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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS ROBÔS / Isaac Asimov
OS ROBÔS / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS ROBÔS

 

            O planeta Solaria poderia eliminar a Terra e transformá-la em duas partes iguais, e provavelmente o fizesse.

            Solaria era poderosa e ávida de poder.

            Mais de duzentos anos se passaram para que desenvolvesse a arma derradeira - um maciço exército de robôs que poderia destruir a Terra e governar o Universo em questão de dias.

            Mas, em vista dos fatos, isto teria que esperar. Um dos mais eminentes cientistas de Solaria foi encontrado brutalmente assassinado e só um Terrestre poderia desvendar o desconcertante e sombrio mistério. E assim, mesmo contrariados, os Solarianos pediram o auxílio de um Terrestre.

            Uma espetacular obra de ficção científica de Isaac Asimov descrevendo o que será um Futuro em que os robôs, comandados pelos textos das três Primeiras Leis Robóticas começam a conquistar o Universo, tentando subjugar seus próprios criadores.

 

UMA INVESTIGAÇÃO INESPERADA

            Elijah Baley combatia, teimosamente, o pânico que dominava todo o seu ser.

            O pânico começara a invadi-lo, embora gradualmente de início, umas boas duas semanas antes. Começara, na verdade, no momento em que fora convocado para comparecer imediatamente em Washington e ao ser informado, à sua chegada, de que fora transferido, sem mais nem menos, para um serviço muito diferente do que ocupara até então.

            A convocação de Washington já fora, por si, bastante perturbadora - não sendo, ao menos, acompanhada pela menor explicação; não passando, enfim, de uma seca e fria ordem. A convocação fora desagradável, não restavam dúvidas, mas pior ainda fora o fato de ter chegado juntamente com a requisição de uma passagem de avião para ser utilizado por Baley.

            Aquela primeira impressão de pânico fora causada pela urgência sempre contida em qualquer requisição de uma viagem aérea e, ao mesmo tempo, pelo simples receio de viajar de avião. Estas duas causas iniciais, contudo, não passavam de meros receios sem justificação e, por isso mesmo, não preocuparam grandemente Elijah Baley.

            Baley, afinal de contas, já viajara de avião quatro vezes e, numa dessas vezes, até atravessara o continente de ponta a ponta. Assim, embora as viagens aéreas não fossem do seu agrado, a verdade era que esta viagem a Washington não seria um passo no desconhecido.

            A viagem de Nova York a Washington durava apenas uma hora, o que era consolador. A partida, além de tudo o mais, teria lugar na Pista n.º 2 do aeroporto de Nova York, e, como todas as pistas usadas em serviço oficial, esta encontrava-se bem fechada e o avião só entraria na atmosfera desprotegida quando atingisse a velocidade necessária para alçar vôo. A chegada seria efetuada na Pista n.º 5 do aeroporto de Washington, uma pista tão protegida da atmosfera exterior como era a Pista n.º 2 de Nova York.

            Baley sabia muito bem que, além de tudo isto, o avião não teria janelas e que, por isso, não seria obrigado a ter qualquer contato com a atmosfera. O avião estaria tão bem iluminado como os outros quatro em que já viajara, a comida seria adequada e não lhe faltaria qualquer comodidade necessária. O vôo, comandado pelo radar e pelo rádio, seria muito suave e a sensação de movimento, uma vez que o avião se encontrasse no ar, seria quase nula.

            Elijah Baley tentou convencer-se de todos estes fatos e explicou-os pacientemente a Jessie, sua mulher, para quem, nunca tendo entrado num avião, as viagens aéreas constituíam um verdadeiro pesadelo.

            - Não quero que viaje de avião, Lije - dissera-lhe ela, usando aquele diminutivo que sempre o irritava. - Viajar pelos céus não é uma coisa natural!

            Podia muito bem ir pelo Expresso.

            - Já sabe que o Expresso leva dez horas para chegar a Washington - respondera Baley, não conseguindo esconder a preocupação que o dominava. - Além disso, sou um membro das Forças da Polícia da Cidade de Nova York e devo obedecer aos meus superiores, Não quer que eu perca a minha classificação de G-6, não é?

            E, contra aquela terrível possibilidade, não havia argumento que valesse!

            Baley tomara o avião, segundo as ordens dos seus superiores, e, durante a viagem, não tirara o olhar da fita telegráfica em aparência, que se ia desenrolando, suave e continuamente, numa pequena caixa colocada à altura dos seus olhos. A Cidade orgulhava-se daquele serviço composto por notícias, comentários e ensaios, artigos humorísticos, contos e informações culturais e educativas. Qualquer dia, dizia-se, aquelas fitas seriam substituídas por filmes; já que o fato de tapar os olhos por meio de um visor adaptado ao rosto seria uma forma bem mais eficiente de distrair os passageiros e de os fazer esquecer que estavam voando na atmosfera.

            O olhar fixo de Baley não representava tão-só um desejo de se distrair com o que ia lendo na fita que passava ante os seus olhos, mas era também devido ao fato de que as boas maneiras assim o exigiam. Elijah Baley não pudera deixar de notar a presença de mais cinco passageiros no avião e, segundo a etiqueta, cada um deles tinha todo o direito de sofrer (privadamente) qualquer grau de medo ou de ansiedade que a natureza e educação lhe fizessem -sentir.

            Baley compreendia isto perfeitamente, visto que se sentiria incomodadíssimo se alguém notasse o sentimento quase de pânico ou pavor que se apoderara dele. Elijah Baley, como sucedia com os outros cinco passageiros, não queria que alguém notasse a palidez do seu rosto ou a forma, quase histérica, como as suas mãos seguravam os braços do assento.

            - Estou fechado... protegido! Este avião é como se fosse uma pequena Cidade! - dizia Baley, de si para si.

            O inspetor da Polícia de Nova York tentava convencer-se de que assim era, porém, na realidade, sabia muito bem que tudo o que existia para lá daquela frágil estrutura de metal era o nada absoluto. Nada! Esse nada era feito de ar. Ar! O que era, afinal, o ar? Nada!

            Mil quilômetros de ar, à sua esquerda! Outros mil quilômetros, à sua direita! Um quilômetro, ou talvez dois, de ar por baixo de si! Estava rodeado por ar... por nada... e bem o sabia!

            Baley desejava ter a possibilidade de ver o que se passava lá embaixo, de ver as cúpulas e o aspecto exterior das cidades subterrâneas sobre as quais ia voando: Nova York, Filadélfia, Baltimore, Washington. Sua imaginação, já um pouco febril, oferecia-lhe estranhas visões dessas cúpulas e complicadas estruturas que ele nunca vira, apesar de ter pleno conhecimento de sua existência. As Cidades, a uma milha de profundidade da superfície da terra, estendiam-se em todas as direções sob esses intrincados vestígios que Baley poderia admirar se o avião tivesse janelas.

            Os infinitos e intermináveis corredores das cidades estavam repletos de gente, pensava Baley durante a indesejada viagem, e a presença humana não faltava em todos aqueles apartamentos, fábricas, refeitórios, expressos e em todos os locais funcionais das cidades.

            Ele, Elijah Baley, encontrava-se isolado de tudo e de todos, viajando velozmente, dentro de uma bala de metal, através daquele nada que era o ar!

            Todo o seu corpo estremeceu com aquele pensamento e suas mãos seguraram ainda mais violentamente os braços do assento. O seu olhar procurou avidamente a pequena fita telegráfica que lhe trazia a normalidade e o bem-estar. Baley começou a ler um conto que narrava as aventuras de um habitante da Terra durante uma exploração galáctica.

            Baley soltou uma exclamação, arrependendo-se logo de o ter feito e de ter, provavelmente, chamado a atenção dos outros passageiros.

            Aquele conto era completamente ridículo! Esta pretensão de que os habitantes da Terra podiam invadir o espaço era infantil! Explorações galácticas! Os atuais habitantes da Terra jamais teriam acesso à Galáxia! Os habitantes espaciais, ou os Espaciais como eram denominados, eram os únicos seres com esse privilégio - apesar de os seus antepassados terem sido habitantes da Terra como todos os outros. Esses antepassados haviam alcançado os planetas distantes e, depois de os colonizarem. sentiram-se tão confortáveis e superiores que haviam suspendido toda e qualquer imigração da Terra, fechando as portas daqueles paraísos à restante população do planeta que lhes servira de berço. Os habitantes da Terra, depois de uma série de guerras, e sentindo-se desprezados pelos seus primos galácticos, foram aprisionados dentro de suas cidades subterrâneas pela força de uma barreira de verdadeiro pavor aos espaços abertos. A nova civilização das cidades da Terra desenvolvera-se rápida e eficazmente e os seus habitantes não voltaram sequer a pisar a superfície do planeta - entregando todas as fainas agrícolas e atividades mineiras aos cuidados de verdadeiras legiões de robôs. Aos habitantes da Terra havia sido negado o acesso aos planetas e até à superfície do seu próprio planeta!

            - Caramba! Se a situação não nos agrada - disse Baley, falando com os seus botões - deveríamos fazer alguma coisa para modificá-la... mas contos de fadas, como este, sobre hipotéticas aventuras de habitantes da Terra na Galáxia, é que não servem para qualquer fim!

            Baley sabia bem, embora não o confessasse, que não havia a mais remota possibilidade de modificar o estado de coisas na Terra - e contos como aquele, afinal, eram a única libertação que os escritores encontravam das raízes que os amarravam ao planeta.

            O avião, entretanto, alcançara o seu destino. Elijah Baley e os outros passageiros, depois de o avião aterrar e entrar pelo túnel que o isolaria da atmosfera, afastaram-se rapidamente do aeroporto, sem sequer se entreolharem.

            Baley olhou para o relógio e decidiu que ainda tinha algum tempo para se refrescar antes de tomar o Expresso que o conduziria ao Departamento da Justiça. Alegrava-o o fato de ainda ter algum tempo livre. O ruído e o clamor que indicavam a presença viva de milhares de seres humanos, a imensidão da câmara que servia de aeroporto, os inúmeros corredores da cidade que nela desembocavam, tudo o que via e ouvia contribuía para aquele sentimento tranquilizante de estar bem encerrado nas entranhas da Cidade. Tudo isto contribuía também para eliminar a ansiedade que o invadira e, agora, só precisava tomar um banho para se sentir perfeitamente à vontade.

            Todos os forasteiros precisavam de autorização para se utilizarem dos banhos públicos, porém a convocação oficial recebida por Baley eliminaria todas as dificuldades - devendo até facilitar-lhe um cubículo privado. O inspetor subiu pela escada rolante que conduzia aos banhos públicos e foi-se sentar num dos bancos reservados para os cidadãos de sua categoria. Os Expressos, compostos por estás escadas rolantes, com grupos de bancos próprios para cada uma das classificações dos habitantes da Terra, eram os únicos meios de transporte existentes dentro das cidades e, além dos serviços aéreos, eram também os únicos elos de ligação entre elas. Os Expressos nunca se detinham e só podiam ser utilizados por meio de faixas laterais e paralelas, movendo-se a velocidades diferentes e progressivamente maiores, passando os eventuais passageiros de uma para outra até atingirem a última que se movia com uma velocidade quase igual à do próprio Expresso. Elijah Baley sentira-se reconfortado pela sensação que aquelas faixas lhe causaram antes de tomar o seu lugar a bordo do veloz Expresso.

            A hora não era de grande movimento e Baley não teve dificuldade em entrar nos banhos públicos, do mesmo modo que encontrara facilmente assento no Expresso. O funcionário pôs-lhe à disposição um banheiro privativo, adequado à sua classificação de C-6, e Baley alegrou-se de ver que também contava com uma máquina de lavar, automática e instantânea, para completar o trajo que se propusera levar a cabo.

            Depois de consumir a ração de água que lhe fora atribuída, tomando banho e lavando todas as peças de roupa que trajava, secas e engomadas poucos segundos após a lavagem, Elijah Baley sentiu-se com forças suficientes para enfrentar o Departamento da Justiça. E, ironicamente, sentia-se também muito bem disposto e alegre.

            O Subsecretário Albert Minnim era um homem de pequena estatura, aparentemente com uma certa tendência para engordar, de cabelos grisalhos, feições muito decididas e definidas e, acima de tudo, possuindo uma expressão imensamente inteligente. Todo o seu aspecto manifestava cuidado e asseio exemplares, patenteando também o fato de que o pessoal superior da Administração tinha, ao seu dispor, tudo o que havia de melhor em matéria de vestuário.

            Elijah Baley sentiu-se insignificante naquela desfavorável comparação com o seu superior, apesar de se ter arranjado cuidadosamente e de ter até lavado as roupas que trajava antes de comparecer ao encontro.

            - Sente-se; Baley - disse Minnim, falando cordialmente e perguntando logo a seguir: - Fuma?

            - Apenas cachimbo, Excelência - respondeu Baley.

            O inspetor tirara o cachimbo do bolso, ao dizer aquelas palavras, e Minnim voltou a guardar o charuto que fora oferecido a Baley.

            Este arrependeu-se imediatamente de o ter recusado. Um charuto, apesar de não ser muito do seu gosto, era melhor do que nada e não era uma oferta que se recusasse sem mais nem menos. Era verdade que sua ração de tabaco aumentara quando fora promovido da classificação de C-5 à de C-6, contudo Baley ainda estava longe de ter direito a todo o tabaco que precisava para o seu cachimbo!

            - Pode acender o cachimbo, se quiser - disse Minnim, aguardando, com uma espécie de paciência condescendente, que o inspetor medisse cuidadosamente uma dose de tabaco, enchesse o cachimbo e, finalmente, o acendesse.

            Elijah Baley, o olhar posto no cachimbo ainda mal aceso. foi o primeiro a falar:

            - Não fui informado das razões desta convocação, Excelência.

            - Bem sei - respondeu o Subsecretário, sorrindo benevolentemente. - A razão é simples e vou apresentar-lhe. Tenho o prazer de informar-lhe de que foi transferido para outro serviço.

            - Fora da cidade de Nova York?

            - A missão que lhe destinamos terá de ser levada a cabo num ponto distante de Nova York.

            Baley franziu o sobrolho e tornou-se pensativo.

            - A transferência é permanente ou temporária, Excelência? - perguntou o perplexo inspetor.

            - Ê temporária, mas não lhe sei dizer por quanto tempo. Baley estava ao corrente das vantagens e das desvantagens destas inesperadas transferências temporárias. O fato de trabalhar numa cidade, onde não possuísse residência fixa, significava que viveria mais confortável e luxuosamente do que era habitual à sua classificação. Por outro lado, e era essa a maior desvantagem, o mais natural seria que Jessie e o seu filho, Bentley, não pudessem segui-lo. A mulher e o filho não passariam a menor dificuldade, sem dúvida, mas Elijah Baley era um marido muito apegado ao lar e detestava a idéia de qualquer separação.

            A maior vantagem, para ele, era o fato de uma transferência daquela natureza representar sempre uma tarefa específica, o que era agradável, e uma responsabilidade bem maior do que a habitualmente esperada da parte dos inspetores de Polícia, o que podia tornar-se numa grande dor de cabeça! Baley conseguira, poucos meses atrás, sobreviver à responsabilidade da investigação do assassínio de um Espacial na cidade de Nova York. O inspetor Elijah Baley não ficara muito contente com o súbito pensamento de que a presente missão talvez fosse semelhante àquela que desempenhara durante essa complicada investigação.

            - Poderá dizer-me para onde fui destacado? Agradeceria também que me informasse da natureza do trabalho que terei de realizar, Excelência.

            Baley tentara adivinhar o que o Subsecretário quisera dizer com "um ponto muito distante de Nova York" e começara a pensar nas cidades mais distantes que, de momento, lhe ocorriam. Seria Calcutá? Sidney?

            Foi então que o inspetor notou a hesitação de Minnim e que este acendia um charuto cuidadosamente, evitando olhar de frente para o seu subordinado.

            Baley compreendeu, de imediato, que o Subsecretário sentia uma certa relutância em responder-lhe, e que o tal local, para onde fora nomeado, não devia ser muito agradável.

            Minnim soltou uma baforada de fumo e, baixando o olhar para o charuto incandescente, falou pausada e lentamente:

            - O Departamento de Justiça nomeou-o para uma missão temporária em Solaria!

            Baley tentou localizar a posição de Solaria no mapa mental do seu cérebro.

            Solaria, na Ásia? Solaria, na Austrália? Não... não se recordava da existência de qualquer Solaria!...

            Sua memória trouxe-lhe, súbita e inesperadamente, uma estranha sensação de mal-estar e de pânico.

            - Não me diga que se refere a um dos Planetas Exteriores?! - exclamou o assustado e incrédulo inspetor.

            Minnim desviou o olhar e respondeu num tom de voz que revelava bem seu embaraço:

            - Isso mesmo, Baley.

            - É impossível! - exclamou Baley. - Os Espaciais não autorizam a entrada de qualquer Terrestre nos Planetas Exteriores!

            - Existem certas circunstâncias que alteram as normas habituais, inspetor Baley, Foi cometido um assassínio em Solaria!

            Baley sorriu amargamente.

            - Solaria não está dentro da nossa jurisdição, não acha?

            - O Governo do Planeta Solaria pediu nossa ajuda.

            - A nossa ajuda? A ajuda da Terra? - Baley ficara imensamente perturbado e confuso com aquela revelação. Os Espaciais manifestavam sempre um certo desprezo e, no melhor dos casos, uma benevolência social pelos habitantes do planeta de sua origem e era verdadeiramente extraordinário que viessem agora pedir sua ajuda.

            - Pediram ajuda à Terra? - repetiu Baley, mal podendo acreditar no que ouvira.

            - É muito estranho - reconheceu Minnim - mas é verdade. As autoridades do Planeta Solaria pediram que um inspetor da Polícia Terrestre fosse nomeado para conduzir as investigações. O assunto foi tratado pelos diplomatas de ambos os planetas e a decisão de lhes prestar essa ajuda foi tomada pelos mais altos membros do nosso Governo.

            Baley, que se levantara na excitação do momento, voltou a sentar-se e soltou uma exclamação de desespero.

            - Não compreendo que me tenham escolhido! Por que eu? Já não sou muito novo. Tenho quarenta e três anos. Tenho mulher e filho... não me seria possível sair da Terra!

            - A escolha não foi nossa, inspetor Baley. O seu nome foi-nos sugerido pelos próprios Solarianos.

            - O que? Eu?

            - Os nossos amigos de Solaria foram bem específicos. Pediram a colaboração do inspetor Elijah Baley, C-6, das Forças da Polícia da cidade de Nova York. Sabiam muito bem quem queriam e, tenho a certeza, que já adivinhou porque, Baley,

            - Não sou a pessoa indicada para realizar essa investigação, Excelência - insistiu Baley, teimosa e quase asperamente.

            - Não é isso que os Solarianos pensam. Lembre-se da rapidez e maestria com que desvendou o mistério do Espacial assassinado há alguns meses atrás em Nova York.

            - O caso em questão não foi difícil de resolver. Os Solarianos devem ter sido mal informados...

            Minnim encolheu os ombros.

            - Isso não importa. O que interessa é que Solaria pediu a sua presença e o nosso governo decidiu facilitar-lhes sua colaboração. Já foi oficialmente destacado para essa missão, inspetor Baley, e não podemos voltar atrás com a nossa palavra. Os seus documentos já foram preparados e deverá partir para o Planeta Solaria. Sua família, durante a sua ausência, será tratada e cuidada com todos os privilégios inerentes à classificação C-7, já que essa será a sua classificação temporária durante a investigação. - O Subsecretário calou-se durante um momento, numa pausa significativa, e acrescentou depois: - Uma resolução satisfatória do caso poderá tornar permanente essa classificação.

            Tudo aquilo se passara demasiado depressa para o espírito regrado e organizado de Baley. O pânico que antes sentira parecia ser absolutamente justificado. Baley não podia, não queria sair da Terra. Os seus superiores deviam ter compreendido que não lhe era possível sair do planeta.

            O inspetor Elijah Baley não conseguiu, contudo, evitar uma curiosidade profissional e, num tom de voz que não lhe era natural, disparou uma série de perguntas diretas e incisivas:

            - De que espécie de assassínio se trata, Excelência? Quais foram as circunstâncias? Que razões os levaram a pedir o nosso auxílio? Por que não resolvem eles o assunto?

            Minnim não respondeu logo às perguntas, tocando distraidamente em diversos objetos que se encontravam em cima da sua secretária e meneando a cabeça.

            - Nada sei sobre o assassínio. Não conheço as circunstâncias nem as razões que levaram os Solarianos a pedir o nosso auxílio.

            - Então, Excelência, quem é que está ao corrente do assunto? Não esperam que eu parta para Solaria sem sequer saber do que se trata, não é?

            Elijah Baley ficara exasperado com a insólita resposta do Subsecretário, ouvindo de novo aquela voz interior que lhe murmurava a impossibilidade de sair da Terra.

            - Ninguém o sabe, Baley. Ninguém, na Terra, sabe o menor pormenor sobre esse assassínio. Os Solarianos não quiseram pôr-nos ao corrente. Caber-lhe-á, a você. descobrir o que tem este crime de tão importante que torna necessária a colaboração de um membro da Polícia Terrestre para solucioná-lo. Essa será uma investigação que terá de levar a cabo por nossa conta. O resultado poderá vir a ser muito interessante para nós.

            Baley estava tão desesperado que, sem quase saber o que dizia, se ouviu formular uma pergunta imensamente delicada:

            - E se eu recusar?

            A pergunta fora ridícula, claro estava, já que Baley sabia muito bem o que aconteceria se não aceitasse o encargo. Sabia o que significaria para ele e, pior ainda, para sua família. o fato de baixar de classificação.

            Minnim nem sequer mencionou a possibilidade de desclassificação, ao responder à pergunta do inspetor.

            - Não pode recusar, inspetor Baley - disse ele, suave mas firmemente. - Bem sabe que não pode recusar. Deverá levar avante esta tarefa!

            - Uma tarefa por conta dos Solarianos?! Que resolvam o caso eles próprios! - É para o nosso bem, Baley, é para o Planeta Terra que estará trabalhando! - Minnim fez uma pausa, continuando depois a falar num tom de voz mais suave e convincente. - Está, com certeza, ao corrente da posição da Terra no que diz respeito aos Espaciais. Parece-me que seria inútil falar-lhe da situação crítica em que nos encontramos.

            Baley conhecia muito bem a situação, o mesmo sucedendo com todos os habitantes da Terra.

            Os cinquenta Planetas Exteriores, com uma população total menor do que a da Terra, mantinham um potencial militar talvez umas cem vezes superior ao do Planeta Terra. Os poucos povoados planetas viviam de uma economia "robótica" e sua produção, "per capita" humana, era milhares de vezes maior do que a da Terra. Era justamente essa fantástica força produtiva por habitante dos cinquenta planetas que ditava o potencial militar, o elevado nível de vida, a felicidade e tudo o mais.

            - Um dos fatores que conspira para nos manter nesta situação é a ignorância. Isso mesmo: Ignorância! Os Espaciais sabem tudo o que precisam sobre a Terra e os Terrestres. Estão sempre enviando missões e observadores ao nosso planeta, nada lhes passando despercebido e, estou certo, conhecem os nossos problemas tão bem como nós. Os habitantes da Terra, por sua vez, nada conhecem sobre esses cinquenta planetas.... a não ser o que os Espaciais contam. Não existe um único Terrestre que tenha pisado o solo de qualquer um dos Planetas Exteriores. A honra de ser o primeiro é sua, inspetor Baley.

            - Não posso... - começou Baley a dizer.

            - Não pode recusar - interrompeu Minnim. - A sua posição será única e importantíssima. Pense bem. estará algum tempo no Planeta Solaria, convidado pelos Solarianos, e ao realizar um trabalho que constituirá um verdadeiro favor da parte deles. Quando regressar à Terra, inspetor Baley, terá muita coisa para nos contar.

            Baley olhou sombriamente para o Subsecretário.

            - Quer, então, dizer que serei um espião da Terra?!

            - Não se trata de espionar. Não queremos que se faça de espião, só pretendemos que faça tudo o que eles lhe pedirem e que abra bem os olhos e nos conte, mais tarde, tudo o que viu durante a sua estada em Solaria. Observe tudo com muita atenção. Quando regressar, Baley, teremos à sua espera um verdadeiro batalhão de especialistas que analisarão e interpretarão suas observações.

            - A minha impressão é que estamos atravessando qualquer espécie de crise, Excelência - disse Baley, após um longo e pesado silêncio.

            - Não vejo o que o leva a dizer isso - respondeu Minnim, bastante secamente.

            - O fato de enviar um Terrestre para um Planeta Exterior é um grande risco. Os Espaciais detestam os Terrestres. Com a melhor das. boas vontades, e apesar de não passar de um convidado, eu poderia facilmente causar um incidente interplanetário. O Governo Terrestre poderia muito bem impedir minha partida, se o quisesse fazer. Podiam dizer que eu estava doente e, como os Espaciais têm um verdadeiro pavor por doenças, já não desejariam a minha presença.

            - Não me diga que está sugerindo - disse Minnim que o Governo Terrestre tome essa atitude?!

            - Não... não estou! O que quero dizer é que, se o Governo não tivesse razões suficientes que justificassem a minha ida, já teria inventado qualquer desculpa como a que acabei de mencionar. Não é difícil de depreender, por conseguinte, que a questão de me tornar num espião é que é verdadeiramente essencial, e, se assim é, o fato de me limitar a observar o que me for dado ver casualmente não justificaria o risco!

            Elijah Baley esperava uma explosão colérica da parte do seu superior, quase contando com ela para aliviar a pressão que o dominava, porém o Subsecretário limitou-se a sorrir e a dizer friamente:

            - Parece que enxerga para lá de qualquer fator não-essencial, inspetor Baley, mas a verdade é que já esperava isso de você.

            O Subsecretário curvou-se na direção de Baley e falou-lhe num tom de voz quase misterioso.

            - Vou-lhe dar uma informação que não deve ser mencionada fora deste escritório e que nem sequer pode ser discutida com os membros do Governo. Os nossos sociólogos dizem ter chegado a uma conclusão que afetaria imensamente a atual situação galáctica. Ouça-me com atenção: de um lado temos cinquenta Planetas Exteriores, com uma densidade de população verdadeiramente ridícula, vivendo exclusivamente do trabalho dos mais modernos e eficientes robôs, poderosos e com uma raça de homens saudáveis, gozando de um período de vida muito mais longo do que o nosso e, do outro lado, temos o nosso planeta Terra, com uma população demasiado grande e crescente para um planeta tão pequeno, tecnicamente pouco desenvolvido, e tendo os seus habitantes uma vida demasiado curta para poderem contribuir eficazmente para o seu desenvolvimento. Um planeta, enfim, contra cinquenta e, naturalmente, somos dominados em tudo por eles. A situação é, como não podia deixar de ser, imensamente instável. '

            - Tudo é instável... a longo prazo - comentou Baley, ansioso por saber o que Minnim lhe ia dizer.

            - Esta situação é instável... a curto prazo i Cem anos é o máximo período de paz e de estabilidade que os nossos sociólogos prevêem! A situação, tal como se encontra, manter-se-á durante as nossas vidas. é verdade, mas teremos de pensar em nossos filhos. O tempo chegará em que os Planetas Exteriores decidirão que a nossa existência representa um perigo demasiado grande para eles. Lembre-se de que existem oito bilhões de habitantes, na Terra, que detestam os Espaciais!

            - Os Espaciais fecharam-nos as portas da Galáxia, fixam eles próprios os preços de tudo o que nos compram, ditam as suas exigências e leis ao nosso governo e tratam-nos com desprezo - redargüiu Elijah Baley, a inflexão da sua voz indicando bem uma antipatia manifesta pelos Espaciais. - O que esperam eles de nós? Gratidão?!

           - Tem toda a razão, Baley, mas o futuro é claro como água. Revolta, repressão, revolta, repressão... as nossas revoltas contra o despotismo dos Espaciais serão facilmente aniquiladas e, dentro de um século, a população da Terra deixará de existir como uma força organizada. É isso, pelo menos, que nos dizem os nossos sociólogos!

            Baley moveu-se na cadeira, incomodado pelas palavras de Minnim. Os sociólogos e os seus computadores raramente se enganavam!

            - Que poderei eu fazer para ajudar a Terra? - perguntou, por fim, o inspetor Elijah Baley.

            - Traga-nos informação, muita informação! A grande falha dos nossos prognósticos sociológicos é a falta de dados sobre os Espaciais e os seus planetas. Os elementos empregados pelos sociólogos nos seus estudos foram deduzidos das ações e palavras dos Espaciais que vêm à Terra. Fomos obrigados, pois, a confiar no que eles nos disseram e ainda dizem, e, por conseguinte, só conhecemos os seus pontos fortes! Sabemos. que possuem milhões de robôs e sabemos que a população dos cinquenta planetas é relativamente pequena; temos provas de que o seu período de vida é muito mais longo do que o nosso... Caramba! Esses semideuses também devem ter as suas fraquezas! É muito possível que existam um ou mais fatores que, se os conhecêssemos, poderiam evitar a destruição antecipadamente prevista pelos sociólogos... confiamos que exista alguma falha na civilização dos Planetas Exteriores que possa vir a guiar as nossas ações num esforço para assegurar a sobrevivência da Terra.

            - Não seria melhor enviar-lhes um sociólogo, Excelência, ao invés de lhes enviar um insignificante policial como eu?

            Minnim abanou a cabeça num gesto negativo.

            - Se nos fosse possível enviar quem quiséssemos, inspetor Baley, já o teríamos feito há mais de dez anos, quando os sociólogos chegaram às conclusões que lhe mencionei. Só agora temos um pretexto para lhes enviar um observador e eles pedem-nos um inspetor da Polícia Terrestre. A idéia não nos desagrada de todo. Os membros da Polícia também são, à sua maneira, uma espécie de sociólogos. Todo bom policial pratica a sociologia e a sua carreira, inspetor Baley, prova que é um ótimo policial!

            - Muito obrigado, Excelência - disse Baley, sem se sentir grandemente impressionado pelo cumprimento. - E se eu me meter em alguma enrascada?

            Minnim encolheu os ombros.

            - Esse é um dos espinhos da vida de um policial - respondeu o Subsecretário, fazendo um gesto vago com a mão como se aquela possibilidade não o preocupasse. - Não vale a pena discutir mais o assunto, inspetor, pois deverá ir para Solaria, suceda o que suceder. O dia da partida já está marcado e a nave espacial que o levará já está preparada e à sua espera.

            Baley estremeceu.

            À minha espera? Quando deverei partir? - Dentro de dois dias.

            - Dois Dias?! Então, Excelência, terei de ir a Nova York. A minha mulher...

            - Nós falaremos com sua mulher. Já sabe que não lhe podemos dizer qual é a natureza do trabalho que lhe confiamos, Esteja descansado. Inventaremos qualquer pretexto para justificar a sua ausência e também para o fato de não receber notícias suas durante algum tempo.

            - Mas isso é desumano! - exclamou Elijah Baley. - Devo ver minha mulher antes de partir! É muito possível que nunca mais volte a vê-la!

            - O que lhe vou dizer agora talvez ainda lhe pareça mais desumano, Baley - disse suavemente o Subsecretário - mas haverá algum dia em que, quando sai de casa para desempenhar suas funções profissionais, possa ter a certeza de que voltara a vê-la? Inspetor Baley, todos nós devemos cumprir o nosso dever!

            O cachimbo de Baley apagara-se quinze minutos antes, mas ele nem sequer reparara em tal insignificância.

            Ninguém lhe disse mais coisa alguma sobre o assunto.

            Ninguém sabia fosse o que fosse sobre o assassínio. Os funcionários com quem Baley lidou durante aqueles dois dias apenas se limitaram a prepará-lo para o momento final. Baley, mesmo entrando na nave espacial, ainda não acreditava que aquilo lhe estivesse acontecendo.

            Elijah Baley olhara para a longa estrutura da nave e pensara que se assemelhava a um gigantesco canhão apontado para o céu. Baley encontrava-se, pela primeira vez em muitos anos, num recinto aberto e em pleno contato com a atmosfera. O inspetor Baley nunca antes se sentira tão pouco à vontade, tão pouco senhor de si. O manto negro da noite, escondendo quase tudo aos seus olhos receosos, dava-lhe um certo sentimento de segurança - embora as estrelas e a longínqua Lua o fizessem, de início, estremecer de pânico. O brilho apagado de uma estrela, muito distante, ateou a imaginação de Elijah Baley. Tratava-se de um sol, insignificante em aparência, em redor do qual giravam os planetas cujos habitantes eram os senhores da Galáxia.

            A nave espacial pertencia aos Planetas Exteriores, claro está. Todo o comércio interplanetário estava nas mãos dos Espaciais e a Terra não possuía naves capazes de alcançar os planetas. Elijah Baley encontrava-se só na base da nave.

            O inspetor fora banhado, esfregado até ficar com a pele completamente vermelha e esterilizado antes de ter a honra de entrar numa nave dos Espaciais.

           Mesmo assim, apesar de ser um convidado, Baley foi recebido por um robô e não por um Espacial, já que estes não eram imunes às inúmeras variedades de germes que os habitantes da Terra transportavam no seu organismo. O robô aproximou-se de Baley, os seus olhos como lanternas vermelhas procurando-o na escuridão.

            - Inspetor Elijah Baley?

            - Sou eu, sim - respondeu Baley secamente, a sua atitude mudando instantaneamente. Os Terrestres não suportavam a idéia de um robô fazer o trabalho de um homem e Baley, nesse aspecto, era um caso típico da humanidade da Terra. As exceções confirmavam a regra, pensava Baley, recordando o seu amigo robô, R. Daneel Olivaw, que o ajudara durante as investigações daquele assassínio de um Espacial em Nova York. Daneel era diferente... era... Baley nunca encontrava palavras para descrever o que sentia por aquele estranho e tão especial robô a quem nem sequer se atrevia a tratar por "você".

            - Siga-me, por favor - indicou o robô, ao mesmo tempo que um raio de luz branca iluminava as escadas que estavam encostadas à nave.

            Elijah Baley foi atrás do robô, subiu as escadas e entrou na nave e, seguindo depois por um corredor, chegou, finalmente, a um pequeno quarto.

            - Esta é a sua cabina, inspetor Baley - informou o robô. - Agradeceríamos se não saísse dela durante toda a viagem.

            Isso mesmo, pensou Baley, fechem-me num quarto! Isolem-me! Esqueçam a minha existência!

            Os corredores que Baley atravessara, e onde não vira fosse quem fosse, estavam agora sendo desinfectados, com certeza! Um verdadeiro exército de robôs levaria a cabo a tarefa em poucos minutos, e este robô que o acompanhara seria seguramente esterilizado dos pés à cabeça logo que saísse do quarto!

            - Há ali banheiro com água corrente - informou o robô apontando para um canto. - As suas refeições serão servidas às horas convencionais. O aparelho de televisão é acionado por este botão. As vigias são comandadas por esta alavanca. Estão fechadas, de momento, mas se quiser observar o espaço...

            Baley sentiu-se incomodado.

            - Está bem, rapaz. Conserve as vigias fechadas.

            Baley empregara a palavra "rapaz", já que este era o tratamento habitual que os terrestres davam a todos os robôs e este não parecera importar-se por ser assim chamado. A verdade, contudo, era que um robô não podia reagir adversamente às palavras ou ações de qualquer ser humano. As reações dos robôs eram limitadas e comandadas pela Lei Robótica

            O robô curvou o seu enorme corpo metálico numa imitação de cortesia e, em sinal de respeito, saiu da cabina.

            Elijah Baley ficou só e começou a examinar a cabina. A nave era, pelo menos, mais agradável do que o avião. Num avião, fosse qual fosse o seu tamanho. os passageiros podiam vê-la de ponta a ponta e sentir os seus limites estruturais. A nave espacial, essa, era como uma cidade - com os seus corredores, andares, quartos e salas, etc. Baley quase podia respirar livremente, perdendo parte do pânico que o dominava havia já tantos dias!

            Aqueles seus pensamentos foram subitamente interrompidos pela voz metálica de um robô que anunciava, através do comunicador interno, a próxima partida da nave e dava as específicas e habituais instruções de segurança contra a súbita aceleração da nave ao ser lançada para o espaço.

            Elijah Baley, tomando todas as precauções indicadas pelo robô. sentiu-se inesperada e irremediavelmente comprimido contra a cama em que se deitara e ouviu, muito ao longe, o trovejar furioso dos foguetes ao serem disparados. O silvo ultra-sônico causado peja nave ao rasgar a atmosfera veio sobrepor-se ao ruído dos foguetes durante mais de uma hora, começando então a desaparecer no vazio do vácuo.

            Baley encontrava-se no espaço!

            A sensação sofrida durante a aceleração era como se o nada se tivesse tornado em realidade. Baley pensava angustiosamente que cada segundo passado representava mais uns milhares de quilômetros entre ele e as cidades, e Jessie!

            No segundo ou terceiro dia (não havia forma de medir o tempo, exceto pelos intervalos das refeições) Elijah Baley foi atacado por uma inesperada e momentânea sensação de se encontrar às avessas. Baley compreendeu

            imediatamente que se tratara de um salto, aquela incompreensível e quase mística transição através do hiperespaço que transferia a nave, e tudo o que ela continha, de um ponto para um outro a muitos anos-luz de distância do primeiro.

            Os saltos repetir-se-ão freqüentemente, a intervalos regulares, e Baley sabia que já se encontrava a milhares de anos-luz da Terra. O inspetor da Polícia da Cidade de Nova York não fazia a menor idéia de quantos milhares de anos-luz teria de percorrer, já que, na Terra, não havia uma única pessoa que conhecesse a localização de Solaria no espaço. A ignorância dos Terrestres era tal que nem sequer poderiam visitar os Planetas Exteriores se possuíssem naves para fazê-lo.

            Elijah Baley sentia-se muito só e perdido na imensidão do espaço.

            A sensação de desaceleração trouxe também a visita de um robô. Os seus olhos observadores e atentos examinaram cuidadosamente o cinturão que segurava Baley à cama.

            A voz fria e metálica, ecoou estranhamente aos ouvidos de Elijah Baley:

            - A nave aterrará dentro de três horas. Agradeceríamos se permanecesse neste quarto até que um homem o venha buscar para conduzi-lo ao local que foi destinado para lhe servir de residência.

            - Espere! - exclamou Baley, muito tenso e enervado.

            O cinturão impedia-o de fazer qualquer movimento e o fato de se encontrar virtualmente prisioneiro não lhe agradava. - Que horas serão, quando a Nave aterrar?

            O robô respondeu imediatamente. sem a menor hesitação e como se já esperasse aquela pergunta.

            - Pelo Tempo Médio Galáctico serão...

            - A hora local, rapaz! Quero saber a hora local!

            O robô continuou a falar calma e suavemente.

            - Os dias no Planeta Solaria têm vinte e oito vírgula trinta e cinco horas do Tempo Médio Galáctico. A hora Solariana está dividida em dez décadas, sendo cada uma delas dividida em cem centos. A nave aterrará num aeroporto em que o dia estará no vigésimo cento da quinta década.

            Elijah Baley detestou aquele robô com toda a força da sua alma. Detestou-o pela sua estupidez em não ter compreendido a pergunta, e por obrigá-lo a formular a questão mais direta que revelaria a sua ignorância.

            O inspetor não tinha outro remédio, a pergunta direta devia ser formulada.

            - Será dia ou noite?

            - Dia, sr. inspetor - respondeu finalmente o obtuso robô, saindo da cabina sem voltar a falar.

            A nave aterraria em pleno dia, pensou Baley, sentindo-se de novo preso por aquele pânico que já antes o dominara. Seria obrigado, então, a enfrentar a superfície desprotegida de um planeta à luz do dia!

            Baley não sabia bem como reagiria a uma tal experiência.

            Era verdade que já tivera a oportunidade de vislumbrar, de dentro da cidade, pequenas porções da superfície da Terra - embora em doses muito reduzidas.

            Lembrava-se também de ter pisado uma ou duas vezes, na sua infância, o solo de uns terrenos onde desembocava um dos corredores da cidade de Nova York.

            Dessas vezes, contudo, encontrara-se dentro da proteção da cidade ou então de suas barreiras acolhedoras.

            E agora? Como poderia ele proteger-se daquela abominável sensação, sem sequer contar com a escuridão da noite para lhe esconder a superfície descoberta e desprotegida de Solaria?

            E, como não desejasse aparentar a menor fraqueza ante o olhar benevolente dos Espaciais, Elijah Baley fechou os olhos e tentou valentemente dominar o pânico que o assaltava.

 

ENCONTRO INESPERADO COM UM AMIGO

            Baley estava perdendo aquela batalha. A razão, só por si, não era uma arma suficiente.

            Baley pensava incessante e repetidamente: "A Humanidade sempre viveu em espaços abertos. Os Espaciais ainda o fazem. Os nossos antepassados, na Terra, sempre o fizeram. Não existe, na realidade, qualquer perigo em permanecer em espaços sem paredes e desprotegidos. Só a minha mente é que me diz o contrário, sem a menor razão para fazê-lo!

            Estes pensamentos não ajudavam. Havia algo, na mente de Baley, que exigia desesperadamente a presença de paredes e de recintos fechados, negando-se terminantemente a aceitar a idéia de espaços abertos.

            As três horas passaram lentamente e Baley chegou a convencer-se de que perdera aquela luta titânica. O seu aspecto, após o inútil e exaustivo esforço, seria digno de dó e de piedade. O Espacial que o viria buscar (talvez com filtros no nariz para impedir a absorção de germes e luvas nas mãos para evitar o contato direto) nem sequer sentiria desprezo por ele. O Espacial sentiria apenas uma espécie de nojo pelo débil habitante da Terra!

            Baley continuou a lutar desesperadamente.

            Quando a nave aterrou e o cinturão que o segurava se soltou automaticamente, Baley sentou-se na cama e aguardou que alguém viesse buscá-lo. O inspetor da Polícia encontrava-se num estado quase de terror, embora estivesse absolutamente decidido a não demonstrá-lo.

            O seu olhar desviou-se ligeiramente quando a porta da cabina se abriu, e fixou-se na figura, obscurecida pela escuridão que reinava no quarto, de um homem de elevada estatura: era um Espacial, um daqueles orgulhosos descendentes da Terra que tinham esquecido a sua dívida para com o planeta que os originara.

            O Espacial dirigiu a palavra a Baley: - Amigo Elijah!

            Baley levantou-se, num sobressalto, observando atentamente as feições do recém-chegado. As dúvidas desapareceram no mesmo instante. Tal como o seu ouvido reconhecera a voz do amigo, Baley não tinha a menor dúvida sobre o que os olhos lhe revelavam: as maçãs do rosto muito salientes, a calma absoluta das linhas faciais, a simetria do corpo, e, acima de tudo o mais, aquele olhar penetrante dos olhos mais azuis que ele conhecia.

            - Daneel!

            - E um prazer verificar que se lembra de mim, amigo Elijah - disse o Espacial, no seu tom de voz, seguro e firme, de sempre.

            - Se me lembro de você!? - Baley respirou fundo,. aliviado com a presença do amigo. - Então, não me havia de lembrar de um velho amigo? I

            Este ser que lhe aparecia inesperadamente era um verdadeiro amigo, um reconforto, um salvador. Elijah Baley sentiu um louco desejo de abraçar o amigo, de beijá-la, de rir-se alegremente e de lhe dar uma forte pancada nas costas, de fazer, enfim, todas aquelas manifestações habituais a um encontro entre velhos amigos depois de uma longa separação.

            Baley, contudo, não podia fazê-la e, sabendo-o, conseguiu dominar-se - limitando-se a dar um passo em frente, a estender a mão e a dizer, com um sorriso:

            - Como poderia eu esquecê-la, Daneel?

            - Suas palavras sensibilizam-me - respondeu Daneel, assentindo gravemente com a cabeça. - Como muito bem sabe, eu nunca poderia esquecer-me de você, ou, pelo menos, enquanto me encontrar em bom estado de funcionamento.

            Asseguro-lhe que, sem mesmo saber por que, agrada-me muito voltar a vê-lo.

            Daneel apertou firmemente a mão do amigo e Baley confiou, esperança do e agora mais senhor de si, que o olhar penetrante de Daneel não tivesse notado aquele louco momento em que a mente de Baley se concentrara num sentimento de intensa amizade que podia ser considerado quase como amor.

           Apesar de tudo, e era pena que assim fosse, era impossível amar como amigo este Daneel Olivaw, que não era um homem e que, afinal, não passava de um robô.

            O robô, que tanto se assemelhava a um homem, falou de novo:

            - Já pedi às autoridades do aeroporto que enviassem um veículo, conduzido por um robô, e que o ligassem à nave por meio de um tubo aéreo...

            Elijah Baley franziu o sobrolho. - Um tubo aéreo?

            - ·Sim. Trata-se de uma técnica bastante comum, usada freqüentemente no espaço para transferir pessoal e carga de uma nave para outra. sem a necessidade de equipamento especial contra o vácuo. Tenho a impressão de que não conhecia essa técnica, amigo Elijah.

            - Tem razão - respondeu Baley -, mas vejo como funciona esse tal tubo aéreo.

            - O trabalho de instalar um tubo dessa natureza entre a nave e um veículo terrestre é bastante complicado, mas será realizado, espero, rápida e eficazmente. A missão que nos trouxe a este planeta é, ao que parece e ainda bem que assim seja, de importância vital. Todas as dificuldades serão resolvidas rápida e eficazmente.

            - Também foi, então, destacado para este caso de assassínio, amigo Daneel?

            - Não o informaram disso? Lamento não lho ter dito antes - disse Daneel, embora a expressão do seu rosto, claro está, não indicasse que lamentava o que quer que fosse. - Foi o Dr. Han Fastolfe quem primeiramente sugeriu sua pessoa como ideal para investigar este caso. Lembra-se de ter conhecido o Dr. Fastolfe que eu próprio lhe apresentei durante a nossa primeira investigação na Terra, não é verdade? A única condição exigida por ele foi que "eu fosse nomeado para trabalhar com você, uma vez mais.

            Baley sorriu. O Dr. Fastolfe era natural do Planeta Aurora, o mais forte e poderoso dos cinquenta Planetas Exteriores.

            Era evidente que as sugestões de um Auroriano influente pesavam muito na vida da Galáxia.

            - Uma equipe que trabalha bem em conjunto não deve ser separada, não é isso? - perguntou Elijah Baley, agora de novo preocupado e ansioso, já que aquela alegria causada pela inesperada presença de Daneel começava a desaparecer.

            - Não sei se o Dr. Fastolfe tinha essa preocupação no pensamento, amigo Elijah, mas, devido à natureza das ordens que meu deu, pareceu-me que apenas quis destacar alguém para ajudá-lo e que esse alguém tivesse experiência do Planeta Terra e conhecesse as peculiaridades inerentes aos habitantes desse planeta.

            - Peculiaridades! - Baley franziu o sobrolho e sentiu-se ofendido com um termo que não gostava de ver relacionado com a sua pessoa.

            - O Dr. Fastolfe tinha razão, sem a menor dúvida, e a prova está no fato de que já previ a necessidade de um tubo aéreo. Conheço bem a sua aversão aos espaços abertos, uma conseqüência, claro está, de ter sido criado e educado nas cidades da Terra.

            Talvez fosse o efeito de ser chamado "peculiar" ou talvez fosse mesmo o fato de sentir que teria de contra-atacar, para não se deixar dominar por uma máquina, que levou Baley a mudar bruscamente de assunto. A razão disso talvez fosse até causada pelo treino que não lhe permitia deixar qualquer contradição lógica sem uma explicação plausível.

            - Existe um robô - disse Baley -, que se ocupou de mim durante a viagem...

            um robô - acrescentou o inspetor maliciosamente - que se parece com um robô.

            Conheço-o?

            Encontrei-o antes de entrar a bordo.

            - Qual é a sua designação? Como o poderei encontrar?

            - O seu número de identidade é RX-2475. É hábito no Planeta Solaria, conhecer os robôs apenas pelo seu número de série - explicou Daneel, o seu calmo olhar fixando-se num painel cheio de botões. - Uma pressão naquele botão trá-lo-á imediatamente à sua presença, amigo Elijah.

            Baley examinou o painel e, como o botão indicado por Daneel apresentava as letras RX, a sua identificação parecia bastante simples. Baley apertou o botão e, em menos de um minuto, o robô que tinha o aspecto de robô entrou na cabina. - O seu número de identidade é RX-2475, não é verdade? - perguntou Baley.

            - E exato, inspetor Baley.

            - Você me disse, há algumas horas, que alguém me viria buscar para me levar para um local no planeta. Era este o homem a quem se referia? - perguntou Baley, apontando para Daneel.

            Os olhares dos dois robôs cruzaram-se.

            - Os documentos que trazia consigo identificaram-no como sendo a pessoa que devia vir buscá-lo, inspetor Baley - respondeu RX-2475.

            - Recebeu alguma descrição ou quaisquer outras indicações sobre esta pessoa, antes de sua chegada?

            - Não, inspetor Baley, mas fui informado do seu nome.

            - Quem lhe deu essa informação?

            - O Comandante da Nave, inspetor Baley.

            - Um habitante do Planeta Solaria? - Sim, inspetor Baley.

            Elijah Baley umedeceu os lábios ressequidos. A pergunta seguinte seria decisiva.

            - Como se chamava a pessoa que deveria vir buscar-me?

            - Daneel Olivaw - respondeu RX-2475.

            - Muito bem, rapaz. Pode ir-se embora.

            O robô fez a sua vênia habitual e, dando uma rápida meia volta, saiu abruptamente da cabina.

            Baley voltou-se para o companheiro e tornou-se pensativo, falando-lhe pausadamente:

            - Não me disse toda a verdade, Daneel, não é?

            - A respeito de que, amigo Elijah?

            - Quando estava falando com você, pouco depois de sua chegada, lembrei-me de um pormenor bastante estranho. Este robô, RX-2475, disse-me que permanecesse na cabina até que um homem me viesse buscar. Recordo

            perfeitamente a palavra "homem".

            Daneel ouviu atentamente as palavras do amigo, não fazendo o menor comentário e mantendo-se em silêncio.

            Baley continuou a falar.

            - Pensei que o robô se tivesse enganado. Pensei, em seguida, que, na realidade, um homem deveria ter vindo ao meu encontro e que fora substituído, à última hora, por você... sem que o robô RX-2475 fosse informado dessa substituição. As respostas que o robô deu às perguntas que formulei provam, contudo, que sabia o seu nome e que observou os seus documentos de identidade. A verdade, porém, é que não sabia o seu nome completo, não é assim?

            - Tem razão. O robô não sabe o meu nome todo - concordou Daneel.

            - O seu nome não é Daneel Olivaw, mas sim R. Daneel Olivaw, não é verdade?

            O seu nome, na íntegra, é Robô Daneel Olivaw.

            - Absolutamente correto, amigo Elijah.

            - Depreendo, por conseguinte, que o robô RX-2475 não sabe que Daneel Olivaw também seja um robô. Julga que Daneel Olivaw seja um homem... um Espacial. Com o aspecto tão humano que lhe deram, Daneel, uma confusão dessa natureza é muito fácil!

            - O seu raciocínio continua a ser tão lógico e infalível como quando tive o prazer de conhecê-lo.

            - Prossigamos, então... - Baley sentia um grande prazer invadir todo o seu ser. Encontrara uma pista que lhe poderia vir a ser útil. Aquela incongruência não teria grande importância, com certeza, mas oferecia-lhe a possibilidade de fazer o que melhor sabia fazer: investigar, raciocinar, seguir uma pista sem deixá-la até encontrar uma justificação ou solução. Era essa sua habilidade que provocara aquela viagem através do espaço. - Para que quereria alguém enganar aquele pobre e insignificante robô? - continuou Baley a dizer. - Que importância teria para ele que Daneel Olivaw fosse um homem e não um robô?

            Deveria cumprir as ordens que lhe dessem, fosse qual fosse o caso, não é assim?

            A conclusão mais razoável é que os funcionários Solarianos que informaram o Comandante da Nave não sabem que Daneel Olivaw não é um homem, e sim um robô! Como disse, esta conclusão seria bastante razoável, mas, claro está, existem outras possibilidades. Será esta minha versão a expressão da verdade?

            - Parece-me que sim - respondeu R. Daneel Olivaw.

            - Muito bem. Acertei em cheio. E, agora, vamos lá descobrir por que. O Dr.

            Han Fastolfe, recomendando-o para colaborar comigo nesta investigação, escondeu aos Solarianos que Daneel Olivaw seja um robô. Não será essa uma atitude muito perigosa? Os Solarianos, se descobrirem que foram enganados, talvez fiquem bastante aborrecidos. Explique-me o que causou essa deliberada mentira, Daneel.

            - O assunto foi-me explicado da seguinte maneira, amigo Elijah - disse Daneel, no seu tom de voz calmo e frio de sempre. - A sua associação com um ser humano dos Planetas Exteriores elevaria a sua categoria aos olhos dos Solarianos, enquanto que o fato de ter como colaborador um robô, se isso fosse sabido, poderia baixá-la imensamente. Como eu já o conhecia e me familiarizara com os seus hábitos e métodos, o que seria muito útil para a atual investigação, foi julgado razoável fazer com que os Solarianos me aceitassem como sendo um ser humano, sem, contudo, ludibriá-los por meio de uma afirmação positiva sobre a minha pessoa!

            Baley não acreditou na versão que Daneel acabara de expor, já que continha uma grande dose de consideração pelos sentimentos de um Terrestre - o que não era uma reação natural de um Espacial, nem mesmo a de um tão

            intelectualmente superior como era o Dr. Fastolfe.

            O inspetor tentou encontrar uma alternativa, arriscando-se a mencionar uma hipótese que lhe ocorreu subitamente.

            - Diga-me, Daneel, serão os Solarianos conhecidos nos Planetas Exteriores pela sua produção de robô?

            - Alegro-me de saber - respondeu Daneel -, que foi bem informado sobre a economia interna da Solaria.

            - Não fui informado de coisa alguma - redargüiu Baley, não duvidando de que acertara. - Sei escrever a palavra Solaria e nada mais sei sobre este planeta!

            - Não compreendo, então, o que o levou a formular uma tal pergunta, amigo Elijah, mas trata-se certamente de uma pergunta muito pertinente. Atingiu o alvo, outra vez, meu caro amigo! O verdadeiro armazém de informações e conhecimentos que tenho no cérebro inclui o fato de que, dos cinquenta Planetas Exteriores, Solaria é de longe o que produz mais e melhores robôs de todas as espécies. Sua riqueza foi adquirida, principalmente, à custa da exportação de modelos especializados de robôs para todos os outros Planetas Exteriores.

            Baley sorriu, contente consigo mesmo. Era natural que Daneel não fosse capaz de seguir um raciocínio intuitivo que usava, como ponto de partida, uma fraqueza humana. O inspetor pensou, também, que não havia a menor

            necessidade de pôr Daneel ao corrente daquilo que deduzira. Se Solaria era, de fato, o planeta que mais se especializava na arte de fabricar robô, como Daneel afirmava, o Dr. Han Fastolfe e os seus colegas tinham, com certeza, motivos pessoais e humanos que os levavam a servir-se daquele tão perfeito e completo robô.

            Os Aurorianos desejavam apenas assegurar a sua superioridade perante os especialistas de Solaria, fazendo-os aceitar Daneel Olivaw como se este fosse um ser humano e não uma máquina.

            Elijah Baley já se sentia bem mais tranquilo Era estranho que todos os seus poderes intelectuais e a força da razão não tivessem sido capazes de eliminar o pânico que o invadira, enquanto que aquela satisfação ou orgulho de ter acertado lhe emprestara uma boa disposição imediata.

            O fato de ter reconhecido a mesma espécie de satisfação na mente dos Aurorianos, aquele orgulho na perfeição do robô que tinham fabricado, também o alegrava imensamente.

            - Afinal, somos todos humanos - disse Baley, falando com os seus botões. - Os Espaciais possuem fraquezas humanas iguais às nossas l

            Baley, já mais senhor de si, estava absolutamente disposto a mostrar a todos que não era inferior aos Espaciais.

            - Quanto tempo mais teremos nós de esperar por esse complicado veículo que me vem buscar? - perguntou o inspetor da Polícia de Nova York, aparentando uma impaciência que não lhe era habitual. - Estou pronto, e já farto de esperar!

            O tubo aéreo não parecia ter sido bem adaptado ao seu uso presente. O homem e o robô humanoide saíram da nave, entrando imediatamente no tubo e movendo-se, mal equilibrados e pouco seguros, sobre a matéria plástica demasiado flexível que cedia e balouçava sob o seu peso. No espaço, imaginava Baley, os homens não teriam dificuldade maior em se transferirem, devido à ausência da força da gravidade, de nave para nave, através daquele tubo.

            A outra extremidade do tubo, já ao nível do solo, era muito mais estreita do' que a extremidade ligada à nave. Daneel, que ia à frente e levava uma lanterna para iluminar o caminho, baixou-se e começou a andar de gatinhas, no que foi imitado por Baley. Os dois amigos avançaram mais uns cinco ou seis metros e alcançaram, finalmente, o veículo que os aguardava e ao qual o tubo fora ligado.

            Daneel fechou a porta, pela qual haviam entrado, e Baley ouviu um ruído metálico - certamente causado pelo tubo desligando-se do veículo. O inspetor olhou à sua volta, com uma curiosidade marcada, porém o veículo nada tinha de extraordinário. Baley notou dois assentos no compartimento onde se encontrava, cada um destes tendo lugar para três pessoas, e também duas portas - uma em cada extremidade dos assentos. As seções polidas, que deviam ser janelas, encontravam-se agora opacas e negras - resultado, sem dúvida, de uma polarização apropriada. Elijah Baley conhecia bem o funcionamento de um tal sistema de polarização, que fora inventado na Terra.

            O interior do carro era iluminado por duas esferas amarelas no teto e, em resumo, a única coisa que Baley estranhou foi o aparelho transmissor colocado na divisória que os separava do assento dianteiro, escondido por essa parede, e também, claro estava, o fato de não ver quaisquer comandos ou instrumentos.

            - Suponho que o condutor está instalado num outro compartimento para lá daquela divisória - disse Baley.

            - Tem razão, amigo Elijah - respondeu Daneel. - Podemos dar-lhe as instruções que desejarmos por intermédio deste aparelho. O robô humanoide curvou-se para a frente e apertou um botão. Uma luz vermelha acendeu-se no transmissor e Daneel falou ao condutor: - Pode partir. Já estamos prontos.

            Baley sentiu um ligeiro silvo, que logo desapareceu, uma breve e passageira pressão contra as costas do assento e nada mais.

            - Já estamos em movimento? - perguntou Baley, muito surpreendido pela ausência de qualquer sensação.

            Já, sim - respondeu Daneel. - O carro não se move sobre rodas, mas desliza sobre um campo diamagnético. Não sentirá a menor impressão de movimento, exceto durante a aceleração inicial e a desaceleração

            - E durante as curvas?

            - O carro inclina-se automaticamente para compensá-las, embora, devido a uma excelente suspensão, os compartimentos se mantenham sempre ao mesmo nível - o mesmo sucedendo nas subidas e nas descidas.

            - Os seus comandos devem ser muito complicados, comentou Baley

            secamente.

            - O carro funciona automaticamente. O condutor é um robô.

            Elijah Baley perdeu o interesse pelo veículo, passando a outros assuntos que ainda o preocupavam.

            - Quanto tempo levará esta viagem? - perguntou Baley.

            - Cerca de uma hora. A viagem, por via aérea, seria muito mais rápida, mas eu queria mantê-lo encerrado entre quatro paredes e os aviões existentes em Solaria não podiam ser tão bem fechados como este carro em que viajamos agora.

            Baley sentiu-se bastante aborrecido pela preocupação do amigo sobre o seu bem-estar, tendo a sensação de que era uma criança ao cuidado de uma governanta. O fato de Daneel falar sempre no mesmo tom de voz e de ter tantos conhecimentos também o incomodava. A natureza robótica do seu amigo era bem patente na estrutura e conteúdo das suas frases, embora o seu fabrico representasse, na realidade, um feito extraordinário. Baley examinou, longa e curiosamente, a figura de R. Daneel Olivaw. O robô estava imóvel, indiferente a tudo e não parecendo notar o exame prolongado de Baley.

            A pele de Daneel era perfeita, os cabelos de sua cabeça e corpo haviam sido cuidadosa e intrincadamente manufaturados e colocados. O movimento dos músculos, sob a pele, aparentava ser absolutamente real. Os técnicos responsáveis pelo fabrico de Daneel não tinham fugido a qualquer esforço. por mais extravagante que fosse, para fazerem uma imitação perfeita de um ser humano. Elijah Baley sabia, contudo que a cabeça e todo o o corpo de Daneel podiam ser abertos ao longo de costuras invisíveis a fim de permitir qualquer reparação que se tornasse necessária. Sabia também que, sob aquela tão realística pele, não havia mais do que metal e silicone. Sabia que um cérebro positrônico, muito avançado mas apenas positrônico, repousava no crânio de Daneel. Sabia ainda que os "pensamentos" de Daneel não passavam de correntes positrônicas de curta duração que percorriam caminhos rigidamente formados pelos técnicos.

            Quais eram as indicações sobre a natureza de Daneel que poderiam denunciar a sua qualidade de robô aos olhos de quem não o conhecesse? Talvez a ligeira falta de naturalidade na sua forma de falar?! A seriedade e a ausência de emoções em todas as suas ações e reações? A demasiada perfeição de sua humanidade?!

            Mas, afinal, aquelas suas considerações eram uma perda de tempo, pensou Baley, voltando a dirigir a palavra a Daneel.

            - Vamos falar do que interessa, Daneel! Suponho que, antes de sair do Planeta Aurora, puseram-no ao corrente de tudo o que diz respeito a Solaria.

            - Naturalmente, amigo Elijah.

            - Teve sorte! Eu nada sei sobre este planeta. Qual é o seu tamanho?

            - Tem um diâmetro de 15.000 quilômetros. Faz parte de um sistema de três planetas e é o único deles habitado. Assemelha-se bastante à Terra, no que diz respeito ao clima e atmosfera, sua percentagem de terras férteis é maior e o seu conteúdo mineral é menor do que o da Terra. O planeta é, na sua generalidade, menos explorado do que a Terra. Este mundo possui todas as matérias-primas para se abastecer a si próprio, e, com a ajuda da sua enorme exportação de robôs, mantém um elevado nível de vida.

            - Qual é a sua população? - perguntou Baley.

            - Vinte mil habitantes. amigo Elijah - respondeu R. Daneel Olivaw.

            Baley aceitou aquela informação. num primeiro momento, mas logo em seguida manifestou surpresa:

            - Quis dizer vinte milhões, com certeza, não é assim?

            Os seus poucos conhecimentos sobre os Planetas Exteriores eram, contudo, suficientes para saber que, apesar desses planetas serem pouco habitados em comparação com a Terra, as respectivas populações se contavam por milhões de habitantes.

            - Vinte mil habitantes, amigo Elijah - repetiu DaneeL

            - Será, então, que o planeta foi colonizado há pouco tempo?

            - Não. O planeta já ganhou a independência há mais de dois séculos e já fora colonizado um século antes disso. A população é deliberadamente mantida em vinte mil, sendo esse número de habitantes considerado como ideal pelos próprios Solarianos.

            - Que porção de planeta ocupam esses habitantes?

            - Todas as regiões férteis e habitáveis.

            - E em quilômetros quadrados, que dimensões têm essas regiões?

            - Quarenta e oito milhões de quilômetros quadrados. incluindo as áreas marginais.

            - E apenas vinte mil habitantes?

            - Também é preciso contar duzentos milhões de robôs positrônicos.

            - O quê?! - Baley, desta vez, ficara absolutamente espantado com aquela absurda desproporção. - Isso representa dez mil robôs para cada ser humano.

            - A percentagem é a mais elevada de todos os cinquenta Planetas Exteriores.

            Aurora, que vem a seguir, apenas conta com cinquenta robôs para cada ser humano.

            - O que fazem todos esses robôs? Dedicam-se às tarefas agrícolas? Preparam os alimentos? E para que tantos alimentos. então?

            - As tarefas agrícolas e a preparação de alimentos representam um trabalho relativamente insignificante. As minas são mais importantes, e a própria produção de robôs ainda é mais!

            Baley pensou na existência de todos aqueles robôs e sentiu-se ligeiramente estonteado. Duzentos milhões de robôs! Tantos robôs entre tão poucos seres humanos! A paisagem geral do planeta devia ser constituída quase

            exclusivamente por robôs. Um observador, desconhecendo os fatos, poderia até pensar que se encontrava num planeta habitado unicamente por robôs e não notar sequer a presença de seres humanos!

            Elijah Baley, inspetor das Forças da Polícia da Cidade de Nova York, sentiu um súbito desejo de ver aquele estranho panorama. Recordara a sua conversa com Minnim e a antecipação sociológica sobre o perigo que ameaçava a Terra. Esse perigo parecia-lhe, agora, longínquo e mesmo irreal, mas, a verdade seja dita, suas preocupações e o mau bocado que passara durante a viagem não haviam conseguido fazer-lhe esquecer a natureza da sua missão.

            O inspetor considerava o seu dever demasiado importante para deixar de cumpri-lo devido aos seus complexos e pavor pelos espaços abertos. Todas as informações que conseguisse reunir sobre os Espaciais, ou mesmo sobre os robôs dos Espaciais, seriam muito úteis aos sociólogos da Terra. O que seria necessário, neste caso, era uma observação direta e a sua obrigação, por conseguinte, era de a levar a cabo.

            - Este veículo será conversível, Daneel? - perguntou Baley, examinando o teto do veículo.

            - Peço-lhe desculpa, amigo Elijah, mas não compreendo o significado da palavra "conversível".

            - Esta capota poderá ser retirada? Poderá o carro ser aberto por cima? - Pode, sim.

            - Então, abra-o, Daneel! Quero ver a paisagem.

            - Lamento muito não poder fazer o que me pede - respondeu o robô, grave e firmemente.

            Baley olhou rapidamente para Daneel, não compreendendo aquela recusa.

            - Ouça, R. Daneel - disse o inspetor Baley, realçando a letra R. - Ordeno-lhe que abra o carro I

            A criatura era um robô, apesar do seu aspecto humano, e era forçado a obedecer a qualquer ordem.

            Daneel, entretanto, não fizera a menor menção de obedecer àquela ordem, limitando-se a explicar as razões que o impediam de fazê-lo.

            - Já devia saber que a minha obrigação é de evitar, antes de mais nada, que sofra qualquer acidente ou mal-estar.

            Sei perfeitamente, devido às instruções que recebi e também à minha experiência pessoal, que o amigo Baley sofreria grandemente ao encontrar-se desprotegido num espaço aberto. Não devo permitir, por conseguinte, que isso suceda.

            Baley sentiu-se corar de raiva, sabendo quão inútil seria zangar-se devido à atitude de Daneel. Este era um robô e Baley conhecia muito bem a Primeira Lei Robótica

            UM ROBÔ NÃO DEVE FAZER MAL A UM SER HUMANO, OU, POR INAÇÃO,

            PERMITIR QUE UM SER HUMANO SOFRA QUALQUER MAL.

            Tudo o resto no cérebro positrônico dos robôs - em qualquer robô fabricado em qualquer mundo da Galáxia era obrigado a curvar-se ante esta primeira consideração. Os robôs, como era natural, tinham de obedecer a qualquer ordem dada por um ser humano, mas eram sujeitos a uma muito importante condição.

            Obedecer a ordens era apenas a Segunda Lei Robótica

            UM ROBÔ DEVE OBEDECER A QUALQUER ORDEM DADA POR UM SER

            HUMANO, DESDE QUE ESSAS ORDENS NÃO INTERFIRAM COM A EXECUÇÃO DA

            PRIMEIRA LEI.

            Baley forçou-se a falar calma e razoavelmente.

            - Tenho certeza de que poderei agüentar o desconforto durante um curto período, Daneel.

            - Não é isso o que eu penso, amigo Elijah.

            - Eu é que sei, Daneel.

            - Não posso obedecer à sua ordem, amigo Elijah.

            Baley encostou-se para trás, irritado e pensando em uma forma de convencer Daneel. Não podia convencê-lo por meio da força, isso era certo. A força de Daneel, se empregada a fundo, seria cem vezes maior do que a força da carne e do sangue. O robô seria perfeitamente capaz de dominar Baley sem sequer magoá-lo.

            Baley estava armado. Podia apontar o seu desintegrador a Daneel, era verdade, mas, além de uma rápida sensação de superioridade, esse gesto apenas resultaria numa ainda maior frustração. A ameaça de destruição era completamente inútil em face de um robô. O instinto de conservação, nos robôs, constituía apenas uma Terceira Lei Robótica

            UM ROBÔ DEVE PROTEGER A SUA EXISTÊNCIA, DESDE QUE AO FAZÊ-LO,

            NÃO INTERFIRA COM AS LEIS PRIMEIRA E SEGUNDA.

            Daneel não se importaria de ser destruído se a alternativa fosse quebrar a Primeira Lei. Baley, além disso, não queria destruir Daneel. Nem pensar nisso seria bom!

            O fato não impedia, contudo, que continuasse a querer ver a paisagem.

            Aquele seu desejo tornara-se mesmo numa obsessão. Teria, sem a menor dúvida, de encontrar uma solução para eliminar a demasiada preocupação de Daneel pelo seu conforto.

            Elijah Baley pensou até em apontar o desintegrador à sua própria cabeça e dizer a Daneel que se mataria se ele não abrisse o carro. Essa seria a única forma de opor a uma aplicação da Primeira Lei uma outra muito mais grave e imediata.

           O inspetor da Polícia de Nova York sabia que não seria capaz de fazer um gesto daquela natureza. Seria muito pouco digno e a idéia, posta em prática.

            tornar-se-ia bastante ridícula.

            - Pergunte ao condutor a quantos quilômetros de distância estamos do nosso destino -- pediu Baley, soltando um suspiro e decidindo usar um subterfúgio que pouco lhe agradava.

            - Certamente -- respondeu Daneel.

            O robô curvou-se para a frente e apertou o botão que ligava o transmissor. No mesmo momento em que Daneel ia formular a pergunta ao condutor, não podendo imaginar o que ia na mente do amigo, Baley curvou-se também e falou inesperadamente.

            - Abra a capota do carro!

            Baley dera a ordem e, ao mesmo tempo, desligara o transmissor para que Daneel não pudesse dar uma ordem contrária, conservando firmemente a mão sobre o botão.

            Daneel ficou imóvel durante alguns segundos, como se o seu cérebro positrônico se tentasse ajustar a esta nova situação. A hesitação pouco durou, contudo, e Daneel aproximou a sua mão da de Baley.

            Baley já antecipara o gesto do robô e falou-lhe asperamente:

            - Não conseguirá retirar a minha mão do botão sem me magoar. Fica avisado, Daneel. Terá de me partir um ou dois dedos antes de me obrigar a abrir a mão!

            .- Aquelas palavras não eram a expressão da verdade e Baley sabia-o bem.

            Daneel, porém, deteve-se durante mais alguns segundos. Mal contra mal... o cérebro positrônico tinha de pesar bem as probabilidades e traduzi-las, em seguida, em potenciais opostos... o que representava uma hesitação de alguns segundos preciosos.

            Elijah Baley ganhara a luta. O teto do carro já estava deslizando para trás e a dura luz fria do sol de Solaria já iluminava intensamente o interior do carro e os seus ocupantes.

            Baley quis fechar os olhos no primeiro momento de terror, mas conseguiu dominar-se - observando, com uma grande curiosidade e pavor. as enormes porções de azul do céu e de verde dos campos que passavam vertiginosamente diante dos seus olhos. Qualquer coisa cruzou velozmente o carro. Talvez se tratasse de um robô, de um animal ou mesmo de qualquer objeto inanimado levado pelo vento. Baley não fazia a menor idéia do que fora. o carro viajava com demasiada velocidade para que ele pudesse ver o que quer que fosse.

            Azul, verde, ar, som, movimento... e, acima de tudo, aquela violenta luz branca que quase o cegava e o entontecia. Reunindo toda a sua coragem, num momento esmagador e aterrorizador, Baley olhou para cima e fixou o olhar no sol de Solaria. Era a primeira vez que Elijah Baley via. a olho nu e a descoberto, o sol de um planeta!

            O inspetor sentiu que Daneel se movera a seu lado, e que a mão do robô pousara nos seus ombros. A mente de Baley estava cheia de pensamentos e de visões irreais. Todo o seu ser lhe dizia que devia ver, devia enfrentar aquela nova experiência. O seu dever era ver tudo o que pudesse e... Daneel queria impedi-lo de fazê-lo!

            O robô não se atreveria a usar a violência num ser humano.

            Esse pensamento dominava Elijah Baley naquele momento de verdadeira revelação. Baley levantara-se ligeiramente, procurando ver alguma coisa. Daneel não podia impedi-lo por meio da força, mas, apesar disso, Baley sentia as mãos do robô a forçá-lo suavemente para baixo.

            Elijah Baley tentou afastar aquelas mãos de metal, mas. no mesmo instante, perdeu completamente os sentidos.

 

O NOME DA VITIMA É REVELADO

            Baley encontrava-se de novo encerrado no carro. Daneel ordenara ao condutor que fechasse a capota no mesmo instante em que o inspetor desmaiara.

            - Que se passou? - perguntou Baley, ainda bastante perturbado por aquela fantástica experiência.

            - Lamento muito - respondeu Daneel - que tenha sofrido um mal-estar na minha presença. Os raios do sol podem afetar a vista humana, mas creio que os efeitos de uma exposição tão curta como a que sofreu não causarão qualquer mal de caráter permanente. Quando olhou para o sol, amigo Elijah, fui forçado a puxá-lo para o interior do carro e foi então que perdeu os sentidos.

            Baley fez uma careta, não ficando grandemente convencido pela explicação do robô. Não sabia se Daneel falara verdade ou se fora o robô que, por meio de uma pressão sobre algum nervo vital, o fizera perder os sentidos. A incógnita não lhe era agradável, embora formular a pergunta direta a Daneel ainda lhe agradasse menos.

            - Não sofri muito com esta experiência - disse Baley.

            - As suas reações, amigo Elijah, fizeram-me pensar que o seu sofrimento fosse considerável.

            - Engana-se - insistiu Baley, ainda que os olhos lhe doessem bastante. - Só tenho pena de ter visto tão pouco... íamos demasiado depressa! Cruzamo-nos com um robô, não é verdade?

            - Com mais de um, mesmo. - informou Daneel.- Estamos atravessando a Propriedade Kinbald, que se dedica inteiramente a frutaria.

            - Terei de fazer nova tentativa... quero ver tudo o que se passa na superfície deste planeta.

            - Peço-lhe que não o volte a fazer na minha presença - disse Daneel. - Entretanto, devo informá-lo de que fiz o que me pediu.

            - O que eu lhe pedi?

            - Recordará, amigo Elijah que, antes de dar a ordem para baixar a capota, me pediu para averiguar a que distância estávamos do nosso destino. Encontramo- nos, neste momento, a uns quinze quilômetros de distância e estaremos lá dentro de seis minutos.

            Baley sentiu o impulso de perguntar a Daneel se se importara de ser sido enganado, a fim de ver se aquele rosto impassível sofria alguma transformação, mas absteve-se de fazê-la. Daneel teria respondido negativamente, com toda a certeza, já· que, sendo uma máquina, não podia sentir ressentimentos nem rancores.

            - De todas as formas, Daneel, tenho de me habituar. disse Elijah Baley.

            O robô olhou para o seu companheiro humano.

            - Habituar-se a que? A que se refere, amigo Elijah?

            - Terei de me habituar a viver ao ar livre. Este planeta não possui cidades subterrâneas, não é?

            - Não terá a menor necessidade de sair do interior da casa onde vai viver, amigo Elijah - redargüiu Daneel, mudando de assunto, como se aquele não merecesse mais comentários. - Estamos diminuindo a velocidade, amigo Elijah.

            Parece-me que já chegamos - disse Daneel e, logo a seguir, Baley sentiu uma ligeira pressão e percebeu que o carro parara. - Temos de esperar que liguem o carro ao tubo aéreo que nos conduzirá ao local onde viveremos e onde, também, ficará instalado o nosso quartel-general.

            - O tubo aéreo é desnecessário, Daneel. Tenciono habituar-me aos espaços descobertos e estou pronto a começar imediatamente a fazê-la. Não quero perder tempo, e quanto mais depressa me habitue, mais depressa poderemos começar o trabalho.

            - Não precisará de trabalhar fora de casa - repetiu teimosamente o robô.

            Daneel Olivaw ia acrescentar algo mais à frase, mas Baley deteve-o com um gesto peremptório da mão. Não estava disposto, de momento, a ouvir as recomendações e os comentários frios de Daneel. O que Baley queria era a convicção interior de que seria capaz de tomar conta de si próprio sem a ajuda constante de Daneel e também de levar a cabo, satisfatoriamente, a missão que o trouxera a Solaria. A visão e a sensação do ar livre haviam representado um grande esforço e era muito possível que, quando fosse necessário repetir esse esforço, não tivesse a coragem de voltar a fazê-lo - o que seria muito prejudicial para o seu amor próprio e talvez mesmo para a segurança da Terra.

            Aquele pensamento, nascido de um pessimismo que não lhe era habitual, deu- lhe novas forças. Elijah Baley estava absolutamente decidido a voltar a encarar o ar, o sol e os espaços descobertos.

            O inspetor da Polícia da Cidade de Nova York sentiu-se como se fosse, por exemplo, um habitante de uma das cidades pequenas, como por exemplo, Helsinque, que visitasse a enorme cidade de Nova York e contasse o número de andares com verdadeiro espanto. Daneel Olivaw mencionara uma ou duas vezes a casa onde os dois companheiros iam viver e Baley pensara, muito naturalmente, que se trataria de um pequeno apartamento semelhante aos que conhecia na Terra - mas esta casa era imensamente diferente do que ele esperara. O inspetor visitou uma infinidade de divisões, espantado pelo seu número e dimensões. As enormes janelas panorâmicas encontravam-se cuidadosamente fechadas, não permitindo a entrada do menor rasgo da luz do dia. As divisões estavam brilhantemente iluminadas por verdadeiras fontes de luz, escondidas Baley não sabia onde.

            - Tantas divisões! - exclamou Baley. - Tantas! Esta casa é como se fosse uma pequena cidade, Daneel!

            - Tem razão - concordou o robô. evidenciando indiferença ante o fato.

            As dimensões do edifício surpreendiam imensamente o inspetor. Que razões teriam os Espaciais, já que contavam com um planeta tão grande e com tão poucos habitantes, para possuírem casas deste tamanho?

            - Quantas pessoas viverão nesta casa, além de nós dois? - perguntou Baley ao robô.

            - A casa é só para nós e, claro está, para os robôs que nos servirão, amigo Elijah - respondeu Daneel.

            Daneel Olivaw, pensou Baley, falava sempre dos robôs como se não fosse um deles. Era bem evidente que Daneel se dispusera a representar o papel de um ser humano, mesmo sem outro público do que Baley - que conhecia tão bem a verdade.

            E. subitamente, Baley compreendeu o que Daneel acabara de dizer.

            - O que? Apenas robôs? Uma casa deste tamanho só para nós?!

            - Naturalmente, amigo Elijah.

            Os dois amigos e companheiros de trabalho haviam acabado de entrar numa sala cujas paredes estavam completamente cobertas por estantes cheias de livros-filmes. Três televisores, com telas de vinte e quatro polegadas, haviam sido instalados em três cantos da sala. O quarto canto continha uma enorme tela semelhante aos dos cinemas dos tempos passados.

            Elijah Baley não compreendia o significado de tudo aquilo. - Teriam corrido com alguém desta casa só para. nós ocuparmos esta espécie de museu?!

            - Não! Não, amigo Elijah! A casa foi posta ao nosso dispor e somos os seus primeiros moradores. Todos os Solarianos. mesmo quando vivem sós, possuem uma casa semelhante a esta.

            - Não acredito que todos tenham casas deste tamanho! - É verdade!

            - Para que querem eles tantos quartos e salas?

            - É costume destinar uma divisão a um único fim. Esta sala, por exemplo, é a biblioteca. A casa também possui uma sala de música, um ginásio, uma cozinha.

            Uma padaria. uma sala de jantar, uma sala de máquinas. oficinas de reparação dos robôs, dois quartos...

            - Basta! Basta! Como sabe tudo disso, Daneel?

            - Estes conhecimentos fazem parte das informações que me forneceram antes de sair de Aurora - respondeu Daneel calmamente.

            - Mas quem é que vai tomar conta de tudo isto? - perguntou Baley, absolutamente desnorteado pelas dimensões da casa.

            - Temos um batalhão de robôs domésticos ao nosso dispor; sua função será cuidar da casa e torná-la confortável, amigo Elijah.

            - Mas eu não preciso de todas estas divisões! - exclamou Baley, sentindo um súbito desejo de se sentar e de recusar visitar mais quartos.

            - Pode viver só num quarto, se assim o quiser, amigo Elijah. Essa possibilidade foi considerada logo de início, mas, apesar disso e sendo os hábitos dos Solarianos como são, foi decidido construir esta casa para...

            - Construir!? - exclamou Baley. - Esta casa foi construída só para mim?! Uma casa deste tamanho! Só para mim?

            - Uma economia completamente robotizada...

            - Sim, já sei o que vai dizer... o custo da construção nada significa e é preciso manter os robôs ocupados. E que farão eles com a casa quando eu me for embora?

            - Julgo que a deitarão abaixo, amigo Elijah.

            Baley cerrou os punhos. Já devia ter adivinhado! Os Solarianos deitariam a casa abaixo! Haviam construído uma enorme estrutura para o uso especial de um Terrestre e depois destruiriam tudo o que ele tocara, esterilizariam o solo onde a casa existira e fumigariam o ar que ele respirara! Os Espaciais podiam parecer ser fortes e superiores, mas, era certo, também tinham as suas fraquezas e ridículos receios.

            Daneel pareceu ter compreendido estes pensamentos de Baley, ou então ter interpretado a expressão do seu rosto, pois as suas palavras respondiam exatamente às dúvidas que iam na mente do inspetor

            - Talvez pense, amigo Elijah, que eles destruirão a casa apenas para fugir ao eventual contágio dos germes que traz no seu organismo, mas essa não é a expressão da verdade. O medo à doença, nos Espaciais, não é tão exagerado como isso. A razão é que o esforço de construir ou destruir uma casa é, para eles, quase nulo e, como têm todos estes robôs, nem sequer são obrigados a fazer um gesto nesse sentido. Além disso, amigo Elijah - continuou Daneel, falando como se estivesse repetindo uma lição aprendida de cor - a lei não permitiria que esta casa ficasse de pé. Encontra-se situada na Propriedade de Hannis Gruer e a lei dita que só pode existir uma única casa em cada uma das Propriedades, a do seu dono. Esta casa foi construída para um fim especial, com uma autorização também especial. Foi construída para nos obrigar durante um determinado período e quando nos formos embora deixará de ter o direito de existir aqui.

            - E quem é esse Hannis Gruer? - perguntou Baley.

            - É o chefe do Departamento de Segurança de Solaria. Devemos vê-lo dentro em pouco.

            - Devemos, hein?! Já não é sem tempo! Quando é que me porão ao corrente desse famoso crime? Nada sei sobre o crime! Se tivesse ficado na Terra, como era o meu desejo, talvez ainda soubesse mais sobre ele do que sei agora! Eu devia era voltar já para a Terra....

            Baley percebeu que se estava deixando dominar por uma espécie de

            ressentimento, relacionado com o estado de nervos em que se encontrava, e forçou-se por acalmar.

            Daneel não fizera menção de interromper o amigo, limitando-se a aguardar uma oportunidade para fazer os seus comentários sobre as palavras de Baley.

            - Lamento muito o fato de vê-lo aborrecido e irritado, amigo Elijah. Os meus conhecimentos gerais sobre o Planeta Solaria parecem ser muito mais completos do que os seus. Os meus conhecimentos sobre este crime são tão limitados quanto os seus, asseguro-lhe. O agente Gruer é que nos dirá tudo o que deveremos saber. O Governo Solariano informou-nos de que assim seria.

           - Bem, então o melhor é irmos ter com esse tal Gruer - sugeriu Baley, agora mais calmo e razoável. - Onde é que poderemos encontrá-lo? Teremos de fazer uma longa viagem para ir vê-lo?

            - Não é necessário realizar qualquer viagem, amigo Elijah - respondeu Daneel.

            - O agente Gruer estará à nossa espera na sala de conferências.

            - O que? Também temos uma sala para conferências?! -exclamou Baley, exasperado pelo fato, e formulando nova pergunta no mesmo instante em que apreendeu o que Daneel lhe dissera: - Está à nossa espera?

            - Creio que sim.

            - Então, meu caro Daneel, vamos já ter com ele!

           Hannis Gruer era um homem completamente calvo, sem um único fio de cabelo em toda a cabeça.

            Baley engoliu em seco e tentou, por pura cortesia, desviar o olhar daquele crânio luzidio - sem, porém, consegui-lo. Os habitantes da Terra haviam-se habituado a considerar os Espaciais como os indiscutíveis senhores da Galáxia:

            de elevada estatura, de pele e de cabelo cor de bronze, elegantes e aristocratas, fortes e viris, dinâmicos e arrogantemente calmos. Em resumo, os Espaciais que visitavam o Planeta Terra possuíam geralmente todas essas qualidades físicas e mentais e eram muito semelhantes a R. Daneel Olivaw, embora possuíssem o dom da humanidade que não existia no robô.

            Mas aqui estava um Espacial, pensou Baley, que, em aparência, se

            assemelhava imensamente aos habitantes da Terra. Era calvo e tinha o nariz ligeiramente deformado. Estas imperfeições, e outras que o inspetor notou, eram insignificantes, embora, num Espacial, qualquer ínfima assimetria fosse digna de ser notada.

            - Muito boa tarde, Sr. Gruer - disse Baley. - Peço-lhe muita desculpa por termos feito esperar.

            Elijah sabia que devia trabalhar em colaboração com esta gente e não podia deixar de ser cortês com Gruer, tendo mesmo um súbito desejo de atravessar a enorme sala e de estender a mão ao Espacial. O impulso foi facilmente dominado, já que Baley sabia que um tal gesto seria mal recebido por qualquer habitante dos Planetas Exteriores. Não havia um único Espacial que se atrevesse a apertar a mão de um Terrestre, coberta de germes... sem a menor dúvida!

            Gruer sentou-se, bastante longe do ponto onde Baley se encontrava, suas mãos repousando dentro das longas mangas da túnica que trajava e, pensou Baley, o nariz talvez tapado por filtros especiais!

            O inspetor teve a impressão de que o olhar de Gruer criticava o fato de Daneel Olivaw, que ele julgava ser um Espacial, se encontrar demasiado perto daquele Terrestre. O robô, entretanto, também notara o olhar e afastara-se de Baley. Era evidente que fazia o máximo empenho em que Gruer continuasse a pensar que ele fosse um ser humano!

            Gruer falou, finalmente, num tom de voz bastante agradável e amigável:

            - Estou aqui há pouco tempo, não tive de esperar muito. Sejam bem-vindos a Solaria, meus amigos. Espero que estejam confortavelmente instalados.

            - Estamos, sim, muito obrigado, sr. Gruer - respondeu Baley, sem saber bem se a etiqueta requeria que Daneel, sendo um suposto Espacial, falasse por eles dois. Mas não... Baley afastou essa possibilidade, ressentido com a idéia. Fora ele. Elijah Baley, que havia sido convidado para realizar a investigação e Daneel fora chamado depois, apenas como seu assistente! Essas circunstâncias, raciocinou o inspetor, nem sequer justificariam que ele ocupasse um lugar de segundo plano em face de um autêntico Espacial- quanto mais perante um robô, mesmo que esse robô fosse de um modelo tão avançado como era Daneel!

            Daneel, entretanto, não fizera a menor menção de tomar precedência na conversa e Gruer não parecera surpreendido ou aborrecido com o fato. O chefe da Segurança de Solaria prestou imediatamente toda sua atenção a Baley, já que fora este que respondera ao seu cumprimento.

            - Ainda nada sabe sobre o crime que vem investigar, inspetor Baley, e suponho que a sua curiosidade já o tenha impacientado - disse Gruer, fazendo menção a Baley e a' Daneel que se sentassem.

            - Sentem-se... sentem-se! - disse ele. no mesmo tom de voz amigável de antes.

            Os dois companheiros sentaram-se e Baley, notando que o Espacial não calçava luvas, como ele antes imaginara, respondeu-lhe:

            - Sim. .. sim... estamos cheios de curiosidade. Espero que nos ponha ao corrente de tudo o que sabe sobre esse crime. Não me parece conveniente perder mais tempo!

            - A razão de não o termos informado antes, inspetor Baley, é simples. Não queríamos que chegasse com ideias e teorias preconcebidas. Pareceu-nos melhor que visse com o espírito aberto a toda e qualquer hipótese ou noção. Receberá dentro em pouco um relatório completo sobre todos os pormenores do crime e também sobre as poucas investigações que realizamos. Estou convencido, inspetor Baley, de que considerará as nossas investigações muito incompletas e ridículas em comparação com as que a sua experiência conhece. A verdade é que não temos polícia em Solaria.

            - Nenhuma espécie de polícia? - perguntou Baley, admirado.

            Gruer sorriu e encolheu os ombros.

            - No nosso planeta não existe crime. A população de Solaria é pequena e encontra-se muito espalhada por todo o planeta. Não temos razões, motivos ou mesmo oportunidades para cometer crimes. E por isso que, também, não temos polícia.

            - Compreendo - respondeu Elijah Baley. - Isso, porém, não impede que tenham agora um crime em mãos!

            - É verdade, mas trata-se do primeiro crime de violência em dois séculos de história!

            - E de lamentar, então, que o primeiro seja um crime de morte.

            - De lamentar, sim, mas ainda mais de lamentar é o fato de que a vítima foi um homem que nos faz imensa falta. Uma vítima verdadeiramente importante!

            As circunstâncias do assassínio foram particularmente brutais.

            - Suponho que o assassino é completamente desconhecido.

            Gruer pareceu ter ficado bastante incomodado com aquela tão simples suposição de Baley. O Espacial olhou de lado para Daneel, que se encontrava imóvel e atento: um verdadeiro mecanismo que absorvia e analisava tudo o que ali se dizia. Baley sabia que, em qualquer altura do futuro, Daneel poderia reproduzir qualquer conversa que tivesse ouvido, fosse qual fosse a sua duração ou tema. Daneel era uma máquina de gravar que andava e falava como um homem.

            Saberia Gruer o que era Daneel? A forma como olhava o robô era certamente furtiva e aparentava uma certa desconfiança.

            - Não - respondeu Gruer, por fim. - Não posso dizer que o assassino seja completamente desconhecido. A verdade é que só existe uma pessoa que poderia ter cometido o crime.

            - Não quererá dizer que só existe uma pessoa que teria razão para fazê-lo? - perguntou Baley, já que pouco confiava nesta espécie de afirmações e que não gostava de deduções supostamente lógicas que descobriam certezas onde apenas haviam probabilidades.

            Gruer meneou a cabeça num gesto firme de negação.

            - Não. Só existe uma pessoa que poderia ter cometido o crime. Não existe outra pessoa que o pudesse ter praticado... isso seria absolutamente impossível!

            - Absolutamente?

            - Asseguro-lhe que assim é.

            - Então, não compreendo qual seja o problema!

            - O problema existe e não vejo como possa ser solucionado. Essa pessoa a quem me refiro também não poderia ter cometido o crime!

            - Isso significa, então, que ninguém o cometeu, não é verdade? - perguntou Baley com um sorriso ligeiramente sarcástico.

            - Em teoria, devia ser assim... mas a verdade é que Rikaine Delmarre foi assassinado.

            Finalmente, pensou Baley. Agora já sabia qualquer coisa!

            Já sabia, pelo menos, o nome da vítima!

            Elijah Baley, inspetor da Polícia da Cidade de Nova York, tirou da algibeira o seu livro de apontamentos e, conscienciosa e solenemente, preparou-se para escrever o nome que Gruer mencionara. Baley não. precisava de fazê-lo, visto que Daneel se recordaria sempre de tudo o que ouvisse, mas resolveu fazê-lo para indicar a importância que dava a qualquer fragmento de fatos sobre o crime e também para não tornar demasiadamente visível o fato de que estava sentado ao lado de uma máquina de gravar!

            - Como é que se escreve esse nome?

            Gruer soletrou o nome da vítima e Baley escreveu-o no livro.

            - Qual era a sua profissão?

            - Fetologista.

            Baley continuou a escrever, sem fazer a menor idéia da natureza da profissão em questão.

            - Diga-me, sr. Gruer, quem é que me poderia descrever minuciosamente as circunstâncias em que se deu o crime? Convinha que fosse alguém que estivesse no local, ou próximo do local do crime.

            Gruer sorriu amargamente e o seu olhar voltou-se para Daneel e, em seguida, para Baley.

            - A mulher da vítima, inspertor Baley.

            - A mulher dele... - Sim. Chama-se Gladia. - Gruer pronunciara o nome em três sílabas, acentuando a segunda.

            - Têm filhos? - perguntou Baley, que era sempre muito arguto neste gênero de interrogações e gostava de ter presente todos os fatos relevantes. Agora, como Gruer não lhe respondeu, Elijah Baley levantou o olhar e voltou a perguntar: - Perguntei-lhe se a vítima e a mulher, essa Gladia, tinham filhos?!

            Gruer mudara de expressão, parecendo muito incomodado por aquela simples pergunta. O Espacial hesitou e, em seguida, respondeu de má vontade.

            - Como posso eu saber uma coisa dessas?!

            - O que?! - exclamou Baley, perplexo ante aquela estranha atitude do outro.

            Gruer não lhe respondeu e mudou o rumo da conversa, aliás pondo mesmo termo à entrevista..

            - Creio que o melhor será adiar até amanhã o início das investigações. Tenho certeza de que está muito cansado, inspetor Baley, e talvez mesmo com fome.

            Baley preparava-se para negar que se encontrava cansado e com fome, e protestar também contra as inesperadas palavras de Gruer, quando sentiu que, na realidade, estava cheio de fome e que a idéia de uma refeição o atraía imensamente.

            - Muito bem - concordou ele, apesar de lamentar ter de terminar aquela conversa - porém teríamos muito prazer em que nos fizesse companhia à mesa.

            Gruer recusou o convite, como Baley já previra - imagínando que não haveria um único Espacial que estivesse disposto a comer na companhia de um Terrestre.

            - Tenho um encontro marcado para daqui a pouco - desculpara-se Gruer. - Não posso ficar, infelizmente, mas agradeço-lhe o convite, inspetor Baley. Até amanhã. Os seus robôs saberão como entrar em contato comigo, se o desejar fazer.

            Baley levantou-se a fim de se despedir dele e de acompanhá-la até à porta, porém, para grande surpresa sua, o chefe de Segurança do Planeta Solaria desaparecera completamente.

            Elijah Baley soltou uma exclamação.

            Gruer e a cadeira em que se sentara haviam desaparecido do canto onde se encontravam!

            Daneel explicou calmamente o que acontecera.

            - O agente Gruer nunca chegou a estar ali em carne e osso. Tratava-se de uma imagem tridimensional, não sabia? Pensei que sim... na Terra também existem aparelhos que permitem conversas deste gênero. e a técnica das imagens a três dimensões foi originada no seu planeta, amigo Elijah.

            - Não existe lá qualquer técnica tão perfeita que consiga produzir um efeito destes!

            Uma imagem a três dimensões, na Terra, era enquadrada dentro de um campo cúbico de energia que brilhava por trás da imagem. Esta, além disso, sempre tremia levemente e nunca poderia ser tomada como realidade. Aqui...

            Não admirava, pois, que Gruer não tivesse usado luvas... não tendo também precisado de filtros para o nariz!

            - Não quer alimentar-se, amigo Elijah? - perguntou Daneel, que procurava evitar aqueles momentos de irritação que atacavam Baley em situações, que para ele, eram demasiado anormais.

            O jantar foi muito desagradável para Baley. A sala de jantar estava repleta de robôs: um pusera a mesa, outro servira a comida, enquanto que um terceiro retirava os pratos!

            - Quantos robôs existem nesta casa, Daneel?

            - Cerca de cinquenta, amigo Elijah.

            - Teremos de os aturar durante todo o nosso jantar?

            - E costume... em Solaria - respondeu Daneel. - Cada um deles tem sua função. Quer que os mande embora?

            Baley encolheu os ombros. - Não vale a pena.

            A comida, em circunstâncias normais - pensou Baley - teria sido excelente.

            Mas, assim, nem sequer tinha prazer em comer. Todos aqueles robôs olhando para ele, à espera não sabia bem de que, haviam-lhe tirado o apetite. Daneel, notou Baley, também comia a fim de, com certeza, representar eficientemente o seu papel de ser humano. Mais tarde, claro estava, teria de esvaziar o depósito onde agora se ia acumulando a comida. Os robôs, mesmo os de aparência humanóide como Daneel, não precisavam alimentar-se!

            - Será noite, lá fora? - perguntou Baley, mais tarde, quando os dois companheiros se encontravam num dos quartos.

            - E, sim - respondeu Daneel.

            Baley olhou sombriamente para a cama. Esta era demasiado grande. Todo o quarto era demasiado grande... desproporcionado. A cama não tinha cobertores, apenas lençóis - que não lhe dariam o aconchego a que estava habituado durante a noite.

            Tudo aquilo lhe era muito difícil e penoso. Baley já passara por uma verdadeira tortura, ao tomar banho numa casa de banho que era maior do que todo o seu apartamento na Terra.. A casa de banho era muito luxuosa, não o podia negar, mas faltava-lhe algo que lhe daria aquele conforto mínimo que se podia esperar de uma casa de banho.

            - Como é que se apaga esta luz? - perguntou Baley abruptamente. Toda a cabeceira da cama brilhava com suavidade, iluminada indiretamente de forma que facilitasse bastante a leitura na cama. Baley, contudo, não tinha a menor vontade de ler e a luz incomodava-o.

            - A luz apagar-se-á logo que quiser dormir... bastará ajeitar-se na posição adequada - explicou Daneel.

            - Os robôs encarregam-se disso, não é assim? Então à espreita... nem sequer me deixam em paz na cama!

            - É o trabalho deles, amigo Elijah.

            - Caramba! Então estes Solarianos não sabem fazer coisa alguma sem o auxílio dos seus preciosos robôs?! - resmungou Baley, acrescentando ironicamente: - Só não compreendo que um não me tenha vindo esfregar as costas quando tomei o banho!

            - Há um robô para esse fim - redargüiu Daneel, muito sério - porém só executa o seu trabalho quando lho ordenam. Não existe qualquer robô que faça algo que lhe digam para não fazer, exceto, claro está, quando esse algo seja necessário à segurança e bem-estar dos seres humanos.

            - Está bem, Daneel... agora quero dormir. Boa noite.

            - Eu ficarei no outro quarto amigo Elijah, se quiser alguma coisa durante a noite...

            - Já sei. Os robôs virão correndo...

            - Tem aí um botão na mesa de cabeceira. Bastará tocá-lo. Eu também virei saber o que deseja. Boa noite, amigo Elijah.

            Baley não conseguiu dormir durante algum tempo. O tamanho e a situação daquela casa eram a causa da insônia. O seu apartamento, na Terra, era muito pequeno, embora suficiente, e estava situado entre muitos outros. Existiam dezenas de andares e milhares de pessoas entre ele e a superfície da terra. Era verdade que também haviam apartamentos no último andar, mesmo junto à superfície, mas esses só eram ocupados devido ao fato de possuírem as rendas mais baratas de toda a Cidade.

            A sua mulher, Jessie, fazia-lhe muita falta... e encontrava-se a milhares de anos-luz de distância!

            O seu maior desejo seria levantar-se, vestir-se e ir ter com ela! Os pensamentos de Baley iam-se tornando cada vez mais confusos e obscuros. Se pudesse... se pudesse voltar para junto de Jessie e para a segurança do seu lar!

            Segurança!

            Baley abriu os olhos. Aquela palavra recordara-lhe qualquer coisa.

            Segurança! Este homem, Hannis Gruer, era o chefe do Departamento de Segurança de Solaria! Ou, pelo menos, assim Daneel lho dissera. O que significaria "segurança"... em Solaria? Se significava o mesmo do que na Terra, então, este homem era o responsável pela proteção de Solaria contra invasão do exterior e subversão no interior!

            Que razões o levariam a interessar-se por um simples, ou mesmo complicado crime? Talvez a razão fosse unicamente por Solaria não possuir polícia e o Departamento de Segurança ser o único organismo capaz de fazer alguma coisa para tentar resolver o crime.

            Gruer parecera simpatizar bastante com Baley, mostrandose à vontade e agradável, porém, o inspetor lembrava-se bem, não cessara de olhar furtivamente para Daneel durante quase toda a entrevista.

            Talvez Gruer desconfiasse de Daneel, ou talvez lhe atribuísse intenções de perturbar a segurança de Solaria _ Baley recebera instruções para abrir bem os olhos e era muito possível que Daneel também tivesse ordens para agir como espião do Planeta Aurora.

            O trabalho de Gruer era justamente tentar descobrir a possibilidade de espionagem, sendo muito natural que suas suspeitas recaíssem num representante de um Planeta Exterior que era, militar e economicamente, o mais forte dos cinqüenta planetas. Baley não seria suspeito fosse do que fosse, já que era um agente do menos poderoso mundo de toda a Galáxia. O Planeta Terra nunca poderia vir a fazer sombra à Solaria, mas Aurora era um planeta superior e, por isso mesmo, constituiria sempre um perigo. Beley, além de todas estas considerações. recordava claramente que Gruer não dirigira uma única palavra a Daneel!

            Já que estava em maré de deduções desta natureza, pensou Baley, qual seria a verdadeira razão que levava Daneel a fingir tão escrupulosamente que era um ser humano? Era óbvio que a explicação que Daneel lhe dera antes era falsa e que a verdadeira razão era bem mais séria. Era aparente que nem tudo era uma mar de rosas entre Aurora e Solaria e era certo que Daneel se encontrava ali simplesmente para espionar. O que Baley não compreendia era que os Solarianos considerassem este crime suficientemente importante para permitirem a entrada no seu planeta de um Terrestre e de um Auroriano.

            Baley sentia-se encurralado.

            Estava preso em Solaria, pela necessidade de realizar a sua missão. Estava preso pelo perigo que a Terra corria, preso num mundo de vida que não lhe sorria, preso por uma responsabilidade à qual não podia fugir. E, ainda por cima, estava preso. não sabia bem como, no centro de um conflito espacial - cuja natureza não podia compreender!

 

UMA CONVERSA COM GLADIA

            Baley adormeceu, por fim, não se recordando de todo do momento em que se deixara dominar pelo sono.

            Só se lembrava vagamente de um período durante o qual os seus

            pensamentos se haviam tornado mais erráticos e, logo em seguida. o quarto iluminou-se subitamente. Baley olhou para o relógio, e verificou que dormira durante várias horas. Os robôs que cuidavam da casa tinham decidido que já eram horas de ele se levantar e haviam ligado as luzes indiretas do teto e da cabeceira da cama.

            Daneel também já devia estar acordado, pensou Baley, logo compreendendo o disparate daquele pensamento. Daneel não podia dormir. Não podia, não sabia e não precisava dormir. Será que aquela insistência em imitar um ser humano o levara a vestir um pijama e a simular o sono!

            Daneel, como se adivinhasse que Baley estava pensando nele. entrou no quarto naquele momento.

            - Bom dia, amigo Elijah.

            O robô estava completamente vestido e o seu rosto aparentava a expressão calma e prazenteira de sempre.

            - Dormiu bem?

            - Dormi - respondeu Baley secamente - espero que lhe tenha sucedido o mesmo, Daneel! - Baley levantou-se e encaminhou-se para a casa de banho, a fim de se lavar e de fazer a barba. - Se aparecer por aí um robô querendo barbear-me - gritou Baley do banheiro - mande-o embora! Estou farto de todos estes robôs... estou farto deles mesmo sem vê-los!

            Baley acabou de se barbear e, durante aqueles poucos minutos diante do espelho, decidiu que teria de começar urgentemente as investigações ou nunca mais sairia deste planeta I

            - Gostaria que me respondesse a algumas perguntas, disse Baley a Daneel, depois de se lavar e vestir.

            - Como muito bem sabe, amigo Elijah, respondo sempre a qualquer pergunta da melhor forma que me for possível.

            "Ou segundo as instruções recebidas dos Aurorianos", pensou Baley.

            - Qual é a razão de haver apenas vinte mil habitantes no Planeta Solaria?

            - Essa quantidade de habitantes não passa de um mero fato - respondeu Daneel. - Uma figura numérica que é o resultado de uma adição.

            - Tem razão, claro está, mas não é essa a resposta que me interessa. O planeta poderia alimentar e alojar milhões de habitantes. Por que, então, apenas vinte mil? Disse-me antes que os Solarianos consideram essa quantidade como sendo a ideal. Por quê?

            - Por ser essa a sua maneira de viver.

            - Será que eles reduzem propositadamente o nascimento das crianças?

            - Sim.

            - E, por isso, têm um planeta quase vazio?! - Baley não sabia o que o levava a insistir sobre este ponto. mas a reduzida população de Solaria representava uma das poucas coisas que ele conhecia sobre o planeta e estranhara-o tanto que sentia a necessidade de obter uma justificação para ele.

            - O planeta está longe de se encontrar vazio - respondeu Daneel. - Está dividido em grandes propriedades. cada uma delas supervisionada por um Espacial Solariano.

            - Quer, então, dizer que cada um dos Solarianos vive numa propriedade própria? Vinte mil propriedades, cada uma delas com o seu Solariano?

            - As propriedades são em menor número, amigo Elijah, As mulheres vivem nas propriedades dos maridos.

            - Não existem, então, cidades?

            - Nenhuma! Os Solarianos vivem completamente isolados e nunca se vêem uns aos outros, a não ser devido a qualquer circunstância extraordinária.

            - Eremitas?

            - De certo modo, sim. Mas não no uso corrente da palavra.

            - O que significa isso?

            - O agente Gruer visitou-o hoje por meio de uma imagem tridimensional, por exemplo. Os Solarianos visitam-se muitas vezes dessa forma, porém unicamente dessa forma.

            Baley ficou a olhar para Daneel, perplexo por aquelas inesperadas palavras.

            - E nós estamos incluídos nesse modo de vida?! Teremos de nos adaptar a esse hábito?

            - É o costume deste mundo.

            - Como poderei eu, então, levar a cabo as minhas investigações? Se precisar de ver alguém...

            - Desta casa, amigo Elijah, poderá entrar em contato tridimensional com qualquer habitante deste planeta, Não há problema, a esse respeito. Até apresenta a vantagem de não ser obrigado a ter o incômodo de sair de casa. Foi por isso que lhe disse ontem que não era necessário habituar-se à atmosfera e aos espaços abertos. Não temos razão de queixa. De outra forma, como sabe, teria de passar momentos muito desagradáveis.

            - Eu é que sou o juiz do que me é desagradável- redarguiu Baley, agastado com aquela preocupação constante de Daneel. - A primeira coisa a fazer hoje é entrar em contato com essa tal Gladia. a mulher do homem que foi assassinado.

           Se esse processo tridimensional não me satisfizer, o que é muito provável, irei visitá-la em pessoa. Eu é que decidirei. de futuro. o que é mais indicado ou mais eficaz.

            - Temos tempo para verificar o que é mais indicado ou eficaz - respondeu Daneel, sem dar o braço a torcer (mesmo porque o seu braço metálico não poderia ser torcido). - Vou mandar preparar o desjejum, amigo Elijah.

            Baley observou a figura bem formada e proporcionada do robô afastar-se e sorriu, sabendo que ele, Elijah Baley, tinha todos os trunfos na mão. Era evidente que os Aurorianos desejavam que Daneel Olivaw dirigisse as operações e o impedisse de aprender mais coisas sobre o Planeta Solaria do que era absolutamente necessário. Elijah Baley tinha um bom trunfo naquele jogo, bastando-lhe para isso informar Gruer ou qualquer outro Solariano que Daneel era um robô e não um homem. Por outro lado, e por enquanto, a suposta humanidade de Daneel podia ser-lhe muito útil. Não era essencial jogar imediatamente o trunfo. Este, como muitas vezes sucedia em qualquer jogo, era bem mais útil na mão.

            Aguardemos e vejamos o que se vai passar, pensou Baley indo ao encontro de Daneel na sala de janIar.

            - Como se estabelecerá esse tal contato tridimensional? - perguntou Baley, logo que acabaram o desjejum.

            - Os robôs é que se encarregam de o fazer - respondeu Daneel, ao mesmo tempo que apertava um dos muitos botões que decoravam um painel na parede.

            Um robô entrou na sala quase no mesmo instante em que Daneel o convocara.

            De onde viriam todos estes robôs? Baley não compreendia, já que eles só apareciam quando eram chamados ou quando estavam executando uma tarefa determinada. Baley ainda não vira um que estivesse desocupado e nunca se cruzara com um deles nos corredores. Será que eles se escondiam até serem chamados? O fato era que apareciam sempre um ou dois segundos depois de serem chamados.

            Baley examinou o robô recém-chegado. Este possuía uma forma bastante humana e era até elegante, embora não fosse polido como muitos dos outros.

            Sua superfície era acinzentada, sendo a sua única porção colorida um dos ombros, onde estavam desenhados vários pequenos quadrados brancos.

            amarelos e dourados.

            - Conduza-nos à sala de conferências - ordenou Daneel. O robô fez uma reverência e voltou-se, sem dizer palavra. -- Espera aí, rapaz! - exclamou Baley - Como se chama você?

            O robô veio colocar-se em frente de Baley e fez nova reverência. Sua voz falou sem a menor hesitação, ainda que demasiadamente pausada e lenta.

            - Não tenho nome, senhor. O meu número de série é ACX-2745.

            Daneel e Baley seguiram o robô até a sala onde, na véspera. se haviam reunido com a imagem de Gruer.

            Um outro robô encontrava-se já à espera deles, aparentando aquela eterna paciência de todas as máquinas. O primeiro robô fez uma reverência e afastou- se rapidamente.

            Baley notou que os quadrados no ombro deste robô eram ligeiramente diferentes em cores e arranjo, não fazendo a menor idéia do que eles significavam. Era possível que indicassem a natureza da especialidade de cada um deles, contudo o inspetor não tencionava aprofundar um assunto que não lhe seria de qualquer utilidade.

            - Temos robôs para tudo! - exclamou Baley, naquele tom irônico que já usara mais do que uma vez e que era completamente inútil com Daneel. - Um robô para nos trazer até aqui. Outro para estabelecer contato com os habitantes de Solaria!

            - A especialização robôtica está muito desenvolvida em Solaria, amigo Elijah.

            - Com tantos robôs no planeta é fácil de compreender o porquê dessa especialização. - Baley examinou o segundo robô. Este era igualzinho ao primeiro, com a exceção dos quadrados no ombro e, certamente, dos invisíveis canais positrônicos do seu cérebro. - Qual é o seu número, rapaz?

            - ACC-1129, senhor.

            - Fique sabendo que só o tratarei por" rapaz", e não pelo seu número de série.

            Quero falar com a Sra." Gladia Delmarre, viúva do falecido Rikaine Delmarre...

            Daneel, existirá uma morada ou qualquer forma de indicar a este robô a localização de Gladia Delmarre?

            - Não creio que seja necessário dar-lhe qualquer outra informação - respondeu Daneel. - Se quiser que eu lhe pergunte...

            - Não - interrompeu Baley. - Eu me encarrego disso.

            Ouça, rapaz, sabe onde encontrar essa senhora?

            - Sei, sim, meu senhor. Conheço as linhas de contato de todos os meus senhores. - O robô dissera estas palavras sem que o seu tom de voz manifestasse o menor orgulho pelo fato.

            Tratava-se de um mero fato, como se o robô tivesse dito: sou feito de metal, meu senhor.

           - O fato não é surpreendente, amigo Elijah - interpôs Daneel. - Existem menos de dez mil números, ou linhas de contato, nos circuitos da memória deste robô ... e esse número. para um robô, é insignificante.

            Baley assentiu com um gesto rápido da cabeça.

            - Existirá, por acaso, mais do que uma Gladia Delmarre? Não desejaria criar qualquer confusão dessa natureza.

            - Meu senhor? - O robô dissera estas duas palavras. emprestando-lhe uma inflexão interrogativa e, em seguida, calara-se como se não pudesse responder à pergunta.

            - Creio que este robô não percebeu a pergunta - explicou Daneel. - Creio também que, em Solaria, não existe a duplicação de nomes. Os nomes são registrados ao nascer e nenhum nome pode ser usado se estiver ocupado nessa altura.

            - Está bem - redargüiu Baley ironicamente - vou aprendendo qualquer coisa em cada minuto que passa! Agora. ouça-me bem, rapaz! Quero que explique como funciona esta máquina, ou o que é isto, e me explique que história é essa de linhas de contato e que, em seguida, nos deixe em paz.

            O robô levou um certo tempo a reagir ao pedido de Baley. - Desejará estabelecer contato com a Sra, Delmarre sem a minha ajuda, meu senhor?

            - É essa a minha intenção.

            Daneel tocou ligeiramente no braço de Baley. - Um momento, amigo Elijah.

            - O que se passa?

            - Estou certo de que o robô poderia realizar esse trabalho com muito maior facilidade. E a sua especialidade...

            - Eu também estou convencido de que isso é verdade, meu caro Daneel, e é muito possível que eu cometa asneiral.

            Mesmo assim, contudo, prefiro fazê-lo sem a ajuda do robô e sou eu que dito as ordens. não é verdade?

            - É verdade que pode dar as ordens que desejar, amigo Elijah - redargiiu Daneel - e as suas ordens serão sempre obedecidas desde que não se oponham ao conteúdo da Primeira Lei Robôtica. Entretanto, se assim mo permitir, gostaria de lhe fornecer algumas informações pertinentes sobre os robôs Solarianos. Os robôs, neste planeta. são muito mais especializados do que em qualquer outro.

            Embora esses robôs sejam fisicamente capazes de realizar diversas tarefas, se isso fosse absolutamente necessário, são mentalmente equipados pará um tipo especial de trabalho. O esforço de realizar funções alheias à sua especialidade requer os potenciais muito elevados produzidos pela aplicação direta de uma das Três Leis. Sucede. também, que o fato de não realizarem o trabalho da sua especialização requer, na mesma, a aplicação direta das Três Leis.

            - Concordo absolutamente com tudo isso - disse Elijah Baley, agastado e farto de todas aquelas considerações que representavam apenas palavras para impedi-lo de fazer o que lhe apetecia. - Esta minha ordem significa a aplicação da Segunda Lei, não é verdade?

            - Tem razão, mas, mesmo assim, o potencial criado por uma tal ordem é desagradável para o robô! Esse problema nunca se dá neste planeta, já que os Solarianos não interferem nos trabalhos quotidianos dos robôs. Os Solarianos nunca desejariam fazer qualquer trabalho que normalmente deva ser realizado por um robô... essa necessidade não é possível, em Solaria!

            - Parece-me que está querendo convencer-me, caro Daneel, que o robô sofreria com o fato de eu fazer o seu trabalho?!

            - Como sabe, amigo Elijah, o sofrimento, no seu sentido humano, não é aplicável aos robôs.

            Baley encolheu os ombros. - Então?

            - Então - respondeu Daneel - a experiência equivalente que o robô sofre num caso desses é tão incomodativa como o sofrimento é para um ser humano, pelo que me tem sido dado julgar.

            - Isso tudo é muito interessante - replicou o obstinado Baley - todavia não sou um Solariano. Sou um habitante da Terra. Não gosto da idéia de robôs fazerem o que eu poderia fazer..

            - Pense também - continuou Daneel, que era tão teimoso como Baley - que causar incômodo, e uma possível avaria, a um robô poderia ser considerado pelos nossos anfitriões como sendo uma falta de cortesia, visto que, numa sociedade como esta é, existem umas certas regras, mais ou menos rígidas, sobre a forma de como um robô deve ser tratado. O fato de ofender os Solariano dificultaria, com certeza, o bom desempenho de nossa missão!

            - Está bem - disse Baley, dando-se por vencido. Que o robô faça o seu trabalho, então!

            Elijah Baley sentou-se confortavelmente num dos cantos da sala. O incidente não fora uma perda de tempo e ensinara-lhe uma lição muito útil. Tratava-se de um exemplo educativo de quão severa poder-se-ia tornar uma sociedade robôtica. Os robôs, uma vez fabricados e postos em ação, não eram facilmente eliminados e alguém que não os quisesse utilizar, mesmo temporariamente, verificaria que seria obrigado a servir-se deles a todo o momento.

            Baley, os olhos semicerrados, notou que o robô se aproximava de uma das paredes. Os sociólogos da Terra poderiam considerar cuidadosamente o que acabara de se passar e tirar as suas próprias conclusões. Ele mesmo, Elijah Baley, já tirara conclusões muito pessoais sobre aquele estado de coisas.

            Uma parte da parede deslizou silenciosamente para um dos lados e o painel de comandos revelado parecia bem mais complicado do que o de uma estação geradora de uma das cidades da Terra.

            Baley sentiu que o cachimbo lhe fazia imensa falta. Não lhe haviam permitido trazer o cachimbo, visto que fumar em Solaria, seria considerado como uma enorme indelicadeza. Baley soltou um suspiro. O cachimbo na boca e um cálice de qualquer bebida alcoólica faziam-lhe imensa falta naqueles momentos, como este, em que precisava concentrar-se e fazer pleno uso de seu raciocínio.

            O robô pusera-se a trabalhar com afinco, ajustando resistências variáveis, aqui e ali, e intensificando volumes de energia a fim de formar as tais linhas de contato essenciais para a operação de contato.

            É necessário, antes de mais nada, avisar a pessoa que se deseja ver - informou Daneel. - Essa mensagem será recebida, naturalmente, por um robô que se encontre de serviço no aparelho, na casa em questão. Se essa pessoa se encontrar presente, e desejar atender a chamada, o contato é estabelecido a seguir.

            - Para que serviu todos aqueles comandos e instrumentos? - perguntou Baley.

            - O robô não tocou na maior parte daquele painel.

            - Os meus conhecimentos sobre esta técnica são bastante limitados - respondeu Daneel. - Creio que o contato entre duas pessoas é uma operação relativamente fácil e a maioria desses instrumentos e comandos, que mencionou, devem ser necessários para o contato entre diversas pessoas, cada uma delas presente num local diferente e longínquo dos outros, amigo Elijah. Além disso, e mais complicado ainda, há a possibilidade de contactar pessoas ou objetos em movimento... o que requer uma regulação contínua e constante das intensidades das linhas.

            - Meus senhores - disse o robô - o contato já foi estabelecido e aprovado.

            Poderá ser ligado assim que o desejarem.

            - Estou pronto... e estou farto de esperar! - As palavras de Baley foram como que um sinal, pois a parte mais afastada da sala de conversações iluminou-se brilhantemente!

            - Não me ocorreu informar o robô de que todas as aberturas para o exterior, na casa da Propriedade Delmarre, deviam ser fechadas - disse Daneel, revelando, no tom de sua voz, pela primeira vez, uma certa preocupação e, mesmo, pânico. - Lamento muitíssimo o que sucedeu e vou ordenar que corrijam o engano.

            - Não tem importância - respondeu Baley, forçando o olhar e o espírito a aceitarem aquela desagradável experiência. - Não me interrompa, Daneel, eu me agüentarei!

            A parte da casa Delmarre que fora transferida, em imagem, para aquela sala de conferências era o banheiro, ou, pelo menos, assim o parecia aos olhos de Baley. O inspetor notou um tipo de mesa de toilette coberta por instrumentos, frascos e tudo o mais que era usado normalménte nos institutos de beleza. Baley imaginou um robô (ou robôs?) cuidando do cabelo e da cútis da mulher que vivia naquela casa. Não compreendia nem aprendia a utilidade da maioria daqueles instrumentos e dispositivos, e o seu olhar curioso vagueou pelo estranho banheiro. Este encontrava-se artisticamente decorado, o desenho e as cores das paredes mudando constante e incessantemente num movimento de luz e cor, quase hipnótico, que monopolizou toda a atenção de Baley. Este não notou a presença de qualquer ser humano e continuou observando a estranha imagem, olhando agora para o solo e para a linha de demarcação que indicava o fim da sala onde se encontrava e o começo do banheiro de Gladia Delmarre.

            Baley deu alguns passos em frente e, depois de leve hesitação, tocou com a mão naquela imaginária barreira.

            O inspetor não sentiu coisa alguma, tal e qual como teria sucedido se tocasse numa das rudimentares imagens tridimensionais da Terra. Aqui, entretanto, a sua mão desaparecera ao passar a barreira enquanto que, na Terra, sua mão continuaria visível e teria ido sobrepôr-se à outra imagem. Sua mão, agora, deixara de existir, visualmente, dando a impressão de que fora decepada.

            O que sucederia, então, se ele passasse todo para o outro lado daquela barreira? Talvez sua visão se tornasse inoperante... talvez se encontrasse num mundo de uma escuridão completa. A idéia de uma tal sensação de obscuridade e encerramento agradava-lhe imenso.

            Uma voz interrompeu-o, subitamente. Baley levantou o olhar e deu alguns passos para trás.

            Fora Gladia Delmarre que falara, ou assim o pensava Baley. A mulher encontrava-se dentro de um banheiro, sem paredes físicas e materiais, que a escondia por meio de luzes opacas que serviam de paredes. A parte superior dessas paredes protetoras desaparecera e revelara a cabeça de Gladia Delmarre aos olhos surpresos de Baley.

            A viúva sorrira-lhe, falando com uma voz agradável e atraente.

            - Bom dia, peço-lhe mil desculpas por fazê-lo esperar tanto tempo. Estou terminado de me enxugar.

            Gladia Delmarre tinha um rosto triangular, os ossos faciais bastante proeminentes, lábios carnudos e um queixo quase não existente. Baley calculou que Gladia tinha um metro e cinqüenta e cinco de altura, o que não era típico nas mulheres Espaciais. Ou, pelo menos, assim o considerava. As mulheres Espaciais eram, pensava-se, de elevada estatura e fisicamente perfeitas. Os cabelos de Gladia, por exemplo, não possuíam aquele tom bronzeado que Baley se habituara a julgar característico das Espaciais. O cabelo de Gladia era bastante comprido, aloirado, e, de momento, flutuava suavemente no ar - o que era causado, pensava Baley, por um jato de ar quente. A imagem, no seu conjunto, era muito agradável aos olhos de Elijah Baley.

            - Se deseja que interrompamos o contato - propôs Baley - e aguardemos até que acabe de se arranjar...

            - Não vale a pena - respondeu Gladia Delmarre, não parecendo ter notado seu embaraço. - Estou quase pronta e, entretanto, podemos ir falando. Hannis Gruer informou-me de que desejava ver-me. Já sei que é um habitante do Planeta Terra... - O olhar de Gladia fixara-se no rosto de Baley, estudando-o atentamente e como que banhando-se nele;

           Baley assentiu com um menear de cabeça e sentou-se. - O meu companheiro é do Planeta Aurora.

            Gladia sorriu e continuou olhando para Baley, como se este fosse, dos dois, o único digno de sua atenção e curiosidade.

            A bela viúva levantou os braços, passando as mãos pelo cabelo a fim de soltar ainda mais, e obrígá-lo a secar mais rapidamente. Seus braços eram esbeltos e frágeis, pensou Baley, e não havia dúvida de que Gladia era uma mulher interessante.

            O seu próximo pensamento foi para Iessíe, sentindo-se ligeiramente atrapalhado ante a idéia de que sua mulher não gostaria que ele examinasse tão atentamente uma mulher tão bela como Gladia.

            A voz de Daneel interrompeu brusca e inesperadamente os pensamentos de Baley.

            - Seria possível, Sra. Delmarre, polarizar ou fechar essa janela que vejo aberta? A luz do dia incomoda imenso o meu companheiro. Na Terra, como deve ter ouvido dizer...

            Gladia Delmarre soltou uma exclamação, como se se repreendesse pelo esquecimento.

            - Sim... sim... sei muito bem. O meu esquecimento é imperdoável e ridículo!

            Desculpe-me... já vamos sanar o mal. Vou chamar um robô.

            Gladia saiu do banheiro, com a mão estendida para o painel onde se encontravam os botões de chamada dos robôs. sem parar de falar.

            - Sempre pensei que deveria haver mais de um painel no banheiro! Não sei viver numa casa onde não haja um painel à mão... O que é? O que se passa?

            Gladia Delmarre olhava, muito surpresa, para Elijah Baley que se levantara subitamente, muito corado, e voltara-se de costas para ela.

            Daneel respondeu, muito calmamente, à pergunta da viúva. - Seria mais indicado, Sra. Delmarre, se, depois de chamar o robô, voltasse para o banheiro e vestisse algumas roupas.

            Gladia baixou o olhar para a sua nudez, surpreendida e sem compreender a atitude de Baley, e falou suavemente.

            - Está bem... Farei o que me pede.

 

O CRIME É INVESTIGADO

            - Só viu a minha imagem... não era eu, em pessoa - explicou Gladia, consternada e ligeiramente embaraçada, tendo agora o corpo coberto por qualquer espécie de tecido que, entretanto, lhe deixava a descoberto os braços e os ombros - assim como uma das pernas. Baley já recobrara a presença de espírito e sentia-se envergonhado pela sua ridícula reação.

            - Foi a surpresa, Sra. Delmarre - disse ele, tentando não olhar para a perna que se encontrava a descoberto.

            - Eu é que lhe peço desculpa! Pode chamar-me Gladia, se quiser e se.. . isso não for contra os seus costumes.

            - Está bem, então, Gladia. Quero assegurar-lhe que minha atitude não foi motivada por qualquer instinto, porém apenas pela surpresa! - Já bastava ter desempenhado uma figura ridícula, pensou Baley, e agora só faltava que ela pensasse que ele considerava sua figura desagradável! A verdade era que até a julgara muito agradável à vista e que considerava Gladia uma mulher muito bonita e interessante. Baley calculou que ela teria uns vinte e cinco anos, porém a idade, nos Espaciais, era difícil ,de calcular. O que ele sabia, também, era que seria incapaz de contar esta ocorrência à sua mulher, Jessie! "

            - Sei que o ofendi - disse Gladia - porém foi sem querer. Nem sequer pensei no que fazia. Compreendo perfeitamente que devemos respeitar os costumes dos outros planetas, mas, às vezes, esses costumes são tão estranhos! É difícil tê-los presente. a todo o instante, e foi por isso, também, que me esqueci de mandar fechar as janelas.

            - Não teve a menor importância - repetiu Elijah Baley, ansioso por dar início à investigações. Gladia encontrava-se agora numa outra divisão - tendo esta todas as janelas fechadas e polarizadas, o que permitia o uso da mais agradável e confortável luz artificial.

            - No que diz respeito àquela minha indiscrição - continuou Gladia, ansiosa por se justificar -, o que viu não passava de uma imagem, sabe? A verdade é que não se importou de falar comigo enquanto eu estava no chuveiro e, nessa altura, eu também estava completamente nua.

            - Bem... - disse Baley, ansioso porque ela mudasse de conversa. - Ouvi-la e falar com você é uma coisa... e vê-la é outra coisa muito diferente!

            - É justamente isso que eu queria dizer-lhe. Não me viu... não me viu em pessoa. - Gladia baixou o olhar, corando ligeiramente. - Espero que não pense que eu seria capaz de fazer uma coisa dessa natureza. Quero dizer. .. não seria capaz de sair assim do chuveiro se alguém me estivesse vendo. Ver a minha pessoa e ver a minha imagem pela televisão são coisas absolutamente diferentes!

            - Não vejo diferença! - respondeu Baley.

            - Não? Por exemplo... neste momento está vendo minha imagem pela

            televisão. Não me pode tocar, não é? Não me pode sentir, cheirar ou qualquer coisa desse tipo, não é verdade? Se me estivesse vendo, a sério, poderia fazer tudo isso. Agora, contudo, encontra-se a mais de trezentos quilômetros de distância desta casa. Como pode, então, dizer que não vê diferença?

            A explicação de Gladia Delmarre interessou grandemente Baley.

            - Porém estou vendo-a com os meus olhos!

            - Isso é que não está. Está vendo é a minha imagem... apenas a minha imagem!

            - E é essa a grande diferença?

            - Uma diferença enorme!

            - Muito bem. - Baley sentia que, na realidade, havia uma diferença entre as duas formas de ver. A diferença não era fácil de apreender, porém, não havia dúvida de que continha uma certa lógica..

            Gladia ainda não estava segura de ter convencido Baley. - Compreende a diferença? Já percebeu que existem duas formas de ver?

            - Já, sim.

           - Quer dizer que não se importaria se eu me desnudasse - perguntou ela, sorrindo maliciosamente.

            Baley pensou que Gladia estivesse provocando-o e que devia responder-lhe na mesmo moeda, mas, como a sua missão era mais importante do que tudo o resto, viu-se obrigado a responder-lhe muito seriamente.

            - Não, Gladia, não o faça. A sua nudez não me deixaria concentrar no meu trabalho. Discutiremos esse assunto, se quiser, num futuro próximo.

            - E diga-me, a sério, prefere que eu vista algumas roupas mais formais?

            - Tanto se me dá... também falando sério.

            - Posso tratá-lo pelo seu primeiro nome?

            - Se assim o desejar.

            - E qual é o seu primeiro nome?

            - Elijah.

            - Esplêndido. - Gladia sentou-se numa confortável poltrona que,

            aparentemente, tinha a consistência de metal ou cerâmica, mas que, quando Gladia se sentou, adaptou-se às suas formas.

            - Falemos, então, do que me trouxe à sua presença... em imagem - disse Baley, sorrindo amigavelmente.

            - Vamos lá! - respondeu Gladia.

            Baley achava tudo aquilo muito difícil. Não sabia sequer como havia de começar. Na Terra, a rotina seria diferente, bastar-lhe-ia começar por perguntar o nome, a profissão, residência, uma infinidade de perguntas burocráticas cujas respostas o ajudariam a formar uma opinião muito geral sobre a pessoa interrogada. Essas perguntas, mesmo que ele conhecesse as respostas de antemão, serviriam para entabular a conversa. Mas aqui?.. Tudo era diferente...

            o mero verbo ver significava coisas diferentes para ele e para aquela mulher.

            Quantas outras palavras teriam significado diferente neste estranho planeta?

            Quantas vezes teria de analisar uma resposta antes de compreender o seu verdadeiro significado?

            - Quanto tempo esteve casada, Gladia? - perguntou Baley, enfim, pensando que esta era uma forma como qualquer outra de começar o interrogatório.

            - Dez anos, Elijah.

            - Que idade tem?

            - Trinta e três anos.

            Baley verificou que, como já esperava, enganara-se sobre a sua idade.

            - Era feliz no casamento?

            Gladia ficara incomodada com a natureza da pergunta. - Que quer dizer com isso?

            - Bem... - Baley não sabia como explicá-la Como poderia ele definir a felicidade, no casamento? E o que seria um casamento feliz, para um Solariano?

            - Pois bem - disse ele, depois de pensar durante alguns instantes - via muito o seu marido, em pessoa?

            - Certamente que não! Não somos animais, sabe? Elijah Baley, inspetor da Polícia da Cidade de Nova York, ficou desconcertado com a veemência daquela resposta.

            - Viviam na mesma casa... não é verdade?

            - Pois claro que vivíamos! Nesta casa!. ,. Éramos casados, porém eu tenho a minha ala privativa e ele tinha a dele O meu marido tinha uma importante carreira que lhe ocupava uma grande parte do tempo e eu trabalho durante quase todo o dia. Só nos víamos pela televisão, às vezes, quando era necessário.

            - Mas, outras vezes, também se viam... em pessoa... ou isso não sucedia?

            - Sucedia... mas não é um assunto que deva ser discutido!

            - Tem alguns filhos, Gladia?

            Gladia levantou-se, num sobressalto, sendo evidente que ficara muito chocada com a pergunta.

            - Isso já passa das medidas! De todas as coisas indecentes que...

            - Um momento! - interrompeu Baley. - Espere um momento! - Elijah Baley dera uma pancada no braço da cadeira e conseguira, devido ao brusco gesto, fazer calar a viúva. - Não seja tão difícil! Estamos investigando um crime de morte! Comprende? Um assassínio! E, lembre-se, o seu marido foi assassinado.

            Quer que eu descubra quem foi o assassino, ou não?

            - Limite-se a fazer perguntas sobre o crime, não sobre... sobre...

            - Devo fazer toda a espécie de perguntas, Gladia. E. para já, gostaria que me dissesse se sofreu muito com a morte do seu marido - perguntou Baley, acrescentando com uma certa brutalidade: - Não me parece que o fato a tenha afetado muito.

            Gladia Delmarre olhou arrogantemente para o inspetor. - Tenho sempre pena quando alguém morre, especialmente se esse alguém é novo e muito útil.

            - O fato da vítima ser o seu marido não lhe causou, então, um maior sofrimento do que se fosse um estranho?

            - O meu marido foi destacado para ser meu marido, víamo-nos, em pessoa, sempre que isso nos era recomendado e... e... se quer saber... não tivemos filhos, por isso não nos ter sido ordenado. Não vejo o que isto tudo tenha a ver com o fato de sofrer devido à morte de uma pessoa.

            Era possível, sim, que tudo aquilo não tivesse a menor relação com o fato, pensou Baley. Todas aquelas considerações dependiam dos fatores sociais da vida no Planeta Solaria. os quais ele não conhecia suficientemente bem.

            Baley mudou de assunto.

            - Disseram-me que você tem conhecimentos diretos e pessoais das circunstâncias do crime.

            Gladia hesitou.

            - Eu... eu... descobri o corpo... se é a isso que se refere.

            - Não assitiu, então, ao assassínio do seu marido?

            - Não ... não! - exclamou Gladia, desta vez verdadeiramente emocionada, talvez por recordar a cena do crime e o cadáver.

            - Conte-me o que se passou. Não se precipite e conte-me todos os pormenores - recomendou Baley, sentando-se para trás e preparando-se para ouvir o relato.

            - Eram dois terços do quinto...

            - Diga-me antes que horas eram no Tempo Médio da Galáxia - interrompeu Baley rapidamente, visto que ainda não se habituara à complicada hora local.

            - Não sei bem... não sei de todo! Poderá verificar isso, depois...

            - Está bem - respondeu Baley.

            - O meu marido veio visitar-me, nos meus aposentos, continuou Gladia, com a voz ligeiramente trêmula e os seus olhos indicando uma certa preocupação. - Era o dia recomendado para nos vermos em pessoa e eu já sabia que ele viria ver- me.

            - E ele nunca faltava nos dias recomendados?

            - Nunca. O meu marido era um homem muito consciencioso, um bom

            Solariano. Nunca faltava nos dias recomendados e vinha sempre à mesma hora.

            Não ficava muito tempo, mas... - Gladia não conseguiu terminar a frase e Baley fez-lhe um sinal indicando que compreendia sua relutância em fazê-lo.

            - Falamos pouco, o que sucedia quase sempre, visto que estes encontros em pessoa representam um verdadeiro sacrifício - continuou Gladia, agora mais à vontade. - O meu marido procurava sempre falar-me e tratar-me com a máxima das delicadezas, nestas ocasiões, talvez, penso eu, para compensar esse grande sacrifício. Ele era sempre assim, muito delicado e compreensivo. Ficou pouco tempo, dessa vez, e, depois, foi trabalhar num projeto qualquer que lhe tomava a maior parte do tempo. Não sei bem o que era, mas era importante. .. isso eu sei. Tinha um laboratório na minha ala, para que lá pudesse trabalhar nos dias em que me devia ver em pessoa. O laboratório que tinha, na sua ala, é muito maior, como não podia deixar de ser!

            Baley gostaria imenso de saber o que Delmarre fazia nesses laboratórios.

            Fetologia, talvez, fosse o que isso fosse!

            - E, nesse dia, o seu marido pareceu-lhe normal? Ou estaria preocupado com qualquer coisa?

            - Não. Ele nunca estava preocupado. Era muito calmo e senhor de si, como o seu companheiro - disse Gladia, apontando para o silencioso e imóvel Daneel.

            - Compreendo. Continue, então.

            Gladia não continuou a narração, murmurando quase num. sussurro.

            - Importa-se se eu tomar uma bebida?

            - Não me importo.... que idéia!

            Os dedos de Gladia apertaram um botão escondido no braço da poltrona. O efeito do gesto foi rápido. Um robô apareceu, apenas um minuto depois, com um copo cheio de uma bebida fumegante. Baley notou o vapor e ficou perplexo sobre a natureza daquela bebida. Gladia bebeu-a lentamente, pousando depois o copo e voltando-se de novo para Baley.

            - Já me sinto melhor! Permite-me que lhe faça uma pergunta muito pessoal?

            - Pode perguntar o que quiser... embora eu ainda não saiba se estarei disposto a responder-lhe - replicou Baley, com um sorriso amigável estampado no rosto.

            - Pois bem... tenho lido muita coisa sobre a Terra.

            Sempre me interessei pelo seu planeta! um mundo tão estranho!... - Gladia soltou uma exclamação e tentou corrigir-se. - Eu não queria dizer estranho... no mau sentido.

            Baley franziu o sobrolho.

            - Todos os mundos são estranhos para quem não viva neles.

            - O que eu queria dizer era que é muito diferente do nosso. Já sabe isso, com certeza. De todas as formas, seja como for, quero fazer-lhe uma pergunta muito malcriada. Espero. contudo, que não seja tão malcriada para um Terrestre como seria para um Espacial. Trata-se de uma pergunta que eu nunca faria a um Solariano. Nunca. Fosse por que razão fosse! Nunca!

            - Que pergunta é essa, Gladia?

            - Queria perguntar-lhe sobre... sobre... você e o seu companheiro, o sr.

            Olivaw. - Sim?

            - Não estão se vendo por televisão, não é?

            - Não.

            - Então aí ambos, em pessoa? Estão se vendo...vendo... de verdade?!

            - Estamos juntos fisicamente, sim - respondeu Baley.

            - Podiam tocar-se, caso o quisessem fazer, não é verdade?

            - Naturalmente.

            Gladia moveu-se nervosamente na poltrona e soltou uma exclamação de espanto, que tanto podia significar repugnância como uma crítica.

            Baley chegou a pensar em levantar-se e ir tocar no rosto de Daneel. Talvez fosse interessante observar a reação de Gladia.

            - Estava falando-nos sobre o que se passou no dia em que seu marido foi assassinado - lembrou Baley, com a certeza de que a bebida e a pergunta que ela formulara não eram mais do que pretextos para demorar o relato que teria de continuar a fazer.

            - Não tenho muito para contar - disse Gladia. - Eu sabia que meu marido tinha coisas a fazer no laboratório, já que estava sempre ocupado com este ou aquele projeto, e, por isso, também me entreguei ao meu trabalho. Depois, talvez uns quinze minutos mais tarde, ouvi um grito.

            Gladia fez uma pausa e Baley aproveitou para lhe fazer uma pergunta.

            - Que espécie de grito?

            - Foi um grito de Rikaine, do meu marido. Foi apenas um grito... sem qualquer palavra. Um grito assustado... talvez mais de surpresa do que de susto. Não sei bem. Foi a primeira vez que o ouvi gritar.

            Gladia levou as mãos à cabeça, como para afastar da memória aquele grito, e o tecido que a cobria deslizou-lhe lentamente pelo torso até lhe cair no colo.

            Gladia parecera não ter reparado no que acontecera e Baley baixou o olhar para o seu livro de apontamentos.

            - E o que fez. então?

            - Fui correndo ter com ele. Corri e corri... não sabendo bem onde ele se encontrava.

            - Pensei que sabia que ele se encontrava no laboratório da sua ala da casa.

            Gladia.

            - Pois sabia... mas não fazia a menor idéia do local onde se encontrava o laboratório. Não me foi possível encontrá-lo. Nunca fora lá. O laboratório era só dele. É verdade que eu tinha uma idéia muito vaga de sua localização. .. sabia que ficava a oeste e nem sequer, na precipitação, me lembrei de chamar um robô para me indicar o caminho. Os robôs poderiam ter-me levado muito facilmente. mas claro nunca aparecem quando não são chamados. Enfim, quando encontrei o caminho e lá cheguei... encontrei o meu marido... morto!

            Gladia parou de falar abruptamente e, com grande admiração da parte de Baley, curvou a cabeça e começou a chorar. A viúva de Rikaine Delmarre não fez a menor tentativa para esconder o rosto, limitando-se a cerrar os olhos e a deixar as lágrimas escorrerem rosto abaixo. O choro era silencioso e o único indício do seu estado de nervos, além do choro e das lágrimas, era um ligeiro tremer dos seus ombros nus.

            - Eu jamais vira um homem morto antes daquele momento - murmurou

            Gladia, olhando para Baley através dos seus olhos cheios de lágrimas. - Estava cheio de sangue... e tinha a cabeça toda... enfim... consegui dominar-me e chamar um robô... este chamou outros... e suponho que se encarregaram de mim e de Rikaine. Não me lembro do que se passou depois... não me ...

            - O que quis dizer com os robôs se terem encarregado do seu marido?

            - Penso que o levaram dali e o lavaram... não sei bem.

            - E que fizeram eles com o corpo?

            Gladia abanou a cabeça.

            - Não sei. Cremaram-no, com certeza, como sempre fazem com os mortos.

            - E, então, não chamou a polícia?

            Gladia olhou para ele como se não o tivesse compreendido e Baley recordou- se imediatamente de que não havia polícia em Solaria.

            - Participou o crime a qualquer pessoa, não é verdade?

            O fato tornou-se conhecido e depreendo que alguém tenha sido informado.

            - Os robôs chamaram um médico - explicou Gladia - e eu informei os robôs de serviço no outro laboratório de Rikaine.

            - O médico era para você, não é assim?

            Gladia assentiu, parecendo só então notar que o tecido que a cobria caíra e que ficara com o busto nu.

            - Peço-lhe imensa desculpa - disse ela, cobrindo-se novamente. - Desculpe- me, sim?

            Baley sentia-se pouco à vontade, observando-a ali sentada, trêmula e triste, o seu rosto manifestando o terror que a memória acabara de lhe trazer.

            A pobre viúva jamais vira um homem morto! Nunca vira sangue. E, mesmo que as relações entre marido e mulher não fossem muito calorosas em Solaria, a verdade era que Gladia enfrentara o corpo de um homem assassinado de maneira brutal.

            Baley não sabia o que havia de fazer ou dizer. Sentia o impulso de pedir desculpas a Gladia por tê-la forçado a recordar aquela imagem, mas, como Policial que era, apenas estava cumprindo o seu dever. A polícia, contudo, não existia neste mundo e Baley tinha suas dúvidas sobre o fato de Gladia compreender que ele estivesse cumprindo com a sua obrigação. Pausada, e tão gentilmente quanto podia, Baley perguntou-lhe:

            - Gladia... diga-me: ouviu algum ruído, além do grito? A viúva levantou o olhar, notando Baley que o estado em que ela se encontrava não a tornara menos bela, e respondeu laconicamente à pergunta do inspetor.

            - Não.

            - Não ouviu ruído de passos? Vozes?

            Gladia abanou a cabeça num gesto negativo. - Não ouviu coisa alguma!

            - E, quando encontrou o seu marido, ele estava completamente só? - Estava.

            - Não notou quaisquer sinais que indicassem a presença de alguém, antes de lá ter chegado?

            - Nada que eu tivesse notado. Não vejo quem lá pudesse ter estado.

            - Que razões tem para dizer isso?

            Gladia aparentou ter ficado chocada com a pergunta, mas recompôs-se depressa.

            - Esqueço-me sempre de que é um habitante da Terra, Elijah. Eu queria dizer que não havia a menor possibilidade de alguém se encontrar no laboratório onde o meu marido foi assassinado. Rikaine nunca via, em pessoa, qualquer outra pessoa além de mim... desde os seus tempos de criança! O meu marido era muito formal e severo nos seus hábitos; pode ter a certeza de que não era o tipo de homem que tolerasse a presença física de outros!

            - Talvez não lhe tivesse sido dado a escolher... talvez fosse surpreendido por alguém que lhe aparecesse inesperadamente sem ser convidado. Nesse caso, e apesar dos seus hábitos, não poderia ter impedido o fato de ver, em pessoa, esse alguém.

            - Isso podia suceder, não há dúvida, mas Rikaine teria logo chamado os robôs para que expulsassem o intruso! - exclamou Gladia, indignada com aquela possibilidade. - Não creio que haja uma pessoa em todo o planeta que se atravesse a visitar o meu marido sem ser convidado. A idéia é ridícula e Rikaine nunca convidaria fosse quem fosse para o vir ver. Impossível!

            - O seu marido foi assassinado - redargüiu Baley, falando suavemente e fixando o olhar no rosto de Gladia - com uma pancada na cabeça, não foi? Não pode negar esse fato, não é verdade?

            - Tem razão... quando o encontrei tinha a cabeça toda...

            - Não lhe pedi que me contasse os pormenores, neste momento. Teria visto, por acaso, algum dispositivo mecânico no laboratório que pudesse ter despedaçado o crânio do seu marido, por comando à distância?

            - Não... não vi coisa alguma que o pudesse ter feito.

            - Estou certo de que teria notado um tal mecanismo, se, na realidade houvesse um no laboratório. A lógica diz-me. por conseguinte, que foi a mão do assassino que segurou no pesado objeto e que fraturou o crânio de Rikaine Delmarre. Esse assassino não podia ter-se encontrado a mais de um metro do seu marido, para fazê-lo... e isso prova que alguém se encontrava com ele.

            - Ninguém o poderia ter feito. Não existe um único Solariano que o viesse visitar sem ser convidado, e, mesmo convidado...

            - Um Solariano disposto a cometer um crime de morte não hesitaria em visitar a sua vítima, em pessoa...

            Gladia meneou a cabeça negativamente.

            - Não compreende o que se passa em Solaria no que diz respeito a ver alguém. em pessoa, não é? Não compreende... os habitantes da Terra vêem-se todos os dias, a todo o momento... e é por isso que não pode compreender.

            Gladia parecia agora presa de uma estranha e mórbida curiosidade.

            - Ver alguém, em pessoa, é perfeitamente normal para você. não é verdade?

            - Nunca pensei que fosse anormal para outros!

            - O fato de ver pessoas não o incomoda. não é?

            - Seria ridículo.....

            - Queria fazer-lhe outra pergunta. .. os filmes sobre a Terra não me informaram a esse respeito... posso perguntar-lhe?

            Pergunte o que quiser - respondeu Baley calmamente. Já lhe nomearam uma mulher, Elijah?

            Sou casado... mas nada sei sobre isso de nomear.

            E calculo que vê sua mulher quando quer e que ela o vê quando lhe apetece, e que ambos consideram isso como sendo muito natural...

            Baley assentiu com um gesto afirmativo da cabeça.

            - Pois bem... quando a vê... suponha que quer... _ Gladia tapou a cara com as mãos, parecendo muito embaraçada e procurando palavras para dizer o que tinha em mente. - Podem... quando lhes apetece... - Gladia não terminou a frase, não conseguindo arrumar as palavras coerentemente.

            Baley manteve-se silencioso, não ajudando Gladia a formular a pergunta.

            - Bem... não tem importância. Nem sei o que me levou a querer perguntar- lho! Espero que não tenha mais perguntas a fazer-me. Estou cansada ... - Gladia parecia estar muito emocionada, prestes mesmo a recomeçar a chorar.

            - Tente mais uma vez - disse Baley. - Pense bem. Esqueça-se do fato de que, normalmente, ninguém visitaria o seu marido. Suponha que alguém se encontrava com ele. Quem poderia ser esse alguém?

            - Como poderei eu adivinhar uma coisa dessas? Não vejo quem pudesse ser.

            - Foi alguém, com certeza. O agente Gruer diz que existe uma pessoa suspeita. Já vê que foi alguém...

            Gladia sorriu ligeiramente.

            - Sei muito bem quem é esse suspeito.

            - Quem? -

            - Eu - respondeu Gladia, levando a mão ao peito e baixando o olhar.

 

UMA TEORIA É REFUTADA

            - A minha opimao, amigo Elijah - disse Daneel, falando subitamente - é que essa seria a conclusão mais lógica.

            Baley olhou para o robô, surpreendido pela interrupção. - Por que lógica?

            - A Sra, Delmarre, segundo ela própria confessa, é a única pessoa que via o Sr. Delmarre. A situação social em Solaria é tal que ela nem sequer poderia acusar qualquer outra pessoa de ter assassinado o marido. O agente Gruer consideraria razoável, mesmo obrigatório, acreditar no fato de que um Solariano só seria visto, em pessoa, pela sua própria mulher. Como só existe uma pessoa capaz de se aproximar dele, só uma pessoa, por conseguinte, é que poderia ter desfechado a pancada que o matou. O agente Gruer foi bem explícito ao dizer que só existia um suspeito que poderia ter cometido o assassínio. Qualquer outra pessoa seria considerado impossível e...

            - O agente Gruer também disse - interrompeu Baley - que essa única pessoa não poderia tê-lo feito.

            - Talvez por não terem encontrado, no local do crime, o objeto que foi a arma do assassino. É possível que a própria Sra. Delmarre possa explicar a anomalia apresentada. pelo agente Gruer.

            Daneel apontou para Gladia, com aquela sua delicadeza robótica, e Baley recordou-se subitamente de que a viúva ainda se encontrava presente, o olhar fixo sobre as mãos que se contorciam nervosamente.

            Talvez tivesse sido a irritação que o fizera esquecer a presença televisada de Gladia. Essa irritação fora provocada por Daneel, com a sua fria forma de analisar problemas, ou talvez mesmo fora causada por si próprio, com a sua atitude demasiadamente emotiva, porém Baley não se deteve para analisar bem o assunto.

            - Encerrado, por hoje, Gladia - disse Baley. - Pode interromper o contato.

            Voltarei a entrevistá-la quando se fizer necessário. Adeus, Gladia.

            - É costume dizer-se "televista terminada" - disse Gladia, suave e quase humildemente - porém eu prefiro "adeus". Parece estar preocupado, Elijah. Não há razão para se preocupar por minha causa... já estou habituada a que pensem que fui eu quem matou Rikaine.

            - E matou-o, Gladia?

            - Não - respondeu ela, brusca e iradamente.

            - Então, adeus.

            Gladia desapareceu no mesmo instante, o seu rosto ainda manifestando bem a ira que a pergunta de Baley lhe causara. Também nesse mesmo instante, apesar dessa ira, Baley sentiu-se estranhamente dominado pela beleza daqueles extraordinários olhos cinzentos.

            Era verdade que ela dissera estar habituada a que a considerassem uma assassina, todavia isso era certamente uma mentira. Aquela súbita ira falava mais verdade do que suas palavras. Baley gostaria muito de saber de quantas mais mentiras seria ela capaz.

            Baley encontrou-se só com Daneel.

            - Agora que estamos a sós, Daneel, quero dizer-lhe que não sou um idiota!

            - Sei muito bem que não o é, amigo Elijah.

            - Então, diga-me o que o levou a dizer que o instrumento do crime não foi encontrado no laboratório. Ainda não havia evidência, nada que eu tivesse ouvido dizer, que nos pudesse levar a essa conclusão.

            - Tem razão. Estou ao corrente de algumas informações que ainda não conhece, amigo Elijah.

            - Já calculava isso mesmo. Que espécie de informações?

            - O agente Gruer prometeu-nos que enviaria uma cópia do relatório sobre as investigações feitas até agora. O relatório chegou esta manhã e tenho-o aqui comigo.

            - Devia ter-mo mostrado imediatamente.

            Pareceu-me mais indicado, e mais produtivo, que conduzisse sua investigação, pelo menos no início, de acordo com suas próprias idéias, sem ser influenciado pelas conclusões de outras pessoas que, segundo elas próprias confessam, não chegaram a nenhuma conclusão satisfatória. Foi mesmo devido ao fato de eu recear que os meus processos lógicos pudessem ser influenciados por essas conclusões que em nada contribuíram para a discussão.

            Processos lógicos! Baley recordou o fragmento de uma conversa que tivera, há anos, com um "roboticista" de grande valor. Os robôs, dissera o especialista, são lógicos porém não razoáveis.

           - Entrou na discussão na sua fase final, Daneel. - É verdade, amigo Elijah, mas apenas por possuir, nessa altura, prova suficiente e independente para confirmar as suspeitas do agente Gruer.

            - Que espécie de prova independente?

            - A evidência que poderia ser deduzida do comportamento da Sra. Delmarre.

            - Seja mais concludente, Daneel.

            - Se essa senhora fosse culpada e tentasse provar sua inocência, como seria natural, seria muito conveniente, para ela, se conseguisse convencer o inspetor encarregado do caso de sua inocência.

            - E então?

            - Se ela pudesse convencer o inspetor, usando qualquer ponto fraco desse inspetor e tornando-o, de certo modo confuso. não hesitaria em fazê-lo, não acha?

            - Trata-se apenas de uma hipótese e nada mais.

            - Engana-se - foi a calma resposta do robô. - Deve ter reparado, com certeza, que a Sra, Delmarre concentrou toda a atenção em você, amigo Eliiah, - É natural. Era eu que estava falando - respondeu Baley, sem. compreender até onde Daneel queria chegar.

            - Gladia Delmarre concentrou-se em você, amigo Elijah, desde o primeiro momento... mesmo antes de saber que todas as perguntas seriam formuladas por você! Seria muito natural nós pensarmos que ela esperasse, muito logicamente, que eu, sendo um Auroriano, conduzisse a investigação. Mas, apesar disso, foi em você que ela se concentrou desde o primeiro instante.

            - E, então. esse fato levou-o a deduzir algo de interessante, Daneel?

            - Deduzi que depositava em você todas as esperanças de se salvar... por ser um Terrestre, amigo Elijah.

            - Não compreendo.

            - Gladia Delmarre já confessou que estudou os costumes da Terra. Falou nisso mais de uma vez. Sabia muito bem ao que eu me referia quando lhe pedi para mandar fechar as janelas. Aceitou o meu pedido como sendo natural e não ficou surpresa, o que teria sucedido se não conhecesse as condições de vida na Terra.

            - E então?

            - Uma vez que sabemos ter ela estudado os hábitos da Terra, é bastante razoável supor que também conhecia uma das fraquezas dos habitantes da Terra. A Sra. Delmarre conhece também, com certeza, o tabu da nudez e o efeito que sua exibição produz em qualquer Terrestre.

            - Gladia explicou a diferença entre ver e telever...

            - Explicou... mas, amigo Elijah, não lhe parece que a explicação foi pouco convincente? Deixou-se ver duas vezes, no estado de nudez... que, para você, é completamente impróprio e... perturbador.

            - Deduziu, então - disse Baley - que ela está tentando seduzir-me, não é verdade?

            - Quer seduzi-lo, estou convencido. a fim de lhe fazer esquecer a sua impersonalidade ou integridade profissional. Foi esse fato que deduzi durante todo o interrogatório. Embora não me seja possível compartilhar as reações humanas a esse estímulo, parece-me que, pelo que me foi inserido nos meus circuitos instrutivos. essa senhora tem todas as qualidades físicas para se tornar agradável à vista... ou televista - acrescentou Daneel, tão ironicamente quanto a sua condição de robô lhe permitia. - Devo dizer que a sua reação a essas qualidades físicas, amigo Elijah, veio confirmar a opinião que eu já formara antes. Devo também frisar que me parece que a Sra. Delmarre mostrou ter toda a razão ao pensar que o seu comportamento o impressionaria e o predisporia a seu favor, amigo Elijah.

            - Ouça-me com atenção, Daneel- disse Baley, evidentemente embaraçado com as palavras do robô. - Apesar do efeito que ela me causou, ou da realidade das suas qualidades físicas, ainda sou o mesmo agente da lei perfeitamente consciente dos meus deveres e da minha ética profissional. Não tenha a menor dúvida disso, Daneel. E, agora, vejamos esse famoso relatório.

            Baley manteve-se num silêncio absoluto enquanto lia o relatório e ao terminar, voltou a lê-lo tão atentamente como da primeira vez.

            - Temos aqui um novo elemento - disse ele, ao pousar o relatório. - O robô Daneel Olivaw assentiu com um rápido gesto da cabeça. - Gladia não mencionou este robô - comentou pensativamente o inspetor.

            - A sua pergunta, sobre esse ponto, não foi bem formulada. Perguntou-lhe se o Sr. Delmarre estava só quando ela o encontrou... perguntou-lhe se havia mais alguém presente na cena do crime. Um robô não é "alguém".

            Baley concordou com as palavras de Daneel. Se ele próprio fosse interrogado e lhe perguntassem se havia mais alguém presente na cena do crime, não iria, com certeza, dizer que não havia mais ninguém presente, a não ser, por exemplo, esta mesa. Para os Solarianos, naturalmente, os robôs não passavam de objetos funcionais como cadeiras ou mesas.

            - Suponho que lhe devia ter perguntado se havia algum robô presente - disse Baley, pensando que era muito difícil decidir como formular algumas perguntas neste estranho mundo. - Quão legal é a evidência robôtica neste planeta, Daneel?

            - Não compreendo a pergunta, amigo Elijah.

            - Poderá um robô servir de testemunha, em Solaria? Poderá dar evidência?

            - Não vejo o que o faz duvidar disso!

            - Um robô não é um ser humano, Daneel. Na Terra, nos tribunais terrestres, não pode ser uma testemunha legal. - Mas, apesar disso, a fotografia de uma pegada no solo tem valor legal, amigo Elijah, embora seja muito menos humana do que um robô. A atitude do seu planeta a este respeito é ilógica, amigo Elijah.

            Em Solaria, a evidência robôtica, quando competente, é admissível e legal.

            Baley não arguiu o exemplo apresentado por Daneel, nem o ressentimento motivado pelos costumes robóticos da Terra, e procurou analisar a informação que colhera no relatório de Gruer.

            Gladia Delmarre, aterrorizada ante a presença do corpo do marido, convocara os robôs domésticos da casa. Quando estes chegaram, seguramente minutos depois, encontraram Gladia quase inconsciente. Os robôs relataram ter encontrado Gladia Delmarre e o cadáver de Rikaine Delmarre no laboratório.

            Encontraram também uma outra coisa: um robô. Esse robô não havia sido convocado por ela... já se encontrando no laboratório quando Gladia lá chegara.

            Não se tratava de um dos robôs da casa. Nenhum dos outros robôs o conhecia de vista ou sabia qual era a sua função ou que missão ali o levara. Nada fora descoberto por intermédio desse robô. Não se encontrava no uso completo de suas faculdades e, quando foi encontrado, os seus movimentos aparentavam ser absolutamente desorganizados - o mesmo sucedendo com seu cérebro

            positrônico. O robô não soubera responder a quaisquer perguntas, não sendo verbal ou mecanicamente capaz de fazê-lo.

            A única atividade que revelava qualquer indicação de organização, nesse robô.

            era a sua constante repetição das palavras:

            - Vai me matar... vai me matar... - e, depois de ser examinado

            cuidadosamente pelos especialistas robôticos, foi declarado uma perda total.

            O objeto que teria causado a morte de Delmarre não fora encontrado. O relatório de Gruer, afinal de contas, não oferecia a menor pista ou evidência concreta que auxiliassem Baley em suas investigações.

            - Vou comer, Daneel - disse Baley de supetão - e depois teremos de voltar a ver o agente Gruer... ou melhor. a televê-lo.

            Hannis Gruer ainda estava à mesa, comendo, quando o contato foi

            estabelecido. Gruer comia lentamente, escolhendo com muito cuidado uma variedade de pratos que ia comendo, e levando Baley a pensar que o homem talvez tivesse uns duzentos anos de idade. O ato de se alimentar devia representar. para ele. uma verdadeira monotonia.

            - Sejam bem-vindos, meus amigos - disse Gruer.- Espero que tenham recebido o nosso relatório. - A sua cabeça calva brilhava curiosamente cada vez que ele se curvava para alcançar um dos pratos.

            - Tivemos uma entrevista muito interessante com a Sra.Delmarre - informou Baley.

            - Ótimo... ótimo - redargüiu Gruer. - E chegaram a qualquer conclusão?

            - Creio que ela está inocente, agente Gruer - respondeu Baley, embora não estivesse absolutamente convencido do fato.

            Gruer levantou o olhar subitamente, muito admirado com aquela resposta.

            - Julga que sim?

            Baley assentiu, com um gesto afirmativo, no qual parecia não haver a menor dúvida.

            - Gladia Delmarre é a única pessoa que via o marido, e não estou me referindo a telever e, por conseguinte, era também a única pessoa que tinha acesso ao laboratório... - disse Gruer, ainda surpreendido pela certeza manifestada pelo inspetor.

            - Esse fato já me foi explicado uma dezena de vezes, porém, apesar dos costumes sociais dos Solarianos, não é conclusivo. Deseja que lhe exponha o que me levou a formar a minha convicção?

            Gruer, de novo atento à sua refeição, respondeu à pergunta de Baley.

            - Teria muito prazer em ouvi-lo.

            - O crime só é possível devido a três fatores - disse Baley - cada um deles igualmente importante. Esses fatores são motivo, oportunidade e meios para cometê-lo. Todos estes fatores devem aparecer na acusação de qualquer suspeito. Reconheço que a Sra. Delmarre tenha tido oportunidade de cometer o crime. Não ouvi mencionar contudo, qualquer motivo que a levasse a cometê-lo.

            Gruer encolheu os ombros.

            - Não sabemos de qualquer motivo - respondeu ele. olhando de soslaio para a figura imóvel de Daneel.

           - Muito bem - continuou Baley. - O suspeito não tem um motivo... sendo, porém, possível que a Sra. Delmarre seja uma criminosa patológica. Ora vejamos, então, o que poderia ter sucedido. A Sra. Delmarre encontrava-se no laboratório com o seu marido, imaginemos, e ameaçou-o com qualquer objeto.

            Rikaine Delmarre levou alguns segundo para compreender que a mulher tinha, na realidade. a intenção de atacá-lo. Gritou. então, absolutamente surpreendido por aquela atitude:

            "Vai matar-me... vai matar-me! ... " e ela assim o fez, suponhamo-lo de momento. Delmarre voltara-se para fugir, porém a pancada apanhou-o e despedaçou-lhe o crânio. E, a propósito, teria o cadáver sido examinado por um médico?

            - Sim e não. Os robôs chamaram um médico para cuidarem de Gladia

            Delmarre e ele aproveitou para observar o morto.

            - Esse fato não foi mencionado no relatório.

            - Não me pareceu ser importante. O homem estava morto. O que sucedeu, na realidade, foi que, quando o médico o examinou. o cadáver já fora despido.

            lavado e preparado para ser cremado de acordo com a lei.

            - O que sucedeu, na realidade - replicou Baley imediatamente - foi que os robôs destruíram quaisquer vestígios, não é verdade? Quando disse que o médico viu o cadáver, agente Gruer, queria dizer que ele o viu ou que o televiu?

            - Que pergunta esquisita! - exclamou o agente Gruer.

            - Televiu. com certeza, de todos os ângulos necessários e da menor distância que a técnica lhe permitiu. Tenho a certeza de que viu, ou televiu, tudo o que lhe foi possível. É verdade que os médicos não podem, às vezes. deixar de ver os seus pacientes ... porém cadáveres?! Não posso conceber qualquer justificação para ver, em pessoa, o desagradável espetáculo oferecido por um cadáver! A medicina é um trabalho muito desagradável, não há dúvida, porém os médicos também têm os seus limites!

            - O que me interessa saber - continuou Baley, já muito agastado pelas considerações de Gruer - é se o médico em questão fez algum relatório sobre a natureza da ferida que matou Rikaine Delmarre.

            - Já percebo até onde quer chegar - disse Gruer. - Pensa talvez que o ferimento fosse demasiado grave para ser causada por uma mulher?

            - As mulheres são mais fracas do que os homens. agente Gruer, e a Sra.

            Delmarre é uma mulher de aspecto bastante frágil.

            - Contudo é muito atlética. Uma mulher pode realizar proezas surpreendentes com uma arma em que a ação da gravidade e o impulso inicial produzem uma força desproporcionada em relação à força da mulher em questão.

            Baley encolheu os ombros.

            - Mencionou uma arma, agente Gruer. Onde se encontra essa arma, então?

            - Como o relatório indica - respondeu Gruer - a arma não foi encontrada.

            - Já sei o que vem indicado no relatório, mas quero ter a certeza absoluta sobre alguns fatos. Procuraram encontrar essa arma?

            - A arma foi procurada cuidadosamente.

            - Por você, agente Gruer?

            - Pelos robôs, sob a minha constante supervisão. Não conseguimos localizar qualquer objeto que pudesse ser a arma do crime.

            - Isso atenua a suspeita contra a Sra. Delmarre, não lhe parece?

            - Tem razão - respondeu Gruer, a calma do seu olhar e da sua atitude surpreendendo Baley. - Esse fato é um dos muitos deste caso que não compreendemos. Foi por essa razão que não acusamos oficialmente Gladia Delmarre. Foi também por isso que eu lhe disse que, aparentemente, o único suspeito não poderia ter cometido o crime.

            - Aparentemente?

            - Gladia Delmarre deve ter escondido muito bem a arma e nós ainda não tivemos a sorte de encontrá-la... ou.talvez não tenhamos sido suficientemente inteligentes para descobrir o esconderijo.

            - Já considerou todas as possibilidades? - perguntou Baley, começando a compreender que Gruer em nada o ajudaria nas investigações.

            - Creio que sim.

            - Vejamos... Um objeto qualquer foi usado como instrumento para despedaçar o crânio da vítima. Essa arma não é encontrada na cena do crime. A única opção é que tenha sido retirada do local. Não podia ter sido retirada pelo próprio Rikaine Delmarre... já que ele estava morto! Poderia ter sido retirada do laboratório por Gladia Delmarre?

            - Foi, com certeza.

            - Como? A Sra. Delmarre estava inconsciente, ou quase, quando os robôs chegaram ao laboratório. É possível que estivesse simulando o estado em que se encontrava, naturalmente. mas o fato é que estava lá. Quanto tempo passou entre o assassínio e a chegada dos robôs?

            - Isso depende da hora exata em que se deu o crime, a qual nós não sabemos - respondeu Gruer, agora pouco à vontade e falando num tom de voz menos agradável do que anteriormente.

            - Li o relatório duas vezes, com toda a atenção, agente Gruer. Um dos robôs assegurou ter ouvido um ruído logo seguido pelo grito de Rikaine Delmarre. Esse robô, ao que parece, era o que se encontrava mais perto da cena do crime, assegurando também que ouviu o sinal de chamada dos robôs cinco minutos depois desse grito. O robô deve ter entrado no laboratório menos de um minuto após ter ouvido a chamada (Baley já conhecia, por experiência própria, a rapidez com que os robôs acorriam às chamadas). Onde poderia a Sra. Delmarre ter ido, a fim de esconder a arma, nesses cinco minutos?

            - Podia ter destruído o instrumento do crime no aparelho de esgoto, que tritura todos os resíduos que nele são lançados.

            - O relatório diz que os esgotos foram investigados e que a atividade dos raios-gama dos resíduos era quase nula, o que prova, segundo o relatório, que nenhum objeto sólido fora destruído pelo aparelho nas últimas vinte e quatro horas.

            - Estou ao corrente desse fato - disse Gruer - e apenas o mencionei como um exemplo do que ela poderia ter feito com a arma.

            - Está bem - redarguiu Baley - mas também é possível que exista uma outra e mais simples explicação. Suponho que os robôs da Propriedade Delmarre foram contados e que estavam todos presentes.

            Sua suposição é acertada.

            E estavam todos funcionando perfeita e normalmente? - Estavam, sim.

            - Poderia algum deles ter levado a arma para outro local, sem saber do que se tratava?

            - Nenhum deles retirou fosse o que fosse da cena do crime. Asseguram-me também que em nada tocaram.

            - Isso não é verdade. Levaram o corpo de Rikaine Delmarre a fim de prepará- lo para ser cremado.

            - Naturalmente, mas isso não se leva em conta. Não fizeram mais do que sua obrigação.

            Baley proferiu uma exclamação, tendo de travar uma batalha interior para manter-se calmo.

            - Bem, suponhamos então que havia outra pessoa presente na cena e no momento do crime.

            - Impossível! - exclamou Gruer. - Como poderia alguém invadir os aposentos pessoais do Dr. Delmarre?

            - Eu disse "suponhamos"! - replicou Baley. o inspetor já não podia conter a impaciência que lhe era causada pela insistência daquele hábito e, também, pela constante confusão entre "ver" e "telever"! - Suponhamos que havia outra pessoa e que os robôs, devido aos costumes de Solaria, não pensassem sequer que isso fosse possível. Estou certo de que, devido a essa fato, também não pensaram em realizar uma busca pelas imediações da casa e, mesmo, por todas as outras divisões. Uma tal busca, pelo menos, não foi mencionada no relatório e suponho que não foi realizada!

            - A única busca realizada foi para procurar a arma e isso sucedeu muito tempo depois - respondeu Gruer.

            - Teriam os robôs procurado quaisquer indícios da presença de um carro ou de algum veículo aéreo nos terrenos da propriedade? '

            - Não.

            - Então... disse Baley, encolhendo os ombros e parecendo mais desanimado com a ineficiência investigadora dos Solarianos, cada vez que recebia uma resposta negativa como aquela - qualquer pessoa que tivesse a coragem para invadir os aposentos pessoais de Rikaine Delmarre, usando as suas próprias palavras, agente Gruer, podia tê-lo assassinado e, em seguida, afastar-se da casa e da propriedade com a maior tranqüilidade. Ninguém pensaria em detê-lo e nem mesmo em procurá-lo ou persegui-lo. Mais tarde, quando o crime fosse descoberto, o assassino podia confiar inteiramente no fato de que ninguém acreditaria na possibilidade de alguém ter feito esse terrível ato de "invadir os aposentos pessoais de Rikaine Delmarre"!

            - E ninguém o fez - afirmou Gruer, positiva e teimosamente.

            - Ainda quero mencionar outro pormenor - disse Baley. - Só mais um...

            Lembre-se de que havia um robô na cena do crime.

            Daneel falou pela primeira vez durante aquela conversa. - O robô não estava presente no momento do crime.

            Se ele lá se encontrasse, o crime nunca teria sido cometido!

            Baley voltou-se bruscamente para Daneel. Gruer, que levara um cálice à boca e se preparava para beber um líquido transparente que tinha o aspecto de água, pousou o copo e olhou para Daneel com uma curiosidade marcada.

            - Não é isso verdade, agente Gruer?

            - Sem a menor dúvida - respondeu Gruer. - Um robô impediria qualquer pessoa de fazer mal a outra... é a Primeira Lei Robôtica.

            - Está bem - concordou Baley - porém esse robô devia estar muito perto do laboratório. Encontrava-se na cena do crime quando os outros robôs lá chegaram. Devia ter ouvido Delmarre exclamar: Vai matar-me! Os robôs domésticos não ouviram estas palavras, só ouviram um grito e, como não foram chamados, não procuraram saber o que se passava. Este primeiro.robô, contudo.

            ouviu a exclamação de Delmarre e, devido à Primeíra. Lei, dirigiu-se imediatamente ao laboratório sem ser chamado. Chegou demasiado tarde, talvez mesmo quando estivessem praticando o crime...

            - Deve ter assistido à última fase do assassínio - disse Gruer. - Foi isso que o avariou. Assistir à morte de um ser humano sem evitá-lo é uma violação da Primeira Lei e, dependendo das circunstâncias, seria suficiente para causar uma avaria mais ou menos severa no seu funcionamento. Neste caso. os estragos no cérebro positrônico do robô foram permanentes e irreparáveis.

            Gruer ficara pensativo, depois de dizer estas palavras, e era bem evidente que o caso o preocupava e excitava até a sua imaginação.

            - Esse robô, não há dúvida, é uma testemunha importante. Já foi interrogado?

            - Para quê? A avaria era total e o seu cérebro deixara de funcionar. O robô apenas sabia dizer: "Vai matar-me!" Concordo inteiramente com a sua reconstituição do crime até agora, inspetor Baley, e essas palavras foram, com certeza, as últimas ditas por Rikaine Delmarre. Ficaram tão impregnadas na consciência do robô que permaneceram bem presentes quando o resto foi destruído.

            - Informaram-me de que Solaria se especializa em robôs.

            Não teria um dos seus melhores técnicos sido capaz de consertar o robô? Não teria sido possível dar nova vida aos seus circuitos?

            - Não - respondeu Gruer, surpreendendo Baley pela forma brusca como lhe respondera.

            - E onde se encontra agora esse robô?

            - Foi destruído.

            Baley franziu o sobrolho, desta vez sem poder acreditar no que ouvira.

            - O quê?! Devo dizer que este caso é muito estranho.

            Não temos motivo, nem testemunhas. A única testemunha foi destruída e nada se sabe sobre o instrumento do crime! Os poucos vestígios que havia, de começo, foram destruídos! Suspeitam de Gladia Delmarre e todos os Solarianos estão convencidos de que é ela a culpada, ou, pelo menos, estão todos convencidos de que mais ninguém poderia ter assassinado Rikaine Delmarre. A sua opinião sobre o caso, agente Gruer, é também lógica. O que eu gostaria de saber é a razão que os levou a convidarem-me para descobrir um assassino, que já todos julgam saber quem é!

            Gruer ouvira as palavras de Baley num verdadeiro sobressalto e com uma ansiedade incompreensível.

            - Parece estar muito perturbado, inspetor Baley - disse o chefe de Segurança de Solaria. voltando-se depois para Daneel. - Sr. Olivaw!

            - O que deseja, agente Gruer?

            - Agradecer-lhe-ia muito que fosse verificar se todas as janelas se. encontram adequadamente fechadas. O inspetor Baley tem toda a aparência de estar sentindo os efeitos causados pelo ar livre.

            Aquelas palavras surpreenderam Baley. A sua primeira reação foi negar aquela afirmação e ordenar a Daneel que ficasse no seu lugar, porém, logo a seguir, notou uma estranha expressão, quase implorativa, nos olhos de Gruer. Baley hesitou, resolvendo permitir que Daneel saísse da sala, a fim de confirmar se Gruer tivera alguma razão especial para o que fizera.

            A expressão no rosto de Gruer modificou-se no mesmo momento em que Daneel saiu da sua presença, revelando agora um receio e um nervosismo que Baley não compreendia.

            - Foi mais fácil do que eu pensava - disse Gruer. - Já tinha planejado muitas formas de estar a sós com você, mas, devo dizer, nunca pensei que um Auroriano saísse da sala depois de um simples pedido da minha parte.

            - O que deseja dizer-me, então?

            - Não me era possível falar livremente em frente dele.

            Trata-se de um Auroriano e sua presença entre nós foi-nos forçada como sendo o preço da sua visita, inspetor Baley. - O Solariano curvou-se na direção de Baley e falou em tom de voz mais baixo e suave. - Este caso é bem mais do que um simples assassínio. Minha preocupação não é apenas descobrir quem é o assassino. Existem alguns grupos em Solaria, organizações secretas ...

            - Não vejo no que eu lhe possa ser útil nesses problemas, - interrompeu Baley, embora eles o interessassem grandemente.

            - Vai ver que me pode ser muito útil. Ouça-me com atenção: o Dr. Delmarre era um tradicionalista. Era um homem que acreditava nos nossos hábitos, que sabia que a nossa civilização dependia justamente da continuação desses hábitos e normas. Existem entre nós, infelizmente, novas forças que pretendem transformar a nossa maneira de viver e Delmarre foi assim obrigado ao silêncio!

            - Por Gladia Delmarre?

            - A viúva do Dr. Delmarre deve ter sido apenas um instrumento desses homens. Gladia Delmarre não importa. A organização que provocou o assassínio é que é importante.

            - Tem a certeza do que acabou de dizer-me? Tem algum fato que comprova?

            - Uma certeza um tanto quanto vaga. Rikaine Delmarre estava na pista de algo muito importante. Eu conhecia-o suficientemente para saber que não era um idiota nem um inconsciente. Delmarre assegurou-me que tinha provas conclusivas e eu acreditei-o. Contou-me muito pouco sobre o assunto, infelizmente, já que desejava terminar as investigações que decidira levar a cabo antes de as tornar patentes às autoridades. Tenho certeza de que essas investigações já estavam concluídas, pois do contrário não se atreveriam a eliminá-lo de uma forma tão brutal. Uma das coisas que Delmarre me disse foi que toda a raça humana corria perigo!

            Baley estremeceu e, durante um momento, era como se estivesse novamente ouvindo as palavras de Minnim, porém numa escala muito mais intensa.

            - Que considerações o levaram a pensar que eu poderia ajudá-lo?

            - Devido ao simples fato de ser um habitante da Terra, - disse Gruer. - Compreende? Nós, em Solaria, não temos a menor experiência desses

            problemas. O mal é que não nos compreendemos uns aos outros. Somos poucos e não estudamos suficientemente a mentalidade humana. - Gruer continuou falando. o seu tom de voz revelando que estava muito pouco à vontade, mas que, ao mesmo tempo, não queria perder aquela oportunidade de confiar suas preocupações ao inspetor. - Não gosto muito de lhe dizer isto, Inspetor Baley, os meus colegas riem-se de mim, porém eu tenho a impressao de que os

            Terrestres, vivendo juntos em comunidades muito populosas, compreendem estes problemas muito melhor do que nós. E um inspetor da polícia ainda mais do que os outros, parece-me. Será isto verdade, inspetor?

            Baley limitou-se a concordar, não dizendo palavra e aguardando que Gruer continuasse sua dissertação.

            - Este crime foi, de certo modo, bastante oportuno.

            Ainda não me atrevera a falar aos meus colegas da investigação de Delmarre, já que eu não estava certo de quem estava metido na conspiração, e também por Delmarre não me ter fornecido quaisquer pormenores que me permitissem agir. Se Delmarre tivesse, na realidade, terminado sua investigação, como de resto talvez o tenha feito, como poderíamos nós lidar com um problema dessa natureza? Não faço a menor idéia. Senti, desde o início, que precisávamos do auxílio de um Terrestre. Logo que ouvi falar da parte que tomou na investigação do assassínio de um Espacial na Terra, inspetor Baley, pensei que era de você que nós precisávamos. Estabeleci contato com Aurora, com cujas autoridades trabalhou na solução desse caso e, por intermédio delas, entrei em negociação com o Governo Terrestre. Os meus colegas nunca me teriam permitido pedir o seu auxílio mas, quando se deu o assassínio de Delmarre, ficaram tão chocados que me deram a autorização requerida. Naquele momento de verdadeiro pânico.

            teriam concordado com qualquer exigência minha.

            Gruer voltou a hesitar, acrescentando, passado um instante: - Não me é fácil pedir o auxílio de um Terrestre, porém eu sou forçado a fazê-lo. Recorde que, seja o que for, a raça humana corre perigo. A Terra também!

            A Terra estava. então, duplamente em perigo. A sinceridade e o desespero patentes na voz e na expressão de Gruer eram reais. Mas. se a morte de Delmarre fora providencial e permitira que Gruer fizesse o que tão desesperadamente desejava fazer, teria, na realidade, sido inteiramente providencial? Esta incógnita abria novos caminhos no pensamento de Baley, embora este nada manifestasse na sua voz, olhar ou expressão.

            - Os meus superiores enviaram-me para este planeta para auxiliar os Solarianos - disse Baley calmamente - e eu assim o farei da melhor forma que puder!

            Gruer respirou fundo, aliviado, e levou o copo à boca, sorvendo o líquido e olhando amigavelmente para o inspetor. - Ótimo! - exclamou ele. acrescentando logo a seguir:

            - Não fale disto ao Auroriano. Não sei se o planeta Aurora também estará metido na conspiração. Não restam dúvidas de que tomaram um extraordinário interesse pelo caso, insistindo que o sr. Olivaw o auxiliasse nas suas investigações, inspetor Baley. Aurora é um planeta muito poderoso... tivemos de concordar com a condição. É possível que o tenham feito apenas devido ao fato de que Daneel Olivaw já antes trabalhara com você, mas também pode ser que nos queiram espionar, não é verdade?

            Gruer continuou a beber, olhando fixamente para Baley.

            Este tornara-se pensativo, o seu pensamento analisando cuidadosamente tudo o que Gruer lhe dissera.

            Elijah Baley levantou-se de um salto e correu para o ponto onde se encontrava Gruer, esquecendo-se completamente de que era apenas a sua imagem que se encontrava naquela sala.

            Gruer deixara cair o copo e levara as mãos à garganta, murmurando sem cessar:

            - Está me queimando... me queimando...

            O agente Gruer, a sua expressão aterrorizada e dolorosa indicando bem que fora envenenado, caiu da cadeira e ficou estendido no solo.

 

UM MÉDICO EM APUROS

            Daneel acabara de entrar na sala. - O que se passa, amigo Elijah?

            Uma explicação de Baley, contudo, não se tornou necessária. Daneel compreendeu imediatamente o que acontecera e a sua voz calma e fria tomou logo o comando da situação.

            Robôs de Hannis Gruer! O Senhor de vocês está em perigo de vida! Robôs!

            Um robô entrou na sala poucos segundos depois, sendo seguido por mais uma dúzia, passados um ou dois minutos. Três deles agarraram cuidadosamente o corpo de Gruer, transportando-o para fora da sala. Os outros começaram a arranjar a mesa e a apanhar os objetos que haviam caído ao chão.

            Daneel, porém, não permitiu que eles continuassem a fazê-lo.

            - Robôs! Este trabalho, agora, não importa! Organizem uma busca! Vejam se encontram um ser humano dentro de casa! Alertem os robôs de serviço lá fora e digam-lhes que procurem pela propriedade. Ordenem-lhes que façam uma busca minuciosa. Se encontrarem um Senhor, seja ele quem for, detenham-no. Não permitam que ele saia da propriedade, diga ele o que disser! Se o encontrarem, avisem-me imediatamente. Estarei aqui à espera!

            Os robôs saíram apressadamente da sala e Elijah voltou-se -para Daneel.

            - Teve muita presença de espírito, Daneel. Foi veneno, sem a menor dúvida.

            - Tem razão, amigo Elijah. - Daneel sentara-se, como se estivesse sentindo-se mal e Baley nunca o vira tão fora de si como agora.

            Daneel explicou o que causara o estado em que se encontrava.

            - O meu mecanismo sofre muito quando vejo um ser humano correr qualquer perigo sem eu poder evitá-lo.

            - Nada poderia ter feito para evitá-lo, Daneel.

            - Bem sei, mas, apesar disso, sinto um nó nos meus canais mentais. O que eu sinto, em termos humanos, deve corresponder a um choque traumático.

            - Seja o que for, Daneel, tente recompor-se. - Baley estava muito enervado e não tinha nem a inclinação nem a paciência para aturar as esquisitices de um robô. - Teremos de encontrar o responsável. Não há veneno sem envenenador!

            - Talvez fosse alguma coisa que ele tenha comido ou bebido... qualquer coisa acidental - sugeriu Daneel.

            - Acidental? Nem pense nisso. Os efeitos foram instantâneos. Trata-se de um veneno e a dose foi bem grande. Ouça, Daneel, eu vou para outro quarto pensar calmamente em tudo isto. Quero que estabeleça contato com a Sra, Delmarre, que verifique se ela se encontra em casa e, além disso, que descubra qual é a distância entre sua casa e a de Gruer.

            - Pensa que...

            - Limite-se a fazer o que eu lhe disse, sim?

            Baley saiu da sala, indo procurar a solidão que lhe permitiria raciocinar com mais calma. Não era natural que tivessem surgido duas tentativas de assassínio independentes, num tão curto intervalo de tempo, num mundo como Solaria. Se existia uma relação entre ambas as tentativas, como era muito possível, então Gruer falara verdade e a conspiração seria uma realidade.

            Baley sentiu uma excitação muito familiar aquecer todo o seu ser. Viera para este mundo com as ordens da Terra no pensamento, o assassínio de Delmarre não passando de um pretexto, e agora sentia que o seu verdadeiro trabalho ia ter início,

            Os músculos do seu rosto contraíram-se num movimento súbito de furor. O assassino, ou a assassina, havia agido na sua presença e o seu orgulho profissional ficara ferido. Será que não o consideravam perigoso? Elijah Baley orgulhava-se de ser um investigador muito eficiente e consciencioso, e aquela ousadia do criminoso, ou criminosa, já lhe dava uma razão muito forte para tentar desvendar o mistério, mesmo se os perigos que a Terra corria não fossem do seu conhecimento.

            Daneel localizara a sala onde Baley se encontrava e viera ter com ele.

            - Já fiz o que me pediu, amigo Elijah! Entrei em contato com a Sra. Delmarre e ela encontrava-se em casa, que está situada a mais de mil e quinhentos quilômetros de distância da residência do agente Gruer.

            - Terei de televê-la mais tarde - disse Baley, olhando pensativamente para Daneel. - Pensa que ela tem alguma ligação com este crime?

            Não parece que tenha qualquer ligação direta, amigo Elijah.

            Implicará isso que pense ter ela uma ligação indireta? - E muito possível que a Sra. Delmarre tenha persuadido qualquer outra pessoa a fazê-lo.

            - Outra pessoa? - perguntou Baley, admirado pela sugestão. - Quem?

            - A isso, amigo Elijah, não sei responder-lhe.

            - Se alguém agisse por conta dela, Daneel, deveria estar presente na cena do crime.

            - Tem razão - concordou o robô. - Alguém deveria estar presente para colocar o veneno no líquido.

            - Não seria possível que o líquido tivesse sido envenenado mais cedo, muito mais cedo?

            - Já pensei nessa possibilidade, amigo Elijah, e foi por isso que disse “parece- me" quando disse que a Sra. Delmarre não podia ter uma ligação direta com o crime. Não seria impossível que ela tivesse estado presente na casa do agente Gruer mais cedo. Não seria má idéia verificar os seus movimentos durante todo o dia.

            - Tem razão. Temos de descobrir se ela esteve presente em casa do agente Gruer, em qualquer hora do dia. - Bem, regressemos à sala de conferências a fim de ver o que se.passa em casa do agente Gruer.

            A sala de jantar de Gruer já se encontrava arrumada e não era visível o menor sinal do incidente que lá se dera uma hora antes.

            Três robôs encontravam-se encostados a uma parede, na habitual atitude robótica de submissão e respeito.

            - Que notícias me dão do Senhor de vocês? - perguntou Baley.

            - O médico está cuidando dele, sr. inspetor - informou o robô do meio.

            Está vendo-o pessoalmente ou pela televisão? - Pela televisão - respondeu o robô.

            - O que diz esse médico? O Senhor salva-se ou não?

            - Ainda não se sabe, sr. inspetor.

            - Já fizeram uma busca pela casa?

            - Fizemos uma busca completa, sim, sr. inspetor.

            - Encontraram qualquer sinal que indicasse a presença de um ser humano?

            - Não, sr. inspetor.

            - E nos terrenos da propriedade?

            - Ainda estão sendo vasculhados, Sr. inspetor e, por enquanto, ainda não foi encontrado qualquer ser humano.

            Baley assentiu.

            - Desejo falar com o robô que serviu à mesa.

            - Encontra-se detido para ser interrogado. As suas reações são erráticas, sr.

            Inspetor

            - Pode falar?

            - Pode, sim, sr. inspetor.

            - Então - comandou Baley - diga-lhe que venha imediatamente à minha presença!

            O "imediatamente" tornou-se bastante demorado e Baley começou a

            impacientar-se.

           - Então... Esse robô não... Daneel interrompeu suavemente a explosão de impaciência do inspetor.

            - Estes robôs Solarianos comunicam-se entre si através de infer-radio e o robô que deseja ver já foi convocado. A demora é causada pelo. transtorno que sofreu como resultado do que se passou.

            Baley aceitou a explicação de Daneel, pensando que ja devia ter adivinhado a existência de um sistema de inter-rádio nos robôs de Solaria. Num mundo tão entregue aos robôs, como era Solaria, um sistema de comunicação íntima tornava-se absolutamente essencial para que toda a organização do planeta não se desintegrasse. Esse fato, aliás, explicava como era possível aparecerem dez ou doze robôs quando só um fora chamado, mas aparecendo unicamente quando eram necessários e não de outra forma.

            Um robô entrou lentamente na sala de jantar, parecendo andar com grande dificuldade - o que surpreendeu Baley. Este encolheu os ombros, sabendo bem que nunca poderia compreender as reações físicas dos robôs aos desarranjos do seu cérebro positrônico. Um circuito mental avariado podia afetar os movimentos das pernas, como neste caso, e o fato seria muito significativo para um roboticista e absolutamente estranho para qualquer outra pessoa.

            Baley formulou uma pergunta. tendo o cuidado de prepará-la cuidadosa e pausadamente.

            - Lembra-se da existência de um líquido transparente numa garrafa, sobre a mesa de jantar, e de ter vertido parte desse líquido num cálice que serviu ao seu Senhor?

            - Lem... lembro-me... sim... sessenhor inspepetor. Um defeito na articulação oral também! Baley teve esperança que este defeito não impedisse o robô de raciocinar devidamente.

            Qual era a natureza do líquido?

            Era... águ... água... sr. insp... etor. - Água?! Nada mais?

            - Só... só águ... a, se... senhor ins... petor.

            - De onde veio essa água?

            - Do reserservató... rio... da á... gua, sesenhor inspepetor.

            - Onde se encontrava a garrafa antes de trazê-la para a sala de jantar? Na cozinha?

            - Ssim... O sesenhor não... gostava dela mui... to fria e orde... nou-me que enchesse a gagarrafa uma... uma hora antes de ser... vir a a água.

            Que desculpa, pensou Baley, para quem conhecesse esse fato!

            - Desejo ver o médico, logo que ele acabe de examinar o sr. Gruer - informou Baley, falando ao robô que antes lhe respondera e que convocara o robô avariado. - E, entretanto, desejo que um dos robôs me explique como funciona esse reservatório de água. Quero também saber como é que a casa é servida de água.

            O médico não tardou a entrar em contato com Baley. O inspetor nunca vira antes um Espacial de idade tão avançada. Devia ter uns trezentos anos e todo o seu aspecto, incluindo o cabelo completamente branco, indicava que já começava a entrar na senilidade. Chamava-se Altim Thool e Baley não simpatizou com ele, logo de início.

            - O agente Gruer, felizmente, vomitou uma grande dose do veneno. É possível, contudo, que não sobreviva aos efeitos desse veneno - informou o médico, soltando um suspiro. Trata-se de um acontecimento verdadeiramente trágico!

            - Que veneno era, doutor?

            - Não sei.

            - O quê?! - exclamou Baley, Então... como é que está tratando dele?

            - Empreguei estimulação direta do sistema neuromuscular, a fim de evitar a paralisia; todavia, além disso, aguardo as reações naturais do organismo. - O seu rosto revelou o embaraço que aquela ignorância lhe causava e, depois de uma hesitação, o médico não se negou a pôr em palavras a razão da ignorância. - Não temos a menor experiência de casos de envenenamento. Este é o primeiro na minha vida profissional de mais de duzentos anos!

           Baley não escondeu o seu desprezo por uma tal ignorância. - Sabe, porém, que existem venenos... ou nem sequer estará a par do caso?

            - Sei, sim. Todos o sabem...

            - Não possui livros ou filmes onde possa obter alguns conhecimentos sobre o assunto?

            - Essa pesquisa levaria muitos dias. Existem numerosos venenos minerais.

            Usamos, por exemplo, inseticidas no nosso mundo e não é impossível a ninguém obtê-los. As descrições que eu poderia encontrar nos filmes teriam de ser bem estudadas e não seria fácil reunir o equipamento necessário para fazer as experiências, a fim de aperfeiçoar as técnicas em questão.

            - Se ninguém em Solaria conhece essas técnicas - disse Baley, sorrindo sarcasticamente e manifestando bem ter percebido que o médico metera os pés pelas mãos e que as suas palavras nada significavam - parece-me indicado que entrem em contato com qualquer outro planeta e aprendam rapidamente o essencial para tratar do agente Gruer. Entretanto, para não perder mais tempo, deve analisar a água no reservatório da casa de Gruer, a fim de verificar se contém veneno. Recomendo-lhe que vá lá em pessoa e o faça imediatamente!

            Baley falara brusca e autoritariamente a um venerável Espacial, comandando-o como se ele fosse um robô e nem sequer notando a incoerência que o fato representava. O Espacial, por seu lado, ficara tão espantado que nem sequer se atrevera a protestar.

            - Como poderia o reservatório estar envenenado - disse o Dr. Thool, duvidando dessa possibilidade. - Tenho a certeza de que isso não é possível.

            - É provável que não o seja - concordou Baley -, mas analise a água, agora, para termos a certeza...

            O reservatório da água era apenas uma possibilidade muito remota. A explicação do robô demonstrara que a água só podia entrar no reservatório por meio de um sistema bastante complicado. Os micro-organismos eram eliminados antes de a água entrar no reservatório e o processo de purificação parecia ser infalível. O sistema também contava com um mecanismo próprio para introduzir na água a dose de ar indicada, assim como um outro para lhe acrescentar vários íons nas doses mais adequadas às necessidades do corpo humano Não parecia possível que qualquer veneno pudesse sobreviver a todos estes mecanismos e processos de purificação.

            Tornava-se necessário, mesmo assim, determinar diretamente a segurança do reservatório a fim de localizar o elemento temporal. Baley tinha bem presente aquela hora antes da refeição, durante a qual o jarro de água, exposto ao ar, aguardava na cozinha devido ao hábito do agente Gruer.

            O Dr. Thool, franzindo o sobrolho, estivera muito pensativo durante os últimos minutos.

            - Não sei como analisar a água do reservatório - confessou ele, por fim.

            - Como?! Já começo a perder a paciência, doutor! Leve um animal consigo!

            Injete-lhe um pouco dessa água ou obrigue-o a bebê-la! Faça o mesmo com a água que ficou no jarro, e, se esta estiver envenenada, como deve estar, efetue algumas das análises descritas nos seus filmes! Pense, homem! Pense! Use a cabeça! Faça qualquer coisa!

            - Espere! Espere! De que jarro é que está falando?

            - O jarro em que se encontrava a água que o robô serviu ao agente Gruer!

            - Mas... mas esse jarro já deve ter sido lavado. O pessoal doméstico não o deixaria, com certeza, meio cheio de água já exposta.

            Baley soltou uma praga. O Dr. Thool tinha razão! Era completamente impossível conservar quaisquer vestígios com dezenas de robôs ansiosos por destruí-la em nome dos seus deveres domésticos! Baley sabia que deveria ter ordenado a esses robôs que conservassem o jarro num local seguro, mas, claro estava, encontrava-se num mundo diferente do habitual e não conseguia reagir constantemente como seria indicado!

            Elijah Baley foi finalmente informado de que não fora encontrado qualquer ser humano em toda a Propriedade Gruer.

            - O resultado negativo da busca - comentou Daneel

            - intensifica grandemente o mistério, amigo Elijah, já que não permitiu a identificação do envenenador.

            Baley, que mal ouvira, interrompeu os pensamentos que lhe atravessavam a mente e voltou-se para o robô.

            - Não... não! Antes pelo contrário... o fato simplifica bastante o assunto. - O inspetor não explicou esta aparente incoerência, sabendo muito bem que Daneel seria incapaz de compreender ou aceitar o que acabara de deduzir.

            Daneel, entretanto, nem sequer pedira uma explicação.

            Uma tal invasão do pensamento humano seria completamente contrária ao espírito robótico

           Baley passeava de um lado para o outro, a sua mente ativa com diversas ideias e possibilidades e, ao mesmo tempo. receando a aproximação da hora de dormir, quando o seu pavor aos espaços abertos e às saudades que sentia pelo seu planeta aumentariam consideravelmente.

            - Parece-me conveniente voltar a falar com a Sra. Delmarre - disse Baley a Daneel. - Peça ao robô para estabelecer o contato, sim?

            Elijah Baley e Daneel Olivaw encaminharam-se para a sala de conferências e o robô não tardou a fazer a ligação. A outra extremidade da sala em que se encontravam iluminou-se abruptamente e revelou uma mesa de sala de jantar, muito bem posta e ricamente decorada. à qual se sentava Gladia Delmarre.

            - Olá! - exclamou Gladia, o seu tom de voz parecendo indicar que ficara muito satisfeita com a televisita de Baley. - Como está, Elijah? Ia começar a jantar mas, agora, esperarei até depois da entrevista. Veja! Estou muito bem vestida...

            não acha?

            E era verdade. A cor dominante do vestido era o azul claro e este cobria-a totalmente, incluindo as pernas e os braços. O seu bonito cabelo estava agora mais disciplinado do que durante a manhã e o aspecto geral de Gladia era, na realidade, imensamente agradável à vista.

            - Não tencionava interromper a sua refeição - disse Baley, pesaroso pelo incômodo que lhe causava.

            - Pode ver que ainda não tinha começado. Faça-me companhia durante o jantar, Elijah.

            Baley julgou não ter compreendido bem as palavras de Gladia.

            - Companhia?

            Gladia riu-se, bem disposta.

            - Vocês, habitantes da Terra, são muito divertidos! Eu não quis dizer fazer-me companhia com a sua presença pessoal. Como seria isso possível? O que lhe sugeri foi que se dirigisse à sua sala de jantar, com o seu companheiro e, assim, poderíamos jantar juntos.

            - Mas... se eu sair desta sala...

            - O seu robô poderá manter o contato.

            Daneel assentiu gravemente e Baley, ainda pouco seguro de si, encaminhou- se para a sala de jantar. Gladia, juntamente com a mesa e todos os seus ornamentos, foi atrás de Baley.

            A viúva sorriu-lhe.

            - Vê? Ainda nos encontramos em contato.

            Daneel e Baley atravessaram diversas divisões e corredores, e, penetrando paredes e portas, por vezes abaixo do nível do solo e por vezes ligeiramente acima do solo, a imagem de Gladia e da mesa continuava a seguir os dois companheiros!

            Baley parou subitamente e resmungou umas palavras entredentes.

            - Isto é tudo muito perturbador.

            - Sente-se estonteado?

            - Um pouco.

            - Então. .. o melhor é ordenar ao seu técnico que me imobilize aqui, no momento, e que só nos volte a pôr em contato quando vocês dois já estiverem sentados à mesa.

            Daneel concordou logo com a sugestão de Gladia.

            - Vou já ordenar ao robô que assim faça, amigo Elijah.

            A mesa já estava posta quando Daneel e Baley alcançaram a sala de jantar, os pratos fumegantes cheios de comida verdadeiramente apetitosa. Daneel falou rapidamente ao robô que servia à mesa e este, com uma eficiência bem patente, mudou os dois lugares para o mesmo lado da mesa.

            Ao mesmo tempo, e como se isso fosse um sinal, a parede oposta pareceu afastar-se, a mesa alargara-se e Gladia apareceu sentada à outra extremidade da mesa! As salas e as mesas tinham-se sobreposto tão perfeitamente que, além das diferenças dos ornamentos e da louça, teria sido possível pensar que os três estavam sentados à mesma mesa.

            - Esplêndido! - exclamou Gladia, satisfeita pela sua idéia. - Não se sentem bem e confortáveis?

            - Teve uma idéia muito agradável, Gladia - respondeu Baley, provando a sopa, que era deliciosa. - Já sabe o que aconteceu ao agente Gruer?

            0 rosto de Gladia manifestou preocupação e desgosto que o envenenamento lhe causara.

            - É terrível, não é? Pobre Hannis.

            - Vejo que usa o seu primeiro nome. Conhece-o bem?

            - Conheço bem quase todos os homens importantes de Solaria. A maioria dos Solarianos conhecem-se todos uns aos outros. como seria de esperar.

            E era de esperar, claro está, pensou Baley. Os Solarianos eram em tão reduzido número!

            - Deve, então, conhecera Dr. Altim Thool. E ele que está tratando do agente Gruer.

            Gladia sorriu.

            - Conheço-o... e muito bem! Foi ele quem me tratou.

            - Quando?

            - Logo a seguir ao... à morte do meu marido.

            - Não me diga que ele é o único médico do planeta!?

            - Não. Que idéia! - respondeu Gladia, o movimento dos seus lábios indicando que contava os médicos existentes em Solaria. - Temos dez médicos, pelo menos. E existe um outro muito novo, que eu também conheço, e que ainda está estudando medicina. O Dr. Thool é um dos melhores. E, sem dúvida, o que tem mais experiência. Pobre Dr. Thool.

            - Por que "pobre"?

            - A vida de um médico é horrível! - isso que eu queria dizer. Sucede até que são obrigados, às vezes, a verem os pacientes em carne e osso! O pobre do Dr.

            Thool é tão bom que está sempre pronto a ir vê-las quando sente que é necessário. Trata de mim desde os meus tempos de criança e estou tão habituada a ele que nem sequer me importo muito que ele me veja em pessoa.

            Desta última vez, por exemplo, veio visitar-me e não me incomodou muito.

            - Logo a seguir à morte do seu marido?

            - Sim. Nem calcula como ele ficou quando viu o meu marido morto e eu naquele estado!...

            - Pensava que ele apenas tivesse televisto o corpo, disse Baley,

            - O corpo, sim. Televiu o corpo logo que os robôs estabeleceram contato e, depois de lhes ordenar que cuidassem de mim e me dessem uma injeção, tomou um avião a jato para me visitar. Calcule! De avião, só para me ver! Fez a viagem em meia hora e fez tudo para me tornar mais confortável. Imagine que, quando voltei a mim, estava tão estonteada que pensei estar a televê-lo e, quando ele me tocou, soltei um grito de terror! Pobre Dr. Thool. Ficou aflito, como não podia deixar de ser, mas fiquei-lhe muito reconhecida.

            Baley concordou, um pouco cansado pelas explicações de Gladia.

            - Julgo que os médicos do planeta não têm muito trabalho, ou, pelo menos, é isso que me parece.

            - Espero que tenham pouco trabalho! Somos muito saudáveis!

            - Já sei que quase não existem doenças em Solaria, mas algumas terão de existir como, por exemplo, diabetes, doenças de coração, desordens orgânicas, etc...

            - Tem razão ... existem algumas doenças, e é horrível saber que ainda existem! Os médicos podem tornar a vida mais agradável para esses enfermos, mas isso, naturalmente, é o menos importante.

            - Por quê?

            - O mais importante é corrigir a origem das doenças.

            As pessoas que são atacadas por essas doenças sofrem, sem dúvida, de uma análise errada dos responsáveis que permitiram que os seus pais se casassem, parece-me que é esse o termo usado na Terra, e isso significa que essas pessoas não poderão ter... filhos.

            - O que?! - exclamou Baley, sem compreender. - As pessoas que estiveram doentes uma vez nunca mais podem ter filhos? Foi isso que quis dizer, não foi?

            Gladia corou muito e pareceu ter ficado realmente embaraçada.

            - É uma palavra tão difícil de dizer... filhos!

            - É uma questão de hábito - disse Baley secamente.

            - Pois é, mas, se me habituo, sou capaz de dizer a palavra em frente de um Solariano e a minha reputação ruirá por terra! Além disso, se lhe interessa saber, se essas pessoas têm filhos, antes de adoecerem, estes têm de ser encontrados e analisados, o que, aliás, era um dos trabalhos de Rikaine.

            A incompetência do Dr. Thool, pensou Baley, era uma consequência natural desta sociedade e não um defeito pessoal. Essa incompetência nada tinha de sinistro, portanto, e Baley decidiu esquecer o desprezo que nutria por ele. , Gladia comia muito delicadamente e, embora parecesse ser bastante esquisita, via-se que tinha um apetite normal, pensou Baley. A comida era muito apetitosa em Solaria, disso é que não restavam dúvidas, e Elijah Baley estava certo de que, quando regressasse à Terra, sentiria a falta daqueles acepipes. - Qual é a sua opinião sobre o envenenamento, Gladia? - perguntou Baley, curioso e ansioso por levar a conversa para este segundo crime que se dera em Solaria.

            - Tenho procurado não pensar no assunto. Não gosto de pensar nestes terríveis acontecimentos que se têm verificado ultimamente. Talvez não se trate de um envenenamento...

            - Não temos a menor dúvida de que o seja.

            - Mas quem teria sido? Ninguém poderia tê-lo feito... ninguém foi encontrado na casa de Hannis.

            - Como o sabe?

            - Não seria possível que isso sucedesse. Hannis não tem mulher há já algum tempo, visto que já preencheu a sua quota de... filhos! Não havia quem pudesse tê-lo envenenado.. como poderia ele ter sido envenenado, então?

            - Foi envenenado. Trata-se de uma realidade e, como tal, não nos apresenta quaisquer dúvidas.

            Gladia baixou o olhar.

            - Parece-lhe... que teria sido ele próprio... que se envenenou?

            - Duvido. Por que e para que? E, ainda por cima, em público!

            - Não foi envenenado, então, Elijah. Não podia ter sido!

            - Pelo contrário, Gladia - respondeu Baley. - O envenenamento podia ter sido levado a cabo muito facilmente. Estou mesmo certo de que sei realmente como foi feito!

 

BALEY FAZ FRENTE A UM ESPACIAL

            Gladia ficara muito admirada com a afirmação de Baley e não escondera essa surpresa.

            - Não vejo como possa sabê-lo! Sabe quem é o culpado?

            Baley fez um gesto afirmativo.

            - É a mesma pessoa que assassinou o seu marido.

            - Tem certeza?

            - Não lhe parece que assim seja? O assassínio do seu marido foi o primeiro na história de Solaria. O envenenamento do agente Gruer, também o primeiro havido em Solaria, deu-se precisamente um mês mais tarde. Será possível que se trate de mera coincidência? Dois crimes diferentes, num espaço de um mês e num planeta onde o crime não existe? Pense também que a segunda vítima estava investigando a morte da primeira e, consequentemente, representava um perigo para o assassino.

            - Essa sua convicção é ótima para mim! - exclamou Gladia, levando uma garfada à boca. - Só prova que estou inocente!

            - Por quê?

            - Nunca fui à Propriedade Gruer... nunca, em toda a minha vida! Não poderia ter envenenado Hannis, não é verdade? E, se não o fiz, então também não matei o meu marido!

            Baley não lhe respondeu. mantendo-se silencioso e observando Gladia. Esta perdeu um pouco da boa disposição que antes aparentara e voltou a dirigir-se ao inspetor, desta vez mais grave e asperamente.

            - Não lhe parece que assim seja, Elijah?

            - Não sei bem - respondeu Baley. - Já descobri o método empregado para envenenar Gruer. Trata-se de um método bastante engenhoso e qualquer Solariano poderia tê-lo empregado, mesmo que não se encontrasse na Propriedade Gruer... mesmo que nunca tivesse ido à Propriedade Gruer!

            Gladia levou as mãos à cabeça, meneando-a como se se sentisse presa de um enorme desespero.

            Quererá isso dizer que pensa ter sido eu?

            - Não foi isso que eu disse. - Parece-me que sim... suas palavras implicaram isso mesmo! - Gladia transformara-se de um momento para o outro e, agora, estava furiosa e também muito excitada. - Foi então por isso que me televisou!

            Todo esse seu interesse por mim foi causado pelo fato de suspeitar de mim!

            Perguntas e mais perguntas! Julgava que eu lhe diria alguma coisa que confirmasse essas suspeitas! Só pensava em me culpar...

            - Não... não! Espere!

            - Parecia tão simpático, tão compreensivo! E afinal...não passa de um Terrestre!

            Gladia articulara esta última palavra como se ela representasse o pior insulto que lhe surgisse à cabeça.

            Daneel, até aí silencioso, curvou-se na direção de Gladia e falou-lhe suavemente.

            - Desculpe-me, Sra, Delmarre, mas está agarrando essa faca com muita força e pode cortar-se. Peço-lhe que tenha cuidado.

            Daneel falara com a sua calma habitual e teria sido de esperar que o seu tom de voz, frio e pausado, acalmasse o estado quase histérico em que Gladia se encontrava. O efeito, contudo, foi exatamente o oposto. A viúva olhou para o gume da faca e, num movimento espasmódico. levantou o braço e ameaçou Baley.

            - Não me pode atingir, Gladia - disse Baley, sem conseguir conter um sorriso malicioso.

            Gladia soltou uma exclamação de raiva.

            - Não pensava em atingi-lo! Que idéia tão absurda!

            Gladia estremeceu, como se aquela idéia lhe fosse revoltante, e chamou um dos seus robôs. - Corte o contato... imediatamente!

            Gladia e a parte da sua sala de jantar desapareceram no mesmo instante e a parede original reapareceu abruptamente aos olhos de Baley e de Daneel.

            - Terei razão em pensar que considera a Sra, Delmarre culpada dos crimes? - perguntou Daneel.

            - Não - respondeu Baley secamente. - Quem executou este crime possui uma dose muito maior de certas características do que esta pobre moça possui.

            - A Sra. Delmarre tem muito mau gênio.

            - E o que tem isso? Existem muitas pessoas que têm mau gênio. Lembre-se, também, de que ela está sob um estado de nervos permanente há algum tempo.

            Se eu tivesse sofrido o que ela tem sofrido e se pensasse que alguém me acusava, e eu fosse inocente, asseguro-lhe que teria feito bem mais do que agitar uma pequena faca no ar!

            - Ainda não consegui deduzir a técnica de envenenar à distância, como diz ter acontecido.

            Baley alegrou-se com a possibilidade de responder a Daneel da forma como o fez.

            - Sei muito bem que não deduziu esse processo. Sei também que lhe falta a capacidade para decifrar este problema, Daneel

            Baley falara com uma firmeza definitiva e Daneel aceitou a afirmação tão calma e gravemente como sempre. - Tenho duas tarefas para você, Daneel.

            - Quais, amigo Elijah?

           - Primeiramente, entre em contato com o Dr. Thool e descubra em que estado se encontrava a Sra, Delmarre quando ele foi visitá-la depois da morte do marido. Que espécie de tratamento lhe aplicou... durante quanto tempo... etc.

            - Deseja determinar alguma coisa em particular, amigo Elijah?

            - Não. Apenas quero acumular o maior número de informações possível. o que não é fácil neste estranho mundo. Em seguida, quero que investigue quem vai ocupar o lugar de Gruer como chefe de Segurança de Solaria e que me marque um encontro com ele amanhã de manhã. Eu, por mim - disse Baley sem o menor prazer no pensamento ou na voz - vou-me deitar e, eventualmente, espero poder adormecer.

            Pensa que poderei encontrar um bom livro-filme na biblioteca de casa?

            - Parece-me melhor pedir a opinião do robô encarregado da biblioteca - respondeu Daneel.

            Baley estava muito irritado por ter de lidar com o robô.

            Teria preferido mil vezes procurar à sua vontade, mas a biblioteca era tão grande e complicada que isso não fora possível.

            - Não - disse Baley - não quero um clássico. Desejo apenas ficção que lide com a vida de todos os dias em Solaria. e que seja atual. Arranje-me uns cinco ou seis!

            O robô, naturalmente, obedeceu às ordens de Baley, embora de má vontade e, enquanto acionava botões que extraíam os livros-filmes dos seus esconderijos, ia dissertando monótona e respeitosamente sobre o interesse e o valor de todas as outras literaturas existentes na biblioteca.

            Talvez o senhor quisesse um romance de aventuras dos tempos das explorações, sugeria o robô, ou um excelente tratado de química, talvez, com modelos animados de átomos, ou uma fantasia, ou uma Galactografia. A lista de literatura parecia não ter fim.

            Elijah Baley aguardou impacientemente as obras que pedira e, quando as recebeu, agarrou (finalmente com as suas próprias mãos) num aparelho próprio para passar estes livros-filmes e encaminhou-se para o seu quarto.

            O robô foi atrás dele, como se não quisesse perder aquela presa, e perguntou- lhe, evidentemente muito preocupado:

            - Não deseja que eu o auxilie a ajustar o aparelho, inspetor?

            Baley voltou-se bruscamente para ele e explodiu: - Não! Volte já para a biblioteca!

            O robô fez-lhe uma reverência e obedeceu à ordem.

            Uma vez na cama, com a cabeceira completamente iluminada, Baley quase se arrependeu de sua decisão. O aparelho era muito diferente dos modelos terrestres e não fazia a menor idéia de como se servir dele. Após diversas tentativas e um estudo intenso do aparelho, Baley conseguiu obter resultados satisfatórios - embora as imagens lhe aparecessem ligeiramente fora de foco.

            Isto, porém, era a paga daquele seu momento de independência frente aos robôs.

            Baley viu os primeiros quatro livros-filmes em menos de duas horas, ficando bastante desapontado com o seu conteúdo.

            Baley tivera uma teoria. Não existia uma forma melhor, pensava ele, de estudar os hábitos dos Solarianos e os seus pensamentos do que ler suas obras de ficção. Suas investigações não poderiam ser conduzidas eficazmente se ele não conhecesse bem esses hábitos.

            Sua teoria, verificava agora, de nada lhe serviria. Aqueles quatro romances apenas lhe haviam apresentado personagens, com problemas ridículos, que se comportavam estupidamente e que reagiam misteriosamente. Que razões teriam, por exemplo, levado uma mulher a abandonar o seu trabalho ao tomar conhecimento, por acaso, de que um filho seu entrara na mesma profissão e a recusar explicar essas razões, até criar as mais ridículas e insuportáveis complicações? O que teria causado que um médico e uma artista se sentissem humilhados por terem sido nomeados para se unirem em casamento e que haveria de tão nobre na insistência do médico em querer dedicar-se à especialização robótica?

            Baley inseriu a quinta obra no aparelho e ajustou este aos seus olhos já cansados.

            Tinha os olhos tão cansados que, mais tarde, nada recordou deste quinto romance (que ele pensava vagamente descrever umas aventuras misteriosas) a não ser do começo no qual um novo proprietário entrava em sua nova mansão, que herdara, e estudava as contas que lhe eram apresentadas por um robô!

            Elijah Baley adormecera com os olhos ainda encaixados no aparelho e era certo que um robô o viera retirar e apagar as luzes. Não sabia... adormecera profundamente e sonhara com Jessie. Sonhara que nunca saíra da Terra e que era feliz. Sonhara com a beleza de Jessie e com sua atraente figura. Sonhara que estava na Cidade de Nova York e que tudo se encontrava na mesma... com uma enorme diferença. O sol brilhava sobre a cidade e banhava esplendorosamente todas as dezenas de andares que constituíam a cidade. Tudo o resto estava na mesma. O sol, porém, tudo iluminava e ninguém parecia receá-lo!

            Baley acordou, ainda estonteado e incomodado por ter sido despertado! Os robôs serviram o desjejum e Baley manteve-se silencioso, sem sequer falar a Daneel ou pedir fosse o que fosse. O inspetor bebeu o excelente café sem apreciá-lo e, talvez mesmo, sem saber o que bebia.

            Que estranhas razões o teriam levado a sonhar com o sol? Compreendia muito bem ter sonhado com Jessie e com a Terra, mas por que com aquele sol que iluminava a cidade? E, além de tudo o mais, por que se preocuparia ele agora com isso?

            - Amigo Elijah - chamou Daneel gentilmente.

            - O que?

            - Corwin Attlebish estará em contato com você dentro de meia hora - informou Daneel.

            - E quem é esse Corwin que não o conheço? - perguntou Baley desagradavelmente, ao mesmo tempo que voltava a encher a chávena de café.

            - Era o ajudante do agente Gruer, amigo Elijah, e agora é temporariamente chefe de Segurança de Solaria.

            - Então - exclamou Baley, sua má disposição dominando-o completamente - estabeleça contato com ele agora mesmo!

            - Marquei a entrevista para daqui a meia hora - voltou a explicar Daneel.

            - E que tenho eu com isso?! Quero falar com ele neste mesmo instante.

            Ordeno que mande o robô estabelecer contato com esse homem imediatamente!

            - Farei o que diz, amigo Elijah, mas é muito possível que ele não esteja disposto a recebê-lo já.

            - Veremos se assim sucede... mas ande, Daneel!

            O chefe Interino de Segurança recebeu a chamada e, pela primeira vez desde que se encontrava em Solaria, Baley viu um Espacial que se assemelhava à habitual concepção que deles se tinha na Terra. Attlebish era um homem de elevada estatura, esbelto, a pele e cabelos possuíam um tom bronzeado. A expressão do seu rosto era decidida e firme, parecendo-se ligeiramente com a de Daneel - embora, naturalmente, essa expressão fosse humana e viva.

            Attlebish fazia a barba. O pequeno lápis abrasivo lançava sobre o rosto as minúsculas partículas que desintegravam os pelos da cara e os transformavam em poeira impalpável. Baley já ouvira falar daquele instrumento, mas nunca o vira em ação.

            - É você, o Terrestre? - perguntou Attlebish bruscamente, continuando a barbear-se e limitando-se a dar uma olhadela a Baley.

            - Sou Elijah Baley, inspetor da Polícia da Cidade de Nova York, categoria C-7.

            Sou um habitante do Planeta Terra - informou Baley friamente.

            - Não o esperava tão cedo. O que deseja de mim, Terrestre?

            O tom de voz do Espacial não teria agradado a Baley mesmo se este estivesse com uma melhor disposição. Aquelas palavras ditas num tom altivo e seco aumentaram a sua má disposição, causando-lhe mesmo uma fúria interior que dominou com muito esforço.

            - Como se encontra o agente Gruer?

            - Ainda está vivo - respondeu o outro. - Pode ser que sobreviva!

            Baley assentiu, não parecendo surpreendido com a resposta.

            - Os seus envenenadores, aqui em Solaria, nada sabem sobre dosagens. Falta de experiência. Deram demasiado veneno a Gruer e ele vomitou-o. Metade da dose tê-lo-ia morto instantaneamente.

            - Envenenadores? Não existe a menor prova de que foi veneno.

            Baley ficou olhando para o Espacial, incrédulo e perplexo. - Caramba! O que julga então que foi?

            - Foi qualquer mal súbito. Estamos todos sujeitos a males súbitos, seja do que for, não é verdade? - Attlebish falara num tom de voz indiferente passando a mão pelo rosto a fim de verificar se estava bem barbeado. - O nosso metabolismo oferece inúmeros problemas após os duzentos e cinquenta anos de idade.

            - Se assim é, o que seria muito estranho, já obteve um relatório médico adequado sobre o caso?

            - O relatório do Dr. Thool...

            Aquelas palavras desencadearam a fúria que Baley tentara dominar desde que despertara e que, sem ele compreender por que, fora aumentando progressivamente desde então. Elijah Baley, inspetor da Polícia da Cidade de Nova York, começou a gritar em altos berros.

            - Não quero ouvir falar nesse Dr. Thool! Eu disse um relatório de um médico competente! Competente! Os seus médicos nada sabem... a sua medicina é tão inexistente como sua polícia! Foram obrigados a buscar um inspetor da polícia da Terra! Fariam melhor se lá fossem buscar um médico, também!

            O Solariano olhou friamente para Baley.

            - Estará querendo dizer-me o que devo fazer?

            - Estou, sim! E sem pedir que me pague os meus conselhos! Gruer foi envenenado! Assisti ao processo de envenenamento! Gruer bebeu o líquido e começou logo a gritar que a garganta lhe queimava. Que outra coisa poderia ser quando ele estava investigando uma... - Baley calou-se subitamente, lembrando- se de que Daneel se encontrava a poucos metros de distância e de que Gruer não quisera que ele soubesse da investigação política, e acrescentou depois: - Existiam implicações políticas!

            Attlebish cruzou os braços e tomou uma atitude distante, aborrecida e ligeiramente hostil.

            - Não há problemas políticos em Solaria, no sentido que se lhes dá na Terra.

            Hannis Gruer é um ótimo cidadão, porém muito imaginativo! Foi ele que, quando ouviu contar uma história a seu respeito, decidiu trazê-lo para cá. Até concordou em aceitar a presença de um Auroriano, como condição de sua vinda, Terrestre!

            Jamais imaginei que uma tal medida fosse necessária! Não há nenhum mistério para ser desvendado! Rikaine Delmarre foi assassinado pela mulher e ainda havemos de descobrir como e por que. Se, por acaso, não o conseguirmos descobrir, o que me seria totalmente indiferente, castigaremos essa mulher da mesma forma, pois não restam dúvidas de que foi ela quem assassinou o marido. No que diz respeito a Gruer, sua fantasia sobre venenos imaginários não tem a menor importância!

            Baley julgou, durante um momento, ter ouvido mal as palavras de Attlebish.

            - Parece querer dizer-me que já não sou necessário aqui!

            - É verdade! Se desejar regressar à Terra, hoje mesmo, pode fazê-lo. Digo-lhe até que isso nos causaria a maior satisfação.

            Elijah Baley ficou admirado com a veemência das palavras com que respondeu ao Espacial.

            - Não, sr. Attlebish! Eu daqui não saio tão cedo!...

            - Fomos nós que o contratamos, inspetor. Podemos também despedi-lo.

            Deverá regressar ao seu planeta!

            - Não! Ouça-me com atenção! Aconselho-o a que me ouça! O senhor é um Espacial, um ser superior e supostamente civilizado, e eu sou um modesto Terrestre, mas, com todo o respeito, com as minhas mais sinceras e humildes desculpas, digo-lhe que está cheio de medo... de verdadeiro pavor!

            - Retire o que disse! Imediatamente! - Attlebish empertigara-se, a sua elevada estatura dominando arrogantemente o humilde Terrestre.

           - Está apavorado, como já lhe disse! Tem medo de que lhe suceda o mesmo que sucedeu a Gruer, se continuar as investigações ou se me deixar cumprir minha missão! Resolveu despedir-me, só para ver se eles o deixam em paz, para que eles o deixem viver a sua miserável vida! - Baley não fazia a menor idéia de quem "eles" eram ou se, na realidade, existiam quaisquer "eles". Decidira enfrentar a arrogância e a pretensa Superioridade deste Espacial, lançando um ataque cego e divertindo-se com o resultado das suas frases brutais no autodomínio do outro.

            - Sairá de Solaria dentro de uma hora! - exclamou o Solariano, fazendo um gesto irado e tremendo de raiva. - Asseguro-lhe que não teremos a menor consideração diplomática neste caso!

            - Basta de ameaças, Espacial! Já sei que a Terra nada significa para você, mas lembre-se de que não estou só. Permita-me que lhe apresente o meu companheiro, Daneel Olivaw, do Planeta Aurora. Daneel não fala muito, é verdade, porém não se encontra aqui para falar. Eu é que estou aqui para falar.

            Ele limita-se a ouvir e nunca perde uma palavra. Ouça-me bem, Attlebish - disse Baley, usando o nome sem o adornar com qualquer título ou atributo e deliciando-se com o fato. - Não sei bem o que se está passando neste ridículo mundo, mas, seja o que for, pode ter a certeza de que Aurora e mais quarenta e tal planetas estão muito interessados nisso. Se nos expulsar do planeta. como tenciona fazer, fique certo de que a próxima visita não será de dois pacíficos investigadores mas, sim, das naves de guerra desses planetas. Sou um habitante da Terra e sei muito bem o que acontecerá! Os sentimentos feridos não levam muito tempo a significar naves especiais de guerra!.

           Attlebish transferiu o seu olhar arrogante para Daneel e, depois de pensar durante alguns instantes, disse num tom de voz mais suave e agradável.

            - Nada se passa em Solaria que possa interessar os outros planetas.

            - Gruer pensava diferentemente e o meu companheiro ouviu-o - disse Baley, certo de que este era um momento que justificava aquela insignificante mentira.

            Daneel voltou-se para Baley, surpreendido pelas suas últimas palavras, mas Baley não lhe prestou a menor atenção e continuou a falar:

            - Tenciono terminar minhas investigações, embora me sinta muito melhor em casa do que neste maldito planeta! Se eu fosse o dono deste mundo infestado de robôs, teria muito gosto em oferecê-lo a alguém em troca de uma passagem apenas de ida para a Terra! Isso não impede que cumpra a missão que aqui me trouxe e, muito especialmente, não gosto que me dêem ordens ou me expulsem de planetas de segunda categoria! Tente desembaraçar-se da minha presença e verá o que lhe acontece, a você e ao seu precioso planeta! E o que é mais, de hoje em diante, a investigação dos crimes será dirigida por mim e só por mim!

            Sou eu quem a dirige, percebe! Vejo ou televejo quem eu quiser. Verei quem eu quiser, ouviu-me! Estou habituado a ver pessoas e não concordo com esta coisa de telever... e encontrar-me-ei com quem eu quiser... como eu quiser. Exijo a aprovação oficial do seu departamento o mais rapidamente possível.

            - Isso é impossível... insuportável...

            - Diga-lhe, Daneel...

            A voz do humanoide fez-se ouvir, lenta e friamente como era habitual.

            - Conforme o meu companheiro lhe informou, agente Attlebish, nós viemos a este planeta para conduzir a investigação de um crime de morte. É absolutamente essencial que o façamos. Nós, como seria de esperar, não desejamos violar qualquer um de seus costumes mas, como o inspetor Baley disse, é muito possível que tenhamos de visitar, pessoalmente, alguns Solarianos. Seria muito conveniente, por conseguinte, que tivéssemos autoridade legal para fazê-lo. No que diz respeito à sua ameaça de nos obrigar a sair do planeta contra a nossa vontade, devo dizer que isso me parece pouco aconselhável. embora lamentemos qualquer sentimento de sua parte ou de outros Solarianos que torne a nossa permanência desagradável.

            Baley fez um enorme esforço para não sorrir durante a diplomática saída verbal de Daneel. Quem soubesse que Daneel Olivaw era um robô teria compreendido imediatamente. que suas palavras haviam sido cuidadosamente escolhidas para não causarem ofensa a um ser humano e, portanto, nem a Baley nem a Attlebish. Quem pensasse que Daneel Olivaw fosse um Auroriano, um cidadão do mais poderoso mundo dos Planetas Exteriores, julgaria que suas palavras continham uma ameaça velada e muito sutil.

            Attlebish hesitou, passando a mão pelo cabelo e falando desanimadamente.

            - Terei de pensar bem no assunto.

            - Não demore muito tempo pensando - disse Baley, pois terei de efetuar uma visita dentro de uma hora e será pessoalmente. Até já!

            Baley fez um sinal ao robô para que este suspendesse o contato e ficou olhando. aliviado e satisfeito, para o local onde Attlebish se encontrava. Suas palavras não haviam sido previstas. Fora tudo devido à arrogância de Attlebish, assim como à má disposição que o dominara desde que despertara. Mas, agora que já passara o momento cruciante, Baley sentia-se contente com o que sucedera. Era aquilo mesmo o que ele queria... dirigir as investigações sem ter de prestar contas aos Solarianos.

            Pelo menos, pensou Baley, dissera. ao Espacial o que pensava dele!

            O seu maior desejo era que toda a população da Terra tivesse assistido ao incidente. Attlebish era um bom exemplo do tipo de Espacial que era detestado na Terra. Baley nunca se esqueceria da expressão de espanto do Espacial ao ouvir as palavras arrogantes daquele humilde Terrestre! Tanto melhor... tanto melhor!

            O que Baley não compreendia bem era aquela sua veemência ao atacar o hábito de telever. Era verdade que tinha um plano, do qual fazia parte ver em pessoa, mas isso não justificava a raiva que telever lhe causava.

            Por quê?

            Havia algo que o impulsionava, algo além do caso, algo que nada tinha a ver com a segurança da Terra. O que seria?

            O seu estranho sonho ainda não lhe saíra do pensamento: o sol brilhara esplendorosamente através das camadas opacas das Cidades Subterrâneas da Terra.

            Daneel falou lentamente, o seu tom de voz manifestando uma espécie de ansiedade ou preocupação que Baley raramente lhe reconhecera.

            - Não sei, amigo Elijah, se fizemos bem em falar nesse tom ao agente Attlebish.

            - Não sei se fizemos bem, o que sei é que deu resultado. E não mentimos, sabe? Estou convencido de que é muito importante para Aurora descobrir o que se passa em Solaria e as autoridades Aurorianas sabem isso, com certeza. Muito obrigado, Daneel, por não ter-me desmentido.

            - A minha decisão foi natural. Não o desmenti por verificar que a mentira causara um ligeiro e sutil sofrimento ao agente Attlebish, mas, se o desmentisse, amigo Elijah, sofreria muito mais do que sofreu o agente Attlebish.

            - Os potenciais defrontaram-se e o mais elevado ganhou, não é isso, Daneel?

            - Tem razão, amigo Elijah. Creio que este processo, ainda que menos marcado, também se dá na mente humana. Devo dizer, contudo, que esta sua nova idéia não é bastante segura.

            - Que idéia?

            - A idéia de visitar alguém em pessoa. Não aprovo essa sua decisão. Telever, neste planeta, parece-me mais indicado.

            - Compreendo-o perfeitamente, mas não lhe pedi sua aprovação.

            - Tenho instruções para protegê-lo a todo o custo, amigo Elijah. Não sei o que o agente Gruer lhe disse ontem durante a minha ausência. O fato de que ele lhe disse algo de importante é evidente pela sua mudança de atitude face a este problema. Entretanto, as minhas instruções foram bastante completas e julgo que ele o avisou da possibilidade de perigo para os outros planetas, motivado pela situação em Solaria.

            - Só existem vinte mil Solarianos. Que perigo podem eles representar para a Galáxia?

            - Os meus superiores, em Aurora, não estão satisfeitos com a situação no planeta Solaria. Não fui posto ao corrente de tudo o que eles sabem ...

            - E disseram-lhe para não me informar desse pouco que sabe, não é verdade?

            - perguntou Baley.

            - Teremos de descobrir muitas coisas mais antes deste assunto poder ser discutido abertamente.

            - Vejamos, então. O que estarão os Solarianos fazendo? Novas armas?

            Subversão? Uma campanha de assassínios individuais. O que poderiam vinte mil habitantes fazer contra centenas de milhões de Espaciais?

            Daneel permaneceu silencioso.

            - Tenciono descobri-lo, sabe?

            - Mas não por qualquer meio que possa representar um perigo para você, amigo Elijah. Já lhe disse que me ordenaram que velasse pela sua segurança.

            - Isso seria natural, de todas as formas, devido à Primeira Lei.

            - Mais do que isso. Num conflito entre a sua segurança e a de outra pessoa, terei de velar por você!

            - Compreendo perfeitamente. Se me acontecesse qualquer coisa, e não tenciono sofrer um acidente ou ser vítima de Um assassino, deixaria de ter um pretexto para permanecer em Solaria sem as complicações que o Planeta Aurora ainda pretende evitar. Enquanto eu viver, encontro-me em Solaria convidado pelos Solarianos e posso até, se quiser - como sucedeu - obrigá-los a conservarem os meus serviços. Se eu morrer, a situação transformar-se-á completamente. As suas ordens são, portanto, assegurar-me uma longa e próspera vida, não é verdade, Daneel?

            - Não posso presumir compreender inteiramente o significado das ordens que recebo.

            - Está bem, não se preocupe, Daneel. Os espaços abertos e o ar livre não me matarão, se for necessário ir visitar alguém, em carne e osso. Esteja descansado.

            .. não morrerei disso e até talvez me habitue ao sol e ao ar.

            - Não se trata apenas do sol e do ar, amigo Elijah - disse Daneel, - O que eu não aprovo é a questão de ver Solarianos em pessoa.

            - Por quê? Receia que os Solarianos se ofendam com isso? Seria uma pena, não haja dúvida. Que usem filtros no nariz e luvas, se quiserem! Que desinfetem a atmosfera e tudo o que eu tocar. Se o fato de me verem lhes ofende a moral, que corem e choraminguem tanto quanto quiserem! Tenciono vê-los, em carne e osso. Considero que isso é necessário e assim o farei!

            - Não posso permitir-lhe que o faça.

            - Não pode permitir-me?!

            - Devia compreender por que, amigo Elijah. Não vejo qualquer razão para isso.

            - O agente Gruer, a principal figura Solariana nesta investigação, foi envenenado. Não lhe parece que o assassino o escolherá como próxima vítima, se tiver uma oportunidade para fazê-lo, amigo Elijah? Como poderei eu, nestas circunstâncias, permitir que saia desta mansão?

            - Como tenciona impedir-me que o faça, Daneel?

            - Por meio da força, se isso for necessário - respondeu Daneel calmamente. - Mesmo se tiver de ofendê-lo. Se eu não agir dessa forma, amigo Elijah, morrerá com toda a certeza!

 

UM ROBÔ É PARALISADO

            - O potencial mais elevado volta a ganhar, não é assim, Daneel? - perguntou Baley, sorrindo e olhando intensamente para o robô. - Está então disposto a ofender-me, para me salvar a vida!

            - Não creio que isso seja necessário amigo Elijah, Sabe muito bem que sou superior a você, no que se refere à força física, e estou certo de que não tentará reagir. Se, contudo, isso for necessário, não hesitarei em magoá-lo, pode ter a certeza.

            - Tenho aqui um desintegrador e poderia destruí-lo em poucos segundos, Daneel. Nada nos meus potenciais mentais me impediria de fazê-la!

            - Já havia pensado que talvez tomasse essa resolução em qualquer altura das nossas relações presentes, amigo Elijah, Pensei nessa possibilidade quando se tornou particularmente violento durante a viagem de carro do aeroporto para esta mansão. A minha destruição seria uma coisa insignificante em comparação com o perigo que a sua vida corre, mas uma tal destruição ser-lhe-ia prejudicial mais tarde e, além disso, não seria muito conveniente para o bom desenrolar dos planos dos meus superiores. Um dos meus primeiros cuidados, durante a primeira noite que aqui passamos, foi o de descarregar o seu desintegrador.

            Baley cerrou os punhos. Era a primeira vez, em muitos anos, que se encontrava sem um desintegrador pronto a funcionar. Sua mão direita desceu rapidamente para o cinturão e sacou o desintegrador do coldre. A agulha do indicador de carga apontava para O! Baley teve um súbito desejo de lançar a pesada arma contra a cabeça de Daneel. Para que, afinal? O robô era muito rápido e evitaria o projétil, com certeza!

            Baley voltou a guardar o desintegrador, pensando que encontraria uma forma de carregá-lo... e quanto mais depressa o conseguisse, melhor!

            - Já não me engana, Daneel - disse Baley, pensativo e preocupado.

            - Não sei a que se refere, amigo Elijah.

            - Tem-me dominado em tudo. Consegue sempre fazer tudo o que quer de mim. Não acredito que seja um robô, Daneel.

            - Alguma vez duvidou disso, amigo Elijah?

            - Na Terra, há quase um ano. Duvidei, então, que R. Daneel Olivaw fosse um robô. Confirmei que o era, e ainda o creio. A minha dúvida é outra: será R.

            Daneel Olivaw que está aqui na minha presença?

            - Sou, sim, amigo Elijah.

            - Não me parece que o seja. Daneel foi desenhado e fabricado com o fim de imitar um Espacial. Que razão impediria o fato de um Espacial imitar perfeitamente R. Daneel Olivaw?

            - Para que?

            - Para levar a cabo uma investigação em Solaria com maior iniciativa e capacidade do que um robô! E, ao assumir a personalidade de Daneel, poderia facilmente dominar-me, como o tem feito, devido ao simples pretexto de ser obrigado a velar pela minha segurança!

            - Isso não é verdade, amigo Elijah.

            - Não se compreende, então, que todos os Solarianos o tomem por um ser humano. Os habitantes deste planeta são especialistas em robô e na técnica robótica Como seria possível que todos eles fossem enganados pelo seu aspecto? Não é possível que seja eu o único convencido de um tal fato entre tantas outras pessoas! É muito mais natural que eu seja o único enganado entre essas pessoas!

            - Não é verdade, amigo Elijah.

            - Prove-o., então! exclamou Baley, aproximando-se ligeiramente de uma das paredes. - Não lhe será difícil provar que é um robô. se isso for verdade! Mostre- me o metal sob a sua pele!

            - Asseguro-lhe...

            - Mostre-me o metal - repetiu Baley secamente. - É uma ordem, ouviu? Ou será que não se sente obrigado a obedecer às ordens de um ser humano?

            Daneel desabotoou a camisa. A pele bronzeada do seu peito quase não tinha pelos e os seus músculos peitorais eram demasiado perfeitos para pertencerem a um ser humano. Os dedos de Daneel exerceram uma ligeira pressão sobre uma costura invisível e a pele e a suposta carne abriram-se, sem o menor sinal de sangue, revelando o brilho do metal que formava o corpo de Daneel.

            Baley encostara-se à parede e, no mesmo instante em que Daneel abrira a costura, sua mão procurara o painel dos botões que chamavam os robôs e carregou em dois ou três botões ao mesmo tempo.

            - Não se mova, Daneel! - exclamou Baley, quando viu três robôs entrarem na sala. - Dei-lhe uma ordem! Fique imóvel! Paralise-se!

            Daneel ficou imóvel, como se toda a vida, ou a imitação robótica de vida, o tivesse abandonado completamente.

            - Rapazes! - exclamou Baley, falando aos três robôs que aguardavam as suas ordens. - Vêem esta criatura que vocês pensavam ser um humano?

            Os seis olhos fixaram-se atentamente em Daneel. Os três robôs responderam em coro à pergunta de Baley.

            - Estamos vendo-o, sim, sr. inspetor.

            - Como estão vendo, pelo metal que tem sob a pele, este suposto ser humano é um robô como vocês o são! Foi desenhado e fabricado com a intenção de imitar um ser humano, mas não passa de um robô.

            - Sim, sr. inspetor!

            - Vocês, robôs, não são obrigados a obedecerem a quaisquer ordens que ele vos dê. Compreendem? - Compreendemos, sim, sr. inspetor.

            - Eu, por outro lado - disse Baley -, sou um autêntico ser humano.

            Os robôs hesitaram durante um momento. Baley não estava certo de que os robôs, depois de verificarem que uma criatura que eles julgavam ser humana não o era afinal. voltariam a aceitar a noção de que um ser humano o era, de fato, devido à sua aparência física.

            Um dos robôs falou, por fim. e Baley respirou fundo, aliviado, ao ouvi-lo dizer:

            - O sr. inspetor é um homem, um ser humano.

            - Muito bem, Daneel, pode voltar ao seu normal disse Baley, imensamente satisfeito pelo triunfo que acabara de obter.

            Daneel abotoou a camisa e, calmo como sempre, falou a Baley.

            - Duvidou da minha identidade apenas com o fim de mostrar o que eu sou a estes robôs, não é verdade, amigo Elijah?

            - Acertou, Daneel- respondeu Baley, desviando o olhar.

            Daneel é uma máquina, não é um homem, pensou Baley, e não existe a menor razão para eu me sentir tão pouco à vontade. Não traí um ser humano....

            e sim uma máquina.

            A verdade era que Baley não conseguira livrar-se de um sentimento de vergonha pelo que fizera. Daneel possuía um aspecto tão humano, mesmo quando ali estivera com o peito metálico a descoberto, que Baley sofrera imenso ao tomar a decisão de cometer aquela espécie de traição!

            - Ouça-me, Daneel! Deve saber que, fisicamente. não pode fazer frente a estes três robôs. Os três juntos poderiam dominá-lo facilmente, não é verdade?

            - Não restam dúvidas sobre o fato, amigo Elijah.

            - Ótimo! Ouçam-me, rapazes... - disse Baley, dirigindo-se aos três robôs. - Ficam proibidos de informar qualquer ser humano ou outro robô de que esta criatura é um robô. Nunca o repetirão, sem instruções minhas ao contrário e só minhas. Ouviram? A ordem é final e não pode ser alterada por um ser humano ou por um robô!

            - Muito obrigado - disse Daneel. muito sério e tão agradecido quanto um robô podia sentir-se.

            - Este robô humanoide - continuou Baley - não deverá interferir em qualquer ação minha e ordeno-lhes que, se for necessário, empreguem a força, procurando não danificá-lo, se ele insistir em interferir e tentar impedir-me de fazer o que eu desejar. Ordeno, também, que não o deixem entrar em contato, seja em pessoa ou por televisão, com qualquer ser humano ou robô. Fiquem junto dele até eu ordenar o contrário. Permaneçam nesta sala e prestem-lhe toda a atenção, já que possui uma capacidade mental mais elevada do que a de vocês, e talvez tente escapar-lhes. Todos os outros deveres ficarão suspensos até ordem em contrário. Compreenderam-me bem?

            - Compreendemos, sim, sr. inspetor - disseram os três robôs em coro.

            Baley voltou-se de novo para Daneel.

           - Nada pode fazer para me deter, Daneel, e, por isso, não vale a pena fazê-lo, - Não' posso permitir, por inação minha, que sofra qualquer mal, amigo Elijah.

            Nestas circunstâncias. contudo, nada mais me é possível do que uma completa inação! A evidência desse fato não pode ser alterada. Ficarei aqui à sua espera, imóvel e inativo. Espero que regresse são e salvo. amigo Elijah.

            Lógica, outra vez, pensou Baley. Os robôs nada mais possuíam, mentalmente, do que lógica pura e simples. A lógica dizia a Daneel que estava completamente paralisado. A razão poderia ter-lhe dito que nem todos os fatores são antecipáveis. que raramente são total e perfeitamente antecipados, e que a oposição pode cometer quaisquer erros que alterem o futuro.

            Mas não. Um robô só é lógico e não raciocina como os homens.

            Baley ainda não se encontrava muito contente com a traição que cometera e sentiu que, de certo modo, teria de "consolar" o robô.

            - Ouça, Daneel - disse o inspetor - mesmo se eu corresse perigo, o que não sucede, isso não me impediria de realizar o meu trabalho. A natureza do trabalho ao qual dediquei toda a minha vida é, até certo ponto, perigosa e nada posso fazer para alterar esse fato. É o meu trabalho e pagam-me para fazê-lo. É tão meu dever evitar o sofrimento da humanidade, em geral, como o seu é evitar o sofrimento de um ser humano individual. Compreende?

            - Não compreendo o que me diz, amigo Elijah.

            - Se não compreende é porque não foi feito para compreendê-lo. Acredite na minha palavra quando lhe digo que, se fosse um homem, compreenderia facilmente o que lhe disse.

            Daneel fez uma pequena reverência, mostrando que aceitava a palavra de Baley, e ficou imóvel. como que paralisado. quando o inspetor se afastou em direção à porta da sala. Os três robôs separaram-se para deixá-lo passar, conservando os seus olhos fotoelétricos apontados firmemente para a figura de Daneel.

            Baley encaminhava-se' para uma espécie de liberdade e o seu coração batia precipitadamente, numa antecipação do acontecimento, quando um outro robô se aproximou dele.

            O que se teria passado? Teria algo transtornado o seu plano?.

            - O que é, rapaz? - perguntou ele, bruscamente, ao robô que lhe atravessara no caminho.

            - Trago-lhe uma mensagem, sr. inspetor, do Departamento de Segurança de Solaria.

            Baley apanhou a cápsula pessoal que o robô lhe entregara e aquela abriu-se imediata e automaticamente, revelando um papel enrolado na forma de um lápis. O fato não surpreendeu grandemente o inspetor. As autoridades de Solaria possuíam suas impressões digitais e a cápsula fora ajustada para se abrir quando ele a tocasse com as pontas dos dedos.

            Elijah Baley leu a mensagem e o seu rosto abriu-se num sorriso de

            contentamento. Tratava-se de uma autorização oficial que lhe permitia efetuar visitas, em pessoa, desde que as pessoas que ele desejasse entrevistar estivessem de acordo com isso. A mensagem, entretanto, aconselhava essas pessoas a prestarem aos "agentes Baley e Olivaw" toda a cooperação possível.

            Attlebish capitulara, ao ponto de indicar o nome do Terrestre em primeiro lugar. Aquilo era uma excelente indicação de que, finalmente, a investigação seria conduzida como deveria ser.

            Baley encontrava-se outra vez num veículo aéreo, tal como sucedera durante a viagem de Nova York a Washington. Esta viagem, contudo, oferecia-lhe uma grande diferença. O avião não fora fechado. As janelas permaneciam transparentes, deixando entrar a luz do dia e revelando-lhe o azul do céu.

            Baley tentou dominar a sensação de pavor que o assaltava, mergulhando a cabeça nas mãos sempre que não conseguia agüentar por mais tempo o efeito que a claridade lhe causava.

            Fora ele próprio que decidira fazer aquele sacrifício. A sua boa disposição, o triunfo que conseguira, aquela sensação de liberdade e de independência, o fato de ter derrotado Attlebish e Daneel, o sentimento de ter assegurado a superioridade dos Terrestres sobre os Espaciais, tudo aquilo lhe exigia que se enchesse de coragem e fizesse o sacrifício.

            Começara por atravessar o espaço que separava o aeroporto do avião, dominado por uma espécie de tontura que quase lhe fora agradável, e decidira então, num esforço titânico de autodomínio, ordenar que não fechassem as janelas.

            Tenho de me habituar a isto, pensara Baley, enquanto olhava para o azul da paisagem celestial e sentia um nó na garganta que lhe causava uma angústia física e mental.

            Elijah Baley descobrira que lhe era muito mais fácil suportar essa angústia se escondesse a cabeça entre as mãos e fechasse os olhos, de vez em quando, até que os intervalos se tornaram mais extensos e o inspetor fora adquirindo confiança em si próprio.

            O fato de ter sido obrigado a pensar maduramente no seu plano de campanha também o ajudara a agüentar a sensação de mal-estar. Decidira visitar um sociólogo e, antes de iniciar a viagem, pedira a um robô que lhe indicasse o mais eminente sociólogo de Solaria. O robô dissera-lhe imediatamente quem ele era, assim como diversas informações a seu respeito, fazendo notar a Baley que o sociólogo estava almoçando, com certeza, e que isso retardaria o contato que Baley lhe pedira para estabelecer.

            - Almoçando! - exclamara Baley. - Não seja ridículo. Ainda faltam mais de duas horas para o meio-dia!

            - Referi-me à hora local - informara o robô.

            Baley só compreendera as palavras do robô passados alguns segundos. Na Terra, com as Cidades Subterrâneas, o dia e a noite, o despertar e o dormir, eram períodos impostos pelo homem, ajustados para servir às necessidades da comunidade e do planeta. Num planeta como este, exposto à nudez do sol, o dia e a noite não representavam uma imposição humana e eram períodos naturais causados pelo sol.

            Baley tentara apreender todo o significado do fato de um mundo ser uma esfera que se encontrava na escuridão ou iluminada segundo as suas próprias rotações. A noção não era muito do seu agrado e Baley sentiu um certo desprezo pelo fato dos supostamente superiores Espaciais permitirem que um fator tão importante como era o tempo lhes fosse ditado pelas fantasias das rotações planetárias!

            Elijah Baley, inspetor da Polícia da Cidade de Nova York, não se dera por vencido, mesmo temporariamente, e ordenara ao robô que entrasse em contato com o sociólogo e o informasse de que ia receber a visita, em pessoa, de um habitante da Terra.

            Elijah Baley, quando desembarcou no aeroporto da propriedade Quemot, era aguardado por um grupo de robôs e, ao ter de caminhar sob o sol ardente, sentiu uma súbita vertigem.

            - Dê-me o braço, rapaz - disse o inspetor ao robô que lhe indicava o caminho.

           O sociólogo esperava-o à porta da mansão, cumprimentando com um sorriso ligeiramente forçado.

            - Boa tarde, inspetor Baley.

            - Boa tarde - respondeu Baley, bastante combalido pela experiência da viagem e dos espaços descobertos. - Agradecer-lhe-ia se mandasse fechar as janelas.

            - Já estão - respondeu o sociólogo. - Conheço os: hábitos da Terra. Faça o favor de me seguir.

            Baley foi atrás do sociólogo, sem precisar da ajuda do robô e mantendo-se a uma certa distância do Espacial, e, quando finalmente chegaram a uma enorme e agradavelmente decorada sala de estar, o inspetor sentou-se, satisfeito com aquela oportunidade de descansar.

            A sala era muito confortável e Baley apreciou devidamente as inúmeras estatuetas abstratas que ornavam as paredes, pensando que os artistas Solarianos possuíam uma imaginação e sensibilidade maiores do que ele calculara. Um dos objetos que mais surpreendeu Baley, naquele seu rápido e apreciativo exame da sala, foi uma caixa de onde pendiam vários tubos e que, na sua base, tinha numerosos pedais. Tratava-se, talvez, de um instrumento musical, pensou o inspetor.

            O sociólogo era um homem já idoso, com o cabelo completamente branco e a expressão do seu rosto parecia indicar uma inteligência fora do normal. Os seus olhos, muito vivos, estudavam cuidadosamente Baley e tudo, no seu aspecto, indicava que era um homem ativo e, certamente, um profissional muito eficiente.

            Chamava-se Anselmo Quemot e era, segundo dissera o robô, o mais cotado psicólogo do Planeta Solaria.

            - Poderia dar-me uma bebida, Dr. Quemot? - foram as primeiras palavras de Baley, não que ele as tivesse previsto. mas sim porque se sentia absolutamente necessitado de uma bebida para se recompor da fadiga mental e física da viagem.

            - Uma bebida? Deseja um copo de água?

            - Não... não! Preferia, se fosse possível, uma bebida alcoólica.

            O sociólogo olhou para Baley, surpreendido, como se as obrigações da hospitalidade lhe fossem desconhecidas. E isso, pensou Baley, era, sem dúvida uma verdade literal. Num mundo onde não se faziam visitas pessoais, como era Solaria, a idéia da hospitalidade e o compartilhar de alimentos ou bebidas não podiam existir.

            Um robô apareceu pouco depois com um cálice cheio de um líquido cor-de- rosa. Baley cheirou cuidadosamente a bebida e provou-a ainda mais cuidadosamente. A ínfima porção do líquido que provara evaporou-se agradavelmente na sua boca e· transmitiu-lhe uma mensagem de calor e de conforto ao esôfago. O trago seguinte foi mais substancial e o agradável efeito ainda maior!

            - Se quiser mais... - disse Quemot.

            - Não, muito obrigado. Foi muito amável. Dr. Quemot, ao me receber em sua casa.

            Quemot sorriu, pouco à vontade.

            - Há já muito tempo que não fazia uma coisa semelhante... é verdade.

            - Calculo que a experiencia lhe seja muito desagradável, - disse Baley, não podendo deixar de sentir um certo remorso por perturbar a paz e o sossego deste simpático ancião.

            - É difícil, muito difícil - disse Quemot, voltando o rosto e indo sentar-se numa poltrona na outra extremidade da sala, depois de colocá-la de forma a que, ao invés de fazer frente a Baley, lhe oferecesse uma posição de perfil.

            Baley acabou de sorver o conteúdo do cálice e sentiu-se mais seguro de si.

            - Diga-me, Dr. Quemot - pediu Baley -, que sensação lhe causa exatamente a minha presença aqui?

            - Essa é uma pergunta extraordinariamente pessoal!

            - Bem sei - respondeu Baley - porém estou investigando um crime e sou forçado a formular um certo número de perguntas muito pessoais.

            - Terei o maior prazer em ajudá-lo em tudo o que me for possível - disse Quemot - contudo espero que as perguntas sejam decentes.

            O sociólogo era incapaz de manter o olhar fixo em Baley, vendo-se que apenas conseguia olhá-lo de frente, durante alguns segundos e que, logo em seguida, era obrigado a desviar o olhar.

            - A minha pergunta não foi motivada por pura curiosidade e a sua resposta é essencial à minha investigação.

            - Não vejo como.

            - Tenho de saber tudo o que me for possível sobre este mundo. Devo conhecer todas as reações dos Solarianos, assim como as suas ações e pensamentos. Compreende?

            Quemot não olhou para Baley, porém começou a falar lentamente.

           - Minha mulher morreu há dez anos. Nunca me foi fácil ter de vê-la, em pessoa, mas, naturalmente, habituei-me a isso e ela, de todas as formas, só raramente se encontrava na minha presença. Não me destacaram outra mulher, devido à minha idade e ao fato de... - Quemot olhou para Baley rapidamente, como que esperando que este terminasse a frase por sua conta, mas, como o inspetor não o fez, baixou o olhar e continuou a falar -... já não me ser possível ter... filhos!

            Sem sequer ter uma mulher na minha casa - disse o sociólogo - perdi completamente o hábito de ver pessoas!

            - Diga-me o que sente... o que sente? - insistiu Baley.

            - Sente pavor? Pânico? - perguntou Baley, recordando as suas experiências ao ar livre.

            - Não. Não é pavor, e nem sequer pânico. Se quer que lhe seja franco, inspetor Baley, imagino que o posso cheirar!

            Baley, muito surpreendido e até magoado, recostou-se para trás e ficou olhando para o sociólogo.

            - Cheirar-me?

            - Imaginação, claro está - disse Quemot. - Não sei se, na realidade, possui algum odor, inspetor Baley, já que, se tivesse, os filtros que tenho no nariz não me deixariam cheirá-l o Entretanto, minha imaginação... - Quemot encolheu os ombros e não acabou a frase.

            - Compreendo muito bem.

            - É ainda pior do que isso - continuou Quemot. - Desculpe-me dizê-lo, inspetor Baley, mas na presença pessoal de um ser humano sinto uma estranha impressão como se algo de horrível e nojento me fosse tocar. É uma impressão muito desagradável! ,

            Baley passou a mão pelo queixo, tentando dominar os sentimentos que aquelas palavras lhe haviam causado. embora, apesar de tudo, a sensação descrita pelo Dr. Quemot não passasse de uma reação neurótica a um estado de coisas absolutamente normal.

            - Se assim é - disse Baley - admiro-me de que tenha concordado em receber a minha visita. Previa, com certeza.. essa sensação tão desagradável.

            - Tem razão, porém sou muito curioso e queria conhecer um habitante da Terra.

            - Que importância tem o fato de eu ser um Terrestre? A voz de Quemot pareceu adquirir um novo entusiasmo. uma nova vida que lhe dava uma maior intensidade e expressão.

            - Não sei explicá-lo bem e eu próprio não o compreendo inteiramente... mas· ouça-me com atenção, inspetor Baley.

            - Há muitos anos que trabalho em sociologia. E, quando digo trabalho, quero dizer quase dia e noite. .. sem parar. .. sem descansar! Tenho desenvolvido teorias completamente novas e surpreendentes, embora muito naturais e verdadeiras. É uma dessas teorias que provoca o meu enorme interesse pelo Planeta Terra e pelos seus habitantes. O que eu descobri é que, se examinarmos cuidadosamente o Planeta Solaria e o modo de vida dos seus habitantes, torna-se evidente que a sociedade solariana e o seu modo de vida são réplicas quase iguais de uma sociedade terrestre e do seu modo de vida!

 

A CULTURA SOLARIANA

            - O que? - exclamou Baley, sem compreender o que poderia ter levado Quemot a encontrar qualquer semelhança entre os hábitos de vida da Terra e de Solaria.

            - Não me refiro à presente cultura e hábitos da Terra, não! - explicou o sociólogo. - Referia-me ao passado do seu planeta. Conhece a história da Terra, não é verdade?

            - Tenho visto filmes educativos, sim...

            - Compreende, então, o que eu quis dizer, com certeza.

            Baley, que não o compreendera, alterou o rumo da conversa.

            - Permita-me que lhe explique exatamente o que desejo do senhor, Dr.

            Quemot. Gostaria que me dissesse quais são as razões de Solaria ser tão diferente dos outros Planetas Exteriores. As razões, também, da existência de tantos robôs e de seus costumes tão estranhos, para mim... - acrescentou Baley, esperando que o sociólogo não se ofendesse com aquelas palavras. - Desculpe- me ter mudado de assunto, porém preciso saber o que lhe perguntei. Esses conhecimentos ser-me-ão muito importantes na condução da investigação.

            Quemot sorriu.

            - Deseja comparar Solaria com os outros Planetas Exteriores e não com a Terra, não é isso?

            - Conheço muito bem a Terra, Dr. Quemot.

            - Muito bem, então. - O Solariano tossiu e aparentou um certo mal-estar. - Inspetor Baley, permita-me que eu volte a poltrona para o outro lado? Sentir- me-ia mais confortável se não fosse obrigado a olhá-lo- de frente.

            - Faça o que desejar, Dr. Quemot - respondeu Baley, embora não gostasse da idéia de ter de conversar com um homem que se encontrava voltado quase de costas para ele.

            - Ótimo! - Um robô veio modificar a posição da poltrona e a voz de Quemot pareceu adquirir nova intensidade e confiança. - Este planeta foi descoberto há uns trezentos anos, e começou a ser colonizado logo a seguir. Os primeiros colonizadores eram Nexonianos. Conhece o Planeta Nexon?

            - Não.

            - Está situado bastante perto de Solaria e, na realidade, Solaria e Nexon são o par de planetas que se encontram localizados mais próximos um do outro em toda a Galáxia. Solaria, mesmo antes de ser habitada por seres humanos, possuía seres vivos e era bastante adequada à ocupação humana. O planeta representava, muito naturalmente, uma atração para as. classes superiores de Nexon, que tinham suas dificuldades em manter um elevado nível de vida num planeta onde a população aumentara de maneira assustadora.

            - De maneira assustadora? - perguntou Baley, interrompendo Quemot a meio da sua dissertação. - Pensava que os Espaciais limitavam suas populações.

            - Isso é o que sucede em Solaria; os outros Planetas Exteriores não são tão severos nessa limitação! Nexon já contava quase dois milhões de habitantes no ano em que Solaria começou a ser colonizada. As autoridades, devido à falta de espaço, haviam determinado um número máximo de robôs que cada família podia ter à sua disposição. Foi por isso que as famílias mais abastadas de Nexon começaram a construir suas casas de verão em Solaria, que era um planeta fértil, com um clima muito temperado e sem fauna perigosa.

            - Os colonizadores que depois vieram de Nexon - continuou Ouemot - podiam viver em Solaria como lhes apetecia. As propriedades eram todas enormes, visto que, num planeta deste tamanho e com os poucos habitantes iniciais, o espaço vital não constituía poucos problema e, com um número ilimitado de robôs, a exploração do mundo também não oferecia problema ou dificuldades.

            - Os robôs eram tantos, logo de início, que se tornou essencial aparelhá-los com um sistema interno de rádio, a fim de permitir uma comunicação instantânea entre eles, e o fato representou o início das nossas famosas indústrias de robôs. Os nossos técnicos começaram a inventar novos tipos, novos dispositivos e, também, novas aplicações e capacidades. A cultura dita as invenções... uma frase que, penso, fui eu que inventei! - Quemot riu-se, com uma satisfação quase infantil, e continuou a falar. - As vantagens da vida no Planeta Solaria tornaram-se visíveis para _ todos os habitantes de Nexon. Solaria adquiriu uma enorme popularidade. Mais e mais colonizadores transferiram os seus lares de Nexon para Solaria e este planeta tornou-se no que eu considero ser um planeta residencial. As cidades todas possuem os seus bairros residenciais e, como eu digo, a Galáxia possui o seu planeta residencial! Estes colonizadores, que de início apenas vinham passar parte do ano em Solaria, foram aos poucos deixando de habitar em Nexon e começaram a dirigir os seus negócios por meio de procurações, à distância, criando então as inúmeras fábricas de robôs que por aqui existem. As propriedades e a indústria dos robôs foram exploradas até permitirem exportações lucrativas. Em resumo, inspetor Baley, tornou-se óbvio que Solaria, no espaço de um século ou ainda menos, seria tão populosa como o fora Nexon. Os colonizadores pensaram que seria ridículo perder um paraíso como este o era, só pelo fato de não o planejarem devida e antecipadamente.

            Ouemot fez uma pausa e um robô, sem que o sociólogo lho indicasse, trouxe- lhe um cálice cheio daquela mesma bebida que Baley antes saboreara. O inspetor desejaria que o robô também lhe servisse uma bebida mas, a fim de não fazer notar a falta de hospitalidade demonstrada, resolveu não lha pedir.

            O sociólogo voltou a tossir e continuou a falar.

            - Não lhe descreverei todas as manobras políticas que o permitiram, mas, mais tarde, Solaria conseguiu estabelecer a sua independência sem ter de recorrer à força ou à guerra. A nossa utilidade para os Planetas Exteriores, como uma fonte de robôs especializados, ganhou-nos amigos na Galáxia e ajudou-nos muito, naturalmente. Uma vez obtida a nossa independência (apenas cem anos depois do primeiro habitante de Nexon ter vindo instalar-se neste planeta), a nossa maior preocupação foi a de assegurar que a população não aumentasse além dos limites por nós considerados razoáveis. Regulamos as imigrações e os nascimentos e aumentamos em número e em variedade a população de robôs, com o fim de atender a todas as necessidades de um planeta que é habitado por um número tão ínfimo de seres humanos.

            - O que eu não entendo é a razão que levou os Solarianos a deixarem de se ver, em pessoa, assim como o seu verdadeiro horror a esse hábito que me parece tão natural.

            Quemot voltou-se ligeiro, olhou para Baley e regressou logo ao seu esconderijo.

            - A razão é evidente e é uma conseqüência de tudo o que eu lhe narrei.

            Temos, em Solaria, enormes propriedades. Existem algumas, mesmo, com quinze mil quilômetros quadrados de extensão, embora grande parte delas não seja produtiva nem explorada. A minha propriedade, por exemplo, tem apenas mil e quinhentos quilômetros quadrados de área, mas toda a terra que possuo é muito fértil e não desperdiço sequer um palmo dela! Uma das vantagens destas tão espaçosas propriedades é o fato de que podemos andar horas dentro delas sem nos arriscarmos a entrar na propriedade de outro Solariano ou dar de caras com um vizinho! Compreende o que quero dizer?

            Baley encolheu os ombros. - Suponho que sim.

            - Em resumo, a importância ou a riqueza de um habitante deste planeta mede- se, em grande parte, pela extensão da sua propriedade e os Solarianos orgulham-se de não encontrarem os seus vizinhos. Este sentimento, na sua origem, significava, em teoria, que possuíamos propriedades tão vastas que não precisávamos atravessar as dos vizinhos ou depender deles, fosse de que maneira fosse. Essas propriedades são tão bem organizadas e exploradas pelos robôs que, na realidade, a necessidade de nos encontrarmos com os vizinhos desapareceu totalmente. A ausência dessa necessidade transformou-se no desejo de estar só e esse desejo motivou, por sua vez, o desenvolvimento constante das mais perfeitas formas de televisão e, à medida que o equipamento se ia tornando melhor, menor o desejo e a necessidade de ver os vizinhos em pessoa. Compreende?

            - Ouça, Dr. Quemot, não é preciso que me explique isso tudo de uma maneira tão simples e quase infantil. Não sou um sociólogo, porém fiz os estudos elementares na universidade. Não passava de uma universidade Terrestre, claro está - Baley dissera estas palavras com um sarcasmo evidente, a fim de evitar qualquer comentário ofensivo do outro - mas posso acompanhar uma progressão matemática.

            - Matemática?! - exclamou Quemot, a sua voz adquirindo uma intensidade e um tom que Baley ainda não lhe conhecia.

            - Não me refiro à espécie de matemática usada na construção de robôs, a qual eu não compreenderia, mas sim às relações sociológicas que estudei. Conheço perfeitamente, por exemplo, a Relação Teramina.

            - O que, inspetor Baley?

            - Talvez tenha um outro nome aqui em Solaria. Refiro-me, claro está, ao diferencial de inconveniências sofridas com os privilégios adquiridos.

            - Não sei do que está falando! - O Dr. Quemot falara naquele tom arrogante dos Espaciais, que Baley tão bem conhecia, e o inspetor, muito admirado, calara- se imediatamente.

            Não existia qualquer dúvida de que as relações entre inconveniências sofridas e privilégios adquiridos eram essenciais ao estudo da ciência sociológica. Por exemplo, um cubículo privado para uma pessoa só no banheiro comum, adquirido por razões de mérito, conservaria um número x de pessoas pacientemente à espera de que o seu mérito pessoal lhes concedesse o mesmo privilégio; o valor desse número x de pessoas variando em formas determinadas com variações conhecidas das sociedades onde se encontravam e do temperamento dessas pessoas, como era quantitativamente descrito na Relação Teramina.

            Mas, por outro lado, num mundo onde tudo era privilégio e nada era inconveniência, a Relação Teramina poderia reduzir-se a uma verdadeira trivialidade. Talvez aquele exemplo, afinal, não fosse muito apropriado a Solada.

            Elijah Baley tentou de novo fazer compreender ao Dr, Quemot o que lhe queria explicar.

            - Dr. Quemot, bem sei que me quis pôr a par do desenvolvimento deste complexo que criou uma sociedade onde não é normal ver pessoas, mas não era isso que eu esperava quando lhe vim pedir seu auxílio. O que eu quero é uma análise desse complexo, para que me seja permitido contra-atacá-lo eficazmente. O que eu desejo é convencer os Solarianos a encontrarem-se comigo, da mesma forma que o Dr. Quemot está fazendo agora.

            - Inspetor Baley disse Quemot - não é possível lidar com emoções

            humanas como se estas dependessem de um cérebro positrônico.

            - Eu não insinuei isso. A ciência robótica é dedutiva enquanto que a sociologia é uma ciência indutiva. A matemática, porém, pode aplicar-se a ambas as ciências.

            O Dr. Ouemot não respondeu imediatamente e, depois de um curto silêncio, falou com uma voz que quase tremia de raiva.

            - Confessou-me há pouco que não era um sociólogo, inspetor Baley!

            - E não sou, mas disseram-me que o Dr. Quemot o era.

            Disseram-me que era o mais competente de Solaria.

            - Sou o único que existe em Solaria! Quase posso dizer que fui eu quem inventou a ciência!

            - O que? - perguntou Baley, incrédulo ante aquela afirmação e hesitando antes de formular a sua próxima pergunta. - Diga-me, Dr. Quemot, já estudou obras sobre a ciência sociológica?

            Li alguns livros Aurorianos sobre o assunto.

            - E tratados do Planeta Terra?

            - Da Terra! - exclamou o Dr. Quemot ironicamente. - Nunca me passaria pela cabeça estudar qualquer das produções científicas da Terra! Sem ofensa, é claro!

            - Desculpe-me, então. Pensei que me pudesse fornecer informações específicas que me permitiriam entrevistar e interrogar outras pessoas, cara a cara, sem...

            O Dr. Quemot soltou uma exclamação e levantou-se precipitadamente, desatando a correr para fora da sala com as duas mãos tapando a boca e sem sequer se despedir do inspetor.

            Baley franziu o sobrolho. Que teria ele dito, desta vez?

            Que bicho teria mordido o Dr. Quemot?

            Elijah Baley levantou-se, hesitante, sem saber o que havia de fazer, quando um robô entrou na sala e se aproximou dele. - Inspetor Baley - disse o robô - o meu Senhor disse--me para eu informar-lhe de que deseja televê-lo dentro de momentos. '

            - Telever-me, rapaz?

            - Sim, sr. inspetor. Entretanto, se desejar, poderei trazer-lhe uma bebida.

            O robô não tardou a trazer-lhe outro cálice do mesmo líquido cor-de-rosa, juntamente um prato com um bolo qualquer de aspecto quente e odoroso.

            Baley voltou a sentar-se, saboreando o líquido e provando o bolo. Este era quente e duro, mas a crosta desfez-se facilmente na boca e o seu interior era consideravelmente mais quente e saboroso. Baley não conseguiu identificar os componentes que causavam aquele sabor e avaliou que fossem quaisquer especiarias ou condimentos naturais do planeta.

            Seus pensamentos foram subitamente interrompidos pela inesperada aparição do Dr. Quemot, que viera, Baley não sabia de onde e que, estranhamente, agora o encarava! O Dr. Quemot sentou-se numa cadeira situada numa sala cujas paredes e solo contrastavam com as da sala onde Baley se encontrava. O Dr.

            Quemot sorria, tendo perdido muito daquela arrogância que o dominara durante a fase final da discussão.

            - Mil perdões, inspetor Baley! Pensei que estivesse suportando muito bem sua presença pessoal mas, afinal, isso não passava de uma ilusão minha!

            Encontrava-me, na realidade, sob uma pressão nervosa muito intensa e a sua frase acabou com o meu estoicismo de vez!

            - A que frase se refere, Dr. Quemot?

            - Disse qualquer coisa como interrogar pessoas cara a... - O Dr. Quemot não terminou-a frase, meneando a cabeça e passando a língua pelos lábios. - Prefiro não repetir a frase inteira. Creio que já me compreendeu. A frase provocou-me uma imagem, verdadeiramente extraordinária, de duas pessoas com os seus rostos encostados um ao outro! - O Solariano estremeceu. - Não lhe parece isso uma coisa realmente repugnante?

            - Não, não posso dizer que me cause essa sensação.

            - Parece-me tão nojento respirar o ar acabado de passar pelos pulmões de outros! Suas palavras fizeram-me pensar que, embora não lhe fizesse frente, estávamos respirando o mesmo ar e...

            Elijah Baley interrompeu o Dr. Quemot, visto já não poder tolerar mais aqueles ridículos comentários.

            - As moléculas que compõem a atmosfera de Solaria já estiveram dentro de milhares de pulmões! Já estiveram mesmo dentro dos pulmões de animais e guelras de peixes!

            - Isso é verdade - disse Quemot, passando a mão pelo queixo - e prefiro não pensar em tal horror. O fato de me encontrar numa sala com o senhor, inspetor Baley, quase deu cabo dos meus nervos, porém agora já me sinto muito melhor.

            É um alívio estar a televê-lo, ao invés de vê-lo!

            - Ainda me encontro na mesma casa, Dr. Quemot.

            - É esse fato que é surpreendente. Encontra-se na mesma casa e isso não impede de me sentir aliviado, como se o uso de imagens a três dimensões causasse uma enorme diferença! Agora já sei, pelo menos, o que significa ver um desconhecido. Nunca mais voltarei a fazê-lo!

            - O nosso encontro foi, então, uma experiência no campo da visão pessoal, ou da presença pessoal, como se diz em Solaria.

            - Foi, sim, de certo modo - respondeu o Espacial. - O interesse dessa experiência foi um dos motivos que me levaram a aceitar a sua visita. Os resultados foram interessantes. não há dúvida, embora fossem também muito perturbadores. Foi uma experiência valiosa e deverei registrá-la.

            - O que? - perguntou Baley, não percebendo a que se referia o Dr. Quemot.

            - Os meus sentimentos! - replicou o DI'. Quemot, muito admirado com o espanto do inspetor.

            Baley soltou um suspiro.

            - Só perguntei por ter pensado que possuía instrumentos para registrar e medir suas emoções. Talvez um eletroencefalógrafo, por exemplo. - Baley olhou ao redor, sem ver qualquer instrumento. - Suponho, naturalmente, que seria muito possível que possuísse um modelo de algibeira. Nós, na Terra, apenas temos modelos volumosos.

            - Acho - disse o Solariano secamente - que sou capaz de calcular a natureza dos meus próprios sentimentos sem a ajuda de um instrumento. Esses sentimentos foram assaz pronunciados, não lhe parece?

            - Sim... sim... mas referia-me a uma análise quantitativa... - começou Baley a dizer.

            Quemot interrompeu-o asperamente.

            - Não sei a que se refere, nem onde quer chegar. O que eu queria era falar-lhe de minha teoria, uma teoria inteiramente da minha invenção. Uma teoria de que me orgulho muito...

            - E que teoria é essa, então, Dr. Quemot?

            - Diz respeito às semelhanças da cultura Solariana com a cultura de uma antiga civilização da Terra.

            Elijah Baley pensou que seria melhor dar ouvidos àquela fantasia do sociólogo ou então, mais tarde, não poderia contar com a sua colaboração.

            - Que civilização?

            - A de Esparta! - exclamou o Dr. Ouemot, levantando a cabeça orgulhosamente como se tivesse descoberto o fio da meada. - Espero que tenha ouvido falar de Esparta?

            Baley sentiu-se mais à vontade. A história antiga da Terra sempre lhe merecera um grande interesse, visto que era uma das raras coisas que pertencia apenas à Terra... uma das raras coisas em que a superioridade presente dos Espaciais não conseguira melindrar os Terrestres. A História da Humanidade tivera início na Terra, e a história das civilizações e nações terrestres nunca lhes poderia ser roubada! Baley alegrou-se também com o fato de conhecer muito bem a civilização grega.

            - Sim... Estudei alguma coisa sobre Esparta.

            - Ótimo! Esplêndido! Esparta, no seu auge, consistia num relativamente pequeno número de espartanos, os únicos dignos desse nome, mais uma classe secundária de indivíduos, ligeiramente maior em número, e uma grande quantidade de verdadeiros escravos, os ilotas. Os ilotas eram maioria de vinte para um espartano e, apesar de possuírem sentimentos humanos e qualidades também humanas, eram completamente dominados pelos espartanos. Estes transformaram-se em autênticos especialistas militares, a fim de assegurar que os muito mais numerosos escravos nunca se revoltassem contra a sua autoridade e, se o fizessem, para aniquilar rapidamente essas revoltas.

            O Dr. Quemot fez uma pausa, retomando o fôlego e continuando:

            - Cada um dos espartanos levava a vida de uma verdadeira máquina militar e, assim, a sociedade espartana conseguiu os seus objetivos. Os ilotas, que constituíam uma enorme parte da população de Esparta, nunca conseguiram realizar uma revolta com qualquer possibilidade de êxito.

            - Nós, os seres humanos no Planeta Solaria, somos equivalentes, de certa forma, aos espartanos. Também temos os nossos ilotas, que são máquinas e não seres humanos como eram os de Esparta. São escravos que não podem revoltar- se e que não podem ser receados apesar de representarem uma maioria esmagadora. Temos, assim, as vantagens da exclusividade sem a necessidade de nos sacrificarmos a uma autoridade demasiado rígida. Podemos, ao contrário, modelar a nossa vida na cultura e na arte dos habitantes de Atenas, que eram contemporâneos dos espartanos e que...

            - Também estudei a civilização ateniense.

            Ouemot olhou rapidamente para Baley e continuou a dissertar.

            - As civilizações sempre foram estruturalmente em forma de pirâmide. À medida que subimos para o vértice do edifício social, mais oportunidades para procurar a felicidade e mais descanso interior vamos adquirindo. Quanto mais continuamos a subir, menos e menos pessoas vamos encontrando que almejam os mesmos objetivos. Acabamos por encontrar, invariavelmente, uma

            preponderância dos espoliados. E recorde, inspetor Baley, não obstante quão ricas possam ser as camadas inferiores da pirâmide, essas camadas são sempre espoliadas em comparação com as que se encontram no vértice! Os habitantes mais espoliados, ou mais pobres, do Planeta Aurora são mais ricos, por exemplo, do que os aristocratas da Terra, embora sejam pobres em relação aos aristocratas de Aurora e se comparem apenas aos habitantes mais afortunados do seu próprio mundo. É por isso que sempre existiu e existirá uma revolta social nas sociedades humanas. A ação de revoltas sociais e a reação de combater essas revoltas, uma vez que tenham início, são as causas de uma grande parte da infelicidade humana que enche a história da humanidade. Aqui, em Solaria, o vértice da pirâmide encontra-se isolado, pela primeira vez, e o lugar dos pobres é ocupado pelos robôs. Possuímos, neste planeta. a primeira grande invenção social desde que os habitantes da Suméria e do Egito construíram as cidades.

            O Dr. Quemot sentou-se para trás e sorriu, satisfeito com a sua dissertação.

            Baley assentiu, muito sério, e formulou sarcasticamente uma pergunta.

            - Já publicou essa sua teoria?

            - Ainda não - respondeu o Solariano, afetando um desinteresse que, pensou Baley, não era real - mas pode ser que um dia o venha afazer. Esta teoria é a minha terceira contribuição para a cultura de Solaria.

            - E as outras duas? Foram tão espetaculares como esta?

            - Não foram contribuições sociológicas. Dediquei-me à escultura, em tempos idos - disse o Dr. Quemot, fazendo um largo gesto com a mão. - Essas esculturas que por aí vê são minhas. Também fui compositor de certo mérito!

            Agora já estou velho para essas coisas e Rikaine Delmarre sempre preferiu as artes aplicadas à arte pura, o que convenceu a dedicar-me à sociologia.

            - Disse isso como se tivesse sido um grande amigo do Dr. Delmarre.

            - Éramos bons amigos, sim, mas numa sociedade tão pouco numerosa como a nossa esse fato nada significa.

            - Que espécie de homem era Rikaine Delmarre?

            O Dr. Quemot tomou-se pensativo e ligeiramente sonhador. - Era um homem muito digno, muito dedicado a Solaria e à sua cultura.

            - Um idealista. talvez?

            - Sim, isso mesmo, realmente um idealista! O fato de se ter oferecido como voluntário para o cargo de fetologista demonstra-o bem. Trata-se de uma arte aplicada e já lhe disse que ele as preferia às artes puras.

            É então anormal alguém oferecer-se para esse cargo?

            - Não lhe parece que o seja? É verdade... já me esquecia de que é um Terrestre. Sim, o fato é anormal. O cargo de fetologista é um daqueles que deve existir e que ninguém quer desempenhar. O costume é nomear alguém por um prazo assaz curto, um costume que não é muito popular, como deve calcular.

            Delmarre ofereceu-se para preencher o cargo permanentemente. Sentia que a posição era demasiado importante para ser entregue a funcionários temporários e desinteressados, e até me convenceu do fato. Eu, cá por mim, nunca teria a coragem de me oferecer para um cargo dessa natureza e, por isso mesmo, admirava imenso o meu amigo Rikaine Delmarre. O sacrifício devia ser-lhe muito custoso, já que era um verdadeiro maníaco no que dizia respeito à higiene pessoal.

            - Devo dizer-lhe, Dr. Quemot, que ainda não conheço bem a natureza do cargo - disse Baley, esperançado de que ia finalmente ser posto a par do que fosse a ciência da fetologia.

            O Dr. Quemot corou e pareceu atrapalhado com as palavras do inspetor.

            - Não lhe parece que seria melhor discutir essa questão com o assistente do Dr. Delmarre?

            - Já o teria feito, Dr. Quemot, se alguém tivesse tido a gentileza de me dizer antes que o Dr. Delmarre tinha um assistente.

            - Lamento muito que não o tenham feito - disse o Dr. Quemot - mas a existência do assistente é outra prova de sua responsabilidade social. Nenhum outro ocupante do cargo pensara em nomear um assistente. Delmarre sentiu a necessidade de ter um a quem ele pudesse treinar devidamente para que deixasse um herdeiro profissional quando se reformasse... ou morresse! - O velho Solariano soltou um suspiro. - Era bem mais moço do que eu... e morreu antes de mim. Pobre Rikaine!... Eu costumava jogar xadrez com ele... muitas vezes, mesmo.

            - Como o faziam, então? Quemot franziu o sobrolho.

            - Da única maneira possível, naturalmente.

            - Viam-se pessoalmente?

            O Dr. Quemot pareceu ficar horrorizado com aquela pergunta.

            - Que idéia! Mesmo se eu tivesse estômago para fazê-lo, o que não era o caso, Rikaine Delmarre nunca o teria permitido. O fato de ser um fetologista não lhe eliminara a sensibilidade. Era um homem muito estrito e apegado às regras.

            - Então como...

            - Com dois tabuleiros, como é normal. - O Solariano encolheu os ombros num gesto de tolerância. - Bem... as minhas jogadas eram feitas no seu tabuleiro e as dele no meu tabuleiro. É muito simples.

            - Conhece a Sra, Delmarre? - perguntou Baley.

            - Já nos televimos muitas vezes. Gladia Delmarre é uma artista bastante famosa, sabia? Assisti a algumas de suas exposições. As suas fantasias artísticas são muito agradáveis à vista, mas são mais interessantes como curiosidades do que como criações.

            - Julga que ela seria capaz de matar o marido?

            - Nunca pensei nessa macabra possibilidade. As mulheres são criaturas surpreendentes. E não vejo qual outra pessoa o pudesse ter assassinado. Só Gladia Delmarre poderia aproximar-se em pessoa de Rikaine para matá-lo.

            Rikaine nunca, mas nunca, teria concedido o privilégio de se apresentar a alguém que não fosse sua mulher. Rikaine, como já lhe disse, era muito rigoroso. Era um bom Solariano e não possuía nada de anormal ou de perverso.

            - Pensa que Rikaine Delmarre poderia· ter sido assassinado devido a razões políticas? - O que?!

            - Já ouvi dizer que ele era um tradicionalista.

            - Somos todos...

            - Está, então, certo de que todos os Solarianos são tradicionalistas?

            - Estou convencido de que existem alguns - disse o Dr. Quemot lentamente - que consideram perigoso o fato de ser demasiado tradicionalista. Receiam os perigos inerentes a uma população tão reduzida, como a nossa, e também claro o fato dos outros mundos possuírem uma força numérica muito maior do que a nossa. Julgam essas pessoas que estamos indefesos contra uma possível agressão dos outros Planetas Exteriores. Essa convicção é ridícula e essas pessoas, felizmente, são bem poucas. Não creio que constituam uma força real.

            - Que razão o leva a dizer que essa convicção é ridícula?

            Existirá algum fator, em Solaria, que afete o equilíbrio de forças apesar dessa grande desvantagem numérica? Alguma nova arma?

            - Uma arma, sim... mas não uma nova arma. As pessoas de quem falei são mais cegas do que ridículas por não compreenderem que essa arma está continuamente em ação e que não lhe pode ser oposta resistência.

            Elijah Baley franziu o sobrolho. - Está falando sério?

            - Muito a sério.

            - Sabe qual é a natureza dessa arma?

            - Todos nós devemos sabê-lo. Estou certo de que também o sabe, inspetor Baley, mas é provável que nunca tenha pensado no que lhe vou dizer. Eu compreendo melhor essa arma por ser um sociólogo. Não se trata de uma arma que mate ou fira e não é usada da mesma forma que uma arma convencional, embora seja completamente irresistível. E ainda é mais irresistível por ninguém reparar na sua função de arma.

            Baley não conseguiu esconder sua impaciência. - E, afinal, que arma tão irresistível é essa?

            O Dr. Quemot olhou para Elijah Baley e falou pausadamente.

            - O robô positrônico.

 

CIENCIA DA FETOLOGIA!

            Baley ficou pasmado e assustado. O robô positrônico era o símbolo da superioridade dos Espaciais sobre os Terrestres. A arma era, sem dúvida, irresistível!

            - O robô é uma arma econômica - disse Baley, procurando não denunciar o que lhe ia na mente. - Solaria é importante para os Planetas Exteriores como sendo uma fonte de modelos avançados e, por conseguinte, nunca sofrerá os ataques desses planetas.

            - Essa é uma das razões evidentes - disse Quemot. sem parecer prestar-lhe grande importância. - Foi essa a razão principal que nos permitiu ganhar a independência, mas não foi a isso que me referi há pouco. O que tenho presente é bem mais sutil e cósmico. - Quemot falara muito devagar como se estivesse absorto em pensamentos profundos.

            - Tratar-se-á de mais uma de suas teorias?

            O sociólogo procurou esconder o orgulho que se manifestara no seu olhar, porém Baley percebera-o e não conseguiu evitar um sorriso.

            - Sim, é uma das minhas teorias - respondeu o Dr. Quemot - uma teoria original, que eu saiba, mas torna-se evidente - com um estudo cuidadoso do que sabemos sobre as populações dos Planetas Exteriores. O robô positrônico tem sido usado mais e mais freqüentemente, por toda a Galáxia, desde que foi inventado.

            - Isso não sucede na Terra - replicou Baley.

            - Não sei tudo sobre a vida na Terra, inspetor Baley, porém sei que os robôs têm uma função importante na sua economia. Os Terrestres vivem nas suas enormes Cidades Subterrâneas e deixam a superfície do planeta aos cuidados dos robôs. Quem se encarrega de explorar as suas minas e de realizar os trabalhos agrícolas?

            - Os robôs - confessou Baley - mas lembre-se, Dr. Quemot, de que o robô positrônico foi inventado por nós e que, apesar disso, ainda somos o planeta com uma menor percentagem de robôs ao nosso serviço.

            - Tem a certeza de que foram os Terrestres que inventaram os robôs positrônicos?

            - Tenho, sim. É absolutamente verdade.

           _ O fato é interessante, sobretudo por ser verdade que a Terra conta com menos robôs, por pessoa, do que os Planetas Exteriores - disse o sociólogo, pensativo e intrigado. - Talvez isso seja devido à enorme população da Terra...

            o processo levaria mais tempo. Sim... é isso. Bem, a verdade é que têm robôs na superfície do planeta e mesmo nas Cidades, não é assim?

            - Justamente, Dr. Quemot.

            _ Mais agora do que, digamos, cinquenta anos atrás?

            Baley assentiu impacientemente. - Sim.

            - Tenho razão, então. A diferença, na Terra, é causada apenas por uma questão de tempo. A existência dos robôs tende a eliminar o trabalho humano. A economia robótica move-se numa única direção: mais robôs e menos seres humanos. Estudei muito cuidadosamente todos os dados sobre as populações dos Planetas Exteriores, tracei um gráfico e cheguei a algumas conclusões. - O Dr. Quemot fez uma pausa, muito surpreendido. - O que eu fiz é quase uma aplicação da Matemática à Ciência Sociológica, não é?

            - Tem razão - respondeu Baley.

            - É possível que tivesse razão no que me disse -sobre as progressões matemáticas na sociologia, apesar de tudo; deverei estudar o caso! Bem, vou-lhe dizer a que conclusões cheguei. O uso dos robôs, numa economia que já se tenha beneficiado da economia robótica, tende a aumentar continuamente apesar de quaisquer leis criadas para evitá-lo. Esse aumento é diminuído, por vezes, mas nunca detido. As populações humanas aumentam, porém as

            populações robóticas aumentam muito mais rapidamente. Depois, após um certo ponto crítico ter sido alcançado, as populações humanas começam a declinar em número. É então que um planeta alcança uma verdadeira estabilidade social.

            Aurora não está longe desse ponto crítico. A própria Terra terá de vir a conseguir essa estabilidade social. É muito possível que a Terra demore mais séculos a fazê-la, porém a processo é inevitável.

            - O que quer dizer com estabilidade social?

            - Uma estabilidade como existe em Solaria, um mundo onde todos os seres humanos têm os mesmos privilégios e vivem do trabalho de criaturas mecânicas, incansáveis e que não se podem revoltar. É por isso que não temos de recear os Planetas Exteriores. Dentro de cem anos, ou ainda menos, todos os Espaciais serão Solarianos... no seu modo de vida e hábitos. Será, de certo modo, o fim da história humana, ou, antes, a humanidade terá alcançado o seu fim.

            Finalmente, depois de muitos séculos de história, todos os seres humanos terão o que desejam e o que necessitam. Isso faz-me lembrar uma frase que ouvi ou li uma vez, não sei onde, qualquer coisa sobre a "busca da felicidade".

            Baley disse pensativamente:

            - Todos os homens são dotados pelo seu Criador com certos direitos naturais... entre os quais se contam a vida, a liberdade e a procura da felicidade.

            - É isso mesmo. Onde leu essa frase?

            - Não me lembro bem se as palavras são tal e qual como eu as disse, mas li a frase num documento muito amigo, respondeu Baley.

            - Vê como essa afirmação já foi modificada aqui em Solaria e como, eventualmente, o mesmo sucederá em toda a Galáxia? A busca da felicidade deixará de ter significado. A humanidade herdará de nós a vida, a liberdade e a felicidade. Não terá de ir em busca desses seus direitos naturais. Pense bem.

            Vida, Liberdade e Felicidade!

            - Talvez tenha razão, Dr. Quemot - disse Baley friamente - contudo um homem foi assassinado e um outro foi envenenado, aqui em Solaria!

            Baley arrependeu-se daquelas palavras quase no mesmo momento em que as disse, pois a expressão do Dr. Quemot era a de alguém que tivesse sido esbofeteado. O velho sociólogo baixou a cabeça e não voltou a olhar para o inspetor.

            - Respondi às suas perguntas da melhor forma que me foi possível fazê-lo.

            Desejará saber mais alguma coisa, inspetor Baley?

            - Não, muito obrigado, Dr. Quemot. Lamento muito tê-lo incomodado e ter-lhe feito recordar a morte do seu amigo.

            - Não encontrarei facilmente outro jogador de xadrez como ele. Rikaine Delmarre era sempre muito pontual e era um jogador extraordinário. Era também um excelente Solariano.

            - Uma morte muito lamentável- disse Baley. - Permite-me que use o seu televisor para contactar a próxima pessoa que tenciono ver?

            - Sem a menor dúvida - respondeu Quemot. - Os meus robôs estão inteiramente à sua disposição. E agora, retiro-me, se me dá licença. Televisita terminada!

            Ainda não haviam passado trinta segundos quando um robô apareceu em frente de Baley a fim de se pôr ao seu dispor. O inspetor não conseguia compreender a rapidez com que os robôs apareciam e desapareciam. A primeira idéia que lhe viera à cabeça, quando chegara ao planeta, fora que os robôs se encontravam à espera de serem chamados, em esconderijos secretos nas salas frequentadas pelos seus Senhores.

            Era também possível, claro estava, que os robôs ouvissem todas as conversas dos seres humanos e viessem já ao seu encontro antes de serem chamados e, se os robôs que as ouvissem não fossem mental ou fisicamente adequados para o trabalho em questão, o sistema de comunicação que ligava todos os robôs se encarregaria de convocar imediatamente o robô necessário.

            Baley imaginou, durante um breve momento, uma visão de Solaria em que o planeta era uma gigantesca rede robótica com aberturas que já eram pequenas e que se iam tornando cada vez menores, até que todos os seres humanos ficassem presos entre as malhas dessa rede. O inspetor pensou também na convicção de Quemot ao dizer que todos os mundos se transformariam em Solarias... em redes que se formavam e se apertavam, mesmo na Terra, até que ...

            Os pensamentos de Elijah Baley foram interrompidos pela voz respeitosa do robô.

            - Estou às suas ordens, inspetor Baley.

            - Pode estabelecer contato com o local onde o Dr. Rikaine Delmarre trabalhava? - perguntou Baley.

            - Posso, sim, inspetor Baley.

            Baley encolheu os ombros, num gesto aborrecido. Quando se habituaria ele a não formular perguntas inúteis? Os robôs sabiam tudo, já devia estar a par disso, e teria de se habituar a esse fato. A única forma de conseguir que os robôs prestassem o seu máximo rendimento, pensou Baley, seria que quem lidasse com eles tivesse conhecimentos robóticos bastante profundos. Teriam todos os Solarianos esse conhecimentos que ele considerava essenciais? Talvez não... talvez apenas soubessem o suficiente para obter um rendimento adequado, sem forçarem a capacidade dos robôs.

            - Estabeleça contato, então, e informe o assistente do Dr. Delmarre de que desejo falar com ele. Localize-o, onde quer que ele esteja se, por acaso, não se encontrar lá.

            - Muito bem, inspetor Baley.

            Quando o robô já saía da sala, Baley recordou-se subitamente de um pequeno pormenor e chamou-o.

            - Espere! Que horas são no local de trabalho do Dr. Delmarre?

            - São cerca das 06,30 horas, inspetor Baley.

            - Da manhã?

            - Sim, inspetor Baley.

            Elijah Baley irritou-se de novo com aquele mundo que se permitia ser· a vítima dos caprichos do sol. Era aquilo que sucedia quando se vivia na superfície de um planeta!

            O inspetor pensou fugitivamente na Terra, procurando logo libertar-se da memória. Tudo corria bem enquanto ele se agarrasse firmemente à questão a resolver, enquanto que as saudades de casa arruinariam todos os seus planos e intenções.

            - Não faz mal.- disse Baley ao robô - contate o assistente e diga-lhe que se trata de um assunto oficial. Diga também a outro robô que me traga alguma coisa para comer. Um copo de leite e algo leve bastarão.

            Elijah Baley comeu lentamente o que lhe trouxeram, não podendo deixar de pensar que, depois do que acontecera a Gruer, Daneel consideraria, com certeza, suspeito tudo o que ele comesse. Era possível que Daneel tivesse razão em fazê-lo, mas, claro estava, Baley não estava disposto a morrer de fome.

            Baley comera com apetite e, depois de ter a certeza de que ainda não fora envenenado, bebeu o leite avidamente. Quemot não lhe ensinara o que ele desejara aprender, mas, de todos os modos, aprendera alguma coisa...

            bastante, mesmo. Nada que o ajudasse na investigação do crime, era verdade, mas aprendera algo que seria útil à outra e mais importante investigação.

            O robô regressara à sua presença.

            - O assistente do Dr. Delmarre está pronto a televê-lo. inspetor Baley.

            - Teve alguma dificuldade em consegui-lo?

            - O assistente estava dormindo, inspetor Baley.

            - Já está bem acordado, espero.

            - Sim, inspetor Baley.

            O contato foi estabelecido repentinamente e o assistente deparou-se a Baley.

            O inspetor soltou uma exclamação de espanto. Ninguém lhe dissera que o assistente era, na realidade, uma assistente: uma mulher. Esta encontrava-se deitada e tudo na sua expressão indicava o imenso ressentimento causado pelo fato de ser despertada àquela hora indesejada. Elijah Baley estava furioso.

            Ninguém pensara em informar-lhe e ele, por sua vez, não formulara a pergunta que lhe daria a resposta devida... uma vez mais!

            A mulher, que fora a assistente do Dr.. Delmarre, não era tão atraente como Gladia e o seu aspecto físico, pelo que Baley podia agora ver, seria até bastante banal na Terra. A mulher espreguiçara-se e o inspetor confiou que a sua falta de pudor não fosse igual à de Gladia, já que parecia estar coberta apenas por um lençol que a escondia quase até o queixo. Os seus cabelos desgrenhados assemelhavam-se em cor aos de Gladia e o seu rosto era oval, não se parecendo com o tipo de rosto que os Terrestres consideravam ser o tipo Espacial.

            A voz da mulher possuía, porém, um timbre que impressionou agradavelmente o ouvido de Baley.

            - Ouça... - dissera ela - saberá, por acaso, que horas são!?

            - Sei - respondeu Baley - mas como tenciono ir vê-la, dentro em pouco, pensei que seria conveniente avisá-la.

            - Ver-me?! O quê? - A mulher parecia aflita e levara as mãos à cabeça como se tivesse sofrido qualquer choque brutal. - Por quê? Para quê? Não é o meu novo assistente, não?

            - Não... nem por sombras! Estou investigando a morte de Rikaine Delmarre.

            - Investigue-a, então!

            - Como se chama?

            - klorissa Cantoro.

            - E durante quanto tempo trabalhou com o Dr. Delmarre?

            - Três anos.

            - Imagino que se encontra agora no seu local de trabalho? - (Elijah Baley não ficara contente com a expressão, mas a verdade é que não sabia em que espécie de local se desenvolvia a ciência da fetologia!)

            - Se pergunta se me encontro no viveiro - disse klorissa, pouco contente com a intrusão - claro está que me encontro! Ainda não saí daqui desde que o Dr.

            Delmarre morreu e não poderei sair até que me nomeiem um assistente. Não me poderia arranjar isso?

            - Creio que não... desculpe-me, minha senhora, mas não tenho grande influência nos departamentos oficiais!

            - Não queria deixar de lhe perguntar... sabe-se lá, às vezes, quem nos pode ajudar!

            klorissa levantou-se subitamente, sem a menor vergonha. e Baley viu que ela vestia uma camisa de noite completamente fechada, à frente, por um fecho éclair, e soltou uma exclamação quando notou que ela se preparava para abri-lo.

            - Um momento! - exclamou o inspetor. - Se está de acordo em permitir que eu a visite, em pessoa, nada mais tenho a dizer-lhe por agora e retiro-me para deixá-la vestir-se em privado.

            - Em privado?! - klorissa ficara olhando para Baley sem o compreender. - Por quê? Que idéia tão estranha!

            Permita-me que a visite, ou não? Gostaria de visitar esse... viveiro.

            - Não percebo isso de querer ver, mas, se quer telever o viveiro, mostrar-lhe- ei tudo o que me for possível. Dê-me tempo para me lavar, vestir e acabar de me despertar completamente, e terei muito prazer em fazê-lo.

            - Não quero telever o que quer que seja. .. quero ver! A mulher olhou-o curiosamente, ainda incapaz de compreender qual era a intenção de Baley.

            - Mas que desejo perverso! Há quanto tempo que não lhe fazem uma análise mental?

            - Que disparate! - exclamou Baley, fora de si. - Ouça, eu sou Elijah Baley... do Planeta Terra!

            - Da Terra? Quem o havia de dizer?! - exclamou veementemente klorissa Cantoro, - O que está fazendo por aqui? Ou será que está se divertindo às minhas custas?

            - Que idéia ridícula! Sou um inspetor da Polícia da Terra. Fui nomeado para investigar a morte do Dr. Delmarre.

            - Julgava que todos soubessem que foi a mulher dele que o assassinou.

            - Não, minha senhora, essa hipótese está muito longe de ser confirmada. O que eu desejo é que me permita que a veja, a você e ao viveiro. Sou um habitante da Terra e, estou certo de que compreenderá, não estou habituado a telever. Esse talento, ou o que seja, complica-me os nervos! Tenho autorização do Departamento de Segurança para visitar, em pessoa, quem eu julgue que me possa ajudar. Tenho aqui esse documento, se o quiser ver.

            - Mostre-mo, então.

            Baley desenrolou o papel e mostrou-o a klorissa Esta meneou a cabeça, num gesto de incompreensão.

            - Ver! - exclamou ela. - Que hábito tão primitivo!

            Enfim, que outro mal me poderá fazer uma experiência tão desagradável neste trabalho, já por si, tão horrível! Mas ouça, não se aproxime muito de mim, ouviu?! Mantenha-se a uma boa distância de mim... se me quiser falar, ou fazer perguntas, pode gritar ou enviar recados por um robô... mas não se aproxime, ouviu?

            - Muito bem... esteja tranquila

            A camisa de noite de klorissa abriu-se em duas partes no instante em que Baley ordenara que o contato fosse cortado e as últimas palavras que o inspetor lhe ouviu dizer, com um manifesto desprezo, foram:

            - Um Terrestre!...

            - Não se aproxime mais - disse klorissa

            Baley que, após uma curta viagem aérea, se encontrava a alguns oito ou nove metros de distância da mulher, falou-lhe num tom de voz tão sonoro como o dela fora. - Esta distância serve-me perfeitamente... porém devo entrar para dentro de casa imediatamente!

            - O que se passa? - perguntou a mulher, assustada pelo aspecto de Baley. - Parece estar doente!

            - Não estou habituado ao ar livre.

            - É verdade ... já me esquecia, Terrestre! Deve permanecer entre quatro paredes! E eu que não me lembrei! exclamou klorissa, bastante preocupada com o mal-estar de Baley. - Venha para dentro de casa, mas deixe-me sair do caminho antes de fazê-lo. Pronto! Entre, entre!

            klorissa tinha o cabelo arranjado em duas longas tranças as quais, entrelaçadas no cimo da cabeça, formavam um estranho desenho geométrico.

            Baley pensou imediatamente no tempo e na paciência que eram necessários para conseguir aquele efeito, talvez diariamente, contudo calculou logo que seriam certamente os robôs que se encarregavam da tarefa.

            O cabelo, assim penteado, compunha o rosto oval e dava-lhe uma espécie de simetria que o tornava muito mais agradável à vista. klorissa não usava a menor maquilagem no rosto e as roupas que vestia eram muito simples de corte e tinham apenas por fim cobri-la, sem grandes preocupações de elegância.

            klorissa e Baley encontravam-se na mesma sala, cada um deles em uma extremidade, e olhavam-se de frente.

            - Esta experiência é-lhe muito desagradável, não é, minha senhora?

            klorissa encolheu os ombros.

            - Não podia ser outra coisa. Não sou um animal... mas não se preocupe, posso tolerar sua presença... creio. Tenho muita experiência de coisas desagradáveis, sendo obrigada a lidar com... - klorissa hesitou e, em seguida, como se retomasse coragem, empertigou-se e terminou a frase -,... crianças.

            klorissa pronunciou a palavra lenta e cuidadosamente, como que para que Baley a compreendesse bem.

            - Quer-me parecer que não gosta do seu trabalho - disse Baley, '0 mais diplomaticamente que lhe foi possível.

            - É um trabalho muito importante. Deve ser realizado, o que não impede que eu o deteste.

            - E Rikaine Delmarre? Gostava deste trabalho?

            - Nunca o mostrava, mas tenho a certeza de que também o odiava. O Dr.

            Delmarre era um ótimo Solariano.

            - E era muito rigoroso...

            klorissa ficou surpreendida com as palavras de Baley e o inspetor disse-lhe o que o levara a dizer aquilo.

            - Todos me dizem. Eu também sou muito rigoroso, à minha maneira... e, por exemplo, não gostei de ver que se ia despir à minha frente.

            - Não vejo o mal que isso tenha. Não representa qualquer indecência... telever não é o mesmo que a presença pessoal, não acha? Não seria o meu corpo que via, mas sim a imagem do corpo, o que não é a mesma coisa.

            - Admirava o Dr. Delmarre, não é verdade?

            - Era um bom Solariano.

            - Já sei que este local é chamado viveiro e há pouco mencionou-me que lidava com crianças. Será aqui que educam as crianças Solarianas, então?

            - Sim, da idade de um mês em diante. Todos os fetos vêm parar aqui.

            - Fetos?

            - Sim. - klorissa franziu o sobrolho. - Recebemo-los um mês depois da concepção. Está embaraçado com o assunto?

            - Não - respondeu Baley secamente. - Poderá mostrar-me o... , viveiro?

            - Com muito prazer... mas não se aproxime de mim. O rosto de Elijah Baley revelou o espanto que se apoderara dele ao olhar, de cima, para a longa sala - ou laboratório - que se estendia por debaixo da varanda onde ele se encontrava.

            A sala estava separada deles por uma parede transparente, de plástico ou vidro, e do outro lado, Baley estava certo, o calor e a umidade eram perfeitamente combinados para o objetivo em vista. A sala estava cheia de pequenos tanques, fileira após fileira, cada um deles contendo a sua diminuta criatura flutuando num fluido aquático, de composição muito exata. alimentada por uma substância de proporções ideais. A vida e o crescimento iam-se desenvolvendo naqueles tanques vitais.

            - O que me diz disto, então, inspetor? - perguntou klorissa, que se encontrava a uns sete metros de distância de Baley.

            - Quantos fetos há aqui? - perguntou, por sua vez, o admirado inspetor.

            - Temos atualmente cento e cinquenta e dois. Recebemos quinze a vinte por mês e todos os meses "graduamos" um número igual, dando-lhes

            independência!

            - E esta é a única instituição do gênero em todo o planeta?

            - É a única e é suficiente para manter a população no mesmo nível, com uma vida média de trezentos anos e uma população de vinte mil habitantes. Este edifício é novo. Foi o próprio Dr. Delmarre quem supervisionou a sua construção e que, também, modernizou muitos dos nossos processos. A mortalidade nos fetos é agora virtualmente nula.

            Baley viu alguns robôs que passeavam por entre os tanques, verificando instrumentos meticulosa e cuidadosamente. - Quem opera as mães? - perguntou o inspetor, preso de uma curiosidade quase doentia.

            Os médicos - respondeu klorissa

            - E o Dr. Delmarre?

            - Não... que idéia! Só os doutores em medicina é que o fazem. O Dr.

            Delmarre nunca desceria a... - klorissa não terminou a frase e fez um gesto significativo como se quisesse dizer que os doutores em medicina eram seres inferiores ao Dr. Delmarre.

            - Os robôs não operam? - perguntou Baley, admirado pelo fato de haver Espaciais dispostos a entrar em contato físico com as pacientes que eram operadas.

            - Robôs em cirurgia? A Primeira Lei Robótica torna isso quase impossível. Um robô poderia, talvez, efetuar uma operação para salvar um ser humano, se o soubesse fazer, mas depois disso, não poderia voltar a funcionar sem uma grande reparação. A experiência de cortar tecidos humanos seria um extraordinário choque para o cérebro positrônico. Os médicos humanos, esses, podem habituar-se a fazê-lo e até se habituam à presença pessoal necessária.

            - Noto que os robôs estão cuidando dos fetos; são sempre eles que o fazem ou o Dr. Delmarre também costumava fazê-lo?

            - O Dr. Delmarre era obrigado, às vezes, a cuidar deste ou daquele caso, o que também sucede comigo. Se existe qualquer complicação no feto, por exemplo, temos de cuidar dele em pessoa. Os robôs são de confiança no que diz respeito a diagnosticar corretamente qualquer situação quando uma vida humana se encontra em perigo.

            Baley concordou.

            - Demasiado risco de um erro e de perder uma vida, suponho.

            - Ao contrário, demasiado risco deles darem um valor injustificado a uma vida e de a salvarem impropriamente. - klorissa, agora no seu elemento profissional, falara num tom de voz mais firme e decidido do que antes. - Somos cientistas e o nosso dever de fetologistas é dar vida a crianças saudáveis... saudáveis!

            Trata-se de uma ciência muito intrincada e ingrata, já que a perfeição mental ou física dos pais nem sempre se reflete nos ... filhos. Compete-nos, por conseguinte, selecionar as crianças que poderão ocupar o seu devido lugar na população de Solaria, e, às vezes, temos surpresas desagradáveis.

            klorissa fez um gesto a Baley para que este a seguisse ao longo do balcão.

            - Vou mostrar-lhe os jardins de infância e os dormitórios das crianças - disse klorissa - São uns verdadeiros diabos e dão-nos muito mais trabalho do que os fetos. Os robôs, no que diz respeito às crianças, só nos podem ajudar muito limitadamente.

            - Por quê?

            - Não me faria essa pergunta, inspetor Baley, se algum dia tivesse tentado ensinar um robô a importância da disciplina. A Primeira Lei Robótica não lhes permite ser disciplinados e as crianças depressa o adivinham. Já vi uma criança, por exemplo, imobilizar uma dúzia de robôs só por lhes dizer que estava magoada e que não podia fazer o que eles lhe haviam dito. Só um robô muito avançado é que pode compreender que uma criança pode mentir

            deliberadamente quando isso lhe é conveniente.

            - O Dr. Delmarre sabia lidar bem com as crianças?

            - Normalmente, sim.

            - Como? Brincava com elas... passava muito tempo junto das crianças?

            - O Dr. Delmarre? Tocar-lhes! Que idéia! Não... o que ele fazia era falar-lhes e dar instruções muito exatas aos robôs..

            - E você? Vai alguma vez para junto das crianças?

            - Nem sempre posso evitar... ainda não sei o suficiente para lidar com elas à distância, tão eficazmente como o Dr. Delmarre o fazia. Odeio a idéia de fazê-lo, mas não posso evitá-lo. São uns diabos! - klorissa calou-se durante um instante e voltou-se depois para Baley. - Suponho que não se importaria de se encontrar entre eles, não é assim, inspetor Baley?

            - Tem razão na sua suposição. Não me incomodaria fazê-lo.

            klorissa encolheu os ombros e olhou para ele com uma expressão divertida no olhar.

            - Terrestre... é o que você é! - exclamou ela, dando alguns passos em frente e detendo-se outra vez. - Para que se meteu a fazer esta investigação, inspetor Baley. Ninguém duvida de que Gladia Delmarre seja a assassina. Terá de aceitar a realidade... não há outra hipótese.

            - Não tenho a certeza.

            - Como pode dizer isso? Quem mais poderia ter sido?

            - Não sei... ainda não posso dizê-lo!

            - Quem poderia ser? Quem?

            - Quem? Sei lá... talvez a senhora... seria muito possível!

            A reação de klorissa a estas palavras deixou Elijah Baley verdadeiramente surpreendido.

 

BALEY VISITA O VIVEIRO

            klorissa Cantoro desatara a rir às gargalhadas!

            A fetologista acabou por perder o fôlego de tanto rir e, muito corada e ofegante, encostou-se à parede e respirou fundo.

            - Não se aproxime mais! - exclamou ela, ao ver que Baley dera um passo à frente.

            - Não compreendo como as minhas palavras lhe possam ter causado essa reação - comentou o inspetor gravemente e, de fato, sem saber o que dissera de tão gracioso.

            klorissa tentou responder-lhe e começou outra vez a rir, conseguindo por fim falar, quase num murmúrio devido à falta de ar que lhe atacara os pulmões.

            _ Vê-se mesmo que é um Terrestre! Como poderia eu fazer uma coisa

            dessas!?

            _ Conhecia-o bem - disse Baley. - Conhecia-lhe os hábitos e poderia .ter planejado o crime muito facilmente.

            - E pensa então que eu o teria visto, em pessoa? Que eu me aproximaria o suficiente para lhe desfechar uma pancada na cabeça? Vê-se bem que nada sabe sobre nós, inspetor Baley... nada de nada!

            Baley corou.

            - Não vejo o que a impediria de se aproximar dele. Já me confessou que não se recusava a estar junto das crianças do viveiro.

            - De crianças, apenas de crianças.

            - Uma coisa conduz a outra. Já verifiquei que, por exemplo, minha presença não a incomoda.

            - A oito metros de distância - disse klorissa, o seu tom de voz indicando o desprezo que sentia por alguém que não compreendia aquelas diferenças.

            - Visitei hoje um homem que quase perdeu os sentidos por ter de tolerar minha presença durante algum tempo.

            klorissa soltou um suspiro e fez um gesto que revelava impaciência.

            - Trata-se apenas de uma ligeira diferença na intensidade das sensações.

            - A minha opinião é que uma diferença dessa natureza seria suficiente para alguém ser capaz de cometer o crime. O hábito de ver crianças facilitar-lhe-ia ver o Dr. Delmarre durante o curto espaço de tempo necessário para matá-lo.

            - Devo fazer-lhe notar, inspetor Baley - disse klorissa, agora já bastante friamente - que o fato de eu poder tolerar a presença do Dr. Delmarre não teria a menor importância. O que interessa é que o Dr. Delmarre era tão severo na questão da presença pessoal que nunca aceitaria ver fosse quem fosse, além de sua mulher! Rikaine Delmarre era mesmo quase tão severo, nesse aspecto, como Leebig, por exemplo.

            - Quem é esse Leebig que acaba de mencionar? - perguntou Baley.

            klorissa encolheu os ombros.

            - É um tipo de gênio intelectual que se dedica à ciência robótica Trabalhou bastante com o Dr. Delmarre no programa de robôs.

            Baley tomou notas, mentalmente, do nome e voltou ao mesmo assunto de antes.

            - Até seria possível dizer que tinha um motivo, sabe, minha senhora?

            - Um motivo?

            - A morte do Dr. Delmarre colocou-a à cabeça desta instituição... deu-lhe uma posição oficial e científica de algum destaque.

            - E é, então, a isso que chama um motivo? Que idéia tão disparatada... Quem, em Solaria, consideraria essa posição invejável? Pelo contrário! Esse fato até seria um motivo para conservar o Dr. Delmarre bem vivo e protegê-lo de qualquer perigo! Não, Terrestre, asseguro-lhe que não está no bom caminho... está mesmo muito longe da verdade!

            Elijah Baley passou a mão pelo cabelo. klorissa tinha alguma razão no que lhe dissera.

            - Já reparou no meu anel, por acaso, inspetor Baley? - perguntou klorissa, fazendo um gesto como se fosse tirar as luvas, porém mudando logo de idéia.

            - Reparei, sim - respondeu Baley, que, na realidade, notara um anel quando a televira algumas horas antes.

            - Não conhece o seu significado, não é?

            - Não - disse Baley, aborrecido pela sua ignorância em tudo o que dizia respeito àquele estranho mundo.

            - Gostaria que eu lho explicasse?.

            - Se me ajudar a compreender este maldito planeta, isto sem ofendê-la, não desejo outra coisa!

            klorissa sorriu.

            - Calculo que Solaria seja para você um planeta tão extraordinário como a Terra o é para nós - klorissa e Baley haviam entrado numa sala e a mulher indicou ao inspetor que se sentasse enquanto ela permanecia de pé, encostada à porta, visto ser esse o ponto da sala que se encontrava mais afastado de Baley!

            klorissa cruzou os braços musculosos sobre o peito e olhou intensamente para o inspetor, começando a falar-lhe num tom de voz muito pausado e firme.

            - A análise dos genes é a chave de nossa sociedade. Os genes não são analisados diretamente, claro está, mas cada gene governa um enzima e nós analisamos os enzimas. Quem conhece os enzimas, também conhece a química do corpo. Quem conhece a química do corpo, conhece o ser humano.

            Compreende-me?

            - Entendo a teoria - disse Baley - porém não sei como ela é aplicada.

            - A aplicação dá-se aqui no viveiro. Servimos-nos das amostras de sangue das crianças quando estas se encontram ainda na fase final de seu estado de feto.

            Essas análises dão-nos a nossa primeira aproximação, mesmo que não seja definitiva. O ideal seria que conseguíssemos averiguar a existência de quaisquer doenças ou mutações nessa altura e considerar se o nascimento poderia ser aventurado. A verdade, contudo, é que ainda não sabemos o suficiente para eliminar todas as possibilidades de erros de julgamento, porém chegará o dia em que isso será possível. Continuamos a fazer análises das crianças após o nascimento, tanto do sangue como dos outros fluidos do corpo humano, durante muitos anos e, assim, ainda muito antes da fase adulta ser alcançada, ficamos conhecendo exatamente a natureza dos nossos rapazes e moças. Todos os Solarianos devem, em princípio, usar anéis cujos desenhos indiquem sua constituição genética. Trata-se de um velho costume, que herdamos do tempo em que os Solarianos ainda não tinham a perfeição eugênica dos nossos dias.

            Hoje, como já sabe, somos todos saudáveis.

            - Ainda usa o seu anel, klorissa Por quê?

            - Sou uma pessoa excepcional - respondeu ela, aparentando um orgulho natural e sem a menor arrogância ou vaidade na sua voz. - O Dr. Delmarre demorou muito tempo a encontrar um assistente que lhe conviesse. Precisava de alguém que fosse. .. excepcional. Alguém que fosse inteligente, engenhoso, trabalhador e estável. A estabilidade mental era, naturalmente, uma das suas principais preocupações. Este trabalho requer alguém capaz de lidar com crianças sem se deixar dominar por más disposições passageiras ou impaciências.

            - Todavia ele não era assim... isso significa que o Dr. Delmarre era, de qualquer forma, uma pessoa instável, não é assim?

            - Era instável, talvez, porém sua instabilidade era muito desejável na maioria das circunstâncias - respondeu klorissa - Lava as mãos freqüentemente, não lava, inspetor Baley?

            Baley baixou o olhar para as mãos, verificando que se encontravam limpas, como era seu hábito.

            - Lavo, sim - respondeu, surpreendido pela pergunta.

            - Muito bem - disse klorissa, com um sorriso. - Suponho que o fato de sentir tal repugnância a termos as mãos sujas, ao ponto de evitarmos a todo o custo, por exemplo, sujá-las num mecanismo oleoso, mesmo num caso de emergência, representa uma espécie de instabilidade. Apesar de o ser, contudo, essa instabilidade obriga-nos a lavá-las diversas vezes por dia, o que se torna num hábito higiênico e muito recomendável.

            - Compreendo. Continue, sim?

            - Nada mais lhe posso dizer. Minha saúde genética é a terceira mais elevada registrada em Solaria e é por isso que uso o anel. Sou um ser excepcional, a esse respeito, e orgulho-me disso!

            - Dou-lhe os meus parabéns.

            - Não faça troça, inspetor Baley. A responsabilidade não é minha e é, com certeza, o resultado cego da permutação dos genes dos meus pais. Isso não impede que seja um motivo de orgulho. Sou a terceira pessoa mais saudável, mental e fisicamente. de todo o planeta e ninguém acreditaria que eu fosse capaz de cometer algo tão pouco saudável como crime. Parece-me melhor, pois, que não perca o seu tempo acusando-me.

            Baley encolheu os ombros e não lhe respondeu. À mulher, pensou ele, parecia fazer grande confusão quanto à possibilidade de existência de provas criminais contrárias às leis da permutação dos genes e era natural que todos os outros Solarianos reagissem da mesma forma.

            - Deseja ver as crianças, inspetor Baley?

            - Com muito gosto, klorissa.

            Os corredores pareciam não ter fim. O edifício era enorme. Não era tão gigantesco como os edifícios subterrâneos das cidades da Terra. naturalmente, mas, para um edifício que se encontrava isolado na superfície de um planeta, o Viveiro apresentava uma estrutura de respeito.

            Havia centenas de berços com crianças de tenra idade, que ou dormiam choravam ou gritavam. As salas de recreio das crianças que engatinhavam eram mais interessantes e o inspetor deteve-se durante alguns momentos para tentar notar algumas diferenças entre elas e as crianças da Terra. Essas diferenças no comportamento das crianças, se existiam. não eram visíveis pelo menos.

            - São bastante suportáveis nesta idade - resmungou klorissa - embora mantenham ocupados uma grande quantidade de robôs... praticamente um robô por criança!

            - Não compreendo por que.

            - Adoecem, enfraquecem e queixam-se quando não recebem uma atenção individual.

            Baley assentiu.

            - Suponho que a necessidade de afeto não pode ser completamente eliminada.

            klorissa franziu o sobrolho e falou bruscamente. - As crianças mais novas requerem mais atenção.

            - O fato dos robôs poderem oferecer-lhes esse afeto surpreende-me muito - disse Baley.

            klorissa voltou-se inesperadamente para Baley, e a distância entre os dois não sendo suficiente para esconder o seu descontentamento.

            - Ouça, inspetor Baley, se pretende chocar-me com essas referências desagradáveis não o conseguirá muito facilmente. Não seja ridículo!

            - Chocá-la? - Baley não compreendera a irritação de klorissa Cantoro, a qual, aliás, achava estranho.

            - Eu também posso dizer essa palavra, se quiser. Afeto!

            E, se gosta de ouvir palavrões, até sei dizer Amor! Amor. Pronto! Espero que já esteja mais aliviado, agora que eu lhe dirigi dois palavrões obscenos!

            Elijah Baley nem sequer pensou em negar qualquer intenção obscena. Não valia a pena, pensou ele, e corrigiu os termos da sua pergunta.

            - Poderão os robôs prestar-lhes toda a atenção de que necessitam?

            - Certamente que sim!... De outra forma esta instituição não seria o sucesso que é. Os robôs brincam com as crianças, dão carinho e reconfortam estes diabos, e tanto se lhes dá que sejam robôs ou seres humanos. O caso muda de figura, claro está, entre os três e os dez anos de idade.

            - Como?

            - Durante esse período as crianças só pensam em brincar umas com as outras.

            Não sofrem a menor sensação de mal-estar com a presença pessoal dos outros!

            - Espero que não os impeça de fazê-lo.

            - Isso seria impossível, aliás, porém nunca esqueço a minha obrigação de lhes ensinar como terão de viver na fase adulta. Cada criança tem um quarto privativo, que pode ser fechado, e é, por exemplo, obrigada a dormir só.

            Insistimos muito nessa norma e também num período diário de isolação que vai aumentando com a passagem dos anos. Quando uma criança atinge os dez anos de idade, e às vezes até antes disso, consegue passar uma semana inteira só a telever, sem a presença pessoal de qualquer camarada. O nosso sistema de televisão é muito perfeito e as crianças, de início, divertem-se tanto com ele que podem permanecer dias seguidos sem ver ninguém pessoalmente.

            - O fato de conseguirem eliminar um instinto, tão facilmente, intriga-me muito.

            Sei que o eliminam, mas, se não visse os resultados, jamais teria acreditado - comentou Baley, pensativo e verdadeiramente admirado com tudo o que klorissa lhe dissera e mostrara.

            - A que instinto se refere? - perguntou K1orissa.

            - Ao instinto gregário. Existe, sabe? Já me disse, de resto, que as crianças gostavam de brincar umas com as outras.

            klorissa sorriu.

            - Chama-lhe, então, um instinto?! Está bem, pode ser que o seja... mas que tem isso? Existem muitos instintos que são corrigidos com a idade... a vertigem, por exemplo, o medo das alturas, o medo das trovoadas, e dos relâmpagos, sei lá...

            - Existem instintos razoáveis que não deveriam ser eliminados, na minha opinião.

            - Não creio que haja qualquer instinto natural que não deva ser eliminado por meio de uma boa e persistente educação. Os instintos humanos são bastante fracos, além de tudo o mais, e a sua educação torna-se mais fácil com cada geração que passa. É tudo uma questão de evolução.

            - Explique-me essa noção, Klorissa.

            - Não compreende? Cada indivíduo repete sua história evolucionária à medida que vai se desenvolvendo. Aqueles fetos que lhe mostrei possuem guelras e uma cauda durante algum tempo. São fases que não se podem evitar. As crianças devem atravessar uma fase sócio-animal, mas, tal como os fetos atravessam num mês um estado de evolução que levou cem milhões de anos a dar resultados, as nossas crianças também ultrapassam a fase sócio-animal. O Dr. Delmarre estava convencido de que, com a passagem das gerações, essa fase viria a durar um período cada vez menor.

            - E será essa a expressão da verdade?

            - Dizia o Dr. De1marre que, dentro de três mil anos e devido ao atual desenvolvimento e progresso da raça humana, teremos crianças que se dedicarão a telever logo de início e que jamais sentirão a necessidade de qualquer presença humana. O Dr. Delmarre também tinha outras noções, corno, por exemplo, a de ser possível aperfeiçoar os robôs de tal forma que estes poderiam vir a disciplinar as crianças sem se tornarem mentalmente instáveis. A coisa não me parece impossível. A disciplina de hoje para uma melhor vida amanhã é uma expressão muito verdadeira da Primeira Lei Robótica .. se os robôs forem ensinados a aceitá-la.

            - Há robôs que aceitem essa noção? klorissa abanou a cabeça negativamente.

            - Não, porém o Dr. Delmarre e Leebig estavam trabalhando ativamente com uns modelos experimentais.

            - Sabe se o Dr. Delmarre tinha algum desses modelos na sua propriedade?

            Poderá dizer-me se ele sabia o suficiente sobre a ciência robótica para levar a cabo essas experiências sem a ajuda de um especialista?

            - Sim... sim... era ele que lidava sempre com os robôs.

            - Sabia que o Dr. Delmarre estava com um robô quando foi assassinado?

            - Já mo tinham dito.

            - Terá alguma idéia de que modelo se tratava?

            - Terá de perguntá-lo a Leebig, roboticista que trabalhava com o Dr. Delmarre.

            - Não me poderá dizer alguma coisa sobre esse robô?

            - Nada... asseguro-lhe.

            - Se, por acaso, recordar algum fato que me possa ajudar na investigação, por mais insignificante que lhe pareça, faça o favor de mo comunicar, sim?

            - Sem dúvida - respondeu klorissa Cantoro. - Não pense que o Dr. Delmarre só se interessava por novos modelos de robôs, a sua maior preocupação era os princípios eugênicos e a evolução da raça, assim como a sua adaptação ao modo de vida em Solaria.

            - Deseja ir até lá fora? - perguntou K1orissa, após um breve silêncio. - As crianças entre os cinco e os oito anos de idade são encorajadas a brincarem no jardim e pode vê-las em ação, se isso lhe interessar.

            _ Está bem... vou tentar fazê-lo... mas pode ser que tenha de voltar de repente para dentro.

            - É verdade... já me esquecia. Talvez seja melhor não sair, afinal de contas.

            - Não - disse Baley, forçando um sorriso. - Quero habituar-me ao ar livre e aos espaços descobertos.

            O vento incomodava grandemente Elijah Baley. Tornava-lhe a respiração difícil, e, embora não fosse um vento frio, o sentir o movimento das roupas contra o corpo fazia-o estremecer da cabeça aos pés.

            Os olhos doíam-lhe quando olhava para o azul e o verde do horizonte e o alívio era muito limitado quando olhava para o solo que pisava. Elijah Baley, sobretudo, evitava olhar para o azul intenso do céu e para o esplendor da nudez do sol. A experiência era-lhe muito incômoda, como já previra, mas não lhe era ainda assim impossível combater o desejo de regressar para a segurança das quatro paredes e do teto do Viveiro.

            Baley foi atrás de klorissa, mantendo a distância que ela lhe indicara, e passou por uma árvore. O inspetor tocou-lhe, nunca antes tendo visto uma árvore tão de perto, e verificou que o seu tronco era duro e áspero. As folhas da árvore moviam-se ao sabor do vento e Baley ouviu o ruído que elas faziam por cima de si, porém não levantou o olhar para vê-las. Talvez se tratasse de uma árvore viva! Sabia lá...

            - Como se sente? - perguntou-lhe klorissa

            - Menos mal... não se preocupe.

            - Olhe! Vê aquele grupo de crianças ali adiante? - perguntou klorissa, apontando para um ponto bastante afastado. - Estão brincando... um brinquedo que os robôs lhes ensinaram! A presença dos robôs impede-os de começarem aos pontapés uns contra os outros, o que bem gostariam de fazer, com certeza!

            Elijah Baley olhou rapidamente para o relvado onde as crianças brincavam, alegres e despreocupadas, sob o olhar benevolente de alguns robôs e pensou, durante um breve momento, que aquela imagem era para ele a mais natural e saudável que vira até agora no planeta. O inspetor foi obrigado a desviar o olhar poucos minutos depois, já que aquela visão panorâmica e a distância a que se encontravam as crianças, desprotegidas ao ar livre, lhe causavam uma enorme opressão.

            - Estão se divertindo... - disse klorissa distraidamente.

            - Estão correndo e pulando. " mexendo uns com os outros!

            Inconscientes, é o que eles são! Nem compreendo como se transformam em adultos! Ninguém diria!

            - E aquelas outras crianças? - perguntou Baley, com o olhar indicando um pequeno grupo de rapazes e moças que se mantinham isolados uns dos outros. - O que estão fazendo?

            - Estão televendo. Não se encontram num estado de presença pessoal. Podem fazer tudo o que quiserem, como os outros, exceto tocarem-se fisicamente.

            - Para onde vão as crianças quando saem do viveiro?

            - Vão para as suas propriedades. O número de mortes é, em média, igual ao número de jovens que se formam por ano.

            - Para as propriedades dos seus pais, não é verdade? - perguntou Baley, convencido de que não compreendera bem o que klorissa dissera.

            - Que idéia! Não! Seria uma coincidência extraordinária se os pais da criança .morressem no mesmo ano em que ela se formasse. Não... os jovens, visto que já não são crianças, quando se formam, ocupam as propriedades que estiverem desocupadas. Não creio - que haja algum que se sentisse feliz vivendo na mesma mansão onde os seus haviam vivido, supondo, claro está, que soubesse quem eram os seus pais.

            - E não o sabem, então? klorissa franziu o sobrolho.

            - Para que? Que motivo teriam eles de querer sabê-lo?!

            - E os pais não vêm visitar as crianças?

           - Que mentalidade a sua! Os pais não feriam o menor interesse ou desejo de fazê-lo, asseguro-lhe.

            - Importa-se de esclarecer uma dúvida minha? - perguntou Baley. - Poderá dizer-me se é uma grande indelicadeza alguém perguntar se tem filhos.

            - É uma pergunta muito íntima, não lhe parece?

            - De certo modo.

            - Eu estou habituada a essas coisas. Passo os dias lidando com crianças.

            Existem pessoas que ficariam muito ofendidas com uma pergunta dessas.

            - Tem filhos, klorissa?

            A assistente do Dr. Delmarre engoliu em seco e corou.

            - Suponho que mereço essa pergunta, depois do que acabei de dizer. E você, por sua vez, merece uma resposta. Não, não tenho.

            - É casada?

            - Sou... e tenho uma propriedade minha, onde me deveria encontrar agora, se o Dr. Delmarre não tivesse morrido. Não sei o suficiente para comandar estes robôs daqui à distância, de minha casa, e é por isso que estou vivendo aqui temporariamente.

            klorissa olhou subitamente para o grupo de crianças ao ouvir uma delas chorando.

            - Olhe! uma das crianças caiu e está chorando!

            Um dos robôs correra para junto da criança e pegara-a ao colo, acariciando-a com uma gentileza que não parecia ser possível num robô daquelas dimensões.

            - O robô cuidará da criança e, se ela estiver ferida de verdade, terá de levá-la para dentro e chamar-me - disse klorissa, aborrecida e um pouco nervosa pelo que acontecera. - Espero que não tenha de cuidar da criança...

            Elijah Baley respirou fundo. A sua vista já se ia habituando mais ao exterior e notou, a pouca distância, três árvores que formavam um triângulo. O inspetor encaminhou-se para elas, achando bastante desagradável a sensação de pisar a relva e as folhas ressequidas que cobriam o solo. Uma vez alcançadas as árvores, por sinal muito frondosas, Baley colocou-se no meio delas e sentiu-se como se estivesse rodeado por paredes, se bem que imperfeitas. O sol encontrava-se agora escondido pela folhagem das árvores e só um ou outro reflexo o atingia.

           klorissa observara Baley e aproximara-se dele, encurtando pela primeira vez a distância entre eles.

            - Permite-me que fique aqui mais algum tempo? - perguntou Baley, que queria a todo o custo habituar-se ao exterior, - Faça o que lhe apetecer! - disse klorissa e riu-se ante a figura de Baley escondida entre as árvores.

            - Diga-me, klorissa, como é que os jovens fazem a corte uns aos outros, aqui em Solaria?

            - Corte?

            - Sim, como é que vêm a conhecer-se melhor, quando saem do Viveiro. ..

            quando estiverem quase em idade de casar. - Baley não sabia bem como havia de explicar o que queria perguntar e fez nova tentativa. - Como é que se decidem a casar?

            - Não são eles que decidem - respondeu klorissa, - Os casamentos, ou as nomeações, são decididas quando eles ainda são crianças, segundo um equilíbrio de suas análises genéticas. É a forma mais razoável, não lhe parece?

            - E eles estão sempre de acordo?

            - Em casarem-se? Não, nunca o desejam fazer. Devem seguir um processo assaz difícil, mesmo doloroso. Antes de mais, devem habituar-se um ao outro e, mais tarde, a realidade de se irem vendo, em pessoa, um pouco todos os dias.

            acaba por habituá-los ao inevitável.

            - E se não gostarem um do outro?

            - O que? Sé as suas análises genéticas indicam e recomendam o casamento, que diferença poderia fazer que eles...

            - Compreendo - interrompeu Baley, pensando na Terra e soltando um

            profundo suspiro.

            - Deseja que eu lhe diga mais alguma coisa? - perguntou klorissa

            Baley percebeu que já não havia qualquer vantagem em permanecer mais tempo no Viveiro. Já estava farto de fetologia e de klorissa e tinha outras coisas a fazer.

            Preparava-se para dizer a klorissa que deveria partir quando ouviu sua voz gritar excitadamente.

            - Ouça!... Você, rapaz! O que está fazendo? - klorissa voltou-se rapidamente para Baley e chamou-lhe a atenção. - Terrestre! Baley! Cuidado! Tenha cuidado!

            Baley mal ouvira suas palavras. O tom de urgência na sua voz, entretanto, desencadeara-lhe qualquer emoção contida durante todo o tempo que se encontrara ao ar livre e o pânico apoderou-se de novo de todo o seu ser.

            Estonteado e sentindo uma angústia, que logo se transformou numa vertigem insuportável, Baley caiu ao chão sentindo um estranho zumbido por cima dele.

            Logo a seguir, ouviu, como que num pesadelo, um ainda mais estranho embate contra o tronco da árvore.

            Elijah Baley abriu os olhos passados alguns momentos.

            klorissa repreendia um rapazinho que se encontrava a alguma distância dela.

            Um robô, silencioso, observava a cena. Baley notou que o rapaz empunhava qualquer instrumento de madeira, cujas extremidades pareciam estar ligadas por uma corda ou algo semelhante.

            Respirando dificilmente, e ainda estonteado, Baley levantou-se e ficou olhando, muito intrigado, para um projétil alongado e metálico que estava cravado na árvore. Boquiaberto e sem saber o que havia de pensar, arrancou-o do tronco e examinou-o. A ponta metálica não era muito aguçada, mas, se lhe tivesse acertado, ter-lhe-ia certamente furado a pele e causado uma ferida bastante profunda.

            Baley, ainda mal seguro nas pernas, deu um passo em direção a klorissa e chamou a criança.

            - Venha aqui, rapaz!

            klorissa voltou-se para Baley, muito vermelha e mesmo aflita pelo que se passara.

            - Foi um acidente - disse ela. - Feriu-se, inspetor Baley?

            - Não! Que objeto é este? Parece ser muito perigoso!

            - É uma flecha. Dispara-se por meio de um arco. É imitação de uma arma muito antiga.

            - Dispara-se assim! - exclamou o rapaz, levantando o arco e fingindo que ia disparar outra flecha em direção a Baley. O rapaz desatou a rir ao notar a expressão assustada do inspetor. - Fique quieto. Vai ser castigado, fique sabendo! Vá já para dentro!

            - Espere aí! Espere! - gritou Baley. - Quero fazer-lhe umas perguntas. Como se chama?

            - Bik - respondeu o rapaz.

            - Quase que me ia acertando com esta flecha. Bik.

            - Eu sei.

            - Sabe que me teria acertado se não me tivessem avisado e eu não me tivesse baixado?

            - Atirei para acertar. - Bik encolhera os ombros e dissera aquelas palavras com a maior da naturalidade.

            klorissa interrompeu Baley e falou-lhe nervosamente.

            - Deixe-me explicar-lhe. O desporto do tiro com o arco é muito recomendado.

            Trata-se de um desporto de competição, sem exigir qualquer contato físico com outra pessoa. Os rapazes organizam competições para ver quem atira melhor e, às vezes. até se servem dos robôs como alvos. Isso diverte-os e não afeta os robôs. Eu sou a única pessoa adulta no viveiro e o rapaz deve ter pensado que você fosse um robô, inspetor Baley.

            O inspetor ouvira as palavras de klorissa com toda a atenção e não ficara muito convencido com a explicação.

            - Ouça, Bik, você imaginou que eu fosse um robô? - perguntou Baley, - Não - respondeu este, - Sei muito bem que é um Terrestre!.•

            - Está bem... pode ir-se embora.

            Bik deu meia volta e afastou-se, assobiando alegre e despreocupadamente.

            Baley voltou-se para o robô.

            - Diga-me como é que o rapaz sabia que eu era um Terrestre? Ou não estaria junto dele quando isto se passou?

            - Estava com ele. sim, inspetor Baley. Fui eu que lhe disse que era um Terrestre.

            - Disse-lhe que era um Terrestre?

            - Disse, sim, inspetor Baley.

            - E o que é um Terrestre?

            - Uma espécie inferior da raça humana que não deve ter entrada em Solaria por não ser saudável, inspetor Baley. - E quem lhe disse isso, rapaz?

            O robô não respondeu, permanecendo silencioso. - Sabe quem lhe disse?

            - Não sei, inspetor Baley. Essa informação encontra-se registrada na minha memória.

            - Você disse, então, ao rapaz que eu era um ser inferior, que não tinha o direito de estar em Solaria e ele disparou o arco na minha direção. Não compreendo porque você permitiu.

            - Não tive tempo, inspetor Baley, o rapaz foi demasiado rápido para mim. Eu jamais teria permitido que um ser humano sofresse, mesmo que se tratasse de um Terrestre.

            - Talvez pensasse que sendo eu apenas um Terrestre, não era verdadeiramente um ser humano, e hesitou por isso!

            - Não foi isso que sucedeu, inspetor Baley.

            O robô falara com uma perfeita calma. Negara o fato (convicta e sinceramente), porém, Baley tinha a certeza de que, na verdade, fora esse o seu raciocínio.

            - O que estava fazendo junto ao rapaz?

            - Transportava as flechas que ele ia usando, inspetor Baley.

            - Quero vê-las - ordenou Baley, estendendo a mão. O robô aproximou-se dele e entregou-lhe umas dez ou doze flechas. Baley comparou-as cuidadosamente com aquela que o rapaz disparara e depois devolveu-as ao robô, conservando a original e falando asperamente ao robô: - Que motivo levou a dar esta flecha ao rapaz?.

            - Nenhuma razão, inspetor Baley. Pedira-me uma flecha e esta foi a primeira que a minha mão tocou. O rapaz procurava um alvo e ao vê-lo, inspetor Baley, perguntou-me quem era e eu expliquei-lhe...

            - Já sei o que lhe disse. Esta flecha é a única com plumas cinzentas nesta extremidade, as outras têm plumas negras.

            O robô não fez qualquer comentário à observação do inspetor.

            Foi você que trouxe o rapaz para este lado do jardim? - Não, inspetor Baley, viemos para aqui por acaso.

            Elijah Baley estudou a abertura entre as duas árvores pela qual passara a flecha atirada pelo rapaz.

            - Este rapaz, Bik, seria por acaso o melhor atirador entre os rapazes do Viveiro?

            O robô fez um gesto afirmativo.

            - É o melhor atirador, sim, inspetor Baley.

            klorissa ficou muito admirada com a dedução de Baley. - Como adivinhou isso, inspetor?

            - Foi muito fácil - disse Baley secamente. - Observe esta flecha e as outras, klorissa Esta, a de plumas cinzentas, é a única que tem a ponta ligeiramente oleosa. Atrevo-me a dizer formalmente, minha senhora, que acabou de me salvar a vida. A flecha que me devia ter acertado está envenenada!

 

BALEY AFRONTA UM ROBOTICIST A

            - Impossível! - exclamou klorissa - Absolutamente impossível!

            - Asseguro-lhe que é verdade. Não tenho a menor dúvida! Terá algum animal aqui na propriedade que não se importe de perder? Arranhe-o com esta flecha e logo verá que tenho razão.

            - O que levaria alguém a...

            - Conheço muito bem o motivo, o que não sei é quem foi esse alguém.

            - Ninguém, com certeza.

            Elijah Baley sentiu-se presa de uma súbita fúria e atirou a flecha para o solo, junto aos pés de klorissa.

            - Apanhe a flecha! - gritou Baley. - Experimente espetá-la num animal e, se não o quiser fazer, será melhor destruí-la. Deixe-a aí no chão e terá um acidente mortal se alguma das crianças lhe tocar!

            klorissa apressou-se em apanhá-la, usando de todo o cuidado e parecendo ter ficado perplexa com a explosão irada do inspetor.

            Baley correu para a entrada do edifício e klorissa seguiu-o lentamente, o seu olhar intrigado fixo na ponta da flecha.

            O inspetor acalmara-se logo que entrara dentro de casa e, num tom de voz menos elevado e mais suave, falou de novo a klorissa.

            - Quem poderia ter envenenado a flecha?

            - Não faço a menor idéia.

            - Não é natural que o rapaz o tenha feito. Terá alguma forma de descobrir quem são os pais dele?

            - Poderíamos ver no fichário - respondeu K1orissa, agora perturbada e grave.

            - Não sabia que mantinham fichários.

            - É necessário, para as análises genéticas.

            - Saberá o rapaz quem são os pais?

            - Impossível! - exclamou klorissa firmemente.

            - Não teria ele qualquer forma de descobri-lo?

            - Só se forçasse a entrada da sala dos fichários, o que também me parece impossível!

            - Suponha que um adulto decidisse visitar o viveiro e desejasse saber qual dos rapazes era o seu filho...

            klorissa corou.

            - Seria uma coisa improvável!

            - Suponha que isso acontecesse... seria o adulto informado do nome do filho?

            - Não sei. Não seria ilegal informá-lo, mas não é costume.

            - Estaria disposta a informar esse adulto, klorissa, se isso acontecesse?

            - Tentaria não fazê-lo. O Dr. Delmarre não o faria. Ele dizia sempre que os fichários só deviam servir para as análises genéticas. Antes de ele se oferecer como voluntário, as coisas talvez se passassem de outra forma, não sei. Para que pergunta tudo isto, inspetor Baley?

            - Não vejo como é que o rapaz poderia ter um motivo para fazer o que fez.

            Pensei que seus pais talvez o tivessem.

            - Isto é tudo muito estranho e perturbador! - klorissa aproximara-se mais de Baley, sem mesmo reparar que já se encontrava a apenas dois ou três metros de distância dele.- Como é possível que tudo isto tenha acontecido? O Dr. Delmarre foi assassinado, agora tentaram matar o inspetor. Em Solaria não existem motivos que expliquem estes atos de violência! Temos tudo o que desejamos e isso elimina toda e qualquer ambição pessoal. Não temos relações familiares e, por conseguinte, também não existem ambições e ressentimentos no seio da família. Somos todos saudáveis, mental e fisicamente.

            O rosto de klorissa iluminou-se de repente.

            - Espere! Esta flecha não pode estar envenenada. Eu não devia ter permitido que me convencesse disso, inspetor Baley! - Por quê? O que a teria levado a mudar de idéia?

            - O robô que se encontrava com Bik nunca teria permitido o uso do veneno. É inconcebível que ele colaborasse em qualquer ação que pudesse ferir um ser humano. A Primeira Lei Robótica não lhe permitiria.

            - Julga que não? O que será, afinal, a Primeira Lei? klorissa não o compreendeu.

            - O que quer dizer com isso?

            - Nada. Vá experimentar a flecha em um animal e verá que está envenenada. - Baley já perdera o interesse pelo assunto, visto que estava absolutamente certo de que se tratava de veneno, e mudou o rumo da conversa. - Ainda pensa que foi Gladia Delmarre quem assassinou o marido?

            - Era a única pessoa presente. Mais ninguém poderia tê-lo feito.

            - Bem vejo. E você, klorissa Cantoro, era a única pessoa adulta presente nesta propriedade no momento em que me tentaram assassinar com uma flecha envenenada.

            - Nada tive a ver com isso! - exclamou klorissa energicamente.

            - Talvez não... e talvez Gladia Delmarre também esteja inocente. Permite-me que use o seu televisor?

            - Sim... com certeza.

            Baley sabia exatamente quem desejava ver e não se tratava de Gladia, ficando muito surpreendido, por conseguinte, ao ouvir a sua própria voz dizer ao robô:

            - Estabelece contato com Gladia Delmarre.

            O robô obedeceu sem o menor comentário e Baley observou a manipulação dos instrumentos sem saber o que o levara a dar aquela ordem.

            Seria o fato de que o nome de Gladia acabara de ser mencionado na discussão ou seria que ele se sentia ainda perturbado pela forma abrupta como a sua última conversa com ela terminara, ou seria ainda a aparência demasiado prática e rude de klorissa que, finalmente. o levara ao desejo de ver Gladia Delmarre como uma espécie de contra-veneno?

            Gladia apareceu-lhe subitamente, sentada numa enorme poltrona e parecendo ainda mais pequena e indefesa do que na realidade o era. Estava vestida de forma muito simples, embora elegante, e o seu aspecto era tão agradável aos olhos de Baley como sempre o fora.

            - Alegro-me de o telever, Elijah - disse ela num tom de voz muito suave e melodioso. - Já tentei.entrar em contato com você, sem o conseguir.

            - Bom dia, Gladia... boa tarde... boa noite... sei lá! - disse ele, sorrindo-lhe.

            Baley não fazia a menor idéia de que horas seriam e o vestido que Gladia trajava também não lhe indicava. - a que levou Gladia a querer telever-me?

            - Queria pedir-lhe desculpa por me ter zangado na última vez que o televi, Elijah. a sr. Olivaw não me soube dizer onde poderia encontrá-lo.

            Baley formou mentalmente uma rápida imagem da Daneel ainda vigiado pelos três robôs e sorriu, divertido com a idéia. - Não se preocupe... eu não me zanguei com você. Irei vê-la, em pessoa, dentro de algumas horas.

            - Se quiser... o que? Ver-me?

            - Sim. Presença Pessoal- respondeu Baley, o olhar de Gladia manifestava bem sua surpresa e mesmo um certo desagrado.

            - Que razão tem para me ver?

            - Torna-se necessário que eu o faça.

            - Não creio que...

            - Está disposta a receber-me, ou não?

            Gladia desviou o olhar.

            - Será absolutamente necessário?

            - É, sim. Terei de ir ver outra pessoa, antes de você, Gladia. a seu marido interessava-se muito por robôs. Disse-me isso e também já o ouvi da boca de outras pessoas, mas ele não era um roboticista, não é verdade?

            - Não, Elijah - respondeu Gladia, não ousando olhá-lo de frente.

            - Costumava trabalhar com um roboticista, não é verdade?.

            - Jothan Leebig - disse Gladia imediatamente. - Um bom amigo meu.

            - Sério? - perguntou Baley, muito interessado por aquela revelação.

            Gladia ficara admirada com a surpresa manifestada por Baley.

            Por quê? Haverá alguma razão para não dizê-lo?

            - Não... se é a verdade.

            - Tenho sempre medo de dizer qualquer coisa que me... sabe lá como é difícil viver quando toda a gente pensa que cometi um crime!

            - Não se preocupe. Como é que conhece tão bem esse Leebig?

            - Já nem me lembro quando nos tornamos amigos. Vive na propriedade próxima à nossa e a energia usada para televê-lo é tão pouca, devido à pouca distância, que nos televíamos constantemente. Costumávamos passear juntos...

            antes da morte de Rikaine.

            - Não sabia que podia sair com outra pessoa. Gladia ficou corada.

            - Eu disse telever, não se lembra? Esqueço-me sempre de que é um Terrestre.

            Os nossos aparelhos de televisão pessoal permitem que passeemos juntos. Não se lembra daquela vez que fui atrás de você para a sala de jantar? Eu passeava na minha propriedade e ele na dele, e o robô especialista encarregava-se de manter o contato visual e auditivo entre nós. Estes passeios são bem agradáveis...

            Gladia calou-se durante alguns segundos, em seguida, exclamou

            inesperadamente: - Pobre Jothan!

            - Por que diz isso?

            - Estava pensando no que me acabou de dizer sobre passearmos juntos, em pessoa. Jothan teria um ataque se pensasse que alguém podia imaginar uma coisa dessas.

            - Por quê?

            - É muito severo no que diz respeito à presença pessoal,

            Jothan disse-me uma vez que deixou de ver pessoas quando tinha apenas cinco anos de idade. Só queria telever, o que era uma coisa muito precoce. A maioria das crianças só deixam de querer ver, em pessoa, depois dos dez anos.

            Rikaine disse-me uma vez, quando falávamos de Jothan, que mais e mais crianças viriam a ser como ele o fora em criança. Dizia Rikaine que se tratava de uma espécie de evolução social que favorecia a televisão pessoal, de preferência à visão pessoal. Qual é a sua opinião sobre isto, Elijah?

            - Não tenho suficientes conhecimentos para dar uma opinião sobre o assunto - respondeu Baley.

            - Jothan recusou-se até a casar. Rikaine ficou muito zangado com ele, nessa altura, e disse-lhe que a decisão era anti social e que os seus genes eram necessários à vida de Solaria. Jothan não se importou com isso e não se casou!

            - Não sabia que se tinha o direito de recusar.

            - E não se tem - disse Gladia, hesitante - mas ele é um roboticista muito brilhante e os roboticistas são imensamente valiosos para Solaria. Abriram uma exceção... mas Rikaine nunca lhe perdoou e disse-me que ia deixar de trabalhar com ele. Disse-me também que Jothan era um mau Solariano.

            - Teria o seu marido dito isso ao próprio Jothan?

            - Não sei, mas continuaram a trabalhar juntos até à morte de Rikaine.

            - Embora pensasse que Jothan fosse um mau Solariano, tendo-se recusado casar?

            - Rikaine dizia que o casamento era a coisa mais difícil da vida, mas que devia ser suportado.

            - E qual é a sua opinião, Gladia?

            - Sobre que, Elijah?

            - Sobre o casamento. Também pensa que é a pior coisa da vida?

            A expressão de Gladia transformou-se, adquirindo uma indiferença forçada, como se ela quisesse esconder qualquer emoção que a dominara.

            - Nunca pensei nisso.

            - Disse-me que ia passear muitas vezes com Jothan e pareceu-me que se referia ao passado, Gladia. Diga-me, ainda continua passeando com ele?

            Gladia meneou a cabeça. O seu rosto e o seu olhar haviam voltado à expressão normal, embora ligeiramente triste.

            - Não. Já não saímos a passeio... nem sei bem por que. Televi Jothan uma ou duas vezes, ele agora anda sempre muito ocupado...

            - Deste a morte do seu marido?

            - Não, mesmo antes disso. Há alguns meses que não passeamos juntos.

            - Teria o Dr. Delmarre ordenado a Jothan Leebig que deixasse de sair com você?

            Gladia ficara admiradíssima com aquela pergunta.

            - Por quê? Não somos robôs para que alguém ordene a um de nós o que há de ou não fazer! Por quê teria Jothan de obedecer a uma ordem dessas e que razão levaria Rikaine a dá-la?

            Baley não lhe explicou a razão da pergunta. Só poderia tê-lo explicado em termos da Terra, o que não elucidaria grandemente Gladia. E, se esta o compreendesse, apenas pensaria que ele fosse depravado ou obsceno!

            - Só mais uma pergunta, Gladia, antes de eu falar com Leebig... que horas são? - Baley arrependeu-se logo de ter perguntado a Gladia. Esta talvez lhe respondesse em unidades Solarianas, enquanto que um robô lhe diria em horas Terrestres.

            Gladia, porém, respondeu-lhe em termos puramente qualitativos.

            - Estamos a meio da tarde, Elijah.

            - A hora é a mesma na Propriedade Leebig, não é assim?

            - É, naturalmente... fica próximo desta.

            - Muito bem. Voltarei a entrar em contato com você brevemente e dir-lhe-ei então quando a virei visitá-la... em pessoa.

            Gladia tornou-se de novo hesitante e muito perturbada. - Será absolutamente necessário ver-me?

            - Acredite-me, quando lhe digo que é, Gladia.

            - Está bem - concordou Gladia, por fim, embora isso parecesse constituir um grande sacrifício para ela.

            Houve certa demora em estabelecer contato com Leebig e Baley aproveitou para voltar a comer alguma coisa, examinando desta vez os alimentos com todo o cuidado - embora soubesse que lhe seria quase impossível aperceber-se da presença de algum veneno. Elijah Baley reconheceria logo o sabor de qualquer dos venenos mais conhecidos, era verdade, porém existiam muitos venenos sem gosto ou cor e muitos processos de misturá-los com os alimentos sem deixar qualquer vestígio.

            O crime e as tentativas de assassinato que se haviam dado em Solaria tinham sido levados a cabo de uma maneira muito direta. Nada havia de sutil ou de extraordinariamente inteligente numa pancada na cabeça, numa dose de veneno que seria suficiente para matar uma dúzia de homens, ou numa flecha envenenada desfechada abertamente em direção à vítima!

            A voz do robô interrompeu estas considerações do inspetor. - O Dr. Leebig diz que não pode televê-lo, inspetor Baley, e ordenou-me que lhe diga que volte a contactar amanhã. Encontra-se ocupado num trabalho muito importante.

            Elijah Baley levantou-se abruptamente, furioso com aquelas palavras, e gritou ao robô:

            - Diga a esse tipo...

            Baley calou-se. Gritar com um robô não serviria para coisa alguma. Os resultados de um berro eram exatamente os mesmos que seriam os de um murmúrio.

            O inspetor voltou a falar, desta vez mais calmo e no seu tom de voz habitual.

            - Informe o Dr. Leebig de que estou investigando o assassínio de um seu companheiro de trabalho e de um bom Solariano. Diga-lhe que não posso esperar que ele termine o trabalho em que está ocupado. Diga-lhe que, se não o estiver televendo dentro de um máximo de cinco minutos, meter-me-ei num avião e irei vê-lo, em pessoa, dentro de uma hora. Diga-lhe tal e qual o que eu lhe disse, para que ele compreenda bem que o irei ver caso ele não queira telever-me agora!

            Os cinco minutos ainda não haviam passado quando a imagem de Leebig, ou de um homem que Baley supôs ser Leebiz, lhe apareceu à frente.

            Jothan Leebig era um homem de elevada estatura e muito magro, com um olhar de intensa abstração, mas com evidente zanga estampada no rosto.

            - O senhor é que é o Terrestre? - perguntou ele. mal disposto e

            malcriadamente.

            - Sou Elijah Baley, inspetor da Polícia - de Nova York. classificação C-7, encarregado de investigar o assassinato do Dr. Rikaine Delmarre. Como se chama o senhor?

            - Sou o Dr. Jothan Leebig. Como se atreve a incomodar-me durante o meu trabalho?

            - É fácil - respondeu Baley suavemente. - É o meu trabalho.

            - Então vá trabalhar em outro local e deixe-me em paz?

            - Terei de lhe formular algumas perguntas, Dr. Leebig. Creio que era um colaborador profissional do Dr. Delmarre, não é verdade?

            - Se você é o estrangeiro que Gruer ameaçou de trazer para...

            - Sou, sim.

            - Então encontra-se no planeta contra a minha opinião.

            Televisita terminada!

            - Espere! Não corte o contato! - Baley elevara a voz e apontara um dedo ameaçador contra a figura de Leebig. - Tenciono vê-lo, em pessoa, sabe?l - Não me venha com essas obscenidades da Terra!

            - A minha frase representa apenas o que tenciono fazer. Irei visitá-lo e, se não me quiser ver, obrigá-lo-ei a isso! Nem que seja por meio de força... física!

            Leebig deu um passo atrás e ficou olhando para o inspetor, uma raiva intensa a brilhar-lhe nos olhos.

            - Você não passa de um animal imundo!

            - Diga o que quiser... mas eu farei o que desejo.

            - Se tentar invadir a minha propriedade, eu... eu...

            Baley franziu o sobrolho.

            - Matar-me-á? Será seu costume formular ameaças dessa natureza?

            - Não formulei qualquer ameaça.

            - Então responda às minhas perguntas. Podia ter-me prestado muitas informações durante o tempo que perdeu sendo malcriado e insolente. Era amigo do Dr. Delmarre e trabalhava com ele, não é assim?

            O roboticista baixou o olhar. Os seus ombros estremeceram como se quisesse livrar-se de qualquer sensação desagradável e, quando voltou a olhar para Baley, parecia mais calmo e até sorriu ligeiramente.

            - É verdade.

            - O Dr. Delmarre interessava-se por novos tipos de robôs, segundo me disseram.

            - Também é verdade.

            - Que tipos de robôs?

            - Estudou a ciência robótica, inspetor?

            - Não. Explique-mo em termos simples para que eu possa compreender.

            - Duvido que isso me seja possível.

            - Tente! Por exemplo, ouvi dizer que ele trabalhava no sentido de conseguir um robô que pudesse disciplinar crianças. Diga-me o que isso significaria num robô.

            Leebig franziu o sobrolho e falou secamente.

            - Para lhe dizer muito simplesmente, sem qualquer pormenor técnico, isso representaria um aumento do integral C, comandando a intensidade do canal Sikorovich no nível W-65.

            - Não entendi nada, claro - disse Baley.

            - Respondi à sua pergunta, no entanto.

            Explique-me mais simplesmente.

            O processo significa um enfraquecimento da Primeira Lei.

            Por quê? As crianças são disciplinadas para o seu futuro bem-estar, não é essa a teoria?

            - O futuro bem-estar, sim! - exclamou Leebig, os seus olhos iluminando-se com um novo entusiasmo e a expressão do seu rosto perdendo parte da arrogância que a dominara. - Um conceito muito simples, dir-se-ia. Mas quantos seres humanos são capazes de sacrificar um momento de bem-estar a fim de melhorar o seu futuro distante? Quanto tempo é necessário para ensinar a uma criança que uma guloseima, da qual ela gosta, lhe causará uma dor de estômago mais tarde? E pensa, então, que um robô poderia compreendê-lo, quando nem os próprios seres humanos assimilam facilmente esse conceito!? A dor infligida por um robô a uma criança - continuou o Dr. Leebig - causa uma desafinação muito séria no cérebro positrônico. Corrigir essa desafinação potencial representa uma alteração considerável nos canais e, sem sacrificar um número importante de circuitos, seria necessário aumentar cerca de 50% a capacidade cerebral dos robôs.

            - Não conseguiu, então, construir um tal robô?

            - Não, nem o conseguirei. Ninguém o conseguirá.

            - Estaria o Dr. Delmarre trabalhando num modelo experimental dessa natureza, quando morreu?

            - Não dessa natureza. O Dr. Delmarre também se interessava por outros tipos de robôs.

            Baley baixou a voz e falou pausadamente.

            - Dr. Leebig, terei de aprender muita coisa mais sobre a ciência robótica e vou- lhe pedir que me ensine.

            Leebig abanou a cabeça veementemente.

            - A ciência robótica não se aprende de um dia para o outro. Não terei tempo para lhe dar lições!

            - Terá de me ensinar o que puder. Os robôs têm uma importância descomunal na vida de Solaria. Nada poderei averiguar sem compreender perfeitamente a situação. Ensinar-me-á o que puder durante o tempo que for possível, mas teremos de fazê-lo pessoalmente. Não me consigo habituar a telever e, assim, levaremos muito mais tempo do que se me encontrasse em sua presença pessoal.

            Leebig empertigou-se e voltou a adquirir a sua expressão arrogante de antes.

            - As suas manias de Terrestre- não me dizem respeito.

            A presença pessoal entre nós é completamente impossível.

            - Creio que mudará de idéia quando eu lhe disser o assunto que mais desejo discutir com o senhor.

            - Nada me fará mudar de idéia. Nada.

            - Não? Então, ouça o que lhe vou dizer. Estou convencido de que a Primeira Lei Robótica tem sido deliberadamente mal interpretada durante toda história do robô positrônico.

            Leebig soltou uma exclamação de espanto e incredulidade. - Mal interpretada?

            Que loucura! Que disparate! Para que?

            - Para esconder a realidade - disse Baley calmamente de que os robôs podem assassinar seres humanos!

 

UM MOTIVO É REVELADO

            A boca de Leebig abriu-se lentamente. A princípio o inspetor pensou que fosse uma expressão de enfado, mas logo viu que era uma tentativa para sorrir sem qualquer vontade.

            - Não diga isso! Nunca diga isso! - exclamou Leebig.

            - Por que não?

            - Visto que tudo, por mais insignificante que seja, que cause a falta de confiança nos robôs seria desastroso. A falta de confiança nos robôs é um defeito... humano.

            Leebig falara como se estivesse convencendo uma criança.

            Era como se estivesse a dizer algo suavemente, quando o desejava gritar iradamente. Dissera-o como se fosse obrigatório acreditar no que ele afirmava.

            - Conhece a história da ciência robótica?

            - Alguma coisa.

            - Sim, sendo da Terra deve saber um pouco. Sabia que os robôs vieram ao mundo com uma espécie de complexo frankensteiniano contra eles? Todo mundo suspeitava dos robôs. A ciência robótica deveria ser desenvolvida e estudada em segredo. As Três Leis foram inseridas no cérebro dos robôs justamente para eliminar essa falta de confiança e, mesmo assim, a Terra nunca permitiu o desenvolvimento completo e o uso generalizado dos robôs. Uma das razões que levaram os pioneiros a sair da Terra e a colonizar o resto da Galáxia foi o fato de desejarem estabelecer comunidades onde os robôs pudessem libertar a raça humana da pobreza e das canseiras dos trabalhos. Mas, mesmo assim, aquela desconfiança latente ainda existe e, devido a qualquer causa ou provocação, poderia muito bem regressar à superfície de um momento para o outro.

            - Já teve de combater essa desconfiança em relação aos robôs?

            - Já. Muitas vezes.

            - Será por isso que todos os roboticistas não se negam a alterar ligeiramente a realidade a fim de evitar tanto quanto possível essa desconfiança?

            - Nunca alteramos a realidade.

            - Nem mesmo no que diz respeito às Três Leis?

            - Não!

            - Posso demonstrar que as Leis Robóticas são mal interpretadas e que não representam a expressão da verdade e, se o Dr. Leebig não me convencer do contrário, estou disposto a demonstrá-lo a toda Galáxia!

            - Está louco, com certeza! Asseguro-lhe que se engana e que não existe qualquer verdade no que acaba de dizer! - Está disposto a ouvir o que eu lhe tenho a dizer?

            - Se não levar muito tempo...

            - Estará disposto a ver-me? Cara a cara?

            - Não!.

            - Adeus, Dr. Leebig. Encontrarei outros que me desejarão ouvir.

            - Espere! Caramba! Espere, homem!

            - Permite-me que o visite, em pessoa?

            O Dr. Leebig levou as mãos à cabeça e sacudiu-a violentamente. Era evidente que procurava libertar-se do complexo que não lhe permitia fazer frente a um outro ser humano. O complexo estava demasiado impresso em todo o seu ser para agora ceder tão facilmente, e o roboticista meneou a cabeça lentamente.

            - Não posso! Não posso! Faça o que quiser.

            Elijah Baley viu o Dr. Leebig voltar-se de costas para ele e encostar-se à parede, como se tivesse perdido as forças e o interesse por tudo o que o rodeava.

            - Está bem, então, estou de acordo em continuar a televê-lo. Já compreendi que ver-me é superior às suas forças. - Espere um momento, já volto - disse Leebig, saindo lentamente da sala.

            Baley aproveitou o intervalo para ir ao banheiro lavar-se e arranjar-se. Sua imagem no espelho parecia-lhe ligeiramente diferente. Seria isso causado pela tensão que o dominara nestas últimas horas. Estaria ele compreendendo melhor Solaria e os Solarianos? Não tinha a certeza.

            Baley apertou um botão de contato e um robô apareceu-lhe imediatamente.

            - Existem outros aparelhos televisores no viveiro, além daquele de que estou me servindo? - perguntou o inspetor, sem sequer olhar para o robô.

            - Existem outros três, inspetor Baley.

            - Informe, então, klorissa Cantoro... informe a sua senhora de que vou me servir deste durante muito tempo e que não desejo ser interrompido.

            - Está bem, inspetor Baley.

            Baley regressou à sala e sentou-se na mesma poltrona de antes, de onde continuava a ver a sala de Leebig. O roboticista não tardou muito a regressar e Baley não pôde deixar de admirar a forma perfeita como a lente do televisor acompanhava os passos de Leebig. A imagem era, na realidade, muito perfeita e Baley, recordando o complicado painel de instrumentos que comandavam o aparelho televisor, apreciou devidamente o desenvolvimento científico que aquilo representava.

            Leebig já se encontrava mais senhor de si, ou, pelo menos, assim o parecia. O roboticista penteara-se e mudara de roupa, Leebig sentou-se e cruzou os braços.

            - Diga-me, então, qual é essa sua idéia que diz respeito à Primeira Lei.

            - Não desejo que alguém, ou qualquer robô, ouça o que vou dizer-lhe.

            - Já calculava isso mesmo e tomei as devidas precauções. Baley assentiu e começou a falar lenta e pausadamente. - Permita-me que lhe cite a Primeira Lei.

            - Não creio que isso seja necessário - disse Leebig.ironicamente.

            - Bem sei, mas permita-me que o faça. Ouça: "UM ROBÔ NÃO DEVE FAZER MAL A UM SER HUMANO, OU, POR INAÇÃO, PERMITIR QUE UM SER HUMANO

            SOFRA QUALQUER MAL".

            - E então?

            - Pois bem, no dia em que cheguei a Solaria fui conduzido num veículo para a propriedade que me foi destinada durante a minha estadia no planeta. O veículo fora fechado completamente para me proteger do ar livre. Como Terrestre que sou...

            - Já sei, não está habituado aos espaços descobertos! - exclamou Leebig. - Que tem isso com o caso?

            - O robô que conduzia o veículo não o sabia. Pedi-lhe que abrisse a capota e ele fê-lo imediatamente. O robô era forçado a obedecer-me. Senti-me mal, naturalmente, e quase perdi os sentidos. Enfim, sofri devido à ação de um robô.

            - Foi você quem lhe deu a ordem!

            - Deixe-me citar-lhe a Segunda Lei: "UM ROBO DEVE OBEDECER A QUALQUER ORDEM DADA POR UM SER HUMANO, DESDE QUE ELAS NÃO INTERFIRAM COM

            A EXECUÇÃO DA PRIMEIRA LEI". Assim, como pode verificar, a minha ordem deveria ter sido ignorada.

            - Que estupidez! O robô não tinha conhecimento de... Baley curvou-se para a frente.

            - Ora, aí tem! Conhecimento! A Primeira Lei devia ser popularizada assim: "UM ROBO NÃO DEVE FAZER MAL, COM CONHECIMENTO DE CAUSA, A UM SER

            HUMANO, OU, POR INAÇÃO, PERMITIR, COM CONHECIMENTO DE CAUSA, QUE

            UM SER HUMANO SOFRA QUALQUER MAL".

            - Isso deduz-se, naturalmente; não é necessário que seja mencionado palavra por palavra na Lei..

            - Não creio que toda a gente o deduza. Se assim fosse, Dr. Leebig, toda a gente compreenderia que os robôs podem assassinar um ser humano.

            Leebig empalidecera.

            - Está louco! Completamente louco! Baley sentou-se mais confortavelmente.

            - Um robô poderá realizar qualquer ação que não afete o bem-estar de um ser humano, não é verdade?

            - Se lhe ordenarem, claro está - disse o Dr. Leebig.

            - E outro robô, também se lhe ordenarem, poderá realizar qualquer outra ação inocente.

            - Sim.

            - E, se as duas ações, ambas completamente inocentes, representarem a morte de um ser humano ao juntarem-se?

            - O que? - Leebig franziu o sobrolho, procurando compreender o que ia na mente de Baley.

            - Preciso de sua opinião sobre este assunto - disse Baley. - Vou-lhe apresentar um caso hipotético. Suponha que uma pessoa diga o seguinte a um robô:

            "Misture uma pequena dose deste líquido no leite que se encontra em tal lugar.

            O líquido é inofensivo. Apenas desejo estudar o seu efeito no leite. Uma vez que eu conheça o efeito, a mistura será deitada fora. Esqueça-se logo do que fez, assim que realizar a tarefa!

            Leebig ouvira as palavras de Baley com uma grande atenção, mas tudo na sua expressão revelava que não lhes dava muita importância.

            Baley sorriu e continuou.

            - Se essa pessoa tivesse ordenado a um robô que misturasse o líquido no leite e, em seguida, o servisse a um ser humano, a Primeira Lei obrigá-lo-ia a perguntar qual era a natureza do líquido e a procurar saber se seria inofensivo para o organismo humano. O robô, mesmo depois de reassegurado, poderia hesitar em servir a bebida, desconhecida por ele, a qualquer ser humano. Se, contudo, pensasse que o leite só serviria para uma experiência, e depois seria deitado fora, o robô não recusaria cumprir a ordem. A primeira Lei não seria evocada e o robô teria de obedecer ao ser humano, não é verdade?.

            Leebig não lhe respondeu, limitando-se a olhar fixamente para o inspetor.

            - Entretanto - continuou Baley - um segundo robô pegara na garrafa ou jarro, não tendo conhecimento de que um líquido fora acrescentado ao leite, e, muito inocentemente, serviu o leite a um ser humano e este, como resultado disso, morreu subitamente.

            - Não! - exclamou Leebig.

            - Não? Por que diz isso? Ambas as ações dos robôs foram inocentes. Só juntas é que constituíram um crime.

            - Nega que isto possa acontecer?

            - O assassino seria a pessoa que transmitiu as ordens.

            - Se deseja ser filosófico, tem razão. Os dois robôs teriam sido, apesar disso, os assassinos diretos, os instrumentos da morte.

            - Nenhuma pessoa daria ordens dessa natureza.

            - Engana-se. Uma pessoa fez exatamente o que eu lhe disse. Foi assim que se deu a tentativa de homicídio do Dr. Gruer. Suponho que já saiba o que aconteceu.

            - Em Solaria - disse Leebig - tudo se sabe.

            - Então, Dr. Leebig, sabe que o Dr. Gruer foi envenenado ante os meus olhos e ante os olhos do meu companheiro, o Sr. Olivaw, do Planeta Aurora. Poderá sugerir-me qualquer outra forma do veneno ter sido misturado na bebida e de ter sido servido a Gruer? Não havia outro ser humano em toda a propriedade Gruer. Como Solariano, Dr. Leebig, já deve saber que isso seria impossível.

            - Não sou inspetor de Polícia. Não tenho qualquer teoria sobre o assunto.

            - Eu já o pus ao corrente da minha teoria. O que desejo saber é se essa teoria é possível. Desejo saber se dois robôs, cada um deles realizando uma tarefa inocente, poderiam ter assassinado um homem. O senhor é um roboticista, Dr.

            Leebig. Seria possível?

            E Leebig, abalado e preocupado, respondeu afirmativamente num tom de voz tão baixo que Baley.mal o ouviu: - Sim, é possível.

            - Muito bem, então - disse Baley - já vê que a Primeira Lei nada significa na sua atual enunciação.

            As palavras de Baley tinham abalado profundamente o roboticista. Este encontrava-se desanimado e mesmo sob uma tensão nervosa muito intensa.

            Baley observava: curiosamente os seus esforços para se recompor e pensava, com razão, que o Dr. Leebig nunca sofrera um tal choque em toda sua vida profissional.

            - Tem razão, teoricamente - disse, por fim, o Dr. Leebig, - mas só teoricamente. Não despreze a Primeira Lei, Terrestre! Os robôs teriam de ser comandados muito inteligentemente para que a Primeira Lei fosse iludida.

            - Sou apenas um Terrestre - disse Baley. - Nada sei sobre robôs e a minha dedução das ordens que foram dadas naquele caso representava apenas um exemplo. Um Solariano daria essas ordens muito mais sutil e inteligentemente do que eu mencionei. Tenho certeza disso.

            Leebig parecera não ter ouvido as palavras do inspetor. - Se um robô pode ser manipulado ao ponto de causar sofrimento ou mesmo a morte a um ser humano - disse o roboticista - isso significa que teremos de aumentar os poderes do cérebro positrônico. Poderia dizer-se que os seres humanos é que deviam ser aperfeiçoados, mas, como isso é impossível, deverá o robô ser modificado.

            O Dr. Leebig fez uma pausa e, pensativo e absorto, começou novamente a dissertar sobre o assunto.

            - A ciência robótica continua a desenvolver-se, sem cessar. Os nossos robôs são mais perfeitos, mais variados, mais capazes e mais duráveis do que há um século. Dentro de um século teremos robôs ainda mais avançados. Para que construir um robô positrônico com o fim de manipular instrumentos e comandos quando um cérebro positrônico poderia ser instalado dentro dos próprios instrumentos e comandos? Chama-se a isso especialização, contudo poderemos generalizá-la ... poderíamos construir robôs com membros substituíveis para cada finalidade em vista. Nada nos impediria fazê-lo...

            Baley interrompeu o roboticista.

            - O senhor será, por acaso, o único roboticista em Solaria?

            - Que idéia!

            - Sei lá... O Dr. Delmarre era o único... engenheiro... fetal, além da sua assistente.

            - Solaria possui mais de vinte roboticistas.

            - E qual é o melhor, Dr. Leebig?

            - Sou eu - respondeu o roboticista, sem a menor vaidade e como se se limitasse a expor um fato.

            - O Dr. Delmarre trabalhava com o senhor, não é assim?

            - Trabalhava, sim.

            - Disseram-me que tencionava deixar de colaborar com o senhor - continuou Baley.

            - Não é verdade. Quem lhe disse um tal disparate?

            - Disseram-me também que ele desaprovava a sua decisão de não querer casar-se.

            - É muito possível. O Dr. Delmarre era um Solariano muito austero nos seus hábitos e ideias Isso, entretanto, não afetou nossas relações profissionais.

            - Mudemos de assunto. Além de planejar e construir novos modelos de robôs, Dr. Leebig, também se dedicará, por acaso, a fabricar e a reparar modelos já existentes?

            - O fabrico e a reparação de robôs são tarefas quase exclusivamente conduzidas por robôs. Tenho uma fábrica e uma grande oficina de reparação na minha propriedade, inspetor Baley.

            - Os robôs necessitarão de grandes ou frequentes reparações, além das causadas por acidentes?

            - Não... o seu funcionamento é muito perfeito e geralmente só precisam de afinações e ligeiras lubrificações.

            - Quererá isso dizer que a técnica de reparações não está muito desenvolvida?

            - perguntou Baley, continuando a disparar as perguntas cujas respostas o elucidariam mais sobre as características gerais dos robôs.

            - Não - respondeu Leebig secamente.

            - O que me diz sobre o robô que assistiu à morte do Dr. Delmarre?

            Leebig desviou o olhar, como se a pergunta lhe tivesse causado qualquer sensação desagradável.

            - O robô encontrava-se num estado irreparável. Uma perda total.

            - Total? Nem sequer seria capaz de responder a qualquer pergunta?

            - Não. Encontrava-se completamente inutilizado. O seu cérebro positrônico não continha um único circuito intato, o que é fácil de compreender. O robô assistira à morte de um ser humano, sem poder evitá-lo.

            - Que motivo o teria impedido de deter o assassino?

            - Sabe-se lá! O Dr. Delmarre estivera estudando esse robôs, fazendo qualquer experiência, calculo... não faço a menor idéia do estado mental em que o Dr.

            Delmarre o tinha deixado. É muito possível que, por exemplo, o Dr. Delmarre lhe tenha ordenado que suspendesse todas as operações enquanto ele examinava um determinado circuito. Como nem o robô nem o Dr. Delmarre suspeitavam de qualquer ataque súbito seria também possível que se desse um pequeno intervalo antes do robô ter tempo de usar o potencial da Primeira Lei para se libertar da ordem que lhe teria sido dada e que o teria paralisado. A duração desse intervalo dependeria da natureza do ataque e da natureza exata da ordem do Dr. Delmarre. Eu poderia inventar uma dúzia de formas para explicar o fato de o robô não ter sido capaz de evitar o assassínio. O fato de ser incapaz de evitá-lo, uma violação da Primeira Lei, foi suficiente para fazer explodir todos os circuitos mentais do robô.

            - Mas se o robô estivesse fisicamente impossibilitado de evitar o assassínio, como talvez tenha sucedido, não poderia ter a menor responsabilidade no caso, certo? Ou será que a Primeira Lei também exige o impossível?

            Leebig encolheu os ombros.

            - A Primeira Lei, apesar de suas tentativas para depreciá-la, protege a humanidade com todos os átomos de força possível. Não permite desculpas e se a Primeira Lei for violada, o robô será destruído.

            - Isso é uma norma universal, Dr. Leebig?

            - Tão universal como os robôs o são.

            - Acabei, então, de aprender uma coisa muito interessante - disse Baley, franzindo a testa e pensando em tudo o que o roboticista lhe dissera.

            - Aprenda, então, uma outra coisa! A sua teoria de um assassínio por uma série de ações da parte de robôs diferentes, cada uma delas inocente em si, não o ajudará no caso da morte do Dr. Delmarre.

            - Por quê?

            - A morte não foi por envenenamento, mas sim devida a uma violenta pancada. Alguém teria de segurar no objeto que esfacelou o crânio do Dr.

            Delmarre e só um braço humano é que poderia tê-lo feito. Não existe um único robô que fizesse uma coisa dessas!

            - Suponha, por exemplo - disse Baley - que um robô acionasse um inocente botão, o qual fizesse atuar qualquer dispositivo que deixasse cair um pesado objeto em cima da cabeça do Dr. Delmarre.

            Leebig sorriu amargamente.

            - Terrestre... examinei a cena do crime depois deste se ter consumado. Ouvi contar tudo o que se sabe sobre o caso. O crime foi muito discutido em todo o planeta e as notícias espalharam-se muito depressa. Sei que não havia o menor dispositivo mecânico na cena do crime e que, também, não foi lá encontrado qualquer objeto que pudesse ter sido o instrumento do crime.

            - Tem razão... o instrumento do crime não foi descoberto.

            - O senhor é um policial - disse Leebig, aparentando um certo desprezo pela profissão. - Encontre-o.

            - Se está tão convencido de que o Dr. De1marre não foi assassinado por um robô, como parece estar, diga-me quem julga ter sido o criminoso.

            - Todo mundo sabe quem foi - exclamou Leebig. - Foi a mulher dele! Gladia!

            A opinião parece ser unânime, pensou Baley, sorrindo ligeiramente e formulando nova pergunta:

            - E quem teria sido o gênio que inventou aquela forma tão sutil de forçar robôs a envenenarem o Dr. Gruer?

            - Suponho que... - Leebig não terminou a frase, sem saber o que pensar ou dizer sobre esse caso.

            - Não acredita que existam dois assassinos, não é? Se Gladia matou o marido, então também é responsável pelo envenenamento, não lhe parece?

            - Sim... tem razão - disse o roboticista, hesitando primeiro e depois parecendo mais certo de si. - Sim, foi isso. Sem a menor dúvida!

            - Sem dúvida?

            - Ninguém mais poderia ter-se aproximado o suficiente do Dr. Delmarre para o assassinar, visto que ele era tão severo na questão da presença pessoal como eu o sou, embora abrisse uma exceção no que dizia respeito à sua mulher e eu não abria qualquer exceção. E eu é que estava com a razão, pelo visto. - O Dr.

            Leebig soltou uma gargalhada, bastante forçada, e calou-se logo como se tivesse ficado embaraçado.

            - Julgo que a conhece bem - disse Baley abruptamente. Quem?

            - Gladia Delmarre, quem havia de ser?

            - Quem lhe disse que eu a conhecia melhor do que a qualquer outro

            Solariano? - perguntou Leebig. O roboticista levou as mãos ao colarinho e abriu- o, a fim de respirar melhor. - Foi a própria Gladia. Disse-me que costumavam passear juntos.

            - E que tem isso? Éramos vizinhos e Gladia é uma pessoa bastante agradável.

            Passeávamos juntos, às vezes, sim.

            - Gostava da sua companhia, então?

            - Gostava de conversar com ela... era uma forma de descansar do meu trabalho e de me distrair.

            - Qual era o assunto de conversa, normalmente?

            - A ciência robótica - Leebig dissera isto num tom de voz que parecia significar não haver outro tema que o interessasse.

            - E ela também falava de robôs?

            - Gladia nada sabe sobre a ciência robótica! Ê muito ignorante! Ouvia o que eu dizia, contudo, e falava-me da sua arte. Gladia dedica-se a uma manifestação artística baseada no uso de campos de energia, uma fantasia luminosa bastante espetacular... embora muito fútil. Eu não tinha grande paciência para isso, mas ouvia-a sempre com toda a atenção.

            - E sempre sem a presença pessoal... televiam-se, não se viam, não é verdade?

            Leebig pareceu sentir repugnância pela menção de uma presença pessoal entre eles e não respondeu a Baley. - Sentiu-se alguma vez atraído por Gladia?

            - O que?

            - Considerava-a atraente? Fisicamente, quero dizer.

            Leebig não escondeu a repugnância que a pergunta lhe causou e todo o seu corpo estremeceu como se ele tivesse recebido um choque elétrico.

            - Animal imundo I

            - Vejamos se me pode responder a esta pergunta, então.

            - Quando é que deixou de considerá-la agradável? Foi você que usou esta palavra, lembra-se, Dr. Leebiz?

            - Não compreendo a pergunta.

            - Disse-me há pouco que Gladia era uma pessoa bastante agradável. Disse-me também que pensava ter sido ela quem matou o Dr. Delmarre. Esse crime não confirma que ela seja uma pessoa agradável, não é?

            - Enganara-me a seu respeito.

            - Mas, Dr. Leebig, deixou de vê-la muito antes do crime se dar. Deve, portanto, ter pensado que se enganara a seu respeito muito antes de julgá-la uma assassina. Por quê?

            - Terá isso alguma importância para a sua investigação, inspetor Baley? - perguntou Leebig, já fatigado e enervado por tantas perguntas, feitas rápida e incessantemente pelo inspetor.

            - Tudo é importante até se provar o contrário.

            - Ouça, responder-lhe-ei a todas as perguntas que quiser sobre a ciência robótica.. não estou porém disposto a responder a mais perguntas de caráter pessoal.

            Baley olhou, intrigado e perplexo, para o rosto sombrio e tenso do Dr. Leebig.

            - Lembre-se de que mantinha relações bastante íntimas tanto com a vítima como com o principal suspeito. Não compreende que me é necessário formular perguntas muito pessoais? Diga-me as razões que o levaram a deixar de passear com Gladia Delmarre.

            - Chegou o tempo em que já não sabia o que lhe havia de dizer - exclamou Leebig, exasperado - em que eu me encontrava demasiado ocupado... uma altura em que já não tinha qualquer razão para passear com ela!

            - Quando deixou de considerá-la agradável, enfim, não é verdade?

            - Está bem! Use as palavras que desejar!

            - E, então, que razões lhe causaram essa súbita transformação?

            - Não sei!... Não sei de qualquer razão! - gritou Leebig, quase de cabeça perdida e desesperado com a insistência de Baley.

            O inspetor ignorou o nervosismo do outro, continuando a falar com a sua calma habitual.

            - Está bem... mas, apesar de tudo, Dr. Leebig, conhecia bastante bem a acusada. Que motivo teria ela para assassinar o marido?

            - Motivo?

            - Ninguém me sugeriu um motivo que a possa ter levado a matar o Dr.

            Delmarre. Gladia não o assassinaria assim sem mais nem menos, sem qualquer motivo, certo?

            Leebig soltou uma exclamação, abrindo a boca como se fosse soltar uma gargalhada, embora não o fizesse e, em vez disso, começasse a falar precipitadamente.

            - Ninguém lho disse? Não... talvez ninguém o soubesse.

            - Gladia disse-mo... disse-mo muitas vezes!

            - Disse-lhe o que, Dr. Leebig?

            - Disse-me que passava a vida discutindo com o marido.

            - Disse-me que as discussões eram muito frequentes e violentas. Gladia odiava o marido, Terrestre! Ainda ninguém lho disse? E ela também não lho disse?

            Odiava-o... com quantas forças possuía!

 

A ARTE DE GLADIA

            Baley ouvira aquelas palavras sem mostrar a surpresa que elas lhes haviam causado.

            Era natural que os Solarianos, vivendo como o faziam, consideravam as vidas pessoais de cada um como sendo estritamente privadas. As perguntas sobre casamentos e filhos eram consideradas de mau gosto incrível. As discussões entre marido e mulher deviam também permanecer ocultas à curiosidade de outros. Mas seria isso possível mesmo em face de um crime? Seria possível que ninguém tivesse a coragem de cometer o crime social de perguntar a Gladia se discutia com o seu marido? Seria possível que alguém que o soubesse não ousasse mencionar?

            Leebig, contudo, acabara de lho dizer.

            - Saberá dizer-me quais eram os motivos das discussões?

            - Parece-me melhor que o pergunte a Gladia - respondeu Leebig.

            - Sim, talvez fosse melhor, pensou Baley. O inspetor levantou-se e despediu-se formalmente do outro.

            - Muito obrigado pela sua cooperação, Dr. Leebig.

            - É muito possível que, mais tarde, seja obrigado a voltar a incomodá-lo.

            Espero que, se isso suceder, não se recuse a telever-me.

            - Televisita terminada - disse Leebig e o segmento da sua sala desapareceu abruptamente.

            Era a primeira vez que Elijah Baley não se importava de viajar pelo espaço num avião. Não se importava mesmo! Sentia-se, o que era extraordinário, como se se encontrasse no seu elemento.

            Não pensara sequer na Terra ou em Jessie, Baley saíra da Terra poucas semanas antes, embora essas semanas lhe parecessem anos. Chegara a Solaria três dias atrás e esses poucos dias eram como se fossem uma eternidade.

            Já quase se adaptara ao pesadelo que aquela vida representava para ele.

            Viajava, mesmo pelos ares de Solaria, sem sentir grande desconforto!

            Seria por causa de Gladia? Seria por ir vê-la... não televê-la como até agora o fizera? Seria ela quem lhe provocara a confiança que sentia agora?

            Seria Gladia capaz de tolerar sua presença pessoal?

            Seria capaz, desejava Baley saber, ou teria de fugir após alguns momentos como Quemot se vira obrigado a fazer?

            Gladia aguardava a chegada de Baley na extremidade da sala para onde o robô o conduzira. A figura elegante e atraente de Gladia assemelhava-se a uma pintura muito colorida e extraordinariamente bela.

            Baley parara a meio da sala.

            - Estarei bem, a esta distância, Gladia?

            Gladia respirava com dificuldade, muito excitada com a aproximação do inspetor.

            - Já nem me lembrava o que era ver em pessoa! Afinal é tal e qual como telever, não é? Não me importo muito... se pensar que estou televendo!

            - Ver não é estranho... é mesmo a coisa mais natural que existe, desde que se esteja habituado - disse Baley, satisfeito por verificar que Gladia parecia estar perfeitamente à vontade na sua presença.

            - Bem sei que é natural, na Terra. - Gladia fechou os olhos. - Sucede-me muitas vezes tentar imaginar a vida no seu planeta. Multidões de pessoas por toda a parte... andar pelas ruas ao lado de outras pessoas... dúzias de... - Centenas - disse Baley. - Já alguma vez viu cenas da Terra num livro-filme? Ou já teria, por exemplo, televisto um romance passado na Terra?

            - Temos poucos livros-filmes sobre a Terra, porém tenho televisto muitos romances sobre os Planetas Exteriores, onde todos se vêem em pessoa. Um romance, contudo, é muito diferente da vida real.

            - Já televiu cenas onde as pessoas se beijassem?

            - Não leio esse tipo de romances - disse Gladia, corando e parecendo ter ficado bastante confusa com a pergunta do inspetor.

            - Nunca?

            - Já televi, uma ou outra vez, cenas dessas nos poucos livros-filmes indecentes que há por aí... só por curiosidade, sabe?

            - Julga, então, que um beijo é uma coisa indecente? Gladia respondeu com uma súbita animação.

            - Já sei que é muito diferente na Terra! Tanta gente... e todos se tocam!

            Tocam-se uns aos outros... nem consigo perceber como têm a coragem para fazê-lo! Cruzam-se nas ruas, nos Expressos... por toda a parte!

            - Às vezes até tropeçamos uns nos outros e caímos ao chão... e até nos empurramos para abrir caminho!

            - Não é necessário que fique tão longe, Elijah.

            - Permite-me que me aproxime um pouco mais?

            - Não me importo que o faça... creio que não me importo. Se me sentir incomodada pela sua presença não hesitarei em dizer-lho.

            Baley deu alguns passos em frente e Gladia ficou olhando para ele, ansiosa e pouco segura de si.

            - Gostaria de ver algumas das minhas pinturas luminosas? - perguntou Gladia de supetão.

            Baley encontrava-se agora a uns meros três metros de distância dela, parando para observá-la melhor. Gladia parecia muito frágil e pequena. O inspetor tentou imaginá-la com um pesado objeto na mão desfechando uma poderosa pancada na cabeça do marido. Tentou também imaginá-la num estado de fúria e raiva, num estado em que não hesitasse em assassinar o marido!

            Elijah Baley era obrigado a confessar que Gladia poderia ser a assassina. O fato de ser pequena e frágil não impediria que, com um pesado objeto e num estado quase de histerismo, desfechasse a pancada mortal. Baley conhecera algumas assassinas, na Terra, cujo aspecto frágil.não aparentava a capacidade para matar um homem.

            - O que são pinturas luminosas, Gladia?

            - Representam uma forma de arte à qual me dedico sempre que posso.

            Baley recordou que Leebig se referira à arte de Gladia e fez um gesto afirmativo.

            - Sim. Gladia, gostaria muito de vê-las.

            - Venha comigo, então.

            Baley foi atrás de Gladia, mantendo uma distância de três metros entre eles...

            e isso era menos do que metade da distância que klorissa lhe exigira!

            Gladia e Baley entraram numa sala muito bem iluminada.

            O efeito das luzes e das cores era fantástico e Baley nunca vira coisa semelhante. Gladia parecia muito contente consigo mesma, olhando para Baley como se não quisesse perder a sua reação ao estranho espetáculo.

            Essa reação de Elijah Baley devia ter sido a que ela esperara, embora o inspetor nada dissesse e se limitasse a percorrer a sala com o olhar. Baley sentia-se incapaz, durante aquele primeiro momento de espanto, de fazer qualquer comentário sobre o que via - apenas luzes e cores sem a presença de qualquer objeto material!

            As pinturas de luz e de cor achavam-se sobre pedestais e eram como se fossem geometria viva, linhas e curvas de cor entrelaçadas num extraordinário todo e mantendo as suas identidades bem distintas. Baley não viu duas pinturas que fossem sequer ligeiramente parecidas uma com a outra.

            Baley procurou palavras que exprimissem sua admiração e incompreensão.

            - Estas maravilhosas pinturas de luz e de cor... significarão alguma coisa, Gladia?

            Gladia riu-se.

            - Significam o que quiser que elas signifiquem. São apenas formas de luz que, talvez possam fazê-lo sentir-se zangado, feliz, curioso ou seja o que for que eu senti quando as pintei. Posso fazer-lhe uma, se quiser, um retrato, por exemplo.

            Não seria uma pintura muito famosa, infelizmente, já que teria de improvisá-la rapidamente.

            - Seria capaz de me fazer isso, Gladia? Teria um grande interesse em vê-la em ação, sabe?

            - Está bem - respondeu Gladia, encaminhando-se apressadamente para uma figura de luz que se encontrava do outro lado da sala, e passando por Baley sem sequer notar que quase lhe tocara.

            Gladia tocou em qualquer coisa oculta sob o pedestal e a figura desapareceu imediatamente.

            Baley soltou uma exclamação de espanto. - Não faça isso, Gladia!

            - Não faz mal. Já estava farta desta figura. Vou diminuir a intensidade da luz das outras para que elas não me distraiam. - Gladia abriu um painel na parede e baixou uma alavanca. Todas as luzes e as cores que enchiam a sala pareceram esfumar-se e eles ficaram numa semi-escuridão que não desagradou a Baley.

            - Então não tem um robô para fazer isso? Para desligar os contatos?!

            - Caluda... agora! - disse Gladia, impaciente e muito excitada. - Não quero que os robôs entrem aqui! Esta sala sou eu! - Gladia olhou para Baley e franziu a testa. - Não o conheço suficientemente bem. Desejava fazer o seu retrato, mas vai ser difícil!

            Gladia não olhava para o pedestal, embora seus dedos estivessem pousados sobre a sua superfície polida. Todos os seus dez dedos se encontravam muito tensos, curvados... à espera.

            Um dos dedos moveu-se descrevendo um semicírculo sobre o pedestal. Uma faixa de luz amarela cresceu do nada e tomou posição no ar. O dedo recuou ligeiramente e a luz perdeu algo da intensidade e do tom.

            Gladia olhou, pensativa e absorta, para o traço de luz. - Sim, talvez seja isto.

            Suponho que sim. Uma espécie de força sem grande peso.

            - O que? - exclamou Baley.

            - Ficou ofendido? - perguntou Gladia. ao mesmo tempo que os seus dedos se afastavam do pedestal. O traço de luz amarela permanecera no mesmo local.

            solitário e estacionário.

            - Não... que razão teria eu para me ofender? O que não compreendo é o que está fazendo! Como é que faz isso?

            - É muito difícil de explicar - disse Gladia, olhando pensativamente para o pedestal - visto que nem sequer o sei bem. Dizem-me que se trata de uma ilusão óptica. Os desenhos luminosos são campos de energia em graus diferentes de intensidade. São, na realidade, distorções do hiperespaço e não possuem as propriedades habituais do espaço. O olho humano vê as luzes em tonalidades diferentes. dependendo do grau de intensidade. As formas e as cores são reguladas pelo calor dos meus dedos em pontos determinados dos pedestais, tendo estes uma infinidade e comandos e circuitos dentro deles.

            - Quererá isso dizer que se eu colocar um dedo num desses pontos... - Baley deu uns passos em frente e Gladia afastou-se ligeiramente para lhe dar passagem. O inspetor tocou hesitantemente na superfície do pedestal e sentiu uma leve vibração.

            - Não tenha medo, Elijah, apoie o dedo nesse ponto- disse Gladia.

            Baley assim fez e um grande jato de luz cinzenta foi juntar-se ao traço amarelo. Baley retirou logo o dedo e Gladia riu-se.

            - Não devia rir-me - disse ela. - É uma arte muito difícil e mesmo aqueles que a praticam há muito tempo não conseguem regular as luzes e as cores como desejariam. - Gladia apoiou um dos dedos num botão oculto sob o pedestal e o traço cinzento desapareceu, deixando o semicírculo amarelo. isolado no ar - - Onde é que aprendeu a fazer isto, Gladia?

            - Aprendi sozinha... fiz muitas experiências e, depois de muitas tentativas, comecei a sentir-me contente com os resultados. Ainda é uma arte muito nova e só existem dois ou três artistas capazes de obter resultados idênticos.

            - E você, Gladia, é a melhor desses, não é verdade? - perguntou Baley sombriamente. - Em Solaria todos são os melhores, os únicos ou as duas coisas ao mesmo tempo!

            - Não zombe de mim. Tenho exibido as minhas obras e todos as apreciam.

            Gladia levantou o olhar e Baley verificou que a viúva do Dr. Delmarre se orgulhava imensamente da sua arte.

            - Vou continuar a fazer o seu retrato - disse Gladia, ao mesmo tempo que os seus dedos se apoiavam outra vez sobre o pedestal.

            A pintura luminosa que se ia fixando no ar continha poucas curvas, sendo constituída quase exclusivamente por ângulos e traços retos. A cor predominante era o azul.

            - Parece-se um pouco com a idéia que faço da Terra, - disse Gladia, semicerrando os olhos e examinando o que acabara de fazer. - Sempre penso na Terra como se fosse azul. Todas aquelas pessoas e ver... ver... ver! Telever é mais como se fosse cor-de-rosa. Concorda comigo?

            - Nunca me passaria pela cabeça imaginar coisas como se fossem cores!

            - Não? - perguntou Gladia, distraída. - Suas palavras são abruptas, às vezes, tal como estes pontos de luz violeta que vou fazer. Pronto! - exclamou Gladia e Baley viu vários pontos de cor violeta salpicarem a "pintura". - E agora - disse Gladia - vou terminar assim! - Uma espécie de cubo acinzentado veio emoldurar todas as outras cores e traços de luz e essa luz parecera perder algo da sua intensidade como se estivesse aprisionada pelo cinzento quase opaco e um pouco sinistro do cubo.

            Baley olhou para o retrato, que supôs ser a sua imagem, e sentiu uma certa tristeza como se aquele cubo representasse uma prisão que lhe tornava inacessível algo por que ele ansiava. - E o que é isso? - perguntou ele, após alguns segundos de silêncio e de concentração.

            - São as paredes que o protegem do exterior, é evidente, Elijah. É isso que o define melhor... o não poder sair para o exterior... a necessidade de estar fechado, encerrado. Está ali dentro daquele cubo, não vê?

            Baley percebia muito bem o que ela queria dizer e não aprovava o que via.

            - Essas paredes não são permanentes. Hoje já estive ao ar livre durante muito tempo.

            - Esteve? E não se sentiu mal?

            Baley não conseguiu evitar a comparação.

            - Senti-me, mas não mais do que eu a estou incomodando agora, Gladia. Não gosta de me ver, mas consegue suportar.

            Gladia olhou para ele pensativamente.

            - Quer ir lá para fora comigo, Elijah? Quer passear comigo?

            O primeiro impulso de Baley foi recusar o convite.

            - Nunca passeei com alguém, na presença pessoal de alguém - insistiu Gladia.

            - Ainda é dia e os meus jardins são muito agradáveis. Venha comigo, Elijah.

            Baley voltou a olhar para o seu retrato.

            - Se eu for com você, Gladia, promete-me destruir aquele cubo cinzento?

            - Depende de como se portar lá fora...

            A estrutura de luz permaneceu só, na sala, quando Gladia e Baley saíram para os jardins. O cubo continuava cercando as cores alegres, prendendo a alma de Baley nos tons cinzentos das cidades.

            Baley estremeceu ligeiramente. O ar movia-se à sua volta e fazia bastante frio.

            - Sente frio? - perguntou Gladia.

            - Não fazia tanto frio, quando saí para o exterior da outra vez - resmungou Baley.

            - Já é tarde e o sol começou a pôr-se, porém não acho que faça frio. Deseja que eu ordene a um dos robôs que lhe traga um agasalho?

            - Não é preciso, obrigado. - Gladia e Baley caminhavam agora por um caminho estreito que atravessava o jardim. - Era aqui que costumava passear com o Dr.

            Leebig?

            - Não... não. Costumávamos ir para os campos, onde dificilmente se vê um robô trabalhando, e onde se podem ouvir os ruídos dos animais. É melhor ficarmos por aqui, perto de casa... com toda cautela.

            - Por quê?

            - Pode dar-se o caso de querer voltar precipitadamente lá para dentro, Elijah.

            - Ou o caso de se cansar de me ver, não é verdade?

            - Sinto-me muito bem - disse Gladia, alegre e bem disposta.

            Baley observava a paisagem com uma mistura de sentimentos que lhe não eram familiares. O sol já começara a desaparecer e o inspetor já podia olhar à sua volta e mesmo para o céu, sem que a luz intensa lhe ferisse os olhos e lhe obnubilasse o espírito. As sombras, por exemplo, causavam-lhe uma sensação que não saberia descrever. Tratava-se de uma ansiedade aliada a um receio injustificado, já o sabia. Baley ouvira falar das sombras e sabia que aquelas formas grotescas e angulares não passavam de sombras das árvores e de suas folhagens e troncos. Sabia o que as sombras eram, embora nunca as tivesse notado. Elijah Baley, distraído como se encontrava, aproximara-se mais de Gladia e agora quase a tocava.

            - Desculpe-me - disse ele, ao sair da abstração em que se embrenhara e afastando-se dela.

            - Não faz mal- murmurou Gladia. - Venha por aqui. Há uns canteiros de flores que talvez goste de ver.

            Baley foi atrás de Gladia, notando que caminhavam na direção oposta ao sol.

            - Esta parte do jardim é linda, lá pelos meados da temporada. Temos também um lago, onde me banho e nado no verão. O nosso verão é muito quente e gosto imenso de me atirar à água quando não suporto mais o calor. Às vezes, no inverno, desato a correr pelos campos para me aquecer e até cair cansada ao solo.

            Gladia baixou o olhar para o seu vestido.

            - Não poderia correr assim vestida. Tenho de andar devagar... estas roupas prendem-me os movimentos.

            - Como é que gosta de se vestir, então? - perguntou Baley.

            - Apenas com um traje de banho de duas peças - respondeu Gladia,

            levantando os braços como se sentisse, em imaginação, o conforto e a liberdade daquelas reduzidas peças de vestuário. - Às vezes até com menos. Venho para os campos só com as sandálias e adoro sentir o vento acariciar-me o corpo...

            Desculpe-me... creio que o ofendi - disse Gladia, ao notar algo de insólito na expressão de Baley.

            - Não tem importância. Era assim que ia passear com o Dr. Leebig?

            - Variava. Dependia do tempo. Vestia-me muito ligeiramente, às vezes, mas só televendo, lembre-se! Compreende, não é verdade?

            - Sim. Penso que já compreendo bem a diferença entre ver e telever. E o Dr.

            Leebig? Também saía tão pouco vestido?

            - Quem? Jothan? - Gladia sorriu. - Não, Jothan é muito austero - disse Gladia, o seu rosto imitando inesperadamente a expressão grave de Leebig e fazendo com que Baley murmurasse umas palavras de elogios à imitação. - Era assim que ele falava - continuou Gladia - quer ouvir, Elijah? "Minha cara Gladia, se considerarmos os efeitos de um potencial de primeira ordem no cérebro positrônico... "

            - Era então disso que ele lhe falava? Da ciência robótica e de robôs?

            - Quase sempre. Leva a sua profissão muito a sério. Jothan nunca desistiu de tentar ensinar-me os princípios da ciência.

            - Aprendeu alguma coisa, Gladia?

            - Nada. Absolutamente nada! A ciência robótica é muito complicada e eu entendia patavina! Jothan costumava zangar-se comigo, devido ao meu desinteresse e, sempre que o fazia, eu lançava-me ao lago e atirava-lhe água para cima.

            - Atirava-lhe água? Pensava que só se televiam... Gladia riu-se.

            - Vê-se logo que é um Terrestre! A água nunca lhe tocava, claro está. mas ele.

            na sua propriedade. recuava como se a água pudesse molhá-lo! Olhe para aquilo!

            Baley olhou para o ponto que Gladia indicara com um gesto da mão. O lago era agora visível, numa clareira rodeada por canteiros de flores. Estas cresciam ordenada e profusamente, suas cores e formas surpreendendo Baley. O inspetor nunca vira flores naturais. senão em livros-filmes e, agora, comparava-as mentalmente às pinturas luminosas de Gladia e estava certo de que, no espírito dela, as flores e as pinturas luminosas se encontravam perto. Baley tocou numa delas de leve e olhou à sua volta. O vermelho e o amarelo eram as cores dominantes nos alegres canteiros. Ao dar meia volta, para ter uma boa perspectiva da clareira, Baley notou a presença do sol e disse, pouco à vontade:

            - O sol está muito baixo, agora! Não compreendo!

            - Já é tarde - respondeu Gladia, que se sentara à borda do lago. - O sol vai pôr-se! Venha cá! - chamou ela, acenando-lhe com ambos os braços. - Pode conservar-se de pé, se não gostar de se sentar numa pedra.

            Baley aproximou-se.

            - E, então, o sol desaparece todos os dias? - perguntou ele, logo se arrependendo da ridícula pergunta. As revoluções do planeta faziam forçosamente que o sol baixasse no horizonte à tarde. Só ao meio-dia é que estaria por cima dele!

            - A sua mulher está sempre com você, na Terra, não está? - perguntou Gladia.

            - Sempre na sua presença pessoal, não é verdade?

            - Nem sempre - respondeu Baley. - Tenho o meu trabalho, sabe?

            - Mas quase sempre... e quando quer... Baley interrompeu-a subitamente.

            - Que razões levariam o Dr. Leebig a querer ensinar-lhe tanta coisa sobre robôs?

            - Julgo que ele queria nomear-me sua assistente.

            - Julga isso, ou foi ele que lho disse?

            - Tornou-se muito impaciente, a certa altura, e perguntou-me se eu não pensava que trabalhar com robôs seria muito interessante. Eu respondi-lhe, naturalmente, que nada havia de mais monótono e desinteressante. Jothan zangou-se muito com as minhas palavras.

            - E nunca mais voltou a sair com você, depois disso.

            - Acertou. Foi essa a razão. Suponho que lhe feri os sentimentos, mas de que outra forma poderia eu ter-lhe respondido?

            - Foi antes disso, então, que lhe falou de suas discussões com o Dr. Delmarre.

            Gladia cerrou os punhos e o seu rosto contraiu-se num espasmo de fúria. Sua voz tremia também de raiva quando, finalmente, formulou uma pergunta angustiada.

            - Que discussões?

            - As discussões e as briguinhas com o seu marido. Disseram-me que o odiava.

            - Quem lhe disse isso? Jothan? - perguntou Gladia.

            O seu rosto empalidecera, primeiramente e, agora, tornara-se muito corado como se ela mal pudesse conter a ira que a invadira.

            - Foi o Dr. Leebig que o mencionou, sim, e eu penso que seja verdade.

            Gladia estremecera, chocada com as palavras que ouvira. - Continua a querer provar que fui eu quem matou Rikaine. Julgava que era meu amigo e, afinal, não passa de um... de um inspetor de Polícia!

            Gladia fez um gesto raivoso, como se o ameaçasse, e Baley permaneceu imóvel.

            - Já sabe que não me pode tocar, Gladia.

            Gladia baixou o olhar e ocultou o rosto com as mãos. começando a soluçar e voltando-se de lado para Baley.

            - O Dr. Delmarre não era um homem muito afetuoso, certo? - perguntou Baley.

            - Estava sempre muito ocupado... não tinha tempo para mim - respondeu Gladia, numa voz estrangulada pela emoção e angústia.

            - O mal é que o Dr. Delmarre tinha uma mulher muito afetuosa, uma mulher que gostava da presença pessoal de um homem, não é assim, Gladia?.

            - Nada posso fazer para evitá-lo. Nada! Sei que é uma coisa horrorosa, repugnante, mas é verdade!

            - E o Dr. Leebig sabia isso? Contou-lhe o que sentia, Gladia

            - Tinha de contar a alguém e Jothan era um vizinho.

            Morava perto de nós e parecia não se importar de falar comigo; eu desabafava com ele e sentia-me melhor.

            - Seria essa a razão das discussões com o seu marido?

            Ele era frio e não se interessava muito por você... e ressentia-se desse fato, não é verdade, Gladia?

            - Odiava-o, às vezes. - Gladia encolheu· os ombros, parecendo muito frágil e indefesa. - Rikaine era um bom Solariano e nós não fôramos nomeados para ter... filhos. - Gladia recomeçou a soluçar e Baley, começando a sentir-se ligeiramente mal, perguntou-lhe no tom de voz mais suave que lhe era possível.

            - Matou o seu marido, Gladia?

            - Não ... não - respondeu ela e, depois, como se tivesse perdido toda a resistência, exclamou de supetão: - E ainda não lhe disse tudo, Elijah!

            - Então, faça-o agora, se quiser.

            - Estávamos discutindo... quando ele morreu. Estávamos discutindo, como sempre fazíamos. Eu gritava-lhe e ele silencioso. Quase nunca me respondia e isso tornava-me ainda mais furiosa. Zanguei-me tanto, tanto... perdi a cabeça...

            e não me lembro de mais coisa alguma.

            - O quê! - exclamou Baley, os seus olhos procurando ler o que se passava na mente de Gladia. - O que quer dizer com isso?

            - Quando voltei a mim, nem sei quanto tempo depois, vi que ele estava morto.

            Comecei a gritar e os robôs apareceram.

            - Matou-o?

            - Não me lembro, Elijah, e se o tivesse feito lembrar-me-ia com toda a certeza não lhe parece? Não me lembro do que se passou ou do que me aconteceu e tenho andado tão assustada, tão assustada. Ajude-me, Elijah... por favor.

            - Não se preocupe, Gladia. Procurarei ajudá-la, se me for possível. - A mente preocupada de Baley concentrara-se no instrumento do crime. O que lhe teria acontecido? Alguém o retirara da cena do crime, com certeza. Só o assassino é que o poderia ter feito. Gladia não o fizera, já que fora encontrada quase sem sentidos logo a seguir ao crime. O criminoso teria de ser outra pessoa. Não lhe restavam quaisquer dúvidas, deveria ser outra pessoa, mesmo que toda Solaria o negasse.

            - O sol está todo vermelho - murmurou Baley, sentindo-se indisposto e baixando o olhar. Sentia-se outra vez estonteado e estranhamente perturbado pelo tom avermelhado que cobria agora toda a paisagem.

            - O pôr do sol é sempre assim - ouviu ele Gladia dizer, muito ao longe, muito ao longe...

            A cabeça começou-lhe a girar. O sol parecia girar ao redor dos seus olhos e o céu baixara sobre ele, opressivo e asfixiante. Baley sentiu-se tombar... tombar... tombar... e sempre muito ao longe ouviu um grito de Gladia e um outro som... um outro som...

 

UMA SOLUÇÃO É APRESENTADA

            Baley sentiu, antes de mais nada, a presença de paredes, de um teto e da ausência do sol e do céu, só depois disso notando um rosto que o examinava preocupadamente.

            O inspetor não o reconheceu no primeiro instante, demorando alguns segundos para identificar o rosto.

            - Daneel!

            A expressão do robô permaneceu impassível, a sua voz era a mesma de sempre.

            - É agradável vê-lo recobrar os sentidos, amigo Elijah. Não creio que tenha sofrido qualquer mal físico.

            - Sinto-me bem, Daneel - disse Baley, espreguiçando-se e olhando à sua volta.

            - Estou numa cama! Só agora é que reparei! Para que e por quê?

            - Esteve ao ar livre e descoberto, por diversas vezes, durante uma grande parte do dia. Os efeitos que sofreu acumularam-se e, agora, precisa descansar.

            - Preciso que me responda a algumas perguntas, Daneel.

            - Baley tornou a olhar ao redor e não reconheceu o quarto onde se encontrava. As cortinas' estavam fechadas e a escuridão era quase completa. O inspetor não podia negar que ainda estava estonteado e que a cabeça lhe doía bastante. - Por exemplo, onde é que me encontro?

            - Num quarto da mansão da sr." Delmarre.

            - E, a seguir, diga-me como é que veio parar aqui, Daneel? Como é que conseguiu iludir a vigilância daqueles três robôs?

            - Sabia que não ficaria contente com a minha ação, amigo Elijah, mas, devido à sua segurança e às ordens que recebi, senti que a minha obrigação era...

            Baley interrompeu-o a meio da frase. - O que fez para fugir dos robôs?

            - A Sra, Delmarre tentou entrar em contato comigo há algumas horas.

            - Bem sei - Baley lembrava-se de Gladia lho ter dito.

            - As ordens que deu aos robôs, amigo Elijah, foram que não me deixassem entrar em contato com qualquer ser humano ou robô, mas não lhes disse que eu não poderia falar com outros seres humanos ou robôs que procurassem telever- me. Vê a diferença, amigo Elijah?

            Baley resmungou quaisquer palavras entredentes.

            - Não se pode queixar, amigo Elijah - continuou Daneel. - O erro que cometeu ao dar essas ordens salvou-lhe a vida, já que me trouxe a esta propriedade.

            Quando a sr. Delmarre me televiu, tendo eu sido autorizado pelos meus guardas a fazê-lo, eu disse-lhe que não sabia onde se encontrava o amigo Elijah, mas que faria todo o possível por descobrir o seu paradeiro. A Sra, Delmarre insistiu para que eu o fizesse e eu disse-lhe que o amigo Elijah talvez se tivesse ausentado temporariamente e que eu iria procurá-lo, enquanto que ela, entretanto, poderia ordenar aos robôs que dessem uma busca na mansão para ver se o encontravam em alguma das muitas salas.

            - E ela não ficou surpresa que lhe pedisse para dar essa ordem aos robôs?

            - Fui obrigado a dar a impressão à Sra. Delmarre de que, como Auroriano. não estava tão habituado a lidar com robôs como ela o estava, que ela poderia dar as ordens com mais autoridade e obter resultados mais rápidos do que eu. Os Solarianos, é bem evidente, orgulham-se de sua habilidade em lidar com robôs e desprezam a habilidade com que os naturais de outros planetas possam fazê-lo.

            Não será também essa a sua opinião, amigo Elijah?

            - E ela ordenou, então. aos três robôs que me fossem procurar?

            - Com uma certa dificuldade, amigo Elijah. Eles disseram que tinham outras ordens antecipadas mas, naturalmente, não podiam revelar a sua natureza.

            Lembra-se, amigo Elijah, de que lhes ordenou que não mencionassem, fosse a quem fosse, o fato de eu também ser um robô? A Sra, Delmarre ordenou-lhes que obedecessem às suas ordens e conseguiu, à força de gritos, vencer a oposição dos robôs.

            - E saiu de casa, então, Daneel?

            - Saí, amigo Elijah.

            Era de lamentar que Gladia não tivesse contado pormenorizadamente aquele episódio quando ele a televisitara.

            - Levou bastante tempo a encontrar-me, Daneel?

            - Não me foi fácil encontrá-lo, amigo Elijah, e, antes de vir ter com você.

            ainda fui visitar o local de trabalho do Dr. Delmarre.

            - Para que?

            - Para levar a cabo uma investigação minha. Lamento tê-lo feito na sua ausência, mas as exigências dessa investigação não me permitiram adiá-la por mais tempo.

            - Televiu klorissa Cantoro ou viu-a em pessoa? - perguntou Baley, muito intrigado com aquela investigação que Daneel não pudera adiar.

            - Televi-a, amigo Elijah, mas de uma sala do Viveiro... não da nossa propriedade. Tive de ir examinar os arquivos do Viveiro e preferi fazê-lo onde três incômodos robôs não tentassem impedir-me de fazê-lo.

            Baley já se sentia muito melhor, saltando da cama e verificando que trajava uma espécie de camisola de dormir. - Dê-me as minhas roupas! - exclamou o inspetor, aborrecido com o ridículo de uma tal camisola.

            Daneel entregou-lhe as roupas e Baley vestiu-se rapidamente.

            - Onde se encontra a Sra, Delmarre?

            - Está sob prisão, amigo Elijah.

            - O que? Quem deu essa ordem?

            - Fui eu, amigo Elijah. Está presa no quarto, sob guarda robótica, e o seu direito de dar quaisquer ordens, além das referentes às necessidades pessoais, foi suspenso.

            - Por você?

            - Os robôs desta propriedade não conhecem minha identidade real.

            Baley acabou de se vestir.

            - Eu sei que tudo aponta para a culpa de Gladia - admitiu - Teve a oportunidade; uma oportunidade maior do que pensamos a princípio. Ela não correu ao local do crime ao ouvir o grito do seu marido, como disse no começo, Ela estava lá.

            - Ela confessou ter presenciado o crime e ter visto o assassino?

            - Não, ela não se recorda de nada dos momentos cruciais. Isto acontece às vezes. Acontece porém que ela tem um motivo.

            - Qual, amigo Elijah?

            - Um que eu já havia suspeitado desde o começo. Se estivéssemos na Terra, me disse, e se o Dr. Delmarre fosse tal como nos foi descrito e Gladia fosse como parece ser, eu diria que ela estava apaixonada por ele, e estava, enquanto que ele só estava apaixonado por ele mesmo. A dificuldade consistia em saber se os solarianos sentem amor ou reagem a ele como os terrestres. Não podia confiar muito no que pensava. Por isso tinha que ver algumas pessoas. Não telever, mas vê-las de verdade.

            - Não estou acompanhando, amigo Elijah.

            - Não sei se poderei explicar-me. Essa gente tem seu histórico genético cuidadosamente calculado desde antes do nascimento. Depois disto, se estuda a distribuição desses genes.

            - Isto eu já sabia.

            - Porém os genes não são tudo. O meio ambiente também conta, e o meio ambiente pode desenvolver uma psicose verdadeira em casos que os genes só indicam uma psicose em potencial. - Observou o interesse que Gladia tem pela Terra?

            - Eu chamei sua atenção para isto, amigo Elijah, e considerei que era um interesse fingido destinado a influir em sua opinião.

            - Supondo que fosse um interesse real, quase uma fascinação, Suponha também que as multidões da terra houvesse algo que a excitasse. E, por fim, suponha que se sentisse atraída, contra sua vontade, por algo que de acordo com a educação que recebeu, ela considera obsceno e pecaminoso. Aí temos uma possível anormalidade. Eu tinha que comprovar isso vendo a diferentes solarianos e observando como esses reagiriam à minha presença, e depois vê-la pessoalmente e observar suas reações. Por isto tinha que me livrar de você Daneel, a qualquer preço, e por isto mesmo tive que abandonar a televisão como um método adequado para prosseguir minhas pesquisas.

            - Você não tinha me explicado isto, amigo Elijah.

            - Acredita que tal explicação teria influenciado no que você considera seu dever para com a primeira Lei?

            - Daneel ficou calado. Baley prosseguiu:

            A experiência deu resultado. Vi pessoalmente, ou tentei ver , diversas pessoas.

            Um velho sociólogo esforçou-se tremendamente, mas na metade da entrevista teve que desistir. Um roboticista se negou a receber-me e resistiu a todas as minhas pressões neste sentido, apesar de eu quase não deixar outra alternativa a ele. A simples possibilidade de que isto sucedesse, despertou nele um frenesi quase infantil, pois começou a chupar o dedo e a gemer. A ajudante do Dr.

            Delmarre estava acostumada à presença pessoal por causa da sua profissão e, portanto, tolerou minha presença, porém a seis metros de distância. Gladia, por outro lado...

            - Sim, amigo Elijah?

            - Gladia consentiu em ver-me após uma ligeira hesitação. Tolerou facilmente minha presença e, na realidade, sua tensão pareceu que ia diminuindo à medida que se acostumava a ela. Isto corresponde claramente a um quadro de psicose.

            Não lhe importava ver-me pessoalmente; sentia interesse pela Terra. Pode ter sentido interesse por seu marido. Tudo isso se explicaria por um forte desejo, que neste mundo seria psicopático: pela presença pessoal do sexo oposto. O Dr.

            Delmarre não era precisamente um tipo de homem capaz de estimular tais sentimentos ou de mostrar-se propício a eles. Esta situação deve ter causado grande decepção para ela.

            Daneel concordou.

            - Decepção suficiente para induzir-lhe a cometer um assassinato em um momento de paixão.

            - Apesar de tudo, não acredito nisto, Daneel.

            - Talvez tenha se deixado influenciar por motivos externos a você, camarada Elijah? A Sra. Delmarre é uma mulher atraente e você é um terrestre para quem não resulta em psicopatia a preferência pela presença pessoal de uma mulher atraente.

            - Tenho razões mais fortes - objetou Baley inquieto, ao notar o frio olhar de Daneel, que parecia penetrar até o fundo da sua alma. (Jehosaphat, é só uma máquina) - ele continuou : Se fosse ela a assassina do seu marido, também teria que atribuir-se-lhe a tentativa de assassinato de Gruer.

            Sentiu um impulso de explicar-lhe como poderia realizar-se um assassinato por meio dos robôs, porém conteve-se, pois não estava seguro de qual seria a reação de Daneel ante uma teoria que convertia em assassinos inconscientes a seus congêneres. O robô completou:

            - E a tentativa de assassinato de que você foi objeto.

            Baley franziu a testa. Não tinha tido intenção de falar a Daneel da flecha envenenada que esteve a ponto de acertá-lo, pois não desejava reforçar o complexo protetor do robô que, por outro lado, era muito senhor de si. Colérico, exclamou:

            - O que klorissa lhe contou?

            Deveria ter-lhe pedido que se calasse. Mas como poderia saber que Daneel apareceria fazendo perguntas? - pensou Baley.

            Com a maior tranquilidade Daneel esclareceu:

            - A Sra. Cantoro não tem nada a ver com isto. Eu mesmo presenciei a tentativa de assassinato.

            Baley estava em um mar de confusão.

            - Mas você não estava lá!

            - Fui eu que o peguei e o trouxe para cá, faz uma hora.

            - De que está falando?

            - Perdeu a memória, amigo Elijah? Houve um assassinato quase perfeito. A Sra. Delmarre não lhe convidou para um passeio no exterior? Eu não fui testemunha disto, porém estou certo que foi assim.

            - Sim, efetivamente.

            - Inclusive é possível que o seduziu a abandonar a casa.

            Baley pensou no seu retrato, nos muros cinzas que o aprisionavam. Poderia haver psicologia mais hábil? Era possível que uma solariana tivesse tal conhecimento intuitivo da psicologia dos terrestres?

            - Não.

            - Foi ela, prossegui Daneel, que sugeriu que você fosse ao lago artificial e sentasse no banco?

            - Foi... sim

            - Não lhe ocorreu que podeira ter estado observando, dando-se conta da sua crescente vertigem?

            - Me perguntou uma ou duas vezes se eu queria regressar à casa.

            - Talvez não tenha falado com sinceridade. Observava como você se sentia cada vez mais doente naquele banco. Talvez o até tenha empurrado, embora talvez nem sequer tenha sido necessário empurrar. Quando cheguei perto de você para ajudá-lo, você estava quase caindo do banco de pedra para afundar- se em um metro de água, onde teria se afogado, com toda certeza.

            Pela primeira vez Baley recordou suas últimas sensações fugidias.

            - Jeohsaphat!

            - Foi por pouco - prosseguiu Daneel com voz tranquila e implacável - a Sra.

            Delmarre estava sentada ao seu lado, observando como caía do banco, sem mover sequer um dedo para salvá-lo. Teria deixado tranquilamente que se afogasse e não fez nada para tirá-lo da água. Admitamos que houvesse chamado um robô: ele haveria chegado muito tarde. Depois ela poderia ter dito que não podia de modo algum tocar-lhe, nem sequer para salvar-lhe a vida.

            Está certo, disse Baley para si mesmo. Ninguém poria em dúvida sua palavra pois, com toda segurança, admitiriam que ela não podia de modo algum tocar a um ser humano. A surpresa, se houvesse, viria do fato dela se encontrar tão perto de Baley.

            Daneel disse: - Compreende pois, amigo Elijah, que sua culpa está quase fora de dúvida. Você afirma que ela teria que feito também a tentativa de assassinato do agente Gruer, como se isto fosse um argumento para provar sua inocência.

            Terá que reconhecer agora que deve ter sido ela. Os motivos que teve para assassinar a você foram os mesmos que teve para tratar de ilimitar Gruer: a necessidade de livrar-se do investigador do primeiro assassinato.

            - Tudo isto pode ter ocorrido de forma inocente - observou Baley -. É possível que ela não tenha compreendido que um passeio no campo me afetaria.

            - Ela tinha estudado a Terra. Conhece as características dos terrestres.

            - Eu lhe assegurei que hoje havia passado um pouco de tempo ao ar livre e que já estava me acostumando.

            - Talvez ela saiba mais que você.

            Baley golpeou a palma da mão com o punho.

            - Supõe que ela seja muito esperta. Eu não compartilho esta opinião. De qualquer forma, continua sendo insustentável sua culpabilidade enquanto não seja explicado satisfatoriamente a ausência da arma homicida.

            Daneel olhou o terrestre firmemente.

            - Também posso resolver isto, amigo Elijah.

            Baley olhou ao seu companheiro robô com estupefação. - Como?

            - Sua conclusão, como se recorda, amigo Elijah, era a seguinte: se a Sra.

            Delmarre fosse a assassina, a arma homicida deveria ter permanecido no local do crime. Os robôs chegaram de imediado, não viram traços da arma, do que se deduz que ela desapareceu da cena do crime. Isto só o próprio assassino poderia fazê-lo e, portanto, este não poderia ter sido a Sra. Delmarre. Não é assim?

            - Sim, é exato.

            - Entretanto - continuou o robô - há um lugar onde os robôs não procuraram pela arma.

            - Onde?

            - Em baixo da Sra. Delmarre, que jazia inconsciente. Desmaiou por causa da excitação momentânea, por ser a assassina ou não. A arma estava sob seu corpo e, portanto, não poderia ser vista.

            Baley Objetou:

            - Então a arma teria sido descoberta tão logo a levantassem para levá-la.

            - Exatamente, mas os robôs na a levantaram para levá-la. Ela mesma nos disse ontem, durante a ceia, que o Dr. Thool ordenou aos robôs que pusessem uma almofada sob sua cabeça e a deixassem ali. O primeiro que a tocou foi o próprio Doutor Altim Thool, que viajou ao local para atendê-la.

            - E então?...

            - Do que se deduz, amigo Elijah, uma nova possibilidade. A assassina foi a Sra.

            Delmarre e a arma achava-se no local do crime, porém o Dr. Thool a levou e a fez desaparecer com o fim de proteger à Sra. Delmarre.

            Baley não pode ocultar seu desdém. Quase havia chegado a crer que aquela dedução lógica o conduziria a algum lugar.

            - E o motivo? Porque teria que cometer semelhante ato o Dr. Tholl?

            - Por uma boa razão. Recorda as observações da Sra. Delmarre a respeito:

            “Me tratou desde menina, mostrando-se sempre muito carinhoso e bom comigo”.

            Eu me perguntei se poderia ter algum motivo especial para ele interessar-se por Gladia. Então visitei o viveiro e examinei os arquivos. O que eu havia considerado uma simples possibilidade resultou ser correto.

            - E qual foi?

            - Que o Dr. Thool é o pai de Gladia Delmarre e, o que é mais importante, está inteirado da sua paternidade.

            Baley não podia por em dúvida as palavras do robô, unicamente experimentou uma grande consternação ao pensar que não havia sido ele, e sim o robô, Daneel Olivaw, que realizara aquela análise lógica. De qualquer forma não era completa.

            - Falou com o Dr. Thool?

            - Sim, está também sob prisão domiciliar.

            - E o que ele disse?

            Ele reconhece se o pai da Sra. Delmarre. Mostrei a ele o registro que atestava o fato e o registro onde estão anotadas as investigações que fez sobre a saúde de Gladia quando era uma menina. Como médico, tinha mais liberdade que a concedida geralmente aos solarianos.

            - E porque lhe interessava sua saúde?

            - P