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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS SEGREDOS DE CONNAUGHT SQUARE / Anne Perry
OS SEGREDOS DE CONNAUGHT SQUARE / Anne Perry

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Pitt, agora o suporte principal da Brigada Especial de Sua Majestade, é chamado para Connaught Square mansão onde o corpo de um diplomata júnior jaz amontoado em um carrinho de mão.

Perto permanece o inquilino da casa, a mulher bonita e notória egípcia, Ayesha Zakhari, que cai debaixo da sombra de suspeita.

As ordens de Pitt são para proteger - a todo custo - o bom nome da terceira pessoa no jardim, o ministro de gabinete sênior, Saville Ryerson.

A jornada do Pitt o leva para Alexandria e depois para Londres, para o cortiço de Seven Dials, e para uma sala de tribunal abarrotada. Os segredos chocantes são revelados...

 

 

 

 

Pitt abriu os olhos, mas os golpes não cessaram. Através das cortinas entrava a primeira luz cinzenta do dia. Era princípios de setembro, ainda não tinham dado as seis da manhã e alguém batia na porta.

A seu lado, Charlotte se moveu ligeiramente em sonhos. O ruído não demoraria para despertá—la também.

Pitt se levantou da cama, cruzou a toda pressa o quarto e saiu ao patamar. Desceu correndo as escadas descalço, desprendeu seu casaco do cabideiro do vestíbulo e, enquanto o punha, abriu o ferrolho da porta.

—Bom dia, senhor - disse Jesmond em tom de desculpa, com a mão ainda no ar, pronta para bater de novo. Tinha uns vinte e quatro anos, tinham-no transferido temporariamente de uma das delegacias de polícia de Londres à Brigada Especial, coisa que considerava uma importante ascensão-. Desculpe, senhor – continuou-, mas o senhor Narraway quer lhe falar imediatamente.

Pitt viu atrás de Jesmond a carruagem que esperava; o cavalo se movia nervoso e expulsava o fôlego em forma de bafo.

—Está bem - respondeu irritado. O caso no qual trabalhava não era particularmente interessante, mas quase havia resolvido; só ficavam por atar alguns fios soltos e não queria que o distraíssem—. Entre. -Apontou com um gesto o corredor que conduzia à cozinha—. Pode acender o fogão e pôr água a ferver, se souber como fazê-lo.

—Sinto muito, senhor, mas não há tempo - replicou Jesmond sombrio—. Não posso lhe dizer do que se trata, mas o senhor Narraway disse que vá agora mesmo.

Jesmond permaneceu com resolução na calçada como se pelo fato de ficar parado em seu lugar Pitt fosse dar-se mais pressa em estar preparado.

Pitt suspirou e fechou a porta para que não entrasse o ar úmido do exterior.

Subiu as escadas ao mesmo tempo que tirava o casaco, e estava no quarto de banho, vertendo água do jarro à bacia, quando Charlotte se endireitou na cama e afastou o cabelo dos olhos.

—O que acontece? -perguntou a mulher.

Embora passassem mais de dez anos de matrimônio nos quais ele tinha trabalhado primeiro na polícia e os últimos meses na Brigada Especial, já sabia. Começou a levantar-se da cama.

—Não se mova - se apressou a dizer Pitt—. Não é necessário.

—Preparar-lhe-ei ao menos uma xícara de chá - respondeu ela, em pé no tapete junto à cama, sem lhe fazer caso—. Além disso, esquentarei água para que se barbeie.

Só serão vinte minutos.

Ele deixou o jarro, aproximou-se dela e a tocou com delicadeza.

—Teria pedido ao agente que o fizesse se dispusesse de tempo. Mas é urgente. Melhor ficar na cama, quentinha.

Pitt rodeou a sua mulher com os braços e, atraindo-a para si, beijou-a ao menos duas vezes.

Em seguida, voltou junto à bacia de água fria e começou a lavar-se, preparando-se para apresentar-se ante Victor Narraway, que, pelo que ele sabia, era o chefe do Serviço Secreto do enorme Império da rainha Vitória. Se havia alguém acima dele, Pitt não tinha percebido isso.

À essa hora mal havia movimento na rua. Era muito cedo para as cozinheiras e as camareiras, mas as criadas, os engraxates e os lacaios já estavam em pé, colocando carvão nas casas e recebendo todo tipo de pedidos de peixe, verdura e carne.

As portas dos pátios estavam abertas e as copas se viam brilhantemente iluminadas na escuridão anterior ao amanhecer.

Não havia muita distância do Keppel Street, onde vivia Pitt, em uma zona modesta mas muito respeitável do Bloomsbury, até a discreta casa em que Narraway tinha nesse momento seus escritórios, mas já era de dia quando entrou e subiu as escadas.

Jesmond ficou embaixo. Aparentemente, sua missão tinha terminado.

Narraway o recebeu sentado na grande poltrona que parecia levar consigo de uma casa a outra.

Era um homem não muito corpulento, magro e robusto, ao menos oito centímetros mais baixo que Pitt. Tinha cabelo moreno com as têmporas ligeiramente salpicadas de cãs e os olhos tão escuros que pareciam negros.

Não se desculpou por tê-lo tirado da cama, como teria feito Cornwallis, o chefe do Pitt na polícia.

—Cometeu-se um assassinato no Eden Lodge -lhe comunicou Narraway com suavidade. Sua voz era grave e muito clara, a dicção perfeita—. Não nos concerniria se a vítima não fosse um diplomata com pouca experiência e não especialmente destacado, mas, além disso, morreu com um tiro no jardim da amante egípcia de um ministro do gabinete, e pelo visto este por desgraça se achava presente.

Narraway olhou ao Pitt sem alterar-se.

Pitt respirou fundo.

—Quem lhe disparou? -perguntou.

Narraway nem sequer piscou.

—Isso é o que quero que você averigue, mas de momento e infelizmente parece que o senhor Ryerson está comprometido, posto que a polícia não achou ninguém mais na casa, à exceção dos criados, que dormiam. Pior ainda, quando chegou à polícia achou à mulher tratando de desfazer-se do cadáver.

—Muito embaraçoso - concordou Pitt com secura—. Mas não vejo o que podemos fazer. Se a mulher egípcia atirou nele, a imunidade diplomática não consegue encobrir um assassinato, não é? Seja como for, nós não podemos influir nisso.

Pitt teria gostado de acrescentar que não tinha nenhum desejo ou intenção de encobrir o fato de que um ministro do gabinete tivesse estado presente em um caso de assassinato, mas temia muito que isso era exatamente o que Narraway ia pedir lhe que fizesse, por alguma finalidade de força maior do governo, ou por preservar a segurança de alguma negociação diplomática.

Pertencer à Brigada Especial tinha aspectos que desagradavam intensamente ao Pitt, mas desde o caso do Whitechapel não restava muita escolha.

Tinham-no relevado do comando da delegacia de polícia do Bowl Street e tinha aceito que o transferissem temporariamente à Brigada Especial para proteger a si mesmo da perseguição que seguiu a sua denúncia do poder e os crimes do Círculo Interior.

Era também a única opção para ganhar a vida e manter a sua família empregando suas aptidões.

Narraway lhe dirigiu um leve sorriso, reconhecendo certa ironia na situação.

—Limite-se a ir e averiguar, Pitt. Levaram a mulher à delegacia de polícia do Edgware Road. Parece que a casa está no Connaught Square. Alguém está pagando uma boa soma por ela.

Pitt fez rilhar os dentes.

-O senhor Ryerson, imagino, se ela for realmente sua amante. Suponho que não o diz você à ligeira.

Narraway suspirou.

—Vá e averigue-o, Pitt. Precisamos saber a verdade antes de fazer algo a respeito. Deixe de sopesar e julgar, e vá cumprir com seu dever.

—Sim, senhor - respondeu Pitt com aspereza e permaneceu uns instantes mais erguido antes de virar sobre seus calcanhares e sair, colocando as mãos até o fundo dos bolsos de sua jaqueta e deformando-a.

Pitt pôs-se a andar pela rua em direção oeste para o Hyde Park e Edgware Road, com a intenção de deter uma carruagem de aluguel assim que visse uma.

Começava a haver mais pessoas ao redor e mais tráfego pelas ruas. Passou junto a um jovem vendedor de jornais com a última edição que anunciava em manchetes à ameaça de greves nas fábricas de algodão do Manchester.

Fazia tempo que havia mostras de descontentamento e a situação parecia estar piorando. O algodão era a principal indústria de todo o noroeste e, de um modo ou outro, dezenas de milhares de pessoas ganhavam a vida com ele.

O algodão em ramo se importava do Egito, tecia-se, tingia e convertia em produto manufaturado ali na Inglaterra, e voltava a vender-se a todo mundo.

Uma greve teria amplas e profundas conseqüências.

Na esquina havia uma mulher que vendia café. O céu estava tranqüilo e imóvel, coberto de nuvens desfiadas, mas fazia frio e Pitt gostava de tomar algo quente.

Era provável que não tivesse tempo para tomar o café da manhã, assim se deteve.

—Bom dia, senhor — saudou-a alegremente e ao sorrir deixou ver dois ocos em sua dentadura—. Um dia lindo, senhor. Mas faz um pouco de frio, né? Que tal um café para começar a manhã?

—Sim, por favor.

—São dez pennies, senhor.

A mulher estendeu uma mão nodosa, com os dedos escuros dos grãos de café.

Pagou-lhe e aceitou em troca a bebida quente; em seguida, ficou ali, bebendo devagar para não queimar a boca, pensando como abordar à polícia quando chegasse à delegacia de polícia do Edgware Road.

Incomodaria-lhes que se intrometesse. Sabia como se sentiu ele mesmo quando esteve à frente do Bowl Street.

Bem ou mal, queria encarregar-se pessoalmente dos casos e que suas decisões não se vissem anuladas pelas dos oficiais superiores, que conheciam menos a zona e as provas, e nem sequer tinham tratado com as pessoas implicadas, por não falar de interrogá-las.

Os casos dos que se ocupara até então na Brigada Especial tinham sido em grande medida preventivos: dar com indivíduos que provavelmente causariam conflitos, violência, intimidação, incitando aos desamparados, famintos e empobrecidos a amotinar-se.

De vez em quando seu trabalho tinha consistido em localizar a um anarquista ou terrorista em potencial.

A Brigada Especial foi criada a princípio para lutar com o problema irlandês, e tinha tido certo êxito, ao menos em manter a violência sob controle. Na atualidade seu encargo era combater qualquer ameaça contra a segurança do país, de modo que certamente a queda de uma importante personalidade do governo podia considerar-se dentro dessa categoria.

Terminou seu café e devolveu a xícara à mulher, lhe agradecendo, e seguiu andando pela calçada. Percorreu os últimos metros correndo ao ver uma carruagem de aluguel vazia deter-se no cruzamento, e fez gestos ao cocheiro.

Na delegacia de polícia do Edgware Road, um tal inspetor Talbot levava o caso e recebeu ao Pitt em seu escritório com uma impaciência mal dissimulada.

Era um homem de meia estatura, magro como um galgo, com uns olhos tristes de um azul ligeiramente esvaído. Ficou em pé atrás de seu escrivaninha, coberto de montões de informes escritos lindamente à mão, e olhou fixamente ao Pitt, esperando que falasse.

—Thomas Pitt da Brigada Especial - se apresentou Pitt lhe estendendo seu cartão.

O rosto do Talbot se escureceu, mas fez um gesto ao Pitt convidando-o a sentar-se em uma das rígidas cadeiras de espaldar duro.

—É um caso claro - disse o inspetor de modo peremptório. As provas não se prestam a equívocos. Achou-se à mulher com o cadáver, enquanto tratava de transladá-lo.

Foi sua pistola que disparou a bala e estava no carrinho de mão junto ao corpo. Graças à rápida reação de alguém, pilhamo-la com as mãos na massa.

A expressão do rosto do Talbot era de provocação, desafiando ao Pitt a contradizer fatos tão claros.

—A reação de quem? -perguntou Pitt, mas lhe fez um nó no estômago ao intuir já uma espécie de impotência.

Seria simples, comum e desagradável, e, como havia dito Talbot, não havia forma de evitá-lo.

—Não sei - respondeu Talbot—. Alguém deu o alarme assim que ouviu os disparos.

—Como deu o alarme? -perguntou Pitt, notando como despertava ligeiramente sua curiosidade.

—Por telefone - lhe esclareceu Talbot, captando imediatamente o que queria dizer Pitt. — Isso reduz bastante a lista, não é? Antes que me pergunte, não sabemos quem foi.

Não deu seu nome; além disso, estava tão assustado que sua voz soou rouca e lhe tremia tanto que o operador não soube dizer com segurança se era homem ou mulher.

—Então se achava o bastante perto para ouvir os disparos - concluiu imediatamente Pitt—. Em quantas casas a cem metros no entorno de Eden Lodge têm telefone?

Talbot contraiu a boca em uma expressiva careta.

—Em mais do que se imagina. Em um raio de uns cento e cinqüenta metros, provavelmente haverá quinze ou vinte. É um bairro muito bonito, de pessoas enriquecidas.

Tentaremos averiguar, é claro, mas o fato de que o informante não nos deu seu nome significa que não quer implicar-se. -O inspetor deu de ombros—. Lástima.

Pode ser que visse algo, mas suponho que é mais provável que não fosse assim. Encontraram o corpo no jardim, bem escondido entre arbustos que ainda não tinham perdido as folhas e mal tinham começado a trocar de cor. Louros e arbustos pelo estilo, plantas de folha perene.

— Mas o acharam logo? -indicou Pitt.

—Era impossível deixar de vê-lo – respondeu Talbot com tristeza—. Ela estava lá com um vestido branco e o homem morto estendido em um carrinho de mão frente a ela, como se acabasse de lhe soltar os braços para ouvir aproximar-se do agente.

Pitt tratou de imaginar a cena: o profundo negrume do jardim no meio da noite, a folhagem densa, a terra úmida, uma mulher com um traje de noite e um cadáver em um carrinho de mão.

—Não há nada que possa fazer você - assegurou Talbot, interrompendo seus pensamentos.

—É possível. -Pitt se negou a ser despedido—. Mencionou uma pistola?

—Sim. Ela reconheceu que era dela. Era mais sensato que tentar negá-lo. Uma bonita arma, com a culatra esculpida. Ainda estava quente e cheirava a pólvora.

Não há dúvida de que foi a arma que matou à vítima.

—Não poderia ter sido um acidente? -perguntou Pitt, apesar de não albergar verdadeiras esperanças.

Talbot grunhiu fracamente.

—A vinte metros, talvez, mas dispararam a queima roupa. E o que estaria fazendo uma mulher com uma arma no jardim às três da madrugada, a não ser que fosse deliberado?

—Dispararam nele, fora? -inquiriu Pitt rapidamente, com a idéia de que Talbot estivesse dando por assentado alguns fatos e talvez equivocado-se.

Talbot esboçou um sorriso, torcendo ligeiramente o gesto.

—Ou isso ou o deixaram deitado ali fora bastante tempo, porque havia sangue no chão. E dentro da casa não havia ninguém, por certo. -O inspetor tinha a expressão tensa, os olhos pálidos e brilhantes—. Não é fácil explicar, não é verdade?

Pitt não disse nada. Que diabos esperava Narraway que fizesse ele? Se a amante do Ryerson tinha atirado nesse homem, não havia motivos para que a Brigada Especial considerasse sequer protegê—la, e menos ainda que mentisse para fazê-lo.

—Quem era a vítima? -quis saber então Pitt.

Talbot se apoiou contra a parede.

—Surpreende-me que não me tenha perguntado isso antes. Edwin Lovat, ex-tenente do exército e diplomata ajudante com, ao que parece, uma boa folha de serviços e, até ontem à noite, um futuro prometedor à frente.

De família respeitável, sem nenhum inimigo que tenhamos descoberto até a data, nem dívidas que nós saibamos.

O inspetor se interrompeu, esperando que Pitt lhe fizesse a seguinte pergunta.

Pitt dissimulou sua irritação.

—E por que ia querer disparar contra ele essa mulher egípcia, dentro ou fora de sua casa? Suponho que está descartado que o homem tratasse de entrar pela força.

Talbot arqueou de repente as sobrancelhas, franzindo o sobrecenho.

—Por que demônios ia fazê-lo?

—Não tenho nem idéia -respondeu Pitt tenso—. Por que ia estar ela no jardim com uma arma? Nada disto tem sentido!

-Oh, é claro que tem! -replicou Talbot com veemência, inclinando-se para diante e apoiando os cotovelos na escrivaninha—. Serve no exército no Egito! Em Alexandria, para ser exato. Que é de onde procede ela. Quem sabe o que acontece na cabeça das mulheres de lá.

Não são como as mulheres brancas, já sabe. Mas ela subiu no escalão. É a amante de um ministro do gabinete, um deputado pelo Manchester, onde temos neste dia todo o conflito do algodão.

Ela não dispõe de tempo para um soldado que está no degrau mais baixo da carreira diplomática.

Atreveria-me a dizer que ele se negou a aceitar uma negativa por resposta, e ela não quis que ele interferisse em seu novo idílio e contrariasse ao senhor Ryerson com histórias do passado.

—Há alguma prova nesse sentido? -perguntou Pitt.

Estava zangado e queria demonstrar ao Talbot que tinha preconceitos e era pouco exato, mas o inspetor não lhe desagradava de tudo; de fato, não lhe desagradava absolutamente.

O homem enfrentava uma tarefa em que não poderia agradar a seus superiores nem seguir mantendo a honra.

Tampouco poderia conservar a confiança que tinham depositado nele os homens a suas ordens, com os que teria que seguir trabalhando quando terminasse o caso.

—É claro que não as há! -exclamou Talbot—. Mas aposto o que queira a que se a Brigada Especial ou outros como eles não se intrometem nem põem travas, terá-as em alguns dias. Só passaram quatro horas desde que se cometeu o crime!

Pitt sabia que estava sendo injusto.

—Como o identificou? -perguntou a seguir.

—Tinha cartões com ele - se limitou a dizer Talbot, se erguendo de novo—. Ela pensava em se desfazer do cadáver. Não se tinha incomodado sequer em tirá-los.

—Isso é o que lhe disse ela?

—Pelo amor de Deus, homem! -estalou Talbot—. A surpreenderam no jardim com o cadáver em um carrinho de mão! Que outra coisa ia fazer com ele? Não o levava ao médico! Já estava morto. Não chamou à polícia, como teria feito uma mulher inocente, mas foi procurar o carrinho de mão do jardineiro, colocou-o nele e começou a empurrá-lo.

—Para ir aonde? -expôs então Pitt, tratando de imaginar o que tinha passado pela cabeça da mulher, além da histeria.

Talbot parecia ligeiramente desconcertado.

—Nega-se a falar -respondeu o inspetor.

Pitt arqueou um pouco as sobrancelhas.

—E o que há sobre o senhor Ryerson?

—Não o perguntei! -replicou Talbot—. E não quero saber! Ele não estava no lugar do crime quando se chegou à polícia. Chegou uns momentos depois.

—Como diz? -perguntou Pitt com incredulidade.

Talbot se ruborizou.

—Chegou uns momentos depois - repetiu o inspetor com obstinação.

—Deu-se a casualidade de que passava por ali às três da madrugada, viu a luz da lanterna do agente apontando à mulher com um cadáver em um carrinho de mão e se deteve para ver se podia ajudar? -replicou Pitt com sarcasmo—. Chegou em uma carruagem, da rua, suponho. Não saiu por acaso da casa em camisa de dormir!

—Não, não o fez! -exclamou Talbot com veemência e aceso seu fino semblante—. Ia completamente vestido e chegou da rua.

—Sem dúvida sua carruagem ficou esperando—o, não é assim?

-disse que tinha vindo em uma carruagem de aluguel -respondeu Talbot.

—Com a intenção de visitar a dama, e a pegou totalmente despreparada! -observou Pitt mordazmente—. E você acreditou nele?

—Acaso tenho outra alternativa? —Talbot ergueu a voz pela primeira vez e o desespero transpassou sua frágil serenidade—. É ilógico, sei! É claro que já estava ali.

Em realidade veio das cavalariças, onde foi pôr os arreios a um cavalo, suponho, e a enganchá-lo a uma carruagem ligeira, ou o que seja que ela tenha, para levar o cadáver a algum lugar e desfazer-se dele. Estão a um tiro de pedra do Hyde Park, onde o poderiam deixar.

É claro, antes ou depois do cadáver ter sido descoberto, mas não haveria nada que os relacionasse a nenhum dos dois. Mas chegamos ali muito rápido. Nesse momento Ryerson não estava no jardim com ela e a mulher não disse nada.

—E você não o pergunta ao Ryerson porque não quer saber - terminou Pitt por ele.

— Algo parecido - admitiu Talbot, com uma expressão furiosa e desventurada—. Mas a Brigada Especial é muito livre de fazê-lo. Adiante! Vá e lhe pergunte.

Vive no Paulton Square, em Chelsea. Não sei em que número, mas o averiguará em seguida. Não podem viver muitos ministros do governo ali.

—Falarei antes com a mulher egípcia. Como se chama?

—Ayesha Zakhari -respondeu Talbot—. Mas não pode vê-la. São ordens de cima, e por muito que você seja da Brigada Especial, não vou permitir se ela não implicou o senhor Ryerson, de modo que não está dentro de sua competência.

Se a embaixada da mulher intervém, converterá-se em um problema do Ministério de Assuntos Exteriores, ou do lorde chanceler, ou de quem é. Mas até agora não o fez.

Ela só é uma mulher normal que foi detida pelo assassinato de um ex-amante, e está fora de toda dúvida que o fez ela.

Assim são as coisas, senhor, e assim vão ficar, pelo que a mim respeita. Se você quer mudá-las, terá que fazê-lo em outra parte, mas não aqui.

Pitt colocou as mãos nos bolsos de suas calças e achou um pequeno pedaço de corda, meia dúzia de moedas, uma lanterna surda envolta em papel, dois pedaços soltos de lacre, uma navalha e três alfinetes. No outro havia um caderno, o cabo de um lápis e dois lenços. Passou-lhe pela cabeça que levava muitos objetos.

Talbot ficou olhando-o fixamente. Pela primeira vez Pitt viu medo em seu rosto. Tinha motivos para o ter. Se se equivocasse, a favor ou contra Ryerson, nem tanto nos fatos como em sua forma de interpretá—los, afundaria-se.

Jogariam-lhe a culpa, possivelmente dos enganos cometidos por outros, homens mais poderosos e que tinham mais que perder que ele.

—Então, o senhor Ryerson está em sua casa? -perguntou Pitt.

—Que eu saiba, sim - respondeu Talbot—, Certamente aqui não está. Perguntamo-lhe se podia nos ajudar em algum sentido e disse que não.

Acrescentou que, em sua opinião, a senhorita Zakhari era inocente.

Que não achava que tivesse matado a ninguém a menos que a tivessem ameaçado, em cujo caso não seria um crime. -O inspetor deu de ombros—. Eu mesmo podia ter escrito tudo isso sem me incomodar em interrogá-lo.

Disse o único que podia dizer, que não sabia nada, que acabava de chegar, para proteger a honra dela e demais. E, como disse, ela não negou que a arma fosse dela. Interrogamos a seu criado e também o reconheceu. Era ele quem a mantinha limpa e engraxada.

—Por que tinha essa mulher uma arma?

Talbot estendeu as mãos.

—Ou seja! Tinha-a e isso é o que conta. Olhe, senhor o agente Cotter a achou no jardim com o cadáver de um ex-amante metido em um carrinho de mão. Que mais quer de nós?

—Nada - concedeu Pitt—. Obrigado por sua paciência, inspetor Talbot. Se houver alguma novidade voltarei. —Hesitou um momento, logo sorriu—. Boa sorte.

Talbot revirou os olhos, mas por um instante sua expressão se suavizou.

—Obrigado - respondeu o inspetor com um tom sarcástico. Tomara pudesse me desentender disto tão facilmente!

Pitt sorriu e se dirigiu à porta com uma entristecedora sensação de alívio. O pobre Talbot podia ficar com o que quase com segurança só era uma tragédia doméstica, depois de tudo, apesar do ministro do gabinete.

Mesmo assim, antes de voltar a apresentar-se ante Narraway para lhe dar parte, decidiu passar pelo Eden Lodge e dar uma olhada, Connaught Square estava a menos de dez minutos de distância e fazia uma manhã muito agradável. Havia mais vendedores pelas ruas e se ouvia o tamborilar dos cascos dos cavalos.

No portal de uma grande casa, uma criada de uns quatorze anos sacudia com entusiasmo um tapete vermelho e azul, levantando uma fina nuvem de pó ao sol. Pitt se perguntou se só era vitalidade ou se o tapete representava a alguém por quem sentia aversão.

Cruzou a rua, cujos paralelepípedos ainda brilhavam de orvalho, e lançou um penny a um dos meninos que varria os excrementos quando era necessário.

Era muito cedo para que tivesse muito que fazer, de modo que se apoiou na vassoura, com sua boina de lã com viseira, um par de talhe muito grande para ele, colocada atrás das orelhas.

—Obrigado, senhor! -exclamou o moço sorrindo.

Eden Lodge era uma casa imponente em frente ao espaço aberto do Connaught Square e com uma vista ainda mais ampla do cemitério do Saint George por detrás, no fundo das cavalariças.

Seria interessante averiguar se a senhorita Zakhari era a proprietária ou só a tinha alugada, e se era assim, a quem. Ou se não se tinham incomodado em ser tão discretos e a alugava diretamente o próprio Ryerson.

Mas mais importante era ver o jardim onde tinham encontrado o cadáver. Para isso era necessário percorrer a breve distancia até o final do quarteirão e, rodeando a casa, dirigir-se à entrada traseira.

Junto às cavalariças havia encostado um agente de polícia e Pitt teve que identificar-se para que lhe permitisse cruzar a grade que se abria a um jardim úmido e frondoso de princípios de outono.

Limitou-se a seguir o atalho, embora poucas provas poderia ocultar ou danificar.

O carrinho de mão de madeira seguia ali, com manchas de sangue no lado direito, onde devia ter estado a pessoa que a tinha empurrado, e um atoleiro escuro, quase congelado, no fundo. O homem morto estaria estendido de través, com a cabeça para esse lado e as pernas para o outro.

Pitt se agachou para examinar com mais vagar o terreno. A roda se afundava uns dois centímetros na terra, dando testemunho do peso do carregamento.

O sulco que tinha deixado era profundo ao longo de quase três metros e a partir dali havia rastros de por onde tinham empurrado o carrinho de mão vazio e onde o tinham girado e carregado.

Ergueu-se e percorreu os escassos metros. Umas marcas débeis e indefinidas mostravam onde se detiveram uns pés, mas era impossível saber de quantas pessoas se tratava, e nem digamos sim eram de homem ou de mulher, ou de ambos.

Pelo terreno tinha esparramadas folhas caídas, ramos e algum ou outro calhau que tinham deixado um rastro muito tênue do passo de pessoas.

Entretanto, quando Pitt olhou mais de perto, viu com bastante clareza os sinais de sangue seco. Ali era onde tinha estado Lovat quando caiu.

Olhou ao redor. Entrou cinco metros no jardim, entre louros e rododendros, debaixo da salpicada sombra de umas árvores que se erguiam muito acima destes.

Ficava totalmente oculto das cavalariças e, como era evidente, também da rua, protegido pela própria casa.

Estava a uns cinco metros do muro de pedra que impedia de ver a entrada traseira ao pátio e à copa, e mais adiante, do outro lado de uma franja de grama ladeada de flores, havia uma porta-janela que se abria à parte principal da casa.

Que demônios tinha estado fazendo ali Edwin Lovat? Parecia improvável que tivesse chegado pelas cavalariças com a intenção de entrar por aí, a menos que tivesse combinado previamente com a mulher e esta o tivesse estado esperando atrás das portas-janelas.

Se ela não tivesse querido recebê-lo, lhe teria bastado não abrir a porta. Os criados poderiam havê-lo despedido, ou expulsado se fosse necessário.

Se com efeito Lovat acabava de chegar, dava a desagradável impressão de que ela o tinha feito ir ali deliberadamente com a intenção de matá-lo, posto que o esperava no jardim com uma pistola carregada.

Do contrário, ele se dispunha a ir-se da casa depois de ter discutido com ela, e a mulher tinha saído atrás dele com a pistola.

Quando tinha chegado realmente Ryerson? Antes dos disparos ou depois? Tinha carregado ela sozinha o cadáver no carrinho de mão? Seria interessante averiguar a constituição e a estatura tanto do morto como da egípcia.

Se ela o tivesse levantado, haveria sangue e talvez terra em seu vestido branco. Era preciso fazer essas perguntas ao Talbot, ou talvez ao agente que primeiro chegou ao lugar do crime.

Pitt voltou sobre seus passos e saiu de novo pela grade às cavalariças, onde achou ao agente estirando um pouco as pernas de aborrecimento. Este se virou ao ouvir o trinco da grade.

—Esteve de serviço ontem à noite ? -perguntou Pitt.

O homem parecia bastante cansado para levar muitas horas levantado.

—Sim, senhor.

—Viu como detinham a senhorita Zakhari?

—Sim, senhor. -Animou-lhe a voz com um princípio de interesse.

—Me pode descrever

O agente pareceu surpreso por um instante, logo franziu o sobrecenho com um gesto de concentração.

—Era bastante alta, senhor, e muito magra. E estrangeira, é claro, muito estrangeira. Era... bom, movia-se com muita elegância, mais que a maioria das damas, não é que não o façam...

—Não se preocupe agente - respondeu Pitt—. Necessito que seja sincero, não que tenha tato. O que pode me dizer do homem morto, que constituição tinha?

-Oh, mais corpulento que a maioria, senhor, e largo de costas. É difícil fazer uma idéia exata de sua altura porque não o vi em pé, mas diria que um pouco mais alto que eu embora não tanto como você.

—Levou o carruagem do necrotério?

—Sim senhor.

—Entre quantos homens o levaram?

—Dois, senhor. -O rosto do agente deixou transparecer compreensão—. Está pensando que não pôde carregá-lo até o carrinho de mão ela sozinha?

—Sim, -Pitt apertou os lábios—. Mas seria mais prudente não expressar essa opinião a outros, no momento. Ia vestida de branco, conforme me hão dito. É certo?

—Sim, senhor. Uma espécie de vestido muito apertado, muito diferente dos que levam a maioria das senhoras, ao menos as que eu vi. Muito bonito. -O agente se ruborizou ligeiramente, considerando se era apropriado dizer que uma assassina era bonita, e mais ainda sendo estrangeira. Mas se negou a acovardar-se. Um objeto mais natural - continuou—. Sem... - levou uma mão ao outro ombro—… as mangas sanfonadas. Mas bem deixava ver as verdadeiras formas de uma mulher.

Pitt dissimulou um sorriso.

—Entendo. E estava manchado de barro ou esse sangue vestido branco?—um pouco de barro, ou mais pó das folhas secas -concordou o agente.

—Por onde?

—Pelos joelhos, senhor. Como se se tivesse ajoelhado no terreno.

—Não havia sangue em sua roupa?

—Não, senhor. Não que eu visse. -Abriu muito os olhos—. Está dizendo que não o carregou no carrinho de mão ela sozinha?

—Não, agente, acredito que isso o está dizendo você. Mas lhe agradeceria que não o repetisse, a menos que lhe ponham em uma situação em que não fazê-lo exija mentir. Não minta a ninguém.

—Não, senhor! Espero que ninguém me pergunte isso.

—Sim, isso seria o melhor - assentiu Pitt com veemência—. Obrigado, agente. Como se chama?

—Cotter, senhor.

— Continua na casa o criado?

—Sim, senhor. Ninguém saiu desde que a levaram.

—Então entrarei para falar com ele. Sabe seu nome?

—Não, senhor. Uma pessoa de aspecto estrangeiro.

Pitt voltou a lhe agradecer e percorreu a breve distancia até a porta traseira. Bateu com firmeza e esperou uns minutos antes que abrisse um homem de tez escura vestido com roupa cor pedra.

Tinha boa parte da cabeça coberta com um turbante e a barba salpicada de cinza. Seus olhos eram quase negros.

—Sim, senhor? -perguntou, na defensiva.

—Bom dia -saudou Pitt—. É você o criado da senhorita Zakhari?

—Sim, senhor. Mas a senhorita Zakhari não está em casa. –disse-o em tom peremptório, como se pusesse fim a qualquer possível discussão. Era evidente que se dispunha a fechar a porta.

—Estou informado disso! -exclamou Pitt com brusquidão. — Como se chama você?

—Tariq O Abd, senhor - respondeu o homem.

Pitt voltou a tirar seu cartão e o estendeu, dando por assentado que O Abd sabia ler inglês.

—Sou da Brigada Especial. Acredito que a polícia já falou com você, mas preciso lhe fazer algumas perguntas.

—OH, entendo,

O criado abriu mais a porta e permitiu a contra gosto que Pitt cruzasse a copa e subisse os degraus que levavam a uma cozinha onde fazia calor e flutuavam aromas exóticos. Não havia ninguém mais ali.

Certamente O Abd cozinhava quando era necessário, e o resto do pessoal doméstico acudia diariamente para ocupar-se da limpeza e a lavagem da roupa.

— Quer um café, senhor? -perguntou O Abd com gentileza, como se a cozinha fosse sua. Falou em voz baixa, quase sem acento.

—Sim, obrigado.

Pitt aceitou mais por curiosidade que porque de verdade gostasse.

Cheirava a especiarias e em uma bandeja perto da janela esfriava um pedaço de pão com uma forma estranha. Em uma terrina, sobre a mesa, havia frutas maduras e brilhantes que não lhe eram conhecidas.

Abd mal demorou uns minutos em esquentar de novo o café e oferecer ao Pitt uma pequena xícara, depois o convidou a sentar-se e lhe perguntou se estava cômodo.

Era um homem magro que se movia com silenciosa elegância, pelo que era difícil fazer uma idéia de sua idade, mas a curtida pele de suas mãos levou ao Pitt a calcular mais de quarenta, talvez rondando os cinqüenta.

Pitt lhe agradeceu pelo café e tomou um gole. Era quase tão espesso como um xarope e não gostou muito, mas se limitou a adotar uma educada expressão de circunstâncias.

—O que ocorreu aqui ontem à noite? -perguntou.

O Abd ficou em pé, de modo que Pitt se viu obrigado a levantar a vista para olhá-lo.

—Não sei, senhor - respondeu o criado—, despertou um ruído e me levantei para ver se a senhorita Zakhari tinha chamado, mas não a encontrei em nenhuma parte. -Vacilou.

—Sim? -insistiu-O Pitt.

O Abd olhou ao chão.

—Apareci na janela, mas não vi nada na parte dianteira, de modo que me dirigi à parte traseira e vi que algo se movia através dos arbustos, esses que têm as folhas lisas e brilhantes.

Esperei uns momentos, mas não se ouvia nada mais e não havia motivos para supor que ocorresse nada fora do normal. Pensei que talvez me tivesse despertado o ruído da porta.

—O que fez então?

O criado ergueu os ombros muito ligeiramente,

—Não me necessitavam, senhor. Voltei para a cama. Não sei quanto tempo passou até que ouvi vozes e a polícia me fez descer.

— Mostraram-lhe uma arma?

—Sim, senhor.

—E lhe perguntaram de quem era?

—Sim, senhor. Disse que era da senhorita Zakhari. - baixou de novo a vista ao chão—. Então ainda não sabia para que se utilizara. Mas eu sou quem a limpa e a engraxa, assim a conheço bem.

—Por que tem uma arma a senhorita Zakhari?

—Não me corresponde fazer tais perguntas, senhor.

—E não sabe?

—Não, senhor.

—Já. Mas saberá se ela a tinha utilizado em alguma ocasião, posto que você a limpa.

—Não, senhor, nunca a tinha utilizado.

—Obrigado. Conhecia você o tenente Lovat… o morto?

—Não acredito que tenha estado aqui antes.

Isso não era o que Pitt tinha perguntado e se deu conta da evasiva. Era deliberada, ou simplesmente o homem falava um idioma que não era o seu?

—Tinha-o visto com antecedência?

O Abd baixou os olhos.

—Nunca o tinha visto, senhor. Soube que a polícia soube quem era pela roupa e o que levava nos bolsos.

De modo que não tinham perguntado a O Abd se tinha visto o Lovat antes. Isso era uma omissão, mas talvez não tivesse tanta importância.

Ao fim e ao cabo, era o criado da senhorita Zakhari, posto que sabia que a acusavam de havê-lo assassinado, provavelmente negaria conhecê-lo de todo modo.

Pitt bebeu seu café e se levantou.

—Obrigado por me atender - disse, tratando de tragar o último gole de líquido doce e enjoativo e tirar o sabor da boca.

—Senhor. - O Abd se inclinou ligeiramente, apenas um gesto.

Pitt saiu pela porta traseira, agradeceu ao agente Cotter ao passar por seu lado e se afastou pela ruela flanqueada de cavalariças até o Connaught Square, onde tomou um coche de aluguel que o levaria de novo ao escritório do Narraway.

Narraway levantou a vista dos papéis que lia. Tinha o rosto um pouco carrancudo, o olhar espectador.

—E então?

—A polícia deteve à mulher, Ayesha Zakhari, e deixou de lado a possível implicação do Ryerson - resumiu Pitt—. Não estão investigando o assassinato muito exaustivamente porque não querem saber a resposta.

Depois de dizer isto, aproximou-se e se sentou na cadeira situada frente à escrivaninha.

Narraway tomou ar devagar e exalou.

—E qual é a resposta? -perguntou a seguir em voz baixa e muito serena.

O superior do Pitt permanecia completamente imóvel, como se estivesse tão concentrado que não se atrevesse a distrair-se com o mínimo movimento.

Pitt se surpreendeu a si mesmo imitando-o, contendo-se de cruzar as pernas.

—Que Ryerson a ajudou, ao menos a tentar desfazer do cadáver - respondeu.

—Não me diga... -Narraway exalou de novo, embora sem dar sinais de sentir-se menos tenso—. E que provas o demonstram?

—É uma mulher magra e usava um vestido branco - respondeu Pitt—. O homem morto era alto e de compleição forte, mais do que o habitual.

Necessitaram-se dois empregados do necrotério para transportá-lo do carrinho até a carruagem, embora, é claro, pode ser que tivessem mais cuidado de fazê-lo que quem quer que seja que tratasse de desembaraçar-se dele.

Narraway assentiu, com os lábios apertados.

—Entretanto, o vestido branco não estava manchado de barro nem sangue - continuou Pitt—. Só tinha um pouco de pó das folhas secas por haver-se ajoelhado, certamente ao lado de onde jazia ele.

—Entendo. -A voz do Narraway era tensa, quase inexpressiva—. E Ryerson?

—Não o perguntei - disse Pitt—. O agente se deu perfeita conta de por que o perguntava e das conclusões óbvias. Quer que volte e o pergunte? Não tenho inconveniente em fazê-lo, mas então...

—Posso deduzi-lo sozinho, Pitt! -replicou Narraway—, Não, não quero que o faça, ao menos no momento. -Piscou um instante e em seguida desviou o olhar à parede do fundo—. Esperaremos ver o que acontece.

Pitt ficou imóvel, consciente de que em todo aquilo havia algo estranho, algum detalhe que lhe escapava, informação valiosa a que não tinha acesso.

Narraway tinha calado algo. Tinha importância? Ou só eram seus anos de experiência, uma sensação de inquietação e não um pensamento concreto?

Narraway também pareceu hesitar, depois o momento passou e voltou a levantar a vista para o Pitt.

—Bem, continue! -apressou o superior, mas com menos aspereza que antes—. Me disse o que viu e o que lhe comunicou o agente. Se for possível, deixaremos Ryerson à margem. O seguinte passo o tem que dar a polícia. Vá a casa e almoce. Talvez lhe necessite mais tarde.

Pitt se levantou sem afastar a vista de Narraway, que lhe sustentava o olhar com os olhos brilhantes, diria-se que quase desprovidos de emoção, embora não cabia dúvida de que só era por cobrir as aparências.

Pitt estava tão seguro disso como da carga elétrica que havia na habitação, semelhante a que flutuava no ar um dia rude.

—Sim, senhor - disse em voz baixa, e com o olhar do Narraway ainda cravado nele, saiu pela porta.

Era meio-dia quando chegou a sua casa. As crianças, Jemima e Daniel, estavam no colégio e Charlotte e a criada, Gracie, achavam-se nesse momento na cozinha.

Mal abriu a porta e as ouviu rir. Sorriu para si enquanto se inclinava para tirar as botas.

Os sons o envolveram como um bálsamo, vozes femininas, ruído de vasilhames, estridente assobio da chaleira de água. A casa estava quente pelo fogão da cozinha e cheirava a tecido de algodão recém lavado, ainda úmido, a madeira limpa do chão esfregado e a pão assando.

Um gato de pelagem estriada saiu pela porta da cozinha e se estirou languidamente; depois se aproximou correndo dele, com a cauda levantada em forma de sinal de interrogação.

—Olá, Archie - saudou Pitt em voz baixa, acariciando-o enquanto o animal se removia sob sua mão, apertando-se contra ele e ronronando—. Suponho que quer que compartilhe meu almoço com você, né? -acrescentou—. Bom, vamos.

Pitt se ergueu e se dirigiu sem fazer ruído à porta, seguido pelo gato.

Na cozinha, Charlotte estava tirando o pão da bandeja para que esfriasse e Gracie, ainda miúda e magra apesar de já ter quase vinte anos, colocava no aparador galês a baixela de porcelana azul e branca.

Percebendo sua presença antes de vê-lo, Charlotte se voltou com uma expressão interrogante.

—Devo almoçar - respondeu ele sorrindo.

Gracie não perguntou nada. Não andava com circunlóquios uma vez que se implicava. Não o considerava uma rabugice, mas parte de suas funções na hora de ajudar e cuidar dele que se adotou quase desde que chegou à casa, aos treze anos, meio morta de fome e com a roupa muito folgada.

Então levava o cabelo penteado muito esticado, deixando a descoberto sua carinha radiante, e embora nessa época ainda não sabia ler nem escrever, era tão esperta como qualquer um.

Depois tinha amadurecido, e se considerava a si mesma uma valiosa empregada do detetive mais inteligente da Inglaterra, em realidade o mais inteligente do mundo, situação que não teria trocado nem para servir à rainha em pessoa.

—Não se trata de novo do Círculo Interior, não é? -perguntou Charlotte com medo na voz.

Gracie ficou paralisada, com os pratos nas mãos. Ninguém tinha esquecido essa terrível organização secreta que havia custado ao Pitt sua carreira na polícia metropolitana e quase também a vida.

—Não - negou Pitt imediatamente com firmeza—. Só é um assassinato doméstico... —Viu incredulidade no rosto de sua esposa e acrescentou—: É quase seguro que o cometeu a amante de um ministro do governo. E igualmente certo que ele estivesse ali, se não nesse momento, sim justo depois, e a ajudasse a desfazer do cadáver.

—OH, já vejo - disse ela, compreendendo em seguida—. Mas não saíram impunes, não?

—Não. -Pitt se sentou em uma das cadeiras de madeira de espaldar reto e estirou as pernas-. Deu o alarme um homem que ouviu os disparos e a polícia chegou a tempo para surpreendê-la no jardim traseiro com o cadáver em um carrinho de mão.

Charlotte ficou olhando-o fixamente com ceticismo, logo viu por sua expressão que não brincava.

—Deve ser um maldito idiota - respondeu Gracie com franqueza—. Espero que não lhe acusem de nada que seja importante para o governo ou estaremos todos em apuros!

—Sim -assentiu Pitt com veemência. O gato se sentou de um salto em seu regaço e ele o acariciou distraído, percorrendo com os dedos o abundante pelo. —Receio que o estaremos.

Gracie suspirou e começou a dispor na mesa os pratos que ele ia necessitar para o almoço e lhe preparar uma xícara de chá. Charlotte se aproximou do fogão para cozinhar, com uma expressão que deixava transparecer os conflitos que pressagiava.

 

Nos jornais vespertinos só tinha aparecido uma breve noticia sobre o achado do corpo sem vida do Edwin Lovat em Éden Lodge; entretanto, na manhã seguinte informavam do assassinato com todo luxo de detalhes.

—Aí o tem! -exclamou Gracie deixando The Time e o London Illustrated News na mesa do café da manhã frente a Pitt—, Está em toda parte. Dizem que o fez a mulher estrangeira e que o homem que morreu era muito respeitável e tudo isso. —Charlotte lhe tinha ensinado a ler e era um obtenho do que se sentia extremamente orgulhosa.

Tinha-lhe aberto uma porta a novos mundos que até então nem sequer era capaz de imaginar, mas, ainda mais importante, tinha a sensação de que podia enfrentar em pé de igualdade com qualquer um intelectualmente, embora não socialmente. O que não sabia, averiguaria-o. Sabia ler e, portanto, podia aprender—. Não dizem nada absolutamente do homem do governo! -acrescentou.

Pitt pegou os jornais e se dispôs a folheá-los, desdobrando-os na mesa. Charlotte continuava no andar de cima. Jemima entrou; parecia muito maior com o cabelo recolhido em dois acréscimos e o avental do colégio sobre o vestido. Tinha dez anos e estava muito dona de si mesma, ao menos na aparência. Era bastante alta para sua idade e os pequenos saltos de suas botas aumentavam sua estatura.

—Bom dia, papai -disse recatadamente, detendo-se frente a ele e esperando sua resposta.

Ele levantou o olhar e deixou o jornal a um lado, consciente de que a menina necessitava sua atenção, sobretudo nos últimos tempos, depois que suas vidas correram perigo por causa de sua aventura no Dartmoor, quando pela primeira vez foi incapaz de protegê-los. O sargento Tellman o tinha feito extraordinariamente bem, até com risco de que o expulsassem da polícia.

Continuava na delegacia de polícia do Bowl Street sob as ordens de um novo superintendente, um homem chamado Wetron que era frio e ambicioso, e com uma boa causa; achavam que era um membro importante do Círculo Interior, possivelmente com o olhar posto em chegar a dirigi-lo.

—Bom dia - respondeu muito sério, olhando-a.

—Diz algo importante? -perguntou ela, dando uma olhada ao jornal desdobrado na mesa.

Ele vacilou só um momento. De forma instintiva, seu primeiro impulso era proteger a seus dois filhos, mas, sobretudo a Jemima, talvez porque era uma menina.

Entretanto, Charlotte lhe havia dito que as evasivas e o mistério eram muito mais aterradores que os piores fatos, e doía sentir-se excluído, até pelos melhores motivos.

Jemima em especial quase sempre se dava conta de se a deixavam à margem.

Daniel tinha quase três anos menos que sua irmã e era muito mais independente, preferia ocupar-se de seus assuntos e não era um espelho do estado de ânimo do Pitt. Observava e escutava, mas não como o fazia ela.

—Não acredito que diga nada - manifestou ele com sinceridade.

—Falam de seu caso? -insistiu ela, olhando-O com solenidade.

—Não é um caso perigoso - a tranqüilizou Pitt, sorrindo enquanto o dizia—. Parece que uma senhora deu um tiro a alguém e é possível que estivesse ali um homem importante.

Temos que fazer tudo o que esteja em nossas mãos para nos assegurar de que ele não se mete em problemas.

—Por que? -quis saber Jemima.

—Boa pergunta -      concordou ele—. Porque está no governo e seria uma vergonha.

—Deveria ter estado em outra parte? -observou ela, compreendendo-O no ato.

—Sim. Deveria ter estado dormindo em sua casa. Ocorreu no meio da noite.

—Por que a mulher atirou no homem? Tinha-lhe medo?

Era o pensamento mais claro para ela. Fazia apenas uns meses tinha experimentado o que supunha levantar-se em plena noite, recolher os pertences e fugir em uma carruagem puxada por um pônei bordeando o páramo na escuridão.

—Não sei, querida - disse ele, acariciando-lhe sua face firme e sem imperfeições—. Ainda não disse nada. Ainda temos que averiguar. É como o trabalho de polícia, o que fazia faz um ano, antes de ir ao Whitechapel. Não é nada perigoso.

Ela o olhou fixamente, tratando de decidir se seu pai lhe dizia a verdade ou não. convenceu-se de que sim e lhe iluminou o rosto de satisfação.

—Bem.

Sem esperar mais, Jemima se sentou à mesa. Gracie lhe serviu um prato de papa de aveia com leite e açúcar e a menina começou a comer.

Pitt voltou a prestar atenção ao jornal. O artigo do The Teme não deixava lugar a dúvidas.

Publicava um elogioso obituário do Edwin Lovat no qual se lia que tinha sido um distinto soldado antes que a enfermidade o obrigasse a voltar para a vida civil, em que tinha aplicado de forma eficiente suas aptidões e experiência no Oriente Próximo no corpo diplomático.

Tinha pela frente um brilhante futuro até que morreu à mãos de uma ambiciosa e desumana mulher que se cansou de suas atenções, pois pretendia procurar uma clientela mais rica e influente.

Não se mencionava o nome do Saville Ryerson, nem sequer se dava a entender. Deixava-se à imaginação do leitor discernir que classe de clientes procurava Ayesha Zakhari. O que ficava muito claro era a indiscutível culpa da mulher no crime e o fato de que tinha que ser levada a julgamento e enforcada sem demora.

Pitt se inquietou pela ligeireza com que se dava por fato o ocorrido, mesmo sabendo muito mais coisas que o autor do artigo.

Havia algo essencialmente absurdo em negá-lo, posto que a arma pertencia a Ayesha Zakhari e a tinham surpreendido tratando de desfazer do cadáver.

Ela conhecia homem, e não tinha dado nenhuma explicação, razoável ou não, sobre o que aconteceu.

Talvez o que lhe irritava era que não se mencionasse ao Ryerson, assim como que o jornalista não tivesse feito indagações sobre o caso e se apressou a tirar conclusões em lugar de limitar-se a informar das provas.

Jemima olhou muito séria a seu pai. Lhe sorriu e viu como desaparecia a tensão de seus ombros e lhe devolvia o sorriso.

Terminou de tomar o café da manhã e se levantou enquanto Charlotte e Daniel entravam na cozinha. A conversa derivou para outros temas: o colégio, o que havia para comer e se iriam à partida de criquet no sábado à tarde, desde que não o cancelassem pela chuva, ou ao teatro ao ar livre do bairro.

Seguiu uma discussão sobre o que podiam fazer se chovesse, que não terminou até que as crianças foram ao colégio e Pitt se encaminhou ao escritório do Narraway.

Encontrou as salas vazias e fechadas, mas Jesmond, que esperava na rua, disse-lhe que Narraway voltaria em menos de uma hora e se zangaria se Pitt não estivesse ali esperando- o.

Pitt dissimulou sua impaciência pelo tempo perdido. Poderia ter estado fechando o caso no qual trabalhava, antes que tivesse lugar o crime, que, pelo que ele via, não guardava nenhuma relação com a Brigada Especial.

Passeou pela pequena sala que havia ao pé das escadas, dando voltas uma e outra vez na cabeça a uma possível conexão, sem nenhum resultado.

Narraway chegou quarenta e cinco minutos mais tarde com expressão séria. Vestia um traje cinza claro de corte impecável à última moda, com as lapelas altas, e um colete de seda cinza debaixo.

—Entre- disse com brusquidão, abrindo a porta de seu escritório e deixando que Pitt o seguisse.

Sentou-se atrás de sua escrivaninha sem dirigir nenhum olhar aos papéis que havia nela e Pitt se deu conta de que já os tinha lido.

Tinha chegado cedo e saído pouco depois para ir a algum lugar importante, ao que sabia de antemão que iria e para o que se vestiu em conseqüência. Tinha que tratar-se de um alto cargo do governo.

Preocupava-lhes realmente o assassinato do Edwin Lovat ou que acusassem a Ayesha Zakhari? Ou tinha ocorrido algo mais?

Pitt se sentou na cadeira de frente.

Narraway tinha o rosto tenso, os olhos muito abertos e cheios de receio, como se até em seu escritório houvesse algo do que proteger-se.

—O embaixador egípcio foi ontem à noite ao Ministério de Assuntos Exteriores - disse medindo cuidadosamente as palavras. — Estes falaram por sua vez por telefone com o senhor Gladstone e me pediram que fosse esta manhã.

Pitt esperou que seu superior seguisse falando sem interrompê-lo, sentindo um frio cada vez maior em seu interior.

—Estavam à corrente do assassinato ocorrido no Eden Lodge ontem pela tarde - continuou explicando Narraway—. Mas apareceu nos jornais vespertinos, de modo que meia Londres se inteirou. -Voltou a guardar silêncio.

Pitt observou que seu superior tinha as mãos rígidas sobre a escrivaninha, os finos dedos duros.

—E a embaixada já sabia que tinham detido a Ayesha Zakhari -concluiu Pitt por ele—. Como é cidadã egípcia, suponho que é natural que se interessem por seu bem-estar e se assegurem de que está devidamente representada.

Eu esperaria o mesmo da embaixada britânica se me detivessem em um país estrangeiro. Narraway torceu ligeiramente o gesto.

—Esperaria que o embaixador britânico chamasse em seu nome o primeiro-ministro desse país? Superestima-se, Pitt. Talvez um cônsul com poucos anos de experiência se encarregaria de ver se lhe designaram um advogado, mas nada mais.

Não havia tempo para sentir-se envergonhado ou zangado. Saltava à vista que tinha ocorrido algo que preocupava profundamente ao Narraway.

—É a senhorita Zakhari mais importante do que acreditam? -perguntou Pitt.

—Que eu saiba não -respondeu Narraway—. Embora isso propõe a questão. - Sua expressão de ansiedade se acentuou. Abriu e fechou os dedos, para assegurar-se de que ainda os sentia—. Nos expôs a questão da justiça. -Respirou fundo, como se lhe custasse dizê-lo, inclusive ao Pitt—. O embaixador estava informado de que Saville Ryerson se achava no Eden Lodge quando a polícia surpreendeu à senhorita Zakhari com o cadáver, e quer saber por que não o detiveram também a ele.

Era uma pergunta totalmente razoável, mas não foi esse pensamento o que fez estremecer ao Pitt.

—Como se inteirou? -perguntou. — Com certeza ninguém permitiu que ela ficasse em contato com sua embaixada e dê essa informação. Além disso, não disse à polícia quando a detiveram que estava sozinha? Quem o disse ao embaixador?

A boca do Narraway se torceu em um sorriso amargo e lhe endureceu o olhar.

—Uma boa pergunta, Pitt. De fato, é a pergunta principal e não sei a resposta. Só que não foi a polícia, nem o advogado da senhorita Zakhari, porque ainda não solicitou um.

O inspetor Talbot assegura que não respondeu mais pergunta nem mencionou a ninguém o nome do Ryerson.

—O que se sabe sobre o agente que chegou primeiro ao lugar do crime? Cotter?

—Talbot o repreendeu severamente ao menos duas vezes, me acredite, e Cotter jura que não falou com ninguém de fora da delegacia de polícia além de você. –Na voz do Narraway não havia acusação, nem sequer dúvida.

—Só fica nosso informante anônimo que ouviu os tiros e chamou à polícia - concluiu Pitt—. Ficaria por ali para ver o que acontecia, assim certamente viu o Ryerson e o reconheceu.

—Cabe pensar que não era a primeira vez que Ryerson visitava a casa - indicou Narraway—. Pode ser que o tivessem visto com antecedência em mais de uma ocasião. -Franziu o sobrecenho, com os dedos ainda rígidos em cima da mesa—. Mas se propõe mais algumas perguntas interessantes, começando pelo motivo para dizer à embaixada do Egito, e não à imprensa, que quase com certeza pagaria ao informante.

Pitt não disse nada e Narraway o olhou fixamente.

—Ou ao próprio Ryerson - acrescentou Narraway—, A chantagem poderia lhe haver suposto uma boa soma de modo regular.

—Pagaria Ryerson? -perguntou Pitt.

No rosto do Narraway se refletiu uma expressão estranha: incerteza, tristeza, mas também algo que era indubitavelmente doloroso. Apagou-a com esforço, concentrando-se nos aspectos práticos da resposta.

—Em realidade o duvido, sobretudo, porque embora a senhorita Zakhari tenha optado por negar que ele esteve ali, ficaria como mentiroso quando fosse aos tribunais, porque à polícia consta que estava. É alguém fácil de reconhecer.

—É? Não acredito havê-lo visto nunca. -Pitt tratou em vão de lhe pôr rosto.

—É um homem corpulento -disse Narraway com voz muito baixa, um tanto descarnada—. De mais de metro oitenta de estatura, largo de costas, robusto. Tem muito cabelo grisalho e feições angulosas. De jovem foi um bom atleta.

Suas palavras estavam cheias de orgulho e, entretanto, pronunciou-as como se tivesse que obrigar-se a fazê-lo, por uma questão de justiça antes que de vontade.

Por alguma razão pessoal se sentia obrigado a ser justo.

—Conhece-o, senhor? -perguntou Pitt.

Imediatamente desejou não havê-lo feito, embora fosse uma pergunta necessária. Algo no rosto do Narraway lhe deu a entender que se intrometeu.

—Conheço todo mundo - respondeu Narraway—. É parte de meu trabalho. E do seu também.

Disseram-me que o senhor Gladstone deseja manter o nome do senhor Ryerson à margem do caso, se for humanamente possível. Não especificou como quer que se faça e suponho que não quer sabê-lo.

Pitt não pôde dissimular sua cólera ante a injustiça que isso supunha e lhe ofendeu a insinuação de que devia tentá-lo.

—Muito bem! -replicou—. Então se nos vemos obrigados a lhe dizer que foi impossível, não contará com informação para nos contrariar.

Não havia nem rastro de humor no rosto de Narraway; até a habitual ironia cortante de seu olhar estava ausente. De algum modo, a situação abria nele uma ferida que ainda não tinha cicatrizado o bastante para estar a salvo.

—Sou eu quem deve responder ante o senhor Gladstone, Pitt, não você, e não estou disposto a lhe dizer que fracassamos, a menos que possa demonstrar que era impossível antes de começar.

Vá ver o Ryerson e fale com ele. Se tivermos que protegê-lo não podemos trabalhar às cegas.

Preciso saber a verdade imediatamente e não posso esperar que nos revele isso, pouco a pouco, a polícia. Ou o embaixador egípcio, que Deus nos livre!

Pitt ficou confuso.

- disse que o conhecia, Não seria muito melhor que falasse você com ele? Seu alto cargo lhe impressionaria.

Narraway levantou o olhar com uma expressão irritada e os dedos de suas finas mãos, apoiadas sobre a escrivaninha, ficaram brancos.

—Meu alto cargo não parece impressionar a você! Ao menos não o suficiente para que obedeça sem discutir. Não lhe estou fazendo uma sugestão, Pitt, mas sim lhe estou dizendo o que deve fazer.

E não tenho nenhuma intenção de me justificar. Devo dar contas ao senhor Gladstone de meu êxito e responder de meu fracasso ante ele. Você me dá contas. -Sua voz soou áspera—. Vá ver o Ryerson.

Quero saber tudo sobre sua relação com a senhorita Zakhari, e muito especialmente o que ocorreu essa noite. Volte aqui quando puder, se puder ser amanhã.

—Sim, senhor. Sabe onde posso achar ao senhor Ryerson a esta hora do dia? Ou deveria fazer indagações?

—Não, não faça indagações! -replicou Narraway com as faces acesas—. Não dirá a ninguém salvo ao Ryerson quem é você, ou o que quer. Comece por sua casa do Paulton Square. Acredito que é o número sete.

—Sim, senhor. Obrigado.

Pitt ocultou seus sentimentos. Levantou-se, deu meia volta e saiu da sala, aborrecido com a tarefa que lhe tinham encomendado, mas absolutamente surpreso.

O que não entendia era por que em um assunto tão importante para que estivesse comprometido Gladstone, não ia Narraway pessoalmente ver Ryerson.

Não havia possibilidade de que o reconhecessem. À essa hora não haveria nenhum jornalista no Paulton Square, mas mesmo que o houvesse, Narraway não era um personagem público que as pessoas conhecessem de vista.

Devia haver algo, e importante, que Narraway lhe ocultava, e essa certeza o incomodava.

Deteve um coche de aluguel e pediu ao condutor que o levasse ao Danvers Street, que não estava longe do Paulton Square. Faria a pé o resto do trajeto.

Desde que estava na Brigada Especial tinha aprendido a tratar de passar inadvertido.

Era uma precaução, nada mais. Desagradavam-lhe os subterfúgios, mas compreendia que eram necessários.

Antes de chegar aos degraus do número sete já tinha decidido como abordar a quem lhe abrisse a porta do Ryerson.

—Bom dia, senhor - saudou inexpressivo um lacaio loiro com libré—. No que posso ajudá-lo?

—Bom dia - respondeu Pitt, erguendo-se e olhando nos olhos ao criado—. Teria a amabilidade de dizer ao senhor Ryerson que o senhor Victor Narraway lhe transmite suas saudações e lamenta não poder vir pessoalmente visitá-lo, mas que me enviou em seu lugar? Meu nome é Thomas Pitt. -Tirou seu cartão, o simples em que só aparecia seu nome, e o deixou cair na bandeja prateada que segurava o lacaio.

—É claro, senhor - replicou o lacaio, sem olhar o cartão—. Quer esperar no salão da manhã enquanto pergunto ao senhor Ryerson se pode recebê-lo?

Pitt assentiu sorrindo. Era uma resposta muito direta, e não o habitual eufemismo com o que se fingia não saber se o senhor estava em casa.

O lacaio conduziu-o por um suntuoso corredor de um recarregado estilo italiano, com as paredes de um quente terracota, bonitos bustos de mármore e bronze sobre pedestais e quadros de cenas de canais que pareciam Canalettos autênticos.

O salão da manhã também era de tons quentes, com uma tapeçaria de deliciosa fartura em uma das paredes que representava com o mais mínimo detalhe uma cena de caça, a erva em primeiro plano salpicada de pequenas flores.

Era um homem rico com um gosto pessoal.

Pitt teve que esperar dez minutos em um estado de grande tensão, tratando de ensaiar mentalmente a conversa.

Dispunha-se a interrogar a um ministro do gabinete sobre questões sem dúvida embaraçosas de sua vida pessoal, entre elas sua implicação em um crime. Tinha ido averiguar a verdade e não podia permitir-se fracassar.

Entretanto, tinha interrogado antes pessoas importantes sobre suas vidas, lhes surrupiando quão feridas os tinham levado a cometer um assassinato. Era uma habilidade que tinha.

Dava-se bem, inclusive era brilhante. Tinha colhido muitos mais êxitos que fracassos. Não devia duvidar de si mesmo.

Deu uma olhada aos livros que havia em uma das estantes. Viu tomos do Shakespeare, Browning, Marlowe e, um pouco mais separados, Henry Rider Haggard e Charles Kingsley, assim como dois volumes de Thackeray.

De repente, Pitt ouviu abrir a porta e se voltou rapidamente.

Como havia dito Narraway, Ryerson era um homem corpulento que devia estar rondando os sessenta anos, mas se movia com a ligeireza de alguém habituado ao exercício físico e que desfrutava com ele.

Não lhe sobrava um grama de gordura, nem havia nele indícios de que cometesse excessos ou se desse a boa vida.

Irradiava a segurança em si mesmo de alguém cujo corpo lhe responde. Estava nervoso e um pouco cansado, mas mesmo assim em perfeito controle de suas emoções.

—Meu lacaio diz que vem de parte do Victor Narraway. -Pronunciou o nome com tal indiferença que Pitt se perguntou imediatamente se era resultado de um esforço deliberado—. Posso lhe perguntar a razão?

—Sim, senhor - respondeu Pitt com seriedade. Já tinha decidido que a franqueza era a única maneira de conseguir seu objetivo, se é que tinha alguma possibilidade.

Qualquer subterfúgio ou ardil por sua parte que lhe saísse mal destruiria toda a confiança—.A embaixada do Egito está à corrente de que se achava no Eden Lodge quando dispararam contra o senhor Edwin Lovat e exige que também o interroguem sobre sua participação nesses fatos.

Pitt contava com que, de entrada, Ryerson o negasse suavemente, e logo ficasse talvez como um galo de briga e se enfurecesse à medida que se apoderava dele o medo.

A possibilidade mais desagradável seria a autocompaixão e que recorresse à lealdade para escapar da vergonha de ter tido uma aventura amorosa que se tornara amarga.

Aterrava-lhe a lástima e a repulsão que isso suscitaria nele. Sentia frio só de pensá-lo.

Não era por essa razão pela que Narraway se negou a acudir pessoalmente, se por acaso seu velho amigo tinha uma reação indigna ante ele, porque achava que era melhor para ambos que isso não ocorresse? Assim poderia ao menos seguir fingindo que não se inteirara disso.

Entretanto, a reação do Ryerson não foi à esperada. Em seu rosto se traduziu confusão e medo, mas não cólera nem fanfarronice.

—Cheguei ali justo depois - corrigiu ao Pitt—. Embora não tenho nem idéia de como pode haver-se informado a embaixada egípcia, a não ser que lhes tenha informado a senhorita Zakhari.

Pitt o olhou fixamente. Nem sua voz nem seu rosto refletiam indignação. Não parecia acreditar na possibilidade de que ela o tivesse traído.

Por outra parte, segundo Narraway, a mulher não tinha mencionado em nenhum momento seu nome. De fato, não tinha tido oportunidade de falar com ninguém, à exceção dos agentes de polícia que a tinham interrogado.

—Não, senhor, não foi a senhorita Zakhari -respondeu Pitt—. Não falou com ninguém desde que a detiveram.

—Necessita de um advogado -disse Ryerson imediatamente—. A embaixada deveria ocupar-se disso, seria mais discreto que se o fizer eu, mas o farei se for necessário.

—Acredito que seria muito melhor que não o fizesse! -respondeu Pitt, a quem o tinha pegado despreparado semelhante idéia—. O remédio poderia ser pior que a enfermidade -acrescentou—. Poderia me contar o que ocorreu essa noite, senhor, que saiba?

Ryerson convidou ao Pitt a sentar-se em uma das grandes poltronas de couro, depois se sentou frente a ele, mas não de forma relaxada, mas jogado ligeiramente para frente, com o rosto completamente concentrado.

Não lhe ofereceu nada, não por falta de cortesia, mas sim porque era evidente que não tinha pensado nisso. Estava absorto no problema e não tratou de dissimular.

—Estive até muito tarde em uma reunião. Minha intenção era estar em casa da senhorita Zakhari por volta das duas da madrugada, mas me atrasei. Quando cheguei eram quase três.

—Como foi até aí, senhor? -interrompeu-o Pitt.

—Em carruagem de aluguel. Desci no Edgware Road e caminhei um par de ruas.

—Viu alguém sair do Connaught Square, fosse a pé, em carruagem particular ou em carruagem de aluguel? -perguntou Pitt.

—Não recordo ter visto ninguém. Mas não me fixei. Poderiam ter ido em qualquer direção.

—Chegou ao Eden Lodge -insistiu Pitt—. Por onde entrou?

Ryerson se ruborizou ligeiramente.

—Pelas cavalariças. Tenho a chave da porta da copa.

Pitt tentou que sua expressão não refletisse seus pensamentos. Os julgamentos morais não serviriam de nada e, além disso, tinha pouco direito a fazê-los.

Por estranho que parecesse, não sentia nenhum desejo de emitir julgamentos. Ryerson não encaixava com a imagem que formara dele antes de conhecê-lo, e se via obrigado a começar de zero, abrindo passagem com provas através de suas próprias e contraditórias emoções.

—Entrou pela copa? -perguntou.

—Sim. -O olhar do Ryerson se turvou ao recordar—. Mas estava justo na porta quando ouvi um ruído no jardim e voltei a sair. Quase imediatamente me encontrei com a senhorita Zakhari, que estava muito alterada. -Tomou ar e exalou devagar—. Me disse que tinham matado com um tiro a um homem no jardim. Perguntei-lhe se o conhecia e se sabia o que tinha ocorrido. Disse-me que era o tenente Lovat, a quem tinha tratado levianamente na Alexandria fazia vários anos. Era admirador seu então... -titubeou uns instantes escolhendo as palavras, depois continuou, confiando em que Pitt o interpretasse a sua maneira— e agora desejava reatar a amizade.

Ela se tinha negado, mas ele não quis conformar-se com um não.

Pitt adotou um tom neutro.

—Entendo, E o que fez você?

—Pedi-lhe que me levasse junto a ele e a segui até onde Lovat jazia no chão, meio escondido sob os louros. Pensei que talvez não estivesse morto. Confiei em que ela o tivesse encontrado inconsciente e talvez tivesse tirado precipitadamente essa conclusão. Mas quando me ajoelhei para examiná-lo, fez-se evidente que ela tinha razão. Tinham-lhe disparado a queima roupa no peito, não havia nenhuma dúvida de que estava morto.

—Viu a arma?

Ryerson não desviou o olhar, mas claramente lhe supunha um esforço responder.

—Sim. Estava a seu lado no chão. Era a arma da Ayesha. Soube imediatamente, porque a tinha visto antes. Sabia que ela a tinha, para proteger-se.

—Contra quem?

—Não sei. Perguntei-lhe, mas não me quis dizer.

—Pôde ter tido medo do tenente Lovat? -observou Pitt—. Tinha-a ameaçado?

Ryerson tinha o rosto tenso e o olhar abatido. Titubeou antes de responder.

—Acredito que não - disse por fim.

—Perguntou-lhe o que tinha acontecido?

—É claro! Disse que não sabia. Ouviu os tios e se deu conta de que tinham sido muito perto.

Estava no andar de cima, esperando desperta e completamente vestida. Desceu para ver o que tinha ocorrido, se por acaso havia alguém ferido, e achou Lovat deitado no chão com a arma a seu lado.

Era uma história tão estranha que ao Pitt era quase impossível acreditar, e, entretanto, enquanto olhava ao Ryerson, teve a certeza de que este acreditava, ou era o melhor ator que jamais tinha conhecido. Falava com clareza, sereno, sem dramatismos.

Havia nele uma franqueza que se era artificiosa, parecia admirável. Confundiu ao Pitt e o deixou em uma situação incômoda, absolutamente desconcertado.

—Então você viu o homem morto - recapitulou Pitt—. E sabia pela senhorita Zakhari quem era. Tinha alguma idéia ela de que fazia ele aí ou de quem lhe tinha disparado?

—Não - respondeu Ryerson imediatamente—. Supunha que tinha ido vê-la, mas isso era o mais claro. Não podia haver outra explicação. Perguntei-lhe se sabia o que tinha ocorrido e me disse que não. —Falava de modo terminante e com uma convicção que ia contra toda lógica.

—Não o havia convidado nem lhe tinha dado motivos para acreditar que seria bem recebido? -pressionou Pitt, sem saber que tom adotar.

Irritava-lhe mostrar-se diferente; a situação era absurda e, entretanto, seu instinto o fazia acreditar no ministro, inclusive compadecer dele em certo modo.

Ryerson apertou os lábios.

—Dificilmente ia convidá-lo à mesma hora que me esperava, senhor Pitt. É uma mulher muito inteligente.

Não havia tempo para cumprimentos.

—Sabe-se de mulheres que as engenham para que os amantes sintam ciúmes, senhor Ryerson - respondeu Pitt, e viu o Ryerson fazer uma careta—. É uma tática muito antiga e pode dar bons resultados - continuou—. Naturalmente, a você o negaria.

—É possível - disse Ryerson secamente, mas em sua voz não havia cólera, mas resignação—. Mas se você a conhecesse, não lhe passaria pela cabeça essa possibilidade.

Seria absurdo, não só por seu caráter, mas também porque, se fosse esse seu propósito, porquê demônios teria atirado nele?

Pitt tinha que admitir que isso carecia de sentido, até tendo em conta o temperamento, a paixão ou um possível acidente.

Se Ayesha Zakhari era bastante lúcida para ter concebido de antemão tal plano, era muito inteligente para haver-se comportado depois de forma tão insensata.

—Poderia havê-la ameaçado Lovat de algum modo?

—Não o convidou a entrar, senhor Pitt - respondeu Ryerson—. Não se se houver alguma forma de demonstrá—lo, mas ele não entrou na casa.

—Mas ela estava fora - observou Pitt—. No jardim não teria podido defender-se muito.

—Está insinuando que levou consigo sua pistola? —Nos lábios do Ryerson se desenhou um esboço de sorriso. —Parece uma forma excelente de defender-se. E se disparou porque ele a ameaçou ou inclusive a atacou, então seria um ato de defesa própria e não um assassinato. -Logo o brilho de seus olhos se apagou—. Mas não é isso o que ocorreu. Ela saiu pouco depois de ouvir o disparo e o achou já morto.

—Como sabe? -limitou-se a perguntar Pitt.

Ryerson suspirou e crispou o rosto de forma tão imperceptível que não lhe alteraram as feições, só desapareceu todo vestígio de animação.

—Não sei —murmurou—. Isso é o que me disse ela e a conheço imensamente melhor que você, senhor Pitt. —Havia tanta tristeza em suas palavras e uma emoção tão intensa que Pitt se sentiu envergonhado. Tinha a sensação de intrometer-se e, entretanto, não ficava mais remédio que estar ali—. Possui uma honestidade interior que irradia dela como uma luz - continuou Ryerson—. Não se rebaixaria a mentir, nem em seu próprio benefício, já que se sentiria mal consigo mesma, nem por ninguém.

Pitt o olhou fixamente. Ryerson estava preocupado; no fundo de seus olhos havia inclusive um vislumbre de medo autêntico, firmemente controlado, mas não era por ele por quem temia.

Pitt nunca tinha visto a mulher egípcia. Tinha imaginado-a formosa e sensual, uma mulher que satisfaria um apetite enfastiado, que adularia e se renderia, que incitaria, mas só para seus próprios fins.

Seria a amante de um homem com dinheiro e poder, dos que se casam só para cumprir suas ambições políticas ou ter descendência, mas que procuram resolver suas necessidades físicas em outra parte.

Um homem assim não pretenderia amor ou honra, nem sequer pensaria nisso. E contaria pagando por seus prazeres.

De repente, lhe ocorreu com surpreendente força que talvez estivesse equivocado. Cabia pensar que Ryerson amava sua amante e não só a desejava? Era uma perspectiva nova e alterou por completo sua idéia da situação.

Convertia ao Ryerson em um homem melhor, mas também mais perigoso. A tarefa que lhe tinha encomendado Narraway, e, portanto o primeiro-ministro, era protegê-lo para que não se visse comprometido no caso.

Se Ryerson atuava por amor, e não por interesse próprio, seria muito mais difícil prever seus atos e impossível controlá-los. Em sua mente se desdobrou todo um leque de perigos.

—Sim - respondeu por fim. Não lhe dava razão, limitava-se a fazê-lo saber que o compreendia—. A senhorita Zakhari lhe disse que tinha ouvido os disparos. Disse quantos?

—Só um - o corrigiu Ryerson.

Pitt assentiu.

—Foi ver o que acontecia, e achou ao Lovat morto no chão perto dos loureiros. O que se passou então?

—Perguntei-lhe se sabia o que podia ter ocorrido - respondeu Ryerson—. Me disse que não tinha nem idéia, mas que Lovat lhe tinha enviado cartas nas quais insistia em reatar sua aventura amorosa e ela se negara, quase sem rodeios.

Ele não tinha querido conformar-se com um não, que era pelo que estava ali.

—Às três da manhã? -perguntou Pitt com incredulidade.

Pela primeira vez Ryerson deu mostras de cólera.

—Não tenho nem idéia, senhor Pitt! Estou de acordo em que é absurdo, mas é indisputável que ele estava ali! Posto que está morto e, que nós saibamos, ninguém falou com ele, não me ocorre como averiguar o que se propunha.

Pitt foi consciente de repente do poder desse homem, a viva inteligência e a força de vontade que o tinham levado ao topo de sua profissão e o tinham mantido ali durante quase duas décadas.

Sua vulnerabilidade com respeito à Ayesha Zakhari, e o fato de que se visse comprometido de algum modo em um assassinato e corresse, portanto, um perigo pessoal lhe tinha feito esquecê-lo por um instante.

Quando voltou a falar foi com um novo respeito, embora não fosse intencional.

—O que fez então, senhor?

Ryerson se ruborizou.

—Disse-lhe que devíamos transladar o cadáver quando soube que era sua pistola.

—Foi sua idéia mover o cadáver do senhor Lovat?

O rosto do Ryerson se endureceu um pouco mais, alterando os músculos das faces e a mandíbula.

—Sim.

Pitt se perguntou se tratava de proteger à mulher, mas não tinha nenhuma dúvida de que se fosse mentira, Ryerson não se retrataria.

Comprometeu-se e não parecia próprio dele voltar atrás, fosse por orgulho ou por honra, ou simplesmente porque o que contava era a verdade.

—Ok. Quem foi procurar o carrinho de mão, você ou ela?

Ryerson hesitou.

—Ela. Sabia onde estava.

—E o levou até onde estava o cadáver.

—Sim, e a arma. Ajudei-a à carregá-lo no carrinho de mão.

Pesava muito e era extremamente desajeitado. Parecia de trapo e não parava de escapulir-se nos das mãos.

—Você segurou a cabeça ou os pés ? - Pitt já sabia a resposta, mas lhe interessava comprovar se Ryerson dizia a verdade.

—A cabeça, é claro - disse Ryerson um pouco cortante—. Pesava mais e as feridas estavam no peito, de modo que era por aí por onde sangrava. Com certeza sabe.

Pitt se irritou consigo mesmo ao descobrir-se envergonhado, e lamentou ter feito essa pergunta.

—Carregaram-no no carrinho de mão, e o que se propunham fazer com ele? -continuou.

—Levá-lo ao Hyde Park - respondeu Ryerson—. Está a menos de cem metros de distância.

—No carrinho de mão? -perguntou Pitt surpreso.

O rosto do Ryerson deixou transparecer seu mau humor.

—Não, é claro que não! Não podíamos levar um cadáver pela rua em um carrinho de mão, nem sequer às três da madrugada! Eu tinha ido enganchar o cavalo a calesa e Ayesha se dispunha a levar o carrinho de mão às cavalariças.

Então chegou a polícia. Mal ouvi as vozes retornei. O sangue do Lovat não se via em meu traje escuro, de modo que o agente supôs que acabava de chegar.

Para me proteger, Ayesha confirmou imediatamente essa idéia. Eu estive a ponto de desmenti-lo, mas vi que tinha mais sentido permanecer à margem para fazer todo o possível para ajudá—la.

De novo Pitt se surpreendeu. De qualquer outro homem teria posto em tecido de julgamento semelhante afirmação, mas do Ryerson a aceitou.

Não tinha tentado nenhuma só vez negar sua presença ou sua participação, e tinha que saber que tentar levar um cadáver do lugar do crime era em si mesmo um delito.

—E o que pensa fazer para ajudá-la? -inquiriu Pitt sem piscar.

De repente, os olhos do Ryerson refletiram desespero e o terror se apoderou dele por um instante, fazendo que perdesse o controle.

—Tratar de averiguar que demônios se passou em realidade! - disse com voz áspera—.Quem o matou e por que? Por que em Eden Lodge e por que no meio da noite? Estendeu ligeiramente as mãos, fortes, mas elegantes para um homem tão corpulento—. Que fazia ali? Seguiu-o alguém? Reuniu-se com alguém ali? Para que? Isto não tem nenhum sentido.

Não se senta com ninguém no jardim de outra pessoa no meio da noite para brigar! -Olhava fixamente ao Pitt, desejando com toda sua alma que acreditasse—. Ayesha não lhe teria aberto a porta. Propunha-se entrar pela força? Ou montar uma cena e despertar aos vizinhos? -Estava pálido—. Sei que não foi ela quem o matou, mas não me ocorre nenhuma resposta plausível sobre o que pode ocorrer. -Nem sequer tentou dissimular seus sentimentos.

Narraway havia dito ao Pitt que fizesse todo o humanamente possível para manter ao Ryerson à margem.

Tendo em conta o que sentia Ryerson, talvez a única maneira de fazê-lo era averiguar a verdade, com a esperança de que se demonstrasse que Ayesha Zakhari era menos culpada do que parecia agora.

—Tentarei averiguá-lo - respondeu Pitt—. Mas será necessária certa cooperação de sua parte, senhor.

—Se estiver em minha mão cooperar -respondeu Ryerson. Não estava tão desesperado para fazer o jogo a ninguém com uma promessa que depois não pudesse cumprir.

A isso Pitt pareceu vagamente reconfortante. Ao menos ficava um pouco de discernimento e equilíbrio—. Mas não permitirei que responsabilize a ela de meus atos, nem jurarei em falso para proteger minha reputação. Isso me faria um triste serviço, e o senhor Gladstone sabe. Um homem que mente em interesse próprio acaba mentindo por algo.

—Sim, senhor - concordou Pitt—. Não tenho intenção de lhe pedir que minta, mas sim que me conte tudo o que sabe e que guarde para si que esteve no Eden Lodge a não ser que se faça inevitável declarar ante a polícia. Mas acredito que se absterão de lhe interrogar todo o tempo que possam.

Ryerson lhe dirigiu um sorriso agridoce.

—Imagino - assentiu—. O que lhe pedira Victor Narraway que faça, senhor Pitt?

Na expressão do Ryerson houve uma mudança tão imperceptível que Pitt não teria podido descrevê-lo, mas sabia sem sombra de dúvida que era o reflexo de uma tortura íntima.

—Que averigue a verdade - respondeu com uma ligeira careta, sabendo que adotara uma tarefa inabarcável, e talvez impossível, e que embora tivesse êxito, provavelmente seu descobrimento seria algo aborrecível.

Ryerson não respondeu. Limitou-se a levantar-se para lhe acompanhar pessoalmente à porta, tirando os serviços do lacaio que esperava.

Pitt passou o resto da manhã e as primeiras horas da tarde em localizar ao oficial médico da polícia, McDade, e conseguir que lhe prestasse atenção.

Era um homem corpulento, de costas largas e com uma papada fofa até o pescoço que não lhe tirava distinção.

Levava um avental amarrado ao redor de seu volumoso talhe e tinha as mãos avermelhadas de tanto lavar-se certamente para desfazer-se dos vestígios de sua tarefa, por não falar do aroma de fenol e vinagre. Saudou o Pitt com irritado bom humor.

—Acreditava me ter livrado de você quando se foi do Bowl Street - comentou McDade com uma voz singularmente atraente.

Era seu único atributo físico agradável, à exceção do cabelo, espesso e encaracolado, e tão limpo que brilhava à luz dos lampiões de gás de seu escritório. Arqueou ás sobrancelhas —. O que quer agora? Não conheço nenhum terrorista ou anarquista.

Minha ignorância em tais matérias me é muito valiosa e tenho intenção de conservá-la até que morra de velho, sentado ao sol no banco de algum parque. Não posso ajudá-lo, mas se se empenha o tentarei.

—O tenente Edwin Lovat - respondeu Pitt.

McDade lhe agradava e não tinha nada mais agradável ou mais útil que fazer que lhe tirar informação a conta-gotas.

—Morto - se limitou a dizer McDade—. Um tiro no peito, no coração, em realidade. Disparado com uma arma pequena, a queima roupa. Muito limpo.

—Requeria-se muita habilidade para fazê-lo? -inquiriu Pitt.

—Só para um cego com um alvo em movimento! -McDade olhou de esguelha ao Pitt—. Não viu o cadáver. -Era uma afirmação, não uma pergunta.

—Ainda não - reconheceu Pitt—. Deveria vê-lo?

McDade encolheu seus enormes ombros e a papada lhe tremeu.

—Não a menos que precise saber que aspecto tinha, que é muito semelhante ao de qualquer outro soldado inglês de constituição robusta que levava um estilo de vida folgado, desfrutava de boas comidas e ultimamente fazia pouco exercício. Em dez anos seria um homem gordo, assim que os músculos perdessem elasticidade.

—Adotou uma expressão triste—.Diria que de aparência agradável, quando estava vivo. Feições atraentes, bom cabelo e todos os dentes, o que não está mal em seus quarenta e tantos anos.

A verdade é que se aprecia a alguém por sua inteligência e seu senso de humor, qualidades difíceis de detectar quando só o viu morto.

Com um vislumbre de acanhamento, o médico desviou o olhar de Pitt. Desculpava-se por seu aspecto físico e seu sobrepeso, defendendo-se das críticas mesmo que ninguém tivesse dito nada?

—Exato - concordou Pitt.

Ele tampouco se considerara nunca de aparência agradável. Sorriu.

McDade viu que sorria e ficou avermelhado.

—Bom, que mais quer? -perguntou, voltando—. Deram-lhe um tiro! No coração. Não tenho nem idéia de se foi sorte ou perícia. Morreu no ato, não pôde ser de outro modo!

—Obrigado. Suponho que não pode me dizer nada mais.

—Como o que? —A voz do McDade se ergueu com incredulidade—. Que lhe disparou um homem canhoto, estrábico e coxo? Não, não posso! Disparou a queima roupa alguém que era capaz de segurar a arma com firmeza e ver o que fazia. Serve-lhe isso de ajuda?

—Não. Obrigado pelo tempo que me dedicou. Permite-me ver o cadáver?

McDade agitou um braço curto e grosso assinalando a sala geral do outro lado da porta.

—Está em sua casa. Encontrará-o na terceira mesa. Mas não terá problemas em reconhecê-lo, já que os outros dois cadáveres são de mulheres.

Pitt se absteve de comentar algo e se encaminhou aonde lhe tinham indicado.

Examinou o corpo sem vida de Edwin Lovat, esperando fazer uma idéia do homem que tinha sido antes de morrer. Estudou as feições como cera, um pouco mais afundadas por causa da rigidez, e tratou de imaginá-lo vivo, rindo e falando, cheio de sentimentos.

Sem movimento, nem som, nem os pensamentos ou as paixões que o tinham feito único, seu exame não contribuiu nada que não lhe houvesse dito já McDade.

Uma mulher magra não teria podido mover o cadáver. Se tivesse percebido o perigo, com certeza não teria permanecido tão perto de quem quer que seja que atirou nele, o que significava que, ou era um amigo, ou não o viu até que se produziu o disparo.

Ambas as possibilidades se ajustavam aos fatos e não havia forma de saber qual delas era a correta. Em qualquer caso, com certeza era irrelevante. Tinha-o matado a mulher.

A única esperança que tinha Pitt para salvar ao Ryerson era averiguar alguma razão atenuante que explicasse o porquê.

Passou o resto da tarde indagando todo o possível sobre o Ryerson: suas responsabilidades atuais, relacionadas fundamentalmente com o comércio tão dentro como fora do império; e o distrito eleitoral que representava em Manchester, no coração da indústria do algodão.

Era a segunda maior cidade da Grã-Bretanha e também a cidade natal do primeiro-ministro, o senhor Gladstone.

Pitt voltou para o Keppel Street a tempo para o jantar.

—Pode fazer algo para ajudar? -perguntou-lhe Charlotte, levantando a vista de seu trabalho de costura quando se sentaram depois no salão.

—Ajudar a quem? -disse Pitt—. Ao Ryerson?

—Sim claro, ao Ryerson.

Ela continou costurando; a luz se refletia nas agulhas como um raio prateado e se ouvia um débil som metálico ao se chocar contra o dedal.

Lhe parecia um som singularmente agradável; parecia representar tudo que era delicado e familiar, e infundir uma sensação de segurança. Não tinha nem idéia de que roupa remendava sua esposa, mas era de algodão recém lavado e o suave aroma que desprendia chegava até ele.

—Pode? -insistiu Charlotte.

—Não sei - reconheceu ele, sentindo-se afligido pela responsabilidade, como se a sala se tornara de repente mais escura—. Não estou certo se está disposto a ajudar-se a si mesmo.

Ela o olhou fixamente, com a agulha imóvel na mão e uma expressão desconcertada.

—O que quer dizer? Está me dando a entender que é culpado?

—Diz que não é - respondeu Pitt—. E eu me inclino a acreditar nele. —Recordou a expressão no rosto do Ryerson enquanto defendia Ayesha Zakhari e voltou a ouvir sua voz embargada pela emoção—. Ao menos isso acredito - acrescentou—. Está disposto a admitir que esteve ali e que a ajudou a carregar o cadáver de Lovat no carrinho de mão com a intenção de levá-lo ao Hyde Park.

—Então é cúmplice! -exclamou Charlotte assombrada—. Pretendeu encobrir o assassinato.

—Sim, sei -respondeu ele.

—E o primeiro-ministro quer protegê-lo? -perguntou ela, resistindo à idéia.

Ele a olhou. A expressão de Charlotte traduzia muitas emoções para que ele estivesse seguro de qual era a que prevalecia: incredulidade, cólera, horror, inquietação.

—Não tenho certeza - disse Pitt com sinceridade—. Não sei o que é pior.

Charlotte estava confundida.

—O que quer dizer? Isso não faria cair ao governo, não quando faz tão pouco tempo desde as eleições. Ryerson teria que demitir-se de seu cargo, isso é tudo.

E se ajudou a sua amante a assassinar a um ex-amante, deveria fazê-lo.

—Os operários das fábricas de algodão do Manchester estão ameaçando declarar-se em greve - indicou Pitt—. É o território do Ryerson, seu distrito eleitoral.

Possivelmente é o único que tem alguma possibilidade de resolver o conflito e evitar que se arruínem sabe Deus quantas pessoas, tanto os operários como os donos das fábricas, assim como os lojistas, os homens de negócios e os artesãos das cidades próximas.

—Entendo - disse Charlotte muito séria—. O que pode fazer você? Não pode ocultar que ele está comprometido, não? Faria-o?

Tinha deixado a costura e lhe prestava toda sua atenção, com um olhar sem brilho e preocupado.

—Não acredito que se dê o caso - respondeu Pitt, desejando profundamente que fosse verdade—. A embaixada do Egito sabe que ele esteve ali.

Charlotte arqueou as sobrancelhas, muito assombrada.

—Como sabem? Disse ela?

—Parece que não. Não teve oportunidade. Mas é uma pergunta muito interessante. Parecia disposta a protegê-lo quando a detiveram.

Comportou-se como se se surpreendesse de vê-lo e ele acabasse de chegar, embora Ryerson diz que estava ali há vários minutos pelo menos, e foi ele quem levantou em realidade a parte mais pesada do cadáver para carregá-lo no carrinho de mão.

É evidente que alguém a ajudou. Lovat pesava muito para que ela o fizesse sozinha, e em seu vestido não havia rastro de sangue.

—Precisa saber muito mais sobre ele - observou Charlotte com um olhar sombrio de preocupação—. Não refiro ao que todo mundo sabe, mas a algo pessoal.

Precisa saber se pode confiar nele. Pensou em falar com a tia Vespasia? Se não o conhecer pessoalmente, saberá de alguém que tenha relação com ele.

Charlotte se referia a Lady Vespasia Cumming Gould, em realidade a tia avó política de sua irmã Emily, mas tanto Charlotte como Pitt lhe tinham tomado tanto afeto que a tratavam como se de verdade fossem parentes.

—Irei vê-la o quanto antes possível - assentiu Pitt imediatamente. Dirigiu um olhar ao relógio que havia na cornija da lareira. — Acha que é muito tarde para chamá-la e lhe perguntar se for bem amanhã pela manhã? —Já se estava levantando.

Charlotte sorriu.

—Se lhe disser que é algo relacionado com um crime que está investigando e com a possibilidade de um escândalo governamental, imagino que o receberá ao amanhecer se quer -respondeu.

Charlotte não andava muito desencaminhada; entretanto, Pitt tinha tomado o café da manhã primeiro e tinha dado uma olhada aos jornais antes de sair.

Era 16 de setembro e todas as manchetes anunciavam a visita do senhor Gladstone ao Gales, onde aparentemente tinha chegado a algum acordo sobre a separação entre Igreja e Estado nesse país.

Do mesmo modo, os jornais se estendiam sobre os brotos de cólera em Paris e Hamburgo e, quanto a temas menos sérios, sobre o fato de que o busto recém terminado da rainha Vitória, esculpido pela princesa Luisa, permanecesse na Osbome House até que o enviassem a Chicago para expô-lo ali.

Por volta das nove Pitt estava no salão luminoso, amplo e muito georgiano da Vespasia, com suas janelas que se abriam sobre o jardim.

A simplicidade do mobiliário, que não seguia as modas modernas pelo recarregado de finais dos anos sessenta, recordou-lhe que a anciã tinha nascido em outros tempos e sua memória se remontava à época anterior à rainha Vitória. De menina, tinha conhecido o medo com a invasão do imperador Napoleão.

Vespasia estava sentada em sua poltrona predileta e o olhava com interesse. Continuava sendo uma mulher de singular beleza, e não tinha perdido o engenho nem o estilo que ao longo de três gerações tinham deslumbrado à alta sociedade.

Essa manhã ia vestida de cinza pomba e seu colar de pérolas favorito brilhava fracamente sobre o peito.

—Bem, Thomas - disse com suas sobrancelhas prateadas ligeiramente arqueadas—. Se quiser que o ajude, será melhor que me diga o que quer saber.

Não conheço a desafortunada jovem egípcia que ao que parece matou com um tiro o tenente Lovat. Diria que é uma forma pouco civilizada e ineficaz de livrar-se de um amante pouco grato.

Em geral basta um firme desprezo, mas se não for suficiente, continua havendo maneiras menos drásticas de obter o mesmo fim.

Uma mulher inteligente pode conseguir que seus amantes se desfaçam uns de outros sem transgredir a lei.

Olhou-o com seriedade, mas em seus olhos cinza prateado havia ironia, e por um instante ele se atreveu a imaginar que não era só uma opinião, mas sim falava por experiência.

—E como se assegura de que seu amante não transgredirá a lei? -perguntou Pitt educadamente.

—Ah! -exclamou Vespasia compreendendo imediatamente—. Isso é o que ocorreu?Quem é o amante que se comportou de forma tão estúpida e incontrolável? Suponho que não foi em defesa própria. -Em seu rosto se traduziu preocupação—. Para isso veio ver-me, Thomas, para falar em nome do amante?

—Sim, temo que assim é. Se não para falar em seu nome, sim para defender seus interesses.

—Entendo. De modo que ela não estava sozinha e ele é uma pessoa a quem Victor Narraway quer proteger. De quem estamos falando?

—Do Saville Ryerson.

Vespasia ficou completamente imóvel, olhando-o com uma expressão fixa e inclusive triste.

—Conhece-o? -perguntou ele com suavidade.

—É claro - respondeu ela—. O conheço desde que mataram sua mulher faz vinte anos, pelo menos. De fato, receio que faz mais, talvez vinte e cinco.

Pitt sentiu uma opressão em seu interior. Estudou o rosto da Vespasia e tratou de vislumbrar até que ponto ia doer lhe que Ryerson fosse culpado.

O que lhe importaria mais, que perdesse o prestígio político ou que tivesse sido bastante imprudente para permitir que uma aventura amorosa sem transcendência com uma mulher de diferente raça e religião e leal a outro país dominasse suas paixões até o ponto de ser cúmplice em um assassinato? Pode-se ter relação com alguém durante anos e conhecer só o que essa pessoa quer mostrar de si mesma. Em seu interior pode haver intensas motivações que nem sequer se suspeitam.

—Sinto -disse ele com sinceridade. Tinha acudido a Vespasia para lhe pedir ajuda, sem parar para pensar que a verdade podia lhe ser dolorosa. Envergonhou-se de havê-lo dado por assentado—. Preciso saber mais dele do que se diz por aí - explicou.

—É claro - concordou ela com aspereza—. Posso lhe perguntar que suspeitas tem dele? Sem dúvida, não pensará que seja o assassino.

—Não acredito capaz de matar, nem sequer para proteger sua reputação?

—Está me respondendo com evasivas, Thomas! -recriminou-lhe Vespasia, mas lhe tremia ligeiramente a voz—. É essa sua forma de me dar a entender que você acredita nisso?

— Não - se apressou a dizer Pitt, ainda mais aflito pelos remorsos—. Falei com ele e fiquei confundido. Quero fazer uma idéia mais clara do Ryerson sem te predispor falando muito.

—Não sou uma criada a que lhe influi facilmente - replicou ela com desdém mal dissimulado.

Depois, ao ver que ele se ruborizava, sorriu com o encanto que tinha empregado toda sua vida para derrotar aos homens, e de vez em quando também às mulheres—. Não acredito nem por um momento que Saville Ryerson assassinasse a alguém para proteger sua reputação - acrescentou com convicção—. Mas não me é impossível acreditar que o fizesse para defender sua vida ou a de outra pessoa, ou por uma causa que ele considerasse suficientemente importante.

O que ponho seriamente em dúvida é que tenha relação com as greves das fábricas de algodão do Manchester.

Que outras questões há em jogo?

—Nenhuma, que eu saiba - respondeu ele, e a opressão que sentia no peito diminuiu com a calidez dela—. E não sei de nenhum motivo real pelo que Lovat tivesse podido supor uma ameaça para a senhorita Zakhari.

—Pode havê-la agredido ou tentado abusar dela? Nesse caso, não seria estranho que ela o tivesse rechaçado - observou Vespasia com o sobrecenho franzido.

—Às três da madrugada no jardim traseiro? -disse ele secamente.

Vespasia adotou uma expressão cômica.

—Oh, dificilmente - concordou —. Duas pessoas não se reúnem nessas circunstâncias a menos que se trate de uma entrevista secreta. -De repente voltou a ficar séria—. E ninguém leva uma pistola inocentemente. Suponho que a pistola era dela. - A esperança de que Pitt a tirasse de seu engano apenas lhe durou um instante—.

Reconheço que só tenho lido as manchetes. Não me pareceu que a notícia me concernisse.

—Sim - disse Pitt—. A pistola era dela, mas disse que a tinha encontrado ali. Segundo sua versão ouviu o disparo e saiu. Já estava morto quando se aproximou dele.

—E o que diz Saville Ryerson? -quis saber Vespasia.

—Que Lovat estava morto quando ele chegou à casa -respondeu Pitt—. E ajudou a carregar o cadáver em um carrinho de mão, para levá-lo ao Hyde Park e abandoná-lo ali.

A polícia recebeu uma chamada, não sabemos de quem, e chegou a tempo para surpreendê-la com o cadáver. Ryerson tinha ido às cavalariças para enganchar um cavalo a calesa.

Vespasia suspirou, com uma expressão preocupada.

—Meu deus. Suponho que as provas o confirmam.

A anciã imaginava a resposta a essa questão.

—Até agora sim. É evidente que alguém carregou o cadáver por ela. -Pitt a olhou tentando lhe ler o pensamento—. Não custa acreditar?

Vespasia desviou o olhar.

—Não. Talvez seja melhor que lhe explique isso desde o começo.

—Por favor.

Pitt se recostou ligeiramente na cadeira, sem deixar de observá—la.

—Os Ryerson eram da alta burguesia -começou a contar ela em voz baixa, absorta em suas lembranças—. Mal mantinham vínculos com a aristocracia, mas possuíam muito dinheiro.

Eram duas ou três irmãs, acredito, e Saville era o único varão. Recebeu uma boa educação no Eton e depois em Cambridge, e esteve um tempo no exército.

Distinguiu-se, mas não quis fazer carreira. Por volta de mil oitocentos e sessenta se apresentou para o Parlamento e ganhou com uma margem ampla. - O pesar transpareceu de forma tão imperceptível em sua voz que Pitt mal o percebeu—. Fez umas boas bodas - continuou Vespasia—. Não acredito que fosse um matrimônio por amor, mas tinham uma relação bastante amistosa, que é o que a maioria das pessoas esperam.

Atrás das janelas, no jardim um pássaro saltava pela grama e as rosas tardias brilhavam em intensos vermelhos e âmbares.

—Algum tempo depois, a mataram - prosseguiu Vespasia, sobressaltando ao Pitt que proferiu um grito abafado e tossiu.

Ela o olhou com um sorriso irônico.

—Não a assassinaram, Thomas. Foi um acidente. Suponho que se ocorresse agora poderiam encarregá-lo a investigação, mas duvido que descobrisse algo mais do que averiguaram então. —Permaneceu muito quieta enquanto seguia seu relato—Estava de férias na Irlanda. Foi durante um desses distúrbios que ocorrem periodicamente nesse país, e ela se viu apanhada no fogo cruzado.

Estavam-se matando a tiros, assim pode dizer-se que foi um crime. Trata-se de uma emboscada dirigida a vítimas políticas, foi uma casualidade que Libby Ryerson se cruzasse justo nesse momento em seu caminho.

Pitt o sentiu muitíssimo pelo Ryerson, Era uma maneira dura de perder a alguém.

—Onde estava ele?

—Em Londres.

—Que fazia ela na Irlanda?

—Tinha muitas amigas anglo-irlandesas. Era uma mulher bonita e ansiosa de experiências… de viver aventuras.

Pitt não tinha certeza do que ela queria dizer com isso e não sabia se perguntava. Parecia-lhe uma indiscrição, não só para com a defunta, mas também com Vespasia, que dava a impressão de entender as motivações da senhora Ryerson.

—Tinham filhos? -limitou-se a dizer.

—Não - respondeu ela com tom de tristeza—. Só estavam casados há dois ou três anos.

—E ele alguma vez voltou a casar-se?

—Não. - Sustentou-lhe o olhar com franqueza—. E antes que me pergunte porque, direi-lhe que não sei. Sem dúvida teve amantes de sobra e muitas mulheres que o teriam aceito. -Um vislumbre de sorriso curvou seus lábios—. Se está procurando algum segredo escuro em sua vida pessoal, não acredito que o encontre, não nesse terreno, ao menos, E não sei de nenhum outro escândalo, econômico ou político.

Pitt refletiu antes de fazer a seguinte pergunta, mas enquanto a formulava mentalmente, deu-se conta de que era a que tinha impulsionado a todas as demais e a que mais pesava sobre ele.

—Sabe de algo que o relacione com o Victor Narraway, profissional ou pessoalmente?

Vespasia abriu ligeiramente os olhos.

—Não. Acha que há algo que os vincule?

—Não sei. -Não mentia. Não sabia de uma forma racional, mas estava completamente seguro de que ao Narraway invadia uma intensa e profunda emoção quando pensava no Ryerson.

Tinha enviado a ele para falar com Ryerson em lugar de ir pessoalmente por alguma razão tão poderosa que ofuscava o entendimento.

Pitt o tinha compreendido depois de receber o encargo—. Tenho essa impressão - acrescentou por fim.

Vespasia se inclinou um pouco para ele, embora sem mal variar a postura erguida.

—Tome cuidado, Thomas. Saville Ryerson é uma pessoa inteligente e de profundas convicções políticas, mas acima de tudo é um homem sensível.

Trabalhou duro por defender suas idéias e pela pessoas a que representa. Não regulou nem tempo nem meios para obter o melhor para Manchester e grande parte do norte da Inglaterra, e o fez ele só, e muito freqüentemente sem que nem sequer lhe agradecessem. -Vespasia levantou muito ligeiramente seus magros ombros—. A gente do Lancashire é leal, mas têm um caráter forte e não gosta muito das decisões que se tomam em Londres. Nem sempre lhe compreenderam.

Sua inteligência lhe granjeou inimigos no Westminster, jovens ambiciosos que querem acabar com ele e ocupar seu cargo. Assegure-se muito bem antes de fazer alguma acusação contra ele. Isso arruinaria sua carreira, e não poderá emendá-lo retirando as acusações depois.

—Estou tratando de salvá—lo, tia Vespasia! -respondeu Pitt com veemência—. E não sei como fazê-lo!

Lhe deu as costas e ficou olhando o espelho de moldura dourada da parede do rondo, o cristal biselado onde se refletiam as folhas dos abedules que se sacudiam na ligeira brisa do exterior.

—Talvez não possa - replicou ela com um tom tão fraco que Pitt mal entendia o que dizia—.

Pode ser que ame o bastante a essa mulher egípcia para ter sido sua cúmplice no assassinato. Faça o que tenha que fazer, Thomas, mas, por favor, faça-o com toda a delicadeza possível.

—Assim o farei - prometeu ele, perguntando-se como demônios ia consegui-lo.

 

Quando terminou suas tarefas na casa, Gracie saiu para fazer os recados da manhã. Era um dia ensolarado e de temperatura suave sem vento, e desfrutou do passeio apesar de suas botas novas.

Estas eram excelentes, com botões negros e saltos que pela primeira vez em sua vida a faziam parecer mais alta de metro e meio.

Caminhou com passo vivo pelo Keppel Street e Store Street até o Tottenham Court Road, onde se deteve na peixaria e selecionou uns arenques de aspecto suculento, formosos e grossos, de uma intensa cor defumada.

Não confiava no menino que os trazia em um carrinho de mão; tendia a exagerar sobre quão frescos eram.

Acabava de sair de novo à rua quando viu sua amiga Pontua Garvie, que servia em uma casa do Torrington Square.

Pontua era uma jovem de aparência agradável, uns centímetros mais alta que Gracie e bastante mais roliça, embora isso não lhe tirasse atrativo a sua esbelta figura. Em geral irradiava uma alegria que a convertia em uma companhia agradável.

Entretanto, nesse dia, passou diante da vendedora de flores sem que nem sequer reparasse em sua presença. Seu rosto revelava uma intensa preocupação e parecia olhar a seu redor absorta, como se não visse realmente nada.

—Pontua! - chamou Gracie.

Pontua se deteve e se voltou para Gracie, e sua expressão se iluminou de alívio. Quase tropeçou com uma mulher corpulenta que segurava uma cesta de compra contra o quadril enquanto com a outra mão arrastava um menino claramente em plena manha.

—Gracie! -exclamou Pontua sem fôlego, evitando por muito pouco que a mulher a levasse por diante e sem incomodar-se em desculpar-se por lhe haver cortado o passo—. Quanto me alegro de vê-la!

—O que acontece? -perguntou Gracie, enquanto conduzia Pontua para o centro da rua para tirá-la do meio—. Tem cara de ter perdido algo. Caiu-lhe o moedeiro?

Foi o primeiro que lhe ocorreu. Tinha-lhe ocorrido uma vez e ainda se lembrava de quão horrível tinha sido. Tinha perdido quase seis xelins, o que gastavam em pão em toda uma semana.

Pontua sacudiu a cabeça tão levemente que mal podia interpretar-se como uma negação.

—Posso falar com você um momento, por favor, Gracie? Estou tão preocupada que não sei o que fazer. Esperava vê-la. Se for sincera, por isso vim aqui.

A preocupação de Gracie foi imediata. Vieram a sua mente todo tipo de possibilidades domésticas. A casa em que Pontua trabalhava era bastante grande e havia mais criados além de sua amiga.

Os problemas mais freqüentes eram as acusações de roubo ou as propostas desonestas por parte de algum criado. Gracie nunca tinha temido nenhuma das duas coisas, mas sabia muito bem que podiam ocorrer. Pior ainda, é claro, era que o senhor da casa fizesse tais propostas desonestas.

Tanto se as recusava como se as aceitava era cheio de perigos.

O de menos era que lhe surpreendessem e lhe despedissem sem referências. Podia ficar facilmente grávida! Ou que a senhora da casa a acusasse de todo tipo de maldades!

Brigar com outros criados, perder uma bagatela, fazer mal uma tarefa, quebrar um objeto decorativo favorito da senhora ou estragar um vestido com a prancha eram problemas tão simples em comparação que quase não contavam.

—O que se passou? -inquiriu Gracie com ansiedade—. Venha, temos tempo para tomar uma xícara de chá. Há um estabelecimento à volta da esquina. Vamos sentar-nos e me conta.

—Não tenho dinheiro para um chá. -Pontua ficou imóvel na calçada—. E acredito que engasgaria.

Gracie começou a dar-se conta de que, fosse o que fosse ocorrido, tratava-se de algo muito sério.

—Posso ajudá-la? -limitou-se a dizer—. A senhora Pitt é muito boa, e também muito esperta.

Pontua franziu o sobrecenho.

—Bom, era no senhor Pitt em quem estava pensando, se- quero dizer se - se interrompeu, pálida, lhe suplicando com o olhar.

—É um delito? - quis saber Gracie engolindo saliva.

Encheram-se os olhos de Pontua de lágrimas.

—Não sei, ainda não. De qualquer modo Oh, por favor. Deus, que não o seja!

Gracie a pegou pelo braço e quase a arrastou pela calçada para protegê-la das mulheres ocupadas que utilizavam as cestas quase como armas.

—Vai vir comigo para tomar um chá -ordenou—. Lhe assentará bem algo quente.

Depois poderá me explicar do que está falando. Vamos, move os pés ou cairá de bruços sobre o meio-fio, e isso não ajudará a ninguém.

Pontua fez um esforço por sorrir e apressou o passo para não ficar atrás.

Na cafeteria, Gracie se dirigiu à criada com muita firmeza, sem fazer caso das queixas desta sobre o cedo da hora, e a empregada se apressou a preparar o que lhe tinha pedido.

—Vamos - apressou Gracie quando ficaram sozinhas—. O que aconteceu?

—Trata-se do Martin - disse Pontua com voz rouca—, Meu irmão - acrescentou antes que Gracie o compreendesse—. Desapareceu. Não está em casa e não me disse nada.

E ele não faria uma coisa assim, porque só tem a mim. Nossos pais morreram de cólera quando eu tinha seis anos e Martin oito. Sempre cuidamos um do outro. É impossível que se foi sem me dizer nada.

Pontua piscou muito depressa, tentando conter as lágrimas sem obtê-lo. Escorregaram-lhe ao momento pelas faces e as secou com a manga sem dar-se conta do que fazia.

Gracie tratou de ser prática e se obrigou a pensar com clareza.

—Quando foi à última vez que o viu, Pontua?

—Faz três dias - respondeu sua amiga—. Era nosso dia livre. Compramos dois pedaços de bolo quente ao vendedor da esquina e passeamos pelo parque. Tocava uma banda.

Comentou-me que ia ao Seven Dials. Só ir e voltar, não pensava ficar lá.

A criada retornou com um bule e dois pão-doces quentes. Observou o rosto manchada de lágrimas de Pontua e pareceu a ponto de dizer algo, embora depois mudou de opinião.

Gracie agradeceu à criada e pagou, e deixou um par de pennies de gorjeta pelo trabalho.

A seguir serviu as duas xícaras e esperou que Pontua bebesse um gole da sua e comesse uma dentada do pão-doce com manteiga.

Tratou de ordenar seus pensamentos e comportar-se como achava que teria feito Pitt nessas circunstâncias.

—Com quem falou de seu trabalho? -perguntou—. Onde trabalha, por certo?

—Trabalha para o senhor Garrick - respondeu Pontua, ao mesmo tempo que deixava o pão-doce no prato—. No Torrington Square, junto ao Gordon Square. Não muito longe daqui.

—Com quem falou? -repetiu Gracie.

—Com o senhor Simms, o mordomo.

—O que disse ele exatamente?

—Que Martin se foi e que não podia me dizer aonde - respondeu Pontua, esquecendo do chá, com os olhos fixos em Gracie—. Pensou que saía com ele. Expliquei-lhe que era meu irmão, embora demorei horas a convencê-lo.

Mas Martin e eu nos parecemos, assim ao final me acreditou. -Sacudiu a cabeça—. Mas não quis me dizer aonde tinha ido.

Assegurou que Martin ficaria em contato comigo, mas não o fez, Gracie.

Ontem foi meu aniversário e Martin nunca se esqueceria de algo assim a menos que tivesse ocorrido algo terrível. Nunca o fez, nem sequer quando eu era pequena. -Engoliu a saliva e piscou, e voltaram a lhe correr as lágrimas pelas faces.

Sempre me dá de presente algo, embora só seja uma fita para o cabelo ou um lenço. Dizia que era mais importante que o Natal porque era um dia especial para mim.

O Natal pelo contrário é para todos.

Gracie sentiu uma pontada de ansiedade. Talvez se tratasse de algo mais que de um contratempo doméstico, por desagradáveis que estes pudessem ser.

Possivelmente Pitt deveria estar à corrente do que aconteceu. Só que já não trabalhava para a polícia.

Ela não sabia realmente que fazia a Brigada Especial, só que era secreta e que ela se inteirava de muito menos coisas que quando ele se ocupava de delitos comuns que apareciam nos jornais para informação de qualquer um.

Fosse o que fosse o que lhe tinha ocorrido ao Martin, correspondia a ela averiguá-lo, ao menos de momento. Bebeu um gole de chá para dar-se tempo para pensar.

—Falou com alguém mais além do mordomo? -inquiriu Gracie ao cabo de uns instantes.

—Sim. -Pontua assentiu—. Perguntei ao engraxate, porque os engraxates sempre vêem tudo, e a maioria deles são muito descarados para não falar disso.

Ninguém lhes faz muito caso, de modo que têm que aproveitar quando podem. -A animação zombadora que tinha aparecido fugazmente em seu rosto se desvaneceu—. Me disse que Martin tinha desaparecido de repente. Um dia estava ali, como sempre, e no dia seguinte já não estava.

—Mas ele vive na casa, não? - observou Gracie desconcertada. —Sim, é claro que sim! É o valete do senhor Stephen Garrick. Ocupa-se de todas suas coisas. O senhor Stephen lhe tem uma confiança absoluta.

Gracie respirou fundo. A situação era muito grave para andar-se com rodeios por temor a ferir suscetibilidades.

—É possível que o senhor Garrick perdesse o controle por alguma questão e o despedisse, e que Martin se sentisse tão envergonhado que preferisse não lhe contar isso até não achar outro emprego?

Gracie se incomodava ter que insinuar algo assim, e viu na expressão descomposta de Pontua o muito que lhe doía essa possibilidade.

—Não! -Pontua sacudiu a cabeça com energia—. Não! Martin nunca daria motivos para que o despedissem. O senhor Garrick confia nele. E não só para que lhe faça os nós das gravatas e lhe tenha a roupa preparada. -Fechou os punhos, esqueceu-se por completo de comer—. Cuida dele quando bebe muito ou fica doente, ou faz alguma tolice. Não é tão fácil achar a alguém que faça isso por você. É lealdade.

A jovem olhou fixamente ao Gracie com os olhos brilhantes e assustados, lhe suplicando que a compreendesse e acreditasse que a lealdade era muito valiosa para que não fosse recíproca.

Merecia algo melhor que ser desprezada só porque um deles tinha poder para fazê-lo.

Gracie não tinha tanta fé no sentido da honra dos patrões.

Trabalhava para os Pitt desde os treze anos, assim não tinha experiência com ninguém mais, mas tinha ouvido suficientes historias de outros amos para não ser tão ingênua.

—Falou pessoalmente com o senhor Garrick? -perguntou.

Pontua deu um pulo.

—É claro que não! Meu Deus, nem você, Gracie, tem tanto descaramento para fazê-lo! Como quer que fale com ele? -Elevou a voz cheia de assombro—. Tive que reunir toda minha coragem para ir perguntar ao senhor Simms, e me olhou como se tivesse passado dos limites.

Não lhe faltou vontade de me expulsar com caixas destemperadas, até que se deu conta de que Martin era meu irmão. Terá que respeitar à família. É a única coisa decente.

—Bom, não se preocupe -disse Gracie com determinação. Tinha tomado uma decisão. Pitt talvez estivesse muito ocupado com os assuntos da Brigada Especial, mas o sargento Tellman não.

Trabalhava às ordens do Pitt no Bowl Street, e o tinham promovido.

Fazia tempo que estava apaixonado por Gracie, embora só ultimamente começava a reconhecê-lo, não com muito gosto.

Lhe explicaria a situação, e ele poderia fazer as indagações oportunas e resolver o caso. Porque era um caso, disso tinha certeza—. Me ocuparei de que alguém o faça - acrescentou sorrindo a Pontua com confiança—. Conheço alguém que se ocupará devidamente disso e averiguará o que de verdade se passou.

Pontua se relaxou por fim e lhe devolveu timidamente o sorriso.

—Fará-o? Pensei que se alguém podia fazê-lo, seria você. Muitíssimo obrigado. Não sei o que dizer, só que lhe estou muito agradecida.

Gracie se sentiu envergonhada e temeu ter prometido muito. É claro que Tellman se faria cargo da situação, mas a resposta talvez não fizesse feliz a Pontua.

—Ainda não fiz nada! - protestou, ao mesmo tempo em que baixava o olhar e se concentrava em tomar o chá—. Mas resolveremos. Agora será melhor que me explique tudo sobre Martin, os lugares onde trabalhou e coisas assim.

Gracie não tinha lápis e papel consigo, mas tinha aprendido a ler e escrever fazia pouco tempo, de modo que podia seguir confiando em sua memória para reter o que fosse preciso.

Pontua começou a falar, recordando detalhes que tinha memorizado por essa mesma necessidade.

Quando terminou de contar-lhe tudo, saíram à buliçosa rua e se separaram.

Pontua para continuar seus recados, com a cabeça mais erguida, o passo mais vivo que antes, Gracie para voltar para o Keppel Street e perguntar ao Charlotte se podia tomar a tarde livre para ir falar com Tellman.

Charlotte não mostrou nenhum inconveniente em conceder-lhe.

Gracie teve sorte em sua segunda tentativa.

Tellman não estava na delegacia de polícia do Bowl Street, mas o achou a dois quarteirões de distância em uma taverna, tomando uma cerveja com um agente com quem tinha estado trabalhando.

A moça se deteve justo na entrada, com os pés no pisoteado serrín, envolta no aroma de cerveja que flutuava no ar, o ruído de vozes masculinas e o tinido de copos.

Passaram vários minutos antes que localizasse ao Tellman no outro extremo, com a cabeça baixa, olhando sombrio seu copo. O jovem sentado frente a ele o olhava com deferência.

Desde que Pitt se fora Tellman tinha sido promovido, mas ainda se sentia algo incômodo no novo posto.

Tinha mais informação que a maioria de seus companheiros sobre como tinham conspirado contra Pitt e quem era o responsável. Detestava ao homem que o tinha substituído e, ainda pior, desconfiava dele.

Desde que Wetron tinha chegado, tudo nele indicava que esse homem tinha motivações e ambições que pouco tinham que ver em resolver crimes.

Era inclusive possível que ficasse tão alto para fazer-se encarregado de dirigir a terrível organização secreta do Círculo Interior.

Gracie sabia que tanto o senhor Pitt como Tellman temiam que o fizesse, mas ela só o tinha ouvido por acaso e não se atrevia a perguntar abertamente a nenhum dos dois.

Olhou para o Tellman e se perguntou até que ponto o perturbava seu chefe. Não o via tão relaxado como quando trabalhava com Pitt, mesmo que ele nunca o teria admitido.

A moça abriu passagem através das pessoas, afastando a cotoveladas a homens que não pareciam vê-la e empurrando-os para que se fizessem a um lado, e quase tinha chegado até onde estava sentado Tellman quando este levantou a vista e a viu.

Pareceu alarmar-se, como se a jovem só pudesse trazer más notícias.

—Gracie? O que acontece?

Tellman se levantou imediatamente e fez caso omisso de seu companheiro, sem ver a necessidade de apresentá-los.

Ela quase tinha esperado tocar o assunto como de passagem, e que se alegrasse de vê-la, mas tinha que reconhecer que no passado só tinha ido a ele por iniciativa própria quando tinha necessitado sua ajuda.

Quando se tratava de algo pessoal, era Tellman o que dava o primeiro passo. Depois de tudo, a princípio ela tinha sido receosa a lhe oferecer algo mais que uma amizade sem compromisso.

Ele tinha treze anos mais que ela, e estava firmemente entrincheirado em suas convicções, que na maioria dos casos eram contrárias às dela.

Desaprovava completamente que ela servisse em uma casa, pois atentava contra todos seus princípios sobre a justiça social, enquanto que ela o via como uma forma honrada de ganhar a vida, assim como uma existência muito confortável.

Não se sentia subjugada o mínimo e se impacientava por causa do orgulho suscetível e pouco realista dele.

Gracie se esforçou por mostrar-se mais educada do que costumava a ser com o Tellman. Ao fim e ao cabo, estava acompanhado por um subordinado e devia tratá-lo com respeito.

—Vim para lhe pedir conselho - expôs com seu tom mais suave—. Se pudesse me dedicar meia hora.

Surpreendeu-o sua murmurada delicadeza e em seguida se deu conta de que se devia ao agente. Suas finas feições se relaxaram com um pouco freqüente mostra de ironia.

—É claro. Como se encontra a senhora Pitt?

Não era uma simples fórmula de cortesia. Importava-lhe sinceramente. Sentia muito afeto por Pitt e Charlotte.

Era um homem solitário, orgulhoso e rígido que não fazia amizades com facilidade. Tinha guardado rancor ao Pitt quando se conheceram.

Pitt tinha sido elevado a um cargo que, em opinião do Tellman, só devia ostentar um cavalheiro ou alguém que tivesse servido no exército ou na marinha.

O filho de um guarda-florestal não estava qualificado para o comando, e que se esperasse de homens como Tellman que o tratassem de "senhor" e mostrassem deferência para seu cargo lhe engasgava. Pitt tinha ganho pouco a pouco seu respeito, mas uma vez que o fez, a lealdade foi tão profunda como um laço de parentesco.

—Bem, este não é um lugar adequado para você - disse Tellman quando Gracie lhe assegurou que a senhora Pitt estava bem. Olhou-a ligeiramente carrancudo—. Me contará tudo enquanto a acompanho à parada do ônibus. —voltou-se para o agente—. Até manhã, Hotchkiss.

Hotchkiss se levantou obediente.

—Sim, senhor. Boa noite, senhor. Boa noite, senhorita.

—Boa noite, agente - respondeu Gracie.

A seguir se voltou para o Tellman, quem passou por seu lado e a precedeu, lhe abrindo passagem entre as pessoas.

Ela saiu detrás dele à calçada, onde se acharam de repente sós.

—É importante ou não te teria incomodado -disse muito séria—. Desapareceu alguém.

Ofereceu-lhe o braço e ela o aceitou um tanto impaciente, embora descobriu surpreendida que era bastante agradável caminhar agarrada dele. Percebeu que Tellman cortava o passo para acomodar-se ao dela.

Sorriu, mas se deu conta de que não lhe tinha passado inadvertido seu sorriso e ficou séria imediatamente. Não estava bem que ele percebesse que não lhe era indiferente.

—Trata-se de minha amiga, Pontua Garvie - disse com tom profissional—. Seu irmão, Martin, desapareceu da casa em que trabalha. Não disse nada nem a ela nem a ninguém, simplesmente se foi. Vai fazer três dias.

Tellman apertou os lábios, com o rosto sombrio, as sobrancelhas juntas. Caminhava um pouco curvado, como se tivesse os músculos rígidos.

Fazia uma bonita noite, mas os lampiões estavam acesos e a brisa que chegava do rio cheirava a umidade. A rua estava silenciosa, só havia ao longe uma carruagem que dobrava a esquina, e na outra um par de homens que discutiam afavelmente.

—As pessoas trocam de emprego -comentou Tellman com cautela—. Ou o que é mais provável, perdem-no. Poderia ser por um montão de razões, não necessariamente por sua culpa.

—Teria dito a ela! -apressou-se a dizer Gracie—. Foi seu aniversário e não lhe enviou um cartão, nem flores nem nada.

—As pessoas se esquecem dos aniversários - respondeu ele—. Embora não aconteça nada de mal, e nem digamos se ficarem sem emprego e sem teto! —argumentou com tom impaciente.

A jovem sabia que era a injustiça da condição de dependência o que o fazia acalorar, não ela, mas mesmo assim lhe incomodou, talvez porque não queria que fosse certo, e no mais recôndito de sua mente tinha medo. Não estava preparada para ouvir o ponto de vista de um policial.

—Ele nunca se esqueceu de seu aniversário antes - replicou, mantendo com esforço o passo.

Ele não se deu conta de que andava mais depressa—. Desde que tinham oito anos! -acrescentou.

—Talvez nunca o mandaram embora de um trabalho antes -indicou Tellman.

—Se o mandaram embora, por que não o disse o mordomo? -observou ela, ainda agarrada em seu braço.

—Certamente porque esta classe de assuntos domésticos não sejam seu assunto - respondeu ele—. Um bom mordomo não fala com desconhecidos de questões domésticas desagradáveis. Sem dúvida, sabe melhor que eu.

Olhou-a de soslaio, com o cenho ligeiramente franzido, como se fosse uma pergunta. Tinham discutido antes sobre a obrigação de um criado de agradar a seus senhores, e o frágil que era o bem-estar, a comida e o teto que estes lhe proporcionavam.

—Sei o que quer dizer! -exclamou Gracie zangada, soltando-se de seu braço—. Estou farta de lhe dizer que nem sempre é assim! É claro que há casas horríveis e más pessoas nelas.

Mas também há boas casas. Imagina à senhora Pitt me pondo de quatro na rua porque fiquei dormindo ou respondi de forma descarada ou o que seja? -Sua voz ressou com desafio—. Atreva-se a dizer que sim e farei que deseje não ter aberto nunca a boca!

—É claro que não! -replicou ele. Deteve-se em seco e a levou a um lado da calçada, perto da parede, para deixar passar a dois homens que caminhavam atrás deles—. Mas isso é diferente.

Se Martin deixou a casa dos Garrick foi por algo. Viu-se obrigado ou decidiu fazê-lo. Seja como for, não é assunto da polícia, a menos que os Garrick o denunciem. E imagino que isso é o último que quer Pontua.

—Denunciá-lo por que? -disse ela furiosa—. Não fez nada! Só desapareceu. Não escuta o que lhe digo? Ninguém sabe onde está!

—Não - a corrigiu ele—. Pontua não sabe onde está.

—O mordomo tampouco sabe! -respondeu ela exasperada—. Nem o engraxate!

—O mordomo não o disse a Pontua, e por que diabos ia saber o engraxate? -perguntou ele de forma razoável.

Gracie começava a sentir que a invadia o desespero. Não queria discutir com o Tellman, mas estava a ponto de fazê-lo e não podia controlar-se.

Tinham chegado à esquina da rua principal e os envolvia o estrondo das ruas, rodas, cascos de cavalos, vozes.

As pessoas iam daqui para lá, e um homem passou tão perto dela que lhe roçou as costas. O medo de Pontua tomou conta dela e estava perdendo a capacidade para pensar sem que o pânico a dominasse.

—Porque os engraxatse vêem e ouvem um montão de coisas! -disse ao Tellman—. Não averigua coisas interrogando às pessoas? Trabalhou muitas vezes em crimes em casas grandes! Escutou ao senhor Pitt, não? Alguma vez passa por cima a alguém porque trabalha na copa ou na despensa? As pessoas se dão conta de coisas. Tem olhos e ouvidos!

Ele conteve sua impaciência com um esforço que a jovem pôde perceber à luz do lampião, e soube que só se dominava porque lhe importava.

Em certo sentido o fazia mais irritante, porque era uma pressão moral, uma espécie de obrigação respeitá-lo quando em seu foro interno morria por gritar.

—Sei, Gracie -disse ele com tom desapaixonado—. Eu mesmo interroguei a muitos criados. E o fato de que o engraxate não saiba nada é uma boa prova de que provavelmente não aconteceu nada de mau.

Martin poderia ter sido despedido, e se isso é assim, talvez não queira que sua irmã se inteire antes de achar outra casa. -Soava extremamente razoável—. Está tratando de evitar que ela se preocupe ou talvez se sente envergonhado.

Talvez o despediram por algo vergonhoso, por ter feito algo mal. Seria natural que não quisesse que se inteirasse sua família.

—Então, por que não lhe enviou um cartão ou uma carta para seu aniversário de onde está? —desafiou-o ela, afastando-se dele e olhando-o nos olhos—. Não o fez, de modo que agora ela está o dobro de preocupada!

—Se perdeu seu emprego, e com ele o alojamento e o sustento - replicou Tellman, tratando de manter um tom anormalmente sereno—, então me atreveria a dizer que tem preocupações mais prementes, como onde dormir ou o que comer! Não devia lembrar-se do dia que era.

—Então, se estiver em um apuro tão grande, ela tem motivos para estar preocupada, não? -observou Gracie com ar triunfal.

Tellman deixou escapar o fôlego em um prolongado suspiro.

—Preocupada, sim, mas não até o ponto de ir à polícia. Gracie apertou os punhos aos flancos em um esforço por dominar seu mau gênio.

—Não vai à polícia, Samuel! Disse-me —e eu lhe estou pedindo isso a você! Você não é a polícia, é meu amigo! Ao menos achava que era. Estou te lhe pedindo ajuda, não que trate de empreender uma investigação oficial.

—E que espera que faça? -Ele ergueu a voz ante a acrimonia irrazoável da jovem.

Com grande esforço, ela se calou o que realmente pensava e se obrigou a sorrir com doçura.

—Obrigada - disse de forma encantadora—. Sabia que podia contar com sua ajuda quando o entendesse. Poderia começar perguntando ao senhor Garrick onde está Martin. Não tem que lhe dizer por que, é claro. Poderia ser uma testemunha.

—Do que? -Tellman marcou as sobrancelhas com incredulidade. Ela o passou por cima.

—Não sei! Pensa algo! -Desta vez falou como se fosse o mais razoável do mundo.

—Não posso me aproveitar de minha condição de polícia para interrogar a alguém sobre algo que inventei! —Parecia ofendido, como se tivessem insultado seus princípios.

—Oh, não seja tão... tão... —Gracie quase ficou sem palavras.

Queria-lhe tal como era, severo, torpe, com grande sentido da justiça, encobrindo sua compaixão com o regulamento e as normas sociais, a forte disciplina que lhe tinham inculcado, mas às vezes ele a enfurecia mais do que podia suportar e essa era uma delas—. Não é capaz de ver além de seu nariz? —recriminou a jovem—. Às vezes acredito que tem o cérebro encerrado no livro de normas! Não vê que o importante são as vidas, os sentimentos, o que há no interior das pessoas? —Gracie tomou ar antes de continuar—: As pessoas são feitas de carne e osso, e equívocos. E sonhos! Pontua precisa saber o que foi feito dele e isso é algo real!

O rosto do Tellman se endureceu. Aferrava-se ao que compreendia.

—Se quebrar as normas, elas acabam destruindo a você -disse Tellman com obstinação.

Nesse instante, a jovem se deu conta de que tinha perdido a partida. Fazia uma afirmação da qual não podia retratar-se. Ele tinha razão, e ela o compreendia melhor do que era capaz de reconhecer nesse momento.

Tinha sido injusta, esquecendo que ele já não trabalhava para o Pitt, a não ser para o Wetron, e que não gozava de liberdade de movimentos.

Já tinha posto seu emprego em perigo uma vez para salvar a ela, a Charlotte e as crianças, e o tinha feito sem pensar em si mesmo.

Outro dia, quando não estivesse zangada, e quando não parecesse uma desculpa ou que tratava de ganhar o diria. Nesse momento estava concentrada em Pontua e o que podia haver ocorrido a seu irmão.

—Bom, pois se você não a ajuda terei que fazê-lo eu! -disse por fim, lhe dando as costas.

Não lhe ocorreu nada cortante e concludente que dizer, o que foi muito frustrante. Limitou-se a ficar ali e olhá-lo um instante, como se estivesse a ponto de dar o golpe final, depois deixou escapar um suspiro e partiu.

—Não o fará! -exclamou Tellman bruscamente—. Não fará nada disso!

Ela se voltou de novo para ele.

—Não me diga o que devo fazer, Samuel Tellman! Farei o que tiver de fazer, e você não tem nada que dizer a respeito! —gritou, mas se sentia muito melhor ao ver que ele tinha reagido.

—Gracie!

Tellman deu uma grande passada para ela como se fosse sujeitá-la pelo braço.

A jovem deu de ombros de forma exagerada e deu um pequeno salto para esquivar-se dele; em seguida, pôs-se a andar o mais depressa que pôde sem olhar atrás.

Sobretudo porque preferia pensar que ele a estava olhando, talvez até seguindo, e não queria comprovar que não era assim.

De volta no Keppel Street, quando entrou pela copa se sentia tão desventurada que, a seu pesar, não era capaz de continuar zangada. Não tinha levado bem a conversa com o Tellman.

Embora não tivesse podido persuadi-lo para que investigasse o desaparecimento do Martín Garvie, e possivelmente ele tinha seus motivos para não fazê-lo, ao menos poderia haver-se comportado de forma que se separassem como amigos.

Nesse momento, não sabia como dar marcha atrás para poder falar tranqüilamente com ele quando voltassem a ver-se. Era assombroso o muito que lhe doía. Não tinha esperado que lhe afetasse tanto.

Por sorte, não havia ninguém mais na cozinha, de modo que se asseou e lavou rapidamente o rosto, e tratou de fingir que não acontecia nada. Tinha posto água a ferver quando entrou Charlotte.

—Quer uma xícara de chá? -propôs-lhe Gracie quase alegremente.

—Sim, por favor —aceitou Charlotte, apesar de só serem seis e meia. Sentou-se à mesa e ficou cômoda—. Ocorre algo? -perguntou, esperando muito quieta como se exigisse uma resposta.

Gracie hesitou uns instantes, debatendo-se entre dizer que não passava nada ou lhe contar ao menos uma parte, no que concernia ao Martin Garvie. Não era consciente de que Charlotte pudesse lhe ler tão bem o pensamento. Isso à desconcertou um pouco.

—Vi Pontua Garvie esta manhã - respondeu, deixando cair a tampa da caixa do chá com muita força e mantendo-se de costas à mesa—. Faz dias que não vê seu irmão e está muito preocupada se por acaso lhe aconteceu algo.

—Como o que? -interessou-se Charlotte.

A chaleira começou a apitar e Gracie a pegou pela alça para não queimar os dedos enquanto o retirava do fogão. Escaldou o bule e o esvaziou na pia; depois depositou as folhas de chá e o encheu de água. Já tinha levado o leite à mesa e nenhuma das duas tomava açúcar.

Não lhe ocorreram mais desculpas para não sentar-se, de modo que o fez com estupidez, fugindo o olhar do Charlotte.

—Não está na casa do Torrington Square onde trabalhava -explicou a sua senhora— e o mordomo diz que já não trabalha ali, mas não lhe contou o que aconteceu nem aonde foi.

—Não tinha intenção de olhar ao Charlotte nos olhos, mas de repente a realidade da situação do Martin pôde mais que seu amor próprio—. E se as coisas fossem bem, ele não teria desaparecido assim, porque estão muito unidos -se apressou a acrescentar. — Só se têm o um ao outro. Seja o que for que passou, ele o teria dito, mas sobretudo se esqueceu de seu aniversário, algo que nunca antes tinha feito.

Charlotte franziu o sobrecenho.

—Que fazia na casa do Torrington Square?

—Era valete do senhor Stephen Garrick -respondeu Gracie imediatamente—, Não era um lacaio nem nada parecido.

Pontua diz que o senhor Garrick confiava nele. Sei que a pessoa pode ser despedida facilmente se fizer uma tolice ou parece que a fez, mas por que não avisar a Pontua e evitar que se preocupasse?

—Não sei - disse Charlotte pensativa. Estendeu um braço, serviu chá para as duas e depois deixou o bule no descanso. — Devia estar muito angustiado por algo ou certamente lhe diria que partia. Pode ser inclusive que tenha conseguido um emprego melhor. Sabe ler Pontua?

Gracie levantou a vista, surpreendida.

—Bom, não acredito que lhe enviasse uma carta se não sabe - raciocinou Charlotte—. Embora suponha que alguém poderia haver-lhe lido.

Gracie sentiu como aumentava seu desgosto. Tinha uma sensação de vazio no estômago e, entretanto, a idéia de comer lhe repelia. Tomou um gole de chá quente, mas isso não a fez sentir-se melhor.

—Que mais? -perguntou Charlotte com suavidade.

Gracie ainda hesitava. De certo modo, era reconfortante que a compreendessem tão bem, mas seguia envergonhada de quão inepta tinha sido ao enfrentar Tellman.

Agravava-o o fato de que até então sempre o tinha dirigido bem. Charlotte esperaria algo melhor dela. Decepcionaria—a.

Supunha-se que as mulheres eram inteligentes e não se comportavam com tanta estupidez. Bebeu outro gole. Estava muito quente, teria que ter esperado que se esfriasse.

—Averiguou algo? -perguntou Charlotte.

Isso foi fácil de responder.

—Não. Embora quando lhe explicou ao mordomo que era sua irmã, não lhe disse o que tinha acontecido ao Martin nem aonde se foi.

Charlotte baixou a vista à mesa.

—O senhor Pitt já não está na polícia. Talvez deveríamos falar com o senhor Tellman e tentar lhe pedir ajuda.

Gracie sentiu um repentino golpe de calor nas faces. Não tinha escapatória.

—Já o pedi - confessou com tristeza, com o olhar fixo na mesa—. Diz que não há nada que ele possa fazer, porque Martin tem direito a ir e vir sem dizer a sua irmã. Não é um delito.

—Oh. —Charlotte permaneceu sentada em silêncio uns minutos. Provou com cuidado seu chá e comprovou que se tinha esfriado o suficiente para não queimar a boca—. Então teremos que fazer algo nós - disse por fim. — Me conte tudo o que sabe de Pontua e Martin, e da casa dos Garrick do Torrington Square.

Gracie se sentiu como um marinheiro perdido que avista por fim terra no horizonte. Havia algo que podiam fazer.

Descreveu obediente ao Charlotte sua amizade com Pontua, selecionando o importante: sua honradez, sua perseverança, as lembranças da infância que lhe tinha explicado, seus sonhos de ter algum dia sua própria família e tudo o que tinha compartilhado com seu irmão ao longo dos solitários anos em que cresceram juntos.

Charlotte escutou sem interrompê-la e ao final assentiu. —Acredito que tem motivos para preocupar-se - disse—. Precisamos averiguar onde está e se se acha bem. Se tiver perdido seu emprego e se sente muito envergonhado para dizer-lhe a sua irmã, então devemos nos assegurar de que ela o compreende, e depois, se for possível, ajudar a ele a achar outro trabalho.

Suponho que não tem nem idéia se existe alguma possibilidade de que tenha cometido uma estupidez.

—Não sei - reconheceu Gracie—. Pontua não faria nenhuma tolice, mas isso não significa que ele não a fizesse. Ela acredita que não, mas o que vai dizer.

—É difícil pensar mal dos seus - concordou Charlotte.

Gracie levantou a vista para ela, com os olhos muito abertos.

—O que vamos fazer?

—Diga a Pontua que a ajudaremos - respondeu Charlotte—. Tentarei me inteirar do que possa sobre à casa do Garrick.

Sem dúvida, Stephen Garrick terá conhecimento do ocorrido, embora não saiba onde está Martin Garvie neste momento.

—Obrigada - disse Gracie muito séria—. Muito obrigada.

Ao quarto dia do descobrimento do assassinato do Edwin Lovat, os jornais exigiam abertamente que detivessem, ou ao menos interrogassem, ao Saville Ryerson.

Sabia-se que se achava na casa no momento do crime, e o autor do artigo só teve que expor que assunto lhe tinha levado ali para insinuar a resposta.

Pitt se sentou à mesa do café da manhã com os lábios apertados, o rosto pálido. Charlotte não fez nenhum comentário nem interrompeu os pensamentos dolorosos que saltava à vista que o atormentavam.

A defesa do Ryerson, que tinha exigido o senhor Gladstone, começava a ser cada vez mais difícil. Ela observou a seu marido discretamente e desejou que houvesse algum modo de lhe oferecer, se não ajuda, ao menos consolo.

Mas se fosse sincera, achava que Ryerson era culpado, se não do crime, de ter tentado encobri-lo.

Se alguém não tivesse chamado à polícia, teria retirado o cadáver do lugar do crime e teria feito todo o possível por ocultar as provas.

Isso era um delito que nenhuma aptidão para solucionar os problemas na indústria algodonera do Manchester podia justificar; em realidade, não tinha nada que ver com o fato de que tivesse uma amante no Eden Lodge.

Isso era uma debilidade pessoal, um luxo que lhe havia custado muito caro.

Olhou a ansiedade refletida no rosto de Pitt e a invadiu uma onda de cólera ao pensar que se esperasse dele a responsabilidade de resgatar a um homem de sua própria loucura, e depois lhe acusasse de não ter feito o que qualquer estúpido veria que era impossível conseguir.

Estava sendo coagido para que tentasse evitar uma verdade que era seu dever, assim como uma necessidade moral, pôr ao descoberto.

Durante anos o tinham utilizado para fazer isso, mas lhe tinham posto na situação de negar os mesmos valores que um dia o fizeram honorável.

Ele levantou rapidamente a vista e a surpreendeu olhando-o.

—O que?

Charlotte sorriu.

—Nada. Vou ver Emily esta manhã. Sei que a avó estará ali e não consegui falar com ela sem me envergonhar desde que mamãe se inteirou do que lhe passou. -Ainda lhe era desconfortável falar disso, inclusive com Pitt—. Já vai sendo hora de que o faça - se apressou a acrescentar.

Tinha combinado a visita a noite anterior, depois de falar com Gracie.

Pitt tinha telefone em casa devido às necessidades de sua profissão, enquanto que Emily o tinha porque podia permitir-se virtualmente todos os luxos que desejasse muito.

Uma ameaça de sorriso se desenhou por um instante nos lábios do Pitt. Conhecia fazia tempo à avó do Charlotte e sabia que tinha mau gênio.

Charlotte não deu mais explicações e quando Pitt se foi, sem lhe dizer o que pretendia averiguar esse dia, subiu a seu quarto e vestiu seu melhor traje matinal.

Não seguia a moda; esta estava muito acima de suas possibilidades econômicas, sobretudo desde que tinham destituído ao Pitt de seu cargo no Bowl Street para pô—lo a trabalhar para a Brigada Especial, mas um vestido de bom corte e de uma cor favorecedora tinha uma dignidade que ninguém podia lhe arrebatar.

Escolheu um tom quente, outonal, a jogo com seu cabelo castanho avermelhado e sua tez pálida como o mel.

Não tinha as mangas abombadas que estavam em moda, mas o discreto saiote era completamente adequado.

Não era uma ocasião para deslocar-se em ônibus, de modo que pegou dinheiro do envelope dos gastos da casa para pagar um coche de aluguel e chegou à suntuosa casa de Emily às dez e quinze.

Abriu-lhe uma criada que a conhecia bem e que a levou diretamente ao toucador de Emily, esse aposento privado onde as damas ricas recebiam suas amizades íntimas.

Emily já a esperava, vestida com sua habitual elegância em seu verde pálido favorito que tão bem assentava a seu tom de tez.

Mal Charlotte entrou na sala, levantou-se com uma expressão emocionada, os olhos brilhantes. Aproximou-se dela e a beijou um pouco impaciente; depois se afastou.

—O que se passou? -quis saber—. Disse que era importante. Pareço terrivelmente cruel ao expressá—lo em palavras, sei, quando foi um verdadeiro golpe para o Thomas, e absolutamente injusto, mas não sabe o que lamento que deixasse Bowl Street! Não tenho nem idéia de que casos leva agora, mas todos parecem segredos. —Retrocedeu e indicou ao Charlotte com um gesto uma das macias cadeiras com estofo de flores—. Estou tão aborrecida da alta sociedade e inclusive a política parece terrivelmente tediosa neste momento - prosseguiu, recolhendo a saia e sentando-se ela também—. Não houve nem um escândalo decente, além do da mulher egípcia. -inclinou-se para diante, com uma expressão animada—. Sabia que os jornais exigem que detenham também ao Saville Ryerson? Não é absurdo? —Esquadrinhou o rosto de Charlotte de maneira inquisitiva.

—Sponho que Thomas teria trabalhado no caso se continuasse no Bowl Street! Talvez seja melhor que não o faça. Não acredito que eu gostaria que desembaraçassem esse assunto!

—Receio que o caso que me trouxe é mais prosaico -disse Charlotte, tratando de manter seu rosto inexpressivo.

Não podia se permitir desviar do tema que trazia entre mãos nem pelo mais picante dos escândalos. Recostou-se na cadeira. A sala estava decorada em tons dourados e cinzas e na mesa havia um vaso com rosas amarelas tardias e crisântemos com aroma de terra.

Por um instante, viu-se transportada à casa onde tinha crescido, alheia à escuridão e a pobreza do mundo maior que havia fora.

A lembrança passou.

—Do que se trata? -perguntou Emily juntando as mãos no regaço e lhe prestando toda sua atenção—. Me dê algo no que ocupar a mente que não sejam trivialidades. Estou mortalmente aborrecida de falar de coisas que não importam. -Sorriu com fingida brincadeira de si mesma. — Receio que minha superficialidade social era passageira. Não é alarmante? A busca do prazer já não me diverte. É como comer muito suflé de chocolate, algo que faz uns anos me teria parecido impossível.

—Então deixa que lhe fale de algo muito mais comum - replicou Charlotte.

Dispunha-se a explicar a situação que tanto preocupava ao Gracie quando se ouviram uns bruscos golpes na porta, como efetuados com o cabo de uma bengala, e um momento depois a porta se abriu de repente e apareceu na soleira uma anciã miúda e de aspecto feroz.

Ia vestida de cor ameixa e negro e sua expressão era de mal dissimulada indignação, embora não tinha soubesse a quem dirigi-la, se à Emily ou à Charlotte.

Talvez tivesse sido inevitável. Charlotte se levantou e com um grande esforço se obrigou a sorrir.

—Bom dia, avó - disse, aproximando-se da velha dama—.Tem bom aspecto.

—Não dê por assentado como me encontro, jovem! -admoestou a anciã—. Faz meses que não vem ver-me! Desde que se casou com esse policial perdeu todo sentido do decoro.

A decisão do Charlotte de mostrar-se educada desapareceu no ato.

—Mudou de opinião então! -replicou.

A anciã ficou desconcertada. Isso a irritou ainda mais.

—Não entendo do que se refere. Não pode falar mais claro? -Olhou furiosa a sua outra neta—. vai convidar me a que tome assento, Emily? Ou também perdeu suas maneiras?

—Pode se sentar quando quiser, avó -disse Emily com tom de resignação—. Sabe de sobra.

A anciã se sentou com decisão na terceira cadeira e segurou em equilíbrio sua bengala ante ela. Voltou-se para Charlotte.

—O que quer dizer com se mudei de opinião? Eu não mudo de opinião!

—Disse que perdi o sentido do decoro -lhe recordou Charlotte.

—E o fez! -exclamou a anciã cortante—. Isso não mudou!

Charlotte lhe sorriu.

—Antes assegurava que não tinha nenhum pingo.

—Vai permitir que me insultem? -perguntou a anciã à Emily.

—Acho que é Charlotte quem foi insultada, avó - indicou Emily, mas desta vez um sorriso aparecia em seus lábios e lhe custava ocultá-lo.

A anciã grunhiu.

—Bom, se o foi, sem dúvida o procurou. Quem a insultou? Mistura-se com pessoas de classe muito baixa. Atreveria-me a dizer que isso é a única coisa que pode aspirar.

É conseqüência de haver-se casado abaixo de sua posição social. Sempre disse que traria problemas. Mas alguém me fez conta? É claro que não. Bom, vê agora o que acontece? Embora não sei que espera que faça Emily.

Charlotte pôs-se a rir e ao cabo de um momento de hesitação, Emily a secundou.

A anciã não tinha nem idéia do que lhes parecia tão divertido, mas sem dúvida não ia admiti-lo.

Considerou por um instante o que fazer, depois decidiu que tinha menos que perder se se somava às risadas e assim o fez. Foi um som estranho, como oxidado, que nem sequer Emily, em cuja casa vivia, tinha ouvido em anos.

Ficou outros dez minutos. Passado esse tempo, e apesar de que ardia em desejos de saber do que se devia a visita do Charlotte, levantou-se com dificuldade e saiu pisando com decisão.

Era evidente que ninguém ia dizer e ela não renunciaria a sua dignidade para perguntar.

Mal a porta se fechou, Emily se virou para frente.

—E então? –perguntou-. O que é esse problema tão prosaico que a preocupa?

—Gracie tem uma amiga, Pontua Garvie - começou a explicar Charlotte—. Seu irmão, Martín, é valete do Stephen Garrick, que vive no Torrington Square.

Pontua e Martin são muito unidos, já que são órfãos desde os seis e oito anos, respectivamente.

—E então? -Emily tinha os olhos muito abertos.

—Ninguém viu ao Martin há quatro dias, e segundo o mordomo do Garrick, já não trabalha na casa, mas não quis dizer a Pontua onde se foi nem por que.

—Um valete desaparecido? -Na voz do Emily não houve nenhuma inflexão que traísse suas emoções.

—Um irmão desaparecido - corrigiu Charlotte—. Mais significativo que sua ausência é o fato de que coincidiu com o aniversário de Pontua, que ele nunca tinha esquecido até então.

Se tivesse ficado sem emprego, e, portanto, sem alojamento, por muito vergonhosas ou lamentáveis que tivessem sido as circunstâncias, com certeza teria encontrado o modo de informá-la de seu paradeiro.

—O que acha? -Emily franziu o sobrecenho—. Denunciaram seu desaparecimento os Garrick?

—Não sei! -limitou-se a dizer Charlotte com tom impaciente—. Não posso ir à delegacia de polícia mais próxima e perguntar. Mas se o fizeram, por que não o comunicaram a Pontua, se por acaso ela soubesse algo?

—Pareceria inteligente - concordou Emily—. Mas as pessoas nem sempre são tão preparadas como acham. A pessoa mais surpreendente carece de sentido comum.

Que outras possibilidades há? -Contou com os dedos—. O despediram por roubar? Fugiu com uma mulher, uma criada de outra casa? Fugiu com a filha de alguém, ou ainda pior, com uma senhora casada? Ou com uma prostituta? -Começou a contar com os da outra mão—. Contraiu dívidas e teve que escapar de seus credores? Ou pior ainda, sofreu um acidente ou o agrediram, e está morto em alguma parte, mas ainda não o identificaram?

Charlotte tinha considerado já a maioria dessas possibilidades, sobretudo a última.

—Sim, sei -disse em voz baixa—, eu gostaria de averiguar qual delas corresponde com a verdade, por Pontua e Gracie. Acredito que há brigado com o inspetor Tellman a respeito porque lhe disse que não era um caso policial e não podia fazer indagações.

—Inspetor! Ah… sim. -A expressão de Emily se animou—. Que tal vai o idílio? Acha que ela se abrandará e se casará com ele? O que fará você sem ela? Contratará a uma boa criada com experiência ou lhe ensinará de novo a outra criança? Não pode, não?

—Não sei se o fará - respondeu Charlotte com tristeza—. Acredito que sim. Isso espero, porque ele a quer muito e está começando a dar-se conta disso, embora lhe custa reconhecê-lo.

Não tenho nem idéia do que farei sem ela. Não quero nem pensar. Pelo que a mim respeita, já houve muitas mudanças em minha vida.

A compaixão de Emily foi instantânea e sincera.

—sei! -disse com suavidade—. E o sinto muito. Era muito mais divertido antes, quando ajudávamos ao Thomas em seus casos, nossos casos, não é?

Charlotte mordeu o lábio, em parte para dissimular um sorriso, em parte para não deixar-se levar pelas lembranças e voltar para o presente.

—Preciso averiguar todo o possível sobre o Stephen Garrick - respondeu com firmeza—. O suficiente para fazer uma idéia do que ocorreu ao Martin Garvie, ou, se for necessário, perguntar-lhe.

—Ajudarei-a - afirmou Emily sem vacilar—. O que sabe dos Garrick?

—Nada, só onde vivem, mais ou menos.

Emily se levantou.

—Então é preciso que nos inteiremos. -Olhou de cima abaixo ao Charlotte para avaliar seu aspecto—. Está preparada para fazer uma visita, só necessita de um chapéu melhor.

Emprestarei-lhe um de meus. Estarei pronta em quinze minutos. -Reconsiderou—o—. Ou talvez meia hora.

Em realidade, partiram quase uma hora depois na carruagem de Emily, primeiro para visitar uma amiga bastante íntima para poder lhe perguntar abertamente.

—Não, não está casado - as informou a senhora Edsel, bastante séria. Era uma mulher agradável de aspecto bastante comum, a quem a distinguia sua expressão animada e um gosto pouco afortunado quanto aos brincos. — Ele está considerando alguma conhecida sua?

—Acredito que sim - mentiu Emily com perita desenvoltura. Estava acostumada a adaptar-se às convenções sociais—. Deveria fazê-lo?

—Bom, acredito que tem muito dinheiro. —A senhora Edsel se inclinou ligeiramente, com uma expressão ávida.

As intrigas eram para ela como um alimento, mas também desejava sinceramente prestar sua ajuda—. De muito boa família. Seu pai, Ferdinand Garrick, é um homem muito influente. Uma folha de serviços irrepreensível, ou isso diz meu marido.

—Por que não seria seu filho um bom partido então? -perguntou Emily com tom inocente.

—Bom, talvez poderia sê-lo para a mulher adequada.

A senhora Edsel recordou suas aspirações sociais e se tornou mais circunspeta.

—E se não se tratasse da mulher adequada? —Charlotte não pôde seguir contendo-se.

A senhora Edsel a olhou com um vislumbre de receio.

Tinha relacionamento com Emily, mas Charlotte era uma desconhecida da qual não sabia sua possível utilidade nem o perigo que entranhava.

Emily dirigiu a sua irmã um olhar de advertência, assim como de censura por ter interrompido.

Não havia forma de voltar atrás, Charlotte se esforçou por sorrir, conseguindo mal mostrar os dentes.

—Estou preocupada com uma amiga - confessou com absoluta sinceridade.

Apesar de sua diferente posição social, Gracie era sem dúvida uma amiga e das melhores.

A senhora Edsel se tranqüilizou um pouco.

—É jovem sua amiga? -perguntou.

—Sim. —Charlotte supôs que essa era a resposta adequada.

—Então acredito que faria bem em procurar em outra parte a não ser que seja muito pouco agraciada.

Desta vez Charlotte mordeu a língua.

—Que defeito tem? -perguntou Emily com extraordinário descaramento. — Tem amigos de duvidosa reputação? Quem poderia conhecê-lo?

—Oh, bom... —A senhora Edsel estava dividida entre a preocupação de cometer uma indiscrição irreparável e uma intensa curiosidade—, Bom, soube que é sócio dos clubes habituais -prosseguiu.

Essa observação era pouco comprometedora.

—Sim? - Emily abriu muito seus olhos azuis—. Não recordo ter ouvido meu marido mencionar seu nome. Talvez não tenha reparado nele.

—Estou certa de que é sócio do White —afirmou a senhora Edsel—. E é quase o melhor.

—Sem dúvida - concordou Emily.

—Todo o que é alguém —murmurou Charlotte sentenciosamente.

A senhora Edsel soltou um gritinho abafado e a seguir um risinho que se apressou em conter.

—Se for sincera, não sei! Mas meu marido diz que bebe muito mais do que é capaz de agüentar, bastante freqüentemente.

Não é um defeito terrível, sei, mas eu particularmente não gosto. E tem um caráter bem taciturno. Isso me parece o mais difícil. Prefiro um homem cuja conduta seja serena e previsível.

—O mesmo digo - assentiu Emily, evitando o olhar de Charlotte se por acaso risse, pois sabia que era mentira. Isso soava profundamente aborrecido.

—E eu! -acrescentou Charlotte com sentimento quando a senhora Edsel a olhou procurando sua aprovação—. De fato, para conviver com uma pessoa, é essencial!

Uma mulher não pode estar perguntando-se eternamente o que esperar.

—Tem toda a razão - observou a senhora Edsel sorrindo—. Confio em lhes parecer atrevida, mas aconselharia sem dúvida a sua amiga que esperasse uns meses mais.

É sua primeira temporada?

Charlotte e Emily disseram "sim" e "não" ao mesmo tempo, mas a senhora Edsel olhava ao Charlotte.

Durante a seguinte meia hora falaram com grande cordialidade da dificuldade de contrair um bom matrimônio, pelo que se alegravam de estar já situadas, assim como de não ter ainda que enfrentar a obrigação de casar a suas filhas, Charlotte teve que fazer um grande esforço, pinçando em sua memória, para achar as frases adequadas durante a conversa.

Também foi um malabarismo digno de um artista de circo não revelar o cargo socialmente inaceitável do Pitt.

Embora a Brigada Especial possivelmente soasse melhor que a polícia a secas, supunha-se que não devia falar disso.

Feria-lhe em seu orgulho fingir que não sabia nada, e nessa época de progressos, até à senhora Edsel surpreendeu uma simplicidade tão feminina.

Mal estiveram de novo na carruagem, Emily estalou em grandes gargalhadas que deram passagem ao soluço. Charlotte não sabia se rir ou ir às nuvens.

—Ria ! -ordenou Emily enquanto o cocheiro esporeava aos cavalos para as levar a sua seguinte entrevista—. Esteve esplêndida e absolutamente absurda! Se se inteirasse, Thomas lhe recordaria isso freqüentemente.

—Bom, pois não sabe! -disse Charlotte com tom de advertência.

Emily se recostou comodamente no assento acolchoado da carruagem, sem deixar de sorrir.

—Acredito que deveria contar-lhe só que não saberia fazer bem. Em realidade, deveria fazê-lo eu.

—Emily!

—Oh, vamos! —Era mais um protesto por sua atitude pusilânime que um pedido—. Estou certa de que apreciaria uma boa brincadeira e esta é!

Charlotte teve que admitir que era verdade.

—De acordo, mas escolhe bem quando fazê-lo. Neste momento está levando um caso lamentável.

—Podemos ajudar? -perguntou Emily imediatamente, ficando completamente séria.

—Não! -replicou Charlotte com firmeza—. Ao menos, ainda não. De todo modo, precisamos achar ao Martin Garvie.

—Faremo—lo! -assegurou Emily com confiança—. Vamos almoçar com a pessoa adequada. Arrumei-o enquanto me vestia.

Essa pessoa resultou ser um jovem protegido do marido do Emily, Jack. Era seguro de si mesmo e ambicioso, e parecia encantado de que a esposa de seu mentor o convidasse a almoçar. E dado que a irmã desta estava presente, não havia nada incorreto no convite.

Para começar, conversaram de todo tipo de temas de interesse geral. A convenção social permitia falar da triste situação do Manchester e seus trabalhadores das fábricas de algodão, e daí a conversa derivou de forma bastante natural para o assassinato do Edwin Lovat, por causa da implicação do Ryerson, embora em realidade, nenhum deles a chegou a mencionar.

O garçom lhes trouxe o primeiro prato de seu excelente almoço, um delicado patê belga para o senhor Jamieson e consomé para Charlotte e Emily.

Emily não perdeu mais tempo, sabendo que Jamieson teria que voltar logo para suas obrigações. Não podia abusar mais.

—Trata-se de uma investigação que está levando a cabo um departamento muito secreto do governo -começou a dizer Emily descaradamente, depois de dar um pontapé em Charlotte por debaixo da mesa, para adverti-la que se mostrasse surpreendida e não lhe ocorresse contrariar —. Minha irmã -olhou ao Charlotte— fez ver um modo em que posso oferecer minha ajuda, da forma mais discreta, compreende?

—Sim, senhora Radley? -disse Jamieson com gravidade.

—A vida de um jovem poderia depender disso -advertiu Emily—. De fato, poderia estar morto, embora espere sinceramente que não seja assim, —Passou por cima a expressão de alarme dele—. O senhor Radley me disse que é você sócio do White. É certo?

—Sim, sim, sou-o. Sem dúvida não há...

—Não, é claro que não - se apressou a tranqüilizá—lo Emily—. O White não está comprometido. —inclinou-se ligeiramente para ele, sem fazer caso do consomé, com uma expressão de concentração—. Será melhor que seja franca com você, senhor Jamieson.

Ele também se inclinou, com os olhos muito abertos.

—Prometo-lhe, senhora Radley, que pode contar com minha absoluta reserva.

—Obrigada.

O garçom retornou para retirar os pratos e servir o prato principal, peixe cozido para as damas, rosbife para o Jamieson.

Mal se foi, Charlotte tomou ar e sentiu como Emily lhe dava uns golpecitos no tornozelo com o pé. Fez uma ligeira careta de dor.

—Acredito que um jovem chamado Stephen Garrick poderia facilitar informação que nos seria de utilidade -disse.

Jamieson franziu o sobrecenho, mas não pareceu perplexo ou surpreso como ela tinha esperado.

—Lamento ouvi-lo - comentou em voz baixa—. Todos sabíamos que se passava algo.

—Como chegaram a essa conclusão? -apressou-o Charlotte, tratando de que não lhe notasse a impaciência e o medo repentino que sentia.

Ele a olhou com franqueza, seus olhos azul claros muito abertos.

—Bebia muito mais do que alguém bebe por prazer -respondeu—. Era como se tratasse de afogar alguma pena dentro dele. —Havia compaixão em seu rosto—. A princípio pensei que só se excedia, como pode fazê-lo qualquer um, já sabe.

Para seguir o ritmo, sem querer ser o primeiro em voltar atrás. Mas logo comecei a me dar conta de que havia algo mais. Beber lhe assentava mal, mas continuava fazendo-o. E tanto bebia só como acompanhado.

—Entendo -reconheceu Emily—. É evidente que há algo que lhe causa uma grande aflição. Suponho que não sabe do que se trata, posto que não o mencionou.

—Não. -Jamieson deu ligeiramente de ombros—. E, sinceramente, não sei como poderia averiguá—lo. Faz dias que não o vejo, e a última vez não estava em condições para responder com coerência a nenhuma pergunta. Eu... Sinto muito.

Não estava claro se se desculpava por sua possível negligência ou por falar de um tema tão desagradável.

—Mas conhece-o? -pressionou Charlotte—. São amigos?

Jamieson se mostrou indeciso, como se percebesse de antemão o que ela ia perguntar lhe.

—Sim - admitiu na defensiva—. Bom, não exatamente. Não sou um de seu... -se interrompeu.

—O que? -perguntou Emily.

Jamieson a olhou. Ela estava sentada muito erguida, como a tia avó Vespasia, sorrindo-lhe na expectativa, com um ar que a fazia muito atraente.

—Um de seu círculo - concluiu Jamieson a seu pesar.

—Mas poderia perguntar por aí -começou a dizer Emily—. Ao menos sobre sua situação atual e onde poderia estar.

—Sim - aceitou ele a contra gosto—. Sim, é claro.

—Bem. -Emily era implacável—. Existe um grande perigo. Não há tempo que perder ou poderia ser muito tarde. Poderia ir vê-lo esta mesma tarde?

—Seriamente é... tão...? —Jamieson não estava seguro de se acalorar-se ou alarmar-se.

—Sim -lhe assegurou ela.

Jamieson levou a boca um bocado de carne e batata assada.

—Muito bem. Como a ponho à corrente depois do que averigüei?

—Por telefone - disse Emily imediatamente. Tirou um cartão de visita de uma pequena caixa gravada que levava na bolsa—. Aí está o número. Por favor, não fale disso com ninguém além de mim, com ninguém absolutamente. Compreendido?

—Sim, senhora Radley, é claro.

Charlotte agradeceu à Emily de todo coração e aceitou seu oferecimento de acompanhá—la a casa na carruagem. Às oito e meia, enquanto ela e Pitt estavam sentados no salão, soou o telefone. Pitt o respondeu.

—É Emily, para você - disse da soleira.

Charlotte saiu ao corredor e pegou o aparelho.

—Sim?

—Stephen Garrick não está em sua casa. —A voz do Emily se ouvia estranha e muito fraca pela linha—. Ninguém o viu há dias, e o mordomo disse que não podia informar ao senhor Jamieson de quando voltaria.

Charlotte, parece que também desapareceu! O que vamos fazer?

—Não sei. —Charlotte se deu conta de que estava tremendo—. Ainda não...

—Mas faremos algo, não é? -disse Emily ao cabo de um segundo—. Parece sério, não? Quero dizer, mais sério que a demissão de um valete.

—Sim -concordou Charlotte com a voz um pouco rouca—. Sim, parece.

 

No dia que Charlotte se comprometeu em ajudar Gracie, e indiretamente à Pontua, Pitt retornou ao escritório do Narraway e o achou dando voltas nervoso pela sala.

Voltou-se quando Pitt abriu a porta. Estava abatido, cansado, com os olhos muito brilhantes. Olhou-o interrogante.

Pitt fechou a porta atrás de si e permaneceu em pé.

—Ryerson esteve ali - informou sem rodeios—. Não o nega. Ajudou-a à transladar o cadáver e não pensou em ir à polícia. Ela não disse nada, mas ele o contará se a polícia o chamar para lhe interrogar. Protegerá-a a toda custo.

Narraway guardou silêncio, mas pareceu ficar ainda mais tenso, como se as palavras do Pitt tivessem um significado mais profundo que os simples fatos.

—A versão dela não tem sentido - prosseguiu Pitt, desejando que Narraway respondesse, que dissesse algo para fazer mais fácil a conversa, mas parecia tão aflito que era incapaz de reagir com sua habitual inteligência incisiva.

Esperava que Pitt tomasse a iniciativa—. Se ela não estava implicada, por que ia querer transladar o cadáver? -acrescentou Pitt—. Por que não chamou à polícia, como faria qualquer pessoa em sua situação?

Narraway o olhou furioso e lhe quebrou a voz quando falou.

—Porque ela preparou tudo! Queria que a surpreendessem. Pode inclusive ser que fosse ela quem chamou à polícia. Lhe ocorreu pensá—lo?

—Que se incriminasse a si mesmo? -disse Pitt com total incredulidade.

Narraway torceu o gesto com amargura.

—Ainda não começou o julgamento! Espere a ver o que declara ela. Até agora, se Talbot não mente, não disse nada. E se reconhecer, como por puro desespero, que Ryerson disparou ao Lovat em um arrebatamento de ciúmes? -Sua voz imitava cruelmente o tom que imaginava que ela empregaria—. Tratou de ocultá-lo, porque o ama e se sente culpada por havê-lo provocado, sabendo que tem um temperamento incontrolável, mas não pode seguir protegendo-o, e não quer que a enforquem por sua culpa.

Narraway olhou ao Pitt, desafiando-o a que demonstrasse que estava equivocado.

Pitt estava perplexo.

—Para que? -perguntou.

Mal lhe brotaram as palavras dos lábios, dançaram ante ele um sem-fim de possibilidades horríveis, violentas, pessoais, políticas.

Narraway lhe dirigiu um olhar furioso.

—Ela é egípcia, Pitt. Para começar, me ocorre a questão do algodão! Já há alvoroços no Manchester pelos preços. Nós queremos baixá-los e Egito quer subi-los.

Desde que a guerra civil norte-americana cortou nosso fornecimento do sul e passamos a depender do Egito, o equilíbrio de forças mudou.

A América do Norte tece seu próprio algodão. A indústria européia nos está alcançando e necessitamos ao Império não só para comprar, mas também para vender.

Pitt franziu o sobrecenho.

—Não compramos quase todo o algodão ao Egito de todo modo?

—É claro que sim! -exclamou Narraway com impaciência—. Mas um trato que deixa a uma das partes insatisfeita ao final não serve a nenhuma das duas, porque não pode durar, Ryerson é um dos poucos homens cuja visão de futuro abrange mais de dois anos e é capaz de negociar um acordo que deixe tanto aos cultivadores egípcios como aos tecedores britânicos com a sensação de que ganharam algo. -seu rosto ficou ainda mais tenso—. Além disso, está a questão do nacionalismo egípcio.

Por Deus, não queremos voltar a ter que enviar cañoneras! Já bombardeamos uma vez Alexandria nos últimos vinte anos! - Olhou a careta de Pitt—. E há o ardor religioso - prosseguiu—.

Não preciso lhe recordar o levantamento em Suam.

Pitt não respondeu. Todo mundo recordava o lugar do Jartum e o assassinato do general Gordon.

—Também terá que considerar o benefício pessoal, ou o ódio ou a vingança -concluiu Narraway—. Necessita algo mais?

—Então precisamos averiguar a verdade antes que comece o julgamento -respondeu Pitt—. Embora duvide de que sirva de algo.

—Terá que conseguir que sirva! - balbuciou Narraway entre dentes, com a voz embargada pela emoção—. Se condenarem ao Ryerson, o governo terá que substituí—lo pelo Howlett ou Maberley.

Howlett cederá ante os trabalhadores e descerá tanto os preços que afundará aos egípcios. Teremos uns anos de riqueza e depois sobrevirá o desastre, a pobreza, um Egito sem algodão que vender, nem dinheiro com que comprar nada. Possivelmente inclusive a rebelião.

Maberley cederá ante os egípcios e teremos distúrbios por todo o noroeste do país, e a polícia se verá obrigada a reprimi—los, talvez até terá que intervir o exército. -Tomou ar para acrescentar algo mais, mas mudou de parecer e deu as costas ao Pitt—. Até agora tudo incrimina a essa mulher e Ryerson está disposto a ser seu cúmplice. -Agitou uma mão no ar—.

Necessitamos de outra explicação. Indague na vida do Lovat. Quem mais poderia havê-lo matado. Quem era. Que relação mantinha com a mulher. Suponho que cabe esperar que exista uma justificativa para que ela o matasse.

Não havia rastro de esperança no Narraway e, entretanto, por debaixo da amargura, Pitt acreditou detectar uma débil confiança em que houvesse outra explicação melhor.

—Você conhece o Ryerson, senhor - começou a dizer Pitt—. Se a mulher for a julgamento, permitirá realmente que o impliquem? Se for culpado de algum modo, não se demitirá primeiro, para não ser ministro do governo durante o julgamento?

Narraway seguiu de costas a ele, para ocultar seu rosto. —Provavelmente - concordou. — Mas não estou disposto a lhe pedir que o faça até não estar convencido de que tem alguma responsabilidade na morte do Lovat. - Havia desgosto em seu tom, assim como na rigidez de seus ombros, enquanto a luz que entrava pela estreita janela caía sobre sua cabeça. — Apresente se aqui depois de amanhã - disse por último. Voltou-se no preciso momento em que Pitt estava chegando à porta—. Pitt!

—Sim, senhor?

—Aceitei-o na Brigada Especial porque Cornwallis me assegurou que era seu melhor detetive e conhece a alta sociedade. Sabe andar-se com pés de chumbo, mas mesmo assim averigua a verdade.

Era uma afirmação, mas também uma pergunta, inclusive uma súplica.

Por um instante, Pitt teve a sensação de que lhe pedia sua ajuda de um modo que não podia descrever ou explicar. Logo a impressão se desvaneceu.

—Comece de uma vez - ordenou Narraway.

—Sim, senhor -voltou a dizer Pitt. Em seguida, Pitt saiu e fechou a porta atrás dele.

Dirigiu-se diretamente aos escritórios onde Lovat trabalhava como diplomata desde há mais ou menos um ano antes de morrer. A polícia já tinha estado ali, é claro.

Tratava-se de uma informação tão pública que tinha aparecido no necrológio do Lovat, de modo que quando Pitt chegou, recebeu-o com cansada resignação Ragnall, um oficial de mais de quarenta anos de idade que era evidente que já tinha respondido todas as perguntas de rigor nesses casos.

Ragnall permaneceu em pé no silencioso escritório discretamente mobiliado com vistas a Horse Guards Parade e olhou ao Pitt com paciência, mas com muito pouco interesse.

—Não sei que mais posso lhe dizer - observou, convidando-o com um gesto a sentar-se na poltrona frente à escrivaninha—. Não posso lhe dar outra explicação que a evidente.

Assediou à mulher até que ela se desesperou e lhe deu um tiro, bem em defesa própria ou mais provavelmente porque ele a ameaçou transtornando seus planos.

—Em seu rosto se traduziu uma expressão de ligeiro desagrado—. E antes que me pergunte isso, não tenho nem idéia de quais eram esses planos.

Pitt tinha poucas esperanças de obter grande coisa da entrevista, mas por algum lugar tinha que começar. Acomodou-se na poltrona e olhou ao senhor Ragnall.

—Acredita que Lovat poderia ter assediado à senhorita Zakhari até o ponto de que ela acreditasse que um simples desprezo não bastava para fazê-lo desistir? -perguntou.

Ragnall deu a impressão de surpreender-se.

—Bom, parece que isso foi o que ocorreu, não? Está dando a entender que ela o incentivou deliberadamente, por alguma razão, e depois o matou? Por que, pelo amor de Deus? Por que ia fazer uma mulher algo assim? -Franziu o sobrecenho—. Disse que era da Brigada Especial.

—A Brigada Especial não tinha notícia da existência da senhorita Zakhari antes da morte do senhor Lovat - respondeu Pitt à pergunta implícita—. Desejo saber se sua opinião sobre o senhor Lovat concorda com a de um homem que continuaria assediando uma mulher que lhe deixou claro que não deseja suas atenções.

Ragnall pareceu ligeiramente desconfortável. Seu rosto liso e bastante bonito se ruborizou, embora de forma tão imperceptível que poderia ter sido uma mera mudança de luz.

—Suponho que diria que sim. - Soou como uma desculpa—. Acredito que a senhorita Zakhari é muito atraente. Ao menos, isso é o que ouvi dizer. A pessoa pode obcecar-se. -Apertou os lábios, dando uns momentos para procurar as palavras adequadas com as que fazer compreender ao Pitt—. É egípcia. É pouco provável que haja muitas mais egípcias em Londres. Não era uma mulher comum, fácil de substituir por outra. Alguns homens se sentem atraídos pelo exótico.

—Você via o senhor Lovat com regularidade. -Pitt também abria passagem com tato. — Dava a impressão de estar "obcecado", como o expressou?

—Bom... -Ragnall tomou ar e voltou a exalar.

—Poderia condenar a outro homem por proteger a reputação do Lovat - observou Pitt sombrio.

Por um instante, Ragnall pareceu perplexo.

—Outro homem? -Logo o entendeu—, Oh, refere-se a essas tolices que dizem os jornais sobre o Ryerson? Com certeza só são... -Abriu as palmas das mãos para expressar sua impotência na hora de descrever exatamente o que pensava.

—Isso espero - concordou Pitt—. Estava Lovat obcecado com ela?

—Eu não tenho nem idéia. -Ragnall se sentia visivelmente incômodo—. Nunca me inteirei de que mantivesse uma relação séria com nenhuma mulher, ao menos não por muito tempo.

Ele - nesse momento, já não podia ocultar o rubor de seu rosto—. Parecia lhe resultar bastante fácil seduzir a uma mulher e depois trocá-la por outra.

—Assim, tinha muitas aventuras amorosas? -concluiu Pitt.

—Sim, sim. Receio que sim. Costumava ser bastante discreto, é claro. Mas a gente acaba inteirando.

Ragnall era muito consciente de estar falando de temas íntimos com alguém socialmente inferior, Pitt o tinha posto na situação de trair a sua própria classe ou seus princípios.

Tanto o um como o outro era duro para ele e excedia suas profundas convicções sobre si mesmo e seu lugar no mundo,

—Com que tipo de mulheres? -perguntou Pitt, com um tom ainda despreocupado e cortês, Ragnall abriu muito os olhos, Pitt lhe sustentou o olhar.

—O senhor Lovat foi assassinado, senhor - lhe recordou Pitt. — Receio que os motivos de um crime assim não são freqüentemente tão simples como nós gostaríamos, nem estão tão longe das transgressões sociais. Necessito mais informação sobre o senhor Lovat e sobre as pessoas que o conheciam bem.

—Sem dúvida o matou a mulher egípcia, a senhorita Zakhari - disse Ragnall, recuperando a calma—. Talvez fosse um néscio ao persegui-la quando suas atenções não pareciam ser bem acolhidas, mas não há necessidade de implicar nisto a ninguém mais, não lhe parece? -Olhou ao Pitt com uma expressão de desagrado.

—Tudo aponta a que o fez ela - concedeu Pitt—. Embora ela o nega. E, como você diz, parece uma forma extremamente violenta e desnecessária de rechaçar a um pretendente não desejado.

Pelo que ouvi dizer dela até agora, era uma mulher mais sutil. Devia ter tido antes outros pretendentes não desejados. No que era diferente Lovat?

O rosto do Ragnall ficou tenso, e voltaram a acender-se o as faces e a mostrar uma atitude contrariada.

—Tem razão - aceitou a contragosto—. Se ganhava a vida desse modo, e eu tinha dado por feito que assim era, deveria ter sabido desembaraçar-se de um lastro com mais habilidade do que isto parece indicar, a fim de melhorar sua situação.

—Exato - concordou Pitt com veemência. Pela primeira vez, alguém apresentava um argumento a favor da Ayesha Zakhari. Surpreendeu-lhe o muito que lhe agradou—.

Como era Lovat? E não me repita seu obituário. Só a verdade pode ser justa com todos.

Ragnall refletiu uns momentos.

—Com franqueza, era um mulherengo - disse a contragosto.

—Gostava das mulheres? -Pitt tratava de averiguar o que queria dizer exatamente Ragnall—. Se apaixonava com facilidade? Utilizava-as? Poderia ter feito inimigos?

Claramente, Ragnall se sentia desventurado.

—Eu não sei em realidade.

—O que lhe faz pensar que era mulherengo, senhor? -perguntou Pitt sem rodeios—. É sabido que há homens que exageram suas conquistas para impressionar a outros.

As indiscrições não significam que o que se conta seja verdade.

No rosto do Ragnall se percebeu um vislumbre de mau gênio.

—Lovat não falava desses temas, senhor Pitt, ao menos eu não lhe ouvi fazê-lo. É o que eu observei, assim como meus colegas.

—Que tipo de mulheres? -repetiu Pitt—. Como Ayesha Zakhari?

Ragnall se surpreendeu ligeiramente.

—Refere-se à estrangeiras? Ou...? -Não quis utilizar a palavra rameira. Descrevia não só à mulher, mas também aos homens que utilizavam seus serviços—. Que eu saiba não - terminou bruscamente.

—Refiro a mulheres que não têm marido nem família em Londres -corrigiu Pitt—. E que superaram a idade habitual para casar-se e talvez abram caminho como amantes.

Ragnall respirou fundo, como se tomasse uma decisão que lhe era difícil.

Pitt esperou. Talvez estivesse a ponto de averiguar algo que não implicasse ao Ryerson.

—Não - disse Ragnall por fim—. Não me pareceu que lhe importasse especialmente e não tinha meios para manter uma amante, não muito bem. -interrompeu-se, ainda resistente a comprometer-se mais.

Pitt o olhou fixamente.

—As esposas de outros homens? Suas filhas?

Ragnall esclareceu a voz.

—Sim, às vezes.

—Quem eram seus amigos? -perguntou Pitt—. De que clubes era membro? Interessavam-lhe os esportes? Era aficionado ao jogo, ia ao teatro? Que fazia em seu tempo livre?

Ragnall hesitou.

—Não me diga que não sabe - advertiu Pitt—. Estava no corpo diplomático! Você não podia permitir-se não estar à corrente de seus costumes. Isso seria uma negligência de sua parte. Deve conhecer seus colegas, seus problemas, sua situação econômica.

Ragnall se olhou as mãos, que estavam estendidas na escrivaninha, depois levantou de novo o olhar para o Pitt.

—Lovat morreu - disse em voz baixa—. Não tenho nem idéia de se foi má sorte ou se contribuiu de algum modo a isso.

Era bom em seu trabalho e não estou à corrente de que devesse dinheiro ou favores. Pertencia a uma boa família e quando dava sua palavra, cumpria-a.

Sua carreira no exército foi honrosa e nunca lhe faltou à coragem, nem física nem moralmente. Nunca o surpreendi mentindo nem conheço ninguém que o tenha feito.

Era leal a seus amigos e sabia comportar-se como um cavalheiro. Tinha certo encanto e não havia nada mesquinho nele.

Pitt sentiu a habitual onda de remorsos que se apoderava dele quando investigava um assassinato. De repente, a busca de informação parecia não importar nada ante a perda de uma vida, a vitalidade, os pontos débeis, virtudes e idiossincrasias.

Truncou-se uma vida, não de forma natural com a idade, senão sem prévio aviso, deixando-a incompleta. Os defeitos ou os pecados da pessoa em questão que tinham contribuído ao fatal desenlace pareciam tão pouco relevantes para esquecê-los.

Mas os sentimentos diminuiriam sua capacidade de análise e tinha o dever de averiguar a verdade, custasse o que custasse, por complicada ou dolorosa que fosse.

—Os nomes de seus amigos - pediu Pitt—. Pode ser que descubra que é inocente de todo cargo, senhor Ragnall, mas não posso dá-lo por assentado. Se enforcarem à senhorita Zakhari, ou a alguém mais, por seu assassinato será porque sabemos o que ocorreu e por que.

—Sim, é claro.

Ragnall pegou uma folha de papel e uma pena, mergulhou-a no tinteiro e começou a escrever. Secou a folha e a estendeu ao Pitt.

—Obrigado.

Pitt tomou a lista, leu os nomes e os clubes onde os podia achar, e se despediu.

Pitt entrevistou algumas das pessoas que Ragnall tinha cotado na lista, embora averiguou muito pouco mais.

Ninguém se sentia cômodo falando de um companheiro que estava morto e já não podia defender-se. Não era tanto uma questão de afeto como de lealdade a seus próprios ideais, talvez porque achavam que a traição supunha expor-se a que as pessoas o traíssem de forma similar quando ficassem em tecido de julgamento seus pontos fracos.

No meio da tarde Pitt tinha perdido a esperança de averiguar algo útil desse modo, pelo que decidiu ir ver seu cunhado, Jack Radley, que era deputado desde há alguns anos, e nesse tempo tinha estabelecido contato com o Ministério de Assuntos Exteriores.

Não se achava na Câmara dos Comuns e Pitt deu com ele passadas as quatro da tarde, quando cruzava um ensolarado Saint James Park, onde uma ligeira brisa formava redemoinhos sobre a erva com algumas folhas amarelas precoces.

Jack se deteve e se voltou quando ouviu que Pitt o chamava. Surpreendeu-lhe vê-lo, mas não lhe desagradou.

—O caso do Eden Lodge? -perguntou com ironia quando Pitt se acomodou a seu passo.

—Sinto muito - se desculpou Pitt.

Tinham-se sincera simpatia, mas tanto seus círculos sociais como suas profissões os mantinham afastados quase sempre.

Jack não possuía dinheiro próprio, mas sempre tinha conseguido viver de forma de acordo com seu bom berço. A princípio tinha sido mediante o generoso desdobramento de seu grande encanto pessoal. Desde que se casara com Emily, o fazia com a fortuna que ela tinha herdado de seu primeiro marido.

Durante os dois primeiros anos de matrimônio se contentou em seguir divertindo-se na alta sociedade. Depois, animado pelo Emily e pelo exemplo do Pitt, e inclusive talvez pelo respeito que tinha observado tanto em sua esposa como na irmã desta pelos lucros pessoais, interessou-se ativamente na política. Isso não tinha mudado o fato de que ele e Pitt se vissem muito pouco.

—Não conheço o Ryerson - disse Jack com pesar—. Está um pouco acima de meu âmbito político... no momento, —Viu a expressão do Pitt e se apressou a retificar—: Me refiro a que tenho intenção de ascender, não que acredite que ele vá perder sua posição. Pode ocorrer tal coisa? -pôs-se repentinamente muito sério.

—É muito cedo para sabê-lo -respondeu Pitt—. Não, não estou sendo discreto. A verdade é que não sei.

Meteu-se as mãos nos bolsos, gesto que contrastava com a atitude do Jack, quem jamais teria sonhado fazer algo parecido. Estragaria a linha impecável de seu traje e, além disso, sua educação lhe impedia tais coisas.

—Tomara pudesse ajudar - disse Jack com tom de desculpa—. Tudo parece tão absurdo, pelo que ouvi.

Um cão branco e negro de pequeno tamanho corria ao redor deles, meneando a cauda excitado. Não parecia pertencer ao casal que flertava perto das árvores, nem à babá de uniforme engomado, cuja mecha de cabelo loiro que não cobria a touca branca brilhava ao sol enquanto empurrava um carrinho de criança pelo atalho.

Pitt se agachou para recolher um palito e o atirou o mais longe que pôde. O cão correu atrás dele, ladrando emocionado.

—Conhecia o Lovat? -perguntou.

Jack o olhou de esguelha, com tristeza nos olhos.

—Não muito bem.

Pitt não podia permitir-se lhe deixar escapar tão facilmente.

—Foi assassinado, Jack. Se não fosse importante, não lhe perguntaria isso!

Jack pareceu surpreso.

—A Brigada Especial? -disse com incredulidade—. Por que? Há algo de verdade nas especulações sobre o Ryerson? Pensei que era coisa dos jornais.

—Não sei do que se trata - replicou Pitt—. E preciso averiguar, se puder antes que eles o façam. Conhecia o Lovat? Deixa a um lado a consideração pelos finados, e me conte o que saiba.

Jack apertou a boca e olhou ao longe.

O cão se aproximou correndo de Pitt, deixou o pau no chão e dançou para trás olhando-O esperando.

Ele se inclinou, recolheu o pau e o lançou outra vez o mais longe que pôde. O cão correu atrás dele, agitando as orelhas e a cauda.

—Um homem difícil - disse Jack por fim—. Suponho que, em certo sentido, era um candidato ideal para um assassinato. Em realidade, lamento muitíssimo o ocorrido.

—Voltou-se para olhar ao Pitt—. Ande com pés de chumbo, Thomas, se for possível. Há muitas pessoas que poderiam sair prejudicadas e não o merecem. Esse homem era um mal nascido em seu tratamento com as mulheres.

Se se tivesse conformado com mulheres casadas dessas que vai têm filhos e se dedicam à alternar um pouco, a ninguém teria importado muito, mas cortejava às mulheres como se as amasse, mulheres jovens que desejavam casar-se, que precisavam contrair matrimônio, e uma vez que as possuía, voltava atrás.

Deixava a todo mundo perguntando-se qual problema tinham. A conclusão costumava ser que tinham perdido sua honra. Depois, é claro, já não as queria ninguém.

Não lhe foi preciso dar mais detalhes. Os dois sabiam o que aguardava a uma mulher que não tinha possibilidades de casar-se.

—Por que? -perguntou Pitt com tristeza—. Por que cortejar uma mulher decente com quem não tem intenção de contrair matrimônio? É cruel e perigoso! Eu...

Interrompeu-se, mas pensou por um momento em Jemima, confiante, impaciente, tão fácil de ferir.

Se um homem lhe tivesse feito isso, Pitt teria querido matá-lo, mas não lhe dar um tiro limpo no jardim de outro no meio da noite.

Teria querido lhe fazer mingau antes, sentir ranger osso após osso, o golpe de seu punho na carne, vê-lo sofrer e assegurar-se de que compreendia a causa da agressão.

Provavelmente era algo primitivo, e não ajudaria em nada a Jemima, salvo para lhe fazer saber que a valorizava muitíssimo e que não estava sozinha em sua dor. Ao menos serviria para que o homem pensasse duas vezes antes de fazê-lo de novo.

Pitt olhou de esguelha ao Jack e viu em sua expressão parte dessa mesma cólera muda.

Talvez pensasse em sua própria filha, apenas um bebê.

—Sabe com segurança? -perguntou em voz baixa.

—Sim. Suponho que quererá nomes...

—Não, não os quero - replicou Pitt—. Preferiria deixar que as pobres desventuradas conservassem para si seu doloroso segredo. Mas os necessito. Se não agarrarmos ao homem que o fez pendurarão a um inocente ou à mulher.

—Suponho que sim.

Jack lhe proporcionou quatro nomes e lhe disse onde achava que podia encontrá-los.

Pitt não precisou anotá-los. Teria gostado não ter que falar com eles nem lhes fazer perguntas, podia entender facilmente como se sentiam.

O cão retornou, tremendo de emoção e regozijo, e deixou cair o pau aos pés do Pitt e brincou de correr a seu redor esperando que voltasse a arrojá-lo.

Não achava freqüentemente a pessoas tão disposta a jogar e que entendesse tão claramente as regras.

Pitt o agradou e ele voltou a sair correndo. Adoraria ter um cão. Diria ao Charlotte que os gatos teriam que acostumar-se.

—Pode perguntar a Emily - comentou Jack de repente, olhando ao Pitt e mordendo o lábio inferior. Pareceu envergonhar-se ligeiramente ao dizer: é muito observadora...Deixou a frase inacabada.

Os dois eram conscientes dos casos nos que Charlotte e Emily tinham intervindo no passado, às vezes correndo perigos, mas sua profunda discrição e sua compreensão dos detalhes sutis tinham sido chave em sua resolução.

Nenhum dos dois queria expressá-lo em palavras. Alguns deles tinham sido dolorosos, deixando descoberto, feridas muito fundas e mostrando facetas deles mesmos que não tinham conhecido.

—Sim - concordou Pitt, surpreso de que não lhe tivesse ocorrido antes — o farei. Estará em casa?

Jack sorriu de repente.

—Não tenho nem idéia!

Pitt demorou duas horas para localizar Emily. Seu mordomo lhe informou que tinha ido a uma exposição de arte recém inaugurada e depois tinha previsto passar por sua casa só para trocar-se e ir jantar a casa de lady Mansfield em Belgrave.

Pitt lhe agradeceu, perguntou como ir à exposição e se encaminhou imediatamente até ali.

A galeria estava abarrotada de mulheres com formosos vestidos e alguns homens que as escoltavam, e que paqueravam um pouco, fazendo solenes e pedantes comentários sobre os quadros.

Pitt só os olhou brevemente, o que lamentou. Pareceram-lhe não só bonitos, mas também muito interessantes. Eram de um estilo impressionista que nunca tinha visto, impreciso e brumoso, e que, entretanto, criava uma sensação de luz que lhe agradou enormemente.

Mas não tinha ido ali pelos quadros. Devia achar Emily antes que partisse, e isso requeria concentração e inclusive um considerável esforço físico só para desculpar-se sem cessar e abrir caminho a empurrões entre grupos de pessoas que falavam e mulheres com saias que se roçavam entre si e que bloqueavam a passagem em qualquer direção.

Lançaram-lhe vários olhares autoritários e fulminantes e em mais de uma ocasião ouviu murmurar "Mas bem!", mas não podia permitir-se esperar que se movessem e lhe deixassem passar por própria vontade.

Encontrou Emily na terceira sala, conversando com uma jovem com um vestido azul aciano e um chapéu extravagante que lhe pareceu muito favorecedor. Conferia-lhe um ar de mistério que não possuía por si mesma.

Perguntava-se como atrair a atenção de Emily sem ser mal educado quando ela reparou nele, talvez porque desafinava notoriamente com o resto das pessoas.

A consternação se refletiu em seu rosto. Desculpou-se apressadamente com a mulher de azul e se dirigiu para ele.

—Não aconteceu nada - a tranqüilizou Pitt.

—Não me ocorreu pensá-lo - replicou ela, sem mudar sua expressão o mínimo—. Meu temor era ficar adormecida de aborrecimento e perder o equilíbrio. Não há nada aqui que me retenha.

—Você não gosta dos quadros? -perguntou ele.

—Thomas, não seja tão prosaico. Ninguém vem aqui para olhar os quadros. Em realidade não os olham, só lhes dão uma olhada para fazer comentários que acreditam terrivelmente profundos e que esperam que logo alguém repita. Por que veio? Não são roubados, não é?

—Não, não o são - respondeu Pitt, sem poder evitar sorrir—. Jack pensou que talvez poderia me ajudar.

O rosto de Emily se iluminou.

—É claro! -exclamou impaciente—. O que posso fazer?

—Só quero informação e talvez que me dê sua opinião.

—Sobre quem?

Emily o pegou pelo braço e se aproximou de um dos quadros, como se o estudasse com atenção.

Não era realmente o lugar apropriado para manter uma conversa discreta, mas se ele falasse em voz baixa, ninguém os ouviria nem faria nenhum comentário sobre eles.

—Sobre o tenente Edwin Lovat - respondeu Pitt, ao mesmo tempo que olhava também o quadro.

Ela se sobressaltou, embora sua expressão se manteve serena.

—Está levando esse caso?

O tom de sua voz refletia a emoção que sentia. Não mencionou a Brigada Especial, estava muito atenta a não dizer nada inconveniente para incorrer nesse deslize, mas Pitt era consciente de que sua mente se pôs a funcionar a grande velocidade.

—Sim - respondeu ele muito baixinho—. O que sabe dele, Emily? Ou o que ouviu? Necessito que distinga uma coisa de outra.

Ela manteve a vista cravada no quadro. Representava um raio de luz que brilhava através de árvores até refletir-se em um atoleiro de água.

Possuía uma beleza extraordinariamente serena, como uma descrição da solidão em um dia ensolarado e sem vento. A pessoa quase esperava ver o brilho das asas de uma libélula.

—Sei que era um homem perigosamente desventurado - explicou Emily—. Parecia estar sempre meio apaixonado, mas assim que obtinha o compromisso de alguém, fugia como apavorado de permitir que o conhecessem.

Fazia muito dano, mas nunca se arrependia o suficiente para não cair no mesmo. Se não foi a egípcia quem o matou, há muitas outras possibilidades que considerar.

—Perigosamente desventurado? -repetiu ele com curiosidade.

—Bom, não se comporta assim a não ser que te corroa algo por dentro, não? -desafiou-lhe Emily, que seguia olhando o quadro—. Se for egoísta ou avaro, pode se casar por dinheiro, por conseguir um título nobiliárquico ou com alguém cuja beleza admira, mas o que fazia ele só lhe granjeava inimigos.

E não era tão estúpido para não dar-se conta. Saltava bem à vista! Era um homem inteligente e, entretanto, se comportava de um modo que qualquer néscio saberia que era autodestrutivo.

Pitt refletiu uns minutos em silêncio, dando voltas na cabeça às palavras de Emily. Era uma idéia que não tinha considerado.

Ela esperou.

—Acha que ele pensou sobre isso tão a fundo? -disse Pitt por fim.

—Não me pediu que fosse lógica, Thomas, perguntou-me o que penso do tenente Lovat.

—Tem toda a razão. Obrigado. Pode me dar os nomes dessas pessoas?

—Naturalmente - disse ela, ao mesmo tempo que fazia um gesto com a mão para indicar a luz do quadro, como se esse fosse seu tema de conversa.

Depois, Emily pronunciou meia dúzia de nomes e Pitt os anotou, junto com uma idéia vaga de onde viviam e quais eram seus passatempos.

Tratava-se de uma desagradável enxurrada de esperanças e humilhações, vergonha e sentimentos feridos, alguns mais superficiais, outros fundos.

Pitt lhe agradeceu e partiu da galeria.

Durante o resto da tarde e todo o dia seguinte Pitt se dedicou a fazer discretamente averiguações sobre onde tinham estado à noite do assassinato as pessoas cujos nomes lhe facilitara Emily, mas ou todos tinham álibi, ou a ferida moral ou emocional era muito antiga ou delicada para que não se prejudicassem a si mesmos tanto como ao próprio Lovat com uma vingança depois de tanto tempo.

Não importava as voltas que lhe desse: tudo lhe levava ao Ryerson e a Ayesha Zakhari.

No dia seguinte revisou a folha de serviços do Lovat no Egito, se por acaso jogasse nova luz sobre seu caráter e suas relações com outros soldados, ou oferecia uma via para outra conexão com alguém desse país que conduzisse de novo a Ayesha Zakhari e desse mais sentido ao ocorrido no Eden Lodge.

Deu-se conta com um sobressalto do muito que desejava descobrir algo que explicasse o que a seu pesar achava que tinha acontecido, que Ayesha tinha dado um tiro em Lovat e que Ryerson estava tão apaixonado por ela que quis ajudá-la a encobrir o crime.

Mas a folha de serviços não lhe revelou nada. Lovat parecia ter sido bastante apto em sua profissão.

Tinha um dom natural para relacionar-se com pessoas e sabia comportar-se em sociedade.

Sua carreira no exército tinha sido virtualmente irrepreensível e foi dado de baixa de forma honrosa quando lhe quebrantou a saúde depois de sofrer umas febres enquanto servia em Alexandria.

Não havia indícios de que tivesse sido covarde ou escapara de algum modo de seu dever. Tinha sido um bom soldado muito apreciado por todos.

Respondia o expediente à verdade ou tinham eliminado cuidadosamente os fatos que podiam prejudicar sua carreira no futuro? Não seria a primeira vez que Pitt topava com um acordo tácito para pôr a lealdade por diante da verdade apoiando-se no encargo de que a honra mais elevada estava em proteger o bom nome do corpo diplomático.

Da folha de serviços era impossível extrair nada nesse sentido e os funcionários com os quais falou não sabiam muito mais por si mesmos e estavam muito bem treinados para aventurar-se a fazer hipótese. Olharam-no de forma inexpressiva e guardaram silêncio.

Parecia que em sua vida pessoal Lovat granjeara inimigos.

Os que o tinham conhecido compartilhavam a opinião do McDade de que tinha sido um homem de aparência agradável, não bonito ao modo convencional, mas com um grande físico, um belo cabelo e um sorriso de grande encanto.

Pitt também averiguou que Lovat sabia dançar e tinha facilidade para entabular conversa. Gostava da música e cantava com entusiasmo, sempre tinha nos lábios alguma canção e recordava a letra de todas as baladas sentimentais de moda.

—Não sei que problema tinha - explicou um cavalheiro de idade avançada sacudindo a cabeça com tristeza, sentado frente a Pitt no Clube do Exército e Armada do Pall Mall essa noite, bebendo um brandy Napoleão, com os pés apoiados contra o guarda-fogo da lareira, torrando as solas das botas—. Cortejou a um sem número de moças agradáveis, que teriam sido boas esposas.

Mas assim que parecia que ia pedir lhes a mão, aborrecia-se, ou se desencantava, ou o que fosse tinha medo, atreveria-me a dizer, e ia atrás de outra. -Virou o lábio inferior em uma careta—. Tampouco lhe importava muito quem escolhia. Tinha a moral de um gato de ruas, lamento dizê-lo.

Pitt se afastou um pouco do fogo, que ardia com um brilhante resplendor e dava muito mais calor do necessário naquele benigno dia de setembro.

O coronel Woodside parecia não dar-se conta disso, assim como tampouco do aroma que desprendiam suas botas.

—Conhecia a mulher egípcia, a senhorita Zakhari? -inquiriu Pitt, sem saber se o coronel o consideraria uma pergunta indecorosa.

—É claro que não a conhecia! -exclamou Woodside com irritação—. E se o tivesse feito, não o admitiria ante alguém como você! Mas a vi uma vez. Uma criatura bonita, muito bonita. Nunca vi uma mulher inglesa andar com semelhante garbo.

Movia-se como plantas aquáticas na água com algo assim como fluidez. –Sustentou a mão em alto para fazer uma demonstração, depois a deixou cair bruscamente e olhou furioso ao Pitt—. Se quiser que lhe diga que Lovat a assediou, não sei! Não tenho nem idéia. Um homem não faz essas coisas em público.

Pitt desviou o assunto.

—Conhecia o senhor Lovat ao senhor Ryerson? -perguntou.

—Nem idéia! Não acredito. Maldita seja!

O coronel afastou os pés do guarda-fogo e embora os tivesse apoiado por um momento no chão, levantou-os muito depressa com uma careta.

Embora lhe fosse difícil, Pitt manteve uma expressão de perfeita seriedade.

—Não freqüentavam os mesmos lugares - acrescentou Woodside, ao mesmo tempo em que cruzava com cuidado os tornozelos para não apoiar as solas das botas no piso—. Os afastava uma geração, para não falar de status, dinheiro e gosto pessoal. Está pensando na mulher? Pelo amor de Deus! É bonita, mas carece da necessária respeitabilidade.

Nenhum homem vai casar se com ela! Claro que ela escolheu ao Ryerson. -Olhou ao Pitt carrancudo—. Tem riqueza, posição, reputação, elegância. Além disso, possui um encanto que o jovem Lovat nunca conseguiu.

E sabe Deus por que não tornou a casar-se depois de que matassem a sua mulher, um mau esse assunto, mas agora já não o fará, de modo que a mulher estaria mais tempo segura gozando de seus favores que com um jovem como Lovat, que poderia cansar-se dela ou considerar oportuno deixá-la de lado se lhe apresentava umas boas bodas e tinha alguma possibilidade de custeá-la, é claro.

Tinha embaciado um pouco sua reputação tonteando por aí, e não era o que todos os pais querem para sua filha.

Atreveria-me a dizer que uma herdeira escolheria a alguém muito melhor. -Grunhiu—. Mesmo assim, pode ser que as mulheres egípcias não saibam isso. É muito mais prudente ir ao seguro.

—Não acredita que Ryerson tivesse podido pensar em casar-se com ela? -perguntou Pitt, mais para ver a reação do Woodside que porque esperasse uma resposta afirmativa.

Sentia tal compaixão por ela que nem sequer era uma verdadeira pergunta. Podiam utilizá-la, desfrutar dela, mas em nenhum caso contrair matrimônio.

Havia milhões como ela, por todo tipo de razões: linhagem, dinheiro, aspecto físico... ninguém mudaria isso, mas mesmo assim lhe enfurecia.

Sabia o que era ver-se excluído, embora não lhe tivesse ocorrido muito freqüentemente.

Woodside se olhou fixamente os pés.

—Ryerson nunca superou a morte de sua mulher. Não sei realmente por que. Alguns homens tomam assim, mas não o teria esperado dele. Sua mulher era bonita, mas inquieta, sempre em busca de novas experiências.

Eu não me teria incomodado com alguém como ela. Não me importa que as mulheres sejam pouco inteligentes, às vezes são mais fáceis, mas não tenho paciência com as idiotas. Não perderia meu tempo em vigiá-las. É exaustivo, sabe?

Pitt se surpreendeu. Não via o Saville Ryerson apaixonando-se por uma mulher que não fosse inteligente. Tratou de imaginar-lhe a classe de beleza ou o porte que devia ter tido para cativá-lo até o extremo de que um quarto de século depois ainda a chorava muito profundamente para voltar a casar-se.

—Era muito...? -começou a dizer, embora se interrompeu ao dar-se conta de que não sabia precisar a que se referia.

—Nem idéia - respondeu Woodside com tom de impotência—. Nunca compreendi ao Ryerson. Um tipo brilhante às vezes, mas de jovem tinha muito mau caráter. Só um néscio lhe teria contrariado, asseguro!

De novo Pitt ficou ligeiramente surpreso. Não parecia o homem que tinha tido diante fazia um par de dias, sereno e com muito domínio de si mesmo, preocupado unicamente pela mulher.

Tinha perdido toda sua psicologia para julgar às pessoas? Era possível que Ryerson tivesse dado um tiro em Lovat em um arranque de ciúmes e a mulher tivesse assumido a responsabilidade para protegê-lo? Por que? Por amor, ou na equivocada convicção de que ele poderia e quereria protegê-la?

—Mudou, é claro -continuou dizendo Woodside pensativo, sem deixar de olhar os pés, como se temesse haver-se queimado o couro das botas—. Sabe Deus que com seu cargo o governo teve suficiente para pôr a prova o caráter de qualquer homem ao longo dos anos. Que solitário é o poder para um homem, e os políticos são pessoas traiçoeiras, se quer saber minha opinião. —Levantou de repente a vista—. Lamento não poder lhe ajudar. Não tenho nem idéia de quem disparou ao Lovat nem por que.

Pitt compreendeu que a conversa tinha chegado a seu fim e se levantou.

—Obrigado pelo tempo que me dedicou, senhor. Fico muito agradecido.

Woodside recusou sua gratidão com um gesto e voltou a colocar os pés na lareira.

Pitt se dirigiu ao escritório do Ryerson no Westminster e solicitou falar com ele uns minutos. Estava esperando a menos de meia hora quando um secretário com colarinho de pontas e calça de raia diplomática veio buscá—-o e o fez passar.

Ao Pitt surpreendeu a brevidade da espera.

Ryerson o recebeu em uma estadia de sombria opulência, com móveis cobertos de couro, madeira velha tão encerada que semelhava vaso sob cristal, prateleiras com livros encadernados em tafilete com letras douradas nos lombos, e janelas pelas quais se viam as folhas cada vez mais descoloridas de uma tília que, agitadas pelo vento, projetavam sombras sobre o tronco de duas cores.

Ryerson parecia cansado, tinha profundas olheiras e brincava com um charuto que claramente não estava fumando.

—O que descobriu? -perguntou mal Pitt fechou a porta ao mesmo tempo que lhe assinalava uma cadeira com um gesto. Ryerson permaneceu em pé. Pitt tomou assento sem fazer-se de rogar.

—Só que, ao que parece, Lovat tinha aventuras com muitas mulheres e não era fiel a nenhuma - explicou—. Pelo visto, feriu muito a muitas pessoas e deixava uma esteira de infelicidade em sua passagem. Pitt esquadrinhou ao Ryerson abertamente, mas não viu cólera nem surpresa em seu rosto. Era como se Lovat, por si mesmo, não lhe importasse.

—Desagradável - comentou Ryerson carrancudo—, embora por desgraça nada excepcional. O que está insinuando? Que um marido ultrajado poderia lhe haver dado um tiro? Isso é absurdo, Pitt.

Tomara pudesse acreditar, mas que fazia esse homem ultrajado às três da madrugada no Eden Lodge? Com que tipo de mulheres se relacionava Lovat? Criadas? Prostitutas?

—Damas, conforme soube - replicou Pitt—. Jovens e solteiras. -Não afastou os olhos do rosto do Ryerson e viu sua expressão de desgosto—. A classe de mulher a quem arruinaria um escândalo - acrescentou desnecesariamente.

Foi à ira, e não a razão, o que impulsionou ao Pitt a fazer o comentário.

Ryerson jogou por fim seu charuto à lareira, mas errou o tiro por pouco e o ouviu golpear com ruído surdo o metal que a rodeava e cair na pedra, enegrecida, embora, não muito quente. Não lhe prestou mais atenção.

—E está insinuando que o pai de uma dessas mulheres passou a noite seguindo ao Lovat até que o surpreendeu entre os matagais de Éden Lodge e que então lhe deu um tiro? Investigou muitos assassinatos que cedo ou tarde conduziram aos salões da aristocracia. Tem muito bom senso para chegar a uma conclusão tão ridícula.

Ryerson olhou com atenção ao Pitt, como se tratasse de vislumbrar o motivo que havia atrás dessa idéia absurda. Não havia desdém em seu olhar, só perplexidade, e no fundo medo, sincero e profundo.

Com um repentino sobressalto Pitt percebeu algo mais, e imediatamente soube que deveria havê-lo esperado.

—Esteve fazendo indagações sobre mim!

Ryerson deu ligeiramente de ombros.

—É claro. Não posso me permitir nada menos que o melhor. E Cornwallis diz que você é o melhor.

Não era uma pergunta, mas havia uma ligeira inflexão em sua voz, como se quisesse que Pitt o confirmasse, assegurasse-lhe que tinha feito tudo o que estava em sua mão.

Pitt se desconcertou ao se descobrir incômodo. Estava zangado com o Cornwallis, embora sabia que teria falado com total sinceridade; provavelmente não tinha mentido em toda sua vida.

Sua transparência era, junto com seu sentido ético e sua coragem física, sua melhor virtude, e ao mesmo tempo sua maior desvantagem nos tratos da administração policial.

Era completamente diferente do Victor Narraway, quem representava o súmmum da sutilidad e da arte de enganar sem mentiras e de guardar-se para si seus conselhos.

Se tinha algum ponto fraco, Pitt não o tinha descoberto.

Compreendia os sentimentos de outros, mas Pitt não era capaz de intuir sequer o que sentia ele, se é que tinha sentimentos, se em algum secreto rincão de seu coração conservava sonhos não realizados, feridas sem cicatrizar ou temores que invadiam os solitários momentos que permanecia acordado de noite.

Ryerson observava Pitt, à espera de uma resposta.

—Sim, investiguei muitos casos - respondeu Pitt—. Os suficientes para saber que certas coisas são tão simples como parecem e outras não. Tudo aponta a que a senhorita Zakhari tinha entrevista com o senhor Lovat, do contrário, por que saiu a seu encontro e por que levou consigo a pistola? Se tivesse ouvido um intruso, teria enviado a seu criado, não teria saído ela sozinha. E como ia fazer ruído se Lovat andava sobre grama?

—Sim - concedeu Ryerson com um tom seco—. Seu raciocínio tem lógica. É possível que alguém o seguisse e o matasse no Eden Lodge para que outro carregasse com a culpa. O que aparentemente conseguiu com grande êxito.

Pitt não disse nada. Pensava na arma de Ayesha Zakhari, que tinha sido utilizada para matar ao Lovat e que estava a seu lado no chão úmido na escuridão.

Levantou a vista para o Ryerson e se deu conta imediatamente de que estava pensando exatamente o mesmo que ele.

Soube, porque se ruborizou ligeiramente e pelo olhar de cumplicidade que cruzaram. Em seguida Ryerson baixou os olhos.

—Conhecia o Lovat? -perguntou Pitt.

Ryerson se aproximou da janela e, de costas ao Pitt, olhou as folhas que revoavam ao vento.

—Não. Não o conhecia. A primeira vez que o vi foi deitado no chão de Éden Lodge, ao menos que eu tenha consciência.

—Tinha-lhe mencionado alguma vez a senhorita Zakhari?

—Não de nome. Encontrei-a um pouco alterada uma tarde que ficamos e me disse que um antigo conhecido estava aborrecendo-a.

Poderia ter sido Lovat, mas suponho que não necessariamente. -Moveu as mãos inquieto. Permaneceu com os ombros e o pescoço rígidos—. Averigúe a verdade - disse em voz tão baixa que era como se falasse consigo mesmo, e, entretanto, havia nele tal veemência que era evidente que suplicava, embora sem chegar a pronunciar as palavras.

—Sim, senhor, farei todo o possível para que assim seja.

Pitt se levantou. Havia muito mais coisas que queria saber, mas eram muito tênues para expressá-las, hipóteses, emoções que não era capaz de pôr nome, e precisava ver o Narraway antes que terminasse o dia.

—Obrigado - respondeu Ryerson.

Pitt hesitou, perguntando-se se não seria justo lhe advertir que a verdade podia ser dolorosa e muito diferente do que ele se empenhava em acreditar. Mas era inútil. Haveria tempo para isso se fosse necessário.

Portanto, limitou-se a desculpar-se e partiu dali.

—O que conseguiu?

Narraway levantou a vista dos papéis que estudava e olhou ao Pitt com ar desafiante. Também parecia cansado, com os olhos avermelhados e as faces um pouco abatidas.

Pitt se sentou sem esperar que o convidasse a fazê-lo e tratou de ficar a vontade, mas foi impossível.

Sentia-se tão tenso que lhe doía às costas e tinha as mãos rígidas.

—Nada que faça albergar alguma esperança de achar uma explicação mais satisfatória -replicou Pitt, empregando deliberadamente palavras ásperas que doessem ao Narraway e a si mesmo—. Lovat era um mulherengo bastante irresponsável para utilizar jovens solteiras e respeitáveis cuja reputação podia ver-se arruinada por suas atenções, e passar de uma a outra, deixando à sociedade perguntando-se que grande pecado tinha descoberto nelas.

Narraway apertou os lábios, molhando-os.

—Não seja tão afetado, Pitt. Sabe perfeitamente quão pecados a sociedade lhes atribui, com razão ou sem ela. Não lhes importa quem é ou o que é, só o que outros pensem de você.

A pureza de uma mulher vale mais que sua coragem, ternura, compaixão, senso de humor ou honestidade. Sua castidade significa que lhe pertence. Trata-se simplesmente de uma propriedade.

Em sua voz se traduzia uma amargura que superava ao cinismo. Pitt teria jurado que havia também dor.

Depois pensou em como se sentiria se Charlotte permitisse que alguém mais a tocasse intimamente, por não falar de que ela se abandonasse à paixão, e todos os raciocínios se viram arrasados.

—É importante. -Era uma afirmação, muito furiosa e áspera para que se tomasse como um argumento contra.

Narraway sorriu, mas desviou o olhar.

—Fala em geral ou sabe os nomes dessas mulheres e, o que vem mas ao caso, dos pais, irmãos ou outros amantes que poderiam ter vontade de seguir ao Lovat por Londres e lhe dar um tiro?

—É claro - respondeu Pitt, alegrando-se de ter sido precavido.

Não obstante, Pitt sentia que seu superior tinha omitido um dado significativo. Tratava-se só de que seus sentimentos eram muito profundos para ser expressos com palavras, ou havia também parte de razão, um fato que no momento lhe escapava?

—E, a julgar por sua expressão - observou Narraway—, não contribuíram nada a você.

—A nós - corrigiu Pitt cortante—. Nada absolutamente.

Ficou assombrado e um tanto doído ao ver como a esperança se apagava nos olhos do Narraway, como se tivesse sido algo mais que um sentimento passageiro.

Ao perceber o olhar do Pitt, Narraway se voltou pela metade, protegendo algo dentro de si.

—Então, não averiguou nada além de que Lovat era um homem que se expunha a um mal final?

Essa era uma forma fervene de expressá-lo, mas em essência certo.

—Sim.

Narraway tomou ar para dizer algo mais, mas se limitou a exalar.

—Fui ver o Ryerson - informou Pitt—. Continua convencido de que a senhorita Zakhari é inocente.

Narraway o olhou de novo, com as sobrancelhas arqueadas.

—Quer dizer que não vai ajudar se a si mesmo distanciando do assunto e admitindo que quando chegou achou ao Lovat já morto? -perguntou Narraway.

—Não sei o que vai declarar. A polícia sabe que ele estava ali, de modo que não pode negá-lo.

—É muito tarde, de todo modo - replicou Narraway com repentina amargura—. A embaixada do Egito sabia que estava ali.

Fiz todo o possível para averiguar quem lhes proporcionou a informação e quão único tirei limpo é que não têm intenção de me dizer isso.

Pitt se ergueu ligeiramente em seu assento, muito devagar. Não tinha parado para pensar no que tinha estado fazendo Narraway, mas, como se o percorresse uma carga elétrica, deu-se conta da importância do que acabava de dizer.

Narraway sorriu com as comissuras da boca para baixo.

—Exato - disse—. Pode ser que Ryerson esteja fazendo ridículo, mas alguém o está apoiando de forma discreta e muito poderosa. Pelo que não estou seguro é de qual é o papel da Ayesha Zakhari, e se é consciente dele. É a rainha ou uma boneca?

—Por que? -perguntou Pitt, virando-se para frente. -O algodão?

—Pareceria a explicação óbvia -respondeu Narraway—. Mas o claro não é forçosamente a verdade.

Pitt ficou olhando-o, à espera que prosseguisse.

Narraway se recostou em sua cadeira, mais resignado que relaxado.

—Vá a casa e durma - disse—. Volte amanhã pela manhã.

—Isso é tudo?

—Que mais quer? -replicou Narraway—. Aproveite enquanto puder! Não durará!

 

Charlotte refletiu muito sobre Martin Garvie e o que poderia lhe haver ocorrido.

Era consciente do sem-fim de fatos desagradáveis ou trágicos que podiam acontecer aos criados, assim como das desgraças que podiam lhes sobrevir.

A opinião que tinha Pontua dele estava forzosamente influenciada pelo afeto, além de por certa inocência inevitável em qualquer jovem com sua falta de experiência. Pelo bem de Pontua, Charlotte não teria querido que fosse de outro modo.

Devia ter a idade de Gracie, mas carecia de sua têmpera ou de sua curiosidade, e possivelmente também das amargas experiências da rua. Talvez Martin a tivesse protegido delas?

Estavam na cozinha, e não fazia mais de uma hora que Pitt tinha saído.

—O que vamos fazer? -perguntou Gracie com uma torpe mescla de deferência e resolução.

Apesar de que nada podia detê-la, sabia, não obstante, que necessitava a ajuda de Charlotte.

Envergonhava-se de ter ofendido ao Tellman, ao mesmo tempo em que se sentia confusa por isso e, pela primeira vez, um pouco assustada de seus próprios sentimentos.

Nesse momento Charlotte se aplicava em tirar uma mancha de graxa de uma jaqueta de Pitt. Já tinha triturado as patas de ovelha até as converter em um pó fino.

Era algo que, naturalmente, armazenava, junto com outros ingredientes que serviam de agentes de limpeza, como suco de acedera, giz, partes de cascos de cavalo (limpos, é claro), cabos de velas, suco de limão ou o suco de uma cebola.

Estava concentrada no que fazia, esfregando a mancha com um trapo empapado em essência de terebintina e evitando olhar ao Gracie para não dar a suas palavras um tom emocional.

—Provavelmente deveríamos falar outra vez com Pontua - propôs Charlotte enquanto estendia a mão e pegava os pós que Gracie tinha preparados. Polvilhou um pingo sobre a mancha úmida e a examinou com olho crítico—. Poderia nos ser útil dispor de uma descrição do Martin.

—Vamos buscá-lo? -perguntou Gracie surpreendida—. Por onde começaremos? Poderia estar em qualquer parte! Poderia ter desaparecido ou... - interrompeu-se.

Charlotte sabia que tinha estado a ponto de dizer que podia achar-se morto. Também a rondava esse pensamento.

—É difícil perguntar às pessoas se viram alguém se não formos capazes de dizer que aspecto tinha-replicou Charlotte, utilizando uma pequena escova de cerdas rígidas para tirar os pós.

A mancha começava a desaparecer. Se insistisse um pouco mais, a jaqueta estaria limpa. Esboçou um sorriso—. Daria a impressão de que não o conhecemos - acrescentou—. Isso não nos convém, posto que a verdade não soa muito verossímil.

—Posso ir procurar a Pontua para que nos diga isso - se apressou a dizer Gracie—. Faz seus recados à mesma hora quase todos os dias. -Apertou os lábios—. Mas não posso lhe pedir que venha aqui porque perderia seu trabalho. Não é fácil conseguir outro emprego se a despedirem por sua culpa, E se aconteceu algo ao Martin, um…...

—Irei com você – interrompeu-a Charlotte.

Gracie abriu muito os olhos. O fato de que Charlotte estivesse disposta a sair à rua e perambular por aí à espera de que passasse uma criada que não servia em sua própria casa demonstrava a seriedade com que se tomou aquele assunto.

Era uma amostra de amizade extraordinária. Também deixava claro que achava que Martin Garvie podia correr verdadeiro perigo. Olhou a jaqueta do Pitt e em seguida levantou a vista para Charlotte com uma expressão interrogante.

—Terminarei quando voltarmos - disse Charlotte—. A que hora sai Pontua?

—A esta hora -respondeu Gracie.

—Então será melhor que ponha mais água na panela e a retire do fogão, para que não se evapore, assim poderemos ir. -Charlotte secou as mãos no avental, depois o desabotoou e o tirou—. Vá procurar seu casaco.

Demoraram quase uma hora para ver Pontua caminhar para elas pela rua, tão absorta em seus pensamentos que Gracie teve que chamá-la duas vezes para que se desse conta de que se dirigiam a ela.

—Oh, Gracie! -exclamou com profundo alívio, e o cenho franzido de ansiedade desapareceu——me alegro tanto de ver você! Soube de algo? Não, não, é claro.

Sou uma idiota por lhe perguntar isso. Como iria ter notícias? Eu não soube nada.

Enquanto falava, o rosto da jovem voltou a escurecer e lhe encheram os olhos de lágrimas. Teve que fazer um grande esforço por manter a compostura.

—Não - disse Gracie, ao mesmo tempo que pegava Pontua pelo braço para a separar de outros transeuntes—. Mas vamos fazer algo a respeito. Vim com a senhora Pitt. Queria te perguntar algumas coisas.

Pontua olhou ao Charlotte, que nesse momento já estava junto a elas, com expressão alarmada.

—Bom dia, Pontua - saudou Charlotte com ar resoluto. — Pode dispor de meia hora sem que se zangue sua senhora? Eu gostaria de saber algo mais de seu irmão para que possamos procurá-lo de uma forma mais efetiva.

Pontua ficou uns instantes sem saber o que dizer, depois seu medo pôde mais que o acanhamento.

—Sim, senhora, estou certa de que não lhe importará se lhe explico que foi por algo relacionado com Martin. Já lhe contei que desapareceu.

—Estupendo -aprovou Charlotte—. Dadas as circunstâncias, acredito que fez bem. -Levantou a vista para o céu cinza e algo brumoso—. Falaremos melhor debaixo de algo coberto, tomando uma taça de chá.

Sem esperar resposta, Charlotte se voltou e as conduziu a uma pequena padaria onde também havia mesas, e quando se sentaram, para assombro de Pontua, pediu chá e muffins quentes com manteiga.

—Quantos anos tem Martin? -perguntou Charlotte em primeiro lugar.

—Vinte e três -respondeu imediatamente Pontua.

Charlotte ficou impressionada. Era jovem para ser valete, um cargo que requeria treinamento. A essa idade o usual teria sido que só fosse lacaio.

Ou tinha estado servindo desde uma idade muito jovem ou aprendia a uma velocidade insólita.

—Quanto tempo está servindo em casa dos Garrick? -inquiriu a seguir.

—Desde os dezessete anos - disse Pontua—. Começou como lacaio, mas o senhor Stephen tomou apreço. Antes tinha trabalhado de engraxate para os Furnival, mas não necessitavam outro lacaio, de modo que trocou de casa e subiu. -Havia uma nota de orgulho em sua voz e se sentou um pouco mais erguida, com os ombros retos, enquanto o dizia.

—Parece que é muito bom em seu trabalho - disse Charlotte alto, e viu como Pontua lhe devolvia o sorriso—. Estava contente ali, que você saiba?

Pontua se inclinou.

—É claro que sim! Nunca me comentou que não gostasse, e eu me teria informado. Entre nós não mentíamos.

Charlotte achava que isso era certo no caso de Pontua, a mais jovem dos dois irmãos e, portanto, muito mais dependente, mas Martin poderia haver se calado sobre determinadas questões.

Entretanto, não servia de nada pôr em interdição a idéia que Pontua tinha de seu irmão.

—Como é fisicamente? -perguntou Charlotte, trocando de tema.

—Parece-se um pouco a mim -respondeu Pontua de forma prática—. Mais alto, é claro, e mais corpulento, mas tem os olhos da mesma cor e o mesmo nariz. —Assinalou suas próprias feições, chatas e limpas.

—Entendo. Isso ajuda. Pode nos dizer algo mais que nos seja de utilidade? -incidiu Charlotte—. Há alguma jovem a que admire? Ou que talvez admire a ele?

—Acredita que uma mulher poderia haver-se proposto lhe conquistar e, ao ver que ele a rechaçava, a coisa ficou feia? -disse Pontua com um calafrio.

A criada chegou com o chá e os muffins quentes e esperaram que se fosse para seguir a conversa. Charlotte lhes indicou por gestos que comessem e se serviu ela mesma chá.

—É uma possibilidade -respondeu—. Precisamos saber muito mais. E posto que em casa dos Garrick parece que não vão dizer nos de bom grado, teremos que averiguá-lo por nós mesmas, e o antes possível.

Pontua, eles já lhe conhecem e sabem que está interessada no assunto. Acredito que o mais prudente é que não volte por ali, ao menos no momento.

Eu não conheço a família, embora poderia arrumar para que me apresentassem. Gracie, vai ter que começar você.

—Mas como o farei? -perguntou Gracie, que já comera meio muffin.

Havia uma mescla de determinação e medo em sua voz. Teve muito cuidado em evitar olhar para Pontua.

Charlotte se havia espremido os miolos e continuava sem sabê-lo.

—Falaremos disso quando chegarmos a casa - respondeu. Era possível que Gracie tivesse percebido sua indecisão, mas não a trairia diante de Pontua—. Quer mais chá? -ofereceu.

Depois de acabar os muffins, Charlotte pagou e assim que estiveram de novo na rua, Pontua, consciente de repente do tempo que levava fora fazendo recados, que nenhuma fila poderia explicar, apressou-se a agradecer às duas e a despedir-se.

—Como vou entrar na casa dos Garrick e lhes fazer perguntas? -disse Gracie quando Charlotte e ela ficaram sozinhas e empreenderam a volta ao Keppel Street.

Sua expressão contrita, como se soubesse que estava incomodando, mas não pudesse evitá-lo, revelava que ela tampouco tinha nem idéia.

—Bom, não podemos dizer a verdade - replicou Charlotte olhando à frente—, É uma lástima, porque isso complica sempre as coisas. De modo que terá que pensar em um subterfúgio.

Charlotte não quis empregar a palavra "mentira". Não se tratava realmente de um engano, posto que pretendiam um bom fim.

—Não me importa tomar liberdades com a exatidão - comentou Gracie criando seu próprio eufemismo—, mas não me ocorre nenhum pretexto que me permita entrar! Tenho quebrado a cabeça.

Tomara Samuel Tellman me acreditasse quando lhe disse que estava acontecendo algo grave! Sabia que era teimoso, mas é mais teimoso que uma mula!

Meu avô tinha uma mula para puxar a carroça na qual transportava o carvão, Que animal mais teimoso! Teria jurado que tinha os pés presos com cola ao chão.

Charlotte sorriu ao imaginar, mas também tratava de pensar. Giraram pela esquina do Francis Street e entraram no Torrington Square, caminhando contra o vento.

Um engraxate segurava seu letreiro, que cambaleava e ameaçava derrubar. Gracie pôs-se a correr e o ajudou.

—Obrigado, senhorita - disse ele agradecido, voltando a endireitar o letreiro com dificuldade.

Charlotte deu uma olhada ao jornal que tinha evitado que saísse voando pelos ares.

—Tudo são más notícias, senhora - sentenciou o menino com expressão enojada—. A cólera chegou também a Viena. Os franceses estão lutando na Mada não sei o que e acusando a nossos missionários por isso. Dizem que a culpa é nossa.

—Madagascar? —apontou Charlotte.

—Sim, isso é -confirmou ele—. Vinte pessoas morreram em um acidente de trem na França, justo quando alguém tinha ido inaugurar uma nova linha férrea que vai de Jaffa, onde seja que esteja, a Jerusalém. E os russos detiveram aos canadenses por roubar focas! Ou algo assim. Quer um? -acrescentou esperançado.

Charlotte sorriu e lhe deu o dinheiro.

—Obrigado - disse agarrando o primeiro jornal do montão, que estava ligeiramente amassado,

Depois ela e Gracie seguiram andando para o Keppel Street.

—Tem razão! -exclamou Gracie sombria—. Não põe nada bom neles. —Assinalou o jornal que tinha Charlotte na mão—. Tudo são conflitos e tolices, e coisas assim.

—Isso é o que consideramos notícias aparentemente — concordou Charlotte—. Se se tratar de algo bom, pode esperar. —Uma parte dela seguia refletindo sobre como podia entrar Gracie na casa dos Garrick. Então teve uma idéia—. Gracie - disse indecisa—, se Pontua estivesse doente e não soubesse que Martin já não trabalha ali, não seria natural que fosse dizer-lhe? Poderia estar muito doente para escrever, contando com que soubesse.

Ao Gracie lhe iluminaram os olhos e em seus lábios se desenhou um sorriso esperançado.

—Sim! Suponho que isso é o que faria uma amiga, não? De repente, caiu doente e tenho que dizer ao Martin, se por acaso demora para curar-se.

E sei onde trabalha porque Pontua e eu somos boas amigas, que é a pura verdade! Será melhor que vá logo, não lhe parece? Darei-lhe tempo para que chegue a sua casa e fique doente, e eu peça permissão a minha senhora, e como ela é muito boa, dirá-me que vá em seguida!

Gracie sorriu, e seu pequeno e magro rosto se encheu de assombrosa vitalidade.

—Sim - assentiu Charlotte apressando o passo sem dar-se conta, e ao caminhar de novo contra o vento depois de dobrar uma esquina, lhe formaram redemoinhos as saias e o jornal se agitou em seus braços—. Não há nada em casa que não possa esperar. Quanto antes vá, melhor.

Meia hora depois, com o ânimo fortalecido graças a outra taça de chá, Gracie saiu. Estava emocionada e tão assustada de cometer um engano que sentia um nó no estômago; teve que respirar fundo e falar devagar para não gaguejar.

Estirou-se o casaco uma vez mais, engoliu a saliva e bateu na porta de serviço da casa dos Garrick no Torrington Square. Não tinha sentido atrasar-se mais. A situação não ia melhorar. Devia fazê-lo por Pontua, e pelo Martin, é claro, a menos que fosse muito tarde.

Tinha preparado o que ia dizer assim que se abrisse a porta.

Entretanto, ninguém acudiu até que levantou a mão de novo para voltar a bater, desta vez com mais força, e quando a porta se abriu de repente, quase caiu dentro.

Ergueu-se sem fôlego e se achou a menos de um palmo de uma criada, uma jovem de tez clara uns centímetros mais baixa que ela e com mechas de cabelo rebeldes que as forquilhas torcidas não seguravam.

Começou a falar, sacudindo a cabeça.

—Não...

—Bom dia - saudou Gracie ao mesmo tempo, e quando a outra jovem se interrompeu, continuou. Não podia permitir-se que a despedissem sem mais—. Devo dar um recado.

Lamento incomodar você antes do almoço. Deve estar muito ocupada, mas se trata de algo que não pode esperar.

Gracie não teve que fingir inquietação e sua preocupação devia refletir-se em seu aspecto, porque imediatamente o rosto da jovem mostrou compaixão.

—Será melhor que entre — ofereceu, afastando-se da porta para deixar entrar Gracie.

Não havia dúvida de que era um gesto generoso.

—Obrigada - disse Gracie. Não estava mal para começar; de fato, a partir daí podia considerar-se que começasse tudo. Dedicou um rápido sorriso a jovem—. Chamo Gracie Phipps. Venho do Keppel Street, que está à volta da esquina, embora isso não tenha nada que ver com o assunto que me trouxe aqui. O recado provém de outro lugar.

Gracie dirigiu um olhar a copa, bem provida de réstias de cebolas penduradas, sacos de batatas no chão e couves brancas e outros tubérculos em prateleiras de madeira.

Nos ganchos das paredes havia panelas maiores, penduradas pelas alças, e em um rincão do chão, jarras do que pareciam diferentes classes de vinagres, azeite e talvez vinhos para cozinhar.

—Eu sou Dorothy - respondeu a garota—. Minha mãe me chama Doura, mas aqui me chamam Dottie e não me importa. A quem veio ver?

Gracie piscou como se contivesse as lágrimas. Não podia cair no engano de mencionar de entrada o nome do Martin Garvie, limitariam-se a dizer que não estava ali, convidariam-na a ir-se e não teria averiguado nada.

Requeria-se uma atuação um pouco melodramática.

—Trata-se de minha amiga Pontua -respondeu Gracie—. Não a conheço muito, mas não tem a ninguém mais e está muito doente. Seu irmão é sua única família e tem que sabê-lo antes que...

Gracie deixou a frase no ar. Não queria dizer de modo explícito que Pontua se estava morrendo, a menos que fosse absolutamente necessário, mas se alegrava de que se subentendesse.

É claro, se tinha que fazê-lo, inventaria-se o que fosse!

—Oh, não! -exclamou Dottie, contraindo o rosto de compaixão—. Que terrível.

—Tenho que dizê-lo insistiu Gracie—. Não têm a ninguém mais, nenhum dos dois. Ficará tão destroçado... — Tomou a liberdade de imaginar a situação.

—É claro! -assentiu Dottie, ao mesmo tempo que se dirigia à cozinha, ao calor e aos aromas dos guisados que chegavam dela—. Entre e tome uma taça de chá. Parece gelada.

—Obrigada -aceitou Gracie—. Muito obrigada.

Em realidade, não tinha frio, fazia um dia muito agradável e tinha andado a bom passo, mas o medo lhe tinha impregnado fundo e devia ter o mesmo aspecto que se estivesse transida de frio.

Entrar e fazer uma idéia da casa era justo o que queria. Seguiu ao Dottie pelas escadas de madeira até uma grande cozinha de teto alto em que de um extremo a outro pendia uma corda de estender, da qual nesse momento só pendiam uns trapos de cozinha e vários molhos de ervas secas.

Nas paredes havia panelas de cobre brilhante.

A cozinheira, uma mulher corpulenta que saltava à vista que degustava suas criações, resmungava para si enquanto batia uma cremosa mescla em uma terrina, marrom por fora e de louça branca por dentro. Levantou a vista quando Gracie entrou vacilante.

—Sim? -disse, enquanto a examinava com olhos críticos—. Quem é você? Não necessitamos mais criadas, e embora assim fosse, buscaríamos-la por nossa conta. Parece um coelho de dois pennies! Ninguém lhe dá de comer?

Aos lábios de Gracie acudiu uma resposta muito cortante que teria posto à cozinheira rapidamente em seu lugar, mas se conteve. Pontua merecia que tivesse paciência!

—Não procuro trabalho, senhora - explicou receosa—. Tenho um emprego que é muito de meu agrado. Sou criada de uma senhora e um cavalheiro no Keppel Street, estou a cargo do serviço e tenho duas crianças que cuidar. —Era um pouco exagerado, posto que só tinha sob suas ordens à mulher da limpeza, mas tampouco era do todo mentira. Percebeu a incredulidade no rosto redondo da cozinheira e se apressou a acrescentar—Vim dar um recado.

—Uma amiga sua se está morrendo, senhora Culpepper-acrescentou Dottie solícita—, Gracie quer comunicá-lo a seu familiar, ao único parente que resta.

—Morrendo? -respondeu a senhora Culpepper com tom de surpresa. Claramente, não era absolutamente o que tinha suposto—. Do que?

Gracie estava preparada.

—De febre reumática -respondeu sem vacilar—. Está muito delicada.

Gracie deixou que sua inquietação pelo Martin, que a atormentava profundamente, aflorasse em uma expressão de aflição.

A senhora Culpepper deve ter percebido.

—Sinto muito -disse, com um tom de sincera compaixão—. A quem busca? Não fique aí parada. Dottie! Lhe traga uma xícara de chá! —voltou-se para Gracie—. Sente-se. -indicou uma cadeira de cozinha de espaldar reto do outro lado da mesa.

Dottie se aproximou do fogão e pôs a chaleira de água ao fogo. Começou a apitar quase imediatamente.

Enquanto isso a senhora Culpepper continuava batendo com sua colher de madeira.

—Agora— jovem... —Já tinha esquecido o nome de Gracie—. A quem busca? Para quem é essa mensagem?

Gracie não podia andar com mais evasivas. Observou com atenção o rosto da senhora Culpepper. Sua expressão podia lhe dar muito mais informação que suas palavras.

—Ao Martin Garvie - respondeu—. É seu irmão. Não tem a ninguém mais. Seus pais morreram faz anos.

O rosto da senhora Culpepper era impenetrável, sua expressão ligeiramente triste não se alterou e sua mão não titubeou ao bater a mistura para empanar.

—Oh - disse sem levantar o olhar—. É uma lástima, porque Martin já não trabalha aqui e não sei aonde foi.

Gracie sabia que a mulher lhe ocultava algo, ou ao menos não lhe havia dito toda a verdade, mas tinha a sensação de que o que a impulsionava era a tristeza e não um sentimento de culpa.

De repente, um medo muito intenso e real se apoderou dela, e a cozinha agradável e que cheirava tão bem, com seus fornos quentes e suas panelas fumegantes, começou a dar voltas ante ela. Fechou os olhos.

Quando os abriu a senhora Culpepper a olhava fixamente e Dottie estava ao outro lado da mesa com uma xícara de chá nas mãos.

—Ponha a cabeça entre os joelhos - disse de forma prática.

—Não vou desmaiar! —Gracie ficou na defensiva, em parte porque não estava absolutamente segura de se era verdade. Estavam sendo amáveis com ela. Não tinha motivos de disputa e não sabia como canalizar suas emoções—. Se não está aqui, onde está?

Não podia revelar que não havia dito a ninguém que se ia porque se supunha que Pontua estava muito doente para sabê—lo.

Esperava fervorosamente que quando sua amiga foi ali pessoalmente para perguntar pelo Martin, tivessem-na visto bastante angustiada para parecer à beira de uma enfermidade grave.

—Não sabemos - respondeu Dottie antes de que a senhora Culpepper tivesse considerado sua resposta.

A cozinheira lhe dirigiu um severo olhar de advertência, mas não havia forma de saber se era para guardar um segredo ou para evitar uma dor desnecessária.

—E por que iria saber você, menina? —A senhora Culpepper recuperou a fala—. Não é seu assunto o que faz o senhor com o serviço, não?

Dottie deixou o chá em frente à Gracie.

—Beba, lhe ordenou.

—É claro que não, senhora Culpepper -assentiu total—. Mas penso que Bela poderia sabê-lo. -voltou-se de novo para o Gracie—Bela é a criada e gostava de Martin. Era um menino bonito. Eu mesma gostava como amigo - se apressou a acrescentar.

—Fala muito! -criticou—a a senhora Culpepper—. Se Bela soubesse onde se foi, acha que lhe diria isso, né?

Dottie deu de ombros.

—Sei! -disse ela sem ressentimento. Depois lhe escureceu o rosto—. Mas também eu gostaria de saber o que ocorreu ao Martin.

—Não fale assim, estúpida! -replicou à senhora Culpepper com repentina cólera, o rosto aceso. Deixou bruscamente a terrina na mesa—. Qualquer um diria que morreu ou lhe aconteceu algo! Não lhe aconteceu nada! Já não trabalha aqui, isso é tudo. Fecha a boca, menina, e faz algo útil.

Vá descascar as batatas velhas para as pôr de molho. Nunca se tem muito amido. Não fique aí como uma paspalha!

Dottie retirou uma mecha de cabelo com a mão, deu de ombros de bom aspecto e saiu da cozinha para fazer o que lhe tinham pedido.

—Me alegro de que não lhe tenha passado nada - comentou Gracie com a devida humildade—. Mas ainda tenho que lhe contar sobre Pontua. —Sabia que estava tentando ao diabo, mas não tinha escolha.

De momento não tinha averiguado nada que Pontua não lhe houvesse dito—. Alguém tem que sabê-lo, não?

—É claro - concordou a senhora Culpepper, pegando uma forma e um trapo de musselina com um pouco de manteiga. Lubrificou a forma com gestos de profissional —Mas eu não sei.

Gracie bebeu um gole de chá.

—Pontua me disse que era o valete do senhor Stephen. Assim, agora tem outra pessoa?

A senhora Culpepper a olhou com severidade.

—Não, não tem ninguém. Não vá... -Então seu rosto se suavizou—. Olhe, menina, entendo que esteja afetada, e sei quão duro é ver alguém realmente doente e não poder lhe ajudar.

Sabe Deus que não quereria ver morrer a um cão só, mas me escute, não sei aonde foi Martin, essa é a pura verdade. Só sei que é um bom homem e que não acredito que dê problemas nunca a ninguém.

Gracie respirou fundo e piscou, pensando em Pontua e em seus temores. Já tinham passado vários dias. Por que não lhe tinha enviado uma carta, uma mensagem?

—Como é o senhor Stephen? Seria capaz de despedir a um empregado que não fez nada mau?

A senhora Culpepper se secou as mãos no avental, deixou a massa e se serviu um chá.

—Quem sabe, menina - disse, ao mesmo tempo que sacudia a cabeça—. É um pobre homem confuso. Mas duvido muito que nem em seu pior dia despedisse o Martin, porque é o único que sabe dirigi-lo quando fica mal.

Gracie fez um esforço por manter sua expressão serena, embora compreendesse que não tinha conseguido de tudo.

Esse dado não o conheciam e a inquietou, mesmo que não estivesse certa de ter entendido cabalmente.

Levantou a vista para a senhora Culpepper, piscando várias vezes para tratar de ocultar seus pensamentos.

—Quer dizer que está doente?

A senhora Culpepper deu um pulo e não respondeu. Deixou a mão imóvel na asa da xícara.

Gracie temeu ter cometido o primeiro engano sério, mas tinha suficiente bom senso para não tratar de emendá-lo. Guardou silêncio, esperando que a senhora

Culpepper falasse primeiro.

—É uma maneira de dizê—lo - concedeu a senhora Culpepper por fim, levando—a xícara aos lábios e bebendo o chá quente—. E não serei eu quem diz o contrário!

Era uma clara advertência.

Gracie compreendeu imediatamente. "Doente" era um eufemismo para descrever algo muito pior, quase certo que bêbado perdido.

Alguns homens se desabavam ou vomitavam, mas havia os que se tornavam agressivos e provocavam brigas com as pessoas, ou se despiam ou faziam qualquer outra coisa vergonhosa e molesta. Ao que parecia, Stephen Garrick era dos últimos.

—É claro que não - comentou Gracie recatadamente—. Ninguém diz o contrário. Não nos corresponde.

—Não é que não me sinta às vezes tentada de fazê-lo! - acrescentou à senhora Culpepper com certa veemência, mas se interrompeu de repente quando nesse momento entrou na cozinha a atraente criada—. Não me diga que deves busca o almoço - disse assombrada—. No que me foi o dia? Ainda não está preparado!

—Não, não! —tranqüilizou—a Bela—. Há tempo de sobra. —Olhou com curiosidade ao Gracie. Devia ter ouvido sem querer as últimas palavras da conversa—. Não me viria mal uma xícara de chá, se ainda está quente - acrescentou.

—Esta é Gracie. —A senhora Culpepper recordou de repente seu nome—. veio porque é amiga da irmã do Martin e parece que a pobre garota tem febre reumática e está à beira da morte, de modo que Gracie está procurando o Martin para contar-lhe o que é muito duro.

Bela sacudiu a cabeça, muito séria.

—Tomara pudéssemos ajudá—la, mas não sabemos onde está -disse com franqueza—. Em geral, o senhor Stephen sai de viagem a no meio de amanhã e todos sabemos com dias de antecipação, mas desta vez é diferente. Simplesmente não se encontra em casa!

Gracie não ia se render sem tentar tudo o que estivesse em suas mãos.

—A senhora Culpepper foi muito amável -disse com efusão—. Diz que o senhor Garrick dependia realmente do Martin, que não o teria despedido em um arrebatamento.

O rosto de Bela deixou transparecer seu aborrecimento.

—Às vezes se comporta muito mal. Minha mãe me teria batido com o chinelo se eu tivesse tido essas manhas, dando pontapés e gritando, e...

—Bela! -exclamou a senhora Culpepper com tom áspero, advertindo—a.

—Às vezes se comporta como um pirralho de três anos! —protestou Bela com as faces acesas—. E o pobre Martin o suporta sem uma palavra de queixa. Limpando atrás dele, escutando-o chorar e mugir por algo, ou vendo-o aí sentado, como se carregasse com todo o sofrimento do mundo. Qualquer diria...

—Será melhor que controle essa língua, menina, ou será você quem terá em suas mãos todo o sofrimento do mundo —acautelou a senhora Culpepper—. Pode ser que seja bonita e que fale como uma senhora, mas estará na rua rapidamente, com as malas na mão e nenhuma recomendação, se o senhor a surpreende falando do senhorzinho Stephen com desconhecidos, tenha como certo!

Na voz da cozinheira se apreciava uma nota de obrigação e seus olhos negros tinham uma expressão severa. Gracie estava certa de que não era a cólera nem a antipatia, mas o afeto o que a impulsionava a falar assim.

Bela se sentou na outra cadeira da cozinha e recolheu as saias a seu redor: seu avental de renda luzia limpo e engomado.

—Não é justo! -exclamou com veemência—. O que ele suportou é mais do que agüentaria ninguém! E se o jogaram...

—É claro que não o jogaram, boba!

Entrou um jovem lacaio com topete e as calças excessivamente longas para ele. Gracie supôs que tinha subido de engraxate nas últimas semanas.

Bela se voltou para ele.

—E você como sabe tanto, Clarence Smith?

—Porque vejo coisas que você não vê! -replicou ele—. Ninguém pode com ele exceto Martin quando cai em uma de suas depressões. E ninguém o tenta sequer quando tem um ataque de cólera.

Eu não o faria nem por todo o ouro do mundo! Até o senhor Lyman lhe tem medo e a senhora Somerton.

E jamais diria que a senhora Somerton tivesse medo a algo! Teria apostado um xelim por ela contra o dragão, dá-me igual são Jorge e todo isso!

—Vá fazer suas tarefas, Clarence, antes de que informe ao senhor Lyman de sua insolência -disse a senhora Culpepper de maneira cortante—. Se te pilhar ele, jantará só na copa e, se tiver sorte, comerá pão com gordura de carne.

—Só disse a verdade! -exclamou Clarence indignado.

—A verdade não tem nada que ver com isto, estúpida criatura -replicou a cozinheira—. Às vezes acredito que lhe abrandaram os miolos! Vá procurar o carvão para Bela. Vamos!

—Sim, senhora Culpepper - disse ele obediente, talvez percebendo na voz dela mais preocupação que censura.

Gracie pensou por um momento que talvez seria divertido trabalhar em uma grande casa, só durante um par de semanas. Mas, é claro, não era tão importante como o que ela fazia.

Observou como Clarence saía para realizar a tarefa. Pegou sua xícara e bebeu o chá.

—Perdoa, querida, mas não podemos ajudá-la - manifestou a senhora Culpepper, sacudindo a cabeça e jogando por fim a massa na forma. — Tenho que seguir com as bolachas para o chá. Nunca se sabe quem pode vir. Dottie! Dottie, venha se ocupar da verdura!

Gracie se levantou para partir e depositou sua xícara vazia no aparador junto à pia.

—Obrigada - disse com sinceridade—. Terei que seguir tentando, embora não sei aonde acudir.

Dottie voltou da copa, secando as mãos no avental.

—Bom, Martin ia ver um tal senhor Sandeman no East End - disse esperançada—. Talvez ele saiba algo.

Gracie deixou a xícara com cuidado, pois lhe começaram a tremer as mãos.

—Sandeman? -repetiu—. Quem é? Sabe?

Dottie pareceu desconsolada.

—Sinto muito, mas não tenho nem idéia.

Gracie encaixou a decepção.

—Não importa, talvez alguém saiba. Obrigado, senhora Culpepper.

A senhora Culpepper sacudiu a cabeça.

—Sinto muito. Pobrezinha. Pode ser que melhore, nunca se sabe.

—Sim - concordou Gracie, sem envergonhar-se por mentir porque pensava no Martin, não em Pontua—. Não se deve perder a esperança.

Dottie a acompanhou à porta traseira e um momento depois Gracie estava na calçada, andando tão depressa como podiam levá-la seus pés para o Keppel Street.

É claro, que ao retornar, contou a Charlotte tudo o que tinha averiguado. Mas expô-lo ao Tellman seria muito mais difícil.

De entrada, tinha que localizá-lo, e não sabia por onde começar além da delegacia de polícia do Bowl Street ou a pensão onde vivia. Cabia a possibilidade de que de noite, uma vez acabadas suas tarefas, voltasse diretamente para seu alojamento, e isso podia ser a qualquer hora.

Além disso, não tinha nenhum desejo de envergonhá-lo deixando-se ver no Bowl Street, onde saberiam quem era embora não perguntasse por ele.

Ainda mais importante, talvez a recordassem como a criada do Pitt, e dariam por feito que essa era a razão pela que queria ver o Tellman, o que podia lhe pôr as coisas difíceis com o novo superintendente.

De modo que, a última hora da tarde, Gracie se postou frente a sua pensão, olhando fixamente as janelas de seu quarto do segundo piso; tudo estava escuro e, se ele encontrava-se em casa, teria se vislumbrado luz entre as cortinas.

Ficou ali indecisa uns minutos, depois se deu conta de que ele podia demorar uma hora ou inclusive mais se estivesse trabalhando em um caso importante.

Sabia onde havia uma agradável cafeteria a uns cem metros de distância, e pensou que poderia passar um momento ali e retornar mais tarde para ver se já havia voltado.

Mal tinha andado cinqüenta passos quando pensou que o mais provável era que se visse obrigada a voltar meia dúzia de vezes antes de poder falar com ele ou que tivesse que esperar muito.

Deu meia volta e desandou o caminho; bateu na porta da pensão e, quando a proprietária lhe abriu, disse-lhe muito educadamente que tinha que informar ao inspetor Tellman de algo importante e que o esperaria na cafeteria se ele podia reunir-se ali com ela.

A proprietária a olhou um pouco receosa, mas aceitou dar o recado e Gracie partiu satisfeita.

Cansado e com frio, Tellman entrou no estabelecimento quase uma hora depois. Tinha sido uma jornada longa e tediosa, e o único que queria era jantar frugalmente e deitar-se logo.

Assim que viu seu rosto e quão tenso estava, Gracie compreendeu que se lembrava da rixa que tinham tido e que se sentia inseguro de como falar com ela.

O fato de que a jovem tivesse ido para tratar de novo o tema só podia piorar as coisas, mas não achava ter escolha.

A vida do Martin Garvie podia estar em jogo, e que valor tinha o amor ou o consolo de alguém se, ante a perspectiva de algo desagradável ou uma diferença de opinião, vinha-se abaixo e desaparecia?

—Samuel - começou a dizer mal Tellman se sentou frente a ela e encarregou algo de jantar à criada.

—Sim? -respondeu ele na defensiva.

Deu a impressão de que Tellman ia acrescentar algo mais, mas se calou.

A única coisa que Gracie podia fazer era ir direta ao assunto. Quanto mais tempo permanecesse ali sentada, com o silêncio entre ambos ou uma conversa forçada, falando de banalidades e com o pensamento em outra parte, pior seria.

—Estive em casa dos Garrick - disse, lhe olhando de seu assento. Viu como o rosto dele ficava ainda mais tenso com os dedos brancos obstinados à mesa—.

Não passei da cozinha - se apressou a acrescentar—. Perguntei à cozinheira e à criada, lhes contando que Pontua estava doente e que Martin era a única família que tinha.

—Está doente? -perguntou ele em seguida.

—Só de preocupação —reconheceu Gracie com sinceridade—. Mas lhes disse que tinha contraído febres. -sentiu-se envergonhada. Ele não aprovaria que tivesse mentido e desejou não ter tido que confessar-lhe, mas ocultá-lo significaria mentir a ele, e isso era algo que não estava disposta a fazer.

Apressou-se a continuar para dissimular—. Só lhes perguntei onde estava Martin, para lhe explicar o de sua irmã. Não sabem, Samuel, quero dizer que é verdade que não sabem.

Eles também estão preocupados. — Inclinou-se, aproximando-se dele—. Me hão dito que o senhor Stephen bebe muito e tem ataques de cólera horríveis, depressões e um sofrimento terrível.

Que ninguém pode o ajudar exceto Martin, e que por essa razão ele nunca o despediria.

Gracie o olhou fixamente, vendo como se debatiam a preocupação e a incredulidade nos olhos dele.

— Tem certeza de que lhe contaram tudo isso? -perguntou carrancudo—. Se dissessem isso a qualquer um que batesse na porta, o senhor Garrick os mandaria embora sem uma carta de recomendação! Nunca me encontrei com criados que falem mal de seus senhores, a menos que já os tenham despedido ou estejam buscando problemas.

—As coisas não aconteceram assim! -explicou ela com paciência—. Me sentei na cozinha e me ofereceram uma xícara de chá enquanto lhes falava de Pontua, e me estiveram explicando o bom profissional que era Martin. Saiu à tona quão bom era e por que.

Um fugaz sorriso aflorou aos lábios do Tellman. Poderia ter sido de admiração ou só de diversão.

Gracie se surpreendeu ruborizando-se, algo que costumava controlar, e isso a irritou porque delatava suas emoções. Não tinha nenhum desejo de que Samuel Tellman se fizesse ilusões de que sentia algo por ele.

—Me dou muito bem em fazer as perguntas pertinentes! -disse ela acaloradamente—. Faz muitos anos que trabalho para o senhor Pitt! Mais tempo que você!

Ele tomou ar bruscamente e sorriu. Em seguida, exalou sem dizer o que pensava.

—De modo que estão seguros de que Garrick não o teria deixado partir. E não poderia haver-se cansado Martin de agüentar o mau gênio do Garrick e tomar a decisão de ir-se sem mais?

—Sem dizer a Pontua nem a ninguém? -observou Gracie com incredulidade—. É claro que não! Avisa com antecipação, não vai pelas boas! —Viu como o desdém se refletia no rosto dele, lhe recordando sua opinião sobre o conceito de viver e trabalhar para outros—. Não comece outra vez! —advertiu-lhe—. Há alguém em perigo, essa é a realidade, e poderia ser sério. Não temos tempo para discutir sobre o bom e o mau da forma de viver das pessoas. —Olhou-o no rosto e estremeceu de emoção ao perceber a intensidade com que lhe sustentava o olhar—. Temos que passar à ação para ajudar. —Falou em plural de forma deliberada—. Eu não posso fazer muito mais sem você, Samuel.

Por favor, não me obrigue a ter que tentá-lo. -Acabava de pôr sua relação na balança, e era assombroso que tivesse assumido tal risco, porque lhe importava muito mais do que tinha acreditado até esse instante—. Lhe aconteceu algo -acrescentou em voz muito baixa—. É possível que o senhor Stephen esteja tão louco como dizem, o tenha carregado e o hajam encoberto.

Mas é um crime, e ninguém mais vai intervir, porque aparentemente não ocorreu nada.

A criada trouxe o jantar do Tellman junto com outro bule e lhe agradeceu. Já tinha decidido o que ia fazer. Só fez gesto de resistir, como se ainda o considerasse. Era questão de orgulho fingir, mas os dois sabiam que tinha tomado uma decisão.

—Empreenderei indagações - disse por fim—. Não puseram nenhuma denúncia, assim irei com cuidado. Manterei—a à par do que averigue.

—Obrigado, Samuel -disse Gracie com uma humildade totalmente sincera.

Talvez ele se desse conta, porque de repente sorriu e ela percebeu uma extraordinária ternura. Nunca o teria admitido ante ninguém, mas nesse momento o rosto dele tinha algo que ela teria definido como formoso.

Pitt deixou de investigar a vida do Edwin Lovat e a esteira de dor que suas diferentes aventuras amorosas tinham deixado atrás.

Depois de comprovar nome por nome, achou nada mais que infelicidade e raiva inútil.

Assaltou-lhe um pensamento desatinado enquanto tratava de abordar o caso de um ângulo completamente diferente. Às vezes era útil deixar de lado até as hipóteses mais óbvias e considerar a possibilidade de que fossem falsas.

Lovat tinha recebido um balaço no jardim no meio da noite. Não parecia ter sentido que Ayesha Zakhari tivesse pego sua pistola e saído para ver quem se escondia entre os arbustos.

Tinha um criado perfeitamente capaz e um telefone na casa para pedir socorro.

Tinha dado como certo que ela sabia que Lovat estava no jardim, mas não parecia haver nenhum motivo de peso para assassiná-lo.

No caso de que ela não tivesse querido vê-lo-se teria limitado a ficar dentro. Se não estava à corrente de quem se tratava, a resposta era a mesma.

Mas e se o tinha tomado por outra pessoa? E se não tivesse reconhecido Lovat até uma vez morto? O jardim estava escuro. Não teria chegado luz da casa mesmo que todos os abajures dos cômodos do piso de baixo tivessem estado acesos, o que era pouco provável às três da madrugada.

Com quem podia havê-lo confundido? Cabia a possibilidade de que a resolução do mistério residisse no fato de que ela o tinha tomado por outro?

De entrada, retornou ao Eden Lodge. A casa parecia curiosamente vazia nessa fria manhã outonal.

Os prolongados raios de sol cruzavam dourados a tranqüila rua e na intensa quietude nem sequer se moviam as folhas dos abedules. Ouviu cascos de cavalo ao longe e o gorjeio de um pássaro por cima dele. Um pequeno gato negro ziguezagueou entre os caules dos lírios secos que esperavam para ser cortados.

Abriu-lhe a porta Tariq O Abd.

—Bom dia, senhor -saudou educadamente, com o rosto inexpressivo—. No que posso ajudá—lo?

—Bom dia - respondeu Pitt—. Preciso fazer mais averiguações e você pode me ajudar.

O Abd o convidou a passar e o conduziu ao salão. Parecia lhe incomodar um pouco ter à polícia nessa zona da casa, tendo em conta que mal se conheciam, mas as cozinhas e a lavanderia eram seu domínio, e tampouco o queria ali.

Pelas manhãs, negava-se a oferecer às visitas algo de beber.

—O que deseja me perguntar, senhor? -disse permanecendo em pé de modo que Pitt se visse obrigado a não tomar assento.

Pitt malteve tempo para percorrer a sala com o olhar, mas percebeu cores sutis e luz. A decoração era menos recarregada do que ele estava acostumado a achar-se, tudo era mais simples.

Em uma das mesas laterais tinha escondido um elaborado objeto decorativo de um cão de caça de orelhas longas, que media meio metro de longitude. Era um objeto de grande beleza.

O Abd seguiu seu olhar.

—Anubis, senhor - explicou—. Um dos antigos deuses de nosso país. As pessoas que acreditavam nele há tempo morreram, é claro.

—A beleza de seu trabalho perdura -respondeu Pitt com sentimento.

—Sim, senhor. Que deseja me perguntar? -O rosto do Abd seguia quase desprovida de expressão.

—Estavam acesas as luzes desta sala quando dispararam no senhor Lovat?

—Perdoe, senhor? Não o entendo. Ao senhor Lovat atiraram no jardim fora. Não entrou na casa.

—Estava você acordado? -perguntou Pitt surpreso.

O rosto do Abd revelou uma perda de serenidade que em seguida voltou a recuperar.

—Não, senhor, não até que ouvi o disparo. A senhorita Zakhari disse que ele não tinha entrado e eu acredito. Não havia ninguém aqui. As luzes não estavam acesas.

—E em alguma outra parte da casa?

—Não havia nenhuma luz acesa no piso de baixo, salvo no saguão. Nunca se apagam todas.

—Entendo. E no piso de cima?

—Não compreendo aonde quer ir parar, senhor. Estavam acesas as luzes do dormitório da senhorita Zakhari, as de sua sala de estar e as do patamar do piso de cima, como sempre.

—Essas estadias estão na parte dianteira da casa ou na traseira?

—Na dianteira, senhor.

Era natural. Os aposentos principais costumavam dar à parte dianteira.

—De modo que não chegava nenhuma luz da casa ao jardim traseiro onde o senhor Lovat recebeu o tiro - concluiu Pitt.

O Abd vacilou, como se percebesse uma armadilha.

—Não, senhor.

—É possível que a senhorita Zakhari não estivesse à corrente da identidade do senhor Lovat? Poderia lhe haver confundido com outra pessoa?

O Abd não só pareceu sobressaltado, mas sim como se corresse um verdadeiro perigo. Mas se tratou de algo passageiro e sustentou o olhar do Pitt, embora piscando ligeiramente.

—Nunca me ocorreu pensá-lo, senhor. Não sei o que dizer a respeito. Se se tivesse acreditado que era um ladrão, certamente me teria chamado. Sabe que eu a defenderia. É meu dever.

—É claro - assentiu Pitt—. Não estava pensando em um ladrão, senão em alguma pessoa que a senhorita Zakhari conhecesse, alguém que representasse de algum modo uma ameaça para ela.

Nesta ocasião O Abd falou com tom de segurança, pois tinha recuperado o controle de si mesmo.

—Não sei nada de tal pessoa, senhor. Se fosse assim, é de supor que ela haveria dito à polícia que se tratara de um acidente. Um engano em defesa própria. É permitido disparar em defesa própria na Inglaterra?

—Se não houver outro modo de proteger-se, sim -respondeu Pitt—. Estava pensando em alguém que a senhorita Zakhari conhecesse e que fosse um inimigo, um perigo para ela, não para sua integridade física, mas de outro modo com respeito a sua reputação, ou algum assunto que lhe importasse especialmente.

—Não sei o que quer dizer, senhor.

O semblante do Abd tinha adotado de novo a serena máscara do criado educado.

—Sua lealdade é elogiável - comentou Pitt, ao mesmo tempo em que tratava de dissimular seu sarcasmo—, mas inútil. Se a declararem culpado do assassinato do senhor Lovat, enforcarão-na.

Se a senhorita Zakhari confundiu ao Lovat com outra pessoa, alguém que talvez supunha uma ameaça para ela, acaso poderia alegar uma justificativa.

Foi assombroso como, sem alterar seu semblante, O Abd conseguiu passar da deferência ao desdém.

—Acredito, senhor, que é com o senhor Ryerson com quem teria que falar, e se ele souber a razão que tinha a senhorita Zakhari para matar a esse homem, fosse quem fosse a pessoa que tinha acreditado que era, deveria lhe dizer a verdade e justificar sua conduta e a dela.

Se não for assim, se o que ocorreu é que simplesmente viu o Lovat, então ele é o culpado, sem importar o que acreditasse a senhorita Zakhari. Não lhe parece?

—Sim -respondeu Pitt intranqüilo—. É certo. Mas talvez a senhorita Zakhari preferiria não admitir que ela disparou no senhor Lovat, para calá-lo que realmente acreditou.

O Abd inclinou a cabeça com uma ameaça de sorriso.

—Então a lealdade a minha senhora exige que apóie sua decisão, senhor. Deseja algo mais de mim?

—Pois sim! Eu gostaria que me fizesse uma lista de todas as pessoas que passaram por aqui desde que a senhorita Zakhari se mudou.

—Temos um livro de visitas, senhor. Servirá-lhe?

—Duvido-o. Mas será um ponto de partida. Quero os nomes de outros também.

—Muito bem, senhor - manifestou O Abd.

Em seguida, o criado se retirou sem fazer ruído sobre os tapetes ou pelo chão envernizado do corredor que havia ao fundo.

Voltou ao cabo de um quarto de hora com uma folha de papel e um livro encadernado em couro branco, e os ofereceu ao Pitt.

Pitt lhe agradeceu e se despediu. O livro de visitas era interessante. Havia nele mais nomes do que tinha esperado achar, e lhe levaria algum tempo averiguar quem eram todos. Suspeitava que a folha de papel não lhe seria de nenhuma utilidade.

Passou o resto da tarde identificando a diferentes homens da cidade, a maioria relacionados de um modo ou outro com o negócio do algodão, mas também outros que eram artistas, poetas, músicos e intelectuais.

Seria interessante saber por que tinham visitado a Ayesha Zakhari, o que pensaria ao respeito Saville Ryerson, se é que sabia. Não estavam anotadas as horas do dia, só a data.

Na manhã seguinte, sentado ainda à mesa do café da manhã, Pitt recebeu uma mensagem na qual lhe pedia que se apresentasse em menos de uma hora no escritório do Narraway.

Deixou a faca e o garfo. Os arenques defumados tinham perdido seu sabor.

Ainda ficavam por identificar vários nomes, tanto do livro de visitas como da folha adicional, e lhe irritou ter que acudir quando ainda não dispunha de informação útil para oferecer.

Meia hora depois, explicava ao Narraway sua visita ao Eden Lodge, assim como os nomes que tinha obtido do livro de visitas e do criado. O Abd.

Narraway permaneceu sentado absorto em seus pensamentos, com o rosto abatido e com sinais de cansaço, embora havia nele um repentino vislumbre de esperança, embora lutasse para que não lhe notasse.

—E acredita que ela o confundiu com outra pessoa? -perguntou com cepticismo, recostando-se em sua poltrona e esquadrinhando ao Pitt com os olhos entrecerrados e pesados, como se tivesse estado acordado toda a noite.

—Tem mais sentido que a hipótese de que soubesse que era Lovat e disparasse contra ele -replicou Pitt.

—Não tem - lhe contradisse Narraway com amargura—. Se Lovat a estava chantageando e tinha ido cobrar, ela pôde aproveitar a oportunidade para lhe dar um tiro e resolver o assunto. Isso é perfeitamente verossímil e assim o entenderá qualquer jurado.

—Chantageá-la por que? -perguntou Pitt.

—Pelo amor de Deus, Pitt! Utilize a imaginação! É uma moça e bonita cujo passado ninguém conhece.

Ryerson tem vinte anos mais que ela, é extremamente respeitado e vulnerável - pronunciou a palavra com a mesma dor com que teria falado de uma ferida interna. Inalou silenciosamente.

Pode ser que estivesse a par de que ela tinha outros amantes e de fato, seria estúpido que acreditasse o contrário. Isso não significa que possa suportar ouvir falar deles, talvez com detalhe.

Pitt tratou de ficar no lugar do Ryerson, embora não o conseguisse.

Se escolhia a uma mulher por sua beleza física, sua cultura exótica e sua boa disposição a exercer-se de amante antes que de esposa, sem dúvida também aceitava como um fato que não foi o primeiro nem seria o último.

O acordo funcionaria sempre que satisfizesse aos dois.

Mas ao observar com atenção ao Narraway não viu em seu olhar esse raciocínio, mas só uma intensa e inescrutável emoção que lhe advertiu que se se encontrasse na tesitura de ter que desafiá-lo, a disputa que seguiria não seria fácil de ganhar.

Ignorava por completo por que o tema lhe tocava uma fibra sensível, só sabia que assim era.

—E acredita que Lovat poderia havê-la chantageado para que guardasse silêncio sobre algo relacionado com o Egito? -comentou Pitt.

—Isso é o que deduzirá o promotor - replicou Narraway—. Não o faria você?

—Se não se propuser nada mais - concedeu Pitt—. Mas terão que demonstrá-lo.

Narraway se tornou bruscamente para diante, os ombros tensos, o corpo rígido.

—Não o farão! -disse entre dentes—. A menos que lhes demos algo melhor, optarão por esse enfoque. Utilize a cabeça, Pitt! Um antigo amante sem dinheiro ou posição é encontrado morto em seu jardim às três da madrugada, ela tem o cadáver em um carrinho de mão e sua pistola ao lado. Que demônios vai pensar qualquer um?

Pitt sentiu o sombrio peso dos fatos sobre ele, quase como se o esmagasse fisicamente.

—Quer dizer que só estamos cumprindo com a formalidade de procurar uma defesa? -perguntou em voz muito baixa—Por que? Para que Ryerson acredite que não o abandonaram? Tanta importância tem isso?

Narraway não o olhou,

—Pediram-nos isso homens que conhecem realidades diferentes das nossas - respondeu—. Não se importam com Ayesha Zakhari, mas precisam salvar ao Ryerson. Serviu a seu país muito tempo e bem. A ele se deve grande parte da prosperidade da indústria do algodão de Manchester, que significa dezenas de milhares de empregos.

E se alguém não chega a um acordo sobre os preços, têm muitas possibilidades de enfrentar-se a uma greve. Pode fazer uma idéia de quanto lhes custará? Não serão só os operários das fábricas de algodão, mas também todos aqueles cujos negócios dependem deles: os lojistas, os pequenos comerciantes, os exportadores, todo mundo em definitivo, dos vendedores de casas até o varredor do cruzamento que quer ganhar uns pennies.

—Será uma vergonha para o governo se declararem Ryerson culpado de ter sido cúmplice do crime ao tentar encobri-lo - concordou Pitt—. Nesse caso, terão que nomear a outro que controle o comércio com o Egito.

A julgar pela maneira em que Ryerson levou o assassinato do Lovat, preferiria que não estivesse em suas mãos nenhuma crise nacional.

A cólera acendeu as faces gastas do Narraway, que fechou os punhos sobre a escrivaninha, mas a conteve com um esforço tão grande que saltava à vista.

—Não sabe do que está falando, Pitt! —resmungou entre dentes.

Pitt se ergueu no assento.

—Então, diga-me! —exigiu—. Até agora só vejo um homem apaixonado por uma mulher muito pouco recomendável e resolvido a defendê-la embora ela seja culpada de assassinato.

Ele não pode ajudá-la. Seu testemunho só piora a situação, em vez de melhorá-la.

Mas ou não é consciente disso, ou é tão incrivelmente arrogante que acredita que seu testemunho a salvará, ou simplesmente não lhe importa.

Narraway se mexeu na cadeira, ficando de lado.

—É você um néscio, Pitt! É claro que ele sabe o que ocorrerá. Será sua ruína. A não ser que possamos demonstrar alguma outra possibilidade, pode ser que até o enforquem com ela. -Olhou para trás e, quando falou, tremeu-lhe a voz—. De modo que averigue quem mais estava comprometido com a mulher ou quem odiava ao Lovat tanto para matá-lo.

E me traga as provas, entendido? Não diga nada a ninguém. Seja discreto, ou melhor ainda, mantenha-o em segredo. Interrogue com cuidado. Use o tato do que tanta fama tem… ao menos segundo Cornwallis. Averigue-o tudo e não revele nada. -voltou-se de novo e olhou Pitt no rosto como se, voluntariamente ou não, pudesse lhe ler o pensamento—. Se lhe escapa algo, Pitt, não voltarei a lhe necessitar. Recorde—o! Quero a verdade e quero ser o único que saiba.

Pitt sentiu frio, mas também irritação, assim como curiosidade por saber por que o caso parecia importar tanto ao Narraway.

Este escondia tanta informação como a que lhe revelava, talvez mais, e entretanto exigia em troca lealdade absoluta. A quem protegia e por que? Era a si mesmo, ou inclusive a ele, de um perigo que não compreendia por causa do pouco tempo que levava nesse trabalho? Ou ao Ryerson, por lealdade pessoal ou outro motivo que ele desconhecia? Queria lhe pedir em troca sua confiança, para ter mais possibilidades de obtê-lo, e também para proteger-se se descobria provas que pusessem em perigo inimigos poderosos.

Mas era inútil. Narraway só confiava nas pessoas estritamente necessárias. Talvez era assim como tinha sobrevivido em um mundo infestado de segredos e exposto a todo tipo de traições.

—Não posso lhe prometer a verdade - manifestou Pitt friamente—. E certamente não será você o único que saberá! —Viu como Narraway ficava rígido e isso lhe produziu certa satisfação, embora muito leve, quase se perdeu na consciência de que havia muitas coisas que lhe escapavam. —Duvido que chegue ao fundo de tudo isto, mas quem é que matou Lovat se inteirará de minhas averiguações, e pode ser que saiba que eu sei, dependendo de se foi um plano engenhoso, ou de um delito irresponsável de encobrimento de um homem muito indulgente consigo mesmo, ou de uma mulher.

—Por isso lhe encarreguei o caso, Pitt, e não a um de meus homens, que estão habituados a perseguir anarquistas e sabotadores -disse Narraway secamente—. Parto da base de que você tem certa sutileza.

Sabe Deus que não distingue uma bomba de uma bolacha de frutas, mas se supõe que é você um detetive competente quando se trata de um assassinato, sobretudo se for um crime passional e não político.

Siga com isso! Localize ao resto das pessoas de sua lista. E atue rápido. Não resta muito tempo antes que o governo se veja obrigado a entregar ao Ryerson.

Pitt se levantou.

—Sim, senhor. Não tem nada mais que me dizer que possa me ser útil? -Permitiu que sua expressão fizesse ter sabor de Narraway que era consciente de que lhe ocultava algo, mesmo que não soubesse do que se tratava.

O rosto do Narraway se crispou e lhe marcaram os músculos do pescoço.

—Cornwallis confiava em você e pode ser que eu algum dia o faça, mas ainda não é assim, e isso é algo pelo que deveria sentir-se agradecido. Tem sorte de economizar-se grande parte da informação de que eu disponho.

Com o tempo, pode ser que perca esse privilégio e deseje recuperá-lo. -inclinou-se ligeiramente sobre a escrivaninha que os afastava—. Mas, me acredite, Pitt, quero que Ryerson se salve se for possível, e se houvesse algo que pudesse lhe ajudar a consegui-lo, o diria, independentemente das conseqüências.

Mas se ficou de acordo com essa maldita mulher para matar ao Lovat, ou inclusive para ocultar o fato de que ela o fez, e foi um simples assassinato, sacrificarei-o sem pensar.

Há em jogo questões mais importantes que as que você conhece e não podem afastar—se para salvar a um homem, a nenhum homem.

—Como uma greve do algodão no Manchester? -disse Pitt devagar.

Narraway não respondeu.

—Vá fazer seu trabalho - apressou—. Não fique aí plantado perdendo o tempo e me pedindo uma ajuda que não posso lhe proporcionar.

Pitt saiu à rua e não tinha caminhado nem vinte metros quando passou junto a um vendedor de jornais e reparou nas manchetes, que ainda não tinha visto porque tinha chegado ao escritório do Narraway pelo outro extremo.

O menino o viu hesitar.

—Um jornal, senhor? —ofereceu ansioso—. Todos dizem agora que deveriam deter o senhor Ryerson junto com essa mulher estrangeira, e enforcá-los aos dois! Quer inteirar-se das notícias, senhor? —Estendeu-lhe um jornal esperançoso.

Pitt fez um esforço para ser amável. Pegou-o e pagou; em seguida, afastou-se rapidamente para onde pudesse lê-lo sem chamar a atenção.

Deu-se conta surpreso de que não queria deixar ver suas emoções. Podia ser muito evidente que lhe afetava.

Subiu a um ônibus, com o jornal ainda dobrado, e se apeou perto de um dos numerosos lugares pequenos e frondosos, onde se dirigiu a um banco vazio e se sentou. Abriu o jornal. Não houve surpresas.

Um deputado da oposição tinha exigido saber por que Ayesha Zakhari estava sob custódia policial pelo assassinato do Lovat, um soldado honorável com uma reputação irrepreensível, e, entretanto, não tinham interrogado sequer ao Ryerson, cuja presença às três da madrugada na casa dela não só não tinha sido explicada mas era inadmissível do ponto de vista da decência.

De fato, pedia em nome da justiça que o primeiro-ministro desse conta à Câmara dos Comuns, e ao povo britânico, a que era devido, e quanto tempo ia durar essa situação.

Por volta de meia tarde, antes de que o entardecer tivesse feito algo mais que tingir o horizonte e roubar algo da cor às folhas, o governo se viu obrigado a ceder. O ministro do Interior informou à Câmara de que o senhor Ryerson daria explicações completas e satisfatórias à polícia.

Para quando se acenderam as primeiras luzes, Ryerson estava detido para todos os efeitos.

Pitt não necessitava que o fizessem voltar para o escritório do Narraway. Não dispunha de mais informação que merecesse a pena e não se incomodou sequer em revelar o pouco que tinha, só algumas pessoas do livro de visitas do Eden Lodge limpas de toda implicação. Só ficava uma meia dúzia por localizar.

Permaneceu em pé ante a escrivaninha do Narraway, esperando que falasse.

—Sim, sei -disse Narraway com a mandíbula tensa e os olhos cravados na brilhante escrivaninha que tinha ante si, coberta de papéis, todos de barriga para baixo—. Não acredito que diga à polícia nada que não lhe haja dito a você.

—Ele não me conhece - indicou Pitt, embora tivesse a inexplicável sensação de que ele conhecia o Ryerson. Recordava com exatidão seu rosto, cada ruga e cada sombra, o apresso e a emoção de sua voz, e como se havia sentido pessoalmente comprometido quando o político tratou de lhe explicar seus atos e o que faria se processassem Ayesha Zakhari—. Não tem motivos para confiar mais em mim que o que lhe obrigam as circunstâncias - continuou—. Talvez lhe diria mais coisas.

Pitt não acrescentou que Ryerson e Narraway pertenciam à mesma classe social, tinham o mesmo nível cultural, a mesma maneira de ver a vida, porque ficava implícito.

Narraway fez caso omisso de suas palavras. Abriu uma gaveta de sua escrivaninha e tirou uma pequena caixa metálica. Não parecia estar fechada com chave, de modo que se limitou a abri-la e a extrair um maço de bônus do Tesouro. Deviam valer ao menos cem libras.

—Eu me ocuparei de seguir a pista das provas de Londres - manifestou sem olhar ainda ao Pitt—. Me deixe seus informes. Vai a Alexandria para averiguar tudo que seja possível da mulher e do Lovat no período em que esteve ali.

Pitt tomou ar, surpreso. Demorou uns momentos em recuperar a fala.

—Mas eu não sei nada do Egito! -protestou—Nem sequer conheço o idioma que falam ali! Não...!

—Se arrumará muito bem em inglês - o interrompeu Narraway—, e não disponho de nenhum perito em assuntos egípcios. Você é um bom detetive. Averigue tudo sobre a estadia do Lovat ali, mas em especial investigue à mulher, a família da que procede, sua vida, suas idéias, suas ambições, o que sabe e lhe interessa.

Averigue se haveria algo pelo qual Lovat poderia havê-la chantageado. -Adotou uma expressão enojada—. Por que veio a Inglaterra. Quem é sua família. Se tiver no Egito, amantes, dinheiro, lealdades, ideais religiosos ou políticos.

Pitt o olhou fixamente enquanto, pouco a pouco, compreendia a magnitude do que seu superior lhe estava pedindo. Sentiu-se aflito por isso. Não tinha nem idéia de por onde começar, e nem digamos como chegar a alguma conclusão.

Não sabia nada do Egito além da informação fragmentada que tinha obtido de conversas e jornais, e nos últimos tempos sobre a produção de algodão ali, e não sabia sequer se era correta.

Tampouco conhecia a cidade de Alexandria; estaria completamente perdido. O clima não seria como o de Londres, nem tampouco a comida, o traje, os costumes.

Entretanto, ao mesmo tempo em que se apoderava dele o medo o invadia a emoção, que aumentava por segundos, e as palavras para aceitar foram a seus lábios até antes que tivesse pensado com clareza como levar a cabo sua missão.

—Sim, senhor. O que me recomenda? Thomas Cook?

Uma ameaça de sorriso aflorou aos lábios do Narraway.

—Era uma ordem, Pitt, não um pedido. Sua única alternativa teria sido demitir-se. Mas me alegro de não ter tido que lhe pôr nessa tessitura. -Depois seu olhar se voltou cautelosa e se suavizou por uns instantes—. Tome cuidado, Pitt. O Egito não é um lugar tranqüilo neste momento, e você vai ali para indagar em assuntos delicados.

Quero que volte com informação, mas também com vida. Sua morte em um beco poria em tecido de julgamento minha reputação profissional. -Pegou o dinheiro da escrivaninha junto com um envelope branco. — Aqui estão as passagens e acredito que, com estes recursos terá suficiente.

Se necessitar mais dinheiro, vá ao Senhor Trenchard do consulado britânico, mas não lhe diga mais do que necessário.

Pitt pegou o dinheiro e as passagens.

—Obrigado.

—Seu navio zarpará do Southampton amanhã com a maré da tarde - acrescentou Narraway.

Pitt se virou para partir. Teria que tomar o primeiro trem da manhã e devia fazer a bagagem. Não lhe tinha ocorrido pensar de que roupa dispunha que pudesse ser apropriada.

—Pitt - chamou-o Narraway com tom áspero.

Voltou-se.

—Sim?

—Tome cuidado. O mais provável é que seja exatamente o que parece, um homem com mais paixão que bom senso.

Mas no caso de que se trate de um assunto político, algo relacionado com o algodão ou... Deus sabe o que, procure escutar antes que falar. Aprenda a observar sem fazer perguntas. Não pertence à polícia da Alexandria.

De repente, seu rosto parecia gasto, como se antecipasse problemas que ainda não tinham ocorrido ou recordasse conflitos do passado—. Não haverá ninguém ali para protegê-lo.

Longe de o favorecer, sua pele branca pode o prejudicar. Pelo amor de Deus, tenha um pouco de cuidado! -exclamou zangado, como se Pitt costumasse correr riscos imprudentes.

Isso precisamente foi o que provocou ao Pitt um calafrio de medo, porque ele poucas vezes, para não dizer nenhuma, tinha posto em perigo sua vida, salvo talvez no Whitechapel, em sua primeira missão para Narraway.

Estava acostumado à segurança de um escritório, que não era o mesmo que um uniforme, mas igualmente eficaz.

Surpreendeu-se com a boca seca quando respondeu.

—Sim, senhor-disse com formalidade.

Em seguida saiu antes que Narraway pudesse lhe dizer nada mais ou que ele mesmo traísse seus sentimentos.

 

—Egito! -exclamou Charlotte com incredulidade quando Pitt o explicou.

Pitt tinha chegado tarde a casa e o jantar estava servido.

—Sei onde está o Egito - manifestou Daniel—. Acima da África. -disse-o com a boca cheia, mas Charlotte se sentia muito perplexa para repreendê—lo—. Terá que ir em navio -acrescentou solícito.

—Mas será... -começou a dizer Charlotte, então viu o rosto de preocupação da Jemima e terminou torpemente—… interessante. E fará calor, não é? Que roupa vai levar?

—Terei que comprar algo quando chegar ali - respondeu ele.

Havia tantas coisas que queria lhe dizer, mas sabia que ela se preocuparia, sobretudo depois do perigo em que se haviam visto imersos fazia tão pouco, quando tiveram que abandonar Dartmoor no meio da noite.

Tellman os tinha resgatado, carregando todos seus pertences em uma carruagem puxada por um pônei e conduzindo-os à estação mais próxima. Assaltaram-nos pelo caminho. Tellman lutou corpo a corpo com o homem até deixá-lo quase sem sentido no chão.

Jemima ainda o recordava muito vividamente. Pitt sorriu a sua filha.

—Trarei-lhe algo bonito - prometeu—. A todos - acrescentou quando Daniel estava a ponto de falar.

Não foi tão fácil distrair ao Charlotte quando ficaram a sós.

—O que pode fazer você no Egito? -perguntou—. É um protetorado britânico ou algo assim.

Não temos polícia ali? Poderiam enviar uma carta ou, se não se confiarem em serviço postal, um mensageiro.

—A polícia local não saberia o que procurar, ou não o reconheceria se o encontrasse -respondeu ele.

Enquanto Pitt caminhava a bom passo pelo Keppel Street para sua casa, com o vento lhe jogando chuva no rosto, a calçada molhada brilhante à luz das luzes e as carruagens que passavam levantando cortinas de água, tinha pensado iludido na aventura de ir a uma antiga cidade banhada pelo sol em um extremo da África.

O fato de que não entendesse o idioma ou que desconhecesse a comida, a moeda e os costumes carecia de importância. Aprenderia o suficiente. Faria tudo o que estivesse em suas mãos para averiguar algo sobre a Ayesha Zakhari, provavelmente coisas que preferiria não saber, mas ao menos teria a certeza de que era a verdade. Talvez explicasse o ocorrido.

Entretanto, na comodidade íntima de seu lar, pareceu-lhe que era a última coisa que queria fazer.

Ali se sentia emocionalmente agasalhado e desfrutava de prazeres tão simples como sua poltrona, sua cama, o saber onde estava cada coisa, pão recém feito e torrado com geléia de laranja amarga e chá quente para tomar o café da manhã.

Mas acima de tudo estavam os seus. Sentiria falta deles embora se tratasse só de uns dias, nem digamos então de estar fora semanas.

Ele manifestou ao Charlotte, uma e outra vez, com palavras, carícias e silêncio.

Na coberta do navio, Pitt olhou por cima da água azul para um horizonte que era uma cintilante franja entre mar e céu, não interrompida por sinal algum de terra.

Alegrou-se de escapar de seu camarote, do qual de fato só lhe pertencia à metade.

Via-se obrigado a compartilhá-lo com um homem magro e taciturno do Lancashire que fazia a viagem com regularidade por motivos trabalhistas. Vaticinava maus tempos e tinha uma espécie de prazer em dizê-lo a menor oportunidade.

Aos olhos do Pitt, a única virtude que tinha era que não lhe interessavam os outros. Em nenhum momento tinha envenenado ao Pitt com perguntas a respeito do que se dedicava, de onde era ou por que ia ao Egito.

Narraway não tinha dito a Pitt um pretexto que explicasse sua viagem, mas sim deixou a seu critério que inventasse o que quisesse.

Em sua opinião, se a pessoa elaborava sua própria história era mais provável que acreditasse e não caísse em deslizes que o delatassem.

Pitt tinha passado às duas horas de viagem em trem de Londres ao Southampton espremendo os miolos em busca de alguma justificação que não requeresse determinada informação que não dispunha.

Não tinha nenhum sentido que argüira algum tipo de negócio. Em cinco minutos de conversa ficaria demonstrado que não sabia uma palavra de comércio.

Não era uma pessoa erudita, menos ainda um perito na história ou nas antiguidades do Egito, temas que despertavam nesses dias um interesse que não cessava de aumentar. Poria de manifesto sua ignorância à primeira pergunta.

Que tipo de homem ia só de férias a um país estrangeiro do qual não sabia nada e onde não tinha amigos nem família? Um homem casado certamente que não, e tinha decidido ater-se todo o possível à verdade, por comodidade e segurança, e porque psicologicamente lhe proporcionava um sustento, mas se não viajava por prazer, então tinha que ser por causa de necessidade.

Optou por inventar um irmão que tinha ido aí para atender um negócio e de quem fazia dois meses que não tinha notícias. Isso lhe proporcionava um motivo convincente e ao mesmo tempo uma justificativa para fazer perguntas, e explicava sua ignorância sobre determinados temas.

De momento, tinha respondido todas as perguntas que lhe tinham feito, aparentemente a inteira satisfação de seus interlocutores.

Seu companheiro de camarote só lhe tinha advertido de que se o negócio de seu irmão era o algodão, estava condenado, e que mais valia que Pitt começasse procurando seus restos nos becos ou inclusive no rio. Pitt não fez nenhum comentário.

Contemplou a água azul, sentindo a agradável e cálida brisa na pele, e pensou iludido no interesse que encerrava um lugar novo que não se parecia com nada do que tinha imaginado, e menos ainda visto.

Assim que desembarcou, apresentou seu passaporte e se assegurou de que lhe desciam a bagagem.

Com a mala na mão, permaneceu em pé no mole em meio dos gritos e o bulício. Ouvia uma dúzia de idiomas diferentes, dos quais não entendia nenhum, mas os portos de todo o mundo tinham algo em comum.

Em Londres teria sido um dia ensolarado ao menos, mas a brisa procedente do mar sempre era fria. Ali pelo contrário o calor envolvia como uma manta úmida e abrigada.

Os aromas lhe resultaram familiares em seguida, alcatrão, sal, peixe, mas também aromas diferentes, a especiarias, a pó, a calor e a suor.

Alguns dos homens trabalhavam nus da cintura para cima. Outros, vestidos com longas túnicas e turbantes, falavam entre si, inspecionando uma caixa aqui ou um fardo lá.

Com a ajuda do capitão, Pitt já tinha trocado um pouco de dinheiro na moeda local de piastras, e embora suspeitava que o tipo de câmbio não tinha sido muito favorável, tinha valido a pena a comodidade.

Era meia tarde e devia achar alojamento antes que anoitecesse. Pegou sua mala e saiu do porto em direção à concorrida rua. Haveria alguém que ao menos entendesse o inglês, embora não o falasse? Que tipo de transporte público havia?

Junto ao meio-fio, viu uma carruagem aberta puxada por um cavalo, certamente o equivalente alexandrino de um carruagem de aluguel.

Justo quando se dispunha a aproximar-se e perguntar ao condutor pelo consulado britânico, um homem vestido com roupa ocidental lhe cortou bruscamente o passo, subiu ao veículo e gritou instruções em inglês.

Pitt decidiu ser mais rápido da próxima vez. Demorou vinte minutos em achar outra carruagem e cinco mais em persuadir ao condutor de que o levasse ao consulado pelo que considerava um preço razoável.

Naturalmente, não tinha nem idéia de se, em efeito, o homem se dirigia aonde lhe tinha pedido ou não.

Devido a seu desconhecimento da cidade, poderia ter acabado no deserto, mas estava muito fascinado para deixar de olhar ao redor enquanto o coche estralava pelas ruas. Os estreitos becos se abriam a longas vias intensamente iluminadas pelo sol.

Uma quente cor areia que se fundia com um terracota mais escuro dominava tudo, e destacavam os suaves marrons das janelas de madeira que se sobressaíam por cima das pedras e o chão sem pavimentar.

Uns toldos desbotados pelo sol pendiam imóveis. Os frangos e as pombas se moviam a vontade, bicando e grasnando.

De vez em quando, um camelo cambaleava com a peculiar graça de um navio sacudindo-se contra a maré. Uns burros muito carregados avançavam com dificuldade.

As pessoas vestiam roupas de tons pálidos, os homens com turbantes, as mulheres com lenços largos e soltos que também lhes cobriam a metade inferior do rosto.

Aqui e lá tinham pinceladas de vermelho ou verde azulado.

Parecia haver insetos por toda parte. Uma e outra vez Pitt sentiu a picada de algum mosquito, mas não conseguiu reagir bastante depressa para matá-lo com um tapa.

Fez-se repentinamente de noite, e em um céu como de esmalte que ia de um azul intenso a um turquesa luminoso flutuou o mais inesquecível grito, semelhante a um canto e ao mesmo tempo diferente de tudo o que Pitt tinha ouvido alguma vez.

Diria-se que a voz se erguia e descia sem tomar ar, que flutuava do alto, penetrando a noite até que tremeu desde as torres e as paredes de todos os edifícios.

Ninguém pareceu sobressaltar-se. Eram como se o esperassem no preciso instante em que brotou.

A carruagem se deteve ante um edifício de fachada de mármore de grande beleza, cujas pedras de superfície lisa se combinavam em cores pálidas e escuras para lhe conferir um aspecto faustoso.

Pitt agradeceu ao cocheiro, pagou-lhe a quantidade acordada e se apeou na ardente calçada.

A seu redor o ar era suave e quente sobre a pele, como se estivesse em um aposento orientado ao sol, embora tivesse escurecido tão depressa que mal via do outro lado da rua à profundidade das sombras sob os muros. Não tinha havido entardecer. O sol já se ocultara e em seguida se fez de noite. As calçadas já começavam a encher-se de pessoas que riam e falavam.

Mas ele não tinha onde alojar-se, e essa necessidade premente devia prevalecer sobre sua curiosidade. Subiu as escadas do edifício e entrou.

Um jovem egípcio com uma túnica de cor terra se dirigiu a ele em perfeito inglês e lhe perguntou no que podia ajudá- lo.

Pitt respondeu que necessitava que o assessorassem e repetiu o nome que lhe tinha dado Narraway.

Cinco minutos depois se achava no escritório do Trenchard, onde os lampiões de azeite iluminavam fracamente uma sala cheia de antiguidades e de uma beleza de uma assombrosa simplicidade.

Em uma mesa auxiliar havia uma escultura grega junto a um papiro enrolado e um objeto decorativo dourado que poderia ter saído do sarcófago de um faraó.

—Gosta? -perguntou Trenchard com um sorriso, devolvendo ao Pitt ao presente.

—Sim - disse Pitt com tom de desculpa—. Perdoe. Devia estar muito cansado ou impressionado pelas novas sensações para pensar com clareza.

—Não se preocupe -o tranqüilizou Trenchard—. É impossível que lhe fascine mais que a mim o mistério e o esplendor do Egito. Sobretudo Alexandria! Aqui as diferentes culturas do mundo se misturam com uma vitalidade que não achará em nenhum outro lugar. Roma, Grécia, Bizâncio e Egito! —Pronunciou os nomes como se encerrassem em si mesmos uma magia impressionante.

Era um homem de grande encanto pessoal e uma dicção perfeita, como se lesse poesia em voz alta para seu próprio prazer.

De meia estatura, embora sua esbeltez o fizesse parecer mais alto, moveu-se com uma elegância inusitada quando rodeou a escrivaninha para estreitar a mão do Pitt.

Tinha um rosto patrício, com um nariz aquilino bastante largo, e seu cabelo castanho claro se ondulava de um modo um tanto exagerado.

Pitt teve a impressão de que se tratava de um cavalheiro, possivelmente destinado ali para satisfazer os desejos de sua família e nem tanto por inclinação pessoal.

Claramente, era versado em clássicos, e talvez tivesse inclusive um interesse de aficionado em egiptología, mas parecia dessas pessoas que tomam a sério seus prazeres e relativamente à ligeira seu trabalho.

—O que podemos fazer por você? —solicitou Trenchard com cordialidade—. Jackson me disse que perguntou por mim.

Não cabia dúvida de que Trenchard o estava convidando educadamente a dar uma explicação.

—O senhor Narraway me comentou que talvez pudesse me dar algum conselho -respondeu Pitt.

Houve um brilho de compreensão nos olhos do Trenchard.

—Certamente - admitiu. -sente-se, por favor. Acaba de chegar ao Egito?

—Mal faz uma hora que desci do navio —esclareceu Pitt, aceitando agradecido o assento.

Embora não tivesse andado muito, tinha permanecido muito tempo em pé na coberta, já que sua impaciência e sua curiosidade não lhe deixaram esperar embaixo tranqüilamente em seu camarote.

—Tem onde alojar-se? -perguntou Trenchard, dando a entender com sua expressão que estava convencido de que não—. Lhe sugiro o Cassino São Stefano. É um hotel muito bom, com cem quartos, de modo que não terá problemas em que lhe dêem um livre. Custa vinte e cinco piastras ao dia e a comida é excelente.

Se não gostar da egípcia, servem também comida francesa. E, ainda mais importante, pode chegar a ele em carruagem de aluguel pela Strada Rossa, ou, e talvez menos caro e mais discreto, mediante uma excelente linha de bonde, vinte e quatro bondes ao dia, e tanto o Schatz como o Racos morrem no terminal São Stefano.

—Obrigado -manifestou Pitt com sinceridade.

Era um bom começo, mas estava aflito por sua ignorância, e tinha a sensação de estar em uma cidade em que até o aroma do ar lhe era desconhecido.

Nunca havia se sentido tão perdido nem tão só. Tudo o que lhe era familiar se achava a milhares de quilômetros de distância.

Trenchard o observava, esperando que continuasse falando.

Poderia ter perguntado a qualquer pessoa a respeito de um hotel. Pitt compreendeu que devia explicar ao menos parte de seu propósito ali.

Expôs o que era sabido por todos, ao menos em Londres. Ofereceu-lhe os fatos nus sobre o assassinato do Lovat e a detenção da Ayesha Zakhari.

—Zakhari! -Trenchard repetiu o nome com curiosidade, ao mesmo tempo que seu rosto refletia grande interesse.

—Conhece sua família? -apressou-se a perguntar Pitt. Talvez fosse ser fácil, depois de tudo.

—Não, mas é um sobrenome copto, não muçulmano. —Viu a expressão do Pitt de não compreender—. Cristão - explicou.

Pitt se surpreendeu. Não tinha considerado sequer a questão da religião, mas então se deu conta de sua importância.

Um momento depois, Trenchard, com a boca torcida em um ligeiro sorriso irônico e os olhos cravados nos do Pitt, acrescentou: —Pelo que se diz, é mais que uma prostituta, talvez uma cortesã bastante seleta.

Se fosse muçulmana, sua própria gente lhe faria o vazio por relacionar-se de tal modo com um homem não muçulmano, até de forma discreta.

Como cristã, se tiver supremo cuidado, pode manter as aparências da respeitabilidade.

—Não me consta que seja cortesã! -exclamou Pitt com bastante veemência, mas ao observar a brincadeira nos olhos do Trenchard se envergonhou de sua falta de objetividade profissional.

Trenchard se absteve de fazer qualquer comentário, embora o dissesse tudo com sua expressão, não hostil, simplesmente com o ligeiro aborrecimento de um homem de mundo que trata com alguém de uma ingenuidade assombrosa.

Pitt lançava faíscas! Era um policial profissional que conhecia muito melhor as escuras curvas da natureza humana que esse diplomata aristocrata. Controlou seu ataque de mau gênio com dificuldade.

—A única relação de que temos segurança é a que mantinha com o Saville Ryerson - disse com um tom mais frio que o que se proposto—. Ao parecer, Lovat era um ardente admirador dela quando serviu aqui na Alexandria faz quinze anos, mas não sabemos se chegou a ser algo mais que isso.

Trenchard juntou as mãos, totalmente impertérrito.

—E quer sabê-lo?

—Entre outras coisas, sim.

—Assim, devo entender que sua missão consiste em limpar o nome do Ryerson?

Tratava-se de um convite a explicar suas necessidades concretas antes que uma pergunta, mas Trenchard era um homem a quem nunca lhe falhava a cortesia.

De repente, Pitt teve a profunda sensação de que se o diplomata se visse obrigado a dar um tiro em alguém, faria-o com educação.

Era inútil ficar grosseiro; Trenchard só o consideraria ainda mais estúpido.

—Se isso for possível -confirmou.

Trenchard o viu vacilar, embora brevemente, e assim o refletiu em sua expressão.

—Precisamos averiguar a verdade - se apressou a continuar Pitt—. Por que quereria ela matar ao Lovat? Por que foi a Londres? Procurava o Ryerson ou o conheceu por acaso?

Enquanto o dizia, Pitt se deu conta do pouco provável que era que uma mulher egípcia tão bela se apaixonasse por acaso do ministro do governo responsável pelas exportações de algodão.

Entretanto, a história estava cheia de encontros improváveis que tinham alterado irrevogavelmente seu curso.

—Sim - disse Trenchard, apertando os lábios—. É claro. Dá-lhe uma aparência completamente distinta. Por que se supõe que disparou contra esse tal Lovat? –Abriu os olhos ligeiramente—. Quem é ele, por certo?

—Um diplomata aparentemente de pouca importância-respondeu Pitt. Decidiu não revelar nada ainda sobre a possibilidade de uma chantagem—. E embora a tivesse estado assediando — continuou—, Ryerson está bastante apaixonado por ela para fazer todo o possível para protegê-la da acusação de assassinato, até a custa de sua própria reputação.

Ela não tinha motivos para temer que um amante do passado lhe retirasse seu afeto.

—Certamente - respondeu Trenchard com suavidade—. Neste assunto há algo que não encaixa, e as possibilidades são múltiplas. Fez bem em vir aqui.

Perguntava-me por que Narraway não se limitava a pedir a alguém do consulado que o investigasse, mas agora compreendo que o que é preciso é um detetive.

A resolução do caso pode ser complexa e pode ser que certas pessoas não queiram que se saiba. —Sorriu, um gesto franco e encantador—. Sabe um pouco do Egito, senhor Pitt?

Pitt percebeu atrás dos tranqüilos modos do Trenchard um vislumbre da paixão que tinha mostrado pouco antes ao falar da beleza e a antigüidade do Egito, e o brilho da cultura, sobretudo aí onde o Nilo confluía com o Mediterrâneo, no sentido de que a África se imbricava com a Europa.

—Dê por sentado que não sei nada - manifestou Pitt com humildade—. O pouco que aprendi é insignificante.

Trenchard assentiu mostrando uma expressão de aprovação em seu rosto.

—A história deste país se remonta a quase cinco mil anos antes de Cristo. —Suas palavras tinham grande transcendencia e, apesar de seu tom despreocupado, havia um respeito reverencial em seu semblante—. Mas para o assunto que lhe trouxe aqui, não precisa saber nada até a conquista napoleônica e o curto período de ocupação francesa de há quase um século.

Sem dúvida estará à corrente da vitória de Lorde Nelson no Abukir, que me parece que pelo geral se conhece como a batalha do Nilo. Sim, supunha-o. —Havia uma nota indefinível em sua voz, uma emoção impossível de catalogar—. O Egito forma parte do Império turco só nominalmente, e portanto deve lealdade ao sultão da Turquia -continuou—. Mas em realidade durante os últimos quinze anos formou parte do nosso, embora seja extremamente pouco prudente fazer algum comentário desse teor. —encolheu os ombros, e até esse gesto tinha um ar de elegância—. Ou sobre o fato de que bombardeamos Alexandria faz dez anos, obedecendo ordens do senhor Gladstone.

Pitt fez uma careta, mas Trenchard mal deu amostras de perceber.

—O quediva é vassalo do sultão - continuou explicando o diplomáta—. Há um primeiro-ministro egípcio, um parlamento, um exército egípcio e uma bandeira egípcia.

Provavelmente para vocês sua economia não tem mais interesse que o algodão, que é o único cultivo que se exporta aqui e que compra por inteiro a Grã—Bretanha, um detalhe que não carece de importância.

—Sim - disse Pitt sombrio—. Estou à corrente disso, E acredito que o aspecto econômico poderia estar na medula da questão. Mas -se apressou a acrescentar- neste momento não necessito uma aula sobre a matéria. O que me diz da polícia?

Trenchard se mexeu em sua cadeira.

—Eu se fosse você esqueceria de tudo o que tenha que ver com a lei e os tribunais -manifestou com secura—. Neste país a jurisdição sobre os estrangeiros recai em toda uma série de tribunais, um para cada consulado, e as arrevesadas intrigas de qualquer deles, por não dizer todos, confundiriam até ao Teseo, deixando um fio atrás dele. -Abriu suas elegantes mãos—. De fato, os britânicos controlam o Egito, mas o fazemos com discrição.

Somos centenas, e todos respondemos ante o cônsul geral, Lorde Cromer, a quem se conhece com o simples apelativo do “Lorde". E suponho que sabe você o que dizem dele.

—Não tenho nem idéia —confessou Pitt.

Trenchard arqueou ligeiramente as sobrancelhas, com um sorriso nos lábios.

—"De nada serve ter a razão de sua parte se lorde Cromer se voltar contra ti" —citou—. Acredito que, nas pressente circunstâncias, é melhor que ele não se inteire de sua existência.

—Farei o possível para que assim seja - prometeu Pitt—. Mas preciso obter informação sobre essa mulher, quem era antes de transladar-se a Inglaterra, se é realmente tão impulsiva e...

—Néscia - concluiu Trenchard por ele, com os olhos muito abertos—. Sim, compreendo que é preciso. Começaremos entre os coptas. Proporcionarei-lhe um plano da cidade e lhe indicarei os bairros mais prováveis,

Diria que vem de uma família de bastante dinheiro, já que é evidente que fala ingles e dispõe de meios para viajar.

—Obrigado. -Pitt se levantou; então se deu conta de que tinha o corpo rígido e fez um esforço por conter um bocejo. Continuava fazendo muito calor, a roupa lhe grudava no corpo e estava muito mais cansado do que pensava. — Onde tomo o bonde para São Stefano?

—Tem piastras?

—Sim, obrigado.

Trenchard se levantou também.

—Assim, se andar à direita e caminhar uns cem passos, achará uma parada a sua esquerda, justo ao outro lado da rua. Mas lhe aconselho que a esta hora da tarde, enquanto não se familiarize com a cidade, tome uma carruagem de aluguel.

O trajeto não lhe custará mais de oito ou nove piastras e vale a pena se tiver que levar uma mala. Boa sorte, Pitt. - Estendeu-lhe a mão—. Se posso lhe ser de alguma ajuda, por favor, diga—me.

Se me inteirar de algo que lhe resulte útil para sua investigação, enviarei-lhe uma nota ao São Stefano.

Pitt lhe estreitou a mão, voltou a lhe agradecer e aceitou seu conselho de pegar uma carruagem.

O trajeto não foi longo, mas o calor não tinha afrouxado nas concorridas ruas e de novo o devoraram os mosquitos.

Quando chegou, estava exausto e lhe picava todo o corpo.

Entretanto, o hotel era excelente e dispunha de quartos livres a vinte e cinco piastras À noite, tal como havia dito Trenchard.

Também lhe ofereceram comida excelente e abundante, mas ele só aceitou o pão e a fruta, e quando terminou subiu a seu quarto.

Assim que a porta se fechou, tirou os sapatos, aproximou-se da janela e ficou contemplando o céu negro brilhante e tachonado de estrelas. Cheirava o calor e a brisa salina que chegava do mar. Inalou fundo e deixou escapar o ar em um longo suspiro nostálgico.

Era formoso e estimulante; sentia-se emocionado, tão longe de seu lar. Conseguia ouvir o ruído do mar, alguma ou outra gargalhada e um contínuo ruído de fundo, como o dos grilos na erva do verão. Recordou-lhe os verões de sua infância no campo, mas estava muito cansado para desfrutar da evocação.

Desejava com todas suas forças que Charlotte estivesse ali, para que escutasse com ele as vozes longínquas que falavam em línguas totalmente diferentes, e as risadas, e cheirasse os estranhos aromas de especiarias da noite.

Retirou-se da janela, enfrentando o quarto desconhecido, despiu-se e se lavou para tirar o pó, e abriu o mosquiteiro que rodeava a cama.

Deitou-se e o fechou com cuidado, e dormiu quase imediatamente.

Despertou uma vez na escuridão e por um instante não soube onde estava. Sentiu falta o vaivém do navio. Por estranho que parecesse, sentia-se enjoado sem ele.

Depois recordou tudo, virou-se na cama e se afundou de novo no esquecimento até quase o meio-dia do dia seguinte.

Empregou os dois primeiros dias em conhecer o máximo a cidade. Começou por comprar roupa adequada para a temperatura de vinte graus de noite e mais de trinta durante o dia.

Beneficiou-se do excelente sistema de transporte público de bondes, todos recém pintados, e de trens, de fabricação britânica e estranhamente familiares, até a deslumbrante luz do sol que o fazia entrecerrar permanentemente os olhos.

Às vezes caminhava pela rua escutando as vozes, observando os rostos, notando-se na extraordinária mescla de idiomas e raças.

Além de egípcios havia gregos, armênios, judeus, levantinos, árabes, algum ou outro francês, e ingleses por toda parte. Viu soldados com uniforme tropical, expatriados com aspecto de sentir-se tão a gosto ali como se esse fosse seu lar, o calor, o ruído, o regateio no mercado, o brilho cegador que inundava tudo.

Havia turistas de tez pálida, cansados e emocionados, decididos a não deixar nada por visitar. Ouvia-os conversar sobre ir até o Cairo e tomar um dos numerosos navios que subiam pelo Nilo até Karnak e mais longe.

Um vigário de idade avançada, cujo bigode branco destacava sobre sua pele mogno, falou-lhe com entusiasmo de sua recente viagem.

Enquanto tomava o café da manhã, descreveu como tinha contemplado o Nilo atemporal como se tivesse sido a própria eternidade, com seu Gazette Egyptian aberto ante ele, sua geléia Dundee estendida sobre sua torrada e as pirâmides funerárias dos faraós que se recortavam no horizonte ao fundo do deserto.

—Uma perfeição! -exclamou com um tom de voz que poderia ter-se ouvido em um clube de cavalheiros de Londres.

Isso recordou ao Pitt bruscamente a urgente missão que lhe tinha levado ali, e o obrigou a começar a fazer perguntas sobre a família copta do Zakhari.

Os milênios de faraós, os séculos da Grécia e Roma, o idílio da Cleopatra, a chegada dos árabes, os turcos e os mamelucos, a conquista do Napoleão e depois do Nelson tudo isso teria que esperar.

Nesses dias os que mandavam eram os britânicos, apesar da farsa de que o poder o ostentava o califa de Istambul, e eram os navios de todo o mundo os que cruzavam o canal do Suez para a Índia e Oriente.

Eram às fábricas de algodão inglesas, envoltas em fumaça no inverno cada vez mais lúgubre do Manchester, Burnley, Salford e Blackburn, onde vendia o Egito suas colheitas.

E dessas mesmas fábricas inglesas voltavam a sair os produtos acabados, através de Suez e mais longe.

Havia pobreza nessas ruas quentes, infestadas de excrementos e moscas. Havia fome e enfermidade.

Viu mendigos sentados a semipenumbra dos muros endurecidos ao sol, que se moviam com as sombras, pedindo esmola em nome de Deus misericordioso.

Às vezes seu aspecto físico era normal, mas outras estavam mutilados ou cheios de chagas, ou cegos ou aleijados. Alguns tinham o rosto marcado pela varíola ou desfigurado pela lepra, e para Pitt era difícil não desviar o olhar.

Em algumas ocasiões lhe cuspiram e uma vez o alcançou no cotovelo uma pedra, mas quando se virou não havia ninguém.

Entretanto, na Inglaterra também havia pobreza, frio e chuva, bocas-de-lobo transbordadas e as enfermidades de um clima diferente, como a tosse seca da tuberculose, e tanto em um lugar como no outro, a agonia da cólera e tifo. Não podia comparar os dois países.

Pitt voltou para o bairro principal onde viviam os coptas cristãos.

Sentado em um pequeno restaurante ante uma xícara de café tão espesso e doce que não foi capaz de beber começou a fazer perguntas.

Utilizou como desculpa a verdade: que Ayesha tinha problemas em Londres e que procurava a sua família, ou a qualquer amigo ou parente que pudesse ajudá-la. Ao menos deviam estar à corrente de seus apuros.

Levou-lhe quase dois dias averiguar algo mais que rumores e conjeturas. Por fim ficou de reunir-se com um homem cuja irmã tinha sido amiga da Ayesha, e reservou uma mesa no Cassino São Stefano.

Esperava sentado à mesa quando um homem egípcio de uns trinta e cinco anos se deteve na entrada do restaurante. Ia vestido com a roupa tradicional do país, mas o tecido era bom, de uma quente cor areia.

Olhou ao redor alguns minutos, depois, identificando aparentemente ao Pitt entre outros hóspedes europeus, abriu caminho entre as mesas e se inclinou, apresentando-se formalmente.

—Boa tarde, effendi. Meu nome é Makarios Yacoub e conforme acredito você é o senhor Pitt.

Pitt se levantou e inclinou ligeiramente a cabeça.

—Encantado. Sim, sou Thomas Pitt. Muito obrigado por vir. Indicou com um gesto a outra cadeira, convidando ao Yacoub a sentar—. Quer comer? A comida é excelente, mas estou certo de que já sabe.

—Vai comer você? -perguntou Yacoub, tomando assento.

Nos poucos dias que estava ali Pitt já tinha aprendido a falar de modo indireto. A pressa não suscitava mais que desdém.

—Seria agradável - respondeu.

—Então não é preciso mais - assentiu Yacoub—. É muito gentil de sua parte.

Pitt fez vários comentários sobre o muito que gostava da cidade, ressaltando a beleza do que tinha visto até então, sobretudo o quebra—mar que unia o velho farol e a cidade.

—Tive a sensação de que se fechasse os olhos e os abrisse de repente, veria faróis tal como era quando se contava entre as sete maravilhas da Antigüidade -disse, depois se sentiu coibido por ter expresso em alto tal fantasia íntima.

Mas viu imediatamente que Yacoub o entendia. Seu rosto se suavizou e se relaxou ligeiramente em seu assento. Era alexandrino e lhe agradava ouvir elogiar sua cidade.

—O quebra—mar se chama Heptastadion -explicou— e o construiu Dinócrates. Para oeste estava o velho porto medieval.

Mas há outras muitas coisas que ver. Se o que lhe interessa é o passado, pode visitar a tumba do Alexandre Magno. Alguns dizem que se encontra debaixo da mesquita do Nabi Daniel, outros na necrópole próxima. —Sorriu a modo de desculpa—. Perdoe se falo muito. Eu gosto de compartilhar minha cidade com todo o que a olhe com os olhos da amizade.

Deve passear pelo canal da Mahmudiya até os jardins do Antoniadis, onde há um fragmento de história em cada punhado de terra. Ali viveu e ensinou a seus alunos o poeta Calímaco. — encolheu ligeiramente os ombros—. E há uma tumba romana - concluiu sorrindo ao ver aproximar-se o garçom—. Está familiarizado com nossa comida?

—Muito pouco — reconheceu Pitt, disposto a deixar-se recomendar tanto por motivos práticos como por cortesia.

—Então lhe aconselho que tome mulujiz -respondeu Yacoub—. É uma sopa verde, um aprimoramento. Gostará. E de segundo prato heman mahshi que é pombinho cheio.

Olhou ao Pitt interrogante.

—Excelente, obrigado - disse Pitt.

Fez mais perguntas sobre a cidade até que lhes serviram a comida.

Estavam pela metade da sopa, que era realmente deliciosa, quando Yacoub falou por fim so bre o assunto pelo qual se reuniram.

—Disse você que a senhorita Zakhari está atravessando por certas dificuldades - comentou, deixando a colher um momento e olhando com mais vagar ao Pitt.

O tom de voz do egípcio era despreocupado, como se ainda falassem da cidade, mas havia intensidade em seu olhar.

Pitt era consciente de que a cidade contava com um excelente serviço telefônico, mais confiável as vezes que o de Londres, e que havia muitas possibilidades de que Yacoub já estivesse à corrente da detenção e das acusações formuladas contra ela.

Não devia surpreendê-lo fazendo uma declaração falsa, e menos ainda mentindo descaradamente.

—Temo que se trata de algo sério -afirmou—. Não tenho certeza se teria tido a oportunidade de informar a sua família, ou talvez não quis os preocupar.

Mas se fosse minha filha ou minha irmã, preferiria estar a par de todos os detalhes possíveis, para saber como ajudar.

Se Yacoub conhecia a situação, não se traduziu em seu rosto.

—É claro —murmurou—. Naturalmente.

Mas não pareceu surpreendê—lo a notícia de que Ayesha Zakhari estivesse em apuros ou corresse perigo. Pitt teria esperado perplexidade, inclusive alarme.

Já estava à corrente de sua detenção através dos jornais ou era algo que cabia esperar dela conhecendo—a? Recordou a advertência do Narraway com um calafrio até em meio dessa sufocante sala de jantar, com seus aromas de comida e a brisa marinha que entrava pelas portas abertas.

O homem que tinha ante si era encantador e estava tão relaxado que Pitt teria podido esquecer facilmente que seus interesses talvez fossem diferentes dos seus ou os do governo britânico.

—Conhece sua família? -perguntou então Pitt.

Yacoub ergueu ligeiramente os ombros, um gesto elegante que poderia ter significado várias coisas.

—Sua mãe faleceu faz muitos anos e seu pai faz três ou quatro que também morreu -respondeu.

Pitt se surpreendeu a si mesmo compadecendo-se dela.

—Não tem a ninguém mais? Irmãos? Alguma irmã?

—Ninguém -replicou Yacoub—. Era filha única. Talvez por isso seu pai se esmerou tanto em educá—la. Desfrutava enormemente de sua companhia. Ela fala francês, grego e italiano, além de inglês, é claro. E o árabe é sua língua materna.

Mas era em filosofia onde se sobressaía, na história do pensamento e idéias. —Observava ao Pitt e não lhe passou por cima sua surpresa—. Olha-se a uma mulher formosa e acredita que só procura prazer —comentou.

Pitt já se dispunha a abrir a boca para negá—lo quando caiu na conta de que era verdade. Notou que se ruborizava e não disse nada.

—Ela pelo contrário não se importava com o prazer - continuou Yacoub, sorrindo com os olhos mais que com os lábios, e continuou comendo, partindo o pão com os dedos—. Talvez não fosse preciso.

—Não tinha interesse seu pai em que contraísse matrimônio com alguém adequado?

Pitt sabia que era uma pergunta algo impertinente, mas necessitava todo tipo de informação, e se ela não tinha nenhum parente vivo, Yacoub era o único amigo ao que recorrer. Yacoub lhe sustentou o olhar.

—Talvez. Mas Ayesha era obstinada, e o senhor Zakhari a queria muito para obrigá-la a fazer algo contra sua vontade. -Tomou várias colheradas mais de sopa antes de decidir-se a continuar—. Ela tinha meios suficientes para não precisar casar-se, e não se importava com os convencionalismos.

—Ou o amor? —arriscou-se a perguntar Pitt.

De novo, Yacoub fez um gesto delicado que poderia ter significado quase algo.

—Acredito que ela amou muitas vezes, mas ignoro com que intensidade.

Era um eufemismo? Pitt dava paus de cego em uma cultura muito diferente da sua. Ainda não tinha uma idéia muito clara de que classe de mulher era Ayesha Zakhari, salvo que era diferente a todas as que conhecia.

Teria gostado de poder perguntar à Charlotte. Ela talvez teria sabido abrir caminho entre as palavras até fazer uma idéia cabal da realidade.

—A que tipos de homens amava? -perguntou.

Yacoub terminou sua sopa; o garçom retirou os pratos e voltou com os pombinhos.

Yacoub não olhou ao Pitt, mas a um ponto na distância.

—Só conheci um pessoalmente -respondeu. Depois, erguendo a vista de repente para o Pitt, inquiriu—: No que poderia lhe ajudar que lhe fale do Ramses Ghali? Não vive na Inglaterra. Não há forma de que tenha algo que ver com os problemas atuais dela.

— Tem certeza?

No rosto do Yacoub não havia sombra de dúvida.

—Totalmente.

Pitt não estava convencido.

—Quem é?

Yacoub o olhava com afabilidade, mas em sua expressão havia uma mescla inescrutável de cólera e dor.

—Está morto - explicou com serenidade—. Morreu faz mais de dez anos.

—OH, —De novo a morte. Tinha amado Ayesha Zakhari realmente a esse homem? Poderia ser essa a explicação de seu comportamento? Pitt se pegava a um prego ardendo, mas não tinha nada mais—. Se teria casado com ele se não tivesse falecido?

Yacoub sorriu.

—Não. —De novo parecia completamente seguro.

—Mas disse você que ela o queria.

Yacoub se mostrou paciente, como com um menino que necessita que lhe dêem minuciosas e intermináveis explicações.

—Queriam-se como amigos, senhor Pitt. Ramses Ghali acreditava apaixonadamente no Egito, assim como seu pai.

O rosto do Yacoub se escureceu e deixou ver uma emoção que Pitt não soube interpretar, mas que parecia conter raiva, algo escuro.

Dez anos atrás tinha tido lugar o bombardeio de Alexandria. Devia-se a isso a frieza que percebia Pitt? Ou era mais profundo, os sucessos do general Gordon e o lugar do Jartum ao sul dali, em Suam? Em 1882 as forças britânicas tinham defendido ao Urabi no Tel—o—Kebir, e seis mil egípcios foram assassinados pelo Mahdi em Suam.

No ano seguinte, um exército egípcio ainda mais numeroso foi esmagado de forma similar e em 1884 outro exército tinha sido derrotado; então chegou o general "chinês" Gordon. Em janeiro Gordon tinha morrido, e menos de seis meses depois morria o Mahdi; mas ainda não tinham recuperado Jartum.

De repente Pitt se sentiu muito longe de seu país, e apesar de toda a decoração européia do restaurante do hotel e de seu nome italiano, foi intensamente consciente da antiga e profundamente diferente herança cultural do homem que tinha ante si e do aroma de especiarias e o calor do ar africano no exterior. Teve que fazer um esforço para pensar com clareza.

—Disse que Ayesha Zakhari acreditava no Egito com a mesma paixão —comentou, e começou a comer seu pombinho, pensando distraído que era o melhor que tinha provado alguma vez—. É uma pessoa que atua de acordo com seus princípios? Falava de uma causa, tratava de persuadir a outros?

Yacoub soltou um risinho quase afogado, mas se interrompeu imediatamente.

—Tanto mudou? Ou simplesmente não sabe nada dela, senhor Pitt? —Entrecerrou os olhos e deixou de comer—. Tenho lido os jornais e acredito que o governo britânico tentará pôr em liberdade a seu ministro e enforcar a Ayesha. — Desta vez havia muita amargura em sua voz, e sua firme tez azeitonada adotou uma expressão desagradável, tão profundos eram a ira e a dor que sentia. — Que busca aqui? Uma testemunha que lhe diga que é uma mulher perigosa, uma fanática capaz de matar a qualquer um que se interponha em seu caminho? Que talvez esse tal tenente Lovat soubesse algo dela que podia arruinar sua luxuosa vida na Inglaterra e tinha ameaçado trazê-lo a luz?

—Não - disse Pitt imediatamente, e a veemência que queria expressar ficou flutuando entre ambos.

Yacoub exalou devagar e adotou uma atitude que dava a entender que se dispunha a escutar sem interromper o que Pitt tivesse que lhe dizer.

—Não -continuou Pitt—. Eu gostaria de averiguar a verdade. Não me ocorre à razão pela que quereria matar ao Lovat. Tudo o que ela tinha que fazer era limitar-se a lhe dar de lado, e ele não teria tido mais remédio que desistir, ou suportar como ela se via com ele, possivelmente de forma desagradável, por ser insistente. —Percebeu incredulidade no semblante do Yacoub—. Lovat tinha uma profissão - explicou—. Uma carreira no corpo diplomático. Que possibilidade tinha de ascender se se granjeava a inimizade de um ministro tão veterano como Saville Ryerson?

—Utilizará sua influência para salvá—la? -perguntou Yacoub vacilante.

—Sim! Ryerson já se comprometeu a ajudá—la, até a risco de ir ao cárcere por isso! Duvido que tivesse reparos em afundar a um jovem cujas atenções não eram bem recebidas. Uma palavra a seu superior no corpo diplomático e Lovat estaria acabado.

Yacoub continuava indeciso.

No restaurante se ouvia um intermitente murmúrio de conversas ao redor deles. Uma atraente loira de tez de porcelana riu, jogando a cabeça para trás de tal modo que a luz a iluminou.

Seu par a olhava fascinado. Pitt se perguntou se era um idílio que ela não se teria atrevido a ter em seu país. Imaginava Yacoub que na sociedade britânica existia essa maior liberdade? Como podia lhe explicar que não era assim?

Yacoub baixou a vista para seu prato.

—Não o entendo —murmurou—. Não sabe nada dela.

—Então me explique você! —suplicou Pitt.

Esteve a ponto de acrescentar algo mais, mas se conteve. Via no rosto do Yacoub como se debatia entre o desejo de combater por um pouco de justiça, por que a verdade prevalecesse sobre a ignorância, e a imperiosa necessidade de não trair os segredos da paixão ou a dor de outra pessoa.

Pitt tratou de pensar em um argumento convincente, embora guardasse silêncio.

Yacoub retirou o prato a um lado e pegou sua taça. Bebeu devagar, depois a deixou na mesa e olhou ao Pitt.

—O pai do Ramses foi um dos líderes que lutaram por nossa independência quando o endividamento se disparou sob o quediva Ismail, antes que o depusessem e ocupasse seu lugar seu filho Tewfik, e os britânicos tomassem as rédeas da economia do Egito.

Ramses era um homem brilhante, filósofo e erudito. Falava grego e turco além de árabe, e escrevia poesia em todos esses idiomas.

Conhecia nossa cultura e nossa história, desde os faraós que mandaram construir as pirâmides do Gizeh, passando por todas as dinastias até Cleópatra, o período grego—latino, a chegada dos árabes e a lei da Mahoma, a arte e a medicina, a astronomia e a arquitetura. Tinha força e um grande encanto.

Pitt não o interrompeu. Não tinha nem idéia de si isso estava relacionado com o assassinato do Edwin Lovat, ou se Narraway poderia tirar algo em claro disso, mas escutava fascinado porque fazia parte da história dessa cidade extraordinária.

—Era capaz de o fazer ver a magia do reflexo da lua sobre blocos de mármore de cem anos de antigüidade -continuou Yacoub, dando voltas à taça em suas mãos—.

Podia trazer de volta a vida e as risadas do passado como se nunca nos tivessem abandonado e só tivessem sido momentaneamente deixadas de lado por pessoas muito insensíveis para as apreciar. Com ele via as cores do mundo, ouvia música no vento que soprava sobre a areia.

O aroma da terra e das bocas—de—lobo, as moscas das ruas, os mosquitos, só eram o fôlego da vida.

—E Ayesha? -perguntou Pitt, temendo já a resposta. -Oh, lhe queria -replicou Yacoub, torcendo ligeiramente a boca para um lado—. Ayesha era jovem e dava muita importância à honra.

Também amava seu país, sua história, suas idéias, mas sentia afeto pela gente e odiava a pobreza que os emergia na ignorância quando poderiam ter aprendido a ler e a escrever, que os mantinha doentes quando poderiam ter gozado de saúde.

Pitt esperou. Pela emoção contida no rosto do Yacoub e a escuridão em seus olhos, sabia que esse só era o começo da história.

—Era um homem capaz de quase tudo - prosseguiu Yacoub em voz muito baixa—. Inclusive teria devolvido ao Egito sua independência e o controle de sua economia.

Mas tinha defeitos. Mimava a sua família. Deu poder a seus filhos e a seus irmãos, e estes eram ambiciosos.

Ele era um homem a quem lhe bastava as sortes do espírito e o mundo das idéias, mas não tinha coragem para negar nada aos que o rodeavam.

Os líderes devem estar dispostos a caminhar sós, se for necessário, e ele não o estava.

O egípcio inalou profundamente e deu a volta a sua taça nas mãos como se fosse beber de novo, mas não o fez.

Em seu rosto se refletiu a crispação de uma velha dor que ainda não tinha cicatrizado.

—Ayesha o queria, e ele a traiu a ela e a sua gente. Não sei se ela tornou a querer de verdade a um homem depois do ocorrido, a menos que se apaixonou por esse tal Ryerson. —Ergueu a vista e a cravou na do Pitt—. Poderia ser também ele um traidor?

Pitt se perguntou se essa era a razão pela qual Ayesha não havia dito nada à polícia. Estava aturdida, esperando que se repetisse a história?

—Traindo-a a ela ou traindo a sua própria gente? -perguntou Pitt.

Nos olhos do Yacoub houve um brilho de compreensão.

—Está pensando no algodão? Acredita que viajou a Londres para tentar convencê-lo de que nos deixasse tecer nosso próprio algodão em lugar de enviá-lo em navio a Manchester, onde os trabalhadores britânicos obtêm o melhor proveito dele e se enriquecem em vez de nós? É possível. Seria muito próprio dela.

—Então estava pedindo a Ryerson que escolhesse entre o Egito e Inglaterra - indicou Pitt. —Fosse qual fosse à decisão que ele tomasse, alguém seria traído.

—Sim, é claro. —Yacoub apertou os lábios—. Não sei se ela poderia perdoá—lo por isso. —Pegou por fim sua taça—. Não posso lhe dizer nada mais. Lá onde irá comprovará que o que lhe disse é verdade.

—O que me diz do tenente Lovat?

Yacoub o rechaçou com um gesto.

—Carece de importância. Apaixonou-se por ela e pode ser que Ayesha estivesse bastante ferida para achar consolo em suas ateções. Durou um tempo, uns meses.

Enviaram-no de volta a Inglaterra. Acredito que, então, supôs um grande alívio para ela. Talvez também para ele. Lovat não tinha intenção de casar-se com alguém que não pertencesse a sua classe ou posição.

—Sabe algo do próprio Lovat?

—Não. Mas talvez encontre a alguém entre os soldados britânicos que tivesse relacionamento com ele. Há muitos por aqui.

Pitt não disse nada. Era muito consciente da presença britânica em todos os níveis, não só no elevado número de soldados, mas também de civis em postos administrativos.

Egito não era uma colônia, e, entretanto, para efeitos práticos era como se fosse.

Se Ayesha Zakhari tinha querido liberar a seu país da dominação estrangeira, ele podia entendê-lo facilmente.

Mudou-se para Londres por essa razão, não para forjar um futuro, mas para ajudar a sua gente? Se assim fosse, certamente tinha escolhido ao Ryerson de propósito, ao tratar-se de um homem que poderia ajudá-la se ela pudesse persuadi-lo em tal sentido.

Como pensava fazê-lo? Por muito apaixonado que estivesse ele, dificilmente podia mudar a política governamental para agradá-la, não? Além disso, segundo a descrição do Yacoub do caráter da Ayesha Zakhari, ela o teria desprezado se ele o tivesse feito.

Mas isso não teria lhe importado, a não ser que lhe tivesse tomado afeto. Era isso o que tinha ocorrido? Apaixonou-se inesperadamente por ele e tinha deixado de repente de ser uma simples questão de dever patriótico?

Ou tinha previsto chantagear ao Ryerson e o assassinato do Lovat fazia parte desse plano?

Um plano que por alguma razão tinha saído terrivelmente mal ao acabar ela detida e a essas alturas era provável que também acusada. Qual tinha sido sua intenção? Oferecer ao Ryerson sair impune e aumentar assim a pressão sobre ele para que concedesse mais autonomia ao Egito?

Ou arruinar a carreira do Ryerson e que outro, talvez mais flexível, ocupasse seu lugar, alguém disposto a pagar o preço egípcio?

Mas isso não tinha muito sentido. Nenhum ministro do comércio devolveria ao Egito o algodão, a menos que se visse obrigado por circunstâncias muito mais poderosas que o amor, ou até a ruína. Com o tempo seria substituído por outro homem mais forte e menos vulnerável.

Pitt bebeu sua taça e agradeceu a Yacoub. Rodeavam-nos vozes e risadas, mas não lhe ocorreu nenhuma outra pergunta, assim mudaram de assunto e voltaram a falar da intensa e intrincada história da Alexandria.

Na manhã seguinte, enquanto Pitt tomava o café da manhã, um mensageiro entregou uma nota de Trenchard, em que lhe perguntava se tudo ia bem e se necessitava mais ajuda.

Também lhe propunha almoçar com ele, depois do que se oferecia encantado a lhe mostrar alguns lugares de interesse pouco conhecidos da cidade.

Pitt pediu papel, respondeu aceitando e se despediu do mensageiro antes de seguir dando conta de seu excelente pão recém feito, fruta e peixe. Estava se acostumando rapidamente à comida exótica e desfrutava muitíssimo dela.

Passou parte da manhã em uma biblioteca inglesa, lendo o que pôde achar sobre a insurreição do Urabi, em busca de alguma alusão a alguém chamado Ghali que estivesse metido naquele tempo em política.

A paixão e a traição que gotejavam esses fatos eram substâncias tão absorventes que quase se esqueceu do almoço com o Trenchard, e chegou ao consulado justo à uma.

Trenchard não fez nenhum comentário; levantou-se de sua cadeira sorridente e lhe convidou a entrar.

—Me alegro de que tenha vindo - saudou com cordialidade. Reparou na camisa e as calças de algodão em tom claro do Pitt, em seu rosto e antebraços já bronzeados, e acrescentou:—Parece que se adaptou bem, além de umas poucas picadas de mosquito.

—Muito bem -assentiu Pitt—. Poderia se passar um ano percorrendo esta cidade e não teria feito senão começar.

Algo no semblante do Trenchard se relaxou. As linhas de sua boca se suavizaram e à cordialidade de seu olhar somou um novo brilho.

—O Egito o cativou, não é verdade? -disse com visível prazer—. E ainda não esteve no Cairo nem Nilo acima. Tomara sua investigação o levasse ao Heliópolis, ou às tumbas dos califas, ou ao bosque petrificado.

Não poderia ir muito longe sem passar pelas pirâmides do Gizeh e, é claro, a esfinge, e não descansaria até ver ao menos as pirâmides do Abusir e Cortasse, e as ruínas de Menfis. —Trenchard sacudiu ligeiramente a cabeça, como se se tratasse de alguma brincadeira local bem conhecida—.

Então nada no mundo poderia impedi-lo de seguir percorrendo as ruínas maiores e antigas de todas até chegar ao Tebas e o templo de Karnak. Não pode imaginar-se tanta beleza. -Observava o rosto de Pitt enquanto falava—. Acredite-me, nenhum ocidental é capaz de conceber sua grandiosidade, sua enormidade.

O diplomata não esperava nenhum comentário. Permaneceu imóvel no meio da sala, alheio ao mobiliário moderno e aos papéis que o rodeavam. Sua mente vagava pelas intemporais areias do deserto.

Pitt não o interrompeu; não era preciso que dissesse nada. —Depois se dirigiria ao sul do Luxor - prosseguiu Trenchard—. Terá que cruzar o rio ao amanhecer.

Nunca em sua vida verá nada como as primeiras luzes do dia sobre o deserto, movendo-se pela superfície da água. Depois só ficariam seis quilômetros até o vale dos Reis.

"Se se viajar em um camelo rápido se vê o amanhecer sobre as tumbas dos faraós cujos pais governaram esta terra durante milhares de anos antes que nascesse Cristo. Já existiam antes que Abraham partisse de Ur em tempos dos caldeos. Tem alguma idéia do que isso significa, inspetor Pitt? — Desta vez havia desafio em seu olhar—. O Império britânico que agora rodeia tudo isso nasceu nos últimos cinco minutos em comparação. —deteve-se de repente e respirou fundo—. Mas você não tem tempo para essas visitas. Sei.

Além disso, sem dúvida Narraway não lhe paga para isso. me perdoe. Estará desejando ir a seu alojamento e é o bastante honrado para não responder à chamada do dever.

Pitt sorriu.

—O dever não me prohíbe aprender algo da história do Egito ou desejar que minha investigação sobre o passado da Ayesha Zakhari me levasse a menos até o Cairo! Ainda não encontrei nenhuma desculpa, mas não me dou por vencido!

Trenchard riu e lhe conduziu através dos escritórios à concorrida rua, onde puseram-se a andar em uma direção que Pitt não tinha tomado antes.

Surpreendeu-se contemplando os bonitos edifícios decorados com gregas de pedra tão intrincadas que pareciam rendas, e os balcões com cobertos suportados por colunas simples.

Viu um, protegido do calor, onde havia um grupo de homens de idade sentados sobre grossas almofadas turquesa e douradas, comendo pão, tâmaras e outras frutas, e conversando apaixonadamente entre si.

Mal olharam aos dois ingleses, deixando ver por um instante desprezo e aversão em seus olhos para mascará-los em seguida, porque não se atreviam a manifestá-los abertamente.

Atrás deles, um homem corpulento, de pele quase tão negra como sua barba, vestido com calças folgadas seguras por debaixo do joelho, parecia esperar suas ordens enquanto as pombas revoavam ao redor, e havia um vaso alto de boca estreita cheio de rosas.

Pitt pensou que mil anos atrás poderia haver-se dado uma cena exatamente igual a essa.

Trenchard achou o estabelecimento que procurava e pediu para os dois sem consultar ao Pitt, e quando chegaram os pratos, não fez o menor gesto de seguir as maneiras européias.

Comeram com os dedos, e a comida era deliciosa. A cor, o aroma, a textura, tudo era prazenteiro.

—Estive fazendo algumas indagações sobre a Ayesha Zakhari por minha conta —anunciou Trenchard na metade do almoço.

Pitt se deteve com um bocado na mão.

—Sim?

—Como supúnhamos, é cristã copta -explicou Trenchard—. Parece que teve uma relação muito intensa com um dos cabeças nacionalistas egípcios da insurreição do Urabi, pouco antes dos bombardeios de Alexandria de há dois anos. Sinto muito, Pitt - parecia arrependido—. Perguntei discretamente entre os amigos que tenho aqui, e não seria desatinado pensar que fosse a Londres com a intenção expressa de estender uma armadilha ao Ryerson, com a néscia idéia e muito pouco prática de que poderia persuadi-lo para que mudasse os acordos econômicos britânicos com o Egito em relação com o algodão ao menos, talvez em alguma questão mais.

Seu idealismo sempre foi muito forte. Apaixonou-se pelo Ramses Ghali e, embora ele traísse sua causa, ela foi das últimas pessoas em aceitar a verdade sobre ele.

O rosto do diplomata se inundou de profunda emoção, uma mescla de compaixão e desdém tão intensas que bastou que mencionasse quão feitos a provocavam para que ficasse rígido e suas elegantes mãos parecessem de repente torpes.

Pitt sentiu também uma sensação de vazio.

—A decepção é muito amarga -disse em voz baixa—. A maioria de nós resistimos a aceitá—la tudo o que podemos. Trenchard levantou rapidamente a vista. —Sinto muito, Pitt. Receio que é provável que averigue que é impulsiva e romântica, uma idealista que foi traída e que agora atua impulsionada pela dor, tratando de fazer realidade os velhos sonhos, por pouco realistas que sejam os meios.

Pitt baixou o olhar para a comida que tinha na mão. Já não possuía o mesmo encanto exótico que fazia uns minutos. Era absurdo que se sentisse assim. Nunca tinha visto a Ayesha Zakhari.

Não deveria lhe importar, salvo profissionalmente, que ela fosse irresponsável, uma fracassada política que tinha permitido que a dor pessoal lhe nublasse a razão.

Entretanto, de repente se sentia cansado, como se ele também tivesse perdido um sonho.

—Verei que mais posso averiguar do Lovat - comentou então.

Trenchard o observava com uma expressão de pesar. —Sinto-o -repetiu—. Teria sido muito mais agradável acreditar que havia outra explicação. Mas é possível que Lovat fizesse inimigos na Inglaterra.

—Deram-lhe um tiro no jardim da senhorita Zakhari às três da madrugada! -replicou Pitt com certa amargura—. E com a pistola dela!

Trenchard fez um ligeiro gesto de resignação, garboso e triste. Tinha elegância, como se se tivesse contagiado da dignidade natural da civilização que tanto admirava.

Terminaram de comer. Trenchard insistiu em pagar, depois de agradecer ao dono em árabe fluido e coloquial.

A seguir acompanhou ao Pitt ao bazar e lhe ajudou a regatear por um jogo de braceletes com comalina para Charlotte, uma figurinha de um hipopótamo para o Daniel, uns laços de seda de vivas cores para a Jemima e um lenço vermelho para o Gracie.

Ao final da tarde Pitt dispunha de uma informação que aceitou como uma verdade irrefutável, embora tivesse preferido que não o fosse, e de presentes com os que estava encantado e pelos que sabia que tinha pago realmente pouco.

Agradeceu a Trenchard e voltou em bonde a São Stefano, decidido a dar com os quartéis onde tinha servido Lovat e a passar o resto de sua estadia na Alexandria investigando a carreira militar e pessoal do Lovat, tudo o que pudesse averiguar sobre ele. Em algum momento seu caminho se cruzou com o da Ayesha, tinha que haver algo mais que lhe escapava.

 

Para Charlotte era muito difícil manter a mente ocupada com algo, sabendo que Pitt estava só no Egito, em um país desconhecido.

Mais perigoso que sua ignorância era o fato de que estivesse ali para fazer perguntas sobre uma mulher que podia ser considerada uma heroína na luta contra o domínio britânico sobre os assuntos egípcios.

Tratava de distrair-se com outros pensamentos, a maioria corriqueiros, mas todos escapavam ante a realidade esmagadora da ausência dele uma vez que apagava os últimos lampiões de gás do piso de baixo e subia sozinha a seu quarto. Deitada na escuridão, as idéias lhe amontoavam na cabeça.

Alegrou-se, portanto, de ver Tellman no terceiro dia da partida do Pitt. Gracie abriu a porta traseira e o achou fora cansado e com frio, contraindo o rosto por causa do vento.

Entrou à convite dela e golpeou um pouco os sapatos no chão da copa para sacudir a água, porque embora nesse momento não chovesse, até um pouco antes sim. Tirou o casaco.

—Boa tarde, senhora Pitt - disse olhando—a com preocupação, como se de algum modo seguisse sendo seu dever cuidar dela em ausência do Pitt.

O velho costume não se perdia facilmente, como tampouco o fingir indiferença.

—Boa tarde, inspetor - saudou ela, sorrindo divertida assim como encantada de vê-lo. Chamou-o assim a propósito. Nunca o tinha chamado por seu nome de batismo.

Nem sequer estava segura de se Gracie o fazia normalmente, além de em alguma ou outra ocasião muito informal—. Entre e tome uma xícara de chá —ofereceu—. Parece que tem frio. Já jantou?

—Ainda não - respondeu ele, afastando uma cadeira de espaldar duro da mesa e sentando-se.

—Trarei-lhe algo - se apressou a dizer Gracie, pondo água a ferver enquanto o dizia—. Mas hoje não há sobras, só cordeiro frio e repolho com batatas.

—Estupendo, obrigado -disse Tellman sem prazer, olhando ao Charlotte para assegurar-se de que ela também o fazia.

—Adiante -respondeu ela imediatamente—. Averiguou algo sobre o Martin Garvie?

Tellman olhou primeiro a ela e depois à Gracie, com o rosto inundado de compaixão e de uma delicadeza acentuada pelo tênue resplendor do lampião de gás que iluminava os ângulos de suas altas maçãs do rosto e suas faces afundadas.

—Não —confessou—. E o tentei até onde me foi possível sem recorrer à autoridade da polícia.

A convicção de sua voz fazia impossível contrariá—lo.

—O que conseguiu saber? -perguntou Gracie, enquanto deixava a frigideira sobre o fogão e se inclinava para retirar a cinza e conseguir que o fogo ardesse de novo com força. Fez-o quase distraída, olhando sobretudo ao Tellman.

—Martin Garvie desapareceu sem deixar rastro -respondeu com ar desgraçado—. Ninguém o viu há mais de duas semanas, assim como tampouco viu ninguém ao Stephen Garrick.

Nenhum dos criados, como você disse, de modo que a princípio acreditaram que estava em seus aposentos, que tinha caído doente ou tido uma de suas rabujices.

—Duas semanas são muito tempo sem que se desse conta ao menos a cozinheira —interrompeu Charlotte—. Fosse qual fosse a enfermidade, lhe prepararia algo de comer.

E em algum momento com certeza teriam chamado a um médico.

—Que eu tenha podido averiguar, não foi nenhum médico - respondeu Tellman, sacudindo ligeiramente a cabeça—, e não recebeu nenhuma visita. —Tinha o rosto tenso e o olhar sombrio—. Não está na casa e Martin Garvie tampouco. Lhe teriam enviado comida, ou trocado os lençóis no mínimo.

Gracie foi procurar as batatas frias na despensa. Começou a cortá—las e a cortar as cebolas com uma desculpa, ao mesmo tempo que pegava um lenço.

—O repolho não está tão bom sem cebola - disse a modo de explicação.

A frigideira começava a esquentar-se.

—Não recebeu cartas? -perguntou Charlotte—. Convites? Com certeza os responderiam ou os enviariam ao novo endereço ao menos.

Tellman mordeu o lábio inferior.

—Não pude ser tão direto, mas perguntei por aí sobre o senhor Garrick e parece que não tem muitos amigos. Não é uma companhia agradável. Ao menos é o que me deram a entender.

Gracie fungou e secou os olhos com o lenço, depois jogou as cebolas cortadas na manteiga quente e o chiado afogou suas seguintes palavras.

—Tem que haver alguém! -repetiu—. O senhor Garrick não trabalha e não está em sua casa, assim aonde foi? Ninguém sentiu falta dele?

—Bom, que eu saiba, ninguém o vê o bastante freqüentemente para perguntar-se aonde foi -respondeu Tellman olhando ao Gracie, depois se voltou em sua cadeira para Charlotte—. Não parece levar o mesmo tipo de vida que a maioria dos homens de sua idade e de sua posição social.

Não vai a nenhum clube com regularidade, de modo que ninguém estranhou não vê-lo. Não há nenhum lugar onde lhe conheçam, nem ninguém com quem conversa ou com quem pratica algum esporte, ou com o que faça apostas, nada que componha uma vida! -Pigarreou—. Eu vejo as

mesmas pessoas quase diariamente. Se não aparecesse não demorariam para sentir minha falta, fariam-se perguntas.

Charlotte franziu o sobrecenho. Era preocupante, mas ainda não tinham nada concreto.

A pergunta que foi a sua mente era pouco delicada, mas se tratava de um assunto muito sério para andar-se com escrúpulos.

Entretanto, era consciente da suscetibilidade do Tellman, sobretudo frente a Gracie.

—Não está casado - disse, medindo o terreno—. E não cortejava a ninguém, que nós saibamos. Tem...? —Não estava segura de como expressá—lo.

—Não pude averiguar nada - se apressou a responder Tellman, interrompendo—a—. Pelo que soube, é um homem infeliz. —Olhou ao Gracie—. Tal como você disse. Bebe muito e causa problemas.

Ultimamente perdeu muitos de seus amigos. Já não o visitam. Não é que tenha tido tempo de investigar a fundo, mas ninguém o viu e não parece que tivesse planos de ir a nenhuma parte, assim, esteja onde estiver, foi ali com pressa.

—E levou consigo ao Martin Garvie? -perguntou Gracie, removendo as cebolas sem as olhar—.Então, por que não sabia a cozinheira? Ou Bela? Seguro que se teriam informado. Partiu sem bagagem. Os cavalheiros não fazem isso.

—Não, isso é certo - concordou Charlotte—. E não me respondeu a respeito da correspondência. Enviam-lhe as cartas ao lugar onde está? Deve haver alguém encarregado de declinar os convites, mas não há dúvida de que quererá receber suas cartas.

—Seu pai? —apontou Tellman.

—Provavelmente - se mostrou de acordo Charlotte—. Mas as leva ele em pessoa ao correio? A maioria das pessoas como ele tem um lacaio que se ocupa disso. Foi a algum lugar tão secreto que o serviço não está autorizado a saber? E por que Martin não avisou a Pontua?

—Não houve tempo - respondeu Tellman—. Foi um convite repentino, ou ao menos uma decisão repentina de sua parte.

—A algum lugar do que Martin não poderia enviar uma carta, se não a Pontua, ao menos a alguém que pudesse dizer a ela? -manifestou Charlotte cheia de dúvidas.

Gracie jogou as batatas e a couve à frigideira para que se esquentassem, misturassem-se com as cebolas e que estas dourassem.

—Não me parece normal —murmurou a jovem—. Não é natural. Acredito que deve ter acontecido algo.

—Eu também. —Charlotte olhou ao Tellman sem piscar.

Tellman lhe sustentou o olhar sem afastar os olhos nem por um momento.

—Não sei que mais posso fazer eu, senhora Pitt. A polícia não tem motivos para interrogar a ninguém.

Mostraram-me a porta com brutalidade, por assim dizer, mais de uma vez, e me disseram que me ocupe de meus assuntos. Tive que inventar que se tratava de algo relacionado com um roubo.

Aleguei que o senhor Garrick poderia ter sido testemunha.

Tellman contraiu o rosto, deixando ver como detestava ter que mentir.

Charlotte se perguntou se Gracie sabia o preço que ele tinha pago por agradá—la.

Olhou—a, com as costas rígidas e retas enquanto prestava atenção ao repolho com batatas da frigideira, levantando-o devagar com a paleta para evitar romper a rangente superfície e deixando-o no prato junto ao cordeiro frio.

Talvez a jovem fosse consciente do sacrifício do Tellman.

—Obrigado.

Tellman aceitou o prato agradecido e depois de um segundo de vacilação começou a comer quando Charlotte fez um sinal de aprovação.

—Então, o que vamos fazer? -perguntou Gracie, baixando o fogo e enchendo o bule—. Não podemos ficar com os braços cruzados! Não o engoliu a terra! Se lhes aconteceu algo aos dois ou só ao Martin, é um delito. -voltou-se para o Charlotte—, Acredita que o senhor Garrick sofreu um de suas explosões e golpeou ao Martin, talvez tão forte que o matou? E o estão encobrindo, para salvá—lo? Enviaram—no ao campo ou algo assim ?

Charlotte estava a ponto de responder "é claro que não", quando se deu conta de que estava considerando a sério a possibilidade.

Tellman inalou como se fosse falar, mas tinha a boca cheia. —Acredito que precisamos saber muito mais sobre a família Garrick - disse Charlotte, escolhendo as palavras com cuidado.

O semblante de Gracie mostrou expectativa.

—vai perguntar a Lady Vespasia? -perguntou esperançada.

Não só estava à corrente da ajuda que Vespasia tinha prestado em outros casos, mas a tinha conhecido e falado com ela em mais de uma ocasião. Vespasia tinha estado no Keppel Street. Gracie não teria ficado mais impressionada de haver-se tratado da rainha.

Depois de tudo, a rainha era de curta estatura e bem roliça, enquanto que Vespasia tinha um aspecto tão régio e era tão bonita como deveria ser uma rainha. E, ainda mais importante, estava disposta a ajudar sem reservas a resolver os crimes.

Podia ser uma verdadeira dama, com todo o glamour inimaginável que isso supunha, mas lhes ajudava a identificar ao delinqüente e essa era a melhor qualidade que se podia ter. — Acaso saiba algo - acrescentou alentadora.

Charlotte olhou a cara de impaciência de Gracie, depois ao Tellman, que odiava aos aristocratas e a quão afeiçoados interferiam no trabalho policial, sobretudo se eram mulheres, e viu em seus olhos um brilho de ironia além de rechaço.

Hesitou como se respeitasse sua opinião, depois, ao ver que ele guardava silêncio, fez um gesto de assentimento.

—Não me ocorre nada melhor. Como já comentamos, não há caso policial que investigar, mas é quase certo que ocorreu algo - concedeu ele—. Não temos mais remédio que reconhecê-lo.

Era muito tarde para ir ver tia Vespasia nesse dia, mas na manhã seguinte Charlotte colocou seu melhor vestido de visita, embora o corte fosse claramente do ano anterior porque ainda não tinha tido motivo nem incentivo para arrumá—lo.

Desde o rebaixamento de categoria do Pitt de chefe do Bowl Street à Brigada Especial, não lhe tinha surgido nenhuma desculpa ou oportunidade para assistir a algum ato social de certa importância.

Até esse momento, olhando seu vestuário que já fazia tempo que não renovava, não tinha percebido.

Entretanto, não dispunha de dinheiro para gastar em caprichos supérfluos como um vestido na moda quando os que tinha abrigavam; além disso, eram favorecedores e perfeitamente apropriados.

Não tinha transcorrido tanto tempo desde que se preocupavam se tinham comida e carvão.

O que mais lamentava era não ter tido oportunidade de ajudar ao Thomas, o que em si mesmo teria sido importante, e, como estímulo acrescentado, lhe teria dado um pretexto para pedir emprestado algo glamuroso para Emily, ou até para a própria Vespasia, que apesar de ser da geração anterior, tinha sua mesma estatura.

Desprendeu seu vestido cor ameixa e o pôs, e ficou agradada ao ver que ao menos lhe assentava bem. Encontrar o chapéu adequado foi menos fácil, e se decidiu por um negro com um suave toque rosa avermelhado.

Não gostava em realidade, mas não tinha nada melhor e ninguém podia ir visita sem um chapéu ou um toucado.

Acima de seus sentimentos, não queria envergonhar Vespasia se coincidia com outra visita.

Ninguém queria parentes pobres, embora longínquos, e menos ainda com mau gosto para vestir-se.

Gracie se despediu dela com entusiasmo e conselhos de última hora e instruções. Não se teria mostrado tão impertinente se se tivesse parado a pensar, mas sua impaciência pôde mais que o decoro.

—Precisamos saber como é a vida nessa casa - disse carrancuda—. Lhe fizeram algo. Temos que averiguar o que e por que.

—Direi a tia Vespasia a verdade -respondeu Charlotte em pé nos degraus da entrada, olhando o céu.

Fazia um bonito dia ensolarado mas frio.

—Não vai chover -observou Gracie com tom contundente.

—Não, isso já o vejo. Só pensava que é o típico dia em que a todo mundo ocorre sair com sua mãe para fazer uma visita.

Tomara tenha sorte e a encontre sozinha, porque não é o tipo de conversa que eu gostaria que alguém interrompesse.

—Bom, tem que tentá—lo a apressou Gracie—. E não me ocorre ninguém melhor que Lady Vespasia. Não conhecemos ninguém mais, a menos que sejam amigos da senhora Radley. Poderia expor-lhe é claro.

—Farei—o, mas não acredito que Emily seja de grande ajuda - respondeu Charlotte, saindo ao meio—fio—. Não leva suficiente tempo aqui. Voltarei quando já não puder fazer nada mais. Adeus.

Charlotte pôs-se a andar com resolução, concentrada em achar um coche de aluguel antes que economizar dinheiro e perder tempo pegando vários ônibus.

Se fizesse o segundo, teria que descer a considerável distancia de casa da Vespasia. A pessoa dificilmente podia ir ver Lady Vespasia Cumming—Gould em um ônibus público.

Entretanto, quando chegou à casa, a criada da Vespasia, que a conhecia bem, disse-lhe com muito pesar que, com o tempo tão clemente, a senhora tinha decidido ir de carruagem até o parque e dar um passeio.

Charlotte se sentiu tão decepcionada que se surpreendeu. Londres estava cheio de parques, mas quando a alta sociedade se referia ao parque só podia tratar-se do Hyde Park, de modo que não pôde fazer outra coisa que deter outro carruagem e dar instruções ao condutor para que a levasse ali.

A começo do ano, em plena temporada social, teria encontrado centenas de carruagens dentro ou nos arredores do parque, e procurar a alguém teria sido uma perda de tempo, mas com o sol mais fraco de finais de setembro e o ar claramente frio, não havia mais que uma dúzia de carruagens no extremo mais próximo do Rotten Row, e talvez o mesmo número no mais afastado.

Os lacaios e cocheiros esperavam mexericando à salpicada sombra, atentos se por acaso voltava o senhor ou a senhora para não serem surpreendidos.

Os cavalos esperavam ociosos, movendo-se só de vez em quando com um tinido de arnês, os medalhões de latão brilhantes ao sol.

Charlotte estava completamente decidida a localizar a Vespasia e conversar com ela, mesmo que isso significasse interromper pouco menos que à princesa do Gales.

Mas como a princesa estava muito surda, seria estranho que encontrasse a Vespasia conversando com ela, embora fossem amigas desde anos.

Se Vespasia falasse com uma duquesa ou condessa, era provável que Charlotte a reconhecesse.

Deu-se conta com uma brusca inalação que o melhor era que se comportasse com absoluta circunspeção, embora a dama em questão resultasse não ter nenhuma importância social.

Vespasia era perfeitamente capaz de falar com uma atriz ou uma cortesã, se a pessoa lhe interessava.

Esteve quase meia hora caminhando a passo vivo, indo de um grupo de pessoas a outro com uma bolha na planta do pé esquerdo, até que por fim viu a Vespasia.

Esta passeava sozinha, com a cabeça erguida e um chapéu cinza marengo de ampla aba com uma magnífica pena de avestruz prateada.

Seu vestido era de um cinza mais pálido, e no pescoço levava um babado de renda tão assombroso que parecia espuma ao sol.

Voltou-se ao ouvir os passos de Charlotte que faziam ranger o pavimento.

—Está sem fôlego, querida -disse com as sobrancelhas arqueadas—. Não duvido que é algo importante o que a trouxe aqui com tantas pressa. —Olhou a poeirenta bainha do vestido do Charlotte e a postura assimétrica em que se deteve, devido à bolha. — Quer se sentar um momento?

Vespasia percebeu em seu rosto que não se tratava de nada de aparência íntima.

—Obrigada -aceitou Charlotte, sentindo de repente que a bolha lhe incomodava ainda mais intensamente.

Fez o possível para andar erguida até o seguinte banco, onde se deixou cair agradecida. Em um momento desabotoaria a bota e veria o que podia fazer para aliviar a dor.

Vespasia a olhou divertida.

—Estou morta de curiosidade -comentou sorrindo—. O que a trouxe a um lugar tão pouco habitual, só e em aparentes apuros?

—A necessidade de saber -respondeu Charlotte, fazendo uma careta ao mover tentativamente o pé.

Alisou a saia e se sentou um pouco mais erguida, consciente de que as pessoas que passavam a olhava, muito discretamente, é claro, e quase sem dúvida porque estava com Vespasia.

Sem dúvida, perguntavam-se quem demônios era. Se a Vespasia tivesse importado sua reputação, a teria envergonhado, mas não lhe importava o mínimo, deixava que o mundo pensasse o que quisesse.

—Mais sobre o Saville Ryerson? -disse Vespasia em voz baixa—. Não estou certa de poder te ajudar. Tomara fora assim.

—Em realidade é sobre o senhor Ferdinand Garrick —a corrigiu Charlotte.

Vespasia abriu muito os olhos.

—Ferdinand Garrick? Não me diga que está relacionado com o caso do Eden Lodge! Isso é absurdo! Tanto que é quase o único que poderia redimi-lo da absoluta tragédia. Converteria-se então em uma farsa.

Charlotte ficou olhando-a, sem saber até que ponto falava a sério. Tinha um senso de humor agudo e pessoal que não fazia distinção de pessoas.

—Por que? -perguntou.

A expressão da Vespasia era triste, irônica, refletia uma ligeira aversão mesclada com lembranças.

—Ferdinand Garrick é o que algumas pessoas chamam um "cristão robusto", querida -respondeu, e viu compreensão no rosto de Charlotte—. Um homem de virtude oficiosa e entusiasta-continuou—. Come de forma sã, faz muito exercício, desfruta mostrando-se frio e fazendo sentir a todos os de seu círculo igualmente incômodos.

Nega-se a si mesmo e a outros acreditando estar mais perto de Deus por isso. Como o óleo de rícino, pode ser que em alguns casos lhe funcione, mas é extremamente difícil que desperte simpatias.

Charlotte dissimulou um sorriso.

—Em realidade, não tem nada que ver com o senhor Ryerson -disse—. Thomas foi a Alexandria para obter mais informação sobre a Ayesha Zakhari.

Vespasia permaneceu totalmente imóvel. Um par de cavalheiros que passavam inclinaram o chapéu para ela. Ela não parecia havê-los visto sequer.

—Alexandria —murmurou—. Santo céu! Imagino que o enviou Victor Narraway. Não teria ido de outro modo. Não, perdoa. É idiota de minha parte que o exponha sequer —Exalou o ar muito devagar—. De modo que vai chegar ao fundo do assunto, depois de tudo. Alegra—me sabê—lo. Quando se foi?

—Faz quatro dias - respondeu Charlotte, surpreendida de que lhe parecessem muitos mais.

Embora passasse todo o dia fora de casa, às noites lhe pareciam terrivelmente vazias sem ele, como se se tivesse esquecido de acender as lareiras. O calor e a alma do lar tinham desaparecido. Sentia tanto sua falta nas poucas vezes que ela partia? Esperava que assim fosse. — Já deve estar ali - acrescentou.

—Certamente - concordou Vespasia—. Lhe parecerá extremamente interessante. Imagino que não terá mudado muito, não no fundamental. —Torceu ligeiramente o gesto—.

Embora não voltei ali desde que o senhor Gladstone decidiu bombardeá—la. Isso não pode ter aumentado o afeto dos alexandrinos por nós. Não é que isso nos preocupe muito em geral.

Mas Alexandria não é rancorosa. Simplesmente absorve tudo o que chega aí, como se tratasse de comida, converte-o em parte de si mesmo.

Fez isso com os árabes, os gregos, os romanos, os armênios, os judeus e os franceses, por que não também com os britânicos? Temos algo que oferecer, e ela aceita tudo.

Tem um gosto extremamente eclético. Nisso está sua genialidade.

De bom grado, Charlotte lhe teria feito pergunta e escutado suas explicações todo o dia, mas se obrigou com esforço a concentrar-se no único aspecto do curso dos acontecimentos em que ela podia influir de maneira decisiva.

—Preciso saber um pouco do Ferdinand Garrick porque uma amiga do Gracie tem um irmão que desapareceu -explicou.

—Gracie? -O interesse da Vespasia foi imediato—. Essa criada miúda sua, a que tem o brio de duas garotas do dobro de seu tamanho? De onde desapareceu o jovem, e por que está relacionado nada menos que com o Ferdinand Garrick? Se tiver se despedido de um criado, acreditará havê-lo feito por uma razão excelente e não haverá forma de raciocinar com ele.

Tem umas idéias inamovíveis sobre a virtude, e a justiça está muito acima da compaixão em sua estima.

—Não o despediu, que eu saiba - replicou Charlotte, embora sentiu um calafrio ao ver o olhar de ansiedade da Vespasia. Seguiu falando com tom despreocupado, mas as palavras sobre a compaixão tinham sido cuidadosamente escolhidas, e sabia—. Em realidade, Martin trabalhava para o filho do Garrick, Stephen. Era seu valete. - Sacudiu a cabeça, impacientando-se consigo mesma—. Não sei por que digo "era". Pelo que eu sei, continua sendo—o. Só que não se pôs em contato com Pontua, que é a única família que tem, há quase três semanas, e isso é algo que nunca tinha ocorrido antes.

E quando Gracie foi à casa do Garrick para perguntar discretamente, o serviço não parecia saber onde estava.

De fato, o próprio Stephen não parece achar-se na casa. Ao princípio supuseram que se encerrou, o que parece que acontece de vez em quando. Mas nem subiu comida nem desceu roupa suja.

—Gracie foi à casa? -disse Vespasia com uma nota de admiração na voz—. Me teria gostado de vê-lo! O que averiguou, além de que nenhum dos dois homens está na casa e que o serviço não sabe seu paradeiro? Ou ao menos não o diz - se corrigiu.

—Que Stephen Garrick é um homem infeliz de caráter violento que se permite excessos, que bebe muito e que ninguém sabe levar suas mudanças de humor ou seus momentos de desespero exceto Martin - esclareceu Charlotte sucintamente—. De modo que teria pouco sentido despedirem Martín, porque teriam tido muita dificuldade para substituí-lo.

Vespasia permaneceu imóvel uns momentos, como se observasse o desfile de damas com seus melhores ornamentos agarradas ao braço de cavalheiros vestidos com trajes escuros ou em brilhante esplendor militar.

—A não ser que fosse bastante desafortunado para presenciar um incidente particularmente desagradável - disse por fim, em voz baixa e triste—. E bastante imprudente para pedir uma remuneração extra por isso.

Poderiam ter considerado que era muito caro retê-lo e havê-lo despedido sem referências.

—Não seria muito estúpido fazer algo assim? -perguntou Charlotte—. Se meu criado estivesse informado de segredos de família, querer-lhe-ia perto de mim, não procurando emprego em outra parte cheio de ressentimento, e com razão.

Vespasia sacudiu a cabeça muito ligeiramente.

—Querida, um homem da posição do Ferdinand Garrick não se rebaixa a dar explicações, e os possíveis senhores não perguntam a um criado que estão considerando empregar quais foram seus motivos para atuar como o fez.

Limitar-se-iam a aceitar que tinha ameaçado Garrick divulgar segredos de família. A indiscrição é o pior pecado em um criado doméstico.

Teria sido menos grave que levasse o faqueiro de prata antes que a reputação da família. A pessoa sempre pode comprar prata, ou, no pior dos casos, até sobreviver sem ela! Mas ninguém sobrevive sem reputação.

Charlotte sabia que tinha razão.

—Mesmo assim preciso saber o que ocorreu ao Martin -insistiu—. Se só lhe despediram, por que não o disse a Pontua? Sobretudo se foi injusto!

—Não sei - admitiu Vespasia, saudando com a cabeça a um conhecido que a tinha visto e se descoberto ante ela. Olhou rapidamente ao Charlotte, para que o homem não tomasse a saudação como um convite para unir-se a elas—. Acredito que tem motivos para estar preocupada.

—Como é Ferdinand Garrick, além de religiosamente insuportável?

Charlotte moveu o pé, esperando que a bolha tivesse baixado um pouco. Não, continuava igual.

—Pelo amor de Deus, menina, tire a bota! -disse Vespasia. —Aqui? -perguntou Charlotte atônita. Vespasia sorriu.

—Montará menos espetáculo tirando a bota que coxeando até minha carruagem. As pessoas pensarão que está ébria! Não conheço bem ao Ferdinand Garrick e não tenho nenhum interesse em fazê-lo.

É o tipo de homem que não me interessa. Carece de senso de humor, e cheguei a acreditar que o senso de humor é quase o mesmo que o sentido da medida. -observou com prazer como um cãozinho ágil dava saltos—. É o absurdo da desproporção o que nos faz rir - continuou—. Há algo instintivamente divertido em quebrar a prepotência, em aliar-se cotovelo com cotovelo com o incongruente. Se tudo fosse conveniente e apropriado, o mundo seria insuportavelmente aborrecido.

Sem a risada, algo na vida se perderia. —Sorriu, mas em seu olhar havia uma repentina e profunda tristeza. — Talvez a prudência - acrescentou em voz baixa.

Depois levantou o queixo.

—Mas me porei em contato com o Ferdinand Garrick e verei o que posso averiguar. Não tenho nada mais interessante que fazer e certamente nada mais importante.

Talvez esse seja o maior absurdo? -O cãozinho tinha desaparecido do outro lado da esplanada de erva, e ela observava a um casal de uns cinqüenta anos, vestidos com um gosto delicioso na moda, que descia pelo centro do atalho, inclinando a cabeça por volta de um ou outro lado quando viam algum conhecido.

Saudavam alguns e olhavam a outros como se não existissem, vacilando de vez em quando até que se cruzaram um olhar e tomaram uma decisão—. Encher seu tempo com jogos - comentou Vespasia—. E acreditar que são importantes, porque não lhe ocorre nada que o seja. Ou lhe ocorre, mas não o faz.

—Tia Vespasia -disse Charlotte com pouca confiança, Vespasia se voltou para olhá—la interrogante.

—Sei que você não gostaria de pensar que o senhor Ryerson matou ao Lovat - comentou Charlotte—. Ou inclusive que ajudou deliberadamente à senhorita Zakhari para que saísse impune do assassinato, mas, enfrentando o pior, o que acha em realidade? —Viu como Vespasia sorria—.

Não podemos nos defender do pior se não soubermos o que é - indicou, mas com suavidade, consciente dos sentimentos da Vespasia—. Que classe de homem é? Não me refiro só ao que descobrirá a polícia, mas ao que você sabe.

Vespasia guardou silêncio tanto tempo que Charlotte pensou que não ia responder. Deixou de esperar que falasse e se inclinou para desabotoar a bota.

Tirou—a com dor. Tinha um buraco no talão da meia, que era a causa do problema. Lhe tinha levantado a pele, mas ainda não sangrava.

Tocaram-lhe o braço e levantou o olhar. Vespasia lhe oferecia um grande lenço de seda e umas tesouras de unhas diminutas.

—Se corta a meia e envolve o pé com o lenço de seda - disse—, poderá voltar para casa em muito boas condições.

Charlotte pensou no aspecto que teria com a seda de cor sobre sua bota se lhe levantava a saia.

—Sorri —aconselhou Vespasia—. É melhor chamar a atenção por levar um calçado excêntrico que por ter um rosto avinagrado. Além disso, a quem vai encontrar aqui que vai voltar a ver, ou cuja opinião a importe o mínimo?

—A ninguém -concordou Charlotte, sorrindo muito mais do que seria necessário—. Obrigada.

—É muito delicada com suas perguntas, querida. —Vespasia olhou as árvores ao longe, que só luziam alguma ou outra folha tinta das cores quentes do outono—.

Mas tem toda a razão. Saville Ryerson é um homem de sentimentos profundos, impulsivo, que precisa recorrer ao contato físico para expressar suas emoções. —mordeu o lábio inferior muito ligeiramente—. Perdeu a sua mulher em um triste e lamentável acidente no setenta e um… mas foi mais que isso, houve traição de no meio, embora não sei de que tipo e certamente não quero saber por parte de quem. —Baixou ainda mais a voz—. Estava muito zangado, até antes de que ela morresse.

Tinham tido uma forte discussão e acredito que lhe custou ainda mais agüentá—lo por causa disso. Não só chorava por sua morte, e por não ter sido capaz de salvá—la, mas sim se sentia culpado por não poder apagar as coisas que havia dito, embora acreditasse que eram certas.

Charlotte terminou de abotoar a bota.

—Deve ter sido duro. Mas é de supor que Lovat não teve nada que ver com isso. Ocorreu faz vinte anos.

—Nada absolutamente - concordou Vespasia—. Lhe digo isso só para que faça uma idéia mais aproximada da classe de homem que é. Depois esteve só. Serviu a seu partido e a seus eleitores. São exigentes, volúveis, exigem muito e dão pouco em troca, às vezes nem sequer são leais. Mas a maioria o apreciam, e ele sabe.

Mas lhe deixaram exausto, e não recebeu ajuda. —Fez um débil gesto de desaprovação com sua pálida mão enluvada—. Não estou dizendo que se absteve de satisfazer seus desejos, é claro, só que foi discreto, e que manteve poucas relações afetivas se é que teve alguma.

—Até a Ayesha Zakhari.

—Exato. E um homem apaixonado que não dá nem recebe nada durante mais de duas décadas, quando se apaixona o faz com grande intensidade, maior do que compreende ou pode dominar.

Torna-se excepcionalmente vulnerável. -disse-o em voz baixa, como se soubesse por própria experiência do que falava.

—Sim -respondeu Charlotte pensativa, tratando de imaginar-lhe imaginar a espera, a solidão ao longo dos anos, e depois a força do sentimento quando por fim chegava.

—O que não entendo -replicou Vespasia, com um tom repentinamente áspero e de novo muito prático— é por que essa mulher atirou em Lovat.

Se não era um homem muito agradável e tinha estado envenenando—a, por que demônios não se limitou a lhe dar de lado? Se de verdade era uma aborrecimento, por que não chamou à polícia?

Um pensamento ainda mais desagradável assaltou ao Charlotte.

—Talvez ele a estivesse chantageando, possivelmente por algo que ocorreu em Alexandria e que ameaçava dizer ao Ryerson. Isso explicaria por que ela não podia lhe confessar a verdade.

Vespasia baixou a vista para a erva a seus pés.

—Sim —reconheceu a contragosto—. Sim, isso tem lógica. Espero de coração que não seja verdade. Qualquer um pensaria que ela tinha suficiente bom senso para não fazê-lo justo a noite que esperava a visita do Ryerson.

Mas talvez as circunstâncias não lhe permitiram escolher.

—Isso também poderia explicar por que continua sem confiar em ninguém -acrescentou Charlotte, odiando seus pensamentos, mas segura de que era melhor expressá—los que deixar que se amontoassem em sua cabeça sem achar resposta, impossíveis de sossegar—. Embora não posso imaginar qual poderia ser a chantagem, além de algum plano que pusesse ao Ryerson em uma situação comprometedora, algo relacionado com seu cargo no governo.

—Um espião? -disse Vespasia—. Ou suponho que agente provocador seria mais correto. Pobre Saville, seduzido para ser de novo traído. —Inalou fundo e deixou escapar o ar em um suspiro—. Que frágeis somos. —dispôs-se a levantar-se—. Que extremamente fácil é fazer mal.

Charlotte se apressou a lhe oferecer o braço.

—Obrigado -respondeu Vespasia com tom seco—. Choro em meu foro interno pela dor de um homem que apreciei, mas sou perfeitamente capaz de me levantar sozinha e eu não tenho bolhas nos pés.

Talvez você queira se agarrar a meu braço para que a ajude a chegar até minha carruagem?

Será um prazer levá—la de novo ao Keppel Street, se for ali aonde se dirige.

Charlotte conteve um sorriso, ao menos pela metade.

—É muito amável — aceitou, agarrando o braço da Vespasia, mas sem apoiar-se nela—. Sim, vou a casa. Possivelmente queira tomar uma xícara de chá quando chegarmos.

—Obrigada, eu adoraria. —Vespasia aceitou com um brilho de regozijo em seus olhos cinzas—. Sem dúvida a jóia da Gracie nos preparará isso enquanto me conta mais coisas desse valete.

Vespasia desfrutou de seu chá. Insistiu em tomá—lo na cozinha, uma estadia que nunca pisava em sua própria casa. Quando a cozinheira se recuperasse de seu assombro, teria se ofendido.

Reuniam-se diariamente no salão da manhã da Vespasia, onde a cozinheira ia receber instruções e contra—atacar com suas próprias sugestões, e com o tempo tinham chegado a um compromisso.

A cozinheira não entrava no salão. Vespasia não invadia a cozinha. Era um acerto decidido de comum acordo.

Mas a cozinha do Charlotte era o centro nevrálgico da família, onde não só se preparava a comida, mas também se comia. A luz dos lampiões de gás se refletia no cobre gentil das frigideiras, das cordas do varal no alto do teto chegavam o aroma de roupa limpa e a mesa de madeira e o chão estavam desbotados de ser esfregados diariamente.

A princípio Gracie guardou silêncio, apesar de todas suas melhores intenções de fazer o contrário, intimidada pela presença de uma autêntica aristocrata em sua cozinha, sentada à mesa, como se ela fosse uma pessoa qualquer.

É claro, até então, lady Vespasia continuava sendo a mulher mais formosa que Gracie jamais tinha visto, de cabelo prateado, olhos de pálpebra caída, maçãs do rosto frágeis e marcadas e pele de porcelana.

Mas sua paixão pela causa tinha podido mais, e explicou a Vespasia exatamente o que achava, ou temia, e esta partiu finalmente com tanta informação sobre o problema como tinham Charlotte e Gracie.

Por essa razão pouco depois das sete e meia dessa tarde Vespasia se achava no vestíbulo do Teatro Real da Ópera, com os diamantes de sua tiara cintilando, o cetim cinza azulado de seu vestido, uma coluna de quietude no meio do tinido e o frufru de rosas e dourados.

Examinou às pessoas que passavam a seu lado procurando a figura vagamente familiar do Ferdinand Garrick.

Tinha-lhe levado quase toda a tarde averiguar, com a maior discrição, onde tinha previsto passar essa noite, e logo tinha persuadido a uma amiga que lhe devia um favor para que lhe desse suas entradas.

No último momento tinha chamado o juiz Theloneus Quade e o tinha convidado a acompanhá—la, pedido que tinha claro que ele não ia rechaçar, o que lhe causou uma pontada de remorsos. Sabia o que sentia por ela, mas desde a volta do Mario Corena, a honra a obrigava a não induzir a engano a ninguém, e a não dar a impressão de utilizar o afeto de outra pessoa de que era mais que consciente.

Além disso, a intensidade desse amor de seus anos de mais vitalidade tinha retornado nesses dias em forma de ternura, uma realidade que debilitava todas as demais possibilidades, e não estava preparada ainda para desprender-se dele.

Mario tinha morrido, mas o que ela sentia estava entretecido em seu interior para sempre.

Entretanto, no que devia concentrar-se nesse momento era no perigo que percebia que corria Martin Garvie e achava que era real. Não tinha permitido que Gracie, ou Charlotte sequer, visse o preocupada que estava.

Sabia pouco do Ferdinand Garrick e não lhe tinha simpatia. Não teria sabido explicar por que, era algo instintivo, mas devido a não haver motivos concretos para isso, era impossível eliminá—lo com argumentos.

É claro, confiou-se ao Theloneus, não só porque lhe devia ao menos uma explicação por tão indecorosa pressa para assistir a uma ópera que sabia que gostava tão pouco como ela, mas também porque valorizava muito sua amizade e sua discrição para não servir-se de sua ajuda em uma causa que podia distar de ser fácil.

Viu o Garrick ao mesmo tempo que Theloneus.

—Diretamente? -disse ele com suavidade; era só uma pergunta pela metade.

—Temo que sim -respondeu ela, e lhe agarrando o braço começou a abrir caminho entre a multidão.

Entretanto, quando alcançaram a este Garrick estava ocupado falando com um bispo muito conservador de quem Vespasia não podia fingir sequer ter boa opinião.

Respirou fundo três vezes para tentar colocar vazão na conversa e as três vezes descobriu que as palavras morriam em sua língua.

Havia certos graus de hipocrisia que não era capaz de alcançar, até pelas melhores causas. Não lhe foi preciso olhar ao Theloneus para perceber sua diversão.

—Haverá dois intervalos -comentou ele em apenas algo mais que um sussurro, quando Garrick e o bispo se afastaram e chegou o momento de ocupar seus assentos.

A ópera era uma obra prima barroca cheia de sutileza e luz, mas não tinha as melodias familiares, a paixão e o lirismo do Verdi que ela amava.

Concentrou-se em fazer planos para o primeiro intervalo. Não podia permitir-se esperar ao segundo, em caso de que algum contratempo lhe impedisse de fazer uma visita ao Garrick a seu camarote.

Ele poderia enfrascar-se em uma conversa que fosse descortês interromper. Requeria-se certo grau de sutileza. Lhe tinha tão pouca simpatia como ele a ela.

Quando desceu o pano de fundo e chegaram os entusiasmados aplausos, Vespasia se levantou como uma mola.

—Não sabia que você gostasse tanto -observou Theloneus surpreso—. Não me deu essa impressão!

—E eu não gosto -replicou ela, desconcertada de que ele a tivesse estado observando a ela em lugar de prestar atenção ao palco; tinha esquecido sinceramente os profundos sentimentos que ele sentia por ela—. Eu gostaria de ir ver o Garrick antes que saia de seu camarote -explicou—. E, se puder ser, antes que outra pessoa monopolize a conversa.

—Se o bispo estiver ali, provocá-lo-ei para que me convença de algo —ofereceu Theloneus com um sorriso sardônico, com os olhos brilhantes.

Era consciente do sacrifício que isso supunha, e de que ela sabia.

—"Ninguém tem amor maior que este" —murmurou ela—. Estarei em dívida com você.

—É claro que sim -assentiu ele com veemência.

No final sua intervenção foi necessária. Vespasia quase se chocou com o bispo fora do camarote do Garrick.

—Boa noite, eminência -disse ela com um sorriso glacial—. Me alegra ver que foi capaz de descobrir uma ópera cuja trama não ofende sua moralidade.

Dado que a ópera em questão tratava de incesto e assassinato, a observação era profundamente sarcástica, e ela se arrependeu assim que lhe saiu dos lábios, até antes de ouvir o Theloneus afogar uma gargalhada e convertê-la em tosse, e ver como o semblante do bispo adquiria um apagado tom arroxeado.

—Boa noite, lady Vespasia -replicou ele com frieza—. É você lady Vespasia Cumming—Gould, não é?

O bispo sabia perfeitamente quem era ela, todo mundo sabia. Só pretendia insultá—la.

Vespasia sorriu de forma encantadora, um sorriso que em sua primeira juventude tinha deslumbrado a príncipes.

—Assim é -respondeu—. Me permita que o presente ao juiz Quade. —Fez um delicado gesto—. O bispo do Putney, acredito, ou algum lugar similar, célebre por sua defesa das virtudes cristãs, em particular a pureza da mente.

—Seriamente? —murmurou Theloneus—. Encantado. —Uma expressão de intenso interesse inundou seu rosto ascético, seus olhos azuis serenos e brilhantes—. Que afortunado sou de poder falar com você.

Eu adoraria ouvir sua opinião, como fonte informada e, é claro, iluminada, sobre a escolha do argumento para esta encantadora música.

É instrutivo contemplar tão terrível conduta em que o mal é castigado ao final? Ou teme que a beleza com que se apresenta possa corromper os sentidos antes que o bom julgamento chegue a perceber a moral que há detrás?

—Bom - começou a dizer o bispo.

Vespasia não ficou com eles. Bateu na porta do camarote do Garrick e um momento depois, quando responderam, entrou.

Estava aterrada. Ia ser desconfortável porque os dois sabiam que ela nunca teria ido a seu encontro pela amizade que lhes unia, e não tinham nenhum interesse em comum.

Garrick era viúvo e lhe acompanhava uma pequena escolta composta de sua irmã com seu marido, que era um banqueiro de pouca subida, e uma amiga de ambos, uma viúva que vivia em um dos condados dos arredores de Londres e que se achava na cidade por alguma razão. Foi ela quem brindou uma desculpa a Vespasia.

—Lady Vespasia? —Garrick arqueou as sobrancelhas muito ligeiramente. Distava de ser uma expressão de boas—vindas—. Que prazer vê-la.

Garrick teria utilizado o mesmo tom de voz se tivesse encontrado uma semente de maçã em sua sobremesa.

Ela inclinou a cabeça.

—Que generoso por sua parte dizer tal coisa - respondeu ela, rechaçando-o como se tivesse sido um ordinarismo da que alguém se desculpa sentado à mesa.

O rosto dele se escureceu. Não tinha outra escolha que continuar a farsa lhe apresentando a sua irmã, seu marido e a dama que os acompanhava. A ausência de um motivo que justificasse a intromissão da Vespasia flutuava no ar.

Ele não queria lhe perguntar abertamente o que queria, mas a atitude de seu corpo e o gesto espectador de sua cabeça exigiam que se explicasse.

Vespasia sorriu à senhora Arbuthnott.

—Uma amiga minha, Lady Wilmslow, falou-me muito bem de você -mentiu—. E me pediu que se nos encontrássemos, fizesse o possível por conhecê—la.

A senhora Arbuthnott piscou de prazer. Nunca tinha ouvido falar de Lady Wilmslow, quem não existia, mas sem dúvida sabia quem era lady Vespasia, e se sentiu extremamente adulada.

Vespasia sossegou sua consciência com um gesto de generosidade.

—Se permanecer na cidade o resto do mês - continuou—, estarei em casa às segundas-feiras e as quartas—feiras, e se achar um momento para me fazer uma visita, será muito bem recebida.

A aristocrata tirou de uma caixa de prata que levava na bolsa um cartão com seu endereço e o estendeu.

A senhora Arbuthnott a pegou como se fosse uma jóia, e de fato, em termos sociais, era—o, uma que o dinheiro não podia comprar. Gaguejou um obrigado e a irmã do Garrick ocultou com muita dificuldade sua inveja.

Mas se se conduzia com cuidado, poderia acompanhar à senhora Arbuthnott, que era sua hóspede, sem que se considerasse uma rabugice.

Vespasia se voltou para o Garrick.

—Espero que esteja bem, Ferdinand.

Tratava-se de uma mera cortesia, algo que alguém diria por educação. Requeria uma resposta afirmativa, sem mais detalhe.

—Em excelente forma - respondeu ele—. Igual a você, claro que em você é o habitual. Garrick não ia permitir que o induzisse a cair nas más maneiras, e menos ainda diante de seus convidados.

Vespasia lhe sorriu como se aceitasse o elogio, embora sabia que só o dizia para impressionar, não porque o pensasse de verdade.

—Obrigado. Fala com tal generosidade que caberia pensar que só trata de ser cortês.

Uma parte escura e perversa da Vespasia desfrutava com a situação. Tinha esquecido o muito que lhe desagradava Garrick. Recordava a outras pessoas virtuosas até o extremo que tinha conhecido, mais amealhadas a ela, obcecadas com a observância das regras e o autocontrole, lentas em perdoar, receosas da risada e que obtinham um prazer glacial em ter sempre a razão.

Talvez a opinião que formara dele respondia a seus próprios preconceitos. Estava incorrendo exatamente no mesmo defeito do que o acusava. Mais tarde, quando estivesse sozinha, devia tratar de recordar o que em realidade sabia dele.

Manteve uma expressão deliberadamente afável e interessada.

—Como está Stephen? Pareceu-me vê-lo no parque o outro dia, mas ia tão depressa que poderia me haver equivocado. É possível que estivesse passeando com a jovem Marsh, não recordo seu nome, a que tem esse magnífico cabelo?

Garrick ficou paralisado. Apesar de não ter provas, Vespasia teria jurado que sua mente funcionava a toda velocidade em busca de uma resposta.

—Não - disse Garrick por fim—. Deve tê-lo confundido com outra pessoa.

Vespasia ficou olhando-o com expectativa, como se a cortesia exigisse alguma explicação mais. Não fazer nenhum comentário seria um desprezo.

O rosto do Garrick refletiu por um instante uma cólera inconfundível.

Vespasia considerou se fazer o notar ou não. Temia que trocasse de assunto.

—Desculpe - se apressou a dizer, justo antes de que seu cunhado saísse em seu resgate—. Não era minha intenção lhe incomodar.

A ira coloriu de um vermelho apagado as faces do Garrick, que esticou os músculos do corpo.

—Não seja absurda! -replicou cortante, esfaqueando—a com os olhos—. Só estava tratando de pensar a quem podia ter visto você. A saúde do Stephen não é boa.

O inverno que se avizinha agravará seu estado. -Tomou ar—. Foi ao sul da França para uma temporada. O clima é mais suave. Mais seco.

—Muito prudente —reconheceu Vespasia, sem saber se lhe acreditava ou não. Era uma explicação extremamente razoável em todos os sentidos, e entretanto, não encaixava com o que Gracie tinha ouvido na cozinha do Torrington Square—. Espero que conte com alguém de confiança que dele cuide - disse com suficiente solicitude para ser cortês; ele não teria acreditado o contrário.

—É claro - respondeu—. Se levou consigo seu criado.

Não havia nada que ela pudesse acrescentar sem mostrar uma curiosidade indecorosa, e a curiosidade era uma ofensa social em que nunca tinha incorrido. Era vulgar, e implicava que a vida de uma pessoa não era bastante interessante para lhe ocupar a mente. Ninguém quereria reconhecer isso, era o maior fracasso.

—Estou certa de que lhe será muito benéfico —comentou—. Reconheço que tampouco eu gosto muito dos meses de janeiro e fevereiro.

São mais suportáveis quando passo mais tempo no campo.

Um passeio pelo bosque é um prazer em qualquer época do ano. As ruas de Londres cobertas de neve oferecem bastante menos sobretudo saias molhadas até os joelhos, a menos que tenha sorte. O sul da França cada vez soa mais atraente.

Garrick lhe dirigiu um olhar glacial. Não eram só representações da Vespasia que também havia nela aversão, a convicção de que a dama jamais se teria aproximado de uma desconhecida só por cortesia.

—Agrada—me enormemente havê-la conhecido, senhora Arbuthnott -manifestou Vespasia com elegância—. Estou certa de que desfrutará de sua estadia em Londres.

—Inclinou a cabeça para a irmã e o cunhado—. Boa noite, Ferdinand - se despediu.

Sem esperar resposta, Vespasia se voltou e saiu de novo ao corredor que conduzia de um camarote a outro.

A uns passos de distância, Theloneus seguia conversando com o bispo com uma expressão ligeiramente vidriosa.

—… má compreensão da virtude - dizia o bispo com veemência—. É uma das maldições da vida moderna que...

Theloneus necessitava urgentemente que o resgatassem.

—Bispo, deseja nos acompanhar a tomar champanha? —convidou Vespasia com um sorriso deslumbrante—. Ou nos dirá que bebemos em excesso? Atreveria-me a observar que tem razão e, é claro, está moralmente obrigado a nos dar exemplo a todos.

Em seguida, a dama ofereceu uma mão ao Theloneus, que a pegou imediatamente, fazendo um grande esforço por conter uma gargalhada.

A visita ao Saville Ryerson foi muito mais difícil de conseguir, e apesar de que a Vespasia preocupava sinceramente que Martin Garvie tivesse sofrido uma desgraça, por muito que Garrick tivesse afirmado que se achava no sul da França, seus temores pela sorte do Ryerson eram mais profundos.

No melhor dos casos, levaria-se uma decepção com a mulher que amava, talvez não sabiamente, mas sem dúvida com toda a força de sua natureza. Descobrir-se traído, não só com fatos senão nas próprias esperanças, ver os sonhos quebrados sem remédio, achava-se entre as mais duras provas da alma.

No pior dos casos, podia acabar no banquinho dos acusados junto à Ayesha Zakhari, e talvez também até na forca.

Vespasia não se incomodou em tentar o caminho fácil. Não podia permitir o tempo que suporia fracassar, e tampouco queria que se advertisse que tinha tanto interesse que estava disposta a reclamar velhos favores para vê-lo.

De modo que se dirigiu diretamente para ver o subinspetor de polícia pertinente. Fazia muito tempo, quando ambos eram jovens, ele a tinha cortejado, e mais tarde, quando os dois estavam casados, tinham se encontrado em uma festa de fim de semana em uma das suntuosas mansões do duque não sei quantos.

A sua mente foi em especial uma tarde no atalho de ciprestes. Desgostava-lhe evocar tais lembranças, carecia de elegância, mas era extremamente útil, e a situação do Ryerson era muito apurada para que essas delicadezas se interpusessem no caminho da Vespasia.

Ele a recebeu sem fazê-la esperar. Os anos o tinham tratado bem, embora não tanto como a ela. Estava em pé no centro de seu escritório quando a fizeram entrar.

Parecia mais magro que no passado e tinha o cabelo muito cinza.

—Querida... -começou a dizer.

O homem não soube muito bem como dirigir-se a ela. Tinha transcorrido muito tempo desde que mantiveram uma relação estreita.

Ela acudiu rapidamente em seu resgate.

—Arthur, obrigada por me receber em seguida, sobretudo quando deve estar convencido de que se tiver vindo com tão pouco decorosas pressas é porque quero lhe pedir um favor.

Vespasia ia vestida com suas costumeiras cores pálidas cinza pomba e marfim, e levava um colar de pérolas que lhe iluminava o rosto.

Com os anos tinha aprendido a saber o que mais a favorecia. Até as mulheres mais formosas, ou as mais jovens, existiam cores e linhas que não lhes sentavam bem.

—Sempre é um prazer vê-la, seja qual for à razão - replicou ele, e se só dizia o que se esperava dele, fez-o com ar de autêntica sinceridade—. Por favor...- indicou a cadeira a um lado de sua escrivaninha e esperou que ela se sentasse e se colocasse as saias com um só movimento, de modo que caíssem sem enrugar-se—. O que posso fazer por você?

Vespasia se tinha debatido entre ser direta ou indireta, Arthur tinha sido uma pessoa afável no passado, mas o tempo podia havê-lo mudado, e já não estava apaixonado por ela, o que aumentaria sua capacidade para julgar. Já não havia uma paixão sentimental que o nublara a mente. A dama optou por ser direta.

Tratar de induzi-lo a engano seria insultante. Mas também o seria lhe pedir um favor sem fazer alusão ao menos ao passado e às delicadas lembranças.

—Da última vez que nos vimos, adquiri uns parentes interessantes - comentou ela com quietude, como se fora o mais natural do mundo falar disso—. Através do matrimônio, é claro. Recordará a meu finado sobrinho neto, George Ashworth.

O rosto do Arthur se inundou imediatamente de sincero pesar.

—Sinto-o muitíssimo! Que tragédia.

Essas palavras permitiram a Vespasia economizar uma enxurrada de explicações.

—Uma grande tragédia, com efeito - disse ela com um leve sorriso—. Mas através de seu matrimônio ganhei uma sobrinha neta cuja irmã está casada com um policial de notável talento. —Viu-o sobressaltar-se—. De vez em quando me vi implicada em algum caso e aprendi a compreender algumas das causas dos crimes de um modo que não era capaz quando era mais jovem. Diria que o mesmo pode dizer-se de você...—Deixou a frase em suspense, não como uma pergunta.

—OH, sim, o trabalho policial é... —Ele ergueu os ombros.

Vespasia percebeu de novo quanto tinha emagrecido, mas não lhe assentava mal.

—Exato! -assentiu com firmeza—. Por isso vim vê-lo. Está em uma posição única para me fazer um pequeno favor. —antes que ele pudesse lhe perguntar do que se tratava, ela se apressou a acrescentar—: Estou certa de que está tão perplexo e compungido como eu pelo desgraçado caso do Eden Lodge. Faz muitos anos que conheço o Saville Ryerson.

Arthur sacudiu a cabeça.

—Não posso lhe dizer nada, Vespasia, pela simples razão de que não sei nada.

—É claro! -Ela sorriu—. Não estou lhe pedindo informação, querido. Isso seria de tudo indecoroso. Mas eu gostaria de ver pessoalmente ao Saville, com urgência e em privado.

Vespasia não queria dar nenhuma explicação, mas tinha preparado uma razão convincente em caso de que ele a pedisse.

—Seria muito desagradável para você - respondeu ele com estupidez—. E não há nada que possa fazer por ele. Todas suas necessidades estão cobertas e desfruta de todos os luxos que lhe estão permitidos.

Acusam-no de ser cúmplice de assassinato, Vespasia. Para qualquer homem é grave, mas para alguém da posição e confiança que este goza, é devastador.

—Sei isso, Arthur. Como disse, desde a morte do pobre George tive oportunidade de descobrir os aspectos menos atraentes da natureza humana.

Prestei ajuda de vez em quando em algum caso. Se o puser em uma posição difícil que a honra o obriga a recusar, tenha, por favor, a amabilidade, pela amizade que nos uniu, de me dizer isso sem rodeios.

—Não, não é isso! -apressou-se a dizer ele—. Eu só estava pensando em sua sensibilidade e desconforto se o achar extremamente mudado. Talvez não possa evitar acreditar que é culpado, depois de tudo. Eu...

—Pelo amor de Deus, Arthur! -exclamou ela com impaciência—. Me está confundindo com outra pessoa dos agradáveis verões de seu passado? Lutei nas barricadas em Roma no quarenta e oito.

Não sou alheia às coisas desagradáveis! Vi todo tipo de miséria, traição e morte, inclusive na alta sociedade! Posso ver o Saville Ryerson ou não?

—É claro que pode, querida. Encarregar-me-ei disso esta mesma tarde. Far-me-ia acaso a honra de comer comigo? E falaremos das festas que organizávamos quando os verões eram mais longos… e mais quentes do que parecem ser agora.

Sorriu-lhe com sincero afeto, recordando o atalho de ciprestes e certo canteiro com um esbanjamento de esporas de cavalheiro azuis.

—Obrigado, Arthur. Com muito prazer.

Fizeram—na entrar na estadia onde tinham preparado seu encontro com o Ryerson; depois o guarda se retirou e a deixou sozinha.

Eram pouco mais das seis da tarde, e os lampiões de gás já estavam acesos porque a única janela era alta e estreita.

Estava há pouco tempo esperando quando se abriu a porta e entrou Ryerson.

Cansado como estava, com a camisa imaculada e o lenço que normalmente levava, estava pálido e um pouco desalinhado, mas continuava sendo um homem corpulento que não se arredava nem se acovardava pelo medo, e ela o viu em seus olhos mal a porta se fechou de novo e ele se virou.

—Boa noite, Saville -saudou Vespasia—. Sente-se, por favor. Desagrada—me ter que estirar o pescoço para vê-lo.

—Por que veio? -perguntou ele obedecendo—a, com o rosto triste, os ombros um pouco afundados—. Este não é um lugar para você e não me deve nada. Suas cruzadas pela justiça social não incluem as visitas aos culpados. —Não fugiu seu olhar—. E sou culpado, Vespasia. Teria ajudado ela a transladar o cadáver ao parque e deixá—lo ali.

De fato, levantei-o e o carreguei no carrinho de mão junto com a pistola. Agradeço sua amabilidade, mas se deve a uma má interpretação dos fatos.

—Por Deus bendito, Saville! -exclamou ela cortante—. Não sou estúpida! É claro que transladou o cadáver desse desgraçado homem! Thomas Pitt é meu sobrinho neto, ao menos é em virtude de vários matrimônios. Sei provavelmente mais do assunto que você!

A Vespasia agradou vê-lo sinceramente surpreso.

—Que matrimônios, Por Deus? -perguntou.

—O seu, é claro, bobo! -replicou ela—. Não ia ser o meu!

O rosto do Ryerson se relaxou em um sorriso, inclusive a tensão de seus ombros pareceu diminuir um pouco.

—Não pode me ajudar, Vespasia, mas traz luz à escuridão e lhe agradeço isso.

Ryerson estendeu uma mão para lhe pegar a sua, depois mudou de opinião e a retirou.

—Me alegro - respondeu ela—. Mas isso é secundário. Eu gostaria de fazer algo mais prático e mais duradouro.

Thomas foi a Alexandria para ver o que pode averiguar da Ayesha Zakhari antes que se transladasse a viver aqui, e do Edwin Lovat… se houver algo que averiguar. —Viu-o ficar tenso de novo—. Saville, tens medo à verdade?

—Não! -exclamou ele imediatamente, quase antes que ela pronunciasse a última palavra.

—Bem! -continuou ela—. Então falemos disto sem jogos de palavras nem manobras para evitar o que é menos que agradável. Onde conheceu a senhorita Zakhari?

—Como? —Ele se sobressaltou.

—Saville! -exclamou ela com impaciência—. É um ministro do governo de meia idade e ela é uma mulher egípcia de quantos anos? Trinta e cinco? Seus mundos são muito diferentes, e menos ainda se cruzam.

É deputado pelo Manchester em um país tecedor de algodão. Ela é de uma zona do Egito onde se cultiva algodão. Não se faça de idiota!

Ryerson suspirou e despenteou seu cabelo espesso e abundante. —É claro que ela ficou em contato comigo pelo do algodão - disse com tom lento—. E claro que tratou de me persuadir para que reduzisse a indústria no Manchester e investisse para que o Egito fiasse e tecesse seu próprio algodão. O que esperaria de uma patriota egípcia?

O olhar do Ryerson era franco e desafiante, seus olhos tão intensamente escuros como se ele mesmo fosse egípcio.

Vespasia sorriu.

—Não tenho nada contra os patriotas, Saville, nem contra seus argumentos a favor da justiça. Se eu tivesse estado em seu lugar quero acreditar que teria tido a paixão e a coragem de fazer o mesmo. Mas, por louvável que seja a causa, há certos atos que não está justificado cometer para defendê—la.

—Ela não matou ao Lovat!

Era uma simples afirmação.

—Acredita -o ou sabe? -perguntou ela.

Sustentou seu olhar sereno e cinza prateado, e foi o primeiro em piscar.

—Acredito, Vespasia. Jurou—me isso, e se duvidar dela então duvido de tudo o que amo e entesouro, o que faz a vida valiosa para mim!

A dama tomou ar para falar, mas se deu conta de que não podia dizer nada que ajudasse ou respondesse às necessidades do Ryerson. Era um homem ardente que, depois de reprimir muito tempo sua natureza, estava profundamente apaixonado. As comportas do dique tinham arrebentado.

—Então, quem o fez? -perguntou Vespasia—. E por que?

—Não tenho nem idéia —reconheceu ele em voz baixa—. Mas antes que insinue que o fizeram para me implicar, me desonrar e me fazer perder o cargo, dir-lhe-ei que isso com muita dificuldade beneficiaria a indústria do algodão no Egito.

Qualquer ministro que me sucedesse teria menos possibilidades de lhes oferecer ajuda.

Não há um só homem que tenha o poder de mudar toda uma indústria, queira ou não.

Ayesha sabe isso agora, embora a princípio acreditou que poderia me persuadir para que começasse a reforma.

—Então, por que continuava em Londres?

Vespasia não tinha outra alternativa que ser cruel se quisesse ser de mais ajuda que dando um consolo que, quando muito, duraria enquanto permanecesse na sala com ele.

—Porque eu queria que ficasse - respondeu Ryerson. E acrescentou com indecisão, como se em certo sentido temesse que ela duvidasse dele—: E acredito que ela me ama tanto como a amo eu.

Para seu grande assombro ela acreditou, ou ao menos não duvidou que fosse sincero a respeito de seus próprios sentimentos.

Não estava tão segura do que sentia Ayesha, mas ao olhar ao Ryerson frente a ela, viu tanta paixão nele, tal poder de convicção, uma vontade tão férrea, que não lhe custou acreditar que uma jovem descobrisse que as barreiras da idade, da cultura e inclusive da religião podiam desaparecer.

Também se surpreendeu a si mesma pensando que Ryerson deixaria que o levassem a julgamento, e inclusive condenassem, antes que traí-la.

Com ele sempre era ou tudo ou nada; fazia tempo que o conhecia, e os anos haviam agudizado seu caráter em lugar de suavizá—lo.

Era mais sábio, mais amadurecido em seu julgamento e em seu temperamento que quando era jovem, mas, no fim de contas, seu coração sempre controlaria sua cabeça.

Tinha madeira de cruzado, de mártir.

O que averiguaria Pitt na Alexandria? Provavelmente nada importante. Era uma cidade onde não conhecia ninguém, onde até o idioma lhe era desconhecido, assim como as crenças, ou as amplas e intrincadas conexões de quem conhecia quem, de dívidas e de ódios, de relações, dinheiro e religião.

A menos que Ayesha, ou o próprio Lovat, tivesse sido extraordinariamente negligente, haveria pouco que averiguar para um policial estrangeiro que nem sequer estava seguro do que procurava.

O que lhe levou a perguntar-se porque Victor Narraway o tinha enviado. Tinha interesse em que investigasse na Alexandria ou em afastá—lo de Londres?

Esteve com o Ryerson outro quarto de hora, mas não se inteirou de nada mais que fosse de utilidade.

Não mentiu lhe oferecendo ânimos, limitou-se a lhe perguntar se havia algo que quisesse que lhe enviasse para aliviar seu desconforto.

—Não, obrigado - disse ele imediatamente—. Tenho tudo que necessito. Mas lhe agradeceria imensamente que procurasse alguma comodidade a Ayesha.

Que se assegurasse de que tenha lençóis limpos, artigos de toucador. Eu... Outra mulher teria...

—É claro - respondeu Vespasia antes que ele terminasse—. Duvido que me deixem vê-la, mas me ocuparei de lhe fazer chegar esses artigos.

Posso imaginar o que quereria eu, e me encarregarei de que o façam chegar.

O rosto do Ryerson se inundou de gratidão.

—Obrigado. —Falhou-lhe a voz de emoção—. Estou profundamente...

—Por favor! -disse ela subtraindo importância—. Não é nada. —Já estava em pé—. Já os ouço vir me buscar.

Vespasia o olhou nos olhos. Queria acrescentar algo mais, mas as palavras morreram em seus lábios. Sorriu e se voltou para ir-se.

Vespasia precisou outro dia e uma investigação exaustiva, de novo questão de reclamar discretamente favores passados, adular um pouco e demonstrar muito encanto, para averiguar onde podia achar Victor Narraway e conseguir se encontrar com ele.

Tratava-se de uma recepção a que a haviam convidado e que ela tinha declinado. Ter que inventar a essas alturas uma desculpa e aceitar era uma situação embaraçosa que detestava.

Devido ao desagradável que tinha sido, acreditou que podia escolher entre vestir-se com um gosto excelente, mas discreto, algo convencional de uma cor suave, ou ser o mais ousada e escandalosa possível, desafiando qualquer comentário sobre sua mudança de parecer em relação ao convite.

Poderia falar com o Narraway com menos observações das pessoas ou interrupções se optava pelo primeiro, mas vestisse o que vestisse, não era uma pessoa que passasse despercebida.

Inclinou-se pelo segundo, e pediu à criada que tirasse um vestido que tinha encomendado em um momento de extraordinária segurança em si mesma, de uma seda azul anil intenso de tão fina textura que parecia flutuar.

O pronunciado decote e a cintura estavam bordados com fio prateado e pérolas em um intrincado motivo medieval.

Em pé frente ao espelho, surpreendeu-se do efeito espetacular. Normalmente se inclinava pelo comedimento aristocrático; cetins de tons neutros e renda que harmonizavam com seu cabelo prateado e seus olhos claros.

Mas esse vestido era magnífico, cativante em sua simplicidade de linhas, e a cor escura era como um sussurro na noite, elementar e misterioso.

Chegou tarde à recepção, causando considerável rebuliço. Não tinha por costume chamar tanto a atenção. O atraso se devia mais a um engano de previsão que a um propósito deliberado.

Tinha saído com pouco tempo de casa porque não queria chegar logo, e tinha indicado ao cocheiro que tomasse uma rota ao redor do parque que, por desgraça, tinha estado bloqueada por causa de um acidente de tráfego, uma carruagem tinha perdido uma roda ou algo parecido, de modo que tinham terminado chegando tarde.

Entrou sozinha na sala e se produziu um silêncio momentâneo. Várias pessoas, a maioria homens, ficaram olhando—a abertamente. Ela se perguntou por um instante se tinha cometido um engano de cálculo e se equivocara de vestido depois de tudo. Não levava mais jóias que uns brincos de pérola. Talvez estivesse muito pálida ou muito descolorida para levar um tom tão intenso?

Viu o príncipe de Gales, que abriu muito seus olhos azuis, de assombro e a seguir de admiração. A seu lado, um jovem que ela não conhecia pigarreou, mas seguiu olhando—a fixamente.

A anfitriã se aproximou para saudá—la e ao cabo de cinco minutos lhe apresentaram ao príncipe. Ao parecer, tinha expressado seu desejo de falar com ela.

Conheceram-se fazia anos, mas mesmo assim era uma ocasião muito formal. Ninguém podia dar nada por descontado.

Transcorreu uma hora antes de que conseguisse localizar ao Victor Narraway e conversar com ele sem que ninguém os ouvisse.

—Boa noite, Victor.

Vespasia marcou o tom da conversa que se propunha sustentar. Não o conhecia bem, mas estava à corrente de quem era e do alto conceito em que o tinham nas mais altas esferas políticas, tanto por suas virtudes como por suas limitações.

Mas era um homem muito reservado e de sua verdadeira identidade sabia muito pouco.

Importava-lhe por Ryerson e, ainda mais, tinha que reconhecê-lo, porque em suas mãos estava grande parte do futuro do Thomas Pitt.

—Boa noite, Lady Vespasia -respondeu ele, com um vislumbre de diversão em seus olhos escuros, mas também de cautela.

Narraway tinha muita experiência para acreditar que esse encontro se tratasse de uma casualidade.

Não havia tempo a perder; alguém podia unir-se a eles em qualquer momento.

—Ontem fui ver o Saville Ryerson -explicou ela, e não viu nenhuma mudança em sua expressão—. Não vai dizer lhe nada, em parte porque acredito que não sabe nada.

Não tem sentido que a mulher se propusesse arruiná—lo e esperasse que quem substituísse fosse mais favorável à independência econômica do Egito.

Tal pessoa não existe, e ela deve ter sido tão consciente disso como nós.

—É claro -concordou ele.

Se estava intrigado pelo que ela queria dele, não ia dar mostras disso. mostrou-se educadamente interessado, um homem solícito com uma senhora de maior status, mas que carecia de importância para ele.

Isso a irritou.

—Victor, não me trate como a uma néscia! -disse em voz baixa, mas com uma dicção tão clara que cortava—. Sei que enviou ao Thomas a Alexandria. Para que? A primeira resposta que me ocorre é para mantê-lo afastado de Londres.

Ficou satisfeita ao ver como ficava rígido de forma tão imperceptível que ela não teria sabido dizer que músculo tinha movido, só que tinha aumentado a tensão de seu corpo.

—Lovat e essa tal Zakhari se conheceram em Alexandria - respondeu ele. Suas palavras eram inocentes, mas lhe sustentou o olhar medindo, tratando de ver o que queria dele—. Seria negligente de nossa parte não fazer indagações ao menos.

—Para averiguar o que? —Vespasia arqueou ligeiramente as sobrancelhas—. Que tiveram uma aventura amorosa? Isso se dá por assentado. Ryerson a ama, e imagino que não quer saber nada de seus antigos admiradores, mas não é tão ingênuo para acreditar que não houve nenhum.

Interrompeu-se quando uma mulher miúda e magra vestida de seda pêssego passou junto a eles, agarrada ao braço de um cavalheiro a quem lhe clareava o cabelo.

Narraway sorriu para si, sua compostura perfeita.

Vespasia lamentou não conhecê-lo melhor. Dava-se conta divertida de que, se fosse mais jovem, ele a teria achado atraente. A inacessibilidade dele era em si mesmo uma provocação.

Não havia emoção atrás da fria inteligência cuja natureza ela não conhecia. Havia coragem moral ou espiritual? A resposta era importante, devido ao poder que tinha sobre o Pitt.

—Se estiver considerando a possibilidade de que houvesse algum escândalo pelo que Lovat poderia lhe haver feita chantagem -continuou ela quando voltaram a deixá—los sós—, então poderia ter escrito uma carta às autoridades britânicas para que o averiguassem por você e lhe informassem devidamente.

Eles falam o idioma, conhecem a cidade e sua população, e têm contatos com o tipo de pessoas que informam tais coisas.

Narraway respirou fundo para discutir com ela, depois a olhou mais intensamente nos olhos e mudou de opinião.

—É possível - concedeu—. Mas me responderiam só o que eu lhes perguntasse, enquanto que Pitt pode averiguar outras coisas, respostas a perguntas que não me ocorreram.

—Ah...

Vespasia acreditou, ao menos nisso. Havia muito mais que não pensava lhe dizer, mas se ela tivesse sido capaz de lhe surrupiar, não teria sido bom em seu trabalho, e semelhante pensamento suscitaria nela um medo profundo e pertinaz.

Narraway esboçou um sorriso. Possuía um encanto que a surpreendeu. Pela primeira vez se perguntou se tinha amado a alguém o bastante intensamente para desprender-se dessa grossa capa de autoproteção que o rodeava, e se fosse assim, que tipo de mulher tinha sido.

—É claro, você está investigando pessoalmente ao Ryerson e às demais pessoas relacionadas com o Lovat, ou tem a alguém fazendo-o - afirmou a dama—. Queria saber se essa outra pessoa é mais capaz de investigar em Londres do que é capaz Thomas em Alexandria.

Não o expôs como uma pergunta porque sabia que ele não responderia.

O sorriso do Narraway permaneceu imutável, mas aumentou a tensão de seu corpo, talvez lhe custasse manter-se perfeitamente sereno.

—É um assunto delicado -manifestou em voz tão baixa que ela com muita dificuldade o ouviu—. Estou totalmente de acordo com você em que, a julgar pelo que sabemos agora, não tem sentido. Lovat não era ninguém. Pode ser que Ayesha Zakhari fosse vulnerável à chantagem, mas duvido seriamente que o que um homem como Lovat pudesse dizer a Ryerson mudasse os sentimentos deste para ela.

Seria muitíssimo mais provável que Lovat terminasse acusado, ou expulso simplesmente de seu cargo no corpo diplomático, e incapaz de achar outro emprego em alguma parte. Não há dúvida de que também lhe fariam o vazio em seu clube.

Já tinha feito para granjear-se inimigos mais que suficientes. Também o patriotismo da senhorita Zakhari é bem compreensível, mas até no suposto de que pudesse afetar à política britânica no Egito, denota uma ingenuidade que uma mulher inteligente dificilmente teria conservado muito tempo uma vez aqui em Londres.

—Exato - concordou Vespasia, atenta a cada matiz de seu rosto.

—Portanto - concluiu ele sombrio em apenas mais que um sussurro, quase um chiado — , vejo—me obrigado a me perguntar o que é isso tão profundo pelo qual vale a pena cometer um assassinato e acabar na forca, que não consideramos ainda.

Vespasia não respondeu. Tinha tratado de evitar esse pensamento, mas de repente se erguia no horizonte de sua mente tão escuro e inevitável como no do Victor Narraway.

 

Pitt estava formando uma impressão cada vez mais clara da Ayesha Zakhari, assim como da gente e das questões políticas que a tinham motivado.

Mas em pé junto à janela do quarto do hotel enquanto contemplava a vasta noite balsâmica, com o intenso aroma de especiarias e a sal que flutuava no ar, caiu na conta com um sobressalto de que nunca tinha visto um retrato seu.

Teria a tez morena, naturalmente, e se imaginava sua beleza, porque tinha dado por assentado que ganhava a vida com ela.

Mas enquanto contemplava o mar e as trepadeiras que se agitavam ligeiramente na brisa, e levantava a vista para a abóbada celestial, pálida por causa das estrelas, pensou nela de forma diferente.

Ayesha se tinha convertido em uma pessoa inteligente e com força de vontade, alguém que lutava por princípios com os que ele podia simpatizar facilmente.

Como se teria sentido ele se fosse à Inglaterra e não o Egito a ocupada, e virtualmente governada, por uma nação não só estranha em seu idioma e seus traços físicos, mas também em suas crenças e em seu patrimônio, uma nação relativamente nova que tinha sido civilizada, que construía, escrevia e sonhava quando sua própria gente continuava sendo selvagem? O vento lhe trouxe o som de umas risadas, uma voz masculina e logo outra feminina, e um instrumento de corda, cheio de curiosos semitons.

Tirou a jaqueta; até a essa hora o ar era tão quente que com a camisa de algodão tinha mais que suficiente. Tinha posto -a para jantar como uma formalidade.

Olhou ao redor, tratando de gravar tudo em sua mente para poder descrever ao Charlotte, os sons tão diferentes dos da Inglaterra, a agradável carícia do ar na pele quase úmida, o aroma intenso, a suor, às vezes quase viciado, e, é claro, as onipresentes moscas.

O vento não era cortante, soprava, mas bem entorpecido, disfarçando de tranqüilidade o perigo, ocultando o ressentimento atrás dos rostos sorridentes.

Pensou nas enchentes e enchentes de pessoas que tinham chegado aí ao longo dos séculos como soldados, conquistadores, religiosos, exploradores, mercados ou colonos. Como cada um deles tinha sido acolhido pela cidade, instalando-se nela e trocando sua natureza.

Nesses dias lhes tocava os ingleses, inconfundivelmente estrangeiros com sua pele pálida e voz anglo—saxã, suas costas rígidas e suas idéias inamovíveis sobre o bem e o mal.

Era ao mesmo tempo admirável e absurdo. Embora, acima de tudo, era imensamente incongruente.

Tratava-se de uma cidade egípcia e eles não tinham nenhum direito a estar ali a menos que os convidassem. Pensou no Trenchard e seu manifesto amor por essa terra e seus habitantes.

Depois de acompanhá-lo ao bazar, tinha-lhe falado um pouco de sua vida ali. Ao que parecia, já não conservava parentes próximos na Inglaterra, e a mulher que tinha amado, embora não se casasse com ela, era egípcia.

Falou dela só brevemente. Era muçulmana, de fato a filha de um imam, um de seus homens Santos. Tinha morrido fazia menos de um ano em um acidente do qual Trenchard não quis falar e, naturalmente, Pitt não o tinha pressionado.

Junto à janela, Pitt se sentia envolvido em um torvelinho de sentimentos confusos, sem estar preparado ainda para ir-se à cama porque sabia que não poderia conciliar o sono.

Entendia muito bem a Ayesha, seu patriotismo, sua indignação ante a forma em que roubavam a sua gente, a pobreza e a ignorância em que a mantinham, e depois em Londres, com o Ryerson, o conflito de lealdades.

Mas a tinha levado isso a cometer um assassinato? Pitt ainda não tinha descartado que assim fosse. Se não tinha sido ela, então quem?

Na manhã seguinte começaria a averiguar todo o possível sobre o Edwin Lovat.

Ainda devia haver ali, pessoas que o tinham conhecido e que seriam mais vitais, mais observadoras e talvez mais sinceras que os documentos escritos.

Retirou-se da janela e se preparou para deitar-se.

Pitt não demorou muito a descobrir exatamente onde tinha passado Lovat a maior parte de seu tempo, e foi encaminhar-se ali quando cruzou um bazar de tapetes.

Era uma rua de barro endurecido de uns doze metros de largura, com um telhado à altura do terceiro piso, construído com grandes vigas de madeira que a percorriam de um extremo ao outro e madeiras soltas no meio, de modo que projetava uma sombra salpicada e a franjas sobre o chão.

Por toda parte havia toldos: nas portas, nas janelas, sobre paus como os que se colocam horizontalmente para pendurar deles bandeiras.

Havia muitíssimas pessoas sentadas por ali, quase todos homens, com fardos de roupa, tapetes enrolados, objetos de latão e magníficos narguilés dos quais se erguia languidamente fumaça.

Preponderavam os vermelhos —escarlate, carmim, carmesim, terracota— e os crema, os quentes tons terra e o negro.

O ruído e a cor o invadiam tudo no calor.

Pitt caminhava pelo centro da rua, tratando de não dar a impressão de que estava ali para comprar, quando se produziu uma refrega diante dele e vozes elevadas em cólera.

A princípio acreditou que era um simples regateio que lhes tinha ido das mãos.

Depois caiu na conta de que havia ao menos meia dúzia de homens implicados, e que o ambiente que se respirava era mais desagradável que o de uns meros curiosos olhando uma briga.

Deteve-se. Se realmente se tratava de uma refrega, não queria ver-se apanhado nela. Era preciso que saísse dos limites da cidade para dirigir-se ao povoado onde estava o acampamento militar no qual tinha servido Lovat.

Achava-se no leste, para o ramal do delta do Nilo mais próximo e o canal da Mahmudiyya, do outro lado do qual estava Cairo e, mais à frente do deserto, Suez.

Não podia permitir-se ver-se apanhado em uma rixa local, e se se tornasse desagradável, era o dever da polícia dali intervir, pois ele carecia de autoridade.

Voltou sobre seus passos. Sabia que havia outro caminho se tomasse a rua paralela. Era mais longo, mas nessas circunstâncias era preferível.

Avivou o passo, mas o ruído a suas costas aumentou. Voltou-se para olhar. Dois homens com túnica longa discutiam, agitando os braços e gesticulando, aparentemente pelo preço de um tapete vermelho e negro aos pés de ambos.

Atrás dele se apinhava um grupo de homens, também intrigados por ver que se devia o barulho.

Pitt se voltou de novo para continuar, mas a rua já estava bloqueada. Teve que fazer-se a um lado para não ver-se apanhado no meio. Desenrolaram outro tapete, lhe impedindo o caminho por completo. Alguém gritou o que parecia uma advertência.

Elevaram-se vozes ao redor dele, mas não entendeu nada.

Por cima de sua cabeça, as vigas escuras projetavam uma sombra parcial, mas o calor seguia sendo intenso devido a não correr o ar.

O pavimento parecia abrasar sob seus pés e o aroma de lã, incenso, especiarias e suor era muito forte no ar imóvel. Picou-lhe outro mosquito ao qual deu imediatamente um tapa.

Um jovem corria gritando. Ouviu-se um disparo e se produziu imediatamente um silêncio, seguido de uivos de cólera.

Parecia haver polícia de algum tipo, quatro ou cinco homens, ao fundo do bazar, e outros dois a uns metros de distância.

Eram europeus, provavelmente britânicos.

Alguém jogou um recipiente metálico, que golpeou a um dos policiais na têmpora. Este perdeu um pouco o equilíbrio, pego por surpresa.

Ouviram-se gritos que eram inconfundivelmente de aprovação e fôlego. Pitt não precisava saber o idioma para entender seu significado ou ver o ódio nos rostos barbudos, a maioria com turbante, morenos e mais africanos que mediterrâneos.

Tratou de afastar-se da crescente violência e se chocou com um montão de tapetes que balançaram.

Voltou-se rapidamente para impedir que caíssem, segurando-os com as duas mãos e afundando os dedos no duro algodão, mas foi em vão.

Viu-se impulsionado para diante, perdeu pé, e um momento depois estava escancarado sobre um montão de tapetes que caíam rodando ao chão.

Os homens corriam, as túnicas se agitavam. Ouviram-se mais gritos, o ruído de aço contra aço e mais disparos.

Tratou de levantar-se e tropeçou com uma vasilha de argila, que rodou até outro homem e lhe fez perder o equilíbrio. Este caiu pesadamente de costas, amaldiçoando furioso em inglês.

Pitt ficou em pé e correu para o homem, que continuava deitado, aparentemente aturdido. Pitt lhe estendeu uma mão para o ajudar a levantar-se e então recebeu um golpe muito forte por detrás, que o mergulhou na escuridão.

Despertou deitado de barriga para cima, com a cabeça a ponto de estalar. Achava que só tinham transcorrido uns momentos desde que caíra no bazar de tapetes, mas ao abrir os olhos viu que o teto era de um branco sujo e quando se moveu ligeiramente viu paredes a seu redor.

Não havia rastro de vermelho nem das cores intensas do algodão, só linho a raias ocres e negras aglomerado em um canto.

Sentou-se muito devagar, um pouco enjoado. O calor era sufocante, e por toda parte havia moscas, às que em vão dava tapas.

Achava-se em um pequeno aposento e o vulto de roupa era outro homem. Havia uma terceira pessoa contra a parede do fundo e uma quarta sob a alta janela de barrotes, atrás da qual se via um quadrado de céu azul abrasador.

Voltou a olhar aos homens. Um era barbudo, levava turbantes e tinha ao redor do olho esquerdo um grande hematoma, com aspecto de ser doloroso.

O segundo estava barbeado salvo por um longo bigode negro. Pitt supôs que era grego ou armênio. O terceiro lhe sorriu, sacudindo a cabeça e apertando os lábios. Estendeu-lhe um cantil de couro, convidando-o a beber.

—Lacheim -disse com ironia—, Bem—vindo.

—Obrigado -respondeu Pitt, ao mesmo tempo que aceitava a água.

Tinha a boca seca e a garganta irritada. Um árabe ou turco, um grego ou armênio, um judeu, e ele, um inglês. O que estava fazendo no que parecia um calabouço?

Voltou-se devagar, olhando para a porta. Não havia cabo.

—Onde estamos? -perguntou, bebendo outro gole de água.

Não devia exceder-se. Podia ser toda água que tinham. Devolveu o cantil ao homem.

—Inglês - exclamou o judeu com perplexo regozijo—. O que fazia brigando com a polícia inglesa em um motim? Você não é um dos nossos!

Todos o olhavam com curiosidade.

Pouco a pouco, Pitt compreendeu que sua torpe queda devia ter parecido um assalto deliberado. Tinham-no detido como parte dessa manifestação de aversão contra a autoridade britânica no Egito.

Ele tinha percebido o ressentimento, a cólera que se cozia a fogo lento sob a superfície desde o segundo ou terceiro dia de sua estadia ali.

Começava a dar-se conta de quão estendido estava, e o fino que era o verniz da cotidianidade que o ocultava a simples vista.

Talvez tivesse sido um golpe de sorte que o tivessem encerrado ali, se soubesse aproveitá—lo. Mas devia pensar na resposta adequada.

—Pude vislumbrar outra versão dos fatos -respondeu—. Conheço uma mulher egípcia em Londres. —Devia tomar cuidado em não cometer nenhum engano. Se o pilhavam mentindo, podia lhe custar muito caro—. Ouvi—a falar da indústria do algodão. —Viu como o semblante do árabe se escurecia—. Tinha bons argumentos a favor de instalar as fábricas aqui em lugar de na Inglaterra -continuou, sentindo—a pele ardida e percebendo no ar o aroma de suor e medo.

Tinha as mãos úmidas.

—Como te chama? -perguntou o árabe bruscamente.

—Thomas Pitt. E você?

—Musa. Isso é suficiente para você —foi a resposta.

Pitt se voltou para o judeu.

—Avram -respondeu com um sorriso.

—Cyril -disse o grego, lhe dando também seu nome de batismo.

—O que vão fazer conosco? -perguntou Pitt.

Seria possível enviar uma nota ao Trenchard? E mesmo que pudesse, estaria disposto Trenchard a ajudá—lo?

Avram sacudiu a cabeça.

—Soltarão você porque é inglês -disse—, ou lhe faram com resolução por trair aos teus.

Em qualquer caso, por que atacou à polícia? Assim vai conseguir que construam as fábricas de algodão aqui! —Não se apagou o sorriso de seus lábios, mas havia receio em seus olhos.

Os outros dois observavam, sem saber o que pensar dele.

Pitt lhe devolveu o sorriso.

—Não ocorreu assim -admitiu—. Tropecei com um tapete.

Houve um momento de silêncio absoluto, depois Avram estalou em gargalhadas e ao cabo de um instante os outros dois o secundaram.

Mas seguiam sem formar uma opinião dele. Ali havia algo mais que aprender, além de sobrevivência, e Pitt sabia.

Perfeitamente podiam pensar que o tinham metido ali para que identificasse aos líderes de um conflito em potencial. Não era desatinado que na Alexandria houvesse um equivalente da Brigada Especial britânica.

Não devia fazer perguntas, salvo sobre a Ayesha, e talvez também sobre Lovat, embora Lovat se fora dali fazia doze anos.

Cada vez lhe parecia mais importante não só averiguar os fatos, mas entendê—los, embora não teria podido justificá—lo facilmente ante o Narraway se lhe tivesse perguntado a razão.

Os três homens esperavam que falasse. Devia responder com convicção.

—Tropeçou com um tapete -repetiu Avram assentindo devagar, ainda com um brilho de brincadeira no olhar—. Pode ser que acreditem em você. Só é uma possibilidade.

É importante sua família?

—Absolutamente - respondeu Pitt—. Meu pai trabalhava na propriedade de um homem rico, assim como minha mãe. Os dois estão mortos.

—E o homem rico?

Pitt deu de ombros, recordando vividamente.

—Ele também está morto. Mas se comportou bem comigo. Educou—me com seu filho para que lhe servisse de estímulo. Não podia derrotá—lo o filho de um criado -acrescentou para justificar sua perfeita dicção.

Provavelmente conheciam o bastante bem aos ingleses para distinguir uma classe social de outra.

Os dois o observavam, Cyril com profundo cepticismo. Musa com uma hostilidade mais manifesta. No exterior começou a ladrar um cão. Ali dentro parecia fazer ainda mais calor. Pitt sentia como lhe escorregava o suor pelo corpo.

—E o que está fazendo na Alexandria? -perguntou Musa, em voz baixa e um pouco áspera—. Não está aqui só para ver se queremos fábricas de algodão, e não veio sem nenhuma razão!

Era um convite a justificar-se, talvez uma advertência.

Pitt decidiu adornar um pouco a verdade.

—É claro que não —acessou—. Um diplomata britânico e antigo soldado foi assassinado. Esteve um tempo destinado aqui, faz doze anos.

Acreditam que o matou uma mulher egípcia em Londres. Pagaram—me para que demonstre que ela não o fez.

—Policial! —zombou Musa, movendo-se ligeiramente como se fora levantar-se.

—Pagam à polícia para que demonstre que alguém é culpado, não que não é! -replicou Pitt—. Ao menos, assim funciona em Londres! E não, não sou policial. Se o fosse, não acham que já teria saído daqui?

—Estava inconsciente quando o trouxeram - indicou Avram. — A quem ia dizer.

—Há um guarda aí fora? -Pitt indicou a porta com a cabeça.

Avram deu de ombros.

—Provavelmente, embora ninguém acredita que vamos sair pela força, o que é uma lástima.

Pitt olhou a janela com os olhos entrecerrados.

Cyril se levantou, aproximou-se da janela, e puxou de forma experimentada do barrote de no meio.

Voltou-se e olhou ao Pitt furioso, com uma careta ligeiramente zombadora nos lábios.

—Para sair daqui é preciso cérebro, não força -observou Musa—. Ou dinheiro. —Arqueou as sobrancelhas interrogante.

Pitt entendeu a insinuação. Valia a pena gastar o que tinha, se ainda o conservava, para ganhar aliados? Provavelmente não saberiam nada sobre a Ayesha ou Lovat, mas poderiam lhe ajudar a averiguar algo, se havia algo que averiguar. E começava a duvidar.

Não afastaram o olhar dele; mal piscaram.

Pitt extraiu umas duzentas piastras, o bastante para alojar-se oito dias no hotel.

—Isso bastará! -exclamou Avram imediatamente.

Antes que Pitt pudesse considerar a decisão, o dinheiro tinha desaparecido e Avram esmurrava a porta com os punhos.

Musa assentiu, relaxando os ombros.

—Bem - disse com satisfação—. Sim, estupendo.

—São duzentas piastras! —As palavras saíram da boca do Pitt antes que parasse a pensar—. Quero algo em troca!

Musa arqueou as sobrancelhas.

—Ah, sim! E o que quer?

A mente do Pitt funcionava a toda velocidade.

—Alguém que me ajude a obter informação confiável sobre o tenente Lovat quando serviu aqui com o exército britânico há doze anos. Não falo árabe.

—De modo que quer cinqüenta piastras de meu tempo? -concluiu Musa—. Bem, não lhe posso dar isso se estiver no cárcere, não?

—Quero cento e cinqüenta piastras do tempo de alguém -respondeu Pitt—. Ou ficamos todos aqui.

Avram o olhou profundamente divertido.

—Está fazendo um trato? -perguntou interessado.

—Não sei - respondeu Pitt—. Me diga isso você.

Avram dirigiu a vista para a janela, depois para a porta sem cabo. Olhou aos outros arqueando as sobrancelhas interrogantes e comentou algo em árabe.

Mantiveram uma breve conversa.

—Sim-disse por fim ao Pitt—. De acordo.

Pitt esperou.

—Levarei-o ao vilarejo onde os soldados britânicos passavam seu tempo livre. Falarei com os egípcios por você. - Estendeu uma mão—. Agora saiamos daqui, antes que venham e façam algo desagradável.

Pitt não tinha nem idéia do que haviam dito ao guarda, mas viu como o dinheiro trocava de mãos, e meia hora depois caminhava atrás de Avram por um beco nos limites da cidade, de novo em direção leste.

Como de costume, as moscas e os mosquitos eram cruéis, mas se tinha acostumado a lhes dar tapas sem pensar. Ainda lhe doía a cabeça do golpe que tinha recebido no bazar.

Um aroma delicado e agradável se mesclou com o da imundície geral quando passaram diante de um cozinheiro sentado no chão, com um ombro apoiado contra a parede.

Levava uma túnica totalmente informe de linho de cor parda e sapatos de borracha. A seu lado tinha uma cesta de vime aberta cheia de tâmaras, cebolas e o que pareciam uma cenoura e uma granada.

Atrás dele havia uma grande jarra de barro com o pico quebrado, e, em frente, um braseiro suportado sobre tijolos com uma panela também de barro em cima. Era a mescla que havia dentro o que ele revolvia e a fumaça que se erguia dela o que apanhava aos viandantes.

O homem tinha a tez escura como as tâmaras, uma barba curta e a cabeça tão bem barbeada que parecia calvo.

Em suas feições havia uma harmonia e uma simetria que o faziam quase atraente.

Não prestou atenção ao Pitt e Avram, como se não tivessem mais interesse para ele que os burros que passavam pela rua ou o dromedário que aguardava paciente na entrada da praça.

Avram ia vários metros adiante do Pitt e este apressou o passo para alcançá-lo. Extraviar-se ali não só suporia uma perda de tempo, mas sim podia ser perigoso.

Desde o incidente no bazar de tapetes, era mais que consciente do aspecto subjacente dos homens que pareciam falar ou regatear entre eles.

Às vezes havia em seus rostos uma serenidade que ele percebia que mascarava uma profunda cólera que não se atreviam a expressar abertamente.

Era sua cidade e ele era um estrangeiro ali, um membro de uma raça estrangeira que lhes tinha arrebatado o que lhes pertencia. Que os britânicos o utilizassem com muito mais eficácia e tino era irrelevante.

Avram se voltou para assegurar-se de que Pitt o seguia e lhe indicou bruscamente por gestos que não ficasse atrás. Depois, caminharam depressa e em silêncio.

Era avançada a tarde e nessa época do ano os dias se cortavam com muita rapidez.

Precisavam chegar ao povoado mais próximo ao posto militar antes que se fizesse de noite, e aparentemente ainda ficava um bom trecho.

Pitt avançava com esforço através do pó, pensando que qualquer vendedor do mercado que descobrisse um ungüento para repelir os mosquitos se faria de oro em menos de uma semana.

Deixaram atrás vários homens com camelos, uma anciã que ia a pé, um menino com um burro e um grupo de meia dúzia de pessoas que era evidente que voltava de uma celebração, cantando alegremente e agitando os braços ao ar.

Chegaram a um largo canal quando o sol se punha, enchendo o céu de uma suave luz amarela.

Nas bordas, a escassa distância dos roucos, caminhavam pela água uns pássaros de pico longo, uma meia dúzia que uns metros mais longe dobrava o número. As paredes de pedras quadradas da maioria dos edifícios pareciam de bronze, e as palmeiras se erguiam como absurdos tocados sobre pilares, ligeiras como penas no ar imóvel.

O único som que se ouvia era o que faziam seis bois ao beber, com as patas inundadas na água, a cabeça baixa e uns grandes chifres polidos que pareciam dourados ao sol poente. As sombras se faziam mais profundas, tornando-se vermelhas e violáceas.

—Ficaremos aqui -lhe informou Avram—. Comeremos algo e depois começaremos a fazer perguntas.

Pitt assentiu, posto que não podia fazer nada mais. Até então não tinha averiguado nada que ajudasse a Ayesha Zakhari, por não falar do Ryerson.

Se o assassinato do Lovat era conseqüência de algo que tinha ocorrido no Egito, Pitt não tinha nem idéia do que tinha sido, e só Avram, ou alguém como ele, podia interrogar às pessoas que viviam aí.

Entraram em um dos edifícios mais baixos de tijolo cru. Saiu a recebê-los um homem de uns vinte e cinco anos, com uma túnica a listas vermelhas e pardas, e um turbante de um tom pálido, impossível de distinguir à luz das velas e de um pequeno fogo.

Cruzou umas palavras com o Avram. Depois, este apresentou ao Pitt e explicou quem era, e certamente o que queria.

Avram se voltou para o Pitt.

—Este é Ishaq o Sharnoubi. Seu pai Mohamed era imam, um homem santo. Estava muito à corrente do que ocorria aqui, assim como entre os soldados no passado.

Ishaq fazia recados para eles de vez em quando, e tem boa memória quando quer. Entende muito melhor o inglês do que faz ver.

Pitt sorriu. Imaginava vividamente, embora talvez não com muita exatidão. Também supunha que para os soldados britânicos um árabe jovem podia ser virtualmente invisível, como um criado na Inglaterra.

As línguas podiam ser igualmente imprudentes, apoiando-se no encargo de que eles não repetiriam o que tinham ouvido dizer a seus superiores.

Inclinou-se para o Ishaq.

Ishaq se inclinou por sua vez, com os olhos tão escuros que pareciam negros à luz piscante.

O entardecer tinha passado de amarelo pálido a um dourado brunido muito mais escuro e a luminosidade tinha desaparecido. No exterior, os bois se moviam na água e Pitt os ouvia chapinhar.

Avram lhe tinha advertido de antemão que aceitasse a comida que lhe oferecessem como um gesto hospitaleiro e não fizesse gesto de pagá-la.

Podia fazer um presente mais adiante quando não parecesse um pagamento, o que teria sido um insulto.

Também lhe tinha advertido desnecessariamente que comesse e deixasse que o jantar transcorresse em paz antes de tocar o tema, embora fosse de forma indireta.

Pitt se sentou com as pernas cruzadas no chão, como lhe convidaram a fazê-lo, e confiou em que ao cabo de uma hora fosse capaz de sustentar-se em pé quando se voltasse a levantar.

Mas à medida que avançava o jantar, começou a duvidá-lo. Moveu-se nervoso um par de vezes e viu o olhar de advertência que lhe lançou Avram.

Este parecia haver-se metido no papel, como se averiguar a verdade sobre o Lovat fora tão importante para ele como para o Pitt.

Este se perguntou se se devia a sua curiosidade inveterada, a seu amor à verdade e ao emprego de suas aptidões para desentranhá-la, ou se ele também esperava que lhe fizesse algum presente mais adiante.

Nesse momento, sentado muito incômodo na cálida noite a mais de mil e quinhentos quilômetros de seu lar e de algo que lhe resultasse familiar, era importante para ele não ofender ou decepcionar a esse homem singular, e ia ter que agir com discernimento para obtê-lo.

Por fim comeram a última tâmara e, com um sorriso, Ishaq perguntou ao Pitt o que havia lhe trazido para o Egito. Era o sinal de que estava preparado para lhe dar sua ajuda.

—Assassinaram a um soldado britânico em Londres - respondeu Pitt com tom despreocupado, tratando o mais discretamente possível de desdobrar as pernas e não refletir em seu rosto a dor de seus membros com cãibras. Deixou escapar um ofego que converteu em tosse—. Não é importante em si mesmo, mas sua morte ameaça criar um escândalo devido à pessoa a quem se acusa de ter disparado contra ele -continuou, e viu como a perplexidade dava passagem à compreensão no rosto do Ishaq.

Depois de tudo, se assassinassem a um egípcio em Londres, que repercussão teria na Alexandria? Assentiu educadamente—. Serviu aqui no exército faz uns treze anos – acrescentou Pitt—. Na Inglaterra não foi possível averiguar grande coisa sobre ele. Quero saber que reputação tinha, assim como se se granjeou inimigos entre seus companheiros.

Desta vez era melhor não mencionar a Ayesha. Sempre podia fazê-lo mais tarde, se lhe parecesse oportuno—. Se chamava Edwin Lovat.

Ishaq esperou, com o olhar cravado no Pitt. Pitt nomeou o regimento e o posto do Lovat, depois deu uma breve descrição de seu aspecto físico, tratando de não soar desesperado ao não perceber nenhuma expressão no rosto do Ishaq. Ishaq assentiu.

—Recordo—os -disse sem revelar nenhuma emoção.

—Recorda—os? -observou Pitt, sem esperança.

Talvez para Ishaq os soldados britânicos fossem todos iguais.

E não era de estranhar. Pitt tinha sido treinado para observar e identificar, mas se alguém lhe tivesse pedido que distinguisse a um egípcio de outro na rua, não teria podido fazê-lo.

—A esses quatro -replicou Ishaq—. Sempre estavam juntos. Loiros, de olhos azuis, caminhando como... -se rendeu e levantou a vista para o Avram. Disse algo em árabe.

—Patos - lhe ajudou Avram.

—Sabe os nomes dos outros? -perguntou Pitt.

Em caso de não ser assim, podia perguntar aos oficiais atuais. Ao menos lhe diriam isso. Não era nenhum segredo com que companheiros se relacionava um homem em seu tempo livre.

—Yeats - disse Ishaq pensativo—. E Garrick -acrescentou—. Não me lembro do que falta.

—Isso é muito útil, obrigado -manifestou Pitt com energia—. Eram bons soldados, Lovat em particular?

Assim que o disse, pensou que era uma pergunta estúpida. Como podia ser "bom" um soldado britânico aos olhos de um egípcio?

Avram disse algo em árabe e Ishaq assentiu. Respondeu ao Pitt como se este lhe tivesse perguntado a ele.

—Tinha coragem e cumpria as normas importantes.

De repente Pitt se sentiu interessado.

—E as outras? -perguntou em voz baixa.

Ishaq sorriu e seus dentes brilharam brancos à luz do fogo: depois ficou sério de repente.

—As demais procurava infringir quando ninguém olhava -respondeu.

Pitt inalou ar para perguntar o claro.

Avram o interrompeu.

—Era valente. Isso é bom. Um covarde não serve para nada.

E era obediente. Um soldado que não obedece as ordens é um perigo para seus companheiros, não lhe parece? —Desta vez olhou ao Pitt.

—Certamente -concordou Pitt, não muito certo por que o tinha interrompido. Tinha sido muito direto, ou era uma pergunta cuja resposta envergonharia ao Ishaq? Por que? Fazia entendimentos fraudulentos de alguma classe? Algo imoral.

— Passavam suas folgas aqui no vilarejo ou iam a Alexandria? —inquiriu.

Ishaq estendeu as mãos.

—Depende dos dias que tivessem livres -replicou—. Há pouco que fazer aqui, mas na cidade necessita-se de dinheiro para se divertir.

—É uma cidade linda só para passear -comentou Pitt, com bastante sinceridade—. Há muito que aprender da história e a cultura de outros muitos povos, não só o Egito, mas também da Grécia, Roma, Turquia, Armênia, Jerusalém... - se deteve o ver a expressão do Ishaq—. Eu não conhecia o Lovat - concluiu.

—Já o vejo - observou Ishaq secamente—. Os soldados de licença gostam de comer e beber, buscar-se uma mulher e às vezes explorar um pouco, ir à caça de tesouros, divertir-se.

Parecia uma perda de tempo se alguém se permitia excluir todo o resto, mas inofensiva. Não havia tocado o tema de infringir as normas, nem sequer de passagem.

Dava a impressão de que ia ser uma noite longa, mas ao menos Pitt já não tinha as pernas cruzadas, embora o chão estivesse duro, e se tinha acostumado tanto aos mosquitos que lhes dava tapas sem pensar.

—Fazendo o que? -perguntou Avram, mas com expressão aborrecida, como se só quisesse encher o silêncio.

Ishaq deu de ombros.

—Indo caçar aos pântanos - respondeu com ar despreocupado—. Pássaros, e de vez em quando em busca de crocodilos. Acredito que foram algumas vezes rio acima. Eu me encarreguei de tudo.

—Para ver os templos e as ruínas? -perguntou Pitt, tentando manter o mesmo tom que Avram.

—Acredito que sim - assentiu Ishaq—. Uma vez foram até o Cairo. Para ver as pirâmides do Gizeh e todo o resto. —Sorriu—. Pegou—os uma tempestade de areia, ou isso disseram. Mas a maioria das vezes ficavam por aqui.

Não valia a pena continuar, mas havia pouco mais que dizer para manter viva a conversa. Pitt começava a perder a esperança de descobrir algo sobre o Lovat que lhe revelasse sequer seu caráter, e menos ainda alguma pista de por que o tinham assassinado.

Talvez tudo o que ia averiguar no Egito era que Ayesha Zakhari era uma patriota muito culta e apaixonada e não uma mulher que utilizava sua beleza para dar uma vida de luxos.

—Costumavam ir juntos, os quatro? -perguntou.

Possivelmente poderia localizar ao menos a um par desses outros homens e averiguar mais coisas sobre o Lovat.

—Quase sempre -assentiu Ishaq—. Não é muito seguro ir só por aí.

Então olhou ao Pitt intensamente, para ver se o compreendia sem ter que lhe explicar letra por letra que os britânicos eram invasores, um exército armado em uma terra estrangeira, e, como tais, eram logicamente objeto de muitos sentimentos de aversão, alguns deles violentos.

Pitt o compreendia muito bem. Respirava-se no ambiente, notava-se nos olhares furtivos que lançavam as pessoas, tanto homens como mulheres, quando achavam que ninguém os olhava.

Podia haver gratidão por havê-los resgatado economicamente, mas ninguém gostava de sentir-se em dívida ou dependente.

Haveria simpatias e ódios individuais, como o amor do Trenchard por sua amante egípcia.

Haveria certo respeito, certamente curiosidade, às vezes inclusive uma compreensão paulatina.

Mas a cólera sempre estaria bordeando a superfície.

A lembrança dos bombardeios da Alexandria a intensificava nesses dias, mas os mesmos sentimentos deviam ter existido então, só que enterrados mais profundamente.

Guardaram silêncio uns minutos. O ruído dos bois movendo-se na água era relaxante, um ruído constante, natural.

A brisa noturna trazia um frescor que era agradável depois de um longo dia quente.

—É claro, também havia essa mulher -disse Ishaq, observando ao Pitt mais atentamente do que aparentava—. Mas se alguém tivesse querido matá—lo por isso, o teria feito então.

Era a filha de um homem rico, um homem erudito mas cristão. Não era o mesmo se ela tivesse sido muçulmana. Isso teria causado problemas… muitos problemas. Era muito cristão, o senhor Lovat.

Na escuridão da cabana seu semblante era inescrutável, mas Pitt percebia uma dúzia de emoções diferentes em sua voz. Se Ishaq tivesse sido inglês, Pitt talvez teria reconhecido—as, desenredando—as entre si, mas estava em uma terra estrangeira, de uma cultura antiga e imensamente complexa, e falava com um homem cujos antepassados tinham criado essa extraordinária civilização milhares de anos antes de Cristo, por não falar do Império britânico.

De fato, os faraós tinham regido seu próprio império antes que nascesse Moisés, ou de que Abraham fugisse da destruição de Sodoma e Gomorra.

A terra debaixo dele era dura, o ar seguia sendo sufocante e quente, e ouvia as bestas mover-se de vez em quando no exterior na noite estrelada, tudo era tão real como o chão duro e o zumbido dos mosquitos e, entretanto, tinha uma sensação de irrealidade, como se sua presença ali fosse um sonho.

Custava recordar que Saville Ryerson estava encarcerado em Londres e que Narraway esperava que Pitt achasse o modo de impedir o escândalo.

—Muito cristão? -perguntou intrigado.

—Sim -assentiu Ishaq, sem deixar transparecer suas emoções—. Ia a esse velho lugar, o santuário junto ao rio. Adorava. Estava aborrecido porque era um lugar muito santo, um santuário também para nós.

—Nós? -Pitt estava desconcertado—. Os muçulmanos?

—Sim. Antes que fosse —Ishaq se interrompeu. Avram o olhou com o rosto sombrio. Ishaq cravou o olhar ao longe.

—Foi meu pai quem os enterrou a todos -explicou em voz tão baixa que Pitt mal ouvia as palavras—. Recordo sua expressão durante os meses que seguiram.

Pensei que nunca o superaria. Talvez não o fez. Sonharia com isso o resto de sua vida. Piorou pouco antes de morrer. -Tomou uma profunda e trêmula baforada de ar e exalou devagar—. Minha irmã o cuidou, fez o que pôde para que sofresse o menos possível, mas não pôde evitar que voltassem os fantasmas. —Fez uma careta e a emoção lhe embargou a voz—. Falava com ela durante horas, não podia remediar, contar-lhe, Tinha sonhos terríveis.

O sangue e os corpos arrebentados, cozidos como se fossem carne, os rostos carbonizados até que não se podia discernir que tinham sido seres humanos. Eu lhe ouvia gritar… -se interrompeu.

Pitt se voltou para o Avram, mas este sacudiu a cabeça.

Esperaram em silêncio.

—Um incêndio —revelou Ishaq por fim—. Trinta e quatro mortos, conforme puderam contar nas cinzas. Ficaram apanhados dentro.

—Sinto muito -disse Pitt em voz baixa.

Tinha visto incêndios na Inglaterra; conhecia a devastação, o aroma de carne queimada que perseguia a pessoa.

Ishaq sacudiu a cabeça.

—Meu pai está morto e também minha irmã.

Avram pareceu surpreso.

—Não sabia!

Ishaq se mordeu o lábio e engoliu a saliva.

—Em Alexandria, um acidente.

—Sinto muito. —Avram sacudiu a cabeça—. Era muito bela -manifestou como se se referisse a algo que ultrapassava ao olho humano.

Ishaq abriu a boca para dizer algo, mas por um instante não teve o domínio de si mesmo para conter sua dor.

Pitt e Avram guardaram silêncio. No exterior já tinha escurecido. Através da janela aberta se viam as estrelas, muito nítidas no céu aveludado. O ar por fim era mais fresco.

Ao cabo de uns instantes, Ishaq levantou o olhar.

—Acredito que o tenente Lovat também adoeceu no incêndio —comentou, de novo com voz serena—. Pouco depois disso caiu doente. Disseram que eram febres. Parecia haver-se estendido pelo acampamento. Enviaram—no a casa. Nunca voltei a vê-lo.

—Ficaram seus amigos? -perguntou Pitt.

—Não -replicou Ishaq com suavidade—. Todos se foram, por motivos diferentes. Não sei o que foi deles. Destinaram—nos a outros lugares, suponho.

O Império britânico é muito grande. Talvez à Índia? Podem navegar até além do Suez e descer esse novo canal até a metade da terra, não?

Era uma afirmação, não uma pergunta. Não havia nenhuma nota em sua voz que implicasse dúvida.

—Sim —murmurou Pitt.

Confiava em localizar ao menos a um deles em Londres e não ter que realizar interrogatórios por telégrafo através de algum oficial.

Além disso, Ishaq tinha razão: Grã—Bretanha tinha acesso a meio mundo graças a essa obra genial produto da negociação e engenharia, o canal de Suez.

Tendo em conta a vital importância do canal na economia e o domínio da lei em todo o Império, com tudo o que isso implicava, era inconcebível que Grã—Bretanha devolvesse algum dia a completa autonomia ao Egito.

O algodão só era uma minúscula parte de um grande vigamento. Como tinha acreditado Ayesha Zakhari que podia ter êxito? O refém da dependência econômica era muito valioso para entregá—lo.

Sentiu sobre ele o peso da escuridão, como se tratasse de desfazer um nó intrincado e com cada fio que estirava só conseguisse apertá—lo mais.

—Obrigado por sua hospitalidade - respondeu Pitt, inclinando a cabeça para o Ishaq—. Tanto a comida como a conversa foram extremamente enriquecedoras. Estou em dívida com você.

Ishaq ficou satisfeito; havia algo indefinível em sua expressão, e o ângulo de seu corpo se via vagamente à moribunda luz das velas.

Permaneceram ali uns minutos mais e logo partiram, agradecendo uma vez mais.

De novo no caminho junto ao canal, em cuja superfície ondulada se refletia a luz das estrelas, era difícil ver por onde iam, e Pitt se deu conta de quão cansado estava.

Doía-lhe o corpo não só de ter permanecido tanto tempo sentado no chão, mas também pelos hematomas que lhe tinham saído depois do incidente no bazar de tapetes, e o martelava as têmporas dos golpes que lhe tinham dado a polícia.

Mais que nenhuma outra coisa, inclusive achar uma solução perfeita ao enigma da morte do Lovat que exonerasse tanto ao Ryerson como a Ayesha, queria deitar-se em um lugar brando e entregar-se a um sono profundo.

Seguiu ao Avram, guiando-se quase tanto pelo ruído de seus passos sobre a terra seca como pela vista, durante outro quilômetro e meio pelo menos, até que quase se chocou com ele quando chegaram a uma grande cabana solitária afastada da água.

Ali lhes ofereceram hospitalidade a um preço que Avram pagou, atendo-se à promessa de que Pitt contribuiria com sua parte quando voltassem para Alexandria e ao Santo Estevão.

Ao ritmo que estava gastando, Pitt ia ver-se obrigado a pedir ao Trenchard que lhe subministrasse mais recursos, e que os reclamasse ao consulado e este ao Narraway.

Na manhã seguinte a temperatura era mais fresca que a do dia anterior. O ar tinha uma luminosidade prateada longe da cidade, e entre a enorme via fluvial ao sul de Alexandria e o canal da Mahmudiyya que conduzia ao Nilo propriamente dito, os reflexos da luz de primeira hora da manhã eram de uma beleza extraordinária.

A escura silhueta dos camelos, com seu passo silencioso e oscilante, parecia um sonho e não algo real.

Nesse dia Pitt tinha previsto ir às autoridades do quartel militar onde tinha servido Lovat. depois de um café da manhã consistente em tâmaras e outras frutas, pão e um café negro espesso que chegou em uma xícara um pouco maior que um vasinho, se pôs em caminho.

Avram o acompanhou, embora nessa ocasião sua presença fosse desnecessária.

Pitt tinha o forte pressentimento de que o fazia em grande medida para não lhe dar a oportunidade de escapar sem cumprir com seus compromissos econômicos.

Embora não o tivesse expresso de forma tão insultante, velava por seu investimento.

Depois de quase uma hora de intensas discussões com tom desanimado, Pitt se achou ante um oficial magro de tez mogno que ao parecer tinha muito mau caráter e sentia aversão pelos civis curiosos.

Permaneceram em pé um ao lado do outro em um pequeno alpendre resguardado, olhando para o pátio de instrução banhado pelo sol. Avram esperava fora.

—A Brigada Especial? -disse Margason com desdém—. Uma espécie de polícia especial! Santo céu! No que se está se convertendo o mundo? Nunca pensei que Londres cairia tão baixo! —Olhou ao Pitt furioso—. Bom, o que quer? Não estou à corrente de nenhum escândalo e, se assim fosse, resolveria cara a cara com a pessoa em questão, não iria murmurando a suas costas.

Pitt estava cansado, dolorido e coberto de picadas de mosquitos. Não havia nenhuma parte de seu corpo que não lhe doesse de um modo ou outro.

—Então, se tiver a desgraça de receber instruções de capturar a um espião a suas ordens, saberei que não devo esperar nenhuma ajuda sua, senhor – disse com irritação, e viu como Margason se ruborizava de cólera—. Entretanto - prosseguiu—, estou fazendo indagações sobre um homem que foi assassinado em Londres.

Sua morte parece estar relacionada com o Egito, e o único dado que conhecemos com certeza é que serviu neste quartel, fará uns doze anos.

Seria agradável poder limpar sua reputação de qualquer difamação com que possa enfrentar-se seu advogado ante os tribunais, em lugar de simplesmente as negar às cegas, o que com muita freqüência não inspira credibilidade.

Margason grunhiu. A antipatia se assentou com mais firmeza entre ambos, mas o argumento era irrefutável, e independentemente do que sentisse pelo Pitt, defenderia a honra de seu regimento.

—Como se chamava? -perguntou.

—Edwin Lovat -respondeu Pitt.

Em seguida, sentou-se com cuidado em uma das cadeiras, como se tivesse intenção de ficar o tempo que fosse necessário para lhe surrupiar até a última palavra.

Em realidade, era uma cadeira dura e não particularmente cômoda. Se ressentiu justo nas zonas do corpo que o chão tinha deixado doloridas no dia anterior, por não falar do catre onde tinha dormido toda a noite.

—Lovat - repetiu Margason pensativo, ainda em pé—. Esteve aqui antes que eu tomasse o comando, mas verei o que posso fazer. Garrick estava no comando então e retornou.

Suponho que o achará em Londres. —Sorriu sarcástico—. Poderia haver-se economizado a viagem! Ou não lhe ocorreu olhar nos expedientes? Que Deus ajude à Brigada Especial se todos seus membros forem como você!

—Não acreditamos na declaração de um homem se não foi corroborada, coronel Margason -replicou Pitt com toda a serenidade que foi capaz—. Nem nos apoiamos unicamente em informação militar.

Assassinaram ao Lovat em circunstâncias extraordinárias e um ministro do governo está comprometido. Não podemos nos permitir passar por cima nenhuma possibilidade.

Margason voltou a resmungar e seguiu cravando os olhos no pátio descascado e muito pisoteado, rodeado de edifícios cor terra e areia.

—Não leio esse tipo de notícias nos jornais. Não tenho tempo. Há muito que fazer. —Grunhiu um pouco. O sol era abrasador fora. — Aqui há muitos descontentes.

Mais de que acreditam em Londres, sentados em suas escrivaninhas. Um incidente e poderíamos perder tudo!

—Já me dei conta - lhe deu a razão Pitt—. Ontem me vi envolvido em um incidente desagradável no bazar de tapetes. Um agente britânico teve sorte de que não o matassem.

Margason apertou os lábios.

—Tinha que acontecer. Assassinaram Gordon no Jartum, e seguimos sem havê-lo resolvido.

O Mahdi maldito morreu, mas isso não significa grande coisa. Há fanáticos por todo o país. Malditos loucos! —Tremeu-lhe ligeiramente a voz—. Matariam a todos se lhes déssemos a oportunidade.

E você veio aqui para perguntar pela reputação de um soldado que serviu em Alexandria há doze anos e a quem assassinaram em Londres.

Santo céu, não são capazes de manter à margem a um maldito ministro do governo sem ter que vir até aqui para me fazer perder o tempo com suas perguntas?

—Eu também perderia menos tempo se me falasse do Lovat - replicou Pitt—. Não há nenhum oficial que lhe recorde com mais detalhe e mais honestidade que seu expediente de serviço? A mulher acusada é alguém a quem conheceu quando esteve aqui.

—Seriamente? Ele a deixou plantada e lhe guardou rancor todos estes anos? Assombroso. Violou—a?

Margason falava com desdém, mas não parecia pessoalmente ofendido. Pitt não estava certo sequer de se o desdém ia dirigido contra Lovat ou contra sua vítima.

—É habitual que os soldados violem às mulheres do lugar? -perguntou Pitt quase com inocência—. Talvez se detivessem isso, teriam menos dificuldades em impedir que estalassem os ressentimentos.

—Olhe, insolente - disse Margason zombador, voltando-se para ele com o corpo tenso e a agilidade de um animal a ponto de saltar.

Pitt não se moveu.

—Sim? —Arqueou as sobrancelhas.

Margason se ergueu.

—Eu estava aqui naquela época, mas só era comandante. Não sei nada do Lovat além de que era um bom soldado, nada excepcional. Cortejou a uma mulher daqui, mas, conforme ouvi dizer, tudo partiu perfeitamente bem.

Só foi uma fantasia romântica de um jovem com o exótico. Ela certamente nunca teve nenhuma queixa. Reformaram—no por invalidez.

—De que tipo?

—Nem idéia -respondeu Margason—. Febres. Ninguém prestou muita atenção então. Todos esperávamos problemas. Foi pouco depois do incidente no santuário. Mais de trinta pessoas morreram no incêndio, todas muçulmanas, mas o santuário também era cristão e se exaltaram os ânimos. Temíamos que explodissem lutas religiosas.

O coronel Garrick desempenhou um papel decisivo. Sufocou-o imediatamente. Ocupou-se do enterro, da cerimônia religiosa, de tudo.

Postou em um guarda no santuário. Depois disso, a todo que surpreendesse tratando a um muçulmano com pouco respeito prendia—o.

—E houve mais incidentes? -perguntou Pitt, recordando o que havia dito Ishaq.

—Não - replicou Margason com hesitação—. Já o disse. Garrick dirigiu muito bem a situação. Mas precisou usar muita habilidade e uma forte disciplina.

Um caso de febre que se curou dificilmente ia ficar gravado na lembrança em um momento assim.

—É habitual reformar um homem por umas febres?

—Se a afecção for recorrente, é possível. Malária ou algo pelo estilo —Margason sacudiu a cabeça—. Se o desejar, pode consultar a parte médico. Não tenho tempo para procurar.

Que eu saiba, Lovat foi um bom oficial a quem enviaram a casa por motivos médicos. Foi uma perda para o exército, mas tinha muito que fazer na Inglaterra. Fale com quem quiser, mas não espalhe rumores e não nos faça perder tempo.

Pitt se levantou. Margason não ia dizer lhe nada mais e ele tampouco queria perder tempo.

Agradeceu-lhe e se valeu da autorização que lhe tinha dado para falar com outros homens.

Passou o resto do dia perguntando e escutando, e se fez uma idéia mais exata do Lovat, sobretudo graças a um primeiro sargento magro e com o rosto curtido pelo vento, a quem finalmente persuadiu para que falasse com franqueza.

Pitt teve que recorrer a suas lembranças do East End londrino, onde o primeiro sargento tinha crescido, e oferecer uma descrição, um tanto sentimental, dos moles e o lance de rio para Greenwich, mas ao final o homem se relaxou.

Passeavam devagar junto a um dos numerosos ramais do delta de um dos rios maiores da África, a suave luz cor pêssego de um entardecer, quando o soldado falou do Lovat.

—Eu pessoalmente não o suportava - disse com despreocupado desdém, seguindo com o olhar um bando de pássaros negros que destacavam contra o céu luminoso—. Mas não era mal soldado.

—Por que não lhe agradava? -perguntou Pitt intrigado.

—Porque era um hipócrita mal nascido -sentenciou o sargento—. Julgo a um homem como se comporta quando as coisas ficam feias e quando se embebeda. Dá-se conta de muitas coisas quando um homem tem a guarda baixa. —Olhou de esguelha ao Pitt para ver se o compreendia. Aparentemente, ficou satisfeito—. Eu não gosto de perder tempo com um homem que toma tão a peito sua religião.

Não me interprete mal, não sou seguidor de Maomé nem nada parecido. E sua forma de tratar às mulheres era terrível. Mas às vezes nós não o fazemos melhor. Vive e deixa viver, como digo eu.

—Não respeitava Lovat a religião do islã? -perguntou Pitt, não muito certo se isso mudava a situação. Dificilmente lhe teriam matado por essa causa em Londres.

—Pior que isso -replicou o primeiro sargento, contraindo todo o rosto, escuro como uma estátua de bronze à luz cada vez mais tênue—. Estava furioso com tudo o que conservavam porque achava que devia ser cristão. Revoltava-lhe que tivessem tomado Jerusalém. A cidade Santa, chamava—a. E todos os lugares desse tipo.

—Entretanto, apaixonou-se por uma mulher egípcia -indicou Pitt.

—OH, sim. Estou à corrente. Durante um tempo esteve louco por ela. Mas ela era cristã copta, de modo que isso solucionava o problema. —Pôs uma expressão de desgosto—. Não é que ele tivesse intenção de casar-se com ela.

Era uma dessas coisas que se fazem quando se é jovem e está em um país estrangeiro. Teria havido uma comoção em seu círculo social se houvesse voltado com uma mulher estrangeira!

—Conhecia—a você? -perguntou Pitt.

—Não diria que a "conhecia" -respondeu o primeiro sargento—. Era formosa -disse nostálgico—. Se movia como os pássaros. —Fez um gesto para outro bando de pássaros de rio que planavam através do entardecer.

—Conhecia os amigos do Lovat? Garrick e Yeats? -perguntou a seguir Pitt.

—É claro. E ao Sandeman. Todos já voltaram para casa. Reformaram—nos a todos ao mesmo tempo por invalidez. A mesma febre, suponho.

—Deixaram o exército? Todos?

O primeiro sargento deu de ombros.

—Não sei. Ouvi dizer que Yeats tinha morrido, pobre diabo. Em alguma missão militar, de modo que suponho que ficou, só o destinaram a outro lugar com um clima diferente. Eles também lhe interessam? Acredita que poderiam havê-lo matado eles? —Sacudiu a cabeça—. Não me ocorre a razão! Mesmo assim, graças a Deus é seu trabalho, não o meu.

Eu só tenho que me encarregar de que esta gente —lançou as mãos para a escura silhueta dos barracos- mantenha a ordem aqui no Egito.

—Acredita que vai ser difícil? -perguntou Pitt.

Pitt fez essa pergunta mais por dizer algo que por que esperasse que o homem soubesse, e de repente se deu conta de que lhe importava. A beleza intemporal dessa terra permaneceria com ele muito depois de que retornasse ao frenesi moderno de Londres.

Sempre desejaria ter tido tempo, e dinheiro, para ir rio acima e ver o vale dos Reis, os grandes templos e as ruínas de uma civilização que tinha governado o mundo que conhecia antes que nascesse Cristo.

Do mesmo modo, deu-se conta de quão veemente era seu desejo de que Ayesha fora inocente, e poder demonstrá—lo. Acreditava firmemente que ela tinha ido a Inglaterra para tratar de conseguir algo pela liberdade econômica de seu povo.

Não tinha tido suficiente experiência para saber que procurava uma justiça que nunca seria concedida enquanto as fábricas de algodão do Lancashire alimentassem e vestissem a um milhão de pessoas que também eram pobres, com toda a desdita e a enfermidade que trazia consigo a pobreza, mas que tinham poder político em Londres.

E, até maior que isso, a poucos quilômetros através de um deserto mais antigo que a humanidade, ocre e negrume sob as primeiras estrelas, achava-se o milagre moderno de um canal que comunicava o Mediterrâneo com o mar Vermelho e a outra metade do Império britânico.

Em pé junto ao sargento, Pitt contemplou como se apagava a última luz do dia antes de lhe agradecer e ir procurar ao Avram, para lhe anunciar que ao dia seguinte voltariam para a Alexandria, onde trataria de recompensar o de forma adequada.

 

Gracie estava sentada em um canto afastado da taverna olhando ao Tellman, que compartilhava mesa com ela.

Ele a observava com atenção, mais o que requeria o que ela dizia, e com uma agradável sensação ao mesmo tempo reconfortante e coibida, ela compreendeu que ele a teria olhado desse modo embora tivesse estado dizendo tolices.

Era um fato com o qual ia ter que enfrentar cedo ou tarde. Tellman tinha demonstrado por ela toda classe de sentimentos, da inicial falta de interesse, até irritação como aceitava ser uma criada em casa de outros, totalmente dependente deles até para ter um teto.

Viu-se obrigada a sentir a contragosto respeito por sua inteligência, quando a jovem ajudou ao Pitt em algumas de suas investigações, e tinha demonstrado mais claramente do que era consciente, lutando com todas suas forças por não admitir a ninguém, e menos ainda a si mesmo, que estava apaixonado por ela. No presente já não fingia que não o estava; ao menos não todo o tempo.

Tinha-a beijado uma vez, com uma doce e feroz paixão que ela ainda era capaz de recordar, e se fechava os olhos e se isolava do resto do mundo, podia voltar a senti—lo como se tivesse ocorrido fazia um momento.

Quando se surpreendeu a si mesmo fazendo—o, só em uma ventosa cale e sorrindo, compreendeu que tinha chegado o momento de reconhecer que ela também estava apaixonada por ele.

Não é que estivesse preparada para admitir ante ele algo semelhante! Mas era importante saber ao menos o que queria, mesmo que não soubesse quando.

Gracie tinha estado lhe explicando o que tinha averiguado Lady Vespasia em relação à casa dos Garrick, e que se supunha que Stephen Garrick tinha viajado ao sul da França, por motivos de saúde.

—Mas teve tempo de sobra para escrever a Pontua, não? -concluiu—. De fato, poderia lhe haver deixado um recado antes de ir-se! Não custa tanto, e certamente o senhor Garrick não teria se incomodado.

Tellman franziu o sobrecenho. Todo o assunto de ter que pedir permissão a outros para atender compromissos familiares era um tema delicado do qual já tinham discutido muitas vezes.

—Não deveria! -exclamou ele com emoção—. Mas não pode sabê—lo. —Olhou—a intensamente, como se os murmúrios de vozes a seu redor não fossem reais—. Mas se estiver no sul da França, deve ter levado consigo um pouco de bagagem, e ou tomou um coche de aluguel ou foi em sua própria calesa, ao menos até a estação.

Terá ficado registrado o navio no qual cruzaram o Canal. Asseguraremo-nos de que Martin Garvie foi com ele. Simplesmente, não sei por que não tem escrito.

—Talvez poderíamos pedir um endereço ao senhor Garrick, que continua estando em Londres -propôs Gracie—. É justo que sua família queira saber onde lhe escrever.

Tellman apertou os lábios.

—É justo - concordou. — Mas já o tentamos. Tentou-o Pontua pessoalmente e o tentou você. Verei o que posso averiguar sobre sua partida.

Ela o olhou fixamente. Conhecia cada expressão de seu rosto; poderia havê-lo desenhado com os olhos fechados. Sabia que estava preocupado e também que tratava de dissimulá—lo, para protegê—la, e em parte porque tinha dúvidas.

—Acha que aconteceu algo, não é? -perguntou ela em voz baixa—. A pessoa não mente sem um motivo.

Tellman se mostrou prudente e amável.

—Não sei. Pode tomar a tarde livre depois de amanhã?

—Se for necessário. por que?

—Dir-lhe-ei o que averigüei. Pode ser que me leve um tempo. Preciso conseguir testemunhas, e comprovar os trens, ferries e demais.

—É claro. A senhora Pitt nunca se interpõe em uma investigação! Estarei aqui. Só me diga a que hora.

—O que lhe parece cedo? Poderíamos ir a um teatro de variedades e ver algo.

No rosto do Tellman se traduzia entusiasmo, mas seu olhar sombrio delatava que lhe importava que ela aceitasse, e que não dava por assentado nada.

Tratava-se de uma entrevista, algo que fazer juntos por gosto e não só como parte de um caso.

Era a primeira vez que lhe propunha tal coisa e os dois eram muito conscientes disso.

Ela se surpreendeu ruborizando-se. Sentiu o calor em suas faces. Queria comportar-se com despreocupação, como se não significasse nada especial, mas não o conseguiu. Voltava a sentir-se desconfortável.

—Sim - disse, tratando de adotar um tom natural e obtendo só que tivesse soluço. Ia ter que tomar uma importante decisão logo e não estava preparada para isso. Fazia séculos que sabia o que sentia ele. Já deveria ter decidido algo—. Sim, eu adoro a música.

O que usaria? Teria que ser o bastante bonito. Queria que ele a encontrasse bonita, mas ao mesmo tempo estava muito assustada! E se ele se emocionava e ela não sabia como levar a situação? Talvez deveria haver dito que não, deixá—lo em uma relação profissional.

—Estupendo.

Não lhe deu tempo para mudar de opinião. Tinha visto a indecisão em seu rosto?

—Bom... -começou a dizer ela.

—Às sete -continuou ele rapidamente—. Comeremos algo e lhe direi o que averigüei. Depois iremos ao teatro de variedades.

Tellman se levantou, como se ele também estivesse muito coibido e queria fugir antes de fazer algo que o fizesse sentir ainda mais néscio.

Gracie também ficou em pé, golpeando-se contra a mesa. Graças a Deus não havia nada que derramar; só fez tilintar um pouco os copos.

Ele esperou que ela passasse por seu lado e a seguiu até a rua. Fora era mais difícil falar que na taverna. Uma carroça carregada de barris girava torpemente em marcha ré para introduzir-se no pátio de uma taverna, enquanto o condutor segurava o cavalo pelas bridas e gritava ordens.

Outro homem empurrava um carrinho com meia dúzia de barris através dos paralelepípedos, fazendo—os soar a cada passo.

As carruagens passavam estralando pela rua no meio do ruído de cascos e o tinido de arnês.

Gracie se alegrou do estrondo e distração, e ao olhar fugazmente ao Tellman no rosto, pareceu-lhe que ele também o fazia.

Acovardar-se-ia e não diria nada em séculos? Isso daria a ela mais tempo para pensar. Sobre o que? Dir-lhe-ia que sim. Era só como dizer o que ainda tinha que considerar. A mudança a assustava.

Estava com os Pitt desde os treze anos. Não podia deixá—los!

—Sim! -concordou ela, assentindo—. Estarei aqui às sete depois de amanhã. Você averigua o que foi feito de Martin Garvie. Adeus.

Sem esperar que ele dissesse algo mais, Gracie sorriu radiante e virou sobre seus calcanhares.

Duas tardes depois se acharam na mesma mesa do canto da taverna. Tellman ia vestido com um traje escuro simples, e o colarinho de sua camisa branca parecia ainda mais rígido do habitual.

Gracie tinha posto seu melhor vestido azul e um chapéu, e se tinha penteado com o cabelo menos esticado que de costume, mas essas eram todas as concessões que estava disposta a fazer a uma ocasião especial.

Entretanto, mal viu o rosto do Tellman e sua preocupação por seu aspecto se desvaneceu.

—Sim? -perguntou com obrigação assim que se sentaram e pediram o jantar—. O que se passa, Samuel?

A jovem nem sequer se deu conta de que o tinha chamado por seu nome de batismo.

Ele se inclinou para diante.

—Muitas pessoas afirmam ter visto o Stephen Garrick sair de sua casa, e me descreveram o homem que o acompanhava, loiro, de uns vinte anos, com um rosto agradável.

Pelo que viram, era o criado, quase certo que o valete, mas só levavam duas malas pequenas, não havia baús nem caixas.

O senhor Garrick estava doente. Teve que ser tirado da casa quase nas costas e foram precisos dois homens para o ajudar a subir à carruagem, mas era sua própria carruagem, não uma ambulância, e o conduzia o cocheiro da casa.

—Quem lhe disse? -perguntou ela imediatamente.

—O faroleiro - replicou ele—. Começava a trabalhar.

—Às seis da tarde? —Gracie estava surpreendida—. Não é uma hora um pouco estranha para empreender uma viagem a França? Tem que ver com as marés ou algo assim? De onde zarpava o navio? Dos moles de Londres?

—Da manhã - corrigiu ele—. Quando começou a apagar os lampiões, não acendê—los. Mas isso é o estranho.

Comprovei o movimento dos moles de Londres esse dia, e não zarpou nenhum navio para a França, nem com segurança, nenhum senhor Garrick, nem só nem acompanhado.

Chegaram seus pratos, um jantar muito saboroso consistente em caracóis com pão e manteiga, e bolo de sobremesa.

Tellman agradeceu à criada e afirmou que tudo estava perfeito. Gracie pegou as pinças para arrancar a carne da concha e as segurou em alto.

—Talvez saíssem de Dover. Há pessoas que o fazem, não?

—Sim. Mas fui à estação de trens, e o moço que tinha estado na plataforma do trem ao Dover disse que não tinha visto ninguém que respondesse a essas descrições esse dia.

Teria recordado a um inválido, mas ninguém tinha necessitado ajuda exceto com a bagagem pesada.

A jovem estava perplexa.

—Então, não saíram de Londres nem do Dover? Que mais opções há?

—Bom, poderiam ter ido a qualquer outro lugar, como outro país que não fosse a França, ou a qualquer parte na Inglaterra, ou Ardia em realidade - replicou ele—. Mas se Stephen Garrick tinha uma saúde precária e o clima inglês é muito rigoroso para ele, duvido que fora passar o inverno a Escócia!

Gracie não saía de seu assombro.

—Mas Lady Vespasia deixou muito claro que isso era o que havia dito o senhor Ferdinand Garrick - argüiu—. E por que ia mentir ele? A pessoa rica viaja muitas vezes por motivos de saúde.

—Não sei - admitiu Tellman—. Não tem sentido. Mas em qualquer lugar que fossem, não subiram a nenhum navio para cruzar a França. —Estava muito sério—. Tem motivos para estar preocupada, Gracie. Quando a pessoa mente e não vê que razões podem ter para fazê-lo, costuma significar que a causa é ainda pior do que acreditava.

Tellman guardou silêncio um momento, carrancudo.

—O que? -apressou-o ela.

Ele levantou a vista.

—Se não pegaram um trem nem um navio, por que se foram a essa hora da manhã? Devem ter levantado às cinco, quando ainda era de noite.

Invadiu em Gracie uma sensação de peso.

—Porque não queriam que ninguém os visse - respondeu.

De repente o assunto de quem amava a quem, ou o que dizer ou fazer a respeito, tinha deixado de ser urgente. Olhou-o sem nenhum dissímulo—. Samuel, temos que averiguar, porque se alguém como o velho senhor Garrick está mentindo, inclusive a seus próprios criados, e Pontua não sabe onde está seu irmão, a resposta é que aconteceu algo.

Ele não a contradisse.

—O problema é que não se cometeu nenhum delito, que nós saibamos -respondeu sombrio—.

E o senhor Pitt está no Egito, de modo que não podemos lhe pedir ajuda sequer.

—Então teremos que fazê-lo nós sós -disse ela em voz muito baixa—. Isto eu não gosto, Samuel. Tomara não tivéssemos que fazê-lo.

Tellman estendeu uma mão sem pensar e a pôs com suavidade sobre a dela, cobrindo—a totalmente.

—Eu também o preferiria, mas não temos escolha. Não ficaríamos satisfeitos se nos esquecêssemos disso. Amanhã voltaremos a falar com Pontua e lhe pediremos que nos diga tudo o que lhe disse Martin alguma vez sobre os Garrick. Temos que saber mais. Tal como estão as coisas, não temos nenhuma pista para seguir.

—Irei encontrar-me com ela quando sair a fazer seus recados, por volta das nove e meia -respondeu ela assentindo—. Mas nunca me disse o que lhe explicava Martin, de modo que é possível que não saiba nada dos Garrick. O que faremos logo?

—Voltaremos a falar com a criada da casa dos Garrick que o conhecia tão bem -replicou Tellman—. Mas isso será mais difícil. Se está ocorrendo algo, ela não poderá falar sem disfarces enquanto trabalha ali, e temerá perder seu emprego. —Fez um grande esforço por ocultar seus sentimentos, sem êxito—. Quer bolo de maçã?-perguntou.

—Sim, por favor.

O peixe era muito saboroso, mas não enchia muito, e não havia nada mais delicioso que um bom bolo de maçã com a massa rangente e creme bastante espesso para fincar nele a colher.

Quando terminaram, Tellman pagou e saíram ao frescor da tarde. Caminharam um ao lado do outro pela abarrotada calçada durante quase um quilômetro até a entrada do teatro de variedades.

Havia uma vintena de pessoas, muito parecidas com eles, alguns vestidos mais vistosamente, mas a maioria de braços dados, os homens pavoneando-se um pouco, as mulheres rindo-se e fazendo frufrú com suas saias. Apertavam-se e empurravam emocionados para entrar.

Um homem com um realejo tocou um ar popular e algumas pessoas cantaram com ele. detiveram-se vários carruagens de aluguel e se incorporou mais pessoas à multidão.

Os vendedores de ruas apregoavam doces, bebidas, bolos de carne, flores e bagatelas.

Gracie teve que se pendurar ao braço do Tellman para impedir que a levasse a massa de corpos que empurravam sem muito olhar.

O ruído de vozes elevadas pela emoção era terrível e a jovem recebia constantemente golpes e pisões.

Por fim entraram. Tellman tinha comprado entradas nas primeiras filas. Foram sentar se onde pudessem ver e ouvir bem. Ela nunca o tinha feito antes. No par de ocasiões que tinha estado ali ficara ao fundo, onde não se via nada. Isso era fantástico.

Deveria estar pensando no Martin Garvie e na pobre Pontua, e em como demônios iriam averiguar o que tinha ocorrido, mesmo que fosse muito tarde para ajudar.

Mas as luzes e a emoção que se respirava no ambiente, e a certeza que se instalara agradavelmente em seu interior de que essa não ia ser uma noite mais, a não ser o princípio de algo permanente, afastou temporariamente de sua mente todo o resto.

Começou a música. O mestre de cerimônias fez umas assombrosas apresentações com trabalenguas que foram recebidas com exclamações e gargalhadas do público.

Levantou-se o pano de fundo, deixando ver um palco vazio. Uma jovem com um vestido de lantejoulas apareceu sob o foco de luz.

Cantou canções joviais e bastante atrevidas, e apesar de saber perfeitamente bem o que significavam, Gracie se surpreendeu cantando com o público. Eram alegres, cheias de calor.

Seguiu a jovem um cômico vestido com um traje folgado e com um companheiro que devia ser o homem mais alto e mais magro do mundo.

Ao público lhe pareceu risível, e quase não pôde parar de rir quando saiu o contorcionista, depois o histrião, os acrobatas, um mago e por último as bailarinas.

Todos eram bons, mas o que mais gostou Gracie foi a música, canções tristes ou alegres, sós ou duetos, e o melhor de tudo quando todos cantavam os estribilhos.

Mal se lembrou do mundo fora desse círculo de feitiço temporário até que esteve na porta de serviço do Keppel Street e se voltou para agradecer a noite ao Tellman e lhe dar boa noite.

Propôs-se a mostrar certa dignidade e dizer que tinha sido agradável, sem deixar que a ele lhe subisse à cabeça, como se a tivesse levado a alguma parte onde ela nunca tinha estado.

Era uma tolice deixar que um homem crescesse e acreditasse que era muito esperto ou que estava em dívida com ele.

Mas se esqueceu de seus bons propósitos e todo seu entusiasmo se traduziu em sua voz quando lhe disse:

—Foi maravilhoso! Nunca tinha visto... -se interrompeu. Era muito tarde já para ser sutil. Respirou fundo. Viu à luz do lampião a satisfação no rosto do Tellman e de repente esteve totalmente segura do muito que significava isso para ele.

Era tão vulnerável que ela só queria que soubesse o feliz que se sentia. Inclinou-se muito rapidamente para ele e o beijou na face—. Obrigada, Samuel. Foi à melhor noite de minha vida.

Antes que pudesse retroceder, ele a rodeou com um braço e voltou ligeiramente à cabeça para beijá—la nos lábios. Foi muito delicado, mas não tinha intenção de soltá—la até estar preparado para fazê-lo.

Ela tratou de separar-se um pouco, só para ver se podia, e sentiu uma onda de prazer ao comprovar que era impossível.

Depois ele a soltou e ela se ergueu, ofegando. Quis dizer algo engenhoso, ou ligeiramente gracioso, mas não lhe ocorreu nada. Não era momento para palavras vãs.

—Boa noite - disse sem fôlego,

—Boa noite, Gracie. —A voz do Tellman soou ligeiramente rouca, como se também tivesse sido pego despreparado.

Ela se voltou e procurou com a mão a maçaneta da porta, virou-a e entrou, notando como lhe palpitava com força o coração, e sabendo que sorria como se lhe houvessem dito a palavra mais graciosa e maravilhosa do mundo.

Na manhã seguinte Gracie achou Pontua fazendo seus recados, e voltou com ela à cozinha do Keppel Street, onde Tellman estava sentado à mesa em frente a Charlotte, falando já do assunto.

Só por um instante, muito breve para ser percebido, seus olhares se cruzaram e ela viu nos lábios dele um meio sorriso, um gesto afetuoso.

Depois o sorriso se apagou e ele se concentrou no tema que os ocupava.

—Sente-se, Pontua — convidou Charlotte com suavidade, indicando a quarta cadeira da mesa.

Gracie ocupou a terceira. O bule já estava na mesa e não foi necessário fazer cumprimentos.

—Sabem algo? -perguntou Pontua ansiosa—. Gracie não quis me dizer nada.

—Não sabemos onde está -respondeu Charlotte sem rodeios. Não queria que se aferrasse a falsas esperanças; era mais cruel à longo prazo—. Mas averiguamos mais coisas.

Uma amiga minha falou com o senhor Ferdinand Garrick, e este lhe disse que Stephen se partiu ao sul da França, por motivos de saúde, e tinha levado seu valete consigo para que cuidasse dele enquanto estava fora. —Viu como o rosto de Pontua se iluminava e sentiu uma pontada de remorsos—. Mas o senhor Tellman tratou que comprovar se era certo e falou com alguém que tem certeza de ter visto Stephen Garrick e Martin sair da casa do Torrington Square.

Mas não há segurança de que tomassem um navio a França, de Londres ou Dover. Tampouco localizou o trem que pegaram. De modo que parece que Martin não foi despedido, mas não sabemos onde está, ou por que não lhe escreveu para explicar sua situação.

Pontua ficou olhando, tratando de compreender o que tudo isso significava.

—Então, aonde foram? Se não viajaram para a França, por que partiram?

—Não sabemos, mas nos propomos averiguar -respondeu Charlotte—. Que mais pode nos dizer sobre Martin, ou sobre o senhor Stephen? —Viu o desconcerto total no rosto de Pontua e desejou poder ser mais clara, mas nem ela mesma sabia aonde queria ir parar—. Tenta recordar tudo o que Martin lhe disse em alguma ocasião sobre a família Garrick, em particular sobre o Stephen. Deve ter lhe falado de sua vida na casa.

Pontua parecia à beira das lágrimas. Lutava por sossegar o medo e a onda de solidão que a tinha invadido. Martin era toda a família que tinha, representava toda a vida que conseguia recordar. Mal conservava lembranças de seus pais.

Gracie se tornou para diante, sem prestar atenção à xícara de chá que Tellman lhe tinha servido.

—Não é momento para ser discreta! -apressou—. Todos falamos com nossa família. Ele confiava em ti, não? Deve ter lhe explicado algo sobre a vida na casa. Era boa a comida? Tinha mau gênio a cozinheira? Era o mordomo um amargurado? Ou a chefa, a governanta?

Pontua relaxou um pouco enquanto um débil sorriso aparecia em seus lábios.

—A governanta não -replicou—. E o mordomo era incapaz de dizer algo a seu senhor, mas era muito cortante com todos outros, ao menos isso é o que me disse Martin.

Dava ordens a todos menos ao Martin, devido ao senhor Stephen. Martin era o único que sabia cuidar dele, e ninguém queria fazê-lo, apesar de suas pretensões de superioridade moral.

—Por que não? -perguntou Charlotte—. Era um homem difícil?

—Ficava assim quando tomava essa coisa - disse Pontua em voz muito baixa—. Mas Martin nunca me perdoaria se soubesse que lhes disse isso! Nunca terá que explicar a ninguém o que acontece nos aposentos de seus senhores ou nunca voltará a trabalhar.

Acabará no arroio, porque ninguém mais a quererá em sua casa.

E pior que isso é que está traindo, e não há nada pior que um traidor.

Pontua falou em voz baixa e rouca, como se até expressá—lo com palavras a poluísse.

—O que é essa coisa? -perguntou Charlotte, com um tom tão despreocupado que poderia ter estado falando de papa de aveia.

—Não sei -respondeu Pontua com tanta franqueza que Charlotte teve que acreditar nela.

Tellman deixou a xícara.

—Tinha ido Martin antes de férias com o senhor Stephen? A qualquer lugar.

Pontua sacudiu a cabeça.

—Que eu saiba não. Teria lhes dito.

—Tinha amigos? -insistiu Tellman—. Que fazia Stephen por prazer? O que gostava? Da música, das mulheres, dos esportes, o que?

—Não sei! -exclamou ela desesperada—. Era um homem desgraçado! Martin dizia que não desfrutava com nada. Dormia mal, tinha uns pesadelos espantosos. Acredito que padecia de uma enfermidade terrível. —Baixou tanto a voz que com muita dificuldade a ouviam—. Martin me disse que ia procurar um sacerdote para ele, um que atendia especialmente aos soldados.

—Um sacerdote? -disse Tellman surpreso. Olhou ao Gracie e ao Charlotte, e de novo a Pontua—. Sabe se o senhor Garrick era religioso?

Pontua o pensou durante uns momentos. —Eu suponho que sim - manifestou devagar—. Seu pai é... Disse-me isso Martin. Leva a casa como se fora um clérigo. Os criados rezam juntos pela manhã e de noite. E benzem a mesa antes de comer. Claro que a maioria o fazem, é claro.

"Mas havia outras coisas, como o exercício e a água fria, e ser exageradamente limpo e pontual em tudo.

Martin me contou como se colocavam todos em fileira pela manhã antes de tomar o café da manhã e que o mordomo os fazia rezar pela rainha, o Império e seu dever com Deus, e voltava a fazê-lo antes que pudesse deitar-se alguém.

De modo que suponho que o senhor Stephen também era religioso. Não podia evitá—lo.

—Então, por que não falava com seu próprio sacerdote? -perguntou Charlotte, não a Pontua em particular, mas a todos em geral—. Iriam à missa, não?

—Oh, sim - respondeu Pontua com segurança. — Todo domingo, como um relógio. Todos os que viviam na casa.

A cozinheira deixava frios cortados para almoçar e esquentava rapidamente a verdura quando voltava. O senhor Garrick era muito estrito com isso.

—Assim, por que Martin queria que um sacerdote especial atendesse ao Stephen?-perguntou Charlotte pensativa. Pontua sacudiu a cabeça.

—Não sei, mas me falou disso. É alguém que o senhor Stephen conheceu faz muito tempo. Trabalha com soldados que estão passando um mau momento e se deram à bebida, ao ópio e coisas assim. —estremeceu ligeiramente—.Está em Seven Dials, que é um bairro bastante perigoso.

Dormem nos portais, transidos de frio e famintos, e quase desejando estar mortos, pobrezinhos. Essa não é forma de que acabe um soldado da rainha.

Ninguém lhe respondeu em seguida. Gracie olhou ao Charlotte e viu como o rosto lhe inundava de compaixão e confusão, depois se voltou para o Tellman e ficou desconcertada ao notar pelo brilho de seus olhos que lhe tinha ocorrido algo.

—No que pensa? -quis saber.

Tellman se voltou para Pontua.

—Martin conseguiu falar com esse homem? -perguntou.

—Sim. Disse-me isso. Por que? Acha que poderia saber o que aconteceu ao Martin? —A esperança em sua voz era evidente.

—Poderia saber algo. —Tellman tratou de ser cauteloso para não decepcioná—la—. Recorda se disse seu nome?

—Sim —Pontua contraiu o rosto com o esforço—. Sand… não sei o que, Sandy...

Tellman olhou primeiro ao Gracie e depois a Pontua.

—Sandeman?

Pontua abriu muito os olhos.

—Sim! Isso. Conhece—o?

—Ouvi falar dele.

Então Tellman olhou para Charlotte.

—Sim -assentiu ela antes de que lhe perguntasse—. Deveríamos tentar encontrá—lo. O que lhe disse Martin poderia ser importante. —mordeu o lábio—. Além disso não temos nada.

—Pode ser que não seja tão fácil —advertiu Tellman—. Poderia nos levar um tempo. Ainda não temos provas de que tenha havido um assassinato, assim...

—Eu o buscarei - interrompeu Charlotte.

—No Seven Dials? —Tellman sacudiu a cabeça—. Não tem nem idéia de como é aquilo! É um dos piores bairros...

—Irei de dia - se apressou a dizer ela—. E porei minha roupa mais velha, me acredite, parecerei uma mais.

Haverá muitas mulheres pelas ruas entre as oito da manhã e às seis da tarde. E estarei procurando um padre.

Devem fazer o mesmo outras mulheres com parentes que foram soldados.

O olhar do Tellman se deslocou dela ao Gracie, Suas emoções contraditórias se refletiam com surpreendente clareza em seu rosto.

Charlotte sorriu.

—Irei eu -disse com decisão—. Se o achar, tenho mais possibilidades de averiguar algo sobre o Martin, se foi realmente de parte do Stephen Garrick.

Sairei para ali agora mesmo. —voltou-se para Pontua—. Você volte para suas obrigações. Não pode se permitir que sua senhora a despeça, por justificada que esteja sua ausência.

Olhou ao Tellman—. Obrigado por tudo o que fez. Sei que lhe levou muito tempo.

Tirou importância, mas não tinha facilidade para expressar-se nem sequer para pensar as palavras e nem digamos para dizer a ela por que era tão importante para ele.

Charlotte se levantou e outros o interpretaram como lhes dando permissão para ir-se.

Charlotte percorreu as ruas do bairro do Seven Dials a partir do meio—dia.

Pôs uma saia muito velha, que rasgou sem querer e tratou de cerzir com pouco êxito.

Em lugar de uma jaqueta sobre a blusa simples pôs um xale, que era mais de acordo com o que levariam as demais mulheres que faziam a compra ou trabalhavam nesse bairro.

Mesmo assim, estava claramente desconjurada. A pobreza tinha um fedor muito particular. Charlotte acreditou que o conhecia, mas tinha esquecido como as pessoas se sentavam nas calçadas, se encolhiam nos portais ou permanecia em pé com olhar triste e impotente ao redor de montões de roupa puída ou botas, em espera de que alguém regateasse um preço e talvez partisse sem nada.

Pelo centro da rua corria a boca—de—lobo aberta, em cujo leve pendente mal havia movimento.

Em todas partes havia imundície humana viciando o ar porque havia pouca água até para beber, e não havia nem sabão, nem calor que combatesse a umidade, nem nada que aplacasse a fome e resolvesse a falta de intimidade.

Com cautela, começou a perguntar pelo sacerdote que atendia aos soldados. Teve que se encher de considerável determinação para aproximar-se de alguém sequer e falar. Sua dicção delatava que não era daí, mas não tinha modo de ocultá-la.

Imitar sua forma de falar teria sido zombar deles e a teria delatado como desonesta até antes de fazer perguntas, para não falar de receber uma resposta.

Quão único obteve o primeiro dia foi descartar certas possibilidades. Até pela tarde do segundo dia não teve êxito por fim, e este chegou sem prévio aviso.

Estava no Dudley Street, tratando de abrir passagem através dos sapatos de segunda mão não só aglomerados nos paralelepípedos rachados da calçada, mas também esparramados pelo meio-fio.

Junto a eles havia crianças sentadas sem que ninguém as olhasse, algumas chorando, muitas só observando meio distraídas às pessoas que passavam caminhando com dificuldade a seu lado.

O homem se aproximava dela, movendo-se com soltura como se estivesse acostumado à agitação do bairro.

Tinha um aspecto muito comum, aparentava quarenta e poucos anos, e parecia magro sob seu casaco puído. Tinha a cabeça descoberta e seu cabelo castanho necessitava urgentemente um corte de cabelo.

Charlotte se deteve para deixá—lo passar. Via-se um propósito em suas grandes passadas e ela não queria ser nenhum obstáculo em seu caminho.

Com grande surpresa, viu que ele se detinha.

—Ouvi dizer que me está procurando. —Tinha uma voz suave e bem educada—. Me chamo Morgan Sandeman. Trabalho aqui com todo aquele que me necessita, mas sobretudo com soldados.

—O senhor Sandeman?

Charlotte ergueu a voz mais do que tinha sido sua intenção, como se fosse realmente uma esposa desesperada em busca de um marido perdido de quem ele podia conhecer seu paradeiro.

—Sim. No que posso ajudá—la?

Sandeman ficou a seu lado entre os montões de sapatos. Não tinha sentido andar-se com rodeios e talvez não houvesse tempo a perder.

—Estou procurando a alguém que desapareceu - respondeu ela—. Acredito que poderia ter falado com você pouco antes da última vez que o viram. Pode me dedicar uns minutos, por favor?

—É claro. — Estendeu-lhe uma mão—. Se quer me acompanhar, podemos ir a meu escritório.

Receio que não tenho igreja, é mais uma velha sala paroquial, mas serve.

—Sim, sim, eu adoraria - manifestou ela sem vacilar.

Ele pôs-se a andar sem dizer nada mais e ela o seguiu pelos paralelepípedos entre a gente silenciosa e, depois de dobrar uma esquina, ao longo de um beco que desembocava em uma pequena praça.

Os edifícios, altos e estreitos, de quatro ou cinco andares, apoiavam-se uns contra outros rangendo na umidade, e o aroma acre e ao mesmo tempo adocicado da madeira podre impregnava tudo, irritando as gargantas.

Não se ouvia nenhum ruído nítido e, entretanto, não havia silêncio.

Pela pedra, brincavam de correr ratos, gotejava água, voava e se formava redemoinhos o lixo no vento ligeiro, curvava-se a madeira.

—É ali.

Sandeman indicou uma porta e se adiantou.

Estava coberta de manchas de umidade e se abriu assim que a tocou. No interior havia um estreito vestíbulo e, ao fundo, uma sala mais ampla em que ardia um pequeno fogo em uma grande lareira aberta.

Frente a ela havia meia dúzia de pessoas sentadas no chão, apoiadas umas contra outras, mas que não falavam entre si. Charlotte demorou uns minutos em dar-se conta de que estavam inconscientes ou adormecidos.

Sandeman levou um dedo aos lábios para lhe rogar silencio e cruzou quase sem fazer ruído o chão de pedra até uma mesa no canto da direita onde havia duas cadeiras.

Ela o seguiu e se sentou quando ele a convidou a fazê-lo.

—Sinto muito - se desculpou ele—. Não tenho nada que lhe oferecer, e nenhum lugar melhor que este - disse sorrindo, como se não se envergonhasse disso. Dizia—o mais por ela que por ele. Tinha o rosto gasto e em suas faces afundadas se viam os rastros da fome—. A quem está procurando? -perguntou—. Se não me é possível lhe revelar onde está, ao menos posso dizer a ele que você perguntou, e talvez ele fique em contato com você.

Compreenderá que não posso repetir o que me conta de forma confidencial. Algumas vezes quando um homem...

Sandeman vacilou, observando—a intensamente, talvez tratando de averiguar algo do homem que ela procurava a partir das emoções que refletia.

Charlotte se sentiu uma farsante ao imaginar às mulheres desesperadas, esposas, mães ou irmãs, que tinham ido a ele para achar a homens que tinham amado e perdido em experiências que estes não eram capazes de compartilhar com elas, ou cujas cargas não se viam com forças de levar sem refugiar-se na bebida ou ópio.

Tinha que ser honesta com ele.

—Não é meu parente, mas o irmão de uma jovem que conheço. Desapareceu e ela está muito angustiada para buscá—lo por si mesma; além disso, não dispõe de tempo.

Poderia perder seu emprego e não lhe seria fácil conseguir outro. A expressão de preocupação dele não se alterou.

—De quem se trata?

Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu de par em par, ricocheteou contra a parede e alcançou à pessoa que acabava de entrar nas costas.

Golpeou—o com tanta força que perdeu seu precário equilíbrio e se desabou no chão, onde ficou deitado como um montinho de roupa puída.

Sandeman olhou para Charlotte muito fugazmente para lhe fazer qualquer comentário, depois se levantou e se aproximou da porta.

Agachou-se, pôs as mãos debaixo do homem e, com considerável esforço, levantou—o. Saltava à vista que estava bêbado.

Aparentava uns cinqüenta e cinco anos, mas tinha as faces afundadas, o olhar extraviado e uma barba de vários dias.

Levava o cabelo emaranhado e a imundície que cobria sua roupa podia cheirar-se até de onde estava Charlotte. Sandeman o olhou exasperado.

—Entre, Herbert. Venha sentar-se. Está empapado! —Caí —balbuciou Herbert, arrastando os pés enquanto caminhava atrás do Sandeman.

—Na boca—de—lobo, a julgar por seu aspecto -observou Sandeman com ironia.

E o aroma, pensou Charlotte. Sentiu desejos de afastar-se, mas a dignidade com que Sandeman falava com homem a fez envergonhar-se disso.

Herbert não respondeu, mas deixou que o acompanhasse ao banco junto ao fogo e se sentou pesadamente nele como se estivesse exausto. Nenhum dos que já estavam ali pareceu reparar o mínimo nele.

Sandeman se aproximou de um armário que havia contra a parede. Tirou uma chave do chaveiro que lhe pendia do cinturão e abriu a porta. Procurou uns minutos, depois tirou uma grande manta cinza, áspera e tosca, mas que sem dúvida abrigava.

Charlotte o observava com curiosidade. Não bastava para fazer as vezes de cama, e o homem não estava doente, no sentido de que pudesse lhe servir de algo descansar.

Sandeman fechou o armário com chave e voltou junto ao Herbert com a manta.

—Tire a roupa molhada —ordenou—, e se envolva com isto para se esquentar.

Herbert olhou para Charlotte.

—Vai virar-se -prometeu Sandeman.

Disse-o bastante alto para que Charlotte o ouvisse e ela obedeceu, virando a cadeira para olhar em sentido contrário.

Depois não o viu levantar-se, mas ouviu o frufru da roupa e o golpe surdo das roupas molhadas ao cair pesadamente ao chão.

—Dar-lhe-ei um pouco de sopa quente e pão -continuou Sandeman—. Lhe assentará bem. —Não se incomodou em dizer ao homem que deixasse de beber porque o álcool lhe estava envenenando. Certamente já o havia dito tudo e não tinha servido de nada—. Lavarei a sua roupa. Mas terá que esperar aqui enquanto seca,

Charlotte ouviu pés que se aproximavam até deter-se justo detrás dela.

—Já pode voltar-se —sussurrou. — Receio que tenho coisas a fazer, mas posso falar com você enquanto trabalho.

—Quer que eu vá a procurar a sopa e o pão? —ofereceu ela.

O fedor da roupa lhe revolvia o estômago, mas tentou que não se refletisse em seu rosto.

—Obrigado —aceitou Sandeman—. Há uma espécie de copa por aí. —Assinalou uma porta à esquerda da lareira—. Falaremos enquanto lavo isto. Estaremos sós.

Voltou a pegar a roupa e conduziu Charlotte a um pequeno cômodo de pedra onde sobre um enorme fogão havia água fervendo em dois caldeirões, uma panela de sopa que fervia e várias panelas velhas cheias de água quente, certamente prontas para lavar roupa quando fosse necessário.

Uma tina de estanho sobre uma mesa auxiliar servia de pia, e havia baldes de água fria trazidos da bomba mais próxima, a um par de ruas de distância.

Charlotte achou o pão e uma faca, e cortou com cuidado duas fatias bastante finas. Não foi difícil porque o pão estava rançoso. Procurou algo para passar, mas não havia manteiga.

Talvez com a sopa não importasse. Qualquer alimento serviria para amenizar os efeitos do álcool.

Levantou a tampa da panela e viu uma sopa de ervilhas quase tão espessa como papa de aveia e em que apareciam de vez em quando borbulhas. Em um banco havia terrinas, assim Charlotte pegou uma e a encheu com a concha de sopa.

Com o pão em uma mão e a terrina com uma colher na outra, coberta com um trapo, voltou para a sala e se aproximou do Herbert.

Deteve-se frente a ele e o homem levantou a vista para ela. Charlotte percebeu em seu rosto o instinto de ficar em pé, a velha disciplina demorava para perder-se. Tinha sido soldado uma vez, antes de que a dor ou o desespero o destruíssem. Mas ao mesmo tempo era profundamente consciente do fato de que só levava uma manta em cima, e que não a tinha o bastante firmemente agarrada para proteger sua decência.

Já era bastante terrível a nudez de sua situação sem necessidade de pôr ao descoberto também seu corpo.

—Por favor, não se levante -se apressou a dizer ela, como se o homem já quase o tivesse feito—. Deve segurar a sopa com cuidado. Está muito quente. Já necessita usar as duas mãos. Por favor, tome cuidado em não queimar-se.

—Obrigado, senhora —murmurou ele, relaxando-se de novo e agarrando a terrina de suas mãos com cautela.

Em seguida a apoiou na manta sobre seus joelhos. Estava muito quente para segurá—la muito tempo com as mãos, e ele era consciente de que tinha os dedos torpes.

Sorriu-lhe, embora ele não percebesse; depois caiu na conta de que talvez o estava fazendo envergonhar, voltou-se e entrou de novo na copa.

Sandeman estava inclinado sobre a tina, esfregando a roupa. Utilizava um sabão tosco feito de potássio, ácido fénico e lejía.

Era tão forte que sem dúvida lhe danificaria a pele, mas eliminaria a maior parte da imundície, assim como dos piolhos, e do fedor e a infecção que os acompanhavam.

—Senhor Sandeman - disse Charlotte com tom premente—. É muito importante que fale com você. O jovem que desapareceu poderia estar em perigo, e nos disseram que veio a este bairro para buscá—lo. Se o achou, poderia lhe ter dito algo que nos desse uma pista de aonde foi e por que.

Ele a olhou de esguelha, descansando seus magros braços na borda da tina e apoiando neles seu peso. Era um trabalho exaustivo.

—Quem é? -perguntou.

—Martin Garvie.

As palavras mal tinham saído de sua boca quando ela o viu ficar rígido e perder a cor, que voltou a afluir a seu rosto como se o sangue tivesse retornado em uma maré.

Encolheu-se o coração de Charlotte de medo. Tinha os lábios tão tensos que lhe era difícil falar.

—O que lhe ocorreu? -perguntou com voz rouca.

—Não sei. —Ele se ergueu muito devagar.

Voltou-se para ela, esquecendo a roupa e deixando—a de molho. — Sinto, mas não posso lhe dizer nada que a ajude. De verdade que não posso.

Sandeman respirava pesadamente, como se sentisse uma opressão no peito e ao mesmo tempo lhe faltasse o ar.

—Poderia estar em perigo, senhor Sandeman - se apressou a dizer ela—. Desapareceu! Faz três semanas que ninguém o viu nem teve notícias dele! Sua irmã está morta de preocupação.

Até seu amo, o senhor Stephen Garrick, aparentemente não partiu para aonde disse que se dirigia. Não há provas de que pegasse um trem ou navio.

Necessitamos alguma informação que nos ajude a averiguar o que ocorreu.

Fez-se dolorosamente evidente que Sandeman experimentava uma intensa emoção, tão profunda que não podia controlar o tremor de seu corpo nem sua respiração entrecortada, mas quando conseguiu recuperar a voz, não houve indecisão nele, nem possibilidade de que mudasse de opinião.

—Não posso ajudá—la —voltou a dizer—. O que me diz como uma confissão da alma é sagrado.

—Mas e se a vida de um homem está em jogo? -argüiu ela, embora compreendia muito bem que estava condenada ao fracasso.

Via-o nos olhos dele. Na palidez de seu rosto, nos músculos tensos de sua mandíbula e pescoço.

—Só posso confiar em Deus - respondeu tão fracamente que ela mal o ouviu—. Está em suas mãos. Não posso lhe revelar o que me disse Martin Garvie.

Se pudesse, o diria tudo. Embora não sei se lhe serviria para dar com ele.

—Está vivo?

—Não sei.

Ela tomou ar para tentar uma vez mais, depois o deixou escapar em um suspiro, viu a determinação nos olhos do Sandeman e afastou o olhar. Não lhe ocorria o que podia dizer.

—Senhora... -começou a dizer ele, e deixou a frase suspensa porque não sabia como se chamava.

—Pitt -respondeu ela—. Charlotte Pitt.

—Senhora Pitt, trata-se de algo relacionado com muitas outras pessoas. Se só fora um segredo pessoal e revelá—lo servisse de algo… mas não é o caso.

É uma longa história que ocorreu faz muito tempo para que possamos fazer algo agora.

—Está relacionada com o Martin Garvie? —Charlotte se sentia desconcertada—. Lhe disse algo.

—Não posso ajudá—la, senhora Pitt. Acompanhá-la-ei ao Dudley Street, se por acaso se perde. —Havia apreço em sua voz, e seus olhos escuros estavam cheios de preocupação—. Por favor, volte para sua casa. Este não é um lugar para você. Poderiam lhe fazer dano e isso não servirá de nada, me acredite.

Vivo aqui e o conheço tão bem como pode fazê-lo um intruso, mas quase nunca saio depois do anoitecer. Venha... -secou as mãos com um trapo rasgado e voltou a pôr sua jaqueta—. Saberá voltar para sua casa desde Dudley Street?

—Sim, obrigado.

Charlotte só podia aceitar. Estava claro que não havia nada que ela pudesse fazer, por muito que o pressionasse. Além disso, tinha que reconhecê-lo, importava-lhe o que ele pensasse dela.

Sem Pitt em casa, Charlotte não tinha nenhuma vontade de acender a lareira do salão e sentar-se ali sozinha depois que Daniel e Jemima se deitavam.

Assim, sentou-se na quente e luminosa cozinha e contou ao Gracie o que tinha surrupiado ao Sandeman. Mas nenhuma das duas sabia o que fazer a seguir, a menos que averiguassem algo mais.

Apesar da calidez do ambiente, com os dois gatos meio adormecidos na cesta da roupa junto ao fogão, e o repicar da chuva contra a janela, as duas experimentaram em silêncio um amargo sentimento de derrota.

A tarde seguinte não foi melhor, mas ao menos havia obrigações domésticas que atender e isso era mais satisfatório que estar de braços cruzados.

Gracie ordenava os armários e Charlotte remendava umas capas de travesseiros quando pouco depois das nove bateram na porta.

Gracie estava em pé sobre um tamborete com os braços cheios de roupa, de modo que foi abrir Charlotte.

Na soleira havia um homem esbelto com um traje de corte muito elegante que teria assombrado ao Pitt.

Tinha um rosto magro e inteligente, profundamente sulcado de rugas, e uns olhos tão escuros que pareciam negros à luz do lampião. Seu cabelo moreno estava profusamente salpicado de cãs.

—Senhora Pitt -disse.

Era mais uma apresentação que uma pergunta.

—Sim -assentiu ela com cautela. Não tinha intenção de convidar a passar a um desconhecido. De fato, não seria boa idéia lhe dizer que Pitt estava de viagem—. O que posso fazer por você? -acrescentou.

Ele esboçou um sorriso de desculpa como se se reprovasse a intromissão, e entretanto, saltava à vista que destilava segurança em si mesmo.

Era um gesto de um encanto possivelmente inconsciente.

—Que tal está? Meu nome é Victor Narraway. Estando seu marido na Alexandria, onde lamento me haver visto obrigado a enviá—lo, quis passar para visitá—la para me assegurar de que se encontra sã e salva e que tudo irá bem.

—Tem alguma dúvida, senhor Narraway? —Charlotte se sobressaltou ao averiguar sua identidade, e lhe inquietou que ele pudesse saber um pouco do Pitt que ela ignorava.

Quanto a sua visita, tinha que tratar-se de um assunto desagradável. Ainda não tinha tido notícias do Pitt, mas era muito cedo. O correio demoraria dias. Tratou de serenar-se—. Por que veio, senhor Narraway? Rogo-lhe que fale com franqueza.

—Exatamente pelo que lhe disse, senhora Pitt - respondeu ele—. Posso entrar?

Charlotte se fez a um lado, convidando-O tacitamente a entrar, e ele passou junto a ela, lançando um olhar às delicadas molduras de gesso do teto do vestíbulo.

Ela fechou a porta e Narraway entrou no salão seguindo suas indicações.

Ela o seguiu e acendeu os lampiões. Esperava que não ficasse tanto tempo para que importasse que não tivesse acendido a lareira.

Encarou-o quase desafiante, com o coração lhe palpitando com força.

—Teve notícias do Thomas?

—Não, senhora Pitt -respondeu imediatamente—. Lamento se lhe dei essa impressão. Pelo que sei, tudo vai bem e goza de boa saúde.

Se não fosse assim, me teria informado. É a sua segurança que me preocupa.

Mostrou-se muito educado, mas ela detectou um vislumbre de condescendência em sua voz.

Devia-se a que ele era um cavalheiro e Pitt o filho de um guarda—florestal, apesar de sua perfeita dicção? Sempre havia algo no comportamento, nas maneiras, que revelava uma segurança na pessoa que não se aprendia, mas era inata.

Charlotte não era aristocrata, como o era Vespasia, mas sem dúvida provinha de boa família. Olhou-o com uma fria arrogância que Vespasia teria podido reconhecer como própria. Seu velho vestido com as mangas cerzidas carecia de importância.