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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS MISTÉRIOS DE OSÍRIS / Christian Jacq
OS MISTÉRIOS DE OSÍRIS / Christian Jacq

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS MISTÉRIOS DE OSÍRIS

 

 

Iker abriu os olhos.

 

Não se podia mover.

Atado de pés e mãos, estava solidamente preso ao mastro principal de um grande barco que vogava a boa velocidade num mar calmo.

 

A margem onde passeava no fim de um dia de trabalho, os cinco homens que se precipitavam sobre ele batendo-lhe com paus, o vazio... Todo o corpo lhe doía e a cabeça estava em fogo.

 

Desatem-me! implorou.

 

Um corpulento barbudo aproximou-se dele.

 

Não estás satisfeito com a tua sorte, meu rapaz?

 

Por que me raptaram?

 

Porque tu nos vais ser muito útil. Belo barco, não? Chama-se Veloz mede cento e vinte côvados de comprimento e quarenta de largura. Precisava mesmo disto para cumprir a minha missão.

 

Que missão?

 

És muito curioso! Mas considerando o que te espera, posso confidenciar-te que nos dirigimos para o país de Punt.

 

A terra divina? Não passa de uma lenda para as crianças! O capitão sorriu.

 

Achas que cento e vinte marinheiros de coração mais valente do que o dos leões teriam embarcado para conquistar uma lenda? A minha tripulação não é composta por sonhadores mas por rudes marinheiros que vão ficar ricos, muito ricos.

 

- Não quero saber da riqueza! Só quero tornar-me escriba.

 

- Esquece as paletas, os pincéis e os papiros. Estás a ver, o mar é uma divindade tão perigosa e invencível como Set. Quando a próxima tempestade desabar sobre nós, saberei como acalmá-la. Será conveniente fazer-lhe uma soberba oferenda a fim de podermos assim atingir Punt. É por isso que te lançaremos vivo nas ondas. Ao morrer afogado, proteger-nos-ás.

 

- Porquê... Porquê eu?

 

O capitão poisou o indicador sobre os lábios.

 

- Segredo de Estado - murmurou. - Nem mesmo a um homem que vive as suas últimas horas o posso revelar.

 

Quando o capitão se afastou, Iker por pouco não rebentou em soluços. Morrer aos quinze anos, por uma razão desconhecida, não era o cúmulo da injustiça? Furioso, tentou em vão libertar-se das cordas que o prendiam.

 

- Não vale a pena, rapaz, são nós de profissional - observou um quadragenário tisnado que mastigava cebolas. - Foi eu que te atei e o que Olho-de-tartaruga faz é bem feito.

 

- Não te tornes um criminoso! Caso contrário, os deuses castigar-te-ão.

 

- Ouvir-te tira-me o apetite. Olho-de-tartaruga foi sentar-se à popa.

 

órfão, educado por um velho escriba que se afeiçoara a ele, Iker manifestava um intenso gosto pelos estudos. À força de perseverança, teria sem dúvida sido contratado pela administração de um templo onde os dias decorreriam felizes.

 

Mas havia apenas aquela imensa extensão de água que o ia engolir. Com um remo ao ombro, um jovem marinheiro passou perto do prisioneiro.

 

- Eh, ajuda-me! O homem parou.

- O que queres?

 

- Desamarra-me, por favor!

 

- Onde irias, imbecil? Seria estúpido afogares-te antes do momento certo. Pelo menos, ao morrer quando for necessário, serás útil.

 

Agora deixa-me em paz! Caso contrário, à fé de Faca-cortante que te corto a língua.

 

Iker parou de se agitar.

 

A sua sorte estava marcada.

 

Mas porquê ele? Antes de desaparecer, gostaria pelo menos de obter uma resposta àquela pergunta. Segredo de Estado... Em que podia um aprendiz de escriba sem fortuna ameaçar o poderoso Faraó Senuseret, terceiro do nome, que governava o Egipto com pulso forte? Era evidente que o capitão tinha feito troça dele. O seu bando de piratas apoderara-se do primeiro que aparecera.

 

Olho-de-tartaruga deu-lhe a beber um pouco de água.

 

Mais vale não comeres nada. Não és do género de ser bom marinheiro.

 

- O capitão sabe realmente prever uma tempestade?

- Quanto a isso, podes estar descansado!

 

- E se não se desencadeasse nenhum cataclismo? Então podiam libertar-me!

 

O capitão afastou Olho-de-tartaruga. Nem penses nisso, meu rapaz. O teu destino é tornares-me uma oferenda. Aceita isso e saboreia este magnífico espectáculo: o que há de mais belo do que o mar?

 

- Os meus pais mandar-me-ão procurar e sereis todos presos!

- Tu já não tens pais e ninguém dará pelo teu desaparecimento. já estás morto.

 

 

Não havia um sopro de vento e o calor tornava-se sufocante. Estendidos na ponte, a maior parte dos marinheiros dormitava. Até mesmo o capitão adormecera.

 

Iker atingira os limites do desespero. Aquela tripulação de bandidos estava decidida a suprimi-lo, acontecesse o que acontecesse, e não tinha qualquer possibilidade de fuga.

 

O jovem sentia-se aterrorizado com a ideia de ser engolido pelo mar, longe do Egipto, sem o mínimo ritual, sem sepultura. Para além da morte física, seria o aniquilamento, o castigo reservado aos criminosos. Que delito teria ele cometido para merecer tal sorte?

 

Iker não era nem um assassino nem um ladrão, não podia ser acusado nem de mentiras nem de preguiça. No entanto, estava ali, condenado ao pior.

 

Ao longe, a superfície da água cintilava. Iker julgou que se tratasse apenas de um jogo de reflexos, mas o fenómeno ganhou maior dimensão. Uma espécie de barra começou a crescer, tão depressa como uma fera lançando-se sobre a sua presa. No mesmo instante, centenas de pequenas nuvens, surgidas não se sabe de onde, invadiram o céu para formar uma massa negra e compacta.

 

Brutalmente arrancado ao seu torpor, o capitão, incrédulo, contemplava o desencadear daquelas forças.

 

- Nada fazia prever esta tempestade - murmurou, estupefacto.

- Acorda e dá as tuas ordens - exigiu Olho-de-tartaruga.

- As velas... Recolham as velas! Todos aos seus postos!

 

O trovão ribombou com tal violência que a maior parte dos marinheiros permaneceu estática.

 

- Há que sacrificar o rapaz - lembrou Faca-cortante.

- Trata disso - ordenou o capitão.

 

Logo que o desamarrassem, Iker bater-se-ia. É um facto que não tinha qualquer hipótese de vencer o seu adversário, mas morreria dignamente.

 

- Prefiro cortar-te primeiro o pescoço - anunciou o marinheiro.

- Vais estar ainda um pouco vivo quando te atirar pela borda fora e o deus do mar ficará satisfeito.

 

Iker não conseguiu afastar os olhos da lâmina de sílex que lhe ia tirar a vida.

 

No instante em que ela tocava na sua carne, um relâmpago atravessou as nuvens e transformou-se numa língua de fogo que queimou Faca-cortante. O marinheiro caiu, aos berros.

 

- A onda - gritou Olho-de-tartaruga - a onda é monstruosa! Uma parede de água precipitava-se em direcção ao barco. Nenhum dos marinheiros, apesar de todos experientes, vira jamais semelhante horror. Tetanizados, conscientes da inutilidade dos seus gestos, permaneceram inertes, de braços caídos, olhos cravados na onda que se abateu sobre o Veloz com um retumbar aterrador.

 

Os dedos da sua mão direita arranharam qualquer coisa mole e húmida.

 

Areia... Sim, devia ser areia.

 

Então o chão do outro mundo era um deserto inundado pelo mar insaciável, com certeza povoado por aterradoras criaturas que devoravam os condenados.

 

Se ainda tinha uma mão, Iker talvez possuísse também um pé, mesmo dois.

 

Os pés mexeram, a mão esquerda também.

 

E o jovem atreveu-se a abrir os olhos, depois levantar a cabeça. Uma praia.

 

Uma magnífica praia de areia branca. Perto, grande número de árvores.

 

Mas por que estava o seu corpo tão pesado?

 

Iker percebeu que ainda estava atado pela cintura a um fragmento do mastro. Libertou-se com dificuldade e pôs-se lentamente de pé, interrogando-se ainda se estaria morto ou vivo.

 

Ao largo andavam à deriva os restos destroçados do Veloz. A onda gigante tinha arrancado o mastro e Iker para os arrastar até àquela ilha inundada de sol, com luxuriante vegetação.

 

O rapaz tinha apenas alguns arranhões e contusões. Cambaleante, deu a volta à ilha. Talvez alguns marinheiros tivessem tido a mesma sorte que ele. Nesse caso, devia estar preparado para combater!

 

Mas a praia estava deserta. O barco e a sua tripulação tinham sido engolidos por um mar em fúria. único sobrevivente: Iker, a oferenda prometida à devoradora.

 

A fome torturava-o.

 

Aventurando-se até ao centro da ilha, descobriu palmeiras-tamareiras, figueiras, vinha e até mesmo uma horta onde cresciam pepinos, junto de uma nascente de água muito transparente.

 

Iker encheu a barriga de fruta antes de pensar que não era portanto único habitante daquele pedaço de terra perdido no meio das ondas. Por que razão o outro - ou os outros - se ocultava e qual seria seu comportamento perante o intruso?

 

Com o medo nas entranhas, Iker explorou a zona. Ninguém.

 

E nem o mínimo vestígio de um habitante. O seu único companheiro era o seu coração. Mas um rapaz de quinze anos em breve esgotaria a sua provisão de recordações.

 

Esgotado por tantas emoções, adormeceu à sombra de um sicômoro.

 

Quando acordou, Iker inspeccionou os seus domínios uma segunda vez sem melhores resultados. Notou que grandes peixes não hesitavam em vir até perto da praia e constituíam assim presas fáceis. Com um ramo e o resto das cordas, fabricou uma cana de pesca e usou uma minhoca como isca. Logo que o seu anzol rudimentar mergulhou na água, uma espécie de perca ficou enganchada nele.

 

Aqui, o náufrago não corria o perigo de morrer de fome.

 

Era agora necessário fazer uma fogueira sem dispor do material habitual no Egipto, cujo elemento principal era um arco ou uma verruma de arco. Por sorte, Iker descobriu um bocado de madeira macia e outro alongado e pontiagudo que enfiou no primeiro, bloqueado entre os joelhos. Imprimindo ao segundo o movimento de rotação mais rápido possível, conseguiu provocar um aquecimento tal que brotou uma chama. Alimentou-a depois com nervuras de palmeira bem secas e grelhou o peixe.

 

Antes de o saborear, tinha de cumprir um dever essencial: agradecer aos deuses por lhe terem salvo a vida.

 

No instante em que Iker erguia as mãos sobre a chama num gesto de oração, o trovão ecoou, as árvores abanaram e a terra tremeu. Aterrorizado, o rapaz quis fugir. Tropeçou e a cabeça bateu violentamente contra o tronco de uma figueira.

 

Relâmpagos, um céu em fogo, uma serpente gigantesca de pele dourada e olhos de lápis-lazúli! Desta vez é que Iker estava mesmo morto e um monstruoso génio do outro mundo avançava para ele a fim de o esmagar.

 

Mas o réptil imobilizou-se e contentou-se em observá-lo.

- Porque acendeste este fogo, homenzinho?

 

- Para... para te prestar homenagem!

- Quem te trouxe aqui?

 

- Ninguém, foi uma onda... O barco, os marinheiros... E depois...

- Diz toda a verdade e responde sem demora. Caso contrário, reduzo-te a cinzas.

 

- Os piratas raptaram-me, no Egipto, e tencionavam atirar-me vivo no mar a fim de o acalmar! Mas o capitão não soube prever uma violenta tempestade. O barco foi destruído, sou o único sobrevivente.

 

- Foi Deus que te salvou da morte - afirmou a serpente. - Esta ilha é a do ka, a força criadora, a seiva do universo. Nada existe sem ela. Mas este lugar foi atingido por uma estrela caída do alto do céu e tudo se incendiou. Eu, a senhora da terra divina, do maravilhoso país de Punt, não pude impedir o fim deste mundo. E tu, salvarás o teu? Uma queimadura despertou Iker.

 

O fogo transmitira-se aos arbustos e as chamas tocavam as barrigas das pernas do rapaz.

 

Afastando-se, constatou que nenhuma serpente gigante rondava por ali. Depois, dedicou-se a extinguir o começo de incêndio.

 

Que estranho sonho... Iker teria jurado que o réptil não era uma ilusão e que lhe falara realmente, com uma voz que não se assemelhava a nada conhecido e da qual se recordaria para sempre. Apagadas as últimas labaredas, o jovem dirigiu-se para a nascente.

 

No chão, duas caixas.

Iker esfregou os olhos.

 

As caixas continuavam lá. Aproximou-se lentamente, como se constituíssem uma ameaça.

 

Alguém andava a brincar com os seus nervos.

 

Alguém que se ocultava navegetação e acabava de retirar de lá aquele despojo proveniente do Veloz ou de outro barco. Alguém que não tardaria a desembaraçar-se do intruso para não ter de partilhar o seu tesouro.

 

- Não tens nada a recear de mim - gritou Iker. - A tua fortuna não me interessa! Em vez de nos enfrentarmos, cooperemos para sobreviver!

 

Ninguém respondeu.

 

Iker voltou a explorar a pequena ilha, mudando constantemente de direcção, voltando para trás, acelerando o andamento ou abrandando com brusquidão. Com todos os sentidos bem alerta, tentava detectar o mínimo sinal da presença de um eventual adversário.

 

Não conseguiu nada.

 

Teve portanto de render-se à evidência: era o único habitante da ilha. Mas aquelas caixas... Com certeza não reparara nelas. Deviam ser provenientes de um naufrágio anterior e fora uma onda que as trouxera para ali.

 

Restava abri-las.

 

Continham saquinhos de linho e frascos de faiança de onde se libertava um aroma agradável. Com certeza perfumes preciosos que valiam uma pequena fortuna.

 

Iker escapara realmente à morte? Na ilha, esta parecia menos brutal do que no barco dos piratas, mas no entanto o destino não parecia mais favorável. É verdade que poderia subsistir vários meses, talvez vários anos, mas a solidão não acabaria por enlouquecê-lo? E se a nascente secasse, e se a pesca se tornasse improdutiva? Para construir uma jangada sólida, precisaria de ferramentas. No entanto, vogar naquele mar desconhecido a bordo de uma frágil embarcação não seria um suicídio?

 

O rapaz não cessava de pensar nas revelações da serpente, senhora do maravilhoso país de Punt. Como podia aquela ilha minúscula ser a terra divina transbordante de fabulosas riquezas, tão cobiçadas? Absurdo!

 

O réptil dourado apenas existira na imaginação do sobrevivente. Mas por quê evocar a necessidade de salvar o seu mundo? Visto que reinava um Faraó, o Egipto não estava em perigo!

 

O Egipto, tão distante, tão inacessível! Iker pensava na sua cabana, próxima do santuário de Medamud, um lugar misterioso a norte de Tebas. Graças ao velho escriba que o recolhera, o jovem só raramente participava nos trabalhos dos campos e consagrava-se à leitura e à escrita. Esse privilégio atraía-lhe muitas invejas com que não se importava porque aprender, alimentava-lhe a alma.

 

Iker traçou na areia da praia os hieróglifos que dominava. Formavam uma frase gabando a profissão de escriba. Depois, assistiu ao pôr do Sol, contemplou demoradamente o céu estrelado e adormeceu com a esperança, misturada com o receio, de voltar a ver a gigantesca serpente.

 

Sentiu vontade de comer peixe grelhado.

 

Equipado com a sua cana de pesca, Iker dirigiu-se à praia. Estupefacto, constatou que fora coberta pelo mar. Fenómeno passageiro, sem dúvida.

 

Mesmo assim, lançou a linha por várias vezes, mas nenhum peixe mordeu. Espantado, mergulhou e nadou durante muito tempo sem descobrir um único.

 

Retomando pé, Iker notou que o mar continuava a subir. A menos que a ilha se estivesse a afundar...

 

Imóvel, o rapaz viu a água atingir-lhe as barrigas das pernas, depois os joelhos, depois o alto das coxas. Àquela velocidade, a ilha do ka não tardaria a desaparecer.

 

Dominado pelo pânico, Iker trepou ao cimo da palmeira mais alta, esfolando as mãos e os pés.

 

Trémulo, sem fôlego, julgou-se vítima de um novo sonho ao descobrir uma vela branca na imensidade azul.

 

Com todas as forças dos seus pulmões, Iker gritou por socorro agitando freneticamente a mão direita.

 

Esforço perdido e gestos inúteis... O barco passou ao largo, demasiado longe para o poder ver.

 

No entanto, o rapaz insistiu. Se o vigia tivesse um olhar penetrante, talvez o detectasse. E aquela ilha que se afundava não atrairia a curiosidade da tripulação?

 

Por instantes, Iker julgou que a embarcação mudava de rota e se aproximava. Mas teve de perder as ilusões e preferiu fechar os olhos. Desta vez, não haveria tempestade nem onda monstruosa para o salvar. A água atingir-lhe-ia o peito, o rosto, e deixar-se-ia envolver por aquela mortalha azul e tépida.

 

A vontade de viver continuava no entanto a ser tão forte que voltou a abrir os olhos,

 

Desta vez não havia dúvida! O barco dirigia-se para a ilha.

Iker gesticulou e gritou.

 

Era um barco de dimensões modestas, com cerca de vinte marinheiros a bordo. Como o mar batia já na base da palmeira, o rapaz efectuou uma descida rápida e nadou para os seus salvadores tão rapidamente quanto lhe foi possível.

 

Braços fortes içaram Iker, que se encontrou em frente de um homem entroncado, de aspecto hostil.

 

- Há caixas a flutuar além! Recuperem-nas. Tu, quem és tu?

- Chamo-me Iker, e sou o único sobrevivente de um naufrágio.

- O nome do barco?

 

- Velu. Cento e vinte côvados de comprimento, quarenta de largura, cento e vinte homens de tripulação.

 

- Nunca ouvi falar. O que é que se passou?

 

- Uma onda enorme engoliu-nos! E encontrei-me só, nesta ilha que está quase a desaparecer.

 

Estupefactos, os marinheiros viram o mar cobrir o topo das árvores.

 

- Se não visse isto com os meus próprios olhos, nunca teria acreditado - confessou o capitão. - De que porto partiste?

 

- Não sei.

 

- Estás a fazer troça de mim, rapaz?

 

- Não, fui raptado, puseram-me inconsciente e quando despertei estava atado ao mastro. O capitão explicou-me que eu devia ser lançado às ondas para acalmar a sua fúria.

 

- Porque não o fez?

 

- Porque a tempestade o apanhou desprevenido! Um marinheiro bem tentou sacrificar-me, mas a onda foi mais rápida. Constatando o cepticismo do seu interlocutor, Iker evitou falar-lhe da aparição da serpente e das suas revelações.

 

- Bastante estranha, a tua história... Não há nenhum sobrevivente, tens a certeza?

 

- Nenhum.

 

- E o que contêm aquelas caixas?

 

- Não sei - respondeu prudentemente Iker, constatando que se tinham tornado a fechar.

 

- Veremos isso mais tarde. Salvei-te a vida, não o esqueças. E a tua história não tem pés nem cabeça. Ninguém viu nunca uma embarcação chamada Veloz. Tinhas descoberto essas caixas há muito tempo, não é verdade? E desembaraçaste-te do seu proprietário. Mas a coisa correu mal, o barco afundou-se no mar e tu foste suficientemente astucioso para te safares com o teu saque.

 

- Disse-vos a verdade! Raptaram-me e...

 

- Basta, meu rapaz, eu não sou parvo. A mim não me enganas. Sobretudo, não tentes resistir.

 

A um sinal do capitão, dois marinheiros agarraram Iker, ataram-lhe as mãos atrás das costas e prenderam-lhe os pés à amurada.

 

O porto fervilhava de embarcações. Manobrando com habilidade, o capitão acostou suavemente. Iker não ousava ainda acreditar que estava são e salvo. Com certeza que a sorte que lhe reservavam não tinha nada de atraente.

 

O capitão aproximou-se.

 

- No teu lugar, rapaz, seria discreto, muito discreto. Náufrago, ladrão, talvez assassino... É muito para um bandido só, não?

 

- Estou inocente. A vítima sou eu!

 

- Claro, claro, mas os factos são evidentes e o juiz tirará rapidamente as suas conclusões. Faz-te esperto e não escaparás à pena de morte.

- Mas não tenho nada a censurar-me!

 

- Comigo não, garoto. Eis o que te proponho, é pegar ou largar: ou eu guardo as caixas e nunca nos vimos, ou levo-te ao posto da polícia e toda a minha tripulação testemunhará contra ti. Escolhe e depressa!

 

Escolher... Que ironia!

- Ficai com as caixas.

 

- Muito bem, meu amigo, és razoável! Perdes o teu saque mas salvas a vida. Da próxima vez que tentares um golpe como este, procura organizar-te um pouco melhor. Sobretudo, não esqueças: nunca nos encontrámos.

 

O capitão vendou os olhos de Iker. Dois marinheiros apenas lhe desataram os pés e fizeram-no descer a terra. Depois, obrigaram-no a andar depressa e durante muito tempo, muito tempo.

 

- Onde me levam?

 

- Cala-te ou matamos-te.

 

Encharcado em suor, Iker sentia cada vez mais dificuldade em acompanhar o ritmo. Os torcionários não estariam a afastá-lo do porto para o suprimirem numa zona deserta?

 

- Dêem-me de beber, por piedade! Nem sequer lhe responderam.

 

Iker nunca se teria julgado capaz de aguentar tanto. Dentro dele, uma força desconhecida recusava ceder ao esgotamento.

 

De repente, empurraram-no violentamente pelas costas. Resvalou por um talude e plantas espinhosas laceraram-lhe a carne. A queda terminou por fim em areia macia. Extenuado, com a língua seca, Iker ia morrer de sede.

 

Estavam a comer-lhe os cabelos.

 

A dor foi tal que Iker deu um salto. Assustada, a cabra recuou.

 

- Estás a tirar-lhe o pão da boca - lamentou um pastor hirsuto. Um belo animal como este! Podias ter esperado que ela estivesse saciada.

 

- Desata-me, suplico-te, e dá-me de beber!

 

- Dar-te de beber, talvez, mas desatar-te... De onde saíste tu? Nunca te vi por estes lados.

 

- Fui raptado por piratas.

 

- Piratas, aqui, em pleno deserto?

 

- Estava num barco, obrigaram-me a descer e a fazer uma longa caminhada.

 

O pastor coçou a cabeça.

 

- Já ouvi histórias mais fáceis de acreditar! Não serás um prisioneiro evadido?

 

Os nervos do jovem cederam e ele começou a soluçar. Então nunca ninguém o acreditaria?

 

- Repara - continuou o pastor - não tens um ar muito perigoso. Mas com todos esses bandidos que rondam por estas paragens, mais vale ser prudente. Toma, bebe um pouco.

 

A água da cabaça não estava fresca, mas Iker engoliu-a com avidez.

- Devagar, devagar! Dou-te mais daqui a bocado. Vou levar-te ao administrador da minha aldeia. Ele saberá o que haveremos de fazer de ti.

 

O rapaz seguiu docilmente o rebanho de cabras. De que serviria fugir, a não ser para provar a sua culpabilidade? Competia-lhe a ele convencer o governante da sua boa-fé.

 

Logo que viram o estranho, as crianças correram a seu lado.

 

- Com certeza é um bandido! - exclamou uma delas. - Olha, foi o pastor que o capturou, vai pedir uma boa recompensa!

 

O interpelado levantou o bastão para assustar a miudagem, mas esta não largou a sua presa. E foi no meio de um grande concerto de risos e guinchos que o cortejo chegou diante da casa do administrador.

- O que se passa aqui?

 

- Descobri este rapaz no deserto - explicou o pastor. - Como tinha as mãos atadas atrás das costas, fiquei desconfiado. Tenho direito a uma recompensa, não é verdade?

 

- Veremos isso mais tarde. Tu, entra.

Iker obedeceu.

 

Brutal, o administrador empurrou-o para uma pequena sala onde estava sentado um homem magro armado com um cacete.

 

- Calhas bem, patifório! Estou precisamente a conversar com um polícia. Como é o teu nome?

 

- Iker.

 

- Quem te atou as mãos?

 

- Marinheiros que me recolheram numa ilha deserta antes de me abandonarem não longe daqui para eu morrer de sede.

 

- Pára imediatamente de contar histórias! Não passas provavelmente de um ladrãozeco que julgava escapar ao castigo. Que crime cometeste?

 

- Nenhum, garanto-vos!

 

- Uma boa bastonada vai devolver-te a memória.

 

- Ouçamo-lo, apesar de tudo - recomendou o polícia.

 

- Se tendes tempo a perder... Está bem, resolvei este assunto. Eu tenho de me ocupar dos meus celeiros. Antes de levar este pequeno bandido, deixai-me um relatório, para o processo.

 

- Com certeza.

 

Iker preparava-se para receber cacetadas, mas que podia ele dizer a não ser a verdade?

 

- Dá-me mais pormenores - exigiu o polícia.

- Para quê, visto que não me acreditareis?

 

- Como é que sabes? Estou habituado a reconhecer os mentirosos. Se és sincero, não tens nada a temer.

 

Com voz pouco segura, Iker contou as suas desventuras, omitindo o sonho durante o qual vira aparecer a grande serpente.

 

O polícia escutou-o com atenção.

 

- Eras portanto o único sobrevivente e essa ilha desapareceu nas águas?

 

- Exacto.

 

- E os teus salvadores ficaram com as caixas?

- Com efeito.

 

- Como se chamava o barco?

- Não sei.

 

- E o capitão?

 

- Também não sei.

 

Ao responder, Iker tomou consciência que a sua história não tinha pés nem cabeça. Nenhuma pessoa sensata podia acreditar minimamente nela.

 

- De onde és originário?

- Da região de Medamud.

- Tens família lá?

 

- Não. Foi um velho escriba que me albergou e ensinou os rudimentos da profissão.

 

- Pretendes fazer-me crer que sabes ler e escrever... Prova-mo.

 

O polícia apresentou ao prisioneiro uma tabuinha de madeira e um pincel que ele molhou em tinta preta.

 

- Tenho as mãos atadas - lembrou-lhe Iker.

 

- Vou desatar-te, mas não te esqueças que sei manejar o cacete. Com uma escrita cuidadosa, o rapaz escreveu: "O meu nome é Iker e não cometi nenhum delito."

 

- Perfeito - considerou o polícia. - Portanto, não és um mentiroso.

 

- Vós... vós acreditais em mim?

 

- Porque havia de ser de outra forma? já te disse, estou habituado a distinguir as pessoas sinceras das mentirosas.

 

- Então... estou livre?

 

- Volta para tua casa e considera-te feliz por teres saído vivo de tais peripécias.

 

- Ides prender os piratas que queriam a minha morte?

- Vamos tratar deles, podes ter a certeza.

 

Iker não se atrevia a sair da sala. O polícia começava a redigir o seu relatório.

 

- Então, rapaz, que esperas tu?

 

- Tenho um pouco de medo dos aldeões.

 

O polícia interpelou um dos basbaques que se tinham amontoado em frente da casa do administrador.

 

- Tu aí, dá-lhe uma esteira e água.

 

Devidamente equipado para a viagem, Iker sentia-se tão perdido como na ilha do ka. Estava realmente livre, tinha realmente o direito de regressar à sua aldeia?

 

O polícia viu-o partir.

 

Sem esperar o regresso do administrador, abandonou precipitadamente a aldeia para se juntar aos seus camaradas que percorriam os arredores em busca de informações sobre a tripulação do Veloz.

Tal como ele, também não pertenciam à polícia do deserto.

 

Em pleno meio-dia, o Sol ardente do Verão transformava o deserto de Leste numa fornalha. As raras criaturas que conseguiam sobreviver naquele inferno, como serpentes e escorpiões, tinham-se enfiado debaixo da areia.

 

No entanto, o pequeno grupo de cinco homens continuava a avançar. A frente seguia uma personagem longilínea que ultrapassava os seus subordinados uma boa cabeça. Barbudo, de olhos profundamente enterrados nas órbitas, lábios carnudos, parecia insensível ao calor. Com a cabeça coberta por um turbante, envergando uma túnica de lã que lhe descia até aos tornozelos, avançava em passo certo.

 

- Não aguentamos mais - queixou-se um dos seguidores. Tal como os seus companheiros, era um cadastrado condenado por roubo. Incitado pelo grande barbudo, fugira da quinta onde cumpria o fim da sua pena sob a forma de diversas tarefas.

 

- Ainda não estamos no interior do deserto - declarou o condutor.

 

- O que queres mais?

 

- Contenta-te em obedecer e o teu futuro será radioso.

- Eu volto para trás.

 

- A polícia vai prender-te e meter-te outra vez na prisão - avisou um ruivo que se chamava Shab, o Torto.

 

- Será melhor do que este inferno! Na minha cela, dar-me-ão de comer e de beber e não terei de andar indefinidamente para ir a parte nenhuma!

 

O barbudo fitou o contestatário com desdém.

- Esqueces quem eu sou?

 

- Um louco que se julga investido de uma missão sagrada! -Todos os deuses me falaram, é verdade, e as suas vozes formam hoje apenas uma, porque só eu sou detentor da verdade. E todos os que se opuserem a mim, desaparecerão.

 

- Seguimos-te porque nos prometeste fortuna! E não vai ser aqui que a encontraremos.

 

- Sou o Anunciador. Os que tiverem fé em mim tornar-se-ão ricos e poderosos; os outros, morrerão.

 

- Os teus discursos fatigam-me. Enganaste-nos e recusas reconhecê-lo, eis tudo!

 

- Como ousas injuriar o Anunciador? Arrepende-te imediatamente!

- Adeus, pobre demente.

 

O homem voltou para trás.

 

- Shab, mata-o - ordenou calmamente o Anunciador. O ruivo pareceu perturbado.

 

- Ele veio connosco, ele...

 

- Estrangula-o e que o seu miserável cadáver sirva de alimento aos predadores. Depois, conduzir-vos-ei ao local onde tereis a revelação. Compreendereis então verdadeiramente quem eu sou.

 

Não era a primeira morte do Torto. Atacava sempre por trás e cravava no pescoço da sua vítima a lâmina afiada de uma faca de sílex. Subjugado pelo grande barbudo desde o seu primeiro encontro,

 

tinha a certeza de que aquele chefe de grupo, de palavra cortante como uma navalha, o levaria longe.

 

Sem se apressar, o ruivo alcançou o fugitivo, executou-o com rapidez e reuniu-se de novo ao pequeno grupo.

 

- Ainda teremos de andar muito tempo? - perguntou.

 

- Não receies - respondeu o Anunciador - e contenta-te em seguir-me.

 

Aterrorizados pela cena a que acabavam de assistir, os outros dois ladrões não ousaram emitir o mínimo protesto. Também eles estavam subjugados pelo seu guia.

 

Nem uma gota de suor perlava a testa do Anunciador, nem uma sensação de fadiga afectava o seu andar. E dava a impressão de saber perfeitamente onde ia.

 

A meio da tarde, no momento em que os seus companheiros estavam prestes a desfalecer, estacou.

 

- É aqui - declarou. - Olhem bem para o chão.

 

O deserto tinha mudado. Aqui e além, placas esbranquiçadas.

- Raspa e prova, Shab.

 

O ruivo ajoelhou-se.

- É sal.

 

- Não, é a espuma do deus Set que brotou da profundeza do solo. É-me destinada para que me torne mais forte e mais implacável do que o próprio Set. Esta chama destruirá os templos e as culturas, aniquilará a força do Faraó para que reine a verdadeira fé, a que eu vou espalhar por toda a terra.

 

- Temos sede - lembrou um dos ladrões - e não vai ser isso que a vai matar!

 

- Shab, dá-me uma grande quantidade.

 

Sob o olhar estupefacto dos seus três seguidores, o Anunciador absorveu tanto sal que a sua língua e a boca deviam estar em fogo!

- Não existe melhor bebida - afirmou.

 

O mais jovem dos meliantes arrancou um bocado de crosta e mastigou.

 

Deu um grito lancinante e rolou no chão na esperança de apagar a chama que o devorava.

 

- Ninguém a não ser eu, está habilitado a proclamar a vontade de Deus - precisou o Anunciador - e quem tentar rivalizar comigo terá a mesma sorte. É justo que esse ímpio pereça.

 

O infeliz teve ainda alguns sobressaltos e depois ficou rígido. Os dois discípulos sobreviventes prostraram-se diante do mestre.

- Senhor - implorou Shab, o Torto - não dispomos dos teus poderes e reconhecemos a tua grandeza... Mas estamos cheios de sede! Podes aliviar o nosso sofrimento?

 

- Deus elegeu-me para favorecer os verdadeiros crentes. Cavai e sereis satisfeitos.

 

O ruivo e o seu acólito escavaram com frenesim.

 

Em breve, encontraram o rebordo de um poço. Encorajados por aquela descoberta, atingiram uma camada de pedras secas que retiraram num tempo recorde.

 

E a água apareceu.

 

Do cinto das suas túnicas, fizeram uma corda à qual ataram uma cabaça.

 

Quando o Torto a retirou cheia, ofereceu-a ao Anunciador.

- Senhor, vós primeiro!

 

- Basta-me o fogo de Set.

 

Shab e o seu companheiro humedeceram os lábios e depois beberam em pequenos goles, antes de molharem os cabelos e a nuca.

 

- Quando tiverdes recuperado as forças - decretou o Anunciador

- começaremos a nossa conquista. A grande guerra acaba de começar.

 

Sobek, o Protector', chefe da guarda pessoal do Faraó Senuseret, revelava um nervosismo pouco habitual. Para garantir a segurança do monarca, apenas utilizava os serviços de seis polícias. Considerava-os muito mais eficazes do que um batalhão de soldados mais ou menos vigilantes, porque aqueles seis homens pareciam feras, constantemente alerta e prontos a saltar ao mínimo perigo. E Sobek, o Protector não se contentava em mandar: tão atlético, rápido e potente como os seus subordinados, participava nos treinos quotidianos no decurso dos quais ninguém aguentava os seus golpes.

 

Em Mênfis, a capital, proteger o monarca levantava já mil e um problemas. Aqui, em Abido, em terreno desconhecido, era necessário contar com perigos inéditos.

 

Durante a viagem de barco', nenhum incidente. No desembarcadouro, apenas alguns sacerdotes sem armas tinham recebido o Faraó, que se dirigira imediatamente ao templo de Osíris.

 

Com cinquenta e cinco anos e mais de dois metros de altura, o Rei era um colosso de rosto severo. Terceiro da linhagem dos Senuseret, tinha os nomes de Divino de transformações, Divino de nascimento, O que se transforma, A força da luZ divina surge em <glória e O homem de Useret'.

 

Nota: Em egípcio, Sobek-khu.

 

2 Abido fica a 485 quilómetros a sul do Cairo (perto da antiga Mênfis) e a 160 quilómetros a norte de Lucsor (a antiga Tebas).

 

Quatro côvados, três palmos e dois dedos, segundo Maneton. (N. da T.)

 

No decurso dos cinco primeiros anos do seu reinado, apesar de uma autoridade incontestável, Senuseret não conseguira ligar a si alguns governadores de província cuja riqueza lhes permitia manter forças armadas e comportar-se, no seu território, como verdadeiros soberanos.

 

Sobek, o Protector receava uma intervenção dos seus soldados da velha guarda. Senuseret não lhes surgiria como um perturbador que, mais cedo ou mais tarde, poria em causa a sua independência? A deslocação a Abido, território sagrado desprovido de importância económica, fora mantida em segredo. Mas poder-se-ia realmente guardar um segredo no palácio de Mênfis? Persuadido do contrário, o polícia tentara em vão convencer o Rei a renunciar àquela viagem.

- Nada a assinalar?

 

- Nada, chefe - responderam-lhe os seus homens, um após o outro.

 

O local está deserto e silencioso - acrescentou um deles.

 

É normal para o domínio de Osíris - observou Sobek, o Protector. - Coloquem-se nos lugares certos e interceptem sem contemplações quem tentar aproximar-se.

 

- Mesmo um sacerdote?

 

- Não há nenhuma excepção.

 

A Grande Terra era o nome tradicional do território reservado a Osíris, o deus que detinha o segredo da Ressurreição. Primeiro soberano do Egipto, fora ele que lançara as bases da civilização faraónica. Assassinado mas vencedor da morte, reinava actualmente sobre os "de voz justa" e apenas a celebração dos seus mistérios conferia ao seu herdeiro, o Faraó, a sua dimensão sobrenatural e a sua capacidade para manter os laços com as forças criadoras. Sem a realização dos rituais osíricos, o Egipto não sobreviveria.

 

Alguns campos férteis, onde cresciam as melhores cebolas do país, algumas casas modestas dispostas ao longo de um canal, o deserto fechado por uma longa falésia, um grande lago rodeado de árvores, um bosque de acácias, um pequeno templo, capelas, esteias, os túmulos dos primeiros Faraós e o de Osíris: assim se apresentava o sítio de Abido, fora do tempo, fora da História.

 

Aqui se encontrava a ilha dos justos e a porta do céu guardada pelas estrelas.

 

Senuseret penetrou na pequena sala onde o esperavam os sacerdotes residentes. Todos se levantaram e curvaram.

 

- Obrigado por ter vindo tão depressa, Majestade - disse o sumo sacerdote, um homem idoso, de voz pausada.

 

- A tua carta evocava uma grande desgraça.

- Ides poder constatar por vós próprio.

 

Quando o superior e o Faraó saíram do templo, Sobek, o Protector e um dos seus subordinados quiseram escoltá-lo.

 

- É impossível - objectou o sumo sacerdote. - O local onde nos dirigimos é interdito aos profanos.

 

É demasiado imprudente! Se por acaso...

 

Ninguém pode violar a Lei de Abido - cortou Senuseret. O Rei retirou as pulseiras de ouro que usava nos pulsos e confiou-as a Sobek. No território sagrado de Osíris era necessário despojar-se de todo o metal.

 

Roído de inquietação, o polícia viu afastar-se os dois homens, que contornaram o Lago da Vida rodeado de árvores e depois meteram por um caminho orlado de esteias e de capelas para atingirem o bosque sagrado de Peker, centro vital e secreto do país.

 

No seu centro, uma acácia.

 

A árvore que, ao crescer sobre o túmulo de Osíris, fizera compreender aos seus fiéis que o soberano dos de voz justa tinha ressuscitado. Senuseret detectou imediatamente a amplitude do desastre: a acácia definhava.

 

- Quando Osíris renasce - lembrou o sumo sacerdote - a acácia cobre-se de folhas e o país está próspero. Mas Set, o assassino e o perturbador, tenta sempre fazê-la secar. Então, a vida abandona os vivos. Se a acácia morrer, a violência, o ódio e a destruição reinarão sobre esta terra.

 

Pela sua presença naquela árvore, Osíris unia o céu, a terra e os espaços subterrâneos. Nele, a morte juntava-se à Vida, e outra vida, luminosa, os englobava.

 

- Tens regado o pé todos os dias com agua e leite?

 

- Não faltei aos meus deveres, Majestade.

 

- Então, um ser maléfico sabe manipular a força de Set e utiliza-a contra Osíris e contra o Egipto.

 

- Os textos precisam que esta acácia mergulhe as raízes no oceano primordial e nele absorva a energia que a anima. Apenas um certo ouro apropriado poderia curar a árvore.

 

É sabido onde se encontra? Não, Majestade.

 

Descobri-lo-ei. E conheço o meio de abrandar, talvez mesmo fazer parar, a degenerescência da acácia: construirei um templo e uma Morada de Eternidade em Abido. Produzirão uma magia eficaz que travará o processo e nos dará tempo, esperemos, para obter o remédio.

 

- Majestade, o colégio de sacerdotes será pouco numeroso demais para...

 

- Mandarei vir ritualistas e construtores que se consagrarão exclusivamente a essa tarefa. Ficarão todos submetidos ao segredo absoluto.

 

De repente, uma hipótese absurda atravessou o espírito do Rei.

- Terá alguém tentado apoderar-se do vaso sagrado?

 

O sumo sacerdote empalideceu.

 

- Majestade, sabeis perfeitamente que é impossível!

- Mesmo assim, verifiquemos.

 

Senuseret constatou que a porta do túmulo de Osíris estava hermeticamente fechada e o selo real intacto. Só ele podia dar ordem para o quebrarem e penetrarem naquele santuário.

 

- Mesmo se um insensato forçasse esta porta - lembrou o sumo sacerdote - não conseguiria aproximar-se do vaso e ainda menos pegar-lhe.

 

- Abido não está suficientemente protegido - considerou o monarca. - A partir de agora, haverá soldados a guardar o local.

 

- Majestade, nenhum profano pode...

 

- Conheço a Lei de Abido, visto que sou o seu depositário e garante. Nenhum profano manchará o domínio de Osíris, mas todos os caminhos que a ele conduzem estarão sob vigilância.

 

Do alto da colina sagrada, Senuseret contemplou o espaço sagrado onde se jogava a sorte do seu país, do seu povo e, mais ainda, de uma certa visão da última realidade.

 

Ao subir ao trono, sabia que a sua tarefa não seria fácil devido à vastidão das reformas necessárias. Mas não imaginava que o seu principal adversário seria a nova morte de Osíris.

 

Em passo determinado, Senuseret avançou pelo deserto em direcção a uma zona virgem situada entre dunas de areia e o limite dos campos cultivados.

 

Indiferente à mordedura do Sol, o Faraó via edificarem-se ali dois edifícios, o seu templo e a sua Morada de Eternidade, que atrasariam o prazo fatal desempenhando o papel de um dique contra as forças das trevas.

 

Quem seria o responsável por aquela agressão tão imprevisível como perigosa? Seria necessária ao Rei toda a firmeza de que um homem podia ser capaz para não ceder ao desespero e combater um adversário ainda invisível.

 

Depois de dois duros dias de caminhada, Iker tivera a sorte de ser recolhido por uma caravana que se dirigia a Tebas para entregar mercadorias. O patrão mostrara-se primeiro reticente em aceitar uma boca inútil mas, quando o rapaz lhe revelara que sabia ler, a sua atitude modificara-se.

 

- Tenho tabuinhas com promessas de compra. Poderias verificá-las?

 

- Mostrai-mas.

 

Impaciente, o patrão não pôde impedir-se de colocar a pergunta essencial:

 

- Isso refere os responsáveis do palácio que se comprometem a pagar-me, não é verdade?

 

- Com efeito, e haveis obtido bons preços.

 

- Experiência, meu rapaz, experiência! Onde vives?

- Em Medamud.

 

- Uma aldeiazita sem importância! O que fazias no deserto?

- Não conhecereis por acaso dois marinheiros que se chamam Olho-de-tartaruga e Faca-cortante?

 

O mercador coçou o queixo.

 

- Isso não me diz nada... Como é o nome do seu barco?

 

- Veloz Cento e vinte côvados de comprimento, quarenta de largura.

 

- Nunca ouvi falar dele. Não estarás a inventar uma história?

- Devo ter-me enganado.

 

- Com certeza! Veloz. Podes ter a certeza que, se esse barco existisse, saberíamos! O que dirias de pôr um pouco de ordem na minha papelada Nunca se é demasiado prudente com o fisco.

 

Iker pós-se ao trabalho, dando plena satisfação ao seu hospedeiro. E a viagem desenrolou-se ao ritmo dos burros e das paragens, no decurso das quais o rapaz saboreou o peixe seco e as cebolas que lhe davam em troca do seu trabalho.

 

Apesar das interrogações que o obcecavam constantemente, Iker apreciou o momento em que a caravana deixou por fim a pista árida para penetrar num campo verdejante animado por palmeirais. Esquecido ficava o mar perigoso, esquecidas as montanhas ameaçadoras! Nos campos bem irrigados, os camponeses colhiam legumes.

 

- Ouve lá, rapaz, não gostarias de trabalhar para mim? - perguntou o mercador.

 

- Não, quero reencontrar o meu professor para continuar a aprender a profissão de escriba.

 

- Ah, compreendo-te! Uma pessoa não ganha provavelmente muito, mas é respeitada. Então, meu rapaz, boa sorte.

 

Iker saboreou o perfume do ar e o doce calor da Primavera. Com pressa de alcançar a sua aldeia, avançou com rapidez metendo por atalhos que tantas vezes percorrera durante a sua infância a fim de se isolar e de mergulhar na serenidade da paisagem. Embora não desgostasse de brincar com os seus camaradas, Iker preferia meditar sobre os Mistérios do mundo e as forças invisíveis.

 

A aldeia de Medamud compunha-se de pequenas casas brancas construídas sobre uma elevação e abrigadas do Sol por acácias, palmeiras e tamargueiras. À entrada, um poço vigiado por um guarda que se julgou vítima da aparição de um fantasma.

 

- Tu não és... tu não és o Iker!

- Claro que sim, sou eu mesmo.

 

- Ora esta, Iker... O que te aconteceu?

- Nada de importante.

 

Conhecendo a propensão do guarda para a tagarelice, Iker preferiu reservar as suas confidências para o seu professor.

 

- Talvez devesses partir outra vez.

 

- Partir outra vez? Quero voltar para a minha casa e continuar os estudos!

 

Face à indignação do jovem, o guarda não insistiu.

 

Intrigado, Iker apressou-se em direcção a morada do velho escriba que lhe dava abrigo e o educava. À sua passagem, as miúúdas pararam de brincar com as bonecas de trapos e as mulheres que transportavam provisões imobilizaram-se com ar desconfiado.

 

A porta estava fechada. Havia tábuas tapando as janelas.

Iker bateu e tornou a bater.

 

- Não insistas - recomendou-lhe a vizinha. - O velho escriba morreu.

 

O céu desabou sobre a cabeça do rapaz.

- Morreu... Há quanto tempo?

 

- Uma semana. Depois da tua partida, foi devorado pela tristeza.

Iker sentou-se na soleira e chorou.

 

Ao raptá-lo, os piratas tinham morto o seu pai adoptivo.

 

- Vai ter com o administrador - aconselhou a vizinha. - Ele dir-te-á mais.

 

Apesar do seu desgosto, Iker notou a hostilidade da aldeia. Todos ali o consideravam responsável pela morte do seu mestre.

 

Pela primeira vez, o rapaz sentiu a queimadura insuportável da injustiça. Mas ele explicaria tudo e aquela queimadura desapareceria. Com a cabeça e o coração pesados, Iker avançou lentamente até à casa do chefe da aldeia, que dava instruções aos operários encarregados da manutenção dos canais.

 

- Ia jurar... o nosso aprendiz de escriba! És mesmo tu? Que surpresa! Estava no entanto certo de nunca mais te ver.

 

O tom do chefe, um robusto quinquagenário, era ao mesmo tempo irónico e mordaz. Com um gesto de desprezo, mandou embora os operários.

 

- Fizeste morrer de desgosto o teu protector, Iker. É um crime de que terás de responder perante os deuses. Se pudesse, metia-te na prisão.

 

- Estão enganados, estou inocente! Fui raptado por piratas, só lhes escapei por milagre.

 

O chefe da aldeia desatou a rir.

 

- Inventa qualquer coisa mais plausível! Ou melhor, cala-te e vai-te embora.

 

- Mas... Queria ficar em minha casa!

 

Falas da casa? O seu proprietário não fez testamento em teu favor. Por isso a requisitei. Os habitantes da aldeia desprezam-te, já não tens lugar entre nós.

 

- Têm de me acreditar, fui realmente raptado, eu...

 

- Basta! Espero que o remorso apodreça a tua alma. Se não partires imediatamente, ordenarei aos meus criados que te expulsem à cacetada. Ah... O teu protector desejava que eu te entregasse este cofre, se algum dia reaparecesses. Mais uma ingénua generosidade da sua parte, mas sou obrigado a executar as suas últimas vontades. Deixa Medamud, Iker, e nunca mais aqui voltes sob nenhum pretexto.

 

Apertando o cofre de encontro ao peito, Iker esperou estar longe da aldeia para o abrir. Verificou que o ferrolho de madeira tinha sido quebrado.

 

No interior, um pequeno papiro enrolado e selado.

 

O selo também fora partido e reconstituído desajeitadamente. Em poucas linhas, o velho escriba amaldiçoava o seu aluno e prometia-lhe mil castigos. Mas Iker conhecia suficientemente a escrita do seu professor para constatar que fora imitada de forma grosseira.

 

No fundo do cofre havia uma fina camada de gesso. À sombra de uma tamargueira, o jovem raspou com um pedaço de madeira. Surgiu uma mensagem que lhe dilatou o coração:

 

Sei que não fugiste como um ladrão. Oro para que estejas são e salvo. A minha existêncea chegou ao fim, faço votos de que te tornes um grande escriba. Se voltares a Medamud, espero que esse bandido do chefe da aldeia te entregue o testamento, no qual te deixo a minha casa, e este cofre que contém os meus mais belos cálamos. Mas veio aqui um estrangeiro. O chefe entende-se às maravilhas com ele. Sinto rondar forças obscuras e é por isso queprefiro ocultar esta mensagem com a técnica que te ensinei'. Não te demores na região, parte para aprovíncia de Dju-ka, "a Montanha elevada". Será a primeira etapa da tua viagem. Possam os deuses conduzir-te ao termo da tua Busca. Sejam quais forem as provações, não cedas ao desespero. Estarei sempre a teu lado, meu filho, para te ajudar a cumprir um destino que ainda ignoras.

 

Quando o tesoureiro DMedés entrou na sua sumptuosa moradia no centro da cidade de Mênfis, dois servidores apressaram-se a lavar-lhe os pés e as mãos, calçar-lhe sandálias de interior, perfumá-lo e servir-lhe vinho branco fresco proveniente dos oásis.

 

A imponente personagem, que era muitas vezes convidada a jantar no palácio e tinha mesmo comido à mesa do Rei, era um dos altos funcionários da capital. Vestido de linho fino de primeira qualidade, verificava os inventários dos templos que redistribuíam as riquezas depois de as terem sacralizado.

 

Desde que fora nomeado, Medés percebera todas as vantagens que podia obter da sua posição privilegiada. Utilizando da melhor forma os serviços de escribas contabilistas, intendentes e arquivistas, o tesoureiro roubava pouco, mas com frequência. Agindo com extrema prudência, não deixava qualquer vestígio das suas infracções e falsificava os documentos administrativos com tanta habilidade que nem mesmo um olhar experiente se aperceberia de qualquer coisa.

 

Ora Medés não estava nem satisfeito nem feliz.

 

Em primeiro lugar, sentia-se estagnar. É verdade que o Faraó Senuseret lhe concedera um posto importante, mas o tesoureiro desejava mais. NinguÉm era mais competente do que ele. Medés era o melhor e queria ser reconhecido como tal. Se aquele Rei teimoso persistisse em não compreender isso, seria necessário intervir, talvez de forma brutal. Senuseret tinha muitos inimigos, a começar por riquíssimos governadores de província com os quais Medés se entendia bem. Se o Faraó cometesse o erro de reduzir as suas prerrogativas, o seu reinado seria breve. Não se murmurava que um dos seus predecessores fora assassinado?

 

Em seguida, Medés interrogava-se sobre a verdadeira natureza do poder e a melhor forma de se apropriar dele. Para melhor desviar alguns fornecimentos destinados aos templos, tornara-se sacerdote temporário. Participando nos rituais, atingira o sagrado. Exibindo o seu entusiasmo pelas práticas espirituais, lisonjeando os seus superiores, apresentando-se como um doador generoso, Medés estava fascinado pelos mistérios a que não tinha acesso. Apenas ao Faraó e a alguns altos sacerdotes era permitido contemplá-los. O Rei não obteria aí o essencial do seu poder?

 

As portas do templo coberto permaneciam fechadas ao tesoureiro. Àquele domínio, que Medés considerava tão essencial como a actividade económica, ainda não tinha qualquer acesso. E não estava disposto a abandonar as suas funções profanas para viver uma existência de recluso.

 

A situação parecia bloqueada, até que a tagarelice de um dignitário do templo de Hathor, em Mênfis, lhe forneceu uma informação capital a propósito da Terra do Deus, o país de Punt. Como todos os que conheciam essa fábula, Medés troçava dela. O povo e as crianças tinham o gosto pelo maravilhoso e era preciso distraí-los com lendas. Ora, segundo o dignitário, Punt não era uma lenda.

 

A Terra do Deus existia realmente, transbordava de produtos extraordinários, entre os quais um ouro que não era semelhante a nenhum outro, outrora utilizado em grande segredo por alguns santuários. Em troca de uma mobília cara, o tagarela dera vagas indicações geográficas antes de morrer com uma crise cardíaca. Era pouco, mas suficiente para iniciar uma investigação.

 

- Senhor - anunciou o intendente de Medés - o vosso visitante chegou.

 

- Fá-lo esperar, preciso de repousar alguns minutos.

 

Medés engordara nos últimos tempos. Dotado de grande energia que os seus quarenta e dois anos não alteravam, tinha tendência para comer de mais e beber de mais a fim de acalmar as suas insatisfações. Tão enfartada como ele, a mulher tinha de mostrar-se inventiva e perversa quando tentavam atingir o prazer.

 

Com o cabelo preto empastado sobre o crânio redondo, um rosto lunar, torso largo, pernas curtas e pés gorduchos, Medés era maciço e atarracado.

 

Tinha por vezes a sensação de sufocar, sobretudo quando não conseguia suficientemente depressa aquilo que desejava. Mas a sua avidez era tal que se controlava para continuar o seu caminho em frente. E aquela entrevista com um dos seus emissários seria provavelmente uma etapa decisiva.

 

Do lado da rua, a casa estava bem protegida: janelas com gradeamento de madeira, pesada porta principal feita de fortes tábuas e fechada por um grande ferrolho, entrada de serviço vigiada permanentemente por um guarda. Dois andares, quinze divisões, um terraço, uma varanda aberta sobre o jardim onde fora feito um espelho de água.

 

Foi ao abrigo de um pavilhão que Medés recebeu o seu visitante, o falso polícia que interrogara Iker.

 

- Espero que me tragas excelentes notícias.

- Mais ou menos, senhor.

 

- Tens o ouro?

 

- Sim e não. Enfim, talvez... Medés sentiu a cólera subir.

 

- Em negócios, não aprecio a falta de precisão. Recapitulemos então os elementos uns a seguir aos outros. Quando regressou o Veloz ao porto?

 

- Não regressou, senhor, porque se afundou com homens e tudo.

- Afundado! Tens a certeza?

 

- Tenho um único testemunho, mas parece verdadeiro.

 

- Do capitão?

 

- Não, do rapaz que me haveis ordenado que raptasse em Medamud e que apanhei numa povoação perto de Copto. Sabeis quem era, aquele rapaz sem família que gostava tanto da solidão e do estudo.

 

- Eu sei, eu sei! A oferenda ideal para acalmar uma tempestade. O chefe de Medamud tinha-nos indicado esse jovem parvo e não o lamentou. Mas como pode ser a única testemunha a sobreviver?

 

- Não sei, mas é um facto. Contou-me que uma onda enorme submergira o Veloz que se encontrara por milagre numa ilha deserta e que fora recolhido por um barco cujo capitão não acreditara uma só palavra da sua história. No entanto, este apoderou-se de duas caixas provenientes da ilha antes de desembarcar o seu passageiro, que todos tomam por louco.

 

Teria o náufrago atingido Punt interrogou-se Medés.

- Seria capaz de reencontrar a ilha?

 

- Segundo ele, senhor, a ilha afundou-se nas águas e desapareceu.

- O que continham as caixas?

 

- Substâncias odoríferas.

- Nada mais?

 

- Não disse mais nada.

- E deixaste-o ir embora!

 

- Como poderia fazer de outra forma? Como polícia, fingi registar o seu depoimento, o chefe da povoação não notou nada de anormal e não tínhamos qualquer razão para reter esse fabulador de mente avariada.

 

- Não te passou pela cabeça que te estivesse a mentir?

- Acredito que é sincero.

 

- Eu estou céptico! Disse-te o nome do barco que o socorreu?

- Não sabe.

 

- Esse rapaz fez troça de ti! - berrou Medés. - Embrulhou-te com histórias de criança para melhor te esconder a verdade.

 

- Garanto-vos...

 

- Tens de o reencontrar e depressa! Com certeza regressou a Medamud. O chefe da aldeia deve tê-lo expulso de lá, mas talvez saiba a direcção que tomou. Quando o tiveres encontrado, fá-lo falar e depois desembaraça-te dele.

 

- Quereis dizer...

 

- Entendeste-me perfeitamente.

- Mas, senhor...

 

- Esse maltrapilho não tem família, ninguém se importará com esse novo e definitivo desaparecimento. Dissimula o seu cadáver e os abutres e roedores encarregar-se-ão dele. E serás bem remunerado. Parte imediatamente.

 

O tesoureiro dissimulava mal a sua fúria. Para armar um barco e reunir um bando de piratas capazes de navegar em direcção a Punt, gastara sem deitar contas evitando atrair a atenção das autoridades. Num futuro próximo, não estaria em condições de continuar aquela aventura.

 

Logo que o falso polícia abandonou a casa, Medés pensou que a tripulação que recolhera o náufrago com certeza não teria tento na língua. O incidente fora provavelmente falado nas tabernas dos portos e, além disso, o capitão procuraria negociar o conteúdo das duas caixas. Mesmo que se tratasse apenas de unguentos, conseguiria uma pequena fortuna. E se esse estranho carregamento comportasse produtos mais preciosos ainda, precisaria de encontrar um interlocutor competente e rico.

 

Era evidente que esse tal capitão, se existia realmente, não passaria desapercebido.

 

Medés convocou o seu alma danada, Gergu, estroina inveterado e temível colector de impostos. Agiria com toda a legalidade e havia de trazer o que lhe pertencia.

 

No barco que o reconduzia a Mènfis, Senuseret tomava plenamente consciência do terrível desafio que acabava de lhe ser lançado, no momento em que desejava encarregar-se dos governadores de província que recusavam ceder a mínima parcela das suas prerrogativas.

 

Desde que Osíris criara o Egipto, formado do Delta e do vale do Nilo, o Faraó reinava sobre as Duas Terras depois de as ter ligado solidamente, como O da Abelha, governava o Norte; como O do Junco, o Sul. A abelha produzia o mel, o ouro vegetal, indispensável para curar; o junco servia para cem usos diferentes e, sob a forma de papiros, tornava-se o suporte dos hieróglifos, "as palavras de Deus". Assim, na pessoa do Faraó, protegido por Hórus, senhor do céu e filho de Osíris, encarregado de velar pelo seu pai, todas as forças de criação se reuniam. E competia-lhe a ele reunir as partes dispersas do país.

 

Senuseret não contava menos de seis adversários temíveis, seis governadores de província que se consideravam autónomos e desdenhavam do monarca instalado em Mênfis. Por felicidade, não pensavam em federar-se, porque cada um defendia orgulhosamente a sua independência. Por causa dessa situação, o Egipto empobrecia. Manter as coisas como estavam evitava, como é evidente, graves conflitos, mas conduzia o reino à decadência.

 

Facto estranho, cinco dos seis notáveis hostis ao Faraó encontravam-se à frente de províncias próximas de Abido. Fora um deles a conseguir utilizar a capacidade de destruição de Set contra a acácia de Osíris? Se a hipótese se confirmasse, Senuseret travaria um combate impiedoso, simultaneamente para fazer reverdecer a árvore e salvar o Egipto.

 

Devia começar por recolher um máximo de informações sobre esses seis potentados a fim de identificar o culpado. Depois, seria necessário atacar com eficácia, sem deixar ao inimigo a possibilidade de se reerguer. Mas a quem confiar uma missão tão delicada? A corte de Mênfis estava povoada de lisonjeadores, intriguistas, ambiciosos, cobardes e mentirosos. Apenas Sobek, o Protector, se dedicava à tarefa de corpo e alma, sem se preocupar com benefícios pessoais.

 

Senuseret seria portanto obrigado a utilizar as fracas forças de que dispunha e, sobretudo, confiar na sua intuição. Quanto à procura do ouro susceptível de curar a acácia, seria ainda mais árdua. Pretendia a lenda que o ouro verde de Punt possuía excepcionais qualidades, mas ninguém conhecia a localização da Terra do Deus. E continuaria ela a produzir o precioso metal? Restavam as minas do deserto de Leste, sob o controlo de alguns governadores de província, e as da Núbia, fora do alcance.

 

Também aí a tarefa parecia impossível. Senuseret não tinha os meios para empreender semelhante investigação.

 

A solução impunha-se portanto: precisava de os criar, Primeira prioridade: dar nova energia à árvore da vida.

 

O Faraó começou então a traçar os planos de um templo e de uma Morada de Eternidade destinados a Abido.

 

Trabalhava-se duramente nos campos. As colheitas da Primavera eram abundantes e nada se devia perder.

 

A um dia de caminho de Medamud, Iker apresentara-se ao intendente de uma grande propriedade para lhe oferecer os seus serviços de aprendiz de escriba.

 

- Cais bem, meu rapaz. Tenho uma grande quantidade de sacos a contar e marcar. Depois, farás o inventário.

 

Uma semana de trabalho em perspectiva, com um salário conveniente: alimentação, uma esteira, uma cabaça e um par de sandálias. Enquanto trabalhava, o rapaz fervia contra o chefe de Medamud,

 

aquele bandido que destruíra o testamento do velho escriba para roubar a casa destinada ao seu discípulo! Espezinhara também as últimas vontades do defunto ao abrir o cofre, roubando os cálamos e redigindo um falso texto de imprecações contra Iker.

 

Como era possível ser tão vil? Iker descobria um mundo cruel, implacável, onde a mensagem e a perfídia triunfavam. Mas'uma imensa alegria apagava aqueles infortúnios: o seu professor sabia que ele não tinha fugido, mantivera a confiança nele. No entanto, que estranha mensagem! De que Busca, de que destino falava? De repente, aquele velho mestre surgia-lhe tão misterioso como a gigantesca serpente da ilha do ka.

 

Iker teria gostado de apresentar queixa contra o chefe da aldeia de Medamud e fazer com que fosse condenado. Mas quem o acreditaria? Na ausência de testamento, o rapaz não tinha qualquer direito à casa do seu professor. Em Medamud apenas encontraria acusadores que o censurariam por ter abandonado a aldeia sem dizer uma palavra.

 

Terminada a sua tarefa, Iker preparava-se para seguir o seu caminho.

- Pareces-me muito consciencioso, meu rapaz. Não desejarias um emprego mais estável?

 

- De momento, não.

 

- És jovem, mas não esqueças de te fixar. Tens aqui com que subsistir durante vários dias.

 

Pão, carne seca, alho e figos: o intendente mostrava-se generoso.

- Onde tencionas ir?

 

- Na direcção da Montanha elevada.

 

- Mais vale prevenir-te que o governador desse território não é considerado muito simpático.

 

Os murinhos que separavam as parcelas retinham a água o tempo necessário. Com uma ciência consumada, os camponeses irrigavam da melhor forma os seus campos. A prosperidade era construída sem cessar e não havia dia de descanso para os preguiçosos.

 

Penetrando na província da deusa serpente Uadjet, a Verdejante, Iker fez uma constatação surpreendente: no nome de Dju-ka, a Montanha elevada, havia a mesma palavra ka que na "ilha do ka", o domínio da serpente para sempre mergulhado num sonho. Seria um acaso ou um sinal daquele destino evocado pelo velho escriba?

 

Ka, "alto, elevado"... Para que objectivo misterioso devia o jovem subir? E o que era verdadeiramente o ka, essa energia secreta que, em hieróglifos, se escrevia com dois braços levantados?

 

Perdido nos seus pensamentos, Iker esbarrou com um homem armado com um cajado.

 

- Eh, lá, meu rapaz! Devias olhar para a frente!

 

- Perdoai, mas... sois o polícia que me interrogou perto de Copto!

- Sou eu mesmo. Tive alguma dificuldade em encontrar-te.

 

- O que me quereis?

 

- O teu depoimento estava incompleto, gostava de mais precisões.

 

- Já vos disse tudo. Quem devia ser preso era o chefe da aldeia de Medamud.

 

- Qual a razão?

 

- É um ladrão. Destruiu um testamento em meu favor.

- Podes prová-lo?

 

- Infelizmente, não.

 

- Voltemos ao teu depoimento e a essas duas caixas cheias de produtos preciosos. Com certeza inspeccionaste o seu conteúdo. Dá-me pormenores.

 

- Substâncias odoríferas, creio.

 

- Então, meu rapaz, isso não me basta. Deve saber mais.

- Garanto-vos que não.

 

- Se não te mostrares mais razoável, arriscas-te a ter graves aborrecimentos.

 

O falso polícia desferiu nas pernas de Iker uma violenta pancada com o cajado.

 

O rapaz caiu para a frente e o seu agressor segurou-o deitado no chão.

 

- Agora, a verdade! - Já vos disse!

 

- O nome do barco que te salvou;

- Não sei.

 

Uma dezena de pauladas nos ombros arrancaram gritos de dor a Iker.

 

- O nome do barco e o do seu capitão?

- Não sei!

 

Não és nada razoável, meu rapaz. Quero essas informações e tê-las-ei. Caso contrário, mato-te.

 

- Juro-vos que não sei nada!

 

O falso polícia tornou a bater, mas não obteve nenhuma outra resposta.

 

Era evidente que aquele rapazelho dizia a verdade e não tinha nada mais a contar-lhe.

 

A nuca, as costas e os rins estavam em sangue. Na sequência de uma nova série de pancadas, Iker desmaiou.

 

Quase não respirava.

 

O seu agressor arrastou o corpo para um maciço de papiros, na beira de um canal.

 

Agonizante, Iker não tardaríaa a expirar.

 

Visto, que sucumbiria aos ferimentos, o falso polícia não seria rresponsável pela sua morte. Face a eventuais juizes, tantoaqui com() no Além, era preferível assim.

 

Primeiro, foi uma dor intolerável. Depois esta acalmou, com uma sensação de frescura como Iker nunca sentira. De repente, as costas deixaram de lhe doer e entreabriu os olhos, tentando saber para que mundo o seu agressor o enviara.

 

- Acordou! - exclamou uma rapariga.

 

- Tens a certeza? - interrogou uma áspera voz de homem.

- Está a olhar para nós, pai!

 

- No estado em que estava, nunca deveria ter sobrevivido.

Iker tentou endireitar-se, mas uma queimadura fulgurante fê-lo voltar a cair na esteira.

 

- Não te mexas! - exigiu a rapariga. - Tens muita sorte, sabes? Fui eu que te descobri num maciço de papiros consagrado à deusa Hathor. Em geral, contento-me em depositar ali uma oferenda, mas como havia dezenas de aves a sobrevoá-lo, piando, ousei aventurar-me nele. O comportamento das aves era tão anormal que queria certificar-me do que se passava. Preveni o meu pai e os camponeses transPortaram-te. Há três dias que não paro de te untar com o mais eficaz dos nossos bálsamos. É composto por natrão, óleo branco, gordura de hipopótamo, de crocodilo, de siluro e de rainha, incenso e mel. O médico-chefe da província deu-me mesmo pastilhas de extracto de mirra para acalmar as tuas dores. Era a única a acreditar que os teus ferimentos não eram mortais.

 

Era morena, bonita, muito viva. O pai, um robusto camponês, parecia francamente hostil.

 

- O que te aconteceu, meu rapaz?

 

- Um homem atacou-me para me roubar.

- O que possuías tu de tão precioso?

 

- Uma esteira, uma cabaça, sandálias...

- Basta! E de onde vinhas?

 

- Sou órfão e alugo o meu trabalho como escriba principiante.

- Custas-me caro, meu rapaz, Muito caro.

 

O camponês afastou-se.

 

- Não te preocupes - recomendou a rapariga. - Embora seja rabugento e agreste, o meu pai é bom homem. Eu chamo-me Florzinha. E tu?

 

- Iker.

 

- Assim, não és nada bonito de se ver! Mas quando os teus ferimentos sararem, não deves ser um rapaz muito feio.

 

- Achas que poderei voltar a andar?

 

- Daqui a menos de uma semana havemos de passear juntos pelo campo.

 

Florzinha não exagerara. Graças aos efeitos do bálsamo, dos analgésicos e de numerosas massagens, Iker segurava-se nas pernas. Por milagre, não fora quebrado nenhum osso e os vestígios das pancadas começavam já a esbater-se.

 

No entanto, não houve passeios pelo campo porque o camponês tinha outros projectos.

 

- És mais forte do que pareces - constatou ele. - E, sobretudo, estás muito endividado, porque este tratamento custa uma fortuna.

- Como poderei reembolsar-te?

 

- Na minha quinta não preciso de escrevinhadores. Em contrapartida, preciso de um trabalhador agrícola.

 

- Receio ser muito ineficaz!

 

- Tu é que escolhes: ou me pagas a trabalhar, ou vais passar vários anos na prisão. O administrador da nossa província não gosta dos escroques. Posso fazer-te contratar num grupo de camponeses sob a direcção de um contramestre. Viverás numa pequena casa e disporás de um pedaço de terra onde cultivarás os teus legumes. Mas antes de distribuir as minhas benesses, exijo a verdade. Quem és tu realmente e porque te agrediram?

 

Interrogando-se se não caíra numa nova armadilha e se aquele agricultor não seria feito da mesma matéria que o chefe da aldeia de Medamud, Iker mostrou-se prudente.

 

- Repito-vos que sou um escriba principiante e que venho da região tebana. O meu objectivo era tornar-me escriba público e ir de aldeia em aldeia para redigir as cartas de protesto das vítimas da administração. O homem que me atacou roubou-me o meu material.

 

O agricultor pareceu convencido.

 

- Paga primeiro as tuas dívidas. Se a profissão te agradar, ficarás. Caso contrário, partirás.

 

O contramestre era bastante simpático, mas não poupou o recém-chegado. Iker teve primeiro de limpar o pátio da quinta, depois manter limpa a capoeira, um pórtico com o tecto sustido por colunas de madeira em forma de haste de lótus. Por ali evoluíam gansos cinzentos de cabeça branca, codornizes, patos e galinhas. O encarregado da alimentação trazia grandes alcofas cheias de grãos que esvaziava em gamelas, e os animais dispunham de um pequeno lago alimentado por valas. A partir do terceiro dia, Iker viu-se forçado a intervir.

 

- Creio que há um pequeno erro - disse ao transportador das alcofas, um trangalhadanças mal barbeado.

 

- Erro em quê?

 

- No primeiro dia, deitaste o conteúdo de seis alcofas. No segundo, apenas de cinco. E hoje estão muito mais vazias.

 

- Isso incomoda-te?

 

- Tomo conta desta capoeira. Os animais devem ser correctamente alimentados.

 

- Um pouco mais, um pouco menos... Queres partilhar comigo a diferença?

 

- Quero que tragas seis alcofas bem cheias.

 

O Trangalhadanças compreendeu que Iker não estava a brincar e que seria impossível qualquer negociação.

 

- Não vais falar disto ao patrão, pois não?

- Se rectificares o teu erro, claro que não.

 

Iker não conquistara um amigo, mas a capoeira testemunhou-lhe ruidosamente o seu afecto.

 

Estás satisfeito com o teu novo trabalho? - perguntou-lhe Florzinha enquanto Iker acariciava uma gansa magnífica, quase domesticada.

 

- Faço-o o melhor que posso. - Já não tens dores?

 

- Graças aos teus cuidados, estou restabelecido. Salvaste-me a vida. Ser-te-ei sempre reconhecido por isso.

 

- Ainda não estavas morto, e a deusa Hathor teria evitado que morresses. Eu apenas apressei a cura.

 

Florzinha fez um ar contrariado.

 

- O meu pai proíbe que conviva contigo.

- Estará descontente comigo?

 

- Pelo contrário, mas tu intriga-lo porque não és como os outros. Ordenou-me que casasse com um verdadeiro camponês para lhe dar belos filhos e nos encarregarmos da quinta.

 

- Quando temos a sorte de ter um pai honesto e corajoso, devemos dar-lhe ouvidos.

 

- Falas como um velho! Olha lá, Iker, não gostarias de te tornar um verdadeiro camponês?

 

- Ainda tenho muito a pagar, mas a minha verdadeira profissão é escriba.

 

- Tenho de me ir embora. Se o meu pai nos surpreendesse, bater-me-ia.

 

- Nunca vi tão bela capoeira, meu rapaz! - constatou o agricultor. - Gosto dos que põem o coração naquilo que fazem. Mas parece que tu não te misturas com os teus camaradas.

 

- Prefiro estar só com os animais.

 

- Pois bem, isso vai mudar! Há Muita cevada a cortar e vais aprender a manejar a foice.

 

Iker nem sequer pensou em protestar.

 

Fazia e tornava a fazer a si próprio constantemente as mesmas perguntas, sabendo que não seria ali que encontraria os elementos de resposta. Para continuar o seu caminho, devia primeiro satisfazer a dívida e portanto trabalhar sem descanso a fim de conseguir, o mais depressa possível, recuperar a liberdade.

 

O rapaz foi integrado numa equipa de ceifeiros rudes e experimentados que olharam o noviço divertidos.

 

- Não tenhas medo de te cansar, pequeno - disse um deles os campos são grandes! O ano foi bom, esta terra é rica, não nos falta nada, e a carne dos cordeiros é o melhor de tudo. Mas é preciso merecê-la. Vá, tem a mão firme e não nos atrases. Não conheço ninguém que tenha morrido por ter trabalhado demais.

 

Iker em breve ficou com a cara bronzeada. O que lhe permitia aguentar aquilo era a música tocada por um flautista. Variava o ritmo, mas acabava todas as melodias com gravidade.

 

- Tens a cara inchada - notou um dos camaradas. - Estiveste com a cabeça baixa demasiado tempo. Vai ter com o flautista, que ele refresca-te.

 

Sentindo-se mal, Iker obedeceu de boa vontade.

 

Água fresca no pescoço e nas têmporas e depois alguns goles devolveram o aprumo ao rapaz.

 

- O trabalho é duro - reconheceu o músico - e é por isso que toco kas para vocês. Assim, os teus camaradas e tu não têm falta de energia.

 

- O que é o ka? - perguntou Iker.

 

- O que nos permite viver, existir e sobreviver. Osíris inventou a música para que a harmonia dilate o nosso coração. Celebra o momento em que se corta a cevada e o trigo, esse acto sagrado que revela o seu espírito, o próprio Osíris.

 

Iker bebia as palavras do instrumentista.

- Onde aprendeste tudo isso?

 

- No templo principal da província. O mestre de música ensinou-me a tocar flauta e eu ensinarei o meu sucessor. Sem ela, sem a magia que ela transmite, as ceifas não passariam de um trabalho extenuante, e o espírito de Osíris abandonaria a espiga madura.

 

- Osíris... É ele o segredo da vida?

 

- Ao trabalho, Iker! - exigiu o chefe de equipa. O flautista tocava de novo.

 

Iker continuava a manejar a foice, mas teve a sensação de que cada gesto, em vez de o esgotar, lhe dava forças.

 

Era isso, o ka, a energia que vinha do trabalho bem-feito.

 

Ao contrário dos outros ceifeiros, que não estavam encarregados de apanhar as espigas, esta nova tarefa fora imposta a Iker. O rapaz atava os feixes e metia-os em sacos que lhe trazia um adolescente.

 

- Ainda teremos que nos esfalfar assim muito tempo? - lamentou-se este. - Já temos que chegue para a nossa aldeia!

 

- Há outras aldeias - lembrou-lhe Iker - e a colheita não será abundante em todo o lado. É por isso que não devemos pensar apenas em nós mesmos.

 

O colega olhou-o com expressão desconfiada.

- Não estarás do lado do patrão?

 

- Estou do lado do trabalho bem-feito.

 

O camponês encolheu os ombros e preparou um novo saco.

- Pausa para almoço - anunciou o contramestre.

 

À sombra de uma cabana de juncos, tinha sido disposta comida apetitosa sobre uma esteira: bolos quentes recheados de legumes, pães dourados e estaladiços, alho frito em azeite, iogurtes salgados à base de leite de cabra temperados com ervas aromáticas, leite coalhado, peixe seco, carne de vaca marinada, figos, romãs e cerveja fresca.

 

Iker estava a morrer de fome, mas o Trangalhadanças impediu-o de se sentar.

 

- Já não há lugar aqui. Vai ver noutro lado.

 

- Mas é a minha equipa! Não conheço os outros.

 

- Nós não queremos saber de ti! Detestamos os espiões.

 

- Espião, eu?

 

- Expliquei aos outros que tu me denunciaste ao patrão porque eu não trazia grãos suficientes para a capoeira.

 

É mentira!

 

Visto que te manténs sempre à parte, continua. Não nos incomodes enquanto comemos. Se insistires, não hesitaremos em bater-te.

Iker não tinha vontade de lutar.

 

- Toma um pouco de água e um pedaço de pão - concedeu o Trangalhadanças, triunfante. - Trata de não abrandar a cadência, depois de um festim desses. Caso contrário, seremos nós que te denunciaremos ao patrão.

 

O banido afastou-se e comeu algumas dentadas, que não chegaram para lhe dar a energia necessária a fim de continuar a sua tarefa. Enquanto se perdia nos seus pensamentos, gritos de susto fizeram-lhe voltar a cabeça.

 

Saindo do seu esconderijo, uma cobra real acabava de surgir no meio dos convivas.

 

Tinham-se levantado todos de um salto.

 

- Espantem-na na direcção do Iker! - berrou o Trangalhadanças. Batendo com os pés, atirando terra, os trabalhadores agrícolas conseguiram o seu objectivo.

 

Iker não se tinha movido.

 

Aquela cobra tinha olhos muito maiores do que o normal, as escamas eram douradas e movia-se com uma elegância fascinante. Hipnotizado, o jovem pensava na serpente da ilha de ka.

 

- É a deusa das ceifas! - exclamou um camponês. - Deixemo-la fazer o que quiser e não lhe façamos mal. Caso contrário, a colheita estraga-se.

 

Iker ajoelhou e depositou diante da cobra fêmea o resto do seu pedaço de pão. Depois, ergueu as mãos em sinal de veneração. Instalou-se um profundo silêncio.

 

Entre o jovem e a serpente, menos de três passos. Tanto um como outro estavam tão imóveis como estátuas, mas a cobra não tardaria a atacar.

 

O decurso do tempo tinha-se interrompido.

 

E o milagre aconteceu, como no tempo de Osíris, em que o espinho não picava, em que os animais ferozes não mordiam. Satisfazendo-se com o gesto de oferenda, o réptil desapareceu no campo vizinho.

 

Não havia melhor presságio para anunciar a qualidade e a quantidade das colheitas.

 

- Tanto os outros como eu te apresentamos as nossas desculpas - disse o Trangalhadanças, muito atrapalhado. - Não podíamos saber que eras um protegido da deusa. Esperamos que não estejas muito zangado connosco e que aceites partilhar a nossa refeição. E depois é normal que te tornes o nosso chefe de equipa. Assim, também nós ficaremos protegidos.

 

Com o estômago a dar horas, Iker não precisou que insistissem.

 

- Como chefe de equipa - disse o contramestre a Iker - estás autorizado a conduzir os burros até à eira. Descarrega os sacos em silêncio, deixa agir os ritualistas e não faças nenhuma pergunta.

 

- Então há uma cerimónia?

- Não faças perguntas.

 

À frente de cinco burros que conheciam o caminho melhor do que ele, Iker dirigiu-se para a eira situada perto de uma meda provisória feita de feixes. Os quadrúpedes imobilizaram-se por iniciativa própria, sem que o rapaz tivesse de utilizar o cajado.

 

Ali se encontravam dois escribas, que tomaram nota do número de sacos. Uma parte era destinada aos camponeses e às suas famílias, a outra à padaria da província. Terminado o seu trabalho, retiraram-se.

 

Restavam apenas nove chefes de equipa, sete joeiradoras e três ritualistas, entre os quais o flautista.

 

- A eira parece rectangular - declarou ele - mas na verdade é redonda. Nela se oculta o hieróglifo' que significa "a primeira vez", o instante em que a criação se manifestou. Que a deusa das ceifas seja louvada.

 

Os seus dois colegas prepararam um pequeno altar de madeira sobre o qual colocaram um vaso com leite, pão e bolos. k

- Lamentámo-nos quando ocorreu o enterro do bom pastor

 

Osíris - continuou o flautista. - O grão desapareceu na terra e julgamos que morrera para sempre! Como a ceifa foi abundante, podemos alegrar-nos! O trigo e a cevada crescem nas costas de Osíris, ele suporta as riquezas da natureza, nunca se cansa e não emite qualquer lamento. Que os chefes de equipa depositem na eira o conteúdo dos sacos.

 

Iker estava tão feliz por participar no ritual que nem sentiu o peso do seu fardo.

 

- Tragam os burros - ordenou o flautista - e façam-nos girar em volta.

 

- Que sejam afastados - protestou outro ritualista - que não afrontem o meu pai! Os burros de Set não devem pisar o trigo de Osíris.

 

- O mistério deve ser realizado até ao seu termo - afirmou o flautista.

 

Os burros giraram e tornaram a girar, tão recolhidos como os humanos que observavam a cena.

 

Sem compreender todo o significado daquilo, Iker sentia que estava a assistir a um acto essencial. De boa vontade faria cem perguntas, mas respeitou o silêncio.

 

- Que os grãos sejam purificados - exigiu o flautista.

 

Os dois outros ritualistas fizeram sair os burros da eira e foi a vez das joeiradoras entrarem em acção

 

Cumprida a sua missão, encheram os sacos e colocaram-nos no dorso dos burros.

 

- Que os seguidores de Set levem Osíris ao céu de onde espalhará as suas bênçãos sobre esta terra - ordenou o flautista. Organizou-se uma procissão que se orientou para os celeiros.

- Que os chefes de equipa descarreguem os burros, que subam ao cimo dos celeiros e aí despejem o seu conteúdo.

 

Portanto, constatou Iker, o celeiro é comparado ao céu onde vive o espírito de Osíris contido no grão.

 

Habitado pelo ritual extraordinário que acabava de viver, o rapaz desceu passo a passo a escada para gravar na memória cada segundo daquela aventura. O contacto dos pés nus com os degraus de calcário tornava mais intenso o ritual que lhe oferecia uma nova realidade.

 

O flautista, os dois outros ritualistas, os chefes de equipa e as sete joeiradoras estavam prostrados em frente de um gigante de olhos enterrados nas órbitas, pálpebras pesadas e pómulos salientes. O seu olhar era tão penetrante que tetanizou Iker. Aquele homem severo, de nariz direito e fino, boca bem desenhada e torso largo, tinha grandes orelhas, capazes de captar o mínimo som do universo.

 

Vestia uma camisa de linho com alça única passando sobre o ombro esquerdo e um avental rectangular sobre o qual estava representado um grifo esmagando os inimigos do Egipto.

 

O punho do flautista obrigou Iker a deitar-se no chão.

- Venera o Faraó, o ser que nos dá a vida.

 

Senuseret ergueu para o céu a oferenda de trigo e cevada que pertencia aos deuses. Depois, subiu a escada que conduzia ao topo do mais alto dos celeiros e, com um tição, acendeu uma braseira na qual tinham sido depositadas bolas de incenso.

 

Ao realizar esse ritual, o Rei pensou no olhar do rapaz que se cruzara com o seu. Não conhecia outro assim.

 

Sempre atento, Iker ouviu o Faraó.

 

- Osíris morre e revive, oferece-se para alimentar o nosso povo. Pai e mãe dos humanos, produz os grãos com a energia secreta que existe nele a fim de fazer subsistir os seres. Todos vivem da sua respiração e da sua carne, dele que veio da ilha da chama para incarnar nos cereais. Comemos o corpo de Osíris, continuamos a viver graças ao ouro vegetal.

 

Florzinha apresentou ao Rei uma boneca feita com espigas. Reproduzida em numerosos exemplares, essa noiva do trigo seria exposta na fachada de cada casa até à ceifa seguinte.

 

Depois, o flautista trouxe uma grande e bela corbelha fabricada com juncos flexíveis coloridos de amarelo, azul e vermelho. O fundo era reforçado por duas tiras de madeira colocadas em cruz.

 

- Eis a corbelha dos mistérios, Majestade. O que estava espalhado está aqui reunido.

 

- Que regresse ao templo - ordenou Senuseret.

 

Trémulo de emoção, o proprietário da quinta apareceu e prostrou-se.

- Majestade, a minha melhor vaca está prestes a parir! O milagre realiza-se uma vez mais!

 

Todos os participantes na cerimónia se deslocaram até ao estábulo. O flautista pronunciou fórmulas mágicas para favorecerem o parto, enquanto o chefe dos vaqueiros assistia ao animal, que lhe lambeu a mão.

 

Lutando contra o sofrimento, a vaca estendeu o pescoço e contraiu o traseiro. O vaqueiro acariciou-lhe os flancos para a acalmar.

 

- O Verbo encontra-se nos touros - recordou o Faraó - a intuição conhecedora nas vacas. Devem ser tratados com o maior respeito. A voz tranquilizadora do soberano acalmou a mãe.

 

E surgiu a cabeça do vitelinho que o parteiro puxou docemente, ao mesmo tempo que as patas anteriores. Malhado, com olhos castanhos, era uma maravilha.

 

O parteiro depositou-o diante da mãe, que o lambeu demoradamente. Todos esperavam a sua decisão.

 

Com um olhar profundo e determinado, a vaca fixou Iker.

 

- Aproxima-te e pega no vitelo malhado - exigiu o flautista. Um pouco desajeitado, Iker segurou com ternura no pequeno ser, que não manifestou qualquer inquietação.

 

- Apareceu o novo Sol - concluiu o Faraó. - Que a festa do fim das ceifas nos reúna em alegria.

 

Para Sobek, o Protector e os seus homens, não se tratava de deixar andar nem de tomar parte, por pouco que fosse, nos festejos. Devido ao seu estado de saúde, Uakha, o chefe de província da Cobra, não pudera assistir ao ritual em companhia do Rei. Mas não seria uma hábil estratégia que lhe permitiria declinar qualquer responsabilidade em caso de atentado?

 

Aventurar-se assim em território hostil parecia uma loucura. No entanto, Senuseret tomara essa decisão e o chefe da sua guarda pessoal devia adaptar-se a ela. Felizmente, a corte de Mênfis ignorava os projectos reais do monarca.

 

O que soubeste acerca de Uakha? - perguntou Senuseret. É considerado um bom administrador, amado pelos humildes, e nunca se pronunciou abertamente contra vós. A sua maior preocupação, tal como os seus predecessores, é a conclusão da sua Morada de Eternidade.

 

- Dispõe de uma milícia?

 

- Não, apenas de forças da ordem bastante reduzidas, sem contar os polícias do deserto que vigiam as pistas que vão dar aos oásis de Dakla e Kharga. Esta província conta com elas e garantem a segurança das caravanas.

 

- Investigaste sobre o rapaz que te indiquei?

 

- Chama-se Iker. É um trabalhador agrícola recentemente contratado.

 

- Não o percam de vista. Sobek insurgiu-se.

 

- Se o considerais perigoso, Majestade, porque não o prendemos?

- Não é uma ameaça.

 

- Mas então...

 

- Contenta-te em mandá-lo observar sem que ele saiba.

 

Roído pela artrose, o chefe de província Uakha recebeu o Faraó no limiar da sua incrível Morada de Eternidade, que fazia lembrar os conjuntos arquitectónicos do tempo das grandes pirâmides. O gigantesco túmulo subia em direcção ao topo da falésia, impregnando-se da força da Montanha elevada. As diversas Partes eram ligadas entre si por escadarias.

 

Ao templo de recepção sucedia-se uma longa calçada que ia dar ao primeiro pátio; depois a rampa atingia um pórtico de colunas que se abria para um segundo pátio fechado por altos muros. Vinha em seguida uma espécie de santuário que abrigava a câmara de ressurreição. No fim do percurso, no centro, um nicho para o ka, ponto de contacto entre o aqui e o além.

 

- Um esplêndido monumento, quase digno de um Rei- constatou Senuseret.

 

- Tenho consciência disso, Majestade, mas não vejais nisso qualquer provocação. Era esta a tradição local que se extinguirá comigo.

- Porquê?

 

- Porque o vosso reinado será um grande reinado e haveis decidido pôr termo à independência dos chefes de província.

 

- De onde vem essa convicção?

- Da vossa presença aqui.

 

- E se fosse verdade, como reagirias tu?

 

- Aprovando-vos sem reserva, porque esta anarquia já durou demasiado. Por agora, os prejuízos são mínimos, mas é altura de restabelecer firmemente a lei de Maet. Será reunindo as províncias e mantendo a sua união com punho inflexível que tornareis o Egipto próspero. Dais-me autorização para me sentar neste banquinho de pedra? Senuseret aquiesceu.

 

- Sinto-me feliz por ter vivido o tempo suficiente para conhecer este momento - confessou o velho Uakha. - Um Rei fraco teria dispersado o poder e destruído o país.

 

- Alguns chefes de província não partilham a tua opinião. -Não o ignoro, Majestade. Com cinco deles o confronto ameaça ser duro, mesmo violento. Sobretudo, não recueis. As grandes famílias fizeram mal em agarrar-se ao carácter hereditário das funções, esquecendo que a qualidade pessoal e as competências devem impor-se sobre o nascimento. O sistema tornou-se tão rígido que é necessário quebrá-lo de imediato. Sois vós que reinais, mais ninguém.

 

Indecifrável, o monarca não manifestou o mínimo indício de satisfação.

 

- Os vossos adversários são ricos, arrogantes e determinados continuou Uakha. - Podeis contar comigo, com os meus polícias e com a população da minha província para vos apoiar na vossa acção.

- Declarou-se outra guerra - revelou Senuseret.

 

- Quem vos ataca?

 

- Um ser capaz de manobrar a força de Set e decidido a fazer com que Osíris morra de novo.

 

O rosto de Uakha ensombrou-se.

 

- E estais convencido, Majestade, que se trata de um dos chefes de província que vos são hostis.

 

É uma hipótese que não posso pôr de parte.

 

Como engendraria a nossa terra semelhante monstro? Agindo assim, arruinaria os esforços realizados desde o tempo dos deuses e far-nos-ia mergulhar nas trevas!

 

- É por isso que preciso de o identificar, tornando o Egipto coerente e forte.

 

- Não disponho de qualquer informação sobre esse demónio afirmou Uakha.

 

O que sabes sobre o Punt?

 

É uma bela lenda, Majestade. Há muito tempo, os navegadores teriam descoberto a localização desse país maravilhoso e dele teriam trazido ouro.

 

- Neste território que controlas não há nenhum jazigo?

- Nenhum.

 

- Estás satisfeito com os teus talhadores de pedra, Uakha?

- As obras falam por eles, Majestade.

 

- Vou ter necessidade desses artesãos durante um longo período e ficarão sujeitos ao segredo.

 

Senuseret ia saber se o chefe de província Uakha era verdadeiramente um aliado.

 

- Estão à vossa disposição, Majestade.

 

Inspector dos impostos e colector de taxas, Gergu era um homem corpulento, alcoólico raramente embriagado e amador de mulheres, que considerava como objectos para darem prazer. Divorciado pela terceira vez, divertira-se a martirizar as esposas, tão assustadas pela sua violência que não se tinham atrevido a apresentar queixa. Quanto à sua filha única, refugiada em casa da mãe, jurava nunca mais rever aquele brutamontes.

 

Ao encontrar o tesoureiro Medés, Gergu optara por um novo destino. Tornar-se o homem de confiança daquela importante personagem, sob a capa das suas funções oficiais, permitia-lhe mais agitação. Podia agora, com toda a impunidade, exercer a sua crueldade natural sobre as vítimas que lhe indicavam e sobre as que ele escolhia.

 

Não apenas o trabalho era bem pago, como ainda se perspectivavam belas promoções. Como Medés subiria certamente na hierarquia, Gergu segui-lo-ia.

 

Marinheiro de formação, segurava pessoalmente o leme do barco fiscal. Menos à-vontade nas deslocações terrestres, suava muito. Supersticioso, não viajava sem uma boa dezena de amuletos.

 

Ao chegar a Copto, Gergu sentiu-se aliviado. O deserto oprimia-o e, tal como o seu patrão, suportava mal o calor. Mas seria ali, naquela cidade, que reencontraria a pista das duas caixas que Medés queria. O seu instinto de caçador raramente o enganava e fizera sair do covil suficientes animais selvagens para sentir que o bando de marinheiros desonestos não devia estar longe.

 

Com a sua equipa de polícias armados de cacetes, Gergu não se mostrou discreto. Deu a volta às tabernas e interrogou todos os patrões. O sexto foi o certo.

 

- É verdade - admitiu o taberneiro. - Alguns valdevinos gabaram-se de terem deitado a mão a um tesouro inesperado e embebedaram-se até de manhã.

 

- Precisaram a natureza desse tesouro? - perguntou Gergu.

- Perfumes e unguentos preciosos, segundo o que entendi.

- De que proveniência?

 

- Não falaram disso.

 

- E para onde foram esses valdevinos?

 

- O mais excitado, que os outros chamavam "capitão", referiu a quinta dos pais, no sul da cidade. Ali ficariam tranquilos esperando o resultado das transacções. Não sei realmente mais nada.

 

- Já é bom, taberneiro. Na condição, como é evidente, que não tenhas mentido.

 

- Claro que não! Isto não me vai provocar aborrecimentos, pelo menos?

 

- Antes pelo contrário - afirmou Gergu com um sorriso guloso. - Se aceitares fazer parte da minha rede de informadores, obterás com isso um belo lucro.

 

- Vou indicar-vos a localização dessa moradia a sul da cidade.

 

O capitão estava com os olhos fixos nas duas caixas de onde continuava a emanar um delicioso aroma.

 

De cada vez que tentava abri-las, tornavam-se tão quentes que era obrigado a desistir. Os seus cúmplices começavam a impacientar-se, mas nenhum queria correr o risco de ser vítima de um feitiço. Possuíam com certeza uma fortuna, mas como haviam de negociá-la da melhor maneira?

 

Seria necessário afastarem-se de Copto e tratar do caso numa cidade maior para poderem passar desapercebidos, e talvez irem até Mênfis. O mais aborrecido era ter de partilhar. De momento, o capitão precisava de carregadores. Depois, seria diferente.

 

Um ruído de luta alertou-o.

 

Batiam-se lá fora. Deveria sair, mas não podia abandonar as caixas.

Ouviram-se alguns gritos ferozes e depois, durante alguns segundos, fez-se silêncio.

 

Gergu irrompeu no compartimento.

 

- Ah! Aqui está sem dúvida o famoso capitão e chefe dos ladrões! E não está sozinho Com as duas caixas que o fisco procura!

 

- O fisco? Mas ...

 

- Declaraste estas riquezas à administração?

- Ainda não, mas...

 

- Um dos teus homens morreu, os outros foram presos. Tornando-se culpados de pancadas e ferimentos nos representantes da ordem, cometeram uma falta muito grave, passível de pesadas penas. Nem eles nem tu voltarão a ver o mar.

 

- Mas eu não lutei!

 

- Só os cobardes fogem às suas responsabilidades - acusou Gergu.

 

- Essas caixas não me pertencem! Levai-as e deixai-me ir embora.

- Como as obtiveste?

 

- Por acaso! Recolhi um náufrago numa ilha deserta.

- Qual é a sua localização?

 

- Vi-a desaparecer nas ondas. Gergu esbofeteou o capitão.

 

- Detesto que façam troça de mim. Vais falar, e depressa! Esmurrou o marinheiro com prazer. Com o nariz e várias costelas partidas, o rosto em sangue, o capitão relatou os acontecimentos tal como se tinham desenrolado. Convencido da sinceridade do seu interlocutor, Gergu estava abalado. - que há nessas caixas?

 

- Não consegui abri-las! Quando tento, queimam-me os dedos. Gergu nem tentou. A temeridade não era o seu forte e não lhe pagavam para correr riscos. Aquele caso parecia-lhe cada vez mais estranho e competia a Medés desembrulhar os fios da meada.

 

Um criado trouxe cerveja fresca a Medés e ao seu visitante.

 

- O palerma falou? - perguntou o tesoureiro com impaciência.

- Ele não sabia nada realmente, senhor - afirmou o falso polícia - e não fez mais do que repetir a sua absurda história. Creio que o rapaz ficou de tal forma aterrorizado com o naufrágio que perdeu a cabeça.

 

- Desembaraçaste-te dele?

 

- As vossas ordens foram executadas.

 

- É bom que te afastes da região. Arranjei-te um excelente posto longe daqui, no Faium. Pouco trabalho, bela casa, boa remuneração. O teu lugar está reservado num barco.

 

O falso polícia curvou-se e desapareceu.

 

Despeitado, Medés esvaziou de um gole duas taças de cerveja. Não duvidava que o interrogatório tivesse sido bem-feito e que o pequeno escriba tivesse perdido a razão. Restavam apenas as duas caixas, se elas existiam.

 

A resposta não tardou.

 

No dia seguinte à noite, um Gergu de cara congestionada e satisfeita apresentou-se ao porteiro da moradia de Medés, que o recebeu imediatamente.

 

- Missão cumprida, patrão!

- Onde estão as caixas?

 

- Num armazém abandonado, bem guardadas. Pareceram-me demasiado evidentes para serem entregues aqui.

 

- Excelente iniciativa! A tripulação?

 

- Não ouviremos falar mais deles. Esses criminosos apodrecerão nos trabalhos forçados.

 

- O que te disse o capitão?

 

- Não o poupei, podeis acreditar! Mas esse pobre homem enlouqueceu. Um rapaz e essas caixas recolhidas numa ilha deserta, o vosso barco que se afundou na sequência de uma tempestade, essa ilha que desapareceu no mar e o rapaz o único sobrevivente: eis tudo o que consegui obter.

 

Medés não ocultou o seu desapontamento.

 

- Parece que é essa a verdade, Gergu. Perdemos o Veloz e a sua tripulação, o mar não quis o pequeno escriba como oferenda. Esta expedição, à qual consagrei tantos esforços e paciência, salda-se por um fracasso.

 

- Esqueceis as caixas! Até agora, ninguém as abriu.

- Como podes ter a certeza?

 

- São protegidas por um feitiço.

 

- Quebrá-lo-emos!

 

Os dois homens dirigiram-se sem demora ao armazém abandonado, guardado pelos esbirros de Gergu.

 

Medés continuava persuadido que o país do Punt existia realmente, e aqueles acontecimentos surpreendentes mais reforçavam a sua convicção. A onda que destruíra o seu barco e matara a sua tripulação não provava que a Terra do Deus sabia defender-se para proteger as suas riquezas?

 

Considerando o seu tamanho, as duas caixas continham uma verdadeira fortuna.

 

- É curioso - observou Gergu - já não cheiram a nada. Até agora, libertava-se delas uma fragrância de incrível suavidade.

 

- Abre-as. Gergu recuou.

 

- Parece que queimam as mãos!

- Dá-me a tua faca.

 

Com raiva, Medés conseguiu cravar a lâmina na junção de duas tábuas.

 

- Como vês, não acontece nada.

 

Um pouco mais tranquilizado, Gergu continuou o trabalho.

 

No interior das caixas, não havia senão lama de onde emanava um odor fétido.

 

Depois de um dia abrasador, o entardecer era de uma doçura divina. Com o fim das ceifas, o ritmo de trabalho dos camponeses abrandava, as sestas alongavam-se e todos se alegravam pela abundância excepcional da colheita, provocada sem dúvida pela presença do Faraó. Tal como o seu chefe, os habitantes da província tinham-se tornado fervorosos partidários de Senuseret.

 

Os últimos clarões do crepúsculo esbateram-se rapidamente, dando lugar a uma noite aromática. Animais e humanos tinham fome e organizaram-se alegres jantares em torno das cozinhas ao ar livre.

 

Sozinho, à parte, sentado num marco que definia o limite de um campo, Iker não tinha apetite. Ninguém aqui conhecia Olho-de-tartaruga ou Faca-Cortante. Esperara que, ao descrever o falso polícia que tentara matá-lo, alguém o identificaria. Mas aquele assassino não devia habitar na região e, executado o seu crime, fugira.

 

Fazer perguntas não levava a nada. Portanto, o rapaz encerrava-se no seu mutismo. Precisava de deixar aquela região a fim de continuar o seu inquérito, mas ir para onde? E pagar a sua dívida demoraria ainda muito tempo.

 

O único momento de luz naquela desolação fora o ritual celebrado na presença do Faraó. Nunca o jovem teria podido supor que cruzaria o caminho do monarca. Tal como os outros, mal ousara olhá-lo.

 

- Se não comeres nada - murmurou a voz gentil de Florzinha vais enfraquecer.

 

- Que importância tem?

 

És muito jovem, Iker, e cheio de qualidades! Porque não aceitas a tua condição, convences o meu pai e lhe sucedes?

 

- Porque falta responder a muitas perguntas. Esquece-as!

 

É impossível.

 

- Complicas a vida por nada, garanto-te!

 

- O ritual celebrado na eira não era assim tão simples.

 

- São velhos costumes camponeses, não te atormentes por causa deles!

 

- Por que razão o Faraó honrou este mistério com a sua presença?

- Porque quer garantir o apoio do chefe da nossa província! Como constataste, o nosso Rei não é um qualquer que aceite partilhar o poder. Em breve enfrentará déspotas locais, decididos a desobedecer-lhe. Nós, pelo menos, estaremos em paz. Liberta-te do teu passado,

Iker, e pensa apenas no teu futuro. Eu existo; esta quinta, estes campos, estes celeiros existem também. Se desejares, tudo te pode pertencer.

 

- Lembra-te de que o teu pai te proibiu de conviver comigo. Florzinha sorriu.

 

- Desde que foste designado para segurar no vitelinho, símbolo do Sol nascente, é diferente. Mais ninguém aqui se atreverá a fazer a mínima crítica a teu respeito. Podíamos passar esta noite juntos.

 

Maquilhara-se um tanto excessivamente, mas o seu encanto nunca fora tão grande.

 

- Tenho de reflectir.

 

- E se reflectisses... depois?

 

- Desprezar-me-ias, Florzinha, e terias razão! As tuas palavras comoveram-me, confesso, e tenho realmente de reflectir.

 

Carrancudo como era habitual, o patrão interpelou Iker.

 

- O vaqueiro está doente. Conduz os bois ao canal para que possam beber e tomar banho.

 

- Na quinta preparavam o banquete que marcava o fim das ceifas.

 

Por todo o lado, no campo, haveria uma grande festa seguida de vários dias de repouso. Não seria essa felicidade serena a obra de Senuseret, que acabava de abandonar a província depois de ter celebrado o ritual no templo principal?

 

Com a ideia de se refrescar, os bois não se fizeram rogados. Eles próprios tomaram a decisão correcta, contentando-se o rapaz em acompanhá-los.

 

O seu local preferido era rodeado de velhos salgueiros que davam uma sombra agradável. Cada um por sua vez, plácidos, desceram o declive e beberam a água do canal com evidente prazer.

 

Iker sentou-se na margem.

 

Não dormira durante a noite, considerando a hipótese de passar uma vida tranquila junto de Florzinha. Mas as cenas que via, ele como bom pai de família e agricultor modelo, ela perfeita esposa e mãe atenta, belas colheitas, boas manadas, celeiros bem recheados, não lhe provocavam qualquer alegria.

 

Iker não devia mentir a si próprio: as provações que vivera não podiam ser apagadas. Compreender o seu significado continuava a ser o seu objectivo primordial.

 

Levantou-se um vento estranho, parecendo provir ao mesmo tempo de todas as direcções do espaço.

 

Os bois imobilizaram-se. E Iker víu-a.

 

Uma mulher de uma beleza sublime, com cabelos de ouro e pele muito sedosa, saiu das folhagens. Do seu longo vestido branco emanava uma luz deslumbrante.

 

Um instante, um só instante, os seus olhares cruzaram-se. Ela.

 

Era ela, nenhuma outra a poderia igualar.

 

- Estás com um ar estranho - disse o Trangalhadanças a Iker. De onde vens com os bois?

 

- Do canal orlado de salgueiros.

 

- Ah, compreendo! Também julgaste ver a deusa. Não és o primeiro, descansa! Os jogos de sombra e de luz desenham o corpo de uma mulher magnífica que os vaqueiros descrevem com entusiasmo. Infelizmente, não passa de uma ilusão.

 

O Trangalhadanças fez um ar malicioso.

 

Mas a Florzinha é bem real! Segundo os boatos, tem um fraquinho por ti. É sério, não?

 

- O boato é um veneno do qual ninguém se deveria alimentar.

- Mais uma afirmação inútil! Estás no bom caminho, Iker. Todos nós sonhamos com a Florzinha! A filha do patrão, estás a ver! Vamos preparar o banquete. Este ano anuncia-se fabuloso.

 

Tinham sido erguidos vários pavilhões de juncos a fim de protegerem os convivas do Sol e as crianças não paravam de importunar os cozinheiros, que acabavam por ceder, dando-lhes bocados de bolo.

 

Indiferente àquela agitação, Iker conduziu os bois ao estábulo. Quando saiu, esbarrou com Florzinha.

 

- Reflectiste?

 

- Considero que não sou capaz de te fazer feliz.

- Enganas-te, Iker!

 

- Concedes-me demasiada importância, Florzinha.

- Não te pareces com os outros e és tu que eu quero.

 

Irritada, ela voltou-lhe as costas e foi ter com o pai que vigiava a preparação das iguarias.

 

Antes de saciar os homens, era necessário honrar os deuses. Portanto, uma vintena de transportadoras de oferendas enfeitaram um altar com alimentos consagrados pelo templo e reservados à força invisível que presidia ao banquete. As sacerdotisas, com uma peruca preta e envergando vestidos que as moldavam, cobertos com uma rede de pérolas azuis, pulseiras nos pulsos e nos tornozelos, estavam todas encantadoras.

 

Mas a última eclipsou-as a todas.

 

A sua elegância era tal que cativou os mais indiferentes. Com um andar nobre, rosto com traços de uma delicadeza inigualável, ancas estreitas, parecia surgir de um mundo onde remasse a perfeição. O ourives divino moldara a sua beleza, traçara a curva das suas sobrancelhas e tornara os seus olhos brilhantes como a estrela da manhã.

 

Com calma e lentidão, como se se encontrasse só num templo, a jovem sacerdotisa depositou sobre o altar uma flor de lótus aberta. Assim, o perfume do Além reinaria sobre os prazeres dos humanos. Depois, retirou-se com uma graça que enfeitiçou a assistência. Quando passou perto dele, Iker teve de render-se à evidência: era a mulher sublime que lhe aparecera entre a folhagem dos salgueiros.

 

- Como te sentes? - perguntou Florzinha a Iker, estendido sobre a esteira, com um pano húmido na testa.

 

- Fecha a porta, é-me insuportável o mínimo raio de luz. A rapariga mudou o pano.

 

- Queres que te faça uma massagem?

- Não é necessário.

 

- Essa indigestão parece muito grave.

- É verdade...

 

- Não sabes mentir, Iker! Observei-te: quase não comeste. Não é uma indigestão que te prende ao leito.

 

- Não tem importância.

 

- Pelo contrário, é muito importante! Porque estás nesse estado?

- Não sei.

 

- Eu sei! julgas que não te vi olhar para ela com olhos febris?

- De quem estás a falar?

 

- Dessa sacerdotisa que todos os homens, e tu em particular, devoravam com os olhos! És bem capaz de ter ficado apaixonado e doente ao mesmo tempo.

 

- Não podes compreender, Florzinha.

 

- Pelo contrário, compreendo bem de mais! Farias mal em encerrar-te no mais inacessível dos sonhos. Essa rapariga é uma sacerdotisa que vive no templo e só sai para celebrar rituais. Nunca mais a verás.

Iker soergueu-se.

 

- Em que templo?

 

Além disso, ela não te interessa! Ninguém sabe, imagina, e é melhor assim. Vais acabar por despertar e perceber que eu não sou um sonho?

 

- Deixa-me, peço-te.

 

Iker queria gravar profundamente na sua memória esse instante mágico em que a jovem sacerdotisa lhe prestara atenção. Devia ter-lhe falado, perguntar-lhe o nome, fazer um gesto, mesmo irrisório, para a reter.

 

- Foi a primeira vez que ela veio aqui?

- A primeira e a última.

 

- Com certeza sabes o nome dela, Florzinha!

- Lamento desiludir-te.

 

- Com certeza que alguém a convidou, alguém que me poderia falar dela!

 

- Não contes com isso. Agora, levanta-te e vai trabalhar. Esta história de indigestão não se pode eternizar. Lembra-te que tens uma dívida a pagar.

 

Viver sem voltar a vê-la não fazia qualquer sentido. Infelizmente, como afirmara a filha do dono da quinta, ninguém conhecia o nome da bela sacerdotisa. Não passara de uma sublime aparição durante um ritual e não havia outra solução senão esquecê-la. Mas Iker amava-a e nenhuma outra mulher o atrairia. Fossem quais fossem as dificuldades, tinha de a reencontrar.

 

- Eis o momento mais difícil do ano - anunciou-lhe o Trangalhadanças. - Os escribas contabilistas vêm verificar o número exacto de animais que tem cada manada. Não se pode fazer batota, senão é uma sova de bastonada e uma forte multa. Além disso, temos de nos mostrar amáveis com esses cabeças de pau.

 

Os escribas sentaram-se ao abrigo de um baldaquim e o preceptor teve direito a uma almofada. Iker detestou a sua arrogância e cara satisfeita.

 

Bois, vacas, burros, carneiros e porcos começaram a desfilar sem grande barafunda.

 

Iker colocou-se discretamente atrás de um escriba para ver como ele trabalhava.

 

Por diversas vezes, o preceptor, que não tomava nenhumas notas e se contentava em observar, pediu cerveja fresca. Terminada a contagem, chamou o agricultor.

 

- Reexaminei os cálculos dos meus colegas - declarou com frieza. - De 700 bilhas de mel, deves 70 ao fisco; de 70 000 sacos de cereal, 7 000.

 

- O imposto aumentou e ninguém me preveniu!

- Acabo de fazê-lo.

 

- Vou apresentar queixa ao tribunal da província!

 

- Estás no teu direito, mas lembra-te de que faço parte dele como perito. O estado sanitário dos teus animais não me parece satisfatório. Se te recusares a pagar, os serviços veterinários aplicar-te-ão uma pesada multa.

 

- Não deis ouvidos a esse ladrão! - interveio Iker, brandindo o papiro que acabava de arrancar das mãos do escriba. - Vede antes este documento: por ordem desse bandido, os seus subordinados escrevem números falsos! Aumentam o número de cabeças de gado para fazer crescer o imposto.

 

Um tique repuxou o lábio superior do preceptor, apanhado desprevenido.

 

A cólera cresceu nas fileiras dos camponeses.

 

- Prendam este insolente! - ordenou o funcionário. - Não compreendem que mente para vos colocar contra as autoridades? Se ousardes atacar-me, ireis todos para a prisão.

 

Durante alguns instantes a situação permaneceu estática.

 

- Nada de disparates, rapazes - recomendou o Trangalhadanças. O preceptor tem razão. E depois, é um assunto entre o patrão e ele. Isso não nos diz respeito.

 

- Agarrem esse malandro! - ordenou o funcionário aos quatro polícias armados com cajados.

 

Iker fugiu a toda a velocidade.

 

Graças ao seu melhor conhecimento do local, tinha uma hipótese de lhes escapar.

 

Com o auxílio do Trangalhadanças, feliz por se desembaraçar de um rival incómodo, os polícias revistaram as cabanas, os abrigos de junco, os estábulos, percorreram os campos, exploraram os arvoredos.

 

O delinquente tinha desaparecido.

 

- Não irá longe - anunciou o preceptor.

 

- A menos que abandone a província - rectificou o agricultor.

- Tu não perdes nada por esperar!

 

- E o que é que tu fazes disto? - ironizou o camponês, brandindo o papiro.

 

- Mal sabes ler!

 

- O suficiente para constatar que és realmente um ladrão. E o meu pessoal não me abandonará.

 

- Admitamos, admitamos... Pronto, esqueçamos essa história. Trata-se de um simples erro de escrita que vou rectificar imediatamente.

- Esquece também o aumento injustificado dos meus impostos.

- Tens muita sorte, sou um homem compreensivo. Mas não me peças mais nada!

 

O polícia decidira percorrer os arredores da quinta durante mais dois dias, na esperança de recolher indícios ou testemunhos.

 

Ao regressar a casa, Florzinha pensava nesse belo jovem de testa grande e olhos verdes, tão intensos, que lhe escapara. Ardia na sua alma um fogo cuja intensidade lhe desagradava, mas acabaria por acalmá-lo. Iker, tão diferente dos outros rapazes que a cortejavam, tinha a atitude e a determinação de um chefe. A esposa levá-lo-ia a adquirir outras parcelas de terreno, a ampliar a sua propriedade e a contratar novos tarefeiros. O seu êxito teria sido deslumbrante.

 

Mas o seu favorito não passava de um delinquente em fuga. Florzinha fechou a porta do seu quarto, onde ninguém, nem mesmo o pai, estava autorizado a penetrar. Em amplas corbelhas, arrumava com cuidado os vestidos, perucas e abrigos. Boa parte dos lucros da exploração serviam para a tornar elegante. E na sala de água dispunha de dois cofres em alabastro onde estavam guardados os seus produtos de beleza.

 

Sufocou um grito quando o descobriu.

- Iker! Que fazes aqui?

 

- Não é o melhor esconderijo?

- A polícia procura-te...

 

- Não fiz nada de mal, antes pelo contrário.

 

- Não se pode lutar contra aquele preceptor.

 

- Claro que sim! Temos a prova que ele comete fraudes e será condenado.

 

- Não é assim tão simples, Iker.

 

- Chama o teu pai e preparemos a nossa estratégia. Serei a testemunha principal.

 

- Repito-te que não é assim tão simples.

- Explica-te, Florzinha!

 

- Tudo é possível, desde que aceites casar comigo.

 

- Já verificaste que não sei mentir. E não estou apaixonado por ti.

- Que importância tem? O essencial é que formemos um bom casal e que enriqueçamos.

 

- A desgraça abater-se-ia sobre nós, podes ter a certeza.

- A tua recusa é definitiva?

 

É, Florzinha.

 

Não sabes o que perdes.

 

Desculpa, mas tenho outras pretensões.

 

Aquela sacerdotisa pela qual te apaixonaste estupidamente! Quero fazer com que o preceptor seja condenado. Sem a justiça, seria impossível viver neste mundo. Aceitas ir buscar o teu pai? Florzinha reflectiu.

 

- Está bem.

 

Iker beijou-a ternamente na testa.

 

- Mais nenhum funcionário corrupto ousará importunar-vos, vais ver.

 

O rapaz não teve de esperar muito tempo.

- Podes vir, Iker - chamou Florzinha.

 

Ao sair do quarto, três polícias lançaram-se sobre ele e ataram-lhe as mãos atrás das costas.

 

Aninhada nos braços do pai, Florzinha olhava para outro lado.

- Por mim, está tudo resolvido - declarou o agricultor. - A minha filha fez bem ao prevenir a polícia que te escondias aqui e que a ameaçavas. Afinal, não passas de um vagabundo individado e insolente. Mereces um castigo exemplar e ninguém te lamentará.

 

- Adeus, Florzinha - disse Iker. - Agora já não te devo nada.

 

A condenação era sem apelo: um ano de trabalhos forçados por injúria a um dignitário no exercício das suas funções, violência contra a polícia e tentativa de fuga.

 

O magistrado, presidindo a um tribunal formado por governadores de província, não se interessara pelas explicações de Iker. Os testemunhos esmagadores de um preceptor, de escribas, do agricultor, da filha e do Trangalhadanças tinham formado a convicção do júri.

 

Durante a longa viagem que o conduzia às minas de cobre do Smiai,

Iker não foi alvo de nenhuma brutalidade, Não tinha falta de água nem de alimentos e gozou da simpatia dos polícias do deserto, que não lhe ocultaram a dureza da provação que o esperava.

 

- Felizmente para ti - disse-lhe o chefe dos polícias - és jovem e de boa saúde; um organismo desgastado não resistiria um ano.

- Não sou culpado de nada! Apenas denunciei um preceptor corrupto.

 

- Nós sabemos, meu rapaz. Mas obedecemos às ordens. Deixar-te fugir neste deserto trar-nos-ia graves aborrecimentos. E não terias nenhuma hipótese de te safar. Mais vale cumprir a pena, mesmo sendo injusta.

 

O comboio estava colocado sob a protecção de Sopdu, o Bicudo, um falcão de bico afiado que reinava sobre as solidões ardentes do Este, Oculto numa pedra sagrada em forma de triângulo, com a imagem de um raio de luz descendo do alto do céu, o deus preservava os seus fiéis das incursões feitas pelos salteadores das areias, ladrões sem fé nem lei que atacavam as caravanas e matavam os mercadores.

 

Fascinado pelo deserto, Iker esqueceu a quinta e os seus medíocres habitantes. Liberto de qualquer ressentimento, via muitas vezes aparecer o rosto da bela sacerdotisa. Quando ela abria os olhos e o olhava, tornava-se forte a ponto de mover montanhas e ignorar qualquer fadiga! Quando ela desaparecia, sentia-se vazio, abatido, quase incapaz de avançar. O desejo de a rever era tão forte que readquiria confiança. Sim, ultrapassaria aquele novo obstáculo e partiria em busca dessa mulher inacessível.

 

Em Timna', um circo desértico orlado de falésias com encostas abruptas, encontravam-se as minas de cobre exploradas desde as primeiras dinastias. Comboios de burros traziam regularmente aos mineiros víveres, roupas e ferramentas. Devido à dureza das condições de trabalho, os técnicos eram rendidos frequentemente. Quanto aos condenados, tinham de se adaptar ou morrer. Alguns criminosos, controlados por guardas vigilantes, não tinham tempo para preguiçar. Deviam escavar e consolidar poços e galerias a fim de facilitar a tarefa dos especialistas.

 

As construções - casas, armazéns, prisão - eram feitas de pedra em bruto. O único edifício em pedra talhada era o santuário dedicado a Min, senhor da vida, protector dos trabalhadores das pedreiras e dos mineiros, desencadeador da trovoada e das tempestades que enchiam as cisternas. Graças a ele, os operários encarregados de retirar o cobre do ventre da montanha não tinham falta de água.

 

À chegada do comboio, o responsável pela exploração, um moreno atarracado de voz rouca, pareceu muito surpreendido.

 

- Onde estão os condenados?

 

- Há só um - respondeu o oficial. - Este rapaz.

- É uma brincadeira?

 

- Para ele, não.

 

- Que crime cometeu?

 

- Revelou a desonestidade de um dos preceptores da província da Cobra.

 

- Mas... isso não é um delito!

 

- Um agricultor, a filha e os seus próximos depuseram contra ele. Veredicto: um ano aqui.

 

- É excessivo! Porque é que ele não apelou?

 

- Não teve tempo. Era evidente que toda a gente parecia ter pressa de se desembaraçar dele.

 

O atarracado coçou a cabeça.

 

-Não gosto disso... Mesmo nada! Tens os documentos oficiais?

- Estão aqui. Deixamos-te o rapaz e vamos embora. Para a próxima vez, tentaremos trazer-te melhor mão-de-obra.

 

Enquanto os polícias comiam, o atarracado encarou o condenado.

- O teu nome?

 

- Iker.

 

- A tua idade?

 

- Dezasseis anos.

- Camponês?

 

- Não, aprendiz de escriba. Atacaram-me, roubaram-me, depois... - A tua história não me interessa e tu não deverias estar aqui. Mas é assim e ninguém pode mudar isso.

 

O atarracado andou em volta de Iker.

 

- Vamos a ver... És demasiado grande para te meteres por um buraco e não tens músculos suficientes para seres integrado na extracção. Ponho-te na equipa que se encarrega dos fornos. Não posso fazer nada melhor, meu rapaz.

 

- Agradeço-vos.

 

- Tenta aguentar-te e não te deixes pisar.

 

Dois vigilantes levaram Iker para uma pequena cabana de pedras em bruto. No chão, duas esteiras.

 

- Espera aqui.

 

O local não era alegre e a montanha mostrava-se francamente hostil. As pessoas sentiam-se tão longe do Egipto que este parecia inacessível. Mas Iker recusou-se a ceder ao desespero. Sairia daquela prisão e reencontraria a jovem sacerdotisa.

 

Um homem de cerca de vinte anos, com o rosto quadrado, sobrancelhas grossas e ventre saliente entrou na cabana.

 

- És tu o novo?

- Chamo-me Iker.

 

- Eu, Sekari.

 

- Estamos na mesma equipa. Parece que estás inocente, é verdade?

 

- Assim é.

 

- Eu também. Mais vale não falar do passado e preocuparmo-nos com o presente. O nosso patrão é o Goela-Torcida. Um malvado e um tinhoso. Reincidente e já há dez anos aqui! Sobreviveu à mina e reina sobre os fornos do cobre. Nenhum vigilante ousa meter-se com ele. Toma cuidado em não lhe desagradares. Quanto às rações, previno-te: escassas e nada famosas. Mas caíste no lugar certo. Dou ajuda ao cozinheiro e recebo suplementos. Como tu me és simpático, vou-te associar ao arranjinho, mas com duas condições: primeiro, calas a boca; depois, fazes uma parte das minhas tarefas.

 

- De acordo.

 

Sekari ajoelhou e escavou o chão no canto mais escuro do comPartimento para tirar de lá um Pequeno vaso em alabastro ao qual retirou a tampa de tecido. Deitou na palma da mão pastilhas que ofereceu a Iker.

 

- Engole isto.

- O que é?

 

- Uma mistura de sementes de alfarroba e de funcho. Este remédio evitar-te-á diarreias e outras perturbações digestivas. Alguns morreram disso.

 

Iker engoliu. Sekari retirou outro tesouro.

 

- Não basta proteger o corpo, também é preciso tratar da alma. Caso contrário, serás dominado pela tristeza e perderás a tua vitalidade. Para estares calmo, usa isto ao Pescoço.

 

Sekari ofereceu a Iker um cordão com uma série de minúsculos amuletos em cornalina que representavam falcões, o pássaro de Hórus, e babuínos, o animal de Tot, senhor dos escribas.

 

O rapaz friccionou-os demoradamente entre os dedos.

- Bem, temos de ir. Caso contrário, seremos castigados.

 

Goela-Torcida era uma espécie de monstro peludo que não receava a temperatura dos fornos, variando de 700 a 1000 graus, onde eram fundidas as ligas de cobre.

 

Detestou o recém-chegado logo ao primeiro olhar.

 

Aqui, pequeno, ninguém é inocente. Anda direitinho, senão dou cabo de ti. E ninguém mo censurará. Uma boca a menos para alimentar seria uma boa notícia.

 

Iker susteve o olhar de Goela-Torcida.

 

- És mais forte do que eu, mas não me metes medo.

- Começa por arrumar os lingotes. Depois veremos. Enquanto a ganga permanecia à superfície, o cobre fundido depositava-se no fundo do forno e escoava-se para fossas de onde era retirado o metal em bruto, refundido num cadinho e depois deitado em moldes antes de ser endurecido por martelagem. O metal era depois transformado em lingotes, inventariados e numerados com vista ao seu transporte para o Egipto.

 

Um mês mais tarde, Iker continuava a armazenar os lingotes. Goela-Torcida não lhe dirigira qualquer censura.

 

- É estranho - observou Sekari, saboreando um figo. - Em geral, não se mostra tão conciliatório.

 

- Obedeço-lhe e calo-me: isso deve bastar-lhe. E depois, tu deste-me amuletos eficazes.

 

- Tanto melhor para ti, mas continua vigilante.

 

- Não ouviste falar de dois marinheiros chamados Olho-de-tartaruga e Faca-cortante?

 

Sekari reflectiu.

 

- Não, isso não me diz nada.

 

- Poderias interrogar os outros prisioneiros?

 

- Se quiseres. Esses dois fulanos são teus amigos?

 

- Perdi-os de vista e gostaria de saber de onde são naturais. E também gostaria de rever o falso polícia que tentou matar-me.

 

- Um falso polícia? Tens a certeza que...

Iker descreveu o seu agressor.

 

- Está bem, vou tratar disso. Mas não te prometo nada.

 

As diligências de Sekari tinham-se revelado infrutíferas. Nenhum dos condenados pudera fornecer-lhe qualquer informação.

 

Ultrapassando a decepção, Iker cumpria aplicadamente a sua tarefa, na verdade pouco penosa.

 

- Bom trabalho, pequeno - reconheceu Goela-Torcida, quase amável. - Mereces melhor do que isto. Pelo menos, que a tua estadia seja proveitosa para ti: deves saber tudo do cobre, a começar pelos fornos. Amanhã, limpá-los-emos juntos. É um grande privilégio, não sei se sabes. Concedo-to porque sabes manter-te no teu lugar. É uma qualidade rara que merece ser recompensada.

 

Em passo pesado, Goela-Torcida afastou-se. já não suportava aquele garoto que era evidente ser um espião enviado pela polícia para saber como funcionava a hierarquia dos presos.

 

E o principal Visado era ele, Goela-Torcida!

 

Aquele Iker ia denunciá-lo e ele seria reenviado para uma galeria da mina.

 

Só havia uma solução: torrar-lhe a cabeça num forno e fazer crer num acidente.

 

O Sol ergueu-se.

 

Sekari espreguiçou-se e bocejou.

 

- Hoje vou ajudar o cozinheiro. E tu?

 

- Vou limpar os fornos com o Goela-Torcida - respondeu Iker

- Engraçou realmente contigo! Parece que te quer formar para que lhe sucedas.

 

Ao saírem da cabana, Iker e Sekari esbarraram com o responsável pela exploração e uma patrulha de polícias do deserto.

 

- Vocês os dois, Goela-Torcida e mais três condenados, vão ser transferidos.

 

- Para onde? - perguntou Sekari.

 

- Para as minas de turquesas da deusa Hathor.

- Porquê?

 

- Ordens superiores.

 

- Mas comportámo-nos bem, não recebemos nenhuma censura, nós...

 

- As minas de turquesas têm uma necessidade urgente de pessoal. Sejam disciplinados e trabalhem duramente, caso contrário voltamos a trazê-los para aqui. Se o fizerdes, prometo-vos um regime especial.

 

Todas as vias terrestres de acesso a Abido estavam guardadas por soldados que não deixavam passar ninguém. Para penetrar no território sagrado de Osíris só restava o desembarcadouro, colocado sob alta vigilância. E foi lá que acostou uma flotilha guiada pelo barco do Faraó.

 

Sob o seu olhar, os marinheiros descarregaram blocos de pedra, bases de colunas e lajes de pavimento. Depois desceu a equipa de artesãos da província de Cobra, formada por um mestre-de-obras escultores e carpinteiros. Todos tinham prestado juramento de guardar segredo sobre o seu trabalho. Sabiam que não reveriam os seus familiares antes de o terem terminado.

 

O superior dos sacerdotes de Abido curvou-se diante do monarca.

- A acácia?

 

- O seu estado é estacionário, Majestade.

 

- Vim criar um templo, uma Morada de Eternidade e uma cidade - anunciou Senuseret. - A sul do local será construída a cidade de Uah-sut, a Resistente de localizações. Todos os dias disporá de abastecimento em carnes, peixes e legumes. Ali residirão talhantes e cozinheiros e nada faltará aos sacerdotes e artesãos.

 

- Como encarais o nosso papel, Majestade?

 

- De acordo com o meu último decreto, nenhum ritualista de Abido poderá ser transferido para outro lado. Nenhum deles será obrigado aos trabalhos agrícolas, nenhuma instituição terá o direito de retirar nem uma polegada do território de Osíris. Serão ali admitidos duas espécies de sacerdotes: os permanentes e os temporários.

 

Quando uma equipa de temporários se retirar para dar lugar a outra, deverá ter cumprido o seu trabalho na perfeição, sob pena de sanções. Os permanentes serão o Calvo, responsável pelos rituais da Casa de Vida; o Servidor do ka, que venerará e manterá a energia espiritual; Aquele que deita as libações nas mesas de oferendas; Aquele que vela pela integridade do grande corpo de Osíris; Aquele cuja acção é secreta e que vê os segredos; as sete músicas que encantam a alma divina e, por fim, Aquele que transporta a paleta de ouro sobre a qual estão inscritas as fórmulas do conhecimento. É a ti que a confio.

 

O Rei entregou o precioso objecto ao idoso sacerdote.

 

- Mostrar-me-ei digno da vossa confiança, Majestade. Quando nomeareis os titulares das outras funções?

 

- Escolhe os ritualistas mais competentes. Mas antes de ir mais longe, devo saber se o génio do lugar nos é favorável.

 

Senuseret partiu sozinho para o deserto.

 

Apesar dos seus avisos repetidos, Sobek, o Protector estava proibido de o seguir.

 

Desde a alvorada dos tempos velava sobre Abido uma misteriosa divindade, "O que está à frente dos Ocidentais". Tendo passado para o outro lado das trevas, percorria no entanto o domínio dos vivos quando se abriam as portas do invisível.

 

Sem a sua aprovação, o empreendimento do Faraó estava votado ao fracasso.

 

Imobilizou-se no local exacto onde seria edificado o santuário do seu templo. Ali, a terra entrava em ressonância de forma especial com o céu. Toda a natureza ficou em silêncio.

 

Nem um canto de pássaro, nem um murmúrio de vento. De repente, vindo não se sabe de onde, ele apareceu.

 

Um chacal preto, de patas altas, cauda imensa e grandes orelhas muito direitas.

 

Desconfiado, manteve-se a boa distância do intruso. Senuseret compreendeu de imediato as suas exigências. A incarnação do Senhor dos Ocidentais exigia-lhe que revelasse as suas intenções.

 

Tenho de interromper a degenerescência da acácia - declarou o soberano. - Para o conseguir, edificarei um templo onde, todos os dias, será celebrado um ritual que manterá a vitalidade deste lugar. Mas seria ineficaz sem a presença de uma Morada de Eternidade onde se realizarão os mistérios da morte e da ressurreição. Não é para a minha própria glória que os artesãos farão nascer esses edifícios, mas para que Osíris permaneça o culminar da abóbada da civilização egípcia. Lê os planos da obra no meu coração e marca-os com o selo da tua força. Sem ela, não chegarão a existir.

 

O chacal sentou-se nas patas traseiras, ergueu a cabeça para o Sol e entoou uma melopeia tão intensa e tão profunda que fez vibrar a alma de todos os seres vivos na Grande Terra de Abido.

 

O Anunciador e os seus seguidores acabavam de ultrapassar uma nova plataforma calcária que se seguia a uma série de colinas pedregosas entremeadas com picos. Aqui e além, uma ilhota de verdura inesperada onde repousavam algumas horas antes de voltarem a partir para o deserto.

 

Subjugados pelo chefe, que ignorava a fadiga e a hesitação, os homens mal conseguiam pôr um pé à frente do outro. Interrogavam-se mesmo durante quanto tempo mais sobreviveriam naquela fornalha.

 

- Não os encontraremos - afirmou Shab, O Torto.

 

- Melhor seria renunciar, senhor.

 

- Já te desiludi?

 

- Nunca, mas como é possível acreditar nessa lenda?

 

- Já haveis visto cadáveres despedaçados pelos monstros do deserto?

 

- Não.

 

- Eu, já. E nesse dia compreendi que essas criaturas possuíam a força de que temos necessidade. Com ela, seremos invencíveis.

- Uma boa milícia bem treinada não seria preferível?

 

- Mesmo que qualquer exército possa ser vencido, o que eu vou reunir será diferente.

 

- Salvo o devido respeito, de momento não passa de um bando de piolhosos!

 

- que estes simples piolhosos ainda estariam vivos se não tivessem ouvido as minhas palavras?

 

- Lá isso... É inacreditável que ainda se aguentem de pé!

 

Não eram mais de vinte, mas tinham aceitado seguir o Anunciador depois dele lhes ter prometido a fortuna ao cabo de duros combates. Delinquentes e cadastrados da justiça, alegravam-se por conseguirem assim escapar ao castigo.

 

De cada vez que um se preparava para desistir ou para se revoltar, o Anunciador aproximava-se dele e reconfortava-o com o olhar. Algumas palavras, pronunciadas num tom monótono e encantatório, devolviam o desesperado ao bom caminho. Um caminho que, no entanto, conduzia ao interior de um deserto sem fim.

 

Foi ao cair do dia que o que seguia à frente julgou detectar o sedja, um monstro com cabeça de serpente e corpo de leão.

 

- Rapazes, estou a ter uma alucinação! E se não for, vai ver o que eu faço àquele horror!

 

Correu em direcção ao animal para lhe esmagar a cabeça com uma paulada. No entanto, o pescoço da serpente esquivou-se e as garras do leão cravaram-se no peito do agressor.

 

- Então existe realmente - murmurou Shab, aterrorizado. Apareceram o seref, com cabeça de falcão e corpo de leão, e o abu, um enorme carneiro com um chifre de rinoceronte no focinho.

 

Dois membros da expedição tentaram fugir, mas os dois monstros apanharam-nos e massacraram-nos.

 

Numa claridade avermelhada que incendiou o deserto, manifestou-se o sha, o animal de Set, um quadrúpede dotado de uma cabeça semelhante à do ocapi. Mesmo parecendo menos temível do que os outros três, os seus olhos incandescentes tetanizaram os sobreviventes.

 

- O que fazemos? - perguntou Shab, com os dentes a bater. O Anunciador ergueu os braços.

 

- Todas as divindades me inspiram, tanto as do mal como as do bem - declamou. - A luz do dia e a força das trevas habitam o meu espírito. Só falam comigo e só eu sou o seu intérprete. Quem me desobedecer será aniquilado, quem me obedecer será recompensado. Dessas múltiplas forças farei uma só e serei o seu único propagador. A terra inteira se submeterá e haverá apenas uma só fé e um só senhor.

 

Apenas Shab, o Torto não se deitara na areia para evitar ser detectado pelos predadores. No entanto, não conseguiu acreditar no que os seus olhos lhe mostravam.

 

O Anunciador aproximou-se dos três monstros assassinos, passou lentamente as mãos sobre as garras, o bico e o chifre, e besuntou-se com o sangue das suas vítimas.

 

Depois, arrancou os olhos de brasa do animal de Set e colocou-os sobre os seus.

 

Levantou-se uma tempestade de areia, obrigando Shab a atirar-se ao chão. Tão breve como violenta, deu lugar a um vento glacial.

 

O Anunciador sentara-se sobre um rochedo. Não havia o mínimo sinal dos monstros.

- Senhor... Não passava de um pesadelo?

 

- Com certeza, meu amigo. Essas criaturas só existem na imaginação dos medrosos.

 

- Mas há mortos, esfacelados!

 

-Vítimas de uma fera que a nossa presença enfureceu. Agora sei o que queria saber e vamos realizar o nosso primeiro golpe.

 

Shab fora vítima de uma dessas miragens tão frequentes no deserto. Mas por que razão os olhos do Anunciador se tinham tornado de um vermelho-sangue?

 

Antes de partir para as minas de turquesas do Sinai, situadas a sudoeste das de cobre, Sekari preparara um remédio composto por cominhos, mel, cerveja doce, calcário e uma planta chamada "pêlo de babuíno". Depois de ter esmagado e filtrado os ingredientes, obtivera uma bebida indispensável para manter a vitalidade e repelir os inúmeros répteis que vagueavam pelo deserto. Precaução suplementar e necessária: untar todo o corpo com puré de cebola a fim de fazer fugir as serpentes e escorpiões. Tinha também a vantagem de desenvolver os cinco sentidos, vantagem que não era de negligenciar num meio hostil.

 

Apenas Goela-Torcida recusara essas precauções, mas cheirava tão mal que nem mesmo uma víbora-de-cornos se atreveria a mordê-lo.

- Conheces os segredos das plantas, Sekari? - espantou-se Iker.

- Antes de fazer grandes disparates, era jardineiro e passarinheiro.

 

Olha aqui, no meu pescoço: é a cicatriz de um abcesso que me fez a grande vara nas extremidades da qual estavam pendurados os potes cheios de água. Quantos milhares de vezes os transportei! A minha especialidade era a caça aos pássaros nos jardins. Gosto muito desses animaizinhos, mas há alguns que dão cabo de tudo! Se não interviéssemos, não comeríamos um único fruto. Então, com a minha armadilha de mola e a minha rede, capturava-os para os fazer compreender que se deviam ir alimentar a outro lado. Com excepção das codornizes, que acabavam na grelha ou num guisado, libertava os outros. Até tinha aprendido a falar com eles! Com alguns, bastava eu imitar o seu canto para eles evitarem o pomar.

 

- Em que consistiam os teus... grandes disparates? Sekari hesitou.

 

- Bem, nas nossas profissões, não podemos declarar tudo ao fisco, senão não nos safávamos. Houve um escriba controlador que se interessou por mim, um grande homem muito feio, com um nariz cheio de borbulhas. Um hipócrita que se fazia passar por incorruptível, enquanto mentia como respirava! Em suma, quando ele atacou o meu território, activei a armadilha. Devido à habilidade daquele imbecil, embrulhou-se na rede e ficou um pouco sufocado. Ninguém o lamentou, mas a justiça considerou que eu era culpado. Como havia um aspecto acidental, não fui condenado à morte mas só sairei das minas daqui a muito tempo.

 

- Decididamente, não temos sorte com os preceptores! Não esperas uma redução de pena por bom comportamento?

 

- É por essa razão que não me meto em confusões. Discreto e serviçal, é a minha divisa. Assim, estou bem-Visto pelos vigilantes.

- Conheces as minas de turquesas?

 

- Não, mas parece que lá o trabalho é menos duro do que nas de cobre.

 

- Porque nos mandam para lá?

 

- Não faço ideia. Se queres um conselho, desconfia de Goela-Torcida.

 

Mostra-se bastante amável comigo - objectou Iker.

 

É precisamente isso que não e'normaL Esse fulano é um assassino, mesmo tendo sido condenado apenas por roubo, espancamento e ferimentos. Estou convencido que te detesta e está a fingir.

 

Iker esfregou os seus amuletos e não deixou de tomar os avisos em consideração. De facto, esquecendo a sua primeira impressão, baixara a guarda.

 

Seria ele, o aprendiz de escriba, que transportaria a pedra triangular de Sopedu, coberta com um véu. Não tinham sido assinalados salteadores das areias na região, mas mais valia assegurar a protecção do deus.

- Estamos a chegar - preveniu um polícia.

 

O sítio era grandioso. Sucessões de montanhas, até ao infinito, e uadis cercavam um planalto isolado das depressões que dominava. Algumas plantas espinhosas, rochas recortadas, grés amarelo e preto, colinas vermelhas e um vento violento animavam aquela paisagem, simultaneamente hostil e atraente.

 

Composta por polícias, prisioneiros transferidos, burros transportadores de água e alimentos, a caravana seguiu por um carreiro inclinado que permitia chegar ao planalto.

 

Na beira de um caminho processional ladeado de esteias e que ia dar a um templo, esperava-os um sólido quinquagenário.

 

- Chamo-me Horure e sou o comandante do corpo expedicionário enviado aqui pelo Faraó Senuseret. Por motivo das condições climáticas, a minha missão é particularmente difícil e preciso de mais mineiros. Foi por isso que vocês foram requisitados. Estamos no quarto mês da estação quente, bastante desfavorável à extracção das turquesas, que não suportam esta temperatura. Perdem a sua cor azul-esverdeada, tão intensa. No entanto, o Faraó ordenou-me que lhe levasse a mais bela pedra jamais descoberta e temos portanto que o conseguir. Todos os dias veneramos Hathor, a soberana deste lugar, a fim de que ela guie os nossos braços. Hoje, repouso. Amanhã de madrugada, ao trabalho.

 

As habitações encontravam-se a este do templo. Os homens livres que trabalhavam naquele lugar em troca de um bom salário, observaram com olhos inquietos aqueles delinquentes que lhes impunham. E o aspecto de Goela-Torcida não tranquilizou ninguém.

 

Várias cabanas de pedra solta transformaram-se em celas cujas portas foram fechadas e guardadas.

 

Em cima das esteiras, pães recheados com grão-de-bico, tâmaras e água.

 

- Já conheci pior - confessou Sekari, precipitando-se sobre a comida.

 

Severamente enquadrada, a equipa dos detidos compareceu diante de Horure.

 

Sem dizer uma palavra, precedeu-os num templo composto por uma sucessão de pátios com colunas cujos altares estavam cobertos de oferendas. Recolhido, Iker teve a impressão de mudar de mundo ao penetrar naquele lugar sagrado onde reinavam o silêncio e perfumes de incenso.

 

Horure conduziu-os até um grande pátio flanqueado por cisternas e lagos de purificação.

 

Ergueu os olhos para a montanha.

 

Estais perante o santuário de Hathor, nossa protectora. Possa ela orientar as nossas pesquisas e oferecer-nos a pedra perfeita. Sobre um altar, Horure depositou uma taça em alabastro contendo vinho, um colar, dois sistros e uma estatueta de gata.

 

- Quando a deusa fica furiosa e quer castigar os humanos, toma a forma de uma leoa. No deserto, massacra os que se perdem. Quando a Senhora das Turquesas regressa à terra amada dos deuses, transforma-se em gata, meiga e afectuosa. É detentora da turquesa, símbolo da alegria e da renovação, capaz de triunfar da desgraça e da decrepitude. Essa pedra transmite a sua energia aos filhos da luz e faz nascer neles a satisfação. Hathor, és tu que permites ao Sol nascer e ressuscitas o nosso mundo todas as manhãs. Que o teu fulgor penetre nos nossos corações.

 

Iker viveu cada frase como uma revelação. E sentia-se tão bem naquele santuário que o rosto da bela sacerdotisa reapareceu. Estava ali, perto dele, e partilhava a sua emoção.

 

A breve cerimónia terminou rapidamente e saíram todos do templo. Horure levou os condenados até junto de uma falésia escarpada.

- O local é perigoso - revelou. - Por isso vos é reservado.

 

Quando lhe apresentámos a estátua de Min, esta recuou. Por outras palavras, a pedreira está grávida mas recusa entregar-nos o seu fruto. Tentar escavar uma galeria equivaleria portanto a ofendê-la e ela vingar-se-ia matando os mineiros. A prudência consistiria em esperar que a própria montanha nos concedesse a autorização para a explorar. Mas, como já vos disse, temos pressa.

 

- Porque não escavamos noutro lugar? - perguntou Sekari.

- Porque estou convencido que aqui está escondida uma turquesa única, inalterável. Compete-vos escolher: ou correis o risco ou sereis reenviados para as minas de cobre. Se conseguirdes, obtereis a liberdade.

 

 

Livre! o termo ressoou com intensidade na cabeça de Iker.

 

- Recuso - decretou Goela-Torcida. - Prefiro regressar aos meus fornos. Se os especialistas se recusam, é porque vai correr para o torto. Os outros prisioneiros aprovaram as suas palavras.

 

- Eu tento a aventura - cortou Iker.

 

- És louco! - protestou Sekari. - Não ouviste o patrão? O próprio deus Min recuou!

 

- Dêem-me as ferramentas necessárias.

 

- Iker, sê razoável, precipitas-te para a catástrofe! Um homem só nunca poderá vencer.

 

- Não vens comigo? Hesitas entre apodrecer numa mina de cobre, onde as tuas hipóteses de sobrevivência são poucas, e recuperar rapidamente a liberdade?

 

Perturbado, Sekari contemplou a parede rochosa.

- Visto assim... Mas tu vais à frente.

 

- Combinado.

 

- Não há mais voluntários? - perguntou Horure.

 

- Mais ninguém - respondeu Goela-Torcida, encantado por se desembaraçar do espião.

 

Horure pôs um joelho em terra e ergueu as mãos para a montanha em sinal de veneração.

 

- A galeria que ides escavar terá o nome de "A que torna prósperos os mineiros e permite ver a perfeição de Hathor". Que a pedra viva e acolha com benevolência o choque das ferramentas, que saiba que trabalhamos para a luz e não para nós mesmos.

 

O chefe da expedição entregou aos dois voluntários picaretas e percutores em sílex e dolerita.

 

- Onde começamos? - perguntou Sekari?

 

Horure designou um ponto exacto. E o canto das ferramentas quebrou o silêncio da montanha.

 

O Farejador podia estar satisfeito consigo próprio. Depois de ter assaltado durante dez anos as pistas do istmo de Suez e roubado um número incalculável de caravanas, acabava de vencer o seu principal rival sem combater. O chefe do bando adversário morrera estupidamente por causa de uma queda numa ravina e os seus homens tinham sido incapazes de se entender para designar o seu sucessor. Tinham portanto preferido colocar-se sob a autoridade do Farejador a fim de formarem o mais temível bando de salteadores das areias na região. A partir de agora, a sua eficácia seria muito maior e nem um mercador lhes escaparia.

 

Umas vezes roubavam tudo, outras contentavam-se em tirar uma parte dos bens, fazendo as suas vítimas jurar que não apresentavam queixa, sob pena de represálias. Não deixavam de violar as mulheres, também elas submetidas à lei do silêncio.

 

- Presas à vista - anunciou um vigia.

 

- Uma boa caravana? - perguntou o Farejador, entusiasmado.

- Não me parece.

 

- Então o que é?

 

- Uma vintena de homens.

- Polícias?

 

- Pelo ar não são de certeza! Estes tipos devem ter-se perdido por aqui. Um bando de miseráveis sem o mínimo interesse.

 

- Podíamos alistar uns e suprimir os outros.

- Vamos ver.

 

A atitude do chefe do desgraçado grupo impressionou os salteadores das areias. Seguindo alguns passos à frente deles, o seu olhar era o de uma fera de olhos agressivos.

 

Envergonhado por sentir medo, o Farejàdor apostrofou o homenzarrão.

 

- Quem és tu, amigo?

- O Anunciador.

 

- E o que anuncias tu?

 

- Que os inimigos do Faraó devem submeter-se à minha vontade a fim de esmagarmos esse tirano.

 

O Farejador apoiou os punhos nas ancas.

 

- Ora essa! E por que deveremos ajudar-te?

 

- Porque eu sou o único intérprete das forças. E só eu posso vencer.

- Perdeste o Juízo, amigo, mas divertes-me!

 

- Nesse caso, porque treme a tua voz?

- A tua insolência não me impressiona!

 

- Se desejas viver, submete-te imediatamente ao Anunciador. O Farejador rebentou a rir.

 

- Chega de palavreado! Vou examinar-vos um por um. Alisto os mais fortes e os outros vão secar no deserto.

 

O Anunciador estendeu o braço esquerdo.

- Uma última vez, submete-te.

 

Quando o Farejador se preparava para atacar, a mão do Anunciador transformou-se em garra e o nariz em bico de ave de rapina.

 

- É o falcão-homem! - exclamou um salteador das areias. - Vai matar-nos a todos!

 

Os seus acólitos deitaram-se na areia com as mãos sobre a cabeça. Permanecendo rigorosamente imóveis, talvez escapassem à fúria do monstro.

 

Um vento gelado fê-los estremecer.

 

Um deles atreveu-se no entanto a levantar a cabeça e olhar. Viu o cadáver do Farejador, com a garganta cortada.

 

- Quem recusa obedecer-me? - perguntou o Anunciador em voz doce.

 

Os salteadores das areias prostraram-se diante do seu novo senhor.

97 - Já está! - exclamou um Sekari alagado em suor. - Os pilares de apoio estão colocados! Agora temos uma pequena hipótese de conseguir.

 

Avançando pela galeria que acabava de descobrir, Iker não pensara que o tecto ameaçava desabar. Sem a intervenção do companheiro, os dois exploradores teriam morrido soterrados.

 

- Não deixamos de ter sorte - considerou Sekari. - Só estamos a escavar há poucos dias e encontramos esta passagem no coração da rocha! Parece que estava à nossa espera.

 

- Alguns pilares suplementares não me pareceriam supérfluos.

- Tens razão: antes de continuar, escoramos.

 

Horure ficou espantado por ver, uma vez mais, os dois insensatos saírem vivos.

 

- Bela descoberta, chefe! - proclamou Sekari.

- Turquesas?

 

- Ainda não, mas uma galeria que vai dar com certeza ao tesouro! A notícia deu rapidamente a volta ao domínio da deusa Hathor onde Goela-Torcida e os outros refractários estavam reduzidos a tarefas subalternas antes do seu regresso às minas de cobre. À sua raiva juntava-se o ciúme.

 

Desde o início da perigosa aventura, Iker e Sekari tinham deixado de se misturar com os seus ex-colegas. E beneficiavam de refeições muito melhores.

 

Enquanto o Sol se punha, Horure sentou-se em frente deles.

- Nem um nem outro têm falta de coragem.

 

- Eu - protestou Sekari - já quase esgotei a minha reserva! Não achais que fizemos bastante?

 

- Preciso da mais bela das turquesas. Enquanto não a tiverem descoberto, a vossa missão não estará terminada.

 

- Posso fazer-vos uma pergunta? - pediu Iker.

- Faz lá.

 

- Conhecereis por acaso dois marinheiros chamados Olho-de-tartaruga e Faca-cortante, tereis ouvido falar do seu barco, o Veloz?

- O meu domínio é o deserto, não a navegação. Procurem repousar; depois de amanhã regressarão ao ventre da montanha.

 

A caravana deteve-se na margem do único ued onde corria ainda um pouco de água. Sob a vigilância dos polícias, os mercadores descarregaram os burros que se apressaram a ir beber.

 

- Mais três dias de caminho - considerou o guia - e atingiremos a orla do Delta. Lá há canais, árvores e erva. Fico bem contente por sair de tais solidões ardentes! Desta vez a viagem pareceu-me muito longa.

 

- Dá-te por feliz por saíres daqui vivo - replicou o tenente de polícia. - Estas paragens são cada vez mais perigosas.

 

- Ataques dos salteadores das areias?

- O último foi um verdadeiro massacre.

 

- Porque não intervém o Faraó mais vigorosamente?

 

- Temos de pensar que deve ter outras preocupações. Mas, de qualquer maneira, estou aqui com uma dezena de soldados-patrulha experientes.

 

- Vamos buscar jarras de reserva. Merecemos uma refeição copiosa.

 

Todos os guias conheciam os lugares onde, sob a protecção mágica de pequenas esteias e amuletos, estavam dissimuladas provisões regularmente renovadas. Serviam de apoio aos viajantes fatigados que tinham calculado mal a quantidade de víveres indispensável para o seu percurso.

 

A esteia estava quebrada e os amuletos desfeitos.

 

- Quem ousou fazer isto? - indignou-se o tenente. - Estes bárbaros já não respeitam nada!

 

O guia notou que os alimentos tinham desaparecido.

 

- Vou redigir imediatamente um relatório que vai dar que falar! prometeu o oficial. - Desta vez, o exército limpará a região. Gritos alertaram os dois homens.

 

- Estão a atacar a caravana!

 

O guia tentou fugir, mas dois salteadores das areias apanharam-no e esmagaram-lhe a cabeça à paulada.

 

O tenente enfrentou o inimigo, mas em breve sucumbiu ao número. Surpreendido por não ter sido morto, foi conduzido diante de um homem anormalmente grande e magro, de olhos vermelhos.

 

- Há quantos anos percorres o deserto? - perguntou o Anunciador.

- Mais de dez anos.

 

Então, conheces toda a região. Se queres evitar a tortura, indica-me os sítios essenciais aos olhos do Faraó e descreve-os em pormenor.

 

- Porquê?

 

- Contenta-te em responder. Sobretudo, sê exacto.

 

O polícia evocou os fortins, as etapas obrigatórias das caravanas, as minas de cobre e de turquesas.

 

- Turquesas! - repetiu o Anunciador num tom estranho. - Há uma divindade que as protege?

 

- A deusa Hathor.

 

- Mostra-se sempre benévola?

 

- Não quando toma a forma de uma leoa aterradora, que percorre a Núbia e devora os rebeldes. Graças às turquesas, é possível acalmá-la. O local da exploração é vigiado?

 

É guardado permanentemente por polícias.

 

- Já não preciso de ti, bravo soldado, visto que não és homem para trair o teu país.

 

O Anunciador voltou as costas ao tenente, que Shab, o Torto se encarregou de executar.

 

Iker sentia-se sufocar, tossia, mas continuava a escavar a galeria que ia dar ao coração da montanha. Depois de ter consolidado os pilares de sustentação, Sekari, esgotado, contentava-se em observar o seu companheiro de infortúnio.

 

- Isto não vai dar a lugar nenhum, Iker. À força de forçar a sorte, vamos acabar esmagados.

 

- Aqui a rocha é muito sólida. Tenho muita dificuldade em avançar.

- E nem a mínima turquesa!

 

Enraivecido, Sekari deu na parede um golpe de picareta.

- Ali, olha... Quebraste uma ganga!

 

Um reflexo azul-esverdeado.

 

Sekari aproximou a mecha da lâmpada, cuidadosamente preparada para não fazer fumo.

 

- Turquesas... São turquesas!

 

A carranca do comandante Horure não pressagiava nada de bom.

- São pedras medíocres - considerou. - Têm uma cor baça, sem vida. É impossível enviá-las para a corte.

 

- Já havíeis referido que a estação era desfavorável à extracção lembrou-lhe Iker.

 

- Um dia de repouso e continuam. Sei que a rainha das turquesas se encontra nesta montanha e preciso dela. É esse o preço da vossa liberdade.

 

Vencendo a decepção, Iker e Sekari retomaram o trabalho. E o escriba aprendiz sentiu duplicar a coragem.

 

- Tenho uma ideia - declarou.

 

- Eh, lá! Não será por acaso uma loucura?

 

- E se escavássemos de noite? Deixamos a luz da Lua entrar na galeria e vemos as paredes viver. Estou convencido de que a rocha não respira da mesma maneira que durante o dia.

 

- E quando é que dormimos?

- Tentemos.

 

Sekari encolheu os ombros.

 

De facto, a atmosfera era muito diferente. Os dois companheiros tiveram a impressão de penetrar num santuário onde trabalhavam forças misteriosas. Recolhidos, avançaram lentamente para atingirem o fundo da galeria.

 

A lâmpada de Sekari apagou-se.

 

- Só faltava isto! Vou buscar outra.

- Espera um pouco.

 

- Estamos às escuras!

 

- Não estamos, não. Ali... tens razão!

 

Da parede emanava uma claridade azul, simultaneamente intensa e suave.

 

- Talvez devêssemos sair o mais depressa possível - sugeriu Sekari.

 

- Dá-me a picareta pequena.

 

Com precaução, Iker escavou a rocha em volta da zona luminosa. Surgiu uma magnífica turquesa cujo fulgor deslumbrou os descobridores.

 

E o rapaz contemplou nela o seu rosto. No centro da pedra, a bela sacerdotisa olhava-o, sorridente.

 

- Excelente trabalho - reconheceu o comandante Horure. Nunca vi uma turquesa com tal qualidade.

 

- Então... estamos livres? - perguntou Iker.

 

- Não se volta atrás com a palavra dada. Partireis Para o vale do Nilo na próxima caravana.

 

- Precisamos de documentos destinados à administração.

- Aqui estão.

 

O rapaz apertou de encontro ao coração a tabuinha de madeira que lhe devolvia um futuro.

 

- Uma façanha como a nossa não merece vinho? - sugeriu Sekari. Horure pareceu reflectir.

 

- Pedes muito... Mas já tinha pensado nisso.

 

Sekari esvaziou três taças seguidas e depois apreciou então com vagar o vinho encorpado enquanto comia por quatro.

 

- É pena que este lugar não tenha mulheres! Se houvesse, seria a felicidade total. Em breve passaremos alegres noites. Tens uma amiguinha, Iker?

 

- Procuro uma mulher.

 

- Uma só! Onde a encontraste?

 

- Da primeira vez, junto do canal, por baixo de um salgueiro.

- Ah, a deusa que aparece aos vaqueiros! É uma velha lenda que não deixa de ter o seu encanto. Mas estou a falar de uma mulher verdadeira.

 

- Ela existe.

 

- O que queres dizer com isso?

- Encontrei-a uma segunda vez.

- Sempre debaixo de um salgueiro?

 

- Não, durante uma festa, no campo. E acabo de revê-la uma terceira vez, no coração da turquesa.

 

Sekari esvaziou mais uma taça de vinho.

 

-Trabalhaste muito, Iker, dormiste pouco e todas essas emoções te perturbaram. Algumas horas de sono pôr-te-ão como novo.

 

- Não sei o seu nome, mas sei que é sacerdotisa.

- Ah... Bonita ou austera?

 

- Não há mulher mais bela no mundo.

 

- Tens um ar realmente apaixonado! Espero que a tua sacerdotisa não pertença ao Círculo de Ouro de Abido.

 

O que é isso, Sekari?

 

É uma expressão que utilizávamos entre jardineiros para designar os iniciados que se retiram para um templo.

 

- Não é esse o seu caso, visto que participava na festa como transportadora de oferendas.

 

Tanto melhor para ti! Mas espero que não fosse a sua última aparição antes de se juntar às companheiras.

 

- Porquê o "Círculo de Ouro" e porquê Abido?

 

- Isso já é querer saber de mais! Abido é o lugar mais misterioso do Egipto, onde Osíris ressuscita a fim de que o país continue a viver em harmonia, como todos sabem. O resto não diz respeito a gente como nós.

 

- Achas que seja possível penetrar nesse Círculo?

 

- Para ser franco, estou-me a borrifar para isso! E tu também, no fundo.

 

- Como podes afirmar isso?

 

- Porque tens tarefas imperiosas a realizar! Não procuras o rasto desses dois marinheiros que são a causa das tuas desgraças?

 

- Dois marinheiros, um barco, um falso polícia que tentou assassinar-me - murmurou Iker. - E depois, o país de Punt...

 

- Ah, não, não mergulhes na lenda! Dás-te conta que te tornaste o maior descobridor de turquesas e que esse importante feito talvez seja relatado ao próprio Faraó?

 

- Esqueces que o comandante do corpo expedicionário é Horure. E será ele a ser considerado o autor desta façanha.

 

- Nisso tens com certeza razão - reconheceu Sekari. - Bem, mas estamos livres!

 

- Ajudas-me nas minhas buscas?

 

O jardineiro pareceu pouco à-vontade.

 

- Sabes, eu sou um rapaz calmo que apenas aspira a uma vida tranquila, longe de conflitos. A confusão não é o meu forte.

 

- Compreendo. Portanto, os nossos caminhos separam-se.

 

Embriagado, Sekari mergulhou num sono profundo logo que se estendeu na esteira. Sem conseguir adormecer, Iker saiu da cabana e contemplou as estrelas. Por que razão o destino o manipulava assim? Para onde o arrastava?

 

Pensar na jovem sacerdotisa acalmava-o e fazia-o sofrer ao mesmo tempo. Se fosse realmente inacessível, ele nunca encontraria a felicidade. Mas por que havia de desesperar, quando podia agora retomar a sua profissão e a sua Busca? Não seria a descoberta da turquesa um sinal encorajador? Correndo riscos, descobrindo o segredo da montanha, Iker atingira o seu objectivo. Se continuasse a agir assim, descobriria a pista dos seus agressores e acabaria por saber por que tinham escolhido como vítima. E convenceu-se de que a deusa Hathor guiaria até aquela que ele amava.

 

Iker julgou ouvir um grito sufocado proveniente do lugar onde ia dar o principal caminho de acesso ao planalto. Havia ali permanentemente uma sentinela.

 

O rapaz avançou naquela direcção, mas o instinto levou-o a não revelar a sua presença.

 

Diversos vultos se ocultaram atrás dos rochedos.

 

Tudo se passara tão rápida e silenciosamente que a situação parecia normal.

 

Mas Iker não se enganara: havia intrusos que violavam o território da deusa depois de terem suprimido a sentinela.

 

Com a testa repentinamente inundada de suor, tentou dirigir-se para casa de Horure.

 

Outros vultos barraram-lhe a passagem. E um grito quebrou a serenidade da noite.

 

- Ao ataque - berrou Shab, o Torto - e matem-nos todos!

 

Depois de terem suprimido todas as sentinelas destinadas à vigilância do planalto, os assaltantes avançaram como uma onda,

 

Sob o olhar tranquilo do Anunciador, que nem sequer teve necessidade de intervir, Shab, o Torto e os salteadores das areias massacraram polícias e mineiros.

 

Quando o comandante Horure tentava organizar um esboço de resistência, Goela-Torcida esmagou-lhe a nuca com uma pedra.

 

- Ataquem com força, meus amigos, estou convosco! - gritou, dirigindo-se aos agressores.

 

Desnorteado, Iker ia lançar-se na luta quando foi atirado ao chão.

- Finge-te morto - ordenou-lhe Sekari. - Eles vem para aqui. Com os cacetes ensanguentados na mão, vários assassinos passaram junto deles sem lhes darem a mínima atenção.

 

- Temos de fugir daqui depressa!

- És tu, Sekari?

 

- Mudei assim tanto? Despacha-te!

- Devemos lutar, devemos...

 

- Não temos qualquer hipótese.

 

Como que embriagado, Iker deixou-se arrastar por Sekari.

 

- Como te chamas? - exigiu o Anunciador.

- Goela-Torcida,

 

- Porque nos ajudaste?

 

- Estava condenado a prisão perpétua nas minas de cobre. Transferiram-me para aqui para descobrir a rainha das turquesas.

 

- Conseguiste?

 

- Eu, não. Mas um informador da polícia chamado Iker extraiu-a do ventre da montanha.

 

- Onde está essa maravilha?

 

- Provavelmente na casa do comandante Horure, que matei com as minhas próprias mãos! Foi um prazer desembaraçar-me dos meus carcereiros. E vou infligir-lhes o pior dos castigos, o que eles reservam aos criminosos: queimar os seus cadáveres.

 

O Anunciador aprovou com a cabeça.

 

Enquanto Goela-Torcida e Shab, o Torto acendiam as fogueiras, o chefe entrou na casa de Horure. Não precisou de muito tempo para se apoderar de um cofre em alabastro onde estava guardada a admirável turquesa.

 

Durante o decurso dos festejos do bando, orgulhoso com a primeira grande vitória, o Anunciador expôs a sua preciosa pedra à luz da Lua para que se carregasse de energia.

 

Aquela turquesa tornava-se assim uma arma decisiva no caminho da sua conquista.

 

- Quem sois vós, realmente? - interpelou-o Goela-Torcida, bastante embriagado.

 

- O que te vai permitir matar o máximo de egípcios.

- Então, sois um general!

 

- Muito mais do que isso. Sou o Anunciador, que estenderá o seu culto e a sua nova religião à terra inteira.

 

- E o que é que eu ganho com isso?

 

- Os meus discípulos conhecerão a glória e a fortuna.

 

- Da glória, não quero saber. Mas a fortuna interessa-me.

 

- Metade das turquesas conservadas no tesouro desta exploração pertencem-te.

 

Goela-Torcida sentiu água a crescer na boca.

 

- Sois um patrão fantástico! Eu cá não tenho cabeça para comandar. Por esse preço, sigo-vos. Mas nada de me enganar.

 

- Não te preocupes.

 

- O que me aborrece é não ter identificado o cadáver desse Iker. Mas estes cadáveres ardem tão bem que não se consegue identificar ninguém. Não bebeis connosco?

 

É preciso que alguém mantenha a cabeça fria.

 

Cambaleando, Goela-Torcida guiou-se pelo clarão das fogueiras onde se consumiam os corpos dos polícias e mineiros para se juntar à horda vociferante dos vencedores.

 

Nem Sekarí nem Iker se teriam alguma vez julgado capazes de correr durante tanto tempo. Sem fôlego, sentaram-se numas pedras lisas.

 

- Não podemos parar - recomendou Sekari. - Esses bandidos vão com certeza tentar apanhar-nos.

 

- Quem são eles, na tua opinião?

 

- Provavelmente, salteadores das areias. Em geral, atacam as caravanas.

 

- Goela-Torcida ajudou-os!

 

- É normal, Iker. Tem mau coração.

 

Recomeçaram a andar até ficarem esgotados. A sede secava-lhes a garganta.

 

- Como havemos de encontrar a localização dos pontos de água?

- perguntou Iker.

 

- Não faço a mínima ideia.

 

- Encaremos a verdade de frente, Sekari: vai ser difícil sobreviver.

- A tua verdade não me agrada nada.

 

- Se calhar mais nos valia termos morrido a combater.

 

- Não, visto que estamos ViVOs! Fricciona os teus amuletos uns contra os outros e aplica-os sobre a garganta.

 

Iker obedeceu e a sensação de sede atenuou-se.

- Agora a mim.

 

Menos aflitos, continuaram a afastar-se do local do massacre.

 

A meio do dia, a areia tornou-se de tal forma quente que lhes queimou os pés. Escavaram um buraco onde se refugiaram com o saiote sobre a cabeça a fim de se protegerem do Sol.

 

Quando a temperatura baixou, retomaram o caminho.

 

A sede era tão intensa que nem mesmo os amuletos a conseguiam já acalmar.

 

À frente deles, uma estranha montanha com reflexos dourados.

- Não teremos forças para ultrapassar este obstáculo - constatou Sekari.

 

- Ela move-se.

 

- O que estás tu a dizer?

 

- A montanha move-se, Sekari.

 

- Uma miragem... Uma simples miragem.

- Avança para nós.

 

Prestando melhor atenção, Sekari não podia desdizer o companheiro.

 

- Estamos a enlouquecer, meu pobre Iker!

 

Do cume destacaram-se rochedos que rolaram ao longo da encosta e caíram no chão com estrondo.

 

- É um tremor de terra! - exclamou Sekari, sem saber em que direcção fugir.

 

- Observa a cor da montanha - recomendou Iker, impassível. À medida que os rochedos se partiam, surgia uma coloração azul-esverdeada.

 

- É Hathor que nos protege. Não nos movamos daqui e veneremo-la.

 

Pouco convencido da justeza dos pontos de vista do seu companheiro, Sekari mesmo assim ajoelhou e invocou a deusa do céu.

 

A dois dedos do seu pé esquerdo abriu-se uma fenda.

- Este lugar não é seguro!

 

- Contempla a obra da deusa.

 

A montanha inteira tornara-se turquesa e os ruídos inquietantes atenuavam-se.

 

Quando a terra cessou de gemer, Sekari lançou um olhar à fenda. E o que nela descobriu deixou-o estupefacto.

 

- Parece... água!

 

Mergulhou o braço e retirou-o molhado.

- Água, Iker, estamos salvos!

 

- Bebamos em pequenos goles.

 

Pela primeira vez em toda a sua existência, aquele líquido pareceu a Sekari tão delicioso como vinho. Os dois companheiros aspergiram-se com ela, lavaram-se e mataram a sede.

 

- Não temos odre - lamentou Sekari. - Se nos afastarmos deste ponto de água, estamos arrumados. Além disso, começo realmente a ter fome.

 

- Hathor protege-nos - lembrou-lhe Iker. - Passemos a noite aqui e esperemos outro sinal.

 

Se beneficias dos favores de todas as deusas, tranquiliza-me já! - Tal como tu, não passo de um esfomeado perdido neste deserto. Mas este mundo não é mais misterioso do que parece? Se soubermos ler certas mensagens, talvez descubramos uma saída.

 

- Está bem, vamos dormir.

 

Quando Sekari sonhava com uma enorme costeleta de vaca grelhada com ervas aromáticas e um jarro de cerveja fresca, Iker abanou-o.

- O que se passa?... A montanha mexeu-se outra vez?

 

- O Sol acaba de surgir. A caminho, Sekari. Temos de andar antes que esteja muito calor.

 

- A caminho, como? Eu não me afasto deste ponto de água!

- Não façamos esperar o nosso guia.

 

O jardineiro levantou-se de um salto e olhou em volta.

- Não vejo ninguém!

 

- Lá em cima, no céu.

 

Um falcão descrevia largos círculos por cima dos dois homens.

- Estás a fazer troça de mim, Iker?

 

- O meu velho mestre ensinou-me que o nome de Hathor significa "Morada de Hórus'". E a incarnação de Hórus é precisamente esse falcão que a deusa nos envia para nos guiar.

 

- O deserto deu-te definitivamente volta à cabeça!

- Anda, sigamo-lo.

 

- Mas... o ponto de água?

- Indicar-nos-á outros.

- Prefiro ficar aqui.

 

- Também preferes ver chegar os salteadores das areias?

 

O argumento deu resultado. Embora protestando, Sekari seguiu atrás de Iker.

 

- O teu falcão não se importa connosco mas com a sua futura presa. Estás a ver, afasta-se e abandona-nos!

 

Mas o falcão regressou.

 

Ora avançava, ora dava voltas sobre os seus protegidos.

 

Hathor é uma transcrição do egípcio Hut-hor. Hut significa "morada, casa".

 

- Ao fim de algumas horas de marcha, sentiram de novo os ardores da sede.

 

- O falcão acaba de poisar! - exclamou Sekari,

tropeçando numa pedra.

 

- E tu acabas de esbarrar numa pequena esteia. Se escavássemos? junto do modesto monumento, duas jarras contendo frutos secos. Um pouco mais longe, um ponto de água.

 

- Não é um festim - considerou Sekari - mas contentar-nos-emos.

 

Há já muito tempo que os dois viajantes não contavam os dias. Seguiam o falcão que, depois de os ter guiado para Este, tomara a direcção do Sul, De cada vez que a ave de rapina poisava, Iker e Sekari encontravam ou água, ou alimentos, ou as duas coisas. E não se tinham cruzado no caminho com um único salteador das areias.

 

Depois o deserto tornou-se menos árido, adornando-se com plantas espinhosas e tamargueiras anãs.

 

Com um potente bater de asas, o falcão subiu em direcção ao Sol e desapareceu na deslumbrante luz do meio-dia.

 

- O nosso guia abandona-nos - lamentou Sekari.

- Olha, lá em baixo: outro lhe sucede.

 

No cimo de uma colina, uma linda gazela branca com chifres em forma de lira.

 

- Um contador disse-me que era o animal de ísis e que permitia a quem se perdia reencontrar o seu caminho - afirmou o jardineiro. A gazela partiu a galope.

 

- Infelizmente, não passava de uma lenda!

 

- Não estou assim tão certo - objectou Iker.

- Não a viste abalar?

 

- Sigamos o seu rasto na areia. Talvez nos espere mais longe.

Iker não se enganava.

 

O ágil quadrúpede divertia-se a desaparecer e a reaparecer, oferecendo-lhes o espectáculo de saltos prodigiosos e correrias loucas, sem deixar muito tempo angustiados os dois humanos de que estava encarregado.

 

A paisagem mudava, o deserto recuava, a vegetação tornava-se mais abundante.

 

- Se a minha intuição está certa - profetizou Sekari - aproximamo-nos dos planaltos que dominam o vale do Nilo. Como estes vales e estas elevações são encantadores! Aqui, as plantas surgem à mínima chuva. Em breve veremos balanites e acácias. Estás a ver: - sobrevivemos ao deserto!

 

- Graças a Hathor, ao falcão e à gazela - lembrou-lhe Iker.

- Vou regressar aos meus jardins. E tu, se esquecesses o passado?

- Não apenas não o esqueço como também não devo negligenciar uma nova tarefa: reencontrar a rainha das turquesas. Foi ela que me permitiu rever a mulher que amo. Essa pedra vai sem dúvida ajudar-me outra vez.

 

- Os salteadores das areias com certeza que a roubaram, Iker! Se, por infelicidade, te atravessares no seu caminho, matar-te-ão. Mulheres bonitas há aos milhares!

 

O aprendiz de escriba estacou e depois obrigou Sekari a agachar-se.

- Uma vintena de homens com arcos e cães... Vêm na nossa direcção.

 

- São com certeza caçadores.

 

Ainda inconsciente do perigo, a gazela tasquinhava a erva tenra. Iker levantou-se e fez grandes gestos.

 

- Vai-te embora, vai-te embora depressa! Mal o animal abalou, ressoaram latidos.

 

Uma flecha assobiou à orelha de Iker e uma ordem estalou, muito seca.

 

- Não te mexas ou abato-te!

 

Em posição, o archeiro não brincava.

 

Em breve se lhe juntaram os companheiros e uma matilha bastante nervosa. Sekari nem sequer tentara fugir.

 

- Somos pessoas de bem! - afirmou.

 

- Devem é ser salteadores das areias que caçam as nossas presas considerou um oficial mal barbeado e com o busto coberto de cicatrizes, recordações de uma fera recalcitrante. Na província da Gazela', trata-se de um delito severamente punido. E como nos haveis agredido, fomos obrigados a atirar. Legítima defesa. Mas dou-vos uma pequena hipótese: correi tão depressa quanto puderdes. Talvez falhemos.

 

- Não correremos - decidiu Iker. - Acabamos de escapar a assassinos que devastaram o domínio das turquesas e não podíamos imaginar cair sob os golpes de bárbaros ainda mais cruéis.

 

Vários caçadores pareceram pouco à-vontade.

 

- Não somos bárbaros - protestou um deles - mas soldados da milícia do deserto ao serviço do chefe de província Khriumhotep. A nossa missão consiste em proteger as rotas das caravanas e fornecer-lhe caça. E tu, quem és?

 

- Iker, aprendiz de escriba. E o meu companheiro é o jardineiro Sekari.

 

- Patranhas! - cortou o oficial. - São espiões e ladrões. Se recusardes afastar-vos, corto-vos aqui mesmo o pescoço e já.

 

- Os teus subordinados acusar-te-ão de crime.

 

O oficial tirou o punhal da bainha, mas um soldado imobilizou-lhe o braço.

 

- Não tendes o direito de agir assim. É ao chefe de província que compete decidir. Contentemo-nos em levar-lhe estes dois suspeitos.

 

Quando os quatro transportadores poisaram a cadeira de alto espaldar reclinável na qual estava instalado Khnumhotep, deram um suspiro de alívio. Corpulento, musculado e bom garfo, o chefe da rica província da Gazela era bem pesado. Como dispunha de três cadeiras de transportadores com os lados decorados com flores de lótus e se deslocava muito, o veículo não era uma sinecura.

 

Logo que pôs pé em terra, os seus três cães de caça, um macho muito vivo e duas fêmeas anafadas, precipitaram-se para ele.

 

- Há mais de uma manhã que não nos víamos, meus amores! O macho ergueu-se e poisou as patas da frente sobre os ombros do dono. Ciumentas, as fêmeas ladraram. Longas carícias acalmaram-nas.

 

- Foram bem alimentados? - perguntou Khriumhotep ao seu transportador de guarda-sol.

 

- Sim, senhor!

 

- Não mentes, espero.

 

- Claro que não! Aliás, não deixaram nada.

 

- Esta noite comerão lebre com molho, como eu. Não amimar os seus cães é insultar os deuses.

 

À ideia do festim, os três cães, que conheciam perfeitamente a expressão lebre com molho", lamberam os beiços. Depois, seguiram o dono quando este penetrou no luxuoso palácio da sua capital', local de nascimento de Khufu, o construtor da maior das pirâmides do planalto de Guiza.

 

Depois de ter inspeccionado uma das ricas propriedades agrícolas onde os camponeses trabalhavam duramente mas beneficiavam de excelentes ordenados, Khnumhotep gostava de se sentar num cadeirão de costas altas. Formado por duas grandes placas de madeira ligadas no topo e presas ao assento, suportava sem ranger o peso do mais afortunado dos chefes de província. Graças às suas qualidades de gestor, os seus súbditos gozavam de um notável bem-estar financeiro. E não havia de ser um Faraó, mesmo que se chamasse Senuseret, que havia de se imiscuir nos seus assuntos. No caso do monarca instalado em Mênfis desencadear um golpe de força, esbarraria com uma feroz oposição.

 

Um servidor trouxe uma bacia larga, outro um jarro em cobre de bico alongado. Este deitou água sobre as mãos de Khnumhotep, que as lavava demoradamente várias vezes por dia, com um sabão vegetal.

 

Depois foi-lhe trazido o seu unguento preferido, à base de gordura purificada, cozida em vinho aromatizado. Dele se evolava um aroma suave que afastava os insectos.

 

Sem que precisasse de dar qualquer ordem, o seu escanção apresentou-lhe uma esplêndida taça recoberta a folhas de ouro cuja decoração representava pétalas de lótus. Continha a bebida preferida do senhor do lugar, uma sábia mistura de três vinhos velhos que devolviam a energia.

 

- Lamento importunar-vos, senhor, mas o comandante de uma das patrulhas do deserto desejaria ver-vos o mais depressa possível.

- Ele que venha.

 

O oficial curvou-se profundamente.

 

- Prendi dois indivíduos perigosos. Estavam a caçar nas vossas terras e agrediram-nos. Sem a minha intervenção, os meus homens tê-los-iam abatido. Como desejais que os elimine, senhor?

 

- São salteadores das areias?

- É difícil de dizer, eu...

 

- Para um profissional com a tua experiência, eis um julgamento bem hesitante! Trá-los cá.

 

- Não é necessário, eles...

 

- Eu é que decido o que é necessário.

 

Com as mãos atadas atrás das costas, Iker e Sekari foram apresentados ao chefe de província da Gazela.

 

- Dou pão ao faminto, água ao sedento, vestuário ao que está nu, um barco ao que não o possui - afirmou a imponente personagem mas castigo duramente os criminosos.

 

- Senhor - declarou Iker com gravidade - não somos bandidos mas vítimas.

 

- Não é essa a opinião do oficial que vos interpelou.

 

- Fiz fugir uma gazela porque ela era a mensageira de uma deusa que nos salvou a vida.

 

- Este sujeito é um louco ou um mentiroso! - exclamou o comandante.

 

- Desata os prisioneiros e retira-te - ordenou Khnumhotep.

- Senhor, a vossa segurança...

 

- Eu próprio tratarei disso.

 

Sekari estava cheio de medo, mas Iker permanecia calmo.

 

- Agora, meus rapazes, a verdade! Estão no meu território e quero saber tudo.

 

- Éramos empregados nas minas de turquesas da deusa Hathor

- revelou Iker.

 

- Como especialistas ou como detidos?

 

- Como detidos transferidos das MInas de cobre.

 

- Então são realmente criminosos!

 

- Fui condenado a um ano de trabalhos forçados por me ter oposto a um escriba desonesto.

 

- E tu? - perguntou Khnumhotep a Sekari.

- Eu também, senhor - balbuciou o jardineiro.

- Fazem mal em considerar-me um ingénuo!

 

- O meu amigo e eu fomos encarregados de explorar a montanha para descobrir a rainha das turquesas - continuou Iker sem se perturbar. - Como cumprimos essa perigosa tarefa, fomos libertados.

 

- E tens a prova do que me contas, como é evidente, não?

- Ei-la, senhor.

 

Iker tirou do saiote a tabuinha de madeira assinada por Horure que fazia dele e de Sekari homens livres, lavados das suas faltas. Khnumhotep leu-a com atenção, mordeu-a, tentou arranhá-la.

- Tem ar de ser autêntica.

 

O chefe de província ouvira falar desse Horure, um fiel súbdito de Senuseret, especialista de nomeada das regiões desérticas. Era evidente que aquele jovem orgulhoso e decidido não mentia.

 

- O que aconteceu à rainha das turquesas?

 

- O domínio da deusa foi atacado por um bando armado que recebeu o apoio de um prisioneiro, Goela-Torcida. Assassinou Horure, os polícias e os mineiros foram massacrados e os seus cadáveres queimados. Somos com certeza os únicos sobreviventes.

 

- Iker queria lutar - interveio Sekari - mas teria sido um suicídio! Foi por isso que fugimos.

 

- E atravessaram o deserto sem água nem alimentos?

 

Iker não ocultou nada dos sucessivos milagres que lhes tinham permitido sobreviver.

 

A sinceridade do rapaz era tão evidente que Khnumhotep não pôs em dúvida o seu relato, tanto mais que as divindades intervinham frequentemente no deserto.

 

Pela primeira vez, os salteadores das areias tinham ousado atacar as minas de turquesas, que estavam no entanto colocadas sob a protecção do Faraó.

 

Mas não competia ao chefe de província da Gazela alertar Senuseret. Outros acabariam por preveni-lo de que a sua autoridade abrira uma brecha. Assim o monarca, enfraquecido, estaria ocupado com tarefas mais prementes do que um confronto com os grandes dignitários hostis à expansão do seu poder.

 

- O que sabem vocês fazer, um e outro?

- Eu sou jardineiro - respondeu Sekari.

- E eu, aprendiz de escriba.

 

- A minha província é rica porque aqui se trabalha muito afirmou Khnumhotep. - Um jardineiro a mais não me será inútil. Mas não preciso de um escriba suplementar.

 

- Em contrapartida - continuou Khnumhotep - preciso de mais soldados para que a minha milícia possa repelir qualquer agressor. Visto que és jovem e de boa saúde, o teu lugar está encontrado.

 

- Quero ser escriba, senhor, não soldado.

 

- Ouve bem, meu rapaz. Os deuses confiaram-me uma missão: fazer desta província a mais próspera do país. Aqui, nada falta às viúvas, as raparigas são respeitadas, cada um come o que tem vontade e ninguém mendiga. Os fracos não são prejudicados em relação aos grandes, não existe qualquer conflito entre os ricos e as pessoas modestas. Porquê? Porque eu sou o pilar desta região, sejam quais forem as dificuldades. Quando houve más cheias, eu próprio indemnizei os agricultores e anulei os impostos em atraso. Quanto maiores são as taxas, mais se suprime a iniciativa. Nem os fraudulentos nem os funcionários corruptos têm o direito de cidade no meu território. Mas nada é mais frágil do que esta felicidade! Actualmente, anuncia-se um perigo que tem por nome Senuseret. Mais cedo ou mais tarde, tentará apoderar-se da minha província. Ou estás comigo, ou estás contra mim. Se queres beneficiar do meu acolhimento, torna-te um dos meus soldados. Não lamentarás aquilo que vais aprender.

 

O próprio Khnumhotep estava admirado por ter exposto tantos argumentos para convencer aquele jovem desconhecido! Em geral, contentava-se em dar ordens e não suportava que o contradissessem.

- Confio em vós, senhor.

 

Uma vez mais, o tesoureiro Medés se fizera passar por um generoso doador. O grande sacerdote do templo de Ptah agradecera-lhe calorosamente, sem duvidar que a oferenda era proveniente de um desvio de bens alimentares. Mas Medés esbarrava sempre com a porta hermeticamente fechada do templo coberto. E era forçado a admitir que não conseguiria comprar os que possuíam a sua chave.

 

Que processo deveria utilizar para conhecer finalmente o segredo dos santuários? O alto dignitário adiou essa preocupação para mais tarde, pois a capital fervilhava de boatos não desprovidos de interesse. Senuseret decidira iniciar uma verdadeira reconquista das províncias, começando pela da Cobra, sobre a qual reinava o velho Uakha.

 

Aprion", o monarca não tinha qualquer hipótese de vencer; no entanto, aquela decisão não devia ser encarada de ânimo leve, porque a forte personalidade de Senuseret não recuaria diante do obstáculo.

 

Ora a fortuna de Medés dependia, em grande parte, das suas excelentes relações com os chefes de província que informava, por interpostas pessoas, do que se passava na corte. Com excepção da sua alma danada, Gergu, ninguém sabia quem era realmente Medés nem aquilo que não cessava de fomentar na sombra.

 

Há já algum tempo que tinha a maior dificuldade em verificar os rumores contraditórios. Era evidente que Senuseret retomara o controlo sobre boa parte dos seus cortesãos e mantinha ele próprio essa confusão para melhor avançar no caminho que a si mesmo traçara.

 

Se o monarca conseguisse desencadear uma verdadeira tempestade, Medés não seria arrastado?

 

Havia uma única solução para evitar esse desastre: suprimir o seu autor.

 

Mas o assassinato de um rei não se improvisava, sobretudo quando ele era protegido por um polícia tão eficaz como Sobek, que desconfiava de toda a gente, mesmo e sobretudo dos próximos do soberano. Medés não podia portanto cometer a mais pequena imprudência.

 

Era utópico contar com a sorte. Competia-lhe elaborar uma estratégia que lhe permitisse só atacar pelo seguro.

 

O instrutor bateu nas pernas de Iker e este caiu pesadamente de costas.

 

Falta de atenção, meu rapaz! Levanta-te e tenta bater-me na barriga.

 

A tentativa saldou-se por um rotundo fracasso e o rapaz deu consigo outra vez no chão, com algumas nódoas negras suplementares.

- Vou ter trabalho... Mas com boa vontade, acabarás por saber lutar.

 

Iker apertou os dentes e voltou ao assalto, sabendo que demoraria semanas, mesmo meses, antes de igualar os jovens recrutas que faziam troça dele.

 

Em primeiro lugar, não devia queixar-se do destino que o levara até ali mas sim tirar o máximo partido dos ensinamentos daquela situação; depois, observar constantemente os mais aguerridos e imitá-los.

 

Em vez de o enfraquecer, o facto de não ter nem amigo nem aliado decuplicou a sua energia. Podendo apenas contar consigo mesmo, Iker bebeu na solidão a força para se concentrar naquela nova aprendizagem e unicamente nela.

 

Do golpe de anca à passagem de perna, assimilou numerosas posições, rectificando os erros que cometia. Compreendeu que a rapidez era mais importante do que a brutalidade e que era possível voltar contra o agressor a sua própria violência.

 

O instrutor não era mais falador do que Iker. Avaro de explicações e de comentários, fazia-o repetir cem vezes o gesto correcto, fosse qual fosse o sofrimento ou a fadiga. E como o seu aluno nunca emitia o mínimo protesto, tratava-o ainda mais duramente do que aos seus camaradas.

 

- Amanhã - anunciou - eliminatórias para a prova de fundo. Bater-se-ão com mãos nuas. Só os que conseguirem duas vitórias serão apurados.

 

O primeiro adversário de Iker era maior e mais forte do que ele.

- Vem cá, rapaz, que dou cabo de ti!

 

Iker pôs um joelho em terra.

 

- Ah, declaras-te vencido sem combater! Não me espanta. Só os rapazes da nossa província são capazes de ser bons guerreiros.

 

- No entanto, não é esse o teu caso.

- O que te atreves a dizer?

 

O brutamontes precipitou-se, com os punhos cerrados à frente.

Iker desviou-se, estendeu a perna para o fazer tropeçar, deitou-o de costas e bloqueou-lhe o pescoço com o braço direito.

 

Quando o vencido bateu na terra com a mão esquerda, o instrutor ordenou a Iker que desfizesse a prisão.

 

O segundo adversário era menos estúpido. Atacou de improviso e conseguiu passar o braço direito por baixo da coxa direita de Iker para tentar levantá-la. Mas o rapaz aguentou, libertou-se, passou por trás do lutador com uma vivacidade inesperada e agarrou-o pelos tornozelos. O vencido caiu de cara no chão e o vencedor esborrachou-o contra o solo, estrangulando-o.

 

- Duas vitórias, muito bem. Vai beber e comer.

 

Partiram cerca de cinquenta jovens milicianos. Embora o instrutor tivesse falado de uma corrida de resistência, alguns partiram demasiado depressa, desejosos de ofuscar os camaradas. Iker pareceu ir a reboque, mas beneficiou da experiência adquirida durante a sua terrível marcha no deserto. Sem forçar o andamento, ultrapassou um a um os outros concorrentes, ele próprio surpreendido com a sua resistência.

 

No dia seguinte, a prova recomeçou, mais exigente ainda.

 

- Os melhores de vocês devem percorrer cem quilómetros em oito horas' - anunciou o instrutor. - A maior parte das mensagens seguem por barco, mas os correios militares serão por vezes obrigados a meter por caminhos de terra. Quero portanto homens bem preparados.

 

Correndo a um ritmo cada vez mais rápido, Iker não parava de pensar no rosto sublime que contemplara na rainha das turquesas. Como não lhe teria um sinal tão extraordinário dado confiança? Reencontrá-la-ia, a ela e aos que o tinham condenado à morte.

 

Quando notou, no último momento, os pedaços de sílex cortantes espalhados na pista, teve o reflexo de se atirar para o lado; resvalou Por um declive e terminou a queda de encontro ao tronco de uma tamargueira. Semi-inconsciente, acabava de evitar o pior, porque profundos ferimentos nos pés tê-lo-iam imobilizado por um longo período.

 

Depois de ter voltado completamente a si, Iker venceu pouco-a-pouco a distância que o separava do homem da frente, um filho de miliciano que o detestava e não cessava de denegri-lo junto dos camaradas.

 

No momento em que o ultrapassava, o outro tentou desequilibrá-lo com um golpe de ombro. Iker esquivou-se.

 

- Não direi nada dos sílex ao instrutor. Resolveremos o assunto entre nós, na caserna.

 

- Os melhores manobradores de cacete são os núbios - revelou o instrutor. - Foi com um deles que aprendi as técnicas que vos ensino. Vão pô-las em prática num combate durante o qual não pouparão os golpes. Preciso de dois voluntários.

 

- Eu - disse Iker, sabendo que provocaria a reacção do filho do miliciano.

 

De facto, este aproveitou logo a oportunidade.

 

Os dois adversários eram do mesmo tamanho e com a mesma força mas, como era seu hábito, Iker apostou na vivacidade. Deixou o outro acreditar, furibundo, que receava os seus assaltos e obrigou-o a cansar-se numa série de molinetes e ataques ineficazes.

 

Com o seu cacete rígido e ágil, Iker bateu-lhe uma única vez, no meio da testa.

 

O outro caiu como um bloco. O instrutor examinou-o.

 

- Quando acordar, vai ter uma valente dor de cabeça.

- Podia ter batido com mais força.

 

- Já não te reconheço, Iker.

- Não suporto cobardes.

 

O instrutor olhou o seu aluno de través.

- Não tens nada a acrescentar?

 

- O caso está resolvido.

 

- Gosto disso, Iker. O que se passa entre soldados não me interessa, desde que sejam disciplinados, competentes e corajosos. Ainda te falta a prática do salto.

 

A princípio, a corda estendida entre duas estacas não estava muito alta. Mas foi-se elevando de tal forma que pareceu impossível de franquear. Foram necessárias tanto técnica como força de vontade para se dominar e não estacar perante o obstáculo. Também nesse jogo Iker se revelou o melhor.

 

Uma linda morena de cerca de quarenta anos aproximou-se do instrutor.

 

- Dama Techat! O que nos trazeis de bom?

 

- Queijo e legumes. Diz-me, como se chama aquele rapaz?

- Iker.

 

É natural da nossa região?

 

Não, mas é um excelente recruta. Farei certamente dele um oficial.

 

A mulher de negócios, tesoureira da província, esboçou um sorriso enigmático. Do seu ponto de vista, aquele Iker merecia melhor.

 

Quando foi colocada a primeira pedra do santuário de Senuseret, no momento do ritual de fundação dirigido pessoalmente pelo monarca, um dos ramos da acácia reverdeceu.

 

Infelizmente, mais nenhum o imitou. No entanto, renascia a esperança e o caminho estava traçado: construir um novo templo e uma nova Morada de Eternidade a fim de lutar contra as trevas que ameaçavam invadir o domínio de Osíris.

 

Senuseret verificara a qualidade dos materiais e conversara com alguns dos artesãos. Era preciso trabalhar o mais depressa possível, é um facto, mas não em detrimento da força da obra.

 

E, desde o início do estaleiro, a nova equipa de ritualistas nomeada pelo transportador da paleta de ouro pusera-se também ao trabalho. O sacerdote calvo preservava os arquivos sagrados da Casa de Vida, onde ninguém podia penetrar sem o seu consentimento. O encarregado de velar pela integridade do grande corpo de Osíris não se mostrava menos vigilante e verificava várias vezes por dia os selos colocados na porta do túmulo divino. Quanto ao ritualista que via os segredos, celebrava, em nome do Faraó, os rituais quotidianos em companhia do transportador da paleta. Graças à magia do Verbo, era mantido o laço com o invisível. Venerando os antepassados e os seres de luz, o Servidor do ka contribuía eficazmente para o reforçar; e o que deitava quotidianamente a libação de água fresca sobre as mesas de oferenda tornava activas as substâncias subtis ocultas na matéria a fim de que as divindades delas se alimentassem e protegessem Abido.

 

Todos tinham plena consciência da importância da sua tarefa. Eles, os permanentes, organizavam o trabalho dos temporários, devidamente filtrados pelas forças da ordem. Cada um tinha sido interrogado e as suas declarações verificadas. À mínima falta, um sacerdote temporário seria excluído do domínio de Osíris. A gravidade da situação não autorizava qualquer laxismo. O mesmo rigor se aplicava às sete sacerdotisas cantoras, de origens diversas Visto que reuniam uma alta personalidade da corte e uma filha de camponês. Uma delas era tão bela e tão recolhida que nem mesmo o velho transportador da paleta ficava insensível ao seu encanto. Quem não teria desejado ser o pai de tal jovem, tão luminosa que o seu olhar dava alegria e esperança? Seria sem dúvida um dia inIciada nos grandes mistérios e não teria de desempenhar mais a função de transportadora de oferendas durante as festas celebradas no mundo exterior. Mas para atingir a condição de ritualista permanente, sobretudo em Abido, era necessário conhecer todos os degraus da hierarquia e percorrer todas as etapas que conduziam ao templo coberto. Era essa a Regra desde a origem, e assim continuaria a ser.

 

Inteiramente dedicado à sua função, rejuvenescido pela missão que lhe confiara o Faraó e decidido a lutar contra as trevas até à sua última hora, o velho sacerdote não detectava um perigo inesperado.

 

Um dos permanentes, um alto magricela de rosto ingrato e nariz proeminente, não estava satisfeito com a sua sorte. Passava por ser um ser imbuído de espiritualidade, ilusão que a ele próprio embalara enquanto não se revelou a sua verdadeira natureza: o gosto pelo poder. Não o de um rei exposto aos acontecimentos e a mil e uma imposições, mas o poder oculto exercido na sombra.

 

Com o passar dos anos, compreendera toda a importância de Abido e dos mistérios de Osíris. A própria existência da instituição faraónica dependia deles. Era sobre esse domínio que queria reinar, porque continha os segredos da vida e da morte.

 

Vindo de uma escola de geómetras e de matemáticos, gelado como um vento de Inverno, previra suceder ao decano e tornar-se o sumo sacerdote. No entanto, o aparecimento de Senuseret e a reorganização do colégio dos ritualistas tinham aniquilado os seus planos. Suprema decepção, o transportador da paleta de ouro apenas lhe confiara uma função que considerava subalterna, bem distante da que esperava. É verdade que pertencia ao topo da hierarquia, mas queria mais.

 

O maldito Senuseret era o responsável por aquela decepção e pelo seu rancor, cada dia mais intenso. Mas como havia de desembaraçar-se dele e obter o que lhe era devido?

 

Para o bando do Anunciador, que se contava já mais de duzentos homens, a travessia da zona pantanosa fora particularmente esgotante devido ao calor húmido e às incessantes agressões dos insectos. Tinham. morrido dois homens em consequência de mordeduras de serpentes e outro fora levado por um crocodilo. No entanto, nada ensombrava a determinação do guia supremo, que não hesitava nunca na direcção a seguir.

 

Foi necessário penetrar numa floresta de juncos seminundada e avançar na lama. Mas evitavam assim cruzar-se com soldados de Senuseret e festejavam todas as noites comendo peixe grelhado.

 

Apesar das veleidades de Shab, o Torto e de Goela-Torcida, o Anunciador proibiu-os de pilharem as raras aldeias de pescadores perto das quais passaram.

 

- Não demoraríamos muito - protestou Goela-Torcida.

 

- O saque seria irrisório e não devemos deixar qualquer rasto. O ataque do domínio de Hathor foi apenas um ensaio. Em breve atacaremos com mais força.

 

- Pode-se saber onde vamos?

 

- Para além das Muralhas do Rei. É a razão pela qual temos de tomar tantas precauções e aventurarmo-nos em zonas consideradas intransponíveis.

 

- Não tencionais por certo tomar de assalto os fortins egípcios! Todos tinham ouvido falar do sistema defensivo instalado pelo primeiro dos Senuseret para consolidar a fronteira nordeste do país e repelir qualquer tentativa de invasão. Ligados entre si por meio de sinais ópticos, os numerosos postos de guarda e de controlo tinham archeiros autorizados a atirar sobre quem corresse o risco de forçar a passagem.

 

- Ainda é muito cedo - reconheceu o Anunciador - mas a nossa hora chegará. As Muralhas do Rei dão ao Egipto uma ilusória sensação de segurança.

 

- Mesmo assim - objectou Shab, o Torto - são defendidas por verdadeiros soldados e...

 

- Continua a confiar em mim e tudo correrá bem. Primeiro objectivo: passar a fronteira sem sermos detectados. Depois, entraremos em contacto com os nossos novos aliados.

 

- De quem falais, senhor?

 

- Dos asiáticos e dos beduínos que vivem com dificuldades na região de Canaã e são perseguidos pela administração egípcia. Humilhados constantemente, só pensam em revoltar-se mas receiam uma repressão sangrenta. Apenas esperam um chefe: eu, o Anunciador.

 

Shab, O Torto estava fascinado. E mesmo se Goela-Torcida considerava o seu chefe um louco, acreditava que fosse capaz de organizar uma bela série de pilhagens que tornariam os seus partidários ricos. Com efeito, ainda era preciso ultrapassarem as Muralhas do Rei sem serem apanhados e nisso o sobrevivente das minas de cobre não acreditava. Goela-Torcida estava enganado.

 

Sem impaciência, o Anunciador enviou diversos batedores para localizarem o ponto de passagem menos vigiado. Realizada esta tarefa, observou durante vários dias o comportamento dos soldados e dos aduaneiros egípcios. A meio de uma noite sem lua, despertou os seus fiéis e ordenou-lhes que o seguissem.

 

Em perfeito silêncio, passaram por trás do fortim que nenhuma sentinela vigiava.

 

- O patrão - reconheceu Goela-Torcida - não é brincadeira!

- Quando se tem a sorte de encontrar um assim - aprovou Shab, o Torto - não o devemos abandonar.

 

- Não será demasiado ambicioso quanto ao saque?

 

- Não quer saber disso. Estás de acordo em guardarmos o máximo para os dois, como adjuntos directos do Anunciador, e dividirmos o resto?

 

- Convém-me. Se algum reclamar, quebro-lhe os rins. Não há nada melhor do que dar o exemplo! Mas diz lá... o que é que o patrão procura?

 

- A sua obsessão é o reino da verdade absoluta e definitiva da qual é o único depositário e que é necessário impor a toda a humanidade.

 

Ou se submetem ou morrem. E o seu principal adversário é o Faraó, porque recusa esse dogmatismo.

 

Sabes muito, Torto!

 

À força de ouvir o Anunciador, repito o que ele diz.

 

Eu não me ralo com essas coisas! O importante é que seja um bom chefe de guerra e que imponha a sua nova fé pela espada e pelo sangue. Quanto mais egípcios matarmos, mais ricos seremos.

 

Quando o Anunciador encontrou os primeiros asiáticos, proprietários de rebanhos, apresentou-se de imediato como o decidido adversário de Senuseret e conseguiu a atenção dos chefes de clã. Aceitou o jogo obrigatório das longas conversações que não conduziam a nada, mas obteve o que desejava: estabelecer contacto com o seu superior oculto, um velho beduíno cego, de barba branca, cujo ódio pelos Egípcios crescia cada vez mais. Coordenava os ataques às caravanas mal protegidas e mandava executar os cananeus suspeitos de se entenderem com o inimigo.

 

Logo que o Anunciador entrou no quarto austero Onde o velho permanecia preso a um cadeirão, o barbudo esboçou um sorriso extático.

- Eis-te, por fim! Esperava-te há muito tempo... Eu apenas sou capaz de picadas de insecto. Mas tu vais desencadear a tempestade e a carnificina! É preciso acabar com a lei de Maet e o reinado do seu filho, o Faraó.

 

- O que me recomendas?

 

- Uma guerra frontal estaria perdida de antemão. Com alguns fiéis prontos a dar a vida pela nossa causa, lança o terror no território egípcio. Que as operações pontuais façam o máximo de vítimas e espalhem o pânico entre a população. Senuseret será considerado responsável por elas e o seu trono desabará.

 

- Sou o Anunciador e exijo a obediência absoluta dos combatentes que puseres à minha disposição.

 

- Tê-la-ás! Mas precisarás de formar muitos outros. Deixa-me tocar nas tuas mãos.

 

O Anunciador aproximou-se.

 

- É estranho... Parecem garras de falcão! És tal como eu te imaginava, feroz, implacável, indestrutível!

 

- Se tivesses tido meios para isso, por onde terias começado a tua conquista?

 

- Sem hesitar, por Siquém. Só lá existe uma pequena guarnição egípcia. A população será fácil de inflamar e a vitória espectacular.

- Será então Siquém.

 

- Chama os meus servidores e pede-lhes que me transportem até ao limiar da minha casa. Que se reúnam todos os partidários da luta armada.

 

Com uma veemência espantosa para um homem da sua idade, o cego preconizou a guerra total contra o Egipto e apresentou o Anunciador simultaneamente como seu sucessor e como o único chefe capaz de conduzir os seus partidários à vitória.

 

Depois, num último espasmo de ódio, morreu.

 

Nota: Siquem, a actual Napluse. (N. da T.)

 

A pequena cidade de Siquém estava adormecida ao Sol e a guarnição egípcia ia realizando preguiçosamente as suas ocupações quotidianas, entre as quais o exercício ocupava apenas um pequeno lugar. Depois de uma dezena de anos passada naquele canto perdido, o comandante já não tentava opor-se aos tráfegos incessantes da população local. Roubavam-se, assassinavam-se um pouco, regulavam as suas contas atacando-se pelas costas, mas sem causar perturbações à ordem pública. Nesse ponto, o comandante mostrava-se intransigente: aceitando não saber nada, nada queria ver.

 

Também renunciara no terreno da fiscalidade. Os cananeus mentiam de tal maneira que ele já não conseguia distinguir o verdadeiro do falso. E não dispunha de um número suficiente de verificadores. Contentava-se portanto com uma percentagem mínima sobre as colheitas que acediam a mostrar-lhe. De todas as vezes, era sempre a mesma comédia: os seus administrados queixavam-se do calor, do frio, dos insectos, do vento, da seca, da tempestade e de outras cem calamidades que os reduziam à miséria. O oficial já nem sequer ouvia aquele discurso tão aborrecido que teria adormecido o mais recalcitrante doente de insónias.

 

Todos os dias rezava ao deus Afin, cuja capela fora construída a norte da caserna, para que lhe permitisse regressar o mais depressa possível ao Egipto. Sonhava rever a sua aldeia natal do Delta, fazer a sesta no palmeiral ao longo do canal onde tomavam banho na estação quente e poder ocupar-se da sua velha mãe que há muito tempo não via.

 

Com perseverança, escrevia para Mênfis a reclamar a sua transferência, mas a hierarquia militar parecia tê-lo esquecido. Encarando a provação com paciência, o oficial organizara uma existência tranquila onde a cerveja forte, muitas vezes de medíocre qualidade, ocupava o primeiro lugar.

 

- Chegou a caravana do Norte - avisou o seu adjunto.

- Não há nenhum incidente a assinalar?

 

- Ainda não procedi à inspecção.

- Esquece.

 

- Mas o regulamento...

 

- Os cananeus farão o trabalho por nós. Entendem-se bem com os caravaneiros sírios.

 

- Vão falsificar as notas de remessa, roubar na quantidade dos produtos e...

 

- Como de costume - lembrou o comandante. - Parece que te apaixonaste por uma indígena, não é?

 

- Andamos juntos, é verdade?

- É bonita?

 

- Atraente e muito dotada.

 

- Não te cases. As raparigas daqui obedecem mais ao seu clã do que ao marido, que acabam sempre por devorar.

 

- Um dos nossos vigias assinalou um começo de agitação na entrada sul da cidade.

 

O comandante saiu bruscamente do seu torpor.

- Estás a brincar?

 

- Também não verifiquei.

 

- Ocupa-te disso imediatamente! Um contrato é um contrato. Se os cananeus o esqueceram, vou lembrar-lhes.

 

Duas horas mais tarde, o adjunto ainda não regressara. Assaltado por um mau pressentimento, o comandante ordenou à guarnição que pegasse nas armas e o seguisse. De vez em quando, uma demonstração de força não deixava de ser útil. E se os autóctones tinham causado o mínimo aborrecimento ao seu subordinado, iam saber quem detinha a autoridade em Siquém.

 

Na entrada sul encontravam-se mais de trezentos homens reunidos numa massa compacta. O oficial egípcio ficou surpreendido: não conhecia a maior parte deles.

 

Não seria certamente com os seu escasso efectivo que poderia enfrentar semelhante multidão, tanto mais que os seus soldados, pouco preparados para um tal confronto, estavam já a bater os dentes.

 

- Chefe - sugeriu-lhe um deles - talvez fizéssemos bem em voltar para trás.

 

- Incarnamos a ordem e a lei em Siquém e não vai ser um ajuntamento de estranhos que as porá em risco.

 

Uma rapariga adiantou-se.

 

- Queres saber notícias do teu adjunto, comandante?

- Quem és tu?

 

- A mulher que ele desonrou e maculou. julgava que eu seria obrigada para sempre a calar-me, mas nem ele nem tu tinham previsto a chegada do Anunciador! Graças a ele, os cananeus esmagarão o Egipto. - liberta imediatamente o meu adjunto!

 

A rapariga esboçou um sorriso feroz.

- À vontade, comandante.

 

Goela-Torcida lançou três sacos aos pés do oficial egípcio.

- Eis o que resta desse torcionário.

 

Com as mãos trémulas, o comandante abriu os sacos. O primeiro continha a cabeça do seu adjunto, o segundo as mãos e o terceiro o sexo. Surgiu um homem de elevada estatura, com barba cuidadosamente cortada e estranhos olhos vermelhos.

 

- Depõe as armas e ordena aos teus homens que me obedeçam - ordenou com voz doce.

 

- Por quem te tomas?

 

- Sou o Anunciador e deves submeter-te, como todos os habitantes de Siquém.

 

- És tu que te deves submeter ao representante legal da autoridade! Se és o instigador deste crime, serás executado, tal como os seus autores.

 

- Não és razoável, comandante. Se eu desencadear as hostilidades, o teu punhado de medrosos não resistirá muito tempo.

 

- Segue-me sem hesitar, senão...

 

- Ofereço-te uma última hipótese, egípcio. Ou me obedeces, ou morres.

 

- Agarrem neste revoltado - ordenou o comandante aos seus homens.

 

Os fiéis do Anunciador precipitaram-se ao assalto.

 

Foi Goela-Torcida que trespassou o peito do oficial, antes de Shab, o Torto acabar com ele, dominado por uma crise de histeria e espezinhando-lhe o rosto. Nenhum dos soldados correu suficientemente depressa para escapar aos seus perseguidores.

 

A população de Siquém aclamou o seu novo senhor, que a converteu à religião de que era o único garante e intérprete. Como o seu programa consistia em derrubar o Faraó e ampliar o território dos Cananeus, as pessoas aderiram com entusiasmo à nova ideologia.

 

Num grande concerto de vociferações, a caserna e o templo de Min foram arrasados. A partir de agora, mais nenhum templo seria construído à glória de uma divindade, e mais nenhuma divindade seria representada fosse em que material fosse. Apenas seriam gravadas as palavras do A nunciador a fim de que todos delas se compenetrassem, repetindo-as incansavelmente.

 

O vencedor e os seus lugar-tenentes instalaram-se na casa do governador, lapidado por ter colaborado com os egípcios.

 

- Exijo metade das terras - declarou Goela-Torcida.

 

- Está bem, mas é muito pouco - considerou o Anunciador, deixando o interlocutor de boca aberta. - Depois de tantos sofrimentos nas minas de cobre, não mereces mais?

 

- Visto assim... O que quereis propor?

 

- Devemos formar jovens combatentes prontos para morrer pela nossa causa, infligindo profundos ferimentos ao Egipto. Queres ocupar-te disso?

 

-À fé de Goela-Torcida, isso agrada-me! Mas não se tratará de brincadeira. Mesmo no treino, não pouparei os golpes.

 

- Também é precisamente assim que entendo as coisas. Apenas uma elite perfeitamente aguerrida partirá em missão. Com Shab, prepararemos as que lhe serão confiadas. E todas as manhãs explicarei à totalidade dos meus fiéis as razões da nossa luta.

 

Shab, o Torto estava cada vez mais orgulhoso por estar associado tão de perto a semelhante conquista. As palavras simples do Anunciador encantavam-no e faziam dele o mais convicto dos propagandistas.

 

Era aqui, em Siquém, que a grande aventura começava a surgir.

 

A corte de Mênfis estava em ebulição. De acordo com insistentes rumores, Senuseret, de regresso à capital, não tardaria a reunir os altos dignitários que compunham a Casa do Rei, verdadeiro corpo simbólico do monarca. A sua função não se reduzia à de vulgares ministros; comparados aos raios do Sol, o seu papel consistia precisamente em transmitir e fazer viver os decretos do Faraó, como expressão terrestre da luz criadora.

 

Ora, tanto nesse domínio como em muitos outros, Senuseret acabava de efectuar uma profunda reforma, reduzindo o número de responsáveis pertencentes à Casa do Rei e obrigados ao segredo sobre as deliberações daquela corte suprema onde se elaboraria o futuro do país.

 

E cada um se interrogava com inquietação e ansiedade se seria um dos felizes eleitos. Alguns velhos cortesãos tinham refrescado os ardores dos ambiciosos lembrando-lhes o enorme peso que pesaria sobre os ombros dos titulares.

 

Enquanto esperava as nomeações, Medés sentia-se nervoso. Conservaria o seu lugar? Seria transferido ou, pior ainda, exilado para uma cidade de província? Tinha a certeza de não ter cometido nenhum erro e, portanto, de não merecer nenhuma censura. Mas saberia o Rei apreciar as suas qualidades. pelo seu justo valor?

 

Quando dois dos polícias de Sobek, o Protector, pediram para o ver, Medés sentiu-se desfalecer. Que indício poderia ter colocado na sua pista aquele maldito cão de guarda? Gergu... Gergu falara de mais!

 

Aquele miserável não sobreviveria à sua traição, porque Medés acusá-lo-ia de mil delitos.

 

Vamos conduzir-vos ao palácio - anunciou um deles. Porquê?

 

O nosso chefe vos dirá.

 

Era inútil resistir. Medés não devia deixar transparecer nada dos seus receios, porque talvez pudesse alegar inocência e convencer o monarca. Face a Sobek, faltou-lhe a coragem. Nenhuma das frases que preparara saiu dos seus lábios.

 

- Sua Majestade ordenou-me que vos anunciasse que haveis deixado de ser responsável pelo Tesouro.

 

Medés ouvia já bater a porta da sua cela.

 

- Actualmente, ficais encarregado do secretariado da Casa do Rei. Nessa qualidade, registareis os decretos reais e velareis pela sua execução em todo o território.

 

Durante um longo momento, Medés julgou-se mergulhado num sonho. Ele, associado ao coração do poder! É verdade que não penetrava no núcleo fundamental de que o Faraó era o centro, mas ficava na tangente. Situado logo abaixo das principais personagens do reino, seria o primeiro a tomar conhecimento das suas verdadeiras intenções.

 

Cabia-lhe agora aproveitar ao máximo aquela nova situação.

 

Eram apenas quatro na sala de audiências do palácio real de Mênfis: Sobek, o Protector, Se-hotep', Senankh e o general Nesmontu.

 

Silenciosos, não ousavam olhar-se nem pensar que tinham sido escolhidos pelo Rei para formar o seu conselho restrito. Nenhum pensava nas honrarias, mas todos se preocupavam com as dificuldades que os esperavam, sabendo que Senuseret não admitiria nem fracassos nem subterfúgios.

 

Quando o Faraó apareceu, símbolo do Um que mantinha o múltiplo em harmonia, levantaram-se e curvaram-se. Graças ao seu turbante, o pensamento do monarca atravessava o céu como um falcão divino, recolhia a energia solar e celebrava a mais misteriosa das comunhões, a de Ré e de Osíris; pelo saiote, que tinha um nome análogo ao da acácia, o Rei testemunhava o seu conhecimento dos grandes mistérios; pelos braceletes em ouro maciço, o facto de pertencer simbolicamente à esfera divina.

 

O Faraó sentou-se lentamente no trono.

 

- A nossa principal função consiste em fazer reinar Maet sobre esta terra - lembrou. - Sem rectidão e sem justiça, o homem torna-se uma fera para o homem e a nossa sociedade inabitável. O nosso coração deve mostrar-se vigilante, a nossa língua decidir, os nossos lábios formularem a verdade. Compete-nos prosseguir a obra de Deus e dos deuses, recomeçar todos os dias a criação, alicerçar de novo este país como um templo. Grande é o Grande cujos grandes são grandes. Nenhum de vós poderá comportar-se de forma medíocre, nenhum de vós deve enfraquecer a arte real.

 

O olhar do monarca poisou sobre Se-hotep, um homem de cerca de trinta anos, elegante e nobre, de rosto fino animado por olhos brilhantes de inteligência. Herdeiro de uma rica família, escriba experiente, espírito rápido a ponto de ser por vezes nervoso, não era apreciado pelos cortesãos.

 

- Nomeio-te Companheiro único, Portador do selo real e Superior de todos os trabalhos do Faraó. Velarás pelo respeito do segredo dos templos e pela prosperidade do gado. Sê justo e verdadeiro como Tot. Comprometes-te a cumprir as tuas funções sem fraquejar?

 

- Comprometo-me - jurou Se-hotep em voz comovida. Senuseret dirigiu-se em seguida a um homem quadragenário de faces cheias e ventre proeminente. Aquele aspecto de apreciador da boa vida, amador de cozinha requintada, dissimulava um especialista das finanças públicas de carácter rigoroso, além de um condutor de homens tão intransigente como temido. Possuindo um sentido muito limitado da diplomacia, chocava-se frequentemente com os lisonjeadores e os preguiçosos.

 

- A ti, Senankh, nomeio-te ministro da Economia, grande tesoureiro do reino, à frente da Dupla Casa branca. Velarás pela justa distribuição das riquezas a fim de que ninguém tenha fome.

 

- Comprometo-me, Majestade.

 

Considerado como demasiado austero e muito autoritário, o velho general Nesmontu já se tornara ilustre durante o reinado de Amenemhat. Indiferente às honrarias, vivendo na caserna principal de Mênfis com a simplicidade de um homem da tropa, apenas tinha um ideal: defender o território egípcio, custasse o que custasse.

 

- A ti, Nesmontu, nomeio-te para ficares à frente das nossas forças armadas.

 

Frequentemente posto em causa pela sua maneira franca de dizer as coisas, o velho oficial não traiu a sua reputação.

 

- É evidente, Majestade, que obedecerei escrupulosamente às vossas ordens, mas preciso de vos lembrar que as milícias dos chefes de província, uma vez reunidas, formarão um exército superior ao nosso? E não falo da insuficiência do nosso equipamento nem da vetustez dos nossos alojamentos.

 

- Acerca dos dois últimos pontos, elabora sem demora um relatório pormenorizado a fim de que possamos anular essas carências. Quanto ao resto, tenho consciência da gravidade da situação e não deixarei de agir.

 

- Podeis contar com a minha absoluta dedicação, Majestade prometeu o general Nesmontu.

 

Sobek, o Protector de boa vontade se retiraria daquela assembleia onde considerava não ter lugar, mas o soberano olhou-o com gravidade.

- A ti, Sobek, nomeio-te chefe de todas as polícias do reino. Compete-te fazer reinar a segurança sem fraqueza nem excesso, garantir a livre circulação das pessoas e bens, velar pelo cumprimento das regras de navegação e deter os causadores de perturbações.

 

- Comprometo-me - garantiu Sobek - mas posso pedir a Vossa Majestade o favor de não me confinar num gabinete? Gostaria de continuar a assegurar a vossa protecção pessoal com a minha equipa restrita.

 

- Arranja tu a forma de conciliar a totalidade dos teus deveres.

- Contai comigo, Majestade!

 

- A instituição faraónica é uma função vital - continuou Senuseret. - Embora não tenha filho nem irmão para a perpetuar, o que a exerce deve restaurar as construções do seu predecessor e cumprir o seu próprio nome de reinado. Só um fraco não tem inimigos, e a luta de Maet contra isefet, a violência, a mentira e a iniquidade, não se interromperá nunca. Mas hoje em dia assume um novo aspecto, porque alguns dos nossos adversários, e sobretudo os que estão decididos a destruir a monarquia e o próprio Egipto, não são visíveis.

 

- Receais pela vossa vida, Majestade? - inquietou-se Se-hotep.

- Isso não é o mais importante. Se eu desaparecer, os deuses designarão o meu sucessor. É Abido que está em perigo. Assaltada por forças obscuras, a acácia de Osíris desfalece. Graças a novos edifícios, que emitirão uma energia regeneradora, espero pelo menos deter esse processo. Mas ignoro o seu autor e, enquanto não for identificado, podemos recear o pior. Quem ousa manobrar a força de Set e colocar assim em perigo a ressurreição de Osíris?

 

- Quanto a mim - interveio o general Nesmontu - não tenho a mínima dúvida: é com certeza um dos chefes de província que se recusam a reconhecer a vossa plena e total autoridade. Em lugar de se submeter e perder os seus privilégios, um desses celerados decidiu praticar a política do pior.

 

- Poderia um egípcio ser tão louco que quisesse destruir o seu próprio país? - interrogou Senankh.

 

- Um potentado como Khnumhotep não recuará diante de nada para conservar o seu poder hereditário! E não é o único.

 

- Ponho as mãos no fogo por Ualcha, chefe de província da Cobra - afirmou Senuseret, para grande surpresa do velho general.

- Com o devido respeito, Majestade, não vos terá conseguido enganar?

 

- A sua sinceridade não pode ser posta em dúvida. Uakha deseja tornar-se um servidor fiel.

 

- Restam outros cinco revoltosos muito mais temíveis do que ele!

- Sobek fica encarregado de os investigar. Por meu lado, tentarei convencê-los.

 

- Sem querer ser pessimista, Majestade, o que haveis previsto em caso de fracasso?

 

- De boa vontade ou à força, o Egipto deve ser unificado.

 

- A partir de hoje, vou preparar os meus homens para o confronto.

- Nada é mais desastroso do que uma guerra civil - protestou Se-hotep.

 

- Só a desencadearei em última instância - garantiu o Rei. - Há outra missão que deve ser realizada: descobrir o ouro capaz de curar a acácia.

 

- Procurai-o entre os chefes de província! - afirmou o general Nesmontu. - Controlam as pistas do deserto que conduzem às minas e acumulam fortunas. Com essas riquezas podem pagar bem soldados e mercenários.

 

- Provavelmente tens razão - lamentou o monarca - mas confio no entanto a Senankh o cuidado de explorar o tesouro de cada templo. Talvez descubra aquilo de que temos necessidade.

 

O Faraó levantou-se.

 

Agora, cada um conhecia a dimensão da sua tarefa.

 

Sobek abriu a porta da sala de audiências e esbarrou com um dos seus homens, visivelmente aterrorizado.

 

- Más notícias, chefe. O polícia do deserto que acaba de me entregar este relatório é um homem sério.

 

Ao ler aquele texto curto e terrível, Sobek considerou que devia pedir ao Faraó para prolongar a reunião do seu conselho restrito.

 

- Segundo este relatório, Majestade - declarou um Sobek perturbado - as minas de turquesas da deusa Hathor foram atacadas e os mineiros exterminados. Os polícias do deserto que patrulhavam aquela região apenas encontraram cadáveres queimados.

 

Todos os membros da Casa do Rei estavam impressionados. Senuseret pareceu ainda mais severo do que era habitual.

 

Quem pode ter cometido um crime tão abominável? - interrogou Se-hotep.

 

- Os salteadores das areias - afirmou o general Nesmontu. Como cada chefe de província só se preocupa com a sua própria segurança, deixa-os prosperar!

 

- Em geral, só atacam as caravanas - objectou Sobek. - E são suficientemente cobardes para saberem que devastar um domínio real lhes causará os maiores problemas!

 

- Esqueces que é impossível apanhá-los? Esta estratégia é de extrema gravidade. Prova que houve clãs que se federaram tendo em vista uma revolta geral.

 

- Nesse caso - adiantou Senuseret - não ficarão por aqui. Tragam-me o mais depressa possível os relatórios referentes às Muralhas do Rei e às guarnições de Canal

 

Senankh confiou essa tarefa a Medés, que demonstrou notável eficácia.

 

Ao examinar os documentos, o monarca notou que uma única localidade permanecia silenciosa: Siquém.

 

- Pequena tropa medíocre comandada por um oficial descontente que não cessa de reclamar a sua transferência - referiu o general Nesmontu. - Em caso de ofensiva de beduínos suficientemente numerosos e determinados, não deve ter aguentado o choque. Segundo todas as probabilidades, há que recear um levantamento da região e a agressão dos nossos postos fronteiriços.

 

- Que sejam colocados em estado de alerta - ordenou Senuseret. -Tu, general, mobiliza imediatamente a totalidade dos nossos regimentos. Logo que estiverem em condições de marchar, partiremos para Siquém.

 

Goela-Torcida estava nas suas sete quintas. A sua nova ocupação de instrutor de futuros terroristas agradava-lhe de tal maneira que não deitava conta às horas de treino intensivo no decurso das quais nenhum combate era simulado. Todos os dias morriam vários jovens. Uns incapazes, aos olhos de Goela-Torcida, cada vez mais exigente e brutal. O Anunciador queria comandos que não recuassem diante de nenhum perigo.

 

A sua prelecção quotidiana, à qual todos os habitantes de Siquém eram obrigados a assistir, com excepção das mulheres encerradas em casa, inflamava os espíritos. O Anunciador não lhes ocultava a necessidade de uma luta violenta, mas era esse o preço da vitória total, Quanto aos bravos que sucumbiriam durante os combates, iriam directamente para o paraíso, onde magníficas mulheres satisfariam os seus caprichos, enquanto o vinho correria a rodos.

 

Shab, o Torto detectava os indecisos e entregava-os a Goela-Torcida, que se servia deles como alvo para os seus archeiros e lançadores de facas. Apesar de embriagado por essa existência inesperada, o braço direito do Anunciador não conseguia no entanto dissimular as suas inquietações.

 

- Senhor, receio que o nosso actual triunfo seja de curta duração. Não julgais que o Faraó acabará por reagir?

 

- Claro.

 

- Não deveríamos dar... menos nas vistas?

 

- De momento, não, porque é a natureza e a dimensão dessa reacção que me interessam. Permitir-me-ão conhecer o verdadeiro

 

carácter desse Senuseret e poderei então orientar a minha estratégia. Os Egípcios respeitam tanto a vida dos outros que se comportam como medrosos. Quanto aos meus fiéis, sabem que é necessário exterminar os ímpios e que o verdadeiro Deus se imporá pelas armas.

 

O Anunciador visitou as famílias mais pobres de Siquém a fim de lhes explicar que a única causa das suas desgraças era o Faraó. Era por isso que deviam confiar-lhe os seus filhos, mesmo de tenra idade, para serem transformados em militantes da verdadeira fé.

 

Durante uma última prova de luta com mãos nuas, Iker conseguira, graças à sua rapidez, vencer dois adversários bastante mais possantes do que ele. Com dez dos seus camaradas, tornara-se miliciano da província da Gazela, ao serviço de Khnumhotep.

 

- Estás encarregado da vigilância do estaleiro naval - anunciou-lhe o instrutor. - A dama Techat será a tua chefe. Não julgues no entanto que se mostrará benevolente por ser uma mulher. Se o chefe da nossa província a nomeou tesoureira e controladora dos armazéns, foi por causa da sua extrema firmeza. Confiou-lhe mesmo a gestão dos seus bens pessoais, contra a opinião dos conselheiros! Para ser franco, meu rapaz, não podias calhar pior. Desconfia dessa leoa que só pensa em devorar os homens.

 

O instrutor conduziu o seu aluno até ao estaleiro naval, onde foi recebido por um contramestre antipático.

 

- Não vai ser este garoto que vai garantir a nossa segurança, não é verdade? - ironizou.

 

- Não te fies nas aparências e, sobretudo, não arranjes atritos com ele.

 

O contramestre observou Iker com mais atenção.

 

- Se este aviso não viesse do instrutor da nossa milícia, far-me-ia rir. Segue-me, meu rapaz, vou indicar-te a tua posição. Uma única ordem: não deixas ninguém entrar no estaleiro sem me prevenir.

 

Iker descobriu um novo mundo onde os artesãos faziam as diferentes partes de um barco. Sob os seus olhos nasceram um mastro em pinho, um leme, uma roda de proa, um casco, uma amurada e bancos de remadores. Com uma arte extraordinária, os especialistas executavam uma verdadeira obra de marchetaria formada por pequenas tábuas enquanto os seus colegas fabricavam sólidos cordames e velas de linho.

 

Fascinado, o jovem seguia os gestos com extrema atenção e realizava-os mentalmente.

 

Foi brutalmente chamado à realidade quando um corpulento latagão o empurrou para forçar a passagem.

 

- Quem sois vós? - perguntou Iker, retendo-o pelo braço.

- Vou ver o meu irmão, um dos carpinteiros.

 

- Tenho de avisar o contramestre.

 

- Por quem me tomas? Não preciso de autorização!

- Tenho ordens.

 

- Queres lutar comigo?

- Se for necessário.

 

- Eu e toda a equipa vamos dar-te um correctivo!

 

O matulão levantou o braço para chamar os artesãos em sua ajuda, mas baixou-o quase imediatamente e recuou um passo como se acabasse de ver um monstro.

 

Iker voltou-se e descobriu a dama Techat, muito elegante com o seu vestido verde-claro.

 

- Vai-te embora - ordenou ela ao importuno, que desapareceu sem dizer nada.

 

Techat girou em volta do jovem miliciano, imóvel como uma estátua.

 

- Aprecio os que fazem passar a sua função à frente do seu interesse, ou mesmo da sua segurança. Parece que te comportaste de forma brilhante durante a tua formação militar. És acaso originário de uma família de oficiais?

 

- Sou órfão.

 

- E querias ser soldado?

 

- Desejo tornar-me escriba.

- Sabes ler, escrever e contar?

- Com efeito.

 

- Se queres que te ajude, deves dizer-me mais.

 

- Roubaram-me a minha vida e quero saber porquê. A dama Techat pareceu intrigada.

 

- Quem tenta prejudicar-te?

Iker tentou a sua sorte.

 

- Dois marinheiros, Olho-de-Tartaruga e Faca-Cortante. O barco deles chama-se Veloz.

 

Seguiu-se um longo silêncio.

 

- Descreve-me esse olho-de-tartaruga. O rapaz obedeceu.

 

- Tenho a impressão de que essa personagem não me é estranha, mas as minhas recordações são muito vagas. Preciso de mandar fazer investigações que demorarão com certeza muito tempo.

 

Iker julgou sonhar. Uma esperança, por fim! Mas foi dominado pela desconfiança.

 

- Porque me haveríeis de ajudar?

 

- Porque me agradas. Oh, não te iludas, meu rapaz! Só gosto de homens da minha idade, desde que não interfiram no meu trabalho pretendendo que são mais competentes do que eu. Tu, Iker, não te pareces com ninguém. Anima-te uma chama desconhecida, uma chama tão poderosa que os invejosos apenas sonham roubar-ta. Eis, provavelmente, a causa dos teus problemas.

 

Permanecendo desconfiado, o rapaz não se alargou em confidências.

 

- Vou-me encarregar de conseguir a tua transferência - declarou a dama Techat. - A partir de amanhã, tornar-te-ás o assistente do guarda dos arquivos da província. Há muitos documentos à espera de serem classificados e talvez descubras a tua felicidade.

 

Os familiares de Medés estavam em alvoroço. Segundo boatos pessimistas, o ex-tesoureiro do palácio teria sido demitido das suas funções e transferido para uma pequena cidade do Sul, onde acabaria a sua carreira no meio da indiferença geral. A bela moradia de Mênfis seria vendida e os criados despedidos.

 

Desde o princípio da manhã, a esposa de Medés, dominada por uma crise de angústia, fazia a cabeleireira e a maquilhadora andar numa roda-viva.

 

- Encontraste o boião das cinco gorduras?

- Ainda não - respondeu a cabeleireira.

- Essa negligência é insuportável!

 

- Não o tereis arrumado no vosso cofre de marfim? Sobreexcitada, a dona da casa teve de render-se à evidência. Sem apresentar qualquer desculpa, fez com que lhe untassem os cabelos com aquela pomada milagrosa composta por gordura de leão, de crocodilo, de serpente, de cabrito-montês e de hipopótamo.

 

- Faz com que penetre bem no meu coiro cabeludo - ordenou. A seguir, vais massajá-lo com óleo de rícino. Assim, nunca terei cabelos brancos.

 

Depois da queda de Medés, a sua mulher não poderia comprar os produtos de beleza caros mas indispensáveis. Divorciar-se? Impossível, era ele que possuía a fortuna. Acusando-o, de adultério, contudo, ficaria com metade. Precisava entretanto de provas sólidas, sob pena de ser condenada a não receber qualquer pensão alimentar.

 

Maquilha-me melhor do que isto! - arrotou ela. - Ainda se vêem manchas vermelhas nas faces e no pescoço.

 

A maquilhadora aplicou uma camada de pó à base de vagens e sementes de alforva, mel e alabastro, uma mistura especial que apagava as marcas da idade.

 

Quando Medés entrou no quarto da esposa, teve um movimento de recuo.

 

- Como te sentes, minha querida?

 

Ela levantou-se de um salto, afastando as criadas,

- Tu... Nós... Estamos demitidos?

 

- Demitido? Pelo contrário, recebi uma importante promoção! Na sua sabedoria, o Faraó reconheceu os meus méritos.

 

Medés teve dificuldade em acalmar a fúria que o cobria de beijos.

- Eu sentia, eu sabia, és o melhor, o maior, o mais...

 

- Esperam-me pesadas responsabilidades, minha querida.

- Seremos ainda mais ricos?

 

- Com certeza.

 

- Que tarefa te confiou o Rei?

 

- Secretário permanente do grande conselho.

- Então vais ficar a saber muitos segredos.

- Claro, mas sou obrigado ao silêncio.

 

- Mesmo comigo?

- Mesmo contigo.

 

Os assuntos de Estado não interessavam nada a esposa do grande dignitário, cuja fortuna lhe permitia realizar todos os caprichos. Não era isso o essencial?

 

Quando a excelente notícia se espalhou em todos os andares da casa e no bairro, Medés retirou-se para o seu gabinete onde, alguns minutos mais tarde, recebeu Gergu.

 

Este mastigava duas pastilhas compostas de junça odorífera e resina de terebintina. Desinfectavam a boca e davam bom hálito.

 

- As minhas felicitações pela vossa nomeação. Agora vamos ficar com as mãos um pouco mais livres, não?

 

Medés desenrolou um papiro. É uma queixa contra ti. Uma queixa? Mas de quem?

 

- De uma das tuas ex-esposas que espancaste em estado de embriaguez.

 

- É possível...

 

- É certo! Havia uma testemunha. Forçaste a porta dela, ameaçaste-a e esbofeteaste-a.

 

- Não é assim tão grave.

- No Egipto, é.

 

- Essa testemunha... quem é?

 

- A criada de quarto, uma rapariga da província.

- Talvez pudéssemos...

 

- Encarreguei-me disso - revelou Medés. - Voltou para o seu buraco perdido com uma forte indemnização e a tua esposa recebeu vários móveis novos, acompanhados por desculpas da tua parte que eu próprio redigi. A queixa foi anulada.

 

Gergu deixou-se cair num assento baixo.

 

- Devo-vos pelo menos um jarro de cerveja de luxo, patrão!

- Esquece as tuas antigas conquistas e contém o teu ódio às mulheres, Gergu. Um inspector principal dos celeiros deve ser respeitável.

- Eu, inspector principal...

 

- Senankh, o meu superior hierárquico, assinou a tua promoção. - A partir de amanhã. Vou à caça! Trar-vos-ei uma fortuna espremendo até à medula os meus queridos administrados.

 

- Nada disso.

 

Gergu ficou de boca aberta.

 

- Mas tenho o poder oficial, eu...

 

- Tu e eu temos de mudar de dimensão. Durante vários anos trabalhámos empenhada mas modestamente. O nosso novo estatuto permite-nos esperar melhor. No entanto, estaremos muito mais expostos e deveremos portanto redobrar de prudência.

 

- Não estou a perceber bem - confessou Gergu, tacteando os amuletos tanto para se tranquilizar como para iluminar o espírito. Medés andou nervosamente de um lado para outro do compartimento.

 

- Sou actualmente o primeiro a ser informado das decisões tomadas ao mais alto nível do Estado. Compete-me transcrever os decretos emitidos pelo Faraó e divulgá-los. Qualquer passo em falso, qualquer traição grosseira apontar-me-iam imediatamente como culpado.

 

Manobrar por minha própria conta pessoal apresenta-se como particularmente difícil, porque o Rei e os seus conselheiros examinarão de perto os meus gestos e atitudes.

 

- Então... esta promoção é uma catástrofe!

 

- Não se eu a souber utilizar como convém. Graças a ti, que continuas com os movimentos livres, continuarei a manter as nossas redes de amizades e influências. Criarei outras no seio da alta administração.

 

- E o nosso novo barco, indispensável para atingir Punt e trazer de lá o ouro?

 

- Não pensemos para já nisso. Senuseret deu uma ordem curiosa: fazer o inventário de todos os tesouros dos templos a fim de conhecer as suas riquezas reais.

 

- Curiosa, porquê?

 

- Porque o Rei já possui essas informações! Estou convencido de que procura outra coisa, mas o quê? Como vais estar associado a essa missão, procura saber mais dela. Na mesma ocasião, detectarás os santuários mais interessantes. E não é tudo... O Faraó decreta a mobilização geral.

 

- Vai decidir-se portanto a atacar os chefes de província!

 

- Não é isso, Gergu. Acabam de ocorrer incidentes na região de Canaã cuja amplitude e gravidade desconheço.

 

- Para desencadear semelhante reacção, não devem ser de pouca importância!

 

- Também é a minha opinião. Ignoro ainda se o general Nesmontu ocupará sozinho a cabeça das tropas ou se o Faraó em pessoa se encarregará disso.

 

- Por outras palavras, Senuseret poderia morrer no combate e verificar-se um golpe de Estado em Mênfis!

 

- para qualquer alteração desse género - reconheceu Medés. - Os quatro dignitários que compõem o conselho restrito do Faraó são considerados como incorruptíveis de uma fidelidade inabalável. Mas são apenas homens. Convivendo com eles, descobrirei os seus pontos fracos e saberei utilizá-los. Quanto ao próprio monarca, goza de uma protecção especial que lhe vem do seu conhecimento dos segredos do templo coberto. Sem ela, qualquer tomada de poder seria ilusória e condenada ao fracasso. E ignoro ainda como penetrar nessa muralha intransponível.

 

- Havemos de conseguir, podeis ter a certeza.

 

- Enquanto esperamos, Gergu, nem um único deslize! Deves tornar-te um homem respeitável e um modelo para os teus subordinados. O interpelado esboçou um sorriso trocista.

 

- Se um único deles tentar imitar-me, parto-lhe a cabeça!

 

Os dois aliados riram às gargalhadas. Depois Gergu ficou repentinamente sério.

 

- E se nos contentássemos com os resultados já obtidos? O nosso saldo não é nada para desprezar. O risco tem um aspecto excitante mas é sempre risco. O país de Punt afastou-se estranhamente.

 

- Não tanto como supões - objectou Medés. - Tu, um excelente marinheiro que só se diverte na tempestade, como serias capaz de renunciar? Estamos apenas no início da viagem, Gergu. E tu és parecido comigo: gostas do poder pelo poder, da força pela força.

 

O interpelado concordou.

 

- Os sábios do Egipto condenam a ganância e a ambição continuou Medés. - Fazem mal. São estimulantes inegáveis graças aos quais não existem limites. E os acontecimentos que pressinto fortalecem a minha convicção.

 

- Há uma questão que me incomoda. Antes de a formular, dai-me qualquer coisa forte para beber.

 

Gergu esvaziou de uma vez duas taças de álcool de tâmaras.

- Porque praticamos o mal, Medés?

 

- Porque nos fascina. E o que é o mal?

- Opor-se a Maet, à rectidão e à luz.

 

- Repetes as asneiras dos velhos sábios. Achas que te servirão para enriquecer e proporcionar-te o lugar que desejas?

 

- Ainda tenho sede.

 

Medés pensou que precisaria de tempos a tempos de levantar o moral vacilante do seu alma danada. Gergu estava enganado: não, ainda não praticavam o mal porque lhes faltava sempre um apoio ou uma ligação dentro de um templo.

 

Num dia Iker fizera mais trabalho do que dois funcionários numa semana e esta atitude valeu-lhe grandes ciúmes. Sem a protecção da dama Techat, o rapaz teria tido muitos aborrecimentos. O seu superior hierárquico decidiu complicar-lhe a tarefa ao máximo, mas Iker não se perturbou. Meticuloso e obstinado, classificava os documentos na esperança de encontrar neles os nomes de Olho-de-Tartaruga e Faca-Cortante e do Veloz.

 

Mas o seu esforço continuava estéril.

 

Ao ser convocado pela patroa, o assistente de arquivista não parecia no entanto desencorajado.

 

- Nenhum resultado ainda, Iker?

 

- Nenhum. Do vosso lado, também nada?

- Também não - lamentou a dama Techat.

 

- No entanto, eu não inventei esses homens e esse barco!

 

- Não ponho de forma alguma em dúvida a tua palavra, Iker, mas lembra-te do que te disse: as investigações arriscam-se a ser demoradas.

- As vossas recordações não se tornaram mais definidas?

 

- Infelizmente, não, mas tenho quase a certeza que esse Olho-de-tartaruga passou pela nossa província. Precisas de arejar as ideias, meu rapaz. Vamos celebrar a festa da deusa Palchet e servir-me-ás de porta-guarda-sol.

 

Pakb et, A Dilaceradora, era um leopardo fêmea e residia numa gruta venerada por sacerdotisas, na sua maior parte esposas de nobres da província.

 

No barco de Techat que os conduzia ao sítio sagrado da deusa', Iker saboreava a pureza do ar e a doçura de um vento inalterável. Vogar no Nilo continuava a ser um encantamento. Durante alguns instantes, o jovem pensou que poderia interromper a viagem e instalar-se naquela província para ali passar dias tranquilos. Mas as perguntas sem resposta assaltaram-no outra vez, deixando-o no estado de um sequioso para quem beber se tornava vital. Não, os acontecimentos que o tinham arrasado não eram sem significado. Competia-lhe a ele saber interpretar e decifrar o enigma do seu destino.

 

O barco acostou a boa distância de um magnífico ébano cujos ramos ocultavam a entrada da gruta sagrada.

 

- Não toques de maneira nenhuma nessa árvore - recomendou a dama Techat. - É lá que se esconde muitas vezes o leopardo fêmea onde incarna a deusa. Salta sobre qualquer profano que não conheça as fórmulas de apaziguamento.

 

- Como se pode aprendê-las?

- És Muito curioso!

 

- Dizei-me pelo menos qual é o papel de Pakhet. Decididamente, pensou a dama Techat, este rapaz não é feito da mesma madeira que a maior parte dos seres.

 

- Esta deusa controla os fogos destruidores e pode transformar-se em serpente que se lança sobre os inimigos do Sol a fim de os impedir de fazerem o mal. Quando a vêem, é tarde de mais. Mas a sua função não se reduz a lutar vitoriosamente a favor da Luz. Pela sua magia, favorece o regresso da cheia que proporciona prosperidade a todo o país.

- De que forma?

 

- Não achas que estás a ir longe de mais, Iker?

- Irei tão longe quanto me permitirdes.

 

- Digamos que é aliada de Osíris e não me perguntes mais nada. Contenta-te em observar e permanece silencioso.

 

Ou a dama Techat sabia e se calava, ou não sabia e estava a fingir; para Iker, tanto num caso como no outro, o resultado era idêntico.

 

Forçada, não forneceria mais nenhuma explicação. O rapaz protegeu a patroa com um guarda-sol composto por uma longa haste e um pano de linho rectangular.

 

Uma sacerdotisa idosa saiu da gruta.

 

- Que as portas do céu sejam abertas a fim de que a força divina surja em glória. Saíram em seguida outras quatro sacerdotisas, que se inclinaram diante da primeira. Tinham os cabelos puxados para trás, formando um estranho penteado que fazia lembrar a coroa branca do Faraó. Usavam um saiote curto seguro por alças que lhes cobriam os seios.

 

- Assim vêm os quatro ventos do céu - revelou a superiora. Que sejam controlados a fim de que a riqueza do país fique garantida. Eis o vento do norte, fresco e vivificante.

 

A primeira rapariga iniciou uma dança lenta e solene. A beleza dos seus gestos fascinou Iker.

 

- Eis o vento do leste, o que abre as portas celestes, o que cria um caminho perfeito para a luz divina e dá acesso aos paraísos do outro mundo.

 

A segunda dançarina não era menos graciosa do que a primeira. Nem uma hesitação, um ritmo envolvente.

 

- Eis o vento do oeste que provém do seio do único, antes da criação do Dois. Surge do Além da morte.

 

A terceira dançarina superava as colegas. Como se estivesse penetrada pela mensagem espiritual que simbolizava, desenvolveu uma coreografia mais dramática e mais exigente. Algumas figuras evocavam a luta contra a morte e a vontade de a vencer.

 

- Eis finalmente o vento do sul, que trazia a água regeneradora e faz crescer a vida.

 

Iker a princípio julgou estar enganado, iludido por uma espantosa semelhança.

 

Depois, toda a sua atenção se concentrou no rosto da jovem sacerdotisa cujos movimentos eram de uma graça extraordinária. Emanava do seu ser uma luz que traduzia a intensidade da vida ressuscitada oferecida pelo vento do sul.

 

Ela. Era realmente ela, reconhecia-a apesar da indumentária e do penteado diferentes.

 

- Segura o guarda-sol correctamente - queixou-se a dama Techat. - Estou ao sol!

 

Iker rectificou a posição, sem deixar de contemplar a mulher amada, cuja dança lhe pareceu terrivelmente curta.

 

Os quatro ventos estavam imóveis. A mestre-de-cerimónias adornou a fronte das sacerdotisas com uma flor de lótus.

 

- Assim são reveladas as palavras divinas ocultas na natureza. Que estas flores, cujo odor suave a luz anima, sejam garantes do milagre da ressurreição.

 

De cada um dos lótus brotou uma claridade deslumbrante. Depois, as cinco sacerdotisas entraram num barco que se afastou do território sagrado de Pakhet onde se organizava um banquete em honra das esposas dos dignitários. Iker e os outros servidores almoçariam à parte.

 

- Tens um ar perturbado - notou a dama Techat.

- Não, enfim, sim... Este ritual é tão impressionante!

- Terás sido sensível à beleza das dançarinas?

 

- Quem o não seria? A que incarnava o vento do sul atingia a perfeição. Sabeis quem é e como se chama?

 

- Não faço ideia. Estas sacerdotisas vieram de Abido para celebrar os rituais da deusa Pakhet e depois regressam ao seu templo.

- Nunca a havíeis Visto antes?

 

- Não, deve ser uma nova. Mas trata de a esquecer.

- Por que pertence ao Círculo de Ouro de Abido? A dama Techat franziu as sobrancelhas.

 

- Quem te falou disso?

- Um jardineiro.

 

- Trata-se apenas de uma expressão poética, Iker. Não lhe dês qualquer importância. E repito-te: esquece essa rapariga. Evolui num mundo que nunca conhecerás, Se aprecias as dançarinas, existem outras mais sedutoras que são acessíveis.

 

Num tempo recorde, Iker classificara os arquivos da província da Gazela, mas sem encontrar o mínimo vestígio dos dois marinheiros e do respectivo barco. Techat confiar-lhe-ia portanto outro posto a fim de que tivesse o espírito ocupado.

 

Do seu lado, a mesma decepção: nenhum informador pudera fornecer-lhe qualquer informação fiável. Precisava de arrancar do coração daquele rapaz excepcional a ideia da vingança e persuadi-lo a fixar-se naquela região onde se tornaria um escriba de elevada condição.

 

Reunia os seus argumentos ao mesmo tempo que contemplava, do alto do seu terraço, a Lua nova que marcava o triunfo de Osíris, quando uma voz a fez sobressaltar.

 

- Posso falar-vos, dama Techat? Tranquilizai-vos, não vos quero nenhum mal! Sobretudo, não vos volteis. Se tentardes ver-me, mato-vos.

- O que... o que queres?

 

- No que se refere aos dois marinheiros e ao seu barco, talvez eu tenha uma pista. Passa pela província dos grandes sacerdotes de Tot. Deixai Iker partir para essa região.

 

- Quem és tu para ousares dar-me ordens?

- Um aliado.

 

- Mentes! A verdade, ou mando-te prender.

- Se vos disser, meter-me-eis na prisão.

 

- Proponho-vos um acordo: a verdade pela liberdade.

- Tenho a vossa palavra?

 

- Tens.

 

- Ajo por ordem do Faraó Senuseret. Protegendo Iker, haveis-me ajudado muito. Actualmente, é necessário permitir-lhe prosseguir a sua Busca.

 

- Que Iker esqueça o seu passado e viva feliz.

 

- Se o conseguirdes convencer, porque não? Mas sede honesta com ele e falai-lhe desta pista.

 

- Devemos falar do teu futuro - disse a dama Techat a Iker.

 

O que pensarias tu de te estabeleceres aqui e continuares os teus estudos de escriba?

 

- A vossa oferta é generosa, mas devo recusá-la. Visto que não haveis obtido nenhuma informação, irei procurar noutro lado.

 

- E se esse vaguear não te conduzir a nenhum lado?

 

- Roubaram-me a minha vida, quero reencontrá-la e compreender o meu destino, custe o que custar.

 

- Podes perder definitivamente essa vida.

 

Permanecer inerte conduzir-me-ia à morte ainda mais depressa. Visto que é impossível convencer-te, vou ajudar-te uma última vez.

 

- Expulsais-me?

 

- Partes para a província da Lebre.

 

- Isso significa... que tendes um indício?

 

- Tão fraco que não te posso dizer mais nada. Vai lá e vê se descobres qualquer coisa.

 

- O senhor Khnumhotep deixar-me-á partir?

 

- Resolverei esse pormenor com ele. Serás portador de um documento oficial destinado ao senhor Djehuti. Apresento-te como um aprendiz de escriba desejoso de se aperfeiçoar. Como não temos lugar para ti aqui, solicito a sua benevolência. Esperemos que te aceite. Se tiveres essa sorte, sê o mais discreto possível ao efectuar as tuas investigações. Djehuti não é um homem simpático, não o deves provocar de maneira nenhuma.

 

- Como posso agradecer-vos, dama Techat?

 

- Teria gostado de te reter, Iker, mas a província da Gazela é demasiado pequena para ti. Aqui tens o meu último presente: proteger-te-á. Entregou ao rapaz um objecto em forma de crescente de lua.

- Este talismã foi talhado no canino de um hipopótamo. O meu pai, um grande mágico hoje desaparecido, gravou um grifo e uma inscrição hieroglífica. Consegues lê-la?

 

- "Sou o génio que corta a cabeça dos inimigos machos e fêmeas."

- Todas as noites, antes de adormeceres, coloca-o sobre o teu ventre. Afastará de ti as forças de destruição.

 

A prédica do Anunciador recebera ainda mais aclamações do que era habitual. Em nome do deus único cujas directivas ele transmitia, todas as cidades de Canaã se iam unir para partir ao assalto do Egipto, matar o Faraó, exterminar os opressores e tomar o poder. Depois, os vencedores imporiam a sua crença a todos os povos. Se necessário pela violência.

 

- Haveis despertado os adormecidos - constatou Shab, o Torto. - Em breve formarão um colossal exército que desabará sobre o mundo!

 

- Não tenho tanto a certeza disso - afirmou o Anunciador, quebrando o entusiasmo do seu braço direito.

 

- Mas essas pessoas acreditam em vós, seguir-vos-ão até à morte!

- Não duvido, mas não têm armas e não são verdadeiros soldados.

- Receareis... uma derrota?

 

- Tudo dependerá da intensidade da reacção egípcia.

- Até agora, é inexistente!

 

- Não sejas ingénuo, meu amigo. Se o Faraó não se apressa, é sem dúvida para atacar com mais força.

 

- Mas então... a população de Siquém será massacrada!

 

- Não é a previsível sorte de uma isca? Estes primeiros fiéis não têm outra função. Perecerão com dignidade, certos de atingirem o paraíso que lhes prometi. O importante são os especialistas que goela-Torcida forma. Esses devem escapar à repressão e ocultar-se na sombra para agirem no momento que eu escolher.

 

Os dois homens dirigiram-se ao campo de treino de onde retiravam o cadáver de um adolescente com o crânio demasiado frágil. Batendo sem contemplações, Goela-Torcida endurecia cada vez mais a preparação dos seus comandos.

 

- Satisfeito? - perguntou o Anunciador.

 

- Ainda não. A maior parte destes garotos são realmente demasiado tenros! Não desespero de formar alguns, mas Vai levar tempo.

- Receio que já não tenhamos muito.

 

- Em caso de ataque, veremos as suas capacidades no terreno!

- Não, Goela-Torcida. Tu e os teus melhores elementos vão abandonar a região e refugiar-se em lugar seguro, a dois dias de marcha a nordeste de Imet, no Delta. A zona é desabitada; esperar-me-ão aí.

- Que história é essa?

- Já alguma vez te desiludi, Goela-Torcida?

- Lá isso não.

 

- Então continua a confiar em mim.

 

Com os pulmões em fogo por vir a correr, um batedor imobilizou-se a respeitosa distância do Anunciador.

 

- Senhor, eles estão a chegar! Soldados egípcios, centenas de soldados!

 

- Acalma-te, meu valente. Eu não tinha já previsto isso? Alerta os nossos partidários a fim de que se mobilizem para defender Siquem. Deus estará a seu lado.

 

O Anunciador reuniu os chefes de secção na grande praça e lembrou-lhes a estratégia a seguir. Cada um se deveria bater até à morte. Vitoriosos ou vencidos, os seus fiéis alcançariam a felicidade eterna.

 

Os comandantes dos fortins que compunham as Muralhas do Rei agradeciam aos deuses por estarem ainda vivos. Reunidos pessoalmente pelo Faraó, tinham sido alvo das suas censuras e da sua cólera fria, mais aterradora do que os gritos explosivos. Qualificados de incapazes e de inúteis por não terem nem previsto nem impedido a revolta de Siquém, viam-se no mínimo condenados aos trabalhos forçados numa colónia penal dos oásis.

 

Senuseret tomara outra decisão: mantê-los nos seus postos sem tolerar o mínimo erro. E esse aguilhão, profundamente cravado na pele de militares de carreira adormecidos na sua ilusão de segurança, não deixara de ser eficaz. Saindo do seu torpor, os oficiais tinham-se comprometido a retomar os antigos controlos, a estimular os seus homens e a serem de novo a primeira barragem contra a invasão.

 

A firmeza e a autoridade de Senuseret tinham agido como bálsamos. Servir um Rei de tal estatura provocava o entusiasmo. Resolvida a situação da linha de fortificações, o monarca colocou-se à frente do seu exército em direcção a Siquém.

 

- Continua a não haver notícias dessa cidade? - perguntou ao general Nesmontu.

 

- Nenhuma, Majestade. Em contrapartida, estamos normalmente em correspondência com os outros povoados da região, o que pode provar que a rebelião está limitada.

 

- A aparência de um tumor nem sempre traduz a sua gravidade

- objectou o soberano. - Envia uma dezena de batedores para que observem a cidade por todos os lados.

 

Os relatórios eram concordantes: tinham sido dispostos vigias cananeus nos quatro pontos cardeais.

 

- A cidade está sublevada - concluiu o general Nesmontu.

 

A nossa pequena guarnição deve provavelmente ter sido exterminada. Mas por que razão os revoltosos não tentaram expandir o seu movimento?

 

- Por uma razão simples: queriam primeiro saber como reagiria o Faraó. Antes de reconquistar Siquém, vais bloquear todas as estradas, pistas e caminhos que lá conduzem. Exijo que ninguém escape. Quando o nosso dispositivo estiver montado, atacaremos.

 

Convencidos pelo Anunciador de que Deus lhes permitiria repelir o invasor, os habitantes de Siquém precipitaram-se ao assalto da infantaria de Senuseret. Inicialmente surpreendido pela agressividade do adversário, armado com ferramentas agrícolas, esta reagiu de imediato. Sob o comando do general Nesmontu, os cananeus foram rapidamente esmagados.

 

A vitória surgira tão depressa que Senuseret nem tivera de intervir pessoalmente. Mas a perda de cerca de trinta soldados provava a violência do confronto. Até mesmo as mulheres e os adolescentes tinham preferido morrer a render-se.

 

Reconquistada a cidade, as casas foram revistadas uma a uma. Nem vestígios de qualquer reserva de armas.

 

- Prendeste o chefe? - perguntou o Rei a Nesmontu.

- Ainda não, Majestade.

 

É preciso interrogar cuidadosamente os sobreviventes. Metade da população sucumbiu. Restam apenas velhos, doentes, crianças e mulheres. Estas afirmam que os maridos se quiseram libertar da opressão egípcia com o auxílio do deus único.

 

- Que nome lhe dão?

 

- O deus do Anunciador. Revelou a verdade aos habitantes de Siquém e todos o seguiram.

 

- Então é ele o inspirador deste desastre! Reúne o máximo de depoimentos a seu respeito.

 

- Devemos arrasar a cidade?

 

- Vou instalar o dispositivo mágico necessário para evitar o regresso desses vagabundos. Uma nova guarnição, mais forte, garantirão a segurança dos colonos que se instalarão aqui a partir do próximo mês. Além disso, general, vais fazer um giro de inspecção por todas as cidades de Canaã. Quero que os seus habitantes vejam o nosso exército e saibam que este intervirá sem hesitação contra os inimigos do Egipto.

 

Em diversos locais, principalmente próximo do templo saqueado, cuja reconstrução seria efectuada sem demora, Senuseret mandou enterrar cacos de barro vermelho nos quais estavam inscritos textos de exorcismo referentes às forças obscuras e aos cananeus. Se quebrassem mais uma vez a paz, seriam amaldiçoados.

 

E o Rei interrogou-se: esse Anunciador seria apenas um louco ávido de violência ou representava um perigo real?

 

Agora o Anunciador sabia.

 

Senuseret não era um daqueles monarcas fracos e indecisos que se deixam manipular pelos acontecimentos sem saber qual a decisão a tomar.

 

Aquele Faraó não recuava perante o uso da força e não se podia contar com nenhuma cobardia da sua parte.

 

A luta pelo triunfo final tornar-se-ia assim mais exaltante. Mas combater de maneira frontal revelava-se impossível. Mesmo reunidos, o que era muito improvável num futuro próximo, as tribos de cananeus e beduínos não formariam um contingente de soldados suficientemente numeroso para enfrentar os de Senuseret.

 

O único método eficaz seria portanto o terrorismo. Espalhando o medo na sociedade egípcia, reunindo contra ela contestatários, revoltados e destruidores de todos os lados, acabaria por envenená-la e fazê-la desagregar.

 

Goela-Torcida e os seus comandos tinham fugido para sul antes que o inimigo instalasse as suas barragens. O Anunciador, Shab, o Torto e três homens experientes tinham escolhido uma pista de leste, muito sinuosa, que serpenteava entre as colinas queimadas pelo sol.

 

- Onde vamos? - perguntou Shab, inquieto com a ideia de uma nova viagem pelo deserto.

 

- Converter as tribos beduínas. Depois, reunir-nos-emos a Goela-Torcida.

 

Ao cair do dia, o pequeno grupo deteve-se no fundo de uma ravina. O Anunciador subiu ao cume de uma colina a fim de decidir o próximo itinerário a seguir.

 

- Nem um movimento - ordenou uma voz áspera. - Se tentares fugir, abatemos-te.

 

Apareceram cerca de vinte polícias do deserto, com os respectivos cães.

 

Armados com arcos e cacetes, tinham surgido do nada.

 

Mesmo utilizando os seus poderes, o Anunciador não conseguiria abater todos aqueles profissionais aguerridos, sobretudo os molossos que não receavam os demónios do deserto.

 

- Estás só?

 

- Sim, estou só - gritou com voz suficientemente alta para que os seus companheiros o ouvissem. - E como estão a ver, não possuo qualquer arma. Sou um simples beduíno em busca das suas cabras que fugiram.

 

- Por acaso não virás de Siquém?

 

- Não, vivo aqui, longe da cidade, com o meu rebanho. Vou lá apenas para vender os meus queijos e leite.

 

- Está bem, vem connosco. Vamos verificar tudo isso.

 

Um polícia atou os pulsos do Anunciador com uma fina corda bem apertada. E passou-lhe outra em volta do pescoço para o puxar como um animal renitente.

 

- Não há mais ninguém à vista? - perguntou chefe do destacamento.

 

- Só encontrámos este - respondeu um dos seus homens.

 

A dama Techat oferecera a Iker o preço da viagem de barco até Khemenu, "a Cidade do Oito", capital da província da Lebre. Enquanto contemplava o rio, cuja majestade o fascinava, sentiu pesar sobre ele um olhar insistente.

 

Voltando-se, descobriu um homem de elevada estatura, bastante magro, de olhos autoritários.

 

- Páras em Khemenu - perguntou-lhe em voz seca - ou continuas para o sul?

 

- Porque deverei responder-vos?

 

- Porque te encontras no meu território.

- Sois o chefe desta província?

 

- Sou o seu braço direito, o general Sepi, e velo para que as nossas leis sejam respeitadas. Qualquer estrangeiro em situação irregular é imediatamente expulso. Ou revelas as tuas intenções, ou desapareces.

 

- O meu nome é Iker, venho da província da Gazela com uma recomendação da dama Techat para solicitar autorização de continuar entre vós os meus estudos de escriba.

 

- A dama Techat... Ainda não morreu?

- Garanto-vos que está bem viva!

 

- Descreve-ma.

 

Iker obedeceu. O rosto do general permaneceu carrancudo.

- Essa recomendação... Mostra-ma.

 

- É dirigida ao senhor Djehuti e a mais ninguém!

 

- És muito refilão, meu rapaz! Terás - a coisa de que te devas censurar?

 

- Aprendi a desconfiar dos desconhecidos. O que me prova que sois realmente um general?

 

- Refilão e desconfiado... Isso são qualidades. O barco estava a acostar.

 

Uns vinte soldados filtravam os viajantes, submetidos a um prolongado interrogatório. Um oficial avançou em direcção a Sepi e saudou-o.

- Sinto-me feliz por vos rever, meu general. Não me atrevo a perguntar-vos se...

 

- A minha mãe morreu. Tive a sorte de estar junto dela nos seus últimos momentos e de dirigir os seus funerais. Era uma mulher recta e sei que o julgamento de Osíris lhe será favorável.

 

Iker não ousava afastar-se.

 

- Este rapaz está convosco, meu general?

 

- Conduzo-o à capital. Põe as tuas coisas em cima de um dos burros, Iker.

 

O aprendiz de escriba obedeceu. O animal não ficaria sobrecarregado por causa disso.

 

O general Sepi avançava em passo rápido.

 

- Se és natural da província da Gazela, porque a abandonas?

- O senhor Khnumhotep não precisa de novos escribas. E eu nasci em Medamud.

 

- Em Medamud, de verdade?

- De verdade.

 

- Porque te afastaste da tua família?

 

- Sou órfão. O velho escriba que me ensinou os rudimentos da profissão morreu.

 

- E tentaste a tua sorte na província da Gazela... Porquê?

- Por acaso.

 

- Por acaso - repetiu o general, céptico. - Não andarás à procura de alguém, por acaso?

 

- Só venho aqui para me tornar um bom escriba.

 

- Pareces-me tão determinado que um fogo muito especial te deve animar. Compreendo que não me digas a verdade para já, mas se desejas fazer carreira nesta província, vais ter de te explicar.

 

- Quando poderei ver o senhor Djehuti?

 

- Falar-lhe-ei de ti e será ele a decidir. És capaz de ter paciência, Iker?

 

- Apenas quando é necessário.

 

Chefe da prestigiosa província da Lebre, Djehutil esquecera a sua idade. Superior dos mistérios de Tot, sacerdote da deusa Maet, pertencia a uma antiquíssima família cujas origens remontavam ao tempo das pirâmides. Depois de ter conhecido os reinados dos Faraós Amenemhat Il e Senuseret II, tinha agora de suportar o de Senuseret, terceiro do nome, de quem os seus conselheiros e informadores lhe diziam muito mal. Porque não permanecia o monarca fechado no seu palácio de Mênfis, onde os cortesãos o lisonjeavam constantemente? Se tinha na realidade o projecto de suprimir as prerrogativas dos chefes de província, a guerra civil seria inevitável.

 

Mas o que censurava afinal o Rei a administradores tão conscienciosos como Khnumhotep ou ele próprio? Os seus domínios eram bem geridos, os rebanhos numerosos e de boa saúde, as oficinas prósperas. É verdade que dispunham de milícias bem equipadas, mas não era um facto que o reduzido exército do Faraó era incapaz de garantir a segurança das províncias?

 

Não havia nada a mudar, pronto! E Djehuti tinha suficiente autoridade para convencer os seus colegas.

 

Um dos seus pequenos prazeres consistia em mudar todos os dias de cadeira de transportadores para as suas inúmeras deslocações. Possuía três, amplas e confortáveis, munidas de um guarda-sol, nas quais quase se podia deitar. Várias equipas de oito homens trabalhavam em alternância, cantando alegremente o antigo refrão: "Os transportadores estão contentes quando a cadeira está ocupada. Quando senhor está presente, a morte afasta-se, a vida é renovada por Sokaris, regente das profundidades, e os defuntos ressuscitam."

 

Djehuti, de cabeça rapada, considerava um ponto de honra não usar peruca, o que não o impedia de continuar a ser vaidoso. Vestia

 

Nota: O seu nome completo era Djehuti-hotep, "Tot está na plenitude". (N. da T.)

 

com frequência uma elegante capa tecida com grande cuidado e um longo saiote que lhe cobria as pernas. Permanecer bem cuidado retardava a velhice.

 

Depois de ter ouvido os relatórios positivos dos seus caseiros, o notável decidira conceder a si próprio um passeio pelo campo. Mas no momento em que ia a sair do palácio, viu o seu amigo de sempre, o general Sepi.

 

Uma simples troca de olhares bastou-lhe para compreender que este estava a viver uma dolorosa provação.

 

- Ninguém pode partilhar o teu desgosto. Sei que não esperas de mim palavras de consolo. Se queres repousar antes de me apresentares o teu relatório...

 

- Apesar da morte da minha mãe, desempenhei a minha missão. As notícias não são nada agradáveis.

 

- Senuseret decidiu-se a tentar a prova de força?

 

- Não sei, porque os meus contactos na corte tornaram-se bruscamente mudos.

 

- Por outras palavras, o Faraó retomou as rédeas da governação. Mau sinal, muito mau sinal... E que mais?

 

- A cidade de Siquém sublevou-se, a sua população massacrou a guarnição egípcia.

 

- O Rei reagiu?

 

- Da forma mais brutal: ordenou ao general Nesmontu que lançasse um ataque massivo. Siquém está de novo sob o controlo egípcio. Portanto, o monarca não hesitava em utilizar a força! Era uma clara mensagem para os chefes de província que recusassem obedecer-lhe. Djehuti voltou as costas à cadeira de transportadores.

 

- Vem, vamos beber vinho na minha pérgola. Siquém, dizias tu; Siquém, com a qual mantemos relações comerciais, não é verdade? Sepi concordou com um movimento de cabeça.

 

- Belicoso como é, esse Rei vai acusar-me de ser cúmplice dos revoltosos! Põe imediatamente a nossa milícia em estado de alerta.

- Egípcios mortos por outros egípcios... Que desastre em perspectiva!

 

- Eu sei, Sepi, mas Senuseret não nos deixa outra opção. Escreve a Khnumhotep e aos outros chefes de província que o conflito está iminente.

 

-Vão julgar que tentais manipulá-los para conseguir uma aliança que eles não querem de maneira nenhuma.

 

- Tens razão. Então, dispensa-te de escrever e cada um que trate de si!

 

O vinho era excelente, mas Djehuti achou-o medíocre.

 

Há um estrangeiro que desejaria ver-vos - disse o general. Espero que não seja um cananeu de Siquém!

 

Não, é um rapaz que vem da província da Gazela com uma carta de recomendação da dama Techat.

 

- Isso não está nos seus hábitos! Em geral, só se recomenda a si mesma. Manda-o embora, não recebo visitas hoje.

 

- Permito-me insistir. Djehuti ficou intrigado.

 

- O que tem de tão excepcional o teu protegido?

- Gostaria que o constatásseis por vós mesmo.

 

O general não era um fabulador e nunca solicitava favores.

- Traz-me esse rapaz.

 

Logo que viu Iker, Djehuti compreendeu o interesse que Sepi sentia por ele. Apesar da sua modesta aparência, o jovem visitante ardia com um fogo tão intenso que nem a própria cheia bastaria para o extinguir.

 

A carta de recomendação da dama Techat era elogiosa.

 

- Nas actuais circunstâncias - declarou Djehuti - tenho mais necessidade de milicianos do que de escribas.

 

- Mas eu, senhor, vim aqui para me tornar escriba. Onde melhor poderia aprender a profissão do que na província de Tot?

 

Qual o motivo dessa ambição?

 

É que estou convencido que o segredo da vida se oculta nas fórmulas de conhecimento. Ora apenas a prática aprofundada dos hieróglifos me permitirá ter acesso a elas.

 

- Não estarás a ser pretensioso?

 

- Estou pronto a trabalhar de dia e de noite.

 

- Prova-o começando sem demora. O meu intendente vai encarregar-se de ti e ficarás alojado no bairro dos aprendizes de escriba. Procura não te evidenciares, pois detesto os agitadores. Se não satisfizeres o teu professor, serás expulso do meu território.

 

Iker retirou-se.

 

- Obstinado, corajoso, independente. Não te enganaste, Sepi. Este rapaz nada tem de vulgar.

 

- Tal como eu, haveis detectado que não possui apenas um carácter forte.

 

- Considera-lo capaz de entrar num templo?

- Deixai-o prestar as suas provas.

 

Contando já com a cólera de Khnumhotep, a dama Techat deixou passar a tempestade.

 

- Porque haveis autorizado esse rapaz a partir?

- O que tinha ele de tão especial, senhor?

 

- Tínhamos feito dele um excelente miliciano e preciso de bons soldados para preservar a minha independência.

 

- Sem dúvida, mas Iker queria ser escriba.

 

- Não vão ser os escribas que se baterão contra os soldados de Senuseret!

 

- Ele sozinho não teria conseguido a vitória. Rabugento, Khnumhotep cruzou os braços.

 

- Repito a minha pergunta: porque o haveis autorizado a partir?

- Porque me parecia excepcionalmente dotado para a sua futura profissão e porque a província da Gazela não lhe podia garantir a formação adequada. A do deus Tot, pelo contrário, proporcionar-lhe-à o que deseja. Não fostes vós mesmo, senhor, que lhe haveis afirmado não ter necessidade de novos escribas?

 

- Talvez, talvez. Mas sou eu que tomo as decisões e mais ninguém! A dama Techat sorriu.

 

- Se eu não me encarregasse do pessoal menor, senhor, ficaríeis sobrecarregado de trabalho. E sabeis tão bem como eu que Iker devia seguir o seu destino.

 

- E vós sabíeis, por acaso, que esse destino passava pela província da Lebre?

 

- Uma simples intuição.

 

- Esse rapaz é estranho. Parece determinado a ponto de ninguém ser capaz de o desviar do seu objectivo. Teria gostado de o conhecer melhor.

 

- Talvez o voltemos a ver.

 

Depois de terem partilhado um sólido pequeno-almoço, enquanto Iker se mantivera de parte, os aprendizes de escriba tinham ido para a sala de aula onde se sentaram em esteiras.

 

Quando o professor entrou, Iker ficou ao mesmo tempo desiludido e magoado: o general Sepi! Portanto, o chefe de província da Lebre tinha-o enganado, enviando-o para uma caserna onde eram formados os milicianos.

 

O jovem levantou-se.

 

- Perdoai, mas não tenho nada a fazer aqui.

 

- Não desejas tornar-te escriba? - perguntou Sepi. É essa realmente a minha intenção.

 

Então, senta-te. Mas sois general e...

 

-- e responsável pela principal escola de escribas da província da Lebre. Ou me obedecem sem pestanejar, ou vão tentar a sorte noutro lado. Os que trabalham sob a minha direcção devem ser rigorosos e disciplinados. Exijo pontualidade e uma apresentação impecável. À mínima negligência, é a expulsão. Comecemos por prestar homenagem ao nosso divino senhor, Tot, e ao antepassado de todos os escribas, o sábio lmhotep.

 

Sepi prendeu um fio-de-prumo à trave principal do lugar.

 

- Olhai com atenção, aprendizes, porque é o símbolo de Tot, imutável no coração da balança. Repele o mal, pesa as palavras, oferece a paz ao conhecedor e faz ressurgir o que fora esquecido.

 

De um cesto em papiro forrado de tecido, o general Sepi tirou o material utilizado pelos escribas: uma paleta de sicômoro, um estojo cilíndrico cheio de cálamos e de pincéis, um saco contendo papiros, outro com pigmentos, uma pequena ferramenta em forma de maço que servia para polir, um brunidor indispensável nas correcções sobre papiro, godés para tinta, pães vermelhos e pretos, tabuinhas de madeira e um raspador.

 

- Como se chama a paleta?

 

- "Ver e OUVIR'" - respondeu um aprendiz.

 

- Exacto - aprovou Sepi. - Não esqueceis que a paleta é uma das incarnações de Tot. Só ele vos permitirá conhecer as palavras de Deus' e penetrar o seu significado. Graças à sua paleta, estão inscritas a duração da vida de Ré, a luz divina, e a realeza de Hórus, protector do Faraó. Manejar a paleta é um acto grave e sagrado. Deve portanto ser precedido de um ritual.

 

O general poisou no chão uma estatueta de babuíno sentado, de olhos profundos e meditativos. Incarnação de Tot, inspirava o escriba recolhido. Depois, o professor encheu um godé com água.

 

- Para ti, mestre da língua sagrada, lanço a energia que animará o espírito e a mão. Eis a água do tinteiro para o teu ka, Imhotep. Depois de um longo momento de silêncio, o professor rectificou a posição de diversos aprendizes que considerava demasiado indolente ou demasiado rígida. Depois, apresentou-lhes os cálamos e os pincéis finamente talhados, com o comprimento de vinte e cinco centímetros.

 

- Algum de vocês conhece o melhor material para os fabricar? - Junco que tenha crescido num pântano salgado - respondeu um aluno.

 

- O buplèvre' não seria preferível? - sugeriu Iker.

- Porquê? - interrogou Sepi.

 

- Porque essa planta é resistente e afasta os insectos.

 

- Não vão escrever já sobre papiro - continuou Sepi - mas sobre tabuinhas de madeira cobertas por uma fina camada de gesso endurecido. Podereis apagar os vossos erros e limpar facilmente a sua superfície. Quando essa camada estiver destruída, espalharão uma nova. Os vossos principais inimigos são a preguiça, a negligência e a indisciplina. Tornar-vos-ão estúpidos e impedir-vos-ão de progredir. Sabei ouvir os conselhos dos que sabem mais do que vós e trabalhai todos os dias com ardor. Se não estais prontos para isso, abandonai imediatamente esta escola.

 

Assustados pela severidade do instrutor, dois aprendizes saíram.

- Tot separou as línguas - prosseguiu Sepi. - Distinguindo as palavras pronunciadas de um país para outro, colocou ao contrário os pensamentos humanos que se desviaram da verdade e do bom caminho. Durante a idade do ouro viviam os deuses que falavam a mesma língua: hoje, confrontam-se os humanos que estão separados do divino e não se compreendem. Mas Tot transmitiu-nos também as palavras de força que aprendereis a decifrar e a inscrever na madeira, o cabedal, os papiros e a pedra. Deveis no entanto respeitar uma regra fundamental: não coloqueis uma palavra em lugar de outra, não confundeis uma coisa com outra. Aqui vos será ensinada a escrita da Casa de Vida, formada por sinais que são também elementos de conhecimento, símbolos carregados de magia e de mistério. Da escrita correcta depende o brilho do espírito. Se julgais que os hieróglifos não passam de desenhos e sons, nunca os compreendereis. Na verdade, contêm a natureza secreta dos seres e das coisas, as essências mais subtis. A linguagem sagrada é uma força cósmica, é ela que cria o mundo. Apenas o Faraó, o primeiro dos escribas, é capaz de a dominar. É por isso que o seu nome, per-aá, significa "a grande casa". Os Hieróglifos não precisam dos homens, agem por eles próprios. Por isso deveis respeitar os textos que descobrirdes e que transmitireis, porque são muito mais importantes do que a vossa minúscula pessoa.

 

Iker estava fascinado.

 

Tinha pressentido tudo aquilo, mas o general Sepi formulava as coisas com tal precisão que se abriam várias portas para múltiplos caminhos.

 

- Não é para a vossa própria glória que vos tornareis escribas precisou o professor - mas a fim de prolongar a obra de Tot. Ele calculou o céu, contou as estrelas, estabeleceu o tempo, os anos, as estações e os meses. O sopro de vida reside no seu punho, o seu côvado é a base de qualquer medida. Ele, que não é vítima nem da desordem nem da irregularidade, estabelece o plano dos templos. A ciência de Tot não consiste em especular em vão, porque demasiada técnica e saber são prejudiciais. Pelas suas palavras aprendereis tanto a construir um edifício como a distribuir com justeza os alimentos ou a calcular a superfície de um campo. O que está no alto é como o que está em baixo, o que está em baixo é como o que está no alto e Tot, o duas vezes grande, ensinar-vos-á a não dissociarem o céu da terra.

 

-Não teremos então senão que copiar fórmulas já feitas! - protestou um aprendiz. - Não é o reconhecimento da nossa fraqueza?

- Se desejas ser forte - respondeu Sepi - sê um artesão de palavras. A verdadeira força é a formulação, porque as palavras bem utilizadas são mais eficazes do que qualquer arma. Alguns escribas são apenas copistas, com efeito, mas não devem ser desprezados por isso. Outros, muito raros, penetram na esfera da criação.

 

- Que qualidades lhes são exigidas? - perguntou Iker.

 

- A escuta, a compreensão e o controlo dos fogos. Tu e os teus camaradas ainda estão muito longe disso! Pegai nas vossas tabuinhas e nos vossos cálamos. Vou ditar-vos o Livro de Kemit e corrigiremos os vossos erros. O que significa este termo?

 

- Kemit é uma palavra formada com a raiz kem - declarou Iker e significa quer "a terra negra", por outras palavras, a terra do Egipto fertilizada pelo lodo, quer "o que está terminado, completo".

 

- Os dois sentidos devem ser levados em consideração - acrescentou Sepi. - Este livro encerra, com efeito, um ensinamento completo destinado aos aprendizes de escribas e tem como finalidade tornar o seu espírito fértil. Preparai o vosso material de escrita.

 

Iker encheu de água duas conchas onde diluiu os seus pães de tinta. O professor ditou os capítulos do Livro de Kemit.

 

O princípio desejava vida, coerência e realização eternos ao Mestre. Depois, tratava da necessária "exactidão de voz", face às divindades e às almas de Heliópolis, a cidade santa de Ré. A Montu, o deus touro da província tebana, era pedida a sua força e o seu auxílio; a Ptah, a alegria e avançada idade.

 

"Que os escritos te tornem feliz", era o voto que era formulado para o escriba, desde que ele escutasse o mestre, respeitasse os mais velhos, não fosse tagarela, escolhesse a exactidão em todas as coisas e lesse os textos úteis, ou seja, os que continham a luz.

 

Uma frase fez sobressaltar Iker: "Possa o bom escriba ser salvo pelo perfume de Punt", e por pouco não perdeu o ritmo do ditado. Ao fim de duas horas de esforços e de atenção, os aprendizes estavam fatigados. Alguns tinham cãibras, outros dores nas costas.

 

O general Sepi passou lentamente pelas fileiras.

 

- Lamentável - concluiu. - Nenhum de vós conseguiu escrever correctamente a totalidade das minhas palavras. A vossa cabeça vacila, os vossos dedos são hesitantes. Amanhã de manhã, recomeçaremos. Os que tiverem cometido muitos erros serão transferidos para outra escola.

 

Iker arrumou lentamente as suas coisas. Quando a aula ficou vazia, o aluno aproximou-se do professor.

 

- Posso fazer-vos uma pergunta?

- Só uma, tenho pressa.

 

- Este livro fala do "perfume de Punt". É um país imaginário, não é verdade?

 

- Qual é a tua opinião?

 

- Por que razão um futuro escriba copiaria imaginações? E por que razão o perfume de um país imaginário o salvaria?

 

- Eu tinha dito uma só pergunta, Iker. Vai ter com os teus camaradas.

 

O seu acolhimento não teve nada de caloroso. Eram todos nativos da província da Lebre e a presença daquele estrangeiro na aula do general Sepi, de tão difícil acesso, irritava mais do que um.

 

Um moreno baixote de olhos agressivos abriu as hostilidades.

- De onde vens tu?

 

- Estou aqui, é o essencial - respondeu Iker.

- Quem te recomendou?

 

- Que importa? A cada um compete provar as suas capacidades. Estamos sós perante a prova.

 

- Visto que consideras assim as coisas, estarás ainda mais só do que os outros!

 

O grupo de aprendizes afastou-se do intruso lançando-lhe olhares rancorosos. De boa vontade lhe teriam batido para lhe dar uma boa lição, mas o general Sepi tê-los-ia punido severamente.

 

Iker almoçou à parte, realizando a sua cópia do Livro de Kemil. A palavra "Punt" não deixava de o atormentar. Fora por causa desse país misterioso que quase morrera.

 

- Preparem o vosso material - ordenou secamente o general Sepi.

Iker detectou imediatamente a extensão da catástrofe.

 

Tinham substituído a sua tabuinha por outra, de tal forma gasta que estava quase inutilizável. Os seus cálamos e pincéis tinham sido partidos. Dos seus pães de tinta, duros como pedras, não conseguiria nada de bom.

 

O rapaz levantou-se.

 

- O meu material foi deteriorado.

 

Divertidos e satisfeitos, os olhares convergiram para ele.

- Conheces o culpado? - perguntou Sepi.

 

- Conheço.

 

Houve murmúrios percorrendo as fileiras dos aprendizes de escribas.

 

- Fazer uma acusação é um acto grave - lembrou o general. Estás seguro de ti?

 

- Estou.

 

- Então indica-nos o seu nome.

 

- O culpado sou eu próprio. Mostrei-me demasiado ingénuo ao acreditar que ninguém ousaria cometer um gesto tão desprezível. Avalio a dimensão da minha estupidez, mas é tarde de mais.

 

Com a cabeça baixa e passo pesado, Iker dirigiu-se para a porta sob olhar trocista dos vencedores.

 

- É alguma vez demasiado tarde para se corrigir? - perguntou general. - Eis um saco que contém o material completo de um escriba profissional. Confio-to, Iker. Se a tua vigilância abrandar uma vez mais, é inútil que voltes a pôr os pés aqui.

 

O aprendiz recebeu aquele inestimável presente com veneração. Procurou em vão uma fórmula de agradecimento para exprimir a sua gratidão.

 

- Vai sentar-te no teu lugar - exigiu o professor - e prepara-te rapidamente.

 

Iker esqueceu os seus inimigos e concentrou-se nos objectos novos e de óptima qualidade que o general acabava de lhe oferecer. Sem tremer, conseguiu uma soberba tinta preta.

 

- Escrevam estas Máximas do sábio Ptah-hotep - disse o professor.

 

Que o teu coração não se torne vaidoso por causa daquilo que sabes. Aconselha-te tanto junto do ignorante como do sábio, Porque não se atingem os limites da arte,

 

E não existe artesão que tenha adquirido a perfeição.

 

Uma palavra perfeita está mais oculta do que apedra verde, Encontra-se no entanto junto das criadas que trabalham na mó'.

 

O texto não era fácil, as ocasiões para cometer erros eram numerosas, mas a mão de Iker corria com destreza. Agarrava-se a cada palavra mantendo presente no espírito o sentido de uma frase completa.

 

Quando Sepi se calou, Iker não sentiu qualquer sensação de fadiga. De boa vontade teria continuado ainda durante muito tempo.

 

O general examinou as tabuinhas. Todos retiveram a respiração.

- Metade de vocês não merece estudar na minha aula. Continuarão a sua aprendizagem com outros professores. Os outros têm ainda muitos progressos a fazer e com certeza que não ficarei com todos. Só um aluno cometeu apenas dois erros: Iker. Será portanto o responsável pela manutenção deste local, que limpará todos os dias. Confio-lhe a chave.

 

Os outros aprendizes não ficaram descontentes com aquela decisão: não era uma humilhação infligida ao estrangeiro? Eles nunca se tinham rebaixado a tarefas domésticas. Mas Iker considerou aquela função como uma honra e não como uma troça. E ficou também contente por ser encarregado do inventário das tabuinhas, ao qual se consagrou com o seu entusiasmo habitual.

 

Que felicidade estar em contacto com aqueles suportes de escrita! Classificou-os por material, atribuindo-lhes um número: tabuinhas de argila crua que necessitavam de uma ponta dura; tabuinhas de sicômoro e de jujubeira, de forma rectangular, constituídas por várias peças reunidas por cavilhas; tabuinhas de calcário cuja superfície era alisada com cuidado.

 

Não ver nenhum dos seus condiscípulos durante todo o dia era uma verdadeira sorte. Esperava que o general Sepi, bem diferente da ideia que Iker fazia de um militar, continuasse a impor-lhe o máximo de trabalho a fim de que esta situação perdurasse.

 

A noite tinha caído quando Iker saiu do armazém para se dirigir ao refeitório onde jantou um estufado de abóbora e queijo fresco. As Máximas de Ptah-hotep tinham-se gravado tão profundamente no seu espírito que não cessavam de o encantar, como uma música fascinante. Passava um raio de luz por baixo da porta do seu quarto.

 

No entanto, não deixara nenhuma lâmpada acesa! Inquieto, empurrou lentamente a porta e descobriu o vandalismo.

 

Esteira rasgada, saiote em farrapos, cofre da roupa em mil pedaços, material de higiene reduzido a migalhas, sandálias desfeitas, paredes sujas de tinta... Descoroçoado, à beira das lágrimas, como conseguiria o rapaz obter o mínimo para viver?

 

Visto que tinha de ali ficar, adormeceu, aniquilado.

 

Quando acordou, desanimado, Iker perguntou a si mesmo se valeria a pena perseverar em tal clima de ódio, onde os golpes baixos arriscavam multiplicar-se. O que mais iriam ainda inventar os seus condiscípulos a fim de o desencorajar? Só contra todos, era uma posição muito pouco confortável para ser mantida durante muito tempo.

 

O aprendiz de escriba varreria a sala antes da aula e depois apresentaria a sua demissão ao general Sepi.

 

Diante da porta estava um embrulho.

 

Mais um acto de maldade, pensou Iker, que hesitou em desatar o cordel.

 

Duas camisas e dois saiotes novos, um par de sandálias, produtos de higiene, uma esteira sólida... Ganhava com a troca! Um dos seus inimigos teria sentido remorsos? Ou gozaria do auxílio de um protector que permanecia na sombra?

 

Foi um Iker elegante que recebeu o professor numa sala limpa como um papiro virgem.

 

Os camaradas ficaram estupefactos: como se arranjara ele para conseguir aqueles fatos? Pelo seu rosto tranquilo, poder-se-ia mesmo jurar que não tinha sofrido nenhum prejuízo!

 

- Eis outras Máximas de Ptah-hotep - disse o general Sepi. Desta escola deverão em breve sair diversos papiros com a versão completa desta obra-prima:

 

Quando a escuta é boa, apalavra é boa.

 

O que escuta é o mestre do que é proveitoso, Escutar éproveitoso para o que escuta. Escutar é melhor do que tudo,

 

       (assim) nasce o amorperfeito'

 

De repente, Iker teve a sensação de já não copiar, mas sim de escrever. Não se contentava com transmitir frases já pronunciadas, participava no seu significado. Pela forma das suas grafias, pela especificidade do seu desenho, dava uma cor ainda desconhecida ao pensamento do sábio. Era um acto ínfimo, é certo; no entanto, pela primeira vez, o aprendiz sentia a força da escrita.

 

Terminada a aula, Iker varria o local. Ao sair, esbarrou com um grupo dos seus camaradas, para os quais discursava o moreno baixote de olhos agressivos.

 

- Renunciem a preparar outro golpe baixo - recomendou-lhes

Iker em voz calma. - Desta vez, não ficarei passivo.

 

- Julgas que nos fazes medo? Somos dez e tu és apenas um!

- Detesto a violência. Mas se persistirdes nas vossas intenções destruidoras, serei obrigado a dar-vos um correctivo.

 

- Tenta, para ver!

 

Furioso, o pequenote moreno tentou atacar Iker com o punho fechado.

 

Sem compreender o que lhe acontecia, foi atirado pelos ares e caiu pesadamente de costas. Ao acorrer a socorrê-lo, o seu fiel lugar-tenente sofreu a mesma sorte. E quando um terceiro, o mais corpulento do grupo, se lhes juntou na humilhação, os outros recuaram.

 

Pelo olhar que Iker lhes lançou, todos compreenderam que podia ser muito mais violento.

 

- Com certeza teve formação militar! - exclamou um magricela.

- Esse fulano é capaz de nos quebrar os ossos. Deixemo-lo em paz antes que ele fique realmente furioso.

 

Nem mesmo o pequenote moreno insistiu.

 

Enquanto o combalido grupo se afastava, Iker agradeceu a sorte que tivera. Se tivessem tido a ideia de o atacar todos juntos, teria sido derrotado. E agradeceu também ao chefe de província Khnumhotep por tê-lo obrigado a tornar-se um guerreiro razoável.

 

A caminho do refeitório, o aprendiz viu o voo de um íbis tão majestoso que se imobilizou para o contemplar.

 

A ave de Tot começou a descrever grandes círculos por cima de Iker, como se quisesse fazer-lhe compreender que se dirigia realmente a ele. Depois voou para o lado do Nilo, regressou ao rapaz e retomou a direcção do rio.

 

Iker seguiu-o. Por diversas vezes o ibis efectuou as mesmas idas e vindas. Beneficiando da sua experiência de corridas de fundo, o aprendiz de escriba percorreu num tempo recorde a distância que o separava do Nilo. A ave esperava-o por cima de um maciço de papiros, Inclinou-se uns instantes sobre a folhagem em umbela, que debicou com o bico pontiagudo, e depois partiu em direcção ao céu.

 

O mensageiro do deus dos escribas tinha-o trazido àquele lugar deserto com certeza para que fizesse alguma descoberta. Aventurar-se naquele maciço vegetal não deixava de apresentar os seus perigos. Podia dissimular-se ali um crocodilo ou uma serpente. O explorador bateu com o pé no chão antes de afastar as hastes e penetrar nos papiros.

 

O som de gemidos fê-lo estacar. Havia um bebé naquele maciço!

 

Esquecendo os perigos, Iker avançou tão depressa quanto pÔde e caiu sobre... um burrinho! Um pequeno burro ferido numa pata, enrolado sobre si mesmo esperando a morte.

 

Lentamente, para não o assustar, Iker libertou-o da lama de que estava prisioneiro. O infeliz já só tinha pele e osso, com as costelas bem evidentes.

 

- Vou pegar-te ao colo - anunciou-lhe Iker - e tratarei de ti. Com os grandes olhos castanhos cheios de terror, era evidente que o burrinho não guardava boas recordações dos seus primeiros contactos com a espécie humana.

 

A fim de o acalmar, Iker sentou-se junto dele e fez uma primeira tentativa para o acariciar. O ferido estremeceu de pavor, persuadido de que iam bater-lhe outra vez. O contacto de uma mão meiga e afectuosa surpreendeu-o e tranquilizou-o Pouco a pouco, o jovem escriba conquistou a sua confiança.

 

- Tenho de te fazer sair daqui e alimentar.

 

O burrinho não era muito pesado. Iker receava uma reacção violenta; pelo contrário, o seu protegido entregou-se, sentindo-se finalmente em segurança.

 

Bruscamente, quando o seu salvador metia pelo caminho que conduzia aos campos cultivados, o burrinho agitou-se e gemeu. A razão do seu medo não era difícil de adivinhar: um camponês armado com uma forquilha vinha na direcção deles em grandes passadas.

 

- Deita esse monstro para o pântano - arrotou ele - e que seja devorado pelos crocodilos!

 

- Onde vês um monstro? Não passa de um pequeno burro ferido e esfomeado.

 

- Não olhaste bem para ele!

 

- Acho que sim e constatei que tinha sido maltratado. Se a culpa é tua, serás condenado.

 

- Culpado por me ter desembaraçado de uma criatura maléfica? Pelo contrário, felicitar-me-ão!

 

- Porque o acusas assim?

- Vou-te mostrar.

 

- Não, não te aproximes!

 

- Vê a nuca dele! Olha a marca!

 

Iker notou a presença de alguns pêlos arruivados.

 

- Este animal é uma criatura de Set, traz desgraça!

 

- Foi o ibis de Tot que me conduziu ao lugar onde abandonaste este pequeno animal depois de lhe teres batido. Achas que o deus dos escribas é incapaz de distinguir o mal?

 

- Mas a mancha... Os ruivos são criaturas de Set!

 

- Talvez ele possua a sua força, tendo sido purificado pelo ibis de Tot.

 

- E tu, quem és?

 

- Um aprendiz de escriba da aula do general Sepi. O tom do camponês mudou.

 

- Bem, talvez pudéssemos chegar a um acordo. Esse burrico é meu, mas dou-to com a condição de não apresentares queixa contra mim.

 

- Pedes-me muito.

 

- Ouve, eu achei que estava a fazer bem e um tribunal com certeza que me absolveria! Como podia prever a intervenção de Tot?

- Negócio feito, amigo!

 

Feliz por se safar tão bem, o camponês desapareceu. Quase de imediato, o burrinho descontraiu-se de novo.

 

No momento em que a suave brisa vinda do norte se levantou, o pequeno animal farejou o ar com interesse. Surgiu finalmente nos seus olhos um relâmpago de curiosidade pelo mundo que o rodeava. Com o olhar cheio de um amor infinito pelo seu salvador, despertava para a vida.

 

- O teu nome está escolhido - considerou Iker. - Chamar-te-ás Vento do Norte.

 

Ocultos no Delta, a dois dias de marcha a nordeste da cidade de Imet, Goela-Torcida e os seus alunos viviam da caça e da pesca. Andavam todos os dias em paródias e o chefe aproveitava para endurecer ainda mais o treino. Em semelhante ambiente, era fácil organizar emboscadas e imaginar exibições. Dois recrutas tinham perdido nelas a vida, mas tratava-se de um mínimo bastante satisfatório. Provava que o trabalho dava os seus frutos e que os comandos em breve estariam prontos para agir.

 

O objectivo de Goela-Torcida era tornar-se o chefe do melhor bando de salteadores jamais visto em terras do Egipto. Infligiria tanto sofrimento aos seus inimigos que estes acabariam por pronunciar o seu nome com terror.

 

- O vigia assinala a presença de intrusos, chefe.

 

- Não é possível... Vamos divertir-nos! Todos em posição.

 

É evidente que aquela eventualidade tinha sido prevista. E a tropa de Goela-Torcida preparara-se para eliminar os que viessem incomodá-los.

- Quantos curiosos?

 

- Quatro homens.

 

- Fácil de mais! Bastamos dois para tratar deles.

 

Era um dia de sorte para Shab, o Torto, porque Goela-Torcida o reconheceu no momento em que ia lançar o seu punhal.

 

Com o seu acólito, saiu dos juncos como uma fera.

 

- Saudações, camarada! Boa viagem?

- Meteste-me medo, imbecil!

 

- Mas... onde está o patrão-mor?

 

- Uma patrulha de polícias do deserto prendeu-o e conduziu-o provavelmente para Siquém.

 

- Porque não a exterminaram?

 

- Eram demasiado numerosos. E depois, o Anunciador deu ordem para fugirmos.

 

- Para um fulano como ele - lamentou Goela-Torcida - triste fim de carreira.

 

- O que estás tu a dizer? Vamos dirigir-nos a Siquém e libertá-lo.

- Estás a delirar, Torto! Achas que os egípcios vão cometer o erro de deixar a cidade sem vigilância? Vai haver um verdadeiro regimento ali instalado e não chegamos para eles.

 

- Os teus alunos não estão bem treinados?

 

- Para operações pontuais, sim; não para um choque frontal.

- Não vamos atacar a caserna, mas a prisão.

 

- Em primeiro lugar, vai estar bem guardada, e nada prova que consigamos libertar o Anunciador, além disso, vamos chegar demasiado tarde com certeza.

 

- Porquê?

 

- Porque vai ser executado. Achas que o Faraó tratará com ternura o condutor dos revoltosos?

 

Shab fez uma careta.

 

- O teu Anunciador já está morto. Irmos a Siquém equivaleria a um suicídio, Torto.

 

- Então o que propões?

 

- Aceitemos a fatalidade e ocupemo-nos do nosso próprio futuro. Com esta equipa, faremos melhor do que os salteadores das areias.

- Com certeza, com certeza, mas o Anunciador...

 

- Esquece-o! Agora, está a assar nas fornalhas do inferno.

- E se lhe déssemos uma oportunidade?

 

- Que oportunidade? - espantou-se Goela-Torcida.

 

- A de se evadir. Sabes bem que não é um homem vulgar. Os seus poderes talvez lhe permitam escapar aos seus inimigos.

 

- Mesmo assim, foi preso!

 

- E se tivesse querido que assim fosse?

 

- Com que intenção?

 

- A de nos provar que ninguém o pode aprisionar!

- Tomas o teu Anunciador por um deus!

 

- Possui a força dos demónios do deserto e saberá utilizá-la.

- Tudo isso é conversa... Nós somos livres, bem vivos e prontos para roubar egípcios.

 

- Fiquemos aqui até à lua nova - propôs Shab, o Torto. - Se o Anunciador não tiver chegado até esse dia, partiremos.

 

- Está bem - concordou Goela-Torcida. - Aproveitaremos para comer bem e beber bem enquanto esperamos. Nas quintas e nas vivendas deve haver belas reservas de vinho e de cerveja. Deixaremos as raparigas para o fim.

 

Numa cela com chão de terra batida, uma dezena de homens, todos prostrados, com excepção do Anunciador. Dissimulada num pano da sua túnica, a rainha das turquesas afastava a má sorte. De facto, desde que fora lançado naquela enxovia malcheirosa, o futuro desanuviara-se porque um dos prisioneiros era parecido com ele como um irmão. Quase tão alto como ele, rosto cavado, a mesma constituição. Apenas a barba devia crescer ainda mais alguns dias. O Anunciador estava certo de obter esse prazo, pois os militares egípcios interrogavam de forma aprofundada os citadinos antes de se ocuparem dos pastores presos nos arredores da cidade e ali reunidos.

 

- Vocês não me conhecem - declarou - mas eu conheço-vos. Ergueram-se para ele olhares interrogativos.

 

- Vocês são trabalhadores corajosos, explorados por um ocupante tão cruel que haveis renunciado a lutar. Eu vim para vos ajudar.

- Achas-te capaz de deitar abaixo as paredes desta prisão? ironizou o proprietário de um rebanho de carneiros.

 

- Acho, mas não como tu imaginas.

- Como vais proceder?

 

- Haveis ouvido falar do Anunciador? Apenas um pastor reagiu.

 

- Não é um mágico aliado dos demónios do deserto?

- Com efeito.

 

- Por que havia de nos vir libertar?

 

- Não Virá.

 

- Então para que estás a falar nisso?

- Não virá, porque está aqui.

 

O Anunciadorpoisou a mão sobre o ombro do idiota que era seu sósia.

 

- Eis o vosso salvador.

- Ele? Mas mal sabe falar!

 

- Até agora não o havíeis reconhecido e foi o vosso erro mais grave. Dentro de menos de uma semana, estará pronto para vencer o adversário e nos libertar.

 

Os pastores encolheram os ombros e cada um se acocorou no seu canto. O Anunciador começou a formar o seu substituto, fazendo-o repetir algumas frases simples que os habitantes de Siquém tinham ouvido mil vezes. Demasiado feliz por lhe darem assim importância e poder escapar ao clima pesado da prisão, o idiota demonstrou a melhor boa vontade.

 

Passara uma semana.

 

A porta da cela abriu-se com estrondo.

 

- Saiam todos, vão ser interrogados - anunciou um polícia egípcio.

 

- Só obedecemos ao Anunciador - declarou um pastor que aceitara entrar no jogo.

 

O polícia engasgou-se.

- Repete!

 

- O Anunciador é o nosso guia. É ele, e só ele, que dita a nossa conduta.

 

- E onde está esse famoso gula?

- Aqui, entre nós.

 

Os prisioneiros afastaram-se para deixar à vista o substituto a quem o Anunciador pusera o seu turbante e vestira a sua túnica.

 

O polícia apoiou a ponta do cacete no peito da estranha personagem.

- Então és tu o Anunciador?

 

- Sou eu.

 

- E foste tu que desencadeaste a revolta de Siquém?

 

- Deus elegeu-me para combater os opressores do povo, e conduzi-lo-ei à vitória.

 

- Vejamos, então! Vamos apresentar-te ao general Nesmontu, meu valentão.

 

- Nenhum inimigo conseguirá vencer-me, porque sou o aliado dos demónios do deserto.

 

- Amarrem-no - ordenou o polícia aos seus colegas. O verdadeiro Anunciador aproximou-se.

 

- Nós somos pastores - murmurou - e não percebemos nada desta história. Temos os nossos animais à espera. Se não tratarmos rapidamente deles, perderemos tudo.

 

Filho de camponês, o polícia foi sensível àquele argumento.

- Está bem, vamos interrogar-vos. Depois veremos.

 

Seguindo o plano previsto, os pastores protestaram a sua total inocência. Um após outro foram libertados. A polícia estava demasiado contente por ter descoberto a caça grossa para se preocupar com o gado miúdo,

 

O general Nesmontu observou com desconfiança o homem do turbante.

 

- Então és o revoltoso que ordenou o massacre da guarnição egípcia de Siquém?

 

- Sou o Anunciador. Deus escolheu-me para combater os opressores do povo e...

 

-... E conduzi-lo-ás à vitória, eu sei. já repetiste isso vinte vezes. Quem está por trás de ti? Os Asiáticos, os líbios ou apenas os Cananeus?

- Deus escolheu-me para...

 

O general esbofeteou o prisioneiro.

 

- Por vezes lamento que o Faraó proíba a prática da tortura. Para pergunta clara, resposta clara: actuas só, ou tens um comanditário?

- Deus escolheu-me...

 

- Basta! Levem-no e continuem a interrogá-lo. Quando tiver muita sede, talvez acabe por falar.

 

Graças aos ensinamentos do Anunciador, o idiota estava convencido de poder fazer frente aos egípcios. Nenhum deles conseguiu arrancar-lhe outras palavras além das fórmulas feitas cuja repetição o mantinha imperturbável.

 

Deitámos realmente a mão a este criminoso louco - considerou o ajudante-de-campo do general.

 

- Parece-me necessária uma última verificação: passeiem-no pelas ruas da cidade.

 

Logo aos primeiros passos, a patrulha encarregada da missão julgou que o prisioneiro era um impostor, porque ninguém se manifestava à sua passagem.

 

De repente, uma mulher gritou.

- É ele, reconheço-o!

 

Um velho confirmou.

 

- O Anunciador está de regresso!

 

Em poucos segundos, foi o grande ajuntamento. Os polícias libertaram-se com brutalidade e reconduziram o seu prisioneiro à caserna.

- Não há dúvida, meu general - declarou um oficial. - Este louco é realmente o Anunciador. Se queremos evitar novas dificuldades, é necessário mostrar o seu cadáver à população o mais depressa possível.

 

- Fá-lo, beber veneno - ordenou Nesmontu.

 

Enquanto o general redigia um longo relatório dirigido ao Faraó, o idiota entrava na morte com uma perfeita despreocupação. Não lhe tinha o Anunciador prometido que seria recebido num palácio magnífico, cheio de soberbas mulheres nada esquivas que satisfariam todos os seus desejos ao mesmo tempo que escanções lhe serviriam os melhores vinhos?

 

Iker não estabelecera qualquer relação com os seus condiscípulos e consagrava-se exclusivamente ao seu trabalho. À noite, contentava-se com uma sopa de lentilhas e favas cozidas, temperadas com cebola, e com uma côdea de pão esfregada com alho, antes de acender diversas lâmpadas alimentadas a óleo de rícino. Barato, utilizado como unguento pelos mais pobres, servia sobretudo como combustível para a iluminação.

 

O aprendiz de escriba não se cansava de copiar os textos clássicos a fim de os gravar na memória, de adaptar a mão e de conseguir uma escrita tão rápida como legível. Ao desenhar o pensamento, tornava-o tão vivo que acompanhava os múltiplos contornos. Os hieróglifos eram muito mais do que uma sucessão de imagens; neles ressoavam os actos criadores das divindades para dar a cada palavra a sua plena eficácia.

 

Era possível prolongar a vida e torná-la cintilante ao escrever? À medida que o seu espírito assimilava os sinais, que se transformava neles e por eles, Iker estava cada vez mais convencido disso. Não lhe interessava permanecer um simples escriba confinado a tarefas administrativas; queria penetrar o mistério daquela linguagem, simultaneamente abstracta e concreta, que criara a civilização egípcia.

 

Trabalhando tão intensamente, o rapaz evitava pensar nela. Mas na volta de uma frase, o seu rosto reaparecia e arrastava-o numa esperança insensata. Nunca mais a voltaria a ver, a menos que as suas competências de escriba lhe abrissem as portas de Abido. Talvez houvesse outras festas e outros rituais que ela honrasse com a sua presença!

 

Não, não renunciaria. Era por ela que partia à conquista da gramática, do léxico, da correcta organização dos hieróglifos que, pela sua disposição na madeira, no papiro ou na pedra, emitiam uma harmonia que apenas os mestres da escrita conheciam.

 

Iker ia muitas vezes ver o seu burrinho, confortavelmente instalado numa cama de palha mudada todas as manhãs. Dotado de um sólido apetite, Vento do Norte engordava a olhos vistos e o seu ferimento não passaria em breve de uma má recordação.

 

Durante o seu primeiro passeio pelo campo, foi o animal que tomou a dianteira e reencontrou o caminho sem cometer o mínimo erro. Havia nos seus olhos uma intensa alegria.

 

- É bom ter um verdadeiro amigo - confessou-lhe Iker. - A ti posso dizer tudo.

 

O aprendiz de escriba contou a sua história a Vento do Norte sem omitir nada. As grandes orelhas endireitaram-se, atentas.

 

- Que aquele bando de escribalhaços pretensiosos não goste de mim, tanto me faz. Ainda me dão mais força! Ao ver aqueles cérebros tão imbuídos deles próprios que não respeitam nem os outros nem os símbolos sagrados, apenas desejo traçar o meu próprio destino sem ter a sua opinião em conta. O que caracteriza os imbecis é a sua esterilidade, que os torna invejosos e ciumentos. Tentam destruir os que não são parecidos com eles. Tu e eu somos realmente irmãos. Unidos, far-lhes-emos frente.

 

O burro lambeu a mão do seu salvador, que lhe retribuiu com longas carícias antes de regressar ao seu quarto. Como todas as noites, poisava sobre o ventre o marfim mágico que a dama Techat lhe oferecera para afastar os génios maus. De manhã, quando acordava, metia-o entre os seus dois pequenos amuletos, representando um falcão e um babuíno, para os recarregar de energia.

 

- Amanhã - anunciou o general Sepi aos dez alunos chamados a tornar-se escribas de elite - é dia de repouso.

 

Como era habitual, Iker foi o último a sair da aula.

 

- General, solicito um favor.

 

- Autorizo-te a não varrer a aula durante esse dia de descanso.

- Permiti que consulte os arquivos da província.

 

- Não preferes divertir-te ou descansar?

 

- Mais cedo ou mais tarde serei confrontado com esse tipo de documentos. Desejo começar o mais depressa possível.

 

- Que género de arquivos?

 

- Oh! Um pouco de tudo! Não desejo encerrar-me numa especialidade.

 

- Vou redigir-te um salvo-conduto. O rapaz dissimulou a sua excitação.

 

Munido do precioso sésamo, apresentou-se ao responsável.

- Que documentos desejas consultar?

 

- Tudo o que se refira aos barcos, às tripulações e às expedições comerciais.

 

- Desde que data?

 

- Digamos... nos últimos três anos.

 

O empregado conduziu-o a uma ampla sala de tijolos. Papiros e tabuinhas estavam cuidadosamente arrumados em prateleiras.

 

- Não tolero nenhuma desordem. À mínima negligência, pedirei ao teu professor que anule a autorização.

 

- Respeitarei à risca o regulamento - prometeu Iker.

 

Ele, tão impaciente, revelou-se metódico. O número de horas de pesquisa necessárias não o assustava, antes pelo contrário. No meio de uma tal massa de documentos, havia de descobrir com certeza um indício.

 

A província da Lebre possuía numerosos barcos, mas nenhum se chamava Veloz. Ultrapassada essa decepção, Iker esperou que os dois marinheiros cujo nome conhecia tivessem pertencido a outras tripulações recenseadas pela administração. Mas nem vestígio de Faca-Cortante ou Olho-de-Tartaruga. Quanto às diversas expedições comerciais, nenhuma tivera o país de Punt como destino.

 

Apenas a boa saúde de Vento do Norte, que crescia a olhos vistos, e a riqueza das aulas dadas pelo general Sepi, evitavam que cedesse ao pessimismo.

 

Quando ia a sair da sala de aula, que acabava de limpar nos mínimos recantos, Iker esbarrou com três raparigas tão elegantes como trocistas. Vestidos leves, pulseiras nos pulsos e nos tornozelos, colares de pérolas, diademas adornados com flores... Verdadeiras princesas orgulhosas por exibirem as suas riquezas!

 

- És tu o escriba Iker? - perguntou a mais alta, com voz sedutora.

- Sou apenas um aprendiz.

 

- Parece que trabalhas muito - sussurrou a mais nova, de olhar malicioso.

 

- Do meu ponto de vista, nunca se trabalha o suficiente. Há tantos textos importantes a estudar!

 

- Não acaba por ser um pouco aborrecido?

 

- Pelo contrário! Quanto mais se praticam os hieróglifos, mais maravilhas descobrimos.

 

- E a nós, como nos achas?

Iker corou até às orelhas.

 

- Mas eu... Como posso avaliar...? Perdoai, tenho de tratar do meu burro.

 

- Não somos mais sedutoras do que esse animal? - perguntou a que ainda não tinha falado.

 

- As minhas maiores desculpas, mas estou realmente apressado. Fugindo, Iker conseguiu escapar àquelas três graças que se pareciam de forma surpreendente. A sua diferença de idade devia ser mínima e era difícil distingui-las ao primeiro olhar. Mas a sua beleza era demasiado artificial, a sua atitude demasiado afectada; e o aprendiz fazia apenas um voto: que elas deixassem de o importunar.

 

Esse desejo não foi realizado.

 

Nessa mesma noite, a mais nova batia à porta do seu quarto.

- Não te incomodo, Iker?

 

- Não... Enfim, sim... Não podeis entrar aqui, porque...

- Porque já há outra rapariga?

 

- Não, claro que não!

 

- Então, deixa-me oferecer-te o que preparei.

 

Estava excessivamente maquilhada: demasiado kbolverde em redor dos olhos, demasiado ocre vermelho nos lábios, demasiado perfume.

 

Poisou dois pratos no chão.

 

- O primeiro contém pastéis feitos de frutos da jujubeira - explicou. - A minha criada esmagou-os para obter uma farinha muito fina e eu própria acrescentei mel antes de levar os bolos a cozer ao forno. O segundo, um queijo com ervas preparado com o leite da nossa melhor vaca. Nunca deves ter comido alimentos tão delicados, não é verdade? Se fores gentil comigo, nunca mais te faltará nada.

 

- Não posso aceitar.

- Porquê?

 

- Sois certamente alguém muito importante e eu não passo de um aprendiz de escriba.

 

- Porque não te hás-de tornar também alguém importante? A minha ajuda será muito eficaz, podes crer!

 

- Prefiro desembaraçar-me só.

 

- Vamos, não te faças forte! Atreve-te a dizer que não te agrado...

Iker olhou-a a direito nos olhos.

 

- Não me agradais.

 

- Gostas de correr riscos, Iker. Ignoras realmente quem sou?

- Quem quer que sejais, recuso as vossas facilidades.

 

- Estará o teu coração já ocupado?

- Isso só a mim diz respeito.

 

- Esquece-a! Como ousaria ela comparar-se com a filha de Djehuti, o chefe de província da Lebre? As minhas irmãs e eu escolhemos os homens com os quais temos prazer. Tu és um desses felizes eleitos.

 

Começou a fazer deslizar lentamente do ombro uma das alças do vestido.

 

- Saí imediatamente! - exigiu Iker.

- Não me humilhes, vais pagar caro!

 

- Parai com esse jogo doentio e deixai-me em paz. É a tua última palavra?

 

Haveis-me compreendido perfeitamente.

 

Ela reajustou a alça lançando um olhar de ódio ao aprendiz de escriba, que pegou nos dois pratos.

 

- Não esqueçais o que vos pertence.

 

- Vives as tuas últimas horas nesta província, insolente!

 

Depois de ter alimentado o seu burro, Iker dirigira-se ao refeitório. Só na última colherada de sopa notou um gosto estranho. Bebeu muita água a fim de se libertar daquela impressão desagradável e só conseguiu o resultado inverso. A própria água lhe pareceu imprópria para beber.

 

O aprendiz de escriba quis falar com o cozinheiro, mas este tinha desaparecido.

 

E, de repente, a cabeça começou a andar à roda. Dominado pela vertigem, Iker caiu no chão e não se conseguiu levantar.

 

A vista turvou-se, mas ainda conseguiu ver os vultos das três filhas de Djehuti.

 

A mais nova debruçou-se sobre a sua vítima.

 

- Descansa, não vais morrer envenenado. Administrámos-te um simples sonífero para que fiques à nossa mercê. Agora vamos fazer-te beber álcool de tâmaras, Muito álcool. A tua pele e a tua roupa ficarão impregnadas dele. Será um aprendiz de escriba completamente embriagado que o pessoal do refeitório encontrará aqui. Divertido, não achas?

 

Iker tentou protestar, mas as suas palavras incoerentes embrulharam-se.

 

- Dorme bem, pequeno insolente que ousou repelir-nos! Quando acordares estaremos vingadas. E tu terás perdido tudo.

 

- Pareces um leme torcido - disse o general Sepi a Iker - uma capela sem o seu deus, uma casa vazia! Ensina-se um macaco a dançar, treina-se um cão, consegue-se mesmo agarrar um pássaro pelas asas, mas tu... como te hei-de educar? O teu coração é agitado, os ouvidos surdos! Tu, um aluno da minha aula, embebedaste-te e sujaste a tua roupa de escriba.

 

- Fui vítima de uma conspiração - declarou o acusado, cujo espírito estava ainda nublado.

 

A cólera do general pareceu acalmar.

 

- E quem terão sido os conspiradores?

 

- Pessoas que se aproveitaram da minha credulidade.

 

- O seu nome!

 

- Sou o único responsável, deveria ter desconfiado mais. Drogaram a minha comida e fizeram-me beber à força.

 

- Quem?

 

- Se vo-lo dissesse, não me acreditaríeis. E se me acreditardes, nada podereis fazer para castigar os culpados. O seu único objectivo era desconsiderar-me a vossos olhos. O que merece um aprendiz de escriba reconhecido como bêbedo senão ser expulso da vossa escola e mesmo da província que o acolhera?

 

- Factos são factos, Iker. E as tuas explicações são demasiado confusas para serem credíveis. Se queres provar a tua inocência, tens de indicar os teus adversários e organizar uma confrontação.

 

- Isso não conduziria a nada, general.

 

- Então, apenas um sinal do outro mundo poderia modificar a minha decisão.

 

Sepi chamou dois soldados para acompanharem Iker à fronteira sul da província da Lebre. O professor lamentava separar-se assim do seu melhor aluno, mas a falta era demasiado grave.

 

- Além, meu general, veja! - exclamou um militar, recuando. Um camaleão de ventre branco acabava de penetrar no compartimento. Ergueu os estranhos olhos para Sepi, que pronunciou de imediato uma fórmula de apaziguamento. Depois de uma breve hesitação, o animal retirou-se.

 

- O camaleão é uma das manifestações de Anúbis - explicou ele a Iker. - Pareces gozar de extraordinárias protecções.

 

- Vós... vós não ides expulsar-me?

 

- Quem seria suficientemente louco para ignorar a intervenção de Anúbis?

 

- Podereis acreditar, general, que um dia eu venha a pertencer ao Círculo de Ouro de Abido?

 

Sepi ficou rígido. Iker teve a sensação de contemplar uma estátua de olhos inquisidores.

 

- Quem te falou desse Círculo?

 

- É mais do que uma simples expressão poética, não é verdade?

- Responde à minha pergunta.

 

- Um jardineiro. Os nossos caminhos cruzaram-se e depois separaram-se.

 

- Os poetas sabem fazer-nos sonhar, meu rapaz. Mas tu trabalhas para te tornares escriba e te ocupares da realidade.

 

Em frente de Djehuti, enterrado no seu cadeirão de encosto alto, as três filhas agitavam-se de impaciência.

 

- Podemos finalmente falar? - perguntou a mais velha.

- Um momento, estou a acabar o estudo de uma pasta.

 

O chefe de província dobrou sem pressas um longo papiro.

- Então o que se passa com vocês, minhas doçuras?

 

- Pai, estamos indignadas e apelamos ao nosso juiz supremo!

- Referes-te à deusa Maet?

 

- Não, a ti! Acabam de ser cometidos no teu território actos abomináveis e o culpado ficou impune.

 

Djehuti pareceu impressionado.

 

- É muito grave, com efeito. Sabem mais alguma coisa? A mais nova interveio com veemência.

 

- O aprendiz de escriba Iker roubou álcool de tâmaras e embebedou-se. É uma atitude indigna e inqualificável! E esta manhã vimos esse malandro entrar outra vez na escola do general Sepi, como se nada se tivesse passado! Deves intervir imediatamente, pai, e expulsar esse Iker da nossa província.

 

Djehuti olhou as filhas com uma gravidade matizada de ironia.

- Descansem, minhas doçuras, já tirei esse assunto a limpo.

- O que... o que queres dizer?

 

- Esse infeliz rapaz foi vítima de uma perfídia, mas a protecção do deus Anúbis, que surgiu sob a forma de um camaleão, permitiu-nos compreender que dizia a verdade.

 

- Acusou alguém? - interrogou a mais velha, ansiosa.

 

- Não, é uma prova suplementar da sua generosidade. Tu e as tuas irmãs não terão qualquer suspeita?

 

- Nós? Mas como... Não, claro que não!

 

- Já desconfiava. Fiquem a saber que considero Iker como um futuro escriba de grande valor e que não admitirei mais nenhum ataque contra ele. Seja quem for o autor, será severamente castigado. Estamos entendidos, minhas doçuras?

 

As três filhas de Djehuti abanaram a cabeça afirmativamente e saíram da sala de audiências, na qual entrou um homenzinho muito magro, transportando uma sacola de cabedal que parecia demasiado pesado para a sua fraca constituição.

 

- Ah, médico Gua! Esperava-os já há algum tempo.

 

- Sois o chefe desta província - retorquiu o clínico com o seu habitual tom afectado - mas não sois o único a quem tenho de tratar. Entre as crises de reumatismo, as otites e as úlceras, não sei para onde me hei-de virar. Parece que todos os doentes passaram palavra uns aos outros esta manhã! Seria necessário que os meus jovens confrades fossem um pouco mais competentes e pusessem mais alma no que fazem. Bom... De que vos queixais hoje?

 

- Uma digestão difícil e...

 

- Já ouvi o suficiente. Comeis de mais, bebeis de mais, trabalhais muito e não dormis o suficiente. E tendes uma idade que vos recusais a aceitar. Face a essa obstinação, a medicina é impotente. É inútil esperar uma alteração dos vossos hábitos. Sois o pior dos meus pacientes, mas mesmo assim sou obrigado a tratar-vos.

 

Cada consulta começava pelo mesmo discurso. Djehuti evitava interromper o doutor Gua, cujo tratamento sempre se mostrara à altura do seu diagnóstico.

 

Da sacola tirou um boião com a forma de uma personagem de joelho em terra, transportando um vaso ao ombro e segurando-o com a mão esquerda. Traçada pela mão do terapeuta, a inscrição dizia: "Estou cansado de suportar tudo."

 

- Eis uma mistura laxativa composta por levedura de cerveja, óleo de rícino e alguns outros ingredientes que não tendes necessidade de conhecer. O vosso estômago deixar-vos-á em paz, esquecereis o vosso tubo digestivo e acreditareis que estais de boa saúde. Erro fatal, mas que posso eu fazer? Tornaremos a ver-nos depois de amanhã.

 

Formiga infatigável, Gua partiu para tratar outro paciente.

 

E foi a vez do general Sepi aparecer diante do chefe de província.

- A vossa saúde, senhor?

 

- Há pior, mas creio que chegou o tempo da regeneração.

 

- Os meus ritualistas estão prontos - declarou Sepi. - A água de Abido está à vossa disposição.

 

- Vais precisar de um escriba assistente: por que não Iker? O general estava hesitante.

 

- Não será um pouco cedo de mais?

 

- Alguma vez é cedo de mais para formar um ser cujo caminho foi traçado pelos deuses?

 

- Teria gostado de ter mais tempo para o preparar, o...

 

- Se ele é na realidade aquele que imaginamos - cortou Djehuti

- viver esse ritual despertá-lo-á mais para si próprio. Se nos enganámos, será apenas um fanfarrão a mais que quebrará os dentes nas suas próprias ilusões.

 

Sepi teria desejado proteger mais o seu melhor aluno, mas não podia fazer mais do que curvar-se.

 

Iker continuava a não ter o mínimo contacto com os seus camaradas, que tinham ciúmes dele por causa dos seus excelentes resultados. Nenhum duvidava que o estrangeiro era o aluno mais brilhante da aula, muito à frente do segundo. Não só detectava o sentido de textos difíceis com uma insolente facilidade, como ainda conseguia resolver qualquer exercício como se não tivesse nenhuma dificuldade. E o general Sepi acabava de lhe confiar a redacção de um decreto referente às modalidades de agrimensura depois da retirada da água da cheia.

 

Por outras palavras, Iker era nomeado escriba da província da Lebre e já não tardaria a deixar a escola para ocupar o seu primeiro posto. Depois da sua infeliz aventura, o rapaz não deixava nunca de interrogar o cozinheiro antes de cada refeição. Este, sabendo que seria considerado responsável por um novo incidente, provava todos os Pratos.

 

- Esta noite - avisou Sepi - vais jantar mais tarde. O teu material está pronto?

 

- Nunca me deixa.

- Então, segue-me,

 

Iker sentiu que não devia fazer qualquer pergunta. O general estava recolhido como um soldado prestes a travar um combate de incerto resultado.

 

Na margem oriental do Nilo, no topo de uma colina, tinham sido escavados os túmulos dos senhores da província da Lebre. De um dos lados dominavam o rio, do outro o deserto, no qual penetrava uma pista que serpenteava entre duas falésias.

 

 

Iluminada por numerosas tochas, guardada por dois soldados, a Morada de Eternidade preparada para Djehuti era impressionante, com o seu pórtico profundo suportado por duas colunas com capitéis de folhas de palmeira, a grande câmara rectangular e a pequena capela terminal.

 

Iker imobilizou-se no limiar.

 

- Ordenei-te que me seguisses - lembrou-lhe Sepi.

 

Com a garganta apertada e o andar hesitante, o rapaz penetrou no túmulo.

 

Djehuti estava em pé diante da capela do fundo. Envergando um simples saiote à antiga, parecia mais alto e mais corpulento do que o habitual.

 

De repente, ficou tudo na penumbra.

 

Dois ritualistas, transportando vasos, colocaram-se de um lado e outro do chefe de província. A última lâmpada acesa era a que o general Sepi segurava.

 

- Pronuncia estas fórmulas - pediu ele a Iker. - Pela tua voz, tornar-se-ão realidade.

 

O jovem escriba leu o papiro de um soberbo tom dourado.

 

- Que a água da vida purifique o Mestre, que reúna as suas energias e refresque o seu coração.

 

Os dois ritualistas ergueram os vasos por sobre a cabeça de Djehuti. Iker esperava ver sair água deles, mas ficou ofuscado pelos raios de luz que envolveram o corpo da idosa personagem.

 

Forçado a fechar os olhos, Iker julgou-se primeiro vítima de uma visão. No entanto, forçou-se a abri-los de novo, com risco de ficar cego.

 

Uma suave claridade envolvia agora Djehuti, que parecia ter rejuvenescido vários anos.

 

- Tu, que querias conhecer o Círculo de Ouro de Abido - disse o general Sepi - vê-o a funcionar.

 

Iker não fechara os olhos toda a noite.

 

Todos os pormenores da estranha cerimónia se tinham gravado na sua memória e procurava em vão compreender o significado das extraordinárias palavras pronunciadas pelo general Sepi.

 

É um facto que precisava de encontrar o rasto dos que tinham tentado suprimi-lo e descobrir a razão dos seus actos; mas também devia desvendar o mistério do Círculo de Ouro de Abido e tornar a ver a sublime sacerdotisa pela qual estava cada dia mais apaixonado.

 

Demasiadas tarefas, demasiadas tarefas pesadas e missões impossíveis para um jovem solitário e sem fortuna... Mas não para Iker! Com certeza que a dúvida, mesmo o desespero, tentariam mil e uma vezes submergi-lo. Competia-lhe rechaçar os seus assaltos e traçar um caminho onde ele não existia.

 

As provações e as dificuldades reforçavam-lhe a determinação. Se se mostrasse incapaz de as ultrapassar, seria a prova da sua indignidade. Então, a sua vida seria inútil.

 

- O escriba Iker é chamado ao palácio do chefe de província anunciou a voz de um arauto.

 

O interpelado vestiu-se à pressa, pegou no seu material e meteu-o num dos sacos que agora Vento do Norte podia transportar sem se fatigar.

 

Djehuti já estava instalado na mais confortável das suas cadeiras de transportadores.

 

- Vamos - ordenou.

 

Iker esperava ser incluído num grupo de escribas que seguiriam o seu senhor para registar as suas declarações.

 

Mas estava só e, durante alguns instantes, sentiu-se dominado pelo pânico. Como conseguiria ele, um principiante, substituir vários especialistas? Visto que não lhe deixavam escolha, não recuaria.

 

Djehuti seguiu ao longo do canal que atravessava a sua província, contemplou a zona verdejante e pantanosa reservada à caça e depois percorreu uma parte do solo agrícola, onde se encontrou com camponeses, jardineiros, vinhateiros e pastores. Visitou em seguida as oficinas de oleiros, de carpinteiros e de tecelões e depois conversou com padeiros e cervejeiros, aos quais recomendou que velassem pela qualidade da sua produção, em baixa nas últimas semanas.

 

A energia de Djehuti era surpreendente. Conhecendo cada um dos seus administrados, utilizava sempre a palavra justa e só formulava críticas construtivas. Em momento algum o chefe de província deu o mínimo sinal de fadiga.

 

O seu escriba mostrou-se à altura, embora o pulso lhe doesse à força de anotar as conversas.

 

Finalmente, Djehuti regressou ao seu palácio, onde matou a sede com cerveja leve, também oferecida a Iker, cujo trabalho estava já a consultar.

 

- Não te desembaraças nada mal - considerou. - Vais redigir um resumo que me servirá para verificar se as orientações propostas são na verdade seguidas. A discussão é importante, mas apenas os actos contam.

 

Um ritual é um acto?

 

É mesmo o acto supremo, visto que coloca no presente o que os deuses realizaram na primeira vez.

 

- O que vos aconteceu ontem à noite, senhor...

 

- Era uma espécie de regeneração, indispensável para um homem da minha idade sobrecarregado com pesadas responsabilidades. Tomaste consciência da riqueza desta província e da necessidade de trabalhar com afinco para a preservar? Ninguém aqui se insurge contra o seu trabalho. E se alguém faz batota, não demoro muito a identificá-lo. Há um homem que quer destruir este perfeito equilíbrio: o Faraó Senuseret. É nosso inimigo, Iker.

 

O jovem escriba ficou perturbado. O chefe de província não falava por acaso... Estaria a revelar-lhe assim o nome do que quisera a sua morte?

 

Djehuti podia mostrar-se satisfeito com a prosperidade da sua agricultura, mas a falta de informações provenientes da corte de Mênfis angustiava-o. Não demonstrava aquele isolamento que o Rei desconfiava da sua cumplicidade com os revoltosos de Siquém? Nesse caso, precisava de agarrar no seu bordão de peregrino e federar os outros chefes de província a fim de repelirem o inevitável ataque do Faraó.

 

Não era essa a opinião do general Sepi. Não acreditava naquela aliança circunstancial que, do seu ponto de vista, acabaria num rotundo fracasso, prejudicial ao conjunto dos confederados. Era preferível negociar directamente com Senuseret e tentar fazê-lo aceitar o ponto de vista de Djehuti.

 

Este hesitava.

 

E aqueles adiamentos, tão pouco conformes com o seu carácter, tornavam-no irritável.

 

Um ibis negro poisou perto de Iker e olhou-o fixamente. Depois, deu alguns passos antes de estacar e imprimir a marca das suas patas no chão. Com o bico, gravou o vértice de um triângulo assim formado, antes de levantar voo de novo.

 

- O que pensas disto? - perguntou Djehuti.

 

- Aprendi que se podia consumir com confiança a água que bebem os ibis, que nos transmitem a luz da origem traçando sinais. Eis um deles, senhor: o triângulo, primeira expressão do pensamento criador. Por outras palavras, criai em vosso redor algo de grande e as vossas preocupações desaparecerão.

 

- O teu professor formou-te bem. Podia ser essa a solução, com efeito.

 

Na mente de Djehuti acabava de surgir um incrível projecto. Se o conseguisse realizar, até mesmo Senuseret ficaria deslumbrado.

- O general Sepi falou-me do Círculo de Ouro de Abido - avançou Iker. - Gostaria...

 

- O general Sepi partiu em missão por tempo indeterminado. E tu vais ter muito trabalho. A partir desta noite, residirás no palácio onde tens um gabinete reservado. Reunirás o conjunto dos relatórios referentes aos pontos fortes e fracos da minha província e retirarás deles os elementos essenciais. Quero saber do que somos capazes em caso de conflito.

 

Instalado num assento de vime, Goela-Torcida acabava de devorar uma coxa de gazela, enquanto Shab, o Torto se consumia de inquietação contemplando as umbelas dos papiros que dançavam ao vento.

 

- Já esperámos o suficiente, Torto. Chegou o momento de nos pormos a caminho.

 

Shab não tinha mais argumentos. Desta vez, ele próprio sabia que o Anunciador já não viria. Privado daquele chefe, tornaria a ser um medíocre ladrão sem futuro.

 

- Formamos uma boa equipa - considerou Goela-Torcida - e ninguém nos resistirá. A nós as ricas moradias do Delta! Esquece o passado, amigo, e a caminho para a fortuna.

 

Um grito de dor encheu o ar húmido do pântano.

- O vigia... o vigia foi atacado!

 

Os guerreiros formados por Goela-Torcida agarraram nas armas e espalharam-se para caírem sobre o agressor, cercando-o.

 

O aparecimento do Anunciador fê-los estacar.

- Qual dos meus fiéis ousaria atacar-me?

 

- Vós... vós conseguistes escapar-lhes! - exclamou Shab, encantado.

 

- Ora esta - constatou Goela-Torcida.

 

- Ora esta... Haveis derrubado as paredes da prisão?

 

- Melhor ainda: os nossos adversários estão convencidos de que executaram o Anunciador. Para os Egípcios, eu já não existo. Dispomos portanto de uma vantagem considerável: poder agir na sombra sem que ninguém possa desconfiar de onde provêm os golpes.

 

Shab, o Torto bebia as palavras do seu guia.

 

- Não é necessário que continuemos a espalhar a revolta em Canaã, senhor?

 

- O Faraó Senuseret reagiu com o maior vigor e passou a controlar toda a região com o seu exército. A nova guarnição de Siquém é composta por verdadeiros soldados que reprimirão ferozmente qualquer tentativa de insurreição. Mas não é isso o mais grave. Ao atravessar povoados e aldeias, apercebi-me da cobardia dos seus habitantes.

 

São carneiros incapazes de se revoltarem contra o ocupante e de darem a sua vida para impor o remo do verdadeiro Deus. Apoiarmo-nos neles seria ilusório.

 

- Isso não me surpreende - declarou Goela-Torcida. - Nunca acreditei nesses parvalhões! Nós não temos medo.

 

- Tendes com certeza um novo plano - avançou Shab, inquieto.

- A aventura de Siquém foi muito útil - confirmou o Anunciador. - Então - interveio Goela-Torcida - começamos por uma quinta ou por uma moradia?

 

- Escolhe a melhor solução.

 

- Uma quinta isolada, com pouco pessoal. Temos de nos treinar. Quanto ao saque...

 

- Ficarás com tudo. Shab, cinco homens e eu iremos instalar-nos em Mênfis.

 

- Mênfis... Mas a cidade está cheia de polícias!

 

- Não cometeremos qualquer infracção. Pelo contrário, integrar-nos-emos na população como honestos comerciantes para recolhermos o máximo de informações. Preciso de conhecer muito melhor esse Faraó e os que o rodeiam para poder triunfar. Estabeleceremos como objectivo conseguir um aliado mesmo no interior do palácio.

- Impossível! - exclamou Goela-Torcida.

 

- Não há outra solução, meu amigo. Tu, graças às tuas expedições, enriquecerás e fornecer-me-ás a ajuda necessária quando eu a solicitar. E nunca te passará pela cabeça trair-me, não é verdade?

 

O olhar do Anunciador era mais terrível do que o de um demónio do deserto.

 

Goela-Torcida teve a certeza que o homem com o turbante detectava as suas intenções e que não tinha quaisquer hipóteses de o enganar. O Anunciador poisou-lhe a mão no ombro e ele teve a impressão que garras de ave de rapina se cravavam na sua carne.

 

- Tinhas um destinozeco de ratoneiro e ofereço-te uma estatura de assassino que aterrorizará um país inteiro. Pára de te comportar como um miserável salteador e compreende que o exercício do poder supremo repousa em duas bases: a violência e a corrupção. Serás o primeiro, Shab o segundo. A sorte recompensar-te-á, meu fiel amigo, e poderás ter o que desejares. Mas tens de ser paciente, só atacar com máscara e avançar a passos comedidos.

 

Pela primeira vez, Goela-Torcida ficou verdadeiramente convencido com o discurso do Anunciador. Aquele homem era um verdadeiro chefe militar que sabia conceber e impor uma estratégia. Obedecer-lhe era uma força, não uma fraqueza.

 

- Aceito - decidiu Goela-Torcida.

 

Sob o olhar crítico do grande tesoureiro Senankh, os especialistas distribuíam indicações ao pessoal encarregado de limpar os canais e consolidar os diques com Vista à pr&oacut