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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS MELHORES CONTOS DE GRIMM / Irmãos Grimm
OS MELHORES CONTOS DE GRIMM / Irmãos Grimm

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS MELHORES CONTOS DE GRIMM

 

                       ÍNDICE

 

         JORINDA E JORINGEL     

         OS MÚSICOS DE BREMEN         

         OS SETE CORVOS            

         HANSEL E GRETEL           

         O GANSO DE OURO          

         MARIA RABANETE            

         O PRÍNCIPE SAPO

         PÕE-TE, MESA !      

         O REI QUEIXO-DE-RABECA       

         OS ANÕEZINHOS SAPATEIROS           

         NEVE-BRANCA E ROSA-RUBRA          

         JOÃO-FELIZ

         BIMBAMBOLOR      

         OS DOIS IRMÃOS   

         OS QUATRO IRMÃOS HABILIDOSOS   

         A GUARDADORA DE PATOS     

         ELISA COM JUÍZO  

         SEIS COMPANHEIROS PELO MUNDO FORA           

         AS TRÊS FIANDEIRAS     

         O REI DA MONTANHA DE OURO          

 

 

                   JORINDA E JORINGEL

Era uma vez uma velha que vivia sòzinha num grande castelo que ficava no meio de uma densa floresta. Esta mulher era feiticeira: de dia transformava-se em gato ou em coruja, mas à noite voltava à sua forma humana. Tinha o poder de atrair os animais selvagens e os pássaros, que matava e cozinhava para o seu jantar. E toda a gente que se aproximava do castelo menos de cem passos ficava de repente paralisado e não podia fazer um movimento até que a velha o libertasse. Mas se era uma menina com bom coração que entrava naquela zona encantada, a feiticeira não a deixava seguir mais adiante: transformava-a logo num pássaro, que metia na gaiola que tinha numa das salas do castelo. E, assim, já possuía perto de sete mil pássaros.

Naquele tempo, Jorinda, que era a rapariga mais bonita da região, estava noiva de um lindo rapaz chamado Joringel. Um dia em que não tinham nada que fazer, foram dar um passeio pela floresta.

-Não devemos ir para muito próximo do castelo - disse Joringel.

Estava uma tarde magnífica. A rola gemia nos ramos da faia. Os raios do sol-poente passavam por entre os ramos das árvores tingindo de luz o verde-escuro da floresta.

Mas apesar disso Jorinda e Joringel começaram a pouco e pouco a sentir uma grande tristeza. Durante uns momentos sentaram-se ao sol e choraram nos braços um do outro sem saber porquê. Com o coração cheio de estranhos pressentimentos, sofriam como se estivessem à beira da morte.

Sem darem por isso, tinham ido longe de mais e estavam agora completamente perdidos. O Sol estava quase a desaparecer por detrás da montanha. Joringel tentava encontrar o caminho de regresso quando, de repente, espreitando através dos arbustos, viu, muito perto, as muralhas do castelo. Sentiu um medo enorme, enquanto Jorinda, no mesmo instante, começou a cantar uma estranha canção:

 

         Passarinho de garganta azul, meu rouxinol,

         canta as penas, penas, penas, do rouxinol,

         canta as penas, piu ... terliu!, terliu!, terliu!

 

Joringel voltou-se. Mas não viu Jorinda ! Em seu lugar estava um rouxinol, que cantava : "Terliu ! terliu !, terliu !"

Uma coruja com os olhos em brasa saiu da espessura e voou três vezes por cima da cabeça do rapaz, soltando o seu pio agoirento. Joringel verificou então que já não podia fazer o menor movimento: estava como petrificado, não podia chorar, nem falar, nem mexer as mãos e os pés.

O Sol tinha desaparecido. A coruja pousou num ramo baixo e, em vez dela, apareceu uma velha toda curvada, com a cara magra e amarela, os olhos muito grandes e encarnados e o nariz tão comprido que lhe tocava o queixo. Resmungando qualquer coisa, agarrou no rouxinol e levou-o fechado na mão. Joringel ficou muito aflito, mas não podia dizer uma palavra nem fazer um gesto. Era obrigado a esperar, sem movimento nem voz.

Passados uns instantes a velha voltou.

- Boa noite, Belzebu! - murmurou ela. - Se a Lua estiver a iluminar a gaiola do rouxinol, liberta o rapaz!

O encanto que aprisionava Joringel quebrou-se de repente. O rapaz caiu de joelhos em frente da bruxa e pediu-lhe que lhe restituísse a sua querida Jorinda; mas a terrível mulher respondeu-lhe que ele não tornaria a ver aquela que amava. E dizendo estas palavras, foi-se embora.

-Ai! -exclamou Joringel. -Que vai ser de mim?

Mas era escusado chorar, gritar, lamentar-se, foi tudo em vão. Louco de desgosto, não teve mais remédio senão afastar-se dali. Acabou por sair da floresta e, depois de algumas horas de caminho, chegou a uma aldeia desconhecida onde

resolveu ficar. Contrataram-no como pastor para guardar ovelhas. Muitas vezes, levava o rebanho a pastar nas redondezas do castelo, mas tinha o cuidado de não entrar na zona encantada.

Certa noite, sonhou uma coisa muito estranha: sonhou que descobria uma flor cor de sangue, com uma grande pérola dentro. Colhia-a e levava-a ao castelo da feiticeira, e tudo o que ele tocava com aquela flor ficava livre da sua prisão. Sonhou também que encontrava a sua querida Jorinda.

No dia seguinte, logo de manhã, o rapaz partiu à procura dessa flor. Durante nove dias, percorreu em vão montes e vales. Na manhã do décimo dia, encontrou a flor cor de sangue: no interior estava escondida uma enorme gota de orvalho, que parecia uma pérola. Joringel tomou ràpidamente o caminho do castelo. Atravessou o círculo encantado sem que o feitiço tivesse força sobre ele. Cheio de esperança, Joringel continuou a avançar. Quando chegou junto do pesado portão de ferro do pátio do castelo, tocou-lhe com a flor, e o portão abriu-se sòzinho. Atravessou o pátio, mas não sabia por onde seguir, quando ouviu um piar de pássaros. Guiado pelos seus cantos, chegou em frente de uma porta, que abriu: numa grande sala cheia de gaiolas, a feiticeira estava entretida a dar de comer aos seus sete mil pássaros.

Quando a velha deu pela presença de Joringel ficou furiosa. Lançou-lhe feitiços, cuspiu veneno e fel e tentou arranhá-lo na cara, mas não conseguiu aproximar-se dele mais de dois passos. Joringel não lhe prestou a menor atenção. Examinava as gaiolas todas, uma após outra : havia ali centenas de rouxinóis.

Como descobrir a sua Jorinda?

Enquanto procurava, lançou um olhar para a feiticeira e viu que ela tinha desistido de o atacar e tentava sair da sala com uma pequena gaiola escondida debaixo do braço. Joringel saltou sobre a velha e tocou-lhe com a flor. No mesmo instante a feiticeira ficou paralisada. Então, Joringel tocou a gaiola com a flor e apareceu Jorinda, mais bonita do que nunca. Joringel abraçou de encontro ao coração aquela que ele julgara nunca mais tornar a ver. A seguir, tocaram com a flor todas as outras gaiolas e libertaram desta forma todas as meninas vítimas do mesmo encanto.

De mãos dadas, Joringel e Jorinda saíram do castelo.

Mais tarde casaram-se e viveram felizes durante muitos anos.

 

                   OS MÚSICOS DE BREMEN

Era uma vez um burro que tinha servido o dono com paciência e fidelidade durante muitos anos. Mas, com o tempo, foi perdendo as forças : já não podia transportar cargas muito pesadas, e o dono resolveu não dar mais de comer a um animal que não lhe servia para coisa nenhuma. O burro não se deixou ficar à espera de morrer de fome e fugiu de tão ingrato dono. Tomou o caminho da cidade de Bremen, com a esperança de se tornar músico.

Tinha andado alguns passos quando descobriu, deitado à beira da estrada, um pobre cão de caça, que respirava quase sem fôlego, como se tivesse corrido muito.

- Porque respiras dessa forma, tu que és o terror dos coelhos? - perguntou o burro.

-Sabes lá! - gemeu o cão-, estou velho e cansado, e já não posso ir à caça. Por isso o meu dono quis matar-me. Fugi, mas que vai ser de mim agora? E como vou alimentar-me?

- Vem comigo - respondeu o burro. - Eu sigo para Bremen para ser o músico da cidade. Tenciono tocar alaúde. E tu podes tocar tambor.

O cão achou que a proposta era boa e, quando retomou o fôlego, meteu-se a caminho ao lado do burro. Andaram algum tempo, até que encontraram um gato com o focinho mais triste do que a morte.

- Que te aconteceu, meu caça-ratos? - perguntou-lhe o burro.

- O pior que pode acontecer a um gato - respondeu o gato. - Só porque estou velho e gosto mais de ficar deitado ao canto da lareira do que de caçar ratos, a minha dona quis afogar-me. Consegui escapar. Mas agora, que vou eu fazer?

- Vem connosco - respondeu o burro. - Nós seguimos para Bremen para sermos os músicos da cidade. Podes muito bem tocar um instrumento qualquer nos concertos nocturnos.

A ideia agradou ao gato, que se juntou aos dois companheiros. Seguiram os três pela estrada e passaram por acaso em frente de uma quinta.

Empoleirado na cancela, estava um galo que cantava com toda a força dos seus pulmões.

- Porque te esganiças dessa maneira? - perguntou o burro. - Dás-nos cabo dos ouvidos!

-Amanhã é domingo -respondeu o galo - e como a minha dona tem convidados, mandou a criada cortar-me o pescoço logo à noite e meter-me na panela. Por isso eu canto o mais que posso, enquanto ainda é tempo.

- Nesse caso, vem connosco, meu galo-vaidoso - disse o burro. - Tudo é preferível à morte ! Nós seguimos para Bremen para sermos músicos. Tu tens uma linda voz. E contigo formaremos um óptimo quarteto.

Este projecto encantou o galo que saltou da cancela e se meteu a caminho com os companheiros. Bremen ficava ainda muito longe para lá chegarem naquela mesma noite. Por isso, os quatro amigos decidiram passar a noite na floresta que tinham de atravessar. O burro e o cão deitaram-se debaixo de um grande carvalho, enquanto o gato trepou para um ramo e o galo preferiu empoleirar-se no alto da árvore. Antes de adormecer, olhou em volta e pareceu-lhe ver uma luz a brilhar ao longe. Chamou os companheiros e disse-lhes que havia com certeza uma casa naquela direcção.

- Vamos até lá - propôs o burro. - Não estamos aqui muito bem instalados.

Dirigiram-se todos quatro na direcção da luz, que se via cada vez melhor, e acabaram por chegar a uma casa com muito mau aspecto, mas de onde saia uma luz muito viva. O burro, que era o maior de todos, aproximou-se da janela e espreitou para dentro.

- O que é que vês, Ruço? - perguntou o galo.

- Vejo quatro salteadores sentados a uma mesa. Estão a comer e a beber à farta.

- Eu fazia o mesmo, se pudesse - disse o galo.

- Também eu - disse o burro. - Mas não fomos convidados.

Então, os quatro amigos conversaram para descobrir uma forma de expulsar os bandidos. E tiveram uma ideia.

O burro pôs as patas da frente no parapeito da janela, o cão saltou para cima do burro, o gato trepou para as costas do cão e o galo bateu as asas e foi empoleirar-se na cabeça do gato. Depois, todos quatro ao mesmo tempo, fizeram barulho, cada um à sua maneira: o burro começou a zurrar, o cão a ladrar, o gato a miar e o galo a cantar. E saltaram para dentro da casa através dos vidros da janela, que se partiram em mil bocados.

Os bandidos apanharam um enorme susto com todo aquele estardalhaço. Julgaram que era um exército de fantasmas que invadia a casa e, cheios de terror, fugiram a sete pés para a floresta, como se o diabo corresse atrás deles.

Os quatro companheiros puderam então sentar-se à mesa tranquilamente. Comeram tanto, tanto, que quem os visse diria que eles não provavam bocado há mais de cinco semanas.

Quando estavam bem saciados, os quatro amigos apagaram as velas. O burro deitou-se em cima de um monte de palha que havia no pátio, o cão enrolou-se junto à porta das traseiras, o gato enroscou-se na lareira, ao pé do borralho, e o galo empoleirou-se numa das traves da casa. Estavam todos cansados de um dia de marcha e adormeceram logo profundamente.

Era cerca da meia-noite quando os salteadores resolveram voltar à casa. Ao aproximarem-se, viram que estava completamente às escuras e que tudo parecia calmo.

- Não nos devíamos ter assustado tanto - disse o chefe.

E mandou um dos seus homens à frente para iluminar o caminho.

O bandido entrou na casa e dirigiu-se à chaminé para tornar a acender uma das velas. Tomou os olhos do gato, que luziam no escuro, por duas brasas, e aproximou delas um fósforo para o acender. Mas o gato não achou graça nenhuma. Saltou à cara do homem e arranhou-a toda, soprando e miando. O bandido teve um medo horrível e quis fugir pela porta das traseiras. Mas o cão atirou-se a ele e deu-lhe uma dentada na perna. E enquanto o salteador atravessava o pátio, a correr a sete pés, o burro deu-lhe uma formidável parelha de coices quando ele passou junto do monte de palha. E o galo, que acordou em sobressalto com o barulho, começou a cantar

- Có-có-ró-có! Có-có-ró-có!

O bandido fugiu, sem querer saber de mais nada, e foi ter com os companheiros.

- Estamos perdidos ! - disse ele ao chefe, com os dentes a bater de medo. -Na casa está uma bruxa horrível sentada à lareira. Cuspiu-me para cima e arranhou-me a cara com as unhas. Na porta das traseiras havia um homem que me deu uma facada na perna. No pátio está deitado um monstro muito escuro que me bateu com um cacete. E do alto do telhado, o chefe deles todos gritava: "Corre, senão comes ! Corre, senão comes!" E, por isso, corri, para não apanhar mais.

A partir desse dia, os salteadores nunca mais se atreveram a aproximar-se daquela casa. Quanto aos quatro músicos de Bremen, sentiram-se lá tão bem que resolveram nunca mais sair ... e não me admirava nada se ainda lá estivessem !

 

                  OS SETE CORVOS

Um homem tinha sete filhos, todos rapazes, e ansiava por ter uma filha. Ora aconteceu que a mulher ficou à espera de mais um filho e o homem pensou que talvez o seu sonho se realizasse. Por isso, a alegria dos pais foi enorme quando o bebé nasceu e verificaram que, desta vez, era uma menina.

Mas depressa a alegria se transformou em tristeza, porque a criança era tão pequenina e débil que o pai e a mãe tiveram medo que ela morresse. E, assim, resolveram baptizá-la à pressa.

E o homem mandou um dos rapazes à fonte buscar

água para o baptismo. Mas os outros seis também quiseram ir. Eram rapazes espertos e decididos, sempre prontos para brincar, e resolveram fazer uma corrida até à fonte. Mas chegaram todos ao mesmo tempo e foi uma confusão para encher a bilha. Um deu um encontrão no outro quando a bilha já estava quase cheia e deixaram-na cair no fundo do tanque, onde ela se partiu em mil bocados. Muito aflitos com esta desgraça, que lhes ia fazer apanharem um castigo, os pobres rapazes ficaram pregados ao chão, cheios de medo. Nenhum deles se atrevia a enfrentar a cólera do pai.

Este, com efeito, não os vendo voltar, começava a ficar inquieto.

- Esses grandes patifes ! - dizia ele. - Nunca se pode contar com eles! No caminho tornaram a esquecer-se do que iam fazer e ficaram a brincar !

O tempo passava e os rapazes nunca mais vinham. O pai não queria que a filhinha morresse sem ser baptizada. Estava tão preocupado que teve um ataque de fúria e gritou:

- Ah ! Estes malditos rapazes não têm mais raciocínio do que um pássaro. Porque foi que eles não nasceram corvos?

Mal tinha pronunciado estas palavras, ouviu um bater de asas por cima da sua cabeça : sete corvos, mais pretos do que a noite, voavam no céu. Passado algum tempo, afastaram-se e desapareceram.

Desta forma, o desejo do pai tinha sido realizado. Já não se podia voltar atrás. Os pais ficaram muito desgostosos com a perda dos filhos, mas esta tristeza foi compensada pela presença da sua querida filha, que de dia para dia se tornava mais forte e mais bonita.

Passaram alguns anos. A menina não sabia que tinha tido irmãos, porque os pais nunca lhe disseram. Mas um dia, ouviu por acaso uma conversa entre dois vizinhos : estavam a dizer que ela era sem dúvida muito bonita, mas de qualquer forma era a responsável da desgraça que sucedera aos irmãos.

A menina ficou tão espantada como aflita com o que acabava de ouvir. Percebeu que lhe tinham escondido até ali qualquer coisa e quis saber toda a verdade. Interrogou os pais, perguntou-lhes se alguma vez tivera irmãos e o que lhes acontecera. O pai e a mãe já não puderam guardar por mais tempo aquele segredo. E, como ela se acusava de ser a causa do seu sofrimento, eles disseram-lhe que tudo aquilo era obra da fatalidade e que o seu nascimento fora apenas um pretexto para tudo acontecer.

Todavia, a partir daquele instante, a menina pensava todos os dias na desgraça de que se sentia responsável. E quanto mais pensava mais se convencia de que era ela quem devia libertar os irmãos do feitiço que tinha caído sobre eles. Esta ideia vinha-lhe tantas vezes à cabeça e atormentava de tal forma que a menina resolveu fugir de casa, ir correr mundo até encontrar os irmãos, porque estava convencida de que era esse o seu dever.

Partiu de casa uma bela manhã, sem dizer nada a ninguém, e como recordação dos pais levou um anel que a mãe lhe tinha oferecido. Levou também um bocado de pão para matar a fome, uma cabaça de água fresca para matar a sede e uma esteira para descansar quando estivesse cansada.

A rapariguinha foi andando, andando, até que chegou ao fim do mundo. Era ali que moravam o Sol, a Lua e as Estrelas. Entrou primeiro em casa do Sol. Mas fazia muito calor e o Sol estava tão carrancudo que a menina fugiu a sete pés e foi a

casa da Lua. Mas a Lua recebeu-a com tanta frieza e parecia estar tão aborrecida que a menina foi-se embora e refugiou-se em casa das Estrelas.

As Estrelas eram bondosas, amáveis, simpáticas e sempre prontas a acudir aos outros. Sentaram-se todas em volta da menina, cada uma no seu tamborete, e perguntaram-lhe qual era o fim da sua viagem.

Depois pensaram numa forma de a ajudar a encontrar os irmãos. A Estrela da Manhã levantou-se e foi buscar uma chave que entregou à menina.

- Toma - disse ela. - Esta é a chave que abre a porta da montanha de vidro. É lá que estão os teus irmãos.

A rapariguinha enrolou a chave no lenço com todo o cuidado e partiu. A montanha de vidro ficava muito longe, mas a boa irmã encheu-se de coragem e acabou por lá chegar. A porta estava fechada à chave. Quando desenrolou o lenço, a menina não viu a chave. Tinha-a perdido. Que havia de fazer para salvar os irmãos, se não podia entrar na montanha de vidro?

Mas era uma rapariga habilidosa e não se atrapalhou. Pegou numa faca e, com um bocado de madeira que ali estava, talhou uma chave mais ou menos do tamanho da que perdera. Com grande alegria, viu a porta abrir-se e entrou na montanha. Daí a

pouco encontrou um anãozinho que lhe perguntou:

- Quem procura, menina?

- Ando à procura de sete corvos, que são os meus irmãos - respondeu ela.

- Suas excelências, os senhores Corvos, não se encontram em casa neste momento - disse o anão. - Mas se quer esperar por eles, entre para aqui.

A menina entrou e viu em cima de uma mesa sete pratinhos e sete canecas muito pequenos. E o anão começou a servir o jantar dos corvos. De cada um dos pratos a menina comeu um bocado e bebeu um gole de cada uma das canecas; mas quando chegou à última caneca meteu lá dentro o anel que tinha levado.

De repente, ouviu-se um grande bater de asas. - Suas excelências, os senhores Corvos, vêm aí - disse o anão.

A rapariguinha foi a correr esconder-se atrás da porta e ficou à espera. Os corvos entraram e, como estavam cheios de fome e de sede, voaram logo para a mesa. E foi uma confusão ! Gritava cada um para seu lado

- Quem comeu do meu prato? Quem bebeu da minha caneca? Esteve aqui alguém!

Os corvos comeram e beberam. E quando o sétimo corvo bebeu o último gole e descobriu o anel no fundo da caneca viu que era o mesmo que a mãe costumava usar, e exclamou:

- Oxalá que a nossa irmãzinha aqui estivesse, porque ficávamos livres do nosso encantamento !

Então, a menina saiu do seu esconderijo e todos os corvos voltaram a ter figura humana.

Não se faz ideia dos beijos e abraços que deram antes de voltarem a casa, onde os pais ficaram loucos de alegria por tornarem a ter ao pé deles os filhos todos juntos.

 

                   HANSEL E GRETEL

Era uma vez um pobre lenhador que vivia à beira de uma grande floresta. Tinha um filho chamado Hansel e uma filha que se chamava Gretel.

A mãe morrera quando eles eram pequeninos, e o lenhador tornara a casar com uma mulher muito má que não gostava das crianças e estava sempre a bater-lhes.

O lenhador mal ganhava para sustentar a família, e, por isso, quando os anos eram fracos, faltava muitas vezes o pão na miserável cabana em que viviam, e o pobre lenhador preocupava-se muito com isso.

Uma noite em que dava voltas e voltas na cama, sem conseguir dormir, começou a queixar-se em voz alta:

- Ai, Jesus ! - dizia ele. - Que vai ser de nós? Como vamos conseguir sustentar os nossos filhos, se não temos pão que chegue nem sequer para nós?

- Ouve, homem - disse-lhe a mulher. - Vamos levá-los amanhã de manhã até um sítio afastado da floresta. Acendemos uma fogueira para eles e damos a cada um bocado do pão que nos resta. Depois fingimos que vamos apanhar lenha e deixamo-los lá ficar. Nunca mais serão capazes de achar o caminho de casa e, assim, livramo-nos deles.

- Não, mulher - disse o lenhador. - Não faço uma coisa dessas. Como posso abandonar os meus filhos na floresta, cheia de animais ferozes, que os comiam logo?

- Estúpido ! - gritou a mulher. - Queres ficar à espera de morrermos de fome todos quatro?

E tanta coisa lhe disse que ele acabou por ceder, com o coração cheio de angústia e de pena dos filhos.

Hansel e Gretel dormiam no quarto do lado. A fome era tão grande que não tinham conseguido adormecer, e ouviram tudo.

- Estamos perdidos ! -soluçou Gretel.

- Cala-te - respondeu-lhe Hansel. - Não chores e confia em mim. Eu hei-de encontrar forma de nos livrarmos disto.

Quando teve a certeza de que os pais estavam a dormir, Hansel levantou-se sem fazer barulho, vestiu o casaco, abriu a porta e saiu da cabana. Estava uma noite fria e limpa, e a lua cheia punha reflexos de prata nas pedras cinzentas do pátio. Hansel encheu as algibeiras de pedrinhas e voltou para dentro de casa.

- Dorme descansada - segredou ele à irmã, tornando a deitar-se ao pé dela. - Deus vai ajudar-nos.

Ao amanhecer, a mulher do lenhador foi acordar as duas crianças.

- Levantem-se, preguiçosos ! - gritou ela. - Temos de ir apanhar lenha à floresta.

E deu um bocado de pão a cada um, recomendando que não o comessem antes do meio-dia porque era tudo o que tinham até à noite. Gretel meteu os dois bocados na algibeira do avental, porque as algibeiras de Hansel estavam cheias de pedras. E a família meteu-se a caminho.

De vez em quando, o rapazinho parava e voltava-se.

- Que tens tu, Hansel? - perguntou-lhe o pai. - Porque olhas para trás? Despacha-te! Não sejas mole!

- Ó pai - respondeu Hansel -, estou a ver o meu gatinho branco, que está a dizer-me adeus no alto do telhado da casa.

- Não sejas pateta ! - disse a mulher do lenhador-, aquilo não é o teu gatinho; é um raio de Sol que bate na chaminé!

Na verdade, não era o gato o que Hansel estava a ver, eram as pedrinhas cinzentas que ele ia deixando cair no caminho.

Quando já estavam bastante dentro da floresta o pai parou.

- Apanhem lenha seca - disse ele às crianças. - Vou acender-lhes uma boa fogueira para vocês não terem frio. E esperem aqui por nós enquanto vamos cortar alguns ramos ali adiante.

Hansel e Gretel juntaram gravetos e madeira seca e daí a pouco o pai acendeu uma boa fogueira.

- Fiquem sossegados ao pé do lume - disse a mulher do lenhador. - Deitem-se e descansem. Nós vimos buscá-los quando acabarmos o nosso trabalho.

As duas crianças sentaram-se junto da fogueira. Quando o Sol estava a pino comeram cada um o seu bocado de pão. Pareceu-lhes ouvir machadadas no tronco das árvores e pensaram que o lenhador estava perto. Mas não era o lenhador, era um ramo meio partido que, com o vento, batia no tronco de uma árvore.

Passado algum tempo, Hansel e Gretel, que estavam cansados da caminhada que tinham feito pela manhã, adormeceram profundamente. Quando acordaram, o lume tinha-se apagado havia muito e já era de noite. Gretel começou a chorar.

- Como vamos sair da floresta? - perguntava ela entre soluços.

- Não te preocupes - respondeu Hansel. - Esperamos que nasça a Lua, e nessa altura já podemos ver o caminho.

Efectivamente, daí a pouco apareceu a Lua. Os seus raios atravessaram as copas das árvores e fizeram brilhar como moedas de prata as pedras cinzentas que Hansel tinha semeado ao longo do atalho. O rapaz deu a mão à irmã, e meteram-se ambos a caminho, seguindo a marca das pedras. Não iam muito depressa e tiveram que andar toda a noite. E só ao amanhecer é que chegaram a casa.

Bateram à porta, e foi a madrasta quem veio abrir.

- Grandes patifes ! - gritou ela com voz esganiçada. - Porque estiveram todo este tempo a dormir na floresta? Chegámos a pensar que vocês não queriam voltar para casa !

Mas o lenhador sentiu uma grande alegria por tornar a ver os filhos, que lhe custara tanto a abandonar.

Passado certo tempo, a escassez de alimentos foi ainda maior e a fome fez-se sentir como nunca na pobre cabana. Uma noite, as crianças ouviram novamente a madrasta dizer ao lenhador:

- Já só nos resta um bocado de pão. Que vai ser de nós quando o comermos? É preciso livrar-nos das crianças. E desta vez vamos levá-las ainda mais para o interior da floresta. É a única coisa que resta a fazer.

O pai não havia maneira de se resolver a praticar essa crueldade.

-Preferia não comer eu e dar-lhes a minha parte do pão - dizia ele.

Mas como já tinha concordado da primeira vez, a mulher não descansou enquanto não o convenceu novamente. O lenhador não era má pessoa, mas era fraco e a mulher dominava-o com o seu feitio autoritário. Por isso, não se atreveu a contrariá-la, e acabou por dizer que sim.

Quando os pais adormeceram, Hansel levantou-se como da primeira vez e tentou sair. Mas nessa noite a madrasta tinha fechado a porta à chave e Hansel não pôde ir apanhar pedras.

- Não fiques triste - disse ele a Gretel. - Deus há-de ajudar-nos novamente.

No dia seguinte, a mulher do lenhador foi acordar as duas crianças logo ao romper da aurora. Deu a cada uma um bocado de pão, mais pequeno do que da outra vez, e meteram-se todos a caminho.

Enquanto caminhava, Hansel tirava às escondidas o pão da algibeira e fazia migalinhas, e de vez em quando deixava cair uma no chão.

Que tens tu, Hansel? - perguntou-lhe o pai. - Porque olhas para trás? Despacha-te! Não sejas mole!

- Ó pai - respondeu o garoto -, estou a ver o meu pombinho, que está a dizer-me adeus no alto do telhado da casa.

- Não sejas pateta! - disse a mulher do lenhador. - Aquilo não é o teu pombinho, é um raio de Sol que bate na chaminé!

Efectivamente, não era para o seu pombinho que Hansel estava a olhar, mas para as migalhas que tinha deixado cair no caminho.

Andaram durante muito tempo, muito mais tempo que de costume. A mulher do lenhador teimava em avançar cada vez mais para o interior da floresta, para um sitio onde as crianças nunca tinham ido. Quando pararam, o pai acendeu novamente uma grande fogueira e a mulher disse às crianças:

- Sentem-se ao pé do lume e descansem. Até podem dormir um bocado, se lhes apetecer. Nós vamos cortar lenha no bosque. E, à tarde quando tivermos acabado o trabalho, vimos aqui buscá-los.

Perto do meio-dia, Gretel dividiu com Hansel o bocadinho de pão que tinha, porque ele espalhara o seu pelo caminho. Depois adormeceram e ninguém os foi buscar até ao anoitecer. Quando abriram os olhos era noite fechada.

-Vamos esperar que apareça a Lua-disse Hansel, para animar a irmã. - Assim, já podemos ver as migalhas de pão que espalhei no carreiro do bosque, e havemos de achar o caminho de casa.

Quando apareceu a Lua, resolveram voltar.. Mas não encontraram nem uma das migalhas que Hansel tinha deixado cair. As aves da floresta tinham-nas comido todas.

- Coragem ! - disse Hansel à irmã. - Acabaremos por chegar a casa.

Mas foi inútil andarem toda a noite e todo o dia seguinte, porque não conseguiram sair da floresta. Como alimento, só puderam comer algumas bagas selvagens de uns arbustos, e chegaram a tal estado de fraqueza que daí a pouco já não tinham forças para dar um passo. Deitaram-se debaixo de uma árvore e adormeceram. Na manhã do terceiro dia, meteram-se novamente a caminho. Mas cada vez estavam mais desnorteados. Já não podiam andar e avançavam com muita dificuldade.

Lá para meio do dia, viram um pássaro, branco como a neve, empoleirado num ramo. Cantava tão bem que as crianças pararam para o ouvir. Quando acabou o seu trinado, o pássaro bateu as asas e afastou-se. Foi pousar num arbusto um pouco mais adiante e olhou para as crianças como a convidá-las a segui-lo. Hansel e Gretel começaram a seguir o pássaro, até que chegaram a uma clareira onde havia uma casinha muito estranha, e o pássaro foi pousar em cima do telhado. Hansel e Gretel nunca tinham visto uma casa assim: as paredes eram feitas de pão-de-ló, o telhado de bolacha e as janelas de caramelo.

- Oh, como deve ser boa! - exclamou Hansel. - Até que enfim que temos qualquer coisa para comer ! Vou começar pelo telhado. Gretel, prova um bocado da janela, é feita de açúcar !

Hansel partiu um bocado do telhado, que não era muito alto, e começou a comê-lo. Gretel arrancou um bocado de uma das janelas. Então, ouviu-se no interior uma voz esganiçada cantarolar

- Croc ! Crac ! Croc ! Quem está a comer a minha casa?

- É o vento, é o vento ! - responderam as duas crianças, que continuaram a comer com todo o apetite.

Hansel achou que o telhado era uma delícia e arrancou-lhe outro bocado, enquanto Gretel arrancou o vidro inteiro de uma das janelas e se sentou còmodamente no chão a saboreá-lo.

Nesse instante, a porta abriu-se e apareceu uma velha horrível. Estava toda curvada e apoiava-se a uma muleta. As crianças, muito assustadas com o que viam, largaram o que estavam a comer. Mas a velha falou-lhes com uma voz muito carinhosa.

- Bom dia, meus lindos meninos - disse ela a tremer com a cabeça. - Já que vieram até aqui entrem, que eu não lhes faço mal.

Segurou-os pela mão e fê-los entrar na casa, onde estava servida uma óptima refeição: leite, filhós com canela e açúcar, nozes e maçãs. Hansel e Gretel comeram de boa vontade tudo quanto a velha lhes ofereceu. Depois, como estavam a cair de sono, ela conduziu-os a um quarto onde havia duas lindas caminhas brancas muito asseadas. Hansel e Gretel deitaram-se. Sentiam-se tão felizes como se estivessem no Paraíso.

Ora a velha era uma terrível feiticeira, que sabia, com palavras amáveis, disfarçar toda a sua maldade. Tinha feito a casa de pão-de-ló e bolacha para atrair as crianças. E, quando as apanhava, cozinhava-as e comia-as como se fossem frangos.

As feiticeiras vêem muito mal por causa de terem os olhos encarnados, mas têm o olfacto tão apurado como o de um cão de caça, e sabem assim quando se aproxima alguém. Quando Hansel e Gretel se tinham dirigido para a casa, a feiticeira dissera, dando uma gargalhada

- Ah, ah ! Já os apanhei ! Estes não me escapam !

No dia seguinte, de manhã, levantou-se muito cedo e foi ver as crianças, que ainda estavam a dormir. Como eles estavam bonitos, com as faces muito rosadas!

- Que bons petiscos ! - murmurou a velha, lambendo os beiços.

Pegou em Hansel ao colo, sem o acordar, levou-o até ao galinheiro que havia ao lado da casa e fechou-o lá dentro.

Depois, a velha voltou para junto de Gretel e sacudiu-a com toda a força para a acordar.

- Levanta-te, preguiçosa ! - gritou ela. - Vai buscar água e prepara qualquer coisa boa para o teu irmão que está no galinheiro. Quero que fique bem gordo para depois o comer.

Não valeu de nada Gretel chorar e suplicar. Foi obrigada a obedecer à horrível feiticeira, porque não podia abandonar o irmão.

E, assim, Hansel comeu uma óptima refeição, enquanto Gretel teve de se contentar em roer alguns ossos.

Todas as manhãs a velha ia às corridinhas até ao galinheiro e dizia a Hansel:

- Mostra-me o teu dedinho. Quero ver se estás mais gordo !

Então Hansel estendia-lhe através das grades um osso de galinha. A velha, por causa da má vista que tinha, não dava pela partida, e espantava-se por o rapaz continuar sempre tão magro.

Passado um mês, parecia que Hansel não tinha aumentado nem um grama. Mas a feiticeira já estava farta de esperar.

- Gretel ! - ordenou ela à menina -, vai buscar água e enche o caldeirão. Mesmo magro, vou comer o rapaz.

Gretel obedeceu, com os olhos cheios de lágrimas.

- Ah! - lamentava-se ela -, era melhor que os animais ferozes nos tivessem devorado. Ao menos morríamos juntos ! Meu Deus, ajudai-nos !

E, enquanto punha o caldeirão na chaminé, a pobre criança não parava de chorar.

- Acaba com isso - gritou a feiticeira. - Não te serve de nada chorares. Acende o lume e despacha-te.

Quando o lume estava bem aceso, a feiticeira, que tinha aquecido o forno do pão, chamou por Gretel.

- Vem cá - ordenou ela. - Amassei a farinha para fazer pão. Entra para dentro do forno e vai ver se lá ao fundo está bem quente.

A maldosa mulher pensava em fechar a porta do forno e cozer Gretel, para a comer também. Mas a pequena desconfiou.

- Nunca entrei num forno - respondeu ela. - Não sei como se faz.

- Cabeça de avelã - disse a velha -, não há nada mais fácil. Repara : até eu lá posso entrar.

E, dizendo isto, inclinou-se e meteu metade do corpo dentro do forno. Num abrir e fechar de olhos, Gretel aproveitou a ocasião e deu à feiticeira um enorme pontapé que a fez entrar de cabeça para dentro do forno. Depois, Gretel fechou a porta de ferro e deu a volta à chave. A feiticeira começou a gritar por socorro, mas Gretel não fez o menor caso.

A seguir, foi imediatamente soltar o irmão.

- Hansel - disse ela -, estamos salvos ! A feiticeira morreu assada !

Loucos de alegria, os dois irmãos abraçaram-se e beijaram-se. Depois entraram na casa e foram a todos os quartos. Abriram os cofres, que havia por toda a parte, e verificaram que estavam cheios de pérolas e pedras preciosas.

-Estas pedras são melhores do que as outras que eu espalhei pelo caminho - disse Hansel enchendo as algibeiras do casaco, enquanto Gretel enchia as do avental. - Vamo-nos imediatamente embora desta floresta enfeitiçada.

Ao fim de duas horas de marcha, chegaram a um largo ribeiro, sem ponte nenhuma para o atravessar. Também não encontraram a mais pequena embarcação. As crianças só viram um cisne branco a nadar nas águas tranquilas.

- Se lhe pedíssemos para nos ajudar a atravessar o ribeiro? - disse Gretel. - Talvez ele nos fizesse esse favor.

E chamou:

Cisne, cisne branco,

sei que tens bom coração. Passa-nos p'ra lá do rio, e livra-nos desta aflição!

O cisne aproximou-se da margem e Hansel saltou-lhe para as costas.

- Põe-te aqui atrás de mim, irmãzinha - disse ele para Gretel.

- Não - respondeu ela. - É muito peso junto. É melhor o cisne levar-nos cada um por sua vez.

Efectivamente, depois de deixar Hansel na outra margem, a ave foi buscar Gretel e transportou-a para junto do irmão.

As crianças agradeceram ao cisne e ele fez-lhe um cumprimento de cabeça tão delicado que Hansel e Gretel perceberam logo que se tratava de algum príncipe encantado sob aquela forma.

Depressa chegaram a um sitio que já conheciam, até que viram por entre as árvores a casa do lenhador. Correram para lá e atiraram-se ao pescoço do pai que os abraçou, chorando de satisfação.

O pobre homem vivia cheio de remorsos desde aquele dia fatal em que Hansel e Gretel se tinham perdido na floresta. E apesar de a mulher ter morrido, nunca mais tivera um dia de sossego. Por isso, ficou doido de alegria por tornar a ver os filhos, que julgava perdidos para sempre.

Hansel despejou as algibeiras do casaco e Gretel as do avental. As pérolas e as pedras preciosas eram tantas que rolaram pela casa. A partir de então, livre de necessidades, o lenhador viveu feliz durante muitos anos, na companhia dos dois filhos.

Bendito e louvado, meu conto acabado!

 

                   O GANSO DE OURO

Um homem tinha três filhos. O mais novo estava sempre a ser vítima das troças dos irmãos, que lhe chamavam Parvo. E, assim, ficou com essa alcunha.

Certa manhã, o mais velho resolveu ir cortar lenha ao bosque. A mãe preparou-lhe uma fatia de pão -com manteiga e deu-lhe uma cabaça de vinho para matar a sede. À entrada do bosque, o rapaz encontrou um velhinho de cabelos brancos que lhe deu os bons-dias.

- Ofereces-me um bocado da tua fatia de pão e deixas-me beber um gole do teu vinho? - perguntou-lhe o homem. - Estou cheio de fome e de sede.

Mas o rapaz não tinha bom coração e respondeu:

-Se te dou do meu pão e do meu vinho, já não chega para mim. Vai à tua vida !

Deixou ali ficar o velho e entrou no bosque. Meteu-se ao trabalho, mas não tardou que fosse castigado pelo seu egoísmo. Ao cortar um tronco, pôs um pé em falso, o machado escorregou-lhe da mão e fez-lhe um golpe no braço. Tinha sido uma praga rogada pelo velhote que encontrara no caminho. O rapaz teve de voltar à pressa para casa e tratar o ferimento.

No dia seguinte, o segundo filho foi também ao bosque. A mãe arranjou-lhe, como para o mais velho, uma fatia de pão com manteiga e uma cabaça de vinho.

Encontrou também o velhinho de cabelos brancos, que lhe pediu igualmente um bocado do seu pão e um gole do seu vinho. Mas, tal como o irmão,

o rapaz não era caridoso.

- Se te der, fico com menos para mim - respondeu ele. - Não me maces !

Deixou lá ficar o velho e entrou no bosque. O castigo não se fez esperar. Logo às primeiras machadadas que deu numa árvore, o machado escapou-lhe das mãos e feriu-lhe uma perna. E custou-lhe muito a andar até à casa dos pais.

- Deixe-me ir também cortar lenha ao bosque - pediu o Parvo ao pai, no dia seguinte.

- Bem viste que os teus irmãos não foram capazes - respondeu o homem. - Como queres ser tu a conseguir? Não, não, não tens jeito para isso.

Mas o Parvo insistiu tanto que, já farto de

o ouvir, o pai deu licença.

- Está bem, vai! - disse ele. - Afinal, fazendo as coisas é que se aprende.

A mãe deu-lhe uma fatia de pão seco e uma cabaça de cerveja ordinária.

Quando chegou à orla do bosque, o Parvo encontrou o velho de cabelos brancos, que lhe deu os bons-dias.

- Ofereces-me um bocado do teu pão e deixas-me beber um gole do que tens na cabaça? – perguntou o homenzinho. - Estou cheio de fome e de sede.

- Eu só trago pão seco e cerveja amarga - respondeu o Parvo. - Mas se te serve, ofereço-te de boa vontade. Vamos sentar-nos no chão e comer os dois.

Sentaram-se e comeram. E, então, o Parvo verificou que o pão estava cheio de manteiga e que a cerveja ordinária se transformara num óptimo vinho. Comeram e beberam regaladamente, e depois o velho disse ao Parvo:

- Como tens bom coração e divides de boa vontade o que te pertence com os outros, vou dar-te uma recompensa. Vês este velho carvalho? Tens de o cortar, porque há uma coisa para ti escondida debaixo das raízes dele.

Mal disse estas palavras, o velho desapa­receu.

O Parvo seguiu o conselho do velho e cortou a árvore. Agachado no meio das raízes encontrou um ganso com as penas todas de ouro. Agarrou nele, meteu-o debaixo do braço e partiu à aventura. Ao entardecer chegou a uma estalagem e resolveu passar ali a noite. O estalajadeiro tinha três filhas, que ficaram muito admiradas por verem uma ave tão extraordinária. E todas queriam possuir uma pena daquele ganso.

-Hei-de arranjar maneira de lhe arrancar ao menos uma - disse para consigo a mais velha.

E, aproveitando a ocasião em que o Parvo se foi deitar, sem levar consigo o ganso, agarrou o animal pelas asas para lhe arrancar uma pena de ouro. Mas as mãos dela ficaram pregadas às penas da ave e não conseguiu tirá-las.

Apareceu então a mais nova e também quis arran­car uma pena. Aproximou-se do ganso, mas, sem querer, roçou no braço da irmã. E, mal lhe tocou, nunca mais se pôde soltar. A terceira filha entrou também na sala, com a mesma intenção. As irmãs começaram a gritar:

- Afasta-te de nós, pelo amor de Deus, afasta-te !

Mas a rapariga não compreendeu porque razão não podia aproximar-se das irmãs.

"O que elas querem é arrancar todas as penas a este ganso - pensou para consigo. - Porque não hei-de eu fazer o mesmo?”

E agarrou o braço da mais nova. E mal lhe tocou nunca mais se pôde soltar. E as três irmãs tiveram que passar a noite toda junto do ganso, sem se poderem separar umas das outras.

No dia seguinte, de manhã, o Parvo foi buscar o ganso, meteu-o debaixo do braço e foi-se embora, sem se importar com as três raparigas que foram atrás dele. As pobres pequenas eram obrigadas a segui-lo a toda a velocidade para onde quer que lhe apetecesse ir. Andaram assim durante algum tempo através dos campos até que encontraram o cura da aldeia.

- Onde é que vão, suas malucas? - perguntou ele quando viu passar o estranho cortejo. - Não têm vergonha de correr dessa maneira atrás de um rapaz? Isso não lhes fica bem, com fran­queza!

E o cura tentou puxar a mais nova pela mão. Mas, mal lhe tocou, nunca mais se pôde soltar. E não teve mais remédio senão segui-la ! Mais adiante, encontraram o sacristão, que ficou muito espantado de ver o cura tomar parte naquela cegada.

- Senhor cura ! - gritou ele. - Onde vai com tanta pressa? Não se afaste muito, porque bem sabe que temos hoje um baptizado!

E tentou segurar o cura pela manga da batina, mas, mal lhe tocou, nunca mais se pôde soltar e foi obrigado a segui-lo.

Dois cavadores voltavam do campo, com os sachos às costas, e ficaram muito admirados de ver aquele cortejo. Quando o cura passou por eles, gritou-lhes para eles os irem libertar, a ele mais ao sacristão. Mas, mal os dois camponeses tocaram o sacristão, nunca mais se puderam soltar, e foram obrigados também a seguir o cortejo. Eram agora sete pessoas a correr atrás do Parvo e mais o ganso.

Sempre a correr, chegaram à capital do reino. O rei tinha uma filha tão sisuda que até então ninguém conseguira fazê-la rir, o que afligia muito o pai. Por isso, naquele mesmo dia, mandara apregoar que daria a filha em casamento a quem conseguisse fazê-la rir.

Ao saber esta notícia, o Parvo pediu para ir à presença da princesa, com o ganso debaixo do braço e as outras pessoas todas agarradas ao ganso.

Assim que viu entrar o cómico desfile das sete pessoas presas umas às outras atrás do Parvo e do seu ganso, a princesa teve um ataque de riso que nunca mais acabava.

Então, o Parvo foi ter com o rei e pediu-lhe a mão da filha. Mas o rei não queria um genro daqueles. Pôs toda a espécie de dificuldades e, por fim, mandou o Parvo fazer uma coisa que parecia impossível: ordenou-lhe que encontrasse um homem capaz de beber sòzinho um tonel de cerveja.

O Parvo lembrou-se do velho que lhe tinha dado o ganso. Dirigiu-se ao bosque e foi ao sítio onde tinha cortado o carvalho. Sentado no tronco estava um homem com um ar muito aborrecido.

O Parvo perguntou-lhe porque estava tão triste.

-Morro de sede -respondeu o homem - e nunca consigo saciá-la. Parece que tenho uma pedra a arder dentro do estômago, por isso não posso beber água fria, porque me faz mal. E apesar de já ter bebido hoje um tonel de cerveja, para a sede que tenho foi como se molhasse apenas as goelas.

- Eu posso ajudar-te - disse o Parvo. - Vem comigo, e eu arranjo forma de te matar a sede.

O homem seguiu-o até à adega do rei, e bebeu até se fartar. Despejou uns poucos de tonéis atrás uns dos outros, até ficar com os braços dormentes. E quando chegou à noite tinha deixado a adega vazia.

O Parvo exigiu novamente ao rei que cumprisse a sua promessa. Mas ele, que não queria de forma nenhuma dar a filha a tão grande pateta, arranjou um pretexto para se livrar uma vez mais, obrigando-o a uma segunda prova. Tinha que encontrar um homem que fosse capaz de comer sozinho uma mon­tanha de pão.

O Parvo não esperou por mais nada. Dirigiu-se logo ao bosque, ao sitio onde deitara abaixo o car­valho. No tronco estava sentado um homem, que apertava o cinto com quanta força tinha.

- Foi inútil comer toda a fornada do padeiro disse ele ao Parvo. - Pouco me adiantou. O que são algumas migalhas para uma fome do tamanho da minha? Fico logo com o estômago vazio outra vez e tenho que apertar todos os furos do meu cinto para não morrer de fraqueza.

- Levanta-te daí e segue-me - disse o Parvo todo contente. - Vais poder comer à farta.

E levou o homem até ao pátio do palácio. O rei tinha mandado buscar toda a farinha do reino e mandara fazer um pão do tamanho de um monte.

O homem começou a comer, e naquela mesma noite a montanha de pão desapareceu.

Pela terceira vez, o Parvo reclamou a mão da princesa. Mas o rei, que queria evitar a toda a força aquele casamento, exigiu uma terceira prova. Tinha que lhe trazer um barco que navegasse tão bem na terra como no mar.

- Se conseguires chegar aqui ao palácio com todas as velas desfraldadas - disse ele ao Parvo -, então, desta vez, dou-te a minha filha em casa­mento.

O Parvo foi direito ao bosque, ao sitio onde cortara o carvalho, e encontrou o velhinho de cabelos brancos com quem dividira o pão e a cerveja.

- Graças à tua bondade, comi e bebi - disse o homenzinho. - E quero recompensar-te por isso. Vou dar-te o barco de que precisas, porque foste caridoso para comigo.

Então o velho deu-lhe um barco que navegava tanto na terra como no mar, e o Parvo chegou ao palácio com todas as velas desfraldadas. O rei teve que cumprir a palavra e deu-lhe a filha em casamento.

Celebrou-se a boda, e quando o rei morreu o Parvo sucedeu-lhe no trono e os dois esposos viveram muitos anos, felizes e contentes.

 

                   MARIA RABANETE

Era uma vez um homem e uma mulher que desejavam há muito tempo ter um filho. Até que um dia perceberam que isso ia acontecer.

A casa onde moravam ficava pegada a um pomar cheio de lindas flores e de legumes apetitosos... Mas o pomar estava cercado por muros muito altos e nunca ninguém se atrevera a lá entrar, porque pertencia a uma velha chamada Gothel, que era bruxa, e toda a gente tinha medo dos seus poderes mágicos.

Mas uma das janelas da casa dava para o tal pomar. E certo dia em que a mulher contemplava as flores reparou num canteiro onde cresciam em grande quantidade rabanetes frescos e apetitosos, e apeteceu-lhe logo comê-los. Mas como não podia satisfazer o seu desejo, cada dia que passava lhe apeteciam mais os rabanetes, até ao ponto de perder o apetite para qualquer outra coisa. E assim já andava muito fraca. O marido deu por isso e, muito preocupado, quis saber as razões daquela fraqueza.

Que posso fazer por ti? - perguntou ele.

-Ai! - respondeu a mulher. - Apetecem-me

tanto os rabanetes do pomar da velha Gothel que morro se não os comer.

"Se é esse o motivo - pensou o marido -, tenho que fazer qualquer coisa.”

E nessa mesma noite saltou o muro do pomar, foi até ao canteiro dos rabanetes e apanhou uma boa quantidade, que foi levar à mulher. A mulher fez imediatamente uma salada com eles e comeu-os com apetite. Mas a salada tinha ficado tão boa que no dia seguinte a mulher ainda estava com mais apetite de rabanetes do que na véspera. Para a contentar, o marido tornou a saltar o muro e apanhou tantos rabanetes que deixou o canteiro quase vazio. Já se ia embora quando, com grande espanto, viu a bruxa aparecer na sua frente.

- Ah, com que então atreves-te a entrar no meu pomar? - gritou ela com voz esganiçada. - E levas daqui os meus rabanetes, como se fossem teus ! Pois bem, vai sair-te cara a partida!

- Tenha dó de mim ! - suplicou o pobre homem, que tremia como varas verdes. - Foi a necessidade que a isso me obrigou. A minha mulher viu da janela os seus apetitosos rabanetes e sentiu um desejo tão grande de os comer que morria se não o satisfizesse.

- Sendo assim - respondeu a bruxa com falsa amabilidade -, não te preocupes, leva todos os rabanetes que quiseres. Mas com uma única condição. A de me dares a criança que vai nascer.

Era tão grande o medo que o homem tinha de perder a mulher que aceitou a combinação proposta pela velha Gothel. E, assim, logo que a criança nasceu, a bruxa foi buscá-la e levou-a para casa. Era uma linda menina, a quem pôs o nome de Maria Rabanete. Conforme ia crescendo, Maria Rabanete ficava cada vez mais bonita. Quando chegou à idade de doze anos, a velha Gothel levou-a a uma floresta muito cerrada, onde havia uma torre alta e estreita, sem qualquer abertura, a não ser uma janelinha mesmo lá no cimo. A bruxa fechou a menina dentro da torre, e foi-se embora. Quando a velha a queria ver, punha-se debaixo da janelinha e chamava:

-Maria Rabanete ! Maria Rabanete ! Solta as tranças !

Maria Rabanete tinha os cabelos muito compridos e tão claros que pareciam fios de ouro. Quando ouvia a velha chamar, a menina soltava as tranças, atava as pontas a uma das colunas da janelinha e deixava-as cair para fora até chegarem ao chão. E a bruxa subia por elas como se fossem cordas, porque as tranças mediam mais de vinte e cinco metros.

Passaram alguns anos. Um dia, o filho do rei, que andava à caça no bosque, passou por acaso ao pé da torre. Então, ouviu um canto tão suave que parou para escutar. Era Maria Rabanete que se entretinha a cantar para não se sentir sòzinha. O filho do rei, encantado com aquela voz tão pura e melodiosa, quis subir até à janela para ver quem cantava tão bem. Mas não conseguiu entrar na torre, nem podia trepar a uma janela tão alta. Voltou para o palácio do pai, mas lembrava-se sempre da voz que tinha ouvido no bosque, e foi lá outra vez. E voltou lá todos os outros dias que se seguiram; e todos os dias ficava a ouvir Maria Rabanete cantar.

Certa manhã em que estava sentado junto de uma árvore para poder escutar melhor, chegou a bruxa que gritou:

- Maria Rabanete ! Maria Rabanete ! Solta as tranças !

E, com grande espanto, o príncipe viu as tranças descerem pela parede abaixo e a velha subir por elas até à janelinha.

"Se é esta a única forma de chegar junto daquela menina - pensou o príncipe -, tenho que fazer o mesmo."

E no dia seguinte, ao anoitecer, chegou ao pé da torre e gritou

- Maria Rabanete ! Maria Rabanete ! Solta as tranças !

Imediatamente as tranças desceram ao longo da parede e o filho do rei subiu até à janelinha. Maria Rabanete sentiu primeiro um grande medo ao ver aquele desconhecido. Mas o príncipe falou-lhe com uma voz tão meiga que a pouco e pouco a menina ficou à vontade. Ele contou-lhe como ficara encantado a primeira vez que a tinha ouvido cantar, e como, a partir daí, sonhava com aquela que vinha ouvir fielmente todos os dias. Por fim, confessou-lhe o desejo que sentira de conhecer a pessoa que fascinava tanto o seu coração.

E disse tudo isto com tanta sinceridade e tanta ternura que Maria Rabanete já não tinha medo nenhum. E quando ele lhe perguntou se queria ser sua esposa, Maria Rabanete, que achou o príncipe muito bonito, não hesitou um instante.

"Com certeza - pensou ela. - Vou ser muito mais feliz junto do príncipe do que junto da velha Gothel." - Ia contigo já de boa vontade - disse ela ao príncipe, pegando-lhe na mão -, mas não tenho forma de sair desta torre. Todos os dias, quando vieres visitar-me, traz-me um novelo de fio de seda. Assim, poderei tecer a pouco e pouco uma corda bastante comprida para poder fugir.

O príncipe continuou a ir ver Maria Rabanete todas as tardes, e o amor que sentiam um pelo outro aumentava a cada instante.

A velha Gothel, que todos os dias visitava a menina, não deu por nada. Mas uma tarde, quando a bruxa chegou junto da janela, Maria Rabanete disse, sem pensar

-Como é possível que leve tanto tempo a subir, quando o filho do rei chega cá acima num instante?

- Ah, maldita ! - gritou a feiticeira, furiosa, entrando na torre. -Quer dizer que me enganaste! Vais pagar caro!

E agarrando nas tranças de Maria Rabanete cortou-as com uma grande tesoura. As lindas tranças loiras caíram no chão, e a bruxa, que podia muito bem passar sem elas, porque viajava pelos ares até onde queria, levou Maria Rabanete para o interior de um deserto muito afastado, e deixou-a lá ficar.

Nessa mesma tarde, a velha voltou à torre e amarrou as tranças à coluna da janelinha. Quando o filho do rei chegou, chamou por Maria Rabanete e Gothel deixou escorregar as tranças até ao chão. O príncipe trepou imediatamente, como de costume,

mas o que viu foi uma bruxa horrível, com uns olhos diabólicos.

- Ah, ah, ah ! - riu a velha -, vens ver a tua namorada? Mas a gaiola está vazia, e nunca mais ouvirás cantar o passarinho ! O gato comeu-o ! Não tornarás a ver a tua Maria Rabanete! Ah, ah, ah ! e ria, ria como uma louca.

O príncipe ficou tão espantado que largou as tranças e foi cair em cima de um arbusto muito espesso, que o livrou de morrer.

Com o desgosto, não se atrevia a voltar ao palácio, e            começou para ele uma vida errante através do bosque. Alimentava-se de raízes e frutos selvagens e bebia na concha da mão a água das nascentes.

E passava os dias a chorar por Maria Rabanete, que nunca mais tornaria a ver.

Passaram-se assim alguns anos. A pouco e pouco, o príncipe encaminhou-se, por acaso, para o deserto onde Maria Rabanete vivia miseràvelmente.

Certo dia, em que errava triste e só naquele deserto, o príncipe ouviu uma voz que lhe pareceu familiar. Aproximou-se e reconheceu logo Maria Rabanete. Ela correu a abraçá-lo, com lágrimas de alegria.

E passado pouco tempo o velho rei podia abraçar novamente o filho, que julgara perdido.

Depois de todas estas aventuras, Maria Rabanete e o príncipe casaram e viveram felizes para todo o sempre.

 

                   O PRÍNCIPE SAPO

Nos tempos antigos em que as fadas lançavam bons e maus feitiços, vivia um rei que tinha várias filhas, todas muito bonitas. Mas a mais nova era ainda mais bonita do que as irmãs, e até o próprio Sol ficava apaixonado por ela cada vez que a tocava com os seus raios.

Perto do castelo do rei estendia-se um bosque, cheio de caminhos frescos e de sombras, onde a princesa passeava nos dias de grande calor. Então, seguia por debaixo das copas das árvores até uma tília junto de uma nascente.

A menina gostava de se sentar à beira da água e, ali, tirava da algibeira o seu brinquedo favorito, uma bola de ouro, que levava sempre consigo, e jogava algum tempo com ela, antes de voltar para o palácio. A princesa queria mais a essa bola do que a qualquer outro brinquedo.

Certo dia atirou a bola de ouro com demasiada força e viu-a cair num buraco muito fundo que a água ao cair abrira no chão. A princesa ainda correu para lá, mas verificou que a bola desaparecera no meio das ervas que nasciam à beira da água. Então, começou a chorar. E chorou tanto, tanto, que parecia que nunca mais acabava.

-Porque choras assim, linda princesa? -disse de repente uma vozinha ali perto. - Com todas essas lágrimas, eras capaz de comover as próprias pedras.

A menina procurou com os olhos quem era que falava, mas só viu um sapo a espreitar com a cabeça fora da água.

- Ah, és tu quem me fala, sapo? - disse ela. - Choro porque a minha bola escapou-me das mãos e caiu no fundo desse buraco.

Limpa as lágrimas - respondeu-lhe o sapo.

Eu posso ajudar-te. Mas que me dás se eu te trouxer a tua bola de ouro?

- Dou-te tudo o que quiseres, meu querido sapo - respondeu a princesa. - Os meus lindos vestidos bordados, os meus colares de pérolas, as minhas pulseiras... e até a coroa de ouro que trago na cabeça.

- E para que me servem os teus vestidos bordados, as tuas pérolas, as tuas pulseiras, e até mesmo a tua coroa de ouro? Em vez disso, casa comigo. O que eu quero é ser o teu companheiro e brincar contigo; quero comer do teu prato e beber do teu copo. E à noite quero dormir na tua cama. Se prometes que me fazes isso tudo, eu mergulho na água e vou à procura da tua bola de ouro.

- Sim, sim ! - exclamou a princesa -, prometo tudo o que quiseres, mas traz-me a minha bola de ouro!

"Não arrisco grande coisa - pensava ela. - Um sapo só pode viver ao pé dos seus semelhantes, perto da água."

O sapo, fiel à sua promessa, nadou até ao fundo da nascente, apanhou a bola e voltou para a margem. Deu dois pulos na direcção da princesa e pôs-lhe a bola aos pés.

Toda contente por voltar a ter a sua bola de ouro, a princesa apanhou-a e correu para o palácio.

- Espera por mim ! - gritou o sapo. - Leva-me contigo ! Não posso correr como tu !

Mas o pobre sapo estava a perder o seu tempo. A menina já ia longe e nunca mais se lembrou do pobre animal, que voltou para a nascente cheio de tristeza.

No dia seguinte, quando todos se sentaram à mesa do palácio para jantar, e a princesa saboreava a comida delicada que tinha no seu prato de ouro, qualquer coisa trepou com dificuldade a escadaria de mármore, fazendo um ruído estranho clic !, clac ! E essa qualquer coisa bateu à porta da sala de jantar e disse:

-Princesa, linda princesa, abre-me a porta!

A princesa correu para a porta e abriu-a. Mas qual não foi o seu espanto ao reconhecer o sapo da nascente. A menina fechou ràpidamente a porta e voltou para o seu lugar, a tremer como varas verdes. O rei percebeu a sua confusão e perguntou-lhe:

Que tens tu, minha filha? Está algum gigante atrás da porta? Tens medo que ele te leve?

- Oh, não ! -respondeu a princesa-, não é nenhum gigante, é apenas um sapo horrível.

-Mas que quer de ti esse animal?

- Que desgraça, pai - exclamou a princesa, rompendo em soluços -, ontem, quando estava a brincar junto da nascente, perdi a minha bola de ouro, que rolou para dentro da água. E como eu chorei muito um sapo disse que a ia buscar, com a condição de ser meu marido. Aceitei porque nunca supuz que isso fosse possível, e o sapo trouxe­-me a bola de ouro. E agora ele está ali à porta e quer entrar.

Nesse momento, ouviu-se de novo o sapo bater e chamar:

- Princesa, linda princesa, abre a porta !

E desta vez o sapo acrescentou:

- Não te lembras do que me prometeste ontem, junto da nascente de água fresca? Princesa, linda princesa, abre a porta !

- Se prometeste, deves cumprir a promessa, minha filha - disse o rei. - Abre-lhe a porta.

A princesa teve que obedecer e o sapo entrou aos saltinhos na grande sala de jantar, e avançou até à cadeira da menina.

- Pega-me -disse então o sapo - e põe-me ao pé de ti, na tua cadeira.

A menina hesitava, mas o rei obrigou-a a fazer o que o sapo dizia. Quando o sapo estava em cima da cadeira, quis subir para a mesa. E assim que se apanhou em cima da mesa, quis que a menina lhe pusesse na frente o prato de ouro e dividisse com ele o seu jantar.

A princesa, cheia de nojo, obedeceu de má vontade e, enquanto o sapo comia com ape­tite, a menina dificilmente conseguia engolir a comida.

- Não tenho mais fome - disse o sapo daí a bocado. - Tenho sono. Leva-me para o teu quarto e mete-me na tua cama.

A filha do rei começou a chorar. Não podia tocar aquele animal viscoso. Só de olhar para ele ficava cheia de repugnância. A ideia, de dormir com o sapo na mesma cama enojava-a.

Vendo isto, o rei ficou furioso.

- Não deves desprezar aquele que te ajudou quando precisavas ! - disse ele. - Obedece !

A princesa teve que vencer a sua repugnância e levar o sapo consigo. Mas pegou-lhe só com o polegar e o indicador, e assim chegaram ao quarto. A princesa pôs o sapo a um canto e meteu-se na cama.

Mas o sapo aproximou-se da cama aos saltinhos e disse:

- Eu também estou cansado, princesa. Quero deitar-me na cama. Chega-te para lá, senão faço queixa ao rei teu pai.

A princesa, furiosa, agarrou no sapo, atirou-o com toda a força contra a parede, e gritou: - já estás satisfeito, bicho nojento?

E mal o sapo bateu na parede transformou-se num lindo príncipe. Olhou para a princesa com os olhos cheios de gratidão e a menina percebeu logo que na sua frente estava o príncipe escolhido pelo pai para casar com ela, e que estivera encan­tado na pele de um sapo.

O príncipe contou-lhe que uma fada má lhe lançara aquele feitiço, de que só podia sair se a filha de um rei aceitasse casar com ele, mesmo sob a forma de sapo.

No dia seguinte, o príncipe resolveu levar a esposa para o seu reino. Disseram adeus ao pai da princesa, e pouco depois chegou um coche puxado por oito cavalos com arreios de ouro e penachos de penas de avestruz brancas. De pé na parte de trás do coche estava Henrique, o criado mais fiel do príncipe.

Quando o seu senhor tinha sido transformado em sapo, o pobre rapaz ficara tão aflito que o coração, inchado pela dor, quase rebentava. Por isso foi preciso amarrar-lhe três anéis de ferro em volta do peito para evitar que isso acontecesse.

E o coche partiu para o reino do jovem prín­cipe. Passadas algumas horas de viagem, ouviu-se um grande estalo.

- O que é isso, Henrique? O coche partiu-se?

- Não, meu senhor - respondeu o fiel criado. - Não foi o coche que se partiu. Foi o meu coração, que ficou tão cheio de alegria pelo vosso regresso que um dos meus anéis de ferro acaba de estalar.

Um pouco mais adiante, ouviu-se outro estalo, e depois outro. Eram os dois últimos anéis de ferro em volta do coração do fiel criado que acabavam de estalar também.

O rapaz estoirava de alegria por ver o seu senhor livre do encanto em que estivera preso.

O que aconteceu a seguir já não me lembro, e a minha avó, que foi quem me contou esta história, também se esqueceu. Mas com certeza que o príncipe e a princesa viveram felizes no seu reino e tiveram muitos filhos.

 

                   PÕE-TE-MESA!

Era uma vez um alfaiate que vivia com os seus três filhos numa casa muito pobre. A única riqueza que possuíam era uma cabra, que não os deixava morrer de fome. Por isso, tinham o maior cuidado com o animal, que os filhos levavam a pastar, um dia cada um.

Certa manhã em que era a vez do mais velho, o rapaz levou a cabra para o adro da igreja, porque a erva era ali mais fresca e tenra. Durante todo o dia, a cabra comeu e saltou no adro. Quando chegou à noite, o rapaz perguntou-lhe:

- Comeste o bastante?

E a cabra respondeu:

-Comi tanto que já não podia engolir nem mais uma erva, méé, méé ! ...

- Então, vamos para casa ! - disse o rapaz. Levou a cabra para o aprisco, amarrou-a muito bem e foi dar as boas-noites ao pai.

- A cabra pastou bastante? - perguntou-lhe o alfaiate.

- Oh, sim, meu pai - respondeu o rapaz. - Trouxe-a mais cedo porque ela já estava satisfeita!

Mas o alfaiate ficou desconfiado, e quis ter a certeza de que o filho falava verdade. Entrou no aprisco, fez uma festa à cabra e perguntou-lhe:

- Comeste hoje o bastante, minha linda cabrinha?

- Méé, méé! - respondeu a cabra. - Só encontrei umas ervas raquíticas para trincar, à beira do caminho ! Não comi nada o bastante !

Furioso, o alfaiate voltou para casa, pegou na barra do metro com que media as fazendas e deu uma valente sova no filho mais velho.

- Mentiroso ! - gritava ele. - Toma lá! Enganaste-me! Rua! Não te quero ver mais nesta casa!

E abrindo a porta de par em par deu um empurrão no filho, o que o fez rolar na poeira da estrada.

No dia seguinte, era a vez do irmão do meio levar a cabra a pastar, e o rapaz conduziu-a até um prado cheio de erva florida. Durante todo o dia, a cabra pastou e saltou no prado. Quando chegou à noite, o rapaz fez o mesmo que o irmão.

- Comeste o bastante? - perguntou ele.

E, tal como acontecera na véspera, a cabra respondeu:

- Comi tanto que já não podia engolir nem mais uma erva, méé, méé ! ...

-Então, vamos para casa! -disse o rapaz.

Levou a cabra para o aprisco, amarrou-a muito bem e foi dar as boas-noites ao pai.

- A cabra já pastou bastante? - perguntou o alfaiate.

- Oh, sim, meu pai - respondeu o rapaz. - Trouxe-a mais cedo porque ela já estava satisfeita!

Mas o alfaiate ficou desconfiado, e quis ter a certeza de que o filho falava verdade. Entrou no aprisco, fez uma festa à cabra e perguntou-lhe

- Comeste hoje o bastante, minha linda cabrinha?

- Méé, méé! - respondeu a cabra. - Só encontrei umas ervas raquíticas para trincar, à beira do caminho ! Não comi nada o bastante !

O alfaiate ficou furioso por ter sido enganado mais uma vez. Pegou no metro e deu uma valente sova no filho.

- Maldito ! - gritava-lhe ele. - Como tens coragem de deixar morrer de fome uma cabra tão meiga? És outro mentiroso como o teu irmão! Não te quero ver mais ! Fora daqui !

E abrindo a porta de par em par deu um empurrão no filho, o que o fez rolar na poeira da estrada.

No terceiro dia, o mais novo dos três rapazes, que não queria descontentar o pai, resolveu levar a cabra para o pé de uns arbustos cheios de folhas, onde ela podia pastar à vontade. Durante todo o dia, a cabra regalou-se a comer as folhas tenras e saborosas. Quando chegou à noite, o rapaz fez o mesmo que os outros dois irmãos, e perguntou:

- Comeste o bastante?

E, mais uma vez, a cabra respondeu:

- Comi tanto que já não podia engolir nem mais uma erva, mée, méé ! ...

- Então, vamos para casa ! -disse o rapaz.

Levou a cabra para o aprisco, amarrou-a muito bem e foi dar as boas-noites ao pai.

- A cabra pastou bastante? -perguntou o alfaiate.

- Oh, sim, meu pai - respondeu o rapaz. - Trouxe-a mais cedo porque ela já estava satisfeita!

Mas o alfaiate não acreditou nem uma palavra do que lhe disse o filho mais novo. E foi ele mesmo ao aprisco interrogar a cabra.

- Então, comeste hoje o bastante, minha linda cabrinha? - perguntou ele, fazendo-lhe uma festa.

- Méé, méé ! - respondeu o mentiroso animal. - Só encontrei umas ervas raquíticas para trincar, à beira do caminho ! Não comi nada o bastante !

- Oh, filho estuporado ! - gritou o alfaiate numa fúria. - É outro igual aos irmãos.

E         correu a casa, pegou no metro e deu uma valente sova no pobre rapaz.

- Vai-te embora, mau filho! - gritava o alfaiate. - Enganaste-me também, como os teus irmãos ! Mereces o mesmo que eles !

E abrindo a porta de par em par deu um empur­rão no filho, o que o fez rolar na poeira da estrada.

O alfaiate estava agora sòzinho com a cabra. Por isso, no dia seguinte, foi obrigado a tratar dela. Desamarrou-a e disse, fazendo-lhe muitas festas:

- Anda, minha linda cabrinha, hoje sou eu quem te leva a pastar.

E conduziu-a para um maciço de arbustos cheios de folhas, como as cabras gostam.

- Regala-te - disse ele. - Tens aqui comida à farta.

Durante todo o dia a cabra pastou e saltou por entre os arbustos.

- Comeste o bastante? - perguntou-lhe o alfaia­te, quando chegou à noite.

- Comi tanto que já não podia engolir nem mais uma erva, méé, méé ! ...

- Então, vamos para casa ! - disse o alfaiate.

Levou a cabra para o aprisco e amarrou-a muito bem.

- Comeste o bastante? - perguntou ele mais uma vez, antes de se ir deitar.

Mas, então, a cabra respondeu como tinha feito nas noites anteriores

- Só encontrei umas ervas raquíticas para trincar, à beira do caminho ! Não comi nada o bastante !

Quando ouviu estas palavras, o alfaiate com­preendeu o seu erro. Tinha chamado mentirosos aos filhos e tinha-os expulso de casa, quando quem mentia era a cabra !

- Espera aí, grande mentirosa ! - gritou ele. - Vais pagar-mas caras ! Cabra maldita !

Foi a correr buscar uma bacia de água, sabão para a barba e a respectiva navalha; ensaboou a cabeça da cabra e rapou-lha à escovinha até ficar sem um único pêlo. Depois pegou num chicote e deu-lhe uma valente sova. Mas a cabra conseguiu partir a corda e fugiu a bom fugir.

O alfaiate ficou completamente sòzinho. Pensava com tristeza nos filhos que deviam andar agora a correr mundo. Sentia umas grandes saudades deles. Mas ninguém sabia onde tinham ido parar.

Ora, o mais velho empregara-se como aprendiz de marceneiro. Depressa aprendeu o seu ofício e quando se despediu do patrão este deu-lhe, em paga dos seus serviços, uma mesinha de madeira branca, de aspecto muito pobre, mas que era de facto uma mesa encantada. Bastava dizer-lhe: «Põe-te-mesa!” para ela se cobrir imediatamente com uma toalha muito limpa, onde aparecia um prato, uma faca, um garfo e um copo cheio até à borda de um vinho palhete que era de chorar por mais. E a acompanhar tudo isto umas poucas de travessas cheias dos petiscos muito apetitosos: carne assada, guisados, saladas frescas ...

Com uma mesa destas, não tenho que me preocupar - pensou o rapaz, carregando com ela às costas. - Posso comer sempre que quiser e não preciso de me hospedar em nenhuma estalagem!"

Efectivamente, à hora das refeições, instalava-se num campo ou na orla de um bosque, punha a mesa na sua frente e dizia

- Põe-te-mesa!

E, num abrir e fechar de olhos, tudo o que ele desejava aparecia, servido com toda a arte.

«Porque não hei-de voltar para casa do meu pai? - pensou ele um dia. -já não deve estar zan­gado, e talvez tenha prazer em ver-me, sobretudo levando eu esta mesa encantada.»

E tomou o caminho da sua aldeia.

Faltavam apenas algumas horas de caminho, mas começou a anoitecer. E decidiu passar a noite numa estalagem que encontrou à beira da estrada. A sala estava cheia de viajantes. Era a hora da ceia e os convivas já estavam sentados à mesa.

- Eh, amigo ! - gritaram eles, com ar alegre. - Vem sentar-te ao pé de nós, senão daqui a pouco não sobra nada para tu comeres!

-Não os quero privar da vossa comida-respondeu o rapaz, agradecendo. - Além disso, trago aqui às costas com que dar de comer a toda a gente. Sou eu quem os convida!

Todos pensaram que ele estava a brincar, e começaram a rir. Mas, sem lhes responder, o rapaz pôs a mesa mesmo no meio da sala e disse:

- Põe-te-mesa!

Imediatamente a mesa cobriu-se dos pratos mais apetitosos, que deitavam um cheiro de fazer crescer água na boca aos convivas espan­tados.

O próprio estalajadeiro nunca tinha visto cozi­nhados tão bem feitos.

- Aproximem-se à vontade - disse o jovem marceneiro. - Sirvam-se. Não façam cerimónia, meus amigos.

Depois de lhes passar o primeiro espanto, os convivas sentaram-se à mesa. Tudo o que comeram estava delicioso, mas o mais extraordinário era que por mais numerosos que eles fossem os pratos estavam sempre cheios. Mal acabavam de comer, enchiam-se de novo.

O estalajadeiro olhava para aquilo tudo pelo canto do olho.

«Talvez fosse bom contratar este rapaz para cozinheiro - pensava ele. - Já não gastava dinheiro para dar de comer aos meus fregueses!»

O marceneiro e os convidados passaram serão alegre, que se prolongou pela noite dentro. Quando se foram deitar, o rapaz levou a mesa para o quarto, colocou-a a um canto, meteu-se na cama e adormeceu profundamente.

O estalajadeiro também se tinha deitado. não conseguia dormir, a pensar naquela mesa encantada.

"Se eu a pudesse apanhar ! -dizia ele consigo. - Ah, mas agora me lembro de que tenho no sótão uma exactamente igual. Essa não é mágica, mas vai prestar-me um grande serviço!»

Sem fazer barulho, levantou-se, subiu ao sótão para ir buscar a mesa e colocou-a no lugar da outra sem que o marceneiro acordasse. No dia seguinte, de manhã, o rapaz pagou a conta e partiu da esta­lagem. Levava às costas uma mesa que ele julgava mágica, e seguia depressa. Chegou a casa do pai antes do meio-dia. O velho alfaiate recebeu-o com satisfação.

-Estou muito contente por tornar a ver-te, meu filho - disse ele. - Que fizeste durante todo este tempo?

-Aprendi o ofício de marceneiro, meu pai.

-Ainda bem. Mas que trazes aí? Não se pode dizer que seja uma mesa muito boa!

- Talvez, mas é uma mesa encantada. Basta dizer-lhe: «Põe-te-mesa!» para ficar imediatamente coberta dos pratos mais delicados. Vamos convi­dar os nossos parentes e amigos. Quero oferecer um grande jantar a todos, para festejar o meu regresso.

O alfaiate achou uma boa ideia e reuniu os convidados. Então, o rapaz pronunciou as palavras mágicas mas a mesa ficou vazia como outra mesa qualquer. Qual não foi o desespero do marceneiro quando percebeu que lhe tinham trocado a sua rica mesa encantada por um simples móvel de madeira branca ! A ideia de tornar a passar por mentiroso aos olhos do pai e dos convidados encheu-o de vergonha. E todos se foram embora de barriga vazia, fazendo troça dele.

O pobre alfaiate, que julgara poder abandonar o trabalho, teve de pegar outra vez na agulha, enquanto o filho mais velho arranjava emprego noutro marceneiro. O rapaz perguntava a si próprio que seria feito dos irmãos.

Ora, o filho do meio, depois de ser expulso da casa paterna, entrara como aprendiz ao serviço de um moleiro. Ao fim de um ano de trabalho, despediu-se do patrão.

- Serviste-me sempre bem - disse o moleiro. - Por isso, quero dar-te uma recompensa. Leva este burro. Não presta para puxar uma carroça nem para carregar um saco de farinha, mas vai ser-te muito útil.

- Como? - perguntou o rapaz, intrigado.

- Fica sabendo - respondeu-lhe o patrão - que se lhe puseres um pano debaixo das patas e lhe disseres: "Burri, burri!", ele começa a deitar moedas de ouro pela frente e por detrás.

"Mas que rica coisa!", pensou o rapaz, que agradeceu ao patrão e se foi embora com o burro.

A partir daquele momento, nunca mais se ralou. Tinha tudo quanto queria; trazia a bolsa sempre cheia de dinheiro, porque bastava-lhe estender um pano debaixo das patas do burro e dizer: "Burri, burri!" para lhe cair aos pés uma verdadeira chuva de moedas de ouro. Depois, era só abaixar-se para as apanhar.

"E se eu voltasse para casa do meu pai?” - perguntou a si próprio o jovem moleiro passado algum tempo. - Quando vir um burro assim, vai esque­cer tudo e não deixará de me receber.»

E meteu-se a caminho. Na última noite da jornada, passou por acaso pela estalagem onde tinham roubado a mesa ao irmão. E o moleiro resolveu parar ali. Dirigiu-se directamente à cava­lariça, e disse ao estalajadeiro, que queria conduzir­-lhe o burro

- Eu trato disso, amigo ! Quero ser eu próprio a levar este animal para a cavalariça e ver se fica bem instalado. O meu burro tem demasiado valor para que eu o confie a outra pessoa qualquer.

O estalajadeiro pensou para consigo que aquele viajante devia ser muito pobre para dar tanta impor­tância a um burrico tão miserável. Mas mudou logo de opinião quando viu as duas moedas de ouro que o rapaz lhe apresentou, dizendo

-Vai e prepara-me a melhor comida que tive­res. Quero uma boa ceia.

Depois da ceia, o moleiro quis saber se ainda devia alguma coisa. E o estalajadeiro, que viu uma boa ocasião de tirar proveito do rapaz, pediu-lhe mais duas moedas de ouro. Como o moleiro já lhe tinha dado as duas últimas moedas que trazia no bolso, disse:

-Espera um momento. Vou buscar o di­nheiro.

Pegou no pano, dirigiu-se à cavalariça e fechou a porta. Mas o estalajadeiro seguiu-o às escondidas. Espreitou pelo buraco da fechadura e viu o seu hóspede desdobrar o pano. Depois ouviu-o dizer:

- Burri, burri !

Imediatamente o burro começou a soltar moedas pela frente e por trás, que parecia que nunca mais acabava !

- Por alma dos meus tachos e das minhas caça­rolas ! - murmurou o estalajadeiro -, aqui está um dinheiro ganho com facilidade. Uma mina de ouro assim não é para deitar fora.

E quando o moleiro pagou a conta e se foi deitar, o estalajadeiro correu à cavalariça e substituiu aquele tesouro de quatro patas por um burro vulgar, muito parecido com o outro.,

No dia seguinte, de manhã, o rapaz dirigiu-se à cavalariça, desamarrou o burro, julgando que era o dele, e partiu. E depressa chegou a casa do pai, que o recebeu com alegria.

- Ah, ainda bem que voltaste, meu filho! - disse o alfaiate. - Fico muito contente por tornar a ver-te. Que fizeste durante todo este tempo?

- Aprendi o ofício de moleiro, meu pai.

- É um bom ofício. E trazes algumas economias?

- Só trago um burro - respondeu o rapaz.

- E para que precisamos nós de um burro? - disse o alfaiate. - Outra cabra fazia-nos muito mais arranjo.

- Evidentemente - continuou o moleiro -, mas não se trata de um burro qualquer. Este fabrica ouro ! Basta dizer-lhe : "Burri, burri !" para ele começar a deitar moedas por trás e pela frente. Vamos reunir os nossos parentes e amigos: quero que fiquem todos ricos.

- Louvado seja Deus ! - exclamou o alfaiate. - Até que enfim vou poder deixar de trabalhar !

E com estas palavras foi convidar a parentela toda.

Quando estavam todos reunidos, o rapaz estendeu o pano no chão e foi buscar o burro.

- Olhem bem ! - gritou ele. E acrescentou : - Burri, burri !

Mas não se passou nada. Não caiu no chão nem uma moeda de ouro. O burro não obedeceu às palavras mágicas, como um bom burro que era. Então o moleiro compreendeu que tinha sido roubado, e ficou com uma cara muito aflita. Teve que pedir desculpa aos parentes, que se foram embora tão pobres como dantes.

O alfaiate pegou outra vez na agulha, e o rapaz foi trabalhar com outro moleiro.

Mas, entretanto, que aconteceu ao mais novo dos três rapazes? Tinha arranjado trabalho num torneiro de madeira. E, como esta profissão exigia mais cuidado e jeito que a dos irmãos, a sua aprendizagem levou mais tempo. Mandou notícias aos irmãos e eles escreveram-lhe a contar a sua desgraça. Explicaram-lhe que o estalajadeiro em casa de quem tinham passado a sua última noite da viagem de regresso os tinha intrujado roubando-lhes os seus tesouros mágicos.

Quando chegou a altura do jovem torneiro se despedir do patrão este, que sempre ficara contente com os seus serviços, deu-lhe um saco com uma enorme moca dentro.

- Ora esta, patrão ! - disse o rapaz. - O saco vai ser-me útil, e vou levá-lo às costas, mas para que me oferece esta moca que só serve para fazer peso?

- É que tu não sabes, rapaz - disse-lhe o tor­neiro -, que esta moca não é como outra qualquer. Se alguém te fizer mal, basta dizeres: «Moca, sai do saco!» e a moca prega-lhe uma valente mocada, que o deixa tolhido para oito dias ! A moca só sossega quando lhe disseres : «Moca, vai para o saco»!

O nosso amigo agradeceu ao patrão e foi-se embora, com o saco às costas. Sempre que alguém se metia com ele, dizia: «Moca, sai do saco!» e a moca desatava a bater com toda a força, para a direita e para a esquerda, e mais ninguém o maçava.

O jovem torneiro acabou por encontrar a estalagem onde os irmãos tinham sido roubados dos seus bens. Entrou, sentou-se a uma mesa, pôs

o saco na sua frente e começou a contar todas as coisas extraordinárias que tinha visto durante a sua viagem pelo mundo.

- Entre outras coisas, vi mesas encantadas que se enchiam de comida, burros que fabricavam ouro e maravilhas semelhantes. Mas tudo isso não passa de bagatelas ao pé do tesouro que ganhei e que trago aqui neste saco !

O estalajadeiro pôs-se à escuta.

«Que terá este saco dentro? - perguntava ele a si próprio. - Certamente um montão de pedras preciosas. Juro que também será meu. Não há dois sem três.»

Já era tarde. O viajante estava cheio de sono e deitou-se num banco pondo o saco debaixo da cabeça a fazer de almofada. Quando o estalajadeiro teve a impressão de que o seu hóspede dormia profundamente aproximou-se pé ante pé do saco

e puxou-lhe devagarinho por uma ponta. Tencio­nava mais uma -vez substitui-lo por outro igual, para se apoderar do tesouro que ele tinha dentro.

O torneiro esperara aquele momento cheio de impaciência. Pelo canto do olho estava a ver o que o estalajadeiro fazia e, quando ele se preparava para puxar o resto do saco, murmurou:

- Moca, sai do saco !

Imediatamente a moca saiu do saco e começou a bater desalmadamente nas costas do estalajadeiro.

O homem gritava com as dores, mas quanto mais gritava mais a moca batia, cada vez com mais força.

- Restitui-me a mesa encantada e o burro que fabrica ouro - disse o torneiro -, senão apanhas mais !

-Leva tudo, pelo amor de Deus -gritava o estalajadeiro'-, mas pára-me esta moca! Já não posso mais !

- Combinado ! Vou fazê-la parar, mas tens que cumprir a tua palavra.

E o torneiro mandou a moca para dentro do saco.

No dia seguinte, chegou a casa do pai levando a mesa e o burro. E o alfaiate ficou muito contente por o ver.

-Que fizeste durante todo este tempo? - perguntou ele.

-Aprendi o oficio de torneiro, meu pai - respondeu o rapaz.

- É um bom oficio ! - exclamou o pai. - Tenho então um filho artista ! Mas, que trazes dentro desse saco?

- É um objecto muito valioso - respondeu o filho. - Uma moca.

- O quê?! - exclamou o pai. - Uma moca?! Valeu a pena! Isso podes tu fazer com um ramo de árvore qualquer !

- Mas esta moca não é uma moca vulgar - respondeu o jovem. -Basta dizer: "Moca, sai do saco!” para ela pregar uma sova em quem se meter comigo e fazê-lo dançar na corda bamba. Veja, pai. Graças a esta moca, recuperei a mesa encantada e o burro que fabrica ouro que o patife do estalajadeiro tinha roubado aos meus irmãos. Chame-os e convide todos os nossos parentes. Quero oferecer-lhes uma ceia e enchê-los de riquezas.

O velho alfaiate ainda hesitou, mas acabou por se deixar convencer, e daí a pouco estava toda a família reunida.

Então, o jovem torneiro estendeu o pano no chão, puxou o burro para cima dele e disse ao irmão:

- Agora é a tua vez de falares.

O moleiro disse: "Burri, burri!" e o pano ficou imediatamente coberto por uma chuva de moedas de ouro. O burro só parou quando estavam todos ricos. Que bom, se todos os burros fossem assim, não é verdade?

Depois, o torneiro pôs a mesa no meio da casa e disse ao irmão mais velho

- Meu querido irmão, agora é a tua vez.

E mal o carpinteiro pronunciou: "Põe-te-mesa!, a mesa ficou coberta das comidas mais variadas e dos melhores vinhos. Depois, todos comeram e beberam à farta, e fez-se uma paródia em casa do alfaiate como nunca tinha havido outra, até altas horas da noite. É escusado dizer que estavam todos radiantes.

O alfaiate arrumou de uma vez para sempre as agulhas, linhas, o metro e o ferro de engomar. E viveu na abundância com os seus três filhos.

E a cabra? Afinal, tinha sido ela a causa de tudo. Que lhe aconteceu?

A cabra não estava nada contente por ter a cabeça rapada. Por isso, escondeu-se no primeiro buraco que encontrou. Era a toca da raposa Ruiva, e quando esta quis entrar em casa qual não foi o seu espanto

ao ver dois grandes olhos a brilhar no escuro! E fugiu a sete pés.

- Onde vais a correr com tanta pressa? - per­guntou-lhe o Urso Pardo. - Parece que viste o diabo. Que te aconteceu?

- Ah, meu amigo - disse a raposa -, não posso entrar em casa. Um monstro com os olhos em brasa resolveu ir para lá morar, e não me atrevo a pô-lo fora.

- Vamos lá os dois - propôs o urso.

Mas assim que chegou à entrada da toca, recuou também cheio de medo ao ver os olhos da cabra a brilhar.

- Vamos embora ! - grunhiu o urso, que perdeu toda a coragem à vista daquele espectáculo horrível.

E deu meia volta e desatou a fugir.

-Onde vais a correr com tanta pressa? - per­guntou-lhe a abelha. - Pareces muito atrapalhado. Que te aconteceu?

- Está um monstro horrível na toca da Raposa Ruiva, e não sabemos o que fazer para o tirar de lá.

-Que grandes parvos que vocês são ! -disse a abelha. - Eu não passo de um insecto, mas vou salvá-los.

Voou até à toca da raposa, entrou sem hesitações, e picou com tanta força a cabeça rapada da cabra que ela teve que se deitar a fugir, balindo de dor.

E nunca mais ninguém a tornou a ver.

 

                   O REI QUEIXO-DE-RABECA

Havia um rei que tinha uma filha extraordinàriamente bonita, mas a princesa era tão vaidosa e arrogante que o pai ainda não tinha conseguido casá-la. Nenhum pretendente lhe servia, e não se contentava em os recusar com desdém, como ainda os cobria de ridículo.

Certo dia, o rei deu uma grande festa e convidou todos os nobres da região e dos países vizinhos que aspiravam à mão da sua filha. Estavam ali os homens mais bonitos, mais ricos e mais valentes de todos os reinos. E, todavia, a princesa só teve para eles palavras de desprezo e de troça.

- Ah, este parece um guarda-fato ! - exclamou ela perante um rei de grande estatura. - E este é tal e qual um fósforo! - disse a princesa a respeito de um duque muito alto e magro. - Olhem para aquela pipa ! - disse ela ainda, quando viu um príncipe baixo e um pouco gordo. - Branco como um lençol ! - riu ela, quando se aproximou outro nobre um bocado pálido. - E aquele pimentão? - comentou ela a respeito do quinto, que era muito corado. - Em compensação aquele ainda está verde, e já não presta! - exclamou perante um jovem de rosto cansado.

A princesa gracejava assim com as imperfeições de cada um sem dó nem piedade. Mas a maior vítima dos seus sarcasmos foi um pobre rei que estava na ponta da fila de pretendentes e que tinha o queixo ligeiramente curvo.

-Ah! Ah ! -troçou ela-, olhem para aquele queixo. É mesmo um queixo de rabeca ! E tantas vezes repetiu o dito que a partir daí aquele rei ficou com a alcunha do Queixo-de-Rabeca.

O pai da princesa estava muito aborrecido por ver a maneira como a filha fazia pouco de todos aqueles pretendentes escolhidos entre a flor da

nobreza. E o seu desagrado foi tão grande que jurou dar a mão da filha ao primeiro mendigo que se apresentasse no palácio.

Dois dias depois da festa, veio um pobre músico tocar debaixo das janelas do castelo e o rei mandou-o subir. O pobre músico entrou, coberto de farrapos e poeira. Cantou para o rei e para a princesa e, quando acabou, pediu uma esmola.

- Gostei tanto de te ouvir - disse o rei - que te quero dar a minha filha em casamento.

A princesa olhou para o pai, cheia de terror.

- Jurei que dava a tua mão ao primeiro mendigo que aparecesse - declarou o rei - e quero cumprir a minha palavra.

A princesa lançou-se aos pés do pai e pediu-lhe que não a obrigasse a tal castigo, mas o rei foi inflexível.

E mandou vir um padre, que os casou imediatamente.

- Agora o teu lugar já não é aqui - disse então o rei à filha. - A mulher de um mendigo não tem nada a fazer num palácio. Só te resta seguir o teu marido.

O mendigo agarrou na mão da mulher e levou-a para fora do castelo. Não havia nenhum coche à espera deles, e a princesa teve que seguir o marido a pé. Passado algum tempo, chegaram a uma grande floresta. E a princesa começou a gemer:

- Oh, que linda floresta ! Não pertence ao rei Queixo-de-Rabeca? Se eu o tivesse querido desposar, também seria minha ! Ai, que desgraçada que eu sou! Porque foi que não casei com ele?

Depois de atravessarem a floresta, foram ter a um prado verde. E a princesa tornou a gemer

- Oh, que lindo prado verde ! Não pertence ao rei Queixo-de-Rabeca? Se eu o tivesse querido desposar, também seria meu! Ai, que desgraçada que eu sou! Porque foi que não casei com ele?

A seguir, atravessaram uma grande cidade, e a princesa tornou a gemer

- Oh, que linda cidade ! Não pertence ao rei Queixo-de-Rabeca? Se eu o tivesse querido desposar, também seria minha ! Ai, que desgraçada que eu sou! Porque foi que não casei com ele?

- Já estou farto das tuas lamúrias ! - gritou o mendigo. - Não te quero ouvir tornar a lamentar por não teres casado com outro. Não sou um bom marido?

Continuaram a caminhar em silêncio e acabaram por chegar a uma cabana miserável. A princesa começou a lamentar-se.

- Oh, meu Deus! Que cabana tão pequena! Quem pode morar em tão pouco espaço?

-Esta é a nossa casa -respondeu o mendigo. - Minha e tua. É aqui que vamos viver os dois !

A porta era tão baixa que a princesa teve que se curvar para poder passar por ela.

- Onde estão os nossos criados? - perguntou ela ao marido.

- Que criados? - disse o mendigo. - Tu é que vais fazer o trabalho todo. Acende já o lume e põe água a aquecer para fazer o jantar. Estou cansado e cheio de fome.

Mas a princesa não sabia acender o lume nem preparar uma refeição, de forma que o mendigo teve que a ajudar a fazer tudo. Comeram muito pouco e, logo a seguir à pobre refeição, foram-se deitar. No dia seguinte, de manhã, o mendigo acordou a mulher muito cedo para ela tratar da lida da casa.

E viveram assim durante alguns dias. Depois os mantimentos começaram a faltar.

- Mulher -- disse o mendigo -, isto não pode continuar assim. Daqui a pouco não temos que comer. Vais fazer alguns cestos e depois vais vendê-los ao mercado.

O marido foi cortar umas quantas varas de salgueiro e levou-as para casa. A pobre princesa tentou entrançar as varas, mas só conseguiu ferir os dedos.

-Vejo que não sabes fazer cestos - disse o homem. Vou buscar linho. Talvez tenhas mais jeito para fiar.

A mulher meteu-se ao trabalho, mas o fio grosseiro cortou-lhe os dedos, e daí a pouco tinha as mãos em sangue.

- Fiz mau negócio quando te aceitei para mulher - disse o mendigo. - Não serves para nada. Que pouca sorte a minha! Vamos fazer outra experiência. Quero tentar a venda de loiça de barro. Vais ao mercado e basta-te esperar pelos fregueses.

-Ai -disse a princesa-, e se algum dos habitantes do reino do meu pai passa por lá e me vê sentada a vender tachos, o que se vai rir de mim?

Mas não teve mais remédio senão obedecer.

Na primeira vez, tudo correu bem. As pessoas preferiam comprar àquela vendedeira, porque era nova e bonita, e assim ganhou muito dinheiro.

O mendigo e a mulher viveram desse lucro todo o tempo que puderam. E, quando o dinheiro se acabou novamente, o homem arranjou mais loiça de barro e a mulher voltou ao mercado. Sentou-se à esquina de uma rua e espalhou a mercadoria em seu redor.

Mas, de repente, um cavaleiro entrou na praça do mercado, a todo o galope. Sem poder parar o cavalo, atirou-se para cima dos tachos da mulher e quebrou-os todos. Perante tal desgraça, a princesa começou a chorar.

- Que vai ser de mim? - soluçava ela. - Que vai dizer o meu marido?

E foi-se embora a correr para casa e contou-lhe tudo.

- Mas que ideia foi essa de te pores à esquina de uma rua para vender tachos? - gritou o mendigo. - Acaba com essas lágrimas ! Estou a ver que não és capaz de fazer nada como deve ser. Fui ao castelo do nosso rei e perguntei se não precisavam de uma ajudante de cozinha. Disseram que sim. Pagam-te em comida.

E, assim, a princesa foi para ajudante de cozinha. Tinha que fazer as tarefas mais repugnantes e como única paga recebia os restos da comida. Metia-os dentro de dois tachos que levava nas algibeiras e, à noite, ceava com o marido, o que tinha ganho.

Ora, aconteceu que houve uma grande festa para celebrar o próximo casamento do rei e a pobre princesa deixou a cozinha e foi espreitar a uma das portas para ver alguma coisa.

Quando todas as velas estavam acesas e começaram a chegar os convidados ricamente vestidos, a princesa pensou com tristeza na sua pouca sorte. Amaldiçoou o seu orgulho e arrogância que a tinham levado a tanta miséria.

Deram-lhe alguns bocados das iguarias que andava a servir e que cheiravam que era um regalo. Ela meteu-os nos tachos que trazia nas algibeiras

para as levar para casa. Depois, foi outra vez pôr-se à porta.

De repente, apareceu o rei com um sumptuoso traje de seda e de veludo e uma pesada cadeia de ouro ao pescoço. Quando viu a linda mulher encostada a uma das portas, pegou-lhe na mão e quis levá-la para dentro do salão para dançar com ela. Mas a princesa recusou com todas as suas forças, tanto mais que acabava de o reconhecer como o    rei Queixo-de-Rabeca, de quem fizera tanta troça noutros tempos.

Mas foi escusado resistir, porque ele não a largou, e daí a pouco estavam no meio da sala. Então, a fita do avental rebentou e os dois tachos caíram no chão, espalhando a sopa e os bocados de carne que tinham dentro. Foi uma gargalhada geral, e os ditos surgiram de todos os lados.

Cheia de vergonha, a princesa 'desejava meter-se pelo chão abaixo. Saiu a correr e ia fugir para a cozinha. Mas apareceu-lhe na frente um homem. Era outra vez o rei Queixo-de-Rabeca, que a tinha ultrapassado. Mas desta vez falou-lhe com doçura.

-Não tenhas medo -disse ele-, o mendigo com quem viveste miseràvelmente e o rei que tens na tua frente são uma e a mesma pessoa. E o cavaleiro que te partiu os tachos também era eu. Foi por te amar tanto que tomei esses disfarces. Só procedi assim para quebrar o teu orgulho e a tua falta de caridade.

Então a princesa desatou em soluços.

- Procedi muito mal - disse ela - e não mereço ser tua esposa.

Mas o rei respondeu:

- És, sim, agora mereces. Acabaram-se os teus trabalhos. Vamos finalmente poder festejar as nossas bodas.

Umas poucas de aias rodearam a princesa e lavaram-na, para a vestir com os trajes de rainha.

E o velho rei seu pai, acompanhado por toda a corte, tomou parte nos festejos, desejando muitas felicidades aos dois esposos.

E começou a festa. Não me importava nada de lá estar, e tu também, não é verdade?

 

                   OS ANÕEZINHOS SAPATEIROS

Vitimas da pouca sorte, um sapateiro e a mulher encontraram-se na maior miséria. Estavam tão pobres que só tinham o cabedal necessário para fazer um par de sapatos.

Nessa noite, o sapateiro cortou o último par de sapatos e pôs em cima da banca as peças para coser no dia seguinte.

Depois, como era um bom homem, honesto e simples, fez as suas orações, pediu a Deus que o ajudasse no futuro, deitou-se e adormeceu.

No dia seguinte, de manhã, quando se dirigiu à banca para acabar o trabalho, encontrou um par de sapatos prontos no sitio em que deixara os bocados que tinha cortado.

Pegou neles e examinou-os, maravilhado: eram os sapatos mais bonitos que se possam imaginar, cosidos com tanta perfeição que não se via um único ponto fora do seu lugar !

O sapateiro ainda estava a olhar para os sapatos quando entrou um freguês. Viu os sapatos e achou-os

tão bonitos que os comprou logo, pagando-os por bom preço.

Com aquela quantia, o sapateiro pôde comprar bastante cabedal para fazer dois pares de sapatos. Cortou-os ao serão e, no dia seguinte, quando ia acabar a obra, encontrou novamente os sapatos prontos.

Vendeu-os tão bem como os da véspera e pôde comprar bastante cabedal para fazer mais quatro pares. Tornou a cortá-los à noite e a encontrá-los prontos no dia seguinte.

Aconteceu o mesmo todos os dias, até que o sapateiro já tinha ganho o suficiente para viver sem dificuldades.

Certa noite, perto do Natal, quando o bom do homem já cortara o cabedal e o pusera como de costume em cima da banca, a mulher, a quem ele tinha contado tudo, propôs-lhe que ficassem toda a noite acordados para ver quem os estava a ajudar daquela maneira.

O sapateiro achou a ideia boa. E, deixando a candeia acesa, esconderam-se ambos no quarto do lado, e esperaram.

Quando o relógio começou a bater a meia-noite a porta abriu-se devagarinho e entraram dois anões, muito bonitos, completamente nus.

Instalaram-se em frente da banca, pegaram nos bocados de cabedal já cortados e começaram a cosê-los com tanta habilidade que o sapateiro e a mulher não cabiam em si de espanto.

E os anõezinhos não pararam de trabalhar até a obra estar pronta. A seguir, puseram os sapatos em cima da banca e desapareceram.

Então, a mulher do sapateiro disse ao marido

-Estes anõezinhos tiraram-nos da miséria vamos recompensá-los. Reparaste que estavam completamente nus? Vou fazer uma camisa, um colete, uns calções e um par de peúgas para cada um.

- E eu -disse o homem - faço um par de sapatos para cada um.

Na véspera de Natal estava tudo pronto.

E, nessa noite, em vez de colocar em cima da banca, como de costume, os bocados de cabedal cortados, o sapateiro e a mulher deixaram ali os seus presentes.

Depois esconderam-se e esperaram para ver o que se passava.

À meia-noite, os anõezinhos chegaram, aos pulos e às cambalhotas, dispostos a meter mãos ao trabalho.

Mas em vez dos bocados de cabedal encontraram as roupas feitas ao tamanho deles.

Primeiro ficaram muito espantados. Mas depois saltaram de alegria, e vestiram-se enquanto dançavam e cantavam, todos satisfeitos:

Que bonitos estamos dentro destes fatos.

Nunca mais tornamos a fazer sapatos!

E dançaram, dançaram, em cima da banca, dançaram em cima da cadeira, e quando saíram ainda iam a dançar.

A partir dessa noite, nunca mais ninguém os viu. Mas, enquanto o sapateiro viveu, fez sempre bons negócios, e teve sorte em tudo em que se meteu.

 

 

                   NEVE-BRANCA E ROSA-RUBRA

Uma pobre viúva vivia sòzinha com as duas filhas, numa casa rodeada por um pequeno jardim.

Nesse            jardim cresciam duas roseiras, uma branca, outra vermelha, e as duas meninas eram tão brancas e coradas como as rosas da roseira. Por isso, a mãe tinha-lhes posto os nomes de Neve-Branca e Rosa-Rubra. Eram duas meninas bondosas e obedientes, e muito mais trabalhadoras do que qualquer criança da sua idade.        

Pareciam-se em tudo, mas Neve-Branca era talvez mais meiga e sossegada do que a irmã. Rosa-Rubra gostava de correr pelo campo para apanhar flores e assustar os pássaros nos ninhos. Entretanto, Neve-Branca ajudava de boa vontade a mãe nos trabalhos da casa e sentava-se ao pé dela a ler quando tudo estava pronto.

As duas meninas eram muito amigas uma da outra, e saíam sempre juntas, de mãos dadas.

- Nunca nos havemos de separar - dizia Neve-Branca.

- Não, nunca, enquanto vivermos - respondia Rosa-Rubra.

E quando as ouvia dizer isto a mãe acrescentava:

- Tudo quanto tiverem, dividam-no sempre uma com a outra.

Neve-Branca e Rosa-Rubra iam muitas vezes à floresta apanhar frutos selvagens e os animais nunca lhes faziam mal. Pelo contrário, aproximavam-se delas confiadamente. A lebre vinha comer-lhes à mão, o cabrito pastava ali mesmo ao pé, o veado brincava alegremente em seu redor e as aves, empoleiradas nos ramos das árvores, cantavam para elas ouvirem. E nunca lhes acontecia mal nenhum. Quando se demoravam mais na floresta e chegava a noite, deitavam-se ambas no musgo e dormiam até de manhã. A mãe sabia isso e não ficava preocupada.

Certa vez em que tinham passado assim a noite na floresta acordaram ao nascer do Sol e viram, sentado junto delas, um lindo menino, todo vestido de branco. Ao vê-las acordadas, o menino levantou-se em silêncio, olhou para elas com uns olhos muito meigos e desapareceu na floresta.

Quando se puseram de pé, Neve-Branca e Rosa-Rubra descobriram que tinham dormido à beira de um precipício onde teriam certamente caído se na véspera avançassem mais um passo no meio da escuridão.

A mãe explicou-lhes que o pequeno ser misterioso era com certeza um daqueles anjos bons que protegem as crianças de coração puro.

Neve-Branca e Rosa-Rubra tinham a cabana sempre tão limpa que dava gosto entrar nela. No Verão, era Rosa-Rubra quem tomava conta da casa, e todas as manhãs, antes de a mãe acordar, punha-lhe na mesa de cabeceira um ramo em que havia sempre uma rosa de cada uma das roseiras. No Inverno, era Neve-Branca quem acendia o lume e pendurava a panela no gancho da chaminé. A panela era de cobre, mas estava tão bem areada que luzia como ouro.

Nas tardes de Inverno, quando a neve caía em grandes flocos, a mãe pedia a Neve-Branca que trancasse a porta. Depois, sentava-se à lareira, punha os óculos, abria um grande livro e lia para as filhas. As duas meninas escutavam-na enquanto fiavam.

A seus pés estava deitado um carneirinho, e uma rola branca dormia no poleiro, com a cabeça debaixo da asa.

Uma tarde em que as duas irmãs estavam sentadas uma ao pé da outra, como de costume, bateram à porta.

- Rosa-Rubra - disse a mãe -, vai abrir depressa. É com certeza algum viajante que pede abrigo.

Rosa-Rubra tirou a tranca da porta e abriu-a. E quando esperava ver um homem apareceu-lhe um grande urso, que parecia querer entrar. Rosa-Rubra deu um grito e saltou para trás. O carneirinho começou a balir, a rola levantou voo e Neve-Branca foi a correr esconder-se debaixo da cama da mãe. Então, o urso começou a falar.

- Não tenham medo - disse ele -, que não lhes faço mal. Estou quase morto de frio e só venho aqui pedir para me deixarem aquecer.

- Entra, meu pobre urso - disse a mãe. - Aproxima-te do lume e tem cuidado para não queimares os pêlos do corpo.

A seguir, chamou as filhas.

- Neve-Branca ! Rosa-Rubra ! -gritou ela. - Venham cá. O urso já prometeu que não lhes faz mal.

Então, as duas meninas saíram do seu esconderijo e aproximaram-se sem receio. O carneirinho e a rola acabaram por se acalmar também.

-Minhas lindas meninas -pediu o urso-, sacudam-me a neve das costas.

As duas irmãs pegaram cada uma numa vassoura e limparam muito bem a pele do urso. E ele deitou-se junto do lume, rosnando de satisfação. Daí a pouco, Neve-Branca e Rosa-Rubra estavam completamente à vontade. Puxavam as orelhas ao seu hóspede bonacheirão, faziam-lhe festas no lombo, punham-lhe os pés em cima, faziam-no dar cambalhotas e até lhe davam pequenas pancadas com uma vara de vime. O urso rosnava e as meninas riam. Deixava-as fazer o que lhes vinha à cabeça, mas se batiam com um pouco mais de força, dizia:

- Eh, cuidado, meninas ! Não dêem cabo de mim. Neve-Branca e Rosa-Rubra tenham pena de um pobre animal como eu.

Quando chegou a hora de todos irem dormir, a mãe disse ao urso

- Graças a Deus que podes ficar aqui junto do lume, ao abrigo do frio e do mau tempo.

Assim que amanheceu, as meninas levantaram-se e correram para fora de casa. O urso seguiu-as, e depois meteu-se na floresta.

A partir daí, voltava todas as noites à mesma hora, deitava-se junto da lareira e deixava as duas meninas brincarem com ele o tempo que lhes apetecesse. Habituaram-se de tal forma ao urso que ninguém fechava a porta antes daquele amigo peludo chegar.

Com a Primavera e o rebentar das folhas novas, certa manhã o urso disse a Neve-Branca

- Agora tenho de partir. E não volto durante todo o Verão.

-Mas para onde vais tu, querido urso? - perguntou a menina.

-Tenho que voltar à floresta para guardar o meu tesouro. Os anõezinhos maus que lá vivem querem tirar-mo. No Inverno, quando a terra está coberta de gelo, não podem sair com facilidade dos seus subterrâneos e não incomodam ninguém. Mas assim que o Sol aquece a terra e a deixa a descoberto, abrem um túnel, saem cá para fora e deitam a mão a tudo quanto podem roubar. Os tesouros que acumularam no fundo das cavernas onde vivem não tornam a ver a luz do dia.

Neve-Branca ficou muito triste por ver partir o seu amigo. Depois de a tranca estar tirada e a porta aberta, o urso saiu. Mas quando ia a passar feriu-se num prego da porta e deixou lá ficar um bocadinho da pele. Neve-Branca teve a impressão de que o interior da pele era de ouro.

O urso partiu a correr e desapareceu num instante por entre as árvores.

Passados alguns dias, a mãe mandou as filhas à floresta apanhar lenha para o lume. Numa clareira, descobriram uma grande árvore cortada e qualquer coisa muito estranha que dava pulos em volta dela. Mas não perceberam o que era. Quando se aproximaram viram que se tratava de um anão com a cara toda cheia de rugas e uma barba branca com mais de um metro. A ponta da barba estava presa numa racha da árvore e o anãozinho dava pulos de cá para lá, como um cão acorrentado, sem conseguir libertar-se. Olhou, cheio de raiva, para as duas meninas e gritou-lhes com a voz esganiçada

- Não fiquem aí especadas ! Tirem-me daqui imediatamente !

- Como é que fizeste isto, homenzinho? - perguntou Rosa-Rubra.

- Grande curiosa ! - respondeu o anão. - Queria cortar esta árvore porque preciso de lenha para cozinhar. Não podemos usar grandes achas como vocês, porque não comemos tanto como vocês, que são uns grandes gulosos ! Já tinha metido o escopro nesta racha, mas esta maldita madeira é muito lisa. O escopro saltou de repente e as duas partes da árvore fecharam-se tão depressa que não tive tempo de tirar a minha rica barba branca. Agora estou preso e não posso sair daqui. E vocês, suas atrevidas, ainda se riem! Se soubessem como ficam feias!

As meninas fizeram tudo o que podiam, mas não conseguiram desprender a barba do anão. Estava presa e bem presa!

- Vou buscar auxilio - propôs Rosa-Rubra.

-Não sejas estúpida! -resmungou o anão. - Para que é preciso mais gente? Vocês as duas já são demais. Inventem outra coisa !

- Paciência ! - disse Neve-Branca. - Vou descobrir maneira de te valer.

Então, tirou da algibeira uma tesoura e cortou a ponta da barba do anãozinho. Quando o anão se viu livre, pegou num saco cheio de ouro que estava escondido debaixo das raízes da árvore e pôs o saco às costas, resmungando

- Má raça ! Cortar-me a ponta da minha rica barba, a mim! Não esperem que lhes agradeça!

E, quase sem poder com o saco, o anão foi-se embora e nem sequer olhou para as meninas.

Uns dias mais tarde, Neve-Branca e Rosa-Rubra foram apanhar peixe para o almoço. Quando chegaram perto de um rio viram uma espécie de gafanhoto aos pulos na margem, em risco de cair à água. Aproximaram-se mais e reconheceram o anão.

- Que estás a fazer? - perguntou-lhe Rosa-Rubra. - Queres afogar-te?

- Não sou estúpido até esse ponto ! - gritou o anão. - Não vês que é este maldito peixe que está a puxar por mim?

O homenzinho tinha-se instalado naquele sítio para pescar. Mas com o vento a barba tinha-se enrolado em volta da linha. E um grande peixe que estava a morder a isca puxava o pobre anãozinho para a água do rio. O anão resistia com todas as suas forças, agarrando-se aos juncos e às ervas, mas, pouco a pouco, ia escorregando para a beira do rio e ia, com certeza, cair à água.

As meninas chegaram a tempo de o segurar. Agarraram-no e tentaram desenrolar-lhe a barba da linha. Mas pêlos e fio estavam tão emaranhados que não houve mais remédio senão recorrer à tesoura.

Quando o anão verificou que tinha perdido mais um bocado da sua rica barba, teve uma fúria.

- Isto é coisa que se faça, desfigurar assim uma pessoa? Suas grandes estúpidas ! - gritou ele. - Já no outro dia me cortaram um bocado da barba, e agora outra vez ! Nem me atrevo a aparecer aos meus irmãos. Vão para o diabo ! Oxalá que tenham que andar descalças !

Depois, o anão apanhou um saco cheio de pérolas que estava escondido entre os juncos da margem e, sem dizer nem mais uma palavra, afastou-se e desapareceu por detrás de uma rocha.

Passado pouco tempo, a mãe mandou as duas meninas à cidade comprar linha, agulhas, fitas e laços. No caminho era preciso passar por um sítio deserto, cheio de rochas. Enquanto andavam, viram uma águia a voar no céu. Descrevia grandes círculos, descendo cada vez mais baixo em direcção a um rochedo, para onde se atirou de repente. No mesmo instante, ouviram um grande grito de aflição.. Correram para a rocha e verificaram com horror que a ave de rapina tinha apanhado com as garras o seu velho conhecido, e se preparava para o levar.

As meninas, cheias de pena, seguraram o anão pelo fato e puxaram com toda a força, até que a águia largou a presa.

Quando já estava refeito do susto, o anão gritou com a sua voz esganiçada:

- Não podem ter mais cuidado quando se agarram a mim? Puxaram-me pelo fato com tanta força que mo rasgaram. Rebentou por todas as costuras e ficou cheio de buracos. Vocês são umas verdadeiras pestes, sem jeito para coisa nenhuma!

Então, agarrou num saco de pedras preciosas e desapareceu entre as rochas.

As meninas já estavam habituadas à sua ingratidão. Continuaram tranquilamente o seu caminho e fizeram as compras na cidade. À volta, quando atravessaram as rochas, encontraram o anão. Tinha espalhado as pedras preciosas que levava no saco em cima de uma rocha lisa, porque não esperava que passasse por ali ninguém naquele momento.

Os raios do sol-poente faziam cintilar as pedras preciosas com mil reflexos. As duas meninas pararam para contemplar aquele espectáculo.

- Que estão a fazer aí, com os olhos esbugalhados? - gritou-lhes o anão, com a cara mais vermelha do que um tomate.

Esperava que aqueles insultos fizessem com que as meninas se fossem embora, quando se ouviu um grunhido e na borda da floresta apareceu o urso a correr. Muito assustado, o anão quis fugir, mas não teve tempo. O urso já estava em cima dele.

- Senhor urso - suplicou o anão, a gaguejar de medo -, não me faça mal ! Dou-lhe todos os meus tesouros. Vê estas lindas pedras preciosas? Não me mate, que eu não presto para comer ! Coma antes estas duas meninas, que estão tão gordinhas! Isso sim, que vai ser um bom jantar !

O urso não prestou a menor atenção às palavras daquele ser tão mau, e deu-lhe uma patada que o deixou estendido, morto. Entretanto, as duas meninas tinham fugido, mas o urso chamou por elas.

- Neve-Branca ! Rosa-Rubra ! Não tenham medo! Esperem por mim, que eu quero ir com vocês !

Então, ambas reconheceram aquela voz e pararam. Quando o urso chegou ao pé das meninas deixou cair a pele e, de repente, apareceu um lindo príncipe, todo coberto de ouro.

- Eu sou um príncipe - disse ele - e fui encantado por este anão, que me roubou os meus tesouros. Transformou-me em urso e condenou-me a andar perdido na floresta até que a morte dele me libertasse. Recebeu finalmente o castigo que merecia.

Mais tarde, Neve-Branca casou com o príncipe e Rosa-Rubra casou com o irmão dele. E dividiram entre todos o tesouro que o anão tinha guardado

na sua caverna.

A pobre viúva ainda viveu muitos anos, feliz e descansada, junto das filhas. Levou para o palácio as duas roseiras e mandou-as pôr debaixo da janela.

E todos os anos, pela Primavera, floresciam nas roseiras muitas rosas brancas e muitas rosas vermelhas.

 

                   JOÃO FELIZ

Era uma vez um rapaz chamado João, que tinha servido bem o seu senhor durante sete anos.

- Pague-me os meus ordenados - disse-lhe ele um dia. - É altura de eu voltar para casa da minha mãe.

- Foste sempre um criado trabalhador e honesto - disse-lhe o patrão - e quero recompensar-te. Toma. Leva esta barra de ouro, que bem a mereceste.

O João agradeceu, pegou na barra de ouro, que era quase tão grande como a cabeça dele, meteu-a com todo o cuidado no saco, pôs o saco às costas e foi-se embora todo contente.

Já tinha andado bastante, quando passou por ele um cavaleiro a trote no seu cavalo. O homem ia com uma cara muito satisfeita, de quem não estava nada cansado.

- Ah! - disse o João em voz alta -, como deve ser bom andar assim a cavalo ! Não se magoam os pés nas pedras, não se gastam as solas dos sapatos e            caminha-se sem trabalho nenhum, como sentado num cadeirão !

-Então, porque vais a pé? - perguntou-lhe o cavaleiro, parando o cavalo.

- Ora, porque não posso ir de outra maneira ! - respondeu o João. - Volto para casa da minha mãe, depois de ter servido sete anos, e levo um saco tão pesado que quase não posso endireitar a cabeça e            me faz dores nas costas. Se quer saber, é uma barra de ouro. Mas não calcula como pesa ! ...

- Pois bem, é muito simples ! - exclamou o cavaleiro. - Façamos uma troca: eu dou-te o meu cavalo e tu dás-me a tua barra de ouro !

- De boa vontade ! - disse o João. - Mas previno-o de que pesa muito !

O cavaleiro desceu do cavalo, pegou na barra de ouro e ajudou o João a montar. Pôs-lhe as rédeas na mão e recomendou-lhe que as segurasse bem.

- Se quiseres ir mais depressa - disse ele -, basta dar um estalo com a língua e gritar : a galope, a galope !

A princípio, o João ficou todo contente por seguir o seu caminho sem se cansar. Mas o cavalo ia a passo e, ao fim de algum tempo, o dono quis ir mais depressa. O João deu um estalo com a língua e gritou:

- A galope, a galope !

No mesmo instante, o cavalo partiu a galope e, em menos de um segundo, o João estava no fundo do valado que seguia ao longo da estrada.

E o cavalo teria fugido para sempre se um camponês que ia com uma vaca não o tivesse agarrado pela rédea. Entretanto, o João estava muito dorido e quase não se podia mexer.

- Andar a cavalo é um perigo - murmurou ele, a rir para consigo -, sobretudo quando o cavalo é tão manhoso como este e atira com uma pessoa ao chão para se ver livre dela, com risco de lhe partir o pescoço! É a última vez que monto a cavalo, podem ter a certeza! Antes ter uma vaca assim como a sua! Isto é que é um animal mansinho, que não faz mal a ninguém, e ainda por cima nos dá leite, manteiga e queijo todos os dias! Quanto não pagaria eu para ter um animal destes?

- É muito fácil, rapaz! - disse o camponês. - Se isso te dá prazer, troco de boa vontade a minha vaca pelo teu cavalo !

O João aceitou a proposta, cheio de alegria. E o camponês, depois de lhe passar para a mão a corda com que segurava a vaca, saltou rápido para cima do cavalo e afastou-se a toda a velocidade.

E o João seguiu o seu caminho, sem pressas, levando a vaca à sua frente.

"Quando eu tiver fome -pensava ele - basta cortar uma fatia de pão e comê-la com manteiga ou queijo. E quando tiver sede basta mungir a vaca e beber o leite. Tive sorte ! Que mais posso eu desejar?"

A manhã já ia alta quando o João chegou a uma estalagem e resolveu parar ali.

"Para que hei-de poupar? - perguntou ele a si próprio. - Já tenho comida e bebida asseguradas."

De uma só vez comeu todas as provisões que levava para o dia todo. Depois gastou o seu último dinheiro numa caneca de cerveja.

O rapaz saiu da estalagem satisfeito, e continuou o seu caminho mais a vaca. A aldeia onde vivia a mãe ficava a uma boa distância, o calor era cada vez maior e a estrada por onde o João seguia atravessava uma região deserta, sem a menor sombra. Era quase meio-dia e ainda tinha com certeza

que fazer uma boa hora de marcha antes de chegar às primeiras árvores que se viam ao longe. O pobre rapaz tinha tanto calor e tanta sede que estava com a garganta seca.

"É altura de mungir a vaca - pensou ele. - Assim já posso matar a sede."

O João amarrou a vaca a um arbusto, e como não tinha balde pôs-lhe o barrete de coiro debaixo das tetas. Depois começou a mungir a vaca, mas por mais que fizesse não conseguiu tirar nem uma gota de leite. Mungia muito mal, e a vaca, já farta, deu-lhe um par de coices, com tanta força que o João foi parar a dez metros de distância e ficou por momentos atordoado.

Nesta altura, chegou um carniceiro que levava um porco num carrinho de mão.

- Que sarilho ! - exclamou ele, ajudando o João a levantar-se.

O rapaz contou-lhe a sua desgraça e o homem estendeu-lhe a cabaça que trazia à cintura, dizendo

-Bebe um trago, amigo ! Já matas a sede! Quanto à vaca, não contes tirar-lhe nem uma só gota de leite, sou eu que te digo! Este animal já não serve senão para puxar a charrua ou para o talho !

- Não me diga ! - murmurou o João, coçando a cabeça. - Quem havia de pensar? Claro que uma vaca tem muito que comer, mas eu não aprecio a carne de vaca. Não acho que seja grande coisa. Pelo menos não é tão boa como a do seu porco ! Isso, sim, é uma carne gostosa! E os chouriços? Ah, os chouriços ! ...

-Ouve, rapaz - disse-lhe o carniceiro-, se queres faz-se uma troca: eu dou-te o porco e tu dás-me a vaca.

- Deus lhe pague por tanta bondade ! - exclamou o João, com as lágrimas nos olhos.

Entregou a vaca ao carniceiro, amarrou o porco por uma perna e seguiu o seu caminho pensando na sorte que tivera até ali.

Tudo corria à medida dos seus desejos. Mal surgia uma dificuldade, ficava logo resolvida ! - achava ele.

Ia andando, todo satisfeito, quando encontrou um rapaz que levava um enorme ganso branco debaixo do braço. O rapaz deu-lhe as boas-tardes e o João começou a contar tudo o que lhe acontecera no caminho, não se esquecendo de repetir que tivera sempre muita sorte nas suas trocas.

O rapaz disse-lhe que ia para uma aldeia próxima onde ia haver um baptizado, e que aquele ganso era para o almoço da festa.

- Toma-lhe o peso - disse ele ao João, segurando o ganso pelas asas. - Estiveram a engordá-lo durante cinco semanas ! Quem o vai comer há-de lamber os beiços no fim !

- Efectivamente - concordou o João -, pesa bastante. Mas o meu porco também não está mal.

Enquanto o João falava do porco, o rapaz olhava para todos os lados, como se tivesse receio de qualquer coisa.

- Escuta - disse ele em voz baixa, escondendo a boca com a mão. - Parece-me que foste enganado. Na aldeia que eu atravessei agora roubaram esta manhã um porco muito parecido com este da pocilga do regedor. Se calhar é o mesmo. Os guardas andam à procura do ladrão, e se te apanham vais passar um mau bocado ! Era melhor esconderes-te em qualquer sítio.

O pobre pateta do João ficou muito assustado.

- Meu Deus ! - exclamou ele. - Que hei-de fazer? Não me podes ajudar nesta desgraça? Conheces melhor estes sítios do que eu. Leva o meu porco e dá-me o teu ganso !

- Não é sem correr riscos que aceito - disse o rapaz-, mas não quero que digas que te deixei em apuros.

Pegou na corda que prendia a pata do porco e levou o animal por um atalho escondido.

Por sua vez, o João, aliviado, seguiu pela estrada, com o ganso debaixo do braço.

"Afinal de contas, ainda fiquei a ganhar - pensou ele, cheio de satisfação. - Este ganso assado dá para uns poucos de dias, e ainda me sobra gordura para pôr no pão durante três meses pelo menos. Sem contar com as penas, com que vou fazer uma almofada macia para dormir ! Ah, quem vai ficar contente é a minha mãe."

O João ainda tinha que atravessar outra aldeia antes de chegar a casa. E encontrou-se ali com um amolador em volta do seu carrinho. O homem fazia girar a roda e, enquanto trabalhava, ia cantando:

 

         Roda, roda, minha roda,

         minha faca, afia, afia;

         amola tesoura, amola navalha!

         Roda, roda, minha roda!

         O meu trabalho não falha, e vivo com alegria!

 

O João parou a ver o amolador trabalhar.

-Parece que o seu negócio corre bem-disse ele, passados uns momentos.

- Não corre mal ! - respondeu o amolador. - Poder trabalhar com as nossas próprias mãos é possuir um tesouro ! Um bom amolador tem sempre dinheiro! ... E tu -perguntou ele-, onde compraste esse belo ganso?

- Não o comprei - explicou o João. - Troquei-o pelo meu porco.

- E onde arranjaste o porco?

- Troquei-o por uma vaca.

- E a vaca?

- Troquei-a por um cavalo. - E o cavalo?

- Troquei-o por uma barra de ouro do tamanho da minha cabeça.

- E o ouro?

-Esse recebi-o em paga do meu trabalho de sete anos !

- Fizeste sempre bom negócio - disse o amolador. - E se agora conseguires ter sempre dinheiro na algibeira, podes viver feliz.

- E o que hei-de fazer para isso? -perguntou o João.

- Faz-te amolador como eu. Para começar, basta-te uma pedra de amolar. O resto vem depois. Tenho aqui uma que está um pouco usada, mas contento-me em receber em troca o teu ganso. Queres?

- Com certeza ! - gritou o João. - Que mais posso desejar? Assim, daqui a pouco tempo sou o homem mais feliz da Terra, porque cada vez que meter a mão na algibeira vou encontrar sempre dinheiro. Não há que hesitar, e entregou o ganso ao amolador, que lhe deu em troca uma pedra de amolar.

- E agora -acrescentou o amolador, pegando numa pedra de amolar ainda mais velha do que a primeira -, aqui tens outra que te pode servir. Podes, por exemplo, endireitar em cima dela os pregos torcidos. Leva-a e não a percas.

E João tornou a seguir o seu caminho, com o coração a transbordar de satisfação e os olhos brilhantes de alegria.

“Não há dúvida - pensava ele -, é preciso que eu seja um poço de sorte!"

O rapaz caminhava desde o nascer do Sol e começava a ficar cansado. Sentia fome, mas tinha comido logo de manhã todas as suas provisões, e não sobrara nem com uma côdea de pão. Já não aguentava mais e era obrigado a parar a cada momento. Ainda por cima, as pedras de amolar pesavam muito. E o João pensava que seria bastante agradável não ter de carregar com elas.

Chegou com dificuldade a uma fonte, onde resolveu parar. Estava cheio de sede e apetecia-lhe beber água. E pôs com todo o cuidado as pedras de amolar na beira do tanque. Mas quando se inclinou encostou-se a elas sem querer e as duas pedras caíram para o fundo do tanque. Quando as viu cair, o João pulou de alegria e pôs-se de joelhos para agradecer a Deus tão grande felicidade. Sem ser preciso fazer nada, Deus tinha-o livrado daquele pesado fardo. Estava louco de gratidão.

- Agora, sou o mais feliz dos homens ! - gritou ele.

E, com o coração cheio de alegria, correu, livre e contente, em direcção à casa materna.

 

                   BIMBAMBOLOR

Um pobre moleiro tinha como único tesouro uma filha, mas que era de uma grande beleza. O moleiro tinha tanto orgulho na filha que estava sempre a falar dela, e gabava tanto as suas qualidades que chegava a atribuir-lhe algumas que a menina não possuía.

Em certa ocasião em que se encontrava na presença do rei o moleiro garantiu que a filha era capaz de fiar a estopa mais grosseira e transformá-la em ouro. Mal acabou de pronunciar estas palavras, arrependeu-se logo. Mas era demasiado tarde.

- Traz amanhã aqui a tua filha, para eu ver se é verdade -ordenou o rei, que viu ali uma boa forma de aumentar os seus tesouros.

O moleiro ficou muito atrapalhado, mas teve de obedecer, e, no dia seguinte, a filha apresentou-se no palácio, a tremer de susto. O rei conduziu-a a uma sala onde havia uma pilha de estopa.

-Aqui tens a roca e a dobadoira -disse ele à menina. - Começa já a trabalhar, e se amanhã de manhã ao romper do Sol não tiveres transformado toda esta estopa em ouro mando-te matar.

E o rei foi-se embora, fechando a porta à chave.

Quando ficou sòzinha, a pobre menina sentou-se num tamborete que estava junto da dobadoira e olhou apavorada para a pilha de estopa que devia transformar em ouro. Nunca na sua vida tinha feito semelhante coisa. E quanto mais pensava menos encontrava maneira de conseguir. Muito aflita, começou a chorar. Mas, logo às primeiras lágrimas, a porta abriu-se e entrou um gnomo muito engraçado.

-Porque estás a chorar tanto, moleirinha? - perguntou ele.

-Ai de mim ! -respondeu a menina, entre soluços -, se não quiser morrer amanhã tenho que transformar esta estopa toda em ouro, e não sei como fazê-lo !

- O que me dás se eu fizer o trabalho por ti? - perguntou de novo o gnomo.

- Dou-te o meu colar -respondeu a menina.

O gnomo pegou no colar, sentou-se no tamborete, segurou na roca, fez girar a dobadoira e, em três tempos e três movimentos, encheu uma bobina e depois outra, e trabalhou assim até ao romper do Sol.

Quando amanheceu e o rei entrou na sala, a estopa estava toda fiada e as bobinas cheias de fio de ouro. O rei era muito avarento, e, por isso, sentiu uma grande alegria ao ver tanto ouro, e desejou logo mais.

Deu as ordens necessárias para a menina descansar um bocado e comer alguma coisa. E, quando chegou à noite, foi buscá-la e levou-a para uma sala ainda maior do que a primeira e onde havia muito mais estopa.

- Se tens amor à vida - disse ele -, dou-te uma noite para transformares toda esta estopa em ouro.

Quando se viu sòzinha, a pobre menina pegou na estopa e tentou fiá-la. Mas apenas conseguiu fazer um fio grosseiro que não se parecia nada com ouro. E começou a chorar. Novamente, a porta abriu-se e tornou a aparecer o gnomo.

- O que me dás se eu fizer o trabalho por ti? - perguntou ele.

- Dou-te este anel que trago no dedo - respondeu a menina.

O homenzinho pegou no anel, sentou-se no tamborete, segurou na roca, fez girar a dobadoira e começou a fiar. E de manhã toda a estopa estava transformada em ouro puro.

O rei ficou louco de alegria à vista de tanto ouro. Mas como era insaciável, quanto mais tinha mais queria. Nessa mesma noite, levou a menina a uma terceira sala ainda maior do que as outras duas, que estava cheia de estopa até ao tecto.

- Vais fazer a última experiência - disse o rei. - Tens que transformar toda esta estopa em ouro. Se falhares, não sairás com vida deste palácio. Mas se conseguires, serás minha esposa e reinarás ao meu lado.

O rei pensava para consigo que, apesar de ser filha de moleiro, ela devia possuir mais tesouros do que todas as princesas do mundo.

Como nas outras noites, o gnomo apareceu quando a menina ficou sòzinha.

- O que me dás se eu fizer o trabalho por ti?tornou ele a perguntar.

- Já não tenho mais nada para te dar - respondeu a menina.

- Então promete dar-me o teu primeiro filho quando casares com o rei.

A menina não teve mais remédio senão aceitar. Além disso, faltava ainda tanto tempo, que não se preocupou.

E como nas outras duas noites, o gnomo segurou na roca e fez girar a dobadoira. E no dia seguinte de manhã a estopa estava toda transformada em ouro.

O rei, finalmente satisfeito, decidiu cumprir a sua promessa, e mandou fazer os preparativos para a boda. Daí a pouco tempo a filha do moleiro era rainha.

Passou-se um ano e a rainha teve um filho.

Certa noite em que estava a descansar sòzinha no seu quarto, viu de repente entrar o' gnomo. A rainha esquecera-se completamente da promessa mas a presença do gnomo fez com que se lembrasse e a pobre mulher ficou cheia de angústia.

- Venho buscar o que me prometeste - disse.

Então a rainha prometeu dar-lhe todas as riquezas que possuía em troca do filho.

- Não - respondeu o homenzinho. - Prefiro o teu filho a todos os tesouros do mundo.

A rainha ficou em tal aflição que o gnomo acabou por ter pena dela.

- Escuta - disse ele. - Dou-te três dias para descobrires o meu nome. Daqui até lá, venho todas as noites saber se adivinhaste. Se souberes dizer como me chamo, deixo-te ficar o teu filho.

E quando acabou de pronunciar estas palavras desapareceu.

A pobre rainha passou toda a noite a lembrar-se de nomes que sabia. E no dia seguinte, logo de manhã, mandou três mensageiros por todo o país a fim de descobrirem mais nomes que existissem. O primeiro devia voltar nessa mesma noite, o segundo no dia seguinte e o terceiro tinha três dias para cumprir a sua missão.

Quando o gnomo tornou a aparecer naquela noite, a rainha disse-lhe todos os nomes que o primeiro mensageiro tinha encontrado. Mas, a cada desses nomes, o homenzinho respondia

- Não é assim que eu me chamo.

No dia seguinte, o segundo mensageiro voltou dos confins do reino e a rainha repetiu ao gnomo os nomes mais impossíveis e extraordinários.

- Chamas-te Perna-de-Carneiro, Atacador-de-Sapato ou Cabeça-de-Vaca?

Mas o gnomo respondia sempre:

- Não é assim que eu me chamo.

No terceiro dia,o mensageiro que tinha ido para mais longe, voltou ao palácio. E contou à rainha o seguinte:

"- Tinha procurado durante todo o dia, sem descobrir nada de interesse, quando cheguei junto de uma alta montanha coberta por uma espessa floresta. Meti-me por ela, e verifiquei que a floresta não era como as outras : os coelhos brincavam com as raposas e as árvores tinham formas muito diferentes das que nós conhecemos. Daí a pouco, cheguei a uma clareira e distingui, por entre as folhas, uma casinha com um jardim, onde um gnomo muito engraçado saltava ao pé-coxinho em volta de uma fogueira, cantando

Hoje amasso, amanhã cozo, depois de amanhã a rainha dá-me o filho! Ai, que bom ninguém saber que me chamo Bimbambolor!

"E teria vindo mais depressa se não me tivesse perdido na floresta, onde procurei o caminho durante toda a noite e todo o dia seguinte.

Calcula-se a alegria da rainha quando isto ouviu! E nessa mesma noite o gnomo tornou a aparecer pela última vez.

-Então -perguntou ele à rainha-, já sabes como me chamo?

-Não é Ludovico ? - Não.

- Ambrósio?

-Não é assim que eu me chamo.

- Então, não será por acaso Bimbambolor? - Pelas minhas barbas ! - gritou o gnomo, fora de si -, foi o diabo quem te disse ! Foi o diabo quem te disse !

E bateu o pé no chão com tanta força que ficou enterrado até meio do corpo. E como continuou a bater com os pés no meio da sua raiva, acabou por se enterrar completamente, e o chão tornou a fechar-se em cima dele. E, depois disso, nunca mais ninguém o viu.

 

                   OS DOIS IRMÃOS

O irmão puxou a irmã de parte e disse-lhe:

-Desde que a nossa mãe morreu, nunca mais tivemos um minuto de felicidade. A nossa madrasta bate-nos todos os dias, e, quando nos chegamos junto dela, manda-nos embora a pontapé. Só nos dá para comer côdeas de pão duro, e o cão, na maior parte das vezes, é melhor tratado do que nós. Ah, se a nossa pobre mãe pudesse ver isto ! Anda, vamos fugir os dois para bem longe daqui.

Atravessaram montes e vales, prados e florestas, debaixo de sol e debaixo de chuva. Quando chovia, a irmã dizia ao irmão.:

- Vês? Deus está triste. Chora a nossa desgraça. Uma noite, mortos de fome, de cansaço e de desgosto, sentaram-se ao pé de uma árvore à beira de uma grande floresta, e adormeceram.

No dia seguinte, quando acordaram, o Sol já ia alto e lançava sobre eles os seus raios abrasadores. E o irmão disse para a irmã:

- Tenho sede. Parece-me que ouço um murmúrio de água aqui perto. Vamos ver.

Partiram de mão dada, mas a madrasta, que era uma bruxa má, sem eles darem por isso tinha-os seguido e enfeitiçado todos os regatos da floresta.

As crianças descobriram uma nascente, que bri­lhava entre as pedras, e o irmão debruçou-se para beber, quando a irmã ouviu a nascente cantarolar

«Quem me beber, tigre há-de ser ! Quem me beber, tigre há-de ser!»

- Não bebas - gritou a menina. - Senão ficas transformado num tigre, que me vai comer.

E o irmão não bebeu, apesar de estar cheio de sede.

- Espero até encontrarmos outra nascente - disse ele.

E continuaram à procura, até que descobriram outra nascente, mas quando o irmão se debruçava para beber a irmã ouviu a nascente cantarolar:

«Quem me beber, lobo há-de ser ! Quem me beber, lobo há-de ser!»

Então, a irmã gritou

-Não bebas ! Senão ficas transformado num lobo, que me vai comer !

E o irmão não bebeu, apesar de estar cheio de sede.

- Espero até encontrarmos outra nascente - disse ele -, mas nessa vou beber, digas o que disseres. Já não aguento mais a sede.

Quando chegaram à terceira nascente, a irmã ouviu-a cantarolar:

«Quem me beber, veado há-de ser ! Quem me beber, veado há-de ser!»

- Não bebas ! - gritou a irmã. - Senão ficas transformado em veado, e vais fugir de mim !

Mas o irmão já se tinha ajoelhado e bebido a água da nascente. E mal engoliu as primeiras gotas transformou-se logo num veado.

A irmã sentou-se junto dele, abraçou-o pelo pescoço e chorou amargamente.

-Eu não te abandono -disse ela por entre as lágrimas. -Mas é preciso que também não me abandones.

Desatou a fita branca dos cabelos e passou-a em volta do pescoço do veado. Depois, arrancou uns juncos que cresciam perto da nascente e fez uma corda, que atou à fita.

A menina e o veado meteram-se ainda mais para o interior da floresta. Andaram muito tempo, até que chegaram a uma clareira onde havia uma casa solitária. A irmã aproximou-se e espreitou pelas janelas. E, vendo que a casa estava vazia, resolveu ali ficar.

Apanhou ervas secas e musgo, e fez uma cama fofa para o veado. Todas as manhãs apanhava erva tenra que ele lhe vinha comer à mão, enquanto a menina se alimentava de bagas, de raízes e de nozes. Brincavam os dois juntos durante todo o dia e, quando chegava a noite, a menina, depois de rezar as suas orações, enrolava-se junto do lombo

fofo e morno do veado. E adormeciam mais calmamente. E seriam completamente felizes se o irmão voltasse à sua forma humana.

Passaram-se alguns anos. O veado transformou-se num lindo animal, forte e saudável, e a irmã numa encantadora rapariga.

Ora, certa manhã, ao romper do Sol, o rei daquele país organizou uma grande caçada na floresta. O toque das trompas, o ladrar dos cães e os gritos dos caçadores ecoaram nas copas das árvores. Ao ouvi-los, o veado deu um pulo e exclamou:

- Irmã, as trompas estão a chamar por mim. Deixa-me sair !

A irmã recusou, mas ele pediu tanto que ela acabou por ceder.

- Mas volta logo à noite sem falta - recomendou a rapariga. - Eu fecho a porta para os caçadores não poderem entrar. Mas quando voltares bate duas vezes e diz: «Irmã, deixa-me entrar.» De outra forma, não abro.

Então o veado correu lá para fora e saltou todo satisfeito através da floresta. O rei e a sua comitiva deram com ele e começaram a persegui-lo. Mas sempre que estavam quase a apanhá-lo, o veado escapava-se de um pulo. Saltava por cima dos valados, metia-se por entre os arbustos e desaparecia.

Isto durou até ao anoitecer. E, então, o veado foi bater à porta da casa.

- Irmã, deixa-me entrar ! - disse ele.

A porta abriu-se, o veado entrou ràpidamente, deitou-se na cama que a irmã lhe tinha arranjado e dormiu de um sono durante toda a noite.

No dia seguinte, a caçada continuou. Assim que o veado ouviu os primeiros toques de trompa e os gritos dos caçadores, levantou-se cheio de impaciência e pediu à irmã para o deixar sair nova­mente. A rapariga abriu a porta e recomendou ao veado que voltasse à noite, batesse duas pan­cadas e dissesse: «Irmã, deixa-me entrar.» Senão, que não lhe abria a porta.

Quando o rei e a sua comitiva tornaram a ver o           veado com a mesma fita branca atada ao pescoço, começaram a persegui-lo. Mas ele fugia muito e não conseguiam apanhá-lo. Mas, quando chegou à noite, tinham-no cercado. Por ordem do rei, que não queria que o matassem, um dos caçadores atirou-lhe uma seta, que lhe feriu a pata e fez com que ele não pudesse correr tão depressa. E, assim, o caçador seguiu-o sem ser visto. Viu o veado bater à porta da casa e ouviu-o dizer:

- Irmã, deixa-me entrar.

E, com grande espanto do homem, a porta abriu-se e o veado entrou.

O caçador voltou para junto do rei e contou-lhe o que vira e ouvira.

- Amanhã continuamos a caçada - ordenou o rei. - É esse o meu desejo.

A irmã assustou-se ao ver a ferida do seu querido veado. Tratou-a, pôs-lhe uma ligadura e disse

- Deita-te, que é para ficares curado depressa.

Mas a ferida não era grave, e, no dia seguinte, de manhã, o veado já não tinha dores. Ao ouvir os primeiros toques de caça, levantou-se de um pulo.

- Estão outra vez a chamar por mim - disse ele. -Tenho que sair. Mas ainda não é desta que me apanham.

A rapariga começou a chorar.

- Desta vez, sim, eles matam-te ! - disse ela. - E ficarei sòzinha nesta floresta, abandonada por todos. Não, não te deixo sair.

-Nesse caso, sou eu quem vai morrer aqui de impaciência - respondeu o veado. - Quando ouço as trompas de caça, tenho que correr através dos bosques.

A rapariga, muito preocupada, não teve mais remédio senão abrir a porta, e o veado saiu alegremente para a floresta.

Quando o rei o viu, ordenou aos seus caçadores

-Persigam-no todo o dia, mas não lhe façam mal.

Pouco antes do pôr do Sol, o rei mandou chamar o caçador que tinha seguido o veado na véspera e pediu-lhe que o levasse até à tal casa. Quando lá chegou, bateu à porta e disse:

- Irmã, deixa-me entrar.

A porta abriu-se e o rei encontrou-se na frente de uma rapariga tão bonita como ele nunca tinha visto. A irmã ficou muito assustada, mas percebeu logo que aquele homem era o rei, por causa da coroa de ouro.

O rei, encantado com aquela rapariga tão linda, não tirava os olhos dela. Estendeu-lhe a mão e disse:

- Queres vir comigo para o meu palácio e ser minha mulher?

Envergonhada e satisfeita ao mesmo tempo, a rapariga respondeu:

- Sim, sim, majestade, quero! Mas o meu veado ainda não chegou e não quero abandoná-lo.

- O teu veado pode ficar contigo o tempo que quiseres - prometeu o rei. - Nada lhe faltará.

Nesse momento, o veado entrou, dando pulos pela casa. A rapariga prendeu-o novamente com a corda feita de juncos e levou-o com ela para o palácio do rei. E, daí a pouco tempo, celebraram-se as bodas, e o rei e a rainha viveram muitos anos juntos e foram muito felizes. Quanto ao veado, era bem tratado e corria livremente pelos jardins do palácio.

Ora a madrasta, que fora a causa de tudo, ainda estava viva, e pensava que a rapariga tinha sido há muito comida pelos animais selvagens e que o irmão morrera às mãos dos caçadores. E um dia soube que nada disso tinha acontecido, e quase ia rebentando de raiva e de inveja! Vendo que eles eram felizes, procurou maneira de lhes estragar essa felicidade. A filha, que era tão feia que metia medo, e ainda por cima cega de um olho, estava sempre a censurá-la.

- Porque não fui eu a escolhida para rainha? - dizia ela. - Eu é que merecia.

- Não te preocupes - respondia a bruxa. - Espera, que quando for altura, será a tua vez.

E essa altura chegou. O rei andava à caça e a rainha acabava de ter um lindo menino, e estava deitada sozinha na sua câmara. A bruxa disfarçou-se com o traje de uma das criadas e foi ter com ela.

-Tome, beba -disse a madrasta, dando-lhe uma bebida enfeitiçada. - Com isto, vai recobrar as forças.

A rainha bebeu, sem desconfiança. Mal tinha pousado a chávena, caiu num sono mais profundo do que a morte. Ajudada pela filha, que estava à espera, a bruxa levou a rainha para um cubículo pegado ao quarto do menino e fechou-a lá dentro. Depois disse à filha

- Toma o lugar da rainha, e deita-te de forma que o rei não veja que tens um olho só, porque não te posso dar outro novo.

Mas em tudo o mais conseguiu torná-la parecida com a rainha.

Quando o rei voltou da caça, ficou muito contente por saber que tinha um filho. Quis ir logo vê-lo, mas a feiticeira, sempre disfarçada de criada, dis­se-lhe:

- Não pode ser. A rainha está a descansar e a luz faz-lhe mal aos olhos. Deixai-a dormir sosse­gada.

O rei apenas tinha afastado os cortinados da cama e não deu pela substituição.

A meio da noite, quando todos dormiam, menos a ama que tomava conta do recém-nascido, a porta do quarto abriu-se e entrou a rainha verdadeira. Pegou no filho, deu-lhe de mamar, arranjou-lhe a roupa e tornou a deitar o menino. Depois, foi ter com o veado, fez-lhe uma festa e tornou a ir-se embora em silêncio. A ama não se espantou de ver a rainha tratar do filho durante a noite, mas achou muito estranho que durante todo o tempo a rainha estivesse de olhos fechados.

E aconteceu o mesmo durante várias noites, e a ama, que julgava que a rainha ainda estava doente, não disse nada a ninguém.

Certa noite, a rainha pôs-se a embalar o filho, cantando:

 

           Ó meu menino, ó meu veado,

         só duas vezes cá voltarei.

           Ó meu veado, ó meu menino,

             depois para sempre eu partirei!

 

A ama não disse uma palavra, mas quando a rainha se foi embora foi falar com o rei e contou-lhe tudo.

-Meu Deus ! Mas o que se passa? - excla­mou o rei. - Amanhã à noite fico ao pé do meu filho.

O rei estava no quarto havia algumas horas quando entrou a rainha. Fez como de costume e,

Novamente, embalou o filho, cantando com os olhos fechados:

 

             Ó meu menino, ó meu veado,

             só uma vez cá voltarei.

             Ó meu veado, ó meu menino,

               depois para sempre eu partirei!

 

O rei ficou tão espantado que não conseguiu dizer nada. Mas quando a rainha desapareceu, decidiu ficar ali na noite seguinte. E tudo se passou como de costume, mas quando a rainha começou a cantar ouviram-se estas palavras:

Ó meu menino, ó meu veado, mais esta vez eu cá voltei. Só esta vez, e nunca mais cá voltarei!

O rei levantou-se da cadeira e, correndo para a rainha, abraçou-a e disse-lhe, cobrindo-lhe a cara de beijos:

- Acorda, minha querida esposa, acorda !

A rainha abriu os olhos, muito espantada.

- Onde estou eu? - perguntou ela. - Que faço eu aqui a esta hora?

O rei contou-lhe o que tinha visto, e levou-a até à sua câmara. Qual não foi o espanto de ambos ao ver dentro da cama da rainha outra mulher muito parecida com ela, mas com um olho só!

Apertando-a com perguntas, obrigaram-na a confessar o que acontecera. Se ninguém a tivesse acordado, a rainha verdadeira estaria morta no dia seguinte e a filha da bruxa tomaria definitivamente o lugar dela.

Ao saber a horrível intriga que tinham arranjado contra a esposa, o rei ficou furioso. Mandou os guardas prenderem a filha da bruxa e levá-la para o mais profundo da floresta, e nunca mais se ouviu falar dela. A bruxa, quando isto soube, rebentou de raiva !

E, quando se ouviu o estoiro, o veado retomou a sua figura humana: era agora um jovem forte e bonito. E a partir de então ficaram todos a viver no palácio, felizes e contentes.

 

                   OS QUATRO IRMÃOS HABILIDOSOS

- Meus filhos - disse um dia um pobre homem aos seus quatro filhos -, eduquei-os até aqui o melhor que pude. É altura de vocês aprenderem um oficio. Partam pelo mundo fora à procura de um bom patrão e regressem quando forem tão habilidosos como ele.

Os quatro rapazes disseram adeus ao pai e foram-se embora, de saco às costas e cajado na mão. Quando chegaram a uma encruzilhada, pararam.

- Vamos separar-nos - propôs o mais velho. - Siga cada um o seu caminho, e daqui a quatro anos encontremo-nos aqui outra vez. Será preciso este tempo para conseguirmos o que pretendemos.

E, assim, cada um partiu numa direcção diferente.

Daí a pouco, o mais velho encontrou um homem que lhe perguntou onde ele ia e o que tencionava fazer.

- Vou sempre em frente - respondeu o rapaz. - Só paro quando encontrar um bom patrão que me tome como aprendiz.

- Vem comigo - disse o homem. - Ensino-te a roubar. É um bom modo de vida e daqui a pouco terás tanta habilidade para isso como eu.

- Não, obrigado ! - exclamou o rapaz. - Não quero acabar na cadeia!

- Garanto-te que com um professor como eu, não corres o risco de ir parar à cadeia – continuou o            homem. - Ensino-te tão bem o meu oficio que nunca serás apanhado com a boca na botija.

O rapaz deixou-se convencer e aceitou. Tornou-se portanto aprendiz de ladrão. O homem não lhe tinha mentido : ao fim de algum tempo, tinha-se tornado tão habilidoso que era capaz de roubar tudo o que lhe apetecesse, sem nunca ser apanhado.

O segundo dos quatro irmãos também encontrou um homem que lhe perguntou onde ia e o que tencionava fazer.

- Ainda não sei - respondeu o rapaz. - Quero aprender um oficio, seja qual for.

- Se quiseres vir comigo - disse o homem -, faço de ti um astrónomo. Aprenderás a ler nos astros e ficarás a conhecer o Universo.

A proposta agradou ao rapaz, que se tornou aprendiz do astrónomo. Quando aprendeu com o mestre tudo o que ele lhe podia ensinar, o rapaz disse-lhe adeus, e foi-se embora.

- Foste um bom aluno - disse-lhe o astrónomo - e vou recompensar-te. Toma este óculo. Com ele poderás ver todas as coisas que se escapam a olho nu.

O terceiro irmão encontrou um caçador. Seguiu-o e tornou-se num habilidoso atirador. Quando se despediu do patrão, este ofereceu-lhe uma espingarda.

- Nas tuas mãos - disse ele -, esta arma nunca falhará o alvo.

O último dos rapazes encontrou no caminho um homem que prometeu ensinar-lhe o oficio de alfaiate.

-Livra! -exclamou o rapaz-, não quero por nada deste mundo passar a vida todo curvado, com a agulha na mão ou a assentar costuras com o ferro!

- Que ideia ! - disse o homem. - Comigo, não é assim! Ficarás a ser um artista e um alfaiate de nome.

O rapaz aceitou e aprendeu na perfeição o oficio de alfaiate. Quando deixou o patrão, este ofereceu-lhe uma agulha encantada.

- Esta agulha - disse ele - pode tornar-se mole como um fio ou dura como uma espada. Com ela poderás coser tudo o que quiseres, sem se ver nem uma única costura.

E passaram quatro anos. Era altura de os irmãos se encontrarem na encruzilhada. E foram todos pontuais. Os rapazes, muito contentes por se tornarem a ver, abraçaram-se e seguiram de braço dado para casa do pai, que os recebeu com alegria.

- Estou satisfeito por voltarem todos de perfeita saúde, meus filhos - disse ele. - Agora contem-me as vossas aventuras.

Sentaram-se em frente da casa, junto de uma grande faia que enchia o pátio de sombra, e conversaram alegremente. Cada um falou do ofício que tinha aprendido e gabou a sua habilidade.

- Quero ver se tudo isso é verdade - disse o pai -, porque me custa muito a acreditar.

- De boa vontade, pai - responderam os quatro rapazes. - Que devemos fazer?

-Há um ninho de tentilhões no cimo desta faia - disse o velho. - Tu, diz-me quantos ovos ele tem.

- É muito fácil, pai - respondeu o rapaz.

E, pegando no óculo, observou através dele o ninho.

- Tem cinco ovos. A fêmea está no choco.

- Vai tu buscá-los sem assustar a ave - ordenou então o homem ao filho mais velho.

O rapaz subiu ao alto da árvore e roubou os cinco ovos com tanta habilidade que a ave não deu por nada e continuou carinhosamente a chocar

o ninho vazio.

O         pai pegou nos ovos e entrou em casa. Pôs quatro ovos a cada um dos quatro cantos da mesa e um no meio.

- Agora é a tua vez - disse ele ao terceiro filho. Tens que acertar nos ovos todos só com um tiro.

O caçador pegou na espingarda, fez a pontaria e        disparou. E a mesma bala atravessou os cinco ovos.

-Agora cose as cascas -disse o velho para o filho mais novo. -Não quero ver nem vestígios das costuras.

O alfaiate pegou na agulha e coseu as cascas dos ovos. O ladrão tornou a ir pôr os ovos no ninho, sem chamar a atenção da fêmea, que continuara a chocar.

Alguns dias mais tarde, nascia uma ninhada de tentilhões, todos com uma gola de penas encarnadas em volta do pescoço. Era o sítio onde a linha atravessara os ovos.

- Está bem, meus filhos - disse o velho. - Estou contente com vocês. E agora que tencionam fazer?

Ora a filha do rei tinha sido roubada por um dragão, e o rei prometera dar a princesa em casamento -a quem a livrasse do monstro.

- Vamos juntar as nossas habilidades - disse um dos rapazes - e vencer o dragão.

-Primeiro vou ver onde se encontra a princesa - declarou o astrónomo.

Pegou no óculo e apontou-o em todas as direcções.

- Já a vejo - disse passado um instante. - Está sentada numa rocha que fica no meio do mar. O dragão está a dormir com a cabeça nos joelhos dela.

Então, os quatro irmãos foram ter com o rei e pediram-lhe que mandasse aparelhar um barco para irem à procura da filha. Embarcaram todos quatro e navegaram até à tal ilha. Quando chegaram perto, reuniram-se para combinar as coisas.

-Não posso atirar sobre o dragão sem correr o risco de atingir a princesa -disse o caçador.

-Nesse caso, devo ser eu a actuar –decidiu o ladrão.

Subiu ao rochedo com todas as cautelas e pegou

na rapariga ao colo, sem o dragão dar por isso.

Depois, levou-a para bordo do navio, que se

afastou o mais ràpidamente possível. Mas, infelizmente, o dragão acordou e deu pelo desaparecimento da princesa. Voou à procura dela, e não tardou que descobrisse o navio. Caiu sobre ele, vomitando fogo, mas o caçador pegou na espingarda, apontou-a ao coração do monstro e atingiu-o com um tiro mortal.

O dragão caiu como uma pedra em cima do navio, que se partiu em mil bocados. Os quatro irmãos e a princesa escaparam de morrer afogados, agarrando-se aos restos da embarcação, que ficaram a flutuar sobre as ondas. Desta vez, o alfaiate entrou em acção. Reuniu todos os bocados de madeira que encontrou e, manejando a agulha com toda a força, coseu-os tão bem que daí a pouco tinha conseguido refazer o casco.

Os quatro irmãos e a princesa puderam assim chegar sem grande dificuldade à margem, onde o rei os esperava. E o rei disse aos quatro rapazes

- Eu tinha prometido a minha filha em casamento a quem a livrasse das garras do dragão, mas ela foi salva por vocês os quatro, e não pode casar com todos. Decidam qual vai ser o meu genro.

-Se não fosse eu a vê-la primeiro -disse o astrónoma aos irmãos -, vocês não a teriam encontrado.

- Não serviria de nada tê-la visto – respondeu o ladrão. -Sem mim ela ainda estava sentada na rocha, prisioneira do dragão. Portanto é comigo que a princesa deve casar.

- Tudo isso é muito bonito - disse o caçador -, mas se eu não tivesse morto o dragão ele tinha-nos comido a todos. Portanto é comigo que a princesa deve casar.

- Se graças a ti não fomos comidos pelo dragão - respondeu o alfaiate -, se não fosse eu tínhamos morrido todos afogados. Portanto é comigo que a princesa deve casar.

-Vejo que não conseguem chegar a acordo - disse então o rei. - E como a princesa não pode casar com os quatro, proponho que desistam da mão da minha filha. Em compensação, dou a cada um uma parte do meu reino, para lhes provar a minha gratidão.

Os quatro irmãos não estavam com vontade de discutir mais. Eram muito amigos e queriam continuar a entender-se bem. Por isso, renunciaram de boa vontade à mão da princesa e aceitaram ainda de melhor vontade a proposta do rei.

E viveram felizes junto do velho pai, e foram sempre bons filhos e bons irmãos até ao fim da sua vida.

 

                   A GUARDADORA DE PATOS

Era uma vez uma velha, tão velha que ninguém sabia dizer a idade dela, e que vivia numa montanha muito afastada, por cima de um bosque. A casinha onde morava era rodeada de lindas campinas, onde a velha levava uns poucos de patos a pastar. Todas as manhãs, a boa mulher descia ao bosque, apoiada na muleta, mais ágil do que era de esperar na sua avançada idade. Apanhava os frutos selvagens que podia, maçãs, pêras e bagas, e colhia erva para os patos. Quando voltava do bosque parecia que ia cair a cada instante com o carrego, mas nada disso acontecia e a velhota regressava a casa sem dificuldades.

Quando encontrava algum camponês, dizia-lhe sempre

- Bom dia ! Está um lindo tempo ! - e continuava: - Acha estranho ver-me tão carregada, na minha idade, mas cada um deve saber carregar com o fardo que leva às costas, não é verdade?

Apesar disso, quase todas as pessoas se desviavam do caminho para evitar a velhota. Os pais recomendavam mesmo aos filhos que desconfiassem dela, porque talvez fosse uma bruxa.

Certa manhã, alegre e bem disposto, um belo rapaz atravessou o bosque. O Sol brilhava, as aves cantavam e uma leve brisa agitava as folhas. Ainda não tinha encontrado vivalma quando deu com a velha que, de joelhos, cortava erva com uma foice. Já tinha apanhado uma grande quantidade e enchera dois cestos cheios com maçãs selvagens.

- Eh, tiazinha ! - gritou-lhe o rapaz -, como vai poder carregar com isso tudo?

Tenho que me governar sózinha - respondeu ela. - Só os ricos é que têm criados que os ajudem. Nós, os pobres, temos de poder com os nossos carregos. Mas se me quiseres ajudar eu não digo que não. Tu ainda és novo e tens força nas pernas. E, além disso, eu não moro muito longe. A minha casa fica do outro lado da montanha. Chegas lá num instante.

E o rapaz teve pena da velha.

- Apesar de não ser filho de um camponês, mas de um rico senhor - respondeu ele -, vou ajudá-la, tiazinha, para que não se diga que os camponeses têm que carregar com os seus fardos sòzinhos.

- Aceito de boa vontade - disse a velha. - Muito obrigada. Daqui a uma hora, estamos lá.

O rapaz hesitou quando ouviu dizer que tinha para uma hora de marcha, mas a velha não lhe deu tempo para desistir. Atirou-lhe com o molho de erva para as costas e meteu-lhe nas mãos os dois cestos de fruta.

- Vês - disse ela -, não é tão pesado como isso.

- Ah, isso é que é! - respondeu o jovem, fa­zendo uma careta. - O molho de erva pesa como se estivesse cheio de pedras e os cestos parecem de chumbo ! Quase não posso respirar !

Apeteceu-lhe deixar ali ficar tudo, mas a velha não lhe deu tempo, e ainda por cima fez troça dele.

- Ah, ah ! - riu ela. - São todos iguais, estes rapazes novos ! Não queres carregar com o peso que eu carreguei tantas vezes. Quando se trata de falar, está tudo muito bem, mas quando se trata de fazer, já não estão para isso ! Anda, nada de hesitações ! Mexe as pernas! Agora, já ninguém te tira este peso das costas !

Enquanto o terreno era a direito, ainda se aguen­tava, mas assim que principiava a subida da montanha, onde as pedras rolavam debaixo dos pés como se estivessem vivas, a marcha tornava-se insu­portável. O pobre rapaz já não podia mais. O suor escorria-lhe pela cara e pelas costas, fazendo-o sentir ora calor ora frio.

- Já não posso mais, tiazinha - queixava-se ele. - Deixe-me descansar um bocadinho.

-Ainda não - disse a velha. - Podes descansar lá em cima, quando chegarmos. Por agora, continua a andar. Não te faz mal nenhum.

- Oh, velha, estás a tornar-te maçadora! - disse o jovem.

E tentou desembaraçar-se do seu fardo. Mas foi inútil. O molho de palha parecia estar colado às suas costas com grude. Por mais que o sacudisse, não conseguia fazê-lo cair.

A velha fazia troça dele e caminhava aos saltinhos com a muleta, a rir às gargalhadas.

- Não te zangues, rapaz ! - dizia ela. - Estás encarnado que nem um pimentão ! Aguenta com paciência, que serás bem recompensado quando che­gares à minha casa.

O rapaz não teve mais remédio senão sujeitar-se e seguir conforme podia atrás da velha. Esta parecia cada vez mais rápida e o fardo parecia pesar cada vez mais. A certa altura, a velha tomou balanço, deu um salto para as costas do rapaz e escarran­chou-se nele còmodamente. Apesar de ser magríssima, pesava que nem chumbo.

O pobre rapaz já não tinha forças. As pernas tre­miamlhe, e quase não podia dar um passo. Mas a velha não tinha pena dele : batia-lhe nas costas com uma varinha e nas pernas com urtigas.

A gemer de fadiga, chegou finalmente à porta da casa da velha, onde quase caiu sem forças.

Ao verem a dona, os patos bateram as asas, esten­deram o pescoço e correram a grasnar, seguidos por uma guardadora muito suja, mais feia do que a noite dos trovões, mas alta e desempenada. A rapariga conduzia os patos com uma vara.

- Demorou-se muito, mãezinha ! - disse ela. - Aconteceu-lhe alguma coisa?

- Nada, minha filha - respondeu a velha. - Pelo contrário, este rapaz encantador carregou-me com tudo e, como viu que eu estava cansada, ainda me trouxe às costas. Não nos custou nada e conver­sámos durante todo o caminho.

Então a velha saltou para o chão, desembaraçou o jovem da sua carga e disse-lhe com um olhar amigável:

-Agora senta-te nesse banco junto da porta e descansa. Mereceste bem a tua recompensa, e não tarda que a recebas. E tu - disse ela para a guardadora de patos - vai para dentro, minha filha. Não é conveniente que fiques aqui sòzinha com um rapaz, porque ele podia apaixonar-se por ti.

Ao ouvir isto, o rapaz não sabia se havia de rir ou de chorar.

"Uma feiarrona daquelas ! - pensou ele para consigo. - Podia ter menos trinta anos, que mesmo assim não a queria!"

Enquanto falava, a velha não parava de fazer festas aos patos, como se eles fossem crianças. Depois entrou em casa mais a filha.

O rapaz deitou-se no banco, que ficava à sombra de uma macieira brava. O ar estava morno e calmo. Em redor da casa estendia-se um prado verde, bordado de malmequeres, de violetas e muitas outras flores. Por entre as flores, um regato brilhava ao sol. Os patos brancos andavam de cá para lá sobre a relva e chapinhavam na água.

É realmente um lugar encantador – disse o jovem para consigo – Mas estou tão cansado que sinto os olhos a fecharem-se. Vou dormir um bocado. Espero que as minhas pernas, que estão numa sopa, não caiam no chão como frutos poderes!

A velha deixou-o dormir um bocado, depois foi acordá-lo.

- Levanta-te - disse ela. - Não podes ficar aqui para sempre. É verdade que sofreste bastante, mas como ainda não estás morto, vou recompensar-te. Não precisas de ouro nem de riquezas, por isso vou dar-te outra coisa.

E         meteu-lhe na mão uma caixinha talhada numa esmeralda.

- Conserva-a religiosamente - disse ela. - Com esta caixa alcançarás a felicidade.

O rapaz levantou-se, fresco e bem disposto. Tinha recuperado as forças. Agradeceu à velha e partiu, sem ao menos olhar para a horrível guardadora de patos.

O jovem errou pelos campos durante três dias e três noites, até que chegou, a uma cidade onde nunca tinha estado antes. Como era estrangeiro, levaram-no ao palácio e mandaram-no entrar na sala do trono, onde estavam sentados o rei e a rainha. O jovem pôs o joelho em terra diante dos soberanos e, para lhes prestar homenagem, estendeu-lhes a caixa de esmeralda. A rainha pediu-lhe para se levantar. Então, ele entregou-lhe a caixa, mas assim que a rainha a abriu caiu logo desmaiada. Todos correram para junto dos soberanos enquanto os guardas agarravam o estrangeiro para o levar para a prisão. Mas a rainha voltou a si e ordenou que deixassem o rapaz em liberdade. Pediu a toda a gente que se retirasse porque queria falar a sós com ele.

Quando todos tinham saído da sala, a rainha começou a lamentar-se.

“- De que me servem os luxos e as riquezas - gemeu ela -, se todas as manhãs acordo a chorar? Tinha três filhas. A mais nova era tão bonita que todos se espantavam com tamanha beleza. Tinha a pele branca como a neve, as faces rosadas como flores de macieira e os cabelos dourados como o Sol. Quando chorava, não eram lágrimas que lhe corriam dos olhos, mas pérolas e pedras preciosas.

No dia em que a princesa fez quinze anos, o rei mandou vir as três filhas aqui, à sala do trono. Quando a mais nova apareceu, ficou toda a gente fascinada: parecia que era o próprio Sol que entrava na sala.

"- Minhas filhas - disse-lhes o rei-, não sei quando vou morrer, mas não quero esperar mais tempo para decidir da vossa herança. Sei que todas três gostam de mim, mas aquela que me tiver mais amor receberá a melhor herança.

"Cada uma das três disse que era ela quem lhe tinha mais amor.

"- Expliquem-me bem o vosso amor, para que eu possa fazer as partilhas.

"- Oh, meu pai -exclamou a mais velha-, amo-vos como ao mel mais doce !

"- E eu -exclamou a segunda-, amo-vos como ao meu vestido mais caro !

"Mas a mais nova ficou calada.

"-E tu, minha filha - perguntou o rei -como me queres?

"- Não sei - respondeu ela. - Não posso comparar com coisa nenhuma o amor que sinto por vós.

"O rei insistiu. Queria por força uma resposta. E a princezinha acabou por dizer:

"-A melhor das comidas não sabe a nada se não tiver sal, por isso quero tanto a meu pai como a comida quer ao sal.

"Ao ouvir estas palavras, o rei ficou furioso.

"- Se gostas tanto de mim como de sal - gritou ele -, não faltará sal na tua herança !

"E dividiu o reino entre as duas filhas mais velhas, enquanto mandava levar a mais nova para o interior do bosque, com um saco de sal ás costas.

"Foi escusado acudir por ela - continuou a rainha - e suplicar ao rei para não fazer isso. Estava tão zangado que não quis atender coisa

nenhuma.

"Quantas lágrimas chorou a pobre menina à partida ! O caminho ficou cheio das pérolas que rolaram dos seus olhos.

"O rei arrependeu-se depressa da sua fúria, e mandou procurar a filha por todo o país, mas ninguém sabia dela.

"A ideia de que tenha sido devorada pelos animais selvagens -continuou a rainha-, nunca mais deixei de chorar. Muitas vezes penso que ela ainda está viva e que encontrou refúgio em casa de alguma pessoa caridosa. Por isso, deve compreen­der o que senti quando, ao abrir a caixa que me ofereceu, vi uma pérola parecida com as que chorava a minha filha! Imagine como fiquei perturbada.

«É absolutamente necessário que me diga como esta caixa lhe veio parar às mãos.»

O jovem contou à rainha que a recebera de uma velha que vivia para lá do bosque. A velha não lhe parecera má pessoa, mas ele desconfiava de que fosse uma fada. Por outro lado, não tinha visto ninguém que pudesse ser uma princesa.

O rei e a rainha decidiram partir à procura da tal velha, pensando que onde estavam as pérolas devia estar a filha.

Entretanto, a velha continuava a viver na casinha solitária. Passados alguns dias, ao cair da noite, quando estava sentada junto da dobadoira, a fiar à luz da lareira, ouviu-se uma grande algazarra: eram os patos que voltavam do campo, seguidos pela guardadora. A velha não disse nada e a rapariga foi sentar-se ao pé dela, pegou na roca e começou a fiar também, com muita agilidade.

Passaram-se assim duas horas, no mais completo silêncio. Depois, uma ave nocturna veio bater com as asas no vidro da janela e espreitou para dentro com os olhos muito brilhantes. Era uma coruja, que piou três vezes. A velha levantou a cabeça e disse à rapariga:

- Vai ao teu trabalho, minha filha. São horas.

A guardadora de patos levantou-se e saiu de casa. Onde ia ela?

Desceu através dos campos até ao fundo do vale e parou ao pé de três velhos carvalhos. Havia ali uma fonte de onde corria uma água muito trans­parente. Tinha nascido a Lua, que mostrou a cara redonda por cima da montanha, banhando tudo com uma luz prateada. Nessa altura a rapariga tirou a máscara horrível que lhe escondia a cara, debruçou-se sobre a água e lavou-se. Depois lavou também a máscara de pele, que pôs a secar sobre a erva, à luz da Lua.

Que linda que ela estava agora! Tirou uma cabeleira grisalha e os cabelos verdadeiros cor de ouro caíram-lhe em cascata nos ombros.

Os olhos brilhavam como estrelas e as faces tinham a frescura das flores de macieira. Mas a rapariga estava triste. Chorava amargamente e as lágrimas que lhe caíam dos olhos rolavam como pérolas pelos cabelos de ouro. E teria ali ficado muito tempo a chorar, se não ouvisse um roçar de folhas muito perto. Com a ligeireza de uma gazela, a rapariga agarrou na máscara de pele e tornou a pô-la, enquanto uma nuvem escondeu a Lua. Quando a Lua tornou a aparecer, a rapariga tinha desaparecido.

Desatou a fugir e chegou a casa, a tremer como varas verdes. A velha estava à espera dela à porta, e a rapariga, que tinha outra vez uma cara horrível, quis contar-lhe o que se passara.

Mas a velha sorriu e disse - já sei tudo.

Mandou-a entrar em casa, pôs uma acha no lume, mas não pegou outra vez na roca. Agarrou numa vassoura e começou a varrer o chão.

- Temos que deixar tudo muito limpo - disse ela.

- Mas, minha mãe, porque está a trabalhar a uma hora destas? - perguntou a guardadora de patos. - Que se passa?

-Sabes que horas são? - perguntou a velha.

- Já bateram as onze. É quase meia-noite.

- Sabes que passaram três anos desde que aqui chegaste, minha filha? - disse a velha. - É altura de nos separarmos.

- Ah, querida mãe -exclamou a rapariga-, quer mandar-me embora! Mas para onde vou eu? Não tenho amigos no mundo e não sei para onde ir ! Obedeci-lhe sempre e sempre ficou satisfeita comigo. Não me mande embora, peço-lhe !

- Não posso aqui ficar mais tempo - respondeu a velha, que não queria explicar à rapariga o que a esperava. - E não quero partir sem deixar a casa arrumada. Por isso, não interrompas o meu trabalho. Não te preocupes, que não ficas sem abrigo. E a forma como vou recompensar-te será muito do teu agrado.

- Peço-lhe que me diga o que me vai acontecer ! - continuou a rapariga com insistência.

- Deixa-me trabalhar sossegada, já disse - respondeu a velha. -Não digas nem mais uma palavra, vai para o teu quarto, tira a máscara de pele e veste o vestido de seda que trazias no dia em que chegaste à minha casa. Depois, espera com paciência que eu te chame.

Entretanto, o que acontecera ao rei e à rainha? Tinham-se posto a caminho para o lugar afastado onde morava a velha, conduzidos pelo jovem. Mas durante a noite o rapaz perdeu-se deles e teve que seguir sòzinho.

No dia seguinte, pareceu-lhe reconhecer aqueles sítios. E continuou a caminhar até à noite. Então, subiu a uma árvore para dormir. Ainda não estava bem certo do caminho quando, à luz da Lua, viu a descer a montanha uma figura que lhe pareceu ser a guardadora de patos.

- Oh ! -murmurou ele-, aquela é uma das duas mulheres, e não é a mais velha, porque não traz muleta. A outra não deve andar longe.

Qual não foi o seu espanto quando viu a horrenda guardadora de patos tirar a máscara de pele, lavar-se na fonte e soltar os cabelos dourados. Nunca tinha visto tanta beleza. Mal se atrevia a respirar e, para ver melhor, esticava-se o mais que podia em cima do ramo da árvore, para espreitar por entre as folhas, sem fazer barulho. Mas com certeza que avançou demais, e o que é certo é que o ramo estalou de repente. No mesmo instante, a rapariga pôs a máscara, saltou como uma gazela e, como a Lua se escondeu naquela altura, desapareceu na escuridão da noite.

Assim que ela desapareceu, o jovem desceu da árvore e começou a segui-la. Sempre a correr, reparou em duas pessoas que caminhavam através do campo. Eram o rei e a rainha que tinham visto a luz da casa da velha e se dirigiam para lá.

O jovem foi ter com eles e contou-lhes o prodígio a que assistira junto da fonte. O rei e a rainha não duvidaram um instante que se tratava da filha. Com o coração cheio de alegria, apressaram-se para chegar à casa. Os patos dormiam, com a cabeça debaixo da asa, deitados em frente da porta. Mas não se mexeram.

Espreitaram pela janela. A velha fiava tranquilamente e nem sequer voltou a cabeça. A casa luzia de asseio, como se ali vivessem os gnomos de nevoeiro que nunca têm poeira nos pés.

Mas o rei e a rainha não viam vestígios da filha. Com o coração aos pulos, bateram levemente nos vidros.

A velha não pareceu surpreendida. Olhou para eles a sorrir e disse:

- Entrem, entrem, eu sei quem são. Já estava à vossa espera.

Quando entraram, a velha continuou:

- Tinham evitado muitos sofrimentos se há três anos não expulsassem injustamente a vossa filha mais nova. Durante estes três anos, não faltou nada à vossa filha. Ficou a guardar os meus patos de coração puro, longe de todos os males. E agora estão ambos bem castigados com a angústia em que viveram.

Então, chamou:

- Vem cá, minha filha !

A porta do quarto abriu-se e a princesa apareceu, com o seu vestido de seda. Os cabelos dourados e os olhos brilhantes davam-lhe a aparência de um anjo. E correu para os pais, estendendo-lhes os braços. Eles abraçaram-na e cobriram-na de beijos, chorando de alegria.

O jovem também ali estava. E quando o olhar da princesa se cruzou com o dele, a princesa ficou corada como uma rosa vermelha, sem mesmo saber porquê.

-Minha querida filha -disse-lhe o rei-, eu já não tenho reino. Que posso dar-te?

- Ela não precisa de nada - disse a velha. - Eu dou-lhe as lágrimas que ela chorou por vossa causa. São pérolas verdadeiras. Mais belas do que todas as que se encontram nos mares. E valem mais do que todo o vosso reino. E, em recompensa dos seus serviços, dou-lhe também a minha casa.

E, dizendo estas palavras, desapareceu. As paredes da casa estalaram. E quando o rei, a rainha e os dois jovens olharam em volta, a casa tinha-se transformado num luxuoso palácio. Em cima de uma grande mesa esperava-os um banquete real, e havia criados por todos os lados.

A história continua, mas não me lembro muito bem do fim. Certamente a linda princesa casou com o jovem e ficaram a viver naquele palácio, até ao fim dos tempos.

E os patos brancos como a neve que viviam com a velha seriam príncipes encantados? Não me admirava nada. E se voltaram à forma humana e ficaram a viver na corte, também não tenho a certeza, mas calculo.

É possível que a velha não fosse uma bruxa como as pessoas pensavam, mas uma boa fada. Quem sabe se não foi ela que à nascença concedeu à princesa o dom de chorar pérolas?

Estas coisas já não acontecem nos nossos dias, mas o que ainda acontece muitas vezes é os pobres enriquecerem.

 

                   ELISA COM JUÍZO

Um casal de camponeses tinha uma filha tão sossegada que os pais lhe chamavam Elisa com juízo.

-Temos que pensar em casá-la -disse um dia o pai.

-Sim -respondeu a mãe-, se houver um rapaz que queira casar com ela.

E acabaram por encontrar o rapaz. O pretendente chamava-se João, tinha vindo de uma aldeia afastada e aceitava a Elisa em casamento, com a condição de ter tanto juízo como diziam.

Os camponeses convidaram o João para almoçar, a fim de conhecer melhor a rapariga. A meio do almoço, a mãe disse à filha:

-Acabou-se a cerveja. Vai buscar mais à adega.

Elisa com juízo pegou na caneca e desceu à adega. Quando lá chegou, pôs a caneca em cima de um banco junto do tonel, para tirar a cerveja à vontade. Mas não nos devemos curvar muito quando fazemos qualquer coisa, porque podemos ficar marrecos !

E, por isso, a Elisa pôs a caneca no chão, sentou-se no banco e abriu a torneira. Enquanto a caneca se enchia, Elisa com juízo levantou os olhos e reparou que, mesmo por cima dela, estava pendurado na parede um esquadro, que os pedreiros tinham ali deixado. Então, Elisa com juízo começou a chorar e a dizer para consigo:

"Se eu casar com o João e tivermos um filho, quando for crescido e o mandarmos à adega buscar cerveja, aquele esquadro pode cair-lhe em cima da cabeça e matá-lo!"

Entretanto, os convidados estavam à espera da cerveja, e Elisa com juízo nunca mais vinha.

- Vai lá abaixo à adega - disse a mãe para a criada -, e vê o que se passa.

A criada desceu à adega e encontrou a Elisa sentada em frente do tonel, a chorar à lágrima viva.

- Porque estás a chorar, Elisa? - perguntou a criada.

- Ai ! - soluçou a rapariga. - Como não hei-de chorar? Se eu casar com o João e tivermos um filho, quando for crescido e o mandarmos à adega buscar cerveja, aquele esquadro pode cair-lhe em cima da cabeça e matá-lo !

- Oh! - gritou a criada -, como ela tem juízo! E sentou-se junto da Elisa e começou a chorar também.

Passado um grande bocado, como a criada não vinha e os convidados esperavam pela cerveja com impaciência, o pai disse ao criado:

- Vai à adega ver o que se passa.

O criado desceu à adega e viu a Elisa e a criada sentadas` ao pé uma da outra, a chorarem à lágrima viva.

- Porque estão a chorar? - perguntou ele.

- Ai ! - soluçou a Elisa. - Como não hei-de chorar? Se eu casar com o João e tivermos um filho, quando for crescido e o mandarmos à adega buscar cerveja, aquele esquadro pode cair-lhe em cima da cabeça e matá-lo !

- Oh! - gritou o criado -, como ela tem juízo ! E sentou-se ao pé da menina e começou a chorar também.

Os convidados estavam cada vez mais impacientes, o camponês disse à mulher:

- Vai à adega ver o que se passa.

A mulher desceu à adega e viu a Elisa, a criada e o criado, todos três sentados, a chorar à lágrima viva.

A mulher perguntou qual era a causa de tão grande desgosto, e quando a Elisa lhe explicou que depois de casar com o João, se tivesse um filho, e quando crescesse o mandassem à adega, morria com certeza com a pancada do esquadro pendurado na parede, a mãe gritou:

- Oh! Como ela tem juízo !

E sentou-se ao pé deles, e começou a chorar também.

O camponês ainda esperou um bocado, mas como estava cada vez com mais sede, disse ao João:

- Tenho que lá ir eu, para ver o que se passa.

E quando entrou na adega viu toda a gente a chorar à lágrima viva. Perguntou o motivo daquele desgosto e compreendeu que a Elisa, depois de casar com o João, havia de ter um filho, que quando crescesse ia à adega e morria com uma pancada do esquadro do pedreiro, e então gritou:

- Oh! Como ela tem juízo!

E sentou-se ao pé deles a chorar também.

O pretendente ficou sòzinho na sala de jantar e como nunca mais aparecia ninguém pensou:

"Se calhar estão lá em baixo à minha espera. Tenho que ir ver o que se passa."

E, quando entrou na adega, viu todos cinco a chorar e a lamentarem-se o mais que podiam.

- Aconteceu alguma desgraça? - perguntou ele.

-Ai, João -exclamou a Elisa -, se casarmos e tivermos um filho, quando for crescido e o mandarmos à adega buscar cerveja, aquele esquadro pode cair-lhe em cima da cabeça e matá-lo ! Achas que não devemos chorar?

- Certamente - declarou o João. - Tu és a mulher de juízo que me convém. Caso contigo.

Pegou-lhe na mão e subiram todos para a sala de jantar. E celebrou-se o casamento nesse mesmo dia.

O João e a Elisa estavam casados havia algum tempo quando, certa manhã, o João disse para a mulher:

Vou para o trabalho. Entretanto, pega na foice e vai ao campo ceifar o trigo. Precisamos de pão.

- Está bem, marido - respondeu a Elisa. – Fica descansado.

Depois de o marido se ir embora, a Elisa fez sopa de favas e levou-a para o campo. Quando lá chegou, disse para consigo:

"Por onde vou começar? Ceifo primeiro o trigo ou como as favas? Parece-me que vou comer primeiro as favas."

A Elisa sentou-se e comeu as favas. No fim, perguntou outra vez a si própria:

"Por onde vou começar? Ceifo primeiro o trigo ou durmo a sesta? Parece-me que vou dormir primeiro a sesta."

Então, a Elisa deitou-se no meio da seara e adormeceu.

E passou o dia inteiro. O João tinha chegado a casa havia muito tempo e a mulher não aparecia.

"Como ela tem juízo ! - pensou ele. - É tão trabalhadora que ainda não voltou."

Quando anoiteceu, o João foi ver a quantidade de trigo que a Elisa tinha ceifado. Mas assim que chegou ao campo, o trigo estava na mesma e a Elisa dormia a sono solto no meio das espigas.

O João voltou a correr para casa, pegou numa rede de caçar pássaros, cheia de guizos, e foi outra vez ao campo. Envolveu com ela a mulher, correu para casa, fechou a porta à chave e começou a trabalhar.

Até que a Elisa acabou por acordar quando já era noite escura. Levantou-se, e os guizos da rede começaram a fazer um barulho enorme cada vez que dava um passo. Sentiu um grande medo, e ficou tão atrapalhada que perguntava a si própria:

"Sou ou não sou a Elisa com juízo?"

Mas como não sabia que responder, ficou indecisa. Passados uns momentos teve uma ideia.

"Vou voltar para casa - pensou ela - e perguntar ao João. Nessa altura já fico a saber quem sou."

Correu para casa, mas encontrou a porta fechada à chave. Bateu com a aldraba e perguntou:

-João, está aí a Elisa?

- Está - respondeu o marido.

Então a Elisa sentiu um grande medo.

- Meu Deus ! - exclamou ela. - Então quer dizer que eu não sou a Elisa!

Foi bater a outra porta, mas com o barulho dos guizos as pessoas ficavam desconfiadas e não lhe abriam a porta. E, assim, a pobre Elisa não encontrou pousada em parte nenhuma. Até que, por fim, se foi embora da aldeia e nunca mais ninguém a tornou a ver.

 

                   SEIS COMPANHEIROS PELO MUNDO FORA

Um sargento do exército, corajoso e desembaraçado, tinha servido valentemente o seu rei na guerra, até ao dia em que foi assinada a paz e lhe agradeceram dando-lhe apenas três miseráveis moedas para regressar à aldeia onde nascera.

- Ah, não ! Isto não fica assim ! -exclamou o soldado, furioso. - Já que não me querem pagar os meus bons serviços vou procurar companheiros que me ajudem e hei-de obrigar o rei a dar-me todas as riquezas do reino !

E         meteu-se a caminho, com o coração cheio de amargura.

Ao atravessar uma floresta, viu um homem que arrancava árvores enormes pela raiz com tanta facilidade como se fossem simples ervas.

- Queres entrar ao meu serviço, e vir comigo para onde eu for? -perguntou o soldado. - Os dois juntos podemos conquistar o mundo.

-De boa vontade -respondeu o lenhador-, mas primeiro tenho que levar esta lenha.

E começou a fazer um molho com as seis árvores que tinha arrancado, pô-lo às costas e levou-o como se fosse um molho de palha.

Depois veio ter com o seu novo patrão e meteram-se ambos a caminho.

Passado pouco tempo, viram um homem ajoelhado num campo, de espingarda à cara, pronto a disparar.

- Eh, caçador ! Que estás a fazer? - perguntaram eles.

- A duas milhas daqui, está uma mosca pousada no tronco de um carvalho. Para a matar ao primeiro tiro, estou a fazer-lhe pontaria ao olho direito.

- Vem connosco - disse o soldado -, e os três juntos conquistaremos o mundo.

E o caçador foi com eles.

Os três companheiros foram ter a uma extensa planície onde as asas de sete moinhos giravam a toda a velocidade embora não corresse a mais leve aragem.

- É extraordinário ! - exclamou o soldado. - Não corre a mais leve brisa. Pergunto como é que as asas destes moinhos conseguem girar.

E continuou o seu caminho, seguido dos companheiros.

A duas milhas dali, viram um homem a cavalo no ramo de uma árvore, que tapava uma narina com o dedo, e soprava pela outra.

- Que estás a fazer aí em cima, a soprar dessa maneira? - gritou-lhe o soldado.

- A duas milhas daqui, há sete moinhos - respondeu o homem. - Repara. Sopro para os fazer girar.

- Vem connosco - disse o soldado. - Nós os quatro juntos conquistaremos o mundo.

O soprador desceu da árvore e juntou-se a eles.

Passado algum tempo, encontraram um homem de pé numa perna só. Tinha tirado a outra e encostara-a a uma árvore.

- Que maneira tão estranha de descansar - disse-lhe o soldado.

- É que sou corredor de profissão - respondeu o homem. - E quando fico com as duas pernas, corro tão depressa que nem uma andorinha a voar me apanha. Tirando uma das pernas, consigo correr normalmente.

- Vem connosco - disse o soldado. - Nós os cinco conquistaremos o mundo.

E o corredor foi com eles.

Daí a bocado, encontraram um homem com um chapéu todo inclinado sobre uma orelha.

-Nunca vi pôr um chapéu assim! - disse-lhe o soldado. - Porque tapas uma orelha? Ficas com uma cara que dá vontade de rir !

- Não posso fazer outra coisa - disse o homem do chapéu. -Se o puser como deve ser, o ar arrefece tanto que os pássaros caem mortos de frio.

- Vem connosco - disse o soldado. - Nós os seis juntos conquistaremos o mundo.

Depois de caminharem durante algumas horas, os seis companheiros chegaram a uma cidade onde havia a maior agitação, e perguntaram a causa daquele tumulto.

E alguém respondeu:

- O rei mandou apregoar que o homem que batesse a princesa numa corrida casaria com ela, mas que se perdesse perdia também a cabeça.

Por isso, ninguém quer concorrer.

O soldado foi ter com o rei e perguntou-lhe se podia mandar um dos seus criados correr por ele.

- Podes, sim -respondeu o rei-, mas se o teu companheiro não ganhar a corrida mando cortar a cabeça aos dois.

-Entendido -disse o soldado.

E foi ajudar o corredor a atarrachar a perna. -Agora faz os possíveis por ganhar a corrida. Mas não se tratava de uma corrida vulgar.

Entregavam aos concorrentes um pote, que devia ser cheio numa fonte afastada do ponto de partida, Quem chegasse primeiro com o pote cheio ganhava a corrida.

Então, o corredor e a princesa receberam cada um um pote e partiram ao mesmo tempo.

Mas, passados alguns segundos, enquanto a princesa ainda só tinha percorrido uma parte do trajecto, o corredor já mal se via no horizonte. Os espectadores perderam-no completamente de vista. Passara como um foguete.

Quando chegou à fonte, encheu o pote e tornou a partir a toda a velocidade. Mas no caminho de regresso sentiu-se cansado. Pôs o pote no chão, deitou-se e adormeceu.

Tinha deitado a cabeça numa pedra que ali estava, para não ficar muito bem instalado e acordar daí a pouco.

Mas, entretanto, a princesa, que corria tanto como um homem bem treinado, encheu o seu pote e voltou para trás.

Quando passou pelo adversário e o viu a dormir, ficou toda contente.

"Já lhe ganhei!", disse ela para consigo.

Aproximou-se sem fazer barulho, despejou-lhe o pote e continuou a corrida.

Todas as esperanças pareciam agora perdidas para o homem.

Mas, felizmente, o caçador, que estava a assistir à corrida do alto das ameias do castelo, graças aos seus olhos de lince, tinha visto tudo.

-Não pode ser a filha do rei a ganhar!-exclamou ele.

Pôs a espingarda à cara e deu um tiro tão certeiro que a pedra partiu-se em mil bocados debaixo da cabeça do corredor, sem lhe causar o menor mal.

O corredor acordou, deu um salto, e percebeu que o pote estava vazio.

Viu que a princesa estava quase a chegar, mas não perdeu a coragem. Voltou à fonte, tornou a encher o pote e conseguiu, apesar de tudo, chegar à meta uns bons dez minutos antes da princesa.

O rei e a filha ficaram muito contrariados. A princesa não queria de forma nenhuma casar com um homem de condição tão humilde como o antigo soldado. Por isso, procuraram ambos forma de se desfazer dele e dos companheiros.

- Fica descansada, minha filha - disse o rei. - Tenho uma ideia. Parece-me que dentro de pouco tempo nunca mais os veremos.

Mandou vir o soldado e os companheiros e convidou-os para comer numa das salas do palácio.

E meteu-os numa sala que tinha o chão de ferro, portas de ferro e varões de ferro nas janelas.

No meio da sala estava uma mesa posta, com os pratos mais saborosos que se possam imaginar.

- Entrem - disse o rei - e comam à vontade.

Depois retirou-se e mandou fechar as portas à chave.

Então, chamou o cozinheiro do palácio e mandou-o acender uma fogueira enorme por debaixo da tal sala, a fim de aquecer o chão ao rubro.

O cozinheiro obedeceu.

Os seis companheiros comiam alegremente, quando começaram a sentir um grande calor. Mas a princípio julgaram que era do tempero da carne e da força dos vinhos.

O calor aumentava cada vez mais, até se tornar insuportável.

Quiseram sair, mas encontraram as portas fechadas.

Compreenderam então que tinham caído numa armadilha, e que o rei não queria outra coisa senão que eles morressem assados.

- Então já vai ver o que acontece - disse o homem do chapéu. -Vou provocar um frio tão grande que o calor desaparece logo !

Pôs o chapéu a direito no alto da cabeça e no mesmo instante fez tanto frio na sala que o molho gelou nos pratos.

Passadas duas horas, o rei pensou que estava livre dos seis companheiros.

Mandou abrir as portas e foi pessoalmente ver o resultado da sua partida.

Mas, com grande espanto, encontrou os seis homens alegres e bem dispostos. Os companheiros cumprimentaram-no amàvelmente e perguntaram se podiam sair para se aquecerem um pouco, visto que a seguir ao calor agradável que havia na sala fizera um frio de gelar as pedras.

O rei, furioso, desceu à cozinha e pregou uma descompostura no cozinheiro por não ter cumprido as suas ordens.

-Majestade -respondeu o cozinheiro-, como podia activar ainda mais um fogo destes? Vede vós mesmo !

O rei pôde verificar que realmente estava aceso um verdadeiro braseiro debaixo da sala de ferro. E compreendeu que tinha que lutar com homens difíceis de vencer.

E pensou noutra partida.

Mandou chamar o soldado e disse-lhe:

- Proponho-te que renuncies à mão da minha filha em troca de todo o ouro que quiseres.

- Aceito, Majestade - respondeu o soldado. - Contento-me com um saco que um dos meus companheiros possa transportar. Em troca, renuncio à mão da vossa filha.

O         rei ficou todo contente por resolver o problema com tanta facilidade.

- Daqui a quinze dias venho buscar o ouro - disse o lenhador.

E partiu imediatamente para convocar todos os alfaiates do reino, a quem mandou fazer sem demora, durante quinze dias e quinze noites, um saco gigantesco.

Quando terminou este prazo, o lenhador pôs o saco às costas e partiu a caminho do castelo.

-Meu Deus ! -exclamou o rei, assim que o viu. - Como posso medir-me com um homem que carrega como se fosse uma pena um saco do tamanho de uma casa? Cabem lá dentro todos os meus tesouros.

E mandou vir uma tonelada de ouro às costas de um dos seus criados mais fortes.

O lenhador agarrou na tonelada de ouro só com uma das mãos, meteu-a no saco e disse:

- Porque não me trazem mais de cada vez? Este ouro nem sequer chega para tapar o fundo do saco!

Daí a pouco, o rei mandou vir todo o ouro dos seus cofres, que o lenhador meteu dentro do saco.

Mas o saco ainda nem sequer estava meio.

- Mande vir mais, Majestade - disse o homem. - Com estas migalhinhas nunca mais chegamos ao fim.

E vieram sete mil carros carregados de ouro, de todos os cantos do país.

O lenhador agarrou em tudo e meteu dentro do saco, juntamente com os bois, os cavalos e os carros.

-Meto tudo à matroca, para ser mais depressa - explicou ele. - O que quero é ver o saco cheio.

E como, depois de atirar com tudo à mistura para dentro do saco, ainda lhe sobrava espaço, o lenhador declarou com bom modo:

- já chega. Apesar de ainda não estar cheio, assim é mais fácil de fechar.

Baixou-se, carregou com o saco às costas e foi ter com os companheiros.

Ao ver aquele homem sòzinho levar todos os tesouros do reino, o rei teve um ataque de fúria.

E logo mandou um exército a cavalo perseguir os seis companheiros e tirar o saco ao lenhador.

Os cavaleiros depressa chegaram ao pé dos seis homens e assim que os viram gritaram:

- Entreguem-se ! Vimos prendê-los ! E tu, homem do saco, entrega tudo o que levas, senão, ai de vocês !

- O quê? ! - gritou o homem que soprava pelo nariz. - Vêm prender-nos? Ah, ah! Então, preparem-se!

E, tapando uma narina, o homem soprou pela outra na direcção dos cavaleiros, que foram pelos ares, com cavalos e tudo, e voaram por cima das montanhas, até quase ao céu.

O sargento-mor, levado no remoinho, pediu misericórdia quando passou por cima das cabeças dos seis companheiros.

Tinha sido ferido nove vezes durante as suas batalhas -dizia ele - e era um valente soldado que não merecia tão grande vexame.

O homem assoprou com menos força para o deixar pousar no chão sem se magoar.

- Vai ter com o rei - disse-lhe o homem que

soprava pelas narinas - e avisa-o para não mandar exércitos em nossa perseguição, porque os atiro a todos pelos ares.

Quando ouviu esta mensagem, o rei não teve mais remédio senão desistir.

- Deixem esses homens em paz -- disse ele. - São fortes demais para nós.

Os seis companheiros voltaram para casa depois de dividirem as suas riquezas.

E foram todos muito felizes até ao fim da vida.

 

                   AS TRÊS FIANDEIRAS

Uma boa mulher tinha uma filha tão preguiçosa que até se recusava a fiar. Era escusado a mãe ralhar com ela, porque a rapariga não fazia caso. Certo dia, perdendo a paciência, a mãe deu-lhe uma sova mestra. A rapariga começou a chorar em altos gritos, e a rainha, que ia a passar por ali, quis saber a razão daquelas lágrimas. Mandou parar o coche e entrou na pobre casa para interrogar a menina. E ela disse que a mãe lhe tinha batido. Então a rainha perguntou à mãe porque tinha batido tanto na filha, ao ponto de se ouvir chorar na estrada. Com vergonha de que a rainha soubesse que a filha era uma preguiçosa, a mãe respondeu:

- Porque não pensa senão em fiar. Está sempre a fiar, de dia e de noite. E como sou pobre, não posso comprar-lhe todo o linho que ela quer.

-Não há nada que eu mais goste de ouvir do que o barulho da dobadoira - respondeu a rainha. - Entrega-me a tua filha. Há no meu palácio linho suficiente para a contentar.

A mãe ficou muito satisfeita por se ver livre de tão grande preguiçosa, e aceitou a proposta. A rainha levou a rapariga para o palácio e mandou-a subir para uma torre muito alta. Ali mostrou-lhe três salas cheias até ao tecto de linho da melhor qualidade.

- Fia este linho - disse-lhe a rainha. - Quando acabares a tarefa, dou-te o meu filho mais velho em casamento. Não me importo que sejas pobre, porque tão grande amor ao trabalho vale bem um dote.

A rapariga ficou cheia de medo. Não podia fiar aquele linho, porque não sabia senão ficar sentada sem fazer coisa nenhuma. E assim ficaria de boa vontade durante toda a vida, ainda que vivesse até aos cem anos !

Quando se encontrou sòzinha, começou a chorar, e a chorar continuou durante três dias, sentada num tamborete. No terceiro dia, a rainha veio vê-la e ficou espantada por verificar que ela ainda não tinha sequer começado a fiar. A grande preguiçosa deu a desculpa de que não podia fiar com o desgosto de estar longe da mãe. Esta prova de amor filial comoveu a rainha, que não se zangou com ela.

- Mas tens que meter mãos ao trabalho a partir de amanhã -disse a rainha.

Quando ficou novamente sòzinha, a rapariga pensou, cheia de aflição, em como podia resolver aquele problema. Encostou-se à janela e ficou a pensar na sua triste sorte.

Então, viu aproximarem-se três mulheres muito feias e todas tortas. A primeira tinha um pé mais comprido do que o outro, e andava com dificuldade, a segunda tinha o lábio inferior tão descaído que lhe tapava o queixo, e a terceira tinha o dedo polegar da mão direita maior do que qualquer outro dedo da mão. As velhas pararam debaixo da janela, chamaram pela menina e perguntaram-lhe porque estava tão triste.

E a pobre rapariga explicou a causa do seu desgosto.

-Nós podemos ajudar-te -disseram elas-, mas com a condição de nos convidares para o teu casamento, de nos chamares primas sem ter vergonha de nós e de nos reservares um lugar no banquete da boda. Nestas condições, fiamos-te o linho num instante.

-Aceito de boa vontade ! -exclamou a preguiçosa. - Venham depressa e comecem já a trabalhar.

Mandou entrar as três mulheres na primeira sala onde estava o linho e deixou-as lá ficar. Depois foi para a sala seguinte e pôs-se a espreitar por uma greta da porta.

A primeira dava ao pedal da dobadoira e conduzia o fio. A segunda molhava-o com a saliva e a terceira enrolava-o e partia-o com o polegar, quando a bobina já estava cheia. E fiaram todo o linho da pri meira sala num instante.

Quando chegou a rainha, a rapariga escondeu as três velhas e mostrou um monte de bobinas de linho fiado. A rainha não cabia em si de contente.

No dia seguinte, as velhas passaram à segunda sala, depois à terceira e terminaram ràpidamente todo o trabalho.

Então, as três fiandeiras despediram-se da rapariga.

- Não te esqueças do que nos prometeste - disseram elas. - Se cumprires a promessa, serás sempre feliz.

Quando a rapariga mostrou à rainha as três salas cheias de bobinas fiadas, a rainha mandou preparar as bodas. O príncipe estava radiante por casar com uma mulher tão habilidosa e trabalhadora, e não se cansava de a gabar.

-Tenho três primas -disse a rapariga na altura de fazer os convites para a boda. - Foram muito boas para mim e quero que elas assistam ao meu casamento. Permiti que as convide e as sente à nossa mesa.

- Porque não? - responderam ao mesmo tempo a rainha e o filho.

E assim, no dia da boda, as três fiandeiras apareceram no meio dos convidados. Mas os trajes luxuosos que vestiam não lhes disfarçavam as disformidades.

- Venham cá, minhas primas - disse a noiva.

- Meu Deus ! - murmurou o príncipe à esposa-, como as tuas primas são feias !

Mas cumprimentou-as com amabilidade e perguntou à primeira:

- Porque tem o pé tão comprido?

- Foi de dar ao pedal da dobadoira - respondeu ela.

Então o príncipe perguntou à segunda:

Porque tem o lábio tão descaído?

- Foi de molhar o fio respondeu ela. Por fim, o príncipe perguntou à terceira:

- Porque tem o polegar maior do que os outros

dedos?

- Foi de enrolar o fio – respondeu ela.

O príncipe ficou horrorizado e pensou que a mulher um dia também ficaria assim se continuasse a fiar tanto. E então declarou:

- A minha querida esposa nunca mais pegará numa roca!

E foi assim que a menina se livrou mais uma vez do trabalho de fiar.

      

                  O REI DA MONTANHA DE OURO

Um rico negociante tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, tão pequeninos que ainda mal sabiam andar. O negociante era dono de dois barcos de carga, que constituíam toda a sua fortuna. Os seus negócios prosperavam e tudo lhe corria às mil maravilhas, quando recebeu uma triste notícia: os dois barcos tinham naufragado com todo o carregamento e com eles todas as suas esperanças. Depois deste desastre, a vida do homem modificou-se completamente: de rico passou a ser pobre, e, dentro de pouco tempo, só tinha como únicos haveres um campo perto da cidade.

Passado algum tempo, o negociante, para espantar as suas preocupações, saiu da cidade e dirigiu-se ao tal campo. Mas não conseguia distrair-se do seu desgosto e não fazia senão andar de cá para lá com ar preocupado.

- Porque estás tão triste? - perguntou-lhe de repente um anão todo vestido de preto, que parecia ter saído da terra. - Qual é o teu desgosto?

-Se ao menos tu pudesses ajudar-me - respondeu o negociante -, contava-te de boa von­tade.

- Quem sabe? - disse o homenzinho vestido de preto. - Nada é impossível.

O negociante contou-lhe como toda a sua fortuna se perdera no fundo do mar e confessou-lhe que ape­nas lhe restava aquele campo para sustentar a família.

-É só esse o problema?-tornou o anãozinho. -Se me prometeres que daqui a quinze anos man­das a este mesmo sitio o primeiro ser que te tocar na perna quando chegares a casa, dou-te todo o dinheiro que quiseres.

O negociante pensou para consigo que seria com certeza o cão o primeiro a vir fazer-lhe festas quando entrasse em casa e aceitou a combinação. E nem por um momento se lembrou dos filhos. Assinou e selou o contrato e voltou para casa.

O filho estava a brincar em frente da porta e, quando viu o pai, quis ir ter com ele, cheio de alegria por o tornar a ver. Mas ainda não se aguentava bem de pé, perdeu o equilíbrio e agarrou-se à perna do pai. Foi nessa altura que o negociante viu o pacto que tinha assinado, e ficou muito aflito. Entrou ràpidamente em casa e correu a abrir os seus cofres. Mas estavam vazios, e por isso imaginou que se tratava apenas de uma brincadeira de mau gosto do anãozinho vestido de preto.

Passado um mês, já não tinha recursos e preparava-se para vender os seus últimos potes de estanho. Mas, quando lhes pegou, viu que estavam cheios de moedas de ouro. E em pouco tempo tornou a ficar tão rico como dantes. O negociante não cabia em si de contente.

Entretanto, o filho crescia e chegava à idade da razão. Mas, quanto mais ele se aproximava da idade fatal dos quinze anos, mais o pai se atormentava e deixava transparecer no rosto os sinais da sua preocupação.

O filho percebeu e perguntou-lhe qual era a causa da sua inquietação, mas o pai mudou de conversa e não lhe respondeu. O rapaz insistiu de tal forma que o negociante acabou por lhe contar o que se tinha passado : assinara o pacto mais desastroso da sua vida, comprometendo-se a entregar o filho ao anão vestido de preto, em troca da fortuna. E agora não podia faltar ao prometido. Já se tinham passado os quinze anos e era obrigado a cumprir a sua palavra.

- Não te preocupes, pai - disse o rapaz. - Tudo pode ainda arranjar-se. Esse anão deve ser o diabo, e não pode nada contra mim.

O rapaz foi ter com o padre e pediu-lhe a bênção. E, no dia marcado, acompanhou o pai ao campo e traçou no chão um círculo em volta de ambos. Daí a pouco chegou o homenzinho vestido de preto e perguntou ao pai:

- Trouxeste-me o que prometeste?

O pai ficou calado, e foi o filho quem respondeu: - Que queres tu?

- Foi com o teu pai que fiz o negócio e não contigo -respondeu o anão.

- Enganaste o meu pai, e, portanto, renuncia a esse pacto.

- Não - disse o homenzinho de preto -, nunca desisto do que me é devido.

Discutiram durante muito tempo e acabaram por chegar a acordo. O filho não pretenceria nem ao pai nem ao diabo. Teria que se meter num barco e           seria lançado às ondas na maré baixa, e o próprio negociante o empurraria com o pé para o largo.

E então o rapaz só tinha que se deixar levar pela corrente até outra margem qualquer.

E assim se fez. O rapaz disse adeus ao pai e subiu para o barco, que o negociante empurrou com o pé para o largo. Mas o barco voltou-se e o pai julgou que o filho se tinha afogado. Voltou para casa, cheio de angústia, e chorou a morte do filho.

Mas o barco não tinha naufragado. Pelo contrário, continuou a navegar naquela posição e o jovem seguia dentro dele são e salvo. A corrente levou-os para um país desconhecido. O barco encalhou numa praia junto de uma montanha onde se erguia um castelo rodeado de altas muralhas. O rapaz escalou a montanha e quando entrou no castelo compreendeu que se tratava de um lugar encantado. Vagueou de sala em sala, mas todas estavam vazias, excepto a última, onde havia uma enorme serpente.

- Até que enfim chegas para me libertar ! - disse a serpente com uma voz muito meiga. - Que alegria! Há quinze anos que te espero. Um feiticeiro transformou-me em serpente, enfeitiçou o meu castelo e só tu podes quebrar o encanto em que estou presa.

- E como posso eu fazer isso? -perguntou o rapaz.

- Esta noite vão chegar doze homens vestidos de preto, carregados de correntes. Vão perguntar-te o            que vieste aqui fazer. Não lhes respondas, seja o que for que digam ou façam. Vão torturar-te, bater-te e picar-te com espadas. Mas sofre tudo em silêncio e não digas uma palavra. À meia-noite eles vão-se embora. Mas amanhã à noite tornarão a vir outros doze, e na terceira noite serão vinte e quatro. E dessa vez cortam-te a cabeça. Mas à meia-noite perdem para sempre o seu poder. E se tiveres suportado todos os sofrimentos sem dizer uma palavra, sem soltar um gemido, então ficarei livre. Possuo um elixir que te fará voltar à vida, são e salvo.

- Aceito todas essas torturas para te libertar - respondeu o rapaz.

E tudo se passou como a serpente tinha dito. Os homenzinhos vestidos de preto não conseguiram arrancar nem uma só palavra, nem o mais pequeno gemido à sua vítima, e na terceira noite, quando soou a última badalada da meia-noite, quebrou-se o encanto. A serpente recuperou a forma humana e transformou-se numa linda princesa. Com o seu elixir mágico fez com que o rapaz voltasse à vida. Gostaram um do outro e casaram, e houve grandes festejos no castelo para festejar a boda. Nesse mesmo dia o rapaz ficou a ser o Rei da Montanha de Ouro.

Os dois esposos tiveram a maior alegria quando, um ano mais tarde, a rainha deu ao mundo um lindo menino.

Passaram-se oito anos. O rei sentia saudades do pai. Queria vê-lo, e resolveu ir procurá-lo para o trazer consigo para o castelo. Mas a rainha não o queria deixar partir.

- Tenho o pressentimento de que isso nos vai trazer desgraça - dizia ela.

Mas o rei insistiu de tal forma que ela acabou por concordar. A despedida, a rainha deu-lhe um anel encantado e disse:

- Põe este anel no dedo. É um anel mágico, e basta voltá-lo no dedo para seres transportado e transportares quem tu quiseres ao sítio que te apetecer. Mas promete-me que nunca o usarás para me levar a casa do teu pai.

O rei prometeu, enfiou o anel no dedo, e desejou estar às portas da cidade onde morava o pai. O seu desejo foi satisfeito naquele mesmo instante, e o

rei encontrou-se junto das muralhas da cidade. Mas quando quis entrar, os guardas não o deixaram. O luxo e a estranheza do seu traje pareceram-lhes suspeitos, e o rei teve de desistir. Subiu à montanha e trocou as suas roupas com o primeiro pastor que encontrou. E assim pôde entrar na cidade sem haver problemas.

Quando chegou a casa do pai, ninguém o reconheceu. Foi escusado afirmar que era ele próprio, porque ninguém acreditou. O negociante disse que tivera realmente um filho, que morrera afogado havia muito tempo. Mas, como se tratava de um pobre pastor, deram-lhe uma boa tigela de sopa. O falso pastor insistiu.

- Eu sou o seu filho - disse ele ao pai. - Não tenho nenhum sinal particular por onde me reconheça?

- Sim - disse o pai. - O meu filho tinha um sinal de nascença debaixo do braço direito, do feitio de uma estrela.

O pastor arregaçou a manga e todos puderam ver o sinal. E o pai não duvidou mais de que aquele era o filho.

O rapaz contou-lhe como se tornara Rei da Montanha de Ouro, depois de casar com a princesa, que lhe dera um filho, que já tinha sete anos.

- Não posso acreditar que um rei se apresente na minha casa metido nos farrapos de um pastor ! -exclamou o negociante.

Furioso por ver que o pai não o acreditava, o rei esqueceu-se da promessa e, dando volta ao anel, desejou a presença da rainha e do filho. No mesmo instante apareceram ambos, mas a rainha lamentava-se e censurava o marido por ter faltado à sua palavra, o que, segundo dizia, ia trazer-lhes desgraça.

-Se procedi assim -respondeu o rei-, foi sem má intenção. Perdoa-me e não me queiras mal.

E fez muitas festas à esposa, que pareceu conformar-se. Mas no fundo do seu coração ficou muito preocupada.

O rei levou a mulher e o filho para fora da cidade, para lhes mostrar o campo onde tinham começado todas as suas aventuras. Depois mostrou-lhe o sítio de onde o barco partira. Estava cansado e quis descansar um pouco.

- Sentemo-nos no chão - disse ele à mulher. - Estou fatigado e quero dormir com a cabeça no teu colo.

Assim fizeram, e ela passou-lhe as mãos pelos cabelos, até que ele adormeceu. Então, muito devagarinho, a rainha tirou o anel do dedo do marido, e conseguiu levantar-se sem o acordar. Pôs-lhe um dos seus sapatos debaixo da cabeça, pegou no filho ao colo e desejou encontrar-se no seu castelo.

Quando o rei acordou, viu que estava sòzinho. A mulher tinha partido com o filho e tinha levado o anel, deixando-lhe ficar só um sapato.

- Não posso voltar para casa do meu pai - pensou ele. - Iam tomar-me por feiticeiro. Não tenho mais remédio senão ir a pé até ao meu reino.

O rei andou durante muito tempo, até que chegou junto de uma montanha onde se encontravam três gigantes, que discutiam. Não chegavam a acordo sobre a melhor maneira de dividir a herança do pai. Quando o viram, disseram-lhe que às vezes os homens pequenos são muito espertos e que ele talvez os pudesse ajudar a entenderem-se.

A herança consistia numa espada, uma capa e um par de botas. Quem tivesse a espada, bastava-lhe dizer : "Todas as cabeças no chão, menos a minha! E E todos os que estivessem perto caíam logo com a cabeça cortada. Quem pusesse a capa nos ombros tornava-se invisível. E quem calçasse as botas era logo transportado onde quisesse.

- Dêem-me essas três coisas -disse o rei aos gigantes. - Quero primeiro experimentar se isso é verdade.

Os gigantes deram-lhe a capa e assim que ele a pôs nos ombros ficou invisível.

- Esta capa é realmente mágica - disse ele, tirando a capa. - Agora dêem-me a espada.

- Ah, isso é que não ! - responderam os gigantes. - Não a entregamos a ninguém. Bastava tu dizeres: "Todas as cabeças no chão, menos a minha!" para ficarmos sem cabeça. E a espada era só para ti !

Apesar disso, deixaram-no experimentar a espada no tronco de uma árvore, se prometesse não dizer as palavras mágicas. O rei pegou na espada e cortou o tronco de um enorme carvalho como se fosse uma ervinha.

- E agora, deixem ver as botas - disse ele, sem lhes devolver a espada nem a capa.

- Ah, isso é que não - responderam os gigantes. - Não as largamos. Se tu as calçasses e quisesses ir ter ao alto desta montanha, nós ficávamos aqui de mãos vazias.

-Não tenham receio - disse-lhes ele-, que eu não faço uma coisa dessas.

Então os gigantes entregaram-lhe o par de botas. E mal as enfiou ele desejou em voz baixa encontrar a mulher e o filho.

- Quero estar no alto da Montanha de Ouro ! - murmurou o rei.

E desapareceu imediatamente da vista dos gigantes, que ficaram assim com a questão da herança resolvida.

Quando chegou ao seu reino, o rei dirigiu-se ao castelo. Durante o caminho ouviu cânticos de festa e perguntou o que se passava. As pessoas responderam-lhe que era a rainha que se ia casar naquele mesmo dia.

O rei ficou furioso, e pondo aos ombros a capa que o tornava invisível entrou no castelo. Quando chegou à sala do trono, viu uma mesa posta, onde estavam servidos os pratos mais saborosos. Os convidados comiam e bebiam alegremente em volta da rainha, que tinha a coroa e o manto postos. Sempre invisível, o rei colocou-se por detrás dela, e assim que um criado lhe punha comida no prato o Rei da Montanha de Ouro tirava-a e comia-a. Quando um criado servia um pouco de vinho à rainha, era ele também que o bebia. E por mais que os criados servissem a rainha, ela tinha o prato sempre vazio, porque tudo desaparecia sem se saber como.

A rainha ficou muito perturbada e pensou que estava a ser castigada pela sua traição ao rei. Levantou-se da mesa, foi para o quarto e começou a chorar. O Rei da Montanha de Ouro seguiu-a.

- Será o diabo quem me atormenta desta forma? - gemeu a rainha. - Nunca mais virá quem me liberte?

Então o rei disse:

- Quem te libertou está aqui ! Ah, traidora ! Eu merecia que me fizesses isto?

Tirou a capa dos ombros e tornou-se visível.

Depois voltou à sala do trono e gritou:

- Não há casamento nenhum! O verdadeiro rei voltou!

Os reis, príncipes e conselheiros começaram a fazer troça dele. Vendo isto, disse-lhes com cara de poucos amigos:

- Vão-se embora ou não?

Mas como todos o cercaram para o agarrar, puxou da espada e gritou:

-Todas as cabeças no chão, menos a minha!

E o chão ficou cheio de cabeças cortadas. E assim o Rei da Montanha de Ouro voltou a ser de novo senhor do seu reino.

 

                                                                                Irmãos Grimm  

 

                      

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