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OS TRABALHADORES DO MAR / Victor Hugo
OS TRABALHADORES DO MAR / Victor Hugo

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS TRABALHADORES DO MAR

 

O sr. Clubin

Elementos de uma má reputação

    Escrita em uma página branca

     O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve é memorável; a neve é um aconteci-mento.

     Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco: nevara desde a meia-noite até o romper do dia.

     Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos (Refere-se aos fiéis da igreja Metodista Wesleyana, protestante, fundada na Inglaterra por John Wesley. A partir de 1932 responde apenas pelo nome de Igreja Metodista (N. Ed.) à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e uma mulher.

     Estes três viandantes, caminhando separados uns dos outros, não tinham visivel-mente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atrás da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint-Sampson.

     Era ele moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro. vestia as roupas ordi-nárias, isto é, uma grossa camisa de pano escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grosso sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.

     A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir à igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e cor-de-rosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomá-la-iam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura dos dois crepúsculos, o princípio de uma mulher e o fim de uma menina.

     O homem não reparava nela.

     De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção do homem.

     Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou vê-la escrever com o dedo alguma coisa na neve. Levantou-se e pôs-se a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapa-receu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao Castelo de Lierre. O homem, quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu Déruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentia necessidade alguma de apressar o passo.

     Alguns instantes depois estava junto à moita de azinheiras no ângulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provável que, se nessa ocasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho. Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pezinhos aí estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por ela: Gilliatt.

     Era este o nome dele.

     Chamava-se Gilliatt.

     Ficou por muito tempo imóvel, contemplando o nome, os pezinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.

    

    O Tutu da rua

     Gilliatt residia na paróquia de Saint-Sampson, onde não era estimado, e havia razões para isso.

     Em primeiro lugar, morava em uma casa mal-assombrada.

     Acontece algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e até na cidade, que, ao passar por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada, vê-se uma casa cuja entrada está obstruída. O azevinho cresce à porta, as janelas do rés do chão estão fechadas por feios emplastros de tábuas pregadas; as dos andares superiores estão fechadas e abertas ao mesmo tempo: há ferrolhos, mas não há vidros. No pátio, se o há, alastra-se a erva e caem os muros; se há jardim, nascem a urtiga, o espinheiro, a cicuta; raros insetos esvoaçam. Racham-se as chaminés, o teto se abate; o que se vê dos quartos está arruinado, a madeira podre, a pedra carcomida; cai o papel das paredes. Podem-se estudar a” os antigos gostos do papel pintado, os grifos do Império, as sanefas em forma de crescente do Diretório, os balaústres e cipos de Luís XVI. A espessura das teias de aranha, cheias de moscas, indica a profunda tranquilidade em que vivem aqueles insetos. Algumas vezes vê-se um púcaro quebrado sobre uma tábua.

     E uma casa mal-assombrada. O diabo aparece lá durante a noite.

     A casa, como o homem, pode tornar-se cadáver; basta que uma superstição a mate. Então é terrível.

     Essas casas mortas não são raras nas ilhas da Mancha.

     As populações campesinas e marítimas não vivem tranquilas a respeito do diabo. As da Mancha, arquipélago inglês e litoral francês, tem a respeito dele noções muito precisas. O diabo possui delegados por todo o mundo. É certo que Belphégor é embai-xador do inferno na França, Hutgin na Itália, Belial na Turquia, Thamuz na Espanha, Martinet na Suíça e Mammon na Inglaterra. Satanás é um imperador, como um outro qualquer. Satanás César. A casa dele é muito bem servida: Dagon é o saquetário; Succor Benoth, chefe dos eunticos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal, diretor de teatro; verdelet, grão-mestre de cerimônias e Nybbas, bobo. Wierus, homem de ciência, bom estrigólogo e demonógrafo distinto, chama Nybbas - o grande parodista.

     Os pescadores normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam no mar, por causa das artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que São Maclou habitava o grande rochedo quadrado Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos velhos marinheiros de outros tempos afirmavam tê-lo visto não poucas vezes sentado e lendo um livro. Por isso os marítimos, quando passavam, ajoelhavam-se muitas vezes diante do rochedo Ortach, até que um dia dissipou-se a fábula e esclareceu-se a verdade. Descobriu-se e sabe-se hoje que quem habita aquele rochedo não é um santo, mas sim um diabo, chamado Jochinus, que por muitos séculos teve a malícia de fazer-se passar por São Maclou. Demais, a própria Igreja cai em tais enganos. Os diabos Raguliel, Oribel. e Tobiel foram santos, até que em 745 o Papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fora. Para fazer tais expulsões, que são muito úteis, é necessário ser muito conhecedor de diabos.

     Conta a gente velha da terra, mas Estes casos pertencem ao século passado, que a população católica do arquipélago normando estivera outrora, bem a seu pesar, mais em comunicação com o diabo do que a população huguenote. Ignoramos a razão, mas a verdade é que a minoria católica andou outrora muito incomodada por ele.

     Afeiçoara-se aos católicos e procurava frequentá-los, o que leva a crer que o diabo é antes católico que protestante.

     Uma de suas mais insuportáveis liberdades era visitar à noite os leitos conjugais católicos, quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resulta-vam equívocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. Não é inverossímil. É caso perfeitamente conhecido e descrito nos formulários de exorcismo sob o título de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.

     O diabo fez violências destas especialmente em Saint-Hélier, em fins do século passado: é provável que para punição dos crimes da revolução. As consequências dos excessos revolucionários são incalculáveis. Fosse como fosse, essa aparição possível do demônio durante a noite, quando reina a escuridão e todos dormem, inquietava muitas mulheres ortodoxas. Dar nascimento a um Voltaire não é coisa agradável. Uma delas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se em tempo o quiproquó.

     O confessor respondeu: - Para saber se está com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a cabeça e, se encontrar pontas, pode estar certa. - De que? - perguntou a mulher.

     A casa em que morava Gilliatt tinha sido mal-assombrada e já não era; portanto, tornava-se mais suspeita; é sabido que, quando um feiticeiro vêm habitar uma casa visitada pelo diabo, Este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de não voltar, salvo o caso de ser chamado, como médico.

     Chamava-se a casa O Tutu da Rua. Era situada na ponta de uma língua de terra, ou antes, de rochedo que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de Houmet Paradis. A casa estava sozinha nessa ponta, quase fora da ilha, tendo apenas a terra suficiente para um pequeno jardim, às vezes inundado por ocasião das marés altas.

     Entre o porto de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis há uma grande colina, sobre a qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o Castelo do Vale ou do Arcanjo, de sorte que de Saint-Sampson não se via O Tutu da Rua.

     Não são raros os feiticeiros em Guernesey. Exercem a procissão em certas paró-quias, apesar de vivermos no século XIX. Praticam ações verdadeiramente criminosas. Fazem ferver ouro. Colhem ervas à meia-noite. Olham de través para o gado. Consultam-nos; eles mandam buscar em garrafas A água dos doentes, e dizem em voz baixa: a água parece bem triste. Afirmou um feiticeiro, em março de 1857, que na água de um doente havia sete diabos. São temidos e temíveis. Há pouco tempo um deles enfeitiçou um padeiro e mais o forno. Outro tem a perversidade de fechar e lacrar uma porção de sobrecartas, sem haver nada dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma tábua, três garrafas com um B em cada uma. Estes fatos monstruosos são conhecidos. Alguns feiticeiros são complacentes e, por 2 ou 3 guinéus, incumbem-se de sofrer as nossas moléstias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto eles se estorcem, diz o doente: “E esta! já estou bom!” Outros curam todas as moléstias amarrando um lenço ao redor do corpo do doente... um remédio tão simples que admira não se ter ainda ninguém lembrado dele.

     No século passado o tribunal real de - Guernesey colocava-os sobre uma porção de achas de lenha e queimava-os vivos. Presentemente condena-os a oito semanas de prisão, quatro a pão e água e quatro no segredo, alternando. Amant alterna catenoe.

     A última queima de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo - teatro do espetáculo a praça de Bordage, que, de 1565 a 1700, viu queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela tortura.

     A praça Bordage prestou serviços à sociedade e à religião. Queimaram-se a” os heréticos. No tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma mãe e duas filhas: a mãe chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava grávida e teve o sucesso sobre o braseiro.

     A crônica diz: “Arrebentou-lhe o ventre”. Saiu desse ventre um menino vivo; o recém-nascido rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O bailio, Hélier Grosselin, bom católico, mandou atirar a criança ao fogo.

    

    Para tua mulher, quando te casares

     Voltemos a Gilliatt.

     Contava-se na terra que uma mulher, tendo consigo um menino, viera em fins da revolução habitar Guernesey. Era inglesa, ou talvez francesa, O nome dela, qualquer que fosse, a pronúncia guernesiana e a ortografia dos camponeses transformaram em Gilliatt. Vivia sozinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros, filho, outros, neto, e outros, coisa nenhuma. Possuía um dinheirinho, de que vivia pobre-mente. Comprara um pedaço de terra na Sergentée e outro em Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa Tutu 24 da Rua estava nesse tempo mal-assombrada. Havia mais de trinta anos que ninguém. morava nela. Caía aos pedaços. O jardim, sempre inundado pelo mar, já nada produzia.

     Além dos ruídos noturnos e das luzes, a casa era particularmente aterradora por isto: se à noite se deixava sobre a lareira um novelo de lã, agulhas e um prato cheio de sopa, no dia seguinte de manhã encontrava-se a sopa comida, o prato vazio e um par de luvas feito. Pôs-se à venda aquele pardieiro com o diabo que estava dentro, por algumas libras esterlinas. Aquela mulher comprou-o, evidentemente tentada pelo diabo. Ou pela barateza.

     Fez mais do que comprá-lo, foi morar lá com o filho, e desde então a casa sossegou. “Esta casa achou o que queria”, dizia a gente da terra. Cessaram as aparições. Já se não ouviam gritos ao romper do dia. Já não havia outra luz além do sebo acendido à noite pela boa mulher. Vê-la de feiticeira vale a tocha do diabo.

     Esta explicação satisfez o público.

     A mulher utilizava o quarto de jeira de terra que possuía. Tinha uma boa vaca, de cujo leite fazia manteiga. Colhia frutas e batatas Golden Drops. vendia, como qualquer outra pessoa, ervas, cebolas e favas. Não costumava ir ao mercado vender a sua colheita; mandava-a por Guilbert Falliot. O registro de Falliot mostra que ele vendeu para ela, uma vez, 12 alqueires de batatas chamadas de três meses, das mais temporãs. Fizeram-se na casa apenas os reparos necessários para se poder habitar nela. Só chovia nos quartos quando fazia muito mau tempo. Compunha-se de dois pavimentos, um rés-de-chão e um celeiro. No térreo havia três salas; dormia-se em duas, comia-se na terceira. Subia-se ao celeiro por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a ler ao filho. Nunca ia à igreja, e isto, depois de muito considerado, serviu para que a declarassem francesa. Não ir aparte alguma é coisa grave.

     Em suma, era gente que nada inculcava.

     É provável que fosse francesa. Os vulcões arrojam pedras, as revoluções homens. Espalham-se famílias a grandes distâncias, deslocam-se os destinos, separam-se os grupos dispersos às migalhas; cai gente das nuvens, uns na Alemanha, outros na Inglaterra, outros na América. Pasmam os naturais dos países. Donde vêm Estes desconhecidos? Foi aquele Vesúvio, que fumega além, que os expeliu de si. Dão-se nomes a esses aerolitos, a esses indivíduos expulsos e perdidos, a esses eliminados da sorte: chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros. Se ficam, toleram-nos: alegram-se quando eles vão embora. Algumas vezes são entes absolutamente inofen-sivos, estranhos, as mulheres ao menos, aos acontecimentos que os proscreveram, não tendo rancores nem cólera, projéteis contra a vontade, espantadíssimos de o serem. Enraízam-se como podem. Não fazem mal a ninguém e não compreendem o que lhes acontece. Vi um dia uma pobre moita de ervas atirada aos ares pela explosão de uma mina. A Revolução Francesa, mais do que nenhuma, explosão, fez desses jatos longínquos.

     A mulher, que em Guernesey era conhecida por Gilliatt, foi talvez aquela moita de erva.

     Envelheceu a mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos sós; todos fugiam deles, mas eles bastavam-se a si próprios. Loba e filhote lambem-se mutuamente. Foi esta uma das fórmulas que lhes aplicou a benevolência da vizinhança.

     O menino tornou-se adolescente, o adolescente homem, e então, devendo caírem sempre as velhas crostas da vida, a mãe veio a falecer. Constava a herança das terras de Sergentée e da Roque-Crespel, da casa mal-assombrada, e mais, diz o inventário oficial, de 100 guinéus de ouro, dentro de um pé de meia. A casa estava mobiliada com duas arcas de carvalho, duas camas, seis cadeiras, uma mesa e os utensílios necessários. Havia em cima de uma tábua uns poucos de livros e, a um canto, uma canastra, que nada tinha de misteriosa, e que devia ser aberta na ocasião do inventário. A canastra era de couro ruivo, cheia de arabescos de pregos de cobre e estrelas de estanho, e continha um enxoval de mulher, novo e completo, de excelente linho de Dunquerque, camisa e saia, cortes de vestidos de seda e em cima de tudo um papel escrito pela finada: “Para tua mulher, quando te casares”.

     A morte da mãe acabrunhou o filho. Era rústico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto. Era isolamento, tornou-se vácuo. Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela. É a primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever é uma série de aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na última. Mas é um consentimento que sangra.

     Gilliatt era moço, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do coração tornam a unir-se. A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturou-se à natureza em redor dele, tornou-se uma espécie de encanto, atraiu-o para perto das coisas e longe dos homens, e amalgamou cada vez mais aquela alma e a solidão.

    

    Impopularidade

     Já o dissemos. Gilliatt não era estimado na paróquia. Antipatia natural. Sobravam motivos. O primeiro, acabamos de explicá-lo, era a casa em que morava. Depois a origem dele. Quem era aquela mulher? E Este menino? A gente não gosta de enigmas a respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de operário, tendo aliás com que viver, embora não fosse rico. Depois, o jardim, que ele conseguia cultivar e donde colhia batatas, apesar dos ventos de equinócio. Depois, os alfarrábios que ele lia.

     Outras razões, ainda.

     Por que motivo vivia solitário? A casa mal-assombrada era uma espécie de lazareto; conservavam Gilliatt em quarentena; deste modo, era muito simples que o seu isolamento causasse espanto, e o responsabilizassem pela solidão em que o deixavam.

     Nunca ia à Igreja. Saia muitas vezes à noite. Falava aos feiticeiros. Uma vez viram-no sentado sobre a relva com ar espantado. Frequentava o dólmen de Ancresse e às pedras fatídicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quase certeza de terem-no visto cumprimentar polidamente a Rocha que Canta. Comprava todos os pássaros que lhe levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas de Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para não passar por lá. Pescava muitas vezes e sempre apanhava peixe. Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha um bagpipe (gaita-de-foles), que comprara a uns soldados escoceses, ao passarem por Guernesey, e tocava nele sobre os rochedos, à beira do mar, ao cair da noite. Gesticulava como um semeador. Que virá a ser uma terra com um homem destes?

     Quanto aos livros que haviam pertencido à mulher finada, esses eram assusta-dores. Quando o Reverendo Jaquemin Herodes, cura de Saint-Sampson, entrou na casa para encomendar a mulher, leu no lombo desses livros os títulos seguintes: Dicionário de Rosier, Cândido, por Voltaire; Aviso ao Povo acerca da Sua Saúde, por Tissot. Dissera um fidalgo francês emigrado, retirado em Saint-Sarnpson, que “aquele Tissot devia ser o que carregou a cabeça da Princesa de Lamballe”.

     O reverendo notou, num dos livros, Este título verdadeiramente extravagante e ameaçador: De Ruibarbaro.

     Cumpre observar que, sendo a obra escrita em latim, como indica o título, era duvidoso que Gilliatt, que não sabia latim, lesse aquela obra.

     Mas são exatamente os livros que a gente não lê os que mais condenam. A Inqui-sição da Espanha julgou esse caso, e pô-lo fora de dúvida.

     Demais, o livro era o tratado do Doutor Tilingius Sobre o Ruibarbo, publicado na Alemanha em 1679.

     Não havia certeza de que Gilliatt não fizesse bruxarias, filtros e sortilégios. Tinha frascos em casa.

     Por que motivo ia ele passear, às vezes até a meia-noite, nos penhascos da costa? Era evidentemente para conversar com a gente maligna que anda à noite nas praias no meio das exalações.

     Ajudou ele uma vez a feiticeira de Torteval a desatolar a carroça. Era uma velha, por nome Moutonne Gahy.

     Tendo-se feito um recenseamento na ilha, perguntou-se-lhe a profissão, e ele respondeu: “Pescador, quando há peixe”. vejam lá se a gente da ilha podia gostar de tais respostas.

     Pobreza e riqueza são relativas. Gilliatt tinha terras e uma casa, e, comparado aos que não possuem coisa nenhuma, não era pobre. Um dia, para experimentá-lo, e talvez para inculcar-se, porque há mulheres que estariam prontas a desposar o diabo rico, disse uma rapariga a Gilliatt: “Quando se casa?” A resposta dele foi: “Casar-me-ei quando se casar a Rocha que Canta”.

     A Rocha que Canta era uma grande pedra colocada a pique numa horta rústica perto do Senhor Lemezurier de Fry. Esta pedra inspira desconfiança. Não se sabe o que ela faz ali. Ouve-se cantar um galo invisível, coisa extremamente desagradável. verificou-se que a pedra foi posta ali por uns fantasmas.

     De noite, quando troveja, se aparecem homens a voar entre as nuvens avermelhadas, são os tais fantasmas. Há uma mulher que mora no Grande Mielles e que os conhece. Uma noite, em que havia fantasmas numa encruzilhada, essa mulher, vendo um carroceiro que não sabia por onde seguir, gritou-lhe: “Pergunte-lhes o caminho; é gente benéfica, e bem educada, com quem se pode conversar”- Aquela mulher é com certeza feiticeira.

     O judicioso e sábio Rei Jacques I mandava ferver ainda vivas as mulheres dessa espécie, provava o caldo e, pelo gosto, dizia: “É feiticeira”, ou: “Não é feiticeira”.

     É para lamentar que os reis hoje não tenham daqueles talentos, que faziam compreender a utilidade da instituição.

     Gilliatt, não sem motivos sérios, tinha faina de feiticeiro.

     Num temporal, à meia-noite, estando Gilliatt sozinho, dentro de uma lancha, do lado da Someilleuse, ouviram-no perguntar:

     - Há lugar para passar?

     Respondeu-lhe uma voz de cima dos penhascos:

     - Pois não! ânimo.

     A quem falaria ele senão a alguém que lhe respondia? Parece-nos que isto é uma prova.

     Outra noite de temporal, tão negro que nada se via pertinho da Catiau-Roque, que é uma dupla fileira de rochedos onde os feiticeiros e as cabras vão dançar à sexta-feira, houve quem reconhecesse a voz de Gilliatt no meio deste terrível diálogo:

     - Como está Vésin Brovard? (Era um pedreiro que tinha caído de um telhado.)

     - Vai sarando.

     - Deveras! pois caiu de um lugar tão alto como aquela estaca. Admira não ficar despedaçado.

     - Bom tempo foi a semana passada para a colheita das praias.

     - Melhor do que hoje.

     - Decerto! não haverá muito peixe no mercado.

     - O vento é rijo.

     - Não se podem deitar as redes.

     - Como vai a Catarina?

     - Está embruxada.

     A Catarina era evidentemente alguma feiticeira.

     Gilliatt, ao que parecia, trabalhava de noite. Ao menos, ninguém duvidava disso.

     Viam-no, algumas vezes, espalhar pelo chão a água de um púcaro. Ora, a água espalhada pelo chão traça a forma dos diabos.

     Existem na estrada de Saint-Sampson três pedras dispostas em forma de escada. Na plataforma houve em outro tempo uma cruz, e, se não foi cruz, era forca. Aquelas pedras são malignas.

     Muita gente esperta, e digna de crédito, afirmava ter visto, perto dessas pedras, Gilliatt conversando com um sapo. Ora, não há sapos em Guemesey; Guernesey tem todas as cobras, e Jersey todos os sapos. Aquele sapo veio naturalmente de Jersey, a nado, para falar a Gilliatt. A conversa era amigável.

     Todos estes fatos estavam averiguados; e a prova disso é que as três pedras lá estão. Quem duvidar pode ir vê-las, e mesmo a alguma distância há uma casa em cuja esquina lê-se isto: “Mercador de gato morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo de mascar; é pronto na paga e na atenção”.

     Só de má fé se pode contestar a existência daquelas pedras e daquela casa. Tudo isso fazia mal a Gilliatt.

     Só os ignorantes não sabem que o maior perigo dos mares da Mancha é o que se chama Rei dos Auxcriniers. Não há personagem marítimo mais temível. Quem o vê naufraga logo entre uma e outra Saint-Michel. É pequeno e surdo, por ser anão e rei. Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar estão. Conhece a fundo o cemitério Oceano. Cabeça larga embaixo e estreita em cima, corpo cheio, barriga viscosa e disforme, nodosidades no crânio, pernas curtas, braços compridos, barbatanas em vez de pés, garras em vez de mãos, cara larga e verde, tal é aquele rei. As garras são achatadas, as barbatanas tem unhas. Imaginem um peixe com cara de homem e forma de espectro. Para vencê-lo é preciso exorcismá-lo ou pescá-lo. Fora disso, é sinistro. Vê-lo é perigoso. Descobrem-se acima das ondas e do marulho, através da espessura do nevoeiro, umas feições de gente; testa curta, nariz esborrachado, orelhas chatas, boca imensa e sem dentes, beiços esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes. O rei toma-se vermelho quando o relâmpago é lívido, descorado quando o relâmpago é vermelho. Tem barba gotejante e rígida, cortada em quadro, que lhe cai sobre uma membrana em forma de mantéu de peregrino; o mantéu é adornado de catorze conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas são extraordinárias para os que conhecem conchas. O rei só é visível no mar violento. E o dançarino lúgubre da tempestade. Vê-se a forma dele esboçada no nevoeiro e na chuva. O umbigo é hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris à semelhança de colete. O rei levanta-se de pé, sobre as vagas que irrompem à pressão dos ventos e vão rolar-se como os cavacos que saem do rabote do marceneiro. Conserva-se todo fora da espuma, e, quando avista ao longe os navios em perigo, entra a bailar, descorado na sombra, com a face iluminada por um vago sorriso, feio e demente no aspecto. Mau encontro esse.

     Na época em que Gilliatt era uma das preocupações de Saint-Sampson, as últimas pessoas que tinham visto o rei da Mancha declaravam que já não havia no mantéu mais de treze conchas. Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a outra concha? Deu-a a alguém? A quem seria? Ninguém podia dizê-lo, todos se limitavam às conjeturas. O que é certo é que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem de posição, proprietário taxado em catorze bairros, estava pronto a jurar que vira uma vez, nas mãos de Gilliatt, uma concha muito esquisita.

     Não raras vezes se ouviam os campônios conversarem entre si:

     - Vizinho, não é verdade que Este boi é magnífico?

     - Inchado, vizinho.

     - Homem, é verdade.

     - Tem mais sebo do que carne.

     - Deveras!

     - Estais certo de que Gilliatt não lhe pós os olhos em cima?

     Gilliatt parava nos campos, ao pé dos lavradores, e nos jardins, ao pé dos jardineiros, e dizia-lhes palavras misteriosas:

     - Quando florescer a escabiosa, semeia o centeio.

     - O freixo enfolha, acaba-se a neve.

     - Sostício de verão, cardo em flor.

     - Se não chover em junho, o trigo há de espigar. Tomem cuidado com as plantas nocivas.

     - A cerejeira está dando frutos, desconfia da lua cheia.

     - Se o tempo, no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou como no quinto, há de ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em doze rio segundo.

     - Vigia o teu vizinho com quem. andas em processo. Cautela com as espertezas. Porco que bebe leite quente estoura. Vaca que leva alho nos dentes não come.

     - O peixe está gerando, guarda-te das febres.

     - As rãs aparecem, semeia os melões.

     - A meniona enflora, semeia a cevada.

     - A tília enflora, ceifa os campos.

     - O choupo enflora, fecha as estufas,

     E, coisa terrível, quem seguisse os seus conselhos achá-lo-ia muito bons.

     Uma noite de junho, em que ele tocava o bagpipe, sobre os cabedelos da praia, do lado da Damie de Fontenelle não se pode pescar uma só cavala.

     Outra noite, vazando a maré, aconteceu tombar na praia, em frente da casa mal-assombrada, uma carreta cheia de sargaço. Gilliatt receou naturalmente ser chamado à justiça, pois atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se espalhara no chão.

     Uma menina da vizinhança tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a Saint-Pierre-Port, trouxe de lá um unguento e o esfregou à cabeça da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova que foi ele quem lhos deitou.

     Sabe toda a gente que há feitiço para fazer criar piolhos na cabeça dos outros.

     Dizia-se que Gilliatt olhava para os poços, o que é perigoso quando é mau-olhado; e o caso é que um dia, nos Arculons, a água de um poço tornou-se doentia. A dona do poço disse a Gilliatt: “Veja esta água”. E apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt confessou: “A água está grossa” disse ele; “é exato”. A boa mulher, que desconfiava, disse-lhe: “Pois cure-a. Gilliatt perguntou-lhe se ela tinha algum curral, se o curral tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poço. A boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e a água do poço ficou boa. Ora, pensava a gente da terra, nenhum poço fica insalubre, nem é curado depois, sem motivo; a doença do poço não é natural; é difícil não acreditar que Gilliatt tenha enguiçado a água.

     De uma vez, tendo ido a Jersey, foi alojar-se em São Clemente, em uma rua cujo nome quer dizer almas do outro mundo.

     Nas aldeias, colhem-se os indícios, comparam-se: o total faz a reputação de um homem.

     Aconteceu um dia que Gilliatt foi surpreendido a deitar sangue pelo nariz. Coisa grave. Um patrão de lancha, grande viajante, que fez quase a volta do mundo, afirmou que havia uma terra, onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um homem deita sangue pelo nariz, já toda a gente sabe como se haver com ele. Todavia, algumas pessoas de juízo observaram que aquilo que caracteriza os feiticeiros em uma terra pode não caracterizá-los em outra.

     Nos arredores de Saint-Michel, viu-se Gilliatt parado em uma horta dos Huriaux, ao pé da estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e depois uma pega. O fato foi atestado por um homem notável que pertenceu depois a uma comissão encarregada de fazer um novo livro de medidas.

     No Hamel, há mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao romper da manhã, umas andorinhas chamando por Gilliatt.

     A isto deve acrescentar-se que Gilliatt não era bom.

     Um dia um pobre homem batia num asno, que tinha empacado. Deu-lhe algumas tamancadas na barriga, o animal caiu. Gilliatt correu para levantá-lo, estava morto. Gilliatt esbofeteou o pobre homem.

     Noutra ocasião, vendo um rapaz descer de uma árvore com um ninho de passarinhos ainda implumes, Gilliatt tirou o ninho do rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restituí-lo ao seu lugar na árvore.

     Uns viandantes censuraram-no por isto: Gilliatt não fez mais do que apontar para o pai e a mãe dos passarinhos, que guinchavam por cima da árvore e voltavam para o ninho. Tinha queda pelos pássaros. É um sinal Este que faz conhecer geralmente os bruxos.

     Os rapazes gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelandos no penedio das costas. Trazem consigo grande porção de ovos azuis, amarelos e verdes, para armar com eles a frente das lareiras. Como os penedos estão a pique, aconteceu-lhes às vezes escorregarem, caírem e morrerem. Nada mais lindo que uma varanda adornada com ovos de pássaros do mar.. Gilliatt já não sabia que inventar para fazer mal aos rapazes. Trepava, com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava a” molhos de feno, com chapéus velhos em cima e tudo quanto pudesse servir de espantalho, para arredar os pássaros e, por consequência, as crianças.

     Por tudo isto Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos. Não precisava tanto para sê-lo.

    

    Outros pontos ambíguos de Gilliatt

     Não estava fixa a opinião acerca de Gilliatt.

     Geralmente era tido por marcou. Outros acreditavam mesmo que fosse filho do diabo.

     Quando uma mulher tem, do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos, o sétimo é marcou. Mas, para isso, é necessário que nenhuma filha venha interromper a série dos rapazes.

     O marcou tem uma flor-de-lis impressa em uma parte do corpo, donde resulta que aproveita tanto aos escrofulosos como aos reis da França. Na França há marcous em toda parte, especialmente na província de Orléans. Cada aldeia do Gatinais tem o seu marcou. Para curar os doentes basta que o marcou sopre nas chagas ou lhes faça tocar a flor-de-lis. O remédio é eficaz, principalmente quando aplicado na noite de sexta-feira maior. Há uma dezena de anos, o marcou d’Ormes, no Gatinais, apelidado o Formoso Marcou, e consultado por toda a Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavalo e carruagem. Para por cobro aos seus milagres foi preciso intervir a polícia. Tinha ele a flor-de-lis embaixo do peito esquerdo. Outros marcous tem-na em lugar diverso.

     Há marcous em Jersey, em Aurigny e em Guemesey. Parece que isto procede dos direitos que tem a França sobre o ducado da Normandia. A não ser assim, por que haveria ali a flor-de-lis?

     Como há também nas ilhas da Mancha muitos escrofulosos, os marcous são necessários.

     Em um dia, estando Gilliatt a banhar-se no mar diante de algumas pessoas, julgaram estas ter-lhe visto no corpo a flor-de-lis. Interrogado a esse respeito, por única resposta pôs-se a rir. Gilliatt ria às vezes como os outros homens. Mas desde esse dia nunca mais o viram tomar banho. Começou então a banhar-se em lugares solitários e perigosos. Provavelmente à noite, e em noites de luar; o que, hão de convir, é coisa um tanto suspeita.

     Os que se obstinavam em cre-lo filho do diabo (cambiou) enganavam-se, evidentemente. Deviam saber que só os há na Alemanha. Mas o Vale e Saint-Sampson eram há cinquenta anos países ignorantes.

     Acreditar em Guernesey que alguém é filho do diabo, por força que há nisso exageração.

     Por isso mesmo que Gilliatt inquietava o populacho, era muito consultado. Os campônios, aterrorizados, iam conversar com ele acerca dos seus achaques. Aquele terror equivalia a meia confiança, e no campo, quanto mais suspeito é o médico, mais eficaz é o remédio que ele dá. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus, herdados da finada velha. Dava-os a quem lhos pedia, e não recebia dinheiro. Curava os panarícios com aplicações de ervas; o líquido de um dos seus frascos cortava a febre; o químico de Saint-Sampson, que chamaríamos farmacêutico na França, pensava que era uma decocção de quina. Os menos benévolos convinham em que Gilliatt era excelente diabo para os doentes, quando se tratava de seus remédios ordinários; mas, como marcou, não queria ouvir nada: se algum escrofuloso pedia-lhe para tocar a flor-de-lis, a resposta de Gilliatt era fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, coisa ridícula em um feiticeiro. Não sejas feiticeiro, mas, se o és, faze o teu oficio.

     Havia uma ou duas exceções nesta antipatia universal. O Sr. Landoys do Clos-Landés, era escrivão da paróquia de Saint-Pierre-Port, encarregado das escrituras e guarda dos registros dos nascimentos, casamentos e óbitos. Jactava-se o escrivão de descender do tesoureiro da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em 1485. Estando uma vez a banhar-se, o Sr. Landoys afastou-se da praia, e quase se afogou; Gilliatt atirou-se à água, afogou-se quase, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys não falou mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia ele: “Como hei de aborrecer um homem que não me faz mal, e até me prestou um serviço?” O escrivão chegou mesmo a ser amigo de Gilliatt. Não era homem de preconceitos. Não acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro mundo.

     Tinha uma canoa, pescava nas horas de descanso para divertir-se, e nunca viu coisa alguma extraordinária, a não ser em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que pulava na água, e ainda assim não estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar debaixo da gravata, a fim de afugentar os espíritos; Landoys zombava do saco, e não sabia o que havia dentro; mas sempre andava com ele, e sentia-se assim mais seguro.

     Algumas pessoas audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt certas circunstâncias atenuantes, algumas aparências de qualidades, a sobriedade, a abstinência do gim e do tabaco, e chegavam às vezes a fazer dele Este belo elogio: “Não bebe, não fuma, nem masca”.

     Mas a sobriedade é uma qualidade quando o indivíduo possui outras.

     Gilliatt inspirava a aversão pública.

     Fosse o que fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar serviços. Em uma sexta-feira maior, à meia-noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os escrofulosos da ilha, por inspiração, ou combinação, foram em massa à casa mal-assombrada, e, com as mãos postas, pediram a Gilliatt que os curasse. Gilliatt recusou.

     Reconheceu-se nisto a sua perversidade.

    

    A pança

     Tal era Gilliatt.

     As raparigas achavam-no feio. Gilliatt não era feio.

     Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do bárbaro antigo. Quieto, parecia um Dácio da coluna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas, lisas, de uma admirável forma acústica. Tinha entre os olhos a soberba ruga vertical do homem audacioso e perseverante. Caíam-lhe os dois cantos da boca; a testa era de uma curva nobre e serena; o olhar saía-lhe firme de dentro da pálpebra franca, posto que ele tivesse aquele piscar de olhos que os pescadores adquirem com a reverberação das vagas. O riso era pueril e delicioso. Não havia marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era quase negro. Não se afronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos trinta anos, mostrava 45. Tinha a sombria más cara do vento e do mar.

     Puseram-lhe a alcunha de Finório.

     Diz uma fábula da Índia: “Um dia Brama perguntou à Força: “Quem é mais forte que tu?” A Força respondeu: “É a Astúcia”. Diz um provérbio chinês: “Quanto não poderia o leão, se fosse macaco?”

     Gilliatt não era nem leão nem macaco; mas as coisas que ele fazia apoiavam o provérbio chinês e a fábula indiana. De estatura comum e força ordinária, Gilliatt, tão inventiva e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar prodígios de atleta.

     Era um pouco ginasta; servia-se tanto da mão direita como da esquerda.

     Não caçava, pescava. Poupava os pássaros, não os peixes. Ai dos que são mudos.

     Era nadador excelente.

     A solidão faz homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dois aspectos. Às vezes mostrava o ar espantado, de que falamos, e dissera-se um bruto. Outras vezes mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Caldeia teve homens assim: a certas horas, a opacidade do pastor tomava-se transparente e deixava ver o mago.

     Em suma, era apenas um pobre homem sabendo ler e escrever. É provável que estivesse no limite que separa o sonhador do pensador. O pensador impõe, o sonhador obedece. A solidão domina os ânimos símplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A sombra em que entrava o espírito de Gilliatt compunha-se, em partes quase iguais, de dois elementos, obscuros ambos, mas diferentes; dentro dele, a ignorância - enfermidade; fora dele, o mistério - imensidade.

     À força de trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no arquipélago, qualquer que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarcação que aparecesse, de arriscar-se dia e noite nos canais mais difíceis, tomou-se, sem tirar lucro disso, e só por fantasia e satisfação, um admirável homem do mar.

     Nasceu piloto. O verdadeiro piloto é o marinheiro que navega mais no fundo que na superfície. A vaga é um problema exterior, continuamente complicado pela configuração submarina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos baixios e através dos arrecifes do arquipélago normando, que ele tinha debaixo da abóbada do crânio um mapa do fundo do mar. Sabia tudo e afrontava tudo.

     Conhecia as balizas melhor do que os corvos-marinhos que lá se vão empoleirar. As diferenças imperceptíveis. que distinguem as quatro balizas do Creux, do Alligande, de Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para ele, ainda no meio de nevoeiro. Não hesitava sobre a estaca de cabeça oval, de Anfré, nem sobre o chuço tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de LonguePierre, e não havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada fincada no chão, de Platte, nem a baliza-martelo, de Barbées, com a baliza cauda de andorinha, de Moulinet.

     Mostrou singularmente a sua rara ciência de marítimo num dia em que houve em Guernesey uma dessas justas que se chamam regatas.

     A questão era esta: ir só em uma embarcação de quatro velas; leva-la de Saint-Sampson à ilha de Herin, distante 1 légua, e trazê-la de novo de Herin a Saint-Sampson. Manobrar sozinho um barco de quatro velas, não há pescador que o não faça, e a diferença não é grande; mas eis o que agravava o caso: primeiramente, a embarcação era uma dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo, à moda de Roterdã, que os marinheiros do século passado apelidavam panças holandesas. Acha-se ainda algumas vezes no mar essa velha construção da Holanda, bojuda e chata, tendo a bombordo e a estibordo duas asas que se vão abatendo alternadamente, conforme o vento, e suprem a quilha. A segunda dificuldade era a volta de Herin, volta complicada por um pesado lastro de pedras.

     O prêmio da justa era a chalupa. De antemão estava dada ao vencedor. A pança servira de barco-piloto; o piloto que navegara nela durante vinte anos era o mais robusto marinheiro da Mancha; quando morreu não houve ninguém que quisesse governar o barco e decidiram fazer dele um prêmio de regata. A pança, embora não tivesse coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista. Era mastreada na frente, o que aumentava a força de tração do velame. Outra vantagem, o mastro não impedia a carga. Era uma concha sólida; pesada, mas vasta, e suportando bem o mar. Houve empenho em disputá-la; a luta era rude, mas o prêmio era magnífico. Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um por um; nenhum deles pode ir a Herm. O último que lutou era conhecido por ter passado a remos, com tempo mau, o terrível redemoinho que há entre Serk e Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe ele a pança e disse: - É impossível. - Foi então que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a grande escota, e reze ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria imprudência, e sem largá-la, o que lhe dava o domínio da vela grande, deixando a escota rolar à feição do vento sem descair, segurou com a mão esquerda a cana do leme. Dentro de três quartos de hora estava em Herm. Três horas depois, posto que soprasse então um forte vento do sul, atravessando a barra, a pança, governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras. Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, além do carregamento, um pequeno canhão de bronze de Herm, com que à gente da ilha salvava todos os anos, a 5 de novembro, em regozijo pela morte de Guy Fawkes.

     Guy Fawkes, digamo-lo de passagem, morreu há 260 anos; foi uma grande satisfação.

     Gilliatt, assim carregado e estafado, embora trouxesse o canhão na barca, e o vento sul na vela, voltou a Saint-Sampson.

     Vendo isto, Mess Lethierry exclamou: - Ora, aqui está um marinheiro atrevido!

     E estendeu a mão a Gilliatt.

     Tomaremos a falar de Mess Lethierry.

     A pança foi entregue a Gilliatt.

     Esta aventura não lhe destruiu a alcunha de Finório.

     Algumas pessoas declararam que a coisa não era para admirar, visto que Gilliatt escondera no barco um galho de nespereira silvestre. Mas ninguém pode provar isso.

     Desde esse dia Gilliatt não teve outra embarcação. Naquela pesada chalupa é que ele ia à pesca. Amarrava-a no excelente ancoradourozinho que tinha só para seu uso, debaixo do muro da casa mal-assombrada. Ao cair da noite, atirava a rede às costas, atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras secas, rolava de rochedo em rochedo, e saltava na barca. Daí fazia-se ao mar.

     Pescava muito peixe, mas afirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado à chalupa. Ninguém o viu nunca, mas toda a gente acreditava.

     Não vendia, dava o peixe que lhe sobrava.

     Os pobres aceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruxado. Não se deve trapacear com o mar.

     Era pescador, mas não era só isso. Tinha aprendido, por instinto ou para distrair-se, três ou quatro ofícios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate, e até um pouco mecânico. Ninguém consertava uma roda como ele. Fabricava, de um modo especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma pequena forja e uma bigorna, e, não tendo a chalupa mais que uma âncora, reze-lhe outra, ele só. Excelente âncora era essa; a argola tinha a força requerida, e Gilliatt, sem que ninguém lho ensinasse, achou a dimensão exata que devia ter o cepo da âncora para que ela não voltasse.

     Substituiu com toda a paciência os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim impossível a ferrugem.

     Deste modo aumentou muito as boas qualidades da pança. Aproveitava-se dela para ir de quando em quando passar um ou dois meses em alguma ilhota solitária como Chousey ou Casquets. Dizia-se então: “Olhem, Gilliatt está fora. Ninguém se incomodava por isso”.

    

    Casa embruxada, morador visionário

     Gilliatt era o homem do sonho. Vinham daí as suas audácias e as suas hesitações. Tinha idéias propriamente suas.

     Havia talvez nele a ligação do alucinado e do iluminado. A alucinação entra na cabeça de um campônio como Martin, do mesmo modo que na cabeça de um rei como Henrique IV. O Desconhecido faz surpresas ao espírito do homem. Rasga-te bruscamente a sombra, deixa ver o invisível; depois fechasse. Tais visões são às vezes transfiguradoras; de um condutor de camelos faz Maomé, de uma cabreira faz Joana d’Arc. A solidão desprende uma certa quantidade de desvario sublime. É o fumo da sarça ardente. Resulta daí um misterioso estremecer de idéias: o doutor dilata-se até o vidente, o poeta até o profeta; resulta Horeb, Cédron, Ombos, a embriaguez do louro mastigado da Castália, as revelações do mês Busion; resulta Peléia em Dodona, Femonoe em Delfos, Trofonio em Lebadéia, Ezequiel no Kebar, Jeronimo na Tebaida. Na maior parte dos casos o estado visionário abate o homem, e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O faquir carrega a sua visão, como o habitante alpino a sua papeira. Lutero falando aos diabos no celeiro de Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo de seu gabinete, o obi negro dialogando com o deus branco chamado Bossum, é o mesmo fenômeno diversamente produzido, segundo a força e a dimensão de cada cérebro. Lutero e Pascal são e ficam sendo grandes; o obi negro é imbecil.

     Gilliatt não era tanto, nem tão pouco. Era um pensativo. Nada mais.

     Contemplava a natureza de um modo singular.

     Tinha visto algumas vezes, na água do mar, completamente límpida, animais inesperados, de grandes dimensões, de formas diversas, os quais, fora da água, assemelhavam-se a cristal mole, e, tomados à água, confundiam-se com ela, pela identidade de transparência e de cor; disto concluía ele que, se a água era habitada por transparências vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparências igualmente vivas. Os pássaros não são os habitantes, são os anfíbios do ar. Gilliatt não acreditava no ar deserto. Dizia ele: se o mar está cheio de criaturas, por que motivo a atmosfera será vazia? Criaturas cor do ar podem escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que essas criaturas não existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os peixes do ar serão talvez diáfanos, beneficio da providencia criadora, tanto a nosso favor, como a favor deles; deixando passar a luz através da sua forma, e não fazendo sombra, ficam ignorados de nós, e nada poderemos saber. Gilliatt imaginava que, se pudesse esvaziar a atmosfera, pescando-se no ar como num tanque, achar-se-ia uma porção de criaturas surpreendentes. E, acrescentava ele, na sua cisma, muitas coisas se explicariam.

     A cisma, que é o pensamento no estado nebuloso, confina com o sono e preo-cupa-se a respeito dele, como de sua própria fronteira. O ar habitado por transpa-rências vivas seria o começo do Desconhecido; além abre-se a vasta porta do possível. Outros seres e outros fatos. Nada sobrenatural; mas a continuação oculta da natureza infinita. Gilliatt, no ócio laborioso que compunha a sua existência, era um observador estranho e fantástico. Chegava a observar o sono. O sono está em contato com o possível, que também chamamos o inverossímil. O mundo noturno é um mundo. A noite é um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma coluna- atmosférica de 15 léguas de altura, chega à noite, cai de fraqueza, deita-se, repousa; fecham-se os olhos da carne; então, naquela cabeça adormecida, menos do que se crê, abrem- se outros olhos, aparece o Desconhecido. As coisas sombrias do mundo ignorado tomam-se vizinhas do homem, ou porque haja verdadeira comunicação, ou porque as distâncias do abismo tenham crescimento visionário; parece que as criaturas invisíveis do espaço vêm contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da terra; uma criação fantasma sobe ou desce para nós, no meio de um crepúsculo; ante a nossa contemplação espectral, uma vida que não é a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de nós mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem completo vidente, nem completo inconsciente, entreve as animalidades estranhas, as vegetações extraordinárias, as cores lívidas, terríveis ou risonhas, as larvas, as máscaras, os rostos, as hidras, as confusões, os luares sem lua, as obscuras decomposições do prodígio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada, a flutuação de formas nas trevas, todo esse mistério que chamamos sonho, e que não é mais do que a aproximação de uma realidade invisível. O sonho é o aquário da noite.

     Assim sonhava Gilliatt.

    

    A cadeira Gild-Holm-‘Ur

     Quem procurasse hoje a casa de Gilliatt não a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde ele guardava a chalupa. A casa mal assombrada já não existe. A península onde essa casa estava edificada caiu à picareta dos demolidores, e foi conduzida, às carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e comerciantes de granito. A península reze-se cais, igreja e palácios na capital. Toda aquela crista de rochedos Partiu há muito para Londres.

     Aqueles prolongamentos de rochas no mar, com aberturas c recortes, são verdadeiras cadeias de pequenas montanhas; recebe-se a mesma impressão que teria um gigante contemplando as cordilheiras. O idioma local chama-os bancos. Há-os de diversas figuras. Uns assemelham-se a uma espinha dorsal, cada rochedo é uma vértebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodilo bebendo água.

     Na extremidade da península da casa mal-assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Come de Ia Bete. Essa rocha, espécie de pirâmide, assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pináculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da península e a Come de Ia Bete ficava isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um istmo de rochas praticáveis. A curiosidade do rochedo era, do lado mar, uma espécie de cadeira natural cavada pelas águas e polida pela chuva. Era pérfida a tá cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada até ali pela beleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horizontes retinha lá o observador curioso.

     A cadeira oferecia-se logo aos olhos dele; era uma espécie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar àquele nicho era coisa fácil; o mar que o talhara tinha feito embaixo uma espécie de escada de pedras chatas, comodamente dispostas; o abismo tem destas atenções, desconfia sempre da sua cortesia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfractuosidades que pareciam feitas de propósito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escalá-la; era simples esquecer-se sentado naquela poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sair, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gozava-se; sentia-se o afago da brisa e do mar; há em Caiena um vespertínio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de asas; o vento é esse morcego invisível; quando não devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o letargo do êxtase. Quando os olhos se enchem de um excesso de beleza e de luz, fechá-los é voluptuosidade. Acordava-se de súbito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A água cingia o rochedo.

     Estava-se perdido.

     Tremendo bloqueio é o mar que sobe!

     A maré cresce insensivelmente ao princípio, depois com violência. Chegando às rochas, encoleriza-se, escuma. Nem sempre se pode nadar junto aos cachopos. Excelentes nadadores morreram afogados naquele lugar.

     Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.

     Os antiquíssimos habitantes de Guernesey chamavam outrora àquele nicho talhado na rocha pela vaga a Cadeira Gild-Holm-‘Ur ou Kidormur.

     Palavra céltica, dizem, não entendida pelos que sabem céltico, e entendida pelos que sabem francês. Quem-dorme-morre. (Qui-dort-meurt)

     Tal é a tradução rústica. Pode-se escolher entre esta tradução Quem-dorme-morre e a tradução dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas. Segundo Este conhecedor da língua céltica, Gild-Holm-‘Ur quer dizer Alta-dos-bandos-de-pássaros.

     Há em Aurigny outra cadeira deste gênero que se chama Cadeira do Frade, também arranjada pelo mar, e com uma saliência de pedra ajustada tão a propósito que se pode dizer que o mar teve a complacência de por um tamborete debaixo dos nossos pés.

     Nas marés cheias, não se podia ver a Cadeira Gild-Holm-‘Ur. A água cobria-a inteiramente.

     A Cadeira Gild-Holm-‘Ur era vizinha da casa mal-assombrada. Gilliatt ia lá sentar-se muitas vezes. Meditava? Não. Já o dissemos, Gilliatt sonhava. Não se deixava surpreender pela maré.

 

Mess Lethierry

    Vida, agitada e consciência tranquila

     Mess Lethierry, o homem notável de Saint-Sampson, era um marinheiro terrível. Tinha navegado muito. Foi grumete, gajeiro, timoneiro, contramestre, mestre de equipagem, piloto, arrais. Agora era armador. Ninguém conhecia o mar como ele. Era intrépido para salvar gente. Quando havia temporal, Mess Lethierry ia passear à praia, com os olhos no horizonte. Que é aquilo lá ao longe? E alguém que está em perigo. É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o iate de um lorde, um inglês, um francês, um pobre, um rico, é o diabo, fosse quem fosse, ele saltava dentro da lancha, chamava dois ou três homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava ele só, desatava a amarra, travava dó remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-no assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de chuva, confundido com os relâmpagos, face de leão e juba de espuma. Passava assim às vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas à saraiva e ao vento, costeando os navios que soço-bravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava à noite para casa, e tecia um par de meias.

     Passou esta vida cinquenta anos, desde os dez até os sessenta, enquanto foi moço. Aos sessenta anos, viu que já não Podia levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquela bigorna 300 libras; foi atacado repentinamente de reumatismo. Teve de deixar o mar. Passou da idade heróica à idade patriarcal. Já não era mais que um bonachão.

     Mess Lethierry alcançou a um tempo o reumatismo e a abastança. Estes dois produtos do trabalho acompanhavam-se voluntariamente. Quem chega a ser rico, fica inutilizado. É a coroa da vida.

     Diz-se então: vamos gozar agora.

     Nas ilhas como Guemesey, a população é composta de homens que passaram a vida a andar à roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar à roda do mundo. São duas espécies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos últimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no conti-nente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.

     Falamos nas viagens à roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França toda como carpinteiro. Trabalhou nos aparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquele honrado homem teve uma vida de aventureiro. Na França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extraiu a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A água lhe pertencia. “Os peixes estão em minha casa”, dizia ele. Em suma, toda a sua existência, com exceção de dois ou três anos, foi consagrada ao oceano; “atirada à água”, dizia ele. Navegara nos grandes mares, no Atlântico e no Pacífico; mas preferia a Mancha. “Aquele é que é rude”, exclamava ele com amor. Nasceu ali, ali queria morrer. Depois de ter feito duas ou três vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e não se mexeu dali. As suas viagens, então, eram Dranville e Saint-Malo.

     Mess Lethierry era guemesiano, isto é, normando, inglês, francês. Tinha essa pátria quádrupla, imersa e como que afogada na sua grande pátria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda parte, conservou os costumes de pescador normando.

     Isso, porém, não tolhia que ele abrisse de quando em quando um alfarrábio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos filósofos e poetas, e taramelar em vasconço um pouquinho de cada língua.

    

    Uma preferência de Mess Lethierry

     Gilliatt era um selvagem. Mess Lethierry era outro.

     Este, porém, era um selvagem elegante.

     Era exigente a respeito de mãos de mulheres.

     Ainda moço, quase menino, estando entre marinheiro e grumete, ouviu dizer ao bailio de Suffren: “Bonita rapariga, mas que grandes mãos vermelhas que ela tem!” Um dito de almirante impõe, em qualquer assunto que seja. Acima de um oráculo está uma senha. A exclamação do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tomasse delicado e exigente acerca de mãos alvas. A dele era uma larga espátula, escura na cor; na agilidade era uma clava, nas carícias uma torques; quebrava um seixo com um soco.

     Não era casado. Não quis ou não encontrou mulher. Naturalmente, o marinheiro queria mãos de duquesa. Não se encontram mãos dessas nas pescadoras de Port-Bail.

     Conta-se entretanto que em Rochefort (Charente) achou ele um dia uma grisette que realizava o seu ideal Linda moça e lindas mãos. Detraía e arranhava. Afrontá-la era perigoso. As suas unhas, extremamente asseadas, tornavam-se garras destemidas, quando era necessário. Tão belas unhas encantaram Mess Lethierry; mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu não levar aquele namorico à presença do senhor maire.

     De outra feita, em Aurigny, gostou de uma rapariga. Já cuidava dos esponsais, quando um residente do lugar lhe disse: “Dou-lhe os meus parabéns. Leva uma boa esterqueira”. Lethierry pediu explicações deste elogio. Em Aurigny há uma moda. Apanha-se esterco de vaca e deita-se às paredes. Depois de seco, cai o esterco e serve para aquecer a gente. Ninguém casa com uma rapariga, senão quando é boa esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.

     Demais, em assunto de amor ou namoro, tinha ele uma boa filosofia rústica, uma ciência de marinheiro: apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que hoje se chama crinolina chamava-se, então, vasquinha. Significa mais e menos que uma mulher.

     Os rudes marinheiros do arquipélago normando são inteligentes. Quase todos sabem ler. Vêem-se, aos domingos, rapazitos de oito anos, assentados em um grande novelo de cabos, com um livro na mão. Os marinheiros normandos foram sempre sardónicos, e sabem dizer coisas chistosas. Foi um deles, o atrevido piloto Queripel, quem atirou a Montgomery, refugiado em Jersey depois da funesta lançada contra Henrique II, esta apóstrofe: “Cabeça doida feriu a cabeça vazia”. Outro marinheiro, por nome Touzeau, arrais em Saint-Brelade, fez o trocadilho filosófico atribuído ao Bispo Camus: “Aprés la mort les papes deviennent papillons et les sires deviennent cirons “ (Depois da morte tornam-se os papas borboletas, e os reis.)

    

    A velha língua do mar

     Os marinheiros das Channel-Islands são puros gauleses. Estas ilhas, que se vão fazendo inglesas, conservaram-se muito tempo autóctones. O camponês de Serk fala a língua de Luís XIV.

     Há quarenta anos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma marítimo clássico. Fazia crer que estávamos em plena marinha do século XVII. Um arqueólogo especialista poderia ir estudar ali a antiga linguagem de manobra e de batalha esbravejada por Jean Bart naquele porta-voz que aterrava o Almirante Hidde.

     O vocabulário marítimo dos nossos pais, quase inteiramente renovado hoje, era ainda usado em Guemesey, em 1820. O navio que suporta o vento era bon boulinier (bom de bolina); dizia-se do navio que se afeiçoa ao vento, por si mesmo, apesar das velas de proa e do leme, vaisseau ardent (navio que se aguça); entrar em movimento era prendre aire (tomar o vento); pôr-se à capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima era faire chapelle (tocar em vento); aguentar bem sobre a amarra era faire teste; estar em confusão a bordo era être en pantenne; ter o vento nas velas era porter-plain (levar em cheio).

     Hoje nada disto se diz. Diz-se hoje louvoyer (bolinar); dizia-se leauvoyer, diz-se naviguer (navegar), dizia-se nager; diz-se virer vent devant (virar por d’avante), dizia-se vidonner vent devant; diz-se aller de ávant (seguir avante), dizia-se tailler de l’avant, diz-se tirer d’accord (alar à uma), dizia-se haller d’accord, diz-se déraper (arrancar o ferro), dizia-se déplanter; diz-se embraquer (tesar), dizia-se abraquer, diz-se taquets (cunhas), dizia-se billons; diz-se burins (passadores), dizia-se tappes; diz-se balancines (amantilhos), dizia-se valancines; diz-se tribord (estibordo), dizia-se stribord, diz-se les hommes de quart à bâbord (homens de quarto a bombordo), dizia-se les basbourdis.

     Tourville escrevia a Hocquincourt: Nous avons single (singramos). Em vez de la-rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (turcos), boussoir; em vez de drosse (bossa), drousse; em vez de loffer (arribar), faire une olofée; em vez de elonger (alongar), alonger, em vez deforte brise (vento fresco), survent, em vez de sout (paiol), fosse; em vez dejouail (cepo de âncora), jas; tal era, no começo deste século, a língua de bordo nas ilhas da Mancha. Ouvindo falar um marinheiro de Jersey, Ango ficaria abalado. Enquanto no resto do mundo as velas faseyaint (panejavam), barbeyaient nas ilhas da Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era folle-vente. Só ali se empregavam os dois modos góticos de amarração, a valturre e a portuguesa. Só ali se davam ordens destas: Tour-et-choque! - Bosse et Bitte! - Já um marinheiro de Granville dizia le clan (o gorne); e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de Saint-Sampson dizia lé canal de pouliot. O que era bout-dálonge (postura) em Saint-Malo, era em Saint-Hélier oreille dâne. Mess Lethierry, como o duque de Vivonne, chamava o tosado de convés la tonture.

     Foi com Este idioma extravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay Trouin bateu Wasnaer, e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou Argel. Hoje é língua morta. A gíria do mar é outra. Duperré não poderia entender Suffren.

     Não menos se transformou a língua dos sinais; e há grande distância entre as flâmulas encarnada, branca, azul e amarela de Labourquedonnaye e os dezoito pavilhões de hoje, arvorados dois a dois, três a três e quatro a quatro, dão para as necessidades da combinação distante, 70 000 combinações, suprem tudo, e, por assim dizer, prevêem o imprevisto.

    

    Vulnerabilidade por amor

     Mess Lethierry tinha o coração nas mãos; mãos largas e coração grande. O defeito dele era a admirável qualidade da confiança. Tinha uma maneira especial de contrair uma obrigação; era solene: “Dou a minha palavra de honra a Deus”. Dito isto, cumpria a promessa. Acreditava em Deus, e nada mais. Ia poucas vezes à igreja, e isso mesmo, por cortesia. No mar, era supersticioso.

     Nunca houve, porém, tempestade que o fizesse recuar; é que ele era pouco acessível à contradição. Não a tolerava, nem num homem, nem no oceano. Queria ser obedecido; tanto pior para o mar se resistia; tinha de lutar com ele. Mess Lethierry não cedia nunca. Vaga que se empinasse, vizinho que contendesse, nada lhe detinha a mão. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. Não se curvava, nem diante de uma objeção, nem diante de uma tempestade. Não, para ele, era palavra que não existia, nem na boca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem. Passava adiante. Não consentia que se lhe recusasse nada. daí vinha a sua pertinácia na vida e a sua intrepidez no oceano.

     Era ele próprio quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que porção de sal, pimenta e ervas era preciso, e gostava tanto de fazê-la como de comê-la.

     Criatura que um riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabelos soltos, a Jean Bart, e, com o chapéu redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e temível no mar, espádua de carregador, sem imprecações, quase sem cólera, voz doce e meiga que o porta-voz transforma em trovão, campônio que leu a Enciclopédia, guernesiano que viu a revolução, ignorante instruído, ermo de carolice, dado às visões, mais fé na Dama Branca que na Santa Virgem, lógica de ventoinha, vontade de Cristóvão Colombo, um tanto de touro e um tanto de criança, nariz quase rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante quarenta anos, ar de tempestade na fronte, carnação de rocha em pleno mar; põe agora um olhar bom neste rosto agreste, e terás Mess Lethierry.

     Mess Lethierry tinha dois amores: Durande e Déruchette.

 

Durande e Déruchette

    Garrulice e eflúvios

     O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem. Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real. Tal criaturinha, por exemplo, se pudéssemos vê-la como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-ia pássaro.

     Pássaro com forma de moça, que há aí de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Supõe que é Déruchette. Deliciosa criatura! Dá vontade de dizer: “Bom dia, mademoiselle alvéloa”. Não se lhe vêem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio. Canta às vezes. Na tagarelice está abaixo do homem; no canto, está acima dele. Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo.

     Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se, ao vê-la: que boa que ela é em não bater as asas para ir-se embora!

     A meiga e familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sai, acerca-se, afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos, faz toda espécie de rumores delicados, murmura um não sei que de inefável aos teus ouvidos. Quando ela interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorjeia. Tagarela-se com ela. A tagarelice serve para descansar de falar. Há uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vê-la tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisível, ela, que poderia, creio eu, ser impalpável. Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transmudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se papa, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar doméstico; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé deles. Ter um sorriso que - ninguém sabe a razão - diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? É divino. Déruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o próprio sorriso. Há alguma coisa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa fisionomia; e outra mais parecida que a nossa fisionomia, é o nosso sorriso. Déruchette, risonha, era Déruchette.

     É particularmente sedutor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas, sobretudo, tem uma beleza florida e cândida. É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda. Faces rosadas e olhos azuis. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação inglesa amortece-os. Serão irresistíveis aqueles olhos límpidos no dia em que tiverem a profundeza do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez inglesa, felizmente. Déruchette não era parisiense, mas também não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre-Port, mas Mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

     Déruchette tinha o olhar indolente e agressivo, sem que o soubesse. Não conhecia talvez o sentido da palavra amor e fazia com que a gente se apaixonasse por ela. Mas era sem má intenção. Déruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fora residir em Sait-Sampson dizia: “Esta rapariga seduz a matar”.

     Déruchette tinha as mais lindas mãozinhas deste mundo, e pés iguais às mãos, quatro “pezinhos de mosca”, dizia Mess Lethierry.

     Tinha em si a bondade e a doçura; o tio Lethierry era toda a sua família e riqueza; o trabalho dela era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por ciência a beleza, por espírito a inocência, por coração a ignorância; tinha a graciosa indolência crioula, mesclada de travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da infância com um pendor à melancolia, vestuários um pouco insulares, elegantes, mas incorretos, chapéus de flores todo o ano, fronte ingênua, pescoço flexível e tentador, cabelos castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no verão, boca grande e sã, e nessa boca o adorável e perigoso esplendor do sorriso. Eis o que era Déruchette.

     Algumas vezes, à noite, após o por do sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, à hora em que o crepúsculo dá uma espécie de terror às vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas, uma certa massa informe, uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um vulcão, uma espécie de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atilando-se sobre a cidade com um horrível movimento de barbatanas e uma goela donde as chamas irrompiam. Era Durande.

    

    A eterna história da utopia

     Era uma prodigiosa novidade o aparecimento de um navio a vapor nas águas da Mancha em 1822... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horizonte do mar, sem atrair os olhos de ninguém. Quando muito, algum observador especialista distingue, pela cor da fumaça, se o carvão que consome o navio é de Gales ou de Newcastle. Passam; é quanto basta. Se partem: “Boa viagem!“; se chegam: “Welcome!”

     Não era tão grande a calma a respeito de tais invenções no primeiro quarto do nosso século, e estas máquinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da Mancha. Neste arquipélago puritano onde a rainha da Inglaterra foi censurada por violar a Bíblia narcotizando-se para dar à luz, o navio a vapor teve como primeiro cumprimento o ser batizado com Este nome: Devil Boat - Navio-Diabo.

     A esses bons pescadores de então, outrora católicos, agora calvinistas, e sempre beatos, pareceu-lhes aquilo o inferno flutuante. Um pregador da terra tratou da questão: “Temos nós o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a água que Deus separou?“ Aquele animal de ferro e fogo não era a imagem de Leviatã? Não era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo caos? Não é a primeira vez que acontece qualificar a ascensão do progresso de retrogradação ao caos.

     “Idéia louca, erro grosseiro, absurdo”: tal foi o veredicto da Academia das Ciências consultada por Napoleão no começo deste século, acerca do vapor. Os pescadores de Saint-Sampson tem desculpa, em matéria científica, ao nível dos geômetras de Paris; e, em matéria religiosa, uma pequena ilha como Guernesey não tem obrigação de ser mais ilustrada que um grande continente como a América. Em 1807, quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da máquina de Watt mandada da Inglaterra, e tripulado, além da equipagem, por dois franceses, somente, André Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de Nova York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de agosto. Esta coincidência deu origem a que o metodismo tomasse a palavra, e em todas as capelas os pregadores amaldiçoaram a máquina, declarando que o número dezessete era o total das dez antenas e das sete cabeças da besta do Apocalipse. Na América invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do Gênesis. Nisto consistia toda a diferença.

     Os sábios haviam rejeitado o vapor como impossível; os padres, a seu turno, rejeitavam-no como ímpio. Fulton era uma variante de Lúcifer. Os habitantes simplórios das costas e dos campos aderiam à reprovação pelo incomodo que lhes causava a novidade. Na presença do vapor, o ponto de vista religioso era Este: a água e o fogo são um divórcio. Este divórcio é ordenado por Deus. Não se deve desunir o que Deus uniu, nem unir o que ele desuniu. O ponto de vista do camponês era: isto mete-me medo.

     Para cometer, naquela época remota, a empresa de uma navegação a vapor entre Guernesey e Saint-Malo, nada menos era preciso que um homem como Mess Lethierry. Só ele podia concebê-la na qualidade de livre pensador, e realizá-la na qualidade de marinheiro atrevido. O seu eu francês concebeu a idéia; o seu eu inglês executou-a.

     Em que ocasião? Digamo-lo.

    

    Rantaine

     Quarenta anos antes da época em que se passam os fatos que narramos, havia em um arrabalde de Paris, entre a Fosse-aux-Loups e a Tombe Issoire, um albergue suspeito. Era uma casinha isolada e baixa. Morava ai, com a mulher e o filho, uma espécie de burguês bandido, antigo escrevente de tabelião no Châtelet, e ao depois ladrão descarado. Já havia figurado no tribunal criminal. O apelido da família era Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma cômoda de mogno, viam-se duas xícaras de porcelana pintada: em uma delas lia-se em letras douradas o seguinte dístico: “Lembrança de Amizade” na outra: “Sinal de Estima “ A criança vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pai e a mãe pertenciam à burguesia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A mãe, pálida, quase esfarrapada, dava maquinalmente educação a seu filho: ensinava-o a soletrar; e interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz de Jesus, aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao pé do livro o menino pensativo.

     O pai e a mãe, presos em algum flagrante delito, desapareceram na noite penal. A criança desapareceu também. Lethierry, em suas excursões, encontrou um aventureiro como ele, livrou-o, não se sabe de que aperto, prestou-lhe serviços, afeiçoou-se-lhe, chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o inteligente para a navegação costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

     Rantaine, como Lethierry, tinha uma cabeça robusta, espáduas largas e possantes e quadris de Hércules Farnese. Lethierry e ele tinham o mesmo ar e a mesma aparência; Rantaine era mais alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro, dizia: lá estão os dois irmãos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circunspecto. Rantaine era esgrimista, tocava harmônica, espevitava uma vela com uma bala a vinte passos. dava um soco magnífico, recitava versos da Henríada, e adivinhava sonhos. Sabia de cor os Túmulos de São Denis, por Treneuil; dizia ter tido amizade com o sultão de Calicut a quem os portugueses chamam Camorim. Se pudesse folhear a carteira de lembranças que andava sempre no bolso dele, ter-se-iam encontrado, entre outras notas, algumas do gênero desta: “Em Lião, numa das frestas da parede do calabouço de São José, há uma lima escondida”. Falava com uma lentidão discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de São Luís. A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciais diferentes. Ninguém mais suscetível em coisas de honra. Batia-se e matava.

     A força servindo de invólucro à astúcia, tal era Rantaine.

     A beleza de um soco aplicado por ele numa feira, sobre uma cabeza de moro, conquistara-lhe outrora a simpatia de Lethierry.

     Suas aventuras eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos tem um traje, o destino de Rantaine vestia a moda de arlequim. Tinha visto o mundo: tinha trabalhado muito. Era um circunavegador. Teve inumeráveis ofícios. Foi cozinheiro em Madagascar, criador de pássaros em Sumatra, general em Honolulu, jornalista religioso nas ilhas de Galápagos, poeta em Oomrawuttee e pedreiro-livre no Haiti. Neste último emprego pronunciara no Grande Goave uma oração fúnebre de que os jornais locais conservaram Este fragmento: “Adeus, pois, bela alma! Na abóbada azulada dos céus onde agora desferes o vôo, encontrar ás sem dúvida o bom Padre Leandro Crameau do Pequeno Goave. Dize-lhe que, graças a dez anos de esforços gloriosos, terminasse a Igreja de Anse-à-Veau. Adeus! gênio trans-cendente, modelo!” A máscara de pedreiro-livre não lhe impedia, como se vê, trazer o nariz católico. A primeira conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem. Apregoava-se branco de raça pura, odiava os negros: apesar disso teria admirado a Soluque. Em Bordeaux, em 1815, foi ele verdete. Naquela época a fumaça de seu realismo saía-lhe pela cabeça fora, na forma de um imenso penacho branco. Passava a vida a fazer eclipses, aparecendo, desaparecendo e tornando a aparecer. Era um velhaco a girar como uma rodinha de fogo. Sabia o turco: em vez de guilhotinado, dizia neboissé. Fora escravo em Tripoli, na casa de um thaleb, e aí aprendera o turco à força de bengaladas; tinha por obrigação ir à noite à porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fiéis o Alcorão, escrito em pranchas de madeira ou em omoplatas de camelo. Provavelmente era renegado.

     Era capaz de tudo e mais alguma coisa.

     Ria a gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: “Em política, só estimo as pessoas inacessíveis às influências”. Dizia: “Sou pelos costumes”. Dizia: “É preciso repor a pirâmide na base”. Era mais alegre e cordial que outra coisa. A forma da boca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encruzilhada de rugas onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista. Aí é que se podia decifrar o segredo da fisionomia dele. Assemelhavam-se as tais rugas a uma garra de abutre. O crânio era chato em cima e largo nas têmporas. A orelha disforme e embrenhada de cabelos parecia dizer: “Não fales ao animal que está aqui neste antro”.

     Rantaine desapareceu um dia de Guernesey.

     O sócio de Lethierry raspou-se, deixando vazia a caixa da sociedade.

     Havia dinheiro dele na caixa, é certo; mas havia também 50 000 francos de Lethierry.

     Lethierry ganhara uns 100 000 francos em quarenta anos de indústria e de probidade, no seu ofício de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe metade.

     Lethierry, meio arruinado, não cedeu, e tratou imediatamente de levantar-se. Aos homens de boa tempera arruina-se a fortuna, não a coragem. Começava-se então a falar do vapor. Lethierry teve a idéia de tentar a máquina de Fulton, tão contestada, e ligar por meio de um vapor o arquipélago normando à França. Jogou tudo nessa idéia. Aplicou-lhe os restos da fortuna. Seis meses depois da fuga de Rantaine a gente de Saint-Sampson viu estupefata sair daquele porto um navio deitando fumo, e produ-zindo o efeito de um incêndio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as águas da Mancha.

     Aquele navio, alcunhado Galeota de Lethierry, pelo desdém e ódio de todos, foi anunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo.

    

    Continuação da história da utopia

     Compreende-se que a coisa fosse muito mal recebida. Todos os proprietários de navios ide carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram imediatamente. Denunciaram aquele atentado feito às Santas Escrituras e ao monopólio. Alguns templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor uma liberti-nagem. O barco a vela foi declarado ortodoxo. Viu-se distintamente que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava. Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os tais bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra; que também para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da saída e da chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se podia levar aos mercados franceses as sobras das grandes pescas, tão frequentes em Guernesey; que a manteiga das admiráveis vacas de Guernesey fazia mais rapidamente o trajeto no Devil Boat que nas chalupas à vela, e não perdia na qualidade, de maneira que afluíam as encomendas de Dinan, de Saint-Brieuc e de Rennes; finalmente que, graças ao que se chamava Galeota de Lethierry, havia segurança de viagem, regularidade de comunicação, tráfego fácil e pronto, aumento de circulação, multiplicação de mercados, extensão de comércio; em suma, que era preciso aproveitar o Devil-Boat que violava a Bíblia e enriquecia a ilha. Alguns espíritos fortes arriscaram-se a aprovar o vapor com certa precaução. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era imparcia-lidade, porque ele não gostava de Lethierry: primeiro, porque Lethierry era Mess, e Landoys era apenas senhor; depois porque, embora escrevente em Saint-Pierre-Port, Landoys era paroquiano de Saint-Sampson; ora, na paróquia, só havia dois homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio distanciam-se duas criaturas.

     Contudo, o Sr. Landoys teve o cavalheirismo de aprovar o vapor. Outras pessoas o imitaram. Insensivelmente, o fato foi subindo; os fatos são como as marés; e, com o tempo, com o sucesso continuado e crescente, com a evidencia do serviço prestado, o aumento da comodidade pública, lá veio um dia em que, à exceção de alguns homens de juízo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.

     Hoje seria menos admirada. Aquele vapor de há quarenta anos faria sorrir os nossos atuais construtores. Era uma maravilha disforme, um prodígio raquítico.

     Entre os nossos grandes paquetes transatlânticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dionísio Papin fez manobrar na Fulde em 1707, não há menor distância que entre a nau Montebello, de 200 pés de comprimento, 50 de largura, com lima verga de 115 pés, arqueando 2 000 toneladas, levando 1 100 homens, 120 peças, 10 000 balas e 160 volumes de metralha, deitando 3 300 litros de ferro por banda e desenrolando ao vento em viagem 5 600 metros de lona, e o dromon dinamarquês do II século, que se achou cheio de pedras, arcos e clavas, nos atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de Flensburgo.

     Cem anos justos, 1707-1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de Fulton. A Galeota de Lethierry era decerto um progresso sobre aqueles dois esboços, mas era esboço também. Nem por isso deixava de ser uma obra-prima. Todo embrião de ciência tem Este duplo aspecto: monstro, como feto; maravilha, como germe.

    

    O Navio-Diabo

     A Galeota de Lethierry não era mastreada no ponto vélico, e não era isso defeito, porque é uma das leis da construção naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o velame era simplesmente acessório; um navio de rodas é quase insensível ao velame que se lhe põe. A Galeota era demasiado curta e arredondada; grande bochecha e largos quadris; Lethierry não teve a ousadia de fazê-la mais ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades da pança: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga da coberta era maior do que comportava o comprimento. A máquina, que era massuda, atravancava o navio, e, para torná-lo capaz de um grande carregamento, foi preciso levantar muito a amurada, o que deu à Galeota, mais ou menos, o defeito das naus de 74, que só arrasando-as podem navegar e combater.

     Sendo curta, devia girar depressa, visto que o tempo empregado em uma evolução está na razão do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrasava a marcha, porque a resistência da água é proporcional à maior seção imergida e à velocidade do navio. A proa era vertical, o que não seria defeito hoje, mas naquele tempo era uso incliná-la uns 45 graus. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas, mas não eram suficientemente longas para a obliquidade e paralelismo com o lume da água, que deve ser rechaçada lateralmente. No mau tempo, calava muita água, ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter vício de construção no centro de gravidade. Não estando o carregamento no lugar próprio, por causa do peso da máquina, acontecia que o centro de gravidade passava às vezes para trás do mastro grande, e então era preciso contar só com o vapor, e desconfiar da vela grande, porque o efeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que sustentar o vento. O recurso era, ao aproximar-se do vento, soltar a grande escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande fazia o efeito de uma vela de popa. A manobra era difícil. O leme era o leme antigo, não de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no cadaste, e movido por uma trave horizontal que passava por cima da cava da culatra.

     Tinha duas faluas suspensas. O navio era de quatro âncoras, a âncora grande, a segunda âncora, que é a que trabalha, workinganchor, e duas âncoras de amarra. Essas quatro âncoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as ocasiões, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo apenas duas âncoras de amarra, uma a estibordo, outra a bombordo, o navio não podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas neste caso podia usar da segunda âncora. As bóias eram normais, e construídas de maneira a suportar um cabo da âncora, ficando sempre à flor da água. A chalupa tinha as dimensões úteis. A novidade do navio é que era, em parte, aparelhado com correntes; o que não lhe diminuía a mobilidade nem a tenção das manobras.

     A mastreação, posto que secundária, não era incorreta; era fácil o manejo dos ovéns. As peças de madeira eram sólidas, mas grosseiras, pois que o vapor não exige madeiras tão delicadas como exigem as velas. Tinha aquele navio uma velocidade de 2 léguas por hora. Quando panejava, afeiçoava-se bem ao vento. A Galeota de Lethieny suportava bem o mar, mas não tinha boa quilha para dividir o líquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que, em ocasião de perigo, cachopo ou tromba, não poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma coisa informe. Fazia na água o ruído que fazem as solas novas.

     Era navio de comércio e não de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a arrumação das cargas. Admitia poucos passageiros. O transporte do gado tomava difícil e especial a arrumação das cargas. Punham-se os bois no porão, o que complicava muito. Hoje os bois ficam no convés. As caixas das rodas do Devil Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco até o lume da água de vermelho, e o resto de preto, segundo o uso assaz feio deste século.

     Vazio, calava 7 pés; carregado, 14.

     Quanto à máquina, era poderosa. Tinha a força de um cavalo por 3 toneladas, o que é quase a força de um rebocador. As rodas estavam bem colocadas, um pouco adiante do centro de gravidade do navio. A máquina tinha a pressão máxima de 2 atmosferas. Gastava muito carvão. O ponto de apoio era instável, mas remediava-se, como ainda hoje se faz, por meio de um duplo aparelho alternado de duas manivelas fixas nas extremidades da árvore de rotação, e dispostas de maneira que uma estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte. Toda a máquina repousava em uma só placa fundida; de modo que, mesmo em caso de grande avaria, nenhum lanço do mar lhe tirava o equilíbrio, e o casco disforme não podia deslocar a máquina. Para torná-la ainda mais sólida, puseram a redouça principal perto do cilindro, o que transportava do meio à extremidade o centro de oscilação do pêndulo. Inventaram-se depois os cilindros oscilantes que suprimem a redouça antiga; mas naquele tempo parecia que o sistema usado era a última palavra da mecânica.

     A caldeira era dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminuía a perda de força, e o cano alto, o que aumentava a extração da fornalha; mas o tamanho das rodas dava aso às vagas, e a altura do cano dava aso ao vento. Raios de pau, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem construídas (o que admira) podendo ser desmontadas. Havia sempre três rodízios mergulhados; a velocidade do centro da roda não passava de um sexto da velocidade do navio; era esse o defeito. Além disso, a trave da manivela era muito comprida, e o vapor era distribuído no cilindro com demasiado atrito. Naquele tempo a máquina parecia e era admirável.

     Foi ela feita na França, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o maquinista que a construiu morreu; de modo que aquela máquina era única e impossível de ser substituída. Existia o desenhista, mas faltava o construtor.

     Custou a máquina 40 000 francos.

     Lethierry construiu a Galeota na grande estiva coberta que rica ao lado da primeira torre entre Saint-Pierre-Port e Saint-Sampson. Empregou nessa construção tudo o que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construção do costado, cujas costuras eram estreitas e iguais, untadas de sarangousti, betume da Índia, melhor que alcatrão. O forro estava bem pregado. Para remediar a rotundidade do casco, ajustou ele um botalós ao gurupés, o que lhe permitia acrescentar à cevadeira uma cevadeira falsa. No dia do lançamento ao mar, disse Lethierry: “Estou na água!” E realmente a Galeota foi bem sucedida.

     Por acaso ou de propósito, a Galeota caiu ao mar no dia 14 de julho. Nesse dia Lethierry, de pé sobre o convés, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar e exclamou: “Agora tu! Os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamo-te nós!”

     A Galeota de Lethierry fazia, uma vez por semana, a viagem de Guernesey a Saint-Malo. Partia na quinta-feira e voltava na sexta à tarde, véspera do mercado, que era no sábado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas costeiras do arquipélago, e, sendo a sua capacidade na razão das dimensões, uma só das suas viagens valia por quatro viagens de um cúter ordinário. Tirava por isso grandes lucros. A reputação de um navio depende da sua arrumação de cargas, e Lethierry era admirável neste mister. Quando ficou impossibilitado de trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substituí-lo. No fim de dois anos, o vapor dava líquidas umas 705 libras esterlinas por ano. A libra esterlina de Guernesey vale 24 francos, a da Inglaterra 25, e a de Jersey 26. Estas fantasmagorias são menos fantasmagóricas do que parecem; os bancos é que lucram com elas.

    

    Lethierry entra na glória

     Prosperava a Galeota, Mess Lethierry via chegar o dia em que ele seria gentleman. Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Há uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degrau é o nome simplesmente, Pedro, suponhamos; depois, vizinho Pedro; terceiro degrau, pai Pedro; quarto degrau, Senhor (Sieur) Pedro; quinto degrau, Mess Pedro; último degrau, gentleman (Monsieur) Pedro.

     Esta escada, que sai da terra, interna-se pelo céu acima. Entra nela toda a hierarquia inglesa. Eis os degraus mais luminosos; acima de senhor (gentleman) há esq. (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vitalício), depois o baronete (sir heredi-tário), depois o lorde (laird na Escócia), depois o barão, depois o visconde, depois o conde (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marques, depois o duque, depois o par da Inglaterra, depois o príncipe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo à burguesia, da burguesia ao baronato. do baronato ao variato, do pariato à realeza.

     Graças aos seus triunfos, ao vapor, ao Navio-diabo, Mess Lethierry já era alguém. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen e em Saint-Malo, mas ia amortizando a dívida todos os anos.

     Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novazinha, entre o mar e o jardim; no ângulo estava Este nome: Bravees. A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notável por duas fileiras de janelas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flores, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.

     As fachadas pareciam feitas para os dois moradores: Mess Lethierry e Miss Déruchette.

     Era popular a casa de Lethierry, porque ele próprio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da coragem dele, parte dos homens que ele salvara de perigos iminentes, em grande parte do bom êxito da Galeota, e também por ter dado ao porto de Saint-Sampson o privilégio das partidas e chegadas do vapor. vendo que decididamente o Devil Boat era um bom negócio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal. “Daqui é que eu fui lançado ao mar”, dizia ele. Tinha por isso grande popularidade local.

     A qualidade de proprietário e contribuinte fazia dele o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degraus, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quase gentleman, e quem sabe mesmo se não passaria daí? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanaque de Guernesey, no capítulo Gentry and Nobility, esta inscrição inaudita e soberba: Lethieny esq. Mess Lethierry, porém, desdenhava, ou antes, ignorava o que era a vaidade das coisas. Sentia-se útil, era a satisfação dele; ser popular comovia-o menos que ser necessário. Já o dissemos, tinha dois amores, e, por consequência, duas ambições: Durande e Déruchette.

     Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

     A sorte grande era Durande navegando.

    

    O mesmo padrinho e a mesma Padroeira

     Depois de criar o vapor, Lethierry batizou-o, deu-lhe o nome de Durande. Não lhe daremos daqui em diante senão Este nome. Seja-nos lícito igualmente, qualquer que seja o uso tipográfico, escrever Durande sem ser em grifo, conformando-nos nisto ao pensamento de Mess Lethierry, para quem Durande era quase uma pessoa.

     Durande e Déruchette é o mesmo nome. Déruchette é o diminutivo. É muito usado esse diminutivo no oeste da França.

     No campo, os santos tem muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e aumentativos. Parece que há muitas pessoas e é só uma. Esta identidade de padroeiros e padroeiras com diferentes nomes não é rara; Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel, Lisbeth, Betsy, tudo isto é Elisabeth. É provável que Mahout, Machut, Malo e Magloire sejam o mesmo santo. Mas não fazemos cabedal disso.

     Santa Durande é uma santa de Angournois e da Charente. Será correto? Isso é lá com os bolandistas. Correto ou não, esta santa tem muitas igrejas. Estando em Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquela santa, provàvelmente na pessoa de alguma formosa charentesa, talvez a rapariga das unhas bonitas. Restou-lhe recordação bastante para dar aquele nome às duas coisas que ele amava; Durande à Galeota, Déruchette à menina.

     Lethierry era pai de uma e tio da outra.

     Déruchette era filha de um irmão que ele teve. Morreram-lhe os pais. Lethierry adotou a criança e substituiu o pai e a mãe. Déruchette não era somente sobrinha, era também afilhada de Lethierry. Foi ele quem a levou à pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Déruchette.

     Déruchette, já o dissemos, nasceu em Saint-Pierre-Port. Estava inscrita no registro da paróquia. Enquanto a sobrinha foi criança e o tio pobre, ninguém se importou com o nome Déruchette; mas, quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentleman, Déruchette começou a desagradar a todos. Perguntavam a Mess Lethierry:

     - Por que lhe dá esse nome?

     - É um nome assim - respondia ele.

     Tentaram mudar-lhe o nome. Lethierry não quis. Uma senhora da alta sociedade de Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que já não trabalhava, disse um dia a Mess Lethierry:

     - Daqui em diante chamarei Nancy à sua filha.

     - Por que não lhe chamará Lons-le-Saulnier? - disse ele.

     A bela senhora não desistiu e, no dia seguinte, disse-lhe:

     - Decididamente, não queremos que ela se chame Déruchette. Achei um lindo nome: Marianne.

     - Lindo nome, realmente - disse Mess Lethierry -, mas composto de dois animais bem ruins, um mari (marido) e um âne (asno).

     Lethierry manteve o nome de Déruchette.

     Enganar-se-ia aquele que concluísse pelas últimas palavras de Lethierry que ele não queria casar a sobrinha. Queria casá-la, decerto, mas ao seu modo. Queria um marido da sua têmpera, muito trabalhador, de maneira que Déruchette não fizesse nada. Gostava das mãos tostadas do homem e das mãos alvas da mulher. Para que Déruchette não estragasse as lindas mãos que tinha, dava-lhe ocupações elegantes, mestre de música, piano, biblioteca, e bem assim alguma linha e agulhas em uma cestinha de costura.

     Déruchette lia mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso mesmo. Não lhe pedia nada mais que o encanto e a fascinação. Educou-a mais para ser flor do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros há de compreender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que Mess Lethierry compreendia perfeitamente. A máquina do mar trabalhava com esse fim. Durande devia dotar Dértichette.

    

    A melodia “Bonny Dundee”

     Déruchette ocupava o mais lindo quarto da casa, com duas janelas, mobília de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a colina onde está o castelo do Vale. Do outro lado desta colina é que estava o Tutu da Rua.

     Déruchette tinha no quarto a música e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a canção de sua preferência, a melancólica melodia escocesa Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquela ária, a aurora encerrava-se toda naquela voz; isto produzia insólito contraste. Dizia-se: “Miss Déruchette está ao piano”; e os que passavam ao sopé da colina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquele canto tão fresco e aquela canção tão triste.

     Déruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo ali uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de Mess Lethierry aquela princesa de uma canção de soldados e marujos, tão bela “que passava por tal no regimento”.

     - Déruchette tem um cabo de cabelos - dizia Mess Lethierry.

     Era lindíssima desde a infância. Receou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquiriu defeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e, chegando à juventude, Déruchette conservou-se encantadora.

     Dava o nome de pai ao tio.

     Mess Lethierry concedia-lhe algumas funções de jardineira e mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaísco, de verbasco, de flox e erva-benta; cultivava oxálida rosada; utilizava o clima da ilha de Guernesey, tão hospitaleira às flores. Tinha, como toda a gente, aloés plantado no chão, e, o que é mais difícil, fazia pegar a potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve-flor da Holanda e a couve-de-bruxelas; transplantava-as em julho; nabos para agosto, chicória para setembro, pastinaca para o outono, e rapúncio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, contanto que não trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ela própria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas. uma chamada Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos vermelhas.

     O quarto de Mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contíguo à sala grande do rés-do-chão, onde havia a porta de entrada e onde iam ter as diversas escadas da casa. A mobília do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um cronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O teto, construído com vigas, era caiado, bem como as paredes; à direita da porta estava pregado o arquipélago da Mancha, bela carta marítima, onde se lia a seguinte inscrição: “W. Faden, 5, Charing Cross, Geographer to His Majesty”; e à esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que trazem figurados os sinais de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da Rússia, da Espanha e dos Estados Unidos da América, e no centro a Union Jack da Inglaterra.

     Doce e Graça eram duas criaturas ordinárias, devendo tomar-se esta palavra à boa parte. Doce não era má e Graça não era feia. Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a coisa. As duas criadas faziam o serviço com uma espécie de lentidão própria à domesticidade normanda no arquipélago. Graça, faceira e bonita, contemplava constantemente o horizonte com uma inquietação de gato. Era porque, tendo também o seu amante, tinha, de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receava. Mas nós não temos nada com isto. A diferença entre Graça e Doce é que, numa casa menos austera e menos inocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria à posição de criada grave. Os talentos possíveis de Graça eram nulos para uma moça cândida como Déruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de Mess Lethierry, nada salpicava sobre Déruchette.

     A sala baixa do rés-do-chão, com chaminé, e rodeada de bancos e mesas, servira no século passado para as reuniões de um conventículo de refugiados franceses protestantes. A parede de pedra nua não tinha ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proezas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquele gênio, perseguidos por ele na ocasião da revocação do Edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, pendu-raram aquele quadro na parede como um testemunho.

     Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarelada lia naquele cartaz os seguintes fatos pouco conhecidos: “A 29 de outubro de 1685, demolição dos templos de Morcefe de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux.” “A 2 de abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr. Bispo de Meaux. Foram soltos por terem abjurado.” “A 28 de outubro de 1699 o Sr. Bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memória expondo a necessidade de transportar as Sras. De Chalandes e de Netiville, donzelas da religião reformada, para  a casa das Novas-Católicas de Paris.” “A 7 de julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher, maus católicos, de Fliblaines.”

     No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de Mess Lethierry, havia uma pequena divisão de tábuas, que tinha sido tribuna huguenote, e era então, graças a uma grade arranjada, o office do vapor, isto é, escritório da Durande ocupado por Mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as páginas cotadas. Deve e Há de Haver, substituía a Bíblia,

     

    O homem que adivinhou quem era Rantaine

     Mess Lethierry governou a Durande enquanto pode navegar, e nunca teve outro piloto nem outro capitão; mas lá chegou um dia em que ele foi obrigado a deixar o mar. Escolheu para substituí-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin tinha, em toda a costa, fama de severa probidade. Era o alter ego e o vigário de Mess Lethierry.

     O Sr. Clubin, embora desse mais ares de tabelião que de marinheiro, era um marítimo capaz e raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente trans-formado. Era arrumador hábil, gajeiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro robusto, piloto instruído e atrevido capitão. Era prudente e algumas vezes levava a prudência ao ponto de ousar, o que é uma grande qualidade na vida marí-tima. Tinha o receio do provável temperado pelo instinto do possível. Era um desses marinheiros que afrontam o perigo em uma proporção conhecida deles, sabendo triunfar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar pode deixar a um homem, ele a tinha. Era, afém. disso, nadador de fama; pertencia a essa raça de homens exercitados na ginástica da vaga, que se conservam na água o tempo que se quer, e que, partindo de Havredes-Pas, dobram a Colette, fazem a volta de Ermitage e a do Castelo Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado o temível trajeto desde Manois até a ponta de Plaintmont.

     Uma das coisas que mais recomendaram o Sr. Clubin a Mess Lethierry foi que, conhecendo ou penetrando Rantaine, assinalou a Mess Lethierry a improbidade daquele homem, e disse-lhe: “Rantaine há de roubá-lo”. verificou-se a profecia. Mais de uma vez, em negócios pouco importantes, é verdade, Mess Lethierry experimentou a escrupulosa honestidade do Sr. Clubin, e descansava nele. Mess Lethierry dizia: “Consciência quer confiança”.

    

    Narrativas de viagens de longo curso

     Mess Lethierry, que se não acomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a japona de marinheiro à japona de piloto. Déruchette torcia o nariz por isso. Nada é tão belo como uma caretazinha da formosura em cólera. Déruchette ralhava e ria: “Bom paizinho”, dizia ela, “está cheirando a alcatrio”. - E dava uma palmadinha na larga espádua do marinheiro.

     Aquele velho herói do mar trouxe das suas viagens narrativas maravilhosas. Viu em Madagáscar plumas de pássaro das quais bastavam três para cobrir uma casa. Viu na Índia hastes de azedinhas de 9 pés de altura. Viu na Nova Holanda bandos de perus e de patos dirigidos e guardados por um cão de pastor, que naquela terra é um pássaro e chama-se galinha-silvestre. Viu cemitérios de elefantes. Viu na África uma espécie de homens-tigres de 7 pés de altura. Conhecia os costumes de todos os macacos, desde o macaco bravo até o macaco barbado. No Chile viu uma bugia comover os caçadores apresentando-lhes o filho.

     Viu na Califórnia um tronco de árvore oco, no interior do qual um homem a cavalo podia andar 150 passos. Viu em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se com matrah e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados de kelb, que quer dizer cães, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Viu na China cortarem em pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harhQuoi, por ter assassinado o âp de uma aldeia. Em ThudanInot, viu um leão arrebatar uma mulher velha do meio do mercado da cidade. Assistiu à chegada da grande cobra mandada de Cantão a Saigon, para celebrar, no Pagode de Cho-Cen, a festa de Quan-riam, deusa dos navegantes. Contemplou na terra o grande Quan-Su.

     No Rio de Janeiro, viu as senhoras brasileiras colocarem nos cabelos pequenas bolas de gaze contendo cada uma delas um vaga-lume, o que lhes fazia uma coifa de estrelas. Destruiu no Uruguai os formigueiros, e no Paraguai um certo bichinho, que ocupa com as patas um diâmetro de um terço de vara, e ataca o homem. Por meio dos próprios pelos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne, produzindo pústulas. No rio Arinos, afluente do Tocantins, nas matas virgens do norte da Diamantina, verificou a existência do terrível povo-morcego, os murcilagos, homens que nascem com os cabelos brancos e os olhos vermelhos, habitam os bosques sombrios, dorrúem de dia, acordam de noite e pescam e caçam nas trevas, vendo melhor de que quando há lua.

     Perto de Beirute no acampamento de uma expedição de que fazia parte, foi roubado de uma tenda um pluviometro; então um feiticeiro vestido de duas ou três faixas de couro, assemelhando-se a um homem vestido com os próprios suspensórios, agitou tão furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que apareceu logo uma hiena trazendo o pluviometro. A hiena é que o tinha roubado.

     Estas histórias verdadeiras assemelhavam-se tanto a histórias da carochinha que divertiam Déruchette.

     A boneca de Durande era o elo entre o vapor e a moça. Chama-se boneca nas ilhas normandas a figura talhada na proa, estátua de madeira mais ou menos esculpida. daí vêm que, para dizer navegar, a gente das ilhas usa desta locução: estar entre popa e boneca (poupe et poupée).

     A boneca de Durande tinha as predileções de Mess Lethierry. Ele encomendara ao carpinteiro que a fizesse parecida com Déruchette. Parecia-se como obra feita a machado. Era uma acha de lenha esforçando-se por ser moça bonita.

     Mas a coisa, embora disforme, iludia Mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de boa fé diante daquela figura. Reconhecia nela a imagem de Déruchette. É mais ou menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o ídolo com Deus Mess Lethierry tinha duas grandes alegrias por semana; uma na terça-feira e outra na sexta. Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, vê-la chegar. Encostava-se à janela, contemplava a sua obra, era feliz. Há alguma coisa assim no Genesis: Et vidit quod esset bonum.

     Na sexta-feira, a presença de Mess Lethierry na janela era um sinal. Quem o via chegar à janela da casa de Bravees, acender o cachimbo, dizia logo: “Ali! o vapor está a chegar”. Uma fumaça anunciava a outra.

     A Durande, - entrando no porto, atava amarra debaixo das janelas de Mess Lethierry, numa grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry gozava um admirável sono na sua maca, sentindo de um lado Déruchette adormecida, do outro Durande amarrada.

     O ancoradouro de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno cais.

     O cais, a casa, o jardim, as marinhas, orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada existe hoje. A exploração do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos. Aquele lugar está hoje ocupado por estâncias de quebradores de pedra.

    

    Lance de olhos aos maridos eventuais

     Déruchette ia crescendo e não se casava.

     Mess Lethierry vê-la uma moça de mãozinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educações daquelas voltam-se sempre contra os pais.

     Ele próprio era mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para Déruchette que fosse também marido de Durande. Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o companheiro de uma fosse o piloto da outra. Que é um marido? É o capitão de uma viagem. Por que motivo não dar uni só capitão ao navio e à filha? O casal obedece às marés. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas são sujeitas à lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze anos menos que Mess Lethierry, não podia ser para Durande senão um capitão provisório; era preciso um piloto moço, um capitão definitivo, um verdadeiro sucessor do inventor, do criador. O piloto de Durande seria o genro de Mess Lethierry. Por que motivo não fundir os dois genros em um só?

     Lethierry afagava esta idéia. Via aparecer-lhe em sonhos um noivo. Um gajeiro possante e tostado, um atleta do mar, eis o seu ideal. Não era esse o ideal de Déruchette, o sonho da moça era mais cor-de-rosa.

     Fosse como fosse, o tio e a sobrinha pareciam estar de acordo em não ter pressa. Quando viram Déruchette torna-se herdeira provável, apresentaram-se pedidos aos centos. Estas solicitudes nem sempre são de boa qualidade. Mess Lethierry sentia isso, e dizia entre dentes: “Moça de ouro, noivo de cobre”. E despedia os pretendentes. Esperava. Ela também.

     Coisa singular, Lethierry não fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um inglês inverossímil. Difícilmente se acreditará que ele chegou a recusar um Ganduel, de Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse afirmar, mas nós não acreditamos, que ele recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny, indeferindo o pedido de um membro da família Edou, que evidentemente descende de Edouard, o Confessor.

    

    Excepção no carácter de Lethierry

     Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas uma coisa, o padre. Lendo um dia, em Voltaire – costumava ler e lia Voltaire -, estas palavras: “os padres são gatos”, Mess Lethierry pôs o livro de parte, e ouviram-no murmurar baixinho: “sinto-me cão”.

     Cumpre não esquecer que os padres luteranos, calvinistas e católicos atacaram-no vivamente e perseguiram-no docemente, por causa da construção do Devil Boat local. Ser revolucionário em navegação, tentar introduzir um progresso no arquipélago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os esboços de uma invenção nova era, conforme dissemos, uma temeridade condenável Lethierry não escapou a uma certa condenação. Não se esqueçam que falamos do clero antigo, diferente do clero atual, que, em quase todas as igrejas locais, tem uma tendência liberal para o progresso. Pearam-no de todos os modos; opuseram-lhe toda a soma de obstáculos que pode haver nas prédicas e nos sermões. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os também. O ódio dos outros era a circunstância atenuante do ódio dele.

     Mas a sua aversão pelos padres era idiossincrática. Para odiá-los não precisava ser odiado. Como ele próprio dizia, era o cão daqueles gatos. Era contra eles pela idéia, e, o que é mais irredutível, pelo instinto. Sentia as garras latentes dos patires, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, e nem sempre a propósito. È erro não distinguir. Não são bons os ódios absolutos. Nem mesmo o vigário saboiano mereceria as simpatias de Lethierry. Não é certo que para ele houvesse um bom padre. À força de filosofar, ia perdendo a circunspecção. Existe a intolerância dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tio boa alma que não podia ser odiento. Antes repelia que atacava. Fugia dos homens da Igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A diferença entre o ódio dos outros e o dele é que o dos outros era animosidade, e o dele antipatia.

     Guernesey, apesar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões. Existem nela a religião católica e a religião protestante. Devemos acrescentar que aí não entram as duas religiões na mesma igreja. Cada culto tem a sua capela ou o seu templo. Na Alemanha, em Heidelberg, por exemplo, a coisa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para São Pedro, metade para Calvino; entre as duas há um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguais; os católicos tem três altares; os huguenotes tem três altares; como as horas do ofício são sempre as mesmas, o sino comum chama na mesma ocasião para os dois serviços. Convoca a um tempo os fiéis para Deus e para o diabo. Simplificação.

     A fleuma alemã acomoda-se com estas iniquidades. Mas, em Guernesey, cada religião tem casa própria. Há uma ortodoxa e paróquia herética. Pode-se escolher. Nem uma nem outra foi a escolha de Mess Lethierry.

     Aquele marinheiro, aquele operário, aquele filósofo, aquele povo do trabalho, simples na aparência, não o era em substância. Tinha lá as suas contradições e pertinácias. Era inabalável a respeito do padre. Daria quinaus a Montlosier.

     Costumava dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões próprias dele, extravagantes, mas sem deixar de ter um sentido. Ir confessar-se era para ele pentear a consciência. Os poucos estudos que tinha, pouquíssimos, feitos aqui e ali, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de ortografia. Tinha também erros de pronúncia, nem sempre ingênuos. Quando se fez a paz entre a França de Luís XVIII e a Inglaterra de Wellington, Mess Lethierry disse: “Bourmont foi o traitre d’union (“traidor por “traço”) entre os dois campos”. Lethierry escreveu uma vez a palavra papado  (papauté) do seguinte modo: pape oté (papa arrancado). Não acreditamos que ele fizesse isto de propósito.

     Este anti-papismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbíteros protes-tantes não o estimavam mais que os curas católicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quase sem reservas a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno, pregado pelo Reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnífico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os suplícios, os tormentos, as condenações, os castigos inexoráveis, os fogaréus sem fim, as maldições inextinguíveis, as cóleras do Onipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, coisas incontestáveis; Lethierry ouviu o sermão e, ao sair com um dos fiéis, disse-lhe baixinho: “Ora, quer ver? Eu cá tenho uma idéia ratona. Suponho que Deus é bom”.

     Adquiriu Este germe de ateísmo quando residiu na França.

     Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-no na ilha o francês, por causa de seu espírito impróprio. Nem ele o ocultava; estava impregnado de idéias subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil Boat, provava bem isto.

     Lethierry costumava dizer: “Eu mamei o leite 89”. Mau leite.

     E que despropósitos fazia! É difícil viver intato nos lugares pequenos. Na França, guardar as aparências, na Inglaterra, ser respeitável é quanto basta para passar a vida tranquilo. Ser respeitável é coisa que implica uma imensidade de observâncias, desde o domingo bem santificado até a gravata bem atada.

     “Não te faças apontar com dedo”, eis uma lei terrível. Ser apontado é o diminutivo de anátema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são exímias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invés do óculo. Os mais intrépidos arreceiam-se disto. Afronta-se a metralha, afrontasse o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que lógico. Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava água no vinho, locução prenhe de concessões latentes e às vezes inconfessáveis. Afastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas ocasiões oficiais e nas épocas das visitas pastorais, recebia atenciosamente tanto o presbítero luterano como o capelão papista. Acontecia-lhe de quando em quando acompanhar à paróquia anglicana a menina Déruchette, que, aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do ano.

     Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-no, e, longe de incliná-lo para os homens da Igreja, aumentavam o seu pendor interno. Aquela criatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendá-la.

     De fato, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.

     Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverência revolucionária. Distinguia pouco entre duas formas de culto. Nem mesmo fazia justiça a Este grande progresso: não acreditar na presença real. A sua miopia nestas coisas chegava ao ponto de não ver a diferença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. “Wesley não vale mais que Loyola”, dizia ele. Quando via passar um pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos. “Padre casado!”, dizia ele, com o acento absurdo que essas duas palavras tinham na França naquela época. Contava que na viagem à Inglaterra tinha visto a “bispa de Londres”. A sua revolta contra essas uniões ia até a Cólera. “Vestido não casa com vestido!”, exclamava ele. O sacerdote fazia-lhe efeito de um sexo. Não teria dúvida em dizer: “Nem homem nem mulher: padre”. Aplicava com mau gosto tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma fraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a propósito de padres, quaisquer que fossem, católicos e luteranos, as mesmas soldadescas usadas naquele tempo.

     - Casa-te com quem quiseres - dizia ele a Déruchette -, contanto que não seja com algum padreco.

    

    O desleixo faz parte da graça

     Dita uma coisa, Mess Lethierry não a esquecia mais; de uma coisa, Miss Déruchette esquecia-a logo. Esta era a diferença entre o tio e a sobrinha.

     Déruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabili-dade. Há mais um perigo latente numa educação tomada muito a sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, é talvez uma imprudência.

     Déruchette acreditava que, estando ela contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ela estava alegre. As suas idéias eram pouco mais ou menos as mesmas de Mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo à paróquia quatro vezes por ano. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia coisa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Enquanto não chegava esse dia, era menina folgazã.

     Déruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdade inglesa. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescência vai à rédea solta. Tais são os costumes. Mais tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem à boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

     Déruchette acordava todos os dias com a inconsciência das suas ações da véspera. Bem embaraçado ficaria quem lhe perguntasse o que ela havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ela tivesse, em certas horas turvas, uma indisposição misteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade.

     Há nuvens dessas nos céus como aquele; mas passavam depressa. Déruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem por que estivera triste, nem por que estava serena. Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o próprio diabo, se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão inocente que abusava de si própria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto pior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de ontem não existia para ela; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquela moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.

 

O “Bagpipe”

    Primeiros rumores de aurora ou de incêndio

     Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Déruchette.

     Conhecia-a por tê-la visto de longe, como se conhece a estrela da manhã.

     Na época em que Déruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre-Port ao Vale, e reze-lhe a surpresa de traçar na neve o nome dele, tinha dezesseis anos. Exatamente na véspera Mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

     - Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

     O nome Gilliatt, escrito por aquela menina, caiu em uma profundidade desco-nhecida.

     Que eram as mulheres para Gilliatt? Nem mesmo ele poderia dizê-lo. Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na última extremidade falava às mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponesa. Quando se achava só em um caminho e avistava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou metia-se em uma moita e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naqueles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortúnios: “Estou muito maçada, caíram-me uns chuviscos no chapéu, esta cor é muito sujeita a ficar manchada”.

     Tendo encontrado, tempo depois, entre as rolhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toalete, pregou-a na parede como lembrança dessa aparição. Nas noites de estio, escondia-se atrás das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponesas banharem-se no mar. Um dia, através de uma cerca, viu a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha caído. Provavelmente Gilliatt era virgem.

     Naquela manhã de Natal em que Déruchette escrevera rindo o nome dele, Gilliatt voltou para casa não sabendo já por que motivo tinha saído. Não dormiu de noite. Pensou em mil coisas: de que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim; que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma coisa; que tinha visto erva-pinheira em flor, coisa rara naquela estação.

     Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre ele e a velha que morrera em casa; disse consigo que devia ser sua mãe e pensou nela com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Reverendo Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre-Port, e que a paróquia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria o 27.º dia de lua, e que por consequência a maré enchente seria às 3 horas e 21 minutos, a média às 7 horas e 15 minutos, a vazante às 9 horas e 36 minutos. Recordou até nas menores particularidades, o vestuário de highIander que lhe vendera o bagpipe, boné enfeitado com um cardo à claymore, a casaca de abas curtas e qua-dradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escocesa, os dois cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dois cairgorums, e os joelhos nus do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquilo tornou-se espectro, perseguiu-o, deu-lhe febre até que ele adormeceu.

     Gilliatt acordou quando o sol já ia alto e o seu primeiro pensamento foi Déruchette.

     Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escocês. Sonhou também com o velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Déruchette e teve contra ela uma violenta cólera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

     Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe, e entrou a chorar.

     Projetou ir passar uns esses meses em Chausey ou em Minquiers, mas não partiu.

     Não tornou a por os pés na estrada de Saint-Pierre-Port ao Vale. Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra e que todos os viandantes deviam olhar para ele.

    

    Gilliatt vai entrando passo a passo no desconhecido

     Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de propósito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Déruchette.

     Estando um dia naquele caminho, ouviu a uma mulher do mercado, que falava a outra, e vinha da casa de Lethierry: “Miss Lethierry gosta muito de sea kales“.

     Gilliatt fez no jardim da casa mal-assombrada uma fossa de sea kales. O sea kale é uma couve que tem o sabor de aspargo.

     O muro do jardim da casa de Déruchette era baixinho; podia-se pular fácilmente. Esta idéia pareceu terrível a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que falavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt. não escutava, mas ouvia. De uma vez ouviu disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquela casa, soou-lhe como se fosse música.

     De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Déruchette. Deitou a correr.

     As palavras que ouviu à moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: “Faz favor de me dar a vassoura?”

     Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado. Aconteceu uma vez que Déruchette, que não podia ser vista de fora, embora tivesse a janela aberta, estava ao piano e cantava. Cantava a canção Bonny Dundee. Gilliatt empalideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.

     Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abriu-se o céu. Gilliatt viu Déruchette regando uns pés de alface.

     Dai a pouco já ele fazia mais do que parar. Observava os hábitos da moça, notava as horas em que ela aparecia, e esperava.

     Tinha cuidado de não ser visto por ela.

     A pouco e pouco, ao tempo em que as noites se enchem de borboletas e de rosas, imóvel e mudo horas inteiras sem ser visto por ninguém, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Déruchette andar pelo jardim. É fácil acostumar-se ao veneno.

     Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Déruchette conversar com Mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distintamente aos ouvidos.

     Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido. Ali! o coração humano é um velho espião!

     Havia outro banco visível e próximo, no fim de uma alameda. Déruchette assentava-se ali algumas vezes.

     Pelas flores que ele via Déruchette colher e cheirar, adivinhou as preferencias da moça a respeito de perfumes.

     A moça preferia antes de tudo a campânula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos lírios, olhava para eles, mas não os cheirava. A vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento. Cada cheiro significava para ele uma perfeição. Só a idéia de falar a Déruchette fazia-lhe arrepiar os cabelos. Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes à rua que costeava o muro do jardim de Déruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquele muro e a sua devoção por aquele lugar deserto. Ligaria ela a presença daquele homem à possibilidade de uma mulher que estivesse atrás do muro? Descobriria esse vago fio invisível? Restava-lhe acaso, na sua decrepitude mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma coisa dos belos tempos, e saberia ela, já no inverno e na noite, que coisa é o alvor da madrugada? Ignoramo-lo, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinela, dirigiu para o lado dele toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz e murmurou entre as gengivas: “Aquece, aquece!”

     Gilliatt ouviu a palavra, que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior: “Aquece? Que quer dizer a velha?”

     Repetiu maquinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a compreendê-la.

     Estando um dia à janela da casa mal-assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se por pagode na angra de Houmet-Paradis. Brincavam ingenuamente na água, a cem passos dele. Gilliatt fechou violentamente a janela. Reparou então que uma mulher nua causava-lhe horror.

    

    A canção “Bonny Dundee” acha um eco na colina

     Atrás do muro do jardim, em um ângulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de urtigas, com um pé de malva silvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quase todo o verão. Ficava ali inexprimivelmente pensativo. As lagartixas, que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave. Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céu. Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumorejar de pássaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: “Mas por que escreveu ela o meu nome na neve?”

     O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longínquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das árvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo: “È isso. Compreendo. Déruchette ama-me”. Sentia-se profundamente triste. Dizia ele: “Mas também ela pensa em mim; faz bem”. Pensava em que Déruchette era rica, e ele pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execrável. Não podia lembrar nunca em que dia do mês estava. Contemplava vagamente os grandes zangões negros, de lombo amarelo e asas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.

     Déruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Aproximou-se da janela para fechá-la. A noite estava escura. De repente, Déruchette aplicou o ouvido. Havia uma música no meio daquela noite profunda. Alguém que provavelmente estava na vertente da colina, ou ao pé das torres do castelo do Vale, ou talvez mais longe, executava uma canção num instrumento. Déruchette reconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em bagpipe. Não compreendeu nada.

     Desde então, ouviu ela muitas vezes a mesma coisa, à mesma hora, especial-mente nas noites escuras.

     Déruchette não gostava muito daquilo.

    

     Pour l’oncle est le tuteur, bons hommes taciturnes,

     Les sérênades sont des tapages nocturnes.

     (Para o tio e meu tutor, bons homens taciturnos.

     As serenatas são nocturnas ruídos tumultuosos. (N. Ed.)

     (Versos de uma comédia inédita)

    

     Passaram-se quatro anos.

     Déruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.

     Já alguém escreveu algures: “Uma idéia fixa é uma verruma. Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirpá-la no primeiro ano é preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos”. Gilliatt estava no quarto ano.

     Não tinha trocado uma só palavra com Déruchette. Pensava nela; era tudo.

     Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Déruchette conversando com Mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a aproximar-se dela. Cuidava estar certo de que sorrira quando ele passou. Não era coisa impossível.

     Déruchette continuava a ouvir de tempos a tempos o bagpipe.

     Também Mess Lethierry ouvia o bagpipe e notou a persistência desta música perto da janela de Déruchette. Música terna, circunstância agravante. Não lhe agradavam namorados noturnos.

     Queria casar Déruchette com dia claro, quando ela e ele quisessem e simples-mente, sem romance e sem música. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Meteu as unhas na barba em sinal de cólera e disse: “Por que motivo vêm aquele animal sanfonear-me à porta? Ama Déruchette, é claro. Perde o tempo. Quem quiser Déruchette deve vir falar-me, e sem música”.

     Previsto desde muito, veio a realizar-se um acontecimento importante. Anun-ciou-se que o Reverendo Jaquemin Herodes fora nomeado delegado do bispo de Winchester, decano da ilha e cura de Saint-Pierre-Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de instalar o seu sucessor.

     Estava a chegar o novo cura. Era ele gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.

     A respeito dele havia circunstâncias que a benevolência e a malevolência comentavam em sentido inverso. Diziam que era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na língua especial criada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto Este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer Caudray era bem aparentado; tinha quase direito à qualidade de honorable. Quanto à sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a expressão do Bispo Tilleston, era muito libertino, isto é, muito severo. Repudiava o farisaísmo; ligava-se antes ao presbitério que ao episcopado. Sonhava com a Igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hierópolis, raptava uma moça para ser mulher dele, dizendo aos pais: “Ela quer e eu quero, já não sois nem pai nem mãe, eu sou o anjo de Hierópolis, e esta é minha esposa. O pai é Deus”. A dar crédito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto : “Honrai pai e mãe” ao texto, segundo ele, superior: “A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pai e mãe para acompanhar o marido”. Mas, afinal de contas, esta tendência para circunscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vínculo conjugal é própria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra e singularmente na América.

    

    Justa vitória e sempre malquista

     Eis o balanço de Mess Lethierry, no tempo em que ocorria isto. Durande cumpriu o que prometera. Mess Lethierry pagou as dívidas, reparou os prejuízos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hipotecas, comprou todas as rendas locais inscritas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital produtivo, a Durande. O rendimento líquido do navio era então de 1000 libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna dele. Era também a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a bordo, e facilitar a entrada e saída do gado, suprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudência. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excelente.

     Já havia dez anos que Rantaine tinha roubado Mess Lethierry.

     A prosperidade de Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de Mess Lethierry era aceita como exceção. Dizia-se que ele fizera uma loucura feliz. Quis alguém fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve mau êxito na tentativa. A tentativa arruinou os acionistas. Dizia Lethierry: “É que a máquina foi mal construída”. Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si, o ódio de todos; o menor erro compromete-as.

     Consultado acerca de um negócio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oráculos comerciais do arquipélago normando: “É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo”. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira.. Em Guernesey a Durande era um fato, mas o vapor não era um princípio. Tal era a pertinácia da navegação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: “Fez coisa boa, mas não há de meter-se em outra”. Longe de animar, o exemplo dele causava medo. Ninguém ousaria arriscar segunda Durande.

    

    Fortuna dos náufragos encontrando a chalupa

     Cedo anuncia-se o equinócio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde fevereiro começam ali os ventos do oeste sacudindo as águas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de sinal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar aparece como uma emboscada; invisível clarim troa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrível o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.

     O vento é um perigo; o nevoeiro outro.

     Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Há nevoeiros que trazem suspensos prismas microscópicos de gelo, aos quais Mariotti atribui as auréolas, os parélios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compósitos; vapores diversos de peso específico desigual combinam-se com o vapor da água e surperpõem-se em uma ordem que divide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.

     Embaixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o fósforo.

     Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão elétrica e magnética, explica muitos fenômenos, o santelmo de Colombo e de Magalhães, as estrelas volantes de que fala Seneca, as duas chamas, Castor e Pólux, de que fala Plutarco, a legião romana que a César pareceu ver arderem os dardos, a lança do castelo do Duino no Frioul, que a sentinela acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relâmpagos terrestres de Satumo.

     No equador, imensa bruma permanente parece cingir o globo, é o Cloud-ring, anel de nuvens.

     O Cloud-ring resfria o trópico, do mesmo modo que o Gulf Stream aquece o pólo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavalos, Horse latitude; os navegadores dos últimos séculos, quando passavam ali, atiravam os cavalos ao mar, em ocasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economizar a água.

     Dizia Colombo: “Nube abajo és muerte”. (Nuvem baixa, morte certa.)

     Os etruscos, que são para a meteorologia o que os caldeus são para a astronomia, tinham dois pontificados - o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relâmpago, outros o nevoeiro. O colégio dos átigures de Tarquínia era consultado pelos tírios, fenícios e pelágicos, e de todos os navegadores primitivos do antigo Marinterno. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e, a bem dizer, é o mesmo fenómeno. Existem no mesmo oceano três regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome - le pot au noir.

     Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinócio são mui perigosos. Fazem anoitecer de súbito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da cor da água; resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parcéis. O navegador aproxima-se de um escolho sem ser advertido.

     Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja pôr-se à capa ou ancorar. Há tantos naufrágios causados pelo nevoeiro como pelo vento.

     Entretanto, após uma violentíssima borrasca que sucedeu a um  dia de nevoeiro, a chalupa Cashmere chegou perfeitamente da Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre-Port aos primeiros raios do dia, no momento em que o Castelo Comet salvava o sol com um tiro. Iluminava-se o horizonte. A chalupa Cashmere era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa, espalhou-se o boato de que encontrara à noite no mar outra chalupa com uma equipagem. naufragada.

    

    Boa fortuna de aparecer a tempo

     Naquela noite, Gilliatt, quando o vento amainou, saiu a pescar, sem afastar-se muito da costa.

     Na volta, estando a maré a encher, pelas 2 horas da tarde, e fazendo um sol esplêndido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de la Bete para entrar na angra em que ficava a pança, pareceu-lhe ver na projeção da Cadeira Gild Holm-‘Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a pança chegar até ali e reconheceu que um homem estava assentado na Cadeira Gild-Holm-‘Ur.

     O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela água, não era possível ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou imóvel. Gilliatt aproximou-se. O homem estava adormecido.

     Tinha ele vestuário preto. “Parece padre”, pensou Gilliatt. Aproximou-se ainda mais e viu um rosto de adolescente.

     Não conheceu quem era.

     A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava Para que Gilliatt, pondo-se de pé sobre a pança, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se caísse naquele momento, é duvidoso que tornasse a aparecer. A vaga batia entre a pança e o rochedo, era inevitável ser esmagado.

     Gilliatt puxou o pé do homem adormecido.

     - Olá, que faz aí?

     O homem acordou.

     - Estou olhando - disse ele.

     Depois, acordando de todo, continuou:

     - Cheguei há pouco à terra, vim passear aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cansado, adormeci.

     - Dez minutos mais, afogar-se-ia - disse Gilliatt.

     - Ah!

     - Salte para a barca.

     Gilliatt susteve a barca com o pé, pós uma das mãos no rochedo e estendeu a outra ao homem, que pulou lentamente na barca. Era um bonito rapaz.

     Gilliatt tomou o leme; em dois minutos, a pança chegou à angra da casa mal-assombrada.

     O moço tinha chapéu redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabelos loiros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.

     Entretanto a pança tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e viu a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.

     Gilliatt repeliu docemente a mão.

     Houve um silêncio. O moço falou:

     - Salvou-me a vida - disse ele.

     - Talvez - respondeu Gilliatt.

     A pança estava amarrada. Saíram da barca.

     O moço continuou:

     - Devo-lhe a vida, senhor.

     - Que importa isso?

     Essa resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silêncio. É desta paróquia o senhor? - perguntou o mancebo. Não – respondeu Gilliatt. De que paróquia é então?

     Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céu e disse:

     - Daquela.

     O moço cumprimentou e foi caminhando.

     Depois de alguns passos, voltou, meteu a mão no bolso, tirou um livro e voltou-se para Gilliatt.

     - Consinta que lhe ofereça isto.

     Gilliatt tomou o livro.

     Era uma Bíblia.

     Instantes depois, Gilliatt, encostado ao parapeito, olhava para o moço, que voltava o ângulo do caminho que, ia ter a Saint-Sampson.

     A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a Cadeira Gild-Holm-‘Ur, e tudo desapareceu, na imersão sem fundo do cismar. Gilliatt tinha um abismo, Déruchette.

     Tirou-o daquele abismo uma voz que lhe gritou:

     - Olá, Gilliatt!

     Reconheceu a voz e ergueu os olhos.

     - Que há, Sr. Landoys?

     Era com efeito o Sr. Landoys, que passava na estrada a cem passos da casa, no seu faeton, com um pequeno cavalo. Parou a fim de chamar Gilliatt à fala, mas parecia atarefado e apressado:

     - Há novidade, Gilliatt.

     - Onde?

     - Na casa de Mess Lethierry.

     - O que há?

     - Estou longe para lhe contar o caso.

     Gilliatt estremeceu.

     - Casa-se Miss Déruchette?

     - Não. Mas...

     - Que quer dizer?

     - Vá lá à casa dele, que há de saber.

     E o Sr. Landoys chicoteou o cavalo.

 

O revólver

    A palestra na Pousada João

     O Sr. Clubin era o homem que espera a ocasião.

     Era baixo e amarelo, com a força de um touro. O mar não podia com ele. Tinha uma carne que parecia cera. Era da cor de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua memória tinha um que de imperturbável e especial. ver um homem uma vez era conservá-lo como se fosse uma nota em um registro O olhar lacónico apunhalava. A pálpebra tirava a prova de um rosto, e conservação; não importava que o rosto envelhecesse depois, o Sr. Clubin não deixava de reconhecê-lo. Era impossível fugir àquela memória tenaz. O Sr. Clubin era breve, sóbrio e frio; não fazia gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas acreditavam-no simplório; trazia no rosto uma certa ruga que indicava uma espantosa estupidez. Não havia melhor marinheiro do que ele. Não havia reputação de religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse é que era suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em Saint-Malo, Rua de São Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a sua fábrica a Oubin. O Sr. Clubin era viúvo. A mulher foi tão honesta como ele. Morreu com a fama de uma virtude invencível. Se o bailio lhe fizesse uma declaração ela iria contá-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ela iria contá-lo ao padre vigário. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do epíteto inglês respectable. A Sra. Clubin era o cisne; o Sr. Clubin era o arminho. Morreria se lhe pusessem uma nódoa. Nunca achou um alfinete que não fosse logo à cata do proprietário. Era capaz de por em almoeda uma caixa de fósforos, se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em Saint-Servan e disse ao taberneiro: “Almocei aqui há três anos e você enganou-se na conta”. E, dizendo isto, restituiu ao taberneiro cêntimos. Era uma grande probidade, mordendo atentamente os beiços.

     Parecia estar sempre à espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.

     Todas as terças-feiras levava a Durande de Guernesey a Saint-Malo. Chegava a Saint-Malo na terça-feira à noite, demorava-se dois dias para fazer o carregamento e voltava a Guernesey na sexta-feira de manhã. Havia então em Saint-Malo uma pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a Pousada João.

     A construção do cais atual fez demolir a pousada. Naquela época vinha o mar até a porta de Saint-Vincent e a porta de Dinan; Saint-Malo e Saint-Servan comunicavam-se nas marés baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em seco, evitando as bóias, as âncoras e os maçames, e arriscando-se às vezes a rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa. No intervalo de duas marés, os cocheiros fustigavam os cavalos naquela mesma areia, onde, seis horas depois, vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outrora os 24 cães, porteiros de Saint-Malo, que devoraram um oficial de marinha em 1770. Tamanho zelo fez suprimir os cães. Já não se ouvem agora os latidos noturnos entre o pequeno e o grande Tallard.

     O Sr. Clubin ia à Pousada João. Era ali o escritório francês da Durande. Os guardas da alfândega e os guardas da costa iam comer e beber na Pousada João. Faziam rancho à parte. Os guardas da alfândega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o serviço, com os guardas da alfândega de Saint-Malo.

     Também lá iam os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.

     O Sr. Clubin assentava-se ora numa, ora noutra, mas preferia a dos guardas à dos mestres. Era bem recebido em ambas.

     As mesas eram bem servidas. Havia as mais apuradas bebidas estrangeiras para os marítimos expatriados. Um marinheiro de Bilbau acharia ali um copo de helada. Bebia-se stout como em Greenwich, e como em Antuérpia.

     Capitães de longo curso e armadores tomavam às vezes lugar na mesa dos mestres de navio. Trocavam-se aí notícias:

     - Como vai o açúcar?

     - Pequenos lotes. vende-se bem o açúcar bruto; 3 000 sacas de Bombaim e quinhentas barricas de Sagua.

     - Há de ver, o partido da direita ainda derruba o ministério Villele.

     - E o anil?

     - venderam-se apenas uns sete surrões da Guatemala.

     - A Nanine Julie ancorou. Lindo navio da Bretanha.

     - As duas cidades do rio da Prata estão outra vez desavindas.

     - Quando Montevidéu engorda, Buenos Aires emagrece.

     - Foi preciso deitar ao mar a carga do Regina Coeli, condenado em Cião.

     - O cacau vai andando; os sacos Caracas são cotados a 234, e os sacos Trindade a 73.

     - Parece que na revista do Campo de Marte ouviu-se gritar: abaixo os ministros.

     - Os couros salgados, Saladeros, vendem-se o dos bois a 60 francos e o das vacas a

     - Já passaram o Balkan? O que faz Diebitsch?

     - O azeite Plagniol está calmo. O queijo de Gruyére está a 32 francos o quintal.

     - Com que então, Leão XII morreu?

     - Etc., etc., etc.

     Todas estas coisas eram ditas e comentadas no meio de grande barulho. À mesa dos guardas da alfândega e dos guardas da costa falava-se menos.

     A polícia das costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no diálogo.

     A mesa dos mestres de navio era presidida por um velho capitão de longo curso, o Sr. Gertrais-Gaboureau. Não era homem, era um barômetro. Os hábitos do mar deram-lhe uma espantosa infalibilidade de prognóstico. Ele decretava o tempo que devia haver no dia seguinte; auscultava o vento; tomava o pulso à maré. Dizia à nuvem: mostra-me a tua língua. A língua era o relâmpago. Era o doutor da vaga, da brisa e da lufada. O oceano era o seu doente; fez uma viagem à roda do mundo como quem faz uma clínica, examinando todos os climas na sua boa e má saúde; sabia a fundo a patologia das estações. Enunciava fatos como Este: o barómetro desceu uma vez em 1796 a três linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha inglesa para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto o Sovereign de 1637 diferia do Royal William de 1670 e do Victory de 1755. Comparava os castelos de popa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de gávea afimilados do Great Harry de 15 14, provàvelmente no ponto de vista da bala francesa que se aninhava perfeitamente naquelas superfícies. Para ele as nações só existiam por suas instituições marítimas; fazia sinónimos extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a Escócia Northern Commissioners, e a Irlanda Ballast Board. Abundava de informações; era alfabeto e almanaque. Sabia de cor a portagem dos faróis, principalmente ingleses; 1 penny por tonelada ao passar diante deste, 1 farthing ao passar diante daquele. Dizia: o Farol de Smalt Rock, que consumia apenas 200 galões de azeite, consome agora 500. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a tripulação, que já o tinha por defunto, estava à roda de sua maca, quando ele interrompeu os soluços da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem relativa a um conserto do navio.

     Era raro que o assunto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capitães e na mesa dos guardas. Apresentou-se, porém, o seguinte caso nos primeiros dias do mês de fevereiro, em que se passam os fatos que estamos contando. A galera Tamaulipas, Capitão Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a atenção das duas mesas. Na mesa dos mestres falou-se do carregamento, e na mesa dos guardas falou-se dos ares suspeitos do navio.

     O Capitão Zuela, de Copiapo, era chileno, um pouco colombiano; tinha feito com independência as guerras da independência, acompanhando ora Bolívar, ora Morillo, com enorme os lucros, enriquecido obsequiando a toda a gente. Não havia homem mais bourbônico, mais bonapartista, mais absolutista, mais liberal, mais ateu e mais católico. Ele pertencia a Este grande partido que se pode chamar o Partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia aparições comerciais na França; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos fugitivos, bancarroteiros ou proscritos políticos, fossem quem fossem, contanto que pagassem. O meio de embarcá-los era simples. O fugitivo esperava num ponto deserto da costa, e, no momento de aparelhar, Zuela destacava um escaler, que ia buscá-lo. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas comprometidas na questão da Bidassoa. A polícia, já avisada, estava com o Olho nele.

     Era um tempo de fugas aquele. A restauração era uma reação; ora, as revoluções trazem emigrações, e as restaurações arrastam proscrições. Durante os sete ou oito primeiros anos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo, nas finanças, na indústria, no comércio, que sentiam tremer a terra e viam multiplicar-se as falências. Havia um salve-se quem puder na política. Lavalette fugira. Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunais de exceção trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se à ponte de Saumur, à esplanada de Reole, ao muro do observa-tório de Paris, à torre de Taurias d’Avignon, tudo isso que se conserva de pé na história, vestígios da reação, aonde se distingue ainda a sua mão sanguinolenta.

     Em Londres, o processo Thistlewood, ramificado na França, em Paris o processo Trogoff, ramificado na Bélgica, na Suíça e na Itália, multiplicaram os motivos da inquietação e desaparecimento, e aumentaram essa profunda derrota subterrânea, que deixava vazios os mais altos lugares da ordem social de então. Pôr-se em segurança era a preocupação universal. O espírito dos tribunais prebostais sobrevivera à instituição. As condenações eram feitas por complacência. Fugiam para o Texas, para o Peru, para o México. Os homens da Loire, salteadores então, paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asilo. Dizia uma canção de Beranger:

     Sauvages, nous sommes français;

     Prenez pitié de notre gloire.

     (Selvagens, nós somos franceses,

     Tende piedade de nossa glória. (N. Ed.)

     Expatriar-se era o recurso; porém nada menos simples que fugir; Este monos-sílabo encerra abismos. Tudo é obstáculo para quem se esquiva. Fugir é disfarçar-se. Pessoas importantes, e até ilustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores. E ainda assim saíam-se mal. Eram inverossímeis. Os seus hábitos de franqueza tornavam-lhes difícil resvalar pelas malhas da evasão. Um gatuno fugitivo mostrava-se mais correto aos olhos da polícia do que um general. Imaginem a inocência constran-gida a disfarçar-se, a virtude contrafazendo a voz, a glória mascarando o rosto. Algum indivíduo que passasse com ar suspeito, era uma reputação à cata de um passaporte falso. O ar embaraçado de um fugitivo não provava que ele deixasse de ser um herói. Traços fugazes e característicos dos tempos, que a história regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um século deve rememorar. Atrás dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados, menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confusão, fazia parte dos proscritos, e muitas vezes, graças a unia arte apurada, parecia naquele crepúsculo mais honesto que o honesto. Que há aí mais acanhado que a probidade diante da justiça? Nada entende, nada finge. Um falsário escapa-se mais facilmente que um convencional.

     Coisa estranha! Especialmente em relação aos tratantes, quase se pode dizer que a evasão fazia subir o indivíduo. A quantidade de civilização que um velhaco levava de Paris ou de Londres valia-lhe por dote nos países primitivos ou bárbaros, recomendava-o e fazia dele um iniciador. Era fácil que um aventureiro, escapando ao código, chegasse depois ao sacerdócio. Havia fantasmagoria na desaparição, e mais de uma evasão tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste gênero levava ao desconhecido e ao quimérico. Tal bancarroteiro saía da Europa e aparecia mais tarde grão-vizir em Mogol ou rei na Tasmânia.

     Ajudar as evasões era uma indústria, e visto a frequência do fato, uma indústria lucrativa. Esta especulação completava certos gêneros de comércio. Quem queria fugir para a Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas; quem queria fugir para a América dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, tais como Zuela.

    

    Clubin descobre alguém

     Zuela ia comer, algumas vezes, à Pousada João. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.

     E o Sr. Clubin não era soberbo; não se desprezava de conhecer de vista um tratante. Às vezes chegava mesmo a conhecê-los de fato, dando-lhes a mão em plena rua. Falava inglês com o smogler e engrolava o espanhol corri o contrabandista.

     A Este respeito tinha ele as seguintes máximas:

     - Pode-se adquirir o bem pelo conhecimento do mal.

     O monteiro conversa proveitosamente com o ladrão de caça. – O piloto deve sondar o pirata; o pirata é um escolho. - Trata de provar um velhaco como o médico prova o veneno.

     Não tinha réplica. Todos davam razão ao Capitão Clubin. Era aprovado por não ter escrúpulos tolos. Quem ousaria dizer mal dele? Tudo quanto fazia era para bem do serviço. Nele tudo era simples. Nada podia comprometê-lo. O cristal querendo manchar-se não pode. Esta confiança era a justa recompensa de uma longa honestidade e é essa a excelência das reputações firmes. Fizesse o que fizesse o Sr. Clubin, todos lhe viam malícia no sentido da virtude; tinha adquirido a impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou daquele encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade saía sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradição alguma. Ingénuo hábil é coisa que existe. É uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas. O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa íntima com um larápio ou um bandido, são recebidos, compreendidos, e mais respeitados, e tem ainda por si o piscar de olhos satisfeitos da estima pública.

     O Tamaulipas tinha completado o carregamento. Estava próximo a partir e ia aparelhar.

     Em uma terça-feira à tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin, de pé no passadiço e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit Bey, na praia, entre dois rochedos, em um lugar muito solitário, dois homens conversando. Deitou-lhes o óculo e reconheceu. um dos homens. Era o Capitão Zuela. Parece que reconheceu também o outro.

     O outro era alto, um pouco grisalho. Trazia o chapéu largo e o vestuário grave dos Amigos. Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com modéstia.

     Chegando à Pousada João, o Sr. Clubin soube que o Tamaulipas ia aparelhar dentro de dez dias.

     Soube-se depois que ele tomara outras informações.

     À noite, entrou em casa do armeiro da Rua de São Vicente, e disse-lhe:

     - Sabe o que é um revólver?

     - Sei - respondeu ele -, é americano.

     - É uma pistola que renova sempre a conversação.

     - Na verdade, ela tem pergunta e resposta.

     - E replica.

     - É justo, Sr. Clubin. O cano é girante. E cinco ou seis balas.

     O armeiro levantou o cantinho do beiço e fez ouvir aquele estalo de língua, que, acompanhado de um movimento de cabeça, exprime a admiração.

     - A arma é boa, Sr. Clubin. Creia que há de vir a ser universal.

     - Eu queria um revólver de seis tiros.

     - Não tenho desses.

     - Pois que, o senhor não é armeiro?

     - Mas ainda não tenho desse. Bem vê que é coisa nova. Na França só se fazem pistolas.

     - Diabo!

     - É coisa que ainda não está no comércio.

     - Diabo!

     - Tenho pistolas excelentes.

     - Quero um revólver.

     - Convenho que é melhor. Mas espere, Sr. Clubin

     - O que é?

     - Creio que há um em Saint-Malo.

     - Revólver?

     - Sim.

     - Para vender?

     - Sim.

     - Onde?

     - Creio que sei. Hei de informar-me.

     - Quando me dá a resposta?

     - O revólver é bom.

     - Quando devo voltar?

     - Se eu lhe arranjo um revólver, é porque é bom.

     - Quando me dá a resposta?

     - Na sua primeira viagem.

     - Não diga que é para mim.

    

    Clubin leva uns objectos e não os traz

     O Sr. Clubin fez o carregamento da Durande, embarcou o e alguns passageiros, e, como de costume, saiu de Saint-Malo para Guernesey na sexta-feira de manhã.

     Nesse mesmo dia, quando o navio já estava ao largo, o que permite ao capitão ausentar-se do tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou um saco de viagem que tinha, meteu alguma roupa no compartimento elástico, biscoitos, latas de conserva, algumas de cacau, um cronometro e um óculo no compartimento sólido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para içá-lo se fosse preciso. Depois desceu ao porão, entrou no depósito dos cabos e viram-no subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos calafates no mar ladrões em terra. Essas cordas facilitam a escalada.

     Chegando a Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou aí 36 horas. Levou o saco e a corda, mas não voltou com eles.

     Uma vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro é o antigo Guernesey que já não existe e seria impossível achá-lo hoje, a não ser no campo. É aí que ele existe vivo, mas nas cidades morreu. A observação que fazemos a respeito de Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. Saint-Hélier vale Dieppe; Saint-Pierre-Port vale Lorient. Graças ao progresso, graças ao admirável espírito de iniciativa daquele valente povo insular, transformou-se tudo em quarenta anos no arquipélago da Mancha. Onde havia sombra há luz. Dito isto, continuemos. Naqueles tempos que, pelo afastado, já são históricos, o contrabando ativava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros, principalmente na costa de oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e que sabem em todas as minúcias o que se passava há quase meio século chegam a citar os nomes de muitos desses navios quase todos asturianos. O que é fora de dúvida é que não se passava semana, sem que aparecesse um ou dois, ora na baía dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um serviço regular. Havia uma cava de mar em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era nessa gruta que a gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importação. Para as necessidades desse comércio falava-se na Mancha uma espécie de língua contra-bandista, esquecida hoje, e que estava para o espanhol como o levantino para o italiano.

     Em muitos pontos do litoral inglês e francês o contrabando estava em boa harmonia com o negócio lícito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, às escondidas, e verdade; e dilatava-se subterraneamente na circulação comercial e por todas as vias de indústria. Negociante em público, contrabandista às escondidas, eis a história de muitas fortunas. Seguindo, dizia isto de Bourguin. Bourguin dizia isto de Seguin. Não garantimos o dito de ambos. Talvez se caluniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei estava, sem contestação, muito aparên-tado no comércio. Carteava-se com a gema da sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava outrora o Conde de Charolais era honesta exteriormente e tinha uma fachada irrepreensível para o lado da sociedade.

     Daqui resultaram muitas conveniências necessariamente mascaradas. Tais mistérios exigiam sombra impenetrável. Um contrabandista sabia de muitas coisas e devia guardar segredo; a sua lei era uma fé inviolável e rígida. A primeira qualidade de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrição não há contrabando. Havia o segredo da fraude como há o segredo da confissão.

     Esse segredo era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava não dizer nada e mantinha a sua palavra. Ninguém inspirava mais confiança do que um contrabandista. O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e pôs-lhe a questão para obrigá-lo a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contraban-dista não confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos dois cúmplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia, para cumprir a lei aos olhos de todos, ordenar a tortura, à qual o segundo resistia para cumprir o juramento.

     Os dois mais famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquela época, eram Blasco e Blasquito. Eram tocaios. Parentesco espanhol e católico que consiste em ter o mesmo patrão no paraíso, coisa não menos digna de consideração que ter o mesmo pai na terra.

     Quem estava pouco mais ou menos ao fato do furtivo itinerário do contrabando e queria falar a esses homens, era isso a coisa mais fácil e mais difícil. Bastava não ter preconceitos noturnos, ir a Plainmont e afrontar o misterioso ponto de interrogação que ali se levanta.

    

    Plainmont

     Plainmont, perto de Torteval, é um dos três ângulos de Guernesey. Há, na extremidade do cabo, uma coroa de relva que domina o mar.

     O cume é deserto.

     Tanto mais deserto quanto há ali uma casa.

     Aquela casa aumenta o horror da solidão.

     Dizem que é mal-assombrada.

     Assombrada ou não, o aspecto é medonho.

     É feita de granito, tem um só andar e está no meio da relva. Não tem aspecto de ruína. É perfeitamente habitável. As paredes são grossas e o teto sólido. Não falta uma só pedra às paredes, nem uma só telha ao telhado. Tem uma chaminé de tijolo. A casa está de costas para o mar. A fachada do lado do mar é apenas uma parede. Exami-nando bem essa parede vê-se uma janela murada. Há três trapeiras, uma a leste, duas a oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma só porta e janelas. A porta é murada e as duas janelas de baixo também. No primeiro andar, e é isso que espanta logo ao princípio, há duas janelas abertas; mas as janelas tapadas são menos assustadoras que as janelas abertas. Por estarem abertas, aparecem negras em pleno dia. Não tem vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior. Dir-se-ia umas órbitas vazias de olhos arrancados. Nada há naquela casa. Vê-se pelas janelas abertas o descalabro de dentro. Nem retábulos, nem entalhos de madeira, pedra nua. Parece um sepulcro com janelas para deixar que os espectros olhem para fora. As chuvas aluem os alicerces do lado do mar. Algumas urtigas agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horizonte, nenhuma habitação humana. Aquela casa é uma coisa vazia e silenciosa. Mas quem pára e põe o ouvido à parede ouve confusamente um bater de asas assustadas.

     Por cima da porta tapada, na pedra que faz a arquitrave, estão gravadas estas letras: ELM - PBILG, e esta data: 1780.

     De noite o luar lúgubre penetra na casa.

     Todo o mar está em roda da casa. A situação é magnífica, e, por consequência, sinistra. A beleza do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquela casa não é habitada por nenhuma família humana? O lugar é bonito, a casa é boa. Donde procede esse abandono? As perguntas da razão ajuntam-se as perguntas da superstição. O campo é cultivável, por que motivo está inculto? Não há dono. A porta, murada. Que tem, pois, esse lugar? Por que foge o homem? Que se faz aqui? Se não há nada por que é que não há ninguém? Quando todos dormem há alguém acordado? A lufada tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animais escondidos, os entes ignorados, aparecem ao pensamento e misturam-se àquela casa. A que passageiros serve ela de hospedaria? A gente imagina trevas de granizo e de chuva metendo-se pela janela dentro. Há na parte interior uns vagos sinais de chuva. Os quartos fechados e abertos são visitados.

     Cometer-se-ia algum crime ali? Parece que aquela casa, à noite, entregue às trevas, deve chamar por socorro. Será muda? Saem vozes de dentro? Que faz ela na solidão? O mistério das horas negras existe ali facilmente. A casa assusta ao meio-dia; que será ela à meia-noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se - porque a superstição tem a sua lógica e o possível a sua inclinação - o que será aquela casa entre o crepúsculo da noite e o crepúsculo da manhã. A imensa dispersão da vida extra-humana tem acaso naquele cume deserto um vínculo em que ela pára, e que a obriga a fazer-se visível e a descer? O espaço vai redemoinhar ali? O impalpável vai ali condensar-se? Enigmas. Sai daquelas pedras o horror sagrado. A treva que está nesses quartos defesos é mais do que treva; é o desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra, calam-se os pássaros, o cabreiro que está atrás do rochedo vai-se com as suas cabras, as fendas das pedras darão passagem aos répteis mais animados, as estrelas começarão a olhar, soprará o vento, far-se-á plena escuri-dão, as duas janelas estarão ali escancaradas. Abrem-se para o sonho; e é por aparições, larvas, fantasmas mal distintos, sombras cobrindo luzes, misteriosos tumultos de almas e espectros, que a crença popular estúpida e profunda, traduz as sombrias intimidades daquela casa com a noite.

     A casa é mal-assombrada, esta palavra explica tudo.

     Os espíritos crédulos dão a sua explicação; mas os espíritos positivos dão outra. Nada mais simples do que essa casa, dizem eles. É um antigo posto de observação, do tempo das guerras da revolução e do império e dos contrabandos. Foi construída para isso. Acabada a guerra, foi abandonado o Posto. Não se demoliu a casa porque pode tornar-se útil. Taparam-se a porta e as janelas do rés-do-chão contra os Catercorários humanos, e para que ninguém pudesse entrar; taparam-se as janelas do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento do oeste. Eis tudo.

     Os ignorantes e os crédulos insistem. Em primeiro lugar a casa não foi construída no tempo das guerras da revolução. Traz a data de 1780, anterior à revolução. Depois, não foi construída para ser posto; tem as letras ELM - PBILG, que são o duplo monograma de duas famílias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi construída para algum jovem casal. Portanto foi habitada. Por que não o é agora? Se tapou a porta e as janelas para que ninguém entrasse, por que motivo deixaram-se abertas duas janelas? Deviam tapar tudo ou nada. Por que não há vidros, nem caixilhos, nem postigos? Por que fechá-las de um lado, sem fechá-las de outro? A chuva não entra pelo sul, mas entra pelo norte.

     Os crédulos não tem razão, é certo; mas os positivos também não a tem. O problema persiste.

     O que é certo é que dizem ter sido a casa mais útil que nociva aos contraban-distas.

     Quando o medo cresce, os fatos perdem a verdadeira proporção. Não há dúvida que muitos fenômenos noturnos, entre aqueles de que a pouco e pouco se compôs o assombramento da casa, poderia explicar-se por presenças fugitivas e obscuras, curtas estações de homens logo embarcados, já pelas precauções, já pela ousadia de certos comerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e deixando-se entrever para causar medo.

     Naquela época já remota, muitas audácias eram possíveis. A polícia, sobretudo, nos lugares pequenos, não era o que é hoje.

     Ajunte-se a isto que se a casa era cômoda aos contrabandistas, as suas entrevistas ali deviam ser francas, exatamente porque a casa era mal vista. O ser mal vista impedia que fosse denunciada. Ninguém pede à policia socorro contra os espectros. Os supersticiosos persignam-se,, mas não fazem processo. vêem ou acreditam ver, fogem e calam. Existe uma conivência tácita involuntária, mas real, entre os que fazem medo e os que tem medo. Os assustados sentem que fizeram mal em se assustarem, imaginam ter surpreendido um segredo, receiam agravar a posição misteriosa para eles, e enfadar as aparições. Isto fá-los discretos. E ainda, fora deste cálculo, o instinto dos crédulos é o silêncio; o medo é mudo; os aterrorizados falam pouco; parece que o horror diz: silêncio.

     Devem recordar-se que isto remonta à época em que os camponeses guerne-sianos acreditavam que o mistério do presépio era repetido todos os anos pelos bois e pelos asnos; época em que ninguém, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma estrebaria com receio de encontrar os animais ajoelhados.

     Se se deve acreditar nas legendas locais e narrativas dos camponeses, a supers-tição chegou a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem vestígios, ratos sem pés, morcegos sem asas, arcabouços de animais mortos, sapos esmagados entre as páginas de uma Bíblia, febras de tremoços amarelos, estra-nhos ex-votos pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma coisa, e por meio desses presentes contavam obter perdão e conjurar o mau humor das estriges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos de feitiçaria, e alguns desses crédulos altamente colocados. César consultava Sagana, e Napoleão Mademoiselle Lenormand. Há consciências tão inquietas que chegam a procurar indulgências do diabo. “Faça-o Deus, mas não o desfaça Satanás”, era uma das orações de Carlos V.

     Há espíritos mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter razão contra eles. Ser irrepreensível para com o demônio é uma das suas preocupações. daí vêm as práticas religiosas voltadas para a imensa malícia obscura. E uma carolice como qualquer outra. Os crimes contra o demônio existem em certas imaginações doentias; violar a lei do inimigo é uma coisa que faz sofrer os estranhos casuístas da ignorância; há escrúpulos para com as regiões das trevas. Crer na eficácia da devoção aos mistérios do Brocken e de Armuyr, imaginar que se peca contra o inferno recorrendo a penitencias quiméricas por infrações quiméricas, confessar a verdade ao espírito da mentira; fazer o mea culpa diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou existiu. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas páginas. Vai até esse ponto o sonho humano. Quando o homem começa a assustar-se, não pára mais. Sonha culpas imaginárias, sonha purificações imaginárias, e faz limpar a sua consciência com a vassoura das feiticeiras.

     Fosse como fosse, se aquela casa teve aventuras, é coisa que lá ficou; pondo de parte alguns acasos e algumas exceções, ninguém subiu a ver o que era; a casa ficou só; ninguém gosta de arriscar-se aos encontros infernais.

     Graças ao terror que a cerca e afasta dali todo aquele que pudesse observar e testemunhar, fácil foi em todos os tempos entrar de noite naquela casa por meio de uma escada de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas hortas vizinhas. Levava-se um rancho de víveres, o que dava lugar a esperar ali com toda segurança a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradição que há quarenta anos um fugitivo, dizem uns que da política outros que do comércio, lá esteve algum tempo escondido, e dali embarcou num barco de pesca para a Inglaterra. Da Inglaterra é fácil passar à América.

     A mesma tradição afirma que as provisões depositadas naquele albergue lá se conservam sem que ninguém as toque, visto como Lúcifer e os contrabandistas tem interesse em que a pessoa que lá as põe vá buscá-las.

     Do lugar em que existe aquela casa, vê-se ao sudoeste, a 1 milha da costa, o escolho de Hanois.

     É célebre aquele escolho. Fez todas as más ações que um rochedo pode fazer. Era um dos mais temíveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios à noite. Entulhou os cemitérios de Torteval e de Rocquaine.

     Em 1862 pôs-se ali um farol.

     Hoje o escolho de Hanois alumia a navegação que ele próprio extraviava outrora; a emboscada traz agora um archote na mão. Procura-se hoje como protetor e guia o rochedo do qual fugia-se outrora como de um malfeitor. O escolho tranquiliza aqueles vastos espaços noturnos onde outrora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador feito soldado de polícia.

     Há três Hanois: o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mative. No pequeno Hanois é que existe hoje o Red Light.

     O escolho faz parte de um grupo de picos, uns submarinos, outros acima da água. Domina-os. Como se fora uma fortaleza, tem baterias avançadas; do lado do mar alto, um cordão de treze rochas; ao norte, dois cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons e um banco de areia, Heronée; ao sul três rochedos, Cat-Rock, Persée e Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e além disso em frente de Plainmont, à flor da água o Tas-de-Pois-d’Aval.

     Atravessar a nado o estreito de Hanois a Plainmont é coisa incómoda, mas não impossível. O leitor lembra-se de que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que conhece os baixios tem duas estações em que pode descansar, a Roque redonda, e, mais longe, obliquando um pouco à esquerda, a Roque vermelha.

    

    Os furta-ninhos

     Pouco mais ou menos naquele dia de sábado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um fato singular, pouco assoalhado em principio e que só transpirou muito depois. Como dissemos, há muitas coisas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo que inspiram às suas próprias testemunhas.

     Na noite de sábado ao domingo (precisamos o dia e cremo-lo exato), três meninos escalaram o rochedo de Plainmont. Voltavam à vila. Vinham do mar. Eram o que, na língua local, chamam deniquoiseaux: leia-se deniche-oiseaux (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima do mar há furta-ninhos em abundância. Já falamos deles. O leitor lembra-se de que Gilliatt preocupava-se com isto, por causa dos pássaros e por causa das crianças.

     Os furta-ninhos são espécies de gaiatos do oceano, pouco tímidos.

     A noite era escura. Espessas superposições de nuvens escondiam o zenite. três horas da manhã soavam no sino de Torteval, que é redondo e pontudo, semelhante a um chapéu de mágico.

     Por que voltavam tão tarde aqueles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido à caça dos ninhos de cotovias no Tas-de-Pois-d’Aval. Como a estação tinha sido amena, começaram cedo os amores dos pássaros. Os pequenos espreitando os machos e as fêmeas à roda dos ninhos, e distraídos pela tenacidade da empresa tinham esquecido as horas. Foram cercados pela maré. Não puderam voltar a tempo para a canoa e tiveram que esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das pontas de Tas-de-Pois. Tal foi o motivo da volta noturna. Estas voltas são esperadas sempre pela febril inquietação das mães que, uma vez tranquilas, manifestam a alegria por meio da cólera, e lacrimosas dissipam o terror a cachações. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados. Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de não chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.

     Só um dos meninos nada receava; era um órfão. Era francês e ia bem contente de não ter naquele dia nem pai nem mãe. Não tendo ninguém que se interessasse por ele, escapava à bordoada. Os outros dois eram guernesianos e da paróquia de Torteval.

     Escaladas as rochas, os três furta-ninhos chegaram à planura onde estava a casa mal-assombrada.

     Começaram por ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianças, àquela hora e naquele lugar.

     Quiseram fugir e quiseram parar a fim de contemplar a casa.

     Pararam.

     Contemplaram a casa.

     Era negra e formidável.

     Era, naquele deserto, um montão escuro, uma excrescência simétrica e hedionda, uma alta massa quadrada de ângulos retilíneos, uma coisa semelhante a um enorme altar de trevas.

     O primeiro pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi aproximar-se. Nunca tinham visto aquela casa àquela hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia entre eles um francês, donde resultou que os pequenos aproximaram-se da casa.

     É sabido que os franceses não acreditam em coisa alguma.

     Demais, quando são muitos, todos se tranquilizam; o medo dividido por três dá animação.

     E depois, eram curiosos; eram crianças, somada a idade dos três não dava trinta anos; era a idade de perscrutar, de escavar, esquadrinhar as coisas ocultas; deve-se acaso parar no meio? Mete-se a cabeça neste buraco, porque não mete-la no outro? A caça arrasta; andar em uma descoberta é o mesmo que meter-se em um moinho. Ter olhado para o ninho dos pássaros dá vontade de olhar um pouco para o ninho dos espectros. Investigar o inferno, por que não?

     De caça em caça, chega-se ao demônio. Depois dos pardais os diabretes. Há vontade de saber o que é esse medo inspirado pelos pais. Andar na pista dos contos da carocha é o que há mais resvaladiço. Saber tanto como as contadeiras de histórias é coisa que tenta.

     Todo Este amálgama de idéias no estado de confusão e instinto, na cabeça dos rapazes, deu em resultado a temeridade deles. Caminharam para a casa.

     Demais, o pequeno que lhes servia depois nesta bravura, era digno disso. Era um rapaz resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianças que já são homens, dormindo no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando às árvores e às paredes sem escrúpulos a respeito das frutas que encontrava, tendo trabalhado em consertos de navios de guerra, filho do acaso e do bambúrrio, órfão alegre, nascido na França, sem saber em que ponto, duas razões para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito mau, muito bom, loiro rastejando a ruivo, tendo já falado aos parisienses. Agora ganhava 1 xelim por dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em férias e ia tirar os ninhos dos pássaros. Tal era o francês.

     A solidão do lugar tinha um não sei que de fúnebre. Sentia-se a inviolabilidade ameaçadora. Era medonho. Aquela planura silenciosa e nua escondia no precipício a sua curva em declive. Embaixo calava-se o mar. Não havia vento. As ervas não se mexiam.

     Os furta-ninhos avançavam devagar, com o francês à frente, contemplando a casa.

     Um deles, contando depois o fato, ou o pouco que lhe restava na memória, acrescentava: “A casa não dizia nada”.

     Aproximavam-se retendo a respiração, como quem se aproxima de um animal feroz.

     Tinham subido o cômoro que fica atrás da casa, e que vai ter a um pequeno istmo de rochedos pouco praticável; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que é toda murada; não tinham ousado voltar à esquerda, o que os teria exposto a ver a outra fachada em que há apenas duas janelas, o que é terrível. Entretanto atre-veram-se, porque o aprendiz de calafate disse-lhes baixinho, “Viremos de bombordo; daquele lado é que é bonito; é preciso ver as duas janelas negras”.

     Viraram de bombordo e chegaram ao outro lado da casa.

     As duas janelas estavam iluminadas.

     Os meninos fugiram.

     Quando estavam longe, voltou-se o francês.

     - Olhem - disse ele - já não há luz.

     Com efeito, não havia luz nas janelas. A casa desenhava-se na lividez difusa do céu.

     O medo não se foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos aproximaram-se.

     De repente apareceram as luzes outra vez.

     Os dois rapazes de Torteval tornaram a por sebo às canelas. O pequeno Satanás francês, não avançou, mas não recuou. Ficou imóvel em frente da casa olhando para ela.

     Extinguiu-se a luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrível. O reflexo fazia um vago rastilho de fogo na relva úmida pelo orvalho. Em certo momento o clarão desenhou na parede interior da casa grandes perfis negros que se mexiam e sombras de cabeças enormes.

     Demais a casa não tinha teto nem tabiques, e, tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma janela não pode ser iluminada sem que a outra o seja.

     Vendo que o aprendiz de calafate ficava, os outros dois voltaram trémulos, curiosos. O aprendiz de calafate disse-lhes baixinho: “Há almas do outro mundo na casa. Vi o nariz de uma delas”. Os dois pequenos agruparam-se atrás do francês, e levantando-se sobre a ponta dos pés, por cima do ombro, abrigados por ele, fazendo dele um escudo, opondo-o à casa, tranquilizados por tê-lo entre si e a visão, olharam também.

     A casa a seu turno parecia olhar para eles. Tinha, naquela vasta obscuridade muda, duas órbitas vermelhas. Eram as janelas. A luz eclipsava-se, reaparecia, eclipsava-se ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermitências sinistras representavam provavelmente as alternativas do inferno. - Abre-se, fecha-se. O respiradouro do sepulcro tem efeitos de lanterna surda.

     De repente uma escuridão opaca com forma humana levantou-se em uma das janelas, como se viesse de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que alguém chegava.

     Entrar pela janela era o hábito dos visitantes.

     O clarão apareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e não reapareceu mais. A casa tornou-se escura. Então ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. É sempre assim. Quando se vê, não se ouve; quando não se vê, ouve-se.

     O mar tem à noite, uma taciturnidade particular. O silêncio da sombra é aí mais profundo que em qualquer outra parte. Quando não há nem vento nem marulho, naquela agitada extensão de águas, onde de ordinário não se ouvem as águias voar, ouvir-se-ia voar uma mosca. Aquela paz sepulcral dava um relevo lúgubre aos rumores que saíam da casa.

     - vejamos - disse o francês.

     E deu um passo para a casa.

     Os outros dois tinham tal medo que decidiram-se a acompanhá-lo. Não ousavam fugir sós. Acabavam de passar um grande montão de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquela solidão, quando de uma moita voou uma coruja. As corujas tem uns vãos tortos, de assustadora obliquidade. Aquela passou de través pelos rapazes, fixando neles os olhos claros no meio da treva.

     Houve um certo estremecimento no grupo atrás do francês.

     O francês clamou contra a coruja.

     - Tarde vens, coruja. Já não é tempo. Quero ver.

     E avançou.

     O ranger dos seus sapatos grossos e ferrados não lhes impedia ouvir os rumores da casa que se elevavam e baixavam, com a acentuação calma e a continuidade de um diálogo.

     Momentos depois acrescentou o francês:

     - Demais, só os tolos podem crer em almas do outro mundo.

     A insolência no perigo reúne os retardados e impele-os para a frente.

     Os dois rapazes de Torteval puseram-se a caminho atrás do aprendiz de calafate.

     A casa mal-assombrada fazia-lhes o efeito de crescer desmesuradamente. Nesta ilusão de óptica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente porque eles aproximavam-se dela.

     Entretanto, as vozes que estavam na casa tornavam-se mais distintas. Os rapazes paravam, ouviam. O ouvido tem os seus aumentos. Não era murmúrio, era mais que um cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossíveis de compreender, soavam estranhamente. Os rapazes, paravam, ouviam e depois continuavam a andar.

     - É a conversa das almas do outro mundo, mas eu não creio em almas do outro mundo - disse o aprendiz de calafate.

     Os pequenos de Torteval tinham vontade de esconder-se atrás da lenha; mas já estavam longe, e o amigo francês continuava a andar para a casa. Temiam ir com ele, e não ousavam deixá-lo.

     Acompanhavam-no, a passo e passo e perplexos.

     O aprendiz de calafate voltou-se para eles e disse-lhes:

     - Bem sabem que não é verdade. Não existe nenhuma.

     A casa tornava-se cada vez mais alta.

     Aproximavam-se.

     Aproximando-se, reconheciam que havia na casa uma luz abafada. Era um clarão vago, um desses efeitos de lanterna surda, indicados há pouco, e que abundam na iluminação das feitiçarias.

     Quando se acharam ao pé da casa, pararam de todo.

     Um dos rapazes de Torteval arriscou esta observação:

     - Não são almas do outro mundo, são fantasmas.

     - Que é aquilo que pende ali à janela? - perguntou o outro.

     - Parece uma corda.

     - É uma serpente.

     - É corda de enforcado - disse o francês com autoridade. – Serve-lhes. Mas eu não creio.

     E mais em três pulos que em três passos o francês estava ao pé da parede da casa. Havia febre naquele atrevimento. Os outros, trémulos, imitaram-no, e foram colocar-se ao pé dele, encostando-se um à direita, outro à esquerda. Os rapazes aplicaram o ouvido à parede. Continuava-se a falar dentro da casa.

     Eis o que diziam os fantasmas:

     - Assim pois, está entendido?

     - Entendido. -

     - Dito?

     - Dito.

     - Aqui esperará um homem e partirá depois para a América com Blasquitó?

     - Pagando?

     - Pagando.

     - Blasquito tomará o homem na barca.

     - Sem indagar de que terra ele é?

     - Não temos nada com isso.

     - Sem lhe perguntar o nome?

     - Não se pede o nome, pede-se a bolsa.

     - Bem. O homem esperará nesta casa.

     - Tendo o que comer.

     - Terá.

     - Onde?

     - Neste saco que trago.

     - Muito bem.

     - Posso deixar o saco aqui?

     - Os contrabandistas não são ladrões.

     - E os senhores quando vão?

     - Amanhã de manhã. Se o seu homem está pronto poderá vir conosco.

     - Não está pronto.

     - É lá com ele.

     - Quantos dias esperará aqui?

     - Dois, três, quatro dias. Mais ou menos.

     - É certo que Blasquito virá?

     - Certo.

     - Aqui, a Plainmont?

     - A Plainmont.

     - Em que semana?

     - Na próxima.

     - Em que dia?

     - Sexta, sábado ou domingo.

     - Não pode faltar?

     - É meu tocaio.

     - Virá com qualquer tempo?

     - Qualquer. Não tem medo. Eu sou Blasco, ele é Blasquito.

     - Assim não deixará de ir a Guernesey?

     - Eu venho num mês, ele virá noutro.

     - Entendo.

     - A contar de sábado próximo, de hoje a oito dias não se passarão cinco dias sem que venha Blasquito.

     - Mas se o mar estiver muito mau?

     - Mau tempo?

     - Sim.

     - Não virá tão depressa, mas virá.

     - Donde virá?

- De Bilbao.

     - Para onde irá?

     - Para Portland.

     - Bem.

     - Ou para Tor Bay.

     - Melhor.

     - O seu homem pode ficar tranquilo.

     - Blasquito não será traidor?

     - Os covardes são traidores. Somos valentes. O mar é a igreja do inverno. A traição é a igreja do inferno.

     - Ninguém nos ouve?

     - É impossível ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto um deserto.

     - Sei.

     - Quem se atreveria a escutar?

     - É verdade.

     - Mesmo que escutassem não poderiam entender. Falamos uma língua que ninguém conhece. Desde que você a sabe, é dos nossos.

     - Eu vim para arranjarmos negócios.

     - Bem.

     - E agora vou-me embora.

     - Pois sim.

     - Diga-me cá, homem. Se o passageiro quiser que Blasquito vá a outro lugar que não Portland ou Tor Bay?

     - Traga onças.

     - Blasquito fará o que o homem quiser?

     - Blasquito fará o que as onças quiserem.

     - É preciso muito tempo para ir a Tor Bay?

     - Depende do vento.

     - Oito horas?

     - Mais ou menos.

     - Blasquito obedecerá ao passageiro?

     - Se o mar obedecer a Blasquito.

     - Há de ser bem pago.

     - Ouro é ouro. vento é vento.

     - É justo.

     - O homem faz o que pode com o ouro. Deus com o vento faz o que quer.

     - O homem que quer ir com Blasquito aqui virá sexta-feira.

     - Bem.

     - A que horas chega Blasquito?

     - À noite. Chega-se à noite, sai-se à noite. Temos uma mulher que se chama água salgada, e uma irmã que se. chama noite. A mulher pode enganar, a irmã nunca.

     - Está dito tudo. Adeus, homens.

     - Boas tardes. Um gole de aguardente?

     - Obrigado.

     - É melhor que xarope.

     - Tenho a sua palavra.

     - O meu nome é Pundonor.

     - Deus seja convosco.

     - Se é fidalgo, eu sou cavalheiro.

     Era claro que só diabos podiam falar assim. Os rapazes não ouviram mais, e desta vez fugiram deveras, até o francês, que convencido então, corria mais depressa que os outros.

     Na seguinte terça-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo trazendo a Durande.

     O Tamaulipas continuava ancorado.

     O Sr. Clubin, entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da Pousada João:

     - Então, quando sai o Tamaulipas?

     - Depois de amanhã, quinta-feira - respondeu o estalajadeiro.

     Nessa noite, Clubin ceou à mesa dos guardas das costas, e, contra o costume, saiu logo depois de cear. Resultou desta saída que não pode estar presente no escritório da Durande, e faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser ele um homem tão exato.

     Parece que ele conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.

     Voltou duas horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino brasileiro soa às 10 horas. Era, pois, meia-noite.

    

    A Jacressarde

     Há quarenta anos Saint-Malo possuía uma viela chamada viela Coutanchez. Essa viela já não existe: foi compreendida nos melhoramentos da cidade.

     Era uma dupla fileira de casas de pau inclinadas umas para as outras, e deixando no centro lugar suficiente para correr um rego que se chamava rua. Andava-se ali com as pernas abertas dos dois lados da água lamacenta, abalroando com a cabeça e o cotovelo as casas da direita e da esquerda. As velhas choupanas da idade média normanda tem perfis quase humanos. De albergue a feiticeiro a distância não é grande. Os andares entrantes, as paredes inclinadas, os alpendres circunflexos e o embrenhado de ferros velhos simulam lábios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira é o Olho, zarolho. A face é a parede rugosa e herpética. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma ação iníqua. Todos Estes nomes da antiga civilização, quebra-cabeças e quebra-ventas, prendem-se àquela arquitetura.

     Uma das casas da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais afamada, chamava-se a Jacressarde.

     A Jacressarde era a habitação daqueles que não tem habitação.

     Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, há, abaixo da popu-lação, um resíduo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, químicos de espécie larápio, pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existências em bancarrota, as consciências que já fizeram balanço, os que abortaram no assalto e no arrombamento de portas (porque os ladrões trabalham por baixo e por cima), os operários e as operá-rias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrúpulos rasgados e os cotovelos rotos, os tratantes chegados à indigência, os malévolos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os ganha-pouco do crime, os miseráveis, na dupla e lamentável acepção da palavra, tal é o pessoal. Ali é bestial a inteligência humana. E o montão de imundícies das almas. Ajunta-se tudo aquilo a um canto, onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a Jacressarde.

     O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos, os bandidos, os grandes produtos da ignorância e da indigência. Se o assassino é representado ali, é por algum bêbado brutal; ali o roubo não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vomito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não há que fiar. Aquele último degrau dos boémios pode ter extremidades malvadas. Um dia, lançando a rede no Epi-Scié, que era em Paris o que a Jacressarde é em Saint-Malo, a polícia apanhou Lacenaire.

     Tudo entra naqueles albergues. A queda é um nivelamento. Às vezes a hones-tidade esfarrapada escoa-se por ali. A virtude e a probidade tem aventuras. Não se deve, à primeira vista, estimar os Louvres nem condenar as galés. O respeito público e a reprovação universal devem ser descascados. Quantas; surpresas não se dão! Um anjo no lupanar, uma pérola no monturo - não é impossível este sombrio e deslum-brante achado.

     A Jacressarde era mais pátio que casa, e mais poço que pátio. Não tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurava-se a porta, entrava-se em um pátio.

     No meio desse pátio havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao nível do chão. Era um poço. O pátio era pequeno, e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal calçado.

     O pátio, quadrado, tinha construções por três lados. Do lado da rua, nada; mas diante da porta, à direita e à esquerda, havia aposentos.

     Quem, à noite, entrasse ali, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante luar ou estrelas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria:

     O pátio. O poço. Em roda do pátio, em frente à porta, uma palhoça figurando uma espécie de ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com teto de vigas, sustentada por pilares de pedra desigualmente espaçados; no centro, o poço; à roda do poço, em uma liteira de palha, e fazendo como que um rosário circular, viam-se solas de sapato umas direitas, outras acalcanhadas, dedos aparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos pus, pés de homem, pés de mulher, pés de criança. Todos esses pés dormiam.

     Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça, distinguiam-se corpos, formas, cabeças adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo, um sinistro jazido humano. Era um quarto de dormir para todos. Pagavam-se 2 soldos por semana. Os pés tocavam no poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites de inverno, caía neve sobre os corpos.

     Quem eram aquelas criaturas? Os desconhecidos. Iam ali de noite e saíam de manhã. A ordem social anda misturada com aquelas larvas. Alguns esgueiravam-se ali de noite e não pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vícios, todas as abjeções, todas as suposições, todas as misérias, o mesmo sono de prostração no mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa vizinhança. Fúnebre entrevista em que se remexiam e se amalgamavam no mesmo miasma os cansaços, os desfalecimentos, as borracheiras incubadas, as marchas e contramarchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites lívidas e sonolentas, remorsos, cobiças, cabelos imundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podridão humana fermentava naquela tina. Eram atiradas àquele albergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na véspera, por uma saída de prisão, pelo acaso, pela noite. O destino vazava ali, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falava quem ousava. Era próprio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no sono, visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam à morte aquilo que podiam. Fechavam os olhos naquela agonia confusa que todas as noites começava. Donde saíam? Da sociedade, porque eram a miséria; da vaga, porque eram a espuma.

     Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava ali no chão; deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha 30 pés de profundidade. Caía ali a chuva, escorriam as imundícies, filtravam todos os 99 escoamentos do pátio. A caçamba para tirar água ficava a um lado. Quem tinha sede bebia. Quem estava aborrecido afogava-se. Do sono do monturo passava-se ao sono do poço. Em 1819 tirou-se dali um menino de catorze anos.

     Para não correr risco naquela casa era preciso ser da laia. Os estranhos eram mal vistos.

     Conheciam-se acaso entre si aquelas criaturas? Não; farejavam-se.

     A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada às vezes com água do poço e tendo uma perna de pau.

     Desde madrugada esvaziava-se o pátio; iam-se embora os fregueses.

     Havia no pátio um galo e algumas galinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O pátio era atravessado por um barrote horizontal, colocado sobre postes, figura de forca, que não estava ali em terra estranha. Via-se às vezes estendido no barrote, no dia seguinte às noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado, pertencente à mulher da perna de pau.

     Acima da palhoça e circulando o pátio havia um andar superior e acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de madeira podre que furava o teto; escada vacilante por onde subia com estrépito a mulher coxa.

     Os locatários de arribação, por semana ou por noite, moravam no pátio; os locatários residentes moravam na casa.

     Janelas, nem um caixilho; portas, nem uma ombreira; lareiras, nem um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indiferentemente por um buraco quadrado e comprido que fora porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique. A caliça caída cobria o assoalho. Não se sabia como aquela casa estava em pé. O vento não a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como água em esponja. A abundância das aranhas tranquilizava os moradores contra o desmoronamento imediato. Mobília nenhuma. Dois ou três enxergões nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e ali uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insípido e hediondo.

     As janelas davam sobre o pátio. De cima o pátio assemelhava-se a um carro de lama. As coisas, sem contar os homens que ali apodreciam e enferrujavam-se, eram indescritíveis. Os destroços fraternizavam: catam paredes, caíam criaturas. Os trapos semeavam entulhos.

     Além da população flutuante alojada no pátio, a Jacressarde tinha três inquilinos, um carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro. O carvoeiro e o trapeiro ocupavam dois enxergões no primeiro andar; o fabricante de ouro, químico, morava nas águas-furtadas, que também se chamavam sótão. Não se sabia em que lugar dormia a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das telhas, num quarto em que havia uma trapeira estreita e uma grande chaminé de pedra, golfão onde ia rugir o vento. A trapeira não tinha caixilhos; o fabricante de ouro pregou em cima um pedaço de ferro em folha, proveniente de um rasgão de navio. A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro pagava a casa com um saco de carvão de quando em quando; o trapeiro pagava com um cestário de grãos para as galinhas, cada semana; o fabricante de ouro não pagava nada. Entretanto, ia queimando a casa. Já tinha arrancado a pouca madeira, e a cada instante tirava da parede, ou do teto, uma ripa para aquecer a caldeira do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro viam-se em duas colunas algarismos feitos com greda, escritos pelo trapeiro todas as semanas, uma coluna de três e uma coluna de cinco, conforme o cestário de grão custasse 3 liardes ou 5 cêntimos. A caldeira do químico era uma velha bomba quebrada promovida por ele ao cargo de caldeira, e que lhe servia para combinar os ingredientes. A transmutação absorvia-o. Algumas vezes falava nisso aos maltrapilhos do pátio, que deitavam a rir. Dizia ele: “Aquela gente está cheia de preconceitos”. Estava resolvido a não morrer sem atirar a pedra filosofal às vidraças da ciência. O forno com que trabalhava comia muita lenha. Já o patamar da escada tinha desaparecido. Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia a hoteleira: “Neste andar só me fica o casco”. O químico abrandava-lhe a cólera fazendo-lhe versos.

     Tal era a Jacressarde.

     O criado da casa era um menino, talvez anão, contando doze anos ou sessenta de idade, cheio de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura na mão.

     Os frequentadores entravam pela porta do pátio; o público entrava pela porta da loja. O que era a loja?

     A alta parede que dava para a rua tinha à direita da entrada do pátio uma abertura feita em esquadria, que era a um tempo porta e janela, tendo postigo e caixilhos; o postigo era o único da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o único que tinha vidros. Por trás da janela que abria sobre a rua havia um pequeno quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua Este dístico feito com carvão: “Aqui encontram-se as curiosidades”. A palavra já corria mundo. Sobre três tábuas que fingiam prateleiras colocadas por trás de vidraças, viam-se alguns potes de porcelana falsa, sem asa, um chapéu de sol chinês feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos pontos, impossível de abrir e fechar, cadinhos de ferro, louça informe, chapéus de homem e mulher estragados, três ou quatro conchas, alguns embrulhos de botões de osso e de cobre já velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antonieta, e um volume truncado da álgebra de Boisbertrand.

     Tal era a loja. Aquele sortimento era a curiosidade. A loja comunicava por uma porta do fundo com o pátio onde estava o poço. Tinha uma mesa e um escabelo. A mulher da perna de pau era a moça do balcão.

    

    Compradores noturnos e vendedor tenebroso

     Clubin não foi à Pousada João, nem na noite de terça-feira, nem na noite de quarta-feira.

     Nesta noite, ao escurecer, dois homens entraram Coutanchez; pararam diante da Jacressarde. Um deles bateu na vidraça. Abriu-se a porta da loja. Entraram ambos. A mulher da perna de pau deu-lhes o sorriso reservado aos burgueses. Havia uma vela sobre uma mesa.

     Os dois homens eram efetivamente burgueses.

     O homem que tinha batido na vidraça disse:

     - Boa noite, mulher. venho por aquilo.

     A mulher da perna de pau sorriu segunda vez e saiu pela porta que dava para o pátio. Minutos depois abriu-se de novo a porta, e apareceu um homem pela fresta, trazendo boné e blusa, debaixo da qual havia um objeto volumoso. Tinha uns fios de palha nas dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.

     O homem avançou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e esperto.

     - O senhor é o armeiro? - disse ele.

     O homem que tinha batido respondeu:

     - Sim. O senhor é o Parisiense?

     - Chamado Reaurouge. Sim.

     - Deixe ver.

     - Aqui está.

     O homem tirou debaixo da blusa um instrumento muito raro na Europa naquela época, um revólver.

     O revólver era novo e brilhante. Os dois burgueses examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa e a quem o homem da blusa chamou armeiro fez mover o mecanismo. Entregou depois a arma ao outro burguês, que parecia não ser morador na cidade, e que se conservava com as costas voltadas para a luz.

     O armeiro perguntou:

     - Quanto custa?

     O homem da blusa respondeu:

     - venho da América. Há pessoas que trazem macacos, papagaios, animais, como se os franceses fossem selvagens. Eu. trouxe isto. É uma invenção útil.

     - Quanto custa? - perguntou de novo o armeiro.

     - É uma pistola que faz molinete.

     - Quanto custa?

     - Paf. Primeiro tiro. Paf. Segundo tiro. Paf... é uma saraivada! Isto faz obra.

     - Quanto custa?

     - Tem seis canos.

     - Mas quanto custa?

     - Seis canos são 6 luíses.

     - Quer 5 luíses?

     - Impossível. Um Luís por cada bala. É o preço.

     - Quer fazer negócio, seja razoável.

     - Já disse o preço. Examine-me esta obra, senhor arcabuzeiro.

     - Já examinei.

     - O molinete anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam por Este molinete no dicionário das ventoinhas. É uma jóia.

     - Já vi.

     - Os canos são de fábrica espanhola.

     - Já reparei.

     - São lavrados. A coisa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos, ferraduras quebradas...

     - E velhas lâminas de foices.

     - Ia dizê-lo, senhor armeiro. Depois deita-se em cima uma boa porção de fogo, e sai disto tudo um magnífico instrumento de ferro.

     - Sim, mas pode ter gretas e buraquinhos; pode sair.

     - Sim. Mas tudo se arranja.

     - O senhor é do oficio?

     - Tenho todos os ofícios.

     - Os canos são brancos.

     - É beleza, senhor armeiro. Faz-se isto com borra de antimônio.

     - Dizíamos nós que isto custa 5 Luíses.

     - Tomo a liberdade de observar que eu tive a honra de dizer 6 luíses.

     O armeiro abaixou a voz.

     - Ouça, Parisiense. Aproveite a ocasião. Desfaça-se disto. Isto para vocês não vale nada. Chama a atenção.

     - Na verdade - disse Parisiense -, é um tanto vistoso. É melhor para um burguês.

     - Quer 5 luíses?

     - Não, 6. Um por cada buraco.

     - Pois bem, 6 napoleões.

     - Quero 6 luíses.

     - Não é bonapartista. Prefere um Luís a um napoleão?

     Parisiense sorriu.

     - Napoleão é melhor - disse ele -, mas luís vale mais.

     - Seis napoleões.

     - Seis Luíses. É para mim uma diferença de 8O francos.

     - Então não fazemos nada.

     - Pois sim. Guardo o revólver.

     - Guarde.

     - Abater o preço! pois não! não se dirá que eu me desfiz sem mais nem menos de uma invenção destas! Então, boa noite. É um progresso sobre a pistola, que os índios chesapeakes chamam Nortay-u-Hoh.

     - Cinco Luíses a vista, é ouro.

     - Nortay-u-Hoh quer dizer espingarda pequena Muitas pessoas ignoram isto.

     - Quer 5 luíses e mais 1 escudo?

     - Eu já disse que custa 6.

     O homem que estava de costas para a luz e que ainda não tinha falado, fazia mover o mecanismo. Aproximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:

     - A arma é boa?

     - Excelente.

     - Eu dou os 6 Luíses.

     Cinco minutos depois, enquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa os 6 luises de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso da calça o revólver, saíram da viela Coutanchez.

    

    Carambola da bola vermelha e da bola preta

     No dia seguinte, que era quinta-feira, a pouca distância de Saint-Malo, perto da ponta do Decollé, num lugar em que as rochas das praias são altas, e o mar profundo, passou-se uma coisa trágica.

     Nada mais frequente na arquitetura do mar que uma língua de rochedos em forma de lança, que se prende à terra por um istmo estreito, prolonga-se na água e acaba-se aí bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida é às vezes assaz difícil,

     No alto de um rochedo desse gênero, achava-se em pé; pelas 4 horas da tarde, um homem embrulhado em uma larga capa de uniforme, e provàvelmente armado, o que era fácil de reconhecer por certas dobras retas e angulosas do manto. O sítio em que estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos à seme-lhança de seixos imensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde brotava uma ervazinha estreita e curta terminava do lado do mar por um espaço livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns 60 pés de altura, acima do mar, e parecia talhado com um prumo. Entretanto, o ângulo da esquerda ia-se arruinando e oferecia uma dessas escadas naturais próprias aos granitos marinhos, cujos degraus pouco cômodos exigem às vezes pernas de gigante ou pulos de clowns. Descia perpendicular-mente ao mar e mergulhava nas águas. Era um quebra-costas. Podia-se, contudo, a rigor, ir por ali embarcar na muralha da língua de rochas.

     Soprava uma brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovelo direito na mão esquerda, piscava um olho e aplicava ao outro um óculo. Parecia absorto em uma atenção séria. Aproximou-se da borda do rochedo, e ali estava imóvel com o olhar imperturbávelmente fito no horizonte. A maré estava cheia. A vaga batia por baixo dele no sopé do rochedo.

     O que o homem observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.

     Esse navio, que apenas uma hora antes saíra de Saint-Malo, tinha parado por trás dos Banquetiers. Era uma galera. Não tinha deitado âncora, talvez porque o fundo não lho permitisse, e porque o navio teria prendido a âncora debaixo do gurupés. Limitou-se a pôr-se à capa.

     O homem, que era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e parecia tomar nota mentalmente. O navio tinha atravessado: era o que indicava a vela ré alada a barlavento, e as de proa largas por mão; tinha braceado o pano de ré o mais que lhe foi possível, de forma que neutralizava a força dos de proa. Deste modo, caindo a sotavento, não perdia mais de milha e meia por hora.

     O dia ainda estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao pé das costas começava a escurecer.

     O guarda-costa, entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, não tinha pensado em examinar o rochedo ao lado e embaixo. Dava as costas para a escada pouco praticável que punha em comunicação a plataforma com o mar. Não reparou que alguma coisa andava ali em movimento. Havia nessa escada, por trás da anfratuosidade, alguma pessoa, um homem escondido ali, segundo parecia, antes da chegada do guarda-costa. De tempos a tempos na sombra, aparecia uma cabeça por baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espião. Essa cabeça coberta por um largo chapéu americano, era a cabeça do quaker, que, uns dez dias antes falara nas pedras do Petit Bey ao Capitão Zuela.

     De repente pareceu redobrar a atenção do guarda-costa.

     Limpou rapidamente com a manga o vidro do óculo e firmou-o com energia sobre o navio.

     Destacara-se um ponto negro.

     O ponto negro, semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaça.

     A barcaça parecia querer ganhar a terra. Era tripulada por alguns marinheiros que remavam vigorosamente.

     Já obliquava a pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decollé.

     A espreita do guarda-costa chegou ao seu maior grau de fixidez. Ele não perdia nenhum dos movimentos da barcaça. Aproximou-se mais ainda da borda do rochedo.

     Neste momento um homem de alta estatura, o quaker, surgiu por trás do guarda-costa, no alto da escada. O espião não viu o quaker.

     Parou este alguns instantes, com os braços caídos e os punhos crispados, e, com o olhar do caçador que aponta, olhou para as costas do espião.

     Quatro passos apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um pé, depois parou; deu outro passo e parou outra vez; o único movimento que fazia era andar, o resto do corpo era estátua; o pé firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo e parou; estava quase tocando o guarda-costa, sempre imóvel, com o óculo fixo. O homem ajuntou as duas mãos fechadas na altura das suas clavículas, depois, brusca-mente, abateram-se os antebraços, e os dois punhos, como que soltos por uma mola, bateram nos ombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Caiu de cabeça no mar. Viram-se-lhe os pés durante o tempo de um relâmpago. Foi uma pedra na água. A água cerrou-se depois, descrevendo dois ou três grandes círculos.

     Ficou apenas o óculo escapo às mãos do guarda-costa e caído no chão.

     O quaker inclinou-se à borda das rochas, viu acalmar-se a água, esperou alguns minutos, depois endireitou-se, cantando entre os dentes:

     Monsieur de la police est mort

     En perdant la vie.

     (O senhor da polícia morreu

     Perdendo a vida (N. Ed.)

     Inclinou-se outra vez. Nada reapareceu. Somente no lugar onde o guarda-costa tinha caído, formou-se na superfície da água uma espécie de espessura negra, que se alargava no movimento da vaga. Era provável que o guarda-costa tivesse quebrado o crânio em alguma rocha submarina. O sangue subira e fazia aquela mancha na espuma.

     O quaker, contemplando aquela mancha, continuou:

     Un quart d’heure avant sa mort,

     Il était encore...

     (Um quarto de hora da sua morte,

     Ele estava ainda... (N. Ed.)

     Não acabou.

     Ouviu atrás de si uma voz doce que lhe dizia:

- Ora viva, Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem.

Ele voltou-se, e viu a quinze passos, no intervalo de dois rochedos, um homem baixo que tinha um revólver na mão.

     Respondeu:

     - Como vê. Bom dia, Sr. Clubin.

     O homem baixo estremeceu.

     - Reconheceu-me?

     - Não me reconheceu o senhor? - disse Rantaine.

     Entretanto, ouviu-se um rumor de remos no mar. Era a barcaça observada pelo guarda-costa que se aproximava.

     O Sr. Clubin disse a meia voz como se falasse consigo:

     - A coisa foi rápida.

     - Em que precisa de mim? - perguntou Rantaine.

     - Pouca coisa. Há quase dez anos que nos não vê-mos. O senhor há de ter feito bons negócios. Como está de saúde?

     - Bem - disse Rantaine. - E o senhor?

     - Perfeitamente - respondeu Clubin.

     Rantaine deu um passo para o Sr. Clubin.

     Um pequeno som chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin. Que armava o revólver.

     - Rantaine, estamos a quinze passos. È uma boa distância. Fique onde está.

     - Ali! Mas o que quer o senhor de mim?

     - venho conversar.

     Rantaine não se mexeu. O Sr. Clubin continuou:

     - O senhor matou agora mesmo um guarda-costa.

     Rantaine levantou a aba do chapéu e respondeu:

     - Já me fez a honra de dizê-lo.

     - Em termos menos precisos. Disse há pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa. O guarda-costa tinha o número 619. Era um pai de família. Deixa mulher e cinco filhos.

     - Deve ser assim - disse Rantaine.

     Houve um imperceptível tempo de silêncio.

     - São homens escolhidos esses guarda-costas - disse Clubin. Quase todos antigos marítimos.

     - Notei que em geral deixam mulher e cinco filhos.

     Clubin continuou:

     - Adivinhe quanto me custou Este revólver.

     - É um lindo instrumento - respondeu Rantaine.

     - Quanto vale?

     - Vale muito.

     - Custou-me 144 francos.

     - Comprou naturalmente na loja de armas da Rua Coutanchez.

     Clubin continuou.

     - O guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.

     - Sr. Clubin, há de ventar esta noite.

     - Eu sou o único que sei do segredo.

     - Continua a morar na Pousada João?

     - Sim. Vive-se bem ali.

     - Já lá comi muito boa couve fermentada.

     - Rantaine, o senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espádua! Não seria eu quem lhe levaria um piparote. Era tão raquítico quando vim ao mundo, que nem se sabia se me poderiam criar.

     - Felizmente criou-se.

     - Sim, e continuo a morar na Pousada João.

     - Sabe por que motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse comigo: só Clubin pode reconhecer-me.

     E adiantou um passo.

     - Fique onde estava, Rantaine.

     Rantaine recuou e disse à parte:

     - A gente torna-se criança diante destes instrumentos.

     O Sr. Clubin continuou.

     - Situação. Temos aqui à direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro guarda-costa, número 618, que está vivo, e à esquerda, do lado de Saint-Lunaire, um posto de alfândega. Sete homens armados que podem estar aqui dentro de cinco minutos. O rochedo ficará cercado. O desfiladeiro ficará guardado. Impossível fugir. Há um cadáver ao pé da rocha.

     Rantaine deitou um olhar oblíquo ao revólver.

     - Como diz, Rantaine. ... um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com pólvora seca. Mas que importa? Basta um tiro para fazer correr a força armada. Tenho seis tiros.

     O choque alternativo dos remos tornava-se mais distinto. A barcaça não estava longe.

     O homem alto olhava estranhamente para o homem baixo. Sr. Clubin falava com um ar cada vez mais tranquilo e doce.

     - Rantaine, os homens da barcaça que vai chegar, sabendo o que fez há pouco, ajudar-me-iam a prendê-lo. O senhor paga 10 000 francos de passagem ao Capitão Zuela. Entre parêntesis, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contraban-distas de Plainmont, mas Estes só o levariam para Inglaterra, e demais o senhor não pode arriscar-se a ir a Guernesey, onde há quem tenha a honra de conhecê-lo. Volto à situação. Se eu disparar, prendem-no. Nesse caso pagará a Zuela 10 000 francos de fuga. Já lhe deu 5 000 francos; Zuela guardará esses 5 000 francos e vai-se embora. É isto, Rantaine, acho-o bem rebuçado. Esse chapéu, esse casaco e essas polainas disfarçam-no. Esqueceram-lhe os óculos. Fez bem em deixar crescer as suíças.

     Rantaine sorriu como quem range os dentes. Clubin continuou:

     - Rantaine, o senhor tem uma calça americana com duas algibeiras. Numa delas tem o seu relógio. Guarde-o.

     - Obrigado, Sr. Clubin.

     - Na outra há uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas. É uma velha boceta de marinheiro. Tire-a do bolso e atire-a para cá.

     - Mas isto é um roubo!

     - Pode chamar a guarda.

     E Clubin fixou os olhos em Rantaine.

     - Olhe, Mess Clubin... - disse Rantaine dando um passo o estendendo a mão aberta.

     Mess era uma lisonja.

     - Fique onde está, Rantaine.

     - Mess Clubin, arranjemos as coisas. Ofereço-lhe metade.

     Clubin executou um cruzar de braços, mostrando a boca do revólver.

     - Rantaine, que pensa que eu sou? Sou um homem honrado. E acrescentou, depois de uma pausa:

     - Quero tudo.

     Rantaine disse entre dentes:

     - É temível este.

     Entretanto, acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o aço. Disse ele:

     - Creio que se engana. O seu nome é que é Roubo, o meu é Restituição. Ouça, Rantaine. Há dez anos saiu o senhor de Guernesey à noite, tomando da caixa de uma sociedade 50 000 francos que lhe pertenciam e esquecendo de lá deixar 50 000 francos que pertenciam a outro. Esses 50 000 francos roubados ao seu sócio, o excelente e digno Mess Lethierry, fazem hoje, com os juros acumulados de dez anos, 80 666 francos e 66 cêntimos. O senhor entrou ontem na casa de um cambista. Reluchet chama-se ele, Rua de São Vicente. deu-lhe 76 000 francos em bilhetes de banco franceses e em troca deu-lhe ele três bank-notes da Inglaterra de 1000 libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor pôs essas bank-notes na boceta de ferro e a boceta de ferro na algibeira direita. As 3 000 libras esterlinas fazem 75 000 francos. Em nome de Mess Lethierry contento-me com isso. Parto amanhã para Guernesey, e vou levar-lhos. Rantaine, a galera que ali está à capa é o Tamaulipas. O senhor embarcou ali esta noite as malas misturadas com os sacos e canastras da equipagem. Quer sair da França. Tem suas razões para isso. Vai a Arequipa. A barcaça vêm buscá-lo. Está à espera dela. Ela aí vêm. Já a estamos ouvindo. Depende de mim deixá-lo partir ou obrigá-lo a ficar. Basta de palavras. Atire cá a boceta de ferro.

     Rantaine abriu a bolsa, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar aos pés de Clubin.

     Clubin inclinou-se sem abaixar a cabeça, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra Rantaine os dois olhos e os canos do revólver.

     Depois disse:

     - Meu amigo, volte as costas.

     Rantaine voltou as costas.

     O Sr. Clubin pôs o revólver debaixo do braço e apertou a mola da caixinha. A caixinha abriu-se.

     Havia dentro quatro bank-notes, três de 1000 libras, e uma de 10 libras.

     Clubin dobrou as três notas de 1000 libras, pô-las outra vez na caixinha, fechou-a e meteu-a no bolso.

     Depois apanhou no chão uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de 10 libras e disse:

     - Volte para cá.

     Rantaine voltou-se.

     O Sr. Clubin continuou:

     - Disse-lhe que me contentava com as 3 000 libras. Aqui vão as 10 libras.

     E atirou a Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.

     Rantaine, com um pontapé, deitou o bilhete e a pedra ao mar.

     - Como queira - disse Clubin. - Vamos lá, o senhor há de estar rico. Estou tranquilo.

     O rumor dos remos que se tinha aproximado durante o diálogo cessou. Indicava isto que a barcaça estava ao pé das rochas.

     - Está embaixo o seu carro. Pode ir, Rantaine.

     Rantaine dirigia-se para a escada e desceu.

     Clubin foi com precaução até a borda do rochedo e adiantando a cabeça, viu descer Rantaine.

     A barcaça tinha parado ao pé do último degrau do rochedo, no mesmo lugar em que tinha caído o guarda-costa.

     Vendo descer Rantaine, Clubin murmurou:

     - Bom número 619! Pensava que estava só. Rantaine pensava que eram apenas dois. Só eu sabia que éramos três.

     Clubin viu no chão o óculo do guarda-costa; apanhou-o.

     Começou o ruído dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaça e esta tomava o largo.

     Quando Rantaine achou-se na barca, indo-se já afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou:

     - Ah! o próprio diabo é um canalha!

     Instantes depois, Clubin do alto das rochas e fixando o óculo na barcaça, ouviu distintamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, no meio do rumor do mar:

     - O Sr. Clubin é um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe o fato, e aqui vai nesta barcaça um marinheiro de Guernesey que é da equipagem do Tamaulipas, que se chama Ahier Tortevin, e que há de voltar a Saint-Malo, na próxima viagem de Zuela, e que será testemunha de que eu lhe entreguei para Mess Lethierry a soma de 3 000 libras esterlinas.

     Era a voz de Rantaine.

     Clubin era o homem das coisas bem feitas. Imóvel como estivera o guarda-costa, e no mesmo lugar, com o óculo no olho, não perdeu de vista a barcaça. Viu dimi-nuirem-se os remos, desaparecer, reaparecer, aproximar-se a barcaça do navio; e pode reconhecer a alta corpulência de Rantaine no tombadilho do Tamaulipas.

     Quando a barcaça foi içada, o Tamaulipas entrou a preparar-se. A brisa soprava de terra, o navio abriu as velas todas, o óculo de Clubin continuava fixo no lineamento cada vez mais simplificado e, meia hora depois, o Tamaulipas era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no céu amarelo do crepúsculo.

    

    Informação útil às pessoas que esperam  ou receiam cartas de além-mar

     Nessa noite, o Sr. Clubin recolheu-se tarde.

     Uma das causas da sua demora é que antes de recolher-se foi ele até a porta Dinan, onde havia tavernas. Tinha comprado em uma dessas tavernas, onde não era conhecido, uma garrafa de aguardente que pôs em uma larga algibeira da japona como se quisesse escondê-la; depois, devendo a Durande sair no dia seguinte de manhã, foi a bordo para ver se tudo estava em ordem.

     Quando o Sr. Clubin entrou na Pousada João, já não havia na sala baixa senão o velho capitão de longo curso, Gertrais-Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.

     O Capitão Gertrais-Gaboureau cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.

     - Good-bye, Capitão Clubin.

     - Boa noite, Capitão Gertrais.

     - Com que então, lá se foi o Tamaulipas.

     - Ah! - disse Clubin -, não reparei.

     O Capitão Gertrais-Gaboureau cuspiu e disse:

     - Raspou-se o Zuela.

     - Quando?

     - Esta noite.

     - Onde vai?

     - Vai ao diabo.

     - Sim, mas onde?

     - A Arequipa.

     - Não sabia - disse Clubin.

     Acrescentou:

     - Vou dormir.

     Acendeu a vela, caminhou para a porta e voltou.

     - Já foi a Arequipa, Capitão Gertrais?

     - Sim. Há anos.

     - Onde se costuma a arribar?

     - Em diversos portos. Mas o Tamaulipas não arribará em parte alguma.

     O Sr. Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo e continuou:

     - Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin, que foram a Cardiff. Não opinei a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em belo estado. Cheval-de-Troie levava terebintina e abriu água, e fazendo trabalhar as bombas perdeu no meio da água todo o carregamento. Quanto ao Trentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da âncora, o botalós, ovéns; não sofreu o mastro de mesena, mas teve um forte abalo. Caiu o ferro do gurupés, que aliás não só ficou machucado, mas completamente nu. Veja o que resulta de não ouvir conselhos.

     Clubin tinha posto a vela na mesa, e pôs-se a pregar de novo uma porção de alfinetes que tinha na japona.

     Disse:

     - Não dizia, capitão, que o Tamaulipas não arriba em porto algum?

     - Não. Vai direito ao Chile.

     - Neste caso não pode mandar notícia alguma em caminho.

     - Perdão, Capitão Clubin. Primeiramente pode entregar despachos a todos os navios que encontrar em caminho para a Europa.

     - É justo.

     - Depois, tem a caixa de cartas do mar.

     - A que chama o senhor caixa de cartas do mar?

     - Não sabe, Capitão Clubin?

     - Não.

     - É quando se passa pelo estreito de Magalhães.

     - Que há então?

     - Neva em toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de trezentos diabos.

     - Depois?

     - Quando se dobra o cabo Monmouth.

     - Bem. Depois?

     - Depois, dobra-se o cabo Valentin.

     - E depois?

     - Depois dobra-se o cabo Isidoro.

     - E depois?

     - Dobra-se a ponta Ana.

     - Bem. Mas o que é que chama caixa das cartas do mar?

     - Chegamos à caixa. Montanhas à direita, montanhas à esquerda. De todos os lados aves marinhas. Terrível sítio! Ah! com um milhão de diabos! que chusma e que matinada! A borrasca ali não precisa de auxílio. Toca a vigiar a cinta da popa! toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao juanete! Lufada sobre lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um velame novinho em rolha não nos fica senão o fio. Que dança! furacões capazes de fazer saltar uma galera como fosse uma pulga. Já vi num brigue inglês, o True Blue, um grumete ocupado com o pau da giba ser levado por um milheiro de ventos, com pau e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contramestre da Revenue ser arrancado do navio e morrer: A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peças de madeira do convés ficaram despedaçadas. A gente sai dali com as velas comidas, até fragatas de cinquenta fazem água como se rossem cestos. E a endiabrada costa! É o que há de mais danado. Rochedos retalhados como por criancice. Aproxima-se a gente de Porto Fome. Aí é pior que pior. São as lâminas mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente vêem-se estas duas palavras escritas com tinta vermelha: Post-Office.

     - Que quer dizer, Capitão Gertrais?

     - Quero dizer, Capitão Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Ana vê-se em uma pedra de 100 pés de altura um grande pau. É um poste com uma barrica no alto. Essa barrica é a caixa das cartas. Os ingleses escreveram em cima: Post-Office. Por que se meteram eles nisto? Aquilo é o correio do oceano; não pertence a esse honrado gentleman, o rei da Inglaterra. A caixa das cartas é comum. Pertence a todas as bandeiras. Post-Office, há nada mais chinês! Parece uma xícara de chá que o diabo oferece em pleno oceano. Eis como se faz o serviço. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os seus despachos. O navio que vêm do Atlântico envia cartas para a Europa, e o navio que vem do Pacífico manda cartas para a América. O oficial que comanda o escaler põe na barrica o maço de cartas e tira o maço que lá encontra. Toma-se conta dessas à espera que o próximo navio tome conta das cartas que se deixam. Como se navega em sentido contrário, o continente donde o senhor vêm é aquele para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica está presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O Tamaulipas ficará aí. A barrica tem uma tampa mas sem fechadura nem cadeado. Bem vê que se pode escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu destino.

     - É esquisito - murmurou Clubin, pensativo.

     O Capitão Gertrais-Gaboureau voltou-se para a bebida.

     - Suponhamos que o brejeiro do Zuela me escreva, meta as suas garatujas na barrica de Magalhães, e dentro de quatro meses tenho as cartas do patife. Diga-me lá, Capitão Clubin, sai amanhã?

     Clubin, absorto em uma espécie de sonambulismo, não ouviu. O Capitão Gertrais repetiu a pergunta.

     Clubin despertou.

     - Sem dúvida, Capitão Gertrais. è o dia marcado. Devo sair amanhã de manhã.

     - Pois olhe, eu não saía. Capitão Clubin, os cães tem o pelo molhado. As aves marinhas andam há duas noites à roda do farol. Mau sinal. Estamos no segundo quarto da lua; é o máximo da umidade. Vi há pouco pimpinelas que fechavam as rolhas e um campo de trevo cujas hastes estavam retesadas. Os vermes saem do chão, as moscas mordem, as abelhas não se afastam dos cortiços, os pardais consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao por do sol havia muitas nuvens no horizonte. Amanhã há de haver grande nevoeiro. Não lhe digo que parta. Receio mais o nevoeiro que o furacão. Grande sonso o nevoeiro.

 

O timoneiro ébrio e o capitão sombrio

    Os Rochedos Douvres

     Cerca de 5 léguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, há um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.

     Esta denominação Douvre (Dover) pertence a muitos cachopos e rochedos. Há especialmente perto das costas do norte uma rocha Douvre na qual se constrói agora mesmo um farol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.

     O ponto da França mais próximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do arquipélago normando. A distância desse escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbiére: como sobre um eixo, a ponta de Santa Catarina iria quase bater nos Douvres. É uma distância de quase 4 léguas.

     Nesses mares da civilização os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfândega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Césambre, ilha de César, apanhadores de caranguejos em Brecq-Hou, pescadores de rede em Minquiers e Ecré-Hou. Nos rochedos Douvres, ninguém.

     As aves marinhas estão ali em sua casa.

     Não há pior encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Préel que tornam tão angustiosa a entrada de Merquel e que obrigam a deitar a umas 20 braças a baliza vermelha, as proximidades pérfidas de Ètables e de Plouha, as duas druidas de granito do sul de Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbiére, os Hanois, a ilha de Ras, recomendada ao medo por Este provérbio: “Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás”; as Mortes Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mativais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados. Vale mais afrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.

     Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeu do Ocidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster entre Guernesey e Serk.

     E ainda no Pater Noster pode-se fazer um sinal; quem está ali em perigo pode ser socorrido. vê-se ao norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao sul, Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.

     O vento, a água, a nuvem, o ilimitado, o inabitado.

     Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inospitalidade do abismo.

     É mar alto. A água é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, atrai e abriga os animais que precisam afastar-se dos homens. É uma espécie de vasta madrepérola submarina. É um labirinto afogado. Há ali, em profun-dezas que difícilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruza-mentos de ruas tenebrosas. Pululam as espécies monstruosas. Devoram-se umas às outras. Os caranguejos comem os peixes, e são devorados também. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquela obscuridade. Vagos lineamentos de goelas, antenas, tentáculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras, unhas flutuam, tremem, engrossam, decompõem-se e desfazem-se na transpa-rência sinistra. Tremendos nadadores andam ali na labutação. É uma colmeia de hidras.

     Ali o horrível é ideal.

     Imagina, se podes, um formigueiro de holotúrias.

     Ver o interior do mar é ver a imaginação do Ignoto. É vê-la do lado terrível. O golfão é análogo à noite. Também aí há sono, sono aparente ao menos, da consciência da criação. Cometem-se ali em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, fantasmas quase, completos demônios, vagam ali, em medonha paz, nas sombrias ocupações da sombra.

     Há quarenta anos, duas rochas de forma extraordinária assinalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticais e recurvadas, tocando-se quase no cume. Parecia ver-se irrompendo do mar dois dentes de um elefante engolido. Mas eram dentes de tamanhos de torres que só poderiam pertencer a elefantes do tamanho de uma montanha. Essas duas torres naturais da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia um pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gémeas chamavam-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre; uma tinha 60 pés de altura, a outra 40. O vaivém das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinócio de 26 de outubro de 1859 derrubou uma delas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.

     Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No século passado alguns pescadores, perdidos naqueles cachopos, acharam um cadáver. Ao pé do cadáver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado ali um homem, refugiou-se naqueles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. veio dai chamar-se Homem ao rochedo.

     São singulares as solidões da água. É o tumulto e o silêncio. O que aí se faz já nada tem com o gênero humano. É a utilidade desconhecida. Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o imenso tormento das vagas.

    

    Conhaque inesperado

     Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do Tamaulipas, a Durande partiu para Guernesey.

     Deixou Saint-Malo às 9 horas.

     Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho Capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.

     As preocupações do Sr. Clubin fizeram com que embarcasse pouco carrega-mento. Apenas meteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre-Port, três caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarelo, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava também, da precedente viagem, uma caixa de açúcar crushed e três caixas de chá, que a alfândega francesa não quis receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.

     Havia a bordo seis passageiros: um guernesiano, dois maloenses vendedores de animais, um turista, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguês, provavelmente turista do comércio, e um americano distribuidor de Bíblias.

     A Durande, sem contar com Clubin, tinha sete homens de tripulação; um timo-neiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dois trabalhadores da máquina e um grumete. Um dos penúltimos era também mecânico. Era um valente e inteligente negro holandês, evadido das fábricas de açúcar do Suriname; chamava-se Imbrancam. O negro Imbrancam compreendia e servia admiravelmente a máquina. Nos primeiros tempos, contribuiu ele não pouco, quando aparecia na fornalha, para dar um ar diabólico à Durande.

     O timoneiro, jerseiano de nascimento, originário da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.

     É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, países hierárquicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas idéias, que são os seus dentes. Essas idéias são as mesmas em toda a parte, na Índia, como na Alemanha. A nobreza conquista-se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer coisa alguma é viver fidalgamente; quem não trabalha e reverenciado. ofício faz decair. Na França de outrora só se excetuavam os operários de vidro. Sendo glória para os fidalgos esvaziar garrafas, fazê-las não era desonra alguma.

     Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quiser ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Ainda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende de cavalheiros e é apenas marujo. Há trinta anos, em Aurigny, um Georges autêntico, que ao que parece tinha direitos à senhoria de Georges confiscada por Filipe Augusto, apanhava sargaço com os pés nus. Há em Serk um Carteret que é carreiro. Existe em Jersey um mercador de panos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Coutances mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No século XV Johan de Heroudeville, besteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre consigo justilhos e arneses. Em maio de 1371 , em Pontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cai em pobreza é logo eliminado da fidalguia. Basta uma mudança de nome. De Tangroville faz Tangrouille, e tudo se arranja.

     Foi o que aconteceu ao timoneiro da Durande.

     Há em Saint-Pierre-Port, no Bordage, um mercador de ferros chamado Ingroville, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luís, o Gordo, os Ingroville possuíam três paróquias em Valognes. Fez um padre Trigan a História Eclesiástica da Normandia. Este cronista Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se caísse no populacho, chamar-se-ia Digouille.

     Tangrouille, Tancarville provável e Montmorency possível, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave num timoneiro: embriagava-se.

     O Sr. Clubin teimava em conservá-lo. Respondia por ele a Mess Lethierry.

     O timoneiro Tangrouille não saía nunca do navio e dormia a bordo.

     Na véspera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bêbado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava despensa. A despensa secreta de Tangrouille era no porão onde se guardava a água. Pô-la aí para torná-la inverossímil. Estava certo de que só ele conhecia aquele esconderijo. O Capitão era severo, porque era sóbrio. O pouco rum e gim, que o timoneiro podia subtrair à vigilância do capitão, punha de reserva naquele misterioso cantinho, no fundo de uma selha de sonda, e quase todas as noites tinha entrevista amorosa com aquela despensa. Era rigorosa a vigilância, pobre devia ser a orgia, e de ordinário os excessos noturnos de Tangrouille limitavam-se a dois ou três goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a despensa estava vazia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céus lhe caiu aquela garrafa? Não pode lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a imediatamente. Em parte fê-lo por prudência; tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte, quando tomou a cana do leme, Tangrouille tinha certa oscilação.

     Todavia governou o barco quase como nos outros dias.

     Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na Pousada João.

     Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns 20 guinéus, e que só tirava à noite. No interior do cinto estava escrito o nome dele, escrito por ele mesmo no couro bruto com tinta litográfica, que é indelével.

     Ao levantar, antes de partir, pós no cinto a caixinha de ferro contendo 75 000 francos em notas de banco, depois atou o cinto como costumava, à roda do corpo.

    

    Palestra interrompida

     Fui alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatória, tal é o costume. Dois passageiros, o turista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e, desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quase fio por fio, na cobertura e entre ponte, todos os aparelhos marítimos, argolas, ganchos, fateixas, cilindros, que, à força de precisão e justeza, são uma espécie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourado com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, “com uma corrente de cão de sentinela”, observou o turista, e “coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações”, acrescentou o parisiense. Afastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emitiu o axioma de que as perspectivas do mar iludem, e que, a 1 légua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunquerque, Completou-se o que havia a dizer de Dunquerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se um Ruytingue e o outro Mardyck.

     Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.

     O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quase sem torção a perder de vista.

     Guernesey está no centro de uma linha reta tirada de Saint-Malo na França, e Exeter na Inglaterra. A linha reta no mar nem sempre é a linha lógica. Entretanto, os vapores tem, até certo ponto, o poder de seguir a linha reta que não podem seguir os navios de vela.

     O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as máquinas são forças limitadas. Entre os dois organismos, um inesgotável, outro inteligente, trava-se o combate que se chama navegação.

     Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Também o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não há força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerário.

     Enquanto se não descobre a lei, prossegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma espécie de vitória perpétua que o gênio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admirável porque disciplina o navio. Diminui a obediência ao vento e aumenta a obediência ao homem.

     Nunca a Durande trabalhou no mar como naquele dia, Andava maravilhosa-mente.

     Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Mínquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e belo estava o céu. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.

     A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.

     Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume.

     A tripulação não se preocupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das 11 horas, o capitão retificou a direção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um belo sol de fevereiro.

     Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava daí que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrasava a marcha.

     O vento ia amainando.

     O passageiro guernesiano, que tinha um óculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um floco de espuma coada pelo vento no extremo horizonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.

     O Capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de atenção.

     Tudo estava calmo e quase risonho a bordo da Durande; os passageiros conver-savam.

     Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo tremulo da conversa. A plena liberdade de espírito dos passageiros corresponde à perfeita tranquilidade da água.

     É impossível, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.

     - Perdeu-se no mar e descansa no navio.

     - As moscas não se cansam muito.

     - Pudera! São tão leves. Carrega-as o próprio vento.

     - Já se pesou 1 onça de moscas e, contadas depois, viu-se que eram 6 268.

     O guernesiano do óculo tinha-se chegado aos maloenses mercadores de gado, e a conversa deles era pouco mais ou menos esta:

     - O boi de Aubrac tem o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pelo amarelo. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.

     - Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.

     - Vi dois magníficos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nádegas largas, bom comprimento da nuca à garupa, boa altura no garrote, manejo fácil, pele boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os sinais de um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pele branca e vermelha, alcatra caída.

     - Isso é raça da costa.

     - Sim, mas com certa semelhança com o touro Angus ou o touro Suffolk.

     Acredite se quer, no meio-dia há concurso de bestas.

     - De bestas?

     - De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.

     - Então são como as jumentas. As feias é que são boas.

     - Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.

     - A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.

     - A beleza dos animais não é como a beleza dos homens.

     - E sobretudo das mulheres.

     - Justo.

     - Eu cá, quero que a mulher seja bonita.

     - Prefiro-a bem trajada.

     - Sim, limpa, asseada, esticadinha.

     - Ares de mocidade. uma rapariga deve parecer que sai do joalheiro.

     - Volto aos bois. Vi vender os tais bois no mercado de Thouars.

     - Conheço o mercado. Os Bonneau de ia Rochelle, e os Baliu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouviu falar deles, devem ter ido a esse mercado.

     O turista e o parisiense conversavam com o americano das Bíblias; a conversação aí era como nos outros grupos.

     Dizia o turista:

     - Eis a tonelagem flutuante do mundo civilizado: França, 716 000 toneladas; Alemanha 1 milhão; Estados Unidos, 5 milhões; Inglaterra, 5 milhões e meio. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total: 12 904 000 toneladas distribuídas por 145 000 navios na água do globo.

     O americano interrompeu:

     - Os Estados Unidos é que tem 5 milhões e meio.

     - Convenho - disse o turista. - O senhor é americano?

     - Sim, senhor.

     Houve um silêncio; o americano missionário perguntou a si mesmo se era ocasião de oferecer uma Bíblia.

     - Será verdade - continuou o turista - que os senhores I à na América gostam tanto das alcunhas a ponto de as por em todos os homens célebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomas Benton, “a velha barra de ouro”?

     - Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor “o velho Zach”?

     - E o General Harrison, o “velho Tip”? E o General Jackson, o “velho Hickory”?

     - Sim, porque Jackson é duro como pau hickory e Harrison bateu os peles-vermelhas em Tippecanoe.

     - É um costume bizantino esse.

     - É costume nosso. Chamamos Van Buren “o feiticeirinho”; Seward, que mandou fazer bilhetes miúdos do banco, “o bilhete miúdo”; e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem 4 pés de altura e uma grande eloquência, “o gigantinho”. Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguém que diga esse nome: Cass; todos dizem: “o grande Michigantier”; nem Este nome: Clay; dizem todos: “o rapaz do moinho acutilado”. Clay é filho de um moleiro.

     - Eu prefiro Clay ou Cass - observou o parisiense -, é mais curto.

     - Pois estaria fora do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretário do Tesouro, “o rapaz da carreta”. Daniel Webster é o negro Dan”. Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira ida, depois de bater os ingleses em Chippeway, foi assentar-se à mesa, chama-mo-lo “Dá-cá-um-prato-de-sopa-depressa”.

     Tinha se agigantado o floco de neve. Ocupava no horizonte um segmento de cerca de 15 graus. Dissera-se uma nuvem arrastada à flor da água por falta de vento. Não havia um sopro de brisa sequer. Embora fosse apenas meio-dia, o sol ia empalidecendo. Alumiava, mas já não aquecia.

     - Creio - disse o turista - que o tempo vai mudar.

     - Talvez haja chuva - disse o parisiense.

     - Ou nevoeiro - disse o americano.

     - Na Itália - continuou o turista - o lugar em que cai menos chuva é Molfetta, e onde cai mais 6 em Tolmezzo.

     Ao meio-dia, segundo o uso do arquipélago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quis. Alguns passageiros levavam comida consigo e comeram no convés. Clubin não jantou.

     Ao jantar, a palestra continuou.

     O guernesiano, tendo o faro das Bíblias, aproximou-se do americano.

     O americano disse-lhe:

     - Conhece Este mar?

     - Sem dúvida, sou filho dele.

     - E também eu .

     O guernesiano aderiu com um cumprimento, e continuou:

     - Agora estarmos ao largo mas não me agradava nada ter nevoeiro enquanto estávamos ao pé dos Minquiers.

     O americano disse ao maloense:

     - Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.

     - É exato, nós, os filhos da costa, temos apenas metade do mar.

     - Que coisa é essa dos Minquiers? - continuou o americano.

     O maloense respondeu:

     - São umas pedras ruins.

     - Há também os Grelets - disse o guernesiano.

     - Ora! - disse o maloense.

     - E os Chouas - acrescentou o guernesiano.

     O maloense deu uma gargalhada.

     - Dessa forma - disse ele -, temos também os Sauvages.

     - E os Maine - observou o guernesiano.

     - E o Canard, - disse o maloense.

     - O senhor tem resposta para tudo - disse o guernesiano com rapidez.

     - Maloense, malicioso.

     Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.

     O turista interpôs uma pergunta:

     - Dar-se-á o caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores falam?

     - Qual! Deixamo-la a sudoeste. Já ficou atrás de nós.

     E o guernesiano continuou:

     - Entre grandes e pequenos os Grelets tem 57 pontas de rocha.

     - E os Minquiers 48 - disse o maloense.

     Aqui o diálogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.

     - Parece-me, senhor de Saint-Malo, que há três rochedos que o senhor deixou de contar.

     - Contei tudo.

     - A Derée da Maitre-Ile?

     - Sim.

     - E Maisons também?

     - Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.

     - Já vejo que conhece os cachopos.

     - Quem não os conhece não é de Saint-Malo.

     - Causa gosto ouvir o raciocínio dos franceses.

     O maloense cumprimentou, e disse:

     - Sauvages são três rochedos.

     - E Maines são dois.

     - Canard é um.

     - Basta dizer Canard; já se sabe que é um.

     - Não, porque a Suarde são quatro rochedos.

     - Que é a Suarde? - perguntou o guernesiano.

     - Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.

     - Não é bom passar entre Chouas e Canard.

     - Só os pássaros podem passar aí.

     - E os peixes.

     - Nem sempre. Quando há mau tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.

     - Há areia em Minquiers.

     - A roda de Maisons.

     - Vêem-se oito rochedos de Jersey.

     - Da praia de Azette, é justo. Não são oito, são sete.

     - Nas vazantes pode-se passear entre os Minquiers.

     - Sem dúvida, há espaço.

     - E Dirouilles?

     - Dirouilles não tem nada com Minquiers.

     - Quero dizer que é perigoso.

     - È do lado de Granville.

     - vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.

     - Sim - disse o maloense -, com a diferença de que nós dizemos: estamos acostu-mados, e os senhores dizem: gostamos.

     - São bons marinheiros os senhores.

     - Eu sou mercador de gado.

     - Quem é que foi também de Saint-Malo?

     - Surcouf.

     - Não, outro.

     - Duguay-Trouin.

     Aqui o viajante parisiense interrompeu.

     - Duguay-Trouin? Foi apanhado pelos ingleses. Era tão amável quão valente. Agradou a uma jovem inglesa. Foi ela quem lhe quebrou os ferros.

     Neste momento uma voz tremenda gritou:

     - Estás bêbado!

    

    Mostram-se todas as qualidades do capitão Clubin

     Voltaram-se todos.

     Era o Capitão Clubin que interpelava o timoneiro.

     O Sr. Clubin não tratava ninguém por tu. Para que ele atirasse a Tangrouille semelhante apóstrofe era preciso que estivesse colérico ou quisesse mostrar-se assim.

     Uma expressão de cólera, vindo a propósito, demite a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.

     O capitão, de pé no lugar de comando, entre as caixas das rodas, olhava fixa-mente para o timoneiro. Repetiu entre dentes: “Beberrão!”

     O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.

     Desenvolvia-se o nevoeiro. Já ocupava metade do horizonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a. sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia ele apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ela pela proa. Era um vasto penedo movediço e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a água imensa entrava por baixo do nevoeiro e desaparecia.

     Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia légua de distância. Se o vento mudasse, podia-se evitar a imersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia légua de intervalo enchia-se e diminuía a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro também. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.

     Clubin mandou aumentar o vapor e obliquar a leste.

     Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas ele avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.

     Perdia-se o tempo naquelas manobras que dificilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em fevereiro.

     O guernesiano contemplava a bruma. Disse aos maloenses:

     - É atrevido Este nevoeiro.

     - Desasseio do mar - observou um dos maloenses.

     O outro acrescentou:

     - Isto atrasa a viagem.

     O guernesiano aproximou-se de Clubin.

     - Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.

     Clubin respondeu:

     - Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.

     - Quem?

     - veteranos do mar.

     - Fez bem em partir - continuou o guernesiano. - Quem sabe se não haverá tempestade amanhã. Nesta estação espera-se o pior.

     Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.

     Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na popa ficou de repente sem ver a gente que ia na proa. Tênue – tabique cinzento cortou o navio ao meio.

     Depois, todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Súbito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quase sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranquilidade. Tudo estava pálido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.

     A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e aumentou o vapor.

     O passageiro guernesiano, andando à roda da máquina, ouviu o negro Imbrancam que falava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:

     - Quando havia sol, íamos devagar; agora que há nevoeiro vamos depressa.

     O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.

     - Capitão Clubin, não há cuidado; mas não acha que vamos depressa demais?

     - Que quer, senhor? ... preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquele bêbado.

     - É verdade, Capitão Clubin.

     E Clubin acrescentou:

     - Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficaríamos asseados.

     O guernesiano foi ter com os maloenses e disse-lhes:

     - Temos um excelente capitão.

     De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapareceu mais pálido e como que enfermo. O pouco céu que se via assemelhava-se às faixas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de teatro.

     A Durande passou junto de um cúter que tinha ancorado por prudência. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patrão do cúter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exato; afigurou-se-lhe que obliquava a oeste. vendo aquele navio, andando a todo vapor no meio do nevoeiro, o homem pasmou.

     Pelas 2 horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiara, tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma espécie de escuridão branca. Navegava-se na palidez difusa. Já se não via nem o céu nem o mar.

     Não ventava.

     A ancoreta da terebintina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscilação.

     Os passageiros tornaram-se silenciosos.

     Contudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger Un Jour lé Bon Dieu  s’Eveillant. (Um dia o bom Deus se mexeu (N. Ed.)

     Um dos maloenses dirigiu-lhe a palavra:

     - O senhor vêm de Paris?

     - Sim, senhor. Il mit Ia tete à la fenêtre. (Ele meteu a cabeça na janela (N. Ed.)

     - Que se faz por lá?

     - Leur planéte a péri peut-etre. (Talvez seu planeta deixou de existir. (N. Ed.) Lá em Paris tudo anda mal.

     - Então é tanto lá em terra como aqui no mar.

     - Realmente, Este nevoeiro é o diabo.

     - E pode causar desgraças.

     O parisiense exclamou:

     - Mas por que desgraças? A propósito de que? De que servem desgraças?

     È o caso do incêndio do Odeon! Ficou uma porção de famílias reduzidas à miséria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.

     - Nem eu - disse o maloense.

     - Tudo o que se passa neste mundo - falou o parisiense – parece um desconcerto. Creio que Deus não entra nisto.

     O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura compreender.

     O parisiense continuou:

     - Deus está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obrigá-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa conosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deus já não está no governo, está em férias, e é o vigário, algum anjo seminarista, algum beócio com asas de pardal, quem dirige os negócios.

     O Capitão Clubin, que se aproximara, pôs a mão no ombro do parisiense.

     - Silêncio - disse ele. - Cuidado nas palavras. Estamos no mar.

     Ninguém mais falou.

     No fim de cinco minutos o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes:

     - É um capitão religioso.

     Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma espécie de mal-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emudece o oceano, adormenta a vaga e sopita o vento. Naquele silêncio, o rumor da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.

     Já se não encontravam navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fora do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visível, e a sua longa fumaça, presa a coisa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céu branco.

     De repente Clubin exclamou:

     - Com seiscentos! Estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco. Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bêbado!

     E tomou a cana do leme.

     O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da proa.

     Disse o guernesiano:

     - Estamos salvos.

     A marcha continuou rápida.

     - Pelas 3 horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e viu-se o mar.

     - Mau! - disse o guernesiano.

     Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol, é bom sinal; quando é o vento, não é tão bom sinal. Era tarde já para ser o sol. Às 3 horas, em fevereiro, o sol está fraco. Não era coisa desejável a volta do vento naquela situação crítica. Muitas vezes anuncia o furacão.

     Verdade seja que se havia brisa, mal se sentia.

     Clubin, com o olhar na bitácula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos:

     - Não há tempo a perder. Aquele bêbado demorou a viagem.

     O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.

     O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas. Luzes geladas flutuavam na água. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cair mais densa. Às vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquele círculo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horizonte, e fechava-se depois.

     O guernesiano, armado de um óculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.

     Clareou, depois escureceu outra vez.

     O guernesiano voltou-se assustado:

     - Capitão Clubin!

     - Que é?

     - Vamos direto aos cachopos de Hanois.

     - É engano - disse Clubin friamente.

     O guernesiano insistiu:

     - Estou certo.

     - Impossível.

     - Vi uma pedra no horizonte.

     - Onde?

     - Ali!

     - É ao largo. Impossível.

     E Clubin continuou a por o navio no ponto indicado pelo passageiro.

     O guernesiano travou do óculo.

     Minutos depois correu para o capitão.

     - Capitão!

     - Que é?

     - Vire- de bordo.

     - Por que?

     - Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.

     - Há de ser algum nevoeiro mais escuro

     - É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céu!

     Clubin deu uma volta à cana do leme.

    

    Clubin leva a admiração ao cúmulo

     Ouviu-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lúgubres que se pode imaginar. A Durande parou.

     Com o choque muitos passageiros caíram e rolaram no tombadilho.

     O guernesiano levantou as mãos para o céu.

     - Nos Hanois! Eu bem dizia!

     Longo grito soou no navio.

     - Estamos perdidos!

     A voz de Clubin, seca e breve, dominou o grito.

     - Ninguém está perdido! E silêncio!

     O corpo negro de Imbrancam, nu até a cintura, saiu do espaço da máquina.

     O negro disse com calma:

     - Capitão, a água está entrando. A máquina vai apagar-se.

     Terrível foi o momento.

     O choque assemelhava-se a um suicídio. Se fosse de propósito, não seria mais terrível. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma ponta da rocha pene-trou no navio como um prego. Mais de 1 toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de proa, fracassou a quilha, Partiu-se o gurupés, o casco aberto bebia água aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufrágio. A reação foi tão violenta que quebrou na popa a caixa do leme, que ficou solto e oscilante. O cachopo arrancara o fundo e à roda do navio não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quase negro. Chegava a noite.

     A Durande mergulhava pela proa. Era o cavalo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.

     Sentia-se no mar a hora da maré.

     Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguém fica bêbado em um naufrágio; desceu abaixo, subiu e disse:

     - Capitão, a água enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornais.

     Os passageiros corriam no tombadilho fora de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a máquina, fazendo todos os movimentos inúteis do terror. O turista desmaiou.

     Clubin fez um sinal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:

     - Quanto tempo pode a máquina trabalhar ainda?

     - Cinco ou seis minutos.

     Depois interrogou o passageiro:

     - Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós?

     - Na Mative. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.

     - Sendo a Mative - continuou Clubin - temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a 1 milha de terra.

     A equipagem e os passageiros escutavam, trêmulos de ansiedade e de atenção, com os olhos fixos no capitão.

     Alijar o navio era inútil e, demais, impossível. Para por a carga ao mar, era preciso abrir às portinholas e aumentar as probabilidades de entrar água. Atirar a âncora era inútil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a máquina, e continuando à disposição do navio enquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se, à força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo imediatamente. O rochedo, até certo ponto, tapava o rombo e tolhia a passagem da água. Servia de obstáculo. Desobstruída a abertura, seria impossível impedir a entrada da água. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sair do cachopo era ir ao fundo. Clubin ordenou: Os bois, atacados pela água, começavam a mugir.

     - A chalupa ao mar.

     Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado.

     - Todos à obra - gritou Clubin.

     Desta vez obedeceram todos.

     Clubin, impassível, continuou a dar ordens, naquela velha língua do mar, que os marinheiros de hoje não compreenderiam.

     A chalupa estava no mar.

     No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de água.

     Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxárcias, deixavam-se antes cair que descer na chalupa. Imbrancam. apanhou o turista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subiu ao navio.

     Os marinheiros atiravam-se após os passageiros. O grumete rolou; eles pisavam o rapaz. Imbrancam barrou a passagem:

     - Ninguém antes do moço - disse ele.

     Afastou com os braços negros os marinheiros, o grumete, e estendeu-o ao passa-geiro guernesiano, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.

     O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse: Passem.

     Entretanto, o Sr. Clubin foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papéis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bússola da bitácula. Entregou os papéis e os instrumentos a Imbrancam. e a bússola a Tangrouille, e disse-lhes:

     - Desçam à chalupa.

     Eles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quase rasa.

     - Agora - disse Clubin - vão embora.

     - E o senhor, capitão?

     - Fico.

     As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de enternecer-se. Entretanto, os que estavam na chalupa, e relativamente em segurança, tiveram uma comoção que não era por eles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo:

     - venha conosco, capitão.

     - Fico.

     O guernesiano, que conhecia o mar, replicou:

     - Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado há apenas 1 milha até Plainmont. Mas na chalupa só se pode abordar na Rocquaine, e são 2 milhas. Há cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega à Rocquaine antes de 2 horas. Não tarda a anoitecer. Enchendo a maré, refresca o vento. Está próxima a borrasca. É nosso desejo vir buscá-lo depois, mas se romper o temporal, não será possível. Se fica está perdido. venha.

     O parisiense interveio:

     - A chalupa está cheia, e cheia demais, é verdade, e um homem de mais seria ainda pior. Mas nós somos treze, é mau número para a barca, e é melhor sobrecarregá-la de um homem que de algarismo.

     Tangrouille acrescentou:

     - A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.

     - Fico - disse Clubin. - O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-á de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.

     E cruzando os braços, gritou:

     - Atenção às ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!

     Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: “Hurrah para o Capitão Clubin!”

     - Eis um homem admirável - disse o americano.

     - É o mais honrado homem do mar - respondeu o guernesiano.

     Tangrouille chorava.

     - Eu devia ter ficado com ele.

     A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desapareceu.

     Não se viu mais nada.

     O rumor dos remos diminuiu e perdeu-se.

     Clubin estava só.

    

    Alumia-se o interior de um abismo

     Quando aquele homem achou-se naquele rochedo debaixo daquela nuvem, no meio daquela água, longe do contato humano, deixado por morto, sozinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo júbilo.

     Alcançara o que queria.

     Realizara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo prazo que ele sacou sobre o destino.

     Para ele, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a 1 milha de terra; tinha 75 000 francos. Nunca se realizou mais acertado naufrágio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto. Desde a juventude, Clubin teve uma idéia; fazer da honestidade uma parada no jogo da roleta da vida, passar por homem probo, e partir da”, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atrás os papalvos. Assentava que devia alcançar de uma vez aquilo que os larápios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, enquanto estes vão ter à forca, ele iria à fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construiu imediata-mente o plano: obrigar Rantaine à restituição; quanto às suas revelações possíveis, anulá-las desaparecendo; passar por morto, que é a melhor desaparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufrágio era necessário. Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existência uma obra-prima. Quem pudesse ver Clubin naquele naufrágio acreditaria ver um demônio feliz.

     Viveu toda a sua vida naquele minuto.

     Toda a sua pessoa exprimia esta palavra: enfim! Tremenda serenidade empa-lideceu aquela fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quais parecia haver um tabique, tornaram-se profundos e terríveis. O abrasamento interno daquela alma reverberou-se neles.

     O foro íntimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elástica. Uma idéia é um meteoro; no momento do triunfo, entreabrem-se as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faísca; ter em si uma garra do mal, e sentir nela uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; mau pensamento que triunfa e ilumina o rosto daquele que o concebeu; certas combinações triunfantes, certos desejos realizados, certas felicidades ferozes fazem aparecer e desaparecer nos olhos dos homens lúgubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sai da consciência, que se faz sombria e enevoada.

     Foi esse fulgor que iluminou aqueles olhos.

     Relâmpago que não se parecia com coisa alguma do que se pode ver no céu e na terra.

     O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.

     Clubin fitou a imensa obscuridade, e não pode reter uma gargalhada baixa e sinistra.

     Estava livre! Estava rico!

     Achara a incógnita. Resolvera o problema.

     Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande e afinal devia pô-la a nado. Mas o navio aderia solidamente ao rochedo; não havia perigo de soçobrar. Além disso, era preciso deixar à chalupa o tempo de afastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.

     De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquele abandono nas trevas.

     A hipocrisia pesou àquele homem durante trinta anos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um ódio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquela armadura rígida, a aparência. Era monstro internamente; vivia em uma pele de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade, estava fechado naquele caixão de múmia, a inocência; tinha nas costas asas de anjo, esmaga-doras para um velhaco. Pesava-lhe demais a estima pública. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilíbrio, pensar mal e falar bem, que labutação 1 Clubin era o fantasma da retidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino dele. Era-lhe preciso mostrar ares apresentáveis, escumar por baixo do nível, sorrir em vez de ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquela mão que lhe tapava a boca.

     E querendo mordê-la foi obrigado a beijá-la.

     Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpetuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão.

     Clubin imaginava de boa fé que tinha sido oprimido. Por que razão não nascera rico? O que ele queria era que os pais lhe houvessem deixado 100 000 libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa dele. Por que motivo, não lhe dando todos os gozos da vida, forçaram-no a trabalhar, isto é, a enganar, a trair, a destruir? Por que motivo condenaram-no assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não era dele? Dissimular é uma violência imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soara enfim a hora. Clubin vingava-se.

     De quem? De todos e de tudo.

     Lethierry não lhe fez senão bem: queixava-se demais; vingava-se de Lethierry. Vingava-se de todos aqueles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem dele, era seu inimigo, porque ele foi cativo desse homem.

     Clubin achava-se livre. Realizava-se a fuga. Estava fora dos homens. O que se tinha por morte, era vida; ele ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou, com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry à ruína, a justiça humana às trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.

     Quanto a Deus, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.

     Passou como religioso. Que importa?

     Há cavernas no hipócrita ou, antes, o hipócrita é uma caverna.

     Quando Clubin ficou só, abriu-se-lhe o antro. Teve um instante de delícias; arejou a alma.

     Respirou largamente o seu crime.

     O fundo do mal tornou-se visível naquele rosto. Clubin abriu-se.

     Nesse momento o olhar de Rantaine ao pé daqueles olhos pareceria um olhar de recém-nascido.

     Arrancar a máscara, que livramento! A consciência de Clubin alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignóbil no mal. O constran-gimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gesto violento à impu-dência. Chega-se a uma certa lascívia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas morais tão pouco sondadas uma não sei que ostentação atroz e agradável, que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá apetite de vergonha. Desdenham-se os homens a ponto tal que se deseja o desprezo deles. Ser estimado aborrece. Admira-se a franqueza da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gesto na ignomínia. Os olhos obrigados a baixar-se tem muitas vezes destes olhares oblíquos. Nada se aproxima tanto de Messalina como Maria Alacoque. Vede Cadiére e a religiosa de Louviers.

     Clubin vivera debaixo do véu. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher pública e a fronte de bronze do opróbrio aceito; sentia-se mais mulher pública do que ela e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tântalo do cinismo. Enfim, naquela solidão, podia ser franco; era-o. Que volúpia não é sentir-se sinceramente abominável! Todos os êxtases possíveis no inferno teve-os Clubin naquele momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hipocrisia é um adiantamento; Satanás embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desaparecido e apenas ficara o céu. Disse consigo: “Sou um pícaro!” E ficou satisfeito.

     Jamais houve coisa igual em uma consciência humana.

     Erupção de um hipócrita, não há rompimento de cratera igual a esse.

     Achava-se feliz por não haver ali ninguém, e não desgostaria que alguém o visse. Teria prazer em ser medonho à vista de uma testemunha.

     Teria prazer em dizer ao gênero humano: és idiota!

     A ausência de homens assegurava-lhe o triunfo, mas diminuía-o.

     Só ele era o espectador da sua glória.

     Há certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.

     Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o déspota de todos os olhares que ele obriga a voltarem-se para si. Aquele cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais belo triunfo do que esse de ficar no centro de convergência para a atenção geral? Obrigar o olhar público é uma das formas de supremacia. Os que tem o mal por ideal acham no opróbrio uma auréola. Domina-se daí. Olha-se de cima de alguma coisa. Mostra-se com soberania. Um poste, à vista de todo o universo, tem alguma analogia com um trono.

     Estar exposto é ser contemplado.

     Um mau reinado tem evidentemente júbilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luis XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o Regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicolau assassinando a Polônia em face da civilização, deviam sentir um pouco daquela volúpia sonhada por Clubin. A imensidade do desprezo parece grandeza ao desprezado.

     Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma vitória. É a ebrie-dade, é a imprudência insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.

     Estas idéias em um hipócrita parecem contradição, e não são. Toda a infâmia é consequente. O mel é fel. Escobar confina no Marques de Sade. Prova: Léotade. O hipócrita, sendo perverso completo, tem em si os dois pólos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortesão. O seu sexo de demônio é duplo. O hipócrita é o horrível hermafrodita do mal. Fecunda-se a si próprio; gera-se, transforma-se. Queres vê-lo formoso? Olha-o. Queres vê-lo horrível? Vira-o.

     Clubin tinha em si toda esta sombra de idéias confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.

     Uma porção de faíscas do inferno, atravessando a noite, era a sucessão dos pensamentos naquela alma.

     Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pele que despiu.

     Toda a gente acreditou naquela honestidade, ele próprio acreditou um bocadinho nela.

     Deu segunda gargalhada.

     Iam pensar que ele estava morto, e estava vivo.

     Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada à tolice universal!

     E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdém sem limites. Desdém da fuinha para com um tigre. Tinha conseguido o que falhara a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triunfante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má ação, e foi ele quem teve a boa fortuna.

     Quanto ao futuro, Clubin não tinha plano. Possuía os bilhetes do banco na boceta de ferro atada à cintura; bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. Há países onde 60 000 francos valem 600 142 000. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negócio, engrossar o capital, tornar-se seriamente milionário também não era mau.

     Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande comércio do café, podia ganhar tonéis de ouro. veria isso.

     Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas coisas. O mais difícil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstáculo possível. Nada a temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria à casa mal-assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antemão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e víveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas da Espanha, Blasquito provavelmente; por alguns guinéus, far-se-ia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para iludir, mas a Pasages ou a Bilbao. daí iria a vera Cruz ou a Nova Orleans. Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era coisa nenhuma para Clubin, só 1 milha o separava da terra, pois que estava no Hanois.

     Neste ponto dos seus cálculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro.

     O formidável rochedo Douvres surgiu aos seus olhos.

    

    Intervêm o inesperado

     Clubin olhou espantado.

     Era o medonho escolho isolado.

     Não era possível a ilusão a respeito daquela configuração disforme. As duas Douvres gêmeas campeavam horríveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos. Dissera-se um quebra-costas do oceano.

     Estavam perto dele as rochas Douvres; o nevoeiro, como cúmplice, escondera-as.

     Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apesar de toda a atenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes navegadores, a González, que descobriu o cabo Branco, e a Fernandez, que descobriu o cabo verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a execução do projeto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

     A Durande, arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das Douvres apenas por algumas centenas de braças.

     A 200 braças mais longe via-se um maciço cubo de granito. Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgá-la.

     Os cantos retilíneos dessas rudes muralhas de ângulo reto faziam pressentir no cume uma planura.

     Era o Homem.

     A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessíveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade arquitetural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranquilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme rochedo negro, espécie de pedestal para os espectros imensos do mar e da noite.

     Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfície muda da água adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

     Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.

     Convenceu-se bem que eram ali as Douvres.

     Não podia duvidar.

     Súbita e terrível mudança. As Douvres em vez de Hanois. Em vez de 1 milha, 5 léguas do mar! O impossível. A rocha Douvres, para o náufrago solitário, é a presença visível e palpável dos últimos momentos. É impossível chegar à terra.

     Clubin estremeceu. Tinha se metido na goela da sombra. Não havia outro refúgio além do rochedo Homem. Era provável que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande, sobrecarregada, soçobrasse. Nenhum aviso do naufrágio chegaria   terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus 75 000 francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão. Tudo quanto ele construíra deu em resultado aquela cilada; foi ele próprio o arquiteto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma solução possível. O triunfo fazia-se precipício. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro próspero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edifício. O paraíso sonhado por aquele demônio retomou a sua verdadeira figura: o sepulcro.

     Entretanto, soprava o vento. O nevoeiro, sacudido, furado, repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos informes. Reapareceu o mar.

     Os bois, cada vez mais invadidos pela água, continuavam a berrar no porão.

     Aproximava-se a noite; provavelmente a tempestade.

     A Durande, a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita, e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

     Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio e o levaria água abaixo.

     Havia menos obscuridade do que no momento do naufrágio. Apesar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou consigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepúsculo é um vasto céu branco. Essa vasta claridade alumiava o mar.

     A Durande naufragara em plano inclinado de popa a proa. Clubin trepou à proa que estava quase fora da água. Fitou no horizonte os olhos.

     É próprio da hipocrisia ater-se à esperança. O hipócrita é o homem que espera. A hipocrisia é uma esperança horrível: O fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.

     Coisa estranha de dizer, há confiança na hipocrisia. O hipócrita confia-se a certa indiferença do desconhecido, que consente no mal.

     Clubin olhava para a extensão.

     A situação era desesperada: aquela alma sinistra não desesperou.

     Dizia consigo que depois daquele longo nevoeiro os navios conservados na bruma, à capa ou ancorados, iam continuar viagem e algum passaria no horizonte.

     E, com efeito, apareceu uma vela.

     Vinha de leste e ia para oeste.

     Aproximando-se, desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quase horizontal.

     Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.

     Clubin disse consigo: “Estou salvo”.

     Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.

     O cúter era quase estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não somente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, apressando a conclusão, suprimindo a espera na casa mal-assombrada, dando desfecho à aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.

     Toda a certeza do bom êxito entrou freneticamente naquele espírito sombrio.

     Estranha coisa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem sucedidos.

     Cumpria fazer apenas uma coisa.

     A Durande, metida nos rochedos, misturava a sua configuração à deles, confundia-se com os seus recortes, sobre os quais parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a atenção da embarcação que ia passar.

     Mas uma figura humana, desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo sinais de perigo, seria vista, sem dúvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o náufrago.

     O rochedo Homem ficava a 200 braças. Era simples atingi-lo a nado, fácil trepar por ele.

     Não havia tempo a perder.

     Estando a proa da Durande sobre a rocha, era do alto da popa e do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se ao mar.

     Começou por deitar uma sonda, e reconheceu que havia ao pé da popa muito fundo. As conchas microscópicas de foraminíferos e de policistináceos que à sonda trouxe consigo estavam intatas, o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a água, qualquer que fosse a agitação da superfície, era sempre tranquila.

     Despiu-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cúter.

     Conservou apenas o cinto de couro.

     Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direção que devia seguir no meio dos parcéis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.

     Como caiu de alto, mergulhou muito.

     Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinas, depois fez um movimento para subir à superfície.

     Nesse momento sentiu-se agarrado pelo pé.

 

Imprudência de interrogar um livro

    A pérola no fundo precipício

     Minutos depois do curto colóquio com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

     Gilliatt ia inquieto até à ansiedade. Que teria acontecido?

     Saint-Sampson tinha um rumor de colmeia assustada. Toda a gente estava às portas. As mulheres exclamavam. Muitas pessoas contavam alguma coisa fazendo gestos; as outras agrupavam-se à roda dessas. Ouviam-se estas palavras: “Que desgraça!”. Alguns sorriam. Gilliatt não interrogou ninguém. Não era próprio dele fazer perguntas. Demais ia demasiado comovido para falar a indiferentes. Desconfiava das narrações, preferia saber logo tudo; foi à casa de Lethierry.

     A sua ansiedade era tal que nem mesmo teve medo de entrar naquela casa.

     Demais, a porta da sala baixa estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos entravam; ele entrou.

     Entrando, achou encostado à porta o Sr. Landoys, que lhe disse a meia voz:

     - Então, já sabe do sucesso?

     - Não.

     - Eu não quis dizer-lho há pouco do meio da rua. Pareceria correio de desgraças.

     - Que foi então?

     - Perdeu-se a Durande.

     Havia muita gente na sala.

     Os grupos falavam baixo, como no quarto de um doente.

     Os assistentes, que eram os vizinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao pé da porta, com uma espécie de receio, e deixavam vazio o fundo da sala onde estava, ao lado de Déruchette lacrimosa e assentada, Mess Lethierry de pé.

     Lethierry estava encostado ao tabique do fundo. O boné de marujo caía-lhe nas sobrancelhas; uma mecha de cabelos grisalhos prendia-se-lhe na face. Não dizia nada. Os braços não tinham movimento, a boca parecia não ter alento. Parecia uma coisa encostada à parede.

     Ao vê-lo, sentia-se um homem dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry já não tinha razão de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer. Que faria ele agora? Levantar-se de manhã, deitar-se de noite. Já não podia esperar a Durande, nem vê-la partir nem voltar. O que é um resto de existência sem objeto? Beber, comer, e depois? Aquele homem tinha coroado os seus trabalhos com uma obra-prima, e as dedicações com um progresso. Abolira-se-lhe o progresso, morrera-lhe a obra prima. Para que viver ainda alguns anos vazios? Não tinha mais nada que fazer. Naquela idade não é possível recomeçar; de mais a mais estava arruinado. Pobre velho!

     Déruchette, assentada ao pé dele e chorando, tinha entre as suas duas mãos a mão de Mess Lethierry. As dela estavam postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a diferença daqueles dois abatimentos. As mãos postas ainda tem, esperança; a apertada nenhuma.

     Mess Lethierry abandonava-lhe o braço sem resistência. Estava passivo. Tinha em si apenas aquela porção de vida que pode haver depois do raio.

     Há certas descidas ao fundo do abismo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda são confusas e indistintas; acotovelam-no e não lhe chegam. De parte a parte ficam inacessíveis. A ventura e o desespero não são os mesmos centros respiráveis; o desesperado assiste à vida dos outros, mas de muito longe; ignora quase a sua presença; perde o sentimento da própria existência; que importa ser de carne e osso, o desesperado já se não sente real; já não é ele próprio, é apenas um sonho.

     Mess Lethierry tinha o olhar dessa situação.

     Cochichavam os grupos.

     Cada qual dizia o que sabia.

     Eis as notícias:

     A Durande perdera-se na véspera nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do por do sol. À exceção do capitão, que não quis deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma borrasca, vinda do sudoeste, depois do nevoeiro, quase fez naufragar a chalupa, e carregou-a para o mar largo, além de Guernesey. De noite tiveram os náufragos a boa fortuna de encontrar o Cashmere, que os recolheu e levou a Saint-Pierre-Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que já estava preso. Clubin mostrou-se magnânimo.

     Os pilotos que abundavam nos grupos pronunciavam estas palavras “escolho Douvres” de um modo particular. “Má hospedaria aquela!”, dizia um deles.

     Viam-se na mesa uma bússola e um maço de registros e notas; eram sem dúvida a bússola da Durande e os papéis de bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a chalupa; magnífica abnegação desse homem, salvando até os papéis no momento em que ia morrer; minuciazinha cheia de gran-deza, esquecimento sublime de si próprio.

     Todos eram unânimes em admirar Clubin, e igualmente unânimes em julgá-lo salvo. O cúter Shealtiel chegara poucas horas depois do Cashmere, e esse cúter trazia as últimas informações. Esteve 24horas nas mesmas águas da Durande. Parou e bordejou durante o nevoeiro e a tempestade. O patrão do Shealtiel estava também na sala de Lethierry.

     No momento em que Gilliatt entrou, acabava ele de fazer a sua narração a Mess Lethierry. Era um verdadeiro relatório. De manhã, tendo cessado a borrasca e acal-mado o vento, o patrão do Shealtiel ouviu mugido de bois em pleno mar. Este rumor próprio das campinas, ouvido ali nas vagas, surpreendeu o patrão. Descobriu a Durande nos rochedos Douvres. A calma era suficiente para que ele pudesse acercar-se dos rochedos. Chamou o navio à fala. Só lhe respondeu o mugido dos bois que se afogavam no porão. O patrão do Shealtiel estava certo de que não havia ninguém a bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais violenta que fosse a borrasca, devia ter passado a noite de bordo. Não era homem de desanimar facilmente. Não estava de bordo, logo estava salvo.

     Muitos sloops e lugres de Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fora de dúvida que deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum deles recolheu o Capitão Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o navio, ia correr perigos, mais um homem poderia fazê-la soçobrar, e foi isso sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande; mas, cumprido esse dever, se aparecesse um navio salvador, Clubin não teria dificuldade de aproveitar-se dele. Deve-se ser herói, não se deve ser pascácio. Um suicídio seria tanto mais absurdo quanto que Clubin portara-se com dignidade. O culpado era Tangrouille, não Clubin. Tudo isto era consequente; o patrão do Shealtiel tinha razão e toda a gente esperava ver Clubin de um momento para outro. Premeditava-se recebe-lo em triunfo.

     Da narração do mestre resultavam duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

     Quanto à Durande, estava decidido que a catástrofe era irremediável. O patrão do Shealtiel assistira à última fase do naufrágio. O grandíssimo rochedo em que naufragara a Durande resistira ao choque da tempestade, como se quisesse guardar consigo o navio; mas de manhã, no momento em que o Shealtiel, verificando que não havia ninguém para salvar, afastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar que são como os últimos arrancos da cólera das tempestades. Essa onda levantou furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a retidão de uma flecha disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouviu-se um estalo “diabólico”, dizia o patrão. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura, meteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais solidamente que no escolho submarino. Ficou aí deploravelmente suspensa, exposta a todo o vento e a todo mar.

     A Durande, no dizer da equipagem do Shealtiel, já estava quase toda despeda-çada. Teria soçobrado, com certeza, de noite, se o cachopo não estivesse. O patrão do Shealtiel com o seu óculo, estudou o casco. Descreveu o desastre com precisão marí-tima; o lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as correntes quase todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente possível desde o meio do mastro até acima; o lugar dos víveres arrombado, os cavaletes da chalupa destruídos, a árvore do leme rota, os cabos despregados, os paveses arrasados, a antena do mesmo modo, o cadaste quebrado. Era a devastação frenética da tempestade. Quanto ao guindaste do carregamento, preso ao mastro de proa, já não existia, não havia notícia dele, completamente limpo, levaram-no os diabos, com todas as roldanas, polés e correntes. A Durande estava deslocada; a água começava agora a despedaçá-la. Dentro de alguns dias nada mais restaria dela.

     E contudo a máquina, coisa notável, e que provava a sua perfeição, sofreu pouco com a tempestade. O patrão do Shealtiel afirmava que a manivela não teve avaria grave. Os mastros do navio cederam, mas o cano da máquina resistiu. Os baluartes de ferro do lugar do comando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas sofreram, mas as rodas pareciam não ter um só raio de menos. A máquina estava intata. Era a convicção do patrão do Shealtiel. O maquinista Imbrancam, que estava entre os grupos, partilhava esta convicção. Aquele negro, mais inteligente que muitos brancos, era o admirador da máquina. Levantava os braços abrindo os dez dedos das suas mãos negras, e dizia a Lethierry mudo: “Meu amo, a máquina está viva”.

     O salvamento de Clubin parecia coisa segura, o casco da Durande estava sacrifi-cado; a conversação dos grupos recaiu sobre a máquina. Interessavam-se por ela, como se fosse uma Pessoa. Todos admiravam o bom procedimento da máquina. “Sólida comadre aquela”, dizia um marinheiro francês. “É, magnífica!”, exclamava um pescador guernesiano. “Deve ter sido muito astuciosa”, acrescentava o patrão, “para escapar apenas com alguns arranhões.”

     A pouco e pouco tornou-se a máquina a preocupação única. Animou as opiniões pró e contra. Tinha amigos e inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cúter de vela, e esperava apanhar a freguesia da Durande, alegrou-se por ver o escolho Douvres fazer justiça à nova invenção. O cochicho tomou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era contudo um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a pressão do silêncio sepulcral de Lethierry.

     Do colóquio havido em todos os pontos resultava isto:

     A máquina era o essencial. Refazer o navio era possível, não a máquina. Era única. Para fabricar outra faltavam o dinheiro e o fabricante. Lembram-se de que o construtor tinha morrido. Custou 40 000 francos. Ninguém arriscaria agora aquele capital naquela eventualidade; tanto mais quanto acabava de provar-se que os e vapores naufragam como navios de vela; o acidente atual da Durande metia a pique o seu passado sucedimento. E era doloroso pensar que naquele momento a máquina ainda estava em bom estado, e que, antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaçada como o navio. Enquanto existia a máquina, podia dizer-se que não havia naufrágio. Só a perda da máquina era irremediável. Salvar a máquina era reparar o desastre.

     Salvar a máquina é fácil dizê-lo. Mas quem ousaria? Era acaso possível? Dizer e executar são coisas diferentes, e a prova é que é fácil formular uma aspiração e difícil. Executá-la. Ora, se houve jamais um sonho impraticável e insensato era Este: salvar a máquina encalhada nas Douvres. Mandar trabalhar naquelas rochas um navio e uma equipagem. seria absurdo; não se devia pensar nisso. Era a estação dos temporais: ao primeiro que houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nas pontas submarinas e o navio despedaçava-se. Era mandar um naufrágio em socorro do primeiro. Na espécie de buraco da planura superior onde se abrigara o náufrago legendário morto de fome, mal havia lugar para um homem. Era preciso, pois, que, para salvar essa máquina, fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, só naquele mar, só naquele deserto, só a 5 léguas da costa, naquele medo, só durante semanas inteira. Diante do previsto e do imprevisto, sem angústias da privação, sem socorro nos incidentes da desgraça, sem outro vestígio humano que o do antigo náufrago morto ali, sem outro companheiro além daquele finado.

     E como salvaria ele a máquina? Era preciso que fosse, não somente marujo, senão também ferreiro. E quantas dificuldades! O homem que o tentasse seria mais que um herói. Seria um louco. Porquanto, em certos cometimentos despropósito nados, onde parece necessário o sobre-humano, a bravura tem acima de si a demência. E, com efeito, sacrificar-se porem iria um pouco de ferro não era extravagante? Não, aos rochedos Douvres. Devia-se renunciar à máquina do mesmo modo que 4o navio. O salvador que era preciso não aparecia. Onde encontrar esse homem?

     Isto, dito de outro modo, era o fundo das conversas murmuradas daquela multidão.

     O patrão do Shealtiel, que era um antigo piloto, resumiu o pensamento de todos exclamando em alta voz:

     - Não! Está acabado. Não existe um homem capaz de ir buscar a máquina!

     - Se eu não vou - disse Imbrancam - é que é impossível ir.

     O patrão do Shealtiel sacudiu a mão esquerda com aquele arrebatamento que exprime a convicção do impossível, e repetiu:

     - Se existisse.

     Déruchette voltou a cabeça.

     - Casava-me com ele.

     Houve um silêncio.

     Um homem pálido saiu do meio dos grupos e disse:

     - A senhora casava-se com ele, Miss Déruchette?

     Era Gilliatt.

     Entretanto, todos levantaram os olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz estranha.

     Tirou o boné e lançou ao chão, depois olhou solenemente para frente sem ver pessoa alguma e disse:

     - Déruchette casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a Deus.

    

    Grande espanto na Costa Oeste

     A noite desse dia, das 10 horas em diante, devia ser noite de luar. Todavia, qualquer que fosse a boa aparência da noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sair nem de Hougue la Perre, nem de Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port-Grat, nem da baía Vason, nem de Perelle: Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da baia dos Santos, nem de Petit Bô, nem de nenhum outro porto ou angra de Guernesey. E isso por uma razão simples: o galo tinha cantado ao meio-dia.

     Quando o galo canta a uma hora extraordinária, não há peixe.

     Nesse dia, pois, ao cair da tarde, um pescador que voltava a Omptolle teve uma surpresa. Na altura de Houmet Paradis, além de Brayes e Grunes, tendo à esquerda a baliza de Plattes Fougéres, que representa um funil virado, e à direita a baliza de Saint-Sampson, que representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira baliza. Que baliza era essa? Quando foi posta ali? Que banco indicava ela? A baliza respondeu logo a estas interrogações; mexeu-se; era um mastro. Não diminuiu o espanto do pescador. Baliza era para admirar; mastro ainda mais. Não havia pesca possível. Quando todos voltavam, porque saía aquele? Quem era? Por quê?

     Dez minutos depois, o mastro, caminhando lentamente, chegou a pouca distância do pescador de Omptolle. Este não pode reconhecer o barco. Ouviu remar. O ruído era de dois remos. Provavelmente era um homem só. O vento era norte; o homem navegava evidentemente para ir tomar o vento além da ponta Fontenelle. Aí era natural que abrisse a vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer aquilo?

     O mastro passou; o pescador foi para terra.

     Nessa mesma noite, na costa oeste de Guernesey, observadores de ocasião disseminados e isolados fizeram alguns reparos a horas diversas e em diversos pontos.

     O pescador de Omptolle acabava de amarrar o barco, quando um condutor de sargaço, a meia milha distante, chicoteando os animais na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos arredores dos martelos 6 e 7, viu no mar, um tanto longe, em lugar pouco frequentado, porque é preciso conhecê-lo bem, do lado da Roque-Nord e da Sablonneuse, um barco içando uma vela. Deu pouca atenção, pois que era homem de carro e não de barco.

     Meia hora depois, um estucador que voltava da cidade e contornava a lagoa de Pelée achou-se repentinamente quase em face de um barco que penetrara audaciosa-mente entre as rochas do Quenon, da Rousse de Mer, e da Gripe de Rousse. A noite era negra, mas o mar estava claro, efeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes. Só havia no mar aquele barco.

     Mais abaixo e mais tarde, um pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do Port Enfer, não compreendeu o que faria um barco que passava entre a Boue Comeille e a Moulrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a algum lugar para arriscar-se a passar ali.

     Sendo 8 horas no Catel, o taveneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela além da Boue do Jardim e das Grunettes, mui perto da Suzanne e dos Grunes do Oeste.

     Não longe do Cobo Bay, na ponta solitária do Houmet da baía Vason, estavam dois namorados a despedir-se e a reter-se um ao outro; foram distraídos do último beijo por um vasto barco que passou por perto deles e dirigia-se para as Menellettes.

     O Sr. Le Peyre des Norgiots, morador em Catellon Pipet, estava examinando, às 9 horas da noite, um buraco feito por larápios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os estragos, não pode deixar de observar um barco dobrando temera-riamente o Croce-Point àquela hora.

     No dia seguinte ao de uma tempestade, com o resto de agitação que sempre fica no mar, aquele itinerário era pouco seguro, a menos que se não saiba de cor todos os passos.

     Às 9 horas e meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre Colombelle e Soufleresse alguma coisa que devia ser um barco e que se expunha muito ao tempo. Há ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse é assim chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.

     Ao levantar da lua, estando a maré cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitário da ilha de Li-Hou assustou-se ao ver passar entre a lua e ele uma longa forma negra. Esta forma ia resvalando lentamente por cima das espécies de paredes que formam os bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.

     A Dama Branca habita o Tau de Pez d’Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d’Aval, a Dama vermelha habita a Lilleuse ao norte do Baric-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacré ao este de Li-Houmet. Ao clarão da lua todas essas damas saem e encontram-se às vezes.

     Rigorosamente essa forma negra podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quais parecia que a vela andava, podiam com efeito esconder o casco de um barco vogando atrás de si, deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou a si próprio que barco ousaria arriscar-se àquelas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angulliéres e Lerée-Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provável que fosse a Dama Negra.

     Estando a lua já acima da torre de Saint-Pierre-du-Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte levadiça e distinguiu na foz da baía, mais perto que a Sambule, um barco a vela que parecia descer de norte a sul.

     Existe na costa sul de Guernesey, atrás do Plainmont, no fundo de uma baía, toda precipícios e muralhas, cortado a pique na onda, um porto singular que um francês, residente na ilha desde 1844, talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, batizou com o nome de “porto do quarto andar”, nome geralmente adotado hoje. Esse porto que então se chamava a Moie, é uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de 40 pés de altura acima da água, e comunicando com as vagas por duas grandes pranchas em plano inclinado. Os barcos içados à força de braços por correntes e roldanas, saem ao mar e descem ao longo dessas pranchas que são dois trilhos. Para os homens há uma escada. Esse porto era então muito frequentado pelos contrabandistas. Sendo pouco praticável, era-lhes cômodo.

     Pelas 11 horas, alguns trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; eles espiavam. Admi-raram-se de ver uma vela desembocando repentinamente além das linhas negras do cabo Plainmont. O luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receando que fosse algum guarda-costa colocar-se de emboscada atrás do grande Hanois, mas a vela passou os Hanois, deixou atrás de si a noroeste a Boue Blondil, e mergulhou-se ao largo nas brumas lívidas do horizonte.

     - Aonde diabo vai aquela barca? - disseram os contrabandistas.

     Na mesma noite, pouco depois de por o sol, ouviu-se alguém bater na porta da casa mal-assombrada em que morava Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarelas, o que indicava ser sacristão. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de frutos do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mão, chamou o rapaz, e trocaram-se estas palavras entre eles:

     - Que quer você?

     - O hhhhhhooomem daqui.

     - Não está aqui.

     - Onde está?

     - Não sei.

     - Virá amanhã?

     - Não sei.

     - Foi-se embora daqui?

     Não sei.

     É que o novo cura da paróquia, o Reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma visita.

     - Não sei.

     - O reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanhã de manhã.

     - Não sei.

    

    Não tentes a Bíblia

     Nas 24 horas que se seguiram, Mess Lethierry não dormiu nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de Déruchette, informou-se de Clubin, do qual ainda não havia notícias, assinou um papel declarando que não pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.

     Ficou, todo o dia seguinte, meio encostado à mesa do escritório da Durande, nem assentado nem de pé, respondendo com brandura a quem lhe falava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou solitária a casa de Lethierry. Há muitos desejos de observar na solicitude de lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com Déruchette. O relâmpago que passara nos olhos de Lethierry estava extinto; voltara-lhe o olhar lúgubre do começo da catástrofe.

     Déruchette, assustada, foi caladinha, conselho de Graça e Doce, colocar ao lado dele, na mesa, um par de meias que Lethierry tecia quando a triste notícia chegou.

     Lethierry sorriu amargamente e disse:

     - Então pensam que não tenho juízo?

     Depois de um quarto de hora de silêncio, acrescentou:

     - Estas manias são boas quando a gente é feliz.

     Déruchette tirou o par de meias, e aproveitou a ocasião para tirar também a bússola e os papéis de bordo, que Mess Lethierry contemplava demasiadamente.

     De tarde, um pouco antes da hora do chá, a porta abriu-se e entraram dois homens, vestidos de preto, um velho, e outro moço.

     O moço já foi visto no curso desta narração.

     Tinham ambos um ar grave, mas de gravidade diferente; o velho tinha aquilo que se pode chamar gravidade de profissão; o mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vêm do hábito, a segunda nasce do pensamento.

     Eram, como indicava o traje, dois padres, pertencendo ambos à religião estabele-cida.

     O que se notava desde logo no mancebo era que a gravidade, profunda no olhar, e resultando do espírito, não nascia absolutamente da pessoa. A gravidade admite a paixão, exala-a, purificando-a, mas aquele mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre, devia ter ao menos 25 anos; parecia ter dezoito. Apresentava uma harmonia e um contraste, isto é, tinha uma alma que parecia feita para a paixão e um corpo que parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e flexível, apesar do vestuário severo, com faces de donzela e mãos delicadas; embora reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo nele era encanto, elegância e quase volúpia. A beleza de seu olhar corrigia esse excesso de graça. O sorriso sincero, que deixava ver uns dentes de criança, era pensativo e religioso. Era a gentileza de um pajem e a dignidade de um bispo.

     Debaixo dos espessos cabelos loiros, tão dourados que pareciam garridos, tinha ele um crânio elevado, cândido e bem feito. Uma leve ruga de inflexão dupla, entre as duas sobrancelhas, despertava confusamente a idéia da ave do pensamento pairando, com as asas abertas, no meio daquela fronte.

     Sentia-se, ao vê-lo, uma dessas criaturas benévolas, inocentes e puras, que progridem em sentido inverso da humanidade vulgar, a quem a ilusão toma sábias e a experiência entusiastas.

     A mocidade transparente deixava ver a maturidade interior. Comparado ao padre de cabelos grisalhos que o acompanhava, à primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia pai.

     Era Este o Dr. Herodes. O Dr. Herodes pertencia à alta Igreja, que é pouco mais ou menos um papismo sem papa. O anglicanismo nessa época era agitado pelas tendências que depois se afirmaram e condensaram no puseismo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse matiz anglicano, que é quase uma variação romana. Era alto, correto, delgado e superior. O raio visual interior mal se distinguia de fora. O seu espírito era cingir-se à letra. De mais a mais era altivo. Enchia com a sua pessoa o lugar que ocupava. Parecia menos um reverendo que um monsenhor. A casaca era talhada à moda de sotaina. Em Roma é que ele estaria bem. Nascera para ser prelado da Câmara. Parecia ter sido criado expressamente para ser ornamento do papa, e ir atrás da cadeira gestatória, com toda a corte pontifícia, in abito paonazzo. O acidente de ter nascido inglês e uma educação teológica mais voltada para o Antigo Testamento que para o Novo fizeram com que lhe falhasse esse destino. Todos os seus esplendores resu-miram-se nisto: ser cura de Saint-Pierre-Port, decano da ilha de Guernesey e sub-rogado do bispo de Winchester. Não há dúvida que era glória tudo isso.

     Essa glória não impedia que o Sr. Jaquemin Herodes fosse um bom homem.

     Como teólogo, dispunha da estima dos conhecedores e fazia quase autoridade em Arches, que é a Sorbonne da Inglaterra.

     Tinha um ar douto, um piscar de olhos apto e exagerado, narinas cabeludas, dentes visíveis, o lábio inferior fino e o lábio superior espesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos barões, a confiança do bispo, e continuamente trazia uma Bíblia na algibeira.

     Mess Lethierry estava tão completamente absorto, que tudo quanto pode produ-zir nele a entrada dos dois padres, foi um imperceptível enrugar de sobrancelhas.

     O Sr. Jaquemin Herodes aproximou-se, cumprimentou, recordou em poucas palavras, sobriamente altivas, a sua recente promoção e disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos notáveis, e a Mess Lethierry especialmente, o seu sucessor na paróquia, o novo cura de Saint-Sampson, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray que daí em diante seria o pastor de Mess Lethierry.

     Déruchette levantou-se.

     O padre moço, que era o Reverendo Ebenezer, inclinou-se.

     Mess Lethierry olhou para o Sr. Ebenezer Caudray, e mastigou entre dentes estas palavras: “Mau marinheiro”.

     Graça apresentou cadeiras. Os dois reverendos assentaram-se perto da mesa.

     O Dr. Herodes começou um speech. Tinha sabido de um acontecimento. Naufragara a Durande. Vinha, como pastor, trazer consolação e conselho. O naufrágio era uma desgraça, mas era também uma felicidade. Sondemo-nos; não nos inchava a prosperidade? As águas da felicidade são perigosas. Não se deve tomar as desgraças à má parte. Os caminhos do Senhor são desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser opulento é estar em perigo. Aparecem amigos falsos. A pobreza afasta-os. Fica-se isolado. Solus eris. A Durande dizem que dava 1000 libras esterlinas por ano. Era demais para um filósofo. Fujamos às tentações, desdenhemos o ouro. Aceitemos com reconhecimento a ruína e o abandono. O isolamento dá frutos. Ganha-se nele as graças do Senhor. Foi na solidão que Aia achou as águas quentes conduzindo os asnos de Sebeão, seu pai. Não nos revoltemos contra os impenetráveis decretos da Providencia. O santo homem Jó, depois da sua miséria, cresceu em riquezas. Quem sabe se a perda da Durande não teria compensações, mesmo temporais? Também ele, Herodes, empregara capitais em uma magnífica operação que se realizava em Shefilield; se Mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam, quisesse entrar nesse negócio, podia refazer a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao czar para reprimir a Polônia. Ganharia 300 por cento.

     A palavra czar pareceu despertar Lethierry, que interrompeu o Dr. Herodes:

     - Não quero nada com o czar.

     O Reverendo Herodes respondeu:

     - Mess Lethierry, os príncipes são aceitos por Deus. Deus escreveu:

     “Dai a César o que é de César”. O czar é César.

     Lethierry, meio absorto na cisma, murmurou:

     - Quem é César? Não conheço.

     O Reverendo Herodes continuou a exortação. Não insistiu por Shefilield. Não aceitar César era ser republicano. O reverendo compreendia que um homem fosse republicano. Nesse caso, compreendia que Mess Lethierry se voltasse para uma república. Mess Lethierry podia estabelecer a fortuna nos Estados Unidos; melhor do que na Inglaterra. Se quisesse decuplicar o que lhe restava, bastava-lhe tomar ações na grande companhia de exploração das plantações do Texas, que empregava mais de 20.000 negros.

     - Não quero nada com a escravidão, disse Lethierry.

     - A escravidão - replicou o Reverendo Herodes - é de instituição sagrada. Está escrito: “Se o senhor bater o escravo, nada lhe será feito, porque bate o seu dinheiro”.

     Graça e Doce, na soleira da porta, ouviam com uma espécie de êxtase as palavras do reverendo doutor.

     O reverendo continuou. Era, em suma, como dissemos, um bom homem; e quais-quer que pudessem ser os seus sentimentos de casta ou de pessoa com Mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar o auxílio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.

     Se Mess Lethierry estava arruinado ao ponto de não poder cooperar, com fruto, numa especulação qualquer, russa ou americana, por que não entrava no governo e nas funções assalariadas? São nobres empregos esses, e o reverendo estava pronto a intro-duzir Mess Lethierry. Vagara em Jersey o lugar de deputado-visconde. Mess Lethierry era amado e estimado, e o Reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para Mess Lethierry o emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado-visconde é um funcionário considerável, assiste, corno representante de Sua Majestade, aos atos jurídicos, aos debates da plebe e às execuções de sentenças.

     Lethierry fixou os olhos no Dr. Herodes.

     - Não gosto de enforcamentos - disse ele.

     O Dr. Herodes, que até então pronunciara todas as palavras com a mesma inflexão, teve um acento de severidade e uma inflexão nova:

     - Mess Lethierry, a pena de morte é ordenada por Deus, Deus entregou a espada ao homem. Está escrito: “olho por olho, dente por dente”.

     O Reverendo Ebenezer aproximou imperceptivelmente a sua cadeira da cadeira do Reverendo Jaquemin, e disse-lhe de modo que não fosse ouvido senão por ele:

     - O que Este homem diz é-lhe ditado.

     - Por quem? - perguntou no mesmo tom o Reverendo Herodes.

     - Pela consciência.

     O Reverendo Herodes meteu a mão no bolso, tirou um grosso volume em 18.11, encadernado com fechos, pô-lo na mesa e disse em voz alta:

     - A consciência é isto.

     O livro era a Bíblia.

     Depois foi-se abrandando o Dr. Jaquemin. O seu desejo era ser útil a Mess Lethierry, que considerava ser um homem forte. Como pastor, tinha ele direito e dever de aconselhar; todavia Mess Lethierry tinha a liberdade de aceitar ou recusar o conselho.

     Mess Lethierry, caindo outra vez na absorção e no abatimento, já não ouvia. Déruchette, assentada ao pé dele, e pensativa também, não levantava os olhos, e dava àquela prática pouco animada a porção de acanhamento que resulta de uma presença silenciosa. Uma testemunha que não diz palavra é uma espécie de peso indefinível. Mas o Dr. Herodes não parecia senti-lo.

     Como Lethierry não respondia, o Dr. Herodes deu largas à palavra. O conselho vêm do homem, a inspiração vêm de Deus. Há inspiração no conselho do padre. E bom aceitar os conselhos e perigoso rejeitá-los. Schoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das exortações de Nataniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fora de casa o apóstolo André. Barjesus, apesar de mágico, ficou cego por ter zombado das palavras de São Paulo. Elxai e suas irmãs Marta e Martena estão no inferno a esta hora por terem desprezado as advertências de Valencianus, que lhes provava, claro como o dia, que o Jesus Cristo deles, de 38 léguas de comprimento, era um demônio. Oolibama, que também se chama Judite, obedecia aos conselhos. Rubem e Feniel ouviam os conselhos do céu; bastam os nomes deles para indicá-los; Rubem significa filho da visão, e Feniel significa face de Deus.

     Mess Lethierry deu um soco na mesa.

     - Mas a culpa é minha!

     - Que que dizer? - perguntou Jaquemin Herodes.

     - Digo que a culpa é minha.

     - Culpa de quê?

     - Por ter mandado vir a Durande à sexta-feira.

     O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao ouvido do Sr. Ebenezer Caudray:

     - Este homem é supersticioso.

     Continuou depois, e em tom de mestre:

     - Mess Lethierry, é pueril acreditar na sexta-feira. Não se deve acreditar em fábula. A sexta-feira é um dia como qualquer outro. Às vezes é data feliz. Melendez fundou a cidade de Santo Agostinho em sexta-feira; foi numa sexta-feira que Henrique VII deu a sua comissão a John Cabot; os peregrinos do Mayflower chegaram a Province-Town em sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de fevereiro de 1732; Cristóvão Colombo descobriu a América na sexta-feira, 12 de outubro de 1492.

     Dizendo isto levantou-se.

     Ebenezer, que tinha ido com ele, levantou-se também.

     Graça e Doce, adivinhando que os reverendos iam despedir-se, abriram as portas.

     Mess Lethierry não via nem ouvia nada.

     O Sr. Jaquemin Herodes disse em aparte ao Sr. Ebenezer Caudray:

     - Nem nos cumprimenta. Não é tristeza, é embrutecimento. Devemos crer que ele está doido.

     Entretanto, pegou na Bíblia e colocou-a entre as mãos abertas, como quem segura um pássaro com receio que fuja. Esta atitude criou entre os personagens presentes uma certa espera. Graça e Doce esticaram a cabeça.

     A voz de Herodes fez quanto pode para ser majestosa.

     - Mess Lethierry, não nos separemos sem ler uma página do livro santo. As situações da vida são esclarecidas pelos livros; os profanos tem as sortes virgilianas, os crentes tem as advertências bíblicas. O primeiro livro, apanhado ao acaso, aberto ao acaso, dá um conselho; a Bíblia, aberta ao acaso, faz uma revelação. È sobretudo boa para os aflitos. O que a Santa Escritura respira indubitavelmente é um lenitivo às dores. Diante dos aflitos deve-se consultar o santo livro sem escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem não escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que precisamos. O seu dedo invisível aponta o passo inesperado que nós lemos. Qualquer que seja a página, rebenta-lhe luz. Não busquemos outro. è a palavra do céu. O nosso destino é revelado misteriosamente no texto evocado com confiança e respeito. Ouçamos e obedeçamos. Mess Lethierry, o senhor tem uma aflição, Este é o livro da consolação; está enfermo. Este é o livro da saúde.

     O Reverendo Jaquemin Herodes abriu a mola do fecho, meteu o dedo ao acaso entre duas páginas, pós a mão no livro aberto, e concentrou-se; depois, abaixando os olhos com autoridade, leu em alta voz.

     Eis o que leu :

     “Isaac passeava no caminho que vai ter ao poço chamado Poço daquele que vive e vê.

     “Rebeca, vendo Isaac, disse: “Quem é Este homem que vêm andando para mim.

     “Então Isaac fê-la entrar na sua tenda, e tornou-a por mulher, e grande foi o amor que lhe teve”.

     Ebenezer e Déruchette olharam um para o outro.

 

O Engenheiro Gilliatt

O escolho

    Incômoda chegada, difícil saída

     Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era a pança. Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho direto. Tomar o mais curto foi o cuidado dele. Os náufragos não esperam. O mar é coisa urgente, uma hora de demora podia ser irreparável. Queria chegar depressa para socorrer a máquina.

     Saindo de Guernesey, uma das preocupações de Gilliatt era não despertar a atenção. Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa de leste como se achasse inútil passar à vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre-Port; resvalou silenciosamente ao longo da costa oposta, que é relativamente inabitada. Nos bancos teve de remar; mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hidráulica: tomar a água sem choque e impeli-la devagar; desse modo pode nadar na obscuridade com a maior força e o menor rumor possíveis. Parecia que ia cometer uma ação feia.

     A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um cometimento que parecia impossível, e arriscando a vida com todas as probabilidades contra ele, receava a concorrência.

     Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez abertos no espaço puderam ver no meio do mar, num ponto em que há mais solidão e ameaça, duas coisas entre as quais ia diminuindo o intervalo, sendo que uma aproximava-se da outra. Uma, quase imperceptível no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era a pança levando Gilliatt, A outra, imóvel, colossal, negra, tinha, sobranceira às vagas, uma surpreendente figura. Dois altos pilares amparavam acima da água, no vácuo, uma espécie de travessão horizontal, que era como que uma ponte entre as duas cumeadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossível adivinhar o que era, fazia corpo com os dois pilares. Parecia uma porta. Por que haveria uma porta naquela abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um dólmen titânico plantado ali, em pleno oceano, por uma fantasia magistral, e construído por mãos que tem o hábito de apropriar ao abismo as suas construções. Aquela medonha forma levantava-se na claridade do céu.

     A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horizonte aumentava a negridão do mar. Do lado oposto, declinava a lua.

     Os dois pilares eram as Douvres. A espécie de massa apertada entre eles como uma arquitrave era a Durande.

     Apertando assim a sua vítima, e deixando-a ver, o escolho era horrível. A atitude daqueles rochedos era uma espécie de repto. Parecia esperar.

     Nada mais altivo e arrogante como tudo aquilo; o navio vencido, o abismo vitorioso. Os dois rochedos, ainda gotejantes da tempestade da véspera, pareciam dois combatentes em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; adivinhava-se que havia à flor da água alguns bancos onde os penachos de escuma caíam com graça; de longe vinha um murmúrio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nível, menos as duas Douvres, levantadas e tesas como duas colunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta. Compreendia-se que elas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquilo uma espécie de onipotência trágica.

     De ordinário, o mar oculta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incomensurável sombra guarde tudo para ele. É raro que o mistério renuncie ao segredo. M um que de monstro na catástrofe, mas em quantidade ignota. O mar é patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas ações. Produz um naufrágio e abafa-o; engolir é o seu pudor. A vaga é hipócrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.

     Nada semelhante nas Douvres. Os dois rochedos, levantando acima das ondas o cadáver da Durande, tinham um ar de triunfo. Dissera-se dois braços saindo do golfão, e mostrando às tempestades o cadáver daquele navio. Era uma coisa igual ao assassino que se vangloria do crime.

     A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma gran-deza misteriosa que se compõe de um resto de sonho e de um começo de pensamento. Nesse momento turvado, como que flutua ainda um pouco de espectro. A espécie de imenso H maiúsculo formado pelas duas Douvres com a Durande no centro aparecia no horizonte no meio de uma certa majestade crepuscular.

     Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã, sapatos tacheados, japona de lã, calça de pano grosso mal tecido, com bolsos, e na cabeça um daqueles barretes de lã vermelha usados então na marinha, e que se chamavam, no século passado, galériennes.

     Reconheceu o escolho e avançou.

     A Durande estava ao contrário de um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.

     Não havia mais estranho cometimento que o de salvar a máquina daquele navio.

     Era dia claro quando Gilliatt chegou às águas do escolho.

     Como dissemos, havia pouco mar. A água tinha apenas a quantidade de agitação que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. Há sempre marulho nos espaços de água como aquele, quer sejam grandes, quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.

     Gilliatt não abordou ao Douvres sem precaução.

     Deitou a sonda muitas vezes.

     Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de matalotagem.

     Afeito às ausências, tinha sempre pronta em casa a matolotagem. Era um saco de biscoito, um saco de farinha de centeio, uma cesta de stockfish e de carne fumada, um grande pichel de água doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de lã, grevas alcatroadas e uma pele de carneiro que ele punha de noite em cima da japona. Tinha posto tudo isso, às carreiras, na pança e mais um bocado de pão fresco. Com a pressa não levou outra ferramenta mais que o martelo da forja, o machado e a picareta, uma serra e uma corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem e a maneira de servir dela, as subidas escabrosas tornam-se raticáveis nos mais rudes declives.

     Pode-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante corda.

     As redes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca. Pô-los dentro por costume, e maquinalmente, porquanto, tendo de tentar até o último esforço, talvez se demorasse algum tempo no arquipélago de cachopos, e o aparelho da pescaria é inútil em tais sítios.

     No momento em que Gilliatt abordou o escolho o mar baixava, circunstância favorável. As vagas decrescentes descobriram, ao pé da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, à semelhança de chapéus carregando um pavimento. Essas superfícies, umas estreitas, outras largas, encadeando e elevando-se, com espaços desiguais, ao longo do monólito vertical, prolongava-se até debaixo da Durande, que abarcava o espaço entre os dois rochedos. Estava apertada ali como um tomilho.

     Eram cômodas aquelas plataformas para desembarcar e observar. Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento da pança. Mas era preciso apressar-se, porque elas estariam fora da água pouco tempo. Quando a maré enchesse, ficariam outra vez cobertas.

     Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt impeliu e fez parar a pança.

     Uma espessura de sargaço, úmida e escorregadia, cobria essas rochas, e a obliquidade de algumas. delas mais escorregadias as tornava.

     Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo e amarrou a pança em uma ponta do rochedo. Depois aproximou-se o mais devagar que pode sobre a estreita pedra de granito, chegou debaixo da Durande, levantou os olhos e contemplou-a.

     A Durande estava presa, suspensa, e como que ajustada entre os dois penedos, 20 pés acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali por uma furiosa violência do mar.

     Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de janeiro de 1840, no golfo de Stora, uma tempestade, já expirante, fez saltar um brigue, de um só pulo, por cima do casco naufragado da corveta La Marne e incrustou-o, com o gurupés à frente, entre dois penedos.

     Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.

     O navio arrancado às vagas foi de algum modo desenraizado da água pelo furacão. O turbilhão do vento tinha-o torcido, o turbilhão do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas mãos da tempestade, quebrou-se como se fora uma ripa. O pedaço da popa, com a máquina e as rodas, arrebatado das águas e impelido por toda a fúria do Ciclone para a garganta das Douvres, lá ficou. O vento foi acertado; para meter aquele casco entre os dois rochedos, o furacão transformou-se em maça. A proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.

     O porão, que estava arrombado, esvaziara no mar os bois, mortos.

     Um grande pedaço da amurada da proa ainda estava preso ao casco, mas pendu-rado nas caixas das rodas por algumas lascas, fáceis de quebrar com um machado.

     Viam-se aqui e ali nas longínquas do escolho, barrotes, tábuas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os destroços, tranquilos nos rochedos. Gilliatt contemplava com atenção a Durande. A quilha era o teto que lhe ficava sobre a cabeça.

     O horizonte, onde a água iluminada apenas se mexia, estava sereno.

     O sol saía esplendidamente daquela vasta massa azul.

     De tempos a tempos uma gota de água destacava-se do navio e caia no mar.

    

    As perfeições do desastre

     As Douvres eram diferentes de forma como de altura.

     Na pequena Douvre, recurvada e aguda, viam-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha cor de tijolo relativamente tenra, que fechava com as suas lâminas o interior do granito. Nessas lâminas avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos arremessos do mar, que tornou-se uma espécie de nicho, onde podia guardar-se uma estátua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superfície e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava em ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jato e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ela era impossível; não podia servir nem à fuga de um criminoso, nem ao ninho de um pássaro. No cume havia, como no rochedo Homem, uma plataforma; era, porém, inacessível.

     Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.

     Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquilo, voltou à pança, descarregou-a à flor da água, fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma espécie de pacote, atou-o num pano alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se à pequena Douvre e, com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ela até a Durande, que estava no ar.

     Chegando à altura das caixas das rodas, saltou dentro. O interior era lúgubre.

     A Durande apresentava todos os vestígios de um arrombamento medonho. Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um atentado que um naufrágio. Nuvens, trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrível multidão de cúmplices é esta.

     No meio daqueles destroços, pensava-se em alguma coisa semelhante ao tripúdio furioso dos espíritos do mar. Tudo eram vestígios de raiva. As torções estranhas de certos ferros indicavam a ação impetuosa dos ventos. O convés assemelhava-se à célula de um louco; tudo estava despedaçado.

     Nenhum animal estrangula uma pedra como o ar. A água regurgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual à pata do leão.

     O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma espécie de terrível descascamento. Muitas coisas pareciam feitas de propósito. Que maldade!, podia dizer-se. As fraturas das amuradas eram feitas com arte. Este gênero de destruição é próprio do ciclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse devastador enorme. O ciclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem suplícios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufrágio, vinga-se, diverte-se; é mesquinha-mente cruel.

     Raros são os ciclones em nossos climas, e tanto mais terríveis quanto que são inesperados. Um rochedo encontrado pode fazer andar à roda a tempestade. É provável que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que explicava o salto do navio a tamanha altura naquelas rochas. Quando o ciclone sopra, um navio pesa tanto como a pedra de uma funda.

     A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a entranhas. O cordame flutuava e estremecia; as correntes balançavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nus e pendiam no ar. O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a forma de ruína; uma barra de pé-de-cabra não era menos que um simples pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma driça era apenas uma ponta de cânhamo; uma talha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentável da destruição; havia que não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roído, recurvado, aniquilado; nenhuma adesão naquele feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a futura, esse aspecto de inconsistente e líquido que caracteriza todas as confusões, desde as refregas dos homens, que se chamam batalhas, até as refregas dos elementos, que se chamam caos. Tudo caía, e uma torrente de tábuas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquela poderosa carena tão triunfante outrora, toda aquela parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cair, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.

     Debaixo cuspia a espuma sobre: aquela coisa miserável.

    

    Sã, mas não salva

     Gilliatt não esperava achar somente metade do navio. Nas indicações, aliás tão precisas, do capitão do Shealtiel, nada fazia pressentir aquela divisão pelo meio. Foi talvez na ocasião em que o navio partiu-se, debaixo da imensa espessura da espuma, que houve aquele “estalo diabólico” ouvido pelo capitão do Shealtiel. O capitão afastava-se sem dúvida no momento do último sopro do vento, e não viu que era uma tromba que impelia o navio. Mais tarde, aproximando-se para observar o desastre, viu apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fraturado donde se rompera metade do navio.

     Exceto isto, o capitão do Shealtiel disse tudo exato. O casco estava perdido, a máquina estava intata.

     São frequentes Estes acasos nos naufrágios como nos incêndios. Não se pode compreender a lógica do desastre.

     Os mastros quebrados tinham caído; o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intato e completo. O revesti-mento de tábuas das rodas estava destruído como as lâminas de uma persiana; mas através das fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.

     Além da máquina, tinha resistido o grande cabrestante da popa. Tinha ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um quadro de tabules, ainda podia prestar serviços, uma vez que se não rompesse a prancha. O pedaço do casco metido entre as Douvres estava firme, já o dissemos, e parecia sólido.

     A conservação da máquina tinha um que de irrisório e acrescentava a ironia à catástrofe. A sombria malícia do desconhecido mostra-se, às vezes, nessas espécies de zombarias amargas. A. máquina estava salva, o que não impedia que estivesse perdida. O oceano guardava-a para demoli-la aos poucos. Divertimento de gato.

     A máquina ia agonizar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir dia a dia e, por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco às selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquele pesado montão de mecanismos e encaixes, maciço e delicado a um tempo, condenado à imobilidade por seu peso, entregue na solidão às forças demolidoras, posto pelo cachopo à discrição do vento e do mar, pudesse, sob a pressão daquele lugar implacável, escapar à destruição lenta era até loucura imaginá-lo.

     A Durande estava prisioneira das Douvres.

     Como tirá-la dali? Como libertá-la?

     A evasão de um homem é difícil; mas que problema não é Este: a evasão de uma máquina!

    

    Prévio exame local

     Gilliatt estava cercado de urgências. O mais urgente era achar ancoradouro para a pança, e depois abrigo para si.

     A Durande estava mais carregada a bombordo, que a estibordo, e, por isso, a roda direita ficava mais elevada que a da esquerda.

     Gilliatt subiu à caixa das rodas da direita. daí dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em ângulos por trás das Douvres fizesse muitos cotovelos, Gilliatt pode estudar o plano geométrico do escolho. Começou por aí.

     As Douvres, como indicamos, eram duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. Não é raro achar nas formações submarinas primitivas esses corredores singulares feitos como que a machado.

     Aquele, que era tortuoso, nunca estava a seco, mesmo nas marés baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade do redemoinho era boa ou má, segundo o rumo do vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cair; ora exas-perava-a. Este último caso era o mais frequente; o obstáculo encoleriza a vaga e leva-a aos excessos; a espuma é a exageração da vaga.

     O vento da tempestade, naqueles estrangulamentos entre duas rochas, sofre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade. O sopro imenso fica imenso, mas faz-se agudo. É ao mesmo tempo maça e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furacão fazendo-se vento coado.

     As duas cadeias de rochedos, deixando entre si essa espécie de rua do mar, terminavam em degraus mais baixos que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa distância. Havia aí outra foz menos elevada que as das Douvres, porém mais estreita ainda e que era a entrada, a leste, daquela garganta. Adivinhava-se que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da água até o rochedo Homem, colocado como uma cidadela quadrada na outra extremidade do escolho.

     Nas marés baixas, e era nessa ocasião que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a seco, todos visíveis, e coordenando-se sem interrupção.

     O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.

     Todo o escolho, visto a vôo de pássaro, apresentava um rosário recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.

     O escolho Douvres, visto em seu conjunto, era apenas a imersão de duas gigan-tescas lâminas de granito tocando-se quase e caindo verticalmente, como uma crista de montes que estão no fundo do oceano. Há, fora do abismo, essas esfoliações imensas. A lufada e a onda tinham recortado essa crista como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a Durande era o centro dessas duas lâminas colossais.

     Essa viela, em ziguezague como o relâmpago, tinha quase em todos os pontos a mesma largura. O oceano fê-la assim. O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe da água uma geometria.

     De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se face paralelamente a uma distância que a Durande media quase com exatidão entre as duas Douvres; o esvazamento da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar às caixas das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam quebradas.

     A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na exploração do deserto de água chamado Oceano chega-se às coisas ignotas do mar, torna-se tudo surpreendente e disforme. Aquilo que Gilliatt, do alto do casco, podia ver na garganta fazia horror. Há muitas vezes nas gargantas graníticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufrágio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os óxidos da rocha davam-lhe aqui e ali umas vermelhidões imitando placas de sangue coalhado. Era uma espécie de transudação sangrenta de um mata-douro. Havia um ar de açougue naqueles parcéis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela decomposição dos amálgamas metálicos misturados à rocha, ali pelo bolor, ostentava vermelhidões hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma idéia de morte e de extermínio. Acreditava-se ver uma parede ainda não enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aqueles os vestígios de um despe-dento de homens; a rocha íngreme tinha um cunho de agonias acumuladas. Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia impossível apoiar o dedo sem tirá-lo sangrento. Por toda a parte aparecia uma ferru-gem de morticínio. Ao pé do duplo declive paralelo, esparso à flor da água ou debaixo da vaga, ou a seco nas escavações, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanças de vísceras; acreditava-se ver pulmões frescos ou fígados pútridos. Dissera-se que ali se tinham esvaziado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por destilaves fúnebres, riscavam o granito de alto a baixo.

     Esses aspectos são frequentes nas cavernas do mar.

    

    Uma palavra a respeito das colaborações secretas dos elementos

     A forma de um escolho não é coisa indiferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condenados à habitação temporária de um escolho no oceano.

     Há o escolho pirâmide, um cimo fora da água; há o escolho círculo, coisa semelhante a uma roda de pedras grandes; há o escolho corredor. O escolho corredor é o pior de todos. Não somente por causa da angústia das ondas entre as rochas e do tumulto das águas apertadas, mas também por causa das propriedades meteorológicas que parecem desprender-se do paralelismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes retas são um verdadeiro aparelho de Volta.

     Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta daí uma primeira ação sobre o ar e a água. O escolho corredor atua na água e no vento mecanicamente, pela forma, galvanicamente, pela atração diversa dos seus planos verticais, massas sobre-postas e contrariadas umas pelas outras.

     Esta espécie de escolhos atrai todas as forças furiosas esparsas no furacão, e tem sobre a borrasca uma singular força de concentração.

     Donde resulta que nas paragens desses cachopos há uma certa acentuação da tempestade.

     Cumpre saber que o vento é compósito. Acredita-se que o vento é simples; engano. Essa força não é somente dinâmica, é química; não é somente química, é magnética. Tem alguma coisa que é inexplicável.

     O vento é tão elétrico como aéreo. Certos ventos coincidem com auroras boreais. O vento do banco das Arguilles rola vagas de 100 pés de altura, espanto de Dumont d’Urville. “A corveta”, disse ele, “não sabia a quem havia de atender.

     Debaixo das lufadas austrais, verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e o mar torna-se tão horrível que os selvagens fogem para não vê-lo.

     As lufadas boreais são outras; misturam-se de pontas de gelo e esses furacões irrespiráveis impelem para a neve os trenós dos esquimós. Outros ventos queimam. É o simum da África, é o turão da China e o samiel da Índia. Simuni, Tufão, Samiel; parece que são demônios Estes nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão de Toluca. Este vento quente, turbilhão cor de tinta atirando-se sobre as nuvens encarnadas, fez dizer aos vêdas: “Eis aí o Deus negro que vêm roubar as vacas encarnadas”. Sente-se em tudo isto a pressão do mistério elétrico.

     O vento é cheio desse mistério. Do mesmo modo o mar. Também ele é complicado; debaixo das suas vagas de águas, que se vêem, há outras vagas de forças, que se não vêem. Compõem-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisível e a mais profunda.

     Tentai conhecer esse caos, tão enorme que vai ter ao nada. É o recipiente universal, reservatório para as fecundações, cadinho para as transformações. Amassa, depois dispersa; acumula, depois semeia; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e aferrolha-os. E sólido no banco, líquido na água, fluido no eflúvio. Como matéria é massa, e como força é abstração. Iguala e consorcia os fenômenos. Simplifica-se no infinito pela combinação. É a força da mescla e da turvação que chega à transparência. A diversidade solúvel prende-se na sua unidade. Tem tantos elementos diversos que é idêntico. Uma das suas gatas é todo ele. Como é cheio de tempe-tades, torna-se equilíbrio. Platão via dançar esferas; coisa estranha, mas real na colossal evolução terrestre à roda do Sol, o oceano, com o seu fluxo e refluxo, é o pêndulo do globo.

     No fenômeno do mar, todos os fenômenos estão presentes. O mar é aspirado pelo turbilhão como um sifão; uma tempestade é um corpo de bomba; o raio vêm da água como do ar; nos navios sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sai do poço das correntes. O oceano ferve. “O diaba pós o mar na sua caldeira dizia Ruyter.

     Em certas tempestades que caracterizam os movimentos das estações e as entradas em equilíbrio das forças genesíacas, os navios batidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flamas de fósforo correm pelo cordoame, tão misturadas aos cabos que os marinheiros estendem a mão e procuram apanhar esses pássaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa, um hálito de fornalha impeliu para a cidade uma vaga de 60 pés de altura. A oscilação oceânica liga-se ao estremecimento terrestre.

     Essas energias incomensuráveis tornam possíveis todos os cataclismos.

     No fim de 1864, a 100 léguas das costas de Malabar, soçobrou uma ilha, como se fosse um navio. Os pescadores que tinham saído de manhã voltaram à noite e não acharam nada; apenas puderam ver as suas aldeias debaixo da água; e desta vez foram os barcos que assistiram ao naufrágio das casas.

     Na Europa, onde parece que natureza sente-se constrangida em respeito à civilização, tais acontecimentos são raros até à impossibilidade presumível.

     Todavia Jersey e Guernesey fizeram parte da Gália; e, no momento em que escrevemos, um vento equinócio acaba de demolir na fronteira da Inglaterra e da Escócia o penedio da praia chamado Primeiro dos Quatro, First of the Fourth.

     Em parte alguma essas forças pânicas aparecem mais formidavelmente amalga-madas do que no surpreendente estreito boreal. Chamado Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord é o mais temível dos escolhos bocais do oceano. Aí a demonstração é completa. É o mar da Noruega, a vizinhança do tremendo golfo Stavanger, o 59. O grau de latitude. A água é pesada e negra com uma febre de tempestade intermitente.

     Nessa água, no meio da solidão, há uma grande rua sombria. Não é rua para pessoa alguma. Ninguém passa ali; nenhum navio se arrisca nesse lugar. Um corredor de 10 léguas de comprido, entre duas muralhas de 3 000 pés de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovelos e ângulos como todas as ruas do mar, que nunca são retas, pois que são feitas pela torção da vaga.

     No Lyse-Fiord, a vaga é quase sempre tranquila; o céu é sereno; lugar terrível. Onde está o vento? Não está em cima. Onde está o trovão? Não está no céu. O vento está debaixo do mar; o trovão está debaixo da rocha.

     De tempos a tempos há um estremecimento debaixo da água. Em certas horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da altura do penedio vertical, a 1000 ou 1500 pés acima das vagas, mais do lado do sul que do norte, o rochedo reboa subita-mente, rompe daí um relâmpago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brin-quedos que se alongam e contraem nas mãos das crianças; tem contrações e ampliações esse relâmpago, fere a rocha oposta, entra outra vez, torna a aparecer, recomeça, multiplica as suas cabeças e as suas línguas, eriça-se, fere onde pode, recomeça ainda, até que se apaga sinistramente. Fogem os bandos de pássaros. Nada é tão misterioso como essa artilharia saindo do invisível. Um rochedo ataca outro. Fulminain entre si os cachopos. É uma guerra que nada tem com os homens. ódio de dois penedos no golfão.

     No Lyse-Fiord o vento torna-se eflúvio, a rocha desempenha as funções de nuvem, e o trovão tem arrojos de vulcão. É uma pilha aquele estranho estreito; tem por elementos as suas duas filas de rochas.

    

    Cavalariça para o cavalo

     Gilliatt era sabedor de cachopos e não tomava as Douvres ao sério. Antes de tudo, já o dissemos, tratou ele de por a pança em segurança.

     A dupla fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente por trás das Douvres fazia grupo com os outros rochedos, e adivinhavam-se cavas e sacos saindo da viela, e prendendo-se à garganta principal como ramos a um tronco.

     A parte inferior dos escolhos estava tapetada de sargaço e a parte superior de líquen. O nível uniforme do sargaço em todas as rochas marcava a linha da flutuação da maré cheia.

     As pontas que a água não atingia tinham o prateado e o dourado que dá aos granitos marinhos o líquen branco e o líquen amarelo.

     Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas corroídas.

     Em outros pontos, nos ângulos reentrantes, onde se acumulara uma areia fina, ondeada na superfície antes pelo vento que pela vaga, havia tufas de cardo azul.

     Nos rebentes pouco batidos pela espuma, reconheciam-se as pequenas covas furadas pelos ursos do mar. Este urso-concha, que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja couraça compõe-se de mais de 10 000 peças artisticamente ajustadas e soldadas, o urso-marinho, cuja boca se chama, ninguém sabe por que, lanterna de Aristóteles, cava o granito com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alvéolas é que os pescadores de frutos do mar dão com ele. Cortam-no em quatro partes e comem-no cru como ostra. Alguns metem o pão naquela carne mole. Daí o nome de ovo do mar.

     As cumeadas dos bancos descobertas pela maré que vazava iam ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma espécie de angra murada quase por todos os lados. Havia ali evidentemente um ancoradouro possível. Gilliatt observou a angra. Tinha a forma de uma ferradura e abria-se de um só lado, ao vento leste, que é o menos mau daquelas paragens. O vento ali estava preso e quase adormecido. Era segura aquela baiazinha. Nem Gilliatt tinha muito onde escolher.

     Se Gilliatt quisesse aproveitar a maré vazante, devia apressar-se.

     O tempo continuava a ser magnífico. Estava de bom humor aquele insolente mar.

     Gilliatt tomou a descer, calçou os sapatos, desatou a amarra, entrou na barca e navegou para fora. Costeava com o remo e parte externa do cachopo.

     Chegando perto do Homem, examinou a entrada da angra.

     Um certo ondeado na mobilidade da água, ruga imperceptível a qualquer que não fosse marinheiro, desenhava aquele passo.

     Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quase indistinto na vaga, depois tomou ao largo, a fim de virar a gosto, e entrar bem, e vivamente, de um só movimento de remo, entrou na angra.

     Sondou.

     Era excelente o ancoradouro.

     A pança estaria protegida ali quase contra todas as eventualidades da estação.

     Os mais temíveis arrecifes tem desses recantos tranquilos. Os portos que se acham nos escolhos assemelham-se à hospitalidade do beduíno; são honestos e seguros.

     Gilliatt arranjou a pança o mais perto do Homem que lhe foi possível, em ponto que não pudesse perder-se, e pós ao mar as duas âncoras.

     Feito isto, cruzou os braços e refletiu.

     A pança estava abrigada; era um problema resolvido; mas apresentava-se o segundo. Onde abrigar-se Gilliatt?

     Ofereciam-se dois pontos; o primeiro era a própria pança, com o seu camarote mais ou menos habitável; o segundo era o cimo do rochedo Homem, fácil de escalar.

     De qualquer dos dois ângulos podia-se ir a pé nas vazantes, saltando-se de rocha em rocha, até Douvres, onde estava a Durande.

     Mas a vazante dura apenas um momento, e no resto do tempo ficava ele separado, ou do asilo ou da Durande, por umas 200 braças. Nadar no mar de um escolho a outro é difícil; com qualquer - agitação é impossível.

     Era preciso desistir da pança e do Homem.

     Nenhuma estação possível nos rochedos vizinhos.

     Os cimos inferiores desaparecem duas vezes por dia debaixo da enchente da maré.

     Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos da espuma. Inóspita lavagem.

     Restava o casco da Durande.

     Podia-se viver ali?

     Gilliatt teve essa esperança.

    

    Quarto para o viajante

     Meia hora depois, Gilliatt, de volta à Durande, subia e descia no interior do tombadilho ao porão, aprofundando o exame sumário de sua pequena visita.

     Com auxílio do cabrestante, tinha ele içado à Durande o pacote que fez do carregamento da pança. O cabrestante comportara-se bem. Não faltava onde meter o carregamento. Gilliatt tinha, no meio daqueles destroços, muito onde escolher.

     Achou entre as ruínas um escopro caído sem dúvida da selha de carpinteiro e com o qual aumentou ele a ferramenta.

     Além disso, como tudo serve onde não há abundância, tinha consigo a faca.

     Gilliatt trabalhou o dia no casco, limpando, consolidando, simplificando.

     À tardinha se conheceu isto:

     Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de Gilliatt. Só era estável e firme a parte do casco metida entre os rochedos, que continha a máquina e ficava poderosamente presa ao granito.

     Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobreposse; e, longe de dar peso ao navio, cumpria torná-lo mais leve.

     Carregar sobre o casco era o contrário do que cumpria fazer.

     Aquela ruína queria melhores tratos. Era uma espécie de doente que expira. Havia bastante vento para maltratá-la.

     Já era mau ter de trabalhar nela. A porção de trabalho que o casco devia suportar naturalmente talvez o fatigasse mais do que comportavam as suas forças.

     Além disso, se sobreviesse algum acidente noturno durante o sono de Gilliatt, estar no navio era soçobrar com ele. Nenhum auxílio possível; tudo ficava perdido. Para socorrer o navio, era preciso estar fora dele.

     Fora dele e junto dele, tal era o problema.

     Complicava-se a dificuldade.

     Onde achar um abrigo em tais condições?

     Gilliatt pensou.

     Só restavam as duas Douvres. Pareciam pouco habitáveis.

     Via-se, debaixo, no platô superior da grande Douvre, uma espécie de excres-cência.

     As rochas em pé, com a parte superior chata, como a grande Douvre e o Homem, são penedos decapitados, abundam nas montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que se encontram em mar largo, tem entranhas como se foram árvores golpeadas. Parecem ter recebido um golpe de machado. Com efeito, essas rochas andam sujeitas ao vaivém do furacão, que é o lenhador do mar.

     Existem outras causas de cataclismo mais profundas ainda. Daí vêm que há tantas feridas em todos esses velhos granitos. Alguns desses colossos tem a cabeça cortada.

     Às vezes a cabeça, sem que se possa explicar, não cai e fica mutilada, no cume do rochedo. Não é rara essa singularidade. A Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Table, no vale de Annweiler, apresentam nas mais surpreendentes condições esse estranho enigma geológico.

     Provavelmente tinha acontecido à grande Douvre alguma coisa semelhante.

     Se a intumescência que havia no platô não era natural, era necessariamente algum fragmento que ficara da decapitação.

     Talvez houvesse alguma escavação nesse pedaço de rocha.

     Buraco para meter-se um homem; era o que Gilliatt queria.

     Mas como chegar até lá? Como trepar por aquela coluna vertical, densa e polida como um seixo, meio coberta de uns filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma superfície ensaboada?

     Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de nós, prendeu-a à cintura e pôs-se a escalar a pequena Douvre. À proporção que ia subindo, tornava-se mais difícil a ascensão. Esquecera-se de tirar os sapatos, o que aumentava a dificuldade. Não sem custo chegou à ponta. Chegando à ponta, posse de pé sobre ela. Havia apenas lugar para os pés. Fazer disso um lugar para descansar e dormir era difícil. Um estilista contentara-se; Gilliatt, mais exigente, queria coisa melhor.

     A pequena Douvre curvava-se para a grande, e de longe parecia cumprimenta-la, e o intervalo das duas Douvres, que era de uns 20 pés embaixo, era apenas de 8 ou 1 pés em cima.

     Da ponta, onde trepara, Gilliatt viu mais distintamente a intumescência que cobria a plataforma da grande Douvre.

     Essa plataforma elevava-se urnas 3 toesas acima da cabeça dele.

     Separava-o dela um precipício.

     O declive da pequena Douvre desaparecia debaixo dele.

     Gilliatt desprendeu da cintura a corda de nós, tomou rapidamente com o olhar as dimensões e atirou a ponta da corda sobre a plataforma.

     O gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de nós que tinha o gancho na extremidade caiu aos pés de Gilliatt ao longo da pequena Douvre.

     Gilliatt recomeçou, lançando a corda mais longe e visando a protuberância granítica onde via buracos.

     O lanço foi tão destro e tão firme que o gancho segurou.

     Gilliatt puxou.

     Desprendeu-se a corda, e veio bater na coluna abaixo de Gilliatt.

     Gilliatt lançou a corda pela terceira vez.

     Desta vez não caiu.

     Gilliatt puxou a corda. A corda resistiu. O gancho estava seguro.

     Ficara seguro em alguma anfractuosidade da plataforma que Gilliatt não podia ver.

     Tratava-se de confiar a vida àquela desconhecida prisão do gancho.

     Gilliatt não hesitou.

     Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes.

     Além de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar qualquer outro meio era coisa impossível. O resvalamento era provável e a queda quase certa. Sobe-se, não se desce.

     Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de previsão. Nunca perdia força. Vinham daí os prodígios de vigor que ele executava com músculos ordinários; tinha as forças comuns, mas uma grande coragem. Ao lado da força, que é física, tinha a energia, que é moral.

     Devia praticar ali um ato tremendo.

     Galgar, suspenso àquele fio, o intervalo das duas Douvres; tal era a questão.

     São frequentes nos atos de dedicação ou de dever esses pontos de interrogação que parecem postos pela morte.

     Farás isto?, diz a sombra.

     Gilliatt executou uma segunda tração de ensaio sobre: o gancho; o gancho resistiu.

     Gilliatt embrulhou a mão esquerda no lenço, apertou a corda com a mão direita coberta pela mão esquerda, depois tendo um pé adiante, e empurrando com o outro pé a rocha a fim de que o vigor do impulso impedisse a rotação da corda, precipitou-se do alto da pequena Douvre sobre a coluna da grande.

     Duro foi o choque.

     Apesar da precaução tomada por Gilliatt a corda volteou, e foi o ombro dele que bateu no rochedo.

     Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o lenço. As mãos ficaram arranhadas; admirou que não ficassem esmagadas.

     Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.

     Mas ainda assim, bastante senhor de si para não largar a corda.

     Decorreu algum tempo em oscilação e sobressaltos antes que pudesse agarrar a corda com os pés, mas conseguiu afinal.

     Voltando a si e conservando a corda entre as mãos, Gilliatt olhou para baixo.

     Não se assustava a respeito do comprimento da corda que mais de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda, com efeito, arrastava na Durande.

     Gilliatt, certo de poder descer, começou a trepar.

     Em poucos momentos chegou ao cume.

     Ninguém, a não ser os pássaros, tinha posto ali o pé. A plataforma estava coberta de esterco de pássaros. Era um trapézio irregular, lasca daquele colossal granito chamado grande Douvre. No meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho das chuvas.

     Gilliatt conjeturara com exatidão. Via-se no ângulo meridional do trapézio uma superposição de rochedos, destroços prováveis do descalabro do cimo. Esses rochedos, espécie de monte de pedras desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que ali tivesse trepado para passar. Equilibravam-se no meio da confusão; tinham os inters-tícios de um montão de grabatos. Não havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses podia admitir Gilliatt.

     O fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria ali como se fosse  em casa.

     A alcova na entrada tinha 2 pés de altura. Estreitava-se para o fundo. Há túmulos de pedra que tem essa forma. O monte de rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de Gilliatt ficava garantida das águas, mas aberta ao vento do norte.

     Gilliatt achou que isso era bom.

     Os dois problemas estavam resolvidos, a pança tinha um porto, ele tinha casa.

     A excelência da casa era ficar perto da Durande.

     O gancho da corda tinha caído entre dois pedaços de rocha e ficou solidamente preso. Imobilizou-o pondo em cima uma grossa pedra.

     Depois entrou imediatamente em livre prática com a Durande.

     Já estava em casa.

     A grande Douvre era a casa, e Durande era a oficina.

     Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.

     Atirou-se vivamente pela corda abaixo até o tombadilho.

     O dia foi bom, a coisa começava bem, Gilliatt estava satisfeito, reparou que tinha fome.

     Desatou o cesto de provisões, abriu a faca, cortou um pedaço de carne fumada, trincou o pão de rala, bebeu um gole do pichel de água doce e ceou admiravelmente.

     Trabalhar bem e comer bem são duas alegrias. O estômago cheio assemelha-se a uma consciência satisfeita.

     Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a claridade para começar a aliviar o navio, que era urgente.

     Tinha passado uma parte do dia a separar os destroços. Pós de lado, no comparti-mento sólido, onde estava a máquina, tudo o que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. O que era inútil deitou ao mar.

     O carregamento da pança, içado pelo cabrestante até o tombadilho, era, embora sumário, um estorvo. Gilliatt viu a espécie de nicho cavado na pequena Douvre, a uma altura que ele podia tocar com a mão. Vêem-se muitas vezes nos rochedos esses armários naturais, não fechados, é verdade. Pensou que era possível confiar o depósito àquele nicho. Pós no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vestuário, os dois sacos, o centeio e o biscoito, e na frente, demasiado chegado à borda, por não haver mais lugar, o cesto das provisões.

     Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pele de carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.

     Para impedir que o vento desse na corda de nós, prendeu a ponta em uma porca da Durande.

     A porca era muito curva e prendia a corda tão bem como se fosse uma mão fechada.

     Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de baixo era fácil, mas no cimo da coluna, no lugar onde a corda encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fosse a pouco e pouco gasta pelo ângulo do rochedo.

     Gilliatt investigou o montão de destroços que reservara, apanhou alguns pedaços de lona e alguns fios de carreta achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.

     Qualquer marujo adivinhava logo que ele ia forrar com a lona e os fios o pedaço da corda na altura do ângulo do rochedo, de modo a preveni-lo de qualquer avaria.

     Feita a provisão dos trapos, pós as grevas; nas pernas, vestiu a japona, prendeu ao pescoço a pele de carneiro, e assim vestido, com essa panóplia completa, agarrou a corda, robustamente presa ao flanco da grande Douvre, e subiu por aquela sombria torre do mar.

     Gilliatt, apesar de ter as mãos arranhadas, chegou rapidamente à plataforma.

     Os últimos clarões do poente iam-se apagando. Fazia noite no mar.

     O alto da Douvre conservava alguma claridade.

     Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda. Aplicou no cotovelo que ela fazia no rochedo uma ligadura de muitos pedaços de vela, fortemente atada em cada pedaço. Era pouco mais ou menos o forro que costumam por nos joelhos as atrizes para as agonias e súplicas do 5.º ato.

     Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.

     Desde alguns instantes, enquanto esteve forrando a corda, ouvia ele confusa-mente no ar um estremecimento singular.

     Assemelhava-se, no silêncio da noite, ao rumor que fizesse o bater das asas de um morcego.

     Gilliatt levantou os olhos.

     Um grande círculo negro volteava-lhe por cima da cabeça no céu profundo e alvo do crepúsculo.

     Costuma-se ver, nos velhos quadros, círculos iguais sobre a cabeça dos santos. A diferença é que são de ouro em fundo sombrio; este era tenebroso em fundo claro. Nada mais estranho. Dissera-se a auréola noturna da grande Douvre.

     O círculo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e alargava-se.

     Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de pássaros do mar, espantados.

     É provável que a grande Douvre fosse a hospedaria deles, e que eles fossem buscar ai o repouso. Gilliatt tinha-lhes tomado um quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.

     Nunca tinham visto esse homem ali.

     Durou algum tempo aquele voar assustado.

     Os pássaros pareciam esperar que Gilliatt se fosse embora.

     Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.

     O turbilhão volante acabou por tomar uma resolução, o círculo desfez-se em espiral, e a nuvem de pássaros foi cair do outro lado do escolho, no rochedo Homem.

     Aí pareceram consultar e deliberar. Gilliatt, estendendo-se no seu buraco de gra-nito, e pondo debaixo da cabeça uma pedra como travesseiro, ouviu por muito tempo a conversa dos pássaros, que guinchavam cada um por sua vez.

     Depois calaram-se, e tudo dormiu, os pássaros em uma rocha e

     Gilliatt em outra.

    

    Importunaeque Volucres

     Gilliatt dormiu bem. Mas sentiu frio, e por isso acordou várias vezes.

     Tinha naturalmente os pés colocados no fundo do buraco, e a cabeça à borda. Não teve o cuidado de tirar daquele leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam melhor sono. De quando em quando entreabria os olhos.

     Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruído de canhão.

     Tudo ali em roda apresentava o extraordinário da visão; Gilliatt tinha a quimera à roda de si. O meio espanto da noite contribuía para que ele se visse mergulhado no impossível. Gilliatt dizia consigo: “Estou sonhando”.

     Depois tornava a dormir e, sonhando então, achava-se na casa dele, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Déruchette; estava no real. Enquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.

     Com efeito, era um sonho aquilo.

     Lá pelo meio da noite, ouviu-se um vasto rumor no céu. Gilliatt teve confusa-mente consciência disso através do sono. Era provável que fosse o vento.

     De uma vez que ele acordou, com um estremecimento de frio, abriu as pálpebras mais do que até então. Havia largas nuvens no zênite; a lua fugia e uma grande estrela ia atrás dela.

     Gilliatt tinha o espirito cheio da difusão dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.

     De madrugada estava gelado e dormia profundamente. A aurora tirou-o daquele sono talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente.

     Gilliatt bocejou, espreguiçou-se e levantou-se do buraco.

     Dormira tão bem que não compreendeu nada.

     A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e ele exclamou: “Almocemos!”

     O tempo estava calmo, o céu estava frio e sereno, não havia nuvens, a vassoura da noite limpara o horizonte, o sol levantava-se bem. Era um segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentiu-se alegre.

     Tirou a japona, envolveu-a na pele de carneiro, atou tudo e meteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.

     Depois fez a cama, isto é, pós fora os seixos agudos.

     Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde pusera o cesto de provisões.

     Não achou o cesto; como estava muito à beira, o vento da noite atirou-o ao mar.

     Isto anunciava uma intenção de luta.

     Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade para ir buscar o cesto.

     Era um começo de hostilidades. Gilliatt compreendeu isso.

     É difícil, quando se vive em familiaridade com o mar, não ver no vento e nas rochas criaturas e personagens.

     Só restava a Gilliatt, além do biscoito e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o náufrago morto de fome no rochedo Homem.

     A pesca era impossível. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.

     Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com dificuldade, esca-pando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo lanche, ouviu um estranho tumulto no mar. Olhou. Era o bando de goelanos e gaivotas que caía sobre uma das rochas baixas, batendo as asas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquela horda de bicos e unhas saqueava alguma coisa.

     Essa coisa era o cesto de Gilliatt.

     O cesto, lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os pássaros correram logo. Levaram no bico toda a espécie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfish.

     Era a vez de entrarem também em luta os pássaros. Faziam represálias. Gilliatt tomara-lhes a casa; eles tomavam-lhe a comida.

    

    O escolho e a maneira de se servir dele

     Passou-se uma semana.

     Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.

     Mas o que ele empreendia estava acima da força humana, em aparência ao menos, O sucesso era de tal modo inverossímil que a tentativa parecia louca.

     As operações encaradas de perto mostram os seus empecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difícil concluir. Todo começo resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexorável. A dificuldade que se toca fere como um espinho.

     Gilliatt teve logo de contar com o obstáculo.

     Para salvar a máquina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquele lugar e naquela estação, parecia que seria necessário uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpin-teiro e maquinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martelo; precisava ter uma boa oficina e um bom telheiro; Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e víveres. Gilliatt não tinha pão.

     Alguém que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia ele. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava ocupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufrágio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufrágio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar aí depusera. Pedaços de velame, pedaços de corda, pedaços de ferro, tábuas rasgadas, vergas destruídas, aqui um barrete, ali uma corrente, além uma roldana.

     Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidade do escolho. Nenhum deles era habitável, com grande decepção de Gilliatt, que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.

     Duas dessas anfractuosidade eram assaz espaçosas, posto que o chão de rocha natural fosse quase geralmente oblíquo e desigual, podia-se andar ali de pé. A chuva e o vento entravam ali a gosto, mas as altas marés não lhes chegavam. Eram vizinhas da pequena Douvre e fáceis de trepar a qualquer hora. Gilliatt decidiu que uma seria um depósito e a outra uma forja.

     Com todos os cabos que pode recolher fez pacotes dos restos do naufrágio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosa-mente. À proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliatt arrastava-os através dos recifes até o depósito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.

     Gilliatt era tenaz e admirável nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniçamento de formiga.

     No fim da semana, Gilliatt tinha nesse depósito de granito todo o arsenal de objetos destruídos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as driças; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papa-figo, as machadinhas, os cabos e mil outros objetos ocupavam, uma vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos diferentes; tudo quanto era de carpintaria estava à parte; de cada vez que era possível, as tábuas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas às outras; não havia confusão de viradores, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado à tabuiga da Durande que apoiava os ovéns do cesto de gávea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufrágio estava ali classificado e com o rótulo competente. Era uma coisa semelhante ao caos armazenado.

     Uma vela de estais, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.

     Por mais quebrada que estivesse a proa da Durande, Gilliatt conseguiu salvar os dois cepos da âncora, com as três rodas de polé.

     Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhá-lo das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo seco. Gilliatt, porém, tirou-as porque o maçame podia ser-lhe útil.

     Recolheu igualmente a pequena âncora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar a encalhara.

     Achou no que fora camarote de Tangrouille um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.

     Uma selha de couro para incêndio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.

     O resto de carvão que havia na Durande foi levado para o armazém.

     Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo e a Durande aliviada. No casco só restava a máquina.

     O pedaço da amurada que ainda aderia ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentada embaixo por uma saliência de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazém. Parecia uma jangada aquele pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.

     Gilliatt, profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a boneca da Durande. Era uma dessas coisas que a onda tinha levado para sempre, Gilliatt para achá-la daria os seus dois braços, se não precisasse tanto deles.

     Na entrada do armazém, e fora, viam-se dois montes de rebotalho, um de ferro, para fundir, outro de pau para queimar.

     Gilliatt trabalhava desde a madrugada. Fora do tempo do sono, não descansava nunca.

     Os corvos-marinhos, voando aqui e ali, contemplavam-no a trabalhar.

    

    A forja

     Feito o depósito, Gilliatt fez a forja.

     A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt oferecia um refúgio, espécie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve a principio a idéia de dormir aí, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão contínuo e teimoso nesse corredor que ele teve de renunciar à morada. O vento deu-lhe idéia de fazer a forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser oficina. Utilizar o obstáculo é um grande passo para o triunfo. O vento era o inimigo de Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer dele o seu lacaio.

     O que se diz de certos homens: próprios para tudo, bons para nada, pode-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que oferecem. Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a água; outra é um leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.

     A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza; mas domar esse esboço, até torná-lo apropriado, e transformar a caverna em laboratório, nada mais áspero e difícil. Com três ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera ali um vasto fole informe, muito melhor que os antigos foles de 14 pés de comprimento, que davam, por cada vez, 98 000 polegadas de ar. Aquilo era outra coisa. As proporções de operação não se calculam.

     O excesso de força era incomodo; era difícil regularizar aquele sopro.

     A caverna tinha dois inconvenientes; o ar e a água atravessavam de um lado para o outro.

     Não era a onda, era um pequeno esgoto perpétuo, mais semelhante a uma destilação que a uma torrente.

     A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de 100 pés no ar, acabara por encher de água do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a escavação. A abundância de água nesse reservatório fazia, um pouco atrás, no declive, uma pequena queda-d’água, de cerca de 1 polegada, caindo de 4 a 5 toesas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquele reservatório inesgotável e sempre transbordando.

     A água era salobra, não potável, mas límpida, embora salgada. A queda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabeleira.

     Gilliatt pensou em servir-se dessa água para disciplinar o vento. Por meio de um funil de dois ou três tubos de tábuas, arranjados à pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatório inferior, sem contrapeso, Gilliatt, que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecânico, conseguiu compor, para substituir o fole da forja, que não tinha, uni aparelho menos perfeito do que aquele que se chama hoje cagniardelle, porém menos rudimentar do que o que se chamava outrora nos Pirineus uma trompa.

     Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa. Com essa estopa e essa cola e alguns pedacinhos de pau, tapou ele todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira à pedra de sinal. O bico ficava horizontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt pós a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.

     Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no próprio rochedo, fez cair a faísca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.

     Experimentou o fole. Era admirável.

     Gilliatt sentiu essa altivez de ciclope, senhor do ar, da água e do fogo.

     Senhor do ar, deu ao vento uma espécie de pulmão, criou no granito um aparelho respiratório, e fez um fole; senhor da água, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flama daquele rochedo inundado.

     Estando a escavação quase toda aberta, o fumo saía livremente, enegrecendo o rochedo. Aquele rochedo, que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.

     Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor oferecendo a forma e as dimensões que se quisesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conóide, mas faltava a bigorna piramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos trogloditas. A superfície polida pela água tinha a rigidez do aço.

     Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinaria-mente colocada no porão da proa. Ora, era exatamente a proa que faltava.

     As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram vizinhas uma da outra. O depósito e a forja comunicavam-se.

     Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscoito molhado em água, um ursozinho da água, ou algumas castanhas do mar, caça única daquele rochedo, e, tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.

     A espécie de abstração em que Gilliatt vivia aumentava-se pela materialidade das suas ocupações. A realidade era em alta dose. O trabalho corporal com os seus porme-nores inumeráveis não diminuía a estupefação que sentia de achar-se ali, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cansaço material é um fio que puxa para terra; mas a própria singularidade do trabalho empreendido por Gilliatt mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular. Parecia-lhe às vezes estar dando marteladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que ele repelia ou prevenia. Tecer maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar máquinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precauções contra as agressões inteligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéias, mas percebia as idéias. Sentia-se cada vez menos operário e cada vez mais pelejador.

     Entrou ali como um domador. Compreendia isso quase. Estranha ampliação para o seu espírito.

     Além disso, tinha à roda de si, a perder de vista, o imenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que ver manobrar a difusão das forças no inson-dável e no ilimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a água infatigável, as nuvens que parecem afadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz Este perpétuo tremor? Que constróem Estes ventos? Que levantam Estes abalos? Em que se ocupam os choques, os soluços, os gritos? Que faz todo esse tumulto? O fluxo e refluxo dessas questões é eterno como a maré. Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extensão era um enigma que o aturdia confusa-mente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente e quase feroz, Gilliatt pensativo ajuntava, ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inútil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar, ali à vista, o mistério da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar; na proporção da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptível do rochedo, o esfalfamento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpétuo, o oceano poço, as nuvens Danaides, todo esse trabalho para coisa nenhuma!

     Para coisa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!

    

    Descoberta

     Um escolho próximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar aí? Não é uma ilha. Não se pode contar com vitualhas, nem árvores com fruta, nem pastos, nem animais, nem fontes de água potável. É uma nudeza numa solidão. É uma rocha, com declives fora da água e pontas debaixo da água. Nada se encontra aí - a não ser o naufrágio.

     Essa espécie de escolhos, que a velha língua marinha chama os Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só há o mar. O mar faz ali o que lhe parece. Nenhuma aparição terrestre o perturba. O homem assusta o mar; o mar desconfia dele; esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho está seguro; lá não vai o homem. Não será perturbado o monólogo da onda. A água trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as pontas, eriça-o, conserta-o. Empreende a abertura do rochedo, descon-junta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remexe, fura, esburaca, canaliza, põe os intestinos em comunicação, enche o escolho de células, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.

     Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, santuários, palácios; tem uma vegetação hedionda e esplendida; compõe-se de ervas flutuantes que mordem e monstros que se enraizamente na sombra da água essa horrível magnifi-cência. No escolho isolado, ninguém o espreita, nem o incomoda; o mar desenvolve aí a gosto o seu lado misterioso e inacessível ao homem. Depõe aí as secreções vivas e horríveis. Acha-se ali todo o ignorado do mar.

     Os promontórios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras construções. A formação geológica é pouca coisa comparada à formação oceânica. Os escolhos, casas de vaga, pirâmides da espuma, pertencem à arte misteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma espécie de estilo enorme. Ali o fortuito parece intencional. Essas construções são multiformes. Tem o embaraçado do pólipo, a sublimidade da catedral, a extravagância do pagode, a amplidão da montanha, a delicadeza da jóia, o horror do sepulcro. Tem alvéolos como uma colmeia, patíbulos como um pátio de bichos, túneis como um combro de toupeiras, cárceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas tapadas colunas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus comparti-mentos são inextricáveis; isto é só para os pássaros; aquilo é só para os peixes. Não se passa. A figura arquitetural transforma-se, desconcerta-se, afirma e nega a estática, quebra-se, detém-se, começa em arquivolta, acaba em arquitrave; seixo sobre seixo. Encélado é o pedreiro. Uma dinâmica extraordinária ostenta ali os seus proble-mas resolvidos. Terríveis abóbadas pendentes ameaçam cair, mas não caem. Ninguém sabe como se seguram Estes edifícios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões insen-satas; desconhecesse a lei desse babelismo. O Ignoto, imenso arquiteto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, construídos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma lógica, um vasto equilíbrio. É mais do que a solidez, é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impassível para o espírito do que essa medonha arquitetura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo ali se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta um edifício. Reconhece-se a colabo-ração dessas duas querelas, o oceano e o furacão.

     Arquitetura que tem terríveis obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.

     Esse foi construído e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidá-vel. Lambia-o a água rabugenta. Era hediondo, pérfido, obscuro; cheio de cavas.

     Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas, ramificando-se em profundezas insondáveis. Muitos orifícios desse rasgão inextricável ficavam a seco nas vazantes.

     Podia-se entrar, então, com risco.

     Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser terrível. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquele aspecto de matadouro e açougue estranha-mente imitado do centro das Douvres. Quem não viu as escavações desse gênero, na parede do eterno granito, esses horríveis frescos da natureza, não pode fazer uma idéia do que é.

     Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar-se nelas. A maré enchente invadia-as até o teto.

     Abundavam os mariscos e os frutos do mar.

     Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de 1 tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as cores, a maior parte pareciam ensanguentados, alguns, cobertos de filamentos peludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.

     Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, artérias de uma circulação misteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golfão. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades gotejantes.

     Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré prestava-se a isso. Era um belo dia de calma e de sol. Não havia que temer nenhum acidente do mar que pudesse complicar o perigo.

     Duas necessidades, como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações: procurar os destroços úteis e achar lagostas para comer. Já lhe faltavam conchas nas Douvres.

     A fenda era estreita e a passagem quase impossível. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pode e entrou até onde lhe foi possível.

     Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirara-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta. O rochedo abrupto exteriormente, e inacessível, era vazio no interior. Tinha galerias, poços e quartos como o túmulo de um rei do Egito. Aquele dédalo era dos mais complicados, trabalho da água, infatigável solapa do mar. As divisões daquele subterrâneo submarino comunicavam provavel-mente com a água imensa do exterior por mais de uma saída, umas abertas ao nível da água, outras profundos funis invisíveis. Perto dali, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin atirou-se ao mar.

     Gilliatt, naquela fisga de crocodilos, onde na verdade não havia medo de achá-los, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encon-trava o chão, avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, apareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinária.

    

    O interior de um edifício do mar

     A luz vinha a propósito.

     Um passo mais, Gilliatt estaria em uma água talvez sem fundo. As águas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralisia tão súbita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.

     Demais, não havia meio de subir e agarrar às rochas entre as quais ficaria preso. Gilliatt parou.

     À grota, donde ele saíra, ia ter a mesma saliência estreita e viscosa, espécie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se à muralha e olhou.

     Estava numa grande cava. Tinha acima de si alguma coisa semelhante ao interior de um crânio dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das estrias do rochedo imitavam na abóbada as fibras dentadas de uma bola. Por teto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota pareciam vastos ladrilhos flutuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. A luz vinha de baixo, através da água. Era um resplendor tenebroso.

     Gilliatt, cujas pupilas se dilataram durante o trajeto obscuro do corredor, distin-guia tudo naquele crepúsculo.

     Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Pleinmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques em Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que ali depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era comparável ao quarto subterrâneo e submarino onde penetrara.

     Gilliatt via diante dele, debaixo da vaga, uma espécie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas colunas profundas e negras. Era por aquele pórtico submergido que entrava na caverna a claridade do alto-mar. Luz estranha que vinha por um buraco na água.

     Essa claridade esvazava-se debaixo da água como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios retilíneos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfractuosidade a outra, imitavam interpo-sições de lâminas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clarão da pupila de uma esfinge. A cava figurava o interior de uma cabeça enorme; a esplendida abóbada era o crânio, e a arcada era a boca; não havia buracos dos olhos. A boca engolindo e vomitando o fluxo e o refluxo, aberta em pleno meio-dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.

     Certos entes, inteligentes e maus, assemelham-se a isto. O raio do sol, atraves-sando aquele pórtico obstruído de uma espessura vidrenta da água do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebarã. A água, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de água-marinha de incrível delicadeza tingia brandamente toda a caverna.

     A abóbada, com os seus lóbulos quase cerebrais e as suas ramificações seme-lhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de crisópraso. O chamalote da onda, reverbe-rado no teto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estrei-tando as suas rodas de ouro com um movimento de dança misteriosa. Saia dali uma impressão espectral; o espírito podia perguntar que presa ou que espera era aquela que fazia tão alegremente aquele magnífico filete de fogo vivo. Nos relevos da abóbada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações banhando provavelmente as raízes através do granito em alguma toalha de água superior, e desbagando, nas pontas, uma gota de água, uma pérola. Essas pérolas caíam no golfão com um pequeno rumor. Todo esse conjunto era inexprimível. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais lúgubre. Era ali o palácio da Morte, alegre.

    

    O que se vê e o que se entrevê

     Sombra que deslumbra, tal era aquele sítio surpreendente.

     A palpitação do mar fazia-se sentir naquela cava. A oscilação externa inchava e deprimia a toalha de água interior com a regularidade de uma respiração. Cuidava-se ver uma alma misteriosa naquele grande diafragma verde elevando-se e abaixando-se em silencio.

     A água era magicamente límpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações imersas, superfícies de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondáveis.

     Dos dois lados do pórtico submarino esboços de címbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas laterais, pontos inferiores da caverna central, acessí-veis talvez na época das marés extremamente baixas.

     Essas anfractuosidade tinham tetos em plano inclinado, em ângulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas escavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliquidade.

     Longas ervas espessas, de mais de 1 toesa, ondulavam debaixo da água como um balancear de cabelos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.

     Fora da água, e dentro da água, toda a muralha da cava, de alto a baixo, desde a abóbada até ao desaparecimento no invisível, era tapetada dessas prodigiosas flores-cências do oceano, tão raramente visíveis ao olho humano, que os velhos navegadores espanhóis chamaram praderias del mar. Espesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava os granitos. De todos os declives rompiam os delgados loros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barômetros. O hálito obscuro da caverna agitava essas correias luzentes.

     Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras jóias do escrínio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.

     Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincàvelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas fores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.

     A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melancólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.

     Uma das maravilhas daquela caverna era a rocha. Essa rocha, ora muralha, ora címbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturais. Um não sei que, aliás de espírito, misturava-se à estu-pidez maciça da pedra. Que artista não é o abismo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro, e cheio de altos e baixos representando atitudes, figurava um vago baixo relevo; ante essa escultura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometeu esboçando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o gênio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embu-tida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinha almofadas que pareciam bronze de Corinto, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra rúnica tinha sinais de unha obscuros e improváveis. Plantas com ramos torcidos em forma de verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na de filigranas. Era um antro e um alhambra. Era o encontro da selvajaria e da ourivesaria na augusta e disforme arquitetura do acaso.

     O magnífico bolor do mar aveludava os ângulos de granito. As pedras estavam adornadas de lianas grande floras, tão destras que não caíam, e pareciam inteligentes tão bem adornavam elas.

     Parietárias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tufos a propósito e com gesto. Havia aí a casquilhice possível numa caverna. A surpreendente luz edênica que vinha de baixo da água, a um tempo penumbra marinha e radiação paradisíaca, esfumava todos os lineamentos em uma espécie de difusão visionária. Cada vaga era um prisma. O contorno das coisas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o croma-tismo das lentes de óptica demasiado convexas; espectros solares flutuavam debaixo da água.

     Acreditar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal pedaços de arco-íris afogados. Em outros lugares havia na água um certo luar. Todos os esplendores pare-ciam amalgamados ali para fazer um que de cego e de noturno. Nada mais impossível e enigmático do que aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era o encanto. A vegetação fantástica e a estratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo efeito aquele consórcio de coisas medonhas. Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o afago da rocha selvagem e da flor ruiva.

     Pilares maciços tinham, por capitéis e por ligaduras, frágeis e tremulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cócegas nas patas de um hipopótamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.

     Resultava dessa deformidade misteriosamente ajustada uma beleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do gênio, contem o absoluto e impõem-se. O inesperado delas faz-se obedecer imperiosamente pelo espírito; sente-se uma premeditação que fica fora do homem, e elas não são mais surpreendentes do que quando fazem subitamente sair o delicado do terrível.

     Aquela grota estava, por assim dizer, e se tal expressão é admissível, siderali-zada. Sentia-se ali o imprevisto do espanto. O que enchia aquela cripta era luz do apocalipse. Não havia certeza de que aquilo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossível. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difícil crer.

     Era luz aquilo que jorrava daquela janela debaixo da água? Era água aquilo que tremia naquela bacia obscura? Aqueles címbrios e pórticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquela que se pisava? Aquele apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquela que se entrevia? Que distância havia dali à vida, à terra, aos homens? Que encanto era aquele misturado àquelas trevas? Comoção inaudita, quase sagrada, à qual misturava-se a doce inquietação das ervas no fundo da água.

     Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma arquivoltaciclópica singularmente correta, em um buraco quase indistinto, espécie de antro no antro, espécie de tabernáculo no santuário, atrás de uma toalha de luz verde, interposta como um véu de templo, descobria-se fora da água uma pedra de ângulos cortados em quadro com uma parecença de altar. A água circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido dali. Era impossível deixar de pensar, debaixo daquela cripta, em cima daquele altar, em alguma nudeza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difícil conceber aquela célula augusta sem uma visão dentro dela; a aparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um porejar de casta luz sobre espáduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olímpico, uns misteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparsa em uma aurora, uns quadris inefáveis, modelados em luz pálida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um olhar de virgem, uma Vênus saindo do mar, uma Eva saindo do caos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverossímil que não estivesse antes um fantasma naquele lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava um êxtase inexprimível, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espírito criava, no meio da adoração muda daquela caverna, uma Afrodite; uma Tétis, alguma Diana que pudesse amar, estátua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquela claridade, espécie de perfume-luz saído daquele corpo-estrela. A fascinação daquele fantasma já não estava ali; já se não via a figura, feita para ser vista somente pelo invisível, mas sentia-se; recebia-se aquele estremecimento que é uma volúpia. A deusa estava ausente, mas a divindade estava presente.

     A beleza do antro parecia feita para aquela presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nácares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa dela, ao menos supunha-se isto, que o subterrâneo estava religio-samente murado, a fim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquele divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silêncio que é uma majestade.

     Gilliatt, que era uma espécie de vidente da natureza, cismava, confusamente comovido.

     De súbito, alguns palmos abaixo dele, na transparência encantadora daquela água, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt viu alguma coisa inexprimível. Uma espécie de longo andrajo movia-se na oscilação das vagas. Esse andrajo não flutuava, vogava; tinha a forma de um cetro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossível de molhar-se cobria aquele todo. Era mais que horrível, era nojento. Tinha um que de quimérico; era um ente, a menos que não fosse uma aparência. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se ali. As espessuras da água tornaram-se sombrias sobre aquela coisa que resvalou e desapa-receu, sinistra.

 

O trabalho

    Os recursos daquele que não tem recursos

     A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco cômoda, a saída foi ainda pior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.

     Pós imediatamente a forja em atividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.

     Tinha por combustível os destroços, a água por motor, o vento por fole, uma pedra por bigorna, por arte o instinto, por força a vontade.

     Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.

     O tempo mostrava-se complacente. Continuava belo, e o menos equinocial possí-vel. Chegara o mês de março, mas tranquilamente. Os dias tornavam-se compridos. O azul do céu, a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do meio-dia, pareciam excluir qualquer intenção má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um afago prévio tempera as traições. A água marinha não é avara desses afagos. Com aquela mulher é preciso desconfiar do sorriso.

     Havia pouco vento; a hidráulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.

     Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra atacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construía as suas armaduras. Com um pedaço de ferro em folha fez uma antepara na forja.

     Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das roldanas. Consertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a esfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria grande cópia de peças de madeira armazenadas, e aparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essências, o carvalho de um lado, o pinheiro de outro, as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como as que ligam as escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.

     Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés, mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as velas rasgadas, e conseguiu extrair excelente fio com que compôs uma sarja, e cerziu o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pode fazer o massame sem ter alcatrão.

     Consertou as cordas, consertou as correntes.

     Pode, graças à ponta lateral da bigorna, fazer anéis grosseiros, mas sólidos; com esses anéis, prendeu uns aos outros os pedaços de correntes quebrados, e fez correntes compridas.

     Forjar só e sem auxílio é mais do que incômodo. Contudo, Gilliatt conseguiu fazê-lo. É certo que só teve de trabalhar na forja peças de pequeno volume; podia meneá-las com uma mão e martelar com a outra.

     Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do comando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes pregos de palmo e meio. Esses pregos, muito usados em trabalhos marítimos, são úteis para fixar os paus nas pedras.

     Por que motivo Gilliatt tomava todo Este trabalho?

     Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.

     Servia-se também do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliatt fez outra.

     Com ajuda da pinça e da tenaz e servindo-se da faca como de um virador empreendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguiu. É preciso não esquecer que isso era exequível; essa era a particularidade da construção das rodas. As caixas que as tinham coberto serviram-lhes de capas; com as tábuas das caixas, Gilliatt arranjou dois caixotes onde meteu peça por peça, as duas rodas, cuidadosamente numeradas.

     O pedaço de giz serviu-lhe para essa numeração.

     Arranjou os dois caixotes na parte mais sólida do convés da Durande.

     Terminados Estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da dificuldade suprema. Surgiu a questão da máquina.

     Desmontar as rodas foi possível; desmontar a máquina, não.

     Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquele mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconserto irreparável. Depois, mesmo para tentar desmontá-la peça por peça, se tivesse esta imprudência, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que ele podia fazer numa caverna por oficina, com o vento por fole, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a máquina arriscava-se a despedaçá-la.

     Aqui podia-se crer que estava diante do impraticável.

     Afigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossível.

     Que fazer?

    

    De que modo Shakespeare pode encontrar-se com Ésquilo

     Gilliatt tinha uma idéia.

     Desde aquele carpinteiro de Salbris que, no VI século, na infância da ciência, muito antes que Amontons tivesse achado a primeira fricção, Lahire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho dele, com uma ferramenta informe resolveu em massa, arriando o grande relógio da igreja de Charité-surLoire, cinco ou seis problemas de estática e de dinâmica, todos juntos, como as rodas de carros embaraçados; desde esse trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão e sem desfazer um encaixe, arriar de uma só vez, por uma simplificação prodigiosa, do segundo – andar da torre ao primeiro, aquela maciça gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento, cilindros, tambores, ganchos, mostrador, pêndulo horizontal, âncoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quais um pesava 500 libras, tímpano, carrilhão; desde esse homem que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jamais houve nada igual à empresa que Gilliatt cometia.

     A operação de Gilliatt era talvez pior, isto é, mais bela ainda que a outra.

     O peso, a delicadeza, o conjunto das dificuldades, não eram menores na máquina da Durande que no relógio de Charité-surLoire.

     O carpinteiro gótico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era só.

     Havia uma população vinda de Menug-sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e animá-lo com os seus rumores benévolos; Gilliatt só tinha à roda de si o rumor do vento e a multidão das ondas.

     Nada se compara à timidez da ignorância, a não ser a sua temeridade. Quando a ignorância começa a ousar é que tem uma bússola consigo. Essa bússola é a intuição da verdade, mais clara às vezes num espírito simples que num espírito complicado.

     Tais casos, digamo-lo de passagem, são a exceção, e tudo isto não tira nada à ciência, que fica sendo a regra. O ignorante pode achar, só o sábio inventa.

     A pança continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranquila. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre prática com a barca. Foi ali e mediu-a em diversos pontos. Depois voltou à Durande e mediu o grande diâmetro da máquina. O grande diâmetro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto 2 pés que o espaço da pança. Portanto, a máquina podia entrar na barca. Mas como mete-la aí?

    

    A obra-prima de Gilliatt ajuda a obra-prima de Lethierry

     Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar aquelas paragens, em semelhante estação, teria pago a sua ousadia com a visão de uma coisa singular entre as Douvres.

     Veria isto o pescador: quatro robustas pranchas com espaços iguais entre si, indo de uma Douvre a outra, e como que forçadas entre os rochedos o que é a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena Douvre, as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido violenta mente espetadas na coluna com um martelo por um robusto trabalhador trepado na própria prancha. Essas pranchas eram um pouco mais longas que o intervalo das Douvres; daí. a segurança e o plano inclinado em que estavam for Ignorar convida a tentar. A ignorância é um devaneio e o mando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em ângulo devaneio curioso é uma força. Saber, desconcerta às vezes, e agudo e a pequena em ângulo obtuso. Era suave o declive, desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse, recuaria irias desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro ante o cabo das Tormentas. Se Cristóvão Colombo fosse pranchas prendiam-se quatro polés guarnecidas todas de bom cosmógrafo, não teria descoberto a América. A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho aéreo de guindastes e tábuas, o maciço casco da Durande parecia suspenso a esses fios.

     Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da máquina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no convés, depois saíam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e da máquina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e, subindo, atravessando o convés, voltavam a prender-se nos quatro guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo único podendo ser dirigido por um só braço. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo único completavam o aparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combinação obrigava as quatro polés a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de forças pendentes, leme de dinâmica na mão do piloto da operação, mantinha a manobra em equilíbrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Weson de hoje, e do antigo polipastono de Vitrúvio. Gilliatt descobriu isso, sem conhecer Vitrúvio, que já não existe, nem Weson, que não existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das pranchas e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas, o massame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes não poderiam passar com facilidade nas polés.

     Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era surpreendente.

     Demais, abreviemos a explicação. Compreender-se-á que omitimos muitos pormenores que tornariam a coisa clara para as pessoas do ofício, e obscura para as outras.

     O cimo do cano da máquina passava por entre as duas pranchas do meio.

     Gilliatt, sem dar por isso, plagiário inconsciente do desconhecido, refez, a três séculos de distância, o mecanismo do carpinteiro de Salbris, mecanismo rudimentar e incorreto, assustador para quem ousasse manobrá-lo.

     Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que um mecanismo funcione. O obelisco da praça de São Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da estática. O coche do Czar Pedro era construído de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto, andava. Quantas deformidades na máquina de Marly. Tudo ali era mal feito. Nem por isso deixou de dar de beber a Luís XIV.

     Fosse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o sucesso ao ponto de fixar na borda da pança, no dia em que lá foi, dois pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dois lados da barca, nos mesmos espaços que as quatro argolas da Durande às quais se prendiam as quatro correntes do cano.

     Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo. Tendo contra si todas as probabilidades, queria por todas as precauções do seu lado.

     Fazia coisas que pareciam inúteis, sinal de uma premeditação atenta.

     A sua maneira de proceder desafiava um observador, e mesmo um conhecedor.

     Uma pessoa que o visse, por exemplo, com esforços inauditos e em risco de quebrar o pescoço, pregar com um martelo oito ou dez grandes pregos que ele forjou, no esvazamento das duas Douvres, na entrada da garganta do escolho, compreenderia dificilmente o motivo desses pregos, e perguntaria provavelmente por que razão fazia todo aquele trabalho.

     Se visse Gilliatt medir o pedaço da amurada da proa que ficara pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior desta peça, cortar com um machado as madeiras descoladas que a retinham, arrastá-las fora da garganta, com auxílio da maré que descia, e enfim prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de tábuas e vigas, mais larga que a entrada da garganta, aos pregos metidos na base da pequena Douvre, o observador compreenderia menos ainda, e diria que se Gilliatt quisesse, para facilidade da manobra, desimpedir o intervalo das Douvres, bastava deixar cair aquele pedaço de tábuas na maré que o levaria à flor da água.

     Gilliatt provavelmente tinha lá as suas razões.

     Gilliatt, para fixar os pregos na base das Douvres, tirava partido de todas as fendas do granito, alargava-as quando era preciso, e metia ao princípio tocos de paus, nos quais introduzia depois os pregos. Emboçou a mesma preparação nas duas rochas que se levantavam noutra extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de pau todos os buracos, como se as quisesse ter prontas para receber ganchos; mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt não meteu pregos nessas fendas. Compreende-se que, por prudência na sua penúria, ele não podia gastar materiais senão à proporção que tivesse necessidade, e no momento em que a necessi-dade se manifestasse. Era mais uma complicação no meio de tantas dificuldades.

     Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo. Gilliatt passava sem hesitar de um a outro e dava resolutamente esse pulo de gigante.

    

    Subre

     O homem que fazia estas coisas tornara-se medonho.

     Gilliatt, naquele trabalho múltiplo, gastava todas as suas forças; dificilmente as refazia.

     Privações de uma parte, cansaço de outra. Gilliatt tinha emagrecido. Cresceram-lhe as barbas e cabelos. Exceto uma camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os pés nus, porque o vento levara-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaços da bigorna rudimentar, e mui perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mãos e nos braços pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram superficiais, mas irritadas pelo ar vivo e pela água salgada.

     Tinha fome, tinha sede, tinha frio.

     O pichel de água doce estava vazio. A farinha de centeio fora já comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscoito.

     Não tendo água para molhá-lo, Gilliatt quebrava-o com os dentes.

     Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.

     Aquele temível rochedo esgotava-lhe a vida.

     Beber era uma questão; comer era uma questão; dormir era uma questão.

     Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um pássaro descer a alguma ponta da rocha. Trepava então e achava numa cava um pouco de água doce. Bebia depois do pássaro, às vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas já estavam acostumadas a ele, e não fugiam quando ele se aproxi-mava. Gilliatt, mesmo na maior fome, não lhes fazia mal. Sabemos que ele tinha a superstição dos pássaros. Os pássaros, como os cabelos de Gilliatt estivessem eriçados e horríveis, e a barba longa, já lhe não cobravam medo; a mudança do aspecto tranquilizava-os; já não viam naquilo um homem, acreditavam-no bicho.

     Os pássaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aqueles pobres ajudavam-se uns aos outros. Enquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os pássaros indicavam-lhe em que lugar havia água.

     Comia as conchas cruas; as conchas, em certa proporção, são refrigerantes. Quanto aos caranguejos, cozia-os; não tendo vasilha própria, cozia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo, como os selvagens das ilhas Feroe.

     Declarou-se, entretanto, um pouco de equinócio; veio a chuva; mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos chuviscos, finos, gelados, que atravessavam-lhe a roupa até a pele, e a pele até os ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.

     Avara de auxílio, pródiga de miséria, tal era aquela chuva, indigna do céu. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana, de noite e de dia. Era uma má ação lá de cima.

     De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cansaço. Os grandes mosquitos do mar iam mordê-lo. Acordava coberto de pústulas.

     Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo, que mata. Mastigava, por instinto, o musgo, ou chupava as folhas de cocleária selvagem, magras produções das fendas secas do rochedo. Mas ocupava-se bem pouco com o sofrimento. Não tinha tempo de distrair-se do trabalho para cuidar de si. A máquina da Durande estava de saúde. Era o que bastava.

     A cada momento, Para as necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava pé. Entrava na água e saía, como se passa de um quarto a outro.

     As roupas já lhe não secavam. Estavam embebidas da água da chuva que não parava, e da água do mar que não seca nunca.

     Gilliatt vivia molhado.

     Viver molhado é um hábito que se adquire. Os pobres grupos irlandeses, velhos, mães, raparigas, quase nuas, crianças, que passam o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos ângulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.

     Estar molhado e ter sede; Gilliatt suportava essa tortura estranha. De quando em quando mordia a manga da japona.

     O fogo que ele acendia não o aquecia; o fogo no meio de um grande espaço arejado é um meio socorro; seca-se de um lado, umedece-se de outro.

     Gilliatt suava e tiritava.

     Tudo lhe resistia em roda dele numa espécie de silêncio terrível. Ele sentia o inimigo.

     As coisas tem um sombrio Non possumus.

     A inércia delas é uma lúgubre advertência.

     Imensa má vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava a água, a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o estômago. Ele suportava a opressão em um conjunto fatigante. O obstáculo, tranquilo, vasto, tendo a irresponsabilidade aparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quase uma entidade. Gilliatt tinha a consciência de um desprezo sombrio e de um ódio que fazia esforço por diminuí-lo. Dependia dele fugir, mas, pois que ficava, tinha de lutar com hostilidade impenetrável. Não podendo pô-lo fora dali, punham-no debaixo dos pés. Quem? O Ignoto. Apertavam-no, comprimiam-no, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisível. Cada dia, a misteriosa verruma entrava um pedaço.

     A situação de Gilliatt naquele medonho lugar assemelhava-se a um duelo equívoco com um traidor.

     Cercava-o a coalizão das forças obscuras. Ele sentia uma resolução de alguém para expulsá-lo dali. É assim que a geleira expele a massa errática.

     Quase sem parecer que o tocava, essa coalizão latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e, por assim dizer, fora de combate antes do combate. Nem- por isso deixava ele de trabalhar, e sem cessar, mas, à proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operário. Dissera-se que aquela feroz natureza, receando a alma, resolvera-se a extenuar o homem. Gilliatt afrontava, e esperava. O abismo começava por cansá-lo. Que faria depois o abismo?

     A dupla Douvres, dragão de granito e emboscado em pleno mar, admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admissão assemelhava-se à hospitalidade de um sorvedouro aberto.

     O deserto, a extensão, o espaço onde há para o homem tantos recursos, a inclemência muda dos fenômenos seguindo o seu curso, a grande lei geral implacável e passiva, o fluxo e o refluxo, o escolho, plêiada negra onde cada ponto é uma estrela de turbilhões, centro de uma irradiação de correntes, a conspiração da indiferença das coisas contra a tenacidade de um ente, o inverno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam Gilliatt, apertavam-no lentamente, fechavam-se sobre ele, e o separavam dos vivos, como um cárcere que fosse subindo à roda de um homem. Tudo contra ele, nada a favor dele; estava isolado, abandonado, minado, esquecido.

     Gilliatt tinha esgotado as provisões, as ferramentas já estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo supurações, buracos nas roupas e na carne, mãos dilaceradas, pés sangrentos, membros magros, rosto lívido, uma flama nos olhos.

     Flama soberba essa, era a vontade visível. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homens há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o Olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de pensamentos tímidos.

     Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem corno a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vêm daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtém o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes. Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. Podes dar a Estevão todas as boas razões para que ele não se faça apedrejar. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio.

     Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossível, o êxito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é que o fazia magnânimo, isso é que o fazia patético.

     Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas apalpadelas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a miséria do trabalho solitário. Fatalidade na causa, necessidade no efeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa miséria; qui-la. Temendo um concorrente, porque um concorrente poderia ser um rival, não procurou auxiliar. A esmagadora empresa, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento possível do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou ele para si só. Teve Este egoísmo.

     Gilliatt estava debaixo de uma espécie de máquina pneumática. A vitalidade ia-se retirando dele a pouco e pouco. E ele mal o sentia.

     A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt perdia em vigor reavia em tenacidade. A diminuição do homem físico debaixo da ação repelente daquela natureza selvagem produzia o engrandecimento do homem moral.

     Gilliatt não sentia a fadiga, ou, para melhor dizer, não consentia nela. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força imensa.

     Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais. Era miserável sem sabe-lo. O seu alvo, que ele tocava quase, alucinava-o, sofria todos os sofrimentos sem ter outra idéia que não fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe à cabeça. Vontade embriagada. O homem pode embriagar-se corri a própria alma. Essa embriaguez chama-se heroísmo.

     Gilliatt era uma espécie de Jó do Oceano.

     Mas um Jó que lutava, um Jó que combatia e afrontava os flagelos, um Jó que conquistava, e se tais palavras não são demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de caranguejos e de lagostas, um Jó Prometeu.

    

    Sub umbra

     Às vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.

     Sentia-se comovido.

     Olhar aberto sobre trevas. Situação lúgubre; ansiedade.

     Existe a pressão da sombra.

     Inexprimível teto de tenebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? é cinza? milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição.

     Esse amálgama de todos os mistérios a um tempo, do mistério cósmico e do mistério fatal, abate a cabeça humana.

     A pressão da sombra atua em sentido inverso nas diferentes espécies de almas. O homem, diante da noite, reconhecesse incompleto.

     Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céu negro é o homem cego. Entre-tanto, com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do desconhecido.

     Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; às vezes quer ir lá.

     Aonde?

     Lá.

     Lá? O que é? Que há lá?

     Essa curiosidade é evidentemente a das coisas defesas, porque para aquele lado todas as pontes à roda do homem estão cortadas. Mas o desejo atrai, porque é golfão. Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito. Não há homem que não tente, por mais fraco e insuficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é um rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espetáculo é sombrio. Mescla-se a ele o indefinível.

     Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo de fumaça. O ilimitado recusa-se e oferece-se ao mesmo tempo, fechado à experiência, aberto à conjetura. Infinitas picadas de luz tomam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbúnculos, cintilações, astros. Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clarões. São estacas da criação no absoluto; são marcos de distância lá onde já não há distância; é uma espécie de numeração impossível, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microscópico que fulge, depois outro, mais outro; mais outro; é o imperceptível, é o enorme. Essa luz é um foco, esse foco é uma estrela, essa estrela é um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo o número é zero diante do infinito.

     Esses universos, que nada são, existem. verificando-os, sente-se a diferença que vai entre ser nada, e não ser.

     O inacessível ligado ao inexplicável, eis o céu.

     Dessa contemplação solta-se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro.

     O medo sagrado é próprio do homem; a besta ignora esse medo. A inteligência acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.

     A sombra é una: vêm daí o seu horror. É, ao mesmo tempo, complexa: vêm daí o terror. A sua unidade pesa no nosso espírito e saca-lhe a vontade de resistir.

     A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem recear assaltos súbitos. O homem rende-se e defende-se. Fica em presença de Tudo, daí vêm a submissão, e de Muitos, daí vêm a desconfiança. A unidade da sombra contém um múltiplo. Múltiplo misterioso, visível na matéria, sensível no pensamento. Faz silêncio, razão de mais para espreitar.

     A noite - já o disse algures quem escreve estas linhas é o estado próprio, normal da criação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrela.

     O prodígio noturno universal não se realiza sem atritos, e os atritos de uma tal máquina são as contusões da vida. Os atritos da máquina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasfêmia implícita do fato rebelde ao ideal. O mal acrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cósmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão e atormenta a marcha de um navio, é caos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiquidade. O mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca pelo pássaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.

     A obscuridade noturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. Não há lugar fadiga comparável a esse exame de trevas. É o estudo de um apagamento.

     Não há lugar definitivo para pousar o espírito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contraditórias, todos os ramos da dúvida a um tempo, a ramificação dos fenômenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondável que faz com que a mineralização vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie e a gravitação ame; a imensa frente de ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cósmica em plena aparição, não para o olhar, mas para a inteligência, no espaço indistinto; o invisível tornado visão. È a sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas suporta, em qualidade proporcionada ao seu espírito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os passares caldeus à astronomia. Saem dos poros da criação revelações involuntárias; faz-se por si mesma uma transmudação de ciência e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação misteriosa toma-se o solitário, muitas vezes sem ter consciência, um filósofo natural.

     A obscuridade é indivisível. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absurdo; habitada também com deslocação. Move-se ali dentro alguma coisa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve ali as suas fases. Premeditações, potên-cias, destinos intencionais laboram, aí em comum uma obra desmedida. Vida terrível e horrível é o que existe ali dentro. Há vastas evoluções de astros, a família estelar, a família planetária, o pólen zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos eflúvios, das polarizações e das alterações; há o amplexo e o antagonismo, um magnífico fluxo e refluxo da antítese universal, o imponderável em liberdade no meio dos centros; há a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o átomo errante, o germe esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distâncias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no incalculável, prodígios perseguindo-se nas trevas, um maquinismo definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se sente andarem; é inexpugnável, fora de alcance. Fica-se convencido até à opressão. Tem-se em si uma evidência negra. Nada se pode agarrar. Esmaga-nos o impalpável.

     Por toda a parte o incompreensível: em parte alguma o inteligível.

     E a tudo isto acrescentai a terrível questão: esta Imanência é um Ser?

     Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se. Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flores tem consciência desse movimento enorme; a silena abre-se às 11 horas da noite e o hemerocale às 5 horas da manhã. Imprevisível regularidade.

     Em outras profundidades a gota de água faz-se mundo, o infusório pulula, a fecundidade gigante sai do animálculo, o imperceptível ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da imensidade manifesta-se; uma diatoméia produz em uma hora 1 milhar e 300 milhões de diatoméias.

     Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo! Está aí o irredutível.

     Constrange-se-nos à fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranquilo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. daí vêm as religiões. Nada é tão opressivo como uma crença sem delineamento.

     Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistência interior, olhar a sombra não é olhar, é contemplar.

     Que fazer desses fenômenos? Como mover-se debaixo de sua convergência? É impossível decompor esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confi-nantes misteriosos? Quantas revelações abstrusas, simultâneas, obscurecendo-se em sua própria multidão, espécie de balbuciar do verbo! A sombra é um silêncio; mas esse silêncio diz tudo. Surge majestosamente um resultado: Deus. Deus é a noção incompre-ensível. Essa noção está no homem. Os silogismos, as querelas, as negações, os siste-mas, as religiões passam por cima sem diminuí-la. A sombra inteira afirma aquela noção. Mas turva-se tudo o mais. A inexprimível harmonia das forças manifesta-se pelo equilíbrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem acidente e sem fratura. O homem participa deste movimento de translação e à quantidade de oscilação que suporta chama ele destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que diferença há entre um aconteci-mento e uma estação, entre um pesar e uma chuva, entre uma virtude e uma estrela? Uma hora não é uma onda? Continua o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassível. O céu estrelado é uma visão de rodas, de pêndulas e de contrapesos. É a contemplação suprema forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstração. Nada além daí. O homem sente-se preso. Fica à discrição da sombra. Não há evasão possível. vê-se ele naquele composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está fora dele. Isto é o anúncio sublime da morte. Que angústia e, ao mesmo tempo, que fascinação! Aderir ao infinito e por essa aderência atribuir-se uma imortalidade necessária, quem sabe? Uma eternidade possível sentir na prodigiosa vaga desse silêncio universal a obstinação insubmersível do eu! Contemplar os astros e dizer: Sou uma alma como vós!” Contemplar a obscuridade e dizer: “Sou um abismo como tudo.

     Essas enormidades são a noite.

     Tudo isso aumentado, pela solidão, pesava em Gilliatt.

     Compreendia-o ele? Não. Sentia-o? Sim.

     Gilliatt era um grande espírito turvado e um grande coração selvagem.

    

    Gilliatt coloca a pança em posição

     O salvamento da máquina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma verdadeira evasão e são conhecidas as pacientais da evasão. Também se conhecem as suas indústrias. A indústria chega ao milagre; a paciência atinge a agonia. Tal prisio-neiro, Thomas, por exemplo, no monte São Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou chumbo na Plataforma de passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundiu-o não se sabe com que fogo, vazou-o numa forma feita de migalhas de pão; com esse chumbo e essa forma fez uma chave e com essa chave abriu unia fechadura que ele apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha essas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé. Era o Trenk de um destroço e o Latude de uma máquina.

     O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.

     Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a. Refez com ela a sua provisão de água doce; mas a sede era inextinguível e Gilliatt esvaziava o pincel quase tão rapidamente como o enchia.

     Um dia, o último de abril, creio, ou o 1º de maio, tudo estava pronto. O assoalho da máquina estava como que metido entre os oito cabos das polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezesseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e à carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca e o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a máquina foi cortada em quadro e estava pronta para resvalar com a máquina sustentando-a. Todo esse grupo assustador só estava preso por uma corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate, a pressa era prudência.

     A maré estava baixa, o momento era bom.

     Gilliatt tinha conseguido desmontar a árvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstáculo e impedir aquele levantar de âncora. Tinha conseguido amarrar verticalmente a pesada peça na própria máquina.

     Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cansado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se impossível a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O fole começava a trabalhar mal. Como a pequena queda hidráulica era de água marinha, formaram-se depósitos salinos nas junturas do aparelho e impediam-lhe o jogo.

      Gilliatt foi à angra do Homem, passou revista à pança, assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e estibordo, levantou a âncora e remando voltou com a pança às duas Douvres.

     O intervalo das Douvres podia admitir a pança. Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar a pança até debaixo da Durande.

     A manobra era contudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessário entrar pela popa com o leme na proa. Era necessário que o mastro e os aparelhos da pança ficassem aquém do casco do vapor, do lado da entrada.

     Este agravo na manobra tornou a operação difícil ao próprio Gilliatt. Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puxar, remar e sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguiu.

     Em quinze ou vinte minutos a pança ficou colocada debaixo da Durande. Ficou quase atravessada. Gilliatt, por meio de duas âncoras, segurou a pança. A maior ficou colocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois, por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a pança as duas caixas, contendo as rodas desmontadas, cujos cabos de guindar estavam prontos. As duas caixas fizeram lastro.

     Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.

     Para a obra de Gilliatt os defeitos da pança tornavam-se qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na proa, muito na proa talvez, o carregamento achava mais facilidade e, o mastro ficava fora da máquina, de modo que nada impedia a saída; era uma espécie de concha, e nada mais estável e sólido no mar como uma concha.

     De repente Gilliatt viu que a maré enchia. Tratou de ver donde soprava o vento.

    

    Surge um perigo

     Havia pouca brisa, mas vinha do oeste. É um mau costume do vento no equinócio.

     A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquele corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a água é boa e mole, se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra, tem pouco alento, enquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atlântico, traz consigo o sopro da imensidade. Mesmo quando a brisa é fraca assusta quando vêm do oeste. Rola largas ondas da extensão ilimitada e cospe grossas vagas no estreito.

     A água que se engolfa é sempre terrível. A água é como a multidão; uma multi-dão é um líquido; quando a quantidade que pode entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a água convulsiona-se. Enquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, há nas Douvres Este assalto duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando à força, salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viela. De modo que as Douvres, ao menor vento do oeste, oferecem Este espetáculo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circunscrito não é uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrível. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso lembrá-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temível do oeste fica na extremidade oposta exatamente entre as duas Douvres.

     Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e a pança ancorada.

     Parecia inevitável uma catástrofe, esta catástrofe iminente tinha embora pouco, o vento de que precisava.

     Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta, no estreito das Douvres. As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atlântico que teria atrás de si a totali-dade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão que, partindo da América par a chegar à Europa, tinha 2 000 léguas de jato. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiato do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstáculo, repelida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violência ao escolho, penetraria, com todas as torções do obstáculo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria a pança e a Durande, e as estrangularia.

     Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.

     Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, prevenir a compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupção pela introdução, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquela fúria a ser tranquila. Era preciso substituir ao obstáculo que irrita, o obstáculo que aplaca.

     Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando uma manobra de cabrito-montês na montanha ou de macaco na floresta, utilizando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliência de pedra, pulando na água, nadando nos redemoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martelo na mão, desatou o cabo que prendia à pequena Douvre o pedaço da amurada de proa da Durande, fez com as pontas da maroma uma espécie de gonzos prendendo aquele pedaço de madeira aos grandes pregos metidos no granito, fez voltar naqueles gonzos aquela armadura de tábuas semelhante ao alçapão de um dique, expo-lo em flanco, como se faz com um leme, à onda que impelia, e aplicou essa extremidade à grande Douvre, enquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de pregos, postos de antemão, a mesma fixação que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte numa couraça e, em menos de uma hora, levantou-se o obstáculo contra a maré, e a viela do escolho ficou fechada como por uma porta.

     Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de pé uma parede, foi, com auxílio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quase que a coisa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.

     Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que ele dirigia à vaga do mar, cada vez que esquivava um naufrágio: “Apanhei-te, inglês!” Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-o inglês.

     Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da pança. Dividiu o cabo nas duas âncoras para que ela pudesse subir com a maré. Operação análoga a que os antigos marítimos chamavam: mouiller avec des embossures. (Molhar com as regeiras (N. Ed.)

     Em tudo isso Gilliatt não foi surpreendido, o caso estava previsto; um homem do ofício reconhecê-lo-ia vendo as duas roldanas de guindar metidas por trás da pança, nas quais passavam dois pequenos cabos cujas pontas estavam presas às argolas das duas âncoras.

     Entretanto, crescia a maré; já subira a metade; é nesse momento que os choques das ondas, mesmo plácidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinara realizou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava e passava por cima. Fora era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt imaginou alguma coisa semelhante às forcas caudinas do mar. A maré estava vencida.

    

    Mais peripécia que desenlace

     Chegara o tremendo instante.

     Tratava-se agora de por a máquina na pança.

     Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovelo do braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda.

     Depois subiu à Durande, cuja metade, que era a máquina, devia sair e cujo casco devia ficar.

     Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda, bastou-lhe a faca.

     As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.

     Do navio subiu ele ao aparelho que construíra, bateu com o pé em todas as pranchas, examinou as roldanas, viu as polés, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.

     Grave, sentindo somente a comoção útil, lançou um último olhar ao aparelho, depois tomou uma lima e pôs-se a cortar a corrente que sustentava tudo.

     Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmúrio do mar.

     A corrente do cabrestante, presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da mão de Gilliatt.

     De repente, houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por metade, tinha-se quebrado; todo o aparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.

     A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retesaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abriu-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da máquina, pesando sobre os cabos, apareceu debaixo da quilha.

     Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mão terrível estava lá; foi apenas uma descida.

     Quando o irmão de Jean Bart, Pierre Bart, aquele bêbado possante e sagaz, aquele pobre pescador de Dunquerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron, perdida na baía de Ambleteuse, quando, para tirar aquela pesada massa flutuante dos cachopos da baía furiosa, amarrou a vela grande com juncos marinhos, quando ele quis que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vela ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fratura da corrente, foi a mesma estranha audácia coroada pela mesma vitória surpreendente.

     A corda motora, segura por Gilliatt, operou admiravelmente. Devem lembrar-se de que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um movimento de conjunto. Aquela corda tinha alguma relação com uma bolina; somente em vez de orientar uma vela, equilibrava um maquinismo.

     Gilliatt, de pé e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão no pulso do aparelho.

     Aqui a invenção de Gilliatt manifestou-se toda.

     Produziu-se uma notável coincidência de forças.

     Enquanto a máquina da Durande separada em massa, descia para a pança, a pança subia para a máquina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se. Poupava-se, deste modo, metade do trabalho.

     A maré, enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do maquinismo.

     A vaga subindo, levantava a pança sem choque, brandamente, quase com precaução e como se ela fosse de porcelana.

     Gilliatt combinava e proporcionava os dois trabalhos, o da água e do aparelho, e, imóvel, no cabrestante, espécie de estátua temível, obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.

     Nenhum abalo na água, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha colaboração de todas as forças naturais dominadas. De um lado a gravitação levava a máquina; do outro a maré trazia o barco. A atração dos astros, que é o fluxo, e a atração do globo, que é a gravidade, pareciam harmonizar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma, aquelas duas potências passivas tornavam-se ativas auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervalo entre a pança e a Durande diminuía insensivelmente. Fazia-se a aproximação em silêncio e com uma espécie de terror pelo homem que estava ali. O elemento recebia uma ordem e executava-a.

     Quase no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem comoção; as roldanas pararam. A máquina, como se fosse colocada a mão, assentou-se no fundo da pança. Estava direita, de pé, imóvel, sólida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro ângulos e a prumo no porão.

     Estava pronto.

     Gilliatt olhou atônito.

     A pobre criatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentiu o alquebra-mento de uma imensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triunfo, ele que não se perturbara até então, começou a tremer.

     Contemplou a pança debaixo do navio e a máquina dentro da pança. Parecia não acreditar. Dissera-se que ele não contava com aquilo. Saíra-lhe um prodígio das mãos, e ele contemplava-o com espanto.

     Mas esse espanto durou pouco.

     Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pança apenas uns 10 pés, deu um salto, caiu dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão e prendeu-se por ambos os lados da pança as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na armirada da Durande.

     Amarrada ao cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da máquina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda ali estava preso. Gilliatt despregou-o e limpou a pança daquela porção de tábuas e vergas que atirou sobre os rochedos. útil alívio.

     Demais, como é de prever, a pança sustentou com firmeza a carga da máquina. Mergulhou muito pouca coisa. A máquina da Durande, embora maciça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazido outrora de Herin pela pança.

     Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.

    

    Interrompe-se o êxito

     Nem tudo estava acabado.

     Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da armirada da Durande, e levar imediatamente a pança para fora do escolho, nada mais claro do que isto.

     No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bela tarde prometia uma bela noite. O mar era de rosas, mas o refluxo começava; excelente momento para partir. Gilliatt teria a vazante para sair das Douvres, e a enchente para entrar em Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.

     Mas apresentou-se um obstáculo inesperado. Houve uma lacuna na previdência de Gilliatt.

     A máquina estava livre, o cano estava preso.

     A maré, aproximando a pança da Durande, tinha diminuído os perigos da descida; mas essa diminuição do intervalo deixou a parte superior do cano metida na espécie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.

     O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.

     È verdade que aquilo que a enchente fizera ia desfazê-lo a vazante.

     O cano, tendo mais de 3 toesas, de altura, tinha uns 8 pés metidos na Durande; o nível da água aí baixaria 12 pés; o cano, descendo com a pança, teria 4 pés de espaço acima de si, e poderia sair.

     Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.

     Daí a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sair àquela hora, que canal tomaria através daqueles cachopos, já tão inextricáveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?

     Era força esperar até o dia seguinte. Aquelas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.

     Era mesmo necessário não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré próxima.

     Gilliatt devia repousar.

     Cruzar os braços era a única coisa que ele não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.

     Irritou-o, indignou-o quase, como se fosse culpa dele, aquele descanso. Disse consigo: “Que pensaria de mim Déruchette se me visse aqui sem fazer nada?”

     Contudo, não lhe era inútil refazer as forças.

     Estando a pança à sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite a bordo.

     Foi buscar a pele de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou três castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os últimos goles da água doce do pichel quase vazio, embrulhou-se na pele cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da máquina, abaixou o chapéu sobre os olhos e adormeceu.

     Dormiu profundamente. Tem-se daqueles sonos depois das obras acabadas.

    

    As advertências do mar

     No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.

     Abriu os olhos.

     As Douvres, acima da cabeça dele, estavam iluminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.

     Donde vinha o fogo?

     Da água.

     O mar estava extraordinário.

     Parecia que a água incendiava-se. Onde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flamejava o oceano. Não era uma flama vermelha; não se parecia com a grande flama viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruído. Rastilhos azulados imitavam na água as dobras de uma mortalha. Um grande clarão lívido estremecia na água. Não era incêndio; era o espectro dele.

     Era uma coisa semelhante ao abrasamento lívido do interior de um sepulcro por uma chama ideal.

     Imaginai trevas acesas.

     A noite, a vasta noite turva e difusa, parecia ser um combustível daquele fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquela luz fantasma.

     Os marinheiros da Mancha conhecem todas essas indescritíveis fosforescência, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surpreendentes do que no Grande V, perto de Isigny.

     Diante desta luz as coisas perdem a realidade. Uma penetração fantástica torna-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das âncoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo da água. Metade do remo é de ébano, a outra metade debaixo da água é de prata. Os pingos da água que caem dos remos fazem estrelas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sai calçada de chama: é uma chama morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vêem-se as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas. A espuma cintila. Os peixes são línguas de fogo e uns pedaços de relâmpago serpenteiam naquela pálida profundidade.

     Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as pálpebras fechadas.

     Acordou a tempo.

     A maré tinha descido; começava a encher de novo.

     O cano da máquina, solto durante o sono de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.

     Subia lentamente.

     Mais palmo e meio, e o cano estaria dentro da Durande.

     Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt, se quisesse aproveitar a ocasião, tinha essa meia hora diante de si.

     Levantou-se sobressaltado.

     Por mais urgente que fosse a situação, ele não pode deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a fosforescência e meditando.

     Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por ele, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt.

     Aquele ente misterioso que se chama oceano não podia ter nenhuma idéia que Gilliatt não a adivinhasse. Gilliatt, à força de observação, de cisma e de solidão, tornara-se um vidente do tempo, aquilo que se chama, em inglês, um wheater wise.

     Gilliatt correu às amarras e guindou-as; depois, já não estando retido pelas âncoras, travou do croque da pança e, apoiando-se nas rochas, afastou-a para fora algumas braças distante da Durande perto do tapamento de tábuas. Havia rang, como dizem os marítimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pança estava fora do casco. Já não havia receio de que o cano pudesse ficar preso.

     Entretanto, Gilliatt não se mostrava disposto a partir.

     Contemplou ainda a fosforescência e levantou as âncoras; mas não era para navegar, era para ancorar de novo a pança, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.

     Até então só tinha usado das duas âncoras da pança, e não tinha ainda empre-gado a pequena âncora da Durande, achada, como se sabe, nos cachopos. Essa colocou-a ele, pronta para as urgências, num canto da pança entre marramos e polés, e juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira âncora, tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da âncora, ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pança com três âncoras, o que era mui forte. Indicava isto uma viva preocupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria, nessa operação, alguma coisa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando há a requeira uma corrente que possa fazer garrar o navio.

     A fosforescência sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo, servia-o. Se não fosse ela, Gilliatt era prisioneiro do sono e vítima da morte. Ela não só o despertou, senão que o alumiava também.

     Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe útil porque tornou-lhe o perigo visível e a manobra possível.

     Agora, quando Gilliatt quisesse abrir vela, a pança, carregando a máquina, estava livre.

     Somente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pança, foi ele buscar a mais forte corrente que tinha no depósito e prendeu-a nos pregos metidos nas duas Douvres, fortificou com ela o baluarte de vergas e barrotes já protegido pelo lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.

     A fosforescência ainda iluminava, mas ia diminuindo. È verdade que o dia começava a romper.

     De repente, Gilliatt prestou ouvidos.

    

    Para um bom entendedor, meia palavra basta

     Pareceu-lhe ouvir, imensamente longe, um que de fraco e indistinto.

     As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.

     Gilliatt atentou pela segunda vez. O rumor longínquo recomeçou. Gilliatt sacu-diu a cabeça como quem sabia o que era.

     Momentos depois, estava ele na outra extremidade da viela do escolho, na entrada de leste, livre até ali, e com grandes marteladas meteu grossos pregos no granito dos portais daquela abertura vizinha do rochedo Homem.

     Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quase tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pode meter aí mais pregos ainda que no esvazamiento das Douvres.

     Num momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a fosforescência apagou-se; o crepúsculo, cada vez mais luminoso, substituía-a.

     Metidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e, sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrair um momento, começou a construir na abertura do Homem, com tábuas fixadas horizontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de clarabóia, que a ciência já adotou, e qualifica de quebra-mar.

     Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-d’eau na França, o efeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, compreendem a força desses trabalhos símplices. O quebra-mar é a combinação daquilo que na França se chama epi e daquilo que na Inglaterra se chama dick. O quebra-mar são os cavalos de frisa das fortificações contra as tempestades. Não se pode lutar contra o mar senão aproveitando a divisibilidade dessa força.

     Entretanto, levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.

     Gilliatt apressava o trabalho. Também ele estava calmo, mas na sua pressa havia ansiedade.

     Passava, em grandes pulos, de rocha em rocha, do tapamento ao depósito e do depósito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquele depósito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.

     Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.

     O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento que uma construção. Quem não viu trabalhar um portageiro militar não pode fazer idéia daquela rapidez.

     A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas 5 ou 6 pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais sólida e podia ser mais simples. Bastavam, pois, vigas horizontais; as peças verticais eram inúteis.

     Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.

     O rugido tornava-se expressivo.

     Gilliatt continuou a construção. Acrescentou-lhe dois cepos da Durande ligados às pontas das vigas com driças passadas nas três rodas das polés. Ligou tudo com correntes.

     Essa construção era nada menos que uma espécie de grade colossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.

     Parecia entrançado como parecia construído.

     Gilliatt multiplicou os laços e pós mais pregos onde era preciso.

     Tendo muito ferro redondo na Durande, pôde fazer uma grande provisão desses pregos.

     Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando biscoito. Tinha sede, mas não podia beber, por já não ter água Esgotara o pichel na noite anterior.

     Acrescentou ainda quatro ou cinco tábuas, depois trepou em cima de tudo. Escutou.

     Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.

     O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigais que lhe dirigem os burgueses quando estão contentes com ele - um espelho, um mar de rosas, um tanque, um mar de leite. O azul profundo do céu correspondia ao verde profundo do oceano. Aquela safira e aquela esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma embaixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de abril. Era impossível ver mais belo dia.

     No extremo horizonte uma fila negra de aves de arribação que atravessavam o céu. Iam depressa. Dirigiam-se para a Parecia uma fuga.

     Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.

     Ao meio-dia, o sol pareceu-lhe mais quente do que devia estar. Meio-dia é a hora crítica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clarabóia que acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.

     O mar estava mais que tranquilo, estava estagnado. Não se via uma vela. O céu estava límpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horizonte, a oeste, havia uma manchazinha de aparência ruim. Essa mancha estava imóvel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.

     Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.

     Aproximava-se uma tempestade.

     O abismo resolvera dar batalha.

 

A Luta

    O extremo toca o extremo  e o contrário anuncia o contrário

     Nada tão ameaçador como o equinócio que retarda.

     Há no mar um fenômeno medonho que se pode chamar a chegada dos ventos do largo.

     Em todas as estações, especialmente na época das sizígias, no momento em que menos se espera, o mar apresenta uma súbita e estranha tranquilidade. Aplaca-se aquele prodigioso movimento contínuo; cai em madorna e languidez; parece que vai descansar; crer-se-ia que está fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flâmulas de pesca, até às insígnias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhões almirantes, reais, imperiais, dormem todos.

     De repente esses panos começam a mexer-se discretamente.

     É a hora, se há nuvens, de espreitar a formação dos cirros; se o sol se põe, é a hora de examinar a cor da tarde; se é de noite e há luar, é a hora de estudar as auréolas planetárias.

     Nessa hora, o capitão ou chefe de esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade, cujo inventor não se conhece, observa o vidro com o microscópio e toma as suas precauções contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de açúcar fundido; e contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em cristalizações semelhantes aos tufos de ervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter consultado o gnomo misterioso gravado pelos romanos, ou pelos demônios, numa dessas estreitas pedras enigmáticas que na Bretanha se chamam menires, e na Irlanda cruachs, o pobre pescador irlandês ou bretão retira a sua barca do mar.

     Persiste entretanto a serenidade do céu e do oceano. A manhã rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de religioso horror os antigos poetas e os antigos adivinhos, assustados de que se pudesse crer na deslealdade do sol. Solem quis dicere falsum audeat?

     A sombria visão do possível latente é interceptada ao homem pela opacidade fatal das coisas. O mais temível e o mais pérfido aspecto é a máscara do abismo.

     Diz-se: anguis in herba; devia dizer-se: borrasca na calma.

     Assim se passam horas e, às vezes, dias. Os pilotos assestam os seus óculos. O rosto dos velhos marinheiros tem um ar de severidade que se prende à cólera secreta da expectação.

     De súbito ouve-se um grande murmúrio confuso. Há uma espécie de diálogo misterioso no ar.

     Não se vê coisa alguma.

     A extensão fica impassível.

     Entretanto o rumor cresce, engrossa, eleva-se. Acentua-se o diálogo.

     Há alguém por trás do horizonte.

     Pessoa terrível essa, é o vento.

     O vento, isto é, a população de titãs que chamamos Tufões.

     Imensa plebe da sombra.

     A Índia chamava-os Morouts, a Judéia Querubins, a Grécia Aquilões. São os invisíveis pássaros ferozes do infinito. Esses Bóreas precipitam-se.

    

    Os ventos do largo

     Donde vêm eles? Do incomensurável. Os seus grandes vôos exigem o diâmetro do golfão. As suas asas desmedidas precisam das solidões indefinidas. O Atlântico, o Pacífico, essas vastas aberturas azuis, eis o que lhes convém. Fazem-nas sombrias. Voam em bandos. O Comandante Page viu de uma vez, no mar alto, sete trombas a um tempo. Aí são medonhas. Premeditam os desastres. Têm por trabalho deles, inturmes-cimento efêmero e eterno dos vagalhões. Ignora-se que eles podem, desconhece-se o que eles querem. São a esfinges do abismo; e Vasco da Gama é o seu Édipo. Faces de nuvens aparecem nessa obscuridade da extensão sempre em movimento. Quem descobre os seus lineamentos lívidos nessa dispersão que é o horizonte do mar sente-se em presença da força irredutível. Dissera-se que a inteligência honraria os assusta, e eriçam-se contra ela. A inteligência é invencível, mas o elemento é indomável. Que fazer contra a ubiquidade que se não sujeita! O vento faz-se massa e torna-se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se esvaindo-se. Quem depara com eles só pode lançar mão de expedientes. Eles frustram-nos pelo assalto diverso e repercutido. Tanto atacam como fogem. São os impalpáveis tenazes. Como vencê-los? A proa do navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo proa e piloto, costumava falar-lhes. Eles maltratavam aquela proa deusa. Cristóvão Colombo, vendo-os vir de encontro à Pinta, subiu ao tombadilho e dirigiu-lhes os primeiros versículos do Evangelho de São João. Surcouf insultava-os. “Aí vêm a pandilha”, dizia ele. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Eles tem a ditadura do caos.

     Têm o caos. Que fazem dele? Fazem uma coisa implacável. A cova dos ventos é mais monstruosa que a cova dos leões. Quantos cadáveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas eles não ouvem a ninguém. Cometem coisas que parecem crimes. Não se sabe sobre quem atiram eles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade ímpia no naufrágio! Que afronta à Providencia! Às vezes parecem que cospem em Deus. São os tiranos dos lugares desconhecidos. “Luoghi spaventosi”, murmuravam os marinheiros de Veneza.

     Os espaços trêmulos suportam os seus ataques. È inexprimível o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se à sombra um elemento equestre. O ar faz um rumor de floresta. Não se vê nada, mas ouve-se um ruído de cavalos. É meio-dia, de súbito anoitece; passa um tornado; é meia-noite, de repente esclarece, acende-se o eflúvio polar. Alternam em sentido inverso os turbilhões, espécie de dança hedionda, tripúdio dos flagelos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaços vão precipitar-se no mar. Outras nuvens, purpureadas, iluminam e roncam, depois escurecem lugubremente; a nuvem, esvaziada de raio, é carvão apagado. Sacos de chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As nuvens do mar debaixo do aguaceiro iluminam surpreendentes quadros; desfiguram-se espessuras onde se reproduzem as semelhanças. Monstruoso umbigo vai rompendo as nuvens. Volteiam os vapores, saracoteiam as vagas; rolam embriagadas as náiades; a perder de vista, o mar maciço e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se; tudo é lívido; desesperados gritos sobem desse palor.

     No fundo da obscuridade inacessível tremem grandes germes de sombra. De quando em quando há paroxismo. O rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horizonte, superposição confusa de vagas, oscilação sem fim, murmura continuamente; ali arrebentam estranhamente uns arremessos de fracasso; parece-se ouvir as hidras espirrando; sopram hálitos frios, seguem-se hálitos quentes. A trepidação do mar anuncia um medo que tudo espera. Inquietação. Angústia. Terror profundo das águas. Subitamente, o furacão, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo inaudito, a água sobe para a boca invisível, forma-se uma ventosa, incha o tumor; é a tromba, o Prester dos antigos, estalactite em cima, estalaginite embaixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra, beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a coluna da Bíblia, é tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o trovão. Parece que tem medo.

     Há uma escala, na vasta turvação das solidões; temível crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lira do vento, as sete notas do abismo. O céu é uma largura, o mar é um arredondado; passa um vento, já não há nada disso, tudo é fúria e confusão.

     Tais são aqueles severos sítios.

     Os ventos correm, voam, abatem-se, expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: frenéticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascível. Tem harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céu. Sopram nas nuvens corno num metal; embocarra o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma espécie de tangeres prometemos. Quem os ouve, ouve Pá. O que mais assusta é vê-los assim. Tem uma colossal alegria composta de sombra. Fazem nas solidões a batida dos navios. Sem tréguas, noite e dia, em todas as estações, no trópico, corno no pólo, tocando a trombeta delirante, vão eles, por meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caça negra dos naufrágios. São os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que são os seus cães, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam, como se tivessem milhões de mãos, a flexibilidade da água imensa.

     A água é inflexível porque é incompreeensível. Resvala debaixo do esforço. Apertada por um lado, escapa por outro. É assim que a água se faz onda. A vaga é a sua liberdade.

    

    Explicação do rumor ouvido por Gilliatt

     A grande aproximação dos ventos para a terra faz-se nos equinócios. Nessas épocas o grande balanço do trópico e do pólo e a colossal maré atmosférica derramam o seu fluxo em um hemisfério, e o refluxo em outro. Há constelações que significam esses fenômenos. Libra e Aquário. É a hora das tempestades mar espera silencioso.

     Às vezes o céu tem feio aspecto. Fica baço, e como que coberto por um grande pano obscuro; os marinheiros contemplam ansiosos o ar oprimido de sombra.

     Mas o que eles temem é o ar alegre. Céu risonho no equinócio é a tempestade com pés de lã. Com céus desses, a Torre das Carpideiras de Amsterdã enchia-se de mulheres que examinavam o horizonte.

     Quando se demora a tempestade invernal ou outonal é que está ajuntando uma massa ainda maior. Entesoura para destruir. Desconfia da acumulação de juros. Ango dizia: “O mar é bom pagador”.

     Quando a demora é demasiado longa, o mar trai a sua impaciência pela calma. Somente a tensão magnética se manifesta naquilo que se pode chamar a inflamação da água. Rompem clarões da vaga. Ar elétrico, água fosfórica. Os marinheiros sentem-se estafados. É uma hora especialmente perigosa para os encouraçados; o casco de ferro pode produzir falsas indicações da bússola e perdê-los. Assim pereceu o paquete transatlântico Yowa.

     Para os que estão familiarizados com o mar, o seu aspecto nesses momentos é estranho; dissera-se que o mar deseja e receia o ciclone. Certos himeneus, aliás impos-tos pela natureza, são acolhidos assim. A leoa desejosa foge diante do leão. Também a água tem o seu calor, e daí lhe vêm o estremecimento.

     Vai realizar-se o imenso consórcio.

     Este consórcio, como as núpcias dos antigos imperadores, celebra-se com exterminações. È uma festa temperada de desastres.

     Atenção, aí vêm o fato equinocial.

     Conspira a tempestade. A velha mitologia entrevia essas personalidades indis-tintas misturadas à grande natureza difusa. Eolo harmoniza-se com Bóreas. O acordo do elemento com o elemento é necessário. Distribuem entre si a tarefa. Há impulsões para a vaga, para a nuvem, para o eflúvio; a noite é um auxiliar; deve ser empregada. Há bússolas para desviar, faróis para apagar, estrelas para esconder. É preciso que o mar coopere. Todas as tempestades são precedidas de um murmúrio. Por trás do horizonte há o cochicho prévio dos furacões.

     É o que se ouve, na obscuridade, ao longe, por cima do silêncio assustado do mar.

     Gilliatt ouviu esse cochichar tremendo. A fosforescência foi a primeira adver-tência; o rumor foi a segunda.

     Se existe o demônio Legião, esse demônio é o vento, com certeza.

     O vento é múltiplo, mas o mar é um.

     Daí esta consequência: toda tempestade é mista. A unida de ar o exige.

     Abismo implica tempestade. O oceano inteiro borrasca. A totalidade das suas forças entra em linha e torna parte nela. Uma vaga é o golfão de baixo; um tufão é o golfão de cima. Lutar com uma tempestade é lutar com o mar inteiro e o céu inteiro.

     Messier, o homem da marinha, o astrônomo pensativo da choça de Cluny, dizia: “O vento de toda a parte está em todas as partes”. Ele não acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares fechados. Para ele não havia ventos mediterrâneos. Dizia que os conhecia na passagem. Que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constança, o antigo Favonio de Lucrécio, atravessara no horizonte de Paris; em outro dia era o Bora do Adriático; em outro era o Noto giratório que se pretende estar encerrado nas Cícladas. Especificava os eflúvios. Não pensava que o vento que gira entre Malta e Túnis e o vento que gira entre a Córsega e as Baleares estivessem na impossibilidade de se libertarem. Não admitia os ventos, como ursos, fechados em jaula. Dizia: “Todas as chuvas vêm do trópico, e todos os raios do pólo”. O vento, com efeito, satura-se de eletricidade na intercessão dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da água no equador; traz-nos da linha o líquido e dos pólos o fluido.

     Ubiquidade é o vento.

     Não quer isto dizer que não existam as zonas dos ventos. Nada mais demons-trado que as correntes contínuas, e dia virá em que a navegação aérea, servida pelos navios do ar (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aeróscafos, utilizará as linhas principais. A canalização do ar pelo vento é incontestável: há rios de vento, ribeiros de vento, riachos de vento; somente ao invés das ramificações da água, são os riachos que saem dos ribeiros, e os ribeiros que saem dos rios, em vez de serem afluentes: em vez de concentração, dispersão.

     Essa disposição é que faz a solidariedade dos ventos e a unidade da atmosfera. Uma molécula deslocada desloca outra molécula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas do amálgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosfera com todas as suas montanhas, fazendo nós e torções nas carreiras do vento e determinando em todos os sentidos as contracorrentes. Irradiação ilimitada.

     O fenômeno do vento é a oscilação de dois oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de água, apoia-se nessa fuga e vacila nessa vacilação.

     O indivisível não usa compartimentos. Não há tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem o empurrão do cabo da Boa Esperança. A navegação universal faz frente a um monstro único. Todo o mar é uma só hidra. As vagas cobrem o mar de uma espécie de escama. Oceano é Ceto.

     Nessa unidade abate-se o inumerável.

    

    “Turba, turma“

     Para a bússola há 32 ventos, isto é, 32 direções; mas essas direções podem subdividir-se indefinidamente. O vento, classificado por direções, é o incalculável; classificado por. espécie, é o infinito.

     Homero recuaria ante esse recenseamento.

     A corrente polar roça na corrente tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilíbrio começa pelo choque, sai a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A dispersão dos tufões sacode nos quatro cantos do horizonte o prodigioso esgadelhado do ar.

     Aí estão todos os rumos; o vento da Gulf Stream, que despeja tanta névoa na Terra Nova; o vento do Peru, região de céu mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Escócia, onde voa o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os turbilhões de Ferro dos mares da China; o vento de Moçambique que maltrata os juncos; o vento elétrico do Japão denunciado pelo gongo; o vento da África que habita entre a montanha da Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadeia daí; o vento do equador que passa por cima dos ventos regulares, e traça uma parábola cujo cimo fica a oeste; o vento plutonico que sai das crateras e que é o temível sopro das chamas; o estranho vento próprio do vulcão Awu que faz sempre surgir do norte uma nuvem azeitonada; a monção de Java, contra a qual estão construídas aquelas casamatas chamadas casas do furacão; a brisa ramificada que os ingleses chamam busk, bebida; os grãos arqueados do estreito de Malaca observados por Horsburgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampeiro no Chile, e Rebojo em Buenos Aires, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o esperava, debaixo de uma pele de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de costas e retesando o arco com os pés; o vento químico que, segundo Lemery, faz nas nuvens pedras de trovoadas; o Harmattan dos cafres; o sopra-neves polar, que se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golfo de Bengala, que vai até Nijnii-Novogorod devastar o triângulo das barracas de pau onde se faz a feira da Ásia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das grandes florestas; o vento dos arquipélagos da Austrália onde os caçadores de mel arrancam as colmeias silvestres escondidas nos galhos do eucalipto gigante; o siroco; o mistral; o hurricane; o vento de seca; os ventos de inundação; os diluviados; os tórridos; os que lançam nas ruas de Gênova a poeira das planícies do Brasil; os que obedecem à rotação diurna; os que a contrariam e fazem dizer a Herrera: “Malo viento torna contra el sol”, os que vão aos pares, para destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aqueles ventos antigos que assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde 21 de outubro a 28 de novembro de 1520, puseram em questão Magalhães abordando O Pacífico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Filipe II.

     Outros ventos mais, e como achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de vento, e que tem por tarefa acabar com os náufragos; os que, com um sopro único, deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os ventos que constróem os circum-cúmulos; os ventos que constróem os Circum-estratos; pesados ventos cegos, túmidos de chuva; os ventos do granizo; os ventos da febre; os ventos cuja aproximação faz ferver os salsos e os solfatários da Calábria; os ventos que fazem brilhar o pelo das panteras da África andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vêm sacudindo fora da sua nuvem, como uma língua trigonocéfala, o temível relâmpago de forquilha; os que trazem neves negras. Tal é o exército.

     O escolho Douvres, no momento em que Gilliatt construía o quebra-mar, ouvia-lhes o galope longínquo.

     Já o dissemos, o vento compõe-se de todos os ventos.

     Acercava-se toda aquela horda.

     De um lado, essa legião.

     Do outro, Gilliatt.

    

    Gilliatt pode escolher

     As misteriosas forças escolheram bem o momento.

     O acaso, se é que existe, é hábil.

     Enquanto a pança esteve guardada na angra do Homem, enquanto a máquina esteve metida no casco da Durande, Gilliatt foi inexpugnável. A pança estava em segurança, a máquina estava abrigada; as Douvres, que sustentavam a máquina, condenavam-na a uma destruição lenta, mas protegiam-na contra uma surpresa. Em todos os casos, ficava a Gilliatt um recurso. A máquina destruída não destruía a Gilliatt. Tinha a pança para salvar-se.

     Mas esperar que a pança estivesse fora do ancoradouro, onde era inacessível, deixá-la por entre as Douvres, esperar que ela lá estivesse presa também pelo escolho, consentir que Gilliatt operasse o salvamento e o transporte da máquina, não impedir esse maravilhoso trabalho, consentir nesse triunfo, esse era o laço. Via-se agora, como uma espécie de lineamento sinistro, a sombria astúcia do abismo.

     Agora, a máquina, a pança, Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A pança esmigalhada no escolho, a máquina metida a pique, Gilliatt, afogado, era negócio de um esforço único num só ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo tempo, e sem dispersão; tudo podia ser destruído de um lance.

     Não há situação mais crítica do que a de Gilliatt.

     A esfinge possível, que os sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe Este dilema.

     Fica ou parte.

     Partir era insensato, ficar era medonho.

    

    O combate

     Gilliatt trepou à grande Douvre.

     Daí via todo o mar.

     Era surpreendente o oeste. Saía dele uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extensão, subia lentamente do horizonte para o zênite. Essa muralha retilínea, vertical, sem um rombo no alto, sem um rasgão na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era a nuvem semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na extremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e oferecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a cimalha deixasse um instante de ser paralela à linha do horizonte, quase indistinta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma só peça e silenciosamente. Nenhuma ondulação, nenhuma dobra, nenhuma saliência. Era lúgubre aquela imobilidade em movimento. O sol, lívido por trás de uma certa trans-parência mórbida, alumiava aquele lineamento de apocalipse. A nuvem invadia já quase metade do espaço. Dissera-se o medonho talude do abismo. Era um como que levantar de montanha de sombra entre a terra e o céu.

     Era, em pleno dia, a ascensão da noite.

     Havia no ar um calor de fogão. Uma lixívia de estufa saía daquele amontoado misterioso. O céu, que de azul tornara-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardósia. Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ardósia enorme. Nem um sopro, nem um rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os pássaros tinham-se escondido. Sentia-se a traição do infinito.

     O crescimento de toda aquela sombra amplificava-se insensivelmente.

     A montanha movediça de vapores que se dirigia para a Douvres era uma dessas nuvens que se podem chama nuvens de combate. Nuvens vesgas.

     Temível era a aproximação.

     Gilliatt examinou firmemente a nuvem e murmurou entre dentes: “Tenho sede, vais dar-me água”.

     Ficou alguns momentos imóvel com os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.

     Tinha o barrete no bolso, tirou-o e pô-lo na cabeça. Tirou do buraco onde por tanto tempo dormira o fato de reserva, e vestiu tudo, grevas e capotão, como um cava-lheiro veste a armadura para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os pés descalços tinham-se endurecido nos rochedos.

     Preparado o vestuário de guerra, contemplou ele o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de nós, desceu da plataforma das Douvres, tomou pé nas rochas de baixo, e correu ao depósito. Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pode ouvir-lhe os sons do martelo. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos pregos, cordas e vigas, construía na abertura de leste uma segunda porta de 10 a 12 pés por trás da primeira.

     Profundo era o silêncio. Os talos de erva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.

     Subitamente, o sol desapareceu. Gilliatt levantou a cabeça.

     A nuvem ascendente acabava de atingir o sol. Foi como que uma extinção da luz substituída por uma reverberação mesclada e pálida.

     A muralha de nuvens mudara de aspecto. Já não tinha unidade. Encrespara-se horizontalmente tocando o zênite, pendendo em todo o resto do céu. Tinha agora divisões. A formação da tempestade desenhava-se como uma seção dividida. Distin-guiam-se as camadas da chuva e os jazigos do granizo. Não havia relâmpago mas um horrível clarão espesso; porque a idéia do horror pode ligar-se à idéia da luz. Ouvia-se o vago respirar da tempestade. Aquele silêncio palpitava obscuramente. Gilliatt, também silencioso, via agruparem-se por cima dele todos aqueles montões de bruma e compor-se a deformidade das nuvens. No horizonte pesava e estendia-se uma faixa de nevoeiro cor de cinza, e no zênite uma faixa cor de chumbo; lívidos farrapos pendiam das nuvens de cima sobre os nevoeiros de baixo. O fundo, que era a parede de nuvens, estava baço, leitoso, térreo, lívido, indescritível. Uma delgada e alvacenta nuvem transversal, vinda não se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar. No ponto em que tocava na compressão das nuvens, via-se na obscuridade um abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem pálida, pequenas nuvens, mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras, como se não soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes a um tempo, aumentava o eclipse, e continuava a sua interposição lúgubre. A leste, por trás de Gilliatt, havia apenas um portal de céu claro que ia ser fechado. Sem a menor impressão de vento, passou uma estranha difusão de penugem cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum pássaro gigantesco acabasse de ser depenado por trás daquele muro de tenebras. Formou-se um teto de negrume compacto que, no extremo horizonte, tocava no mar e misturava-se na noite. Sentia-se alguma coisa que se avançava. Era vasta e pesada e medonha. A obscuridade tornava-se mais espessa. De súbito, roncou imenso trovão.

     Gilliatt sentiu o abalo. Há sonho no trovão. Essa realidade brutal na região visio-nária tem alguma coisa de terrífico. Acredita-se ouvir a queda de um móvel no aposento dos gigantes.

     Nenhum flamejar elétrico acompanhara o som. Foi um trovão negro. Voltou o silêncio. Houve uma espécie de intervalo como quando se toma posição. Depois um após outro, e lentamente, romperam-se informes relâmpagos. Eram todos mudos. Nem um rugido. Cada relâmpago iluminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nela abóbadas e arcarias. Viam-se traços. Esboçavam-se monstruosas cabeças; distendiam-se pescoços; entreviam-se e desapareciam elefantes carregados de torres. Uma coluna de bruma, reta, redonda, negra, com uma fumaça branca em cima, simulava o cimo de um vapor colossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam toalhas de nuvem. Acreditava-se ver dobras de bandeiras. No centro, debaixo de vermelhas espessuras, mergulhava-se, imóvel, um caroço de nevoeiro denso, inerte, impenetrável às faíscas elétricas, espécie de feto hediondo no ventre da tempestade.

     Gilliatt sentiu subitamente que um vento lhe agitou os cabelos. Três ou quatro largas aranhas de chuva despedaçaram-se em roda dele na rocha. Depois houve um segundo trovão. Começou o vento.

     A espera da sombra chegara ao cúmulo; o primeiro trovão agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de alto a baixo, abriu-se uma fenda, toda a bátega suspensa jorrou por esse lado, o buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vomito da tempestade começou. Tremendo foi o instante.

     Aguaceiro, furacão, relâmpagos, raios, vagas até às nuvens, espuma, detonações, torções frenéticas, gritos, roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.

     O vento fulminava. A chuva não caía, desabava.

     Para um pobre homem, metido, como Gilliatt, com um barco carregado, num intervalo de dois rochedos, em pleno mar, não há crise mais ameaçadora. O perigo da maré de que Gilliatt triunfara, nada era ao pé do perigo da tempestade.

     Eis a situação: Gilliatt, em volta de quem tudo era precipício, descobriu no último momento, e diante do risco supremo, uma estratégia engenhosa. Fez ponto de apoio no próprio inimigo; associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversário, era agora o seu padrinho naquele imenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquele sepulcro uma fortaleza. Assestou-se naquele pardieiro formidável do mar. Estava bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, agregado ao escolho, face a face com o furacão. Por barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a única coisa que podia fazer. Parece que o oceano, que é um déspota, pode ser também vencido pelas barricadas. A pança podia ser considerada segura por três lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho, triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul pela grande, penedos selvagens, mais afeitos a produzir naufrágios que a impedi-los. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados aos rochedos, tapamento já provado que vencera o rude fluxo do alto-mar, verdadeira porta de cidadela tendo por ombreiras as próprias colunas do escolho, as duas Douvres. Nada havia que recear por esse lado. O perigo estava a leste.

     A leste havia apenas o quebra-mar. Um quebra-mar é um aparelho de pulverização. Precisa ao menos duas lumeeiras. Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construía a segunda mesmo com a tempestade.

     Felizmente o vento chegava de nordeste. O mar tem descaídas. Aquele vento, que era o galerno antigo, tinha pouco efeito nas Douvres. Assaltava o escolho de través, e não impelia a onda nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de entrar em uma rua esbarrava-se numa muralha. A tempestade atacava mal.

     Mas os ataques do vento são curvos, e devia esperar-se alguma viravolta súbita. Se essa viravolta se fizesse a leste, antes que a segunda clarabóia do quebra-mar estivesse construída, o perigo seria grande. A invasão da viela de rochedos pela tempestade realizava-se e tudo estava perdido.

     Crescia a vertigem da tempestade. A tempestade é golpe sobre golpe. Essa é a sua força, esse é o seu defeito. À força de ser uma raiva, dá lugar à inteligência, e o homem defende-se; mas debaixo de que destruição! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilação, nenhuma interrupção, nenhuma trégua, nenhum descanso para tomar alento. Há um não sei que de covardia nessa prodigalidade do inesgotável.

     Toda a imensidade tumultuosa atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem número. Quem gritava assim? Estava ali o antigo terror pânico. De quando em quando, parecia que era alguém que falava, como se fizesse um comando. Depois clamores, clarins, estranhas tremuras, e aquele grande e majestoso urro que os mari-nheiros dizem ser a chamada do oceano.

     As espirais indefinidas e fugazes do vento assobiavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daqueles torneamentos eram atiradas contra os parcéis como chapas gigantescas por atletas invisíveis.

     A enorme escuma eriçava todas as rochas. Torrentes em cima, saliva embaixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum rumor humano ou bestial poderia dar idéia dos fracassos misturados àquelas deslocações do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho escalava. Certos pontos pareciam imóveis, em outros o vento fazia 20 toesas por segundo. O mar ao longe estava todo branco; 10 léguas de água de sabão enchiam o horizonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por outras, e sobre montões de nuvens vermelhas, semelhantes às brasas, assemelhavam-se essas ao fumo.

     Configurações flutuantes esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma água incomensurável, ouviam-se fogos de pelotão no firma-mento. Havia no meio do teto de sombra uma espécie de vasta alcofa virada, donde caíam em confusão a tromba, a chuva, as nuvens, as cores rubras, os relâmpagos, a noite, a luz, os raios, tão formidáveis são essas inclinações do golfão!

     Gilliatt parecia não atender a nada. Tinha a cabeça inclinada no trabalho. A segunda clarabóia começava a levantar-se. A cada trovão respondia ele com uma martelada. Ouvia-se essa cadência naquele caos. Estava com a cabeça descoberta. uma lufada levou-lhe o chapéu.

     Tinha uma sede ardente. Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado à roda dele nas covas dos rochedos. De quando em quando tirava água com a palma da mão e bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a obra.

     Tudo podia depender de um instante. Sabia o que o esperava se não terminasse a tempo o quebra-mar. Por que motivo perder um minuto para ver aproximar-se a face da morte?

     A desordem em torno dele era como uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. Às vezes o raio parecia descer uma escada. As percussões elétricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do rochedo. Havia pedras de chuva da grossura de uma mão fechada. Gilliatt era obrigado a sacudir as dobras da japona. Até as algibeiras tinham pedras.

     O temporal estava já no oeste, e batia o tapamento das duas Douvre. Mas Gilliatt tinha confiança nesse tapamento, e com razão. Esse tapamento, feito do grande pedaço da proa da Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade é uma resistência; os cálculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si própria elástica, uma reunião de paus, com a dimensão desejada, ligada e amarrada de certo modo, faz melhor obstáculo que um break water de madeira. O tapamento das Douvres preenchia essas condições; era, além disso, tão engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martelo que mete o prego, apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demoli-lo, era preciso derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguiu atirar à pança, por cima do obstáculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graças ao tapamento, a tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforço. Sentia tranquilamente atrás de si essa raiva inútil.

     Os flocos de espuma, saindo de todos os lados, assemelhavam-se a lã. A água, vasta e irritada, afogava os rochedos, trepava por eles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas internas, e saía das massas graníticas por fendas estreitas, espécies de bocas inesgotáveis que faziam naquele dilúvio pequenas fontes plácidas. Filetes de água caíam graciosamente daqueles buracos no mar.

     A clarabóia de reforço do tapamento de leste estava quase concluída. Mais umas voltas de cordas e correntes e aproximava-se o momento de também lutar esse tapa-mento.

     De súbito, fez-se um grande clarão, a chuva cessou, as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma espécie de janela grande crepuscular abriu-se no zênite, e apagaram-se os relâmpagos, pareceu que estava acabado. Era o começo. Os marinheiros chamam a isso o vento de esboroar. O vento do sul tem mais água, o vento do norte tem mais raios.

     Vindo do nordeste, a agressão ia dirigir-se ao ponto fraco.

     Desta vez Gilliatt parou o trabalho e olhou. Colocou-se de pé sobre uma saliência de rochedo inclinado por trás da segunda clarabóia quase terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar fosse afundada, desabaria a segunda, ainda não consolidada, e debaixo dessa demolição esmagaria Gilliatt. Gilliatt, no lugar que escolhera, seria achatado antes de ver a pança e a máquina e toda a sua obra abismar-se nó golfão. Tal era a eventualidade. Gilliatt aceitou-a, e, terrível, ele a queria.

     Nesse naufrágio de todas as suas esperanças, morrer primeiro convinha-lhe a ele; morrer primeiro, porque a máquina fazia-lhe o efeito de uma pessoa. Levantou com a mão esquerda os cabelos colados nos olhos pela chuva, apertou o martelo, inclinou-se para trás ameaçante, e esperou.

     Não esperou muito.

     Um ribombo deu o sinal, fechou-se a abertura pálida do zênite, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tornou-se escuro, e não houve outro facho mais que o relâmpago. Começava o sombrio ataque.

     Possante vagalhão, visível entre os relâmpagos, levantou-se a leste além do rochedo Homem. Parecia um grande rolo de vidro. Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo cilindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.

     Esse vagalhão chegou ao rochedo Homem, partiu-se em dois e continuou. Os dois pedaços juntos tornaram a ligar-se, e fizeram uma grande montanha de água, e, de paralela que estava ao quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a forma de uma viga.

     Atirou-se ao quebra-mar aquele aríete. Rugiu o choque. Tudo desapareceu em espuma.

     Não se pode imaginar o que são essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quais engole rochedos de mais de 100 pés de altura, tais, por exemplo, como o grande Anderlo, em Guernesey, e o Pináculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagáscar, saltam por cima da ponta de Tintingue.

     Durante alguns instantes o rolo de mar tapou tudo. Só ficou visível um montão furioso, uma escuma imersa, a alvura de um sudário flutuando no vento do sepulcro, uma mistura de ruído e de tempestade debaixo da qual trabalhava o extermínio.

     Dissipou-se a escuma. Gilliatt estava de pé.

     O tapamento resistira. Nem uma corrente arrebentou, nem um prego saiu. O tapamento mostrou à prova as duas qualidades do quebra-mar; foi flexível como um caniço e sólido como uma parede. O vagalhão dissolveu-se em chuva.

     A espuma escorrendo ao longo dos ziguezagues do estreito foi morrer debaixo da pança.

     O homem que fizera aquele açamo ao oceano não repousou.

     A tempestade divagou felizmente durante algum tempo. O encarniçamento das vagas voltou-se para as partes muradas do escolho. Foi uma trégua. Gilliatt apro-veitou-a para completar a clarabóia de trás.

     O dia expirou nesse trabalho. A tormenta continuava as suas violências no flanco do escolho com uma solenidade lúgubre. A urna de água e a uma de fogo que existe nas nuvens esvaziava-se sem esgotar nunca. As ondulações altas e baixas do vento pareciam movimentos de um dragão.

     Quando a noite chegou, já havia noite; não se pode reparar nela.

     Mas não era obscuridade completa. As tempestades iluminadas e cegas pelo relâmpago tem intermitência de visível e invisível. Tudo está claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se à saída das visões e à entrada das trevas.

     Uma zona de fósforo, cor da aurora boreal, flutuava como um farrapo de flama espectral. por trás das espessuras de nuvens. Resultava uma vasta palidez. As chapas de chuva eram luminosas.

     E esses clarões ajudavam Gilliatt e o dirigiam. Ele voltou-se para o relâmpago e disse: “Segura-me a vela!”

     Com o auxílio dessa claridade pode ele levantar a clarabóia de trás, ainda mais acima. O quebra-amar estava quase completo. Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de reforço, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabeça. O vento voltara bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste recomeçava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado outra vez. Vinha um novo vagalhão.

     Esse foi rudemente vibrado; depois veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quase juntos; finalmente um último e tremendo.

     Este, que era um como que total de forças, tinha a figura de uma coisa viva. Não era difícil imaginar, naquela intumescência e naquela transparência, inauditos aspectos com escamas. Achatou-se e partiu-se no quebra-mar. A sua forma quase animada dilacerou-se num esguicho. Naquele montão de rochedos e tábuas, foi uma espécie de esmagamento de hidra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se à saliva de um levitã.

     A espuma que caía deixava ver uma devastação. O vagalhão fez obra. Dessa vez o quebra-mar sofreu um pouco. Uma longa e pesada viga, arrancada da clarabóia da frente, foi lançada por cima do tapamento de trás, sobre a rocha inclinada, escolhida por Gilliatt para o lugar do combate. Felizmente desta vez não estava ele aí. Ficaria morto.

     Houve na queda da viga uma singularidade que, impedindo qualquer movi-mento da prancha, salvou Gilliatt de qualquer sobressalto perigoso. Foi ainda útil por outro modo, como se vai ver.

     Entre a saliência da rocha e o declive interno da garganta, havia um intervalo, um grande hiato semelhante ao encaixe de um machado ou à alvéola de um canto. Uma das extremidades da prancha, atirada ao ar pela vaga, caiu no meio dessa abertura. A abertura alargou-se.

     Gilliatt teve uma idéia.

     Pesar na outra extremidade.

     A prancha, presa por uma ponta na fenda do rochedo que alargara, saía daí como um braço estendido. Essa espécie de braço alargava-se, paralelamente à faixa interna da garganta, e a extremidade livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de 18 ou 20 polegadas. Boa distância para fazer o esforço.

     Gilliatt estreitou com os pés, os joelhos e os braços o rochedo e meteu ombros à enorme viga. A viga era comprida, o que aumentava a força do peso. A rocha já estava abalada. Contudo, Gilliatt teve de tentar a coisa quatro vezes. Caía-lhe dos cabelos mais suor do que chuva. O quarto esforço foi frenético. Houve um estalo na rocha, a abertura abriu-se como uma boca e a pesada massa caiu no estreito intervalo com um ruído terrível, réplica aos trovões.

     Caiu direita, se esta expressão é possível, isto é, sem quebrar-se.

     Imaginai um menire precipitado todo inteiro.

     A viga acompanhou o rochedo, e Gilliatt, cedendo ao mesmo tempo, escapou de cair também.

     O fundo estava muito atravancado, e tinha pouca água. O monolito, numa agitação de espuma, que foi respingar em Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralelas da garganta e fez uma parede transversal, espécie de linha de união dos dois rochedos. Tocavam as duas pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou esmigalhado. Resultou dessa queda uma espécie de beco sem saída que ainda hoje pode ser visto. A água, por detrás dessa barra de pedra, é quase sempre tranquila.

     Era um baluarte aquele ainda mais invencível que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres.

     Esse tapamento interveio a propósito.

     Os vagalhões tinham continuado. A vaga teima sempre contra o obstáculo. A primeira clarabóia começava a desarticular-se. Um malha de quebra-mar desfeita é uma grande avaria. É inevitável o alargamento do buraco, e nenhum meio pode remediar logo. A vaga carregaria o trabalhador.

     Uma descarga elétrica, que iluminou o escolho, descobriu a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar, as vigas soltas, as cordas e correntes começando a flutuar ao vento, um rasgão no centro do aparelho. A segunda clarabóia estava intata.

     O penedo, tão poderosamente lançado por Gilliatt no intervalo das rochas, por trás do quebra-mar, era a mais sólida barreira, mas tinha um defeito: era demasiado baixo. As vagas não podiam rompê-lo, mas podiam galgá-lo.

     Era impossível fazê-lo crescer. Só massas da rocha podiam ser utilmente sobre-postas àquele tapamento de pedra; mas como arrancar essas massas, como arrastá-las, como levantá-las, como colocá-las, como fixá-las? Pregam-se tábuas, não se pregam rochedos.

     Gilliatt não era Encélado.

     A pouca elevação daquele pequeno istmo de granito preocupava Gilliatt.

     Breve fez-se sentir o defeito. Os ventos já não deixavam o quebra-mar; já se não encarniçavam, parecia que se aplicavam. Ouvia-se naquela construção abalada uma espécie de escoiceamento regular.

     De repente, um pedaço de peça de viga, destacado da deslocação, pulou por cima da segunda clarabóia, voou por cima da rocha transversal, e foi cair na garganta do rochedo, onde a água a levou pelas sinuosidades da viela. É provável que fosse esbarrar na pança. Felizmente, no interior do escolho, a água, fechada por todos os lados, mal se ressentia da agitação exterior. Havia pouco marulho, e o choque não devia ser forte. Gilliatt nem teve tempo de ocupar-se com essa avaria, se avaria houve; todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto vulnerável, a iminência estava diante dele.

     Profunda foi, por alguns instantes, a escuridão, interrompeu-se o relâmpago, conivência sinistra; a nuvem e a vaga eram a mesma coisa; houve um golpe surdo.

     Depois um fracasso.

     Gilliatt adiantou a cabeça. A clarabóia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o segundo.

     Gilliatt sentiu o que sentiria um general vendo voltar a vanguarda.

     A segunda tapagem resistiu ao choque. A armadura de trás estava fortemente ligada. Mas a clarabóia despedaçada era pesada, estava à disposição das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras que lhe restavam impediam-na de partir-se em pedaços e mantinham-lhe todo o volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como aparelho de defesa faziam agora daquilo uma excelente ferramenta de destruição. De broquel tornara-se maça. Além disso, as fraturas eriçavam-na, saíam-lhe pontas em toda ela, cobriam-na de dentes e esporas. Nenhuma arma contundente mais temível e própria para ser manejada pela tempestade do que aquela.

     Era o projétil, e o mar a catapulta.

     Sucediam-se os golpes com uma espécie de regularidade trágica. Gilliatt, pensa-tivo por trás daquela porta tapada por ele, ouvia esse bater da morte querendo entrar.

     Ele refletiu amargamente que, se não fosse o cano da Durande tão fatalmente retido no casco, estaria àquela hora, e desde manhã, em Guernesey, e no porto, com a pança abrigada e a máquina salva.

     Realizou-se o tremendo perigo. Fez-se a refração. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despedaçadas juntas, foi numa tromba-d’água rolar no tapamento de pedra, como um caos numa montanha, e parou. Foi um travamento informe de paus embrenhados, penetrável às vagas, mas pulverizando-as ainda. Aquele baluarte vencido agonizava heroicamente. O mar quebrou-o, ele quebrava o mar. Derrubado, ainda ficava um pouco eficaz. A rocha que servia de tapagem, obstáculo sem recurso possível, retinha-o pelo pé. A garganta, naquele ponto, era muito estreita; a tempestade vitoriosa tinha empurrado, misturado e empilhado todo o quebra-mar naquele lugar angustioso; a violência da impulsão, misturando a massa, e metendo as fraturas umas nas outras, fez daquela demolição uma coisa sólida. Estava destruído e inabalável. Só algumas peças de pau ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma passou no ar, perto de Gilliatt. Ele sentiu o ar agitado pela tábua na fronte.

     Mas algumas vagas, essas grossas vagas que nos temporais voltam sempre, com uma periodicidade imperturbável, saltavam por cima das ruínas do quebra-mar. Caíam na garganta, e, a despeito dos cotovelos que a viela tinha, chegavam a levantar a água. A onda do estreito começava a agitar-se de um modo feio. Acentuava-se o beijo obscuro das vagas nas rochas.

     Como impedir agora que essa agitação se propagasse até a pança?

     Não precisava muito tempo para que toda a água interior ficasse tempestuosa, e, com algumas ondas, a pança seria estripada, e a máquina iria a pique.

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