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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS MORTOS VIVOS / Peter Straub
OS MORTOS VIVOS / Peter Straub

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS MORTOS VIVOS

 

Qual foi a pior coisa que você já fez? Não vou contar, mas lhe direi qual foi a pior coisa que já me aconteceu... a mais terrível...

 

Como pensava que teria dificuldades em atravessar com a menina a fronteira para o Canadá, dirigiu o carro para o sul, contornando as cidades sempre que surgiam e trafegando pelas auto-estradas anônimas, que pareciam uma terra à parte, assim como a própria viagem. A mesmice igualmente o confortava e estimulava, a tal ponto que no primeiro dia conseguiu guiar durante vinte horas. Comeram em lanchonetes da McDonald’s e em pequenos bares; quando ele sentia fome, saía da auto-estrada e pegava uma rodovia estadual paralela, sabendo que encontraria um drive-in a não mais do que vinte ou trinta qui­lômetros adiante. Acordava a menina e ambos comiam hambúr­gueres ou cachorros-quentes. A menina jamais falava além do necessário para dizer-lhe o que queria. Ela dormia durante a maior parte do tempo. Logo na primeira noite, o homem recor­dou-se das luzes que iluminavam as placas. Embora depois ficas­se comprovado que fora uma providência desnecessária, saiu da auto-estrada e seguiu por uma estradinha rural deserta e escura, pelo tempo suficiente para desatarraxar as lâmpadas pequenas e jogá-las no mato. Depois, pegou punhados de lama na beira da estrada e sujou as placas. Limpando as mãos na calça, contornou o carro e abriu a porta do lado do motorista. A menina estava dormindo, as costas empertigadas contra o encosto, a boca fechada. Parecia estar completamente serena e tranqüila. Ainda não sabia o que teria de fazer com ela.

Em West Virgínia, o homem despertou com um sobressal­to e compreendeu que estivera dormindo ao volante por alguns segundos. Deixou a auto-estrada nos arredores de Clarksburg e seguiu por uma rodovia estadual até avistar, recortado contra o céu, um cartaz vermelho luminoso a girar, com as palavras pioneer village em branco no meio. Estava mantendo os olhos abertos pela simples força de vontade. A mente não estava bem; tinha a impressão de que havia lágrimas pairando à beira dos olhos e que muito em breve começaria involuntariamente a chorar. Entrando no estacionamento do shopping center, se­guiu para a fila mais distante da entrada e encostou o carro contra uma cerca branca, de ré. Atrás dele, havia uma fábrica que produzia réplicas de animais em plástico. O pátio asfaltado da fábrica continha galinhas e vacas de plástico em tamanho gigante. Bem no meio, havia um imenso boi azul. As galinhas estavam inacabadas, eram maiores do que as vacas e estupida­mente brancas.

Diante dele, estendia-se aquele trecho quase vazio do esta­cionamento, depois havia um agrupamento de carros em fileiras e mais além os prédios baixos, cor de terra, que constituíam o shopping center.

— Podemos dar uma olhada nas galinhas? — perguntou a menina.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não vamos sair do carro. Paramos aqui só para dormir um pouco.

Trancou as portas, fechou as janelas. Sob o olhar firme e impassível da menina, o homem abaixou-se, tateou embaixo do assento e pegou um pedaço de corda, dizendo em seguida:

— Estenda as mãos.

Quase sorrindo, a menina estendeu as mãos pequenas, os punhos cerrados. Ele juntou-as e passou a corda duas vezes pelos pulsos, dando um nó; depois, amarrou também os torno­zelos da menina. Ao terminar, constatou que ainda restava muita corda. Estendeu o excesso com uma das mãos e com a outra puxou a menina rudemente para junto de si. Depois, enrolou a corda em torno de ambos, amarrando-os juntos, dando o último nó depois de haver se deitado no banco da frente.

A menina ficou deitada em cima dele, as mãos no meio da barriga do homem, a cabeça em seu peito. Respirava tranqüila e regularmente, como se não esperasse outra coisa além do que o homem acabara de fazer. O relógio no painel indicava que eram cinco e meia e o ar começava a esfriar. O homem esticou as pernas e reclinou a cabeça contra o apoio do braço. E ador­meceu em meio aos ruídos do tráfego.

Despertou com um sobressalto, o rosto coberto por uma camada de suor, e o cheiro ligeiramente irritante dos cabelos da menina em suas narinas. Já estava escuro agora, devia ter dormido por várias horas. Ninguém os descobrira... e imagine só ser encontrado no estacionamento de um shopping center em Clarksburg, West Virgínia; com uma menina amarrada a seu corpo adormecido! Resmungou, virou o corpo ligeiramente para o lado, acordou a menina. Como ele, a garota despertou instantaneamente. Inclinou a cabeça para trás e fitou-o. Não havia medo em seu olhar, apenas uma estranha intensidade. Ra­pidamente, ele desatou os nós e desenrolou a corda. Sentiu o pescoço dolorido ao sentar-se.

— Quer ir ao banheiro? — perguntou ele.

A menina assentiu.

— Onde?

— Ao lado do carro.

— Aqui mesmo? No estacionamento?

— Ouviu muito bem o que eu disse.

Ele teve outra vez a impressão de que a menina quase sor­riu. Fitou atentamente o rostinho pequeno da menina, emoldu­rado por cabelos pretos.

— Vai me deixar sair?

— Ficarei segurando sua mão.

— Mas não vai olhar?

Pela primeira vez, ela demonstrou alguma preocupação. O homem sacudiu a cabeça.

A menina estendeu a mão para a maçaneta da porta, mas o homem sacudiu novamente a cabeça, segurando-lhe o pulso firmemente.

— Pelo meu lado — disse ele.

Abriu a sua porta e saiu, ainda segurando o pulso ossudo da menina. Ela começou a se arrastar pelo assento na direção da porta, uma menina de sete ou oito anos com os cabelos pretos bem curtos, usando um vestidinho rosa de algum tecido fino. Tinha sapatos de lona nos pés, de um azul já desbotado, começando a esgarçar no alto dos calcanhares. Infantilmente, estendeu primeiro uma das pernas para fora do carro, depois retorceu o corpo para estender a outra.

O homem puxou-a na direção da cerca da fábrica. A menina virou a cabeça e fitou-o.

— Prometeu que não ia olhar.

— E não vou.

E por um momento ele não olhou, virando a cabeça para trás quando a menina se agachou, forçando-o a se inclinar para o lado. Os olhos dele vaguearam para os grotescos animais de plástico além da cerca. Depois, ouviu o barulho de tecido roçan­do contra pele e baixou os olhos. O braço esquerdo da menina estava estendido ao máximo, a fim de que pudesse ficar o mais longe possível dele. O vestido rosa ordinário foi levantado até a cintura. A menina também estava olhando para os animais de plástico. Quando ela acabou, o homem tratou de desviar os olhos, sabendo que a menina iria imediatamente observá-lo. Ela se levantou e ficou esperando que o homem lhe dissesse o que fazer em seguida. Puxou-a de volta ao carro. A menina per­guntou:

— O que você faz para ganhar a vida?

O homem riu alto, com alguma surpresa. Mas que pergunta de coquetel!

— Nada.

— Para onde estamos indo? Está me levando para algum lugar?

Ele abriu a porta do carro e ficou de pé ao lado, enquanto a menina tornava a entrar no carro.

— Algum lugar... Claro que a estou levando para algum lugar.

Ele entrou também no carro e a menina se deslocou pelo assento até a outra porta.

— Onde?

— Verá quando chegarmos.

 

Dirigiu de novo a noite inteira, a menina novamente dor­miu durante a maior parte do tempo, despertando para olhar pelo pára-brisa (ela sempre dormia sentada, como uma boneca em seus sapatos de lona e vestido rosa) e fazer-lhe estranhas perguntas:

— Você é da polícia? — perguntou a menina certa oca­sião, indagando logo em seguida, ao avistar uma placa de saída na estrada: — O que é Colúmbia?

— É uma cidade.

— Como Nova York?

— Isso mesmo.

— Como Clarksburg?

O homem assentiu.

— Vamos dormir sempre no carro?

— Nem sempre.

— Posso ligar o rádio?

Ele disse que sim e a menina inclinou-se para a frente e girou o botão. O carro foi invadido pela estática, duas ou três vozes falando ao mesmo tempo. Ela apertou outro botão e o mesmo zumbido de vozerio saiu pelo alto-falante.

— Sintonize — disse o homem.

Franzindo o cenho, concentrada, a menina começou lenta­mente a sintonizar. Um momento depois estava captando uma transmissão clara. Dolly Parton. E ela comentou:

— Adoro isso.

Durante horas, seguiram para o sul por entre canções e ritmos da country music, as estações enfraquecendo e mudando, os disc jockeys trocando de nome e sotaque, os patrocinadores se sucedendo numa lista interminável de companhias segurado­ras, pastas de dentes, sabonetes, Pepsi-Cola, remédios contra acne, agências funerárias, óleos para automóveis, relógios de pulso a preço de ocasião, utensílios de alumínio, xampus contra caspa. Só a música é que permaneceu a mesma, uma história intermi­nável e forçada, uma espécie de épico informe e monótono, em que mulheres se casavam com motoristas de caminhão e joga­dores que não prestavam, mas permaneciam ao lado deles até obter o divórcio, de homens sentados em bares tramando sedu­ções e como voltar para casa, como se uniam no maior ardor e se separavam na maior repulsa, preocupados com os filhos. Al­gumas vezes o carro não pegava, em outras a TV pifava; havia ocasiões em que os bares fechavam e o pobre infeliz era atirado na rua, os bolsos virados para fora. Não havia coisa alguma que não fosse banal, não havia qualquer frase que não fosse um clichê. Mas a menina parecia satisfeita e passiva, cochilando com Wille Nelson e acordando com Loretta Lynn. O homem sim­plesmente guiava, distraído por aquela interminável xaropada das emissoras de rádio da América.

Em determinada ocasião, ele perguntou à menina:

— Já ouviu falar de um homem chamado Edward Wanderley?

Ela não respondeu, limitando-se a fitá-lo.

— Já ouviu falar?

— Quem é ele?

— Era meu tio.

A menina sorriu.

— E já ouviu falar de um homem chamado Sears James?

Ela sacudiu a cabeça, ainda sorrindo.

— E de um homem chamado Ricky Hawthorne?

Ela sacudiu novamente a cabeça. Não adiantava continuar. O homem nem mesmo sabia por que se dera ao trabalho de perguntar. Era até possível que a menina jamais tivesse ouvido falar naqueles nomes. Ou melhor, era evidente que jamais ouvira falar.

 

Ainda na Carolina do Sul, o homem teve a impressão de que um patrulheiro rodoviário o estava seguindo: o carro da patrulha estava vinte metros atrás, mantendo a mesma distância, o que quer que ele fizesse. Teve a impressão de ver o patrulhei­ro falando pelo rádio; imediatamente reduziu sua velocidade em dez quilômetros horários e trocou de faixa; mas o carro da polícia não o ultrapassou. Sentiu um profundo tremor no peito e abdômen; visualizou o carro da patrulha chegando mais perto, a sirene ligada, forçando-o a ir para o acostamento. Depois, começariam as perguntas. Era por volta das seis horas da tarde e a auto-estrada estava apinhada. Sentia-se inexoravelmente le­vado pelo tráfego, à mercê de quem quer que estivesse no carro da patrulha... impotente, acuado. Tinha que pensar. Estava simplesmente sendo levado na direção de Charleston pelo tráfe­go, através de quilômetros e mais quilômetros de uma região desolada. Os subúrbios já eram visíveis a distância, miseráveis ajuntamentos de pequenas casas, com garagens de madeira. Não conseguia lembrar o número da auto-estrada em que estava. Avistou pelo espelho retrovisor, por trás da longa fileira de carros, depois do carro da patrulha, um caminhão velho despe­jando uma coluna de fumaça negra através de um cano parecido com uma chaminé, ao lado do motor. Receou que o patrulheiro emparelhasse com seu carro e gritasse “Pare!”. E podia imagi­nar a menina gritando, com uma vozinha estridente: “Esse ho­mem me obrigou a vir com ele! E me amarra quando dorme!” O sol do sul parecia investir violentamente contra seu rosto, entrar pelos poros. O patrulheiro passou para outra faixa e co­meçou a se aproximar dele.

“Ei, essa não é a sua filha! Quem é ela?”

E depois o meteriam numa cela, começariam a espancá-lo, trabalhando-o metodicamente com cassetetes, deixando sua pele toda roxa...

Mas nada disso aconteceu.

 

Pouco depois das oito horas da noite, parou ao lado da estrada. Era uma estrada rural estreita, terra vermelha solta empilhada no acostamento, como se tivesse sido recentemente escavada. Não mais tinha certeza do Estado em que se encontrava, se Carolina do Sul ou Geórgia. Era como se esses Estados estivessem fluidos, assim como todos os demais, como se pudes­sem vazar um para o outro, fazendo força para se estender mais um pouco, como as auto-estradas. Parecia que tudo estava erra­do. Ele estava no lugar errado: ninguém podia viver ali, nin­guém podia pensar ali, naquela paisagem brutal. Trepadeiras desconhecidas, verdes, lembrando cordas, erguiam-se pela en­costa baixa ao lado do carro. O mostrador de gasolina estava com o ponteiro lá embaixo há meia hora. Estava tudo errado, tudo mesmo. Olhou para a menina, aquela menina que seques­trara. Estava dormindo, com seu jeito de boneca, as costas empertigadas contra o encosto, os pés nos sapatos de lona es­garçados pairando acima do chão. Ela dormia demais. E se estivesse doente? E se estivesse morrendo?

A menina acordou enquanto ele a observava e disse:

— Tenho de ir ao banheiro outra vez.

— Você está bem? Não está doente?

— Tenho de ir ao banheiro.

— Está certo.

O homem se moveu para abrir a porta.

— Deixe-me ir sozinha. Não vou fugir. Não vou fazer nada. Prometo.

Ele contemplou o rosto sério da menina, os olhos pretos fixados numa pele azeitonada.

— Além do mais, aonde eu poderia ir? Nem mesmo sei onde estou.

— Também não sei.

— E então?

Tinha de acontecer mais cedo ou mais tarde: ele não podia mantê-la ao alcance de sua mão em todas as ocasiões.

— Promete? — indagou o homem, sabendo que a pergun­ta era extremamente tola.

Ela assentiu, e o homem acrescentou:

— Então está certo.

— E você promete que não vai embora com o carro?

— Prometo.

A menina abriu a porta e saiu do carro. O homem teve que fazer um tremendo esforço para não ficar observando-a; mas era um teste, tinha que se empenhar nisso. Um teste. Desejou intensamente ter aprisionado a mão da menina na sua. Ela podia estar subindo pela encosta ao lado da estrada, correndo, gritando... mas não, ela não estava gritando. Frequentemente acontecia que as coisas terríveis que ele imaginava, as coisas piores, não ocorriam; o mundo dava um solavanco e as coisas voltavam a ser como sempre tinham sido. Quando a menina voltou ao carro, ele se sentiu inundado por um alívio imenso. Acontecera novamente, nenhum buraco negro se abria para sugá-lo.

O homem fechou os olhos e viu uma auto-estrada vazia, dividida por linhas brancas, estendendo-se a sua frente. E mur­murou :

— Tenho de encontrar um motel.

A menina recostou-se no assento, esperando que ele fizesse o que bem desejasse. O rádio estava ligado baixinho, e pelo alto-falante saíam os sons de uma emissora de Augusta, Geór­gia, uma guitarra suave e cadenciada. Por um momento, uma imagem surgiu abruptamente na mente do homem: a menina morta, a língua espichada para fora da boca, os olhos esbugalha­dos. Ela não lhe oferecia a menor resistência. No instante se­guinte, ele estava de pé — era como se estivesse de pé — numa rua em Nova York, alguma rua na altura das East Fifties, uma daquelas ruas em que mulheres bem vestidas passeiam com cães pastores. Porque lá estava uma daquelas mulheres, aproximan­do-se. Era alta, usava jeans perfeitamente desbotados e uma blusa cara, um bronzeado intenso, os óculos escuros empurra­dos para o alto da cabeça. Um imenso cão pastor estava ao lado dela, meneando o traseiro, Ele estava quase perto o su­ficiente para ver as sardas expostas através dos botões supe­riores abertos da blusa da mulher.

Ah...

Mas no instante seguinte ele estava outra vez composto, ouvia a música baixa da guitarra. Antes de ligar o motor, afagou a cabeça da menina e disse:

— Temos de arrumar um motel.

Por uma hora, ele simplesmente seguiu em frente, prote­gido pelo casulo de entorpecimento, pela mecânica de guiar; estava quase sozinho na estrada escura.

— E vai me machucar? — perguntou a menina.

— Como posso saber?

— Acho que não vai. É meu amigo.

Depois, não era "como se" ele estivesse na rua em Nova York, estava mesmo naquela rua, observando a mulher com o cachorro e o bronzeado caminhando em sua direção. Avistou novamente as sardas dispersas da mulher, logo abaixo das clavículas. Sabia até qual o gosto que sentiria se passasse a língua por ali. Como acontecia freqüentemente em Nova York, não po­dia ver o sol, mas podia senti-lo, um sol intenso e agressivo. A mulher era uma estranha, sem qualquer importância... ele não devia conhecê-la, era apenas mais uma mulher... um táxi pas­sou, ele percebeu uma grade de ferro à sua direita, as letras na vitrine de um restaurante francês no outro lado da rua. O calor se irradiava do calçamento através das solas de suas botas. Em algum lugar lá em cima, um homem estava gritando a mesma palavra interminavelmente. Ele estava ali, estava mesmo: uma parcela de sua emoção deve ter transparecido no rosto, pois a mulher com o cachorro fitou-o curiosamente e depois amarrou a cara, deslocando-se rapidamente para a beira da calçada.

Será que ela podia falar? Será que alguém podia, numa espécie de experiência como aquela, qualquer que fosse, pro­nunciar frases, frases humanas comuns e audíveis? Será que se podia falar com as pessoas que se encontravam em alucinações? E será que elas podiam responder? Ele abriu a boca.

— Tenho... — que sair, ele ia dizer, mas já estava de volta ao carro parado. Havia em sua língua uma massa empa­pada, que outrora tinha sido duas batatas fritas.

Qual foi a pior coisa que você já fez?

Os mapas pareciam indicar que ele estava apenas a alguns quilômetros de Valdosta. Foi guiando sem pensar, sem se atre­ver a olhar para a menina e por isso não sabendo se ela estava acordada ou dormindo, mas sentindo mesmo assim que os olhos dela estavam fixos nele. Mais adiante, passou por uma placa que o informou estar a quinze quilômetros da Cidade Mais Amistosa do Sul.

Parecia com qualquer cidadezinha sulista: uma indústria à entrada, oficinas e estamparias, grupos surrealistas de galpões de metal corrugado, pátios coalhados de caminhões; mais adiante, casas de madeira precisando de pintura, grupos de negros parados nas esquinas, os rostos iguais na escuridão; estradas novas abrindo cicatrizes na terra e depois terminando abrupta­mente, o mato já invadindo; na cidade propriamente dita, os adolescentes circulavam interminável e indolentemente em seus carros velhos.

Passou por um prédio baixo, incongruentemente novo, um indício do Novo Sul, com uma placa em que estava escrito palmetto motor-in; fez a volta mais adiante e retornou até o prédio.

Uma garota com os cabelos armados cheios de laquê e um batom rosado nos lábios ofereceu-lhe um sorriso mecânico e sem sentido e um quarto com duas camas, "para mim e para minha filha". No livro de registro, ele escreveu: Lamar Burgess, Ridge Road, 155, Stonington, Connecticut. Depois que ele pa­gou uma diária à vista, a garota entregou-lhe a chave.

O cubículo continha duas camas de solteiro, um tapete marrom e paredes verdes, dois quadros — um gatinho com a cabeça inclinada, um índio olhando para um desfiladeiro cheio de vegetação, do alto de um penhasco — um aparelho de tele­visão, uma porta que dava para um banheiro de ladrilhos azuis. O homem ficou sentado no assento do vaso enquanto a menina se despia e deitava numa das camas.

Ao dar uma espiada para verificar o que ela estava fazendo, descobriu que a menina já se metera debaixo do lençol, deitada com o rosto virado para a parede. As roupas dela estavam espalhadas pelo chão, havia a seu lado um saco de batatas fritas quase vazio. O homem se trancou no banheiro, tirou as roupas e meteu-se debaixo do chuveiro. O que lhe proporcionou uma intensa satisfação. Por um momento, quase sentiu como se estivesse de volta a sua vida antiga, não “Lamar Burgess”, mas Don Wanderley, outrora morador em Bolinas, Califórnia, autor de duas novelas (uma das quais lhe proporcionara um bom dinheiro). Amante por algum tempo de Alma Mobley, irmão do falecido David Wanderley. E lá estava. Não adian­tava coisa alguma, não conseguia escapar. A mente era uma armadilha, um alçapão que o prendia. Como quer que tivesse chegado onde estava, o fato é que ali estava. Preso no Palmetto Motor-in. Fechou o chuveiro, todos os vestígios da bên­ção desaparecendo.

No pequeno quarto, com apenas a luz fraca por cima de sua própria cama para iluminar o ambiente fantasmagórico, o homem vestiu a calça e abriu a valise. A faca de caça estava enrolada numa camisa. Desenrolou a camisa e a faca caiu na cama.

Segurando-a pelo grosso cabo de osso, ele foi até a cama da menina. Ela dormia com a boca aberta, a transpiração bri­lhava em sua testa. Por um longo tempo, o homem ficou sen­tado ao lado dela, segurando a faca com a mão direita, pronto para usá-la.

Mas não podia naquela noite. Desistindo, cedendo, sacudiu o braço da menina, até que as pálpebras dela se entreabriram.

— Quem é você? — perguntou ele. — Quero dormir.

— Quem é você?

— Deixe-me em paz, por favor.

— Quem é você? Estou perguntando: quem é você?

— Você sabe.

— Eu sei?

— Sabe, sim. Eu lhe disse.

— Qual é o seu nome?

— Angie.

— Angie o quê?

— Angie Maule. Já lhe disse antes.

O homem mantinha a faca às costas, para que a menina não pudesse vê-la.

— Quero dormir — disse ela. — Você me acordou.

Ela lhe virou as costas novamente. Fascinado, o homem observou o sono voltar a dominá-la: as pontas dos dedos se encolheram, as pálpebras se contraíram, a respiração mudou. Parecia que ela fizera um esforço de vontade para dormir, a fim de livrar-se dele. Angie... Angela? Angela Maule. Não parecia o nome que ela lhe dera ao entrar no carro pela pri­meira vez. Minoso? Minnorsi? Algo assim, um nome italiano. Não Maule.

Ele segurou a faca com as duas mãos, o cabo preto de osso comprimido contra sua barriga nua, os cotovelos esten­didos para fora do corpo; tudo o que precisava fazer era arre­meter-se para a frente, usando toda a sua força...

Afinal, por volta das três horas da madrugada, ele voltou para sua cama.

 

Na manhã seguinte, antes de deixarem o motel, enquanto o homem examinava os mapas, a menina falou:

— Não deve fazer-me essas perguntas.

— Que perguntas?

Ele ficara de costas, a pedido da menina, enquanto ela punha o vestido rosa. Subitamente, ele teve a sensação de que precisava virar-se de qualquer maneira, imediatamente, para vê-la. Podia ver sua faca nas mãos dela (embora estivesse nova­mente guardada, enrolada na camisa), podia senti-la começando a espetar sua pele.

— Posso virar-me agora?

— Pode.

Lentamente, ainda sentindo a faca, sua própria faca, come­çando a penetrar em sua pele, ele virou-se de lado, na cadeira. A menina estava sentada na cama desarrumada, observando-o. O rosto sem nada de bonito, com uma estranha intensidade.

— Que perguntas?

— Você sabe.

— Quero que me diga.

Ela sacudiu a cabeça, não quis dizer mais nada.

— Quer ver para onde estamos indo?

A menina se aproximou, não devagar, mas calculadamente, como se não desejasse demonstrar qualquer suspeita. Apontan­do para um ponto no mapa, o homem disse:

— Estamos indo para este lugar. Panama City, na Flórida.

— Poderemos ver o mar?

— Talvez.

— E não vamos mais dormir no carro?

— Não.

— Fica muito longe?

— Poderemos chegar lá esta noite. Vamos seguir por esta estrada... esta aqui... está vendo?

— Estou... — Ela não estava interessada; ficou um pouco para o lado, entediada e cautelosa. — Acha que sou bonita?

 

Qual a pior coisa que já lhe aconteceu? O fato de ter tirado as roupas à noite, ao lado da cama de uma menina de nove anos? O fato de estar segurando uma faca? O fato de a faca querer matá-la?

 

Não. Havia outras coisas piores.

 

Não muito além da fronteira estadual e não na auto-estrada que ele indicara a Angie no mapa, mas numa estrada rural de duas faixas de tráfego, eles pararam diante de .uma construção de madeira, pintada de branco. Buddy’s Supplies.

— Quer entrar comigo, Angie?

Ela abriu a porta do seu lado e saltou, à sua maneira in­fantil, como se estivesse descendo uma escada. Ele ficou segu­rando a porta de tela para que a menina entrasse. Um homem gordo estava sentado atrás do balcão.

— Você frauda a declaração de renda — disse ele. — E é o primeiro freguês que me aparece hoje. Pode acreditar numa coisa dessas? Meio-dia e meia e é o primeiro cara que passa por essa porta! — Inclinando-se para a frente e examinando-os atentamente, o gordo acrescentou: — Não, claro que não! Você não frauda Tio Sam. Faz pior do que isso. É o cara que matou umas quatro ou cinco pessoas lá em Tallahasee há pou­cos dias.

— Como...? Só entrei para comprar alguma comida... minha filha...

— Não esquente a cabeça. Eu era da polícia. Em Allentown, Pensilvânia. Vinte anos. Comprei esta casa porque o cara me disse que dava para tirar cem dólares de lucro por semana. Há uma porção de escroques neste mundo. E quem quer que entre, posso logo dizer que tipo de escroque é. E agora estou vendo quem você é realmente. Não é um assassino, mas sim um seqüestrador.

— Não! Eu... — Ele podia sentir o suor escorrendo pelo corpo. — Minha filha...

— Não me pode enganar. Fui da polícia por vinte anos.

Ele começou a olhar freneticamente ao redor, à procura da menina. Finalmente avistou-a, diante de uma prateleira cheia de potes de manteiga de amendoim.

— Angie... Angie, venha até aqui...

— Ora, eu estava apenas querendo brincar — disse o gordo. — Não precisa ir embora só por causa disso. Ei, meni­na, vai querer um pouco dessa manteiga de amendoim?

Angie olhou para ele e assentiu.

— Pois então pegue um pote nessa prateleira e traga até aqui. Mais alguma coisa, moço?  É claro que se for Bruno Hauptmann eu terei que prendê-lo. Ainda tenho por aqui, em algum lugar, o meu revólver do tempo da polícia. E pode estar certo de que não vai ter escapatória.

O homem sabia que era tudo brincadeira. Mas nem por isso podia conter o tremor que o dominava. Um ex-policial não iria perceber? Ele se afastou, por entre as prateleiras.

— Ei, se está metido em alguma encrenca, é melhor se mandar daqui imediatamente — gritou o gordo às suas costas.

— Não, não... preciso de algumas coisas...

— Não se parece muito com a menina.

Às cegas, ele começou a tirar coisas das prateleiras, sem ver o que era. Um vidro de pickles, uma caixa de passas, pre­sunto em lata, duas ou três latas que nem mesmo viu do que eram. Levou tudo para o balcão. O gordo, Buddy, fitou-o com uma expressão desconfiada.

— Você me deixou um pouco abalado — disse ele ao gordo. — Não tenho dormido muito, estou guiando há dois dias... — Uma idéia súbita lhe ocorreu. — Tenho que levar minha filha para a avó, em Tampa... — Angie virou-se abrup­tamente, segurando dois potes de manteiga de amendoim, fi­tando-o boquiaberta — ... é que a mãe dela e eu nos separa­mos e tenho que arrumar um emprego, pôr todas as coisas outra vez em ordem... Não é mesmo, Angie?

A menina continuou com a boca entreaberta.

— Seu nome é Angie? — indagou o gordo.

Ela assentiu.

— Esse homem é seu papai?

Ele pensou que ia desmaiar.

— Agora é — respondeu a menina.

O gordo soltou uma risada.

— Agora! Ah, as crianças de hoje! Acho que a gente tem de ser um gênio para entender essas crianças. Muito bem, nervosinho, acho que vou ficar com seu dinheiro.

Ainda sentado por trás do balcão, calculou as compras, inclinando-se para um lado e apertando os botões da caixa re­gistradora.

— É melhor descansar um pouco. Está me fazendo lem­brar de um milhão de caras que meti na minha velha delegacia.

Lá fora, Wanderley disse à menina:

— Obrigado por ter dito aquilo.

— Dizer o quê? — indagou a menina, insolente e pre­sunçosamente, para depois ficar balançando a cabeça de um lado para outro, mecanicamente, e repetindo de maneira estra­nha: — Dizer o quê? Dizer o quê? Dizer o quê?

 

Em Panama City, ele parou no Gulf View Motor Lodge, com diversos bangalôs de tijolos, em péssimo estado, ao redor de uma área de estacionamento. O bangalô do gerente ficava à entrada, uma construção quadrada e separada como as outras, com uma só diferença: atrás da grande placa de vidro, onde devia estar um calor igual ao de um forno, estava senta­do um velho magro mas ainda vigoroso, com óculos de aros dourados e uma camiseta. Parecia Adolf Eichmann. A ex­pressão sombria e inflexível no rosto do homem fez com que Wanderley recordasse o que o ex-policial dissera a seu respeito e da menina: com seus cabelos louros e pele clara, não parecia absolutamente ser o pai da menina. Ele parou diante do ban­galô do gerente e saltou do carro, sentindo as palmas das mãos suadas.

Lá dentro, porém, quando ele disse que queria um quarto para si e sua filha, o velho lançou um olhar sem a menor curio­sidade para a menina de cabelos pretos no carro e disse:

— São dez dólares e meio por dia. Assine o registro. Se quiser comer alguma coisa, experimente o Eat-Mor, que fica um pouco mais adiante, na estrada. É proibido cozinhar nos bangalôs.  Está pensando em ficar mais do que uma noite, Sr... — O velho virou o livro de registro. — ...Boswell?

— Talvez até uma semana.

— Então tem que pagar as duas primeiras diárias adian­tado.

Wanderley tirou vinte e um dólares da carteira e o gerente entregou-lhe uma chave.

— Número 11, o número da sorte. Fica do outro lado do estacionamento.

O quarto tinha as paredes caiadas de branco e cheirava a desinfetante. Wanderley correu os olhos rapidamente ao redor: o mesmo tapete cinza, duas camas pequenas, com lençóis lim­pos, mas já puídos, uma televisão com tela de doze polegadas, dois quadros horríveis de flores. O quarto parecia ter mais sombras do que se podia explicar. A menina estava inspecionando a cama encostada na parede.

— O que são Dedos Mágicos? Quero experimentar. Pos­so? Por favor?

— Provavelmente não vai funcionar.

— Mas posso? Quero experimentar. Por favor?

— Está certo. Fique deitada. Tenho que sair para arru­mar mais algumas moedas. Não saia daqui até eu voltar. É preciso pôr uma moeda nesta fenda, está vendo? Quando eu voltar, poderemos comer.

A menina estava deitada na cama, assentindo impaciente­mente, olhando não para ele, mas para a moeda em sua mão.

— Vamos comer quando eu voltar. E vou tentar também lhe arrumar roupas novas. Não pode ficar usando sempre as mesmas coisas.

— Ponha a moeda!

Ele deu de ombros, empurrou a moeda na fenda e ime­diatamente ouviu um zumbido. A menina acomodou-se na cama, os braços esticados, o rosto tenso.

— Ah, é maravilhoso...

— Voltarei o mais depressa possível.

Wanderley saiu para o sol forte e pela primeira vez sentiu o cheiro do mar.

O golfo ficava muito longe, mas era visível. No outro lado da estrada que ele seguira na direção da cidade a terra abrupta­mente caía para uma desolação de mato e lixo, cortada por uma sucessão de trilhos ferroviários. Além dos trilhos, outra extensão de terra abandonada terminava numa segunda estrada, que seguia na direção de alguns galpões e armazéns. Além dessa segunda estrada, ficava o golfo do México, as águas cinzentas e espumosas.

Ele foi andando pela estrada na direção da cidade.

Na extremidade de Panama City, Wanderley entrou numa loja e comprou uma calça e duas blusas para a menina, cuecas, meias, dois shorts e uma calça cáqui para si.  

Carregando duas sacolas, saiu da loja e seguiu em direção ao centro da cidade. A fumaça de óleo diesel o envolveu; passavam incessantemente carros com o adesivo “Mantenha o sul grande” colado no pára-choque. Homens de camisas de mangas curtas e cabelos castanhos cortados bem curtos caminhavam pelas calçadas. Ao avistar um guarda uniformizado, tentando tomar um sorvete ao mesmo tempo em que preenchia uma multa por estacionamento proibido, Wanderley esgueirou-se entre uma pickup e um furgão, atravessando a rua. Um filete de suor escorreu pela sobrancelha esquerda e caiu no olho. Ele estava calmo. Mais uma vez, o desastre não acontecera.

Descobriu a estação rodoviária por acaso. Ocupava a me­tade de um quarteirão, em prédio imenso, de aparência nova, com reentrâncias para as janelas de vidro escuro. Ele pensou: “Alma Mobley, sua marca”. Passando pela porta giratória, avistou algumas pessoas sem rumo nos bancos, num grande espaço vazio. Eram as mesmas pessoas que sempre se podiam encontrar nas estações rodoviárias, uns poucos jovens-velhos, os rostos vincados e penteados complicados, algumas crianças andando a esmo, um vagabundo adormecido, três ou quatro adolescentes em botas de cowboy e cabelos caindo até os om­bros. Outro guarda estava encostado na parede, ao lado do jornaleiro. À procura dele? O pânico começou a invadi-lo, mas o guarda mal olhou em sua direção. Fingiu examinar o quadro de horários das partidas e chegadas, antes de se encaminhar, com uma indiferença exagerada, para o banheiro dos homens.

Trancou-se num reservado e tirou as roupas. Depois de vestir-se até a cintura com as roupas novas, saiu do reservado e lavou-se numa das pias. Saiu tanta sujeira que ele se lavou novamente, derramando água no chão. Passou o sabonete lí­quido esverdeado nas axilas e no pescoço. Depois, enxugou-se e vestiu uma das camisas de mangas curtas que acabara de com­prar, azul-clara, com listras vermelhas bem finas. Todas as roupas velhas foram para a sacola de compras.

Lá fora, ficou contemplando o estranho azul acinzentado e granuloso do céu. Era o tipo de céu que ele imaginava pairar para sempre sobre os baixios e pântanos muito mais ao sul da Flórida, um céu que conteria o calor, dobrando-o e triplican­do-o, provocando o fantástico crescimento do mato, fazendo as plantas esticarem suas pontas grotescas e intumescidas... o tipo de céu e disco quente de sol que deveriam sempre, agora que pensava nisso, ter pairado sobre Alma Mobley. Largou a sacola com as roupas velhas numa lata de lixo, diante de uma loja de armas.

Nas roupas novas, seu corpo parecia jovem e capaz, mais saudável do que durante todo aquele terrível inverno. Wan­derley foi avançando por aquela rua miserável do sul, um ho­mem alto e forte, na casa dos trinta anos, não mais inteiramente consciente do que estava fazendo. Passou a mão pelo rosto e sentiu o roçar da barba rala de pessoa loura; podia passar dois ou três dias sem dar a impressão de que precisava barbear-se. Uma pickup dirigida por um marinheiro, com cinco ou seis outros marinheiros na traseira, passou por Wanderley. Os ma­rinheiros gritaram alguma coisa, alguma coisa jovial e desde­nhosa.

— Eles não falaram por mal — comentou um homem que apareceu subitamente a seu lado. A cabeça, com uma enor­me verruga cheia de cabelos dividindo ao meio uma das sobran­celhas, não chegava ao ombro de Wanderley. — São todos bons rapazes.

Ele sorriu e murmurou algumas palavras de concordância, afastando-se. Não podia voltar agora para o motel, pois sentia que não estava em condições de enfrentar a menina. Experi­mentou a sensação de que poderia desmaiar. Os pés pareciam irreais nos sapatos de lona que comprara — muito abaixo, mui­to longe de seus olhos. Descobriu que estava descendo rapida­mente uma ladeira suave, na direção de uma área de cinemas e cartazes de neon. No céu granuloso, o sol pairava muito alto, parecia imóvel. As sombras dos parquímetros, muito escuras, projetavam-se na calçada; por um momento, ele ficou absolu­tamente convencido de que havia mais sombras do que par­químetros. Todas as sombras pairando sobre a rua eram inten­samente pretas. Passou pela entrada de um hotel e percebeu um vasto espaço vazio e castanho, uma imensa caverna fria, além das portas de vidro.

Quase que involuntariamente, reconhecendo um conjunto familiar e terrível de sensações, continuou em frente, sob o calor sufocante; conscientemente, tomava todo o cuidado para não pisar nas sombras dos parquímetros. O mundo era aprazível e cheio de sentido há dois anos, antes de assumir aquela forma sinistra e ameaçadora, antes do episódio de Alma Mobley, antes da morte do seu irmão. De alguma forma, literalmente ou não, ela matara David Wanderley; ele sabia que tivera muita sorte de escapar ao que quer que levara David a se jogar pela janela do hotel em Amsterdam. Somente escrever é que o trouxera de volta ao mundo; somente escrever a respeito daquilo, da terrível confusão entre ele próprio e Alma e David, como se fosse uma história de fantasma, o libertara daquilo. Era o que ele pen­sava.

Panama City? Panama City, Flórida? O que estava fazen­do ali? E o que estava fazendo com aquela menina estranha e passiva que trouxera consigo? A quem seqüestrara, ao longo de todo o sul?

Sempre fora o “extravagante”, o “irrequieto”, o contraste da força do irmão, a sua pobreza tornando-se ainda mais aguda diante do sucesso de David, suas ambições e pretensões (“Pensa mesmo que pode viver como escritor? Nem mesmo seu tio foi tão estúpido assim”, dissera o pai) contrastando com o bom senso e o esforço objetivo e árduo de David, com seus progres­sos incessantes na Faculdade de Direito e depois na firma de advocacia em que ingressara. E quando o irmão pulara pela janela para sair da vida, isso simplesmente matara a ele próprio.

Era a pior coisa que já lhe acontecera. Até o inverno pas­sado, até Milburn.

A rua esquálida deu a impressão de se abrir como uma se­pultura. Ele teve a sensação de que mais um passo pela ladeira abaixo e os cinemas inconsistentes iriam tragá-lo, continuaria a descer para sempre, numa queda interminável. Algo que não estava ali antes apareceu subitamente diante dele; contraiu os olhos para poder ver mais claramente.

Virou-se, angustiado, sob o sol forte. O cotovelo bateu no peito de alguém e ouviu-se a murmurar “Desculpe, desculpe” para uma mulher irritada, com um chapéu de sol branco. In­conscientemente, começou a subir a ladeira, rapidamente. Lá atrás, olhando para o cruzamento no fundo da ladeira, vira por um momento o túmulo do irmão: era pequeno, o mármore púr­pura, as palavras gravadas, “David Webster Wanderley, 1939-1975”. E estava bem no meio do cruzamento. Por isso, ele fugiu.

Isso mesmo, vira o túmulo de David. Só que ele não tinha nenhum túmulo. Fora cremado na Holanda e as cinzas despa­chadas de avião para a mãe. O túmulo de David, com o nome de David... Mas o que o fez subir a ladeira correndo foi o pressentimento de que aquele túmulo era para ele. E que, se ajoelhasse no meio do cruzamento e abrisse o túmulo, iria encontrar no caixão o seu próprio corpo putrefato.

Entrou no único lugar fresco e aprazível que vira no ca­minho: o saguão de um hotel. Teve que se sentar para se acal­mar; sob os olhares indiferentes de um recepcionista e da moça no balcão de jornais, afundou num sofá. O rosto estava úmido de suor. O tecido do estofamento do encosto do sofá roçava incomodamente em suas costas; inclinou-se para a frente, passou os dedos pelos cabelos, olhou para o relógio. Tinha que parecer normal, como se estivesse apenas esperando por alguém; tinha” que parar de tremer. Pelo saguão, havia algumas palmeiras pequenas, plantadas em vasos grandes. Um ventilador zumbia lá em cima. Um velho magro, num uniforme púrpura, estava parado ao lado do elevador aberto e fitava-o; quando seus olhares se encontraram, ele desviou a cabeça rapidamente.

Ao ouvir sons abruptamente, compreendeu que nada tinha ouvido desde que vira o túmulo no meio do cruzamento. Sua própria pulsação abafara todos os outros ruídos. Agora, os ruí­dos da vida do hotel flutuavam no ar úmido. Um aspirador zumbia numa escada invisível, telefones tocavam a distância, as portas do elevador se fechavam com um zunido suave. Pelo saguão, havia pequenos grupos de pessoas sentadas, conversando. Ele começou a sentir que podia enfrentar a rua nova­mente.

 

— Estou com fome — disse a menina.

— Trouxe roupas novas para você.

— Não quero roupas novas, quero apenas comer.

Ele atravessou o quarto para sentar-se na poltrona vazia.

— Pensei que estivesse cansada de usar sempre o mesmo vestido.

— Não me importo com as roupas que uso.

— Está bem. — Ele jogou a sacola em cima da cama da menina. — Apenas pensei que poderia gostar dessas roupas.

Ela não respondeu.

— Vou dar-lhe comida, se responder a algumas perguntas.

A menina afastou-se, começando a pegar os lençóis, es­tendendo-os e alisando-os.

— Qual é o seu nome?

— Já lhe disse. É Angie.

— Angie Maule?

— Não. Angie Mitchell.

Ele deixou passar.

— Por que seus pais ainda não mandaram a polícia nos procurar? Por que ainda não fomos descobertos?

— Não tenho pais.

— Todo mundo tem pais.

— Todo mundo menos os órfãos.

— Quem toma conta de você?

— Você mesmo.

— Antes de mim.

— Cale-se. Cale-se. — O rosto da menina estava sereno, com um brilho intenso.

— Você é mesmo uma órfã?

— Cale-se cale-se cale-se!

Para fazer com que ela parasse de gritar, Wanderley tirou o presunto em lata da sacola de compras.

— Está certo. Vamos comer alguma coisa. Abrirei isto.

— Ótimo. — Era como se ela nunca tivesse gritado. — Quero também a manteiga de amendoim.

Enquanto ele cortava o presunto, a menina perguntou:

— Tem dinheiro suficiente para cuidar de nós dois?

Ela comeu à sua maneira especial: primeiro, mordeu um pedaço de presunto, depois meteu os dedos na manteiga de amendoim, tirou um bocado, meteu-o na boca, mastigou tudo junto.

— Delicioso — conseguiu ela murmurar, com a boca cheia de comida.

— Se eu for dormir, você vai embora?

A menina sacudiu negativamente a cabeça.

— Mas posso dar uma volta?

— Acho que sim.

Ele estava bebendo uma lata de cerveja, da embalagem de seis que comprara numa pequena loja, ao voltar para o motel; a cerveja e a comida o estavam deixando sonolento. Sabia que, se não fosse logo para a cama, acabaria dormindo ali mesmo na poltrona.

— Não precisa amarrar-me em você — disse a menina. — Pode ficar tranqüilo que eu voltarei. Acredita em mim, não é mesmo?

Ele assentiu.

— Afinal, para onde eu poderia ir? Não tenho nenhum lugar para ir.

— Está bem! — Mais uma vez, não podia falar com a menina como desejava; ela é que estava no controle da situação. — Pode sair, mas não demore muito.

Estava se comportando como um pai; sabia que a menina o pusera nesse papel. Era ridículo.

Ficou observando-a sair. Mais tarde, rolando na cama, ouviu vagamente o estalido da porta sendo fechada e compreen­deu que ela tinha mesmo voltado.

 

Naquela noite, ficou deitado na cama, inteiramente vestido, observando-a dormir. Quando os músculos começaram a doer de se manter por tanto tempo na mesma posição, mexeu-se na cama. Assim, ao longo de um período de duas horas, ele passou de deitado de lado e apoiando a cabeça na mão para sentado com os joelhos levantados e as mãos cruzadas atrás da cabeça, depois inclinado para a frente, os cotovelos nos joelhos, vol­tando finalmente a deitar-se de lado, a cabeça apoiada na mão. Era como se todas essas posturas fossem elementos de um circuito formal. Os olhos quase não se afastavam da menina. Ela estava absolutamente imóvel. O sono a levara para algum outro lugar e deixara ali apenas seu corpo. Simplesmente dei­tada ali, ambos deitados ali, ela conseguira escapar-lhe.

Wanderley levantou-se, foi até a valise, tirou a camisa enrolada, voltou para junto de sua cama, onde ficou parado, de pé. Segurou a camisa pelo colarinho e deixou que a gravidade levasse a faca de caça para a cama, desenrolando a camisa ao cair. Batendo na cama, a faca era pesada demais para quicar. Wanderley pegou-a.

Segurando a faca novamente atrás das costas, sacudiu a menina pelo ombro. As feições dela pareceram ficar toldadas, antes que se virasse e enterrasse o rosto no travesseiro. Ele lhe segurou o ombro novamente, sentindo o osso comprido e fino, a asa sobressaindo nas costas.

— Vá embora — murmurou a menina, o rosto colado no travesseiro.

— Não. Temos que conversar.

— É muito tarde.

Sacudiu-a. Como a menina não reagisse, tentou rolá-la para o lado, à força. Apesar de pequena e magra, ela tinha força suficiente para resistir. Wanderley não conseguiu fazer com que o fitasse.

Mas ela acabou virando-se por vontade própria, como que numa atitude desdenhosa. A falta de sono era evidente em seu rosto, mas parecia adulta.

— Qual é o seu nome?

— Angie. — Sorriu tranquilamente. — Angie Maule.

— De onde você vem?

— Você sabe.

Ele assentiu.

— Como se chamavam seus pais?

— Não sei.

— Quem tomava conta de você antes de eu pegá-la?

— Isso não tem a menor importância.

— Por que não?

— Eles não são importantes. Eram apenas pessoas.

— O nome deles era Maule?

O sorriso da menina se tornou ainda mais insolente.

— Isso faz alguma diferença? De qualquer forma, você pensa que sabe de tudo.

— O que está querendo dizer com “eram apenas pessoas”?

— Eram apenas pessoas chamadas Mitchell. Mais nada.

— E mudou de nome por sua própria iniciativa?

— Qual é o problema?

— Não sei. — O que era verdade.

Ficaram se olhando, com Wanderley sentado na beira da cama, segurando a faca nas costas e sabendo que seria incapaz de usá-la, o que quer que pudesse acontecer. Imaginava que David também era incapaz de tirar uma vida... qualquer vida, a não ser a sua própria, se é que realmente o fizera. A menina provavelmente sabia que ele estava segurando a faca, pensou Wanderley, ignorando a arma simplesmente como uma ameaça. Não era uma ameaça. Provavelmente, ele próprio também não era uma ameaça. Ela jamais sentira sequer alguma apreensão por causa dele.

— Muito bem, vamos tentar outra vez — disse Wan­derley. — Quem é você?

Pela primeira vez desde que a levara para o carro, a menina sorriu de verdade. Era uma transformação, mas não do tipo que o deixasse mais tranqüilo e à vontade; e nem por isso ela parecia menos adulta.

— Você sabe.

Wanderley insistia:

— Quem é você?

Ela sorria enquanto dava a resposta espantosa:

— Eu sou você.

— Não. Eu sou eu. Você é você.

— Eu sou você.

— Quem é você? — O desespero agora o dominava e a pergunta não tinha o mesmo significado da primeira vez em que a formulara.

Depois, apenas por um segundo, ele estava de volta à rua em Nova York, e a pessoa à sua frente não era a mulher anô­nima, elegante e bronzeada, mas seu irmão David, o rosto esmigalhado e o corpo vestido nas roupas rasgadas e apodrecidas do túmulo.

...a coisa mais terrível...

 

Depois da festa de Jaffrey

Certo dia, no início de outubro, Frederick Hawthorne, um advogado de setenta anos que não perdera muita coisa com a passagem dos anos, saiu de sua casa na Melrose Avenue, em Milburn, Nova York, para seguir a pé até seu escritório, na Wheat Row, ao lado da praça. A temperatura estava um pouco mais fria do que Milburn esperava para o início do outono, mas Ricky usava seu uniforme de inverno, que consistia de sobre­tudo de tweed, cachecol de cashmere e um chapéu cinza. Ca­minhou um tanto rapidamente pela Melrose Avenue, para es­quentar o sangue, passando sob imensos carvalhos e bordos menores, já coloridos por tons de laranja e vermelho, o que era outro toque fora da estação. Era muito sujeito a resfriados e teria que passar a ir de carro para o escritório, se a temperatura caísse mais um pouco.

Até lá, porém, enquanto pudesse impedir que o vento frio entrasse por seu pescoço, apreciava a caminhada. Depois de deixar a Melrose Avenue, andando na direção da praça, já esta­va aquecido o suficiente para andar um pouco mais devagar. Ricky tinha pouco motivo para chegar depressa ao escritório: os clientes raramente apareciam antes de meio-dia. Seu sócio e amigo, Sears James, provavelmente só chegaria uns quarenta e cinco minutos depois. O que dava a Ricky tempo bastante para andar pela cidade, cumprimentando as pessoas e observando as coisas que gostava de observar.

O que mais apreciava ver era Milburn propriamente dita, a cidade em que passara toda a sua vida, exceto pelos períodos na Faculdade de Direito e no Exército. Jamais desejara viver em outro lugar, embora nos primeiros dias do casamento sua linda e irrequieta esposa alegasse que a cidade era por demais tediosa. Stella queria morar em Nova York... e o queria com extrema determinação. Fora uma das batalhas que ele vencera. Era incompreensível para Ricky que alguém pudesse achar Milburn uma cidade tediosa: observando-a atentamente ao lon­go de setenta anos, podia-se ver o século em ação. Ricky ima­ginava que, se alguém observasse Nova York pelo mesmo perío­do, o que veria seria principalmente Nova York em ação. Lá os prédios subiam e desciam depressa demais para o gosto de Ricky, tudo se movia rápido demais, envolto por um casulo de energia, rodopiando com demasiada rapidez para que se pudesse notar qualquer coisa a oeste do Hudson, a não ser as luzes de Jersey. Além do mais, Nova York devia ter umas duas centenas de milhares de advogados; Milburn tinha apenas cinco ou seis que contavam, e ele e Sears eram há quarenta anos os mais preeminentes. (Stella jamais se importara um pouco que fosse com as noções de preeminência de Milburn.)

Ricky entrou no centro comercial, que se estendia por dois quarteirões a oeste da praça, e continuou por mais dois quar­teirões pelo outro lado, passando pelo Cinema Rialto, de Clark Mulligan, onde parou por um momento para dar uma olhada nos cartazes. E o que viu fê-lo torcer o nariz. Os cartazes na frente do Rialto mostravam o rosto sujo de sangue de uma moça. O tipo de filmes que Ricky apreciava só podia agora ser visto na televisão. Para Ricky, a indústria cinematográfica per­dera o rumo quando William Powell se aposentara. (Ele achava que Clark Mulligan provavelmente concordava com esse ponto de vista.) Havia demasiados filmes modernos que eram como os seus sonhos, que se haviam tornado particularmente intensos durante o último ano.

Ricky afastou-se sumariamente do cinema e enfrentou uma perspectiva muito mais agradável. As casas originais de Milburn haviam resistido ao tempo, embora quase todas fossem agora prédios de escritórios; até mesmo as árvores eram mais jovens do que as casas. Seguiu em frente, os sapatos pretos enverni­zados pisando em folhas secas, passando por prédios muito pa­recidos com os da Wheat Row, acompanhado pelas recordações de sua infância naquelas mesmas ruas. Estava sorrindo; se alguma das pessoas a quem cumprimentava por acaso lhe per­guntasse no que estava pensando, poderia ter respondido (se se permitisse ser tão pomposo): “Ora, nas calçadas! Uma das minhas recordações mais antigas é o tempo em que puseram calçadas por toda a extensão da Candlemaker Street, até a praça. Os blocos imensos foram puxados por cavalos. Acho que as calçadas foram uma contribuição maior para a civilização do que o motor a explosão. Antigamente, tanto na primavera como no inverno, a gente tinha que chapinhar pela lama. Não se podia entrar numa sala de visitas sem levar um pouco da lama. E no verão havia poeira por toda parte!”

Evidentemente, refletiu Ricky, as salas de visitas haviam desaparecido mais ou menos na ocasião em que surgiram as calçadas.

Chegando à praça, teve outra surpresa infeliz. Algumas das árvores que margeavam o vasto espaço gramado já estavam completamente desprovidas de folhas, a maioria das outras tinha pelo menos alguns galhos nus. Ainda havia bastante cor como ele estava esperando, mas durante a noite o equilíbrio parecia ter-se alterado, e agora braços e dedos pretos e esque­léticos, os ossos das árvores, sobressaíam por entre as folhas, como placas indicando a chegada do inverno. Folhas mortas cobriam todo o chão da praça.

— Olá, Sr. Hawthorne — disse alguém a seu lado.

Ricky virou-se e deparou com Peter Barnes, que estava no último ano da escola secundária. O pai dele, vinte anos mais moço do que Ricky, pertencia ao segundo grupo dos seus ami­gos. O primeiro círculo consistia de quatro homens de sua idade; eram cinco, mas Edward Wanderley morrera há quase um ano. Mais tristeza, quando ele estava determinado a não se deixar dominar pela melancolia.

— Olá, Peter. Imagino que esteja a caminho da escola.

— As aulas só vão começar daqui a uma hora, hoje. O sistema de aquecimento pifou novamente.

Peter Barnes estava ao lado dele, um rapaz alto, de apa­rência jovial, vestindo suéter e jeans. Os cabelos pretos pare­ciam quase femininamente compridos para Ricky, mas a largura dos ombros prenunciava que, quando ele começasse a encorpar, seria muito maior do que o pai. Era de se imaginar que os cabelos compridos não parecessem tão femininos assim para as garotas.

— Está apenas dando uma volta?

— Isso mesmo. De vez em quando é divertido dar uma volta pela cidade e olhar para as coisas.

Ricky quase ficou radiante.

— Mas tem toda a razão! Sinto exatamente a mesma coisa. Sempre gostei de minhas caminhadas pela cidade. As coisas mais estranhas me passam pela cabeça. Estava agora mesmo pensando que as calçadas mudaram o mundo. Fizeram com que tudo se tornasse muito mais civilizado.

— Ah? — murmurou Peter, fitando-o com a maior curio­sidade.

— Eu sei, eu sei... mas acabei de falar que me ocorrem os pensamentos mais estranhos. Como está Walter?

— Está bem. Já foi para o banco.

— E Christina também está bem?

— Está, sim.

Havia um toque de frieza na resposta de Peter à pergunta sobre a mãe. Séria algum problema? Ricky recordou-se de que Walter se queixara, alguns meses antes, de que Christina anda­va um tanto mal-humorada. Mas para Ricky, que podia lem­brar-se da geração dos pais de Peter como adolescentes, os pro­blemas deles eram sempre um tanto fictícios. Como pessoas com o mundo inteiro ainda pela frente podiam ter problemas realmente sérios?

— Faz tempo que não conversamos assim, Peter. Seu pai já aceitou a idéia de você ir para Cornell?

Peter sorriu meio ironicamente.

— Acho que sim. Não creio que ele saiba o quanto é difícil entrar em Yale. Era muito mais fácil no tempo dele.

— Não resta a menor dúvida de que era mesmo.

Ricky estava se recordando das circunstâncias de sua últi­ma conversa com Peter Barnes. Na festa de John Jaffrey: a noite em que Edward Wanderley morrera.

— Acho que vou dar uma olhada na loja de departamen­tos — comentou Peter.

— Está certo.

Contra sua vontade, Ricky estava lembrando todos os de­talhes daquela noite. Havia ocasiões em que lhe parecia que a vida se tornara mais sombria desde aquela noite, o mundo dera uma volta irreversível.

— Acho que já vou agora — murmurou Peter, dando um passo para trás.

— Não se demore mais por minha causa. Eu estava apenas pensando.

— Sobre calçadas?

— Não, seu malandro.

Peter afastou-se, sorrindo e se despedindo, atravessando rapidamente a praça.

Ricky avistou o Lincoln de Sears James passando pelo Hotel Archer, no alto da praça, seguindo como sempre vinte quilômetros por hora mais devagar que qualquer outro carro. Ele seguiu apressadamente para a Wheat Row. A melancolia ainda não se dissipara: viu novamente os galhos esqueléticos sobressaindo por entre as folhas brilhantes, o terrível rosto ensangüentado da moça no cartaz do cinema, recordou que era a sua vez de contar a história na reunião da Sociedade Chowder naquela noite. Acelerou os passos, perguntando-se o que acon­tecera com toda a sua animação. Mas sabia o que fora: Edward Wanderley. Até mesmo Sears os acompanhara, aos outros três membros da Sociedade Chowder, naquela melancolia. Ricky tinha doze horas para pensar em algo sobre o que falar.

— Olá, Sears — disse ele, nos degraus do prédio, no mo­mento em que o sócio saltava do Lincoln. — Bom dia. Vai ser na sua casa esta noite, não é mesmo?

— Ricky, a esta hora da manhã é absolutamente proibido gorjear.

Sears se adiantou e Ricky seguiu-o pela porta, deixando Milburn para trás.

 

 (Frederick Hawthorne)

 

De todos os lugares em que habitualmente se reuniam, aquele era o predileto de Ricky: a biblioteca da casa de Sears James, com suas poltronas de couro já muito usado, as estantes altas e escuras com portas de vidro, os drinques em mesinhas redondas, gravuras nas paredes, o velho tapete Shiraz sob seus pés e a recordação de antigos charutos na atmosfera. Como jamais se entregara ao casamento, Sears James nunca tivera que fazer concessões em suas concepções suntuosas de conforto. Depois de tantos anos se reunindo, os outros homens estavam àquela altura inconscientes do prazer, relaxamento e inveja automáticos que experimentavam na biblioteca de Sears, assim como também estavam quase inconscientes do mal-estar igual­mente automático que sentiam na casa de John Jaffrey, onde a governanta, Milly Sheehan, estava sempre se intrometendo, para tornar a arrumar as coisas. Mas podiam sentir: cada um deles, Ricky Hawthorne talvez mais do que os outros, gostaria de possuir um lugar assim para si próprio. Mas Sears sempre tivera mais dinheiro do que os outros, assim como o pai dele também tivera mais do que os pais dos outros. Era uma situação imutável por cinco gerações, até se chegar ao dono de um arma­zém rural que inflexivelmente amealhara uma fortuna e trans­formara a família James em burgueses aristocratas. No tempo do avô de Sears, as mulheres da família já eram magras, trê­mulas, decorativas e inúteis, os homens caçavam e iam para Harvard, todos passavam o verão em Saratoga Springs. O pai de Sears fora professor de línguas antigas em Harvard, onde manti­nha uma terceira casa da família. O próprio Sears se tornara advogado porque, quando jovem, achava que era imoral um homem não ter uma profissão. O ano ou pouco mais que passara como professor lhe havia mostrado que não poderia ser essa a sua profissão. Quanto aos outros membros da família, primos e irmãos, a maioria sucumbira à vida fácil, acidentes de caça, cirroses ou colapsos. Mas Sears, velho amigo de Ricky, seguira em frente entre todos os perigos, até se tornar, se não o velho mais bonito de Milburn, um título que certamente cabia a Lewis Benedikt, pelo menos o mais distinto. A não ser pela barba, era uma repetição do pai, alto, calvo e corpulento, o rosto redondo com uma expressão sutil, encimando os temos completos. Os olhos ainda eram muito jovens.

Ricky imaginava que devia também ter inveja da aparência imponente de Sears. Ele próprio jamais fora particularmente atraente. Era pequeno e bem-arrumado demais para isso. So­mente o bigode é que melhorara com a idade, tornando-se mais viçoso à medida que ia ficando grisalho. Ao desenvolver uma papada, isso não o tornara mais notável, apenas fizera com que parecesse mais esperto. Ricky não se considerava particular­mente esperto. Se fosse, poderia ter evitado uma associação profissional pela qual se tornaria, oficiosamente, uma espécie de sócio júnior permanente. Mas fora seu pai, Harold Haw­thorne, quem trouxera Sears para a firma. Durante todos aqueles anos, Ricky sentira-se satisfeito, até mesmo excitado, por estar associado a seu velho amigo. Agora, acomodado numa cadeira de braços inegavelmente confortável, ele imaginou que ainda estava satisfeito; os anos os haviam unido tão seguramente quanto seu casamento com Stella, a união profissional sendo muito mais pacífica do que a doméstica, mesmo quando os clientes, na mesma sala com os dois advogados, olhassem inva­riavelmente para Sears e não para ele ao falar. Era algo que Stella jamais teria tolerado. (Diga-se de passagem que nenhuma pessoa em seu juízo perfeito, durante todos os anos do casa­mento deles, teria olhado para Ricky, se pudesse contemplar Stella.)

Isso mesmo, admitiu Ricky para si próprio, pela milésima vez, gostava dali. Era contrário a seus princípios e à sua polí­tica, provavelmente também ao puritanismo de uma religião há muito esquecida, mas a biblioteca de Sears — toda a esplên­dida casa de Sears — era um lugar onde um homem podia sentir-se à vontade. Stella não tinha o menor escrúpulo em manifestar que era também o lugar onde, com alguma reestruturação básica, uma mulher também poderia sentir-se à vontade. Ela não se importava em tratar a casa de Sears, de vez em quando, como se fosse sua. Felizmente, Sears tolerava tal ati­tude. Fora Stella, numa daquelas ocasiões (há doze anos, en­trando na biblioteca como se estivesse à frente de um pelotão de arquitetos), que lhes dera o nome, ao comentar:

— Lá estão vocês novamente! A própria Sociedade Chow­der! Vai manter meu marido longe de mim durante toda a noite, Sears? Ou será que ainda não terminaram de contar suas mentiras?

Apesar de tudo, ele achava que era a energia perpétua e as constantes alfinetadas de Stella que o impediam de sucumbir à velhice, como acontecera com John Jaffrey. Pois Jaffrey era de fato um “velho”, apesar de seis meses mais jovem do que o próprio Hawthorne, um ano menos do que Sears, e apenas cinco anos mais velho do que Lewis, o membro mais moço do grupo.

Lewis Benedikt, o homem que fora acusado de matar a esposa, estava sentado imediatamente à frente de Ricky, uma imagem de boa saúde, exuberante. À medida que o tempo passava por todos eles, subtraindo coisas, parecia acrescentar apenas para Lewis. Não era verdade quando ele era mais moço, mas agora Lewis inegavelmente se parecia com Cary Grant. O queixo dele não descaía, os cabelos resistiam à queda. Tor­nara-se quase absurdamente bonito. Naquela noite, as feições plácidas e bem-humoradas de Lewis apresentavam uma expres­são de expectativa, o que também acontecia com os outros, à exceção de Ricky. De um modo geral, as melhores histórias eram contadas ali, na casa de Sears.

— De quem é a vez esta noite? — indagou Lewis.

A pergunta era apenas uma questão de cortesia. Todos sabiam. O grupo chamado Sociedade Chowder tinha apenas umas poucas regras: usavam trajes a rigor (porque trinta anos antes Sears gostara da idéia), nunca bebiam demais (e agora já estavam mesmo um tanto velhos para isso), jamais indagavam se alguma das histórias era verídica (pois até mesmo as mentiras mais absurdas tinham algum fundo de verdade) e jamais pres­sionavam alguém que tivesse deixado de fluir temporariamente, embora as histórias fossem contadas em rodízio.

Hawthorne já estava prestes a se manifestar quando John Jaffrey interveio:

— Estive pensando... — Percebendo os olhares inquisitivos dos outros, apressou-se em explicar: — Não, sei que não é a minha vez, o que é Ótimo. Mas estive pensando que dentro de duas semanas vai fazer um ano que Edward morreu. Ele estaria aqui esta noite, se eu não tivesse insistido naquela mal­dita festa...

— Por favor, John — disse Ricky. Ele não gostava de olhar diretamente para o rosto de Jaffrey, quando deixava transparecer suas emoções tão claramente. Parecia que se podia enfiar uma agulha na pele de Jaffrey sem arrancar nenhum sangue. — Todos sabemos que você não teve a menor culpa.

— Mas aconteceu em minha casa! — insistiu Jaffrey.

— Procure acalmar-se, Doc — disse Lewis. — Não está ajudando a si mesmo com essa atitude.

— Deixe que eu próprio decida isso!

— Então não está ajudando aos demais — disse Lewis, sem perder o tom suave de bom humor. — Todos nos lembra­mos da data. Como poderíamos esquecer?

— E o que estão fazendo a respeito? Acham que se estão comportando como se nunca tivesse acontecido... como se tivesse sido algo normal, simplesmente mais um velho que bateu as botas? Se é isso, deixem-me dizer que estão redondamente enganados!

Todos estavam chocados, num silêncio forçado; até mesmo Ricky não conseguia pensar em coisa alguma que pudesse dizer naquele momento. O rosto de Jaffrey estava terrivelmente pálido.

— Mas não estão... não estão mesmo! Todos sabem o que está acontecendo conosco. Ficamos sentados a falar como um bando de vampiros. Milly já não consegue mais suportar nossa presença lá em casa. Nem sempre fomos assim. Antiga­mente, costumávamos conversar sobre todas as coisas. Nós cos­tumávamos nos divertir... e como! Mas agora isso já não mais acontece. Estamos todos apavorados. Mas não sei se vocês o estão admitindo. Pois bem: já se passou um ano e não me im­porto de confessar que estou com medo.

— Não tenho muita certeza se estou também apavorado — comentou Lewis, tomando um gole de uísque e sorrindo para Jaffrey.

— Mas também não tem certeza se não está — respondeu o médico.

Sears James tossiu com o punho fechado diante da boca e todos se viraram para fitá-lo. “Santo Deus”, pensou Ricky, “ele pode fazer isso sempre que quer, atrair a nossa atenção sem o menor esforço. Não sei por que ele pensou que não podia ser um bom professor. E não sei como cheguei a pensar que me podia manter numa posição de igualdade com ele.”

— John, todos estamos a par dos fatos — disse Sears, gentilmente. — Todos vocês foram delicados o bastante para virem até aqui esta noite, apesar do frio e de já não sermos mais tão jovens. Por favor, vamos continuar.

— Mas acontece que Edward não morreu em sua casa. E a tal de Moore, a suposta atriz, não...

— Já chega — ordenou Sears.

— Imagino que se lembra perfeitamente de como começa­mos com isso — disse Jaffrey.

Sears assentiu, assim como Ricky Hawthorne. Fora no primeiro encontro depois da estranha morte de Edward Wan­derley. Os quatro restantes estavam hesitantes; não poderiam estar mais conscientes da ausência de Edward se houvesse uma cadeira vazia entre eles. A conversa tropeçara e enguiçara atra­vés de meia dúzia de tentativas. Ricky compreendera que todos estavam imaginando se conseguiriam prosseguir com aqueles encontros. Mas sabia também que nenhum deles poderia su­portar a suspensão das reuniões. E fora então que tivera uma inspiração. Virara-se para John Jaffrey e perguntara:

— Qual foi a pior coisa que você já fez?

O Dr. Jaffrey surpreendera-o ao ficar vermelho e depois dera o tom a todas as reuniões subseqüentes, ao dizer:

— Não vou contar, mas lhe direi qual foi a pior coisa que já me aconteceu... a mais terrível...

E contara a seguir uma história de fantasma. Fora absor­vente, surpreendente... e servira para que não pensassem em Edward. Haviam adotado o esquema desde então.

— Acha realmente que é apenas coincidência? — indagou Jaffrey.

— Não estou entendendo — resmungou Sears.

— Está se fazendo de desentendido, e a coisa está debaixo de seu nariz. Começamos com isso, primeiro eu, logo depois que Edward... — Ele suspendeu a frase no meio. Ricky sabia que Jaffrey estava indeciso, sem saber se devia dizer morreu ou foi morto.

— Foi para o oeste — sugeriu ele, esperando com isso amenizar um pouco a tensão. Os olhos impassíveis de lagarto de Jaffrey, fixando-se nele, informaram-no que fracassara. Ricky recostou-se na poltrona, esperando desaparecer no ambiente suntuoso, passar tão despercebido quanto uma mancha de água num dos mapas antigos de Sears.

— De onde tirou essa expressão? — indagou Sears. Ricky recordou: era o que seu pai costumava dizer quando um cliente morria. “O velho Toby Pfaff foi para o oeste ontem à noite... A Sra. Wintergreen foi para o oeste esta manhã. Não vai ser fácil tratar da herança.” Sears sacudiu a cabeça. — É isso mes­mo, estou lembrando agora — comentou. — Mas não sei...

— Acho que alguma coisa terrivelmente estranha está acontecendo — insistiu Jaffrey.

— E o que sugere? Presumo que não esteja falando apenas para interromper os trâmites habituais.

Ricky sorriu por cima das pontas unidas dos dedos, para mostrar que não se sentia ofendido. Podia ver que Jaffrey estava se esforçando ao máximo para tratar Sears cuidadosa­mente.

— Pois tenho mesmo uma sugestão. Acho que deveríamos convidar o sobrinho de Edward para uma reunião.

— E de que isso serviria?

— Ele não é uma espécie de especialista... nesse tipo de coisa?

— O que está querendo dizer exatamente com “nesse tipo de coisa”?

Pressionado, Jaffrey não recuou.

— Talvez simplesmente o que é misterioso. Acho que ele poderia...  para ser franco, acho que ele nos poderia ajudar. — Sears estava visivelmente impaciente, mas o médico não deixou que ele o interrompesse, apressando-se em continuar: — Estou convencido de que precisamos de ajuda. Ou será que sou o único dos presentes que encontra a maior dificuldade para ter uma boa noite de sono? Será que sou o único que tem pesa­delos todas as noites? — Fez uma pausa, contemplando os outros, um a um, com o rosto encovado. — Por que não diz alguma coisa, Ricky? Sempre foi um homem sincero.

— Você não é o único, John — confirmou Ricky.

— Não, acho que não — disse Sears. Ricky fitou-o, sur­preso. Sears jamais indicara que também tinha noites horríveis, jamais o deixara transparecer em seu rosto suave e pensativo.

— Imagino que está pensando no livro dele, John.

— Isso mesmo. Ele deve ter feito alguma pesquisa... deve ter tido alguma experiência.

— Pensei que a experiência dele fosse de instabilidade mental.

— Como a nossa — declarou Jaffrey, bravamente. — Edward devia ter alguma razão para querer que seu sobrinho viesse a esta casa. Queria que Donald viesse até aqui, se algu­ma coisa lhe acontecesse. Acho que sabia que alguma coisa aconteceria. E estou pensando em mais outra coisa. Acho que lhe devemos contar a respeito de Eva Galli.

— Contar uma história inconclusa que já tem mais de cinqüenta anos? Isso é ridículo.

— A razão de não ser ridícula é justamente o fato de ser inconclusa — comentou o médico.

Ricky percebeu que Lewis estava tão surpreso quanto ele, até mesmo abalado, pelo fato de Jaffrey ter levantado a história de Eva Galli. O episódio estava sepultado no passado há cinqüenta anos, como Sears dissera; nenhum deles o mencionara desde então.

— Acha que sabe o que aconteceu com ela? — desafiou o médico.

— Ei, vamos com calma! — interveio Lewis. — Será que realmente estamos   precisando disso? Onde está querendo chegar?

— Estou simplesmente querendo descobrir o que real­mente aconteceu com Edward. Lamento muito se isso não ficou bem claro.

Sears assentiu. Ricky teve a impressão de perceber no rosto do seu sócio por tantos anos um sinal de... do quê? Alívio? É claro que Sears jamais iria admiti-lo, mas o simples fato de ter transparecido já era uma revelação para Ricky.

— Tenho algumas dúvidas quanto ao argumento —. co­mentou Sears. — Mas se isso o deixa feliz, acho que podemos escrever para o sobrinho de Edward. Temos o endereço dele em nossos arquivos, não é mesmo, Ricky? — Hawthorne as­sentiu. — Porém, para sermos democráticos, eu gostaria que houvesse antes uma votação. Devemos concordar ou discordar verbalmente, fazendo assim a votação. O que me dizem?

Tomou um gole de uísque, enquanto olhava um a um. Todos assentiram.

— Vamos começar por você, John.

— Claro que digo sim. Vamos chamá-lo.

— Lewis?

Lewis deu de ombros.

— Acho que uma coisa ou outra não faz a menor dife­rença. Podem chamá-lo, se assim quiserem.

— Isso significa um sim?

— Está bem, é um sim. Mas acho que não devemos tocar no caso de Eva Galli.

— Ricky?

Ricky olhou para o sócio e compreendeu que o sócio sabia como ele iria votar.

— Não, decididamente não. Acho que é um erro.

— Prefere continuar como estamos há um ano?

— Qualquer mudança é sempre para pior.

Sears achou graça.

— Falou como um verdadeiro advogado. Mas eu digo que sim, o que torna o resultado três contra um. Está aprovada a decisão. Vamos escrever para ele. E como o voto decisivo foi o meu, podem deixar que cuidarei de tudo.

— Acabo de me lembrar de outra coisa — disse Ricky. — Está fazendo um ano agora. E se ele quiser vender a casa? Está vazia desde que Edward morreu.

— Está inventando problemas, Ricky. Poderemos trazê-lo mais depressa para cá se ele quiser vender.

— Como pode ter certeza de que as coisas não vão ficar ainda piores?

Sentando pelo menos uma vez por mês, há mais de vinte anos, numa poltrona cobiçada, na melhor sala que ele conhecia, Ricky desejava ardentemente que nada mudasse, que pudessem continuar assim indefinidamente, a darem vazão a suas apreensões através de pesadelos e histórias. Contemplando a todos sob a luz fraca, enquanto um vento frio batia lá fora contra as ja­nelas de Sears, Ricky não desejava mais do que isso: simples­mente continuar. De certa forma, estava tão unido a eles quanto um momento atrás se considerara unido a Sears. Gradativa-mente, começou a compreender que temia por eles. Pareciam terrivelmente vulneráveis, sentados ali, fitando-o zombeteiramente, como se imaginassem que nada poderia ser pior do que uns poucos pesadelos e algumas histórias de fantasmas. Acredi­tavam na eficácia do conhecimento. Mas Ricky podia ver um plano de escuridão, projetado pela copa de um abajur, estam­par-se na testa de John Jaffrey. E pensou: “John já está mor­rendo. Há uma espécie de conhecimento que eles nunca en­frentaram, apesar das histórias que contam”. E quando tal pensamento lhe passou pela cabeça pequena e bem-arrumada, foi como se o que quer que estivesse implícito nesse conheci­mento se encontrasse em algum lugar lá fora, nos primeiros sinais do inverno, começando a envolvê-los.

— Já decidimos, Ricky — disse Sears. — Será melhor. Não podemos continuar angustiados como estamos. E agora... — Correu os olhos pelo círculo que haviam formado, esfre­gando as mãos metaforicamente, e acrescentou: — Agora que isso está resolvido, quem está na berlinda esta noite?

Dentro de Ricky Hawthorne, o passado subitamente se re­mexeu e levou à tona um momento tão vívido e completo que ele compreendeu que tinha sua história, embora nada houvesse planejado e pensasse que teria de passar. Mas dezoito horas do ano de 1945 surgiram nitidamente em sua mente e ele disse:

— Acho que sou eu,

 

Quando os outros dois se retiraram, Ricky decidiu ficar mais um pouco, dizendo-lhes que não tinha qualquer pressa em sair para o frio lá fora. Lewis comentou:

— Vai servir para levar um pouco de sangue a seu rosto, Ricky.

Mas o Dr, Jaffrey limitou-se a assentir. Estava inespera­damente frio para outubro, frio o bastante para que nevasse. Depois, sentado sozinho na biblioteca, enquanto Sears saía para renovar os drinques, Ricky pôde ouvir o barulho da ignição do carro de Lewis na rua. Ele tinha um Morgan, que importara da Inglaterra há cinco anos. Era o único carro esporte de cuja aparência Ricky realmente gostava. Mas a capota de lona não seria uma proteção adequada numa noite como aquela; e Lewis parecia estar tendo alguma dificuldade em fazer o carro pegar. Agora! Ele quase conseguira. Naqueles invernos de Nova York, era necessário realmente ter algo maior do que o pequeno Morgan de Lewis. O pobre John estaria congelado quando Lewis finalmente o levasse até Milly Sheehan e a casa imensa na esquina da Montgomery Street, a sete quarteirões dali. Milly estaria sentada na semi-escuridão da sala de espera do consultório, mantendo-se acordada a fim de poder levantar-se de um pulo assim que ouvisse o barulho da chave na porta, ajudar Jaffrey a tirar o casaco e servir-lhe um pouco de choco­late quente. Com Ricky sentado ali, escutando atentamente, o motor do carro de Lewis finalmente pegou; pôde ouvi-lo se afastando e imaginou Lewis a ajeitar o chapéu na cabeça, sorrir para John e dizer:

— Eu  não lhe disse que  esta  minha  beleza  não  falha nunca?

Depois de largar John em casa, Lewis deixaria inteiramen­te a cidade, seguindo pela Rodovia 17 até estar bem no meio do bosque, voltando à propriedade que comprara ao retornar. Fosse o que fosse que Lewis tivesse feito na Espanha, certamen­te ganhara muito dinheiro.

A casa de Ricky ficava literalmente logo depois da esqui­na, uma caminhada de menos de cinco minutos. Antigamente, ele e Sears iam a pé para o escritório no centro todos os dias; às vezes ainda o faziam, quando o tempo estava bom. “Mutt e Jeff”, como dissera Stella. O comentário era dirigido mais a Sears do que a ele. Stella jamais gostara muito de Sears. É claro que ela jamais permitia que essa antipatia submersa interferisse com suas tentativas de dominar Sears pelo menos um pouco. Ricky não tinha a menor dúvida de que Stella não o estaria esperando com uma xícara de chocolate quente. Ela já devia estar dormindo há horas, deixando apenas uma luz acesa no vestíbulo do segundo andar. Stella achava que, se o marido queria divertir-se nas casas dos amigos, deixando-a para trás, podia perfeitamente encontrar o caminho no escuro quando voltasse para sua própria casa,  esbarrando com os joelhos  nos móveis modernos de vidro e cromo que o obrigara a comprar. Sears voltou para a sala com dois drinques nas mãos e um charuto aceso na boca. Ricky comentou:

— Sears, você é provavelmente a única pessoa que eu co­nheço para quem posso de vez em quando confessar que há ocasiões em que desejaria nunca ter-me casado.

— Não desperdice sua inveja comigo, Ricky. Sou velho demais, gordo demais e cansado demais.

— Não é nenhuma dessas coisas — disse Ricky, pegando o drinque que Sears lhe estendeu. — Mas pode dar-se ao luxo de fingir que é.               

— Mas você tirou o grande prêmio, Ricky. O motivo pelo qual não faz esse comentário a ninguém mais é que os outros ficariam espantados. Afinal, Stella é uma beldade famosa. E se dissesse tal coisa à própria, pode estar certo de que ela lhe arrancaria os miolos. — Sears sentou-se na mesma poltrona que ocupara anteriormente, esticou as pernas e depois cruzou-as, na altura dos tornozelos. — Ela providenciaria rapidamente um caixão, jogaria você lá dentro e o enterraria, tudo em apenas cinco segundos, fugindo depois com um tipo atlético de qua­renta anos, cheirando a água salgada e rum ordinário. O mo­tivo pelo qual me conta isso... — Sears fez uma pausa. Ricky receou que ele fosse dizer: “Às vezes eu gostaria também que você nunca se tivesse casado”. — É que estou hors de combat. Ou devo dizer hors commerce?

Escutando o sócio falar, segurando o drinque, Ricky pen­sou em John Jaffrey e Lewis Benedikt seguindo para suas casas, em sua própria casa recentemente redecorada à sua espera. Compreendeu como suas vidas eram assentadas e acomodadas, como haviam encontrado uma rotina tranqüila e confortável.

— Qual das duas, Ricky?

— No seu caso, tenho certeza de que é hors de combat.

Ricky sorriu, consciente da intimidade entre os dois. Lem­brou-se do que dissera pouco antes, “Qualquer mudança é sem­pre para pior”, e pensou: “É verdade, que Deus nos ajude”. Subitamente, Ricky viu a todos, a seus velhos amigos e a si mesmo, como se estivessem num plano frágil e invisível, sus­penso lá no alto do céu escuro.

— Stella sabe que você tem pesadelos? — indagou Sears.

— Eu nem sabia que você também tinha — respondeu Ricky, como se fosse um gracejo.

— Não vi motivo para falar a respeito.

— E vem tendo esses pesadelos há...

Sears afundou mais um pouco na poltrona.

— E você vem tendo os seus há...

— Um ano.

— Eu também. Há um ano. Aparentemente, o mesmo está acontecendo com os outros dois.

— Lewis não parece muito abalado.

— Nada jamais abala Lewis. Ao fazê-lo, o Criador disse: “Vou dar-lhe um rosto bonito, um bom físico e um tempera­mento sereno. Mas como este é um mundo imperfeito, vou conter-me um pouco nos miolos”. Lewis ficou rico porque gos­tava das aldeias de pescadores da Espanha, não porque sou­besse o que lhes ia acontecer.

Ricky ignorou o comentário; era tudo parte da maneira com que Sears gostava de caracterizar Lewis.

— Começaram depois da morte de Edward?

Sears concordou.

— O que acha que aconteceu com Edward?

Sears deu de ombros. Todos já haviam feito aquela mesma pergunta vezes demais.

— Como está perfeitamente a par, não sei mais do que você.

— Acha que poderemos ser um pouco mais felizes se descobrirmos?

— Mas que pergunta! É algo que também não posso res­ponder, Ricky.

— Pois estou convencido de que algo de terrível nos irá acontecer. Acho que iremos atrair o desastre se convidarmos o jovem Wanderley para um encontro.

— O que está dizendo é pura superstição, uma bobagem completa — resmungou Sears. — Acho que algo terrível já nos aconteceu e que o jovem Wanderley talvez seja o homem capaz de esclarecer tudo.

— Leu o livro dele?

— O segundo? Dei uma olhada.

Era uma admissão de que o tinha lido.

— E o que achou?

— Um bom exercício no gênero. Com mais qualidades literárias do que a maioria. Umas poucas frases excelentes, um enredo razoavelmente inspirado e bem desenvolvido.

— Mas sobre o que ele possa pensar...

— Tenho a impressão de que ele não nos vai repelir pron­tamente como a um bando de velhos tolos.  Isso é o mais importante.

— Pois eu gostaria que ele nos repelisse. Não quero ver ninguém a se imiscuir em nossas vidas. Prefiro que as coisas continuem como estão.

— Mas é possível que ele bisbilhote nossas vidas e ter­mine convencendo-nos de que estamos apenas iludindo a nós mesmos. Talvez então Jaffrey pare de se atormentar por causa daquela maldita festa. Ele insistiu apenas porque queria co­nhecer aquela atrizinha ordinária, a tal de Moore.

— Estou sempre pensando naquela festa, Sears, procuran­do recordar quando a vi naquela noite.

— Eu a vi conversando com Stella.

— É o que todo mundo diz, que ela estava conversando com minha esposa. Mas para onde foi depois?

— Você está ficando tão mal quanto John. Vamos esperar pelo jovem Wanderley. Precisamos de uma mente fresca para examinar os fatos.

— Estou convencido de que nos vamos arrepender depois — falou Ricky, fazendo uma última tentativa. — Vamos ter­minar arrasados. Seremos como algum animal a comer a própria cauda. É melhor mudarmos de idéia.

— Já está “decidido, Ricky. Não seja melodramático.

Então não havia mais jeito. Nada poderia demover Sears. Ricky fez-lhe outra das perguntas que estavam em sua mente:

— Nas nossas noites, sempre sabe de antemão o que vai dizer, quando chega sua vez?

Os olhos de Sears se encontraram com os dele, maravi­lhosa e impecavelmente azuis.

— Por quê?

— Porque o mesmo não acontece comigo. Ou pelo menos na maioria das vezes. Fico sentado, esperando, de repente a história me surge na cabeça, como esta noite. É o que também acontece com você?

— Freqüentemente. Só que isso não prova coisa alguma.

— Será que também é assim com os outros?

— Não vejo razão para que não possa ser. E agora, Ricky, quero descansar um pouco e você deve ir para casa. Stella deve estar à sua espera.

Ricky não conseguiu determinar se Sears estava ou não sendo irônico. Ajeitou a gravata-borboleta, uma parte de sua vida, como a Sociedade Chowder, que Stella quase não tolerava.

—  De onde vêm essas histórias?

— De nossas memórias — respondeu Sears. — Ou, se prefere, de nossas indubitáveis inconsciências freudianas. Agora chega, Ricky. Quero ficar sozinho. E ainda tenho de lavar todos os copos antes de me deitar.

—  Posso pedir-lhe mais uma vez...

—  O que é agora?

—  ...para  não  escrever ao sobrinho de Edward?  — Ricky levantou-se, a audácia fazendo seu coração bater mais depressa.

—  Você sabe ser persistente, hein? Claro que pode sem­pre me pedir, mas ele já terá recebido minha carta na próxima vez em que nos reunirmos. Estou convencido de que é a melhor que podemos fazer.

Ricky amarrou a cara e Sears acrescentou:

—  Persistente sem ser agressivo. — Era um comentário que Stella poderia perfeitamente ter feito. Mas Sears deixou Ricky aturdido ao arrematar:  — É uma excelente qualida­de, Ricky.

Na porta, Sears ficou segurando o capote, enquanto Ricky enfiava os braços pelas mangas.

—  Achei que John estava pior do que nunca esta noite — comentou Ricky.

Sears abriu a porta para a noite escura, iluminada pelo lampião diante da casa. Uma claridade alaranjada se derramava sobre o gramado morto e a calçada estreita, cobertos de folhas mortas. Nuvens escuras e ameaçadoras deslocavam-se pelo céu negro, era como se já fosse inverno.

—  John está morrendo — disse Sears, calmamente, repe­tindo o pensamento de Ricky. — Até amanhã em Wheat Row. E apresente meus respeitos a Stella.

E a porta se fechou atrás daquele velho pequeno e muito aprumado, já começando a estremecer no ar frio da  noite.

 

 (Sears James)

 

Passavam a maior parte dos dias juntos, no escritório, mas Ricky honrou a tradição e esperou até a reunião na casa do Dr. Jaffrey para fazer a pergunta que há duas semanas não lhe saía da mente:

—  Já mandou a carta?

—  Claro! Eu disse que iria mandá-la o mais depressa possível.

—  E o que disse na carta?

—  O que combinamos. Falei também na casa e disse que esperávamos que não se decidisse a vendê-la sem antes exami­ná-la. Todas as coisas de Edward ainda estão lá, inclusive as gravações. Se não tivemos a coragem de ouvi-las, talvez ele o faça.

Estavam de pé, um pouco separados dos outros dois, à entrada das salas de estar da casa de John Jaffrey. John e Lewis estavam sentados em cadeiras vitorianas num canto da sala mais próxima, conversando com a governanta do médico, Milly Sheehan, sentada num banco diante deles, segurando uma ban­deja florida com os drinques. Como a esposa de Ricky, Milly sentia-se ressentida por ser excluída das reuniões da Sociedade Chowder; ao contrário de Stella Hawthorne, porém, ela pairava eternamente em torno da reunião, entrando abruptamente, a todo instante, com baldes de gelo, sanduíches e café. Irritava Sears quase tanto quanto uma mosca batendo contra a janela. Sob muitos aspectos, Milly era preferível a Stella Hawthorne, sendo menos exigente, menos impulsiva. E não restava a menor dúvida de que sabia cuidar de John. Sears aprovava as mulheres que serviam e ajudavam a seus amigos. E, para ele, era uma questão em aberto se Stella cuidava ou não de Ricky.

Sears olhou agora para a pessoa que o destino pusera mais perto dele que qualquer outra no mundo e compreendeu que Ricky estava pensando que ele dera um jeito de se esquivar à última pergunta. O rosto sagaz de Ricky estava tenso de im­paciência.

—  Está bem, Ricky, está bem. Disse ao rapaz que não estávamos satisfeitos com o que sabíamos a respeito da morte de seu tio. E não mencionei Eva Galli.

—  Ainda bem — murmurou Ricky, entrando na sala para se juntar aos outros.

Milly se levantou, mas Ricky sorriu e acenou para que ela sentasse outra vez no banco. Um gentleman nato, Ricky sempre fora gentil e encantador com as mulheres. Estava a pouco mais de um metro de uma cadeira, mas não se sentaria enquanto Milly não o convidasse a fazê-lo.

Sears desviou os olhos de Ricky e contemplou a sala, no segundo andar. John Jaffrey convertera todo o andar térreo da casa em consultório, com salas de espera, salas de exames, uma saleta para os medicamentos. Os outros dois aposentos peque­nos do andar térreo eram ocupados por Milly. John passava o resto de sua vida ali em cima, onde havia apenas quartos, nos velhos tempos. Sears conhecia o interior da casa de John Jaffrey pelo menos há sessenta anos. Na infância, vivera a apenas duas casas de distância, no outro lado da rua. Isto é, o prédio que ele sempre considerara como “a casa da família” ficava ali, para onde voltava nas férias do colégio interno, para onde voltava nas férias de Cambridge. Naquele tempo, a casa de Jaffrey pertencia a uma família chamada Frederickson, com dois filhos bem mais jovens do que Sears. O Sr. Frederickson era um comerciante de cereais, um homem imenso, bebedor de cerveja, os cabelos vermelhos e o rosto ainda mais vermelho, algumas vezes misteriosamente tingidos de azul. A esposa era a mulher mais desejável que Sears já vira. Era alta, os cabelos compridos cacheados, com uma tonalidade entre castanho e castanho-avermelhado, um exótico rosto jovial, seios proemi­nentes. O jovem Sears sentia-se fascinado por aqueles seios; ao falar com Viola Frederickson, tinha que fazer o maior esforço para manter os olhos no rosto dela.

No verão, ao voltar do colégio interno e nos intervalos entre as viagens para o campo, era Sears quem tomava conta dos filhos do casal. Os Frederickson não podiam dar-se ao luxo de ter uma babá em tempo integral, embora uma moça de Hollow morasse na casa, como cozinheira e arrumadeira. Era bem possível que Frederickson apreciasse a idéia de ter o filho do Professor James tomando conta de seus filhos. Sears tam­bém tinha os seus divertimentos. Gostava dos meninos e apre­ciava a idolatria deles, que muito se parecia com as dos alunos mais moços do colégio. Depois que os meninos dormiam, ele gostava de vaguear pela casa, vendo o que podia descobrir. Foi na cômoda de Abel Frederickson que viu a primeira camisa-de-vênus. Sabia que estava agindo errado, ao entrar nos aposentos onde então se encontrava, mas simplesmente não conseguia conter-se. Uma noite, abriu a escrivaninha de Viola Frederick­son e encontrou uma fotografia dela, extremamente sedutora, exótica, atraente, um ícone da outra metade da espécie. Con­templou a maneira como os seios esticavam o tecido da blusa e sua mente foi dominada pelas sensações do peso daqueles seios, de sua densidade. O pênis intumesceu-se, parecia tão duro quanto o tronco de uma árvore. Era a primeira vez que sua sexualidade o atingia com tanta força. Gemendo, as mãos com­primindo a calça, desviou-se da fotografia e avistou uma blusa de Viola Frederickson dobrada sobre a cômoda. Não pôde con­trolar-se e acariciou-a. Podia ver onde a blusa se estofava, por cima dos seios: a carne de Viola Frederickson parecia estar sob suas mãos. Desabotoou a calça e tirou o membro. Colocou-o na blusa, pensando com a parte da mente que ainda era capaz de pensar que estava realmente fazendo aquilo, que estava empur­rando a ponta do membro entre os seios dela. Gemeu alto, curvou-se sobre a blusa, uma convulsão lhe percorreu o corpo e explodiu. As bolas davam a impressão de estarem sendo apertadas num torno. Imediatamente depois, a vergonha o atingia em cheio, como um punho cerrado. Meteu a blusa em sua bolsa de livros e deu uma volta grande a caminho de casa, enrolando a peça outrora imaculada numa pedra e jogando-a no rio. Ninguém jamais mencionara a blusa roubada, mas foi tam­bém a última vez que o convidaram a tomar conta dos filhos.

Pelas janelas atrás da cabeça de Ricky Hawthorne, Sears podia ver a luz de um lampião da rua incidindo sobre o segun­do andar da casa que Eva Galli comprara, quando, por qualquer capricho ou impulso, viera para Milburn. Na maior parte do tempo, ele conseguia esquecê-la e o lugar em que ela morara. Calculou que tudo aflorara à sua mente agora por causa de alguma ligação que a mente fizera entre, Eva Galli e a cena ridícula que acabara de recordar.

“Talvez eu devesse ter saído de Milburn quando podia”, pensou ele. O quarto onde Edward Wanderley morrera, exata­mente há um ano, ficava logo ali em cima. Por um acordo tácito, nenhum deles aludira à coincidência de a reunião se rea­lizar exatamente ali, no aniversário da morte do amigo. Uma fração do pressentimento de tragédia de Ricky Hawthorne se insinuou na mente de Sears, que disse a si mesmo: “Seu velho tolo! Ainda se sente culpado por causa daquela blusa! Essa não!”

 

— É a minha vez esta noite — disse Sears, ajeitando-se da melhor forma na enorme cadeira de braços de Jaffrey e pro­curando não ficar de frente para a antiga casa de Eva Galli. — E quero falar sobre certos acontecimentos que ocorre­ram comigo quando era jovem e estava experimentando a profissão de professor, no campo, perto de Elmyra. Digo expe­rimentando porque, mesmo naquela ocasião, ao início do meu primeiro ano, não tinha certeza se estava destinado àquela profissão. Assinara um contrato de dois anos, mas estava con­vencido de que eles não me poderiam reter, se quisesse mesmo ir embora. Pois foi lá que me aconteceu uma das coisas mais terríveis da minha vida. Ou não aconteceu e imaginei tudo. De qualquer forma, fiquei apavorado e os acontecimentos acabaram tornando impossível minha permanência. É a pior história que conheço, e a mantive trancada na mente por cinqüenta anos.

“Vocês sabem quais eram os deveres de um mestre-escola naquele tempo. Não era nenhuma escola urbana, assim como também não era nenhuma escola particular exclusiva no campo. Eu deveria ter procurado outro lugar, mas naquele tempo tinha algumas idéias um tanto rebuscadas. Imaginava-me um verda­deiro Sócrates rural, levando a luz da razão para o ermo inculto. Naquele tempo, a região em torno de Elmyra era quase isso, um ermo despovoado, pelo que me lembro. Agora, porém, nem mesmo existe uma comunidade suburbana onde era o povoado. Construíram um trevo rodoviário bem no local da escola. Tudo ficou enterrado sob concreto. O lugar tinha o nome de Four Forks. Agora já não resta mais nada. Mas naquele tempo, durante o meu ano fora de Milburn, era uma aldeiazinha típica, dez ou doze casas, um armazém, uma agência dos cor­reios, o ferreiro, a escola. Todas as construções se pareciam. Eram de madeira, há anos que não recebiam uma camada de tinta, o que as deixara cinzentas, com uma aparência desoladora. A escola, é claro, só tinha uma sala, uma única sala para os oito anos do curso. Quando cheguei para a entrevista, fui informado de que ficaria hospedado com os Mather — que haviam feito a proposta mais baixa e eu logo descobriria por quê — e meu dia de trabalho começaria às seis horas da manhã. Teria que cortar lenha para a estufa da escola, acender um bom fogo, varrer tudo, guardar os livros nos lugares, bombear água... até mesmo lavar as janelas, quando houvesse necessidade.

“Às sete e meia, os alunos começariam a chegar. Minha função era a de ensinar em todos os oito anos do curso, a ler e escrever, aritmética, música, geografia, caligrafia, história... tudo, enfim. Agora eu sairia correndo diante de tal perspectiva, mas naquele tempo tinha um espírito de Abraham Lincoln por um lado e de Mark Hopkins por outro. Estava ansioso para começar. A idéia simplesmente me deixava extasiado. Estava tão aturdido que me tornara um tolo rematado. Creio que até mesmo a cidadezinha estava morrendo, só que eu não era capaz de percebê-lo. Via apenas esplendor... liberdade e esplendor. Talvez um pouco embaçado, mas assim mesmo esplendor.

“Eu não sabia de nada. Não podia imaginar como seria a maioria dos meus discípulos. Não sabia que a maioria dos mestres-escolas rurais naqueles povoados isolados eram rapazes em torno dos dezenove anos, sem muita instrução além da que estavam transmitindo. Não sabia como Four Forks era um lugar lamacento e desagradável durante a maior parte do ano. Não sabia que passaria a maior parte do tempo meio morto de fome. Não sabia que minha função exigia que me apresentasse na igreja todos os domingos, na aldeia próxima, uma viagem a pé de treze quilômetros. Não sabia o quão difícil tudo seria.

“Comecei a descobrir logo na primeira noite, quando fui para a casa dos Mather, carregando minha mala. Charlie Mather fora o agente dos Correios no povoado, mas acabara sendo substituído por Howard Hummell, quando os republicanos su­biram ao poder. Charlie Mather jamais superara seu ressenti­mento. Vivia permanentemente amargurado. Levou-me para o quarto que eu iria ocupar. O aposento estava inacabado, as pranchas do assoalho não haviam sido lixadas, o teto consistia apenas dos sarrafos com as telhas por cima.

“— Estava fazendo este quarto para nossa filha — expli­cou Mather. — Ela morreu. Menos uma boca para alimentar.

“A cama era um colchão velho no chão, com um velho cobertor do Exército em cima. No inverno, não havia naquele quarto calor suficiente para um esquimó. Mas tinha uma escri­vaninha e um lampião a querosene. Como eu ainda tinha estre­las diante dos olhos, falei que estava Ótimo, que ia adorar mo­rar ali, algo mais ou menos nesse gênero. Mather resmungou de incredulidade, como não podia deixar de acontecer.

“O jantar naquela noite foi de batatas com creme de milho.

“— Não vai comer carne aqui — informou Mather. — A não ser que economize o bastante para comprá-la. Estou recebendo para mantê-lo vivo, não para engordá-lo.

“Não me lembro de ter comido carne na mesa de Mather mais do que meia dúzia de vezes. E foram seguidas, quando alguém lhe deu um ganso e comíamos ganso invariavelmente, até que nada mais restasse. Mais tarde, os alunos começaram a me levar sanduíches de presunto e bife. Os pais sabiam que Mather era um pão-duro. O próprio Mather fazia sua refeição principal ao meio-dia, tomando a precaução de me avisar que era minha obrigação passar a hora do almoço na escola, ‘dando ajuda extra a quem precisasse e distribuindo os castigos’.

“É que eles acreditavam firmemente na eficácia da vara de marmelo. Descobri isso logo no primeiro dia em que ensi­nei. Falei em ensinar, mas não era bem isso. Tudo o que conse­guia era mantê-los mais ou menos quietos por algumas horas, fazer com que escrevessem seus nomes e formular algumas perguntas. Era impressionante. Apenas duas das meninas mais velhas sabiam ler direito, a matemática deles não ia além da adição e subtração mais simples, não eram muitos os que já tinham ouvido falar de países estrangeiros. Havia mesmo um aluno que não acreditava que existissem.

“— Esse negócio não existe, não — disse-me um garoto esquelético, em torno dos dez anos. — Quem pode imaginar um lugar onde as pessoas nem mesmo são americanas? Onde as pessoas nem mesmo falam americano?

“Ele não conseguiu falar mais nada, de tanto que ria do absurdo da idéia. Fiquei olhando, horrorizado, para seus dentes pretos, completamente estragados.

“— E o que me diz da guerra, bocó? — perguntou outro menino. — Nunca ouviu falar dos alemães?

“Antes que eu pudesse reagir, o primeiro menino pulou por cima da carteira e começou a bater no outro. Parecia que estava, literalmente, disposto a assassiná-lo. Tentei separar os dois garotos — as meninas estavam gritando sem parar — e segurei o braço do agressor.

“— Ele está certo — declarei. — Não deveria tê-lo cha­mado de nenhum nome, mas está certo. Os alemães são as pes­soas que vivem na Alemanha e a Guerra Mundial...

“Parei de falar abruptamente, porque o menino estava ros­nando para mim. Parecia um cão selvagem e pela primeira vez compreendi que era mentalmente desequilibrado, talvez retar­dado. Estava prestes a me morder.

“— Peça desculpas a seu amigo — ordenei.

“— Ele não é meu amigo.

“— Peça desculpas.

“— Ele é maluco, senhor — disse o outro menino. O rosto dele estava extremamente pálido, os olhos assustados, um olho começava a ficar roxo. — Eu não deveria ter falado aqui­lo dele.

“Perguntei ao primeiro menino como se chamava.

“— Fenny Bate — conseguiu balbuciar.

“Já estava começando a se acalmar. Mandei que o outro menino voltasse para sua carteira e depois disse:

“— Fenny, o problema é que você estava errado. A Amé­rica não é o mundo inteiro, assim como Nova York não é tudo o que existe nos Estados Unidos.

“Era complicado demais pára ele e percebi que não o tinha convencido. Por isso, levei-o para a frente da sala e o fiz sentar ali, enquanto abria o mapa no quadro-negro.

“— Tudo isto é o território dos Estados Unidos da Amé­rica. Isto aqui é o. México e isto o oceano Atlântico...

“Fenny ficou sacudindo a cabeça, com uma expressão sombria.

“— Mentira! É tudo mentira! Esses lugares não existem! Não existem!

“Ao gritar, ele empurrou a carteira, que virou ruidosa­mente. Pedi-lhe que endireitasse a carteira. Como ele ficasse simplesmente sacudindo a cabeça, começando a babar nova­mente pelos cantos da boca, eu mesmo endireitei a carteira. Algumas das outras crianças deixaram escapar uma exclamação de espanto.

“— Quer dizer que nunca viu nem ouviu falar de mapas e outros países? — indaguei.

“Ele assentiu.

“— Mas sei que é tudo mentira.

“— Quem lhe disse isso?

“Sacudiu ,a cabeça novamente, recusando-se a dizer. Se ti­vesse demonstrado algum sinal de constrangimento, eu pensaria que recebera a informação errada dos pais. Mas tal não acon­teceu. Ele estava simplesmente furioso e soturno.

“Ao meio-dia, todas as crianças pegaram seus sacos de pa­pel e saíram para comer os sanduíches no terreno ao redor da escola. Seria um exagero dizer que se tratava de um playground, embora houvesse dois balanços meio cambaios nos fundos da escola. Fiquei observando Fenny Bate. As outras crianças deixavam-no isolado. Quando ele saía de seu estupor e tentava juntar-se a um grupo, os outros se afastavam osten­sivamente, deixando-o sozinho, com as mãos nos bolsos. De vez em quando, uma menina esquelética, de cabelos louros escor­ridos, aproximava-se e lhe falava alguma coisa. Era bastante parecida com Fenny Bate e imaginei que deveria ser sua irmã. Fui verificar na minha relação de alunos e lá estava. Constance Bate, no quinto ano. Era uma das meninas mais quietas.

“Quando voltei a olhar para Fenny, descobri que um ho­mem de aparência estranha estava parado na estrada, fora do terreno da escola. E olhava para Fenny, exatamente como eu. Fenny Bate estava sentado entre nos dois, inteiramente alheio a nossa atenção. Por alguma razão, o homem me provocou um tremendo choque. Não era apenas por sua estranha aparência, que não se podia deixar de notar, metido em roupas de tra­balho, velhas, imundas e esfarrapadas, os cabelos muito pretos, as faces cor de marfim, o rosto bonito, braços e ombros pare­cendo extremamente fortes. O que mais me impressionou foi a maneira como estava olhando para Fenny Bate. Com uma expressão feroz, quase brutal. Além da aparência de selvageria, havia também uma impressão intensa e surpreendente de li­berdade na maneira como estava parado ali, uma liberdade muito mais profunda do que a simples segurança interior. Para mim, parecia extremamente perigoso. Tive a sensação de ter sido transportado para uma região onde os homens e meninos eram bestas selvagens disfarçadas. Desviei os olhos, quase assus­tado com a selvageria no rosto do homem. Quando tornei a olhar, ele já havia desaparecido.

“Minhas noções sobre o lugar foram confirmadas naquela tarde, quando já tinha quase esquecido o homem na estrada. Estava em meu quarto cheio de correntes de ar, tentando pre­parar as lições para o segundo dia na escola. Teria que intro­duzir as tábuas de multiplicação para as turmas superiores, poderia dar algumas tinturas de geografia extremamente ele­mentar... Estava pensando em coisas assim quando Sophronia Mather entrou no quarto. A primeira providência dela foi apa­gar o lampião a querosene que eu estava usando.

“— Isso é para a escuridão total, não para se usar à tarde — disse ela. — Terá de aprender a ler seus livros à luz que Deus lhe concedeu.

“Fiquei surpreso ao vê-la em meu quarto. Durante o jan­tar, na noite anterior, ela ficara calada; a julgar por seu rosto, pálido, tenso e esticado como couro de tambor, qualquer um diria que o silêncio era o seu comportamento natural. Posso assegurar-lhes que ela sabia fazer com que seu rosto fosse bas­tante expressivo. E eu ia logo descobrir que ela não sentia o menor medo de falar, a não ser com o marido.

“— Precisamos conversar, professor — disse ela. — Estão falando muito a seu respeito.

“— Já?

“— Cometeu um erro na maneira como começou... e a maneira como se começa é como se continua. Soube por Mariana Birdwood que tolerou mau comportamento na sala de aula.

“— Não creio que isso tenha acontecido.

“— É o que a filha dela, Ethel, disse.

“Não consegui ajustar um rosto ao nome de Ethel Bird­wood, embora me lembrasse de tê-la chamado. Achei que de­veria ser uma das alunas mais velhas, com quinze anos.

“— E o que Ethel Birdwood afirma que permiti?

“— Foi o que Fenny Bate fez. Ele não bateu em outro menino? E diante do seu nariz?

“— Falei com ele.

“— Falou? Pois falar não adianta. Por que não usou sua palmatória ?

“— Porque não tenho.

“Ela ficou tremendamente chocada.

“— Mas deve bater neles! É a única maneira. Deve usar a palmatória neles uma ou duas vezes por dia. E em Fenny Bate mais do que nos outros.

“— Por que especialmente nele?

“— Porque ele não presta.

“— Percebi que ele é um menino conturbado, lerdo, um tanto atrasado, mas não creio que seja tão ruim assim.

“— Pois ele é. Não presta mesmo. E as outras crianças esperam que ele apanhe. Se suas idéias são avançadas demais para nós, é melhor deixar a escola. E não são apenas as crian­ças que esperam que use a palmatória. — Virou-se, como se fosse sair. — Achei que estaria fazendo uma gentileza se lhe viesse falar antes de meu marido saber que andou negligenciando seus deveres. Espero que aceite meu conselho. Não se pode ensinar sem bater.

“— Mas o que faz com que Fenny Bate seja tão famige­rado? — indaguei, ignorando aquele último e terrível comen­tário. — Seria injusto perseguir um menino que está precisando de ajuda.

“— A palmatória é toda a ajuda de que ele está preci­sando. Ele não é apenas mau, é a própria maldade. Deve fazê-lo sangrar e mantê-lo quieto. . . mantê-lo de crista baixa. Estou apenas querendo ajudá-lo, professor. Afinal, sempre temos al­gum uso para o pouco dinheiro extra que sua estada nos pro­porciona.

“E, com isso, ela foi embora. Nem mesmo tive tempo de interrogá-la a respeito do homem estranho que vira na es­trada, na hora do almoço.

“De qualquer forma, eu não tinha a menor intenção de causar um mal ainda maior ao bode expiatório do povoado.”

(Milly Sheehan, o rosto contraído pela repulsa, largou o cinzeiro que fingia estar limpando, olhou para a janela a fim de certificar-se de que as cortinas estavam fechadas direito e foi até a porta. Sears, parando de contar a história, viu que ela deixara a porta entreaberta.

 

Sears James, parando por um momento o relato e pen­sando com alguma irritação que o hábito de escutar furtiva­mente de Milly estava se tornando menos sutil a cada mês, não sabia de um evento que acontecera na cidade naquela tarde que iria afetar as vidas de todos eles. Fora um acontecimento que, por si mesmo, nada tinha de extraordinário: a chegada num ônibus de uma jovem admirável, que saltou na esquina do banco com a biblioteca e olhou ao redor, com uma expressão de satisfação confiante, como uma mulher bem-sucedida que vol­tava para uma visita nostálgica a sua cidade natal. Era essa a impressão que ela dava, segurando uma valise pequena e sor­rindo ligeiramente, sob uma súbita queda de folhas brilhantes. Observando-a, qualquer um diria que seu sucesso era a própria medida de sua vingança. Num casaco comprido e bonito, com uma abundância de cabelos escuros, ela dava a impressão de que voltara para se regozijar pelo sucesso que alcançara, como se isso fosse a metade do prazer que sentia. Milly Sheehan, fa­zendo compras para a despensa do médico, viu-a parada no ponto, enquanto o ônibus se afastava na direção de Binghamton. Por um momento, Milly teve a impressão de que a conhe­cia. O mesmo aconteceu com Stella Hawthorne, que estava to­mando café junto à janela do Restaurante Village Pump. Ainda sorrindo, a jovem de cabelos escuros passou pela janela do restaurante. Stella virou a cabeça para observá-la atravessar a praça e subir os degraus do Hotel Archer. Seu acompanhante, professor associado1 de antropologia da Universidade Estadual de Nova York, comentou:

—  Ah, o exame de uma linda mulher por outra! Mas eu nunca a tinha visto fazer isso antes, Stel.

Stella detestava que a chamassem de “Stel”.

— Achou mesmo que ela era bonita?

— Eu seria um mentiroso se dissesse que não.

— Mas se acha que também sou bonita, então não há problema.

 

 


1 Professor de colégio ou universidade, cujas funções estão abaixo das do titular e acima das do professor assistente. (N. do E.)

Ela sorriu um tanto automaticamente para Sims, que era vinte anos mais moço e se julgava apaixonado. Voltou a olhar para o Hotel Archer, onde a jovem alta estava naquele momen­to passando pela porta, para desaparecer lá dentro no instante seguinte.

— Se não há problema, por que continua a olhar?.

— É que... — Stella fechou a boca, pensou por um instante e acrescentou: — Não foi por nada. Mas acho que é uma mulher como aquela que você deveria convidar para almo­çar, em vez de um monumento antigo e avariado pelo tempo como eu.

—  Se é isso o que pensa...

Sims tentou pegar a mão dela, por baixo da mesa. Stella afastou a mão dele com um toque dos dedos. Jamais gostara de ser acariciada em restaurantes. Naquele momento, bem que gostaria de dar uma boa bofetada em seu companheiro.

—  Dê-me uma oportunidade, Stella.

Ela fitou-o nos olhos castanhos e suaves e disse:

—  Não seria melhor que voltasse para as suas alunas?

Enquanto isso, a jovem estava se registrando no hotel. A Sra. Hardie, que dirigia o Hotel Archer junto com o filho, desde a morte do marido, saiu de seu escritório e aproximou-se da jovem deslumbrante que estava do outro lado do balcão.

— Em que posso servi-la? — indagou ela, ao mesmo tempo que pensava: “Como vou fazer para manter Jim longe dessa moça?”

— Vou precisar de um quarto com banheiro. E devo ficar no hotel até encontrar uma casa para alugar na cidade.

— Mas que bom! — exclamou a Sra. Hardie. — Está se mudando para Milburn? Acho que isso é realmente mara­vilhoso. A maioria dos jovens daqui só pensa atualmente em ir embora. É o caso do meu Jim, que vai levar suas malas para o quarto. Ele pensa que cada dia aqui é apenas mais um dia na prisão. Está querendo ir para Nova York. Por acaso você é de lá?

— Passei algum tempo em Nova York. Mas minha fa­mília outrora morou em Milburn.

— Aqui estão os nossos preços e o livro de registros. — A Sra. Hardie empurrou por cima do balcão uma folha mimeografada com os preços e o livro de registros, grande e com capa de couro. — Vai verificar que nosso hotel é muito sossegado. A maioria dos hóspedes é de residentes permanen­tes. Como se fosse uma pensão, só que com os serviços de um hotel. E não há festas barulhentas à noite.

A jovem assentira depois de ver os preços e estava agora assinando o livro de registros.

—  Não permitimos qualquer barulho fora do normal e devo dizer que não pode admitir homens em seu quarto depois das onze horas.

— Não há problema.

A jovem devolveu o livro de registros à Sra. Hardie, que leu o nome, escrito em letra clara e elegante: Anna Mostyn, com um endereço em West Eighties, em Nova York.

— Isso é Ótimo. Nunca se sabe como as moças de hoje em dia vão reagir, mas... — Fitou o rosto da nova hóspede e parou de falar abruptamente, ao perceber a total indiferença nos olhos azuis. Seu primeiro pensamento, quase inconsciente, foi de que estava na presença de uma mulher fria, para depois refletir, perfeitamente consciente, que aquela jovem não teria a menor dificuldade em controlar Jim. — Anna é um nome antiquado e bonito.

— Também acho.

A Sra. Hardie, um pouco desconcertada, tocou a campai­nha, chamando o filho. A jovem comentou:

—  E sou de fato uma pessoa meio antiquada.

—  Não disse que sua família tinha vivido aqui?

—  Disse, sim. Mas foi há muito tempo.

—  Não reconheci o nome.

—  Nem poderia reconhecer. Foi uma tia minha que viveu aqui. O nome dela era Eva Galli. Mas provavelmente não a conheceu.

A esposa de Ricky, sentada sozinha no restaurante, subi­tamente estalou os dedos e exclamou:

—  Estou ficando velha!

Recordara-se de quem era a mulher que a jovem lembrava. O garçom, um rapaz que largara a escola secundária sem conti­nuar os estudos, a julgar por sua aparência, inclinou-se sobre a mesa, sem saber como entregar a nota, depois que o cavalheiro se retirara bruscamente. Murmurou:

— Como?

— Ora, seu idiota, não precisa ficar por aqui! —.Stella se perguntou por que a metade dos rapazes que largavam os estudos na escola  secundária parecia marginais, enquanto a outra metade lembrava físicos. — Ou melhor, dê-me logo essa nota, antes de acabar desmaiando.

Jim Hardie ficou olhando furtivamente para a jovem, en­quanto subiam as escadas. Depois de abrir a porta do quarto e deixar a valise lá dentro, ele murmurou:

—  Espero que fique na cidade por um bom tempo.

—  Pensei que sua mãe tivesse dito que você detestava Milburn.

— Já não detesto tanto. — E presenteou a jovem com o olhar que derretera Penny Draeger no banco traseiro de seu carro, na noite anterior.

—  Por quê?

—  Ora... — Jim não sabia como continuar, diante da total recusa da jovem em se derreter. — Ora...  você sabe!

—  Sei?                                    

—  Você é uma dona que deixa a gente mais pra lá do que pra cá. Sabe o que estou querendo dizer. Tem muita classe. —  Decidiu ser um pouco mais audacioso do que se sentia. —  E as donas de classe me deixam aceso.

—  É mesmo?

—  É, sim — assentiu ele.

Não sabia o que pensar. Se ela fosse uma mulher experien­te, já o teria mandado embora desde o início. Mas embora o estivesse deixando ficar, não parecia interessada ou lisonjea­da... nem mesmo divertida. No instante seguinte, a jovem o surpreendeu ao fazer algo que ele estava aguardando: tirou o casaco. Não era grande coisa em matéria de seios, mas tinha boas pernas. E foi então que, inesperadamente, Jim sentiu-se totalmente dominado pela consciência do corpo dela, numa ex­plosão de pura sensualidade, muito diferente das poses afetadas de Penny Draeger e outras garotas da escola secundária com quem ele costumava ir para a cama. Era uma onda de sensualidade pura e intensa, que o fez definhar.

— Ah... — murmurou Jim, rezando desesperadamente para que ela não o mandasse embora. — Aposto que tem um emprego e tanto em Nova York. Por acaso trabalha na tele­visão ou algo assim?

— Não.

Ele se remexeu, nervosamente.

— Ah...  Será que eu podia aparecer de vez em quan­do... para falar um pouco?

—  Talvez. Você fala?

—  Ah... É... acho melhor eu descer agora, tenho mui­to trabalho a fazer, preparar todas as janelas para a tempestade, com esse frio que estamos tendo agora...

A jovem sentou-se na cama e estendeu a mão. Quando tocou na mão dela, a jovem pôs em sua palma uma nota de um dólar impecavelmente dobrada.

—  Vou dizer-lhe o que penso... Acho que os criados não deviam usar jeans. Ficam parecendo desleixados.

Jim pegou o dólar, confuso demais para agradecer, e tratou de fugir dali, o mais depressa possível.

(“Era Ann-Veronica Moore”, pensou Stella, “aquela atriz que estava na casa de John na noite em que Edward morreu.” Permitiu que o intimidado rapaz segurasse seu casaco de peles, para que o vestisse. “Mas por que deveria pensar em Ann-Ve­ronica Moore? Eu a vi apenas por alguns minutos e a jovem não se parece absolutamente com ela.”)

 

— Tomei a decisão — continuou Sears — de ajudar o po­bre coitado, Fenny Bate. Estava convencido de que não existia aquela coisa a que chamava de menino de maus bofes, a menos que a incompreensão e a crueldade o tivessem levado a se tor­nar mau. E mesmo isso se podia reparar. Quando Fenny der­rubou a carteira no dia seguinte, tornei a endireitá-la, para desagrado das outras crianças. Na hora do almoço, pedi-lhe que ficasse na sala comigo.

“As outras crianças saíram, fazendo especulações. Tenho certeza de que estavam convencidas de que eu ia dar uma surra em Fenny, quando ninguém mais pudesse ver. Depois que os outros já estavam lá fora, percebi a irmã dele à espreita, num canto escuro nos fundos da sala.

“— Não vou machucar seu irmão, Constance — decla­rei. — E se quiser, pode ficar também.

“Ah, as pobres crianças!  Ainda posso vê-las, os dentes estragados, as roupas esfarrapadas, o menino cheio de descon­fiança, ressentimento e medo, a menina apenas temerosa... pelo irmão. Ela se sentou numa cadeira e comecei a trabalhar, tentando corrigir algumas das concepções erradas de Fenny. Contei-lhe todas as histórias de exploradores que conhecia, fa­lei sobre Lewis, Clarke, Cortez, Nausen e Ponce de Léon, coisas que iria abordar para o resto da turma mais tarde. Mas não houve qualquer efeito em Fenny. Ele sabia que o mundo só se estendia por cerca de setenta ou oitenta quilômetros além de Four Forks e que as pessoas dentro dessa área constituíam toda a população mundial. Ele se atinha a essa noção com a obstinação inabalável dos estúpidos.

“— Mas quem lhe contou isso, Fenny? — indaguei. O menino sacudiu a cabeça. — Foi você quem inventou? — Ele tornou a sacudir a cabeça. — Foram seus pais?

“Lá nos fundos da sala, Constance soltou uma risadinha, em que não havia o menor vestígio de humor. Aquela risada me provocou um calafrio, despertando-me imagens de uma vida quase bestial. Naturalmente, era o que eles tinham, e as outras crianças sabiam. E conforme fui descobrir posteriormente, era muito pior e mais anti-natural do que qualquer coisa que eu poderia ter imaginado.

“Seja como for, naquele momento levantei os braços em desespero ou impaciência. A menina deve ter pensado que eu ia bater no irmão, pois gritou lá dos fundos da sala:

“— Foi Gregory!

“Fenny olhou para ela. Juro que nunca vi ninguém tão apavorado. No instante seguinte, tinha se levantado e saiu cor­rendo da sala. Chamei-o, mas de nada adiantou. Ele estava correndo desesperadamente, como para salvar a própria vida, logo desaparecendo no mato. A menina ficou parada na porta, observando-o afastar-se. Parecia agora assustada e angustiada, totalmente pálida.

“— Quem é Gregory, Constance? — perguntei. O rosto dela se contorceu. — Ele costuma passar por perto da escola? Os cabelos dele são assim?

“Pus as mãos por cima da cabeça, abrindo os dedos. E nesse instante ela também foi embora, correndo tão depressa quanto o irmão.

“Naquela tarde, os outros alunos passaram a me aceitar. Imaginaram que eu havia surrado as duas crianças Bate, pas­sando assim a participar da ordem natural das coisas. Naquela noite, ao jantar, recebi de Sophronia Mather, se não uma batata extra, pelo menos uma espécie de sorriso frio. Era evidente que Ethel Birdwood comunicara à mãe que o novo mestre-escola finalmente vira a luz da razão.

“Fenny e Constance não apareceram na escola nos dois dias seguintes. Fiquei preocupado, pensando que me compor­tara tão desastrosamente que eles podiam nunca mais voltar. No segundo dia, eu estava tão apreensivo que fiquei’ andando pelo pátio da escola durante a hora do almoço. As crianças olhavam-me como se eu fosse um perigoso lunático. Era evi­dente que achavam que o professor deveria permanecer dentro da escola, de preferência administrando a palmatória. Subita­mente, ouvi algo que me fez estacar abruptamente e virar na direção de um grupo de meninas, sentadas na relva, um tanto afetadamente. Eram as meninas maiores e entre elas estava Ethel Birdwood. Tinha certeza de que a ouvira mencionar o nome de Gregory. E pedi:

“— Fale-me a respeito de Gregory, Ethel.

“— Quem é Gregory? — perguntou ela, sorrindo. — Não há ninguém com esse nome por aqui.

“Ela me presenteou com um olhar meloso. Tenho certeza de que estava pensando na tradição rural de o mestre-escola ca­sar-se com a aluna mais velha. Aquela Ethel Birdwood era uma garota cheia de confiança e o pai dela tinha a reputação de ser bastante próspero. Eu não estava disposto a deixar as coisas por aí e insisti:

“— Acabei de ouvi-la mencionar o nome dele.

“— Deve estar enganado, Sr. James — murmurou ela, mais dengosa do que nunca.

“— Não costumo ser muito benevolente com pessoas que mentem — declarei. — Fale-me sobre esse tal de Gregory.

“É claro que todos pensaram que eu a estava ameaçando com uma surra. Outra garota veio em seu socorro:

“— Estávamos falando que Gregory consertou aquela ca­lha. — Apontou para um dos lados da escola. A calha que ali estava era obviamente nova.

“— Pois ele nunca mais vai aproximar-se desta escola, se eu puder impedi-lo.

“Afastei-me, ouvindo as risadinhas irritantes das garotas.

“Naquele dia, depois das aulas, achei que era melhor ir visitar o próprio covil do leão. Ou seja, a casa da família Bate. Sabia que ficava tão longe do povoado quanto a casa de Lewis é distante de Milburn. Segui pelo que me pareceu a estrada mais provável. Andei um bocado, uns cinco ou seis quilôme­tros, até chegar à conclusão de que provavelmente fora longe demais. Não passara por nenhuma casa. Assim, a casa dos Bate devia ser dentro do próprio bosque, e não à margem, como eu imaginara. Enveredei pelo que me pareceu uma trilha, pensando em andar de um lado para outro, na direção da ci­dade, até encontrar a casa.

“Infelizmente, acabei perdendo-me. Entrei em ravinas, subi morros, atravessei mato cerrado, sem ter a menor idéia para que lado ficava a estrada. Tudo parecia assustadoramente igual. Ao crepúsculo, tive a impressão de estar sendo vigiado. Era uma sensação extraordinariamente fantástica, como saber que um tigre estava atrás de mim, prestes a dar o bote. Vi­rei-me, ficando de costas para um olmo grande. E foi nesse momento que vi algo. Um homem entrou numa clareira a cerca de trinta metros de distância... o mesmo homem que eu vira antes. Era Gregory. Ou pelo menos foi o que pensei. Ele não disse nada, eu também não. Simplesmente fitou-me, abso­lutamente silencioso, os cabelos desgrenhados, o rosto cor de marfim. Senti ódio, um ódio profundo, a se irradiar dele. Uma atmosfera de violência irracional pairava em torno dele, junta­mente com aquele ar de estranha liberdade que eu sentira antes. Parecia um louco. Poderia ter me matado ali e ninguém jamais saberia. E podem estar certos de que vi no rosto dele a ânsia de matar. Enquanto eu esperava que ele se adiantasse para me atacar, o homem recuou para trás de uma árvore.

“Adiantei-me, lentamente.

“— O que você quer? — gritei, simulando uma bravura que não sentia.

“Não houve resposta. Avancei mais um pouco. Finalmente cheguei à árvore atrás da qual o vira esconder-se. Não havia o menor vestígio do homem. Ele simplesmente desaparecera, parecia ter sumido em pleno ar.

“Eu ainda estava perdido e agora sentia-me também amea­çado. Pois eu sabia que era esse o significado do aparecimento dele: uma ameaça. Dei alguns passos numa direção ao acaso, passei por outro amontoado cerrado de árvores. E estaquei abruptamente. Por um momento, fiquei apavorado. À minha frente, mais perto do que estivera a aparição, encontrava-se uma menina magra, vestida de andrajos, os cabelos louros escor­ridos: Constance Bate.

“— Onde está Fenny? — perguntei.

“Ela ergueu o braço esquelético e apontou para o lado. E o menino também se levantou, como... ‘como uma ser­pente saindo do cesto’ é a metáfora que me aflora ao pensa­mento. No rosto dele, parado no meio do mato, estava a expres­são característica de Fenny Bate — soturna, culpada.

“— Estava procurando a casa de vocês.

“Ambos apontaram simultaneamente na mesma direção, sem dizerem nada. Olhei através de uma brecha no mato e avistei um barraco miserável, com um cano pequeno à guisa de chaminé. Era um barraco de papelão alcatroado, como anti­gamente se encontrava aqui e ali. Agora, graças a Deus, já não existem mais. Aquele era o mais miserável que eu já tinha visto. Sei que tenho a reputação de um conservador, mas ja­mais considerei riqueza como sinônimo de virtude ou pobreza como sinônimo de vício. Contudo, aquele pequeno barracão fétido — e bastava olhar para se saber que fedia — parecia exa­lar podridão e sordidez. Não, era pior do que isso. Não era sim­plesmente o fato de as vidas que ali se levavam serem embru­tecidas pela miséria, mas serem também distorcidas, deforma­das... Senti um aperto no coração e desviei os olhos. Avistei um cachorro preto esquelético remexendo com o focinho num monte de penas que devia ter sido outrora uma galinha. Certa­mente foi por isso, pensei, que Fenny adquiriu a reputação de ser um menino ‘mau’. Os afetados habitantes de Four Forks tinham dado uma olhada no barraco sórdido em que ele mo­rava, condenando-o pelo resto da vida.

“Mas não fui até o barraco. Não acreditava nas chamadas forças do mal, mas senti a presença delas naquele momento.

“Virei-me novamente para as crianças, que tinham uma estranha expressão nos olhos.

“— Quero ver vocês na escola amanhã.

Fenny sacudiu a cabeça.

“— Mas estou querendo ajudá-los!

“Eu estava prestes a fazer um discurso. O que queria di­zer-lhe era que desejava mudar sua vida, salvá-lo, de certa forma torná-lo humano. Mas a expressão obstinada e fixa em seu rosto me deteve. Havia também algo mais. Logo percebi, com um calafrio, que algo em Fenny me fazia lembrar do mis­terioso Gregory.                                                       

“— Devem voltar à escola amanhã — insisti.

“— Gregory não quer — disse Constance. — Gregory quer que a gente fique aqui.

“— Pois eu digo que Fenny deve ir à escola e você também.

“— Vou perguntar a Gregory.

“— Ao diabo com Gregory! — gritei. — Vocês dois irão à escola amanhã!

“Tratei de me afastar. Uma estranha sensação continuou a me dominar até que encontrei novamente a estrada. Era como se me estivesse afastando da danação.

“Podem imaginar qual foi o resultado da minha expedição. Eles não apareceram na escola. As coisas transcorreram normalmente por vários dias, com Ethel Birdwood e outras garotas me lançando olhares langorosos sempre que eu lhes fazia algu­ma pergunta. Eu preparava as lições do dia seguinte naquele cubículo frio a que davam o nome de quarto, levantando-me de madrugada, antes mesmo de Febo, a fim de aprontar a escola. Alguns dias depois, Ethel começou a me trazer san­duíches para o almoço. Não demorou muito para que outras das minhas admiradoras passassem a fazer a mesma coisa. Eu costumava guardar um sanduíche no bolso, para comer em meu quarto, depois do jantar com os Mather.

“Aos domingos, fazia a longa caminhada até Footville, para a indispensável visita à igreja luterana que havia ali. Não era uma obrigação tão terrível quanto eu receara. O minis­tro era um velho alemão, Franz Gruber, que se intitulava Dr. Gruber. O título de doutor era genuíno, pois era um homem muito mais refinado e preparado do que pareciam indicar o corpo imenso e a residência em Footville, Estado de Nova York. Achei que seus sermões eram bem interessantes e decidi ter uma conversa com ele.

“Quando as crianças Bate finalmente voltaram a apare­cer na escola, pareciam ainda mais abatidas e cansadas, como bebedores depois de uma noite de intensa atividade. Aquilo tornou-se sistemático. Faltavam dois dias, apareciam um, fal­tavam três dias, apareciam dois. A cada vez, mostravam-se pio­res. O declínio de Fenny em particular era alarmante. Era como se estivesse envelhecendo prematuramente. A cada dia ficava mais magro, a pele enrugada na testa e nos cantos dos olhos. E quando eu o olhava, podia jurar que estava se rindo ironicamente de mim. . . logo Fenny Bate, que eu tinha cer­teza não possuir o equipamento mental necessário para tal sutileza. Em Fenny, aquele sorriso parecia vicioso. E me dei­xava assustado.

“Um domingo, depois da missa, decidi falar com o Dr. Gruber, na porta da igreja. Esperei para ser o último a aper­tar-lhe a mão. Depois que os outros já se tinham afastado, disse-lhe que queria seu conselho para um pequeno problema.

“Ele deve ter pensado que eu ia confessar um adultério ou algo assim. Mas se mostrou cortês e convidou-me a ir a sua casa, do outro lado da rua, em frente à igreja.

“Levou-me à sua biblioteca. Era uma sala grande, total­mente revestida de livros. Eu não via um aposento assim desde que deixara Harvard. Evidentemente, era a sala de um estu­dioso, onde um homem podia desenvolver à vontade suas idéias. A maioria dos livros era em alemão, mas havia muitos em latim e grego. Ele tinha os escritos patrísticos em fólios grandes de couro mole, comentários à Bíblia, obras de teologia, guias para o preparo de sermões. Fiquei surpreso ao ver, numa prateleira atrás de sua escrivaninha, uma pequena coleção de Lully, Fludd, Bruno, o que se podia classificar de estudos do ocultismo na Renascença. E fiquei ainda mais espantado quan­do vi alguns livros antigos sobre feitiçaria e satanismo.

"O Dr. Gruber estava fora da sala, buscando cerveja. Ao voltar, viu-me olhando para esses livros.

"— O que está vendo é a razão para a minha presença em Footville, Sr. James — disse-me ele, com seu sotaque gu­tural. — Espero que não vá considerar-me um velho meio ma­luco por causa desses livros.

"Sem que eu precisasse perguntar, ele me contou toda a história. Era o que devem estar imaginando. Fora brilhante, aprovado pelos superiores, escrevera livros. Mas quando come­çara a demonstrar muito interesse pelo que chama de ‘questões herméticas’, recebera ordem de abandonar essa linha de estu­dos. Publicara mais um trabalho a respeito e fora banido para a mais distante e remota congregação que a alta direção lute­rana pudera encontrar.

"— Agora, minhas cartas estão na mesa, como dizem meus novos conterrâneos — disse ele. — Jamais falo dessas questões herméticas em meus sermões, mas continuo a estu­dá-las. A partir desse momento, como achar melhor, você pode ir embora em paz ou dizer o que veio aqui me contar.

"Achei tais palavras um tanto pomposas e fiquei um pou­co aturdido. Mas não havia motivo para não continuar. Con­tei-lhe toda a história, sem omitir nenhum detalhe. Ele escutou atentamente. Era evidente que já ouvira falar das crianças Bate e de Gregory.

"Mais do que isso, parecia estar extremamente excitado com a história. Quando terminei, ele perguntou:

"— E tudo aconteceu exatamente como acaba de des­crever?

"— Claro!

"— Falou com mais alguém a respeito? "— Não.                                 

"— Estou muito feliz que tenha vindo procurar-me.

"Ao invés de continuar a falar, foi pegar um imenso ca­chimbo numa gaveta da escrivaninha, encheu-o e começou a fumar, sem desviar de mim os olhos protuberantes. Comecei a me sentir apreensivo e quase lamentei não ter aceitado sua sugestão anterior. Finalmente, ele me perguntou:

"— Sua senhoria jamais lhe explicou por que achava que Fenny Bate era ‘a própria maldade’?

"Sacudi a cabeça, tentando livrar-me da impressão nega­tiva que estava tendo dele.

"— Por acaso sabe por que ela pensa assim?

"— É uma história bastante conhecida — respondeu ele. — E naquele povoado é até uma história famosa.

"— E Fenny é realmente mau? — indaguei.

"— Ele não é mau, mas está corrompido e depravado — respondeu o Dr. Gruber. — Mas pelo que me contou...

"— O caso pode ser pior? Confesso que tudo está me parecendo um mistério grande demais.

"— E é muito maior do que imagina — disse ele, cal­mamente. — Se tentar explicar-lhe, tenho certeza de que se sentirá tentado, com base no que já sabe a meu respeito, a considerar-me doido. — Os olhos dele estavam mais esbugalha­dos do que nunca.

"— Se Fenny está corrompido, quem o corrompeu? — perguntei.

"— Foi Gregory — retrucou. — Não resta a menor dú­vida de que foi Gregory. É Gregory quem está por trás de tudo.

"— Mas quem é Gregory?

"— O homem que você viu. Quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Descreveu-o com perfeição. — Abriu os dedos gorduchos por cima da cabeça, imitando o gesto que eu fizera para Constance Bate. — Posso assegurar-lhe que foi mesmo uma descrição perfeita. Mas quando souber de tudo, vai du­vidar da minha palavra.

"— Mas por quê, pelo amor de Deus?

"Sacudiu a cabeça e percebi que sua mão livre estava tre­mendo. Por um segundo, perguntei-me se não me empenhara numa conversa íntima com um louco.

"— Os pais de Fenny tiveram três filhos — informou o Dr. Gruber, soprando para o alto a fumaça do cachimbo. — Gregory Bate foi o primeiro.

"— É o irmão deles! — exclamei, abruptamente. — Bem que achei que havia alguma semelhança... Estou percebendo agora. Mas não há nada de antinatural nisso.

"— Acho que isso depende do que se passou entre eles.

"Fiz um esforço para compreender a insinuação.

"— Está querendo dizer que alguma coisa antinatural aconteceu entre eles?

"— E com a irmã também.

"Um sentimento de horror me invadiu. Podia ver diante dos olhos aquele rosto bonito e insensível, a odiosa atitude des­preocupada... a impressão que Gregory dava de ser um ho­mem livre de todas as repressões e freios. Murmurei:

“— Entre Gregory e a irmã...

“— E, como eu disse antes, entre Gregory e Fenny.

“— O que significa que ele corrompeu a ambos. Mas por que Constance não é tão condenada quanto Fenny pelo pessoal de Four Forks?

“— Não se esqueça, meu caro mestre-escola, que estamos no meio do mato. Um contato. . . antinatural, digamos assim, entre irmão e irmã, naquelas famílias miseráveis vivendo em barracas, talvez não seja tão antinatural, no final das contas.

“— Mas entre irmão e irmão... — Era como se eu esti­vesse de novo em Harvard, discutindo uma tribo de selvagens com um professor de antropologia.

“— É bem pior.

“— Por Deus, é isso mesmo! — exclamei, recordando a expressão astuta e prematuramente envelhecida no rosto de Fenny. — E agora ele está querendo afastar-me, pois receia a minha intervenção...

“— Aparentemente, é isso mesmo o que está acontecen­do. Espero que entenda o motivo.

“— Porque eu não admitiria uma coisa dessas. É o mo­tivo pelo qual ele quer livrar-se de mim.

“— Gregory quer tudo, meu caro.

“— O que está querendo dizer é que ele os quer para sempre, não é mesmo?

“— A ambos e para sempre... mas, pelo que me contou, provavelmente mais a Fenny.

“— E os pais deles não podem impedir.

“— A mãe está morta. E o pai foi embora quando Gre­gory ficou grande o bastante para bater nele.

“— Eles vivem sozinhos naquele lugar horrível?

“O Dr. Gruber assentiu.

“Era terrível. Significava que o miasma, a sensação de que o lugar era amaldiçoado, provinha das próprias crianças, do que acontecera entre elas e Gregory.

“— Mas as crianças não podem fazer alguma coisa para se defender? — indaguei.

“— Elas fizeram.

“— Fizeram o quê? — Eu estava pensando em preces, provavelmente por estar conversando com um pregador. Quan­to às outras possibilidades, minha própria experiência pessoal era a de que os habitantes do povoado não primavam muito pela caridade.

“— Não vai aceitar minha palavra somente e por isso tenho que lhe mostrar. — O Dr. Gruber levantou-se abrupta­mente e fez-me sinal para que o seguisse. — Vamos até lá fora.

“Por baixo de seu excitamento, ele parecia bastante trans­tornado. Por um momento, pensei que me julgasse tão antipá­tico e desagradável quanto eu o estava achando, com suas bafo­radas de cachimbo e os olhos esbugalhados.

“Deixamos a sala. No caminho para sairmos da casa, pas­samos por uma sala com a mesa posta para uma pessoa. Senti um cheiro de carne assada no fogo e avistei uma garrafa de cerveja aberta em cima da mesa. Talvez sua atitude desagra­dável fosse apenas porque eu lhe estava retardando o almoço.

“Bateu a porta depois que saímos. Voltamos para a igreja. Fiquei um tanto aturdido. Atravessando a rua, ele me disse, sem virar a cabeça:

“— Você sabia que Gregory era uma espécie de servente da escola e se encarregava de fazer todos os reparos necessá­rios no prédio?

“— Uma das meninas falou alguma coisa a respeito.

“Em vez de entrar na igreja, o Dr. Gruber contornou-a. ‘O que vai acontecer agora?’, perguntei-me. Um passeio pelos campos. E o que ele precisava mostrar-me para que eu acredi­tasse no que me iria dizer?

“Havia um pequeno cemitério atrás da igreja. Tive tempo, enquanto seguia o Dr. Gruber, de olhar para os nomes grava­dos nas imensas lápides do século XIX: Josiah Foote, Sarah Foote, todo o resto do clã que fundara a aldeia, outros nomes que nada significavam para mim. O Dr. Gruber parou, com um ar inconfundível de impaciência, junto a um pequeno portão nos fundos do cemitério.

“— Aqui — disse ele.                                                    

“ ‘Ora, mas que homem preguiçoso, a ponto de não que­rer abrir o portão pessoalmente!’, pensei. Inclinei-me para le­vantar a tranca.

“— Não é isso! — disse ele, bruscamente. — Olhe para baixo! Olhe para a cruz!

“Olhei para o lugar que ele estava apontando. Era uma cruz de madeira, tosca, pintada à mão, fincada no lugar onde deveria haver uma lápide, na extremidade de uma sepultura. Alguém escrevera o nome Gregory Bate no travessão horizon­tal da cruz. Olhei para o Dr. Gruber e desta vez não tive mais qualquer dúvida: ele me fitava com uma aversão óbvia.

“— Não é possível — declarei. — Isso é um absurdo. Eu o vi pessoalmente.

“— Pode ter certeza, mestre-escola, de que é este o lugar onde seu rival está enterrado.— Só muito depois é que fui pensar na sua estranha escolha das palavras. — Ou pelo menos a parte mortal dele.

“Eu estava completamente aturdido. Repeti o que já dissera:

“— Não é possível...

“Ele ignorou o comentário.

“— Certa noite, há um ano, Gregory Bate estava fazendo um trabalho qualquer no pátio da escola. No meio do trabalho, levantou a cabeça e percebeu... ou pelo menos imagino que foi isso o que aconteceu... que a calha estava precisando de um conserto. Foi até os fundos da escola, pegou a escada e subiu. Fenny e Constance viram que aquela era a oportunidade para escaparem à tirania dele. E derrubaram a escada. Gregory caiu, bateu com a cabeça na quina do prédio e morreu.

“— O que estavam eles fazendo na escola à noite?

“O Dr. Gruber deu de ombros.

“— Gregory sempre os levava aonde quer que fosse. As crianças estavam sentadas no playground.

“— Não acredito que o tenham matado deliberadamente — declarei.

“— Howard Hummell, o agente dos Correios, viu-os afas­tarem-se correndo. Foi ele quem encontrou o corpo de Gregory.

“— Mas ninguém viu realmente o que aconteceu?

“— Ninguém precisava ver, Sr. James. O que aconteceu era óbvio para todos.

“— Não está óbvio para mim — declarei, fazendo-o dar de ombros. — O que eles fizeram depois?

“— Simplesmente fugiram. Deve ter sido evidente que tinham conseguido. A parte de trás da cabeça de Gregory ficou esmagada. Fenny e a irmã desapareceram durante três semanas. Ficaram escondidos no bosque. Quando finalmente compreen­deram que não tinham para onde ir e voltaram para casa, já havíamos enterrado Gregory. Howard Hummell contara o que tinha visto e todos imaginaram a mesma coisa. É por isso que acham que Fenny é ‘a própria maldade’.

“— Mas agora... — murmurei, olhando para as letras na cruz tosca. ‘As crianças é que devem ter feito a cruz e a inscrição’, pensei. E, subitamente, esse me pareceu o mais hor­rendo de todos os detalhes.

“— Ah, sim, agora... Agora, Gregory o quer de volta. E pelo que me contou, ele já o tem de volta... tem a ambos de volta. Mas imagino que vai querer afastar Fenny da sua... influência. — Pronunciou a última palavra com uma meticulosa precisão germânica. Senti um calafrio.

“— E vai levá-lo.

“— Isso mesmo.

“— Não posso fazer nada para salvá-lo? — indaguei, quase suplicante.

“— Desconfio que ninguém pode — disse o Dr. Gruber, olhando-me como se estivesse muito longe.

“— E o senhor também não pode ajudá-lo, pelo amor de Deus?

“— Nem mesmo por Ele. Pelo que me contou, a coisa já foi longe demais. Não acreditamos em exorcismos, em minha igreja.

“— Mas acredita... — deixei a frase no meio. Meu tom era agora furioso e desdenhoso.

“— No Demônio? Acreditamos nisso.

“Afastei-me. Ele deve ter imaginado que eu iria voltar e suplicar ajuda. Mas quando continuei em frente, ele me gritou:

“— Tome cuidado, mestre-escola!

“Voltei para casa inteiramente aturdido. Não podia acre­ditar ou aceitar o que parecera irrefutável quando estava con­versando com o pregador. Contudo, ele me mostrara a sepul­tura. E eu vira com meus próprios olhos a transformação de Fenny — vira Gregory: não seria demais dizer que eu o sentira intensamente, que a impressão que me causara fora muito forte.

“Parei de andar bruscamente a cerca de um quilômetro e meio do povoado. E que acabara de constatar que Gregory Bate sabia exatamente o que eu descobrira, sabia exatamente o que eu tencionava. Um dos campos arados subia por uma colina, que se podia ver da estrada. Gregory estava parado lá em cima, olhando-me. Não mexeu um músculo sequer quando olhei em sua direção. Mas a intensidade do seu olhar se irra­diava implacavelmente e devo ter estremecido. Dava a impres­são de que ele podia ler todos os meus pensamentos. Lá no alto, abaixo das nuvens, um gavião circulava. Todos os vestí­gios de dúvida me deixaram. Tinha certeza agora de que tudo que Gruber contara era verdade.

“Tive que fazer um tremendo esforço para não sair cor­rendo. Mas não iria demonstrar covardia diante dele, por mais covarde que me sentisse por dentro. Imagino que ele estava esperando que eu corresse, parado lá em cima, os braços caídos ao longo do corpo, o rosto pálido visível apenas como uma mancha branca, a intensidade de seus sentimentos se irradian­do em minha direção. Consegui continuar o percurso e andar normalmente.

“Mal consegui engolir o jantar, não devo ter comido mais do que dois ou três bocados. Mather comentou:

“— Se prefere passar fome, sobrará mais um pouco para nós. Não me vou importar.

“Fitei-o nos olhos.

“— Fenny Bate tem um irmão, além da irmã?

“Ele retribuiu meu olhar com toda a curiosidade de que era capaz, sem responder. Insisti:

“— Ou tinha um irmão?

“— Tinha.

“— Qual era o nome desse irmão?

“— Era Gregory. Mas eu agradeceria se se abstivesse de falar a respeito dele.

“— Tinham medo dele? — indaguei, ao ver o pavor estampado  tanto nos olhos de Mather como nos da esposa.

“— Por favor, Sr. James — interveio Sophronia Mather. — Isso não vai adiantar coisa alguma.

“— Ninguém fala a respeito de Gregory Bate — declarou o marido.

“— O que aconteceu com ele?

“Mather parou de mastigar e pôs o garfo na mesa.

“— Não sei o que ouviu nem quem lhe falou sobre isso. Mas uma coisa lhe posso garantir: se algum homem já foi mal­dito, então não pode ter deixado de ser Gregory Bate. O que quer que lhe tenha acontecido foi merecido. E chega de con­versa sobre Gregory Bate.

“Enfiou mais comida na boca e a conversa foi encerrada. A Sra. Mather manteve religiosamente os olhos no prato pelo resto do jantar.

“Eu estava furioso e preocupado. Nem Fenny nem Cons­tance Bate apareceram na escola durante dois ou três dias. Pa­recia até que eu havia sonhado tudo. Continuei a dar aulas, mecanicamente, pois meus pensamentos estavam concentrados nas crianças Bate, especialmente no pobre Fenny e no perigo que corria.

“O que manteve o horror constante foi o fato de ter visto Gregory no povoado.

“Como era sábado, Four Forks estava repleta de fa­zendeiros com as esposas, que tinham vindo fazer compras. Todos os sábados, o pequeno povoado quase que adquiria um ar de feira, pelo menos em contraste com sua aparência habitual. As calçadas estavam apinhadas, o movimento no arma­zém era intenso. Havia dezenas de cavalos na rua e por toda parte se viam os rostos ansiosos de garotos, empilhados em carroças, os olhos arregalados por estarem ali. Reconheci mui­tos dos meus alunos e acenei para alguns.

“Um fazendeiro imenso, que eu nunca vira antes, bateu de repente em meu ombro e disse que queria apertar-me a mão, por ser o professor do seu filho. Agradeci e fiquei escutando-o falar por algum tempo. Subitamente, avistei Gregory por cima do ombro dele. Estava encostado na parede da agência dos Cor­reios, indiferente a tudo que o cercava, olhando para mim... e olhando intensa e fixamente, como deveria ter feito do alto do morro. Algo deve ter transparecido em meu rosto, pois o pai do aluno parou de falar e perguntou se eu estava me sentin­do bem.

“— Estou, sim — balbuciei.

“Devo ter parecido deliberadamente grosseiro, pois con­tinuei a olhar por cima do ombro dele. Ninguém mais podia ver Gregory. Todos passavam por ele, as expressões e atitudes não se alterando, e pareciam olhar através dele.

“Agora, onde antes eu vira uma liberdade sem freios, po­dia ver apenas depravação.

“Dei alguma desculpa ao fazendeiro — uma dor de ca­beça, um dente com abcesso — e virei-me para ir até o lugar em que Gregory estava. Mas ele já não estava mais lá. Havia desaparecido nos poucos segundos que eu demorara despedin­do-me do fazendeiro.

“Compreendi que a confrontação estava se aproximando e que seria Gregory quem escolheria o momento e o lugar.

“Na vez seguinte em que Fenny e Constance apareceram na escola, eu estava mais determinado do que nunca a prote­gê-los. Ambos mostravam-se pálidos e muito quietos, uma aura de estranheza os envolvia, a ponto de as outras crianças os deixarem em paz. Se não me engano, haviam se passado qua­tro dias desde que eu vira o irmão deles encostado na parede da agência dos Correios. Não podia imaginar o que acontecera com as duas crianças desde que as vira pela última vez, mas pareciam dominadas por uma doença que as fazia definhar. Davam a impressão de perdidas, distantes. Tive uma compai­xão imensa daquelas crianças esfarrapadas e miseráveis. Eu tinha que protegê-las de qualquer maneira.

“Depois que terminaram as aulas daquele dia, enquanto as outras crianças iam embora, mantive Fenny e Constance na escola. Ficaram sentados em suas carteiras, sem se queixar, atordoados, visivelmente debilitados.

“— Por que ele os deixou virem à escola? — indaguei.

Fenny fitou-me com uma expressão apática.

“— Ele quem?

“Fiquei confuso.

“— Gregory, é claro.

“Fenny sacudiu a cabeça, como para dissipar um nevoeiro.

“— Gregory? Não vemos Gregory há muito tempo;

“O choque que senti foi terrível. Eles estavam definhan­do por causa da ausência de Gregory!

“— Então o que estão fazendo com vocês mesmos?

“— Estamos indo.

“— Indo?

“Constance assentia, repetindo as palavras de Fenny.

“— Estamos indo.

“— Para onde? Para fazer o quê?

“Os dois me olhavam agora, de boca entreaberta, como se eu fosse por demais obtuso.

“— Indo encontrar-se com Gregory?

“Era terrível, mas eu não podia pensar em mais nada. Fenny sacudiu a cabeça.

“— Nunca vemos Gregory.

“— Não, nunca vemos —- repetiu Constance, deixando-me horrorizado pelo tom de pesar em sua voz. — Estamos apenas indo.

“Fenny pareceu voltar à vida por um instante, ao dizer:

“— Mas ouvi Gregory uma vez. Ele disse que isto é tudo o que existe e não há mais nada. Não há nada além disto. Não há nada como o que falou. . , como nos mapas. Não exis­te nada.

“— Mas então o que existe lá fora?— indaguei.

“— É o que a gente vê — explicou Fenny.

“— Vê?                                                                       .  

“— Quando vamos.

“— E o que vocês vêem?

“Foi Constance quem respondeu, encostando a cabeça no tampo da carteira:

“— É bonito, é muito bonito mesmo...

“Não tinha a menor idéia do que eles estavam falando, mas não estava me agradando. Pensei que, mais tarde, teria tempo de conversar mais um pouco a respeito.

“— Pois ninguém vai a lugar nenhum esta noite — declarei. — Quero que os dois passem a noite aqui comigo. Quero mantê-los a salvo.

“Fenny assentiu, mas apática e indiferentemente, como se não lhe importasse muito onde passasse a noite. Quando olhei para Constance, em busca do assentimento dela, descobri que já estava dormindo.

“— Então está combinado — falei. — Podemos arrumar lugares para dormir mais tarde. E amanhã tentarei arrumar boas camas para vocês aqui na aldeia. Não podem mais con­tinuar sozinhos lá no meio do mato, por sua própria conta.

“Fenny tornou a assentir, outra vez apaticamente. Per­cebi que ele também estava prestes a adormecer.

“— Pode encostar a cabeça na carteira, Fenny.

“Em poucos segundos, ambos estavam dormindo, a ca­beça repousando na carteira. Naquele momento, eu quase que podia concordar com a horrível declaração de Gregory: era realmente como se aquilo fosse tudo o que existisse, como se não houvesse mais nada em parte alguma, apenas eu e as duas crianças exaustas, num galpão frio a que chamavam de escola. Afinal, meu senso da realidade já sofrera muitos choques. E com os três sentados ali, o dia foi se aproximando do fim; a sala, que na melhor das hipóteses vivia mergulhada na penum­bra, tornou-se escura, cheia de sombras. Eu não tinha ânimo para acender as luzes e por isso parecia que estávamos no fundo de um poço. Eu prometera que arrumaria camas para as crian­ças na aldeia, mas aquele povoado miserável, a menos de cinqüenta metros pela estrada, parecia estar a quilômetros de distância. E mesmo que eu tivesse a energia e confiança neces­sárias para deixar os dois sozinhos, não podia imaginar quem seria capaz de recebê-los em sua casa. Se era um poço, era um poço de desesperança, e eu tinha a sensação de que estava tão perdido quanto as crianças.

“Finalmente não consegui mais agüentar, fui até Fenny e o sacudi pelo braço. Ele despertou como um animal assustado e só consegui retê-lo na carteira pela força.

“— Tenho de saber a verdade, Fenny. O que aconteceu a Gregory?

“— Ele foi embora — respondeu o menino, novamente soturno.

“— Está querendo dizer que ele morreu.

“Fenny assentiu, a boca se entreabriu e pude avistar no­vamente aqueles lamentáveis dentes podres.

“— Mas ele volta?

“O menino tornou a assentir.

“— E você o vê?

“— Ele nos vê — respondeu Fenny, firmemente. — Fica olhando e olhando. E quer tocar.

“— Tocar?

“— Como antes.

“Pus a mão na testa de Fenny. Ele estava ardendo em febre. Cada palavra que dizia abria um novo abismo.

“— Mas você puxou a escada?

“Fenny ficou olhando para a carteira, com uma expressão apática. Insisti:

“— Puxou a escada, Fenny?

“— Ele fica olhando e olhando — murmurou Fenny, como se fosse esse o fato que dominasse sua consciência.

“Pus as mãos em sua cabeça para fazê-lo olhar em minha direção. E foi nesse momento que o rosto de seu algoz apa­receu na janela, aquele rosto pálido e terrível, como se quisesse impedir Fenny de responder às minhas perguntas. Senti-me ton­to, angustiado, como se estivesse sendo comprimido contra o fundo do poço. Mas senti  também que a batalha finalmente ia ser travada. Puxei Fenny para junto de mim, tentando prote­gê-lo fisicamente.

“— Ele está aqui? — gritou Fenny. O som de sua voz fez Constance cair no chão, chorando.

“— Que importância tem isso? — berrei. — Ele não vai pegá-lo... estou com você. Ele sabe que o perdeu para sempre!

“— Onde está? — gritou Fenny novamente, empurran­do-me. — Onde está Gregory?

“— Ali! — falei, virando-me para a janela.

“Fenny já estava se desvencilhando de mim e ambos olha­mos para a janela vazia. Não havia coisa alguma lá fora, a não ser o céu escuro e vazio. Senti-me triunfante. Vencera. Agarrei o braço de Fenny com toda a força da minha vitória. Ele soltou um grito de desespero. Caiu para a frente e segurei-o. Parecia que ele estava caindo no próprio poço do inferno. Só alguns segundos depois é que percebi o que havia segurado: o coração de Fenny parara de bater e eu estava amparando um corpo sem vida. Fenny se fora para sempre.”

Olhando para o círculo de seus amigos, Sears acrescentou:

— E foi o que aconteceu. Gregory também se foi para sempre. Tive uma febre quase fatal, passei três dias sem poder sair do quartinho miserável da casa dos Mather. Quando me recuperei e pude andar novamente, Fenny já havia sido sepul­tado. Ele realmente se fora para sempre. Quis largar o emprego e deixar o povoado, mas eles exigiram que eu cumprisse o contrato e voltei a dar aulas. Estava profundamente abalado, mas podia ensinar, mecanicamente. Ao final do contrato, eu já estava até usando a palmatória. Perdera todas as minhas noções liberais. Quando finalmente fui embora, era considerado um professor excelente.

“Há mais uma coisa. No dia em que deixei o povoado, fui visitar pela primeira vez a sepultura de Fenny. Era em Footville, atrás da igreja, perto da sepultura do irmão. Fiquei olhando para as duas sepulturas, E querem saber o que senti? Não senti absolutamente nada. Estava vazio. Como se não ti­vesse nada a ver com aquilo.”

—  E o que aconteceu com a irmã? — perguntou Lewis.

— Ela não era problema. Era um menina quieta e todos sentiram pena dela.  Superestimei a mesquinhez do povoado. Uma das famílias adotou-a. Pelo que sei, trataram-na como se fosse sua própria filha. Constance acabou engravidando, ca­sou-se com o rapaz e foi embora. Mas isso só iria acontecer anos depois.

 

(Frederick Hawthorne)

 

Voltando a pé para casa, Ricky ficou surpreso ao ver neve no ar. “Vai ser um inverno terrível”, pensou ele. “Todas as estações estão ficando cada vez mais esquisitas.” À clari­dade em torno do lampião da rua, ao final da Montgomery Street, flocos de neve turbilhonavam e caíam, aderindo ao chão por algum tempo, antes de se derreter. O ar frio penetrava pelo sobretudo de tweed. Tinha uma caminhada de meia hora pela frente e lamentava não ter vindo em seu carro, o velho Buick que Stella felizmente se recusava a usar; nas noites frias, ge­ralmente ia de carro. Naquela noite, porém, quisera tempo para pensar, pois tencionara pressionar Sears para descobrir o con­teúdo da carta dele para Donald Wanderley, e para isso era necessário elaborar uma técnica. Sabia agora que fracassara em seu intento. Sears lhe dissera apenas o que desejava e nada mais. De qualquer forma, pelo ponto de vista de Ricky, o dano já estava causado; de que adiantava agora saber como a carta fora formulada? Surpreendeu-se ao suspirar ruidosamente, observando sua respiração fazer alguns flocos de neve rodopiar em padrões complicados, enquanto se derretiam.

Recentemente, todas as histórias, inclusive as suas, dei­xavam-no tenso por várias horas; mas naquela noite sentia muito mais do que isso. Estava terrivelmente angustiado. As noites de Ricky eram agora uniformemente penosas, atormen­tado pela madrugada afora com os sonhos de que falara a Sears. Não tinha a menor dúvida de que as histórias que ele e seus amigos contavam davam alguma substância aos sonhos. Não obstante, achava que a ansiedade não era uma decorrência deles. Como também não era uma decorrência das histórias con­tadas, embora a de Sears naquela noite fosse pior do que a maioria. Aliás, as histórias de todos estavam se tornando cada vez piores. Assustavam-se cada vez que se encontravam, mas não deixavam de se encontrar, pois a suspensão daquelas reu­niões seria algo ainda mais assustador. Era um conforto se reunirem, verificar que todos estavam resistindo. Até mesmo Lewis estava assustado. Se não fosse por isso, por que teria votado a favor de escrever para Donald Wanderley? Era jus­tamente isso, saber que a carta estava a caminho, em alguma mala postal, que deixava Ricky mais angustiado do que ha­bitualmente.

“Talvez eu devesse mesmo ter deixado esta cidade há mui­to tempo”, pensou ele, contemplando as casas por que passava. Praticamente não havia nenhuma na qual não tivesse entrado pelo menos uma vez, a negócios ou em visita social, para con­versar com um cliente ou jantar. “Talvez devesse ter ido para Nova York logo depois que me casei, como Stella queria.” E tal pensamento era para Ricky uma terrível deslealdade. Só gradativamente, apenas de maneira imperfeita, conseguira con­vencer Stella de que sua vida era em Milburn, com Sears James e o escritório de advocacia. O vento frio subiu por seu pescoço e empurrou o chapéu. Além da esquina, à sua frente, avistou o Lincoln preto de Sears encostado no meio-fio. Uma luz estava acesa na biblioteca de Sears. O amigo não conseguiria dormir, depois de ter contado uma história como aquela. Àquela altura, todos já conheciam os efeitos de recordar os acontecimentos do passado.

“Mas não são apenas as histórias”, pensou Ricky, “assim como também não é apenas a carta. Alguma coisa vai aconte­cer.” Era por isso que eles contavam as histórias. Ricky não era dado a premonições, mas o temor do futuro que sentira duas semanas antes, ao conversar com Sears, voltou a domi­ná-lo intensamente. Era por isso que pensara em mudar-se da cidade. Entrou na Melrose Avenue, que tinha o nome de “ave­nida” provavelmente por causa das árvores nos dois lados. Os galhos sobressaíam, tingidos de laranja pelos lampiões. Durante o dia, as últimas folhas haviam caído. “Alguma coisa vai acon­tecer a toda a cidade.” Um galho rangeu por cima da cabeça de Ricky. Um caminhão mudou de marcha ao longe, passando pela Rodovia 17; o som percorria grandes distâncias nas noites frias de Milburn. Avançando mais um pouco, Ricky pôde ver as ja­nelas iluminadas do seu próprio quarto, no terceiro andar. Os ouvidos e o nariz doíam de tanto frio. “Depois de uma vida tão longa e racional”, disse Ricky para si mesmo, “não pode começar a ficar místico agora, meu caro. Vamos precisar de toda a razão de que pudermos dispor.”

Naquele momento, perto do lugar em que se sentia mais seguro e conseguindo impor tranqüilidade à mente, Ricky teve a impressão de que alguém o estava seguindo, que alguém estava parado na esquina, fitando-o atentamente. Pôde sentir olhos extremamente frios fixados nele e pareceu-lhe que flutuavam no espaço, que eram apenas olhos que o estavam se­guindo. Sabia como esses olhos eram, claros, de uma lumino­sidade esmaecida, flutuando ao nível de seus próprios olhos. Sua ausência de sentimentos parecia terrível, como se fossem os olhos de uma máscara. Virou-se, esperando vê-los, tão inten­sa era a sensação que experimentava. Envergonhado, descobriu que estava tremendo. Claro que a rua estava vazia. Era sim­plesmente uma rua vazia, parecendo, mesmo numa noite escura, tão comum quanto um cachorro vira-lata.

“Desta vez está exagerando, meu caro”, pensou Ricky; “a culpa é sua e daquela história horrível que Sears contou.” Olhos! Parecia algo saído de um velho filme de Peter Lorre. Os olhos e... de Gregory Bate? Mas que diabo! As mãos do Dr. Orlac. “É mais do que evidente”, disse Ricky a si mesmo, “que absolutamente nada vai acontecer. Somos apenas quatro tolos que estão começando a ficar caducos. Imaginar que eu pensei.

Mas ele não pensava que os olhos estivessem às suas costas, soubera que estavam.” Era puro conhecimento.

“Mas que bobagem!”, disse Ricky quase em voz alta. O que não o impediu de encaminhar-se para a porta de sua casa um pouco mais depressa do que de costume.

A casa estava às escuras, como sempre acontecia nas noites da Sociedade Chowder. Passando os dedos pela beirada do sofá, Ricky contornou a mesinha de café na qual já esbarrara meia dúzia de vezes, em outras noites; conseguindo transpor esse obstáculo a salvo, tateou a parede, atravessando a sala de jantar e entrando na cozinha. Ali podia acender a luz sem a menor possibilidade de perturbar o sono de Stella; o outro lugar em que poderia acender a luz seria no alto da casa, no quarto de vestir, que era o resultado, assim como a mesinha de café lu­zidia em estilo italiano, da última “tempestade cerebral” da esposa. Ela ressaltara que os armários de ambos estavam atu­lhados demais, não havia lugar para guardarem as roupas fora da estação. Além do mais, o pequeno quarto ao lado do deles provavelmente jamais voltaria a ser usado, agora que Robert e Jane tinham ido embora. Assim, ao custo de oitocentos dólares, haviam-no convertido num quarto de vestir, com trilhos para cabides e espelhos, um tapete novo bastante grosso. O quarto de vestir provara uma coisa para Ricky: como Stella sempre dissera, o marido realmente tinha tantas roupas quanto ela. O que fora uma surpresa para ele, que era tão destituído de vai­dade que não tinha a menor consciência do seu dandismo ocasional.

Uma surpresa mais imediata foi a de que suas mãos estavam tremendo. Estava preparando um chá de camomila, mas pegou uma garrafa pequena no armário e despejou um pouco de uísque num copo, ao constatar que suas mãos estavam tre­mendo. “Velho idiota e nervoso!” Mas xingar-se não iria aju­dar. Ao levar o copo aos lábios, a mão ainda tremia. Era aquele maldito aniversário. O uísque, ao entrar em sua boca, tinha o gosto de óleo diesel; cuspiu tudo na pia. “Pobre Edward!” Ricky lavou o copo, apagou a luz e subiu a escada no escuro.

De pijama, saiu do quarto de vestir e atravessou o corre­dor até o quarto de dormir. Abriu a porta cuidadosamente. Stella estava deitada, respirando suavemente, no seu lado da cama. Se conseguisse contornar a cama até seu lado, sem esbar­rar na cadeira ou chutar as botas dela, sem encostar no espe­lho e fazê-lo chocalhar, poderia deitar sem perturbá-la.

E Ricky conseguiu alcançar o outro lado da cama sem des­pertá-la, metendo-se debaixo das cobertas. Gentilmente, afagou o ombro nu da esposa. Era bem provável que ela estivesse tendo um dos seus casos ou então um flerte sério. Ricky tinha a impressão de que era com o professor que Stella conhecera um ano antes; ouvira um silêncio ofegante ao telefone que era tipicamente dele. Há muito que Ricky já chegara à conclusão de que muitas coisas eram piores do que saber que a esposa ocasionalmente ia para a cama com outro homem. Stella possuía sua própria vida e ele ocupava uma parte considerável nela. Apesar do que algumas vezes sentia e dissera a Sears há duas semanas, não ser casado teria sido um empobrecimento.

Ricky acomodou-se na cama. Estava esperando pelo que sabia que iria acontecer. Recordou a sensação de olhos fixos em suas costas. Gostaria que Stella pudesse ajudá-lo, confor­tá-lo de alguma forma. Mas não querendo alarmá-la ou afligi-la, pensando que terminariam com o novo dia e achando também que eram exclusivamente seus, particulares, jamais lhe contara seus pesadelos. Assim era Ricky Hawthorne preparando-se para dormir: deitado de costas, o rosto inteligente não deixando transparecer as emoções que lhe iam por dentro, as mãos atrás da cabeça, os olhos abertos, cansado, apreensivo, ciumento, assustado.

 

Em seu quarto, no Hotel Archer, Anna Mostyn estava postada à janela, observando flocos de neve caírem na rua. Embora as luzes estivessem apagadas e já passasse da meia-noite, encontrava-se inteiramente vestida. O casaco comprido achava-se estendido sobre a cama, como se ela tivesse acabado de chegar ou estivesse prestes a sair.

Postara-se junto à janela e fumava, uma mulher alta e atraente, cabelos pretos, olhos azuis. Podia ver quase toda a extensão da rua principal, a praça deserta numa extremidade, com os bancos vazios e as árvores nuas, as fachadas apagadas das lojas, o Restaurante Village Pump e uma loja de departa­mentos; a dois quarteirões de distância, um sinal de. tráfego ficou verde para uma rua vazia. A rua principal prolongava-se por oito quarteirões, mas os prédios eram visíveis apenas como contornos escuros de fachadas de lojas ou de escritórios. No lado oposto da praça, Anna Mostyn podia divisar as fachadas escuras de duas igrejas, acima das árvores nuas. Na praça, um general de bronze da Guerra da Independência fazia um gesto imponente com um mosquete.

“Esta noite ou amanhã?”, perguntava-se ela, fumando o cigarro e contemplando a pequena cidade.

“Esta noite.”

 

Quando o sono finalmente dominou Ricky Hawthorne, parecia que ele não estava simplesmente sonhando, mas havia sido transferido fisicamente, ainda desperto, para outro quar­to, em outra casa. Estava deitado na cama, num quarto estra­nho, esperando que alguma coisa acontecesse. O quarto parecia deserto, parte de uma casa abandonada. As paredes é o assoalho eram de tábuas, a janela apenas uma moldura vazia, o sol en­trando por uma dezena de frestas. Partículas de pó turbilhonavam nos raios de sol. Ele não sabia como sabia, mas sabia que alguma coisa iria acontecer e sentia medo. Era incapaz de sair da cama; mas mesmo que seus músculos funcionassem, sabia também que não seria capaz de escapar ao que estava para acontecer. O quarto ficava no andar superior da construção; pela janela, avistava apenas nuvens cinzentas e um céu azul-pálido. Mas o que quer que fosse acontecer, viria lá de dentro, não de fora.

O corpo estava coberto por uma velha manta quadricula­da, tão desbotada que alguns dos quadrados eram brancos. Por baixo dela, suas pernas estavam paralisadas. Ao levantar os olhos, Ricky compreendeu que podia divisar todos os detalhes das tábuas com uma clareza acima do normal; podia avistar as granulações se estendendo por cada uma, como os nós se formavam, a maneira como as cabeças dos pregos sobressaíam nas extremidades. Correntes de ar penetravam no quarto, agitando a poeira aqui e ali.

Lá embaixo, nos fundos da casa, ouviu um estrondo, o barulho de uma porta sendo aberta violentamente, uma pesada porta de porão batendo contra a parede. Até mesmo o quarto lá em cima tremeu com a violência do impacto. Prestando aten­ção, Ricky pôde ouvir alguma forma complexa saindo do porão, a se arrastar; era alguma forma pesada, de animal, tendo que se espremer para passar pela abertura da porta. O que quer que fosse, começou a investigar o andar térreo, deslocando-se lentamente, pesadamente. Ricky podia imaginar o que havia lá embaixo: uma sucessão de cômodos vazios, exatamente como aquele em que estava. Haveria mato crescendo entre as tábuas do assoalho. A luz do sol estaria incidindo sobre os lados e as costas do que quer que se estivesse movendo lentamente lá embaixo, através dos cômodos vazios. A coisa fazia um ruído de sugar, depois emitia um guincho estridente. Estava à procura dele. Farejava pela casa, sabendo que ele ali estava.

Ricky fez um novo esforço para mover as pernas, mas nem mesmo conseguiu crispá-las. A coisa lá embaixo estava ro­çando nas paredes ao se deslocar pelos cômodos; a madeira rangia. Teve a impressão de ouvir o ruído de um assoalho apo­drecido quebrando.

Logo ouviu outro barulho, um barulho que estava te­mendo: a coisa passou por outra porta. Os ruídos que vinham lá de baixo tornaram-se subitamente mais altos, podia até ouvir a coisa respirando. Estava no fundo da escada.

Ouviu a coisa se lançar escada acima.

Subiu ruidosamente talvez por meia dúzia de degraus, de­pois escorregou de volta. Voltou a subir, mais lentamente, ga­nindo de impaciência, vencendo dois ou três degraus de cada vez.

O rosto de Ricky estava molhado de transpiração. O que mais o assustava era não ter certeza se estava ou não sonhando; se tivesse certeza de que era apenas um sonho, então teria apenas de agüentá-lo, esperar até que a coisa lá embaixo subisse a escada e irrompesse pelo quarto em que se encontrava — o susto iria despertá-lo. Mas não parecia absolutamente ser um sonho. Os sentidos estavam alerta; a mente, lúcida. Toda a experiência carecia da atmosfera incoerente e incorpórea de um sonho. Jamais suara em nenhum sonho. E se estava desperto, a coisa que se deslocava ruidosamente lá embaixo acabaria por alcançá-lo, inevitavelmente, já que não podia se mexer.

Os ruídos se tornaram diferentes, e Ricky compreendeu que estava no terceiro andar da casa abandonada, pois a coisa estava agora à sua procura no segundo andar. Os ruídos eram bem mais altos: o ganido, o barulho da coisa a roçar pelas pa­redes e portas. Estava se deslocando muito mais depressa, como se já o farejasse.

A poeira ainda rodopiava preguiçosamente nos raios de sol; as poucas nuvens ainda vagavam pelo céu, que parecia do início da primavera. O assoalho rangeu quando a criatura vol­tou impacientemente ao patamar.

Agora, Ricky podia ouvir sua respiração nitidamente. Lan­çou-se pelo último lanço de escada, fazendo o barulho de uma bola de demolição atingindo o lado de uma construção. Ricky tinha a sensação de que seu estômago estava forrado de gelo; sentiu que poderia vomitar a qualquer momento. . . e vomita­ria cubos de gelo. A garganta estava apertada. Sua vontade era gritar, mas pensou, mesmo sabendo que isso era impossível, que a coisa talvez não o encontrasse se não fizesse qualquer barulho. A coisa guinchava e gemia, subindo ruidosamente a escada. Um degrau da escada estalou.

Quando chegou ao patamar, diante da porta do quarto de Ricky, ele descobriu o que era: uma aranha, uma aranha gi­gantesca. Bateu contra a porta do quarto. Ele ouviu novamente o ganido. Se as aranhas ganiam, era assim que o faziam. Pernas incontáveis tocaram na porta, enquanto o ganido se tornava mais alto. Ricky sentiu um terror total, um medo primitivo, pior do que qualquer outra coisa que já experimentara.

Mas a porta não se estilhaçou em mil pedaços. Abriu-se facilmente. Uma forma alta e escura estava parada além da porta. O que quer que fosse, não era uma aranha. Ricky sen­tiu o terror se reduzir numa fração inconsciente. A coisa preta diante da porta não se mexeu por um instante, ficando parada, como se o estivesse olhando. Ricky tentou engolir em seco e conseguiu usar os braços para erguer o corpo. As tábuas áspe­ras da parede se comprimiram contra suas costas e ele pensou novamente: “Isto não é um sonho”.

A forma escura avançou pela porta.

Ricky percebeu que não era absolutamente um animal, mas sim um homem. Outro plano de escuridão se separou e depois mais outro, permitindo-lhe verificar que eram três ho­mens. Por baixo dos capuzes que encobriam parcialmente os rostos sem vida, pôde reconhecer feições familiares. Sears Ja­mes, Lewis Benedikt e John Jaffrey estavam parados diante dele. E Ricky sabia que estavam mortos.

Acordou gritando. Os olhos se abriram para as visões fa­miliares da manhã na Melrose Avenue, o quarto de tons creme, com as gravuras que Stella comprara em sua última via­gem a Londres, a janela dando para o quintal dos fundos, uma camisa pendurada no encosto de uma cadeira. A mão de Stella segurou firmemente seu ombro. O quarto parecia estranha­mente desprovido de luz. Num súbito impulso, que não foi capaz de compreender, Ricky pulou da cama — isto é, chegou o mais perto de pular da cama quanto lhe permitiam os joelhos fracos de setenta anos — e foi até a janela. Atrás dele, Stella disse:

—  O que foi?

Ele não sabia o que estava procurando, mas o que viu era inesperado: todo o quintal dos fundos, todos os telhados das casas vizinhas, tudo estava coberto de neve. .O céu também se apresentava estranhamente desprovido de luz. Ricky não sabia o que ia dizer, mas murmurou imprevistamente:

—  Nevou a noite inteira, Stella. John Jaffrey jamais de­veria ter dado aquela maldita festa.

 

Stella sentou-se na cama e falou-lhe, como se Ricky tives­se dito algo racional.

—  A festa de John não foi há um ano, Ricky? Não enten­do qual a relação que possa ter com a neve de ontem à noite.

Ricky esfregou os olhos e as faces ressequidas, e alisou o bigode.

—  Fez um ano ontem à noite. — Percebendo o que aca­bara de dizer, apressou-se em acrescentar: — Não, claro que não há qualquer relação.

—  Volte para a cama e conte-me qual é o problema, meu bem.

—  Ora, estou me sentindo perfeitamente bem!

O que não impediu Ricky de voltar para a cama. Quando já estava outra vez sob as cobertas, Stella disse:

—  Sei que não está bem. Deve ter tido um pesadelo ter­rível. Não quer contar-me o que aconteceu?

—  Não faz muito sentido.

—  Mas conte-me assim mesmo.

Ela começou a acariciar-lhe as costas e os ombros. Ricky virou-se para contemplar-lhe o rosto, sobre o travesseiro azul-escuro. Como Sears dissera, Stella era uma beldade. Já era uma beldade quando Ricky a conhecera e provavelmente continuaria a ser até o dia de sua morte. Não era uma beleza mimosa, deli­cada, mas uma beleza forte, de planos faciais retos, sobrancelhas pretas bem definidas. Os cabelos de Stella haviam ficado grisalhos aos trinta e poucos anos. Ela se recusara a pintá-los, percebendo muito antes de qualquer outra pessoa o tremendo atrativo sexual de uma cabeça grisalha combinada com um ros­to jovem. Seria mais exato dizer que o rosto de Stella jamais fora inteiramente jovem, assim como nunca seria inteiramente velho. Na verdade, a cada ano que passava, até quase completar cinqüenta anos, Stella fora consolidando sua beleza, até assu­mi-la completamente, mantendo-se a partir de então do mesmo jeito. Era dez anos mais moça do que Ricky, mas nos bons dias parecia ter apenas pouco mais de quarenta anos.

—  Vamos, Ricky, conte-me tudo. O que está acontecendo?

E Ricky pôs-se a falar do  sonho, vendo  preocupação, horror, amor e medo estamparem-se no rosto de Stella. Ela continuou a acariciar-lhe as costas e depois deslocou a mão para o peito dele. Quando Ricky terminou, ela murmurou:

—  Tem realmente sonhos assim todas as noites, meu bem?

—  Não, Stella — respondeu Ricky, olhando para o rosto dela e vendo sob as emoções superficiais do momento a própria absorção e o divertimento sempre presentes em Stella. — Este foi o pior de todos. —• Fazendo uma pausa e sorrindo, ao per­ceber os efeitos das carícias de Stella, acrescentou: — Esse foi o campeão.

—  Tem andado muito tenso ultimamente. — Stella le­vantou a mão dele e levou-a a seus lábios.

—  Tem razão.

—  Todos vocês estão tendo esses pesadelos?

—  Todos quem?

—  A Sociedade Chowder. — Pôs a mão de Ricky em seu rosto.

—  Acho que sim.

—  Não acha que todos vocês, velhos tolos, deviam tomar alguma providência?

Stella sentou-se na cama, cruzando os braços com os coto­velos para a frente e começando a tirar a camisola por cima da cabeça. A camisola finalmente saiu e ela sacudiu a cabeça, para ajeitar os cabelos de volta a seu lugar. Os dois filhos haviam deixado os seios dela flácidos, os mamilos grandes e marrons, mas o corpo envelhecera apenas um pouco mais do que o rosto.

—  Não sabemos o que fazer — confessou Ricky.

—  Pois eu sei o que fazer — disse ela, deitando de novo na cama e abrindo-lhe os braços.

Se Ricky alguma vez desejara ter permanecido solteiro como Sears, não foi o que desejou naquela manhã. Depois que terminaram, Stella disse:

—  Ah, seu velho tarado sexual! Teria renunciado a isso há muito tempo, se não fosse por mim. O que teria sido uma perda e tanto. Se não fosse por mim, seria distinto demais para sequer tirar as roupas.

—  Não é verdade, Stella.

—  E o que faria então? Perseguiria as menininhas, como Lewis Benedikt?

—  Lewis não persegue menininhas.

—  Ficaria então com as garotas na casa dos vinte anos.

—  Eu jamais faria isso.

—  O que significa que estou certa. Não teria qualquer vida sexual, como o seu precioso sócio Sears. — Ela puxou as cobertas no seu lado da cama e se levantou. — Vou tomar ba­nho primeiro.

Todas as manhãs, Stella ficava no banheiro por bastante tempo. Vestiu um roupão branco comprido, dando a impressão de que estava prestes a exortar alguém a saquear Tróia.

—  Vou dizer-lhe o que deve fazer, Ricky. Telefone agora mesmo para Sears e conte seu horrível pesadelo. Não vai con­seguir chegar a parte alguma, se pelo menos não falar a res­peito. Se bem conheço você e Sears, podem passar várias se­manas seguidas sem dizer nada de pessoal um ao outro. O que é terrível. Afinal, sobre o que costumam conversar?

—  Sobre o que conversamos? — repetiu Ricky, um tanto surpreso. — Ora, conversamos sobre questões jurídicas.

—  Essa não!

E Stella foi para o banheiro. Ao voltar, quase meia hora depois, Ricky encontrava-se sentado na cama, com uma expres­são confusa. As olheiras estavam mais fundas do que habi­tualmente.

—  O jornal ainda não chegou — comentou ele. — Fui até lá embaixo e não o encontrei.

—  Nem podia encontrar — disse Stella, largando em cima da cama a toalha e uma caixa de lenços de papel e virando-se para ir ao quarto de vestir. — Que horas pensa que são?

—  Que  horas?   Não   sei.   Meu   relógio   está  em   cima da mesa.

—  Passam alguns minutos das sete.

—  Sete?

Normalmente, eles não se levantavam antes das oito horas. Ricky ficava vagando pela casa até nove e meia, quando partia para o escritório, na Wheat Row. Embora nem ele nem Sears quisessem admiti-lo, já não tinham muito trabalho. Velhos clientes apareciam de quando em vez, havia uns poucos pro­cessos complicados que davam a impressão de que se arrastariam até a década seguinte, e sempre apareciam uns poucos problemas fiscais para serem resolvidos; mas eles podiam pas­sar dois dias da semana em casa sem que ninguém percebesse. Em sua sala no escritório, Ricky ultimamente vinha relendo o segundo livro de Donald Wanderley, procurando em vão con­vencer-se de que a presença do autor em Milburn seria de­sejável.

—  Mas do que estamos falando, afinal?

—  Acordou-nos com seu grito, se é que preciso lem­brá-lo — gritou Stella do quarto de vestir. — Estava tendo problemas com um monstro que queria devorá-lo. Ou será que já esqueceu?

—  Hum...   — murmurou Ricky. — Pensei que esti­vesse escuro lá fora.

—  Não seja evasivo — gritou Stella, voltando pouco mais de um minuto depois e parando ao lado da cama, inteiramente vestida. — Quando se começa a gritar durante o sono, está na hora de levar a coisa a sério. Sei que não vai procurar um médico. ..

— Pelo menos não vou a um psiquiatra. Minha mente está funcionando perfeitamente.

—  Era o que eu pensava. Mas já que não quer ir a um médico, deve pelo menos conversar com Sears a respeito. Não gosto de vê-lo a se corroer por dentro.

E, com isso, Stella retirou-se, descendo a escada. Ricky continuou deitado, pensando. Como dissera a Stella, fora o pior dos pesadelos. Apenas pensar a respeito agora era inquietante... e o fato de Stella ter descido também era, de certa forma, inquietante. O sonho fora extraordinariamente vívido, com os detalhes e a sensação do estado de vigília. Ricky recordou os rostos dos amigos, pobres cadáveres privados de vida. Fora ter­rível, de certa forma imoral. O choque à sua moralidade, mais ainda que o horror, é que o levara a abrir a boca e gritar. Talvez Stella estivesse certa. Sem saber como iria abordar o assunto com Sears, pegou o fone na mesinha-de-cabeceira. De­pois que o telefone de Sears tocou uma vez, Ricky compreen­deu que estava agindo por impulso, que não tinha a menor idéia do motivo que levara Stella a pensar que o amigo e sócio poderia dizer-lhe algo importante. Mas já era tarde demais para recuar, pois Sears atendeu ao telefone, dizendo alô.

—  Sou eu, Sears... Ricky.

Evidentemente, aquela era a manhã para a demonstração de incongruência de comportamento, porque a reação de Sears foi simplesmente inconcebível:

— Graças a Deus, Ricky! Deve ter sido percepção extra-sensorial. Eu já ia telefonar para você. Pode vir pegar-me em casa dentro de cinco minutos?

— Dê-me quinze minutos, Sears. O que aconteceu? — Lembrando subitamente o pesadelo, Ricky indagou: — Alguém morreu?

— Por que pergunta? — quis saber Sears, com uma voz diferente, mais ríspida.

— Não há qualquer razão concreta. Mais tarde eu conto tudo. Presumo que não iremos para Wheat Row.

— Não, não iremos. Acabo de receber um telefonema de Elmer. Ele quer a nossa presença imediatamente... está a fim de processar todo mundo. Pode apressar-se, por favor?

—  Ele pediu que fôssemos até sua fazenda? O que aconteceu, afinal?

Sears estava impaciente.                                                   

— Aparentemente, foi algo terrível. E agora trate de desligar e se aprontar rapidamente, Ricky.                                   

 

Enquanto Ricky se apressava, tomando um banho de chu­veiro bem quente, Lewis Benedikt estava correndo por uma trilha no bosque. Era o que fazia todas as manhãs, uma corrida de três quilômetros, antes de preparar o café da manhã para si e para a jovem que tivesse passado a noite em sua companhia. Naquele dia, como sempre acontecia depois das noites da So­ciedade Chowder e com muito mais freqüência do que seus amigos imaginavam, não havia jovem alguma em sua casa, e Lewis estava se empenhando na corrida mais do que costuma­va. Na noite anterior, tivera o pior pesadelo de sua vida; os efeitos ainda o afligiam e achava que uma boa corrida poderia dissipá-los; enquanto outro homem escreveria num diário, con­fidenciaria, à amante ou tomaria um drinque, Lewis fazia exer­cício. Agora, num traje de corrida azul e sapatos Adidas, ele ofegava pela trilha no bosque.

A propriedade de Lewis incluía tanto os bosques como as pastagens, além da casa de pedra, que passara a amar a partir do momento em que a vira. Era como uma fortaleza, uma casa imensa construída no princípio do século por um fazendeiro rico que gostava da aparência dos castelos que havia nas ilus­trações de Sir Walter Scott, admirados por sua esposa. Lewis não sabia nem se importava com a existência de Sir Walter, mas os muitos anos vivendo em hotel o haviam deixado com a necessidade de ter muitos quartos a seu redor. Sentiria claus­trofobia, se morasse num simples chalé. Quando decidira ven­der seu hotel à cadeia que nos seis anos anteriores lhe vinha apresentando propostas cada vez mais altas, ficara com dinheiro suficiente, mesmo depois de deduzidos os impostos, para com­prar a única casa na área de Milburn que o satisfaria real­mente, além de poder decorá-la como desejava. O revestimento das paredes, armas de fogo e lança, nem sempre agradavam às suas hóspedes femininas. Stella Hawthorne, que passara três tardes ardentes na casa de Lewis, logo depois de seu retorno, comentara que nunca antes estivera num cassino de oficiais. Ele vendera as pastagens assim que fora possível, mas conser­vara os bosques, porque lhe agradava a idéia de possuí-los.

Correndo através dos bosques, Lewis sempre via algo novo, que lhe ampliava a sensação de vida: num dia, alguns arbustos surgindo do meio da neve numa depressão ao lado do córrego; no outro, um melro de asas vermelhas, do tamanho de um gato, espiando-o do alto de um bordo. Hoje, porém, ele não estava olhando, simplesmente corria pela trilha em meio à neve, desejando que fosse impedido o que estava para acon­tecer. Talvez o jovem Wanderley pudesse endireitar tudo, fazer com que as coisas voltassem a ser como antes. A julgar por seu livro, ele já estivera pessoalmente em alguns lugares dos mais sombrios e tenebrosos. Talvez John estivesse certo e o sobri­nho de Edward pudesse pelo menos definir o que estava acon­tecendo aos quatro. Não podia ser apenas sentimento de culpa,’ depois de tantos anos. O caso de Eva Galli ocorrera há tanto tempo que envolvera cinco homens diferentes, numa terra di­ferente. Contemplando-se agora a paisagem e comparando-a com o que era na década de 20, ninguém poderia imaginar que era o mesmo lugar. Até mesmo seus bosques eram uma pai­sagem secundária, embora ele gostasse de pensar o contrário.

Ao correr, Lewis gostava de pensar na floresta imensa que outrora cobrira quase toda a extensão do norte da Amé­rica, um vasto cinturão de árvores e vegetação luxuriante, uma riqueza silenciosa, pela qual se deslocavam apenas ele e os índios. E alguns espíritos. Numa floresta interminável, podia-se acreditar em espíritos. A mitologia indígena estava repleta de espíritos, que se ajustavam perfeitamente à paisagem. Mas agora, num mundo de supermercados e campos de golfe, não havia mais lugar para os velhos e tirânicos fantasmas. “Eles ainda não. foram expulsos, Lewis. Ainda não.” Era como outra voz falando em sua mente. “Uma ova que não foram”, disse Lewis para si mesmo, passando a mão pelo rosto.

“Não aqui. Ainda não.”

Mas que droga! Ele estava metendo medo a si mesmo. É que ainda estava angustiado por aquele maldito pesadelo. Talvez fosse o momento apropriado para conversarem sobre os pesadelos, cada um descrevendo os seus. Vamos supor que todos tivessem o mesmo pesadelo. O que isso poderia signifi­car? A mente de Lewis não podia ir além disso. Mas certa­mente significava alguma coisa, e falar a respeito não poderia deixar de ajudar. Acordara apavorado naquela manhã. Abrupta­mente, o pé pisou numa poça de neve semi derretida, misturada com lama, e ele viu nitidamente a imagem final do pesadelo: os dois homens retirando os capuzes para mostrarem seus rostos devastados.

Ainda não.

Mas que diabo! Lewis parou, exatamente no meio da cor­rida, enxugando a testa com a manga do blusão. Desejava já ter concluído o exercício e estar de volta a sua cozinha, prepa­rando o café ou fritando bacon. “É mais resistente do que isso, meu velho”, disse a si mesmo; “teve de ser, desde que Linda se matou.” Encostado por um momento na cerca ao final da trilha, que fazia a volta ali e se embrenhava novamente pelo bosque, Lewis correu os olhos pelo campo que vendera. Estava agora coberto por uma fina camada de neve, uma extensão de terra irregular, iluminada pela claridade da manhã. Tudo aquilo outrora também fora floresta. Onde se ocultavam as coisas tenebrosas.

Mas se algo estava escondido, não se podia perceber agora. O ar era pesado e vazio, dava para se avistar por quase toda a extensão do vale até a Rodovia 17, por onde passavam os cami­nhões seguindo para Binghamton e Elmyra numa direção, para Newburg ou Poughkeepsie na outra. Apenas por um momen­to, os bosques às suas costas deixaram-no inquieto nervoso. Virou-se bruscamente, mas avistou apenas a tinha zigueza-gueando por entre as árvores; ouviu apenas um esquilo furioso se queixando de que iria passar um inverno faminto.

“Companheiro, todos já tivemos invernos famintos.” Le­wis estava pensando na temporada que se seguira à morte de Linda. Nada pode afugentar tanto os hóspedes quanto um suicídio público. Tinha sido mesmo a Sra. Benedikt? Mas claro que tinha! O sangue dela se espalhara por todo o pátio, o pes­coço torcido de maneira estranha. Um a um, os hóspedes ti­nham ido embora, deixando-o com um investimento de dois milhões de dólares e praticamente sem qualquer receita. Tivera que dispensar três quartos dos empregados, e pagara aos de­mais do seu próprio bolso. Três anos se haviam passado até que os negócios voltassem ao normal, seis anos para que pa­gasse todas as dívidas.

Subitamente, o que ele queria não era café e bacon, mas uma garrafa de cerveja O’Keefe. Mais de uma. A garganta estava ressequida e o peito doía.

“Isso mesmo, todos nós já tivemos invernos famintos, companheiro.” Uma garrafa de cerveja? Poderia beber um bar­ril inteiro! Recordar a morte inexplicável e sem sentido de Linda lhe dava uma vontade imensa de se embriagar.

Estava na hora de voltar. Abalado pela recordação — o rosto de Linda retornara a seus pensamentos com extrema nitidez, reclamando-o ao longo dos nove anos que já se haviam passado desde aquele momento fatídico — Lewis virou-se, ficando de costas para a cerca, e aspirou fundo. Correr e não cerveja era sua terapia agora. A trilha pelo quilômetro e meio de bosques parecia mais estreita, mais escura.

“O seu problema, Lewis, é ser um covarde.”

Fora o pesadelo que trouxera as recordações. Sears e John, nas mortalhas lúgubres, os rostos sem vida. Por que não Ricky? Se ali estavam os outros dois membros vivos da Sociedade Chowder, por que não o terceiro?

Estava suando antes mesmo de começar a correr de volta.

A trilha de retorno fazia um longo desvio para a esquer­da, antes de virar novamente na direção da casa de pedra; normalmente, aquele desvio era a parte predileta da corrida matutina de Lewis. A mata se tornava cerrada quase que imediatamente, e quinze passos adiante já se podia esquecer intei­ramente o campo aberto lá atrás. Mais do que qualquer outra parte da trilha, aquele trecho se parecia com a floresta primária, com carvalhos imensos e bétulas novas disputando os espa­ços para fincarem suas raízes, as samambaias altas se erguendo por toda parte. Mas, naquele dia, Lewis correu com tão pouco prazer quanto lhe era possível sentir. Todas aquelas árvores, imensas e incontáveis, pareciam vagamente ameaçadoras: correr para longe da casa era como correr para longe da segurança. Passando sobre a neve fina, ele acelerou a corrida, querendo voltar para casa o mais depressa que pudesse.

Quando a sensação o atingiu pela primeira vez, preferiu ignorá-la, dizendo a si mesmo que não podia permitir-se ficar mais assustado do que já estava. O que lhe surgira à mente era que havia alguém parado no início da trilha de volta, no lugar onde se erguiam as primeiras árvores. Mas sabia que não podia haver ninguém ali; seria impossível que alguém tivesse atravessado o campo sem que ele percebesse. Mas a sensação persistiu, recusou-se a ser afastada por argumentos racionais. Os olhos da pessoa que o vigiava pareciam segui-lo, aprofun­dando-se entre as árvores. Um bando de corvos deixou os galhos de uma árvore, logo acima dele. Normalmente, Lewis teria ficado deliciado com tal ocorrência; mas naquele momento teve um sobressalto ao ouvir o barulho súbito e quase caiu.

A sensação subitamente alterou-se, ficou mais intensa. A pessoa lá atrás estava vindo em seu encalço, fitando-o com olhos imensos. Angustiado, desprezando a si mesmo pelo medo que sentia, Lewis disparou de volta a sua casa, sem se atrever a olhar para trás. Sentiu os olhos acompanhando-o implacavel­mente, até chegar ao caminho que atravessava o jardim dos fundos, indo da beira da mata à porta da cozinha.

Correu desesperadamente, o peito aspirando o ar irregular e sofregamente, torceu a maçaneta da porta, entrou em casa. Bateu a porta e foi imediatamente para a janela ao lado. O caminho estava deserto e as únicas pegadas eram as suas. Mesmo assim, Lewis continuou apavorado, esquadrinhando a beira da mata. Por um momento, uma sinapse traiçoeira em seu cérebro aconselhou: “Talvez seja melhor vender a casa e deixar a cidade”. Mas não havia pegadas. Ninguém poderia estar ali, vigiando-o ao abrigo das árvores. Não poderia sentir-se tão apavorado a ponto de vender a casa, da qual precisava; não poderia ser forçado por sua própria fraqueza a trocar aquele isolamento esplêndido e confortável por um desconforto promíscuo. Lewis iria ater-se a essa decisão, tomada numa cozinha fria, no primeiro dia da nevasca.

Pôs uma chaleira com água no fogo, pegou a cafeteira na prateleira, encheu o moedor com grãos de café, manteve-o ligado até que houvesse pó suficiente. “Mas que diabo!” Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de cerveja, abriu-a e tomou quase tudo, sem sequer sentir o gosto. Quando a cerveja bateu em seu estômago, foi surpreendido por um duplo pensamento. “Gostaria que Edward ainda estivesse vivo; e gostaria que John não tivesse insistido tanto em sua maldita festa.”

 

— Diga logo qual é o problema — pediu Ricky. — Inva­sores novamente? Já explicamos nossa posição a respeito. Ele deve saber que, mesmo ganhando, não conseguirá obter uma indenização suficiente para sequer pagar as despesas.

Estavam entrando nos contrafortes do vale Cayuga,  e Ricky guiava o velho Buick com extremo cuidado. As estradas estavam escorregadias e normalmente ele teria posto os pneus de neve antes de iniciar o percurso de treze quilômetros até a fazenda de Elmer Scales. Naquela manhã, porém, Sears não lhe dera tempo. O próprio Sears, imenso em seu chapéu preto e sobretudo preto de inverno, com gola de pele, parecia tão consciente disso quanto Ricky.

—  Concentre-se apenas em guiar, Ricky. Parece que há muito gelo nas estradas, em torno de Damascus.

—  Não estamos indo para Damascus.

—  Não tem importância.

— Por que não quis usar seu carro?

—  Mandei pôr os pneus de neve esta manhã.

Ricky soltou um grunhido, achando graça na situação. Sears estava num dos seus momentos refratários, uma conseqüência freqüente das conversas com Elmer Scales. Era um dos clientes mais antigos e mais difíceis, (Elmer fora procurá-los pela primeira vez aos quinze anos de idade, com uma longa e complexa lista de pessoas que desejava processar. Jamais haviam conseguido livrar-se dele ou alterar sua opinião de que um conflito só pode ser bem resolvido através de um processo judicial.) Um homem esquelético e nervoso, com orelhas sa­lientes e voz estridente, Scales era chamado por Sears de “Nosso Virgílio”, por causa de suas poesias, que enviava sis­tematicamente para revistas católicas e jornais locais. Ricky podia perfeitamente compreender por que as revistas sistema­ticamente devolviam as poesias. Elmer certa ocasião mostrara-lhe uma pasta repleta de memorandos de recusa. Mas os jornais haviam publicado duas ou três. Eram poesias com ima­gens extraídas da vida de Scales como fazendeiro: “Ás vacas mugem, os cordeiros balem, a glória de Deus caminha sobre pés trovejantes”. E o mesmo acontecia com Elmer Scales. Ele tinha oito filhos e uma paixão inflexível por litígios judiciais.

Uma ou duas vezes por ano, um dos sócios era convocado à fazenda de Scales, sendo levado até um buraco na cerca, por onde um caçador ou adolescente passara para entrar em sua propriedade. Elmer frequentemente identificava os invasores com um binóculo e invariavelmente queria processá-los. Sears e Ricky quase sempre conseguiam dissuadi-lo, mas ele tinha sempre dois ou três litígios judiciais de outros tipos em anda­mento. Dessa vez, porém, conforme Ricky desconfiava, a si­tuação era mais séria do que as reclamações habituais de Scales. Afinal, o fazendeiro jamais pedira antes — ou melhor, ordenara — que os dois sócios fossem procurá-lo.

— Como sabe perfeitamente, Sears, posso guiar e pensar ao mesmo tempo. E estou indo a uma velocidade extremamente cautelosa de cinqüenta quilômetros horários. Acho que pode muito bem me contar qual é o problema de Elmer desta vez.

— Alguns dos seus animais morreram — murmurou Sears, os lábios contraídos, insinuando que o simples ato de falar poderia fazê-los sair da estrada a qualquer momento.

— E por que então estamos indo até lá? Não podemos fazer os animais ressuscitarem.

—  Ele  quer falar  conosco.  E  também  chamou  Walter Hardesty.

—  O que significa que os animais não morreram simples­mente.

—  Com Elmer, quem pode saber? E agora, por favor, concentre-se em nos levar até lá em segurança,  Ricky.  Esta experiência já é horrível o bastante para não dispensar com­plicações adicionais.

Ricky lançou um olhar rápido para o sócio e pela primeira vez percebeu como o rosto de Sears estava extremamente pá­lido naquela manhã. Sob a pele macia, havia veias azuis salta­das, subitamente visíveis; as olheiras eram fundas.

—  Fique de olho na estrada — insistiu Sears.

—  Você está com uma aparência terrível.

—  Não creio que Elmer vá notar alguma coisa.

Os olhos de Ricky estavam agora fixos na estrada, o que lhe dava permissão para falar.

—  Teve uma noite horrível, Sears?

—  Acho que está começando a degelar.

Como se tratava de uma mentira gritante, Ricky ignorou o comentário.

— Teve ou não?

—  Ricky, o observador. Tive, sim.

—  Também  tive.  Stella acha que devemos conversar a respeito.

—  Como assim? Ela também vem tendo pesadelos?

—  Ela acha que falar a respeito poderá ajudar.

—  O que é típico de uma mulher. Falar só serve para abrir velhas feridas. Não ajuda a curá-las.

—  Se assim é, foi um erro convidar Donald Wanderley a vir até aqui.

Sears soltou um grunhido exasperado.

—  Foi injusto de minha parte e lamento o que disse, Sears.  Mas  acho  que devemos  falar  a  respeito  pelo  mesmo motivo que nos levou a convidar aquele garoto para um en­contro.

—  Ele não é um garoto. Deve estar com trinta e cinco anos. Talvez quarenta.

—  Sabe perfeitamente o que estou querendo dizer. — Ricky respirou fundo. — Agora, quero pedir-lhe que me perdoe antecipadamente, pois vou contar o pesadelo que tive ontem à noite. Stella disse que acordei gritando. Seja como for, foi o pior pesadelo que já tive. — Pela mudança do clima no interior do carro, Ricky compreendeu que Sears subitamente estava mais interessado. — Eu estava numa casa abandonada, no ter­ceiro andar, algum animal misterioso tentava descobrir-me. Vou passar por cima dos detalhes, mas posso garantir que a sensa­ção de perigo era terrível. Ao final do pesadelo, a besta entrou no quarto onde eu estava. Mas já não era mais monstro. Eram você, Lewis e John. E todos estavam mortos. — Lançando um rápido olhar para o companheiro, Ricky viu uma sombra na face pálida, projetada pelo chapéu.

—  Viu a nós três? Ricky assentiu.

Sears pigarreou e depois baixou um pouco a janela. O ar gelado entrou no carro. O peito de Sears se expandiu por baixo do casaco preto, alguns pêlos eriçados da gola foram alisados peia corrente de ar.

—  Mas isso é extraordinário! Quer dizer que viu mesmo a nós três?

—  Exatamente. Por quê?

—  Porque tive um sonho idêntico. Mas quando aquela coisa terrível entrou” no quarto, vi apenas dois homens: Lewis e John. Você não estava no pesadelo.

Ricky percebeu algo estranho na voz de Sears, levando um momento para identificar o que era; e quando o fez, o reconhecimento foi tão surpreendente que o levou a manter-se em silêncio até chegarem à fazenda de Elmer Scales. Era inveja.

 

— Nosso Virgílio — murmurou Sears, mais para si mes­mo, segundo a impressão de Ricky.

Ao se encaminharem lentamente para a casa isolada, de dois andares, Ricky avistou um Scales obviamente impaciente, de gorro e casaco xadrez, à espera na varanda. A casa parecia saída diretamente de uma gravura de Andrew Wyeth. O pró­prio Scales também parecia um quadro de Wyeth. Ou um tema de Norman Rockwell. As orelhas saíam por baixo das abas amarradas do gorro. Um sedã Dodge cinza estava parado diante da varanda. Ao estacionar ao lado, Ricky avistou o distintivo do xerife na porta.

—  Walt já chegou — disse ele.

Sears assentiu. Os dois saíram do carro, ajeitando os ca­sacos. Scales, agora ladeado por dois garotos trêmulos, não saiu da varanda. Estava com a expressão de excitamento intenso que precedia seus litígios judiciais mais ardorosos. A voz esganiçada gritou-lhes:

—  Já era tempo de vocês, advogados, chegarem aqui! Walt Hardesty já chegou há dez minutos!

—  Ele não precisou vir de tão longe — resmungou Sears. A aba do seu chapéu estava meio dobrada pela brisa que so­prava livremente através dos campos.

—  Sears James, acho que ainda está para nascer o homem que terá a última palavra com você. Ei, crianças, voltem para dentro de casa ou vão acabar ficando congeladas aqui fora!

Deu uma palmada em cada um, e os dois voltaram apres­sadamente para dentro da casa. Scales continuou parado na varanda, sorrindo sombriamente.

— Qual é o problema, Elmer? — indagou Ricky, acon­chegando-se no casaco e sentindo os pés já gelados nos sapatos pretos bem engraxados.

— Vão ter que andar um pouco para descobrir. Acho que vocês dois, gente da cidade, não estão convenientemente ves­tidos para uma caminhada pelos campos. Mas o azar é de vocês. Esperem um segundo que vou chamar Hardesty.

Desapareceu por um momento no interior da casa e voltou logo depois com o xerife, Walt Hardesty, que usava um casaco revestido de pêlo de ovelha e um chapéu Stetson. Aler­tado pelo comentário de Scales, Ricky olhou para os pés do xerife: ele usava grossas botas de montaria.

— Sr. James, Sr. Hawthorne... — falou ele aos dois advogados, o vapor subindo pelo bigode, que era maior e mais irregular do que o de Ricky. Naquele traje de vaqueiro, Har­desty parecia quinze anos mais jovem. — Agora que estão aqui, talvez Elmer se decida a mostrar qual é o grande mistério.

—  Mas claro que vou mostrar! — O fazendeiro desceu os degraus da varanda e seguiu pelo caminho na direção do estábulo coberto de neve. — Podem acompanhar-me e desco­brirão o que tenho para lhes mostrar.

Hardesty foi avançando ao lado de Ricky. Sears seguiu sozinho, com imensa dignidade, atrás deles.

— Está um frio terrível — comentou o xerife. — Parece que vai ser um inverno tremendamente comprido.

— Estou torcendo para que isso não aconteça — disse Ricky. — Estou velho demais para um inverno assim.

Com gestos exagerados e uma expressão que parecia de júbilo no rosto esquelético, Elmer Scales estava desprendendo um travessão da cerca de uma pastagem.

— E agora preste muita atenção, Walt — disse ele. — Veja  se consegue encontrar algum  rastro.  — Apontou  para uma linha de pegadas. — Estas são minhas, da ida e vinda esta manhã. — As pegadas de volta eram bastante espaçadas, como se Elmer tivesse corrido. — Onde está seu caderninho, Walt? Não vai tomar anotações?

— Acalme-se, Elmer — respondeu o xerife. — Quero ver primeiro qual é o problema.

— Tomou notas imediatamente quando meu garoto mais velho arrebentou o carro dele.

— Esqueça, Elmer, e trate de nos mostrar logo o que nos chamou para ver.

— Acho que vocês dois vão estragar os sapatos — disse Elmer, olhando para Sears e Ricky. — Mas não se pode fazer nada. Vamos embora.

Hardesty adiantou-se, ficando ao lado de Elmer; as costas imensas, sob o casaco volumoso, faziam com que o fazendeiro parecesse quase um menino. Ricky virou a cabeça a fim de olhar para Sears, que só naquele momento estava chegando à cerca e contemplava o campo coberto de neve com uma ex­pressão de aversão.

—  Ele poderia ter informado que iríamos precisar de sapatos de neve.

—  Está se divertindo imensamente com a situação — comentou Ricky.

—  E vai divertir-se ainda mais quando eu pegar pneu­monia  e  contratar  um  advogado para  processá-lo  — falou Sears. — Como não há alternativa, vamos embora.

Corajosamente, Sears pôs um pé bem calçado no pasto; afundou imediatamente, até os cordões.

—  Essa não! — Retirou o pé apressadamente e o sacudiu. Os outros já estavam no meio do campo. Enfiando as mãos nos bolsos do casaco, Sears acrescentou:  — Mas que diabo! Ele pode perfeitamente ir ao escritório!

—  Se você vai ficar, é melhor pelo menos eu acompa­nhá-los — disse Ricky. E se pôs a seguir os outros dois.

Walt Hardesty tinha se virado para olhá-los e estava afa­gando o bigode irregular, um típico agente da lei do oeste bravio deslocado para um campo coberto de neve do Estado de Nova York. Parecia estar sorrindo. Elmer Scales seguia em frente, indiferente aos outros. Ricky foi avançando, passando de uma pegada para outra. Atrás dele, ouviu Sears exalar ar suficiente para encher um balão e começar a segui-lo.

Em fila indiana agora, com Elmer falando e gesticulando na frente, foram caminhando pelo campo. Subitamente, com um estranho ar de júbilo triunfante, Elmer parou no alto de uma elevação. A seu lado, quase cobertas pela neve, havia pilhas de detritos. Ao chegar ao local, Hardesty se ajoelhou e cutucou uma das pilhas; depois resmungou e remexeu os de­tritos. Ricky avistou quatro patas pretas erguendo-se no ar.

Com os sapatos encharcados e os pés molhados, Ricky também chegou ao local. Sears, os braços estendidos para man­ter o equilíbrio, ainda caminhava pelo campo coberto de neve, a aba do chapéu achatada pelo vento.

—  Eu não sabia que ainda criava ovelhas — Ricky ouviu Hardesty dizer.

—  E não crio mais! — gritou Scales  — Tinha apenas essas quatro e agora todas morreram. Alguém as matou. Só as mantinha como uma homenagem aos velhos tempos. Meu pai tinha umas duzentas, mas esses animais estúpidos já não dão mais dinheiro. Só fiquei com essas porque as crianças gostavam delas.

Ricky olhou para os quatro animais mortos, caídos de lado, os olhos vidrados, a neve sobre os pêlos emaranhados. Inocentemente, perguntou:

—  O que as matou?

—  É justamente isso o que estou querendo saber! — gritou Elmer, num acesso de raiva. — E quem representa a lei por aqui é que tem de me dizer!

Hardesty, ainda ajoelhado ao lado de uma das ovelhas mortas, levantou a cabeça e fitou o fazendeiro com uma ex­pressão irritada.

— Está querendo dizer que nem mesmo sabe se estes animais morreram de causas naturais, Elmer?

— Eu sei que não! Eu sei que não! — Scales levantou os braços dramaticamente, parecendo um morcego prestes a alçar vôo.

—  E como pode saber?

—  Porque nada pode matar uma maldita ovelha! É por isso que eu sei! E que diabo poderia matar quatro de uma só vez? Ataques do coração? Essa não!

Sears juntou-se ao grupo, seus contornos imensos fazendo com que Hardesty, ajoelhado, parecesse bem pequeno. Olhando para baixo, comentou:

—  Quatro ovelhas mortas... Imagino que esteja que­rendo processá-las.

—  Como? Vocês vão descobrir o lunático que fez isso e processá-lo até que fique sem calças!

—  E quem pode ser?

—  Não sei. Mas...

—  Mas o quê? — indagou Hardesty, novamente levan­tando os olhos da ovelha morta a seus pés.

—  Vou dizer quando voltarmos para casa. Enquanto isso, senhor xerife, dê uma boa olhada, tome anotações e descubra o que ele fez com os bichos.

—  Ele?

—  Só vou falar quando voltarmos.

Com o rosto franzido, Hardesty cutucou a carcaça.

—  Para isso, Elmer, está precisando de um veterinário e não de mim. — As mãos dele, apalpando o corpo do animal, chegaram ao pescoço. — Ei. . .

—  O que foi? — gritou Elmer Scales, quase pulando de expectativa.

Ao invés de responder, Hardesty chegou-se de joelhos à ovelha mais próxima e enfiou as mãos nos pêlos abundantes do pescoço.

—  Poderia ter visto isso pessoalmente, Elmer — disse o xerife, puxando para trás a cabeça da ovelha.

—  Santo Deus! — exclamou o fazendeiro.

Os dois advogados ficaram em silêncio. Ricky olhou para a ferida exposta: o talho imenso no pescoço do animal parecia uma boca escancarada.

— Um trabalho limpo — comentou Hardesty. — Um trabalho bem-feito. Está certo, Elmer, já provocou o que queria. E agora vamos voltar para sua casa. — E limpou os dedos na neve.

—  Santo Deus! — repetiu Elmer. — As gargantas dos bichos foram cortadas? De todos eles?

Com um ar cansado, Hardesty foi puxar as cabeças dos animais restantes, antes de Confirmar:

—  De todos eles.

Vozes antigas soaram nitidamente na mente de Ricky. Ele e Sears se entreolharam, e desviaram os olhos rapidamente.

— Vou processar até o fim quem fez uma coisa dessas! — berrou Elmer. — Mas que merda! Sabia que alguma coisa estava esquisita! Eu sabia! Mas que merda!

Hardesty estava agora correndo os olhos pelo campo vazio.

—  Tem certeza de que veio até aqui só uma vez e depois voltou direto?

—  Tenho...

—  Como sabia que alguma coisa estava errada?

—  Porque  vi  as  estúpidas  ovelhas  aqui em  cima  esta manhã, ao olhar pela janela. Normalmente, quando estou lavando o rosto, a primeira coisa que avisto são esses bichos através da janela. Entende agora? — Apontou para a casa. Dava para se avistar o brilho da janela da cozinha. — Há alguma relva aqui por cima. Os estúpidos animais ficam an­dando de um lado para outro, enchendo-se de comida. Quando neva demais, levo os bichos para o estábulo. Olhei pela janela e vi os bichos como estão agora. Não podia haver a menor dúvida de que alguma coisa estava errada. Pus o casaco e as botas e subi até aqui. Depois, liguei para você e para meus advogados. Quero processar e prender quem fez isso.

— Não há quaisquer pegadas ao lado das suas — disse Hardesty, alisando o bigode.

—  Sei disso — respondeu Elmer. — Ele apagou-as.

— É possível. Mas normalmente podem ser percebidas na neve intata.

“Santo Deus ela se mexeu ela não pode ela está morta.”

— E há outra coisa — disse Ricky, rompendo o silêncio desconfiado que se criara entre os dois homens e interrom­pendo a voz lunática em sua mente. — Não há sangue.

Por um momento, os quatro homens ficaram olhando para as ovelhas mortas e para a neve recente. Era verdade.

—  Agora, não podemos deixar esta desolação? —- indagou Sears.

Elmer ainda estava olhando para a neve, engolindo em seco. Sears começou a se afastar pelo campo e os outros logo o seguiram.

 

—  Muito bem, crianças, sumam daqui e subam! — gritou Scales, ao entrarem na casa e tirarem os casacos. — Temos que conversar em particular. Vamos, saiam daqui! — Sacudiu as mãos para algumas das crianças, que olhavam fascinadas para a pistola de Walter Hardesty. — Sarah! Mitchell! Subam logo! Agora!

Foram para a cozinha. Ao entrarem, uma mulher tão magra quanto Elmer levantou-se bruscamente de uma cadeira, cruzando as mãos.

—  Sr. James, Sr. Hawthorne...  — murmurou ela. — Aceitam um café?

—  Primeiro toalhas de papel, se não se incomoda, Sra. Scales — disse Sears. — E depois o café!

—  Toalhas de papel?

—  Para enxugar meus sapatos. E tenho certeza de que o Sr. Hawthorne também está precisando de uma.

A mulher baixou os olhos, aturdida, para os sapatos do advogado.

— Oh, mas está horrível! Deixe-me ajudá-lo... — A mulher tirou um rolo de papel do armário, arrancou um pedaço grande e fez menção de ajoelhar-se aos pés de Sears.

—  Isso não será necessário — disse Sears bruscamente, tirando o papel das mãos dela.

Somente Ricky sabia que Sears estava simplesmente cons­trangido e não sendo grosseiro.

— Sr. Hawthorne...? — Um pouco intimidada pela frieza de Sears, a mulher virou-se na direção de Ricky.

—  Aceito também o papel, Sra. Scales — disse ele. — É muita bondade da sua parte. Obrigado.

Ele pegou o papel, enquanto Elmer dizia à esposa:

—  As gargantas dos bichos foram cortadas. Eu não tinha falado? Algum doido andou por aqui. E... — Fez uma pausa, a voz se alterando ao acrescentar: — era um doido que pode voar, pois não deixou pegadas.

—  Conte tudo — murmurou ela.

Elmer fitou-a com uma expressão irritada e a mulher se apressou em começar a preparar o café.

—  Contar o quê? — indagou Hardesty.

Não mais usando o traje de Wyatt Earp, o xerife voltara a assumir sua idade de cinqüenta anos. “Ele está mergulhando na garrafa mais do que nunca”, pensou Ricky, vendo as veias rompidas no rosto de Hardesty, a expressão indecisa. Pois a verdade era que, apesar de sua aparência de ranger do Texas, nariz aquilino, faces vincadas e olhos azuis de pistoleiro, Walt Hardesty era preguiçoso demais para ser um bom xerife. Era típico dele só ter examinado as outras duas ovelhas depois que isso lhe fora sugerido. E Elmer Scales estava certo; ele deveria ter tomado anotações.

O fazendeiro estava agora se aprumando, prestes a lançar sua bomba. As cordas vocais estavam saltadas no pescoço; as orelhas de morcego um pouco mais vermelhas.

—  É que eu vi o homem, entendem? — A boca de Elmer descaiu comicamente e ele contemplou um a um, lentamente.

— O homem? — murmurou a esposa, em tom irônico.

— Mas que droga, mulher! O que mais poderia ser? — Elmer bateu com a mão na mesa, estrondosamente. — Provi­dencie logo esse café e pare de me interromper! — Virou-se novamente para os outros três homens. — Tão grande quanto eu! Maior! E me olhando! A coisa mais terrível que já vi! — Desfrutando aquele momento, o fazendeiro abriu os braços. — Bem lá fora! E não estava muito longe! O que acham disso?

—  E por acaso o reconheceu? — indagou Hardesty.

—  Não o vi tão bem assim. Mas deixe-me contar como foi. — Estava andando pela cozinha, incapaz de se controlar. Ricky recordou-se de uma antiga percepção, segundo a qual Nosso Virgílio escrevia poesia porque era volúvel demais para acreditar que não era capaz. — Eu estava aqui mesmo ontem à noite, já bem tarde. Não podia dormir, nunca pude.

—  Nunca pôde — murmurou a esposa.

Soaram gritos, rangidos e baques lá em cima.

—  Esqueça o café e suba para dar um jeito nas crianças — ordenou Elmer à esposa.

Ele parou de falar, enquanto ela se retirava. Não demorou muito para que outra voz se juntasse à cacofonia lá em cima, fazendo com que os ruídos cessassem abruptamente.

—  Como eu estava dizendo, ontem à noite fiquei aqui, dando  uma  olhada  em  alguns  catálogos  de  equipamentos  e sementes. E, de repente, ouvi alguma coisa perto do estábulo. “Um ladrão!”, pensei. Levantei-me e fui até a janela. Vi que estava nevando. Lá se foi o meu trabalho de amanhã, disse para mim mesmo. E foi nesse momento que o vi. Perto do estábulo. Entre o estábulo e a casa.

—  E como ele parecia? — indagou Hardesty, ainda sem tomar anotações.

—  Não pude ver direito!   Estava escuro demais!  — A voz de Elmer passara agora para um tom de soprano. — Apenas o vi parado ali, olhando!

—  Viu-o no escuro? — perguntou Sears, em tom ente­diado.— As luzes do pátio não estavam acesas?

—  Deve estar brincando, senhor advogado! Com as contas de luz do jeito que estão, não se pode passar a noite inteira com lâmpadas acesas! Mas eu o vi e percebi que era muito grande.

—  Mas como pôde perceber tal coisa, Elmer? — indagou Hardesty.

A Sra. Scales estava agora descendo a escada sem carpete, os sapatos duros ecoando ruidosamente nos degraus de ma­deira. Ricky espirrou. Uma criança começou a assoviar. Os passos na escada cessaram abruptamente.

—  Porque vi os olhos dele! Olhando para mim! E muito acima do chão!

—  Viu apenas os olhos dele? — disse Hardesty, incré­dulo. — E que diabo havia nos olhos do tal sujeito para que pudesse vê-los assim, Elmer? Brilhavam no escuro?

—  Acabou de dizer — respondeu o fazendeiro.

Ricky virou bruscamente a cabeça para fitar Elmer, que olhou para todos com uma satisfação evidente. Sem qualquer intenção, mas não podendo conter-se, Ricky olhou em seguida para Sears, que estava do outro lado da mesa. Ele ficou tenso e imóvel ao ouvir a última pergunta de Hardesty, esforçan­do-se para que nada transparecesse em seu rosto. Percebeu a mesma determinação no rosto de Sears. E pensou: “Sears tam­bém. Significa também alguma coisa para ele”.

—  E agora espero que você o agarre, Walt. E espero também  que  meus  dois  advogados   processem  o  bunda-suja daqui até o verão. Desculpe a linguagem, meu bem.

A esposa de Elmer estava entrando na cozinha naquele momento e assentiu diante do pedido de desculpas, reconhe­cendo que se justificava, antes de tirar a cafeteira do fogo.

—  Viu alguma coisa ontem à noite, Sra. Scales? — per­guntou Hardesty.

Ricky percebeu um reconhecimento similar no rosto de Sears e compreendeu que ele próprio se denunciara.

— Tudo o que vi foi um marido assustado. Acho que essa foi a parte que ele não contou.

Elmer pigarreou, o pomo-de-adão subindo e descendo.

—  É que a coisa parecia muito esquisita. . .

—  Creio que já sabemos tudo b que é necessário — inter­veio Sears. — Agora, se nos dão licença, o Sr. Hawthorne e eu temos que voltar para a cidade.

— Vai tomar o café primeiro, Sr. James — disse a Sra. Scales, pondo uma xícara de plástico, cheia de café fumegante, diante dele, em cima da mesa. — Se vão processar algum bunda-suja daqui até o verão, certamente precisarão de todas as suas energias.

Ricky fez um esforço para exibir um sorriso, mas Walt Hardesty soltou uma risadinha.

 

Lá fora, já exibindo novamente seu traje protetor de ranger do Texas, Hardesty inclinou-se para falar baixinho pela fresta de três dedos que Sears abrira na janela do carro:

—  Precisam voltar para a cidade imediatamente?  Não podemos encontrar-nos em algum lugar para trocarmos umas palavrinhas?

—  É muito importante?

—  Talvez sim, talvez não. Mas eu gostaria de conversar com vocês.

—  Está certo. Iremos diretamente para seu gabinete.

A mão enluvada de Hardesty subiu até o queixo e coçou-o lentamente.

—  Preferiria não falar na presença dos outros rapazes.

Sentado com as mãos no volante, Ricky virou o rosto alerta para Hardesty, mas em sua mente só cabia um pensa­mento: “Está começando! Está começando e nem ao menos sabemos o que é!”

—  O que sugere, Walt? — perguntou Sears.

—  Podemos parar em algum lugar no caminho, para uma conversa  tranqüila. O que me diz do Humphrey’s, que fica logo depois dos limites da cidade, na Seven Mile Road?

—  Acho que sei onde fica.

—  Costumo   usar   a   sala   dos   fundos   como   escritório, quando preciso tratar de algum assunto confidencial. Podemos nos encontrar lá?

—  Já que insiste... — murmurou Sears, sem se dar o trabalho de consultar Ricky.

Seguiram o carro de Hardesty pelo caminho de volta à cidade, andando um pouco mais depressa dó que na ida. O reconhecimento mútuo — de que ambos conheciam a coisa assustadora que Elmer Scales vira — tornava impossível qual­quer conversa. Quando Sears finalmente falou, foi sobre um tópico aparentemente neutro:

—  Hardesty é um  tolo incompetente.  “Assuntos confi­denciais.” Seu único assunto confidencial é com uma garrafa de uísque.

— Pelo menos já sabemos agora o que ele costuma fazer durante a tarde.

Ricky deixou a estrada principal e. entrou na chamada Seven Mile Road. A taverna, a única construção à vista, era um amontoado cinzento de ângulos e pontas, a cerca de duzen­tos metros de distância, à direita.

—  Tem toda a razão. Ele deve passar as tardes tomando uísque de graça, à custa de Humphrey. Ele estaria muito me­lhor trabalhando em alguma fábrica de sapatos em Endicott.

—  O que será que ele está querendo conversar conosco?

—  Saberemos em breve.

Hardesty já estava de pé ao lado do seu carro, no esta­cionamento imenso, agora praticamente vazio. O estabeleci­mento não passava de uma taverna comum de beira de estrada, com uma fachada irregular e duas grandes janelas pretas; numa delas, estava o nome “Humphrey’s Place” em neon, e na outra o nome “Utica Club” apagando e acendendo. Ricky parou ao lado do carro do xerife. Os dois advogados saltaram para o vento frio.

—  Sigam-me — disse Hardesty, num tom de falsa bo­nomia.

Depois de se olharem com um constrangimento partilha­do, Ricky e Sears subiram os degraus de concreto atrás dele. Ricky espirrou duas vezes, violentamente, assim que entrou na taverna.

Omar Norris, um dos poucos bebedores de tempo inte­gral da cidade, estava sentado num banco, no bar; fitou-os com uma expressão espantada. O gordo Humphrey Stalladge estava se deslocando entre os reservados, limpando os cinzeiros.

—  Walt! — gritou ele, acenando em seguida com a ca­beça para Ricky e Sears.

A atitude de Hardesty mudou subitamente: dentro do bar, parecia mais alto, mais senhor de si, com um jeito que parecia indicar que os dois homens mais velhos atrás dele haviam vindo até ali a conselho seu. Stalladge olhou mais aten­tamente para Ricky e depois disse:

—  Não é o Sr. Hawthorne? — Sorriu e acrescentou: — Ora, ora...

Ricky compreendeu que Stella já estivera ali, mais de uma vez.

— Podemos ir para a sala dos fundos? — indagou Har­desty.  

—  Está sempre à sua disposição.

Stalladge acenou na direção de uma porta em que estava escrito “Particular”, espremida num canto do balcão comprido. Ficou observando os três homens atravessarem o chão empoei­rado. Ornar Norris, ainda atônito, também ficou observando-os, Hardesty com o porte de um típico agente federal, Ricky chamando atenção apenas por sua sobriedade impecável, Sears uma presença imponente, parecido (somente agora a compara­ção ocorria a Ricky) com Orson Welles.

—  Está em boa companhia hoje, Walt — gritou Stalladge lá de trás.

Sears deixou escapar alguns ruídos guturais de irritação, enquanto Hardesty agradecia o comentário com um aceno ne­gligente da mão enluvada. Com um gesto altivo, o xerife abriu a porta.

Assim que passaram para o outro lado e depois de indicar que deveriam atravessar o corredor pouco iluminado até a sala escura na sua extremidade, os ombros de Hardesty voltaram a descair e o rosto relaxou. E ele disse:

—  Vão querer alguma coisa? — Os dois advogados sa­cudiram a cabeça. — Pois eu estou sedento.

Com um sorriso contrafeito, Hardesty voltou a sair pela porta. Em silêncio, os dois advogados seguiram pelo corredor até a salinha escura nos fundos. Bem no centro estava uma mesa, coberta pelas cicatrizes de muitos cigarros e cercada por seis cadeiras. Ricky encontrou o interruptor e acendeu a luz. Entre a lâmpada invisível e a mesa havia caixas de cerveja, empilhadas até o teto. A sala cheirava a fumaça e cerveja choca; mesmo com a luz acesa, a parte da frente estava quase tão escura quanto antes.

—  O que estamos fazendo aqui? — perguntou Ricky.

Sears sentou-se numa das cadeiras, suspirou, tirou o cha­péu e colocou-o cuidadosamente na mesa.

— Se quer saber o que resultará desta fantástica excursão, Ricky, posso garantir-lhe que será nada, absolutamente nada.

—  Acho que devemos conversar sobre o que Elmer viu perto de sua casa, Sears.

—  Não na presença de Hardesty.

—  Concordo plenamente. Mas podemos falar agora.

—  Agora, não. Por favor.

—  Meus pés ainda estão frios — murmurou Ricky, ga­nhando com isso um dos raros sorrisos de Sears.

Ouviram a porta na outra extremidade do corredor se abrir. Um instante depois, Hardesty entrou na sala, com um copo de cerveja numa das mãos, a outra segurando uma garra­fa de LaBott pela metade e o chapéu. A pele dele tornara-se ligeiramente avermelhada, como se curtida pelo vento incle­mente das planícies.

—  Cerveja é a melhor coisa para uma garganta seca — comentou ele. Por baixo da neblina de cerveja que flutuou com suas palavras dava para sentir o cheiro forte e penetrante do uísque. — Consegue realmente refrigerar a serpentina.

Ricky calculou que Hardesty conseguira tomar uma dose de uísque e meia garrafa de cerveja nos poucos momentos em que estivera sozinho no bar. Depois de uma pausa, o xerife perguntou:

— Já estiveram aqui antes?

—  Não — respondeu Sears.

—  É um bom lugar. E aqui nesta sala pode-se ficar intei­ramente à vontade. Humphrey providencia para que ninguém venha incomodar, quando se precisa ter uma conversa em par­ticular. E como a casa fica mais ou menos fora de mão, ninguém provavelmente verá o xerife e os dois mais eminentes advoga­dos da cidade numa taverna.

—  À exceção de Ornar Norris.

—  Tem razão. Mas, provavelmente, ele não vai lembrar-se de coisa alguma.

Hardesty passou uma perna por cima da cadeira, como se fosse um imenso cachorro no qual pretendesse montar, ao mesmo tempo em que jogava o chapéu em cima da mesa, onde foi bater no de Sears. Depois, a garrafa de LaBott foi parar em cima da mesa. Sears aproximou seu chapéu da própria barriga, enquanto o xerife tomava um gole longo de cerveja.

—  Se me permite repetir uma pergunta que meu sócio acabou de formular, o que estamos fazendo aqui?

—  Tenho algo para lhes contar. — Os olhos de pistoleiro possuíam agora uma fulgurante sinceridade de embriaguez. — E irão compreender por que tínhamos de conversar longe dos ouvidos de Elmer.  Nunca vamos descobrir  quem ou o  que matou aquelas ovelhas. — Ele tomou outro gole de cerveja e sufocou um arroto com as costas da mão.

—  Não?

Pelo menos a lamentável exibição de Hardesty estava servindo para afastar os pensamentos de Sears de seus próprios problemas; estava agora simulando surpresa e interesse.

—  Não. Não há a menor possibilidade. Não é a primeira vez que acontece algo assim.

—  Não é? — murmurou Ricky. Estava aturdido, pro­curando imaginar quantos animais domésticos já teriam sido mortos daquela maneira na área de Milburn, sem que a coisa chegasse a seu conhecimento.

—  Claro que não! Não exatamente aqui, mas em outras partes do país.

—  Ah...   — murmurou  Ricky, voltando a recostar-se na cadeira cambaia.

—  Devem estar lembrados que há alguns anos compareci a uma convenção nacional de polícia, em Kansas City. Fui de avião, fiquei lá uma semana. Foi uma viagem realmente ex­traordinária.

Ricky recordava-se perfeitamente, pois o xerife, ao voltar, falara para o Lion’s Club, Kiwanis, Rotary, Elks, para a Asso­ciação Nacional do Rifle, a Maçonaria e a Sociedade John Birch, as organizações que haviam financiado a viagem. Ricky per­tencia a um terço delas, por obrigação. O tema dele fora a necessidade de “uma força policial moderna e bem equipada nas comunidades americanas menores”.

Segurando a garrafa de cerveja com uma das mãos, como se fosse um cachorro-quente, Hardesty continuou:

—  Uma noite, no motel, conversei com uma porção de xerifes de cidades pequenas. Eram do Kansas, Missouri e Min­nesota. E puseram-se a falar sobre esse tipo de coisa, crimes estranhos, jamais resolvidos. Pelo menos dois ou três xerifes haviam  deparado com  o  mesmo  problema  que  encontramos hoje. Uma porção de animais mortos num campo. E os bichos haviam morrido da noite para o dia. Não se podia perceber qualquer causa aparente, até se examinar os bichos e desco­brir... Sabem o quê. Os talhos eram impecáveis, como se fossem feitos por um cirurgião. E não havia sangue. Um dos caras contou que houve uma verdadeira onda de mistérios assim no vale do rio Ohio, ao final dos anos 60. Fez-me recor­dar tudo isso quando observou que não havia sangue, Sr. Hawthorne. Era de se esperar que aquelas ovelhas desatassem a balir como se estivessem doidas. E a mesma coisa aconteceu em Kansas City há um ano, pouco antes da conferência, por volta do Natal.

— Tudo isso é bobagem — disse Sears. — E não quero mais ouvir essas tolices.

—  Desculpe, Sr. James, mas não se trata de bobagem. Aconteceu realmente. Pode verificar no Kansas City Times. Em dezembro de 1973. Uma porção de gado morto, sem pega­das, sem sangue...  e os bichos estavam também sobre neve recente, como hoje. — Olhou para Ricky, piscou e esvaziou a cerveja.

—  Ninguém foi preso? — indagou Ricky.

— Nunca. Em todos os lugares em que aconteceram coi­sas assim, jamais  conseguiram descobrir algum possível  sus­peito. Era como se alguma coisa ruim houvesse chegado à cidade, fizesse sua demonstração e depois tivesse ido embora. Minha impressão é de que tudo isso constitui a idéia-chave de alguma brincadeira.

—  E que coisa? — indagou Sears, cada vez mais irritado. — Vampiros? Demônios? Tudo isso é absurdo!

—  Não era a isso que me estava referindo, Sr. James. Sei muito bem que não existem vampiros, assim como sei que o tal monstro naquele lago da Escócia não está lá. — Hardesty recostou-se na cadeira e cruzou as mãos atrás da cabeça. — Mas ninguém jamais descobriu qualquer coisa e nós também não vamos descobrir. Não há nem mesmo sentido em se inves­tigar. Estou pensando em simplesmente manter Elmer feliz, dizendo-lhe que estou trabalhando arduamente no caso.

— E isso é tudo o que tenciona fazer? — perguntou Ricky Hawthorne, incrédulo.

—  Posso mandar um homem dar uma volta pelas fazendas das proximidades e perguntar se alguém viu algo esquisito ontem à noite. Mas isso é tudo o que posso fazer.

—  E nos chamou até aqui só para dizer isso? — indagou Sears.

—  Exatamente.

—  Vamos embora, Ricky. — Sears empurrou a cadeira para trás e estendeu a mão para o chapéu.

— E eu realmente pensei que os dois mais eminentes advogados da cidade pudessem dizer-me alguma coisa.

—  E posso dizer, mas duvido que vá escutar.

—  Não precisa ser tão altivo, Sr. James. Afinal, estamos do mesmo lado, não é mesmo?

Por cima do suspiro inevitável de irritação que saiu dos pulmões de Sears, Ricky disse:

—  O que esperava que lhe pudéssemos dizer?

—  Por que acham que sabem alguma coisa a respeito do que Elmer viu ontem à noite. — O xerife passou o dedo por um sulco na testa, sorrindo. — Os dois ficaram paralisados quando Elmer começou a falar. O que significa que sabem de alguma coisa, ouviram ou viram algo que não quiseram contar a Elmer Scales. Mas espero que apóiem devidamente seu xe­rife e me contem tudo.

Sears afastou-se da cadeira.

—  Vi quatro ovelhas mortas. Não sei de mais nada. E ponto final, Walter. — Pegou o chapéu de cima da mesa e acres­centou: — Vamos embora, Ricky, para fazermos algo útil.

 

—  Ele não está certo?

Estavam virando a esquina da Wheat Row. À direita, podiam avistar os contornos imensos e cinzentos da Catedral de São Miguel; os vultos grotescos e piedosos por cima da porta e nos lados das janelas usavam agora gorros e camisas de neve, como se tivessem sido congelados no lugar.

—  A respeito do quê? — Sears acenou na direção do escritório. — Milagre dos milagres! Uma vaga bem na frente da porta!

—  A respeito do que Elmer viu.

—  Se é óbvio para Walt Hardesty, então é realmente óbvio.

—  Viu alguma coisa?

—  Vi algo que não estava lá. Tive uma alucinação. Posso apenas presumir que estava excessivamente cansado e emocionalmente abalado pela história que contei.

Cuidadosamente, Ricky entrou de ré na vaga diante do prédio em que tinham o escritório. Sears tossiu, pôs a mão na maçaneta da porta, mas não se mexeu. Para Ricky, ele dava a impressão de que já se tinha arrependido do que acabara de dizer.

—  Pelo que estou imaginando, Sears, viu mais ou menos a mesma coisa que o Nosso Virgílio.

—  Isso mesmo. — Fez uma pausa. — Ou melhor, eu a senti. Mas sei o que era. — Sears tossiu novamente, Ricky ficou tenso com a espera. — O que vi foi Fenny Bate.

—  O menino de sua história? — Ricky estava atônito.

—  O menino a quem tentei ensinar. O menino que ima­gino ter matado... que ajudei a matar.

Sears afastou a mão da porta e afundou no assento. Ago­ra, finalmente, ele parecia estar querendo falar. Ricky procurou estimulá-lo:

—  Eu não tinha certeza se... — Parou bruscamente no meio da frase, sabendo que estava prestes a quebrar uma das regras da Sociedade Chowder.

—  Se a história era verdadeira? Era, Ricky, era absolu­tamente verdadeira. Houve realmente um Fenny Bate e ele morreu.

Ricky recordou-se do vulto de Sears na janela iluminada.

—  Estava olhando pela janela da biblioteca quando o viu?

Sears meneou a cabeça.

—  Estava subindo a escada. Já era muito tarde, prova­velmente por volta das duas horas da madrugada. Eu tinha adormecido numa poltrona, depois de lavar os pratos. Não me sentia muito bem...  e me teria sentido ainda pior, se sou­besse que Elmer Scales iria acordar-me às sete horas da manhã. Apaguei  as  luzes da biblioteca,  fechei  a porta  e  comecei  a subir. E foi nesse momento que o vi, sentado na escada. Ele parecia estar dormindo. Vestia os mesmos andrajos de que eu me recordava, e os pés estavam descalços.

—  E o que você fez?

—  Fiquei  assustado demais  para fazer qualquer coisa. Não sou mais um jovem forte e vigoroso de vinte anos, Ricky. Fiquei simplesmente parado ali...  não sei por quanto tempo. Cheguei a pensar que ia ter um colapso. Apoiei-me no corri­mão. E foi nesse momento que ele acordou. — Sears estava com as mãos cruzadas à sua frente e Ricky podia ver que as apertava com toda a força. — Ele não tinha olhos, apenas buracos no lugar deles. O resto do rosto estava sorrindo. — As mãos de Sears subiram para o rosto. — Ele queria brincar, Ricky!

—  Brincar?

—  Foi o que me passou pela cabeça. Meu choque era tamanho que não podia pensar direito. Quando...  a alucina­ção... se levantou, desci correndo a escada e tranquei-me na biblioteca. Deitei no sofá. Tinha a impressão de que ele já havia ido embora, mas não tive coragem de voltar à escada. Acabei dormindo e tive o pesadelo sobre o qual falamos. Pela manhã, é claro, compreendi o que havia acontecido. Andava “vendo coisas”, na linguagem vulgar. E não podia imaginar, como continuo a não conceber agora, que tais coisas estejam exatamente no distrito de Walt Hardesty. Ou do Nosso Vir­gílio, diga-se de passagem.

—  Santo Deus, Sears!

—  É melhor esquecer, Ricky. É melhor esquecer tudo o que lhe falei, pelo menos até a chegada do jovem Wanderley.

“Santo Deus ela se mexeu ela não pode ela está morta”, disse a voz na mente de Ricky outra vez. Desviou os olhos do painel, onde os fixara enquanto Sears lhe pedia para fazer o impossível. Fitou o rosto pálido do sócio.

—  Já chega — murmurou Sears. — O que quer que seja, já chega!

“...não ponha os pés dela primeiro...”

—  Sears!

—  Não posso mais, Ricky.

Sears saiu do carro. Ricky, saindo também, pelo outro la­do, olhou por cima do carro para Sears, um homem imponente, vestido de preto. Por um momento, viu no rosto do velho amigo as feições pálidas que conhecera no pesadelo. Por trás dele, a seu redor, toda a cidade flutuava no ar invernal, como se também tivesse morrido, secretamente.

—  Mas uma coisa posso lhe dizer, Ricky. Gostaria que Edward ainda estivesse vivo. É o que frequentemente desejo.

—  Eu também — murmurou Ricky.

Mas Sears já se virara e estava começando a subir os degraus para a porta da frente. Um vento cada vez mais forte atingiu o rosto e as mãos de Ricky. Ele seguiu Sears rapida­mente, espirrando outra vez.

 

(John. Jaffrey)

 

John Jaffrey despertou de um sono conturbado, no mo­mento mesmo em que Ricky Hawthorne e Sears James estavam começando a atravessar um campo nevado na direção do que parecia ser diversas pilhas de roupa suja. Gemendo, Jaffrey correu os olhos pelo quarto. Tudo parecia estar sutilmente alte­rado, sutilmente errado. Até mesmo o ombro nu de Milly Sheehan, que dormia a seu lado, estava de certa forma errado: o ombro arredondado de Milly parecia irreal, como fumaça rosada flutuando no ar. E o mesmo acontecia com o quarto, como um todo. O papel de parede desbotado (listras azuis e listras rosa ainda mais azuis), a mesa com as pilhas de moedas, o livro (The making of a surgeon) e o abajur, as portas e as maçanetas do armário branco no outro lado, o terno cinza lis­trado que vestira no dia anterior e o smoking que usara à noite jogados descuidadamente sobre uma cadeira: tudo pare­cia destituído de diversos tons de cores, quase transparentes como o interior de uma nuvem. Ele não podia ficar naquele quarto, ao mesmo tempo familiar e irreal.

“Santo Deus ela se mexeu”, as suas próprias palavras ecoaram pelo quarto e se desvaneceram, como se tivesse aca­bado de pronunciá-las. Perseguido pelas palavras, levantou-se rapidamente.

“Santo Deus ela se mexeu...” e desta vez ele as ouviu serem pronunciadas. A voz era uniforme, sem nuanças ou vi­brações. E não era a sua. Tinha que sair daquela casa. De seus pesadelos, podia recordar apenas a última e assustadora ima­gem: antes disso, houvera a cena habitual de estar deitado num quarto vazio, paralisado, diferente de todos os quartos que já vira em sua vida, quando abruptamente chegava a besta amea­çadora, que se decompunha em Sears e Lewis mortos. Pre­sumira que todos estavam tendo o mesmo pesadelo. Mas a imagem que o impeliu a atravessar o quarto rapidamente foi outra: o rosto manchado de sangue e distorcido por escoriações de uma mulher ainda jovem, tão morta quanto Sears e Lewis no pesadelo familiar, fitando-o com olhos reluzentes e a boca sorridente. Era mais real do que qualquer coisa a seu redor, mais real do que ele próprio (“Santo Deus ela se mexeu ela não pode ela está morta”).

Mas ela havia realmente se mexido. Estava sentada e sorria.

Seu fim estava finalmente chegando, como acontecera com Edward. E ele o sabia, sem qualquer sombra de dúvida, com parte de sua mente. Sentia-se grato por isso. Um pouco sur­preso ao constatar que suas mãos não se derretiam em contato com as maçanetas de latão da cômoda, Jaffrey puxou uma ga­veta e pegou meias e cueca. Uma luz rosada espectral se espa­lhava pelo quarto. Ele se vestiu apressadamente, pegando peças ao acaso, às cegas, saiu do quarto e desceu a escada, até o andar térreo. Ali, obedecendo a um impulso que lhe fora incutido por dez anos de hábito, foi até uma pequena sala nos fundos, abriu um armário e tirou dois frascos e duas seringas descartáveis.  Sentou-se numa cadeira,  levantou  a manga esquerda, tirou as seringas das embalagens, pôs uma delas em cima da mesa de tampo de metal.

A garota no assento manchado de sangue do carro sorriu-lhe pela janela. E disse: “Depressa, John”. Ele empurrou a agulha através da proteção de borracha do frasco de insulina, encheu a seringa, puxou-a, espetou-a no próprio braço. Quando a seringa ficou vazia, puxou-a e jogou-a na cesta de papel, embaixo da mesa. Enfiou a outra seringa no segundo frasco, que continha um composto de morfina, injetando-o depois na mesma veia.

“Depressa, John.”

Nenhum dos seus amigos sabia que ele era diabético des­de sessenta e poucos anos. Também não sabiam do seu vício em morfina, que adquirira na mesma época, quando começara a aplicar a droga em si mesmo. Haviam apenas percebido os efei­tos do ritual matutino do médico a corroê-lo gradativamente.

Com as duas seringas no fundo da cesta de papel, o Dr. Jaffrey passou para o vestíbulo de entrada e sala de espera. Havia cadeiras vazias encostadas nas paredes. Numa delas esta­va sentada uma jovem com as roupas rasgadas, manchas ver­melhas no rosto, uma vermelhidão saindo da boca ao dizer “Depressa, John”.

Ele estendeu a mão para o armário, a fim de pegar o so­bretudo. Ficou surpreso ao constatar que a mão, na extremi­dade do braço estendido, estava inteira, funcionava. Teve a sensação de que alguém atrás dele o ajudava a enfiar os braços pelas mangas do sobretudo.

Às cegas, pegou um chapéu na prateleira por cima dos cabides. E cambaleou ao sair pela porta da frente.

 

O rosto estava agora lhe sorrindo de uma janela no andar superior da antiga casa de Eva Galli. “Vá em frente, agora.” Movendo-se de maneira estranha, como se estivesse embriaga­do, Jaffrey foi seguindo pela calçada, na direção do centro da cidade, os pés metidos em chinelas, não sentindo qualquer frio. Até chegar à esquina, pôde sentir aquela casa no outro lado da rua como uma presença marcante às suas costas. E na esquina, com o sobretudo aberto esvoaçando sobre a calça do terno cinza e o paletó do smoking, viu subitamente em sua mente que a casa estava pegando fogo, envolta por chamas transparentes, que chegavam mesmo a lhe esquentar as costas. Ao virar-se, no entanto, a fim de olhar, descobriu que a casa não estava pegando fogo, não havia chamas transparentes, nada acontecera.

 

Assim, no momento em que Ricky Hawthorne e Sears James estavam sentados com Walt Hardesty na cozinha de uma fazenda, tomando café, o Dr. Jaffrey, um vulto magro, com um chapéu de pescaria, sobretudo desabotoado, calça de um terno, paletó de outro, chinelas, passava rapidamente pela fren­te do Hotel Archer. Não tinha a menor idéia de onde estava, assim como não percebia que o vento frio entrava por dentro do sobretudo e o enfunava nas costas. Eleanor Hardie, pas­sando o aspirador de pó no tapete do saguão do hotel, viu-o caminhando, uma das mãos no chapéu de pescaria, e pensou: “pobre Dr. Jaffrey, deve ser duro ter que sair para ver um pa­ciente com um tempo assim”. O fundo da janela não lhe per­mitia ver as chinelas que o médico estava usando. Ela teria ficado confusa, se o tivesse visto hesitar na esquina e depois virar para o lado esquerdo da praça... voltando para a mesma direção da qual viera.

Quando Jaffrey passou diante das janelas grandes do Res­taurante Village Pump, William Webb, o jovem garçom que Stella Hawthorne intimidara, estava pondo nas mesas os guar­danapos e talheres, na direção dos fundos do salão, quando aproveitaria para fazer uma pausa e tomar uma xícara de café. Como estava mais perto do Dr. Jaffrey do que Eleanor Hardie estivera, pôde perceber em detalhes o rosto pálido e confuso do médico, por baixo do chapéu de pescaria, o sobretudo desabo­toado revelando o pescoço nu, o paletó de smoking por cima do pijama. Um pensamento lhe surgiu à mente: “O velho idiota está com amnésia”. Nas raras ocasiões em que Bill Webb vira o Dr. Jaffrey no restaurante, o médico lera um livro do prin­cípio ao fim da refeição e deixara uma gorjeta mínima. Como Jaffrey acelerasse os passos, embora a expressão em seu rosto sugerisse que não tinha a menor idéia do lugar para onde estava indo, Webb largou um punhado de talheres em cima de uma mesa e saiu correndo do restaurante.

O Dr. Jaffrey afastava-se rapidamente pela calçada. Webb correu atrás dele e foi alcançá-lo no sinal de tráfego a um quarteirão de distância. O médico, correndo, parecia um pás­saro desajeitado. Webb tocou na manga do sobretudo preto.

— Posso ajudá-lo, Dr. Jaffrey?

“Dr. Jaffrey.”

Na frente de Webb, prestes a atravessar a rua correndo, sem se dar o trabalho de olhar para o tráfego — o qual, de qualquer forma, era inexistente —, Jaffrey virou-se brusca­mente, ao ouvir a voz do garçom. Bill Webb teve então uma das experiências mais desconcertantes e perturbadoras de sua vida. Um homem a quem conhecia apenas de vista, um homem que nunca o fitara sequer com uma curiosidade polida, olha­va-o agora com um terror intenso estampado nas feições. Webb, que baixou a mão bruscamente, não tinha a menor idéia de que o médico não estava vendo seu rosto comum, lembrando ligei­ramente um sapo, mas sim o rosto de uma jovem morta, com um sorriso avermelhado.

—  Estou indo — murmurou Jaffrey, o horror ainda es­tampado no rosto. — Já estou indo...

—  Claro, claro — balbuciou Webb.

O médico virou-se correndo, chegando ao outro lado da rua sem qualquer contratempo. E continuou a correr como um pássaro desajeitado pelo lado esquerdo da Maine Street, os co­tovelos comprimidos contra o corpo, o sobretudo esvoaçando. Webb estava suficientemente abalado com o olhar que o mé­dico lhe lançara para ficar parado na esquina por um longo tempo, a boca entreaberta, olhando na direção de Jaffrey, até se lembrar que estava sem casaco e a um quarteirão do res­taurante.

 

Uma imagem perfeita formara-se na mente do Dr. Jaffrey, muito mais nítida do que os prédios pelos quais passava cor­rendo. Era a imagem da ponte de aço de duas pistas sobre o pequeno rio no qual Sears James há muito tempo jogara uma blusa envolta numa pedra grande. O chapéu de pescaria foi arrancado de sua cabeça por uma rajada de vento e, por um momento, também se tornou bastante nítido, voando pelo ar cinzento.

— Já estou indo — disse Jaffrey, novamente.

Embora em qualquer dia normal John Jaffrey pudesse ter ido diretamente para a ponte, sem sequer pensar nas ruas pelas quais tinha de seguir, naquela manhã vagueou por Mil­burn num pânico crescente, incapaz de encontrá-la. Podia ima­ginar a ponte perfeitamente, até mesmo as cabeças redondas dos rebites. Mas quando tentava imaginar sua localização, via apenas sombras indistintas. Prédios? Ele virou na Market Street, quase esperando ver a ponte se estender de um lado a outro. Vendo apenas a ponte, ele esquecera o rio.

Árvores? Um parque? A imagem que as palavras evocavam era tão forte que ele ficou surpreso, ao deixar a Market Street, em ver a seu redor apenas ruas vazias, a neve empilhada junto ao meio-fio. “Continue, doutor.” Jaffrey cambaleou para a frente, recuperou o equilíbrio amparando-se num poste de sinalização  e seguiu em frente.

Árvores? Algumas árvores, dispersas por uma paisagem? Não. Nem aqueles prédios a flutuar.

Enquanto o médico vagueava meio às cegas pelas ruas que deveria conhecer muito bem, deixando a praça e seguindo pela Washington Street, para o sul, entrando depois na Milgrim Lane, passando por casas de madeira de três cômodos, entre oficinas de lavagem de carros e drugstores, entrando no Hollow, onde havia miséria de verdade e onde se podia embrenhar pelo desconhecido tanto quanto era possível sem sair de Milburn (ali, ele poderia enfrentar algumas dificuldades, se não estivesse tão frio e se o conceito de dificuldade não tivesse perdido totalmente qualquer sentido que se lhe pudesse aplicar), diver­sas pessoas o viram passar. Os moradores do Hollow pensaram que se tratava de mais um doido, perturbado e estranhamente vestido. Quando Jaffrey, por acaso, virou na direção correta e começou a percorrer ruas tranqüilas, onde se avistavam árvores sem folhas ao final de gramados compridos, as pessoas que o viram pensaram que seu carro estava nas proximidades, já que estava sem chapéu e agora caminhava apressadamente. Um car­teiro segurou-lhe o braço e indagou:

—  Está precisando de ajuda, cara?

Mas ele também ficou paralisado pela mesma expressão de terror que detivera Bill Webb. Finalmente, o Dr. Jaffrey acabou voltando ao centro comercial.

Depois que circulou duas vezes o Benjamin Harrison Oval, passando pela pista de acesso à ponte, uma voz paciente em sua mente disse: “Dê mais uma volta e depois vire à direita, doutor”.

—  Obrigado — murmurou Jaffrey, percebendo o tom di­vertido e paciente na voz, que antes julgara inumanamente des­tituída de inflexões.

Assim, mais uma vez, exausto e semicongelado, John Jaffrey forçou-se a passar pelas oficinas de automóveis do Benjamin Harrison Oval, levantando os joelhos como um extenua­do burro de carga, até entrar finalmente na pista de acesso à ponte.

—  Mas é claro! — balbuciou ele, ao avistar a arcada cin­zenta da ponte, sobre o rio preguiçoso.

Àquela altura, já não podia mais correr, quase não con­seguia andar. Perdera uma das chinelas e o pé descalço não tinha mais qualquer sensibilidade. Sentia uma pontada ardente no flanco esquerdo, o coração batia descompassadamente e os pulmões lhe doíam muito. A ponte era uma prece atendida. Quase que se arrastou em sua direção. Aquele era o lugar a que a ponte pertencia, àquela área descampada, onde os velhos prédios de tijolos davam lugar a brejos cheios de juncos, onde o vento parecia uma mão a ampará-lo pelas costas.

“Agora, doutor.”

Jaffrey assentiu e aproximou-se do lugar em que tinha de estar. Quatro grandes festões de metal, cruzados por vigas, for­mavam linhas onduladas nos dois lados da ponte. No meio da ponte, entre a segunda e terceira curvas, havia urna viga de metal em posição vertical.

Jaffrey não sentia a mudança do concreto da pista de acesso para o aço da ponte; mas pôde sentir a ponte se me­xendo por baixo dele, levantando um pouco a cada rajada de vento mais forte. Foi para a grade na beira da ponte ao chegar à superestrutura. Segurou um dos degraus na viga central ver­tical, pôs os pés congelados no degrau inferior e tentou subir.

Mas não conseguiu.

Por um momento ficou parado assim, as mãos num de­grau, os pés em outro, como um velho pendurado numa corda, respirando tão forte que parecia estar soluçando. Conseguiu fi­nalmente erguer um pé escorregadio e colocá-lo no degrau ime­diatamente acima. Depois, recorrendo ao que sentia serem suas últimas reservas de energia, levantou o corpo. Um pouco da carne do pé descalço ficou grudada no degrau inferior. Ofe­gante, ficou parado no segundo degrau, percebendo que ainda tinha de subir mais dois degraus, antes de ficar alto o bas­tante para trepar na grade.

Uma de cada vez, transferiu as mãos para o degrau acima. Depois, moveu o pé escorregadio; e logo moveu o outro, o que sentiu ser um esforço heróico.

A dor intensa pareceu dilacerar-lhe toda a perna e ele se segurou com toda a força, o pé descalço balançando no ar frio. Por um momento, com a sensação de que o pé estava pe­gando fogo, receou que o choque pudesse fazê-lo cair de volta à ponte. E se voltasse lá para baixo, não conseguiria subir outra vez.

Cautelosamente, encostou os dedos do pé ainda ardendo no degrau. Era apoio suficiente. De novo, transferiu os braços entorpecidos para um degrau acima. O pé escorregadio também subiu um degrau... parecendo impelido por vontade própria. Tentou alçar-se, mas os braços simplesmente tremeram. A sen­sação era de que os músculos dos ombros estavam se dilacerando. Finalmente, conseguiu erguer o corpo, tendo a impres­são de ser ajudado por uma mão que o puxava para cima pelas costas. Os dedos do pé se firmaram no degrau. Estava quase chegando.

Pela primeira vez, percebeu o pé descalçado, sangrando sobre o metal. A dor aumentara consideravelmente; agora, toda a perna esquerda parecia estar em chamas. Pôs o pé em cima da grade, segurando-se firmemente com os braços exaustos, enquanto deslocava o pé direito para o lado do outro.

A água brilhava debilmente lá embaixo. O vento lhe fus­tigava os cabelos e o sobretudo.

Parado diante dele, numa plataforma, usando um casaco de tweed e gravata-borboleta, estava Ricky Hawthorne. As mãos de Ricky estavam cruzadas, num gesto característico, diante da fivela do cinto.

—  Bom trabalho, John — disse ele, em sua voz seca e bondosa. O melhor de todos eles, o mais terno, o pequeno e corneado Ricky Hawthorne.

—  Você atura demais a insolência de Sears — falou John Jaffrey,  a  voz  muito  fraca,  um  mero   sussurro.  —  Sempre aturou.

—  Sei disso. — Ricky sorriu. — Sou um subalterno na­tural. Sears sempre foi um general natural.

“Está errado”, tentou Jaffrey dizer. “Ele não é... ele...” O pensamento morreu abruptamente.

—  Mas isso não  tem  qualquer importância — disse  a voz seca. — Basta dar um passo para fora da ponte, John.

O Dr. Jaffrey estava olhando para as águas cinzentas.

—  Não posso...  Estava pensando em algo diferente... Ia...

A confusão dominou-o por completo. Olhou para cima e ficou aturdido. Edward Wanderley, que lhe era mais chegado que qualquer dos outros, estava parado no vento, ao invés de Ricky. E, como na noite da festa, usava sapatos pretos, um terno cinza de flanela, uma camisa florida. As hastes dos óculos de aros pretos estavam presas por um cordão de prata. Bonito, com os teatrais cabelos grisalhos, as roupas dispendio­sas, Edward sorriu-lhe com compaixão, preocupação, afeição.

—  Já faz algum tempo — murmurou ele.

O Dr. Jaffrey começou a chorar.

—  Já está na hora de parar com as confusões — disse-lhe Edward. — Tudo o que precisa é dar um passo à frente. É muito simples, John.

O Dr. Jaffrey assentiu.

— Dê esse passo, John. Está cansado demais para fazer qualquer outra coisa.

E o Dr. Jaffrey deu um passo para fora da ponte.

 

Lá embaixo, ao nível do rio, mas protegido do vento por uma espessa placa de metal, Ornar Norris viu-o cair na água. O corpo do médico afundou, voltou à tona por um momento e depois virou de lado, o rosto para baixo, antes de começar a ser arrastado pela correnteza.

—  Mas que merda! — murmurou Norris.

Viera para o único lugar em que pensara que poderia aca­bar em paz com uma garrafa de bourbon, sem ser interrompido por advogados, o xerife, sua mulher ou alguém mais a lhe dizer que voltasse para o removedor de neve e começasse a limpar as ruas. Despejou mais um pouco de bourbon na boca e fechou os olhos. Ao tornar a abri-los, o corpo do médico ainda estava ali, um pouco mais afundado na água, porque o sobretudo pesado começara a empurrá-lo para baixo.

—  Mas que merda! — repetiu Norris.

Tampou a garrafa, levantou-se e saiu para o vento frio, a fim de ver se podia encontrar alguém que soubesse o que fazer numa situação daquelas.

A festa de Jaffrey

 

“Give place, you ladies, and begone!

Boast not yourselves at all!

For here at hand approacheth one

Whose face will stay you all.”

 

A praise of his lady

Tottel’s Miscellany, 1557

 

Os acontecimentos descritos a seguir ocorreram um ano e um dia antes, ao anoitecer do último dia da era áurea. Nenhum deles sabia que era a sua era áurea nem que estava chegando ao fim: na verdade, encaravam suas vidas, à maneira usual de pessoas que levavam existências tranqüilas, com amigos sufi­cientes e a certeza de comida na mesa, como um processo de melhoria gradativa e até mesmo imperceptível. Tendo sobre­vivido às crises da juventude e meia-idade, pensavam que pos­suíam sabedoria bastante para enfrentar as crises iminentes da idade. Haviam conhecido guerras, adultérios, concessões e mu­danças, pensando, assim, que já tinham conhecido quase tudo o que havia para conhecer... e não tinham maiores pretensões na vida.

Contudo, havia coisas que não conheciam e que em breve iriam conhecer.

É sempre verdade, em termos pessoais, se não mesmo his­tóricos, que uma era áurea se define pelas características do cotidiano, pela sucessão oferecida de pequenas satisfações no dia-a-dia. Se ninguém na Sociedade Chowder, à exceção de Ricky Hawthorne, era realmente capaz de apreciar isso, com o tempo todos iriam percebê-lo.

 

—  Acho que não há mesmo outro jeito senão ir.

—  Por que fala assim, Stella? Sempre gostou de festas.

—  Mas  tenho  um  pressentimento  estranho  em  relação a esta.

—  Não quer conhecer a atriz?

—  Meu interesse em conhecer pequenas beldades de dezenove anos sempre foi dos mais limitados.

—  Edward   parece   ter   ficado   um   tanto   entusiasmado com ela.

—  Ora, Edward...   — Stella,  sentada diante do espe­lho, escovando os cabelos, sorriu para o reflexo de Ricky. — Acho que vale a pena ir só para ver a reação de Lewis Be­nedikt à descoberta de Edward. — No instante seguinte, o sorriso transformou-se, quando os músculos ao lado da boca se mexeram, ficando mais acentuados. — Pelo menos já é alguma coisa   ser   convidada   para   uma   das   noitadas   da   Sociedade Chowder.

—  Não é uma das nossas noites, mas uma festa — res­saltou Ricky, em vão.

— Sempre achei que deveriam permitir o acesso das mu­lheres a essas suas famosas noitadas.

—  Sei disso, Stella.

—  E é por isso que estou querendo ir.

—  Mas não é uma reunião da Sociedade Chowder. É ape­nas uma festa.

— Então quem foi que John convidou, além de você e da pequena atriz de Edward?

—  Creio que todo mundo — respondeu Ricky, falando com toda a sinceridade. — Qual foi o pressentimento que teve?

Stella inclinou a cabeça para o lado, tocou no batom com a ponta do dedo mindinho, contemplou os próprios olhos e murmurou:

—  Um arrepio de morte.

 

Sentada ao lado de Ricky, que guiava o carro pela curta distância até a Montgomery Street, Stella, que se mantivera estranhamente silenciosa desde que haviam saído de casa, disse abruptamente:

—  Bem,  se todo  mundo  vai estar presente,  talvez  se possam encontrar algumas caras novas.

Exatamente como ela tencionava, Ricky sentiu uma pon­tada zombeteira de ciúme.

— Não acha extraordinário? — A voz de Stella era jo­vial,  musical,  confidencial,  como  se  não  desejasse expressar nada que não fosse superficial.

—  O quê?

—  O fato de um de vocês estar dando uma festa. Entre as pessoas que conhecemos, as únicas que dão festas somos nós, cerca de duas vezes por ano. Não posso deixar de ficar espan­tada... John Jaffrey! E não consigo entender como Milly Sheehan permitiu uma coisa dessas!

—  Deve ser a atração irresistível do, mundo do teatro — comentou Ricky.

—  Milly não acha coisa alguma irresistível, a não ser o próprio John Jaffrey.

Stella riu da imagem do médico que podia perceber em cada olhar de sua governanta. Stella, que em determinadas questões práticas era muito mais sensata do que os homens que a cercavam, algumas vezes se divertia com a noção de que o Dr. Jaffrey era viciado em alguma droga; e estava convencida de que Milly e o patrão não ocupavam camas separadas.

Pensando em seu próprio comentário, Ricky não prestou atenção à observação da esposa. “A atração irresistível do mundo do teatro”, tão remota e improvável quanto qualquer coisa no gênero parecia em Milburn, capturara a imaginação de Jaffrey, cujo maior entusiasmo até então fora por uma boa pes­caria de truta, mas que agora estava cada vez mais obcecado, ao longo das três últimas semanas, pela jovem hóspede de Edward Wanderley. O próprio Edward se mostrara bastante reservado em relação à jovem. Era ainda muito moça e no mo­mento alcançara a situação de “estrela”, o que quer que isso pudesse significar realmente. Eram pessoas assim que propor­cionavam o sustento de Edward; portanto, nada havia de excep­cional que ele persuadisse a jovem a ser o tema de sua última autobiografia como ghost writer. O procedimento típico era o autobiografado falar num gravador por tantas semanas quantas houvesse assunto. Depois, com extrema habilidade, Edward transformava essas recordações num livro. O resto da pesquisa era efetuado através de correspondência e telefone, com qual­quer pessoa que soubesse algo ou tivesse conhecido no passado o autobiografado. A pesquisa genealógica também fazia parte do método de Edward. Ele se orgulhava de suas árvores genea­lógicas. Sempre que possível, as gravações eram feitas em sua casa. As paredes de seu gabinete estavam repletas de gravações, muitas das quais continham indiscrições suculentas e impublicáveis. Ricky tinha apenas um interesse especulativo nas personalidades e vidas sexuais de atores, imaginando que o mesmo acontecia com seus amigos. Mas quando Everybody saw the sun shine sofreu uma mudança de um mês no elenco, pe­ríodo que Ann-Veronica Moore passou em Milburn, John Jaffrey passou a ter um objetivo fixo: levar a jovem atriz à sua casa. E o mistério ainda maior fora o fato de suas insinuações e esquemas terem dado certo, com a jovem concordando em comparecer a uma festa em sua homenagem.

—  Santo Deus! — exclamou Stella, ao ver a quantidade de carros encostados no meio-fio, diante da casa de Jaffrey.

—  É a grande festa de John e ele quer ostentar o seu feito.

Estacionaram no final do quarteirão e voltaram pelo ar frio até a porta da frente. Vozes e música imediatamente os envolveram.

—  Essa não! — exclamou Ricky. — Ele está utilizando também a parte do consultório.

 

O que era verdade. Um jovem comprimido contra a porta pela multidão deixou-os entrar. Ricky reconheceu-o como o último ocupante da casa de Eva Galli. Ele aceitou os agrade­cimentos de Ricky com um sorriso diferente e depois sorriu para Stella.

— Sra. Hawthorne, não é mesmo? Já a vi na cidade, mas ainda não fomos apresentados. — Antes que Ricky tivesse tempo de se lembrar do nome do homem, ele estendeu a mão para Stella e acrescentou: — Sou Freddy Robinson. Moro no outro lado da rua.

—  Muito prazer, Sr. Robinson.

—  É uma festa e tanto.

— Também estou achando — respondeu Stella, um sor­riso incipiente inclinando os cantos da boca.

—  Os  casacos  ficam  no  consultório   aqui  embaixo,  os drinques estão sendo servidos lá em cima. Terei a maior satis­fação em providenciar-lhe um, e para o seu marido, enquanto tiram seus casacos.                         .

Stella contemplou o blazer dele, a calça axadrezada, a gravata-borboleta de veludo, a expressão ridiculamente ansiosa.

—  Não há necessidade, Sr. Robinson.

Ela e Ricky foram para o consultório, onde havia casacos pendurados por toda parte.

—  Deus do céu! — murmurou Stella. — Como aquele rapaz ganha a vida?

—  Acho que ele é corretor de seguros.

—  Eu deveria ter imaginado. Leve-me lá para cima, Ricky.

Segurando a mão fria de Stella, Ricky levou-a para fora da sala de consultas, atravessando a parte de baixo da festa, até a escada. Uma vitrola em cima de uma mesa estava to­cando música de discoteca; diversos jovens se sacudiam ao redor.

—  John sofreu uma de suas idéias — murmurou Ricky.

—  Se é que não foi insolação — disse Stella, atrás dele.

— Oi, Sr. Hawthorne!  — O cumprimento era de um rapaz alto, ainda adolescente, filho de um cliente.

—  Olá,   Peter.   Está  barulhento  demais  para  nós  aqui embaixo. Estou procurando a ala Glenn Miller.

Os olhos azuis de Peter Barnes fitaram-no inexpressiva-mente. Será que ele parecia tão estranho assim para os jovens?

—  Ei, sabe alguma coisa a respeito de Cornell?  Acho que é a universidade para onde vou. Posso conseguir a ma­trícula mais depressa. Oi, Sra. Hawthorne!

— É uma boa universidade e espero que consiga entrar — disse Ricky, enquanto Stella o cutucava vigorosamente pe­las costas.

—  Não estou nem preocupado.  Sei que vou conseguir. Saí-me muito bem nos testes. Papai está lá em cima. E quer saber de uma coisa?

—  Saber o quê? — indagou Ricky, ao mesmo tempo em que Stella o cutucava novamente.

— Todos nós fomos convidados porque somos da mesma idade de Ann-Veronica Moore, mas eles simplesmente a. leva­ram lá para cima, assim que chegou, em companhia do Sr. Wanderley. Nem mesmo chegamos a falar com ela. — Peter gesticulou na direção dos casais que estavam dançando ali embaixo. — Mas Jim Hardie conseguiu beijar a mão dela. Ele está sempre fazendo coisas assim. Assusta qualquer uma.

Ricky viu o filho de Eleanor Hardie dando uma série de passos de dança ritualista, com uma garota cujos cabelos pretos desciam até o meio das costas. Reconheceu-a. Era Penny Drae­ger, filha de um farmacêutico seu cliente. Ela se requebrou toda, girou, levantou um pé e depois encostou o traseiro na virilha de Jim Hardie.

— Ele me parece um rapaz bastante promissor — mur­murou Stella. — Pode fazer-me um favor, Peter?

—  Claro, claro... Que favor?

—  É só arrumar um espaço para que meu marido e eu possamos subir.

—  Claro, claro...  Mas querem saber de uma coisa? Só fomos convidados para conhecer Ann-Veronica Moore e depois deveríamos ir para casa. A Sra. Sheehan disse que nem mesmo poderíamos subir. Acho que eles pensaram que a garota gos­taria de dançar conosco ou algo assim, mas nem lhe deram uma oportunidade. E a Sra. Sheehan disse que vai nos expulsar por volta das dez horas. Menos ele, pelo que imagino. — Peter sacudiu a cabeça na direção de Freddy Robinson, que estava com um braço passado pelos ombros de uma risonha garota da escola secundária.

— O que é uma lamentável injustiça — disse Stella. — E agora seja um bom menino e abra uma picada pelo mato para podermos passar.

—  Claro, claro...

Peter conduziu-os através da sala apinhada até a escada, como se estivesse relutantemente comandando uma expedição de egressos do hospício local. Quando chegaram à escada e Stella já estava subindo, com a imponência habitual, Peter incli­nou-se para a frente e sussurrou ao ouvido de Ricky:

—  Pode fazer-me um favor, Sr. Hawthorne? — Ricky assentiu. — Diga alô a ela por mim. A garota é um estouro!

Ricky soltou uma risada alta, fazendo com que Stella vi­rasse a cabeça para fitá-lo, ironicamente.

—  Não foi nada, querida — murmurou ele, subindo ra­pidamente a escada para as regiões mais tranqüilas da casa.

 

John Jaffrey estava parado no vestíbulo, esfregando as mãos. Música suave, de piano, vinha da sala de estar.

— Stella! Ricky! Não é maravilhoso?

O médico gesticulou exuberantemente na direção das sa­las. Estavam tão apinhadas quanto lá embaixo, mas com ho­mens e mulheres de meia-idade, os pais dos adolescentes, os vizinhos e conhecidos de Jaffrey. Ricky avistou dois ou três prósperos fazendeiros que moravam fora da cidade, Rollo Drae­ger, o farmacêutico, Louis Price, o corretor de investimentos que já lhe dera algumas boas informações, Harlan Bautz, seu dentista, que parecia já estar meio embriagado, alguns homens que não conhecia, más provavelmente eram da universidade — lembrou que Milly Sheehan tinha um sobrinho que era pro­fessor da universidade —, Clark Mulligan, o proprietário do cinema da cidade, Walter Barnes e Edward Venuti, do banco local, ambos com camisa de gola rulê, Ned Rowles, que edi­tava o jornal de Milburn. Eleanor Hardie, segurando com as duas mãos um copo alto, na altura dos seios, estava inclinada na direção de Lewis Benedikt. Sears estava encostado numa estante, parecendo um tanto constrangido. A multidão se en­treabriu de repente e Ricky compreendeu por quê. Irmengard Draeger, a esposa do farmacêutico, estava falando ao ouvido de Sears. Ricky sabia muito bem o que ela dizia: “Fui para Skidmore três anos antes de conhecer Rollo. Não acha que me­reço algo melhor do que esta cidadezinha tacanha? Sincera­mente, se não fosse por Penny, eu faria as malas e iria embora o mais depressa possível”. Era a melodia, se não mesmo exata­mente a letra, que Irmengard vinha cantarolando nos últimos dez anos.

— Não entendo por que nunca dei uma festa antes — comentou John, com expressão radiante. — Estou me sen­tindo mais jovem esta noite do que em muitos e muitos anos.

—  Isso é maravilhoso, John — disse Stella, inclinando-se para beijá-lo na face. — E o que Milly está achando?

—  Ela não está muito satisfeita. — Ele parecia aturdido com essa constatação. — Antes de mais nada, não pôde enten­der por que eu quis dar uma festa. E também não entendeu por que tinha de convidar Ann-Veronica Moore.

A própria Milly entrou em cena naquele momento, segu­rando uma bandeja de canapés diante de Barnes e Venuti, os dois banqueiros. Pela expressão determinada em seu rosto re­chonchudo, Ricky compreendeu que ela se opusera à idéia de uma festa desde o início.

—  E por que quis convidá-la? — perguntou ele.

— Com licença, John, mas vou dar uma volta — disse Stella. — Não precisa preocupar-se em me arrumar um drin­que, Ricky. Vou pegar o de alguém que não o esteja apro­veitando.

Ela passou pela porta, seguindo na direção de Ned Rowles. Lou Price, parecendo um gângster em seu terno listrado de pa­letó jaquetão, segurou-lhe a mão e deu um beijo em seu rosto.

—  Ela é uma garota maravilhosa — murmurou John Jaffrey, enquanto os dois observavam Stella desviar-se de Lou Price com uma frase e continuar seguindo na direção de Ned Rowles. — Gostaria que houvesse um milhão como ela.

Rowles estava se virando para contemplar a aproximação de Stella, o rosto radiante de prazer. Com seu paletó de ve­ludo piquê, os cabelos cor de areia e o rosto ávido, Ned Rowles mais parecia um estudante de jornalismo do que um editor. Também beijou Stella, mas na boca, segurando-lhe as duas mãos ao fazê-lo.

— Por que eu quis convidá-la? — John inclinou a ca­beça,  e  quatro  rugas  profundas  dividiram  ao  meio o  lado do pescoço. — Não sei direito. Edward está tão fascinado pela garota que tive vontade de conhecê-la.

—  Está mesmo fascinado?

— Totalmente. Espere só para ver. E, além do mais, só costumo encontrar-me com os  pacientes, Milly Sheehan  e  a Sociedade Chowder. Achei que estava na hora de sair um pouco da casca... divertir-me um pouco, antes de cair morto.

Era um comentário muito estranho e impulsivo para John Jaffrey.  Ricky fitou o amigo, desviando os olhos de Stella, que ainda estava de mãos dadas com Ned Rowles.

—  E  quer saber o que me deixa  tonto  só de  pensar, Ricky? É que uma das mais famosas atrizes da América está neste exato momento em minha casa, lá em cima!

—  Edward está com ela?

—  Está, sim. ,Ele disse que ela precisaria de alguns mi­nutos antes de vir fazer-nos companhia. Creio que Edward a está ajudando com o casaco ou algo assim. — O rosto devas­tado de Jaffrey estava brilhando de orgulho.

— Tenho a impressão de que ela ainda não chega a ser uma das atrizes mais famosas da América, John.

Stella já seguira adiante e Ned Rowles estava dizendo alguma coisa veemente a Ed Venuti.

— Mas vai ser. É a opinião de Edward e ele sempre acertou nessas coisas. Ricky! — Jaffrey apertou o braço do amigo. — Viu os garotos dançando lá embaixo? Não é fantás­tico? Garotos se divertindo em minha casa? Achei que eles gostariam de conhecê-la. Afinal, é uma honra fantástica! Ela só vai poder permanecer aqui mais alguns dias. Edward quase que já terminou as gravações e ela tem de voltar a Nova York, a fim de reassumir seu papel na peça. E ela está aqui, em minha casa! É sensacional, Ricky!

O advogado sentiu o impulso de providenciar uma com­pressa fria para pôr na testa de Jaffrey, que estava à beira do delírio.

—  Sabia que ela surgiu subitamente do nada? Era a mais promissora aluna de seu curso de teatro e na semana seguinte estava trabalhando em Everybody saw the sun shine.

—  Não, John, não sabia.

—  Acabei de ter uma idéia maravilhosa, Ricky. É sobre a presença dela nesta casa. Eu estava parado aqui, escutando a música de discoteca dos garotos lá embaixo, ouvindo fragmen­tos de uma música de George Shearing, e pensei... lá embai­xo, está a vida ao natural, quase animal, os garotos pulando ao ritmo da música; neste andar, temos a vida mental, médicos e advogados, toda a respeitabilidade da classe média; e lá em cima está a graça, talento, beleza... e espírito. Está perce­bendo? É como a própria evolução. Ela é a coisa mais etérea que já se viu, Ricky. Ê tem apenas dezoito anos.

—  Pensei que Stella me tivesse dito que ela estava com dezenove anos.

—  Psiu!

Uma linda jovem estava descendo a escada naquele mo­mento. O vestido verde era simples, os cabelos pareciam uma nuvem. Depois de um segundo, Ricky percebeu que os olhos combinavam com o vestido. Deslocando-se com uma espécie de precisão ritmada e indolente, ela os presenteou com o menor dos sorrisos — mesmo assim radiante — e seguiu em frente, passando as pontas dos dedos pelo peito do Dr. Jaffrey, no caminho. Ricky ficou observando-a afastar-se, divertido e co­movido. Não vira nada igual desde Louise Brooks em A caixa de Pandora.

Depois, olhou para Edward Wanderley e compreendeu imediatamente que John Jaffrey estava certo. O rosto de Edward mostrou-se radiante. Obviamente estava fascinado pela garota e era igualmente óbvio que encontrava a maior dificulda­de em deixá-la sozinha apenas pelo tempo suficiente para cum­primentar os amigos. Os três homens começaram a se encami­nhar para a sala apinhada.

—  Ricky, você está Ótimo! — disse Edward, passando o braço pelos ombros do amigo. Ele era um palmo mais alto do que Ricky. Enquanto andavam, o advogado pôde sentir o cheiro de uma colônia bastante cara. — Ótimo mesmo! Mas não acha que está na hora de parar de usar gravatas-borboletas? A era de Arthur Schlesinger já passou.

—  Essa foi a era logo depois da minha — comentou Ricky.

— Ninguém é mais velho do que se sente, Ricky. Deixei de usar gravata inteiramente. Dentro de dez anos, oitenta por cento dos homens deste país só usarão gravata em casamentos e funerais. Barnes e Venuti estarão usando aquele mesmo tra­je no banco. — Correu os olhos pela sala. — Onde será que ela se meteu?

Ricky, em quem as gravatas novas despertavam o desejo de usá-las até mesmo na cama, olhou para o pescoço despro­tegido de Edward, enquanto o amigo contemplava a sala api­nhada. Estava mais enrugado do que o de John Jaffrey e ele chegou à conclusão de que era melhor não mudar seus hábitos.

—  Passei três semanas com aquela garota e posso ga­rantir que ela é o tema mais fantástico que já encontrei — comentou Edward. — Mesmo que ela atenha inventado uma boa parte das histórias, o que provavelmente aconteceu, será o melhor livro que já escrevi. Teve uma vida horrível... e põe horrível nisso! Faz a gente chorar só de ouvi-la... e mui­tas vezes eu chorei. Está sendo desperdiçada naquela peça me­díocre da Broadway.  Será uma  extraordinária  atriz  trágica, assim que sair da adolescência.

Com o rosto vermelho, Edward riu do próprio entusias­mo. Como John, ele também estava extasiado.

— Vocês dois parecem ter “contraído” aquela garota como se fosse um vírus — comentou Ricky.

John riu, e Edward disse:

— É o que vai acontecer com o mundo inteiro, Ricky. Ela possui realmente esse dom.

— Hum, hum... — murmurou Ricky, lembrando-se em seguida de outra coisa. — Seu sobrinho Donald parece estar obtendo muito sucesso com o novo livro. Parabéns.

—  É bom saber que não sou o único filho da mãe de talento na família. E isso deve ajudá-lo a superar a morte do irmão. Foi uma história estranha, muito estranha mesmo... os dois pareciam estar apaixonados pela mesma mulher. Mas não devemos pensar em nada macabro esta noite. Vamos tratar de nos divertir apenas.

John Jaffrey assentiu, na maior felicidade.

 

—  Vi seu filho lá embaixo, Walt — disse Ricky a Walter Barnes, o mais velho dos dois banqueiros. — Ele me falou da decisão que tomou. Espero que consiga.

—  Ah, sim... Pete decidiu ir para Cornell. Sempre espe­rei que ele pelo menos se candidatasse a Yale, minha velha escola. E ainda acho que ele conseguiria entrar. — Um homem corpulento, com o rosto obstinado como o do filho, Barnes estava um tanto avesso a aceitar os parabéns de Ricky. — O garoto nem mesmo está mais interessado. Diz que Cornell é boa o bastante para ele. Boa o bastante... A geração dele é ainda mais conservadora do que a minha. Cornell é o tipo de lugar antiquado onde ainda se travam batalhas de comida. Há uns nove ou dez anos, eu vivia preocupado com a possibilidade de Pete tornar-se um radical, de barba comprida e uma bomba nas mãos. Agora, receio que ele possa contentar-se com menos do que tem condições de alcançar.

Ricky emitiu alguns murmúrios vagos de simpatia.

—  Como estão seus filhos? Ainda continuam na costa do Pacífico?

—  Continuam. Robert está ensinando inglês numa escola secundária. O marido de Jane acaba de conquistar uma vice-presidência.

— Vice-presidente encarregado de quê?

— Da segurança.

— Ah,  sim... — Ambos  tomaram  um  gole  de  seus drinques, abstendo-se de tentar inventar comentários sobre o que poderia significar uma promoção a vice-presidente encar­regado da segurança numa companhia de seguros. — Estão pensando em voltar aqui para o Natal?

—  Acho que não. Ambos têm vidas muito movimentadas.

Na verdade, nenhum dos dois escrevia a Ricky e Stella há vários meses. Haviam sido crianças felizes, adolescentes mal-humorados e agora, beirando os quarenta anos, eram adultos insatisfeitos... ainda adolescentes, sob muitos aspectos. As poucas cartas de Robert mal disfarçavam as súplicas por di­nheiro; as de Jane eram superficialmente felizes, mas Ricky podia perceber o desespero nas entrelinhas. (“Estou realmente começando a gostar de mim agora”: uma declaração que signi­ficava exatamente o oposto para Ricky. A falsidade óbvia fazia-o estremecer.) Os filhos de Ricky, as antigas paixões de seu coração, eram agora como planetas distantes. Suas cartas eram dolorosas, vê-los pessoalmente era ainda pior.

—  Acho que não — repetiu ele. — Tenho quase certeza de que nenhum dos dois conseguirá vir desta vez.

—  Jane é uma moça muito bonita — comentou Wal­ter Barnes.

—  Tal mãe, tal filha.

Automaticamente, Ricky começou a correr os olhos pela sala, à procura de Stella. Avistou Milly Sheehan apresentando sua esposa a um homem alto, de ombros caídos e lábios grossos. O sobrinho professor. Barnes perguntou:

—  Viu a atriz de Edward?

—  Está por aí, em algum lugar. Eu a vi quando desceu.

—  John Jaffrey parece muito excitado  com  a  presen­ça dela.

— Ela é realmente o tipo de garota com uma beleza exci­tante — disse Ricky, rindo. — Não é de admirar que Edward esteja também excitado.

—  Pete leu numa revista que ela tem apenas dezessete anos.

—  Neste caso, ela é uma ameaça pública.

 

Ao deixar Barnes para se juntar à esposa e Milly Sheehan, Ricky avistou a jovem atriz. Estava dançando com Freddy Robinson, ao som de um disco de Count Basie. Movia-se como se fosse uma delicada máquina de precisão, os olhos irradiando um brilho esverdeado; com os braços em torno dela, Freddy Robinson parecia estupefato de tanta felicidade. É verdade que os olhos da jovem estavam brilhando, conforme Ricky podia perfeitamente perceber. Mas seria de prazer ou zombaria? A jovem virou a cabeça e seus olhos emitiram uma corrente de emoção através da sala, indo atingir Ricky. Este viu nela a pessoa que sua filha Jane, agora com excesso de peso e des­contente, sempre desejara ser. Observando-a dançar com o tolo do Freddy Robinson, Ricky compreendeu que ali estava uma pessoa que jamais teria motivos para pronunciar a frase ter­rível de que estava começando a gostar de si mesma: a jovem era a própria imagem do autocontrole e sangue-frio.

 

—  Olá, Milly — disse ele. — Está trabalhando demais.

—  Não é nada demais. Quando eu ficar bastante velha para  trabalhar,  vou  me deitar  e  morrer.  Já  comeu  alguma coisa?

—  Ainda não. Esse deve ser seu sobrinho.

—  Oh, por favor, perdoe-me! Ainda não se conheceram. — Ela tocou no braço do homem alto a seu lado. — Esse é o cérebro da família, Harold Sims. É professor na universidade e estávamos tendo uma agradável conversa com sua esposa. Harold, esse é Frederick Hawthorne, um dos maiores amigos do doutor. — Sims sorriu e Milly arrematou. — O Sr. Haw­thorne é um dos membros da Sociedade Chowder.

—  Eu estava acabando de ouvir falar na Sociedade Chow­der — disse Harold Sims, com voz profunda. — Parece inte­ressante.

—  Receio que possa ser qualquer outra coisa menos isso.

— Estou falando do ponto de vista antropológico. Venho estudando o comportamento dos grupos de interação de machos cronologicamente relacionados. O conteúdo ritualista é sempre muito forte. É verdade que vocês... ah... que os membros da   Sociedade   Chowder   sempre   usam   smoking   quando   se reúnem?

—  É, sim. Infelizmente, é o que fazemos. — Ricky olhou para Stella em busca de ajuda, mas ela já se afastara mental­mente e olhava para os dois homens com uma expressão indi­ferente,

—  Mas por que isso, exatamente?

Ricky teve a sensação de que o homem estava prestes a tirar do bolso um caderninho de anotações.

—  Há um século, pareceu uma boa idéia. Milly, por que John convidou metade da cidade, se vai deixar Freddy Ro­binson monopolizar a Srta. Moore?

Antes que Milly tivesse tempo de responder, Sims per­guntou: “

—  Conhece o trabalho de Lionel Tiger?

—  Receio ser totalmente ignorante no assunto.

—  Eu estaria interessado em assistir a uma das reuniões da Sociedade Chowder. Não se poderia dar um jeito?

Stella riu finalmente e lançou para Ricky um olhar que dizia claramente “Saia desta!”

— Infelizmente, creio que não será possível. Mas prova­velmente poderei providenciar sua presença na próxima reunião da Kiwanis.

Sims recuou, e Ricky percebeu que ele era inseguro de­mais de sua dignidade para aceitar as piadas de bom grado. Por isso, apressou-se em acrescentar:

—  Somos apenas cinco velhos que gostam de se encontrar de vez em quando. Antropologicamente, nada representamos. Não temos qualquer interesse para ninguém.

—  Interessam a mim — disse Stella. — Por que não convida o Sr. Sims e sua esposa para a próxima reunião?

—  Mas é claro! — exclamou Sims, começando a demons­trar uma alarmante exuberância de entusiasmo. — Eu gostaria de gravar a reunião para começar, e depois faríamos o vídeo...

— Está vendo aquele homem ali? — Ricky sacudiu a ca­beça na direção de Sears James, que mais do que nunca pa­recia uma nuvem de tempestade em forma humana. Ao que tudo indicava, Freddy Robinson, agora separado de Ann-Ve­ronica Moore, estava tentando vender-lhe um seguro. — Aque­le grandalhão... Ele me cortaria a garganta, se eu o convidasse para uma reunião.

Milly  ficou chocada.  Stella  empinou  o  queixo  e  disse:

—  Muito   prazer   em   conhecê-lo,   Sr.   Sims.   —   E   se afastou.

— Antropologicamente, acaba de fazer uma declaração das mais interessantes. — Sims fitou Ricky com um interesse ainda  mais profissional.  — A  Sociedade  Chowder deve  ser extraordinariamente importante para vocês.

—  Claro que é.

— Pelo que acabou de dizer, presumo que o homem apon­tado é a figura dominante no grupo... uma espécie de chefe.

— Uma observação das mais sagazes — disse Ricky. — E agora, se me dá licença, preciso falar com uma pessoa.

Depois de virar as costas e se afastar alguns passos, ouviu Sims perguntar a Milly:

— Esses dois estão realmente casados?

 

Ricky foi postar-se num canto, decidindo ficar ali por algum tempo. Tinha uma boa visão da festa e sentia-se feliz em ficar simplesmente observando as coisas, até chegar o mo­mento de voltar para casa. Terminada a música, John Jaffrey apareceu ao lado do aparelho estereofônico e colocou outro disco no prato. Lewis Benedikt estava atrás dele, com uma ex­pressão divertida. Quando a música começou a sair pelos alto-falantes, Ricky compreendeu por quê. Era um disco de Aretha Franklin, uma cantora que Ricky só conhecia pelo rádio. Onde diabo John Jaffrey fora arrumar aquele disco e há quanto tempo o teria? Provavelmente comprara-o especialmente para a festa. Era uma conjetura fascinante, mas as especulações de Ricky foram interrompidas por uma sucessão de pessoas a procurá-lo em seu canto, uma a uma.

A primeira que o descobriu foi Clark Mulligan, o pro­prietário do Rialto, o único cinema de Milburn. Os sapatos estavam inesperadamente limpos, a calça passada, a barriga contida pelos botões do casaco. Clark se arrumara direito para a noite. Presumivelmente sabia que fora convidado por causa de sua ligação com o show business. Ricky calculou que deve­ria ser a primeira vez que John convidava Clark Mulligan a ir a sua casa. Ficou contente em vê-lo; sempre se sentia contente em vê-lo. Mulligan era a única pessoa na cidade que partilhava sua paixão pelos filmes antigos. As intrigas de Hollywood dei­xavam Ricky entediado, mas ele adorava os filmes de sua época áurea.

—  Quem ela o faz lembrar? — perguntou a Mulligan.

Mulligan olhou através da sala, atentamente. A atriz esta­va com uma expressão compenetrada, ouvindo algo que Ed Venuti dizia.

—  Mary Milles Minter?

—  Lembrou-me Louise Brooks. Mas tenho a impressão de que os olhos de Louise Brooks não eram verdes.

—  Quem sabe? Ao que se diz, ela é uma excelente atriz. E parece que surgiu do nada. Ninguém sabe qualquer coisa a seu respeito.

—  Edward sabe.

—  Ele está preparando um dos seus livros, não é mesmo?

—  As entrevistas já estão quase terminando. Edward sempre teve dificuldades em despedir-se dos temas de seus livros, mas creio que desta vez será especialmente traumático. Acho que ele se apaixonou pela moça.

Naquele momento, Edward se juntara a Ed Venuti, com uma cara de ciúme, conseguindo interpor-se entre o banqueiro e a jovem atriz.

—  Eu também poderia facilmente me apaixonar por uma garota assim — disse Mulligan. — A partir do momento em que mostram os rostos na tela, eu me apaixono por todas elas. Já assistiu algum filme de Marthe Keller? — Os olhos dele se reviraram.

—  Ainda não. Mas pelas fotografias que vi, ela se parece bastante com uma moderna Constance Talmadge.

—  Está brincando? Não acha que é muito mais com Paulette Goddard?

E a partir daí, na maior felicidade, ambos passaram a falar de Chaplin, Monsieur Verdoux, Norma Shearer e John Ford, Eugene Pallette e Harry Carey, Jr., Stagecoach e The thin man, Veronica Lake e Alan Ladd, John Gilbert e Rex Bell, Jean Harlow, Charlie Farrell, Janet Gaynor, Nosferatu e Mae West, atores e filmes a que Ricky assistira quando jovem e que jamais deixara de apreciar com uma paixão juvenil, a recordação deles ajudando-o a amortecer o que um jovem dissera a res­peito dele e sua esposa.

— Aquele não era Clark Mulligan? — A segunda pessoa a se aproximar de Ricky foi Sonny Venuti, a esposa de Edward. — Ele está horrível.

A própria Sonny mudara consideravelmente nos últimos anos, passando de uma mulher esguia e bonita, com um sorriso adorável, para uma estranha esquelética, com uma expressão inquieta e aturdida permanentemente fixada nos olhos. Uma baixa do casamento. Três meses antes, ela entrara no escritório de Ricky e perguntara o que precisava fazer para conseguir o divórcio.

—  Ainda não tenho certeza se quero divorciar-me, mas estou pensando nisso. E tenho de descobrir em que situação estou. — Era verdade, havia outro homem, porém Sonny não quis revelar quem era. — Mas uma coisa posso garantir: ele é atraente e inteligente, tão perto de sofisticado quanto se pode ser nesta cidade.

Ela não deixara a menor dúvida de que o homem era Lewis. Mulheres assim sempre faziam Ricky recordar sua pró­pria filha. Ele apresentara gentilmente todas as opções, indi­cando as providências, explicando tudo cuidadosa e sucinta­mente, mesmo sabendo que Sonny jamais voltaria a seu escritório.

—  Ela não é linda?

—  E muito!

__ Conversei com ela por um instante.

—  É mesmo?

—  Ela não estava interessada. Só se interessa por homens. E tenho certeza de que adoraria você.

Naquele momento, a atriz estava falando com Stella, a menos de três metros de distância, o que parecia contradizer a declaração de Sonny Venuti. Ricky ficou observando as duas mulheres conversarem, sem ouvir o que estavam dizendo. Sonny pôs-se a explicar, demoradamente, por que a atriz iria adorá-lo. O objeto dos comentários estava escutando Stella, falando, as duas mulheres parecendo adoráveis, seguras, ligeiramente di­vertidas. Depois, Ann-Veronica Moore disse alguma coisa que deixou Stella visivelmente aturdida; a esposa de Ricky piscou rapidamente, abriu a boca, tornou a fechá-la, alisou os cabe­los... se fosse homem, teria coçado a cabeça. A atriz se afas­tou, levada por Edward Wanderley.

—  Se fosse eu, tomaria cuidado — estava dizendo Sonny Venuti. — Ela pode parecer um pequeno anjo, mas é o tipo de mulher que adora fazer gato e sapato dos homens.

—  A caixa de Pandora — murmurou Ricky, recordan­do-se de sua primeira impressão da atriz.

—  Como? Ah, sim, já sei o que é... um filme antigo. Quando o procurei naquela ocasião, falou duas vezes em Katharine Hepburn e Spencer Tracy.

—  Como estão as coisas agora, Sonny?

— Estou tentando de novo. Deus sabe que estou ten­tando. Quem pode divorciar-se em Milburn?  Mas continuo querendo descobrir quem eu sou.

Ricky pensou na filha e sentiu um aperto no coração.

Depois, foi a vez de Sears James ir encontrar-se com Ricky no canto. Pondo o copo numa mesa e encostando-se na estante, ele comentou:

— Ah, finalmente a privacidade!

— Eu não contaria tanto com isso.

—  Um jovem horrível tentou vender-me um seguro. Ele mora no outro lado da rua.

—  Eu o conheço.

Já que estavam em total acordo em relação a Freddy Ro­binson, não havia mais nada a dizer a respeito. Sears acabou rompendo o silêncio:

— Acho que Lewis vai precisar de ajuda para chegar em casa. Ele está um tanto embriagado.

—  O que não é problema. Afinal, não é uma das nossas reuniões.

— Hum, hum... Talvez ele consiga arrumar uma mulher que guie o carro até sua casa.

Ricky fitou o amigo para verificar como ele estava fazendo o comentário, mas Sears contemplava a festa com uma expres­são indiferente, obviamente entediado.

—  Já conversou com a convidada de honra?

—  Nem mesmo a vi.

—  Ela é altamente visível. Acho que está por ali...

Ricky levantou o copo na direção do lugar em que vira a atriz um momento antes, mas ela já desaparecera. Edward estava conversando com John, presumivelmente a respeito dela. Mas Ann-Veronica Moore não mais estava na sala.

—  Fique de olho em Edward. Ele vai acabar descobrindo-a, mais cedo ou mais tarde.

—  Não é o filho de Walter Barnes que está ali no bar?

Embora já passasse muito das dez horas, Peter Barnes e uma moça estavam realmente junto ao bar; o garçom que subs­tituíra Milly estava lhe servindo drinques. A governanta do Dr. Jaffrey evidentemente não tivera coragem de mandar embora os adolescentes que estavam lá embaixo; os mais audaciosos haviam invadido a festa ali em cima. A música de piano que substituíra Aretha Franklin cessara abruptamente, e Ricky viu que Jim Hardie estava examinando diversos discos, procurando decidir qual era o menos ultrapassado.

—  Temos um novo disc jockey — disse Ricky.

—  Tem razão — falou Sears. — Estou cansado e vou para casa. A música barulhenta sempre me dá vontade de sair por aí mordendo todo mundo.

E se afastou. Milly Sheehan o deteve no meio do caminho, falando-lhe nervosamente. Ricky calculou que ela estava irritada por causa da súbita invasão dos adolescentes. Sears deu de ombros; o problema não era seu.

Ricky sentiu vontade de ir para casa naquele momento, mas Stella começara a dançar com Ned Rowles. Não demorou muito para que diversas esposas atraíssem os maridos para a parte da sala mais próxima do aparelho estereofônico. Os adoles­centes dançavam freneticamente, às vezes quase graciosamente; os adultos pareciam tolas imitações ao lado deles. Ricky gemeu. Ia ser uma noite comprida. Todos haviam começado a falar mais alto, o garçom servia meia dúzia de drinques ao mesmo tempo, despejando uísque sobre uma sucessão de copos com gelo. Sears chegou à porta e desapareceu.

Christina Barnes, uma loura alta, com um rosto ansioso, aproximou-se de Ricky.

—  Já que meu filho conseguiu tomar conta da festa, o que me diz de dançar comigo, Ricky?

O advogado sorriu.

—  Lamento não poder ser um cavalheiro, Christina. Há quarenta anos que não danço.

—  Deve fazer alguma coisa muito bem para segurar Stella por todos esses anos.

Ela já havia tomado três drinques a mais.

—  Tem razão. E quer saber o que é? Jamais perdi o senso de humor.

—  Você é maravilhoso, Ricky. Eu adoraria dar-lhe alguns apertões um dia desses para tentar descobrir do que é feito.

—  De velhos cotos de lápis e livros de direito ainda mais velhos.

Desajeitadamente, ela beijou-o, roçando-lhe o queixo.

—  Sonny Venuti não foi procurá-lo há uns dois meses? Preciso conversar com você sobre o mesmo assunto.

—  Pode ir procurar-me no escritório — disse Ricky, sa­bendo que ela nunca iria.

— Com licença, Ricky, Christina... — disse Edward Wanderley, que se aproximara de Ricky pelo outro lado.

—  Vou deixar vocês, homens, tratando de seus negócios particulares.

Christina se afastou, à procura de um parceiro para dançar.

— Você a viu? Sabe onde ela está? — O rosto largo de Edward estava dominado por uma ansiedade infantil.

—  A Srta. Moore? Há algum tempo que não a vejo. Por acaso a perdeu?

—  Ela simplesmente sumiu!

—  Provavelmente está no banheiro.

—  Há vinte e cinco minutos? — Edward coçou a testa.

—  Não se preocupe com ela, Edward.

—  Não estou preocupado, apenas quero descobri-la. — Ele se ergueu na ponta dos pés, pondo-se a olhar por cima das cabeças dos dançarinos, ainda esfregando a testa. — Será que ela saiu com algum desses garotos horríveis?

—  Não faço a menor idéia.

Edward deu uma pancadinha no ombro de Ricky e saiu rapidamente da saía.

Christina Barnes e Ned Rowles apareceram no vácuo dei­xado por Edward à beira do tapete. Ricky contornou os dois, à procura de Stella. Depois de um momento, avistou-a com Jim Hardie, obviamente recusando um convite para aprender o bump. Olhou para Ricky com uma expressão de alívio e afas­tou-se do rapaz.

A música estava tão alta que tiveram de falar diretamente no ouvido um do outro.

—  É o rapaz mais avançadinho que já conheci!

—  O que ele disse?

—  Que me pareço com Arme Bancroft!

A música cessou abruptamente e todos na festa puderam ouvir a resposta de Ricky:

—  Ninguém com menos de trinta anos deveria ter per­missão para entrar num cinema.

Todos, à exceção de Edward Wanderley, que estava inter­rogando de maneira hostil Peter Barnes, viraram-se a fim de olhar para Ricky e Stella. Depois, o sempre esperançoso Freddy Robinson pegou a mão da garota de Jim Hardie, outro disco caiu no prato, e as pessoas voltaram a fazer as coisas que se costumam fazer numa festa. Edward estava falando baixinho, mas insistentemente; deu para ouvir a voz aflita de Peter Bar­nes dizendo, um momento antes de a música recomeçar:

—  Talvez ela esteja lá em cima, cara.

—  Vamos embora? — perguntou Ricky a Stella. — Sears já se foi.

—  Vamos ficar mais um pouco. Há séculos que não faze­mos nada assim. E estou me divertindo um bocado, Ricky. — Vendo a expressão desconsolada do marido, ela acrescentou: — Dance comigo, Ricky. Só esta vez.

—  Sabe que não danço — respondeu Ricky, alteando a voz para poder ser ouvido acima do barulho da música. — Pode ir divertir-se. Mas vamos embora daqui a meia hora, está certo?

Ela piscou-lhe um olho, virou-se e foi imediatamente cap­turada por Lou Price, com a aparência de gângster, sucumbindo desta vez.

Edward, sem olhar para ninguém, passou correndo.

Ricky circulou pelas margens da festa por algum tempo, recusando o drinque que o garçom lhe ofereceu. Foi falar com Milly Sheehan, que estava sentada no sofá, exausta.

—  Eu não sabia que iria acabar assim — murmurou Milly. — Vou levar horas para conseguir limpar tudo.

—  Faça John ajudá-la.

— Ele sempre ajuda — declarou Milly, com uma expres­são radiante. — É maravilhoso nessas coisas.

Ricky continuou vagueando a esmo, até chegar à escada. Havia silêncio lá em cima e lá embaixo. Será que a atriz de Edward estaria lá em cima com um dos rapazes? Ele sorriu e desceu para o sossego do andar térreo.

A parte do consultório de Jaffrey estava deserta. As luzes estavam acesas, cigarros haviam sido apagados no chão, por toda parte se podiam ver copos pela metade. As salas cheiravam a suor, cerveja e fumaça. A pequena vitrola portátil na sala da frente estava ligada, o prato girando, a agulha estalando em sulcos vazios. Ricky levantou o braço, colocou-o no suporte e desligou a vitrola. Milly teria muito trabalho ali embaixo na manhã seguinte. Olhou para o relógio. Meia-noite e meia. Atra­vés do teto, vinha o barulho da música distante.

Ricky se sentou numa das cadeiras incômodas da sala de espera, acendeu um cigarro, suspirou e relaxou. Pensou que talvez pudesse dar uma ajuda a Milly, começando a arrumar as salas ali de baixo. Mas compreendeu que precisaria de uma vas­soura. E estava cansado demais para sair à procura de uma.

Poucos minutos depois, o barulho de passos arrancou-o do leve cochilo. Empertigou-se na cadeira, escutando alguém abrir uma porta na base da escada.

—  Quem está aí? — gritou ele, sem querer constranger algum casal ilícito.

—  É você, Ricky? — John Jaffrey apareceu na sala de espera. — O que está fazendo aqui? Viu Edward?

—  Desci para ter um pouco de sossego. E vi Edward an­dando de um lado para outro à procura da Srta. Moore. Talvez ele tenha subido.

—  Estou bastante preocupado com ele, Ricky. Edward parecia tão... tão tenso. Ann-Veronica está dançando com Ned Rowles. Será que ele não viu?

— Ela desapareceu há alguns minutos.  É por isso que Edward ficou tão nervoso.

—  Pobre Edward... Mas ele não deve preocupar-se com aquela moça. Ela vale ouro. Deveria tê-la visto. Está absoluta­mente maravilhosa. Parece ainda melhor do que no início da noite.

Ricky levantou-se.

—  Quer que eu o ajude a encontrar Edward?

—  Não há necessidade. Pode continuar descansando. Eu o encontrarei sozinho. Vou verificar nos quartos, embora não tenha a menor idéia do que ele possa estar fazendo por lá...

—  Espero que ainda esteja procurando.

John virou-se, murmurando que não podia deixar de se preocupar. Voltou para as salas de consulta. Ricky seguiu-o, lentamente.

 

Harold Sims estava dançando com Stella, apertando-a fir­memente e despejando um fluxo incessante de conversa em seu ouvido. A música estava tão alta que Ricky sentiu vontade de gritar. À exceção de Sears, ninguém mais fora embora. Os jo­vens, muitos deles agora embriagados, rodopiavam sem parar, os cabelos e braços se sacudindo. A pequena atriz dançava com o editor, Lewis falava com Christina Barnes, no sofá. Ambos estavam indiferentes à presença da sonolenta Milly Sheehan, a não mais de dois palmos de distância. Ricky desejou ardente­mente estar na cama. O barulho deixava-o com dor de cabeça. Seus velhos amigos, à exceção de Sears, pareciam ter perdido o juízo. Lewis estava com a mão no joelho de Christina Barnes, os olhos mostravam-se desfocados. Será que ele estava realmen­te tentando seduzir a esposa do seu banqueiro? E na presença do marido e do filho dela?

Lá em cima, algo pesado caiu no chão. Ricky foi o único que ouviu. Saiu para o patamar e avistou John Jaffrey no alto da escada.

—  Ricky...

—  Algum problema, John?

—  É Edward...

—  Ele esbarrou em alguma coisa?

—  Suba depressa, Ricky.

O advogado subiu, ficando mais preocupado a cada degrau. John Jaffrey parecia profundamente abalado.

—  Ele derrubou alguma coisa, John? Machucou-se?

A boca de Jaffrey se abriu sem que nenhum som saísse por um momento, até que ele finalmente conseguiu balbuciar:

— Derrubei urna cadeira... e não sei o que fazer.

Ricky chegou lá em cima e olhou para o rosto angustiado do médico,

— Onde ele está?

—  No segundo quarto.

Como Jaffrey continuasse parado, Ricky avançou pelo cor­redor até a segunda porta. Olhou para trás. Jaffrey assentiu, engoliu em seco e finalmente se aproximou.

—  Aí dentro.

Ricky podia sentir a boca ressequida. Desejando estar em qualquer outro lugar, fazendo qualquer outra coisa, menos o que estava fazendo ali, estendeu a mão para a maçaneta e virou-a. A porta se abriu.

O quarto estava frio, quase não tinha móveis. Dois casa­cos, o da atriz e o de Edward, estavam estendidos sobre um colchão. Mas Ricky só tinha olhos para Edward Wanderley. Encontrava-se no chão, as mãos comprimidas contra o peito, os joelhos erguidos. O rosto dele tinha uma expressão terrível.

Ricky deu um passo para trás e quase tropeçou na cadeira que John Jaffrey derrubara. Não havia a menor dúvida de que Edward ainda estava vivo — Ricky não sabia como tinha certeza, mas o fato é que tinha —, o que não o impediu de per­guntar:

—  Tentou sentir o pulso dele?

—  Não tem mais. Já sumiu.

John estava tremendo todo, a um passo além da porta. Mú­sica e vozes subiam pela escada.

Ricky fez um tremendo esforço e se ajoelhou ao lado do corpo do amigo. Tocou uma das mãos, agarrando a camisa verde de Edward. Enfiou os dedos na parte inferior do pulso. Nada sentiu, mas também não era médico.

—  O que acha que aconteceu?

Ricky ainda não podia olhar novamente para o rosto con­torcido de Edward. John deu outro passo para o interior do quarto.

—  Um ataque cardíaco? Acha mesmo que foi isso?

—  Não sei... Provavelmente. Emoção em demasia. Mas.

Ricky olhou para Jaffrey, tirando a própria mão da mão ainda quente de Edward.

—  Mas o quê?

—  Não sei. Não posso saber. Mas olhe só para o rosto dele, Ricky!

O advogado olhou: os músculos estavam rígidos, a boca aberta como se fosse gritar, os olhos vazios. Era o rosto de um homem sendo torturado, esfolado vivo.

—  Não é próprio de um médico dizer isso, Ricky, mas parece que ele foi levado à morte pelo pavor.

Ricky assentiu e se levantou. Era exatamente assim que Edward parecia.

—  Não podemos deixar ninguém subir. Vou descer e tele­fonar pedindo uma ambulância.

 

E assim terminou a festa de Jaffrey. Ricky Hawthorne te­lefonou pedindo uma ambulância, desligou a vitrola e disse que Edward Wanderley sofrera “um acidente” fatal, despachando trinta pessoas para suas casas. Não permitiu que ninguém su­bisse. Procurou por Ann-Veronica Moore, mas a atriz já tinha ido embora.

Meia hora depois, com o corpo de Edward a caminho do hospital ou do necrotério, Ricky voltou de carro para sua casa, junto com Stella.

— Não a viu ir embora? — perguntou ele.

—  Num momento, ela estava dançando com Ned Rowles, no momento seguinte saía pela porta. Pensei que estivesse indo ao banheiro. Oh, Ricky, foi horrível!

—  Tem razão. Foi mesmo horrível.

—  Pobre Edward... Acho que ainda não estou acredi­tando.

— Eu também não. — As lágrimas afloraram aos olhos de Ricky, que, por alguns segundos, guiou às cegas, vendo à sua frente apenas manchas indistintas. Num esforço para afas­tar do pensamento a imagem do rosto de Edward, ele pergun­tou: — O que ela lhe disse que a deixou tão surpresa?

—  Quando? Mal falei com ela.

—  Na metade da festa. Eu a vi conversando com você e tive a impressão de que ela falou alguma coisa que a deixou inteiramente aturdida.

—  Ah, sim... — A voz de Stella se alterou um pouco. — Ela perguntou se eu era casada. Respondi que sim, que era a Sra. Hawthorne. E ela disse: “Ah, sim, acabei de ver seu mari­do. E parece que ele dá um bom inimigo”.

—  Não deve ter ouvido direito.

—  Claro que ouvi.

—  Não faz o menor sentido.

—  Mas foi exatamente o que ela disse.

Uma semana depois, quando Ricky telefonou para o teatro em que a jovem estava trabalhando, querendo devolver o casa­co, foi informado de que ela retornara a Nova York no dia seguinte à festa, retirara-se inesperadamente do elenco e deixara a cidade. Ninguém sabia para onde ela fora. Desaparecera intei­ramente. Era muito jovem, nova demais na profissão, não dei­xara nem mesmo reputação suficiente para criar um mito. Na­quela noite, na que parecia ser a última reunião da Sociedade Chowder, Ricky teve uma inspiração, virando-se para o apático John Jaffrey e perguntando:

—  Qual foi a pior coisa que você já fez?

E John salvou a todos ao responder:

—  Não vou contar, mas lhe direi qual foi a pior coisa que já me aconteceu.

E contou, então, uma história de fantasma.

 

A vingança do Dr. Rabbitfoot

 

“Persiga uma sombra, ela lhe foge;

Finja fugir, ela o perseguira.”

Ben Jonson

 

A idéia antiga do Dr. Rabbitfoot... a idéia para outro livro, a história da destruição de uma cidade pequena pelo Dr. Rabbitfoot, um showman ambulante que monta acampamento nos arredores, vende elixires, poções e amuletos (um preto?) e tem um pequeno espetáculo com música de jazz, dançarinas, trombones, etc. Se algum dia já conheci um cenário perfeito para essa história, o lugar é Milburn.

Primeiro a cidadezinha, depois o bom doutor. A cidade de meu tio, Milburn, é um desses lugares que parecem criar seu próprio limbo e depois se aninham nele. Não chega a ser uma cidade de verdade, não chega a ser uma comunidade rural, pois é pequena demais para ser a primeira coisa e povoada demais para a segunda, além de ser orgulhosa demais em relação a seu status. O jornal local chama-se The urbanite. Milburn parece até mesmo sentir algum orgulho de sua minúscula favela, as poucas ruas que formam o que chamam de Hollow. A impres­são que se tem é de que Milburn gosta de apontar para Hollow e dizer: vejam, temos lugares onde se precisa tomar cuidado depois do anoitecer, os tempos em que vivemos não nos deixa­ram incólumes e inocentes. É quase comédia. Se algum dia houver encrenca em Milburn, certamente não vai começar no Hollow. Três quartos dos homens trabalham em outros lugares, principalmente em Binghamton. Milburn depende da auto-es­trada para sua sobrevivência. Paira no ar uma sensação de es­tranha acomodação, de tudo continuar como sempre. Ao mes­mo tempo em que se sente também algum nervosismo. (Aposto que eles fazem intrigas uns contra os outros incessantemente.) E o nervosismo existe porque eles sentem que perderam algo para sempre, que os tempos no final das contas passaram por Milburn e os deixaram para trás, intatos. Provavelmente estou sentindo isso por causa do contraste entre esta cidadezinha e a Califórnia, onde não existe tal preocupação. Parece um tipo de ansiedade peculiar a cidadezinhas como esta. Bons lugares para o Dr. Rabbitfoot.

(Por falar em ansiedade, os três velhos que conheci hoje, amigos de meu tio, estão sofrendo terrivelmente dela. É eviden­te que está relacionado com o motivo, qualquer que seja, que os levou a me escrever, sem saber que eu estava começando a ficar tão cansado da Califórnia que teria ido para qualquer lugar onde imaginasse que poderia ser capaz de trabalhar.)

Fisicamente, é claro, é uma cidadezinha bonita. Todos esses lugares o são. Até mesmo Hollow possui uma espécie de beleza sépia dos anos 30. Há a praça municipal habitual, as árvores habituais — bordos, lariços, carvalhos, as árvores caídas cober­tas de musgos nos bosques —-, a sensação de que os bosques ao redor da cidade são mais fortes, mais profundos do que o pe­queno labirinto de ruas que as pessoas puseram em seu meio. Ao chegar, vi casas bem grandes, algumas grandes o bastante para serem chamadas de mansões.

Mesmo assim... é um lugar maravilhoso, um cenário caí­do do céu para a novela do Dr. Rabbitfoot.

Ele é preto, decididamente. Veste-se espalhafatosamente, com todo o aparato antiquado: polainas, imensos anéis, bengala, um colete berrante. É esfuziante, fala sem parar, ligeiramente sinistro, o próprio demônio. Ele o dominará, se você não tomar cuidado. Tem um sorriso assassino.

Você o vê apenas à noite, quando passa por um terreno normalmente deserto e lá está ele, parado numa plataforma diante de sua tenda, girando uma bengala, enquanto a banda de jazz está tocando. Uma música animada o envolve, assoviando por seus cabelos pretos, um saxofone lhe contrai os lábios. Ele está olhando diretamente para você. Convida-o a dar uma olhada em seu espetáculo, a comprar uma garrafa de seu elixir por um dólar. Diz que é o famoso Dr. Rabbitfoot e que tem exatamente o de que sua alma está precisando.

E se sua alma está precisando de uma bomba? Uma faca? Uma morte lenta?

O Dr. Rabbitfoot lhe dá uma piscadela. “Encontrou o que está procurando, cara. Basta tirar um dólar do bolso.”

Agora, definir o que ê óbvio: por trás dessa personagem que há anos venho desenvolvendo em minha cabeça está Alma Mobley. Também convinha a ela dar exatamente o que uma pessoa estava querendo.

Durante todo o tempo, o sorriso malicioso, as mãos flu­tuando, os olhos de um branco descorado e ofuscante... a sinistra alegria dele. “E o que dizer da pequena Alma Mobley, rapaz? O que vai fazer, se a avistar quando fechar os olhos? Ela está lá? Alguma vez já tocou num fantasma? Alguma vez já encostou a mão na pele branca de um fantasma? É seus olhos serenos... será que o estavam observando?”

 

Fui ao escritório do advogado que me escreveu, Sears Ja­mes, assim que cheguei à cidade. É um prédio branco, austero, na Wheat Row, junto à praça. O dia, cinzento pela manhã, esta­va frio e claro; antes de falar com a recepcionista, pensei que talvez fosse o início de um novo ciclo para mim. Mas a recepcio­nista disse que tanto o Sr. James como o Sr. Hawthorne tinham ido a um enterro. A nova secretária que eles haviam contra­tado também tinha ido, o que era demais, “porque ela nem co­nhecia o Dr. Jaffrey, não é mesmo? A esta altura, eles devem estar no cemitério. É o Sr. Wanderley que eles estão esperando? Também não conheceu o Dr. Jaffrey? Era um homem maravi­lhoso. Acho que estava exercendo a medicina aqui em Milburn há quarenta anos, era o homem mais bondoso que já existiu, mas não daquele tipo açucarado, sabe como é? mas quando ele punha as mãos na gente, dava para sentir a bondade fluindo para o nosso corpo”, ela continuou falando sem parar, me olhan­do, me examinando, procurando descobrir que diabo seu patrão estava querendo comigo, e depois a velha sentada na mesa tele­fônica fitou-o com um sorriso furioso e jogou seu trunfo na mesa, ela disse: “É claro que não pode saber, mas ele se matou há cinco dias. Pulou da ponte. Pode imaginar uma coisa dessas? Foi terrivelmente trágico. O Sr. James e Ricky Hawthorne ficaram muito transtornados. E ainda não se recuperaram. Ago­ra, aquela garota Anna os está fazendo ter o dobro do trabalho e aquele doido do Elmer Scales telefona todos os dias, gritando por causa de suas quatro ovelhas. . . pode imaginar o que seria capaz de levar um homem tão bom quanto o Dr. Jaffrey a fazer uma coisa dessas?”   ,

(Ele escutou o Dr. Rabbitfoot, dona.)

“Gostaria de ir ao cemitério?”

 

E ele foi. Ficava numa estrada chamada Pleasant Hill, logo à saída da cidade (a recepcionista deu uma boa orientação), cam­pos extensos morrendo sob a neve que chegara cedo demais, o vento de vez em quando atingindo uma camada de neve solta, fazendo-a levantar e acenar os braços. É estranho como esta terra parece perdida, embora as pessoas estejam andando de um lado para outro por aqui há quatrocentos anos. Parece so­frida e devastada, a alma ida ou retraída, esperando que alguma coisa aconteça para despertá-la novamente.

A placa, “Cemitério Pleasant Hill”, era de metal, cinzenta, num dos lados do portão preto de ferro batido; se não fosse por ele, à entrada do que parecia ser apenas outro campo ondulado, Don teria passado adiante. Contemplou o portão ao se aproxi­mar, perguntando-se que tipo de fazendeiro seria magnificente o bastante para erguer um portão senhorial na trilha de seu trator, diminuiu a velocidade, olhou para o caminho estreito que subia suavemente — mais do que uma simples trilha de trator, quase uma estrada — e avistou meia dúzia de carros es­tacionados no alto da colina, se é que se podia dar-lhe tal nome. E depois viu a placa. “Apenas outro campo, mas o que lá plan­taram...” Don deu uma guinada no volante e passou pelo portão.

Don deixou o carro separado dos outros, na metade da subida, e continuou a pé. Perto dele, estava a parte mais antiga do cemitério: lousas inclinadas com as inscrições em baixo-relevo, anjos de pedra erguendo os braços carregados de neve. Moças de granito protegiam os olhos com o antebraço, de onde pendia uma parte da túnica. O mato crescia entre as lousas inclinadas. O caminho estreito passava por, essa parte mais anti­ga e levava a um trecho maior, de pequenas lápides, bem con­servadas. Eram lápides roxas, cinzentas, brancas, que pareciam ainda menores pela extensão de terra ondulante que havia além, com as cercas do cemitério a uns cem metros de distância. Um carro fúnebre estava parado na parte mais baixa do cemitério. O homem que o dirigia, de chapéu preto, escondia o cigarro aceso na mão em concha, para que não fosse visto pelas poucas pessoas agrupadas em torno da sepultura mais recente. Uma mulher informe, num casaco azul-claro, se agarrava a outra, mais alta; os demais presentes se mantinham eretos e tão imóveis quanto se fossem postes. Quando avistei os dois velhos parados lado a lado, junto à sepultura, não tive a menor dúvida de que eram os dois advogados... e se não eram advogados, certamente faziam parte do elenco central. Comecei a me encaminhar na direção deles, descendo a encosta, pelo caminho es­treito. E foi então que pensei: “Se o morto era médico, por que não há mais pessoas? Onde estão seus pacientes?” Um homem de cabelos prateados, ao lado dos dois advogados, foi o primeiro a vê-lo e cutucou o maior com o cotovelo, o que usava um casaco preto com gola de pele. O grandalhão virou a cabeça para fitá-lo. Depois, o homenzinho ao lado dele, que dava a impressão de estar resfriado, também desviou os olhos do ministro, e olhou para Don, curioso. Até mesmo o ministro pa­rou de falar por um momento, enfiou a mão congelada no bolso do sobretudo e olhou para Don com uma expressão confusa.

E foi então que, finalmente, houve um sinal de boas-vindas, em contraste com o exame cauteloso: uma das mulheres bonitas, a mais jovem (seria uma filha?), fitou-o com um sor­riso genuíno.

O homem de cabelos prateados, que olhara para Don como se estivesse no cinema, afastou-se dos outros dois e aproximou-se dele, sussurrando:

—  É amigo de John?

—  Meu nome é Don Wanderley — respondeu ele, tam­bém num sussurro. — Recebi uma carta de um homem chamado Sears James e a recepcionista do seu escritório disse que poderia encontrá-lo aqui.

—  Agora que falou, posso perceber que realmente se pa­rece um pouco com Edward, — Lewis segurou-lhe o braço e apertou-o. — Escute, garoto, estamos passando por maus mo­mentos. Por isso, peço para simplesmente ficar parado aqui, sem nada dizer, até tudo terminar. Já tem algum lugar onde passar a noite?

E assim me juntei a eles, meio sustentando, meio evitando seus olhares. A mulher de casaco azul-claro estava quase inerte, amparando-se na mulher de aparência altiva; o rosto dela se contorcia incessantemente e soluçava sem parar oh não oh não. Havia a seus pés pequenos pedaços de lenços de papel coloridos, amarrotados, agitados pelo vento que soprava pela depressão. De vez em quando, um desses era impulsionado para longe e ia prender-se na cerca. Quando partimos, já havia dezenas de pa­péis coloridos presos na grade de arame da cerca.

 

(Frederick Hawthorne)

 

Ricky ficara bastante satisfeito com Stella. Enquanto os três membros restantes da sociedade procuravam ajustar-se à morte de John, somente Stella pensara na terrível situação de Milly Sheehan. Imaginava que Sears e Lewis haviam pensado a mesma coisa que ele: Milly simplesmente continuaria a viver na casa de John. Ou se achasse que a casa era grande e vazia demais para ela, Milly poderia ficar no Hotel Archer, até deci­dir para onde ir e o que fazer. Ele e Sears sabiam que Milly não tinha problemas financeiros: haviam preparado o testamento que deixava para Milly a casa de John Jaffrey e todos os saldos de suas contas bancárias. Somando tudo, ela herdara cerca de duzentos mil dólares; se decidisse ficar em Milburn, teria no banco mais do que o suficiente para pagar os impostos e levar uma vida confortável. “Somos advogados”, disse Ricky a si mes­mo, “e é assim que pensamos. Não podemos fazer nada; sempre pensamos nas trivialidades primeiro e só depois nas pessoas.”

É claro que haviam pensado muito em John Jaffrey. A notícia chegara quase ao meio-dia do dia seguinte àquele em que as premonições de Ricky haviam alcançado o auge. Ele tivera certeza de que alguma coisa terrível acontecera no mo­mento em que reconheceu a voz trêmula ao telefone como sen­do de Milly Sheehan, balbuciando:

—  É... é... o Sr. Hawthorne... ?

—  Sou eu mesmo, Milly. O que aconteceu? — Ricky ligou o interfone com a sala de Sears e disse-lhe que ficasse ou­vindo na extensão, equipada com um alto-falante. E repetiu a pergunta: — O que aconteceu, Milly?

Sabia que sua voz estaria soando alta demais para Sears, mas naquele momento sentia-se totalmente incapaz de falar bai­xo. O alto-falante reproduzia a voz do cliente num volume normal, mas triplicava o barulho feito pela pessoa na extensão. Sears imediatamente queixou-se:

—  Está me arrebentando os tímpanos.

—  Desculpe — murmurou Ricky. — Ainda está no tele­fone, Milly? É Milly quem está chamando, Sears.

—  Eu já imaginava. Podemos ajudá-la, Milly?

—  Ahnn...  — gemeu ela ao telefone, provocando um arrepio na nuca de Ricky.

O telefone ficou mudo.

—  Milly?

— Abaixe a voz — ordenou Sears.

— Ainda está no telefone, Milly?

Ricky ouviu o telefone bater ruidosamente contra alguma superfície dura. A voz que ouviu a seguir era de Walt Har­desty:

—  Aqui é o xerife. É o Sr. Hawthorne quem está falando?

—  Ele mesmo. O Sr. James está na extensão. O que está acontecendo, Walt? Milly está bem?

—  Ela está de pé neste momento, inteiramente imóvel, olhando pela janela. O que é ela afinal? Pensei que fosse a es­posa dele.

Sears interveio impacientemente, a voz soando alta como o estrondo de um canhão na sala de Ricky:

—  Ela é a governanta de John. E agora pode fazer o favor de nos dizer o que está acontecendo por aí?

—  Ela está desmoronando como se fosse a esposa. Vocês dois são os advogados do Dr. Jaffrey?

—  Somos, sim — respondeu Ricky.

—  Já sabem o que aconteceu com ele?

Os dois sócios ficaram em silêncio. Se Sears estava se sentindo como Ricky, sua garganta ficara apertada demais para conseguir falar alguma coisa.

—  Ele deu um pulo — acrescentou Hardesty. — Ei, cuidado, dona! É melhor sentar-se.

—  Ele fez o quê? — berrou Sears, a voz trovejando na sala de Ricky.

— Ele deu um mergulho do alto da ponte esta manhã. Ei, dona, fique calma e deixe-me falar!

—  O nome da dona é Sra. Sheehan — disse Sears, em tom mais normal. — Ela pode reagir melhor se chamá-la assim. E agora, como a Sra. Sheehan evidentemente desejava comunicar-se conosco mas se encontra incapaz de fazê-lo no momento, gostaria que explicasse exatamente o que aconteceu com John Jaffrey.

—  Ele deu um mergulho da...

—  Seja mais cuidadoso. Ele caiu da ponte? De que ponte?

—  A ponte sobre o rio. Qual outra ponte estava pensando que poderia ser?

—  E qual é o estado dele?

—  Está mortinho da silva. O que estava pensando que poderia ter acontecido? E pode dizer-me quem vai tomar as providências para o funeral e tudo o mais? Esta dona não está em condições...

—  Pode deixar que cuidaremos de tudo — disse Ricky.

—  E podemos cuidar também de outras coisas — acres­centou Sears furioso. — Suas maneiras são lamentáveis. E sua dicção é vergonhosa. Está bancando o idiota, Hardesty.

—  Ei, essa não!

— Essa sim! E se está imaginando que o Dr. Jaffrey co­meteu suicídio, então está realmente chafurdando num lodaçal, meu amigo. Eu o aconselharia a manter essa suposição para si mesmo.

—  Omar Norris viu tudo — disse Hardesty. — Precisa­mos de uma identificação oficial e resolver todas as formali­dades para podermos providenciar a autópsia. Por que os dois não vêm até aqui? É melhor do que ficar falando ao telefone.

Cinco segundos depois de Ricky repor o fone no gancho, Sears apareceu na porta, já enfiando os braços no casaco.

— Não pode ser verdade — disse ele. — Tem que ser algum equívoco. Mas vamos até lá assim mesmo.

A campainha do telefone voltou a soar. — Não atenda — disse Sears. Mas Ricky atendeu:

—  Pois não?

— Há uma moça na recepção que deseja falar-lhe e com o Sr. James — informou a recepcionista.

—  Diga a ela para voltar amanhã, Sra. Quast. O Dr. Jaffrey morreu esta manhã e o Sr. James e eu estamos indo para a casa dele, a fim de nos encontrarmos com Walt Hardesty.

— Mas como? — A Sra. Quast, que estava prestes a co­meter uma indiscrição, mudou de assunto ainda a tempo. — Lamento muito, Sr. Hawthorne. Quer que eu ligue para a Sra. Hawthorne?

—  Quero, sim. E diga a ela que entrarei em contato com ela assim que puder.

A esta altura, Sears já estava tendo um acesso de impa­ciência. Quando Ricky contornou a mesa, o sócio já estava no corredor, girando o chapéu na mão. Ricky pegou o seu casaco e saiu apressadamente em seu encalço. Juntos, seguiram pelo corredor. Sears resmungou:

—  Aquele idiota irresponsável! Como se alguém pudesse acreditar nas palavras de Omar Norris sobre qualquer coisa que não seja bourbon e remover neve das ruas!

Ricky estacou abruptamente e pôs a mão no braço do sócio.

—  Temos que pensar nisso, Sears. É possível que John tenha realmente se matado. — Ainda não absorvera a idéia e pôde ver que Sears estava determinado a não permitir que isso acontecesse com ele. — John não teria qualquer motivo para andar por aquela ponte, especialmente num tempo assim.

O sangue afluiu ao rosto de Sears.

—  Se pensa assim, então também é um idiota rematado.

Não quero saber se John estava observando pássaros ou fazendo qualquer outra coisa assim esdrúxula. Mas tenho certeza de que ele estava ali por algum motivo. — Os olhos dele evitaram os de Ricky. — Não sei e não posso imaginar o que era, mas tenho certeza de que havia algum motivo. Por acaso ele lhe pareceu com propensões para o suicídio ontem à noite?

—  Não, mas...

— Não vamos mais discutir. Acho melhor irmos logo de uma vez para a casa dele.

Sears saiu na frente pelo corredor e empurrou a porta da sala de recepção com o ombro. Ricky Hawthorne, apressando-se em seu encalço, saiu também para a sala de recepção e ficou ligeiramente surpreso ao deparar com uma jovem alta, de cabe­los escuros, rosto oval, as feições delicadas. O sócio estava para­do diante da moça. Ricky disse:

—  Sears, não temos tempo agora. Já disse a essa moça que voltasse amanhã.

— Ela diz... — Sears tirou o chapéu. Parecia que fora violentamente golpeado na cabeça. Murmurou para a moça: — Repita o que acabou de me falar...

E a moça anunciou:

—  Eva Galli era minha tia e procuro um emprego.

 

(A Sra. Quast desviou os olhos da moça, que se limitara a sorrir-lhe ligeiramente, corando enquanto discava para a casa dos Hawthorne. A moça afastou-se para examinar as gravuras de Kitaj, que Stella comprara há dois ou três anos, para subs­tituir as antigas gravuras de Audobon de que Ricky tanto gos­tava. Incompreensível e diferente, era o julgamento da Sra. Quast tanto sobre as gravuras de Kitaj quanto sobre a moça. “Não!”, exclamou Stella Hawthorne, ao tomar conhecimento da notícia sobre o Dr. Jaffrey. “Pobre Milly! Pobre todo mun­do, é claro. Mas terei que fazer alguma coisa por Milly.” Ao desfazer ligação, a Sra. Quast pensa: “Meu Deus! Como está claro aqui dentro!” Mas no instante seguinte, ela pensa: “Não, está escuro! Tão escuro quanto o pecado. As luzes devem ter sofrido uma pane e ficado fracas”. Mas no instante seguinte tudo está normal, a lâmpada por cima de sua mesa parece igual à de sempre, ela esfrega os olhos e sacode a cabeça grisalha... “Milly Sheehan tinha uma vida tranqüila e confortável, já estava na hora de ela cuidar de um trabalho de verdade...” e fica atônita ao ouvir o Sr. James dizer à moça que, se ela voltar amanhã, poderão conversar sobre um emprego de secretária. “Afinal, o que há de trabalho por aqui?”)

E Ricky, olhando para Sears, também ficou espantado: tra­balho de secretária? Tinham uma secretária em meio expedien­te, Mavis Hodge, que cuidava da maior parte do serviço de datilografia; a fim de arrumarem trabalho para outra secretária, teriam que começar a responder a toda a correspondência de circulares que recebiam. Mas é claro que não era a necessidade de mais gente no escritório que levava Sears a tratar a moça daquela maneira. Era aquele nome, Eva Galli, pronunciado num tom que teria o sabor de vinho do Porto, se se pudesse bebê-lo... Subitamente, Sears parecia muito cansado, a insônia e os pesadelos, a visão de Fenny Bate e Elmer Scales com suas malditas ovelhas, como John morrera, tudo se reunia para dei­xá-lo totalmente abalado, se bem que apenas por um momento. Ricky percebeu o medo e a exaustão do sócio, e compreendeu que até mesmo Sears podia desmoronar.

—  Isso mesmo, volte amanhã — disse ele para a moça.

Notou que o rosto oval e as feições delicadas eram mais do que apenas atraentes. Naquele momento, como sabia muito bem, se havia alguém que Sears não precisava recordar era Eva Galli. A Sra. Quast olhava para ele, e por isso Ricky disse-lhe que tratasse de despachar todos os telefonemas que surgissem durante a tarde, só para dizer alguma coisa.

—  Pelo que imagino, um bom amigo de vocês acaba de morrer — disse a moça para Ricky. — Lamento muito ter apa­recido num momento tão difícil. — Sorriu pesarosamente, de um modo que parecia uma preocupação genuína. — Por favor, não deixem que minha presença os atrase.

Ricky contemplou mais uma vez o rosto de raposa da moça, antes de se virar para Sears e para a porta. O sócio estava abotoando o casaco, com uma expressão pensativa, o rosto páli­do. Ricky pensou que talvez o instinto de Sears estivesse certo, que talvez o aparecimento daquela moça fosse parte do enigma, parecia até que nada mais acontecia por acaso. Era como se houvesse algum plano, como se só pudessem descobrir do que se tratava depois de reunir todas as peças.

—  Provavelmente  nem  mesmo  foi John — comentou Sears, já no carro. — Hardesty é tão incompetente que eu não ficaria surpreso se simplesmente aceitou a palavra de Ornar Norris.

Ele não terminou a frase. Ambos os sócios sabiam que o comentário não passava de fantasia. Contraindo os lábios, in­fantilmente Sears murmurou:

—  Está frio... frio demais...

Ricky assentiu, pensando finalmente em outra coisa para dizer:

—  Pelo menos Milly não vai passar fome.

Sears suspirou, parecendo achar graça.

—  E também é muito bom saber que ela nunca mais vai arrumar outro emprego que lhe proporcione o privilégio de ficar escutando atrás das portas.

E depois houve silêncio novamente, como se ambos reco­nhecessem que não restava a menor dúvida de que John Jaffrey pulara da ponte de Milburn e se afogara no rio gelado.

Depois de pegarem Hardesty na casa de Jaffrey e seguirem para a pequena cadeia da cidade, onde o corpo estava à espera do carro do necrotério, constataram que Omar Norris não se enganara. O morto era mesmo John e parecia mais devastado do que em vida. Os cabelos ralos estavam grudados na cabeça, os lábios repuxados deixavam à mostra gengivas roxas, parecia inteiramente vazio, como no pesadelo de Ricky Hawthorne.

—  Jesus... — murmurou Ricky.

Walt Hardesty sorriu e disse:

— Não é esse o nome que temos, senhor advogado.

— Dê-nos os formulários, Hardesty — falou Sears. E de­pois de uma breve pausa, como era Sears, não pôde deixar de acrescentar: — Levaremos também os pertences dele, a menos que tenha conseguido perdê-los assim como a dentadura.

Pensavam que poderiam encontrar uma pista que expli­casse a morte de Jaffrey nas poucas coisas contidas no envelope pardo que Hardesty lhes entregou. Mas não conseguiram tirar qualquer conclusão da miscelânia tirada dos bolsos de John Jaffrey. Um pente, seis botões de peitilho e abotoaduras corres­pondentes, um exemplar de The making of a surgeon, uma caneta esferográfica, um molho de chaves numa bolsinha de couro já bastante usada, três moedas de vinte e cinco cents e uma de dez cents. Sears espalhou tudo sobre seu colo, no as­sento da frente do velho Buick de Ricky.

—  Seria demais esperar um bilhete — disse ele, inclinan­do-se depois para trás e esfregando os olhos. — Estou come­çando a me sentir como um membro de uma espécie em perigo. — Voltou a se empertigar, olhou para os objetos em seu colo e acrescentou: — Quer ficar com alguma dessas coisas ou vamos entregar tudo a Milly?

—  Talvez Lewis queira ficar com os botões de peitilho e as abotoaduras.

—  Pois então pode dar para ele. Já me ia esquecendo de Lewis. Vamos ter de contar-lhe. Quer voltar para o escritório?

Ficaram sentados, atordoados, no velho carro de Ricky. Sears tirou um charuto comprido da caixa, cortou a ponta e, sem perder tempo com o ritual de cheirar e rolar entre as mãos, acendeu-o. Ricky abaixou sua janela sem se queixar; sabia que Sears estava fumando por puro reflexo, sem sequer pensar no charuto.

— É muito estranho, Ricky... John está morto e ficamos falando de suas abotoaduras.

Ricky ligou o carro.

—  Vamos voltar para a Melrose Avenue e tomar um drinque.

Sears tornou a pôr a patética coleção de objetos no envelo­pe pardo, dobrou-o ao meio e guardou-o no bolso do casaco.

—  Tome cuidado ao guiar. Já percebeu que está nevando novamente?

—  Claro que já percebi. Se começa a nevar tão cedo e depois piora ainda mais, poderemos estar soterrados pela neve antes do final do inverno. Talvez devêssemos providenciar um estoque de comida em lata, como medida de segurança.

Ricky acendeu os faróis, sabendo que Sears não demoraria a sugeri-lo. O céu cinzento que pairava sobre a cidade há sema­nas escurecera, estava agora quase preto, as nuvens pareciam ondas ameaçadoras.

—  Ainda me lembro da última vez em que ficamos isola­dos pela neve. . . — comentou Sears.

—  Foi em 1947 — disse Ricky. — Eu tinha acabado de voltar da Europa. Um inverno terrível.

—  E a ocasião anterior foi nos anos 20.

—  Em 1926. A neve quase cobriu as casas.

—  E morreram muitas pessoas. Uma vizinha minha mor­reu naquela nevasca.

—  Quem era? — indagou Ricky.

—  O nome dela era Viola Frederickson. Foi surpreendida pela nevasca em sua charrete. E ficou congelada até a morte. Os Frederickson moravam na casa que depois pertenceu a John. — Sears suspirou novamente, no momento em que Ricky entra­va na praça e passava pelo hotel. Flocos de neve, como bolas de algodão, caíam diante das janelas escuras do hotel. — Pelo amor de Deus, Ricky, feche sua janela! Está querendo conge­lar-nos?

Levantou as mãos para ajeitar melhor a gola de pele do casaco em torno do pescoço, avistando então o charuto entre os dedos.

— Desculpe, Ricky. É o hábito. — Sears baixou a janela do seu lado e jogou fora o charuto. — Um tremendo desper­dício...   

Ricky pensou no corpo de John Jaffrey estendido no catre de uma cela, em dar a notícia a Lewis, na pele arroxeada esti­cada do crânio de John. Sears tossiu:

—  Não consigo entender por que ainda não recebemos qualquer notícia do sobrinho de Edward.

—  Provavelmente ele não se interessou e nem se deu ao trabalho de responder. — Ricky percebeu que a neve já não caía com tanta intensidade. — É melhor assim.

No instante seguinte, ele pensou: “Talvez não”. O ar tinha uma estranha escuridão ao meio-dia, uma escuridão que não parecia ser afetada pelos faróis do carro. A luz dos faróis não passava de uma pequena claridade quase invisível na frente do carro. Mas os objetos e contornos da cidade pareciam brilhar, não com a claridade amarelada projetada pelos faróis, mas com o branco das nuvens, ainda se agitando e espumando lá em cima: ali brilhava subitamente uma cerca de madeira, mais além se destacava uma porta, depois os contornos de um prédio. Podia-se avistar o brilho nas pedras de uma calçada, nos chou­pos desfolhados em um gramado. A cor pálida fazia Ricky re­cordar-se do rosto de John Jaffrey. Acima dessas coisas espar­sas brilhando, o céu, além das nuvens turbilhonando, estava ainda mais escuro.

—  O que acha que aconteceu? — indagou Sears, abrup­tamente.

Ricky entrou na Melrose Avenue.

—  Quer passar antes em sua casa, Sears?

—  Não, obrigado. Tem ou não alguma opinião formada?

—  Eu gostaria de saber o que aconteceu com as ovelhas de Elmer Scales.

Pararam diante da casa de Ricky, com Sears apresentando sinais óbvios de impaciência.

—  Não sei e não me interesso em saber o que pode ter havido com as ovelhas do Nosso Virgílio.

Sears queria sair do carro, queria encerrar a conversa, teria resmungado de desespero, se Ricky mencionasse a aparição de Fenny Bate descalço e esquelético na escada de sua casa. Ricky percebeu tudo isso num relance. Depois que saltaram do carro, quando estavam subindo pelo caminho em direção à porta, ele disse:

—  Sobre aquela moça que apareceu no escritório esta manhã...

—  O que há com ela?

Ricky enfiou a chave na fechadura.

— Se quer dar a impressão de que precisamos de uma secretária, não há problema. Mas...

Stella abriu a porta por dentro, já falando:

—  Estou tão contente de vocês terem vindo! Receava que tivessem voltado para a sufocante Wheat Row, fingindo que nada havia acontecido. Pensei que fossem fingir que estavam trabalhando, deixando-me sem saber de nada. Sears, por favor, entre logo de uma vez! Não quero que todo o calor saia pela porta aberta! Entrem logo!

Os dois quase que se arrastaram para o vestíbulo, moven­do-se como velhos e cansados cavalos de carroça. Tiraram os casacos.

—  Os dois estão horríveis! — acrescentou Stella. — Quer dizer que não foi um equívoco de identidade? Era mesmo John?

—  Era John — murmurou Ricky. — E não podemos di­zer-lhe mais nada, Stella. Ao que parece, ele pulou da ponte.

—  Santo Deus! — exclamou Stella, toda a sua exuberân­cia desaparecendo  por um momento.  —   Pobre   Sociedade Chowder!

—  Amém — disse Sears.

Depois do almoço, Stella disse que ia preparar alguma coisa para Milly.

—  Talvez ela queira comer um pouco.

—  Milly? — indagou Ricky, aturdido.

—  Milly Sheehan. Será que preciso lembrar-lhe quem é ela? Não poderia deixá-la sozinha naquela casa imensa de John. Fui buscá-la de carro e trouxe-a para cá. A pobre coitada está arrasada e por isso a pus na cama. Esta manhã, ao acordar, ela não encontrou John e ficou andando pela casa, aflita, até que aquele horrível Walt Hardesty apareceu.

—  Fez muito bem — disse Ricky.

—  Se você e Sears não estivessem tão preocupados consi­go mesmos, teriam se lembrado de pensar um pouco na pobre Milly.

Sentindo-se atacado, Sears levantou a cabeça bruscamente, piscando.

—  Milly não tem preocupações. Ficou com a casa de John e uma exagerada quantia em dinheiro.

—  Exagerada, Sears? Por que não leva a bandeja que vou preparar para Milly e diz a ela como deve sentir-se grata? Acha que isso iria animá-la? Acha que ela vai sentir-se feliz só porque John Jaffrey deixou-lhe uns poucos milhares de dólares?

— Não se pode dizer que foram apenas uns poucos milhares, Stella — interveio Ricky. — John deixou para Milly quase tudo o que possuía.

—  O que não poderia deixar de acontecer — declarou Stella, retirando-se para a cozinha, furiosa, deixando a ambos aturdidos.

—  Costuma ter dificuldades em decifrar o que sua mulher fala?

—  De vez em quando. Havia um livro de código, mas creio que Stella o jogou fora depois do casamento. Vamos ligar para Lewis e contar-lhe o que aconteceu? Acho que já adiamos a comunicação por tempo demais.

—  Passe-me o telefone, Ricky.

 

(Lewis Benedikt)

 

Mesmo não estando com fome, Lewis preparou o almoço por puro hábito: requeijão, salsichão e uma fatia grossa do queijo cheddar de Otto Gruebe, feito pessoalmente pelo pró­prio, em sua pequena fábrica três quilômetros depois de Afton. Sentindo-se um pouco perturbado pelas experiências daquela ma­nhã, foi com prazer que Lewis começou a pensar no velho Otto. Era um homem simples e objetivo, o corpo lembrando o de Sears James, mas um tanto encurvado de uma vida inteira a se debruçar sobre tinas; tinha o rosto flexível de um cômico, ombros e mãos enormes. Otto fizera o seguinte comentário a respeito da morte da esposa de Lewis:

— Teve um probleminha lá na Espanha, não é mesmo? Foi o que me contaram na cidade. É uma pena, Lewis.

Depois do tato demonstrado por todo mundo, a franqueza de Otto deixara Lewis imensamente comovido. Otto, com a pele pálida e curtida de passar dez horas por dia em sua pequena fábrica de queijo, Otto, com seus cachorros caçadores de gua­xinins. . . ele jamais tivera medo de assombração em qualquer dia de sua vida. Mastigando o almoço, Lewis pensou que um dia desses, muito em breve, tinha que pegar o carro e fazer uma visita a Otto. Levaria sua arma e sairia com Otto e seus cachorros para caçar guaxinins. A obstinação germânica de Otto certamente lhe iria fazer muito bem.

Mas agora estava nevando novamente; os cachorros esta­riam latindo nos canis, e o velho Otto estaria desnatando o leite e amaldiçoando o inverno prematuro.

“Uma pena.” Isso mesmo: era uma pena. Mais do que isso: era um mistério. Como Edward.

Lewis levantou-se abruptamente e levou os pratos para a pia. Olhou para o relógio e gemeu. Eram onze e meia e o almo­ço já acabara; o resto do dia assomava à sua frente como uma montanha tenebrosa. Nem sequer tinha a perspectiva de uma conversa inconseqüente com alguma garota; como também não podia contar, já que estava tentando acalmar as coisas, com uma tarde de prazeres mais profundos com Christina Barnes.

Lewis Benedikt conseguira ser bem sucedido em algo que geralmente se considera uma impossibilidade total numa cidade pequena como Milburn: desde o primeiro mês de sua volta da Espanha, criara uma vida secreta que permanecera secreta. Cor­tejava universitárias, jovens professoras da escola secundária, cabeleireiras, as moças volúveis que vendiam cosméticos na loja de departamentos Young Brothers, qualquer garota bonita o bastante para ser ornamental. Usara sua boa aparência, charme natural e humor, assim como seu dinheiro, para fixar-se na mitologia da cidade como uma personagem certamente cômica: o playboy envelhecido, o velho sátiro. Infantilmente, maravilho­samente desinibido, Lewis levara suas namoradinhas aos melho­res restaurantes em sessenta quilômetros ao redor, oferecendo-lhes as melhores comidas e vinhos, mantendo-as extasiadas. Levava para a cama — ou era levado para a cama por — cerca de um quinto dessas moças, as que demonstravam por suas risadas que nunca poderiam levá-lo a sério. Quando um casal — como Walter e Christina Barnes — entrava em The Old Mill, perto de Kirkwood, ou no Christo’s, entre Belden e Harpursville, podia esperar deparar com a cabeça grisalha de Lewis inclinada na direção de uma jovem bonita e sorridente com um terço de sua idade.

— Olhe só o velho patife em ação novamente — podia comentar Walter Barnes.

A esposa dele sorria, mas seria muito difícil dizer o que significava aquele sorriso.

Pois Lewis usava sua reputação cômica para camuflar a seriedade de seu coração, recorria a seus romances públicos com as mocinhas para esconder seus relacionamentos mais profundos e sinceros com mulheres mais velhas. Ele podia passar as noites com as mocinhas, mas se encontrava uma ou duas vezes por semana com as mulheres a quem realmente amava, de tarde, enquanto os maridos estavam trabalhando. A primeira dessas mulheres fora Stella Hawthorne, sob muitos aspectos o menos satisfatório de seus amores, fixando os padrões para os seguin­tes. Stella era por demais espontânea e espirituosa, tratando-o com indiferença. Ela estava se divertindo, e pura diversão era o que proporcionavam a Lewis as cabeleireiras e jovens profes­soras da escola secundária. Lewis queria sentimento. Queria emoção... do que muito precisava. Stella era a única esposa de Milburn que, testada, se esquivara a tal necessidade. Stella lhe devolvera a imagem de playboy, conscientemente. Lewis a ama­ra intensamente por algum tempo, mas suas necessidades não haviam sido atendidas. Stella não queria a exacerbação dos sen­timentos de Sturm und Drang; Lewis, no fundo do seu coração carente, sabia que desejava reencontrar as emoções que Linda lhe proporcionara. O frívolo Lewis era apenas o Lewis da su­perfície. Tristemente, deixara Stella se afastar; as insinuações que fizera e a emoção que oferecera haviam-na deixado indife­rente. E sabia que Stella pensava que, depois dela, ele se lançara simplesmente a uma sucessão interminável de ligações vazias com mulheres bem mais jovens.

Em vez disso, porém, Lewis tivera, oito anos antes, uma ligação séria com Leota Mulligan, a esposa de Clark Mulligan. E depois de Leota fora a vez de Sonny Venuti, em seguida Laura Bautz, a esposa do dentista Harlan Bautz, e finalmente Christina Barnes, um caso que começara há um ano. Acalentara cada uma dessas mulheres. Amara a estabilidade delas, a afeição aos maridos, seus desejos, suas atitudes. Adorava conversar com elas. E todas essas mulheres o compreendiam e cada uma soubera exatamente o que ele estava oferecendo: mais um pseudocasamento secreto do que uma ligação amorosa.

Quando a emoção começava a se tornar gasta e repetida, estava na hora de encerrar a relação. Lewis ainda amava cada uma daquelas mulheres, ainda amava Christina Barnes, mas...

O “mas” era aquela parede que estava diante dele. A parede era o que Lewis chamava o momento em que começava a pensar que seus relacionamentos profundos eram tão triviais quanto seus romances públicos e com mulheres mais jovens. Era o momento de se retrair. E frequentemente, nos momentos de retração, Lewis se descobria a pensar em Stella Hawthorne.

Mas não podia ficar pensando na perspectiva de uma tarde com Stella Hawthorne. Fantasiar isso seria confirmar a própria insensatez para si mesmo.

O que poderia ser mais insensato do que a cena ridícula daquela manhã? Lewis afastou-se da pia e foi até a janela, olhan­do para o caminho que se embrenhava pelo bosque, recordando como correra por ali, ofegante, o coração disparado pelo terror. Era o que se podia classificar de verdadeira estupidez. A neve fofa caía lá fora, o bosque familiar parecia ter criado braços brancos, a trilha de retorno estava inofensivamente vazia, for­mando um ângulo atraentemente estranho, sem levar a parte alguma.

— Quando se cai de um cavalo, o jeito é montar de novo — disse Lewis para si mesmo.

O que acontecera? Será que ouvira... vozes? Não, não fora isso; ouvira a si mesmo, pensando. Assustara-se ao recordar com extrema nitidez a última noite de Linda viva. Isso e mais o pesadelo — Sears e John avançando em sua direção — haviam confundido suas emoções, levando-o a se comportar como al­guém de uma das histórias da Sociedade Chowder. Nenhum estranho maléfico se postara atrás dele na trilha de volta para casa. Não se podia andar pelo bosque sem se fazer ouvir. Tudo podia ser perfeitamente explicado.

Lewis subiu para seu quarto, vestiu um suéter e um casaco com capuz, desceu novamente e saiu pela porta da cozinha.

As pegadas que deixara pela manhã já estavam começando a ficar cobertas pela neve que continuava a cair. O ar estava extremamente agradável, frio e penetrante. Se não podia caçar guaxinins com Otto Gruebe, poderia pelo menos esquiar muito em breve. Lewis foi até a beira do pátio de lajes e seguiu em frente, pela trilha. Lá em cima, o céu estava escuro, com algu­mas nuvens refulgentes; uma claridade cinzenta se espalhava pelo dia. A neve nos galhos dos pinheiros brilhava, tão branca quanto o luar.

Determinado, foi avançando pela trilha por onde normal­mente voltava. Seu próprio medo o surpreendeu, fazendo formi­gar a boca e a barriga, em expectativa.

— Estou aqui e quero ver se vem apanhar-me — disse ele, sorrindo.

Não sentiu a presença de coisa alguma, a não ser o dia e o bosque, a casa atrás de si; depois de um momento, compreen­deu que até mesmo o medo desaparecera.

E agora, caminhando pela neve recente na direção do bos­que, Lewis experimentou uma percepção nova. Talvez fosse porque estivesse vendo o bosque de um ângulo diferente e pouco familiar, indo por onde habitualmente voltava, talvez fosse porque estivesse andando pela primeira vez em muitas semanas, ao invés de correr. Qualquer que fosse a razão, a verdade é que o bosque parecia uma ilustração num livro, não um bosque de verdade, mas um desenho no papel. Era um bosque de conto de fadas, parecendo perfeito demais, certinho demais, desenhado em tinta preta, para ser real. Até mesmo a trilha, serpenteando sem direção definida, parecia uma trilha de conto de fadas.

Eram a extrema claridade e definição que produziam o mis­tério. Cada galho desfolhado e pontudo, cada emaranhado de hastes, cada coisa, enfim, sobressaía separadamente, isoladamen­te, reluzindo com sua própria vida. Alguma estranha magia pairava por ali, logo além do ponto em que a visão podia alcan­çar. Ao se embrenhar mais fundo pela mata, onde a neve recente ainda não penetrara, Lewis avistou suas próprias pegadas da manhã, que também pareciam uma ilustração e parte do conto de fadas, meio fantasmagóricas, pegadas na neve vindo em sua direção.

Lewis estava inquieto demais para ficar parado depois de sua caminhada. O vazio da casa proclamava que ali não havia nenhuma mulher e não haveria por algum tempo, a menos que Christina Barnes aparecesse para uma cena final. Há semanas que uns poucos trabalhos na casa reclamavam sua atenção — precisava verificar como estava a fossa, a mesa de jantar merecia um bom polimento, assim como quase toda a prataria —, mas tudo isso poderia esperar mais um pouco. Ainda com o suéter e o casaco de capuz, Lewis vagueou pela casa, indo de um andar para outro, jamais se demorando em qualquer cômodo.

Entrou na sala de jantar. A mesa grande de mogno parecia censurá-lo; a superfície estava opaca, ligeiramente arranhada aqui e ali, das ocasiões em que servira a Comida em louça de barro espanhola, sem se dar o trabalho de usar esteiras. As flores no vaso no centro da mesa haviam definhado; umas pou­cas pétalas, como abelhas mortas, estavam caídas sobre a ma­deira. “Esperava realmente ver alguém lá fora?”, perguntou Lewis a si mesmo. “E está desapontado por não ter visto?”

Saindo da sala de jantar com o vaso de flores murchas nas mãos, Lewis avistou novamente o bosque de conto de fadas. Os galhos reluziam, os espinhos sobressaíam como tachas, insinuan­do alguma narrativa sobre a qual ele já fechara o livro.

“Ora...” Lewis sacudiu a cabeça, levando as flores mur­chas para a cozinha e jogando-as na lata de lixo. “A quem espe­rava encontrar? A si mesmo?” Inesperadamente, Lewis corou.

Largou o vaso vazio em cima da pia e saiu novamente da casa, atravessando o pátio até o antigo estábulo, que algum proprietário anterior convertera em garagem e depósito de fer­ramentas. O Morgan estava estacionado ao lado de uma ban­cada de carpintaria, coberta de chaves de parafusos, alicates e pincéis dentro de latas. Lewis abaixou a cabeça, abriu o carro e sentou-se ao volante.

Saiu da garagem e saltou do carro para fechar a porta pe­sada. Depois, voltou ao carro e seguiu pelo caminho margeado de árvores na direção da estrada. No mesmo instante sentiu que voltava a ser ele próprio: a capota de lona do Morgan sacudia-se ao vento, o ar frio lhe desmanchava os cabelos, o tanque estava quase cheio.

Quinze minutos depois, estava cercado por colinas e cam­pos abertos, com pequenos capões a intervalos. Seguiu por es­tradas secundárias, a uma velocidade de cento e dez quilômetros horários, algumas vezes acelerando até cento e trinta, quando se encontrava numa boa reta. Contornou o vale Chenago, acom­panhou o rio Tioughnioga até Whitney Point, depois virou para oeste, na direção de Richford e Caroline, no vale Cayuga. Às vezes, nas curvas, a traseira do pequeno carro derrapava um pouco, mas Lewis o controlava habilmente, sem sequer pensar no que estava fazendo. Lewis guiava muito bem, instintiva­mente.

Finalmente percebeu que estava seguindo pelo mesmo ca­minho e da mesma forma que no tempo em que era um estu­dante voltando a Cornell. A única diferença era o fato de a velocidade inebriante naquela ocasião ser de cinqüenta quilôme­tros horários.

Depois de quase duas horas guiando por pequenas estradas secundárias, passando por fazendas e parques estaduais, só para ver o que lhes tinha acontecido, Lewis podia sentir o rosto en­torpecido pelo frio. Estava no Condado de Thompkins, perto de Ithaca, uma região mais lírica do que ao redor de Bingham­ton. Chegou ao topo das colmas, onde podia avistar a estrada preta atravessando vales e serpenteando por encostas cobertas de árvores. O céu escureceu bastante, embora a tarde ainda andasse pelo meio. Lewis teve a impressão de que cairia mais neve antes do anoitecer. Depois, à sua frente, numa reta extensa o bastante para acelerar até a velocidade necessária, avistou um trecho largo da estrada onde poderia fazer o Morgan dar uma volta completa, um cavalo-de-pau. Mas recordou a si mesmo que já estava com sessenta e cinco anos, velho demais para rea­lizar proezas com um carro. Em vez disso, aproveitou o trecho mais largo para fazer a volta e seguir de novo para casa.

Indo agora mais devagar, atravessou o vale na direção de Hartford, virando para leste. Nas retas, sempre acelerava o carro um pouco, mas tomando cuidado para se manter abaixo dos cento e dez quilômetros horários. Mesmo assim, continuava sentindo bastante prazer, na velocidade e no ar frio batendo em seu rosto, no controle hábil do pequeno carro. Tudo o fazia quase sentir que era novamente um rapaz, deixando a universi­dade e voando pelas estradas de volta para casa. Uns poucos flocos de neve maiores começaram a cair.

Perto do aeroporto, nos arredores da Glen Aubrey, passou por uma fileira de bordos desfolhados e viu neles a mesma claridade refulgente do seu próprio bosque. As árvores pareciam inundadas de magia, com algum significado oculto que fazia parte de uma história complexa, heróis transformados em rapo­sas, príncipes sofrendo a maldição de um feiticeiro. Ele viu as pegadas correndo em sua direção.

“...vamos supor que saia para dar uma caminhada e veja a si mesmo correndo em sua direção, os cabelos esvoaçando, o rosto contorcido pelo medo.

Sentiu um frio por dentro, tão intenso quanto o frio no rosto. À sua frente, parada no meio da estrada, estava uma mu­lher. Teve tempo apenas para perceber o alarma na postura dela, os cabelos caídos sobre os ombros. Deu uma guinada no volante, perguntando-se de onde diabo ela saíra — “Santo Deus, ela pulou para o mesmo lado que o carro” —, ao mesmo tempo em que percebia que iria inevitavelmente atingi-la. O carro ia der­rapar de lado.

A traseira do Morgan foi deslizando lentamente na direção da mulher. Depois, todo o carro estava derrapando de lado e Lewis não mais a viu. Em pânico, deu uma guinada no volante para o outro lado. O tempo parecia ter-se reduzido a um casulo sólido, envolvendo-o, sentado num carro descontrolado. De­pois, o momento mudou, o casulo se rompeu e o tempo voltou a fluir novamente. Lewis compreendeu, mais passivo do que em qualquer outra ocasião de sua vida, que o carro saíra da estrada; tudo estava acontecendo com uma lentidão inacreditável, quase preguiçosamente, o Morgan flutuando no ar.

Tudo terminou um momento depois. O carro parou num campo, com um terrível solavanco, com a frente voltada para a estrada. Lewis não avistava em parte alguma a mulher que poderia ter atropelado. Sentiu gosto de sangue na boca; as mãos tremiam, apertando o volante com força. Talvez tivesse atingido a mulher e jogado o corpo numa vala. Teve que fazer um tre­mendo esforço para abrir a porta. Saltou. Descobriu que as pernas também estavam tremendo. Compreendeu imediatamen­te que não teria a menor possibilidade de tirar o Morgan dali. Os pneus traseiros estavam totalmente atolados no campo. Pre­cisaria de um reboque.

— Ei! — gritou ele. — Está bem? — Obrigou as pernas a se moverem, enquanto gritava novamente: — Está machu­cada?

Quase cambaleando, Lewis encaminhou-se para a estrada. Viu as marcas que o carro deixara. Os quadris lhe doíam. Sentia-se de repente muito velho.

—  Ei, moça!

Não podia avistar a jovem em parte alguma. Com o cora­ção descompassado, foi até a beira da estrada, receando o que poderia ver na vala que ali havia, braços e pernas estendidos em ângulos disformes, cabeça torcida... mas a vala continha apenas uma camada de neve intata. Olhou para um lado e outro da estrada: não havia qualquer mulher à vista.

Lewis acabou desistindo. De alguma forma, a mulher sumira tão bruscamente quanto aparecera; ou então ele simples­mente imaginara tê-la visto. Esfregou os olhos. Os quadris lhe doíam, os ossos pareciam estar roçando uns nos outros. Foi andando pela estrada, esperando achar uma casa de fazenda de onde pudesse telefonar para pedir socorro. Quando finalmente a encontrou, um homem com uma espessa barba preta e olhos animais deixou-o usar o telefone, mas obrigou-o a ficar esperan­do do lado de fora, no alpendre, até a chegada do reboque.

 

Lewis só chegou em casa depois das sete horas. Estava faminto. E bastante irritado. A moça lá estivera apenas por um momento pulando à sua frente como uma corça; depois que entrara na derrapagem, perdera-a de vista inteiramente. Mas naquela reta comprida, para onde ela poderia ter corrido, depois que ele fora parar no campo? Assim, talvez ela estivesse real­mente morta, o corpo caído numa vala. Mas até mesmo um cachorro atropelado deixaria uma marca na carroçaria do Mor­gan... e o carro estava intato.

— Mas que diabo! — exclamou ele, em voz alta.

O carro estava parado diante da casa; Lewis entrara há poucos minutos, o suficiente para se esquentar. A inquietação do meio-dia, a sensação de que se não saísse dali alguma coisa terrível iria acontecer — que algo pior do que o acidente estava apontado para ele como uma arma — voltara subitamente. Lewis subiu ao seu quarto, tirou o suéter e o casaco, vestiu uma camisa limpa, uma gravata e um blazer. Iria até o Hum­phrey’s Place, comeria um hambúrguer, tomaria algumas cerve­jas. Era o melhor que tinha a fazer naquele momento.

 

O estacionamento estava quase repleto e Lewis teve que parar numa vaga perto da estrada. A nevasca ligeira cessara ao final da tarde, mas o ar continuava frio e tão pungente que se tinha a impressão de que era possível quebrá-lo em pedaços com as mãos. Cartazes de cervejas brilhavam nas janelas do prédio comprido e cinzento; a country music, do pequeno conjunto de quatro músicos, atravessava o estacionamento até Lewis. Wabash cannonball.

Uma nota mais aguda do violino penetrou no cérebro de Lewis assim que ele entrou. Franziu o rosto e olhou para o músico tocando o instrumento, os cabelos caindo até os ombros, o quadril esquerdo e o pé direito se mexendo no ritmo. Mas os olhos do rapaz estavam fechados e ele não podia perceber a reação de Lewis. No instante seguinte, a música voltou a ser apenas música, embora a dor de cabeça de Lewis perdurasse. O bar estava apinhado e fazia tanto calor que Lewis começou a suar quase que imediatamente. Humphrey Stalladge, grande e informe, um avental por cima da camisa branca, deslocava-se de um lado para outro, por trás do balcão. Todas as mesas perto do conjunto pareciam estar ocupadas por garotos, toman­do cerveja em canecas. Olhando-os por trás, sentados ali, Lewis não podia sinceramente distinguir entre os rapazes e as moças. “E se visse a si mesmo correndo em sua direção, correndo na direção dos faróis de seu carro, os cabelos esvoaçando, o rosto contorcido pelo medo...”

—  Vai querer alguma coisa, Lewis? — perguntou Hum­phrey.

—  Duas aspirinas e uma cerveja. Estou com uma tremen­da dor de cabeça. E quero também um hambúrguer, Humphrey. Obrigado.

Na outra extremidade do balcão, tão longe do conjunto musical quanto era possível, parecendo ao mesmo tempo mo­lhado e sujo, Omar Norris era o centro das atenções de um grupo de homens. Enquanto ele falava, os olhos se esbugalha­vam e as mãos faziam movimentos amplos. Lewis sabia que, se chegasse perto o suficiente, acabaria vendo a saliva de Omar brilhando nas lapelas dos homens que o cercavam. Quando era mais jovem, as histórias de Omar sobre os meios que empre­gava para escapar do controle da esposa e os estratagemas ao melhor estilo de W. C. Fields para evitar o trabalho, embora fosse encarregado de manobrar o removedor de neve da cidade e todos os anos servisse como Papai Noel da loja de departa­mentos, ainda podiam ser bastante divertidas. Agora, porém, Lewis ficou um tanto surpreso ao constatar que alguém ainda fosse capaz de ouvir as histórias dele. Estavam até mesmo pa­gando-lhe drinques. Stalladge voltou com os comprimidos de aspirina e pôs um copo de cerveja diante dele, informando:

—  O hambúrguer já está a caminho.

Lewis pôs as aspirinas na língua e depois as engoliu. O conjunto deixara de tocar Wabash cannonball e estava atacando outra música, uma canção que ele não reconheceu. Uma das moças nas mesas diante do conjunto se virara e estava olhando para ele. Lewis fez-lhe um aceno com a cabeça.

Terminou de tomar a cerveja e olhou para o resto da mul­tidão. Havia apenas uns poucos reservados vazios na frente.  Olhou para Humphrey e apontou para o copo. Depois que es­tava cheio novamente, pegou-o e foi para um dos reservados, atravessando o bar. Se não se apressasse a ocupar um deles, seria forçado a passar a noite inteira no balcão. No meio do caminho, acenou com a cabeça para Rollo Draeger — que vinha até ali para escapar às queixas incessantes de Irmengard — e só então reconheceu o rapaz sentado ao lado da moça que o fitara: Jim Hardie, o filho de Eleanor, que ultimamente saía quase que invariavelmente com a filha de Draeger. Olhou novamente para o casal e descobriu que ambos o estavam fitando agora. Lewis achava que Jim Hardie era um rapaz meio esquisito, grande e forte, bastante louro, mas com um brilho selvagem nos olhos. Estava sempre sorrindo. Walt Hardesty dissera a Lewis que provavelmente fora Jim Hardie quem ateara fogo ao velho es­tábulo abandonado de Pugh e também incendiara um campo. O rapaz estava sorrindo naquele momento. E Lewis constatou que a moça em sua companhia era mais velha que Penny Drae­ger e também mais bonita.

Lewis recordou-se de uma época, anos antes, em que tudo era mais simples, quando ele é que estaria sentado ao lado de uma moça, escutando uma orquestra, de Noble Sissle ou Benny Goodman. A recordação fê-lo correr os olhos pela sala automa­ticamente, à procura do rosto expressivo de Stella Hawthorne. Mas sabia, desde o momento em que entrara e registrara o fato na mente semiconscientemente, que ela não estava ali.

Humphrey apareceu com o hambúrguer, olhou para o copo dele e disse:

—  Se vai beber tão depressa assim, não prefere uma caneca?

Lewis nem mesmo percebera que já havia terminado o segundo copo de cerveja.

—  Boa idéia.

—  Não me parece muito animado — comentou Hum­phrey.

O conjunto, que estivera discutindo alguma coisa, voltou a tocar neste momento, ruidosamente, poupando a Lewis a ne­cessidade de responder. As duas garçonetes que ajudavam Hum­phrey, Anni e Annie, entraram na sala, provocando uma onda de calor. Eram razão suficiente para se ficar por ali. Anni era meio cigana, os cabelos pretos encaracolados flutuando em torno de um rosto sensual; Annie parecia uma viking, com pernas fortes e bem torneadas, e lindos dentes. As duas tinham trinta e poucos anos e falavam como professoras universitárias. Vi­viam com seus homens fora da cidade e não tinham filhos. Lewis gostava muito de ambas e já saíra com as duas para jantar fora. Anni viu-o e acenou. Lewis acenou em resposta, enquanto o guitarrista, apoiado por um violino estridente, gri­tava:

 

“Você perdeu seu amor, eu perdi o meu,

então vamos encontrar

um jardim vago para semear nossos sonhos?”

 

Humphrey afastou-se, para dar instruções às garçonetes. Lewis deu uma mordida no hambúrguer.

Ao levantar os olhos, deparou com Ned Rowles parado a seu lado. Lewis alteou as sobrancelhas e, ainda mastigando, co­meçou a levantar-se e fez um gesto para que Rowles entrasse no reservado. Ele também gostava de Ned Rowles, que trans­formara The Urbanite num jornal interessante, não se limitan­do, como os típicos jornais de cidades pequenas, a notícias sobre piqueniques dos bombeiros e anúncios de vendas em mercearias.

—  Ajude-me a acabar com isto — disse ele, despejando um pouco da cerveja da caneca no copo quase vazio de Ned.

—  E eu não ganho nada? — indagou uma voz mais pro­funda e mais seca às suas costas.

Aturdido, Lewis virou a cabeça e viu Walt Hardesty fi­tando-o. O que explicava por que Lewis não vira Ned ao che­gar; ele e Hardesty estavam na sala dos fundos, onde Humphrey costumava guardar caixas de cerveja. Lewis sabia que Hardesty, que ano a ano ia se entregando à bebida tanto quanto Omar Norris, algumas vezes passava a tarde inteira na sala dos fun­dos; o xerife não bebia na presença de seus auxiliares.

—  Claro, Walt — disse ele. — Não o tinha visto. Por favor, sente-se também.

Ned Rowles fitava-o com uma expressão estranha. Lewis tinha certeza de que o editor do jornal achava Hardesty tão enfadonho quanto ele e não estava mais querendo ficar em sua companhia. Mas será que estava esperando que ele mandasse o xerife embora? O que quer que pudesse significar seu olhar, o fato é que Rowles deslizou para o outro lado do banco, a fim de dar lugar ao xerife. Hardesty ainda estava usando o casaco de sair à rua, o que indicava que a sala dos fundos era provavelmente fria. Como o universitário que parecia, Ned resistia ao máximo com apenas um casaco de tweed como única proteção contra o inverno.

Lewis logo percebeu que os dois homens o fitavam de maneira estranha e sentiu um aperto no coração. Será que, no final das contas, atropelara mesmo a moça? E será que alguém anotara a placa do seu carro? Era culpado de ter atropelado uma pessoa e fugido!

—  Tem alguma coisa de especial a falar, Walt, ou quer apenas tomar uma cerveja? — perguntou Lewis, enchendo o copo de Hardesty enquanto falava.

— Nesse momento, vou contentar-me com a cerveja, Sr. Benedikt — disse Hardesty. — Um dia terrível, hein?

—  Foi, sim.

— Terrível demais — disse Ned Rowles, passando a mão pelos cabelos que caíam pela testa e olhando para Lewis. — Não parece estar muito bem, companheiro. Talvez seja melhor ir para casa e descansar um pouco.

O comentário deixou Lewis ainda mais perplexo do que antes. Se atropelara a moça e eles soubessem disso, o xerife não o deixaria ir para casa tranquilamente.

—  Ando sentindo-me um tanto inquieto quando estou em casa — murmurou ele. — Mas me sentiria muito melhor se as pessoas parassem de dizer que estou com um aspecto horrível.

—  A vida é uma coisa terrível — comentou Ned Rowles. — Acho que ninguém pode deixar de concordar.

—  Também acho — disse Hardesty, terminando sua cer­veja e servindo-se de mais.

O rosto de Ned tinha uma expressão aflita de. . . de quê? Parecia de compaixão. Lewis despejou mais um pouco de cer­veja no copo dele. O violinista passara a tocar uma guitarra e a música estava agora tão alta que os três homens tinham de se inclinar para se fazerem ouvir. Lewis podia ouvir fragmentos da letra da música, frases berradas aos microfones.

 

“...é o caminho errado, meu bem... o caminho errado...”

 

— Estava pensando nos meus tempos de garoto, quando ia ouvir Benny Goodman — disse ele.

Ned Rowles levantou a cabeça bruscamente, parecendo confuso.

—  Benny’ Goodman? — repetiu Hardesty, desdenhosa­mente. — Pois eu gosto da country music, mas a verdadeira, não a porcaria que esses garotos tocam. Gosto de gente como Hank Williams e Jim Reeves.

Lewis pôde sentir o bafo do xerife, metade cerveja e me­tade fétido, como se ele tivesse comido lixo.

—  Mas também você é muito mais jovem do que eu — falou para o xerife.

Ned interveio na conversa:

—  Eu só queria que soubesse o quanto lamentei o que aconteceu.

Lewis fitou-o abruptamente, procurando imaginar qual a extensão da encrenca em que se metera. Hardesty estava fazen­do sinal para que Annie, a viking, trouxesse outra caneca de cerveja. Chegou minutos depois, derramando um pouco quando ela a pôs em cima da mesa. Ao se afastar, Annie piscou para Lewis.

Em algum momento, durante a manhã, Lewis se recorda­va, assim como em algum momento durante a volta no Mor­gan... bordos desfolhados... ele percebera uma estranha cla­reza, que parecia de sonho, tivera uma visão definitiva das coisas, como se estivesse olhando para um desenho... um bos­que assombrado, um castelo cercado por árvores cheias de pontas...

 

“...é o caminho errado, meu bem, o caminho errado...”

 

... mas agora ele se sentia atordoado e confuso, tudo era estranho e a piscadela de Annie parecia saída de um filme surrealista...

 

“...o caminho errado...”

 

Hardesty inclinou-se para a frente e abriu a boca. Lewis viu uma ponta de sangue no olho esquerdo do xerife, pairando abaixo da íris azul, como um ovo fertilizado.

—  Vou contar-lhe uma coisa — berrou Hardesty. — Te­mos as quatro ovelhas mortas, entende? As gargantas cortadas. Não havia sangue nem pegadas. O que acha disso?

—  Você é que é da polícia e deve dizer-me o que acha — respondeu Lewis, alteando a voz para poder ser ouvido acima do barulho da música.

—  Acho que é um mundo muito esquisito... e vai ficar cada vez mais esquisito — gritou Hardesty, lançando a Lewis um dos seus olhares de ranger do Texas. — Muito esquisito mesmo! E tenho a impressão de que” os dois advogados, seus amigos, sabem alguma coisa a respeito.

—  Creio que isso é bastante improvável — interveio. Ned Rowles. — De qualquer maneira, quero ver se um deles escre­ve alguma coisa sobre o Dr. John Jaffrey para o jornal. Isto é, a menos que você queira escrever, Lewis.

—  Escrever sobre John para The Urbanite?

— Umas cem palavras, talvez duzentas, o que achar que deve dizer a respeito dele.

—  Mas por quê?

—  Porque não vai querer certamente que Omar Norris seja o único a...

Hardesty parou de falar abruptamente, continuando de boca aberta. Parecia inteiramente desconcertado. Lewis esticou a cabeça para ver Omar Norris, do outro lado da sala apinhada, ainda sacudindo os braços e falando. No. balcão, diante dele, havia uma fileira de drinques. Aumentou a sensação que expe­rimentara durante todo o dia, de que algo terrível acontecera bem perto dele. Um acorde desafinado do violino atravessou-o como uma flecha: “É isso, é isso...”

Ned Rowles inclinou-se sobre a mesa e tocou na mão de Lewis, murmurando:

—  Eu estava certo de que você já sabia...

— Estive fora o dia inteiro. Eu... o que aconteceu?

“Um dia depois do aniversário da morte de Edward”, pensou ele, sabendo com toda a certeza que John Jaffrey estava morto. Recordou-se em seguida de que o ataque cardíaco de Edward ocorrera depois da meia-noite e que aquele dia é que era o aniversário de sua morte.

O xerife tomou um gole de cerveja e fez uma carranca para Lewis, com um ar ameaçador.

—  Ele pulou da ponte antes do meio-dia de hoje. Prova­velmente já estava morto antes de bater na água. Omar Norris viu tudo.

—  Ele pulou da ponte... — repetiu Lewis, baixinho. Por alguma razão,  desejou ter realmente  atropelado  aquela moça... era um desejo momentâneo, mas significaria que John ainda estaria vivo. — Ó Deus...

—  Pensávamos que Sears ou Ricky já o tinham informado — explicou Ned Rowles. — Eles concordaram em se encarregar de todas as providências para o funeral...

—  Ó, Deus, John vai ser enterrado...

Lágrimas surpresas afloraram aos olhos de Lewis. Ele se . levantou e começou a sair do reservado, meio desajeitadamente.

—  Poderia dar-me alguma informação útil? — perguntou Hardesty.

—  Não! Tenho que ir até lá. Não sei de nada. Tenho que ver os outros.

—  Basta avisar, se precisar de minha ajuda — gritou Ned, por cima do barulho.

Sem olhar realmente para onde estava indo, Lewis esbar­rou em Jim Hardie, que se postara sem ser visto diante do reservado.

—  Desculpe, Jim — murmurou Lewis.

Já ia passando por Jim e a moça, quando o rapaz segurou-lhe o braço.

— Esta moça queria conhecê-lo — disse Jim Hardie, com um sorriso desagradável. — Por isso, estou fazendo a apresen­tação. Ela está hospedada em nosso hotel.

—  Não tenho tempo agora. Preciso ir embora imediata­mente.

A mão firme de Jim Hardie continuou a segurar seu braço.

—  Espere um pouco. Estou apenas fazendo o que ela me pediu. Sr. Benedikt, essa é Anna Mostyn.

Pela primeira vez, desde que os olhos dos dois se haviam encontrado, Lewis olhou para a moça. Descobriu que não era mais uma moça; deveria estar em torno dos trinta anos, um a mais ou a menos. Era qualquer coisa, menos um dos flertes típicos de Jim Hardie.

—  Anna, esse é o Sr. Lewis Benedikt. Acho que ele é o velho mais atraente da região, talvez mesmo de todo o Estado. E sabe disso.

A mulher se tornava mais surpreendente quando se a olha­va. Fazia Lewis recordar alguém e ele imaginou que fosse Stella Hawthorne. Passou-lhe pela cabeça, subitamente, que já não lembrava mais como Stella fora aos trinta anos.

Uma figura arruinada de um quadro sobre as condições de vida inferiores, Omar Norris o estava apontando do balcão. Ainda sorrindo desagradavelmente, Jim Hardie largou o braço de Lewis. O rapaz com o violino jogou a cabeça para trás, femininamente, atacando outro número.

—  Sei que tem de ir embora — disse a mulher, a voz baixa, mas podendo ser ouvida nitidamente, apesar de todo o barulho. — Soube do que aconteceu com seu amigo por inter­médio de Jim e queria apenas dizer-lhe que lamento muito.

—  Eu mesmo acabei de saber — murmurou Lewis, angus­tiado pela vontade de sair imediatamente do bar. — Prazer em conhecê-la, Srta....

—  Mostyn. Espero que nos possamos encontrar novamen­te. Vou trabalhar com os seus amigos advogados.

—  É mesmo? Bom... — O significado do que ela aca­bara de falar finalmente se registrou na mente de Lewis. — Sears e Ricky lhe deram um emprego?

—  Exatamente. Acho que eles conheceram minha tia. Por acaso não a teria conhecido também? O nome dela era Eva Galli.

—  Santo Deus! — exclamou Lewis. E cambaleou para o interior do bar, antes de mudar de direção e sair correndo pela porta.

—  O velho conquistador deve estar com o cu na mão por algum motivo — murmurou Jim. — Oh, desculpe, dona... Isto é, Srta. Mostyn.

 

(A Sociedade Chowder acusada)

 

A capota de lona do Morgan rangendo, o vento zunindo, Lewis seguiu para a casa de John o mais depressa que pôde. Não sabia o que esperava encontrar ali. Talvez alguma derra­deira reunião da Sociedade Chowder, Ricky e Sears falando com racionalismo lúgubre ao lado de um caixão aberto. Ou talvez Ricky e Sears magicamente mortos e envoltos nas túni­cas pretas do seu pesadelo, três corpos num quarto do andar superior...

“Ainda não”, disse sua mente.

Parou o carro diante da casa da Montgomery Street e saltou. O vento soprou o blazer para longe do seu corpo e puxou a gravata. Lewis compreendeu que, como Ned Rowles, também estava sem sobretudo. Olhou para as janelas às escuras, desesperado, pensando que pelo menos Milly deveria estar na casa. Subiu pelo caminho e apertou a campainha. Ouviu o to­que, muito longe e fraco. Imediatamente abaixo ficava o botão da campainha do consultório, Usada pelos pacientes de John. Apertou-o também e ouviu um clamor impaciente soar logo além da porta. Parado ali no frio, como se estivesse nu, Lewis começou a tremer. Sentiu um pouco de água gelada no rosto. A princípio, pensou que fosse neve, mas no instante seguinte compreendeu que estava chorando.

Lewis bateu na porta inutilmente, virou-se, as lágrimas pa­recendo gelo em suas faces. Olhou para o outro lado da rua, vendo a antiga casa de Eva Galli.

Prendeu a respiração. Teve a impressão de vê-la novamen­te, a sedutora de sua juventude, passando por uma janela do andar térreo.

Por um momento, tudo possuía a mesma clareza e defi­nição da manhã. Lewis sentiu que seu estômago se congelava. No instante seguinte, a porta da casa se abriu e ele percebeu que o vulto que saía era um homem. Lewis passou as mãos pelo rosto. O homem obviamente queria falar-lhe. Quando ele se aproximou, Lewis reconheceu-o: era Freddy Robinson, o cor­retor de seguros. Ele era também um dos fregueses habituais do Humphrey’s Place.

—  Lewis? — gritou ele. — Lewis Benedikt? Mas que bom encontrá-lo, cara!

Lewis começou a se sentir da mesma forma que no bar: queria escapar a qualquer custo.

—  Sou eu mesmo...

—  Foi uma pena o que aconteceu com o velho Dr. Jaffrey, hein? Eu soube esta tarde. Ele não era dos seus grandes ami­gos? — Robinson estava agora perto o bastante para um aperto de mão e Lewis não pôde evitar o contato dos dedos frios do corretor de seguros. — Uma coisa terrível, hein? É o que eu costumo chamar de uma tremenda tragédia. Que coisa! — O corretor estava sacudindo a cabeça, com um ar sisudo. — Vou dizer-lhe uma coisa. O velho Dr. Jaffrey não era um homem de muita conversa, mas eu gostava um bocado dele. Sinceramente. Quando me convidou para a festa que ofereceu àquela atriz, fiquei na maior alegria. E que festa! Como me diverti! Foi uma festa espetacular. — Deve ter percebido Lewis ficar rígido, pois apressou-se em acrescentar: — Antes do final, é claro.

Lewis estava olhando para o chão, sem se dar ao trabalho de responder aos comentários tétricos. Freddy Robinson apro­veitou o silêncio para continuar a falar:

—  Ei, está parecendo meio chumbado. Não vai querer ficar aqui fora no frio, não é mesmo? Por que não vamos até minha casa e tomamos um drinque? Eu bem que gostaria que me contasse suas experiências, aproveitar um pouco os seus co­nhecimentos, verificar sua situação de seguro...  de qualquer forma, não há ninguém na casa do Dr. Jaffrey...

Como Jim Hardie, ele segurou o braço de Lewis, que pôde sentir desespero e ânsia em sua voz, apesar da angústia que o dominava. Se pudesse algemar Lewis e arrastá-lo para o outro lado da rua, Robinson certamente o faria. Lewis sabia que Ro­binson, por motivos particulares que não podia conhecer, iria grudar-se a ele como um carrapato, se permitisse.

—  Infelizmente, não vou poder — murmurou Lewis, mais polido do que habitualmente seria, por sentir a necessidade an­gustiante do corretor de seguros. — Tenho que ir falar com algumas pessoas.

—  Deve estar querendo encontrar-se com Sears James e Ricky Hawthorne — disse Robinson, já derrotado, largando o braço de Lewis. — Puxa, o que vocês fazem é sensacional e admiro realmente, todo esse negócio do clube e o resto.

— Pois não sinto a menor admiração por nós — disse Lewis, já se encaminhando para o carro. — Alguém nos está liquidando como se fôssemos moscas.

As últimas palavras foram pronunciadas quase com indi­ferença, uma simples observação para se descartar de um impor­tuno. Minutos depois, Lewis já havia esquecido o que dissera.

 

Percorreu os oito quarteirões até a casa de Ricky porque era inconcebível que Sears houvesse levado Milly Sheehan para sua casa. Ao chegar, constatou que estava certo. O velho Buick de Ricky estava parado na entrada de carros.

—  Estou vendo que já soube — disse Ricky assim que abriu a porta. — Estou contente que tenha vindo.

O nariz dele estava vermelho e Lewis pensou que fosse de muito chorar, mas logo percebeu que Ricky estava bastante resfriado.

—  Já soube, sim. Encontrei Hardesty e Ned Rowles e eles me contaram. E como você soube?

—  Hardesty telefonou para o escritório.

Os dois entraram na sala de estar e Lewis avistou Sears James, o rosto franzido por ter ouvido o nome do xerife. Stella veio da sala de jantar, arquejou e correu para abraçá-lo.

— Sinto muito, Lewis — disse ela. — É uma coisa ter­rível!

— Ainda estou achando impossível — murmurou ele.

— Talvez seja, mas não resta a menor dúvida de que era mesmo o corpo de John que foi levado para o necrotério do condado hoje — comentou Sears, com voz tensa. — Quem pode dizer o que é impossível? Todos estamos vivendo sob pressão. E pode ser que amanhã eu também pule da ponte.

Stella deu um apertão extra no braço de Lewis e foi sentar no sofá, ao lado de Ricky. A mesa de café italiana diante dele parecia ter o tamanho de um rinque de patinação no gelo.

— Está precisando de um café — disse Stella, examinan­do Lewis mais atentamente e depois levantando-se outra vez para ir à cozinha.

Sears continuou a falar, indiferente à interrupção:

— Qualquer um julgaria impossível que três homens adul­tos, como nós, tivessem que ficar reunidos em busca de alguma segurança. No entanto, aqui estamos.

Stella voltou com café para todos e a conversa estranha cessou por um momento.

—  Tentamos entrar em contato com você — disse Ricky.

—  Saí para dar uma volta.

— John é que insistiu para que escrevêssemos ao jovem Wanderley — comentou Ricky, depois de um momento.

— Escrever para quem? — indagou Stella, sem entender. Sears e Ricky explicaram. Ela comentou: — É a coisa mais absurda que já ouvi. É a mesma coisa que vocês três criarem uma porção de confusões e depois pedirem a alguém para re­solver os problemas. Eu não podia imaginar que John fizesse uma coisa dessas.

— Ele é considerado um especialista no assunto, Stella — disse Sears, um pouco exasperado. — E, em minha opinião, o suicídio de John prova que precisamos dele mais do que nunca.

—  E quando ele vai chegar?

—  Não   sei   —   admitiu   Sears,   que   parecia   abalado   e confuso.

— Se me perguntassem o que acho, eu diria que devem suspender essas reuniões da Sociedade Chowder — declarou Stella. — São realmente destrutivas. Ricky acordou gritando esta manhã. A impressão é que vocês três andaram vendo fantasmas.

Sears permaneceu controlado.

— Dois de nós viram o corpo de John. O que já é razão suficiente para parecermos um tanto abalados.

— Como... — Lewis não continuou a frase. “Como ele parecia?” era uma pergunta excepcionalmente estúpida.

—  Como o quê? — perguntou Sears.

—  Como contrataram a sobrinha de Eva Galli para se­cretária?

— Ela pediu um emprego — respondeu Sears. — Tínha­mos algum trabalho extra.

— Eva Galli? — indagou Stella. — Não era aquela mu­lher muito rica que apareceu na cidade já faz bastante tempo? Não a conheci muito bem, pois era mais velha do que eu. Ela não ia casar-se com alguém e depois simplesmente deixou a cidade?

—  Ela ia casar-se com Stringer Dedham — falou Sears, impacientemente.

—  É isso mesmo, Stringer Dedham — lembrou Stella. — Ele era um homem bonito. Houve um acidente horrível... alguma coisa que aconteceu numa fazenda. . .

—  Ele perdeu os braços numa debulhadora — informou Ricky.

—  Mas que conversa! As reuniões de vocês devem ser assim.

Os três homens haviam começado a pensar na mesma coisa.

— Quem lhe falou da Srta. Mostyn? — perguntou Sears a Lewis. — A Sra. Quast deve fazer serão só para espalhar as últimas notícias.

—  Não foi por ela que eu soube. Encontrei a jovem no Humphrey’s Place, com Jim Hardie. Ela mesma se apresentou.

A conversa morreu novamente.

Sears perguntou a Stella se não havia algum conhaque na casa. Stella disse que ia providenciar para todos e desapareceu novamente na cozinha.

Sears puxou furiosamente o casaco, tentando encontrar uma posição confortável na cadeira de couro e metal.

—  Foi você quem levou John para casa ontem à noite. Ele parecia estranho, de alguma maneira?

Lewis sacudiu a cabeça.

— Quase não conversamos. Mas ele comentou que sua história havia sido ótima.

—  E não disse mais nada?

—  Falou que estava com frio.

—  Hum...

Stella voltou com uma garrafa de Remy Martin e três copos, numa bandeja.

—  Vocês deveriam ver-se. Estão parecendo três corujas. — Eles se limitaram a assentir. — Vou deixá-los com o co­nhaque. Tenho certeza de que querem conversar sobre muitas coisas.

Stella fitou-os, com uma expressão autocrática e indulgen­te de professora primária, retirando-se em seguida da sala, sem dizer mais nada. Sua desaprovação ficou com eles.

— Ela está aflita — murmurou Ricky, à guisa de descul­pa. — Todos nós estamos. Mas Stella está mais afetada pelo que aconteceu do que deseja deixar transparecer. — Como se quisesse corrigir o comportamento da esposa, Ricky inclinou-se sobre a mesinha e despejou uma quantidade generosa de co­nhaque em cada copo. — Também estou precisando disso. Não consigo entender, Lewis, o que levou John a agir assim. Por que haveria de querer matar-se?

—  Não tenho a menor idéia do motivo — respondeu Lewis, pegando um dos copos. — E talvez seja até melhor não saber.

—  Fale alguma coisa que faça sentido, para variar — resmungou Sears. — Somos homens, Lewis, não animais. Não deveríamos ficar encolhidos de medo no escuro. — Pegou tam­bém um copo e tomou um gole. — Como espécie, ansiamos por conhecimento. Por esclarecimento. — Os olhos claros se fixa­ram em Lewis, furiosos. — Ou talvez eu o tenha compreendido mal e não tencionasse realmente defender a ignorância.

—  Sobreaniquilação, Sears — disse Ricky.

— Menos jargão, por favor, Ricky. Sobreaniquilação coisa nenhuma! Isso pode impressionar a Elmer Scales e suas ove­lhas, mas não me impressiona.

Alguma coisa acontecera com as ovelhas, Lewis sabia, só que esquecera o que era. Ele disse:

— Não estou querendo defender a ignorância, Sears. Es­tava simplesmente querendo dizer que...  Oh, diabo, já não sei mais! Acho que pretendia dizer que talvez seja demais para a gente agüentar. — O que Lewis não chegou a expressar, embora estivesse meio consciente, era que tinha medo de es­miuçar demais os últimos momentos da vida de um suicida, quer fosse amigo ou esposa.

— Estou compreendendo — murmurou Ricky.

—  Tudo  isso é besteira — disse  Sears.  — Eu  ficaria aliviado se soubesse que John estava apenas se sentindo deses­perado. São as outras explicações que me assustam.

—  Tenho a impressão de que me está faltando alguma coisa.

Essas palavras de Lewis provaram a Ricky, pela milésima vez, que o amigo não era o imbecil da imaginação de Sears. Segurando o copo com as duas mãos e com um sorriso fatalista, Ricky explicou:

— Ontem à noite, depois que fomos embora, Sears avis­tou Fenny Bate na escada de sua casa.

— Santo Deus!

— Já chega! — interveio Sears. — Ricky, eu o proíbo de continuar. O que nosso amigo está querendo dizer, Lewis, é que eu pensei tê-lo visto. Fiquei bastante assustado. Mas era uma alucinação... uma assombração, como costumavam dizer naquela região.

— Agora está vendo a coisa por outro lado — ressaltou Ricky. — Por mim, ficaria feliz se estivesse certo. E não gostaria de ver o jovem Wanderley por aqui. Acho que nos podemos arrepender no momento em que for tarde demais.

—  Creio que não me entendeu,  Ricky.  Quero  que ele venha e diga: desistam; meu tio Edward morreu de excesso de fumo e emoção, e John Jaffrey era um homem instável. Foi por isso que concordei com a sugestão de John. E continuo a achar a mesma coisa:  que ele venha, e quanto mais cedo, melhor.

—  Se é assim que pensa, concordo plenamente — falou Lewis.

—  Mas será que isso é justo para com John? — indagou Ricky.

— John também não foi justo conosco — comentou Sears.

Ele terminou o conhaque de seu copo e inclinou-se para servir-se de mais um pouco da garrafa. Passos súbitos na escada fizeram com que os três virassem a cabeça bruscamente na direção do vestíbulo.

Nessa posição, Lewis pôde ver a janela da frente da casa de Ricky e constatou, com surpresa, que estava novamente nevando. Centenas de imensos flocos batiam contra a janela escura.

Milly Sheehan entrou na sala, os cabelos achatados num lado da cabeça e desgrenhados no outro. Estava espremida num dos velhos robes de Stella.

—  Ouvi o que acabou de falar, Sears James — disse ela, a voz mais parecendo uma sirene de ambulância. — Continua a falar mal de John, mesmo depois que ele morreu.

—  Não tive a menor intenção de cometer um desrespeito, Milly — disse Sears. — Você não deveria...

— Não! Não vai livrar-se de mim agora. Não lhe vou servir um café agora, fazer uma reverência e rapapés. Tenho uma coisa para lhe dizer. John não cometeu suicídio. Escute também, Lewis Benedikt. Ele não se matou. Jamais faria isso. John foi assassinado.

—  Milly... — murmurou Ricky.

—  Pensam que sou surda? Pensam que não sei o que está acontecendo? John foi morto. E querem saber quem o matou? Pois eu sei! — Soaram outros passos descendo apressadamente a escada; desta vez, era Stella. — Sei quem o matou. Foram vocês! Vocês, a Sociedade Chowder! Mataram John com suas histórias horríveis. E você, Sears James, deixou-o desesperado com o seu Fenny Bate!

O rosto dela estava todo contorcido. Stella entrou na sala tarde demais para deter as últimas palavras de Milly:

—  Deveriam mudar o nome para Sociedade do Crime! Deveriam chamar-se Assassinos Associados!

 

E agora lá estavam eles, Assassinos Associados, sob um céu claro, em fins de outubro. Sentiam um pesar profundo, raiva, desespero, culpa; haviam falado de sepulturas e cadáveres por um ano e agora estavam enterrando um dos seus. As des­cobertas inesperadas da autópsia haviam deixado os três atur­didos e desolados. Sears tivera uma explosão, preferindo não acreditar. Ricky também não acreditara a princípio que John pudesse ter sido um viciado em drogas. “Indícios de introdução maciça, habitual e há um período considerável de substância narcótica...” e depois uma sucessão de complicados termos médicos. O fato era que o médico-legista difamara John Jaffrey publicamente. A explosão de Sears de nada adiantara, pois o legista recusou-se a alterar suas conclusões. Sears também não. alterou sua opinião de que, no decurso de uma autópsia, o le­gista passara de um profissional eficiente para um idiota incom­petente e perigoso. As descobertas do legista haviam circulado por Milburn, e alguns cidadãos ficaram do lado de Sears, en­quanto outros aceitavam as conclusões da autópsia. Mas nenhum deles compareceu ao enterro. Até mesmo o Reverendo Neil Wilkinson parecia constrangido. O enterro de um suicida e viciado em drogas!

A nova secretária, Anna, comportara-se de maneira mara­vilhosa, ajudando a enfrentar a raiva de Sears, resguardando a Sra. Quast dos seus efeitos, amparando Milly Sheehan tanto quanto Stella o fizera, e transformando inteiramente o escritó­rio. Obrigara Ricky a reconhecer que Hawthorne & James tinha bastante trabalho, se Hawthorne e James estivessem dispostos a realizá-lo. Mesmo durante o terrível período de tomar as pro­vidências para o funeral, mesmo no dia em que pegara um terno no armário de John e comprara um caixão, Ricky desco­briu que ele e James estavam respondendo a mais cartas e aten­dendo a mais telefonemas do que em muitas semanas anteriores. Estavam se encaminhando para a aposentadoria, despachando os clientes para outros escritórios, quase que automaticamente. Anna Mostyn parecia tê-los trazido de volta à vida. Ela men­cionara a tia uma única vez e de maneira inofensiva; pergun­tara como ela era. Sears quase corara e murmurara:

“Quase tão bonita quanto você, mas não tão determi­nada”.

E Anna se colocara resolutamente ao lado de Sears na questão da autópsia. Até mesmo os legistas cometem erros, res­saltara ela, com um bom senso tranqüilo e inabalável.

Ricky não tinha certeza; nem mesmo tinha certeza se isso era de alguma importância. John sempre funcionara perfeita­mente bem como médico; seu próprio corpo ficara debilitado, mas ele continuara competente para curar outros corpos. O hábito da droga, a “introdução maciça, habitual, etc”, poderia explicar a deterioração física que John apresentara? Uma injeção diária de insulina deixaria John acostumado com picadas. Ricky chegou à conclusão de que, mesmo que John tivesse sido um viciado, isso não afetava muito o que pensava a respeito dele.

Mas servia para tornar o suicídio explicável. Não fora por causa de um Fenny Bate descalço e de olhos vazios, não fora Assassinos Associados, não fora a rotina de contar histórias de fantasmas que o matara. . . a droga é que lhe corroera o cére­bro, assim como corroera o corpo. Ou então John não mais pudera suportar a “vergonha” de ser um viciado. Ou qualquer outra coisa.

Algumas vezes, era até convincente.

Enquanto isso, o nariz de Ricky continuava a escorrer e o peito ardia. Ele tinha vontade de sentar, queria esquentar-se. Milly Sheehan segurava-se em Stella como se as duas estivessem sendo fustigadas por um furacão, de vez em quando usando a outra mão para tirar mais um lenço de papel da caixa, enxugar os olhos e largá-lo no chão.

Ricky tirou um lenço úmido do bolso do casaco, assoou o nariz discretamente e tornou a guardá-lo.

Todos ouviram o carro subindo a encosta para o cemitério.

 

(dos diários de Don Wanderley)

 

Parece que sou um membro honorário da Sociedade Chow­der. É tudo muito estranho, o que faz com que seja um pouco inquietante. Talvez a parte mais estranha da minha presença aqui seja o fato de os amigos do meu tio darem a impressão de que receiam terem sido envolvidos em alguma história de horror da vida real, uma história como The nightwatcher. Foi por causa do livro que me escreveram. Pensam que sou algum profissional decidido, um especialista no sobrenatural... uma espécie de Van Helsing! Minhas impressões originais estavam certas. Todos sentem um presságio muito forte, acho que se pode mesmo dizer que estão à beira de ficar apavorados com as próprias sombras. Minha função é a de investigar tudo. E o que não me disseram expressamente, mas insinuaram, é que esperam que eu diga que não há motivos para preocupações, que há uma explicação racional e objetiva para tudo. Quanto a isso, diga-se de passagem, não tenho a menor dúvida.

E querem também que eu continue a escrever, o que de­clararam expressamente. Sears James disse:

— Não lhe pedimos para vir até aqui a fim de interrom­per sua carreira!

Ou seja: querem que eu dedique a metade do meu dia ao Dr. Rabbitfoot e a outra metade a eles. Há a impressão, ine­gável, de que parte do que eles querem é alguém com quem possam falar, simplesmente isso. Estão falando entre si há tem­po demais.

Não muito tempo depois que a secretária, Anna Mostyn, foi embora, a governanta do morto disse que queria deitar-se. Stella Hawthorne levou-a lá para cima. Ao descer, a Sra. Haw­thorne serviu-nos uísque em copos grandes. Na alta sociedade de Milburn, que creio ser esta, bebe-se uísque ao estilo inglês: puro.

Tivemos uma conversa difícil e hesitante. Stella Haw­thorne disse:

—  Espero que consiga meter um pouco de juízo na cabeça desses homens.

O que me deixou aturdido, pois ainda não me haviam explicado o verdadeiro motivo por que me chamaram. Assenti, e Lewis disse:

—  Temos de conversar a respeito. — Houve um momen­to de silêncio, até que o próprio Lewis acrescentou: — E que­remos também conversar sobre seu livro.

—  Ótimo — respondi.

Mais silêncio, desta vez rompido por Stella Hawthorne:

—  Acho melhor eu providenciar alguma comida para esses corujas. Pode fazer o favor de me dar uma ajuda, Sr. Wan­derley?

Segui-a até a cozinha, esperando que pusesse em minhas mãos travessas ou talheres. O que não esperava era que a ele­gante Sra. Hawthorne se virasse bruscamente, fechasse a porta e perguntasse:

—  Aqueles três velhos idiotas não explicaram por que queriam que o senhor viesse a Milburn?

—  Acho que arrumaram algum pretexto.

—  É melhor ser muito bom, Sr. Wanderley. Vai precisar ser um Freud para lidar com aqueles três. E quero que saiba que não aprovo sua vinda. Acho que as pessoas devem enfrentar e resolver sozinhas seus próprios problemas.

—  Eles insinuaram apenas que queriam conversar comigo a respeito de meu tio.

Mesmo com os cabelos grisalhos, calculei que ela não de­veria ter mais que quarenta e seis ou quarenta e sete anos; parecia tão bonita e firme quanto uma dessas figuras esculpidas nas proas dos navios antigos.

—  Conversar sobre seu tio? É possível. Nunca se digna­ram a me contar coisa alguma. — Compreendi nesse momento um dos motivos para a fúria dela. — Até que ponto conhecia seu tio, Sr. Wanderley?

Pedi-lhe que me tratasse por você.

—  Não o conhecia muito bem. Depois que fui para a uni­versidade e me mudei para a Califórnia, não o vi mais do que uma vez de dois em dois anos, mais ou menos. E havia já alguns anos que não o visitava, por ocasião de sua morte.

—  Mas ele lhe deixou a casa. Não achou um tanto estra­nho que os três lá na sala não tivessem sugerido que ficasse na casa?

Antes que eu tivesse tempo de falar qualquer coisa, ela mesma se encarregou de responder:

— Mesmo que não ache, pode estar certo de que eu acho. E não apenas estranho, mas também patético. Eles estão com medo de entrar na casa de Edward. Parece que fizeram uma espécie... uma espécie de acordo tácito. Nunca entraram na casa. São supersticiosos, eis o motivo.

—  Tive a impressão... quando fui ao enterro, pensei ter visto...

Hesitei, sem saber até que ponto poderia ir com ela. Stella Hawthorne não esperou que eu continuasse, e foi logo dizendo:

—  Talvez não seja tão estúpido quanto eles. Mas uma coisa lhe posso garantir, Don Wanderley: se os deixar num es­tado pior do que já estão, vai ter que se ver comigo. — Pôs as mãos nos quadris, os olhos faiscando, e o ar saiu de seus pul­mões. No instante seguinte, os olhos mudaram de expressão, e ela presenteou-me com um sorriso tenso e sofrido. E acrescen­tou: — E melhor nos apressarmos ou eles vão começar a falar de você.

Abriu a geladeira e tirou uma travessa, contendo um ros­bife do tamanho de um leitão.

—  Rosbife frio está bom para você? As facas estão na gaveta à sua direita. Pode começar a cortar.

 

Somente depois que Stella saiu de casa, um tanto abrupta­mente, para o que chamou de “um compromisso” — com a estranha cena na cozinha, tive uma noção fugaz de sua perso­nalidade, que foi confirmada pela expressão momentânea de extremo desespero no rosto de Ricky Hawthorne —, é que os três homens se abriram comigo. A escolha da palavra não foi das mais acertadas: eles não se “abriram” inteiramente, pelo menos de início; mas depois que Stella Hawthorne se retirou começaram a indicar por que me tinham pedido para vir a Milburn.

E a coisa começou como uma entrevista de emprego.

—  Eis que finalmente chegou, Sr. Wanderley — disse Sears James, servindo mais conhaque em seu copo e tirando uma caixa de charutos do bolso interno do casaco. — Aceita um charuto? Posso afiançar os seus méritos.

—  Não, obrigado — respondi. — E, por favor, chame-me de Don.

—  Está certo. Ainda não lhe dei as boas-vindas devida­mente, Don, mas vou fazê-lo  agora. Éramos  todos  grandes amigos do seu tio Edward. E sinto-me profundamente grato, o mesmo certamente acontecendo com meus dois amigos, por ter atravessado o país inteiro para vir ao nosso encontro.

—  Isso tem algo a ver com a morte do meu tio?

—  Em parte. Queremos que trabalhe para nós. — Em seguida, perguntou-me se poderia falar a respeito de The night­watcher.

—  Claro.

— Era uma novela e, assim sendo, em grande parte in­venção. Mas essa invenção foi baseada em algum caso verídico? Presumimos que fez pesquisas para o livro. Mas o que estamos querendo saber é se, no decurso de sua pesquisa, descobriu alguma evidência que confirmasse as idéias que expôs no livro. Ou talvez a pesquisa fosse inspirada por alguma ocorrência inexplicável em sua própria vida.

Eu quase podia sentir a tensão nas pontas dos meus dedos, e talvez eles também estivessem sentindo. Nada sabiam a res­peito da morte de David, mas estavam me pedindo para escla­recer tanto o mistério do livro como o da minha própria vida.

—  A invenção, como falou, foi baseada num caso verídico — respondi, vendo a tensão se dissipar.

—  Pode relatar-nos o que aconteceu?

— Não. Não é claro o bastante para mim. Além disso, é pessoal demais. Lamento, mas não posso entrar em detalhes.

—  Respeitamos sua posição — disse Sears James. — Pa­rece bastante nervoso.

—  E estou mesmo — admiti, soltando uma risada.

— Quer dizer que a situação apresentada em livro foi baseada numa situação verídica de que participou? — indagou Ricky Hawthorne, como se não estivesse prestando atenção ou não pudesse acreditar no que acabara de ouvir.

—  Exatamente.

—  E conhece outros casos similares?

—  Não:

—  Mas não rejeita o sobrenatural a priori — comentou Sears.

—  Não sei se rejeito ou não — respondi. — Como a maioria das pessoas, diga-se de passagem.

Lewis Benedikt empertigou-se na cadeira e fitou-me.

—  Mas acabou de dizer...

— Não, ele não disse — interveio Ricky Hawthorne. — Falou apenas que seu livro foi baseado num acontecimento real, não que o tivesse relatado exatamente. Não foi isso mesmo, Don?

— Mais ou menos.

— E a sua pesquisa? — insistiu Lewis.

— Confesso que não pesquisei muito.

Hawthorne suspirou e olhou para Sears com uma expres­são que parecia de ironia, na base do “Eu não disse?”

— Acho que pode ajudar-nos de qualquer forma — de­clarou Sears, como se estivesse contradizendo uma opinião ex­pressa. — Seu ceticismo nos irá fazer bem.

— Talvez... — murmurou Hawthorne.

Eu ainda estava sentindo que eles haviam invadido meu espaço mais íntimo. E perguntei:

—  O que tudo isso tem a ver com o ataque cardíaco do meu tio?

Havia muito de autodefesa na pergunta, mas era a mais certa a fazer naquele momento. E a história foi relatada, porque Sears James já decidira contar tudo.

—  Estamos tendo noites inconcebíveis. Sei que o mesmo acontecia com John. Não seria exagero dizer que tememos por nossa razão. Ou será que vocês acham que não?

Hawthorne e Lewis Benedikt davam a impressão de esta­rem recordando coisas que preferiam não lembrar. Ambos me­nearam a cabeça.

— Assim, queremos a ajuda de um especialista no as­sunto, na medida em que nos puder dar — continuou James. — O aparente suicídio de John deixou-nos profundamente aba­lados. Mesmo que ele fosse um viciado em drogas, o que não admito, não creio que fosse também um suicida em potencial.

—  O que ele estava vestindo? — indaguei, um pensa­mento desgarrado que me passou pela cabeça.

—  Vestindo? Não me lembro...  Ricky, por acaso veri­ficou as roupas dele?

Hawthorne assentiu.

— Tive que jogar tudo fora. Era a mais surpreendente mistura de roupas: o paletó do smoking, um paletó de pijama, calça de outro terno, não tinha meias.

— Foi isso o que John vestiu ao se levantar  na manhã em que morreu? — indagou Lewis, atônito. — Por que não nos contou antes?

— A princípio, fiquei tremendamente chocado. Depois, acabei esquecendo. Havia coisas demais acontecendo.

—  Mas ele era normalmente um homem meticuloso — co­mentou Lewis. — Se John se confundiu todo na hora de vestir, então sua mente deveria estar também na maior confusão.

— Precisamente — disse Sears, sorrindo-me. — Don, foi uma pergunta extremamente perceptiva. Nenhum de nós se lem­brou disso.

Percebi que ele estava começando a se agarrar em todas as racionalizações possíveis e decidi comentar:

—  Isso não simplifica as coisas. No caso em que baseei meu livro, um homem se matou e tenho certeza de que sua mente estava bastante abalada, mas jamais consegui descobrir o que lhe aconteceu realmente.

—  Está se referindo a seu irmão, não é? — indagou Ricky Hawthorne, sagazmente. O que significava que, no final das con­tas, todos sabiam; meu tio devia ter-lhes falado de David. — E foi esse o “caso” a que aludiu?

Assenti.

— Ah... — murmurou Lewis.

— Simplesmente deparei com uma história de fantasma —  comentei. — Não sei o que realmente aconteceu.

Por um momento, os três pareciam constrangidos.

— Mesmo que não esteja acostumado a fazer pesquisa — disse Sears finalmente —, tenho certeza de que é perfeitamente capaz para isso.

Ricky Hawthorne recostou-se no excêntrico sofá; a gravata-borboleta continuava impecável, mas o nariz estava vermelho e os olhos turvos. Parecia pequeno e perdido, no meio dos mó­veis gigantescos.

— Evidentemente, meus dois amigos irão sentir-se bem mais felizes se permanecer conosco por algum tempo, Sr. Wan­derley.                                          

—  Don.

—  Está certo... Don. E como parece disposto a ficar e eu me sinto exausto, sugiro que encerremos a conversa por ora, a fim de que todos possam descansar. Vai passar a noite na casa de Lewis?

—  Boa idéia — disse Lewis Benedikt, levantando-se.

— Ainda tenho mais uma pergunta — declarei. — Estão me pedindo para pensar sobre o sobrenatural... ou qualquer que seja o nome que queiram chamar... porque isso os exime de terem de pensar pessoalmente?

—  Uma pergunta perceptiva, mas imprecisa — disse Sears James, fitando-me com seus olhos azuis penetrantes. — Pensa­mos nisso durante todo o tempo.

—  O que me faz lembrar de uma coisa — disse Lewis.

—  Vamos suspender as reuniões da Sociedade Chowder? Al­guém acha que devemos?

—  Não! — respondeu Ricky, com uma estranha expres­são de desafio. — Pelo amor de Deus, não vamos suspender as reuniões. Por nós mesmos, temos de continuá-las. E Don será incluído.

É essa a situação em que me encontro. Todos esses três homens, amigos do meu tio, parecem admiráveis à sua maneira. Mas será que estão perdendo o juízo? Nem mesmo posso ter certeza se me contaram tudo. Estão assustados e sabem que dois homens do grupo, já morreram. Escrevi anteriormente neste diário que Milburn parece o tipo de cidadezinha em que o Dr. Rabbitfoot entraria em ação. Posso sentir a realidade se afas­tando, se começo a imaginar que um dos meus próprios livros está acontecendo a meu redor.

Eu quase podia começar a imaginar qual era o problema. Os dois suicídios — de David e do Dr. Jaffrey —, era esse o problema, a coincidência pura e simples. (E a Sociedade Chow­der não dá o menor indício de reconhecer que essa coincidência é a principal razão do meu interesse pelo problema deles.) Em que estou envolvido aqui? Uma história de fantasma? Ou algo pior, algo que não é simplesmente uma história? Os três velhos só têm um conhecimento vago dos acontecimentos de há dois anos. . . e não podem saber que me pediram para entrar nova­mente na parte mais estranha da minha vida, fazendo o calen­dário retornar até os dias piores e mais destrutivos ou folhear outra vez as páginas de um livro que foi a minha tentativa de resignar-me aos acontecimentos. Mas será que pode haver real­mente alguma relação, mesmo que seja apenas a ligação de uma história de fantasma levando a outra, como aconteceu com a Sociedade Chowder? E será que pode haver realmente uma li­gação concreta e objetiva entre The nightwatcher e o que acon­teceu a meu irmão?

 

Alma

 

 “Everything that has beauty has a body, and is a body;

everything that has being in the flesh:

and dreams are only drawn from the bodies that are.”

Bodiless God, D. H. Lawrence

 

(dos diários de Don Wanderley)

 

Só há um modo de responder à pergunta. Tenho que des­pender algum tempo, ao longo da próxima semana, talvez duas, escrevendo os fatos em detalhes, à medida que os recordo, envolvendo a mim mesmo, David e Alma Mobley. Quando os converti em ficção no livro, inevitavelmente acrescentei uma dose de sensacionalismo, falseando assim minhas próprias re­cordações. Se eu tivesse ficado satisfeito com isso, não pensaria em escrever a novela do Dr. Rabbitfoot, que no fundo é Alma de cara preta, Alma com seus chifres, cauda e trilha sonora. Assim como Rachel Varney, em The nightwatcher, não passava de Alma com uma roupagem de fantasia. Alma era muito mais estranha do que Rachel. O que estou querendo agora não é inventar situações e circunstâncias fictícias, mas sim registrar as circunstâncias que realmente existiram. Em The nightwatcher, tudo foi solucionado, tudo se acabou esclarecendo; na vida, nada foi esclarecido, nada jamais foi solucionado.

Conheci Alma não como Saul Malkin conheceu Rachel Varney, num jantar em Paris, mas sim num cenário extrema­mente banal. Foi em Berkeley, onde as críticas favoráveis ao meu primeiro livro haviam me valido um emprego de um ano como professor. O cargo era excepcional para um autor de um livro só e eu o levava muito a sério. Eu tinha uma turma de redação criativa e duas turmas subgraduadas de literatura ame­ricana. Eram essas duas turmas que me davam mais trabalho. Tinha que ler e estudar tantos autores que não percebia que praticamente não sobrava tempo para escrever. E se eu quase não lera Howells ou Cooper, por exemplo, não tinha a menor idéia dos estudos críticos a respeito deles, que a estrutura do curso exigia. Descobri-me totalmente absorvido numa rotina de dar as aulas, levar os trabalhos de redação criativa para casa, a fim de ler antes de jantar num bar ou café, e depois passar a noite na biblioteca verificando bibliografias. Havia ocasiões em que ainda conseguia trabalhar em alguma história minha ao voltar para o apartamento; na maioria das vezes, no entanto, os olhos me ardiam e o estômago estava embrulhado com o café do departamento de inglês, os instintos para a prosa amor­tecidos pela opressiva rotina acadêmica. De tempos em tempos, saía com uma jovem do departamento, uma livre-docente com um Ph.D. da Universidade de Wisconsin. O nome dela era Helen Kayon, e nossas mesas, juntamente com uma dúzia de outras, ficavam perto, num escritório comum do departamento. Ela lera meu primeiro livro, mas não ficara impressionada.

Helen era rigorosa em matéria de literatura, tinha medo de ensinar, descuidada de sua aparência, não possuía qualquer esperança em relação aos homens. Seus interesses eram os esco­ceses contemporâneos de Chaucer e análise lingüística; aos vinte e três anos, ela já exibia alguma coisa da ausência de pragmatismo da típica solteirona acadêmica.

—  Meu pai mudou  seu nome, Kayinski,  e, no fundo não passo de uma polonesa cabeça-dura — comentou ela.

Mas eu sabia que isso era a autodecepção clássica; ela era obstinada em relação aos escoceses chaucerianos e nada mais. Era uma jovem alta, óculos imensos, cabelos soltos, que pare­ciam estar sempre passando de um estilo para outro; eram ca­belos sem intenções definidas. Chegara à conclusão, algum tempo antes, que a coisa mais importante que tinha a oferecer à universidade, ao planeta e aos homens era sua inteligência. Era a única coisa em sua pessoa na qual confiava. Convidei-a para almoçar na terceira vez em que a vi no escritório. Helen estava fazendo a revisão de um artigo e quase caiu da cadeira. Creio que fui o primeiro homem em Berkeley a convidá-la para almoçar.

Alguns dias depois, encontrei-a no escritório, depois da minha última aula. Ela estava sentada à sua mesa, olhando para a máquina de escrever. Nosso almoço fora bastante constran­gedor. Comparando os artigos que estava tentando escrever com a minha obra, ela dissera:

—  Mas estou querendo descrever a realidade!

Ao entrar na sala, aproximei-me dela e disse:

— Estou de saída. Por que não vem comigo? Podemos tomar um drinque em algum lugar.

— Não posso. Detesto bares e ainda tenho que terminar este trabalho. Mas...   poderia acompanhar-me até em casa? Moro no alto da ladeira. Incomoda-se?

— Claro que não. É onde estou morando também.

— De qualquer forma, já estou cheia disso. O que está lendo? — Levantei o livro. — Ah, sim, Nathaniel Hawthor­ne... Só pode ser pesquisa para o seu curso.

— Lieberman acabou de me comunicar que dentro de três semanas vou dar a aula principal sobre Hawthorne. E eu não lia The house of seven gables desde os tempos da escola secundária.

—  Lieberman é preguiçoso demais para assumir a coisa pessoalmente.

Eu estava propenso a concordar; até aquele momento, três dos outros assistentes de Lieberman já haviam feito conferên­cia no lugar dele. Comentei:

— Acho que não terei qualquer problema, desde que con­siga encontrar um ângulo qualquer para dar consistência à aula, e possa terminar de ler tudo o que é necessário.

—  Pelo menos você não tem que se preocupar com um período de experiência no emprego — disse ela, gesticulando na direção da máquina de escrever.

—  Tem razão. Minha única preocupação é comer.

Fora esse o tom do nosso almoço.

—  Desculpe...

Helen abaixou a cabeça, já sofrendo. Pus a mão em seu -ombro e disse que não devia viver tão preocupada com as coisas.

Ao descermos a escada, Helen carregando uma imensa va­lise estofada por livros e ensaios, eu levando apenas The house of seven gables, uma loura alta e sardenta passou entre nós. A primeira impressão que tive de Alma Mobley foi de uma pa­lidez geral, uma indefinição espiritual sugerida pelo rosto com­prido e inexpressivo e pelos cabelos cor de palha. Os olhos re­dondos eram de um azul muito claro. Senti uma estranha mistura de atração e repulsa. À luz fraca da escada, ela parecia uma jovem atraente que passara toda a sua vida numa caverna, dava a impressão de ter o mesmo tom de branco fantasmagórico por todo o corpo.

—  Sr. Wanderley? — perguntou ela.

Quando assenti, ela murmurou seu nome, mas não enten­di direito.

— Sou estudante de pós-graduação em inglês. Gostaria de saber se posso assistir a sua aula sobre Hawthorne. Vi seu nome na programação do Professor Lieberman, no escritório do departamento.

—  Claro que pode. Mas é apenas um curso para subgraduados. Provavelmente será um desperdício de tempo para você.

— Obrigada — disse ela  simplesmente,  continuando  a subir a escada, abruptamente.

— Como ela soube quem eu era? — sussurrei para Helen.

Eu mal conseguia disfarçar o prazer que sentia pelo que imaginava ser a minha celebridade até então invisível. Mas Helen acabou com as ilusões, apontando o livro em mi­nhas mãos.

Ela morava a apenas três quarteirões do meu apartamento. . O dela era um sortimento variado de cômodos distribuídos ao acaso, no alto de uma casa antiga. Helen o partilhava com duas outras moças. Os cômodos pareciam arbitrariamente situados, assim como as coisas que estavam dentro deles. O apartamento dava a impressão de que ninguém se preocupara em determinar os lugares onde deveriam ficar as estantes, mesas e cadeiras; era como se os móveis tivessem permanecido onde haviam sido deixados pelos carregadores da mudança. Aqui havia um abajur colocado ao lado de uma poltrona, ali uma mesa com livros empilhados empurrada para baixo de uma janela, mas tudo o mais estava distribuído tão fortuitamente que era preciso es­gueirar-se entre os móveis para se alcançar o corredor.

As companheiras de apartamento de Helen também me pareceram arbitrárias. Ela as descrevera enquanto subíamos a ladeira. Uma delas, Meredith Polk, era também do Wisconsin e trabalhava como livre-docente no departamento de botânica. Ela e Helen haviam se conhecido enquanto procuravam um lugar para morar, descobriram que haviam cursado a mesma universidade e decidiram viver juntas. A terceira jovem era uma estudante de pós-graduação de teatro e chamava-se Hilary Lehardie. Helen havia comentado:

— Hilary jamais sai de seu quarto e acho que fica alta durante o dia inteiro. Toca música de rock a maior parte da noite. Tenho de usar tampões nos ouvidos. Meredith é muito melhor. Ela é muito arrebatada e acho que um pouco esquisita. Mas creio que somos amigas. Ela procura proteger-me.

—  Protegê-la do quê?

—  Do mal.

As outras duas moças estavam no apartamento quando Helen e eu chegamos. Assim que apareci, por trás de Helen, uma jovem de cabelos pretos e muito gorda, metida em jeans e camisa de malha, saiu correndo da porta da cozinha e veio lançar-me um olhar furioso, através dos óculos de lentes gros­sas. Era Meredith Polk. Helen apresentou-me como um escri­tor que estava no departamento de inglês, e Meredith disse:

—  É mesmo?

E, no instante seguinte, ela já tinha voltado para a cozi­nha. Uma música muito alta vinha de um quarto ao lado.

A jovem de óculos e cabelos pretos saiu novamente da co­zinha assim que Helen se afastou para me servir um drinque. Esgueirou-se através dos móveis e foi acomodar-se numa ca­deira de lona, perto de uma parede na qual podia-se ver o que pareciam ser centenas de cactos e outras plantas. Enfiou um cigarro na boca e ficou me olhando com uma expressão óbvia de desconfiança.

— Não é um acadêmico? Não é da equipe regular do de­partamento? — E isso de uma jovem que só tinha um ano como livre-docente, que ainda estava a muitos anos da confir­mação no cargo.

— Tenho um contrato de apenas um ano — respondi.

— Sou um escritor.

— Ah...   — Ela ficou em silêncio por um momento, antes de acrescentar: — Então, você é o cara que a levou para almoçar?   

— Exatamente.

— Ah...

A música ressoava estrondosamente.

— Hilary — disse ela, sacudindo a cabeça na direção da música. — Nossa colega de apartamento.

— E isso não a incomoda?

— Nem escuto, na maior parte do tempo. Uma questão de concentração. E é bom para as plantas.

Helen apareceu com um copo, onde havia uísque demais e uma solitária pedra de gelo flutuando em cima, como se fosse um peixinho dourado morto. E na outra mão havia uma xícara de chá para si.

—  Com licença — disse Meredith, disparando na direção de seu quarto.

—  Ah, como é bom ver um homem neste lugar horrível! —  disse Helen.

Por um momento, a preocupação e a inibição deixaram seu rosto, e eu pude perceber a inteligência real que existia por baixo do verniz acadêmico. Ela parecia bastante vulnerável, mas muito menos do que eu havia imaginado.

Fomos para a cama uma semana depois, no seu aparta­mento. Helen não era virgem e fez questão de deixar bem claro que não estava apaixonada. Explicou todo o processo de de­cisão e depois agiu com a precisão enérgica que dedicava aos escoceses chucerianos.

—  Você nunca vai apaixonar-se por mim e não  quero mesmo que isso aconteça — disse ela. — É melhor assim.

Nessa ocasião, ela passou duas noites em meu apartamen­to. Ao cair da tarde, íamos para a biblioteca, cada um desapa­recendo num recanto separado, como se não houvesse absoluta­mente qualquer emoção entre nós. O primeiro indício concreto de que a situação não era exatamente o que eu pensava acon­teceu uma semana depois, quando cheguei a casa, de tarde, e encontrei Meredith Polk à porta do apartamento. Ela ainda estava usando jeans e camisa de malha.

—  Seu filho da mãe! — murmurou ela, os dentes quase cerrados.

Abri rapidamente a porta e entrei. Meredith foi atrás, dizendo:

—  Seu miserável com uma pedra de gelo no lugar do co­ração! Está pondo em risco as possibilidades de ela conseguir a confirmação. E ainda por cima está destruindo seu coração. Trata-a como se fosse uma prostituta. Mas ela é boa demais para você. Nem mesmo vivem pelos mesmos valores. Helen está empenhada em se dedicar inteiramente à vida acadêmica, é a coisa mais importante de sua vida. Eu posso compreender, mas não creio que você seja capaz. Acho que não está inte­ressado em coisa alguma que não seja a sua vida sexual.

—  Uma coisa de cada vez, por favor. Como posso estar pondo em risco as possibilidades de ela ser confirmada como professora? Vamos esclarecer primeiro essa questão, antes de seguirmos adiante.

—  Este é o primeiro semestre dela aqui. Como sabe per­feitamente, eles nos vigiam. O que acha que todo mundo vai pensar, se uma professora nova vai para a cama com o primeiro cara que aparece?

—  Estamos em Berkeley. Não creio que alguém sequer perceba ou dê qualquer importância a isso.

—  Seu porco! A verdade é que não nota nem se importa com coisa alguma, não é mesmo? Você a ama?

—  Saia daqui!

Eu estava começando a perder o controle. Ela parecia uma rã furiosa, coaxando para mim, procurando definir seu território.

A própria Helen apareceu três horas depois, extrema­mente pálida e com uma expressão magoada. Não quis falar sobre as espantosas acusações de Meredith Polk, mas revelou que conversara com a amiga na noite anterior.

—  Meredith é muito protetora — disse ela. — Não, não esfregue as minhas costas desse jeito. Não faça isso. É tudo bobagem. O único problema é que não tenho conseguido trabalhar nas últimas noites. Acho que me sinto infeliz sempre que não estou com você. — Ela virou a cabeça para me fitar, deso­lada. — Eu não deveria ter dito isso. Mas você não me ama, não é mesmo? Não pode, não é mesmo?

—  Não há nenhuma resposta para essa pergunta. Deixe-me preparar-lhe uma xícara de chá.

Ela estava deitada na cama, no meu pequeno apartamen­to, toda enroscada como se fosse um feto.

—  Sinto-me tão culpada...

Voltei pouco depois com o chá e ela disse:

—  Gostaria que pudéssemos fazer uma viagem juntos. Poderíamos ir à Escócia. Passei todos esses anos lendo a res­peito da Escócia e jamais estive lá. — Os olhos dela estavam começando a ficar marejados de lágrimas, por detrás dos óculos. — Ah, eu faço tudo errado! Sabia que nunca deveria ter vindo para cá. Estava feliz em Madison. Não sei por que tinha de vir para a Califórnia.

—  Você pertence a este lugar mais do que eu.

—  Não — disse ela, rolando para o lado a fim de escon­der o rosto. — Você pode ir a qualquer lugar e imediatamente se ajustar. Nunca fui algo mais do que uma garota esforçada nos estudos.

—  Qual foi o último livro realmente bom, que você leu?

Ela rolou na cama outra vez, para me fitar, a curiosidade sobrepujando a angústia e o constrangimento em seu rosto. Os olhos quase fechados, pensou por um momento, antes de res­ponder :

—  The rhetoric of irony, de Wayne Booth. Para ser mais precisa, eu o reli.

—  Não tenha a menor dúvida de que pertence mesmo a Berkeley.

—  Pertenço mais a um jardim zoológico.

Era uma desculpa para tudo, tanto por Meredith Polk como pelos próprios sentimentos dela. Mas eu sabia que, se continuássemos, só iria magoá-la ainda mais. Helen estava cer­ta: não havia a menor possibilidade de eu poder algum dia amá-la.

Mais tarde, pensei que minha vida em Berkeley se trans­formara num padrão que perduraria pelo resto da vida. Exceto por meu trabalho, era uma vida essencialmente vazia. Porém, não seria melhor continuar a me encontrar com Helen do que magoá-la tremendamente pela insistência num rompimento? Num mundo dominado pelo trabalho como eu via o meu, a conveniência era um sinônimo de bondade. Quando nos separamos, havia o acordo tácito de que não nos encontraríamos por alguns dias, mas tudo o mais continuaria como antes.

Uma semana depois, no entanto, o período convencional da minha vida terminou; depois disso, encontrei-me com Helen Kayon apenas duas vezes.

 

Descobri o ângulo que estava procurando para a conferên­cia sobre Hawthorne. Estava num ensaio de R. P. Blackmure: “Quando todas as possibilidades estão eliminadas, então é que pecamos”. A idéia parecia irradiar-se por toda a obra de Hawthorne, e eu poderia relacionar os romances e contos atra­vés desse cristianismo negro, pelo impulso que havia neles para o pesadelo. . . pelo que quase era um desejo de pesadelo. Pois imaginar um pesadelo é colocar-se à sua mercê. Encontrei também uma declaração de Hawthorne que ajudava a explicar seu método: “Tenho algumas vezes produzido um efeito sin­gular e não de todo insatisfatório, no que se refere à minha própria mente, imaginando uma sucessão de incidentes em que o mecanismo espiritual do mito fantasioso se combina com as personagens e circunstâncias da vida cotidiana”. A partir do momento em que tive as idéias para estruturar a conferência, os detalhes foram se acumulando rapidamente em meu caderno de anotações.

Esse trabalho e os meus alunos de redação criativa mantiveram-me plenamente ocupado pelos cinco dias que antecede­ram a conferência. Helen e eu nos encontrávamos apenas de passagem; prometi que, assim que terminasse o trabalho ime­diato, iríamos passar um fim de semana fora. Meu irmão David possuía uma cabana no vale Still, perto de Mendocino. Disse­ra-me que a usasse à vontade, sempre que quisesse livrar-me de Berkeley por alguns dias. O que era típico da consideração permanente que David dispensava aos outros. Mas, por tei­mosia, eu me abstivera de usar a casa. Não queria ter de ficar grato a David por qualquer coisa. Depois da conferência, le­varia Helen para o vale Still e mataria dois escrúpulos com uma só cajadada.

Na manhã da conferência, reli o que D. H. Lawrence escrevera sobre Hawthorne e encontrei estes versos:

 

“And the first she does is seduce him.                       

And the first thing he does is to be seduced.

And the second thing they do is to hug their sin

[in secret, and gloat over it, and try to understand.

Which is the myth of New England]”1.

 

Era justamente isso o que eu estava procurando desde o início. Larguei a xícara de café e comecei a reestruturar minhas observações. A percepção de Lawrence ampliava a minha, eu podia ver todos os livros por um novo ângulo. Eliminei pará­grafos inteiros e escrevi novos, entre as linhas cruzadas... E esqueci de telefonar para Helen, como prometera que faria.

No final das contas, quase não recorri às anotações que fi­zera. Em determinado momento, à procura de uma metáfora, avistei Helen e Meredith Polk sentadas juntas, numa das últi­mas filas do anfiteatro repleto. Meredith Polk estava de rosto franzido, desconfiada como um guarda de Berkeley. Quando os cientistas tomam conhecimento do tipo de coisas que são dis­cutidas nos cursos de literatura, frequentemente assumem tal expressão. Helen parecia simplesmente interessada e senti-me grato por ela ter comparecido.

Quando acabei, o Professor Lieberman veio dizer-me que apreciara muito as minhas observações, e se eu não gostaria de fazer sua conferência sobre Stephen Crane dentro de dois me­ses. Ele tinha que dar uma conferência em Iowa naquela se­mana, mas queria dizer-me logo que, como eu realizara um trabalho tão “exemplar”, especialmente levando-se em consideração que não era um acadêmico... em suma, ele achava que talvez fosse possível renovar meu contrato por mais um ano.

“E a primeira coisa que ela faz é seduzi-lo.

E a primeira coisa que ele faz é ser seduzido.

E a segunda coisa que eles fazem é acalentar seu pecado

em segredo, exultantes, tentando compreender.

O que é o mito da Nova Inglaterra.” (N. do T.)

Fiquei aturdido, tanto pela chantagem como pela arrogân­cia dele. Lieberman, ainda jovem, era um homem famoso, não tanto como intelectual no sentido de Helen, mas como um “crí­tico”, um generalizador, um sub-Edmund Wilson. Eu não res­peitava seus livros, mas esperava mais dele. Os estudantes esta­vam se encaminhando para as saídas, uma massa sólida de jeans e camisetas. E foi nesse momento que avistei um rosto esperan­çosamente virado em minha direção, um corpo esguio metido não em jeans, mas num vestido branco. Lieberman era subita­mente uma interferência, um obstáculo; concordei em fazer a conferência sobre Crane só para me livrar dele.

— Ótimo, Donald — disse ele, desaparecendo.

Foi numa fração de segundo: num momento o jovem professor de terno listrado estava diante de mim, no instante se­guinte eu olhava para o rosto da moça de vestido branco. Era a mesma estudante que me detivera e a Helen na escada.

Parecia inteiramente diferente: mais saudável, com uma ligeira camada de bronzeado no rosto e nos braços. Os cabelos louros brilhavam, assim como os olhos claros, nos quais de­parei com um caleidoscópio de luzes e cores decompostas. Havia na boca duas linhas finas de ironia. Ela era extremamen­te atraente, uma das moças mais bonitas que eu já tinha visto; o que não é dizer pouco, porque Berkeley era tão povoada por beldades que se podiam avistar duas novas a cada vez que se levantava os olhos de um livro. Mas a jovem que estava diante de mim naquele momento não possuía a vulgaridade agressiva e provocante da estudante normal. Helen Kayon não tinha a menor chance.

—  Gostei muito — disse ela, as linhas nos lados da boca se contraindo como por força de uma piada particular. — No final das contas, estou feliz por ter vindo.

Pela primeira vez, ouvi o sotaque sulista, a fala arrastada típica.

—  Também estou — apressei-me em declarar. — E obri­gado pelo elogio.

—  Quer saboreá-lo em particular?

—  É um convite?

Percebi no mesmo instante que estava sendo precipitado demais, sentindo-me tão lisonjeado que havia tirado conclu­sões erradas.

—  Um o quê? Não, eu nem. mesmo tinha pensado nisso. — A boca da jovem se mexeu, formando as palavras: “Mas que idéia!”

Olhei para os fundos do anfiteatro. Helen e Meredith Polk já estavam no corredor, encaminhando-se para a saída. Helen devia ter começado a se mover no momento em que me viu olhando para a loura. Se ela realmente me conhecia tão bem quanto dissera, teria sabido exatamente o que eu estava pensando. Helen passou pela porta sem olhar para trás, mas Meredith Polk tentou assassinar-me com os olhos.

—  Está esperando alguém? — perguntou a moça.

—  Não... não é nada importante. Não gostaria de almo­çar comigo? Não comi nada hoje e estou faminto.

Eu sabia que estava me comportando com um egoísmo lamentável. Mas sabia também que aquela jovem era muito mais importante para mim do que Helen Kayon. Rompendo bruscamente com Helen, deixando-a ir embora imediatamen­te... ou seja, bancando o filho da mãe que Meredith Polk dissera que eu era... estava eliminando semanas, talvez meses, de cenas muito dolorosas. Eu não mentira para Helen; ela sempre soubera que o nosso relacionamento era bastante frágil.

A jovem que estava caminhando a meu lado pelo campus vivia em perfeita consonância com sua feminilidade. Mesmo naquela ocasião, momentos depois de tê-la visto direito pela primeira vez, ela me pareceu sem idade, até mesmo intemporal, bonita de uma forma quase hierática e mítica. O afastamento de Helen de si mesma impedira-a de ser graciosa; e ela era obviamente uma pessoa do meu próprio tempo da história. Minha primeira impressão de Alma Mobley foi de que ela po­deria caminhar com a mesma graciosidade por uma piazza ita­liana do século XVI; ou nos anos 20 (mais a propósito) poderia ter merecido um olhar de apreciação de Scott Fitzgerald, ao passar pelo Hotel Plaza com suas pernas espetaculares. Evidentemente, já havia notado as pernas dela. Eu tinha uma sensação intensa de todo o seu corpo; mas imagens de piazzas italianas e Fitzgerald no Plaza são metáforas das mais inadequadas para a sensualidade. Era como se cada célula de seu corpo possuísse uma extrema naturalidade. Não se podia imaginar nada menos típico da habitual estudante de pós-graduação de inglês em Berkeley. A graciosidade dela era tão profunda que me pareceu, já naquele momento, indicar uma passividade intensa.

Claro que estou condensando seis meses de impressões num único momento, mas a justificativa é de que as sementes das impressões já estavam presentes quando deixamos o cam­pus para ir a um restaurante. O fato de ela aceitar meu convite tão prontamente, com tanta despreocupação que insinuava jul­gamentos tácitos, continha um quê de passivo... a passividade irônica e insinuante da mulher bonita, daquela cuja beleza a isolara interiormente, como uma princesa numa torre.

Levei-a a um restaurante que já ouvira Lieberman men­cionar, caro demais para a maioria dos estudantes, caro demais para mim. Mas a cerimônia do restaurante luxuoso convinha tanto a ela como a meu senso de comemoração.

Compreendi imediatamente que era ela que eu desejava levar para a casa de David no vale Still.

O nome dela era Alma Mobley e nascera em Nova Orleans. Calculei, mais pelas maneiras dela do que por qual­quer coisa declarada explicitamente, que os pais tinham posses. O pai de Alma era pintor, e longos períodos de sua infância foram passados na Europa. Referindo-se aos pais, ela usou o tempo passado, o que me levou a pensar que eles haviam mor­rido já há algum tempo. O que também se ajustava a sua atitude, à impressão de estar desligada de tudo o mais que não fosse ela mesma.

Como Helen, ela estudara no centro-oeste. Cursara a Uni­versidade de Chicago — o que parecia quase impossível, Alma em Chicago, aquela cidade rude e turbulenta — e fora aceita para o curso de Ph.D. em Berkeley. Pelo que disse, imaginei que estava simplesmente passando pela vida acadêmica, e que não tinha a dedicação profunda de Helen. Era uma estudante de pós-graduação porque tinha talento para a mecânica do trabalho literário e era inteligente; porque era melhor do que qualquer outra coisa que pudesse pensar em fazer. E estava na Califórnia porque não gostara do clima de Chicago.

Mais uma vez, opressivamente, tive a sensação da irrelevância para ela da maioria dos acessórios de sua vida, de sua auto-suficiêricia passiva. Eu não tinha a menor dúvida de que ela era inteligente o bastante para concluir muito bem sua tese (sobre Virginia Woolf) e depois, com alguma sorte, arrumar um cargo de professora numa das pequenas faculdades espa­lhadas pela costa. No instante seguinte, bruscamente, deixan­do-me chocado, ela levou uma colher de abacate à boca e me revelou outra visão sua. Agora, eu a estava vendo como uma prostituta, uma prostituta de 1910, os cabelos torcidos exoticamente, as penas de dançarina levantadas. O corpo nu ficou à mostra por um momento. Imaginei que fosse outra imagem de isenção profissional, mas isso não explicava a força da visão. Eu fora excitado sexualmente. Alma estava falando de livros — mas não da maneira como Helen fazia, mas de um modo geral, como uma simples leitora — e olhei para o outro lado da mesa, compreendendo que queria ser o homem que impor­tava para ela. Senti o impulso de agarrar bruscamente aquela passividade e sacudi-la, fazê-la ver-me de verdade.

—  Não tem namorado? — perguntei.

Ela sacudiu a cabeça.

—  Não está apaixonada?

—  Não. — Ela sorriu, mostrando que achava a pergunta óbvia demais. — Havia um homem em Chicago, mas está acabado.

Decidi fazer uma sondagem.

—  Um dos seus professores.

—  Um dos meus professores assistentes. — Outro sorriso.

—  Apaixonou-se por ele? Era um homem casado?

Ela me fitou com uma expressão solene por um momento.

—  Não. Não foi o que está pensando. Ele não era casado e eu não me apaixonei.

Já naquele momento, pude perceber que Alma não sentia a menor dificuldade em mentir. O que não me causava qual­quer repulsa; ao contrário, servia para mostrar como a vida a afetara apenas de leve e era uma parte de tudo o que eu dese­java mudar nela.

—  Mas ele se apaixonou por você, não é mesmo? E foi por isso que resolveu deixar Chicago?

—  Quando  decidi   ir  embora,   já  estava   tudo   acabado. Alan não teve nada a ver com isso. Ele bancou o tolo, mais nada.

—  Alan?

—  Alan McKechnie. Era muito gentil.

—  Um tolo muito gentil.

—  Está determinado a saber de tudo o que aconteceu? —  indagou ela, com o seu hábito característico de acrescentar uma ironia suave e quase imperceptível que negava qualquer importância  à  pergunta.

—  Não. Fiquei apenas um pouco curioso.

Os  olhos  dela,  repletos  de  uma  luz  intensa,  encontra­ram-se com os meus.

—  Não há muito o que contar. Ele ficou... teve uma paixonite por mim. Ele era o meu orientador e de mais três ra­pazes. Nós nos encontrávamos duas vezes por semana. Percebi logo que Alan estava se interessando por mim, mas era um homem muito tímido. E muito inexperiente com as mulheres. —   Houve  novamente  uma  ligeira  inflexão  nos  olhos   e  na voz. — Saímos juntos algumas vezes. Alan não queria que nos vissem e por isso tínhamos de ir a lugares incomuns.

—  É para onde iam?

—  Bares de hotéis, lugares assim. Creio que era a pri­meira vez que ele saía com uma aluna, o que o deixava bas­tante nervoso. Tenho a impressão de que não se divertia muito na vida. Acabei chegando à conclusão de que passara a repre­sentar coisa demais para ele. Além disso, não o desejava da mesma forma como ele queria. Como já sei o que me vai per­guntar em seguida, vou logo responder. É verdade, fomos para a cama. Por algum tempo. Não foi grande coisa. Alan não era muito... físico. Comecei a pensar que ele realmente queria ir para a cama com um rapaz, mas é claro que isso seria esperar demais. Alan simplesmente não podia admitir tal possibilidade.

—  Quanto tempo durou?

—  Um ano. — Ela terminou de comer e largou o guar­danapo ao lado do prato. — Não sei por que estamos conver­sando sobre isso.

—  Do que gosta realmente?

Alma deu a impressão de estar pensando a sério por um momento.

— Deixe-me ver... gostar de verdade... Verão. Ci­nema. Romances ingleses. Acordar às seis horas e ficar contem­plando o amanhecer pela janela, quando tudo está vazio e puro. Chá com limão. O que mais? Paris. E Nice. Gosto muito de Nice. Quando eu era menina, passamos lá quatro ou cinco ve­rões seguidos. E gosto muito de boas refeições, como esta.

—  Ao que tudo indica, não vai ajustar-se muito bem à vida acadêmica. — A impressão que eu tinha era a de que ela me contara tudo e ao mesmo tempo não dissera nada.

—  É o que parece, não é mesmo? — Ela riu, como de alguma coisa sem a menor importância. — Acho que, no fundo, estou é precisando de um grande amor.

E lá estava ela novamente, a princesa encerrada na torre do seu próprio egoísmo.

—  Vamos a um cinema amanhã à noite — falei, e ela concordou.

No dia seguinte, persuadi Rex Leslie, cuja mesa ficava do outro lado da sala, a trocar de lugar comigo.

 

O cinema de arte estava exibindo La grande illusion, de Renoir, que Alma nunca vira. Depois, fomos a um café, atu­lhado de estudantes, com fragmentos de conversas das mesas ao redor se intrometendo em nossa própria. Por um instante depois que nos sentamos, experimentei um súbito sentimento de culpa e compreendi no segundo seguinte que estava com re­ceio de me encontrar com Helen Kayon. Mas aquele não era o tipo de lugar que Helen costumasse freqüentar; além do mais, àquela hora, Helen geralmente ainda estava na biblioteca. Senti um momento de intensa gratidão por não estar lá também, rompendo com uma rotina que não era propriamente minha, mas simplesmente uma imposição do emprego.

—  Um filme maravilhoso! — comentou Alma. — Ainda sinto como se o tivesse vivido.

— Quer dizer que sente os filmes profundamente?

— Claro. — Fitou-me com uma expressão de perple­xidade.

—  E a literatura?

—  Claro... Isto é, não sei direito. Mas gosto muito.

Um rapaz de barba, metido num blusão de lenhador, na mesa ao lado, disse em voz tonitruante:

—  Wenner é um ingênuo, assim como sua revista. Vol­tarei a comprá-la quando apresentar uma foto de Jerry Brown na capa.

O amigo dele declarou:

—  Wenner é Jerry Brown.

—  Assim é Berkeley — comentei para Alma.

—  Quem é Wenner?

—  Estou surpreso de que nunca tenha ouvido falar nele. Jann Wenner?

—  Quem é ele?

—  O estudante de Berkeley que fundou a Rolling Stones.

—  É uma revista?

—  Você é cheia de surpresas. Nunca ouviu realmente nada a respeito?

—  Não me interesso pela maioria das revistas. Nem se­quer olho para elas. Que espécie de revista é? O nome foi dado por causa daquele conjunto?

Assenti. Já era alguma coisa; pelo menos ela ouvira falar dos músicos.

—  Que tipo de música você gosta?

—  Também não me interesso muito por música.

—  Vamos experimentar alguns outros nomes. Sabe quem é Tom Seaver?

— Não.

—  Já ouviu falar de Willie Mays?

—  Ele não era um atleta? Também não estou muito inte­ressada em esportes.

—  Dá para notar. — Ela soltou uma risadinha. — Está se tornando cada vez mais intrigante. E o que me diz de Barbra Streisand?

Ela assumiu uma expressão zombeteira.

—  Claro que não.

—  John Ford?

—  Não.

—  Arthur Fonzarelli?

—  Não.

—  Grace Bumbry?

—  Não.

—  Desi Arnaz?

—  Não.

—  Johnny Carson?

—  Não.

—  André Previn?

—  Não.

— John Dean?

—  Não. E não me pergunte mais nada ou começarei a dizer sim a tudo.

—  O que você faz afinal? Tem certeza de que vive neste país?

—  Deixe-me experimentar com você. Já ouviu falar de Anthony Powell, Jean Rhys, Ivy Compton-Burnett, Elizabeth Jane Howard, Paul Scott, Margaret Drabble...

—  São romancistas ingleses e conheço a todos. Mas com­preendi seu argumento. Não está realmente interessada pelas coisas que não lhe interessam realmente.

—  Exatamente.

—  Nem sequer lê os jornais.

—  Não leio mesmo. E também não assisto à televisão. — Sorriu. — Acha que eu deveria ser encostada no paredão e fuzilada?

— Estou apenas interessado em saber quem são seus amigos.

— Você. É meu amigo, não é mesmo?

Por cima do comentário, por cima de toda a nossa con­versa, havia aquele verniz de ironia desinteressada. Pergun­tei-me por um momento se ela era verdadeiramente humana; sua ignorância quase total da cultura popular demonstrava, mais do que qualquer outra assertiva, o quão pouco se impor­tava com o que os outros pudessem pensar a seu respeito. O que eu julgara como sua integridade era muito mais completo do que me passara pela cabeça. Era possível que um sexto dos estudantes de pós-graduação da Califórnia jamais tivessem ouvi­do falar de um atleta como Seaver; mas quem na América po­deria ter evitado referências a Fonz?

— Mas deve ter outros amigos. Afinal, acabou de me conhecer.

—  Tenho, sim.

—  No departamento de inglês?

Não era impossível; por tudo o que eu sabia dos meus colegas, podia muito bem existir uma célula ampla de fanáticos de Virginia Woolf que jamais liam os jornais. Neles, porém, aquele alheamento ao meio ambiente seria afetação; no caso de Alma, era perfeitamente natural.

—  Não, não conheço muita gente no departamento. Co­nheci algumas pessoas que estão interessadas em ocultismo.

—  Ocultismo? — Eu não podia imaginar q que ela esta­va querendo dizer. — Sessões?  Tabuleiros  ouija?1 Madame Blavatsky? Pranchetas espíritas?

—  Não. São muito mais sérias. Pertencem a uma ordem.

Fiquei aturdido. Caíra num abismo. Imaginei o satanismo, pactos fantásticos, o que de pior havia em matéria de lunáticos na Califórnia. Ela leu meus pensamentos e acrescentou:

—  Não estou pessoalmente envolvida. Apenas conheço as pessoas.

—  Qual é o nome da ordem?

—  Oto.

— Mas... — Inclinei-me para a frente, não podendo acreditar que ouvira corretamente. — Não pode ser! Oto? Ordo...

—  Ordo Templi Orientis.

Fui dominado por um choque terrível, uma imensa incre­dulidade; e senti medo, olhando para seu lindo rosto. Oto era mais do que um grupo de malucos da Califórnia metidos em túnicas; eles eram realmente terríveis e assustadores. Sa­bia-se que eram cruéis, até mesmo brutais. Tinham algumas li­gações menores com a família Manson e fora só por isso que eu lera alguma coisa a respeito. Depois do caso Manson, parece que deixaram a Califórnia, indo provavelmente para o México. Será que ainda estavam na Califórnia? Pelo que eu lera, seria melhor que Alma tivesse conhecido os pistoleiros da Máfia; pelo menos no caso da Máfia podiam-se esperar os motivos, racionais ou não, da nossa fase do capitalismo. A Oto era matéria-prima de pesadelos.

—  E essas pessoas são suas amigas?

—  Foi o que me perguntou.

Sacudi a cabeça, ainda atônito. Ela acrescentou:

Peça que consiste de pequeno quadro apoiado em outro, maior, marcado por palavras, letras do alfabeto, etc. Desliza sobre o maior, tocando os sinais, enquanto os dedos de espiritualistas, médiuns e outros pousam levemente sobre ele. É usado para responder a perguntas e formular mensagens. (N. do E.)

—  Não se preocupe com isso. Nem com eles.  Jamais irá vê-los.

Aquilo me proporcionava uma imagem inteiramente dife­rente da vida dela; sentada à minha frente, sorrindo ligeira­mente, por um momento pareceu sinistra. Era como se eu tivesse deixado uma trilha iluminada pelo sol e me embrenhado na selva. Não pude deixar de pensar em Helen Kayon, traba­lhando nos escoceses chaucerianos na biblioteca.

—  E eu mesma não os vejo com tanta freqüência.

—  Mas já compareceu a reuniões deles? Vai a suas casas? Ela assentiu.

—  Já disse que são meus amigos. Mas não precisa preo­cupar-se com isso.

Podia ser uma mentira... outra mentira, pois eu achava que ela não me dissera a verdade o tempo todo. Mas toda a sua atitude, até mesmo a preocupação com meus sentimentos, indicava que estava sendo sincera. Alma levou a xícara de café aos lábios, sorrindo-me com um indício de preocupação; e eu a vi de pé diante de uma fogueira, segurando nas mãos alguma coisa ensangüentada...

—  Estou vendo que continua preocupado. Não precisa ficar. Não pertenço à ordem, apenas conheço algumas pessoas por lá. Como perguntou, achei que deveria saber.

—  Já compareceu a reuniões? O que costuma acontecer?

— Não posso contar. Essa é apenas outra parte da minha vida. Uma parte pequena. Não vai afetá-lo.

—  Vamos embora.

Será que eu já estava pensando, naquela ocasião, que Alma iria proporcionar-me o material para uma novela? Creio que não. Pensava que o contato dela com o grupo era provavel­mente muito menor do que insinuara; só tive uma indicação, muito mais tarde, de que talvez não fosse bem assim. Mas dis­se a mim mesmo que ela estava fantasiando, exagerando. A Oto e Virginia Woolf ? E La grande illusion? Era forçar demais.

 

Suavemente, quase provocantemente, ela me convidou a ir a seu apartamento. Não ficava muito longe do café e dava para se ir a pé. Ao deixarmos a rua mais movimentada e entrarmos numa zona escura, de casas grandes, Alma pôs-se a falar incon­sequentemente de Chicago e da vida que levara lá. Para variar, não precisei interrogá-la para obter informações sobre seu pas­sado. Tive a impressão de perceber um ligeiro tom de alívio em sua voz. Porque “confessara” seu relacionamento com a Oto? Ou porque eu não a interrogara a respeito? Concluí que a segunda opção era a mais provável. Era uma típica tarde de final de verão em Berkeley, quente e fria ao mesmo tempo — fria o bastante para se usar um casaco, mas com uma sen­sação de calor oculto no ar. Apesar da surpresa desagradável que me proporcionara, a jovem a meu lado — com sua gracio­sidade inconsciente, o espírito igualmente natural que trans­parecia em sua conversa, a beleza um tanto espectral — me estimulava, deixava-me mais feliz com a vida, como há meses não me sentia. Estar em companhia dela era como sair da hibernação.

Chegamos ao prédio em que ela morava.

— É no andar térreo — disse Alma, subindo os degraus da frente.

Pelo prazer de contemplá-la, fiquei para trás. Um pardal pousou na grade e inclinou a cabeça. Dava para sentir o cheiro de  folhas  sendo  queimadas.  Alma  virou-se,  o   rosto  imerso nas sombras do pórtico. Em algum lugar, ali perto, um ca­chorro latiu. Milagrosamente, eu ainda podia ver os olhos dela, como se brilhassem iguais a olhos de gato.

—  É tão circunspecto quanto seu livro ou vai entrar comigo?

Registrei simultaneamente o fato de que ela lera meu livro e a crítica que lhe fizera, enquanto subia rapidamente os degraus.

Não imaginara como era o apartamento dela, mas devia ter compreendido que seria inteiramente diferente da casa de­sarrumada de Helen Kayon. Alma morava sozinha, o que eu já desconfiava. Tudo na sala grande a que ela me conduziu era uniformizado por um gosto único, somente um ponto de vista; embora não obviamente, era uma das salas particulares mais luxuosas que eu já tinha visto. Estendido pelo chão, havia um tapete Bokhara, grosso e grande. A tela da lareira era flan­queada por mesas que pareciam ser Chippendale, aos meus olhos inexperientes. Diante da janela estava uma escrivaninha grande. Cadeiras listradas, ao estilo Regência; almofadões; um abajur Tiffany na escrivaninha. Compreendi que acertara ao imaginar que os pais dela tinham dinheiro e comentei:

—  Você não é a típica estudante de pós-graduação, não é mesmo?

—  Cheguei à conclusão de que era mais sensato viver com  essas  coisas  do  que  guardá-las  num  depósito.   Aceita outro café?

Assenti. Muita coisa a respeito dela agora fazia sentido, ajustava-se a um padrão que eu não havia percebido antes. Se Alma parecia alienada, era por ser realmente diferente; fora criada de um modo que noventa por cento da América não conhecem e só acreditam temporariamente: o estilo dos boê­mios excepcionalmente ricos. E se se mostrava essencialmente passiva, era porque jamais tivera que tomar uma decisão pes­soalmente. Rapidamente, imaginei uma infância de enfermeiras e babás, colégios na Suíça, férias em iates. O que explicava seu ar de intemporalidade. Fora por isso que ã imaginara a passar pela frente do Hotel Plaza, nos anos 20 de Fitzgerald. Aquele tipo de riqueza parecia pertencer a outra época.

Quando ela voltou com o café, fui logo perguntando:

—  Não gostaria de fazer uma viagem comigo, dentro de uma ou duas semanas? Podemos ficar numa casa no vale Still.

Alma franziu as sobrancelhas e inclinou a cabeça para o lado. Percebi que havia algo de andrógino em sua passividade, assim como talvez exista algo de andrógino numa prostituta.

—  É uma das jovens mais interessantes que já conheci.

—  Uma verdadeira personagem da Reader’s Digest.

—  De jeito nenhum.

Sentou-se, com os joelhos levantados, numa almofada à minha frente. Era ao mesmo tempo altamente sensual e etérea, e descartei prontamente a idéia de que poderia ter um quê de andrógino. Parecia impossível que eu tivesse acabado de pensar nisso. Sabia que tinha de ir para a cama com ela e sabia que iria; o conhecimento tornava o ato ainda mais premente.

 

“Basta deixar o dinheiro em cima da mesa, rapaz...”

 

Pela manhã, minha paixão era total. A ida para a cama ocorrera da maneira mais natural possível. Depois de conver­sarmos durante uma ou duas horas, Alma dissera:

—  Não está querendo voltar para sua casa, não é mesmo?

—  Não.

— Neste caso, é melhor passar a noite aqui.

O que se seguiu não foi a batalha de corpos habitual, a corrida frenética do sexo. Na verdade, Alma era tão passiva na cama como em tudo mais. Contudo, teve orgasmos com a maior facilidade, primeiro no estágio preliminar e depois mais inten­sos durante o período do ato propriamente dito, quando se agarrou a meu pescoço como uma criança, enquanto os qua­dris se agitavam e as pernas compridas faziam pressão contra minhas costas. Mas continuou afastada, mesmo durante essa rendição.

— Ah, eu o amo — disse ela, depois da segunda vez, agarrando os meus cabelos, mas com a pressão das mãos tão tênue quanto a voz.

Alcançando um mistério nela, encontrei outro mistério oculto. A paixão de Alma parecia provir da mesma fonte do seu ser de onde saíam os modos que exibia à mesa. Eu já fizera amor com uma dúzia de mulheres que eram “melhores de cama” do que Alma Mobley, mas com nenhuma delas experimentara aquela sensibilidade tão intensa. Alma se sentia à vontade com todas as nuanças e tonalidades dos sentimentos. Era como estar permanentemente à beira de alguma outra espécie de experiên­cia, como estar diante de uma porta por se abrir.

Compreendi pela primeira vez por que as mulheres se apaixonam pelos dom-juans, por que se humilham para per­segui-los.

E compreendi também que Alma me proporcionara uma versão altamente seletiva do seu passado. Tinha certeza de que ela fora quase tão promíscua quanto uma mulher podia ser. O que se ajustava com a Oto, com a súbita partida de Chicago; a promiscuidade parecia ser o elemento tácito do modo de ser de Alma.

O que eu queria, é claro, era suplantar todos os outros; abrir a porta e descobrir todos os mistérios dela; ter toda aquela graça e sutileza concentradas em mim. Numa fábula sufi, o elefante se apaixona por um vaga-lume e imagina que ele não brilha para qualquer outra criatura; e quando o vaga-lume voou para longe, o elefante jamais teve qualquer dúvida de que no centro de sua luz havia a imagem de um elefante.

 

O que simplesmente aconteceu foi que fiquei totalmente apaixonado. Desapareceram minhas idéias de voltar a escrever outro romance. Não podia inventar sentimentos quando estava tão intensamente dominado por eles; com o enigma de Alma diante de mim, o enigma diferente das personagens fictícias parecia artificial. Poderia cuidar disso mais tarde, mas primeiro precisava decifrar o enigma de Alma Mobley.

Pensando incessantemente em Alma, eu tinha de vê-la sempre que podia. Por dez dias, estive com ela quase todos os minutos em que não dava aulas. Histórias ainda não lidas dos meus alunos iam-se empilhando no sofá, assim como pilhas de ensaios sobre The scarlet letter. Durante esse período, nossas proezas sexuais foram incríveis. Fizemos amor em salas de aula temporariamente desertas, na sala aberta que eu partilhava com uma dúzia de outros professores. Certa ocasião, segui-a até um banheiro de mulheres e fizemos amor lá dentro, com Alma equilibrada numa pia. Um aluno da minha turma de redação criativa, depois de uma aula em que me mostrei por demais retórico, perguntou:

—  Mas como define o homem?

—  Sexual e imperfeito — respondi. 

Falei que passei com Alma “quase” todos os momentos em que não estava dando aula. As exceções foram duas noites em que ela me disse que precisava visitar uma tia em San Fran­cisco. Deu-me inclusive o nome da tia, Florence de Peyser. Mas depois que ela partiu, fui dominado pelas dúvidas. Mas Alma voltou inalterada no dia seguinte. Não pude encontrar quais­quer indícios de outro amante. Nem da Oto, que era a preo­cupação maior. E ela relatou tantos detalhes circunstanciais sobre a Sra. Peyser (um terrier Yorkshire chamado Chookie, um armário de vestidos antiquados, uma empregada chamada Rosita) que minhas suspeitas se dissiparam. Não se podia voltar de uma noite com os sinistros zumbis da oro contando histórias sobre um cachorro chamado Chookie. Se havia outros amantes, se a promiscuidade que eu sentira nela naquela pri­meira noite ainda persistia, não percebi o menor indício.

Na verdade, se alguma coisa me preocupava não era a rivalidade hipotética de outro homem, mas um comentário que Alma fizera em nossa primeira manhã juntos. E que pode ter sido simplesmente uma declaração de afeto estranhamente for­mulada:

—  Você foi aprovado.

Por um momento aflitivo, pensei que ela se estivesse re­ferindo às coisas que nos cercavam, como o vaso chinês na mesinha-de-cabeceira, a gravura emoldurada de Pissarro e o tapete felpudo. (Tudo isso me deixava mais inseguro do que estava disposto a admitir.)

—  Com que então me aprova — murmurei.

—  Não por mim. Isto é, por mim também, é claro, mas não apenas por mim.

E ela encostou um dedo em meus lábios. Um ou dois dias depois, eu já havia esquecido inteiramente esse mistério irritantemente desnecessário.

É claro que eu havia esquecido também o meu trabalho. Ou pelo menos sua maior parte. Mesmo depois das primeiras semanas freneticamente sensuais, eu passava muito menos tem­po do que antes ensinando. Estava apaixonado como nunca antes me acontecera. Era como se, por toda a minha vida, esti­vesse apenas contornando a alegria, fitando-a desconfiado, não a compreendendo; somente Alma poderia proporcioná-la. O que quer que pudesse ter-me causado desconfiança ou dúvida foi totalmente dissipado pela paixão. Se havia coisas a respeito de Alma que eu ignorava, não me importava absolutamente com isso; o que sabia era mais do que suficiente.

Tenho certeza de que foi ela quem abordou inicialmente a questão do casamento. Foi numa frase mais ou menos assim:

—  Quando nos casarmos, devemos viajar muito.

Ou então:

—  Em que tipo de casa gostaria de morar depois que nos casarmos?

A conversa passou a cair volta e meia em discussões desse tipo, sem qualquer constrangimento. Eu não sentia qualquer coação, apenas um aumento de felicidade.

—  Você foi realmente aprovado...

—  Posso conhecer sua tia um dia desses?

—  Prefiro poupá-lo — disse ela, o que não respondia à pergunta implícita. — Se nos casarmos no ano que vem, vamos passar o verão nas ilhas gregas. Tenho alguns amigos com os quais poderemos ficar... amigos de meu pai, que vivem em Poros.

—  Será que eles me aprovariam?

—  Não me importo que eles o aprovem ou não — decla­rou Alma, pegando-me a mão e fazendo meu coração disparar.

Vários dias depois, Alma comentou que depois de visi­tarmos Poros ela gostaria de passar um mês na Espanha.

—  E o que me diz de Virginia Woolf? E o seu diploma?

—  Não sou grande coisa como estudante.

É claro que eu não imaginava realmente que passaríamos meses e meses viajando, mas era uma fantasia que pelo menos parecia uma imagem do nosso futuro partilhado, como a fan­tasia da minha não-especificada aprovação continuada.

À medida que se aproximava o dia em que teria de fazer a conferência sobre Stephen Crane para Lieberman, compreendi que praticamente ainda não fizera qualquer preparativo e disse a Alma que teria de passar pelo menos umas duas noites na biblioteca.

—  De qualquer forma, será uma péssima conferência. E não me importo se Lieberman vai ou não prorrogar o meu con­trato por mais um ano, pois estou convencido de que ambos queremos deixar Berkeley o mais breve possível. Mas não posso deixar de elaborar pelo menos algumas idéias.

Ela disse que não havia problema, que estava mesmo pre­tendendo passar duas ou três noites com a Sra. Peyser.

No dia seguinte, separamo-nos com um longo abraço. Alma foi embora. Voltei para meu apartamento, onde passara muito pouco tempo no último mês e meio, arrumei algumas coisas e depois fui para a biblioteca.

No andar térreo, avistei Helen Kayon pela primeira vez desde que ela deixara o anfiteatro com Meredith Polk. Ela não me viu; estava esperando o elevador com Rex Leslie, o pro­fessor com quem eu trocara de mesa. Estavam absorvidos na conversa; enquanto eu observava,, Helen pôs a mão nas costas de Rex Leslie. Não pude deixar de sorrir, desejando-lhe sorte daquela vez, e subi pela escada.

Naquela noite, trabalhei na conferência. Não tinha nada a dizer a respeito de Stephen Crane, não estava interessado em Stephen Crane. E sempre que levantava os olhos do livro, de­parava com Alma Mobley, os olhos brilhando, a boca se en­treabrindo.

Na segunda noite da ausência de Alma, saí do aparta­mento para ir comer uma pizza e tomar uma cerveja. Avistei-a  inesperadamente parada nas sombras, ao lado de um bar cha­mado The Last Reef. Era um lugar no qual eu hesitaria em entrar, já que tinha a reputação de ser um antro de pervertidos e homossexuais à procura das chamadas emoções fortes. Fiquei paralisado; por um segundo, o que senti não foi traição, mas medo. Alma não estava sozinha e o homem em sua companhia obviamente estivera no bar, pois tinha uma garrafa de cerveja na mão. Mas, aparentemente, não era um pervertido nem um homossexual à procura de uma aventura. Era alto, a cabeça ras­pada, usava óculos escuros. Era extremamente pálido. E embo­ra estivesse vestido de maneira indefinível, de calça bege e blusão de golfe (por cima do peito nu? Tive também a impres­são de perceber alguma espécie de corrente encostada à sua pele), o homem parecia um animal, um lobo faminto em pele humana. Um menino pequeno, exausto e descalço, estava sen­tado na calçada, a seus pés. Os três formavam um grupo bas­tante estranho, parados nas sombras ao lado do bar. Alma parecia estar inteiramente à vontade na companhia do homem. Ela falava intermitentemente, o homem respondia. Pareciam mais íntimos que Helen Kayon e Rex Leslie, embora não hou­vesse entre os dois gestos de afeição familiar. O menino estava todo encolhido aos pés do homem, tremendo de vez em quando, como se receasse ser chutado. Os três davam a impressão de constituir uma família pervertida e noturna, uma típica família de Charles Addams. A graciosidade característica de Alma, e sua maneira de ser, parecia irreal e um tanto iníqua ao lado do homem que podia transformar-se em lobisomem e do me­nino patético. Recuei, pensando que o homem poderia retornar à selvageria se me visse.

Pois não havia a menor dúvida de que era assim que um lobisomem parecia. E no instante seguinte, outro pensamento me passou pela cabeça: a Oto.

O homem levantou o menino da calçada com um puxão brusco, acenou com a cabeça para Alma e entrou num carro parado junto ao meio-fio, ainda com a garrafa de cerveja na mão. O menino entrou no banco de trás. Um momento depois, o carro se afastava ruidosamente.

Mais tarde, ainda naquela noite, sem saber se estava come­tendo um erro, mas incapaz de esperar até o dia seguinte, tele­fonei para Alma.

—  Eu a vi há cerca de duas horas. Não quis incomo­dá-la. E, de qualquer forma, pensei que estivesse  em  San Francisco.

—  Aquilo lá estava muito aborrecido e voltei antes do que planejava. Não telefonei porque queria que terminasse seu trabalho. Oh, Don, meu pobre coitado!  Deve ter imaginado alguma coisa horrível!

—  Quem era o homem com quem você estava conver­sando? Cabeça raspada, óculos escuros, com um menino peque­no. .. ao lado de um bar de homossexuais.

—  Ah, então foi com ele que me viu! O nome dele é Greg. Nós nos conhecemos em Nova Orleans. Ele veio cursar a universidade aqui e acabou largando os estudos. O menino é seu irmão. Os pais morreram e Greg é quem toma conta dele. Embora eu deva dizer que não toma conta muito bem. O me­nino é retardado.

—  Ele é de Nova Orleans?

— Claro. Por que está tão desconfiado? O sobrenome dele é Benton. Morávamos na mesma rua.

Parecia plausível, desde que eu não pensasse na aparên­cia do homem a quem ela dera o nome de Greg Benton.

—  Ele está na Oto.

Alma soltou uma risada.

—  Meu pobre querido está todo confuso, não é mesmo? Não, claro que Greg não é da Oto. Não pense mais nisso, Don. Nem sei por que lhe contei.

—  Conhece realmente gente da Oto?

Ela hesitou.

—  Só alguns...

Senti-me aliviado, pensando que Alma exagerara a fim de parecer mais atraente. Talvez meu “lobisomem” fosse real­mente apenas um antigo vizinho de Nova Orleans; a visão dele, nas sombras do bar, recordara-me a primeira vez em que avis­tara a própria Alma, inteiramente sem cor, como um fantasma, na sombra da escada do campus.

—  E o que esse... Benton faz?

—  Acho que ele tem um negócio irregular de produtos farmacêuticos.

O que fazia sentido. Ajustava-se à aparência, a sua pre­sença no bar The Last Reef. Alma parecia mais próxima do constrangimento do que em qualquer outra ocasião anterior.

—  Se já acabou seu trabalho, Don, podia fazer o favor de vir até aqui para dar um beijo em sua noiva.

Eu já estava passando pela porta menos de um minuto depois.

 

Duas coisas estranhas aconteceram naquela noite. Está­vamos na cama de Alma, vigiados pelos objetos que já enu­merei. Eu tinha passado quase a noite toda mais cochilando do que dormindo. Estendi a mão e toquei de leve no braço macio e nu de Alma. Não queria acordá-la. Mas tive a sensa­ção de que ele transmitia um choque a meus dedos, não um choque elétrico, mas um choque de sentimento concentrado, um choque de repulsa. Parecia até que eu havia tocado numa lesma. Puxei a mão bruscamente. Alma virou-se na cama e mur­murou:

— Tudo bem, querido?

Murmurei qualquer coisa em resposta. Alma afagou mi­nha mão e voltou a dormir. Algum tempo depois, sonhei com ela. Via apenas seu rosto, mas não era o rosto que eu conhecia. A estranheza me fez gemer de angústia. E pela segunda vez despertei inteiramente, sem saber onde estava ou ao lado de quem me encontrava.

 

Talvez tenha sido nessa ocasião que a mudança começou, mas nosso relacionamento permaneceu superficialmente o mes­mo, pelo menos até o prolongado fim de semana no vale Still. Ainda fazíamos amor com freqüência e com plena alegria e satisfação. Alma continuava a falar jovialmente sobre a maneira como viveríamos depois do casamento. E eu continuava a amá-la, muito embora duvidando da veracidade absoluta de algumas de suas declarações. Afinal, como romancista, não era também uma espécie de mentiroso? Minha profissão consistia em inven­tar coisas e cercá-las com detalhes suficientes para que se tor­nassem plausíveis; umas poucas invenções no papel de outra pessoa não me perturbavam indevidamente. Decidíramos nos casar em Berkeley ao final do semestre, na primavera. O casa­mento parecia uma chancela formal a nossa felicidade. Mas creio que a mudança já começara, e meu recuo brusco ao con­tato com a pele de Alma, no meio da noite, foi o primeiro sinal de que se iniciara semanas antes de eu sequer percebê-la.

Um fator na mudança foi certamente a “aprovação” que eu tinha conquistado tão misteriosamente. Interroguei Alma finalmente na manhã da minha conferência sobre Crane. Era uma manhã tensa para mim, pois sabia que faria uma péssima conferência. E disse:

— Se essa aprovação que está sempre mencionando não é sua e se não é da Sra. Peyser, de quem é então? Não posso deixar de ficar imaginando coisas. Espero que não seja do seu amigo do tráfico de drogas. Ou será que é do irmão idiota dele?

Alma fitou-me, um pouco surpresa, depois sorriu e disse:

— Acho que devo lhe contar. Já somos íntimos o bastante.

—  Era o que eu imaginava.

Alma continuava a sorrir.

—  Vai parecer um tanto estranho.

—  Não me importo. Estou apenas cansado de não saber.

—  A pessoa que o está aprovando é um antigo amante meu. Espere, Don, não precisa ficar com essa cara. Não o vejo mais. Nem poderia. Ele está morto.

—  Morto? — Eu me sentei. Minha voz soava espantada e tenho certeza de que assim também era a minha expressão. Mas creio que já estava esperando algo estranho assim.

Alma assentiu, o rosto sério e divertido ao mesmo tempo, no seu habitual “efeito duplo”.’

—  É isso mesmo, Don. O nome dele é Tasker Martin.

Estou em contato com ele.

—  Está em contato com ele...

—  Constantemente.

—  Constantemente...

—  Exatamente. Converso com ele. Tasker gosta de você, Don. E gosta muito.

—  Foi ele quem me aprovou...

—  Isso mesmo. Converso com ele sobre tudo. E Tasker me disse repetidas vezes que fomos feitos um para o outro. Além disso, ele simplesmente gosta de você, Don. Se estivesse vivo, teria sido um grande amigo seu.

Fiquei olhando para ela, completamente aturdido. Depois de um momento, Alma acrescentou:

—  Eu disse que ia parecer estranho...

—  E parece mesmo.

Ela levantou as mãos. E dai?

—  Há quanto tempo... Tasker morreu?

—  Há cinco ou seis anos.

—  Outro amigo de Nova Orleans?

—  Isso mesmo.

—  E era muito chegada a ele?

—  Éramos amantes. Ele era mais velho... bem mais velho. Morreu de enfarte. E começou a falar comigo duas noi­tes depois.

—  Ele precisou de dois dias para arrumar fichas de te­lefone.

Alma não replicou.

—  Ele está falando com você neste momento?

—  Está escutando. Sente-se contente por você já saber a respeito dele.

—  Mas eu não tenho certeza se também me sinto con­tente.

—  Basta se acostumar com a idéia. Ele gosta realmente de você, Don. Vai dar tudo certo... continuará a ser exata­mente como antes.

—  Tasker costuma ligar as antenas quando estamos na cama?

—  Não sei. Acho que sim. Ele sempre gostou desse lado das coisas.

—  E é Tasker quem lhe dá algumas de suas idéias sobre o que vamos fazer depois de nos casarmos?

—  Às vezes. Foi Tasker quem se lembrou dos amigos de meu pai em Poros. Ele acha que você vai adorar a ilha.

—  E o que Tasker pensa que eu vou fazer agora que me contou a respeito dele?

—  Ele diz  que  você vai  ficar  meio  transtornado  por algum tempo e pensará que estou doida, mas acabará acostu­mando-se com a idéia. Afinal, ele está aqui e não vai a parte alguma, e você também está aqui e vamos nos casar. Don, pen­se em Tasker simplesmente como se fosse uma parte de mim.

—  E deve ser mesmo — murmurei. — Não posso por certo acreditar que você realmente mantém uma comunicação permanente com um homem que morreu há cinco anos.

Em parte, eu estava fascinado. Um hábito do século XIX, como conversar com os espíritos dos falecidos, ajustava-se per­feitamente a Alma, harmonizava até mesmo com sua passivi­dade. Mas era também arrepiante. O fantasma tagarela de Tasker Martin era obviamente uma ilusão. No caso de qualquer outra pessoa que não fosse Alma, seria o sintoma de uma doen­ça mental. Horrível também era a idéia de ser aprovado por amantes anteriores. Olhei para Alma, que me fitava com uma expressão paciente e suave de expectativa, e pensei: “Ela pa­rece mesmo um andrógino. Poderia ter sido um bonito rapaz sardento de dezenove anos”. Alma sorriu, a expectativa ainda em seu rosto. Minha vontade era fazer amor com ela, ao mes­mo tempo em que sentia uma separação entre nós. Os dedos compridos e bem-feitos estavam estendidos sobre a madeira envernizada da mesa, ligados a mãos e pulsos igualmente bo­nitos. Também me atraíam e repeliam ao mesmo tempo.

—  Vamos ter um lindo casamento, Don.

—  Você, eu e Tasker.

—  Ele bem que disse que você teria inicialmente essa reação.

A caminho da conferência, recordei-me do nativo de Nova Orleans, Greg Benton, que vira em companhia de Alma, com seu rosto rude e brutal; não pude conter um tremor.

Pois um indício da anormalidade de Alma, uma indicação de que ela não era como qualquer outra pessoa que eu conhe­cera antes, era o fato de insinuar um mundo no qual podiam existir fantasmas que davam conselhos e homens que eram lobos disfarçados. Não consigo pensar em outra maneira qualquer de me expressar. Não estou querendo dizer que Alma me fez acreditar na parafernália do sobrenatural, mas certamente su­geriu que tais coisas podiam estar pairando a nosso redor, invi­síveis. Você pisa num pedaço de chão com toda a aparência de sólido e descobre que desmorona sob seu pé; olha para baixo e, ao invés de ver relva, terra, a solidez que esperava, avista uma caverna comprida, onde coisas rastejantes correm de um lado para outro a fim de escaparem da luz. Pois aqui existe uma caverna, uma espécie de abismo, pensa você; até onde irá? Será que está por baixo de tudo e a sólida terra não passa de uma ponte para este lugar? Não, não deve; é muito provável que não seja. “Amo Alma”, disse a mim mesmo. “Va­mos nos casar no próximo verão.” Pensei em suas pernas ex­traordinárias, no rosto maravilhoso, na sensação que experi­mentava ao lado dela, de estar empenhado num jogo compreen­dido apenas pela metade.

Minha segunda conferência foi um desastre. Apresentei idéias de segunda mão, tentei relacioná-las cm vão e acabei me perdendo nas anotações que fizera, entrei em contradições. Pensando em outras coisas, disse que The red badge of courage era “uma grande história de fantasmas em que o fantasma nunca aparece”. Era impossível disfarçar minha falta de preparo e interesse pelo que estava dizendo. Houve umas poucas palmas irônicas quando acabei. Senti-me grato pelo fato de Lieberman ter ido novamente a Iowa.

Depois da conferência, fui para um bar e pedi uma dose dupla de Johnny Walker rótulo preto. Antes de ir embora, fui até a cabine telefônica nos fundos e peguei o catálogo de San Francisco. Procurei primeiro na letra P e nada encontrei. Co­mecei a suar frio. Mas quando procurei em D, lá estava “de Peyser, F.” O endereço ficava no lado direito da cidade. Talvez a terra fosse um terreno sólido no final das contas; claro que era.

 

No dia seguinte, telefonei para o escritório de David e disse-lhe que gostaria de usar sua casa no vale Still.

— Fantástico! — disse David. — E veio a calhar. Arrumei algumas pessoas para ficarem vigiando a casa, a fim de que ninguém roube nada, mas sempre quis que você a usasse, Don,

—  Tenho andado muito ocupado.

—  Como vão as mulheres por aí?

—  Estranhas e novas. Para dizer a verdade, acho que fiquei noivo.

—  Não parece ter muita certeza.

—  Estou noivo e vou casar-me no próximo verão.

—  Mas como é o nome dela? Já contou a alguém? Puxa vida! Já ouvi muitos anúncios de casamento esquisitos, mas declarado desse jeito...

Disse o nome dela e acrescentei:

—  David, não contei a mais ninguém da família. Se entrar em contato com os outros, diga que escreverei em breve. Ser noivo absorve a maior parte do meu tempo.

Ele me explicou como chegar à sua casa no vale, deu-me os nomes dos vizinhos que estavam com a chave e disse:

—  Estou feliz por você, irmãozinho.

E nos despedimos com as promessas habituais de uma correspondência permanente.

 

David comprara a propriedade no vale Still quando ainda trabalhava numa firma de advocacia da Califórnia. Com sua sagacidade habitual, escolhera o lugar cuidadosamente, queren­do que sua casa de férias tivesse bastante terreno ao redor — eram oito acres — e ficasse perto do mar. Gastara em seguida todo o dinheiro disponível para reformar e redecorar inteira­mente a casa. Ao se transferir para Nova York, David conser­vara a casa, sabendo que os preços das propriedades no vale Still ainda seriam muito valorizados. Desde então, o valor da casa provavelmente já quadruplicara, o que demonstrava cabal­mente que David não era nenhum tolo. Depois que Alma e eu pegamos as chaves com o pintor e sua esposa que trabalhava com cerâmica, a vários quilômetros da propriedade de David, pela estrada do vale, viramos num caminho de terra que seguia na direção do mar. Pudemos ouvir e cheirar o Pacífico antes mesmo de vermos a casa. Ao vê-la finalmente, Alma mur­murou:

— Don, este é o lugar onde devemos passar nossa lua-de-mel!

Eu fora enganado pela constante referência de David ao lugar como uma “cabana”. Esperava uma construção de ma­deira de dois ou três cômodos, provavelmente com os encanamentos pelo lado de fora. Em vez disso, parecia exatamente o que era: a diversão dispendiosa de um jovem e rico advogado.

—  Seu irmão deixa uma casa assim ficar vazia?

—  Acho que ele vem aqui duas ou três semanas por ano.

—  Essa não!

Eu nunca antes vira Alma tão impressionada.

—  O que Tasker acha?

—  Ele  acha  que é  incrível.  E  diz  que  parece  Nova Orleans.

Eu deveria ter imaginado.

Contudo, a descrição não era incorreta: a “cabana” de David era uma estrutura de madeira alta, de dois andares, ofuscantemente branca e espanhola na concepção, com sacadas de ferro batido preto projetando-se das janelas do andar superior. Grossas colunas flanqueavam a maciça porta da frente. Por trás da casa, podíamos avistar o interminável mar azul, lá embaixo. Peguei nossas malas no carro, subi os degraus e abri a porta. Alma seguiu-me.

Depois de passarmos por um pequeno vestíbulo ladrilha­do, entramos numa sala imensa, onde havia diversas áreas altea­das e outras rebaixadas. Um espesso carpete branco se estendia por cima de tudo. Havia imensos sofás e mesinhas de tampo de vidro em diferentes áreas da sala. As vigas expostas haviam sido polidas e envernizadas, correndo por toda a extensão do teto.

Eu já sabia o que iria encontrar antes mesmo de inspecionarmos a casa. Sabia que haveria uma sauna e um forno, um caríssimo equipamento estereofônico, um equipamento Cuisinart na cozinha, uma prateleira cheia de pornografia instru­tiva no quarto... e tudo isso avistamos de passagem pela casa. Havia também um Betamax, uma porção de bugigangas de arte decorativa, um bidê em cada banheiro... quase que imediata­mente me senti preso dentro da fantasia de outra pessoa. Não tinha a menor idéia de que David ganhara tanto dinheiro du­rante os seis anos na Califórnia; assim como também não sabia que seu gosto permanecera naquele nível.

—  Não gosta, não é mesmo? — perguntou Alma.

—  Estou espantado.

—  Qual é o nome do seu irmão?

Dei a informação.

—  E onde ele trabalha?

Ela assentiu quando falei o nome da firma, não como Rachel Varney o teria feito, com uma ironia desinteressada, mas como se estivesse conferindo o nome numa lista.

Mas não havia a menor dúvida de que Alma estava certa: eu não gostava da Xanadu de David.

De qualquer forma, ali estávamos e tínhamos que passar três noites na casa. Alma rapidamente assumiu a casa como se lhe pertencesse. Mas enquanto ela preparava a comida na co­zinha repleta de engenhocas, divertindo-se com os brinquedinhos dispendiosos de David, fui ficando cada vez mais mal-humorado. Achei que Alma se adaptara à casa de alguma maneira fantástica, passara sutilmente da estudiosa de Virginia Woolf para uma dona-de-casa suburbana; subitamente, pude vê-la empilhando mercadorias num carrinho no supermercado.

Mais uma vez, estou comprimindo impressões a respeito de Alma num único parágrafo. Mas, neste caso, estou conden­sando as impressões de dois dias apenas, e a mudança nela foi simplesmente uma questão de grau. Contudo, eu tinha a sen­sação inquietante de que, assim como em seu apartamento Alma era a mais perfeita encarnação da jovem rica e boêmia, na casa de David ela irradiava indícios de uma personalidade afeita às cozinhas com mil e uma engenhocas e às saunas domés­ticas. Passou a falar muito mais do que o habitual. As frases sobre como viveríamos depois do casamento transformaram-se em verdadeiros ensaios. Descobri onde teríamos uma base nos intervalos entre as viagens (Vermont), quantos filhos teríamos (três) e assim por diante.

E pior do que isso, Alma pôs-se a falar incessantemente sobre Tasker Martin.

— Tasker era um homem grandalhão, Don, com cabelos brancos maravilhosos, um rosto firme, os olhos azuis incrivel­mente penetrantes. O que Tasker mais gostava... Já lhe contei que Tasker... Um dia, Tasker e eu fomos...

Isso, mais que qualquer outra coisa, provocou o fim da minha paixão.

Mas, mesmo então, achei difícil aceitar que meus sen­timentos haviam mudado. Enquanto ela descrevia as persona­lidades dos nossos filhos, descobri-me a cruzar os dedos men­talmente... quase estremecendo. Percebendo o que estava fazendo, disse a mim mesmo: “Mas não está apaixonado? Não pode até mesmo agüentar a fantasia de Tasker Martin? Não é capaz de qualquer coisa por ela?”

 

O tempo contribuiu para tornar as coisas ainda piores. Embora encontrássemos sol e calor no dia em que chegamos, nossa primeira noite no vale Still foi submersa por um denso nevoeiro escuro, que perdurou pelos três dias seguintes. Ao olharmos na direção do mar pelas janelas dos fundos, tínhamos a impressão de estar cercados de mar por toda parte, um mar cinzento e a tudo amortecendo. (Evidentemente, é isso que Saul Malkin imagina em seu quarto de hotel em Paris com Rachel Varney.) Em determinados momentos, podia-se avistar quase que metade do caminho para a estrada do vale; em outras ocasiões, porém, não dava para se ver além da distância de um braço estendido. Uma lanterna naquele cinzento úmido não surtia o menor efeito.

E lá estávamos nós, as manhãs e tardes na casa de David, enquanto o nevoeiro cinzento desfilava pelas janelas e o ba­rulho das ondas quebrando na praia lá embaixo sugeria que a qualquer momento a água poderia começar a entrar por baixo da porta. Alma estava elegantemente enroscada num sofá, segu­rando uma xícara de chá e um prato onde havia uma laranja cortada em partes iguais.

—  Tasker costumava dizer que eu seria a mulher mais bonita da América quando chegasse aos trinta anos. Estou ago­ra com vinte e cinco anos e acho que vou desapontá-lo. Tas­ker dizia...

O que eu sentia era medo.

Na segunda noite, Alma se levantou da cama, inteira­mente nua, despertando-me. Sentei-me na cama, esfregando os olhos na escuridão. Alma atravessou o quarto frio e cinzento até a janela. Não havíamos fechado as cortinas. Alma parou diante da janela, de costas para mim, olhando... olhando para absolutamente nada. A janela dava para o mar. Porém, embora pudéssemos ouvir o barulho das ondas durante a noite inteira, a janela nada revelava além do cinzento a turbilhonar. As cos­tas de Alma pareciam extremamente longas e pálidas no quar­to escuro.

—  O que é, Alma? — perguntei.

Ela não se mexeu nem falou.

—  Há alguma coisa errada? — A pele dela parecia sem vida, mármore branco e frio. — O que aconteceu?

Alma virou-se lentamente e murmurou:

—  Vi um fantasma...

(Ou pelo menos foi isso o que Rachel Varney disse a Saul Malkin. Será que Alma na verdade disse “Eu sou um fan­tasma”? Não pude ter certeza, pois ela falou muito baixo. Eu já estava mais do que cansado de ouvir falar em Tasker Mar­tin, e minha reação foi um resmungo. Mas se ela tivesse dito “Eu sou um fantasma”, será que eu teria reagido de maneira diferente?)

—  Essa não, Alma! — exclamei, não tão aborrecido quan­to teria ficado durante o dia. O frio no quarto, a janela escura e o corpo pálido e esguio de mulher faziam com que a pre­sença de Tasker se tornasse mais real do que em outras cir­cunstâncias.  Senti-me um pouco assustado e acrescentei:  — Diga-lhe para ir embora e volte para a cama.

Mas não adiantou. Alma pegou o robe na cama, vestiu-o e se sentou, a cadeira virada na direção da janela.

—  Alma?

Ela não respondeu nem se virou. Deitei novamente e aca­bei adormecendo.

 

Depois do longo fim de semana no vale Still, as coisas foram se encaminhando para o seu fim inevitável. Muitas vezes pensei que Alma estava meio louca. Ela jamais explicou seu comportamento daquela noite. Depois do que aconteceu com David, perguntei-me se todas as ações dela não faziam parte do que chamei uma vez de jogo: se ela não estava deliberada e conscientemente manipulando minha mente e sentimentos. Uma jovem rica e passiva, terrorista do ocultismo, estudiosa de Virginia Woolf, semilunática... ela simplesmente não ti­nha a menor coerência.

Continuou a projetar-nos no futuro. Depois do vale Still, no entanto, comecei a inventar pretextos para evitá-la. Pen­sava que a amava, mas o amor estava ofuscado pelo medo. Tasker, Greg Benton, os zumbis da Oto... como me poderia casar com tudo isso?

Passei a sentir também uma repulsa física, além da moral. Nos dois meses subseqüentes ao vale Still, praticamente ces­samos de fazer amor, embora eu passasse algumas noites em sua cama. Quando a beijava, quando a abraçava, quando a acariciava, podia ouvir meu próprio pensamento: “Já chega”.

Minhas aulas, exceto em raros momentos de brilho com a turma de redação criativa, tornaram-se monótonas e insípidas. E eu havia parado inteiramente de escrever. Um dia Lieberman pediu-me que fosse procurá-lo em seu gabinete. Quando che­guei, foi logo dizendo:

—  Um de seus colegas descreveu-me a conferência que fez sobre Stephen Crane. Disse realmente que The red badge era uma história de fantasmas sem um fantasma? — Assenti, e ele acrescentou: — Importa-se de me explicar o que isso significa?

—  Não sei o que significa. Minha mente estava vaguean­do. E a retórica escapou ao controle.

Ele me fitou com uma expressão de repulsa.

— E achei que você tinha começado bem...

Eu sabia que não havia por que pensar em passar mais um ano em Berkeley.

 

Então, Alma desapareceu. Forçara-me, como as pessoas de­pendentes conseguem forçar as outras a fazerem o que bem desejam, a ir encontrá-la para um almoço num restaurante perto do campus. Fui para lá, ocupei uma mesa, esperei meia hora e finalmente compreendi que Alma não ia aparecer. Eu me pre­parara para ouvir mais histórias do que iríamos fazer em Vermont e não estava com fome, mas comi uma salada simples­mente porque me senti aliviado e depois fui para casa.

Alma não telefonou naquela noite. Sonhei com ela, sen­tada na proa de uma pequena embarcação, deslizando por um canal e sorrindo enigmaticamente, como se me proporcionar um dia e uma noite de liberdade fosse o último ato da charada.

Pela manhã, comecei a me preocupar. Telefonei para Alma diversas vezes durante o dia, mas ela não estava ou então deci­dira não atender. (O que me provocara uma recordação bem nítida. Uma dúzia de vezes, enquanto eu estava em seu apartamento, Alma deixara o telefone tocar até a pessoa desistir.) Telefonei mais duas vezes durante a noite e senti-me feliz por não obter uma resposta. Fiquei acordado até duas horas da ma­drugada, escrevendo uma carta de rompimento.

Antes da minha primeira aula, fui até o prédio em que Alma morava. O coração estava disparado, tinha medo de encontrá-la por acaso e ser obrigado a pronunciar as frases que pareciam muito mais convincentes no papel. Subi os degraus do prédio e constatei que as cortinas das janelas de Alma esta­vam fechadas. A porta estava trancada. Quase toquei a cam­painha. Em vez disso, porém, enfiei a carta, com a inscrição “Alma”, entre a janela e o caixilho, onde ela iria vê-la, assim que subisse a escada. E depois — não há outra palavra para descrever — fugi.

É claro que Alma sabia os horários de minhas aulas e fiquei esperando vê-la aguardando do lado de fora de uma sala de aula ou do anfiteatro, com a minha carta presunçosa na mão e uma expressão provocante no rosto. Mas cheguei ao final do dia escolar sem vê-la.

O dia seguinte foi uma repetição do anterior. Fiquei preocupado com a possibilidade de Alma ter-se matado; afastei tal preocupação; fui dar minhas aulas da tarde, telefonei para o apartamento dela, mas ninguém atendeu. Jantei num bar. De­pois, fui a pé até a rua de Alma e vi que o retângulo branco da minha traição ainda estava no mesmo lugar. Voltei para casa e pensei por um momento se devia ou não tirar o fone do gan­cho; acabei deixando. A esta altura, já estava quase disposto a admitir que desejava que ela me telefonasse.

No dia seguinte, eu tinha uma aula de literatura americana às duas horas. Para chegar ao prédio, precisava atravessar um amplo espaço calçado. O lugar estava sempre apinhado. Os estudantes instalavam ali mesinhas onde se podiam assinar pe­tições para a legalização da maconha, ou se declarar a favor do homossexualismo e em defesa das baleias. Entre os estudantes, avistei Helen Kayon, pela primeira vez desde aquela noite na biblioteca. Estava de mãos dadas com Rex Leslie. Pareciam excepcionalmente felizes, envolvidos por um contentamento animal como se fosse uma bolha. Desviei os olhos, sentindo-me um perdido na rua da amargura. Compreendi que há dois dias não fazia a barba, não tomava banho e não mudava de roupa.

Ao desviar os olhos de Helen e Rex, avistei um homem alto e pálido, a cabeça raspada, óculos escuros, fitando-me por detrás de uma fonte. O menino de expressão vazia, descalço e com um macacão esfarrapado, estava sentado a seus pés. Greg Benton parecia ainda mais assustador do que nas sombras ao lado do The Last Reef. De pé, em pleno sol, junto de uma fon­te, ele e o irmão eram aparições extraordinárias, pareciam uma dupla de tarântulas. Até mesmo os estudantes de Berkeley, que já tinham visto muita coisa em matéria de estranheza humana, desviavam-se deles. Benton não falou nem gesticulou ao per­ceber que eu o estava fitando, mas toda a sua atitude, a incli­nação da cabeça raspada, a maneira como mantinha o corpo, tudo era um gesto. E tudo expressava raiva, como se eu o ti­vesse enfurecido por ter escapado com alguma coisa. Era como um borrão furioso de escuridão na praça ensolarada; como um câncer.

No instante seguinte, compreendi que Greg Benton, por alguma razão, estava aturdido e impotente. Olhava-me com aquela expressão furiosa porque era tudo o que podia fazer. No mesmo instante, abençoei a proteção dos milhares de estu­dantes. E depois pensei que Alma estava em dificuldades. Em perigo. Ou morta.

Afastei-me de Benton e seu irmão e corri na direção do portão. Atravessei a rua e virei-me a fim de olhar para Benton, pois sentira que ele me ficara observando correr... sentira sua satisfação impiedosa. Mas ele e o irmão haviam desapa­recido. A fonte murmurava, os estudantes passavam de um lado para outro. Avistei Rex e Helen entrando num dos pré­dios. Mas o câncer   sumira.                                              

Quando cheguei à rua de Alma, meu medo parecia absur­do. Sabia que estava reagindo a meu próprio sentimento de culpa. Mas Alma não indicara nossa separação final ao me dei­xar esperando no restaurante? O fato de eu estar tão preocupado e angustiado pela segurança dela parecia uma manipulação final. Prendi a respiração. E depois constatei que as cortinas das janelas de Alma estavam entreabertas e o envelope desa­parecera.                                                           

Corri pela calçada e subi os degraus. Inclinando-me para o lado, pude olhar através da janela. Tudo desaparecera. A sala estava inteiramente vazia. E no assoalho, antes coberto pelos tapetes de Alma, avistei meu envelope. Não tinha sido aberto.

 

Voltei para meu apartamento inteiramente atordoado e assim permaneci por muitas semanas. Não podia entender o que havia acontecido. Sentia ao mesmo tempo um enorme alívio e uma enorme perda. Alma deveria ter deixado seu aparta­mento no próprio dia em que marcáramos um encontro no restaurante. Mas o que teria imaginado? Uma última brinca­deira? Ou saberia que tudo estava terminado, desde o fim de semana no vale Still? Estaria desesperada? Era muito difícil acreditar nisso.

E se eu estava tão ansioso para me livrar dela, por que sentia agora que me estava arrastando por um mundo que já não tinha mais tanto significado? Alma desaparecendo, eu fi­cava com o mundo despojado de causa e efeito, o mundo aritmético... e se não sentia mais o medo que ela despertara em mim, também perdera o mistério. O único mistério que me res­tara era o do lugar para onde Alma fora. O único não, pois havia outro mistério ainda maior: quem era Alma.

Bebi muitos durante esse período, faltei a muitas aulas. Dormia durante a maior parte do dia. Era como se estivesse dominado por alguma doença genérica, que me tirara todas as energias e me deixara sem qualquer outra ocupação que não dormir e pensar em Alma. Depois de uma semana, quando co­mecei a me sentir mais saudável, recordei que vira Benton no campus e imaginei que ele estava furioso porque a coisa com que eu conseguira escapar fora a minha vida.

Voltei a dar aulas e pouco depois deparei com Lieberman num corredor. A princípio, ele virou a cabeça, com a intenção óbvia de me ignorar. Mas mudou de idéia, fitou-me nos olhos e disse:

—  Pode ir a meu gabinete por um momento, Wanderley?

Ele também estava furioso, mas era uma raiva que eu podia enfrentar. Pensei em dizer que era apenas uma raiva humana... mas qual a raiva que não o é? A de um lobisomem?

Assim que entramos no gabinete, fui logo dizendo:

—  Sei que o desapontei. Mas minha vida saiu dos eixos bruscamente. E caí doente. Vou procurar encerrar o ano da maneira mais honrosa possível.

—  Desapontou? É uma palavra muito amena para o que aconteceu. — Ele se recostou na cadeira estofada em couro, os olhos brilhando intensamente. — Acho que nunca sofremos uma decepção tão grande com um dos nossos professores con­vidados. Depois que lhe confiei uma conferência importante, aparentemente reuniu a maior mixórdia... o pior lixo... — Fez uma pausa, controlando o ímpeto. — E faltou a mais aulas do que qualquer outro professor em nossa história desde que tivemos um poeta alcoólatra que tentou incendiar os escritórios da junta de recrutamento. Em suma, você tem se mostrado re­lapso, relaxado, preguiçoso, incompetente... uma vergonha total! Queria apenas que soubesse o que penso a seu respeito. Sozinho, conseguiu pôr em risco todo o nosso programa de pre­paração de novos escritores. E, como sabe, esse programa é zelosamente supervisionado. Temos que dar satisfações a um conselho. E terei que defendê-lo perante esse conselho, por mais que a perspectiva me desagrade.

—  Não posso culpá-lo por estar se sentindo assim — declarei. — Mas é que me envolvi numa estranha situação... e tenho a impressão de que cheguei à beira de um colapso.

—  Fico imaginando quando vocês, os chamados criado­res, vão compreender que não podem escapar impunemente a seus atos. — A explosão fê-lo sentir-se melhor. Uniu as pon­tas dos dedos diante do rosto e fitou-me por cima, acrescentan­do: — Creio que não deve estar esperando que eu lhe dê uma recomendação altamente favorável.

—  Claro que não! — Pensei por um momento. — Más gostaria de saber se lhe posso fazer uma pergunta.

Ele assentiu.

—  Já ouviu falar de um professor de inglês na Universidade de Chicago chamado Alan McKechnie? — Os olhos dele se arregalaram, cruzou as mãos. — Não sei muito bem por que estou perguntando, apenas queria saber se conhece alguma coisa a respeito dele.

—  Mas por que diabo está querendo saber?

—  Porque estou curioso, mais nada.

—  Essa não! — Lieberman se levantou e foi até a janela do gabinete, que proporcionava uma esplêndida vista do cam­pus. — Detesto rumores, como sabe perfeitamente.

O que eu sabia era que ele os adorava, como a maioria dos acadêmicos.

—  Conheci Alan ligeiramente. Participamos de um simpósio sobre Robert Frost, há cinco anos. Era um homem sólido e compenetrado. Talvez um tanto tomista demais, mas não há outro jeito em Chicago, não é mesmo? O que não o impe­dia de ter uma mente excepcional. E aposto que sua família também era maravilhosa.

—  Ele tinha filhos? Esposa?

Lieberman fitou-me com uma expressão desconfiada.

— Claro. Foi o que fez com que a coisa se tornasse ainda mais trágica. Além da perda de suas contribuições para o campo, é claro.                                                

—  Tem razão. Eu tinha esquecido.

— Mas o que você sabe afinal? Não vou difamar um co­lega só porque...  só porque...

—  Havia uma jovem — murmurei.

Lieberman assentiu, satisfeito.

—  Isso  mesmo. Ou  pelo  menos  aparentemente  havia. Ouvi falar a respeito na última convenção da Associação de Linguagem Moderna. Um dos colegas de  departamento de McKechnie contou-me a história. Ele foi simplesmente sedu­zido. A jovem o perseguiu implacavelmente. Atormentou-o até que cedesse. “La belle dame sans merci.” Era uma de suas alu­nas de pós-graduação. Essas coisas costumam acontecer, estão sempre acontecendo. Uma garota se apaixona pelo professor, consegue seduzi-lo, algumas vezes leva-o a abandonar a esposa, a maioria das vezes não. A maioria de nós tem um mínimo de bom senso. — Ele tossiu. Nesse momento, não pude deixar de pensar: “Você não passa de um bosta”. — Mas não foi o que aconteceu com McKechnie. Ele simplesmente desmoronou. A garota arruinou-o. Ao final, ele acabou se matando. E ima­gino que a garota desapareceu à meia-noite, como nas melhores histórias. O que não consigo imaginar é o que tudo isso tem a ver com você.

Alma falseara quase tudo na história de McKechnie. Perguntei-me o que mais não seria também mentira. Voltando ao apartamento, liguei para o número da Sra. de Peyser. Uma mu­lher atendeu.

—  Sra. de Peyser?

Era a própria.

—  Desculpe estar incomodando-a pelo que talvez seja um caso de equívoco de identidade, Sra. de Peyser. Quem está fa­lando é Richard Williams, do First National Bank da Califór­nia. Temos um pedido de empréstimo de uma Srta. Mobley, que indicou seu nome como referência. Estou efetuando a ve­rificação de rotina. Está designada como tia da jovem.

— Como o quê? Qual é o nome dela?      

— Alma Mobley. O problema é que ela esqueceu de for­necer seu endereço e telefone e há diversas outras Sras. de Peyser na área da baía de San Francisco. E estou precisando da informação correta para os nossos arquivos.

—  Pois esteja certo de que não sou eu! Posso garantir-lhe que jamais conheci qualquer pessoa chamada Alma Mobley!

— Não tem uma sobrinha chamada Alma Mobley, que está fazendo um curso de pós-graduação em Berkeley?

— Claro que não! Sugiro que volte a procurar essa Srta. Mobley e peça o endereço da tia dela, a fim de não ficar per­dendo tempo.

— É o que pretendo fazer agora mesmo, Sra. de Peyser.

 

O segundo semestre foi confuso e indistinto. Comecei um novo livro, mas não consegui levá-lo adiante. Não sabia o que fazer da personalidade de Alma: ela era “La belle dame sans merci”, como Lieberman dissera, ou era uma jovem nas fronteiras mais distantes da sanidade? Não sabia como tratá-la e o primeiro esboço enveredou por caminhos tão disparatados que poderia ter sido um exercício na utilização de um narrador incoerente. E senti também que o livro precisava de outro ele­mento, um elemento que eu ainda não podia determinar qual era, antes de prosseguir.

David telefonou-me em abril. Parecia excitado, feliz, mais jovem do que em muitos anos.

—  Tenho notícias surpreendentes — disse ele. — Notí­cias espantosas! Nem sei como contar!

—  Robert Redford comprou a história de sua vida para fazer um filme.

— Como? Ora, deixe disso! Falando sério, é mesmo mui­to difícil contar para você.

—  Por que não começa do princípio?

— Está bem, está bem. É exatamente isso o que vou fazer, espertinho. Há dois meses, no dia 3 de fevereiro... — era o próprio advogado em ação — ... fui a Columbus Circle, para conversar com um cliente. O tempo estava horrível e, na volta, tive de partilhar um táxi. Péssima notícia, não é mesmo? Mas descobri-me sentado ao lado da mulher mais linda que já vi na vida! Fiquei com a boca ressequida. Não sei de onde fui tirar coragem, mas acabei convidando-a para jantar. Não cos­tumo fazer uma coisa dessas!

—  Sei perfeitamente que não.

David era formal demais para convidar jovens estranhas para jantar. Jamais entrou num bar de gente sem compromis­sos, à procura de um programa, em toda a sua vida.

—  Pois essa jovem e eu nos combinamos maravilhosa­mente. Encontrei-a todas as noites daquela semana. E desde então estamos saindo juntos. Para dizer a verdade, vamos nos casar. Essa é a primeira metade da notícia.

—  Meus parabéns, David. E desejo que tenha melhor sorte do que eu.

—  Agora, vamos à outra metade, a mais difícil. O nome dessa jovem extraordinária é Alma Mobley.

—  Não é possível!

—  Espere um pouco! Sei que é um tremendo choque para você, Don. Mas Alma me contou tudo o que aconteceu entre vocês e acho que é essencial que saiba que ela lamenta pro­fundamente. Conversamos muito a respeito. Ela sabe que feriu seus sentimentos, mas sabia também que não era a mulher certa para você. E você não era o homem certo para ela. Além disso, Alma não se sentia bem na Califórnia. Diz que não con­seguia ser ela própria. E receia que você tenha ficado com uma idéia completamente errada a respeito dela.

— É justamente o que penso. Tudo nela está errado. Alma é uma espécie de bruxa, terrivelmente destrutiva.

—  Ei, vamos com calma! Não se esqueça de que vou ca­sar-me com essa moça, Don. Ela não é a pessoa que você ima­gina. Conversamos muito sobre isso. E nós dois, você e eu, também temos muito o que conversar. Eu gostaria que pe­gasse um avião para Nova York neste fim de semana, a fim de podermos conversar o quanto for necessário para esclarecer tudo. E terei o maior prazer em pagar todas as despesas.

— Tudo isso é absolutamente ridículo, David. Pergunte a ela quem foi Alan McKechnie. Escute a resposta. E depois lhe contarei a verdade.

—  Espere um instante, companheiro. Alma e eu já con­versamos sobre tudo isso. Sei que ela lhe deu uma versão adulterada do caso de McKechnie. Mas será que não pode imaginar como ela estava abalada? Por favor, Don, venha até aqui. Nós três precisamos ter uma longa conversa.

—  Não vou de jeito nenhum. Alma é uma espécie de Circe.

—  Estou no escritório neste momento, Don, mas voltarei a lhe telefonar mais para o final da semana. Está combinado? Precisamos esclarecer tudo. Não quero que meu irmão tenha qualquer ressentimento contra a mulher que vai tornar-se mi­nha esposa.

Ressentimento? O que eu sentia era horror!

David voltou a telefonar naquela noite e perguntei se já conhecera Tasker. Ou se sabia da ligação entre Alma e a Ordo Templi Orientis.

— É nisso que você está com idéias erradas, Don. Ela simplesmente inventou tudo isso. Estava se sentindo muito insegura aí na Califórnia. Além do mais, quem pode levar essas coisas a sério? Ninguém aqui em Nova York jamais ouviu falar da Oto. Na Califórnia, as pessoas ficam preocupadas com as coisas mais banais.

E a Sra. de Peyser? Alma dissera a David que eu era terrivelmente possessivo. A Sra. de Peyser fora apenas um re­curso para dispor de algum tempo para si mesma.

—  Deixe-me fazer-lhe outra pergunta, David. Algumas vezes, talvez uma única, não olhou ou tocou em Alma e sen­tiu... algo muito estranho? Como se tivesse algum escrúpulo em tocá-la, por mais que sinta naquele momento?

—  Você deve estar brincando...

David não permitiu que eu me afastasse de todo e qual­quer envolvimento com Alma Mobley, como era o meu desejo. Não queria deixar a situação como estava. Telefonava de Nova York duas ou três vezes por semana, cada vez mais aflito por minha recusa em aceitar a luz da razão.

—  Temos de esclarecer tudo, Don. Estou me sentindo terrivelmente culpado em relação a você.

—  Não precisa ficar.

— Não consigo entender sua atitude, Don. Sei que deve estar com um ressentimento terrível.  Se tivesse ocorrido o inverso, com Alma saindo da minha vida e decidindo casar-se com você, confesso que eu ficaria perturbado. Mas enquanto você não admitir seu ressentimento não poderemos resolver nada.

—  Não tenho nenhum ressentimento, David.

—  Essa não, irmãozinho! Vamos ter de conversar, mais cedo ou mais tarde. Alma e eu pensamos da mesma forma a respeito.

Um dos meus problemas era não saber até que ponto as suposições de David estavam certas. Era verdade que eu estava um pouco ressentido com David e Alma; mas seria apenas o ressentimento que me fazia sentir horror da idéia de vê-los casados?

Cerca de um mês depois, com muitas outras conversas infrutíferas no intervalo, David telefonou e disse:

—  Vai ter uma trégua nos telefonemas do seu irmão, Don. Preciso tratar de um caso em Amsterdam e vou pegar o avião para lá amanhã. Passarei cinco dias fora. Alma não vai a Amsterdam desde que era criança e me fará companhia. Eu lhe mandarei um cartão-postal. Mas quero que me faça um favor, Don: pense bastante em nossa situação, para podermos con­versar assim que eu voltar. Combinado?

—  Farei o melhor possível. Mas acho que está se preo­cupando demais com o que eu possa pensar.

—  O que você pensa é muito importante para mim.

—  Está certo, David. E também quero pedir um favor a você: tome cuidado.

E o que eu estava querendo dizer com isso?

Pensei muitas vezes que tanto David como eu subestimáramos a capacidade de maquinação de Alma. Será que ela não poderia ter tramado o seu encontro aparentemente acidental com David? E se ela o tivesse procurado deliberadamente? Quando pensava em tais possibilidades, Gregory Benton e as histórias de Tasker Martin pareciam ainda mais sinistras... como se eles também, além de Alma, estivessem espreitan­do David.

Quatro dias depois, recebi um telefonema de Nova York comunicando que David estava morto. Era um dos sócios de David, Bruce Putnam. A polícia holandesa enviara um tele­grama para o escritório.

— Quer ir até Amsterdam, Sr. Wanderley? — perguntou Putnam. — Gostaríamos que cuidasse de tudo. Peço apenas que nos mantenha informados. Seu irmão era muito estimado e respeitado aqui. Nenhum de nós consegue imaginar o que pode ter acontecido. Ao que parece, ele caiu de uma janela.

—  Tiveram alguma notícia da noiva de David?

—  E ele tinha uma noiva? Pois nunca nos contou. Ela foi à Europa com David?

—  Foi, sim. E deve ter visto tudo. Deve saber o que aconteceu. Vou pegar o primeiro avião.

Havia um avião no dia seguinte para o Aeroporto Schiphol. Assim que desembarquei, peguei um táxi e segui direto para a delegacia de polícia que expedira o telegrama para o escritório de David. Foi muito pouco o que descobri. David passara por uma janela e uma sacada com uma grade na altura do peito. O dono do hotel ouvira um grito e mais nada — nem vozes, nem discussão. A polícia achava que Alma o deixara. Ao entrar no quarto, não encontrara nenhuma das roupas dela nos armários.

Fui ao hotel, examinei a sacada e virei-me para o armário aberto. Três ternos de David estavam ali pendurados, com dois pares de sapatos por baixo. Contando o que ele devia estar usando na hora de sua morte, trouxera quatro ternos e três pares de sapatos para uma estada de cinco dias. Pobre David!

 

Tratei de providenciar a cremação e, dois dias depois, compareci ao crematório e fiquei observando o caixão de David deslizar sobre trilhos na direção de uma cortina verde de franjas.

Mais dois dias e eu estava de volta a Berkeley. Meu pe­queno apartamento parecia uma cela, terrivelmente estranho. Era como se eu me tivesse afastado irremediavelmente da pes­soa que fora nos tempos em que procurava referências para James Fenimore Cooper. Comecei a esboçar The nightwatcher e passei a preparar-me novamente para as aulas que iria dar. Uma noite, telefonei para o apartamento de Helen Kayon, pen­sando em convidá-la para tomar um drinque, a fim de poder conversar sobre Alma e meu irmão. Meredith Polk informou que Helen se casara com Rex Leslie na semana anterior. Des­cobri-me dormindo a intervalos durante o dia inteiro, mesmo indo deitar antes das dez horas da noite. Bebia muito, mas não conseguia ficar embriagado. Se sobrevivesse àquele ano, pensei, iria para o México e ficaria deitado ao sol e trabalhando em meu livro.

E escapando às minhas alucinações. Certa ocasião, acordei por volta da meia-noite e ouvi o barulho de alguém na cozinha. Levantei e fui verificar, deparando com meu irmão David, pa­rado ao lado do fogão, segurando o bule de café.

— Está dormindo demais, garoto — disse ele. — Aceita um café?

Em outra ocasião, falando sobre Henry James durante uma aula, vi numa cadeira não a jovem de cabelos vermelhos que eu sabia estar ali, mas David novamente, o rosto coberto de sangue, o terno rasgado, acenando de satisfação por constatar o quão inteligente eu podia ser ao discorrer sobre Portrait of a lady.

Mas eu tinha mais uma descoberta a fazer antes de poder ir para o México. Um dia, fui à biblioteca e, ao invés de me concentrar nas revistas literárias, peguei um exemplar do Who’s Who do ano de 1960. Era quase um ano arbitrário; mas se Alma estava com vinte e cinco anos quando eu a conhecera, então deveria ter nove ou dez anos em 1960.

Robert Mobley constava do livro. Pelo que me recordo — e me lembro muito bem, pois li diversas vezes — o registro era o seguinte:

MOBLEY, ROBERT OSGOOD, pintor e aquarelista; n. Nova Orleans, Louisiana, 23 de fevereiro de 1909; f. Felix Morton e Jessica (Osgood); formado pela Universidade de Yale em 1927; casou-se com Alice Whitney a 27 de agosto de 1936; filhos — Shelby Adam, Whitney Osgood. Expo­sições: Galeria Flagler, Nova York; Galerias Winson, Nova York; Galeria Flam, Paris; Schlegel, Zurique; Ga­leria Esperance, Roma. Prêmios: Paleta de Ouro, 1946; Prêmio da Associação Regional de Pintores Sulistas, 1952, 1955, 1958. Tem obras em: Museu Adda May Lebow, Nova Orleans; Museu de Belas-Artes de Louisiana; Insti­tuto das Artes de Chicago; Museu de Belas-Artes de San­ta Fé; Centro de Artes de Rochester; e vários outros. Serviu como capitão-de-fragata na Marinha dos Estados Unidos de 1941 a 1945. Membro da Sociedade Paleta de Ouro; Associação Regional de Pintores Sulistas; Socie­dade Americana de Aquarela; Associação Americana de Pintores; Academia Americana de Pintura a Óleo. Clubes: Links Golf; Deepdale Golf; Meadowbrook; Century (Nova York); Lyford Cay (Nassau); Garrick (Londres). Autor de: I carne this way. Residências: 38957 Canal Boulevard, Nova Orleans, Louisiana; 18, Church Row, Lon­dres, NW3, Inglaterra; Dans Le Vigne, Route de la Belle Isnard, Saint-Tropez, 83, França.

Robert Mobley, pintor rico e freqüentador dos melhores clubes, tivera dois filhos, mas nenhuma filha. Tudo o que Alma me contara — e presumivelmente a David também — não passara de invenção. Ela se apresentara com um nome falso e não tinha qualquer história; podia perfeitamente ter sido um fan­tasma. Pensei depois em Rachel Varney, uma morena de olhos escuros, com todos os acessórios da fortuna e um passado obs­curo, e compreendi que era David o elemento que estava fal­tando no livro que eu tentava escrever.

Passei quase três semanas escrevendo tudo isso e a única coisa que fiz foi recordar. Não estou mais próximo de alguma compreensão do que antes.

Mas cheguei a uma conclusão, talvez absurda. Não estou mais tão disposto a rejeitar sumariamente a idéia de que pode haver alguma relação entre The nightwatcher e o que aconteceu a David e a mim mesmo. Estou na mesma situação da Socie­dade Chowder: já não sei mais em que acreditar. Se algum dia for convidado a contar uma história para a Sociedade Chowder, vou relatar-lhes o que acabei de escrever aqui. Este relato da minha história com Alma — e não The nightwatcher — é a minha história da Sociedade Chowder. Assim, no final das contas, talvez eu não tenha desperdiçado meu tempo. Adquiri também uma base para o livro do Dr. Rabbitfoot. Estou igual­mente disposto a mudar de opinião a respeito de uma questão importante, talvez a mais importante neste momento. Quando comecei a escrever tudo isso, na noite seguinte ao enterro do Dr. Jaffrey, pensei que seria destrutivo imaginar-me no cenário e atmosfera de um dos meus livros. Contudo... eu não estava no cenário em Berkeley? Minha imaginação pode ter sido mais liberal do que eu pensava.

 

Diversas coisas estranhas estavam acontecendo em Mil­burn. Aparentemente, alguns animais domésticos, vacas e ca­valos, haviam sido mortos por alguma besta estranha. Ouvi um homem comentar numa drugstore que os bichos tinham sido mortos por tripulantes de um disco voador! E, o que era muito mais sério, um homem morrera ou fora morto. O corpo dele foi encontrado numa estação ferroviária abandonada. Era um corretor de seguros chamado Freddy Robinson. Lewis Benedikt, em particular, deu a impressão de ter sofrido um rude golpe com essa morte, embora tudo indicasse que fora acidental. Na verdade, parece que está acontecendo algo muito estranho com Lewis; ele está ficando cada vez mais abstraído e irrequieto, quase como se estivesse se culpando pela morte de Robinson.

Também tenho um pressentimento estranho, que vou re­gistrar aqui, mesmo com o risco de me sentir um idiota rema­tado ao relê-lo após alguns anos. O pressentimento é absolu­tamente infundado, é mais uma ligeira intuição do que um pressentimento: se começar a esmiuçar Milburn mais atenta­mente, fazendo o que a Sociedade Chowder está me pedindo, acabarei descobrindo o que levou David a se lançar de uma sacada de hotel em Amsterdam.

 

Mas a sensação mais estranha, a sensação que faz a adre­nalina disparar por meu corpo, é a de que estou prestes a entrar dentro de minha própria mente, a viajar pelo território de meus próprios escritos, só que desta vez sem o faz-de-conta cômodo da ficção. Não haverá Saul Malkin desta vez; apenas eu.

 

A cidade

“Narciso, contemplando sua imagem na água, chorou. Um amigo que passava viu-o e perguntou: — Por que chora, Narciso?

—  Porque meu rosto mudou — disse Narciso.

—  Chora porque envelheceu?

—  Não. É que estou vendo que não sou mais inocente. Tenho me contemplado cada vez por mais e mais tempo e assim fazendo esgotei minha inocência.”

 

Como Don registrara em seu diário, sentado no quarto 17 do Hotel Archer, reconstituindo os meses que passara com Alma Mobley, Freddy Robinson morrera em circunstâncias es­tranhas. E como Don também anotara, três vacas de um fazen­deiro chamado Norbert Clyde haviam sido mortas. O Sr. Clyde, aproximando-se do estábulo na noite da ocorrência, vira algo que o deixara apavorado. Voltara correndo para casa e não se atrevera a sair de novo até os primeiros clarões do amanhecer, quando tinha de iniciar as tarefas cotidianas e precisava sair de qualquer maneira. Sua descrição do vulto que avistara é que inspirara, entre umas poucas almas mais crédulas de Milburn, a história de uma criatura de um disco voador que Don ouvira na drugstore. Tanto Walt Hardesty como o agente rural do condado, que examinaram as vacas mortas, também ouviram a história, mas não eram crédulos o suficiente para aceitá-la. Walt Hardesty, como já sabemos, tinha suas próprias teorias; tinha o que considerava boas razões para supor que mais alguns ani­mais seriam mortos daquela maneira e depois tudo acabaria. Sua experiência com Sears James e Ricky Hawthorne levou-o a guardar tais teorias para si mesmo, sem dizer nada ao agente rural, que preferiu ignorar alguns fatos óbvios a chegar à con­clusão de que em algum lugar da região havia um cachorro imenso que se tornara um assassino. Preparou um relatório nesses termos e voltou para a sede do condado, convencido de que não havia mais nada com que se preocupar. Elmer Scales, que soubera das vacas de Norbert Clyde e era de qualquer for­ma propenso a acreditar em discos voadores, passou três noites seguidas sentado à janela da sala de sua casa, com uma espin­garda carregada no colo (“...você pode vir de Marte, rapaz, mas quero ver como vai ficar quando levar uma carga de chumbo”) Ele não poderia prever ou compreender o que estaria fazendo com aquela espingarda dois meses depois... Walt Har­desty, que teria de dar um jeito na confusão armada por Elmer, estava satisfeito em deixar as coisas em ponto morto, até o próximo acontecimento estranho. Enquanto isso, só tinha de pensar num jeito de fazer com. que os dois advogados se abris­sem... eles e o amigo deles, Sr. Lewis “Esnobe” Benedikt. Eles sabiam de alguma coisa que não estavam dizendo, assim como também sabiam de algo relacionado com a morte do seu velho companheiro, o Dr. John “Viciado” Jaffrey. Não era possível que eles aceitassem tudo aquilo como normal, disse Hardesty para si mesmo, ao deitar-se no quartinho atrás de seu gabinete. Pôs uma garrafa de uísque no chão, ao lado da cama. E o Sr. Ricky “Esnobe” Hawthorne “Chifrudo” e o Sr. Sears “Roebuck Esnobe” James não estavam absolutamente se com­portando de maneira normal.

Mas Don não sabe e por isso não pode registrar em seu diário que Milly Sheehan, depois de deixar a casa dos Hawthor­ne e voltar para a casa da Montgomery Street onde vivia com John Jaffrey, lembra uma certa manhã em que o médico não chegara a instalar os protetores contra tempestade nas janelas e ela pega um casaco e sai de casa para verificar se pode fazer o serviço sozinha. Enquanto olha para as janelas, desesperada (sabendo que jamais será capaz de levantar tão alto as pesadas peças), o Dr. Jaffrey contorna o lado da casa e sorri. Ele está usando o terno que Ricky Hawthorne escolheu para o enterro, mas não tem sapatos nem meias. A princípio, o choque de vê-lo descalço é pior do que o outro choque.

—  Milly, diga a todos para partirem... diga a todos para saírem. Tenho visto o outro lado, Milly, e é horrível. — A boca se mexe, mas as palavras parecem soar como num filme mal dublado. — Horrível. Não se esqueça de dizer a eles.

Milly desmaia. Fica sem sentidos apenas por alguns se­gundos e volta a si choramingando, os quadris doloridos da queda. Mas, apesar de todo o medo que sente, olha ao redor e não vê pegadas na neve. E compreende que estava apenas ven­do coisas... e por isso não vai dizer nada a ninguém. É por coisas assim que metem as pessoas no hospício.

—  Tudo por causa daquelas malditas histórias e do Sr. Sears James — murmura ela para si mesma, voltando para o interior da casa, a coxear.

Don, sentado sozinho no quarto 17, evidentemente não pode saber da maioria das coisas que ocorrem em Milburn, enquanto faz uma excursão de três semanas ao passado. Mal vê a neve, que continua a cair intensamente. Eleanor Hardie não economiza no aquecimento, assim como não deixa jamais de. passar o aspirador de pó no tapete do saguão. Assim, Don se sente devidamente aquecido. Uma noite, Milly Sheehan ouve o vento mudar de direção, passando a soprar para o norte e oeste. Saindo da cama para pegar outro cobertor, Milly avista estrelas entre as nuvens. Volta para a cama e fica escutando o vento soprar cada vez mais forte... e depois ainda mais forte, sa­cudindo a janela, fazendo força para entrar no quarto. A cor­tina se agita, as venezianas se sacodem ruidosamente. Pela ma­nhã, ao acordar, Milly encontra alguns flocos de neve cobrindo o peitoril da janela.

 

E aqui estão alguns dos outros acontecimentos ocorridos em Milburn naquelas duas semanas, enquanto Don Wanderley, consciente, deliberada e minuciosamente, evocava o espírito de Alma Mobley.

Walter Barnes estava sentado em seu carro no posto Exxon de Len Shaw e pensava na esposa, enquanto Len enchia o tanque. Há meses que Christina ficava andando a esmo pela casa, volta e meia olhando para o telefone. Walter finalmente começara a pensar que ela tinha um amante. Não lhe saía da cabeça a recordação nítida de um Lewis Benedikt embriagado a acariciar os joelhos de Christina na trágica festa de Jaffrey... e de uma Christina embriagada deixando-o fazer isso. Era ver­dade que Christina ainda era uma mulher atraente e ele se tor­nara um barrigudo banqueiro de cidade pequena, não a po­tência financeira que em outros tempos imaginara. Sabia que a maioria dos homens de sua turma em Milburn ficaria na maior felicidade em poder ir para a cama com Christina, mas já se haviam passado quinze anos desde que uma mulher o fitara com uma expressão provocante pela última vez. Walter sentiu-se angustiado. Mais um ano e o filho estaria indo embo­ra. Ficariam então apenas ele e Christina, procurando fingir que eram felizes. Len tossiu e disse:

—  Como está sua amiga, a Sra. Hawthorne? Achei que ela estava um pouco magra e pálida na última vez em que este­ve aqui. E pensei que tivesse pegado uma gripe forte.

—  Ela está bem — respondeu Walter Barnes, pensando que Len, como noventa por cento dos homens da cidade, inclu­sive ele próprio, também cobiçava Stella.

O que deveria fazer, pensou Walter, era fugir com Stella Hawthorne, ir para algum lugar como Pago Pago e esquecer inteiramente o que era ser solitário e casado em Milburn. Não podia saber que a solidão que iria envolvê-lo seria pior do que qualquer coíba que jamais imaginara;

e Peter Barnes, o filho do banqueiro, estava sentado em outro carro, ao lado de Jim Hardie, seguindo para uma taverna ordinária, trinta quilômetros além dos limites da cidade. Jim, que tinha quase um metro e noventa de altura e era bastante musculoso, o rapaz que ateara fogo ao velho estábulo de Pugh porque soubera que as garotas Dedham ali guardavam seus ca­valos, estava fazendo um relato de suas proezas sexuais com a nova mulher que estava hospedada no hotel, a tal de Anna. Eram histórias que jamais seriam verdadeiras, não no sentido que Jim lhes emprestava;

e