor lá em baixo. Depois de mais algumas cargas desaparecerem dentro do camião, José gritou para Adam:

- Muito bem, venha aqui.

Adam seguiu-o até junto do contentor de lixo que estava a seguir, na fila.

- Vai sair com o lixo - disse José. Os três homens começaram a rir.

- Querem que eu me meta aí dentro?! - perguntou Adam, horrorizado.

- Não há tempo para discussões - respondeu José. - Este é o último carregamento, para o primeiro camião.

- Mas esta é a única maneira de sair do navio? - perguntou Adam.

- A única maneira - respondeu o maior dos jogadores de cartas. - Eu próprio saí assim, uma vez. Não é a maneira mais elegante de dar uma volta pela cidade, mas também não tem a recear encontrões e pisadelas. Os passageiros são poucos!

- Onde é que ele me levará? - perguntou Adam, considerando o que é que deveria fazer, se fosse avante com aquele plano.

- Directamente para uma lixeira, muito perto do aeroporto.

- Jesus! - exclamou Adam. - Por que é que não me disseram que me iam fazer sair juntamente com os restos da cozinha?

- Isto não são restos da cozinha - retorquiu o jogador de cartas. - Isto é lixo, os restos de cozinha são atirados ao mar.

A buzina do carro do lixo soou, impaciente.

- Tem de ir - disse José. - Não pode ficar eternamente na minha cabina. Ponha o pé aqui.

O marinheiro fez uma plataforma com as suas mãos e, muito contrariado, Adam utilizou-a como degrau. O maior dos jogadores de cartas levantou a tampa do contentor e, com um rápido movimento, José atirou Adam de cabeça para dentro daquela confusão de caixas de cartão, copos de papel, papéis de embrulho e latas, bem como outros restos. Contrariamente ao que o jogador dissera, também lá estavam restos de cozinha. A tampa fechou-se com um estrondo e Adam ficou mergulhado na escuridão. Sentiu o contentor a ser rolado rampa abaixo, para o cais. Depois houve um violento safanão e Adam visualizou o contentor a ser erguido do chão. O contentor de lixo abanou, virou-se de cabeça para baixo e, num súbito clarão de luz Adam gritou e precipitou-se nas traseiras do camião. Pousou sobre as mãos e joelhos, coberto por um monte de lixo.

O camião começou a mover-se quase imediatamente. Já se encontrava bem longe do cais antes de Adam conseguir libertar a cabeça do lixo. A estrada tinha um pavimento irregular e o camião dava saltos, mas o lixo protegia-o, amortecendo os solavancos. Porém, após alguns minutos, o sol tropical transformou a caixa metálica do camião num verdadeiro forno. Adam começou a suar e, quando o camião chegou à lixeira já não lhe importava saber o que é que lhe iria acontecer, o que ele queria era sair dali. Teve uma vaga consciência de um motor a zumbir por debaixo dele, quando a traseira do camião se começou a erguer. Momentos depois, foi atirado para cima de um enorme montão de lixo. Pôs-se de pé a tempo de ver o camião afastar-se.

Ninguém o vira sair do navio. Estava salvo. Olhando em volta, podia ver o pequeno aeroporto da ilha, a duzentos metros para a sua direita. Para a esquerda, o azul mar das Caraíbas estendia-se até ao infinito.

Limpando-se o melhor que lhe foi possível, Adam encaminhou-se para o terminal.

O aeroporto era um edifício vulgar, com uma entrada apinhada de táxis pintados com cores vivas. Quando Adam se dirigiu para o interior, viu que um grupo de turistas o observava com nervosismo. Era evidente que não podia simplesmente entrar e comprar um bilhete, se não fizesse qualquer coisa a respeito da sua aparência. Enfiando-se numa pequena loja, comprou um par de jeans e uma T-shirt que proclamava alegremente: “Venha a S. Tomás.” Na casa de banho dos homens, cheia de gente, Adam encontrou um compartimento vazio e mudou as calças e a camisa. À saída, atirou com as roupas de José para um caixote de lixo, que era indiscutivelmente o sítio mais apropriado para elas.

Olhando em volta, avistou o horário dos voos, exposto numa placa de feltro em letras de plástico branco. Havia duas grandes companhias, a American e a Eastern. Para sua grande satisfação, descobriu que poderia apanhar o voo da American directo a Nova Iorque, que partiria às nove e vinte. Colocou-se no fim da bicha para comprar o bilhete.

A fila de gente avançou a passo de caracol e Adam começou a ter medo de ainda vir a perder o avião.

- Uma ida simples para Nova Iorque - disse, quando finalmente chegou ao balcão.

A rapariga mirou-o, como se pensasse que as suas roupas, cara por barbear e falta de bagagem fossem um pouco estranhas, mas limitou-se a perguntar:

- Como é que vai pagar?

- Com um cartão de crédito - disse Adam, puxando pela carteira para onde entrara, de algum modo, uma casca de limão. Embaraçado, Adam deitou-a fora e extraiu o seu cartão. A rapariga olhou para o cartão e pediu-lhe uma identificação. Adam voltou a tirar a carteira e puxou pela carta de condução. A jovem observou-o e depois dirigiu-se ao funcionário mais velho, que se encontrava no balcão ao lado.

- O cartão está em nome de Schonberg mas a carta diz Smyth - disse o homem dirigindo-se a Adam.

Vermelho como um tomate, Adam puxou da sua própria carta de condução e mais o cartão de empregado da Arolen, que também tinha a sua fotografia, e entregou os dois. Tentou explicar que um amigo lhe entregara a licença para guardar.

- Pode chegar-se para o lado, por favor? - disse o homem, levando os cartões de Adam e desaparecendo por uma porta. Adam tentou não aparentar nervoso, enquanto a rapariga continuava a vender bilhetes para o resto das pessoas na bicha, olhando de vez em quando para Adam, como para verificar se ele não se preparava para se ir embora dali.

Passaram-se quase dez minutos antes de o funcionário regressar com um representante da companhia de aviação, que disse a Adam que era Baldwin Jacob, o supervisor. Tinha na mão os cartões de Adam.

- Vamos emitir-lhe um bilhete - disse -, mas o voo está cheio. Terá de ficar na lista de espera.

Adam disse que sim, com um aceno de cabeça. Não podia fazer mais nada. O funcionário passou-lhe o bilhete e, intencionalmente, perguntou-lhe se não tinha bagagem.

- Não - respondeu Adam -, não gosto de andar carregado quando estou de férias.

Dirigiu-se à cafetaria e comprou dois donuts e uma chávena de café, feliz por não ter de se preocupar com a probabilidade de estarem drogados. A seguir, fez um telefonema para os Car-sons. Tal como receava, não foi Jennifer quem atendeu. Em vez dela, foi a voz de barítono de Mr. Carson que ecoou do outro lado do fio.

- Olá - disse Adam, com mais alegria do que aquela que sentia. - Fala Adam. Jennifer já está acordada?

- Jennifer não está aqui - respondeu Mr. Carson, com uma voz nitidamente pouco amigável.

- Onde é que ela está?

- Não creio que possas vir a falar com ela.

- Olhe, eu sei que gosta da sua filha - disse Adam -, mas a verdade é que eu sou o marido dela e é urgente poder contactá-la.

Fez-se uma pausa enquanto Mr. Carson, aparentemente, tomava uma decisão.

- Ela não está aqui. Ela e a mãe acabaram de partir para a Clínica Julian. Vai ser admitida esta manhã.

- Admitida? - repetiu Adam, alarmado. - Por que é que vai ser admitida? Está doente?

- Está óptima - respondeu Mr. Carson. - É por isso que acho que a deves deixar em paz durante alguns dias. Depois disso, vocês poderão tratar das vossas questões. Mas francamente, Adam, o facto de te encontrares longe neste momento, é muito preocupante.

- Porque? O que é que se passa? - perguntou Adam, tentando controlar o seu medo.

- Jennifer repetiu o teste ao líquido amniótico - disse Mr. Carson - e foi de novo positivo. Ela decidiu-se pelo aborto.

Adam quase deu um salto.

- Ela não precisa de um aborto!- gritou.

- Essa é a tua opinião - disse Mr. Carson calmamente. - Não é a nossa, nem a de Jennifer e, atendendo às circunstâncias, nada podes fazer contra isso.

Ouviu-se um estalido e a linha ficou muda.

Em pânico, Adam tentou ligar para Jennifer, para a clínica. Foi informado que ainda não lhe tinha sido designado um quarto e que não a podiam localizar.

Adam atirou com o telefone para o descanso. Ainda tinha meia hora, antes da partida do avião. Tentou telefonar a Vandermer, mas disseram-lhe que ele estava na cirurgia.

Abandonando a cabina telefónica, Adam correu de volta ao balcão da American Airlines, agora cheio de gente que queria embarcar. Empurrando e acotovelando, conseguiu chegar junto do balcão e pediu para falar com o supervisor.

Passaram-se vários minutos antes de aparecer Mr. Jacob. Sem sequer tentar esconder a sua cada vez maior histeria, Adam disse ao homem que tinha de chegar a Nova Iorque, porque a mulher ia ter um filho.

O supervisor pegou no bilhete de Adam e, sem dizer nada, fez uma verificação no computador.

- Farei o que me for possível, mas como já lhe tinha dito, o voo está cheio.

Adam ficou sem saber o que fazer. Era óbvio que Jacob não iria fazer qualquer esforço fora do normal apenas por sua causa. Deixou-se ficar ali, tentando pensar no que fazer. A seguir, correu de novo para o telefone e ligou para um velho amigo da universidade, Harvey Hatfield. Harvey terminara advocacia e trabalhava numa grande firma da Wall Street. Sem entrar em pormenores, Adam disse a Harvey que a mulher ia fazer um aborto e que ele a queria impedir a todo o custo de o levar a cabo.

Harvey pareceu pensar que ele estava a brincar.

- Então por que é que estás a telefonar a uma firma especializada em questões empresariais? - perguntou.

- Jesus, Harvey, estou a falar a sério!

- Bom, então é melhor falares com alguém especializado nesse tipo de litígios. Tenta Emmet Redford. É um amigo do meu pai.

- Obrigado! - disse Adam, enquanto o seu voo era anunciado pelos altifalantes, o voo em que ele esperava poder seguir. Largou o telefone e correu de novo para o balcão, quase se atirando para cima da funcionária que o tinha atendido anteriormente.

- Por favor, tenho de seguir nesse avião. A minha mulher vai ter um filho e pode morrer, a não ser que eu consiga chegar a tempo a Nova Iorque.

Pela primeira vez, Adam teve a sensação de que alguém começava a ter pena dele. A jovem observou-lhe os olhos frenéticos e disse:

- Vou colocá-lo no cimo da lista de espera.

Adam permitiu-se então ter alguma esperança, mas chegaram mais uns quantos passageiros de última hora, sem fôlego, que receberam cartões de embarque. A seguir surgiu um homem do aeroporto, com um pequeno emissor-receptor, que passou a porta de embarque e imediatamente a fechou atrás de si.

- Mister Schonberg - chamou Carol, a funcionária do aeroporto.

Adam precipitou-se para o balcão, mas Carol abanava a cabeça.

- Lamento muito, mas o avião está completamente cheio. Não há lugar.

Esmagado, Adam deixou-se cair num assento. Vindo do exterior, ouvia o sibilar dos motores a jacto a arrancarem. A seguir, a porta de embarque tornou a abrir-se e surgiu uma hospedeira com um dedo no ar.

A empregada virou-se para Adam.

- Afinal parece que há um lugar, no compartimento dos fumadores. Quere-o?

Infelizmente, a recepcionista que recebeu Jennifer na Clinica Julian foi a mesma rapariga que ajudara à recepção de Cheryl Tedesco. Vendo Karen Krinitz, com a sua blusa branca e colete azul, Jennifer recordou-se de todo aquele terrível episódio. Karen, contudo, actuou como se nunca se tivessem encontrado. Saudou Jennifer e a mãe com o mesmo sorriso mecânico.

- Olá! Sou a Karen! Fui encarregue de tratar do vosso caso. Estou aqui para as ajudar, se tiverem quaisquer perguntas ou problemas. Queremos que a vossa estada seja a mais agradável possível, portanto, chamem-me, por favor, se precisarem de alguma coisa.

- Olha, que simpáticos - disse Mrs. Carson, mas Jennifer teve a estranha sensação de já ter ouvido anteriormente todo aquele discurso, quase palavra por palavra.

Karen prosseguiu, explicando a filosofia da Julian. Quando terminou, Mrs. Carson agradeceu-lhe entusiasticamente, dizendo:

- Não tenho a certeza de voltar a sentir-me satisfeita com o Englewood Memorial, depois disto. Aqui preocupam-se tanto com os doentes...

Jennifer concordou. Era um facto, que a clínica se preocupava com as pessoas. No entanto, o discurso de Karen aborrecera Jennifer. Sentira-o como que um pouco vazio de significado, quando o escutara pela primeira vez.

Jennifer suspirou, chegando à conclusão que a experiência que tivera com Cheryl a estava a preocupar. Quem se ralava com o facto de uma mulher decorar um discurso que tinha de fazer a todos os pacientes?

- Sentes-te bem, querida? - perguntou Mrs. Carson.

- Muito bem, mãe - respondeu Jennifer, enquanto observava Karen a desaparecer no vestíbulo. - Obrigado por teres vindo comigo hoje. É muito importante para mim.

Mrs. Carson abraçou a filha. Não queria que Jennifer soubesse quão preocupada se sentia.

No instante em que o avião de Adam pousou no Aeroporto Kennedy, o jovem correu para a cabina telefónica mais próxima. Primeiro telefonou para a Clínica Julian e pediu para ligarem ao quarto de Jennifer. Não obteve resposta. A seguir, ligou de novo e perguntou para quando estava marcada a intervenção. Quando a operadora lhe perguntou quem é que fazia a pergunta, respondeu que era o Dr. Smyth. A operadora pareceu aceitar a resposta e, momentos depois, surgiu uma enfermeira na linha que lhe disse que Jennifer Schonberg tinha a intervenção marcada para aquela tarde.

- Portanto, ainda não foi feita? - perguntou Adam.

- Ainda não, mas já foi chamada para a sala de operações. O doutor Vandermer está quase pronto para a ir assistir.

Adam esgravatou as moedas que tinha e ligou uma terceira vez para a Clínica Julian, desta vez pedindo para que chamassem o Dr. Vandermer. Uma enfermeira da sala de operações atendeu-o, dizendo-lhe que o médico não o podia atender mas que deveria já ter terminado aquele caso dentro de trinta minutos.

Com o pânico renovado, Adam telefonou para o advogado que Harvey lhe recomendara, Emmet Redford. Gritando que era um caso de vida ou de morte, conseguiu finalmente que ligassem ao advogado. O mais brevemente que lhe foi possível, Adam disse ao homem que a mulher ia fazer um aborto e que ele a queria deter.

- Não poderei fazer grande coisa, meu amigo - disse Mr. Redford. - De acordo com o Supremo Tribunal, um marido não pode impedir que a mulher faça um aborto.

- Isso é incrível - exclamou Adam. - É meu filho também, ou não? Há alguma coisa que se possa fazer?

- Bom, talvez o possa fazer adiar!

- Faça-o! - gritou Adam. - Faça o que puder!

- Dê-me o nome e todos os pormenores - disse Mr. Redford.

Adam disse-lhe tudo o mais depressa que foi capaz.

- Para quando é que está marcado o aborto? - perguntou Mr. Redford.

- Para daqui a trinta minutos, ou coisa do género - respondeu Adam, desesperado.

- Trinta minutos! Mas o que quer que eu faça em meia hora?!

- Tenho de ir - respondeu Adam. - Ela está na Clínica Julian. Não há tempo a perder.

Adam largou o telefone e correu através do terminal, para uma paragem de táxis. Saltando para o primeiro carro da fila, gritou ao condutor que o conduzisse à Clínica Julian.

- Tem dinheiro? - perguntou o motorista, olhando-lhe para as roupas.

Adam puxou pela sua nota de vinte dólares, esperando que fosse suficiente. Satisfeito, o homem afastou-se do passeio.

Jennifer jazia numa maca no exterior da sala de tratamento. A mãe estava de pé ao lado dela e Jennifer foi mais uma vez forçada a lembrar-se da sua anterior visita à Clínica Julian, com Cheryl. Mrs. Carson sorria, fingindo sentir-se confiante, mas era bem claro que estava tão nervosa como a filha.

- Por que é que não voltas para a sala de espera? - sugeriu Jennifer. - Eu estou bem. Por aquilo que o doutor Vander-mer diz, isto vai ser fácil.

Mrs. Carson olhou para a filha, indecisa quanto ao que deveria fazer.

- Por favor - continuou Jennifer. - Não faças disto um bicho de sete cabeças. Vai para lá e lê uma revista.

Um pouco aliviada, Mrs. Carson baixou-se, beijou a filha na testa e regressou à sala de espera. Jennifer viu-a afastar-se, com uma mistura de emoções.

- Muito bem - disse a enfermeira, surgindo da sala de tratamentos. - Estamos todos prontos e à sua espera.

Destravou a maca e empurrou Jennifer para a porta. Em contraste com a sala onde fizera o teste, esta parecia-se muito mais com uma sala de operações. Jennifer recordava-se do pavimento branco e dos grandes armários também brancos, com portas de vidro.

Estavam duas enfermeiras à espera. Quando a colocaram sobre a mesa, uma delas disse:

- Isto vai ser tudo muito rápido e daqui a pouco já nem se lembrará de todo este episódio.

Deitada de costas, Jennifer pensou sentir a criança a mover-se. Lutou para não chorar, enquanto uma das enfermeiras lhe preparava a parte de baixo do abdómen.

Abriu-se a porta que dava para o corredor e entrou o Dr. Van-dermer, vestido com uma bata cirúrgica. Jennifer sentiu-se imediatamente melhor, no momento em que o viu.

- Então como é que vamos? - perguntou ele.

- Bem, suponho - respondeu Jennifer, fracamente. Queria que ele lhe dissesse qualquer coisa mais, mas o médico limitou-se a ficar a olhar para ela, sem pestanejar. Jennifer olhou interrogativamente para as enfermeiras, mas estas não pareciam notar nada de extraordinário naquele estranho silêncio. Então, Vandermer pareceu acordar do seu transe e pediu às enfermeiras para lhe passarem o anestésico.

- Agora, vai sentir apenas uma pequena picada - disse o Dr. Vandermer na sua voz monótona.

Com um movimento hábil, espetou a agulha por debaixo da pele de Jennifer. Esta fechou os olhos, tentando também fechar a mente ao que ia acontecer.

A corrida de táxi entre o Aeroporto Kennedy e a Clínica Julian foi de pôr os cabelos em pé. Depois de Adam ter mostrado os seus vinte dólares ao motorista, este actuou como se estivesse numa corrida para salvar a vida. Parou, com um grande guincho de travões, em frente do hospital, menos de trinta minutos depois. Adam atirou-lhe os vinte dólares e correu para as escadas sem se preocupar em esperar pelo troco.

Interrompendo as raparigas que tagarelavam no balcão da recepção, exigiu que o informassem onde é que o Dr. Vandermer estava a operar.

- Está a fazer um aborto na minha mulher - ofegou.

- As interrupções de gravidez são feitas no sexto andar, mas...

Adam não esperou pelo resto da frase. Atirou-se para dentro de um elevador no preciso momento em que as portas se fechavam, ignorando a recepcionista que lhe gritava que não podia ir ao sexto andar sem ser acompanhado.

Quando o elevador parou, Adam saiu e dirigiu-se para as portas duplas que se viam no fim do vestíbulo com a indicação de “Salas de Tratamento”. Quando passou pelo posto das enfermeiras, reparou no mobiliário antigo e complicado e perguntou a si mesmo o que quereria a Julian provar com aquilo.

Uma das enfermeiras gritou-lhe que parasse, mas Adam continuou a correr. Passou as portas duplas e abriu a porta da primeira sala de tratamento. Estava vazia. Encaminhou-se para a seguinte. Uma enfermeira tentou barrar-lhe o caminho, mas conseguiu ver o rosto da paciente por cima do ombro dela. Não era Jennifer.

Adam atravessou o corredor e tentou outra porta.

- Mas o que é que pensa que anda a fazer? - perguntou-lhe uma enfermeira com um acento alemão.

Adam empurrou rudemente a mulher para o lado. Viu o Dr. Vandermer debruçado sobre a mesa. Segurava uma hipo-dérmica cuja agulha brilhava, sob a forte iluminação suspensa por cima dele.

- Jennifer! - gritou Adam, aliviado pelo facto de o procedimento não ter ido mais além do que o anestésico local. - Não o faças, por favor. Não o faças sem mais uns testes.

Jennifer começou a levantar-se quando dois serventes entraram a correr e puxaram os braços de Adam para trás das costas. Adam verificou que ambos os homens tinham as mesmas expressões paradas e que não pestanejavam, tal como os camaro-teiros do navio.

- Muito bem, muito bem - disse Adam. - Já me convenceram. Vocês são mais fortes do que eu. Agora larguem-me, por favor.

- Adam Schonberg? - disse o Dr. Vandermer. Até ter ouvido a voz de Adam, pensava estar a lidar com um louco qualquer. - Que é que está aqui a fazer? Jennifer disse-me que se encontrava fora da cidade.

- Por favor, não vá avante com a intervenção. Há uma coisa que preciso de lhe dizer.

Como se subitamente se tivesse lembrado dos serventes, o Dr. Vandermer bateu no ombro do que se encontrava mais perto de si e disse:

- Conheço este homem. Podem largá-lo. - Tirou a máscara cirúrgica e deixou-a cair sobre o peito.

Os serventes largaram Adam no momento em que se abria a porta do corredor e um certo número de membros do pessoal do hospital metiam a cabeça para espreitar e ver o que se passava.

- Está tudo sob controlo - disse o Dr. Vandermer. Dirigindo-se para os serventes, continuou: - Por que é que vocês dois não esperam lá fora?

Logo que os homens saíram, conduziu Adam para uma pequena antecâmara, prometendo a Jennifer que dentro de um minuto estariam de regresso os dois.

Logo que a porta se fechou, Adam não se conteve.

- Consegui participar num dos cruzeiros da Arolen.

- Sinto-me muito satisfeito por o ter conseguido - foi tudo o que obteve do médico. - Podemos comparar as nossas impressões mais tarde. Neste momento tenho de ir cuidar da sua mulher. Por que é que não vai lá para baixo para a sala de espera e aguarda por mim? Não demorarei muito tempo.

- Não está a compreender - disse Adam. - Os cruzeiros da Arolen são muito mais do que apenas contínuas sessões de reciclagem. São uma cobertura para um complicado esquema de modificação de comportamentos.

O Dr. Vandermer interrogou-se sobre o que fazer. Adam era obviamente um psicótico. Talvez o conseguisse convencer a dirigir-se à psiquiatria, onde alguém com experiência o poderia ajudar. Dando um passo em frente, colocou o seu braço em torno dos ombros de Adam.

- Creio que a pessoa com quem deverá falar é o doutor Pace. Por que é que não vamos lá abaixo, para que eu lho apresente?

Adam libertou-se do braço do Dr. Vandermer.

- Parece-me que não ouviu aquilo que eu disse. Estou a falar de uma modificação de comportamento induzida por drogas. Doutor Vandermer, o senhor foi vítima. O senhor foi drogado. Está a compreender-me?

O Dr. Vandermer suspirou.

- Adam, sei que acreditas naquilo que estás a dizer, mas eu não fui drogado durante o cruzeiro. Dei conferências. Foram uns dias formidáveis, tal como os dias que passei em Porto Rico.

- Eu vi tudo - disse Adam. - Estive no Fiord. Vi como drogavam a comida dos médicos e lhes estavam sempre a dar umas cápsulas amarelas. A seguir foram submetidos a filmes. Era controlo mental. Escute, tem de acreditar em mim. Por que é que o senhor mudou a sua opinião sobre o Pregdolen? Antes de seguir no cruzeiro, pensava que o medicamento era perigoso. Disse-me que nunca o receitava.

- Nunca mudei de opinião sobre o Pregdolen - protestou o Dr. Vandermer. - Sempre pensei que era o melhor produto existente no mercado se fosse forçado a prescrever uma medicação para os enjoos matinais.

Compreendendo que não estava a conseguir quaisquer resultados, Adam agarrou na mão do Dr. Vandermer. Olhando directamente para os olhos do médico e disse:

- Por favor, mesmo que não acredite em mim, por favor, não aborte o meu filho. Creio que a confusão que ocorreu com os testes, no laboratório, foi deliberada. Penso que a Arolen está a tentar aumentar os seus fornecimentos de tecidos fetais e fazem-no desse modo.

A porta da sala abriu-se.

- Doutor Vandermer - disse uma enfermeira -, o que é que devemos fazer?

O Dr. Vandermer fez-lhe sinal para que se fosse embora.

- Adam - disse ele, gentilmente -, compreendo perfeitamente que te possas sentir preocupado com a maneira como as coisas se desenrolaram...

- Deixe-se de condescendências - avisou-o Adam, esfregando os olhos. - Tudo o que quero é adiar a intervenção. E tudo e não creio estar a pedir muito.

- Isso depende do ponto de vista. - O médico apontou para a sala de tratamento. - Jennifer pode ter um ponto de vista diferente. Um atraso, neste momento, poderá vir a ser muito cruel para com ela, que já passou por mais do que o suficiente.

Adam sentiu que estava a perder a batalha. Desesperado, procurava uma maneira qualquer de conseguir convencer o médico.

- Agora - disse Vandermer firmemente -, vá para a sala de espera e aguarde. Já lá vou ter.

- Não! - gritou Adam, bloqueando a saída. - Ainda não ouviu tudo o que tenho para dizer.

- Adam! - explodiu o Dr. Vandermer. - Saia do meu caminho ou serei forçado a mandar retirá-lo daqui à força.

- Escute, penso que algumas das pessoas que organizam os cruzeiros foram sujeitas a psicocirurgia. Estou a dizer-lhe a verdade. Têm cicatrizes dos dois lados da cabeça. Aqui.

Adam estendeu a mão para tocar no local a que se referia, na cabeça de Vandermer. Quando o fez, deu um salto para trás, horrorizado. De cada um dos lados da cabeça de Vandermer viam-se pequenas cicatrizes. Adam conseguia ver as incisões já cicatrizadas. O Dr. Vandermer reagiu de um modo irado.

- Isto já foi longe de mais! - Abriu a porta e fez sinal aos dois serventes para levarem Adam. - Façam o favor de conduzir Mister Schonberg para a sala de espera. Poderá aguardar aí se se comportar decentemente, mas se criar algum problema, chamem um psiquiatra.

Adam levantou as mãos.

- Não causarei problemas - respondeu calmamente.

A última coisa que desejava era que lhe dessem uma qualquer espécie de tranquilizante. Sabia agora que se Vandermer fora sujeito a psicocirurgia, não tinha maneira nenhuma de o convencer da traição da Arolen.

- Posso falar com a minha mulher? - perguntou.

O Dr. Vandermer olhou para Adam por momentos e depois abanou a cabeça.

- Não creio que isso seja do interesse de Jennifer, mas deixarei que seja ela a tomar essa decisão.

Abriu a porta para a sala de tratamento e entrou. Jennifer ergueu-se sobre um cotovelo.

- O que é que se passa? - perguntou ansiosamente.

O Dr. Vandermer descreveu-lhe brevemente a cena com Adam, terminando com o pedido dele para falar com Jennifer.

- Parece-me que ele não foi capaz de suportar as tensões relacionadas com a sua gravidez - foi a única coisa que Vandermer conseguiu dizer-lhe, como explicação.

- Bom, de certeza que não tornou toda esta situação mais fácil para mim - disse Jennifer. - Lamento muito ele ter-lhe provocado tantos problemas...

- Não precisa de se desculpar - respondeu o Dr. Vandermer. - Creio que agora podemos continuar com a intervenção. Poderá resolver tudo com o Adam, depois de terminarmos.

Jennifer concordou com um aceno.

- Por que é que ele tinha de regressar agora? Tem razão, creio que não serei capaz de falar com ele neste momento. Por que é que não faz o que tem a fazer, enquanto ainda tenho algum domínio da situação?

O Dr. Vandermer sorriu-se para ela, confiante, e fez sinal à enfermeira para começar de novo os preparativos. A seguir regressou à antecâmara e disse a Adam que Jennifer falaria com ele depois.

Adam compreendeu que não valia a pena protestar mais. Entorpecido, acompanhou os serventes ao longo do corredor.

O Dr. Vandermer tornou a lavar-se e regressou à sala de tratamentos. Pegando na hipodérmica, deu a Jennifer o anestésico local. Estava prestes a começar a intervenção quando a porta se abriu de novo.

- Dr. Vandermer, receio que tenha de suspender este caso. Jennifer abriu os olhos. De pé à entrada da porta estava uma mulher forte envolvida num vestido amarrotado. Jennifer não a reconheceu, mas o Dr. Vandemer sabia quem ela era. Era Helen Clark, directora das salas de operações da Clínica Julian.

- Acabamos de receber uma ordem do Tribunal para a suspensão da intervenção. Não podemos proceder ao aborto de Jennifer Schonberg.

- Mas... sob que bases?-perguntou um espantado Dr. Vandermer.

- Não tenho conhecimento dos detalhes - disse Mrs. Clark -, mas está assinada por um juiz do Supremo Tribunal de Nova Iorque.

O Dr. Vandermer encolheu os ombros e virou-se de novo para Jennifer.

- Não faça nenhuma loucura - avisou-o Mrs. Clark. - Se desafiar a ordem do Tribunal, ficaremos todos metidos em sarilhos.

- Isto é ridículo - disse o Dr. Vandermer. - Um tribunal a interferir numa sala de operações. - No entanto, Vandermer tirou a máscara e as luvas.

Vendo que ele se preparava para sair, Jennifer mordeu o lábio inferior, para evitar soltar um grito.

Depois de Vandermer o ter expulso da sala de tratamento, Adam telefonou imediatamente a Emmet Redford. O advogado disse-lhe que telefonara a um conhecido que lhe devia uns favores e que conseguira uma ordem de suspensão, que ia a caminho da clínica naquele preciso momento. Adam regressou à sala de espera, rezando para que os papéis chegassem a tempo. Vendo Mrs. Carson debruçada sobre uma revista, sentou-se num lugar em que ela não o poderia avistar.

Menos de cinco minutos depois, uma enfermeira apressou-se para junto de Mrs. Carson. Debruçou-se e sussurrou qualquer coisa à mulher mais velha, que lançou os braços ao ar e gritou:

- O aborto foi cancelado!

Adam sentiu-se capaz de soltar gritos de alegria, até que ouviu os soluços de Jennifer, transportada numa maca, ao longo do corredor. Tanto ele como Mrs. Carson correram para ela e acabaram por ficar em lados opostos da maca.

- Jennifer - disse Adam, pegando-lhe na mão. - Acabará tudo por correr bem!

Jennifer libertou-se da mão dele, gritando histericamente.

- Deixa-me em paz! Estás louco! Deixa-me em paz! Adam afastou-se e, cheio de tristeza, ficou a ver a maca a desaparecer ao longo do corredor.

- És o responsável por este desastre? - atirou-lhe Mrs. Carson.

Adam estava demasiado perturbado para responder. Seria um desastre, evitar um aborto desnecessário? Ele próprio, já quase a chorar, virou-se e caminhou para o elevador, como um cego. Uma vez na rua, verificou a carteira. Tinha apenas três dólares e alguns trocos. Chegou à conclusão que seria melhor apanhar o metropolitano para o gabinete de Emmet Redford, na 5.a Avenida.

- Peço desculpa pelas minhas roupas - disse Adam, quando a secretária o fez entrar. - Não quis perder tempo a ir a casa, para as mudar.

Mr. Redford fez um aceno de concordância, apesar de na verdade não gostar da aparência de Adam. De facto, não gostava nada de todo aquele caso. Conseguira obter a ordem de suspensão, mas sentia que as razões de Adam eram, no mínimo, dúbias, especialmente à luz das informações que acabara de receber do assistente que fora encarregado do caso.

- Creio que o melhor é falar com franqueza - começou Redford. - Concordei em ajudar, apenas como um favor ao Harvey, mas há um certo número de pontos que me estão a preocupar bastante.

- Estou absolutamente de acordo - disse Adam. - Penso que a Clínica Julian está de propósito a praticar abortos desnecessários.

- Compreendo - disse Redford, olhando mais uma vez para o cabelo de Adam, muito mal cuidado, e para a barba por fazer.

- Mas o problema real - continuou Adam - está no facto de as Indústrias Farmacêuticas Arolen e a companhia sua proprietária, a MTIC, terem em execução um complicado programa que envolve drogas e até cirurgia cerebral para influenciar a maneira como os médicos praticam a medicina.

“Este homem é maluco”, pensou Redford, assustado. A voz de Adam tornou-se mais premente.

- Mas agora que descobri tudo isto não sei o que fazer.

- Estou a compreender o seu problema - disse Redford, interrogando-se sobre se Adam seria potencialmente violento. Pelo menos parecia excitável. Redford carregou num botão escondido por debaixo da sua secretária e disse: - Mister Schonberg, importa-se que eu lhe faça uma pergunta pessoal?

- De maneira nenhuma - respondeu Adam.

- Já alguma vez pensou em obter uma ajuda profissional para as suas obsessões? Creio que isso seria do maior interesse para toda a gente.

- Mas o que eu lhe estou a dizer é verdade! - protestou Adam.

Ouviu-se uma ligeira batida na porta. Redford levantou-se para abrir e disse à sua secretária para pedir a Mr. Stupenski para se juntar a eles.

- Receio que um tribunal não venha a dar grande crédito às suas alegações - disse para Adam, enquanto esperavam.

Adam investigou o rosto do homem, em busca de algum indício de que o advogado acreditava nele, mas não viu nenhum.

- Creio que tem razão - admitiu Adam. - As únicas provas que tenho são aquilo que eu vi.

A porta abriu-se de novo e um homem jovem, usando um fato às riscas, idêntico ao de Redford, entrou no gabinete.

- Este é o meu associado, Mister Stupenski - disse Redford.

Adam cumprimentou-o e a seguir tentou mais uma vez convencer Redford de que a sua história era verdadeira.

- Eles metem drogas na comida durante os cruzeiros e reforçam o efeito com cápsulas amarelas, que devem ser uma espécie de tranquilizante.

- Isso é o que o senhor afirma, Mister Schonberg, mas o problema está em que o senhor não tem provas - repetiu Redford.

Os advogados trocaram olhares de entendimento. Adam ficou a olhar para eles, frustrado.

- Penso que lhe devo dizer que dados os resultados do teste ao líquido amniótico que na clínica mostraram a Mister Stupenski, estou já arrependido de ter tratado de obter essa ordem de suspensão - disse Redford. - Tal como as coisas estão, essa ordem mantém toda a sua força até uma audição de emergência, daqui a três dias, no tribunal. Uma vez que eu não vou sequer tentar defender o caso, é de prever que a ordem seja rescindida, nessa altura. Bom dia, Mister Schonberg.

Adam levou alguns momentos a compreender que a entrevista terminara.

Quatro horas mais tarde, lavado, barbeado e vestido com o seu melhor fato, Adam encontrava-se sentado no exterior do gabinete do seu pai, aguardando que o Dr. Schonberg terminasse a sua última entrevista da tarde. Já passava das seis horas.

Quando o Dr. Schonberg ficou finalmente livre, escutou com alguma impaciência toda aquela história, história que até Adam tinha de admitir que parecia bastante incrível.

- Não posso acreditar nisso - disse ele a Adam. - Olha, se isso te faz sentir melhor, deixa-me telefonar a Peter Daven-port, da AMA. É ele quem aprova os créditos oficiais a tal tipo de congressos. Já participou em vários dos cruzeiros da Arolen.

O Dr. Schonberg ligou para a casa de Davenport e, jovialmente, perguntou-lhe qual a sua opinião sobre os cruzeiros da Arolen. Depois de ficar à escuta durante alguns minutos, agradeceu ao homem e desligou.

- Pete diz que os seminários a bordo do Fiord são inteiramente sérios. Diz também que alguns dos entretenimentos nocturnos são um pouco ousados, mas que as conferências a que assistiu foram das melhores em que participou.

- Estava provavelmente drogado, tal como todos os outros - disse Adam.

- Adam, por favor - respondeu o Dr. Schonberg. - Estás a ser ridículo. A MTIC tem patrocinado seminários e convenções médicas, directamente ou através da Arolen, há mais de uma década. Os cruzeiros existem há cinco anos.

- Não duvido disso - disse Adam, perdendo a esperança de convencer até o seu próprio pai -, mas juro-lhe que estão a drogar os médicos e a sujeitá-los a uma rigorosa modificação de comportamento. A alguns deles, chegam a fazer operações. Vi eu próprio as cicatrizes, no doutor Vandermer. Creio que o estão a controlar à distância, de algum modo.

O Dr. Schonberg levantou os olhos ao céu.

- Mesmo tendo em conta o pouco de psiquiatria que estudaste, Adam, devias ser capaz de verificar até que ponto a tua história parece paranóica.

Adam levantou-se abruptamente e dirigiu-se para a porta.

- Espera - chamou-o o Dr. Shconberg. - Volta aqui um instante.

Adam hesitou, sem saber se o pai mudaria de opinião. O Dr. Schonberg recostou-se na cadeira.

- Vamos admitir, para bem desta discussão, que há algo de verdade na tua história.

- Uma amabilidade muito grande da sua parte - disse Adam.

- Nesse caso, o que é que queres que eu faça? Sou o director para os novos produtos, para a Administração, e não posso aderir a uma teoria louca como essa. Mas vendo que estás tão preocupado, talvez eu próprio devesse participar num desses cruzeiros.

- Não! - interrompeu-o Adam. - Não vá a um cruzeiro. Por favor!

- Bom, então o que é que queres que eu faça?

- Creio que quero que inicie uma investigação.

- Faço um acordo contigo - disse o Dr. Schonberg. - Se concordares em falar com um psiquiatra e explorar a possibilidade de poderes estar a sofrer uma qualquer espécie de reacção paranóica, farei mais investigações sobre a Arolen.

Adam tirou os óculos e esfregou os olhos. Se surgisse mais alguém a sugerir-lhe que visitasse um psiquiatra, acabaria aos gritos.

- Obrigado, pai - disse. - Vou pensar a sério na sua proposta.

De regresso ao aeroporto, Adam perguntou a si mesmo que espécie de tratamento teria a Arolen dado a Pete Davenport e quantos médicos estariam já sob o controlo da MTIC.

Adam aterrou no Aeroporto de LaGuardia por volta das nove e tomou um táxi para ir para a cidade. A ideia de regressar ao seu apartamento vazio era muito deprimente e estava bastante preocupado com Jennifer. Apesar de ter um certo receio de guiar até Englewood para afrontar a ira dos Carson, achou que não havia muito mais por onde escolher. Tinha de falar com Jennifer.

Não havia luzes em casa dos Carson quando parou no caminho de acesso. Cautelosamente, encaminhou-se para os degraus da frente e carregou no botão da campainha. Ficou surpreendido quando a porta se abriu quase de imediato.

- As luzes do carro brilharam directamente dentro do nosso quarto - disse Mr. Carson, irado. - Que diabo queres tu a estas horas?!

- Peço desculpa se o acordei - disse Adam -, mas preciso de falar com Jennifer.

Mr. Carson cruzou os volumosos braços sobre o peito.

- Não há dúvida de que tens descaramento. Tomo isso em consideração, mas a minha filha recusa-se a falar contigo. Talvez mude de opinião daqui a uns dias, mas de momento...

- Lamento muito ter de insistir - disse Adam. - Sabe, não acredito que ela necessite de fazer o aborto...

Mr. Carson agarrou Adam pela camisa e gritou:

- Não insistes em coisa nenhuma! - Com um violento empurrão, afastou Adam da porta.

Adam recuperou o equilíbrio, colocou as mãos em volta da boca e começou a chamar:

- Jennifer! Jennifer!

- Basta! - gritou Mr. Carson. Agarrou Adam de novo, tentando levá-lo à força para o carro.

Porém, Adam desviou-se, libertou-se e correu para o interior. Na base das escadas, gritou de novo pela mulher. Jennifer apareceu, em camisa de dormir, no último patamar. Olhou para baixo para o marido, com desagrado.

- Escuta-me - gritou Adam de novo.

No entanto, antes de Jennifer poder falar, Mr. Carson agarrara Adam por detrás e arrastava-o para fora da porta. Sem grande vontade de resistir, Adam tropeçou quando foi atirado na direcção do seu carro e caiu sobre os arbustos. Ouviu a porta a fechar-se com violência, antes de se conseguir pôr de pé. Estava a começar a perceber que Mr. Carson não lhe permitiria falar com Jennifer naquela noite.

Subindo para o carro, Adam tentou imaginar que mais poderia ele fazer para evitar que Jennifer fizesse o aborto, pelo menos até ter a opinião de outro médico. Tinha apenas três dias para a persuadir.

Ia já a meio caminho da Ponte George Washington quando soube o que tinha de fazer. Toda a gente queria provas. Pois bem, iria a Porto Rico arranjar provas. Estava seguro que aquilo que vira no cruzeiro se veria também ali, e de uma forma aumentada.

Capítulo décimo quinto

Bill Shelly levantou-se da sua secretária e agarrou a mão de Adam.

- Parabéns - disse. - É provavelmente a melhor decisão da tua vida.

- Não estou a dizer que vou aceitar a posição, em definitivo - interpôs Adam. - Mas tenho andado a pensar muito em Porto Rico e gostaria de aceitar a oferta de ir lá e ver as instalações. Jennifer não está satisfeita com a ideia, mas se eu realmente quiser ir, acabará por apoiar a minha decisão.

- Ah, isso lembra-me uma coisa. Clarence deixou-me a indicação de que recebeu um estranho telefonema da sua mulher. Ela pensava que estavas fora, em serviço da Arolen.

- Oh, problemas com os sogros - disse Adam, pondo o assunto de lado com um aceno da mão. - Ela e o meu pai nunca se entenderam.

Até o próprio Adam não sabia muito bem qual o significado do que acabara de dizer, mas Shelly fez um aceno de compreensão e disse:

- Voltando ao assunto que estávamos a tratar, estou certo que ficarás entusiasmado com o centro de investigação da Arolen. Quando é que queres seguir?

- Agora mesmo - disse Adam, radiante. - Tenho a mala feita e está lá em baixo no carro.

Mr. Shelly riu-se baixinho.

- As tuas atitudes foram sempre muito animadoras. Deixa-me ver se o avião da Arolen está disponível.

Enquanto Shelly esperava que a sua secretária fizesse a verificação, perguntou a Adam o que é que o fizera mudar de opinião a respeito do curso de gestão.

- Estava com receio de ter sido pouco convincente - continuou.

- Pelo contrário - respondeu Adam. - Se não fosse tudo aquilo que me disse, nem sequer teria pensado no assunto.

Enquanto falava, Adam observava a cabeça de Bill Shelly, resistindo à vontade de ir verificar se também ele fora sujeito a psicocirurgia. Naquele momento, não sabia se poderia confiar em alguém da Arolen.

No luxuoso avião a jacto Gulf Stream da Arolen, encontravam-se dois executivos. Um entrara no avião com Adam e o outro embarcara em Atlanta. Apesar de ambos o terem cumprimentado muito amigavelmente, passaram a viagem a trabalhar, deixando que Adam se entretesse sozinho com algumas velhas revistas.

Quando aterraram em São João, os dois executivos dirigiram-se para o mini-autocarro da Arolen, estacionado junto ao passeio. Adam interrogava-se sobre se deveria juntar-se a eles, quando foi saudado por dois homens de calças brancas e casacos azuis. Tinham ambos o cabelo cortado muito curto, um louro e outro escuro. As etiquetas da MTIC, com os nomes, diziam: “Rodman” e “Dunly”.

__Boa tarde, Mister Schonberg - disse Rodman. - Bem- vindo a Porto Rico.

Enquanto Dunly aliviava Adam do saco a tiracolo, Adam sentiu a sua Pele a arrepiar-se nas costas e nos braços, apesar do calor tropical- A voz de Rodman tinha aquele mesmo tom sem inflexões dos camaroteiros do Fiord e, enquanto se encaminhavam para uma limusina que os aguardava, verificou que se moviam com o mesmo tipo de passos mecânicos.

O carro não era novo, mas não deixava de ser uma enorme limusina, pelo que Adam se sentiu muito consciente de si próprio quando o instalaram, sozinho, no banco traseiro.

Inclinando-se para a frente, observou o trânsito de hora de ponta. Dirigiram-se para fora da cidade, aparentemente uma rota paralela à costa norte da ilha, apesar de Adam não conseguir ver o oceano. Passaram por centros comerciais, bombas de gasolina e oficinas de automóveis. Tudo aquilo tinha simultaneamente o aspecto de estar a desfazer-se e em construção. Era uma estranha combinação. Vigas de aço enferrujadas surgiam do betão em muitos sítios, como se originalmente tivesse sido planeada a construção de andares e quartos adicionais, mas os trabalhadores não tivessem regressado. E havia lixo por todo o lado. Adam não estava muito bem impressionado.

Pouco a pouco, os desconjuntados edifícios comerciais cederam o lugar a igualmente desconjuntados edifícios de habitação, apesar de, de vez em quando, se ver uma casa bem construída e bem cuidada, no meio da pobreza geral. Não havia separação entre ricos e pobres e as cabras e galinhas andavam à solta por toda parte.

Algum tempo depois a estrada deixou de ter quatro faixas para passar a ter apenas duas e Adam viu relances do oceano, por detrás das colinas verdes. O ar tornou-se mais fresco e limpo.

Finalmente, depois de cerca de hora e meia, saíram da estrada principal para uma bem pavimentada alameda que descrevia curvas e mais curvas no meio de luxuriosa vegetação. A certa altura surgiu uma abertura na folhagem e Adam teve uma espectacular vista do mar das Caraíbas. O céu estava tingido de vermelho e Adam ficou a saber que o Sol se iria pôr muito em breve.

A estrada mergulhava ao longo do declive de uma colina e metia por debaixo de um túnel escuro de árvores exóticas. Cerca de quinhentos metros mais adiante, o carro abrandou e parou. De cada um dos lados e estendendo-se para o interior da floresta via-se uma impressionante rede de malha de aço, encimada por espirais de arame farpado. Resistências eléctricas, nos fios, sugeriam que a vedação estava electrificada. Na frente deles havia um portão.

Um guarda armado surgiu do interior da casa e aproximou-se do carro. Depois de receber uma folha de papel das mãos do condutor, deu uma olhadela a Adam e abriu o portão. Quando a limusina penetrou nos terrenos da MTIC, Adam agitou-se no seu assento, virou-se para trás e viu o portão a fechar-se, perguntando a si mesmo se aquela segurança era para manter as pessoas de fora, ou para as conservar do lado de dentro. Começou a interrogar-se sobre em que história se iria meter agora. Tal como quando se encontrara no Fiord, não tinha qualquer plano estabelecido e não queria iludir-se a si mesmo com as suas capacidades de detective. A sua única consolação era o facto de, em Porto Rico, não estar a esconder-se por detrás do nome de outra pessoa.

O carro fez subitamente uma curva e Adam viu-se confrontado pela mais magnífica arquitectura que jamais vira, erguida contra um fundo de relvados ondulantes e um brilhante mar verde-azulado.

O edifício principal era uma estrutura hexagonal em vidro, do mesmo vidro espelhado que já vira na sede da Arolen. Para a esquerda e mais perto da praia via-se outra construção, esta apenas com dois andares, que parecia ser um clube. Um pouco afastados, para um dos lados, podia ver campos de ténis e uma enorme piscina. Para lá deles estava uma praia de areia branca com um campo de voleibol e uma fileira de pranchas de wind-surf. Havia várias embarcações no mar e as suas coloridas velas destacavam-se nitidamente, recortadas no mar. Do outro lado dos relvados viam-se apartamentos virados para a praia. No seu conjunto, tudo aquilo parecia uma estância de férias da mais alta classe. Adam ficou impressionado.

O carro parou debaixo de um enorme toldo, em frente do edifício principal.

- Boa tarde, Mister Schonberg - disse o porteiro. - Bem-vindo à MTIC. Por aqui, por favor.

Adam saiu do carro e seguiu o homem até um balcão de registo e recepção. Era como estar a inscrever-se num hotel. A única diferença era o facto de não existir uma caixa.

Depois de Adam assinar a sua ficha, um outro funcionário de casaco azul, com uma etiqueta a dizer “Craig”, pegou-lhe na mala e conduziu-o ao elevador. Saíram no sexto andar e caminharam ao longo de um extenso corredor. No fim do corredor via-se outro elevador.

- Vai ficar muito tempo connosco? - perguntou Craig, no já familiar tipo de voz monótona.

- Apenas alguns dias - respondeu Adam evasivamente enquanto Craig puxava de uma chave e abria uma das portas.

Adam não tinha um quarto; tinha uma suite. Craig vagueou pelos quartos, como um paquete de hotel, verificando as luzes, certificando-se de que a televisão funcionava, inspeccionando o bar, que estava cheio e abrindo as cortinas. Adam tentou dar-lhe uma gorjeta, mas o homem recusou polidamente.

Adam ficou espantado com as acomodações. Tinha uma magnífica vista sobre o oceano, agora mais escuro, com a aproximação da noite. Nas ilhas distantes, brilhavam algumas luzes. Adam ficou a ver uma das pranchas de windsurf a dirigir-se para a praia. Ouvindo sons de música das Caraíbas, avançou para o terraço. Devia estar uma banda a tocar, no edifício que Adam pensava tratar-se de um clube. O tempo estava magnífico e Adam desejou que Jennifer estivesse ali com ele. Mesmo a suite de lua-de-mel que tinham alugado no Poconos, com a banheira em forma de coração, não conseguia ser tão luxuosa.

Adam decidiu tentar telefonar-lhe. Para sua grande satisfação, foi ela própria quem atendeu, mas quando percebeu quem ele era, ficou com uma voz fria.

- Jennifer, por favor, promete-me uma coisa - disse Adam. - Não faças o aborto até eu voltar.

- Voltar? - perguntou Jennifer. - Onde é que estás? Adam não pretendera dizer-lhe onde se encontrava, mas era demasiado tarde para inventar uma mentira.

- Porto Rico - sussurrou relutante.

- Adam - disse Jennifer, tornando bem claro que estava furiosa -, se queres dizer-me o que é que eu devo fazer, não podes continuar a fugir. No momento em que o Tribunal me der a autorização, faço tenção de voltar para a clínica.

- Por favor, Jennifer... - murmurou Adam.

- Espero que te estejas a divertir - disse Jennifer, desligando o telefone abruptamente.

Adam sentou-se na cama, bastante deprimido. Já só tinha mais dois dias. O telefone tocou e Adam agarrou o auscultador, pensando que pudesse ser Jennifer, mas tratava-se apenas da recepcionista, informando-o de que o jantar seria servido dentro de meia hora.

A sala de jantar era no clube que dava para a praia. As pranchas de windsurf jaziam na areia logo após as portas deslizantes. Surgira uma Lua cheia lançando uma cintilante faixa de luz sobre a água.

A sala tinha paredes verde-escuras e uma alcatifa a condizer, com toalhas de mesa e estofos cor-de-rosa. Os criados vestiam casacos brancos e calças pretas.

Adam estava sentado numa mesa redonda para oito pessoas. Logo à sua direita estava o Dr. Heinrich Nachman, que Adam encontrara no dia da sua primeira entrevista na Arolen. A seguir ao Dr. Nachman estava o Dr. Sinclair Glover, baixo e volumoso, de rosto vermelho, que lhe dissera ser o responsável pela investigação fetal.

Do outro lado do Dr. Glover encontrava-se o Dr. Winfield Mitchell, um homem barbudo mas careca, usando óculos de aros metálicos. Nachman informara-o de que Mitchell era o encarregado do desenvolvimento das drogas psicotrópicas. Adam tinha a distinta impressão de que se tratava de um psiquiatra, pela maneira calma como ele escutava as conversações, sem interferir nelas, mantendo, no entanto, uma atitude do tipo eu-sou-superior.

Para lá do Dr. Mitchell estava um executivo de negócios, um tal William qualquer coisa, Adam não percebera o último nome. Era um sujeito de cabelo louro, cor de areia e com uma pele de rapazinho. À mesa encontravam-se também Brian Hopkins, o encarregado dos cursos de gestão, Ms. Linda Aron-son, das pesquisas de produção e um homem mais velho e muito jovial, chamado Harry Burkett, que era o director das instalações de Porto Rico.

Lembrando-se da sua experiência a bordo do Fiord, Adam sentiu-se inicialmente relutante em comer, mas toda a gente estava a saborear a comida com muito gosto e nenhum deles parecia estar drogado. Além disso, reflectiu Adam, se o quisessem drogar podiam tê-lo feito no avião.

A atmosfera à mesa era descontraída e toda a gente fez o possível para que Adam se sentisse bem. Burkett explicou-lhe por que razão a MTIC escolhera Porto Rico para o seu centro de investigação, dizendo que era por causa do Governo oferecer excelentes incentivos fiscais, bem como uma política de não interferência. Ao que parecia, eram muitas as indústrias farmacêuticas que tinham grandes instalações na ilha.

Adam fez perguntas sobre a razão para uma tão grande instalação de segurança.

- Esse é um dos preços que temos a pagar, por vivermos neste paraíso - disse Harry Burkett. - Há sempre a possibilidade de actividades terroristas por parte do pequeno grupo que se bate pela independência de Porto Rico.

Adam ficou sem saber se na verdade se trataria apenas disso, mas não quis fazer mais perguntas sobre o assunto. William, o executivo da MTIC, observou Adam e disse:

- A MTIC tem uma certa filosofia sobre a profissão médica. Pensamos que os interesses económicos suplantaram todos os outros. Ouvi dizer que concorda com este ponto de vista.

Adam notou que o resto das pessoas à mesa ficara à escuta. Engoliu um bocado da sobremesa e disse:

- Sim, é verdade. No pouco tempo que estive na Escola Médica, fiquei impressionado com a falta de humanismo. Senti que a tecnologia e a pesquisa eram consideradas mais recompensadoras do que cuidar dos pacientes.

Encontravam-se vários médicos em volta da mesa e Adam tinha a esperança de não estar a ofendê-los, mas reparou que o Dr. Nachman sorria. Ficou agradado, pois pensava que quanto mais entusiásticos fossem a seu respeito, maiores eram as suas probabilidades de descobrir o que andavam a fazer.

- Pensa que essa sua atitude torna mais difícil lidar com os médicos? - perguntou Linda Aronson.

- De maneira nenhuma - respondeu Adam. - Creio que a minha compreensão da realidade médica torna esses contactos mais fáceis. Como delegado, fui razoavelmente bem sucedido.

- Por aquilo que Bill Shelly nos informou - disse Nachman - creio que Mister Schonberg está a ser muito modesto.

- Adam, alguém lhe disse quais eram os nossos planos, no caso de decidir alistar-se no nosso curso de gestão? - perguntou o Dr. Glover.

- Não muito especificamente - respondeu Adam.

O Dr. Nachman cruzou as mãos e inclinou-se para a frente.

- A Arolen está prestes a lançar toda uma nova linha de medicamentos, ou modalidades de tratamento, em resultado da nossa investigação fetal. Estamos em busca de alguém que irá trabalhar com Linda e que terá de orientar a profissão médica sobre estes novos conceitos. Pensamos que tens a formação e as atitudes ideais para esse trabalho.

- Precisamente - disse Linda. - Mas não queremos assustar-te. Inicialmente, terás apenas de te familiarizares com a investigação da Arolen.

Adam desejava ter mais de dois dias. O trabalho que lhe estavam a oferecer iria, sem dúvida, colocá-lo numa posição que lhe iria permitir descobrir o que necessitava.

- Não é bem assim - disse Brian Hopkins. - Mister Schonberg terá primeiramente de fazer o nosso curso de gestão.

- Brian, todos nós sabemos que ele tem de passar primeiro por esse curso.

- Por favor - disse o Dr. Nachman. - É melhor não começarmos já a demonstrar os nossos ciúmes interdepartamentais. Vamos ter muito tempo para isso.

Toda a gente se riu, excepto Hopkins. Adam acabou a sobremesa e pousou a colher. Olhando para o Dr. Nachman, disse:

- Foi um jantar maravilhoso, mas estou ansioso por visitar as instalações.

- E nós estamos muito interessados em mostrar-tas. Amanhã, planeamos...

- Por que não esta noite? - interrompeu-o Adam, entusiasticamente.

O Dr. Nachman olhou para Glover e Mitchell, que sorriram e encolheram os ombros.

- Suponho que lhe podemos mostrar as instalações esta noite - disse o Dr. Nachman. - Tens a certeza de que não estás demasiado cansado?

- Nem sequer um bocadinho - respondeu Adam.

O Dr. Nachman levantou-se, seguido pelo Dr. Glover e pelo Dr. Mitchell. Os outros pediram desculpa, preferindo ficar à mesa, para tomarem mais café e para umas bebidas.

O Dr. Nachman conduziu Adam de regresso ao edifício principal, onde os hóspedes se registavam. A seguir, os quatro passaram através de um outro conjunto de portas duplas, para o centro de investigação. Esta parte do edifício estava pavimentada com mosaicos brancos e as paredes pintadas com brilhantes cores primárias.

- Estes são os gabinetes da administração - explicou o Dr. Nachman.

Um instante depois, Adam deu por si a atravessar uma ponte de paredes de vidro. Via palmeiras a oscilar dos dois lados e percebeu então que existiam dois edifícios concêntricos, um deles aninhado dentro do outro, tal como o Pentágono, em Washington.

Virando para outro corredor, Adam sentiu o inconfundível odor a animais enjaulados. O Dr. Glover abriu a primeira porta e, durante a meia hora seguinte, conduziu Adam de sala para sala, explicando-lhe a complicada maquinaria e examinando um infindável número de ratos e macacos. Era aqui que a Arolen fazia a sua investigação básica sobre fetologia.

Para surpresa de Adam, técnicos de toucas brancas trabalhavam nalguns laboratórios, apesar da hora tardia. O Dr. Glover explicou-lhe que desde que tinham começado a obter resultados positivos com implantações fetais, estavam a trabalhar vinte e quatro horas por dia.

- Onde é que arranjam o material? - perguntou Adam, parando junto de uma jaula de ratos.

- A maior parte da investigação é feita com base em animais - explicou o Dr. Glover - e criamos esses animais aqui mesmo, no centro.

- Mas claro que também deve estar a fazer implantações humanas. Onde é que conseguem os tecidos? - insistiu Adam.

- Muito boa pergunta - disse o Dr. Glover. - Tivemos certos problemas, depois de terem sido publicadas leis restritivas, mas lá nos conseguimos abastecer, de uma maneira ou de outra. A maior parte do nosso material provém da Clínica Julian.

De frustração, Adam tinha vontade de destruir as jaulas de vidro. Por que é que ninguém lhe dava ouvidos? Era óbvio que médicos como Vandermer estavam a aumentar o fornecimento de tecido fetal, meramente aumentando o número de abortos terapêuticos.

- Amanhã - continuou o Dr. Glover, satisfeito por Adam estar a demonstrar tanto interesse - vamos levar-te à nossa ala hospitalar. Tivemos aí alguns resultados espantosos, especialmente no tratamento de diabéticos com extractos pancreaticos fetais.

- Sei como tudo isto é interessante, mas creio que o doutor Mitchell gostará de poder explicar algum do seu trabalho - disse Nachman, sorrindo para Glover.

- É verdade - confirmou o Dr. Mitchell. - Daqui a um ano, quando surgirem as estatísticas de vendas, veremos qual o departamento que contribuirá mais.

Mitchell devotou os trinta minutos seguintes a um monólogo ininterrupto sobre drogas psicotrópicas, em especial sobre um novo tipo de fenotiazina.

- E eficiente em todos os tipos de condições psicóticas. É essencialmente não tóxica. Transformar um cidadão perturbado num cidadão exemplar. Claro, parte da espontaneidade é sacrificada.

Adam ia começar a protestar, mas depois achou melhor não o fazer. Estava certo de que o “sacrifício de parte da espontaneidade” era a maneira que a companhia tinha de minorar os efeitos secundários. Era evidente que os camaroteiros do Fiord e os serventes da Julian tinham “falta de espontaneidade”.

- Qual é o nome do novo medicamento? - inquiriu Adam.

- Científico, genérico ou comercial? - perguntou o Dr. Mitchell, quase sem fôlego, por causa do seu monólogo.

- Comercial.

- Conformin - disse o Dr. Mitchell.

- Será possível conseguir uma amostra?

- Poderás arranjar todas as amostras que quiseres, quando o medicamento for lançado - disse o Dr. Mitchell. - Estamos à espera de autorização da ADF, para o lançamento no mercado.

- Nem sequer uma embalagem? - perguntou Adam. - Gostava de ver como é a embalagem. Como delegado, sei bem qual é a importância da apresentação.

O Dr. Mitchell olhou para Adam de um modo estranho.

- Bom, talvez uma pequena amostra - murmurou. Adam não insistiu no assunto, dizendo:

- Se o medicamento está prestes a ser lançado, isso quer dizer que já começaram os testes em pacientes humanos.

- Mas claro que sim - disse o Dr. Mitchell, radiante. - Há vários anos que utilizamos os medicamentos em pessoas, em pacientes com problemas psíquicos incuráveis, vindos de todos os pontos do mundo. O medicamento provou ser cem por cento eficiente.

- Gostaria de visitar a enfermaria - disse Adam.

- Amanhã - respondeu o Dr. Mitchell. - Agora, gostava de te mostrar o nosso principal laboratório de química. É um dos mais avançados do mundo.

Não existiam quaisquer dúvidas no espírito de Adam de que as instalações da Arolen eram soberbas, especialmente quando comparadas com as do hospital universitário, cujo orçamento era tão apertado que até era necessária uma requisição especial para se obter um lápis. Mas depois de ver tantos laboratórios, Adam já estava aborrecido. Tentou mostrar-se interessado, mas quanto mais longa se tornava a visita, mais isso se tornava difícil.

- Creio que já chega, por esta noite - disse o Dr. Nach-man, finalmente. - Não queremos que Mister Schonberg fique exausto, logo na primeira noite que passa connosco.

- Estou de acordo - concordou o Dr. Glover. - Só passámos meia hora no meu departamento.

- Isso é porque aqui há mais coisas para ver - retorquiu o Dr. Mitchell.

- Cavalheiros! - interrompeu-os o Dr. Nachman, levando as mãos ao céu.

- Mas eu gostei de tudo o que vi - protestou Adam, tendo o cuidado de usar o verbo no passado, para não encorajar o Dr. Mitchell a prosseguir.

Caminharam ao longo do corredor principal e atravessaram a ponte de ligação para o outro edifício. Adam parou, para olhar para trás e apercebeu-se de que a ponte continuava para lá do corredor, para um terceiro edifício interior, fechado por pesadas portas de aço.

- O que é que há lá atrás? - perguntou Adam.

- As enfermarias - disse o Dr. Nachman. - Irá visitá-las amanhã.

Deve ser ali que se encontra a enfermaria psiquiátrica, pensou Adam. Hesitou por um instante e depois seguiu Nachman para o vestíbulo principal, onde todos se deram as boas-noites.

Era um quarto para a meia noite e apesar de Adam ter tido um dia muito ocupado, não tinha sono. Começava a sentir uma abafada dor de cabeça, por detrás dos olhos, e não conseguia esquecer-se de que tinha apenas mais dois dias para conseguir provas concretas e convincentes. Mesmo que conseguisse uma amostra de Conformin, esta levaria algum tempo a ser analisada, e depois ainda mais tempo para tentar convencer alguém como Vandermer a permitir que lhe fizessem testes para se verificar se ele sofrera os seus efeitos. Sabendo que o sono era uma coisa fora de questão, Adam abriu a porta e caminhou ao longo do corredor até ao elevador mais afastado. Uma pequena tabuleta dizia: “Elevador para os banhistas.”

Descendo ao pavimento térreo, Adam encontrou-se no exterior, num denso jardim de palmeiras, bambus e fetos. Havia um trilho encurvado no meio da luxuriosa vegetação. Seguindo-o, Adam foi dar à praia.

Tirando os sapatos, Adam pisou a areia fria. A Lua cheia fazia com que a noite fosse quase tão clara como o dia. A areia era macia e suave como pó. Um ligeiro vento fazia soar as velas das pranchas de windsurf, que libertavam um som como o dos carrilhões japoneses, tocados pelo vento. Adam compreendia perfeitamente por que é que pessoas como Bill Shelly estavam tão encantadas com aquele sítio.

Passando pelo clube, viu o interior da sala de jantar. Alguns dos empregados estavam já a preparar as mesas para a próxima refeição.

Cerca de cem metros para lá do clube estavam os apartamentos. Tinham sido desenhados num estilo pseudo-espanhol, com paredes de estuque e telhados de telhas vermelhas. Nalgumas das residências brilhavam luzes e Adam teve vislumbres, aqui e acolá, de homens e mulheres vendo televisão e lendo. A cena era tão pacífica que era difícil de acreditar que poderia ser ali o centro de uma gigantesca conspiração. No entanto, e aparentemente, essa era a realidade. Todas as indústrias farmacêuticas gastavam milhões de dólares tentando influenciar o comportamento prescritivo dos médicos, mas a MTIC queria mais do que isso. Queria na realidade controlar os médicos. Não era de admirar que a Arolen planeasse diminuir a sua força de vendas.

Adam voltou para trás e caminhou ao longo da praia até ao ponto em que deixara os sapatos e depois dirigiu-se para o edifício principal. A meio caminho, no vestíbulo, reparou numa porta com a indicação “Saída”. Experimentou-a e ela abriu-se para uma escadaria em caracol, que subia até ao telhado. Depois de se certificar que poderia voltar a entrar por ali, subiu os degraus até uma porta que também se encontrava aberta. Olhando em volta, deu por si no alto do edifício principal. O vento soprava do lado do mar. Adam avançou até ao muro de quase metro e meio de altura que marcava o rebordo do telhado. Daquele ponto elevado, tinha uma perfeita visão de todo o complexo. As estruturas residenciais terminavam junto de uma pequena colina rochosa, para trás da qual se via a densa floresta. Uma vez que tudo aquilo era tão grande, poderiam perfeitamente existir mais edifícios escondidos da vista.

Virando-se, voltou a olhar para o primeiro dos edifícios interiores. Sob a brilhante luz do luar, podia ver perfeitamente os seus contornos e verificar tratar-se de uma brilhante solução arquitectural para eliminar os gabinetes sem janelas. Olhando para baixo, viu que o espaço entre os edifícios tinha sido cuidadosamente planeado, com lagos, verdura e palmeiras. Os dois edifícios eram de alturas iguais e havia, entre eles, uma ponte de ligação em cada andar.

O edifício central, que o Dr. Nachman dissera conter o hospital, não era visível. Adam atravessou a ponte para o segundo edifício, caminhou até ao seu rebordo interior e olhou para baixo. O hospital estava por debaixo dele. Tinha apenas três pisos e fora por isso que Adam não o tinha podido ver. Directamente por debaixo dele estava a ponte de ligação que conduzia às portas de aço que vira quando saíra dos laboratórios.

O telhado estava eriçado de antenas, fios e antenas parabólicas, que Adam calculou estarem relacionadas com um qualquer complicado sistema de comunicações. Havia um certo número de clarabóias, a maior das quais no centro do edifício. Além de tudo isso, o telhado dispunha ainda de uma torre de arrefecimento para o ar condicionado e de uma porta de acesso semelhante a que Adam utilizara para atingir o telhado do edifício exterior. A luz proveniente da clarabóia central dava, a todo aquele conjunto, um aspecto estranho e futurista.

Adam deixou-se ficar ali de pé, as palmas das mãos apoiadas no muro de cimento, ainda quente do sol do dia anterior. A brisa nocturna brincava-lhe com o cabelo. Com um suspiro, surpreendeu-se com o louco impulso que o fizera ir para Porto Rico. A MTIC nunca o deixaria sair dali, com os seus segredos. Frustrado e deprimido, resolveu que era a altura de ir para a cama.

 

No dia seguinte, apesar da impaciência de Adam por ver o hospital, descobriu que o mesmo não constava do seu programa até à tarde. A maior parte da manhã foi passada com Mr. Burkett, que mostrou a Adam não apenas o condomínio em que ele e Jennifer iriam viver, mas também todas as facilidades que a MTIC oferecia às mulheres e aos filhos dos seus empregados. Perguntou a si mesmo qual seria a reacção de Burkett se ele subitamente confrontasse o homem com o conhecimento de que a MTIC estava a fazer o seu melhor para que a criança de Adam nunca nascesse. Necessitou de toda a sua força de vontade para se sorrir admiradoramente, quando saíram do conjunto habitacional. Adam ficou aliviado quando Burkett acabou por o deixar no exterior do gabinete de Linda Aronson.

Linda saudou Adam com entusiasmo e mostrou-lhe os terminais de computador que distribuíam as informações da Aro-len por todo o mundo, numa questão de minutos. Apresentou também Adam a Mr. Crawford, o organizador dos cruzeiros da Arolen. Adam pensou que o homem era parecido com o artista falsificador que lhe fornecera o passaporte em nome de Smyth.

Crawford mostrou a Adam um gráfico estatístico mostrando as zonas em que trabalhavam os médicos que tomavam parte nos cruzeiros. A maior parte era oriunda da área de Nova Iorque, mas nos meses mais recentes tinha surgido um certo número de médicos de Chicago e também de Los Angeles. Adam notou que uns bons dez por cento dos médicos que tinham participado em mais de um cruzeiro, trabalhavam agora na Clínica Julian.

- Não há dúvida que os cruzeiros se tornaram extremamente populares - disse Adam, escondendo o seu pavor.

- Popular, não é a palavra correcta - contrapôs Crawford, orgulhosamente. - Com o que dispomos agora, não temos nenhuma maneira de satisfazer todos os pedidos. A MTIC já comprou um segundo navio de cruzeiro, na costa oeste. Prevemos que entre ao serviço dentro de um ano. O plano final é o de termos cinco navios em operação, o que significa que poderemos acomodar toda a classe médica.

Mr. Crawford cruzou os braços por sobre o peito e lançou a Adam um olhar do tipo então-o-que-é-que-pensas-disto, como se fosse um pai orgulhoso a descrever os feitos do filho. Adam sentiu-se doente. Toda uma geração de médicos programados para serem, sem o saberem, os representantes de uma empresa farmacêutica.

O Dr. Nachman encontrou-se com Adam ao almoço e a seguir conduziu-o ao gabinete do dr. Glover, onde Glover e Mitchell discutiam um com o outro sobre quem deveria mostrar o quê, em primeiro lugar, a Adam.

- Estou a ver que não vos posso deixar ficar sozinhos numa mesma sala - comentou Nachman, irritado.

Adam interrogou-se sobre se o isolamento do centro teria algo que ver com aquelas discussões. A competição entre os dois médicos tinha uma qualidade neurótica. No entanto sentia-se satisfeito por, finalmente, ir visitar o hospital. Não estava nada interessado em apanhar mais uma hora de monólogos do Dr. Mitchell e esperava poder fugir-lhe.

Quando atingiram as portas duplas que davam para o edifício mais interior, o Dr. Nachman abriu-as colocando suavemente o seu polegar em cima de um pequeno detector electrónico. Para lá das portas, a ponte coberta era envidraçada dos dois lados e Adam viu a atraente paisagem artificial que apreciara do alto do telhado na noite anterior.

No fim da ponte havia um segundo par de portas duplas, que o Dr. Nachman também abriu com o polegar. No momento em que entraram, Adam reconheceu o familiar cheiro de um hospital. Depois de passarem por um vestíbulo enorme, com três andares de altura e iluminado por uma das clarabóias que Adam vira na noite anterior, passaram por uma série de pequenas salas de operações, até um posto de enfermeiras cheio do mais moderno equipamento de telemetria. Uma das enfermeiras levou-os à enfermaria, que estava fechada à chave. O Dr. Glover apresentou Adam a vários dos pacientes.

O médico expôs-lhe cada um dos casos, impressionando Adam com a quantidade de informações que este conseguira manter na memória. Os poucos detalhes que não se recordava, podia obtê-los através dos terminais de computador existentes em cada quarto.

Encontravam-se ali vários diabéticos que tinham recebido infusões de células fetais e que agora estavam completamente livres do uso da insulina. Adam ficou impressionado, apesar de tudo, pois sabia que os fins nunca poderiam justificar os meios.

No extremo da enfermaria estavam os pacientes com problemas no sistema nervoso central. Adam encontrou uma jovem cuja medula espinal fora cortada, num acidente de automóvel.

Depois de ter sido paraplégica durante mais de um ano, era agora capaz de mover as pernas, graças a infusões de tecidos do sistema nervoso central de fetos. Os seus movimentos eram ainda descoordenados, mas os resultados eram espantosos, quando comparados com a total ineficiência dos tratamentos tradicionais.

Saudou o Dr. Glover com um abraço.

- Obrigado por me dar esperança - disse a jovem.

- É a nossa obrigação - respondeu Glover, radiante de orgulho, enquanto o Dr. Mitchell observava a ficha clínica.

- A contagem de bactérias está a subir, na urina - criticou Mitchell.

- Estamos conscientes do facto - respondeu Glover.

- Continuemos - atalhou o Dr. Nachman.

Viram mais dez ou quinze pacientes antes de o Dr. Nachman os levar de novo até ao vestíbulo, onde apanharam o elevador para o piso seguinte. Era o piso psiquiátrico e, no exacto momento em que o pisaram, o Dr. Mitchell pareceu ganhar nova vida. Afagando a barba, passando a mão pela cabeça, descreveu os seus pacientes com o entusiasmo de um professor nato.

- A nossa principal modalidade de tratamento é a psicofar-macologia - declarou. - Uma vez atingido um determinado nível terapêutico com medicamentos psicotrópicos, usamos a seguir um tipo de modificação do comportamento.

Atingiram um conjunto de portas duplas semelhante ao que bloqueava o acesso à enfermaria do hospital no piso inferior e o Dr. Mitchell apoiou o polegar no detector electrónico.

- Isto, claro, é o posto das enfermeiras - disse o Dr. Mitchell, acenando para duas mulheres de meia-idade vestidas com blusas brancas e jaquetas azuis. Estas limitaram-se a agitar as cabeças, mas dois serventes de casacos azuis puseram-se de pé num salto. Adam reparou imediatamente nos seus sorrisos parados e nos olhos que não pestanejavam.

Parte da espontaneidade é sacrificada, pensou Adam perversamente.

Enquanto prosseguiam ao longo do vestíbulo de entrada, Mitchell descreveu toda a aparelhagem técnica, até que o Dr. Glover o interrompeu, dizendo:

- Adam compreende tudo isso, por amor de Deus. Ele esteve na Escola Médica.

Porém, o Dr. Mitchell nem sequer fez uma pausa na sua narrativa. Usando o polegar, abriu as portas duplas dando para a enfermaria, e Adam e os outros seguiram-no.

Adam ficou surpreendido ao verificar que numas instalações hospitalares tão modernas como aquelas, a disposição da enfermaria era idêntica à do hospital da universidade. Porém, excluindo a disposição das camas e móveis, tudo o resto era diferente. No hospital da universidade, as camas, as mesas-de-cabeceira e até os tectos estavam sempre em risco de desintegração, por falta de manutenção. Num violento contraste, a enfermaria da MTIC estava tão impecavelmente limpa que parecia ter acabado de ser inaugurada. Até os pacientes jaziam, bem cuidados, nas suas camas, com as cobertas uniformemente colocadas até ao peito. Estavam acordados mas imóveis. Só os olhos se moviam, quando seguiam o avanço dos visitantes ao longo da enfermaria. Adam nunca tinha visto uma enfermaria tão sossegada e muito menos uma enfermaria psiquiátrica tão calma como aquela.

Os olhos de Adam percorreram aquelas faces sem expressão. O Dr. Mitchell iniciara outra das suas intermináveis explicações. Adam interrogava-se sobre quanto tempo mais teria de o ouvir, quando os seus olhos caíram sobre o paciente da segunda cama a sua direita. Era Alan Jackson! O coração de Adam começou aos saltos. Estava horrorizado, só de pensar que Alan o poderia reconhecer. Virou-se rapidamente, para esconder a cara, mas quando tornou a observá-lo, o rosto de Alan não mudara de expressão. Era evidente que o homem estava fortemente drogado. Adam permitiu-se observá-lo mais de perto. A cabeça de Alan estava rodeada por ligaduras e havia uma garrafa com um líquido claro, uma qualquer aplicação intravenosa, ligada ao braço direito dele. Adam compreendeu então que o Fiord devia ter parado em Porto Rico no dia anterior. Não admirava que tivessem mantido Alan sob fortes sedativos. Já o tinham marcado para cirurgia forçada.

Quando Mitchell fez uma pausa nas suas descrições, Adam apontou para Alan e perguntou:

- Qual era o problema deste homem?

O Dr. Mitchell olhou para Nachman, que fez um sinal de assentimento. Mitchell pegou na ficha clínica que se encontrava pendurada aos pés da cama de Alan e leu o resumo, em voz alta: “Robert Iseman, de Sandusky, Oaio; admitido por epilepsia lobular temporal, com episódios criminais violentos; não respondia aos tratamentos tradicionais. Iseman foi colocado numa prisão psiquiátrica, sem esperança de libertação. Apresentou-se voluntário para participar nos tratamentos experimentais da Arolen.” O Dr. Mitchell recolocou a ficha clínica no seu lugar.

- Está aqui há muito tempo? - perguntou Adam.

- Há alguns dias - respondeu o Dr. Mitchell de um modo vago. - Por que é que nós...

- Desculpe - disse Adam, interrompendo-o -, mas, por vezes, é mais fácil aprender a partir de um caso específico do que a partir de generalidades. Que espécie de tratamento é que este homem recebeu? Pelas ligaduras, diria que foi sujeito a uma qualquer forma de cirurgia cerebral.

- É verdade - disse Mitchell, depois de nova olhadela de relance para o Dr. Nachman. - Sabemos, pela sua história clínica, que se tratava de um caso particularmente intratável e depois de um tratamento com Conformin, implantamos-lhe microeléctrodos no sistema límbico do seu cérebro. Lembras-te daquelas experiências clássicas, durante as quais foram embebidos eléctrodos na cabeça de um touro, os quais foram utilizados para evitar que ele atacasse? Bom, pois aperfeiçoámos essa técnica. Podemos fazer muito mais do que apenas evitar que um touro ataque.

Adam fez um lento aceno de concordância, como se estivesse a tentar compreender, mas a sua mente estremeceu de horror.

- Não te esqueças que o tratamento de Mister Iseman só agora começou - disse o Dr. Nachman. - Depois de estar inteiramente recuperado da operação, será sujeito a um condicionamento.

- Isso mesmo - concordou o Dr. Mitchell. - Na realidade, o tratamento começará amanhã e prevemos que venha a ter alta dentro de apenas quatro dias. Por que é que não vamos às salas de condicionamento, para que possas ver exactamente como é que fazemos?

Adam lançou uma olhadela final ao inexpressivo rosto de Alan e seguiu os médicos.

- Mister Iseman receberá uma combinação de condicionamento operante reforçado e de condicionamento adverso - dizia o Dr. Mitchell. - Um programa de computador poderá detectar processos mentais indesejáveis e poderá invertê-los antes que os mesmos se manifestem no comportamento exterior.

A mente de Adam rodopiava. Perguntava a si mesmo o que quereria Mitchell dizer com “processos mentais indesejáveis”. Provavelmente eram os pensamentos que iam desde o recusar-se a prescrever produtos da Arolen, até à crença na medicina a troco de pagamento.

- Aqui está uma das nossas salas de condicionamento - disse Mitchell, escancarando uma porta e deixando Adam olhar lá para dentro. Tratava-se de uma miniatura do cinema a bordo do Fiord. Havia um grande écran na parede mais afastada, em frente de duas cadeiras completamente equipadas com eléctrodos e cintos de fixação. Adam virou-se, horrorizado, deixando que a porta se fechasse.

- Há muitos efeitos na personalidade? - perguntou.

- Claro - respondeu o Dr. Mitchell. - Isso faz parte do programa. Seleccionamos apenas os traços de personalidade mais desejáveis.

- E o intelecto? - inquiriu Adam.

- Os efeitos adversos são muito pequenos - respondeu o médico, conduzindo-o no caminho inverso, através da enfermaria. - Foi-nos possível detectar uma pequena diminuição da criatividade, mas a retenção da memória é normal. De facto, sob certos aspectos, a memória é desenvolvida, especialmente no que respeita a informações técnicas.

Adam olhou para Alan, quando passaram por ele. A expressão do homem ainda não se alterara. Fora reduzido a uma espécie de zumbi.

- As investigações estão a progredir bem - disse o Dr. Nachman, quando passavam as portas de aço. - Claro que a aplicação tem sido muito limitada.

- Os estudos de fetologia podem ser com certeza aplicados a campos muito mais gerais - afirmou o Dr. Glover.

- É uma questão de opinião - retorquiu o Dr. Mitchell. - Com as técnicas de modificação de comportamento, acabaremos por não termos enfermarias fechadas, nos hospitais, nem sequer prisões. De facto, tanto o Instituto Nacional para a Sanidade Mental como a Administração das Prisões estão a patrocinar as nossas experiências.

Emergiram no átrio a toda a altura do edifício, com as clarabóias. O Dr. Glover não estava disposto a deixar que Mitchell tivesse a última palavra. Começou a enumerar os vários departamentos governamentais que patrocinavam a investigação em fetologia.

Adam estava em estado de choque. A MTIC planeava a total destruição de uma profissão médica independente. Os médicos deixariam de ser profissionais capazes de pensar livremente. Seriam simples empregados do império médico da MTIC-Arolen.

- Adam - disse o Dr. Nachman, tentando chamar-lhe a atenção. - Ainda aqui está connosco?

- Sim, claro - respondeu Adam rapidamente. - Estou apenas estupefacto.

- É compreensível - admitiu o Dr. Nachman. - Creio que lhe devemos dar algum tempo para que aproveite as nossas possibilidades de diversão. Algumas horas na praia irão fazer-lhe muito bem. Encontramo-nos para o jantar, às oito?

- E que tal visitar as salas de operações de psicocirurgia? Se fosse possível, gostaria de as ver.

- Receio que tal não seja possível - disse o Dr. Nachman. - Estão a preparar-se para uma intervenção, esta tarde.

- Posso assistir? - perguntou Adam. O Dr. Nachman abanou a cabeça.

- Apreciamos o seu interesse, mas infelizmente não temos uma galeria para espectadores. No entanto, se se decidir a trabalhar aqui, estou certo que acabaremos por conseguir levá-lo lá.

Quando Adam regressou ao seu quarto para mudar de roupa, surgiu-lhe a ideia de que o melhor seria roubar uma qualquer prova tangível, dali do centro. Mas que prova? O que é que ele poderia levar consigo para Nova Iorque que não apenas convencesse Jennifer a não fazer o aborto, mas que fizesse também com que a classe médica acabasse com o negócio da MTIC?

Depois de várias horas deitado ao sol, Adam pensou que já tinha uma ideia. Era louca e provavelmente impossível de executar, mas se tivesse êxito não teria qualquer problema em convencer fosse quem fosse a levar os seus avisos a sério.

As bebidas e o jantar foram, para Adam, uma verdadeira provação. O Dr. Nachman parecia querer apresentá-lo ao maior número de pessoas que lhe era possível e eram quase onze horas quando se conseguiu escapar para o quarto, alegando fadiga.

Concluíra que não poderia pôr em marcha o seu plano, antes da meia-noite. Demasiado inquieto para se deitar e esperar, despiu o fato e vestiu uma camisa azul muito escura e jeans, depois abriu cuidadosamente o seu saco de tiracolo e verificou os fornecimentos que organizara naquela tarde.

Às onze e cinquenta e cinco já não conseguiu aguentar a tensão durante mais tempo. Deixou o quarto e subiu a escada para o telhado. O luar era de novo quase tão brilhante como o dia. Atravessou rapidamente a ponte para o primeiro edifício interior e foi espreitar o segundo. As clarabóias estavam violentamente iluminadas, mas Adam não tinha a certeza de que isso indicasse que lá dentro havia uma qualquer espécie de actividade.

Pousando o saco no telhado, Adam abriu-o e puxou pela corda que roubara nessa tarde, num dos barcos à vela. Em seguida procurou um tubo de ventilação que fosse apropriado. Depois de verificar se o mesmo estava bem fixo ao telhado, amarrou-lhe a corda e fez com que a ponta livre da mesma descesse os três andares que faltavam até à ponte de ligação para o edifício mais interior.

Pouco acostumado a trepar e aterrorizado pela altura, Adam necessitou de concentrar toda a sua coragem para se içar para o muro de protecção do telhado e passar as pernas para o outro lado. Depois de uma curta oração, Adam agarrou a corda e soltou-se da parede. Bem agarrado, temendo pela vida, Adam desceu lentamente, até que os pés lhe pousaram sobre a cobertura da ponte de ligação. Caiu sobre as mãos e joelhos e gatinhou para o telhado do edifício do hospital, dirigindo-se a seguir para a clarabóia maior, no centro. Um movimento lá em baixo fê-lo deter-se.

Lentamente, centímetro a centímetro, aproximou-se do rebordo e espreitou lá para baixo. Por debaixo dele avistava-se uma cena tirada directamente de um filme de horror de ficção científica. A área por debaixo da clarabóia era uma enorme sala de operações, mas em vez de estar cheia de médicos e enfermeiras, era inteiramente automatizada. Havia dois pacientes a serem tratados ao mesmo tempo por máquinas semelhantes a robôs, com longos braços flexíveis.

Na extremidade mais afastada da sala, encontravam-se vários pacientes jazendo numa espécie de correia transportadora, com as cabeças encerradas dentro de uma armação com uma espécie de viseira. De momento só lá estavam quatro, mas Adam via que o sistema fora desenhado para acomodar pelo menos uma dúzia de cada vez.

Adam permaneceu colado à clarabóia, hipnotizado por aquele puro horror. Um dos pacientes na transportadora começou a avançar e foi introduzido num grande CAT scanner, que começou a rodar em volta da cabeça do homem. Quando a rotação ficou completa, a máquina parou enquanto braços semelhantes aos dos robôs se estendiam e faziam incisões na cabeça dos pacientes, no mesmo ponto onde se encontravam as cicatrizes de Vandermer. Surgiu um pouco de sangue que escorreu e fez uma poça por debaixo da cabeça do homem. Apareceram a seguir outros braços que, suavemente, lhe começaram a furar o crânio. Através da clarabóia, Adam conseguia aperceber-se do zumbido da broca. Depois, o scanner iniciou novamente a sua exploração, enquanto um terceiro conjunto de braços se estendia e penetrava no cérebro do paciente. Adam calculou que estivessem a inserir os eléctrodos de controlo no cérebro do homem, usando o scanner para garantir a sua colocação no ponto exacto.

Chamou-lhe a atenção um movimento, no lado esquerdo da sala, e Adam recuou. Por detrás de um compartimento separado por um vidro, havia um grupo de pessoas sentadas em frente a um painel de comandos. Se olhassem para cima, poderiam vê-lo perfeitamente. Adam deixou-se escorregar um pouco. Podia ver o que se passava lá em baixo, espreitando pela berma da clarabóia, mas agora tinha a certeza de que eles não o poderiam avistar.

Viu o dr. Nachman levantar o braço e dar uma palmada nas costas do Dr. Mitchell. Terminara a operação de um' dos pacientes, que estava agora a ser afastado, para dar lugar ao seguinte. Adam pensou que ia vomitar. A MTIC-Arolen estava indiscutivelmente a planear psicocirurgia em grande escala.

Depois de se afastar da clarabóia, Adam atravessou o telhado em direcção à escada de acesso ao interior. Felizmente, a porta não estava fechada à chave. Entrou numa escada semelhante à que utilizara para atingir o telhado do seu próprio edifício. Exceptuando o zumbido da maquinaria automática da sala de operações, tudo o resto estava silencioso. Movendo-se rapidamente, desceu até ao segundo andar e abriu a porta cautelosamente. Tal como esperava, estava do outro lado da sala de condicionamento. Olhou para o vestíbulo de entrada e para a enfermaria às escuras. A única luz provinha do posto das enfermeiras, todo em vidro, do outro lado da enfermaria. A enfermeira de serviço parecia estar a comer. Na frente dela viam-se dois serventes imóveis, sentados em cadeiras de espaldares direitos.

Mantendo-se junto à parede, Adam avançou para a enfermaria e escondeu-se por detrás da primeira cama. Naquela meia luz, teve um relance do rosto do paciente e, para sua surpresa, verificou que o homem estava acordado. Adam esperou, sem saber se o paciente soltaria o alarme, mas o homem manteve-se imóvel, os olhos fixos em Adam, sem pestanejarem.

Respirando fundo, começou a rastejar ao longo da enfermaria, por debaixo das camas. Quando chegou à segunda a contar do fim, levantou a cabeça para olhar para o posto da enfermeira. Ficou surpreendido ao ver que estava tão perto dele. A enfermeira continuava a comer a sanduíche e os dois serventes não se tinham mexido.

Se queria levar para a frente o seu plano, era agora ou nunca. Adam virou-se para o paciente que se encontrava na cama por cima dele. Alan não deu sinais de o reconhecer.

- Alan, quero tirar-te daqui - sussurrou Adam. - Consegues andar?

Não houve resposta. Era o mesmo que estar a conversar com o suporte da garrafa do soro. Alan nem sequer pestanejou quando Adam descolou cuidadosamente o adesivo que segurava a agulha e puxou por este.

- Se eu te levantar, achas que podes andar? Mais uma vez ficou sem resposta.

Agarrando a roupa da cama, Adam preparava-se para a atirar para os pés da cama quando viu o facho de uma lanterna eléctrica a dançar no tecto da enfermaria. Olhando para as portas duplas, da entrada, viu a enfermeira a colocar o polegar no scanner. As portas abriram-se com um silvo, Adam escorregou para o chão e escondeu-se debaixo da cama.

A enfermeira caminhou ao longo da coxia central, apontando a sua lanterna a cada um dos pacientes. Adam susteve a respiração quando ela passou pela cama de Alan, esperando que não reparasse que o tubo do soro estava desligado. Mas a mulher não parou. Adam viu-lhe os pés a moverem-se até ao fim da enfermaria, darem a volta e voltarem para trás. As portas abriram-se de novo e a enfermeira saiu.

Calculando que ela não regressasse tão depressa, Adam sentiu que chegara a altura oportuna para agir. Puxando para trás as cobertas da cama de Alan, agarrou-o pelos braços e obrigou-o a erguer-se e sentar-se na berma da cama. A seguir, o mais suavemente que foi capaz, levantou o torso de Alan e levou-o a deitar-se no chão. Ouviu-se uma ligeira pancada quando as pernas dele bateram no soalho, mas aparentemente ninguém deu por isso, no posto das enfermeiras.

- Podes rastejar pelo chão? - murmurou Adam junto da orelha de Alan.

Não obteve resposta.

Recusando-se a desistir, pegou na mão de Alan e começou a puxá-lo ao longo do soalho. Para sua surpresa, Alan correspondeu e, em breve, rastejava sozinho, como se não conseguisse actuar até lhe mostrarem o que é que tinha de fazer.

Atingiram o extremo da enfermaria. Quando Adam olhou para trás, tudo estava tranquilo no posto das enfermeiras. Os quinze metros seguintes iam ser os mais perigosos. Deixando a protecção das camas, rastejaram ao longo do vestíbulo, em direcção às escadas. Se alguém olhasse naquela direcção, seriam imediatamente avistados. Quando atingiram a escada, Adam abriu a porta apenas uns centímetros e ficou alarmado ao ver a luz que ela deixava passar. Sustendo a respiração, abriu mais a porta e impeliu Alan para o outro lado. Um momento depois, estavam a salvo.

Adam endireitou-se e esticou-se. Depois debruçou-se e colocou Alan de pé. Este manteve-se inicialmente instável, mas depois recuperou o equilíbrio, ao fim de alguns segundos.

- Consegues compreender-me? - perguntou Adam. Houve uma sugestão de um aceno de confirmação, mas Adam não teve a.certeza de assim ter sido. - Vamos embora daqui!

Segurando Alan pela mão, Adam subiu as escadas, puxando-o atrás de si. Alan caminhava como se não tivesse nenhuma ideia de onde tinha os pés, mas quando atingiram o terceiro andar os seus movimentos eram já mais suaves. Parecia que quanto mais ele tinha de fazer, mais fácil se tornava. Quando chegaram ao telhado, Alan aparentava já estar a actuar por conta própria. Uma melhoria tão rápida levou Adam a pensar que o homem estivesse a receber uma dose pequena mas constante de um tranquilizante, pelo tubo intravenoso. Quando atingiram o telhado, Alan parecia quase acordado e já não tinha as pupilas inteiramente dilatadas. No entanto, não via maneira de conseguir que ele trepasse três andares, pendurado numa corda, até ao cimo do outro edifício. O próprio Adam não tinha a certeza de o conseguir fazer e amaldiçoou a sua falta de previsão, por não ter planeado melhor a fuga.

Olhando para a paisagem no espaço entre os dois edifícios, sabia que seria mais fácil descer do que subir, mas suspeitava que não existisse maneira de escapar daquele jardim fechado.

Receoso de que dessem por falta de Alan, compreendeu que tinha de agir rapidamente. Na falta de melhor ideia, pegou na ponta da corda e amarrou-a por debaixo dos braços de Alan. Depois, agarrando-se à corda, começou a trepar ao longo da parede do edifício. A parte mais difícil foi quando chegou ao cimo e necessitou de largar a corda e agarrar-se ao topo do muro. Os pés agitaram-se-lhe suspensos no ar, enquanto procurava conseguir um apoio, no cimento liso. Finalmente, conseguiu passar para o telhado.

Depois de recuperar o fôlego, debruçou-se sobre o muro. Alan continuava de pé com as costas encostadas à parede do edifício.

Adam puxou a corda mas foi incapaz de içar Alan mais do que alguns centímetros. Assim nunca o conseguiria fazer subir. Subitamente, recordou-se de ter visto imagens de escravos egípcios a içarem pedras para as pirâmides. Passavam as cordas por cima dos ombros, como se fossem bestas de carga. Adam decidiu fazer o mesmo. Puxando para a frente com todas as suas forças, cambaleou até ao outro lado do telhado e, rapidamente, atou o excesso de corda ao mesmo tubo de ventilação onde inicialmente a amarrara. Quando correu de volta ao muro, viu que Alan estava suspenso a cerca de um terço da altura total até ao cimo.

Adam repetiu esta manobra mais três vezes. Ao quarto puxão a corda prendeu-se e quando Adam foi olhar viu que Alan estava preso directamente por debaixo do rebordo do muro que rodeava o telhado. Baixando-se, puxou o médico para o lado e agarrou-lhe as pernas. Com grande esforço, içou-o. Os dois homens caíram sobre o telhado.

Quando Adam conseguiu de novo acalmar a respiração, desamarrou a corda e tornou a metê-la no saco de tiracolo. Depois ajudou Alan a levantar-se. Havia uma grande esfoladela na face direita do homem, mas tirando isso Alan parecia ter suportado admiravelmente toda aquela provação.

Pendurando o saco por cima do ombro, Adam conduziu Alan, pelo telhado, para o edifício exterior e depois para as escadas. Naquele ponto, Adam cambaleava mais do que o próprio Alan. Sentia os braços entorpecidos, as coxas tremiam de exaustão e tinha as palmas das mãos esfoladas. Quando chegaram ao quarto de Adam, largou o médico em cima da cama e deixou-se cair ao lado dele.

Adam estava em muito má forma para uma actividade física tão rigorosa. Gostaria de poder descansar mas sabia que o perigo de ser descoberto aumentava em cada minuto que passava. Ajudou Alan a despir o pijama do hospital e vestiu-o de imediato. Felizmente, os dois homens eram quase do mesmo tamanho. A seguir meteu Alan na cama e rezou para que ele ainda estivesse suficientemente drogado para adormecer de novo. Como precaução, fechou à chave a porta atrás de si, quando saiu do quarto para ver se poderia arranjar um carro. Enquanto descia apressadamente, desejou mais uma vez ter elaborado melhores planos para a fuga.

Selma Parkman bocejou e olhou para o relógio que se encontrava em cima do armário dos medicamentos. Eram apenas onze e quinze. Tinha ainda mais cinco horas de serviço e estava já morta de aborrecimento. Observando os dois serventes, desejou ter apenas um pouco da paciência que eles demonstravam. Desde o primeiro instante em que chegara ao centro que se surpreendera com a plácida aceitação que o pessoal demonstrava para com a aborrecida rotina.

- Creio que vou dar uma volta - disse, fechando o livro de Robert Ludlum.

Os serventes não lhe responderam.

- Ouviram o que eu disse? - perguntou, petulante.

- Vigiaremos a enfermaria - acabou um deles por dizer.

- Muito bem! - exclamou Selma, enfiando os pés nos sapatos.

Sabia perfeitamente que nada aconteceria enquanto ela ali não estivesse. Nunca acontecia nada. Quando aceitara aquele trabalho, esperara algo mais agitado do que estar a tomar conta de um bando de autómatos. Abandonara um bom trabalho em Filadélfia, no Instituto Psiquiátrico Hobart, para ir ali para Porto Rico, mas começava a interrogar-se se não teria sido um erro.

Selma deixou o posto das enfermeiras e, desesperada por um pouco de conversa, tomou o elevador para o piso da sala de operações e entrou na galeria. O Dr. Nachman sorriu quando a viu.

- Aborrecida? - perguntou. - Tratarei de ver se lhe arranjam um horário um pouco mais excitante.

Na realidade, ele estava irritado com o desassossego dela e já a pusera na lista para uma dose de tratamento com Confor-min.

Selma observou as imagens geradas pelos computadores, aparecendo nos écrans em frente dos operadores, mas não fazia ideia nenhuma do que é que estava a ver e, em breve, sentiu-se tão aborrecida como lá em baixo. Despediu-se, mas ninguém lhe respondeu. Encolhendo os ombros, abandonou a galeria, desceu um piso e regressou ao posto das enfermeiras. Os serventes estavam onde ela os deixara. Ainda não chegara a hora da ronda, mas uma vez que já estava de pé pegou na lanterna e dirigiu-se à enfermaria.

O trabalho não era exigente, era o mínimo que poderia dizer. Cerca de metade dos pacientes estavam com soro e ela deveria verificá-los pelo menos duas vezes, durante o seu turno. Além disso, tudo o que tinha a fazer era apontar a lanterna para o rosto de cada paciente, para verificar se ele ainda estava vivo.

Selma parou, a luz a oscilar sobre uma almofada vazia. Dobrando-se, olhou para o chão. Uma vez, um paciente caíra da cama, mas esse não parecia ser o caso. Dirigiu-se à ficha clínica e leu o nome: Iseman.

Ainda pensando que o paciente devia estar ali perto, voltou ao posto das enfermeiras e acendeu as luzes da enfermaria. Uma dura luz fluorescente inundou a sala. Chamando os serventes, Selma inspeccionou rapidamente toda a enfermaria. Não havia dúvidas: Iseman desaparecera.

Selma começou a preocupar-se. Nunca lhe tinha acontecido uma coisa daquelas. Dizendo aos serventes para continuarem a procurar, dirigiu-se rapidamente para a sala de operações.

- Falta um paciente - disse ela, ao avistar Nachman e Mitchell, que se preparavam para sair.

- Isso é impossível - respondeu o Dr. Mitchell.

- Poderá ser impossível - retorquiu Selma -, mas a cama de Mister Iseman está vazia e não o encontro em lado nenhum. Creio que é melhor irem lá abaixo para o verificarem pessoalmente.

- É o paciente operado ontem - disse o Dr. Nachman. - Mas ele não estava sob uma dose contínua de Conformin?

Sem esperar pela resposta de Mitchell, dirigiu-se apressadamente para o piso inferior. Quando entraram na enfermaria, Selma apontou triunfante para a cama vazia.

O Dr. Mitchell pegou no tubo do soro e olhou para a agulha. Ainda estava a pingar.

- Bom, não pode estar longe.

Depois de esgotarem todos os possíveis esconderijos naquele andar, o Dr. Nachman e o Dr. Mitchell revistaram o piso da fetologia, depois o telhado e a seguir o jardim.

- Creio que é melhor chamar todos os serventes - disse o Dr. Nachman. - Temos de encontrar Iseman imediatamente.

- Isto é incrível - comentou o Dr. Mitchell* incrédulo. - Surpreende-me que o homem fosse capaz de andar, quanto mais fugir.

- Se não o encontrarmos imediatamente - perguntou o Dr. Nachman - o que é que acontecerá se activarmos os eléctrodos implantados? Poderíamos localizá-lo desse modo?

O Dr. Mitchell encolheu os ombros.

- O paciente não iniciou o condicionamento. Se o activarmos, os sinais poderão causar-lhe dor ou prazer, mas sem qualquer comportamento específico. Pode ser perigoso.

- Perigoso para quem? - perguntou o Dr. Nachman. - Para o paciente ou para as pessoas que estiverem à sua volta?

- A isso, não posso responder - admitiu o Dr. Mitchell.

- Bom, essa será a possibilidade mais pessimista - respondeu o Dr. Nachman. - Espero que o encontremos rapidamente. Talvez a dosagem estivesse incorrecta. De qualquer modo, vamos alertar todos os serventes. Diz-lhes para que levem seringas com Conformin, para que não surjam problemas quando o encontrarem.

Adam estava a começar a ficar desesperado. Havia muitos carros no estacionamento em frente do edifício principal, mas nenhum deles tinha chave. Adam partira do princípio que, com uma segurança tão rígida, as pessoas fossem mais descuidadas. Infelizmente, isso não acontecia. Amaldiçoou-se de novo pela sua falta de planeamento.

Sem saber muito bem o que é que poderia vir a encontrar, seguiu pelo carreiro que ia dar à praia e ao clube. Estavam alguns carros no parque de estacionamento do clube e Adam foi de um para outro, sem sorte. A seguir avistou então uma carrinha Ford parada em frente da porta onde se faziam as entregas.

A porta estava aberta e Adam subiu para a cabina. Começou a procurar a ignição mas, antes que a conseguisse encontrar, soou um estridente alarme, que lhe perfurou os ouvidos. Adam abriu a porta e fugiu em pânico.

A porta do clube abriu-se e Adam correu em volta do edifício para o abrigo de um grupo de pinheiros. O alarme da carrinha foi desligado, mas o som de vozes que se aproximavam fê-lo perceber que tinha de se manter em movimento. Vendo os mastros dos barcos, Adam correu para a praia e escondeu-se debaixo do que se encontrava mais perto.

Ouviu os homens regressarem ao clube. Deviam ter pensado que se tratava de um falso alarme, mas Adam sabia que tinha poucas mais horas antes de o Sol nascer para descobrir como tirar Alan do complexo. Seria que já tinham descoberto a falta do paciente?

O rosto do Dr. Nachman parecia ainda mais encovado do que habitualmente. Os olhos pareciam terem-se afundado nas órbitas.

- Ele tem de estar aqui - disse o Dr. Mitchell.

- Se estivesse aqui, então já teria sido encontrado - respondeu Nachman, sem humor.

- Talvez esteja no jardim. É o único lugar que nos resta.

- Temos vinte serventes a procurá-lo-retorquiu o Dr. Nachman. - Se lá estivesse, neste momento já o teriam encontrado.

- Acabaremos por o descobrir - disse Mitchell, mais para se convencer a si mesmo do que a qualquer outra pessoa. - Talvez seja necessário esperar pela luz do dia.

- Interrogo-me sobre se ele teria conseguido sair do hospital - disse o Dr. Nachman. - Não é o tipo de paciente que gostaríamos de ver lá por fora.

- Não pode ter fugido, mesmo que o quisesse fazer - contrapôs o Dr. Mitchell. - Não poderia ter aberto as portas de segurança. Além disso, Miss Parkman estava aqui e disse que tinha a certeza de ter visto o paciente, na sua ronda anterior.

- Ela não estava aqui quando foi à sala de operações - disse Nachman.

- Mas isso foi apenas por um par de minutos - afirmou Selma. - E os dois serventes de serviço disseram que tudo estivera calmo.

- Quero que a busca se estenda ao edifício principal - disse o Dr. Nachman, ignorando Selma. - Começo a recear que haja mais alguém envolvido nisto, alguém com acesso à enfermaria. Se foi esse o caso, penso que devemos tentar activar os eléctrodos do paciente. Isso talvez nos permita localizar o homem, por intermédio do transmissor.

- Não sei se resultará - respondeu o Dr. Mitchell. - Nunca tentámos activá-los à distância.

- Pois bem, tentaremos agora-ordenou o Dr. Nachman. - Além disso, alerta a segurança e ordena-lhes que não deixem ninguém sair pelos portões.

O Dr. Mitchell dirigiu-se ao telefone e ligou para a segurança. Depois ligou para o chefe da programação, Edgar Hofstra, dizendo-lhe que havia uma emergência e que era necessária a sua presença na sala de controlo. Em seguida, tanto ele como Nachman subiram ao piso superior.

A sala de controlo encontrava-se no mesmo piso que a sala de operações automatizada. Numa das pontas, protegido por uma parede de vidro, estava instalado o computador principal da MTIC. Cerca de meia dúzia de técnicos de bata branca executavam uma grande série de procedimentos operacionais e de manutenção.

Hofstra chegou cerca de dez minutos mais tarde, com os olhos ainda inchados do sono.

Nem sequer se preocupando em pedir-lhe desculpa, Mitchell explicou-lhe o problema.

- Se pudermos activar os eléctrodos do paciente, creio que a segurança o poderá localizar, pelo transmissor. Pensa que os poderemos activar à distância?

- Não estou bem certo - disse Hofstra, sentando-se em frente do terminal.

Logo que teclou o nome de Iseman, o computador respondeu dizendo que havia um erro e que o paciente não estava registado. Hofstra ignorou a mensagem.

Toda a gente na sala o observava, ansiosamente. Depois de um minuto, o écran indicou “Eléctrodos activados”, frase essa que foi seguida, outro minuto depois, pela palavra “Executar”.

- Até aqui, tudo bem - disse Hofstra. - Agora, vamos a ver se a bateria dele tem alguma energia.

Marcou a ordem para que os eléctrodos de Iseman transmitissem. O resultado foi um sinal muito fraco, ininteligível para o computador.

Hofstra fez rodar a cadeira.

- Bom, os eléctrodos activaram-se, mas o sinal é tão fraco que duvido que o possamos localizar.

Adam nunca soube como conseguiu arranjar a coragem para regressar ao edifício principal, particularmente depois de ter visto que a maior parte das luzes tinham sido ligadas e que havia grupos de homens de casacos azuis, transportando seringas, espalhados por todo o andar térreo. Apenas o pensamento em Jennifer e do aborto que ela estaria quase a praticar o levaram a arriscar-se abandonando a comparativa segurança do exterior. Assim, limitou-se a caminhar através do vestíbulo do edifício principal, como se tudo estivesse no seu lugar. Quando saiu do elevador no sexto andar, tudo estava tranquilo e ele calculou que ainda não tinham começado a revistar os quartos dos hóspedes.

Acendeu a luz quando entrou no seu quarto e ficou aliviado ao descobrir Alan a dormir sossegadamente.

- Não sei se compreendes o que eu te digo - disse Adam, tenso -, mas temos de fugir daqui e depressa.

Colocou Alan numa posição sentada e examinou-lhe as ligaduras que lhe cobriam a cabeça. Depois de as desenrolar muito cuidadosamente, descobriu com grande satisfação que a cirurgia automática cortara apenas pequenas áreas de cabelo de cada um dos lados da cabeça do homem. Adam puxou do pente e cobriu cuidadosamente aqueles pontos carecas com o restante cabelo de Alan.

Com o coração aos saltos, ajudou Alan a pôr-se de pé e abriu a porta silenciosamente. Três serventes entravam numa suite, ao fundo do corredor. Adam sabia que se hesitasse não teria uma segunda oportunidade. No instante em que os homens desapareceram no interior da suite, puxou pela mão de Alan e conduziu-o apressadamente para o elevador dos banhistas. Quando as portas se fecharam, Adam ouviu vozes mas não lhe pareciam que estivessem a dar o alarme.

Carregou no botão para o rés-do-chão. Para seu grande horror, depois de descer um pouco, o elevador parou no terceiro andar.

Adam mirou Alan. Parecia muito melhor, sem a ligadura, mas o seu rosto ainda tinha aquela reveladora expressão de alheamento provocada pelas drogas.

Abriram-se as portas e um servente com cicatrizes no rosto entrou no elevador. Olhando mecanicamente para Adam e Alan, virou-se para as portas que se fechavam. Estava tão perto que Adam podia ver cada um dos pêlos do pescoço do homem. Adam susteve a respiração quando o elevador recomeçou a descida.

Iam a passar pelo segundo andar quando o servente pareceu reconhecer a presença deles. Virou-se lentamente. Na mão esquerda empunhava uma seringa já sem a cobertura plástica protectora.

Adam reagiu por reflexo com uma velocidade que o surpreendeu. Agarrou a seringa, arrancando-a das mãos do servente com uma rápida torcidela e depois empurrou o homen de encontro a Alan. Quando os dois homens chocaram, Adam enfiou a agulha nas costas do servente, mesmo ao lado da espinha, premindo o êmbolo com toda a força.

Cairam os três de encontro à parede do elevador e abateram-se num monte, com Alan por debaixo. O servente arqueou as costas, rolou para o lado e abriu a boca para gritar. Adam pousou-lhe a mão sobre a boca, para lhe abafar o grito. O elevador parou e as portas abriram-se.

O servente prendeu o braço de Adam com violência e começou a tentar-lhe arrancar a mão de cima do rosto. Adam esforçou-se por manter a boca do homem tapada. A seguir, viu os olhos do homem a cruzarem-se. Abruptamente, o servente deixou de fazer força e o seu corpo tornou-se flácido.

Adam retirou a mão e recuou, aterrorizado. Ergueu-se e olhou para o homem cujos olhos tinham rolado para dentro das pálpebras, só se via o branco. Apesar de ter sido submetido, aparentemente, a uma operação plástica para lhe disfarçar as feições, Adam ainda o reconhecia. Era Percy Harmon!

Durante um segundo, Adam ficou demasiado espantado para reagir, mas depois as portas do elevador começaram a fechar-se e Adam recordou-se que se tinha de manter em movimento. Encaixando Alan na porta, para a manter aberta, arrastou Harmon para o exterior e largou-o por detrás de um espesso maciço de fetos. Teve um instante de esperança de que o poderia levar também consigo, mas depois compreendeu que já seria suficientemente difícil levar apenas Alan. Conduziu o médico pelo carreiro que dava para a praia. Tinha um vago plano de se dirigir para as residências e procurar aí um automóvel.

A Lua estava agora parcialmente escondida e a praia já não era a paisagem brilhante que fora anteriormente. As palmeiras e os pinheiros faziam agora escuras sombras que forneciam um bom esconderijo.

A meio caminho do clube, Adam e Alan depararam com o barco sob o qual Adam se escondera. Detiveram-se, pois surgira uma ideia no fundo da mente de Adam. Olhou para o oceano e ficou indeciso. Não era de maneira nenhuma um bom marinheiro, mas sabia algumas coisas sobre barcos pequenos. Ficou muito satisfeito quando notou que a última pessoa que usara a embarcação a puxara para a praia sem lhe tirar as velas.

O som de um grito de homem, vindo da área do edifício principal, fê-lo decidir-se, pois o tempo era curto. Primeiro, Adam arrastou a embarcação para a água. A seguir, conduziu Alan até junto dela e ajudou-o a trepar lá para dentro, forçando-o a deitar-se. Com o cabo da proa, amarrou Alan ao mastro, sem o prender muito. Patinhando na água, Adam libertou a embarcação da areia, metendo-a na ondulação. As ondas tinham apenas sessenta ou oitenta centímetros de altura, mas mesmo assim eram já suficientemente grandes para fazerem com que fosse difícil dominar a embarcação. Quando ficou com água até ao peito, içou-se para bordo.

A sua ideia original tinha sido a de remar com o barco para fora de vista, para lá do cabo, mas verificou que isso ia ser impossível. Tinha de içar a vela. Tão depressa quanto lhe foi possível, içou a vela grande. Gemeu de dor por causa das suas mãos esfoladas, mas não desistiu. Finalmente, a vela subiu e encheu-se de ar com um estalo e para seu grande alívio a embarcação estabilizou logo que a vela subiu. Virando-se, encaixou os lemes na devida posição e puxou a cana para a direita.

Durante um minuto que foi uma verdadeira agonia, o barco pareceu derivar de novo em direcção à praia, mas, depois, seguindo o vento, disparou para a frente cortando as ondas e afastando-se da costa. Adam pouco mais podia fazer do que segurar Alan com uma das mãos e a cana do leme com a outra.

A embarcação passou directamente em frente do clube, mas Adam receava mudar o rumo. Soltou um suspiro de alívio quando passou a ponta do molhe de protecção e momentos depois rodeava o cabo e estava são e salvo, fora de vista.

Descontraindo-se um pouco, Adam olhou para a curva parabólica da vela recortando-se nitidamente contra o estrelado céu tropical. Virando-se para oeste avistou a Lua, intermitentemente velada por pequenas nuvens. Por debaixo da Lua via a escura silhueta das denteadas montanhas de Porto Rico. O ambiente era de uma beleza espantosa. Então, a embarcação atingiu a longa ondulação do Atlântico e Adam teve de dedicar toda a sua atenção ao leme. Amarrando firmemente a vela principal nos cunhos, içou a bujarrona e o barco lançou-se para a frente ainda a maior velocidade. Começou a sentir-se optimista, pensando que dentro de poucas horas estaria suficientemente distante, ao longo da costa, para poder procurar ajuda.

Enraivecido, o Dr. Nachman virou as costas ao computador. Harry Burkett aparecera para informar o director das investigações sobre o resultado das buscas, mas Nachman não ficara nada satisfeito com os resultados.

- Está a querer dizer-me que tudo o que conseguiu saber, com o auxílio de quarenta homens e um milhão de dólares de equipamentos de segurança, foi que um dos serventes foi encontrado inconsciente e que Mister Schonberg, um dos nossos hóspedes, não se encontra no seu quarto?

- Exactamente - disse Mr. Burkett.

- E que o servente - continuou o Dr. Nachman - foi possivelmente injectado nas costas com a sua própria seringa de Conformin?

- Precisamente - disse Mr. Burkett. - Foi injectado com tanta força que a agulha se partiu e está entranhada na pele do homem.

Mr. Burkett queria impressionar o director das investigações com a precisão das suas informações, mas Nachman não se sentia nada impressionado. Achava inconcebível que Mr. Burkett, com o seu numeroso pessoal e sofisticados recursos, não conseguisse localizar um paciente fortemente drogado. Graças à ineficiência de Burkett, o que começara por ser uma inconveniência estava a transformar-se rapidamente num caso muito sério.

Zangado, o Dr. Nachman tornou a acender o cachimbo, que se apagara pela décima vez. Não conseguia decidir se devia ou não informar alguém do corpo directivo da MTIC. Se o problema piorasse, quanto mais depressa ele os informasse daquilo, melhor seria para ele. Mas se o problema se resolvesse por si só, então o melhor seria manter-se calado.

- Há alguma prova de que alguém tivesse tocado na vedação? - perguntou.

- Absolutamente nenhuma - respondeu Burkett. - E não permitimos a saída de ninguém desde que o doutor Mitchell telefonou.

Olhou para o psiquiatra, que examinava nervosamente as cutículas das unhas.

O Dr. Nachman agitou a cabeça. Estava seguro de que o paciente se encontrava ainda dentro do perímetro e que a vedação electrificada era uma barreira intransponível, mas continuava preocupado com a competência da força de segurança de Burkett. Não havia razão nenhuma para correr ainda maiores riscos.

- Quero que envie alguém para o aeroporto para verificar todas as partidas de aviões - ordenou.

- Creio que isso é ir longe de mais - disse Burkett. - O paciente não poderá fugir do complexo.

- Não me interessa o que é que você pensa - interrompeu-o o Dr. Nachman. - Toda a gente me disse que o paciente não podia ter saído do hospital, mas é evidente que ele o fez. Portanto, vigiem o aeroporto.

- Está bem - respondeu Burkett com um suspiro de exasperação.

O Dr. Mitchell, que tinha bem consciência de que fora ele o homem que insistira em que o paciente não poderia ter saído do hospital, pôs-se de pé, dizendo:

- Mesmo que o transmissor seja demasiado fraco para localizarmos o paciente, poderemos talvez fazer com que ele se revele, se estimularmos os seus eléctrodos.

O Dr. Nachman olhou para Mr. Hofstra.

- É possível fazer isso?

- Não sei - respondeu Hofstra. - A posição dos eléctrodos não foi situada do ponto de vista neurofisiológico. Não sei o que acontecerá se o estimularmos. Poderemos talvez matá-lo.

- Mas podemos estimular os eléctrodos? - insistiu o Dr. Nachman.

- Talvez - respondeu Hofstra. - Mas vai levar algum tempo. O programa de que dispomos foi escrito partindo do princípio de que o paciente estaria inicialmente aqui presente.

- De quanto tempo é que está a falar? Hofstra abriu os braços, num gesto de incerteza.

- Mais ou menos dentro de uma hora já devo saber se é ou não possível.

- Mas o senhor não teve qualquer problema para activar os eléctrodos.

- É verdade - respondeu Hofstra. - Mas uma verdadeira estimulação é bastante mais complicada.

- Tente-a - disse Nachman, fatigado. Depois, gesticulando para Burkett, que ainda estava ao telefone, acrescentou: - Quero dar uma ajuda aqui a estes nossos polícias.

Olhando para o relógio, Adam inteirou-se de que estavam a navegar havia quase duas horas. Depois de terem rondado o cabo a norte da praia da Arolen, tinham encontrado ondulação cada vez mais alta, que ocasionalmente se abatia sobre eles. Uma ou duas vezes, quando se encontravam no cavado de uma onda particularmente alta, Adam receara que pudessem vir a ser engolidos por toneladas de água do mar, mas de cada uma dessas vezes o barco subira a onda e cavalgara-a como se fosse uma rolha de cortiça.

Dirigiram-se sempre um pouco para oeste, ao longo da costa norte. Sem saber se existiam ou não recifes, Adam manteve-se sempre a duzentos ou trezentos metros da costa. Mas a parte mais difícil de toda aquela aventura era dominar a sua imaginação. A cada minuto que passava, sentia-se cada vez mais preocupado com eventuais tubarões à espera por debaixo deles, nas águas negras e redemoinhadoras. Cada vez que olhava para baixo, esperava avistar uma enorme barbatana negra a cortar a superfície.

Seguro de que já tinham ultrapassado os limites do complexo da MTIC-Arolen, Adam começou a dirigir a embarcação para terra. Durante os últimos quinze minutos, aproximadamente, começara a avistar luzes ocasionais ao longo da costa. Agora, podia já escutar as ondas a abaterem-se sobre a praia. Tentou não pensar no significado que esse facto poderia vir a ter.

Um grito estilhaçou o silêncio. De repente, Alan agarrou a cabeça com as duas mãos e gritou para a noite. Adam foi inteiramente apanhado de surpresa e uma enorme dose de adrenalina começou a circular no seu sistema.

Os gritos de Alan aumentaram até à capacidade máxima dos seus pulmões, enquanto ele tentava levantar-se, lutando contra a corda que o segurava ao mastro. Começou a lançar-se de um lado para o outro, ameaçando virar a embarcação. Adam largou o leme e a escota da vela grande e tentou dominar o homem enlouquecido. O barco perdeu imediatamente o vento e a vela começou a bater.

- Alan! - gritou Adam, por cima do barulho do vento. - O que é que se passa?

Agarrou Alan pelo ombro e abanou-o com toda a sua força. Alan estava ainda a premir a cabeça com as mãos, com tanta força que tinha o rosto distorcido. Os gritos surgiam por entre os seus esforços para respirar.

- Que é que se passa? - perguntou Adam de novo. Alan largou a cabeça e, por um instante, Adam pode ver-lhe o semblante. A sua anterior expressão parada transformara-se numa máscara de dor e raiva. Como um cão raivoso, Alan atirou-se ao pescoço de Adam.

Chocado com a força do homem, Adam tentou afastar-se dele, mas havia muito pouco espaço a bordo do barco. Alan moveu-se dentro dos seus limites, agitando os braços e socando violentamente o rosto de Adam. Adam cambaleou na borda da embarcação, as mãos agitando-se freneticamente em busca de algo a que se agarrar. Os seus dedos encontraram a escota da vela, que estava solta e não lhe deu qualquer apoio. Numa espécie de movimento em câmara lenta, caiu ao mar.

Mergulhou para baixo da superfície da água gelada. Agitando-se desesperadamente, Adam lutou para regressar à superfície, aterrorizado com o pensamento de que a qualquer momento poderia ser mordido por um monstro marinho. Uma das pernas bateu na ponta da corda que ainda segurava, o que o fez gritar de susto.

Apesar das velas continuarem a bater, o vento forte persistia em empurrar a embarcação por sobre a água. Adam agarrou-se firmemente à escota e foi arrastado por ela, como se fosse a isca na ponta de uma linha de pesca. Sabia que a pálpebra direita estava a inchar mas, pior do que tudo, era o calor que sentia a escorrer-lhe do nariz, que calculou que fosse sangue. Aguardava, a todo o momento, que um tubarão lhe mordesse as pernas. Mão atrás de mão, puxou-se freneticamente para o barco. Alan continuava ainda a gritar de dor. Adam agarrou-se e começou a içar-se para fora da água.

As pancadas dadas pela vela solta pareciam tiros de espingarda. O barco guinara para barlavento e o botaló mudou subitamente de borda, atravessando a popa da embarcação, atingindo a cabeça de Alan e atirando-o abaixo.

Adam içou-se para fora de água e, sem tirar os olhos do botaló que dançava de um lado para o outro, aproximou-se cuidadosamente do homem, à espera de que ele o atacasse de novo. Mas Alan estava inconsciente e respirava pesadamente. Procurando equilibrar-se na embarcação que saltitava de um lado para o outro, Adam apalpou a cabeça do médico, para verificar se havia alguma fractura. Tudo o que encontrou foi um galo a inchar rapidamente.

Com cuidado, Adam fez o homem rolar sobre as costas, interrogando-se sobre o que é que lhe teria provocado aquele ataque. Foi então que reparou que uma das incisões suturadas se tinha aberto e, de súbito, apercebeu-se do que é que se poderia ter passado.

Arrastando-se para a popa, agarrou a cana do leme e a escota da vela. O barco correspondeu e as velas enfunaram-se e Adam rumou de novo para terra. Tinha agora um outro problema que não previra antecipadamente. Não sabia o que é que poderiam obrigar Alan a fazer. Estremeceu, mais de medo do que do frio transmitido pelas roupas molhadas.

Edgar Hofstra olhou para o Dr. Nachman, cujos olhos se tinham tornado vermelhos de sangue. As pálpebras inferiores descaíam dos globos oculares do homem, quando este se debruçava sobre o ombro de Hofstra, olhando para o écran do computador.

- Não posso dar cem por cento de certeza de que os eléctrodos tenham respondido - afirmou Hofstra -, mas este foi o sinal mais forte que posso enviar, de momento. Se me der um par de horas, então poderei aumentar a potência.

- Bom, mas veja se consegue acelerar as coisas - disse o Dr. Nachman. - E talvez se consiga lembrar se alguma das nossas experiências anteriores, com macacos, nos pode dar indicações sobre qual virá a ser agora o comportamento do sujeito.

- Não me agrada dizer-lho - respondeu Mitchell -, mas além de destruírem tudo o que se encontrava à volta deles, os macacos colocados numa tal situação acabaram finalmente por se matar.

O Dr. Nachman levantou-se e endireitou-se.

- Escutem, essa pode ser uma boa notícia.

- Terei de desligar todo o sistema, para poder trabalhar nele - disse Hofstra.

- Está bem, desligue-o - concordou Nachman. - A estas horas, não creio que alguém queira enviar instruções a qualquer dos médicos controlados.

- É pena que o paciente não tenha sido condicionado para autodestruição - comentou o Dr. Mitchell.

- Sim, é pena - concordou o Dr. Nachman.

Quando Adam chegou a cerca de trinta metros da costa, a noite tornara-se bastante mais escura. Virou o barco para oeste e seguiu paralelo à ilha, enquanto escutava cuidadosamente o ruído das ondas a embaterem na costa. Esperava que o som lhe pudesse dar uma indicação quanto ao tipo de praia. Com aquela forte ondulação, estava com medo de embater em corais.

Alan gemera algumas vezes mas não procurava levantar-se. Adam pensou que ou ele ainda se encontrava inconsciente ou estava a sofrer alguma espécie de efeitos secundários do ataque a que fora sujeito. Fosse como fosse, esperava que se mantivesse sossegado até atingirem a costa.

O som de um cão a ladrar, por cima do ruído do oceano, chamou-lhe a atenção. Esforçou os olhos para conseguir ver alguma coisa. Acabou por conseguir distinguir um grupo de casas obscurecidas aninhadas no meio dos graciosos troncos de uma floresta de coqueiros. Pensando que eram uma boa indicação da existência de uma praia de areia, Adam rodou o leme, baixou-se para que a vela lhe passasse por cima e apontou a embarcação para terra.

Apesar de Adam não deixar que a vela aproveitasse todo o vento, a embarcação parecia voar. Segurando a cana do leme com a perna, esticou-se e soltou a bujarrona, que começou a agitar-se violentamente. Em frente, via o ponto onde as ondas faziam crista, uma branca linha de espuma de encontro à escuridão da ilha. Quanto mais se aproximavam, maior era o ruído das ondas a embaterem na costa. Adam rezou silenciosamente para que se tratasse de uma praia de areia, mesmo sabendo que aquela velocidade a própria areia seria perigosa. Uma onda enorme passou por debaixo da embarcação e logo a seguir, formou-se outra ainda maior à popa. A pequena embarcação subiu a onda e, quando chegou lá ao cimo, Adam pensou, cheio de terror, que se iriam virar. Mas o barco endireitou-se quando a onda lhe passou por debaixo. Olhando de novo para trás, Adam viu uma nova onda a dirigir-se para eles. Parecia grande como uma casa. No seu cimo havia espuma branca, bem recortada no céu, sugerindo que a onda se ia quebrar. O topo começou a enrolar-se. Segurando o leme com uma mão e agarrando-se à embarcação com a outra, fechou os olhos e preparou-se para ser submergido.

Porém, as toneladas de água que Adam aguardava, não surgiram. Em vez disso, o barco lançou-se para a frente num tremendo surto de velocidade. Adam abriu os olhos e viu que estavam a navegar em direcção à costa, fazendo uma carreira naquela torrente de água branca.

Antes de ter tempo de perceber o que estava a acontecer, a embarcação embateu a toda a velocidade contra a onda anterior, que agora recuava, e saltou para o ar, atirando-o pela borda fora para dentro de água.

Veio acima a cuspir e a tossir, mas agradavelmente surpreendido por a água lhe dar apenas pela cintura. Alan mantivera-se a bordo do barco, seguro pelo cabo enrolado no peito, mas girava em volta do mastro e tinha as pernas penduradas para o lado de fora. Adam agarrou o barco e arrastou-o para terra lutando contra a água que o puxava. Os cascos bateram finalmente no fundo e Adam aguardou pela onda seguinte antes de içar a embarcação para terreno enxuto.

Deixou-se cair imediatamente na areia, para descansar e normalizar a respiração, depois procurou os óculos nos bolsos e colocou-os. Olhando em volta, viu que tinham ido parar a uma estreita e bastante íngreme praia de areia, coberta por toda a espécie de destroços. Um certo número de velhos barcos de madeira tinha sido içado até ao alto da praia e amarrado aos troncos dos coqueiros. No meio da escuridão das árvores, havia uma aldeia de casas arruinadas.

Na praia surgiu um comité de recepção composto por dois cães escanzelados que começaram a ladrar. Acendeu-se uma luz na casa mais próxima. Quando Adam se conseguiu pôr de pé, os cães afastaram-se e desapareceram durante uns momentos, para reaparecerem logo a seguir, ladrando ainda mais intensamente. Adam não lhes prestou atenção. Desamarrou Alan e obrigou-o a pôr-se de pé.

Alan segurou a cabeça enquanto Adam o guiou pela praia. Logo que se encontraram debaixo das palmeiras, deram com uma casa em muito mau estado, com uma grande carrinha amolgada estacionada ao lado. Adam espreitou para a cabina. Não havia chaves na ignição. Decidiu-se a bater à porta da casa e a arriscar-se. Os cães ladravam agora como loucos, mordiscando-lhe as pernas.

Quando subiu os degraus da entrada, acendeu-se uma luz e um rosto espreitou pela janela. Adam verificou se a carteira ainda se encontrava no bolso traseiro das calças. Momentos depois a porta abriu-se. O homem que a abriu estava nu até à cintura e descalço. Tinha uma arma na mão, um velho revólver com um punho em madrepérola.

- Não falo muito espanhol - disse Adam, tentando sorrir. O homem não correspondeu ao sorriso.

- Dê-me uma boleia para o aeroporto - disse Adam, virando-se ligeiramente e apontando para a carrinha.

O homem olhou para Adam como se ele fosse louco. Depois fez um gesto para que se fosse embora, com a pistola, e começou a fechar a porta.

- Por favor - implorou Adam. Depois, numa mistura de espanhol e inglês, tentou explicar rapidamente como se perdera no mar num barco à vela com um amigo doente e como tinham de seguir imediatamente para o aeroporto. Puxando pela carteira, começou a contar notas encharcadas. Isso despertou finalmente o interesse do homem. Meteu a pistola no bolso e permitiu que Adam o conduzisse de volta à praia.

No meio das suas frenéticas tentativas para conseguir o interesse do homem, Adam tivera uma ideia. Quando chegou à praia, pegou no cabo de proa do barco e meteu-o nas mãos do porto-riquenho. Ao mesmo tempo, procurou explicar-lhe que a embarcação era dele, se os levasse ao aeroporto.

O porto-riquenho pareceu por fim compreender. Surgiu-lhe no rosto um sorriso rasgado. Alegremente, puxou o barco mais para cima e amarrou-o a uma das palmeiras. Depois regressou a casa talvez para se vestir.

Adam não perdeu tempo a meter Alan na cabina da carrinha. O porto-riquenho apareceu quase imediatamente, baloiçando as chaves. Pôs o motor em funcionamento, olhando desconfiado para Alan, afundado no assento e prestes a adormecer outra vez. Adam tentou explicar que o seu amigo estava doente, mas desistiu de imediato, chegando à conclusão que era mais fácil fingir que também ele adormecera. Deixou-se ficar de olhos fechados até chegarem ao aeroporto. Indicando que queria ficar na área de partidas da Eastern, começou a preocupar-se com a explicação a dar no balcão dos bilhetes, sobre o seu súbito aparecimento com Alan naquele estado.

A carrinha parou e Adam bateu no ombro de Alan. Daquela vez, foi mais fácil acordá-lo.

- Muchas grachas - disse Adam no momento em que desembarcou.

- De nada - respondeu o condutor, afastando-se rapidamente.

- Muito bem - disse Adam, pegando no braço de Alan. - Esta é a última etapa.

Caminharam para o terminal, praticamente deserto. Havia alguns táxis e uma ambulância à entrada, sem nada que fazer, porque era ainda demasiado cedo para o movimento de turistas. Adam investigou o edifício antiquado e depois sentou Alan na cadeira de um engraxador, de momento abandonada. A seguir dirigiu-se ao balcão dos bilhetes.

Estudando os horários das partidas, verificou que o próximo voo da Eastern para Miami, seria dentro de duas horas. Uma pequena tabuleta dizia: “Fora do horário normal, utilize o telefone.” Adam levantou o auscultador do telefone que estava junto da tabuleta. Quando o funcionário lhe respondeu, disse-lhe que já o ia atender. Na verdade, mal Adam acabara de pousar o auscultador já um homem num uniforme castanho, limpo e bem passado, surgia de uma porta por detrás do balcão. Quando viu Adam, o sorriso desapareceu-lhe imediatamente do rosto.

Adam tinha perfeita consciência do seu aspecto. A viagem na carrinha deixara-lhe as roupas quase secas, mas ao ver a reacção do homem, resolveu arranjar uma boa explicação. Hesitando apenas um momento, lançou-se numa longa explicação que incluía uma festa de fim de férias com muita bebida e um último passeio de barco. Ele e um amigo tinham sido atirados à praia, a quilómetros do hotel e haviam conseguido uma boleia para o aeroporto. Adam disse que tinham de voltar ao trabalho no dia seguinte e que a bagagem seguiria quando o resto do grupo regressasse.

- Foram um diabo de umas férias - acrescentou.

O funcionário acenou como se compreendesse e disse que tinham muitos lugares vagos. Adam perguntou se havia algum voo mais cedo para os Estados Unidos e foi informado de que a Delta tinha um voo para Atlanta, dentro de uma hora.

No que dizia respeito a Adam, quanto mais depressa saíssem da ilha, melhor. Perguntou onde era a Delta e mandaram-no para o edifício seguinte. Decidindo que Alan ficaria bem ali, dirigiu-se apressadamente ao terminal seguinte, onde já se via um certo número de viajantes à espera de se poderem apresentar para o voo.

Adam juntou-se ao fim da fila. Quando chegou ao balcão, o empregado observou-o com um ar duvidoso, mas Adam repetiu a sua história, agora já com prática. Mais uma vez acreditaram nele.

- Primeira classe ou turística? - perguntou o homem. Adam olhou para ele, interrogando-se sobre se seria uma brincadeira. Depois, lembrando-se que era a Arolen quem pagava as contas do seu cartão de crédito, disse:

- Primeira classe, claro.

Adam observou o terminal nervosamente, enquanto o homem preenchia os bilhetes, mas não avistou ninguém que lhe parecesse ter sido para ali enviado pela MTIC.

Quando o funcionário terminou o trabalho, Adam disse:

- Sabe, se fosse possível arranjar uma cadeira de rodas... O meu amigo ficou realmente bastante magoado, quando demos à costa.

- Oh, meu Deus - disse o homem. - Vou ver o que posso fazer.

Regressou menos de cinco minutos depois com a cadeira de rodas.

Adam agradeceu-lhe e dirigiu-se para o outro edifício, para ir buscar Alan.

De um local vantajoso, da varanda por cima do balcão da Delta, dois homens vestidos de branco viram Adam afastar-se e desaparecer-lhes da vista. O facto de ele ir a empurrar uma cadeira de rodas significava que Iseman não podia estar longe.

Os dois homens desceram rapidamente para o piso do terminal e correram para a ambulância, onde disseram ao condutor para informar Mr. Burkett pela radio que os dois indivíduos tinham sido avistados. O enfermeiro mais alto, um homem forte, de cabelo louro cortado curto, puxou duas macas de lona de dentro da traseira da ambulância, enquanto o seu companheiro metia um monte de seringas dentro do seu saco médico.

De regresso ao terminal, verificaram qual o portão correspondente ao voo da Delta para Atlanta e dirigiram-se para a porta B.

Quando Adam chegou à cadeira do engraxador, ficou horrorizado ao descobrir que a mesma estava vazia. Freneticamente, correu com a cadeira para o balcão da Eastern, onde avistou Alan a tentar falar com o empregado, que lhe dizia que se encontravam em Porto Rico e não em Miami, mas que lhe podia arranjar uma reserva para Miami, se ele a quisesse.

- Ele está comigo - explicou Adam, ajudando Alan a sentar-se na cadeira.

- O tipo pensa que está em Miami - disse o homem.

- Coitado, passou um mau bocado - respondeu Adam. - Sabe, o naufrágio... - Deixou a frase em suspenso e afastou-se em direcção ao terminal da Delta.

- Que estou eu a fazer em Porto Rico? - perguntou Alan. Apesar da dicção ainda ser confusa, Adam nunca o vira tão acordado desde o dia em que se encontrara com ele pela primeira vez, quando estavam a bordo do Fiord.

Faltando apenas vinte minutos para a hora da partida, Adam empurrou a cadeira com um passo rápido. Um barulhento grupo de turistas com vistosas camisas amontoara-se em frente do balcão da Delta. Sentir-se no meio das pessoas dava a Adam uma certa sensação de amparo. Ao passarem pela segurança, antes do embarque, Adam ajudou Alan a levantar-se da cadeira de rodas, para que pudesse passar pelo detector de metais. O guarda olhou-os com suspeita mas não fez comentários. Depois de passarem e a caminho da porta de embarque, Adam sentiu a excitação a subir. Conseguira. Dentro de poucas horas, estariam a aterrar nos Estados Unidos.

O pavimento era agora ligeiramente inclinado e Adam tinha de segurar a cadeira de rodas para que ela não lhe fugisse. Na sua frente estava uma fonte de água potável e os lavabos e Adam pensou em parar, pois ainda tinham quase vinte minutos. Reparou então num pequeno letreiro no chão, junto do lavabo dos homens, indicando que o mesmo estava em limpeza. Decidiu que beberia e trataria do resto já a bordo do avião.

Abrandara para o seu passo normal e preparava-se para continuar quando, pelo canto do olho, notou um súbito movimento. Quando começou a virar a cabeça, alguém o agarrou pelas costas, prendendo-lhe os braços junto ao corpo. Antes de Adam poder reagir, levantaram-no do chão.

Adam procurou torcer-se, gritando, mas foi atirado directamente para a porta fechada dos lavabos dos homens, batendo nela com o peito e com a testa. O impacte abriu a porta e tanto ele como o seu atacante caíram de cabeça no pavimento de mosaicos.

A força da queda fez com que o assaltante diminuísse o aperto em volta de Adam. Apesar de se sentir meio tonto, Adam libertou os braços e pôs-se rapidamente de pé, apenas para ser derrubado de novo quando o homem o agarrou pelos tornozelos. Ao cair, a sua cabeça quase bateu no rebordo do lavatório, mas desta vez tinha as mãos livres para amortecer a queda.

Por detrás dele, Adam tinha uma vaga consciência de Alan sentado na cadeira de rodas, que era empurrada pelo segundo homem vestido de branco. Alan fora, tal como Adam, lançado de encontro à porta dos lavabos, a cabeça atirada para a frente, com o impacte. Quando a porta se abrira, fora empurrado violentamente para diante, para o interior. A cadeira descontrolada seguiu em frente, arqueou para a esquerda e colidiu com a fila de urinóis, cuspindo Alan para o chão.

O segundo homem virou-se e fechou a porta atrás dele, indo depois ajudar o seu companheiro. Juntos, atiraram-se a Adam, dominando-o e esmagando-o de encontro ao chão.

Concentrando as suas forças, Adam deu um poderoso safanão com as pernas e conseguiu libertar um braço. Abanando-o violentamente, atingiu o queixo do maior dos seus atacantes. O homem gritou. O seu parceiro recuou um pouco e, num ataque de ira, deu um violento murro no estômago de Adam.

O ar saiu de dentro de Adam com um som audível, fazendo-o vomitar e deixando-o momentaneamente indefeso. Os dois homens apertaram-no de encontro ao chão com o seu peso combinado. O mais pequeno puxou de uma seringa da algibeira. Usando os dentes, removeu a tampa de plástico de protecção da agulha. Com uma das mãos esticou o tecido que cobria uma das coxas de Adam e depois espetou-lhe a agulha na carne, até ao fim.

Adam tentou mover-se, mas sem êxito. O enfermeiro puxou o êmbolo para trás, para se certificar de que a agulha não se encontrava num vaso sanguíneo e a seguir, segurando a seringa, preparou-se para o injectar.

Subitamente, um terrível grito ecoou pelos mosaicos da sala. O inesperado som paralisou momentaneamente os dois homens que seguravam Adam de encontro ao chão.

Alan agarrou-se à cabeça, como fizera no barco à vela, e pôs-se de pé num salto. Esbugalhou os olhos e repuxou os lábios para trás, expondo os dentes. Com um som de coisas arrancadas, retirou as mãos da cabeça, cheias de madeixas de cabelo. Como um animal raivoso, saltou dos urinóis para os três homens que se encontravam no chão. Juntou as duas mãos para formar uma espécie de maça e depois de as fazer descrever um grande arco, atingiu o homem que acabara de espetar a agulha em Adam. A pancada atingiu o lado da cabeça do enfermeiro e foi tão forte que o lançou, de cima de Adam, para a abertura de um compartimento de sanita que se encontrava aberto. Embateu na parede com um som de coisas esmagadas.

O outro enfermeiro levantou-se, meio em estado de choque, com os seus olhos a reflectirem o horror de terem testemunhado a materializ