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OS QUARENTA E CINCO 1º Volume / Alexandre Dumas
OS QUARENTA E CINCO 1º Volume / Alexandre Dumas

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS QUARENTA E CINCO

1º Volume

 

         A porta de Santo António

No dia 26 de Outubro de 1585, a barreira da Porta de Santo António ainda se conservava fechada, fora do costume, às dez horas e meia da manhã.

Às dez horas e três quartos, desembocou na Rua da Mortellerie uma escolta de uns vinte suíços que, pelo uniforme, mostravam pertencer aos cantões menores, quer dizer: que eram dos mais afectos ao rei Henrique III, que então reinava.

Dirigiram-se para a Porta de Santo António, que logo lhes foi aberta, tornando-se imediatamente a fechar depois de eles passarem.

Apenas se viram da parte de fora, trataram de se colocar pela frente dos tapumes dos cerrados que guarneciam num e noutro ponto os lados da estrada; e bastou unicamente aparecerem, para recuarem muitos camponeses e outra gente rústica que vinha de Montreuil, Vin-cennes ou Saint-Maur, a fim de entrarem na cidade antes do meio-dia, projecto que se lhes malogrou, por isso que a porta, como já dissemos, estava fechada.

Se é certo que dos ajuntamentos nascem geralmente desordens, poder-se-ia julgar que o magistrado civil, mandando para ali aquela guarda, queria obstar aos tumultos que pudessem ter lugar na Porta de Santo António.

A multidão, com efeito, aumentava gradualmente; chegavam a cada momento frades dos conventos do termo, mulheres sentadas de lado nos albardões dos jumentos e vilões nos seus carros; esta gente apinhava-se com a chusma já considerável, embargada na barreira pela circunstância extraordinária da porta fechada a tais horas, e todos, com perguntas mais ou menos instantes, formavam um burburinho como prolongamento de um tom baixo, ao passo que algumas vozes, fugindo do diapasão, se elevavam às oitavas da ameaça ou do queixume.

Além da turbamulta que pretendia entrar, viam-se alguns grupos que pareciam ter saído, e que, em lugar de procurarem penetrar com a vista pelos interstícios da barreira, devoravam o horizonte, que era limitado pelo Convento dos Domínicos, pelo Priorado de Vincennes, e pelo cruzeiro Faubin, como se por alguma daquelas três estradas, que formavam como que um leque, devesse chegar algum messias.

Estes últimos grupos não deixavam de ter sua semelhança com as ilhotas que se levantam ao meio do Sena, e de roda das quais a água, redemoinhando e saltitando, ora despega um torrão com relva, ora os troncos velhos dos salgueiros, que depois de oscilarem nos redemoinhos são afinal arrebatados pela corrente.

Estes grupos compunham-se, na maioria, de burgueses de Paris, hermeticamente embrulhados nas suas bragas e sobretudos, pois esquecia-nos dizer que o tempo estava frio, o ar penetrante, e nuvens densas, revoando próximas à terra, pareciam querer arrancar das árvores as últimas folhas amarelentas que ainda nelas se agitavam tristemente.

Três daqueles burgueses conversavam, ou, para melhor dizer, dois falavam e o terceiro ouvia. Expliquemo-nos melhor: o terceiro nem mostrava que ouvia, tal era a atenção com que olhava para Vincennes.

Tratemos deste, primeiro. Era um homem que inculcava ser de elevada estatura; porém, naquela ocasião, as compridas pernas, que para nada lhe serviam a não ser ao destino activo, tinha-as curvadas debaixo do corpo, e os braços, não menos compridos na proporção das pernas, tinha-os encruzados sobre o gibão.

Encostado ao tapume, convenientemente esteiado nas moitas flexíveis, com obstinação que se assemelhava à prudência do homem que não quer ser conhecido, ali permanecia, escondendo o rosto com a volumosa mão, e arriscando só um dos olhos, cuja penetrante vista se dilatava por entre o dedo médio e anelar, afastados um do outro na distância estritamente necessária para dar passagem ao raio visual.

Ao lado desta singular personagem, um homúnculo empoleirado num montículo conversava com outro homem, de barriga grande, que escorregava de contínuo no declive do altinho, agarrando-se aos botões do seu interlocutor cada vez que lhe faltava o pé.

Eram estes os outros dois burgueses que perfaziam, com o indivíduo sentado, o número de três que anunciámos num dos precedentes parágrafos.

— Sim senhor, mestre Miton — dizia o homem baixo para o barrigudo —, sim senhor; disse, e ainda repito: hão-de estar cem mil pessoas de roda do cadafalso de Salcède. Olhe, sem contar a gente que já está na Praça de Greve, ou que para lá se dirige dos diferentes bairros da cidade, veja o que aqui vai de povo; e é só uma porta! Ajuíze por isto, pois se contarmos bem acharemos dezasseis portas!

— Cem mil?! isso será muito, compadre Friard — replicou o gordo. — Estou persuadido de que muita gente há-de seguir o meu exemplo, e não irá ver esquartejar o desgraçado Salcède com receio de algum motim, e acho que têm razão.

— Mestre Miton, mestre Miton! cautela — respondeu o homenzinho baixo —, olhe que está falando em política... Afirmo-lhe que não haverá novidade.

Em seguida, notando que o interlocutor abanava a cabeça como quem duvida, voltou-se para o indivíduo de pernas e braços desmarcados, o qual, em vez de continuar a olhar para o lado de Vincennes, acabava de fazer, sem tirar a mão do rosto, um quarto de movimento, e de escolher a barreira para alvo da sua atenção, e prosseguiu:

— Não é assim, meu Senhor?

— O quê? se faz favor... — perguntou o sujeito, mostrando que não tinha ouvido a interpelação que lhe era feita, e por forma alguma as palavras dirigidas ao segundo burguês.

— Digo que não haverá novidade hoje na Praça de Greve...

— Acho que está enganado, e que há-de lá ser esquartejado Salcède — respondeu sossegadamente o homem dos braços compridos.

— Isso é fora de dúvida; mas digo que não haverá barulho por esse motivo.

— Haverá estalos de chicote para incitar os cavalos.

— Não me percebeu. Eu, por barulho, entendo sedição; digo, portanto, que não haverá alvoroço na praça. Se o houvesse, não teria el-rei mandado armar uma tribuna nos Paços da Câmara para ali presenciar o suplício com as rainhas e parte da corte.

— Pois os reis sabem lá porventura quando está para haver algum motim!... — retorquiu o outro, como condoído da simplicidade do companheiro.

— Olé! — disse mestre Miton ao ouvido do seu interlocutor — este homem fala de um modo muito singular... É conhecido, do compadre?

— Não o conheço — replicou o baixinho.

— Pois então porque está falando com ele?

— Falo por falar.

— Pois faz mal; bem vê que ele não é de carácter conversador.

— Entretanto parece-me — acudiu o compadre Friard em alta voz, para que o ouvisse o homem das pernas compridas — que uma das maiores felicidades da vida é a permutação das ideias...

— Com aqueles que conhecemos, sim, decerto — respondeu Miton —, mas não com as pessoas que não conhecemos.

— Acaso não são os homens todos irmãos, como diz o cura de Saint-Leu?... — acrescentou com acento persuasivo o compadre Friard.

— Quer dizer, eram, primitivamente; porém, nestes nossos tempos, o parentesco tem tido considerável diminuição, compadre. Converse comigo, se está com a mania de falar, e deixe esse desconhecido entregue às suas preocupações.

— O motivo é outro: eu conheço o compadre há muito, como acabou de dizer, e sei já, com antecedência, o que me há-de responder; mas este sujeito poderá talvez dizer-me alguma coisa que seja nova para mim.

— Cale-se! que ele está escutando...

— Melhor; se está escutando talvez me responda. Visto isso, Senhor — prosseguiu o compadre Friard, voltando-se para o incógnito —, julga que haverá algum alvoroço na Praça de Greve?

— Eu? Não abri a boca a tal respeito!

— Não afirmo que o dissesse — replicou Friard, procurando adoçar o tom da voz — mas creio que assim o julga; é este o nosso ponto.

— E em que baseia essa afirmativa? É adivinho, meu caro Sr. Friard?

— Aí está! o senhor conhece-me — exclamou o burguês cheio da maior admiração. — E de onde me conhecerá?...

— Não o tenho eu chamado pelo seu apelido duas ou três vezes? — disse Miton encolhendo os ombros e mostrando-se envergonhado, na presença do desconhecido, da limitada inteligência do seu amigo.

— Ah! é verdade! — retorquiu Friard, esforçando-se por disfarçar o caso — por vida minha, que é verdade! Mas, visto que me conhece, há-de responder-me, tenha paciência. Eu julgo que o senhor está convencido de que haverá algum barulho na Greve; se assim não julgasse estaria lá e, pelo contrário, acha-se aqui. Ah! ah! ah!

A gargalhada mostrava que o compadre Friard havia atingido, na sua dedução, os mais remotos limites da sua lógica e também do seu espírito.

— Porém, Sr. Friard, visto que julga o contrário daquilo que julga que eu julgo — respondeu o desconhecido carregando nas palavras que havia proferido o seu interlocutor e que agora repetia —, porque não está na Greve? Parece-me que o espectáculo é bastante divertido para que os amigos de el-rei se pisem e apertem uns aos outros a fim de melhor gozarem dele... Pode ser que responda à minha reflexão que não é partidário de el-rei, mas sim do Sr. de Guisa, e que está aqui esperando pela gente de Lorena que, segundo dizem, tenciona invadir Paris para livrar Salcède...

— Não senhor! — replicou vivamente o homem baixo, visivelmente horrorizado ao ouvir a suposição do incógnito — não senhor: eu estou esperando por minha mulher, que foi levar vinte e quatro toalhas ao priorado dos dominicanos, pois tem a honra de ser lavadeira de Dom Modesto Gorenflot, prelado daquele mosteiro. Tornando, porém, ao barulho de que falava o compadre Miton, e no qual nem eu nem o senhor acreditamos, segundo o que diz, pelo menos...

— Compadre, compadre! — gritou Miton. — Repare no que acolá se passa... Mestre Friard seguiu com a vista a direcção que lhe indicava o dedo do seu companheiro

e viu que, além das barreiras, cujo encerramento já preocupava os ânimos, tão seriamente exaltados, acabavam também de fechar a porta.

Depois de trancada a porta, parte dos suíços veio tomar posição em frente do fosso.

— Que é isto? Que é isto? — exclamou Friard mudando de cor. — Pois não bastava a barreira, agora fecham também a porta?!...

— Então, que lhe dizia eu? — respondeu Miton mudando como ele de cor.

— Que tal lhe parece o logro? — disse o desconhecido sorrindo. E ao sorrir mostrou, entre o bigode e a barba, duas fiadas de dentes alvos e cortantes, que pareciam admiravelmente aguçados pelo costume de se servir deles quatro vezes ao dia pelo menos.

À vista daquela nova precaução que acabavam de tomar, um grande burburinho de espanto e alguns gritos de terror saíram da chusma compacta que enchia as avenidas das barreiras.

— Para a retaguarda! Abram caminho! — gritou a voz imperiosa de um oficial.

A manobra executou-se imediatamente, mas não foi sem atrapalhação: a gente que estava a cavalo e os homens dos carros, obrigados a retroceder, esmagaram aqui e acolá alguns pés, e à direita e à esquerda quebraram algumas costelas entre a gente. As mulheres guinchavam, os homens praguejavam; os que podiam fugir fugiam, e derrubavam-se mutuamente.

— Os lorenos! os lorenos! — gritou uma voz do meio de toda aquela confusão.

O grito mais terrível, escolhido no tímido vocabulário do medo, não teria produzido um efeito mais pronto e mais decisivo do que aquele.

— Os lorenos!

— Então?... ouve? ouve? Os lorenos! Fujamos!

— Fugir para onde? — perguntou Friard.

— Para este cerrado — bradou Miton, lançando as mãos às silvas a que tão pacificamente estava encostado o desconhecido.

— Nesse cerrado? — disse Friard. — A coisa é mais fácil de dizer do que fazer, mestre Miton. Não vejo buraco por onde possa entrar... e não se lhe meteu por certo na cabeça galgar um tapume que é mais alto do que eu...

— Sempre quero experimentar — disse Miton, e fez novos e reiterados esforços.

— Ó Senhora, tome sentido — berrou Friard com a expressão de angústia de um homem a quem o miolo se vai transtornando —, o seu burro pisa-me os joanetes! Oh! cos diabos! senhor cavaleiro, tenha mão no cavalo, que está aos coices! Alto lá, amigo carreiro! não recue, o carro arromba-me as costelas!

Enquanto mestre Miton trepava pelas ramadas da sebe, diligenciando saltar para dentro, e o compadre Friard debalde procurava uma abertura para se introduzir de gatinhas, o desconhecido levantara-se e, alargando simplesmente as imensas pernas, com um só movimento, semelhante ao do cavaleiro que sobe para a sela, galgara para o outro lado sem que um único ramo lhe roçasse pelos calções.

Miton imitou-o, ficando com os seus rasgados em mais de três sítios; não sucedeu porém assim ao compadre Friard, o qual, não podendo passar nem por cima nem por baixo da ramada, e em risco de ser esmagado pela multidão, soltava gritos lastimosos; mas eis senão quando o incógnito estendeu o comprido braço, agarrou-o ao mesmo tempo pelo colarinho e pela gola do gibão e, levantando-o ao ar, transportou-o para o outro lado como se fora uma criança.

— Oh! oh! oh! — gritava mestre Miton, rindo-se daquele espectáculo e seguindo com os olhos a ascensão e descida do seu amigo Friard — parece-me a tabuleta do Grão-Absalão!

— Cos demónios! — disse Friard ao pôr os pés no chão — pouco importa o que pareço; o caso é que estou pela parte de dentro da cerca graças a este senhor. — E empertigando-se para encarar melhor o desconhecido, a quem mal dava pelo peito, prosseguiu: — Ah! meu Senhor, que agradecimentos lhe devo! É um hércules em pessoa, e a fé de homem de bem, palavra de honra de João Friard! Quero que me diga o seu nome, o nome do meu salvador, o nome do meu... amigo!

O pobre homem proferiu na realidade esta última palavra com a efusão de um coração sumamente agradecido.

— Chamo-me Briquet, Senhor — respondeu o outro. — Roberto Briquet, para o servir.

— E já não é de pouca monta o serviço que me acabou de prestar, creia, Sr. Roberto Briquet. A minha pobre mulher há-de bendizê-lo; mas agora, que penso em minha mulher... ah! meu Deus! é capaz de morrer abafada naquele apertão... Ah! suíços excomungados, que não servem senão para esmagarem a gente!

Ainda bem o compadre Friard não tinha concluído esta exclamação, sentiu que lhe caía sobre o ombro mão tão pesada como a de uma estátua de pedra. Voltou-se para ver o atrevido que tomava com ele tal confiança: era a mão de um suíço.

— Queres que eu te desanque, meu amigo?... — perguntou o espadaúdo soldado.

— Ah! que estamos cercados! — bradou Friard.

— Salve-se quem puder! — acrescentou Miton.

E como ambos, graças a terem já transposto o tapume, viam diante de si o espaço, correram para o largo, seguidos pelo olhar motejador e o riso abafado do homem de braços e pernas compridas, o qual, ao perdê-los de vista, chegou-se ao suíço que ali tinha sido posto de sentinela, e disse-lhe:

— Tens muito boa mão; pelo menos, quis-me parecer isso.

— Pode crer que não é má, Senhor, não é má.

— Tanto melhor para ti, porque é objecto importante, especialmente se os lorenos chegarem, como por aí corre.

— Eles não vêm cá.

— Não vêm?

— Por certo que não.

— Pois então, para que fecham aquela porta?... não percebo.

— Nem é preciso que perceba — respondeu o suíço, rindo às gargalhadas da graça que se persuadia ter acabado de dizer.

— Tens razão, camarada, tens razão — disse Roberto Briquet na mesma algaravia do suíço. — Muito obrigado.

E Roberto afastou-se, para se aproximar de outro grupo, enquanto o digno mercenário, parando o fluxo do riso, resmungava consigo:

«Se com efeito há um só Deus verdadeiro, parece-me que está caçoando comigo! Mas quem será este figurão que se atreve a zombar de um suíço de Sua Majestade?»

 

         O QUE SE PASSAVA PELA PARTE DE FORA DA PORTA DE SANTO ANTÓNIO

Um dos grupos era formado de muitos moradores da cidade, a quem de súbito havia colhido fora dos muros aquele inesperado encerramento das portas. Aqueles cidadãos formavam um círculo em roda de quatro ou cinco cavaleiros, de ademane militar, que pareciam sobremaneira impacientes por acharem as portas trancadas, pois gritavam com toda a força:

— A porta! A porta!

Aqueles clamores, que todos os circunstantes repetiam encolerizados, ocasionavam uma vozearia infernal. Roberto Briquet adiantou-se para aquele montão de gente, e começou a berrar mais alto do que todos:

— A porta! A porta!

Um dos cavaleiros, encantado de ouvir aquela potência vocal, voltou-se para ele e, cumprimentando-o, disse:

— O senhor não acha uma vergonha que se feche uma porta da cidade em pleno dia, como

se os Espanhóis ou os Ingleses estivessem pondo cerco a Paris?

Roberto Briquet olhou com atenção para o homem que lhe falava, o qual mostrava ter os seus quarenta a quarenta e cinco anos, e inculcava ser o principal entre os quatro ou cinco cavaleiros que o acompanhavam.

O exame inspirou provavelmente confiança a Roberto Briquet, porque também o cumprimentou logo, e respondeu:

— Tem razão, Senhor; uma e muitas vezes razão... porém dar-se-á o caso que, sem ser tido em conta de demasiado curioso, me seja lícito perguntar-lhe: que suspeita desta providência?

— Essa não está má! — replicou um dos circunstantes — têm medo que lhe engulam o Salcède...

— Fraca iguaria! — exclamou uma voz avulsa.

Roberto Briquet virou-se para o lado de onde soara aquela voz, que pelo acento indicava um gascão legítimo, e viu um mancebo de vinte a vinte e cinco anos, com a mão encostada à garupa do cavalo do que parecia principal entre os outros cavaleiros.

O mancebo estava com a cabeça descoberta, sem dúvida porque tinha perdido o chapéu no barulho.

O Sr. Briquet dava indícios de ser observador, mas em geral as suas observações eram feitas com rapidez, pelo que prontamente tirou os olhos do gascão, que decerto lhe pareceu insignificante, para reparar novamente no cavaleiro.

— Se, como por aí se tem espalhado — disse ele —, o tal Salcède pertence aos partidários de Guisa, o bocado não é tão mau de roer.

— Deveras? dizem isso? — perguntou o gascão curioso, aplicando o ouvido.

— Dizem isso, sim — replicou o cavaleiro encolhendo os ombros —, mas nos tempos que vão correndo dizem-se por aí tantas asneiras!...

— Nesse caso, então — atreveu-se a perguntar Briquet, com olhar perscrutador e riso astuto —, é de parecer que Salcède não pertence ao partido do Sr. de Guisa?

— Não só o penso, mas estou até capacitado disso — respondeu o cavaleiro; e reparando que Roberto Briquet se aproximava dele com um gesto que significava: «deveras?! e em que baseia essa certeza?», continuou: — É fora de dúvida que, se o Salcède tivesse relações com o duque, este não teria consentido que o agarrassem ou, pelo menos, não o teria deixado trazer de Bruxelas até Paris, amarrado de pés e mãos, sem fazer em favor dele alguma tentativa de rapto.

— Tentativa de rapto! — exclamou Briquet. — Isso era coisa muito arriscada, porque enfim, ou tivesse bom ou mau êxito, bastava o facto de ser tentada pelo Sr. de Guisa para ser tida como uma confissão de haver conspirado contra o duque de Anjou.

— O Sr. de Guisa — retorquiu secamente o cavaleiro — estou convencido que não recuaria perante uma tal consideração, e pelo facto de não ter reclamado nem defendido Salcède, deve concluir-se que Salcède não é dos seus. Esta é a minha opinião.

— Entretanto, peço perdão se ainda insisto — redarguiu Briquet —, não fui eu o inventor da história: consta como certo que Salcède declarou...

— Onde?...

— Na presença dos juízes.

— Não foi na presença dos juizes, Senhor: foi na polé, nos tratos...

— E não vem a dar na mesma? — perguntou Roberto Briquet com certo modo a que inutilmente procurava dar uma aparência de ingenuidade.

— Não, por certo, está muito longe de ser a mesma coisa; querem entretanto dizer que fez declarações? Concedo; mas porque não publicam o que ele declarou?...

— Pedirei novamente perdão, Senhor — respondeu Briquet —, não somente o publicaram, mas até muito por extenso.

— E que foi que ele confessou? Vejamos o que disse — perguntou com impaciência o cavaleiro — fale, visto estar bem informado...

— Eu não me gabo de bem informado, visto que, pelo contrário, lhe estou pedindo a sua opinião.

— Vejamos, ouçamos — tornou o cavaleiro, ainda mais impaciente —, afirmou que se publicaram as denúncias de Salcède; que disse ele? conte lá.

— Eu não assevero que seja exactamente a sua confissão... — replicou Roberto Briquet, que parecia divertir-se em fazer azoar o cavaleiro.

— Mas, enfim: que palavras lhe atribuem?

— Afirmam que ele confessou ter entrado na conspiração por parte do Senhor de Guisa.

— Contra el-rei de França, inquestionavelmente... É sempre o que dizem.

— Não contra Sua Majestade o Rei de França, mas sim contra Sua Alteza o Senhor Duque de Anjou.

— Se ele confessou isso...

— Que conclui daí? — perguntou Roberto.

— Que se conclui? — exclamou o cavaleiro carregando as sobrancelhas. — Conclui-se que é um infame!

— Pois sim — disse em voz baixa Briquet —, mas se com efeito fez o que confessou, é um homem de valor.

Ah! Senhor, os torniquetes de ferro, os rescaldos e a polé fazem dizer coisas

muito extraordinárias...

— Ah! Agora é que o senhor disse uma grande verdade! — replicou o cavaleiro com modo

mais brando e soltando um suspiro.

— Essa não está má! — interrompeu o gascão que, estendendo o pescoço na direcção de cada um que falara, tinha ouvido tudo. — Essa não está má! digo eu; torniquetes, cavaletes, potros, tudo são ninharias! Se o tal Salcède deu com a língua nos dentes, é um maroto, e o seu

patrono é outro.

— Olá! — exclamou o cavaleiro, não podendo reprimir a sua impaciência — está cantando em tom muito alto, senhor gascão...

— Quem, eu?

— Sim, o senhor.

— Eu canto no tom que mais me agrada; e, por Deus! que tanto pior será para quem não

gostar da minha cantiga.

Percebeu-se no cavaleiro um movimento de cólera.

— Calma! — disse uma voz branda e imperiosa ao mesmo tempo, cujo proprietário Bri-

quet debalde procurou descobrir.

Viu-se que o cavaleiro tentava reprimir a sua irascibilidade, e contudo não tinha força para

se conter inteiramente.

— Conhece as pessoas de quem está falando? — disse ele para o gascão.

— Se conheço o Salcède?...

— Sim.

— Nunca o vi, nem sei quem é.

— E o duque de Guisa?

— Também não.

— E o duque de Alençon?

— Menos ainda.

— Sabe que o Sr. de Salcède é um homem corajoso?

— Melhor; morrerá com valor.

— E que o Sr. de Guisa, quando quer conspirar, conspira em pessoa?

— E que me importa a mim com isso?...

— E que o Senhor Duque de Anjou, que dantes era Sr. de Alençon, mandou matar os que se interessavam por ele, como La Mole, Cocunás, Bussy e outros mais?

— Isso são coisas de que me não importo.

— Que diz?... Não se importa?!

— Mayneville! Mayneville! — murmurou a mesma voz branda.

— Já disse, não me importo com isso, são coisas de que eu zombo. O que eu sei é que tinha que fazer em Paris esta manhã, e por causa do excomungado Salcède deram-me com as portas na cara! Diabos o levem! Salcède é um maroto, e tão bons como ele são todos aqueles que dão motivo a estarem as portas fechadas em vez de abertas!

«Ora aqui está um gascão que não tem papas na língua, murmurou Roberto Briquet; com certeza vamos ver alguma coisa curiosa.»

Mas a coisa curiosa que o burguês esperava não chegou a aparecer. E o cavaleiro, a quem aquela última apóstrofe tinha feito corar, abaixou os olhos, calou-se e devorou consigo a sua cólera.

— Afinal o senhor tem razão; maldita gente que não nos deixa entrar em Paris!

«Sim, sim, disse Briquet, a quem não tinham escapado nem a mudança de cor do cavaleiro nem as duas provocações dirigidas à sua paciência; ah! ah! está-me parecendo que hei-de presenciar coisas mais curiosas ainda do que esperava.»

Acabava de fazer esta reflexão, quando se ouviu o som de uma trombeta e num abrir e fechar de olhos os suíços, abrindo caminho por entre a multidão com as alabardas, como se partissem uma imensa empada de tordos, separaram os grupos em dois bandos compactos, que foram alinhar-se para um e outro lado da estrada, deixando o centro despejado.

Naquele corredor, o oficial de quem já falámos, e que parecia encarregado da porta, começou a passear a cavalo de cá para lá; e depois de um instante de exame, que muito se assemelhava a uma provocação, mandou tocar as trombetas, o que logo se executou, reinando imediatamente em todo o ajuntamento um silêncio que ninguém julgaria possível depois de tamanha agitação e algazarra.

Então, um pregoeiro, vestido com uma opa matizada de flores-de-lis e trazendo ao peito a chapa das armas da cidade de Paris, saiu à frente com um papel na mão, que leu com aquela voz fanhosa própria dos pregoeiros:

 

Fazemos saber ao nosso bom povo de Paris e arrabaldes, que as portas se conservarão fechadas desde agora até à uma hora da tarde, e que ninguém entrará na cidade antes desta hora; o que assim se cumprirá em virtude de ordem régia, e por vigilância do Senhor Magistrado de Paris.

 

O homem parou para tomar fôlego e os ouvintes aproveitaram a pausa para manifestarem o seu descontentamento por meio de prolongados apupos, que o pregoeiro (deve-se-lhe fazer justiça) sofreu sem pestanejar.

O oficial fez um sinal imperativo com a mão, e logo se restabeleceu o silêncio.

O pregoeiro prosseguiu, sem se perturbar nem hesitar, como se o hábito o tivesse já encouraçado contra as manifestações daquela natureza:

 

Serão exceptuados da presente disposição os que se apresentarem com o competente passe, ou tiverem sido bem e devidamente convocados por cartas e mandados.

 

Dado na Câmara do Prebostado de Paris, por ordem expressa de Sua Majestade, aos 26 de Outubro do ano da redenção de 1585.

— Toquem, charamelas.

 

E as charamelas soltaram imediatamente os seus sons rouquenhos. Apenas o pregoeiro acabou de falar, começou a chusma a ondear por detrás das fileiras dos suíços e soldados, como uma cobra cujos anéis se entumecem e torcem.

— Que quer isto dizer?... — perguntavam os mais pacíficos uns aos outros. — Certamente temos nova conspiração...

— Foi decerto para nos vedar a entrada em Paris que assim se combinou tudo, não há dúvida! — dizia em voz baixa para os companheiros o cavaleiro que tinha sofrido com tão extraordinária paciência as grosserias do gascão. — Suíços e pregoeiros, ferrolhos e charamelas, e tudo por nossa causa!... Juro-lhe por minha vida que isto me enche de orgulho.

— Arredem! abram caminho! — bradou o comandante do destacamento — com mil demónios! não vêem que tolhem a passagem aos que podem entrar!?

— Diabos me levem se eu não sei quem há-de passar, ainda mesmo que todos os burgueses do mundo se coloquem entre ele e a barreira — dizia, coçando na cabeça, o gascão que, pelas suas respostas pouco corteses, tinha atraído a atenção de Roberto Briquet.

Ora, naquele momento, tinha ficado um espaço vazio, formado, graças aos suíços, entre duas fileiras de espectadores.

Imagine-se se as vistas se dirigiriam ou não, prestes e indagadoras, para um indivíduo favorecido a ponto de entrar com poucos mais, quando a todos os outros se intimava que ficassem de fora.

Pouco se lhe dava ao gascão de todo aquele olhar de invejosos; empertigou-se com arrogância, fazendo sobressair através do pano já rapado do estreito sobretudo verde todos os músculos do corpo, que pareciam cordas esticadas por uma manivela interna; os pulsos secos e ossudos cresciam boas três polegadas além das safadas mangas; tinha o olhar atrevido, o cabelo emaranhado e ruivo, de natureza ou de propósito, pois de pó se compunha boa décima parte da sua cor; os pés desmesurados e ágeis pegavam com artelhos nervosos e enxutos como

os de um gamo.

Numa das mãos trazia calçada luva de anta bordada, que parecia pasmada de se ver destinada a resguardar outra pele mais áspera do que a própria; com a outra mão meneava uma vara de aveleira.

Lançou os olhos em redor de si por alguns momentos, e depois, reflectindo que o oficial de que temos falado era provavelmente a patente mais elevada daquela tropa, caminhou direito a ele e cumprimentou-o atenciosamente.

O oficial, antes de lhe falar, mediu-o por algum tempo: o gascão, sem se desorientar um instante, fez o mesmo.

— Parece-me que perdeu o chapéu... — disse o militar.

— É verdade, Senhor.

— Foi talvez no meio do barulho...

— Não senhor. Tinha eu acabado de receber uma carta da minha amante, e estava lendo-a (Deus me castigue se minto) próximo ao rio, daqui a um quarto de légua; eis senão quando, uma rabanada de vento leva-me a carta e o chapéu; corri atrás da carta, se bem que o botão da presilha do chapéu fosse um diamante: com efeito, consegui apanhar a carta; mas quando voltei a buscar o chapéu, o vento tinha-o deitado ao rio — e então o rio de Paris!... —, e lá foi fazer a fortuna de algum pobre diabo! Antes assim!

— De modo que ficou descarapuçado...

— Então em Paris não há chapéus?... Oh! Santo nome de Deus! Hei-de comprar outro ainda mais rico e pregar-lhe um diamante que tenha de tamanho dois tantos do que se foi, com a breca!

O oficial fez com os ombros um movimento quase imperceptível, mas que assim mesmo não escapou à sagacidade do gascão.

— Concede-me licença? — disse ele.

— Traz passe? — perguntou o oficial.

— Pois não, trago um... ou para melhor dizer, dois em lugar de um.

— Bastará um só, estando em devida forma.

— Porém, se me não engano... — prosseguiu o gascão abrindo desmarcadamente os olhos — creio, na verdade, como Deus é Deus, que me não engano... terei porventura o gosto de estar falando com o Sr. de Loignac?

— Pode ser — replicou secamente o militar, evidentemente pouco satisfeito com semelhante reconhecimento.

— Com o Sr. de Loignac, meu patrício?...

— Não digo que não.

— E meu primo...

— Basta; dê-me os seus papéis.

— Ei-los.

O gascão sacou da luva metade de uma carta cortada como um talão.

— Acompanhe-me — disse Loignac sem olhar para o papel —, o senhor e os seus companheiros, se os tem: vamos verificar os passes.

E foi colocar-se junto da porta.

O gascão descarapuçado seguiu-o.

Mais cinco indivíduos seguiram o gascão descarapuçado.

O primeiro ia coberto com uma couraça magnífica, de um lavor tão admirável que parecia obra de Benvenuto Cellini.

Entretanto, como o molde que servira para fabricar a tal couraça já passara há algum tempo de moda, aquela magnificência excitou mais escárnio do que admiração.

Verdade seja que o resto do trajo do indivíduo portador da couraça não correspondia ao esplendor quase real do prospecto.

O segundo, que vinha logo atrás dele, trazia consigo um barrigudo lacaio já encanecido. Pela magreza e tisnado do rosto, parecia um precursor de Dom Quixote, assim como o criado podia figurar de precursor de Sancho Pança.

Apareceu o terceiro trazendo ao colo uma criança de dez meses e acompanhado de uma mulher que se lhe agarrava à cinta de couro, enquanto que mais duas crianças, uma de quatro anos e outra de cinco, se agarravam com unhas e dentes ao vestido da mulher.

O quarto apresentou-se coxeando e amarrado a uma comprida espada.

Finalmente, para fechar o cortejo, adiantou-se um mancebo de bela aparência, montado num cavalo preto, muito empoeirado, mas de raça fina. Aquele, à vista dos outros, parecia um rei.

Como lhe era forçoso levar o cavalo a passo para não pisar os companheiros, e talvez porque não quisesse misturar-se com eles, conservou-se o cavaleiro por um instante na extremidade das alas que formava o povo.

Sentiu naquele momento que alguém lhe puxava pela bainha da espada, e debruçou-se para trás.

O indivíduo que lhe chamava a atenção por meio daquele toque era um rapaz de cabelo preto, olhos vivos, pequena estatura, delgado, gracioso, trazendo luvas calçadas.

— Em que posso eu servi-lo, Senhor? — perguntou o cavaleiro.

— Tenho a pedir-lhe um favor, Senhor.

— Fale pois, mas peço-lhe que se avie; bem vê que estão acolá à minha espera.

— Preciso de entrar na cidade, Senhor; é uma necessidade imperiosa, percebe? O senhor está só e carece de um pajem para dar maior realce à sua guapa aparência...

— E depois?

— Depois, obséquio por obséquio: faz com que eu entre, serei seu pajem.

— Obrigado — disse o cavaleiro —, não quero que ninguém me sirva.

— Nem mesmo eu? — perguntou o rapaz com um sorriso tão singular, que o cavaleiro sentiu que se derretia a capa de gelo com que tinha querido resguardar o coração.

— Queria eu dizer que as minhas posses não permitem que tenha quem me sirva.

— Sim, bem sei que não é rico, Sr. Ernauton de Carmainges — replicou o jovem pajem. O cavaleiro estremeceu; porém o rapaz, sem fazer caso daquele estremecimento, prosseguiu:

— E também não exijo soldada; bem pelo contrário, se me conceder o que lhe peço, ser-lhe-ão pagos ao cêntuplo os serviços que me prestar; deixe pois que o sirva, imploro-lho, lembrando-lhe que este que ora pede está acostumado a mandar.

O mancebo apertou-lhe a mão ao dizer estas palavras, acção bastante atrevida num pajem, e depois, voltando-se para o grupo de cavaleiros de que já falámos:

— Eu vou entrar — disse —, é o mais essencial; trate o senhor, Mayneville, de fazer o mesmo, seja como for.

— Não basta que possa entrar — respondeu o fidalgo —, é preciso que ele o veja.

— Oh! fique descansado; se eu conseguir passar daquela porta para dentro, ele há-de

ver-me.

— Não se esqueça do sinal convencionado.

— Hei-de levar dois dedos à boca, não é assim?

— Sim; e agora, Deus o acompanhe!

— Então? — disse o dono do cavalo preto — que resolveu, senhor pajem?

— Eis-me aqui, meu amo — exclamou o mancebo.

E saltou ligeiramente para a garupa do cavalo do companheiro, que foi juntar-se com os outros cinco, que tinham sido admitidos a exibir os seus passes e a justificar os seus direitos.

«Com a breca! disse Roberto Briquet, que os tinha seguido com a vista, o Diabo me leve se já vi tamanha enxurrada de gascões!»

 

         A REVISTA

O exame por que tinham de passar os seis privilegiados que vimos sair das fileiras dos populares para se aproximarem da porta, não era nem muito longo, nem muito complicado.

Bastava tirar da algibeira metade de um bilhete e entregá-lo ao oficial; este comparava-a com outra metade que tinha em seu poder, e se as duas metades, unindo-as, diziam uma com a outra e formavam um todo, ficavam reconhecidos os direitos do portador do bilhete.

O gascão descarapuçado tinha-se aproximado em primeiro lugar; por consequência foi por ele que a revista começou.

— O seu nome? — perguntou o oficial.

— O meu nome, senhor oficial? Está escrito nesse bilhete, no qual ainda verá mais alguma coisa.

— Não importa! diga-me sempre o seu nome — disse o oficial com impaciência —, não sabe o seu nome?...

— Sei, sei, por Deus! e se me tivesse esquecido dele, poder-mo-ia lembrar, visto sermos patrícios, e até primos...

— O seu nome, com mil diabos! Parece-lhe que estou aqui para perder o tempo com reconhecimentos?...

— Está bom. Chamo-me Perducas de Pincornay.

— Perducas de Pincornay? — repetiu o Sr. de Loignac, a quem trataremos daqui por diante pelo nome que lhe tinha dado o patrício. Em seguida, correndo os olhos pelo bilhete: — «Perducas de Pincornay, 26 de Outubro de 1685, ao meio-dia em ponto...

— ... pela Porta de Santo António.» — acrescentou o gascão, indicando com o dedo escuro e ossudo estas palavras escritas no bilhete.

— Muito bem! está em devida forma; entre — disse o Sr. de Loignac, para pôr termo à continuação do diálogo com o seu compatriota. — Agora o senhor — disse ele para o segundo.

O homem da couraça aproximou-se.

— O seu bilhete? — perguntou Loignac.

— Pois quê!? o Sr. de Loignac — exclamou este — não conhece o filho de um dos seus amigos de outro tempo, a quem acalentou mais de vinte vezes no seu colo?!...

— Não senhor.

— Sou Pertinax de Montcrabeau — replicou o mancebo muito admirado —, não me conhece agora?...

— Quando estou de serviço não conheço ninguém, Senhor. Onde está o seu bilhete? O mancebo da couraça apresentou o bilhete.

— «Pertinax de Montcrabeau, 26 de Outubro, ao meio-dia em ponto, pela Porta de Santo António.» Passe.

O mancebo passou e, bastante agastado pelo modo por que o tinha recebido o patrício, foi colocar-se ao lado de Perducas, que estava esperando que se abrisse a porta. Chegou a vez do terceiro gascão; era o que trazia consigo a mulher e as crianças.

— O seu bilhete? — perguntou Loignac.

O gascão meteu logo a mão numa bolsinha de caçador, feita de pele de cabra, que trazia pendurada do lado direito.

Mas foi debalde; estava tão atrapalhado com a criança que tinha nos braços que não achou o papel.

— Que diabo está aí fazendo com essa criança ao colo, Senhor!? bem vê que o está incomodando.

— É meu filho, Sr. de Loignac.

— Pois bem! ponha-o no chão.

O gascão obedeceu; a criança começou a berrar.

— Pelo que vejo é casado... — perguntou Loignac.

— Sim, senhor oficial.

— Aos vinte anos...

— É costume lá na terra casar-se a gente cedo... o senhor bem o sabe, Sr. de Loignac, pois casou aos dezoito anos.

«Bem! — disse consigo Loignac — temos mais outro que também me conhece...» A mulher tinha-se aproximado durante este tempo, e as crianças que se lhe agarravam ao vestido tinham vindo atrás dela.

— E porque não havia de casar-se!? — perguntou ela endireitando-se e apartando da testa crestada pelo sol os cabelos pretos que o pó da estrada lhe tinha pegado à pele como uma pasta. —]á não é moda casar, em Paris?... Sim senhor, está casado, e aqui estão mais dois rapazes que também lhe chamam pai.

— Sim, mas que são filhos de minha mulher, e não meus, Sr. de Loignac, assim como também aquele rapagão que está por detrás dela... Venha cá, Militão, e cumprimente o Sr. de Loignac, nosso compatriota.

Um rapaz de dezasseis para dezassete anos, vigoroso, ágil, com uns olhos redondos e um nariz adunco que lhe davam suas parecenças com um falcão, chegou-se, com as duas mãos metidas na cinta de búfalo; trazia vestido um bom casaco de lã, uns calções de pele de cabrito-montês, e por cima dos beiços insolentes e sensuais via-se-lhe a sombra de um bigode ainda nascente.

— Este é o meu enteado, Militão, Sr. de Loignac; é o filho mais velho da minha mulher, a qual é oriunda da casa de Chavantrade e aparentada com os Loignac. Chama-se Militão de Chavantrade, para o servir. Cumprimente este senhor, já lhe disse, Militão.

E logo abaixando-se para a criança que se rebolava a gritar no chão:

— Cala-te, Cipião! cala-te, menino! — prosseguiu ele, continuando sempre a procurar o bilhete em todos os bolsos.

Militão, entretanto, para obedecer à ordem do padrasto, fazia uma leve inclinação com o corpo, sem tirar as mãos do cinto.

— O seu bilhete, pelo amor de Deus, Senhor! — exclamou Loignac perdendo a paciência.

— Venha ajudar-me, Lardille! — disse o gascão à mulher, tornando-se muito corado. Lardille soltou uma após outra as mãos que lhe agarravam no vestido, e procurou ela mesma na bolsa de couro e nas algibeiras do marido.

— Esta não está má!... — disse ela. — Perdeste-o, provavelmente...

— Pois então vou mandá-lo prender imediatamente — disse o Sr. de Loignac.

O gascão empalideceu.

— Eu chamo-me Eustáquio de Miradoux — disse ele —, e dou por meu fiador o Sr. de

Saint-Maline, meu parente.

— Ah! é parente de Saint-Maline? — disse Loignac em tom mais brando. — É verdade que se eu fosse a dar ouvidos a esta gente, são parentes de todos do universo! Pois bem, continue a procurar; mas trate de achar o papel.

— Examine, Lardille, veja se está envolvido nas roupas dos seus filhos — disse Eustáquio

tremendo de despeito e de receio.

Lardille ajoelhou e abriu uma troixinha de roupa, que passou a revolver resmungando. O pequeno Cipião continuava a esganiçar-se; e com razão, pois seus irmãos, vendo que ninguém reparava neles, divertiam-se em lhe meter terra na boca.

Militão não se mexia; parecia que as misérias da vida da família passavam por baixo ou por cima daquele rapazola sem lhe fazer mossa.

— Esperem! — disse de repente o Sr. de Loignac — que é aquilo que estou vendo na

manga daquele papalvo?...

— Sim, sim, é aquilo! — gritou Eustáquio, transportado de alegria. — Foi uma ideia de

Lardille, agora me lembro: coseu o bilhete na capa de Militão.

— Para lhe dar alguma coisa a trazer — disse ironicamente Loignac. — Que besta! nem traz os braços caídos com medo que lhe pesem!

Os lábios de Militão tornaram-se brancos de cólera, enquanto o rosto se lhe tingiu de

vermelho.

— As bestas não têm braços — rosnou ele com olhar insolente e mau —, têm patas como

certas pessoas que eu conheço.

— Cale-se! — disse Eustáquio — não vê, Militão, que o Sr. de Loignac nos está fazendo

a honra de gracejar connosco?...

— Não, por Deus! não estou gracejando — replicou Loignac — e quero, pelo contrário, que esse grande brejeiro tome as minhas palavras no sentido em que as digo. Se ele fosse meu enteado, havia de fazê-lo carregar com a mãe, com os irmãos e com a troixa, e, assim Deus me salve! eu montava sobre tudo, e puxava-lhe as orelhas para lhe provar que é um burro.

Militão ficou cabisbaixo; Eustáquio pareceu agastado; porém deixou transluzir no semblante a satisfação que lhe causava a humilhação por que tinha passado o enteado.

Lardille, para encurtar razões e poupar ao seu primogénito os sarcasmos do Sr. de Loignac, apresentou ao oficial o bilhete.

O Sr. de Loignac pegou-lhe e leu:

«Eustáquio de Miradoux, 26 de Outubro, ao meio-dia em ponto, pela Porta de Santo António.»

— Pode seguir — disse ele —, e não lhe esqueça por aí algum dos seus fedelhos, bonitos ou feios...

Eustáquio de Miradoux tornou a pegar no pequenino Cipião ao colo, Lardille agarrou-se-lhe outra vez à cinta, os dois rapazes deitaram as mãos ao vestido da mãe, e aquele cacho de família, acompanhado do casmurro Militão, foi juntar-se aos que estavam esperando

depois de terem sido examinados.

«Safa! murmurou Loignac por entre os dentes, vendo efectuar a evolução de Eustáquio de Miradoux com os seus, são frescos os tais soldados do Sr. de Epernon!...»

E depois, voltando-se:

— Agora o senhor — disse ele.

Estas palavras eram dirigidas ao quarto pretendente.

Vinha este só e muito teso, e entretinha-se em dar piparotes no gibão, que era de pano pardo-escuro, para lhe sacudir o pó; o bigode, que parecia feito de pêlos de gato, os olhos verdes e brilhantes, as sobrancelhas, cujo arco formava um semicírculo saliente por cima das maçãs do rosto, também salientes, e os lábios delgados, imprimiam-lhe na fisionomia o tipo de desconfiança e de reserva que dá a conhecer o homem que esconde o fundo da bolsa como o fundo do coração.

— «Chalabre, 26 de Outubro, ao meio-dia em ponto, pela Porta de Santo António.» Está bom, está bom; vá — disse Loignac.

— Penso que nos darão alguma ajuda de custo para as despesas extraordinárias da jornada... — observou timidamente o gascão.

— Eu não sou tesoureiro, Senhor — respondeu Loignac secamente —, por enquanto só faço as vezes de porteiro. Passe adiante.

Chalabre passou.

Em seguimento a Chalabre vinha um cavalheiro moço e ainda louro, o qual ao tirar o bilhete da algibeira deixou cair um dado e umas poucas de cartas.

Declarou chamar-se Saint-Capautel, e a declaração era confirmada pelo bilhete, que estava em forma; seguiu atrás de Chalabre.

Restava ainda o sexto, que se tinha apeado do cavalo por conselho do pajem improvisado, e que exibiu ao Sr. de Loignac um bilhete no qual se lia:

«Ernauton de Carmainges, 26 de Outubro, ao meio-dia em ponto, pela Porta de Santo António.»

Enquanto o Sr. de Loignac lia, o pajem, que também se tinha apeado, procurava esconder a cara fingindo que prendia a barbela do cavalo do seu amo de empréstimo.

— Aquele pajem pertence-lhe, Senhor? — perguntou Loignac a Ernauton, apontando para o mancebo.

— Bem vê, Senhor Capitão — respondeu Ernauton, que não queria mentir nem trair —, bem vê que está segurando o meu cavalo.

— Pode passar, pode passar — disse Loignac examinando atentamente o Sr. de Carmainges, cuja fisionomia e garbo pareciam agradar-lhe mais que a de todos os outros.

«Este ao menos é sofrível» murmurou ele.

Ernauton tornou a montar a cavalo; o pajem tinha ido adiante, sem afectação, mas sem demora também, e já estava confundido com os que o haviam precedido.

— Abram a porta — gritou Loignac — e deixem passar essas seis pessoas com as suas comitivas.

— Vamos! depressa, depressa, meu amo! — disse o pajem — firme-se na sela e abalemos.

Ernauton cedeu novamente à preponderância que sobre ele tinha tomado aquele ente fantástico, e logo que se abriu a porta chegou as esporas ao cavalo e internou-se, guiado pelas indicações do pajem, até ao centro do arrabalde de Santo António.

Logo que entraram os seis escolhidos, Loignac mandou fechar outra vez a porta, com grande descontentamento da multidão, pois julgavam todos os circunstantes que os deixariam passar também depois de preenchida aquela formalidade; e vendo as suas esperanças iludidas, davam ruidosas demonstrações de desaprovação.

Mestre Miton, depois de ter corrido como um cavalo desenfreado pelos campos fora, cobrara ânimo gradualmente e, sondando sempre o terreno a cada passo, acabara por voltar para o sítio de onde havia fugido, chegando até a aventurar alguns queixumes acerca do modo arbitrário por que a soldadesca interceptara as comunicações.

O compadre Friard, que tinha conseguido por fim encontrar a mulher e, protegido por ela, parecia não recear já coisa alguma, contava à sua augusta metade as notícias do dia, enriquecidas com os comentários que a sua imaginação lhe ia sugerindo.

Finalmente os cavaleiros, a um dos quais o jovem pajem tinha chamado Mayneville, deliberavam entre si se não seria mais acertado rodearem o muro de circunvalação da cidade, na bem fundada esperança de encontrarem alguma brecha e de penetrarem por ela dentro de Paris, sem o incómodo de esperarem por mais tempo na Porta de Santo António, ou em qualquer outra.

Roberto Briquet, como filósofo que analisa ou sábio que extrai a quintessência, percebeu que todo o desfecho da cena que acabámos de narrar havia de ter lugar junto da porta, e que nada adiantaria ouvir as conversas particulares dos cavaleiros, dos burgueses e dos aldeãos. Aproximou-se por conseguinte o mais que pôde de uma barraquinha que servia de morada ao guarda da porta, e que recebia luz por duas janelas, das quais uma dava para a parte de Paris e a outra para o campo.

Ainda bem não tinha chegado àquele novo posto de observação, apareceu um homem a cavalo vindo a todo o galope do interior de Paris, apeou-se de salto, e entrando na barraquinha chegou a cabeça à janela.

— Ah!... — disse Loignac.

— Aqui estou, Sr. de Loignac — disse o homem.

— Muito bem; de onde vem?

— Da Porta de São Vítor.

— A sua nota?

— Soma cinco.

— E os bilhetes?

— Ei-los aqui.

Loignac pegou nos bilhetes, verificou-os e escreveu numa ardósia, que parecia estar ali

de antemão para aquele fim, o algarismo 5. O mensageiro retirou-se.

Ainda não tinham decorrido cinco minutos, quando chegaram dois mensageiros. Loignac interrogou-os sucessivamente, sempre pelo mesmo postigo. Um deles vinha da Porta Bourdelle e trazia o algarismo 1. O outro, da Porta do Templo, e dava o algarismo 6. Loignac foi escrevendo estes algarismos cuidadosamente na pedra. Os dois emissários desapareceram como o primeiro, e seguiram-se-lhes sucessivamente mais quatro, que chegavam:

O primeiro, da Porta de São Dinis, com o algarismo 5. O segundo, da Porta de São Tiago, com o algarismo 3. O terceiro, da Porta de Santo Honorato, com o algarismo 8. O quarto, da Porta Montmartre, com o algarismo 4.

Apareceu por fim um último, vindo da Porta de Bussy e trazendo o algarismo 4. Loignac, então, assentou com toda a atenção, e leu para si os lugares e os algarismos seguintes:

Porta de SãoVítor. Porta Bourdelle. . Porta do Templo. Porta de São Dinis. Porta de São Tiago

5 .4 .6 .5 .3

 

   Porta de Santo Honorato...............................8

   Porta de Montmartre......................................4

   Porta de Bussy...............................................4

   Porta de Santo António..................................6

   Total.............................................................45

 

— Muito bem! Agora — disse Loignac com voz sonora — abram as portas, e entre quem quiser.

As portas abriram-se.

Imediatamente, cavalos, mulheres, homens, crianças e carros, tudo entrou de tropel para dentro de Paris, a risco de se esmagarem uns aos outros, pela estreiteza do espaço que mediava entre os dois pilares da ponte levadiça.

Levou um quarto de hora a escoar-se, pela imensa artéria a que chamavam Rua de Santo António, a onda de povo que se achava detida desde pela manhã por aquele dique momentâneo.

O rumor foi cessando pouco a pouco.

O Sr. de Loignac tornou a montar a cavalo com a sua gente. Roberto Briquet, que havia ficado atrás de todos, tendo aliás sido o primeiro que ali chegara, galgou com toda a pachorra a corrente da ponte, dizendo:

«Toda aquela gente queria ver alguma coisa, e nada viu; e eu, que nada queria ver, sou o único que vi alguma coisa. Este começo é na verdade tentador; continuemos. Mas, para que me serve continuar? já sei o bastante. Resultaria para mim algum bem ver partir o Sr. de Salcède em quatro pedaços? Não, por Deus! E demais, já me deixei da política. Vamos jantar; os relógios de sol, se hoje fizesse sol, haviam de marcar meio-dia: são horas.»

Dizendo isto, entrou em Paris com o mesmo sorriso sereno e malicioso.

 

         O CAMAROTE DE HENRIQUE III NA PRAÇA DE GREVE

Se seguíssemos agora até à Praça de Greve, onde termina aquela via populosa do Bairro de Santo António, encontraríamos entre a multidão muita gente nossa conhecida; mas enquanto aqueles pobres cidadãos, decerto menos ajuizados que Roberto Briquet, se vão apertando, acotovelando e pisando, uns atrás dos outros, preferimos, graças ao privilégio que nos oferecem as nossas asas de historiador, ir pairar sobre a praça mesmo; e quando houvermos corrido a vista pelo espectáculo todo, retrocederemos um instante ao passado, a fim de profundarmos a causa, depois de termos completado o efeito.

Pode-se dizer que mestre Friard tinha razão para avaliar em cem mil homens, pelo menos, o número de espectadores que haviam de juntar-se na Praça de Greve e suas imediações para gozarem do espectáculo que ali se preparava.

Todo Paris tinha afluído aos Paços da Câmara, porque Paris é muito exacto, e não perde festa alguma, especialmente quando a função extraordinária que se lhe oferece é a morte de um homem que soube mover por tal maneira as paixões de todos, que uns o amaldiçoam enquanto outros o louvam, e o maior número lhe lamenta a sorte.

O espectador que conseguisse desembocar na praça, fosse pelo cais, junto da taberna que tinha um nicho com a imagem de Nossa Senhora, ou pelo pórtico mesmo da Praça de Beaudoyer, avistava logo, no centro da Praça de Greve, os quadrilheiros do intendente da Polícia, Tanchou, e grande número de suíços e de soldados de cavalaria ligeira, cercando um cadafalso pequeno, que teria de altura quatro pés aproximadamente.

Aquele cadafalso tão baixinho que só o podiam ver os indivíduos que o cercavam ou os que tinham tido a fortuna de alcançar lugar em alguma janela, estava à espera do padecente, de quem os frades se haviam apoderado desde pela manhã, e que, segundo a enérgica expressão do povo, tinha ali prontos os cavalos que lhe haviam de servir para a grande jornada.

Com efeito, debaixo do grande alpendre da primeira casa da Praça, vindo da Rua do Carneiro, quatro robustos cavalos de Perche, com crinas brancas e travadouros cabeludos, escarvavam o chão com impaciência e mordiam-se uns aos outros, aos relinchos, causando imenso susto às mulheres que tinham escolhido aquele lugar, ou que para lá tinham sido impelidas pela força. Os cavalos eram novos; apenas algumas vezes, por acaso, nas verdes planícies de sua terra natal, teriam trazido escarranchado sobre o espaçoso lombo o filho de algum aldeão recolhendo do campo ao pôr do Sol.

Porém, além do patíbulo e dos relinchos dos cavalos, o que mais atraía a atenção do povo era a janela do paço municipal, armada de veludo vermelho, agaloada de ouro, e de cuja sacada pendia um tapete também de veludo com as armas reais.

Aquela janela tinha sido destinada para camarote do rei.

Dava uma e meia em S. João de Greve quando ela, à semelhança da moldura de um painel, se encheu de personagens que vinham formar o quadro.

Foi em primeiro lugar o rei Henrique III, pálido, quase calvo, se bem que naquela época apenas contasse trinta e quatro a trinta e cinco anos, com os olhos cercados de uma órbita azulada e a boca trémula de contracções nervosas.

Entrou com semblante sombrio e o olhar parado, majestoso e vacilante ao mesmo tempo, sempre singular nas suas maneiras e garbo, parecendo mais uma sombra do que um ente vivo, um espectro mais do que um rei: mistério sempre incompreendido de seus súbditos, os quais, quando o avistavam, nunca sabiam se deviam gritar: « Viva el-rei!» ou rezar-lhe pela alma.

Henrique vinha vestido com um gibão preto bordado de ouro, não trazia nem hábitos nem jóias; um único brilhante lhe luzia no gorro, servindo de prisão a três plumas curtas e encaracoladas. Segurava com a mão esquerda um cãozinho preto que sua cunhada, Maria Stuart, lhe tinha mandado da prisão, e sobre cujo pêlo gadelhudo se destacavam os seus dedos finos e brancos como alabastro.

Logo atrás dele vinha Catarina de Médicis, já curvada pela idade, porque a rainha-mãe tinha naquela época os seus sessenta e seis anos ou sessenta e sete, porém com a cabeça ainda firme e erguida, dardejando, à sombra dos sobrolhos contraídos por hábito, um olhar penetrante e, apesar daquele olhar, sempre macilenta e fria como uma estátua de cera, coberta com o seu eterno vestido de luto.

Na mesma linha aparecia o rosto melancólico e suave da rainha Luísa de Lorena, mulher de Henrique III, e companheira, insignificante, na aparência, mas fiel, na realidade, da sua vida agitada e infeliz.

A rainha Catarina de Médicis vinha gozar de um triunfo.

A rainha Luísa vinha assistir a um suplício.

O rei Henrique vinha tratar de um negócio.

Estes três modos diversos de encarar a cena que se preparava, liam-se distintamente no semblante altivo da primeira, no gesto de resignação da segunda e no rosto sorumbático e aborrecido do terceiro.

Por detrás das ilustres personagens, tão pálidas e tão mudas, que o povo admirava, estavam dois galantes mancebos; um deles teria vinte anos, o outro, quando muito, vinte e cinco.

Estavam de braço dado, apesar da etiqueta, que proíbe, perante os reis, como na igreja perante Deus, que os homens mostrem apego a coisa alguma.

Ambos sorriam. O mais moço com inefável tristeza, o mais velho com graça encantadora: eram irmãos, ambos formosos e de elevada estatura.

O mais novo chamava-se Henrique de Joyeuse, conde de Bouchage; o outro era o duque Anne de Joyeuse.

Era conhecido, ainda recentemente, apenas pelo nome de Arques, porém o rei Henrique, que sobremaneira o estimava, tinha-o nomeado, havia um ano, par de França, erigindo o vis-condado de Joyeuse em ducado, com o pariato anexo.

O povo não tinha àquele valido o ódio que outrora nutria contra Maugiron, Quélus e Schomberg, e que só d'Epernon havia herdado.

Vitoriou por conseguinte, a aparição do rei e dos dois irmãos, com discretas mas lisonjeiras aclamações.

Henrique cortejou a multidão gravemente e sem sorrir, e depois beijou o cãozinho na cabeça.

Em seguida, voltando-se para os mancebos:

— Encoste-se à tapeçaria do fundo, Anne — disse ele para o mais velho —, assim sentirá menos o cansaço de estar de pé; isto há-de ter sua demora talvez.

— Assim o espero — interrompeu Catarina —, há-de ser demorado e vistoso.

— Julga que Salcède há-de falar, minha mãe? — perguntou Henrique.

— Espero em Deus que o há-de permitir, para confundir os nossos inimigos,... que também são os seus, minha filha — acrescentou ela, virando-se para a rainha, que empalideceu e baixou os meigos olhos.

O rei abanou a cabeça como duvidando.

Depois, voltando-se novamente para Joyeuse, e vendo que este se conservava de pé apesar do seu convite:

— Ora vamos, Anne, faça o que lhe disse: arrume-se à parede ou encoste-se à minha poltrona.

— Vossa Majestade tem demasiada bondade — replicou o jovem duque. — Só usarei da licença que me concede quando me sentir cansado.

— E não esperaremos por certo que chegue a esse ponto, não é assim, meu irmão? — disse-lhe Henrique ao ouvido.

— Deixa estar — respondeu Anne mais com os olhos do que com a voz.

— Meu filho — disse Catarina —, que tumulto será aquele que estou vendo além, na esquina do cais?...

— Que vista tão penetrante que tem, minha mãe! Sim, com efeito, parece-me que tem razão... Oh! que péssima vista é a minha! e contudo ainda não sou velho...

— Real Senhor — interrompeu Joyeuse livremente —, aquele tumulto é causado pela companhia dos archeiros que está rechaçando o povo para dentro da praça. Está decerto para chegar o padecente.

— Que espectáculo agradável para reis — disse Catarina —, ver esquartejar um homem que tem nas veias uma gota de sangue real!...

E ao proferir estas palavras o seu olhar pesava sobre Luísa.

— Oh minha Senhora! perdoe-me, poupe-me... — retorquiu a jovem rainha com uma desesperação que debalde procurava disfarçar — não, aquele monstro não pertence à minha família, nem foi isso por certo o que pretendeu dizer...

— Não, certamente — disse o rei —, e eu estou bem persuadido de que não foi essa a intenção de minha mãe.

— Parece-me — replicou asperamente Catarina — que não entra em dúvida ser ele aparentado com a Casa de Lorena, e a senhora é da família de Lorena... assim penso, pelo menos. Salcède é portanto seu parente, e bastante chegado até.

— Isto é — interrompeu Joyeuse com a virtuosa indignação que era uma das feições distintivas do seu carácter, e que o fazia sair a campo em qualquer circunstância contra todo aquele que o excitava, fosse ele quem fosse — poderá ter parentesco com o Sr. de Guisa, mas não com a rainha de França.

— Ah está aí, Sr. de Joyeuse? — disse Catarina com indefinível altivez, e pagando assim uma contrariedade com uma humilhação. — Não o tinha visto...

— Estou, sim, Senhora: não somente com o consentimento, mas até por ordem expressa de el-rei — respondeu Joyeuse, interrogando Henrique com os olhos. — Ver esquartejar um homem não é coisa tão recreativa que me induzisse a vir assistir a semelhante espectáculo se não fosse obrigado.

— Joyeuse tem razão, minha Senhora — replicou Henrique —, não se trata aqui de Lorenas nem de Guisas, e muito menos da rainha; trata-se unicamente de ver separar em quatro pedaços o Sr. de Salcède, ou por outra, um assassino que queria matar meu irmão.

— Sempre estou hoje bem desastrada! — disse Catarina, cedendo de repente, segundo a sua hábil táctica. — Fiz chorar minha filha e, assim Deus me perdoe, parece-me que fiz rir o Sr. de Joyeuse.

— Ah! minha Senhora — exclamou Luísa agarrando nas mãos de Catarina —, será possível que Vossa Majestade não entenda o motivo da minha dor?...

— E que duvide do meu respeito profundo — acrescentou Anne de Joyeuse, inclinando-se perante a cadeira da rainha-mãe.

— É verdade, é verdade — replicou Catarina, cravando uma derradeira punhalada no coração da nora. — Eu devia ter avaliado quanto lhe há-de ser custoso, minha querida Menina, ver descobrir as maquinações dos seus aliados de Lorena, com os quais, ainda que seja com bastante pesar seu, não pode negar parentesco.

— Ah, minha mãe! isso que diz é verdade, em parte — retorquiu o rei, procurando congraçar a todos — porque, enfim, desta vez sabemos que os Srs. de Guisa entraram na conspiração.

— Porém, Senhor — interrompeu mais afoitamente Luísa de Lorena —, Vossa Majestade sabe muito bem que desde o dia em que subi ao trono da França esqueci logo que tinha parentes...

— Oh! — exclamou Anne de Joyeuse — veja, meu Senhor, que eu não me enganava: lá vem o padecente entrando na praça. Apre! que cara tão feia!

— Vem com medo — disse Catarina —, há-de falar.

— Se tiver forças para tanto — respondeu o rei. — Olhe, minha mãe, a cabeça vacila-lhe como a de um cadáver.

— Ainda estou pelo meu dito, Real Senhor — disse Joyeuse —, é hediondo.

— Como queria que fosse bonito um homem que tem pensamentos tão feios?... Não lhe expliquei já, Anne, as relações ocultas que existem entre o físico e a moral, como as entenderam e explicaram Hipócrates e Galeno?

— Não o nego, meu Senhor, porém, eu não possuo tanta ciência como Vossa Majestade e já tenho visto homens muito feios serem soldados valentes. Não é verdade, Henrique?

Joyeuse voltou-se para o irmão, como para chamar a aprovação dele em seu auxílio, mas Henrique estava olhando sem ver e ouvindo sem entender; achava-se entregue a profundo meditar; foi o rei que respondeu por ele.

— E quem lhe disse, meu caro Anne — exclamou ele —, que aquele não é valente? Olhe que é como um urso, como um lobo, como uma serpente... Não se lembra das façanhas dele?... Queimou em sua própria casa um fidalgo normando, seu inimigo; bateu-se em duelo dez vezes e matou três dos seus adversários; foi apanhado cunhando moeda falsa e sentenciado à morte por esse facto.

— E por sinal — disse Catarina de Médicis — que foi perdoado em consequência de haver intercedido por ele o Senhor Duque de Guisa, seu primo, minha filha.

Luísa, desta vez, já estava exausta de forças; limitou-se a soltar um suspiro.

— Ora pois — disse Joyeuse —, teve uma existência muito variada, mas que vai acabar depressa.

— Pois eu espero, Sr. de Joyeuse — redarguiu Catarina —, que, pelo contrário, acabe com a maior lentidão possível.

— Minha Senhora — respondeu Joyeuse abanando a cabeça — vejo acolá, debaixo do alpendre, uns cavalos tão possantes, e que parecem tão impacientes por não terem que fazer, que não me persuado de que os músculos, tendões e cartilagens do Sr. de Salcède possam resistir por muito tempo.

— Sim senhor, se o caso não houvesse sido previsto; porém, meu filho é muito clemente — acrescentou a rainha-mãe com um daqueles sorrisos que lhe eram privativos —, por isso há-de mandar dizer aos ajudantes do verdugo que puxem brandamente.

— Contudo, minha Senhora — observou timidamente a rainha —, ouvi dizer esta manhã à Sr.a de Mercour, se estou bem lembrada, que aquele desgraçado apenas sofreria dois puxões...

— Assim será, se ele se portar bem — disse Catarina. — Dado esse caso, há-de ser aviado o mais expeditamente possível. Mas ainda repito, minha filha, e visto que se interessa por ele (muito desejaria que lho pudesse mandar dizer): é preciso que se porte bem; a coisa está na mão dele.

— É porque, minha Senhora — disse a rainha —, como Deus não me criou forte como a senhora, não tenho ânimo para ver sofrer.

— Nesse caso não olhe, minha filha. Luísa calou-se.

O rei não ouvira o diálogo: estava olhando atentamente para o padecente, a quem tinham tirado do carro que o havia conduzido para o colocarem sobre o cadafalso.

Entretanto, os alabardeiros, os archeiros e os suíços tinham feito alargar consideravelmente o espaço, de forma que em torno do patíbulo ficara um vácuo suficientemente grande para que todos pudessem ver bem Salcède, apesar da pequena elevação do seu fúnebre pedestal.

Salcède teria de trinta e quatro a trinta e cinco anos; era forte e vigoroso, e as pálidas feições do rosto, sobre o qual se observavam algumas gotas de suor e de sangue, animavam-se-lhe quando olhava em redor de si com uma indefinível expressão, ora de esperança, ora de angústia.

Tinha começado por lançar a vista para o camarote real, mas, como se houvesse compreendido que em vez da salvação era a morte que dali lhe vinha, volveu logo os olhos para outra direcção.

Era no centro da multidão que ele procurava alguém, era no seio daquele mar tempestuoso que pregava os olhos ardentes, com ânsia tal que parecia ter a alma a desprender-se dos lábios.

A multidão conservava-se silenciosa.

Salcède não era um assassino vulgar; em primeiro lugar era ilustre por nascimento, visto que Catarina de Médicis, que fazia muito caso de genealogias, se bem que afectasse o contrário, lhe descobrira nas veias uma gota de sangue real; além disso, Salcède adquirira nome como militar.

Aquela mão, que uma corda ignominiosa prendia, manejara a espada com valor; aquela] cabeça lívida, em cujo rosto se lia o terror da morte, terror que o padecente teria encerrado no íntimo da alma se não fosse a demasiada esperança que ainda conservava, aquela cabeça lívida, dizemos, já tinha formado grandes planos.

Do que acabámos de dizer resultava que para muitos dos espectadores era Salcède um herói, e para muitos outros uma vítima; é verdade que alguns o consideravam um assassino,! porém ao vulgo custava-lhe muito desprezar, como assassinos ordinários, indivíduos que tentaram assassinatos famosos, que ficam registados nos livros da História, tanto como no da justiça.

Contava-se que Salcède era oriundo de uma raça de guerreiros, que seu pai combatera valorosamente contra o Senhor Cardeal de Lorena, de que lhe resultara uma morte gloriosa no meio da matança da noite de São Bartolomeu, mas que, passado tempo, o filho, esquecido daquela morte, ou antes, sacrificando o seu ódio a uma certa ambição, com a qual os povos, sempre simpatizam, que o filho, repetimos, pactuara com a Espanha e com os Guisas para aniquilar, na Flandres, a nascente soberania do duque de Anjou, que os Franceses tanto detestavam.

Citavam-se as relações que ele mantivera com Baza e Balouin, supostos autores da conspiração que havia ameaçado a vida do duque Francisco, irmão de Henrique III; citava-se a destreza que Salcède desenvolvera em todo aquele processo para escapar à roda, à forca e às fogueiras, onde fumegava ainda o sangue dos seus cúmplices. Era ele o único, diziam os Lorenos, que pelas suas revelações falsas e artificiais tinha conseguido embair os juizes por forma tal, que o duque de Anjou, com a esperança de vir a saber ainda mais particularidades, poupara-o momentaneamente, mandando-o conduzir para França em vez de o fazer degolar em Antuérpia ou em Bruxelas; porém, verdade seja que o resultado final havia sido o mesmo; na jornada, que era o alvo a que tendiam as suas revelações, esperava Salcède ser solto pelos partidários; mas, desgraçadamente para ele, não calculara que havia de ser entregue às mãos do Sr. de Bellièvre, o qual guardara tão bem aquele depósito precioso, que nem Espanhóis, nem Lorenos, nem membros da Liga se tinham aproximado à distância de uma légua dele.

Salcède tinha esperado na prisão, no meio dos tratos, até mesmo sobre o carro, e, já sobre o cadafalso, não o havia abandonado ainda a esperança.

Não era porque lhe faltasse ânimo ou resignação, mas porque era dotado de uma daquelas organizações vivazes que lutam até ao derradeiro alento com uma tenacidade e um vigor a que a força humana nem sempre chega nos espíritos de valor secundário.

Aquele pensamento incessante de Salcède não tinha escapado ao rei, como não escapara ao povo.

Quanto a Catarina, essa estudava com ansiedade até o menor movimento do infeliz; estava, porém, demasiado distante para lhe poder seguir a direcção dos olhos e observar-lhes o contínuo movimento.

À chegada do padecente, tinham-se levantado, como por encanto, entre a multidão, andares de homens, de mulheres e de crianças. Cada vez que uma nova cabeça aparecia acima daquele nível movediço, mas que já tinha sido medido pelo olhar vigilante de Salcède, analisava-a ele toda num exame que durava um segundo, mas que bastava como um exame de uma hora àquela organização sobreexcitada, na qual o tempo, que se havia tornado tão precioso, decuplicava, ou antes, centuplicava, todas as faculdades.

Apenas acabava de lançar o olhar, como um raio, para um rosto novo e desconhecido, tornava-se Salcède novamente sorumbático e voltava a sua atenção para outra parte.

Entretanto o verdugo havia começado a apoderar-se dele, e amarrava-o pelo meio do corpo ao centro do cadafalso.

Até mesmo a um aceno de Misser Tanchou, intendente da Polícia, que presidia à execução, já dois quadrilheiros, rompendo por entre a multidão, tinham ido buscar os cavalos.

Em qualquer outra circunstância e por qualquer outro motivo, não teriam podido os quadrilheiros dar um passo no meio daquela massa compacta; porém a multidão sabia ao que eles iam, e apertava-se para lhes abrir caminho, como nos corredores de um teatro atulhado de gente se abre sempre passagem aos actores incumbidos de papéis importantes.

Naquele momento sentiu-se algum rumor à porta do camarote real, e o porteiro, erguendo o reposteiro, veio dizer a Suas Majestades que o presidente Brisson e mais quatro conselheiros, dos quais um era relator do processo, desejavam ter a honra de falar um instante com el-rei a respeito do suplício.

— Com muita satisfação — disse o rei. E voltando-se para Catarina:

— Então, minha mãe? — prosseguiu ele — vai ficar bastante satisfeita, não? Catarina fez um leve aceno com a cabeça, em sinal de aprovação.

— Mande entrar esses senhores — disse o rei.

— Meu Senhor, tenho a pedir a Vossa Majestade uma mercê... — disse Joyeuse.

— Fala, Joyeuse — replicou o rei —, contanto que não seja para pedir o perdão do réu...

— Descanse, Real Senhor.

— Estou ouvindo.

— Real Senhor, há uma coisa que incomoda sobremaneira a vista de meu irmão, e a minha especialmente; são as togas vermelhas e as togas pretas; queira pois Vossa Majestade ter a condescendência de permitir que nos retiremos.

— Pois quê!? tem os meus negócios tão pouco a peito, Sr. de Joyeuse, que pede licença para se retirar em semelhante ocasião?! — exclamou Henrique.

— Não julgue tal, Real Senhor; tudo quanto diz respeito a Vossa Majestade é de sumo interesse para mim; porém, tenho uma organização desgraçada: a mulher mais fraca é, neste particular, mais forte do que eu; sempre que assisto a uma execução fico doente oito dias. Ora, como sou, a bem dizer, a única pessoa da corte que ainda ri, desde que meu irmão, não sei porquê, deixou de rir, pense Vossa Majestade na sorte que espera o pobre Louvre, já de si tão triste, se eu concorrer para o tornar mais triste ainda. Peço portanto, como graça especial, Real Senhor...

— Queres abandonar-me, Anne!... — disse Henrique com acento de indefinível tristeza.

— Sempre é muito exigente Vossa Majestade, Real Senhor! Uma execução na Praça de Greve é para Vossa Majestade uma vingança e um espectáculo ao mesmo tempo; e que espectáculo!.. . aquele pelo qual, ao contrário de mim, Vossa Majestade é mais apaixonado; mas não lhe bastam ainda a vingança e o espectáculo, quer, demais a mais, gozar ao mesmo tempo a fraqueza dos seus amigos?...

— Fica, Joyeuse, fica; verás como é interessante.

— Não duvido; receio mesmo, como já tive ocasião de dizer a Vossa Majestade, que o interesse chegue a ponto tal, que me não seja possível de modo algum sofrê-lo; assim pois, conceda-me licença, Real Senhor.

E Joyeuse deu um passo para a porta.

— Pois seja — disse Henrique III com um suspiro —, faz o que quiseres; é sina minha

viver só...

E o rei, ao dizer isto, voltou-se, franzindo a testa, para a mãe, receoso de que ela tivesse

ouvido o colóquio que acabava de ter lugar entre ele e o seu valido.

Catarina tinha o ouvido tão apurado como a vista; porém, quando não lhe fazia conta ouvir alguma coisa, não havia surdez igual à dela.

Entretanto, Joyeuse chegara-se ao ouvido do irmão e dissera-lhe:

— Alerta, alerta, de Bouchage! enquanto os conselheiros forem entrando encobre-te com as suas imensas togas, e retiremo-nos; el-rei disse que sim agora, mas daqui a cinco minutos

é capaz de dizer que não.

— Obrigado, obrigado, meu irmão — respondeu o mancebo. — Eu estava como tu, com

pressa de me ir embora.

— Vamos, vamos: aí vêm os corvos... desaparece, terno rouxinol!

E os dois mancebos fugiram, efectivamente, pela retaguarda dos senhores conselheiros, com a rapidez de duas sombras.

Apenas eles saíram, tornou imediatamente a cair o pesado reposteiro.

Neste mesmo instante o rei voltava a cabeça, mas eles já tinham desaparecido.

Henrique soltou um suspiro e beijou o cão.

 

         O SUPLÍCIO

Os conselheiros conservavam-se ao fundo do camarote do rei, de pé e silenciosos, esperando que ele lhes dirigisse a palavra.

O rei deixou-os esperar algum tempo, e depois, virando-se para eles:

— Então, meus Senhores, que novidades temos? — perguntou ele. — Bons-dias, Senhor Presidente Brisson.

— Real Senhor — respondeu o presidente com a sua dignidade natural, a que davam na corte o nome de cortesia de huguenote —, vimos suplicar a Vossa Majestade, conforme nos insinuou o Sr. de Thou, que se sirva poupar a vida do réu. Ele ainda poderá decerto fazer algumas revelações, e prometendo-lhe que há-de viver, obtê-las-emos.

— Porém — disse o rei — não as obtivemos já, porventura, Senhor Presidente?...

— Sim, meu Senhor, em parte; Vossa Majestade acha que é suficiente?

— Bem sei o que digo, Sr. Brisson.

— Vossa Majestade sabe então o juízo que deve formar acerca da parte que teve a Espanha neste negócio?

— A Espanha? sei, Senhor Presidente, e outras potências mais.

— Conviria muito obter provas de tudo, Real Senhor.

— E por isso — interrompeu Catarina — el-rei tenciona, Senhor Presidente, suspender a execução se o réu assinar uma confissão análoga ao depoimento que fez perante o juiz que lhe mandou infligir os tratos.

Brisson interrogou o rei com os olhos e com o gesto.

— É na verdade essa a minha tenção — disse Henrique —, pode certificar-se de que assim é, Senhor Presidente Brisson, mandando falar ao padecente pelo intendente da Polícia.

— Vossa Majestade nada mais determina?

— Nada mais. Entenda-se todavia que não há-de haver variação alguma na confissão, quando não torno com a minha palavra atrás. A confissão é pública, deve ser completa.

— Sim, meu Senhor. Com os nomes das pessoas comprometidas?

— Com os nomes, com todos os nomes!

— Mesmo dado o caso que da confissão do padecente resulte para esses nomes a nota de alta traição e rebelião em primeiro grau?...

— Mesmo dado o caso que esses nomes sejam os dos meus parentes mais chegados! — respondeu o rei.

— Far-se-á conforme Vossa Majestade ordena.

— Tenho-me explicado, Sr. Brisson, veja, pois, não haja equívoco. Apresentarão ao réu papel e pena, e ele passará a escrever a sua confissão, mostrando assim publicamente que se reporta à nossa clemência e que fica à nossa mercê. Depois veremos.

— Posso, contudo, prometer?...

— Sim, sim, prometa sempre.

— Vão, meus Senhores — disse o presidente despedindo os conselheiros. E depois de haver cortejado respeitosamente o rei, saiu atrás deles.

— Ele há-de falar, Real Senhor — disse Luísa de Lorena a tremer —, ele há-de falar e Vossa Majestade há-de perdoar-lhe. Veja como ele tem os lábios cheios de escuma...

— Não, não; ele procura alguém... — disse Catarina. — Mas quem procurará ele?

— Quem há-de ser!... — exclamou Henrique — não é muito custoso de adivinhar; procura o Senhor Duque de Parma, o Senhor Duque de Guisa ou o senhor meu irmão, o rei católico. Sim, procura! procura bem! espera por eles!... Pensas que a Praça de Greve é sítio mais cómodo para emboscadas do que a estrada de Flandres?... Pensas que eu não tenho aqui cem Bellièvres para obstarem a que desças do cadafalso para onde um só te conduziu?...

Salcède tinha visto sair os quadrilheiros para irem buscar os cavalos. Tinha visto o presidente e os conselheiros no camarote do rei, de onde em breve desapareceram: entendeu que o rei acabava de dar a ordem para o suplício.

Foi então que lhe apareceu na boca lívida a escuma ensanguentada que a rainha observara; o desgraçado, devorado de uma impaciência mortal, mordia os lábios a ponto de fazer sangue.

«Ninguém! ninguém! murmurava ele desesperadamente; nem um único dos que me prometeram auxílio!... Cobardes! cobardes! cobardes!...»

O intendente Tanchou aproximou-se do cadafalso, e dirigindo-se para o verdugo:

— Apronte-se, mestre — disse.

O executor fez um sinal para a extremidade da praça, e logo os quatro cavalos romperam por entre a multidão, deixando atrás de si um sulco tumultuoso que, semelhante à esteira de um navio no mar, desapareceu depois de eles passarem.

O sulco era produzido pelos espectadores pisados ou derrubados pelos cavalos em sua rápida passagem, porém o muro, um instante demolido, logo se tornava a fechar, e de vez em quando os primeiros ficavam para trás dos últimos, e assim reciprocamente, porque os mais fortes arremessavam-se para o espaço que tinha ficado livre.

Quem olhasse então para a esquina da Rua da Vannerie, quando os cavalos por aí passaram, teria visto saltar abaixo do colunelo a que estava trepado um galante mancebo nosso conhecido, empurrado por um rapaz que figurava ter quinze ou dezasseis anos apenas, e que parecia muito desejoso de presenciar tão terrível espectáculo.

Era o misterioso pajem e o visconde Ernauton de Carmainges.

— Vamos! depressa, depressa! — disse o pajem ao ouvido do seu companheiro — meta-se no espaço que vão abrindo os cavalos, não há um instante a perder!

— Ficaremos esmagados! — respondeu Ernauton. — Está louco, meu amiguinho!

— Quero ver de perto — disse o pajem com um modo tão imperioso que bem se conhecia que aquela ordem dimanava de uma boca acostumada a mandar.

Ernauton obedeceu.

— Chegue-se para os cavalos, chegue-se para os cavalos! — disse o pajem. — Não se afaste deles um passo, quando não não conseguiremos chegar ao pé do cadafalso.

— Porém, antes de lá chegarmos, o senhor estará feito em pedaços...

— Não cure de mim. Para a frente,, para a frente!

— Não tarda que os cavalos escouceiem!...

— Agarre-se à cauda do último; um cavalo que está seguro nunca escouceia.

Ernauton cedia involuntariamente à influência singular daquela criança; obedeceu: agarrou-se à cauda do cavalo, enquanto o pajem se lhe agarrava ao cinto.

E caminhando pelo meio daquela multidão ondulosa como o mar, e espinhosa como o mato, foram deixando, aqui um pedaço de capa, ali um fragmento de gibão, mais adiante o colarinho da camisa, até que afinal chegaram, ao mesmo tempo que as parelhas, à distância de três passos do cadafalso, sobre o qual Salcède se estorcia em convulsões de desespero.

— Já chegámos? — murmurou o mancebo, sufocado e quase sem fôlego, quando sentiu que Ernauton parava.

— Sim — respondeu o visconde —, e felizmente porque eu já não tinha forças para mais.

— Eu daqui não vejo.

— Coloque-se adiante de mim.

— Não, não, ainda não... Que estão eles fazendo?

— Laçadas na extremidade das cordas.

— E ele, que faz?

— Ele, quem?

— O padecente.

— Volve os olhos para todos os lados, como um açor à espreita da presa.

Os cavalos estavam próximos ao cadafalso, na distância precisa para os ajudantes do executor amarrarem aos pés e aos pulsos de Salcède os tirantes seguros nas coleiras.

Salcède soltou um rugido, quando sentiu em redor dos artelhos o contacto rugoso das cordas, que as laçadas lhe apertavam de encontro à carne.

Dirigiu então um supremo e indefinível olhar para a imensa praça, abarcando os cem mil espectadores com o círculo do seu raio visual.

— Senhor — disse com urbanidade o intendente Tanchou —, quer falar ao povo antes que dêmos princípio à execução?

E chegou-se ao ouvido do padecente para acrescentar em voz baixa:

— Uma confissão bem franca... para salvar a vida.

Salcède deitou-lhe uns olhos que pareciam querer penetrar-lhe até ao fundo da alma.

Aquele olhar era tão eloquente que pareceu arrancar a verdade do coração de Tanchou e fez-lha raiar nos olhos.

Salcède conheceu que não havia engano; percebeu que o intendente estava falando com sinceridade e que havia de cumprir o que prometia.

— Bem vê — prosseguiu Tanchou — que o abandonaram; já não tem neste mundo outra esperança senão a que eu lhe ofereço...

— Pois bem! — disse Salcède com um suspiro abafado — mande que haja silêncio, estou pronto a falar.

— El-rei exige uma confissão escrita e assinada.

— Então solte-me as mãos e dê-me uma pena, que eu escreverei.

— A sua confissão?

— A minha confissão, sim.

Tanchou, arrebatado de alegria, fez apenas um aceno: o caso já tinha sido previsto.

Um quadrilheiro tinha tudo pronto; entregou-lhe o tinteiro, a pena e o papel, que Tanchou colocou sobre a plataforma do cadafalso.

Entretanto alargaram uns três pés, aproximadamente, a corda que segurava o pulso direito de Salcède, e sentaram-no sobre o estrado para que pudesse escrever.

Salcède, mal se viu sentado, a primeira coisa que fez foi respirar com força, empregar a mão em limpar os lábios, e levantar o cabelo, que lhe pendia húmido de suor.

— Vamos, vamos — disse Tanchou —, ponha-se à vontade e escreva tudo.

— Oh! não receie que eu deixe de o fazer — respondeu Salcède lançando mão da pena —, fique descansado que não me hei-de esquecer dos que se esqueceram de mim.

E dizendo estas palavras ainda aventurou um último olhar.

Era chegado provavelmente o momento em que o pajem devia mostrar-se, pois agarrando na mão de Ernauton:

— Senhor — disse ele —, por favor pegue em mim ao colo e levante-me acima das cabeças que não me deixam ver.

— Ora esta! é na verdade insaciável, mancebo!...

— Só mais este obséquio, Senhor.

— Está abusando da minha condescendência...

preciso que eu veja o réu, ouviu? É preciso que eu o veja!

E, em seguida, como Ernauton não obedecia com bastante prontidão àquela ordem tão expressa:

— Por piedade, Senhor! por favor! — disse ele — suplico-lhe!

O rapaz já não era um tirano fantástico, mas um ente suplicante a quem não se podia resistir.

Ernauton levantou-o nos braços, e não lhe causou pequena admiração a delicadeza daquele corpo que ele apertava entre as mãos.

A cabeça do pajem ficou assim sobranceira a todas as mais.

Salcède acabava justamente de pegar na pena depois de ter concluído a sua revista circular.

Viu a cara do rapazito e ficou estupefacto.

No mesmo instante o pajem levou dois dedos à boca.

Uma alegria indizível brilhou nos lábios do padecente; dir-se-ia que era a embriaguez do mau rico, quando Lázaro lhe deixou cair uma gota de água na língua sequiosa.

Tinha conhecido o sinal que esperava com tanta impaciência e que lhe anunciava que ia ser socorrido.

Salcède, depois de o ter contemplado durante alguns segundos, agarrou no papel que lhe oferecia Tanchou, já inquieto por o ver hesitar, e começou a escrever com actividade febril.

— Está escrevendo! está escrevendo! — murmurou a multidão.

— Está escrevendo! — repetiu a rainha-mãe com evidente alegria.

— Está escrevendo! — disse o rei — por Deus! que há-de ser perdoado. De repente Salcède parou de escrever para tornar a olhar para o mancebo. O mancebo repetiu o mesmo sinal e Salcède continuou a escrever.

Dali a pouco, depois de um intervalo mais breve, parou outra vez para tornar a olhar. O pajem então acenou-lhe com os dedos e com a cabeça.

— Já acabou? — disse Tanchou, que não perdia de vista o papel.

— Já — respondeu Salcède maquinalmente.

— Pois então assine.

Salcède assinou sem volver para o papel os olhos, que tinha fitos no mancebo. Tanchou estendeu a mão para pegar na confissão.

— A el-rei, a el-rei somente! — disse Salcède.

E, proferindo estas palavras, entregou o papel ao intendente da Polícia, com alguma hesitação, como um soldado vencido que entrega a sua última arma.

— Se confessou tudo sinceramente — disse o intendente —, está salvo, Sr. de Salcède. Um sorriso misturado de ironia e de inquietação assomou aos lábios do padecente, que

pareceu interrogar, com impaciência do seu misterioso interlocutor.

Até que por fim Ernauton, já cansado, quis livrar-se de tão incómoda carga; abriu ambos os braços, e o pajem escorregou para o chão.

Com ele desapareceu também a visão que tinha dado ânimo ao réu.

Quando Salcède deixou de o ver, procurou-o com os olhos; e depois, como fora de si:

— Então!? — gritou ele — então!?... Ninguém lhe respondeu.

— Vamos! depressa, depressa! avie-se! — disse ele — o papel já está nas mãos de el-rei, vai lê-lo!...

Ninguém se mexeu.

Entretanto o rei desdobrava com bastante vivacidade a confissão. «Oh! com mil demónios! gritou Salcède, querem ver que mangaram comigo!... E contudo não tem que ver: eu bem a conheci... Era ela, era ela!»

O rei, apenas leu as primeiras regras, pareceu penetrado da maior indignação. Enfiou em seguida, e exclamou:

— Oh! que miserável! Oh! que malvado!

— Que é, meu filho? — perguntou Catarina.

— Desdiz-se, minha mãe! afirma que nunca confessou coisa alguma!

— E depois?

— E depois, declara os Srs. Guisas inocentes e estranhos à conspiração!

— Quem sabe... — balbuciou Catarina — talvez seja verdade!

— Mente! — exclamou o rei — mente como um pagão!

— Como pode sabê-lo, meu filho? Foi talvez calúnia que espalharam acerca dos Srs. de Guisa... Pode ser que os juizes, levados do seu nímio zelo, interpretassem mal os depoimentos.

— Minha Senhora — exclamou Henrique, não podendo já conter-se —, eu ouvi tudo!

— Ouviu tudo, meu filho?

— Sim.

— E quando, não mo dirá?

— Quando o réu sofreu os tratos eu estava escondido por detrás de um reposteiro; não me escapou uma única das suas palavras, e cada uma delas entrava-me na cabeça como um prego impelido pelo martelo.

— Pois bem! empregue os tratos para o obrigar a falar, já que tratos ele quer; mande que os cavalos puxem.

Henrique, cedendo a um impulso de cólera, levantou a mão.

O intendente Tanchou repetiu o sinal.

As cordas já tinham sido novamente amarradas às quatro extremidades do padecente; montaram quatro homens nos cavalos; retiniram quatro estalos de azorrague, e os quatro cavalos arremessaram-se em direcções opostas.

Ressoou ao mesmo tempo da plataforma do cadafalso um estridor horrível acompanhado de um grito agudíssimo.

Os braços e as pernas do desgraçado Salcède tornaram-se roxos, estenderam-se e injectaram-se de sangue; o seu rosto já não era o de uma criatura humana, eram as feições de um demónio.

— Ah! traição! traição! — gritou ele. — Pois bem! vou falar... quero falar! quero dizer tudo! Ah! maldita duq...

A voz ouvia-se acima dos rinchos dos cavalos e dos rumores da multidão; mas de repente calou-se.

— Parem! parem! — gritou Catarina.

Já era tarde. A cabeça de Salcède, que ainda há pouco estava inteiriçada pelo sofrimento e pelo furor, caiu de repente inerte sobre a plataforma.

— Deixem-no falar! — vociferou a rainha mãe. — Parem! parem, já lhes disse!

Os olhos de Salcède estavam espantosamente dilatados, fixos, e ainda dirigidos para o grupo em que tinha aparecido o misterioso pajem.

Tanchou seguia habilmente com a vista naquela direcção.

Porém Salcède já não podia falar, estava morto.

Tanchou deu algumas ordens, em voz baixa, aos quadrilheiros, que logo começaram a esquadrinhar por entre a multidão na direcção que indicara aquele olhar.

— Descobriram-me! — disse o pajem ao ouvido de Ernauton. — Por piedade, ajude-me, socorra-me, Senhor! eles vêm aí! eles vêm aí!

— Que mais pretende de mim?

— Que me ajude a fugir; não vê que é a mim que eles procuram?

— Mas, quem é o senhor?

— Uma mulher... Salve-me! proteja-me!

Ernauton empalideceu; porém a generosidade foi nele superior à admiração e ao medo. Colocou-se atrás da sua protegida e, batendo com os copos da adaga nas caras dos circunstantes, foi-lhe abrindo caminho até à esquina da Rua do Carneiro, onde a empurrou para dentro de uma porta que estava aberta.

O pajem deu um pulo e desapareceu na porta, que parecia estar à espera dele, e que se fechou apenas ele entrou.

Ernauton nem tinha tido tempo de lhe perguntar como se chamava nem onde devia tornar a encontrá-lo.

Porém o pajem, ao sumir-se, como se lhe houvera adivinhado o pensamento, fez-lhe um sinal repleto de promessas.

Ernauton, vendo-se desembaraçado, voltou-se para a praça e lançou a vista ao mesmo tempo para o cadafalso e para o camarote real.

Salcède estava estendido, inteiriçado e lívido, sobre o cadafalso.

Catarina estava de pé no camarote, trémula de raiva.

— Meu filho — disse ela afinal, limpando o suor da testa —, meu filho, dou-lhe de conselho que procure outro executor da alta justiça, que este é membro da Liga!

— E como sabe isso, minha mãe? — perguntou Henrique.

— Olhe, olhe!

— Estou olhando.

— Salcède apenas sofreu um puxão, e logo morreu.

— Foi por não ter forças para suportar a dor.

— Não foi, não! — exclamou Catarina com um sorriso de desprezo motivado pela pouca perspicácia do filho. — Morreu logo porque foi estrangulado por baixo do cadafalso com uma corda delgada, no momento em que ia para acusar as pessoas que assim o deixavam morrer. Mande examinar o cadáver por algum doutor entendido, estou certa de que lhe há-de encontrar de roda do pescoço o vergão da corda.

— Tem razão — disse Henrique, fulgurando-lhe momentaneamente os olhos. — Meu primo de Guisa tem mais quem o sirva com fidelidade do que eu.

— Cale-se! cale-se, meu filho! — disse Catarina — não façamos bulha, que ainda em cima hão-de escarnecer de nós; perdemos mais esta partida.

— Bem fez Joyeuse em ir divertir-se para outra parte — disse o rei. — Já não se pode contar com coisa nenhuma neste mundo, nem mesmo com os suplícios. Vamo-nos embora, minhas Senhoras, vamo-nos embora!

 

         OS DOIS JOYEUSES

Os Srs. de Joyeuse, como vimos, tinham-se retirado durante aquela cena, saindo por uma porta traseira dos Paços da Câmara; e, deixando com o estado do rei os lacaios que esperavam com os cavalos, foram andando ao lado um do outro pelas ruas desse bairro populoso, que naquele dia estavam desertas, tal tinha sido a concorrência de espectadores à Praça de Greve.

Iam de braço dado, mas sem proferirem palavra.

Henrique, tão alegre outrora, estava preocupado e taciturno.

Anne parecia inquieto e triste por aquele silêncio do irmão.

Foi ele quem falou primeiro.

— Então, Henrique? — perguntou ele — para onde me levas?

— Não te levo a parte alguma, meu irmão; vou andando sem destino — respondeu Henrique, como que acordado de repente. — Desejas ir a alguma parte, meu irmão?

— E tu?

Henrique sorriu com tristeza.

— Oh! a mim — disse ele — pouco me importa para onde vou.

— Contudo, vais algures todas as noites — respondeu Anne — pois todas as noites sais à mesma hora, e não voltas senão a altas horas, e às vezes até nem voltas...

— Estás-me interrogando, meu irmão? — perguntou Henrique com encantadora doçura, acompanhada de certo respeito que tinha pelo irmão mais velho.

— Eu interrogar-te?! — replicou Anne. — Deus me livre de tal! os segredos pertencem a quem os guarda.

— Sabes muito bem, meu irmão — retorquiu Henrique —, que, logo que o desejares, deixarei de ter segredos para contigo.

— Não terás pois segredos para comigo, Henrique?

— Nunca, meu irmão; não és porventura meu senhor e meu amigo?

— Pois eu pensava que te escondias de mim por não ser senão um pobre leigo; julgava que preferias nosso sábio irmão — aquele sustentáculo da teologia, aquele luminar da Religião, aquele douto arquitecto dos casos de consciência da corte, que há-de ser cardeal um dia —, julgava que tudo confiavas dele, e que nele encontravas a um tempo confissão, absolvição, e, quem sabe!... e conselhos! porque na nossa família — acrescentou Anne sorrindo — há quem sirva para tudo, tu bem o sabes; senão haja em vista o nosso muito querido pai...

Henrique de Bouchage pegou na mão do irmão e apertou-a afectuosamente.

— És para mim mais do que o director, mais do que confessor, mais do que pai, meu querido Anne — disse ele —, repito-te que te considero meu amigo.

— Pois então, meu amigo, por que motivo, de alegre que eras, te tens tornado tão triste? E porque, em vez de saíres de dia, já não sais agora senão de noite?

— Meu querido irmão, eu não ando triste — respondeu Henrique sorrindo.

— Então que chamas tu a isso?

— Ando apaixonado.

— Bom! e isso que quer dizer?

— É proveniente do muito que estou sempre a pensar no meu amor.

— E suspiras, ao dizer isso?...

— Suspiro.

— Suspiras... tu, Henrique, conde de Bouchage?! tu, irmão de Joyeuse?! tu, a quem as más-línguas chamam o terceiro rei de França?! (Bem sabes que o segundo é o Sr. de Guisa, se não é o primeiro, de facto.) Tu, porém, que és tão rico, tão galante; tu, que hás-de ser, como eu, par de França e duque, logo que se ofereça ocasião oportuna, tu andas apaixonado, pensas e suspiras?! tu, que tomaste por divisa Hilariter (alegremente)?!...

— Meu querido Anne, todos esses dons do passado e todas essas promessas do futuro, nunca eu considerei como elementos destinados a fazerem a minha felicidade. Não tenho ambição alguma.

— Queres dizer que já não a tens...

— Ou, pelo menos, que não aspiro a coisa alguma dessas de que me falas.

— Assim será, actualmente; porém mais tarde as desejarás.

— Nunca, meu irmão. Eu nada desejo, nada quero.

— Fazes mal, meu irmão. Quando se tem o apelido de Joyeuse, que é um dos nomes mais distintos de toda a França; quando se tem um irmão valido do rei, deve-se desejar tudo, querer tudo e obter tudo.

Henrique abaixou a loura cabeça e abanou-a melancolicamente.

— Ora vamos! — disse Anne — nós estamos aqui sós, bem longe de todos... O Diabo me leve, se não passámos o rio e aqui nos achamos, sem saber como, sobre a Ponte da Tournelle... Aqui, nesta praia deserta, com este vento tão frio, ao pé desta água esverdinhada, acho que ninguém virá escutar-nos. Tens pois a contar-me alguma coisa séria, Henrique?

— Nada, nada, senão que estou apaixonado, e isso já o sabes, meu irmão, visto que ainda há pouco to confessei.

— Mas... cos demónios! decerto não dizes isso a sério! — replicou Anne, batendo o pé no chão. — Lá por isso, apaixonado também eu estou!...

— Não como eu, meu irmão.

— Também eu penso às vezes na minha amante...

— Sim, mas nem sempre.

— De acordo; mas tenho contrariedades, e até desgostos.

— Pois sim, mas também tens momentos de gozo, porque és amado.

— Oh! mas não me faltam também obstáculos: exigem de mim grandes mistérios.

— Exigem?... Parece-me que disseste exigem... Mas se a tua amante exige alguma coisa é porque já te pertence!...

— Pertence-me, por certo... isto é, pertence-me e ao Sr. de Maiena, porque, confidência por confidência, Henrique, a minha amante é justamente a daquele frascário do Maiena; uma rapariga que me quer loucamente, e que não hesitaria um instante em abandonar Maiena por mim se não tivesse medo que ele a matasse, pois bem sabes que ele costuma matar as mulheres. E eu, como detesto os Guisas todos, sinto prazer... em me divertir à custa de um deles. Pois bem! digo-te e repito: tenho às vezes contrariedades, aborrecimentos; mas nem por isso me torno sorumbático como um frade cartuxo, e não me incham os olhos... Vou continuando a rir, senão sempre, ao menos de tempos a tempos. Ora vamos! diz-me a quem amas, Henrique... a tua amante é formosa ao menos?

— Infelizmente, meu irmão, ainda não lhe posso chamar minha amante.

— Mas é formosa?

— Demasiadamente formosa.

— Como se chama?

— Não sei.

— Ora! histórias...

— Palavra de honra.

— Meu amigo, vai-me parecendo que a tua moléstia é mais perigosa do que eu julgava. Não é só tristeza, é também loucura.

— Ela apenas me falou uma única vez... ou mais exactamente: apenas falou uma única vez na minha presença, e desde então nunca mais tornei sequer a ouvir-lhe o som da voz.

— E não indagaste quem ela era?

— De quem?

— Como?! de quem?! dos vizinhos!...

— Vive só numa casa onde não há mais moradores e ninguém a conhece.

— Ora diz-me: não será alguma sombra?

— É uma mulher alta e bela como uma ninfa, séria e grave como o anjo Gabriel.

— Como a descobriste tu? Onde a encontraste?

— Um dia, seguindo uma rapariga que ia para os lados de Santa Maria Egipcíaca, entrei no jardinzinho que está ao pé da igreja; há ali um banco colocado à sombra das árvores... Já entrastes alguma vez nesse jardim, meu irmão?

— Nunca; mas isso não faz ao caso; prossegue; há um banco à sombra das árvores... e depois?

— O dia já ia declinando; perdi a rapariga de vista, e nas voltas que dei em procura dela cheguei ao banco.

— Vamos; continua, que estou ouvindo.

— Acabava de descobrir naquela direcção um vestido de mulher; estendi as mãos.

«— Desculpe, Senhor — disse-me de repente a voz de um homem em quem eu não tinha reparado —, desculpe.

«E a mão do homem afastou-me brandamente, mas com firmeza.»

— Atreveu-se a tocar-te, Joyeuse?...

— Ouve; o homem tinha o rosto encoberto por uma espécie de capuz; julguei que era algum monge; e demais, impôs-me respeito o modo afectuoso e cortês com que me advertia; pois ao passo que me falava, indicava-me com o dedo, à distância de dez passos, a mulher cujo trajo branco me havia atraído naquela direcção, e que acabava de ajoelhar na frente do banco de pedra, como se fora um altar. Fiquei parado, meu irmão. Foi em princípios de Setembro que me sucedeu esta aventura; fazia calor; as violetas e as rosas que os fiéis cultivam sobre os túmulos daquela cerca derramavam os seus delicados aromas; a Lua aparecia por entre uma nuvem esbranquiçada por detrás do campanário da igreja, e as vidraças começavam a pratear-se com o reflexo do luar, na parte superior, enquanto na inferior pareciam douradas pelo clarão das velas acesas. Meu amigo, ou fosse pela majestade do lugar, ou pela dignidade pessoal, aquela mulher ali ajoelhada brilhava para mim no meio da escuridão como uma estátua de mármore, e como se fosse de mármore na realidade. Infundiu-me um tal respeito que me regelou o coração.

«Olhei para ela com avidez.

«Debruçou-se sobre o banco, rodeou-o com os braços, pregou nele a boca e os seus ombros começaram logo a ondular com a força dos suspiros e dos soluços: estou certo que nunca em tua vida, meu irmão, ouviste lamentos tão aflitivos; um ferro agudo não rasgaria um coração mais dolorosamente!

«Ela beijava a pedra, sempre a chorar, com um furor que me transtornou a cabeça; as suas lágrimas enterneceram-me, e os seus beijos fizeram-me enlouquecer!»

— Era ela, santo nome de Deus! que estava doida — disse Joyeuse —, pois o que quer dizer beijar assim uma pedra e soluçar sem ter motivo?...

— Oh! era decerto alguma dor acerba que assim a fazia soluçar; era um amor bem profundo que a obrigava a beijar aquela pedra; mas, mas a quem amava ela? Por quem chorava? Por quem orava? É o que eu não sei.

— E o tal homem, não lhe fizeste alguma pergunta?

— Fiz.

— E que respondeu ele?

— Que lhe tinha morrido o marido.

— Mas quem lamenta por essa forma a perda de um marido?... — redarguiu Joyeuse — que excelente resposta! e contentaste-te com ela?...

— Não tive outro remédio, visto que ele não me quis dar outra.

— Porém o tal homem, quem era?

— Uma espécie de criado, que vive na companhia dela.

— Como se chama?

— Não quis dizer-me.

— É moço, ou velho?

— Terá de vinte e oito a trinta anos.

— Vejamos o resto. Ela não passou toda a noite a orar e a chorar, não é assim?

— Não; quando acabou de chorar, isto é, quando já não tinha mais lágrimas para verter e tinha gasto os lábios a beijar a pedra do banco, levantou-se, meu irmão; havia naquela mulher um tal mistério de tristeza, que, em vez de caminhar para ela, como decerto praticaria com qualquer outra, recuei; foi ela então quem veio para mim, ou, para melhor dizer, para o sítio onde eu estava, porque nem sequer me via; deu-lhe naquele momento um raio de luar no rosto, que, assim alumiado, pareceu-me resplendente; tinha reassumido a mesma expressão de triste severidade; não se lhe divisava já nem uma contracção, nem um estremecimento, nem uma lágrima; apenas o sulco ainda húmido aberto pelo choro. Só os olhos ainda lhe brilhavam; a boca abria-se-lhe brandamente para respirar a vida que tinha parecido, por um instante, próxima a abandoná-la; deu alguns passos com languidez, como uma pessoa que anda a sonhar; o homem então correu para ela e guiou-a, porque ela parecia esquecida de que andava sobre a Terra. Oh! meu irmão, que admirável formosura, que poder sobrenatural! eu nunca tinha visto coisa alguma que se lhe pudesse comparar na Terra; apenas algumas vezes, em sonhos, quando o céu se abria, tinha visto descer a este mundo visões semelhantes àquela realidade.

— E depois, Henrique, e depois? — perguntou Anne, que ia tomando interesse, sem querer, por aquela narrativa de que a princípio tivera tenção de zombar.

— Oh! a história está quase concluída, meu irmão; o criado disse-lhe algumas palavras ao ouvido, e ela logo baixou o véu. Dizia-lhe provavelmente que eu estava ali; porém ela nem olhou para aquele lado; baixara o véu, e deixei de a ver, meu irmão; pareceu-me que o céu escurecera e que já não era um ente vivo, mas uma sombra fugida daqueles túmulos, que deslizava silenciosamente diante de mim, por cima da basta relva.

«Ela saiu do jardim e eu fui-a seguindo.

«O homem voltava-se de vez em quando, e via-me decerto, porque eu não me escondia, tal era o meu atordoamento; que queres? ainda tinha os antigos e vulgares preconceitos no espírito, e o fermento da antiga grosseria no coração...»

— Que queres dizer, Henrique? — perguntou Anne. — Não entendo. O mancebo sorriu.

— Quero dizer, meu irmão — replicou ele —, que a minha mocidade foi muito tempestuosa, que julguei muitas vezes que amava deveras, e que todas as mulheres para mim, até àquele momento, tinham sido mulheres a quem eu podia oferecer o meu amor.

— Oh! oh! e então essa tal, o que era? — exclamou Joyeuse, procurando recobrar a sua jovialidade, algum tanto alterada, a seu pesar, pela confidência do irmão. —Toma sentido, Henrique: estás divagando; então essa que encontraste, não era uma mulher de carne e osso?

— Meu irmão — replicou o mancebo, apertando com ardor febril a mão de Joyeuse —, meu irmão — disse ele tão baixo que o seu interlocutor mal o poderia ouvir —, é tão verdade o que te digo, como estar Deus a escutar-me: não sei se aquela criatura pertence ou não a este mundo.

— Cos diabos! — respondeu o irmão — eras capaz de me assustar, se fosse possível assustar-se um Joyeuse.

E depois, em tom jovial:

— Mas enfim — disse —, sempre é certo que ela anda, chora, e sabe muito bem dar beijos... tu mesmo o disseste, e parece-me, meu caro amigo, que isso não é mau sinal. Porém, ainda não me contaste tudo; vamos, e depois, e depois?

— Pouco me resta dizer. Fui-a seguindo, como já disse; ela não procurou esconder-se de mim, nem mudar de caminho, nem trocar-me as voltas: não parecia mesmo pensar em tal.

— Muito bem! e onde morava ela?

— Para a banda da Bastilha, na Rua de Lesdiguières; quando chegaram à porta, o companheiro voltou-se e viu-me.

— Fizeste-lhe então algum sinal para lhe dares a entender que desejavas falar-lhe?

— Não me atrevi: é ridículo o que vou dizer-te, mas é assim mesmo; o criado impunha-me quase tanto respeito como a ama.

— Mas afinal, sempre entraste em casa?...

— Não, meu irmão.

— Digo-te, na verdade, Henrique, que estou quase negando que sejas um Joyeuse; pelo menos voltaste no dia imediato...

— Voltei, mas foi debalde; nem na Cerca de Santa Maria Egipcíaca, nem na Rua de Lesdiguières, a tornei a ver.

— Tinha desaparecido?

— Como uma sombra que se tivesse evaporado.

— E não procuraste informar-te?

— A rua tem poucos moradores, nenhum deles pôde satisfazer a minha curiosidade; pus-me à espreita do homem, para o interrogar: tinha desaparecido com a mulher; entretanto, uma luz que vi brilhar à noite por dentro das gelosias servia-me de alguma consolação, pois me indicava que ela ainda ali existia. Empreguei mais de cem meios diversos para penetrar na casa: cartas, recados, flores, presentes... tudo foi baldado. Uma noite desapareceu a luz também, e nunca mais a vi; a dama, cansada naturalmente de tanta perseguição, tinha deixado a Rua de Lesdiguières; ninguém me soube depois dizer para onde se havia mudado.

— Contudo, tornaste a encontrar a bela arisca, não é verdade?

— O acaso assim o quis; minto, meu amigo: foi a Providência, que não quis que eu morresse de paixão. Ouve-me! foi na realidade um acontecimento singular. Passava eu pela Rua de Bussy, haverá quinze dias, por volta da meia-noite sabes, meu irmão, a severidade com que se executam os regulamentos relativos a fogo... pois bem! não só vi luz por dentro dos vidros de uma casa, mas vi um verdadeiro incêndio, que tinha rebentado no segundo andar.

«Bati com bastante força à porta, e apareceu um homem à janela.

«— A sua casa está a arder! — gritei eu.

«— Cale-se, pelo amor de Deus! — respondeu ele — cale-se, que estou tratando de apagar o fogo.

«— Quer que vá chamar os bombeiros?

«— Não, não, por amor de Deus! peço-lhe que não chame ninguém.

«— Nem ao menos quer que o ajude?...

«— Quer fazer-me esse favor?... pois então venha, e prestar-me-á um serviço pelo qual lhe serei grato toda a vida.

«— Como quer que eu suba?

«— Aí tem a chave da porta.

«E atirou-me a chave da janela abaixo.

«Subi rapidamente a escada, e entrei no quarto que estava sendo teatro do incêndio.

«Era o sobrado que estava a arder. Achava-me no laboratório de um químico. Ao fazer não sei que experiência tinha entornado no chão um líquido inflamável; era essa a causa do incêndio.

«Quando entrei já ele tinha dominado o fogo, de forma que pude examiná-lo à vontade.

«Era um homem de vinte e oito a trinta anos, mais ou menos. Uma horrível costura atravessava-lhe metade da face, outra sulcava-lhe o crânio; e uma barba espessa ocultava-lhe o restante do rosto.

«— Sou-lhe muito grato, Senhor; mas, como vê, já passou o perigo; e se é tão cavalheiro como o seu aspecto denota, espero que terá a bondade de se retirar, porque pode minha ama entrar de um instante para o outro e enfadar-se-ia se encontrasse uma pessoa estranha em sua casa a estas horas.

«Ao ouvir o som daquela voz fiquei inerte e como espavorido. Abri a boca para lhe gritar:

«és o homem da Cerca de Santa Maria Egipcíaca, o homem da Rua de Lesdiguières, o homem que acompanhava a dama desconhecida!» Pois estarás lembrado, meu irmão, de eu ter dito que ele tinha a cabeça coberta com um capuz, que não lhe tinha visto o rosto, e que apenas

lhe ouvira a voz. Ia interrogá-lo, quando de repente se abriu uma porta e entrou uma mulher.

«— Que sucedeu, Rémy? — perguntou ela, parando majestosamente à entrada da porta — e qual é o motivo de toda esta bulha?

«Oh! meu irmão, ela era ainda mais bela ao clarão já amortecido do incêndio, do que me tinha parecido ao luar! Era ela, era a mulher cuja lembrança me atormenta continuamente o coração. Não pude reprimir um grito, que fez com que o criado reparasse em mim com mais atenção.

«— Muito obrigado, Senhor — tornou ele a dizer —, muito obrigado; mas, como vê, o fogo já está apagado. Peço-lhe pois que saia.

«— Meu amigo — disse eu —, está-me despedindo com um modo bastante desabrido...

«— Minha senhora — disse o criado —, é ele... «— Ele quem? — perguntou ela.

«— Aquele cavalheiro que encontrámos no jardim de Santa Maria Egipcíaca e que nos seguiu até à Rua de Lesdiguières.

«Ela dirigiu então os olhos para mim, e pelo seu olhar percebi que era a primeira vez que me via.

«— Senhor — disse ela —, por favor, saia daqui.

«Hesitei, quis falar, pedir, rogar; faltavam-me, porém, as expressões; conservei-me quedo e mudo, não podendo tirar os olhos dela.

«—Tome sentido, Senhor — disse o criado, em tom mais triste do que severo —, tome sentido; não queira obrigar a senhora a fugir segunda vez.»

«— Oh! Deus tal não permita! — respondi eu cortejando. — Parece-me, contudo, minha Senhora, que não a estou ofendendo...

«Ela não me respondeu; voltou-se, insensível, muda e fria como se não me tivesse ouvido, e desapareceu gradualmente na sombra, descendo os degraus de uma escada nos quais os seus pés não faziam mais rumor do que fariam os de um fantasma.»

— E nada mais? — perguntou Joyeuse.

— Mais nada. O criado então acompanhou-me até à porta dizendo-me: «Esqueça-se, Senhor; pelo santo nome de Jesus e da Virgem Maria, rogo-lhe que se esqueça!» Fugi dali, fora de mim, desvairado, louco, apertando a cabeça com ambas as mãos e perguntando a mim mesmo se não tinha endoidecido. Desde então vou todas as noites para aquela rua; e eis o motivo por que ao sair dos Paços da Câmara me dirigi maquinalmente para este lado; todas as noites, como ia dizendo, vou para aquela rua, escondo-me à esquina de uma casa que fica fronteira à dela, por baixo de uma varandinha cuja sombra me encobre completamente; às vezes, de longe a longe, vejo brilhar uma luz no quarto dela: é essa a minha vida, é essa a minha

felicidade.

— Que felicidade!... — exclamou Joyeuse.

— Pois sim! mas tal como é, se desejar outra, perdê-la-ei!

— Mas se te perdes a ti mesmo com essa resignação!...

— Que queres, meu amigo? — disse Henrique sorrindo tristemente — se eu me considero feliz assim...

— É impossível!

— Que queres? a felicidade é relativa; sei que ela existe ali, ali vive, ali respira; vejo-a através da parede, ou antes, julgo vê-la; se ela deixasse aquela casa, se eu tivesse de passar outros quinze dias como os que passei quando a perdi de vista, meu irmão, endoideceria decerto ou me tornaria frade.

— Não, por Deus! já temos um doido e um frade na família; é quanto basta, meu caro amigo.

— Não me faças observações, Anne, não zombes de mim; as observações seriam inúteis,

as zombarias de nada serviriam.

— E quem te fala em observações ou zombarias?

— Está bem. Mas...

— Permite, porém, que te diga uma coisa...

— Que é?

— É que andaste em tudo isso como um verdadeiro rapaz da escola.

— Não fiz combinações nem cálculos, não segui plano algum; entreguei-me a alguma coisa que tinha mais poder do que eu. Quando uma corrente nos arrebata, é muito melhor segui-la do que lutar contra ela.

— E se nos conduz a algum abismo?

— É preciso despenharmo-nos nele, meu irmão.

— É essa a tua opinião?

— É.

— Pois não é a minha; e em teu lugar...

— Que terias feito, Anne?

— Teria dado os passos necessários para saber o seu nome e a sua idade; em teu lugar...

— Anne, Anne! não a conheces...

— Não; mas conheço-te a ti. Henrique, não tinhas cinquenta mil escudos, dos cem mil com que el-rei me brindou no dia de seus anos?...

— Estão ainda na burra, Anne; não me falta um único.

— Pois fizeste mal. Se os escudos não estivessem na tua burra, estaria a mulher na tua alcova.

— Oh! meu irmão!...

— Não tens que exclamar: «Oh!meu irmão!...» Um criado ordinário vende-se por dez escudos; um bom, por cem: um excelente, por mil; um incomparável, por três mil. Vejamos agora: suponhamos que deste com a fénix dos criados, imaginemos que é o deus da fidelidade — mediante vinte mil escudos pertencer-te-ia, ficavam-te pois ainda cento e trinta mil libras para pagares pela fénix das mulheres, entregue pela fénix dos criados. Henrique, meu amigo, és um pateta.

— Anne — replicou Henrique com um suspiro —, como sabes, há gente que se não vende, há corações que a fortuna de um rei não pode comprar...

Joyeuse ficou calmo.

— Pois bem! concedo — disse ele —, mas não há coração que não se dê.

— Lá isso não.

— Então que fizeste tu para que o coração de tão insensível beleza se te entregasse?

— Tenho a convicção, Anne, de ter feito tudo quanto podia fazer.

— Vamos a ver, conde de Bouchage; encontraste uma mulher triste, uma mulher que se encerra em casa, uma mulher que passa a vida a chorar, e tu tornas-te mais triste, mais recolhido e mais chorão, isto é, mais insuportável do que ela! Falavas há pouco dos antigos e vulgares preconceitos, quando procedeste como um homem banal. Se ela vivia só, fizesses-lhe companhia; se estava triste, fosses alegre; se tinha saudades, consolasse-la e substituísses aquele por quem ela tanto chorava.

— Era impossível, meu irmão.

— Experimentaste?

— Para quê?...

— Quanto mais não fosse, pelo gosto de experimentar. Estás apaixonado, não é isso que queres dizer?

— Não acho palavras para exprimir o amor que sinto.

— Pois bem! de hoje a quinze dias estarás de posse da tua desejada amante.

— Que dizes, meu irmão!?

— Digo-te à fé de Joyeuse. Penso que ainda não perdeste de todo a esperança...

— Não, porque nunca a tive.

— A que horas costumas vê-la?

— A que horas costumo vê-la?...

— Isso mesmo.

— Já te disse, meu irmão: nunca consegui vê-la.

— Nunca?

— Nunca.

— Nem mesmo à janela?

— Nem mesmo a sua sombra, torno a dizer.

— É preciso acabar com isso. Ora vamos: terá acaso ela algum amante?

— Nunca vi entrar homem algum em sua casa, à excepção do tal Rémy.

— Como é a casa?

— Tem dois andares; uma pequena porta de entrada com um degrau, e um terraço sobre o segundo pavimento.

— E pelo terraço, não se poderá entrar?

— A casa é isolada das outras.

— E defronte, o que há?

— Uma outra casa, quase semelhante, talvez um pouco mais alta, segundo me parece.

— E quem habita nessa outra casa?

— Uma espécie de burguês.

— De boa ou má catadura?

— É homem folgazão, pois às vezes ouço-o rir sozinho.

— Compra-lhe a casa.

— Quem te disse que ele a quer vender?...

— Oferece-lhe tu o dobro do seu valor.

— E se ela me vir lá?

— Então, que tem?

— Tornará a desaparecer; enquanto que se eu não aparecer pelo sítio, espero vê-la mais

dia menos dia.

— Hás-de vê-la esta noite.

— Eu?!

— Vai-te colocar por baixo da varanda às oito horas.

— Irei lá, como todos os dias, mas com tão pouca esperança como das mais vezes.

— Ah! é verdade! ensina-me com exactidão onde é a casa.

— Entre a Porta de Bussy e o Palácio de São Dinis, quase à esquina da Rua dos Agostinhos, a distância de vinte passos de uma estalagem que tem uma tabuleta que diz — A Espada do Cavaleiro Destemido.

— Muito bem. Adeus, até às oito horas da noite.

— Mas diz-me: que tencionas fazer?

— Verás e ouvirás. Entretanto, volta para casa, veste o teu mais sumptuoso trajo, adorna-te com as mais ricas jóias, derrama sobre o teu cabelo as mais finas essências, porque esta noite hás-de entrar na praça.

— Deus te ouça, meu irmão!

— Henrique, quando Deus está surdo, não o está o Diabo. Vou deixar-te, que a minha amante está esperando por mim... enganei-me: queria dizer a amante do Sr. de Maiena. E olha que não é nenhuma seresma!

— Meu irmão!...

— Perdão, gentil cavalheiro servo do amor; podes ter a certeza de que não pretendo de forma alguma comparar as duas damas, apesar de que, em vista do que me dizes, prefiro a minha, ou antes, a nossa... Porém, ela está à minha espera e eu não quero fazê-la esperar. Adeus, Henrique, até à noite.

— Até à noite, Anne.

Os dois irmãos apertaram-se as mãos, e em seguida separaram-se.

Um deles, depois de ter andado coisa de duzentos passos, levantou afoitamente e deixou cair com estrondo a aldraba da porta de uma bela casa gótica situada defronte do adro da Igreja de Nossa Senhora de Paris.

O outro entranhou-se silenciosamente por uma das ruas tortuosas que vão ter ao Palácio da Justiça.

 

         COMO FOI QUE A ESPADA DO CAVALEIRO DESTEMIDO LEVOU A PALMA À ROSEIRA DO AMOR

Enquanto tinha lugar a conversa que acabámos de narrar, viera a noite envolver em seu manto húmido de névoa a cidade, que estivera tão ruidosa havia apenas duas horas.

Os espectadores, depois de morto Salcède, tinham tratado de voltar para casa, e só apareciam alguns magotes espalhados pelas ruas, em vez daquela cadeia não interrompida de curiosos que durante o dia se tinham dirigido continuamente para o mesmo ponto.

Ainda nos bairros que ficavam mais distantes da Greve se sentiam restos do abalo que havia causado, como era natural, a grande agitação do centro.

Para a banda da Porta de Bussy, por exemplo, aonde temos de nos transportar agora para seguirmos algumas das personagens que apresentámos em cena no princípio desta história, e para travarmos conhecimento com outras novas, naquela extremidade, pois, ouvia-se zunir, como um cortiço de abelhas ao pôr do Sol, uma certa casa pintada de cor-de-rosa e enfeitada com ornatos azuis e brancos, a que chamavam a casa d'A Espada do Cavaleiro Destemido, e que não passava de uma estalagem de gigantescas proporções, recentemente estabelecida nesse novo bairro. Naquele tempo não havia em Paris uma hospedaria sofrível que não tivesse uma tabuleta pomposa.

A Espada do Cavaleiro Destemido era uma daquelas exibições magníficas destinadas a agradar a todos os gostos e a atrair todas as simpatias.

Via-se pintado na parte superior do painel o combate de um arcanjo contra um dragão, que deitava pela boca, à semelhança do monstro de Hipólito, torrentes de chamas e de fumo. O pintor, animado por um sentimento heróico e religioso ao mesmo tempo, tinha figurado nas mãos do Cavaleiro Destemido, armado de ponto em branco, não uma espada, mas uma imensa cruz, com a qual ele separava em dois, melhor ainda do que se fora com uma espada bem afiada, o infeliz dragão, que rojava por terra ensanguentado. No fundo da tabuleta, ou antes, no fundo do quadro, pois a tabuleta bem merecia este nome, via-se uma multidão de espectadores erguendo os braços ao ar, enquanto no céu alguns anjos espargiam sobre o capacete do Cavaleiro Destemido mancheias de louros e de palmas. Finalmente, no primeiro plano, o artista, querendo mostrar a sua habilidade em todo o género de pintura, tinha formado grupos de abóboras, de uvas, de escaravelhos, de lagartos, e um caracol roendo uma rosa; enfim, dois coelhos, um branco e outro pardo, apesar da diferença das cores, que parecia inculcar uma diferença de opiniões, coçavam ambos o focinho, provavelmente pela alegria que lhes causava a memorável vitória que o Cavaleiro Destemido acabava de alcançar sobre o dragão parabólico, que não era senão Satanás.

Não há dúvida que o dono da tabuleta, a não ser que fosse muito difícil de contentar, devia ter ficado satisfeitíssimo com a consciência do pintor. Com efeito, o artista não tinha desperdiçado uma única linha de espaço, e se tivesse querido adicionar mais alguma coisa, por insignificante que fosse, ao quadro, não teria tido lugar.

Devemos porém confessar uma coisa, e se bem que semelhante confissão nos penalize, obriga-nos a fazê-la a nossa consciência de historiador: não resultava de tão formosa tabuleta encher-se, como ela, a estalagem nos dias festivos; bem pelo contrário: por motivos que vamos passar a explicar, e que os leitores compreenderão, como esperamos, havia, não diremos às vezes, mas quase sempre, um grande vácuo na hospedaria do Cavaleiro Destemido.

Entretanto, era casa espaçosa e, como hoje diríamos, confortável; constava de um edifício quadrado, firmado no chão por sólidos alicerces, e ostentava com soberba, acima da tabuleta, quatro torreões contendo cada um deles um quarto octógono; este era todo construído, na verdade, de tabiques de madeira, porém apresentava certa garridice e aparência de mistério, como convém a uma casa que pretende agradar aos homens, e especialmente às mulheres; mas dali provinha o mal ao estabelecimento. Não é possível agradar a todos.

Todavia, não era esta a convicção em que estava a Sr.a Fournichon, a patroa do Cavaleiro Destemido. Em consequência daquela sua convicção, tinha ela induzido o marido a abandonar uma casa de banhos em que vegetavam na Rua de Santo Honorato, para vir vazar vinho e fazer trabalhar o espeto em proveito dos namorados do Largo de Bussy, e mesmo dos outros bairros de Paris, se preciso fosse.

Infelizmente para as pretensões da Sr.a Fournichon, a sua hospedaria ficava demasiado contígua ao Prado dos Estudantes, de forma que aquela vizinhança e a belicosa tabuleta atraíam à Espada do Cavaleiro Destemido tantos pares que ali vinham ajustar as condições de duelos, que os outros pares, menos bélicos, fugiam da pobre hospedaria como se tivesse peste, com medo da bulha e das estocadas.

Os namorados são gente pacífica, que não gosta de ser incomodada, de modo que aqueles torreões tão enfeitados estavam reduzidos a servir de habitação a militares, e os cupidos com que o pintor da tabuleta adornara as paredes tinham sido todos mimoseados com bigodes e outros acessórios, mais ou menos executados com carvão por mão de fregueses.

Por isso afirmava a Sr.a Fournichon, e não era sem razão, devemos confessá-lo, que da tabuleta provinha a pouca fortuna do estabelecimento, e que se tivesse confiado na sua muita experiência do mundo, mandando pintar por cima da porta, em lugar daquele fero cavaleiro e daquele dragão hediondo, que repeliam toda a gente, algum quadro galante, como por exemplo a Roseira do Amor, figurando corações abrasados em chamas em vez de rosas, todas as pessoas dotadas de uma alma sensível teriam preferido a sua hospedaria a outra qualquer.

Mas, desgraçadamente, mestre Fournichon, que não queria confessar que estava arrependido da lembrança que tivera, e que tanto havia concorrido para a escolha da tabuleta, não fazia caso das observações da mulher, e respondia-lhe, encolhendo os ombros, que havendo servido antigamente no corpo dos alabardeiros do Sr. de Danville era muito natural que preferisse ter por fregueses homens de guerra; e acrescentava que um soldado, como não cuida senão de beber, consome mais vinho do que seis namorados, e que ainda mesmo quando não pagasse senão metade da despesa a casa lucraria, por isso que o mais perdulário dos namorados nunca faz tanto gasto como três soldados.

— E demais — dizia ele em conclusão —, o vinho é mais moral do que o amor.

A Sr.a Fournichon, quando ouvia estas palavras, encolhia os ombros, os quais, pela gordura e consistência, davam azo a que interpretassem malignamente as suas ideias acerca da moralidade.

Vegetavam, pois, os cônjuges Fournichon no Largo de Bussy, como tinham vegetado ou-trora na Rua de Santo Honorato, quando uma circunstância imprevista veio mudar a face das coisas, fazendo triunfar as opiniões de mestre Fournichon, para maior glória daquela esplêndida tabuleta, onde se achava um representante de cada um dos reinos da natureza.

Um mês antes da execução de Salcède, na ocasião em que findava um exercício militar que tinha tido lugar no Prado dos Estudantes, estavam a Sr.a Fournichon e seu esposo sentados à janela, cada qual no seu torreão, conforme era seu costume, meditabundos e tristes, porque todas as mesas e todos os quartos da hospedaria do Cavaleiro Destemido se achavam completamente devolutos.

Naquele dia não tinha dado rosas a Roseira do Amor, e A Espada do Cavaleiro Destemido tinha esgrimido em falso.

Os dois esposos olhavam pois tristemente para a planície de onde iam desaparecendo, conduzidos na barca da passagem da Torre de Nesle, para voltarem ao Louvre, os soldados, que um capitão acabava de fazer manobrar, e ao mesmo tempo que os observavam, lamentando o rigor do despotismo militar que obrigava a regressarem para o quartel aqueles homens, que haviam de estar necessariamente com tanta sede, viram que o capitão metia o cavalo a trote e se adiantava, seguido de uma única ordenança, na direcção da Porta de Bussy.

Este oficial, cheio de plumas, montando com arrogância um cavalo branco, e cuja espada com a bainha dourada aparecia por debaixo de uma rica capa de pano de Flandres, chegou em minutos defronte da hospedaria.

Mas como não era para a hospedaria que se dirigia, já ia passando adiante, sem mesmo ter admirado a tabuleta, pois parecia pensativo e preocupado, quando mestre Fournichon, a quem desfalecia o ânimo com a ideia de não fazer negócio naquele dia, se debruçou para fora da janela do torreão, dizendo:

— Olha, mulher, que lindo cavalo!

Ao que a Sr.a Fournichon, replicando logo com a amabilidade própria de estalajadeira, acrescentou:

— E também que guapo cavaleiro!

O capitão, que não parecia insensível a elogios, viessem de onde viessem, levantou a cabeça como acordando de repente. Viu o estalajadeiro, a mulher, e a estalagem, parou o cavalo e chamou a ordenança. E depois, conservando-se ainda a cavalo, examinou com atenção a casa e o sítio.

Fournichon tinha galgado em quatro pulos os degraus da escada, e já estava à porta, com o gorro na mão.

O capitão, depois de ter reflectido um instante, apeou-se, com grande gáudio de Fournichon.

— Não há hóspedes aqui? — perguntou ele.

— Não tenho nenhum actualmente — respondeu o estalajadeiro envergonhado. E já ia para acrescentar: «E é caso raro nesta casa.»

Porém, a Sr.a Fournichon era, como costumam ser quase todas as mulheres, mais perspicaz do que o marido, e por isso apressou-se logo em gritar da janela:

— Se o senhor gosta de estar só, há-de estar perfeitamente na nossa casa.

O cavaleiro levantou a cabeça e, vendo aquele rosto tão agradável, depois de ter ouvido aquela resposta que tanto lhe agradara também, replicou:

— É esse exactamente o meu desejo.

A Sr.a Fournichon correu imediatamente ao encontro do viajante dizendo consigo: «Quem se estreia desta vez é a Roseira do Amor e não A Espada do Cavaleiro Destemido.» O capitão que naquele momento chamava a atenção dos dois esposos, e que merece também a do leitor, era um homem de trinta e cinco anos, que figurava ter vinte e oito, pelo esmero com que tratava da sua pessoa. Era alto, bem-feito, com fisionomia expressiva e fina; talvez, examinando-o bem, se lhe achasse alguma afectação nos modos, mas, afectado ou não, tinha maneiras distintas.

Deu ao soldado as rédeas do magnífico cavalo, que raspava o chão com uma das patas, e disse-lhe:

— Espera por mim aqui e passeia os cavalos. O soldado tomou conta das rédeas e obedeceu.

Logo que entrou na sala principal da hospedaria, parou olhando com satisfação em redor de si.

— Oh! oh! — disse ele — uma sala tamanha e nem um único freguês! Muito bem! Mestre Fournichon olhava para ele muito admirado, enquanto a Sr.a Fournichon sorria com ar de inteligência.

— Pelo que vejo — prosseguiu o capitão —, o seu procedimento ou a sua casa têm alguma particularidade que afasta daqui os fregueses...

— Graças a Deus, nem uma coisa nem outra, meu Senhor — replicou a Sr.a Fournichon. — É que o bairro é novo; e quanto aos clientes, nem todos os fregueses nos servem...

— Ah!... muito bem — disse o capitão.

Mestre Fournichon, durante este colóquio, dignava-se aprovar com a cabeça as respostas da mulher.

— Por exemplo — prosseguiu ela, piscando os olhos de certo modo que bem indicava ter sido a autora do projecto da Roseira do Amor—, para termos aqui um freguês como V. S.a não hesitaríamos em sacrificar doze dos outros...

— Agradeço a sua linda delicadeza, minha patroa.

— O senhor quer provar o nosso vinho? — disse Fournichon procurando amenizar a voz.

— O senhor quer ver a casa? — perguntou a mulher com voz insinuante.

— Farei ambas as coisas, se lhes aprouver — respondeu o capitão.

Fournichon desceu à adega, enquanto a mulher conduzia o hóspede pela escada que dava serventia para os torreões, indo adiante dele com a saia bastante arregaçada e fazendo ranger a cada degrau que subia um verdadeiro sapatinho de mulher parisiense.

— Quantas pessoas podem acomodar-se aqui? — perguntou o capitão quando chegou ao primeiro andar.

— Trinta pessoas, sendo dez amos e vinte criados.

— Isso não me basta, minha patroa — respondeu o capitão.

— Porquê, meu Senhor?

— Era um projecto que eu tinha, mas já não pode ser.

— Ah! creia, meu Senhor, que não encontrará melhor hospedaria do que esta da Roseira do Amor...

— Que diz? Roseira do Amor?...

— Do Cavaleiro Destemido, queria eu dizer; a não ser que tenha à sua disposição o Louvre

e as suas dependências...

O desconhecido encarou-a com um modo singular.

— Tem razão — disse ele —, a não ter à minha disposição o Louvre...

E depois, para consigo:

«E porque não?... era mais cómodo e menos dispendioso...» Disse, pois, boa mulher — continuou ele em voz alta —, que poderia acomodar aqui trinta pessoas?

— Não há dúvida.

— Mas por um dia somente?

— Oh! por um dia, por quarenta, ou mesmo por quarenta e cinco.

— Quarenta e cinco?! Parfandious! é essa exactamente a minha conta.

— Deveras?... Então estimo ter acertado.

— E sem que tamanho ajuntamento chame a atenção do público?

— Juntam-se aqui, às vezes, aos domingos, até oitenta soldados, Senhor.

— E não se reúne gente em frente da casa? Não há espiões pela vizinhança?

— Oh, não! por certo; temos só por vizinho um estimável burguês, que não se intromete na vida dos mais, e por vizinha uma senhora que vive tão recolhida que está há três semanas morando neste sítio e ainda não a vi; o mais é tudo gentinha.

— Convém-me tudo isso perfeitamente.

— Oh! ainda bem — disse a Sr.a Fournichon.

— Pois de hoje a um mês — prosseguiu o capitão —, tome bem sentido, mulherzinha, de hoje a um mês...

— A 26 de Outubro?

— Exactamente, a 26 de Outubro, alugo-lhe a sua hospedaria.

— Toda?

— Toda. Quero preparar uma surpresa a alguns patrícios meus, oficiais pela maior parte, que vêm a Paris procurar fortuna; daqui até lá mandá-los-ei avisar para virem hospedar-se aqui.

— Mas para que os manda avisar, se é uma surpresa que lhes prepara? — perguntou imprudentemente a Sr.a Fournichon.

— Ah! — respondeu o capitão, visivelmente contrariado pela pergunta — Ah! se é curiosa ou tagarela... parfandious!

— Não, não, meu Senhor — disse logo a Sr.a Fournichon muito assustada. Fournichon tinha ouvido o fim da conversa, e o coração palpitava-lhe de alegria a estas palavras: «oficiais pela maior parte.»

Acudiu pois imediatamente:

— O cavaleiro — exclamou ele — será senhor de tudo isto; governará despoticamente nesta casa, e ninguém lhe fará perguntas! Todos os seus amigos serão aqui bem-vindos.

— Eu não disse que eram meus amigos, honrado homem — retorquiu o capitão com altivez —, disse que eram meus patrícios.

— É isso! é isso mesmo, Senhor — os patrícios de V. S.a; foi engano meu.

A Sr.a Fournichon virou as costas de mau humor; as rosas de amor acabavam de se transformar em mata de alabardas.

— Há-de dar-lhes de cear — disse o capitão.

— Muito bem.

— Há-de dar-lhes também quartos para dormirem, se daqui até lá não conseguir aprontar-lhes quartel.

— Tenho entendido.

— Numa palavra: ficará inteiramente à disposição deles, mas sem lhes dirigir a menor pergunta.

— Está dito.

— Aqui estão trinta libras de sinal.

— Está concluído o ajuste, meu Senhor; os seus patrícios serão tratados como reis; e se V. S.a quer certificar-se provando o vinho...

— Não costumo beber vinho; obrigado.

O capitão chegou à janela e chamou a ordenança que segurava os cavalos. Mestre Fournichon, durante este tempo, tinha estado a fazer uma reflexão.

— Meu Senhor — disse ele (mestre Fournichon, desde que tinha recebido as três peças de trinta libras que tão generosamente lhe haviam sido pagas adiantadas tratava o desconhecido com a maior consideração) —, diga-me V. Ex.a como hei-de conhecer os tais senhores.

— Têm razão, parfandious!'já me ia esquecendo; traga-me lacre, papel e luz. A Sr.a Fournichon trouxe estes objectos.

O capitão derramou uns pingos de lacre no papel e imprimiu nele a chapa de um anel que trazia na mão esquerda.

— Olhe — disse ele —, vê esta efígie?...

— Vejo; é a de uma linda mulher, palavra de honra.

— É uma cleópatra. Pois bem! cada um dos meus patrícios deve apresentar-lhe um sinete igual a este, e à vista deste sinal dará agasalho ao portador; tem entendido, não é assim?

— Durante quanto tempo?

— Não sei ainda ao certo, mandar-lhe-ei as minhas ordens a esse respeito.

— Esperá-las-emos.

O guapo capitão desceu a escada, montou a cavalo e meteu a trote. Entretanto os cônjuges Fournichon foram metendo na algibeira as trinta libras de sinal, com grande satisfação do estalajadeiro, que de contínuo repetia:

— Gente de guerra! ora vamos! Está visto que a tabuleta produziu o seu efeito; é pela espada que havemos de fazer fortuna.

E foi tratar de arear as caçarolas todas, enquanto não chegava o famoso dia 26 de Outubro.

 

         PERFIL DO GASCÃO

Não nos atrevemos a afirmar que a Sr.a Fournichon guardou rigorosamente o segredo conforme lhe havia recomendado o desconhecido. E demais, ela julgava-se provavelmente desobrigada para com ele, em vista da primazia que tinha dado a mestre Fournichon a respeito d'A Espada do Cavaleiro Destemido; porém, como desejava adivinhar o que ele havia calado, começou, para estabelecer as suas suposições numa base sólida, por procurar saber quem era o cavaleiro incógnito que pagava tão generosamente a hospitalidade com que deviam ser tratados os seus compatriotas. Por isso tratou logo de indagar do primeiro soldado que viu, como se chamava o capitão que tinha passado revista à tropa.

O soldado, que era talvez dotado de um carácter mais discreto do que a sua interlocutora, pediu-lhe primeiro, antes de responder, que lhe dissesse o motivo por que fazia semelhante pergunta.

— Porque ainda há pouco saiu daqui — respondeu a Sr.a Fournichon —, esteve conversando connosco e eu desejava saber com quem falei.

O soldado desatou a rir.

— O capitão que passou a revista não entrava por certo na estalagem d'A Espada do Cavaleiro Destemido, Sr.a Fournichon — disse ele.

— E por que motivo? — perguntou a estalajadeira. — É demasiado fidalgo para aqui entrar?...

— Talvez seja.

— E se eu lhe disser que não foi por ele que entrou na estalagem do Cavaleiro Destemido?...

— Por quem foi então?

— Foi para servir os seus amigos.

— Estou convencido de que o capitão que passou a revista não havia de querer aquartelar aqui os seus amigos.

— Safa! que certeza com que diz isso, meu amigo! Quem é então esse senhor tão fidalgo que não pode aquartelar os seus amigos na melhor hospedaria de Paris?

— Está falando daquele que passou a revista, não é verdade, Senhora?

— Sem dúvida.

— Pois bem, boa mulher: aquele que passou a revista é pura e simplesmente o Senhor Duque Nogaret de La VaJette d'Epernon, par de França, coronel-general da infantaria de el-rei, e mais rei talvez do que Sua Majestade em pessoa. Então, que diz a esta?...

— Que se foi ele quem aqui veio, honrou muito esta casa.

— Ouviu-lhe dizer parfandious?

A Sr.a Fournichon replicou que tinha visto coisas mais extraordinárias na sua vida, e que bem tinha reparado no tal parfandious.

Julguem pois os leitores se o dia 26 de Outubro seria ou não esperado com impaciência.

No dia 25, à noite, entrou um homem na estalagem trazendo um saco bastante pesado, que pôs sobre o balcão de Fournichon.

— Aqui está — disse ele ao estalajadeiro — o preço da ceia encomendada para amanhã.

— A quanto por cabeça? — perguntaram ao mesmo tempo o marido e a mulher.

— À razão de seis libras.

— Visto isso, os patrícios do capitão só comem aqui uma vez...

— Só.

— O capitão já lhes arranjou quartel?

— Parece que sim.

E o mensageiro saiu, apesar das perguntas da roseira e da espada, sem querer responder mais coisa alguma.

Finalmente, o tão desejado dia raiou para a cozinha do Cavaleiro Destemido.

Acabava de dar meia hora na Torre dos Agostinhos, quando uns poucos de cavaleiros pararam à porta da hospedaria, apearam-se e entraram.

Tinham vindo pela Porta de Bussy, e eram os primeiros que chegavam; não só porque tinham cavalos, mas também porque a hospedaria da Espada distava apenas cem passos da Porta de Bussy.

Um deles, que parecia chefe dos mais pela riqueza do trajo e boa figura, trazia consigo dois lacaios bem montados.

Cada um exibiu o seu sinete com a efígie de Cleópatra, e foram recebidos todos pelos dois esposos com as maiores atenções, especialmente o mancebo dos dois criados.

Entretanto, à excepção deste último, os recém-chegados entraram timidamente e com certa inquietação; percebia-se que os preocupava algum sério cuidado, especialmente quando por um movimento maquinal levaram as mãos aos bolsos.

Uns pediram quartos para descansar, outros quiseram ir passear pela cidade antes da ceia; o mancebo que trazia dois lacaios indagou que novidades havia em Paris que merecessem ser vistas.

— Se não tem medo de apertões e quer estar quatro horas a fio em pé — respondeu a Sr.a Fournichon, cativada pela agradável figura do mancebo —, pode distrair-se indo ver esquartejar o Sr. de Salcède, um espanhol que entrou numa conspiração.

— É verdade — replicou o mancebo —, já ouvi falar nisso; vou ver. E saiu com os dois lacaios.

Por volta das duas horas chegaram, aos grupos de quatro e cinco, mais uns doze viajantes.

Alguns deles vinham sozinhos.

Houve até um que entrou como se fosse da casa, sem chapéu, com uma chibatinha na mão; vinha praguejando contra a cidade de Paris, onde, dizia ele, os ladrões eram tão atrevidos que lhe haviam furtado o chapéu ao pé da Greve, ao atravessar um grupo, e tão destros que nem tinha visto quem fora.

Contudo, tinha sido por sua própria culpa, pois não deveria ter entrado em Paris com uma pedra tão rica na fita do chapéu.

As quatro horas da tarde já se achavam quarenta patrícios do capitão estabelecidos na célebre hospedaria dos Fournichons.

— Não achas célebre? — disse o estalajadeiro para a mulher — todos eles são gascões...

— Que admiração! — respondeu a mulher — não nos disse o capitão que eram patrícios que ele esperava?

— Que queres dizer com isso?

— Pois se ele é gascão, os patrícios dele devem ser também gascões.

— Tens razão! — replicou o estalajadeiro.

— O Sr. d'Epernon não é de Tolosa?

— É verdade, é verdade; pelo que vejo, sempre teimas em que era o Sr. d'Epernon...

— Acaso não soltou ele por três vezes o famoso parfandious?...

— Ah, ele soltou o famoso parfandious?... — perguntou Fournichon com alguma inquietação. — Que casta de animal é esse?

— Toleirão! é a sua praga predilecta.

— Ah!... sim!

— Não te admires, portanto, senão de uma coisa: é que apenas temos aqui quarenta gascões, quando deveriam ser quarenta e cinco.

Mas, pelas cinco horas da tarde, chegaram os outros cinco gascões, e o número da Espada ficou completo.

Nunca uma surpresa igual tinha alegrado rostos de gascões; houve durante uma hora um tal chuveiro de pragas usadas na Gasconha, que os cônjuges Fournichon chegaram a persuadir-se de que toda a Saintonge, o Poitou, o Aunis e o Linguadoque lhes tinham invadido a casa.

Alguns deles conheciam-se; por exemplo, Eustáquio de Miradoux veio abraçar o cavaleiro que tinha dois lacaios, e apresentou-lhe Lardille, Militão e Cipíão.

— Por que acaso estás tu em Paris? — perguntou este.

— E tu, meu caro Saint-Maline?

— Entrei para o quadro do exército; e tu?

— Eu venho para tratar da arrecadação de uma herança.

— Ah! ah! então sempre continuas a arrastar contigo a velha Lardille?

— Ela quis acompanhar-me.

— Não podias partir ocultamente, em vez de trazeres contigo toda aquela família que não lhe larga as saias?

— Não pôde ser: foi ela quem abriu a carta do procurador.

— Ah tu recebeste a notícia da herança por uma carta? — perguntou Saint-Maline.

— Sim — respondeu Miradoux. E logo, mudando de conversa:

— Não achas muito singular estar esta hospedaria cheia, e serem todos os hóspedes nossos patrícios?

— Não acho nada singular; a tabuleta desperta o apetite da gente — interrompeu o nosso conhecido Perducas de Pincorney, metendo-se na conversa.

— Ah! camarada — disse Saint-Maline —, ainda não me explicou o que ia para me contar ao pé da Praça de Greve quando fomos separados por aquela chusma de gente...

— E que ia eu a explicar? — perguntou Pincorney, corando algum tanto.

— Como foi que, entre Angoulême e Angers, eu o encontrei na estrada tal qual como hoje o vejo, a pé, com uma chibatinha na mão e sem chapéu...

— Isso desperta-lhe a curiosidade, Senhor?

— Confesso-lhe que sim — replicou Saint-Maline —, não é pequena a distância de Poítiers até aqui, e o senhor ainda vem de mais longe do que Poitiers.

— Venho de Santo André de Cubsac.

— Ora aí está; e assim, sem chapéu?...

— É um caso muito simples...

— Não me parece.

— Eu lhe explico, e verá então se disse bem. Meu pai possui dois cavalos magníficos, aos quais tem tal apego que é capaz de me deserdar depois da desgraça que me aconteceu...

— E que desgraça foi que lhe sucedeu?

— Andava eu a passear num deles, no mais bonito, quando de repente alguém disparou um arcabuz a distância de dez passos de onde eu estava; o cavalo espantou-se, tomou o freio nos dentes e foi direito ao rio Dordonha.

— E atirou-se à água?

— Exactamente.

— Com o senhor?

— Não; felizmente tive tempo de saltar ao chão, quando não afogava-me com ele.

— Ah! ah! visto isso, afogou-se o pobre animal...

— Que dúvida! sabe como é o Dordonha... não tem menos de meia légua de largura.

— E então que fez?

— Então resolvi não voltar para casa, e subtrair-me quanto antes aos efeitos da cólera de meu pai.

— Mas... e o chapéu?

— Espere o fim da história, cos demónios! o chapéu tinha-me caído.

— Como o senhor?

— Eu não caí, saltei. Um Pincorney nunca se deixa cair do cavalo: os Pincorney são pica-dores mesmo antes de largarem os cueiros.

— Isso é bem sabido — disse Saint-Maline —, mas o chapéu?

— Ah! aí é que bate o ponto: o chapéu...

— Exactamente.

— O chapéu caiu, como lhe disse; pus-me logo à procura dele, pois era o meu único recurso, visto ter saído de casa sem dinheiro.

— E que recurso esperava poder tirar do chapéu? — tomou Saint-Maline, resolvido a apurar a paciência de Pincorney.

— Podia ser-me de grande utilidade, pois a pluma do chapéu estava pregada por um fecho com um diamante que Sua Majestade o Imperador Carlos V deu a meu avô por ocasião de se hospedar no nosso castelo na sua ida de Espanha para Flandres.

— Ah! ah! vendeu o tal fecho e o chapéu juntamente com ele... Nesse caso, meu caro amigo, é por certo o mais rico de todos nós, e com o dinheiro que produziu o diamante deveria ter comprado outra luva; pois assim está com as mãos desiguais: uma está branca como mão de mulher, e a outra negra como mão de preto.

— Deixe-me concluir: no momento em que me voltava para procurar o chapéu, vejo um corvo enorme voando para ele.

— Para o chapéu?

— Não, para o diamante; é sabido que aquelas aves costumam furtar tudo quanto luz; o corvo atirou-se pois ao diamante e roubou-mo.

— O diamante?

— Sim senhor. Segui o corvo, primeiro com a vista... e depois deitei a correr, gritando; «Agarra! agarra esse ladrão!» Mas qual história! ao cabo de cinco minutos tinha desaparecido; nunca mais o tornei a ver.

— De forma que foi tal a consternação que lhe causaram as duas perdas...

— Que não me atrevi a voltar à casa paterna e resolvi dirigir-me para Paris a procurar fortuna.

— Bom! — disse um terceiro gascão — visto isso, o vento transformou-se em corvo..• Parece-me que lhe ouvi contar ao Sr. de Loignac que, estando entretido a ler uma carta da sua amante, veio uma rabanada de vento que lhe levou a carta e o chapéu, e que então, como um verdadeiro amadis, tinha corrido atrás da carta, deixando ir o chapéu para onde quisesse...

— Meu amigo — disse Saint-Maline —, tenho a honra de conhecer o Sr. de Aubigné, que, conquanto seja mui valente soldado, também maneja sofrivelmente a pena: narre-lhe, quando o encontrar, a história do seu chapéu, que sobre o caso ele fará decerto um belo conto.

Ouviram-se nesta mesma ocasião algumas risadas mal disfarçadas.

— Olé, meus Senhores! — disse o irascível gascão — é de mim por acaso que se estão rindo!?

Voltaram-se todos para rirem mais à vontade.

Perducas deitou um olhar investigador em redor de si e viu junto da chaminé um mancebo que estava com a cabeça encostada nas mãos; pensou que ele tinha procurado aquela posição para melhor encobrir o riso e foi direito a ele:

— Olá, Senhor! — disse — se está rindo, ria ao menos abertamente, de modo que se veja.

E, dizendo isto, bateu no ombro do mancebo, que ergueu a fronte grave e severa. O mancebo interpelado era o nosso amigo Ernauton de Carmainges, ainda aturdido pela aventura que lhe tinha sucedido na Praça de Greve.

— Peço-lhe por favor que me deixe tranquilo, Senhor — respondeu ele —, e se alguma vez me tornar a tocar, não me toque senão com a mão que tiver a luva calçada; bem vê que não me estou metendo com o senhor.

— Está bom — respondeu Pincorney —, se não se está metendo comigo, nada tenho que dizer.

— Ah! Senhor — disse Eustáquio de Miradoux para Carmainges com tenções conciliadoras —, está tratando com demasiada aspereza este nosso compatriota...

— Quem demónio o chamou aqui Senhor? — replicou Ernauton, cada vez mais contrariado.

— Tem razão — disse Miradoux cortejando-o —, o negócio não é da minha conta.

E voltou costas para ir ter com Lardille, que estava sentada ao canto da imensa chaminé, mas alguém lhe tolheu o passo.

Era Militão, com as duas mãos na cintura e um risinho de escárnio nos lábios.

— Então que tal, meu padrasto? — disse o garoto.

— O quê?

— Que lhe pareceu aquilo?

— Que queres dizer?

— Que tal lhe rebitou aquele cavalheiro o prego?

— Hem?...

— Sacudiu-o às direitas!

— Ah notaste isso?... — disse Eustáquio, procurando desviar-se de Militão.

Este, porém, fez malograr a evolução voltando-se para a esquerda, e achando-se assim novamente em frente do padrasto.

— Não só eu — prosseguiu Militão —, mas quantos estão presentes; vê como riem todos?...

Estavam-se rindo efectivamente algumas pessoas, mas por motivos bem diversos. Eustáquio tornou-se vermelho como uma brasa.

— Vamos, vamos, meu padrasto: não deixe esfriar o negócio — disse Militão. Eustáquio empertigou-se e dirigiu-se a Carmainges.

— Há quem afirme — disse — que o senhor teve tenção de me ofender...

— Quando?

— Ainda agora.

— Ao senhor?

— A mim mesmo.

— E quem é que afirma isso?

— Este senhor — disse Eustáquio apontando para Militão.

— Pois então este senhor — respondeu Carmainges, carregando ironicamente na qualificação — é um estorninho.

— Oh... oh! — exclamou Militão furioso.

— E convido-o — prosseguiu Carmainges — a que não me venha espicaçar com o bico, quando não lembrar-me-ei dos conselhos do Sr. de Loignac.

— O Sr. de Loignac — bradou Militão — não disse que eu era um estorninho.

— Não, mas disse que era uma besta; prefere isso? A mim pouco me importa; se é besta dou-lhe com um azorrague, se é estorninho depeno-o.

— Senhor — disse Eustáquio —, este rapaz é meu enteado, peço-lhe que o trate melhor.

— Ah é assim que me defende, meu padrasto?... — gritou Militão exasperado. — Pois melhor me defenderei eu sozinho!...

— Para a escola as crianças! — disse Ernauton — para a escola!

— Para a escola — exclamou Militão, arremetendo com o punho fechado para o Sr. de Carmainges — eu tenho dezassete anos, entende, Senhor!?

— E eu tenho vinte e cinco — replicou Ernauton —, por isso vou corrigi-lo conforme merece.

E agarrando nele pela gola do gibão e pelo cinto, levantou-o do chão e atirou-o, como se fora uma troixa, pela janela que ficava rente da rua, e isto enquanto Lardille soltava gritos capazes de fazerem desabar as paredes.

— E agora — acrescentou Ernauton com serenidade — não me tornem a incomodar, quando não pego em padrasto, madrasta, enteada, e toda a família junta, e faço de todos picados para pastéis!

— Por minha fé! — disse Miradoux — eu acho que ele tem razão; que necessidade havia

de provocar aquele cavalheiro?

— Ah! cobarde, cobarde, que deixou bater no filho! — exclamou Lardille, adiantando-se para Eustáquio e sacudindo o desgrenhado cabelo.

— Está bom! está bom! — disse Eustáquio — sossegue; é bom para lhe quebrar o génio.

— Que é isto!? Então desta casa atiram-se homens pela janela fora?... — disse um oficial que vinha entrando. — Cos diabos! quando se brinca assim, deve-se ao menos gritar: «Cautela em baixo!»

— O Sr. de Loignac! — exclamaram umas vinte vozes.

— O Sr. de Loignac! — repetiram os quarenta e cinco.

E, ao ouvir aquele nome bem conhecido em toda a Gasconha, todos se levantaram e calaram.

 

         O SR. DE LOIGNAC

Logo atrás do Sr. de Loignac entrou Militão, ainda moído da queda e vermelho de cólera.

— Sou um vosso criado, meus Senhores — disse Loignac. — Há por aí grande folgança pelo que vejo... Ah! ah! quer-me parecer que mestre Militão tornou a fazer alguma travessura, e o seu nariz foi quem pagou as custas.

— Hão-de pagar-me! — rosnou Militão, acenando com o punho para Carmainges.

— Traga a comida para a mesa, mestre Fournichon — bradou Loignac —, e sejam todos dóceis uns com os outros, se é possível. É preciso, a partir deste momento, que se estimem como irmãos.

— Hum... — disse Saint-Maline.

— A caridade é coisa rara — disse Chalabre, estendendo o guardanapo sobre o gibão pardo-escuro para o preservar de algum desastre que pudesse resultar da abundância dos molhos.

— E não é fácil estimar-se a gente assim tão de perto — acrescentou Ernauton. — É verdade que não havemos de viver muito tempo juntos...

— Olhe — exclamou Pincorney, que ainda se não tinha esquecido da caçoada de Saint-Maline —, fizeram escárnio de mim por não trazer chapéu, e ninguém repara no Sr. de Mont-crabeau que vai sentar-se à mesa com uma couraça do tempo do imperador Pertinax, de quem ele descende provavelmente... Tal é o respeito que impõem as armas defensivas!

Montcrabeau, saindo imediatamente à espora, endireitou-se, e com voz de falsete:

— Senhores — disse ele —, vou tirá-la, mas guardem-se de mim os que preferem ver-me com armas ofensivas do que com armas defensivas...

E desafivelou majestosamente a couraça, fazendo sinal ao criado, que era um labrego já encanecido, e que teria uns cinquenta anos, para que se aproximasse.

— Vamos, silêncio! silêncio! — disse o Sr. de Loignac — e sentemo-nos à mesa.

— Faça-me o favor de tomar conta desta couraça — disse Pertinax ao criado. O homem tomou-lha das mãos e disse-lhe ao ouvido:

— E eu, não hei-de cear também?... Manda que me dêem alguma coisa de comer, Pertinax, que estou morrendo de fome.

Esta interpelação, apesar de tão singularmente familiar, não excitou, todavia, como era de esperar, admiração alguma na pessoa a quem era dirigida.

— Hei-de tratar disso — respondeu ele. — Porém, para maior certeza, trate de procurar também.

— Hum!... — disse o criado com um modo carrancudo — essas palavras não me tranquilizam muito.

— Não sobejou dinheiro nenhum? — perguntou Pertinax.

— Gastámos o último escudo em Sens.

— Pois então procure alguma coisa que se venda, para fazer dinheiro.

Não tinha acabado de proferir estas palavras, quando se ouviu apregoar na rua e depois à porta da hospedaria:

— Ferro-velho! quem tem ferro-velho ou ferragens para vender?

A Sr.a Fournichon, apenas ouviu este pregão, correu à porta da rua, enquanto o marido transportava majestosamente os primeiros pratos para a mesa.

Quem avaliasse a habilidade de mestre Fournichon pelo acolhimento que os convidados faziam às iguarias, diria que ele era excelente cozinheiro.

Fournichon, não podendo com o peso dos cumprimentos que todos lhe dirigiam, quis reparti-lo com a esposa.

Procurou-a com os olhos, mas foi inutilmente: tinha desaparecido.

— Onde está a senhora? — perguntou a um bicho-da-cozinha, vendo que ela não chegava.

— Ah, meu amo, está concluindo neste momento um negócio admirável — respondeu o criado. — Trocou toda a sua ferragem usada por dinheiro novo.

— Queira Deus que não se desfizesse ela da minha couraça de guerra nem do meu elmo de batalha!... — exclamou Fournichon correndo para a porta.

— Não, descanse — disse Loignac —, há um decreto de el-rei que proíbe a compra de armas.

— Não importa — replicou Fournichon. E caminhou para a porta.

A Sr.a Fournichon já voltava muito ufana.

— Então, que tens? — disse ela, olhando para o semblante espavorido do esposo.

— Disseram-me agora mesmo que estavas vendendo a minha armadura...

— E depois?

— É que não quero vendê-la!

— Ora adeus! visto estar agora o país em paz, mais vale ter duas caçarolas novas do que uma couraça velha.

— O negócio de ferro-velho não há-de render muito actualmente, depois da promulgação do decreto de el-rei em que há pouco falou o Sr. de Loignac — disse Chalabre.

— Bem pelo contrário — respondeu a Sr.a Fournichon —, há muito tempo que aquele mesmo homem me andava tentando com os seus oferecimentos. Até que finalmente hoje não pude resistir e, como se me ofereceu a ocasião, aproveitei-a. Olhe, dez escudos são sempre dez escudos, e uma couraça velha nunca passará de um pedaço de ferro velho.

— O quê?! dez escudos?! — exclamou Chalabre — um preço assim tão alto? cos demónios!

E tornou-se pensativo.

— Dez escudos?!... — repetiu Pertinax, dirigindo para o criado um olhar muito eloquente —, ouviu, Sr. Samuel?

Porém, o Sr. Samuel já ali não estava.

— Ora pois! — disse o Sr. de Loignac — quer-me parecer que o tal comprador de ferro-velho anda roçando pela forca!...

— Oh! é um excelente homem; tem muito bom modo e acomoda-se muito — replicou

a Sr.a Fournichon.

— Mas para que quer ele tanta ferragem?

— Torna a vendê-la a peso.

— A peso?! — retorquiu Loignac — e ele deu-lhe dez escudos em troca de quê?...

— De uma couraça usada e de um capacete velho.

— Ora, supondo que ambas as coisas juntas pesassem vinte arráteis, é à razão de meio escudo por arrátel, parfandious como diz certa pessoa que eu conheço; aqui anda mistério!...

— Quem me dera que o honrado negociante aparecesse no meu castelo! — disse Chalabre com os olhos incendiados. — Tinha lá para lhe vender muito mais de três mil arráteis de elmos, de braçais e de couraças.

— Como assim!? quer vender as armaduras de seus antepassados?!... — perguntou Saint-Maline em tom de zombaria.

— Ah! — disse Eustáquio de Miradoux — o senhor faria mal; são relíquias que se devem venerar.

— Histórias! — respondeu Chalabre — os meus antepassados a estas horas estão tornados em relíquias e só carecem de missas.

Os convivas iam aquecendo, graças ao vinho de Borgonha, para o rápido consumo do qual muito concorriam os adubos de Fournichon.

As vozes tinham subido ao diapasão superior, os pratos tiniam, os cérebros enchiam-se de vapores, através dos quais cada gascão via tudo cor-de-rosa, exceptuando Militão, que ainda se lembrava da queda, e Carmainges, que estava pensando no pajem.

— Aí está toda essa gente muito alegre — disse Loignac ao vizinho, que era justamente Ernauton — e se lhes perguntarem porquê, não o sabem.

— Também eu não sei — respondeu Carmainges. — É verdade que formo excepção à regra, porque não estou alegre, nem mesmo para lá caminho.

— Pois não tem razão — redarguiu Loignac. — Paris, para um homem como o senhor, é uma mina de ouro, um paraíso de honras, um mundo de felicidades!

— Não caçoe comigo, Sr. de Loignac! — disse Ernauton. — E já que estão na sua mão, segundo creio, os arames que nos fazem mover a quase todos, peço-lhe por favor que não trate o visconde Ernauton de Carmainges como um manequim.

— Hei-de fazer-lhe outros favores além desse, Senhor Visconde — disse Loignac inclinando-se com urbanidade. — Há aqui duas pessoas que logo à primeira vista distingui das outras: uma é o senhor, com esse olhar altivo e dócil ao mesmo tempo, e a outra, aquele mancebo que acolá está, e cujo olhar é taciturno e sombrio.

— Como se chama ele?

— Sr. de Saint-Maline.

— E qual é o motivo dessa distinção, Senhor? se acaso semelhante pergunta não é atrevimento em mim.

— É porque o conheço, e nada mais.

— A mim?! — disse Ernauton muito admirado — conhece-me, Senhor?...

— Conheço-o ao senhor, a ele, e a todos que aqui estão.

— É célebre!

— Será, mas assim é preciso.

— Mas porque é preciso?

— Porque todo o chefe deve conhecer os seus soldados.

— Visto isso, todos estes homens...

— Hão-de ser meus soldados amanhã.

— Porém eu julgava que o Sr. d'Epernon...

— Cale-se! Evite proferir esse nome aqui, ou antes, trate de não proferir nome algum; abra os ouvidos e feche a boca; e já que lhe prometi favores, aceite desde já este conselho por conta.

— Obrigado, senhor — disse Ernauton.

Loignac limpou o bigode, e, pondo-se de pé:

— Meus Senhores — disse ele —, já que o acaso reuniu nesta sala os quarenta e cinco compatriotas, bebamos um copo deste vinho de Espanha à prosperidade de todos.

A proposta provocou aplausos frenéticos.

— Estão quase todos embriagados — disse Loignac para Ernauton —, era boa ocasião de pedir a cada um deles que nos contasse a sua história, porém falta-nos o tempo.

E logo, levantando a voz:

— Olá! mestre Fournichon — disse — mande sair daqui tudo quanto for mulheres, crianças e criados.

Lardille levantou-se a grazinar; não tinha ainda acabado de comer a sobremesa. Militão não se mexeu.

— Então, não me ouviram?... — exclamou Loignac com um olhar que não admitia réplica. — Vamos, vamos! para a cozinha, Sr. Militão.

Passados alguns instantes só tinham ficado na sala os quarenta e cinco convivas e o Sr. de Loignac.

— Meus Senhores — disse este último —, cada um de vós sabe quem o mandou vir a Paris, ou pelo menos desconfia de quem foi. Bom, bom... não é possível apregoar-lhe o nome; sabem-no, e é quanto basta. Sabem também que vieram para lhe obedecer.

Um murmúrio de consentimento soou de todos os cantos da sala; contudo, como cada um deles estava unicamente ciente do que dizia respeito a si próprio, e não sabia que os companheiros tinham vindo ali atraídos pelo mesmo motor, todos olharam uns para os outros com admiração.

— Muito bem, Senhores — prosseguiu Loignac —, depois olharão uns para os outros. Fiquem descansados que lhes há-de sobejar tempo para travarem conhecimento. Vieram pois para obedecer a essa pessoa; sabem isso?

— Sabemos, sabemos! — exclamaram os quarenta e cinco.

— Pois então, para começar — continuou Loignac —, os senhores vão sair, sem fazer bulha, desta hospedaria, para irem tomar o alojamento que se lhes destinou.

— A todos? — perguntou Saint-Maline.

— A todos, sim senhor.

— Visto isso, todos nós somos mandados e todos somos iguais aqui... — replicou Perducas, cujas pernas estavam tão pouco firmes que para manter o centro de gravidade teve que deitar um braço à roda do pescoço de Chalabre.

— Cuidado! — observou este — olhe que está amarrotando o meu gibão.

— Sim, são todos iguais — disse Loignac — perante a vontade do amo.

— Oh! oh! — disse Carmainges corando — peço perdão, mas não me tinham dito que o Sr. d'Epernon havia de intitular-se meu amo...

— Espere.

— Não foi isso que eu entendi...

— Espere! — tornou a dizer Loignac — que cabeça tão esquentada!

Reinou logo silêncio, motivado, no maior número, pela curiosidade, e nos outros pela impaciência.

— Eu ainda não lhes disse quem havia de ser o vosso amo...

— É verdade — respondeu Saint-Maline —, mas já nos disse que havíamos de ter um.

— Toda a gente tem um amo! — exclamou Loignac. — Porém, se o seu orgulho não lhe permite contentar-se com esse que acabou de nomear, procure mais acima; não só não lho proíbo, mas até concedo que o faça.

— El-rei! — murmurou Carmainges.

— Silêncio! — disse Loignac — os senhores vieram aqui para obedecer; obedeçam pois; entretanto, aqui está uma ordem que o Sr. Ernauton fará favor de ler em voz alta.

Ernauton desdobrou vagarosamente o pergaminho que lhe apresentara o Sr. de Loignac, e leu em voz alta:

 

Ordeno ao Sr. de Loignac que vá tomar conta, como seu comandante, dos quarenta e cinco cavaleiros que chamei a Paris, com o consentimento de Sua Majestade.

       Nogaret de La Valette, Duque d'Epernon

 

Todos se inclinaram, tanto os que estavam embriagados como os que se tinham tornado a sentar-se, só houve desigualdade no equilíbrio quando tiveram de se tornar a levantar.

— Ora pois, ouviram a ordem — disse Loignac —, é preciso que me acompanhem no mesmo instante. As vossas bagagens e criados ficarão aqui em casa de mestre Fournichon, a cujo cuidado serão entregues; mandá-las-ei buscar depois; agora, porém, aviem-se, que os botes estão à espera.

— Os botes?... — repetiram os gascões todos — então vamos embarcar?

E trocaram entre si olhares ávidos de curiosidade.

— Não há dúvida — disse Loignac — que vão embarcar. Como se pode ir ao Louvre sem atravessar o rio?...

— Ao Louvre! ao Louvre! — exclamaram os gascões — santo nome de Deus, vamos ao Louvre!...

Loignac levantou-se da mesa, mandou passar diante de si os quarenta e cinco gascões, contando-os ao desfilarem como se fossem um rebanho de carneiros, e conduziu-os pelas ruas da cidade até à Torre de Nesle. Ali achavam-se três grandes barcos, cada um dos quais recebeu a bordo quinze passageiros, fazendo-se imediatamente ao largo.

«Que demónio vamos nós fazer ao Louvre?» — perguntaram a si mesmo os mais intrépidos, já tornados a seu juízo em virtude do ar fresco do rio, de que mal os resguardava a mesquinhez

do vestuário.

«Se ao menos eu tivesse trazido a minha couraça! — murmurava Pertinax de Montcrabeau.

 

         O HOMEM DAS COURAÇAS

Pertinax tinha razão em lamentar a ausência da sua couraça, pois naquele mesmo instante, por intermédio do célebre criado que vimos falar tão familiarmente com o amo, acabava este de se desfazer dela para sempre. Com efeito, o criado de Pertinax, apenas ouvira as palavras mágicas «dez escudos», proferidas pela Sr.a Fournichon, tinha deitado a correr atrás do ferro-velho.

Como já era noite, e o homem ia provavelmente com pressa, teria este andado já uns trinta passos quando Samuel saiu da estalagem.

Teve pois o criado de chamar pelo ferro-velho.

O homem parou, com receio, e lançou um olhar investigador para o indivíduo que se dirigia a ele; porém, logo que percebeu que trazia algum objecto para vender, voltou atrás.

— Que pretende, amigo? — disse ele.

— Ora! que há-de ser?... — replicou o criado com ar astuto — quero fazer negócio com o senhor.

— Pois então, vamos a isso.

— Está com pressa?

— Estou.

— Oh! sempre me há-de conceder o tempo necessário para tomar o fôlego, não é assim?

— Pois sim, mas respire depressa, porque tenho gente à minha espera.

Era evidente que o ferro-velho ainda conservava alguma desconfiança a respeito do criado.

— Quando vir o que lhe trago — disse este último —, como me parece curioso, estou certo que não se lhe dará de perder algum tempo comigo...

— Que é que me traz?

— Uma peça magnífica! um primor de arte que... Porém... vejo que não me presta atenção...

— Desculpe, estou observando.

— O quê?

— Não sabe, meu amigo — disse o homem das couraças —, que há um decreto de el-rei que proíbe a compra de armas?

E olhava com inquietação para os lados.

O criado julgou mais prudente afectar ignorância.

Eu não sabia — respondeu —, cheguei hoje mesmo de Mont-de-Marsan. Ah! então não admira — disse o homem das couraças, a quem a resposta pareceu tranquilizar um pouco. — Contudo, apesar de ter chegado hoje de Mont-de-Marsan, como acaba de dizer — prosseguiu ele —, parece estar muito bem informado, pois já lhe consta que eu compro armas...

— Consta-me, é exacto.

— E quem lho disse?

— Não está má a pergunta! não foi preciso que mo dissessem... ainda há pouco o apregoou alto e bom som!...

— Onde?

— A porta da estalagem d'A Espada do Cavaleiro Destemido.

— Visto isso, estava lá...

— Estava.

— Com quem?

— Com um rancho de amigos.

— Com um rancho de amigos?... Ordinariamente não há hóspedes naquela estalagem...

— Então veio achá-la hoje muito mudada!

— Com efeito. Mas, de onde vinham todos esses seus amigos?

— Da Gasconha, assim como eu.

— São partidários de el-rei de Navarra?

— Ora essa!... somos todos franceses, pelo coração e pelo sangue!

— Sim, mas são huguenotes?

— Católicos todos, como o próprio padre-santo, graças a Deus — disse Samuel tirando o gorro. — Mas não é disso que se trata: o que eu quero é vender esta couraça.

— Cheguemo-nos mais para a parede, por favor; estamos muito a descoberto aqui no meio da rua.

E deram alguns passos até ao pé de uma casa de aparência burguesa, e em cujas janelas se não via luz.

A porta da casa ficava por baixo de uma espécie de alpendre que tinha por cima uma varanda. A frente tinha como único ornato um banco de pedra que ia de lado a lado.

Achava-se assim reunido o útil ao agradável, porque o banco servia de assento às pessoas que queriam descansar, e de estribo às que queriam montar nas mulas ou cavalos.

— Vejamos a couraça — disse o ferro-velho logo que chegaram debaixo do alpendre.

— Aqui está.

— Espere... pareceu-me ouvir rumor dentro da casa...

— Não, foi acolá defronte. O ferro-velho voltou-se.

Havia, com efeito, no lado oposto da rua, uma casa de dois andares, no segundo dos quais aparecia de vez em quando uma luz.

— Aviemo-nos com isto — disse o homem apalpando a couraça.

— Eh! como é pesada! veja!... — disse Samuel.

— É velha, maciça e fora de moda.

— É um primor de arte!

— Quer seis escudos por ela?

— O quê!? seis escudos?!... dez deu o senhor lá na estalagem por uma couraça velha e mantelada!

— Seis escudos; é pegar ou largar — repetiu o ferro-velho.

— Porém... repare neste lavor!...

— Para vender a peso de que serve o lavor?...

— Oh, oh!... está regateando comigo — replicou Samuel — e deu à patroa da estalagem o que ela pediu!...

— Pois bem: darei mais um escudo — respondeu o velho com impaciência.

— Só as douraduras valem catorze escudos!

— Vá, aviemo-nos! — disse o ferro-velho — ou então adeus.

— Bom! bom! — exclamou Samuel — o senhor é um negociante que faz negócios às escondidas, está em contravenção com os decretos de el-rei e quer regatear com a gente de bem.

— Está bom, está bom... não grite assim!

— Oh! eu não tenho medo! — replicou Samuel, levantando a voz. — Não faço negócio ilícito, nada me obriga a esconder-me.

— Ora vamos... aqui tem dez escudos e cale-se...

-— Dez escudos?!... Se eu lhe estou dizendo que só o dourado vale mais do que isso!... Ah, quer fugir?...

— Não quero, não; que homem levado dos diabos!

— Ah! é que se tentar fugir, desde já o aviso que grito ó da guarda!

Samuel, ao dizer estas palavras, tinha levantado a voz por tal forma, que equivalia a realizar a sua ameaça.

Em consequência da bulha que fazia Samuel, tinha-se aberto a janelinha que deitava para a varanda da casa ao pé da qual se estava fazendo o ajuste; e o ranger da vidraça ao abrir-se não havia causado pequeno susto ao ferro-velho.

— Bem, bem — disse ele —, já vejo que não há remédio senão estar por tudo quanto quiser: aqui tem quinze escudos e vá-se embora.

— Agora sim — disse Samuel, metendo os quinze escudos nas algibeiras.

— Ora ainda bem!

— Porém, estes quinze escudos são para meu amo — prosseguiu Samuel —, e é necessário que me ofereça também alguma coisa.

O ferro-velho deitou os olhos em redor, desembainhando ao mesmo tempo a adaga até ao meio. Era evidente que o homem estava com ideias de fazer na pele de Samuel um rasgão de natureza tal que o dispensasse para o futuro de comprar outra couraça para substituir a que acabava de vender; porém, Samuel tinha o olho alerta, e recuou dizendo:

— Sim, sim, meu bom amigo, bem vejo a tua adaga; mas também vejo outra coisa... é aquela cara acolá na varanda, que te está olhando.

O ferro-velho, lívido de terror, olhou na direcção que lhe indicava Samuel, e viu efectivamente na varanda um vulto comprido e fantástico, embrulhado num roupão de pele de gato; aquele argos não tinha escapado uma sílaba nem um gesto da cena.

— Está bom, está bom, o senhor faz de mim o que quer — disse o ferro-velho com um riso semelhante ao do chacal quando mostra os dentes. — Aqui tem mais um escudo. E que os diabos o levem! — acrescentou ele a meia voz.

— Muito obrigado — respondeu Samuel —, faça bom negócio, é o que lhe desejo. E, cortejando o homem das couraças, desapareceu com uma risadinha de escárnio. O ferro-velho, tendo ficado só na rua, tratou de juntar as peças da couraça de Pertinax ncaixando-as depois na de Fournichon.

O burguês conservou-se à janela, e quando viu o homem bem atrapalhado com o embrulho:

— Segundo estou vendo — disse ele —, o senhor anda comprando armaduras...

— Não senhor — respondeu o infeliz ferro-velho —, foi hoje, por acaso, e porque se ofereceu ocasião de fazer esta compra.

— Pois então o acaso veio à medida dos meus desejos.

— Porquê, Senhor? — perguntou o ferro-velho.

— Porque tenho precisamente aqui à mão um monte de ferragens velhas que me incomodam.

— Não me nego a comprá-las; porém agora não pode ser: bem vê que não posso acarretar com mais fazenda.

— Entretanto, sempre lhas quero mostrar...

— É escusado, não tenho mais dinheiro comigo.

— Não seja essa a dúvida: estou pronto a fiar; o senhor tem cara de homem de bem.

— Obrigado, mas estou com pressa.

— É célebre!... está-me parecendo que o conheço... — disse o burguês.

— A mim? — disse o ferro-velho, procurando disfarçar o tremor que lhe corria pelo corpo.

— Examine esta couraça — disse o burguês, puxando com o desmarcado pé o objecto a que se referia, pois não queria tirar-se da janela com receio de que o homem se fosse embora.

E fazendo passar a couraça em questão pelas grades da varanda, passou-a à mão do ferro-velho.

— Disse que me conhece?... — repetiu o ferro-velho — isto é, que lhe parecia conhecer-me?...

— Conheço-o efectivamente; não é...

O burguês pareceu interrogar a sua memória; o ferro-velho conservou-se imóvel e esperando.

— Não é Nicolau?

O rosto do ferro-velho transtornou-se, e via-se tremer o capacete que tinha na mão.

— Nicolau? — repetiu ele.

— NicolauTruchon, com loja de quinquilharias na Rua da Cassonerie?...

— Não, não — replicou o ferro-velho, sorrindo e respirando como um homem que se julga sobremaneira feliz.

— Pois não importa: tem uma cara que logo agrada; desejo portanto que me compre a armadura completa, couraça, braçais e espada.

— Atenda, porém, a que é negócio proibido, Senhor...

— Bem sei, ainda há pouco berrou bastante para lho dizer o homem que lhe vendeu a couraça.

— Ouviu-o?

— Perfeitamente, e vi a generosidade com que o tratou; por isso me veio à ideia fazer também negócio com o senhor; porém fique descansado que eu não hei-de abusar: tenho minhas noções de comércio... já fui negociante também.

— Ah! e que géneros vendia?

— Que géneros vendia?

— Sim.

— Favores.

— Não havia de ser mau negócio, Senhor.

— Era tão bom que enriqueci com ele, e agora vivo retirado.

— Muito estimo.

— E como gosto de viver com comodidade, quero vender toda a minha ferrugem, que me incomoda aqui em casa.

— Sim senhor, compreendo.

— Ainda aqui tenho as escarcelas. Ah! é verdade: e os guantes também.

— Mas eu não percebo disso...

— Nem eu tão-pouco.

— Levarei unicamente a couraça.

— Visto isso, só compra couraças?

— Sim senhor.

— É célebre! porque afinal de contas compra estes trastes para depois os vender a peso (assim disse, pelo menos), e ferro é sempre ferro.

— É verdade, mas sempre prefiro...

— Como quiser: compre só a couraça ou, se acha melhor, não compre nada.

— Que quer dizer?

— Quero dizer que em tempos como estes em que vivemos, sempre é bom ter a gente armas em casa.

— O quê!? em tempo de paz?...

— Meu caro amigo, se estivéssemos em tempo de paz não haveria tanta compra de couraças! Cos demónios! essas coisas não são para se dizerem a mim.

— Ora o senhor!...

O ferro-velho fez um movimento para se ir embora.

— E compras feitas assim clandestinamente. Porém, na realidade, quanto mais olho para o senhor — disse o burguês —, mais certo estou de o conhecer; não, o senhor não é Nicolau Truchon, mas, apesar disso, conheço-o...

— Silêncio!

— E se anda comprando couraças...

— Acabe!

— Estou certo que é para fazer uma obra agradável a Deus.

— Cale-se!

— Muito folgo pois de vê-lo por aqui — disse o burguês, estendendo pela sacada fora um imenso braço, cuja mão foi pegar na do ferro-velho.

— Mas quem é o senhor? — perguntou este, sentindo a mão agarrada como por uma turquês.

— Sou Roberto Briquet, a quem chamam o terror dos cismáticos, amigo da União e católico exaltado. Agora tenho a certeza que o conheço...

O ferro-velho tornou-se lívido.

— É Nicolau... Grimbelot, correeiro na Rua da Vaca sem Ossos.

— Não sou; está enganado. Adeus, mestre Roberto Briquet; muito estimo ter travado conhecimento com o senhor.

E o ferro-velho voltou as costas para a varanda.

— Que é isso!? Vai-se embora?

— Como vê.

— Sem levar a minha ferragem?

— Não tenho dinheiro comigo, já lho disse.

— O meu criado irá com o senhor.

— É impossível.

— Então como há-de ser?

Eu sei lá! ficaremos como estamos.

Nessa não caio eu; tenho demasiado desejo de me relacionar mais intimamente com o senhor.

E eu tomara já fugir do senhor — replicou o ferro-velho, e desta vez resignando-se a abandonar as couraças e a perder tudo, antes que ser reconhecido, deitou a correr.

Porém, Roberto Briquet não era homem que se deixasse caçoar assim; escarranchou-se na sacada, desceu para a rua quase sem lhe ser preciso saltar, e com cinco ou seis pernadas alcançou o ferro-velho.

— Está doido, meu amigo?... — disse ele pondo a alentada mão sobre o ombro do pobre diabo. — Se eu fosse seu inimigo e quisesse fazê-lo prender, bastava que desse um grito; a ron da anda a estas horas pela Rua dos Agostinhos; mas não: o senhor é meu amigo; e se assim não é, quero que os diabos me levem, pois agora é que me ocorreu positivamente o seu nome!

O ferro-velho desta vez desatou a rir. Roberto Briquet atravessou-se diante dele.

— Chama-se Nicolau Poulain — disse — e é tenente do prebostado de Paris; bem me queria parecer que sempre havia Nicolau no seu nome.

— Estou perdido! — balbuciou o ferro-velho.

— Ao contrário, está salvo; o senhor não é capaz de fazer pela boa causa o que eu tenciono fazer?

Nicolau soltou um gemido.

— Orávamos... ânimo! — disse Roberto Briquet — tranquilize-se; encontrou um irmão, o irmão Briquet. Tome uma couraça! eu levarei as outras duas; faço-lhe presente dos meus braçais, escarcelas e guantes. Vamos! a caminho, e viva a união!

— Quer acompanhar-me?

— Quero ajudá-lo a levar estas armas destinadas a vencer os Filisteus; ensine-me o caminho,

que eu irei atrás.

Pela alma do desgraçado tenente do prebostado passou, como um relâmpago, uma desconfiança, que logo se desvaneceu.

«Se ele quisesse deitar-me a perder, disse consigo, para que teria declarado que me Conhecia?»

E logo, em voz alta:

— Pois vamos lá; já que assim o quer, venha comigo.

— Para a vida e para a morte! — gritou Roberto Briquet, apertando com uma das mãos a do seu aliado, enquanto com a outra levantava ao ar a sua carga de ferrugem.

Puseram-se ambos a caminho.

Ao cabo de vinte minutos, Nicolau Poulain chegou ao Bairro do Marais; ia alagado em suor, não somente por causa da rapidez com que tinha caminhado, como também em consequência da acalorada conversação política.

«Que recruta que eu arranjei! murmurou Nicolau Poulain parando a pequena distância do Palácio de Guisa.

«Eu já desconfiava que era para aqui que vinha a minha armadura» pensou Briquet.

— Amigo — disse Nicolau Poulain, voltando-se com um gesto trágico para Briquet, q* afectava a maior simplicidade —, quero dar-lhe um instante para reflectir antes de entrar no covil do leão; ainda é tempo de se retirar se não confia na pureza da sua consciência.

— Ora adeus! — disse Briquet — já me tenho visto em maiores apertos: Et non in medulla mea — declamou. — Ah! desculpe, talvez o senhor não saiba latim...

— E o senhor, sabe?

— Bem vê.

«Homem de letras audacioso, forte e rico. Que bom achado! disse consigo Poulain. Va lá, entremos.»

E aproximou-se com Briquet da gigantesca porta do Palácio de Guisa, que se abriu à terceira pancada da aldraba de bronze.

O pátio estava cheio de guardas e de homens embuçados em capotes, que por ele divagava como fantasmas.

Não se via brilhar uma única luz no palácio.

A um canto do pátio estavam esperando oito cavalos aparelhados.

O som da aldraba despertou a atenção da maior parte daqueles homens, que formaram uma espécie de ala para receberem os recém-chegados.

Nicolau Poulain então, chegando a boca ao ouvido de um homem, que parecia guarda-portão e que segurava o postigo entreaberto, disse-lhe o nome.

— Entrem, meus Senhores — disse o guarda-portão.

— Leve isto para o armazém — disse então Poulain, entregando a um guarda as três couraças acompanhadas das demais ferragens de Roberto Briquet.

«Bom! bom! há também um armazém, disse este consigo; a coisa vai de melhor a melhor!» Safa! que hábil organizador que é o meu amigo preboste!

— Sim, sim, seja como quiser — respondeu Poulain, sorrindo com vaidade. — Mas venha comigo, quero apresentá-lo.

— Desde já o aviso — disse o burguês — que sou excessivamente tímido. Pretendo unicamente que me tolerem quando tiver dado provas da minha adesão à causa; então me apresentarei eu mesmo, como dizia o grego, pelas minhas obras.

— Como lhe aprouver — respondeu o tenente do prebostado —, espere aqui por mim. E foi apertar a mão à maior parte dos indivíduos que andavam passeando.

— Quem esperamos ainda? — perguntou uma voz.

— O chefe — respondeu outra voz.

Naquele instante, um homem de elevada estatura acabava de entrar no palácio, e ouvia as últimas palavras proferidas pelos misteriosos passeantes.

— Meus Senhores — disse ele —, venho eu em seu nome.

— Ah! é o Sr. de Mayneville! — exclamou Poulain.

«Olé! pelo que vejo estou em terreno conhecido» disse consigo Briquet, e armou ao mesmo tempo uma careta que o desfigurou completamente.

— Meus Senhores, está completa a reunião; deliberemos, pois — replicou a voz que primeiro se tinha ouvido.

«Ah! bem, pensou Briquet, aí está mais outro; este é o meu procurador, mestre Marteau.» E mudou de careta com uma tal facilidade, que bem mostrava quanto estava familiarizado com os estudos fisionómicos.

— Subamos, Senhores — disse Poulain.

O Sr. de Mayneville foi adiante, Nicolau Poulain seguiu logo atrás; os homens de capote caminharam após Nicolau Poulain, e Roberto Briquet na retaguarda dos homens de capote. Subiram os degraus de uma escada externa que dava entrada para uma abóbada. Roberto Briquet ia subindo com os mais, e resmungando por entre os dentes: «Mas o pajem? onde estará o demónio do pajem?»

 

         AINDA A LIGA

Quando Roberto Briquet ia subindo a escada, na retaguarda de todos, procurando assumir uma aparência decente de conspirador, reparou que Nicolau Poulain, depois de ter falado com alguns dos seus misteriosos companheiros, esperava à entrada do arco da abóbada.

«Aquilo é por minha causa», disse consigo Briquet.

O tenente do prebostado deteve efectivamente o seu novo amigo, no momento em que este ia transpor o temível umbral.

— Não fique de mal comigo — disse ele —, porém a maior parte dos nossos amigos não o conhece, e deseja colher informações a seu respeito antes de o admitir nas reuniões.

— É muito justo — replicou Briquet —, e saiba que a minha natural modéstia já tinha previsto essa objecção.

— Faço-lhe justiça — respondeu Poulain —, é realmente um homem de bem.

— Vou retirar-me, pois — prosseguiu Briquet. — E considero-me muito feliz por ter visto numa só noite tantos valentes defensores da União Católica.

— Quer que o acompanhe até à porta? — perguntou Poulain.

— Não, obrigado, não é preciso que se incomode.

— É porque o guarda-portão poderá ter alguma dificuldade em o deixar sair, e entretanto estão lá dentro à minha espera...

— Não haverá porventura uma senha para sair?

— Há, sim senhor.

— Pois então diga-a.

— Verdade seja que já entrou aqui...

— E visto sermos amigos...

— Aí vai; basta que diga: Parma e Lorena.

— E o guarda-portão abrir-me-á logo a porta?

— No mesmo instante.

— Muito bem, agradeço-lhe. Vá tratar dos seus negócios que eu volto aos meus. Nicolau Poulain despediu-se do companheiro e partiu com os colegas.

Briquet deu alguns passos, como para tornar a descer ao pátio; porém, apenas chegou ao primeiro degrau da escada, parou para examinar o local.

O resultado das suas observações foi que a abóbada se prolongava paralelamente ao muro externo, tendo à entrada um grande alpendre. Era evidente que o corredor da abóbada ia dar a alguma sala rente ao chão, e própria para aquela reunião misteriosa, à qual Briquet não tinha tido a honra de ser admitido.

O que mais o confirmou nesta suposição, que em breve se tornou numa certeza, foi o ver aparecer uma luz por detrás de uma janela de grades, aberta no muro, e resguardada por uma espécie de caixa de madeira de forma afunilada, à feição das que vemos hoje nas janelas das prisões ou dos conventos, para interceptar a vista da rua e deixar gozar unicamente do ar e do aspecto do céu.

Briquet logo imaginou que era aquela a janela da sala das reuniões e que, se fosse possível chegar à altura a que ela ficava, facilmente supririam os olhos os outros sentidos.

Contudo, a dificuldade era chegar àquele observatório e tomar nele lugar sem ser visto. Briquet olhou em redor de si.

Estavam ainda no pátio os pajens com os cavalos, os soldados com as alabardas e o guarda-portão com as chaves; em suma: tudo gente esperta e vigilante.

Por felicidade, o pátio era muito grande e a noite estava muito escura. E demais, os pajens e os soldados, tendo visto desaparecer todos os conjurados para dentro do arco, já não curavam de nada, e o guarda-portão, sabendo que as portas estavam bem fechadas e que ninguém podia sair sem a senha, tratava de fazer a cama para se deitar, vigiando ao mesmo tempo um grande caneco de vinho aromatizado que tinha posto ao fogo para aquecer. Os estimulantes da curiosidade são tão enérgicos como os impulsos de qualquer outra paixão. O desejo de saber tem tal força, que já deu cabo da vida de mais de um curioso.

Briquet tinha sido tão bem sucedido nas suas indagações até àquele momento, que não era para admirar que desejasse completar as suas informações. Tornou a olhar em redor de si e, deslumbrado pela luz que dava nas grades de ferro da janela, imaginou que aquele reflexo era um sinal que o estava chamando, e que aquelas grades tão luzentes se estavam oferecendo para nelas experimentar a robustez dos pulsos.

Briquet, resolvendo por conseguinte alcançar a janela, foi andando pela cornija, a qual, seguindo, como ornato desde a altura do poial da porta, ia acabar ao pé da janela, e caminhou pela parede adiante como se fora um gato ou um macaco, agarrando-se com as mãos e com os pés às esculturas da parede.

Se os pajens e os soldados tivessem podido discernir no meio das trevas aquele perfil fantástico deslizando pelo meio da parede sem apoio que se visse, teriam por certo exclamado que era bruxaria, e os cabelos mesmo dos mais valentes ter-se-iam arrepiado.

Porém, Roberto Briquet não lhes deu tempo para observarem as suas feitiçarias.

Com quatro pernadas chegou ao pé das grades, agarrou-se a elas e escondeu-se entre a janela e a espécie de caixa que a cobria, por forma tal que de fora ninguém o podia ver, e pela parte de dentro ficava quase inteiramente coberto pela gradaria.

Briquet não se tinha enganado; apenas chegou à janela deu por bem empregado o trabalho que tivera para o conseguir.

Com efeito, avistou uma grande sala alumiada por uma lâmpada de ferro de quatro bicos, cheia de armaduras de toda a espécie, entre as quais, procurando bem, teria encontrado decerto os competentes braçais e gorjal.

A imensidade de piques, estoques, alabardas e mosquetes que ali existiam, arrumados em Montões e em feixes, era suficiente para armar quatro grandes regimentos.

Briquet não prestou contudo tanta atenção ao excelente arranjo das armas como à assembleia encarregada de se servir delas ou de as distribuir. Os seus olhos ardentes penetravam pela vidraça coberta de uma camada gordurosa de fumo e de pó, para descortinar os rostos seus conhecidos, que as viseiras ou os capelos ocultavam.

«Oh! oh! disse ele, lá está mestre Crucé, o revolucionário; além está o homúnculo Brigará, tendeiro da esquina da Rua dos Lombardos; lá vejo mestre Leclerc, que adoptou o nome Bussy, e que não se atreveria por certo a cometer tal sacrilégio no tempo em que o verdadeiro Bussy era vivo. Hei-de perguntar um dia àquele meu antigo mestre de esgrima se sabe aparar a estocada oculta de que morreu em Lião um certo David meu conhecido. Safa! que os burgueses estão muito bem representados... porém a nobreza... ah! o Sr. de Mayneville, Deus me perdoe! está apertando a mão a Nicolau Poulain; que cena tão terna! estão fraternizando! Ah! ah! o tal Sr. de Mayneville, pelo que vejo, é orador! está-se dispondo, segundo parece, a proferir um discurso; que gestos tão agradáveis e que olhos tão persuasivos!»

O Sr. de Mayneville tinha começado efectivamente a falar.

Roberto Briquet abanava a cabeça enquanto o Sr. de Mayneville falava, não porque lhe fosse possível ouvir uma palavra da oração, mas porque facilmente interpretava os seus gestos e os da assembleia.

«Parece-me que não consegue persuadir o auditório... Crucé está fazendo uma careta. Lachapelle-Marteau voltou as costas e Bussy-Leclerc está encolhendo os ombros. Vamos, vamos, Sr. de Mayneville! fale, seja eloquente, com todos os demónios! Oh! até que afinal lá se reanima a gente do auditório... Oh! oh! chegam-se a ele, apertam-lhe a mão, atiram com os chapéus ao ar; com a breca!...»

Briquet, como já dissemos, via e não podia ouvir, porém nós, que estamos assistindo pela imaginação às deliberações de tão tempestuosa assembleia, diremos ao leitor o que acabava de se passar.

Em primeiro lugar, Crucé, Marteau e Bussy tinham-se queixado ao Sr. de Mayneville da inacção do duque de Guisa.

Marteau, na sua qualidade de procurador, tinha tomado a palavra.

— O Sr. de Mayneville vem em nome do duque de Guisa? Obrigado. Estamos prontos a aceitá-lo como embaixador; mas é-nos indispensável a presença do próprio duque. Depois da morte de seu pai, de gloriosa memória, na idade de dezoito anos, fez ele adoptar por todos os bons franceses o projecto da União, e alistou-nos a todos debaixo desta bandeira. Cumprindo o juramento que prestámos, temos exposto as nossas pessoas e sacrificado as nossas fortunas, para fazermos triunfar tão santa causa; e, apesar dos nossos sacrifícios, nada progride, nada se resolve. Atenda, Sr. de Mayneville, que os Parisienses hão-de cansar. Por fim, quando Paris estiver cansado, que quererão fazer da França? O Senhor Duque devia pensar nisso.

Os membros da Liga aprovaram todos este exórdio, e Nicolau Poulain, especialmente, tornou-se saliente pelo seu zelo em aplaudir. O Sr. de Mayneville respondeu com singeleza:

— Senhores, se nada se tem decidido é porque o negócio ainda não está maduro. Peço-lhes que examinem a situação. O Senhor Duque e seu irmão, o Senhor Cardeal, estão em Nancy, em observação; um deles está organizando um exército destinado a reprimir os huguenotes da Flandres, que o Senhor Duque de Anjou quer alvoroçar contra nós para nos distrair; o outro está-se correspondendo com todo o clero da França e com o papa, para fazer adoptar a União. O Senhor Duque de Guisa sabe uma coisa que os senhores não sabem: é que aquela antiga aliança, mal interrompida, entre o duque de Anjou e o Bearnês está prestes a renovar-se. Está-se tratando de chamar a atenção da Espanha para o lado de Navarra, para assim obstar a que ela envie armas e dinheiro. Ora, o Senhor Duque, antes de empreender alguma coisa e de vir a Paris, quer pôr-se em estado de combater a heresia e a usurpação. Porém, na falta do Sr. de Guisa, temos o Sr. de Maiena, que acumula as funções de general e de conselheiro, e que eu aqui espero de um momento para o outro.

— Isto é — interrompeu Bussy, e foi então que encolheu os ombros —, os seus príncipes estão sempre onde nós não estamos, e nunca se acham onde nós carecemos que eles apareçam. O que faz a Sr.a de Montpènsier, por exemplo?

— A Sr.a de Montpènsier entrou em Paris esta manhã.

— E ninguém a viu?

— Viu-a alguém, sim senhor.

— E quem foi essa pessoa?

— Salcède.

— Oh... oh! — exclamou toda a assembleia.

— Porém — disse Crucé —, tornou-se invisível para os outros?...

— Não; houve mais quem a visse, mas espero que ninguém lhe tenha tocado...

— E como se sabe que ela está em Paris? — perguntou Nicolau Poulain. — Persuado-me de que não foi Salcède quem lho disse...

— Sei que ela está em Paris — respondeu Mayneville — porque a acompanhei até à Porta de Santo António.

— Ouvi dizer que tinham fechado todas as portas esta manhã... — interrompeu Marteau, que estava almejando por proferir segundo discurso.

— Sim senhor — respondeu Mayneville, com a sua inalterável urbanidade.

— Como conseguiu ela então que lhas abrissem?

— Fez das suas.

— E ela tem poder bastante para conseguir que lhe abram as portas de Paris? — disse um membro da Liga, com a inveja e desconfiança que sempre mostram os pequenos quando se ligam com os grandes.

— Senhores — disse Mayneville —, sucedeu esta manhã, às portas de Paris, uma coisa que os senhores parecem ignorar, ou que apenas sabem mui vagamente. Tinha-se dado ordem para que não entrassem para dentro das barreiras senão as pessoas que trouxessem bilhetes de admissão. Por quem eram assinados os bilhetes? não sei. Ora, pois, quando estávamos esperando na Porta de Santo António, apareceram ali cinco ou seis homens, quatro dos quais mesquinhamente vestidos e mal-encarados; todos eles traziam os tais bilhetes de entrada, e, nas nossas barbas, passaram para dentro. Alguns mostravam a insolente jactância da gente que se julga em país conquistado. Que homens eram aqueles e que significavam aqueles bilhetes? — respondam-nos, senhores de Paris, pois têm completa obrigação de saber tudo quanto ocorre na sua cidade.

De forma que Mayneville, de acusado que era, tinha-se tornado acusador; é esta uma das subtilezas da arte oratória.

— Bilhetes... homens insolentes... entradas privilegiadas nas portas de Paris?... oh! oh! que quer isso dizer? — perguntou Nicolau Poulain pensativo.

— Se os senhores, que vivem aqui, nada sabem destes acontecimentos, como havemos de sabê-lo nós, que vivemos na Lorena, onde empregamos o tempo em correrias pelas estradas Para reunirmos as duas extremidades do círculo a que chamam União?...

— E como vinham, enfim, os tais homens?

— Uns a pé, outros a cavalo; alguns sós, outros acompanhados de criados. — Seria gente pertencente à casa de el-rei?

— Três ou quatro pareciam mendigos.

— Seriam militares?

— Qual militares! só dois dos seis, dois unicamente, traziam espadas...

— Talvez fossem estrangeiros?

"— Desconfio que eram gascões.

"— Oh! — disseram algumas vozes com acento de desprezo.

Não importa — disse Bussy —, mesmo que fossem turcos sempre devem despertar atenção. Tratemos de indagar quem eram. Sr. Poulain, é negócio da sua competência. Porém, nada disso nos diz os termos em que se encontram os negócios da Liga...

— O Sr. de Salcède — respondeu o Sr. de Mayneville —, que já nos havia atraiçoado e tencionava atraiçoar-nos de novo, não somente não falou, mas até se desdisse da sua confissão! sobre o patíbulo, tudo isso graças à duquesa, a qual, tendo conseguido entrar como sendo da comitiva de um dos tais portadores de bilhetes, teve o ânimo de chegar até junto do cadafalso, arriscando-se a ser esmagada, e mostrou-se ao padecente, apesar do perigo que havia de a reconhecerem. Foi então que Salcède parou no princípio da sua confissão; dali a um instante, o nosso benemérito verdugo fê-lo calar quando começava a arrepender-se. Assim, pois, Senhores, nada têm que recear, pelo que respeita aos nossos movimentos na Flandres. Aquele segredo terrível está encerrado no túmulo.

Foi a esta última frase que os membros da Liga se chegaram para o Sr. de Mayneville, if Briquet adivinhava o contentamento em que estavam pelos movimentos que faziam. Aquele contentamento dava muito que cismar ao estimável burguês, o qual pareceu tomar uma deliberação repentina.

Deixou-se resvalar do alto da janela para o pátio e dirigiu-se para o portão, que logo lhe foi aberto, apenas proferiu estas palavras: Parma e Lorena.

Roberto Briquet, mal se viu na rua, respirou com tanta força que bem mostrava ter estado por grande espaço de tempo reprimindo a respiração.

O conciliábulo durava ainda; pela história sabemos o que lá se passou. O Sr. de Mayneville vinha, por mandado dos Guisas, trazer aos futuros revoltosos de Paris o plano da insurreição.

Tratava-se de nada menos que assassinar os indivíduos mais importantes da cidade, conhecidos como partidários do rei, e de correr pelas ruas gritando: Viva a missa! morram os políticos! para assim se acender o facho de uma outra noite de São Bartolomeu com os destroços da antiga; a diferença era que nesta se confundiam os católicos mal pensantes com toda a casta de huguenotes.

Daquela maneira serviam a dois deuses, o que reina no Céu e o que estava para reinar em França.

O Altíssimo e o Sr. de Guisa.

 

         A CÂMARA DE SUA MAJESTADE HENRIQUE III NO LOUVRE

Naquela imensa câmara do Louvre, onde os nossos leitores já têm entrado tantas vezes connosco, e onde temos visto o pobre rei Henrique III passando horas tão compridas e tão tristes, vamos dar com ele novamente, não já como rei nem como senhor, mas sim descoroçoado, pálido, inquieto e entregue sem reserva alguma à perseguição de todos os fantasmas que a sua lembrança está evocando continuamente debaixo daquelas ilustres abóbadas.

Henrique mudara muito depois da morte fatal dos seus amigos, que narrámos no romance A Dama de Monsoreau: aquele desgosto pesara-lhe sobre a cabeça como um furacão devastador, e o pobre rei, que, apesar de se recordar de contínuo que era homem, só derivava a sua força e confiança das afeições privadas, vira-se despojado, pela morte invejosa, de toda a confiança e de toda a força, antecipando assim o momento terrível em que os reis têm de comparecer perante Deus, sós, sem amigos, sem guardas e sem coroa.

Henrique III tinha passado por cruéis provações; todos aqueles que estimava tinham caído sucessivamente em sua volta.

Depois da morte de Schomberg, Quélus e Maugiron, mortos em duelo por Ribeirac, Livarot e Antraguet, Saint-Mégrin tinha sido assassinado pelo Sr. de Maiena; as chagas tinham ficado abertas vertendo sangue.

O afecto que sentia pelos seus novos validos, d'Epernon e Joyeuse, parecia-se com a amizade que um pai, a quem morreram os melhores filhos, fica tendo aos que sobreviveram: apesar de lhes conhecer perfeitamente os defeitos, estima-os, poupa-os e vigia-os, para que a morte não os arrebate.

Tinha enchido d'Epernon de benefícios, e contudo a amizade que lhe consagrava não era duradoira; havia até ocasiões em que o odiava.

Era então que Catarina, conselheira desapiedada, em quem o pensamento sempre velava, como arde a lâmpada no tabernáculo, era então, dizemos, que Catarina, a qual mesmo na sua Mocidade nunca tinha praticado loucuras, se servia da voz do povo para censurar as inclinações do rei.

Nunca ela se teria atrevido a dizer-lhe, quando via despejar o Tesouro para erigir a terra de um Valette em ducado e engrandecê-la como se fosse propriedade real, nunca se teria atrevido a dizer, repetimos: «Senhor, odeie esses homens, que não são seus amigos, ou, pior: somente o são por conveniência deles.»

Apenas, porém, via o rei franzir os sobrolhos, apenas o ouvia, nalgum instante de aborrecimento, acusar d'Epernon de avareza ou de cobardia, logo soltava uma palavra inflexível que resumia em si todas as queixas do povo e da realeza contra de Epernon, e abria um novo sulco "a cólera do rei.

D'Epernon, gascão incompleto, tinha estudado, com a finura e perversidade próprias dos da sua terra, até que ponto chegava a fraqueza do monarca; sabia disfarçar a sua ambição vaga, e cujo fim ele mesmo ainda ignorava; a sua avidez, porém, servia-lhe de bússola para o dirigir para o mundo longínquo e desconhecido que o horizonte do futuro ainda lhe ocultava, e era essa avidez o seu único guia.

Quando por acaso o Tesouro se achava algum tanto mais florescente, logo aparecia e se aproximava d'Eperdon de braços abertos e parecer risonho; mas, assim que se esgotava o dinheiro, desaparecia, com semblante desdenhoso e sobrancelhas carregadas, e ia encerrar-se no seu palácio ou nalgum dos seus castelos, onde começava a lamentar a sua pobreza até conseguir enternecer o pobre rei e sacar dele alguma nova dádiva.

Ele tinha feito do favoritismo um emprego, e desse emprego tirava habilmente o melhor partido possível.

A princípio não concedia ao rei a menor demora quando chegavam os dias de pagamento; porém, quando, com o andar dos tempos, se tornou um cortesão, e o vento inconstante do valimento régio soprou com bastante frequência para tornar mais sólido o seu cérebro de gascão, consentiu então em tomar sobre si a parte do trabalho, isto é, cooperava para a cobrança dos fundos de que tencionava lançar mão.

Ele bem sentia que esta necessidade em que se via o obrigava a abandonar a vida de cortesão ocioso, que é o melhor de todos os ofícios, pela de cortesão activo, que é a pior de todas as condições. Invejava então amargamente a vida folgada que tinham levado Quélus, Schomberg e Maugiron, os quais nunca haviam tratado de negócios públicos nem particulares, e contudo convertiam com muita facilidade o valimento em dinheiro e o dinheiro em divertimentos; porém, os tempos estavam mudados; a idade de ferro havia sucedido à idade de ouro; o dinheiro já não aparecia como noutro tempo, era preciso ir procurá-lo e cavar, para o encontrar, nas veias do povo, como numa mina quase exausta.

DEpernon resignou-se, e atirou-se como um esfomeado por meio dos espinhos inextricáveis da administração, assolando tudo no seu trânsito, vexando tudo com impostos, sem atender às maldições dos contribuintes, por isso que o tinir dos escudos de ouro abafava as vozes dos queixosos.

O esboço rápido e incompleto que fizemos do carácter de Joyeuse servirá para mostrar ao leitor a diferença que havia entre os dois validos, pelos quais se repartia, não diremos a amizade, mas a grande influência que os mancebos que cercavam Henrique tinham sempre sobre o espírito do rei e sobre os destinos da França.

Joyeuse tinha seguido naturalmente, e sem pensar nisso, as pisadas e tradições que haviam deixado Quélus, Schomberg, Maugiron e Saint-Mégrin: era amigo do rei e gostava que este também o estimasse, contanto que disso não lhe resultasse incómodo; cumpre, porém, advertir que todos aqueles rumores singulares que se haviam espalhado acerca da amizade tão extremosa que o rei professava pelos predecessores de Joyeuse, tinham acabado com aquela amizade, de forma que o afecto paternal que Henrique mostrava ter a Joyeuse não era maculado por nódoa alguma de infâmia. Joyeuse, oriundo de uma família ilustre e honrada, mostrava-se, em público pelo menos, respeitoso para com a realeza, e a sua familiaridade nunca ultrapassava os limites. No meio da vida moral era Joyeuse para Henrique um amigo verdadeiro, mas esse meio era bem raro.

Anne era jovem, de génio arrebatado e apaixonado, e quando andava namorado mostrava-se egoísta; não se limitava a ser feliz por intervenção do rei e a fazer refluir a felicidade para a fonte de onde dimanava; o que ele queria era gozar fosse por que forma fosse. Valente, galante e rico, brilhava com aquele tríplice reflexo que faz adornar a fronte da mocidade com a auréola do amor.

A natureza tinha sido tão pródiga com Joyeuse, que Henrique amaldiçoava às vezes o destino que lhe não deixara lugar, a ele rei, de mostrar também a sua prodigalidade para com o amigo.

Henrique conhecia a fundo aqueles dois homens, e gostava deles provavelmente por causa do contraste que formavam. Henrique, debaixo de uma capa de cepticismo e de superstição, encobria um fundo de filosofia que, se não fora Catarina, se teria nele desenvolvido de um modo sobremaneira profícuo.

Henrique teve muito quem o atraiçoasse, mas nunca pessoa alguma o enganou.

            Era pois com essa perfeita inteligência do carácter dos seus amigos, com o conhecimento profundo dos seus defeitos e qualidades, que o rei, não os tendo presentes, só e triste naquele quarto sombrio, estava pensando neles, em si, na sua vida, e via no escuro o fúnebre horizonte que muita gente menos perspicaz do que ele já divisava no futuro.

A execução de Salcède tinha-o tornado muito sorumbático. Sozinho entre duas mulheres, em tal momento, tinha conhecido o desamparo em que se achava; a fraqueza de Luísa afligia-o; a força de Catarina assustava-o. Finalmente, Henrique sentia em si aquele terror vago e eterno que acomete os reis a quem a fatalidade destina para neles, e com eles, se extinguir uma raça.

E com efeito, todo o homem de ânimo altivo deve considerar a sua posição como muito desgraçada quando percebe que, apesar da elevação em que se acha acima dos outros homens, uma tal grandeza não tem base sólida; quando vê que não passa de uma estátua que incensam, um ídolo que adoram; e que os sacerdotes e o povo, os adoradores e os ministros, o abaixam e o exaltam conforme lhes aconselha o interesse, ou que o fazem oscilar segundo lhes dá na vontade. Henrique sentia vivamente esta verdade e irritava-se de a sentir.

Contudo, de tempos a tempos, ainda recobrava a energia da mocidade, que nele se tinha apagado muito antes do fim da mesma mocidade.

«Afinal, dizia consigo, para que hei-de eu estar com cuidados? Já não tenho guerras a sustentar; Guisa está em Nancy; Henrique de Navarra está em Pau; o primeiro vê-se obrigado a encerrar a sua ambição em si mesmo; o segundo nunca a teve. Os ânimos vão-se acalmando; nenhum francês encarou seriamente essa empresa impossível de destronar um rei; aquela terceira coroa que me prometia a Sr.a de Montpensier com a sua tesoura de ouro, não passa de um dito de mulher ofendida no seu amor-próprio; só minha mãe é que está sempre a sonhar com o fantasma da usurpação, mas ainda não pôde mostrar-me o usurpador; entretanto, eu, que sou homem, eu que sou moço e tenho o cérebro são, apesar dos desgostos que tenho sofrido, bem sei o juízo que devo formar acerca dos pretendentes que ela teme. Hei-de tornar Henrique de Navarra ridículo, Guisa odioso, e hei-de dispersar, com a espada na mão, as ligas dos estrangeiros. Por Deus que me ouve! eu não valia mais do que hoje valho, em Jarnac e Mont-contour. Sim, prosseguiu Henrique, deixando pender a cabeça sobre o peito, sim... mas entretanto vivo aborrecido, e o aborrecimento é uma moléstia mortal. Aí está o único e verdadeiro conspirador que me persegue: o aborrecimento! Porém desse nunca minha mãe me fala... Aposto que não me aparece ninguém esta noite! Joyeuse, contudo, tinha-me prometido que «avia de vir cedo; anda-se divertindo provavelmente; mas, como demónio consegue ele diver-tir-se?... E d'Epernon? ah! esse não anda em divertimentos: está amuado; ainda não cobrou a sua ordem de pagamento de vinte e cinco mil escudos sobre o recebedor do imposto do gado de unha rachada; pois deixá-lo estar amuado enquanto quiser!»

— Real Senhor — bradou a voz do porteiro —, chega o Senhor Duque d'Epernon. Todas as pessoas que tiverem experimentado o tédio que se sente quando se está à espera de alguém, as recriminações que se soltam contra o indivíduo esperado, e a facilidade com que se dissipa a nuvem logo que ele aparece, facilmente compreenderão a solicitude com que o rei ordenou que trouxessem um banco para o duque.

— Ah! boa noite, duque — disse ele —, muito folgo de te ver. D'Epernon inclinou-se respeitosamente.

— Porque não apareceste para ver esquartejar o patife do espanhol? Sabias muito bem que tinhas um lugar no meu camarote, pois mandei-to dizer.

— Não pude, Real Senhor.

— Não pudeste?

— Não, meu Senhor, tive que fazer.

— Na verdade, quem, com essa cara de palmo e meio, não julgaria que eras meu ministro e que vinhas participar-me que deixou de se pagar algum subsídio... — disse Henrique encolhendo os ombros.

— Por minha fé, Real Senhor — respondeu d'Epernon aproveitando o ensejo —, Vossa Majestade atinou com a verdade; não recebi o subsídio e estou sem um único escudo.

— Bom!... — disse Henrique com impaciência.

— Porém — replicou d'Epernon — não é disso que se trata agora, e apresso-me em dizê-lo a Vossa Majestade, pois poderia persuadir-se de que foram esses os negócios de que me estive ocupando.

— Vejamos; então que negócios foram, duque?

— Vossa Majestade sabe o que se passou durante a execução de Salcède?

— Que pergunta! se eu estive lá...

— Tentaram livrar o condenado.

— Eu não vi isso.

— É todavia o boato que corre pela cidade.

— É um boato sem causa.

— Parece-me que Vossa Majestade está enganado.

— Em que baseias esse teu parecer?

— Em ter Salcède desmentido perante o povo o que tinha dito perante os juízes.

— Ah! já te constou isso?

— Eu trato sempre de indagar tudo quanto pode interessar a Vossa Majestade.

— Obrigado; mas a que vem esse preâmbulo?

— Quero dizer que um homem que morre como Salcède mostra que era um servidor muito fiel, meu Senhor.

— Bem; e depois?

— O amo que pode gabar-se de possuir servidores como aquele, é muito feliz; mais nada.

— E queres dar-me a entender que eu não possuo servidores como ele, ou, para melhor dizer, que já não os possuo? Tens razão, se é isso que querias dizer!

— Não era isso que eu tinha na mente. Vossa Majestade encontraria, se lhe fosse preciso, e eu posso asseverá-lo melhor do que pessoa alguma, servidores tão fiéis como os do amo de Salcède.

— O amo de Salcède! o amo de Salcède!... porque não hão-de as pessoas que me cercam chamar as coisas pelos seus nomes? Quem é esse amo?

— Vossa Majestade deve sabê-lo melhor do que eu, visto ocupar-se de política.

— Eu bem sei de que me ocupo. Diz-me pois o que sabes.

— Eu não sei nada, mas desconfio de muita coisa.

— Bom! — disse Henrique com enfado — vieste visitar-me para me assustar e dizer-me coisas desagradáveis, não é assim? Obrigado, duque, és sempre o mesmo.

— Ora aí está Vossa Majestade tratándo-me mal — respondeu d'Epernon.

— Parece-me que tenho para isso sobejos motivos.

— Não, meu Senhor. As advertências de um homem afeiçoado ao seu soberano podem ser destituídas de fundamento, mas nem por isso deixa esse homem de cumprir o seu dever.

— Bem sei o juízo que a semelhante respeito devo formar.

— Ah! se é esse o caso que Vossa Majestade faz de mim, tem razão, meu Senhor; já estou calado.

Aqui houve um instante de silêncio; o rei foi o primeiro que falou.

— Está bom! — disse ele — não me entristeças, duque. Já estou tão lúgubre como um faraó do Egipto dentro da sua pirâmide. Trata de me alegrar.

— Ah! meu senhor, a alegria não é coisa que se possa encomendar. O rei, encolerizado, bateu com o punho sobre a banca.

— És um cabeçudo, um mau amigo! — exclamou ele. — Ah! e eu que ainda julgava não ter perdido tudo com a morte dos meus amigos de outrora...

— Ser-me-á lícito observar a Vossa Majestade que não anima muito o zelo dos de hoje?...

O rei fez nova pausa, durante a qual, em vez de responder, olhou com a mais significativa expressão para aquele homem que lhe devia a sua imensa fortuna. D'Epernon compreendeu-o.

— Vossa Majestade está arrependido dos benefícios que me têm feito — disse ele como verdadeiro gascão que era. — Pois eu não me arrependo de lhe ter dedicado o melhor afecto.

E o duque, que ainda se não tinha sentado, pegou no banco que o rei tinha mandado vir para ele.

— La Valette, La Vallete — disse Henrique com tristeza — tu, que és tão espirituoso, e poderias, com o teu humor folgazão, tornar-me alegre e satisfeito, estás-te divertindo em me magoares o coração. Tomo a Deus por testemunha em como não me referia no que disse a Quelus, que era tão valente; a Schomberg, que era tão bom rapaz; ou a Maugiron, que tanto zelava o meu bom nome. Não; nem mesmo a Bussy, que então vivia, Bussy que não era meu partidário, é verdade, mas que eu teria atraído a mim se não fora o receio de causar ciúmes aos outros; Bussy, que foi a causa involuntária da morte deles! Ah! a que ponto cheguei, que até tenho saudade dos meus inimigos! Não há dúvida que eram quatro valentes rapazes. Não te zangues por eu dizer isto. Bem sei, La Vallete, que não tens génio para andar às estocadas a toda a gente e a toda a hora do dia; mas, enfim, meu caro amigo, se bem que não és dado a aventuras, nem a brigas, és engraçado, esperto e de bom conselho, às vezes. Sabes toda a minha vida, como sabia aqueloutro amigo mais humilde, com o qual nunca tive um único instante de aborrecimento.

— De quem fala Vossa Majestade? — perguntou o duque.

— Devias parecer-te com ele, d'Epernon.

— Mas primeiro preciso saber quem é esse de quem Vossa Majestade tem saudades.

— Oh, pobre Chicot! onde estarás tu? D'Epernon levantou-se escandalizado.

— Que fazes?

— Vejo que Vossa Majestade está hoje com boa memória; mas digo, na verdade, que o resultado nem para todos é agradável.

— Por que motivo?

— Porque Vossa Majestade, sem reparar talvez, está-me comparando com o Sr. Chicot, e tal comparação não é muito lisonjeira para mim.

— Não tens razão, d'Epernon. Eu só posso comparar com Chicot um homem que eu estime, e que me estime. Aquele sim, era um firme e engenhoso servidor.

Henrique soltou um profundo suspiro.

— Penso que não foi por me parecer com Chicot que Vossa Majestade me fez duque e par... — disse d'Epernon.

— Está bom, nada de recriminações — replicou o rei com um sorriso tão malicioso que o gascão, apesar de toda a sua astúcia e impudência, sentiu mais aquele tímido sarcasmo do que teria sentido uma repreensão flagrante.

— Chicot era meu amigo — prosseguiu Henrique —, e fez-me falta; é quanto posso dizer. Oh! quando me lembro que já vi aí, nesse lugar onde estás, todos esses mancebos galantes, valentes e fiéis... e que acolá, naquela poltrona onde puseste o chapéu, adormeceu Chicot mais de cem vezes!...

— Pode ser que fosse um acto de muito espírito — interrompeu d'Epernon — mas, em todo o caso, era de pouco respeito.

— Infelizmente — continuou Henrique —, aquele meu querido amigo já hoje não tem espírito nem corpo.

E agitou tristemente o seu rosário de caveiras, que retiniu com som lúgubre como se as contas fossem realmente ossadas.

— E que é feito do seu Chicot? — perguntou d'Epernon.

— Morreu! — respondeu Henrique — morreu como têm morrido todos os meus amigos!

— Pois, meu Senhor — replicou o duque —, parece-me que deu um passo muito acertado em morrer; estava ficando velho, se bem que não tanto como as suas chocarrices, e ouvi dizer também que no número das suas virtudes não figurava a sobriedade. De que morreu o pobre diabo, meu Senhor?... de alguma indigestão?

— Chicot morreu de pesar, homem de mau coração! — replicou desabridamente o rei.

— Isso foi o que ele disse para o fazer rir pela última vez.

— Estás muito enganado, duque; ele nem quis entristecer-me com a notícia da sua doença, porque ele, que tanta vez me tinha visto chorar a perda dos meus amigos, sabia a pena que me havia de causar.

— Então foi a sua sombra que voltou a este mundo?...

— Prouvera a Deus que eu pudesse torná-lo a ver, ainda que fosse só a sua sombra! Não: foi o seu amigo, o estimável prior Gorenflot, quem me mandou tão triste notícia.

— Gorenflot? quem é esse homem?

— É um santo varão, que eu nomeei prior dos Domínicos, e que vive naquele belo convento que está fora da Porta de Santo António, em frente da Cruz Faubin ao pé de Bel-Esbat.

— Muito bem! algum reles pregador a quem Vossa Majestade deu um priorado de trinta mil libras de rendimento talvez...

— Passas a ser ímpio agora?

— Se assim pudesse distrair a Vossa Majestade, havia de fazer-lhe a diligência.

— Cala-te, duque! estás ofendendo a Deus.

— Bem ímpio era Chicot, e parece-me que nunca lhe levou a mal...

— Chicot viveu num tempo em que eu ainda tinha vontade de me rir às vezes.

— Então, Vossa Majestade faz mal em ter saudades dele.

— Porquê?

— Se já não tem vontade de rir de coisa alguma, Chicot, por muito alegre que fosse, de pouco lhe serviria.

— Era um homem bom para tudo, e não é só por causa do seu espírito que tenho saudade dele.

— Porque é então? Acho que não será por causa da cara que ele tinha, porque o Sr. Chicot era muito feio.

— Dava-me conselhos muito prudentes.

— Está bom! já vejo que se ele fosse vivo, Vossa Majestade havia de nomeá-lo guarda-selos, assim como deu um priorado ao tal masmarro.

— Basta, duque! peço-te que não zombes das pessoas que me têm mostrado afeição, e daquelas de quem eu também fui amigo. Chicot, depois da sua morte, tornou-se para mim sagrado como um amigo verdadeiro, e quando eu não estou com vontade de rir não quero que pessoa alguma se ria!

— Oh! acabou-se, Real Senhor; eu estou com tão pouca vontade de rir como Vossa Majestade. Dizia unicamente que ainda há pouco Vossa Majestade estava com saudades de Chicot por causa do seu humor jovial, e que me ordenava que o distraísse, enquanto que deseja agora que o entristeça... Parfandious! Oh! perdão, meu Senhor: esta maldita praga sempre me escapa...

— Bem, bem, agora já esfriei; agora já cheguei ao ponto em que tu me querias ver quando encetaste a conversação com ditos sinistros. Diz-me pois as notícias desagradáveis que trazes, D'Epernon; o rei nem por isso deixa de ter tanto ânimo como qualquer outro homem.

— Não duvido, meu Senhor.

— E ainda bem que assim é porque sou tão mal guardado que, se não me guardasse a mim mesmo, poder-me-iam matar dez vezes por dia.

— Do que muito folgariam certas pessoas que eu conheço.

— Para essas, duque, tenho eu as alabardas dos meus suíços.

— São muito curtas para alcançar ao longe.

— Para os que estão ao longe tenho os mosquetes dos meus arcabuzeiros.

— São instrumentos incómodos; para defender um peito real, há melhor ainda do que as alabardas e mosquetes: são os peitos valorosos.

— Era isso mesmo que eu possuía noutro tempo — disse Henrique —, e que nobres corações palpitavam naqueles peitos! Nunca pessoa alguma se teria atrevido a aproximar-se de mim como inimigo no tempo em que existiam aqueles baluartes vivos, chamados Quélus, Schomberg, Saint-Luc, Maugiron e Saint-Mégrin.

— É então essa a perda que Vossa Majestade lamenta? — perguntou d'Epernon, que esperava tomar a sua desforra colhendo o rei em flagrante delito de egoísmo.

— O que lamento primeiro que tudo, é a perda dos corações que batiam dentro daqueles peitos — respondeu Henrique.

— Senhor — disse d'Epernon —, se a tanto me atrevesse, observaria a Vossa Majestade que sou gascão, isto é, previdente e industrioso; que procuro suprir pelo engenho as qualidades que a natureza me negou numa palavra: que faço quanto posso, ou, por outra, quanto devo, e que por consequência estou no meu direito dizendo: o futuro será o que Deus quiser.

— Ah! assim é que tu sais das dificuldades; vens aqui fazer um grande espalhafato com Os perigos verdadeiros ou imaginários a que ando exposto, e depois de conseguires assustar-me, resumes tudo nestas palavras: «O futuro será o que Deus quiser»!... Muito obrigado, duque.

— Visto isso, Vossa Majestade sempre está disposto a acreditar que existe algum perigo?

— Pode ser, não duvidarei que existe o perigo se me provares que tens meios de lhe fazer frente.

— Parece-me que tenho.

— Tens, deveras?

— Tenho, Real Senhor.

Bem sei. Tens os teus recursos e subtilezas, minha raposa.

— Não são tanto subtilezas como Vossa Majestade julga.

— Então diz lá.

— Vossa Majestade consente em se levantar daí?

— Para quê?

— Para vir comigo até à parte antiga do Louvre.

— Para a banda da Rua l'Astruce?

— Exactamente; no sítio onde se estava começando a edificar um reposte, cujo plano fou posto de parte desde que Vossa Majestade teimou em não querer possuir outros trastes senão genuflexórios e rosários de caveiras.

— A estas horas?

— Estão dando dez horas no relógio do Louvre; parece-me que ainda não é muito tarde.

— Que hei-de eu ver nos tais edifícios?

— Se eu o disser agora a Vossa Majestade é quanto bastará para não querer vir...

— É tão longe, duque!

— Chega-se lá em cinco minutos, meu Senhor, indo pelas galerias.

— DEpernon, dEpernon... se isso que queres mostrar-me não for coisa muito curiosa, toma sentido!...

— Assevero-lhe, meu Senhor, que é muito curioso.

— Vamos pois — disse o rei, levantando-se a custo.

O duque pôs a capa e deu a espada ao rei, e depois, agarrando num castiçal com uma vela de cera, foi caminhando pela galeria adiante de Sua Majestade Cristianíssima, que o seguia arrastando os pés.

 

         O DORMITÓRIO

Conquanto não fossem ainda senão dez horas, conforme tinha dito d'Epernon, reinava já no Louvre um silêncio de morte; o vento soprava com tamanha violência, que o único som que se ouvia era o dos passos pesados das sentinelas e o ranger das correntes das pontes levadiças.

Em menos de cinco minutos, os dois observadores chegaram efectivamente aos edifícios da Rua l'Astruce, que tinha ficado com aquele nome mesmo depois da edificação de S. Germano l'Auxerrois.

O duque tirou uma chave da algibeira, desceu alguns degraus, atravessou um patiozinho e abriu uma porta construída em arco e encoberta por alguns arbustos espinhosos, mal podendo abrir-se devido às grandes ervas que a obstruíam na parte inferior.

Andou uns dez passos por um caminho escuro, no fim do qual entrou num pátio interno que tinha a um dos ângulos uma escada de pedra.

A escada ia ter a um grande quarto ou, para melhor dizer, a um imenso corredor.

D'Epernon também levava consigo a chave desse corredor.

Abriu a porta devagarinho, e fez notar a Henrique o singular arranjo da casa, que logo dava na vista apenas nela se entrava.

Guarneciam o quarto quarenta e cinco leitos, em cada um dos quais estava um homem a dormir.

O rei observou os leitos e os indivíduos que os ocupavam, e depois, voltando-se para o duque com certa curiosidade misturada de receio:

— Bem! — perguntou ele — que gente é esta que está aqui dormindo?

— É gente que ainda dorme descansada esta noite, mas que de amanhã em diante não há-de dormir senão por turnos, quando a cada um couber sua vez.

— E por que motivo hão-de deixar de dormir?

— Para que Vossa Majestade possa dormir sossegado.

— Explica-te melhor: todos estes homens são teus amigos, então?

— Foram escolhidos por mim, Real Senhor, extremados como o trigo na eira. São guardas 'ntrépidos que acompanharão a Vossa Majestade como a sua sombra; e como são todos fidalgos, e podem por consequência entrar em toda a parte onde Vossa Majestade entrar, não deixarão nunca aproximar de Vossa Majestade pessoa alguma a menor distância que o comprimento de uma espada.

— Foste tu que inventaste isso, d'Epernon?

— Sim, meu Senhor, fui eu unicamente.

— Hão-de rir-se todos da tua ideia.

— Não se hão-de rir, hão-de ter medo.

— São então terríveis os teus fidalgos?

— Meu Senhor, é uma matilha que Vossa Majestade poderá lançar a qualquer caça; e como só hão-de conhecer Vossa Majestade, e só com Vossa Majestade hão-de ter relações, só de Vossa Majestade receberão luz, calor e vida.

— Porém é uma despesa capaz de me arruinar...

— Mas já algum rei se arruinou?...

— O dinheiro nem já me chega para pagar aos suíços!

— Examine atentamente estes recém-chegados, Real Senhor, e diga-me se lhe parecem homens capazes de causar grande despesa.

O rei lançou a vista pelo comprido dormitório, que apresentava um aspecto muito digno de atenção, mesmo para quem, como ele, estava acostumado às divisões regulares da arquitectura.

A sala era comprida, e estava cortada em toda a sua extensão por um tabique, no qual o construtor tinha colocado quarenta e cinco quartos, que figuravam como outras tantas capelas ao lado umas das outras, e com as frentes para a coxia, em cuja extremidade estava o rei e d'Epernon.

Uma porta, que tinha sido aberta ao fundo de cada um dos quartos, dava saída para outra sala.

O resultado desta engenhosa distribuição era ter cada um dos fidalgos a sua vida pública e a sua vida privada.

Para o público, tinha a sala; se queria estar com a família, recolhia-se ao seu quarto. Cada um dos quartos tinha uma porta que deitava para uma varanda a todo o comprimento do edifício.

O rei não percebeu, a princípio, a subtileza daquelas distinções.

— Por que razão me quiseste mostrar esta gente assim dormindo nas suas camas? — perguntou o rei.

— Foi porque julguei, Real Senhor, que assim poderia Vossa Majestade passar-lhes revista mais facilmente; e demais, estes quartos, que são todos numerados, têm uma outra vantagem, que é a de transmitirem o número à pessoa que os ocupa; desta maneira, cada um deles será, segundo for preciso, um homem ou um algarismo.

— Não foi mal imaginado — disse o rei —, e especialmente se só nós conservarmos a chave de toda essa aritmética. Porém estes desgraçados são capazes de morrer abafados com a continuação de viverem numa tal cafua!...

— Se for do agrado de Vossa Majestade, daremos uma volta e entraremos no quarto de cada um deles.

— Por Deus! que fornecimento arranjaste para o meu guarda-roupa, dEpernon! — disse o rei, correndo a vista pelas cadeiras, carregadas do espólio dos dormentes. — Muito há-de rir todo Paris se eu mandar guardar os farrapos destes tafuis...

— É forçoso confessar — respondeu o duque — que os meus quarenta e cinco cavalheiros não trajam com muita sumptuosidade; entretanto, Real Senhor, se todos eles fossem duques e pares...

— Sim, bem entendo... — disse o rei sorrindo — custar-me-ia mais caro do que hão-de custar-me assim.

— Não há dúvida alguma, meu Senhor.

— Quanto me custarão eles? vejamos. Talvez assim me resolva; porque, na verdade d'Epernon, as caras não me tentam muito...

— Meu Senhor, eu bem sei que eles estão um tanto magros e crestados pelo sol das províncias do Sul, porém também eu vinha magro e queimado do sol quando cheguei a Paris; hão-de engordar e tornar-se brancos como eu.

— Hum!... — exclamou Henrique olhando obliquamente para d'Epernon. E depois de uma pausa:

— Sabes que mais? Os teus fidalgos ressonam que nem cantores de igreja! — disse o rei.

— Meu Senhor, não os julgue mal à primeira vista; jantaram hoje lautamente.

— Olha, aqui está um falando a sonhar — disse o rei, aplicando o ouvido com curiosidade.

— Deveras?

— Sim; o que está ele dizendo? Ouve.

E com efeito, um dos fidalgos, com a cabeça e os braços dependurados para fora da cama e a boca semiaberta, estava balbuciando algumas palavras acompanhadas de melancólico sorriso.

O rei chegou-se a ele nos bicos dos pés.

— Se deveras és mulher — dizia ele —, foge! foge!

— Ah! ah! — exclamou Henrique — pelo que estou ouvindo este é dado ao galanteio.

— Que tal lhe parece ele, meu Senhor?

— A cara não me desagrada. D'Epernon aproximou o castiçal.

— E demais — acrescentou o rei —, tem as mãos brancas e a barba bem tratada.

— É Ernauton de Carmainges, um guapo mancebo que há-de ser feliz na sua carreira.

— O pobre diabo deixou lá na terra algum namoro que estava em princípio!

— Para não ter amor a mais ninguém senão ao seu rei, meu Senhor; havemos de lhe agradecer o sacrifício.

— Oh! oh! que figurão tão esquipático que está em seguida a este... Como se chama ele?...

— Ernauton de Carmainges.

— Ah! sim. Safa! que camisa essa que tem o número 31! Parece um saco de penitente.

— É de Chalabre. Posso asseverar-lhe, meu Senhor, que se ele arruinar Vossa Majestade não há-de ser por certo sem enriquecer um pouco!

— E aqueloutro de rosto sombrio, que não parece estar sonhando com amores?

— Que número, Real Senhor?

— O número 12.

— Boa espada, coração de bronze, homem de recursos; é Saint-Maline.

— Digo-te agora, que já reflecti, que a ideia não foi má, La Valette.

— Estou certo disso; e julgue Vossa Majestade o efeito que hão-de produzir estes novos cães de guarda acompanhando-o como a sombra acompanha o corpo; estes molossos, que ninguém ainda viu, e que, logo que seja necessário, hão-de aparecer em público de um modo que nos há-de dar honra a todos.

— Sim, sim, tens razão; foi boa ideia. Mas espera lá...

— Que é?

— Penso que eles não me hão-de seguir como a minha sombra da maneira por que estão vestidos... A minha figura é airosa, e não quero que a sua sombra, ou antes, as suas sombras, a desacreditem.

— Ah! tornamos, meu Senhor, à questão da despesa.

— Tencionavas porventura evitá-la?

— Não, pelo contrário, porque é essa a questão fundamental; porém, a respeito da despesa, ainda me ocorreu outra ideia.

— D'Epernon! d'Epernon!... — exclamou o rei.

— Que quer, Senhor, o desejo de agradar a Vossa Majestade torna a minha imaginação fecunda.

— Vamos lá, diz qual é a ideia.

— Pois bem! se fosse coisa que estivesse na minha mão, cada um destes fidalgos havia de achar amanhã pela manhã em cima da cadeira em que pôs o fato, uma bolsa de mil escudos como paga do primeiro semestre.

— Mil escudos pelo primeiro semestre?! seis mil libras por ano?! ora vamos! estás doido, duque! um regimento completo não me custaria essa soma.

— Esqueceu-se, meu Senhor, de que eles têm que ser as sombras de Vossa Majestade; e conforme há pouco disse, deseja que as suas sombras andem bem vestidas. Cada um deles há-de tirar, portanto, dos mil escudos, a soma precisa para se vestir e armar de maneira que lhe dê honra; e a respeito da palavra honra, pode-se largar a rédea aos gascões. Ora pois, calculando em mil e quinhentas libras o importe do armamento e vestuário, ficar-lhe-iam quatro mil e quinhentas libras pelo primeiro ano, três mil pelo segundo, e por todos os mais.

— Isso é mais aceitável.

— E Vossa Majestade aceita?

— Não acho senão uma dificuldade, duque...

— Qual é?

— A falta de dinheiro.

— A falta de dinheiro?

— Por certo! Tu deves saber melhor do que ninguém que esta razão que te dou não é desculpa, pois ainda não conseguiste cobrar a tua ordem de pagamento.

— Meu Senhor, eu já achei um meio.

— De obter dinheiro?

— Para pagar à sua guarda, meu Senhor.

«Alguma das suas costumadas velhacarias» pensou o rei, olhando de revés para d'Epernon.

E logo, em voz alta:

— Vejamos esse meio.

— Faz seis meses hoje mesmo que se promulgou um decreto a respeito dos direitos da caça e da pesca...

— Talvez.

— A cobrança do primeiro semestre produziu sessenta e cinco mil escudos, que o recebedor ia pôr em caixa esta manhã, quando eu o avisei que não fizesse tal; de modo que, em vez de entrar no Tesouro com o dinheiro do imposto, conserva-o à disposição de Vossa Majestade.

— Eu tinha destinado esse dinheiro para as despesas da guerra, duque.

— É essa exactamente a aplicação que passa a ter, meu Senhor. O primeiro requisito para sustentar uma guerra é ter homens; o principal interesse do reino é a defesa e segurança do rei; estes requisitos todos satisfazem-se pagando à guarda de el-rei.

— A razão não é má; porém pela tua conta, vejo que não se empregam mais de quarenta e cinco mil escudos; ainda me restarão vinte mil para os meus regimentos.

— Peço perdão, meu Senhor: já dispus desses vinte mil escudos, se Vossa Majestade não determinar o contrário.

— Ah dispusestes deles?

— Sim, meu Senhor; recebê-los-ei por conta da minha ordem de pagamento.

— Disso estava eu certo — disse o rei. — Dás-me uma guarda, para à sombra dela haveres o teu dinheiro.

— Oh! que lembrança, meu Senhor...

— Mas porque foi que escolheste essa conta dos quarenta e cinco? — perguntou o rei passando a outra ideia.

— Eu lhe digo, meu Senhor: o número três é o primordial e divino; e demais, é cómodo. Por exemplo: quando um cavaleiro possui três cavalos, nunca está a pé; o segundo substitui o primeiro quando está cansado, e ainda fica um terceiro para suprir a falta do segundo, dado o caso de ser ferido ou adoecer. Terá pois Vossa Majestade sempre três vezes quinze fidalgos: quinze estarão de serviço, e trinta de folga. Cada serviço será de doze horas; terá sempre cinco deles à direita, cinco à esquerda, dois na frente e três na retaguarda. E que venham atacá-lo, tendo assim vigilante uma tal guarda.

— Sim senhor! a coisa está habilmente combinada, duque, e dou-te os parabéns.

— Olhe para eles, meu Senhor: produzem na verdade muito bom efeito.

— Sim, depois de vestidos não hão-de parecer mal.

— E parece-lhe agora, Real Senhor, que lhe posso falar dos perigos de que está ameaçado?

— Não digo o contrário.

— Então sempre eu tinha razão...

— Tinhas.

— Tenho a certeza de que esta ideia nunca teria ocorrido ao Sr. de Joyeuse.

— D'Epernon! dEpernon! olha que é falta de caridade dizer mal de quem está ausente.

— Parfandious! E Vossa Majestade não diz mal de quem está presente, meu Senhor?...

— Joyeuse faz-me sempre companhia. Esteve hoje na Greve comigo.

— Pois bem! e eu estava aqui, Real Senhor, e, como Vossa Majestade vê, não perdi o tempo.

— Obrigado, La Valette.

— Ah! é verdade, meu Senhor... — disse d'Epernon depois de um instante de silêncio — tinha uma mercê a pedir a Vossa Majestade...

— Com efeito, duque, já me ia admirando que não me pedisses coisa alguma.

— Vossa Majestade está muito severo hoje!

— Não é isso, meu amigo, não me entendeste, ou por outra: entendeste mal — disse o rei, satisfeito por se ter vingado com a zombaria. — Queria dizer que, tendo-me prestado um serviço, tinhas direito a pedir-me alguma mercê; pede.

— Então já o caso muda de figura, meu Senhor. E demais, o que tenho a honra de solicitar de Vossa Majestade é unicamente um cargo.

— Um cargo?! tu, coronel-general da minha infantaria, solicitas mais outro cargo?... isso vai-te esmagar.

— Para servir Vossa Majestade tenho força como Sansão, e era capaz de aguentar com o Céu e a Terra!

— Pede pois — disse o rei com um suspiro.

— Desejo que Vossa Majestade me nomeie comandante destes quarenta e cinco fidalgos.

— Pois quê!? — disse o rei estupefacto — queres andar adiante de mim, ou na minha retaguarda?! Queres expor a vida por esse modo?! Queres ser capitão da guarda real?...

— Nada, não, meu Senhor.

— Ora ainda bem; que queres então? fala.

— Quero que estes guardas, meus patrícios, entendam melhor a minha voz de comando do que a de outro qualquer; porém, não hei-de ir adiante nem mesmo atrás deles; hei-de ter Para isso um segundo-eu.

«Pelo que vejo ainda a coisa não pára aqui, pensou Henrique abanando a cabeça; o demónio do homem não dá ponto sem nó.» E logo, em voz alta: — Pois bem, concedo: serás o comandante.

— Em segredo?

— Sim. Mas quem há-de ser oficialmente o chefe dos meus quarenta e cinco?

— O pequeno Loignac. -

— Ah! ainda bem.

— Agrada a escolha a Vossa Majestade?

— Muito.

— Está o negócio resolvido, Real Senhor?

— Sim, mas...

— Mas o quê?

— Que funções desempenha o Loignac junto de ti?

— É o meu d'Epernon, Real Senhor.

— Então não te há-de custar pouco dinheiro — resmungou o rei.

— Que diz Vossa Majestade?

— Digo que aceito.

— Meu Senhor, vou então a casa do recebedor particular buscar as quarenta e cinco bolsas.

— Esta noite?

— Não concordámos que é preciso que os nossos homens as encontrem amanhã em cima das cadeiras?...

— É verdade. Vai, que eu volto para o meu quarto.

— Vai satisfeito, meu Senhor?

— Bastante.

— Em todo o caso, fica bem guardado.

— Sim, por gente que dorme com os punhos fechados.

— Hão-de velar amanhã, meu Senhor.

D'Epernon acompanhou Henrique até à porta da galeria, e deixou-o, dizendo consigo: «Se bem que não sou rei, tenho uma guarda como se o fosse, e não me custa coisa alguma, parfandious!»

 

         A SOMBRA DE CHICOT

O rei, conforme dissemos há apenas um instante, nunca se enganava a respeito dos amigos. Conhecia-lhes os defeitos e as qualidades, e lia, ele, rei da Terra, tão exactamente no fundo dos seus corações como poderia ler o Rei do Céu.

Percebera logo qual era o fim que d'Epernon tinha em vista; porém, como não esperava receber coisa alguma em troca do que havia de dar, e recebia, pelo contrário, quarenta e cinco mocetões em troca de sessenta e cinco mil escudos, pareceu-lhe um achado a ideia do gascão. E demais, era uma novidade. Um pobre rei de França nem sempre se acha abundantemente provido desta fazenda, que tão rara é mesmo para súbditos; especialmente o rei Henrique III, o qual, depois de ter feito as suas procissões, penteado os cães, alinhado as caveiras e soltado uma enorme quantidade de suspiros, nada mais tinha que fazer.

A guarda criada por d'Epernon agradou ao rei, mormente porque havia de dar que falar, e oferecia-lhe por consequência uma ocasião de ler nas fisionomias alguma coisa diferente do que nelas via todos os dias, desde que tinha regressado da Polónia, havia dez anos.

Pouco a pouco, e à medida que se aproximava da câmara onde o esperava o porteiro, que bastante havia cismado com aquela excursão nocturna e insólita, ia Henrique desenvolvendo, lá consigo, as vantagens da instituição dos quarenta e cinco, e, como todos os homens de espírito fraco ou debilitado, começava a ver com mais clareza as ideias que d'Epernon emitira na conversação que acabavam de ter.

«Afinal de contas, pensou o rei, aqueles homens serão talvez muito valentes, e pode ser que sejam muito fiéis; alguns têm caras simpáticas, outros têm carantonhas de poucos amigos: assim convém para contentar todos os gostos... E não se pode duvidar de que há-de produzir bom efeito uma comitiva de quarenta e cinco espadas sempre prontas a saírem das bainhas.» Este último elo do seu pensamento prendia com a lembrança daquelas outras espadas tão dedicadas cuja perda ele lastimava tão amargamente em público e ainda mais amargamente em particular, e o resultado foi ficar Henrique submergido naquela tristeza profunda a que se entregava com tanta frequência na época a que chegámos, e que se poderia chamar o seu estado normal. Os tempos tão duros, os homens tão maus, as coroas tão mal seguras nas frontes dos reis, tudo isto lhe fazia sentir novamente a necessidade de morrer ou de se distrair, para escapar um instante à invasão da moléstia que, então, os Ingleses, nossos mestres no assunto Melancolia, tinham baptizado com o nome de spleen.

Procurou com os olhos Joyeuse, e como não o visse em parte alguma, perguntou por ele.

— O Senhor Duque ainda não voltou — respondeu o porteiro da câmara.

— Está bem. Chame os meus criados de quarto e retire-se.

— Senhor, o quarto de Vossa Majestade está pronto, e Sua Majestade a Rainha mandou saber as ordens de el-rei.

Henrique fingiu não ter ouvido.

— Direi a Sua Majestade — perguntou timidamente o porteiro — que mande aprontar os travesseiros?

— Não — disse Henrique —, não. Tenho as minhas devoções; depois preciso trabalhar... e além disso estou adoentado: quero dormir só.

O porteiro inclinou-se.

— Ah! é verdade — disse Henrique chamando-o —, leve à rainha estes confeitos do] Oriente que fazem sono.

E entregou ao porteiro a caixinha dos confeitos.

Em seguida o rei entrou para o quarto, que os criados já tinham aprontado.

Chegado ali, Henrique deitou os olhos para todos os acessórios tão exóticos e minuciosos que serviam para aquelas cenas extravagantes de toucador, a que ele se entregava outrora para ser o homem mais galante da cristandade, já que não podia ser o maior rei do mundo.

Mas agora nada lhe despertava já o desejo daquele trabalho forçado a que se sujeitava noutro tempo de tão boa vontade.

Toda a parte mulherenga daquela organização hermafrodita tinha desaparecido. Henrique estava como as velhas que foram namoradeiras e que trocam por fim o espelho por um livro de missa; quase lhe causavam horror os objectos que ele mais havia estimado antigamente.

Luvas perfumadas e untadas, máscaras de linho fino impregnadas de composições odoríferas, combinações químicas para anelar o cabelo, para tingir a barba de preto, para tornar as orelhas vermelhas, e os olhos mais brilhantes, tudo desprezava agora.

— Abram a cama! — disse ele suspirando.

Dois dos criados despiram-no, enfiaram-lhe umas ceroulas de lã fina da Frísia e, levantando-o com cautela, meteram-no entre os lençóis.

— O leitor de Sua Majestade! — gritou uma voz.

Henrique, sendo sujeito a compridas e cruéis insónias, procurava adormecer por meio da leitura, e agora só a língua polaca era capaz de fazer o milagre, enquanto noutro tempo, isto é, primitivamente, bastava-lhe o francês.

— Não careço de pessoa alguma — disse Henrique —, nada de leitor; que se recolha para o quarto e leia lá algumas rezas em minha intenção. Contudo, se o Sr. de Joyeuse voltar ao palácio, digam-lhe que venha aqui.

— E se voltar muito tarde, meu Senhor?

— Infelizmente — disse Henrique — sempre volta tarde; mas a qualquer hora que chegue, ouviram? Conduzam-no imediatamente à minha presença.

Os criados apagaram as velas de cera, acenderam junto do fogão uma lâmpada cheia de óleo aromatizado que dava uma luz pálida e azulada, espécie de recreação fantasmagórica de que o rei se mostrava muito apaixonado desde que se tornara a possuir das suas ideias sepulcrais e finalmente saíram do quarto nos bicos dos pés.

Henrique, apesar de valente na presença de um perigo verdadeiro, tinha todas as fraquezas das crianças e das mulheres. Temia as aparições, tinha medo de fantasmas, e entretanto este sentimento distraía-o. Quando tinha medo sentia menos aborrecimento, semelhante nisso àquele preso que, já enfastiado da ociosidade de um comprido cativeiro, respondia às pessoas que lhe participavam que ia sofrer tratos:

— Está bom, sempre passarei assim uns instantes mais divertidos.

Entretanto, com a continuação de seguir os reflexos da lâmpada nas paredes e de sondar com o olhar os ângulos mais escuros do quarto, para procurar descobrir o menor rumor que lhe pudesse denunciar a entrada misteriosa de uma sombra, os olhos de Henrique, que estava cansado do espectáculo do dia e do passeio da noite, foram-se fechando, e em breve adormeceu, ou, para melhor dizer, entorpeceu no meio daquele sossego e solidão.

Porém, o descanso de Henrique não era de muita duração, minado como andava por aquela febre lenta que lhe gastava a vida durante o sono como durante a vigília. Julgou ouvir bulha no quarto, e acordou.

— Joyeuse — perguntou ele —, és tu? Ninguém respondeu.

A chama da lâmpada azulada tinha enfraquecido; apenas projectava no tecto de carvalho esculpido um círculo baço, que tingia de verde o ouro das molduras.

«Só! ainda só! murmurou o rei. Ah! bem diz o profeta: A majestade devia estar sempre a suspirar. Melhor fora se dissesse: Suspira continuamente.»

E depois de um instante de pausa:

— Meu Deus! — disse ele à maneira de oração — dai-me forças para estar sempre só durante a minha vida, como hei-de estar depois da minha morte!

— Ah! ah! só, depois da tua morte, isso não está certo — respondeu uma voz estridente, que vibrou com uma percussão metálica a alguns passos do leito —, e os vermes não entram em linha de conta?...

O rei, espavorido, sentou-se na cama, examinando com ansiedade todos os móveis do quarto.

— Oh! esta voz é minha conhecida — murmurou ele.

— Ainda bem! — replicou a voz.

Um suor frio humedeceu a testa do rei.

— Era capaz de jurar que é a voz de Chicot... — suspirou ele.

— Parece que acertaste, Henrique, parece que acertaste — respondeu a voz.

Henrique, então, deitando uma perna para fora da cama, viu a pequena distância da chaminé, naquela mesma cadeira de braços que tinha mostrado, havia uma hora, a d'Epernon, uma cabeça, que o lume do fogão iluminava com um daqueles reflexos fouveiros semelhantes aos que nos painéis de Rembrandt iluminam uma personagem que apenas se percebe à primeira vista.

O reflexo dava também no braço da poltrona a que estava encostado o braço da personagem, mais abaixo nos joelhos ossudos e salientes, e finalmente no peito do pé, que formava um ângulo recto com uma perna nervosa, magra e desmarcadamente comprida.

— Deus seja comigo! — exclamou Henrique — é a sombra de Chicot!

— Ah! meu pobre Henriquinho — disse a voz —, és ainda tão pateta como dantes?

— Que quer isso dizer?

— As sombras não falam, toleirão, pois não têm corpo, e por consequência não têm língua — replicou o vulto que estava sentado na poltrona.

— Então, nesse caso, és realmente Chicot? — exclamou o rei, não cabendo em si de contente.

— Nada quero dizer positivamente a esse respeito; veremos, veremos mais tarde o que sou.

— Pois quê!? não morreste, meu pobre Chicot?!...

— Ora muito bem! aí estás gritando como uma águia; pois é o contrário do que dizes-estou morto, cem vezes morto!

— Chicot, meu único amigo!

— Tens pelo menos uma grande vantagem sobre mim; dizes sempre a mesma coisa. Vejo que não estás mudado.

— Porém tu, tu... — disse o rei com tristeza — estás mudado, Chicot?...

— Persuado-me que sim.

— Chicot, meu amigo — disse o rei pondo ambos os pés no chão —, para que me abandonaste? Diz.

— Porque estou morto.

— Mas ainda há pouco dizias que não estavas!...

— E ainda o repito.

— Que significa essa contradição?

— Esta contradição significa, Henrique, que morri para uns e vivo para outros.

— Como estás tu para mim?

— Para ti estou morto.

— Por que motivo estás morto para mim?

— É muito fácil de perceber; ouve-me...

— Diz.

— Tu nada podes em tua casa.

— Como assim!?

— Não podes proteger as pessoas que te servem.

— Sr. Chicot!...

— Não te arrenegues, quando não, arrenego-me eu também!

— Sim, tens razão — disse o rei, receando que se desvanecesse a sombra de Chicot. — Fala, meu amigo, fala.

— Pois bem! lembras-te de que eu tinha umas contas a ajustar com o Sr. de Maiena?...

— Perfeitamente.

— Ajustei-as bem; dei uma sova sem igual naquele capitão; muito bem; ele mandou-me procurar para me enforcar, e tu, com quem eu contava para me defender daquele herói, abandonaste-me; em vez de acabares com ele por uma vez, reconciliaste-te com ele. Que fiz então? declarei que estava morto e enterrado por intervenção do meu amigo Gorenflot; de forma que, de então para cá, o Sr. de Maiena, que andava à minha procura, não pensou mais em mim.

— Deste prova de um ânimo bem cruel, Chicot! Não sabias o pesar que me havia de causar a tua morte?... Responde.

— É verdade, dei prova de ânimo, mas não houve crueldade alguma da minha parte. Nunca vivi tão sossegadamente como desde que toda a gente se persuadiu de que já não existo.

— Chicot! Chicot! meu amigo... — exclamou o rei — assustas-me, turva-se-me a cabeça!

— Ora adeus! Só hoje é que reparaste nisso?...

— Não sei o que deva pensar.

— Contudo, é preciso fixares as tuas ideias: que pensas tu? vejamos!

— Eu te digo: penso que morreste, e que o que estou vendo é uma alma do outro mundo. Ocultas-me, pelo menos, parte da verdade, mas daqui a um instante, à imitação dos espectros da Antiguidade, vais começar a dizer-me coisas terríveis.

— Ah! lá quanto a isso, não digo que não. Apronta-te, pois, pobre rei.

— Sim, sim — continuou Henrique —, confessa, entretanto, que és uma sombra animada por Deus...

— Confessarei o que quiseres.

— Porque, enfim, se assim não fosse, como terias vindo até aqui por esses corredores cheios de guardas? Como te acharias aqui na minha câmara, ao pé de mim? Pois entra quem quer agora no Louvre?... Não há já quem guarde a pessoa do rei?

E Henrique, entregando-se todo ao horror imaginário que acabava de se apoderar dele, tornou a meter-se na cama, dispondo-se a cobrir a cabeça com os lençóis.

— Lá, lá, lá! — disse Chicot, com um acento que encobria algum dó e muita simpatia — ora não te esquentes: basta que me toques para te convenceres.

— Não és um emissário da vingança?

— Com a breca! então eu tenho porventura chavelhos como Satanás, ou uma espada chamejante como o arcanjo Miguel?...

— Mas como entraste tu?

— Ainda teimas?...

— Sem dúvida.

— Pois sabe que ainda conservo a minha chave, aquela que tu me deste e que eu trazia ao pescoço para fazer surriada aos teus camaristas, que não podiam usar as deles senão penduradas nas costas; com essa chave entra-se aqui, e foi assim que entrei.

— Vieste pela porta principal?

— Está claro.

— Mas por que motivo vieste hoje, e não ontem, ou em qualquer outro dia?

— Essa pergunta é muito natural. Eu te digo.

Henrique deitou os lençóis para baixo, e com um acento de ingenuidade semelhante ao de uma criança:

— Peço-te que não me digas coisas desagradáveis, Chicot — replicou ele. — Ah! se tu soubesses o prazer que sinto em ouvir a tua voz!...

— Hei-de dizer-te a verdade e mais nada: se a verdade te parecer desagradável, a culpa não será minha.

— Tu não dizes a sério que estás com medo do Sr. de Maiena, pois não? — disse o rei.

— Muito a sério, pelo contrário. Ouve: o Sr. de Maiena mandou-me dar cinquenta pauladas; eu dei-lhe cem pancadas com a bainha da espada; se supusermos que duas pancadas de bainha de espada equivalem a uma paulada, estamos em paz; mas se calcularmos que uma pancada de bainha de espada vale tanto como uma paulada, e pode ser que seja essa também a opinião do Sr. de Maiena, então ainda me restam cinquenta pauladas, ou cinquenta pancadas de bainha de espada: ora, como eu receio muito semelhantes devedores, nem teria vindo aqui, mesmo que soubesse que precisavas muito de mim, se não me constasse que o Sr. de Maiena está em Soissons.

— Pois bem, Chicot! sendo esse o caso, e visto teres voltado aqui por minha causa, tomo-te debaixo da minha protecção, e quero...

— Que queres tu? — interrompeu Chicot. — Toma sentido, Henriquinho: todas as vezes que proferes as palavras «eu quero» estás para dizer alguma asneira.

— Quero que ressuscites, que saias à luz do dia.

— Aí está! não te dizia eu?...

— Hei-de defender-te.

— Sim.

— Chicot, dou-te a minha palavra de rei!

— Não é preciso, tenho coisa melhor.

— Que é?

— Tenho a minha toca, e lá me conservarei.

— Hei-de defender-te, já disse! — exclamou energicamente o rei, pondo-se de pé sobre o estrado do leito.

— Henrique — disse Chicot —, olha que te constipas! Peço-te por favor que tornes

a deitar-te.

— Tens razão... mas é que me fazes perder a paciência! — disse o rei, tornando a enfiar-se entre os lençóis. — Pois quê!? quando eu, Henrique de Valois, rei de França, acho que bastam para me defender os suíços, os escoceses, a guarda francesa, e os meus fidalgos, o Sr. Chicot não se julga seguro a meu lado?!...

— Ora vamos!... Ouve-me: que disseste tu?... Tens os suíços...

— Comandados por Tocquenot.

— Bom. Tens os escoceses...

— Comandados por Larchant.

— Muito bem. Tens a guarda francesa...

— Comandada por Crillon.

— Perfeitamente. E além de toda essa gente?

— E além de todos estes?... Não sei se devo dizer-te mais...

— Pois não digas; quem to pergunta?...

— Tenho mais uma novidade, Chicot...

— Uma novidade?

— Sim. Imagina quarenta e cinco valentes fidalgos...

— Quarenta e cinco?! que estás tu a dizer?...

— Quarenta e cinco fidalgos.

— Onde os achaste tu? não foi em Paris, por certo.

— Não, mas chegaram hoje mesmo a Paris.

— Ah!... agora entendo! — exclamou Chicot, iluminado por uma ideia súbita. —Já sei quem são os teus cavalheiros.

— Deveras?...

— Quarenta e cinco mendigos, a que só faltam as sacolas.

— Não o nego.

— Uns figurões, que são muito capazes de fazer morrer a gente de riso!

— Chicot, olha que há entre eles alguns de bela aparência...

— Enfim: gascões todos eles, como o coronel-general da tua infantaria.

— E como tu, Chicot...

— Oh! comigo, Henrique, muda o caso de figura! deixei de ser gascão desde que abandonei a Gasconha.

— Enquanto eles...

— São inteiramente às avessas de mim: não eram gascões na Gasconha, e aqui são duas vezes gascões.

— Não importa: tenho neles quarenta e cinco espadas temíveis.

— Comandadas por uma quadragésima sexta espada temível, a que chamam d'Epernon.

— Não é bem assim.

— Quem é pois o comandante?

— É o Loignac.

— Está bem!

— Aí vais tu dizer mal do Loignac!...

— Não senhor, Deus me livre de tal! é meu primo em vigésimo sétimo grau.

— Vocês, os gascões, são todos parentes.

— É completamente ao contrário de vocês, os Valois, que nunca se consideram parentes uns dos outros.

— Afinal, não me respondes...

— A quê?

— Que dizes dos meus quarenta e cinco?

— E é com eles que tu contas para te defenderes?

— Sim, por Deus! sim — exclamou Henrique com um gesto de enfado.

Chicot, ou a sua sombra, pois, como não temos a tal respeito informações mais exactas do que tinha o rei, não nos é dado poder esclarecer as dúvidas do leitor, Chicot, dizíamos, deixou-se escorregar pela poltrona abaixo, arrumando ao mesmo tempo os tacões à borda do assento, de modo que os joelhos ficaram formando o vértice de um ângulo mais elevado do que a cabeça.

— Pois muito bem — respondeu ele —, eu tenho mais tropas do que tu nunca hás-de ter.

— Tropas?... tu tens tropas?

— Ora essa! e porque não hei-de ter?

— Que tropas são essas?

— Já te mostro. Tenho, em primeiro lugar, todo o exército que os Srs. de Guisa estão organizando na Lorena...

— Estás doido!?...

— Não estou; é um verdadeiro exército, de seis mil homens pelo menos.

— Mas, diz-me lá: como é que tu, tendo tanto medo do Sr. de Maiena, vais logo procurar para a tua defesa os soldados do Sr. de Guisa?

— Porque estou morto.

— Outra vez a mesma chocarrice!...

— O Sr. de Maiena a quem queria mal era a Chicot. Eu, logo que morri, tratei de mudar de corpo, de nome e até de posição social.

— Ah! já não és Chicot? — disse o rei.

— Não.

— Quem és então?

— Agora chamo-me Roberto Briquet, antigo negociante e membro da Liga.

— Tu, membro da Liga, Chicot?

— E dos mais exaltados; de forma que tenho, eu Briquet, para defender a minha pessoa, que forma parte da Santa União, em primeiro lugar o exército dos lorenos, a saber: seis mil homens... (vai tomando sentido nas adições)...

— Deixa estar.

— Tenho mais cem mil parisienses, pouco mais ou menos...

— Que famosos soldados!

— São famosos quanto basta para te incomodarem muito meu príncipe. Ora pois: cem mil, mais seis mil, são cento e seis mil; há mais o Parlamento, o papa, os Espanhóis, o Sr. Cardeal de Bourbon, os Flamengos, Henrique de Navarra, o duque de Anjou...

— Não acabas com essa lista?... — disse Henrique com impaciência.

— Espera lá! ainda há mais três castas de gente que te é muito adversa. Os católicos em primeiro lugar...

— Ah! sim, porque eu apenas exterminei três quartas partes dos huguenotes.

— E depois os huguenotes, por isso mesmo que três quartas partes deles foram por ti exterminados.

— Ah! é verdade; e em terceiro?

— Que pensas dos políticos, Henrique?

— Ah! sim, são os que não me querem a mim, nem a meu irmão, nem ao Sr. de Guisa.

— Mas que se encontram muito dispostos a querer o teu cunhado de Navarra.

— Contanto que ele abjure.

— Grande dificuldade!... a ele então há-de-lhe custar isso muito... não achas?

— Mas, pelo que vejo, essa gente de que estás falando...

— É a França toda.

— Exactamente: eis aí as tropas de que disponho, eu que sou membro da Liga. Vamos, vamos! soma e compara.

— Estás gracejando, não é verdade, Chicot? — disse Henrique sentindo correr certos arrepios pelas veias.

— Não é mal escolhida a ocasião para gracejar, quando tu estás só contra todos, meu pobre Henriquinho!

Henrique assumiu um ar de dignidade inteiramente real.

— Sim, estou só — disse ele —, mas também só eu mando. Mostraste-me um exército, muito bem. Agora aponta-me um chefe; oh! vais indicar-me o Sr. de Guisa; não vês que o obrigo a estar em Nanei?... O Sr. de Maiena? tu mesmo confessas que ele está em Soissons... o duque de Anjou? sabes que está em Bruxelas; o rei de Navarra? está em Pau; enquanto eu, estou só, é verdade, mas livre em minha casa, e vendo aproximar o inimigo, como o caçador, no centro de uma planície, vê sair a caça dos bosques que a cercam.

Chicot coçou o nariz. O rei julgou então que ele se dava por vencido.

— Que respondes a isto? — perguntou o rei.

— Que sempre és muito eloquente, Henrique; ainda tens a língua; tens realmente mais do que eu supunha, e dou-te por isso os meus sinceros parabéns. Só atacarei uma coisa do teu discurso.

— Qual é?

— Oh! nada, quase nada, uma figura de retórica; atacarei a tua comparação.

— Em quê?

— Em asseverar que és um caçador que está fazendo espera à caça; digo-te que és pelo contrário a fera, a quem o caçador faz cerco até ao covil.

— Chicot!...

— Vamos lá, homem da emboscada: quem viste tu aparecer? diz.

— Ninguém, por Deus!

— Contudo, alguém chegou...

— Juntamente com as pessoas de que eu te dei conta?

— Não vinha na companhia deles, mas foi o mesmo.

— E quem foi que veio?

— Uma mulher.

— A minha irmã Margarida?!

— Não, a duquesa de Montpensier.

— Ela?! em Paris?!

— Não há dúvida nenhuma.

— Pois bem! ainda que assim fosse, parece-te que tenho medo de mulheres?

— É verdade, só dos homens é que se deve ter medo. Espera um instante então. Veio adiante, percebes? é precursora da chegada do irmão.

— A chegada do Sr. de Guisa?

— Sim.

— E julgas que isso me dará cuidado?

— Oh! a ti nada te dá cuidado.

— Chega-me o tinteiro e papel.

— Para quê? para mandares ordem ao Sr. de Guisa que se conserve em Nanei?

— Exactamente. A ideia é boa, visto que te ocorreu ao mesmo tempo que a mim.

— É péssima, pelo contrário!

— Porquê?

— Tão depressa ele receba tal ordem, logo julgará que é urgente a sua presença em Paris e virá correndo para cá.

O rei sentiu que lhe subia a cólera à cabeça. Olhou para Chicot de revés.

— Se foi para me falar desse modo que aqui tornaste, bem podias ter ficado onde estavas.

— Que queres, Henrique? os fantasmas não são lisonjeiros.

— Confessas, pois, que és um fantasma?...

— Nunca o neguei.

— Chicot!...

— Vamos, não te zangues... porque de míope que és, tornar-te-ias cego. Não me disseste que querias deter teu irmão na Flandres?

— Sim, decerto, e sustento que é um passo de boa política.

— Agora ouve, e não nos enfademos... Qual é o motivo por que o Sr. de Guisa se conserva em Nanei?

— Para organizar um exército.

— Bem! não te esquentes... Qual é o destino desse exército?

— Ah! Chicot, estás-me cansando com tão frequentes perguntas...

— Cansa-te, cansa-te, Henrique! mais valor darás depois ao descanso. Dizíamos pois que o destino do tal exército...?

— É combater os huguenotes do Norte.

— Ou antes: para contrariar os planos de teu irmão de Anjou, que se fez nomear duque de Brabante, que está tratando de edificar um tronozinho para si na Flandres, e que está continuamente a pedir-te auxílio para conseguir esse fim.

— Cujo auxílio eu lhe prometo sempre e não lhe hei-de mandar nunca, já se sabe.

— De que muito folgará o Senhor Duque de Guisa. Pois bem, Henrique! queres ouvir um conselho?...

— Qual é?

— E se tu fingisses que mandavas o prometido auxílio, e a tropa se pusesse em marcha para Bruxelas, ainda mesmo que não chegasse senão até meio caminho?...

— Ah! sim! — exclamou Henrique — já percebo... o Sr. de Guisa não se tiraria então das fronteiras...

— E a promessa que nos fez a Sr.a de Montpensier, a nós membros da Liga, de que o Sr. De Guisa havia de chegar a Paris dentro de oito dias...

— Essa promessa ficaria sem efeito.

— Foste tu que o disseste, meu amo — replicou Chicot, repoltreando-se na cadeira de braços. — Diz-me: que tal achas o meu conselho, Henrique?

— Acho-o bom... Entretanto...

— Que mais temos?

— Enquanto aqueles dois senhores estiverem entretidos um com o outro, lá no Norte...

— Ah! sim: ainda resta o Sul, não é verdade? Tens razão, Henrique, é do Sul que se levantam os temporais.

— Durante esse tempo, não sairá a campo o meu terceiro flagelo? Sabes o que fez o Bearnês?

— O Diabo me leve se sei!

— Instaurou uma reclamação.

— Para quê?

— Para reaver as cidades que constituem o dote da mulher.

— Ora essa! vejam aquele insolente, que não se contenta com a honra de ser aparentado com a casa real de França e tem o atrevimento de reclamar o que lhe pertence!

— Exige a entrega de Cahors, por exemplo, como se fosse acto de boa política abandonar semelhante cidade a um inimigo.

— Não, o acto, com efeito, não seria de boa política, mas de probidade por certo o era.

— Sr. Chicot!...

— Faz de conta que eu não disse nada; bem sabes que não me intrometo nos teus negócios de família.

— Mas não é isso que me há-de tirar o sono: cá tenho a minha ideia.

— Bom!

— Tornemos ao que é mais urgente.

— É a Flandres.

— Vou já tratar de mandar alguém a Flandres ter com meu irmão... Mas... quem hei-de mandar? Oh, meu Deus! a quem poderei confiar uma missão tão importante?...

— Eu sei...

— Ah! agora me lembra...

— E a mim também.

— Vai tu, Chicot.

— Queres que vá à Flandres, eu?

— Porque não?

— Pois um homem morto pode ir a Flandres!? estás brincando!

— Mas se tu já não és Chicot, és Roberto Briquet!

— Ora! um burguês, um membro da Liga, um amigo do Sr. de Guisa, a fazer as vezes de embaixador junto do Senhor Duque de Anjou!

— Então recusas?

— Boa dúvida!

— E assim me desobedeces?

— Eu desobedecer-te?! Devo-te acaso obediência?...

— Pois tu não me deves obediência, desgraçado!?

— Que me deste tu para que eu me julgue obrigado a servir-te? O pouco que tenho, veio-me por herança. Seu pobre e obscuro. Faz-me duque e par, erige em marquesado a minha terra La Chicoterie; concede-me uma doação de quinhentos mil escudos e depois falaremos a respeito da embaixada.

Henrique ia responder com algumas daquelas razões plausíveis que ocorrem aos reis sempre que alguém lhes dirige semelhantes arguições, quando se ouviram ranger sobre o varão de ferro as argolas do pesado reposteiro de veludo.

— O Senhor Duque de Joyeuse! — gritou o porteiro.

— Eh! cos demónios! eis aí quem há-de servir para o que pretendes! — exclamou Chicot. — Desafio que consigas encontrar um embaixador mais capaz de te representar do que Anne!

— O caso é — murmurou Henrique — que o diabo do homem me dá melhores conselhos do que nunca me deu nenhum dos meus ministros.

— Ah! já o confessas? — disse Chicot.

E enterrou-se na poltrona dando ao corpo a forma de uma bola, de sorte que o mais hábil marítimo do reino, acostumado a distinguir o menor ponto na linha do horizonte, não teria podido distinguir uma única saliência além das esculturas de espaldar da cadeira em que ele estava sumido.

O Sr. de Joyeuse, apesar de ser almirante-mor de França, nem por isso via melhor do que a outra gente.

O rei soltou um grito de alegria ao avistar o seu jovem valido, e estendeu-lhe a mão.

— Senta-te, Joyeuse, meu filho — disse ele. — Como vieste tarde!

— Senhor — respondeu Joyeuse —, essa observação de Vossa Majestade muito me penhora.

E o duque, aproximando-se do estrado do leito, sentou-se sobre as almofadas ornadas de flores-de-lis, que estavam postas para aquele fim sobre os degraus do mesmo estrado.

 

         QUANTO É DIFÍCIL A UM REI ACHAR BONS EMBAIXADORES

A conversação começou, conservando-se Chicot invisível na poltrona; Joyeuse recostado sobre as almofadas, e Henrique enroscado dentro da cama.

— Então, Joyeuse — perguntou Henrique —, passeaste muito pela cidade?

— Sim, meu Senhor, passeei bastante, muito obrigado — respondeu maquinalmente o duque.

— Com que pressa saíste da Greve!

— Falando com franqueza, meu Senhor, dir-lhe-ei que o espectáculo era pouco divertido; eu não gosto de ver sofrer ninguém.

— Que coração tão compassivo!

— Não, pelo contrário: é um coração egoísta... os sofrimentos dos outros atacam-me os nervos.

— Já sabes o que lá se passou?

— Onde, meu Senhor?

— Na Praça de Greve.

— Não sei.

— Salcède negou.

— Ah!

— Causa-te esta notícia bem pouco abalo, Joyeuse...

— A mim?

— Sim.

— Confesso-lhe, meu Senhor, que não dava muita importância ao que ele poderia dizer; e demais, estava certo de que ele havia de negar.

— Mas se ele já tinha confessado...

— Mais uma razão. A primeira confissão pôs os Guisas de alcateia; trabalharam, enquanto Vossa Majestade não fez nada; era evidente que assim havia de suceder.

— Pois quê!? tu prevês coisas dessa natureza e não me avisas?...

— Eu sou ministro, porventura, para falar em política?

— Passemos a outro assunto, Joyeuse.

— Meu Senhor...

— Preciso de teu irmão.

— Meu irmão está, como eu, sempre às ordens de Vossa Majestade.

— Visto isso, posso contar com ele?

— Sem dúvida alguma.

— Pois bem: quero encarregá-lo de uma pequena missão.

— Fora de Paris?

— Sim.

— Nesse caso, é impossível, meu Senhor.

— Como assim!?

— De Bouchage não pode deixar a capital actualmente.

Henrique apoiou-se ao cotovelo, e olhou para Joyeuse, espantando muito os olhos.

— Que quer isso dizer? — perguntou ele.

Joyeuse suportou o olhar interrogador do rei com a maior serenidade.

— Meu Senhor — disse ele —, é coisa muito fácil de perceber. De Bouchage está enamorado; porém tinha encetado mal as negociações amorosas; andava pensativo, de forma que o pobre rapaz ia emagrecendo de uma maneira espantosa...

— Com efeito, já tinha notado isso — disse o rei.

— E tinha-se tornado tão sorumbático como se estivesse vivendo na corte de Vossa Majestade.

Uma espécie de grunhido, que ressoou no canto da chaminé, veio interromper Joyeuse, que olhou muito admirado para todos os lados.

— Não faças caso, Anne — disse Henrique rindo —, é algum cão que está por aí sonhando em cima de qualquer poltrona. Dizias, meu amigo, que o pobre do Bouchage ia entristecendo...

— Sim, meu Senhor, ia-se tornando triste como um defunto; consta-me que encontrou por esse mundo uma mulher de génio fúnebre, e semelhantes encontros são terríveis. Entretanto, alcança-se desses caracteres o mesmo que se obtém das mulheres que riem sempre; o caso está em sabê-las levar.

— Ah! bem sei que a ti não te dava isso cuidado, meu devasso.

— Ora vamos! está-me chamando devasso por eu gostar de mulheres... Henrique soltou um suspiro.

— Dizias que era uma mulher de génio fúnebre?...

— Pelo menos é o que afirma de Bouchage, porque eu não a conheço.

— E apesar de toda a sua tristeza, eras capaz de ser bem sucedido com ela?

— Que dúvida! bastava lançar mão dos contrastes; eu só tenho encontrado dificuldades sérias com mulheres de temperamento mediano; essas sim, requerem no sitiante uma mistura de raça e de severidade que poucas pessoas conseguem combinar. De Bouchage deu com uma mulher de humor sombrio, e o seu amor assemelha-se a ela.

— Pobre rapaz! — disse o rei.

— Já se vê, meu Senhor — prosseguiu Joyeuse —, que apenas ele me confiou a causa do seu desgosto, tratei logo de o curar.

— De forma que...

— De forma que, a estas horas, já está começado o curativo.

— Não está menos apaixonado?

— Não, meu Senhor; mas tem toda a esperança de conseguir que a mulher se apaixone também; este modo de curar os namorados é muito mais agradável do que privá-los do objecto que amam; por isso, a datar desta noite, em vez de imitar os suspiros da dama vai tratar de a alegrar por todos os meios ao seu alcance; esta noite, por exemplo, vou mandar à namorada de meu irmão uns trinta músicos italianos, que vão fazer-lhe um motim espantoso em frente das janelas.

— Que lembrança! — disse o rei. — Isso é muito trivial.

— O quê!? muito trivial! trinta músicos que não têm quem os iguale em todo o mundo?!...

Ah! diabos me levem se havia música que fosse capaz de me distrair no tempo em que eu andava loucamente enamorado pela Sr.a de Conde!

— Sim, mas era porque Vossa Majestade andava apaixonado.

— Como um louco — disse o rei.

Ouviu-se novamente um grunhido, muito parecido com uma risadinha de escárnio.

— Bem vê que é um caso muito diverso, meu Senhor — replicou Joyeuse, procurando debalde descobrir de onde provinha tão singular interrupção. — A dama em questão é, pelo contrário, indiferente como uma estátua e fria como uma pedra de gelo.

— E tu persuades-te de que a música há-de derreter o gelo e animar a estátua?

— Persuado-me, sim. O rei abanou a cabeça.

— Não quero dizer — prosseguiu Joyeuse — que a dama se vá lançar nos braços de Bouchage logo à primeira arcada das rabecas: mas há-de ficar lisonjeada por ver fazer tanta bulha por sua causa; há-de ir-se acostumando gradualmente aos concertos; e se não se acostumar, ainda nos restará lançar mão da comédia, dos pelotiqueiros, dos nigromantes, da poesia, dos cavalinhos, de todas as loucuras do mundo, enfim; e tanto havemos de trabalhar que, se a bela aflita não recuperar a sua alegria, recuperá-la-á pelo menos de Bouchage.

— Assim o desejo — disse Henrique. — Porém deixemos agora de Bouchage, visto que tanto o incomodaria sair de Paris no momento; não me é indispensável que seja ele quem desempenhe a missão de que se trata; mas creio que tu, que sabes dar tão bons conselhos, não estás, como ele, transformado em escravo de alguma linda namorada...

— Eu?... — exclamou Joyeuse — nunca na minha vida estive tão senhor das minhas acções.

— Perfeitamente; então não tens que fazer?

— Nada absolutamente, meu Senhor.

— Julgava, porém, que tinhas namoro com uma formosa dama...

— Ah! sim: a amante do Sr. de Maiena; uma mulher que me adorava.

— Já não te adora?

— Qual! Imagine Vossa Majestade que esta tarde, depois de ter ensinado a lição a de Bouchage, deixei-o para ir a casa dela; cheguei lá com a cabeça esquentada pelas teorias que acabava de desenvolver; juro-lhe, meu Senhor, que me julgava quase tão apaixonado como Henrique; eis senão quando, dou com a mulher a tremer e toda espavorida; procurei tranquilizá-la, foi escusado; interroguei-a, não me respondeu; quis abraçá-la, voltou a cara para a banda; e como eu franzisse as sobrancelhas, enfadou-se, levantou-se, brigámos um com o outro e ela acabou avisando-me que nunca mais estaria em casa quando eu ali me apresentasse.

— Pobre Joyeuse! — disse o rei rindo. — E tu que fizeste?

— Que havia de fazer, meu Senhor?... agarrei na capa e na espada, fiz-lhe uma grande cortesia e saí sem olhar para trás.

— Bravo! Joyeuse! mostraste verdadeiro ânimo! — exclamou o rei.

— E dei na verdade provas de ânimo, meu Senhor, pois me pareceu que ouvia suspirar a pobre rapariga.

— Vê lá, não te arrependas agora do teu estoicismo! — disse Henrique.

— Não, meu Senhor; se me arrependesse um único instante, ia logo correndo para casa dela... mas estou convencido que a pobre rapariga me deixou com bastante pesar seu.

— Contudo, sempre foste saindo...

— E aqui estou.

— E não tencionas lá voltar?

— Nunca... Se tivesse uma barriga como o Sr. de Maiena, ainda poderia ser; porém, como sou delgado, tenho direito a ser soberbo.

— Meu amigo — disse Henrique com seriedade —, esse rompimento há-de concorrer muito para a tua salvação.

— Não direi que não, meu Senhor; entretanto vou passar uns oito dias muito aborrecidos, sem ter que fazer, nem saber o que há-de ser de mim; verdade seja que me têm ocorrido as mais deliciosas ideias de preguiça; é na verdade muito divertido andar aborrecido... era coisa a que eu não estava acostumado, e que me tem parecido muito elegante.

— Pudera não ser elegante — disse o rei —, fui eu o autor dessa noda...

— Ora pois, eis aqui o meu plano, real Senhor; formei-o durante e meu passeio desde o adro da Igreja de Nossa Senhora de Paris até ao Louvre. Hei-de vir aqui todos os dias na minha liteira; Vossa Majestade recitará as suas rezas, e eu ocupar-me-ei em ler livros de alquimia, ou de marinha, o que melhor será, visto ser eu oficial de Marinha. Hei-de procurar ter cãezinhos, para brincarem com os de Vossa Majestade... ou antes: gatinhos, porque são mais engraçados; depois havemos de tomar sorvete, e o Sr. d'Epernon há-de-nos contar histórias. Eu também quero engordar; e quando a namorada de de Bouchage tiver cessado de andar triste e se houver tornado alegre, procuraremos constantemente outra que seja alegre, para a tornarmos triste; assim mudaremos de entretenimento; porém tudo isto há-de ser sem nos mexermos, meu Senhor; tenho conhecido que o único modo de estar comodamente é sentado, e ainda mais comodamente é deitado. Õh! que almofadas tão boas, meu Senhor! bem se vê que os estofadores de Vossa Majestade fazem obra para um rei que anda muito aborrecido.

— Que vergonha, Anne! — exclamou o rei.

— Vergonha?... o quê?

— Um homem da tua idade e da tua categoria tornar-se preguiçoso e gordo; que ideias tão feias!

— Não as acho eu feias, meu Senhor.

— Quero ocupar-te noutra coisa.

— Sendo coisa fastidiosa, estou pronto.

Ouviu-se um terceiro grunhido; dir-se-ia que o cão ria das palavras que Joyeuse acabava de proferir.

— Muito inteligente é esse cão! — disse Henrique — adivinhou o que eu quero dar-te a fazer.

— Que pretende pois Vossa Majestade dar-me a fazer? saibamos o que é.

— Vais já daqui montar a cavalo. Joyeuse fez um movimento de terror.

— Oh! meu Senhor, não exija isso de mim!

— Torno a dizer: montarás a cavalo.

— A cavalo!... nada! eu não ando já senão de liteira.

— Vamos, Joyeuse! basta de brincadeiras, ouviste? Vais já daqui montar a cavalo.

— Não, meu Senhor — respondeu o duque com a maior serenidade —, isso é impossível.

— Por que razão é impossível? — perguntou Henrique muito encolerizado.

— Porque... porque... sou almirante.

— E então?

— Os almirantes não costumam montar a cavalo.

— Ah ele é isso?... — exclamou Henrique.

Joyeuse respondeu com um aceno de cabeça, como fazem as crianças quando são demasiado teimosas para quererem obedecer, e demasiado tímidas para se resolverem a responder.

— Pois bem! seja como deseja, Senhor Almirante-Mor de França: não irá a cavalo; tem razão, um oficial de Marinha tem obrigação de andar num barco ou numa galera; partirá pois imediatamente para Ruão num barco; ém Ruão, encontrará a sua galera-almirante: embarcará nela no mesmo instante, e mandá-la-á fazer de vela para Antuérpia.

— Para Antuérpia?! — disse Joyeuse, tão desesperado como se lhe tivessem dado ordem de partir para Cantão ou para Valparaíso.

— Penso que falei bem claro — disse o rei com um modo glacial, que firmava sem contestação o seu direito de chefe e a sua vontade de soberano. —Já disse o que tinha a dizer, e não quero repetir.

Joyeuse, sem mostrar a menor resistência, acolchetou a capa, pôs a espada à cinta e pegou no gorro de veludo que estava sobre uma cadeira.

— Tanto trabalho para conseguir que me obedeçam! — continuou a resmungar Henrique; — se às vezes me esqueço que sou eu quem manda aqui, não é isso um motivo para me deixarem de acatar a minha autoridade.

Joyeuse, mudo e frio, inclinou-se e levou, segundo o estilo, a mão aos copos da espada.

— Dê-me as suas ordens, meu Senhor — disse ele, com um tom de voz tão submisso, que logo derreteu como cera a vontade do monarca.

— Vais pôr-te a caminho de Ruão — disse ele —, onde desejo que embarques, se não preferires ir por terra a Bruxelas.

Henrique esperava que Joyeuse respondesse alguma palavra, mas ele limitou-se a cortejar.

— Preferes então fazer a jornada por terra? — perguntou Henrique.

— Eu não escolho caminho quando se trata de executar uma ordem, meu Senhor — respondeu Joyeuse.

— Anda, amua-te, amua-te! carácter detestável! — exclamou Henrique. — Ah! os reis nunca hão-de ter amigos!

— Quem dá ordens nunca pode encontrar senão criados — respondeu solenemente Joyeuse.

— Senhor — replicou o rei ofendido —, irá pois a Ruão, embarcará na galera, reunirá as guarnições de Caudebec, Harfleur e Diepa, que eu mandarei render, e metê-las-á a bordo de seis navios, que porá à disposição de meu irmão, o qual está à espera de auxílio que lhe prometi.

— A minha carta régia onde está, meu Senhor? — disse Joyeuse.

— Desde quando — respondeu o rei — deixaste de proceder em virtude dos teus poderes de almirante-mor?...

— Só me cumpre obedecer, meu Senhor, e quero evitar, quanto possível, toda a responsabilidade.

— Está bem, Senhor Duque: a carta régia ser-lhe-á entregue no seu palácio na ocasião da partida.

— E quando há-de ser a ocasião da partida, meu Senhor?

— Daqui a uma hora.

Joyeuse inclinou-se respeitosamente e dirigiu-se para a porta. O coração do rei por pouco não se despedaçou.

— O quê!? — disse ele — nem tem a delicadeza de me dizer adeus?! Senhor Almirante, é pouco cortês! é o que toda a gente censura nos homens do mar... Está bom, pode ser que o meu coronel-general da infantaria se porte melhor para comigo.

— Peço a Vossa Majestade se digne desculpar-me — balbuciou Joyeuse —, pois ainda sou pior cortesão de que marinheiro, e não me admira que Vossa Majestade esteja arrependido das mercês que me tem feito.

E saiu, fechando com tamanha violência a porta, que fez estremecer com o vento o reposteiro.

— Aí está a amizade que me têm as pessoas a quem tenho feito tantos benefícios! — exclamou o rei. — Ah! Joyeuse! ingrato Joyeuse!

— Então que é isso!? queres chamá-lo?!... — disse Chicot, chegando-se para o leito.

Que tal está! quando alguma vez, por acaso, mostras que tens vontade própria, logo te arrependes!

— Gosto de te ouvir — respondeu o rei —, pensas que é muito agradável ir no mês de Outubro apanhar chuva e vento no alto mar?... sempre te queria ver no lugar dele, meu egoísta!

— Está na tua mão, grande rei.

— E a caminhar por montes e vales.

— Por montes e vales, sim; estou actualmente com desejo de fazer uma jornada.

— Pois sim! se eu te mandasse a alguma parte, como acabo de mandar Joyeuse, tu aceitavas?...

— Não só aceitava, mas até peço com instância que me faças essa mercê,

— Queres uma missão?

— Quero.

— Eras capaz de ir a Navarra?

— Sou capaz de ir ao Inferno, grande rei!

— Estás zombando, bobo?

— Real Senhor, eu quando estava vivo já não era muito alegre, pois juro-lhe que estou ainda muito mais triste agora depois de morto.

— Porém, ainda há pouco te negaste a sair de Paris...

— Fiz mal, meu bom soberano, fiz mal; e estou arrependido.

— Visto isso, desejas deixar Paris?

— Imediatamente, ilustre rei! neste mesmo instante, grande monarca!

— Não te entendo — disse Henrique.

— Então não ouviste as palavras que proferiu o almirante-mor de França?

— Que palavras?

— A notícia que ele te deu do seu rompimento com a amante do Sr. de Maiena.

— Sim; e depois?

— Se essa mulher, que está apaixonada por um galante rapaz como o duque (pois o duque é muito galante)...

— Não há dúvida.

— Se essa mulher o despediu a suspirar, é porque tem motivo para isso.

— Provavelmente; porque se assim não fosse não o despediria.

— Pois bem: sabes qual é o motivo?

— Não.

— Nem adivinhas?

— Não.

— É porque o Sr. de Maiena está para chegar.

— Oh! oh! — exclamou o rei.

— Percebeste finalmente, dou-te os parabéns.

— Sim, agora percebo; contudo...

— Contudo, o quê?

— Não acho essa tua razão muito convincente.

— Dá-me as tuas, Henrique; tomara eu achá-las excelentes. Diz.

— Porque não havia a mulher de quebrar as suas relações com Maiena em vez de despedir Joyeuse? Pensas que Joyeuse não seria capaz de lhe mostrar o seu agradecimento, levando o Sr. de Maiena ao Prado dos Estudantes e fazendo-lhe um furo na imensa barriga? A espada do nosso Joyeuse é mortífera.

— Muito bem; mas se a espada de Joyeuse é mortífera, o punhal de Maiena é traiçoeiro. Lembra-te de Saint-Mégrin.

— Uma mulher que está verdadeiramente apaixonada não quer expor-se a que lhe matem o amante: prefere deixá-lo e ganhar tempo; e prefere a tudo não se expor a ser assassinada. Da casa de Guisa todos são brutais.

— Ah! parece-me que tens razão.

— Ainda bem.

— E já começo a acreditar que Maiena está para chegar: porém tu, Chicot, não és uma mulher tímida ou apaixonada, pois não?

— Eu, Henrique, sou um homem prudente, um homem que tem uma conta em aberto com o Sr. de Maiena, e está empenhada a partida; se ele me encontrar, há-de querer começar outra vez; e o bom do Sr. de Maiena é um jogador terrível!

— E então?

— É capaz de jogar com tanta felicidade, que o resultado seja ficar eu com alguma facada.

— Histórias! eu conheço muito bem o meu amigo Chicot; ele nunca deixa de retribuir os favores que lhe fazem.

— Tens razão: retribuir-lhe-ei dez que lhe hão-de dar cabo da pele.

— Melhor, acabar-se-á a partida.

— Pior! digo eu, pelo contrário: pior, a família fará uma algazarra de meter medo, cair-te-á em cima a Liga toda, e um dia pela manhã dir-me-ás: «Chicot, meu amigo, desculpa-me mas não tenho outro remédio senão mandar-te rodar.»

— Pois eu seria capaz de dizer semelhante coisa?...

— Não só o dirias, mas até o farias, grande rei. Por isso, antes quero que o negócio leve outro caminho, percebes? Dou-me muito bem com o meu modo de vida actual, e desejo conservar-me assim. As progressões aritméticas, aplicadas ao rancor, parecem-me muito perigosas; irei, pois, para a Navarra, se para lá me queres mandar.

— Quero, por certo.

— Estou esperando as tuas ordens, benigno príncipe.

E Chicot esperou, pondo-se na mesma atitude que tinha tomado Joyeuse.

— Porém — disse o rei — ainda não sabes se a missão te fará conta...

— Se eu ta estou pedindo!...

— É porque sempre te quero dizer, Chicot — prosseguiu Henrique —, que tenho certos projectos em vista para fazer com que Margarida se ponha de mal com o marido.

— Dividir para reinar — respondeu Chicot —, há cem anos já era esse o á-bê-cê da política.

— Então não te repugna a incumbência?

— Que tenho eu com isso? — retorquiu Chicot. — Farás o que quiseres, grande príncipe. Eu sou embaixador e nada mais; não tens contas a dar-me, e contanto que a minha pessoa seja inviolável... oh! essa condição é que eu não dispenso.

— Porém — disse Henrique — é preciso que saibas primeiro o que tens que dizer a meu cunhado.

— Eu, dizer alguma coisa?! isso não, não!

— Como assim!? não, não?!...

— Irei aonde quiseres mandar, porém nada direi. Há um ditado a esse respeito: muito coçar...

— Recusas, então?

— Recuso falar, mas estou pronto a levar uma carta. Ao indivíduo que fala sempre cabe alguma responsabilidade; o que é portador de uma carta, se leva algum repelão é sempre por tabela.

— Pois bem! assim será, dar-te-ei uma carta; é esse justamente o meu sistema em política.

— Ora vê lá como acertei! Dá cá.

— Que estás dizendo?

— Digo: dá cá a carta.

E Chicot estendeu a mão.

— Ah! Pensas que se escreve assim de repente uma carta como a que tenciono entregar-te? É preciso combinar, reflectir e pesar as expressões.

— Pois bem! pesa, reflecte e combina à tua vontade. Amanhã, ao romper do dia, voltarei por aqui ou mandá-la-ei buscar.

— Não seria melhor dormires aqui?

— Aqui?

— Sim, na tua poltrona.

— Esse tempo já lá vai! Não quero tornar a dormir no Louvre; um fantasma dormindo numa poltrona!... que absurdo!

— Mas enfim — exclamou o rei —, quero que saibas quais são as minhas tenções a respeito de Margarida e do seu marido. Tu és gascão; a minha carta há-de fazer escândalo na corte de Navarra: hão-de dirigir-te perguntas; é necessário que possas responder. Vais apresentar-te em meu nome, não quero que faças papel de tolo.

— Oh! meu Deus! — disse Chicot encolhendo os ombros — que juízo fazes de mim, grande rei!... Pois quê!? imaginaste que eu ia levar uma carta a duzentas e cinquenta léguas daqui sem saber o conteúdo dela?! Fica descansado, que a tua carta há-de ser por mim aberta no primeiro lugar onde parar para descansar. Então tu expedes embaixadores há dez anos para todas as partes do mundo e ainda não os conheces melhor?... Ora vamos: deixa sossegar a alma e o corpo, que eu volto para a minha solidão.

— Onde é a tua solidão?

— No cemitério dos Santos Inocentes, grande príncipe; é lá a minha morada. Henrique olhou para Chicot com o mesmo espanto de que havia dado mostras durante

as duas horas que tinha estado com ele.

— Por esta não esperavas tu, pois não? — disse Chicot, pegando no chapéu e pondo a capa. — É para que vejas que sempre é bom ter relações com a gente do outro mundo! Está dito: até amanhã; ou eu, ou o meu mensageiro.

— Bem, mas sempre será bom dar alguma senha ao teu mensageiro, para que se saiba que vem a mandado teu e se lhe abra a porta.

— Disseste muito bem! se for eu, venho em meu nome, se for o meu mensageiro, há-de vir a mandado da sombra.

E logo que acabou de proferir estas palavras, desapareceu tão ligeiramente que o espírito supersticioso de Henrique duvidou se era realmente um corpo ou uma sombra que tinha saído por aquela porta sem a fazer ranger e sem agitar uma única prega do reposteiro que a resguardava.

 

         COMO E POR QUE MOTIVO TINHA MORRIDO CHICOT

Chicot, que era realmente um corpo vivo, e não um fantasma, apesar de quanto isso pese a alguns dos nossos leitores, a quem a avidez de acontecimentos sobrenaturais faria talvez capacitar que ousaríamos introduzir uma alma do outro mundo nesta história, Chicot dizíamos, saiu, com efeito, depois de ter dito ao rei em tom de brincadeira, na forma do seu costume, todas as verdades que desejava que ele ouvisse.

Eis o que tinha sucedido.

Depois da morte dos amigos do rei e das revoltas e conspirações maquinadas pelos Guisas, Chicot tinha reflectido.

Apesar de valente, como se sabe, e desabusado, tinha contudo muito apego à vida, que para ele corria muito divertida, como acontece com todos os homens de espírito superior.

Em geral só os tolos se aborrecem deste mundo e vão procurar distracções no outro.

O resultado da reflexão que acabámos de indicar foi parecer-lhe muito temível a vingança do Sr. de Maiena, e pouco eficaz a protecção do rei; e, com a filosofia prática que lhe era própria, pensava ele lá consigo que neste mundo não é possível desfazer o que está materialmente feito; de sorte que nem todas as alabardas, nem todos os tribunais de França, seriam capazes de consertar, por pequeno que fosse, qualquer rasgão que a faca do Sr. de Maiena viesse a fazer no gibão de Chicot.

Tinha tomado pois o seu partido, para o que muito contribuíra o tédio que já lhe ia causando o seu papel de bobo, que ele ardia por transformar em papel de homem sério, e as familiaridades reais, que, pela face que os acontecimentos tinham tomado, o iam deitando a perder.

Chicot havia começado pois por colocar a sua pele à maior distância possível da espada do Sr. de Maiena.

Para melhor conseguir o seu intento, tinha-se encaminhado para Beaune, a fim de deixar Paris, abraçar o seu amigo Gorenflot e provar aquele vinho famoso de 1550, que tão gabado era na célebre carta que finaliza a nossa história d'A Dama de Monsoreau.

Diremos, em abono da verdade, que tal passo resultara eficaz: ao cabo de dois meses, percebeu Chicot que engordava a olhos vistos, e que, assim transformado, ninguém seria capaz de o conhecer; mas também se lembrou que se continuasse a engordar, o resultado seria parecer-se com Gorenflot, coisa que não ficava bem a um homem de espírito. O espírito venceu portanto a matéria. Depois de ter despejado alguns centos de garrafas do famoso vinho de 1550, e devorado os vinte e dois volumes de que se compunha a biblioteca do priorado, num dos quais o prior havia lido o axioma latino: Bonum vinum laetificat cor homini, sentiu Chicot I um grande peso no estômago e um grande vácuo no cérebro.

«Não se me dava de me meter a frade, pensou ele; porém, aqui no convento de Goren-flot ficaria sendo demasiadamente senhor das minhas acções, e em qualquer outra abadia não seria o bastante; não há dúvida que o hábito me esconderia para sempre aos olhos do Sr. de Maiena, mas, com todos os demónios! há-de haver outros recursos além deste tão trivial! Procuremos. Já li num livro, sem ser dos da biblioteca de Gorenflot: Quaere et invenies.

Chicot procurou, pois, e eis o que encontrou.

Em atenção à época, a lembrança não deixava de ter sua novidade.

Abriu-se com Gorenflot e pediu-lhe que escrevesse ao rei o que ele lhe ditasse.

Gorenflot escrevia com dificuldade, é verdade, mas sempre escreveu; que Chicot se recolhera ao priorado; que o pesar que lhe causara a necessidade de se separar do seu amo, quando este fizera as pazes com o Sr. de Maiena, lhe deteriorara a saúde; que pretendera lutar com a doença distraindo-se, mas que, não tendo podido vencer a sua dor, sucumbira por fim.

Chicot também tinha escrito uma carta ao rei.

A carta, datada de 1580, era dividida em cinco parágrafos.

Cada um dos parágrafos figurava ter sido escrito à distância de um dia do outro e conforme os progressos da moléstia.

O primeiro parágrafo era escrito e assinado com letra bastante firme.

O segundo era traçado com mão mal segura, e a assinatura, apesar de muito legível ainda, era já bastante tremida.

No fim do terceiro, tinha ele escrito: Chie...

No fim do quarto: Ch...

E finalmente, o quinto acabava com um Ce um borrão.

Aquele borrão de um moribundo tinha causado ao rei uma impressão dolorosa.

Já se vê qual era o motivo por que ele tinha tomado Chicot por um fantasma ou por uma sombra.

Não teríamos dúvida em reproduzir aqui a carta de Chicot; porém Chicot era, como hoje diríamos, um homem muito excêntrico, e, como o estilo revela o homem, o seu estilo epistolar era na realidade tão excêntrico que não nos atrevemos a transcrever a tal carta, apesar do bom efeito que poderia causar.

Quem quiser ter conhecimento dela encontrá-la-á nas Memórias de l'Étoile.

Tem a data de 1580, como já dissemos; «ano fértil em maridos enganados», acrescenta Chicot.

No remate da carta, para que não esfriasse o interesse que Henrique lhe havia mostrado, acrescentava Gorenflot que se lhe tinha tornado insuportável a residência no Priorado de Beau-ne, depois da morte do seu amigo, e que preferia viver em Paris.

Chicot tinha tido um trabalho insano para conseguir que os dedos de Gorenflot traçassem este pós-escrito. Gorenflot, bem pelo contrário do que ali dizia, dava-se perfeitamente em Beaune, e Panurgo também. Ponderava ele a Chicot, com cara de lástima, que o vinho sempre é adulterado, quando não se pode escolher no local onde é fabricado. Porém Chicot prometeu ao estimável prior que havia de ir em pessoa todos os anos comprar-lhe um provimento de vinhos de romanée de volnay e de chambertin, e como neste ponto, assim como em muitos outros, já Gorenflot conhecia por experiência a superioridade de Chicot, acabou por ceder aos rogos do amigo.

O rei, em resposta à carta de Gorenflot e à última despedida de Chicot, tinha escrito de seu próprio punho o seguinte:

 

Senhor Prior, escolha uma santa e poética sepultura para o pobre Chicot, cuja perda eu lamento de toda a minha alma, pois não somente era meu amigo fiel, mas também de origem nobre, se bem que nunca tivesse conseguido levar a sua genealogia além do trisavô. Cerque-lhe a campa deflores, e trate de a colocar em sítio onde dê o sol, de que ele era muito apaixonado, por ser oriundo do Meio-Dia. Quanto ao senhor, de quem avalio devidamente a mágoa por isso que a partilho, deixará, conforme mostra desejar, o seu priorado de Beaune. Não quero que por mais tempo se conserve afastado de Paris, onde tanto careço da presença de homens ilustrados e zelosos do meu serviço. Pelo que o nomeio prior dos Domínicos, e designo para sua residência o convento que fica junto da Porta de Santo António, em Paris, bairro este que era muito da predilecção do nosso pobre amigo. — Seu amigo afectuoso, Henrique, o qual roga que não se esqueça dele nas suas santas orações.

 

Ajuízem agora os nossos leitores que olhos não abriria o prior à vista de um tal autógrafo, todo ele escrito por mão de um rei; se admiraria ou não o poder do engenho de Chicot; e a pressa com que voaria ao encontro das honras que o esperavam.

Porque, se bem estiverem lembrados, a ambição já outrora havia deitado um de seus tenazes rebentões no coração de Gorenflot, cujo sobrenome sempre tinha sido Modesto, e que apenas nomeado prior de Beaune passou a chamar-se: Dom Modesto Gorenflot. Tinha-se efectuado tudo conforme os desejos do rei e de Chicot. Um feixe de carqueja, destinado a figurar física e alegoricamente o cadáver, havia sido enterrado num lugar bem exposto ao sol, no meio de flores, e debaixo de um viçoso pé de vinha; e logo depois de morto e enterrado em efígie, Chicot ajudara Gorenflot a efectuar a sua mudança.

Dom Modesto tomara posse com grande solenidade do Priorado dos Domínicos. Chicot, que entrara em Paris de noite, rinha comprado, junto da Porta de Bussy, uma casinha, que lhe havia custado trezentos escudos; e quando quisesse ir visitar Gorenflot, podia escolher um de três caminhos: o da cidade, que era o mais breve; o das margens do rio, que era o mais poético; e, finalmente, o que rodeava as muralhas de Paris, que era o mais seguro.

Porém Chicot, como gostava de meditar, escolhia quase sempre o caminho que ficava à beira do Sena; e como naquele tempo ainda o rio não estava entalado em muros de cantaria, vinha a água, em estilo poético, lamber as suas extensas praias, e nelas podiam os habitantes da cidade ver com frequência a sombra do comprido perfil de Chicot projectar-se com o luar.

Chicot, tendo mudado de nome, tratou, logo que tomou posse da casa, de mudar também de cara: chamava-se Roberto Briquet, como já dissemos, e quando andava dobrava-se um pouco para diante; e demais, os desgostos e o passar sucessivo de cinco ou seis anos, haviam-no tornado quase calvo, de forma que o seu cabelo preto e encaracolado de outro tempo recuara da testa para a nuca como a maré na vazante.

Além de tudo isto, tinha estudado, como já contámos, a arte que cultivavam os mímicos da Antiguidade, a qual consiste em mudar, por meio de hábeis contracções, o jogo natural dos músculos e o jogo habitual da fisionomia.

O resultado de tão assíduo estudo era que, mesmo à luz do dia, Chicot, quando se queria dar a esse trabalho, parecia um verdadeiro Roberto Briquet, isto é, um homem com uma boca que lhe chegava de orelha a orelha, com a barba tocando-lhe o nariz, e com os olhos tão vesgos que metia medo, tudo sem caretas, mas não sem certa graça para os apaixonados de Mudanças, pois o seu rosto, de fino, comprido e anguloso que era, tinha-se tornado alegre e obtuso.

Restavam apenas os compridos braços e as imensas pernas, que Chicot não podia encolher; Porém, como era industrioso, tinha-se acostumado a andar um tanto dobrado, como dissemos, de modo que ficava com os braços tão compridos como as pernas.

Além destes exercícios, tinha também tido a cautela de não travar relações com pessoa alguma.

Pois, por muito deslocado que estivesse Chicot, não podia conservar-se eternamente na mesma postura de corpo.

Como poderia pois aparecer corcovado ao meio-dia tendo-se apresentado direito às dez horas, e que pretexto daria a um amigo com quem andasse a passear se o visse mudar repentinamente de fisionomia, por ter encontrado por acaso uma suspeita?

Este ponto era importante.

Roberto Briquet adoptou pois a vida de recluso, que estava demais a mais em harmonia com o seu génio; as suas únicas distracções consistiam nas visitas que fazia a Gorenflot para o ajudar a dar cabo do famoso vinho de 1550, que o estimável prior tinha tido o cuidado de não deixar nas adegas de Beaune.

Porém, os homens de espírito vulgar são propensos à mudança, como os de espírito elevado: Gorenflot mudou, porém não fisicamente.

Viu em seu poder e na sua dependência o homem que até ali tinha sido senhor do seu destino. Figurou-se-lhe que aquele Chicot que vinha jantar ao priorado era um Chicot escravo; e Gorenflot, daí por diante, começou a fazer demasiado caso de si e muito pouco caso de Chicot.

Este notou, sem se ofender, a mudança que se operava no amigo; a vida que tinha passado junto do rei Henrique havia-lhe feito adquirir uma certa filosofia. Limitou-se unicamente a tornar-se mais circunspecto.

Em lugar de ir de dois em dois dias ao priorado, não tornou lá senão uma vez por semana; depois de quinze em quinze dias, e, por fim, de mês a mês. Gorenflot andava tão inchado de vaidade que nem em tal reparou.

Chicot era demasiadamente filósofo para ser sensível; riu no seu íntimo da ingratidão de Gorenflot, e coçou o nariz e a barba, conforme o seu costume.

«A água e o tempo, disse ele, são os dois dissolventes mais poderosos que eu conheço: o primeiro gasta a pedra; e o segundo, o amor-próprio. Esperemos.»

E assim fez.

Estava pois nesta expectativa, quando tiveram lugar os acontecimentos que acabámos de narrar, e do meio dos quais julgou ele que iam surgindo alguns desses elementos novos que prognosticavam as grandes catástrofes políticas.

E como lhe pareceu que o seu rei, de quem era ainda amigo, assim mesmo morto, poderia, em consequência dos acontecimentos que se preparavam, achar-se exposto a alguns perigos análogos àqueles de que ele o tinha livrado outrora, resolveu apresentar-se-lhe debaixo da aparência de um fantasma, com o fim único de lhe pressagiar o futuro.

Já vimos como foi que a notícia da próxima chegada do Sr. de Maiena, que Chicot, com a sua inteligência de macaco, havia farejado na despedida de Joyeuse, tinha concorrido para que Chicot passasse da condição de fantasma à de ente vivo, e da posição de profeta à de embaixador.

Agora, que já explicámos tudo quanto poderia parecer menos claro na nossa relação, tornaremos, com a devida vénia dos nossos leitores, para o lado de Chicot, à sua saída do Louvre, e acompanhá-lo-emos até à sua casinha do Largo de Bussy, onde se vai passar alguma coisa de extraordinário, extravagante e à primeira vista incompreensível.

 

         A SERENATA

Para ir do Louvre a sua casa, não tinha Chicot muito que andar.

Desceu até à beira do rio, e começou a atravessar o Sena num bote que ele mesmo dirigia, e que, tendo-lhe servido para vir da proximidade da Torre de Nesle, ficara amarrado ao cais deserto do Louvre.

«É coisa célebre! dizia ele, remando e olhando enquanto remava para as janelas do paço, numa única das quais, que era a da câmara do rei, se via luz; têm decorrido tantos anos, e Henrique está sempre na mesma: muita gente se tem engrandecido, muita tem descido, muita tem morrido, e ele apenas tem adquirido algumas rugas no rosto e no coração; é sempre o mesmo espírito, fraco e elevado, fantástico e poético; eternamente a mesma alma egoísta, exigindo sempre mais do que o que lhe podem dar, pedindo amizade à indiferença, amor à amizade, dedicação ao amor; e com tudo isso, ele, infeliz e pobre rei, vive mais triste do que pessoa alguma em todo o reino. Penso, na verdade, que fui eu o único homem a quem foi dado sondar esse composto singular de devassidão e de arrependimento, de impiedade e de superstição, assim como também sou eu o único homem que sabe os segredos daquele Louvre, por cujos corredores têm passado tantos validos, caminhando para o túmulo, para o degredo ou para o esquecimento, e só eu posso tocar sem perigo e brincar com aquela coroa, que queima o pensamento de tanto invejoso, enquanto não lhes queima os dedos.»

Chicot soltou um suspiro mais filosófico do que triste, e deu um vigoroso impulso aos remos.

«É verdade! disse ele de repente, el-rei não me falou em dinheiro para a jornada: uma tal confiança lisonjeia-me sobremaneira, por isso que bem mostra que ainda é meu amigo.»

Chicot desatou a rir silenciosamente, como tinha por costume, e afinal com uma última remada, levou o bote à praia coberta de areia fina, onde ficou encalhado.

Amarrou-o então pela proa a uma estaca, com um nó de que só ele sabia o segredo, e que naqueles tempos de inocência (falamos comparativamente) oferecia a necessária segurança; e encaminhou-se para casa, que distava, como já dissemos, apenas dois tiros de espingarda da margem do rio.

Ao entrar na Rua dos Agostinhos, ficou muito admirado de ouvir o som de instrumentos e vozes que enchiam de harmonia aquele bairro ordinariamente tão sossegado a tais horas.

«Temos casamento por aqui?, pensou logo; com a breca! só me restavam cinco horas para dormir, e vou ter que as passar acordado, eu que não me caso.»

Quando se aproximou mais, viu que dava um grande clarão nos vidros das poucas casas que povoavam a rua; o clarão era produzido por uma dúzia de archotes, que estavam nas mãos de pajens e criados, enquanto que vinte e quatro músicos, obedecendo às ordens de um energúmeno italiano, atroavam os ouvidos com as violas, saltérios, pandeiros, rabecas, violões, trombetas e tambores.

Aquele exército de amotinadores estava colocado com simetria defronte de uma casa que Chicot, não sem grande pasmo seu, conheceu ser a sua própria.

O general invisível que havia dirigido a manobra, tinha disposto os músicos e os criados de tal maneira que todos eles, com as caras voltadas para a habitação de Roberto Briquet e os olhos pregados nas janelas, só pareciam respirar, viver e animar-se para aquela contemplação.

Chicot conservou-se um instante estupefacto, contemplando aquela evolução e ouvindo toda aquela algazarra.

Depois, batendo com as ossudas mãos nas coxas:

«Isto é engano por força! disse ele; é impossível que todo este barulho seja por minha causa!»

E aproximando-se mais, meteu-se no meio dos curiosos que a serenata ali havia atraído, e olhando atentamente em redor de si certificou-se que toda a luz dos archotes se reflectia na sua casa, assim como toda a harmonia nela se engolfava: ninguém em toda aquela chusma olhava para a casa fronteira, nem para as que ficavam dos lados.

«Não há dúvida, pensou Chicot: a coisa é comigo; dar-se-á o caso que alguma princesa se enamorasse de mim?...»

Contudo, esta suposição, apesar de muito lisonjeira, não pareceu convencer Chicot.

Voltou-se para a casa que ficava fronteira à sua.

Duas janelas do segundo andar da tal casa, únicas que não tinham portas, absorviam de vez em quando o reflexo das luzes; era porém unicamente para divertir as paredes, pois a pobre casa parecia privada de vida e viúva de qualquer rosto humano.

«Sempre é preciso que os habitantes daquela casa tenham o sono muito pesado! disse Chicot; cos demónios, semelhante bacanal era capaz de acordar até os mortos!»

Durante todas estas perguntas e respostas que Chicot dirigia a si mesmo, a orquestra prosseguiu nas suas sinfonias, como se estivesse tocando na presença de uma reunião de reis e de imperadores.

— Peço perdão, meu amigo — disse então Chicot, dirigindo-se a um dos portadores de archotes — mas não poderia fazer o favor de me dizer para quem é toda essa música?

— Para o burguês que mora acolá — respondeu o criado indicando a casa de Roberto Briquet.

«Para mim! replicou Chicot; vejo que é para mim efectivamente.»

Chicot rompeu por entre a multidão para ler a explicação do enigma nas mangas e nos

peitos das fardas dos criados, porém todas as divisas heráldicas tinham sido cuidadosamente

encobertas por uma espécie de gibões pardacentos.

— Quem é o seu patrão, meu amigo? — perguntou Chicot a um tamborileiro que estava assoprando nos dedos para os aquecer, por não ter que tocar naquela ocasião.

— É o burguês que mora ali — respondeu o músico, apontando com a baqueta para a casa de Roberto Briquet.

«Ah! ah! disse Chicot, não só estão aqui por minha causa, mas até estão ao meu serviço! A coisa vai cada vez melhor; enfim, vamos ver no que isto dá.»

E disfarçando a cara com a careta mais complicada que pôde fazer, acotovelou para a direita e para a esquerda pajens, criados e músicos a fim de chegar à porta, manobra esta que conseguiu efectuar com bastante dificuldade; e ali, bem visível e resplandecente no centro do círculo formado pelos portadores de archotes, tirou a chave da algibeira, abriu a porta, entrou, tornou a fechá-la e correu os ferrolhos.

Depois, subindo à varanda, trouxe uma cadeira de couro, sentou-se nela com toda a comodidade, encostando a barba à balaustrada, e sem dar mostras de notar as risadas que a sua aparição provocava:

— Digam-me: os senhores não estarão enganados? — perguntou. — Esses trinados, harmonias e arpejos serão na verdade destinados a mim?

— O senhor é mestre Roberto Briquet? — perguntou o director da orquestra.

— Em pessoa.

— Pois então! aqui estamos todos às suas ordens, Senhor — replicou o italiano, fazendo com um pauzinho que tinha na mão um aceno, que desencadeou em nova borrasca de melodia.

«Realmente, não percebo» disse consigo Chicot, correndo os olhos pela multidão e pelas casas da vizinhança.

Todos os habitantes das casas circunvizinhas estavam à janela, nos limiares das portas ou confundidos com os grupos que estacionavam defronte da porta.

Mestre Fournichon, sua esposa e a comitiva toda dos quarenta e cinco, mulheres, crianças e criados, apareciam por todas as aberturas da hospedaria da Espada do Cavaleiro Destemido.

Apenas a casa fronteira se conservava sombria e muda como um túmulo.

Chicot continuava a procurar com a vista a explicação de tão indecifrável enigma, quando de repente viu, por entre as gretas das tábuas da varanda, que mesmo por baixo do alpendre da casa, a pequena distância dos seus pés, estava um homem embuçado num capote de cor escura, tendo na cabeça um chapéu preto com pluma vermelha e uma comprida espada à cinta, o qual, julgando que ninguém o observava, olhava com toda a sua alma para a casa fronteira, que era a tal casa deserta, muda e morta.

O chefe da orquestra largava do seu lugar de vez em quando para ir falar em voz baixa com o homem embuçado.

Chicot imediatamente adivinhou que estava ali todo o interesse da cena, e que aquele chapéu preto decerto encobriria um rosto de fidalgo.

Desde logo concentrou Chicot a sua atenção na misteriosa personagem; o papel de observador tornava-se-lhe fácil, por isso que a posição em que estava sobre a sacada lhe dava toda a liberdade de olhar para a rua e para baixo do alpendre: conseguiu portanto seguir todos os movimentos do desconhecido, esperando sempre ao menor descuido dele poder-lhe ver a cara.

De repente, enquanto Chicot estava absorto nestas observações, um cavaleiro acompanhado por dois escudeiros apareceu à esquina da rua e enxotou energicamente, às chicotadas, os curiosos que faziam roda aos músicos.

«O Sr. de Joyeuse!» murmurou Chicot, conhecendo que o cavaleiro não era outro senão o almirante-mor de França, que tinha ido calçar as botas e pôr as esporas por ordem do rei.

Depois de dispersados os curiosos, calou-se a orquestra.

Tinha obedecido provavelmente a algum aceno do amo.

O cavaleiro aproximou-se do fidalgo, que estava encoberto pelo alpendre.

— Então, Henrique — perguntou ele —, que novidades temos?

— Nada, meu irmão, nada.

— Nada?!

— Não, nem mesmo apareceu!

— Estes marotos não fizeram bastante bulha...

— Têm atordoado o bairro todo!...

— E não disseram em altas vozes, conforme lhes tinha sido recomendado, que estavam tocando em obséquio ao burguês que ali habita?...

— Disseram sim, e tanto que ele aí está na varanda ouvindo a serenata.

— E ela não apareceu?

— Nem ela, nem pessoa alguma.

— Pois a ideia era engenhosa — disse Joyeuse despeitado —, porque, enfim, ela muito bem podia, sem se comprometer, imitar o exemplo de toda esta boa gente, e aproveitar a música oferecida ao seu bom vizinho.

Henrique abanou a cabeça.

— Ah! bem se vê que não a conheces, meu irmão — disse ele.

— Estás enganado, conheço-a; isto é, conheço o que são mulheres, e como ela forma parte do sexo feminino, só te digo que é preciso não desanimar.

— Oh, meu Deus! estás-me dizendo isso, meu irmão, de um modo bem desanimador...

— Não há tal; e de hoje em diante é necessário que o burguês tenha a sua serenata todas as noites.

— E ela, não se mudará?

— Por que motivo, se tu nada dizes, não falas, e te conservas sempre oculto?... O burguês disse alguma coisa por lhe fazerem esta fineza?

— Indagou se era para ele a orquestra. Olha, meu irmão, ele lá vai falar outra vez.

E com efeito, Briquet, resolvido a esclarecer o negócio, tinha-se levantado para interrogar segunda vez o chefe da orquestra.

— Cale-se e meta-se dentro de casa — gritou Anne de mau humor. — Cos diabos! já teve a serenata, deve dar-se por satisfeito e conservar-se quieto.

— A minha serenata?! a minha serenata?! — respondeu Chicot com um modo muito lhano — mas desejo que me digam a quem é dirigida a minha serenata.

— À sua filha, toleirão.

— Peço perdão, meu Senhor: não tenho filha nenhuma.

— Pois então é à sua mulher.

— Graças a Deus, não sou casado.

— Então é ao senhor, ao senhor em pessoa.

— Sim, é a ti... e se não te metes já para dentro...

Joyeuse, acompanhando a ameaça com o gesto, arremessou o cavalo na direcção da varanda de Chicot, rompendo por entre os músicos.

— Com a breca! — gritou Chicot — se a música é para mim, quem é que se atreve a vir esmagar a minha música?

— Velho tonto! — resmungou Joyeuse, erguendo a cabeça — se não escondes já a carantonha no teu ninho de mocho, mando aos músicos que despedacem os instrumentos sobre a tua cachola!

— Deixa o pobre homem, meu irmão — disse de Bouchage —, o caso é que ele deve estar bem admirado.

— E de que se admira ele, por Deus!? Demais, bem vês que, se conseguirmos armar aqui uma pendência, sempre alguém há-de chegar à janela; vamos, pois, dar uma sova ao burguês, pôr-lhe fogo à casa, se tanto for preciso; mas, cos demónios! dêmos sinal de vida!

— Por piedade, meu irmão — disse Henrique —, não obriguemos a mulher a prestar-nos atenção à força; estamos vencidos, resignemo-nos.

Briquet não tinha perdido uma única palavra deste último diálogo, que muito havia contribuído para lhe aclarar as ideias ainda confusas; fazia pois mentalmente os aprestos para se defender, porque bem conhecia o carácter do seu agressor.

Joyeuse, porém, cedendo às razões de Henrique, não insistiu mais; despediu os pajens, os criados, os músicos e o maestro.

E depois, puxando o irmão de parte:

— Aqui onde me vês, estou desesperado — disse ele —, tudo conspira contra nós.

— Que queres dizer?

— Não posso continuar a ajudar-te.

— Com efeito, estás em trajo de jornada; ainda não tinha reparado nisso.

— Vou partir esta noite para Antuérpia com uma missão de el-rei.

— Quando ta deu ele?

— Esta noite mesmo.

— Oh! meu Deus!

— Vem comigo, eu to rogo! Henrique deixou pender os braços.

— Exiges isso, meu irmão? — perguntou ele, descorando só com a ideia de semelhante partida. — Se mo exiges, obedecerei.

— Peço-te, de Bouchage, não exijo.

— Obrigado, meu irmão. Joyeuse encolheu os ombros.

— Encolhes os ombros, Joyeuse: mas sempre te digo que, se me visse obrigado a deixar de passar as noites nesta rua e de contemplar aquela janela...

— Que sucederia?

— Morreria decerto.

— Pobre louco!

— Meu coração está lá, meu irmão — disse Henrique, apontando com a mão para a casa —, e lá está também a minha vida; não esperes que eu viva se me arrancares o coração do peito.

O duque cruzou os braços com enfado e dó ao mesmo tempo, mordeu o delgado bigode, e, depois de ter reflectido alguns instantes em silêncio:

— E se o teu pai te pedisse, Henrique — disse ele —, que consentisses em ser tratado por Miron, que é filósofo e médico juntamente?...

— Responderia a nosso pai que não estou doente, que a minha cabeça está sã, e que Miron não é capaz de curar a doença chamada amor.

— Vejo que não há remédio senão conformar-me com o teu modo de encarar as coisas, Henrique. Mas... para que hei-de eu estar com cuidado?... Aquela mulher é mulher, tu tens perseverança; o caso pois não é desesperado, e quando regressar virei encontrar-te mais alegre, mais jovial e mais folgazão ainda do que eu.

— Sim, sim, meu bom irmão — replicou o mancebo —, hei-de curar-me, sim, hei-de viver feliz e alegre; obrigado pela tua amizade, obrigado! é o meu bem mais precioso.

— Depois do teu amor...

— Antes da minha vida.

Joyeuse, profundamente comovido, apesar da sua aparente frivolidade, interrompeu arrebatadamente o irmão.

— Vamo-nos embora! — disse — os archotes já estão apagados, os instrumentos às costas dos músicos, e os criados vão-se pondo a caminho.

— Vai, vai, meu irmão, que eu te sigo — disse de Bouchage suspirando por ter de deixar a rua.

— Percebo — redarguiu Joyeuse —, uma última despedida à janela; é muito justo. Mas diz-me adeus a mim também, Henrique.

Henrique deitou os braços ao pescoço do irmão, que se debruçava para o abraçar.

— Não — disse ele —, acompanhar-te-ei até às portas; espera por mim a cem passos daqui. Pode ser que ela se deixe ver quando julgar que a rua está deserta.

Anne dirigiu o cavalo para a escolta, que tinha parado à distância de uns cem passos. — Vamos, vamos — disse —, já não precisamos dos senhores até nova ordem; vão-se embora.

Os archotes desapareceram, as conversas dos músicos e risadas dos criados foram deixando de se ouvir gradualmente, assim como os últimos sons arrancados por mãos distraídas às cordas das violas e dos alaúdes.

Roberto Briquet, quando viu que os dois mancebos se retiravam com os músicos, julgou logo que não tardaria em aparecer o desfecho daquela cena, se era que estava destinada a ter um desfecho.

Saiu por conseguinte da janela e fechou a vidraça com estrépito.

Alguns curiosos ainda teimavam em se conservar nos seus lugares; mas, ao cabo de dez minutos, mesmo os mais perseverantes tinham desaparecido.

Entretanto, Roberto Briquet tinha subido ao telhado, que era enfeitado de recortes dentados como os das casas flamengas, e, escondendo-se por detrás de um dos tais enfeites, observava as janelas fronteiras.

Assim que cessou o ruído na rua e deixaram de se ouvir instrumentos, passadas ou vozes; enfim, logo que tudo voltou à ordem costumada, uma das janelas superiores daquela casa tão singular abriu-se misteriosamente, e por ela saiu com toda a prudência uma cabeça.

— Acabou-se — murmurou uma voz de homem —, já não há perigo; era alguma caçoada que fizeram ao nosso vizinho; pode sair do esconderijo, minha Senhora, e voltar para o seu quarto.

O homem, a estas palavras, tornou a fechar a janela, feriu lume e acendeu uma lâmpada, que entregou à mão que estava estendida para a receber.

Chicot olhava com toda a atenção de que era susceptível.

Mas apenas avistou o pálido e sublime rosto da mulher que recebia a lâmpada, apenas viu o suave e triste olhar que trocavam o criado e a ama, empalideceu ele também e sentiu um calafrio correr-lhe pelas veias.

A jovem, pois teria quando muito vinte e quatro anos, desceu a escada; o criado seguiu-a.

«Ah! murmurou Chicot, correndo a mão pela testa para limpar o suor e como para afastar de si ao mesmo tempo uma visão terrível; ah! conde de Bouchage, valente e galante mancebo, louco namorado que esperas levar em breve vida alegre, folgada e divertida: bem podes transferir a tua divisa para teu irmão, pois nunca mais dirás hilariter.»

E em seguida desceu também para o seu quarto, com a fronte sombria, como se tivesse descido para um antro terrível ou para um abismo sangrento, e sentou-se às escuras, subjugado afinal, e mais completamente do que ninguém talvez, pela incrível influência da melancolia que se exalava do interior daquela casa.

 

         A BOLSA DE CHICOT

Chicot passou a noite toda na sua poltrona a meditar.

Tinha voltado, em imaginação, aos tempos passados, e via presente no pensamento toda uma época que já quase se lhe havia apagado da memória.

Durante toda a noite passou Chicot num mundo que ele já tinha deixado bem longe de si, todo ele povoado de sombras ilustres ou graciosas, que o olhar da mulher pálida, semelhante a uma lâmpada fiel, lhe mostrava desfilando uma a uma pela sua frente, acompanhadas de um séquito de recordações felizes e terríveis.

Chicot, que, ao sair do Louvre, vinha com tamanho desejo de dormir, nem pensou em se deitar. E por isso, logo que a aurora veio pratear-lhe os vidros das janelas, disse consigo:

«Já passou a hora dos fantasmas, cuidemos agora dos vivos.»

Levantou-se, cingiu a comprida espada, deitou para cima dos ombros um sobretudo de lã cor de borra de vinho, tecida de modo que a tornava impenetrável às mais abundantes chuvas, e com a firmeza estóica do homem prudente examinou, com um golpe de vista, o fundo da bolsa e as solas dos sapatos.

Estes últimos pareceram a Chicot habilitados a entrarem em campanha; aquela merecia particular atenção.

Faremos aqui alto por um pouco, na nossa narração, para depois prosseguirmos nela e satisfazermos assim a natural curiosidade dos nossos leitores.

Chicot, que era homem de imaginação engenhosa, como já sabemos, tinha aberto um buraco na trave-mestra que lhe atravessava a casa de extremo a extremo, contribuindo assim a um tempo para o ornato do edifício, por isso que era pintado de várias cores, e para a sua solidez, porque tinha pelo menos dezoito polegadas de diâmetro.

Era pois de uma cavidade aberta no centro da trave, e que teria pé e meio de comprimento por seis polegadas de largura, que ele tinha feito uma burra, na qual estavam escondidos mil escudos de ouro.

Eis o cálculo que Chicot tinha feito:

«Eu gasto por dia a vigésima parte de um destes escudos; tenho por conseguinte aqui quanto basta para viver vinte mil dias. Nunca poderei viver tanto tempo, mas posso muito bem chegar a metade dessa conta; daí, ao passo que eu for envelhecendo, as minhas precisões e, por consequência, as minhas despesas, hão-de aumentar, pois é indispensável que o bem-estar progrida na proporção da diminuição da vida. Tudo isto me dará à farta para viver vinte e cinco ou trinta anos. Ora, isto é mais que suficiente para as minhas necessidades, graças a Deus!»

Chicot era, portanto, segundo o cálculo que fazia e que acabámos de referir, um dos capitalistas mais opulentos da cidade de Paris, e o descanso em que estava a respeito do seu futuro dava-lhe certo orgulho.

Não era porque fosse avarento; bem pródigo mesmo tinha sido durante muito tempo; porém causava-lhe horror a miséria, porque sabia que a desgraça pesa sobre os ombros como um manto de chumbo, e faz curvar os ânimos mais fortes.

Naquela manhã, pois, ao abrir a caixa para dar contas a si mesmo, disse consigo:

«Com a breca! este século é bem duro e o tempo não está para generosidades. Não tenho que fazer alarde de delicadeza para com Henrique. Estes mil escudos nem dele me vieram, mas de um tio que me tinha prometido seis vezes mais: verdade seja que meu tio era solteiro. Se ainda fosse noite iria tirar cem escudos do bolso de el-rei; mas é dia, e só posso recorrer a mim mesmo... e a Gorenflot.»

Esta lembrança de sacar dinheiro a Gorenflot fez sorrir Chicot.

«Sempre queria ver, prosseguiu ele, que mestre Gorenflot, que me é devedor da sua fortuna, se atrevesse a negar cem escudos ao seu amigo, para serviço de el-rei, que o nomeou prior dos Domínicos. Ah! continuou, abanando a cabeça, já não é o mesmo Gorenflot. Sim, mas Roberto Briquet é sempre o mesmo Chicot. Porém a carta de el-rei!... aquela famosa carta destinada a incendiar a corte de Navarra... fiquei de ir buscá-la antes que fosse dia, e o dia já raiou! Não importa: de qualquer forma a alcançarei, e servir-me-á para atordoar o crânio de Gorenflot, se o seu cérebro se mostrar muito rebelde à persuasão. A caminho, pois!»

Chicot tornou a colocar no seu lugar a tábua que tapava o esconderijo, segurou-a com quatro pregos, cobriu-a com uma laje, sobre a qual espalhou a terra necessária para disfarçar as gretas, e depois, antes de sair, contemplou uma última vez aquele pequeno quarto, onde tinha passado tantos dias felizes, impenetrável e guardado como o coração no peito. Em seguida deitou os olhos para a casa fronteira.

«O caso é, disse ele consigo, que os demónios dos Joyeuses são capazes de me largarem fogo ao palácio, alguma destas noites, para atraírem por um instante à janela a dama invisível. Eh! eh! e se me queimarem a casa, lá se derretem os mil escudos!... Parece-me que seria mais prudente enterrar essa soma. Ora adeus! se os Srs. de Joyeuse me queimarem a casa, el-rei há-de pagá-la.»

Chicot, depois de fazer estas reflexões, fechou a porta e tirou a chave; mas quando se ia encaminhando para a banda do rio:

«Ah! pensou ele, Nicolau Poulain pode muito bem vir por aí, parecer-lhe a minha ausência suspeita e... Ora esta! estou hoje com ideias bem tímidas. A caminho, a caminho!»

Quando Chicot estava fechando a porta da rua com a mesma cautela com que tinha fechado a porta do quarto, viu que o criado da dama incógnita estava tomando ar à janela, fiado provavelmente em que ninguém o veria por ser muito cedo.

O tal homem tinha ficado, como já dissemos, completamente desfigurado por uma ferida cuja cicatriz principiava na fonte esquerda, e se lhe estendia por quase toda a face.

Demais a mais, um dos sobrolhos, tendo abatido com a força da pancada, escondia-lhe quase inteiramente o olho esquerdo, que estava sumido para dentro da órbitra.

Coisa célebre! apesar da testa calva e da barba grisalha, tinha o olhar vivo, e uma espécie de frescura de mocidade na face que havia ficado intacta.

Ao avistar Roberto Briquet, que vinha descendo os degraus da porta, cobriu a cabeça com o capelo.

Fez em seguida um movimento como para se retirar para dentro, porém Chicot fez-lhe sinal que ficasse.

— Ó vizinho! — gritou Chicot — a algazarra de ontem à noite desgostou-me da casa; vou passar algumas semanas para a minha quinta; quer fazer-me o favor de deitar para aqui as suas vistas de vez em quando?

— Sim senhor — respondeu o desconhecido —, com todo o gosto.

— E se acaso percebesse ladrões...

— Tenho um arcabuz, vizinho: pode ir descansado.

— Obrigado. Todavia, tenho outro obséquio a pedir-lhe, vizinho...

— Diga, que o estou ouvindo.

Chicot pareceu medir com a vista a distância que o separava do seu interlocutor.

— É uma coisa que não lhe posso dizer agora, assim de longe, meu caro vizinho... —

acrescentou ele.

— Pois então, eu vou lá abaixo — replicou o desconhecido.

Com efeito, Chicot viu-o desaparecer da janela e, como entretanto se tinha aproximado mais da casa, sentiu-lhe as passadas, até que afinal abriu-se a porta e acharam-se ambos de cara

a cara.

Desta vez o criado tinha encoberto o rosto completamente com o capelo.

— Sempre faz hoje muito frio! — disse ele como para disfarçar ou desculpar tão misteriosa cautela.

— Está um vento frigidíssimo, meu vizinho — replicou Chicot, evitando olhar para o seu interlocutor a fim de não o constranger.

— Estou pronto a ouvi-lo, Senhor.

— Eis o caso — disse Chicot —, eu vou-me embora...

— Já me fez a honra de o dizer.

— Lembro-me perfeitamente; porém vou e deixo dinheiro em casa...

— Não faz bem, Senhor, não faz bem; leve-o consigo.

— Nada! o homem que se vê na necessidade de defender a bolsa e a vida ao mesmo tempo, atrapalha-se e não tem tanta resolução. Deixo portanto o meu dinheiro ali, muito bem escondido, e o único desastre que tenho a recear é algum incêndio. Dando-se esse caso, peço ao meu vizinho que queira vigiar a combustão daquela trave grande cuja extremidade vê acolá à direita, esculpida em forma de carranca, e que dê busca às cinzas, depois dela queimada.

— Digo-lhe, na verdade, Senhor — respondeu o desconhecido com visível descontentamento —, que muito me pesa essa sua recomendação. Seria muito mais conveniente fazer uma tal confidência a qualquer amigo seu do que a um homem que não conhece e que nunca poderá conhecer.

Ao dizer estas palavras, o seu olhar penetrante interrogava o semblante afectadamente ingénuo de Chicot.

— É verdade — respondeu este —, não o conheço; mas confio muito nas fisionomias, e acho que a sua é de homem de bem.

— Pense contudo, Senhor, na responsabilidade que me está impondo. Não poderá muito bem ser que a repetição daquela música acabe por enfastiar minha ama, como enfastiou o senhor, e que nesse caso nos mudemos também?...

— Pois bem — respondeu Chicot —, se assim suceder acabou-se a sua responsabilidade, meu vizinho, e nem por isso me queixarei.

— Agradeço muito a confiança que deposita num pobre desconhecido — disse o criado inclinando-se. — Hei-de fazer a diligência por corresponder a ela.

E cortejando Chicot, entrou em casa.

Chicot cumprimentou-o também afectuosamente, e logo que o outro fechou a porta: «Pobre homem! murmurou ele; este sim, é um verdadeiro fantasma; e contudo já o vi tão alegre, tão vivo e tão galante!...»

 

         O PRIORADO DOS DOMINICANOS

O priorado com que o rei tinha presenteado Gorenflot, para remunerar os seus serviços, e especialmente a sua brilhante facúndia, era situado a dois tiros de espingarda, pouco mais ou menos, para lá da Porta de Santo António.

O bairro da Porta de Santo António era naquele tempo muito frequentado pela nobreza, por isso que o rei fazia amiudadas visitas ao Castelo de Vincennes, a que chamavam ainda naquela época Bosque de Vincennes.

Por toda a estrada que ia ter ao castelo viam-se, de espaço a espaço, várias casas de campo de fidalgos, cercadas de lindos jardins, e ali se realizavam numerosas entrevistas, das quais nos atrevemos a asseverar que era rigorosamente excluída a política, apesar da mania que então tinham até os mais insignificantes burgueses de se ocuparem dos negócios do Estado.

O resultado de todas aquelas idas e vindas da corte era que a estrada, guardadas as devidas proporções, tinha naquele tempo a mesma importância que hoje em dia adquiriram os Campos-Elísios.

Era, como já se vê, uma bela posição para o priorado, o qual se erguia com soberba à direita da estrada de Vincennes.

Constava o convento de um quadrilátero de edifícios, que cercavam um enorme pátio cheio de arvoredo, de uma horta que ficava por detrás dos edifícios e de uma imensidade de estabelecimentos anexos, que lhe davam a extensão de uma aldeia.

Duzentos religiosos dominicanos ocupavam os dormitórios, que ficavam no fundo do pátio, paralelamente à estrada.

Na frente do edifício, quatro janelas bem resguardadas, que davam para uma varanda de ferro, proporcionavam aos quartos do prior ar, claridade e vida.

O priorado, semelhante a uma cidade que está exposta a ser sitiada, tinha em si todos os recursos que lhe ofereciam os territórios tributários de Charonne, Montreuil e São Man-deto; as suas pastagens serviam para engordar uma manada sempre completa de cinquenta bois, e um rebanho de noventa e nove carneiros; por isso que as ordens religiosas, ou fosse por tradição, ou por lei escrita, não podiam possuir um cento de coisa alguma.

Um edifício especial abrigava também noventa e nove porcos, de uma raça particular, que eram criados com amizade e desvelo por um toucinheiro escolhido pelo próprio Dom Modesto.

O toucinheiro era devedor de tão honrosa escolha ao esmero com que preparava outrora as carnes ensacadas que serviam para o consumo da casa de pasto da Cornucópia.

Dom Modesto, lembrado dos bons jantares que noutro tempo tinha comido em casa de mestre Bonhomet, pagava assim as dívidas de Gorenflot.

É escusado mencionar a copa e a adega.

O pomar do priorado, que ficava ao nascente e ao sul, dava excelentes pêssegos, damascos e uvas; as conservas e os doces de todas estas frutas eram fabricados por um certo Frei Eusébio, autor do famoso rochedo de doces que a municipalidade de Paris tinha oferecido às duas rainhas por ocasião do último banquete.

Quanto à adega, essa tinha-a enchido Gorenflot do belo borgonha, pois possuía a predilecção inata dos bons bebedores, que afirmam em geral que o vinho de Borgonha é o único a que verdadeiramente se pode chamar vinho.

É no centro daquele priorado, verdadeiro paraíso de mandriões e gulosos, e no quarto sumptuoso do primeiro andar, cuja varanda deita para a estrada, que vamos encontrar Gorenflot, com aquela espécie de gravidade venerável que o hábito constante de uma vida descansada e próspera dá às fisionomias mais vulgares.

Gorenflot, embrulhado no seu hábito branco de neve, com uma murça preta que lhe aquece os ombros, já não tem os gestos tão desenvoltos como quando usava um hábito cinzento de simples frade; porém apresenta mais majestade.

A sua mão, que pelo tamanho e gordura se assemelhava ao quarto traseiro de um carneiro, descansa sobre um livro in-quarto, que fica completamente oculto; os seus imensos pés esmagam a almofada que os sustenta, e os braços já não têm suficiente comprimento para servirem de cinto à barriga.

Acabam de dar as sete da manhã.

O prior foi o último que se levantou, usando do benefício da regra monástica, que concede ao chefe mais uma hora para dormir do que aos outros frades; está acabando o interrompido sono numa grande poltrona de encosto, macia como um colchão de penas.

A mobília do quarto onde está dormitando o estimável abade é mais mundana que religiosa; uma mesa de pés torneados, coberta com um rico pano, painéis livres representando assuntos religiosos, mistura singular de amor e de devoção que só naquela época se encontra na arte, vasos preciosos de igreja ou de mesa sobre os aparadores; e nas janelas de igreja ou de mesa sobre os aparadores; e nas janelas, amplos cortinados de brocado de Veneza, mais esplêndidos, apesar da sua antiguidade, do que as mais custosas fazendas novas — eis as riquezas de que se tinha tornado possuidor Dom Modesto Gorenflot, pela graça de Deus, do rei e especialmente de Chicot.

Dormia pois o prior na sua poltrona, apesar da luz do dia, que lhe tinha vindo fazer a visita quotidiana, prateando-lhe com o reflexo o rosto purpúreo e nacarado.

A porta do quarto abriu-se de manso, e entraram dois frades sem que o prior acordasse.

O primeiro era um homem de trinta a trinta e cinco anos, magro, pálido, com ademanes militares, apesar do seu hábito de domínico; caminhava com a cabeça erguida; o olhar, despedido como uma seta dos seus olhos de falcão, era imperioso, e contudo, o seu brilho era temperado pelo jogo das compridas pálpebras brancas, que faziam destacar, quando se abaixavam, um largo círculo de bistre que lhe rodeava os olhos.

Mas quando, pelo contrário, aquela pupila preta brilhava por entre as bastas sobrancelhas e a cercadura fouveira da órbita, parecia um relâmpago fulgurante no centro de duas nuvens acobreadas.

Chamava-se este frade Borromeu: era tesoureiro do convento havia três semanas.

O outro era um mancebo de dezassete a dezoito anos, com olhos pretos e vivos, cara atrevida, barba saliente; de pequena estatura, mas bem talhada; as mangas, do seu hábito, arregaçadas até ao cotovelo, deixavam ver com certa presunção dois braços nervosos prontos a gesticular.

— O prior ainda dorme, Frei Borromeu'— disse o mais novo dos dois monges para o outro —, devemos acordá-lo?

— Deus nos livre de tal, Frei Tiago! — replicou o tesoureiro.

— É realmente uma pena termos um prior que dorme tanto — tornou o fradépio —, porque poderíamos aproveitar a manhã para experimentar as armas. Já observou que lindas couraças e que belos arcabuzes há no depósito das armas?

— Caluda, meu irmão! alguém pode ouvi-lo.

— Que pena! — replicou o fradépio, batendo no chão com o pé, o que não se ouviu em consequência da espessura da alcatifa — está o tempo hoje tão bonito e o pátio tão enxuto! Que boa ocasião para fazermos exercício, irmão tesoureiro!

— É preciso esperarmos, meu filho — disse Frei Borromeu com fingida humildade, que bem desmentia o fogo do seu olhar.

— Mas porque não manda que se distribuam as armas? — respondeu arrebatadamente Tiago, arregaçando de novo as mangas, que lhe tinham caído.

— Eu, mandar?...

— Sim, o senhor.

— Eu não mando aqui, bem o sabe, meu irmão — replicou Borromeu com compunção —, não vê aí o nosso chefe?

— Nesta poltrona... dormindo... quando todos velam — disse Tiago em tom menos respeitoso do que impaciente.

E um olhar inteligente e altivo pareceu querer penetrar até ao fundo do coração de Frei Borromeu.

— Respeitemos a sua categoria e o seu sono — disse este, adiantando-se até ao meio do quarto, e com tanta infelicidade que fez cair um escabelo.

Apesar de a alcatifa ter amortecido o som do pé de Frei Tiago, Dom Modesto estremeceu e acordou.

— Quem vem lá!? — gritou com o tom de voz de uma sentinela que acorda sobressaltada.

— Senhor Prior — disse Frei Borromeu —, desculpe se interrompemos o seu devoto meditar, porém venho receber as suas ordens.

— Ah! bons-dias, Frei Borromeu — disse Gorenflot com um leve aceno de cabeça.

E em seguida, depois de um instante de reflexão, durante o qual era evidente que acabava de dar tratos à memória:

— Que ordens? — perguntou, piscando três ou quatro vezes os olhos.

— Relativamente às armas e às armaduras.

— Às armas e às armaduras?... — perguntou Gorenflot.

— Sim senhor; Vossa Majestade Reverendíssima deu ordem para trazer para aqui as armas e as armaduras.

— A quem?

— A mim.

— Ao senhor?... Pois eu mandei buscar armas?!...

— Não há dúvida nenhuma, Senhor Prior — replicou Borromeu com voz tranquila

e firme.

— Eu?! — repetiu Dom Modesto com a maior admiração — eu?!... E quando foi isso?

— Há oito dias.

— Ah! já lá vão oito dias!... Mas... para que são as tais armas?

— Vossa Reverendíssima disse, e eu vou repetir as suas próprias palavras: «Frei Borromeu seria muito conveniente comprar uma porção de armas para armarmos os nossos monges e irmãos; os exercícios ginásticos desenvolvem as forças do corpo, assim como as exortações piedosas desenvolvem as do espírito.»

— Eu disse isso?... — perguntou Gorenflot.

— Sim senhor, Reverendo Prior; e eu, frade indigno e obediente, tratei logo de dar cumprimento às suas ordens, e comprei uma porção de armas de guerra.

— É coisa muito célebre... — murmurou Gorenflot — não me recordo de nada do que está dizendo!

— Até acrescentou, Reverendo Prior, este texto latino: Militat spiritu, militat gladio.

— Oh! — exclamou Dom Modesto, espantando muito os olhos — pois eu acrescentei o texto?!...

— Eu tenho uma memória muito fiel — respondeu Borromeu, baixando os olhos com modéstia.

— Se eu assim disse — replicou Gorenflot, abanando vagarosamente a cabeça de alto a baixo —, foi porque tive motivos para o dizer, Frei Borromeu. E, com efeito, sempre fui de opinião que é necessário exercitar o corpo; quando era simples frade militei de palavras e com a espada: Militat... spiritu... hem?... Muito bem, Frei Borromeu; foi uma inspiração do Altíssimo.

— Vou pois acabar de dar execução às suas ordens, Reverendo Prior — disse Borromeu, retirando-se com Frei Tiago, o qual, não cabendo em si de alegria, lhe puxava pela extremidade do hábito.

— Vá! — respondeu majestosamente Gorenflot.

— Ah! Senhor Prior — disse Frei Borromeu, tornando a entrar poucos segundos depois de ter desaparecido —, já me ia esquecendo...

— O quê?

— Está no locutório um amigo de Vossa Reverendíssima, que lhe deseja falar.

— Como se chama ele?

— Roberto Briquet.

— Roberto Briquet — replicou Gorenflot — não é um amigo meu, é um simples conhecido.

— Visto isso, Vossa Reverendíssima não o quer receber...

— Sim, sim — replicou indolentemente Gorenflot —, esse homem diverte-me; diga-lhe que suba.

Frei Borromeu inclinou-se novamente e saiu. Quanto a Frei Tiago, esse tinha ido num pulo do quarto do prior para a casa onde estavam arrecadadas as armas. Passados uns cinco minutos, tornou-se a abrir a porta e entrou Chicot.

 

         OS DOIS AMIGOS

Dom Modesto conservou-se negligentemente reclinado como estava.

Chicot atravessou o quarto para se aproximar dele. O prior deu-se apenas ao incómodo de inclinar levemente a cabeça para indicar ao recém-chegado que o via.

Chicot não mostrou admirar-se da indiferença do prior; continuou a andar, e logo que chegou a uma distância respeitosamente calculada, cumprimentou-o.

— Bons-dias, Senhor Prior — disse ele.

— Ah é o senhor? — exclamou Gorenflot. — Ressuscitou, pelo que vejo...

— Julgava que eu tinha morrido, Senhor Prior?

— Pois então! já não aparecia...

— Tenho tido muito que fazer.

— Ah!

Chicot sabia que Gorenflot era avaro de palavras, quando não estava esquecido por duas ou três garrafas de vinho de Borgonha velho.

E como, segundo todas as probabilidades, visto estar o dia pouco adiantado, ainda Gorenflot se achava em jejum, pegou numa boa poltrona e sentou-se, sem dizer palavra, ao canto do fogão, encostando os pés às barras de ferro e o corpo ao espaldar estofado.

— Tenciona almoçar comigo, Senhor Briquet? — perguntou Dom Modesto Gorenflot.

— Pode ser, Senhor Prior.

— Peço-lhe que não fique de mal comigo, Sr. Briquet, se me for impossível empregar em receber a sua visita tanto tempo quanto eu quisera...

— E quem demónio lhe pede o seu tempo, Senhor Prior? Com a breca! eu nem mesmo lhe Pedi para almoçar: foi o senhor que ofereceu!...

— Decerto, Sr. Briquet — disse Dom Modesto com tal hesitação, que bem dava a conhecer a impressão que lhe havia causado a firmeza da resposta de Chicot. — Sim, não há dúvida, ofereci, mas...

— Mas julgava que eu não aceitaria?...

— Oh! não. Tenho porventura o costume de usar de fingimento?... diga-me, Sr. Briquet.

— Um homem de génio tão superior, como o Senhor Prior, adopta facilmente todos os es — respondeu Chicot, com um daqueles sorrisos que lhe eram próprios.

Dom Modesto olhou para Chicot a piscar os olhos. Não podia adivinhar se Chicot estava caçoando ou falando sério.

Chicot tinha-se levantado.

— Por que motivo se levanta, Sr. Briquet? — perguntou Gorenflot.

— Porque me vou embora.

— E por que razão se vai embora, depois de ter dito que almoçaria comigo?

— Em primeiro lugar, eu ainda não disse que queria almoçar com o senhor...

— Peço perdão! eu ofereci-lhe...

— E eu respondi «pode ser»; pode ser, não quer dizer que sim.

— Está zangado?

Chicot deu uma gargalhada.

— Eu, zangar-me?!... — disse ele — e porque me havia de zangar? Por o senhor ser néscio e malcriado? Oh! meu caro prior, conheço-o há tanto tempo que não me escandalizam essas suas pequenas imperfeições.

Gorenflot, aterrado pela ingénua réplica do seu hóspede, ficou de boca aberta, com os braços estendidos.

— Adeus, Senhor Prior — disse Chicot.

— Oh! não se vá!

— A minha jornada não me permite demora.

— Tem de fazer jornada?

— Recebi uma missão.

— De quem?

— De el-rei.

Gorenflot passava de espanto para espanto.

— Uma missão... — repetiu ele — uma missão de el-rei?! tornou pois a vê-lo?!...

— Não há dúvida.

— E como o recebeu ele?

— Com a maior satisfação: tem boa memória, apesar de ser rei.

«Uma missão de el-rei, balbuciou Gorenflot, e eu descarado, eu néscio, eu malcriado!...»

A inchação do coração de Gorenflot ia diminuindo à medida que ele fazia estas reflexões, assim como se achata um balão de que vai fugindo o ar por buraquinhos feitos com uma agulha.

— Adeus — repetiu Chicot.

Gorenflot levantou-se da poltrona, e com a sua enorme mão deteve o fugitivo, o qual, devemos confessá-lo, cedeu facilmente àquela violência.

— Ora vamos! expliquemo-nos — disse o prior.

— A respeito de quê? — perguntou Chicot.

— Dessa susceptibilidade com que está hoje.

— Eu estou hoje como sempre.

— Não está!

— Sou espelho fiel das pessoas com quem lido.

— Não é tal...

— Assim, se o senhor se ri, rio-me também eu; se se mostra zangado, fico carrancudo

— Não, não, não!

— Sim, sim, sim.

— Pois bem, confesso a minha culpa: estava preocupado.

— Deveras?!

— Não quer mostrar-se indulgente para com um homem sobrecarregado de árduos trabalhos? Assim Deus me salve: às vezes nem sei da cabeça! Não sabe que este priorado dá tanto que fazer como o governo de uma província?... Lembre-se que estou à testa de duzentos homens, e que sou a um tempo despenseiro, arquitecto e mordomo, tudo isto sem falar das minhas funções espirituais.

— Oh! com efeito a tarefa é difícil, para um servo indigno de Deus.

— Isso é ironia — disse Gorenflot —, o Sr. Briquet perdeu acaso a sua caridade cristã?

— Pois eu tinha alguma?...

— Parece-me também que é a inveja que o incita; tome sentido, a inveja é um pecado mortal.

— Incita-me a inveja?! e que posso eu invejar? peço-lhe que mo diga.

— Hum!... o senhor diz lá com os seus botões: o prior Dom Modesto Gorenflot vai subindo progressivamente, está na linha ascendente...

— Enquanto eu estou na linha descendente, não é verdade? — respondeu Chicot ironicamente.

— Por causa da falsa posição em que se colocou, Sr. Briquet.

— Senhor Prior, lembre-se do texto do Evangelho.

— Que texto?

— Aquele que diz: o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.

— Histórias! — exclamou Gorenflot.

— Está bem; aí temos o herege, duvidando da veracidade dos textos sagrados! — exclamou Chicot pondo as mãos.

— Herege?! — repetiu Gorenflot — os hereges são os huguenotes!

— Pois então, será cismático.

— Vamos lá, Sr. Briquet! que quer dizer com isso? Está-me realmente azoinando a cabeça.

— Nada tenho a dizer, senão que vou fazer uma viagem e queria despedir-me do senhor. Portanto: adeus, Sr. Dom Modesto.

— Não há-de deixar-me assim.

— Pois creia que o vou já deixar.

— O senhor?

— Eu mesmo.

— O meu amigo?

— Quem está em posição tão elevada já não tem amigos.

— O Sr. Chicot?

— Eu já não sou Chicot, ainda há pouco mo lançou em rosto.

— Eu?! quando foi isso!?

— Quando me falou na minha falsa posição.

— Lançar em rosto!... ah! que palavras está proferindo hoje!

E o prior abaixou a imensa cabeça, tornando, com aquele movimento, as três barbas numa só, de encontro ao seu pescoço de touro. Chicot estava-o observando a furto, e percebeu que ele descorava um pouco.

— Adeus, e não me queira mal por lhe ter dito algumas verdades. E fez um movimento para sair.

— Diga-me o que quiser, Sr. Chicot — exclamou Dom Modesto —, mas não torne a olhar para mim desse modo!

— Ah! ah! esse pedido já vem tarde...

— Nunca é tarde para o arrependimento! E atenda que não é bom pôr-se a gente a caminho sem comer! é nocivo à saúde; o senhor mesmo mo tem dito mais de vinte vezes! Pois então, almocemos.

Chicot estava resolvido a recuperar de um golpe todo o seu ascendente.

— Juro-lhe que não! — disse ele. — A comida aqui não presta.

Corenflot tinha sofrido com ânimo as demais arguições; esta, porém, fê-lo sucumbir.

— A comida não presta... em minha casa?!— balbuciou fora de si.

— É essa pelo menos a minha opinião — disse Chicot.

— Não lhe agradou o último jantar que lhe ofereci?...

— Ainda sinto o mau gosto que me deixou na boca! fora!

— Disse «fora»!... — exclamou Gorenflot, levantando as mãos para o Céu.

— Sim senhor — respondeu Chicot resolutamente —, disse «fora».

— Mas... por que motivo? diga-me!

— As costeletas de porco estavam infamemente queimadas.

— Oh!...

— As orelhas estufadas não estalavam na boca.

— Oh!...

— A galinha com arroz não sabia senão a água.

— Justo Céu!...

— A sopa de camarões vinha cheia de gordura.

— Misericórdia!

— Os molhos de substância traziam uma tal dose de azeite que ainda o estou sentindo no

estômago.

— Chicot! Chicot!... — suspirou Dom Modesto, no mesmo tom de voz com que César

ao expirar disse para o assassino: «Bruto! Bruto!...»

— E demais, o senhor não tem tempo para me receber.

— Eu?!...

— Disse-me que tinha que fazer; disse, ou não? Não lhe faltava mais nada senão ser mentiroso!

— É negócio que pode ficar para outro dia. É uma devota que deseja falar-me, e nada mais.

— Pois vá recebê-la.

— Não! não! meu caro Sr. Chicot... apesar de ela me ter mandado cem garrafas de vinho

da Sicília.

— Cem garrafas de vinho da Sicília?

— Não quero recebê-la, se bem que esteja persuadido de que é uma senhora de elevada hierarquia; não quero recebê-la: só desejo a sua companhia, meu caro Sr. Chicot. A tal fidalga, que manda garrafas de vinho da Sicília aos centos, quer ser minha confessada; pois bem! se o meu amigo o exige, negar-lhe-ei os meus conselhos espirituais; mandar-lhe-ei dizer que escolha outro director.

— E é capaz de fazer isso?...

— Para almoçar na sua companhia, meu caro Chicot! para que me perdoe os meus maus

modos.

— Os seus maus modos provêm do seu excessivo orgulho, Dom Modesto.

— Humilhar-me-ei, meu amigo.

— Da sua insolente preguiça.

— Chicot! Chicot! prometo que, de amanhã em diante, hei-de começar a mortificar-me mandando os meus frades fazer exercício todos os dias.

— Exercício... os seus frades?!... — exclamou Chicot, espantando os olhos. — Que exercício? o da faca e o do garfo?...

— Não, o das armas.

— O exercício das armas?

— Exactamente; e todavia cansa bastante o comandar.

— Pois comanda o exercício dos domínicos?

— Vou comandá-lo, pelo menos.

— De amanhã em diante?

— De hoje em diante, se quiser.

— E quem foi que teve a lembrança de mandar fazer exercício aos masmarros?

— Fui eu, segundo dizem — replicou Gorenflot.

— O senhor?! é impossível!

— Fui, sim senhor: eu mesmo dei a ordem a Frei Borromeu.

— Quem é esse Frei Borromeu?

— Ah! é verdade: não o conhece.

— Que é que ele faz?

— É o tesoureiro do convento.

— Como é que tem aqui um tesoureiro que eu não conheço?

— Veio para o convento depois que o senhor aqui esteve.

— E de onde lhe veio esse tesoureiro?

— Foi o Senhor Cardeal de Guisa quem mo recomendou.

— Em pessoa?

— Por carta, meu caro Sr. Chicot, por carta.

— Será acaso aquele cara de milhafre que eu vi lá em baixo?...

— É esse mesmo.

— O que veio trazer o meu recado?

— Sim senhor.

— Oh! oh!... — exclamou involuntariamente Chicot — e quais são as prendas desse tal tesoureiro, tão eficazmente protegido pelo Senhor Cardeal de Guisa?

— É um pitágoras em contabilidade.

— E foi de combinação com ele que resolveu mandar fazer exercício de armas aos monges?...

— Sim, meu amigo.

— Isto é: foi ele quem o aconselhou que armasse os frades, não é assim?

— Não, meu caro Sr. Chicot, a ideia foi minha, unicamente minha.

— E para que fim?

— Para os armar, simplesmente.

— Nada de orgulho, pecador endurecido! o orgulho é um pecado mortal; não foi o senhor que teve essa lembrança.

— Fui eu... ou ele, já não me lembra bem a qual dos dois ocorreu primeiro a ideia... Não, não! foi a mim, não há dúvida; até me dizem que proferi por essa ocasião uma citação latina muito judiciosa e muito brilhante...

Chicot chegou-se mais para o prior.

— Proferiu uma citação latina, meu caro prior?!... — disse Chicot. — E lembra-se ainda dessa citação?

— Militat... spiritu... -— Militat spiritu, militat gladio.

— É isso! é isso mesmo! — gritou Dom Modesto com entusiasmo.

— Está bom, está bom — disse Chicot —, desculpa-se com tão boas maneiras, Dom Modesto, que não posso deixar de lhe perdoar.

— Oh!... — exclamou Gorenflot enternecido.

— É, como sempre, meu amigo, meu verdadeiro amigo. Gorenflot enxugou uma lágrima.

Almocemos pois, que eu prometo ser indulgente para com o almoço.

— Olhe — disse Gorenflot enrusiasmado —, vou mandar dizer ao irmão cozinheiro que se não nos fizer uma comida de príncipes, ferro com ele no calabouço!

— Mande, mande — replicou Chicot —, é senhor aqui, meu prezado prior.

E sacaremos as rolhas a algumas das garrafas da minha devota!

- Prestar-lhe-ei para isso o auxílio das minhas luzes, meu caro amigo.

- Dê-me um abraço, Chicot!

- Não me abafe e conversemos.

 

         OS DOIS CONVIVAS

Gorenflot não levou muito tempo para dar as suas ordens.

O estimável prior bem mostrava estar na linha ascendente, como ele afirmava, quando se tratava dos pormenores de um jantar e dos progressos da ciência culinária.

Dom Modesto mandou chamar Frei Eusébio, que compareceu imediatamente, não perante o seu chefe, mas perante o seu juiz.

Pelo modo por que tinha sido chamado, logo adivinhara que havia alguma novidade a seu respeito.

— Frei Eusébio — disse Gorenflot com voz severa —, ouça o que tem a dizer-lhe o meu amigo Sr. Briquet. Consta-me que tem tido algum descuido no desempenho das suas obrigações. Ouvi falar em graves incorrecções que se notaram na última sopa de camarão que fez, assim como um fatal desleixo a respeito das orelhas estufadas. Tome sentido, Frei Eusébio, tome sentido! Um único passo dado no caminho errado, arrasta o corpo todo.

O frade corou e desmaiou alternadamente, e balbuciou uma desculpa, que não foi admitida.

— Basta — disse Gorenflot. Frei Eusébio calou-se.

— Que tem hoje para o almoço? — perguntou o Reverendo Prior.

— Temos ovos mexidos com cristas de galos.

— E que mais?

— Cogumelos recheados.

— E que mais?

— Caranguejos cozidos em vinho Madeira.

— Isso tudo não passa de pitéus; quer-se algum prato de resistência; vamos, diga depressa.

— Há também um presunto adubado com alfóstigos.

— Fora! — disse Chicot.

-— Peço perdão — interrompeu Eusébio timidamente —, foi cozido em vinho de Xerez seco... Está entremeado com um pedaço de carne de vaca que esteve de conserva em azeite de Aix, para amaciar, de forma que se pode comer com a gordura da vaca a fêvera do presunto, e com a gordura do presunto a fêvera da vaca.

Gorenflot aventurou para Chicot um olhar acompanhado de um gesto de aprovação.

— Agrada-lhe isto, não é assim, Sr. Roberto? — disse ele. Chicot respondeu com um gesto de semi-satisfação.

— E depois — perguntou Gorenflot —, que mais tem?

— Pode-se aprontar uma enguia num abrir e fechar de olhos.

— Fora com a enguia! — disse Chicot.

— Parece-me, Sr. Briquet — respondeu Frei Eusébio, animando-se gradualmente —, que não se há-de arrepender de comer enguias preparadas por mim.

— Então que raridade têm as suas enguias?

— Engordo-as por um método particular.

— Oh! oh!

— Sim — acrescentou Gorenflot —, dizem que os Romanos, ou os Gregos (não sei bem quais deles), um povo da Itália, enfim, engordavam as lampreias pelo sistema de Frei Eusébio. Ele aprendeu a receita numa obra de um autor antigo, chamado Suetónio, que escreveu a arte de cozinhar.

— Pois quê, Frei Eusébio!? — exclamou Chicot — o senhor engorda as suas enguias com carne humana?!...

— Não senhor: pico muito miúdo os intestinos e fígados das galinhas e outras aves, junto-lhes uma pouca de carne de porco, e fabrico com o picado uma espécie de carne para encher chouriços, que dou a comer às minhas enguias, as quais, assim criadas em água doce, mudada com frequência, e sobre um fundo de saibro fino, tornam-se gordas no espaço de um mês, e ao passo que engordam esticam consideravelmente. Por exemplo: a que tenciono apresentar hoje ao Senhor Prior pesa nove arráteis.

— É uma cobra então? — disse Chicot.

— Engolia de uma vez um frango de seis dias.

— E por que maneira a preparou? — perguntou Chicot.

— Sim, como foi que a preparaste? — repetiu o prior.

— Tirei-lhe a pele, tostei-a ao lume, molhei-a em manteiga de anchovas e embrulhei-a em pão ralado; depois há-de ser posta nas grelhas durante dez segundos; e feito isto, terei a honra de lha apresentar na mesa coberta com um molho adubado com pimentão e alho.

— E o molho?

— Sim, o molho de que há-de constar?

— O molho, simples, de azeite de Aix, batido com limão e mostarda.

— Muito bem — disse Chicot. Frei Eusébio respirou.

— Faltam agora os doces — observou judiciosamente Gorenflot.

— Hei-de inventar algum manjar capaz de agradar ao Senhor Prior — disse Frei Eusébio.

— Está bem, fio-me em si — disse Gorenflot —, mostre-se merecedor da minha confiança.

Eusébio cortejou.

— Visto isso, posso retirar-me? — perguntou ele. O prior consultou Chicot.

— Que se vá embora — disse Chicot.

— Retire-se, e mande cá o irmão despenseiro. Eusébio inclinou-se de novo e saiu.

O irmão despenseiro apresentou-se após Frei Eusébio, e recebeu ordens igualmente terminantes e circunstanciadas.

Daí a dez minutos, os dois convivas, enterrados em duas grandes poltronas guarnecidas de almofadas, em frente da mesa coberta com uma toalha de linho fino, e armados de facas e garfos, pareciam dois duelistas prontos a acometerem-se um ao outro.

A mesa, conquanto fosse suficiente para seis pessoas, estava atravancada com garrafas de diversos feitios e rótulos, que nela tinha acumulado o despenseiro.

Eusébio, observando fielmente o seu programa, acabava de mandar os ovos mexidos, os caranguejos e os cogumelos, que espargiam no ar um apetitoso cheiro de túbaras, de manteiga fresca como nata, de tomilho e de vinho Madeira.

Chicot atirou-se ao almoço como um homem esfomeado.

O prior, pelo contrário, começou a comer como desconfiado de si, do cozinheiro e do conviva.

Porém, ao cabo de alguns minutos, era Gorenflot quem devorava, e Chicot apenas observava.

Começaram pelo vinho do Reno, depois passaram ao borgonha de 1550; fizeram em seguida uma excursão por um vinho Hermitage de Saint-Perey, e finalmente encetaram o vinho da devota.

— Que tal lhe parece? — perguntou Gorenflot, depois de o ter provado por três vezes, sem se atrever a emitir a sua opinião.

— É muito macio, porém palhete — disse Chicot. — E como se chama a sua devota?

— Não a conheço.

— O quê!? não sabe como se chama?!

— Juro-lhe que não; as nossas relações têm sido por intervenção de embaixadores. Chicot fez uma pausa, durante a qual cerrou vagarosamente os olhos, como para saborear um golo de vinho que demorava na boca antes de engolir, mas na realidade era para melhor poder reflectir em tudo o que se acabava de passar.

— Ora! — disse ele, ao cabo de cinco minutos — estou tendo a honra de almoçar em companhia de um general do exército?...

— Assim o quis Deus!

— Que é isso? suspira ao proferir essa resposta?...

— Ah! é um ofício muito enfadonho.

— Não há dúvida; mas é honroso e brilhante.

— E lindo! mas o caso é que não há quem faça calar os religiosos durante os ofícios divinos... e anteontem vi-me obrigado a suprimir um prato à ceia.

— Suprimir um prato... por que motivo?

— Porque uns poucos dos meus melhores soldados, forçoso me é confessá-lo, tiveram a audácia de não achar suficiente o prato de doce de uvas de Borgonha, de que se compõe a terceira coberta às sextas-feiras.

— Então não querem ver!? não era suficiente!... e que motivo davam para dizerem que era pouco?

— Alegavam que ainda tinham alguma fome, e requisitavam alguma carne magra, como pato bravo, lagosta ou peixe do alto. Então? que me diz aos tais devoradores?

— Não me parece muito para admirar que os monges tenham fome, uma vez que os obrigam a fazer exercício militar.

— Pois então onde ficava o merecimento do sacrifício?... — replicou Frei Modesto. — Comer bem e trabalhar muito é coisa que toda a gente pode fazer. Cos demónios! devemos acostumar-nos a oferecer as nossas privações ao Senhor — prosseguiu o estimável monge, envolvendo um naco de presunto e de vaca numa porção respeitável de geleia de que Frei Eusébio não tinha falado, por isso que era iguaria demasiado simples, não para vir à mesa, mas Para figurar na lista.

— Beba um trago, Modesto, beba — disse Chicot —, olhe que lhe vai fazer mal, meu caro amigo; olhe que já tem a cara roxa.

— É a indignação que me faz corar — replicou o prior, despejando o copo, o qual levava uma boa meia canada.

Chicot deixou-o acabar, e logo que Gorenflot descansou o copo sobre a mesa:

— Vamos lá — disse Chicot —, acabe de me contar a sua história, que muito me interessa, dou-lhe a minha palavra de honra. Tirou-lhes então um prato por eles acharem que não tinham bastante de comer...

— Exactamente.

— A ideia foi engenhosa.

— E o castigo produziu um efeito terrível! pensei que se sublevavam... chamejavam-lhes os olhos e ouviam-se bater-lhes os queixos.

— Estavam com fome — disse Chicot —, com a breca! não há coisa mais natural...

— Acha que estavam com fome?

— Sem dúvida.

— Está persuadido do que diz?

— Estou certo de que assim era.

— Pois bem! observei naquela noite um facto muito singular e que hei-de recomendar à análise da ciência; chamei Frei Borromeu, e dei-lhe as minhas instruções relativas à supressão de um prato, à qual acrescentei também, logo que vi a revolta, privação de vinho.

— E por fim? — perguntou Chicot.

— E por fim, para coroar a obra, ordenei que houvesse um novo exercício, porque queria esmagar a hidra da rebelião... Isto é o que dizem os salmos... parece-me que são estas as palavras: Cabisporiabis diagonem, não é verdade?... sabe isto tão bem como eu.

— Proculcabis draconem — disse Chicot, enchendo o copo do prior.

— Draconem, é isso mesmo! bravo! Mas, já que falámos em dragão: prove desta enguia, está admiravelmente temperada.

— Obrigado: nem já posso tomar fôlego! Mas conte, conte.

— O quê?

— O tal facto singular.

— Qual era? já não me recordo...

— Aquele que desejava recomendar à análise dos sábios.

— Ah sim! agora me lembra...

— Estou ouvindo.

— Determinei pois que houvesse um exercício à noite; esperava ver toda aquela brejeirada extenuada de forças, pálida, a suar, e já tinha preparado um sermão muito sofrível sobre este texto: Aquele que o meu pão come.

— Pão seco — disse Chicot.

— É isso mesmo: pão seco — exclamou Gorenflot, dilatando a robusta queixada para dar saída a uma gargalhada de ciclope. — Tencionava torcer o sentido àquelas palavras, e já de antemão tinha rido sozinho durante uma boa hora, lembrando-me do efeito que havia de produzir, quando fui encontrar no meio do pátio um grupo de patuscos animados, ágeis, pulando como gafanhotos e oferecendo a ilusão acerca da qual desejo consultar os sábios.

— Saibamos qual era a ilusão...

— Cheiravam a vinho à distância de uma légua!

— A vinho?! Então Frei Borromeu tinha-o atraiçoado?

— Oh! confio cegamente em Borromeu — exclamou Gorenflot —, é a obediência passiva personalizada; se eu dissesse a Frei Borromeu que se fosse queimar a fogo lento, ele era capaz de ir no mesmo instante buscar as grelhas e acender a fogueira!

— Já vejo que sou péssimo fisionomista — disse Chicot, coçando a ponta do nariz — vpois a mim não me merece ele esse conceito...

— Pode ser... porém eu conheço o meu Borromeu; conheço-o tão bem como o conheço a si, meu caro Chicot — respondeu Dom Modesto, enternecendo-se com a embriaguez.

— E diz que cheiravam a vinho?...

— Quem? Borromeu?

— Não, os religiosos.

— Como tonéis! além de que estavam vermelhos como caranguejos cozidos; pedi a Borromeu que reparasse neles.

— Bravo!

— Ah! a mim ninguém me faz o ninho atrás da orelha!

— E ele que respondeu?

— Foi uma réplica muito subtil...

— Não duvido.

— Respondeu-me que a demasiada apetência produz efeitos iguais aos da satisfação.

— Oh! oh! — disse Chicot — com a breca! é com efeito muito subtil. O seu Borromeu é um homem de muito saber; já não me admira que ele tenha o nariz e os lábios tão delgados... E ficou convencido?

— Completamente; e também o senhor se há-de convencer... Mas olhe, chegue-se mais para mim, porque me dão tonturas na cabeça quando me mexo...

Chicot aproximou-se. Gorenflot formou com a enorme mão uma trompa acústica, que aplicou ao ouvido de Chicot.

— E então? — perguntou Chicot.

— Espere, deixe-me resumir. Está lembrado do tempo em que ambos éramos moços, Chicot?

— Estou, sim.

— Daquele tempo em que nos fervia o sangue... e os desejos impuros?...

— Prior! Prior!... — exclamou o casto Chicot.

— Estou repetindo as palavras de Borromeu; afirmo que ele tem razão; a apetência não produzia em nós às vezes as ilusões da realidade?...

Chicot desatou a rir com tanta violência, que as garrafas que estavam na mesa tremeram como se estivessem sobre o convés de um navio.

— Muito bem, muito bem! — disse ele — vou entrar para a escola de Frei Borromeu, e logo que ele me tiver ensinado a fundo as suas teorias, hei-de pedir-lhe uma mercê, meu Reverendo.

— E ser-lhe-á outorgada, Chicot, assim como tudo quanto pedir ao seu amigo. Diga-me, pois, que mercê será?

— Nomear-me para fazer as vezes de despenseiro do priorado durante oito dias.

— E que tenciona fazer durante esses oito dias?

— Hei-de sustentar Frei Borromeu com as suas teorias; apresentar-lhe-ei um prato e um copo vazios, dizendo-lhe: Deseje com toda a ânsia da sua fome e da sua sede um peru assado com cogumelos e uma garrafa de vinho Chambertin; porém tome sentido, não se embriague com o Chambertin, e não lhe faça o peru alguma indigestão, meu caro irmão filósofo.

— Visto isso — disse Gorenflot —, não crê no poder da apetência, idólatra?!

— Está bom! está bom! eu bem sei no que devo crer. Mas ponhamos de parte as teorias.

— Seja — replicou Gorenflot —, deixemos de parte esse assunto e tratemos da realidade-E Gorenflot encheu o copo de vinho.

— Lá vai à saúde do bom tempo de que há pouco falámos, Sr. Chicot — disse ele -à memória das nossas ceias na casa de pasto da Cornucópia!

— Bravo! eu julgava que já estava esquecido de tudo isso, meu Reverendo...

— Profano! essas recordações todas jazem sepultadas na majestade da minha posição actual, mas, por Deus! eu sempre sou o mesmo homem.

E Gorenflot começou a entoar uma das suas cantigas favoritas, apesar das instâncias de Chicot para que se calasse.

— Então não se calará, desgraçado!? — exclamou Chicot afinal. — Se Frei Borromeu entrasse aqui, havia de pensar que esteve oito dias sem comer nem beber!...

— Se Frei Borromeu aqui entrasse, havia de cantar connosco.

— Não creio.

— E eu digo-lhe...

— Cale-se! e responda às minhas perguntas.

— Fale, pois.

— Se não me deixa dizer palavra, bêbado!...

— Oh!... bêbado, eu?!...

—Já se vê, portanto, que o resultado dos exercícios militares é o seu convento transformado num verdadeiro quartel...

— Sim, meu amigo, é tal qual como diz; um verdadeiro quartel, sem tirar nem pôr; quinta-feira passada... foi na quinta-feira?... sim, foi na quinta-feira... espere lá... já me não lembro se foi na quinta-feira...

— Quinta ou sexta-feira, a data não faz ao caso.

— Diz bem; o caso são os factos, não é assim? Pois bem! na quinta ou sexta-feira fui encontrar no corredor dois noviços que se estavam batendo ao sabre, acompanhados por dois padrinhos, que também se estavam aprontando para a mesma festa.

— E que fez?

— Mandei buscar um chicote, para dar uma sova nos noviços, e estes deitaram logo a fugir; mas Borromeu...

— Ah! ah! Borromeu... mais Borromeu!...

— É verdade, Borromeu apanhou-os e fustigou-os por tal forma, que os desgraçados ainda hoje estão de cama.

— Quero examinar-lhe os lombos, para poder avaliar devidamente o valor do braço de Frei Borromeu — disse Chicot.

— Oponho-me a que nos incomodemos para ver lombos... a não ser algum lombo de carneiro. Coma deste doce de damasco.

— Nada, que não quero rebentar.

— Pois então beba.

— Também não, porque ainda tenho muito que andar.

— E então eu! julga que não tenho ainda muito que andar?... e contudo vou bebendo.

— Oh! a seu respeito muda o caso de figura: precisa de animar o bofe, para dar as vozes de comando em termos.

— Ora vamos! um copo, somente um copo deste licor digestivo, que é feito por uma receita particular de Eusébio.

— Aceito.

— É tão eficaz, que todo aquele que o bebe, por muito glutonamente que tenha jantado, torna a ter fome daí a duas horas.

— Que receita para os pobres! Se eu fosse rei mandava cortar a cabeça de Eusébio como prémio da invenção, pois um tal licor é capaz de esfaimar um reino inteiro. Oh! oh! que bulha é aquela?...

— É o exercício que vai começar — respondeu Gorenflot.

Ouvia-se efectivamente um grande motim de vozes e de ferragens que ressoavam na direcção do pátio.

-— Sem chefe? — perguntou Chicot. — Oh! oh! parece-me que os tais soldados têm muito Pouca disciplina...

— Sem mim? nunca! — replicou Gorenflot. — E demais, nem isso podia ser, percebe? Sou eu que comando e sirvo de instrutor; e olhe; para prova do que digo, aí vem Borromeu receber as minhas ordens.

Borromeu entrava com efeito naquele mesmo instante, dirigindo a Chicot um olhar oblíquo e rápido como a seta traiçoeira de um parta.

«Oh! oh! pensou Chicot, fizeste mal em olhar para mim desse modo, porque te deste a conhecer.»

— Senhor Prior — disse Borromeu —, só esperamos pela sua presença para dar começo à revista das armas e das couraças.

«Das couraças!... oh! oh! disse Chicot consigo; espera lá que eu também vou.» E levantou-se apressadamente.

— Venha assistir às minhas manobras — disse Gorenflot, erguendo-se também, como se fora um pedaço de mármore com pernas —, dê-me o braço, meu amigo; vai presenciar uma linda instrução.

— O caso é que o Senhor Prior sabe táctica a fundo — disse Borromeu, procurando sondar a imperturbável fisionomia de Chicot.

— Dom Modesto é um homem superior em tudo — respondeu Chicot, inclinando-se. E logo devagarinho, para consigo:

«Oh! oh! murmurou ele, faz jogo seguro, minha aguiazinha, quando não, aquele milhafre é capaz de te depenar.»

 

         FREI BORROMEU

Quando Chicot, dando o braço ao Reverendo Prior, chegou pela escada principal ao pátio do priorado, o golpe de vista que se lhe ofereceu foi exactamente o de um imenso quartel em plena actividade.

Os frades, divididos em dois corpos de cem homens cada um, com as alabardas, os piques ou os mosquetes descansados, estavam, como se fossem soldados a valer, à espera que aparecesse o comandante.

Uns cinquenta, pouco mais ou menos, dos mais fortes e entusiastas, tinham coberto as cabeças com capacetes ou celadas: traziam à cinta compridas espadas, faltando-lhes só escudos de mão para se parecerem com os antigos Medas; e, se tivessem os olhos a fugirem para as fontes, toda a gente diria que eram chins modernos.

Outros ostentavam com ufania couraças convexas, que faziam retinir roçando por elas os guantes de ferro.

Finalmente, outros, que tinham só braçais e coxotes, procuravam amestrar-se no movimento das articulações, privadas de elasticidade por essas coberturas parciais.

Frei Borromeu pegou num capacete que lhe entregou um noviço, e pô-lo na cabeça com um movimento tão pronto e regular, que nem que fosse um soldado veterano.

Enquanto ele prendia as escamas por debaixo da barba, Chicot não tirava os olhos do capacete; e, ao mesmo tempo que o admirava, sorria; e, finalmente, sempre sorrindo, andava à roda de Borromeu, como para o observar por todos os lados.

Até fez mais: chegou-se ao tesoureiro e correu a mão pelos lavores do elmo.

— Tem um morrião magnífico, Frei Borromeu — disse ele. — Onde o comprou, meu caro prior?

Gorenflot não pôde responder, porque naquele mesmo instante estavam-lhe afivelando sobre o corpo uma resplandecente couraça, a qual, se bem que suficientemente espaçosa para conter Hércules Farnésio, comprimia dolorosamente as avultadas ondulações da gordura do estimável prior.

— Não!... não tanto, com todos os demónios!... — exclamou Frei Gorenflot — não apertem assim... que me tiram o fôlego... e fico sem voz... basta! basta!

— Parece-me que perguntava ao Reverendo Prior — disse Borromeu — onde tinha comprado o meu capacete...

— Dirigi a pergunta ao Reverendo Prior, e não a Vossa Reverência — retorquiu Chicot —-, porque penso que neste convento, como nos mais, nada se faz sem ordem dos superiores.

— Decerto — disse Gorenflot —, nada aqui se faz senão por minha ordem. Que perguntava, meu caro Sr. Briquet?

— Estava perguntando a Frei Borromeu se sabia de onde lhe veio este capacete.

— Formava parte de uma grande porção de armaduras que o Reverendo Prior comprou ontem para armar o convento.

— Eu? — disse Gorenflot.

— Vossa Reverendíssima há-de estar lembrado que mandou trazer para aqui uns poucos de capacetes e várias couraças, e que assim se fez em cumprimento das suas ordens.

— É verdade, é verdade — respondeu Gorenflot.

— Com a breca! — disse Chicot — o meu capacete sempre tinha muito apego ao dono, pois tendo-o levado ontem eu mesmo ao Palácio de Guisa, vem agora ter comigo, como um cão perdido, ao Priorado dos Domínicos!

Naquele momento, e a um gesto de Frei Borromeu, entravam todos em forma e cessavam as conversas nas fileiras.

Chicot sentou-se num banco, para assistir com mais comodidade às manobras. Frei Gorenflot ficou de pé, firme nas pernas como se fossem duas estacas.

— «Sentido!» — disse-lhe ao ouvido Frei Borromeu.

Dom Modesto sacou da bainha um gigantesco espadão e, brandindo-o no ar, gritou com voz de estentor:

— Sentido!

— Talvez cause incómodo a Vossa Reverendíssima comandar hoje o exercício... — disse então Frei Borromeu, com terna solicitude — Vossa Reverendíssima estava adoentado esta manhã; se quiser poupar a sua preciosa saúde, eu darei as vozes.

— Aceito o oferecimento — respondeu Dom Modesto —, sinto-me com efeito algum tanto incomodado, mal posso respirar; comande em meu lugar.

Borromeu inclinou-se, e foi colocar-se na frente da tropa, dando bem a conhecer quanto estava afeito àquelas condescendências.

— Que homem serviçal! — disse Chicot. — Aquele sujeito é mesmo uma pérola.

— É impagável! eu não lhe dizia?... — respondeu Dom Modesto.

—Aposto que lhe faz este obséquio quase todos os dias, senão todos, hem?... — disse Chicot.

— Oh! sim: todos os dias. É submisso como um escravo: até chego a repreendê-lo por ser demasiado atencioso. A humildade, porém, difere muito do servilismo — acrescentou sentenciosamente Gorenflot.

— De forma que, na realidade, nada tem que fazer aqui e pode dormir com todo o descanso; Frei Borromeu vela em seu lugar.

— Oh! assim é, não há dúvida.

«Era isso mesmo que eu queria saber» disse consigo Chicot, cuja atenção se concentrou logo em Borromeu unicamente.

Era admirável ver como o tesoureiro dos monges, à semelhança de um cavalo de batalha, se tinha animado sentindo sobre os ombros o seu arnês de guerra.

Os olhos dilatados chamejavam-lhe e o braço vigoroso manejava a espada com tal destreza, que parecia um mestre de esgrima na frente do seu pelotão. Cada vez que Borromeu fazia uma demonstração, Gorenflot repetia-a acrescentando:

— Borromeu tem razão; porém isso mesmo já eu lhes disse. Lembrem-se da lição que ontem lhes dei. Passem a arma de uma mão para a outra, segurem bem os piques, firmes; aí! o ferro da lança na altura dos olhos; mais garbo, por São Jorge! firmeza! Meia volta à esquerda é, sem tirar nem pôr, o mesmo que meia volta à direita, a única diferença é ser inteiramente o oposto.

— Com a breca! — disse Chicot — sempre é um hábil demonstrador.

— Sou, sou — replicou Gorenflot, correndo a mão pela tríplice barba. — Sou bastante entendido em manobras militares.

— E tem na pessoa de Borromeu um excelente discípulo.

— Têm-lhe aproveitado as minhas lições — respondeu Gorenflot —, não se pode ser mais inteligente.

Os frades executaram a corrida militar, espécie de evolução que estava muito em voga naquela época, os manejos de arma, de espada, de pique e o exercício de fogo. Quando chegou a ocasião deste último exercício:

— Agora verá o meu Tiagozito — disse o prior para Chicot.

— Quem é o seu Tiagozito?

— É um rapazito muito gentil que eu tomei para meu serviço particular, porque tem uns modos muito sossegados e mão robusta, e ao mesmo tempo é vivo como azougue.

— Deveras?... Onde está essa linda criança?

— Espere, espere, que eu já lho mostro; olhe: está acolá, é aquele que tem o mosquete na mão e se está aprontando para atirar primeiro. A cem passos de distância mete aquele velhaco uma bala no centro de uma peça de ouro.

— Eis aí um que há-de ajudar à missa com perfeição. Mas espere... eu também...

— Que é?

— É ele... não é, não...

— Conhece o meu Tiago?

— Sim, parece-me que o vi numa certa igreja, um dia... ou para melhor dizer: uma noite em que eu estava escondido num confessionário; mas foi engano meu, não é ele.

Devemos confessar que nesta ocasião não eram as palavras de Chicot conformes à verdade. Chicot era muito bom fisionomista, e quando uma vez reparava numa cara nunca mais lhe escapava.

Enquanto o prior e o seu amigo assim o estavam examinando sem ele dar por tal, o Tiagozito, como lhe chamava Gorenflot, entretinha-se em carregar um pesado mosquete, que teria tanta altura como ele; logo que acabou de carregar o mosquete, veio colocar-se com arrogância a cem passos do alvo, e aí, puxando a perna direita à retaguarda com exactidão militar, apontou.

Desfechou em seguida, e a bala foi bater no centro do alvo, com grande aplauso dos frades.

— Bela pontaria! — disse Chicot. — E palavra de honra que é um guapo mancebo!

— Muito obrigado, Senhor — respondeu Tiago, corando de contentamento.

— Maneja as armas com muita destreza, meu filho — replicou Chicot.

— Faço a diligência, Senhor — disse Tiago.

E a estas palavras, pondo de parte o mosquete, de que já não precisava depois da prova que tinha dado da sua habilidade, tirou um pique das mãos de um dos companheiros e fez com ele umas poucas de evoluções que mereceram à aprovação de Chicot.

Chicot repetiu os seus encómios.

— No jogo da espada, especialmente, é que ele brilha — disse Dom Modesto. — Todos os entendedores concordam em dizer que ele percebe muito de esgrima; é verdade que o maganão tem pernas de ferro e pulsos de aço, e não faz senão manusear ferro desde pela manhã até à noite.

— Ah! vejamos isso — disse Chicot.

— Quer o senhor experimentar a sua habilidade? — perguntou Borromeu.

— Desejava ver provas dela — retorquiu Chicot.

— Ah! — prosseguiu o tesoureiro — aqui não há pessoa alguma, à excepção de mim, talvez, que seja capaz de lutar com ele; tem algumas luzes do jogo da espada?

— Eu não passo de um pobre burguês — disse Chicot, abanando a cabeça. — Noutro tempo também, fui um tanto espadachim, mas hoje tremem-me as pernas, vacila-me o braço e falta-me às vezes a cabeça.

— Contudo ainda esgrime de vez em quando, não? — perguntou Borromeu.

— Quando se oferece ocasião... — respondeu Chicot, deitando para Gorenflot, que estava sorrindo, um olhar que arrancou deste o nome de Nicolau David.

Porém Borromeu não viu o sorriso, nem ouviu o nome, e mandou com toda a placidez que trouxessem os floretes e as máscaras de rede.

Tiago, pulando de alegria, arregaçou o hábito até aos joelhos e firmou as alparcas batendo com os pés no chão.

— Afinal de contas — disse Chicot —, como não sou frade nem soldado, e por isso há muito tempo não pego em armas, será melhor que Frei Borromeu, visto ser todo músculos e tendões, faça favor de dar lição ao irmão Tiago. Consente no meu pedido, caro prior? — perguntou Chicot a Dom Modesto.

— Assim o ordeno! — declarou o prior, que não perdia ocasião de se servir destas palavras. Borromeu tirou o capacete, Chicot apressou-se a estender as mãos, e o capacete, deposto

assim nas mãos de Chicot, permitiu ao seu antigo dono verificar novamente a sua identidade; e enquanto o nosso burguês procedia a este exame, o tesoureiro arregaçava também o hábito, entalando-o na cinta, e aprontava-se.

Os frades todos, movidos pelo espírito de corporação, vieram fazer roda ao discípulo e ao professor.

Gorenflot debruçou-se ao ouvido do amigo.

— Isto é mais divertido do que uma missa cantada, não é verdade? — perguntou ele ingenuamente.

— Assim dizem os soldados de cavalaria ligeira — respondeu Chicot, com a mesma ingenuidade.

Os dois combatentes puseram-se em guarda, Borromeu, esbelto e nervoso, levava vantagem ao adversário pela estatura, e tinha demais em seu favor o sangue-frio e a experiência.

O fogo que animava os olhos de Tiago, corava-lhe as faces de uma vermelhidão febril.

Via-se desaparecer gradualmente a máscara religiosa de Borromeu, o qual, com o florete na mão e entregue a acção tão arrebatadora de uma luta de destreza, ia-se transformando em homem de armas; acompanhava cada golpe de uma exortação, de um conselho, ou de uma repreensão; porém o vigor, a prontidão e a viveza de Tiago triunfavam com frequência das qualidades do mestre, e o resultado era levar Frei Borromeu alguma estocada em cheio no peito.

Chicot devorava com a vista aquele espectáculo e contava as estocadas.

Logo que findou o assalto, ou, para melhor dizer, logo que os esgrimistas fizeram a primeira pausa:

— Tiago tocou seis vezes — disse Chicot —, Frei Borromeu nove; para o discípulo é uma conta muito bonita; mas para o mestre não basta.

Um raio que ninguém percebeu, à excepção de Chicot, fulgurou nos olhos de Borromeu, e veio descobrir uma nova particularidade do seu carácter. «Bom! pensou Chicot, é orgulhoso.»

— O senhor bem sabe — replicou Borromeu num tom de voz que a muito custo conseguiu amaciar — que o exercício das armas é em geral uma árdua tarefa, e especialmente para uns pobres monges como nós...

— Não importa — disse Chicot, resolvido a levar Frei Borromeu às do cabo —, o mestre nunca deve deixar de mostrar alguma superioridade quando luta com o discípulo.

— Sr. Briquet — retorquiu Borromeu, empalidecendo e mordendo os beiços —, parece-me que é muito exigente.

«Bom! encoleriza-se facilmente, pensou Chicot; são dois pecados mortais; tenho ouvido dizer que basta um para perder qualquer homem; as probabilidades são em meu favor.» E logo, em voz alta:

— Se Tiago tivesse mais serenidade — prosseguiu ele —, estou certo de que o jogo havia de ser igual.

— Não creio — disse Borromeu.

— Pois eu estou persuadido que sim.

— O senhor, visto saber jogar as armas — disse Borromeu em tom desabrido —, faria bem se experimentasse por si a destreza de Tiago; então poderia ajuizar melhor dela.

— Oh! eu sou um velho... — disse Chicot.

— Sim, mas bom entendedor — replicou Borromeu.

«Ah! estás caçoando, pensou Chicot; pois espera lá...» Mas — prosseguiu ele — há uma coisa que tira todo o valor à minha observação...

— Qual é?

— É que Frei Borromeu, como bom mestre, consentiu, naturalmente por condescendência, que Tiago lhe chegasse.

— Ah!... — exclamou então Tiago, franzindo os sobrolhos.

— Não, por certo — respondeu Borromeu reprimindo-se, mas realmente irritado. — Sou deveras amigo de Tiago, porém não o deito a perder com semelhantes condescendências.

— É célebre! — disse Chicot, como falando consigo mesmo — pareceu-me que era esse o motivo, mas peço-lhe desculpa.

— Mas enfim — disse Borromeu —, o Sr. Briquet, que tanto fala, experimente também.

— Oh! não queira confundir-me — replicou Chicot.

— Fique descansado, Sr. Briquet — disse Borromeu —, seremos indulgentes para com o senhor; nós conhecemos as leis da Igreja.

«Idólatra! murmurou Chicot.»

— Ora vamos, Sr. Briquet: só um assalto.

— Experimente — disse Gorenflot —, experimente.

— Prometo não o magoar, Senhor — disse Tiago, tomando o partido pelo mestre e desejoso também de dar a sua dentadinha —, tenho a mão muito leve.

«Que amável criança!» murmurou Chicot, deitando para o fradinho um olhar inexprimível, que rematou num silencioso sorriso. —Vamos lá — disse ele —, já que todos assim o querem...

— Ah! bravo! — exclamaram os interessados com o apetite do triunfo.

— Previno-o, todavia — disse Chicot —, que não aceito mais de três assaltos.

— Como quiser, Senhor — replicou Tiago.

E Chicot, levantando-se vagarosamente, abotoou o gibão, calçou a luva de combate e firmou a máscara, com a agilidade de uma tartaruga a papar moscas.

— Se ele aparar uma estocada tua — disse Borromeu ao ouvido de Tiago —, nunca mais jogo o florete contigo; ficas avisado.

Tiago fez com a cabeça um aceno, acompanhado de um sorriso que significava: «Esteja descansado, meu mestre.»

Chicot, sempre com o mesmo vagar e com a mesma circunspecção, pôs-se em guarda, estendendo os compridos braços e as imensas pernas, que dispôs com uma precisão maravilhosa, de maneira tal que lhes disfarçava a enorme extensão e incalculável desenvoltura.

 

         A LIÇÃO

A esgrima na época de que estamos narrando os acontecimentos e descrevendo os usos e costumes, não era o que é na actualidade.

Como as espadas tinham dois gumes, tanto se empregava a ponta como o corte; além disso, a mão esquerda, armada de adaga, atacava e defendia ao mesmo tempo: resultava desse sistema de brigar uma imensidade de feridas, ou antes, de arranhaduras, que num combate sério concorriam poderosamente para excitar os combatentes. Vimos Quélus, derramando sangue por dezoito feridas, conservar-se de pé e continuar a lutar; nem teria caído se uma décima nona ferida o não houvesse prostrado e obrigado a recolher à cama, de que não tornou a sair senão para o túmulo.

A arte da esgrima trazida da Itália, mas ainda então na sua infância, consistia pois naquela época em grande número de evoluções, que obrigavam o esgrimidor a mudar continuamente de posição, circunstância esta que lhe suscitava uma infinidade de obstáculos, provenientes das menores desigualdades do terreno que o acaso lhe havia deparado.

Não era pouco usual ver o esgrimista estender-se, encolher-se, saltar para a direita ou para a esquerda, e firmar até uma das mãos no chão; a agilidade, não só das mãos como das pernas, e de todo o corpo, devia ser uma das primeiras condições da arte.

Chicot, porém, não observava estas regras; parecia, pelo contrário, ter pressentido a arte moderna, segundo a qual toda a superioridade, e especialmente toda a graça, está na agilidade das mãos e na quase imobilidade do corpo.

Colocou-se direito e firme sobre ambas as pernas, segurando com brandura e força ao mesmo tempo uma espada que parecia um junco débil e flexível, desde a ponta até metade da folha, mas que era de aço rijo desde os copos até ao meio.

Logo aos primeiros movimentos, Frei Tiago, vendo diante de si aquele homem de bronze, que só parecia viver no pulso, começou a acometê-lo com uma impaciência que não teve outro resultado senão o de fazer estender o braço e a perna de Chicot à menor aberta que notava no jogo do adversário; e já se vê que, em virtude do costume que então havia de dar indiferentemente de corte e de ponta, as abertas deviam ser frequentes.

De cada vez que o frade se descobria, o braço de Chicot crescia três pés, indo bater com o botão do florete no peito de Tiago, tão metodicamente como se fosse dirigido por maquinismo, e não por um órgão de carne e osso, incerto e desigual.

Tiago, cada vez que sentia o botão, corava de raiva e emulação, e dava um pulo para trás.

Durante dez minutos desenvolveu o rapaz todos os recursos da sua prodigiosa agilidade. arremessava-se como um tigre, dobrava-se como uma cobra, metia-se por baixo do peito de Chicot, pulava para a direita e para a esquerda; porém o adversário, sempre com o mesmo sossego, aproveitando o comprimento do braço, espreitava a ocasião oportuna, e afastando o florete de Tiago continuava a dar-lhe com o temível botão.

Frei Borromeu estava pálido, em consequência dos esforços que fazia para reprimir as paixões que, havia pouco, o tinham excitado.

Finalmente, Tiago atirou-se uma última vez ao admirável Chicot, o qual, vendo-o mal esteiado sobre as pernas, apresentou-lhe uma aberta para que ele caísse a fundo.

Tiago assim fez; e Chicot, aparando-lhe a estocada com força, desviou o pobre noviço da linha de equilíbrio, por tal forma que se atrapalhou e caiu.

Chicot tinha-se conservado no mesmo lugar, imóvel como um penedo.

Frei Borromeu roía as unhas com desespero.

— Não nos tinha dito, Senhor, que era um professor de esgrima...

— Ele?!... — exclamou Gorenflot, pasmado, mas ufano ao mesmo tempo do triunfo do amigo — ele nunca sai de casa!...

— Eu?! um pobre burguês!... — replicou Chicot — eu, Roberto Briquet, professor de esgrima?!... ah! sr. tesoureiro!...

— Porém, Sr. Roberto — exclamou Frei Borromeu —, ninguém maneja uma espada como o senhor sem ter feito anos de ofício...

— Não há dúvida, Sr. Borromeu — respondeu Chicot com candura —, tive noutro tempo alguma prática do jogo de espada; e sempre que a empunhava notava uma coisa...

— O que era?

— É que o orgulho é mau conselheiro, e a cólera má auxiliar, para quem está com a espada na mão. Agora, ouça-me, meu pequenino Frei Tiago — prosseguiu ele —, o seu pulso é sofrível, porém não tem pernas nem cabeça; é vivo, mas não discorre. Há no jogo das armas três coisas essenciais: em primeiro lugar, a cabeça, depois a risão e, finalmente, as pernas; com a primeira pode o homem defender-se; com a primeira e a segunda pode vencer; mas quando reúne as três, vence sempre.

— Oh! Sr. Roberto — disse Tiago —, sustente um assalto com Frei Borromeu; que bonito não será!...

Chicot ia para rejeitar desdenhosamente esta proposta; porém reflectiu que o orgulhoso tesoureiro poderia talvez vangloriar-se da recusa.

— Pois sim — disse ele —, se Frei Borromeu quer, estou às suas ordens.

— Não senhor — respondeu o tesoureiro —, eu seria vencido, por certo; antes quero confessá-lo do que expor-me a prová-lo.

— Oh! quanto é modesto e amável! — disse Gorenflot.

— Está enganado — respondeu-lhe ao ouvido o desapiedado Chicot —, é um louco de vaidade; eu, na idade dele, se se me apresentasse um ensejo igual a este, teria pedido de joelhos uma lição como a que Tiago acabou de levar.

Chicot, logo que acabou de proferir estas palavras, tornou a alcatruzar as costas, deu às pernas a forma de um acento circunflexo e, fazendo a sua careta do costume, voltou a sentar-se no banco.

Tiago foi atrás dele; podia mais no mancebo a admiração do que a vergonha de ter sido vencido.

— Peço-lhe que me dê algumas lições, Sr. Roberto — dizia ele —, o Senhor Prior há-de dar licença, não é assim, meu Reverendíssimo?

— Sim, meu filho — respondeu Gorenflot —, com muito gosto.

— Não quero usurpar as funções do seu mestre, meu amigo — replicou Chicot; e, ao dizer isto, cortejou Borromeu.

Borromeu tomou a palavra.

— Eu não sou o único mestre, Tiago — disse ele. — Não sou só eu quem ensina o manejo das armas aqui; assim como não me cabe a mim só a honra de dar lições, peço que também não me seja atribuído o desaire da derrota.

— Quem é então o outro professor? — perguntou logo Chicot, vendo que Borromeu corava com receio de ter cometido alguma imprudência.

— Ninguém — replicou Borromeu —, ninguém.

— Alguém é — disse Chicot —, ouvi perfeitamente o que o senhor disse. Quem é o outro mestre que lhe dá lições, Tiago?

— Então não se recorda — disse Gorenflot — de um homem baixo e gordo que me apresentou, Borromeu, e que por aqui aparece às vezes?... tem uma cara agradável e bebe muito sofrivelmente.

— Já não me lembro como se chama — retorquiu Borromeu.

Frei Eusébio, com a sua cara de beato e a faca de cozinha metida no cinto, adiantou-se como um papalvo.

— Pois eu sei como se chama — disse.

Borromeu fez-lhe multiplicados sinais, que ele não percebeu.

— É mestre Bussy Leclerc — prosseguiu ele —, que já foi professor de esgrima em Bruxelas.

— Ah! bem sei — disse Chicot —, mestre Bussy Leclerc! É um bom esgrimista, sei muito bem.

E ao passo que dizia isto com toda a ingenuidade de que era capaz, surpreendia o olhar furibundo que Borromeu lançava ao desastrado cozinheiro.

— Ora aí está! eu não sabia que ele se chamava Bussy Leclerc — exclamou Gorenflot. — Esqueceram-se de mo dizer.

— Foi por me persuadir que o nome do homem não importava a Vossa Reverendíssima para nada — disse Borromeu.

— Com efeito — replicou Chicot —, contanto que o mestre seja bom, o nome nada faz ao caso.

— É verdade — respondeu Gorenflot —, o nome pouco importa contanto que seja bom mestre!

E, dizendo isto, dirigiu-se para a escada que ia dar ao seu aposento, deixando todos admirados.

Estava acabado o exercício.

Quando chegaram ao princípio da escada, Tiago, com grande desgosto de Borromeu, renovou o seu pedido a Chicot; porém este respondeu:

— Eu não sei ensinar, meu amigo; aprendi sozinho, a poder de muita prática e reflexão: faça como eu; quem tem o juízo no seu lugar, sabe discernir o bem do mal.

Borromeu comandou uma evolução, que fez volver os monges com os rostos para o edifício, a fim de voltarem para os quartéis. Gorenflot encostou-se ao braço de Chicot e subiu majestosamente a escadaria.

— Parece-me — disse ele com orgulho — que não pode haver casa mais dedicada e útil ao serviço de el-rei do que a minha, hem?

— Boa dúvida! — replicou Chicot — quem aqui entra, Reverendo Prior, sempre vê coisas pasmosas!

— E tudo isto no espaço de um mês; em menos de um mês até!

— É obra sua?

— Obra minha, unicamente minha, como vê — respondeu Gorenflot empertigando-se.

— Tanto não esperava eu, meu amigo!

— Conversemos agora a respeito da sua missão...

— E com tanto maior gosto que, antes de partir, preciso de mandar uma mensagem, ou antes, um mensageiro, a el-rei.

— A el-rei, meu caro amigo?! um mensageiro?... Visto isso, corresponde-se directamente com el-rei?...

— Directamente, sim senhor.

— Precisa de um mensageiro, é?

— É verdade, preciso de um mensageiro.

— Quer algum dos nossos irmãos? Que honra não seria para o convento se um dos nossos irmãos fosse admitido à presença de el-rei!

— Decerto.

— Vou pôr à sua disposição o melhor par de pernas do priorado. Porém conte-me Chicot, como é que el-rei, que o julgava morto...

— Já lhe disse que era apenas um letargo em que eu tinha caído... e, logo que se ofereceu ocasião, ressuscitei.

— Para recuperar o seu valimento? — perguntou Gorenflot.

— Mais do que em tempo algum — disse Chicot.

— Então — disse Gorenflot, parando — pode dizer a el-rei tudo quanto estamos aqui fazendo a bem do seu serviço?...

— Não me hei-de esquecer, meu amigo, não me hei-de esquecer; fique descansado.

— Oh! meu querido Chicot! — exclamou Gorenflot, vendo-se já bispo em imaginação.

— Tenho, porém, actualmente, a pedir-lhe duas coisas...

— Quais são?

— A primeira, é dinheiro, que el-rei lhe restituirá...

— Dinheiro? — exclamou Gorenflot, erguendo-se apressadamente — tenho as burras

cheias!

— Creia que é muito feliz — disse Chicot.

— Quer mil escudos?

— Nada! isso seria muito, meu caro amigo: os meus gastos são modestos e os meus desejos humildes; não me ensoberbece o meu título de embaixador e, longe de me ufanar com semelhante cargo, procuro antes ocultá-lo: bastar-me-ão cem escudos.

— Estão prontos. E qual é a outra coisa?

— Um escudeiro.

— Um escudeiro?

— Sim, para me fazer companhia; gosto de sociedade.

— Ah, meu amigo! se eu ainda gozasse da minha liberdade como noutro tempo!... — disse Gorenflot soltando um suspiro.

— Infelizmente — redarguiu Chicot —, como não me é dado desfrutar a sua honrosa companhia, contentar-me-ei com a do irmãozito Tiago.

— Do irmãozito Tiago?

— Sim, gosto daquele maganão.

— E tem razão, Chicot: é um rapaz de raro talento, que se há-de adiantar muito.

— Levo-o já comigo a duzentas e cinquenta léguas daqui, se mo permitir.

— É seu, meu amigo.

O prior tangeu uma chapa de bronze, ao som da qual apareceu um irmão servente.

— Mande cá o irmão Tiago e o irmão que faz os recados de fora. Dali a dez minutos assomaram ambos à entrada da porta.

— Tiago — disse Frei Gorenflot —, tenho a dar-lhe uma missão extraordinária...

— A mim, Senhor Prior?... — perguntou Tiago com admiração.

— Sim; vai acompanhar o Sr. Roberto Briquet numa grande jornada.

— Oh! — exclamou com entusiasmo o jovem monge — eu a fazer jornada com o Sr. Briquet, ao ar livre, em liberdade!... Ah! Sr. Roberto Briquet, havemos de jogar a espada todos os dias, não é assim?...

— Sim, meu filho.

— E poderei levar o meu arcabuz?

— Pode.

Tiago deu um pulo e saiu do quarto correndo e soltando gritos de alegria.

— Agora, quanto ao recado — disse Gorenflot —, peço-lhe que dê as suas ordens. Venha cá, Frei Panurgo.

— Panurgo?! — exclamou Chicot, em quem aquele nome despertava certas recordações bastante gratas — Panurgo?!

— Tal qual — replicou Gorenflot —, escolhi este irmão, que se chama Panurgo como o outro, para o encarregar do serviço que ele desempenhava.

— Visto isso, o nosso velho amigo está incapaz de serviço activo...

— Morreu! — disse Gorenflot — morreu!

— Oh!... — exclamou Chicot em tom de comiseração — o caso é que ele já estava muito velho...

— Tinha já dezanove anos, meu amigo, dezanove anos!

— É um caso de longevidade muito notável — disse Chicot —, só nos conventos se encontram semelhantes prodígios.

 

         A PENITENTE

O novo Panurgo, obedecendo ao chamamento do prior, entrou no quarto.

Não era por certo em consequência da sua configuração moral ou física que tinha sido admitido a substituir o seu falecido homónimo, pois mal quadrava um nome de burro num rosto tão inteligente como o que apresentava.

Frei Panurgo, com os seus olhos pequenos, nariz bicudo e queixo saliente, dava ares de uma raposa.

Chicot contemplou-o um instante, e durante esse instante, apesar de muito breve, pareceu formar o seu juízo acerca do merecimento do mensageiro do convento. Panurgo conservava-se com toda a humildade ao pé da porta.

— Venha cá, Senhor correio — disse Chicot. — Conhece o Louvre?

— Sim, meu Senhor — respondeu Panurgo.

— Conhece também um certo Henrique de Valois, que assiste no Louvre?

— É el-rei?

— Eu não sei se ele é rei, na realidade — replicou Chicot —, porém todos costumam dar-lhe esse nome.

— É com el-rei que terei de tratar?

— Exactamente: conhece-o?

— Muito bem, Sr. Briquet.

— Pois bem: mande dizer que deseja falar-lhe.

— E deixar-me-ão entrar?

— Até ao quarto do criado particular, decerto; o hábito que tem vestido é um bom passaporte, pois Sua Majestade é muito religioso, como sabe.

— E que hei-de dizer ao criado particular de Sua Majestade?

— Dir-lhe-á que foi ali mandado pela Sombra.

— Por qual sombra?

— A curiosidade é um defeito muito feio, meu irmão...

— Peço perdão.

— Dirá, pois, que foi mandado pela Sombra.

— Sim senhor.

— E que está à espera da carta.

— Que carta?

— Outra vez!?...

— Ah! é verdade.

— Meu Reverendo — disse Chicot, voltando-se para Gorenflot —, confesso-lhe que me agradava muito mais o outro Panurgo.

— E o meu recado reduz-se a isso unicamente? — perguntou o correio.

— Acrescentará mais, que a Sombra esperará a resposta caminhando vagarosamente pela

estrada de Charenton adiante.

— Visto isso, é nessa mesma estrada que eu hei-de ir ter com o senhor...

— Justamente.

Panurgo dirigiu-se para a porta e levantou o reposteiro para sair. Chicot julgou perceber, quando Frei Panurgo executou aquele movimento, que estava alguém a escutar.

O reposteiro, porém, tornou a cair com tanta rapidez, que Chicot não teria podido asseverar se aquilo que tomava por uma realidade não era uma visão.

O espírito subtil de Chicot não tardou em fazê-lo persuadir, quase com certeza, que era Frei Borromeu quem estava escutando.

«Ah! estás escutando, pensou ele; pois melhor: vou agora falar para tu ouvires.»

— De forma que — disse Gorenflot — el-rei faz-lhe a honra de lhe confiar uma missão,

meu caro amigo...

— É verdade; demais a mais confidencial.

— Presumo que há-de ser relativa à política, não?

— Penso que sim.

— Pois quê!? não sabe qual é a missão de que está encarregado?

— Sei que hei-de ser portador de uma carta, e mais nada.

— É algum segredo de Estado provavelmente...

— Assim o creio.

— E não desconfia do que será?...

— Estamos sós, não é assim? Posso dizer-lhe afoitamente o meu modo de pensar?...

— Diga; eu sou um verdadeiro túmulo quando se trata de guardar segredo.

— Pois bem: el-rei resolveu socorrer o duque de Anjou.

— Deveras?

— Deveras; o Sr. de Joyeuse devia partir a noite passada para esse fim.

— Porém o meu amigo...

— Eu vou para as bandas de Espanha.

— E de que maneira tenciona viajar?

— Sei lá! do mesmo modo que viajámos noutro tempo: a cavalo, de carro... conforme puder.

— Tiago há-de fazer-lhe boa companhia na jornada; fez bem em mo requisitar, o velhaquete entende latim!

— Confesso-lhe que engraço muito com ele.

— Era quanto bastava para eu lho conceder, meu amigo; mas, além disso, estou persuadido de que achará nele um óptimo auxiliar, caso tenha algum encontro.

— Obrigado, meu caro amigo, parece-me que só me resta agora dizer-lhe adeus...

— Adeus!

— Que está fazendo?...

— Estou-me dispondo a deitar-lhe a minha bênção.

— Deixe-se disso! — disse Chicot — entre nós é escusado.

— Tem razão — replicou Gorenflot —, estas formalidades só têm lugar para com estranhos.

E os dois amigos abraçaram-se com ternura.

— Tiago! — bradou o prior — Tiago!

Panurgo meteu o focinho de fuinha pela abertura do reposteiro.

— Que é isso!? Pois ainda não se pôs a caminho?! — exclamou Chicot.

— Peço perdão, meu Senhor...

— Responda já — disse Gorenflot —, que o Sr. Briquet está com pressa; onde está Tiago? Apareceu neste instante Frei Borromeu com gesto mavioso e boca risonha.

— Frei Tiago! — repetiu o prior.

— Frei Tiago saiu — disse o tesoureiro.

— Como assim!? — exclamou Chicot.

— Não quis que se mandasse alguém ao Louvre?...

— Quem devia ir era Frei Panurgo — disse Gorenflot.

— Oh! que estúpido que eu sou! entendi que era Tiago... — disse Borromeu batendo na testa.

Chicot franziu os sobrolhos; porém o pesar de Borromeu era na aparência tão sincero, que parecia crueldade repreendê-lo.

— Esperarei pois que Tiago volte — disse Chicot. Borromeu inclinou-se, franzindo, ele também, os sobrolhos.

— É verdade — disse —, já me ia esquecendo de participar ao Senhor Prior, e foi por isso que vim, que a senhora incógnita chegou agora mesmo e deseja obter audiência de Vossa Reverendíssima.

Chicot escancarou as imensas orelhas.

— Veio sozinha? — perguntou Gorenflot.

— Com um escudeiro.

— E é moça? — perguntou Gorenflot. Borromeu baixou pudicamente os olhos.

«Está bom! é hipócrita também» pensou Chicot.

— Parece ser moça ainda — disse Borromeu.

— Meu amigo — disse Gorenflot voltando-se para o fingido Roberto Briquet —, dá licença?

— Pois não — replicou Chicot —, irei esperar no quarto imediato ou no pátio.

— Como quiser, meu querido amigo.

— O Louvre fica distante daqui, Sr. Roberto — observou Borromeu. — Pode ser que Frei Tiago se demore muito, tanto mais que a pessoa a quem se dirigiu hesitará, talvez, em confiar a uma criança uma carta importante.

— Ocorreu-lhe um pouco tarde essa reflexão, Frei Borromeu.

— Então! que se lhe há-de fazer... eu não sabia; se tivessem confiado em mim...

— Está bom, está bom; vou andando devagar para Charenton: o enviado, seja qual for, alcançar-me-á na estrada.

E dirigiu-se para a escada.

— Não é aí, Sr. Briquet — disse vivamente Borromeu —, a senhora incógnita há-de subir Por essa escada e deseja muito não encontrar pessoa alguma.

— Tem razão — respondeu Chicot sorrindo —, sairei pela escadinha particular. Dizendo estas palavras, foi direito a uma porta disfarçada, que deitava para um pequeno gabinete.

— E eu — disse Borromeu — vou ter a honra de trazer a devota à presença do Reverendo Prior.

— Faz muito bem — disse Gorenflot.

— Sabe o caminho? — perguntou Frei Borromeu com alguma inquietação.

— Sei muito bem.

E Chicot entrou no gabinete. Em seguida ao gabinete havia um quarto: a escadinha particular vinha ter ali.

Chicot tinha falado verdade: sabia o caminho mas já não conhecia o quarto. Estava efectivamente muito mudado desde a última vez que ali havia entrado: de pacífico que era tinha-se tornado belicoso; as paredes estavam cobertas de armas, as mesas e os trenós carregados de terçados, de espadas e pistolas; a cada canto, um ninho de mosquetes e de arcabuzes.

Chicot deteve-se um instante naquele quarto; sentia necessidade de reflectir. «Escondem Tiago de mim, escondem também a tal dama, mandam-me sair pela escadinha particular para deixar a escada principal desembaraçada; isto quer dizer que pretendem afastar-me do fradépio e evitar que eu veja a dama, está claro. Devo, pois, segundo a boa estratégia, fazer exactamente aquilo que eles desejam que eu faça. Portanto, esperarei que Tiago volte e colocar-me-ei em sítio onde possa ver a misteriosa dama. Oh! oh! aqui está uma linda couraça de malha de aço que atiraram para este canto, flexível, fina, de excelente têmpera...» Levantou-a do chão para a admirar.

«Era de um destes trastes justamente que eu andava à procura, disse ele; esta é leve como linho e demasiado estreita para servir ao prior; parece, na verdade, que esta couraça foi feita para mim: tiro-a por empréstimo a Dom Modesto; à volta lha restituirei.» E Chicot, ligeiramente, escondeu-a debaixo do gibão.

Estava acabando de atar a última agulheta, quando Frei Borromeu apareceu à entrada da porta. «Oh! oh! murmurou Chicot, és tu outra vez! mas já chegas tarde, meu amigo.» E cruzando os compridos braços por detrás das costas, ergueu a cabeça, fingindo que estava admirando os troféus.

— O Sr. Roberto Briquet anda à procura de alguma arma que lhe convenha? — perguntou Borromeu.

— Eu, meu caro amigo?! — respondeu Chicot. — E para que me pode servir a mim uma arma?...

— Eu sei lá! quem se serve delas com tanta destreza!

— São teorias, meu caro irmão; teorias e mais nada: um pobre burguês como eu pode ter destreza nos braços e nas pernas, porém o que lhe falta sempre, e lhe há-de faltar, é o coração de soldado. O florete na minha mão brilha com bastante elegância; mas o próprio Tiago era capaz de me fazer fugir daqui até Charenton com a ponta de uma espada.

— Deveras?... — disse Borromeu, meio convencido pelo modo tão simples e bonacheirão de Chicot, o qual, é preciso notar, acabava de se fazer ainda mais corcovado, mais zambro, mais

vesgo do que até ali.

— E demais, falta-me o fôlego — prosseguiu Chicot. — Notou necessariamente que não posso recuar nem estender-me; as minhas pernas são detestáveis; e nisso consiste o meu maior defeito.

— Ser-me-á lícito observar-lhe, Sr. Roberto, que esse defeito ainda é pior para fazer jornada do que para jogar as armas?...

— Ah já sabe que eu vou empreender uma jornada?... — respondeu Chicot com indiferença.

— Foi Panurgo quem mo disse — replicou Borromeu corando.

— É célebre! julgava não ter falado em tal a Panurgo... Mas não importa: não tenho motivo algum para me ocultar. Sim senhor, meu irmão, tenciono fazer uma jornadazita; vou à minha

terra, onde tenho umas fazendas.

— Sabe que mais, Sr. Briquet? O senhor sempre concedeu a Frei Tiago uma distinção bem honrosa!

— Pela escolha que fiz dele para me acompanhar?...

— Por esse motivo, em primeiro lugar, e em segundo, por ir ver el-rei.

— Ou o seu criado particular, pois é muito possível, e até provável, que Frei Tiago não veja outra pessoa.

— É, pelo que vejo, familiar do Louvre...

— Oh! e muitíssimo familiar mesmo; eu era quem vendia a el-rei e aos fidalgos da sua casa as meias de lã que usavam.

— A el-rei?

— Já era meu freguês no tempo em que era simplesmente duque de Anjou. Quando regressou da Polónia, lembrou-se de mim e nomeou-me fornecedor da corte.

— São relações de que lhe pode resultar muito proveito, Sr. Briquet.

— As minhas relações com Sua Majestade?

— Sim, por certo.

— Nem todos dizem isso, Frei Borromeu.

— Oh! os membros da Liga...

— Hoje em dia todos são, mais ou menos, partidários da Liga.

— Mas o senhor não é decerto...

— Eu? porque diz isso?

— Porque tendo relações pessoais com el-rei...

— Eh! eh! eu também tenho a minha política como qualquer outro — disse Chicot.

— Sim, mas a sua política está decerto em harmonia com a de el-rei.

— Não acredite em tal: divergimos muitas vezes de opinião.

— Sendo assim, como é que ele o encarrega de uma missão?

— Quer dizer: de uma comissão.

— Missão ou comissão, a diferença não é grande; qualquer das duas é prova de confiança.

— Não sei porquê; contanto que eu saiba tomar as minhas medidas, que mais quer el-rei?

— As suas medidas?

— Sim.

— Medidas políticas, ou medidas financeiras?

— Não, medidas de fazendas.

— Como assim!? — perguntou Borromeu estupefacto.

— Sem dúvida; eu me explico já...

— Estou ouvindo.

— Sabe que el-rei fez uma romaria a Nossa Senhora de Chartres?

— Sei, para conseguir um herdeiro.

— Exactamente. E também sabe que há um meio infalível para alcançar o resultado por que anela el-rei...

— Se o há, parece-me que el-rei não usa dele.

— Frei Borromeu!... — exclamou Chicot.

— Que quer dizer?

— Sabe muito bem que se trata de conseguir um herdeiro à coroa por milagre, e não de outra forma.

— E esse milagre, a quem o pedem?

— A Nossa Senhora de Chartres.

— Ah! sim: a camisa...

— É isso mesmo. El-rei tirou a camisa a Nossa Senhora e deu-a à rainha; mas, em troca da camisa, quer oferecer à Senhora um vestido igual ao de Nossa Senhora de Toledo, que é, segundo dizem, o vestido de Virgem mais lindo, mais rico, que existe em todo o mundo.

— De forma que o senhor vai...?

— A Toledo, caro irmão Borromeu, a Toledo: tomar a medida do tal vestido para mandar

executar um igual.

Borromeu pareceu hesitar se havia de acreditar ou não no que afirmava Chicot.

Se reflectirmos maduramente no caso, estamos autorizados a pensar que não lhe deu crédito.

— Já vê — prosseguiu Chicot, como se ignorasse o que se passava no espírito do irmão tesoureiro — o motivo que me fez desejar a companhia de um homem de Igreja nesta jornada. Porém, vai decorrendo o tempo, e já não poderá tardar Frei Tiago; vou esperar por ele lá fora, no cruzeiro Faubin, por exemplo.

— Parece-me que será melhor — disse Borromeu.

— Terá pois a bondade de o avisar, logo que ele chegue?

— Sim senhor.

— E manda-o logo ter comigo?

— Imediatamente.

— Obrigado, meu caro irmão Borromeu; muito estimo ter tido o gosto de o conhecer. Ambos fizeram um cumprimento; Chicot desceu pela escadinha particular, e Borromeu,

apenas ele saiu, correu cautelosamente os ferrolhos da porta.

«Está bom, está bom, disse Chicot: há todo o empenho, segundo me quer parecer, em que eu não veja a dama; é preciso, portanto, tratar de a ver.»

E para dar execução a esse projecto Chicot saiu do Priorado dos Domínicos o mais ostensivamente que lhe foi possível, conversou um pouco com o irmão porteiro e encaminhou-se para o cruzeiro Faubin, seguindo pelo meio da estrada.

Porém, logo que chegou ao cruzeiro Faubin sumiu-se à esquina do muro de uma herdade, e ali, conhecendo que nada tinha já que recear dos argos do prior, ainda mesmo que tivessem olhos de falcão, como Borromeu, foi-se cosendo com os edifícios, seguiu por dentro de um fosso que ficava paralelo a uma sebe, e deste modo voltou, sem ser visto por pessoa alguma, para trás de um grupo de arbustos que ficava fronteiro ao convento.

Chegado que foi àquele ponto, que lhe oferecia um centro de observação tal qual desejava, sentou-se, ou, para melhor dizer, deitou-se, e esperou que Frei Tiago voltasse para o convento e que a dama misteriosa de lá saísse.

 

         A EMBOSCADA

Chicot, como os leitores sabem, não se demorava muito em adoptar uma resolução. Adoptou pois a de esperar, e tratou de se colocar na posição mais cómoda.

Procurou imediatamente fazer uma janela através da grossura dos ramos, para não perder de vista as pessoas que entrassem ou saíssem do convento e que pudessem interessá-lo. A estrada estava deserta.

Na maior distância a que a vista alcançava não aparecia nenhum cavaleiro, nem mesmo homem algum do campo. Toda a multidão da véspera tinha deixado de existir, logo que acabara o espectáculo que a havia atraído.

Chicot avistou apenas um homem mal trajado, que passeava transversalmente na estrada, e media com um comprido pau pontiagudo a Calçada de Sua Majestade o Rei de França.

Chicot não tinha que fazer. Estimou imenso ter dado com os olhos no tal sujeito para lhe servir de passatempo.

Que media ele? E porque media? Foram estas, durante um ou dois minutos, as reflexões de Roberto Briquet.

Resolveu logo não perder o homem de vista.

Infelizmente, na ocasião em que aquele indivíduo, tendo chegado ao fim da sua meditação, ia para levantar a cabeça, uma descoberta mais importante veio absorver a atenção de Chicot, obrigando-o a dirigir os olhos para outro ponto.

Abriram-se ambas as vidraças da janela que deitava para a varanda de Gorenflot, e apareceu na sacada a respeitável rotundidade de Dom Modesto, o qual, com os imensos olhos arregalados e mostrando o seu sorriso domingueiro, vinha conduzindo, com toda a amabilidade de que era susceptível, uma senhora quase de todo escondida por um mantelete de veludo guarnecido de peles.

«Oh! oh! disse consigo Chicot, lá está a devota. Os modos são de mulher jovem; ora vamos lá! levante um pouco a cabeça... assim; bem, volte-se mais um bocadinho para este lado... muitíssimo bem! É na verdade coisa admirável que todas as caras que vejo me dão semelhanças de pessoas minhas conhecidas. Que desgraçada mania com que ando! Bem, lá está agora o escudeiro. Oh! oh! quanto a esse, não me engano: é na realidade Mayneville. Sim, sim: o bigode retorcido, a espada de roca: é ele mesmo; mas raciocinemos um pouco: se não me engano a respeito de ser ele Mayneville com a breca! porque me havia de enganar relativamente à Sr.a de Montpensier?... porque aquela mulher, sim, sim, por Deus! é a duquesa!»

Chicot, como bem se pode imaginar, abandonou desde logo o homem das medidas, para não tirar os olhos das duas ilustres personagens.

Ao cabo de um segundo, viu assomar por detrás deles o rosto pálido de Borromeu, que Mayneville interrogou por diversas vezes.

«É isso mesmo, disse ele, todos contribuem para a função; bravo! conspiremos, visto ser essa a moda; mas que demónio quer isto dizer? A duquesa virá porventura hospedar-se em casa de Dom Modesto? Ela, que já tem a casa de Bel-Esbat, a cem passos daqui?...»

Naquele momento teve a atenção de Chicot novo motivo de excitação. Enquanto a duquesa conversava com Gorenflot, ou, mais exactamente, o obrigava a conversar com ela, o Sr. de Mayneville fez um aceno para alguém que estava da parte de fora.

Chicot, contudo, não tinha visto pessoa alguma a não ser o homem das medidas. Era efectivamente a ele que o aceno tinha sido dirigido, e o resultado fora que o homem das medidas já não media coisa alguma.

Tinha parado em frente da sacada, de perfil, com o rosto virado para a banda de Paris. Gorenflot continuava nas suas amabilidades para com a devota.

O Sr. de Mayneville disse o quer que fosse ao ouvido de Borromeu, e este começou logo a gesticular por detrás do prior, de modo ininteligível para Chicot, mas bem claro, segundo parecia, para o homem da medição, o qual se afastou logo e se foi colocar noutro ponto, onde, a um aceno de Borromeu e de Mayneville, se conservou imóvel como uma estátua.

Decorridos alguns segundos naquela imobilidade, e obedecendo a um novo aceno de Frei Borromeu, entregou-se o homem a um género de exercício que ainda mais preocupou Chicot, por isso que lhe era impossível adivinhar qual o seu fim. O homem deitou a correr do lugar onde estava até à porta do priorado, tendo o Sr. de Mayneville todo esse tempo o relógio na mão.

«Cos demónios! murmurou Chicot, tudo isto me parece suspeito; o enigma é intrincado!...

Apesar disso, pode ser que eu o adivinhe, se puder ver a cara do homem das medidas.»

Naquele mesmo instante, como se o demónio familiar de Chicot tivesse empenho em lhe satisfazer o desejo, o homem voltou-se e Chicot reconheceu Nicolau Poulain, tenente do prebostado, o mesmo a quem tinha vendido na véspera as suas armaduras velhas.

«Está bom, disse; viva a Liga! Já vi quanto me basta para adivinhar o resto com um bocadinho de trabalho! Pois bem, trabalhemos nesse sentido.»

Depois de mais algumas palavras trocadas entre a duquesa, Gorenflot e Mayneville, Borromeu tornou a fechar a janela e a varanda ficou deserta.

A duquesa e o seu escudeiro saíram do priorado para se meterem na liteira, que estava esperando por eles; Dom Modesto tinha-os acompanhado até à porta, onde se desfazia em zumbaias.

A duquesa ainda conservava abertas as cortinas da liteira para corresponder às cortesias do prior, quando um frade domínico, vindo de Paris pela Porta de Santo António, parou na frente dos cavalos, que examinou com curiosidade, e depois se aproximou da liteira, para dentro da qual deitou os olhos.

Chicot conheceu que aquele frade era o pequeno Frei Tiago, que tinha voltado do Louvre e ficara em êxtase vendo a Sr.a de Montpensier.

«Ora vamos, disse ele, o acaso favoreceu-me. Se Tiago tivesse voltado mais depressa, eu não teria podido ver a duquesa, pois me teria sido preciso partir a correr para o cruzeiro Faubin. Agora lá se vai a Sr.a de Montpensier depois de ter maquinado a sua conspiração: chegou a vez de mestre Nicolau Poulain. Desse me hei-de eu livrar em menos de dez minutos.»

E com efeito, a duquesa, depois de ter passado pela frente de Chicot sem o ver, lá foi rodando na direcção de Paris; Nicolau Roulain dispunha-se a segui-la.

Era-lhe indispensável passar, como a duquesa, pela frente da sebe onde Chicot estava alojado.

Chicot viu-o chegar, como o caçador vê aproximar a fera: aprontando-se para atirar logo que lhe chegue ao alcance.

Assim pois que Poulain chegou ao alcance de Chicot, este atirou:

— Olá, Senhor! — bradou ele do seu buraco — faça o favor de olhar para aqui. Poulain estremeceu, e voltou a cabeça para a banda do fosso.

— Viu-me? Muito bem! — prosseguiu Chicot. — Agora faça de conta que o caso não é consigo, mestre Nicolau Poulain.

O tenente do prebostado deu um pulo, como um gamo que ouve um tiro de espingarda.

— Quem é o senhor? — perguntou ele — e que deseja de mim?

— Quem sou eu?...

— Sim, quem é?

— Sou um amigo seu, de recente data, porém muito íntimo; e quanto ao que pretendo de si, isso levará mais algum tempo a explicar.

— Mas, enfim! que deseja? fale.

— Desejo que venha aqui ter comigo.

— Ter com o senhor?

— Sim, aqui; salte para dentro do fosso.

— Para quê?

— Depois saberá; salte primeiro.

— Porém!...

— Sente-se com as costas de encontro a esta sebe.

— Mas afinal...

— Sem olhar para onde eu estou, e fingindo que não sabe da minha presença aqui.

— Senhor!...

— Bem sei que é demasiada exigência, mas parece-me que Roberto Briquet tem direito a ser exigente.

— Roberto Briquet?! — exclamou Nicolau Poulain, executando no mesmo instante a manobra que o outro lhe ordenava.

— Assim mesmo! sente-se; muito bem... Ah! ah! estava tomando as dimensões da estrada de Vincennes?

— Eu?

— Sem dúvida alguma; mas também que admiração é que um tenente do prebostado exerça as funções de inspector de estradas quando se oferece ocasião?...

— É verdade — disse Poulain, algum tanto mais tranquilo. — Como viu, andava medindo.

— E com tanto mais escrúpulo — prosseguiu Chicot —, por isso que estava operando debaixo das vistas de personagens muito ilustres...

— De personagens muito ilustres? Não percebo...

— Pois quê!? ignorava-o?...

— Não sei o que quer dizer.

— Não sabe quem eram aquela senhora e aquele sujeito que estavam ali na varanda, e que seguiram agora mesmo para Paris?...

— Juro-lhe que não!

— Ah! quanto eu me julgo feliz por lhe poder dar tão boa notícia! Imagine, Sr. Poulain, que era a Senhora Duquesa de Montpensier e o Senhor Conde de Mayneville, que estavam admirando a perícia com que o senhor desempenhava as funções de inspector de estradas. Faça favor de se não mover daí.

— Sr. Briquet! — disse Nicolau Poulain, procurando resistir — esses ditos, e o modo por que mos dirige...

— Se não se conservar quieto, meu caro Sr. Poulain — replicou Chicot —, obrigar-me-á a romper nalgum excesso. Deixe-se lá estar sossegado.

Poulain soltou um suspiro.

— Assim; muito bem — prosseguiu Chicot. — Dizia eu, pois, que, tendo trabalhado com tanto talento debaixo das vistas daquelas personagens, sem que reparassem no senhor, conforme afirma, ser-lhe-ia talvez muito útil também, meu caro Senhor, que outra personagem ilustre (el-rei, por exemplo) soubesse das suas habilidades...

— El-rei?

— Sua Majestade, sim, Sr. Poulain; posso certificar-lhe que ele gosta muito de admirar qualquer trabalho bem feito... e de o remunerar devidamente.

— Ah! Sr. Briquet... por piedade!...

— Torno a repetir, meu caro Sr. Poulain: se se mexer, está morto. Conserve-se portanto quieto, para evitar uma tal desgraça.

— Mas... que pretende de mim, em nome do Céu!?

— Quero o seu bem-estar, nada mais; não lhe disse já que era seu amigo?...

— Senhor — exclamou Nicolau Poulain com desespero —, não sei na verdade que mal fiz a Sua Majestade, ao senhor ou a pessoa alguma neste mundo!

— Meu caro Sr. Poulain, dê as suas explicações a quem tiver direito de lhas exigir; é coisa que para nada importa; eu tenho as minhas ideias, e ninguém mas tira da cabeça. As minhas ideias são que el-rei não há-de aprovar, por certo, que o seu tenente do prebostado obedeça, quando desempenha as funções de inspector de estradas, aos gestos e sinais do Sr. de Mayneville; e quem sabe, também, se el-rei não estranhará que o seu tenente do prebostado deixe de dar conta, na sua parte diária, da entrada da Sr.a de Montpensier e do Sr. de Mayneville na sua boa cidade de Paris, ontem pela manhã?... Bastava isso unicamente, Sr. Poulain, para incorrer decerto no desagrado de Sua Majestade.

— Sr. Briquet, uma omissão não é um crime, e Sua Majestade é demasiado justo...

— Meu caro Sr. Poulain, parece-me que se preocupa com quimeras; eu vejo as coisas mais claramente.

— Que vê então?

— Vejo uma boa e bonita forca.

— Sr. Briquet!...

— Espere, que ainda não acabei: com uma corda nova, quatro soldados nos quatro pontos cardeais, um número sofrível de parisienses de roda da dita forca, e certo tenente do prebostado pendurado na extremidade da corda.

Nicolau Poulain tremia de forma tal, que abalava os arbustos a que estava encostado.

— Senhor!... — exclamou ele de mãos postas.

— Porém, eu sou seu amigo, meu caro Sr. Poulain — continuou Chicot —, e na minha qualidade de amigo quero dar-lhe um conselho...

— Um conselho?!

— Sim, e que facilmente poderá seguir, graças a Deus. Há-de ir já, sem demora — percebe bem o que lhe digo? — ter com...

— Ter com...? — interrompeu Nicolau Poulain com ansiedade. — Ter com quem?

— Espere... deixe-me reflectir... — replicou Chicot. —Ter com... o Sr. d'Epernon.

— Com o Sr. d'Epernon?! com o amigo de el-rei?!...

— Exactamente; chama-o de parte.

— Ao Sr. d'Epernon?

— Sim senhor; e conta-lhe toda a história da medição que andava fazendo na estrada.

— Isso não será uma loucura, Senhor?...

— É prudência, pelo contrário, extrema prudência.

— Não compreendo...

— A coisa, contudo, é bem clara. Se eu for denunciá-lo pura e simplesmente como o homem que anda medindo as estradas e comprando couraças, hão-de esquartejá-lo; mas, se, pelo contrário, o senhor mesmo for revelar o que sabe, cobri-lo-ão de honras e recompensas... Parece-me que não está convencido... Muito bem: vou pois ter o incómodo de voltar ao Louvre; mas não importa porque, à fé de quem sou! não há sacrifício que eu não faça para o obsequiar.

E Nicolau Poulain ouviu ranger os ramos a que Chicot se agarrava para se levantar.

— Não, não! — disse ele — fique, que eu vou.

— Ora ainda bem! Tome sentido, porém, meu caro Sr. Poulain: nada de subterfúgios, porque amanhã escrevo uma cartinha a el-rei, de quem tenho a honra de ser amigo íntimo, tal qual me vê, ou antes, tal qual me não vê; de forma que, se escapar de ser enforcado amanhã, não deixará de o ser no dia imediato.

— Eu vou já, Sr. Briquet — disse o tenente do prebostado com imenso susto —, mas o senhor está abusando singularmente...

— Eu?! Oh! meu caro Sr. Poulain, devia adorar-me: há cinco minutos era um traidor, e eu faço do senhor um salvador da pátria. Mas vá já a correr, meu caro Sr. Poulain, porque estou com muita pressa de me tirar daqui e não posso afastar-me enquanto o senhor não tiver partido. Ao Palácio de Epernon, não se esqueça.

Nicolau Poulain levantou-se e, fazendo um gesto de desespero, partiu com a rapidez de uma seta na direcção da Porta de Santo António.

«Ah! já era tempo que ele se fosse, disse Chicot; lá sai alguém do priorado... Porém não é o meu Tiagozito! Eh! eh! quem será aquele maroto que apresenta a estrutura que o arquitecto de Alexandre pretendia dar ao monte Atos? Com a breca! pois mandam um cãozarrão daquele vulto para acompanhar um pobre gozo como eu?...»

Chicot, logo que avistou aquele emissário do prior, tratou de correr para o cruzeiro Faubin, sítio aprazado para o encontro.

Como ele tinha necessariamente de seguir um caminho circular, a linha recta teve a vantagem da rapidez, isto é, o frade gigante, galgando a estrada com enormes pernadas, chegou primeiro que ele ao cruzeiro.

Chicot, demais a mais, ia perdendo algum tempo em examinar, enquanto andava, a fisionomia do homem, com a qual muito pouco simpatizava.

O tal frade era, com efeito, um verdadeiro filisteu. Com a pressa com que tinha saído para ir ao encontro de Chicot, nem sequer havia abotoado o hábito de domínico e viam-se pela abertura umas pernas musculosas, cobertas com uns calções de secular.

A cabeça, mal encoberta pelo capuz, mostrava uma juba ainda rebelde às tesouras de priorado.

Além de tudo, os cantos profundos da boca ofereciam certa expressão bem pouco religiosa, e quando queria passar do sorriso para o riso, deixava ver três dentes que pareciam estacas cravadas por detrás da trincheira que lhe formavam os carnudos lábios.

Uns braços compridos como os de Chicot, porém mais grossos, uns ombros capazes de carregar com as Portas de Gaza, uma imensa faca de cozinha entalada na corda do cinto, tal eram, juntamente com um saco enrolado como um escudo em volta do peito, as armas ofensivas e defensivas daquele golias dos dominicanos.

«Não há dúvida, disse consigo Chicot, é muito feio; e se com aquela cara estapafúrdia não me trouxe alguma notícia excelente, não poderei deixar de afirmar que semelhante mono é ben inútil neste mundo.»

O frade, vendo Chicot aproximar-se, cumprimentou-o quase militarmente.

— Que pretende, meu amigo? — perguntou Chicot.

— É o Sr. Roberto Briquet?

— Em pessoa.

— Trago-lhe aqui uma carta do Reverendo Prior.

— Dê cá.

Chicot pegou na carta; era concebida nos seguintes termos:

 

Meu caro amigo, reflecti seriamente desde que nos separámos. Não posso, na realidade, consentir que vá viver no meio dos lobos devoradores do mundo a ovelha que me foi confiada pelo Senhor. Facilmente entenderá que me refiro ao nosso pequeno Tiago Clemente, o qual foi ainda há pouco recebido em audiência por el-rei e desempenhou perfeitamente o seu recado.

Em vez de Tiago, cuja idade é mui tenra, e que faria falta aqui no priorado, envio-lhe um bom e estimável irmão da nossa comunidade; é pessoa de génio pacato e de carácter inocente; estou certo que lhe agradará para companheiro de jornada.

 

«Sim, sim, pensou Chicot, olhando de soslaio para o monge; espera por isso.»

 

Vai esta carta acompanhada da minha bênção, que muito sinto não lha ter dado de viva voz.

Adeus, caro amigo.

 

— Que linda letra! — disse Chicot ao acabar de ler. — Aposto que esta carta foi escrita pelo tesoureiro: bonito talho de letra!

— Foi efectivamente Frei Borromeu quem escreveu a carta — respondeu o golias.

— Pois bem: visto ser esse o caso — replicou Chicot, sorrindo com agrado para o imenso frade —, voltará sem demora para o priorado.

— Eu?

— Sim, e dirá a Sua Reverendíssima que já mudei de parecer e que desejo viajar sozinho.

— Pois quê!? não me quer levar consigo?! — exclamou o monge, com uma admiração um tanto ameaçadora.

— Não, meu amigo, não.

— E não me dirá por que motivo?...

— Porque preciso economizar dinheiro, pois o tempo não está para desperdícios, e estou convencido que o senhor há-de comer espantosamente.

O gigante mostrou as três presas.

— O Tiago come tanto como eu... — disse ele.

— Sim, mas Tiago é um frade — retorquiu Chicot.

— E eu que sou, então?...

— O meu amigo é um lansquenete, ou um homem de armas, e, aqui para nós, se Nossa Senhora, a quem eu sou mandado em deputação, me visse em tal companhia, talvez se escandalizasse.

— Que lembrança é essa de lansquenete ou de homem de armas?... — respondeu o monge. — Eu sou frade domínico; não conhece este hábito?

— O hábito não faz o monge, meu amigo — replicou Chicot —, mas pela espada se conhece o soldado. Fará favor de dizer isto mesmo a Frei Borromeu.

E Chicot fez uma cortesia ao gigante, o qual tornou pelo caminho do priorado, a rosnar como um cão quando o enxotam.

Quanto ao nosso viajante, esperou que desaparecesse de todo o indivíduo que lhe destinavam para companheiro de jornada e, logo que o viu sumir-se para dentro do portão do convento, foi esconder-se por detrás de um tapume, despiu o gibão e enfiou a couraça de malha de aço que já conhecemos por cima da sua camisa de linho.

Acabada esta operação, atravessou pelos campos fora, para se ir meter na estrada de Charenton.

 

         OS GUISAS

Na noite daquele mesmo dia em que Chicot partia para Navarra, encontraremos na sala grande do Palácio de Guisa, onde, em nossas precedentes narrações, já por mais de uma vez temos levado os nossos leitores, encontraremos, dizíamos nós, na sala grande do Palácio de Guisa, aquele mancebo de olhos espertos que vimos entrar em Paris na garupa do cavalo de Carmainges, e que não era outra pessoa, como já sabemos, senão a formosa devota de Dom Gorenflot.

Desta vez não se tinha dado ao trabalho de disfarçar a sua pessoa ou o seu sexo.

A Sr.a de Montpensier, vestida com elegância e muito decotada, com o cabelo resplandecente de pedras preciosas, como era moda naquela época, esperava com impaciência, de pé, no vão de uma janela, por alguém que tardava.

Já começava a escurecer de todo, e a duquesa a muito custo diferençava, do lugar onde estava, o portão do palácio, do qual não tirava os olhos.

Finalmente, ouviram-se as passadas de um cavalo, e dali a dez minutos a voz do criado participava misteriosamente à duquesa que era chegado o Senhor Duque de Maiena.

A Sr.a de Montpensier correu logo ao encontro do irmão com tal precipitação, que nem se lembrou de andar sobre o bico do pé direito, como tinha por costume, quando queria que não se percebesse que era coxa.

— Sozinho, meu irmão?... — disse ela — vieste sozinho?

— Sim, minha irmã — respondeu o duque, sentando-se depois de ter beijado a mão da duquesa.

— Mas Henrique?... onde está Henrique? Não sabes que todos o esperam aqui?...

— Minha irmã, Henrique nada tem que fazer em Paris; pelo contrário: ainda lhe resta muito que fazer nas cidades de Flandres e da Picardia. O nosso trabalho é vagaroso e subterrâneo; e se ainda temos por lá muita obra para acabar, que necessidade há que ele abandone essa obra para vir a Paris, onde tudo está pronto?...

— Pois sim, mas onde tudo ficará inutilizado se não se apressar.

— Qual história!

— Duvide, muito embora, meu irmão. Porém digo-lhe que os burgueses já não se dão por satisfeitos com essas razões: querem ver o seu duque Henrique; é esse o seu desejo, a sua mania.

— Vê-lo-ão quando for ocasião própria. Pois Mayneville não lhes explicou tudo isso?...

— Não há dúvida; mas as palavras dele, como sabe, não têm o mesmo poder que as suas.

— Tratemos do que mais urge, minha irmã. E Salcède?

— Morreu.

— Sem falar?

— Sem boquejar.

— Bem. E o armamento?

— Está concluído.

— A cidade de Paris?

— Foi dividida em dezasseis distritos.

— E à testa de cada distrito está o chefe que nós indicámos?

— Está.

— Pois então durmamos descansados; e viva Deus! — é o que venho aqui dizer aos nossos

burgueses.

— Não lhe darão ouvidos.

— Ora adeus!

— Digo-lhe que estão endemoninhados!

— Minha irmã, tem por costume avaliar a precipitação dos mais pela sua própria impaciência.

— E parece-lhe seriamente que faço mal?

— Deus tal não permita! Porém é necessário cumprir o que disse meu irmão Henrique. Ora, meu irmão Henrique deseja que não nos apressemos por forma alguma.

— Que se há-de fazer então? — perguntou a duquesa com impaciência.

— Há porventura algum negócio urgente, minha irmã?

— Muitos, se quisermos.

— De qual nos devemos ocupar primeiro, em sua opinião?

— Da captura de el-rei.

— É a sua ideia fixa; não digo que seja má; assim nós pudéssemos executá-la... Mas projectar e executar são duas coisas diversas: lembre-se de quantas vezes se têm malogrado as nossas tentativas.

— Os tempos estão mudados: el-rei já não tem quem o defenda.

— Não, à excepção dos suíços, dos escoceses e da guarda francesa...

— Meu irmão, quando quiser, eu, que aqui lhe estou falando, mostrar-lho-ei na estrada real, acompanhado por dois lacaios unicamente.

— Já têm dito isso mesmo mais de cem vezes, e eu ainda o não vi assim uma única vez.

— Pois vê-lo-á, se se demorar em Paris três dias, quando muito.

— Temos novo projecto?

— Não é projecto, é um plano.

— Sendo assim, faça favor de me dar conhecimento dele.

— Oh! é uma lembrança de mulher, e por consequência fará escárnio de mim...

— Deus me livre de querer ofender o seu amor-próprio de autora! Vejamos o plano.

— Está caçoando comigo, Maiena...

— Não, estou ouvindo-a.

— Pois bem: eis em quatro palavras o que tenho pensado... Naquele momento o criado levantou o reposteiro.

— Apraz a Suas Altezas receberem o Sr. de Mayneville? — perguntou ele.

— O meu cúmplice... — disse a duquesa. — Que entre.

O Sr. de Mayneville entrou efectivamente, e foi beijar a mão do duque de Maiena.

— Quero dar-lhe uma palavra, meu Senhor; venho agora mesmo do Louvre...

— E então? — exclamaram a um tempo Maiena e a duquesa.

— Desconfia-se da sua chegada.

— Como assim!?

— Estava eu conversando com o comandante da guarda de S. Germano l'Auxerrois, quando passaram dois gascões...

— Reconheceu-os?

— Não; iam de fato novo. «Por Deus! disse um ao outro, o senhor tem um gibão magnífico, porém duvido que em ocasião de barulho o defenda tão bem como a couraça que ontem trazia.

«— Não tem dúvida! por muito rija que seja a espada do Sr. de Maiena — respondeu o outro —, aposto que não há-de fazer mais mossa neste cetim do que na referida couraça.

«E em seguida o gascão começou com bravatas que bem davam a conhecer que sabia da sua vinda.»

— E a quem pertencem os tais gascões?

— Não sei.

— Depois disso retiraram-se?

— Oh! não se foram logo; berravam em altas vozes; o nome de Vossa Alteza foi ouvido por algumas pessoas que iam passando, e que pararam para perguntar se com efeito estava para chegar. Iam para responder à pergunta, quando de repente se aproximou um homem e bateu no ombro de um dos gascões; o homem, se me não engano, meu Senhor, era Loignac.

— E depois? — perguntou a duquesa.

— Disse algumas palavras ao ouvido do gascão, ao que este respondeu com um gesto de obediência, seguindo logo o seu interruptor.

— De modo que...?

— De modo que, não pude perceber mais coisa alguma. Entretanto, acautele-se.

— Não os seguiu?

— Segui, mas de longe; receava que me conhecessem por fidalgo da casa de Vossa Alteza. Dirigiram-se para a banda do Louvre, e desapareceram por detrás do Palácio do Reposte. Porém, depois de eles se irem embora, ouvi ainda uma infinidade de vozes repetirem: «Maiena! Maiena!»

— Tenho na minha mão um meio muito simples de remediar tudo isso... — disse o duque.

— Qual é? — perguntou a irmã.

— É ir cumprimentar el-rei esta noite.

— Cumprimentar el-rei?...

— Decerto; vim a Paris, vou dar-lhe notícias das suas boas cidades da Picardia; não mo pode levar a mal.

— Essa ideia é magnífica! — disse Mayneville.

— Mas é imprudente — atalhou a duquesa.

— Torna-se indispensável, minha irmã, se desconfiam efectivamente da minha vinda a Paris. E demais, nosso irmão Henrique era de parecer que eu me apeasse assim mesmo com os meus trajos de jornada às portas do Louvre, para cumprimentar el-rei em nome de toda a família. Logo que tenha cumprido este dever, fico desembaraçado e posso receber as visitas que eu quiser!

— Os membros da comissão, por exemplo, estão à sua espera.

— Recebê-los-ei no Palácio de S. Dinis, à minha volta do Louvre. Dê ordem pois, Mayneville, que tragam o meu cavalo tal qual está, sem lhe limparem o suor. O senhor acompanhar-rne-á ao Louvre. E, minha irmã, faça favor de esperar por nós.

— Aqui, meu irmão?

— Não, no Palácio de S. Dinis, onde deixei os meus criados e bagagens, e onde todos julgam que estou deitado. Lá estaremos daqui a duas horas.

 

         NO LOUVRE

Aquele mesmo dia era, como já vimos, destina