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OS PILARES DA TERRA Volume II / Ken Follett
OS PILARES DA TERRA Volume II / Ken Follett

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS PILARES DA TERRA Volume II

 

     1140 - 1142

      A prostituta que William escolheu não era muito bonita, mas tinha seios grandes e sua imensa cabeleira crespa o atraíra. Circulou em torno dele, balançando as cadeiras, e William viu que era um pouco mais velha do que pensara, talvez vinte e cinco ou trinta anos, e, embora sua boca sorrisse inocentemente, tinha olhos duros e calculistas.

      Walter escolheu a outra. Preferiu uma garota pequena que parecia vulnerável, com corpo de garoto, de peito chato. Depois que William e Walter fizeram sua escolha, os outros quatro cavaleiros entraram.

      William os trouxera ao bordel porque precisavam se aliviar de algum modo. Não participavam de uma batalha há meses e estavam se tornando descontentes e brigões.

      A guerra civil que irrompera um ano antes, entre o rei Estêvão e sua rival Matilde, chamada de Imperatriz, atingira um intervalo de calmaria. William e seus homens seguiram Estêvão por todo o sudoeste da Inglaterra. A estratégia dele era enérgica mas caprichosa. Atacava uma das fortalezas de Matilde com tremendo entusiasmo, mas se não conquistasse logo uma vitória, rapidamente se cansava do sítio, e seguia em frente. A liderança militar dos rebeldes não cabia a Matilde, e sim a seu meio irmão Robert, conde de Gloucester; e até aquele momento Estevão não conseguira forçá-lo a um confronto. Era uma guerra indefinida, com muito movimento e pouco combate de verdade, e assim os homens ficavam inquietos.

      O prostíbulo era dividido por biombos em pequenos aposentos, com um colchão de palha em cada um. William e seus cavaleiros levaram as mulheres que escolheram para esses quartinhos. A de William ajustou o biombo para assegurar sua privacidade e arriou a parte de cima da camisa, expondo os seios. Eram fartos, como William vira antes, mas tinham os mamilos grandes e as pequenas veias de uma mulher que amamentara, e ele ficou um pouco desapontado. Mesmo assim, puxou-a para junto de si e os tomou nas mãos, apertando-os e beliscando os mamilos.

      - Devagar - disse ela, num tom de suave protesto. Depois o abraçou e puxou-lhe os quadris, esfregando-se contra ele. Após alguns momentos enfiou a mão por entre os corpos unidos e procurou seu membro.

      William resmungou uma praga. Seu corpo não estava reagindo.

      - Não se preocupe - murmurou ela. Seu tom condescendente o enfureceu, mas ele nada disse quando a mulher se soltou do seu abraço e, ajoelhando-se, ergueu a parte da frente da sua túnica e começou a trabalhar com a boca.

      A princípio a sensação lhe agradou, e ele pensou que tudo fosse dar certo, mas logo perdeu o interesse de novo. Olhou para o rosto dela, coisa que às vezes o inflamava, mas que agora só serviu para se lembrar do papel nada admirável que estava fazendo. Começou a se sentir furioso, o que fez seu pênis encolher mais ainda.

      A mulher parou.

      - Tente relaxar - disse, mas quando começou de novo, chupou com tanta força que o machucou. Ele recuou, e os dentes dela arranharam a pele delicada da glande, fazendo-o gritar. Com as costas da mão deu uma bofetada no seu rosto. Ela arquejou e caiu de lado.

      - Puta desajeitada! - rosnou William. A mulher ficou deitada no colchão a seus pés, olhando-o receosamente. Ele deu-lhe um pontapé ao acaso, mais de irritação que de maldade. Pegou na barriga. Foi com mais força do que tencionara, e ela se dobrou ao meio de dor.

      William percebeu que seu membro finalmente estava reagindo.

      Ajoelhou-se, rolou o corpo dela para que ficasse de costas e montou. A mulher fitou-o com dor e medo nos olhos. William puxou-lhe a saia até a cintura. O pêlo entreas pernas era grosso e crespo. Ele gostou disso. Acariciou a si próprio enquanto olhava para o seu corpo. A ereção ainda não estava completa. O medo começava a desaparecer dos olhos dela. Ocorreu-lhe que podia estar deliberadamente se esquivando, tentando esvaziar seu desejo para não ter que servi-lo.

      A ideia o enfureceu. Cerrou o punho e deu-lhe um soco com força no rosto.

      Ela gritou e tentou sair de baixo dele. William descansou o peso sobre a mulher, prendendo-a no chão, mas ela continuou a lutar e a gritar. Agora o pênis estava totalmente ereto. Tentou abrir-lhe as coxas à força, mas ela resistiu.

      O biombo foi empurrado para um lado e Walter entrou, usando apenas as botas e a camisa de baixo, com o membro duro lembrando um mastro de bandeira. Dois outros cavaleiros o seguiram: Gervase Feio e Hugh Machado.

      - Segurem-na para mim, rapazes - ordenou William. Os três cavaleiros ajoelharam-se em torno da mulher e a imobilizaram.

      William colocou-se em posição para penetrá-la e parou, desfrutando a expectativa.

      - O que aconteceu, milorde? - perguntou Walter.

      - Mudou de ideia quando viu o tamanho dele - disse William, com um sorriso.

      Todos caíram na gargalhada. William penetrou-a. Gostava quando tinha gente olhando. Começou a se mover para dentro e para fora.

      - Você me interrompeu quando eu ia enfiar o meu - disse Walter.

      William pôde ver que Walter ainda não ficara satisfeito.

      - Pois enfie o pau na boca desta aqui - disse. - Ela gosta.

      - Vou experimentar. - Walter mudou de posição e agarrou a mulher pelos cabelos, levantando sua cabeça. A essa altura estava assustada o bastante para fazer qualquer coisa, e cooperou prontamente. Gervase e Hugh não eram mais necessários para segurá-la, mas ficaram para assistir. Pareciam fascinados. Provavelmente nunca tinham visto uma mulher servindo a dois homens ao mesmo tempo. William também nunca vira. Havia algo curiosamente excitante naquilo. Walter parecia sentir o mesmo, porque após alguns momentos começou a respirar com força e a se mexer mais e mais, até que gozou. Vendo-o, William gozou também um segundo ou dois mais tarde.

      Um instante depois eles se levantaram. William ainda se sentia excitado.

      - Por que vocês dois não trepam com ela? - disse a Gervase e a Hugh. Agradava-lhe a ideia de assistir à repetição do espetáculo.

      Eles não se mostraram entusiasmados, contudo.

      - Tenho uma bonequinha me esperando - disse Hugh.

      - E eu também - disse Gervase.

      A mulher se levantou e ajeitou o vestido. A expressão do seu rosto era imperscrutável.

      - Não foi tão ruim, foi? - perguntou-lhe William.

      Ela parou na sua frente, encarou-o por um momento, contraiu os lábios e cuspiu. William sentiu o rosto coberto por um líquido quente e viscoso: ela retivera o sêmen de Walter na boca. Aquilo toldou-lhe a vista. Furioso, ergueu a mão para bater nela, mas a mulher fugiu, esgueirando-se por entre os biombos. Walter e os outros cavaleiros caíram na risada. William não achou nada engraçado, mas não podia correr atrás dela com o rosto coberto de sêmen, e concluiu que o único modo de preservar a dignidade era fingir que não se importava, de modo que riu também.

      - Bem, milorde - disse Gervase Feio -, espero que não vá ter um bebê de Walter agora! - E todos caíram na gargalhada mais uma vez. Até mesmo William achou engraçado.

      Saíram juntos do pequeno reservado, apoiando-se uns nos outros e esfregando os olhos. As outras mulheres os olhavam, ansiosas; tinham ouvido o grito da que estava com William e sentiam medo. Um ou dois clientes olharam curiosamente de seus compartimentos.

      - Primeira vez que vejo aquele tipo de coisa cuspido por uma mulher! - disse Walter, fazendo com que todos começassem a rir novamente.

      Um dos escudeiros de William estava de pé junto à porta, parecendo ansioso. Não passava de um rapazinho, e provavelmente nunca estivera num bordel. Sorriu, nervoso, sem saber se tinha direito de se associar às gargalhadas.

      - O que você está fazendo aqui, seu cara de tacho? - perguntou William.

      - Chegou uma mensagem para o senhor, milorde - disse o escudeiro.

      - Bem, não perca tempo, diga-me o que é!

      - Sinto muito, milorde - disse o menino. Estava tão assustado que William achou que ia se virar e sair correndo.

      - O que você sente tanto, seu monte de estrume? - vociferou o lorde. - Passe-me a mensagem!

      - Seu pai está morto - deixou escapar o rapaz, caindo no choro.

      William arregalou os olhos, estupefato. Morto?, pensou. Morto?

      - Mas ele está em perfeito estado de saúde! - gritou estupidamente. Era verdade que seu pai já não era capaz de lutar num campo de batalha, mas isso não era de espantar num homem de quase cinquenta anos. O escudeiro continuou a chorar. William rememorou a aparência de seu pai na última vez em que o vira: corpulento, o rosto vermelho, vigoroso e irascível, tão cheio de vida quanto um homem poderia ser, e isso apenas há... William percebeu, com um pequeno choque, que já fazia quase um ano que não via o pai.

      - O que aconteceu? - perguntou ao escudeiro. - O que aconteceu a ele?

      - Teve um ataque, milorde - soluçou o escudeiro.

      Um ataque. A notícia começou a ser digerida. Seu pai estava morto. Aquele homem grande, forte, dado a rompantes, irritadiço, estava deitado impotente e frio sobre uma laje de pedra.

      - Tenho que ir para casa - disse William, de súbito.

      - Primeiro vai ter que pedir ao rei para liberá-lo - lembrou Walter delicadamente.

      - Sim, sim, tem razão - concordou ele, meio confuso. – Tenho que pedir permissão. - Não conseguia pensar direito.

      - Devo dar dinheiro à cafetina? - perguntou Walter.

      - Sim. - William entregou-lhe sua bolsa. Alguém pôs a capa dele sobre os seus ombros. Walter murmurou qualquer coisa para a cafetina e lhe deu dinheiro. Hugh abriu a porta para William.Todos saíram.

      Atravessaram as ruas da cidadezinha em silêncio. William se sentia alheio, como se estivesse observando tudo de cima. Não podia aceitar o fato de que seu pai já não existia. Quando se aproximou do quartel-general, tentou recuperar o controle.

      O rei Estêvão instalara sua corte na igreja, pois não havia castelo ou prefeitura ali. Era uma igreja pequena e simples, de pedra, com as paredes internas pintadas de vermelho, azul e laranja brilhantes. Um fogo fora aceso no meio do chão. O rei, um homem bonito, de cabelo castanho-alourado, estava sentado perto do fogo num trono de madeira, com as pernas esticadas na posição em que costumava relaxar. Usava roupas de soldado, botas altas e túnica de couro, mas tinha uma coroa em vez de um elmo. William e Walter abriram caminho por entre a multidão de peticionários nas proximidades da porta da igreja, balançaram a cabeça para os guardas que mantinham o público em geral a distância e entraram. Estêvão conversava com um conde recém-chegado, mas viu William e interrompeu imediatamente.

      - William, meu amigo. Você já soube...

      William fez uma reverência.

      - Majestade.

      Estêvão levantou-se.

      - Lamento por você - disse. Abraçou William por um momento.

      Sua solidariedade trouxe as primeiras lágrimas aos olhos do lorde.

      - Tenho que lhe pedir licença para ir à minha casa - disse ele.

      - Concedida de boa vontade, embora não alegremente – disse o rei. - Sentiremos falta de seu forte braço direito.

      - Muito obrigado, majestade.

      - Concedo-lhe também a custódia do condado de Shiring, e todas as rendas por ele geradas, até que a questão da sucessão seja decidida. Vá para casa, enterre seu pai e volte para nós o mais cedo que puder.

      William fez outra reverência e retirou-se. O rei retomou à sua conversa. Cortesãos acercaram-se de William para lhe apresentar os pêsames. Foi nessa hora que o significado do que o rei lhe dissera o atingiu. Ele dera a William a custódia do condado até que a questão da sucessão fosse decidida. Que questão? William era filho único. Como poderia haver uma questão? Olhou para os rostos à sua volta e se deteve num jovem padre que era o mais inteligente dos clérigos do rei. Puxou-o para junto de si e perguntou baixinho:

      - Que diabo ele quis dizer com a "questão" da sucessão, Joseph?

      - Há outro pretendente ao condado - respondeu Joseph.

      - Outro pretendente? - repetiu William, atônito. Não tinha meios irmãos, irmãos ilegítimos, primos...  - Quem é?

      Joseph apontou para um vulto de costas para eles. Estava com os recém-chegados. Usava traje de escudeiro.

      - Mas ele não é nem sequer cavaleiro! - disse William, em voz alta. - Meu pai era o conde de Shiring!

      O escudeiro o ouviu e se virou.

      - Meu pai também era o conde de Shiring.

      A princípio William não o reconheceu. Era um rapaz bonito, de ombros largos, de cerca de dezoito anos, bem-vestido para um escudeiro, e com uma bela espada. Havia confiança e até mesmo arrogância na sua atitude. O mais impressionante de tudo era que o olhava com tanto ódio que William se encolheu.

      O rosto era muito familiar, mas mudado. Ainda assim, não conseguiu se lembrar de quem era. Depois viu que havia uma feia cicatriz na orelha direita do escudeiro, onde o lobo fora cortado. Num lampejo vívido da memória ele viu um pedacinho de carne branca caindo no peito arfante de uma virgem aterrorizada, e ouviu o grito de dor de um menino. Aquele era Richard, o filho do traidor Bartholomew, irmão de Aliena. O garotinho que tinha sido forçado a assistir a dois homens estuprando sua irmã, crescera e se tornara um homem temível, com o brilho da vingança nos olhos azul-claros. William sentiu-se, de repente, terrivelmente amedrontado.

      - Você se lembra, não se lembra? - perguntou Richard, num tom delicado que não disfarçou o frio ódio que sentia.

      - Eu me lembro. - assentiu William.

      - Eu também, William Hamleigh - disse Richard. - Eu também.

     

      William estava sentado na cadeira grande, à cabeceira da mesa, onde seu pai costumava sentar-se. Sempre soubera que ocuparia aquele lugar um dia. Imaginara que se sentiria imensamente poderoso quando o fizesse, mas na verdade estava um pouco assustado. Tinha medo de que dissessem que ele não era o homem que seu pai fora e que o desrespeitassem.

      Sua mãe ficava à sua direita. Frequentemente a observara, com seu pai sentado à cabeceira, e vira o modo como jogava com os medos e fraquezas do marido para conseguir o que queria. Estava determinado a não deixar que fizesse o mesmo com ele.

      À sua esquerda estava sentado Arthur, um homem grisalho e de maneiras conciliadoras que tinha sido alcaide de Bartholomew. Depois que se tornara conde, Percy contratara Arthur por ter um bom conhecimento da propriedade. William sempre tivera suas dúvidas quanto a esse argumento. Os empregados de outras pessoas sempre tendem a se manter aferrados aos hábitos do antigo empregador.

      - O rei Estêvão não pode fazer de Richard o conde - estava dizendo sua mãe furiosamente. - Ele não passa de um escudeiro!

      - Não compreendo nem como conseguiu ser escudeiro – disse William, irritado. - Pensei que tinha ficado completamente sem dinheiro. Mas estava bem-vestido e com uma boa espada. Onde arranjou o dinheiro?

      - Ele se estabeleceu como mercador de lã - disse Regan.

      - Tem muito dinheiro. Ou melhor, sua irmã tem; soube que é Aliena que dirige o negócio.

      Aliena. Então ela estava por trás daquilo. William nunca a esquecera, mas ela não atormentava tanto os seus pensamentos desde que a guerra irrompera, até que tinha encontrado Richard. Desde então estivera em sua lembrança continuamente, tão jovem e bonita, tão frágil e desejável como sempre. William a odiava pelo poder que exercia sobre ele.

      - Então Aliena está rica agora? - perguntou, afetando indiferença.

      - Sim. Mas você combateu pelo seu rei durante um ano. Ele não pode recusar sua herança.

      - Parece que Richard lutou corajosamente também - disse William. - Fiz investigações. Pior ainda, sua coragem chegou ao conhecimento do rei.

      A expressão de sua mãe mudou do escárnio colérico para um ar pensativo.

      - Então ele realmente tem uma chance.

      - Receio que sim.

      - Certo. Então temos que repeli-lo.

      - Como? - perguntou William automaticamente. Tinha resolvido não deixar sua mãe assumir o comando, mas acabara de lhe dar mais uma oportunidade.

      - Você precisa voltar para junto do rei com um maior efetivo de cavaleiros, novas armas e melhores cavalos, e com muitos escudeiros e homens de armas.

      William teria gostado de discordar, mas viu que ela estava com a razão. No final o rei provavelmente daria o condado ao homem que prometesse ser seu partidário mais efetivo, a despeito do que fosse certo ou errado no caso.

      - E isso não é tudo - prosseguiu sua mãe. - Você deve se cuidar para ter atitudes e aparência de um conde. Assim o rei começará a ver sua designação como algo inevitável.

      A despeito de si próprio, William ficou intrigado.

      - E como um conde deve parecer e agir?

      - Diga mais o que pensa. Tenha uma opinião a respeito de tudo: como o rei deveria conduzir a guerra, a melhor tática para cada batalha, a situação política no norte e - especialmente isto - a capacidade e a lealdade dos outros condes. Fale com um homem sobre o outro. Diga ao conde de Huntingdon que o conde de Warenne é um grande combatente; diga ao bispo de Ely que não confia no xerife de Lincoln. As pessoas dirão ao rei: "William de Shiring está na facção do conde de Warenne", ou "William de Shiring e seus seguidores são contra o xerife de Lincoln". Se você parecer poderoso, o rei se sentirá à vontade lhe dando mais poder.

      William tinha pouca fé em tamanha sutileza.

      - Acredito que o tamanho do meu exército terá mais importância. - Ele se virou para o alcaide. - Quanto há no meu tesouro, Arthur?

      - Nada, milorde - respondeu Arthur.

      - Que diabo é isso que você está falando? - perguntou William de modo áspero. - Tem que haver alguma coisa. Quanto é?

      Arthur tinha um ar ligeiramente superior, como se não tivesse nada a temer de William.

      - Milorde, não há dinheiro algum no tesouro.

      William teve ímpetos de estrangulá-lo.

      - Isto aqui é o condado de Shiring! - exclamou, alto o bastante para fazer os cavaleiros e os funcionários do castelo sentados mais longe levantarem a cabeça. - Tem que haver dinheiro!

      - O dinheiro entra o tempo todo, milorde, é claro - disse Arthur, maneirosamente. - Mas sai de novo, sobretudo em tempo de guerra.

      William examinou o rosto pálido e barbeado. Arthur era por demais pretensioso. Seria honesto? Não havia como dizer. Gostaria de ter olhos capazes de enxergar o coração de um homem.

      Regan sabia o que o filho estava pensando.

      - Arthur é honesto - disse, sem se importar com a presença do homem ao seu lado. - Está velho, é indolente e teimoso, mas é honesto.

      William ficou desolado. Acabara de se sentar naquela cadeira e seu poder já estava encolhendo, como que por mágica. Sentiu-se amaldiçoado. Parecia haver uma lei dizendo que William seria sempre um menino entre os homens, não importa quão velho ficasse.

      - Como foi que isso aconteceu? - perguntou debilmente.

      - Seu pai esteve doente a maior parte do ano antes de morrer - disse a mãe. - Vi que estava deixando as coisas se descontrolarem, mas não pude fazer com que tomasse uma providência qualquer.

      Era novidade para William que sua mãe não fosse onipotente. Jamais a vira antes incapaz de conduzir os acontecimentos ao seu modo. Virou-se para Arthur:

      - Temos algumas das melhores fazendas do reino aqui. Como podemos estar sem dinheiro?

      - Algumas das fazendas passam por dificuldades, e diversos arrendatários estão em atraso com suas contribuições.

      - Mas por quê?

      - Uma das razões que ouço frequentemente é que os rapazes não querem trabalhar na terra; preferem ir para as cidades.

      - Então temos que detê-los!

      Arthur deu de ombros.

      - Uma vez que um servo tenha vivido numa cidade por um ano, torna-se um homem livre. É a lei.

      - E o que me diz dos rendeiros que não pagaram? O que fez com eles?

      - O que se pode fazer? Tirando seu ganha-pão, jamais serão capazes de pagar. Temos então que ser pacientes, e esperar que uma boa colheita os capacite a pagar o que devem.

      Arthur estava alegre demais com sua incapacidade para resolver qualquer problema, pensou William furioso; porém, conteve a irritação por aquele momento.

      - Bem, se todos os rapazes estão indo para as cidades, o que há com os aluguéis das casas de nossa propriedade em Shiring? Devia entrar algum dinheiro por aí.

      - Pode parecer estranho, mas não tem entrado nada - disse Arthur. - Há muitas casas vazias em Shiring. Os jovens devem estar indo para algum outro lugar.

      - Ou as pessoas estão mentindo para você - disse William.

      - Suponho que vá dizer que a receita do mercado de Shiring e da feira de lã também caiu?

      - Sim...

      - Então por que não aumenta os aluguéis e os impostos?

      - Já aumentamos, milorde, seguindo ordens do seu falecido pai, mas assim mesmo a receita continuou caindo.

      - Com uma propriedade tão improdutiva, como Bartholomew conseguia sobreviver? - exclamou William, exasperado.

      Arthur tinha uma resposta até mesmo para isso.

      - Ele também tinha a pedreira. Gerava uma grande soma de dinheiro, antigamente.

      - E agora está nas mãos daquele maldito monge! - William estava abalado. Justamente quando precisava fazer uma dispendiosa exibição, diziam-lhe que não tinha dinheiro.

      A situação era muito perigosa. O rei apenas lhe concedera a custódia de um condado. Era uma espécie de prova. Se retornasse à corte com um exército diminuto, pareceria ingrato, até mesmo desleal.

      Além disso, o quadro que Arthur pintara não podia ser inteiramente verdadeiro. William tinha certeza de que as pessoas o estavam enganando - e que provavelmente riam às suas costas, também. A ideia o enfureceu. Não iria tolerar aquilo. Mostraria a eles. Haveria sangue derramado antes que aceitasse a derrota.

      - Você tem uma desculpa para tudo - disse a Arthur. – A verdade é que deixou esta propriedade se deteriorar durante a doença do meu pai, quando deveria ter sido mais cuidadoso.

      - Mas, milorde...

      - Cale a boca ou mandarei açoitá-lo - disse William, erguendo a voz.

      Arthur empalideceu e ficou em silêncio.

      - A partir de amanhã - disse William -, vamos percorrer o condado. Visitaremos todas as aldeias de minha propriedade, e vamos sacudi-las. Você pode não saber como lidar com camponeses chorões e mentirosos, mas eu sei. Verificaremos quanto o meu condado está empobrecido. E, se você tiver mentido, juro por Deus que será o primeiro de muitos enforcados.

     

      Juntamente com Arthur, ele levou seu criado Walter, e os outros quatro cavaleiros que haviam combatido com ele no último ano: Gervase Feio, Hugh Machado, Gilbert de Rennes e Miles Dados. Eram todos homens grandes, violentos, que se enfureciam rapidamente e estavam sempre prontos para lutar. Montaram seus melhores cavalos e se armaram até os dentes, para assustar os camponeses. William acreditava que um homem era impotente a menos que o temessem.

      Era um dia quente do final do verão, e o trigo podia ser visto empilhado em feixes volumosos no campo. A abundância daquela riqueza visível enfureceu William mais ainda. Alguém tinha que estar roubando o condado de Shiring. Era preciso que ficassem tão assustados que não se atrevessem a roubá-lo. Sua família ganhara o condado quando Bartholomew caíra em desgraça, e no entanto ele estava sem dinheiro, enquanto o filho de Bartholomew tinha muito! A idéia de que o estivessem roubando e rindo de sua ignorância ingênua assaltou-o como uma dor de estômago, e ele ficou ainda mais furioso à medida que prosseguia a viagem.

      Decidira começar por Northbrook, uma pequena aldeia um tanto afastada do castelo. Os aldeões eram uma mistura de servos com homens livres. Os servos eram propriedade de William, e não podiam fazer nada sem a sua permissão.

       Eles lhe deviam um certo número de dias de trabalho em determinadas épocas do ano, mais uma fração daquilo que colhiam. Os homens livres só lhe pagavam aluguel, em dinheiro ou em espécie. Cinco deles estavam atrasados. William achava que eles pensavam que ficariam impunes, por causa da grande distância do castelo. Talvez fosse um lugar bom para começar a acertar as coisas.

      Era uma longa jornada, e o sol estava alto quando se aproximaram do vilarejo. Havia vinte ou trinta casas cercadas por três campos extensos, todos agora ceifados.

      Perto das casas, na orla de um dos campos, havia um grupo de três grandes carvalhos. Quando William e seus homens se aproximaram, viram que a maioria dos aldeões parecia estar sentada à sombra dos carvalhos, comendo. Esporeou seu cavalo, diminuindo o galope nas últimas centenas de jardas, e os outros o seguiram. Pararam em frente aos aldeões, em meio a uma nuvem de pó.

      Enquanto estes se punham de pé apressadamente, engolindo o pão de massa grossa e tentando impedir que a poeira lhes entrasse nos olhos, o olhar desconfiado de William acompanhou um curioso pequeno drama. Um homem de meia-idade de barba preta falou baixo mas com premência com uma garota de cara vermelha e gorda, que tinha no colo um bebê também gordo e de bochechas vermelhas. Um rapaz juntou-se a eles e foi afastado pelo homem mais velho. Então a garota saiu na direção das casas, aparentemente sob protesto, e desapareceu na poeira. William ficou intrigado. Havia algo de furtivo naquela cena, e ele gostaria que sua mãe estivesse presente para interpretá-la.

      Decidiu nada fazer por ora. Dirigiu-se a Arthur falando alto o bastante para que todos o ouvissem:

      - Cinco dos meus arrendatários livres aqui estão atrasados no pagamento, está correto?

      - Sim, milorde.

      - Quem é o pior?

      - Athelstan não paga há dois anos, mas tem tido muita falta de sorte com seus porcos...

      William falou por cima de Arthur, interrompendo-o.

      - Qual de vocês é Athelstan?

      Um homem alto, de ombros curvados e cerca de quarenta e cinco anos, adiantou-se. Seu cabelo era ralo, e os olhos lacrimosos.

      - Por que você não me paga o aluguel? - indagou William.

      - Milorde, é uma pequena propriedade arrendada, e não tenho ninguém para me ajudar, agora que meus filhos foram trabalhar na cidade, e houve a febre suína...

      - Espere um pouco - interrompeu William. - Para onde seus filhos foram?

      - Para Kingsbridge, lorde, trabalhar na obra da nova catedral, pois querem se casar, como todos os rapazes, e minha terra não dá para sustentar três famílias.

      William guardou num canto da memória, para reflexão futura, a informação de que os rapazes tinham ido trabalhar na Catedral de Kingsbridge.

      - A sua terra é suficiente para sustentar uma família, de qualquer modo, mas ainda assim você não paga o que deve.

      Athelstan começou a falar sobre os porcos de novo. William fixou nele um olhar malévolo, sem ouvir o que falava. Eu sei por que você não pagou, pensou ele; você sabia que o seu lorde estava doente e decidiu enganá-lo enquanto ele era incapaz de fazer valer seus direitos. Os outros quatro delinquentes pensaram da mesma forma.

      Vocês nos roubam quando estamos fracos!

      Por um momento ele se encheu de autocomiseração. Os cinco haviam rido um bocado, exultantes com a sua esperteza, não tinha dúvida. Pois bem, agora aprenderiam sua lição.

      - Gilbert e Hugh - disse serenamente. - Peguem este camponês e o imobilizem.

      Athelstan ainda estava falando. Os dois cavaleiros desmontaram e se aproximaram dele. Sua história de febre suína deu em nada. Os cavaleiros o seguraram pelos braços.

      Ele ficou branco de medo.

      William dirigiu-se a Walter no mesmo tom de voz sereno.

      - Trouxe suas luvas de cota de malha?

      - Sim, milorde.

      - Calce-as. Dê uma lição em Athelstan. Mas assegure-se de que ele viva, para espalhar a notícia.

      - Sim, milorde. - Walter apanhou no alforje um par de manoplas de couro com uma fina malha de ferro costurada nos nós e na parte de trás dos dedos. Calçou-as lentamente.

      Todos os aldeões assistiam, aterrorizados, e Athelstan começou a gemer de medo.

      Walter desmontou, aproximou-se do camponês e deu-lhe um soco no estômago com punho de ferro. O barulho foi incrivelmente alto. Athelstan dobrou-se ao meio, tão sem ar que não pôde gritar. Gilbert e Hugh o puseram na vertical, e Walter acertou-lhe o rosto.

      O sangue jorrou da sua boca e do nariz. Um dos observadores, uma mulher, que presumivelmente era sua esposa, pulou em cima de Walter, gritando:

      - Pare! Deixe-o! Não o mate!

      Walter empurrou-a para longe, e duas outras mulheres a agarraram e puxaram para trás. Ela continuou a lutar e a gritar. Os outros camponeses observaram em silêncio revoltado Walter surrar Athelstan sistematicamente até que seu corpo arriou, o rosto coberto de sangue e os olhos fechados, inconscientes.

      - Soltem-no - disse William por fim.

      Gilbert e Hugh o largaram. Ele caiu no chão e ficou imóvel. As mulheres soltaram a esposa dele, e ela correu, soluçando, indo ajoelhar-se ao seu lado. Walter tirou as manoplas e limpou o sangue e os pedaços de carne que tinham ficado presos na malha.

      William já perdera o interesse em Athelstan. Correndo os olhos pela aldeia, viu uma estrutura de madeira que parecia nova, com dois andares, erguida às margens de um regato. Apontou para ela e perguntou a Arthur:

      - O que é aquilo?

      - Ainda não tinha visto, milorde - respondeu Arthur, nervosamente.

      William achou que ele estava mentindo.

      - É um moinho d'água, não é?

      Arthur deu de ombros, mas sua indiferença não foi convincente.

      - Não posso imaginar o que mais poderia ser, estando ali na margem do riacho.

      Como podia ser tão insolente, quando acabara de ver um camponês ser espancado quase até a morte por sua ordem? Quase em desespero, William perguntou:

      - Os meus servos podem construir moinhos sem a minha permissão?

      - Não, milorde.

      - Sabe por que isso é proibido?

      - Para que eles tenham que levar seu cereal aos moinhos do lorde e paguem pela moagem.

      - E com isso o lorde lucra.

      - Sim, milorde. - Arthur falou no tom condescendente de quem explica alguma coisa elementar a uma criança. - Mas se pagarem uma multa pela construção do moinho, o lorde lucrara do mesmo modo.

      William achou seu tom de voz exasperador.

      - Não, ele não lucrará a mesma coisa. A multa nunca representa o mesmo que os camponeses teriam que pagar de outro modo. É por isso que eles adoram construir moinhos. E é por isso que meu pai nunca lhes concedeu permissão. - Sem dar a Arthur uma chance para replicar, William esporeou o cavalo e foi até o moinho. Seus cavaleiros o seguiram, e os aldeões vieram atrás, um bando esfarrapado.

      William desmontou. Não havia dúvida do que era a construção. Uma grande roda de moinho girava sob a pressão da rápida correnteza do riacho. A roda acionava um eixo que atravessava a parede lateral do moinho. Era uma sólida construção de madeira, feita para durar. Quem quer que a tivesse levantado, esperava claramente ser livre para usá-la por muitos anos.

      O moleiro ficou parado do lado de fora da porta aberta, exibindo uma expressão ensaiada de inocência ofendida. No aposento às suas costas havia sacos de grão em pilhas bem arrumadas. O moleiro fez uma reverência polida, mas não haveria um quê de escárnio no seu olhar? Mais uma vez William teve a penosa sensação de que aquela gente pensava que ele era um joão-ninguém, e sua incapacidade de impor sua vontade fazia com que se sentisse impotente. A indignação e a frustração o dominaram e ele gritou com o moleiro furiosamente:

      - O que o fez pensar que conseguiria sair impune com isso? Imagina que sou estúpido? É isso? É isso o que pensa? Nesse momento ele deu um soco na cara do homem.

      O moleiro deu um grito exagerado de dor e caiu no chão desnecessariamente.

      William passou por cima dele e entrou. O eixo da roda do moinho estava ligado, por um conjunto de engrenagens de madeira, ao eixo da pedra do moinho no andar de cima. O grão moído caía por uma calha na eira, no nível do solo. O segundo andar, que tinha que sustentar o peso da pedra de amolar, era escorado por quatro vigas grossas (tiradas da floresta de William sem permissão, indubitavelmente). Se as vigas fossem cortadas, toda a construção desmoronaria.

      William saiu. Hugh carregava a arma que lhe dera o nome, amarrada na sela.

      - Dê-me seu machado de batalha - disse William. O cavaleiro obedeceu. William entrou de novo e começou a dar machadadas nas vigas que sustentavam o andar de cima.

      Deu-lhe grande satisfação ouvir o barulho surdo da lâmina do machado batendo na construção que os camponeses tinham levantado tão cuidadosamente, na sua tentativa de fraudá-lo, não pagando as taxas de moagem. Não estão rindo de mim agora, pensou, furioso.

      Walter entrou e ficou olhando. O lorde abriu uma incisão profunda em um dos suportes e partiu para outro. A plataforma acima, que sustentava o peso enorme da pedra do moinho, começou a tremer.

      - Arranje uma corda - disse William. Walter saiu.

      O lorde cortou mais duas vigas tão profundamente quanto se atreveu. A construção estava pronta para ruir. Walter voltou com um pedaço de corda. William amarrou a corda a uma das vigas e carregou a outra ponta para fora, atando-a ao pescoço do seu cavalo de batalha.

      Os camponeses assistiram a tudo em taciturno silêncio.

      - Onde está o moleiro? - perguntou William, quando a corda foi amarrada.

      O moleiro se aproximou, ainda tentando parecer uma pessoa que estava sendo tratada injustamente.

      - Gervase - disse William -, amarre-o e coloque-o lá dentro.

      O moleiro tentou fugir, mas Gilbert o derrubou e se sentou em cima dele; Gervase amarrou-lhe as mãos e os pés com tiras de couro. Os dois cavaleiros o levantaram.

      Ele começou a lutar e a suplicar misericórdia.

      - Você não pode fazer isto - disse um dos aldeões, destacando-se da multidão. - É assassinato. Nem mesmo um lorde pode cometer assassinatos.

      William apontou um dedo trêmulo para ele.

      - Se você abrir de novo a boca eu o porei lá dentro com ele. Por um momento o homem pareceu disposto a continuar desafiando William; depois pensou melhor e desistiu, afastando-se.

      Os cavaleiros saíram do moinho. William fez seu cavalo adiantar-se até esticar a corda. Bateu na garupa do animal e ele começou a puxar.

      Dentro do moinho, o moleiro começou a gritar. O barulho era pavoroso, de um homem tomado por terror mortal, um homem que sabia que dentro de momentos seria esmagado até morrer.

      O cavalo balançou a cabeça, tentando afrouxar a corda passada no seu pescoço. William gritou e bateu na sua garupa para obrigá-lo a puxar, depois gritou com os cavaleiros:

      - Puxem a corda, homens!

      Os quatro agarraram a corda e puxaram juntamente com o cavalo. Os aldeões gritaram, protestando, mas estavam por demais apavorados para interferir. Arthur ficou de lado, parecendo nauseado.

      Os gritos do moleiro ficaram mais agudos. William imaginou o terror cego que devia estar se apoderando do homem enquanto aguardava sua morte horrorosa. Nenhum daqueles camponeses jamais se esquecerá da vingança dos Hamleighs, pensou.

      A viga rangeu ruidosamente; em seguida houve um forte estalo quando quebrou. O cavalo deu um pulo para a frente e os cavaleiros largaram a corda. Um canto do telhado cedeu. As mulheres começaram a gemer. As paredes de madeira do moinho pareceram estremecer; os gritos do moleiro ficaram mais altos; houve um estrondo violento quando o andar de cima cedeu; e os gritos cessaram abruptamente quando a pedra caiu no andar térreo. As paredes se estilhaçaram, o telhado desabou e, num instante, o moinho não passava de uma pilha de lenha com um homem morto embaixo.

      William começou a sentir-se melhor.

      Alguns aldeões correram e começaram a cavar freneticamente por entre os escombros. Se esperavam encontrar o moleiro vivo, ficariam desapontados. Seu corpo seria uma visão medonha. Tanto melhor.

      Olhando em torno, William localizou a garota de rosto vermelho com o bebê de rosto também vermelho, bem atrás da multidão, como se tentasse passar despercebida.

      Lembrou-se de como o homem da barba escura - presumivelmente seu pai insistira para que se mantivesse escondida. Decidiu resolver aquele mistério antes de deixar o vilarejo. Seu olhar encontrou o dela, e fez um sinal para que se aproximasse. Ela olhou para trás, na esperança de que William estivesse indicando outra pessoa.

      - Você - confirmou William. - Venha cá.

      O homem de barba preta a viu e deixou escapar um grunhido de exasperação.

      - Quem é o seu marido, garota? - perguntou William.

      - Ela não tem...  - começou o pai.

      Era tarde demais, contudo, pois a garota respondeu:

      - Edmund.

      - Então você é casada. Mas quem é o seu pai?

      - Sou eu - disse o homem da barba preta. - Theobald.

      William virou-se para Arthur.

      - Theobald é um homem livre?

      - É um servo, lorde.

      - E quando a filha de um servo se casa, o lorde não tem o direito, como seu dono, de desfrutá-la na noite de núpcias?

      Arthur ficou chocado.

      - Milorde! Esse costume primitivo não tem sido obedecido nesta parte do mundo há tanto tempo que não há lembrança de quando era!

      - É verdade - concordou William. - Em vez disso, o pai paga uma multa. Quanto foi que Theobald pagou?

      - Ele ainda não pagou, milorde, mas. ..

      - Não pagou! E ela com um filho gordo de cara vermelha!

      - Nunca tivemos o dinheiro - disse Theobald -, e ela ficou grávida de Edmund e quis se casar, mas agora podemos pagar, pois a safra já foi colhida.

      William sorriu para a garota.

      - Deixe-me ver o bebê.

      Ela o encarou medrosamente.

      - Venha. Dê-me a criança.

      Ela estava com medo, mas não foi capaz de resistir. William adiantou-se e pegou a criança delicadamente. Os olhos da mulher encheram-se de terror, mas ela não foi capaz de fazer nada.

      O bebê começou a gritar. William segurou-o por um momento, depois o agarrou pelos tornozelos com uma das mãos e, com um movimento rápido, atirou-o no ar, o mais alto que pôde.

      A mãe berrou como uma alma do outro mundo anunciando uma morte e ficou olhando para cima, vendo o bebê voar para o alto.

      O pai correu com os braços estendidos para pegá-lo quando caísse.

      Enquanto a garota olhava o que acontecia com seu filho e gritava, William agarrou um pedaço do seu vestido e o rasgou. Seu corpo era redondo, cor-de-rosa.

      O pai pegou o bebê em segurança.

      A garota virou-se para correr, mas William pegou-a e atirou-a ao chão.

      Edmund entregou o bebê a uma mulher e virou-se para encarar William.

      – Como não me foi dado o devido na noite de núpcias, e a multa não foi paga, tomarei o que me é devido agora.

      O pai correu para cima dele.

      William desembainhou a espada.

      O pai se deteve.

      O lorde olhou para a garota, caída no chão, tentando cobrir a nudez com as mãos. O medo dela o excitou.

      - E quando eu tiver acabado, meus cavaleiros a possuirão também - disse, com um sorriso satisfeito.

     

      Em três anos Kingsbridge mudara ao ponto de não poder ser reconhecida.

      William não ia lá desde o domingo de Pentecostes, quando Philip e seu exército de voluntários frustraram o esquema de Waleran Bigod. Havia então umas quarenta ou cinquenta casas de madeira agrupadas em torno do portão do priorado e espalhadas ao longo da trilha lamacenta que levava à ponte. Agora, ele podia ver, ao se aproximar da aldeia atravessando os campos ondulados, que havia um número de casas três vezes maior, no mínimo. Formavam uma orla marrom à volta do muro cinzento de pedra, e enchiam por completo o espaço entre o priorado e o rio. Diversas casas pareciam grandes. No interior do adro havia novas construções de pedra, e as paredes da igreja pareciam estar subindo depressa. Havia dois novos embarcadouros na margem do rio. Kingsbridge tornara-se uma cidade.

      A aparência do lugar confirmou uma suspeita que viera aumentando na sua cabeça desde que voltara da guerra. Ao percorrer o condado, cobrando aluguéis em atraso e aterrorizando servos desobedientes, sempre ouvia falar em Kingsbridge. Rapazes sem terra iam para lá, a fim de trabalhar; famílias prósperas mandavam os filhos estudarem na escola do priorado; pequenos arrendatários vendiam ovos e queijos aos homens que trabalhavam no canteiro da obra; e todos que podiam iam lá nos dias santos, muito embora não houvesse uma catedral. Aquele era um dia santo - dia de São Miguel, que, naquele ano, caíra num domingo. Era uma manhã de início de outono, com uma temperatura agradável para viajar, de modo que devia encontrar uma boa multidão. William esperava descobrir o que atraía toda aquela gente a Kingsbridge.

      Seus cinco sequazes o acompanhavam. Tinham feito um excelente trabalho nas aldeias. A notícia da viagem de William pelo condado espalhou-se com fantástica rapidez, e depois dos primeiros dias, todos sabiam o que esperar. Quando o lorde se aproximava mandavam as crianças e as mulheres novas se esconderem nos bosques. Agradava a William causar medo no coração daquela gente. Sem dúvida nenhuma agora sabiam quem estava no comando!

      Quando o grupo se aproximou de Kingsbridge, ele esporeou o cavalo, passando para um trote, e os outros o imitaram. Chegar numa andadura mais rápida era sempre mais impressionante. As pessoas se encolhiam do lado da estrada ou pulavam no mato, para sair da frente dos enormes cavalos.

      Atravessaram ruidosamente a ponte de madeira, ignorando o posto de pedágio mas a rua estreita adiante deles estava bloqueada por uma carroça carregada de barris de cal e puxada por uma parelha de bois enormes e lentos; os cavalos foram forçados a reduzir a marcha de maneira abrupta.

      William olhou em torno enquanto subiam a elevação atrás do carro de boi. Casas novas, construídas apressadamente, enchiam os espaços entre as antigas. Notou uma locanda, uma cervejaria, um ferreiro e um fabricante de calçados. O ar de prosperidade era inconfundível. William sentiu inveja.

      Não havia muita gente na rua, contudo. Talvez todos estivessem no priorado.

      Com os cavaleiros à sua retaguarda, ele seguiu o carro de boi quando passou pelo portão do priorado. Não era o tipo de entrada que preferia, e sentiu uma pontada de ansiedade, com medo de que notassem sua presença e rissem dele, mas por sorte ninguém sequer olhou.

      Por contraste com a cidade deserta do lado de fora das muralhas, o adro fervilhava de atividade.

      William sofreou sua montaria e deu uma olhada em torno, tentando registrar tudo. Havia tanta gente, e tanta coisa estava acontecendo, que a princípio achou tudo aquilo estonteante. Depois a cena pôde ser classificada em três seções.

      Bem perto dele, na extremidade oeste do adro, havia um mercado. As bancas eram dispostas em fileiras no sentido norte-sul, e centenas de pessoas circulavam por entre elas, comprando comida e bebida, chapéus e sapatos, facas, cintos, patinhos, cachorrinhos, panelas, brincos, lã, linha, corda, e dúzias de outras necessidades e luxos. Não havia dúvida de que o mercado era muito próspero, e o dinheiro que trocava de mãos ali devia constituir uma grande soma.

      Não era de admirar, pensou William amarguradamente, que o mercado de Shiring estivesse em declínio, quando havia uma alternativa florescente ali em Kingsbridge.

      Os aluguéis das bancas, o pedágio cobrado dos fornecedores e os impostos sobre as vendas deviam estar enchendo as burras do priorado de Kingsbridge.

      Mas um mercado precisava de uma licença do rei, e William tinha certeza de que o prior Philip não possuía essa licença. Provavelmente planejava requerê-la assim que fosse apanhado, como o moleiro de Northbrook. Lamentavelmente não seria tão fácil para William dar-lhe uma lição, como acontecera com o moleiro.

      Após o mercado havia uma zona de tranquilidade. Do lado do claustro, onde era antes a ínterseção da nave com os transeptos da igreja velha, havia um altar sob um dossel, com um monge de cabelos brancos em frente, lendo qualquer coisa que estava num livro. Do lado mais distante do altar, monges dispostos em fileiras precisas cantavam hinos, embora a distância seu canto desaparecesse com o barulho do mercado. A congregação era pequena; com certeza eram as nonas, um culto que só dizia respeito aos monges, pensou William; todo o trabalho e as vendas no mercado seriam interrompidos pelo culto principal de São Miguel, claro.

      Na ponta mais longíqua do adro, a extremidade leste da catedral estava sendo construída. Era ali que o prior Philip gastava o lucro imerecido que tinha com o mercado, pensou William, amargurado. As paredes estavam com trinta ou quarenta pés de altura, e já era possível ver o contorno das janelas e dos arcos. Trabalhadores fervilhavam por toda parte. William estranhou a aparência deles, e após um momento se deu conta de que era a roupa colorida. Não eram trabalhadores regulares, claro o efetivo que trabalhava por dinheiro certamente estaria de folga. Eram voluntários.

      Não esperava que houvesse tantos. Centenas de homens e mulheres carregavam pedras e madeira, rolavam barris e empurravam carroças de areia da margem do rio, todos trabalhando por nada, a não ser a remissão dos pecados.

      O astuto prior tinha um esquema tão astuto quanto ele, observou William invejosamente. As pessoas que vinham trabalhar na catedral gastavam dinheiro no mercado.

      As pessoas que iam ao mercado davam algumas horas de trabalho à catedral, pelos seus pecados. Uma mão lavava a outra.

      Esporeou o cavalo e atravessou o cemitério, curioso para ver mais de perto o canteiro da obra.

      Os oito maciços pilares da arcada situavam-se de ambos os lados, em quatro pares opostos. A distância, William pensara ter visto os arcos redondos unindo uma pilastra com a seguinte, mas agora percebia que ainda não haviam sido construídos - o que vira eram moldes de madeira, feitos com a mesma forma, sobre os quais as pedras descansariam enquanto os arcos eram edificados e a massa secava. O molde não se apoiava no solo, e sim nos capitéis.

      Paralelas às arcadas, erguiam-se as paredes externas, com espaços regulares para as janelas. A meio caminho entre a abertura de cada uma, um arcobotante projetava-se da linha da parede. Olhando as extremidades abertas das paredes inacabadas, William pôde ver que não eram de pedra sólida; na verdade eram paredes duplas, com um espaço no meio. A cavidade parecia ter sido enchida com fragmentos de pedras e massa.

      O andaime era feito de sólidas vigas amarradas por cordas, com cavaletes de arbusto flexíveis e caniços entrelaçados por entre elas.

      Muito dinheiro tinha sido gasto ali, observou William.

      Contornou a parte externa do coro, seguido por seus cavaleiros. De encontro às paredes havia galpões de meia-água, que serviam como oficinas e depósitos para os artesãos. A maioria estava trancada, pois naquele dia não havia pedreiros assentando pedras ou carpinteiros fazendo formas - eles estavam dirigindo o trabalho dos voluntários, dizendo onde empilhar as pedras, a madeira, a areia e a cal que traziam da margem do rio.

      William contornou a extremidade leste da igreja seguindo para o lado sul, onde seu caminho foi bloqueado pelas construções monásticas. Voltou então, maravilhado com a esperteza do prior Philip, que tinha seus mestres artesãos ocupados num domingo e os operários trabalhando de graça.

      Ao refletir no que estava vendo, pareceu-lhe devastadoramente claro que o prior Philip era o grande responsável pelo declínio do condado de Shiring. As fazendas estavam perdendo seus braços jovens para a obra da catedral nova, e Shiring a pérola do condado - começava a ser eclipsada pela crescente e nova cidade de Kingsbridge.

      Os residentes ali pagavam o aluguel a Philip e não a William, e as pessoas que compravam e vendiam bens naquele mercado geravam renda para o priorado, e não para o condado.

      E Philip tinha a madeira, os pastos de carneiros e a pedreira que antes enriqueciam o conde.

      William e seus homens atravessaram o adro de volta na direção do mercado. Decidiu olhar mais de perto. Meteu o cavalo no meio da multidão. O cavalo avançou com dificuldade. As pessoas não se espalhavam apavoradas, saindo do caminho. Quando o animal encostava nelas, olhavam para William com irritação e aborrecimento, em vez de medo, e saíam da frente quando bem entendiam, com uma expressão condescendente. Ninguém ali tinha medo dele. E isso o deixou nervoso. Se as pessoas não tinham medo, era impossível dizer o que seriam capazes de fazer.

      Desceu por uma passagem e subiu pela seguinte, com os cavaleiros à retaguarda. Ficou frustrado com o movimento vagaroso da multidão. Haveria sido mais rápido caminhar; mas então, tinha certeza, aquela insubordinada gente de Kingsbridge provavelmente seria atrevida o bastante para empurrá-lo.

      Percorrera a metade do caminho de volta quando viu Aliena.

      Deteve o cavalo de súbito e olhou-a fixamente, imóvel.

      Não era mais a garota magra, tensa e assustada, calçando tamancos, que vira num domingo de Pentecostes, três anos antes. Seu rosto, desfigurado naquele tempo pela tensão, ficara cheio de novo, e a aparência dela era feliz e saudável. Seus olhos escuros brilhavam de alegria, e os cachos balançavam em torno do seu rosto quando sacudia a cabeça.

      Estava tão bonita que William sentiu uma vertigem de desejo.

      Vestia um manto vermelho, ricamente bordado, e suas mãos expressivas cintilavam com vários anéis. Havia uma mulher mais velha com ela, um pouco para o lado, como uma criada. "Muito dinheiro", dissera sua mãe; tinha sido assim que Richard conseguira tornar-se escudeiro e integrar o exército do rei Estêvão equipado com boas armas. Maldita. Fora deixada sem dinheiro, impotente, desvalida - como conseguira enriquecer?

      Ela estava numa banca que vendia agulhas de osso, linha de seda, dedais de madeira e outros artigos de costura, e discutia animadamente com o judeu baixinho e de cabelos escuros que os vendia. Sua atitude era positiva, e ela estava relaxada e autoconfiante. Havia recuperado a pose que tinha como filha do conde.

      Parecia-mais velha. Estava mais velha, claro: se William tinha vinte e quatro anos, ela devia ter agora vinte e um. Mas parecia ser mais velha. Não havia mais nada de criança em Aliena. Era uma mulher madura.

      Ela ergueu a cabeça e encontrou seu olhar.

      Da última vez em que a encarara, ficara ruborizada de vergonha e fugira. Dessa vez sustentou sua posição e o encarou.

      Ele tentou um sorriso elegante.

      Uma expressão de cáustico desprezo surgiu no rosto dela.

      William sentiu que ruborizava. Aliena ainda era arrogante como sempre fora, e o menosprezava tal como cinco anos antes. Ele a humilhara e a estuprara, mas ela não tinha mais medo dele. Teve vontade de lhe falar e dizer que poderia fazer de novo tudo o que fizera antes, mas não estava disposto a gritar isso por cima da multidão de cabeças. O olhar firme de Aliena o fez sentir-se pequeno. Tentou sorrir com uma expressão escarninha, mas não conseguiu, e não teve dúvida de que estava fazendo uma careta ridícula. Na agonia do embaraço que sentiu, virou-se e esporeou o cavalo; mesmo assim, a multidão o reteve, e o olhar fulminante de Aliena ficou queimando um ponto da sua nuca enquanto se afastava poucas e penosas polegadas.

      Quando por fim emergiu do mercado, defrontou-se com o prior Philip.

      O galês de baixa estatura estava com as mãos nas cadeiras e o queixo projetado de maneira agressiva para a frente. Não era mais tão magro como antes, e o pouco cabelo que tinha estava ficando prematuramente grisalho. Também não parecia mais tão jovem para o cargo. Seus olhos azuis faiscavam de raiva.

      - Lorde William! - exclamou em tom desafiador. William obrigou-se a esquecer Aliena e lembrou que tinha uma acusação a fazer contra Philip.

      - Que bom encontrá-lo aqui, prior!

      - O mesmo digo eu - disse Philip, irritado; porém a sombra de uma dúvida cruzou-lhe a fisionomia.

      - Estou vendo que tem um mercado aqui - disse William acusadoramente.

      - E daí?

      - Não creio que o rei Estêvão jamais tenha licenciado um mercado em Kingsbridge, nem tampouco qualquer outro rei, que seja do meu conhecimento.

      - Como se atreve? - disse Philip.

      - Eu ou qualquer pessoa...

      - Você! - gritou Philip, mais alto do que ele. - Como se atreve a vir aqui falar em licença? Você, que no mês passado atravessou este condado incendiando, roubando, estuprando e cometendo pelo menos um assassinato!

      - Isso não tem nada a ver...

      - Como se atreve a entrar num mosteiro e falar de licença? -  gritou Philip. Adiantou-se, sacudindo um dedo para William, e o seu cavalo andou de lado, nervosamente. A voz do prior era mais aguda que a de William, que não conseguia fazer ouvir uma só palavra. Bandos de monges, trabalhadores voluntários e fregueses do mercado começaram a se juntar, assistindo à briga. Nada era capaz de deter Philip. - Depois do que fez, só há uma coisa que deveria dizer: "Padre, pequei!" Devia ajoelhar-se neste priorado! Devia implorar perdão para os seus pecados, se é que quer escapar das chamas do inferno!

      William ficou lívido. Mencionar o inferno o enchia de terror incontrolável. Tentou desesperadamente interromper a torrente de palavras de Philip, dizendo:

      - E o seu mercado? E o seu mercado?

      O prior mal o ouvia, tomado por um acesso de fúria.

      - Implore perdão pelas coisas horríveis que fez! - gritou. - De joelhos! De joelhos, se não quiser arder no inferno!

      William estava tão assustado que quase acreditou que iria mesmo para o inferno se não se ajoelhasse e rezasse na frente de Philip ali mesmo. Sabia que já devia ter se confessado, pois matara muita gente na guerra, para não falar nos pecados que cometera durante a inspeção do condado. E se ele morresse antes de se confessar?

      Começou a se sentir muito inseguro ao pensar nas chamas eternas e nos demônios com suas facas amoladas.

      - De joelhos! - gritou Philip, apontando o dedo e avançando sobre ele.

      O lorde fez o cavalo recuar. Olhou à sua volta desesperadamente. A multidão o cercou. Seus cavaleiros estavam atrás dele, parecendo achar graça: não podiam decidir como lidar com uma ameaça espiritual vinda de um monge desarmado. William não podia mais aguentar tanta humilhação. Depois de Aliena, aquilo era demais. Sofreou as rédeas, fazendo o imponente cavalo de batalha recuar. A multidão afastou-se ante seus cascos poderosos. Quando as patas dianteiras tocaram no chão de novo, William esporeou o animal com força e ele deu um pulo para a frente. Os observadores se dispersaram. Repetiu a dose e o cavalo rompeu num pequeno galope. Ardendo de vergonha, fugiu rapidamente pelo portão do priorado, seguido pelos cavaleiros, como um bando de cachorros, rosnando mas perseguidos por uma velha com uma vassoura.

     

      William confessou os pecados, apavorado e trêmulo, sobre o chão de pedra fria da capelinha do pulado do bispo. Waleran escutou em silêncio, o rosto numa máscara de aversão, enquanto o lorde desafiava a lista das mortes, surras e estupros de que era culpado. Mesmo enquanto se confessava, William sentia ódio do arrogante bispo, com suas mãos brancas e limpas entrelaçadas sobre o coração e as translúcidas narinas também muito brancas ligeiramente abertas, como se sentisse mau cheiro no ar poeirento. Afligía-o pedir a Waleran sua absolvição, mas os pecados que cometera eram tão graves que nenhum padre comum poderia perdoá-los. Assim ele se ajoelhou, tomado de medo, e Waleran mandou que acendesse uma vela perpetuamente na capela de Earlscastíe, e disse que seus pecados estavam perdoados. O medo foi desaparecendo lentamente, como neblina. Saíram da capela para a enfumaçada atmosfera do salão grande e se sentaram junto ao fogo. O outono estava se transformando em inverno e fazia frio na grande casa de pedra. Um ajudante de cozinha trouxe pão quente temperado, feito com mel e gengibre. William começou a se sentir bem, por fim. Então se lembrou dos seus outros problemas. O filho de Bartholomew, Richard, estava pleiteando o condado, e William, com pouco dinheiro, não tinha como organizar um exército grande o bastante para impressionar o rei. Conseguira recolher uma quantia considerável no mês anterior, mas ainda não era suficiente.

      - Aquele maldito monge está sugando o sangue do condado de Shiring - disse, suspirando.

      Waleran pegou um pedaço de pão com a mão pálida, de dedos compridos, que lembrava uma garra.

      – Eu estava me perguntando quanto tempo você levaria para chegar a essa conclusão.

      Claro que o bispo teria resolvido o problema muito antes de William. Ele era tão superior!... O lorde preferia não ter que lhe falar, mas queria a opinião do bispo sobre um ponto legal.

      - O rei já licenciou algum mercado em Kingsbridge?

      - Que eu saiba, não.

      - Então Philip está contrariando a lei.

      - Sem garantir que seja uma coisa importante, está.

      Waleran parecia desinteressado, mas William insistiu.

      - Ele devia ser detido.

      O bispo deu um sorriso de superioridade.

      - Você não pode lidar com ele do mesmo modo como lida com um servo que casou a filha sem sua permissão.

      William ficou vermelho: ele se referia a um dos pecados que acabara de confessar.

      - Como se pode lidar com ele, então?

      Waleran pensou um pouco.

      - Mercados são uma prerrogativa do rei. Em tempos mais pacíficos ele provavelmente cuidaria disso em pessoa.

      O sorriso do lorde foi escarninho. Apesar de toda a sua esperteza, o bispo não conhecia o rei tão bem quanto ele.

      - Nem mesmo em tempos de paz o rei me agradeceria por me queixar de um mercado sem licença.

      - Bem, então o seu representante, para tratar dos problemas locais, é o xerife de Shiring.

      - O que ele pode fazer?

      - Pode apresentar um mandado contra o priorado no tribunal do condado.

      William sacudiu a cabeça.

      - Isso é a última coisa que quero. O tribunal imporia uma multa, e o mercado continuaria. Seria quase o mesmo que conceder uma licença.

      - O problema é que, na verdade, não há motivo para não deixar que Kingsbridge tenha um mercado.

      - Há, sim! - exclamou o lorde, indignado. - Rouba os negócios do mercado de Shiring.

      - Shiring fica a um dia inteiro de viagem de Kinsgbridge.

      - As pessoas andarão essa distância.

      O bispo deu de ombros novamente. William percebeu que ele fazia esse gesto quando discordava.

      - A tradição - disse Waleran - afirma que um homem gasta um terço do dia andando até o mercado, um terço do dia no mercado e um terço andando de volta para casa. Assim sendo, um mercado serve para as pessoas que estão a uma distância de um terço de dia de viagem, ou seja, cerca de sete milhas. Se dois mercados se encontram separados mais de catorze milhas, suas áreas de influência não se sobrepõem. Shiring fica a vinte milhas de Kingsbridge. De acordo com a regra, Kingsbridge tem direito a um mercado, e o rei deverá conceder sua permissão.

      - O rei faz o que bem entender - esbravejou William, mas estava preocupado. Não conhecia aquela regra. Ela deixava o prior Philip numa posição mais forte.

      - De qualquer forma - disse o bispo -, não estaremos tratando com o rei, e sim com o xerife. - Ele fechou a cara.

      - O xerife poderia simplesmente ordenar que o priorado desistisse de manter um mercado sem licença.

      - Seria perda de tempo - disse o lorde desdenhosamente.

      - Quem dá atenção a uma ordem que não seja reforçada por uma ameaça?

      - Philip poderia dar.

      William não acreditou.

      - Por que haveria ele de atender a uma ordem dessas?

      Um sorriso zombeteiro brincou nos lábios descorados de Waleran.

      - Não sei se sou capaz de lhe explicar - disse. - Philip acredita que a lei deve reinar.

      - Uma ideia estúpida - comentou William. - Quem reina é o rei.

      - Eu disse que você não entenderia.

      Seu ar de sapiência enfureceu William, que se levantou e foi até a janela. Podia ver do lado de fora, no topo da elevação vizinha, o movimento de terra no lugar onde Waleran começara a construir seu castelo quatro anos antes. O bispo esperara pagá-lo com a receita do condado de Shiring. Philip frustrara os planos dele, e o capim crescera em cima dos montes de terra e espinheiros enchiam a vala seca. William lembrou que Waleran tivera esperanças de usar na construção a pedra a ser retirada do condado. Agora Philip tinha a pedreira.

      - Se eu recuperasse minha pedreira - disse William, pensativo, poderia usá-la como garantia e levantar o dinheiro necessário para armar um exército.

      - Então por que não a toma de volta? - perguntou Waleran.

      O lorde sacudiu a cabeça.

      - Já tentei.

      - E Philip manobrou de modo a passá-lo para trás. Mas não há monges lá agora. Você poderia mandar uma esquadra de homens para despejar os operários.

      - E como impediria Philip de voltar, como da última vez?

      - Construa uma cerca alta em torno da pedreira e deixe uma guarda permanente.

      Era possível, pensou William, animado. E resolveria seu problema de um golpe. Mas qual seria o motivo pelo qual o bispo sugeria aquilo? Sua mãe o advertira para ter cuidado com aquele homem inescrupuloso. "A única coisa que você precisa saber sobre Waleran Bigod", disse ela, "é que tudo o que faz é cuidadosamente calculado. Nada espontâneo, nada descuidado, nada casual, nada supérfluo. Acima de tudo, nada generoso." Mas Waleran odiava Philip, e tinha jurado impedi-lo de construir a catedral. Era motivo suficiente.

      William olhou-o pensativamente. A carreira dele estava estagnada. Fora nomeado bispo muito jovem, mas Kingsbridge era uma diocese insignificante e pobre, e Waleran certamente tencionara transformá-la num degrau para maiores conquistas. No entanto, era o prior e não o bispo quem estava ganhando fortuna e fama. Estava definhando à sombra de Philip tanto quanto William. Ambos tinham motivo para querer destruí-lo.

      O lorde decidiu, ainda uma vez, vencer a aversão que sentia por Waleran em benefício de seus interesses de longo prazo.

      - Muito bem - disse. - Pode ser que funcione. Mas suponha que Philip se queixe ao rei?

      - Você dirá que agiu assim em represália ao mercado sem licença de Philip - sugeriu Waleran.

      - Qualquer desculpa serve, desde que eu volte para a guerra com um exército suficientemente grande.

      Os olhos de Waleran faiscaram de maldade.

      - Tenho a impressão de que Philip não poderá construir a catedral se tiver que comprar pedra a preços de mercado. E se ele parar a obra, Kingsbridge entrará em declínio. Isso poderá resolver todos os seus problemas, William.

      Hamleigh não ia mostrar gratidão.

      - Você realmente odeia Philip, não é?

      - Ele está no meu caminho - disse Waleran, mas por um momento William vislumbrou toda a crueldade existente por baixo dos modos frios e calculistas do bispo.

      O lorde voltou a tratar de assuntos práticos.

      - Deve haver uns trinta operários lá, alguns com mulheres e filhos - disse.

      - E daí?

      - Pode haver derramamento de sangue.

      O bispo levantou as sobrancelhas negras.

      - É mesmo? Então lhe darei a absolvição.

     

      Quando saíram ainda estava escuro, a fim de chegarem ao raiar do dia. Carregavam archotes acesos, o que deixava os cavalos nervosos.

      Além de Walter e dos outros quatro cavaleiros, William levou seis homens de armas. À retaguarda seguiam doze camponeses que cavariam a trincheira e construiriam a cerca.

      William acreditava firmemente em planejamento militar cuidadoso - motivo pelo qual ele e seus homens eram tão úteis ao rei Estêvão -, mas naquela oportunidade não tinha um plano de batalha. Era uma operação tão fácil que seria aviltante fazer preparativos como se fosse um combate de verdade. Uns poucos operários cortadores de pedra e suas famílias não poderiam apresentar oposição muito forte; e, de qualquer maneira, William lembrava que tinham lhe contado que o líder deles, o nome era Otto? Sim, Otto Cara Preta - se recusara a lutar, no primeiro dia em que Tom Construtor levara seus homens à pedreira.

      Raiou um dia frio de dezembro, com trapos e frangalhos de neblina parecendo pender das árvores, como roupa lavada de gente pobre. William não gostava daquela época do ano. Era frio de manhã e escurecia cedo; além disso o castelo estava sempre úmido. Era servida uma quantidade excessiva de carne e peixe salgados. Sua mãe ficava irritadiça, e os criados, mal-humorados. Seus cavaleiros brigavam a toda hora. Aquele pequeno combate faria bem a eles. Seria bom também para os Hamleighs: William já arranjara um empréstimo de duzentas libras com os judeus de Londres dando a pedreira como garantia. Ao fim daquele dia o seu futuro estaria assegurado.

      Quando estavam a uma milha da pedreira, William parou, escolheu dois homens e mandou-os à frente, a pé.

      - Pode ser que haja uma sentinela, ou cachorros - advertiu. - Tenham um arco à mão, com uma flecha pronta para ser disparada.

      Um pouco depois a estrada fazia uma curva para a esquerda, e terminava de repente junto a um morro mutilado. Era a pedreira. Tudo estava quieto. Ao lado da estrada, os homens de William seguravam um garoto apavorado - presumivelmente um aprendiz que fora mandado atuar como sentinela - e a seus pés havia um cão sangrando até a morte com uma flecha atravessada no pescoço.

      O destacamento atacante deteve os cavalos, sem fazer esforço algum para guardar silêncio. William também parou e examinou a cena. Grande parte do morro desaparecera desde a última vez que o vira. O andaime subia até áreas inacessíveis, e descia numa escavação profunda aberta ao pé do morro. Blocos de pedra de diferentes formas e tamanhos se empilhavam do lado da estrada, e havia dois enormes carros de madeira, com imensas rodas, carregados de pedra pronta para ser levada. Tudo estava coberto de pó cinzento, inclusive arbustos e árvores. Uma grande área do bosque tinha sido derrubada - Meu bosque, pensou William, furioso, e havia umas dez ou doze construções de madeira, algumas com pequenas hortas e uma com um chiqueiro. Era uma pequena aldeia.

      A sentinela provavelmente estivera dormindo - e seu cachorro também.

      - Quantos homens há aqui, rapaz?

      O garoto podia estar assustado, mas era corajoso.

      - Você é lorde William, não é?

      - Responda à pergunta, menino, ou lhe cortarei a cabeça com esta espada.

      Ele ficou branco de medo, mas replicou, com uma voz de trêmulo desafio:

      - Está tentando roubar esta pedreira do prior Philip? O que será que há comigo?, pensou William. Não consigo sequer assustar uma criança magrela, imberbe? Por que as pessoas pensam que podem me desafiar?

      - Esta pedreira é minha! - disse, por entre os dentes. – Esqueça o prior Philip; ele não pode fazer nada por você agora. Quantos homens?

      Em vez de responder, o garoto atirou a cabeça para trás e começou a gritar:

      - Socorro! Cuidado! Ataque! Ataque!

      William levou a mão à espada, mas hesitou, olhando para as casas. Um rosto assustado apareceu num portal. Decidiu esquecer o aprendiz. Pegou uma tocha com um dos seus homens e esporeou o cavalo.

      Galopou na direção das casas, carregando a tocha bem alto, e ouvindo seus homens atrás. A porta da cabana mais próxima se abriu e um homem de olhos vermelhos e camisa de baixo apareceu. William atirou a tocha em chamas por cima dele. Caiu no chão, às suas costas, e incendiou imediatamente a palha. William soltou um grito de vitória e seguiu em frente.

      Avançou por entre o pequeno grupo de casas. Às suas costas, seus homens gritavam e atiravam as tochas nos telhados de palha.

      Todas as portas se abriram, e homens aterrorizados, mulheres e crianças começaram a surgir, gritando e tentando se desviar dos cascos dos cavalos. Ficaram rodando em pânico, enquanto as chamas progrediam. William parou o cavalo na orla da confusão e ficou olhando por um momento. Os animais domésticos, se soltaram, e um porco desesperado começou a girar cegamente, enquanto uma vaca ficava parada no meio de tudo, a cabeça estúpida balançando de um lado para o outro, espantada. Até mesmo os homens mais moços, normalmente o grupo mais beligerante, estavam confusos e amedrontados. A madrugada era de fato a melhor hora para aquele tipo de luta: havia qualquer coisa quanto a estar meio nu que eliminava a agressividade das pessoas.

      Um homem moreno, de cabeleira negra, saiu de uma das cabanas, com as botas calçadas, e começou a dar ordens. Devia ser Otto Cara Preta. William não podia ouvir o que estava dizendo. Mas pelos gestos podia adivinhar que Otto mandava que as mulheres pegassem as crianças e se escondessem na floresta; porém, o que estaria falando  com os homens? Um momento depois William descobriu. Dois rapazes correram até um galpão separado dos outros e abriram a porta, que estava trancada pelo lado de fora.

      Entraram e saíram logo depois com os pesados martelos usados na extração de pedras. Otto mandou que outros homens fossem até a mesma barraca, que obviamente era o depósito de ferramentas. Eles iam resistir.

      Três anos antes Otto se recusara a lutar por Philip. O que o fizera mudar de ideia?

      Fosse o que fosse, ia lhe custar a vida. William sorriu tristemente e desembainhou a espada.

      Havia agora seis ou oito homens armados com marretas e machados de cabo comprido. William esporeou o cavalo e avançou contra o grupo reunido em torno do depósito  de ferramentas. Os homens se dispersaram, fugindo do seu caminho, mas ele brandiu a espada e conseguiu pegar um deles com um corte profundo no braço. O homem largou  o machado.

      William afastou-se galopando e depois virou o cavalo. Respirava fundo e se sentia bem: no calor da batalha não havia medo, só excitação. Alguns de seus homens tinham  visto o que estava acontecendo e olharam para William, em busca de orientação. Fez um sinal para que o seguissem, e carregou contra os operários de novo. Eles não podiam se esquivar de seis cavaleiros tão facilmente quanto de um. William pegou dois, e diversos outros caíram sob as espadas dos seus homens, embora ele estivesse  se movendo depressa demais para ver se estavam mortos ou apenas feridos.

      Ao se virar de novo, Otto estava reunindo as forças. Quando os cavaleiros carregaram, os operários se dispersaram por entre as cabanas em chamas. Foi uma tática inteligente, lastimou William. Os cavaleiros o seguiram, mas era mais fácil para os operários se esquivarem, estando separados, e os cavalos se amedrontaram com as chamas. William perseguiu um homem de cabelos grisalhos com uma marreta e deixou de acertá-lo por muito pouco diversas vezes, até que ele fugiu, metendo-se numa casa cujo telhado pegava fogo.

      O lorde percebeu que o problema era Otto. Não só dava coragem para os seus homens como também os organizava. Assim que caísse, os outros desistiriam. Ele conteve  o seu cavalo e procurou o homem moreno. Todas as mulheres e crianças haviam desaparecido, exceto por duas crianças de cinco anos, no meio do campo de batalha, de mãos dadas e chorando. Os cavaleiros de William galopavam por entre as casas, caçando os operários. Para sua surpresa, viu que um dos seus homens de armas fora derrubado, e jazia no chão, gemendo e chorando. Ficou atônito. Não antecipara baixas do seu lado.

      Uma mulher desesperada entrava e saía das casas em chamas, gritando qualquer coisa que William não conseguia distinguir. Estava procurando alguém. Finalmente viu as duas crianças e pegou uma com cada braço. Quando correu, quase esbarrou em um dos cavaleiros de William, Gilbert de Rennes. Gilbert levantou a espada para golpeá-la.

      De repente, Otto pulou de trás de uma cabana e atirou um machado de cabo comprido. O lançamento foi feito com extrema perícia e a lâmina do machado atravessou a coxa de Gilbert, ficando presa na madeira da sela. A perna cortada caiu no chão, e o cavaleiro gritou e caiu.

      Nunca mais lutaria.

      Gilbert era um cavaleiro valoroso. Cheio de ódio, William esporeou seu cavalo. A mulher com as crianças desaparecera. Otto lutava para arrancar a lâmina do seu machado da sela de Gilbert. Levantou a cabeça e viu William se aproximando. Se tivesse corrido naquele momento poderia ter escapado, mas ficou às voltas com o machado. Conseguiu liberá-lo quando o lorde estava quase em cima dele. O cavaleiro levantou a espada. Otto sustentou sua posição e levantou o machado. Só no último momento William percebeu que o machado seria usado contra o cavalo, e Otto poderia estropiar o animal antes que ele pudesse se aproximar o bastante para derrubá-lo. Puxou as rédeas desesperadamente, e o cavalo escorregou mas parou, empinando, e assim afastou a cabeça. O golpe pegou em cheio o pescoço do animal, com a lâmina do machado entrando fundo nos músculos poderosos. O sangue jorrou como de um chafariz, e o cavalo caiu. William desmontou antes que o corpo gigantesco caísse no chão.

      Estava furioso. O cavalo de batalha custara uma fortuna e sobrevivera com ele um ano de guerra civil; era de enlouquecer de raiva perdê-lo para o machado de um trabalhador de pedreira. Pulou por cima do seu corpo e arremeteu furiosamente contra Otto.

      O mestre não era uma vítima fácil. Segurou o machado com ambas as mãos e usou seu cabo de carvalho muito duro para aparar os golpes da espada de William. Este investiu cada vez com mais força, obrigando-o a recuar. A despeito da idade, Otto era um homem de músculos poderosos, e os golpes de Hamleigh praticamente não tinham  efeito sobre  ele.  William empunhou a espada com ambas as mãos e bateu mais forte. O cabo do machado aparou o golpe novamente, mas agora a lâmina ficou presa na madeira.

      Otto passou à ofensiva, com o lorde recuando. William estava quase em cima dele. De repente, Hamleigh temeu pela própria vida. Otto levantou o machado. William esquivou-se, para trás. Seu calcanhar prendeu em alguma coisa, e ele caiu sobre o corpo do cavalo. Mergulhou numa poça de sangue quente, mas conseguiu continuar empunhando a espada. Otto parou em cima dele, com o machado no ar. Quando a ferramenta desceu, William rolou freneticamente para o lado. Sentiu o vento da lâmina cortando o ar junto ao rosto; então pôs-se de pé de um pulo e investiu com a espada contra Otto.

      Um soldado teria se desviado para um lado antes de libertar a arma presa no chão, sabendo que um homem é mais vulnerável quando acaba de desfechar um golpe e errar; porém Otto não era soldado, só um tolo corajoso, e estava de pé com uma das mãos no cabo do machado e o outro braço esticado, para se equilibrar, tornando assim todo o seu corpo um alvo fácil. A estocada de William foi às cegas, mas, mesmo assim, acertou o alvo. A ponta da espada perfurou o tórax de Otto. William empurrou com mais força e a lâmina deslizou por entre as costelas do homem. O mestre largou o cabo do machado, e no seu rosto surgiu uma expressão que William conhecia bem.

      Os olhos demonstravam surpresa, a boca abriu-se como se fosse gritar, embora não saísse som algum, e sua pele ficou repentinamente acinzentada. Era a expressão de um homem ferido mortalmente. O lorde empurrou mais a espada, para evitar dúvidas, e depois a puxou. Os olhos de Otto giraram para cima das órbitas, uma mancha vermelha viva apareceu na sua camisa, alargando-se logo, e ele caiu.

      William olhou em torno, examinando a cena. Viu dois operários fugirem correndo, presumivelmente por causa da morte do seu líder. Ao correrem, gritaram para os outros.

      O combate transformou-se numa retirada. Os cavaleiros perseguiram os fugitivos.

      Ele ficou parado, respirando com dificuldade. Os malditos tinham resistido! Olhou para Gilbert. Jazia imóvel, numa poça de sangue, os olhos fechados. Pôs a mão no seu peito: o coração não batia. Estava morto.

      Deu uma volta por entre as casas ainda em chamas, contando os corpos. Três operários estavam mortos, mais uma mulher e uma criança que pareciam ter sido pisoteados pelos cavalos. Três dos homens de armas de William estavam feridos, e quatro cavalos mortos ou estropiados.

      Quando completou a contagem, veio parar junto ao corpo do seu cavalo. Gostara dele mais do que da maioria das pessoas. Após uma batalha normalmente se sentia animado, mas agora estava deprimido. Aquilo fora uma carnificina. Era para ter sido uma operação simples, destinada a expulsar um grupo de operários desarmados de uma pedreira, mas se transformara numa batalha campal, com grande número de baixas.

      Os cavaleiros perseguiram os fugitivos até o bosque, mas ali os cavalos não seriam úteis, de modo que voltaram. Walter foi ao lugar onde estava William e viu Gilbert morto no chão. Fez o Sinal-da-Cruz e disse:

      - Gilbert matou mais homens que eu.

      - Não há muitos iguais a ele, para que eu possa me dar ao luxo de perdê-lo numa disputa com um maldito monge – disse William amargamente. - Para não falar dos cavalos.

      - Que resultado mais inesperado! - comentou Walter. – Essa gente lutou com mais empenho que os rebeldes de Robert de Gloucester!

      William balançou a cabeça, revoltado.

      - Não sei - disse, olhando para os corpos. - Por que diabo eles pensavam que estavam combatendo?

     

      Logo após o amanhecer, quando a maioria dos irmãos estava na cripta para o serviço das primas, havia apenas duas pessoas no dormitório: Johnny Oito Pence, varrendo o chão num canto do salão comprido, e Jonathan, brincando de escola no outro.

      O prior Philip parou à porta e observou Jonathan. Estava quase com cinco anos e era um garoto esperto e confiante, com uma gravidade infantil que encantava a todos.

      Johnny ainda o vestia com uma miniatura de hábito de monge. Ele estava fazendo de conta que era o mestre dos noviços, dando aulas para uma fileira imaginária de alunos.

      - Está errado, Godfrey! - disse severamente para o banco vazio. - Não vai ter jantar se não aprender os bervos! Ele queria dizer "verbos". Philip sorriu, afetuoso.

      Não poderia ter amado mais a um filho. Jonathan era a única coisa na vida que lhe dava uma alegria absolutamente pura.

      A criança corria por todo o priorado como um cachorrinho de estimação, protegido e mimado por todos os monges. Para a maioria deles era mesmo como um animalzinho, um brinquedo divertido; porém, para Philip e Johnny, era mais. Este o amava como uma mãe; e aquele, embora procurasse ocultá-lo, se sentia como o pai do menino. Ele próprio tinha sido criado desde muito novo por um abade bondoso, e lhe parecia a coisa mais natural do mundo desempenhar o mesmo papel com Jonathan. Não lhe fazia cócegas ou corria atrás dele do jeito como faziam os outros monges, mas narrava-lhe histórias da Bíblia, brincava de contar e ficava de olho em Johnny.

      Entrou no dormitório, sorriu para o monge e sentou-se no banco junto com os alunos imaginários.

      - Bom dia, padre - disse Jonathan, solene. Oito Pence o ensinara a ser cuidadosamente polido.

      - Você gostaria de ir para a escola? - perguntou Philip.

      - Já sei latim - gabou-se Jonathan.

      - É mesmo?

      - É. Ouça: omnius pluvius buvius tuvius nomine patri amen.

      Philip tentou não rir.

      - Isso parece mas não é bem latim. O irmão Osmund, o mestre dos noviços, ensinará você a falar latim direito.

      Jonathan ficou um pouco sem graça por descobrir que afinal não sabia latim.

      - De qualquer modo - disse ele -, posso correr muito, muito depressa, olhe! - E correu em alta velocidade de um lado para o outro do dormitório.

      - Maravilhoso! - aplaudiu Philip. - Você corre realmente muito depressa.

      - Sim, e posso correr ainda mais depressa...

      - Agora não - disse Philip. - Ouça-me por um instante. vou me afastar por algum tempo.

      - Volta amanhã?

      - Não, não voltarei tão depressa.

      - Semana que vem?

      - Nem mesmo a semana que vem.

      Jonathan ficou atônito. Não podia conceber um tempo além de uma semana. Outro mistério ocorreu-lhe:

      - Mas por quê?

      - Tenho que falar com o rei.

      - Oh! - Isso também não tinha grande significado para Jonathan.

      - E gostaria que você fosse para a escola enquanto eu estiver fora. Você gostaria de ir?

      - Sim!

      - Você já tem quase cinco anos. Seu aniversário é na semana que vem. Veio para nós no primeiro dia do ano.

      - De onde foi que vim?

      - De Deus. Todas as coisas vêm de Deus. Jonathan sabia que aquilo não era resposta.

      - Mas onde eu estava antes?

      - Não sei.

      43

      Jonathan franziu a testa. Era engraçado ver aquilo numa carinha tão despreocupada.

      - Eu tinha que estar em algum lugar.

      Um dia, Philip sabia disso, alguém teria que contar a Jonathan como os bebês nasciam. Fez uma careta ante essa idéia. Ainda bem que não era agora. Mudou de assunto.

      - Enquanto eu estiver fora, quero que aprenda a contar até cem.

      - Sei contar - disse Jonathan: - um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez onze doze treze catorze catorze cinco quinze seis dezessete oito.. .

      - Nada mal - disse Philip -, mas o irmão Osmund vai lhe ensinar mais. Você tem que se sentar quieto na sala de aula e fazer tudo que ele mandar.

      - Vou ser o melhor da escola! - disse Jonathan.

      - Veremos. - Philip examinou-o por mais algum tempo. Fascinava-o o desenvolvimento da criança, o modo como aprendia as coisas e as fases que atravessava. A atual insistência em saber falar latim, contar ou correr depressa era curiosa; seria um prelúdio necessário ao verdadeiro aprendizado? Devia atender a algum propósito nos planos de Deus. E um dia Jonathan se tornaria um homem. Como seria ele? O pensamento fez Philip ficar impaciente para que Jonathan crescesse. Mas isso levaria tanto tempo quanto a construção da catedral.

      - Dê-me um beijo, então, e diga adeus - disse Philip.

      O menino levantou o rosto e Philip beijou a bochecha macia.

      - Adeus, padre.

      - Adeus, meu filho.

      Ele apertou afetuosamente o braço de Johnny Oito Pence e saiu.

      Os monges estavam saindo da cripta e se dirigindo para o refeitório. Philip foi no rumo contrário, e entrou na cripta para rezar pelo sucesso da sua missão.

      Ficara profundamente desgostoso quando lhe contaram o que acontecera na pedreira. Cinco pessoas mortas, uma delas uma garotinha! Cinco integrantes do seu rebanho, dizimados por William Hamleigh e seu bando de animais. Philip conhecera todos: Harry de Shiring, que tinha sido o capataz de lorde Percy; Otto Cara Preta, o homem de pele escura encarregado da exploração da pedreira desde o primeiro dia; o bonito filho de Otto, Mark; a mulher de Mark, Alwen, que tocava músicas nas sinetas dos carneiros à noite; e a pequena Norma, a neta de sete anos de Otto e sua favorita. Gente trabalhadora, de bom coração e temente a Deus, que tinha o direito de esperar paz e justiça dos seus lordes. William os trucidara como uma raposa mata galinhas. Aquilo com certeza fizera chorar os anjos.

      Philip se mortificara por eles, e depois fora a Shiring exigir justiça. O xerife se recusara, sem a menor cerimônia, a fazer qualquer coisa. "Lorde William tem um pequeno exército, como eu poderia prendê-lo?", dissera o xerife Eustace. "O rei precisa de cavaleiros para lutar contra Matilde. O que dirá se eu encarcerar um de seus melhores homens? Se eu acusar William de assassinato, ou serei morto imediatamente pelos seus cavaleiros ou enforcado como traidor mais tarde pelo rei Estêvão."

      A primeira baixa numa guerra civil era a justiça, constatou Philip.

      Em seguida o xerife lhe dissera que William apresentara uma reclamação formal contra o mercado de Kingsbridge.

      Era ridículo, claro, que ele pudesse sair impune de um homicídio e ao mesmo tempo acusasse Philip de não cumprir uma tecnicidade; mas o prior se sentiu impotente.

      Era verdade que não possuía permissão para ter um mercado, que estava errado, falando num sentido estrito. Entretanto não podia permanecer em erro. Era o prior de Kingsbridge. Tudo o que tinha era sua autoridade moral. William podia convocar um exército de cavaleiros; o bispo Waleran podia usar os seus contatos nas altas esferas; o xerife podia alegar a autoridade real; mas tudo o que Philip podia fazer, porém, era dizer que isto era certo e aquilo errado; se fosse abdicar dessa posição realmente ficaria desamparado. Por isso mandara suspender o mercado.

      O que o deixou numa posição verdadeiramente desesperadora.

      As finanças do priorado tinham melhorado de modo impressionante, graças, por um lado, aos controles mais estritos, e, por outro, às receitas sempre maiores do mercado e da criação de carneiros; mas Philip sempre gastara cada penny na construção, e se endividara pesadamente com os judeus de Winchester, um empréstimo que ainda tinha que pagar. Agora, de um golpe só, perdera seu suprimento de pedras grátis e a receita gerada pelo mercado, e seus voluntários - a maioria dos quais tinha um interesse maior pelo mercado - provavelmente diminuiriam de número.

      Perguntou-se se a crise seria culpa sua. Fora confiante demais, ambicioso demais? O xerife Eustace não fizera por menos. "Você quer voar alto demais, Philip", dissera, irritado. "Dirige um mosteiro pequeno e não passa de um priorzinho, mas quer mandar no bispo, no conde e no xerife. Pois muito bem, não pode. Somos poderosos demais paravocê. A única coisa que pode fazer é causar encrenca." Eustace era um homem feio, estrábico e com dentes irregulares, e estava vestindo um manto amarelo sujo; porém, por menos impressionante que fosse a aparência dele, suas palavras tinham apunhalado Philip no coração. O prior sentia-se dolorosamente convicto de que aquelas cinco pessoas não teriam morrido se ele não houvesse feito de William Hamleigh um inimigo. Só que não podia ser outra coisa senão inimigo do lorde. Se desistisse, mais pessoas ainda iriam sofrer, gente como o moleiro que ele matara e a filha do servo que ele e seus cavaleiros haviam estuprado. Philip precisava continuar sua luta.

      E isso significava que teria de ir ver o rei. Detestava a idéia. Aproximara-se do rei uma vez, em Winchester, quatro anos antes, e embora tivesse obtido o que desejava, sentira-se horrivelmente mal na corte. Estêvão era cercado por pessoas astuciosas e sem escrúpulos que disputavam sua atenção e lutavam por seus favores, e Philip considerou-as desprezíveis. O que tentavam era conseguir uma riqueza e uma posição que não mereciam. Não compreendia verdadeiramente seu jogo: no seu mundo, o melhor modo de conseguir alguma coisa era fazer por merecer, e não bajular o doador. Entretanto, agora não tinha alternativa senão entrar naquele mundo e jogar aquele jogo.

      Somente o rei poderia conceder-lhe permissão para ter um mercado. Só o rei poderia salvar a catedral.

      Terminou as preces e deixou a cripta. O sol estava nascendo e havia um leve tom de rosa nas paredes cinzentas de pedra da catedral em construção. Os operários, que trabalhavam do raiar ao pôr-do-sol, estavam começando, abrindo seus galpões e amolando as ferramentas, ou misturando a primeira massa. A perda da pedreira ainda não afetara a obra: sempre a haviam explorado mais depressa do que poderiam usar as pedras, e agora tinham um estoque que duraria muitos meses.

      Era hora de Philip partir. Todas as providências haviam sido tomadas. O rei estava em Lincoln. O prior teria um companheiro de viagem: Richard, o irmão de Aliena.

      Após combater por um ano como escudeiro, ele fora sagrado cavaleiro pelo rei. Tinha ido para casa se reequipar e agora se reintegraria ao exército real.

      Aliena se saíra estupendamente bem como comerciante de lã. Não vendia mais para Philip, negociando direto com os compradores flamengos.

      Na verdade, naquele ano ela quisera comprar toda a produção do priorado. Teria pago menos que os flamengos, mas o prior receberia o dinheiro antes. Ele não aceitara sua oferta. O simples fato de haver feito tal proposta, contudo, era uma boa medida do seu sucesso.

      Ela estava no estábulo com o irmão, foi o que Philip viu quando atravessou o pátio. Uma multidão havia se formado para dizer adeus aos viajantes. Richard estava montado num cavalo de batalha castanho que devia ter custado a Aliena vinte libras. Ele se transformara num bonito rapaz de ombros largos, as feições regulares prejudicadas apenas por uma feia cicatriz na orelha direita; o lobo fora cortado, sem dúvida num acidente de esgrima. Estava esplendidamente vestido de vermelho e verde, e equipado com nova espada, lança, machado de batalha e adaga. Sua bagagem era carregada por um segundo cavalo que puxava por uma correia. Com ele seguiam dois homens de armas, montados em corcéis, e um escudeiro, num cavalo robusto e de pernas curtas.

      Aliena desmanchava-se em lágrimas, embora Philip não pudesse dizer se lamentava ver o irmão partir, se estava orgulhosa por vê-lo tão bonito ou se tinha medo de que ele pudesse não voltar. Todas as três coisas, talvez. Alguns aldeões haviam vindo para se despedir, inclusive a maioria dos rapazes e meninos. Sem dúvida Richard era o herói deles. Todos os monges estavam presentes também, a fim de desejar a seu prior uma viagem em segurança.

      Os cavalariços trouxeram dois cavalos, um palafrém arriado para Philip e um cavalinho baixo carregado com sua bagagem modesta - basicamente comida para a viagem.

      Os operários descansaram as ferramentas e se aproximaram, liderados por tom e seu ruivo enteado, Jack.

      Philip abraçou formalmente Remigius, seu subprior, despediu-se de maneira calorosa de Milius e Cuthbert, e por fim montou. Estaria sentado naquela sela dura por longo tempo, pensou, com tristeza. Da sua posição elevada abençoou a todos. Os monges, trabalhadores e aldeões acenaram e gritaram suas despedidas enquanto ele e Richard saíam lado a lado pelos portões do priorado.

      Desceram a rua estreita que atravessava a aldeia, acenando para as pessoas que olhavam das portas de suas casas, e, transpondo ruidosamente a ponte de madeira, pegaram a estrada que seguia por entre os campos. Um pouco mais tarde, Philip olhou para trás, por cima do ombro, e viu o sol nascente brilhando através do espaço da janela na face leste semiconstruída da nova catedral. Se falhasse em sua missão, a obra talvez nunca fosse terminada. Depois de tudo por que passara para chegar àquele ponto, não podia tolerar a idéia de derrota agora. Virou-se de novo e concentrou a atenção na estrada à frente.

      Lincoln era uma cidade que ficava em cima de uma elevação. Philip e Richard aproximaram-se dela pelo sul, numa estrada antiga e movimentada chamada Ermine Street.

      Mesmo de longe podiam ver, lá em cima, as torres da catedral e as ameias do castelo. Mas ainda se encontravam a três ou quatro milhas de distância, quando, para assombro de Philip, chegaram a um portão da cidade. Os subúrbios devem ser imensos, pensou; e a população deve atingir milhares de pessoas.

      No Natal a cidade fora tomada por Ranulf de Chester, o homem mais poderoso no norte da Inglaterra, e parente de Matilde. O rei Estêvão retomara a cidade, mas as forças de Ranulf ainda estavam de posse do castelo. Ao se aproximarem mais, Philip e Richard souberam que Lincoln estava na posição peculiar de ter dois exércitos rivais acampados dentro das muralhas. Philip não simpatizara com Richard nas quatro semanas que haviam passado juntos. O irmão de Aliena era um jovem revoltado, que odiava os Hamleighs e estava decidido a se vingar; falava como se o prior sentisse do mesmo modo. Mas havia uma diferença. Philip detestava os Hamleighs pelo que tinham feito a seus vassalos: sem eles o mundo seria um lugar melhor. Richard só poderia fazer as pazes consigo próprio quando tivesse derrotado os Hamleighs: seu motivo era inteiramente egoísta. O cavaleiro, fisicamente corajoso e sempre pronto para lutar, era, sob outros aspectos, contudo, fraco. Confundia seus homens de armas, tratando-os às vezes como seus iguais e em outras ocasiões dando-lhes ordens como se fossem criados comuns. Nas tavernas tentava impressionar pagando cerveja para estranhos. Fingia saber o caminho, quando na realidade não tinha certeza, e às vezes fazia o grupo se perder, porque era incapaz de admitir que cometera um erro. Quando chegaram a Lincoln, Philip estava convencido de que Aliena valia dez Richards.

      Passaram por um lago cheio de barcos; depois, ao pé da colina, cruzaram o rio que formava a fronteira sul da cidade propriamente dita. Lincoln, era óbvio, vivia de atividades relacionadas com o rio. Ao lado da ponte havia um mercado de peixe.

      Atravessaram outro portão guardado por sentinelas. A partir desse portão, deixaram para trás a vasta extensão dos subúrbios e entraram na cidade fervilhante. Uma rua estreita, apinhada de gente, subia a colina bem em frente a eles. As casas, erguidas lado a lado em ambas as calçadas, eram parcial ou totalmente de pedra, sinal de considerável riqueza. A colina era tão íngreme que a maioria das casas tinha o andar principal vários pés acima do nível do solo num lado e abaixo do outro. A área situada na parte de baixo era, invariavelmente, uma oficina de um artesão ou uma loja. Os únicos espaços abertos eram os cemitérios perto das igrejas, e em cada um havia um mercado, onde se vendiam cereais, aves, lã, couro e outros. Philip e Richard, juntamente com a escolta deste, tiveram que lutar para abrir caminho por entre a densa multidão de moradores comuns, homens de armas, animais e carroças. Philip percebeu, com assombro, que havia pedras sob seus pés. A rua era toda pavimentada! Que fortuna deve haver aqui, pensou, para calçar as ruas com pedras, como se fosse um palácio ou uma catedral. O piso ainda era um pouco escorregadio, por causa do lixo e do estrume dos animais, mas mesmo assim era muito melhor que o rio de lama em que se transformavam as ruas da maioria das cidades no inverno.

      Atingiram a crista da elevação e passaram por mais um portão. Entravam agora na parte mais central da cidade e, de repente, a atmosfera se modificou por completo: ficou mais silenciosa, e contudo tensa. Imediatamente à esquerda ficava a entrada do castelo. A grande porta guarnecida de ferro na passagem em arco estava trancada.

      Vultos obscuros moviam-se atrás das seteiras, e sentinelas de armadura patrulhavam as fortificações providas de ameias, o sol fraco rebrilhando nos elmos polidos.

      Philip observou-os andando de um lado para o outro. Não havia conversa entre eles, nada de troças e risadas, ou de se debruçar na balaustrada a fim de assobiar para as garotas que passavam: estavam alerta, atentos e cautelosos.

      À direita de Philip, a não mais de um quarto de milha do portão do castelo, ficava a fachada oeste da catedral, e Philip viu imediatamente que a despeito de sua proximidade do castelo ela estava sendo usada como quartel-general do rei. Uma linha de sentinelas barrava a estreita rua entre a casa do cabido e a igreja. Além das sentinelas, cavaleiros e homens de armas entravam e saíam pelas três portas da catedral. O cemitério era um acampamento militar, com barracas, cozinhas e cavalos pastando. Não havia prédios monásticos: a Catedral de Lincoln não era administrada por monges, mas por padres denominados cônegos, que moravam em casas comuns nas proximidades da igreja.

      O espaço entre a catedral e o castelo estava vazio, exceto por Philip e seus companheiros. De repente o prior percebeu que estavam merecendo toda a atenção dos guardas do lado do rei e das sentinelas nas ameias opostas. Ele se encontrava numa terra de ninguém entre os dois campos armados, provavelmente o ponto mais perigoso em Lincoln. Olhando em torno, viu que Richard e os outros tinham seguido em frente e apressou-se a alcançá-los.

      As sentinelas do rei deixaram-nos entrar de imediato: Richard era bem conhecido. Philip admirou a fachada oeste da catedral. Tinha um arco de entrada enormemente alto e dois outros arcos auxiliares, um de cada lado, da metade da altura do central mas mesmo assim imponentes. Parecia o portão do céu - o que era mesmo, de certa forma. Decidiu no mesmo instante que queria arcos altos na fachada oeste de sua catedral.

      Deixando os cavalos com o escudeiro, Philip e Richard atravessaram o acampamento e entraram na igreja. Estava ainda mais apinhada do lado de dentro do que de fora.

      Os corredores tinham sido transformados em estábulos, e centenas de cavalos estavam amarrados nas colunas da arcada. Homens armados aglomeravam-se na nave, e aqui e ali havia fogos acesos para preparação de comida e acomodações para dormir. Alguns falavam inglês, outros francês e uns poucos flamengo, a língua gutural dos mercadores de lã de Flandres. De modo geral, os cavaleiros estavam no interior da igreja e os homens de armas, do lado de fora. Philip lamentou ver diversos homens jogando o jogo das nove pedras a dinheiro, e ficou ainda mais perturbado com a aparência de algumas mulheres, vestidas muito sumariamente para o inverno e parecendo estar flertando com os homens quase, pensou ele, como se fossem pecadoras, ou mesmo, santo Deus, prostitutas.

 

      A fim de não olhar para elas, ergueu os olhos para o teto. Era de madeira e lindamente pintado com tintas de cores vivas, mas representava um terrível risco de incêndio, com toda aquela gente cozinhando na nave. Seguiu Richard por entre a multidão. Ele parecia à vontade ali, seguro e confiante, cumprimentando barões e lordes e dando tapinhas nas costas de cavaleiros.

      A interseção e a extremidade leste estavam demarcadas com cordas. A extremidade leste parecia ter sido reservada para os padres - Eu faria o mesmo, pensou Philip -, e a interseção passara a ser o alojamento do rei.

      Havia outra linha de guardas atrás da corda, depois um grupo de cortesãos, e por fim um círculo mais fechado de condes, com Estêvão ao centro, sentado num trono de madeira. O rei envelhecera desde a última vez em que o vira, em Winchester, há cinco anos. Havia agora rugas de ansiedade no seu rosto bonito e fios brancos no cabelo alourado; além disso, um ano de guerra fizera com que emagrecesse. Parecia estar tendo uma discussão amável com os condes, discordando, mas sem raiva. Richard caminhou até a orla do círculo mais fechado e fez uma larga reverência cerimonial. O rei olhou-o e, reconhecendo-o, disse numa voz retumbante:

      - Richard de Kingsbridge! Que bom tê-lo de volta!

      - Muito obrigado, majestade - disse Richard.

      Philip colocou-se ao lado dele e fez uma reverência igual.

      - Trouxe um monge como seu escudeiro? - disse Estêvão, fazendo rir todos os cortesãos.

      - Este é o prior de Kingsbridge, majestade - disse Richard. Estêvão o fitou de novo, e Philip viu o brilho do reconhecimento nos seus olhos.

      - Claro, conheço o prior... Philip - disse, mas seu tom de voz não foi mais tão caloroso como quando cumprimentara Richard. - Veio combater por mim? - Os cortesãos riram mais uma vez.

      Philip ficou satisfeito com o fato de o rei ter se lembrado do seu nome.

      - Estou aqui porque a obra divina de reconstrução da Catedral de Kingsbridge precisa da ajuda urgente de vossa majestade.

      - Tenho que saber de tudo a esse respeito - interrompeu Estêvão apressadamente. - Venha me ver amanhã, quando teremos mais tempo. - com isso ele se virou de novo para os condes e retomou a conversa, agora num tom de voz mais baixo.

      Philip não falou com o rei Estêvão no dia seguinte, nem no outro dia e tampouco no que se seguiu.

      Na primeira noite ficou numa cervejaria, mas se sentiu oprimido com o cheiro constante de carne assando e com a risada das mulheres da vida. Infelizmente não havia um mosteiro na cidade. Normalmente o bispo lhe teria oferecido acomodações, mas o rei estava morando no palácio do bispo e todas as casas em torno da catedral estavam superlotadas com membros da comitiva real. Na segunda noite Philip saiu da cidade e se dirigiu para além do subúrbio de Wigford, onde havia um mosteiro que mantinha um asilo para leprosos. Ali teve pão de massa grossa e cerveja aguada na ceia, um colchão duro no chão, silêncio do pôr-do-sol até a meia-noite, cultos religiosos na madrugada e um desjejum de mingau ralo sem sal, e se sentiu feliz.

      Philip ia à catedral todos os dias, de manhã bem cedo, levando a preciosa carta régia que dava ao priorado o direito de explorar a pedreira. Dia após dia o rei não notava a sua presença. Enquanto os outros peticionários conversavam entre si, discutindo quem estava e quem não estava nas graças do rei, Philip se mantinha alheado.

      Sabia por que o faziam esperar. Toda a Igreja estava tendo uma rixa com o rei. Estêvão não cumprira as promessas generosas que lhe haviam extraído no início do reinado. Fizera do próprio irmão, o astuto bispo Henry de Winchester, um inimigo, por dar seu apoio a outro, para o cargo de arcebispo de Canterbury; o que também desapontara Waleran Bigod, que queria subir agarrado à batina de Henry. Mas o maior pecado de Estêvão, aos olhos da Igreja, tinha sido prender o bispo Roger de Salisbury e dois sobrinhos seus, que eram os bispos de Lincoln e Ely, todos no mesmo dia, sob a acusação de estarem construindo castelos sem licença. Um coro de reclamações se fizera ouvir, partindo das catedrais e dos mosteiros de todo o país, contra aquele sacrilégio. Estêvão ficara magoado. Como homens de Deus, os bispos não precisavam de castelos, disse; e se os construíam, não podiam esperar ser tratados puramente como homens de Deus. Era sincero, embora ingênuo.

      O rompimento fora remendado, mas Estêvão não se mostrava mais ansioso por ouvir as petições de religiosos, de modo que Philip teve que esperar. Aproveitou a oportunidade para meditar. Era uma coisa para a qual tinha pouco tempo, como prior, e de que sentia falta. Agora, de repente, não tinha nada para fazer por horas a fio, e passava o tempo imerso em meditações.

      Os outros cortesãos foram deixando um espaço à sua volta, tornando-o bastante conspícuo, e devia ter sido cada vez mais difícil para Estêvão ignorá-lo. Estava profundamente mergulhado na contemplação do sublime mistério da Santíssima Trindade, na manhã do seu sétimo dia em Lincoln, quando percebeu que havia alguém bem à sua frente, olhando-o e falando com ele, e que essa pessoa era o rei.

      - Está dormindo com os olhos abertos, homem? - dizia Estêvão, com um tom de voz entre irritado e divertido.

      - Desculpe, majestade, eu estava pensando - disse Philip, fazendo uma reverência tardia.

      - Não faz mal. Quero suas roupas emprestadas.

      - O quê? - Philip ficou surpreso demais para se preocupar com as boas maneiras.

      - Quero dar uma olhada no castelo, e se eu for vestido de monge eles não atirarão flechas em mim. Venha; entre numa das capelas e tire o hábito.

      Philip estava só com uma camisa por baixo.

      - Mas, majestade, o que irei vestir?

      - Esqueci como vocês monges são recatados. - Estêvão estalou os dedos para um jovem cavaleiro. - Robert, empreste-me sua túnica, rápido.

      O cavaleiro, que estava conversando com uma garota, tirou a túnica com um movimento rápido, deu-a ao rei com uma reverência e fez um gesto vulgar para a garota.

      Seus amigos riram e aplaudiram.

      O rei Estêvão entregou a túnica a Philip.

      O prior meteu-se na pequenina capela de São Dunstan, pediu perdão ao santo com uma prece rápida, depois tirou o hábito e vestiu a túnica escarlate e curta do cavaleiro.

      Pareceu-lhe verdadeiramente muito estranho: usava roupas monásticas desde os seis anos de idade, e não poderia ter se sentido mais esquisito nem se tivesse se vestido de mulher. Saiu da capela e entregou o hábito a Estêvão, que o enfiou pela cabeça rapidamente.

      - Venha comigo, se quiser - disse o rei, surpreendendo-o. - Poderá me falar a respeito da Catedral de Kingsbridge.

      Philip ficou atônito. Seu primeiro instinto foi recusar. Uma sentinela do castelo poderia se ver tentada a dar-lhe uma flechada, já que não estaria protegido pelo traje religioso. Mas estava lhe sendo oferecida uma oportunidade de ficar inteiramente a sós com o rei, com tempo bastante para explicar as questões da pedreira e do mercado. Talvez nunca mais tivesse uma chance como aquela.

      Estêvão apanhou seu manto, que era púrpura com uma guarnição de pele branca na gola e na bainha.

      - Use isto - disse a Philip. - Você atrairá o fogo inimigo, desviando-o de mim.

      Os outros cortesãos ficaram quietos, observando, perguntando-se o que aconteceria.

      O rei queria demonstrar algo, pensou Philip. Estava dizendo que o prior não tinha nada que fazer ali, num campo armado, e não podia esperar que lhe concedessem privilégios às custas de homens que arriscavam a vida pelo rei. Não era injusto. Entretanto, Philip sabia também que, se aceitasse esse ponto de vista, podia muito bem voltar para casa e desistir de retomar a pedreira ou de reabrir o mercado. Precisava aceitar o desafio.

      - Talvez seja vontade de Deus que eu morra para salvar a vida do rei - disse, respirando fundo, e colocou o manto púrpura.

      Houve um murmúrio de surpresa na multidão, e o próprio Estêvão deu a impressão de ter se espantado. Todos esperavam que Philip recuasse. Quase imediatamente ele desejou que o tivesse feito. Mas agora já se comprometera.

      Estêvão virou-se e caminhou na direção da porta norte. Philip o seguiu. Diversos cortesãos fizeram menção de acompanhá-los, mas o rei os dispensou, dizendo:

      - Até mesmo um monge pode atrair a atenção, se for seguido por toda a corte real. - Depois cobriu a cabeça com o capuz do hábito de Philip e os dois passaram para o cemitério.

      O rico manto real atraiu olhares de curiosidade quando atravessaram o acampamento: os homens presumiram que ele fosse um barão e ficaram intrigados por não reconhecê-lo.

      Os olhares fizeram-no sentir-se culpado, como se fosse um impostor. Ninguém olhou para Estêvão.

      Não foram diretamente para o portão principal do castelo. Seguiram por um labirinto de vielas muito estreitas e foram sair ao lado da Igreja de St.-Paul-in-the-Bail, em frente ao canto nordeste do castelo. As muralhas do castelo se erguiam sobre vastas rampas de terra, e um fosso seco as cercava. Havia um espaço limpo de cinquenta jardas de largura entre a orla do fosso e as construções mais próximas. Estêvão pisou na grama e começou a caminhar no rumo oeste, estudando a muralha norte do castelo, permanecendo junto dos fundos das casas na orla externa do espaço limpo. O prior o acompanhou. O rei o fez caminhar à sua esquerda, entre ele e o castelo. O espaço aberto estava ali a fim de dar aos arqueiros um bom campo de tiro para flechar quem se aproximasse das muralhas, claro. O prior não tinha medo de morrer, mas temia sentir dor, e o pensamento predominante na sua cabeça era quanto doeria uma flecha.

      - Com medo, Philip? - perguntou Estêvão.

      - Apavorado - respondeu ele, com sinceridade; em seguida, o medo tornando-o atrevido, acrescentou: - E você?

      O rei riu da audácia dele.

      - Um pouco - admitiu.

      Philip se lembrou de que aquela era a sua chance de falar a respeito da catedral. Mas não podia se concentrar, com sua vida correndo tanto perigo. Seus olhos desviavam-se constantemente para o castelo, e ele esquadrinhava a muralha, na expectativa de ver um homem manejando um arco.

      O castelo ocupava todo o canto sudoeste da parte central da cidade, e sua muralha oeste fazia parte da muralha da cidade, de modo que, se alguém caminhasse o tempo todo em torno dele, teria que sair da cidade. Estêvão levou Philip a cruzar o portão oeste, e então eles passaram para o subúrbio chamado Newland. Ali as casas pareciam choças de camponeses, feitas de taipa, com grandes pomares, como era característico numa aldeia. Um cortante vento frio soprava da direção dos campos abertos além das casas. Estêvão virou para o sul, ainda margeando o castelo. Apontou para uma portinha na muralha.

      - Foi por ali que Ranulf de Chester fugiu quando tomei a cidade, presumo - disse.

      Philip estava menos assustado ali. Havia outras pessoas no caminho, e as fortificações daquele lado eram menos fortemente defendidas, pois os ocupantes do castelo temiam um ataque vindo da cidade, não do campo. Philip respirou fundo e perguntou, impulsivamente:

      - Se eu morrer, você dará um mercado a Kingsbridge e fará William Hamleigh devolver a pedreira?

      Estêvão não respondeu de imediato. Desceram a colina até o canto sudoeste do castelo e olharam para cima, examinando a fortaleza. Da posição em que estavam, parecia magnificamente inexpugnável. Logo abaixo daquele canto passaram por outro portão e entraram na parte baixa da cidade, seguindo agora ao longo do lado sul do castelo.

      Philip sentiu-se em perigo de novo. Não seria difícil para alguém no interior do castelo deduzir que os dois homens que faziam um circuito em torno das muralhas deveriam estar numa expedição de reconhecimento, e, dessa forma, eram alvos legítimos, sobretudo o de manto púrpura. Para esquecer o medo, resolveu estudar a fortaleza.

      Havia pequenos buracos na muralha, que serviam para escoar as latrinas, e o lixo e a sujeira resultantes das lavagens simplesmente iam se amontoando e ficavam ali até que apodrecessem. Não era de admirar aquele fedor. Philip tentou não respirar fundo, e os dois homens se apressaram.

      Havia outra torre menor no canto sudeste. Philip e Estêvão já tinham percorrido três lados do quadrilátero. O prior perguntou-se se o rei esquecera sua pergunta. Sentia-se apreensivo, para repeti-la. Estêvão podia achar que estava sendo pressionado e se ofender.

      Chegaram à rua principal, que cortava o meio da cidade, e viraram de novo, mas antes que Philip tivesse tempo de se sentir aliviado, passaram por outro portão e entraram na parte mais central da cidade; momentos depois, estavam na terra de ninguém entre a catedral e o castelo. Para horror de Philip, o rei se deteve ali.

      Ele parou para falar com o prior, colocando-se de tal modo que podia examinar o castelo por cima do ombro de Philip. Suas costas vulneráveis, cobertas de arminho e púrpura, estavam expostas ao portão, que fervilhava de sentinelas e arqueiros. O prior ficou imóvel como uma estátua, esperando uma flecha ou uma lança nas costas a qualquer momento. Começou a suar, apesar do vento frio.

      - Dei-lhe a pedreira há alguns anos, não foi? - disse o rei Estêvão.

      - Não exatamente - respondeu Philip, com os dentes rangendo. - Ganhamos o direito de explorar a pedreira para a construção da catedral. Mas ela foi entregue a Percy Hamleigh. Agora o filho de Percy, William, expulsou de lá os meus homens, matando cinco pessoas, inclusive uma mulher e uma criança e se recusa a nos dar acesso.

      - Ele não devia fazer essas coisas, especialmente se quer que eu o faça conde de Shiring - disse Estêvão pensativamente. Philip animou-se. Mas um momento depois o rei disse: – Diabos me levem se consigo ver um jeito de entrar nesse castelo!

      - Por favor, faça William reabrir a pedreira! - pediu Philip. - Ele o está desafiando e roubando de Deus.

      Estêvão pareceu não ouvir.

      - Não creio que eles tenham muitos homens aí dentro disse ele, no mesmo tom pensativo. - Suspeito que quase todos estejam na muralha, para uma exibição de força. O que disse sobre um mercado?

      Aquilo tudo era parte do teste, decidiu Philip; fazê-lo ficar em campo aberto, de costas para um bando de arqueiros. Enxugou a testa com o arminho do punho do manto do rei.

      - Majestade, todos os domingos vem gente de toda parte para assistir ao culto em Kingsbridge e para trabalhar, de graça, no canteiro de obra da catedral. Quando começamos, uns poucos homens empreendedores apareceram para vender tortas de carne, vinho, chapéus e facas para os voluntários. Assim, gradualmente se formou um mercado.  E agora estou lhe pedindo para licenciá-lo.

      - Você pagará pela licença?

      Um pagamento era normal, Philip sabia, mas também podia ser dispensado, quando se tratava de uma organização religiosa.

      - Sim, milorde, eu pagarei... a menos que seja sua vontade nos conceder a licença sem pagamento, pela maior glória de Deus.

      Estêvão o encarou diretamente pela primeira vez.

      - Você é um homem corajoso, para ficar aí, com o inimigo às costas, e barganhar comigo.

      Philip o encarou com igual franqueza.

      - Se Deus decidir que minha vida deve acabar, nada poderá me salvar - disse, parecendo mais corajoso do que se sentia. - Mas se Deus quiser que eu viva e construa a Catedral de Kingsbridge, nem dez mil arqueiros poderão me abater.

      - Muito bem dito! - exclamou Estêvão, e batendo com a mão no ombro de Philip, virou-se na direção da catedral. Fraco, de tão aliviado, o prior caminhou ao lado dele, sentindo-se melhor a cada passo que o afastava mais do castelo. Parecia ter passado no teste. Mas era importante conseguir uma declaração direta do rei. A qualquer momento ele lhe escaparia no meio dos cortesãos novamente. Ao passarem pela linha de sentinelas, Philip reuniu toda a coragem e disse:

      - Majestade, se escrever uma carta para o xerife de Shiring.

      Foi interrompido. Um dos condes aproximou-se correndo, parecendo perturbado.

      - Robert de Gloucester se aproxima daqui, majestade – disse ele.

      - O quê? A que distância?

      - Está perto. Um dia, no máximo...

      - Por que não fui alertado? Coloquei homens por toda parte!

      - Eles vieram pela via do fosso e saíram da estrada para se aproximarem através do campo.

      - Quem está com ele?

      - Todos os condes e cavaleiros que perderam suas terras nos últimos dois anos. Ranulf de Chester também o acompanha...

      - Claro! Cão traiçoeiro...

      - Ele trouxe todos os seus cavaleiros de Chester, mais um bando de galeses selvagens e gananciosos.

      - Quantos homens ao todo?

      - Cerca de mil.

      - Maldito! Cem a mais do que tenho.

      A essa altura diversos barões tinham se reunido em torno do rei.

      - Majestade - disse um deles -, se ele está se aproximando através do campo, vai ter que atravessar o rio no vau...

      - Bem pensado, Edward! - disse Estêvão. - Leve os seus homens para o vau e veja se consegue detê-lo. Precisará de arqueiros, também.

      - A que distância eles estão daqui, alguém sabe? - perguntou Edward.

      Foi o primeiro conde que trouxera a notícia quem respondeu.

      - Muito perto, segundo o mensageiro. Pode ser que cheguem ao vau antes de você.

      - Irei imediatamente - afirmou Edward.

      - Bom homem! - disse o rei Estêvão. Cerrou o punho direito e deu um soco na palma da mão esquerda. - Finalmente vou me encontrar com Robert de Gloucester no campo de batalha. Só quisera dispor de mais homens. Ainda assim... uma vantagem de cem não é muito.

      Philip ouviu tudo aquilo em amargurado silêncio. Tinha certeza de que estivera quase conseguindo a concordância de Estêvão. Agora a cabeça do rei estava em outra coisa. O prior, contudo, não se sentia pronto para desistir. Ainda vestia o manto do rei. Tirou-o de cima dos ombros e o levantou, dizendo:

      - Talvez devêssemos voltar a ser o que somos, majestade.

      Estêvão concordou distraidamente. Um cortesão adiantou-se e ajudou-o a tirar o hábito do monge. Philip entregou o manto real e disse:

      - Majestade, achei-o inclinado a conceder meu pedido.

      Estêvão deu a impressão de ficar irritado por ser lembrado.

      Enfiou o manto e estava a ponto de falar quando uma nova voz foi ouvida.

      - Majestade!

      Philip reconheceu a voz. Seu coração desfaleceu. Virou-se e deu com William Hamleigh.

      - William, meu garoto! - exclamou o rei, no tom de voz cordial que usava com seus guerreiros. - Chegou bem a tempo!

      O lorde fez uma reverência.

      - Majestade - disse, – trouxe cinquenta cavaleiros e duzentos homens do meu condado.

      As esperanças de Philip se desfizeram em pó. Estêvão ficou visivelmente jubiloso.

      - Que homem bom você é! - exclamou de maneira calorosa. - Isso nos dá vantagem sobre o inimigo! - Passou um braço pelos ombros de William e caminhou com ele na direção da catedral.

      Philip ficou parado onde estava, olhando os dois se afastarem. Estivera incrivelmente perto do sucesso, mas no fim o exército de William fora mais importante que a justiça, pensou, amargurado. O cortesão que ajudara o rei a tirar o hábito de Philip entregou-o de volta. Philip o apanhou; seguiu o rei e o seu séquito e todos entraram na catedral. O prior vestiu o hábito monástico. Estava profundamente decepcionado. Olhou para os três imensos portais em arco da catedral. Tivera esperança de construir arcos como aqueles em Kingsbridge. Mas Estêvão ficara do lado de William Hamleigh. O rei se defrontara com um dilema onde só havia duas alternativas: a justiça do caso apresentado por Philip ou a vantagem representada pelo exército de William. O prior falhara no seu teste.

      Restava-lhe apenas uma única esperança: que o rei Estêvão fosse derrotado na batalha que se aproximava.

     

      O bispo rezou a missa na catedral quando o céu estava começando a mudar de preto para cinzento. A essa altura os cavalos já estavam selados, os cavaleiros envergavam a cota de malha, os homens de armas tinham sido alimentados, e uma medida de vinho forte fora servida a todos para dar coragem.

      William Hamleigh ajoelhou-se na nave com outros cavaleiros e condes, enquanto os cavalos de batalha batiam os cascos e bufavam nos corredores, e foi perdoado por antecedência pela matança que realizaria mais tarde.

      O medo e a excitação deixaram-no um pouco aturdido. Se o rei conquistasse uma vitória naquele dia, o nome de William estaria associado para sempre a ela, pois diriam que ele trouxera os reforços que haviam desequilibrado a balança.

      Se o rei perdesse... qualquer coisa poderia acontecer. Estremeceu sobre o chão frio de pedra.

      O rei estava na frente, num manto branco de tecido leve, com uma vela na mão. Quando a hóstia foi elevada, a vela se partiu e a chama apagou. William tremeu de medo: era um mau agouro. Um padre trouxe uma vela nova e levou embora a quebrada. Estêvão riu indiferentemente, mas a sensação do horror sobrenatural permaneceu com William, que, ao olhar em torno, pôde dizer que os outros sentiam a mesma coisa.

      Após o culto o rei vestiu sua armadura, ajudado por um valete. Tinha uma cota de malha da altura do joelho feita de couro com anéis de ferro costurados. O casaco era aberto até a cintura na frente e atrás, para que pudesse montar. O valete o apertou com força no pescoço. Depois ele colocou um gorro justo onde estava preso um capuz comprido de malha, cobrindo o cabelo alourado e protegendo o pescoço. Por cima do gorro pôs um elmo de ferro com um protetor de nariz. Suas botas de couro tinham enfeites de malha e esporas pontudas.

      Quando Estêvão pôs a armadura, os condes se reuniram à sua volta. William seguiu o conselho da mãe e agiu como se já fosse um deles, abrindo caminho por entre a multidão para se juntar ao grupo em torno do rei. Após escutar por um momento, percebeu que estavam tentando persuadir o rei a bater em retirada e deixar Lincoln com os rebeldes.

      - Você tem mais território que Matilde; pode montar um exército maior - disse um homem mais velho, que William reconheceu como lorde Hugh. - Vá para o sul, consiga reforços, volte e lute com efetivo maior que o deles.

      Após o augúrio da vela partida, Hamleigh quase desejava bater em retirada, ele mesmo; o rei porém, não tinha tempo para esse tipo de conversa.

      - Somos fortes o bastante para batê-los agora - disse animadamente. - Onde está sua fibra? - Afivelou um cinto com uma espada de um lado e uma adaga do outro, ambas com bainhas de madeira e couro.

      - Os exércitos estão praticamente com a mesma força disse um homem alto, de cabelo grisalho e barba aparada rente: – o conde de Surrey. - É arriscado demais.

      Aquele argumento era muito fraco para usar com Estêvão, e William sabia disso: o rei era um cavaleiro de verdade, nobre e audaz.

      - A mesma força? - repetiu com escárnio. - Pois prefiro um combate justo. - Calçou as manoplas com malha na parte de trás dos dedos. O valete lhe entregou um escudo comprido, de madeira coberta com couro. William prendeu o tirante do escudo no pescoço e segurou-o com a mão esquerda.

      - Temos pouco a perder, nos retirando neste ponto - insistiu Hugh. - Não estamos sequer de posse do castelo.

      - Eu perderia a chance de me encontrar com Robert de Gloucester no campo de batalha - disse Estêvão. - Há dois anos ele me evita. Agora que tenho uma oportunidade para acabar com o traidor de uma vez por todas, não vou retrair só porque temos efetivos praticamente iguais!

      Um cavalariço trouxe o seu cavalo, já arreado. Quando Estêvão estava prestes a montar, houve uma movimentação na porta da fachada oeste da catedral, e um cavaleiro avançou correndo pela nave, coberto de lama e sangue. William teve uma premonição de que trazia uma má notícia. Quando fez uma reverência para o rei, reconheceu-o como sendo um dos homens de Edward, que fora mandado para defender o vau.

      - Chegamos tarde demais, majestade - disse ele, ofegante. - O inimigo atravessou o rio.

      Era outro mau sinal. William de repente sentiu frio. Agora não havia senão campo aberto entre o inimigo e Lincoln.

      Estêvão também pareceu abatido por um momento, mas recuperou a compostura rapidamente.

      - Não faz mal! - disse. - Nós os encontraremos mais cedo! - E montou seu cavalo de batalha.

      O rei tinha um machado de guerra amarrado na sela. O valete entregou-lhe uma lança de madeira com uma ponta de ferro brilhante, completando seu armamento. Estêvão estalou a língua, e o cavalo, obediente, deslocou-se para a frente.

      À medida que ia progredindo pela nave, os condes, barões e cavaleiros montaram e seguiram à sua retaguarda, e assim todos deixaram a catedral em procissão. No lado de fora, os homens de armas se incorporaram. Aquela era a hora em que os homens começavam a sentir medo e a procurar uma chance para fugir; porém, seu ritmo digno e a atmosfera quase cerimonial, com os habitantes da cidade observando, tornava muito difícil a fuga para os fracos de coração.

      Seu efetivo foi aumentado por uma centena ou mais de habitantes da cidade, padeiros gordos, tecelões míopes e cervejeiros rubicundos, mal armados e montando cavalinhos de perna curta ou animais bem mansos. A presença daquela gente era um sinal da impopularidade de Ranulf.

      O exército não poderia passar pelo castelo, pois os homens ficariam expostos aos tiros dos arqueiros, de modo que deixaram a cidade pelo portão norte, que era chamado de Arco Newport, e viraram para oeste. Era ali que a batalha seria travada.

      William estudou o terreno com um olhar penetrante. Embora a colina do lado sul da cidade mergulhasse subitamente no rio, a oeste a elevação era suave, até se confundir com a planície. Viu imeditamente que Estêvão escolhera a posição correta para defender a cidade, pois fosse qual fosse o modo como o inimigo se aproximasse, estaria sempre num plano inferior ao do exército do rei.

      Quando Estêvão estava a um quarto de milha de distância da cidade, dois batedores subiram a elevação, a galope. Localizaram o rei e foram diretamente até ele. William  juntou-se ao grupo que queria ouvir seu relatório.

      - O inimigo está se aproximando depressa, majestade – disse um dos batedores.

      William dirigiu o olhar para a planície. Sem dúvida, podia ver uma massa negra a distância, deslocando-se lentamente na direção onde eles se encontravam: o inimigo.

      Sentiu um calafrio de medo. Sacudiu-se, mas o medo persistiu. Desapareceria quando a batalha tivesse início.

      - Qual é o dispositivo deles? - perguntou o rei Estêvão.

      - Ranulf e os cavaleiros de Chester formam o centro, majestade - começou o batedor. - Estão a pé.

      William perguntou-se como o batedor teria sabido daquilo. Devia ter entrado no campo inimigo e ouvido as ordens de combate serem dadas. Exigia muita coragem e frieza.

      - Ranulf no centro? Como se ele fosse o líder, e não Robert?

      - Robert de Gloucester está no seu flanco esquerdo, com um exército de homens que se autodenominam os Deserdados - prosseguiu o batedor. William sabia por que usavam aquele nome: todos tinham perdido suas terras desde que a guerra civil começara.

      - Robert então deu a Ranulf o comando da operação – disse Estêvão pensativamente. - Uma pena. Conheço bem Robert - praticamente fui criado com ele -, e poderia adivinhar sua tática. Ranulf é um estranho para mim. Não faz mal. Quem está na direita?

      - Os galeses, majestade.

      - Arqueiros, suponho. Os homens de Gales do Sul têm boa reputação como arqueiros.

      - Não são esses - contrapôs o batedor. - No caso é uma multidão de loucos furiosos, de rosto pintado, cantando canções bárbaras e armados de martelos e porretes. Muito poucos têm cavalos.

      - Devem ser de Gales do Norte - ponderou Estêvão. – Acredito que Ranulf lhes tenha prometido o fruto da pilhagem. Que Deus ajude Lincoln se conseguirem entrar na cidade. Mas não entrarão! Qual é o seu nome, batedor?

      - Roger, chamado de Sem-Terra - respondeu o homem.

      - Sem-Terra? Você terá dez acres por esse trabalho.

      O homem ficou entusiasmado.

      - Muito obrigado, majestade!

      - Agora... - Estêvão virou-se e olhou para os seus condes. Estava prestes a tomar decisões. William ficou tenso, perguntando-se qual seria o papel que o rei lhe designaria. – Onde está o meu lorde Alan da Bretanha?

      Alan fez seu cavalo adiantar-se. Ele liderava uma força de mercenários bretões, homens sem raízes, que combatiam por dinheiro e cuja única lealdade era para com eles próprios.

      - Terei você e os seus bravos bretões na linha de frente, à minha esquerda - disse-lhe Estêvão.

      William percebeu a sabedoria daquela ordem: mercenários bretões contra aventureiros galeses, indignos de confiança versus indisciplinados.

      - William de Ypres! - exclamou Estêvão.

      - Majestade...  - Um homem moreno, num cavalo de batalha negro, levantou a lança. Aquele William era o líder de outra força de mercenários, homens flamengos, pouco mais confiáveis que os bretões, segundo o que se dizia.

      - Você também irá à minha esquerda - disse Estevão, – mas à retaguarda dos bretões de Alan.

      Os dois líderes mercenários fizeram uma volta e retornaram para junto dos seus homens, a fim de organizá-los. William perguntou-se onde seria colocado. Não tinha a menor vontade de estar na linha de frente. Já fizera bastante para se distinguir, trazendo seu exército. Uma posição segura e tranquila na retaguarda seria bem-vinda.

      - Meus lordes de Worcester, Surrey, Northampton, York e Hertford, com seus cavaleiros, formarão o meu flanco direito.

      Uma vez mais William reconheceu o bom senso das disposições de Estêvão. Os condes e seus cavaleiros, a maioria a cavalo, enfrentariam Robert de Gloucester e os nobres "deserdados" que o apoiavam, que, na maioria, estariam montados também.

      Entretanto, William ficou desapontado por não ter sido incluído no grupo dos condes. Teria o rei se esquecido dele?

      - Ficarei no centro, desmontado, com soldados a pé - disse Estêvão.

      Pela primeira vez William desaprovou uma decisão sua. Sempre era melhor ficar montado o maior tempo possível. Mas Ranulf, à frente do exército adversário, estava a pé, segundo as informações, e o espírito cavalheiresco de Estêvão o compelia a enfrentar o inimigo em igualdade de condições.

      - Comigo no centro terei William de Shiring e seus homens - disse o rei.

      William não sabia se ficava emocionado ou apavorado. Era uma grande honra ser escolhido para ficar ao lado do rei - sua mãe teria se sentido gratificada, mas essa escolha o colocava na mais perigosa das posições. Pior ainda, estaria a pé. O que significava também que o rei poderia vê-lo e julgar seu desempenho. Teria que aparentar não ter medo e se antecipar, levando o combate ao inimigo, em vez de se manter fora de problemas e combater só quando se visse forçado, como era sua tática favorita.

      - Os leais cidadãos de Lincoln comporão a retaguarda – disse Estêvão, no que era uma mistura de compaixão e bom senso militar. Os cidadãos não seriam de muita utilidade em parte alguma, mas na retaguarda poderiam causar menos prejuízo e sofreriam menos baixas.

      William levantou o estandarte do conde de Shiring. Tratava-se de outra idéia de sua mãe. No sentido estrito, ele não tinha direito ao estandarte, porque não era o conde; porém, os homens que o acompanhavam estavam acostumados a seguir o estandarte de Shiring - ou pelo menos era o que diria, se houvesse comentários. E, ao final do dia, se a batalha fosse bem-sucedida, ele poderia ser conde.

      Seus homens reuniram-se em torno dele. Walter ao seu lado, como sempre, uma presença forte e tranquilizadora. Da mesma forma Gervase Feio, Hugh Machado e Miles Dados.

      Gilbert, que morrera na pedreira, tinha sido substituído por Guillaume de St. Clair, um jovem de ar petulante e caráter perverso.

      Olhando à sua volta, William ficou furioso ao ver Richard de Kingsbridge usando uma reluzente armadura nova e montado num esplêndido cavalo de batalha. Estava com o conde de Surrey. Não trouxera um exército para o rei, como William, mas impressionava - rosto jovem, vigoroso, bravo, e se fizesse grandes coisas naquele dia poderia ganhar os favores reais. As batalhas eram imprevisíveis, assim como os monarcas.

      Por outro lado, talvez Richard viesse a perder a vida. Com um pouco de sorte, era o que aconteceria. William desejou a morte do irmão de Aliena mais do que jamais desejara uma mulher.

      Olhou para oeste. O inimigo estava mais próximo.

     

      Philip estava no telhado da catedral e podia ver Lincoln como num mapa. A cidade velha cercava a catedral no topo da colina. Tinha ruas retas, jardins e pomares bem tratados e o castelo no canto sudoeste. A parte nova, barulhenta e superpovoada, ocupava a parte mais íngreme ao sul, entre a cidade velha e o rio Witham. Aquela região normalmente fervilhava de atividade comercial, mas naquele dia estava coberta por um silêncio temeroso, como um pano mortuário, e as pessoas tinham ido para cima dos telhados a fim de assistir à batalha. O rio vinha do leste, corria ao longo do sopé da elevação, e depois se alargava num grande porto natural chamado Brayfield Pool, cercado de atracadouros e cheio de navios e barcos. Um canal chamado Fosdyke corria na direção oeste a partir de Brayfield Pool até o rio Trent, segundo o que haviam dito a Philip. Ali de cima, Philip maravilhou-se ao constatar como seguia reto por milhas e milhas. Dizia-se que fora construído nos tempos antigos.

      O canal formava o limite do campo de batalha. Philip viu o exército do rei Estêvão marchar para fora da cidade, uma multidão esfarrapada, e lentamente se organizar em três colunas sobre a colina. O prior sabia que Estêvão colocara os condes à sua direita porque eram os mais coloridos, com suas túnicas vermelhas e amarelas e seus estandartes vistosos. Eram também os mais ativos, indo e vindo em seus cavalos, dando ordens, consultando uns e outros e fazendo planos. O grupo à esquerda do rei, na parte da colina que descia até o canal, vestia-se de cinza e marrom, tinha menos cavalos e se agitava menos, economizando energia - deviam ser os mercenários.

      Além do exército de Estêvão, onde a linha do canal se tornava indistinta e se confundia com a vegetação da margem, o exército rebelde cobria os campos como um enxame de abelhas. A princípio parecia estar parado; porém, quando se olhava de novo após algum tempo, via-se que tinha se aproximado mais; agora, prestando bastante atenção, já dava para distinguir o movimento. Gostaria de saber seu efetivo. Todas as indicações eram de que os dois lados estavam bem equilibrados.

      Não havia nada que Philip pudesse fazer para influenciar o resultado - uma situação que detestava. Tentou acalmar o espírito e ser fatalista. Se Deus quisesse uma nova catedral em Kingsbridge, faria com que Robert de Gloucester derrotasse o rei Estêvão hoje, de modo que Philip pudesse pedir à vitoriosa Matilde para que o reintegrasse na posse da pedreira e o deixasse reabrir o mercado. E se Estêvão viesse a derrotar Robert, Philip teria que aceitar a vontade de Deus, desistir dos seus planos ambiciosos e deixar Kingsbridge mais uma vez mergulhar na sua sonolenta obscuridade.

      Por mais que se esforçasse, não conseguia pensar desse jeito. Queria que Robert vencesse.

      Um vento forte soprou sobre as torres da catedral e ameaçou derrubar os espectadores mais frágeis de cima das folhas de chumbo do telhado e atirá-los no cemitério ali embaixo. O vento era cortantemente frio. Philip estremeceu e se enrolou com mais força na capa.

      Os dois exércitos estavam agora a uma milha de distância.

     

      O exército rebelde parou quando estava a uma milha da linha de frente do rei. Era uma verdadeira tortura ser capaz de ver a massa do exército deles, mas não conseguir distinguir os detalhes. William queria saber quão bem armados estavam, se se mostravam determinados e agressivos ou cansados e relutantes, e até mesmo qual seria sua altura. Continuaram a avançar lentamente, enquanto os que se encontravam à retaguarda, motivados pela mesma ansiedade que William estava sentindo, pressionavam para a frente a fim de ver o inimigo.

      No exército de Estêvão, os condes e seus cavaleiros alinharam-se nos cavalos, com as lanças em posição de combate, como se estivessem num torneio, prontos a dar início à justa. Relutantemente, William mandou todos os cavalos do seu contingente para a retaguarda. Disse aos escudeiros que não voltassem à cidade com os animais, mas sim que os segurassem mantendo-os disponíveis para o caso de serem necessários - para fugir, foi o que pensou, embora não tivesse falado. Quando se perdia uma batalha, era melhor fugir do que morrer.

      Houve uma calmaria, quando teve a impressão de que o combate jamais começaria. O vento cedeu e os cavalos se acalmaram, embora os homens não. O rei Estêvão tirou o elmo e coçou a cabeça. William ficou desassossegado. Combater não era problema, mas pensar no combate o deixava nauseado.

      Então, sem nenhum motivo aparente, a atmosfera tornou-se tensa de novo. Um grito de batalha subiu aos céus. Todos os cavalos de repente ficaram irritadiços. Um grito de encorajamento teve início, quase que instantaneamente abafado pelo tropel dos cascos. A batalha começava. William sentiu o cheiro azedo e suado do medo.

      Olhou em torno de si, desesperado, tentando descobrir o que estava acontecendo, mas tudo era uma grande confusão e, estando de pé, só conseguia enxergar o que o cercava mais de perto. Os condes à sua direita pareciam ter iniciado a batalha, carregando contra o inimigo. Presumivelmente, as forças que se antepunham a eles, o exército de nobres deserdados do conde Robert, reagiam do mesmo modo, atacando em formação. Quase que ao mesmo tempo ouviu um grito à esquerda; virou-se e viu os mercenários bretões que estavam montados esporearem os cavalos. Com isso, um horrendo som ergueu-se da seção correspondente do exército inimigo - a horda galesa, ao que parecia. Não deu para ver quem levou vantagem.

      William perdera Richard de vista.

      Dúzias de flechas, como um bando de pássaros, vieram de trás das linhas inimigas e começaram a cair em torno dele. O lorde segurou o escudo acima da cabeça. Odiava flechas - matavam aleatoriamente.

      O rei Estêvão urrou o seu grito de guerra e investiu. William desembainhou a espada e precipitou-se para a frente, gritando para que seus homens o seguissem. Entretanto, os cavaleiros tinham se aberto em leque quando partiram para o ataque, colocando-se entre ele e o inimigo.

      Da sua direita veio o barulho ensurdecedor de ferro batendo em ferro, e o ar se encheu com um cheiro metálico que ele conhecia muito bem. Os condes e os Deserdados tinham entrado na batalha. Ele só conseguia ver homens e cavalos colidindo, girando, investindo, caindo. O relinchar dos animais era indistinguível dos gritos de guerra dos homens, e em algum lugar, em meio a todo aquele barulho, William ouviu os gritos pavorosos, de congelar os ossos, dos homens feridos que agonizavam. Esperava que Richard fosse um dos que estavam gritando.

      Olhou para a esquerda e ficou horrorizado ao ver que os bretões recuavam ante os porretes e os machados dos selvagens galeses; estes, tomados de fúria cega, gritavam, berravam e se atropelavam na ânsia de atacar o inimigo. Talvez estivessem sôfregos para pilhar a rica cidade. Os bretões, sem nada mais que a perspectiva de outra semana de pagamento para estimulá-los, lutavam defensivamente, cedendo terreno. William ficou enojado.

      Sentiu-se frustrado por não ter desferido ainda um único golpe. Estava cercado pelos seus cavaleiros, e mais adiante se encontravam os cavalos dos condes e dos bretões.

      Adiantou-se, colocando-se ligeiramente à frente e ao lado do rei. Havia luta por toda parte: cavalos tombados, homens brigando corpo a corpo com a ferocidade de leões, o retinir ensurdecedor das espadas e o cheiro enjoativo de sangue; William e o rei Estêvão, porém, estavam naquele momento presos numa zona morta.

      Philip podia ver tudo, mas não entendia nada. Não tinha ideia do que estava acontecendo. Era tudo uma confusão: lâminas faiscando, cavalos investindo, estandartes voando e caindo, e o barulho da batalha, carregado pelo vento, abafado pela distância. Era enlouquecedoramente frustrante. Alguns homens caíam e morriam, outros venciam e continuavam lutando, mas ele não podia dizer quem estava ganhando e quem estava perdendo.

     

      - O que é que está acontecendo? - perguntou-lhe um padre a seu lado, com uma capa de pele.

      - Não sei dizer - respondeu Philip, sacudindo a cabeça.

      Entretanto, no próprio momento em que falava ele conseguiu discernir um movimento. À esquerda do campo de batalha, alguns homens desciam correndo a colina na direção do canal. Tratava-se de mercenários vestidos com roupas pardacentas e, pelo que Philip podia dizer, eram os homens do rei que fugiam e os da tribo galesa de rosto pintado que os perseguiam. Os gritos vitoriosos dos galeses podiam ser ouvidos dali de cima. Philip se encheu de esperanças: os rebeldes estavam vencendo!

      Houve então uma transformação no outro lado. À direita, onde os homens montados estavam engajados, o exército do rei parecia recuar. O movimento a princípio foi insignificante, depois firme e por fim rápido; e enquanto Philip olhava, a retirada transformou-se numa debandada, e inúmeros homens do rei viraram o cavalo e começaram a fugir do campo de batalha.

      Philip ficou exultante: aquela devia ser a vontade de Deus!

     

      Poderia estar terminando tão rapidamente? Os rebeldes avançavam, mas o centro ainda se mantinha firme. Os homens à volta do rei Estêvão lutavam mais impetuosamente que os dos lados. Seriam capazes de deter o fluxo? Talvez Estêvão e Robert de Gloucester lutassem um com o outro: o combate entre dois líderes às vezes podia resolver a questão independentemente do que estivesse acontecendo no resto do campo de batalha. Ainda não terminara.

      A maré virou com horrível velocidade. Num momento os dois exércitos estavam em igualdade de condições, e no momento seguinte os homens do rei recuavam depressa.

      William sentiu-se profundamente desalentado. À sua esquerda, os mercenários bretões desciam correndo a colina, perseguidos até o canal pelos galeses; e, à direita, os condes, com seus cavalos de batalha, viravam de costas e tentavam fugir na direção de Lincoln. Só o centro sustentava sua posição: o rei Estêvão estava onde a luta era mais renhida, dando golpes de espada a torto e a direito, com os homens de Shiring à sua volta como uma alcatéia. Mas a situação era instável. Se os flancos continuassem a se retrair, o rei terminaria cercado. William queria que Estêvão recuasse. Mas o rei era mais corajoso que sábio, e continuou lutando.

      O lorde sentiu que toda a batalha dava uma guinada para a esquerda. Olhando à sua volta, viu que os mercenários flamengos vinham de trás e caíam sobre os galeses, que foram forçados a parar de perseguir os bretões na encosta da colina para se defenderem. Por um momento houve uma tremenda confusão. Em seguida, os homens de Ranulf de Chester, no meio da linha de frente do inimigo, atacaram os flamengos, que assim se viram espremidos entre os homens de Chester e os galeses.

      Ao ver a incursão inimiga, o rei Estêvão instou a seus homens para que pressionassem mais frontalmente. William achou que Estêvão tinha cometido um erro. Se as forças do rei pudessem estreitar contato com os homens de Ranulf, seria este quem se veria encurralado entre dois lados.

      Um dos cavaleiros de William caiu na frente dele, que subitamente se viu no meio do combate.

      Um nortista musculoso, com sangue na espada, investiu contra ele. O lorde aparou o golpe facilmente: estava descansado, e seu antagonista, pelo contrário, já bastante fatigado. William procurou atingir a cara do homem, errou, e teve que aparar outro golpe. Então levantou a espada bem alto, abrindo a guarda deliberadamente; quando o outro adiantou-se com outra estocada, William esquivou-se e, segurando a espada com as duas mãos, acertou o ombro. O golpe partiu-lhe a armadura, quebrando a clavícula, e ele caiu.

      O lorde desfrutou um momento de júbilo. Seu medo desaparecera.

      - Venham, seus cachorros! - trovejou.

      Dois outros homens tomaram o lugar do cavaleiro caído e atacaram William simultaneamente. Ele os manteve afastados mas foi forçado a ceder terreno.

      Houve um movimento maior à direita, e um dos seus oponentes teve que se virar e se defender de um homem de rosto vermelho armado com uma machadinha, e que parecia um açougueiro enlouquecido. Isso deixou apenas um antagonista para Hamleigh. Ele sorriu selvagemente e pressionou. Seu oponente entrou em pânico e arremeteu desvairado contra a cabeça de William. Este desviou e acertou o homem na coxa, logo abaixo da franja da sua jaqueta curta de malha. A perna vergou e o homem caiu.

      Uma vez mais William não tinha com quem lutar. Ficou imóvel, ofegante. Por um momento pensara que o exército do rei seria destroçado, mas suas fileiras tinham se reorganizado, e agora nenhum dos dois lados parecia ter vantagem. Olhou para o lado direito, perguntando-se o que teria destruído um dos seus dois adversários. Para seu assombro, viu que os habitantes de Lincoln apresentavam uma resistência ferrenha ao inimigo. Talvez fosse porque estivessem defendendo as próprias casas. Mas quem os organizara, depois que os condes naquele flanco tinham batido em retirada? A pergunta foi prontamente respondida: para seu espanto, viu Richard de Kingsbridge, em seu cavalo de batalha, insistindo que os moradores de Lincoln persistissem. O coração de William desfaleceu. Se o rei visse sua bravura, poderia pôr a perder todo o trabalho de Hamleigh. Deu uma olhada em Estêvão. Justo naquele instante o rei surpreendeu o olhar de Richard e acenou, encorajando-o. William deixou escapar uma praga de ressentimento.

      A pressão dos habitantes de Lincoln aliviou a situação do rei, mas Apenas por um momento. À esquerda, os homens de Ranulf tinham desbaratado os mercenários flamengos, e agora Ranulf se voltou contra a posição central das forças defensivas. Ao mesmo tempo, os chamados Deserdados investiram contra Richard e os habitantes de Lincoln, e o combate tornou-se furioso.

      William foi atacado por um homem imenso armado com um machado de guerra. Esquivou-se, desesperado, receando pela própria vida. A cada golpe ele pulava para trás, e constatava, apavorado, que o grosso do exército do rei estava recuando no mesmo ritmo. À sua esquerda, os galeses retomaram ao topo da colina e, inacreditavelmente, começaram a jogar pedras. Era ridículo mas efetivo, pois agora William tinha que, ao mesmo tempo, ficar de olho nas pedras e se defender do gigante com a machadinha.

      Parecia haver um número muito maior de inimigos agora do que antes, e William sentiu, em desespero, que o efetivo do rei fora suplantado. Um terror histérico subiu-lhe pela garganta ao constatar que a batalha estava praticamente perdida e ele se encontrava em perigo mortal. O rei deveria fugir agora. Por que ainda estava lutando?

      Era insano; ele seria morto... Todos seriam mortos! O adversário de William levantou o machado bem alto. Os instintos de guerreiro de Hamleigh o dominaram por um instante, e em vez de recuar, como vinha fazendo antes, pulou para a frente e arremeteu contra a cara do homem enorme. A ponta da sua espada entrou no pescoço dele logo abaixo do queixo. William imprimiu força à estocada. Os olhos do homem se fecharam, proporcionando-lhe um momento de grato alívio. Em seguida ele puxou a espada e pulou para trás, agora para escapar do machado que caía das mãos do morto.

      Deu uma rápida olhada no rei, algumas jardas à sua esquerda. Enquanto olhava, Estêvão baixou a espada com força no elmo de um homem e ela se partiu em duas, como um galho seco. Pronto, pensou William com alívio; a batalha estava acabada. O rei recuaria e se pouparia para combater em outra ocasião. Mas a esperança foi prematura.

      Hamleigh começara a se virar, pronto para correr, quando um habitante de Lincoln ofereceu ao rei um machado de lenhador, de cabo comprido. Para assombro de William, Estêvão o aceitou e continuou a combater.

      Hamleigh sentiu-se tentado a fugir. Mas olhando para a sua direita, viu Richard a pé, lutando como um louco, pressionando, dando um golpe atrás do outro com a espada, abatendo homens à esquerda, à direita e no centro. William não podia retrair enquanto seu rival ainda estava lutando.

      Foi atacado de novo, dessa vez por um homem de baixa estatura que se movia muito rapidamente, a espada faiscante à luz do sol. Quando suas armas se chocaram, percebeu que estava se defrontando com um combatente temível. Mais uma vez se viu na defensiva e receando pela própria vida; saber que a batalha estava perdida minava sua vontade de lutar. Aparou as rápidas estocadas que lhe foram dirigidas, querendo poder encaixar um golpe com força bastante para atravessar a armadura do homem. Viu uma chance e investiu. O outro esquivou-se e arremeteu também - William sentiu o braço ficar dormente. Tinha sido ferido. Ficou nauseado de tanto medo. Continuou a recuar ante o assalto do outro, sentindo-se estranho e desequilibrado, como se o chão estivesse se mexendo sob seus pés. Seu escudo ficou pendurado no pescoço, solto: não era capaz de segurá-lo firmemente com seu braço esquerdo inútil. O baixinho pressentiu a vitória e intensificou o ataque. Hamleigh anteviu seu fim e encheu-se de pavor mortal.

      De repente Walter apareceu ao seu lado.

      William recuou. Seu cavaleiro brandiu a espada, segurando-a com as duas mãos. Pegando o baixinho de surpresa, cortou-o como um arbusto. William subitamente sentiu-se tonto de alívio. Pôs uma das mãos no ombro do companheiro.

      - Perdemos! - gritou Walter. - Vamos dar o fora!

      Recobrou a calma. O rei ainda lutava, embora a batalha estivesse perdida. Se ao menos ele desistisse agora, e tentasse fugir, poderia deslocar-se para o sul e montar outro exército. Mas quanto mais ficasse ali lutando, maior a probabilidade de ser capturado ou morto, o que poderia significar apenas uma única coisa: Matilde seria a rainha.

      William e Walter deslocaram-se imperceptivelmente para trás. Por que o rei estava sendo tão tolo? Tinha que provar coragem. A galanteria seria sua morte. Uma vez mais William sentiu-se tentado a abandonar o rei. Mas Richard de Kingsbridge ainda estava ali, mantendo o flanco direito com a firmeza de uma rocha, brandindo a espada e derrubando inimigos como se fosse uma ceifadeira.

      - Ainda não! - exclamou William para Walter. - Observe o rei!

      Recuaram passo a passo. O combate tornou-se menos feroz quando os homens perceberam que o resultado já estava decidido e que não adiantava nada se arriscar. William e Walter cruzaram espadas com dois cavaleiros, mas, como estes se contentaram em forçá-los a recuar, aqueles lutaram defensivamente. Golpes fortes eram trocados, mas ninguém se expunha ao perigo.

      William recuou dois passos e arriscou olhar para o rei. Naquele exato momento uma pedra atravessou o campo de luta e acertou o elmo de Estêvão. O rei cambaleou e caiu de joelhos.

      O adversário de William virou a cabeça para ver o que este estava olhando. O machado caiu das mãos de Estêvão. Um cavaleiro inimigo correu e tirou-lhe o elmo.

      - O rei! - gritou, triunfante. - Eu tenho o rei!

      William, Walter e todo o exército real se viraram e saíram correndo.

     

      Philip sentiu-se jubiloso. A retirada começou no meio do exército do rei e espalhou-se como uma onda para os flancos. Em questão de momentos todo o exército real estava batendo em retirada. Era a recompensa do rei Estêvão pela injustiça praticada.

      Os atacantes perseguiram os fugitivos. Havia quarenta ou cinquenta cavalos na retaguarda do exército do rei, seguros por escudeiros, e alguns dos fugitivos montaram neles e saíram galopando, não na direção da cidade de Lincoln, mas buscando campo aberto.

      Philip perguntou-se o que teria acontecido a Estêvão.

      Os cidadãos de Lincoln deixaram apressadamente os telhados. Crianças e animais foram recolhidos. Algumas famílias desapareceram dentro de casa, fechando as janelas e trancando as portas. Houve uma certa agitação nos barcos do lago: alguns cidadãos tentavam fugir usando o rio. As pessoas começaram a se dirigir à catedral, buscando refúgio.

      Em cada entrada da cidade, corria gente para fechar os imensos portões guarnecidos de ferro. De repente, os homens de Ranulf de Chester irromperam do castelo. Dividiram-se em grupos, decerto seguindo um plano previamente combinado, e cada grupo foi para um portão. Enérgicos, investiram contra os cidadãos, derrubando-os à direita e à esquerda, e reabriram os portões para admitir os rebeldes vitoriosos.

      Philip decidiu sair de cima do telhado da catedral. Os outros que estavam com ele, em sua maior parte cônegos, tiveram a mesma idéia. Todos se abaixaram para passar pela pequena porta que dava na torre. Ali encontraram o bispo e os arcediagos, que tinham ficado numa posição mais alta. Philip achou que o bispo Alexander parecia assustado. Era uma pena: ele precisaria de coragem para compartilhar com os outros naquele dia.

      Todos desceram cuidadosamente a comprida e estreita escada em espiral, indo sair na nave da igreja, do lado oeste. Já havia cerca de cem cidadãos ali dentro, e não parava de chegar mais gente pelas três grandes portas. Enquanto Philip estava olhando, dois cavaleiros entraram no pátio da catedral, manchados de sangue e enlameados, galopando; obviamente vinham da batalha. Os dois entraram direto na igreja sem desmontar. Ao verem o bispo, um deles gritou:

      - O rei foi capturado!

      O coração de Philip deu um salto. O rei não só fora derrotado, como também aprisionado! As forças leais a Estêvão em todo o reino certamente cairiam. As implicações se atropelaram umas sobre as outras na imaginação do prior, mas antes que pudesse ordená-las, ouviu o bispo Alexander gritar:

      - Fechem as portas!

      Philip mal pôde acreditar no que ouvia.

      - Não! - gritou, por sua vez. - Não pode fazer isso!

      O bispo o encarou, branco de medo. Não tinha certeza de quem era Philip. O prior lhe fizera uma visita formal, por cortesia, mas não se falavam desde então. Foi com visível esforço que Alexander se lembrou dele.

      - Esta não é a sua catedral, prior Philip, é a minha. Fechem as portas! - Diversos padres foram cumprir o que ele ordenara.

      Philip ficou horrorizado com aquela demonstração de egoísmo da parte de um clérigo.

      - Não pode trancar as pessoas do lado de fora! - gritou, furioso. - Podem ser mortas!

      - Se não trancarmos as portas nós todos seremos mortos! - berrou histericamente Alexander.

      Philip agarrou-o pela parte da frente do hábito.

      - Lembre-se de quem você é - disse, por entre os dentes. - Não se espera que tenhamos medo, especialmente da morte. Controle-se!

      - Façam com que ele me largue! - gritou Alexander. Vários cônegos puxaram Philip, afastando-o do bispo.

      - Não vêem o que ele está fazendo? - perguntou-lhes Philip.

      - Se é tão corajoso - disse um dos cônegos, – por que não vai lá fora e os protege você mesmo?

      Philip libertou-se das mãos dos cônegos.

      - É exatamente o que vou fazer - disse.

      Virou-se. A grande porta central estava sendo fechada. Correu pela nave. Três padres empurravam a porta, enquanto mais gente lutava para ver se conseguia entrar pela passagem cada vez mais estreita. Espremendo-se, Philip conseguiu sair pouco antes do fechamento.

      Nos momentos seguintes, uma pequena multidão havia se reunido na entrada da catedral. Homens e mulheres batiam e gritavam, pedindo que os deixassem entrar, mas não havia resposta dentro da igreja.

      Subitamente Philip sentiu medo. O pânico no rosto daquelas pessoas trancadas ali fora o assustou. Sentiu que tremia. Defrontara-se com um exército vitorioso quando tinha seis anos de idade, e o horror que sentira então voltou agora. O momento em que os homens de armas invadiram a casa de seus pais foi evocado tão vividamente como se tivesse acontecido na véspera. Ficou imobilizado no lugar onde estava, tentando parar de tremer, enquanto a multidão fervilhava à sua volta. Fazia muito tempo que não era atormentado por aquele pesadelo. Viu a avidez por sangue estampada no rosto dos homens, o modo como a espada transfixara sua mãe, a visão horrível das vísceras do seu pai saltando do abdómen, e sentiu de novo aquele mesmo terror histérico, insano, incompreensível, esmagador. Então viu um monge entrar com uma cruz na mão; os gritos cessaram. O monge ensinou a ele e a seu irmão como fechar os olhos da mãe e do pai, para que pudessem dormir o longo sono. Philip se lembrou, como se tivesse acabado de acordar de um sonho, que não era mais uma criança assustada, que era um homem adulto e um monge; e assim como o abade Peter salvara a ele e a seu irmão naquele dia horrível, vinte e sete anos antes, o homem-feito Philip, hoje fortalecido pela fé e protegido por Deus, iria em auxílio daqueles que tinham medo.

      Obrigou-se a dar um passo à frente; uma vez feito isso, o segundo passo seria um pouco menos difícil, e o terceiro quase fácil.

      Quando chegou à rua que seguia na direção do portão oeste quase foi derrubado por uma multidão de fugitivos: homens e mulheres carregando fardos com suas preciosas propriedades, velhos arquejando, garotas gritando, mulheres com crianças esquálidas nos braços. A pressão daquela gente o empurrou de volta algumas jardas, mas depois ele lutou contra o fluxo. As pessoas se encaminhavam para a catedral. Queria lhes dizer que estava fechada, e que eles deveriam ficar quietos em suas casas e trancarem as portas. Entretanto, todos estavam gritando e ninguém estava ouvindo.

      Progrediu vagarosamente ao longo da rua, deslocando-se no sentido contrário ao do fluxo das pessoas. Avançara apenas algumas jardas quando apareceu um grupo de quatro cavaleiros, a galope. Eram eles a causa da correria. Algumas pessoas se achatavam de encontro às paredes das casas, mas outras não podiam sair da frente a tempo e muitas caíam sob as patas dos cavalos. Philip ficou horrorizado, mas não havia nada que pudesse fazer, e se meteu numa viela para não se tornar uma vítima. Um momento mais tarde os cavaleiros haviam passado e a rua ficou deserta.

      Diversos corpos ficaram no chão. Quando Philip saiu da viela viu um deles se mover: um homem de meia-idade, de casaco vermelho, tentava se arrastar, a despeito de uma perna ferida. O prior atravessou a rua, tencionando carregar o homem; antes que chegasse ali, porém, apareceram dois soldados de elmo de ferro e escudo de madeira.

      - Aquele ali está vivo, Jake - disse um deles.

      Philip estremeceu. Teve a impressão, pelas maneiras dos soldados, por suas vozes e roupas, e até mesmo pela expressão do rosto, que eram os mesmos homens que haviam matado seus pais.

      - Ele vai render um resgate: olhe aquele casaco vermelho - disse o que se chamava Jake e, virando-se, pôs os dedos na boca e deu um assobio. Um terceiro homem apareceu correndo. - Leve o Casaco Vermelho ali para o castelo e o amarre.

      O terceiro homem passou os braços pelo tórax do cidadão ferido e o arrastou. Quando suas pernas machucadas começaram a bater nas pedras, ele gritou de dor.

      - Parem! - ordenou Philip. Todos pararam por um momento, olharam para ele e riram; depois prosseguiram.

      Philip gritou de novo, mas eles o ignoraram. Ficou observando, impotente, vendo-o  ser levado embora. Outro homem de armas saiu de uma casa, vestido num casaco de pele comprido e com seis pratos de prata debaixo do braço. Jake viu e reparou no produto da pilhagem.

      - Essas casas são ricas - disse ao companheiro. - Devíamos entrar numa delas e ver o que podemos encontrar. - Eles subiram até a porta de uma casa de pedra e a atacaram com um machado de guerra.

      Philip sentia-se inútil, mas não estava disposto a desistir. No entanto, Deus não o pusera naquela posição para defender as propriedades dos ricos, e ele deixou Jake e seus companheiros e apressou-se na direção do portão oeste. Mais homens de armas surgiram correndo ao longo das ruas. Em meio a eles havia diversos homens morenos, baixos, de rosto pintado, vestidos com casacos de pele de carneiro e armados com porretes. Eram os selvagens galeses, percebeu Philip, envergonhando-se por ser da mesma terra que aqueles brutos. Encostou-se a uma parede e tentou passar despercebido.

      Dois homens saíram de uma casa de pedra arrastando pelas pernas um homem de barba branca e solidéu. Um deles espetou uma faca no pescoço do homem e perguntou:

      - Onde está seu dinheiro, judeu?

      - Não tenho dinheiro - lamentou-se o homem. Ninguém acreditaria naquilo, pensou Philip. A fortuna dos judeus de Lincoln era famosa; e, de qualquer forma, o homem morava numa casa de pedra.

      Outro homem de armas apareceu, arrastando uma mulher pelos cabelos. Era de meia-idade, e devia ser a esposa do judeu. O primeiro homem gritou:

      - Diga onde está o dinheiro, ou enfio a lâmina na boceta dela. - Ergueu a saia da mulher, expondo seus pêlos púbicos grisalhos, e apontou uma adaga comprida.

      Philip estava a ponto de intervir, mas o velho cedeu imediatamente.

      - Não a machuquem, o dinheiro está nos fundos - disse, nervoso. - Está enterrado na horta, perto da pilha de lenha. Por favor, soltem-na.

      Os três homens correram para os fundos da casa. A mulher ajudou o homem a se pôr de pé. Outro grupo de cavaleiros surgiu galopando na rua estreita, e Philip saiu da frente mais que depressa. Quando se ajeitou de novo, os judeus tinham sumido.

      Viu um rapaz de armadura correndo para salvar a vida, com três ou quatro galeses no seu encalço. Eles o alcançaram justamente quando emparelhou com Philip. O perseguidor que ia mais à frente brandiu a espada e tocou na barriga da perna do rapaz. Não pareceu a Philip uma ferida profunda, mas foi o suficiente para fazer o jovem tropeçar e cair no chão. Outro galês correu até ele e levantou um machado. com o coração na boca, o prior deu um passo em frente:

      - Pare! - gritou ele.

      O homem levantou mais ainda o machado.

      Philip correu em sua direção.

      O homem brandiu o machado, mas o prior o empurrou no último instante. A lâmina da arma bateu ruidosamente no pavimento de pedra a um pé da cabeça da vítima. O atacante recuperou o equilíbrio e olhou atônito para Philip. O religioso o encarou também, tentando não tremer, querendo poder se lembrar de uma ou duas palavras de galês.

      Antes que qualquer um deles se mexesse, os outros dois perseguidores chegaram aonde eles estavam, e um tropeçou em Philip, derrubando-o - o que provavelmente salvou sua vida, conforme percebeu um momento depois. Quando se recuperou, todos o tinham esquecido.  Estavam chacinando o pobre rapaz com inacreditável selvageria. Philip conseguiu se levantar, mas já era tarde demais: seus martelos e machados estavam golpeando um cadáver. Philip olhou para o céu e gritou, furioso:

      - Se não posso salvar ninguém, por que me mandou para cá?

      Como que em resposta a sua pergunta, ouviu um grito vindo de uma casa próxima. Era uma construção de pedra e madeira, de um só andar, não tão cara quanto as que a cercavam. A porta estava aberta. Philip entrou correndo. Havia dois cômodos separados por um arco, e palha no chão. Uma mulher com dois filhos pequenos estava encolhida num canto, aterrorizada. Três homens de armas no meio da casa confrontavam-se com um homem pequeno e calvo. Uma jovem de cerca de dezoito anos jazia no chão. Seu vestido fora rasgado e um dos três soldados estava ajoelhado sobre o seu tórax, mantendo as coxas dela abertas. Era evidente que o careca tentava evitar que estuprassem a filha. Quando Philip entrou, atirou-se contra um dos homens de armas, que o empurrou para um lado. O careca recuou, cambaleando. O soldado enfiou a espada na sua barriga. A mulher no canto gritou como uma alma perdida.

      - Parem! - gritou o prior.

      Todos olharam para ele como se fosse maluco.

      - Vocês todos irão para o inferno se fizerem isto! - disse Philip, no seu tom de voz mais autoritário.

      O tipo que matara o careca levantou a espada para Philip.

      - Espere um minuto - disse o homem no chão, ainda segurando as pernas da garota. - Quem é você, monge?

      - Sou Philip de Gwynedd, prior de Kingsbridge, e ordeno em nome de Deus que deixem essa garota em paz, se têm amor a sua alma imortal.

      - Um prior! Logo vi! - disse o homem no chão. - Vale um resgate.

      - Vá para o canto com a mulher, que é o seu lugar - disse o primeiro homem, embainhando a espada.

      - Não ponha as mãos no hábito de um monge - disse Philip, tentando parecer perigoso, mas percebendo muito bem a nota de desespero que havia em sua voz.

      - Leve-o para o castelo, John - disse o homem que estava sentado em cima da garota. Ele parecia ser o líder.

      - Vá para o inferno - disse John. - Quero trepar com ela primeiro. - Ele agarrou Philip pelos braços, e antes que pudesse resistir, jogou-o no canto. O prior caiu no chão ao lado da mulher.

      O homem chamado John ergueu a parte da frente da túnica e atirou-se sobre a garota. Sua mãe virou de lado e começou a soluçar.

      - Não vou assistir a isto! - exclamou Philip. Levantou-se e agarrou o estuprador pelo cabelo, afastando-o da garota. O homem grunhiu de dor.

      O terceiro homem levantou um porrete. O prior viu o golpe se aproximando, mas já era tarde demais. O porrete atingiu sua cabeça. Sentiu uma dor agonizante por um momento, depois tudo escureceu, e ele perdeu a consciência antes de cair no chão.

      Os prisioneiros foram levados ao castelo e trancados em celas. Estas eram sólidas estruturas de madeira, como casas em miniatura, com seis pés de comprimento e três de largura, e apenas um pouco mais altas que a cabeça de um homem. Em vez de paredes inteiriças tinham barras verticais não muito espaçadas, que possibilitavam ao carcereiro ver o lado de dentro. Em tempos normais, quando eram usadas para confinar ladrões, assassinos e hereges, havia apenas uma ou duas pessoas por cela.

      Naquela oportunidade, os rebeldes puseram oito ou dez em cada uma, e ainda havia mais prisioneiros. Os cativos excedentes foram amarrados com cordas e arrebanhados para um canto do conjunto. Poderiam ter escapado facilmente, mas não o fizeram, decerto porque estavam mais seguros ali do que do lado de fora, na cidade.

      Philip sentou-se no canto de uma cela, com uma terrível dor de cabeça, sentindo-se tolo e fracassado. No fim ele tinha sido tão inútil quanto o covarde bispo Alexander.

      Não salvara uma única vida; nem sequer impedira um só golpe. Os cidadãos de Lincoln não teriam estado em pior situação sem ele. Ao contrário do abade Peter, ele fora impotente para deter a violência. Simplesmente não sou o homem que o abade Peter era, pensou ele.

      Pior ainda: em sua vã tentativa de ajudar os moradores de Lincoln ele provavelmente tinha jogado fora a chance de conseguir as concessões que queria, se Matilde se tornasse rainha. Agora era prisioneiro do exército dela. Assim, presumiriam que estivera com as forças do rei Estêvão. O priorado de Kingsbridge teria que pagar um resgate pela sua libertação. Era bem provável que a coisa toda chegasse aos ouvidos de Matilde; nesse caso ela tomaria posição contra Philip. Sentiu-se nauseado, desapontado e cheio de remorsos.

      Mais prisioneiros foram trazidos durante o dia. O fluxo terminou por volta do anoitecer, mas o saque da cidade prosseguiu fora das muralhas do castelo: Philip podia ouvir os gritos, brados e demais sons da destruição. Ao se aproximar a meia-noite o barulho diminuiu, presumivelmente quando os soldados ficaram tão bêbados com o vinho roubado e tão saciados de estupros e violência que não mais puderam causar danos. Um número pequeno deles voltou cambaleando para o castelo, jactando-se dos seus triunfos, discutindo e brigando uns com os outros e vomitando no capim; acabaram por cair no chão, insensíveis, e dormiram.

      Philip adormeceu também, embora não tivesse espaço suficiente para deitar e precisasse se encolher no canto com as costas apoiadas nas barras de madeira da cela.

      Acordou de madrugada, tremendo de frio, mas a dor aguda na cabeça abrandara, misericordiosamente, transformando-se numa dor mais difusa. Levantou-se para esticar as pernas e bateu com os braços do lado do corpo para se aquecer. Todos os prédios do castelo estavam superlotados. Os estábulos, com a parte da frente aberta, revelavam homens dormindo nas baias, enquanto os cavalos haviam sido amarrados do lado de fora. Pares de pernas saíam pela porta da padaria e da cozinha. A pequena minoria de soldados armara barracas. Havia cavalos por toda parte. No canto sudeste do conjunto do castelo ficava a fortaleza, um castelo dentro de um castelo, construído sobre uma alta elevação, com as poderosas muralhas de pedra circundando meia dúzia ou mais de construções de madeira. Os condes e cavaleiros do lado vencedor estariam ali dentro dormindo após as comemorações.

      A cabeça de Philip voltou-se para as implicações da batalha da véspera. Aquilo significava que a guerra terminara? Provavelmente. Estêvão tinha uma esposa, a rainha Matilda, que podia continuar a luta: ela era a condessa de Boulogne, e com seus cavaleiros franceses tomara o Castelo de Dover no início da guerra e agora controlava grande parte de Kent em nome do marido. No entanto, encontraria dificuldade para conseguir apoio dos barões enquanto Estêvão estivesse na prisão. Poderia manter Kent por algum tempo, mas era improvável que obtivesse mais vitórias.

      O fato é que os problemas de Matilde ainda não estavam terminados. Tinha ainda que consolidar sua vitória militar, ganhar a aprovação da Igreja e ser coroada em Westminster. No entanto, com determinação e um pouco de sabedoria, provavelmente teria êxito.

      E isso seria uma boa notícia para Kingsbridge; ou poderia ser, se Philip pudesse sair dali sem ser considerado partidário de Estêvão.

      Não havia sol, mas esquentou um pouco quando o dia clareou. Os companheiros de prisão de Philip foram acordando gradualmente, gemendo de dor: a maioria tinha, no mínimo, sofrido equimoses, e se sentiam pior após uma noite fria, com apenas a proteção mínima do teto e das barras da cela. Alguns eram cidadãos ricos; outros, cavaleiros aprisionados na batalha. Quando a maioria havia acordado, Philip perguntou:

      - Alguém viu o que aconteceu com Richard de Kingsbridge? - Ele esperava que Richard tivesse sobrevivido, pelo bem de Aliena.

      - Ele lutou como um leão - disse um homem com uma atadura ensanguentada na cabeça. - Liderou os habitantes da cidade quando as coisas ficaram feias.

      - Viveu ou morreu?

      O homem sacudiu a cabeça ferida lentamente.

      - Não o vi no final.

      - E William Hamleigh? - Seria uma bênção se William tivesse ficado no campo de batalha.

      - Esteve junto do rei a maior parte do tempo. Mas fugiu no fim; eu o vi num cavalo, a galope, bem à frente de todos.

      - Ah! - O restinho de esperança desapareceu. Os problemas de Philip não seriam resolvidos tão facilmente.

      A conversa cessou e a cela ficou em silêncio. Do lado de fora, os soldados já se mexiam, tratando de sua ressaca, verificando o que tinham pilhado, certificando-se de que os prisioneiros ainda permaneciam em cativeiro, pegando o desjejum na cozinha. Philip perguntou-se se os prisioneiros seriam alimentados. Era preciso, pensou, pois de outro modo morreriam e não haveria resgates; mas quem assumiria a responsabilidade de alimentar toda aquela gente? Esse tipo de idéia o fez começar a pensar no período de tempo que ficaria ali. Seus captores teriam que mandar uma mensagem a Kingsbridge, exigindo um resgate. Os irmãos precisariam mandar um deles para negociar sua libertação. Quem seria? Milius seria o melhor, mas Remigius, como subprior, era o encarregado na ausência de Philip, e poderia mandar um de seus amigos ou até mesmo vir em pessoa. Remigius faria tudo lentamente: era incapaz de ação pronta e decisiva, mesmo no seu próprio interesse.

      Poderia levar meses. Philip ficou ainda mais abatido.

      Outros prisioneiros tinham mais sorte. Logo após o raiar do sol, suas esposas, filhos e parentes começaram a aparecer no castelo, temerosos e hesitantes a princípio, depois com mais confiança, para negociar o resgate. Barganhariam com os captores por algum tempo, alegando falta de dinheiro, oferecendo jóias baratas ou outros bens; por fim chegariam a um acordo, voltariam a suas casas e retornariam um pouco mais tarde com o resgate que tivesse ficado acertado, normalmente em espécie.

      O butim ficaria cada vez mais alto, e as celas iriam se esvaziando.

      Pelo meio-dia metade dos prisioneiros já se fora. Philip presumiu que se tratava de gente da localidade. Os remanescentes, provavelmente cavaleiros aprisionados durante a batalha, deviam ser de cidades distantes. A impressão foi confirmada quando o guardião do castelo apareceu e perguntou os nomes de todos os prisioneiros: a maioria era de cavaleiros do sul. Philip notou que em uma das celas havia um único homem, preso numa espécie de tronco, como se alguém quisesse ter certeza absoluta de que não poderia fugir. Após observar o prisioneiro especial por alguns minutos, Philip percebeu de quem se tratava.

      - Vejam! - disse aos três homens da sua cela. - Aquele homem ali, sozinho. É mesmo quem estou pensando que é?

      Os outros olharam.

      - Por Cristo, é o rei! - disse um deles, e os outros concordaram.

      O prior ficou olhando para o homem enlameado, de cabelos alourados e mãos e pés desconfortavelmente presos nos estreitos orifícios do tronco. Parecia ser igual aos demais. Ainda na véspera era o rei da Inglaterra, e recusara conceder a Kingsbridge uma licença para o funcionamento de um mercado. Nesse dia não poderia sequer se levantar sem que alguém lhe desse licença. O rei tivera o que merecera, mas mesmo assim Philip sentiu pena dele.

      No início da tarde deram comida aos prisioneiros. Eram restos mornos do jantar servido aos combatentes, mas eles se atiraram àquela comida sofregamente. O prior relutou em servir-se, deixando que os outros tivessem a maior parte, porque, além de considerar a fome uma fraqueza básica contra a qual, de vez em quando, se devia resistir, via qualquer jejum forçado como uma oportunidade para mortificar a carne.

      Quando os prisioneiros raspavam as tigelas, houve uma agitação na fortaleza, e entrou um grupo de condes. Enquanto desciam as escadas e atravessavam o conjunto do castelo, Philip observou que dois iam à frente dos demais e eram tratados com deferência. Deviam ser Ranulf de Chester e Robert de Gloucester, mas Philip não sabia quem era quem. Eles se aproximaram da cela de Estêvão.

      - Bom dia, primo Robert - disse Estêvão, enfatizando fortemente a palavra "primo".

      Foi o mais alto dos dois homens quem respondeu.

      - Não era minha intenção que você passasse a noite preso no tronco. Mandei que o tirassem, mas a ordem não foi obedecida. No entanto, parece que sobreviveu.

      Um homem em trajes religiosos separou-se do grupo e dirigiu-se à cela de Philip. A princípio, este não lhe deu atenção, porque Estêvão estava perguntando o que iria ser feito com ele, e Philip queria ouvir a resposta; porém, o padre perguntou:

      - Qual de vocês é o prior de Kingsbridge?

      - Eu - respondeu Philip.

      - Solte-o - disse o religioso para um dos homens de armas que haviam aprisionado Philip.

      O prior ficou assombrado. Nunca vira aquele padre na vida. Era evidente que seu nome fora descoberto na lista preparada pelo guardião do castelo. Mas por quê? Ficaria contente em sair da cela, mas não era hora de se rejubilar - não sabia o que o aguardava.

      O homem de armas protestou.

      - Ele é meu prisioneiro!

      - Não é mais - retrucou o padre. - Solte-o!

      - Por que eu deveria libertá-lo sem receber um resgate? - contestou o homem beligerantemente.

      O padre replicou com igual energia.

      - Primeiro, porque ele não é nem um combatente do exército do rei nem um cidadão desta cidade, de modo que você cometeu um crime aprisionando-o. Segundo, porque é monge, e você é culpado de sacrilégio por ter posto as mãos num homem de Deus. Terceiro, porque o secretário da rainha Matilde diz que você tem que libertá-lo, e se se recusar terminará preso nessa cela, mais depressa que um piscar de olhos, de modo que é bom que seja rápido.

      - Está bem - resmungou o homem.

      Philip ficou consternado. Havia nutrido uma leve esperança de que Matilde não tomasse conhecimento de sua prisão. Mas se o secretário da rainha pedira para vê-lo, essa esperança estava perdida. Sentindo-se como se tivesse atingido o fundo do poço, saiu da cela.

      - Venha comigo - disse o padre. Philip seguiu-o.

      - Vou ser libertado? - perguntou.

      - Imagino que sim. - O padre pareceu surpreso com a pergunta. - Não sabe quem vai ver agora?

      - Não tenho a menor idéia.

      O padre sorriu.

      - Vou deixar que ele lhe faça uma surpresa.

      Atravessaram o conjunto até a fortaleza e subiram a longa escadaria que galgava o aterro e dava no portão. Philip fez um esforço enorme, mas não conseguiu adivinhar por que um secretário de Matilde estaria interessado nele.

      Seguiu o padre, passando pelo portão. O forte de pedra, que era circular, tinha casas de dois andares construídas de encontro à muralha. No meio havia um pátio minúsculo com um poço. O religioso reconduziu Philip ao interior de uma dessas casas.

      Dentro dela havia outro padre, de pé ante o fogo e de costas para a porta. Era baixo e esguio como Philip e tinha o mesmo cabelo preto, mas sem tonsura nem fios brancos. De costas, era muito familiar. Philip mal pôde crer na sua sorte. Um largo sorriso iluminou-lhe o rosto.

      O padre virou-se. Tinha olhos azuis brilhantes, como os do prior, e também estava sorrindo. Estendeu os braços.

      - Philip!

      - Deus seja louvado! - exclamou Philip,  atônito.  – Francis!

      Os dois irmãos se abraçaram, e os olhos do prior encheram-se de lágrimas.

     

      A recepção real no Castelo de Winchester foi bem diferente. Os cachorros desapareceram, da mesma forma como o trono simples de madeira do rei Estêvão, os bancos e as peles de animais penduradas nas paredes. Em vez disso agora havia cortinas bordadas,  tapetes ricamente coloridos, grandes taças cheias de confeitos e cadeiras pintadas. O salão cheirava a flores.

      Philip nunca se sentia à vontade na corte real, e uma corte feminina, foi o suficiente para pô-lo em estado de palpitante ansiedade. Matilde representava sua única esperança de reaver a pedreira e reabrir o mercado, mas não confiava na justiça daquela mulher soberba e voluntariosa.

      A Imperatriz, de vestido azul, sentou-se num trono dourado, delicadamente entalhado. Era alta e magra, com orgulhosos olhos escuros e cabelo preto liso e brilhante.

      Sobre o vestido usava uma pelica, uma capa de seda comprida até os tornozelos, com a cintura justa e a saia larga - um estilo não muito visto na Inglaterra até a sua chegada, mas agora muito imitado. Fora casada com o primeiro marido por onze anos e com o segundo por catorze, mas ainda parecia ter menos de quarenta anos de idade. Todos falavam com entusiasmo de sua beleza. Para Philip parecia um tanto angulosa e antipática; porém, ele era mau juiz dos encantos femininos, sendo mais ou menos indiferente a eles.

      Philip, Francis, William Hamleigh e o bispo Waleran fizeram uma reverência e esperaram. Ela os ignorou por algum tempo, e continuou conversando com uma dama de companhia. O assunto parecia ser bastante frívolo, pois ambas riam muito; Matilde, contudo, não interrompeu a conversa para cumprimentar os visitantes.

      Francis trabalhava intimamente com a rainha, e a via quase todos os dias, mas não eram grandes amigos. Robert, irmão de Matilde e antigo senhor de Francis, o cedera a ela por ocasião de sua chegada à Inglaterra, pois precisava de um secretário de primeira classe. No entanto, não fora esse o único motivo. O religioso agia como elo de ligação entre irmão e irmã, e ficava atento à impetuosa Matilde. Não tinha grande importância que irmãos se traíssem, naquela vida falsa da corte real, e o verdadeiro papel de Francis era tornar difícil para a rainha fazer qualquer coisa furtivamente. Matilde sabia disso e aceitava a situação, mas mesmo assim seu relacionamento com Francis era difícil.

      Fazia dois meses desde a batalha de Lincoln, e nesse período tudo correra bem para Matilde. O bispo Henry lhe dera as boas-vindas em Winchester (traindo desta forma o irmão dele, Estêvão) e convocara um grande conselho de bispos e abades que a aceitara como rainha; agora ela estava negociando com a comuna de Londres sua coroação em Westminster. O rei David, da Escócia, que por acaso era seu tio, estava a caminho para lhe fazer uma visita oficial, de um soberano para outro.

      O bispo Henry era fortemente apoiado pelo bispo Waleran de Kingsbridge; e, de acordo com Francis, Waleran persuadira William Hamleigh a trocar de lado, jurando-lhe fidelidade. Agora o lorde viera buscar sua recompensa.

      Os quatro homens esperaram: William com o homem que o apoiava, o bispo Waleran, e Philip com seu protetor, Francis. Era a primeira vez que o prior punha os olhos em Matilde. A aparência dela não o tranquilizou: a despeito do seu ar soberano, achou-a volúvel.

      Quando a rainha terminou a conversa, virou-se para eles com uma expressão de triunfo na fisionomia, como se dissesse: Vejam como vocês têm pouca importância, até mesmo minha dama de companhia tem prioridade sobre os seus assuntos. Ela encarou Philip firmemente, até deixá-lo embaraçado, e disse então:

      - Bem, Francis. Você me trouxe seu irmão gémeo?

      - Um tanto velho e grisalho para ser gémeo, majestade – disse o prior, fazendo uma nova reverência. Era o tipo da observação trivial, de autocondenação, que os cortesãos pareciam achar divertida, mas ela lançou-lhe um olhar glacial e o ignorou. Ele decidiu abandonar qualquer tentativa de ser agradável.

      Matilde virou-se para William.

      - É Sir William Hamleigh, que combateu corajosamente contra o meu exército na batalha de Lincoln, mas que agora reconheceu seus erros.

      William fez uma reverência, e, sabiamente, manteve a boca fechada.

      Ela se voltou de novo para Philip.

      - Você me pede que lhe conceda uma licença para o funcionamento de um mercado.

      - Sim, majestade.

      - A renda do mercado será toda gasta na construção da catedral, majestade - disse Francis.

      - Em que dia da semana você quer seu mercado?

      - Domingo.

      Ela ergueu as sobrancelhas depiladas.

      - Vocês, homens santos, geralmente se opõem a mercados dominicais. Não afastam as pessoas da igreja?

      - Não no nosso caso - disse Philip. - As pessoas vão trabalhar na obra e assistir à missa, e também compram e vendem suas coisas.

      - Então você já está operando um mercado? - perguntou ela asperamente.

      Philip percebeu que havia cometido um erro grosseiro. Teve vontade de dar um pontapé na própria canela. Francis o salvou.

      - Não, majestade, o mercado não está funcionando nos dias de hoje - disse. - Começou informalmente, mas o prior Philip ordenou sua extinção até que fosse concedida a licença.

      Era verdade, mas não totalmente. Matilde, contudo, pareceu aceitá-la. Philip rezou para que Francis fosse perdoado.

      - Não há outro mercado na região? - perguntou Matilde. Foi William quem respondeu.

      - Há, sim, em Shiring; e a feira de Kingsbridge veio roubando negócios de Shiring.

      - Mas Shiring fica a vinte milhas de Kingsbridge! - disse Philip.

      - Majestade - disse Francis -, a lei diz que os mercados devem estar separados pelo menos por catorze milhas. Por esse critério, Kingsbridge e Shiring não competem.

      Ela aquiesceu, aparentemente disposta a aceitar a informação prestada por Francis a respeito de matéria legal. Até aqui, pensou Philip, está se encaminhando para o nosso lado.

      - Você também pede o direito de explorar a pedreira do conde de Shiring - disse Matilde.

      - Tivemos esse direito por muitos anos, mas há pouco tempo William expulsou de lá os nossos homens, matando cinco...

      - Quem lhe deu esse direito? - interrompeu ela.

      - O rei Estêvão.

      - O usurpador!

      - Majestade - apressou-se a dizer Francis -, o prior Philip naturalmente aceita o fato de que nenhum dos decretos do pretendente Estêvão vigora, a menos que validados pela senhora.

      Philip não aceitava aquilo, mas viu que não seria sábio dizê-lo.

      - Fechei a pedreira como contrapartida ao seu mercado ilegal! - explodiu William.

      Era impressionante, pensou Philip, como um caso evidente de injustiça podia parecer tão equilibrado quando discutido na corte.

      - Toda essa briga aconteceu porque a decisão original de Estêvão foi tola - disse Matilde.

      O bispo Waleran falou pela primeira vez.

      - Nesse ponto concordo com vossa majestade de todo o coração - disse servilmente.

      - Era querer causar problemas, dar uma pedreira a uma pessoa e o direito de exploração a outra - disse ela. - A pedreira deve pertencer a um ou a outro.

      Era verdade, pensou Philip. E se ela fosse seguir o espírito da decisão original de Estêvão, a pedreira pertenceria a Kingsbridge.

      - Minha decisão - disse Matilde - é que a pedreira pertencerá a meu nobre aliado, Sir William.

      Philip ficou desolado. A construção da catedral não poderia ter progredido tão bem sem livre acesso à pedreira. Agora precisaria andar mais devagar, esperando pelo dinheiro que ele pudesse arranjar para comprar pedra. E tudo por causa do capricho daquela mulher! Philip teve um acesso de cólera.

      - Muito obrigado, majestade - disse William.

      - No entanto - prosseguiu Matilde -, Kíngsbridge terá tanto direito de explorar um mercado quanto Shiring.

      Philip animou-se de novo. O mercado não pagaria inteiramente a pedra, mas já seria uma grande ajuda. Significava que teria que brigar por dinheiro em toda parte, como no princípio, mas também que poderia tocar a obra.

      Matilde dera a cada um uma parte do pleiteado. Talvez não fosse tão tola, afinal.

      - Direitos de mercado iguais aos de Shiring, majestade?

      - Foi o que eu disse.

      Philip não estava certo quanto ao motivo pelo qual Francis repetira aquilo. Era comum que as licenças se referissem a direitos desfrutados por outras cidades: tratava-se de uma questão de justiça e de economia de trabalho de quem tivesse de redigir o decreto. Philip precisaria verificar o que dizia exatamente a carta régia de Shiring.

      Poderia haver restrições ou privilégios extras.

      - Dessa forma - disse Matilde -, os dois saíram ganhando. William fica com a pedreira, e o prior Philip, com o mercado. Em troca cada um me pagará cem libras. É só. - Ela se afastou.

      Philip ficou estupefato. Cem libras! O priorado não tinha cem libras no momento. Como levantaria tanto dinheiro? O mercado levaria anos para gerar cem libras. Era um golpe devastador que faria o programa de construção estagnar em caráter permanente. Ele a encarou, mas ela aparentemente voltara a se envolver numa animada conversa com sua dama de companhia. Francis lhe deu uma cotovelada. Philip abriu a boca para falar. Seu irmão levou um dedo aos lábios.

      - Mas... - começou o prior. Francis sacudiu a cabeça, nervoso.

      Philip sabia que Francis estava com a razão. Deixou cair os ombros, derrotado. Aturdido, virou-se e retirou-se da presença real.

     

      Francis ficou impressionado quando Philip correu com ele o priorado de Kingsbridge.

      - Estive aqui há dez anos, e era uma pocilga - disse irreverentemente. - Você deu mesmo vida a isto aqui.

      Ele gostou muito da sala de escrita, que tom terminara enquanto Philip estava em Lincoln. Era um pequeno prédio ao lado da casa do cabido, com grandes janelas, lareira com chaminé, uma fila de mesas para escrever e um grande armário de carvalho para os livros. Quatro irmãos já a estavam utilizando, de pé ante as altas escrivaninhas, trabalhando com penas em folhas de pergaminho. Um copiava os Salmos de Davi, outro, o Evangelho de São Mateus, e o terceiro, a Regra de São Bento.

      Além deles, o irmão Timothy estava escrevendo uma história da Inglaterra; entretanto, por ter começado com a criação do mundo, Philip receava que o bom monge não fosse ter tempo para terminá-la. Apesar de pequena - Philip não quisera desviar muitas pedras da catedral -, a sala era seca, quente e bem iluminada: exatamente do que precisavam.

      - Desgraçadamente o priorado tem poucos livros, e como eles são muito caros para serem comprados, este é o único modo de aumentar nossa coleção - explicou Philip.

      Na cripta sob a sala, havia uma oficina onde um velho monge ensinava dois jovens a esticar a pele de um carneiro para preparar pergaminho, a fazer tinta e a encadernar as folhas para fazer o livro.

      - Você poderá vender livros também - comentou Francis.

      - Oh, sim. A sala de escrita pagará muitas vezes o que custou.

      Eles deixaram o prédio e atravessaram o claustro. Era hora de estudo. A maioria dos monges lia. Uns poucos meditavam, atividade suspeitamente parecida com cochilar, conforme Francis observou, cético. No canto noroeste havia vinte garotos recitando verbos em latim. Philip parou e apontou.

      - Está vendo aquele garotinho na ponta do banco?

      - Escrevendo numa lousa, com a língua de fora?

      - É o bebê que você encontrou na floresta.

      - Mas é tão grande!

      - Tem cinco anos e meio, e é precoce.

      Francis balançou a cabeça, admirado.

      - O tempo passa tão depressa! Como vai ele?

      - É mimado pelos monges, mas sobreviverá. Você e eu sobrevivemos.

      - Quem são os outros alunos?

      - Noviços, ou filhos de mercadores e da pequena nobreza local aprendendo a ler e contar.

      Deixaram o claustro e passaram para o canteiro da obra. Agora, mais da metade do braço leste da nova catedral estava construída. A grande fileira dupla de enormes colunas tinha quarenta pés de altura, e todos os arcos entre elas estavam prontos. Acima da arcada, a galeria da tribuna ia tomando forma. De cada um dos lados, erguiam-se as paredes mais baixas da nave lateral, com seus arcobotantes salientes. Ao contornarem a obra, Philip viu que os pedreiros estavam trabalhando nos meios arcos que ligariam o topo dos arcobotantes ao topo da galeria da tribuna, permitindo que estes sustentassem o peso do telhado.

      - Você fez tudo isso, Philip - disse Francis, quase reverente. - A sala de escrita, a escola, a igreja nova, até mesmo todas aquelas casas novas na cidade. Está tudo aí porque você fez acontecer.

      O prior ficou comovido. Ninguém jamais lhe dissera aquilo. Se lhe perguntassem, diria que Deus abençoara seus esforços. Mas bem no fundo do coração sabia que o que Francis dissera era verdade: aquela cidade florescente e fervilhante era sua criação. O reconhecimento causou-lhe um cálido rubor, especialmente por vir do seu irmão mais moço, cínico e sofisticado.

      Tom Construtor os viu e se aproximou.

      - Você conseguiu um progresso maravilhoso - disse-lhe Philip.

      - Sim, mas olhe só para aquilo. - Tom apontou para o canto nordeste do adro, onde era empilhada a pedra. – Havia normalmente centenas de pedras arrumadas em fileiras, mas agora não passavam de umas vinte e cinco, espalhadas pelo chão. Lastimavelmente, esse maravilhoso progresso significa que usamos nosso estoque de pedras.

      O entusiasmo de Philip desvaneceu-se. Tudo o que obtivera estava em perigo, graças à impiedosa decisão de Matilde.

      Eles foram caminhando ao longo do lado norte do canteiro da obra, onde os pedreiros mais talentosos trabalhavam em suas bancadas, lavrando as pedras com seus martelos e cinzéis. Philip parou atrás de um artesão e estudou seu trabalho. Era um capitel, a pedra larga e saliente que sempre ficava no topo de uma coluna. Usando um martelo leve e um cinzel pequeno, o artesão estava cinzelando um desenho de folhas. As folhas eram cortadas fundo, num trabalho delicado. Para surpresa de Philip, viu que o artesão era o jovem Jack, o enteado de Tom.

      - Pensei que Jack fosse ainda um aprendiz - disse.

      - E é. - Tom seguiu andando, e quando não mais podiam ser ouvidos, disse: - O garoto é notável. Há homens aqui que vêm cinzelando pedra desde que Jack nasceu, e nenhum consegue se igualar a ele. - Riu, ligeiramente embaraçado. - E não é nem mesmo meu filho!

      O filho de Tom, Alfred, era mestre pedreiro e tinha o próprio grupo de aprendizes e serventes, mas Philip sabia que eles não executavam o trabalho delicado. Gostaria de saber como o construtor se sentiria a esse respeito, no fundo do seu coração.

      A cabeça de Tom retornara ao problema do pagamento da licença.

      - Certamente o mercado vai gerar um bocado de dinheiro - disse.

      - Sim, mas não o suficiente. Serão cerca de cinquenta libras por ano no princípio.

      Tom aquiesceu, melancólico.

      - Será quase que exatamente o que teremos de pagar pela pedra.

      - Poderíamos dar um jeito, se eu não precisasse pagar a Matilde cem libras.

      - E a lã?

      A lã que estava se amontoando nos depósitos de Philip seria vendida na Feira de Lã de Shiring em poucas semanas, e representava cerca de cem libras.

      - É esse dinheiro que vou usar para pagar à rainha. Mas então não me sobrará nada para pagar aos operários nos próximos doze meses.

      - Não pode pedir emprestado?

      - Já pedi. Os judeus não me emprestarão mais. Perguntei, quando estava em Winchester. Eles não emprestam dinheiro se acham que você não pode pagar.

      - E Aliena?

      Philip se espantou. Não tinha pensado em pedir-lhe dinheiro emprestado. A jovem tinha ainda mais lã que ele em seus depósitos. Após a feira poderia ter duzentas libras.

      - Mas ela precisa do dinheiro para viver. E cristãos não podem cobrar juros. Se ela me emprestar o dinheiro não vai ter como negociar. No entanto...  - enquanto falava, Philip começou a ter uma nova ideia. Lembrou-se de que Aliena quisera comprar toda a sua produção de lã do ano. Talvez eles pudessem encontrar uma solução.

      - Acho que falarei com ela, de qualquer modo - disse Philip. - Será que está em casa agora?

      - Acho que sim, eu a vi hoje de manhã.

      - Vamos, Francis. Você vai conhecer uma jovem notável.

      Os dois irmãos deixaram Tom e saíram apressadamente do adro, indo para a cidade. Aliena tinha duas casas, uma do lado da outra, encostadas no muro oeste do priorado. Morava numa e usava a outra como depósito. Estava muito rica. Tinha que haver um modo de poder ajudar o priorado a pagar a extorsiva taxa que Matilde cobrara para conceder a licença. Uma vaga idéia começou a tomar forma na cabeça de Philip.

      Aliena estava no depósito, supervisionando a descarga de um carro de boi carregado com uma pilha enorme de sacos de lã. Usava uma capa de brocado, como a que Matilde vestira na audiência, e seu cabelo estava preso numa touca branca. Tinha um ar autoritário, como sempre, e os dois homens que descarregavam o carro de boi obedeciam às suas ordens sem questionamentos. Todos a respeitavam, embora - o que era estranho - não tivesse amigos íntimos. Cumprimentou Philip calorosamente.

      - Quando soubemos da batalha ficamos com medo de que você pudesse ter morrido! - disse. Havia real preocupação em seus olhos, e Philip ficou comovido ao pensar que havia pessoas que tinham se afligido por sua causa. Apresentou-a a Francis.

      - Conseguiu obter justiça em Winchester? - perguntou Aliena.

      - Não exatamente - respondeu Philip. - A rainha nos concedeu o mercado, mas negou a pedreira. Um compensa relativamente o outro. Porém, me cobrou cem libras pela licença do mercado.

      Aliena ficou chocada.

      - Que horror! Você lhe disse que a renda se destina à construção da catedral?

      - Oh, sim.

      - Mas onde vai arranjar cem libras?

      - Achei que você podia ajudar.

      - Eu? - Aliena levou um susto.

      - Dentro de poucas semanas, depois que vender sua lã para os flamengos, terá duzentas libras ou mais.

      Aliena ficou perturbada.

      - E eu as daria para você alegremente, mas vou precisar delas para comprar mais lã no ano que vem.

      - Lembra que queria comprar minha lã?

      - Sim, mas é demasiado tarde agora. Quis comprá-la no início da estação. Além disso, você mesmo poderá vendê-la em breve.

      - Eu estava pensando... - disse Philip. - Poderia lhe vender a lã do próximo ano?

      Ela franziu a testa.

      - Mas você ainda não a tem!

      - Não posso vendê-la antes de tê-la?

      - Não vejo como.

      - Simples. Você me dá o dinheiro agora. Eu lhe dou a lã dentro de um ano.

      Evidentemente Aliena não sabia o que dizer daquela proposta: era diferente de qualquer maneira conhecida de fazer negócio. Era nova para Philip também: ele acabara de inventá-la.

      - Eu teria que lhe oferecer um preço um pouco menor do que o que você poderia obter, para compensar a espera - disse Aliena, lenta e pensativamente. - Além disso, talvez o preço suba até o próximo verão - como tem acontecido todos os anos, desde que estou neste negócio.

      - Então perderei um pouco e você ganhará um pouco disse Philip. - Mas serei capaz de tocar a obra por mais um ano.

      - E o que fará no outro?

      - Não sei. Talvez lhe venda antecipadamente a nossa lã mais uma vez.

      Aliena aquiesceu.

      - Tem sentido.

      Philip segurou-lhe as mãos e fitou-a nos olhos.

      - Se fizer isso, Aliena, salvará a catedral - disse fervorosamente.

      Ela assumiu uma expressão muito solene.

      - Você me salvou uma vez, não foi?

      - Foi.

      - Então farei o mesmo por você.

      - Deus a abençoe! - Num excesso de gratidão ele a abraçou; depois lembrou que se tratava de uma mulher e afastou-se rapidamente. - Não sei como lhe agradecer - disse. - Já estava começando a perder o juízo.

      Aliena riu.

      - Não estou certa se mereço tanta gratidão. Provavelmente me sairei muito bem com esse trato.

      - Espero que sim.

      - Vamos beber um copo de vinho juntos para selar o compromisso - disse ela. - Só vou pagar ao carroceiro.

      O carro de boi estava vazio, e a lã, empilhada cuidadosamente. Philip e Francis saíram, enquanto Aliena acertava as contas com o carroceiro. O sol estava se pondo e os trabalhadores na construção retornavam para suas casas. A animação de Philip voltou. Encontrara um modo de continuar, apesar de todos os percalços.

      - Graças a Deus por Aliena! - disse.

      - Você não me disse que ela era tão bonita - comentou Francis.

      - Bonita? Suponho que seja. Francis riu.

      - Philip, você é cego! Ela é uma das mulheres mais bonitas que já vi na vida. Bonita a ponto de fazer um homem desistir do sacerdócio.

      Philip lançou um olhar severo para Francis.

      - Você não devia falar assim.

      - Desculpe.

      Aliena saiu também e trancou o depósito; depois foram todos para a sua casa. Era grande, com um salão principal e um quarto de dormir separado. Havia um barril de cerveja a um canto, um presunto inteiro pendurado no teto e uma toalha de linho branco estendida em cima da mesa. Uma criada de meia-idade serviu vinho para os convidados em cálices de prata. Aliena vivia confortavelmente. Se é tão bonita, pensou Philip, por que não tem marido? Não havia falta de pretendentes: já fora cortejada por todos os homens do condado em condições de se casar, mas repelira a todos. Philip se sentia tão agradecido que queria que ela fosse feliz.

      A cabeça da jovem ainda estava ocupada com assuntos práticos.

      - Não terei o dinheiro senão depois da Feira de lã de Shiring - disse, depois que brindaram ao acordo.

      Philip virou-se para Francis.

      - Matilde esperará?

      - Quanto tempo?

      - A feira é três semanas depois da quinta-feira. Francis fez que sim.

      - Eu lhe falarei. Ela esperará.

      Aliena desamarrou a touca da cabeça e soltou o cabelo escuro ondulado. Deixou escapar um suspiro de cansaço.

      - Os dias são demasiadamente curtos! Não consigo dar conta de tudo o que tenho para fazer. Quero comprar mais lã, mas tenho que achar carroceiros em número suficiente para transportar tudo para Shiring.

      - E no ano que vem vai ter mais ainda - disse Philip.

      - Gostaria que pudéssemos fazer os flamengos virem aqui para comprar. Seria muito mais fácil para nós do que levar toda a lã para Shiring.

      - Mas vocês podem - interpôs Francis. Ambos olharam para ele.

      - Como? - perguntou Philip.

      - Façam sua própria feira de lã.

      Philip começou a ver aonde ele queria chegar.

      - Podemos?

      - Matilde lhe deu os mesmos direitos que Shiring. Fui eu mesmo que escrevi a carta régia. Se Shiring pode organizar uma feira de lã, Kingsbridge também pode.

      - Puxa, seria maravilhoso! - disse Aliena. - Não teríamos que transportar toda essa lã a Shiring. Faríamos todos os negócios aqui e despacharíamos a lã diretamente para Flandres.

      - E isso para não falar no resto - disse Philip, entusiasmado. - Uma feira de lã faz tanto dinheiro numa semana quanto um mercado funcionando aos domingos num ano inteiro. Isso não acontecerá este ano, é claro - ninguém terá conhecimento da nossa feira. Mas podemos espalhar a notícia por ocasião da Feira de Shiring, assegurando-nos de que todos os compradores saibam a data...

      - Fará muita diferença para Shiring - comentou Aliena.

      - Você e eu somos os maiores vendedores de lã do condado, e se ambos nos retirarmos, a feira deles se reduzirá a menos da metade do seu atual tamanho.

      - William Hamleigh perderá dinheiro - disse Francis. Vai ficar furioso como um touro.

      Philip não pôde evitar um estremecimento de irritação. Um touro furioso era exatamente o que William era.

      - E daí? - disse Aliena. - Se Matilde nos deu permissão, podemos ir em frente. Não há nada que William possa fazer, há?

      - Espero que não - disse Philip fervorosamente. - Espero que não.

     

      O trabalho terminou ao meio-dia no dia de santo Agostinho. A maioria dos operários saudou o sino com um suspiro de alívio. Normalmente trabalhavam do raiar ao pôr-do-sol, seis dias por semana, e precisavam do descanso que tinham nos dias santos. Jack, contudo, estava por demais absorvido no trabalho para ouvir o sino.

      Fascinava-o o desafio de gravar formas macias e arredondadas na pedra dura. A pedra tinha vontade própria; se tentasse fazer algo que ela não queria, lutaria contra ele, e o cinzel lhe escaparia da mão, ou se enterraria com demasiada força, estragando as formas. Mas uma vez que conseguisse conhecer o pedaço de pedra à sua frente, seria capaz de transformá-la. Quanto mais difícil a tarefa, mais fascinado se sentia. Começou a achar que a talha decorativa imaginada por tom era fácil demais.

      Ziguezagues, losangos, dentículos, espirais e volutas o entediavam; até mesmo aquelas folhas eram um tanto desgraciosas e repetitivas. Queria entalhar folhagem com aspecto natural, flexível e irregular, e copiar as diferentes formas de folhas reais, de carvalho, freixo e bétula, mas tom não deixava. Desejava acima de tudo gravar cenas de histórias bíblicas. Adão e Eva, Davi e Golias e o dia do Juízo Final, com monstros, demônios e gente nua, mas não se atrevia a pedir.

      Algum tempo depois Tom o fez parar.

      - É feriado, rapaz - disse. - Além disso, você ainda é meu aprendiz e quero que me ajude a arrumar tudo. Todas as ferramentas têm que estar guardadas antes da refeição.

      Jack guardou o martelo e os cinzéis e depositou cuidadosamente a pedra em que estivera trabalhando no galpão de Tom; depois foi percorrer a obra com ele. Os outros aprendizes estavam arrumando tudo e varrendo os fragmentos de pedra, areia, torrões de massa seca e cavacos de madeira que juncavam o chão. tom apanhou seus compassos e o nível, Jack, as medidas de comprimento menores e os fios de prumo, e, juntos, os dois levaram tudo para o depósito.

      Era ali que Tom guardava suas varas de medida. Eram barras de ferro de seção quadrangular e absolutamente retas, todas exatamente do mesmo tamanho. Eram guardadas num suporte especial de madeira, que estava trancado.

      Enquanto continuavam a caminhar pela obra, apanhando pranchas de mexer massa e pás, Jack pensava nelas.

      - Qual é o tamanho de uma vara? - perguntou. Alguns pedreiros ouviram e deram risada. Frequentemente achavam engraçadas as perguntas de Jack.

      - Uma vara é uma vara - disse Edward Baixo, um homem pequeno de pele enrugada e nariz torto. Todos riram de novo.

      Eles gostavam de provocar os aprendizes, sobretudo quando tinham chance de exibir seu conhecimento. Jack detestava que rissem dele, mas aguentava firme porque era muito curioso.

      - Não compreendo - disse pacientemente.

      - Uma polegada é uma polegada, um pé é um pé e uma vara é uma vara - disse Edward.

      Então a vara era uma unidade de comprimento.

      - E quantos pés há numa vara?

      - Ah! Isto depende. Dezoito, em Lincoln. Dezesseis, na Anglia Oriental.

      Tom interrompeu para dar uma resposta sensata.

      - Nesta obra uma vara tem quinze pés.

      - Em Paris não usam a vara, só a medida de uma jarda - disse uma mulher de meia-idade, que também trabalhava na construção.

      Tom dirigiu-se a Jack.

      - Todo o projeto da igreja é baseado em varas. Apanhe uma para mim que lhe mostrarei. Está na hora de você entender essas coisas. - Deu uma chave a Jack.

      O rapaz foi até o depósito e apanhou uma vara na prateleira. Era bastante pesada. Tom gostava de dar explicações, e Jack adorava ouvir. A organização do canteiro da obra tinha um padrão intrigante, como a trama de um casaco de brocado, e quanto mais entendia, mais fascinado ficava.

      Tom o esperava na extremidade aberta do coro semiconstruído, onde seria a interseção da nave com os transeptos. Ele pegou a vara e a colocou no chão, de modo a atravessar todo o corredor.

      - Da parede externa até a metade do pilar da arcada é uma vara. - Ele virou o instrumento. - Dali até o meio da nave é uma vara. - Ele o virou mais uma vez, alcançando a metade do pilar oposto. - A nave tem duas varas de largura. - Tom repetiu a operação e dessa vez foi até a parede da nave lateral mais afastada. - A igreja toda tem quatro varas de largura.

      - Sim - disse Jack. - E cada intercolúnio tem que ter uma vara de comprimento.

      Tom pareceu ficar ligeiramente irritado.

      - Quem foi que lhe disse isto?

      - Ninguém. Os intercolúnios são quadrados, de modo que, se têm uma vara de comprimento, têm que ter uma vara de largura. E os intercolúnios da nave são do mesmo tamanho dos das naves laterais, é claro.

      - Evidentemente - concordou Tom. - Você devia ser filósofo. - Na sua voz havia uma mistura de orgulho e irritação. Gostava que Jack fosse rápido para entender, e se irritava ao ver os mistérios do seu ofício serem entendidos com tanta facilidade por um mero garoto.

      Jack estava demasiado absorvido pela esplêndida lógica de tudo aquilo para prestar atenção às suscetibilidades de Tom.

      - Então o coro tem quatro varas de comprimento - disse. - E a igreja, quando pronta, terá doze. - Outra ideia lhe ocorreu. - Quanto terá de altura?

      - Seis varas. Três para a arcada, uma para a galeria e duas para o clerestório.

      - Mas qual a vantagem de planejar tudo medido por varas? Por que não construir de qualquer maneira, como numa casa.

      - Primeiro porque é mais barato assim. Todos os arcos da arcada são idênticos, e assim podemos reutilizar as formas de madeira. Quanto menos tamanhos diferentes e formatos de pedras, menos gabaritos terei que fazer. E assim por diante. Segundo, simplifica cada um dos aspectos daquilo que estamos fazendo, desde a planta baixa original - onde tudo é baseado numa vara quadrada - até a pintura das paredes - será mais fácil estimar de quanta cal precisaremos. E quando as coisas são simples, menos erros são cometidos. O que mais encarece uma construção são os erros. Terceiro, quando tudo é baseado no comprimento de uma vara, a igreja parece simplesmente certa. A proporção é a essência da beleza.

      Jack assentiu, encantado. O esforço para controlar uma operação tão ambiciosa e complicada quanto a construção de uma catedral era interminavelmente fascinante.

      A noção de que os princípios da regularidade e da repetição podiam simplificar a construção e resultar numa obra harmoniosa era sedutora. Mas não estava convicto de que a proporção fosse a essência da beleza. Gostava de coisas selvagens, que se espalhassem, desordenadas: altas montanhas, velhos carvalhos, e o cabelo de Aliena.

      Comeu ávida mas rapidamente e depois foi para a aldeia, na direção norte. Era um dia quente de início de verão, e estava descalço. Desde que ele e sua mãe tinham ido morar em Kingsbridge definitivamente e começara a trabalhar, gostava de voltar à floresta de vez em quando. A princípio passava o tempo liberando a energia que sobrava, correndo e pulando, trepando em árvores e matando patos com sua funda. Isso enquanto estava se acostumando com seu novo corpo, mais alto e mais forte.

      A novidade acabara por cansar. Agora, quando ia à floresta, pensava em coisas: por que a proporção devia ser bonita, como os edifícios não caíam, e que tal seria acariciar os seios de Aliena.

      Há anos a adorava a distância. A visão permanente que tinha dela era a da primeira vez em que a encontrara, descendo a escada no castelo em Earlscastle, e ele pensara que devia ser a princesa de uma história. Aliena continuara sendo uma figura remota. Falava com o prior Philip, com Tom Construtor, com o judeu Malachi e com outras pessoas ricas e poderosas de Kingsbridge; porém, Jack nunca tivera um motivo para lhe dirigir a palavra. Simplesmente a observava, rezando na igreja, ou atravessando a ponte montada no seu palafrém, sentada ao sol, do lado de fora da sua casa; usando peles caras no inverno e os mais finos linhos no verão, com o cabelo rebelde emoldurando o lindo rosto. Antes de dormir pensava em como seria tirar suas roupas, vê-la nua e beijar-lhe delicadamente a boca.

      Nas últimas semanas tornara-se insatisfeito e deprimido com esses devaneios sem esperança. O fato de vê-la a distância, ouvir suas conversas com os outros e imaginar-se fazendo amor com ela não mais o satisfazia. Precisava de coisas concretas.

      Havia diversas garotas de sua própria idade que poderiam lhe dar coisas concretas. Entre os aprendizes havia muita conversa sobre quais das jovens de Kingsbridge eram lascivas e sobre o que exatamente cada uma delas deixava um rapaz fazer.

      A maioria estava determinada a permanecer virgem até o casamento, de acordo com os ensinamentos da Igreja, mas havia certas coisas que se podiam fazer e ainda assim se continuar virgem, ou pelo menos era o que os aprendizes diziam. Todas as garotas achavam Jack um pouco estranho - e provavelmente estavam certas, na opinião dele próprio, mas uma ou duas haviam considerado tal estranheza atraente. Um domingo, após a missa, ele ficara conversando com Edith, irmã de um colega; porém, quando dissera quanto gostava de cinzelar pedra, ela caíra na risada. No domingo seguinte fora passear nos campos com Ann, a loura filha do alfaiate. Não lhe dissera muitas coisas, mas a beijara e depois sugerira que se deitassem num campo de cevada. Então a beijara outra vez, passara a mão nos seus seios, e ela retribuíra o beijo entusiasticamente; após algum tempo, contudo, afastara-se e perguntara: "Quem é ela?" Jack estava pensando em Aliena naquele exato momento e ficou estupefato. Tentou fingir que não ligara e quis beijá-la de novo, mas ela virou o rosto e disse: "Quem quer que seja, é uma garota de sorte". Voltaram juntos para Kingsbridge, e quando se separaram, Ann disse: "Não perca seu tempo tentando esquecê-la.

      É uma causa perdida.

      É ela quem você quer, de modo que o melhor é tentar conquistá-la". Ela sorriu afetuosamente e acrescentou: "Você tem o rosto bonito. Pode ser que não seja tão difícil quanto pensa".

      Sua delicadeza fez com que ele se sentisse mal, ainda mais porque, sendo uma das garotas que os aprendizes diziam ser libidinosa, ele dissera a todo mundo que ia tentar apalpá-la. Agora isso lhe parecia tão juvenil que se retorceu de raiva. Mas se lhe houvesse dito o nome da mulher em que pensava, talvez não tivesse se mostrado tão encorajadora. Jack e Aliena eram o casal mais improvável que se podia conceber. Aliena tinha vinte e dois anos, e ele, dezessete; ela era filha de um conde, e ele, bastardo; ela era uma rica comerciante de lã, e ele, um aprendiz sem dinheiro. Pior ainda, ela era famosa pelo número de pretendentes que rejeitara. Todos os jovens lordes apresentáveis do condado e os primogénitos dos comerciantes mais prósperos tinham ido a Kingsbridge para lhe fazer a corte, e todos voltaram a suas casas desapontados. Que chance haveria para Jack, sem nada para oferecer, a não ser o "rosto bonito"?

      Ele e Aliena tinham uma coisa em comum: gostavam da floresta. Eram diferentes, nesse aspecto: a maioria das pessoas preferia a segurança dos campos e das aldeias, e mantinha-se distante das florestas. Mas Aliena frequentemente ia caminhar num bosque perto de Kingsbridge, onde havia um lugar afastado em que gostava de parar e se sentar. Jack a vira ali uma ou duas vezes. Aliena não o tinha visto: ele caminhava silenciosamente, como aprendera em criança, no tempo em que era preciso encontrar seu almoço na floresta.

      Dirigia-se para a tal clareira sem a menor ideia do que faria se a encontrasse. Sabia qual era seu desejo: deitar-se ao seu lado e acariciar-lhe o corpo. Podia lhe falar, mas o que iria dizer? Era fácil conversar com garotas da sua idade. Brincara com Edith, dizendo: "Não acredito em nenhuma das coisas terríveis que seus irmãos contam de você", e é claro que ela quisera saber que coisas terríveis eles falavam. com Ann fora direto: "Você gostaria de passear comigo nos campos, hoje à tarde?" Entretanto, quando tentara imaginar uma frase de abordagem para Aliena, dera um branco na sua cabeça. Não podia deixar de pensar nela como pertencendo a uma geração mais velha. Era tão séria e responsável! Não fora sempre assim, ele sabia; com dezessete anos Aliena gostava de brincar. Sofrera terríveis problemas desde então, mas a garota brincalhona ainda devia se esconder em algum lugar no interior da mulher solene. Para Jack isso a tornava ainda mais fascinante.

      Faltava pouco para o lugar favorito de Aliena. A floresta estava quieta, na hora mais quente do dia. Jack deslocou-se silenciosamente por baixo das árvores. Queria vê-la antes que ela o visse. Ainda não estava seguro se teria coragem para abordála. Acima de tudo temia ofendê-la. Falara com ela no primeiro dia do seu retorno a Kingsbridge, no domingo de Pentecostes em que todos os voluntários foram trabalhar na obra da catedral, e lhe dissera a coisa errada; por isso ele mal lhe dirigira de novo a palavra naqueles quatro anos. Não queria cometer um erro tão grosseiro quanto aquele agora.

      Poucos momentos depois se escondeu atrás do tronco de uma faia e a viu.

      Aliena escolhera um lugar extraordinariamente bonito. Havia uma pequena queda d'água escorrendo para um laguinho fundo cercado de pedras cobertas de limo. o sol brilhava nas suas margens, mas uma ou duas jardas atrás havia a sombra das arvores. Aliena estava sentada ao sol, lendo um livro.

      Jack ficou atônito. Uma mulher? Lendo um livro? Ao ar livre? As únicas pessoas que liam livros eram os monges, e mesmo assim muitos nada liam a não ser os textos dos cultos. Era um livro pouco comum também - muito menor que os tomos que havia na biblioteca do priorado, como se tivesse sido feito especialmente para uma mulher, ou para alguém que o quisesse carregar. Ficou tão espantado que se esqueceu de ser tímido. Abriu caminho por entre os arbustos e apareceu na clareira, perguntando:

      - O que você está lendo?

      Ela se sobressaltou e encarou-o com terror nos olhos. Jack percebeu que a assustara. Sentiu-se muito desajeitado, com medo de mais uma vez ter começado com o pé esquerdo. Aliena levou depressa a mão direita à manga esquerda. Ele se lembrou que antigamente era onde carregava uma faca - talvez ainda fosse. No momento seguinte

      Aliena o reconheceu, e seu medo desapareceu com a mesma rapidez com que surgira. Pareceu aliviada, e, logo em seguida - para mortificação de Jack -, levemente irritada. Sentiu que não era bem-vindo e teve vontade de se virar e desaparecer na floresta. Mas como isso tornaria muito difícil falar com ela outra vez, ele ficou, enfrentando seu olhar nada amistoso, e disse:

      - Desculpe por ter assustado você.

      - Você não me assustou - contrapôs Aliena rapidamente. Jack sabia que não era verdade, mas não ia discutir. Repetiu a pergunta inicial:

      - O que está lendo?

      Ela deu uma olhada no livro sobre os joelhos e a expressão do seu rosto se modificou de novo: ficou tristonha.

      - Meu pai me trouxe este livro de sua última viagem à Normandia. Poucos dias depois foi preso.

      Jack aproximou-se mais e deu uma olhada na página aberta.

      - É em francês! - exclamou.

      - Como você sabe? - quis saber ela, espantada. - Sabe ler?

      - Sei, mas pensava que todos os livros fossem em latim.

      - Quase todos. Este é diferente. É um poema chamado O romance de Alexandre.

      Consegui, estou falando com ela!, pensava Jack. É maravilhoso! Mas o que vou dizer a seguir? Como sustentar esta conversação?

      - Hum, bem...  de que se trata? - perguntou.

      - É a história de um rei chamado Alexandre, o Grande, e de como ele conquistou terras maravilhosas no Oriente, onde as pedras preciosas crescem em videiras e as plantas podem falar.

      Jack ficou suficientemente intrigado para esquecer a ansiedade.

      - Como as plantas falam? Elas têm boca?

      - Aqui não diz.

      - Você acha que a história é verdadeira?

      Ela o fitou, com interesse, e ele se perdeu naqueles lindos olhos escuros.

      - Não sei - respondeu. - Sempre fico pensando se as histórias são verdadeiras ou não. A maioria das pessoas não liga, simplesmente gosta delas.

      - Exceto os padres. Eles acham sempre que as histórias sagradas são verdadeiras.

      - Bem, mas é claro que essas são verdadeiras.

      Jack era cético em relação à veracidade das histórias sagradas tanto quanto em relação às demais; mas sua mãe, que o ensinara a ser cético, o ensinara também a ser discreto, de modo que não discutiu. Estava tentando não olhar para o colo de Aliena, bem no limite de sua visão; claro que se baixasse os olhos ela saberia o que estaria fitando. Tentou pensar em outra coisa qualquer para dizer.

      - Sei um bocado de histórias - afirmou. - Sei A canção de Rolando, e A peregrinação de Guilherme de Orange...

      - O que quer dizer com saber essas histórias?

      - Sou capaz de recitá-las.

      - Como um menestrel?

      - O que é um menestrel?

      - Um homem que anda por aí contando histórias. Era uma ideia nova para Jack.

      - Nunca ouvi falar em homens assim.

      - Há muitos na França. Eu costumava ir à França com meu pai quando era criança. Adorava os menestréis.

      - Mas o que eles fazem? Ficam parados no meio da rua e falam?

      - Depende. São admitidos nas casas dos lordes em dias de festa. Apresentam-se em mercados e feiras. Entretém os peregrinos do lado de fora das igrejas. Os grandes barões às vezes têm o seu próprio menestrel.

      Ocorreu a Jack que não apenas estava conversando com ela, mas que aquela conversa não seria possível com nenhuma outra garota de Kingsbridge. Tinha certeza de que ele e Aliena eram as únicas pessoas na cidade, com exceção de sua mãe, que conheciam os poemas românticos franceses. Tinham um interesse em comum e estavam conversando sobre ele. A ideia o entusiasmou tanto que ele perdeu o fio da meada, esqueceu o que estava dizendo e se sentiu confuso e estúpido.

      Por sorte ela prosseguiu.

      - Geralmente o menestrel toca um violino enquanto recita a história. Toca rápido e alto quando fala numa batalha, baixo e devagar quando duas pessoas estão apaixonadas, aos saltos nas partes engraçadas.

      Jack gostou da idéia: música de fundo para sublinhar os pontos altos da história.

      - Eu gostaria de saber tocar violino - disse ele.

      - Você sabe mesmo recitar histórias?

      Ele mal podia crer que ela estivesse realmente interessada, fazendo perguntas a seu respeito. E o seu rosto era ainda mais lindo quando animado pela curiosidade.

      - Minha mãe me ensinou - disse. - Nós morávamos na floresta, só nós dois. Ela me contou as histórias um sem-número de vezes.

      - Mas como você consegue se lembrar delas? Algumas levam dias para chegarem ao fim.

      - Não sei. É como aprender um caminho na floresta. Você não guarda toda a floresta na cabeça, mas, em qualquer lugar que esteja, sabe aonde ir em seguida. - Dando uma olhada no texto do livro dela, Jack percebeu uma coisa. Sentou-se na grama ao lado de Aliena para olhar mais de perto. - As rimas são diferentes - disse.

      Ela não entendeu direito o que ele quis dizer.

      - De que maneira?

      - Essas são melhores. Em A canção de Rolando a palavra "espada" rima com "cavalo", ou "perdido", ou "baile". No seu livro, "espada" rima com "fada", mas não com "fala"; com "nada", mas não com "ninguém"; com "amada", mas não com "amor". É um modo completamente diferente de rimar. Mas é muito, muito melhor. Gosto dessas rimas.

      - Será que você... - ela interrompeu-se, hesitante. - Você me contaria um pedaço da Canção de Rolando!

      Jack mudou de posição um pouco para poder fitá-la. A intensidade do seu olhar e o brilho da ansiedade naqueles olhos fascinantes quase o deixaram sem poder respirar.

      Engoliu em seco e começou.

     

      "O lorde e rei de toda a França, Carlos, o Grande,

      Passou sete longos anos lutando na Espanha.

      Conquistou as montanhas e a planície.

      Diante dele nem um único forte fica de pé,

      Nenhuma cidade ou muralha a ele resiste,

      A não ser Saragoça, numa montanha alta,

      Governada pelo rei Marsilly, o Sarraceno.

      Ele serve a Maomé e reza a Apolo,

      Mas mesmo ali nunca estará em segurança."

     

      Jack fez uma pausa.

      - Você sabe! Você sabe mesmo! Igualzinho a um menestrel!

      - Entendeu o que falei sobre as rimas, não?

      - Sim, mas não faz mal; é a história que gosto. Os olhos dela cintilaram de felicidade.

      - Conte-me mais.

      Jack teve a impressão de que ia desmaiar de felicidade.

      - Já que você quer... - disse, baixinho. Fitou-a nos olhos e começou a segunda estrofe.

     

      A primeira brincadeira da festa que celebrava a véspera do solstício de verão era comer o pão do quantos. Como muitos desses jogos, tinha um travo de superstição que deixava Philip contrafeito. No entanto, se tentasse banir todos os rituais derivados das antigas religiões, metade das tradições do povo seria proibida, e, de qualquer forma, todos o desafiariam; assim, tolerava discretamente a maioria das coisas e controlava com firmeza um ou dois excessos.

      Os monges tinham instalado mesas no gramado situado na extremidade ocidental do adro. Ajudantes de cozinha já carregavam caldeirões fumegantes. O prior era o lorde da propriedade, de modo que tinha a responsabilidade de servir um banquete para os seus inquilinos nos feriados importantes. A política de Philip era ser generoso com a comida e mesquinho com a bebida, e por isso servia cerveja aguada e nenhum vinho. Mesmo assim, havia cinco ou seis incorrigíveis que conseguiam beber até desmaiar em todos os dias de festa.

      Os principais cidadãos de Kingsbridge se sentavam à mesa de Philip: Tom Construtor e sua família; os mestres artesãos mais velhos, entre eles o filho de Tom, Alfred; e os comerciantes, inclusive Aliena, mas não Malachi, o Judeu, que se incorporaria às festividades mais tarde, após o culto religioso.

      Philip pediu silêncio e deu graças; depois entregou o pão do quantos a Tom. À medida que os anos se passavam, mais e mais Philip valorizava o construtor. Não havia muitas pessoas que diziam o que pensavam e que faziam o que diziam. Tom reagia a surpresas, crises e desastres analisando com calma as consequências, avaliando os danos e planejando a melhor reação. Philip olhou para ele afetuosamente. Tom se tornara bem diferente do homem que aparecera no priorado cinco anos antes implorando trabalho. Naquele dia estava exausto, perturbado, e tão magro que seus ossos pareciam prestes a furar a pele curtida. Desde então ele ganhara peso, especialmente depois que sua mulher voltara. Não estava gordo, mas agora via-se carne na sua grande estrutura, e há muito tempo o desespero desaparecera dos seus olhos. Estava dispendiosamente vestido, de túnica verde de Lincoln, sapatos de couro macio e cinto com fivela de prata.

      Philip tinha que fazer a pergunta que seria respondida pelo pão do quantos:

      - Quantos anos vai levar para terminar a catedral?

      Tom deu uma mordida no pão. Ele era assado com sementes pequenas e duras, e quando Tom as cuspiu na mão, todos contaram em voz alta. Às vezes, quando o número de sementes era muito elevado, os circunstantes não sabiam contar tudo; porém não havia mais perigo de ocorrer isso, com todos os comerciantes e artesãos presentes.

      A resposta foi trinta. Philip fingiu ficar consternado.

      - Vou ter que viver um bocado de tempo! - disse Tom, e todos riram.

      O construtor passou o pão para sua mulher, Ellen. O prior desconfiava muito daquela mulher. Como Matilde, Ellen tinha poder sobre os homens, um tipo de poder com que Philip não podia competir. No dia em que fora expulsa do priorado, ela fizera uma coisa horrorosa, uma coisa a respeito da qual o prior ainda não podia nem pensar.

      Presumira que jamais a veria de novo, mas para seu horror ela voltara e Tom lhe implorara para perdoá-la. Astutamente, ele argumentara que se Deus podia perdoar seu pecado, Philip não tinha o direito de recusar-lhe a absolvição. O prior suspeitava que ela não se arrependera muito. Entretanto, Tom lhe fizera o pedido no dia em que os voluntários tinham aparecido e salvado a catedral, e Philip acabara cedendo, contrariando todos os seus instintos. Haviam se casado na igreja da paróquia, uma pequena construção de madeira na aldeia, mais antiga que o priorado. Desde então Ellen se comportara e não dera motivo a Philip para se arrepender da decisão.

      Mesmo assim, ela o deixava inquieto.

      - Quantos homens a amam? - perguntou Tom.

      Ela deu uma mordida minúscula no pão, o que fez todo mundo rir de novo. Naquele jogo as perguntas tendiam a ser levemente sugestivas. Philip achou que se não estivesse presente eles se comportariam com mais irreverência.

      Ellen contou três sementes. Tom fingiu estar se sentindo ultrajado.

      - Eu lhe direi quem são os meus três amantes - disse Ellen. Philip torceu para que ela não dissesse nada ofensivo. - O primeiro é Tom. O segundo, Jack. E o terceiro, Alfred.

      Houve uma salva de palmas pela saída inteligente, e o pão foi passado adiante. A seguir era a vez de Martha, a filha de Tom. Estava com doze anos de idade e era tímida. O pão predisse que teria três maridos, o que era altamente improvável.

      Martha passou o pão para Jack, e nessa hora Philip viu um brilho de adoração nos olhos da garota; não havia dúvida de que idolatrava o filho da madrasta como quem adorava um herói.

      Jack intrigava o prior. Fora uma criança feia, de cabelo cor de cenoura, pele branca e olhos azuis arregalados, mas agora era um rapaz cujas feições tinham se harmonizado, e seu rosto era tão atraente que fazia estranhos se virarem para olhá-lo. Mas de temperamento era tão selvagem quanto a mãe. Tinha muito pouca disciplina e nenhuma idéia de obediência. Como servente de pedreiro fora quase inútil, pois em vez de assegurar um fluxo contínuo de massa e pedras, tentava empilhar o suprimento de um dia e ia fazer outra coisa qualquer. Estava sempre desaparecendo. Um dia decidiu que nenhuma das pedras que havia ali no canteiro da obra servia para um determinado trabalho de cinzelagem que estava fazendo, e, sem falar com ninguém, fora até a pedreira escolher uma de que gostasse. Trouxe-a num pônei emprestado, dois dias mais tarde. Mas desculpavam suas transgressões, em parte porque ele era verdadeiramente um gravador excepcional, e em parte porque era uma pessoa de quem todos gostavam - uma característica que, em definitivo, não herdara da mãe, na opinião de Philip. O prior andara pensando no que Jack faria da vida. Se entrasse para a igreja poderia facilmente terminar como bispo.

      - Quantos anos se passarão até você se casar? - perguntou Martha a Jack.

      O rapaz deu uma mordida pequena: aparentemente estava interessado em se casar. Philip perguntou-se se teria alguém em mente. Para clara consternação dele, sua boca se encheu de sementes, e quando foram contadas, seu rosto se transformou numa máscara de indignação. O total foi trinta e um.

      - Estarei com quarenta e oito anos de idade! - protestou. Todos acharam muito engraçado, exceto Philip, que fez o cálculo, achou correto e maravilhou-se com o fato de Jack tê-lo realizado tão depressa. Nem mesmo Milius, que tomava conta do dinheiro do priorado, seria capaz daquilo.

      Jack estava sentado ao lado de Aliena. Philip se deu conta de que tinha visto os dois juntos diversas vezes naquele verão. Provavelmente era por serem tão inteligentes.

      Não havia muitas pessoas em Kingsbridge que pudessem conversar com Aliena no nível dela; e Jack, apesar de seus modos rebeldes, era mais amadurecido que os outros aprendizes. Ainda assim, sentiu-se intrigado com a amizade deles, pois, naquela idade, cinco anos faziam uma grande diferença.

      Jack passou o pão para Aliena e lhe fez a pergunta que Martha lhe fizera:

      - Quantos anos se passarão até você se casar? Todos resmungaram, reclamando, pois era muito fácil repetir uma pergunta. O jogo visava ser uma prova de inteligência, dando ensejo a muitas zombarias. Mas Aliena, que era famosa pelo número de pretendentes que rejeitara, fez com que todos rissem dando uma mordida enorme no pão, indicando assim que não queria se casar. Entretanto, seu truque não teve êxito: cuspiu apenas uma semente.

      Se ela fosse se casar no ano seguinte, pensou Philip, o noivo ainda não fizera sua entrada em cena. Claro que ele não acreditava no poder de predição do pão. Provavelmente morreria solteirona - mas não virgem, de acordo com os boatos, pois fora seduzida ou estuprada por William Hamleigh, segundo dizia o povo.

      Aliena passou o pão para Richard, seu irmão, mas o prior não ouviu o que lhe perguntou. Ainda estava pensando nela. Inesperadamente, tanto Aliena quanto o próprio Philip não tinham vendido toda a lã naquele ano. A sobra não fora grande - menos de um décimo do estoque do prior, e uma proporção   , menor ainda para Aliena -, mas mesmo assim era desencorajador. Depois disso, Philip receara que Aliena não cumprisse o trato referente à lã do ano seguinte; ela porém lhe pagara cento e sete libras.

      A grande notícia na Feira de Lã de Shiring fora o anúncio feito por Philip de que no ano seguinte Kingsbridge teria sua própria feira. A maioria das pessoas gostara da idéia, pois os aluguéis e taxas cobrados por William Hamleigh eram extorsivos, e o prior planejava cobrar preços muito mais baixos. Até agora o conde Williamnão dera a conhecer sua reação.

      De um modo geral, Philip achava que as perspectivas do priorado eram muito mais brilhantes agora do que haviam sido seis meses antes. Sobrepujara o problema causado pelo fechamento da pedreira e derrotara a tentativa de William de fechar o seu mercado. O mercado de domingo agora prosperava de novo e gerava dinheiro suficiente para comprar uma pedra cara, extraída em Marlborough. Durante toda a crise, a construção da catedral continuara inalterada, embora praticamente sem sobras. A única ansiedade remanescente de Philip era Matilde ainda não ter sido coroada. Embora fosse indiscutível que estivesse no comando, tendo sido aprovada pelos bispos, a autoridade dela se apoiava exclusivamente no seu poder militar, até haver uma coroação adequada. A mulher de Estêvão ainda controlava Kent, e a comuna de Londres não se definira. Um único golpe de azar ou uma decisão errada poderia derrubá-la, como a batalha de Lincoln destruíra Estêvão, e então haveria anarquia de novo.

      Philip disse a si próprio para não ser pessimista. Olhou para as pessoas sentadas à mesa. O jogo terminara e estavam comendo. Eram homens e mulheres honestos e de bom coração, que trabalhavam duro e iam à igreja. Deus olharia por eles. A comida era sopa de verduras, peixe assado temperado com pimenta e gengibre, pato e um creme habilmente colorido com listras vermelhas e verdes. Após o jantar todos carregaram seus bancos para a igreja inacabada, a fim de assistir à peça.

      Os carpinteiros tinham feito dois biombos, que foram colocados nas naves laterais, fechando o espaço entre a parede e a primeira pilastra da arcada, de modo que escondiam efetivamente o último intercolúnio de cada nave lateral. Os monges que representariam os papéis já estavam atrás dos biombos, aguardando o momento de entrar no meio da nave e encenar a história. O que faria o papel de santo Adolfo, um noviço imberbe de rosto angelical, estava deitado sobre uma mesa no lado mais afastado da nave, enrolado numa mortalha, fingindo estar morto e se esforçando para não rir.

      A mesma dúvida que assaltava Philip com relação ao pão do quantos o assaltava também com relação a representações teatrais: era possível escorregar facilmente para a irreverência e a vulgaridade. Mas todos gostavam tanto que, se não permitisse, representariam sua própria peça, longe da igreja, e aí sim, livres da supervisão dele, a coisa ficaria mesmo indecente. Além disso, quem mais gostava do teatro eram os monges que trabalhavam como atores. Vestir roupas diferentes, fingir ser outra pessoa e agir de modo extravagante - até mesmo sacrílego parecia lhes servir de válvula de escape, provavelmente por passarem o resto da vida sendo tão solenes.

      Antes da peça tiveram um culto regular, que o sacristão tornou bastante breve. Em seguida Philip fez um relato sucinto da vida imaculada e dos milagres de santo Adolfo. Depois sentou-se junto com a plateia para assistir ao espetáculo.

      De trás do biombo do lado esquerdo surgiu uma figura grande, vestida com o que parecia ser um traje sem forma e alegremente colorido, mas que, se examinado com mais atenção, não passava de pedaços de pano coloridos enrolados em torno do seu corpo e presos com alfinetes. Seu rosto estava pintado, e carregava uma bolsa de dinheiro bojuda. Era o bárbaro rico. Houve um murmúrio de admiração pela composição do ator, seguido por risadas quando a plateia descobriu quem estava por baixo da roupa do personagem: o gordo irmão Bernard, o cozinheiro, que todos conheciam e amavam.

      Ele desfilou de um lado para o outro diversas vezes, a fim de que todos pudessem admirá-lo, e correu na direção de umas criancinhas na primeira fila, causando gritinhos de medo; depois esgueirou-se na direção do altar, olhando em torno como que para se certificar de que estava sozinho, e colocou a bolsa de dinheiro atrás dele. Virou-se para a platéia, lançou um olhar de soslaio e disse, bem alto:

      - Esses tolos cristãos vão ficar com medo de roubar minha prata, porque imaginam que está protegida por santo Adolfo. Ah! - E com isso desapareceu atrás do biombo.

      Do lado oposto entrou um grupo de fora-da-lei, vestindo roupas esfarrapadas, com espadas e machadinhas de madeira, as caras sujas de fuligem e giz. Andaram pela nave, parecendo atemorizados, até que um deles viu a bolsa de dinheiro atrás do altar. Seguiu-se uma discussão: deveriam furtá-la ou não? O bom Fora-da-Lei alegou que a bolsa certamente lhes traria má sorte; o Mau Fora-da-Lei disse que um santo morto não lhes poderia causar mal algum. No final eles pegaram a bolsa e se retiraram para um canto a fim de contar o dinheiro.

      O bárbaro reapareceu e, depois de procurar seu tesouro em toda parte, afastou-se num ataque de raiva. Foi até o túmulo e amaldiçoou santo Adolfo por não ter protegido o seu dinheiro.

      Nesse ponto, o santo levantou-se da tumba.

      O bárbaro tremeu violentamente de medo. O santo ignorou-o e aproximou-se dos proscritos. Dramaticamente, derrubouos um por um, apenas apontando para eles, que simularam as convulsões da agonia, rolando no chão de forma grotesca e fazendo caretas horrorosas.

      Foi poupado apenas o bom Fora-da-Lei, que pôs o dinheiro de volta atrás do altar. com isso, o santo se virou para a audiência e disse:

      - Cuidado, todos vocês que duvidam do poder de santo Adolfo!

      A platéia gritou entusiasmada e bateu palmas. Os atores ficaram no meio da nave por algum tempo, exibindo sorrisos alvares. O propósito do drama era sua moral, claro, mas Philip sabia que as partes de que todos gostavam mais eram as grotescas, o ataque de raiva do bárbaro e as convulsões da morte dos fora-da-lei.

      Quando os aplausos cessaram, Philip levantou-se, agradeceu aos atores e anunciou que as corridas começariam dentro de pouco tempo no pasto ao lado do rio.

      Foi naquele dia que Jonathan, aos cinco anos de idade, descobriu que não era, afinal, o corredor mais veloz de Kingsbridge. Entrou na corrida infantil, envergando seu hábito de monge em miniatura, e fez com que todos caíssem na gargalhada quando o enrolou na cintura e expôs o traseiro minúsculo ao mundo. Estava, contudo, competindo entre crianças mais velhas e terminou entre os últimos. Sua expressão quando percebeu que tinha perdido foi de tão grande desapontamento que Tom morreu de pena e o pegou no colo para consolá-lo.

      O relacionamento especial entre Tom e o órfão do priorado intensificara-se gradualmente, e ninguém na aldeia se perguntava se não haveria uma razão secreta para aquilo. O construtor passava o dia inteiro no adro, onde Jonathan corria de um lado para o outro em liberdade, de modo que era inevitável que se vissem muito; e Tom estava naquela idade em que os filhos são muito velhos para serem engraçadinhos mas ainda não deram netos ao pai, que às vezes se interessa pelos filhos dos outros. Pelo que sabia, ninguém jamais suspeitara que ele fosse o pai de Jonathan. Se houvesse alguma suspeita, seria de Philip ser o pai verdadeiro do garoto. Uma suposição muito mais natural - embora o prior, sem dúvida, ficaria horrorizado se tomasse conhecimento dela.

      Jonathan localizou Aaron, o filho mais velho de Malachi, e livrou-se dos braços de Tom para ir brincar com seu amigo, o desapontamento esquecido.

      Enquanto as corridas dos aprendizes estavam sendo disputadas, o prior sentou-se na grama ao lado de Tom. Era um dia quente e ensolarado, e a tonsura de Philip estava coberta de gotas de suor. A admiração de Tom por ele crescia de ano para ano. Olhando em torno, os rapazes correndo, os velhos cochilando à sombra, as crianças chapinhando no rio, ele pensou que era Philip quem conservara tudo aquilo junto. Ele governava a aldeia, distribuindo justiça, decidindo onde deveriam ser construídas as casas novas e resolvendo brigas; empregava também a maior parte dos homens e das mulheres, como operários da obra ou como criados do priorado; e administrava o mosteiro, que era o coração de tudo. Lutou com barões ambiciosos, negociou com reis, e manteve o bispo a distância. Todas aquelas pessoas bem alimentadas, divertindo-se ao sol, deviam sua prosperidade, de alguma maneira, a ele. O próprio Tom era um magnífico exemplo.

      Tom era perfeitamente cônscio da profundidade da clemência de Philip ao perdoar Ellen. Era uma coisa extraordinária para um monge perdoar o que ela fizera. E o significado fora tão grande para ele!

      Quando Ellen partiu, a sua alegria por estar construindo a catedral fora toldada pela solidão. Agora que ela estava de volta, sentia-se completo. Ainda era caprichosa, irritante, brigona e intolerante, mas, de alguma forma, essas coisas não tinham importância: havia uma paixão em Ellen que queimava como uma vela e iluminava sua vida.

      Tom e Philip assistiram a uma corrida em que os garotos precisavam se apoiar nas mãos, de cabeça para baixo. Jack ganhou.

      - Aquele menino é excepcional - disse Philip.

      - Não são muitas as pessoas capazes de andar tão depressa se apoiando nas mãos - disse Tom.

      Philip riu.

      - É verdade, mas eu não estava me referindo a suas habilidade acrobáticas.

      - Eu sei. - Há muito tempo a inteligência de Jack era, simultaneamente, uma fonte de alegria e dor para Tom. O garoto tinha viva curiosidade quanto a construções - uma coisa que Alfred nunca tivera, e Tom gostava de lhe ensinar os truques da profissão. Entretanto Jack não tinha tato, e discutia com os mais velhos. Sempre era melhor ocultar a própria superioridade, mas ele ainda não aprendera isso, nem mesmo após tantos anos de perseguição de Alfred.

      - Esse garoto devia receber educação - prosseguiu Philip. Tom franziu a testa, sem entender. Jack estava sendo educado. Era um aprendiz.

      - O que você está querendo dizer?

      - Devia aprender a escrever bem, estudar gramática latina e ler os filósofos antigos.

      Tom ficou ainda mais intrigado.

      - Com que finalidade? Ele vai ser pedreiro. Philip o encarou bem nos olhos.

      - Tem certeza? - perguntou. - Jack é um garoto que nunca faz o que se espera.

      Tom nunca tinha pensado naquilo. Havia jovens que desafiavam as expectativas: filhos de condes que se recusavam a combater, filhos de reis que ingressavam em mosteiros, camponeses bastardos que se tornavam bispos. Sim, era verdade, Jack era daquele tipo.

      - Bem, o que você pensa que ele fará?

      - Depende do que aprender - respondeu Philip. - Mas o quero para a Igreja.

      Tom ficou surpreso: Jack parecia um clérigo muito pouco provável. E, estranhamente, ficou também um pouco magoado. Estava ansioso para que Jack viesse a ser mestre pedreiro, e ficaria terrivelmente desapontado se o menino escolhesse outro rumo para sua vida.

      - Deus precisa que os rapazes melhores e mais inteligentes trabalhem para Ele - continuou Philip, sem perceber a tristeza de Tom. - Olhe só esses aprendizes, competindo para ver quem pula mais alto. Todos são capazes de se tornar carpinteiros, pedreiros ou cortadores de pedra. Mas quantos poderiam ser bispos? Somente um: Jack.

      Aquilo era verdade, pensou Tom. Se o rapaz tivesse chance para uma carreira na Igreja, com um protetor poderoso em Philip, provavelmente a aproveitaria, pois poderia ganhar muito mais dinheiro e poder do que como simples pedreiro. Foi com relutância que Tom perguntou:

      - O que você está pensando, exatamente?

      - Quero que Jack se torne um monge noviço.

      - Um monge! - No caso de Jack parecia ainda mais improvável do que ser padre. O garoto se impacientava com a disciplina de um canteiro de obra - como iria tolerar a regra monástica?

      - Ele passaria a maior parte do tempo estudando - disse Philip. - Aprenderia tudo o que nosso mestre de noviços pode ensinar, e eu também lhe daria aulas.

      Quando um menino ia ser monge, era normal que seus pais fizessem uma doação generosa ao mosteiro. Tom perguntou-se quanto lhe custaria essa proposta.

      Philip adivinhou seus pensamentos.

      - Eu não ia esperar que você desse um presente ao priorado - disse. - Basta que dê um filho a Deus.

      O que Philip não sabia era que Tom já dera um filho ao priorado: o pequeno Jonathan, que agora estava brincando na água, na margem do rio, mais uma vez com o pequeno manto amarrado na cintura. No entanto, Tom sabia que tinha de reprimir o que sentia a esse respeito. A proposta de Philip era generosa: obviamente ele queria muito Jack. A oferta era uma tremenda oportunidade para o rapaz. Qualquer pai daria o braço direito para capacitar um filho a tal carreira. Tom sofreu uma pontada de ressentimento por ser a seu enteado, e não a Alfred, que aquela oportunidade maravilhosa estava sendo oferecida. Mas era um sentimento indigno e ele o abafou. Devia ficar alegre e esperar que o rapaz se adaptasse ao regime monástico.

      - Deve ser feito logo - acrescentou Philip. - Antes que ele se apaixone por alguma garota.

      Tom assentiu. Na campina, a corrida das mulheres chegava ao ponto culminante. Tom ficou olhando, pensativo. Após um momento percebeu que Ellen estava na dianteira.

      Aliena a perseguia muito de perto, mas quando cruzaram a linha de chegada, Ellen ainda estava um pouco à frente. Ela ergueu as mãos num gesto de vitória.

      Tom apontou para ela.

      - Não sou eu que tem de ser persuadido - disse para Philip. - É ela.

     

     

      Aliena ficou surpresa por ter sido vencida por Ellen. Embora esta fosse muito moça para ter um filho de dezessete anos, mesmo assim devia ser pelo menos dez anosmais velha que a garota. Sorriram uma para a outra, ofegantes e suando, na linha de chegada. Aliena observou que Ellen tinha pernas esguias, musculosas e bronzeadas e corpo compacto. Todos aqueles anos na floresta a haviam tornado vigorosa.

      Jack apareceu para congratular sua mãe pela vitória. Eles gostavam muito um do outro, Aliena não tinha a menor dúvida. Os dois diferiam muito: Ellen era uma morena bronzeada, de olhos dourados, fundos, e Jack era ruivo, de olhos azuis. Devia ser parecido com o pai, pensou Aliena. Nada jamais fora dito a respeito do pai de Jack, o primeiro marido de Ellen. Talvez tivessem vergonha dele.

      Vendo os dois juntos, ocorreu a Aliena que Jack devia lembrar a Ellen o marido que perdera. Devia ser por isso que gostava tanto dele. Talvez o filho fosse tudo o que restava de um homem a quem adorara. A semelhança física podia ser excessivamente poderosa num caso desses. Richard às vezes fazia com que Aliena se lembrasse do pai, e era nessas oportunidades que sentia uma onda de afeto pelo irmão, embora isso não a impedisse de desejar que fosse mais parecido com o pai no caráter.

      Sabia que não devia se sentir insatisfeita com Richard. Ele fora à guerra e lutara corajosamente, e isso era tudo o que era exigido dele. Mesmo assim, andava desgostosa.

      Tinha riqueza e segurança, uma casa e criados, roupas finas, lindas jóias e uma posição de respeito na cidade. Se alguém lhe perguntasse, teria dito que se sentia feliz. Mas sob a superfície havia uma inequívoca inquietude. Nunca perdera o entusiasmo pelo trabalho, mas em algumas manhãs se perguntava se tinha importância que vestido poria ou se usaria jóias ou não. Ninguém se importava com sua aparência, então por que ela deveria importar-se? Paradoxalmente, tomara mais consciência do corpo. Ao caminhar, podia sentir o balanço dos seios. Quando descia para a praia das mulheres a fim de tomar banho, sentia-se embaraçada por ser muito peluda.

      Montada, era perfeitamente consciente das partes do corpo que tocavam na sela. Era algo esquisito. Como se um voyeur a observasse o tempo todo, tentando enxergar através de suas roupas para vê-la nua, e esse voyeur fosse ela mesma, invadindo sua própria privacidade.

      Deitou-se na grama, sem fôlego. O suor corria por entre seus seios e pela parte interna das coxas. Impaciente, desviou a atenção para um problema mais imediato.

      Não tinha vendido toda a lã naquele ano. A culpa não fora sua; com a maior parte dos comerciantes acontecera o mesmo, assim como com o prior Philip. Este mostrava-se muito calmo, mas Aliena estava ansiosa. O que ia fazer com toda aquela lã? Podia guardá-la até o ano seguinte, claro. Mas e se não conseguisse vendê-la de novo?

      Não sabia quanto tempo a lã crua levava para se deteriorar. Tinha a impressão de que talvez ressecasse, tornando-se quebradiça e difícil de trabalhar.

      Se as coisas saíssem muito mal seria incapaz de sustentar Richard. Ser cavaleiro era um negócio muito dispendioso. O cavalo, que custara vinte libras, perdera a coragem após a batalha de Lincoln e agora era praticamente inútil; em breve ele iria querer outro. Aliena poderia comprá-lo, mas faria um enorme rombo nas suas finanças.

      Richard não se sentia à vontade por depender dela - não era a situação usual para um cavaleiro, e esperara ganhar bastante com as pilhagens para se sustentar, mas nos últimos tempos havia estado do lado perdedor. Se era para Richard recuperar o condado, Aliena teria que continuar a prosperar.

      No seu pior pesadelo, ela perdia todo o dinheiro, e os dois voltavam a ser miseráveis, presa fácil de padres desonestos, nobres devassos e fora-da-lei sanguinários; e terminariam na masmorra fedorenta em que vira seu pai pela última vez, acorrentado à parede e moribundo.

      Para contrastar com esse pesadelo, tinha um sonho de felicidade. Nele, ela e Richard moravam juntos no castelo, sua antiga casa. Richard governava tão sabiamente quanto Bartholomew, e Aliena o ajudava como ajudara o pai, recebendo convidados importantes, assegurando hospitalidade a todos e sentando-se à sua esquerda na mesa do jantar. Mas até mesmo esse sonho a estava deixando descontente.

      Sacudiu a cabeça, para dissipar aquela onda de melancolia, e pensou de novo na lã. O modo mais simples de lidar com o problema seria não fazer nada. Podia armazenar o excesso até o ano seguinte, e então, se não conseguisse vendê-la, assumiria o prejuízo. Era possível assumi-lo. Havia, contudo, o perigo remoto de que o mesmo acontecesse no outro ano, dando início a uma tendência declinante; tinha que tentar arranjar outra solução. Tentara vendê-la para um tecelão de Kingsbridge, mas ele já havia comprado tudo de que precisava.

      Ocorreu-lhe agora, olhando para as mulheres de Kingsbridge, enquanto elas voltavam à calma após a corrida, que praticamente todas sabiam tecer a partir da lã crua.

      Era um negócio tedioso, mas simples: os camponeses faziam isso desde Adão e Eva. A lã tinha que ser lavada, depois penteada com um pente de cardar, para ficar desemaranhada, e então era tecida em fio. O fio depois era urdido e transformado em pano. Por fim, frouxamente tecido, era feltrado ou pisoado, encolhendo e engrossando, transformando-se assim em algo que podia ser usado na confecção de roupas. As mulheres da cidade provavelmente estariam dispostas a fazer isso por um penny por dia. Mas quanto tempo seria necessário? E que preço alcançaria a lã transformada em tecido?

      Teria que experimentar o plano com uma pequena quantidade. Depois, se desse certo, poderia arranjar diversas pessoas para fazer o serviço durante as longas noites de inverno.

      Sentou-se direito, animada com a nova idéia. Ellen estava deitada ao seu lado. Jack, sentado do outro lado da mãe, sorriu timidamente e desviou o rosto, como se houvesse ficado envergonhado por ter sido apanhado olhando para ela. Era um garoto engraçado, com a cabeça cheia de idéias. Aliena se lembrava dele quando era pequeno, com uma aparência esquisita, sem saber como as crianças eram concebidas. Mal percebera quando ele viera morar em Kingsbridge, contudo. E agora parecia tão diferente, uma pessoa tão completamente nova, que era como se tivesse surgido do nada, uma flor que desabrocha uma manhã onde na véspera havia apenas terra nua. Para começar, sua aparência não era mais estranha. Na verdade, pensou Aliena, examinando-o com um leve sorriso, as garotas decerto o consideravam terrivelmente bonito. Claro que tinha um lindo sorriso. A jovem não se preocupava muito com a aparência dele, mas ficava um pouco intrigada com sua estonteante imaginação. Descobrira que não só sabia diversas narrativas completas - algumas com milhares e milhares de versos -, como também podia inventar o que dizia, quando recitava, de tal modo que Aliena nunca tinha certeza se estava se recordando ou improvisando. E as histórias não eram a única coisa surpreendente nele. Jack era curioso a respeito de tudo e se intrigava com coisas que todas as pessoas tomavam como certas e definitivas. Um dia perguntara de onde vinha toda a água do rio. "A cada hora, milhares e milhares de galões de água passam por Kingsbridge, dia e noite, o ano inteiro. Tem sido assim desde antes de nascermos, de antes de nossos pais nascerem, ou de os pais dos nossos pais terem nascido. De onde vem toda essa água? Existe algum lago imenso que alimenta o rio? Esse lago então deve ser do tamanho de toda a Inglaterra! E se um dia secar?" Jack estava sempre dizendo coisas desse tipo, algumas menos fantasiosas, o que fazia com que Aliena percebesse quanto ansiava por uma conversa inteligente. Quase todo mundo em Kingsbridge só era capaz de falar sobre agricultura e adultério, assuntos que não a interessavam. O prior Philip era diferente, claro, mas não era com frequência que se entregava a conversas ociosas: estava sempre ocupado, vendo coisas no canteiro da obra, às voltas com os monges ou com a cidade.

      Aliena suspeitava que Tom Construtor também fosse muito inteligente, mas era do tipo que pensava mais que falava. Jack era o primeiro amigo verdadeiro que fizera.

      Uma descoberta maravilhosa, apesar da sua pouca idade. Na verdade, quando se afastava de Kingsbridge, surpreendia-se às vezes ansiosa por voltar a fim de conversar com ele.

      Gostaria de saber de onde viriam suas idéias. Esse pensamento fez com que reparasse na mãe dele. Que mulher estranha devia ser, para criar um filho na floresta!

      Aliena conversara com Ellen e encontrara nela um espírito parecido com o seu, uma mulher independente e auto-suficiente, de certa forma ressentida com o modo como a vida a tratara. Cedendo a um impulso, Aliena perguntou:

      - Ellen, onde você aprendeu as histórias?

      - Com o pai de Jack - respondeu ela sem pensar. Uma expressão reservada toldou-lhe a fisionomia e Aliena percebeu que não devia fazer mais perguntas.

      Outro pensamento lhe ocorreu.

      - Você sabe tecer?

      - Claro - disse Ellen. - Todo mundo sabe.

      - Gostaria de tecer por dinheiro?

      - Talvez. Em que você está pensando?

      Aliena explicou. Ellen não precisava de dinheiro, claro, mas era Tom quem o ganhava, e Aliena suspeitava que ela podia querer ganhar o seu próprio.

      A suspeita estava correta.

      - Sim, vou fazer uma tentativa - disse ela.

      Naquele momento, Alfred, enteado de Ellen, apareceu. Como o pai, Alfred era um gigante. A maior parte do seu rosto se ocultava atrás de uma barba cerrada, mas os olhos acima dela eram implantados muito próximos um do outro, dando-lhe um ar interessante. Sabia ler, escrever e fazer contas, mas a despeito disso era bastante estúpido. Não obstante ele prosperara, e tinha o seu próprio grupo de pedreiros, aprendizes e serventes. Aliena observara que homens grandes com frequência conquistavam posições de poder, independentemente de sua inteligência. Como capataz Alfred tinha outra vantagem, claro: podia ter certeza de conseguir sempre trabalho para os seus operários, pois o pai era mestre construtor da Catedral de Kingsbridge.

      Alfred sentou-se na grama ao lado dela. Tinha pés enormes, metidos em botas de couro cinzentas de tanto pó de pedra. Aliena raramente lhe dirigia a palavra. Deviam ter muita coisa em comum, pois eram os únicos jovens pertencentes à nata de Kingsbridge, a classe que vivia nas casas mais próximas do muro do priorado; Alfred contudo parecia sempre tão sem graça!

      - Devia haver uma igreja de pedra - disse ele abruptamente, após um momento.

      Era evidente que os outros tinham que descobrir o contexto a que se aplicava aquela observação. Aliena pensou um pouco e disse:

      - Você está se referindo à igreja da paróquia?

      - Sim - disse ele, como se fosse óbvio.

      A igreja da paróquia agora era muito usada, pois a cripta da catedral, utilizada pelos monges, era apertada e abafada, e a população de Kingsbridge crescera. No entanto, era uma construção de madeira com telhado de palha e chão de terra.

      - Você tem razão - disse ela. - Deveríamos ter uma igreja de pedra.

      Alfred olhava para ela, ansioso. Aliena perguntou-se o que estaria querendo que dissesse.

      - Em que está pensando, Alfred? - perguntou Ellen, que provavelmente estava acostumada a fazer com que ele se expressasse de modo compreensível.

      - Como é que se começa a construir igrejas, afinal? - perguntou ele. - O que quero saber é: se queremos uma igreja de pedra, o que fazemos?

      Ellen deu de ombros.

      - Não tenho a menor idéia. Aliena parou para pensar.

      - Você podia formar uma associação paroquial - sugeriu. Ela se referia a uma associação de pessoas que davam banquetes de vez em quando e arrecadavam dinheiro entre elas próprias, geralmente a fim de comprar velas para a sua igreja, ou de ajudar viúvas e órfãos da vizinhança. Algumas aldeias não tinham associações, mas Kingsbridge não era mais uma aldeia.

      - Como é que funcionaria? - perguntou Alfred.

      - Os membros da associação arcariam com as despesas da nova igreja - disse Aliena.

      - Então deveríamos fundar uma associação - disse Alfred. A jovem perguntou-se se não teria se enganado a respeito dele. Nunca lhe parecera ser do tipo piedoso, mas ali estava ele tentando levantar dinheiro para construir uma igreja nova. Talvez tivesse facetas ocultas.

      Só então se lembrou de que Alfred era o único empreiteiro de Kingsbridge, de modo que estava certo de que lhe incumbiria o trabalho de construção. Podia não ser inteligente, mas era bastante esperto.

      Mesmo assim, ela gostou da idéia. Kingsbridge estava se transformando numa cidade, e as cidades sempre têm mais que uma igreja. com uma alternativa para a catedral, a cidade não seria dominada tão completamente pelo mosteiro. Naquele momento Philip era o lorde e senhor inconteste ali. Era um tirano benevolente, mas Aliena podia antever uma época em que poderia atender aos interesses dos comerciantes a existência de uma igreja alternativa.

      - Você explicaria essa coisa da associação para alguns dos outros? - perguntou Alfred.

      Aliena recuperara o fôlego após a corrida. Relutava em trocar a companhia de Ellen e Jack pela de Alfred, mas estava um bocado entusiasmada com a idéia dele, e, de qualquer modo, teria sido um pouco grosseiro recusar.

      - Será um prazer - disse, e saiu com ele.

      O sol estava se pondo. Os monges tinham acendido a fogueira e serviam a tradicional cerveja temperada com gengibre. Jack queria fazer uma pergunta à sua mãe, agora que se encontravam sozinhos, mas estava nervoso. Então alguém começou a cantar, e como sabia que ela cantaria também a qualquer momento, deixou escapar:

      - Meu pai era menestrel?

      Ela o encarou. Estava espantada, mas não zangada.

      - Quem lhe ensinou essa palavra? Você nunca viu um menestrel.

      - Aliena. Ela costumava ir à França com o pai.

      Sua mãe olhou na direção da fogueira, no outro lado da campina escura.

      - Sim, era menestrel. Foi ele quem me ensinou todos aqueles poemas, exatamente como os ensinei a você. Você agora os está recitando para Aliena?

      - Sim. - Jack se sentiu um pouco sem graça.

      - Você a ama de verdade, não é?

      - É tão evidente assim?

      Ela sorriu afetuosamente.

      - Só para mim, creio. Ela é muito mais velha que você.

      - Cinco anos.

      - Mas você a conquistará, mesmo assim. Você é como seu pai. Ele podia conquistar qualquer mulher que quisesse.

      Jack estava embaraçado de falar sobre Aliena, mas entusiasmado por saber coisas a respeito do pai, e ansioso por mais informações; para seu enorme aborrecimento, porém, Tom surgiu naquele exato instante e sentou-se com eles. Começou a falar imediatamente.

      - Estive conversando com o prior Philip a respeito de Jack - disse. O tom de sua voz era leve, mas o rapaz percebeu que havia nele uma certa tensão, e viu que vinha problema. - Philip diz que o garoto deveria ser educado.

      A reação de Ellen foi previsivelmente indignada.

      - Ele é educado - disse. - Sabe ler e escrever em inglês e francês, conhece números, é capaz de recitar livros inteiros de poesia...

      - Não me entenda mal deliberadamente - disse Tom, com firmeza. - Philip não disse que Jack é ignorante. Muito pelo contrário. O que está dizendo é que ele é tão inteligente que deveria ter mais instrução.

      O rapaz não ficou satisfeito com aqueles elogios. Ele partilhava das suspeitas que a mãe nutria com relação a religiosos. Decerto tinha uma armadilha qualquer escondida naquela conversa.

      - Mais? - contrapôs Ellen ironicamente. - O que mais aquele monge quer que ele aprenda? Eu lhe digo. Teologia. Latim. Retórica. Metafísica. Estrume de vaca. Bobagens.

      - Não faça pouco de tudo tão rapidamente - disse Tom, com brandura. - Se Jack aceitar a oferta de Philip e for para a escola aprender a escrever com rapidez e a boa caligrafia de um secretário, estudar latim, teologia e todos os outros assuntos que você chama de estrume de vaca, poderá trabalhar para um conde ou para um bispo, e acabar sendo um homem rico e poderoso. "Nem todos os barões são filhos de barões", como diz o ditado.

      Ellen semicerrou os olhos perigosamente.

      - Se ele aceitar a oferta de Philip, foi o que você disse. E qual é a oferta de Philip, exatamente?

      - Que Jack se torne um monge noviço...

      - Só por cima do meu cadáver! - gritou Ellen, pondo-se de pé com um salto. - A maldita Igreja não vai levar o meu filho! Aqueles padres mentirosos e traiçoeiros me tiraram o pai dele mas não vão me tirar Jack. Antes enfiarei uma faca na sua barriga, juro por todos os deuses!

      Tom já vira Ellen ter ataques como aquele antes, de modo que não ficou tão impressionado como ficaria, se fosse novidade.

      - Que diabo há com você, mulher? - perguntou calmamente. - Ofereceram ao garoto uma magnífica oportunidade.

      O que deixou Jack mais intrigado foi a frase: "Aqueles padres mentirosos e traiçoeiros me tiraram o pai dele". O que ela teria querido dizer com aquilo? Sentiu vontade de perguntar, mas Ellen não lhe deu oportunidade.

      - Ele não vai ser monge! - berrou ela.

      - Se ele não quiser ser monge, não terá que ser monge.

      Ellen pareceu ficar emburrada.

      - Aquele prior ardiloso sempre dá um jeito de no fim conseguir o que deseja - disse ela.

      Tom se virou para Jack.

      - Está na hora de dizer alguma coisa, rapaz. O que você quer fazer da sua vida?

      Jack nunca pensara naquilo, mas a resposta veio sem hesitação, como se tivesse se decidido muito tempo antes.

      - Vou ser mestre construtor, como você - disse ele. vou construir a mais linda catedral que o mundo já viu.

      As franjas vermelhas do sol mergulharam debaixo do horizonte e a noite caiu. Hora do último ritual da véspera do solstício de verão: pedidos flutuantes. Jack já tinha um toco de vela e um pedaço de madeira. Ele olhou para Ellen e Tom. Ambos o encaravam, de certa forma perplexos: a convicção com que se manifestara sobre seu futuro os surpreendera. Bem, não era de admirar: surpreendera também o próprio Jack.

      Vendo que nada mais tinham a dizer, o garoto ficou de pé de um pulo e correu para a fogueira. Acendeu um galhinho seco no fogo, derreteu um pouco a base da vela e prendeu-a no pedaço de madeira, acendendo-a. A maioria dos aldeões estava fazendo o mesmo. Os que não podiam comprar uma vela faziam uma espécie de barquinho com capim seco e torciam o capim na parte central para fazer um pavio.

      Jack viu que Aliena estava bem do seu lado. Seu perfil era delineado pelo clarão da fogueira, e ela parecia imersa em profunda meditação. Cedendo a um impulso, ele perguntou:

      - Qual é o seu pedido, Aliena?

      - Paz - respondeu ela, sem parar para pensar. Depois, parecendo assustada, virou o rosto.

      Jack perguntou-se se não seria maluco por amar Aliena. Ela gostava dele, sem dúvida - tinham se tornado amigos, mas a idéia de se virem nus, deitados lado a lado, acariciando a pele quente um do outro, estava tão longe do coração dela quanto perto do seu.

      Quando todos estavam prontos, ajoelharam-se à margem do rio ou entraram dentro d'água, nas partes mais rasas. Segurando as velas bruxuleantes, fizeram um pedido.

      Jack fechou os olhos com força e visualizou Aliena, deitada numa cama, com os seios nus para fora da colcha, abrindo os braços para ele e dizendo: "Faça amor comigo, marido". Depois todos colocaram cuidadosamente suas velas sobre a água. Se o barquinho afundasse ou o fogo se apagasse, o pedido jamais seria atendido. Assim que Jack largou o seu, e a pequenina embarcação se afastou, a base de madeira tornou-se invisível, e apenas a chama pôde ser vista. Ele permaneceu olhando intensamente para ela durante algum tempo, e depois a perdeu entre as centenas de luzes que dançavam, boiando na superfície da água, trêmulos pedidos descendo a correnteza, até que desapareceram na curva do rio e não mais puderam ser vistos.

     

      Todo aquele verão, Jack contou histórias a Aliena.

      Eles se encontravam aos domingos, a princípio ocasionalmente e depois com regularidade, na clareira perto da pequena queda-d'água. Ele lhe falou sobre Carlos Magno e seus cavaleiros, e Guilherme de Orange e os sarracenos. Jack ficava completamente absorto nas histórias quando as estava contando. Aliena gostava de ver como as expressões mudavam no seu rosto jovem. Mostrava-se indignado com a injustiça, horrorizado com a traição, emocionado com a coragem de um cavaleiro e comovido até as lágrimas com uma morte heróica; e, como suas emoções eram contagiosas, ela também ficava comovida. Alguns dos poemas eram longos demais para serem recitados numa tarde, e quando ele tinha que contar uma história em capítulos, interrompia sempre num momento de tensão, de modo que Aliena passava a semana inteira imaginando o que aconteceria a seguir.

      Ela nunca falou a ninguém sobre aqueles encontros. Não sabia ao certo por quê. Talvez os outros não fossem entender o fascínio das histórias. Qualquer que fossea razão, deixou que pensassem que estava saindo na sua costumeira caminhada dos domingos, e, sem consultá-la, Jack fez o mesmo; assim, chegaram a um ponto onde já não poderiam contar a ninguém sem que dessem a impressão de estar confessando algo de que se sentiam culpados. Dessa forma, quase que por acidente, os encontros se tornaram secretos.

 

      Um domingo Aliena leu O romance de Alexandre para ele, só para variar. Diferentemente dos poemas de Jack, de intriga nas cortes, política internacional e morte súbita no campo de batalha, o romance de Aliena tratava de casos de amor e magias. Jack ficou muito impressionado com esses novos elementos, e no domingo seguinte deu início a um novo romance de sua própria invenção.

      Era um dia quente, no final de agosto. Aliena, de sandálias, trajava um vestido leve de linho. A floresta estava em silêncio, a não ser pelo rumorejar da água e a modulação da voz de Jack, ora mais alta, ora mais baixa. A história começou do modo convencional, com a descrição de um bravo cavaleiro, grande e forte, poderoso nas batalhas e armado com uma espada mágica, a quem fora ordenada uma tarefa difícil: viajar até um distante país no oriente e trazer uma videira que desse rubis.

      Mas ele rapidamente a desviou do padrão comum. O cavaleiro foi morto e o foco passou para o seu escudeiro, um bravo mas pobre jovem de dezessete anos perdidamente apaixonado pela filha do rei, uma linda princesa. O escudeiro jurou cumprir a missão dada a seu amo, muito embora fosse jovem e inexperiente e tivesse apenas um cavalinho malhado e um arco.

      Em vez de vencer o inimigo com um tremendo golpe de uma espada mágica, como o herói costumava fazer nessas histórias, o escudeiro lutava desesperadamente e ganhava suas batalhas apenas por sorte ou esperteza, quase sempre escapando da morte por um triz. com frequência tinha medo dos inimigos com que se defrontava - ao contrário dos cavaleiros destemidos de Carlos Magno, mas nunca se desviava de seu compromisso. Mesmo assim, tanto a missão quanto seu amor pela princesa pareciam não ter esperanças.

      Aliena descobriu que ficava mais cativada pela bravura do escudeiro que pela força do seu amo. Mordia os nós dos dedos de ansiedade quando ele cavalgava pelo território inimigo, assustava-se quando a espada de um gigante por pouco não o acertava e suspirava quando ele deitava a cabeça solitária para dormir e sonhar com a distante princesa. Seu amor por ela parecia ser da mesma qualidade da constância do seu espírito. No final, o escudeiro trouxe a videira que produzia rubis, espantando toda a corte.

      - Mas não se importou muito - afirmou Jack, estalando desdenhosamente os dedos - no que dizia respeito a todos aqueles barões e condes. Estava interessado numa pessoa apenas. Naquela noite conseguiu entrar no quarto dela, usando um brilhante ardil que aprendera na viagem ao oriente. Até que por fim se viu de pé ao lado da cama da princesa, olhando para o seu rosto. - E Jack olhou dentro dos olhos de Aliena. - Ela acordou imediatamente, mas não teve medo. Ele adiantou-se e, com delicadeza, segurou-lhe a mão. - Jack representou a história, pegando a mão de Aliena e segurando-a entre as suas. Ela estava fascinada pela intensidade do seu olhar e pelo poder do amor do jovem escudeiro, e mal sentiu que ele estava segurando sua mão. - O escudeiro lhe disse: "Eu a amo muito", e beijou-a nos lábios. -Jack inclinou-se e beijou Aliena. Seus lábios tocaram nos dela tão suavemente que Aliena mal sentiu. Aconteceu muito depressa, e ele retomou a narrativa prontamente: - A princesa dormiu - continuou. E Aliena pensou: Isto realmente aconteceu? Jack me beijou mesmo? Mal podia crer, mas ainda sentia o toque da boca dele na sua. - No dia seguinte, o escudeiro perguntou ao rei se podia se casar com a princesa, como recompensa por ter trazido a videira que produzia rubis. - Jack me beijou sem pensar, decidiu Aliena. Era só parte da história. Ele nem mesmo sabe que o fez. vou simplesmente esquecer o que houve. - O rei não consentiu. O escudeiro ficou com o coração partido. Todos os cortesãos riram. Naquele dia mesmo o escudeiro deixou aquele reino, montado no seu cavalinho malhado; porém, jurou que voltaria, e que no dia de seu regresso desposaria a linda princesa. - Jack calou-se e largou a mão de Aliena.

      - E o que aconteceu depois?

      - Não sei - respondeu Jack. - Ainda não pensei.

     

      Todas as pessoas importantes de Kingsbridge entraram para a associação da paróquia. A idéia era nova para a maioria, mas gostaram de ver que Kingsbridge agora era uma cidade, e não mais uma aldeia, e sua vaidade sensibilizou-se com o apelo feito a eles para que, como cidadãos importantes, doassem uma igreja de pedra.

      Aliena e Alfred recrutaram os membros e organizaram o primeiro jantar da associação em meados de setembro.

      Os grandes ausentes foram o prior Philip, que de certa forma era hostil ao empreendimento, embora não o bastante para proibi-lo; Tom Construtor, que declinou, devido ao modo de pensar de Philip; e Malachi, excluído pela sua religião.

      Nesse espaço de tempo, Ellen tecera um rolo de fazenda com Lã da sobra de Aliena. Era áspera e sem cor, mas boa o bastante para confeccionar hábitos de monge, e o despenseiro do priorado, Cuthbert Cabeça Branca, a comprara. Embora fosse barata, ainda tinha o dobro do preço da lã crua, e mesmo depois de haver pago um penny por dia a Ellen, Aliena lucrara, meia libra. Cuthbert foi perspicaz o bastante para comprar mais tecido àquele preço, de modo que Aliena comprou a sobra de lã de Philip, a fim de aumentar seu estoque, e arranjou mais doze pessoas, a maioria mulheres, para fazer o serviço de tecelagem. Ellen concordou em fazer outro fardo de tecido, mas não em pisá-lo, já que, conforme alegou, o trabalho era muito duro. Aliena disse a suas tecelãs que fossem em frente e fizessem um pano frouxamente tecido; depois contrataria homens para pisá-lo ou venderia para um mestre pisoeiro em Winchester.

      O almoço da associação foi na igreja de madeira. Aliena organizou-o. Dividiu a responsabilidade da preparação com os outros membros, a maioria dos quais tinha pelo menos uma criada doméstica. Alfred e seus homens construíram uma mesa comprida de tábuas, apoiada em cavaletes. Compraram cerveja forte e um barril de vinho.

      Sentaram-se dos dois lados da mesa, sem ninguém nas cabeceiras, pois todos eram iguais dentro da associação. Aliena pôs um vestido de seda vermelho-escuro, ornamentado por um broche de ouro com rubis, e uma capa comprida cinza-escura com mangas largas, como era moda. O pároco deu graças: é claro que estava deleitado com a idéia da associação, pois uma nova igreja aumentaria seu prestígio e multiplicaria sua renda.

      Alfred apresentou um orçamento e um cronograma para a construção da nova igreja. Falou como se tudo fosse fruto do seu trabalho, mas Aliena sabia que Tom fizera quase todos os cálculos. A obra levaria dois anos e custaria noventa libras, e Alfred propôs que cada um dos quarenta membros da associação desse seis pence por semana.

      Era um pouco mais do que alguns tinham imaginado, Aliena podia assegurar, examinando-lhes o rosto. Todos concordaram, mas a jovem achou que a associação podia prever  uma ou duas desistências.

      Ela poderia dar aquela contribuição com facilidade. Olhando para as pessoas sentadas em torno da mesa, constatou que provavelmente era a pessoa mais rica presente. Estava numa pequena minoria de mulheres: as únicas outras eram uma cervejeira com fama de fabricar uma boa cerveja forte, uma alfaiata que empregava duas costureiras e algumas aprendizes, e a viúva de um sapateiro, que administrava o negócio deixado pelo marido. Aliena era a mais jovem, sendo mais jovem também que todos os homens, exceto Alfred, um ou dois anos mais moço que ela.

      Aliena sentiu falta de Jack. Ainda não ouvira o segundo capítulo da história do jovem escudeiro. Aquele dia era feriado, e seria bom se tivesse ido encontrá-lo na clareira. Talvez ainda fosse, mais tarde. À mesa conversavam sobre a guerra civil. A mulher de Estêvão, a rainha Matilda, apresentara uma resistência mais forte do que se esperara: recentemente tomara Winchester e capturara Robert de Gloucester. Robert era irmão de Matilde, a Imperatriz, e comandante-chefe de suas forças militares. Algumas pessoas diziam que ela era apenas testa-de-ferro, e que Robert era o verdadeiro líder da rebelião. De qualquer modo, a captura dele fora quase tão ruim para Matilde quanto a de Estêvão para os legalistas, e todo mundo tinha uma opinião sobre o rumo que a guerra tomaria a seguir.

      A bebida era muito mais forte que a habitualmente servida pelo prior Philip, e, à medida que a refeição progredia, os convivas iam falando mais alto. O pároco não exerceu uma influência restritiva, provavelmente por estar bebendo tanto quanto os demais. Algo parecia preocupar Alfred, sentado ao lado de Aliena, mas o rosto dele também estava congestionado. Quanto a Aliena, não gostava de bebidas fortes e tomou um copo de sidra com o seu jantar.

      Quando a maior parte da comida tinha sido consumida, alguém propôs um brinde a Alfred e Aliena. Alfred ficou radiante de satisfação. Depois que o canto começou, Aliena começou a se perguntar em quanto tempo conseguiria dar o fora.

      - Nós nos saímos bem juntos - disse-lhe Alfred.

      Aliena sorriu.

      - Vamos ver quantos deles ainda estarão pagando seis pence por semana dentro de um ano.

      Alfred não queria saber de apreensões ou dúvidas.

      - Nós nos saímos bem - repetiu. - Somos uma boa equipe. - Ergueu o copo na direção dela e bebeu. - Não acha que somos uma boa equipe?

      - Certamente que sim - respondeu, para agradar Alfred.

      - Gostei disso - prosseguiu ele. - Quero dizer, de fazer isso com você, organizar a associação.

      - Também gostei - disse ela polidamente.

      - É mesmo? Isso me faz muito feliz.

      Ela o fitou com mais cuidado. Por que estaria sendo tão insistente? Sua fala era clara e precisa, não exibia sinais de embriaguez.

      - Foi agradável - disse ela, procurando manter um tom neutro.

      Ele pôs uma das mãos sobre o seu ombro. Aliena detestava ser tocada, mas treinara não se esquivar, porque os homens ficavam ofendidos.

      - Diga-me uma coisa - disse ele, baixando a voz para um Tom mais íntimo. - O que você está procurando num marido?

      Espero que ele não vá me pedir em casamento, pensou Aliena, desolada. Deu sua resposta padronizada.

      - Não preciso de marido. Meu irmão já me dá bastante trabalho.

      - Mas precisa de amor - disse ele. Ela gemeu no íntimo.

      Estava prestes a responder quando ele ergueu a mão para silenciá-la - um hábito masculino que achava particularmente irritante.

      - Não me diga que não precisa de amor - disse. - Todo mundo precisa.

      Ela o encarou com firmeza. Sabia que havia algo de diferente em si: a maioria das mulheres gostava da idéia de se casar, e se ainda estavam solteiras, como Aliena, aos vinte e dois anos de idade, mostravam-se mais que interessadas - desesperadas para se casar. Alfred era jovem, saudável e próspero: metade das garotas de Kingsbridge gostaria de se casar com ele. Por um momento brincou com a idéia de dizer sim. Mas a idéia de morar com Alfred, almoçar com ele todos os dias, cear todas as noites, ir à missa em sua companhia e ter os seus filhos era aterrorizante. Preferia ficar sozinha. Sacudiu a cabeça.

      - Esqueça, Alfred - disse resolutamente. - Não preciso de marido, por amor ou por qualquer outra coisa.

      Ele não se desencorajou.

      - Eu a amo, Aliena - disse. - Trabalhando com você me senti verdadeiramente feliz. Preciso de você. Quer ser minha mulher?

      Pronto, ele concretizara o pedido. Era uma pena, porque agora precisava rejeitá-lo formalmente. Aprendera que não adiantava tentar proceder com delicadeza nesses casos: os homens tomavam uma recusa bondosa como sinal de indecisão e pressionavam mais ainda.

      - Não, não quero - disse ela. - Não o amo, não gostei muito de ter trabalhado em sua companhia e não o desposaria nem que fosse o último homem na face da terra.

      Alfred ficou ofendido. Devia ter pensado que suas chances eram boas. Aliena tinha certeza de que nada fizera para encorajálo. Tratara-o como um sócio, em igualdade de condições, ouvindo quando falava, falando com ele franca e diretamente, cumprindo suas responsabilidades e esperando que Alfred cumprisse as dele. Só que alguns homens encaram essas coisas como sinal de encorajamento.

      - Como você pode dizer isso? - gaguejou Alfred.

      Ela suspirou. Estava magoado, e tinha pena dele; mas dentro de um instante se mostraria indignado, e agiria como se tivesse sido acusado injustamente; por fim se convenceria de que ela o insultara sem motivos, e se tornaria ofensivo. Nem todos os pretendentes rejeitados se comportavam assim, mas um certo tipo sempre repetia tal padrão, e Alfred era desse tipo. Ia ter que se retirar.

      Ela se levantou.

      - Respeito sua proposta e agradeço a honra que me concede - disse. - Por favor, respeite minha recusa, e não me peça de novo.

      - Suponho que você esteja saindo para correr ao encontro daquele desprezível garotinho que é o filho da minha madrasta - disse Alfred grosseiramente. - Não posso imaginar que Jack seja capaz de lhe dar uma boa trepada.

      Aliena corou, envergonhada. Então estavam começando a notar sua amizade com Jack. Podia contar com Alfred para uma interpretação obscena. Pois bem, estava correndo mesmo para ir ver Jack, e não ia deixar que Alfred a impedisse. Abaixou-se e quase encostou o rosto ao dele. O rapaz ficou espantado. Calma e deliberadamente, ela disse:

      - Vá para o inferno.

      Então se virou e foi embora.

     

     

      O prior Philip instalava um tribunal na cripta uma vez por mês. Antes o fazia uma vez por ano, e mesmo assim raramente tomava o dia inteiro. Mas a população triplicara, e o número de violações da lei decuplicara.

      A natureza das transgressões mudara também. Antes a maior parte tinha a ver com a terra, as colheitas ou o gado. Um camponês ambicioso tentava subrepticiamente mudar o limite de um campo para expandir sua terra à custa de um vizinho; um trabalhador furtava um saco de milho da viúva que o empregara; uma mulher pobre com muitos filhos ordenhava uma vaca que não era sua. Agora a maior parte dos casos envolvia dinheiro, pensou Philip, enquanto atuava na sua corte, naquele primeiro dia de dezembro.

      Aprendizes furtavam dinheiro dos mestres, um marido roubava as economias da mulher, comerciantes passavam dinheiro falso e mulheres ricas pagavam quantias miseráveis às suas criadas ignorantes, que mal sabiam contar os salários semanais. Não havia crimes desse tipo em Kingsbridge cinco anos antes, porque naquele tempo ninguém tinha muito dinheiro em espécie.

      Philip arbitrava para quase todas as violações uma multa. Podia também mandar açoitar, prender no tronco ou aprisionar na cela que ficava sob o dormitório dos monges, mas essas punições estavam ficando cada vez mas raras, reservadas basicamente para crimes violentos. Ele tinha o direito de enforcar ladrões, e o priorado era dono de uma forca de madeira bastante forte; porém ele nunca a usara, e tinha a secreta  esperança de que jamais a usaria. Os crimes mais sérios - assassinato, abate de um dos deados do rei e roubo em estradas - eram julgados pela corte real em Shiring, presidida pelo xerife Eustace, que já enforcava mais do que o suficiente.

      Nesse dia Philip tivera sete casos de moagem de grãos sem autorização. Deixou todos para o fim, para resolvê-los juntos. O priorado construíra um novo moinho de água para funcionar juntamente com o velho - Kingsbridge agora precisava de dois. Mas o mais recente tinha que ser pago, o que significava que todos precisavam levar seus grãos para o moinho do priorado. Falando num sentido estrito, a lei sempre fora assim, em cada grande propriedade no país: os camponeses não eram autorizados a moer seus grãos em casa; tinham que pagar ao seu lorde para fazer isso por eles. Nos últimos anos, quando a cidade crescera e o velho moinho começara a quebrar com frequência,

      Philip fizera vista grossa ao número crescente de moagens ilícitas, mas agora precisava pôr fim àquilo.

      Mandou que escrevessem os nomes dos transgressores numa lousa e os leu em voz alta, um por um, começando pelo mais rico.

      - Richard Longacre, você tinha um moinho grande operado por dois homens, segundo o irmão Franciscus. - Franciscus era o moleiro do priorado.

      Um pequeno proprietário rural de aparência próspera adiantou-se.

      - Sim, milorde prior, mas já o quebrei.

      - Pague sessenta pence. Enid Brewster, você tinha um moinho manual na sua cervejaria. Eric Enidson foi visto utilizando o, de modo que ele também é acusado.

      - Sim, milorde - disse Enid, uma mulher de rosto vermelho e ombros vigorosos.

      - E onde está o moinho agora?

      - Joguei-o no rio, milorde.

      Philip não acreditou, mas não havia muito que pudesse fazer.

      - Multada em vinte e quatro pence, e doze pelo seu filho. Walter Curtidor?

      Philip foi até o fim da lista, multando as pessoas de acordo com a escala de suas operações ilegítimas, até que chegou à última e mais pobre. - Viúva Goda?

      Uma mulher de aparência miserável, com roupas pretas desbotadas, adiantou-se.

      - O irmão Franciscus diz que a viu moendo grão com uma pedra.

      - Eu não tinha um penny para o moinho, milorde - disse ela, ressentida.

      - Mas teve o penny para comprar o grão - disse Philip.

      - Será punida como todos os outros.

      - Vai querer que eu morra de fome? - retrucou ela desafiadoramente.

      Philip suspirou. Gostaria que o irmão Franciscus tivesse fingido não ver Goda violando a lei.

      - Quando foi a última vez em que alguém morreu de fome aqui em Kingsbridge? - Olhou para os cidadãos ali reunidos. - Alguém aqui se lembra de quando foi a última vez em que alguém morreu de fome na nossa cidade? - Parou por um momento, como que esperando uma resposta, e depois disse:

      - Acho que vão descobrir que foi antes do meu tempo.

      - Dick Casa Pequena morreu no inverno passado - disse Goda.

      Philip se lembrava do homem, um mendigo que dormia nos chiqueiros e estábulos.

      - Dick desmaiou de tanta bebida na rua, à meia-noite, e morreu congelado quando nevou - disse. - Não morreu de fome, e se estivesse sóbrio o bastante para caminhar até o priorado, tampouco teria morrido de frio. Se você tiver fome, não tente me enganar - vá me procurar e conte com a nossa caridade. E se for orgulhosa demais para isso, e preferir violar a lei, vai ter que ser punida como todos os outros. Está me ouvindo?

      - Sim, milorde - disse a mulher, emburrada.

      - Multada em uma farthing - disse Philip. - A corte está encerrada.

      Ele se levantou e saiu, subindo a escada que levava da cripta ao andar térreo.

      O trabalho na nova catedral tivera seu ritmo reduzido de maneira drástica, como sempre acontecia mais ou menos um mês antes do Natal. As superfícies laterais e a parte de cima das pedras colocadas mais recentemente eram cobertas com palha e estrume recolhido dos estábulos do priorado - para evitar o efeito do frio. Os pedreiros não podiam construir no inverno, devido ao frio intenso, segundo diziam. Philip perguntara por que não podiam descobrir as paredes todas as manhãs e cobri-las de novo à noite; com frequência não fazia tanto frio assim durante o dia. Tom disse que as paredes construídas no inverno caíam. Philip acreditava, mas não achava que fosse por causa do frio. O motivo verdadeiro talvez fosse o de que a massa levasse alguns meses para endurecer apropriadamente. A pausa do inverno permitia que isso acontecesse, antes que novas pedras fossem colocadas. Isso explicaria também a superstição dos pedreiros de que dava má sorte construir mais que vinte pés de altura num único ano; se excedessem isso as fileiras mais baixas seriam deformadas com o peso colocado por cima antes de a massa secar.

      Philip ficou surpreso ao ver todos os pedreiros ao ar livre, onde seria o coro da igreja. Foi verificar o que estavam fazendo.

      Tinham construído um arco semicircular de madeira e colocado na vertical, sustentando-o em ambos os lados por estacas. Philip sabia que o arco de madeira era uma peça daquilo que chamavam de forma: sua finalidade era escorar o arco de pedra enquanto este estivesse sendo construído. Agora, contudo, os pedreiros estavam montando o arco de pedra no nível do solo, sem massa, para verificar se as pedras se ajustavam perfeitamente. Aprendizes e serventes erguiam as pedras e as colocavam na forma, sob a supervisão dos pedreiros.

      - Para que é isto? - perguntou Philip, depois de atrair a atenção de Tom.

      - É um arco para a galeria da tribuna.

      Philip ergueu os olhos pensativamente. A arcada fora completada no último ano e a galeria sobre ela ficaria pronta no ano seguinte. Então, o último nível, o do clerestório, ficaria para ser construído antes que o telhado tivesse início. Agora que as paredes haviam sido cobertas para o inverno, os pedreiros cortavam as pedras para o trabalho do ano seguinte. Se aquele arco estivesse correto, as pedras para todos os outros seriam cortadas de acordo com os mesmos padrões.

      Os aprendizes, entre os quais Jack, o enteado de Tom, montaram o arco começando de ambos os lados, com pedras em forma de cunha, chamadas de aduelas.

      Embora o arco fosse destinado a ficar numa parte alta da igreja, teria elaborados trabalhos de cinzelagem; assim, cada pedra exibiria na superfície visível uma linha de grandes dentículos, outra de pequenos medalhões e uma terceira, por baixo, de volutas, ou espirais simples.

      Quando as pedras estivessem dispostas em seus lugares, o trabalho de cinzelagem ficaria perfeitamente alinhado, formando três arcos contínuos, com cada um daqueles motivos.

      Isso dava a impressão de que ele era feito de diversos arcos semicirculares de pedra, um em cima do outro, mesmo que, na verdade, consistisse em pedras em forma de cunha colocadas lado a lado. No entanto, tinham que ficar perfeitamente ajustadas, pois de outro modo as cinzeladuras não se alinhariam e a ilusão se perderia.

      Philip observou Jack baixando a pedra central para colocála em posição. Agora o arco estava completo. Quatro pedreiros pegaram marretas e derrubaram as cunhas que sustentavam a forma de madeira algumas polegadas acima do chão. De uma forma impressionante, o suporte de madeira caiu. Mas, embora não houvesse massa entre as pedras, o arco resistiu de pé. Tom Construtor deixou escapar um grunhido de satisfação.

      Alguém puxou a manga de Philip. Ele se virou e viu que era um jovem monge.

      - Visita para o senhor, padre. Está esperando na sua casa.

      A visita era seu irmão, Francis. Philip o abraçou calorosamente. Francis parecia ansioso.

      - Já lhe ofereceram algo para comer? - perguntou Philip.

      - Você está com ar fatigado.

      - Trouxeram-me pão e carne, obrigado. Passei o outono percorrendo a cavalo o caminho entre Bristol, onde o rei Estêvão estava aprisionado, e Rochester, onde conde

      Robert era prisioneiro.

      - Você usou o verbo no passado.

      Francis aquiesceu.

      - Negociei uma troca: Estêvão por Robert. Foi concretizada no Dia de Todos os Santos. O rei Estêvão está agora de novo em Winchester.

      Philip ficou surpreso.

      - Parece-me que Matilde ficou com a pior parte da barganha - deu um rei para ganhar um conde.

      Francis sacudiu a cabeça.

      - Matilde nada podia fazer sem Robert. Ninguém gosta dela, ninguém confia nela. O apoio de que dispunha estava entrando em colapso. Precisava recuperá-lo. A rainha

      Matilda foi esperta. Não aceitava nada menos que o rei Estêvão para ceder Robert.

      Agarrou-se a essa posição e no fim conseguiu o que queria.

      Philip foi até a janela. Começara a ventar e a chover, uma chuva fria que escurecia as paredes altas da catedral e gotejava dos telhados baixos de palha dos galpões dos artesãos.

      - O que significa isto? - perguntou.

      - Significa que Matilde mais uma vez não passa de uma pretendente ao trono. Afinal de contas, Estêvão foi coroado, enquanto ela nunca chegou a sê-lo, propriamente.

      - Mas foi Matilde quem licenciou meu mercado.

      - Sim. Isso pode vir a ser um problema.

      - Minha licença perdeu o valor?

      - Não. Ela foi concedida de forma adequada por um governante legítimo que tinha sido aprovado pela Igreja. O fato de não ter sido coroada não faz a menor diferença, mas Estêvão pode cancelá-la.

      - O mercado é que está pagando a pedra - disse Philip ansiosamente. - Não posso construir sem ele. Isso foi mesmo uma má notícia.

      - Sinto muito.

      - E as minhas cem libras? Francis deu de ombros.

      - Estêvão lhe dirá para recebê-las de Matilde. Philip ficou angustiado.

      - Todo aquele dinheiro!...   Era dinheiro de Deus, e o perdi.

      - Você ainda não o perdeu - contrapôs Francis. - Pode ser que Estêvão não revogue sua licença. De um modo ou de outro, ele nunca demonstrou muito interesse em mercados.

      - O conde William pode pressioná-lo.

      - William trocou de lado, lembra? Apostou tudo em Matilde. lá não terá muita influência sobre Estêvão.

      - Espero que tenha razão - disse Philip fervorosamente.

      - Espero em Deus que você esteja com a razão.

     

      Quando ficou frio demais para se sentar na clareira, Aliena passou a visitar a casa de Tom Construtor todas as noites. Alfred estava normalmente na cervejaria, de modo que a família consistia em Tom, Ellen, Jack e Martha. Agora que Tom estava indo tão bem, tinham cadeiras confortáveis, um bom fogo e muitas velas. Ellen e Aliena trabalhavam, tecendo. Tom desenhava planos e diagramas, riscando pedaços de lousa polida com uma pedra aguçada. Jack fingia fazer um cinto, amolar facas ou trançar um cesto, embora passasse a maior parte do tempo contemplando furtivamente o rosto de Aliena iluminado pelas velas, observando seus lábios se moverem quando falava ou estudando seu alvo pescoço quando bebia um copo de cerveja.

      Riram muito naquele inverno. Jackamava fazer Aliena rir.

      Ela em geral era tão controlada e reservada que era uma alegria vêla se soltar, quase como se a vislumbrasse nua. Ele estava constantemente pensando em coisas para dizer que a divertissem. Fazia imitações dos artífices que trabalhavam no canteiro da obra, reproduzia o sotaque de um pedreiro parisiense ou o caminhar das pernas arqueadas de um ferreiro. Uma vez inventou uma narrativa cômica da vida com os monges, dando a cada um pecados plausíveis - orgulho para Remigius, gula para Bernard Cozinheiro, embriaguez para o encarregado da hospedaria e luxúria para Pierre Circuitor. Martha quase sempre não se aguentava de tanto rir e até mesmo o taciturno Tom arriscava um sorriso.

      - Não sei se vou conseguir vender todo este tecido - disse Aliena numa dessas noites.

      De certa forma eles ficaram espantados.

      - Então por que estamos tecendo? - perguntou Ellen.

      - Não abandonei a esperança - respondeu Aliena. - Só tenho um problema.

      Tom levantou os olhos da lousa.

      - Pensei que o priorado estivesse ansioso para comprar seu tecido.

      - O problema não é esse. Não consigo encontrar quem faça o trabalho de pisoar, e o priorado não quer o tecido frouxo - ninguém quer.

      - É um trabalho exaustivo - disse Ellen. - Não admira que ninguém queira fazê-lo.

      - Você não consegue homens para o pisoamento? - sugeriu Tom.

      - Não aqui, na próspera Kingsbridge. Todos os homens têm bastante trabalho. Nas grandes cidades há pisoeiros profissionais, mas a maioria trabalha para tecelãos e estão proibidos de pisoar para os rivais dos seus empregadores. De qualquer modo, custaria muito caro o transporte de ida e volta para Winchester.

      - De fato é um problema - reconheceu Tom, e voltou ao seu trabalho.

      Jack foi assaltado por uma idéia.

      - É uma pena que não possamos dar esse trabalho para os bois fazerem.

      Os outros riram.

      - Você bem que poderia ensinar bois a construir igrejas - disse Tom.

      - Ou um moinho - persistiu Jack. - Geralmente há maneiras fáceis de fazer o trabalho mais duro.

      - Ela quer pisoar o tecido, não moê-lo - disse Tom.

      Jack não estava ouvindo.

      - Nós usamos equipamento especial e sarilhos para levantar as pedras até a parte superior dos andaimes.

      - Oh, se houvesse algum mecanismo engenhoso para pisoar tecidos seria uma maravilha - disse Aliena.

      Jack pensou em como ela ficaria satisfeita se pudesse resolver aquele problema. Decidiu que tinha que achar um jeito.

      - Já ouvi falar de um moinho de água usado para acionar o fole de uma forja, mas nunca o vi - disse Tom pensativamente.

      - Aí está! - exclamou Jack. - Prova que é possível a minha idéia!

      - Um moinho gira circularmente - disse Tom, e a mó também, de modo que um pode acionar o outro; mas o bastão do pisoeiro sobe e desce. Você não pode fazer um moinho acionar um bastão de pisoeiro.

      - Mas o fole tem movimento vertical - ele sobe e desce.

      - É verdade, é verdade; porém, nunca vi essa forja, só ouvi falar que existia.

      Jack tentou visualizar a maquinaria de um moinho. A força da água acionava a roda. O eixo dessa roda era conectado a outra roda dentro do moinho. A roda interior, que era vertical, tinha dentes engrazados com os dentes de outra roda que girava na horizontal. Esta última roda girava a pedra do moinho.

      - Uma roda vertical pode fazer girar uma roda horizontal - murmurou Jack, pensando em voz alta.

      Martha riu.

      - Jack! Pare! Se os moinhos pudessem pisoar tecidos, as pessoas espertas já teriam pensado nisso.

      Jack ignorou-a.

      - Os bastões podiam ser fixados ao eixo da roda do moinho - disse. - O tecido podia ficar na horizontal onde os bastões caíssem.

      - Mas os bastões bateriam uma vez e ficariam presos - disse Tom. - E a roda pararia. Eu lhe disse: rodas giram, mas bastões têm que subir e descer.

      - Deve haver um jeito - disse Jack obstinadamente.

      - Não há - disse seu padrasto, no tom de voz que usava para encerrar conversas.

      - Mesmo assim, aposto que há - resmungou Jack, rebelde; e Tom fingiu que não escutou.

     

      No domingo seguinte, Jack desapareceu.

      Foi à igreja de manhã e comeu em casa, como sempre; mas não apareceu na hora da ceia. Aliena estava na sua cozinha, preparando um caldo grosso de presunto e repolho com pimenta, quando Ellen apareceu procurando por ele.

      - Não o vejo desde a missa - disse Aliena.

      - Desapareceu depois do jantar - disse Ellen. - Achei que estivesse com você.

      Aliena ficou um pouco envergonhada por ela ter feito aquela suposição tão prontamente.

      - Está preocupada? Ellen deu de ombros.

      - Mães sempre se preocupam.

      - Ele brigou com Alfred? - perguntou Aliena, nervosa.

      - Fiz a mesma pergunta. Alfred diz que não. - Ellen suspirou. - Não acho que tenha lhe acontecido algum mal. Já fez isso antes e me atrevo a dizer que fará de novo. Nunca lhe ensinei a cumprir horários.

      Mais tarde, pouco antes da hora de dormir, Aliena passou pela casa de Tom para ver se Jack reaparecera. Não. Foi para a cama preocupada. Richard estava fora, em

      Winchester, de modo que se encontrava sozinha. Ficou pensando que Jack podia ter caído no rio e morrido afogado, ou qualquer coisa assim. Como devia ser terrível para Ellen: Jack era seu único filho! Os olhos de Aliena encheram-se de lágrimas quando imaginou a dor de Ellen por perder Jack. Aquilo era estupidez, pensou: Estou chorando por causa da dor de outra pessoa causada por uma coisa que não aconteceu. Controlou-se e tentou pensar no trabalho. A sobra de tecido era seu grande problema.

      Normalmente podia ficar metade da noite pensando em negócios, mas daquela vez não conseguia esquecer Jack. E se ele houvesse quebrado a perna, e estivesse na floresta, incapaz de se mover?

      Acabou caindo num sono que não lhe possibilitou descansar. Acordou à primeira luz da madrugada, ainda se sentindo cansada. Enfiou a capa pesada por cima da camisa de dormir, calçou as botas guarnecidas de pele e saiu para procurá-lo.

      Ele não estava atrás da cervejaria, onde os homens em geral caíam dormindo e eram salvos do congelamento pelo calor da fétida pocilga. Desceu até a ponte e caminhou, cheia de medo, ao longo da margem, até uma curva onde o lixo era despejado. Uma família de patos ciscava por entre os pedaços de madeira, sapatos usados, facas enferrujadas e ossos apodrecidos. Jack não estava ali, graças a Deus.

      Subiu de novo a colina e entrou no priorado, onde os operários que construíam a catedral começavam o dia de trabalho. Encontrou Tom no seu depósito.

      - Jack já voltou? - perguntou esperançosamente. Tom sacudiu a cabeça.

      - Ainda não.

      Quando ia saindo, o mestre carpinteiro apareceu, preocupado.

      - Todos os nossos martelos desapareceram - disse a Tom.

      - Engraçado - disse Tom. - Eu estava procurando um martelo e não consegui achar nenhum.

      A seguir foi a vez de Alfred aparecer na porta e perguntar:

      - Onde estão as talhadeiras dos pedreiros?

      Tom coçou a cabeça.

      - Parece que todos os martelos da obra desapareceram murmurou, desconcertado. Depois sua expressão se modificou e ele disse: - Aquele garoto, Jack, está por trás disso, sou capaz de apostar.

      Claro, pensou Aliena. Martelos. Pisoar. O moinho.

      Sem dizer o que estava pensando, deixou o galpão de Tom, atravessou apressadamente o adro, passando pela cozinha, na direção do canto sudoeste, onde um canal desviado do rio  acionava dois moinhos, um velho e um novo. Como suspeitara, a roda do velho estava girando. Entrou no seu interior.

      O que viu a deixou confusa e assustada a princípio. Havia uma fila de martelos presos numa vara horizontal. Parecendo ter vontade própria, os martelos ergueram a cabeça, como cavalos levantando o focinho. Depois desceram, todos juntos, e bateram simultaneamente com um estrondo tão forte que fez seu coração parar.

      Deu um grito de espanto. Os martelos ergueram de novo a cabeça, como se a tivessem ouvido, e desfecharam outro golpe. Estavam batendo num pedaço do seu tecido frouxo, imerso em uma ou duas polegadas de água, num cocho raso de madeira do tipo usado pelos preparadores de massa no canteiro da obra. Os martelos estavam pisoando o tecido, Aliena se deu conta, e não teve mais medo, embora parecessem assustadoramente vivos. Mas como aquilo era feito? Viu que a vara onde haviam sido presos corria paralela ao eixo da roda do moinho. Uma tábua fixa no eixo girava quando ele girava. Num determinado ponto da sua volta, ela se conectava aos cabos dos martelos, empurrando-os para baixo, de modo que as cabeças subiam. Quando a tábua continuava a rodar, os cabos eram liberados. Então caíam e batiam no tecido, dentro do cocho. Exatamente o que Jack dissera naquele domingo: um moinho podia pisoar tecidos.

      Ouviu a voz dele:

      - Os martelos deveriam ser mais pesados para cair com mais força. - Aliena virou-se e o viu, cansado mas triunfante.

      - Acho que resolvi seu problema - disse, com um sorriso encabulado.

      - Estou tão feliz por ver que você está bem! Estávamos preocupados por sua causa! - exclamou ela. Sem pensar, atirou os braços em torno dele e o beijou. Foi um beijo muito rápido, quase não passando de um beijinho estalado; mas depois, quando seus lábios se separaram, os braços de Jack a envolveram pela cintura, segurando-lhe o corpo delicada mas firmemente, e Aliena teve que fitá-lo nos olhos. Só conseguia pensar em como se sentia feliz por ele estar vivo e inteiro. Deu-lhe um abraço afetuoso.

      De repente, porém, teve consciência da própria pele; sentiu a aspereza do tecido da camisa de baixo e a maciez do pêlo que forrava as botas, assim como sentiu também o bico dos seios comprimidos de encontro ao peito dele.

      - Estava preocupada comigo? - perguntou Jack, admirado.

      - Claro! Nem consegui dormir direito!

      Aliena sorria, alegre, mas a expressão dele era de uma terrível solenidade, e, após um momento, seu estado de espírito sobrepôs-se ao dela, que se sentiu estranhamente perturbada. Ouviu o coração bater, a respiração se acelerar. Às suas costas, os martelos, em uníssono, sacudiam a estrutura de madeira do moinho com cada golpe, e Aliena teve a impressão de sentir aquela vibração no seu íntimo.

      - Estou bem - disse ele. - Está tudo bem.

      - Estou tão feliz! - repetiu ela, dessa vez num sussurro. Aliena viu Jack fechar os olhos, inclinar o rosto na direção do seu, e, em seguida, sentiu o contato da sua boca. O beijo de Jack foi delicado. Seus lábios eram cheios e a barba, macia, de adolescente.

      Fechou os olhos para se concentrar na sensação. A boca de Jack moveu-se contra a sua e pareceu-lhe natural entreabrir os lábios. De repente sua boca se tornou ultra-sensível, e ela foi capaz de sentir o mais leve dos toques, o menor dos movimentos. A ponta da língua de Jack acariciou a parte interna do seu lábio superior. Aliena sentiu-se tão feliz que teve vontade de chorar. Estreitou o corpo dele, comprimindo os seios macios de encontro ao seu peito musculoso, sentindo-lhe os ossos dos quadris na barriga. Não estava mais simplesmente aliviada por vê-lo são e salvo, e feliz por tê-lo ali. Agora sentia uma emoção nova. Sua presença física a encheu com uma sensação de êxtase que a deixou ligeiramente tonta. Abraçando-lhe o corpo, quis tocá-lo mais, senti-lo mais, chegar ainda mais perto. Esfregoulhe as costas com as mãos. Queria sentir sua pele, mas as roupas dele a frustraram. Sem pensar, abriu a boca e empurrou a língua entre seus lábios. Ouviu um som vindo da garganta de Jack, como um abafado gemido de prazer.

      A porta do moinho se abriu, com uma batida. Aliena afastou-se de Jack.

      Subitamente se sentiu aturdida, como se estivesse dormindo e alguém a tivesse esbofeteado para que acordasse. Ficou horrorizada com o que estavam fazendo - beijando-se e esfregando-se como uma prostituta e um bêbado num bordel!

      Recuou e virou-se. Entre todas as pessoas do mundo, o intruso era Alfred, o que a fez se sentir pior. Ele a pedira em casamento três meses antes, e ela o rejeitara desdenhosamente. Agora ele a vira como uma cadela no cio. Parecia, de certa forma, hipócrita. Corou, envergonhada. Alfred a olhava fixamente, a expressão uma mistura de luxúria e desprezo que a fez se recordar de William Hamleigh. Ficou enojada de si própria por ter dado razão a Alfred para desprezá-la, e furiosa com Jack por sua participação.

      Desviou o olhar de Alfred e virou-se para Jack. Quando os olhos dele encontraram os seus, ele registrou o choque. Aliena percebeu que a raiva que sentia estava expressa no seu rosto, mas nada pôde fazer. A expressão de Jack de aturdida felicidade transformou-se em confusão e mágoa.

      Normalmente isso a teria feito ceder, mas agora estava demasiadamente irritada. Odiouo pelo que lhe tinha feito fazer. Rápida como um raio, deu-lhe uma bofetada no rosto. Jack não se mexeu, mas havia agonia no seu olhar...

      O rosto do rapaz ficou vermelho no lugar atingido. Ela não aguentou ver a dor nos seus olhos e obrigou-se a virar o rosto.

      Não podia ficar ali. Correu para a porta com o incessante barulho dos martelos nos seus ouvidos. Alfred saiu da frente depressa, parecendo quase assustado. Passou por ele correndo e cruzou a porta. Tom Construtor estava do lado de fora, com uma pequena multidão de operários.

      Todos haviam se dirigido ao moinho para descobrir o que estava se passando. Aliena passou correndo por eles, sem falar nada. Um ou dois a olharam com curiosidade, fazendo-a arder de vergonha; porém, estavam mais interessados no barulho das marteladas vindo do moinho. A parte friamente lógica da cabeça de Aliena lembrou que Jack tinha resolvido o problema de pisoar o seu tecido; mas a  idéia de que ele ficara acordado a noite inteira fazendo algo para ela só serviu para que se sentisse pior. Passou pelo estábulo, atravessou o portão do priorado e seguiu pela rua, as botas escorregando e deslizando na lama, até chegar em casa.

      Quando entrou, encontrou Richard. Estava sentado à mesa da cozinha, com um pedaço de pão e uma jarra de cerveja.

      - O rei Estêvão está em marcha - disse. - A guerra começou de novo. Preciso de outro cavalo.

     

      Nos três meses seguintes Aliena mal falou duas palavras seguidas com Jack.

      Ele se sentiu profundamente pesaroso. Ela o beijara como se o amasse, não havia engano quanto a isso. Quando Aliena saíra do moinho, ele estava certo de que se beijariam daquele jeito de novo muito em breve.

      Andara por toda parte numa espécie de deslumbramento erótico, pensando: Aliena me ama! Aliena me ama! Ela acariciara suas costas, pusera a língua dentro de sua boca e pressionara os seios contra ele.

      Não podia fingir que não o amava após aquele beijo. Esperou que ela vencesse a timidez. com a ajuda do carpinteiro do priorado fez um mecanismo de pisoar mais forte e permanente para o moinho velho, e Aliena teve o seu tecido pisoado. Ela lhe agradeceu com sinceridade, mas também com frieza na voz e fugindo do seu olhar.

      Quando a coisa continuou assim não apenas por uns poucos dias, mas por diversas semanas, ele foi forçado a admitir que havia algo seriamente errado. Uma onda de desilusão o envolveu e foi como se estivesse se afogando em tristeza. Ficou aturdido.

      Desejou angustiadamente ser mais velho; queria ter mais experiência com as mulheres, para poder dizer se Aliena era normal ou diferente, e se deveria ignorá-la ou se defrontar com ela.

      Estando incerto, e também temendo dizer a coisa errada e piorar tudo, acabou não fazendo nada; depois o constante sentimento de rejeição começou a importuná-lo, e ele se sentiu inútil, estúpido e impotente. Pensou em como era tolo por ter imaginado que a mulher mais desejável e inalcançável do condado pudesse se apaixonar por ele, um mero garoto. Ele a divertira por algum tempo, com suas histórias e anedotas, mas assim que a beijara como um homem ela fugira. Que tolo fora por ter esperanças de qualquer outra coisa!

      Após uma ou duas semanas dizendo a si próprio que era um idiota, começou a ficar furioso. Irritava-se no trabalho e os outros começaram a tratá-lo com cautela.

      Foi perverso com Martha, magoando-a quase tanto quanto Aliena o magoara. Nas tardes de domingo, gastava o dinheiro que ganhava jogando em brigas de galo.

      Toda a sua paixão se expressava através do seu trabalho. Estava cinzelando modilhões, pedras salientes que dão a impressão de suportar arcos ou colunas que não chegam ao chão.

      Frequentemente eram decorados com folhas, mas uma alternativa tradicional era cinzelar um homem que parecesse estar segurando o arco com as mãos ou escorando-o nas costas.

      Jack alterou só um pouco o padrão costumeiro, mas o efeito foi mostrar uma figura humana perturbadoramente retorcida, com uma expressão de dor, condenada à eterna agonia de sustentar o imenso peso da pedra. Jack sabia que seu trabalho era brilhante: ninguém mais era capaz de gravar uma figura que parecesse estar sentindo dor.

      Quando Tom o viu, sacudiu a cabeça, sem saber se se maravilhava com a expressividade da cinzelagem ou se desaprovava sua heterodoxia. Philip ficou muito emocionado.

      Jack não se importou com o que pensavam: achava que quem não gostasse daquilo era cego.

      Uma segunda-feira, na Quaresma, quando todo mundo estava irritadiço por não comer carne há três semanas, Alfred foi trabalhar com uma expressão de triunfo na fisionomia.

      Estivera em Shiring na véspera. Jack não sabia o que fora fazer ali, mas era claro que estava satisfeito.

      Na pausa da metade da manhã, quando Enid Brewster punha um barril de cerveja no meio do coro e vendia aos operários, Alfred pegou um penny e gritou:

      - Ei, Jack, filho de Tom, apanhe um pouco de cerveja para mim.

      Já sei que vai falar algo a respeito do meu pai, pensou Jack. Ignorou Alfred.

      - É melhor fazer o que lhe mandam, garoto - disse um dos carpinteiros, um homem mais velho chamado Peter. - Um aprendiz sempre devia obedecer a um mestre.

      - Não sou filho de Tom - disse Jack. - Tom é meu padrasto, e Alfred sabe disso.

      - Faça o que ele manda, mesmo assim - insistiu Peter, num Tom de voz conciliador.

      Relutantemente, Jack pegou o dinheiro de Alfred e entrou na fila.

      - O nome de meu pai era Jack Shareburg - disse, em voz alta. - Vocês todos podem me chamar de Jack, filho de Jack, se quiserem fazer uma diferença entre mim e Jack Ferreiro.

      - Jack Bastardo seria mais conveniente - disse Alfred.

      - Alguma vez já procuraram descobrir por que Alfred não amarra as botas? - perguntou Jack. Todos olharam para os pés de Alfred. Sim, suas botas pesadas e cheias de lama, que eram para ser amarradas até em cima, estavam abertas. - É para poder ver rapidamente os dedos dos pés, no caso de precisar contar acima de dez. - Os artesãos sorriram e os aprendizes gargalharam. Jack entregou o penny de Alfred a Enid e pegou um caneco de cerveja. Levou-o para Alfred e o entregou com uma pequena reverência satírica. O outro ficou aborrecido, mas não muito; ainda tinha um trunfo escondido na manga. Jack afastou-se e foi beber sua cerveja com os aprendizes, esperando que Alfred desistisse.

      Mas não haveria desistências. Poucos momentos depois ele o seguiu e disse:

      - Se Jack Shareburg fosse meu pai eu não diria a todo mundo tão depressa. Você não sabe o que ele era?

      - Menestrel - disse Jack, procurando dar um Tom de confiança à voz, mas com medo do que Alfred ia dizer. - Não creio que saiba o que quer dizer "menestrel".

      - Ele era ladrão - disse Alfred.

      - Oh, cale a boca, seu cabeça de merda. - Jack virou-se e tomou um gole da cerveja, mas quase não pôde engolir. Alfred tinha algum motivo para dizer aquilo.

      - Você não sabe como foi que ele morreu? - insistiu Alfred.

      Aí está, pensou Jack; foi isso que ele soube ontem em Shiring; é este o motivo pelo qual está exibindo esse sorriso idiota. Virou-se, relutantemente, e encarou Alfred.

      - Não, não sei como meu pai morreu, Alfred, mas acho que você vai me contar.

      - Ele foi enforcado, por ser um ladrão sujo.

      Jack soltou um grito involuntário de angústia. Sabia intuitivamente que era verdade. Alfred estava tão absolutamente seguro de si que não poderia ter inventado aquilo.

      E, num relâmpago, Jack viu que assim se explicava a reticência de sua mãe. Há anos ele temia secretamente algo assim. O tempo todo fingira que não havia nada de errado, que não era bastardo, que tinha um pai de verdade com um nome de verdade. Mas sempre temera que houvesse alguma desgraça envolvendo seu pai, que os insultos tivessem base real, que existisse mesmo algo de que se envergonhar. lá estava por baixo: a rejeição de Aliena o deixara se sentindo indigno e desprezível. A verdade sobre seu pai o atingiu como uma bofetada.

      Alfred ficou parado, sorrindo, extremamente satisfeito consigo mesmo: o efeito daquela revelação o deleitara. Sua expressão enfureceu Jack.

      Já era bastante ruim o fato de seu pai ter sido enforcado. O fato de Alfred se sentir feliz por causa disso, então, era demais para tolerar. Sem pensar, atirou a cerveja no seu rosto sorridente.

      Os outros aprendizes, que assistiam satisfeitos à discussão entre o filho e o enteado de Tom Construtor, recuaram depressa um ou dois passos. Alfred limpou a cerveja dos olhos, urrou de raiva e lançou à frente o punho enorme, num movimento surpreendentemente rápido para um homem tão grande. O soco atingiu o rosto de Jack com tanta força que, em vez de causar dor, provocou amortecimento.

      Antes que tivesse tempo de reagir, o outro punho de Alfred o acertou no meio do corpo. Esse soco doeu terrivelmente. Jack achou que nunca mais fosse respirar de novo. Encolheu-se e caiu no chão. Em seguida, Alfred lhe deu um pontapé na cabeça e Jack por um momento nada viu, exceto uma luz branca.

      Rolou no chão, às cegas, e lutou para se levantar. Mas Alfred ainda não estava satisfeito. Assim que Jack ficou de pé, sentiu que fora agarrado. Começou a debater-se.

      Estava assustado agora. Alfred não teria piedade. Seria espancado e reduzido a nada, se não conseguisse fugir. Por um momento Alfred segurouo com muita força e Jack não conseguiu se libertar, mas então recuou um dos punhos enormes para dar mais um  soco, e nesse instante Jack caiu fora.

      Disparou como uma flecha e Alfred correu atrás dele. Jack desviou-se de um barril de cal, puxando-o para que ficasse no caminho de Alfred e derramando cal no chão.

      Alfred pulou por cima do barril mas bateu num tonel de água que também derramou. Quando a água entrou em contato com a cal esta ferveu e chiou. Alguns operários, vendo o desperdício do dispendioso material, gritaram protestos, mas Alfred estava surdo a eles e Jack não podia pensar em nada a não ser fugir de Alfred. E seguiu correndo, ainda dobrado ao meio de dor e meio cego devido ao pontapé na cabeça.

      Alfred estava tão junto dele que esticou um pé e o derrubou. Jack se estatelou no chão. vou morrer, pensou, enquanto rolava de lado; Alfred vai me matar agora. Parou debaixo de uma escada encostada a um andaime que ia até a parte mais alta da obra.

      Alfred lançou-se sobre ele. Jack sentiu-se como um coelho encurralado. A escada o salvou. Quando Alfred passou por trás dela, Jack esquivou-se pela parte da frente e pulou nos degraus. Subiu a escada como um rato numa vala de lixo.

      Sentiu a escada balançar quando Alfred subiu no seu encalço. Normalmente era mais rápido que ele, mas ainda estava meio tonto e recurvado. Chegou ao topo da escada e passou para o andaime. Tropeçou e caiu contra a parede. As pedras tinham sido assentadas naquela manhã e a massa ainda estava úmida.

      Quando Jack as percorreu, toda uma seção deslocou-se e três ou quatro pedras escorregaram de lado e caíram. Pensou que fosse cair junto delas. Oscilou em cima da parede e, quando olhou para baixo, viu as  grandes pedras rolando sobre si próprias enquanto caíam mais de oitenta pés em cima dos telhados de meia-água dos galpões, construídos ao pé da parede.

      Endireitou-se, esperando que não houvesse ninguém nos galpões. Alfred acabou de subir a escada e avançou na sua direção por cima do instável andaime.

      Ele estava vermelho e ofegante, com os olhos cheios de ódio. Jack não tinha dúvida de que, naquele estado, era capaz de matar. Se me pegar, pensou, vai me atirar lá embaixo. Á medida que Alfred avançava, Jack recuava. Tropeçou em algo macio e percebeu que era um monte de massa. Inspirado, abaixou-se rapidamente, pegou um punhado e atirou com precisão nos olhos de Alfred.

      Cego, Alfred parou de avançar e sacudiu a cabeça, tentando se livrar da massa. Finalmente Jack tinha uma chance de fugir. Correu para a outra ponta da plataforma, tencionando descer, fugir do priorado o mais depressa possível e passar o resto do dia escondido na floresta. Mas, para seu horror, não havia escada na outra ponta. Não podia descer o andaime, pois este não chegava ao chão; era construído sobre travessas enfiadas em buracos na parede. Estava perdido.

      Olhou para trás. Alfred recuperara a visão e avançava.

      Não havia outro jeito de descer.

      Na parte inacabada da parede, onde o coro se encontraria com o transepto, cada carreira de pedras tinha a metade do comprimento da inferior criando um lance íngreme de degraus estreitos, às vezes usados pelos serventes mais ousados como meio alternativo de subir na plataforma.

      Com o coração na boca, Jack subiu, cuidadosa mas rapidamente, tentando não ver o tamanho do tombo que levaria caso escorregasse. Parou no topo e olhou para baixo.

      Chegou a ficar um pouco tonto. Olhou para trás. Alfred vinha vindo, sobre a parede. Ele desceu.

      Jack não conseguia entender por que Alfred estava tão destemido: nunca fora muito corajoso. Era como se o ódio tivesse amortecido sua noção de perigo. Enquanto desciam os degraus assustadoramente íngremes, ele se aproximou. Encontravam-se ainda a mais de doze pés do chão quando Jack percebeu que Alfred estava muito perto. Em desespero, saltou sobre o telhado de palha do galpão dos carpinteiros. Pulou para o chão, mas caiu de mau jeito, torcendo um tornozelo e levando um tombo.

      Cambaleando, pôs-se de pé. Os segundos que perdera caindo tinham possibilitado a Alfred chegar ao chão e correr para o galpão. Por uma fração de segundo Jack ficou de costas para a parede, e Alfred parou, esperando para ver em que direção ele pularia.

      Jack sofreu um momento de aterrorizada indecisão; depois, inspirado, deu um pulo e entrou no galpão.

      Não havia ninguém ali, pois todos estavam à volta do barril de Enid. Sobre os bancos havia os martelos, serrotes e formões dos carpinteiros, assim como as peças em que estavam trabalhando. No meio do chão havia um pedaço grande de uma forma nova, para ser usada na construção de um arco; no fundo, junto à parede da igreja, crepitava um fogo, alimentado pelas aparas e sobras de madeira.

      Não havia saída.

      Jack virou-se para enfrentar Alfred. Estava encurralado. Por um momento ficou paralisado de medo. Então o medo cedeu lugar à raiva. Não importa que eu morra, pensou, desde que faça Alfred sangrar antes. Não esperou que Alfred atacasse. Baixou a cabeça e arremeteu. Estava com tanta raiva que nem mesmo usou os punhos. Simplesmente se atirou contra ele com toda a força.

      Foi a última coisa pela qual Alfred esperava. A testa de Jack bateu na sua boca. O rapaz era duas ou três polegadas mais baixo e muito mais leve, mas assim mesmo o choque fez Alfred recuar. Quando Jack recuperou o equilíbrio, viu sangue nos lábios do outro e ficou satisfeito.

      Por um momento, o filho de Tom ficou surpreso demais para reagir. E foi nesse mesmo instante que Jack percebeu uma grande marreta de madeira encostada a um banco.

      Quando Alfred se recuperou e avançou, Jack levantou a marreta e a brandiu selvagemente com toda a força no golpe; novamente não atingiu Alfred; atingiu, contudo, a viga que sustentava o telhado do galpão.

      O galpão não era solidamente construído. Ninguém morava dentro dele.

      Sua única função era capacitar os carpinteiros a trabalhar em dias de chuva. Quando Jack atingiu a viga com a marreta, a viga se deslocou. As paredes eram frágeis painéis de ramos entrelaçados, e não participavam da sustentação do telhado, que cedeu. Alfred olhou para cima, atemorizado. Jack levantou a marreta. O filho de Tom recuou pela porta. Jack foi atrás dele de novo. Alfred recuou e, tropeçando numa pilha de madeira de pouca altura, caiu sentado pesadamente. Jack ergueu a marreta bem alto para desferir o golpe de misericórdia. Nesse momento seu braço foi fortemente imobilizado.

      Ele olhou para trás e viu o prior Philip, com uma expressão que não podia ser mais ameaçadora. Este torceu sua mão e o fez largar a marreta.

      Por trás do prior, o telhado do galpão desmoronou. Jack e Philip olharam. Quando caiu em cima do fogo, a palha seca se incendiou imediatamente e no momento seguinte o fogo já estava bem alto.

      Tom apareceu e apontou para os três operários mais próximos.

      - Você, você e você: tragam aquela pipa d'água que está em frente à ferraria. - Em seguida, virou-se para três outros:

      - Peter, Rolf, Daniel, apanhem baldes. Vocês, aprendizes, joguem terra em cima do fogo. E depressa com isso!

      Nos minutos que se seguiram todos se concentraram no incêndio, e Jack e Alfred fora esquecidos. O mais jovem saiu do caminho e ficou olhando, atônito, incapaz de fazer qualquer coisa. O filho de Tom se manteve a uma certa distância. Eu ia realmente esmagar a cabeça dele com uma marreta?, pensou Jack, incrédulo. A coisa toda parecia irreal. Ainda se encontrava em estado de choque quando a combinação de água e terra apagou as chamas.

      O prior Philip parou, contemplando toda aquela confusão, ofegante após tanto exercício.

      - Olhe só para isto! - exclamou para Tom, furioso. - Um galpão arruinado. O trabalho dos carpinteiros perdido. Um barril de cal desperdiçado e toda uma seção de pedras recém assentadas destruída.

      Jack percebeu que Tom estava encrencado; era sua obrigação manter a ordem no canteiro da obra, e Philip o responsabilizava pelo prejuízo. O fato de os culpados serem os filhos dele ainda piorava tudo.

      - A associação dos pedreiros resolverá o problema - disse com brandura, pondo a mão no braço do prior.

      Philip não estava disposto a ceder.

      - Eu trato disso - retrucou. - Sou o prior e todos vocês trabalham para mim.

      - Então permita que os pedreiros deliberem antes de tomar sua decisão - disse Tom, numa voz calma e ponderada.

      - Podemos sugerir uma solução que seja do seu agrado. Caso contrário, terá liberdade de fazer o que quiser.

      Philip relutava visivelmente em deixar a iniciativa sair de suas mãos, mas a tradição estava do lado de tom: os pedreiros se autodisciplinavam.

      - Muito bem - disse o prior após uma pausa. - Mas seja qual for a decisão de vocês, não aceitarei que seus dois filhos continuem trabalhando nesta obra. Um deles terá que ir embora. - Ainda fervendo de raiva, afastou-se com largas passadas.

      Lançando um olhar sombrio a Jack e Alfred, Tom afastou-se e entrou no maior galpão dos pedreiros.

      Seguindo Tom, Jack sabia que se metera em uma encrenca feia. Geralmente, quando os pedreiros puniam um deles, era por transgressões como beber no trabalho e furtar material de construção. O mais comum dos castigos era a aplicação de uma multa. Briga entre aprendizes costumava resultar em os dois brigões sendo postos num tronco por um dia, mas claro que Alfred não era aprendiz, e, de qualquer modo, brigas não causavam tantos danos. A associação podia expulsar quem trabalhasse por menos que o salário mínimo combinado. Podia também punir o membro que houvesse cometido adultério com a mulher de outro pedreiro, embora Jack nunca tivesse visto esse tipo de coisa. Teoricamente, os aprendizes podiam ser chicoteados; no entanto, embora às vezes houvesse a ameaça, Jack também nunca vira isso acontecer.

      Os mestres pedreiros encheram o galpão de madeira, sentados nos bancos e encostados à parede dos fundos, que, na realidade, era uma das laterais da igreja.

      - Nosso empregador está furioso, e com razão - disse Tom, quando todos entraram. - Esse incidente causou um bocado de danos. Pior ainda, trouxe desonra para nós, pedreiros. Temos que ser firmes com os culpados. Será o único modo de recuperar nossa boa reputação de operários orgulhosos e disciplinados, homens tão senhores de si próprios quanto do ofício que exercem.

      - Muito bem dito - aprovou Jack Ferreiro, e houve um murmúrio de concordância.

      - Só vi o fim da briga - prosseguiu Tom. - Alguém viu o começo?

      - Alfred atacou o rapaz - disse Peter Carpinteiro, o tal que havia aconselhado Jack a ser obediente e ir buscar a cerveja de Alfred.

      - Jack jogou cerveja na cara de Alfred - disse um jovem pedreiro que se chamava Dan e trabalhava para Alfred.

      - Mas Jack foi provocado - disse Peter. - Alfred insultou o pai natural do rapaz.

      Tom olhou para Alfred.

      - Isso é verdade?

      - Eu disse que o pai dele era ladrão - respondeu Alfred. - É verdade. Foi enforcado por roubo em Shiring. O xerife Eustace me disse ontem.

      Jack Ferreiro deu sua opinião.

      - Vai ser terrível se um mestre artesão tiver que conter a língua, temendo que o aprendiz não goste do que diz.

      Houve um murmúrio de aprovação. Jack percebeu, desanimado, que, o que quer que acontecesse, não ia conseguir se livrar daquela facilmente. Talvez meu destino seja me tornar um criminoso, como meu pai, pensou; talvez eu também termine na forca.

      - Ainda assim - retrucou Peter Carpinteiro, que estava assumindo o papel de defensor de Jack, afirmo que faz diferença se o artesão se dá ao trabalho de ir enfurecer o aprendiz.

      - Continua sendo necessário punir o aprendiz - disse Jack Ferreiro.

      - Não digo o contrário - retrucou Peter. - Só acho que o artesão precisa ser punido também. Os mestres artesãos têm que usar a sabedoria da sua idade para trazer paz e harmonia ao canteiro de obra. Se provocarem brigas estarão deixando de cumprir seu dever.

      Pareceu haver alguma concordância quanto a isso, mas Dan, que apoiava Alfred, disse:

      - É um princípio perigoso perdoar o aprendiz porque o mestre foi mau. Os aprendizes sempre acham que os mestres são maus. Desse jeito vamos terminar com os mestres sem nunca falar com os aprendizes, com medo de que os agridam devido a uma descortesia.

      Esse argumento teve acalorada aprovação, para revolta de Jack. Só demonstrava que a autoridade do mestre tinha que ser protegida, sem se dar importância a quem pudesse ter a razão em cada caso. Perguntou-se qual seria seu castigo. Não tinha dinheiro para pagar uma multa. Odiava a idéia de ser posto num tronco: o que Aliena pensaria? Mas o pior seria o açoitamento. Achava que ia querer esfaquear quem tentasseaçoitá-lo.

      - Não podemos nos esquecer - disse Tom - de que o nosso empregador também tem uma forte posição a respeito disso. Diz que não terá Alfred e Jack trabalhando na obra ao mesmo tempo. Um deles terá que ir embora.

      - Ele poderá ser convencido a desistir dessa posição? - perguntou Peter.

      Tom ficou pensativo.

      - Não - respondeu, após uma pausa.

      Jack ficou chocado. Não tomara o ultimato do prior Philip a sério. Mas Tom, sem dúvida, tomara.

      - Se um deles tem que ir embora - disse Dan, acredito que não haja dúvida quanto a quem será. - Dan era um dos pedreiros que trabalhava para Alfred, e não para o priorado, e se Alfred fosse embora provavelmente ele também precisaria ir.

      Mais uma vez Tom ficou pensativo e mais uma vez disse:

      - Não, não há dúvida. - Ele olhou para o enteado. - Jack vai ter que ir embora.

      Jack se deu conta de que subestimará fatidicamente as consequências da briga. No entanto, mal podia crer que fossem pôlo para fora. Como seria a vida se não trabalhasse na Catedral de Kingsbridge? Desde que Aliena se recolhera à sua concha, a catedral era tudo o que lhe importava. Como poderia ir embora?

      - O priorado poderia ceder e aceitar um compromisso disse Peter Carpinteiro. - Jack seria suspenso por um mês.

      Sim, por favor, pensou Jack.

      - Fraco demais - disse Tom. - Temos que ser vistos agindo decisivamente. O prior Philip não aceitará nenhuma solução branda.

      - Então, que seja assim - disse Peter, desistindo. - Esta catedral perde o mais talentoso jovem cinzelador que a maioria de nós já viu, só porque Alfred não consegue manter a maldita boca fechada. - Diversos pedreiros exprimiram sua aprovação a esse sentimento. Encorajado, Peter continuou: - Eu o respeito, Tom Construtor, mais do que respeitei qualquer outro mestre para quem tenha trabalhado, mas é preciso que se diga que é cego no que diz respeito a esse teimoso do seu filho.

      - Nada de injúrias, por favor - disse Tom. - Vamos nos ater aos fatos do caso.

      - Está bem - anuiu Peter. - Digo então que Alfred deve ser punido.

      - Por quê? - indagou Alfred, indignado. - Por ter batido num aprendiz?

      - Ele não é seu aprendiz, é meu - disse Tom. - E você fez mais que bater nele. Você o perseguiu por todo o canteiro da obra. Se o tivesse deixado fugir, a cal não teria sido derramada, o trabalho de cantaria, danificado, e o galpão dos carpinteiros, incendiado; e você poderia ter resolvido o caso com ele quando voltasse. Não havia necessidade de fazer o que fez.

      Os pedreiros concordaram.

      Dan, que parecia ter se tornado o porta-voz dos pedreiros de Alfred, disse:

      - Espero que você não proponha a expulsão de Alfred da associação. Eu, por exemplo, lutaria contra isso.

      - Não - disse Tom. - Já é bastante ruim perder um aprendiz talentoso. Não quero perder também um bom pedreiro, que chefia um grupo confiável. Alfred deve ficar, mas penso que deve ser multado.

      Os homens de Alfred pareceram aliviados.

      - Uma multa pesada - disse Peter.

      - Uma semana de salário - propôs Dan.

      - Um mês; duvido que o prior Philip se satisfaça com menos.

      - Sim - concordaram diversos homens.

      - Estamos todos pensando da mesma forma a esse respeito, irmãos pedreiros? - perguntou Tom, usando uma fórmula costumeira.

      - Sim - todos votaram, concordando.

      - Então comunicarei ao prior a nossa decisão. E quanto a vocês, é melhor que retornem ao trabalho.

      Jack, desconsolado, ficou observando os homens saírem, um após o outro. Alfred, cheio de si, lançou-lhe um olhar triunfante. Tom esperou que todos tivessem saído e se virou para Jack:

      - Fiz o melhor que pude por você. Espero que sua mãe veja isso.

      - Você nunca fez nada por mim! - explodiu Jack. - Não podia me alimentar, vestir ou me dar uma casa para morar. Éramos felizes até você aparecer, e então passamos fome!

      - Mas no fim...

      - Você nem sequer me protegeu desse bruto irracional que chama de seu filho!

      - Eu tentei...

      - Você nunca teria conseguido esse emprego se eu não tivesse incendiado a velha catedral!

      - O que foi que você disse?

      - Sim, eu incendiei a velha catedral. Tom ficou pálido.

      - Aquilo foi um relâmpago...

      - Não houve relâmpago. Era uma noite linda. E ninguém tinha acendido nada na catedral. Fui eu que incendiei o telhado.

      - Mas por quê?

      - Para que você pudesse arranjar trabalho. De outro modo minha mãe teria morrido na floresta.

      - Ela não...

      - Sua primeira mulher morreu, não foi?

      Tom ficou branco. De repente, pareceu muito mais velho. Jack percebeu que o ferira profundamente. Ganhara a discussão, mas decerto perdera um amigo. Sentiu-se amargurado e triste.

      - Dê o fora daqui - sussurrou Tom.

      Jack saiu.

      Afastou-se das imponentes paredes da catedral quase chorando. Sua vida fora devastada em poucos momentos. Era inacreditável que estivesse se afastando daquela igreja para sempre. No portão do priorado ele parou e se virou. Havia tantas coisas que estivera planejando!

      Queria cinzelar um portal inteiro sozinho, e persuadir Tom a ter anjos no clerestório; tinha um desenho inovador para a arcatura nos transeptos, que ainda não mostrara a ninguém. Agora nunca mais faria nenhuma dessas coisas. Era tão injusto! Seus olhos encheram-se de lágrimas.

      Voltou para casa com a visão enevoada. Sua mãe e Martha estavam sentadas à mesa da cozinha. Ellen estava ensinando a garota a escrever com uma pedra aguçada e uma lousa. Ficaram surpresas ao vê-lo.

      - Não pode ser hora do jantar - disse Martha. Ellen leu a expressão do filho.

      - O que foi?

      - Tive uma briga com Alfred e fui expulso do canteiro da obra - disse ele, carrancudo.

      - Alfred não foi expulso? - quis saber Martha.

      Jack balançou a cabeça.

      - Não é justo! - exclamou Martha.

      - Por que brigaram desta vez? - perguntou Ellen, cansada daquele tipo de coisa.

      - Meu pai foi enforcado em Shiring por roubo? - perguntou Jack.

      Martha levou um susto. Ellen pareceu triste.

      - Ele não era ladrão. Mas é verdade que foi enforcado em Shiring.

      Jack estava farto de declarações enigmáticas acerca de seu pai, e exclamou, brutalmente:

      - Por que você nunca me diz a verdade?

      - Porque ela me faz sentir muita tristeza!

      Para horror de Jack, sua mãe começou a chorar. Ele nunca a vira derramar uma lágrima sequer. Sempre fora tão forte! Quase cedeu também. Engoliu em seco e insistiu.

      - Se não era ladrão, por que foi enforcado?

      - Não sei! - exclamou Ellen. - Nunca soube. Tampouco ele soube o motivo. Disseram que roubou um cálice ornamentado com pedrarias.

      - De onde?

      - Daqui, do priorado de Kingsbridge.

      - Kingsbridge! Foi o prior Philip quem o acusou?

      - Não, não, foi muito tempo antes de Philip. - Ela fitou Jack com os olhos cheios de lágrimas. - Não comece a me perguntar quem o acusou e por quê. Não se deixe prender nesta armadilha. Você poderia passar o resto da vida tentando consertar um erro cometido antes de ter nascido. Não criei você para se vingar. Não faça disso a sua vida.

      Jack gostaria de saber mais alguma coisa a respeito do que ela estava dizendo; mas naquele exato momento só queria que parasse de chorar. Sentou-se ao lado dela no banco e passou um braço pelos seus ombros.

      - Bem, parece que a catedral não será mais a minha vida.

      - O que você vai fazer, Jack? - perguntou Martha.

      - Não sei. Não posso viver em Kingsbridge, posso?

      Martha ficou profundamente agitada.

      - Mas por que não?

      - Alfred tentou me matar e Tom me expulsou. Não vou morar com eles. De qualquer forma, sou homem. Tenho que deixar minha mãe.

      - Mas o que você vai fazer?

      Jack deu de ombros.

      - A única coisa que sei tem a ver com construção.

      - Você poderia trabalhar em outra igreja.

      - Suponho que eu seja capaz de amar outra catedral tanto quanto esta - disse ele, desanimado. Na verdade estava pensando: Mas nunca amarei outra mulher como amo Aliena.

      - Como foi que Tom fez isso com você? - indagou Ellen. Jack suspirou.

      - Não creio que fosse sua vontade. O prior Philip disse que não aceitaria ter Alfred e eu trabalhando ao mesmo tempo na obra.

      - Então aquele maldito monge está por trás disso! - exclamou sua mãe, furiosa. - Juro que...

      - Ele ficou muito zangado com o estrago que causamos.

      - Eu só queria saber se ele se deixaria convencer pela lógica.

      - O que você quer dizer com isso?

      - Dizem que Deus é misericordioso... Os monges talvez devessem ser misericordiosos também.

      - Você acha que eu deveria implorar a Philip? - perguntou Jack, de certa forma surpreso com o rumo do pensamento de sua mãe.

      - Eu estava pensando em falar com ele - disse ela.

      - Você! - Aquilo era ainda mais estranho. Para Ellen estar disposta a pedir misericórdia a Philip, devia estar terrivelmente perturbada.

      - O que você acha? - ela lhe perguntou.

      Tudo indicava que Tom pensara que Philip não seria misericordioso, rememorou Jack. Mas naquele momento, a principal preocupação de Tom fora conseguir que a decisão partisse da associação dos pedreiros. Tendo prometido a Philip que seriam firmes, Tom não podia pedir misericórdia. Ellen não se encontrava na mesma posição. Jack começou a se sentir um pouco mais esperançoso. Podia ser que não tivesse que ir embora, afinal de contas. Talvez pudesse ficar em Kingsbridge, perto da catedral e de Aliena.

      Não tinha mais esperanças de que ela o amasse, mas mesmo assim odiava a idéia de ir embora e nunca mais vê-la de novo.

      - Está bem - disse ele. - Vamos pedir ao prior Philip. Nada temos a perder senão o nosso orgulho.

      Ellen enfiou a capa e eles saíram juntos, deixando Martha sentada sozinha na mesa, ansiosa.

      Entraram no adro e foram direto para a casa do prior. Ellen bateu à porta e entrou. Tom estava ali com o prior Philip. Jack soube imediatamente, pela expressão deles, que Tom não contara a Philip que fora ele, Jack, quem incendiara a velha igreja.

      Sentiu-se aliviado. Provavelmente nunca mais contaria. Esse segredo estava salvo.

      Tom pareceu ansioso, se é que não um pouco amedrontado, quando viu Ellen. Jack recordou o que ele dissera: Fiz o melhor que pude por você. Espero que sua mãe veja isso. Tom estava se lembrando da última vez em que Jack e Alfred tinham brigado. Em consequência disso, Ellen o deixara. Tinha medo de que ela o deixasse agora.

      Philip não parecia mais furioso, na opinião de Jack. Talvez a decisão da associação de pedreiros o tivesse deixado satisfeito. Podia inclusive estar se sentindo um pouco culpado por causa da sua dureza.

      - Vim aqui para lhe suplicar que seja misericordioso, prior Philip - disse Ellen.

      Tom imediatamente pareceu aliviado.

      - Estou ouvindo - disse Philip.

      - Você está propondo mandar meu filho para longe de tudo o que ele ama - sua casa, sua família e seu trabalho.

      E a mulher que ele adora, pensou Jack.

      - Estou? - disse Philip. - Pensei que simplesmente o estivesse dispensando do seu trabalho.

      - Jack nunca aprendeu outro tipo de trabalho senão este, e não há outro canteiro de obra em Kingsbridge com serviço para ele. E o desafio de construir a imensa igreja entrou no seu sangue. Jack irá para onde quer que alguém esteja construindo uma catedral. Irá para Jerusalém, se lá houver pedra para ser cinzelada com anjos e demônios. - Como é que ela sabe?, pensou Jack. Ele próprio mal pensara naquilo. Mas era verdade. Ela continuou: - Pode ser que nunca mais eu o reveja. - Sua voz tremeu um pouco no fim da frase, e Jack pensou, admirado, que ela devia amá-lo muito. Sabia que nunca suplicara em seu próprio benefício daquele jeito.

      Philip pareceu compreensivo, mas foi Tom quem respondeu:

      - Não podemos ter Jack e Alfred trabalhando na mesma obra - disse obstinadamente. - Eles vão brigar de novo. Você sabe disso.

      - Alfred podia ir embora - disse Ellen.

      Tom ficou triste.

      - Alfred é meu filho.

      - Mas tem vinte anos de idade, e é ruim como um urso! - Embora ela falasse em tom afirmativo, seu rosto estava molhado de lágrimas. - Ele não liga para a catedral mais do que eu, e se sentiria perfeitamente feliz construindo casas para açougueiros e padeiros em Winchester e Shiring.

      - A associação não pode expulsar Alfred e ficar com Jack - disse Tom. - Além disso, a decisão já foi tomada.

      - Mas é a decisão errada!

      - Pode ser que haja outra resposta - disse Philip.

      Todos olharam para ele.

      - Pode ser que haja um jeito para Jack permanecer em Kingsbridge e se devotar à catedral, sem esbarrar em Alfred.

      Jack perguntou-se o que estava por vir. Aquilo era bom demais para ser verdade.

      - Preciso de alguém para trabalhar comigo - continuou Philip. - Gasto muito tempo tomando decisões parceladas sobre a obra. Preciso de uma espécie de assistente, que preencha o papel de encarregado da construção. Deverá resolver a maior parte dos problemas, trazendo-me apenas as questões mais importantes. Terá também que controlar o dinheiro e a matéria-prima, efetuando os pagamentos aos fornecedores e aos carroceiros, e encarregando-se também dos salários. Jack sabe ler e escrever, e é capaz de fazer contas mais depressa do que qualquer pessoa que eu já tenha conhecido...

      - E compreende cada um dos aspectos da construção da catedral - interrompeu Tom. - Eu me responsabilizo por isso.

      A cabeça de Jack estava girando a toda a velocidade. Ia poder ficar, afinal! Seria o escrevente da obra. Não faria trabalho de cinzelagem, mas supervisionaria todo o projeto em nome de Philip. Era uma proposta estonteante. Lidaria com Tom de igual para igual. Mas sabia que era capaz. E Tom sabia, também.

      Havia um obstáculo. Jack o expressou em voz alta:

      - Não posso mais morar na mesma casa que Alfred.

      - Já está na hora de Alfred ter uma casa - disse Ellen. - Se nos deixasse, talvez se dedicasse mais à procura de uma mulher.

      - Você não pára de imaginar razões para se livrar de Alfred! - exclamou Tom, furioso. - Não vou atirar meu filho para fora de minha casa!

      - Vocês não me entenderam, nenhum de vocês - disse Philip. - Não compreenderam totalmente minha proposta. Jack não estaria vivendo em sua companhia.

      Ele fez uma pausa. Jack adivinhou o que estava por vir, e foi o último e maior choque do dia.

      - Jack teria que morar aqui no priorado - disse Philip. Ele olhou para os três com a testa ligeiramente franzida, como se não tivesse conseguido perceber por que não tinham compreendido o que quisera dizer.

      Jack compreendera. Lembrou-se de Ellen dizendo, na véspera da entrada do verão, no ano anterior: Aquele prior ardiloso sempre dá um jeito de no fim conseguir o que deseja. Ela estava com a razão. Philip renovava agora a proposta que lhes tinha feito então. Mas dessa vez era diferente. A alternativa com que Jack se defrontava agora era desoladora. Sair de Kingsbridge e abandonar tudo o que amava. Podia também ficar, e perder a liberdade.

      - Meu escrevente da obra não pode ser leigo, é claro - concluiu Philip, num tom de voz de quem estava afirmando o óbvio. - Jack terá que se tornar monge.

     

      Na noite anterior à Feira de Lã de Kingsbridge, o prior Philip ficou acordado após os serviços da meia-noite, como sempre; mas em vez de ler e meditar em sua casa, deu uma volta pelo priorado. Era uma noite quente de verão, de céu claro e enluarada, e podia enxergar sem a ajuda de um lampião.

      Todo o adro fora tomado pela feira, com exceção dos prédios monásticos e do claustro, que eram sagrados. Em cada um dos quatro cantos fora escavada uma imensa latrina, para que o resto do adro não ficasse inteiramente sujo, e as latrinas foram protegidas com biombos, a fim de salvaguardar a sensibilidade dos monges.

      Literalmente centenas de bancas haviam sido construídas. As mais simples não passavam de balcões de madeira crua, apoiados em cavaletes. A maioria deles era um pouco mais elaborada: tinham uma placa com o nome do comerciante que a ocuparia, um desenho dos seus artigos, uma mesa separada para fazer as pesagens, e um armário ou depósito. Algumas bancas incorporavam barracas, fosse como defesa da chuva, fosse para realizar negócios em separado. As mais elaboradas eram pequenas casas, com grandes áreas de armazenamento, diversos balcões, mesas e cadeiras, onde o comerciante poderia oferecer sua hospitalidade aos fregueses importantes. Philip se espantara quando o primeiro carpinteiro dos comerciantes chegara, uma semana antes da feira, e exigira que lhe mostrassem o lugar onde construiria sua banca. Entretanto, a estrutura que ele erigira levara quatro dias para ser feita e dois para ser abastecida.

      Philip planejara inicialmente a disposição das bancas em duas avenidas largas, seguindo a mesma configuração do mercado semanal, mas logo percebeu que não seria suficiente. As duas avenidas de bancas corriam agora também ao longo do lado norte da igreja, virando depois para leste, até a casa de Philip; e havia inclusive estandes dentro da igreja inacabada, nos corredores entre os pilares. Os arrendatários não eram, de modo algum, exclusivamente mercadores de lã; tudo era vendido na feira, desde pão de massa grossa a rubis.

      Philip seguiu ao longo das fileiras de bancas iluminadas pelo luar. Estavam todas prontas agora, claro: nenhuma outra construção seria autorizada no dia da feira.

      A maioria já estava com os produtos que seriam vendidos. O priorado, até agora, recolhera mais de dez libras em taxas e direitos. As únicas coisas que poderiam ser trazidas naquele dia eram comidas recém preparadas, pão, tortas quentes e maçãs assadas. Até mesmo os barris de cerveja tinham sido trazidos na véspera.

      Enquanto Philip seguia seu caminho, era observado por dúzias de olhos semi-abertos, e cumprimentado por diversos grunhidos sonolentos. As pessoas que tinham montado estandes não iriam deixar seus preciosos artigos sem uma guarda: a maioria dormira neles, e os mais ricos deixaram criados tomando conta.

      Ele ainda não estava certo de quanto dinheiro faria com a feira, mas o sucesso dela estava virtualmente garantido, e Philip confiava em atingir sua estimativa original de cinquenta libras. Tinha havido momentos, naqueles últimos meses, em que temera que a feira não fosse se realizar. A guerra civil se arrastara, sem que Matilde ou Estêvão conseguissem superioridade um sobre o outro, mas sua licença não fora revogada. William Hamleigh tentara sabotar a feira de diversos modos. Dissera ao xerife que a interditasse, mas o xerife pedira uma ordem de um dos dois monarcas rivais, que, no entanto, não fora expedida. William proibira os moradores de suas propriedades de vender lã em Kingsbridge; porém, de qualquer forma a maioria deles já tinha o hábito de vender para mercadores como Aliena em vez de comerciá-la pessoalmente, de modo que o principal efeito da sua determinação fora criar mais negócios para ela.

      Por fim ele tinha anunciado que ia reduzir as taxas de aluguel e impostos da Feira de Lã de Shiring para os níveis que Philip estava cobrando; mas seu comunicado chegou muito tarde para fazer diferença, pois os grandes compradores e vendedores já haviam feito seus planos.

      Agora, com o céu ficando perceptivelmente mais claro no oriente, na manhã do grande dia, William não podia fazer mais nada. Os vendedores ali se encontravam com seus artigos, e em em breve os compradores estariam começando a chegar. Philip achava que William acabaria por descobrir que a feira de Kingsbridge iria prejudicar a de Shiring menos do que ele temia. As vendas de lã pareciam crescer todos os anos, sem falhar: O volume dos negócios era suficiente para duas feiras.

      Ele fizera a volta completa em torno do adro até o canto sudoeste, onde ficavam os moinhos e o lago dos peixes. Parou um pouco, observando a água correr silenciosamente pelos dois moinhos. Um agora era usado apenas para pisoar tecidos, e rendia um bocado de dinheiro. O jovem Jack era o responsável por isso. Tinha um cérebro engenhoso. Ele ia ser uma tremenda vantagem para o priorado.

      Parecia ter se acomodado bem como noviço, embora tendesse a considerar os serviços religiosos como uma distração da obra da catedral, em vez de ser o contrário.

      No entanto, aprenderia. A vida monástica era uma influência santificante. Philip achava que Deus tinha um propósito para Jack. No fundo, bem no fundo do coração, ele nutria uma esperança secreta para o futuro distante: que um dia Jack tomasse o seu lugar como prior de Kingsbridge.

      Jack se levantou de madrugada e esgueirou-se para fora do dormitório antes do serviço da prima para fazer uma última inspeção do canteiro da obra. O ar da manhã era frio e claro, como a água pura de uma nascente. Seria um dia quente e ensolarado, bom para os negócios, bom para o priorado.

      Contornou as paredes da catedral, certificando-se de que todas as ferramentas e peças em processo de confecção tivessem sido seguramente trancadas dentro dos galpões.

      Tom construíra leves cercas em torno das pilhas de madeira e pedra, a fim de protegê-las de danos acidentais causados por visitantes descuidados ou bêbados.

      Não queriam que indivíduos mais afoitos resolvessem galgar a estrutura da obra, de modo que todas as escadas foram escondidas, e as escadas em espiral embutidas nas grossas paredes fechadas com portas temporárias.

      Da mesma forma, as extremidades inacabadas das paredes, que podiam servir de degraus, foram obstruídas por blocos de madeira. Alguns dos mestres artesãos estariam patrulhando o canteiro da obra o dia inteiro, para não ter dúvida de que não haveria danos.

      Jack conseguia escapulir de um grande número de serviços, de um jeito ou de outro. Havia sempre algo a ser feito na obra. Não tinha o ódio da sua mãe pela religião cristã, mas era mais ou menos indiferente. Não sentia entusiasmo, mas estava disposto a fazer o que era esperado, se isso atendesse às suas conveniências. Fazia questão de comparecer a um serviço por dia, geralmente um a que comparecesse também ou o prior Philip ou o mestre dos noviços, que eram os dois monges decanos que mais provavelmente notariam sua presença ou sua ausência.

      Não daria para aguentar se tivesse que comparecer a tudo. Ser monge era o modo de vida mais estranho e pervertido que ele podia imaginar. Os monges passavam metade da vida submetendo-se a dores e desconfortos que poderiam evitar, com facilidade, e a outra metade resmungando uma algaravia sem sentido em igrejas vazias a todas as horas do dia e da noite. Abstinham-se deliberadamente de tudo o que fosse bom - garotas, esportes, boa comida e vida em família. Jack notara, no entanto, que os mais felizes entre eles tinham, em geral, encontrado alguma atividade que lhes dava profunda satisfação: ilustrar manuscritos, escrever história, cozinhar, estudar filosofia, ou - como Philip - transformar Kingsbridge numa cidade próspera com uma catedral.

      Jack não gostava do prior, mas gostava de trabalhar com ele. Não simpatizava com religiosos profissionais mais que sua mãe. Sentia-se embaraçado com a piedade de Philip; não gostava de sua inocência ingênua; e desconfiava da sua tendência de crer que Deus cuidaria de tudo o que ele, Philip, não conseguisse resolver. Mesmo assim, era bom trabalhar com ele. Suas ordens eram claras, deixava espaço para Jack decidir sozinho, e nunca culpava os outros pelos seus erros.

      Jack era noviço há três meses, de modo que não lhe pediriam que fizesse os votos senão dentro de nove meses. Os três votos eram pobreza, celibato e obediência. O voto de pobreza não era bem o que parecia. Os monges não tinham propriedades pessoais ou dinheiro, mas viviam mais como lordes que como camponeses - tinham boa comida, roupas quentes e belas casas de pedra para morar. O celibato não era problema, pensou Jack com amargura. Sentira uma certa satisfação ao contar pessoalmente a Aliena que ia entrar para o mosteiro. Ela lhe parecera abalada e culpada. Agora, sempre que sentia a irritabilidade advinda da falta de companhia feminina, pensava em como Aliena o tratara - os encontros secretos na floresta, as noites de inverno, as duas vezes em que a beijara - e depois se lembrava de como de repente ela se tornara fria como gelo e dura como uma rocha. Pensar nisso o fazia sentir que jamais iria querer ter coisa alguma com as mulheres. No entanto, o voto de obediência seria difícil de cumprir, podia afirmar desde já. Gostava de receber ordens de Philip, que era inteligente e organizado; porém, era difícil obedecer ao idiota do subprior, Remigius, ou ao bêbado do mestre dos noviços, ou ainda ao pomposo sacristão.

      Mesmo assim, estava pensando em fazer os votos. Não tinha que cumpri-los. Tudo o que lhe importava era a construção da catedral. Os problemas de suprimento, construção e administração eram absorventes e nunca terminavam. Um dia podia ter que ajudar Tom a imaginar um método para se assegurar de que o número de pedras que chegavam ao canteiro da obra fosse igual ao número que saía da pedreira - um problema complexo, porque o tempo de viagem variava de dois a quatro dias, de modo que não era possível ter um simples registro diário.

      Outro dia os pedreiros podiam se queixar de que os carpinteiros não estavam fazendo as formas adequadamente. Os problemas que representavam o maior desafio eram os de engenharia, tais como descobrir o modo de levantar toneladas de pedras até o topo das paredes, usando equipamento improvisado preso em andaimes frágeis. Tom Construtor discutia esses problemas com Jack de igual para igual. Parecia ter perdoado aquele seu discurso furioso, em que afirmara que Tom nunca tinha feito nada por ele. E agia como se tivesse esquecido a revelação de que Jack ateara fogo à velha catedral. Trabalhavam juntos entusiasmadamente, e os dias passavam voando. Até mesmo durante os tediosos cultos religiosos, a mente de Jack estava ocupada com alguma questão complicada de construção ou planejamento.

      Seu conhecimento estava se ampliando com rapidez. Em vez de passar anos cinzelando pedras, estava aprendendo a construir uma catedral. Dificilmente poderia haver melhor treinamento para quem queria ser mestre construtor. Para ter isso, Jack estava preparado para bocejar durante qualquer número de matinas rezadas à meia-noite.

      O sol estava aparecendo sobre a muralha leste do adro. Tudo estava em ordem no canteiro da obra. Os comerciantes que tinham passado a noite nas bancas começavam a dobrar e guardar os colchões e arrumar seus artigos. Os primeiros fregueses logo chegariam. Um padeiro passou por Jack carregando uma bandeja de pães recém-assados. O cheiro do pão quente fez Jack salivar. Virou-se e voltou para o mosteiro, dirigindo-se para o refeitório, onde em breve serviriam o desjejum.

     

      Os primeiros fregueses foram as famílias dos comerciantes e os habitantes da cidade, todos curiosos para ver a primeira Feira de Lã de Kingsbridge, nenhum deles muito interessado em comprar. As pessoas econômicas tinham enchido a barriga em casa com pão e mingau, de modo que não se sentiriam tentadas pelas ofertas muito temperadas e coloridas das bancas de comida. As crianças andavam por toda parte com os olhos arregalados, aturdidas com a exibição de tantas coisas desejáveis. Uma prostituta madrugadora e otimista, com lábios e botas vermelhas, saracoteava de um lado para o outro, sorrindo esperançosamente para os homens de meia-idade, mas não havia fregueses àquela hora.

      Aliena a tudo assistia do seu estande, que era um dos maiores. Nas semanas anteriores recebera todo o produto do rebanho do priorado, a lã pela qual pagara cento e sete libras no último verão.

      Comprara também de fazendeiros, como sempre fazia - esse ano houvera mais vendedores que o comum, porque William Hamleigh proibira seus arrendatários de vender na feira de Kingsbridge, de modo que eles tinham vendido tudo para os comerciantes.

      E, entre eles, coubera a Aliena a maior parte dos negócios, por ser baseada em Kingsbridge, onde a feira seria realizada.

      Saíra-se tão bem que ficara sem dinheiro para continuar comprando, e pedira quarenta libras a Malachi para tocar o negócio. Agora, no depósito que formava a parte de trás do seu estande, tinha cento e sessenta sacos de lã crua, o produto de quarenta mil carneiros, que lhe tinham custado mais de duzentas libras, mas que venderia por trezentas, dinheiro suficiente para pagar os salários de um pedreiro qualificado por mais de um século. A escala do seu negócio a assombrou, quando repassou os números.

      Não esperava ver seus compradores senão ao meio-dia. Seriam apenas cinco ou seis. Todos se conheceriam, e ela conheceria quase todos dos anos anteriores. Daria a cada um um copo de vinho, se sentaria e conversaria um pouco. Depois mostraria sua lã.

      O comprador lhe pediria para abrir um saco ou dois - nunca o de cima da pilha, claro. Enfiaria a mão no fundo do saco e traria um punhado de lã. Esticaria os fios, para determinar seu comprimento, esfregaria entre o indicador e o polegar para testar a maciez e cheiraria. Por fim proporia a compra de todo o estoque por um preço ridiculamente baixo, que Aliena recusaria. Ela lhe diria o preço que desejava, e ele sacudiria a cabeça. Os dois tomariam outro copo de vinho.

      Aliena passaria pelo mesmo ritual com os outros compradores. Daria almoço a todos que ali estivessem ao meio-dia. Alguém lhe ofereceria comprar uma grande quantidade de lã por um preço não muito acima do que ela pagara. Ela faria uma contraproposta, abaixando seu preço um pouquinho. No início da tarde começaria a fechar negócios. Sua primeira venda seria a um preço mais baixo. Os outros mercadores exigiriam que fizesse esse negócio com eles pelo mesmo preço, mas se recusaria. Seu preço iria subindo no decurso da tarde. Se subisse rápido demais, as transações seriam lentas, enquanto os comerciantes calculavam quanto tempo levariam para preencher suas cotas em outra parte.

      Se pedisse menos do que eles estavam dispostos a pagar, ela saberia, pela relativa rapidez com que chegassem a um acordo.

      Fecharia os negócios um por um, e seus criados iriam dando início ao carregamento dos carros de boi com suas enormes rodas de madeira, e Aliena pesaria o dinheiro.

      Não tinha dúvida de que nesse dia ganharia mais do que nunca. Tinha uma quantidade duas vezes maior para vender, e os preços da lã estavam subindo. Planejava comprar a produção de Philip novamente com um ano de antecedência, e tinha um plano secreto para construir uma casa de pedra, com depósitos espaçosos para armazenar lã, um salão elegante e confortável e um lindo quarto no segundo andar só para ela. Seu futuro estava seguro, e tinha confiança de que seria capaz de sustentar Richard enquanto ele precisasse dela. Tudo estava perfeito.

      Por isso mesmo era tão estranho que se sentisse tão completamente infeliz.

     

      Fazia quatro anos, quase que exatamente, que Ellen retornara a Kingsbridge, e tinham sido os melhores quatro anos da vida de Tom.

      A dor pela morte de Agnes já não era tão aguda. Ainda o acompanhava, mas não tinha mais aquela sensação embaraçosa de que ia irromper em lágrimas a qualquer instante, sem um motivo aparente. Ainda travava conversas imaginárias com ela, nas quais lhe falava sobre as crianças, o prior Philip e a catedral, mas eram menos frequentes. Sua agridoce lembrança não matara o amor que tinha por Ellen. Era capaz de viver com o presente. Ver Ellen e tocá-la, falar-lhe e dormir com ela eram as alegrias da sua vida.

      Ficara profundamente sentido no dia da briga de Jack com Alfred, porque seu enteado dissera que nunca tomara conta dele; essa acusação ofuscara inclusive a terrível revelação de que fora Jack quem ateara fogo à velha catedral. Sofrera com aquilo por diversas semanas, mas no fim decidira que o rapaz estava errado. Fizera o máximo que pudera, e nenhum homem poderia ter feito mais. Tendo chegado a essa conclusão, parara de se preocupar.

      Construir a Catedral de Kingsbridge era o trabalho mais satisfatório que jamais fizera. Era o responsável pelo projeto e pela execução. Ninguém interferia em suas decisões e não havia ninguém mais para culpar se algo saísse errado. À medida que as imponentes paredes subiam, com seus arcos cheios de ritmo, suas cornijas graciosas e seus trabalhos de cinzelagem, ele podia contemplar tudo e pensar: Fiz isto, e fiz bem.

      O pesadelo de que se veria de novo na estrada, sem dinheiro, sem trabalho, sem meios de alimentar as crianças, parecia muito afastado, agora que tinha uma arca reforçada cheia até a boca com pennies de prata enterrada no chão da cozinha. Ainda estremecia quando se lembrava daquela noite extremamente fria em que Agnes dera à luz Jonathan e morrera; mas achava que nada assim tão ruim iria acontecer de novo.

      Às vezes se perguntava por que ele e Ellen não haviam tido filhos. Ambos tinham sido comprovadamente férteis no passado, e não faltavam oportunidades para ela engravidar - ainda faziam amor quase todas as noites, mesmo após quatro anos. Não era, contudo, causa de grande mágoa. O pequenino Jonathan era a menina dos seus olhos.

      Tom sabia, de experiência passada, que o melhor modo de aproveitar uma feira era com uma criancinha, e por isso procurou Jonathan na metade da manhã, quando as multidões começavam a chegar. O menino era quase uma atração por si só, vestido com o seu hábito pequenino. Ultimamente pedira que lhe raspassem a cabeça; Philip consentira - o prior gostava tanto do garotinho quanto Tom, e o resultado era que agora se parecia mais que nunca com um monge em miniatura. Havia diversos anões de verdade no meio da multidão, fazendo truques e mendigando, e eles fascinaram Jonathan. Tom teve que fazê-lo sair correndo de perto de um que atraíra um bando de gente ao expor seu pênis avantajado.

      Havia malabaristas, acrobatas e músicos se exibindo e pedindo dinheiro a quem assistia a eles; adivinhos, cirurgiões e prostitutas procurando aliciar fregueses; provas de força, competições de luta e jogos de azar. Todos usavam suas roupas mais coloridas, e quem podia tinha se banhado de perfume e passado óleo nos cabelos. Todos pareciam ter dinheiro para gastar, e o que mais se ouvia era o retinir das moedas de prata.

      Jonathan nunca vira um urso e ficou fascinado com o esporte que estava por se iniciar. Tratava-se de açular cães contra um urso acorrentado. O pêlo castanho-acinzentado do urso tinha cicatrizes em diversos pontos, indicando que sobrevivera pelo menos à prova anterior. Uma corrente pesada fora passada na sua cintura e presa numa estaca enterrada fundo no chão. O urso caminhava de quatro no limite da corrente, olhando colérico para a multidão que aguardava. Tom teve a impressão de distinguir um brilho de astúcia nos olhos da fera. Fosse um jogador, teria apostado no urso.

      Os latidos frenéticos vinham de uma caixa fechada nas proximidades. Os cães estavam ali dentro e podiam sentir o cheiro do seu inimigo. De vez em quando o urso parava de andar de um lado para o outro, olhava para a caixa e grunhia; então o ladrar se intensificava até chegar às raias da histeria.

      O proprietário dos cães e guardião do urso estava aceitando apostas. Jonathan ficou impaciente e Tom já estava prestes a ir embora quando ele finalmente destrancou a caixa. O urso ficou de pé nas patas de trás, no limite máximo da corrente, e rosnou.

       O homem gritou qualquer coisa e escancarou a porta da caixa.

      Cinco galgos pularam de dentro dela. Eram leves e se moviam rapidamente; as bocas abertas exibiam dentes pequenos e agudos. Todos correram na direção do urso, que os golpeou com as imensas patas. Acertou num cachorro e o atirou no ar; os outros recuaram.

      A multidão comprimiu-se, querendo aproximar-se mais. Tom avaliou a posição de Jonathan; o garoto estava na frente, mas ainda bem longe do alcance do urso. Este foi bastante esperto, recuou para junto da estaca, fazendo com que a corrente ficasse frouxa. Desse modo não seria detido assim que arremetesse contra algum cachorro.

      Mas os cães também foram espertos. Depois do frustrado ataque inicial, eles se agruparam e se dispuseram em círculo. O urso, agitado, começou a rodar, tentando ver todos ao mesmo tempo.

      Um dos cachorros atirou-se contra o urso, latindo ferozmente. A fera foi ao seu encontro e atacou. O cachorro se retraiu e os outros quatro adiantaram-se correndo, vindo de todas as direções. O urso girou, procurando varrê-los. A multidão urrou quando três deles enfiaram os dentes na carne das suas ancas. Ele se levantou nas patas traseiras com um urro de dor, sacudindo-os, e eles se espalharam de qualquer maneira, fugindo ao seu alcance.

      Os cachorros repetiram a tática. Tom pensou que o urso fosse cair na esparrela de novo. O primeiro cão se lançou, colocando-se ao alcance da fera, que reagiu, fazendo-o recuar; mas quando os outros cães avançaram, o urso estava preparado - virou-se rapidamente, atacou o mais próximo e deu-lhe uma patada na ilharga. A multidão se entusiasmou tanto com o urso quanto antes com os cachorros. As garras afiadas do animal deixaram três riscos de sangue na pele sedosa do cão, que ganiu e retirou-se da briga para lamber as feridas. A multidão vaiou sua retirada.

      Os quatro cães restantes circulavam em torno do urso cautelosamente, encenando o ataque ocasional mas recuando bem antes do ponto perigoso. Alguém começou a bater palmas devagar. Um cão executou um ataque frontal.

      Avançou com a rapidez de um relâmpago, esgueirou-se por baixo da trajetória das patadas do urso e saltou no seu pescoço. A multidão enlouqueceu. O cachorro mergulhou os dentes pontiagudos no pescoço possante do urso. Os outros atacaram. O urso ficou de pé, batendo no que estava preso ao seu pescoço, depois desceu e rolou no chão. Por um momento Tom não foi capaz de dizer o que estava acontecendo: era só uma confusão de pêlos. Até que três cachorros pularam fora e o urso se endireitou e ficou em cima das quatro patas, deixando o cão que o mordera esmagado no chão, morto.

      A multidão ficou tensa. O urso eliminara dois cachorros, deixando três; mas sangrava nas costas, pescoço e patas traseiras, e parecia assustado. O ar estava impregnado pelo cheiro de sangue e do suor de toda aquela gente. Os cachorros haviam parado de latir e circulavam em torno do urso silenciosamente. Também pareciam assustados, mas tinham provado o gosto de sangue e queriam matar.

      Seu novo ataque começou do mesmo modo: um deles avançou e se retraiu rapidamente. Sem muita convicção, o urso lhe deu uma patada e se virou para encarar o segundo cachorro. Mas dessa vez este também recuou depressa e colocou-se fora do alcance; depois o terceiro fez o mesmo. Os cães surgiam e sumiam como flechas, um de cada vez, mantendo o urso em constante movimento. Em cada corrida se aproximavam mais da fera, bem como as garras desta se aproximavam mais deles. Os espectadores perceberam o que estava acontecendo e a excitação da turba aumentou. Jonathan ainda estava na frente, a poucos passos de Tom, parecendo atemorizado. Este olhou de novo para a briga no momento em que as garras do urso atingiam um cão, e outro avançava por entre as patas traseiras da enorme fera e mordia sua barriga macia.

      O urso produziu um barulho que parecia um grito. O cão recuou velozmente e conseguiu escapar. Outro cachorro atacou. O urso reagiu, errando por polegadas; então o mesmo cão o atacou na parte inferior da barriga. Dessa vez, quando fugiu, deixou a fera com uma enorme ferida sangrando no abdómen. O urso levantou-se e voltou a ficar sobre as quatro patas. Por um momento Tom pensou que o animal estivesse liquidado, mas se enganou: ainda era capaz de lutar. Quando foi atacado, reagiu com uma débil patada, virou a cabeça, viu o segundo cão se aproximando, girou com rapidez surpreendente e o atingiu com um golpe poderoso que o mandou longe, voando pelos ares. A multidão urrou, deleitada.

      O animal caiu ao chão como um saco de carne. Tom observou-o por um momento. O cão estava vivo, mas parecia incapaz de se mover. Talvez tivesse quebrado a espinha. O urso o ignorou, pois estava fora de alcance e de ação.

      Agora só havia dois cachorros remanescentes. Ambos atacaram e recuaram diversas vezes, com velocidade, até que suas arremetidas se tornaram perfunctórias; então começaram a circular em torno do urso, sempre mais e mais depressa. O urso girava, tentando não perdê-los de vista.

      Exausto e sangrando copiosamente, mal conseguia ficar de pé. Os cães prosseguiram o movimento giratório, com círculos cada vez menores. A terra embaixo das poderosas patas do urso tinha virado lama, de tanto sangue. De um modo ou de outro, o final estava à vista. Enfim os dois cachorros atacaram ao mesmo tempo. Um a garganta, e o outro, a barriga. com uma última e desesperada patada, o urso acertou o que o pegara no pescoço. O sangue saiu em jorro. A turba berrou sua aprovação.

      A princípio Tom pensou que o cão matara o urso, mas foi o contrário: o sangue vinha do galgo, que caiu no chão com a garganta aberta. Seu sangue bombeou mais um pouco, e depois parou. Estava morto. Mas nesse meio tempo o último cão rasgara a barriga do urso, cujas tripas estavam caindo. A fera tentava se defender, sem forças, mas o cão se evadia facilmente e atacava de novo, mordendo seus intestinos.

      O urso oscilou e pareceu que ia cair. O rugido da multidão foi aumentando. As vísceras do animal exalavam um fedor repugnante. Ele reuniu o resto de suas forças e atacou de novo. A pancada pegou no cachorro, que pulou de lado, com sangue escorrendo de uma ferida nas costas; porém, era uma coisa superficial, e o cão sabia que o urso estava liquidado, de modo que voltou imediatamente à ofensiva, mordendo as tripas dele até que, por fim, o grande animal fechou os olhos e desabou no chão, morto.

      O dono do urso adiantou-se e pegou o cão vitorioso pela coleira. O açougueiro de Kingsbridge e seu aprendiz avançaram e começaram a cortar o urso, para aproveitar sua carne: Tom supôs que tivessem combinado um preço antecipadamente. Os que tinham ganho suas apostas exigiram pagamento. Todos queriam fazer festa no cão sobrevivente. Tom procurou Jonathan. Não conseguiu vê-lo.

      A criança estivera apenas a algumas jardas de distância durante toda a briga. Como conseguira desaparecer? Devia ter acontecido nos momentos mais emocionantes, em que Tom se concentrara no espetáculo. Agora estava com raiva de si próprio. Procurou-o no meio da multidão. Tom era umas oito polegadas mais alto que todo mundo, e Jonathan podia ser facilmente localizado, com seu hábito de monge e sua cabeça raspada, porém não conseguia vê-lo em parte alguma.

      A criança não tinha muito o que temer no priorado, mas era bem possível que deparasse com coisas que o prior Philip preferia que não visse: prostitutas atendendo a seus clientes junto ao muro, por exemplo. Olhando à sua volta, Tom viu um andaime bem alto, encostado à obra da catedral; levantando a cabeça, distinguiu em cima dali um pequeno vulto vestido de monge.

      Teve um momento de pânico. Quis gritar: Não se mexa., você vai cair!, mas suas palavras teriam se perdido no barulho da feira. Abriu caminho através da multidão, na direção da catedral. Jonathan estava correndo ao longo do andaime, absorto em alguma brincadeira imaginária, sem tomar conhecimento do perigo de escorregar e cair de oitenta pés de altura para a morte...

      Tom sufocou o terror que subia como bílis para a sua boca.

      O andaime não repousava no solo, e sim em cima de vigas pesadas, inseridas em buracos construídos para isso, bem no alto das paredes. Elas se projetavam da parede cerca de seis pés. Estacas bem sólidas eram colocadas sobre as vigas e amarradas. Depois se colocavam em cima das estacas painéis de colmo entrelaçado e galhos flexíveis. Normalmente ia-se para o andaime pelas escadas em espiral embutidas nas paredes.

      Mas essas escadas estavam fechadas nesse dia, por causa da feira. Então, como Jonathan subira? Não havia escadas - Tom verificara, e depois Jack se certificara novamente. O garoto devia ter trepado pelo lado não concluído da parede. As seções inacabadas, que formavam naturalmente uma espécie de escada, haviam sido bloqueadas; Jonathan, porém, podia ter escalado justo os blocos de madeira.

      O menino tinha muita autoconfiança - mesmo que levasse um tombo por dia, no mínimo.

      Tom chegou junto à parede e olhou para cima, apavorado. Jonathan estava brincando alegremente a oitenta pés de altura. O medo apertou o coração de Tom com garras de gelo, e ele berrou com toda a força:

      - Jonathan!

      As pessoas à sua volta se espantaram e olharam para cima, querendo saber com quem estava gritando. Quando localizaram uma criança no andaime, apontaram para que os amigos também a vissem. Uma pequena multidão se reuniu.

      Jonathan não escutou. Tom pôs as duas mãos em torno da boca, em forma de concha, e gritou de novo:

      - Jonathan! Jonathan!

      Dessa vez o menino ouviu. Olhou para baixo, viu Tom e acenou.

      - Desça! - gritou Tom.

      O menino parecia prestes a obedecer, mas olhou a parede em cima da qual teria que caminhar e o íngreme lance de degraus que precisaria descer, e mudou de idéia.

      - Não posso! - gritou, em resposta, e sua voz aguda veio flutuando até as pessoas que estavam ali embaixo, olhando para ele.

      Tom percebeu que ia ter de subir para pegá-lo.

      - Fique onde está até que eu o apanhe! - gritou. Empurrou para longe os blocos de madeira que obstruíam os degraus mais baixos e subiu por cima da parede.

      Ela media cerca de quatro pés na base, mas se estreitava à medida que ficava mais alta. Tom subiu com calma. Teve ímpetos de correr, mas se controlou. Ao olhar para cima viu Jonathan sentado na beira do andaime, balançando as perninhas curtas sobre o espaço vazio.

      No topo a parede tinha apenas dois pés de espessura. Mesmo assim, era larga o bastante para que uma pessoa andasse por cima, desde que tivesse nervos fortes, e Tom os tinha. Progrediu ao longo da parede, pulou para o andaime e pegou Jonathan no colo.

      O alívio que sentiu foi imenso.

      - Seu bobo - disse, mas sua voz estava cheia de amor, e Jonathan o abraçou com força.

      Após um momento Tom olhou para baixo de novo. Viu um mar de rostos: mais de cem pessoas assistiam a tudo. Provavelmente pensavam que fosse outro espetáculo, como o do urso e dos cachorros.

      - Tudo bem - disse Tom para Jonathan. - Vamos descer agora. - Colocou o menino em cima da parede. - Estarei logo atrás de você, de modo que não precisa se preocupar.

      Jonathan não se convenceu.

      - Estou com medo - disse. Levantou os bracinhos para ser apanhado no colo e, quando Tom hesitou, desatou a chorar.

      - Não faz mal, eu carrego você - disse Tom. Não ficou muito satisfeito, mas do jeito que Jonathan estava não se podia confiar nele. Adiantou-se, ajoelhou-se ao seu lado, pegou-o no colo e se levantou.

      Jonathan se segurou com força. com o menino no colo, Tom não conseguiu ver as pedras que estavam diretamente sob seus pés. Mas não tinha outro jeito. com o coração na boca, caminhou cautelosamente, colocando os pés devagar sobre a parede, um na frente do outro. Não tinha medo por si, mas, com o garoto nos braços, estava aterrorizado. Finalmente viu o início dos degraus. Não era mais largo no princípio, mas de certa forma parecia menos íngreme. Começou a descida, agradecido. A cada passo se sentia mais calmo. Quando atingiu o nível da galeria e a parede alargou-se para quase três pés, parou para esperar que o coração batesse mais devagar.

      Olhou para fora, para além do adro, por cima de Kingsbridge, e viu algo que o intrigou nos campos que precediam a cidade: uma nuvem de poeira sobre a estrada que levava ao priorado, a quase uma milha de distância.

      Após um momento percebeu que estava olhando para o efetivo de uma grande tropa a cavalo, aproximando-se da cidade a trote. Tentou descobrir de que se tratava.

      A princípio pensou que podia ser um comerciante muito rico, ou um grupo de mercadores, com uma grande comitiva, mas eles eram numerosos, e de certa forma não pareciam gente dedicada a atividades comerciais.

      Quando se aproximaram, viu que muitos montavam cavalos de batalha, a maioria usava elmos, e todos estavam armados até os dentes.

      De repente teve medo.

      - Jesus Cristo, quem são aquelas pessoas? - exclamou, em voz alta.

      - Não diga o nome de Cristo - repreendeu-o Jonathan. Quem quer que fossem, representavam encrenca.

      Tom desceu correndo o resto dos degraus. A multidão bateu palmas quando pulou no chão. Ignorou todas aquelas pessoas, preocupado em descobrir onde estariam Ellen e as crianças. Não as viu por perto.

      Jonathan tentou se libertar dos seus braços. Tom o segurou com força. Como estava com seu caçula ali, a primeira coisa que tinha a fazer era colocá-lo em algum lugar seguro. Depois podia procurar os outros. Abriu caminho por entre a multidão até a porta que dava para o claustro. Estava fechada por dentro, a fim de preservar a privacidade do mosteiro durante a feira. Tom bateu nela e gritou:

      - Abram! Abram!

      Nada aconteceu.

      Não tinha certeza de que havia alguém no claustro, mas não havia tempo para especular. Recuou, pôs Jonathan no chão, levantou o pé direito enorme, calçado com uma bota, e chutou a porta. A madeira em torno da fechadura se lascou. Chutou de novo, com mais força. A porta se escancarou. Logo do outro lado estava um monge já velho, parecendo atônito. Tom pegou Jonathan e o colocou no interior do claustro.

      - Prenda-o aí dentro - disse para o velho monge. - Vai haver confusão.

      O monge assentiu silenciosamente e pegou a mão de Jonathan.

      Tom fechou a porta.

      Agora precisava encontrar o resto de sua família numa multidão de mais de mil pessoas.

      A quase impossibilidade da tarefa o assustou.

      Não localizou um rosto conhecido. Subiu num barril de cerveja vazio para ver melhor. Era meio-dia e a feira estava no auge. A multidão se deslocava como um rio vagaroso pelas avenidas por entre os estandes, e havia remoinhos em torno dos vendedores de comida ou bebida,  onde se formavam filas para comprar o almoço.

      Tom examinou aquela gente toda, mas não pôde ver ninguém da sua família. Ficou desesperado. Olhou por cima dos telhados das casas. Os cavaleiros estavam quase na ponte, e tinham passado a galopar. Eram homens de armas, todos eles, e carregavam archotes. Tom ficou horrorizado. Haveria um massacre.

      De repente viu Jack ao seu lado, fitando-o com uma expressão divertida.

      - Por que está aí em cima desse barril? - perguntou ele.

      - Vai haver problema! - disse Tom nervosamente. - Onde está sua mãe?

      - No estande de Aliena. Que tipo de problema?

      - Coisa séria. Onde estão Alfred e Martha?

      - Martha está com mamãe. Alfred, nas brigas de galo. O que é?

      - Veja você mesmo - Tom deu a mão para ajudar Jack, que se equilibrou precariamente na borda do barril, em frente a ele. Os cavaleiros atravessavam a ponte a galope e entravam na aldeia.

      - Cristo Jesus! - disse Jack. - Quem são eles?

      Tom examinou o líder, um homem grande num cavalo de batalha. Reconheceu o cabelo louro e o corpanzil.

      - É William Hamleigh - disse.

      Quando os cavaleiros atingiram a região construída atiraram os archotes nos telhados, ateando fogo à palha.

      - Estão queimando a cidade! - explodiu Jack.

      - Vai ser pior ainda do que eu pensava - disse Tom. - Desça.

      Os dois pularam para o chão.

      - Vou buscar mamãe e Martha - disse Jack.

      - Leve-as para o claustro - disse Tom, aflito. - Será o único lugar seguro. Se os monges reclamarem, mande-os à merda.

      - E se eles trancarem a porta?

      - Acabei de arrombar o fecho. Vá depressa! Vou buscar Alfred. Ande!

      Jack saiu correndo. Tom dirigiu-se para a rinha de galos, empurrando rudemente quem estivesse à sua frente. Alguns homens não gostaram, mas ele os ignorou, e todos se calaram ao ver seu tamanho e a férrea determinação expressa no seu rosto. Não se passou muito tempo e a fumaça das casas incendiadas chegou ao priorado. Tom sentiu o cheiro e notou uma ou duas pessoas fungando o ar, curiosas. Tinha apenas alguns momentos antes de o pânico se apoderar de todos.

      A rinha ficava perto do portão do priorado. Havia uma multidão barulhenta em torno dela. Tom abriu caminho à força, procurando Alfred. No meio da multidão havia um buraco raso com uns poucos pés de diâmetro. No centro desse buraco, dois galos se rasgavam mutuamente em tiras com o bico e as esporas. Havia penas e sangue por toda parte. Alfred estava perto da primeira fila, observando atentamente, gritando a plenos pulmões, encorajando uma ou outra das infortunadas aves.

      Tom forçou o caminho e agarrou Alfred pelo ombro.

      - Venha! - gritou.

      - Estou com seis pence no preto! - respondeu Alfred, com outro grito.

      - Temos que sair daqui! - berrou Tom. Aquela altura uma nuvem de fumaça passou por cima da rinha. - Não está sentindo o cheiro do fogo?

      Um ou dois espectadores ouviram a palavra "fogo" e lançaram um olhar de curiosidade para Tom. O cheiro veio de novo, e eles o sentiram. Alfred também sentiu.

      - O que está acontecendo?

      - A cidade está pegando fogo! - respondeu Tom.

      De repente todo mundo quis ir embora. Os homens se dispersaram em todas as direções, se empurrando e se acotovelando. Na rinha, o galo preto matou o marrom, mas ninguém se importou. Alfred partiu na direção errada. Tom o agarrou.

      - Vamos para o claustro - disse. - É o único lugar seguro.

      A fumaça começou a chegar em grandes nuvens, e o medo se espalhou pela multidão. Todo mundo ficou agitado, mas ninguém sabia o que fazer. Olhando por cima da cabeça dos outros, Tom viu que estavam procurando sair pelo portão do priorado; porém o portão era estreito e, de qualquer forma, não estariam mais seguros do lado de fora do que ali.

      Mesmo assim, mais e mais pessoas tiveram a mesma idéia, e Tom e Alfred de súbito se viram lutando contra uma onda de gente seguindo freneticamente na direção oposta.

      Depois, ainda mais súbito, a maré virou, e todos passaram a querer ir na mesma direção que eles. Tom olhou para trás a fim de descobrir a razão da mudança, e viu que o primeiro dos homens a cavalo entrara no adro.

      Nesse ponto a multidão se transformou numa turba. Os cavaleiros constituíam uma visão aterradora. Seus imensos cavalos, quase tão amedrontados quanto as pessoas, arremetiam, empinavam e avançavam, derrubando gente por todos os lados. Os cavaleiros armados e protegidos por elmos se atiravam sobre o povaréu com porretes e archotes, derrubando homens, mulheres e crianças, e ateando fogo nos estantes, nas roupas e nos cabelos das pessoas. Todo mundo gritava. Mais cavaleiros passaram pelo portão, e mais gente desapareceu sob as patas gigantescas. Tom gritou no ouvido de Alfred:

      - Vá para o claustro! Quero me certificar de que os outros conseguiram sair. Corra! - E empurrou o filho, que saiu correndo.

      Tom disparou para o estande de Aliena. Quase que no mesmo instante, tropeçou em alguém e caiu no chão. Praguejando, ficou de joelhos mas antes que pudesse pôr-se de pé viu um cavalo de batalha caindo sobre ele. As orelhas do animal estavam projetadas para trás, e suas narinas, dilatadas; Tom pôde ver o branco dos seus olhos aterrorizados. Acima da cabeça do cavalo, Tom viu o rosto gordo de William Hamleigh, retorcido numa careta de ódio e triunfo. Como um relâmpago, passou pela sua cabeça a idéia de que seria bom ter Ellen nos braços uma vez mais. Nesse instante uma pata enorme o acertou no centro exato da testa, ele sentiu uma dor horrível e assustadora, quando seu crânio pareceu abrir-se, e o mundo inteiro ficou preto.

     

      A primeira vez em que Aliena sentiu o cheiro de fumaça, pensou que viesse da refeição que estava servindo.

      Três compradores flamengos estavam sentados na mesa ao ar livre, em frente ao seu depósito. Eram homens corpulentos e de barba negra, que falavam inglês com forte sotaque germânico e usavam roupas de tecido requintadamente fino. Tudo ia correndo bem.

      Estava prestes a dar início às vendas, e decidira servir primeiro a refeição a fim de dar aos compradores tempo para ficarem ansiosos. Não obstante isso, ficaria contente quando aquela fortuna em lã passasse para as mãos de outra pessoa. Colocou a travessa de costelas de porco tostadas na frente deles e as examinou criticamente.

      A carne tinha sido assada ao ponto, com a beira de gordura crocante e dourada. Serviu o vinho. Um dos compradores fungou, procurando sentir o cheiro, e depois todos olharam ansiosos.

      Aliena sentiu-se de repente apavorada. O fogo era o pesadelo do comerciante de lã. Olhou para Ellen e Martha, que a estavam ajudando a servir a comida.

      - Estão sentindo cheiro de fumaça? - perguntou. Antes que elas pudessem responder, Jack apareceu. Aliena ainda não se habituara a vê-lo vestido de monge, com o cabelo cor de cenoura raspado na parte superior da cabeça. Havia uma expressão agitada no seu rosto doce.

      Sentiu ímpeto de toma-lo nos braços e fazer aquela ruga de preocupação desaparecer da sua testa com um beijo. Mas virou-se rapidamente, lembrando como ele se decepcionara com ela no moinho velho, seis meses antes. Ainda ficava ruborizada sempre que rememorava o incidente.

      - Há problemas - gritou ele, nervoso. - Temos que nos refugiar no claustro.

      Ela o encarou.

      - O que está acontencendo? É um incêndio?

      - É o conde William e seus homens de armas - disse ele. Aliena se sentiu rapidamente tão fria quanto um túmulo.

      William. De novo.

      - Eles tocaram fogo na cidade - disse Jack. - Tom e Alfred estão indo para o claustro. Venha comigo, por favor.

      Sem a menor cerimônia, Ellen largou a tigela de legumes que carregava em cima da mesa, em frente a um assustado comprador flamengo.

      - Certo - disse ela. Agarrou Martha pelo braço. - Vamos.

      Aliena lançou um olhar de pânico para o seu depósito. Tinha centenas de libras em lã crua ali dentro e era preciso protegê-la do fogo - mas como? Olhou para Jack.

      Ele a fitava, cheio de expectativa. Os compradores deixaram a mesa apressadamente. Aliena disse a Jack:

      - Vá. Tenho que tomar conta do meu estande.

      - Jack - disse Ellen. - Vamos!

      - Já vou - respondeu ele, e se voltou para Aliena.

      A jovem viu que Ellen hesitava. Estava claramente dividida entre salvar Martha e esperar por Jack. Mais uma vez ela chamou:

      - Jack! Jack!

      - Mãe! Leve Martha! - disse ele, virando-se.

      - Está bem! - disse ela. - Mas por favor, ande depressa!

      Ela e Martha foram embora.

      - A cidade está em chamas - disse Jack. - O claustro será o lugar mais seguro: é feito de pedra. Venha comigo, rápido!

      Aliena podia ouvir gritos vindos da direção do portão do priorado. De repente a fumaça estava por toda parte. Ela olhou em torno, tentando fazer uma idéia do que estava acontecendo. Tinha a sensação de que suas vísceras estavam cheias de nós, de tanto medo. Tudo aquilo por que trabalhara durante mais de seis anos estava empilhado ali no depósito.

      - Aliena! - gritou Jack. - Vamos para o claustro; estaremos a salvo lá!

      - Não posso! Minha lã!

      - Ao inferno com a sua lã!

      - É tudo o que tenho!

      - De nada vai adiantar se você estiver morta!

      - É fácil para você dizer isso, mas levei todos esses anos até chegará posição em que estou...

      - Aliena! Por favor!

      De repente, as pessoas logo ali perto do estande estavam gritando, mortalmente aterrorizadas. Os cavaleiros haviam entrado no adro e arremetiam contra a multidão, indiferentes a quem derrubavam, ateando fogo aos estandes. As pessoas, apavoradas, se esmagavam umas às outras, em suas desesperadas tentativas para sair da frente das patas dos cavalos e dos archotes.

      A frágil Cerca de madeira que formava a frente do estande de Aliena, pressionada pela multidão, logo cedeu e foi derrubada. Homens e mulheres espalharam-se no espaço aberto à frente do depósito e viraram a mesa com seus pratos de comida e copos de vinho.

      Jack e Aliena se viram forçados a recuar. Dois cavaleiros carregaram sobre o estande, um deles brandindo aleatoriamente um porrete e o outro, um archote flamejante. Jack colocou-se na frente de Aliena, protegendo-a. O porrete desceu sobre a cabeça dela, mas Jack ergueu o braço e recebeu o impacto no pulso. A jovem sentiu o vento produzido pelo golpe e quando levantou a cabeça viu o rosto do segundo cavaleiro.

      Era William Hamleigh.

      Aliena gritou.

      Ele olhou para ela por um momento, com o archote ardendo na mão e o brilho do triunfo cintilando nos olhos. Depois esporeou o cavalo e o obrigou a entrar no depósito.

      - Não! - gritou Aliena.

      Ela lutou para se libertar de todos aqueles empurrões, murros e acotovelamentos que a cercavam, inclusive de Jack. Finalmente conseguiu e correu para o depósito.

      William continuava montado, mas se abaixara para encostar o archote nos sacos de lã.

      - Não! - gritou ela de novo. Atirou-se sobre ele e tentou arrancá-lo de cima do cavalo. William a empurrou e Aliena caiu no chão. Ele encostou o archote nos sacos de lã novamente. A lã pegou fogo com uma forte crepitação. O cavalo recuou e gritou, aterrorizado com as chamas. Subitamente Jack apareceu e tirou Aliena do caminho. William fez sua montaria girar e saiu depressa do depósito. A jovem levantou-se.

      Pegou um saco vazio e tentou abafar as chamas com ele.

      - Aliena, você vai morrer! - gritou Jack.

      O calor ficou insuportável. Ela agarrou um saco que ainda não incendiara e tentou puxá-lo. De repente percebeu um barulho junto aos ouvidos e sentiu um calor intenso no rosto; percebeu, apavorada que seu cabelo pegara fogo.

      No instante seguinte Jack jogou-se de encontro a ela, passando os braços em torno da sua cabeça e puxando-a com força de encontro ao próprio corpo. Ambos caíram no chão. Ele ainda a segurou com força por um momento e depois reduziu a pressão.

      O cabelo de Aliena cheirava a chamuscado mas já não estava em chamas. Ela viu que o rosto de Jack estava queimado e suas sobrancelhas tinham desaparecido. Ele a agarrou por um tornozelo e arrastou-a porta afora. Continuou puxando, a despeito da reação dela, até que estavam a salvo.

      A área do estande se esvaziara. Jack largou-a. Ela tentou se levantar, mas ele a agarrou de novo e forçou-a a ficar abaixada. Aliena continuou a lutar, olhando fixa e furiosamente para o fogo que estava consumindo todos os seus anos de trabalho e preocupações, toda a sua riqueza e segurança, até que não teve mais energia para lutar com Jack. Então se deixou ficar ali sentada e gritou.

     

      Philip estava no depósito embaixo da cozinha do priorado, contando dinheiro com Cuthbert Cabeça Branca, quando ouviu o barulho. Ele e Cuthbert se entreolharam, preocupados, e depois se levantaram para ver o que estava acontecendo.

      Ao atravessarem a porta, deram com um tumulto.

      Philip ficou horrorizado. As pessoas corriam em todas as direções, se empurrando, caindo e tropeçando umas nas outras. Homens e mulheres gritavam e crianças choravam.

      O ar estava impregnado de fumaça. Todo mundo parecia querer fugir do priorado. A não ser pelo portão principal, a única saída era pelo intervalo entre as construções da cozinha e o moinho. Não havia parede ali, mas uma vala funda que conduzia água do lago do moinho para a cervejaria. Philip quis gritar, avisando que tivessem cuidado com a vala, mas ninguém estava ouvindo ninguém.

      A causa da correria era obviamente um incêndio, e de grandes proporções. O ar estava denso de fumaça. Philip encheu-se de medo. com tanta gente reunida ali, a tragédia poderia ser horrível. O que havia a fazer?

      Primeiro tinha que descobrir o que estava acontecendo exatamente. Subiu correndo a escada da porta da cozinha para ter uma visão melhor. O que viu o encheu de terror.

      Toda a cidade de Kingsbridge estava em chamas.

      Um grito de horror e desespero escapou de sua garganta.

      Como aquilo poderia estar ocorrendo?

      Foi então que viu os cavaleiros galopando por entre a multidão com seus archotes e percebeu que não fora um acidente. Sua primeira idéia foi de que estava se travando ali uma batalha entre os dois lados da guerra civil. Mas os homens de armas atacavam os cidadãos, e não uns aos outros. Aquilo não era uma batalha: era um massacre.

      Philip viu um homem grande e louro, montado num imenso cavalo de batalha, esmagando a multidão. Era William Hamleigh.

      O ódio subiu à garganta de Philip. Pensar que todas aquelas mortes e tanta destruição eram causadas deliberadamente, por orgulho e ambição, deixou-o meio enlouquecido.

      Gritou com toda a força dos pulmões:

      - Estou vendo você, William Hamleigh!

      William ouviu seu nome por cima dos gritos da multidão. Sofreou o cavalo e encarou Philip.

      - Você irá para o inferno por causa disto! - gritou Philip.

      A sede de sangue congestionara o rosto de William. Nem mesmo a ameaça daquilo que mais temia fez efeito sobre ele. Parecia um louco. Brandiu o archote no ar como uma bandeira.

      - O inferno é isto aqui, monge! - retrucou, com outro grito. Depois girou o cavalo e foi embora.

     

      De repente tudo desaparecera, tanto os cavaleiros quanto toda aquela gente. Jack soltou Aliena e levantou-se. Sua mão direita estava dormente. Lembrou-se de que recebera o golpe destinado à cabeça dela. Ficou satisfeito porque sua mão doía. Seria bom que doesse por muito tempo, para relembrá-lo.

      O depósito de lã era um verdadeiro inferno de chamas, com incêndios menores por toda parte. O chão estava juncado de corpos, uns se mexendo, outros sangrando, e outros ainda imóveis. A não ser pelo crepitar das chamas, tudo estava em silêncio. A multidão se retirara, de um modo ou de outro, deixando para trás seus mortos e feridos. Jack sentiu-se atordoado. Nunca vira um campo de batalha, mas imaginava que deveria ser algo assim.

      Aliena começou a chorar. Jack pôs uma das mãos em seu ombro, querendo consolá-la. Ela a afastou. Salvara sua vida, mas isso não importava; a única coisa que tinha importância era sua maldita lã, agora irrecuperavelmente transformada em fumaça. Fitou-a por um momento, sentindo-se triste. A maior parte do seu cabelo queimara, e sua aparência já não podia ser considerada bonita; no entanto, amava-a assim mesmo. Magoava-o vê-la sofrer tanto e não ser capaz de fazer nada por ela.

      Jack tinha certeza, de que ela não tentaria entrar no depósito agora. Estava preocupado com o resto de sua família, de modo que deixou Aliena.

      Seu rosto doía. Tocou-o com a mão, o que foi muito doloroso. Devia ter se queimado também. Olhou para os corpos no chão. Queria fazer algo pelos feridos, mas não sabia como começar. Procurou rostos familiares no meio de tanta gente estranha, na esperança de não achar nenhum. Sua mãe e Martha haviam ido para o claustro muito tempo antes da multidão.

      E Tom, teria encontrado Alfred? Virou-se na direção do claustro. Foi então que viu o padrasto.

      Seu corpo muito alto estava esticado no chão lamacento. Absolutamente imóvel. O rosto era reconhecível, e tinha mesmo uma expressão de tranquilidade, até as sobrancelhas; mas a testa estava aberta e o crânio, completamente esmagado. Jack ficou horrorizado. Não podia aceitar o que via. Não era possível que Tom estivesse morto. Mas aquele homem não podia estar vivo. Desviou o olhar, e examinou de novo.

      Era Tom, e estava morto.

      Jack ajoelhou-se ao lado do corpo. Ansiava por fazer algo, ou por dizer qualquer coisa, e pela primeira vez entendeu por que as pessoas gostavam de rezar pelos mortos.

      - Mamãe vai sentir muito a sua falta! - exclamou. Lembrou-se do discurso furioso que lhe fizera, no dia da briga com Alfred. - A maior parte daquilo não era verdade - disse, e as lágrimas começaram a correr. - Você não falhou. Você me alimentou, tomou conta de mim e fez minha mãe feliz, verdadeiramente feliz.

      Entretanto, havia algo mais importante que tudo aquilo, pensou. O que Tom lhe dera não era nada tão comum quanto alimento e abrigo. Era algo único, que nenhum outro homem tinha, que nem mesmo seu próprio pai poderia ter lhe dado; uma paixão, uma técnica, uma arte, um modo de ganhar a vida.

      - Você me deu a catedral - sussurrou para o homem morto. - Muito obrigado.

 

     1142 - 1145

      O triunfo de William foi arruinado pela profecia de Philip; em vez de se sentir satisfeito e exultante, ficou aterrorizado porque iria para o inferno devido ao que fizera.

      Respondera corajosamente a Philip, mas na excitação do combate. Quando este acabou, e ele levou seus homens para longe da cidade em chamas, quando a andadura dos cavalos e o ritmo dos corações ficaram mais lentos, quando teve tempo para rememorar a incursão e pensar em quantas pessoas havia ferido, queimado e matado, então se lembrou do rosto colérico de Philip, do seu dedo apontando diretamente para as profundezas da terra, e das palavras fatídicas: "Você irá para o inferno por causa disto!"

      No começo da noite estava completamente deprimido. Seus homens de armas queriam falar sobre a operação, revivendo os pontos altos e deleitando-se com a matança, mas logo se contaminaram com o seu estado de espírito e caíram em melancólico silêncio.

      Passaram aquela noite na propriedade de um dos mais importantes arrendatários de William.

      Na hora da ceia, os homens beberam, carrancudos, até perderem os sentidos. O dono da casa, sabendo como normalmente os homens se sentem após uma batalha, trouxe algumas prostitutas de Shíring; mas elas fizeram pouco negócio. William ficou acordado a noite inteira, apavorado com a perspectiva de morrer durante o sono e ir direto para o inferno.

      Na manhã seguinte, em vez de retornar a Earlscastle, foi ver o bispo Waleran. Ele não estava no palácio quando chegaram, mas o deão Baldwin lhe disse que era esperado naquela tarde. William aguardou na capela, olhando fixamente para a cruz no altar e tremendo, apesar do calor de verão.

      Quando afinal Waleran chegou, William teve ímpetos de beijar-lhe os pés.

      O bispo entrou na capela, vestido de negro, e perguntou com frieza:

      - O que você está fazendo aqui?

      William levantou-se, tentando esconder seu terror abjeto atrás de uma fachada de autocontrole.

      - Acabei de queimar a cidade de Kingsbridge.

      - Eu sei - interrompeu Waleran. - Não ouvi outra coisa o dia inteiro. O que deu em você? Ficou maluco?

      Aquela reação tomou William completamente de surpresa. Não discutira a operação com Waleran antes por estar certo de que ele aprovaria: o bispo odiava tudo o que dissesse respeito a Kingsbridge, em especial ao prior Philip. Esperara que ele se mostrasse satisfeito, quando não exultante.

      - Acabei de arruinar o seu maior inimigo. Agora preciso confessar meus pecados.

      - Não me surpreende - disse Waleran. - Dizem que mais de cem pessoas morreram queimadas. - Ele estremeceu. - Uma maneira horrível de morrer.

      - Estou pronto para confessar - disse William.

      Waleran sacudiu a cabeça.

      - Não sei se posso lhe dar a absolvição.

      Um grito de medo escapou dos lábios de William.

      - Por que não?

      - Você sabe que o bispo Henry de Winchester e eu passamos para o lado do rei Estêvão novamente. Não creio que o rei aprove o fato de eu absolver um partidário da rainha Matilde.

      - Maldito seja, Waleran! Foi você quem me convenceu a mudar de lado!

      - Mude de novo - retrucou o bispo, dando de ombros. William percebeu que era aquele o objetivo de Waleran.

      Queria que William retornasse para o lado de Estêvão. O horror do bispo com relação ao incêndio de Kingsbridge fora simulado. Apenas estivera estabelecendo uma base para a barganha. Tal percepção trouxe enorme alívio para Hamleigh, pois significava que Waleran não se opunha irremediavelmente a absolvê-lo. Mas queria ele mudar de lado mais uma vez? Por um momento não disse nada, tentando pensar com calma.

      - Estêvão tem obtido vitórias todo o verão - continuou Waleran. - Matilde está implorando ao marido para que venhã da Normandia a fim de ajudá-la, mas ele não virá. A maré está a nosso favor.

      Uma perspectiva horrível abriu-se diante de William: a Igreja se recusava a absolvê-lo de seus crimes; o xerife o acusava de homicídio; um vitorioso rei Estêvão apoiava o xerife e a Igreja; e William era julgado e enforcado...

      - Faça como eu, e siga o bispo Henry: ele sabe de que lado sopra o vento - instou Waleran. - Se tudo der certo, Winchester será promovida a arquidiocese, e Henry será o arcebispo de Winchester, no mesmo nível do de Canterbury. E quando Henry morrer, quem sabe? Poderei ser o arcebispo seguinte. Após isso... bem. lá existem cardeais ingleses; um dia poderá haver um papa inglês...

      William olhou para o bispo, fascinado, a despeito do medo que sentia, pela ambição revelada na fisionomia normalmente inexpressiva do bispo. Waleran como papa? Tudo era possível. Mas as consequências imediatas das aspirações do bispo eram mais importantes.

      William podia ver que era um peão em seu jogo. Waleran ganhara prestígio com o bispo Henry, pela sua capacidade de fazer William e os cavaleiros de Shiring trocarem de lado na guerra civil. Era o preço que William tinha de pagar para que a Igreja  fechasse os olhos para os seus crimes.

      - Você está querendo dizer...  - Sua voz estava rouca. Tossiu e tentou outra vez. - Você está querendo dizer que ouvirá minha confissão se eu jurar fidelidade a Estêvão e voltar para o seu lado?

      O brilho desapareceu dos olhos de Waleran e seu rosto ficou inexpressivo de novo.

      - É exatamente o que quis dizer - confirmou. William não tinha escolha, mas de qualquer modo não via razão para recusar. Passara para o lado de Matilde quando tudo indicava que ela estava vencendo, e se dispunha a trocar mais uma vez agora que Estêvão parecia estar levando vantagem. De qualquer modo, teria consentido em fazer qualquer coisa para se livrar daquele horrível terror do inferno.

      - Aceito, então - disse, sem mais hesitações. - Só quero que ouça minha confissão, depressa.

      - Muito bem - disse Waleran. - Oremos.

      À medida que cumpriam as formalidades do sacramento, William foi sentindo o fardo da culpa ficar mais leve, e gradualmente começou a se sentir satisfeito com o seu triunfo. Quando emergiu da capela seus homens puderam ver a mudança de estado de espírito que se operara, e logo se entusiasmaram. William lhes disse que mais uma vez estavam lutando do lado do rei Estêvão, de acordo com a vontade de Deus, assim expressa pelo bispo Waleran, e eles usaram a notícia como desculpa para uma celebração. Waleran pediu vinho.

      - Agora Estêvão deve me confirmar no meu condado - disse William, enquanto esperavam o jantar.

      - Deve - concordou Waleran. - Mas não quer dizer que o fará.

      - Mas voltei para o lado dele!

      - Richard de Kingsbridge nunca saiu.

      William permitiu-se um sorriso pretensioso.

      - Acho que liquidei a ameaça da parte de Richard.

      - Sim? Como?

      - Richard nunca teve terras. Só tem sido capaz de manter seus homens, como cavaleiro, usando o dinheiro da irmã.

      - Não é ortodoxo, mas até aqui tem dado certo.

      - Mas agora sua irmã não tem mais dinheiro. Toquei fogo no seu depósito de lã ontem. Ela não tem mais nada como também Richard.

      Waleran balançou a cabeça.

      - Nesse caso é apenas uma questão de tempo ele sair de cena. Então, acho que eu poderia dizer que o condado será seu.

      O jantar foi servido. Os homens de armas de William se sentaram ao lado dos criados e seus dependentes e flertaram com as lavadeiras do palácio. William ficou à cabeceira da mesa, com Waleran e seus arcediagos. Agora que estava relaxado, invejou os homens com as lavadeiras; arcediagos eram uma companhia muito monótona.

      O deão Baldwin ofereceu a William um prato de ervilhas.

      - Lorde William, como impedirá uma pessoa de fazer o que o prior Philip tentou, ou seja, ter sua própria feira de lã? - perguntou ele.

      William ficou surpreso com a pergunta.

      - Ninguém se atreveria!

      - Outro monge talvez não; mas um conde poderia.

      - Precisaria de uma licença.

      - Poderia conseguir, se tivesse lutado por Estêvão.

      - Não neste condado.

      - Baldwin está certo, William - disse o bispo Waleran.

      - Em toda a volta dos limites do seu condado, há cidades que poderiam abrigar uma feira de lã: Wilton, Devizes, Wells, Marlborough, Wallingford...

      - Queimei Kingsbridge, posso queimar qualquer lugar - disse William, irritado. Tomou um gole de vinho. Enfurecia-o ter sua vitória diminuída.

      Waleran pegou um pedaço de pão fresco e o partiu, sem comer.

      - Kingsbridge é um alvo fácil - ponderou. - Não tem muralha, castelo, nem mesmo uma igreja grande para as pessoas se refugiarem no seu interior. E é governada por um monge que não tem cavaleiros ou homens de armas. Kingsbridge é indefesa. A maioria das cidades não é.

      - E quando a guerra civil terminar - acrescentou o deão Baldwin, - seja quem for que vença, não será possível queimar uma cidade como Kingsbridge impunemente. Seria violar a paz real. Nenhum rei deixaria de tomar providências em épocas normais.

      William entendeu o argumento deles e ficou furioso.

      - Então tudo o que foi feito talvez tenha sido inútil - disse. Pôs de lado a faca. A tensão revirava seu estômago e ele não pôde comer mais.

      - É claro que se Aliena estiver arruinada - disse Waleran, abriu-se uma espécie de lacuna.

      William não entendeu.

      - O que está querendo dizer?

      - A maior parte da lã neste condado foi vendida a ela este ano. O que acontecerá no ano que vem?

      - Não sei.

      Waleran continuou, no mesmo jeito pensativo.

      - Exceto pelo prior Philip, todos os produtores de lã em muitas e muitas milhas ocupam terras do condado ou do bispado. Você é o conde, em tudo menos no título, e eu, o bispo. Se forçarmos os nossos rendeiros a nos vender sua lã, controlaremos dois terços do comércio do condado. E venderemos na feira de Shiring. Aí não haverá negócios suficientes para justificar outra feira, mesmo que alguém consiga uma licença.

      Uma idéia brilhante, William viu imediatamente.

      - E ganharemos tanto dinheiro quanto Aliena - ressaltou.

      - Sem dúvida. - Waleran serviu-se de um delicado pedacinho de carne e mastigou, pensativamente. - Assim, você incendiou Kingsbridge, arruinou seu pior inimigo e estabeleceu uma nova fonte de renda para si. Nada mal para um dia de trabalho.

      William tomou um gole avantajado de vinho e sentiu um calor no estômago. Olhou para a outra extremidade da mesa e se deteve numa garota gordinha e de cabelos escuros que sorria coquetemente para dois de seus homens. Talvez trepasse com ela à noite. Sabia como seria. Quando a encurralasse, a jogasse no chão e levantasse sua saia, se lembraria do rosto de Aliena e de sua expressão de terror e desespero ao ver a lã consumida pelas chamas; então ele seria capaz de possuí-la. Sorriu com a perspectiva, e pegou outra fatia do pernil de veado.

     

      O prior Philip foi profundamente abalado pelo incêndio de Kingsbridge. A surpresa da ação de William, a brutalidade do ataque, as cenas horríveis da multidão em pânico, a matança pavorosa e sua completa impotência, tudo combinado o deixou atônito.

      O pior mesmo fora a morte de Tom Construtor. Um homem no auge do seu talento, mestre de todos os aspectos da sua profissão, Tom deveria continuar como encarregado da construção da catedral até o seu término. Era também o mais íntimo amigo de Philip fora do claustro. Conversavam pelo menos uma vez por dia, e se esforçavam juntos na busca de soluções para a interminável variedade de problemas com que se defrontavam no seu imenso projeto. Tom tinha uma rara combinação de sabedoria e humildade que tornava um prazer trabalhar com ele. Parecia impossível que houvesse morrido.

      Philip achava que não compreendia mais nada, que não tinha nenhum poder de verdade e que não era competente para tomar conta de um curral, muito menos de uma cidade do tamanho de Kingsbridge. Sempre acreditara que, se fizesse o melhor que podia e confiasse em Deus, tudo acabaria dando certo no fim.

      O incêndio de Kingsbridge parecia ter provado que estava enganado. Perdera toda a motivação, ficando sentado em sua casa no priorado o dia inteiro, observando a vela queimando no pequeno altar, às voltas com pensamentos desconexos e desolados, sem nada fazer.

      Foi o jovem Jack que tratara do que tinha de ser feito. Providenciara para que os mortos fossem levados para a cripta, pusera os feridos no dormitório dos monges e organizara um esquema de alimentação de emergência para os vivos na campina do outro lado do rio. O tempo estava quente, e todos dormiam ao ar livre. No dia seguinte ao do massacre, organizara os aturdidos moradores em equipes de trabalho e os fizera limpar as cinzas e escombros do adro do priorado, enquanto Cuthbert Cabeça Branca e Milius Tesoureiro encomendavam comida nas fazendas próximas. No segundo dia enterraram os mortos em cento e noventa e três sepulturas novas no lado norte do adro.

      Philip simplesmente expediu as ordens propostas por Jack. Este argumentara que a maioria dos cidadãos sobreviventes ao incêndio perdera muito pouca coisa de valor material - só uma choça e uns poucos móveis vagabundos, na maioria dos casos. As safras ainda estavam nos campos, e as economias onde haviam sido enterradas, em geral sob as lareiras da casa, bem fundo, a salvo das chamas que varreram a cidade. Os mercadores cujos estoques haviam pegado fogo foram os maiores sofredores: alguns estavam arruinados, como Aliena; outros tinham parte de sua fortuna em prata, bem enterrada, e seriam capazes de começar de novo. Jack propôs reconstruir a cidade de imediato.

      Por sugestão dele, Philip concedeu uma permissão extraordinária para cortar árvores gratuitamente nas florestas do priorado, com o objetivo de construir casas, mas apenas por uma semana. Em consequência, Kingsbridge ficou deserta por sete dias, enquanto todas as famílias selecionavam e derrubavam as árvores que empregariam em suas novas casas. Durante essa semana, Jack pediu a Philip que desenhasse uma planta da nova cidade.

      A idéia incendiou a imaginação do prior e ele saiu de sua depressão.

      Trabalhou no plano, sem parar, por quatro dias. Haveria casas grandes em toda a volta dos muros do priorado, para os artesãos e comerciantes ricos. Lembrava-se do padrão das ruas de Winchester, e planejou uma nova Kingsbridge na mesma base.

      Ruas retas,largas o bastante para permitir a passagem de duas carroças, desceriam até o rio, com as ruas transversais mais estreitas. O love seria padronizado na largura de vinte e quatro pés, o que era uma ampla frente para uma casa na cidade.

      Cada love teria  cento e vinte pés de comprimento, proporcionando espaço para um quintal decente com uma latrina, uma horta e um estábulo ou pocilga.

      A ponte se incendiara, e outra seria construída em posição mais conveniente, no fim da nova rua principal. A estrada que passava pela cidade agora subiria diretamente a colina, a partir da ponte, e passaria pela catedral, saindo do outro lado, como em Lincoln. Outra rua larga ligaria o portão do priorado a um novo cais na margem do rio, seguiria na mesma direção da correnteza a partir da ponte e contornaria a curva do rio. Desse modo, os suprimentos em grosso poderiam chegar ao priorado, sem usar a principal rua do comércio.

      Haveria um distrito inteiramente novo de casas pequenas em torno do cais a ser construído: os pobres ficariam a jusante do priorado e seus hábitos sujos não poluiriam o suprimento de água do mosteiro.

      Planejar a reconstrução tirou Philip do seu transe, mas toda vez que levantava os olhos dos desenhos era invadido por uma onda de raiva e de dor pelas pessoas que tinham morrido. Perguntava-se se William Hamleigh seria de fato o demônio encarnado: causava mais sofrimento do que seria humanamente possível. Philip via sempre a mesma mistura de esperança e aflição no rosto dos moradores da cidade, ao voltarem da floresta com seus carregamentos de madeira. Jack e os outros monges balizaram o plano da nova cidade no chão, com estacas e cordas, e ao escolher o love, de vez em quando alguém dizia melancolicamente: "De que adianta? Pode ser incendiada de novo no ano que vem!" Se houvesse qualquer esperança de justiça, alguma expectativa de que os malfeitores seriam punidos, talvez não se sentissem tão inconsoláveis; mas embora Philip tivesse escrito a Estêvão, a Matilde, ao bispo Henry, ao arcebispo de Canterbury e ao papa, sabia que em tempo de guerra havia pouca chance de que um homem tão poderoso e importante quanto William fosse levado a julgamento.

      Os lotes maiores do plano de Philip foram muito procurados, a despeito dos aluguéis mais caros, de modo que ele alterou o plano a fim de permitir um número maior.

      Quase ninguém quis construir no bairro mais pobre, mas Philip decidiu deixar a planta como estava, para uso futuro. Dez dias após o incêndio, novas casas de madeira estavam subindo na maior parte dos lotes, e em mais uma semana a maioria delas estava terminada. Uma vez que as casas foram construídas, o trabalho recomeçou na catedral. Os operários foram pagos e quiseram gastar seu dinheiro; as lojas reabriram, e os pequenos agricultores trouxeram seus ovos e cebolas para a cidade; as copeiras e lavadeiras recomeçaram a trabalhar para os comerciantes e artesãos; assim, dia a dia, a vida material em Kingsbridge voltou ao normal.

      Mas havia tantos mortos que parecia uma cidade de fantasmas. Cada família perdera pelo menos um membro: uma criança, a mãe, o marido, uma irmã. Não se usavam distintivos de luto, mas as rugas nos rostos exibiam a mágoa tão perfeitamente quanto as árvores nuas denunciavam o inverno. Um dos mais atingidos foi o pequeno Jonathan, com seis anos. Ele se arrastava pelo adro do mosteiro como uma alma perdida, e Philip acabou por perceber que sentia a falta de Tom, que, ao que parecia, passara mais tempo com o menino do que qualquer pessoa tivesse notado. Quando o prior se deu conta disso, fez questão de reservar uma hora por dia para Jonathan, durante a qual lhe narrava histórias, brincava de contar e ouvia sua volúvel tagarelice.

      Philip escreveu aos abades de todos os principais mosteiros beneditinos da Inglaterra e França, perguntando se podiam recomendar um mestre construtor para substituir Tom. Um prior na posição de Philip normalmente consultaria seu bispo a esse respeito, pois os bispos viajavam muito e tinham possibilidade de tomar conhecimento de bons construtores, mas o bispo Waleran não o ajudaria. O fato de os dois estarem em  constante desavença tornava o cargo de Philip ainda mais solitário do que deveria ser.

      Enquanto o prior aguardava as respostas dos abades, os artífices instintivamente se voltaram para Alfred, em busca de liderança. Ele era filho de Tom e mestre pedreiro, e já há algum tempo vinha conduzindo sua equipe semi-autônoma no canteiro da obra. Não tinha o cérebro do Tom, infelizmente, mas era instruído e tinha autoridade, de modo que aos poucos foi preenchendo o vazio deixado pela morte do pai.

      Parecia haver muito mais problemas e dúvidas a respeito da obra que no tempo de Tom, e Alfred dava a impressão de sempre aparecer com uma pergunta quando não se podia encontrar Jack em parte alguma. Sem dúvida, aquilo era natural: todos em Kingsbridge sabiam que os dois se odiavam. O resultado final, contudo, foi que Philip se viu mais uma vez atormentado por intermináveis questões relativas a detalhes.

      Mas à medida que as semanas passavam, Alfred foi ganhando confiança, até que um dia procurou Philip e perguntou:

      - Não preferia que a catedral tivesse um teto de pedra abobadado?

      O projeto de Tom previa um teto de madeira no centro da igreja, e tetos de pedra abobadados nas naves laterais mais estreitas.

      - Sim, preferia - respondeu Philip. - Mas decidimos por um teto de madeira para economizar dinheiro.

      Alfred assentiu.

      - O problema é que um teto de madeira pode pegar fogo. Uma abóbada de pedra, não.

      Philip examinou-o por um momento, perguntando-se se teria subestimado Alfred. Não imaginava que ele apresentasse uma variação do projeto do pai; aquilo era mais o tipo de coisa que se podia esperar que Jack fizesse. Mas a idéia de uma igreja à prova de fogo era tentadora, especialmente depois que a cidade fora incendiada.

      - A única construção que ficou de pé na cidade após o incêndio foi a igreja nova da paróquia - acrescentou Alfred, seguindo a mesma linha de raciocínio.

      E a igreja nova da paróquia - construída por Alfred - tinha um teto abobadado de pedra, pensou Philip. Mas lhe ocorreu uma dificuldade.

      - As paredes, do jeito que estão, aguentariam o peso extra de um teto de pedra?

      - Teríamos que reforçar os arcobotantes. Ficariam um pouco mais salientes do lado de fora, mais nada.

      Ele já pensara naquilo, percebeu Philip.

      - E o custo?

      - Vai custar mais caro a longo prazo, é claro, e a igreja precisará de mais três ou quatro anos para ficar pronta, mas não fará diferença no seu desembolso anual.

      Philip gostava cada vez mais da idéia.

      - Mas isso significará esperar mais um ano para usar o coro nos serviços?

      - Não. Madeira ou pedra, não podemos começar a trabalhar no teto senão na próxima primavera. O clerestório precisa endurecer antes que se ponha qualquer peso sobre ele. O teto de madeira é mais rápido de construir, por alguns meses; mas, de qualquer modo, o coro estará coberto no final do ano que vem.

      Philip ficou pensativo. Era uma questão de pesar a vantagem de um teto à prova de fogo contra a desvantagem de outros quatro anos de obra - e de gastos. O custo extra parecia estar bastante longe, no futuro. E o lucro em segurança era imediato.

      - Acho que discutirei o assunto com os irmãos no cabido. - disse. - Mas me parece uma boa idéia.

      Alfred agradeceu-lhe e saiu, e depois que foi embora Philip continuou sentado, olhando para a porta, perguntando-se se afinal precisava realmente procurar um novo mestre construtor.

      Kingsbridge fez uma brava exibição no dia em que se comemorava a colheita. De manhã cada casa da cidade preparou um pão - a safra estava começando, e a farinha de trigo era barata e abundante. Os que não tinham forno em casa assaram o seu na casa de um vizinho, ou nos grandes fornos pertencentes ao priorado ou aos dois padeiros da cidade, Peggy Baxter e Jack-atte-Noven. Por volta do meio-dia o ar recendia a pão fresco, deixando todo mundo com fome. Os pães foram exibidos em mesas arrumadas no gramado do outro lado do rio, e todos caminhavam por entre elas, admirando-os. Não havia dois iguais. Muitos continham frutas ou especiarias: havia pães com ameixas, passas, gengibre, açúcar, cebola, alho e muitos mais. Outros tinham sido coloridos de verde com salsa, de amarelo com gema de ovo, de vermelho com sândalo ou de púrpura com tomassol.

      Havia vários de formas estranhas: viam-se triângulos, cones, bolas, estrelas, ovais, pirâmides, flautas, rolinhos e até mesmo oitos. Alguns eram mais ambiciosos: pães em forma de coelhos, ursos, macacos e dragões. Havia casas e castelos de pão. O mais magnífico, contudo, na opinião de todos, foi o de Ellen e Martha, que era uma representação da catedral, baseada no projeto do seu falecido marido, Tom.

      A dor de Ellen tinha sido terrível de ver. Chorara como uma alma atormentada, noite após noite, e ninguém fora capaz de consolá-la. Mesmo agora, dois meses depois, ainda estava pálida e com os olhos fundos; porém, ela e Martha pareciam capazes de se ajudar, e fazer o pão com a forma da catedral lhes proporcionara um pouco de consolo.

      Aliena passou longo tempo contemplando o trabalho de Ellen. Gostaria de ter uma atividade que lhe trouxesse conforto. Não sentia entusiasmo por nada. Quando começaram as provas, foi para a mesa apaticamente, sem comer. Nem mesmo havia tido vontade de construir outra casa, até que o prior Philip a instigou a reagir e Alfred lhe trouxe a madeira e designou alguns homens para ajudá-la. Ainda estava comendo no mosteiro todos os dias, pelo menos quando se lembrava de comer. Não tinha energia. Quando lhe ocorria a idéia de fazer qualquer coisa para si mesma - um banco de cozinha com sobras da madeira, ou o acabamento às paredes da casa, tapando as fendas com lama do rio, ou ainda uma armadilha para pegar pássaros, de modo que pudesse se alimentar, ela se lembrava de como trabalhara duro para chegar a uma boa posição como mercadora de lã, e de como rapidamente tudo se arruinara, e perdia o entusiasmo. Assim ia vivendo dia a dia, sem planos, acordando tarde, indo ao mosteiro almoçar se tivesse fome, contemplando quase que o tempo todo o fluir das águas do rio e indo dormir na palha da casa nova quando escurecia.

      A despeito da sua prostração, sabia que aquele festival que celebrava a colheita não passava de uma farsa. A cidade fora reconstruída, e as pessoas se dedicavam aos seus trabalhos como antes, mas era comprida a sombra projetada pelo massacre, e ela podia perceber, sob a aparência de bem-estar, uma profunda sensação de medo. A maioria das pessoas estava melhor do que Aliena, agindo como se tudo corresse bem, mas na verdade todos se sentiam do mesmo modo que ela, achando que aquilo não podia durar e que tudo o que construíssem seria destruído de novo.

      Enquanto estava ali olhando apaticamente para as pilhas de pão, Richard chegou. Atravessou a ponte, vindo da cidade deserta, puxando o cavalo. Tinha estado fora, combatendo por Estêvão, desde antes do massacre, e ficou atônito com o que encontrou.

      - Que diabo aconteceu aqui? - perguntou. - Não consigo encontrar nossa casa; a cidade toda mudou!

      - William Hamleigh apareceu no dia da feira de lã, com uma tropa de homens de armas, e incendiou a cidade - disse Aliena.

      Richard empalideceu com o choque e a cicatriz na sua orelha direita ficou lívida.

      - William! - exclamou. - Aquele demônio!

      - Temos uma casa nova, contudo - disse Aliena inexpressivamente. - Os homens de Alfred construíram para mim. Mas é muito menor, e fica perto do novo cais.

      - O que aconteceu com você? - disse ele, examinando-a. - Está praticamente careca e sem sobrancelhas.

      - Meu cabelo pegou fogo.

      - Ele não...

      Aliena sacudiu a cabeça.

      - Desta vez não.

      Uma das garotas trouxe pão de sal para Richard provar. Ele pegou um pedaço mas não comeu. Parecia atônito.

      - De qualquer forma, estou satisfeita por vê-lo bem - disse Aliena.

      Ele assentiu.

      - Estêvão está marchando sobre Oxford, onde Matilde se encontra entocada. A guerra poderá terminar em breve. Mas preciso de uma espada nova; vim buscar dinheiro. - Ele comeu o pão. A cor voltou ao seu rosto. - Por Deus, que gosto bom! Você pode cozinhar um pouco de carne para mim mais tarde.

      De repente, teve medo dele. Sabia que ia ficar furioso e não tinha forças para enfrentá-lo.

      - Não tenho carne.

      - Então compre no açougueiro.

      - Não fique zangado, Richard. - Ela começou a tremer.

      - Não estou zangado - disse ele, irritado. - O que há com você?

      - Toda a minha lã foi queimada no incêndio - respondeu Aliena, com os olhos fixos no irmão, esperando que explodisse.

      Ele franziu a testa, olhou para ela, engoliu e jogou fora a casca do pão.

      - Toda?

      - Toda.

      - Mas você ainda deve ter algum dinheiro.

      - Nenhum.

      - Por que não? Sempre teve um cofre cheio de dinheiro enterrado no chão...

      - Não em maio. Eu tinha gasto tudo em lã... até o último penny. E pedi quarenta libras ao pobre Malachi, que não posso pagar. É claro que não posso lhe comprar uma nova espada. Não posso nem mesmo comprar um pedaço de carne para a sua ceia. Estamos completamente sem dinheiro.

      - Então como vou poder continuar? - gritou ele, furioso. Seu cavalo levantou as orelhas e se mexeu, inquieto.

      - Não sei! - disse Aliena, lacrimosa. - Não grite, está assustando o cavalo. - Ela começou a chorar.

      - William Hamleigh fez isto - disse Richard, por entre os dentes. - Um dia desses vou esquartejá-lo como um porco gordo, juro por todos os santos.

      Alfred apareceu nessa hora, com a barba espessa cheia de migalhas e uma fatia de pão de ameixa na mão.

      - Experimente este - sugeriu a Richard.

      - Não estou com fome - disse o rapaz, rudemente.

      - O que há? - perguntou Alfred, olhando para Aliena. Richard respondeu a pergunta.

      - Ela acaba de me dizer que não temos um penny.

      Alfred assentiu.

      - Todos perderam alguma coisa, mas Aliena perdeu tudo.

      - Você entende o que isso significa para mim - disse Richard, falando com Alfred mas olhando acusadoramente para Aliena. - Estou liquidado. Se não posso substituir armas, pagar meus homens e comprar cavalos, então não posso combater pelo rei Estêvão. Minha carreira como cavaleiro está terminada...  e jamais serei o conde de Shiring.

      - Aliena podia se casar com um homem rico - disse Alfred.

      Richard riu sarcasticamente.

      - Ela rejeitou todos!

      - Um deles pode pedi-la em casamento de novo.

      - Sim. - O rosto de Richard se contorceu num sorriso cruel. - Poderíamos mandar cartas a todos os pretendentes rejeitados, dizendo que ela perdeu todo o dinheiro e que está disposta a reconsiderar...

      - Chega - disse Alfred, segurando o braço de Richard, que se calou. Virou-se depois para Aliena. - Lembra-se do que eu lhe disse, um ano atrás, no primeiro jantar da associação da paróquia?

      O coração dela angustiou-se. Não podia acreditar que Alfred fosse começar com aquilo outra vez. Não tinha forças para enfrentar sua insistência.

      - Eu me lembro - disse ela. - E espero que você se lembre da minha resposta.

      - Eu ainda a amo.

      Richard ficou espantado.

      - Ainda quero me casar com você, Aliena - continuou Alfred. - Quer ser minha mulher?

      - Não! - exclamou ela. Queria falar mais, acrescentar algo que tornasse sua resposta definitiva e irreversível, mas estava muito cansada. Olhou de Alfred para Richard e deste novamente para Alfred, e súbito não aguentou mais. Afastou-se dos dois, saiu caminhando depressa e atravessou a ponte para a cidade.

      Ficou zangada com Alfred por ter repetido sua proposta na frente de Richard. Preferia que seu irmão não tomasse conhecimento dela. Tinham se passado três meses desde o incêndio por que Alfred nada falara até agora? Era como se tivesse aguardado a chegada de Richard para executar sua jogada.

      Ela foi caminhando pelas ruas novas, desertas. Todos estavam na festa, provando pão. A casa de Aliena ficava no bairro pobre, perto do cais. O aluguel era barato, mas mesmo assim não tinha idéia de como poderia pagar.

      Richard a alcançou, desmontou e foi caminhando ao seu lado.

      - Toda a cidade cheira a madeira nova - disse ele, em tom de conversa. - E tudo é tão limpo!

      Aliena já se acostumara com a nova aparência da cidade, mas ele a estava vendo pela primeira vez. Era artificialmente limpa. O incêndio tinha acabado com a madeira podre e úmida das construções mais velhas, com os telhados de palha grossos da fuligem de anos e anos de fumaça de cozinha, com os imundos estábulos antigos e com as fétidas esterqueiras. Havia um cheiro de novo por toda parte: madeira nova, palha nova nos telhados e no chão, e até mesmo caiação nova nas paredes das residências mais ricas. O fogo parecia ter enriquecido o solo, e flores silvestres cresciam em cantos estranhos.

      Alguém observara que um número muito pequeno de pessoas caíra doente desde o incêndio, e pensava-se que isso confirmava a teoria, defendida por muitos filósofos, de que as doenças eram disseminadas por vapores malignos.

      Sua mente estava longe. Richard dissera qualquer coisa.

      - O quê? - perguntou ela.

      - Eu disse que não sabia que Alfred a pedira em casamento no ano passado.

      - Você tinha coisas mais importantes em que pensar. Foi no tempo em que prenderam Robert de Gloucester.

      - Alfred foi bom, construindo uma casa para você.

      - Sim, foi. E aqui está ela. - Aliena olhou para Richard enquanto ele olhava a casa. Estava desconcertado. Teve pena do irmão: nascera no castelo de um conde, e até mesmo a casa grande que tinham antes do incêndio significara um rebaixamento para ele.

      Agora tinha que se acostumar com o tipo de casa em que moravam operários e viúvas.

      Aliena segurou as rédeas do seu cavalo.

      - Venha. Há espaço para o cavalo nos fundos. - Ela conduziu o enorme animal por dentro da casa de um cômodo e saiu pela porta dos fundos. Havia cercas rústicas e baixas separando os quintais. Amarrou o cavalo numa viga da cerca e começou a tirar a pesada sela de madeira. Vindas não se sabe de onde, grama e ervas nasciam na terra calcinada. Quase todos tinham escavado uma privada, plantado verduras e construído uma pocilga ou um galinheiro no quintal, mas o de Aliena permanecia intocado.

      Richard ficou dentro da casa, mas não havia muito para ver e, após um momento, seguiu Aliena no quintal.

      - A casa está um pouco vazia, sem móveis, pratos, tigelas...

      - Não tenho dinheiro - disse Aliena, apática.

      - Não plantou nada também - disse ele, olhando à sua volta desgostosamente.

      - Não tenho energia - disse ela, irritada. Entregou-lhe a sela enorme e entrou.

      Ela se sentou no chão, com as costas para a parede. Estava frio ali dentro. Dava para ouvir Richard tratando do cavalo no quintal. Após ter ficado sentada imóvel por alguns momentos viu um rato pôr o focinho para fora da palha. Milhares de ratos e camundongos deviam ter morrido no incêndio, mas agora começavam a ser vistos de novo. Procurou alguma coisa com que pudesse matá-lo, mas não havia nada à mão, e de qualquer modo o bicho sumiu outra vez.

      O que vou fazer?, pensou ela. Não posso ficar assim o resto da vida. Mas a simples idéia de dar início a um novo negócio a deixava exausta. Salvara a si própria e a seu irmão da penúria uma vez, mas o esforço gastara todas as suas reservas, e era incapaz de repetir a dose. Teria que descobrir algum tipo de vida passiva, controlada por alguém, para que pudesse viver sem tomar decisões ou iniciativas.

      Pensou na mulher chamada Kate, de Winchester, que beijara seus lábios e lhe apertara os seios, dizendo que nunca mais sentiria falta de dinheiro ou de qualquer outra coisa, e que se trabalhasse para ela as duas ficariam ricas. Não, pensou, aquilo não; nunca mais.

      Richard entrou carregando seus alforjes.

      - Se você não pode cuidar de si própria, é melhor encontrar alguém que possa.

      - Sempre tive você.

      - Não posso tomar conta de você! - protestou ele.

      - Por que não? - Uma minúscula centelha de raiva se acendeu dentro dela. - Cuidei de você por seis longos anos!

      - Estive combatendo numa guerra, e só o que fez foi vender lã.

      E esfaquear um fora-da-lei, pensou ela; e atirar um padre desonesto no chão; e alimentar, vestir e proteger você, que não era capaz de fazer nada senão roer os nós dos dedos e tremer de medo. Mas a centelha se apagou e a raiva esmoreceu; ela limitou-se a dizer que estava brincando.

      Richard resmungou, sem saber ao certo se deveria se sentir ofendido com a observação da irmã, até que sacudiu a cabeça, irritado.

      - De qualquer modo - disse ele, - você não devia ser tão rápida em rejeitar Alfred.

      - Oh, pelo amor de Deus, cale-se!

      - O que é que há de errado com ele?

      - Não há nada de errado com ele. Será que você não entende? Há algo de errado comigo.

      Ele deixou a sela no chão e apontou-lhe um dedo.

      - É isso mesmo, e eu sei o que é. Você é completamente egoísta. Só pensa em si própria.

      Aquilo era tão monstruosamente injusto que ela foi incapaz de sentir raiva. As lágrimas transbordaram dos seus olhos.

      - Como pode dizer isso? - protestou, angustiada.

      - Porque tudo se ajeitaria com você desposando Alfred, em vez de recusá-lo.

      - Meu casamento com Alfred não ajudaria você.

      - Claro que ajudaria.

      - Como?

      - Alfred disse que poderia me financiar, se eu fosse seu cunhado. Eu teria que cortar um pouco as despesas, ele não pode pagar todos os meus homens de armas, mas me prometeu o suficiente para um cavalo de batalha, novas armas e meu próprio escudeiro.

      - Quando? - perguntou Aliena, atônita. - Quando foi que ele disse isso?

      - Agora mesmo. Lá no priorado.

      Aliena sentiu-se humilhada, e Richard teve a consideração de parecer um pouco envergonhado. Os dois homens tinham negociado Aliena como negociantes de cavalos. Ela se levantou, e sem mais uma palavra retirou-se.

      Voltou ao priorado e entrou no adro pelo lado sul, pulando a vala junto do velho moinho d'água. O moinho estava em silêncio, já que era feriado. Não teria andado naquela direção se estivesse funcionando, pois o estrondo dos martelos pisoando o tecido sempre lhe dava dor de cabeça.

      O adro estava deserto, conforme antecipara. No canteiro da obra havia silêncio. Aquela era a hora em que os monges estudavam ou descansavam, e o resto das pessoas estava na festa. Aliena vagou pelo cemitério no lado norte da obra. As sepulturas cuidadosamente tratadas, com as cruzes de madeira bem-feitas e as flores frescas, diziam a verdade: a cidade ainda não se recuperara do massacre. Parou ao lado do túmulo de Tom, adornado com um anjo de mármore simples, esculpido por Jack. Sete anos atrás, pensou, meu pai arranjou um casamento perfeitamente razoável para mim. William Hamleigh não era velho, não era feio e não era pobre. Teria sido aceito com um suspiro de alívio por qualquer outra garota em minha posição.

      Mas o recusei, e veja só os problemas que se seguiram: nosso castelo atacado, meu pai aprisionado, meu irmão e eu completamente sem dinheiro - até mesmo o incêndio de Kingsbridge e a morte de Tom são consequências da minha obstinação.

      De algum modo a morte de Tom parecia pior que todas as outras tristezas, talvez porque ele tivesse sido amado por tanta gente, talvez por ter sido o segundo pai que Jack perdera.

      E agora estou rejeitando outra proposta perfeitamente razoável, pensou ela. O que me dá o direito de ser tão exigente? A dificuldade que tenho de me satisfazer já  causou muitos problemas.

      Eu deveria aceitar Alfred, e ser grata por não ter que trabalhar na casa de mulheres da senhora Kate.

      Afastou-se da sepultura de Tom e caminhou na direção da obra. Parou no que iria ser a interseção e olhou para o coro. Estava pronto, exceto pelo telhado, e os operários se preparavam para a fase seguinte, os transeptos; a planta baixa já tinha sido balizada no chão, com estacas e cordéis, em ambos os lados, e os homens haviam começado a escavar os alicerces. As altas paredes à sua frente projetavam sombras compridas no sol de fim de tarde. A temperatura naquele dia era amena, mas na catedral fazia frio. Aliena olhou por longo tempo as fileiras de arcos redondos, grandes no nível do solo, pequenos em cima e médios na parte central. Havia algo profundamente satisfatório naquele ritmo regular de arco, pilar, arco, pilar.

      Se Alfred estava mesmo disposto a financiar Richard, Aliena ainda tinha uma chance de cumprir o juramento que fizera ao pai, de cuidar de Richard até ele reconquistar o condado. No fundo do coração sabia que teria que desposar Alfred, embora fosse uma coisa que não tivesse coragem de enfrentar.

      Caminhou ao longo da nave lateral sul, arrastando a mão na parede, sentindo a textura áspera das pedras, passando as unhas nos sulcos rasos feitos pelos dentes da talhadeira do pedreiro. Ali nas naves laterais, sob as janelas, a parede era decorada com arcaturas, uma séria de arcos falsos, sem nenhum outro objetivo senão o de aumentar o senso de harmonia que Aliena sentia ao olhar para a obra. Na catedral de Tom tudo parecia ter um objetivo. Talvez sua vida também fosse assim, com tudo predeterminado num grande projeto, e ela agisse como um construtor estúpido que quisesse uma queda-d'água no coro.

      No canto sudeste da igreja, uma porta baixa levava a uma estreita escada em espiral. Num impulso, Aliena passou pela porta e subiu a escada. Ao perder a entrada de vista e ainda assim não haver chegado ao topo, teve uma sensação esquisita, com a impressão de que aquela escadaria não ia terminar nunca. Então viu a luz do sol; era uma janelinha estreita na parede da torre, posta ali para iluminar a escada.

      Após algum tempo chegou à larga galeria sobre a nave. Não tinha janelas que dessem para o exterior, mas no interior dava para a igreja sem telhado. Sentou-se na soleira de um dos arcos interiores, encostando-se ao pilar. A pedra fria acariciou-lhe o rosto. Perguntou-se se teria sido Jack quem cortara aquela pedra. Ocorreu-lhe que se caísse dali poderia morrer. Mas não era bastante alto na realidade: poderia apenas quebrar as pernas e ficar no chão, em agonia, até que os monges viessem e a achassem.

      Decidiu subir até o clerestório. Voltou à escada do torreão e prosseguiu a escalada. O estágio seguinte era mais curto, mais ainda assim achou assustador, deixando-a com o coração batendo ruidosamente na hora em que alcançou o topo. Entrou na passagem do clerestório, um túnel estreito dentro da parede. Esgueirou-se ao longo da passagem até que deu no peitoril interno de uma das janelas. Segurou-se no pilar que a dividia. Quando olhou para baixo, de uma altura de mais de setenta e cinco pés, começou a tremer.

      Aliena ouviu passos na escada do torreão. Começou a respirar com dificuldade, como se tivesse corrido. Não havia ninguém mais à vista quando subira. Será que alguém a seguira? Os passos vinham do corredor estreito que acabara de percorrer. Largou o pilar e ficou na beirada, trêmula. Um vulto apareceu na soleira. Era Jack. O coração de Aliena batia tão alto que ela era capaz de ouvi-lo.

      - O que está fazendo? - perguntou ele cautelosamente.

      - Eu...  eu estava vendo como sua catedral está indo.

      Jack apontou para o capitel acima da cabeça dela.

      - Fui eu que fiz.

      Aliena ergueu os olhos. Fora esculpida na pedra a figura de um homem que parecia estar sustentando o peso do arco nas costas. O corpo dele era retorcido, como se agonizasse de tanta dor. Aliena o contemplou por algum tempo. Nunca vira nada parecido.

 

      Sem pensar, disse:

      - É assim que me sinto.

      Quando olhou de novo para Jack, ele estava do seu lado, segurando-lhe o braço, delicada mas firmemente.

      - Eu sei - disse ele.

      Aliena olhou para baixo. A idéia de cair deixou-a doente de medo. Jack puxou-lhe o braço. Ela deixou-se ser conduzida para a passagem.

      Desceram a escada sem paradas, até o chão. Aliena sentia-se fraca. Jack virou-se e lhe disse, em Tom de conversação:

      - Eu estava lendo no claustro, olhei para a igreja e vi você no clerestório.

      Aliena fitou seu rosto jovem, tão cheio de preocupação e ternura, e se lembrou do motivo pelo qual fugira de todo mundo e buscara a solidão dali. Teve vontade de beijá-lo, e viu a mesma vontade em seus olhos. Seu corpo inteiro lhe dizia para atirar-se nos seus braços, mas ela sabia o que tinha a fazer. Queria dizer: Eu o amo como uma trovoada, como um leão, como uma fúria desorientada, mas, em vez disso, suas palavras foram:

      - Acho que vou me casar com Alfred.

      Ele a encarou. Parecia atônito. Então seu rosto ficou triste, com uma tristeza sábia e antiga, que excedia em muito a sua idade.

      Aliena pensou que fosse chorar, mas não. No lugar de lágrimas, havia raiva nos seus olhos. Jack abriu a boca para falar, mudou de idéia, hesitou e por fim se resolveu.

      - Seria melhor se você tivesse pulado do clerestório - disse, numa voz fria como o vento norte.

      Afastou-se dela e retornou para o mosteiro. Perdi-o para sempre, pensou Aliena, sentindo que seu coração ia se partir.

     

      Jack foi visto fugindo do mosteiro no dia da festa da colheita. Não era uma transgressão grave, por si só, mas ele já fora apanhado diversas vezes antes, o fato de ter saído para falar com uma mulher que não era casada tornava a coisa mais séria.

      Sua transgressão foi discutida no cabido no dia seguinte e ele recebeu ordem para ficar confinado.

      Isso significava que estava restrito aos edifícios monásticos, o claustro e a cripta, e que cada vez que fosse de um prédio para outro teria que ser acompanhado.

      Ele mal se deu conta da restrição. Ficara tão devastado com a notícia dada por Aliena que nada mais fazia muita diferença. Sua impressão era de que, se houvesse sido açoitado em vez de apenas confinado, teria sido igualmente indiferente.

      Não havia qualquer dúvida quanto ao seu trabalho na catedral, claro; porém, grande parte do prazer desaparecera desde que Alfred se tornara o encarregado. Agora passava as tardes livres lendo. Seu latim melhorara a passos largos e já era capaz de ler qualquer coisa, mesmo que lentamente; e como se esperava que lesse para aperfeiçoar seu latim, e não para qualquer outro propósito, lhe era permitido pegar qualquer livro que quisesse. Embora a biblioteca fosse pequena, tinha diversas obras de filosofia e matemática, nas quais mergulhou com entusiasmo.

      Muito do que leu era desapontador. Havia páginas de genealogias, narrativas repetitivas de milagres realizados por santos mortos há muito tempo e interminável especulação teológica. O primeiro livro que realmente prendeu a atenção de Jack contava toda a história do mundo desde a Criação até a fundação do priorado de Kingsbridge, e depois que o leu achou que sabia tudo o que já acontecera. Percebeu, após algum tempo, que a pretensão do livro de contar todos os acontecimentos era implausível, pois, afinal de contas, as coisas estavam acontecendo em toda parte o tempo todo, não apenas em Kingsbridge e na Inglaterra, como também na Normandia, Anjou, Paris, Roma, Etiópia e Jerusalém, de modo que o autor devia ter deixado um bocado de coisas fora. De qualquer modo, o livro deu a Jack uma sensação que nunca tivera, de que o passado era como uma história, na qual uma coisa levava a outra, e que o mundo não era um mistério infinito, mas sim uma coisa finita que podia ser compreendida.

      Mais intrigantes ainda eram os quebra-cabeças. Um filósofo perguntava por que um homem fraco era capaz de deslocar uma pedra pesada com uma alavanca. Aquilo nunca parecera estranho a Jack antes, mas agora a questão o atormentava. Passara diversas semanas na pedreira numa ocasião e se lembrava de que quando uma pedra não podia ser deslocada com uma alavanca de um pé de comprimento, a solução geralmente era usar uma de dois. Por que motivos o mesmo homem incapaz de deslocar a pedra com uma alavanca mais curta podia fazê-lo com outra mais comprida? Essa questão levava a outras. Os operários da obra na catedral usavam uma imensa roda para içar pedras grandes e vigas até o teto. O peso na extremidade da corda era demasiado para um homem erguer com as mãos, mas o mesmo homem podia girar a roda que enrolava a corda, içando a carga. Como isso era possível?

      Tais especulações o distraíam por algum tempo, mas seus pensamentos voltavam sempre para Aliena. Às vezes estava no claustro, de pé defronte da estante onde havia um livro volumoso, e se lembrava daquela manhã no velho moinho quando a beijara. Podia recordar cada instante daquele beijo, desde o toque macio dos lábios até a arrebatadora sensação da língua da jovem na boca. O corpo de Jack comprimira o de Aliena das coxas aos ombros, de modo que podia sentir os contornos dos seus seios e quadris. A lembrança era tão intensa que era como experimentar tudo aquilo de novo.

      Por que Aliena mudara? Ele acreditava que o beijo fosse verdadeiro e sua subsequente frieza, falsa. Achava que a conhecia. Era amorosa, sensual, romântica, imaginativa e ardente. Também era inconsiderada e autoritária, e aprendera a ser dura; mas não era fria, cruel ou sem coração. Não combinava com o seu caráter se casar por dinheiro com um homem a quem não amava. Seria infeliz, se arrependeria, adoeceria de tanto sofrimento; ele sabia disso e, no seu coração, ela também.

      Um dia, quando estava na sala de escrita, um criado do priorado que varria o chão parou para descansar, apoiou-se na vassoura e disse:

      - Grande festa na sua família.

      Jack estava estudando um mapa do mundo desenhado numa grande folha de papel velino. Ergueu a cabeça. Quem falara era um velho torto, fraco demais para serviços pesados.

      Provavelmente confundira Jack com alguém.

      - O que é, Joseph?

      - Você não sabia? Seu irmão vai se casar.

      - Não tenho irmãos - disse Jack automaticamente, mas seu coração congelou-se.

      - O filho do seu falecido padrasto, então - disse loseph.

      - Não, eu não sabia. - Jack teve que fazer a pergunta. Cerrou os dentes: - Com quem ele vai se casar?

      - Com aquela tal de Aliena.

      Então ela estava determinada a ir até o fim. Jack entretivera uma secreta esperança de que fosse mudar de idéia. Desviou o rosto para que loseph não pudesse ver seu desespero.

      - Ora, ora - disse, tentando fazer com que sua voz não traduzisse nenhuma emoção.

      - Isso mesmo, com aquela que era arrogante até perder tudo no incêndio.

      - Você disse...  você disse que será quando?

      - Amanhã. Eles vão se casar na nova igreja da paróquia que Alfred construiu.

      No dia seguinte!

      Aliena ia se casar com Alfred no dia seguinte. Até então não acreditara realmente que fosse acontecer. A realidade explodiu em cima dele como um raio. Aliena ia se casar no dia seguinte. A vida de Jack ia terminar no mesmo dia.

      Olhou para o mapa em cima da estante. O que interessava se o centro do mundo fosse em Jerusalém ou Wallingford? Seria mais feliz se soubesse como as alavancas funcionavam?

      Dissera a Aliena que seria melhor que ela saltasse do clerestório do que se casasse com Alfred. Deveria ter dito era que ele, Jack, é que podia muito bem pular lá de cima.

      Desprezava o priorado. Ser monge era uma coisa estúpida. Se não pudesse trabalhar na catedral e Aliena se casasse com outro, não teria mais motivo para viver.

      O que tornava tudo pior era saber que Aliena sofreria horrivelmente se desposasse Alfred. Havia algumas garotas que podiam se sentir contentes casadas com Alfred: Edith, por exemplo, aquela que rira quando Jack lhe falara como gostava de trabalhar cinzelando pedra.

      Edith não esperaria muito de Alfred, e ficaria satisfeita de lisonjeá-lo e obedecê-lo desde que ele continuasse próspero e gostasse dos seus filhos. Mas Aliena odiaria cada minuto. Detestaria a grossura física, o desprezaria pelo seu jeito agressivo, ficaria enojada com sua perversidade e consideraria irritante sua lentidão de raciocínio. O casamento com Alfred seria o inferno para ela.

      Por que Aliena não era capaz de ver isso? Jack não conseguia entender. O que estava se passando na sua cabeça? Certamente que qualquer coisa seria melhor do que se casar com um homem a quem não amava. Causara sensação recusando-se a desposar William Hamleigh sete anos antes, e no entanto agora aceitava, passiva, uma proposta de uma pessoa igualmente inadequada. O que estaria pensando?

      Jack tinha que saber.

      Precisava falar com ela, e ao inferno com o mosteiro.

      Enrolou o mapa, recolocou-o no armário e foi até a porta. loseph ainda estava apoiado na vassoura.

      - Está saindo? - perguntou ele. - Pensei que tivesse que ficar aqui até que o encarregado da disciplina viesse buscá-lo.

      - Ele que vá à merda - disse Jack, e saiu.

      Quando saiu na calçada leste do claustro, atraiu a atenção do prior Philip, que vinha do canteiro da obra, ao norte. Virou-se rapidamente, mas Philip gritou:

      - Jack! O que está fazendo? Você deveria estar confinado!

      Jack não tinha paciência para a disciplina monástica naquela hora. Ignorou Philip e seguiu no rumo contrário, na direção da passagem entre a calçada sul e as casas pequenas em torno do novo cais. Mas não era seu dia de sorte. Naquele momento, o irmão Pierre, que era o encarregado da disciplina, veio andando pela passagem, seguido por seus dois assistentes. Viram Jack e ficaram imóveis. Uma expressão de atônita indignação espalhou-se pelo rosto redondo de Pierre.

      - Detenha esse noviço, irmão! - gritou Philip.

      Pierre ergueu uma das mãos para segurar Jack. Este o empurrou de lado. O encarregado da disciplina ficou vermelho e agarrou o braço do rapaz que conseguiu libertar-se e lhe deu um soco no nariz. O monge gritou, mais de ultraje que de dor. Então seus dois assistentes pularam em cima do noviço.

      Jack lutou como um louco, e quase conseguiu escapar, mas quando Pierre se recuperou do soco no nariz e se juntou a eles, os três conseguiram derrubá-lo e conservá-lo deitado. Ele continuou a lutar, furioso por ver que aquela bobagem monástica o estava impedindo de algo realmente importante, ou seja, falar com Aliena. Repetiu inúmeras vezes:

      - Soltem-me, seus idiotas!

      Os dois assistentes se sentaram em cima dele. Pierre levantou-se, esfregando o sangue do nariz na manga do hábito. Philip apareceu ao seu lado.

      A despeito da própria raiva, Jack viu que Philip também estava furioso, mais furioso do que jamais o vira.

      - Não vou tolerar esse comportamento em ninguém - disse ele, numa voz dura como ferro. - Você é um noviço e vai me obedecer. - Ele se virou para Pierre. - Ponha-o na sala de obediência.

      - Não! - gritou Jack. - Você não pode!

      - Certamente que posso - disse Philip, indignado.

      A sala de obediência era uma cela pequena e sem janela na cripta sob o dormitório, na extremidade sul, perto das latrinas. Era usada principalmente para deter transgressores da lei aguardando julgamento na corte do prior, ou transferência para a prisão do xerife em Shiring; porém, prestava serviços ocasionais como cela de punição para monges que tivessem cometido sérias transgressões disciplinares, como, por exemplo, atos impuros com criados do priorado.

      Não era o confinamento solitário que assustava Jack, e sim o fato de não poder sair para ver Aliena.

      - Você não compreende! - gritou com Philip. - Tenho que falar com Aliena!

      Era a pior coisa que poderia ter dito. Philip ficou ainda mais furioso.

      - Foi por falar com ela que você foi confinado! - disse irritado.

      - Mas preciso falar com ela!

      - A única coisa que você precisa é aprender a temer a Deus e obedecer a seus superiores.

      - Você não é meu superior, seu imbecil! Você não é nada para mim! Soltem-me, seus malditos!

      - Levem-no daqui - disse Philip, inflexível.

      Uma pequena multidão tinha se reunido àquela altura, e diversos monges ergueram Jack pelos braços e pernas. Agitou-se como um peixe apanhado num anzol, mas eles eram em grande número. Não podia acreditar que aquilo lhe estivesse acontecendo. Carregaram-no; ele deu pontapés e bracejou até a porta da sala de obediência. Alguém a abriu. Ouviu a voz do irmão Pierre, vingativa:

      - Joguem-no lá dentro!

      Eles balançaram Jack uma vez para fora e depois o soltaram no ar. Caiu de qualquer maneira, no chão de pedra. Levantou-se, com a ajuda das mãos, insensível a seus ferimentos, e correu, mas a porta foi trancada no momento exato em que bateu nela, e no instante seguinte a pesada barra de ferro foi ruidosamente passada do outro lado e a chave girou na fechadura.

      Jack socou a porta com toda a sua força.

      - Deixem-me sair! - berrou, histérico. - Tenho que impedi-la de se casar com ele! Soltem-me! - Contudo não havia nenhum barulho do lado de fora. Continuou gritando, mas suas exigências se transformaram em súplicas, e sua voz tornou-se um gemido e depois um murmúrio, e ele derramou muitas lágrimas de raiva frustrada.

      Por fim seus olhos secaram e Jack não pôde chorar mais.

      Afastou-se da porta. A cela não era escura como breu: passava um pouco de luz por baixo da porta e era possível ter uma idéia de onde se encontrava. Deu uma volta acompanhando as paredes, sentindo-as com as mãos. Pelo padrão das marcas de cinzel nas pedras soube que a cela fora construída muito tempo antes. Era um cômodo praticamente  desprovido de características especiais. Parecia ser um quadrado com cerca de seis pés de lado, uma coluna num canto e teto de arco: evidentemente fora parte de um cômodo maior, emparedado para ser usado como prisão. Em uma parede havia o que fora a abertura para uma seteira, mas estava compactamente tapada, e mesmo que não estivesse, teria sido pequena demais para permitir a passagem de uma pessoa. O chão de pedra era úmido. Jack percebeu um barulho constante e se deu conta de que o canal que atravessava o priorado do lago do moinho para as latrinas devia passar por baixo da cela. Isso explicaria por que o chão era de pedra em vez de terra batida.

      Sentiu-se exausto. Sentou-se no chão, com as costas na parede e o olhar fixo na fresta de luz sob a porta, torturante lembrete de onde desejava estar. Como se metera naquela confusão? Nunca acreditara no mosteiro, nunca tencionara dedicar sua vida a Deus - nunca acreditara realmente em Deus.

      Tornara-se um noviço como solução de um problema imediato, um recurso para permanecer em Kingsbridge, perto do que amava. Tinha pensado: Sempre poderei ir embora quando quiser. Mas agora que queria mesmo ir, mais do que qualquer outra coisa que jamais imaginara, não podia: era prisioneiro. Vou estrangular o prior Philip assim que sair daqui, pensou, nem que seja enforcado depois.

      Aquilo fez com que ele começasse a pensar quando seria libertado. Ouviu o sino anunciando a ceia. Certamente tencionavam deixá-lo ali a noite inteira. Talvez estivessem discutindo seu caso naquele exato momento. Os piores monges diriam que precisava ficar preso por uma semana - ele podia ver Remigius e Pierre defendendo uma disciplina férrea. Outros, que gostavam dele, poderiam dizer que uma noite era punição suficiente. E o que Philip diria? Ele gostava de Jack, mas estava terrivelmente furioso, sobretudo depois que Jack dissera: Você não é meu superior, seu imbecil! Você não é nada para mim! O prior se sentiria tentado a deixar o pessoal da linha dura sair ganhando daquela vez. A única esperança era de que quisessem botar Jack para fora do mosteiro imediatamente, o que para eles seria uma sentença mais severa. Desse modo conseguiria falar com ela antes do casamento. Mas Philip seria contrário, Jack não tinha dúvida. Veria sua expulsão como uma admissão de derrota.

      A luz sob a porta estava ficando mais fraca. Escurecia lá fora. Jack perguntou-se como os prisioneiros deviam satisfazer suas necessidades. Não havia um vasilhame na cela. Não era característico dos monges passar por cima de um detalhe como esse: eles acreditavam em limpeza, mesmo para os pecadores.

      Examinou o chão de novo, polegada por polegada e encontrou um buraco pequeno perto de um dos cantos. O barulho da água era mais alto ali, e ele presumiu que fosse dar no canal subterrâneo. Aquilo era, presumivelmente, sua latrina.

      Pouco depois dessa descoberta, o postigo se abriu. Jack pôs-se de pé num pulo. Uma tigela e um pedaço de pão foram postos no peitoril. Jack não pôde ver o rosto do homem que os colocou ali.

      - Quem é? - perguntou.

      - Não tenho permissão para conversar com você - disse o homem, numa voz monótona. Mesmo assim, Jack o reconheceu: era um velho monge chamado Luke.

      - Luke, eles disseram por quanto tempo eu vou ficar aqui?

      Ele repetiu a fórmula:

      - Não tenho permissão para conversar com você.

      - Por favor, Luke, diga-me se você sabe! - implorou Jack, sem se importar em quão patético pudesse parecer.

      - Pierre disse uma semana - respondeu o monge num sussurro -, mas Philip decidiu dois dias. - O postigo foi fechado com um estrondo.

      - Dois dias! - disse Jack desesperadamente. - Mas ela estará casada em dois dias!

      Não houve resposta.

      Jack pemaneceu imóvel, olhando para o nada. A luz que entrara pela pequena abertura fora forte, em comparação com a escuridão quase total do interior da cela, e não pôde ver .por uns momentos, até que sua vista se readaptou à obscuridade; então seus olhos se encheram com novas lágrimas, e ele ficou cego de novo.

      Deitou-se no chão. Não havia mais nada a ser feito. Estava trancado ali até segunda-feira, e na segunda-feira Aliena já seria mulher de Alfred, acordando na cama de Alfred, com o sémen de Alfred dentro dela. A idéia o deixou nauseado.

      Em breve ficou escuro como breu. com dificuldade, Jack deslocou-se até o peitoril e tomou o conteúdo da tigela. Era água pura. Pegou um pedacinho de pão e pôs na boca, mas não estava com fome e mal pôde engolir. Bebeu o resto da água e deitou de novo.

      Não dormiu, mas caiu numa espécie de sonolência, quase que um transe, em que reviveu, como num sonho ou visão, as tardes de domingo que passara com Aliena no verão anterior, quando lhe contara a história do escudeiro que amava a princesa e que viajara ao Oriente em busca da videira que dava pedras preciosas.

      O sino da meia-noite o despertou. Estava acostumado ao horário monástico, e se sentia bem desperto à meia-noite, embora com frequência precisasse dormir de tarde, especialmente se tivesse comido carne. Os monges deveriam estar se levantando da cama e formando filas para a procissão do dormitório à igreja. A posição deles era imediatamente acima da de Jack, mas não era possível ouvir nada: a cela era à prova de som. Pareceu-lhe que foi logo depois, quando o sino soou de novo para as laudes, ou seja, uma hora após a meia-noite. O tempo estava passando depressa, depressa demais, pois no dia seguinte Aliena estaria casada.

      Nas primeiras horas da madrugada, a despeito do seu sofrimento, ele adormeceu.

      Acordou com um sobressalto. Havia alguém na cela com ele.

      Ficou aterrorizado.

      A cela estava escura como breu. O barulho da água parecia mais alto.

      - Quem é? - perguntou, com a voz trêmula.

      - Sou eu. Não tenha medo.

      - Mãe! - Ele quase desmaiou, aliviado. - Como soube que eu estava aqui?

      - O velho Josephfoi me contar o que tinha acontecido - respondeu ela, num Tom de voz normal.

      - Fale baixo! Os monges poderão ouvir você!

      - Não, não ouvem. Pode-se cantar e berrar aqui dentro sem ser ouvido lá fora. Eu sei; já fiz isso.

      A cabeça dele estava tão cheia de perguntas que nem sabia o que perguntar primeiro.

      - Como foi que entrou aqui? A porta está aberta? - Ele se adiantou na direção da mãe, com os braços estendidos. - Oh, você está molhada!

      - O canal passa aqui embaixo. Há uma pedra solta no chão.

      - Como sabia?

      - Seu pai passou dez meses nesta cela - respondeu Ellen, e na sua voz havia a amargura do tempo.

      - Meu pai? Esta cela? Dez meses?

      - Foi quando me ensinou todas aquelas histórias.

      - Mas por que ele estava aqui?

      - Nunca descobrimos - disse ela, ressentida. - Ele foi sequestrado, ou preso, nunca descobrimos qual dos dois, na Normandia, e trazido para cá. Não falava inglês ou latim e não tinha idéia de onde se encontrava. Trabalhou nos estábulos mais ou menos por um ano; foi como o conheci. - A voz dela suavizou-se, nostálgica. - Amei-o desde o momento em que pus os olhos nele. Era delicado, e parecia tão assustado e infeliz, e mesmo assim cantava como um passarinho. Ninguém lhe falava há meses. Ficou tão satisfeito quando lhe dirigi umas poucas palavras em francês que acho que se apaixonou por mim só por isso. - A raiva endureceu de novo a voz de Ellen. - Após algum tempo o puseram nesta cela. Foi quando descobri como entrar aqui.

      Ocorreu a Jack que deveria ter sido concebido ali mesmo, naquele chão de pedra fria. A idéia o deixou envergonhado, e ficou contente por estar escuro demais para que ele e a mãe se vissem.

      - Mas meu pai deve ter feito algo para ser preso desse jeito.

      - Ele não fazia a menor idéia do motivo. E no fim inventaram um crime. Alguém lhe deu uma taça cravejada de pedras e lhe disse para ir embora. A poucas milhas daqui ele foi preso e acusado de ter furtado a taça. Enforcaram-no por isso. - Ela estava chorando.

      - Quem fez tudo isso?

      - O xerife de Shiring, o prior de Kingsbridge...  não interessa quem.

      - E a família de meu pai? Ele deve ter tido pais, irmãos e irmãs...

      - Sim, ele tinha uma família grande, na França.

      - Por que não fugiu e voltou para lá?

      - Ele tentou uma vez, mas o pegaram e trouxeram de volta. Foi quando o puseram nesta cela. Podia ter tentado de novo, claro, uma vez que tínhamos descoberto como sair daqui. Mas seu pai não sabia o caminho de volta para a França, não conhecia uma palavra de inglês e não tinha uma única moeda. Suas chances eram mínimas. Deveria ter tentado de qualquer modo, sabemos agora; mas naquele tempo nunca imaginamos que fossem enforcá-lo.

      Jack a envolveu com os braços, para confortá-la. Ellen estava encharcada e tremendo. Precisava sair dali e se secar. Jack percebeu, com um choque, que se ela pudera entrar, ele poderia sair. Por alguns momentos quase se esquecera de Aliena, enquanto sua mãe falava a respeito de seu pai; mas agora se dava conta de que seu desejo fora atendido: poderia falar com Aliena antes do casamento.

      - Mostre-me a saída - disse abruptamente.

      Ellen fungou e engoliu as lágrimas.

      - Segure meu braço.

      Os dois atravessaram a cela, e Jack sentiu que a mãe se abaixava.

      - Basta deixar o corpo cair no canal - disse ela. - Respire fundo e mergulhe. Depois engatinhe contra a correnteza. Não siga no sentido da água, ou terminará na latrina dos monges. Vai se sentir quase sem fôlego quando estiver chegando, mas mantenha a calma e continue engatinhando que conseguirá. Ela se abaixou mais ainda e desapareceu.

      Jack encontrou o buraco e desceu. Seus pés encostaram na água quase que imediatamente. Quando pisou no fundo, os ombros ainda estavam na cela. Antes de se abaixar mais, recolocou a pedra no lugar, pensando com malícia que os monges ficariam desorientados quando encontrassem a cela vazia.

      A água estava fria. Ele respirou fundo, abaixou-se e ficou sobre os joelhos e as mãos. Progrediu o mais rápido que pôde, na direção contrária à correnteza. À medida que avançava, ia imaginando os edifícios que estavam por cima dele. Primeiro a passagem, depois o refeitório, a cozinha e a padaria. Não era longe, mas pareceu levar uma eternidade. Tentou a superfície, mas bateu com a cabeça no teto do túnel. Entrou em pânico, mas se lembrou do que sua mãe dissera. Estava quase chegando. Poucos momentos depois viu luz à sua frente. O dia devia ter nascido enquanto conversavam na cela. Continuou até ficar sob a luz, quando se levantou e respirou fundo, aliviado.

      Depois de recuperar o fôlego, escalou a vala.

      Sua mãe já trocara de roupa. Estava com um vestido limpo e seco e torcia o molhado. Trouxera roupas secas para ele também. Empilhadas cuidadosamente sobre a margem da vala, Jack viu roupas que não usava há um ano e meio: uma camisa de linho, uma túnica verde de lã, meias cinzentas e botas de couro. Sua mãe se virou de costas e Jack despiu o hábito monástico, tirou as sandálias e vestiu rapidamente as próprias roupas.

      Jogou o hábito dentro da vala. Nunca mais o usaria de novo.

      - O que fará agora? - quis saber Ellen.

      - Vou procurar Aliena.

      - Neste instante? É cedo.

      - Não posso esperar.

      Ela assentiu.

      - Seja delicado. Ela está magoada.

      Jack inclinou-se para beijá-la e, impulsivamente, abraçou-a.

      - Você me tirou de uma prisão - disse, e deu uma risada. - Que mãe! ...

      Ellen sorriu, mas seus olhos estavam úmidos.

      Jack fez-lhe um último carinho e afastou-se.

      Embora o dia já estivesse inteiramente claro, não havia ninguém no caminho, porque não se trabalhava no domingo e as pessoas aproveitavam a oportunidade para dormir após o nascer do sol. Jack não tinha certeza se deveria temer ser visto. Será que o prior Philip tinha o direito de perseguir um noviço fugitivo e forçá-lo a voltar para o mosteiro? Mesmo que tivesse esse direito, iria querer exercê-lo? Jack não saberia responder. De qualquer maneira, Philip era a lei em Kingsbridge e Jack o desafiara, de modo que era bem provável que houvesse um problema qualquer. Fosse como fosse, naquela hora ele não estava preocupado com outra coisa que não os próximos minutos.

      Chegou à casa de Aliena. Ocorreu-lhe que Richard poderia estar. Esperava que não. Mas se estivesse, não havia nada que pudesse fazer. Subiu até a porta e bateu delicadamente.

      Inclinou a cabeça e prestou atenção. Ninguém se mexeu dentro da casa. Bateu de novo, com mais força, e dessa vez foi recompensado com o barulho da palha, provocado por alguém se mexendo.

      - Aliena! - sussurrou, o mais alto que pôde. Ouviu-a aproximando-se. E uma voz assustada:

      - Sim?

      - Abra a porta!

      - Quem é?

      - Eu, Jack.

      - Jack!

      Houve uma pausa. Jack esperou.

      Aliena fechou os olhos, em desespero, e curvou-se para a frente apoiando-se na porta, com a testa na madeira áspera. Não, Jack, pensou; hoje não, agora não.

      A voz dele fez-se ouvir de novo, num sussurro baixo, nervoso, intenso.

      - Aliena, por favor, abra a porta, depressa! Se me pegarem vão me prender na cela de novo!

      Ela soubera da sua prisão - toda a cidade soubera. Obviamente ele fugira. E viera direto procurá-la. Seu coração acelerou. Não podia mandá-lo embora.

      Ergueu a tranca e abriu a porta.

      O cabelo cenoura de Jack estava encharcado de água, como se tivesse acabado de tomar banho. Usava roupas comuns, não o hábito de monge. Sorriu para ela, como se vê-la fosse a melhor coisa que já tivesse lhe acontecido na vida. Depois ficou sério.

      - Você andou chorando - disse ele.

      - Por que veio aqui? - perguntou Aliena.

      - Eu tinha que vê-la.

      - Vou me casar hoje.

      - Eu sei. Posso entrar?

      Seria errado deixá-lo entrar, ela sabia; mas ocorreu-lhe então que no dia seguinte já seria mulher de Alfred, de modo que aquela podia ser a última vez em que pudesse conversar com Jack a sós. Pensou: Não me importo se for errado. Abriu mais a porta. O rapaz entrou, e ela passou a tranca de novo.

      Os dois se encararam. Agora Aliena se sentiu envergonhada. Ele a fitou com um desejo desesperado, do jeito como um homem morrendo de sede olha para uma cascata.

      - Não me olhe assim - disse, e se afastou.

      - Não se case com ele - disse Jack.

      - Tenho que me casar.

      - Você vai sofrer muito.

      - Já sofro agora.

      - Olhe para mim, por favor.

      Ela virou o rosto para ele e ergueu os olhos.

      - Por favor, diga-me por que está fazendo isso - pediu Jack.

      - Por que devo lhe dizer?

      - Por causa do modo como me beijou no moinho velho.

      Ela baixou o olhar e sentiu que corava violentamente. Traíra-se naquele dia e sentia vergonha de si própria desde então. Agora ele usava aquilo contra ela. Nada disse. Não tinha defesa.

      - Depois daquilo, você ficou fria.

      Ela manteve os olhos baixos.

      - Nós éramos tão amigos! - prosseguiu ele impiedosamente. - Aquele verão inteiro, na sua clareira, perto da queda d'água...  minhas histórias... Éramos tão felizes! Eu a beijei uma vez, lembra?

      Ela se lembrava, claro, embora sempre fizesse de conta que não tinha acontecido. A lembrança comoveu seu coração, e ela o fitou com os olhos marejados de lágrimas.

      - Então dei um jeito para o moinho pisoar seu pano - disse ele. - Fiquei tão satisfeito em poder ajudá-la no seu negócio! Você ficou entusiasmada quando viu aquilo. E nos beijamos de novo, mas não foi um beijinho, como o primeiro. Dessa vez foi um... beijo apaixonado. - Oh, meu Deus, foi apaixonado sim, pensou ela, e corou de novo, começando a respirar depressa; quis que ele parasse, mas ele continuou:

      - Nós nos abraçamos com força. Nós nos beijamos por longo tempo. Você abriu a boca...

      - Pare! - exclamou Aliena.

      - Por quê? - indagou ele brutalmente. - O que há de errado nisso? Por que ficou fria?

      - Porque estou apavorada! - disse ela sem pensar e rompeu a chorar. Enfiou o rosto nas mãos e soluçou. Um momento depois sentiu as mãos dele nos ombros encolhidos.

      Não fez nada, e logo Jack a tomou delicadamente nos braços. Aliena tirou as mãos do rosto e chorou na túnica verde dele.

      Após algum tempo passou os braços pela cintura de Jack.

      Ele encostou o rosto no seu cabelo - feio, curto, sem forma, ainda não recuperado do incêndio - e a afagou como se fosse um bebê. Ela gostaria de ficar assim para sempre. Mas Jack se afastou, para poder olhar para ela, e perguntou:

      - O que a deixa tão amedrontada?

      Ela sabia, mas não podia dizer. Sacudiu a cabeça e recuou um passo; ele segurou-lhe os pulsos, conservando-a junto de si.

      - Escute, Aliena - disse Jack. - Quero que saiba como isto tem sido terrível para mim. Primeiro você parecia me amar, depois me odiar, e agora vai se casar com o filho do meu padrasto. Não compreendo. Não sei nada a respeito dessas coisas. Nunca estive apaixonado antes. Só sei que machuca demais. Não sei quais são as palavras para descrever como tudo isto é ruim. Não acha que devia pelo menos tentar me explicar por que tenho que sofrer tanto?

      Ela se sentiu cheia de remorsos. Pensar que o magoara tão profundamente quando o amava tanto! Envergonhou-se de como o tratara. Ele nada lhe tinha feito senão coisas boas, e ela arruinara sua vida. Tinha direito a uma explicação. Procurou se fortalecer.

      - Jack, aconteceu uma coisa comigo muito tempo atrás, uma coisa verdadeiramente horrível, algo que me fez esquecer de mim mesma por muitos anos. Nunca mais quis pensar nisso, mas quando você me beijou daquele jeito tudo voltou à minha cabeça e não consegui suportar.

      - O que aconteceu? Que coisa foi essa?

      - Depois que meu pai foi aprisionado, ficamos morando no castelo, Richard, eu e um criado chamado Matthew; e uma noite William Hamleigh apareceu e nos expulsou de lá.

      Jack semicerrou os olhos.

      - E aí?

      - Mataram o pobre Matthew.

      Ele sabia que Aliena não estava lhe contando toda a verdade.

      - Por quê?

      - O que você quer saber?

      - Por que mataram o seu criado?

      - Porque ele tentou detê-los. - As lágrimas corriam pelo seu rosto, e um nó constrangia sua garganta sempre que tentava falar, como se as palavras a sufocassem.

      Sacudiu a cabeça, impotente, e tentou se virar, mas Jack não a soltou.

      - Ele queria impedi-los de fazer o quê? - perguntou ele, numa voz delicada como um beijo.

      De repente ela soube que podia lhe contar e saiu tudo de uma vez.

      - Eles me forçaram - disse. - O criado de William me prendeu no chão e William montou em cima de mim, mesmo assim não deixei, e então eles cortaram um pedaço da orelha de Richard e disseram que cortariam mais. - Ela soluçou, extraordiariamente   aliviada por ser afinal capaz de contar aquilo. Fitou Jack nos olhos e disse: - Aí abri as pernas e William fez aquilo comigo, enquanto o criado dele forçava Richard a olhar.

      - Sinto muito - murmurou Jack. - Eu tinha ouvido boatos, mas nunca pensei...  Querida Aliena, como eles foram capazes?

      Era preciso lhe contar tudo.

      - Depois que William acabou, foi a vez do criado.

      Jack fechou os olhos. Seu rosto estava branco e tenso. Aliena continuou.

      - Veja então: quando você e eu nos beijamos, quis fazer aquilo com você, e isso me fez pensar em William e no seu criado; e me senti horrível, e assustada, e fugi correndo. Essa foi a razão  pela  qual  fui tão  má  com  você,  e  o  fiz sofrer. Desculpe-me.

      - Eu a perdôo - sussurrou ele. Puxou-a para junto de si, e Aliena deixou mais uma vez que a abraçasse. Era tão reconfortante!

      Sentiu que ele estremecia.

      - Eu o deixo enojado? - perguntou, ansiosa. Jack fitou-a.

      - Eu a adoro - disse. Ele inclinou a cabeça e beijou sua boca.

      Ela gelou. Não era aquilo que queria. Ele afastou-se um pouco e a beijou de novo. O contato com seus lábios era muito suave. Sentindo-se agradecida e amiga dele, contraiu os lábios, só um pouquinho, depois relaxou de novo, num débil eco do seu beijo. Encorajado, Jack moveu os lábios de encontro aos dela mais uma vez. Aliena podia sentir seu hálito quente no rosto. Ele abriu a boca, uma coisa mínima. Ela recuou rapidamente.

      Jack pareceu magoado.

      - É assim tão ruim?

      Na verdade, Aliena não estava mais assustada que da outra vez. Contara-lhe a horrível verdade a seu respeito e ele não se afastara enojado; na verdade, mostrava-se tão terno e gentil como sempre. Inclinou a cabeça e ele a beijou de novo. Aquilo não era assustador. Não havia nada ameaçador, nada violentamente incontrolável, nem força, ódio ou dominação; apenas o contrário. Aquele beijo era um prazer compartilhado.

      Os lábios dele se abriram e ela sentiu a ponta da sua língua. Ficou tensa. Ele insistiu e fez com que Aliena abrisse a boca. Ela relaxou de novo. Ele sugou delicadamente seu lábio inferior. Ela se sentiu um pouco tonta.

      - Você faria o que fez da última vez? - perguntou ele.

      - O que fiz?

      - Eu lhe mostrarei. Abra a boca, só um pouquinho.

      Fez o que Jack pediu, e sentiu de novo a língua dele roçando-lhe os lábios, passando por entre os dentes e explorando-lhe a boca até encontrar sua língua. Afastou-se.

      - É isso - disse ele. - Foi o que você fez.

      - Fiz mesmo? - Ela estava chocada.

      - Fez. - Ele sorriu e, de repente, assumiu um ar solene.

      - Se fizesse de novo, compensaria todo o meu sofrimento dos últimos nove meses.

      Aliena inclinou a cabeça de novo e fechou os olhos. Após um momento sentiu sua boca na dela. Abriu os lábios, hesitou, depois nervosamente enfiou a língua na boca dele. Ao fazê-lo se lembrou da outra vez, no moinho velho, e a mesma sensação de êxtase a assaltou. Invadiu-a uma intensa necessidade de segurá-lo, acariciar-lhe a pele e o cabelo, sentir-lhe os músculos e os ossos, estar dentro dele e tê-lo dentro de si. Sua língua encontrou a de Jack, e em vez de experimentar vergonha ou uma leve repugnância, sentiu-se excitada por estar fazendo uma coisa tão íntima.

      Os dois agora estavam respirando com dificuldade. Jack segurou-lhe a cabeça com ambas as mãos. Aliena acariciou-lhe os braços, as costas e por fim os quadris, sentindo-lhe os músculos tensos. O coração dela batia com força. Por fim interrompeu o beijo, sem fôlego.

      Aliena o fitou. Jack estava vermelho e ofegante, e seu rosto brilhava de desejo. Após um momento ele se inclinou para a frente de novo, mas em vez de beijar-lhe a boca, ergueu-lhe o queixo e beijou a pele delicada do pescoço. Aliena ouviu seu próprio gemido de prazer. Jack abaixou mais a cabeça e roçou os lábios sobre os seus seios. Os mamilos, sob o tecido áspero da camisa de dormir, tinham aumentado de volume e estavam insuportavelmente sensíveis. Os lábios de Jack fecharam-se sobre um deles. Ela sentiu o calor do seu hálito na pele.

      - Devagarzinho - sussurrou, temerosa.

      Ele beijou o bico do seu seio através da fazenda, e embora houvesse sido incrivelmente gentil, a sensação de prazer que a invadiu foi tão pungente como se a tivesse mordido.

      Então Jack ajoelhou-se diante dela.

      Ele comprimiu o rosto no seu colo. Até aquele momento, a sensação se concentrara nos seios, mas agora, de repente, sentiu a vibração passar para entre as pernas.

      Jack pegou a bainha da camisa e levantou-a até a cintura. Ela o observou, com medo da sua reação; sempre se sentira envergonhada por ser tão peluda. Mas ele não sentiu repugnância; na verdade, inclinou-se e beijou-a delicadamente, bem ali, como se fosse a coisa mais bonita do mundo.

      Aliena deixou-se cair sobre os joelhos, na frente dele. Sua respiração agora era aos arrancos, como se tivesse corrido uma milha. Sua garganta estava seca, de tanto desejo. Pôs as mãos nos joelhos dele, depois escorregou uma delas por baixo da sua túnica. Nunca tocara no pênis de um homem. Era quente, seco e duro como um pedaço de ferro. Jack fechou os olhos e gemeu, quando ela explorou sua extensão com a ponta dos dedos. Aliena ergueu-lhe a túnica, abaixou-se e o beijou. Exatamente como ele a beijara, um delicado roçar de lábios. A glande estava crescida, com a pele esticada como um tambor e umedecida por um líquido qualquer.

      Aliena viu-se dominada pelo súbito desejo de lhe mostrar os seios. Endireitou o corpo. Ele abriu os olhos. Fitando-o, ela puxou depressa a camisola por cima da cabeça e a pôs de lado. Agora estava nua. Tinha uma aguda consciência de si mesma, mas era uma sensação boa, deliciosamente indecente. Jack olhou fascinado para os seus seios.

      - São lindos - disse.

      - Acha mesmo? Sempre pensei que fossem grandes demais.

      - Grandes demais! - repetiu Jack, como se ela tivesse dito algo ultrajante. Adiantou-se e tocou no seu seio esquerdo com a mão direita. Acariciou-lhe a pele delicadamente, com a ponta dos dedos. Ela baixou a cabeça, para acompanhar o que estava fazendo. Logo quis que ele fosse mais firme. Pegou ambas as mãos de Jack com as suas e comprimiu-as de encontro aos seios.

      - Com mais força - pediu, a voz rouca. - Quero sentir mais você.

      As palavras de Aliena o inflamaram. Apertou-lhe os seios, depois pegou os mamilos e os beliscou de leve, o suficiente para doer um pouco. A sensação deixou-a maluca.

      Parou inteiramente de raciocinar e deixou-se dominar pela sensação do corpo dele e do seu próprio.

      - Tire a roupa - disse. - Quero ver você.

      Ele tirou a túnica e a camisa de baixo, as botas e as meias, e ajoelhou-se de novo em frente a ela. Seu cabelo cenoura ia secando em cachos indisciplinados. O corpo era esguio e branco, de ombros e ancas ossudas. Parecia rijo e ágil, jovem e sadio. O pênis era uma árvore levantando-se em meio à floresta ruiva de pêlos. De repente ela quis beijar-lhe o peito. Inclinou-se e roçou os lábios nos seus mamilos chatos de homem. Eles se contraíram, exatamente como os dela. Aliena sugou-os com delicadeza, querendo que ele tivesse o mesmo prazer que lhe dera. Jack acariciou-lhe o cabelo.

      Aliena o desejou dentro dela, rapidamente.

      Dava para ver que ele não estava certo sobre o que fazer a seguir.

      - Jack - perguntou -, você é virgem?

      Ele fez que sim, sentindo-se meio bobo.

      - Que bom! - disse ela ardorosamente. - Fico tão feliz!

      Pegou a mão de Jack e a pôs entre suas pernas. Estava sensível e um pouco inchada, e o contato da mão dele foi um choque.

      - Toque-me - disse. Ele mexeu os dedos, explorando. - Toque-me lá dentro. - Hesitantemente, Jack enfiou um dedo dentro dela. Estava molhada de desejo. - Aí - aprovou Aliena, com um suspiro de satisfação -, é aí que ele tem que entrar. - Largou a mão dele e deitou-se para trás, na palha.

      Jack deitou-se sobre Aliena e, apoiando-se num dos cotovelos, beijou-lhe a boca. Ela sentiu que ele a penetrava um pouco e parava.

      - O que há? - perguntou.

      - Parece muito pequena. Estou com medo de machucar você.

      - Meta com força - disse ela. - Eu o quero tanto que não me importo se doer.

      Sentiu Jack arremeter. Doeu mais do que antecipara, mas apenas por um momento, e logo se sentiu maravilhosamente completada. Ele recuou e avançou um pouco. Ela sorriu.

      - Nunca pensei que fosse tão bom - suspirou, sonhadora. Fechou os olhos, como se não aguentasse tanta felicidade.

      Jack começou a arremeter ritmadamente. As estocadas constantes impuseram um ritmo de prazer em algum lugar dentro dela. Aliena ouviu-se dando gritinhos de satisfação cada vez que seus corpos se aproximavam. Ele abaixou-se, para que seu peito pudesse encontrar os seios dela, fazendo-a sentir seu hálito quente. Aliena cravou os dedos com força nas suas costas. Seus arquejos transformaram-se em gritos. De repente precisou beijá-lo. Beijou-lhe os lábios com força e enfiou a língua na sua boca, aumentando cada vez mais o ritmo. Ter o pênis de Jack dentro de si e a própria língua na boca dele foi uma coisa que a descontrolou, de tanto prazer. Sentiu um grande espasmo de gozo sacudi-la tão violentamente que foi como cair de um cavalo e bater no chão. Gritou bem alto. Abriu os olhos, disse seu nome, e outra onda a engolfou, e mais outra. Então sentiu o corpo dele se convulsionar. Jack gritou e Aliena sentiu um jato quente esguichando no seu íntimo, o que a inflamou mais ainda, a tal ponto que estremeceu de prazer tantas vezes que perdeu a conta, até que por fim a última sensação se desvaneceu e ela foi ficando gradualmente imóvel.

      Estava cansada demais para falar ou se mexer, mas podia sentir o peso de Jack, os quadris ossudos sobre os seus, o peito chato esmagando-lhe os seios macios, a boca junto ao seu ouvido, os dedos entrelaçados no seu cabelo. Uma parte de sua cabeça pensou vagamente: Então é assim que deve ser entre homem e mulher; é por isso que todos fazem tanta confusão a esse respeito; e é esse o motivo pelo qual marido e mulher se amam tanto.

      A respiração de Jack passou a ser leve e regular, e seu corpo relaxou até ficar completamente imóvel. Ele dormiu.

      Aliena virou a cabeça e beijou-lhe o rosto. Jack não era muito pesado. Queria que ficasse ali para sempre, dormindo em cima dela.

      Esse pensamento a fez lembrar.

      Aquele era o dia do seu casamento.

      Meu Deus, o que fiz?

      Começou a chorar.

      Após um momento, Jack acordou.

      Beijou as lágrimas do seu rosto com uma ternura intolerável.

      - Oh, Jack, quero me casar com você.

      - Então será o que faremos - disse ele, numa voz de profunda satisfação.

      Ele a entendera mal, o que piorou tudo mais ainda.

      - Mas não podemos - disse ela, as lágrimas correndo mais depressa.

      - Mas depois disso...

      - Eu sei...

      - Depois disso você tem que se casar comigo!

      - Não podemos nos casar. Perdi todo o meu dinheiro e você não tem nada.

      Ele se levantou, apoiado nos cotovelos.

      - Tenho as minhas mãos! - exclamou, arrebatado. - Sou o melhor cinzelador em muitas milhas.

      - Você foi mandado embora...

      - Não faz diferença. Posso conseguir trabalho em qualquer canteiro de obra no mundo.

      Ela sacudiu a cabeça angustiadamente.

      - Não basta. Tenho que pensar em Richard.

      - Por quê? - indagou ele, indignado. - O que isso tudo tem a ver com Richard? Ele é capaz de cuidar de si próprio.

      De repente Jack pareceu meio infantil, e Aliena sentiu a diferença de idade que havia entre eles: Jack era cinco anos mais moço e ainda pensava que tinha o direito de ser feliz.

      - Jurei para o meu pai, quando ele estava morrendo, que cuidaria de Richard até que ele se tornasse o conde de Shiring.

      - Mas pode ser que isso não aconteça nunca!

      - Mas um juramento é um juramento!

      Jack ficou perplexo. Rolou de cima dela. Seu pênis mole escorregou para fora de Aliena, que experimentou uma dolorosa sensação de perda. Nunca mais o sentirei dentro de mim, pensou, angustiada.

      - Você não pode estar falando sério - disse ele. - Um juramento são apenas palavras! Não é nada, comparado com isto! Isto é real, é você e eu. - Jack olhou para os seus seios e acariciou o pêlo crespo entre suas pernas. Foi tão pungente que Aliena sentiu o contato da mão dele como uma chicotada. Ele a viu estremecer e parou.

      Por um momento Aliena esteve prester a dizer: Sim, está bem, vamos fugir agora, e o teria feito se ele continuasse acariciando-a; mas a razão retornou, e ela disse:

      - Vou me casar com Alfred.

      - Não seja ridícula.

      - É o único jeito.

      Ele a encarou.

      - Eu simplesmente não acredito em você.

      - É verdade.

      - Não posso desistir de você. Não posso, não posso. - A voz dele falhou e Jack sufocou um soluço.

      Aliena tentou ponderar, argumentando tanto consigo quanto com ele:

      - De que adianta quebrar um juramento que fiz a meu pai, para fazer outro a você no casamento? Se quebro o primeiro, o segundo nada vale.

      - Não me interessa. Não quero seus juramentos. Só quero que estejamos juntos o tempo todo e que possamos fazer amor sempre que tivermos vontade.

      Era uma visão do casamento típica de quem tinha dezoito anos, pensou Aliena, mas não disse nada. Teria aceitado aquela visão de bom grado, caso fosse livre.

      - Não posso fazer o que quero - disse tristemente. - Não é o meu destino.

      - O que você está fazendo é errado - disse ele. - É uma coisa má. Desistir da felicidade deste modo é como atirar jóias no mar. É muito pior do que qualquer pecado.

      Inesperadamente, veio à cabeça de Aliena a idéia de que sua mãe teria concordado com aquilo. Não estava certa sobre como ela própria se sentia.

      - Eu não poderia ser feliz nunca, nem mesmo com você, se tivesse que viver sabendo ter quebrado uma promessa feita a meu pai.

      - Você se importa mais com seu pai e com seu irmão do que comigo - disse Jack, levemente petulante pela primeira vez.

      - Não...

      - O que é então?

      Ele estava apenas querendo discutir, mas ela considerou a pergunta seriamente.

      - Suponho que o juramento que fiz a meu pai é mais importante para mim do que o amor que sinto por você.

      - É mesmo? De verdade?

      - Sim, é - respondeu ela, com o coração pesado. Suas palavras soaram como um sino fúnebre.

      - Então não há mais nada a ser dito.

      - Só que...  só que sinto muito.

      Ele se levantou. Virou as costas para ela e apanhou a camisa de baixo. Aliena contemplou seu rosto comprido e esbelto. Havia um bocado de pêlos vermelho-dourados nas suas pernas. Ele vestiu a camisa e a túnica, depois calçou as meias e enfiou as botas. Tudo muito depressa.

      - Você vai se sentir terrivelmente infeliz - disse Jack. Tentava ser desagradável com ela, mas a tentativa foi um fracasso, pois Aliena detectou compaixão em sua voz.

      - Sim, vou - disse. - Mas você pelo menos... pelo menos diria que me respeita pela decisão que tomei?

      - Não - respondeu ele sem hesitar. - Não a respeito. Eu a desprezo pela sua decisão.

      Ela permaneceu sentada, nua, olhando para ele, e começou a chorar.

      - É melhor que eu vá embora - disse Jack, e sua voz falhou na última palavra.

      - Sim, vá - soluçou ela. Ele foi até a porta. - Jack!

      Ele se voltou.

      - Deseja-me boa sorte, Jack?

      Ele levantou a tranca.

      - Boa... - parou, incapaz de falar. Olhou para o chão e para ela de novo. Dessa vez sua voz saiu num sussurro. - Boa sorte - disse.

      Então saiu.

     

      A casa que fora de Tom agora era de Ellen, mas também de Alfred, e naquela manhã estava cheia de gente preparando o banquete de casamento, organizado por Martha, a filha de treze anos de Tom, com a mãe de Jack a tudo assistindo desconsoladamente. Alfred estava com uma toalha na mão, pronto a descer até o rio - as mulheres se banhavam uma vez por mês, e os homens, na Páscoa e no dia de são Miguel, mas era tradicional tomar banho também no dia do casamento. Todos ficaram em silêncio quando Jack entrou.

 

      - O que você quer? - perguntou Alfred.

      - Que você cancele o casamento - respondeu Jack.

      - Dê o fora.

      Jack percebeu que começara mal. Tinha que tentar não transformar aquilo numa provocação. O que propunha era também do interesse de Alfred, e tinha que tentar fazê-lo entender.

      - Alfred, ela não o ama - disse Jack, o mais delicadamente que pôde.

      - Você não sabe de nada, garoto.

      - Sei, sim - insistiu ele. - Ela não o ama. Está se casando por causa de Richard. Ele é o único que ficará feliz com este casamento.

      - Volte para o mosteiro - disse Alfred desdenhosamente. - A propósito, onde está seu hábito?

      Jack respirou fundo. Nada havia a fazer senão lhe contar a verdade.

      - Alfred. Ela me ama.

      Esperava que Alfred fosse ficar enfurecido, mas, ao contrário, foi a sombra de um sorriso dissimulado que apareceu no seu rosto. Jack ficou perplexo. O que significava aquilo? Gradualmente, a explicação se fez clara na sua cabeça.

      - Você já sabia! - exclamou, incrédulo. - Sabe que ela me ama e não se importa! Você a quer de qualquer maneira, não importa se o ame ou não. Só quer que seja sua.

      O sorriso furtivo de Alfred tornou-se mais visível e malicioso, e Jack viu que tudo o que estava dizendo era verdade; entretanto havia algo mais, outra coisa qualquer a ser lida na expressão de Alfred. Uma suspeita inacreditável surgiu na cabeça de Jack.

      - Por que você a quer? Será que só quer se casar com Aliena para tirá-la de mim? - A raiva aumentou o volume da sua voz. - Será que a está desposando por despeito?

      Uma expressão ardilosa de triunfo espalhou-se na cara de parvo de Alfred, e mais uma vez Jack viu que tinha razão. Ficou desolado. A idéia de que o outro estivesse fazendo aquilo tudo, não devido a um compreensível desejo arrebatado por Aliena, mas de pura maldade, era intolerável.

      - Maldito seja, é melhor tratá-la bem! - gritou.

      Alfred riu.

      A suprema perversidade contida no objetivo de Alfred atingiu Jack com a força de um soco. Ele não ia tratá-la bem. Seria a vingança final dele contra Jack. Ia se casar com Aliena e fazê-la sofrer.

      - Seu lixo! - disse Jack amargamente. - Seu lodo humano. Seu merda. Seu retardado, estúpido, feio, malvado, asqueroso.

      Sua insolência finalmente atingiu Alfred, que deixou cair a toalha e avançou, com a mão cerrada. Jack estava preparado e adiantou-se, disposto a bater primeiro.

      Mas a mãe de Jack meteu-se entre os dois, e a despeito de ser menor que ambos, deteve-os com uma palavra.

      - Alfred. Vá tomar seu banho.

      O enteado acalmou-se rapidamente. Sabia que ganhara o dia sem ter que brigar com Jack, e seus pensamentos foram revelados por uma expressão de quem se sentia muito satisfeito consigo próprio. Deixou a casa.

      - O que você vai fazer, Jack? - perguntou Ellen.

      O rapaz descobriu que estava tremendo de raiva. Teve que respirar fundo diversas vezes para poder falar. Não podia cancelar o casamento, admitiu. Mas tampouco poderia assistir a ele.

      - Tenho que deixar Kingsbridge.

      Ele viu uma sombra de tristeza cruzar o seu rosto, mas ela assentiu.

      - Eu receava que você fosse dizer isso. Mas acho que está com a razão.

      Um sino começou a tocar no priorado.

      - A qualquer momento vão descobrir que fugi.

      Ela baixou a voz.

      - Vá rapidamente, mas se esconda perto do rio, num lugar de onde possa ver a ponte. Vou levar umas coisas para você.

      - Está bem. - Ele se virou.

      Martha colocou-se entre ele e a porta com as lágrimas correndo pelo rosto. Ele a abraçou. Ela o apertou com força. Seu corpo de menina era chato e ossudo, como o de um garoto.

      - Volte um dia - disse impetuosamente. Ele a beijou uma vez, depressa, e saiu.

      Havia muita gente na rua agora, apanhando água ou aproveitando a manhã amena de outono. A maior parte das pessoas sabia que ele entrara para o mosteiro como noviço - a cidade ainda era pequena o bastante para que todos soubessem da vida uns dos outros -, e seus trajes leigos atraíram olhares, embora ninguém chegasse a lhe perguntar nada. Desceu rapidamente a colina e atravessou a ponte, caminhando ao longo da margem do rio até encontrar uma moita de juncos. Agachou-se ali atrás e ficou olhando para a ponte, esperando a mãe.

      Não tinha idéia de para onde estava indo. Talvez andasse em linha reta até chegar a uma cidade onde estivessem construindo uma catedral e parasse lá. Estava falando sério, quando dissera a Aliena que encontraria trabalho: sabia que era bastante bom para ser empregado em qualquer lugar. Mesmo que o canteiro de obras estivesse com o efetivo de operários completo, teria apenas que mostrar ao mestre construtor como sabia cinzelar e seria aproveitado. Mas não adiantava mais nada. Nunca mais amaria outra mulher depois de Aliena, e se sentia do mesmo modo em relação à Catedral de Kingsbridge. Queria trabalhar numa obra ali, e não em qualquer parte.

      Talvez simplesmente entrasse na floresta, se deitasse e morresse. Pareceu-lhe uma boa idéia. A temperatura era agradável, as árvores estavam verdes e douradas; teria um fim cheio de paz. Sua única mágoa seria não ter descoberto mais coisas sobre seu pai antes de morrer.

      Estava se imaginando deitado num leito de folhas de outono e mergulhando delicadamente nos braços da morte, quando viu sua mãe atravessar a ponte. Ela puxava um cavalo.

      Levantou-se e correu até ela. O cavalo, na verdade era a égua alazã que sempre montava.

      - Quero que você leve minha égua - disse. Ele apertou-lhe a mão, agradecido.

      Os olhos de Ellen encheram-se de lágrimas.

      - Nunca tomei conta de você muito bem - disse. - Primeiro o criei na floresta. Depois quase o deixei morrer de fome com Tom. E depois o fiz viver com Alfred.

      - Você tomou conta de mim muito bem, mãe - disse ele. - Fiz amor com Aliena hoje de manhã. Agora posso morrer feliz.

      - Menino bobo! Exatamente como eu. Se não pode ter o amante que quer, não se interessa por mais ninguém.

      - É assim que você é?

      Ela balançou a cabeça.

      - Depois que seu pai morreu, preferi viver sozinha, em vez de aceitar um pretendente qualquer. Nunca quis outro homem até ver Tom. E isso foi onze anos depois. - Ela retirou a mão da sua. - Estou lhe dizendo isso por uma razão: pode ser que demore onze anos, mas você amará outra mulher um dia; eu lhe garanto.

      Ele sacudiu a cabeça.

      - Isto não parece possível.

      - Eu sei. - Ela olhou nervosamente por cima do ombro, na direção da cidade. - É melhor você ir.

      Jack encaminhou-se para a égua. Estava carregada com dois alforjes muito cheios.

      - O que há nesses sacos? - perguntou.

      Um pouco de comida, dinheiro e vinho, neste aqui - respondeu ela. - O outro tem as ferramentas de Tom.

      Jack ficou comovido. Sua mãe insistira em guardar as ferramentas de Tom, depois de ele morrer, como lembrança. Agora as estava dando para ele. Abraçou-a.

      - Muito obrigado.

      - Para onde você irá? - perguntou ela.

      Ele pensou de novo no pai.

      - Onde os menestréis contam suas histórias?

      - Na estrada dos peregrinos de Santiago de Compostela.

      - Acha que os menestréis se lembrarão de Jack Shareburg?

      - É possível. Diga que se parecia com você.

      - Onde fica Santiago de Compostela?

      - Na Espanha.

      - Então vou para a Espanha.

      - É uma longa viagem, Jack.

      - Tenho bastante tempo.

      Ela passou os braços em volta do filho e o abraçou com força. Jack perguntou-se quantas vezes ela fizera aquilo nos seus dezoito anos de vida, consolando-o por causa de um joelho ralado, um brinquedo perdido, um desapontamento infantil... e agora por uma dor essencialmente adulta. Pensou nas coisas que ela fizera, desde criá-lo na floresta até tirá-lo da cela. Sempre estivera disposta a lutar pelo filho como uma leoa. Doía ter que deixá-la.

      Ela o libertou. Ele montou.

      Jack olhou para Kingsbridge. Era uma aldeia atrasada, com uma catedral em ruínas quando chegara ali. Ateara fogo à velha catedral, embora ninguém soubesse disso. Agora Kingsbridge era uma cidadezinha operosa, que se atribuía bastante importância. Bem, havia outras cidades. Abandonar Kingsbridge era uma separação dolorosa, mas ele estava no limiar do desconhecido, prestes a embarcar numa aventura, e isso amenizava a dor de abandonar tudo o que amava.

      - Volte um dia, por favor, Jack - pediu Ellen.

      - Eu voltarei.

      - Promete?

      - Prometo.

      - Se ficar sem dinheiro antes de encontrar trabalho, venda o cavalo, não as ferramentas - disse ela.

      - Eu a amo, mãe.

      Os olhos dela se encheram de lágrimas.

      - Tome cuidado, filho.

      Ele bateu com os calcanhares na montaria e foi embora. Virou-se e acenou. Ela acenou também. Então ele forçou a égua a trotar e depois não olhou mais para trás.

     

      Richard chegou em casa justo a tempo para o casamento.

      Estêvão lhe dera, generosamente, dois dias de licença, explicou. O exército do rei estava em Oxford, sitiando o castelo onde tinham encurralado Matilde, de modo que não havia muita coisa para os cavaleiros fazerem.

      - Eu não podia perder o casamento da minha irmã - disse Richard, fazendo Aliena pensar, amargamente: Você só queria ter certeza absoluta de que o trato era cumprido, para poder receber o que Alfred lhe prometeu.

      Ainda assim, ficou contente porque ele estava ali para entrar com ela na igreja e entregá-la ao noivo. De outro modo não teria ninguém.

      Vestiu uma camisa de baixo nova, de linho, e um vestido branco no estilo mais recente. Não havia muito que pudesse fazer com seu cabelo mutilado, mas mesmo assim trançou as partes mais compridas e as prendeu com elegantes lenços brancos de seda. Uma vizinha emprestou um espelho. Estava pálida, e seus olhos mostravam que passara a noite em claro. Bem, não havia nada que pudesse fazer a esse respeito. Richard a observava. Sua expressão era vagamente envergonhada, como se se sentisse culpado, e ele se remexia sem parar. Talvez tivesse medo que ela fosse cancelar tudo no último minuto.

      Havia momentos em que se sentia inclinada a fazer justamente isso. Imaginava-se saindo de Kingsbndge de mãos dadas com Jack, a fim de começar vida nova em algum outro lugar, uma vida simples de trabalho honesto, livre dos grilhões de antigos juramentos e pais mortos. Mas era um sonho tolo. Nunca poderia ser feliz se abandonasse o irmão.

      Ao chegar a essa conclusão, imaginou-se descendo até o rio e atirando-se nas suas águas, e chegou a ver seu corpo imóvel, o vestido do casamento encharcado, descendo a correnteza, o rosto virado para cima, o cabelo flutuando em torno da cabeça; então concluiu que se casar com Alfred era melhor que aquilo e voltou para o ponto inicial, considerando o casamento como a melhor solução disponível para a maioria dos seus problemas.

      Como Jack faria pouco de um pensamento desses!

      O sino da igreja soou.

      Aliena se levantou.

      Ela nunca visualizara o dia do seu casamento daquele jeito. Quando pensava nele, nos tempos de menina, imaginava-se de braço com o seu pai, caminhando da fortalezado castelo pela ponte levadiça até a capela no pátio inferior, com os cavaleiros e homens de armas, criados e moradores amontoados por toda parte para gritar vivas e lhe desejar felicidades. O rapaz à sua espera na capela sempre fora indistinto no seu devaneio, mas sabia que a adorava e a fazia rir e que o achava maravilhoso.

      Bem. Nada em sua vida acontecera do jeito que esperara. Richard manteve aberta a porta da sua pequena casa de um único cómodo e ela saiu.

      Para sua surpresa, alguns vizinhos esperavam do lado de fora de suas portas para vê-la passar. Diversas pessoas exclamaram: "Deus a abençoe!" e "Boa sorte!" quando apareceu. Sentiu-se terrivelmente grata a elas. Jogaram-lhe milho enquanto subia a rua. Milho era para sua fertilidade. Teria filhos, e eles a amariam.

      A igreja da paróquia ficava do outro lado da cidade, no bairro rico, onde passaria a morar a partir daquela noite. Passaram pelo mosteiro. Os monges estariam realizando um dos seus serviços naquele momento, mas o prior Philip prometera aparecer no banquete nupcial e abençoar o feliz casal. Aliena esperava que ele fosse mesmo. Ele tinha sido uma força importante na sua vida, desde aquele dia, seis anos antes, quando comprara lã para ela em Winchester.

      Chegaram à igreja nova, construída por Alfred com a ajuda de Tom. Havia uma multidão do lado de fora. O casamento seria celebrado na varanda, em inglês; haveria depois uma missa em latim no interior da igreja. Todos que trabalhavam para Alfred estavam ali, da mesma forma como a maioria das pessoas que haviam tecido para Aliena nos velhos tempos. Todos aplaudiram quando ela chegou.

      Alfred estava aguardando, com a irmã, Martha, e um dos seus pedreiros, Dan. Envergava uma túnica escarlate nova e botas limpas. Seu cabelo era comprido e brilhante, como o de Ellen. Aliena percebeu que ela não estava. Ficou desapontada. Ia perguntar a Martha onde se encontrava sua madrasta quando o sacerdote apareceu e a cerimônia começou.

      Aliena se lembrou de que sua vida tomara um novo rumo seis anos antes, quando fizera um juramento para o pai, e de que agora uma nova era se iniciava com outro juramento a um homem. Raramente fazia algo para si. A exceção chocante fora aquela manhã, com Jack. Ao rememorar o que fizera, mal pôde crer. Parecia um sonho, ou uma das histórias fantásticas de Jack, algo sem ligação com a vida real. Jamais contaria o que se passara. Seria um segredo lindo que guardaria para si própria e de que se lembraria de vez em quando, como um avarento contando um tesouro oculto na calada da noite.

      Estavam chegando aos votos. Seguindo a indicação do padre, Aliena disse:

      - Alfred, filho de Tom Construtor, eu o tomo como marido e juro ser fiel para sempre. - Ao dizer isso teve vontade de chorar.

      Alfred fez seu juramento em seguida. Ouviu-se um barulho entre as pessoas mais afastadas enquanto ele falava, e uma ou duas pessoas olharam para trás. Aliena atraiu a atenção de Martha, que lhe cochichou:

      - É Ellen.

      O padre fez uma expressão de desagrado.

      - Alfred e Aliena estão agora casados aos olhos de Deus - disse ele -, e possa a bênção...

      Nunca concluiu a frase. Uma voz alta fez-se ouvir às costas de Aliena.

      - Eu amaldiçoo este casamento!

      Era Ellen.

      Um frêmito de horror escapou da boquiaberta congregação. O padre tentou continuar.

      - E possa a bênção. .. - Mas se calou, pálido, e fez o sinalda-cruz.

      Aliena se virou. Ellen estava de pé, à sua retaguarda. A multidão se afastara, abrindo-lhe espaço. Ela segurava um galo vivo numa das mãos e uma faca comprida na outra. Havia sangue na faca e sangue jorrando do pescoço da ave.

      - Amaldiçôo este casamento com infortúnio - disse, e suas palavras gelaram o coração de Aliena. - Amaldiçôo este casamento com esterilidade. Amaldiçôo este casamento com amargura, ódio, com a angústia causada pela privação e pelo arrependimento. Eu o amaldiçôo com a impotência. - Quando ela disse a palavra "impotência", arremessou o galo sangrando no ar. Diversas pessoas gritaram e recuaram, amedrontadas. O galo voou, esparzindo sangue, e pousou em Alfred, que deu um pulo para trás, aterrorizado.

      Aquela coisa horrenda caiu no chão, ainda sangrando.

      Quando todos levantaram a cabeça, Ellen tinha ido embora.

     

      Martha trocara os lençóis e pusera um novo tapete de lã na cama, a grande cama de penas que fora de Ellen e Tom e que agora era de Alfred e Aliena. Sua madrasta não fora vista desde a cerimônia do casamento. O banquete fora uma coisa contida, como um piquenique num dia frio, com todo mundo executando melancolicamente o ritual de comer e beber, porque não havia mais nada a fazer. Os convidados tinham ido embora ao pôr-do-sol, sem nenhuma das habituais e grosseiras piadas sobre a primeira noite dos recém-casados. Martha foi para sua caminha no outro quarto. Richard retornara à pequenina casa de Aliena, que agora seria dele.

      Alfred estava falando em construir uma casa de pedra para eles no verão seguinte. Estivera se gabando dela com Richard, durante o banquete. "Terá um quarto de dormir, um salão e uma galeria", dissera. "Quando a mulher de John Prateiro a vir vai querer uma igual. Logo, logo, todos os homens prósperos de Kingsbridge vão querer uma casa de pedra."

      "Você já fez o projeto?", perguntara Richard, e Aliena percebera em sua voz uma ponta de ceticismo, embora ninguém mais parecesse ter notado.

      "Tenho alguns desenhos antigos de meu pai, feitos a tinta em velino. Um desses desenhos é a casa que começamos a construir para Aliena e William Hamleigh, há muito tempo. Eu o tomarei como base."

      Aliena afastara-se deles, enojada. Como poderia alguém ser tão grosso ao ponto de mencionar aquilo no dia do seu casamento? Alfred andara fanfarronando a tarde inteira, servindo vinho, contando piadas e trocando piscadelas maliciosas com os seus colegas. Parecia feliz.

      Agora estava sentado na beirada da cama, descalçando as botas. Aliena tirou as fitas do cabelo. Não sabia o que pensar quanto à maldição de Ellen. Aquilo a deixara chocada, e não tinha idéia do que ela teria em mente, mas, fosse como fosse, não se apavorara como a maioria das pessoas.

      O mesmo não podia ser dito de Alfred. Quando o galo ensanguentado batera nele, o rapaz desandara a falar de forma incompreensível e sem parar, até que Dan literalmente o arrancara daquele estado, segurando-o pela parte da frente da túnica e sacudindo-o. Ele se recuperara bastante depressa, contudo, e desde então o único indício do seu medo tinha sido sua excessiva animação, bebendo sofregamente cerveja e mostrando-se amistoso demais.

      Aliena sentia uma estranha calma. Não gostava do que estava prestes a fazer, mas pelo menos não estava sendo forçada, e, embora pudesse ser um pouco desagradável, não seria humilhante. Haveria apenas um único homem e ninguém mais olhando.

      Tirou o vestido.

      - Por Cristo, é uma faca comprida - disse Alfred.

      Ela desamarrou a tira que prendia a faca ao antebraço esquerdo e foi para a cama com a camisa.

      Alfred por fim tirou as botas, tirou as meias e pôs-se de pé. Lançou-lhe um olhar lúbrico.

      - Tire a roupa de baixo - disse. - Tenho o direito de ver os peitos de minha mulher.

      Aliena hesitou. Relutou em ficar nua, fosse qual fosse o motivo. Mas seria tolice negar-lhe a primeira coisa que queria. Obediente, sentou-se e tirou a camisa de baixo, puxando-a pela cabeça e procurando suprimir com energia a lembrança de como havia se sentido de modo diferente quando fizera a mesma coisa, ainda naquela manhã, para Jack.

      - Que par de belezas! - disse Alfred. Ele aproximou-se, parou do lado da cama e segurou o seio direito. A pele das suas mãos enormes era áspera, com sujeira embaixo das unhas. Ele apertou com força demais e ela estremeceu. Alfred riu e soltou-a. Recuou, tirou a túnica e pendurou-a num gancho. Voltou para a cama e tirou a coberta de cima dela.

      Aliena engoliu em seco. Sentia-se vulnerável daquele jeito, nua e examinada por ele.

      - Meu Deus - disse Alfred - como é peluda! - Ele abaixou-a e pôs a mão entre suas pernas. Ela retesou-se, mas depois se obrigou a relaxar e abriu os joelhos. - Boa garota - disse ele, e enfiou um dedo dentro dela. Doeu; Aliena estava seca. Ela não conseguiu entender; ainda naquela manhã, com Jack, estivera molhada e escorregadia.

      Alfred resmungou e enfiou o dedo com mais força.

      Aliena teve vontade de chorar. Sabia que não ia gostar, mas não esperava que ele fosse ser tão insensível. Nem a beijara ainda. Ele não me ama, pensou; nem mesmo gosta de mim. Sou um cavalo bonito que está prestes a montar. Na verdade trataria um cavalo melhor que isso: daria palmadinhas no animal e o afagaria, para que pudesse se acostumar com ele, e falaria baixinho para acalmá-lo. Esforçou-se para conter as lágrimas. Fui eu que escolhi isso, pensou; ninguém me obrigou a casar com ele, de modo que agora tenho que aguentar.

      - Seca como pó de serragem - resmungou Alfred.

      - Sinto muito - sussurrou ela.

      Ele tirou a mão, cuspiu nela por duas vezes e esfregou a saliva entre suas pernas. Pareceu uma coisa horrivelmente desrespeitosa. Ela mordeu o lábio e desviou os olhos.

      Alfred abriu suas coxas. Aliena fechou os olhos, mas se obrigou a fitá-lo pensando: Vá se acostumando com isso, porque é o que vai fazer o resto da vida.

      Alfred foi para a cama e ajoelhou-se entre as suas pernas. A sombra de uma preocupação cruzou-lhe o rosto. Pôs uma das mãos entre as coxas dela, abrindo-a mais, e enfiou a outra sob a própra camisa de baixo. Ela pôde ver que a mão dele se movimentava sob o pano. A preocupação dele agravou-se.

      - Cristo Jesus! - murmurou. - Você é tão sem vida que me deixa desinteressado; é como estar apalpando um cadáver.

      Pareceu-lhe profundamente injusto que ele a culpasse.

      - Não sei o que devo fazer! - exclamou, em lágrimas.

      - Algumas garotas gostam.

      Gostam! Impossível! Depois se lembrou de como, naquela manhã mesmo, gemera e gritara de prazer. Mas era como se não houvesse ligação entre o que fizera de manhã e o que estava fazendo agora.

      Aquilo era tolice. Alfred estava se esfregando por baixo da camisa.

      - Deixe comigo - disse ela, enfiando a mão por entre as pernas dele. Seu pênis estava mole e sem vida. Não tinha certeza do que fazer. Apertou com delicadeza, depois fez carinho com a ponta dos dedos. Examinou o rosto dele, em busca de uma reação. Alfred só parecia furioso. Continuou, mas não fez diferença.

      - Faça com mais força - disse ele.

      Ela começou a esfregar vigorosamente. O pênis continuou mole, mas Aliena mexeu os quadris, como se estivesse gostando. Encorajada, esfregou com mais força. De repente ele deu um grito de dor e se afastou.

      - Sua vaca estúpida! - disse, e bateu-lhe no rosto, com o dorso da mão, tão violentamente que a fez girar de lado.

      Aliena deixou-se ficar deitada na cama, chorando de dor e de medo.

      - Você não presta, está amaldiçoada! - disse ele furiosamente.

      - Fiz o melhor que pude!

      - Você não funciona como mulher! - exclamou, com veemência. - Sua boceta está morta! - Ele a segurou pelos braços, obrigou-a a sentar-se e empurrou-a para fora da cama. Ela caiu na palha que havia sobre o chão. - Aquela bruxa queria que isso acontecesse - disse ele. - Sempre me odiou.

      Aliena rolou e ajoelhou-se no chão, olhando para ele. Não parecia que fosse bater nela de novo. Não estava mais com raiva, só amargurado.

      - Pode ficar aí mesmo - disse ele. - Você não me serve como mulher, de modo que pode ficar fora da minha cama. Como um cachorro, pode dormir no chão! - Fez uma pausa. - Não suporto que fique olhando para mim! - exclamou, com uma nota de pânico na voz. Procurou o lampião e, ao encontrá-lo, apagou-o com um sopro e derrubou-o no chão.

      Aliena ficou imóvel na escuridão. Ouviu Alfred se mexer no colchão de penas, deitando-se, puxando o cobertor e trocando os travesseiros. Tinha medo até de respirar.

      Ele ficou irrequieto por longo tempo, mexendo-se e virando na cama, mas não se levantou de novo, nem falou com ela. Acabou por ficar imóvel, com a respiração uniforme.

      Quando teve certeza, de que ele estava dormindo, rastejou pelo chão, tentando fazer a palha não estalar, e encontrou o caminho para um canto.

      Encolheu-se ali e permaneceu inteiramente acordada. Com o tempo, acabou por chorar. Tentou conter-se, com medo de acordá-lo, mas não foi possível segurar as lágrimas, e soluçou baixinho. Se o barulho o acordou, ele não deu sinal. Aliena ficou deitada sobre a palha do chão, num canto do quarto, chorando, até que por fim dormiu.

     

      Aliena esteve doente todo aquele inverno.

      Dormiu mal todas as noites, enrolada na sua capa no chão, ao pé da cama de Alfred, e durante o dia era dominada por uma lassidão contra a qual nada conseguia fazer.

      Com frequência se sentia enjoada, e por isso comia muito pouco, mas assim mesmo parecia ganhar peso; tinha certeza de que seus seios e seus quadris estavam maiores, e sua cintura, mais grossa.

      Deveria estar dirigindo a casa de Alfred, mas era Martha quem na verdade fazia a maior parte do trabalho. Os três moravam juntos num triste arremedo de família.

      Martha jamais gostara do irmão, e Aliena agora o abominava com todas as forças, de modo que não era de estranhar que ele passasse a maior parte do te