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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS VENENOS DA COROA / Maurice Druon
OS VENENOS DA COROA / Maurice Druon

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS VENENOS DA COROA

 

Filipe, o Belo, morrera há seis meses. A França devia ao governo desse monarca prodigioso os benefícios de um longo período de paz, o abandono das desastrosas aventuras de além-mar, a instalação de uma poderosa rede de alianças e de suseranias, aumentos notáveis do território por uniões e não por conquistas, uma expansão econômica certa, uma relativa estabilidade da moeda, a não ingerência da Igreja nos negócios temporais, o refreamento das potestades do dinheiro e dos grandes interesses privados, o acesso das classes populares aos conselhos do poder, a segurança dos cidadãos, a organização da autoridade do Estado.

Por certo, os contemporâneos não tinham de tal modo consciência deitadas essas melhorias. Jamais progresso quis dizer perfeição. Houve anos menos prósperos que outros, períodos de crise e de revolta; as necessidades populares estavam longe de serem satisfeitas. O Rei de Ferro tinha certa maneira de se fazer obedecer que não agradava a todos e ocupava-se mais com a grandeza de seu reino que com a felicidade particular de seus súditos.

Não obstante, quando ele desapareceu, a França era a primeira, a mais forte, a mais rica de todas as nações do mundo ocidental.

Não foram precisos menos de trinta anos de perseverança aos seus sucessores para destruir-lhe a obra e — a ambição desmedida revezando-se no trono com o excesso de incapacidade — franquear o país à invasão, entregar a sociedade à anarquia e reduzir o povo à mais baixa situação de miséria e desespero.

Na longa série de vaidosos imbecis que, de Luís X, o Turbulento, a João, o Bom, inclusive, irão usar a coroa, um único fará exceção: Filipe V, o Longo, segundo filho de Filipe, o Belo, que retomou os princípios e os métodos do pai — malgrado a vontade de reinar o tivesse levado a auxiliar crimes e a criar leis dinásticas que deram, como resultado, a Guerra dos Cem Anos.

A empreitada de demolição vai, pois, prosseguir durante um terço de século, mas devemos reconhecer que desde os primeiros seis meses boa parte do trabalho já tinha sido feita.

As instituições não estavam bastante consolidadas para poder funcionar sem a intervenção pessoal do soberano.

O fraco, o nervoso, o incompetente Luís X. esmagado pela sua tarefa desde o primeiro dia, descarregava facilmente os cuidados do poder em seu tio Carlos de Valois, bom, militar, parece, mas político detestável, que em vão passara a vida toda correndo atrás de um trono, e cuja turbulência sediciosa encontrava agora onde se empregar.

Os ministros burgueses que tinham feito a força do reinado precedente, estavam presos, e o esqueleto do mais notável dentre eles, Enguerrand de Marigny, antigo assistente geral do reino, secava nos ganchos do cadafalso de Montfaucon.

A reação triunfava; as ligas baroniais semeavam a desordem nas províncias e colocavam em xeque a autoridade real. Os grandes senhores, a começar por Carlos de Valois, fabricavam moedas, que punham em circulação através de lodo o território para seu proveito pessoal. A administração, entregue a si mesmo, pilhava por seu lado, e o Tesouro estava vazio.

Uma colheita desastrosa, seguida de um inverno excepcionalmente rigoroso, criara uma fome geral. A mortalidade aumentara.

Durante esse tempo, Luís X preocupara-se sobretudo com restaurar sua honra conjugai e apagar, se fosse possível, o escândalo da torre de Nesle.

Na falta de um papa, que o conclave não conseguira eleger, e que teria podido decretar a anulação de seu casamento, o jovem rei de França, para poder casar-se novamente, mandara estrangular a esposa, Margarida de Borgonha, na prisão do Castelo Gaillard.

Tornara-se, assim, livre para desposar a bela princesa napolitana que lhe tinham destinado e com a qual se dispunha a partilhar as felicidades de um longo reinado.

 

                 A FRANÇA ESPERA UMA RAINHA

 

                                          ADEUS A NÁPOLES

EM PÉ, junto a uma das janelas do enorme Castelnuovo, de onde a vista dominava o porto e a baía de Nápoles, a velha rainha-mãe Maria da Hungria olhava um navio prestes a zarpar. Assegurando-se de que ninguém podia notar-lhe o gesto, enxugou, com um dedo ríspido, as lágrimas que lhe vinham às pálpebras sem cílios.

— Bem, agora posso morrer — murmurou.

Tinha empregado bem a sua vida. Filha de rei, esposa de rei e avó de reis, firmara parte de sua descendência no trono da Itália meridional, enquanto obtinha para a outra, à força de lutas e intrigas, o reinado da Hungria, que considerava como sua herança pessoal. Seus filhos mais moços eram príncipes, ou duques soberanos. Duas de suas filhas eram rainhas, uma em Maiorca, outra em Aragão. Sua fecundidade havia sido um instrumento de poder para os Anjou-Sicília, esse ramo mais novo saído da árvore capetiana, que começava a estender-se sobre toda a Europa e ameaçava tornar-se tão grande quanto o tronco.

Se Maria da Hungria já perdera seis filhos, tivera, ao menos, o consolo de terem morrido piedosamente, como os havia educado; um deles, mesmo, aquele que renunciara aos direitos dinásticos para professar, cedo fora canonizado. Como se os reinos deste mundo se tivessem tornado muito pequenos para esta família tentacular, a velha rainha estendeu sua progenitura até o reino dos céus. Ela era a mãe de um santo (*1).

 

(*1) Os números no texto remetem às notas históricas do fim do volume.

 

Setenta anos passados, restava-lhe apenas assegurar o futuro de uma de suas netas, a órfã Clemência. Isso já era, aliás, fato consumado.

Porque Clemência era filha de seu primogênito, Carlos Martel, para o qual reivindicara com pertinácia o trono da Hungria, porque o filho fora privado dos pais desde os dois anos de idade, motivo pelo qual ela assumira inteiramente a sua educação, porque essa tarefa, enfim, fora a última de sua vida, Maria da Hungria havia votado a Clemência uma ternura especial, não obstante fosse a ternura de uma velha alma inteiramente voltada para a força, o poder e o dever.

O grande navio que, no porto, levantava âncora, nesse 1.° de junho de 1315, sob um sol brilhante, representava tudo ao mesmo tempo, aos olhos da rainha-mãe de Nápoles: o triunfo de sua política e a melancolia das coisas concluídas.

Pois para sua querida Clemência, para essa princesa de vinte e dois anos, sem nenhum dote territorial, rica apenas de sua reputação de beleza e de virtude, ela obtivera a mais alta aliança, o mais prestigioso casamento.

Clemência partia para se tornar rainha de França. Assim, a mais desfavorecida da sorte de todas as princesas d'Anjou, aquela que havia esperado mais tempo um amparo, recebia o mais belo dos reinos e ia reinar, como suserana, sobre todos os seus parentes. Era como uma ilustração dos ensinamentos evangélicos.

É certo que se dizia que o jovem rei de França, Luís X, não tinha nem a fisionomia nem o caráter muito agradáveis.

"Qual! meu esposo, que Deus o salve, era bem coxo e eu não me dei mal por isso, pensava Maria da Hungria. Além disso, ninguém é rainha para ser feliz!"

Admirava-se, à socapa de que a rainha Margarida morresse tão a propósito, na prisão, quando o rei Luís, na falta de um papa, não podia obter a anulação de seu casamento. Mas convinha dar ouvidos a todos os maldizentes? Maria da Hungria sentia pouca piedade por uma mulher, sobretudo por uma rainha, que traíra as obrigações do casamento e dera, de tão alto, exemplo tão funesto. Ela não via nada de surpreendente em que o castigo de Deus se tivesse, naturalmente, abatido sobre a escandalosa Margarida.

— Minha boa Clemência restabelecerá a virtude e a honra da corte de Paris — murmurou ainda.

À guisa de adeus, fez, com a mão cinzenta, um sinal da cruz através da luz; depois, de coroa na cabeça, sobre os cabelos prateados, o queixo trêmulo, o passo rígido, mas ainda decidido, foi encerrar-se na capela, para agradecer ao Céu o havê-la ajudado a cumprir sua longa missão real, e para oferecer ao Senhor o grande sofrimento das mulheres que cumpriram sua missão.

Entretanto, o San Giovanni, enorme nave redonda, com o casco inteiramente pintado de branco e de ouro e com as flâmulas de Anjou, da Hungria e da França, nos topes da mastreação, começava a manobrar para se afastar da margem. O capitão e a equipagem tinham jurado sobre o Evangelho defender os passageiros da tempestade, dos piratas barbarescos e de todos os perigos da navegação. A imagem de São João Batista, protetor do navio, brilhava na proa ' sob os raios do sol. Nos torreões ameados, a meia altura dos mastros, cem homens de armas, besteiros, fundibulários, estavam a postos para repelir os ataques dos piratas, caso viessem. Os porões transbordavam de víveres, e a areia do lastro estava recheada de ânforas de azeite, de botijas de vinho e de ovos frescos. As grandes arcas armadas de ferro com os vestidos de seda, as jóias, as obras de ourivesaria e todos os presentes de núpcias da princesa estavam dispostos contra a muralha da câmara dos guardas dos forçados, grande cômodo entre o mastro principal e a popa, onde iriam alojar-se, entre os tapetes do Oriente, os fidalgos e os cavaleiros da comitiva.

Os napolitanos estavam comprimidos no cais para ver partir o que lhes parecia ser o navio da felicidade. Mulheres erguiam os filhos nos braços. No meio do grande rumor produzido por essa turba reunida, ouvia-se gritar, com essa familiaridade comovida e ruidosa que o povo de Nápoles sempre teve pelos seus ídolos:

— Guardi com'è bella!

 

— Addio Donna Clemenza! Sia felice!

— Dio la benedica, nostra principessa!

— Non si dimentichi di noi! (*)

 

(*) — Olha como é bela!

— Adeus, Senhora Clemência, seja feliz!

— Que Deus abençoe nossa princesa!

— Não se esqueça de nós!

 

Pois Donna Clemenza, para os napolitanos, estava rodeada de uma espécie de lenda. Lembravam-se de seu pai, o belo Carlo Martello, amigo dos poetas e em particular do divino Dante, príncipe erudito, tão bom músico como valente guerreiro, que percorrera a península, seguido de duzentos cavaleiros franceses, provençais e italianos, todos vestidos como ele, metade vermelho e metade verde-escuro, e montados em cavalos ajaezados de prata e ouro. Dizia-se que ele era verdadeiramente filho de Vênus, pois possuía "'os cinco dons que incitam o amor, e que são a saúde, a beleza, a opulência, o lazer e a juventude". Esperavam-no para rei, mas a peste fulminou-o aos vinte e quatro anos e sua esposa, uma princesa de Habsburgo, ao receber a notícia, também morrera, o que tocou profundamente a imaginação popular.

Nápoles transferira sua ternura para Clemência que, ao crescer, reproduzia os traços do pai. Esta órfã real era abençoada nos bairros pobres onde ia distribuir esmolas, pessoalmente; nenhuma miséria a deixava insensível. Os pintores da Escola de Giotto se inspiraram em seu rosto para representar, em seus afrescos, a Virgem e as santas; e, nos nossos dias, os viajantes que visitam as igrejas da Campânia e de Pouilles ainda lhe admiram, nas paredes dos santuários, os cabelos de ouro, a clara doçura do olhar, a graciosidade do pescoço levemente inclinado, as longas mãos afiladas, sem saber que essa é a imagem da bela Clemência da Hungria.

Sobre a cobertura ameada do castelo da popa, a trinta pés acima das águas, a noiva do rei de França lançava um último olhar à paisagem de sua infância, ao velho Castelo de 1'Oeuf onde nascera, ao Castelo-Novo onde crescera, àquela turba agitada que lhe atirava beijos, a toda a cidade brilhante, empoeirada e sublime.

"Obrigada, Senhora minha avó, pensava ela, de olhos voltados para a janela de onde acabava de desaparecer a silhueta de Maria da Hungria. Jamais vos tornarei a ver, sem dúvida. Obrigada por haverdes feito tanto por mim. Já desesperava, aos vinte e dois anos, por não ter ainda um marido; pensava não mais encontrá-lo e que me restava entrar para um convento. Tínheis razão em me impor paciência. Eis que vou ser rainha deste grande reino regado por quatro rios e banhado por três mares. Meu primo, o rei de Inglaterra, minha tia de Maiorca, meu parente da Boêmia, minha irmã a Delfina de Viena, e mesmo meu tio Roberto, que reina aqui e do qual até hoje era apenas súdita vão ser meus vassalos pelas terras que têm em França pelos laços que os ligam a esta coroa. Mas não será muito pesado para mim?"

Ela sentia ao mesmo tempo a exaltação da alegria, a angústia do desconhecido e essa grande inquietação que se apodera da alma nas mudanças irrevogáveis do destino, mesmo quando elas ultrapassam os sonhos.

— Vosso povo mostra que vos ama muito, Senhora — disse um homem gordo ao seu lado. — Mas asseguro-vos que o povo da França depressa vos amará assim, e que bastará ver-vos para vos fazer um acolhimento semelhante a esta despedida.

— Ah, sereis sempre meu amigo, Senhor de Bouville — respondeu Clemência com calor.

Ela sentia necessidade de espalhar a felicidade à sua volta e de agradecer a todos.

O conde de Bouville, antigo camareiro de Filipe, o Belo, e enviado do rei Luís X, chegara pela primeira vez a Nápoles, durante o inverno, para pedir a sua mão; e voltara, após duas semanas, para buscar a princesa e reconduzi-la a Paris, agora que o casamento podia se realizar.

— E vós também, signor Baglioni, sois realmente meu amigo — acrescentou ela, voltando-se para o jovem toscano que servia de secretário a Bouville e que guardava o dinheiro da expedição, emprestado pelos bancos italianos de Paris.

O jovem se curvou ao cumprimento.

Em verdade, toda a gente estava feliz nessa manhã. O gordo Bouville, suando um pouco sob o calor de junho e jogando para trás das orelhas as mechas negras e brancas, sentia-se contente e orgulhoso de ter levado a cabo sua missão de conduzir a seu rei tão esplêndida esposa.

Guccio Baglioni sonhava com a bela Maria de Cressay, sua noiva secreta, para a qual levava uma arca de tecidos de seda e de rendas bordadas. Ele não tinha bem a certeza de haver agido com razão ao pedir a seu tio a agência do banco de Neauphle-le-Vieux. Deveria contentar-se com estabelecimento tão pequeno?

"Ora! é apenas um começo; depressa poderei mudar de posição e, além disso, passarei a maior parte de meu tempo em Paris."

Certo da proteção de sua nova soberana, não vislumbrava limites à sua ascensão; via já Maria dama da corte da rainha,

e imaginava-se também, em poucos meses, Padeiro-Mor ou Tesoureiro da Casa Real. Enguerrand de Marigny não havia começado de outro modo. Certamente, terminara muito mal. . . Mas ele não era lombardo.

O punho sobre a adaga, o queixo erguido, Guccio olhava Nápoles que se desdobrava diante dele, como se fosse comprá-la.

Dez galeras escoltaram o navio até ao alto mar; depois, os napolitanos viram afastar-se, sob o sol, essa fortaleza toda branca que avançava sobre as águas.

 

                           A TEMPESTADE

ALGUNS dias mais tarde, o San Giovanni não passava de uma carcaça gemente e semi-desarvorada, fugindo sob as rajadas, rolando entre vagalhões que o capitão se esforçava para manter flutuando na suposta direção das costas da França, sem saber se conseguiria conduzir seus passageiros ao posto.

0 navio fora surpreendido, perto da Córsega, por uma dessas tempestades rápidas mas terríveis, que assolam, às vezes, o Mediterrâneo. Perderam-se seis âncoras tentando fundear contra o vento, ao longo das costas da Ilha de Elba, e pouco faltou para que a embarcação não fosse atirada contra os rochedos. Depois, a viagem recomeçou entre muralhas de água. Um dia, uma noite, mais outro dia dessa navegação infernal. Vários marinheiros tinham ficado feridos ao amainar o que restava do velame. Os torreões dos vigias desabaram com todo o carregamento de pedras destinado aos piratas barbarescos. Foi preciso arrombar a golpes de machado a câmara do guarda dos forçados para libertar os cavaleiros napolitanos presos sob o mastro principal que caíra. Todas as arcas de roupas e alfaias, toda a ourivesaria da princesa, todos os seus presentes de núpcias tinham sido varridos pelo mar. A enfermaria do barbeiro-cirurgião, no castelo da proa, regurgitava de gente. O capelão não podia nem mesmo celebrar sua missa seca (2), pois o cibório, cálice, missal e paramentos tinham sido levados por uma vaga. Agarrado ao cordame, crucifixo na mão, ouvia a confissão de todos quantos pensavam que iam morrer.

A agulha imantada já não servia para orientar, pois agitava-se em todos os sentidos sobre a pouca água que restava no recipiente em que flutuava. 0 capitão, um latino impetuoso, rasgara a roupa até o ventre em sinal de desespero e ouviam-no gritar, entre duas ordens: "Senhor, ajudai-me!" Nem parecia conhecer o seu ofício para se livrar do pior; fez sair os remos, tão longos e tão pesados que exigiam, para manobrá-los, sete homens montados em cada um, e chamara doze marinheiros para perto dele para fazer peso, seis de cada lado, sobre a barra do leme.

Fora, entretanto, a ele que Bouville se dirigira, num assomo de mau humor, no princípio da borrasca:

— Eh! mestre marinheiro, é assim que se sacode a princesa prometida ao senhor meu rei? — gritara o antigo camareiro-mor. — Se balançamos tanto é porque o vosso navio é mal dirigido. Não sabeis navegar nem seguir as boas correntes. Se não vos apressardes em melhorar, eu vos citarei em juízo, à chegada, perante os juizes do rei da França e ireis aprender a navegar num banco de galera. . .

Sua cólera, porém, passou logo, pois pusera-se a vomitar, durante oito horas, sobre os tapetes do Oriente, imitado nisto, aliás, pela quase totalidade do séquito. Com a cabeça zonza, as faces macilentas, os cabelos, a capa e os calçados encharcados, o pobre homem, prestes a perder a alma sempre que uma nova onda agitava o navio, gemia, entre dois soluços, que jamais reveria a família e que não pecara tanto para sofrer daquele modo.

Guccio, em compensação, mostrava-se de uma espantosa in-trepidez. Lúcido e ágil, tratara de pôr o cofre do dinheiro a salvo e, nos momentos de relativa calma corria, através da garoa, a procurar um pouco de água para a princesa beber, ou então espalhava essências à volta dela, a fim de diminuir o mau cheiro exalado pelas indisposições de seus companheiros de viagem.

Há uma espécie de homens, sobretudo os muito jovens, que se conduzem instintivamente de maneira a justificar o que deles se espera. Olhamo-los com desprezo? É quase certo comportarem-se de forma desprezível. Sentem, pelo contrário, estima e confiança? Então se excedem e, embora morram de medo como qualquer um, agem como heróis. Guccio Baglioni era um pouco dessa estirpe. Porque a princesa Clemência tinha um jeito particular de tratar as pessoas, pobres ou ricas, fidalgos ou camponeses, que honrava a todos, porque ela tinha, ainda mais, uma cortesia especial para esse jovem que fora um pouco o mensageiro de sua felicidade, Guccio, perto dela, sentia-se transformado em cavaleiro e comportava-se mais intrepidamente que os gentis-homens.

Ele era toscano e, para brilhar aos olhos de uma mulher, era capaz de todas as proezas. Ao mesmo tempo continuava banqueiro na alma e no sangue e jogava com o destino como se joga na bolsa.

"Não há melhor oportunidade para nos tornarmos íntimos dos poderosos que o perigo, pensava ele. Se nos vamos todos afundar e morrer, não é desfazendo-nos em lamentações, como esse pobre Bouville, que mudaremos a sorte. Mas se escaparmos, terei, então, conquistado a estima da rainha de França". Já era sinal de coragem poder pensar dessa forma em tal momento.

Guccio, porém, naquele verão, julgava-se invencível: estava apaixonado e seguro de ser amado. Com a cabeça um pouco recheada de sonhos heróicos — pois tudo, sonhos, cálculos e ambições, estava ainda misturado no cérebro do rapaz — Guccio sabia que os aventureiros acabam sempre por se sair bem quando, em algum castelo, uma bela mulher os espera! A sua encontrava-se na mansão de Cressay. . .

Ele garantia à princesa Clemência, contra toda a evidência, que o tempo ia melhorar, afirmava que o navio era sólido no momento em que ele estalava mais forte, e contava, para comparação, a tempestade bem mais terrível que havia enfrentado, no ano anterior, ao atravessar a Mancha, e da qual saíra ileso.

A princesa Clemência também se comportava de modo exemplar. Refugiada no paradis*, grande e pomposo quarto preparado para os hóspedes reais no castelo da popa, esforçava-se por acalmar suas damas de companhia que, parecendo um rebanho de ovelhas desgarradas, baliam a cada rabanada do mar. Clemência não teve uma palavra de tristeza quando a avisaram de que suas arcas de roupa e de jóias tinham caído ao mar.

* Compartimento de nível constante.

— Teria dado o dobro — dissera apenas — para que esses pobres marinheiros não fossem abatidos pelo mastro.

Sentia-se menos amedrontada com a tempestade do que com o sinal que via nela.

"Este casamento era bom demais para mim, pensava; fiquei muito alegre por causa dele e pequei por orgulho; Deus vai fazer-me naufragar porque não merecia ser rainha."

Na terceira manhã, quando o navio se encontrava num vácuo de vento, mas sem que o mar parecesse querer abrandar-se, nem o sol se dispusesse a aparecer, viram o gordo Bouville, descalço, vestindo apenas uma cota e inteiramente desgrenhado, ajoelhar-se, com os braços em cruz, no convés.

— Que fazeis aí Messire? — gritou-lhe Clemência.

— Faço como o Senhor São Luís, Senhora, quando esteve prestes a afogar-se diante de Chipre. Ele prometeu levar uma de nove de cinco marcos (3) de prata ao Senhor São Nicolau de Warangeville, se Deus quisesse conduzi-lo à França. Foi o Senhor de Joinville quem me contou.

— Associo-me à vossa promessa, Bouville — respondeu Clemência — e uma vez que a nossa nau está sob as bênçãos de São João Batista, prometo, se sobrevivermos e se me for feita a graça de dar um filho ao rei de França, dar-lhe o nome de João.

Ajoelhou-se em seguida e começou a orar.

Por volta do meio-dia a violência do mar começou a decrescer e todos recobraram a esperança. Depois, o sol rompeu as nuvens; a terra estava à vista. O capitão reconheceu, com alegria, as costas da Provença e, à medida que se aproximavam, as enseadas de Cassis. Não se sentia menos orgulhoso de haver mantido seu navio no rumo.

— Penso que ides abordar imediatamente a essa costa, mestre marinheiro — gritou Bouville.

— É a Marselha que devo conduzir-vos, Messire — respondeu o capitão — e dela não estamos longe. De qualquer forma, não teria âncoras suficientes para fundear perto desses rochedos.

Pouco antes da noite, o San Giovanni, impelido pelos remos, apareceu diante do porto de Marselha. Desceram um escaler a fim de prevenir as autoridades comunais e fazer abaixar a grande cadeia que vedava a entrada do porto, entre a torre de Malbert e o forte de São Nicolau. Imediatamente o Governador, os magistrados municipais e os juizes (Marselha era então, cidade angevina) acorreram, vergados sob forte ventania Para receber a sobrinha de seu suserano, o rei de Nápoles.

No cais, os operários das salinas, os pescadores, os fabricantes de remos e de cordoalha, os calafates, os trocadores de moeda, os mercadores da Judiaria, os empregados dos bancos genoveses e sienenses, contemplavam, estupefatos, o grande barco sem velas e sem mastro, fendido, cujos marinheiros se abraçavam, no convés, gritando que tinha havido um milagre.

Os cavaleiros napolitanos e as damas do séquito tratavam de pôr as vestimentas em ordem.

O bravo Bouville, que emagrecera dez libras durante a travessia e dançava dentro das roupas, não cessava de assegurar, aos que lhe estavam ao redor, que fora a sua idéia de fazer um voto que impedira o naufrágio, e que todos lhe deviam a vida.

— Senhor Hugo — respondeu Guccio com uma ponta de malícia no olhar — não houve ainda uma tempestade, que eu saiba, em que alguém não tenha feito um voto semelhante ao vosso. Como explicais, então, que tantos navios tenham assim ido para o fundo?

— É que sem dúvida havia, a bordo, algum ímpio da vossa espécie! — replicou, sorrindo, o antigo camareiro.

Guccio foi o primeiro a saltar em terra. Atirou-se do portaló, lépido, para provar o seu vigor. Ouviram-se, em seguida, clamores que se elevavam. Depois de vários dias sobre um assoalho movediço, Guccio tinha sido mal recebido em terra; o pé escorregou-lhe e ele caiu na água. Pouco faltou para que fosse imprensado entre a pedra do cais e o casco do barco. Em torno dele a água tornou-se rubra num instante; na queda, rasgara-se num gancho de ferro. Pescaram-no meio desacordado, sangrando, com o quadril aberto até o osso. Transportaram-no logo para o Hospital Geral.

 

                             O HOSPITAL GERAL

O SALÃO dos homens tinha as dimensões de uma nave de catedral. Ao fundo erguia-se um altar em que se celebravam, diariamente, quatro missas, vésperas e o ofício da tarde. Os doentes privilegiados ocupavam espécie de alvéolos, chamados "quartos de recomendação", dispostos ao longo das paredes; os restantes deitavam-se aos pares nas camas, um com a cabeça nos pés do outro. Irmãos hospitaleiros, de longas vestes escuras, percorriam sem parar a galeria central, ora para ir cantar os ofícios, ora para dar remédios ou distribuir a refeição. Os exercícios do culto estavam intimamente misturados à terapêutica; os gemidos de dor respondiam aos versículos dos salmos; o perfume do incenso não conseguia dominar o odor atroz da febre e da gangrena; a morte era oferecida em espetáculo público. Inscrições pintadas de fresco em letras góticas, convidavam mais ao preparo para a morte do que para a cura(4).

Há quase três semanas, Guccio ali estava, numa alcova, arquejando sob o sufocante calor de verão, que sempre tornou mais extenuante o sofrimento e mais sinistros os hospitais. Olhava com tristeza os raios do sol que caíam das ogivas abertas no alto das paredes, projetando extensas manchas de ouro sobre aquele agrupamento de desolação humana. Não podia fazer o menor movimento sem gemer; os bálsamos e os elixires dos irmãos hospitaleiros queimavam-no como chamas e cada tratamento era uma sessão de tortura. Ninguém parecia capacitado para dizer se o osso havia sido atingido; ele, porém, sentia perfeitamente que o mal não estava apenas na carne, pois quase desfalecia todas as vezes que lhe apalpavam a cintura ou os rins. Os médicos e os cirurgiões garantiam-lhe que não corria nenhum perigo mortal, que, na sua idade, sarava-se de tudo e que Deus fazia muitos outros milagres, como o daquele calafate que eles viram chegar um dia, carregando as tripas nas mãos, e que tornara a sair a pé, ao fim de algum tempo, mais alegre que antes; Guccio se desesperava. Três semanas já. . . e não havia razão alguma para que não fosse preciso ainda mais três outras, ou três meses, ou que talvez ficasse para sempre coxo ou inválido.

Via-se condenado a permanecer até ao fim de seus dias todo retorcido e encarquilhado atrás de qualquer balcão de cambista, em Marselha, impedido de viajar para Paris. Se ainda não morresse de outra coisa. Todas as manhãs via levarem dois ou três cadáveres que já tinham adquirido cor violácea, porque ali havia, constantemente, como em todos os portos do Mediterrâneo, alguns casos de peste. Tudo isso por ter querido bancar o fanfarrão e saltar no cais mais depressa que seus companheiros, quando acabava de escapar do naufrágio!

Enraivecia-se contra o destino e sua própria tolice. Mandava buscar, quase cotidianamente, o escrivão, e ditava-lhe compridas cartas para Maria de Cressay, que mandava pelos postilhões dos bancos lombardos para a agência de Neauphle, a fim de que o chefe as entregasse à jovem, em segredo.

Com toda a ênfase e a riqueza de imagens que os italianos possuem para falar de amor, Guccio mandava declarações apaixonadas a Maria. Garantia-lhe que somente queria curar-se por sua causa, pela felicidade de reencontrá-la, de contemplá-la, de amá-la todo santo dia. Suplicava-lhe conservasse a 'fé que haviam jurado e prometia-lhe mil felicidades. "Tenho apenas a vossa alma em meu coração, nele não haverá jamais outra e, se ela me viesse a faltar, minha vida ir-se-ia com ela".

Porque esse presunçoso, agora que estava pregado, por causa de sua tolice, num leito do Hospital Geral, punha-se a duvidar de tudo e a recear que aquela que amava não o esperasse mais. Maria iria esquecer-se do namorado sempre ausente, apaixonar-se por algum cavaleiro de sua província, caçador e campeão de torneio.

"Minha sorte, pensava ele, é ter sido o primeiro a amá-la. Mas já passou um ano e logo mais seis meses que trocamos o primeiro beijo. Ela vai refletir. Meu tio me prevenira. Que ou eu aos olhos de uma fidalga? Um lombardo, isto é, pouco mais que um judeu, mas um pouco menos que um cristão e, sobretudo, um homem que não é da sua classe."

Enquanto contemplava as pernas inertes e emagrecidas, pensando se um dia poderia ficar de pé, descrevia para Maria de Cressay, em suas cartas, a maravilhosa existência que lhe iria proporcionar. Tornara-se íntimo e protegido da nova rainha da França. Lendo-o, dir-se-ia ter sido ele quem negociara o casamento do rei. Contava sua embaixada a Nápoles, a tempestade, e como se comportara nela, mantendo a coragem da tripulação. Atribuía seu acidente a um gesto cavalheiresco; precipitara-se para amparar a princesa Clemência e impedi-la de cair na água, quando ela descia do navio ainda agitado, mesmo no porto, pelos redemoinhos do mar.

Guccio escrevera também ao seu tio Spinello Tolomei para contar-lhe sua infelicidade, pedir-lhe reservasse a agência de Neauphle e solicitar crédito junto ao seu correspondente de Marselha.

Visitas, bastante numerosas, distraíam-no um pouco e lhe davam oportunidade para gemer acompanhado, o que é mais tranqüilizante do que gemer sozinho. O agente dos mercadores sienenses viera cumprimentá-lo e colocar-se à sua disposição; o correspondente de Tolomei cumulava-o de atenções e mandava levar-lhe refeição melhor do que a servida pelos irmãos hospitaleiros.

Uma tarde, Guccio teve a alegria de ver surgir seu amigo, o Signor Boccacio de Cellino, primeiro viajante da companhia dos Bardis que se encontrava precisamente de passagem por Marselha. Perto dele, Guccio pôde lamentar-se à vontade.

— Pensa em tudo que vou perder — dizia Guccio. — Não poderei assistir ao casamento de donna Clemenza, onde teria meu lugar entre os grandes senhores. Ter feito tanto para isso e não poder estar lá! E vou perder, também, a sagração de Reims. Ah! como isso tudo me deixa pesaroso... e não tenho resposta alguma da minha bela Maria.

Boccacio esforçou-se para acalmá-lo. Neauphle não era um bairro de Marselha e as cartas de Guccio não viajavam na andadura das cavalgadas reais. Elas precisavam passar pelas mudas de cavalos lombardos de Avinhão, de Lião, de Troyes e de Paris; os postilhões não viajavam todos os dias.

— Boccacino, meu amigo — exclamava Guccio — uma vez que vais para Paris, suplico-te, se tiveres tempo, que vás a Neauphle para ver Maria. Dize-lhe tudo quanto te confiei! Indaga se minhas cartas lhe foram entregues; vê se ela sente por mim o antigo amor. E não me escondas nenhuma verdade, mesmo a mais dura... Não achas, Boccacino, que eu devia me fazer transportar em liteira?

— Para que a ferida se reabra, que os vermes nela se metam e para morreres de febre em alguma péssima hospedaria de estrada? Que boa idéia! Ficaste louco? Tens vinte anos, Guccio...

— Ainda não!

— Uma razão a mais; na tua idade, que é um mês perdido?

— Se fosse apenas um mês... é toda a vida que pode ser perdida.

Todos os dias a princesa Clemência enviava um de seus gentis-homens saber notícias do ferido. Por três vezes o gordo Bouville foi pessoalmente sentar-se à cabeceira do jovem italiano. Bouville estava cheio de trabalho e de cuidados. Esforçava-se por dar uma aparência conveniente ao séquito da futura rainha, antes de se pôr a caminho para Paris. Sofrendo os efeitos da travessia, parte dos acompanhantes teve que ir para a cama ao chegar. Ninguém tinha mais roupas, a não ser aquelas, umedecidas e enxovalhadas, trazidas ao desembarcar. Os fidalgos e as damas de companhia faziam encomendas nos alfaiates e nas rendeiras, sem se preocuparem com o pagamento. Todo o enxoval da princesa, perdido no mar, precisava ser refeito; era preciso comprar novamente a prata--ria, a baixela, as arcas, os móveis de viagem que constituíam a bagagem normal de um personagem real em trânsito. Bouville pedira fundos a Paris; Paris respondera que se dirigisse a Nápoles, pois todas aquelas perdas tinham acontecido na parte da viagem que competia à coroa da Sicília. Foi necessário apelar para os lombardos. Tolomei reenviou os pedidos para os Bardi, que eram os financiadores habituais do Rei Roberto de Nápoles, o que explicava a rápida passagem de Boccacio por Marselha, para acertar o negócio. Em toda essa embrulhada, Guccio fazia muita falta a Bouville, e quando o antigo camareiro o visitava, era mais para lamentar sua sorte e pedir conselho ao jovem, do que para reconfortá-lo.

Bouville tinha um jeito de olhar para Guccio que parecia dizer: "Ter-me feito isto, a mim!"

— Quando ides partir? — perguntava-lhe Guccio, que via aproximar-se esse momento com desespero.

— Oh! meu pobre amigo, não antes do meado de julho.

— Será que estarei bom?

— Espero que sim. Esforçai-vos, pois a vossa cura me prestará grande serviço.

Mas o meado de julho chegou sem que Guccio se tivesse levantado, longe disso. Na véspera da partida, Clemência da Hungria foi despedir-se pessoalmente do enfermo. Guccio já era bastante invejado pelos seus companheiros de hospital, por causa das visitas que recebia, dos cuidados com que o rodeavam e da facilidade com que suas exigências eram satisfeitas. Começou a ter aparência de herói de lenda quando a noiva do rei de França, acompanhada por duas damas e seis cavaleiros napolitanos, fez abrir as portas do salão do Hospital Geral. Os irmãos hospitaleiros que cantavam as vésperas olharam-se surpresos, e suas vozes se enrouqueceram um pouco. A bela princesa ajoelhou-se, como a mais humilde fiel e depois, terminadas as orações, adiantou-se entre os leitos, através daquela imensa extensão de dores, seguida por inúmeros olhares maravilhados.

— Oh! coitados! — murmurou ela.

Ordenou, em seguida, ao séquito, que se distribuíssem esmolas em seu nome a todos os indigentes e que se dessem duzentas libras à fundação.

— Mas, Madame — assoprou-lhe Bouville, que caminhava ao seu lado — não temos dinheiro suficiente para pagar tudo!

— Que importa! isso vale mais que taças cinzeladas para beber ou que seda para nos adornar. Sinto vergonha ao pensar em semelhantes vaidades, tenho vergonha até mesmo de minha saúde quando vejo tanta miséria.

Entregou a Guccio um pequeno relicário contendo um minúsculo pedaço do manto de São João, "com uma gota visível do sangue do precursor", pelo qual pagara caríssimo a um judeu especialista nesse gênero de comércio. O relicário estava preso a uma correntinha de ouro, que Guccio imediatamente colocou no pescoço.

— Ah! gentil signor Guccio — disse a princesa Clemência — fico triste ao ver-vos aqui. Fizeste por duas vezes uma longa viagem para serdes, ao lado do Senhor de Bouville, o mensageiro das boas novas; socorreste-me no mar e não estareis presente à alegria das minhas núpcias!

Fazia na sala um calor de fornalha. Fora, ameaçava tempestade. A princesa tirou da bolsa um lenço e enxugou o suor que deixava lustroso o rosto do ferido, com gesto tão natural e tão doce, que as lágrimas vieram aos olhos de Guccio.

— Mas como vos aconteceu isso? — volveu Clemência — Nada vi, nem pude ainda compreender o que se passou.

— Eu... eu pensei, Senhora, que iríeis descer, e como a nau ainda estivesse jogando, eu... eu quis pular para vos oferecer o braço. Estava escuro, não enxergava nada. . . e pronto... o pé escorregou.

Dessa hora em diante seria obrigado a acreditar na sua meia-mentira. Desejaria tanto que as coisas se tivessem passado assim! E depois de tudo, esse movimento que o havia impelido a saltar em primeiro lugar. . .

— Gentil signor Guccio — repetiu Clemência comovida. — Curai-vos depressa, ficarei alegre com isso. E ide anunciar-me vossa cura na corte de França; minhas portas estarão sempre abertas para vós como para um amigo.

Trocaram um longo olhar completamente inocente, pois ela era filha de rei e ele filho de lombardo. Colocados pelo nascimento em outras situações, aquele homem e aquela mulher teriam podido amar-se.

Nunca mais tornariam a ver-se e, no entanto, seus destinos iam ser mais estranhamente, mais tragicamente confundidos do que quaisquer outros jamais o foram.

 

                     OS SIGNOS DA DESGRAÇA

O BOM tempo durou pouco. Os tufões, os temporais, o granizo e as chuvas que devastaram, naquele verão, o ocidente da Europa, e dos quais a Princesa Clemência já sofrerá os ataques durante a travessia, reapareceram no dia seguinte ao da partida da comitiva. Após a primeira etapa, feita em Aix-la Provence e outra, no castelo de Orgon, a chegada a Avinhão foi feita debaixo de trombas de água. Do teto de couro pintado da liteira em que viajava a princesa jorrava água como gárgula de igreja. Os belos vestidos novos iam já ficar enxovalhados, as arcas trespassadas pela chuva e as selas bordadas a prata dos cavaleiros napolitanos perdidas, antes de maravilharem o povo da França? O Senhor de Bouville apanhou um resfriado, o que não melhorava nada. Resfriar-se no mês de julho, poder-se-ia imaginar coisa mais ridícula? O pobre tossia, escarrava, o nariz escorria de fazer medo. Com a idade, tornava-se de saúde fraca, a menos que o vale do Ródano e as paragens de Avinhão lhe fossem decididamente nefastas.

Acabava a comitiva de se instalar num dos palácios da cidade papal quando Monseigneur Tiago Duèze (5), cardeal da Cúria, apareceu, acompanhado de todo o corpo eclesiástico, para saudar Clemência da Hungria. Esse velho prelado alquimista, postulando a tiara há quinze meses, conservava, a despeito dos setenta anos, seu estranho caminhar de adolescente. Pulava por entre as poças, sob as rajadas molhadas que tinham apagado as lanternas que lhe punham à frente.

O cardeal Duèze era o candidato oficial dos Anjou-Sicília. O casamento de Clemência com o rei de França conciliava seus negócios e reforçava-lhe a posição. Contava com a nova rainha para apoiá-lo em Paris, e fazê-lo ganhar, assim, os votos que lhe faltavam entre os seus colegas franceses.

Ágil como um cervo, subiu a escadaria, forçando os pajens que lhe sustentavam a cauda das vestes a correr atrás dele. Acompanhavam-no o cardeal Orsini e os dois cardeais Colonna, igualmente devotados aos interesses de Nápoles, que tinham dificuldade em segui-lo.

Para receber toda essa púrpura, o Senhor de Bouville, embora com o lenço no nariz e a voz embaraçada, retomou um pouco de sua dignidade de embaixador.

— Pois bem, Monseigneur — disse ele ao cardeal, tratando-o como velho conhecido — vejo que é mais fácil esperar-vos quando acompanho a sobrinha do rei de Nápoles, do que procurar--vos por ordem do rei de França e que já não é necessário correr os campos à vossa procura.

Bouville podia permitir-se este tom de bom humor; o cardeal tinha custado quatro mil libras ao Tesouro de França.

— É que, Monseigneur — respondeu o prelado — a Senhora Maria da Hungria, e seu filho, o rei Roberto, sempre me deram a honra, com grande constância, de sua piedosa confiança; e a união de sua família ao trono de França, através desta bela princesa de alta reputação, atende às minhas preces.

Bouville tornava a ouvir essa voz estranha, ao mesmo tempo rápida e fraca, sufocada, amortecida, que parecia sair de outra garganta que não a do cardeal e dirigir-se a um terceiro interlocutor. Seu discurso, no momento, se endereçava sobretudo a Clemência, que o cardeal não perdia de vista.

— E depois, Senhor Conde, as coisas mudaram muito —I continuou ele —e não se percebe atrás de vós a sombra de Monseigneur de Marigny, que tinha poder bem extenso e que estava sempre pronto a jogar-nos pela janela. É verdade que ele mostrou ser tão infiel em suas contas que vosso jovem rei, cuja bondade de alma é conhecida, não pôde salvá-lo de um justo castigo?

— Sabeis que Monseigneur de Marigny era meu amigo — respondeu Bouville, corajosamente. — Começou em minha casa como escudeiro. Penso que os seus recebedores, mais que ele mesmo, foram infiéis. Foi-me duro ver um velho companheiro perder-se por teimosia orgulhosa, ao querer tudo dominar. Tinha-o prevenido...

Mas o Cardeal Duèze não chegara ao fim de suas perfídias corteses.

— Vede, Messire — volveu ele — que não era necessária tanta pressa na anulação do casamento de vosso Senhor, sobre o qual viestes conversar comigo. A Providência prove sempre aos nossos desejos, por pouco que a ajudemos com mão um pouco firme...

Não cessava de fixar a princesa. Bouville apressou-se a mudar de assunto, atraindo o prelado para um lado.

— Então, Monseigneur, e o conclave? — perguntou ele.

— Sempre no mesmo estado, isto é, sempre nada. Monseigneur d'Auch, nosso venerado cardeal camarlengo, não consegue ou não quer conseguir congregar-nos, por boas razões que apenas ele conhece. Alguns de nós estão em Carpentras, outros em Orange, nós mesmo aqui, Caetani em Viena. . .

A essa altura, lançou-se num libelo macio, mas feroz, contra o cardeal Francisco Caetani, sobrinho de Bonifácio VIII e seu mais violento adversário.

— É engraçado ver a coragem com que ele hoje defende a memória do tio; não podemos esquecer que quando vosso amigo Nogaret foi a Anagni, com sua cavalaria, para sitiar Bonifácio, Monseigneur Francisco abandonou o seu querido parente, ao qual devia o barrete, e fugiu disfarçado de criado, fie parece nascido para a felonia como outros para o sacerdócio — declarou Duèze.

Seus olhos, animados pela paixão de velho, brilhavam no fundo do rosto seco e encovado. A acreditar-se nele, o cardeal Caetani era capaz das piores perversidades; havia o diabo naquele homem...

— . . .e o demônio, como sabeis, pode muito bem introduzir-se em tudo; nada lhe deve ser mais prazeroso do que sentar-se em nossos colégios.

Ora, falar em demônios naquela época, não era uma imagem de conversa; não se dizia à toa esse nome que era um prelúdio aos decretos de heresia, à tortura e à fogueira.

— Eu bem sei — prosseguiu Duèze — que o trono de São Pedro não pode continuar indefinidamente vago e que isso é mau para o universo. Mas que posso eu? Ofereci-me, por pouco diligente que seja para receber tarefa tão pesada, ofereci--me para aceitar esse fardo, pois pareço ser o único em torno do qual se pode obter um acordo. Se Deus, designando-me, quiser elevar o menos digno ao mais alto lugar, submeter-me-ei à vontade divina. Que mais posso fazer, Senhor de Bouville?

Depois disso, mandou entregar à princesa Clemência um soberbo exemplar, ricamente iluminado, do seu Elixir dos Filósofos, tratado de filosofia hermética, que tinha grande renome entre os especialistas, mas do qual ele duvidava que a princesa pudesse compreender uma linha. Pois esse Cardeal, mestre em intrigas, era, ao mesmo tempo, um espírito universal, versado em medicina, em alquimia, como em todas as ciências humanas, de quem, durante dois séculos, continuaram a copiar as obras.

Partiu, enfim, seguido de seus prelados, de seus vigários e de seus pajens; já levava uma vida de papa e, até os limites de suas forças, impediria qualquer outro de ser eleito.

Assim que, no dia seguinte, o cortejo de Madame de Hungria retomou a estrada de Valença, a princesa perguntou a Bouville:

— Que queria dizer o Cardeal, ontem, com essa ajuda dada às decisões da Providência para satisfazer nossos votos?

— Não sei, Senhora, não me lembro bem — respondeu Bouville, contrafeito. — Creio que ele falava do Senhor de Marigny, não compreendi.

— Parece-me que ele falava da anulação do casamento de meu futuro esposo, que não se conseguiu obter. De que morreu Madame Margarida de Borgonha?

— De resfriado contraído na prisão e do remorso de suas" faltas, sem dúvida alguma.

Bouville assoou-se, para ocultar a perturbação; ele conhecia muito bem os rumores que circulavam sobre a morte apressada da primeira esposa do rei e não desejava falar nisso.

Clemência admitiu a explicação de Bouville, mas seu espírito não ficou tranqüilo.

"Assim, a felicidade que me é prometida, pensava Clemência, devo-a à morte de uma outra".

Sentia-se inexplicavelmente ligada a essa rainha, a quem ia suceder, e cujo pecado lhe causava tanto medo quanto o castigo que lhe inspirava piedade.

A verdadeira caridade, tal como a sentem raramente os a pregam, não é justamente esse gesto que leva a alma partilhar sem motivo o crime dos culpados e a responsabilidade dos juizes?

"Sua falta causou-lhe a morte, essa morte me faz rainha", pensava Clemência. Via nisso como uma condenação que trazia consigo e sentia-se rodeada de presságios de infelicidade. A tempestade, o acidente do pequeno lombardo e essas chuvas que chegavam à calamidade... tantos signos nefastos.

Porque o tempo não melhorava. As aldeias que atravessavam tinham aspecto desolador. Após um inverno de carestia, as colheitas tinham-se anunciado opimas e os camponeses sentiam a coragem de voltar; alguns dias de ventania e de temporais terríveis tinham-lhes varrido as esperanças. Agora era a água que caía, constante, apodrecendo tudo.

O Durance, o Drône, o Isère, tinham enchido, e o Ródano, que se costeava, adquirira, ao engrossar, uma força perigosa. Por vezes, era preciso parar para retirar da estrada um árvore caída.

O contraste, para Clemência, entre a Campânia, de céu sempre azul, com um povo sorridente, com pomares carregados de frutos dourados, e esse vale devastado, habitado por silhuetas escaveiradas, essas povoações sinistras, semidespovoadas pela fome, era penoso.

"E mais para o norte será pior, sem dúvida. Chego a um país áspero".

Ela teria querido suavizar todas as misérias e mandava, constantemente, parar a liteira a fim de distribuir esmolas a todas as pessoas que lhe parecessem miseráveis. Bouville era forçado a acalmá-la.

— Se dais esmola nesse andar, Madame, não teremos o suficiente para chegar a Paris.

Foi chegando a Viena, em casa de sua irmã Beatriz, casada com o soberano do Delfinado, que ela soube que o rei Luís X acabava de partir para a guerra contra os flamengos.

— Senhor meu Deus — murmurou ela — ficarei viúva antes mesmo de ter visto meu esposo? E não terei vindo para as terras de França apenas para acompanhar a desgraça?

 

                       O REI EMPUNHA A AURIFLAMA

ENGUERRAND de Marigny, no decorrer do seu processo, tinha sido acusado, por Carlos de Valois, de se ter vendido aos flamengos, negociando com eles um tratado de paz contrário aos interesses dos reino.

Ora, assim que Marigny fora suspenso nas correntes de Montfaucon, o conde de Flandres rompera o tratado. Para isto, valeu-se da maneira mais simples: recusou, malgrado houvesse sido convidado para a cerimônia, ir a Paris prestar homenagem ao novo rei. Ao mesmo tempo, deixou de pagar as rendas, reafirmando suas reivindicações territoriais sobre Lille e Douai.

Ao saber da nova, o rei Luís X foi tomado por uma cólera terrível. Era ele sujeito a tais acessos de furor, que lhe tinham valido o cognome de Turbulento, e que amedrontavam as pessoas da sua intimidade, não por elas mas por ele mesmo, pois, nesses momentos, ele se aproximava da loucura.

Sua raiva, ao saber da rebelião dos flamengos, ultrapassara em violência tudo de que se mostrara capaz até então.

Durante várias horas, girando em seu gabinete como uma fera que acaba de cair na armadilha, os cabelos em desordem, o pescoço avermelhado, quebrando os objetos, tombando as cadeiras a pontapé, quebrando coisas, não cessara de proferir palavras sem nexo, apenas interrompido em sua gritaria pelos acessos de tosse que o dobravam em dois e pareciam sufocá-lo.

— A subvenção! — gritava ele. — E esta tempestade! Ah. eles me pagarão também esta tempestade! Forcas, preciso de forcas! Quem me fez suprimir a subvenção? De joelhos. De joelhos o conde de Flandres! E meu pé sobre a sua cabeça! Bruges? Fogo! Porei fogo nela!

Tudo se misturava, o nome das cidades revoltadas, o atraso de Clemência da Hungria, a promessa dos castigos. Mas a palavra que voltava com mais freqüência era "subvenção", pois Luís X acabava, precisamente, alguns dias antes, de suspender o lançamento desse imposto excepcional, destinado a cobrir as despesas da expedição militar do ano anterior.

Começava-se, então, sem ousar dizê-lo abertamente, a ter saudades de Marigny e do jeito que ele tinha para tratar desse gênero de rebelião quando, por exemplo, respondeu ao abade Simão de Pisa, que o informava de que os flamengos estavam muito esquentados: "Esse ardor não me espanta, Frei Simão, é o efeito do calor. Nossos senhores também estão ardentes e enamorados pela guerra... E realmente, sabei que o reino de França não se deixa retalhar por palavras; precisa, para isso, de outros atos". Desejou retomar o mesmo tom, mas infelizmente o homem que podia falar assim já não era deste mundo.

Encorajado por seu tio Valois, em quem o exercício do poder não diminuía em nada os ardores belicosos, muito ao contrário, e que nunca cessou de dar prova de suas virtudes de grande capitão, o Turbulento pôs-se a sonhar com proezas. Iria reunir o maior exército que jamais fora visto em França, cair como a águia das montanhas sobre os flamengos rebeldes, retalhar alguns milhares em postas, exigir resgate dos outros, reduzi-los à miséria numa semana e aí, onde Filipe, o Belo, não fora completamente bem sucedido, mostrar o que era capaz de fazer. Já se via voltando, precedido dos estandartes do triunfo, as arcas recheadas pelo saque e pelos tributos impostos às cidades, tendo, ao mesmo tempo, ultrapassado a memória de seu pai e apagado os infortúnios do seu primeiro casamento, pois era preciso pelo menos uma guerra para lhe fazer esquecer as desgraças conjugais. Depois, com o mesmo impulso, no meio da ovação popular, ele chegaria a galope, príncipe vitorioso e herói de batalha, para acolher sua nova esposa e conduzi-la ao altar e à sagração.

Esse moço, decididamente, não era sério, e poder-se-ia ter piedade dele, pela dor que sempre existe na estupidez, se ele não estivesse sob o peso da França e de seus quinze milhões de almas.

A 23 de junho reuniu a Câmara dos Pares, gaguejou, mas, violentamente, fez declarar traidor o conde de Flandres e decidiu convocar o ost — isto é, o exército real(6) — para o primeiro dia de agosto, diante de Courtrai.

Esse lugar não era dos mais bem escolhidos. Parece existir lugares por onde a desgraça tem o hábito de passar e Courtrai soava, aos ouvidos das pessoas daquele tempo, mais ou menos como hoje soa o nome de Sedan. A não ser que Luís X e seu tio Carlos, em sua presunção, tenham escolhido Courtrai justamente para afugentar a lembrança do desastre de 1302, uma das raras batalhas perdidas no reinado de Filipe, o Belo, e onde muitos milhares de cavaleiros, investindo como loucos, na ausência do rei, foram precipitar-se nos fossos para se fazerem retalhar pelas facas dos tecelões de Flandres: uma verdadeira carnificina que acabou sem prisioneiros.

Para a manutenção do exército formidável que desejava fazer servir à sua glória, Luís X tinha necessidade de dinheiro; Valois, então, recorreu aos mesmos expedientes empregados por Marigny, o que levou o povo a perguntar se tinha sido mesmo necessário condenar à morte o antigo administrador do reino, se era para voltar aos seus métodos, aplicando-os de maneira pior.

Alforriaram-se todos os escravos que podiam pagar a liberdade; anistiaram-se os judeus, mediante uma taxa arrasadora sobre o seu direito de moradia e de comércio; exigiu-se novo pagamento dos lombardos que, desde logo, olharam o novo reino com olhar menos favorável. Duas contribuições urgentes em menos de um ano, era um pouco mais do que desejavam sofrer(7).

Desejou-se igualmente taxar o clero; mas este recusou, argumentando que estando vaga a Santa Sé, nenhuma decisão poderia ser tomada na falta de um papa; depois, à força de negociações, os bispos consentiram em ajudar, a título excepcional, aproveitando a ocasião para conseguir isenções e franquias que, finalmente, custaram mais caro ao tesouro que os subsídios obtidos.

O recrutamento do exército foi feito sem dificuldade e até mesmo realizado com certo entusiasmo pelos barões que se aborreciam um pouco em suas mansões e se alegraram com a idéia de usar as suas couraças e de correr à aventura.

Entre o povo havia menos alegria.

— Não basta — dizia-se — estarmos meio mortos de fome para darmos ainda nossos homens e nosso dinheiro para a guerra do rei?

Garantia-se, porém, ao povo, que a culpa era dos flamengos; acenava-se aos soldados com a esperança do saque e dos dias de pilhagem e de roubo; para muitos era uma maneira de acabar com a monotonia do trabalho cotidiano e com a necessidade de comer; ninguém queria se mostrar covarde e, se tivesse havido recusas, os meirinhos do rei ou dos senhores eram bastante numerosos para manter a ordem, enfeitando as árvores dos caminhos com alguns enforcados. De acordo com as ordenações de Filipe, o Belo, sempre em vigor, nenhum homem válido podia, em princípio, ser dispensado se tivesse mais de dezoito e menos de sessenta anos, salvo se se resgatasse mediante contribuição em dinheiro ou se exercesse um ofício considerado indispensável.

A mobilização, naquela época, era feita de acordo com uma organização inteiramente territorial. Os cavaleiros eram •uma espécie de oficiais ajuramentados, que deviam arregimentar tropas entre seus vassalos, súditos ou escravos. O cavaleiro e mesmo o escudeiro nunca iam sozinhos para a guerra, mas sim acompanhados de criados de armas, de dispenseiros e de peões. Eles eram donos de seus cavalos, de seu armamento e do de seus soldados. 0 simples cavaleiro sem bandeira tinha mais ou menos o grau de tenente; equipada e reunida a sua gente, juntava-se ao cavaleiro de grau superior, isto é, ao seu suserano imediato. Os cavaleiros de pendão equivaliam mais ou menos a capitães, os cavaleiros vexiliários a coronéis e os cavaleiros, de duas bandeiras eram como generais que tivessem comandado a grande unidade tática arregimentada na jurisdição de sua baronia ou de seu condado.

Acontecia que, na batalha, todos os cavaleiros, deixando de lado seus peões, se reuniam para atacar, muitas vezes com o resultado que se conhece.

A bandeira do Conde Filipe de Poitiers, irmão do rei, devia ter as proporções de um corpo de exército pois que reunia, ao mesmo tempo, as tropas do Poitou e as do condado de Borgonha, do qual Filipe era conde palatino pelo casamento; além disso, dez cavaleiros vexiliários a ela estavam administrativamente agregados, dentre os quais o conde d'Evreux, tio do rei, o Conde João de Beaumont, Miles de Noyers, Anseau de Joinville, filho do grande Joinville, e até mesmo Gaucher de Châtillon que, embora condestável da França, quer dizer, chefe supremo dos exércitos, tinha as tropas de seu feudo incorporadas nesta grande unidade.

Não fora certamente sem razão que Filipe, o Belo, tinha confiado ao seu segundo filho, antes mesmo que ele tivesse vinte e dois anos, um poder militar tão importante, nem que tinha concentrado, sob a sua autoridade, como para reforçá-la, os homens em quem tinha mais confiança.

Com a bandeira do Conde Carlos de Valois marchavam juntas as tropas do Maine. d'Anjou, de Valois, entre as quais se encontrava o velho cavaleiro d'Aunay, pai dos dois falecidos amantes de Margarida e Branca de Borgonha.

As cidades não eram obrigadas a menos contribuição que a do campo. Para esse exército da Flandres, Paris tinha fornecido quatrocentos homens a cavalo e dois mil homens a pé, cujo soldo seria assegurado pelos burgueses comerciantes da cidade, de quinzena em quinzena, o que revelava bem que, no pensamento do rei, a guerra não deveria ser longa. Os cavalos e carroças necessários ao equipamento das tropas tinham sido requisitados aos mosteiros.

A 24 de junho de 1315, após algum atraso, como sempre acontecia, Luís X recebeu, em São Denis, das mãos do abade Egídio de Chambly, que exercia as funções de seu guardião, a auriflama de França, comprida faixa de seda vermelha ornada de flamas de ouro (de onde o seu nome inicial: o ouro aí flama) terminada por duas línguas e pendurada numa haste recoberta de cobre dourado. Ao lado da auriflama, venerada como relíquia, eram levados os dois guiões do rei, azul com flor-de-lis e a cruz branca.

E o grande exército pôs-se em marcha com todos os contingentes chegados do Oeste, do Sul, do Sudoeste, os cavaleiros do Languedoc, as tropas da Normandia e da Bretanha. As bandeiras do ducado de Borgonha e da Champanha, as do Artois e Picardia juntaram-se em caminho, perto de Saint-Quentin.

Aquele dia foi um dos raros ensolarados num verão apodrecido. A luz brilhava sobre milhares de lanças, elmos de aço, cotas de malha e escudos de combate pintados de cores vivas. Os cavaleiros mostravam uns aos outros os últimos achados em matéria de armaduras, uma nova forma de capacete ou de elmo que protegia melhor a vista dando-lhe também maior campo de visibilidade, ou ainda alguns contrafortes mais envolventes que, colocados no ombro, protegiam-nos contra golpes de maça ou desviavam o gume das espadas.

A várias léguas atrás dos soldados, vinha o comboio das carroças de quatro rodas transportando os víveres, as forjas, as provisões de flechas dos besteiros e mais toda espécie de mercadores autorizados a acompanhar o exército, e de rameiras às carradas, sob as ordens dos donos de bordéis. Tudo isso avançava numa surpreendente atmosfera de heroísmo e de feira.

No dia seguinte, a chuva recomeçou a cair, penetrante, alagadiça, encharcando as estradas, formando pântanos, jorrando sobre os capacetes de ferro, escorrendo sobre as couraças, grudando o pêlo dos cavalos. Cada homem pesava cinco libras a mais.

E nos dias seguintes, chuva, sempre chuva.

O exército de Flandres nunca atingiu Courtrai. Parou em Bonduis, próximo a Lille, diante da enchente do Lys que barrava qualquer passagem, inundava os campos, apagava os caminhos e empapava a terra argilosa. Como não se pudesse mais avançar, o acampamento foi erguido nesse lugar, sob o dilúvio.

 

                           O EXÉRCITO ENLAMEADO

NO INTERIOR da vasta tenda real, toda ornada de flores-de-lis, mas onde se patinhava como alhures, Luís X, rodeado de seu irmão, o Conde de Ia Marche, de seu tio, o Conde Carlos de Valois, e de seu chanceler, Estêvão de Mornay, ouvia o Condestável Gaucher de Châtillon expor-lhe a situação. O relatório não era alegre.

Châtillon, Conde de Porcien e Sire de Crèvecoeur, era condestável desde 1286, isto é, desde o começo do reinado de Filipe, o Belo. Tinha visto o desastre de Courtrai, a vitória de Mons-en-Pevèle e várias outras batalhas naquela fronteira do norte, sempre ameaçada. Ele cavalgava para Flandres pela sexta vez em sua vida. Tinha, então, 65 anos. Era um homem de bela estatura, de queixo voluntarioso e sobre o qual nem os anos nem a fadiga pareciam pesar; tinha a aparência lenta por ser refletido. Sua força física, sua coragem em combate impunham respeito tanto quanto seus conhecimentos de estratégia. Tomara parte em muita guerra para amá-la ainda, e considerava-a apenas como uma necessidade política; dizia as coisas claramente e não se perturbava com a vã gloríola.

— Sire — disse ele — a carne e os víveres já alcançam o exército, as carroças estão atoladas no tremedal a seis léguas daqui e matam-se os cavalos ao tentar safá-los. Os homens começam a murmurar de fome e de cólera; os que ainda têm o que comer precisam defender suas reservas contra os que nada possuem; os archeiros de Champanha e do Perche agora mesmo acabam de brigar, e é desagradável ver que os vossos soldados batalham entre si antes mesmo de enfrentar o inimigo. Vou ser forçado a mandar enforcar, do que não gosto. Mas as forcas levantadas não enchem barriga. Já temos tantos doentes que os barbeiros-cirurgiões nem podem tratar deles e em breve serão os capelães, que terão bastante que fazer. Há quatro dias que isto dura e que não se vê diminuir o temporal. Mais dois dias e a fome aparecerá e ninguém poderá impedir os homens de desertar para procurar alimento. Está tudo mofado, podre e enferrujado...

Arrancou o carnal de aço que lhe cobria a cabeça e as espáduas e enxugou os cabelos. O rei andava de um lado para o outro, nervoso, ansioso e agitado. Vinha de fora um barulho de vozes e de estalar de chicotes.

— Façam parar essa algazarra! — gritou o Turbulento — não se pode nem pensar!

Um escudeiro soergueu o reposteiro da tenda. A chuva continuava, torrencial. Trinta cavalos, afundados na lama até aos joelhos, estavam atrelados a um tonel que não conseguiam safar.

— Onde levam esse vinho? — perguntou o rei aos carroceiros que chafurdavam na lama.

— Para Monseigneur Conde d'Artois, Sire — respondeu um deles.

O Turbulento fixou-os um momento com os seus grandes olhos glaucos, sacudiu a cabeça e voltou sem nada acrescentar.

— Que voz dizia, Sire? — tornou Gaucher. — Teremos talvez que beber hoje, mas amanhã não tenho certeza. . . Ah! eu devia ter-vos aconselhado com mais firmeza. Era de opinião que se devia parar mais cedo, firmando-nos sobre qualquer elevação, em lugar de vir parar neste atoleiro. Meu primo de Valois(8) e vós mesmo insististes para que prosseguíssemos. Receei que, se impedisse o exército de progredir, me tomassem por covarde e acusassem minha idade. Errei.

Carlos de Valois aprestava-se a replicar quando o rei perguntou:

— E os flamengos?

— Estão em frente, do outro lado do rio, também em grande número e não muito mais felizes, penso eu, porém mais perto de seu reabastecimento e apoiado pelo povo de seus burgos e aldeias. Se a água amanhã baixar, eles estarão melhor preparados para atacar-nos do que nós para os acometer.

Carlos de Valois deu de ombros.

— Vamos, Gaucher, a chuva tirou-nos o bom humor — disse ele. — Não desejais fazer-me acreditar que uma carga de cavalaria não acabará com essa súcia de tecelões. Só de ver a nossa muralha de couraças e a nossa floresta de lanças eles vão voar como pardais.

O conde estava imponente, malgrado a lama que o cobria, em sua cota de armas de seda ornada de ouro, passada por cima da roupa de malha e, certamente, ele parecia mais rei do que o próprio soberano.

— Vê-se bem, Carlos, — replicou o condestável — que não estáveis em Courtrai há treze anos. Vós estáveis, então, guerreando na Itália, não pela França, mas pelo papa. Eu vi essa súcia, como a chamais, pôr em maus lençóis os nossos cavaleiros, que estavam muito apressados.

— É preciso crer, então, que fiz falta — disse Valois com a suficiência que era muito dele. — Desta vez estou aqui.

O chanceler de Mornay sussurrou ao ouvido do conde de Ia Marche:

— Entre o vosso tio e o condestável nasce logo uma fagulha; quando estão frente a frente, pode-se acender uma estopa sem necessidade de pederneira.

— Chuva, chuva! — repetia Luís X raivosamente. — Terei sempre tudo contra mim?

Uma saúde fraca, um pai genial, mas arrasador, cuja autoridade o sufocara, uma esposa infiel que o achincalhara, um tesouro vazio, vassalos impacientes e prontos à revolta, uma penúria no próprio inverno em que seu reinado principiava, uma tempestade que ameaçava arrebatar sua segunda esposa... Sob que espantosa discórdia de planetas que os astrólogos não lhe ousaram revelar, precisaria ter nascido para esbarrar com a adversidade em cada decisão, em cada empreitada, e acabar vencido não em batalha, com nobreza, mas pela água, pela lama em que acabava de atolar o exército!

Nesse momento, vieram anunciar uma delegação de barões de Champanha, conduzidos pelo cavaleiro Estêvão de Saint-Phalle, que desejavam a revisão imediata da carta de privilégios que lhes tinha sido outorgada no mês de maio; os champanheses ameaçavam abandonar o exército se não os satisfizessem.

— Escolheram bem o dia! — gritou o rei.

A trezentos passos dali, Sire João de Longwy, em sua tenda particular, entretinha-se com um personagem estranho, trajado metade como monge e metade como soldado.

— As novas que me trazeis da Espanha são boas, irmão Everardo — dizia João de Longwy — e fico satisfeito de ouvir que nossos irmãos de Castela e Aragão retomaram suas comendadorias. São mais felizes que nós, que devemos continuar a agir em silêncio.

João de Longwy, homem baixo e de largos maxilares, era o sobrinho do Grão-Mestre dos Templários, Tiago de Molay, do qual se considerava herdeiro e sucessor. A morte prematura de Filipe, o Belo, cumprindo a tríplice e famosa maldição, não lhe desarmara o ódio; transferira-o para os herdeiros do Rei de Ferro, para Luís X, para Filipe de Poitiers, para Carlos de la Marche. Longwy atribuía à coroa todos os aborrecimentos que podia; era um dos condutores das ligas baroniais; ao mesmo tempo, esforçava-se para reconstituir, secretamente, a Ordem dos Templários, graças a uma rede de agentes que mantinham a ligação entre os irmãos que tinham escapado.

— Desejo ardentemente a derrota do rei de França — volveu ele — e vim para este exército apenas com a esperança de vê-lo, bem como aos seus irmãos, despedaçados com um bom golpe de espada.

Magro, derreado, de olhos pretos e unidos, Everardo, ex--cavaleiro do Templo, que tinha um pé deformado pelas torturas que sofrerá, respondeu:

— Que as vossas preces sejam ouvidas, Messire João, por Deus, se for possível, senão pelo diabo.

O Grão-Mestre clandestino (9) ergueu bruscamente o reposteiro para certificar-se de que não o espiavam, e mandou para algum serviço dois moços de estrebaria que não faziam outro mal senão abrigar-se da chuva, sob o toldo da tenda. Depois, voltando-se para Everardo:

— Nada temos que esperar da coroa de França. Somente um novo papa poderia restabelecer a Ordem e entregar-nos as comendadorias daqui e de além-mar. Ah! que lindo dia será esse, irmão Everardo!

Os dois homens puseram-se a sonhar um instante. A queda da Ordem remontava apenas a oito anos, sua conde-cão a menos ainda e não fazia mais de um ano que Tiago de Molay morrera na fogueira. Todas as lembranças estavam frescas, ás esperanças vivazes. Longwy e Everardo viam-se retornando suas grandes capas brancas com a cruz preta, suas esporas de ouro, seus privilégios de há pouco e seu vasto tráfico de moeda.

— Então, irmão Everardo — tornou Longwy — ide agora para Bar-sur-Aube, onde o capelão do conde de Bar, que é um pouco dos nossos, vos dará algum lugar de clérigo a fim de que não seja preciso esconder-vos. Depois partireis para Avinhão, de onde me informaram que o cardeal Duèze, que é gente de Clemente V, voltou a ter grande oportunidade de ser eleito, o que devemos evitar a qualquer preço. Encontrai-vos com o cardeal Caetani — se ele não estiver em Avinhão não estará longe — que é sobrinho do infeliz papa Bonifácio e está resolvido, também, a vingar a memória de seu tio.

— Aposto em como ele me receberá bem, quando souber que já participei de sua vingança, auxiliando-o a mandar Nogaret para o outro mundo. É a liga dos descendentes que ides fazer!

— Justamente, Evrard, justamente. Vede, pois, Caetani e dizei-lhe que nossos irmãos da Espanha» e da Inglaterra e todos os da França, em cujo nome eu falo, o desejam e escolheram de coração para papa e estão prontos a apoiá-lo, não somente pelas preces, mas por todos os meios... E colocai--vos sob a obediência dele para o que vos pedir. Procurai ver também o irmão de Jean du Pré, que lá se encontra, que vos poderá ser de grande ajuda. E não vos esqueçais, em caminho, de verificar se alguns de nossos antigos irmãos estão por aqueles lados. Tratai de reuni-los em pequenos grupos, de fazê-los repetir os juramentos, como sabeis. Ide, meu irmão; este salvo-conduto que vos dou, de frade-capelão da minha bandeira, ajudar-vos-á a sair do acampamento sem que vos façam perguntas.

Estendeu um papel ao antigo templário, que o guardou sob o colete de couro que recobria o burel até os quadris; depois, os dois homens abraçaram-se. Everardo pôs o capacete de ferro e partiu, coxeando, vergado sob a chuva.

As tropas do conde de Poitiers eram as únicas que ainda tinham o que comer. Quando as carroças começaram a atolar-se, o conde de Poitiers dera ordens para dividir os víveres, como carga, entre os soldados que marchavam a pé. Estes, a princípio, praguejaram, mas agora abençoavam o chefe. Uma guarda severa mantinha a disciplina, pois o conde de Poitiers detestava a desordem; como ele apreciasse também o conforto, cem soldados tinham sido empregados em cavar fossos de escoamento, antes de erguer a tenda sobre ramos de galhos e achas de lenha, o que permitia ficar quase em seco. Esta tenda, quase tão rica e vasta como a do rei, tinha várias divisões separadas por tapeçarias.

Sentado no meio de seus chefes de bandeira, numa cadeira de campanha, com a espada, o escudo e o elmo ao alcance de mão, Filipe de Poitiers perguntou a um dos bacharéis (10) de sua comitiva, que lhe servia de secretário e ajudante de ordens:

— Adão Heron, já leste, como vos pedi, o livro desse florentino. . . como se chama ele?

— Senhor Dante dei Alighieri. . .

— . . .É isso mesmo... que trata tão mal minha família. Ele era bastante protegido, segundo me disseram, por Carlos Martel da Hungria, o pai dessa Princesa Clemência que logo chegará para ser rainha. Gostaria de saber o que conta o seu poema.

— Li-o Monseigneur, li-o — respondeu Adão Heron. — Esse Messer Dante imagina, para começo de sua comédia que, aos trinta e cinco anos de idade, se perde numa floresta sombria cujo caminho lhe é vedado por animais medonhos, o que o leva a entender que se extraviou do mundo dos vivos. . .

Os barões que rodeavam o Conde de Poitiers olharam-se, a princípio, surpresos. O irmão do rei jamais deixaria de espantá-los. Eis que em pleno campo de batalha e na confusão em que se encontravam, não tinha, de súbito, outra preocupação a não ser conversar sobre poesia, como se estivesse em frente à lareira da sua mansão de Paris. Mas o Conde d'Evreux, que conhecia bem o sobrinho e que, desde que estava sob as suas ordens, o apreciava cada dia mais, já compreendera. "Filipe procura distraí-los desta inatividade prejudicial, pensava ele e, ao invés de lhes esquentar o cérebro, convida-os a sonhar, enquanto aguarda a hora de conduzi-los à luta".

Pois, Anseau de Joinville, Goyon de Bourçay, João de Beaumont, Pedro de Garancière, João de Clermont, acomodando-se sobre as arcas, escutavam, com os olhos brilhantes, narrativa do bacharel Adão Heron, segundo Dante. Esses rudes homens, sempre tão brutais em sua maneira de viver, sentiam-se presas do mistério e do sobrenatural. As lendas seduziam-nos; o espírito deles estava sempre pronto a acolher o maravilhoso. Era um estranho espetáculo o daquela assistência vestida de ferro, acompanhando, apaixonada, as sábias alegorias do poeta italiano, afligindo-se por querer saber quem era aquela Beatriz tão profundamente amada, fremindo à lembrança de Francisca di Rimini e de Paulo Malatesta, e de repente, rompendo em gargalhadas porque Bonifácio VIII, em companhia de alguns papas, se encontrava no décimo oitavo círculo do inferno, na fossa destinada aos embusteiros e aos simoníacos.

— Esse poeta encontrou uma boa maneira de se vingar de seus inimigos e aliviar suas graves faltas — disse Filipe de Poitiers, rindo. — E onde colocou minha parentela?

— No Purgatório, Monseigneur — respondeu o bacharel, que tinha ido, a pedido de todos, buscar o volume copiado em grande pergaminho.

— Agora lede o que aí está escrito ou melhor, traduzi para os que, dentre nós, não entendem a língua da Itália.

— Não ouso, Monseigneur. . .

— Mas, sim, não tenhais medo. O que me importa é saber o que pensam de nós os que não nos apreciam.

— Senhor Dante imagina encontrar um sombra que geme fortemente. Interroga-a sobre a causa de sua dor e eis a resposta que ele obtém:

E Adão Heron começou a traduzir esta passagem do XX Canto:

 

Estirpe fui dessa maligna planta

que na terra cristã tal sombra projeta,

fazendo que os frutos bons aí não medrem.

Mas se Douai, Gand, Lille e Bruges

pudessem, disso se vingariam;

eu peço, essa vingança, àquele que tudo julga.

 

— Eh! Isto parece profético e ajusta-se perfeitamente à hora que estamos vivendo — disse o Conde de Poitiers. — Esse poeta conhece bem os nossos dissabores com a Flandres. Continuai. . .

 

Na terra fui chamado Hugo Capeto;

de mim saíram os Filipes e os Luíses

pelos quais agora a França é dominada.

Fui filho de um açougueiro de Paris:

quando os antigos reis todos morreram,

exceto um, monge de burel cinza,

encontrei-me detendo em minhas mãos as rédeas

do governo do reino... *

 

* O tradutor preferiu socorrer-se do original italiano (Ulrico Hoepli, Milão, 1955) para dar ao leitor uma idéia mais aproximada dos versos de Dante.

 

— Isto é completamente falso! — interrompeu o Conde de Poitiers, descruzando as longas pernas. — É uma lenda errada, que espalharam nestes tempos para nos prejudicar. Hugo, o Grande, era originário dos duques de França.(11)

Durante todo o tempo que durou a leitura, ele não cessou de comentar, com calma, às vezes com ironia, os ataques ferozes que o poeta italiano, já ilustre em sua terra, desfechava contra os príncipes franceses. Dante acusava Carlos d'Anjou, irmão de São Luís, não somente de ter assassinado o herdeiro legítimo do tronco de Nápoles mas ainda de ter mandado envenenar São Tomás de Aquino.

— Eis aí nossos primos d'Anjou bem arranjados — disse a meia voz o Conde de Poitiers.

Mas o príncipe francês contra o qual Dante se enfurecia com mais violência, ao qual reservava as piores maldições, era um outro Carlos, que tinha ido arrasar Florença e trespassar-lhe o ventre, escrevia o poeta, "com a lança com que combateu Judas".

— Eh! Mas é de meu tio Carlos de Valois que se trata aqui! — exclamou Poitiers. — Eis a razão de tão grande vingança. Parece que ele nos fez bons amigos na Itália. (12)

Os assistentes entreolharam-se, não sabendo que atitude tomar. Viram, porém, que Filipe de Poitiers sorria, cocando o rosto com a longa mão pálida. Ousaram, então, rir. No círculo do Conde de Poitiers não se estimava muito Monseigneur de Valois.

Bastante diferente do acampamento do Conde de Poitiers apresentava-se o do Conde Roberto d'Artois. Neste, a despeito d lama e da chuva, reinava agitação constante e uma desordem tão generalizada que parecia procurada.

O Conde d'Artois tinha alugado, aos vendedores que acompanhavam o exército, lugares próximos de sua tenda, reconhecível de longe graças à cor vermelha e às flâmulas que a encimavam. Quem quisesse comprar um cinturão novo, substituir a fivela do elmo, encontrar protetores para cotovelos de ferro ou mandar reparar uma cota despedaçada, devia ir lá. Havia feira diante da porta de Messire Roberto, que providenciou para ter igualmente no seu canto as mulheres alegres. Assim, dependiam os curtos prazeres dele e podia fazer liberalidades a seus amigos.

Quanto aos archeiros, palafreneiros, criados e serventes de regimento (13)? tinham sido afastados e abrigavam-se, como podiam, nas casas dos camponeses que delas tinham sido expulsos, ou em cabanas de madeira, que se chamavam enramadas, ou mesmo sob as carroças.

No interior da grande tenda vermelha não se falava em poesia. Um tonel de vinho estava constantemente aberto, os copázios circulavam no meio do vozerio, os dados rolavam sobre a tampa das grandes arcas; jogava-se o dinheiro sob palavra e mais de um cavaleiro já tinha perdido mais do que lhe custaria seu resgate na batalha.

Uma circunstância podia ser particularmente notada: embora Roberto comandasse apenas as tropas do seu condado de Beaumont-le-Roger, um grande número de cavaleiros do Artois, que dependiam da bandeira da Condessa Mafalda, estava permanentemente no seu acampamento, onde não tinha, militarmente falando, nada que fazer.

Encostado ao mastro central, o Conde Roberto d'Artois dominava, cem seu corpo colossal, toda aquela turbulência. Usando uma cota de armas escarlate sobre a qual se lhe espalhava a cabeleira de leão, divertia-se negligentemente a brincar com uma maça. Entretanto, havia uma ferida na alma desse gigante e não era à toa que ele desejava aturdir-se com a bebida e o barulho.

— Aos meus, as batalhas de Flandres foram funestas, confidenciava aos senhores que o rodeavam. Meu pai, o Conde Filipe, que muitos de vós conheceram e a quem fielmente serviram...

— Sim, conhecemo-lo!... Era um homem piedoso, um valente! — responderam os barões d'Artois.

— . . .meu pai foi ferido de morte no combate de Fumes. E meu avô, o Conde Roberto...

— Ah!... o bravo... que bom suserano era ele>!... respeitador de nossos bons costumes!... Nunca se lhe pedia justiça em vão.

— ...Quatro anos depois, ei-lo morto, rapidamente, em Contrai. Nunca dois se vão sem o terceiro. Amanhã, talvez, Messeigneurs me levareis para a terra.

Há duas espécies de supersticiosos: os que nunca evocam a desgraça e os que dela falam para desafiá-la e afugentá-la. Roberto d'Artois era da segunda espécie.

— Caumont, enchei-me outro copo, bebamos ao meu último dia! — gritou ele.

— Não queremos em absoluto! Faremos muralha com nossos corpos — gritaram os barões. — Quem, a não ser vós, defende nossos direitos?

Consideravam-no como seu suserano natural, e sua força, sua alegria comunicativa, faziam dele uma espécie de ídolo.

— Ora, vede meus bons senhores, como somos recompensados por tanto sangue derramado pelo reino — tornou ele. — Porque meu avô morreu depois de meu pai, sim, por isso!. . . o Rei Filipe aproveitou a ocasião para despojar-me de minha herança e dar o Artois à minha tia Mafalda que vos trata tão bem, com todos os seus Hirson da desgraça, o chanceler, o tesoureiro e todos os outros que vos esmagam com os foros e recusam vossos direitos.

— Se formos amanhã para a batalha e um Hirson se puser ao alcance de minha mão, prometo-lhe um golpe que forçosamente não partirá dos flamengos — declarou um latagão de grossas sobrancelhas ruivas, que se chamava Sire de Souastre.

Embora um pouco embriagado, Roberto d'Artois conservava claras as idéias. Tanto vinho distribuído, tantas mulheres oferecidas, tanto dinheiro despendido tinham uma razão. Ele procurava cevar seus ódios e apressar seus negócios.

— Meus nobres sires, meus nobres sires, antes de mais nada, a guerra do rei, de quem somos súditos leais e no momento, asseguro-vos, compreende vossas justas queixas — disse ele. — Mas, assim que terminar a guerra, então, Monseigneurs, aconselho-vos a continuardes armados. Será uma oportunidade que tereis para vos manterdes agrupados, com vossa gente reunida; tornai a entrar em Artois, percorrei região para caçar, por toda a parte, os agentes de Mafalda e urrá-los no traseiro em plena praça dos burgos. Quanto a mim, apoiar-vos-ei na Câmara do Rei e reabrirei, se for preciso, o processo em que me foi feita injustiça; e prometo fazer restabelecer vossos costumes, como no tempo de meus antepassados.

— Assim faremos, Messire Roberto, assim faremos!

Souastre abriu largamente os braços.

— Juremos — gritou ele — jamais nos separarmos antes que sejam atendidas as nossas reclamações e que nosso bom Sire Roberto nos seja restituído para ser nosso conde.

— Juramos! — responderam os barões.

Houve muitos abraços e grandes copázios foram ainda enchidos; acenderam-se as lanternas, pois o dia morria. Roberto d'Artois sentia a enorme carcaça percorrida por ondas alegres. A liga d'Artois, que ele havia fomentado e conduzido secretamente há meses, retomava força.

Nesse momento um escudeiro entrou na tenda, dizendo:

— Monseigneur Roberto, os chefes de bandeira foram convocados ao tref(14) do rei.

Das tochas evolava-se uma fumaça acre que se misturava aos fortes odores de couro, suor e ferro molhado. A maioria dos grandes senhores, sentada em círculo em torno do rei, não se lavava nem se barbeava há seis dias. Geralmente eles não passavam tão longo tempo sem irem às termas. A sujeira, porém, fazia parte da guerra.

O Condestável Gaucher de Châtillon acabava de repetir, para todos os chefes de bandeira, a exposição do lastimável estado em que se encontrava o exército.

— Messeigneurs, ouvistes o condestável. Desejo vossa opinião — disse Luís X.

Colocando a cota de seda azul nos joelhos, Valois começou com seu tom perorante:

— Já vos disse, Sire, meu sobrinho, e repito diante de todos: não se pode mais permanecer neste lugar em que tudo se estraga ao mesmo tempo, tanto a alma dos homens como o pêlo dos cavalos. A inatividade nos dilui tanto quanto a chuva...

Interrompeu-se porque o rei, tendo-se voltado, falava ao camareiro Mateus de Trye; era apenas para lhe pedir um confeito. Sentia sempre necessidade de trincar qualquer coisa.

— Continuai, meu tio, peço-vos.

— É preciso levantar acampamento amanhã de madrugada — recomeçou Valois — achar uma passagem no rio, contra a corrente, e cair sobre os flamengos para arrasá-los antes da noite.

— Com soldados sem víveres e animais sem forragem — disse o condestável.

— A vitória encher-lhes-á a barriga. Eles podem suportar um dia mais; é o dia seguinte que será muito tarde.

— E eu vos respondo, Carlos, que ides ser retalhado ou afogado. Não vejo outra solução a não ser retirar o exército para qualquer elevação próxima de Tournay ou de Saint-Armand, esperar que os alimentos nos alcancem e as águas se escoem. . .

Acontece, freqüentemente, o céu começar a trovejar quando se fala de raios, ou que determinada pessoa, de quem se está dizendo mal, abra a porta no mesmo instante. O encadeamento das coisas parece fazer com que a malícia provoque nossas palavras.

No momento em que o condestável aconselhava esperar o escoamento das águas, o teto da tenda caiu sobre Monseigneur de Valois, que ficou completamente alagado e enlameado. Roberto d'Artois, que empestava o seu canto com o cheiro de vinho, pôs-se a rir e o riso contaminou o rei, o que fez explodir a cólera de Carlos de Valois.

— Vê-se perfeitamente, Gaucher — exclamou ele, erguendo-se — que recebei cem libras por dia quando o rei cavalga com o exército e que pouco vos preocupais em ver acabar a guerra.

Vivamente ferido, o condestável replicou:

— Sinto-me no dever de vos recordar que até mesmo o rei não pode avançar contra o inimigo sem o conselho e a ordem do condestável. E esta ordem, nesta situação, não a darei. Assim fazendo, o rei pode mudar de condestável.

Seguiu-se um penoso silêncio. A questão era grave. Para agradar a Valois, Luís X iria dispensar o chefe do seu exército como destituíra Marigny, Raul de Presles e todos os ministros de Filipe, o Belo? O resultado não tinha sido tão feliz...

— Meu irmão — disse Filipe de Poitiers, com sua voz calma — estou perfeitamente de acordo com o conselho que vos dá Gaucher. Nossas tropas não estarão em condições de combater antes de serem restauradas durante uma boa semana.

— Também penso assim — falou o Conde d'Evreux.

— Então, jamais castigaremos esses flamengos! — gritou Carlos de la Marche, o segundo irmão do rei, que sempre acompanhava a opinião de seu tio Valois.

Todos se puseram a falar ao mesmo tempo. Retirada ou derrota, tal era o dilema, afirmava o contestável. Valois replicava que não via nenhuma vantagem em recuar cinco léguas para ir apodrecer da mesma maneira. 0 Conde de Champanha avisou que como suas tropas haviam sido arregimentadas por uma quinzena, iria embora se não se guerreasse; e o duque Eudes de Borgonha, irmão de Margarida, a assassinada, aproveitou para mostrar o pouco empenho que tinha em servir seu ex-cunhado.

0 rei continuava hesitante, não sabendo de que lado pender. Toda aquela empresa temerária fora concebida às pressas. 0 equilíbrio do tesouro e seu prestígio pessoal dependiam de uma vitória rápida. Percebia que lhe escapava a sua guerra-relâmpago. Tomar o partido da prudência e da evidência, reagrupar-se algures, esperar, seria adiar demais o seu casamento e a sua sagração. Quanto a pretender atravessar um rio na enchente e dar uma carga, a galope, na lama.. .

Foi então que Roberto d'Artois se ergueu e sua massa impressionante de escarlate e aço avançou para o centro da reunião.

— Sire, meu primo — disse ele — adivinho a vossa inquietação. Não possuis dinheiro suficiente para manter este grande exército inativo. Além disso, tendes uma nova esposa que vos espera e todos nós estamos bastante ansiosos não só de vê-la rainha, como de vos ver sagrado. Minha opinião e que não devemos teimar. Não é o inimigo que nos faz recuar, é esta chuva, em que vejo a vontade de Deus, diante da qual, qualquer um, por maior que seja, deve inclinar-se. Quem nos diz, meu primo, que Nosso Senhor não quis advertir-vos de não combater antes de haverdes sido ungido com os santos óleos? Tirareis mais força de uma bela sagração do que de uma batalha aventurosa. Renunciai, pois, por enquanto, a castigar esses flamengos e, se o medo que vós lhes inspirastes não for suficiente, voltaremos, em igual número, na próxima primavera.

Aquela solução inesperada, vinda de um homem de cuja coragem nas armas ninguém podia duvidar, recebeu o apoio de parte da assembléia.

Ninguém compreendeu, no momento, que Roberto, com isso, visava aos seus objetivos particulares e que o desejo de sublevar o Artois lhe falava mais ao coração que os interesses do reino.

Luís X era um impulsivo e um volúvel, sempre pronto a largar a corda atrás do balde, desde que os acontecimentos não seguissem de acordo com seus desejos. Agarrou-se à escapadela que d'Artois lhe oferecia.

— Meu primo, falastes judiciosamente — declarou. — 0 céu nos manifesta a sua advertência. Que o exército volte, uma vez que não pode prosseguir. Mas juro perante Deus — acrescentou, enchendo a voz e pensando, assim, conservar sua grandeza — juro perante Deus que se ainda tiver vida no ano que vem, marcharei contra os flamengos e não terei com eles nenhuma contemplação se não se dobrarem à minha vontade.

Depois só teve pressa em se desalojar, preocupando-se apenas com o casamento e a sagração.

O Conde de Poitiers e o condestável precisaram fazer esforços sobre-humanos para que ele tomasse certas disposições indispensáveis, como manter algumas guarnições ao longo das fronteiras de Flandres.

O Turbulento tornou-se tão apressado em partir, e a maioria dos comandantes de bandeiras com ele, que na manhã seguinte, na falta de carroças e na impossibilidade de retirar da lama todo o material, ateou-se fogo às tendas, aos móveis e ao armamento. Deixando atrás de si um imenso brazeiro, o exército, exausto, apresentou-se, à noite, em Tournai; os moradores, assustados, fecharam as portas da cidade e os soldados não insistiram para que as abrissem. O rei teve que pedir abrigo num mosteiro.

No dia seguinte, 7 de agosto, chegou a Soissons, onde assinou várias ordenações que punham fim àquela bela campanha. Encarregou seu tio Valois de tratar dos preparativos da sagração e enviou a Paris seu irmão Filipe a fim de buscar a espada e a coroa. Todos se reencontrariam entre Reims e Troyes para se dirigir ao encontro de Clemência da Hungria.

E Luís, que sonhara apresentar-se à noiva como herói de Cavalaria, tinha, agora, apenas a preocupação de fazer esquecer o mais cedo possível, sua cruciante expedição, que já só era conhecida com o nome de hoste enlameada.

 

                                    O FILTRO

DE MANHÃZINHA, uma liteira puxada por mulas e escoltada por dois criados armados, entrou pelo grande portal da mansão d'Artois, na rua Mauconseil. Dela saltou Beatriz d'Hirson, sobrinha do chanceler d'Artois e dama de companhia da Condessa Mafalda. Ninguém teria podido pensar que essa bela morena acabara de percorrer, desde a véspera, quase quarenta léguas. O vestido estava apenas amarrotado; o rosto, de maçãs salientes, apresentava-se liso e fresco como ao acordar. Aliás, ela dormira uma parte do trajeto sob boas mantas, ao balanço da liteira. Beatriz d'Hirson não tinha medo, coisa rara em uma mulher daquele tempo, de viajar à noite; ela enxergava no escuro, como os gatos, e julgava-se protegida pelo diabo. Os seios altos, a perna longa, caminhando com passo que parecia lento porque era alongado e sempre igual, dirigiu-se diretamente ao encontro da Condessa Mafalda, que encontrou à mesa, diante do seu desjejum.

— Pronto, Madame — disse Beatriz, estendendo à condessa uma minúscula caixa de chifre.

— E então, como está minha filha Joana?

— A Condessa de Poitiers vai tão bem quanto pode, Senhora. A morada em Dourdan não lhe é muito penosa e com o seu bom gênio cativou os guardas. Tem a pele clara e pouco emagreceu; é sustentada pela esperança e pelo desvelo que tomais por ela.(15)

— E os cabelos dela? — perguntou a condessa.

— São cabelos de um ano, Madame, não tão longos ainda como cabelo de homem; mas parecem crescer mais duros do que antes.

— Enfim, ela está apresentável?

— Com um véu à volta do rosto, certamente. Além disso, ela pode usar trancas postiças para cobrir a nuca e as orelhas.

— Não se usam cabelos postiços na cama — respondeu Mafalda.

Sorveu, em grandes colheradas, o fim da sopa de ervilhas com toucinho e, para refrescar o paladar, bebeu um copo cheio de vinho rosado de Poligny. Depois, abriu a caixa de chifre e observou o pó cinza que o enchia:

— Quanto me custou isto?

— Setenta libras.

— Cáspite! os mágicos sabem cobrar bem a sua ciência.

— Eles arriscam-se muito.

— Setenta libras... disso, quanto guardaste para ti? — perguntou a condessa fixando sua dama de companhia nos olhos.

Beatriz não desviou o olhar, conservou o mesmo sorriso irônico e respondeu com a voz lenta:

— Quase nada, Madame. O suficiente para comprar este vestido de escarlate que me prometestes e não me destes.

A Condessa Mafalda não pôde impedir o riso; aquela jovem sabia prendê-la.

— Deves estar com o estômago vazio, experimenta um pouco desta torta de pato — disse ela, servindo-se de um enorme pedaço.

Depois, voltando à caixa de chifre, acrescentou: — Creio na virtude dos venenos para livrar a gente de um inimigo, mas não muito em filtros para cativar um adversário. São idéias tuas e não minhas.

— No entanto, asseguro-vos, Madame, que é preciso crer nisso — respondeu Beatriz animando-se um pouco, pois tudo que se referia à magia inquietava-a profundamente. — Este é muito bom; não foi feito de miolos de carneiro, mas só de ervas, e foi preparado na minha frente. Estive em Dourdan, como vos pedi permissão para fazer, tirei um pouco de sangue do braço direito de Madame Joana. Depois levei-o à dama Isabel de Fériennes que, após misturá-lo com verbena, mimosa e ligústica, pronunciou a fórmula da feitiçaria, colocou a mistura num tijolo novo e queimou-a com lenha de freixo para fazer o pó que vos dei. Basta, agora, pô-lo numa bebida, dá-la a beber ao Conde de Poitiers e logo o vereis novamente perdido de amor pela esposa, com uma força que nada poderá deter. Ele virá visitar-nos esta manhã?

— Espero-o. Voltou com o exército ontem à noite, e pedi-lhe que viesse ver-me.

— Então vou logo misturar o filtro ao hipocraz que lhe dareis para beber. O hipocraz, que tem bastantes especiarias e cor escura, dissimulará bem o pó. Aconselho-vos, porém, Madame, a ficardes na cama e fingir-vos de doente, a fim de terdes um pretexto para não beber também, pois é perigoso absorver essa beberagem e ficar perdida de amores por Madame vossa filha — disse Beatriz rindo.

— É uma boa idéia recebê-lo deitada e fingir-me doente — respondeu a Condessa d'Artois. — Podem-se dizer as coisas mais claramente.

Voltou pois para a cama, mandou levantar a mesa, chamou para perto seu chanceler, Thierry d'Hirson, como também seu primo-irmão Henrique de Sulli, que morava com ela e por quem sentia, naqueles dias, forte inclinação, a fim de com eles trabalhar nos negócios do condado.

Pouco mais tarde anunciaram o Conde de Poitiers. Entrou trajado de escuro, como sempre, as pernas de garça real envoltas por botas flexíveis, e a cabeça, sob o capuz empenachado, um pouco curvada ao fim do comprido corpo.

— Ah! meu genro — exclamou Mafalda como se visse surgir o Salvador — como estou contente com a vossa vinda. Sabeis o que estava fazendo? Punha-me a par da situação de meus bens para ditar minhas últimas vontades. Passei a pior noite do mundo, com as entranhas inteiramente torturadas pela angústia da morte; e tinha muito medo de morrer sem vos revelar meu pensamento, porque vos amo, a despeito de tudo, com coração de mãe.

A fim de se precaver contra a série de mentiras que acabava de declamar, ela tocou discretamente a relíquia de São Druão(16); que sempre trazia na ponta de uma corrente de ouro, entre os seios.

Henrique de Sulli virou-se para não estourar de riso, pois tinha passado parte da noite com a prima-irmã e sabia bem que o que a apunhalara nas entranhas não era tão doloroso; a Condessa Mafalda não tinha sido feita para a viuvez; tinha para seus apetites, tanto os da cama, como os da mesa, necessidades de ogra.

Aliás, Mafalda, bem instalada entre as almofadas de brocado, com as faces cheias e coradas, os ombros largos e o braço carnudo, exibia a mais robusta saúde. Talvez dela é que houvesse necessidade de se extrair uma ou duas pintas de sangue.

"Vai representar a comédia", pensou Filipe de Poitiers. "Tanto no temperamento como na aparência ela é, realmente, o retrato de Roberto d'Artois, a ponto de parecerem mais irmãos do que sobrinho e tia. E estou convencido que ela vai falar--me dele".

Não se enganava. Mafalda pôs-se logo a vociferar contra esse péssimo sobrinho, contra as suas manobras, suas intrigas e aquela liga dos barões d'Artois que insuflava contra ela. Para Mafalda, como para Roberto, todas as coisas do mundo passavam pelo condado que eles disputavam há treze anos; seus pensamentos, suas atitudes, suas amizades, suas alianças, seus amores mesmo, relacionavam-se de qualquer maneira, com aquela luta; um entrava num grupo porque o outro pertencia ao grupo adverso; Roberto apoiava uma ordenação real porque Mafalda a desaprovava; Mafalda era antecipadamente hostil a Clemência da Hungria porque Roberto tinha apoiado Carlos de Valois na negociação do casamento. Esse ódio, que excluía qualquer acordo, qualquer transação, excedia seu objetivo e podia-se perguntar se não havia entre essa giganta e esse gigante uma paixão às avessas, desconhecida deles próprios e que teria sido mais bem aplacada pelo incesto do que pela guerra.

— Todas as maldades que ele me faz apressam minha morte — disse Mafalda. — Fiquei sabendo que meus vassalos, reunidos por Roberto, fizeram juramento contra mim. Foi isto que me transtornou o juízo e me pôs no estado em que estou.

Pois nesse momento começava ela a persuadir-se de ter realmente passado uma noite terrível.

— Eles juraram matar-me, Monseigneur — disse Thierry d'Hirson.

Filipe de Poitiers virou-se para o cônego-chanceler e viu era ele e não Mafalda quem estava realmente doente de medo.

— Eu ia para a guerra, para por ordem na minha bandeira — recomeçou Mafalda. — Tinha mandado buscar, como vê, meu traje de guerra...

Mostrou, a um canto do quarto, imponente manequim que suportava uma longa veste de malhas de aço e uma cota de seda ornada com as armas do Artois; ao lado, estavam preparados o elmo e as manoplas.

— . . .mas, depois, tive conhecimento do fim dessa gloriosa cavalgada que custa ao reino tanto dinheiro e mais ainda a honra. Ah! pode-se dizer que o vosso pobre irmão não se cobre mais de glória e que tudo quanto ele empreende vai por água abaixo. Na verdade, falo-vos como penso, teríeis sido melhor rei que ele, e é muita pena para todos, meu genro, que sejais o segundo a ter nascido. Vosso pai, que Deus o tenha em sua Graça, sempre almejou isso.

Após o processo de Pontoise, o Conde de Poitiers tornara a ver a sogra em cerimônias e obrigações públicas, como, por exemplo, por ocasião dos funerais de Filipe, o Belo, ou nas sessões da Câmara dos Pares, mas nunca em particular. 0 escândalo que envolvera suas filhas tinha forçosamente refletido sobre Mafalda. Filipe de Poitiers, durante todo esse tempo, tratava-a com frieza. Para uma retomada de contacto, o começo estava exagerado, mas Mafalda, no elogio, não conhecia meio-termo. Convidou o genro a sentar-se bem próximo do leito. Hirson e Sulli retiraram-se, a caminho da porta.

— Mas não, meus bons amigos, não sois demais; sabeis que não tenho segredos para vós — disse-lhes ela.

Ao mesmo tempo, fazia-lhes sinais para que saíssem do quarto.

Porque, naquela época, os grandes senhores, os personagens importantes, recebiam raramente as visitas a sós: Os quartos e as divisões de suas casas estavam constantemente cheios de parentes, familiares, vassalos e clientes. As entrevistas se desenrolavam, pois, um pouco à vista de todos; daí a necessidade da alusão, das meias palavras, da confiança tampem, com relação às pessoas das quais se rodeavam. Quando os dois interlocutores principais se punham a falar em voz baixa, ou se afastavam para o vão de uma janela, cada qual, no cômodo, podia perguntar se não era a sua sorte que estava em vias de ser jogada. Qualquer encontro de portas fechadas assumia um ar de conspiração. E era bem esse aspecto que Mafalda queria emprestar à sua entrevista com 0 Conde de Poitiers, nem que fosse para comprometê-lo uni pouco e fazê-lo aderir ao seu jogo.

Assim que ficaram sozinhos, ela lhe perguntou:

— Quais são os vossos sentimentos por minha filha Joana?

Como ele hesitasse em responder, ela começou seu discurso. Certamente, Joana de Borgonha tinha errado, cometido grande erro mesmo, não avisando o marido das intrigas de alcova que desonravam a casa real e tornando-se cúmplice... voluntariamente, involuntariamente, quem podia dizer?... do escândalo. Mas ela não tinha pecado fisicamente, nem traído o casamento; todos o reconheciam; e até mesmo o rei Filipe, que estava tão indignado, disso estava convencido, pois designara para Joana uma residência especial, sem jamais demonstrar que essa reclusão fosse perpétua.

— Eu sei, eu estava no conselho de Pontoise — disse o Conde de Poitiers — a quem tal lembrança ainda era penosa.

— E como Joana poderia trair-vos, Filipe? Ela vos ama. Ela vos ama, somente a vós. Basta lembrar-vos de seus gritos, quando a levavam no carro preto: "Digam a Monseigneur Filipe que sou inocente!" Eu, sua mãe, ainda tenho o coração partido por ter precisado assistir àquilo. E durante os quinze meses que está em Dourdan, sei, pelo seu confessor, que jamais disse uma palavra contra vós, apenas expressões de amor e preces a Deus para tornar a conquistar o vosso coração. Asseguro-vos que tendes nela uma esposa mais fiel, mais devotada à vossa vontade que nunca, e que já foi duramente castigada.

Ela jogava todos os pecados sobre Margarida de Borgonha com tanto mais tranqüilidade porque Margarida, além de não ser da família, estava morta. Era ela a desavergonhada; fora Margarida quem tinha envolvido Branca, pobre criança inconsciente; que se tinha servido de Joana, abusando de sua amizade.. . Aliás a própria Margarida tinha escusas. A esperança de ser rainha não era suficiente, e que mulher não ficaria desolada com o marido que lhe tinham dado! Mafalda considerava definitivamente Luís X, o cornudo, como principal responsável pelo seu infortúnio.

— Parece que vosso irmão, como homem, não é muito dotado.

— Garantiram-me, ao contrario, que e normal sob esse aspecto, embora um pouco perturbado ou violento no ato mas, em absoluto, impotente — respondeu o Conde de Poitiers.

— Não conheceis, como eu, as confidencias das mulheres — replicou Mafalda.

Soergueu-se, maciça, sobre os travesseiros, fixou o genro nos olhos.

— Filipe, falemos claro — disse ela. — Credes que a herdeira do trono, a pequena Joana de Navarra é de Luís ou do amante de Margarida?

Filipe de Poitiers cocou um pouco o queixo.

— Meu tio Valois afirma que ela é bastarda — respondeu ele — e o próprio Luís, pelo seu modo de afastá-la para longe dele, parece confirmá-lo. Outros, como meu tio d'Evreux, ou o Duque de Borgonha, julgam-na legítima.

— Se uma desgraça acontecer a Luís, cuja saúde não é muito boa, como tudo mostra, sois no momento o segundo na lista sucessória. Mas se a pequena Joana de Navarra for declarada bastarda, como nós pensamos que ela seja, então, tomareis a ser o primeiro e cabe-vos ser rei. Fostes feito para reinar, Filipe.

— A menos que a nova esposa que lhe chega de Nápoles não dê logo um herdeiro a meu irmão.

— Se ele for capaz de procriar, o que é duvidoso. Ou se Deus lhe deixar tempo para isso.

Nesse instante, Beatriz d'Hirson entrou, trazendo uma bandeja com um jarro de hipocraz, copos de prata dourada e confeitos, como era conveniente oferecer às visitas. Mafalda esboçou um movimento de impaciência. Que má ocasião de ser interrompida! Sem se incomodar, porém, Beatriz, com seus gestos lentos, despejou o vinho de especiarias nos copos e como fazia quando qualquer alimento ou bebida estava a seu alcance, quis pegar no outro copo, mas Beatriz olhou-a de tal modo, que ela estacou.

— Não, estou muito doente, tudo me ataca o coração — disse ela.

Poitiers refletia. As preocupações da sogra não o apanhavam desprevenido; pensara muito, naquelas últimas semanas, na eventualidade da sucessão. Era evidente que Mafalda propunha apoiá-lo no caso de Luís morrer. Qual seria o preço da aliança que se lhe oferecia?

— Ah! Filipe, salvai minha filha Joana da morte, suplico-vos — exclamou Mafalda patética. — Ela não merece tal destino!

— Mas quem a ameaça? — perguntou Poitiers.

— Roberto, sempre ele — respondeu. — Fiquei sabendo que ele estava conivente com a rainha da Inglaterra quando ela foi a Pontoise denunciar suas cunhadas. O que não lhe trouxe sorte, pois o exército do seu efeminado marido foi logo esmagado próximo de Bannockburn e eis que Isabel e Eduardo, como castigo de Deus, ainda por cima tornaram a perder a Escócia...

Parou um instante, porque Poitiers, tomando um copo, levava-o aos lábios, mas apressou-se a continuar:

— O satanaz do Roberto depois ainda fez melhor. Sabeis que no dia em que Margarida foi encontrada morta na prisão, Roberto, que julgávamos em sua casa de Couches, tinha passado, precisamente aquela manhã, no Castelo Gaillard?

— Realmente? — perguntou Poitiers, suspendendo o gesto, sem ter bebido.

— Branca, que se encontrava presa no andar superior, ouviu tudo. A pobrezinha, que depois ficou como louca, conseguiu fazer chegar até mim uma mensagem. . . Ouve-me, Filipe, ele vai matá-las, uma após outra. Seu jogo é claro. Ele quer meu condado. Para diminuir-me e atirar-me na desgraça, começa por fazer prender minhas filhas. Para tornar-se todo--poderoso junto ao rei, seu primo, desembaraça-o, por um bom asfixiamento, da esposa que o atrapalhava para se casar. Agora vai voltar-se contra a minha descendência. Estou sozinha, viúva, com um filho muito jovem para me servir' de apoio(17), e por cuja vida temo como pela de minhas filhas. Tantas dores e receios não podem fazer uma mulher morrer antes do tempo? Deus é testemunha de que não quero morrer deixando meus filhos à mercê desse chacal. Por favor, chamai vossa esposa para perto de vós para protegê-la e mostrar, com esse gesto, que tenho aliados. Porque se me acontecer perder Joana (ela tocou novamente a relíquia) e que o Artois me seja arrebatado, para o que tão fortemente se trabalha, então serei obrigada a reivindicar, para meu filho o palatinado de Borgonha, que vos foi dado, como dote de casamento, em troca do Artois.

Poitiers não pôde deixar de admirar a habilidade com a sogra acabava de jogar sua última cartada. Assim, o trato estava nitidamente proposto: "Ou voltas para Joana e coloco-te no trono, em caso de vacância, a fim de ter minha filha como rainha da França; ou recusas a reconciliação conjugal e, nesse caso, mudo minhas posições e negocio a retornada do teu condado de Borgonha em troca do abandono do Artois".

Contemplou-a um instante, sem nada dizer, monumental sob as grandes cortinas de brocado dispostas sobre o leito.

"Ela é esperta como a raposa, obstinada como o javali; tem, sem dúvida, sangue nas mãos, mas não poderei jamais impedir-me de ter amizade por ela... Na sua violência como na sua mentira, há sempre uma ponta de sinceridade..."

Para ocultar o sorriso que lhe vinha aos lábios, bebeu um gole do copo de prata.

Não prometeu nada, não concluiu nada, pois era de natureza refletida e julgava não haver urgência para a decisão. Mas, pelo menos, ele já percebia o meio de contrabalançar, no Conselho dos Pares, a influência dos Valois, que considerava funesta.

Retirando-se, disse apenas:

— Tornaremos a falar disto tudo na sagração, onde nos veremos brevemente, minha mãe.

E por esse "minha mãe", que ele empregava pela primeira vez, após quinze meses, Mafalda compreendeu haver vencido.

Assim que Poitiers saiu, Beatriz entrou e foi examinar o copo:

— Ele bebeu quase até ao fundo — disse satisfeita. — Vereis, Madame, que Monseigneur de Poitiers vai diretamente a Dourdan.

— Vejo, sobretudo — respondeu Mafalda — que ele nos seria um bom rei, se perdêssemos o nosso.

Para quem conhecesse a Condessa Mafalda, isto era o mesmo que dizer que Luís X era um homem morto.

 

                           UM CASAMENTO DE CAMPO

NA TERÇA-FEIRA, dia 13 de agosto de 1315 (18), ao romper da alva, os moradores do burgozinho de Saint-Lyé, na Champanha, foram despertados por cavalgadas que vinham pela estrada de Sézanne, ao norte, e pela de Troyes, ao sul.

Primeiramente foram os mordomos do palácio real que chegaram a galope, e desapareceram, com todo um cortejo de escudeiros, de despenseiros e de criados, sob as abóbadas do castelo. Surgiu, depois, um grande carregamento de móveis e baixelas, sob a condição de alcaides, tesoureiros e armadores; e por fim, todo o clero de Troyes, montado em mulas e entoando cânticos, seguido de perto pelos comerciantes italianos que tinham em Troyes, em virtude das feiras famosas da Champanha, um de seus principais centros de negócios. 0 sino da igreja pôs-se a tocar sem parar; o rei ia, em breve, casar-se em Saint-Lyé.

Os camponeses puseram-se então a dar vivas e as mulheres foram espontaneamente para os campos colher flores, a fim de, com elas, juncar o chão, como para a passagem do Santíssimo, enquanto os cozinheiros se espalhavam pelos arredores, pilhando tudo quanto podiam encontrar, como ovos, carnes, aves e peixes de viveiro.

Por sorte, parará de chover, embora a atmosfera continuasse carregada e cinzenta; o calor do sol, na falta de raios, furava as nuvens. A comitiva do rei enxugava a testa e os habitantes, perscrutando o céu, anunciavam que a tempestade desabaria antes das vésperas. No castelo, ouviam-se as batidas dos marceneiros, as chaminés das cozinhas soltavam fumaça e descarregavam altas carradas de palha que se espalhavam pelas salas, para nelas dormirem os criados e até mesmo mais de um senhor.

Saint-Lyé nunca tinha visto semelhante reboliço após o dia em que Filipe Augusto, no começo do século precedente, para lá tinha ido confirmar, solenemente, a doação daquele castelo-forte real aos bispos de Troyes. Um acontecimento em cada cem anos. A memória tinha tempo de se apagar.

Pelas dez horas, o rei, rodeado de seus cunhados, de seus dois tios, de seus primos Filipe de Valois e Roberto d'Artois, atravessou a vila a galope, sem responder às aclamações e esparramando as flores que juncavam o chão, as quais precisaram ser novamente arranjadas após a passagem dele. Corria ao encontro da nova esposa.

Ao fim de quase uma légua apareceu, conduzido pelo bispo de Troyes, o cortejo da Princesa Clemência da Hungria. Debruçando-se para fora da liteira, ela perguntou ao Conde de Bouville qual dos cavaleiros que vinham ao seu encontro era seu futuro marido. O gordo Bouville, um pouco fatigado da viagem e bastante comovido por se achar diante do rei, explicou-lhe mal e Clemência tomou primeiramente como seu noivo o Conde de Poitiers, por ser ele o mais alto dos três príncipes que vinham à frente e que se mantinha na sela com natural majestade. Ora, foi o cavaleiro menos garboso que apeou em primeiro lugar e se dirigiu para a liteira. Bouville, saltando do seu animal, precipitou-se para ele, tomou-lhe a mão para beijá-la e, curvando os joelhos, disse:

— Sire, eis Madame da Hungria.

A bela Clemência olhou, então, para o jovem de ombros um pouco curvados, de grandes olhos baços e tez pálida, de cujo destino, leito e poder ia compartilhar, por vontade da sorte e pelas intrigas da corte.

Luís X contemplava-a sem nada dizer, estupefato, a ponto de, no primeiro instante, Clemência julgar não lhe ter agradado.

Foi ela quem decidiu romper o silêncio.

— Sire — disse ela — sou para sempre vossa serva . Tal palavra pareceu desatar a língua do Turbulento.

— Receava, minha prima, que o vosso retrato pintado que me enviaram, fosse enganador e lisonjeiro — disse ele — mas vejo em vós mais graça e beleza do que a imagem mostrava.

E virou-se para seus acompanhantes como para fazê-los apreciar sua sorte.

Depois seguiram-se as apresentações dos membros da família.

Um senhor de grande corpulência, trajado de ouro como se fosse para um torneio e cujo hálito era forte, abraçou Clemência, chamando-a "minha sobrinha", e assegurou-lhe tê-la visto criança em Nápoles; Clemência compreendeu que era Carlos de Valois, o principal artífice de seu casamento. Filipe de Poitiers chamou-a de "minha irmã", como se já a considerasse unida a seu irmão e que a cerimônia fosse apenas uma formalidade. Depois os cavalos da liteira deram um repelão. Uma colossal massa humana, da qual Clemência não conseguiu ver a cabeça, tapou, um instante, a luz e a princesa ouviu pronunciar: "Vosso primo, o Conde Roberto d'Artois."

Imediatamente recomeçou a marcha e o rei ordenou ao bispo de Troyes, Monseigneur João d'Auxois, que tomasse a dianteira a fim de deixar tudo pronto na igreja.

Clemência esperava que o encontro se desse de outra maneira. Imaginara que tivessem sido erguidas tendas num local adrede escolhido, que arautos tocassem suas trombetas de um lado e de outro e que ela própria descesse da liteira para tomar uma refeição ligeira, começando a travar conhecimento com seu noivo. Julgara também que o casamento se celebrasse daí a alguns dias, havendo antes duas ou três semanas de festejos, com torneios, jograis e menestréis, como era uso em núpcias principescas.

A aspereza daquela recepção na floresta, numa pequena estrada, a ausência de aparato, surpreenderam-na um pouco. Parecia haver simplesmente cruzado, por acaso, com os integrantes de uma caçada. Tornou-se ainda mais desconcertada ao saber que ia casar-se àquela hora, num castelo vizinho, onde se passaria a noite, para tornar a partir, no dia seguinte, para Reims.

— Meu caro Sire — perguntou ela ao rei, que cavalgava agora ao seu lado — voltareis para a guerra?

— Certamente, Madame, voltarei... no ano que vem. Se não fui mais longe na perseguição dos flamengos, neste ano, e os deixei com seu medo, foi pela pressa de vos acolher e de concluir nossos esponsais.

Esse cumprimento pareceu a Clemência tão monumental que ela não soube que pensar. Ia de surpresa em surpresa. Esse rei, tão impaciente por encontrá-la a ponto de licenciar todo um exército, dava-lhe um casamento de aldeia.

A despeito das flores que juncavam o chão e do entusiasmo dos camponeses, o castelo de Saint-Lyé, pequena fortaleza de muros maciços e embolorados por três séculos de umidade, parecia sinistro à princesa napolitana. Dispôs apenas de uma hora para trocar de roupa e recolher-se antes da cerimônia, se é que se pode chamar recolhimento a estada num quarto no qual os tapeceiros ainda não haviam terminado de pregar os tapetes enfeitados com papagaios e onde Monseigneur de Valois se pusera a girar como uma grande vespa dourada, pretendendo ensinar à sobrinha, em tão pouco tempo, tudo quanto ela devia saber a respeito da corte de França e do lugar essencial que ele, Carlos de Valois, nela ocupava.

Assim, Clemência precisou aprender que Luís X, além de possuir todas as qualidades para ser um marido perfeito, só tinha virtudes, principalmente em política. Era bastante influenciável, tinha necessidade de ser encorajado nas suas boas inspirações e protegido contra os maus conselheiros. No caso de Flandres, por exemplo, Valois era de opinião que Luís não o tinha ouvido suficientemente, enquanto dera muita atenção aos conselhos do condestável, do Conde de Poitiers e mesmo de Roberto d'Artois. Quanto à eleição do papa. . . Clemência tinha passado por Avinhão? Quem tinha visto? O Cardeal Duèze? Mas é claro, era Duèze que precisava ser eleito... Clemência devia compreender por que Valois tinha tão fortemente insistido e tão bem manobrado para que ela fosse escolhida como rainha da França; ele contava com a sua boa presença, seu encanto e sua prudência para ajudá-lo a bem governar o rei. Que Clemência se abrisse a ele, em confiança, em todas as coisas. Não era ele o seu parente mais próximo na corte, pois tinha casado, em primeiras núpcias, com uma tia de Clemência e não desempenhava o lugar de pai do jovem soberano? Clemência e Valois deviam firmar aquele momento, uma estreita aliança...

Na verdade Clemência começava a ficar tonta com aquela catadupa de palavras, com todos aqueles nomes pronunciados confusamente e com a agitação desse personagem enfeitado de ouro, que não parava de girar a seu redor. Perguntava se o condestável era Roberto d'Artois e qual dos dois irmãos do rei que ela vira se chamava o Conde de Poitiers. Tantas impressões novas e rostos vislumbrados misturavam-se-lhe na cabeça. Além disso, e por fim, ia casar-se dali a pouco. Estava convencida do bem-querer de todos e comovida por ter o Conde de Valois mostrado tanta solicitude, mas bem que teria desejado preparar a alma. Era então isso um casamento de rainha?

Teve coragem de perguntar por que apressavam tanto a cerimônia.

— Porque deveis estar domingo em Reims, onde Luís será sagrado, e porque ele quis que a sua união fosse feita antes, a fim de que estejais ao seu lado — respondeu Valois.

O que ele não disse é que as despesas com o casamento estavam a cargo da coroa enquanto que as da sagração eram pagas pelos almotacéis de Reims. Ora, o tesouro real, após o fracasso da hoste enlameada estava mais vazio do que nunca. Daí aquelas núpcias apressadas, sem o menor fausto; quanto aos festejos, fariam com que os moradores de Reims os oferecessem.

Clemência da Hungria somente conseguiu um pouco de paz reclamando seu confessor. Já se tinha confessado pela manhã, mas desejava estar convencida de que se aproximaria do altar sem pecado. Não teria cometido alguma falta venial, nas últimas horas, pecado contra a humildade ao espantar-se com o pouco luxo com que foi recebida, pecado contra a caridade, para com o próximo também, ao desejar que Monseigneur de Valois fosse para o diabo, ao invés de girar em seu redor?

Luís X, na véspera, teria tido muito mais que confessar ao padre dominicano encarregado da vigilância de sua alma.. .

Enquanto se ultimavam os derradeiros preparativos, Hugo de Bouville foi abordado, no pátio do castelo, por Messer Spinello Tolomei. O Capitão Geral dos Lombardos em Paris, sempre esperto, malgrado seus sessenta anos e sua barriga enorme, tinha ido também a Reims, para a qual fizera grande fornecimento para a sagração, e verificar como seus empregados tinham trabalhado. Pediu a Bouville notícias de seu sobrinho Guccio.

— Que necessidade tinha ele de se atirar à água? Ah! ele me faz bastante falta nestes dias! Era ele quem devia correr as estradas — gemeu Tolomei.

— E a mim? Julgais que ele não me fez falta pelo caminho, após Marselha? — perguntou Bouville. — 0 cortejo despendeu o dobro do que custaria a viagem se ele tivesse ficado com o cofre.

Tolomei estava preocupado. Com o olho esquerdo fechado, a beiçola um pouco caída, queixava-se dos acontecimentos. A despeito do que Monseigneur de Valois lhe prometera, uma nova contribuição fora exigida dos banqueiros lombardos; por qualquer venda, contrato ou troca de ouro e de prata, tinham, dali em diante, de pagar, tanto comprador como vendedor, dois dinheiros por libra do preço; e corretores reais tinham sido instalados por toda a parte, para controlar os mercados e arrecadar as taxas. Tudo aquilo se assemelhava bastante às ordenações do rei Filipe.

— Por que nos ter garantido que tudo ia mudar. . .

Bouville separou-se de Tolomei para reunir-se ao cortejo nupcial.

Foi Monseigneur Valois, triunfante, quem conduziu a noiva ao altar. Quanto a Luís X, teve que caminhar só. Nenhuma mulher da família ali estava para lhe dar o braço. Sua tia Agnes de França, filha de São Luís, tinha-se recusado a vir, e compreendia-se muito bem por que: era a mãe de Margarida de Borgonha. A condessa Mafalda tinha pretextado impedimentos de última hora, causados pela agitação em Artois. Ela iria diretamente a Reims, para a sagração. Quanto à condessa de Valois, apesar de imperiosamente chamada pelo marido, devia ter-se extraviado, com seu chorrilho de filhos, ou partido um eixo do carro; o camareiro encarregado de acompanhá-la ouvira falar disso.

Monseigneur João d'Auxois, de mitra na cabeça, oficiava. Durante todo o tempo que durou a missa, Clemência lamentava não ter conseguido recolher-se tanto quanto o desejava. Esforçava-se por elevar o pensamento ao céu, suplicando a Deus lhe desse, em todas as horas de sua vida, as virtudes de esposa, as qualidades de soberana e as bênçãos da maternidade; seus olhos, porém, malgrado ela, caíam sobre aquele homem que ouvia respirar ao seu lado, do qual mal conhecia os traços e de cujo leito ia partilhar naquela mesma noite.

Em todas as vezes em que se ajoelhava, ele tinha uma tosse que parecia um sestro: a ruga profunda que lhe marcava o queixo muito curto, surpreendia numa criatura tão jovem. A boca era fina, caída nos cantos; os cabelos longos e achatados, de cor imprecisa: E quando esse homem, ao qual estava prestes unir-se, virava para ela os grandes olhos pálidos, sentia-se vexada pelo olhar que ele lhe lançava às mãos, à garganta, à boca. Espantava-se de não sentir novamente o estado de felicidade comedida e sem inquietação que nela existia ao partir de Nápoles.

"Meu Deus, impedi que eu seja ingrata a todos os benefícios com que me cumulais".

Mas não se domina o espírito a todo instante, e Clemência surpreendeu-se pensando, em plena missa de seu casamento, que se lhe fosse dado escolher entre os três príncipes de França, seria sem dúvida o conde de Poitiers que teria preferido. Um profundo terror a invadiu e ela precisou gritar para si mesma: "Não, não quero, não sou digna!" Nesse momento, ela ouviu-se responder "Sim" com uma voz que não lhe pareceu a sua, ao bispo que lhe perguntava se queria receber Luís, rei de França e de Navarra, por esposo.

O primeiro raio ribombou quando lhe enfiavam, no dedo, um anel muito grande; os assistentes se entreolharam e mais de um se persignou.

Quando o cortejo saiu, os camponeses esperavam, agrupados diante da igreja, em camisa de algodão e com as pernas envoltas em farrapos. Clemência pronunciou quase sem o sentir:

— Não se lhes dá esmola?

Tinha pensado alto e notou-se que a sua primeira frase de rainha tinha sido uma palavra de bondade.

Para agradá-la, Luís X ordenou a seu camareiro, Mateus de Trye, que jogasse alguns punhados de moedas. Os camponeses lançaram-se imediatamente ao chão e o espetáculo oferecido à recém-casada foi o de uma batalha selvagem. Ouviam-se rasgões de roupa, grunhidos surdos como os que soltam os porcos e batidas de cabeças. Os barões divertiam-se muito olhando a barafunda. Um dos vilões, maior e mais pesado que os outros, esmagava com os pés as mãos que haviam agarrado uma pequena moeda, forçando-a a abrir-se.

— Eis aí um malandro que me parece saber fazer as coisas — disse Roberto d'Artois rindo — De quem é ele? Compro-o de bom grado.

E Clemência, com desprazer, viu que também Luís se ria.

"Não é assim que se dá esmolas, pensou ela, eu lho ensinarei".

Começou a chover e o pugilato terminou na lama.

As mesas tinham sido armadas na maior sala do castelo. A refeição durou cinco horas. "Aí está, sou rainha da França", pensava Clemência de vez em quando. Não se habituava à idéia. Não se habituava, aliás, a coisa alguma. A glutonaria dos senhores franceses deixou-a estupefata. À medida que o vinho circulava, o tom das vozes crescia. Única mulher naquele banquete de homens de guerra, Clemência via todos os olhares convergir para ela e adivinhava que, no fim da sala, as conversas assumiam um tom bastante grosseiro.

De vez em quando um dos convivas se ausentava. Mateus de Trye, o primeiro camareiro, gritava:

— O rei nossa Alteza não quer que se urine na escada pela qual ele passará!

Quando estavam no quarto serviço de seis pratos cada um, dentre os quais um leitão inteiro, apresentado no espeto, e um pavão com todas as penas replantadas no uropígio, dois escudeiros entraram carregando enorme torta que depositaram à frente do casal real. Cortou-se-lhe a crosta e um raposo vivo saltou para a sala, sob exclamações dos comensais. Não tendo podido preparar peças montadas e castelos de confeitos, cujo fabrico exigiria muitos dias, os cozinheiros quiseram distinguir-se daquela maneira.

O raposo enlouquecido, girava pela sala, com a cauda avermelhada e peluda rente ao ladrilho, com os belos olhos brilhantes, um pouco leitosos.

— Ao raposo! Ao raposo! — urraram os senhores, saltando das cadeiras.

Imediatamente organizaram uma caçada. Foi Roberto d'Artois quem agarrou o animal. Viu-se o gigante mergulhar com todo o seu tamanho entre as mesas e erguer-se segurando o raposo que se debatia, descobrindo as presas delgadas sob os beiços negros. Depois, Roberto fechou lentamente os dedos e ouviu-se o quebrar das vértebras; os olhos do raposo tornaram-se vítreos e o gigante estendeu o animal morto na mesa, diante da rainha, como uma homenagem.

Clemência, que mantinha com o polegar o seu anel muito largo, perguntou se era costume, na França, as mulheres dos parentes não assistirem aos casamentos. Explicaram-lhe o que havia acontecido e que as que estavam a caminho não tinham tido tempo de chegar.

—, Mas de qualquer jeito, minha irmã, não teríeis oportunidade de ver minha esposa — disse o conde de Poitiers.

— E por que não. . . meu irmão? — perguntou Clemência, que sentia ao mesmo tempo interesse por tudo quanto ele dizia e dificuldade em responder-lhe.

— Porque ela ainda está presa no castelo de Dourdan — respondeu Filipe de Poitiers.

Depois, virando-se para o rei:

— Sire, meu irmão — prosseguiu ele — neste dia de felicidade para vós, peço-vos perdoar a pena imposta a Joana, minha esposa, e deixar-me retomá-la. Sabeis que ela não faltou à honra e que será injustiça deixá-la mais tempo pagar por faltas que não são suas.

O Turbulento franziu a testa. Evidentemente ele não sabia que responder, nem que decidir. Deveria, para agradar a Clemência, dar mostra de candura ou, ao contrário, de firmeza, duas qualidades igualmente reais? Procurou com os olhos, para lhe pedir conselho, o tio Valois, mas este acabava justamente de ir tomar ar. Roberto d'Artois estava na outra extremidade da sala, prestes a explicar a Filipe de Valois, o filho de Carlos, como se conseguia agarrar uma raposa sem se deixar morder. E depois o Turbulento não desejava que Roberto participasse novamente desse caso, no qual tinha metido as mãos em demasia.

— Sire, meu esposo — disse Clemência — por amor de mim, concedei a vosso irmão a graça que ele vos pede. Hoje é um dia de núpcias e desejava que todas as mulheres do reino tivessem uma parte de alegria.

Ela se entusiasmava pelo caso com um calor surpreendente, como se se sentisse aliviada em saber que Filipe de Poitiers tinha uma esposa e a desejava junto dele.

Olhava para Luís, estava linda; seus olhos azuis, grandes entre os cílios louros, tinham um modo de pousar sobre ele que valia mais que uma súplica.

Além disso, ele tinha comido bastante e bebido mais do que era conveniente. Aproximava-se o instante em que iria poder gozar as promessas daquele belo e calmo corpo, do qual era, de agora em diante, o senhor. Não tinha ânimo para pesar as conseqüências políticas do que lhe pediam.

— Não há nada, minha querida, que eu não faça para vos agradar — respondeu ele. — Meu irmão, podeis retomar Madame Joana e trazê-la de volta quando quiserdes.

O outro irmão, o jovem conde de Ia Marche, o mais bonito dos três, que seguira o diálogo com atenção, perguntou:

— E eu, meu irmão, autorizais-me. . . para Branca...?

— Para Branca, jamais! — cortou o rei.

— Somente para ir vê-la no Castelo Gaillard e encerrá-la num convento, onde tenha tratamento mais suave. . .

— Nunca — repetiu o Turbulento com um tom que proibia qualquer insistência.

O receio de que Branca ao sair da fortaleza, falasse das circunstâncias da morte de Margarida inspirava-lhe, por uma vez, uma decisão rápida e inapelável.

E Clemência, sentindo que devia contentar-se com a primeira vitória, não ousou intervir.

— Não terei jamais o direito de ter esposa? — tornou Carlos.

— Deixai que a sorte decida — respondeu Luís.

— Parece que a sorte favorece mais a Filipe do que a mim.

E desde aquele momento, Carlos de la Marche concebeu um ressentimento não contra o rei, mas contra o conde de Poitiers, de quem já era oposto por temperamento e contra o qual se irritava por vê-lo mais bem tratado.

Ao fim daquele dia exaustivo, a jovem rainha estava tão cansada que os acontecimentos da noite se desenrolaram, para ela, como num outro mundo. Não sentiu nem medo, nem sofrimento excessivo e nem felicidade especial. Foi apenas submissa, admitindo que as coisas se deveriam passar assim. Ouviu, antes de mergulhar no sono, palavras balbuciadas, que lhe deram a impressão de que o marido a apreciara. Se ela tivesse sido menos noviça nesse domínio, compreenderia que haveria de ter, pelo menos por um tempo, todo poder sobre Luís X.

Este, realmente, maravilhara-se por encontrar, naquela filha de rei, uma submissão que, até ali, somente achara nas criadas. A abominável angústia dos desfalecimentos que o assaltava quando estava na cama com Margarida de Borgonha, tinha desaparecido. Além disso, talvez não fosse feito para as morenas. Por quatro vezes triunfou sobre aquele belo corpo que resplandecia fracamente, como nacarado, sob a lamparina de azeite suspensa ao céu do leito, e do qual seu desejo podia dispor à vontade. Jamais ele conseguira semelhante façanha.

Quando saiu do quarto, com a manhã já alta, a cabeça rodava um pouco, mas ele a trazia bem alta. Tinha o olhar firme e podia-se dizer que a noite de núpcias apagara a lembrança das derrotas militares. O que se perdia no terreno da guerra podia ser ganho novamente no do amor...

Pela primeira vez, o Turbulento foi capaz de afrontar, sem constrangimento, os gracejos mais jocosos do seu primo d'Artois, considerado o mais provido dos machos e o mais paciente da corte.

Depois, pelo meio-dia, puseram-se a caminho para o norte. Clemência voltou-se, uma última vez, para ver o castelo em que havia estado apenas vinte e quatro horas e de cujas dimensões exatas jamais se lembraria.

Dois dias mais tarde chegaram a Reims. Os habitante que há trinta anos não assistiam a uma sagração — isto é, pelo menos para a metade da população o espetáculo era inteiramente novo — tinham-se comprimido nas portas e ao longo das ruas. A cidade estava repleta de gente dos campos vizinhos, que chegavam a pé ou a cavalo, de toda a espécie de mercadores, de exibidores de animais, de jograis, de meirinhos e oficiais da coroa que se afobavam, como se todos carregassem a carga do reino.

Os habitantes de Reims não podiam imaginar que teriam a oportunidade de contemplar aquela grande cavalgada e de pagar as suas despesas, ainda por três vezes em menos de catorze anos. ,

Nunca mais, porém, a catedral de Reims teria suas portas transpostas por um rei da França acompanhado por três sucessores que lhe daria a História. Atrás de Luís X, com efeito, caminhavam o conde de Poitiers, o conde de Ia Marche e o conde Filipe de Valois, isto é, o futuro Filipe V, o futuro Carlos IV e o futuro Filipe VI. Os dois Filipes, Poitiers e Valois, tinham vinte e dois anos; Carlos de Ia Marche, vinte e um. Antes que o último atingisse os trinta e sete, a coroa, por turno., seria colocada nas três cabeças.

 

                 DEPOIS DA FLANDRES, O ARTOIS...

 

                                         OS INSURRETOS

E TODAS as funções humanas, a que consiste em governai os semelhantes, além de ser a mais invejada, é a mais ilusória, pois jamais tem fim e não dá ao espírito repouso algum. O padeiro que tirou sua fornada, o lenhador diante do carvalho derribado, o juiz que acaba de proferir uma sentença, o arquiteto que vê colocarem a cumieira de uma casa, o pintor, uma vez terminado o seu quadro, podem, pelo menos por uma noite, gozar dessa tranqüilidade relativa produzida pelo esforço que chegou ao seu termo. O homem de governo, jamais. Apenas parece aplainada uma dificuldade política e logo outra, que germinava justamente enquanto se tratava da primeira, exige atenção imediata. 0 general vencedor desfruta por muito tempo as honras da vitória, mas o primeiro-ministro precisa enfrentar as situações nascidas dessa própria vitória. Nenhum problema pode continuar por muito tempo sem solução, pois o que hoje parece secundário, assumirá amanhã uma importância trágica.

O exercício do poder é apenas comparável ao da medicina, que conhece também esse encadeamento sem trégua, a primazia das urgências, a constante vigilância das pequenas perturbações que podem ser sintomas de graves lesões, enfim esse perpétuo empenho de responsabilidades nos domínios em que a sanção depende de circunstâncias futuras. O equilíbrio da sociedade, como a saúde dos indivíduos, não possui jamais caráter definitivo e não pode representar um trabalho terminado.

As únicas ocasiões de trégua para o homem de Estado nascem do fracasso, com tudo quanto nele existe de amargor, de inquieta meditação a respeito dos atos realizados e, freqüentemente, ainda, de ameaças. O repouso no poder somente é gozado na derrota.

O que é verdade nos nossos dias, quando o trabalho de dirigir uma nação exige forças e virtudes quase sobre-humanas, também o foi, sem dúvida, em todos os tempos; e a função de rei, quando eles próprios governavam, compreendia essas mesmas e constantes escravidões.

Apenas Luís X, após sua triste demonstração militar, conseguira pôr uma pedra nos negócios de Flandres, resignando-se a deixá-los morrer, pois não podia resolvê-los, apenas adquirira o prestígio místico que a sagração conferia ao soberano, fosse ele o mais deplorável dos monarcas, e logo outras perturbações eclodiram ao norte da França.

Os barões do Artois, como haviam prometido a Roberto, continuaram em armas, ao voltar do exército. Percorriam o país com suas bandeiras, procurando conquistar o povo para a sua causa. Toda a nobreza estava com eles e, através dela, os campos. A burguesia das cidades estava dividida. Arras, Bolonha, Thérouanne aliaram-se aos revoltosos. Calais, Avesnes, Bapaume, Aire, Lens, Saint-Omer continuavam fiéis à condessa Mafalda. O país estava num estado de agitação bem próximo da insurreição.

Os agitadores eram João de Fiennes, os Sires de Caumont e de Souastre e Gerardo Kierez, o mais hábil, que sabia redigir as petições e demandar junto aos conselhos do rei.

Sustentados, dirigidos e financiados por Roberto d'Artois, tinham, graças a este, o apoio do conde de Valois e de toda a parte reacionária que rodeava Luís X.

As reivindicações apresentadas eram de duas espécies. De um lado, pediam a volta aos usos e costumes de São Luís, querendo retornar ao tempo em que obedeciam apenas às justiças locais, guerreavam quando bem lhes aprouvesse e quase nada pagavam de impostos. De outro lado, pediam a mudança da administração local e, particularmente, a destituição do chanceler de Mafalda, Thierry d'Hirson, a quem mais detestavam.

Suas exigências, se aceitas, privariam a condessa Mafalda de qualquer autoridade no seu apanágio, o que firmemente esperava seu sobrinho Roberto.

Mafalda, porém, não era mulher para se deixar despojar. Usando de astúcia, discutindo, prometendo sem cumprir, fingindo ceder um dia para voltar atrás no dia seguinte, procurava ganhar tempo não importa por que meios. Os costumes? Certamente, ela ia outorgá-los. Para isto, porém, era necessário fazer uma investigação para que se conhecesse bem precisamente quais eram eles em cada senhorio do país. Seus administradores? Se falharam ou abusaram de suas funções, castiga-los-ia sem piedade. Para isto também se faria um inquérito... E depois levar-se-ia a questão ao rei, que daquilo nada entendia e tinha outras preocupações, enquanto lhe encheriam os ouvidos de um mundo de argumentos jurídicos. A condessa Mafalda recebia as queixas de Gerardo Kierez, testemunhando a sua evidente boa vontade. Iria informar-se e teriam proximamente uma entrevista em Bapaume. . . Por quê Bapaume? Porque Bapaume estava com ela, onde mantinha uma guarnição... insistia em Bapaume. Depois, no dia combinado, Mafalda não aparecia em Bapaume, porque precisara ir a Reims para a sagração. . . Passada esta, a entrevista prometida ficava esquecida. Ela, porém, iria para Artois o mais cedo possível; tivessem paciência. As investigações seguiam seus trâmites, isto é, os meirinhos às suas ordens faziam assinar, sob a ameaça de surra, de prisão ou de forca, declarações favoráveis à administração do Cônego-Chanceler Thierry d'Hirson.

0 sangue subiu à cabeça dos barões; rebelaram-se abertamente e proibiram Thierry, que se encontrava em Paris, junto da condessa, de reaparecer em Artois, sob pena de morte. Convidaram, depois, para ir ao encontro deles, o outro Hirson, Denis, o tesoureiro, que cometeu a asneira de comparecer; colocando-lhe uma espada na garganta, obrigaram-no a renegar o irmão, sob juramento.

0 conflito político transformava-se em acerto de contas. As coisas assumiam aspecto tão perigoso que Luís X foi pessoalmente até Arras. Queria fazer-se de árbitro, mas não podia alcançar grande coisa porque já não tinha exército e a única bandeira que ainda continuava armada era justamente a que se revoltara.

No dia 19 de setembro a gente de Mafalda resolveu prender, de surpresa, os Sires de Souastre e de Caumont, dois patuscos que se completavam à maravilha, pois um era fanfarrão e o outro temível na briga, os quais pareciam ter assumido a chefia da sublevação. Souastre e Caumont foram parar no fundo de uma prisão. Roberto d'Artois imediatamente defendeu a causa deles perante o rei.

— Sire, meu primo — disse ele — nada tenho que ver com este caso, como sabeis, pois fui privado, de maneira torpe, de minha herança, que minha tia governa, é preciso reconhecê-lo, pessimamente. Mas, mantendo-se presos Souastre e Caumont, garanto-vos que haverá guerra no Artois. Aviso-vos apenas pelo bem que vos quero.

O conde de Poitiers puxava para o outro lado.

— Foi talvez inábil ter prendido esses dois senhores, mas seria inépcia mais grave soltá-los agora. Ides, assim, fomentar a rebelião no reino; é a vossa autoridade, meu irmão, que deixais atingir.

Carlos de Valois encolerizou-se:

— Já foi bastante, meu sobrinho — gritava ele, dirigindo-se a Filipe de Poitiers — vos terem devolvido a vossa esposa, que justamente sai de Dourdan nestes dias. Não queirais agora defender a causa da mãe dela. Parai de pedir ao rei para abrir as prisões aos que vos agradam e fechá-las aos que vos desagradam.

— Não vejo relação, meu tio — respondeu Filipe.

— Pois eu vejo, e parece que a condessa Mafalda dirige vossos passos.

Por fim o Turbulento deu ordem a Mafalda para libertar os dois senhores que se achavam presos. No clã da condessa um péssimo trocadilho começou a circular: "Nosso Senhor Luís por enquanto está votado à clemência".

Souastre e Caumont saíram de sua detenção de uma semana com a auréola do martírio. A 26 de setembro convocaram, para Saint-Pol, todos os seus partidários que se chamavam, então, "os aliados". Souastre falou abundantemente e a grosseria de sua linguagem, a violência de suas proposições, arrebataram o auditório. Era preciso recusar pagar impostos e enforcar os prebostes, recebedores e todos os agentes, meirinhos ou representantes da condessa, a começar, certamente, pela família d'Hirson.

O rei mandara dois conselheiros, Guilherme Flotte e Guilherme Paumier, para pregar o apaziguamento e negociar uma nova entrevista em Compiègne. Os aliados aceitaram em princípio essa entrevista, porém mal os dois Guilherme tinham acabado de sair da audiência, chegou um emissário de Roberto d'Artois, suarento e arquejante por haver galopado durante muito tempo. Trazia aos barões uma simples informação: a condessa Mafalda, após rodear sua viagem de bastante segredo, ia chegar ao Artois; estaria no dia seguinte na mansão de Vitz, em casa de Denis d'Hirson.

Quando João de Fiennes tornou pública essa novidade, Souastre exclamou:

— Sabemos, agora, Messeigneurs, o que temos que fazer.

Os caminhos do Artois ressoaram, naquela noite, com grande barulho de cavalgadas e de tinidos de armas.

 

                       A CONDESSA DE POITIERS

O GRANDE carro de viagem, inteiramente esculpido, pintado e dourado, corria entre as árvores. Era tão comprido que não raro precisava fazer as curvas em duas vezes, e os homens da escolta constantemente precisavam apear para empurrá-lo nos caminhos íngremes.

Embora a enorme caixa de carvalho estivesse colocada justamente sobre os eixos, dentro do carro quase não se sentia os solavancos do caminho, tantas eram as almofadas e tapetes superpostos. Seis mulheres ali estavam instaladas como num quarto, conversando, jogando o cucarne e brincando de adivinhação. Ouvia-se o roçar dos galhos baixos contra o couro do teto.

Joana de Poitiers afastou a cortina bordada de flores de lis e de três castelos de ouro que representavam as armas da família d'Artois.

— Onde estamos? — perguntou ela.

— Costeando o Authie — respondeu Beatriz d'Hirson. — Acabamos de atravessar Auxi-le-Château. Antes de uma hora estaremos em Vitz, em casa de meu tio Denis, que nos espera e vai alegrar-se ao revê-la. E talvez a condessa Mafalda lá já esteja, com vosso esposo.

Joana de Poitiers olhava a paisagem, as árvores ainda verdes, os prados onde os camponeses ceifavam um restolho ralo, sob o céu ensolarado, pois, como acontece sempre depois dos verões úmidos, o tempo, naquele fim de setembro, estava muito bonito.

— Madame Joana, suplico-vos, não vos debruceis dessa maneira a todo momento — tornou Beatriz. — A Senhora vossa mãe recomendou muito que não vos mostrásseis enquanto não estivéssemos no Artois.

Joana, porém, não podia resistir. Olhar! Após oito dias da saída da prisão ela não fazia mais que isso. Como um esfomeado se empanturra de comida sem pensar que se possa fartar, ela retomava, através do olhar, posse do universo. As folhas das árvores, as nuvens ligeiras, uma torre que se desenhava ao longe, o vôo de um pássaro, a relva das colinas, tudo lhe parecia de exaltante esplendor porque ela estava livre.

Quando as portas do castelo de Dourdan se abriram à sua frente e o capitão da guarnição, inclinando-se profundamente, lhe tinha desejado boa viagem, exprimindo-lhe o quanto se sentira honrado de havê-la tido como hóspede, Joana sentiu-se presa de uma espécie de vertigem.

"Tornarei a habituar-me à liberdade", pensava ela.

Em Paris, esperava-a uma decepção. Sua mãe precisara partir precipitadamente para o Artois. Deixara-lhe, entretanto, seu carro de viagem, assim como várias camareiras fidalgas e numerosas criadas.

Enquanto alfaiates, costureiras e bordadeiras se apressavam em lhe reconstituir um guarda-roupa, Joana aproveitara aquela parada de poucos dias para percorrer a capital, em companhia de Beatriz. Sentia-se nela como uma estrangeira, chegada da outra extremidade do mundo, e maravilhada por tudo quanto via. As ruas! Não se cansava do espetáculo das ruas. As exposições da Galeria Marchande, as lojas do Quai des Orfèvres!. . . ela tinha desejo de apalpar tudo, de comprar tudo. Ainda que conservasse esse ar distante, controlado, que sempre tivera, seus olhos brilhavam, seu corpo animava-se de uma alegria sensual ao tocar nos brocados, nas pérolas, nos objetos de ouro. Entretanto, não conseguira afastar a lembrança de ter estado nessas mesmas lojas com Margarida de Borgonha, Branca, os irmãos d'Aulnay. . .

"Prometi tanto, na prisão, se um dia dela saísse, não perder tempo com coisas frívolas. Aliás, lá, elas não me alegravam assim! De onde vem esta gula que não consigo reprimir?"

Observava os vestidos das mulheres para notar neles as novas minúcias da moda e a forma que tinham, naquele ano, as coifas, os vestidos e as capas. Procurava ler nos olhos dos homens se ela continuava capaz de agradar. Os cumprimentos mudos que recebia, o modo pelo qual os jovens viravam a cabeça para lhe acompanhar a passagem podiam tranqüilizá-la plenamente. Tinha uma desculpa hipócrita para a sua vaidade: "Preciso saber, pensava, se posso ainda ter encantos para meu marido".

A falar verdade, ela saíra fisicamente intacta dos seis meses de detenção. O regime de Dourdan não podia ser comparável ao de Gaillard. Joana estava um pouco mais pálida que antes o que, em certo sentido, a embelezava, pois as manchas das sardas tinham desaparecido do rosto. Sob as trancas postiças enroladas em torno das orelhas — "As mulheres que têm cabelo escasso usam-nas também" — disse-lhe Beatriz d'Hirson para tranqüilizá-la — o pescoço, o mais belo pescoço do reino, sustentava uma cabeça pequena, de maçãs salientes, de olhos azuis ligeiramente puxados para as têmporas. O passo lembrava o andar ágil dos galgos da Barbaria. Joana pouco se parecia com sua mãe, a não ser pela robustez e lembrava mais, pela aparência, o lado do falecido conde palatino, que tinha sido um senhor de alta elegância.

Agora que estava prestes a chegar ao fim da viagem, Joana sentia aumentar a impaciência; aquelas últimas horas pareciam-lhe mais compridas que todos os meses passados. Os cavalos não teriam diminuído a andadura? Não se poderiam apressar os palafreneiros?

— Ah! a mim também, Madame, como me custa chegar ao fim, mas não pelos mesmos motivos que tendes — dizia uma das camareiras na outra ponta do carro.

Essa camareira, que se chamava Madame de Beaumont, estava grávida de seis meses. A caminhada começava a ser-lhe penosa; por vezes ela abaixava os olhos para o ventre soltando tão profundo suspiro que as outras mulheres não podiam reprimir o riso.

Joana de Poitiers perguntou a meia voz a Beatriz:

— Estás bem certa de que meu esposo não teve alguma ligação durante esse tempo todo? Não me mentiste?

— Não, garanto-vos. E, aliás, se Monseigneur de Poitiers tivesse olhado para outras mulheres, agora não poderia mais pensar nelas, depois de ter bebido esse filtro que vai devolvê-lo inteiro a vós. Lembrai-vos de que foi ele quem pediu ao rei a vossa volta!...

"E mesmo que ele tenha uma amante, que importa, eu me acomodarei. Mesmo repartido, um homem vale mais que a prisão", pensava Joana. E novamente afastou a cortina como se isso pudesse apressar o passo dos cavalos.

— Por favor — disse novamente Beatriz — não vos mostreis tanto. Não gostam muito de nós, neste momento, por aqui.

— Entretanto, as pessoas me parecem bem amáveis. Esses labregos que nos saúdam não têm uma fisionomia agradável? — perguntou Joana.

Deixou cair a cortina. Não percebeu que, assim que o carro passou, três camponeses, que acabavam de saudá-la reverentemente, voltaram correndo para o relvado a fim de desamarrar os cavalos e partir a galope.

Um momento depois, o carro entrou no pátio da mansão de Vitz; a impaciência da condessa de Poitiers teve que sofrer uma nova provação. Quando Joana pensava cair nos braços da mãe, e se aprestava sobretudo para o novo encontro conjugai, Denis d'Hirson, acolhendo-a, contou-lhe que nem a condessa d'Artois nem o conde de Poitiers tinham chegado e que eles a esperavam no castelo de Hesdin a dez léguas mais ao norte. Joana empalideceu.

— Que significa isto? — perguntou ela, chamando Beatriz de lado. — Não parece uma fuga para não me ver?

E uma repentina angústia a envolveu. "Toda aquela viagem, a gota de sangue tirada de seu braço, o filtro, as honra-rias apresentadas pelo chefe-guardião de Dourdan, não seriam os elementos de uma comédia, da qual Beatriz era a ladra má? Joana, além do mais, não tinha prova alguma de que seu marido a tivesse realmente reclamado. Não estavam prestes simplesmente a conduzi-la de uma prisão para outra, rodeando essa transferência, por razões misteriosas, de aparências de liberdade? A menos... a menos, e Joana fremia ao encarar o pior, que tivessem decidido fazê-la desaparecer, tendo tomado a precaução de mostrá-la em Paris como em Artois, livre e agraciada. Beatriz tinha-lhe contado as condições em que Margarida de Borgonha tinha sido morta. Joana meditava se não iam fazê-la desaparecer também, rodeando a sua morte de outras formas."

De tal sorte que pouco apreciou a refeição que Denis d'Hirson lhe ofereceu. O estado de felicidade que ela conhecia há oito dias foi substituído bruscamente pela pior das ansiedades, e ela procurava ler o seu destino nas fisionomias dos que a rodeavam. A bela Beatriz e o tesoureiro, seu tio, pareciam entender-se à maravilha; tinham-se abraçado, à chegada, um pouco mais demoradamente do que convinha entre parentes. Além disso, estavam ali dois cavaleiros de fisionomia um pouco constrangida, os Sires de Liques e de Nedonchel, que tinham sido apresentados a Joana como devendo escoltá-la até Hesdin. Não estariam eles encarregados de uma terrível comédia em qualquer curva da estrada?

Ninguém falava a Joana de sua detenção; toda a gente dava a entender que a consideravam como se jamais tivesse estado presa, e até isso não a tranqüilizava. As conversas, das quais nada compreendia, giravam unicamente sobre a situação do Artois, sobre os costumes contestados, sobre a entrevista de Compiègne que os enviados do rei tinham proposto, sobre as perturbações fomentadas por Souastre, Caumont e João de Fiennes.

— Não notastes, Madame, agitação pelo trajeto, nem ajuntamentos de homens armados? — perguntou Denis d'Hirson a Joana.

— Não vi nada, Messire Denis — respondeu — e os campos me pareceram bastante calmos.

— No entanto, assinalaram-se movimentos desde ontem e a noite toda; dois dos nossos prebostes foram atacados nesta manhã.

Joana cada vez mais se convencia de que aquelas palavras se destinavam a iludir sua confiança. Tinha a impressão de que um laço invisível se apertava em torno dela. Imaginava como poderia escapar. Mas para onde ir? Quem poderia ajudá-la? Estava só, terrivelmente só e olhava ao redor, sem encontrar uma pessoa que lhe parecesse aliada.

A senhora grávida comia com extraordinária voracidade e continuava a soltar profundos suspiros, observando o ventre.

— A condessa Mafalda, garanto-vos, Messire Denis, será forçada a ceder — dizia o Sire de Nédonchel, homem de dentes compridos, de rosto amarelo e ombros arqueados. — Usai vossa influência sobre ela. Que ela ceda pelo menos em parte. Que renuncie ao vosso irmão, embora seja duro dizer-vos isto, ou que finja renunciar, pois os aliados não quererão parlamentar enquanto ele for chanceler. E nós mesmos, asseguro-vos, arriscamos muito continuando fiéis à condessa, aparentando agir com os outros barões. Mais ela espera, mais seu sobrinho Roberto consegue adeptos.

Nesse momento um meirinho, de cabeça descoberta e ofegante, entrou correndo na sala de refeições.

— Que há, Cornillot? — perguntou Denis d'Hirson.

O meirinho Cornillot cochichou algumas frases apressadas ao ouvido de Denis d'Hirson que, imediatamente, se tornou pálido, jogou o guardanapo que lhe cobria os joelhos e saltou do banco:

— Um momento, Messeigneurs, preciso ir ver... — disse ele.

E desapareceu às pressas por uma das portazinhas da sala, seguido de Cornillot que não se desgrudava dele. Ouviram-no gritar:

— Minha espada, minha espada...

Depois seus passos precipitados desceram uma escada.

Um instante depois, quando os convivas ainda não tinham voltado a si da surpresa, um clamor subiu do pátio. Parecia que todo um exército tinha chegado a galope. Um cachorro, que devia ter levado uma patada, gania desesperadamente. Liques e Nédonchel precipitaram-se para as janelas, enquanto as damas da comitiva da condessa de Poitiers se amontoavam a um canto da sala, como um bando de galinhas d'angola. Junto de Joana somente tinham ficado Beatriz d'Hirson e a senhora grávida, cuja fisionomia ficou com uma cor nada boa.

"É uma emboscada", pensou Joana de Poitiers. Pelo modo pelo qual Beatriz se tinha aproximado dela, com as mãos tremendo, Joana percebeu que certamente ela não tinha conivência com os agressores. Isso, todavia, não tornou a situação mais agradável e, de qualquer maneira, faltava tempo para pensar.

A porta voou antes que fosse aberta, e uma vintena de barões, conduzidos por Souastre e Caumont entrou, de espada em punho, gritando:

— Onde está o traidor? Onde está o traidor? Onde se esconde ele?

Pararam, um pouco hesitantes diante do espetáculo que lhes surgia diante dos olhos. Tinham vários motivos de surpresa. Primeiro, a ausência de Denis d'Hirson, que estavam certos de encontrar ali e que acabava de desaparecer como por trás de um véu mágico. E depois aquele bando de mulheres gritando ou desmaiadas, amontoadas umas sobre as outras e que se viam já prometidas a uma violação geral. E sobretudo a presença de Liques e Nédonchel que eles julgavam dos seus; ainda na ante-véspera, em Saint-Pol, esses dois cavaleiros estavam no número dos conjurados e eram encontrados ali, sentados à mesa de uma casa do inimigo.

Os trânsfugas foram insultadíssimos: perguntaram-lhes quanto tinham recebido pelo perjúrio, se eles se tinham vendido aos Hirson por trinta dinheiros; e Souastre golpeou, com o guante de ferro, o comprido rosto amarelo de Nédonchel, cuja boca começou a sangrar.

Liques esforçava-se para explicar e justificar-se.

— Viemos defender vossa causa; queríamos evitar mortes e destruições inúteis. Estávamos prestes a obter por palavras, mais do que vós com vossas espadas.

Forçaram-no a calar-se, cobrindo-o de injúrias. Do pátio subiam clamores dos outros "aliados" que esperavam. Não eram menos que uma centena.

— Não diga meu nome — cochichou Beatriz à condessa de Poitiers — pois é a meu tio que eles procuram.

A dama grávida caiu de seu banco numa crise de nervos.

— Onde está a condessa Mafalda? . . . É preciso que ela nos ouça!. . . Sabemos que ela está aqui, seguimos o carro dela — gritavam os barões.

Joana de Poitiers começou a compreender que aqueles gritadores não a procuravam particularmente e que não era à sua vida que desejavam mal. Passado o seu primeiro movimento de medo, a cólera subiu-lhe ao rosto; a despeito de seus seis meses de prisão, o sangue d'Artois tinha voltado, repentinamente, a circular nas veias, com tudo quanto possuía de violência.

— Eu sou a Condessa de Poitiers e sou eu quem viaja no carro de minha mãe — gritou ela. — E não gosto que entrem com tanto estardalhaço no lugar em que estou.

Como os insurretos ignoravam que ela tivesse saído da prisão, aquela revelação imprevista tornou-os um instante silenciosos. Continuavam, decididamente, de surpresa em surpresa. Os que tinham tido a ocasião de ter visto Joana antes, reconheceram-na

— Dizei-me vossos nomes — tornou Joana — pois costumo falar somente a pessoas que me são apresentadas e lamento verificar que usais armaduras de guerra.

— Sou o Sire de Souastre — respondeu o chefe, de grandes sobrancelhas ruivas — este aqui é meu companheiro Caumont, aqueles são Saint-Venant, João de Fiennes e Messire Longevillers; e procuramos a condessa Mafalda...

— Como? — cortou Joana. — Só ouço nomes de gentis--homens! Não o acreditaria diante da vossa maneira de proceder com damas que deveríeis proteger e não agredir! Vede Madame de Beaumont, que está prestes a dar à luz e que acabais de fazer desmaiar. Não estais envergonhados disso?

Um movimento de hesitação esboçou-se entre os barões. Joana era bela e sua maneira de enfrentá-los subjugava-os. Além disso, ela era cunhada do rei e parecia voltar perdoada. Arnaldo de Longvillers garantiu-lhe que não lhe desejavam qualquer mal, que era somente a Denis d'Hirson que procuravam, porque ele jurara renegar o irmão e não mantivera a promessa.

Na verdade tinham esperado prender Mafalda em sua armadilha e constrangê-la pela força; sentiam-se bastante confusos com o fracasso. Alguns, tornando a montar, partiram para o campo à procura do tesoureiro, enquanto os outros, para se consolar do infortúnio, começavam a pilhar a casa.

Durante uma hora, na mansão de Vitz, ecoou o barulho de portas arrebentadas, de móveis vasculhados, de baixelas quebradas. Arrancavam-se das paredes tapeçarias e armações; arrebanhavam a prataria dos aparadores.

Depois, mais calmos, porém sempre ameaçadores, os insurretos fizeram com que Joana e as mulheres tornassem a tomar o grande carro dourado; Souastre e Caumont assumiram o comando da escolta e o veículo se encaminhou na direção de Hesdin, rodeado pelo ruído confuso do aço que produziam as cotas de malha dos homens de guerra.

Os aliados, dessa maneira, estavam certos de chegar até a condessa d'Artois.

À saída do burgo de Ivergny, distante cerca de uma légua, fez-se uma parada. Acabavam de alcançar Denis d'Hirson, no momento em que ele tentava transpor o Authie, atravessando o pântano. Ele apareceu enlameado, ferido, sangrando, coberto de correntes que lhe tinham passado nas mãos e nos pés, titubeante entre dois barões a cavalo.

— Que vão fazer-lhe? Que vão fazer-lhe? — murmurou Beatriz. — Em que estado o puseram!

E ela começou a rezar, com voz baixa, misteriosas preces que não tinham sentido nem em latim, nem em francês.

Depois de confabularem, os barões acordaram em guardá-lo como refém, prendendo-o num castelo vizinho. Mas seu furor assassino tinha necessidade de uma vítima. Encontraram--na facilmente.

O meirinho Cornillot tinha sido agarrado na mesma ocasião que Denis. Acontecia que, para sua desgraça, fora justamente ele quem, dez dias antes, prendera Souastre e Caumont. Como sua vida não valesse nenhum resgate, decidiram ajustar contas ali mesmo. Mas era preciso que sua morte servisse de exemplo e fizesse os agentes de Mafalda refletir. Uns queriam que ele fosse enforcado, outros, que fosse supliciado e outros ainda, que fosse enterrado vivo. Numa grande emulação de crueldade, discutia-se diante do prisioneiro de que maneira iam matá-lo, enquanto que, de joelhos, o rosto em suor, ele proclamava inocência, suplicando que o poupassem. Souastre encontrou uma solução com a qual todos concordaram, salvo o condenado.

Foram buscar uma escada. Içaram Cornillot a uma árvore e amarraram-no pelas axilas; depois de ele espernear bastante, sob as risadas dos barões, cortaram a corda e deixaram-no cair no chão. O desgraçado, com as pernas quebradas, urrou durante todo o tempo em que se abria a sepultura. Enterraram-no em pé, até a cabeça.

O carro da Condessa de Poitiers continuava esperando para partir de novo, e as damas do séquito apertavam as orelhas para não ouvir os gritos do supliciado. A Condessa de Poitiers, embora fosse forte, sentia-se desfalecer, e não ousava intervir de medo que a cólera dos barões se voltasse contra ela. Beatriz d'Hirson, malgrado o perigo em que estava, seguia a cerimônia com estranha atenção.

Por fim, Souastre apresentou sua grande espada a um de seus criados. O resplendor da lâmina brilhou junto ao chão e a cabeça do meirinho Cornillot rolou sobre a relva, enquanto um borbotão de sangue esguichava das artérias cortadas.

No momento em que o carro se pôs novamente a caminho, a dama grávida foi presa de dores; começou a urrar, contorcendo-se para trás e arregaçando as saias. Compreendeu-se logo que ela não chegaria ao fim da gravidez.

 

                       O SEGUNDO CASAL DO REINO

HESDIN era uma notável fortaleza de três muralhas entrecortada de fossos, eriçada de torres de defesa, semeada de edifícios, de cavalariças, de celeiros, de depósitos, e ligada por diversos subterrâneos aos campos circunvizinhos. Uma guarnição de oitocentos archeiros podia nela ficar à vontade, com todos os seus serviços e as reservas necessárias a um sítio de vários meses. Dentro do terceiro pátio localizava-se a moradia principal dos condes d'Artois, feita de muitas divisões e que ocultava, em móveis raros, tapeçarias, objetos de arte e de ourivesaria, acumulados durante três gerações, uma fortuna incalculável.

— Enquanto tiver este lugar — costumava dizer Mafalda — meus perversos barões não conseguirão dar cabo de mim. Serão bem destruídos antes que os muros hajam cedido, e meu sobrinho Roberto engana-se se pensa que o deixarei apoderar-se de Hesdin.

— Hesdin me pertence por direito e por herança — declarava, de seu lado, Roberto d'Artois. — Minha tia Mafalda roubou-mo, como a todo meu condado. Mas tantas farei que o recuperarei e, com ele, a sua vida hedionda.

Quando os aliados, sempre escoltando o carro de Joana de Poitiers, apareceram, à caída da noite, diante da primeira muralha, seu número estava bastante reduzido. Sire de Journy tinha deixado o séquito, pretextando ter que ir vigiar a entrada do seu restolho, e o Sire de Givenchy tinha feito o mesmo por não querer deixar a esposa sozinha durante muito tempo. Outros, cujas propriedades, tão próximas, eram vistas da estrada, a um tiro de trabuco, foram cear em suas casas, levando consigo os amigos mais íntimos e garantindo que logo iam reencontrar os outros. Os obstinados ficaram, por isso, reduzidos a uma trintena que cavalgava há três dias sem interrupção. Suas vestes de aço começavam a pesar bastante nos ombros e eles sentiam grande necessidade de limpar o corpo.

Sua cólera tinha-se descarregado no meirinho Cornillot, cuja cabeça carregavam na ponta de uma lança, como troféu.

Precisaram parlamentar uni pouco no primeiro corpo da guarda para que os deixassem entrar. Depois tiveram que esperar ainda e Joana de Poitiers no meio deles, entre a primeira e a segunda patrulha.

A lua nova aparecera no céu ainda claro. A sombra, porém, começava a cobrir os pátios de Hesdin. Tudo estava tranqüilo, muito tranqüilo mesmo ao ver dos barões. Espantavam-se ao notar tão poucos homens armados. Um cavalo, no fundo de uma estrebaria, farejando a presença de outros cavalos, relinchou.

Havia frescor na noite, onde Joana reconheceu os perfumes da infância. Madame de Beaumont continuava nos seus gemidos, gritando que estava morrendo. Os barões discutiam entre si. Alguns eram de opinião que já tinham feito muito até ali, que o caso começava a cheirar a armadilha e que era melhor voltar, mais reforçados, em outro dia. Joana viu o instante em que também seria levada como refém ou feita prisioneira no meio de uma batalha noturna.

Por fim a segunda ponte levadiça foi baixada, depois a terceira. Os barões hesitavam.

— Estás bem certa de que minha mãe está aqui? — murmurou Joana a Beatriz d'Hirson.

— Juro pela minha vida, Madame, e também estou bastante desejosa de ver-me ao seu lado.

Joana, então, pôs a cabeça para fora do carro.

— Pois bem, Messeigneurs — disse ela — perdestes aquela pressa de falar a vossa suserana e a coragem vos falta na hora de vos aproximardes dela?

Tais palavras espicaçaram os barões que, para não se desmerecerem aos olhos de uma mulher, entraram no terceiro pátio, onde apearam.

Por mais preparado que se esteja para um acontecimento, este se apresenta sempre de maneira diferente daquela que se espera.

Joana de Poitiers havia entrevisto de vinte modos o momento em que se veria na presença dos seus. Estava preparada para tudo, à acolhida gélida que se faz à culpada agraciada, à grande cena da reconciliação oficial, ao novo encontro íntimo na alegria e nos beijos. Para cada situação imaginara uma atitude e previra as palavras. Mas nunca podia ter imaginado que tornaria a entrar no castelo familiar acompanhada pela desordem da guerra civil, com uma camareira fidalga abortando no fundo do carro.

Quando Joana entrou no salão, iluminado por velas, onde a condessa Mafalda, de pé, com os braços cruzados e os lábios cerrados, olhava os barões avançarem, suas primeiras palavras foram para dizer:

— Minha mãe, é preciso cuidar de Madame de Beaumont que está a ponto de perder seu fruto. Vossos vassalos infundiram-lhe muito terror.

Imediatamente a condessa encarregou sua afilhada Mafalda d'Hirson, irmã de Beatriz, que se achava ao seu lado — pois toda a família d'Hirson fazia parte de sua corte: Pedro era bailio de Arras, Guilherme era saquitário, três outros sobrinhos e sobrinhas estavam, ainda, providos em sinecuras — de ir procurar mestre Hermant e mestre de Pavilly, seus "físicos" particulares, para que eles prestassem seus cuidados à enferma.

Depois, arregaçando as mangas e dirigindo-se aos barões:

— São gestos de cavalaria, perversos Sires, prender minha nobre filha e as damas de seu séquito, e pensais, assim, fazer-me dobrar? Gostaríeis que se fizesse o mesmo a vossas esposas e donzelas quando caminham pelas estradas? Vamos, respondei e dizei-me qual é a desculpa de vossos crimes, para os quais pedirei punição ao rei.

Os barões empurraram Souastre pelas costas, assoprando--lhe:

— Fala! Dize o que deves...

Souastre tossiu para aclarar a voz e cocou a barba de três dias. Havia falado tanto, vituperado, mantido reuniões para excitar os outros que agora, no momento mais importante, já não sabia que dizer.

— Ora agora, Madame — começou ele — queremos saber se ides, finalmente, renegar vosso nocivo chanceler que sufoca as nossas reivindicações e consentir em admitir nossos costumes, tais como eram ao tempo de Monsieur São Luís.

Interrompeu-se, porque um novo personagem acabava de entrar no salão e porque esse personagem era o Conde de Poitiers. A cabeça um pouco inclinada para o ombro, caminhava com passadas tranqüilas. Os barões, que não passavam de pequenos senhores rurais e que não esperavam ver surgir, de repente, o irmão do rei, amontoaram-se uns contra os outros.

— Messeigneurs — disse o Conde de Poitiers. Parou ao divisar Joana.

Dirigiu-se para ela e beijou-a na boca, da maneira mais natural possível, diante de toda a assistência, para assim deixar patente que sua esposa tinha voltado totalmente perdoada, e que para ele todos os interesses de Mafalda eram negócios de família.

— Então, Messeigneurs — tornou ele — eis-vos aqui descontentes. Pois bem! nós também estamos. Ora, se teimamos de uma parte e de outra e se usamos de violência, não chegaremos a nada de proveitoso... Ah! estou-vos reconhecendo, Messire de Balliencourt; eu vos vi na hoste. Vossa saúde continua boa?... A violência é o recurso dos que não sabem pensar. . . Saúdo-vos, Messire de Caumont.

Ao mesmo tempo passeava por entre os barões, olhando-os diretamente nos olhos, cumprimentando nominalmente aqueles de cuja fisionomia se recordava e apresentando-lhes a mão estendida para que nelas pusessem os lábios, em sinal de homenagem.

— Se a Condessa d'Artois desejasse puni-los pela má ação que acabais de ter para com ela, isso ser-lhe-ia muito fácil. Vede, pois, Messire de Souastre, olhai por esta janela e dizei-me se teríeis alguma oportunidade de escapar?

Alguns barões foram até as janelas e viram que os muros tinham sido, repentinamente, eriçados de capacetes, que se desenhavam sob o crepúsculo. Uma companhia de archeiros tinha tomado lugar no pátio e os sargentos estavam prontos para, ao primeiro sinal, suspender as pontes e fazer cair os rastilhos.

— Fujamos, se houver tempo — murmuraram alguns barões.

— Mas não, Messeigneurs, não fujais — disse o Conde de Poitiers. — Vossa fuga não vos levará além do segundo muro. Mais uma vez, digo-vos que não queremos agir com violência e peço à vossa suserana que não use armas contra vós. Não é, minha mãe?

A Condessa Mafalda aprovou com um leve aceno de cabeça.

— Tentemos resolver de outra forma nossas desavenças — prosseguiu o Conde de Poitiers, sentando-se.

Convidou os baiões a fazerem o mesmo e mandou servir-lhes de beber.

Como não houvesse cadeira para todos, alguns sentaram-se mesmo no chão. Aquela alternativa de ameaças e cortesias desorientava-os.

Filipe de Poitiers falou-lhes longamente. Demonstrou-lhes que a guerra civil somente produzia a desgraça, que eles eram súditos do rei antes de serem súditos da condessa Mafalda e que deviam submeter-se à arbitragem do soberano. Este enviara dois emissários, Messire Flotte e Messire Paumier, para concluir uma trégua. Por que a tinham recusado?

— Não tínhamos confiança na condessa Mafalda — respondeu João de Fiennes.

— A trégua vos tinha sido sugerida em nome do rei; foi, portanto, ao rei que fizestes a afronta de pôr em dúvida a sua palavra.

— Mas Monseigneur Roberto d'Artois tinha-nos garantido...

— Ah! esperava justamente isso! Tende cuidado, meus bons senhores, para não ouvirdes demais os conselhos de Monseigneur Roberto, que fala um pouco levianamente em nome do rei e vos faz trabalhar por sua conta, pagando, talvez, com seu dinheiro, mas muito pouco com sua pessoa, Nosso primo d'Artois perdeu sua causa contra a condessa Mafalda após seis anos, e o rei meu pai, cuja alma Deus guarde, julgou-a pessoalmente. O que se passa neste condado diz respeito apenas a vós, à condessa e ao rei.

Joana de Poitiers observava o marido. Ouvia atentamente o timbre igual de sua voz; reencontrava aquela sua maneira de, bruscamente, erguer as pálpebras para pontuar as frases e a atitude descuidada que, ela percebia agora, não passava de força dissimulada. Ele lhe parecia estranhamente maduro. Seus traços tinham-se acentuado. 0 grande nariz magro salientava-se mais; a fisionomia principiava a tomar estrutura definitiva. Ao mesmo tempo, Filipe parecia ter adquirido uma singular autoridade como se, após a morte do pai, uma parte do poder natural do defunto lhe tivesse sido transmitida.

Ao fim de uma boa hora gasta em parlamentar, o conde de Poitiers obteve o que desejava, ou pelo menos o máximo do que se poderia obter. Denis d'Hirson seria posto em liberdade; Thierry não reaparecia, provisoriamente, no Artois, mas a administração da condessa continuaria como estava, até o final das investigações. A cabeça do meirinho Cornillot seria entregue imediatamente aos seus, para receber uma sepultura cristã. . . pois, disse o conde de Poitiers:

— Proceder como o fizestes é próprio de ímpios e não de defensores da verdadeira fé. Tais gestos abrem caminho à vindita, da qual serieis, por sua vez, logo vítimas.

Os Sires de Liques e de Nédonchel seriam deixados em paz, porque eles apenas queriam o bem de todos e evitar o sangue inútil. As damas e demoiselles seriam respeitadas de uma parte e de outra, como deviam ser em terras de cavalaria. E depois todos se encontrariam em Arras, no fim de uma quinzena, isto é, a 7 de outubro, para concluir uma trégua que continuaria até a famosa conferência de Compiègne, tantas vezes repelida e que, desta vez, se fixava para 15 de novembro. Se os dois Guilherme, Flotte e Paumier, não tinham sabido conseguir a adesão dos barões aos desejos do rei, providenciar-se-ia no sentido de enviar outros medianeiros.

— Não há necessidade de assinar nada hoje; tenho confiança em vossa palavra — disse o Conde de Poitiers, que sabia que a melhor maneira de conquistar a confiança de seus adversários era fingir dar-lhes a sua. — Sois homens de juízo e de honra; sei bem que vós, Balliencourt, e vós, Souastre, e vós, Loos, e todos os que aqui estais, tudo fareis para não me desapontar e não me empenhar em vão junto do rei. Conto convosco para impor a razão a vossos amigos, fazendo-os respeitar nossas convenções.

Tinha-os manobrado tão bem que todos partiram agradecendo-lhe, como se houvessem encontrado nele um defensor. Retomaram os cavalos, transpuseram as três pontes levadiças e mergulharam na noite.

— Meu caro filho — disse Mafalda — salvaste-me. Não saberia ter tanta paciência.

— Fiz-vos ganhar quinze dias — disse Filipe, erguendo os ombros. — Os costumes de São Luís! Eles começam a irritar-me com seus costumes de São Luís! Dir-se-ia que meu pai nunca existiu! É lamentável que sempre que um grande rei faz progredir o reino, apareçam tolos que se obstinam em voltar para o passado. E meu irmão os encoraja!

— Ah! Que pena, Filipe, que não sejais o rei! — exclamou Mafalda.

Filipe não respondeu; olhava para a esposa. Esta, agora, que seus receios se tinham dissipado e tantos meses de esperança chegavam ao fim, sentia de repente esgotarem-se todas as forças e lutava contra as lágrimas que lhe marejavam os olhos.

Para disfarçar a perturbação, caminhava pelo salão, retomando contacto com os lugares de sua juventude. Mas cada objeto reconhecido aumentava-lhe a emoção. Tornou a encontrar o xadrez de jaspe c de calcedônia, no qual aprendera a jogar.

— Como vês, nada mudou — disse Mafalda.

— Não, nada mudou — repetiu Joana, com a garganta apertada, afastando-se para o móvel dos livros.

Ele tinha doze volumes, constituindo uma das mais importantes bibliotecas particulares que havia na França. Joana acariciou as lombadas... Les Enfances d'Ogier, Le Roman de la Violette, a Bíblia em francês, La Vie des Saints, Le Roman de Renart, Le Roman de Tristan... (19) Quantas vezes, em companhia de sua irmã Branca, olhara as belas iluminuras pintadas nas folhas de pergaminho! E uma das damas de Mafalda lia para ela.

— Este, tu o conhecias. . . sim, já o tinha comprado. Custou-me trezentas libras — disse Mafalda mostrando a Voyage au pays du Grand Khan, de Marco Polo.

Procurava dissipar o mal-estar que invadira os três.

Nesse momento, o anão de Mafalda, que chamavam de Joãozinho, o Louquinho, entrou segurando um cavalo de pau no qual fazia de conta que curveteava através da casa. Tinha mais de quarenta anos, uma cabeça enorme, grandes olhos de cachorro e um narizinho esborrachado; chegava precisamente à altura das mesas, trajava uma roupa enfeitada de guizos e um gorro redondo.

Assim que percebeu Joana teve um sobressalto; a boca abriu-se-lhe, sem nada dizer, e em lugar de ir ao seu encontro fazendo cabriolas, como era seu dever, precipitou-se para a jovem e atirou-se ao chão, para beijar-lhe os pés.

A resistência de Joana, seu autocontrole, cederam um pouco. Repentinamente pôs-se a soluçar, virou-se para o conde de Poitiers, e vendo que este lhe sorria, jogou-se em seus braços balbuciando:

— Filipe!... Filipe!... finalmente tornei a encontrar-vos.

A dura condessa Mafalda sentiu uma pontadinha no coração porque a filha se tinha arremessado ao marido e não a ela, para chorar de felicidade.

"Mas que podia esperar senão isso? pensou. Vamos, o mais importante é que fui bem sucedida".

— Filipe, vossa esposa está exausta — disse ela. — Conduzi-a aos vossos aposentos. Mandarei a ceia para lá.

E como eles passassem próximo dela, acrescentou, mais baixo:

— Bem vos disse que ela vos amava.

Contemplou-os, enquanto atravessavam a porta, apoiados um contra o outro. Depois fez um sinal a Beatriz d'Hirson para segui-los discretamente.

Mais tarde, no meio da noite, quando a Condessa Mafalda, para compensar a fadiga, engolia sua sexta e última refeição cotidiana, Beatriz reapareceu, com um meio-sorriso nos lábios.

— Então? — perguntou Mafalda.

— Então, Madame, o filtro produziu o efeito que dele esperávamos. No momento eles dormem.

Mafalda revirou-se um pouco nos travesseiros.

— Deus seja louvado — disse ela. — Recompusemos o segundo casal do reino.

 

                         A AMIZADE DE UMA SERVA

E DEPOIS as semanas passaram um pouco calmas para o reino. Os partidos adversos tornaram a encontrar-se em Arras, depois em Compiègne e o rei prometeu dar sua decisão sobre o Artois antes do Natal. Os barões do Norte, provisoriamente apaziguados, voltaram para as suas propriedades.

Os campos estavam negros e desertos; as ovelhas amontoavam-se nos redis. A planície dormitava no silêncio do inverno.

Viviam-se os dias mais curtos do ano; as madrugadas de dezembro, enfumaçadas, faziam lembrar fogo de madeira verde; a noite descia cedo sobre a residência real de Vincennes, rodeada pela floresta.

Durante a tarde, a rainha Clemência bordava. Começara uma grande toalha de altar que representava o Paraíso. Os eleitos aí passeavam sob um céu, uniformemente azul, por entre os limoeiros e as laranjeiras; esse Paraíso se parecia singularmente com os jardins de Nápoles.

"Ninguém é rainha para ser feliz", pensava constantemente a Rainha Clemência, repetindo as palavras de sua avó Maria de Hungria. Propriamente falando, não era infeliz; não tinha razão alguma para o ser. "É um sentimento ruim que tenho, pensava ela e sou injusta por não agradecer ao Criador por tudo quanto me deu". Não podia compreender o motivo daquela lassidão, daquela melancolia, daquele torpor que, dia a dia, pesavam sobre ela.

Não estava rodeada de mil atenções? Tinha sempre ao seu lado pelo menos três camareiras fidalgas, escolhidas dentre as mais nobres senhoras do reino, para executar seus menores desejos, para se anteciparem aos seus menores gestos, lhe trazerem o missal, prepararem a agulha, sustentarem o espelho, penteá-la, cobri-la com um agasalho, logo que a temperatura caísse...

Os melhores menestréis se revezavam para lhe cantar as aventuras do Rei Artur, do cavaleiro Lancelote e a Lenda Dourada dos santos.

Dez cavaleiros tinham, como única missão, correr entre Nápoles e Vincennes, a fim de levar as cartas que ela trocava com a avó, com seu tio, o Rei Roberto, e todos os seus parentes.

Possuía para seu uso exclusivo, quatro cavalinhos, arreados com freios de prata e rédeas de seda tecidas com fios de ouro; e, para acompanhar o rei na entrevista de Compiègne, tinham lhe construído um grande carro de viagem tão bonito, tão rico, com as rodas coruscantes como sóis que, perto dele, o da condessa Mafalda parecia exatamente uma carrocinha de carregar feno.

E Luís não era verdadeiramente o melhor marido da terra? Porque ela dissera, ao visitar Vincennes, que esse castelo lhe agradava e que seria ali que gostaria de viver, Luís imediatamente, abandonando Paris, decidira instalar-se lá definitivamente. Logo depois todos os grandes senhores tinham começado a adquirir terras ao redor de Vincennes, para aí morarem. Dizia-se até que Tolomei tinha ajudado muito esses senhores em suas compras e que, graças a ele, havia um movimento de enriquecimento naquelas paragens. E Clemência, que não tinha imaginado o que poderia ser o inverno em Vincennes, já não ousava confessar, agora, que desejava voltar para Paris, receando desapontar todos os que tinham feito despesas para morar perto dela.

Realmente, o rei a cumulava! Não passava um dia em que não lhe trouxesse um novo presente, a ponto de ela sentir-se constrangida.

— Desejo, minha querida — dissera-lhe ele — que sejais a dama mais dotada do mundo.

Mas tinha ela necessidade de três coroas de ouro, uma incrustada de dez grandes rubis balaches, a outra com quatro imensas esmeraldas, dezesseis pequenas e de oitenta pérolas, e a terceira também com pérolas, esmeraldas e rubis? (20)

Para sua mesa, Luís lhe comprara doze taças de prata dourada, esmaltadas com as armas da França e da Hungria. E porque era piedosa e ele muito admirasse a sua devoção, ofereceu-lhe um grande relicário, que custara oitocentas libras, com um fragmento da Verdadeira Cruz. Seria desencorajar tanto bem querer, fazer sentir, ao seu marido, que se poderiam dizer orações também no meio de um jardim e que o mais lindo ostensório do mundo, a despeito de toda a arte dos ourives e de toda a riqueza dos reis, era ainda o sol que brilhava sobre o Mediterrâneo.

No mês precedente, Luís lhe havia feito doações de terras que ela ainda não tivera tempo de visitar: as casas e mansões de Maneville, Hébicourt, Saint-Denis de Fermans, Wardes e Dampierre, as florestas de Lyons e de Bray.

— Por que, meu doce senhor — perguntara-lhe ela — vós vos desapossais de tantos bens em meu benefício se, de qualquer maneira, sou apenas vossa serva e somente posso tirar proveito delas por vosso intermédio?

— Não me desaposso de nada — respondera Luís — Todos esses domínios pertenciam a Marigny, de quem os retomei por julgamento dos quais posso dispor como me apetece. Quero, se me acontecer uma desgraça, deixar-vos a mais rica dama do reino.

A despeito da repugnância que sentia em herdar os bens de um enforcado, poderia ela recusá-lo quando eram ofertados como prendas de amor, amor que o rei fazia questão de proclamar no próprio ato de doação?

"Luís, pela graça de Deus, rei de França e de Navarra, fazemos saber a todos, presentes e futuros, que nós, considerando a alegre e agradável companhia que Clemência nos faz, humilde e amavelmente, pela qual ela bem merece lhe façamos cortês-mente. . ."

Poder-se-ia usar de mais delicadeza em documentos de Estado? E ele ainda lhe outorgou como propriedade as casas de Corbeil e de Fontainebleau. Cada noite que ele passava com ela parecia valer um castelo. Ah, sim! Messire Luís amava-a muito. Jamais, em sua presença, se mostrara turbulento, e ela não compreendia como esse cognome lhe fora dado. Nenhuma querela entre ambos, violência alguma. Deus, verdadeiramente, lhe havia dado um bom esposo.

Porém, malgrado isso tudo. Clemência entendiava-se. Não ouvia a voz dos menestréis e suspirava ao delinear os fios de ouro dos seus limões bordados.

Esforçara-se, em vão, por se interessar pelos negócios do Artois, a respeito dos quais Luís, todas as noites discorria sozinho diante dela, dando grandes passadas pelo quarto.

Sentia-se amedrontada pelas grandes homílias que fazia, repentinamente, o Conde Roberto, com uma voz capaz de fazer saltar os tetos de Vincennes, chamando-a "minha prima!" como se houvesse gritado com a sua matilha, afirmando que Madame Mafalda e a Senhora de Poitiers eram verdadeiras mulherzinhas de alcouce, no que, em verdade, Clemência se recusava a acreditar.

Sentia-se também irritada com Monseigneur de Valois, que a rodeava, perguntando-lhe:

— Então, minha sobrinha, quando dareis um herdeiro ao reino?

— Quando Deus quiser, meu tio — respondia ela, docemente, t

De fato, ela não tinha amigos. Percebia, pois era sagaz e despida de vaidade, que toda espécie de afeição que lhe testemunhavam era interessada. Aprendia que os reis nunca são amados por si mesmos e que os que se ajoelham ao lado dele só pensam em erguer as migalhas do poder caídas de seus lábios.

"Ninguém é rainha para ser feliz; pode mesmo acontecer que ser rainha impeça de ser feliz", repetia-se Clemência uma vez mais naquela tarde, quando Monseigneur de Valois, com o passo sempre apressado, como se fosse repelir o inimigo para fora das fronteiras, entrou onde ela estava e lhe disse:

— Minha sobrinha, trago-vos uma novidade que vai agitar bastante a corte: vossa cunhada, Madame de Poitiers, está grávida. As parteiras certificaram-no esta manhã. Já a vossa vizinha, a condessa Mafalda, embandeira seu castelo de Conflans como se a procissão de Corpus-Christi fosse passar pela sua casa.

— Sinto-me bastante contente por Madame de Poitiers — respondeu Clemência.

— Espero que ela vos prove reconhecimento — tornou Carlos de Valois — pois é a vós que deve seu estado atual. Se não tivésseis pedido o seu perdão no dia de vosso casamento, duvido muito que Luís o tivesse dado.

— Deus mostra, pois, que fiz bem, pois acaba de abençoar essa união.

Valois, que se aquentava junto à lareira, voltou-se bruscamente, fazendo voltear o manto como se desfraldasse um estandarte.

— Parece que Deus abençoa menos rapidamente a vossa — volveu ele. — Quando, então, vos decidireis, minha sobrinha, a seguir o exemplo de vossa cunhada? É pena, na verdade, que ela vos tenha tomado a dianteira. Vamos, Clemência, permiti-me falar-vos como um pai. Sabeis que não costumo esconder o que tenho que dizer. . . Entre nós, Luís cumpre bem seus deveres para contigo?

— Luís é tão atento quanto um marido pode ser.

— Vejamos, minha sobrinha, compreendei-me bem; refiro--me aos deveres de esposo cristão, aos deveres do corpo, se vós preferis.

Clemência ruborizou-se. Balbuciou:

— Não compreendo o que quereis dizer, meu tio. Tenho pouca experiência, mas não vejo em que Luís deva ser censurado sobre esse ponto. Estou casada há apenas cinco meses e acho que não há motivo para vos alarmardes.

— Mas, enfim, honra ele regularmente a vossa cama?

— Quase todas as noites, meu tio, se é isto que quereis saber, e mais que ser sua serva quando ele o deseja, não posso.

— Pois bem! Façamos votos! Façamos votos! — disse Carlos de Valois. — Mas compreendei, minha sobrinha, que fui eu quem fez o vosso casamento. Ora, não desejava que me culpassem de uma escolha ruim.

Clemência então, pela primeira vez, teve um gesto de cólera. Jogou seu bordado, ergueu-se ereta diante da cadeira e, com uma voz em que se podia reencontrar o tom da velha rainha Maria, respondeu:

— Pareceis esquecer, Messire de Valois, que minha avó de Hungria teve treze filhos, que minha mãe Clemência de Habsburgo já tinha três quando morreu quase com a idade que tenho. As mulheres de nossa família são fecundas, meu tio, e se houver impedimento ao voto que fazeis, não será do meu sangue. Além do mais, sobre este assunto, Messire, já falamos demais por hoje e para sempre.

E foi-se fechar em seu quarto.

Foi lá que Eudelina, a primeira roupeira, indo preparar o leito, a encontrou, duas horas mais tarde, sentada próximo a uma janela, atrás da qual a noite tinha totalmente caído.

— Como, Madame — exclamou ela — deixaram-vos no escuro! Vou chamar alguém!

— Não, não, não quero ninguém — protestou fracamente Clemência.

A roupeira reavivou, na lareira, o fogo que morria, mergulhou no brazeiro um tronco resinoso e serviu-se dele para acender uma vela enfiada num pé de ferro.

— Oh! Madame, vós chorais! — exclamou ela. — Magoaram-vos?

A rainha enxugou os olhos. Parecia longe dela mesma, desamparada.

— Eudelina, Eudelina — gritou ela — um mau sentimento me atormenta a alma; estou enciumada.

Eudelina olhou-a surpresa.

— Vós, Madame, ciumenta? Mas que razão tereis para sê-lo? Estou mais que certa que nossa Alteza Luís não vos engana, nem tem idéia disso.

— Sinto ciúme de Madame de Poitiers — volveu Clemência. — Tenho inveja dela, que vai ter uma criança, enquanto que eu jamais a espero. Oh! sinto-me feliz por ela, oh! sim, estou bem contente, mas ignorava que a felicidade de outrem pudesse ferir tão fortemente.

— Ah! é claro, Madame, a felicidade dos outros pode causar muita dor!

Eudeline dissera aquilo de maneira curiosa, não como uma criada que aprova as palavras da patroa, mas como uma mulher que sofreu do mesmo mal e compreende. 0 tom não passou despercebido a Clemência.

— Também não tens filhos? — perguntou ela.

— Certamente, Madame, certamente, tenho uma filha de onze anos que tem o meu nome.

Afastou-se e começou a ocupar-se com a cama, alisando as cobertas de brocado e de veiro delgado.

— És roupeira há muito tempo neste castelo? — prosseguiu Clemência.

— Desde a primavera, justamente antes da vossa chegada. Até então estava no Palácio da Cidade, onde zelava pela roupa branca de Nossa Alteza Luís, após haver tratado da de seu pai, o rei Filipe, durante dez anos.

Depois o silêncio caiu e só se ouvia a mão da roupeira batendo nos travesseiros.

"Ela conhece certamente todos os segredos desta casa... e de suas alcovas, pensava a rainha. Mas não lhe pedirei nada, não a interrogarei. Não é correto fazer as empregadas falarem... não é digno de mim."

Mas quem, então, poderia informá-la com precisão a não ser uma dessas criaturas que participam da intimidade dos reis sem participar do seu poder? Jamais teria a audácia de fazer aos príncipes de sua família, a pergunta que lhe queimava o pensamento, após a conversa que acabara de manter com Carlos de Valois; estava mais que certa, aliás, de não obter uma resposta exata. Quanto às altas damas da corte, nenhuma se mostrara sua amiga verdadeira. Sentia-se a estrangeira que sobrecarregam de elogios, mas que observam, que espreitam e cuja menor falta, a mais leve fraqueza jamais será perdoada. Não podia permitir-se o abandono senão junto de suas criadas. Eudelina, especialmente, parecia merecer a sua cordialidade; de olhar franco, postura simples e com gestos seguros e tranqüilos, a primeira roupeira tinha-se mostrado, dia a dia, mais atenciosa e suas gentilezas não tinham ostentação.

Clemência decidiu-se repentinamente.

— É verdade que — perguntou — a pequena Madame de Navarra, que se mantém longe da Corte e que só me mostraram uma vez, não é de meu marido?

E ao mesmo tempo ela pensava: "Não deveria ter sido avisada há mais tempo desses segredos da coroa? Minha avó deveria ter-se informado mais; na verdade, deixaram-me casar ignorando muitas coisas."

— Quê! Madame... — respondeu Eudelina continuando a endireitar os coxins, como se a pergunta não a surpreendesse em excesso... — creio que ninguém o sabe, nem mesmo nossa Alteza Luís. Cada qual diz sobre isso o que imagina crer; os que afirmam que Madame de Navarra é a filha do rei têm interesse em fazê-lo, o mesmo acontecendo com aqueles que a consideram bastarda. Há mesmo os que, como Monseigneur de Valois, mudam de idéia de acordo com os meses a respeito de uma coisa sobre a qual, entretanto, existe uma só verdade. A única pessoa de quem se poderia ter a certeza, que é Madame de Borgonha, está agora com a boca cheia de terra. . .

Eudelina interrompeu-se e olhou para a rainha.

— Vós vos inquietais, Madame, em saber se Vossa Alteza o rei.. .

Parou novamente, mas Clemência encorajou-a com os olhos.

— Sossegai-vos — disse Eudelina — Monseigneur Luís não está impedido de ter um herdeiro, como as más línguas pretendem não só no reino como na corte.

— Sabe-se... — murmurou Clemência.

— Eu sei — replicou Eudelina lentamente — e tomaram--se bastantes precauções para que fosse eu a única a saber.

— Que queres dizer?

— Quero dizer a verdade, Madame, porque eu também guardo um grande segredo. Sem dúvida deveria continuar calada... Mas não é ofender uma dama como vós, de tão alto nascimento e de tão grande caridade, confessar-vos que eu tive uma criança, há onze anos, de Monseigneur Luís, quando ele era jovem.

A rainha contemplou Eudelina com um espanto incomensurável. O fato de Luís ter tido uma esposa não criara nenhum problema para Clemência, a não ser de ordem dinástica. Essa união entrava para o rol das coisas assentadas. Luís tivera uma esposa que se comportara mal; a prisão e, depois, a morte, haviam-nos separado. Mas após cinco meses de estar casada com o rei de França, Clemência, em nenhuma ocasião, se interrogara a respeito do que poderia ter sido a intimidade de Luís com Margarida de Borgonha. Nenhuma idéia de suas relações físicas lhe havia aflorado ao pensamento, nenhuma curiosidade; entre o casamento e o amor, aproximação alguma se tinha imposto. E eis que o amor, o amor extra-conjugal, se erguia diante dela na pessoa daquela bela mulher rosada e loura, com seus trinta anos fartos; e Clemência pôs-se a imaginar...

Eudelina tomou o silêncio da rainha como uma reprovação.

— Não fui eu quem o quis, Madame, garanto-vos, foi ele que para isso usou de sua autoridade. Além de tudo, ele era tão jovem, não tinha discernimento e uma grande dama o teria, sem dúvida, assustado.

Com um gesto, Clemência deu a entender não desejar outra explicação.

— Essa criança — perguntou ela — é justamente a de que me falavas há pouco?

— Sim, Madame, é Eudelina.

— Quero vê-la.

Uma expressão de medo estampou-se nas feições da roupeira.

— Podereis vê-la, Madame, podereis, é claro, pois sois a rainha. Mas peço-vos não fazê-lo, porque saberiam, então, que eu vos falei. Ela se parecia tanto com o pai, que Monseigneur Luís, para não se arriscar a magoar os vossos olhos, mandou fechá-la num convento logo que estáveis por chegar. Vejo-a apenas uma vez por mês e assim que ela estiver na idade, será enclausurada.

As primeiras reações de Clemência sempre eram generosas. Esqueceu, por instantes, seu próprio drama.

— Mas por quê? — perguntou ela, a meia voz — por que ter feito isso? Como puderam pensar que esse ato pudesse agradar-me, e a que gênero de mulheres os príncipes de França estão habituados? Assim, minha pobre Eudelina, foi por mim que te arrancaram a filha! Peço-te por isso muito perdão.

— Oh! Madame — respondeu Eudelina — sei bem que isso não partiu de vós.

— Não partiu de mim, mas foi feito por minha causa — disse Clemência pensativamente. — Cada um de nós não é apenas responsável por seus maus atos, mas também por qualquer mal para o qual deu azo, mesmo à sua revelia.

— E eu mesmo — tornou a falar Eudelina — que era a primeira roupeira no Palácio da Cidade, fui mandada, por Monseigneur Luís, para aqui, em Vincennes, numa condição pior do que a que tinha em Paris. Ninguém pode dizer nada contra os desejos do rei, mas foi verdadeiramente bem pouca gratidão pelo silêncio que mantive. A mim também Monseigneur Luís queria esconder; não imaginou fósseis preferir esta residência de campo ao grande Palácio da Cidade.

Agora que começara a fazer confidencias, não podia mais parar.

— Posso bem confessar-vos — prosseguiu ela — que à vossa chegada eslava decidida a servir-vos apenas por dever, e nunca por prazer. É preciso que sejais uma nobre senhora, tão boa de coração quanto bela de rosto, para que sentisse minha afeição conquistada por vós. Não imaginais o quanto sois querida pelos humildes; é preciso ouvi-los falar da rainha nas cozinhas, nas estrebarias, nos lavadouros! É lá, Madame, que tendes almas dedicadas, muito mais que entre os grandes barões. Conquistastes os nossos corações, inclusive o meu, que era o mais fechado para vós, e não tendes, agora, criada mais dedicada do que eu — terminou Eudelina, ajoelhando-se e beijando a mão da rainha.

— Farei com que te devolvam a tua filha — disse Clemência — e a protegerei. Falarei disso ao rei.

— Não façais nada, Madame, suplico-vos — exclamou Eudelina.

— O rei cumula-me com tantos presentes que não desejo! Pode bem dar-me um que me agrade!

— Não, não, suplico-vos, não façais nada — repetiu Eudelina. — Prefiro ver minha filha sob os véus que vê-la sob a terra.

Pela primeira vez após o início da conversa, Clemência esboçou um sorriso, quase um riso.

— A gente da tua condição, em França, tem, então, tanto medo do rei? Ou é a lembrança do rei Filipe, que diziam não ser caridoso, que ainda pesa sobre vós?

Se Eudelina tinha verdadeira afeição pela rainha, não guardava menos e profundo rancor pelo Turbulento, e a ocasião era ótima para satisfazer, o mesmo tempo, esses dois sentimentos.

— Não conhecia ainda Monseigneur Luís como todos aqui o conhecem; ele ainda não vos mostrou o avesso de sua alma. Ninguém se esqueceu — continuou ela baixando a voz — que nossa Alteza Luís mandou torturar os criados de sua casa, depois do processo da rainha Margarida, e que oito cadáveres, todos mutilados e quebrados, foram pescados perto da Torre de Nesle. Julgais que eles foram levados para aí por acaso? Não gostaria que o acaso nos levasse, minha filha e eu, para o mesmo lado.

— São intrigas que os inimigos do rei fazem circular

Ao mesmo tempo, porém, em que pronunciava essas palavras, Clemência recordava-se das alusões do cardeal Duèze e a maneira pela qual Bouville, no caminho de Lião, tinha respondido às perguntas que ela lhe fizera a respeito da morte de Margarida. Clemência lembrava-se do que seu cunhado, Filipe de Poitiers, lhe tinha deixado entender quanto às torturas e condenações sem viso de justiça sofridas pelos antigos ministros de Filipe, o Belo.

"Teria desposado um cruel?" pensava ela.

— Lamento, se falei demais — tornou a dizer Eudelina. — Deus queira que não tenhais nada de pior a descobrir e que vossa imensa bondade vos conserve na ignorância.

— Que poderia descobrir de pior?... A rainha Margarida... realmente?

Eudelina sacudiu, tristemente, os ombros.

— Sois a única, na corte, Madame, a quem isso deixa em dúvida; se não estais ainda informada é porque alguns espreitam um mau momento, talvez, para vos magoarem mais. Ele mandou asfixiá-la, toda a gente sabe.

— Meu Deus, meu Deus, é possível... é possível que ele a tivesse matado para se casar comigo! — gemeu Clemência, ocultando o rosto nas mãos.

— Ah! Não comeceis a chorar, Madame — aconselhou Eudelina. — Daqui a pouco é hora do jantar e não podeis aparecer assim. Precisais refrescar o rosto.

Foi buscar uma bacia de água fresca e um espelho, comprimiu um pedaço de pano molhado sobre as faces da rainha, endireitou-lhe uma madeixa loura que se desfizera. Tinha uma grande suavidade de gestos e uma espécie de ternura protetora.

Por um instante os rostos das duas mulheres apareceram, lado a lado, no espelho, dois rostos da mesma cor loura e dourada, com olhos igualmente grandes e azuis.

— Sabes que somos parecidas? — perguntou a rainha.

— É esse o mais lindo elogio que me fizeram, e desejava muito fosse verdadeiro — respondeu Eudelina.

Como a emoção de ambas fosse grande e como tinham uma mesma necessidade de amizade, a esposa do rei Luís X e a sua primeira amante tiveram um movimento recíproco de aproximação e se mantiveram, um instante, abraçadas.

 

                         O GARFO E O GENUFLEXÓRIO

COM o queixo erguido, o sorriso nos lábios, os pés espalhados e trajando um agasalho de quarto forrado de peliça, por cima da roupa de noite, Luís X entrou no aposento de Clemência.

Durante o jantar tinha achado a rainha estranhamente morosa, distante, quase alheia, seguindo com atraso os assuntos tratados e mal respondendo às perguntas que lhe eram feitas; não se tinha, porém, preocupado com aquilo: "As mulheres são sujeitas a variações de humor, pensava ele, e o presente que comprei para ela esta manhã saberá devolver-lhe a alegria". Pois o Turbulento era desses maridos sem imaginação, que têm opinião fraca sobre as esposas e pensam que tudo se concilia com presentes. De modo que ele chegou, procurando parecer tão elegante quanto podia, trazendo um pequeno escrínio de forma alongada gravado com as armas da rainha.

Surpreendeu-se um pouco ao encontrar Clemência ajoelhada em seu genuflexório. Geralmente, quando ele entrava, ela já tinha feito as orações noturnas. fez-lhe um ligeiro sinal com a mão que queria dizer: "Não vos incomodeis comigo, terminai em paz. . ." e permaneceu na outra extremidade do quarto, um pouco embaraçado consigo próprio e girando o escrínio entre os dedos.

Os minutos corriam; ele foi pegar um confeito numa bomboneira colocada próximo ao leito e trincou-o. Clemência continuava ajoelhada e Luís começou a achar que o tempo não passava. Aproximou-se e percebeu que ela não rezava, mas o observava.

— Vede, minha querida — disse ele — vede a surpresa que vos trouxe. Oh! não é uma jóia, é mais uma raridade, um prodígio de ourivesaria. Vede...

Abriu o escrínio, retirou um comprido objeto brilhante de duas pontas, e Clemência no genuflexório, teve um gesto de recuo.

— Eh! minha querida! — exclamou Luís rindo — não tenhais medo, isto não foi feito para ferir; é um garfinho para comer pêras. Observai como o trabalho é bem feito — acrescentou ele, pousando sobre a madeira do genuflexório um garfo de dois dentes de aço, bem pontudos, incrustado num cabo de marfim e outro cinzelado.

Luís sentiu-se desenxabido; a rainha realmente não parecia demonstrar grande interesse pelo seu presente, nem apreciar a novidade.

— Mandei fazê-lo — retornou ele — sob os cuidados de Messer Tolomei, que o encomendou especialmente a um ourives de Florença. Parece que existem no mundo apenas cinco desses garfos e quis que possuísseis um, a fim de não manchardes vossos lindos dedos quando comerdes frutas. É um objeto para damas; jamais os homens ousariam, nem saberiam, servir-se de tão precioso instrumento, a não ser esse efeminado Eduardo, meu cunhado de Inglaterra que, disseram-me, possui um e não teme a caçoada, servindo-se dele à mesa.

Esperava diverti-la contando-lhe essa anedota, que não surtiu efeito. Clemência não se afastou do genuflexório, continuando a fixar o marido; jamais ela tinha estado tão linda, com os longos cabelos dourados caídos até a cintura. O humor de Luís começou a ficar falto de recursos.

— Ah! — volveu ele — Messer Tolomei contou-me que seu jovem sobrinho, que enviei, com Bouville, para vos trazer de Nápoles, se acha curado e logo irá para Paris e que em todas as cartas fala ao tio das bondades que tivestes para com ele.

"Mas que tem ela finalmente? pensava ele; podia, ao menos, dizer-me obrigada". Com qualquer outra que não fosse Clemência, já estaria encolerizado, mas ele não se resignava tão depressa a ver explodir sua primeira cena familiar. Dominou-se e fez nova tentativa.

— Penso que, desta vez, os negócios do Artois vão ser resolvidos. Estou bastante satisfeito e as coisas se apresentam de boa forma. A entrevista de Compiègne, à qual tão gentilmente me acompanhastes, surtiu os resultados que eu esperava e vou logo convocar meu grande conselho para dar a arbitragem e firmar o acordo entre Mafalda e seus barões.

— Luís — disse repentinamente Clemência -— de que maneira morreu vossa primeira esposa?

Luís dobrou-se para a frente, como se recebesse uma pancada no meio do corpo, e contemplou-a um instante, estupefato.

— Morreu... morreu — disse, agitando as mãos... — morreu de febre do peito que a asfixiou, segundo me disseram.

— Luís, podereis jurar perante Deus?

— Que quereis que eu jure? — perguntou o Turbulento alteando a voz. — Não tenho nada que jurar. Onde quereis chegar? Que desejais saber? Já vos disse o que tinha que dizer e peço-vos que vos contenteis com isso, não tendes mais nada que saber.

Pôs-se a percorrer o quarto. No cavado do seu traje de noite, a base do pescoço ficara vermelha; seus grandes olhos glaucos adquiriram, repentinamente, um brilho inquietante.

— Não quero — gritou — não quero que me falem dela! Nunca! E vós menos que qualquer outra pessoa. Proíbo-vos, Clemência, de pronunciar diante de mim o nome de Margarida...

Um acesso de tosse o interrompeu.

— Podeis jurar diante de Deus — repeliu Clemência cuja voz teve de atravessar toda a extensão do quarto — podeis jurar que a vossa vontade nada teve que ver com a morte dela?

A cólera, em Luís, obscurecia-lhe rapidamente o raciocínio. Ao invés de negar, simplesmente, e de simular o riso, replicou violentamente:

— E quando seria isso? Serieis a última a ter o direito de me censurar. A culpa não foi minha, a culpa foi de Madame de Hungria!

— De minha avó? — murmurou Clemência. — Que tem minha avó a ver com isto?

O Turbulento compreendeu imediatamente que acabava de cometer uma estupidez, o que servia para lhe aumentar o furor. Era tarde, porém, para recuar. Sentiu-se abatido.

— É claro, a culpa foi de Madame de Hungria! — repetia ele — ela exigiu que vosso casamento fosse realizado antes do verão. Desejei, então. . . entendeis bem, apenas desejei... que Margarida morresse antes daquele tempo. Desejei em voz alta e fui ouvido, eis tudo! Se não tivesse expressado esse desejo hoje não serieis rainha de França. Não mostreis tanta inocência e não venhais atirar-me como labéu o que vos conveio tão bem e que vos colocou mais alto do que podíeis jamais esperar.

— Nunca o teria aceitado — exclamou Clemência — se tivesse sabido que o foi a um tal preço. É por causa desse crime, Luís, que Deus não nos dá filhos!...

Luís deu meia volta e imobilizou-se, inteiramente assombrado.

— ...desse crime e de todos os outros que cometeste — continuou a rainha, erguendo-se do genuflexório. — Mandaste assassinar vossa esposa! Mandaste enforcar, baseado em provas falsas, Messire de Marigny e jogar na prisão os ministros de vosso pai que, segundo me afirmaram, eram bons servidores. Mandaste torturar os que não apreciáveis. Atentaste contra a vida e contra a liberdade das criaturas de Deus. E é por isso que, agora, Deus vos castiga, impedindo-vos de engendrar novas criaturas.

Luís, tomado de estupor, olhava-a caminhar ao seu encontro. Assim, existia no mundo uma terceira pessoa que não se importava com seus arrebatamentos, que dominava o seu furor e lhe tomava a dianteira. Seu pai, Filipe, o Belo, dominara-o pela autoridade; seu irmão, o Conde de Poitiers, pela inteligência e, agora, sua segunda esposa, através da fé. Nunca poderia imaginar que o seu justiçador lhe aparecesse no seu quarto nupcial e sob a aparência daquela mulher tão bela, cujos cabelos se abriam como um cometa.

O rosto de Luís crispou-se; parecia uma criança que vai chorar.

— E que quereis que eu faça agora? — perguntou com voz aguda. — Não posso ressuscitar os mortos. Não sabeis o que é ser rei! Nada foi feito, absolutamente, por minha vontade e sou eu quem considerais culpado de tudo. Que quereis obter? De que adianta censurar-me o que não pode ser reparado? Separai-vos então de mim, voltai para Nápoles, se não podeis mais suportar-me. E esperai que haja um papa para lhe pedir a dissolução do nosso casamento! Ah! esse papa! esse papa que não se conseguiu fazer — acrescentou cerrando os punhos. — Vós não sabeis o mal que causei a mim mesmo! Nada disso teria acontecido se houvesse um papa.

Clemência pousou-lhe as mãos sobre os ombros. Ela era um pouco mais alta que ele.

— Jamais pensaria em me separar de vós. Sou vossa esposa para compartilhar em tudo a vossa condição, assim as vossas desgraças como as vossas alegrias. O que desejo é salvar a vossa alma e inspirar-lhe o arrependimento, sem o qual não existe perdão.

Ele olhou-a bem nos olhos e neles somente viu bondade e grande esforço de compreensão. Respirou melhor; tivera tanto medo de perdê-la!... e puxou-a para si.

— Minha querida, minha querida — murmurou — sois melhor do que eu, oh! quanto melhor, e não sei como poderia viver sem vós. Prometo-vos corrigir-me e condoer-me do mal que puder causai.

Ao mesmo tempo pousou-lhe a cabeça no vazio da espádua e roçava-lhe, com os lábios, o começo do pescoço.

— Ah! minha querida — continuava ele — como sois boa! como sois boa de amar! Serei tal, prometo, serei tal como o desejares. É certo que tenho remorsos que me causam sempre grande terror! Só os esqueço nos vossos braços. Vinde, minha querida, vinde, porque nós nos amamos.

Procurava encaminhá-la para o leito, mas Clemência permanecia imóvel e ele sentia-a crispar-se, recusar-se.

— Não, Luís, não — disse ela bem baixo. — Precisamos fazer penitência.

— Mas faremos penitência, minha querida; jejuaremos três vezes por semana, se vós o desejais. Vinde, estou louco por vós.

Ela soltou-se e, como ele quisesse retê-la à força, uma costura do vestido de noite cedeu. 0 ruído do rasgão amedrontou Clemência que, cobrindo com a mão a espádua nua, correu a refugiar-se, a entrincheirar-se atrás do genuflexório.

Aquele gesto de terror fez explodir no Turbulento novo acesso de cólera.

— Mas que tendes, afinal? — gritou ele — e que é preciso para vos agradar?

— Não quero ser vossa antes de fazer uma romaria ao senhor São João, que já me salvou do mar. E vireis comigo, e iremos a pé; saberemos, então, se Deus nos perdoa, concedendo-nos uma criança.

— A melhor peregrinação para conseguir um filho, é ali que se faz — disse Luís, apontando o leito.

— Ah! não brinqueis com as coisas da religião — respondeu Clemência — não é assim que conseguireis convencer-me.

— Vossa religião é bastante estranha, que vos manda recusar ao vosso esposo. Não vos instruíram sobre um dever ao qual não vos deveis furtar?

— Luís, vós não compreendeis!

— Sim, compreendo-vos! — urrou ele. — Compreendo que vos recusais a mim. Compreendo que não sou mais do vosso agrado, que procedeis comigo como Margarida. . .

Ela viu os olhos dele fixarem o garfo de duas longas e aceradas pontas, que continuava no genuflexório. E, então, sentiu realmente medo. Estendeu a mão, sorrateiramente, para se apossar do objeto antes que ele o fizesse. Por felicidade, seu gesto não foi notado, pois ele só se preocupava com o grande pânico, com o profundo desespero que o inundava.

Luís somente se convencia de suas faculdades de homem quando próximo de um corpo dócil. A circunstância de ser solicitado ou dominado, tirava-lhe todas as possibilidades; os dramas do seu primeiro casamento não tinham outra origem. Se aquela doença voltasse a atacá-lo? Não há maior pena do que ser incapaz de possuir o que mais se deseja. Como poderia explicar a Clemência que, para ele, o castigo tinha precedido o crime? Sentia-se aterrado com a idéia de que a terrível engrenagem da recusa, da impotência e do ódio ia pôr-se em movimento. Pronunciou como para si mesmo:

— Sou então condenado, sou então maldito, para não poder ser amado por quem amo?

Então, cedendo à piedade, tanto quanto ao medo, Clemência abandonou seu genuflexório e disse:

— Está bem, vou fazer como desejais.

E foi apagar as candeias.

— Deixai-as acesas — disse o Turbulento.

— Francamente, Luís, quereis...

— Tirai toda a roupa.

Decidida, agora, à submissão, ela despiu-se inteiramente, com a sensação de que ia entregar-se ao diabo. Luís conduziu para a cama aquele belo corpo de sombras modeladas, sobre o qual tinha, novamente, todo poder. Para agradecer a Clemência, murmurou:

— Prometo-vos, minha querida, prometo-vos mandar libertar Raul de Presles e todos os jurisconsultos de meu pai. No fundo, quereis sempre as mesmas coisas que meu irmão Filipe!

Clemência pensou que seu assentimento ao impudor seria compensado por algum bem e que, mesmo sem penitência, alguns inocentes fossem libertados.

Ora, naquela noite, um grande grito foi chocar-se no teto do quarto real. Casada há cinco meses, a rainha Clemência acabava de descobrir que ninguém era rainha apenas para ser infeliz e que as portas do matrimônio podem se abrir para deslumbramentos desconhecidos.

Permaneceu longos instantes exausta, ofegante, maravilhada, ausente de si mesma e como se o mar de sua costa natal a houvesse depositado em alguma praia dourada. Foi ela quem procurou o ombro do rei para dormir, enquanto Luís, louco de reconhecimento por esse prazer que acabava de provocar, e sentindo-se mais rei que no dia de sua sagração, conhecia sua primeira noite de insônia que não fora perturbada pela angústia da morte.

Esta felicidade, porém, foi rapidíssima. A partir do dia seguinte, sem a assistência de algum confessor, Clemência imaginou que o prazer era o quinhão do pecado. Ela era de natureza mais nervosa, sem dúvida, do que parecia, pois desde então a aproximação do marido lhe causava dores intoleráveis que a tornavam incapaz de aceitar a homenagem real, não pela recusa da vontade, mas por intolerância do corpo. Entristecia-se sinceramente, desculpava-se, esforçava-se, mas em vão, para satisfazer os ardores insistentes de Luís.. .

— Afianço-vos, meu doce senhor, afianço-vos — dizia-lhe — que precisamos fazer uma peregrinação; antes disso não poderei.

— Pois bem, iremos, minha querida, iremos logo e tão longe quanto vos agrade, com uma corda ao pescoço, se o desejais; mas deixai-me, antes, regular os negócios do Artois.

 

 

                                       A ARBITRAGEM

NA ANTEVÉSPERA do Natal, no maior salão da casa de Vincennes, transformado, pelas circunstâncias, em sala de justiça, os principais senhores do reino e grande número de jurisconsultos já estavam reunidos e esperavam o rei.

Uma delegação dos barões de Artois, tendo à frente Geraldo Kierez e João de Fiennes, assim como os inseparáveis Souastre e Caumont, chegara pela manhã. Parecia que tudo fora acertado. Os emissários reais tinham trabalhado bem, multiplicando os entendimentos entre os adversários; o conde de Poitiers lembrara soluções prudentes e aconselhara a sogra a ceder em vários pontos, a fim de reconduzir a paz aos seus Estados e, no fim de contas, aí continuar como senhora.

Obedecendo às instruções do rei, na realidade muito vagas na forma, mas claras em suas intenções. . . "Não quero mais sangue derramado; não quero mais gente mantida injustamente na prisão; quero que se honre a cada um segundo o seu direito, e que a cordialidade e a amizade reinem por toda a parte..." o chanceler Estêvão de Mornay redigira uma longa sentença da qual o Turbulento, quando lha leram, sentiu-se infinitamente orgulhoso, como se ele próprio houvesse ditado os artigos.

Ao mesmo tempo, Luís X mandou pôr em liberdade Raul de Presles e os seis outros conselheiros de seu pai que jaziam na prisão desde abril. Como se não pudesse mais parar nesse vasto movimento de bondade, tinha, mesmo, a despeito da oposição de Carlos Valois, agraciado a esposa e o filho de Enguerrand de Marigny, também mantidos na prisão até aquele dia.

Tal mudança de atitude surpreendeu a corte e ninguém conseguia explicar a sua causa. O rei chegara até a receber Luís de Marigny, abraçara-o na presença da rainha e de vários dignitários, declarando-lhe:

— Meu afilhado, o passado está esquecido.

0 Turbulento empregava agora aquela fórmula a todo propósito, como se quisesse persuadir-se e persuadir os outros, de que uma nova fase de seu reinado havia principiado.

Sentia-se particularmente de consciência limpa naquela manhã enquanto lhe colocavam a coroa e lhe punham sobre os ombros o grande manto ornado de flores-de-lis.

— Meu cetro! meu cetro! foram buscar meu cetro?

— É a mão da Justiça, Sire, — que usareis hoje — respondeu Mateus de Trye, seu primeiro camareiro, apresentando-lhe a grande mão de ouro, com os dois dedos erguidos.

— Como pesa — disse Luís. — Achei-a mais leve no dia da sagração.

— Vossos barões estão prontos, Sire — volveu o camareiro. — Recebereis Mestre Martinho, que acaba de chegar de Paris, antes ou depois do Conselho?

— Mestre Martinho chegou? — exclamou Luís. — Quero vê-lo aqui mesmo. E que me deixem com ele.

O personagem que entrou era um homem de uns cinqüenta anos, bastante corpulento, de tez bem morena e de olhos sonhadores. Embora estivesse trajado com simplicidade, quase como um monge, tinha, no garbo, nos gestos ao mesmo tempo untuosos e seguros, na maneira de dobrar a capa, no côncavo do braço e de se inclinar, em saudação, algo de oriental. Mestre Martinho tinha viajado muito em sua juventude e chegado às bordas de Chipre, de Constantinopla e de Alexandria. Ninguém sabia ao certo se ele sempre usara aquele nome de Martinho, sob o qual o conheciam.

— Estudaste a questão que mandei propor-vos? — perguntou-lhe o rei, que se contemplava num espelho de mão.

— Fi-lo, Sire, fi-lo com grande honra por ter sido consultado por vós.

— E então? Dizei-me a verdade, mesmo se for desagradável, não receio ouvi-la.

Um astrólogo como Mestre Martinho sabia o que era preciso pensar de semelhante preâmbulo, especialmente partindo de um rei.

— Senhor — respondeu ele — nossa ciência não é absoluta e se os astros nunca mentem, o entendimento humano pode errar, ao observá-los. Todavia, não vejo fundamento para a vossa inquietação, pois nada parece impedir tenhais uma descendência. O céu de vosso nascimento é bastante favorável a respeito e os astros nele estão dispostos de boa forma para a paternidade. Com efeito, Júpiter está na ponta de Câncer, o que é sinal de fecundidade e esse Júpiter de vosso nascimento, além disso, está no trígono de amizade com a Lua e com o planeta Mercúrio. Não deveis renunciar à esperança de procriar, longe disso. Em sentido contrário, a oposição que a Lua faz a Marte não prevê para o filho que tereis, uma vida isenta de dificuldades e será preciso rodeá-lo, desde a mais tenra idade, de cuidados, de vigilância e de servidores fiéis.

Mestre Martinho tinha adquirido uma bela notoriedade ao prever muito antes, embora por palavras bastante veladas, a morte do rei Filipe, o Belo, coincidindo com um eclipse do sol a sobrevir em novembro de 1314. Escrevera: "Um poderoso monarca do Ocidente..." abstendo-se de determinar com precisão. Luís X, que considerava a morte do pai como um acontecimento feliz em seu próprio destino, tinha, desde então, estima por Mestre Martinho. Mas se fosse um pouco perspicaz, teria percebido, na reserva prudente do astrólogo, que este, estudando o seu céu, nele havia lido mais, sem dúvida, que não queria revelar.

— Vosso conselho me é preciso, Mestre Marlinho, e vossas palavras me confortam — disse o Turbulento. — Pudeste discernir o momento mais favorável para conceber os herdeiros que desejo?

Mestre Martinho hesitou um instante.

— Falemos apenas do primeiro, Sire, porque quanto aos outros não poderia responder-vos com segurança. . . Falta-me a hora do nascimento da rainha, o que ela não sabe, segundo me dissésteis, e que ninguém me pode fornecer; mas penso não cometer um grande erro dizendo-vos que antes da entrada do Sol no signo do Sagitário, um filho vos nascerá, o que situará a época da concepção por volta do meado de fevereiro.

— Iremos então antes desse tempo cumprir a S. João d’Amiens, a promessa que a rainha tanto deseja. E quando pensais, Mestre Martinho, que deva recomeçar minha guerra contra os flamengos?

— Penso, Sire, que precisais seguir, nisto, as inspirações da vossa sabedoria. Escolhestes uma data?

— Não creio poder reunir o exército antes de agosto próximo.

0 olhar sonhador de Mestre Martinho ficou um instante suspenso sobre o rosto do rei, sobre a sua coroa, sobre a mão da Justiça, que parecia atrapalhá-lo e que ele levava sobre o ombro como um jardineiro leva o cabo da pá.

"Antes de agosto, haverá junho para transpor...", pensava o astrólogo.

— Em agosto próximo, Sire — respondeu ele — é possível que os flamengos tenham cessado de vos inquietar.

— Creio-o de bom grado! — exclamou o Turbulento, tomando a resposta num sentido favorável — pois meti-lhes um grande medo no verão passado e eles ficarão sem dúvida, à mercê, sem batalha, antes da estação das cavalgadas.

É uma sensação estranha para um homem olhar outro com a quase certeza de que antes de seis meses ele estará morto e ouvi-lo fazer projetos inúteis para um futuro que provavelmente não verá. "A menos que ele morra somente em novembro..." pensava Martinho. Pois, além do terrível vencimento de junho, o astrólogo não podia ignorar o segundo aspecto funesto, uma perversa direção de Saturno a vinte e sete anos e quarenta e quatro dias do seu nascimento. "A desgraça pode cair sobre ele ou sobre a mulher ou sobre o filho que terá até então. . . De qualquer maneira, não são coisas que se digam."

Entretanto, antes de partir, enquanto sentia pesar nos dedos a bolsa que o rei acabava de lhe entregar, mestre Martinho teve, de novo, uma hesitação, quase um remorso e sentiu-se impelido a dizer:

— Sire, uma palavra ainda para a salvaguarda de vossa saúde. Tomai cuidado com venenos, principalmente no declínio da primavera.

— Devo, pois, abster-me de cogumelos e fungos pelos quais sou guloso mas que, vós me fazeis recordar, já me causaram desarranjos intestinais a que sou sujeito.

Depois, subitamente preocupado: — Veneno!... quereis dizer... mordedura de víbora?

— Não, Sire, falo claramente de alimentos.

— Pois bem, obrigado, Mestre Martinho, tomarei cuidado.

E enquanto se dirigia para o Conselho, Luís recomendava a seu camareiro que redobrassem a vigilância das cozinhas, que tivessem cuidado em usar somente comestíveis frescos e de procedência conhecida e que fizessem provar toda comida duas vezes, em lugar de uma, antes de lha servirem.

Quando entrou no salão, todos se ergueram e se conservaram de pé até que ele fosse instalado sob o dossel.

Bem sentado no trono, com as abas do manto arrepanhadas sobre os joelhos e a mão da Justiça um pouco inclinada sobre o sangradouro, Luís, naquele instante, sentia-se semelhante, em majestade, aos Cristos que nimbam a luz nos vi-trais das igrejas. Ao ver, à direita e à esquerda, seus barões tão belamente trajados e tão devotamente inclinados, ao senti-los submissos às suas decisões, Luís achava que, apesar de tudo, havia prazer, em alguns dias, em ser rei.

"Vou ler minha sentença, pensava ele, e todos se vão conformar com ela, vou restabelecer a paz e a boa harmonia entre meus súditos".

Diante dele encontravam-se os dois partidos entre os quais ia fazer a arbitragem. De um lado, a condessa Mafalda, ela também usando a coroa e ultrapassando, de cabeça, os conselheiros amontoados à sua volta. Do outro, a delegação dos "aliados" do Artois. Havia entre estes últimos certa falta de uniformidade no modo de trajar, pois cada qual tinha posto suas melhores vestes, que nem sempre lembravam sua província; Souastre e Caumont tinham-se rebuscado como para ir a um torneio, com imensos elmos superpostos, um, por uma águia de asas estendidas e o outro, por um busto de mulher; sob a viseira erguida, olhavam ao redor, um pouco encabulados com o seu equívoco.

Os grandes barões designados para assistir àquele conselho tinham sido prudentemente escolhidos em igual número dentre os partidários dos dois campos. Carlos de Valois e seu filho, Carlos de Ia Marche, Luís de Clermont, o Sire de Mercoeur, o conde de Sabóia e sobretudo Roberto d'Artois, conde de Beaumont-le-Roger, eram os sustentáculos dos aliados. Sabia-se que, de outra parte, Filipe de Poitiers, Luís d'Evreux, Henrique de Sul-li, o conde de Bolonha, o conde de Forez e Miles de Noyers apoiavam Mafalda.

O chanceler Estêvão de Mornay estava sentado pouco distante do rei, com os pergaminhos abertos numa estante.

— In nomine patris et filii. . .

Os assistentes entreolharam-se surpresos. Era a primeira vez que o rei abria o Conselho com uma prece, suplicando as luzes divinas para suas decisões.

— Mudaram-no — assoprou Roberto d'Artois a seu primo Filipe de Valois — ei-lo que agora se julga um bispo no púlpito.

— Meus amados irmãos, meus amados tios, meus bons senhores e meus bem-amados súditos — principiou Luís X — temos o grande desejo, e o dever, por mandato de Deus, de manter a paz em nosso reino e de condenar a discórdia entre nossos súditos. . .

Luís que, de modo geral, gaguejava quando em público, exprimia-se hoje com uma voz lenta, mas clara; sentia-se realmente inspirado e perguntava, ao ouvi-lo naquele dia, se o seu verdadeiro destino não teria sido o de um excelente padre de aldeia.

Dirigiu-se primeiramente à condessa Mafalda e convidou-a a seguir seus conselhos. Mafalda, erguendo-se, respondeu:

— Sire, sempre os segui e sempre os seguirei.

O rei voltou-se, em seguida, para os aliados e fez-lhes a mesma recomendação.

— Como bons e fiéis súditos, Sire — respondeu Gerard Kierez — humildemente vos suplicamos fazer e ordenar tudo à vossa plena vontade.

Luís viu à volta dele seus tios, irmãos e primos com um ar que parecia dizer: "Vejam como soube arranjar todas as coisas".

Depois, convidou o chanceler de Mornay a ler a sentença de arbitragem.

O chanceler Estêvão de Mornay, se bem que ainda jovem, sofria da vista. Aproximou dos olhos o grande rolo de pergaminho e começou:

— "O passado está esquecido. Ódios, ofensas e rancores são perdoados reciprocamente. A condessa Mafalda reconhece suas obrigações para com seus súditos; ela deverá manter a paz na região do Artois, não fazer nenhum mal nem vilania aos aliados e não procurar motivo para fazê-lo. Ela selará como o rei o fez, os costumes que estavam em uso em Artois no tempo do Senhor São Luís e que serão provados, perante ela, por pessoas dignas de fé, cavaleiros, clérigos, burgueses, advogados..."

Luís X começou a não mais escutar. Tendo ditado a primeira frase, julgava ter feito tudo. Agora, entrava-se em considerações jurídicas das quais nada compreendia. Estava começando a pensar, contando nos dedos: "Fevereiro, março, abril, maio. . . assim será então em novembro que me nascerá um herdeiro. .."

— . . ."Quanto às garantias" — continuava Estêvão de Mornay — "se se queixarem da condessa, o rei mandará examinar por inquiridores se a queixa tem fundamento e, nesse caso, se ela recusar justiça, o rei a obrigará. De outro lado, a condessa deverá entregar aos senhores as terras que detêm sem julgamento..."

Mafalda começava a agitar-se, mas os irmãos Hirson, que se encontravam próximos dela, acalmaram-na.

— Isso nunca foi debatido no encontro de Compiègne! — dizia Mafalda.

— É melhor perder um pouco do que perder tudo — assoprou-lhe Denis.

A recordação do passeiozinho que fizera, acorrentado, no dia da morte do meirinho Cornillot fazia-o inclinar-se para o compromisso.

Mafalda ergueu as mangas e continuou ouvindo, contendo a cólera que crescia.

A leitura prosseguia há já quase um quarto de hora. Kierez voltava-se, às vezes, para os aliados e assegurava-lhes, com um aceno de cabeça, que tudo ia bem.

Um frêmito de interesse percorreu o salão quando se abordou, na sentença, a questão de Thierry d'Hirson. Todos os olhares se voltaram para o chanceler de Mafalda e seus irmãos.

— . . ."no que concerne ao Mestre Thierry d'Hirson, que os aliados pediram fosse julgado, o rei decide que as acusações deverão ser levadas perante o bispo de Thèrouanne, do qual Mestre Thierry depende como deão d'Ayre; ele não poderá, porém, ir ao Artois apresentar sua defesa, pois que o sobredito Mestre Thierry é mui odiado na região. Seus irmãos, irmãs e sobrinhos para lá também não poderão ir enquanto o julgamento não tiver sido feito pelo bispo Thérouanne e certificado pelo rei..."

Desde esse instante, os Hirson abandonaram a atitude conciliatória que tinham observado até então.

— Olhai vosso sobrinho; vede como ele triunfa!

Roberto d'Artois, com efeito, trocava sorrisos com Carlos e Filipe de Valois.

Tanta impudência e tão tranqüilamente exposta, acabou por irritar Mafalda. Fazendo os Hirson se calarem com um gesto de ambas as mãos, respondeu-lhes em voz baixa:

— Ainda não foi dito tudo, meus amigos, ainda não foi dito tudo! Pensais que vos abandonei, Thierry? Tende paciência.

A voz monótona do chanceler emudeceu; a leitura da sentença de arbitragem terminara. 0 bispo de Soissons, que tinha participado das negociações, avançou carregando os Evangelhos e foi apresentá-los aos barões; estes levantaram-se todos juntos e estenderam a mão direita, enquanto Gerardo Kierez, em nome deles jurava, sobre o livro sagrado, que respeitariam escrupulosamente a decisão do rei. Depois o bispo encaminhou-se para Mafalda.

O pensamento do rei, naquele instante, viajava pelas estradas. "'A peregrinação a Amiens será feita a pé, é claro, só durante a última légua. 0 resto será feito de carro, com mantas quentes. Serão necessárias boas botas forradas, mandarei fazer para Clemência uma capa de arminho para vestir por cima da peliça, a fim de protegê-la dos resfriados. . . Esperemos que ela fique livre dessas dores que a impossibilitam para o amor." Ele sonhava, contemplando os dedos de ouro da mão da Justiça quando, de súbito, ouviu pronunciar com voz forte:

— Recuso jurar; não selarei essa sentença iníqua!

Um grande silêncio caiu sobre a assembléia e todos os olhares se voltaram para o Turbulento. A audácia daquela recusa, lançada ao rosto do soberano, aterrorizava, pela sua enormidade, até o mais corajoso. Imaginava-se qual a sanção terrível que cairia da boca real.

— Que se passa? — perguntou Luís debruçando-se sobre o chanceler. — Quem recusa? Esta decisão, no entanto, me parecia bem acertada.

Com os grandes olhos claros mirava os assistentes em torno, dos quais mais de um, vendo-o tão alheio, tão desprovido de reação, pensou: "Decididamente, aí temos um pobre soberano".

Foi então que Roberto d'Artois se ergueu, afastando sua cadeira com um grande gesto; encaminhou-se até a frente do rei e as lages tremeram sob as suas botas vermelhas. Tomou respiração, como se aspirasse, de golpe, todo o ar do salão e lançou com sua voz de batalha:

— Sire, meu primo, ides permitir por mais tempo que vos insultem e que vos esbofeteiem no rosto? Nós, vossos parentes e vossos conselheiros, não o suportaremos. Vede o reconhecimento que vos dão por atuar com bondade! Sabeis que, de minha parte, me opus a qualquer convenção amigável com a condessa Mafalda, cujo sangue tenho vergonha de possuir, pois qualquer favor que se lhe faça é recebido como prova de fraqueza e somente a encoraja para maiores torpezas. Acreditais finalmente em mim, Messeigneurs — continuou tomando a assembléia como testemunha, e batendo no peito que esplendia numa cota escarlate — acreditais finalmente em mim, quando digo, quando afirmo, há tantos anos, que fui defraudado, traído, roubado por esse monstro de mulher que não tem respeito nem pelo poder do rei nem pelo poder de Deus! Nada é de espantar da parte de uma mulher que, desobedecendo à vontade do seu moribundo pai, se apropriou de bens que não lhe caberiam e se aproveitou de minha infância para me despojar, a mim, um órfão!

Mafalda, em pé, de braços cruzados, observava o sobrinho com grande ar du desprezo, enquanto que, a dois passos dela, o bispo de Soissons, com seus pesados Evangelhos sob o braço, não sabia que fazer de si próprio.

— Sabeis por que, Sire — continuou Roberto — a condessa Mafalda recusa hoje vossa decisão que aceitou ontem? Porque acrescentastes uma sentença contra o Mestre Thierry d'Hirson, contra essa alma vendida e maldita, contra esse senhor patife que eu queria que descalçassem para ver se ele não tem o pé fendido! Foi ele quem roubou, por ordem da condessa Mafalda e os ocultou com ela, os documentos deixados por meu avô, o conde Roberto II, pelos quais ele me legava o condado, os poderes de justiça e seus bens. O segredo desse roubo ligou-os um ao outro e foi por isso que a condessa Mafalda beneficiou todos os irmãos e parentes de Thierry que só visam extorquir, vergonhosamente, esse infeliz povo outrora tão próspero, e tão miserável agora, e cujo único recurso é a revolta.

Os barões de Artois tinham-se levantado com a fisionomia excitada e percebia-se que estavam a ponto de aclamar Roberto como um grande menestrel após uma passagem heróica.

— Se tiverdes o atrevimento, Sire — prosseguiu d'Artois, passando do furor à ironia — se tiverdes a audácia de lesar o Mestre Thierry, de lhe tirar a menor parcela de seus roubos, de ameaçar a unhazinha do pezinho do menorzinho de seus sobrinhos, ah! Sire, que imprudência! Eis a condessa Mafalda com todas as garras de fora e pronta a cuspir na face de Deus. Pois os votos que ela pronunciou no batismo e a homenagem que ela vos fez, de joelhos em terra, nada valem perto de seu juramento ao Mestre Thierry, que é o seu verdadeiro suserano!

Acabara a sua peroração. Mafalda não se mexeu. A tia e o sobrinho desafiaram-se longamente com o olhar.

— A mentira e a calúnia, Roberto, escorrem como saliva da tua boca — disse calmamente a condessa. — Toma cuidado para nunca morderes a língua, pois poderás morrer disso.

— Calai-vos, Madame! — gritou repentinamente o Turbulento, que não queria ficar atrás de seu primo em matéria de violência. — Calai-vos! Enganastes-me! Proíbo-vos de voltar ao Artois antes de selardes a sentença que acabo de dar e que é uma justa sentença, todos me disseram. E até lá residireis em Paris ou Conflans e em nenhum outro lugar. Chega por hoje, o conselho está suspenso.

Ele foi assaltado por um violento acesso de tosse que o dobrou em dois sobre o trono.

"Que morra!" disse Mafalda entre os dentes.

O conde de Poitiers não pronunciara palavra. Balançava a perna, acariciando pensativamente o queixo.

 

             O TEMPO DO COMETA

 

                             O NOVO SENHOR DE NEAUPHLE

A SEGUNDA quinta-feira depois da Epifania, que era dia de mercado, havia grande azáfama no banco lombardo de Neauphle-le-Château. Limpava-se a casa de cima a baixo, como para uma visita principesca; o pintor da localidade dava nova demão na grossa porta da entrada; bruniam-se os cofres fortes, cujas travessas de ferro brilhavam mais que prata; vasculhava-se por cima das portas para retirada de teias de aranha; caiavam-se as paredes, encerravam-se os balcões; e os caixeiros, cujos livros, balanças e peças de calcular tinham sido removidos, sentiam-se em dificuldade para se manterem calmos a fim de atender a freguesia.

Uma moça de aproximadamente dezessete anos, alta, de belos traços, com as faces coradas pelo frio, transpôs os umbrais e estacou, perplexa, com aquela confusão. Pelo agasalho de camelão bege que a envolvia, pelo broche de prata que lhe prendia a gola, pelo seu aspecto todo, reconhecia-se logo uma jovem nobre. Os aldeões se descobriam ao vê-la.

— Ah! damoiselle * Maria! — exclamou Ricardo, primeiro caixeiro. — Sede bem-vinda! Entrai e vinde aquecer-vos. Vossa cesta está pronta, como em todas as semanas mas, nesta barafunda, mandei-a guardar ao lado.

 

* Damoiselle é o tratamento dispensado às senhoras-donzelas da nobreza.

 

Depois, dirigindo-se a um robusto camponês que pedia lhe trocassem um luís de ouro por algumas moedas de prata:

— Já vão atender-vos, mestre Guillemard. E virando-se para o segundo caixeiro gritou:

— Piton! atende mestre Guillemard.

Conduziu a jovem para um cômodo vizinho que servia de sala comum aos empregados do banco e onde ardia um grande fogo. Tirou de um armário uma cesta de vime coberta por um pano.

— Nozes, azeite, toucinho fresco, especiarias, farinha de trigo, ervilha seca e três grandes salsichas — disse ele a Maria. — Enquanto tivermos que comer, também o tereis. São estas as ordens de Messire Guccio. E ponho tudo na conta dele, como sempre. . . O inverno começa a fazer-se comprido e ficarei surpreso se não acabar pela fome, como no ano passado. Mas neste ano estaremos mais bem providos.

Maria segurou a cesta.

— Nenhuma carta? — perguntou.

0 primeiro caixeiro — cujo sangue era metade italiano e metade francês — abaixou a cabeça com tristeza fingida.

— Não! bela damoiselle, nenhuma carta desta vez!

Sorriu do desapontamento que se estampou no rosto de Maria e acrescentou:

— Não, não tenho carta, mas uma boa nova!

— Ele sarou? — perguntou a jovem.

— E para quem julgais que fazemos todos estes aprestos, em pleno janeiro, quando não costumamos pintar a casa antes da chegada de abril?

— Ricardo! então é verdade? Vosso patrão vai chegar?

— Eh! sim, Santo Dio! Vai chegar; já está em Paris e avisou-nos de que chegará amanhã. Creio que o desejo de estar aqui é forte, pois não parece que ele tenha parado no caminho.

— Como sou feliz! Como sou feliz por revê-lo!

Depois, contendo-se, como se explosão de alegria fosse falta de pudor, Maria ajuntou:

— Toda minha família vai ficar feliz por revê-lo.

— Sim, mas eu hoje estou com dor de ouvido — respondeu Ricardo — e além disso é dia de mercado. Tenho necessidade desta sobrecarga de serviço?... Dona Maria, desejava vossa opinião a respeito do apartamento que preparamos para ele; dizei-me se o achais do vosso gosto.

Conduziu-a ao andar superior e abriu a porta de um quarto de boas dimensões, mas de forro baixo, cujas traves acabavam de ser enceradas. Estava provido de alguns móveis de carvalho bastante grosseiros, de um leito pequeno mas coberto com belo brocado da Itália, de alguns objetos de estanho e de um castiçal. Maria fez a volta do quarto com os olhos.

— Parece que está bem — disse ela. — Mas penso, espero que vosso patrão logo terá seus aposentos na mansão.

Ricardo deu, de novo, um meio-sorriso.

— Também acho — respondeu. — Toda a gente, podeis crer, está intrigada com a chegada de Messire Guccio e com a nova de que ele vai ficar aqui para sempre. Desde ontem as pessoas não param de vir ao banco, sob qualquer pretexto, e nos interrompem por um nada, como se ninguém mais, no burgo, pudesse trocar doze dinheiros por um sol. Tudo isso para se embasbacarem com os trabalhos que se fazem aqui e fazer repetir as i azoes deles. É preciso dizer que Messire Guccio ficou mui querido nestas paragens depois que fez enxotar o preboste Portefruit, do qual todos tinham queixa. Vão fazer-lhe uma grande recepção e já o estou vendo chegar a ser o verdadeiro senhor de Neauphle... depois de vossos irmãos, é claro — ajuntou ele, reconduzindo a jovem, que saiu pela porta do jardim.

Nunca o trajeto que separava a vila de Neauphle da mansão de Cressay pareceu tão curto a Maria. "Ele vai chegar... ele vai chegar... ele vai chegar..." repetia ela para si mesma como um estribilho, saltando de um carreiro para outro. "Ele vai chegar, ele me ama e logo estaremos casados, ele vai ser o verdadeiro senhor de Neauphle". A cesta de víveres estava leve em seus braços.

Entrando no pátio de Cressay, encontrou o irmão Pedro.

— Ele vai chegar! — gritou-lhe, pendurando-se-lhe ao pescoço.

— Quem vai chegar? — perguntou o rapagão estupefato.

Era a primeira vez, há meses, que ele via a irmã dar mostras de verdadeira alegria.

— Guccio vai chegar!

— Ah! que boa novidade! — exclamou Pedro de Cressay. — É um gentil companheiro e terei prazer em revê-lo.

— Ele vem morar em Neauphle, cuja agência o tio lhe vai dar. E sobretudo...

Parou, porém, incapaz de guardar segredo por mais tempo, puxou o rosto mal barbeado do irmão e sussurrou-lhe ao ouvido :

— Ele vai pedir a minha mão.

— Que?! — fez o grande Pedro — e de onde te vem esta idéia?

— Não é uma idéia, eu sei... eu sei... eu sei.

Atraído pelo barulho, João de Cressay, o mais velho, saiu da estrebaria, onde ia tratar do cavalo. Trazia um punhado de palha na mão.

— João, parece que nos vai chegar um cunhado de Paris — disse o mais novo.

— Um cunhado? cunhado de quem?

— Ora! nossa irmã achou um marido!

— Pois bem! seria uma boa coisa — respondeu João. Entrou no jogo do bom humor, pensando que aquilo era uma brincadeira de garota.

— E como se chama — volveu ele — esse poderoso barão que ambiciona unir-se às nossas torres em ruína e à nossa bela fortuna de dívidas? Espero, ao menos, minha irmã, que ele seja rico, pois temos grande necessidade disso.

— Sim, senhor! e ele é! — respondia Maria de Cressay. — É Guccio Baglioni.

Pelo modo com que a olhou o irmão mais velho, ela teve a certeza imediata de ir ao encontro de um drama. Sentiu-se gelada, de repente, e seus ouvidos puseram-se a zumbir.

João de Cressay fingiu, ainda, alguns segundos, tomar o caso como brincadeira, mas o tom de sua voz tinha mudado. Queria saber que motivo tinha a irmã de falar daquele jeito. Sentia por Guccio uma queda especial? Tinha tido com ele conversas que ultrapassavam os limites da honestidade? Havia--lhe escrito à revelia da família?

A cada pergunta Maria respondia "não", mas sua perturbação crescia. O próprio Pedro sentia-se contrafeito. "Tornei a fazer uma besteira, pensava ele, melhor teria feito se me calasse".

Todos os três entraram no salão, onde a mãe, a dama Eliabel, fiava lã, próximo à lareira. A castelã, nos últimos meses, tinha recuperado sua gordura natural graças às vitualhas que todas as semanas, após a penúria do inverno precedente, Guccio mandava entregar a Maria.

— Sobe para o teu quarto — disse João de Cressay à irmã.

Como mais velho, tinha autoridade de chefe de família e Maria obedeceu sem discutir.

Quando se ouviu a porta fechar, no andar de cima, João pôs a mãe a par do que acabava de saber.

— Tens certeza, meu rapaz? Será possível? — exclamou ela. — Quem poderia imaginar que uma moça da nossa estirpe, cujos pais são cavaleiros há três séculos, pudesse casar-se com um lombardo? Estou certa de que esse pequeno Guccio que, aliás, é um rapaz agradável, e que pertence muito honestamente ao seu meio. jamais sonhou com isso.

— Não sei se ele sonhou com isso, minha mãe — respondeu João — mas sei que Maria sonhou.

As faces de dama Eliabel tornaram-se rubras.

— Essa pequena está com a cabeça transtornada! — exclamou ela. — Se o rapaz, meus filhos, veio visitar-nos por várias vezes e nos demonstrou grande amizade é porque tem, estou convencida disso, mais interesse pela tua mãe do que pela tua irmã. Oh! sem desonestidade alguma — apressou-se em acrescentar — e nenhuma palavra que pudesse ofender-me passou pelos seus lábios. Mas são coisas que se adivinham quando somos mulher e compreendi muito bem que ele me admirava. . .

Assim falando, empertigou-se na cadeira e intumesceu o busto.

— Sem querer pôr em dúvida vosso julgamento, minha mãe — respondeu João de Cressay — não estou assim tão certo disso. Lembrai-vos de que na última estada de Guccio, deixamo-lo a sós, muitas vezes, com a nossa irmã, enquanto ela parecia tão doente; e foi a partir desse tempo que ela recuperou a saúde.

— Foi talvez porque desde então ela recomeçou a matar a fome, e nós também — observou Pedro.

— Sim, mas lembra-te também de que, depois disso, foi sempre por Maria que tivemos notícias de Guccio. Sua viagem à Itália, seu acidente com a perna... É sempre a Maria que Ricardo dá notícias e nunca a algum de nós. E essa grande insistência que ela tem de ir pessoalmente buscar os víveres no banco! Acho que existe nisso tudo alguma maquinação sobre a qual não abrimos bastante os olhos.

Dama Eliabel deixou a roca, tirou com a mão os fios de lã da saia, e levantando-se, declarou num tom ultrajado:

— Na verdade seria grande vileza da parte desse adolescente ter feito uso de sua riqueza mal ganha para subornar minha filha e pretender comprar nossa aliança a troco de alguns presentes de alimento ou roupas, quando a honra de ser nosso amigo deveria ser mais que suficiente para pagar-lhe.

Pedro de Cressay era o único da família que tinha o senso da realidade. Ele era simples, leal e sem preconceitos.. Tanta má fé de par com tanta vã pretensão, começou a impacientá-lo. "Eles têm ciúmes de Maria, cada qual a seu modo", pensava ele observando a mãe e o irmão que se incitavam mutuamente à indignação.

— Parece que esqueceis, tanto um como outro, que o tio de Guccio continua sendo nosso credor por trezentas libras, as quais nos faz o favor de não cobrar, nem mesmo os juros, que não param de crescer. E se não fomos agarrados pelo preboste Portefruit e expulsos de nossa casa é bem a Guccio que o devemos. Lembrai-vos que ele não deixou que morrêssemos de fome com essas vitualhas que nunca pagamos. Antes de afastá-lo, pensai um pouco se podeis desobrigar-vos. Guccio é rico e o será mais ainda com o tempo. É muito protegido e se o rei de França o achou com bastante aparência para associá-lo à embaixada que foi a Nápoles procurar a nova rainha, não vejo por que nos façamos de difíceis.

Jean deu de ombros.

— Foi ainda Maria quem nos contou isso — disse ele. — Ele foi como comerciante, para fazer seus negócios.

— E mesmo que o rei o tenha enviado a Nápoles, isso não quer dizer que ele lhe daria sua filha! — gritou a dama Eliabel.

— Minha pobre mãe — replicou Pedro. — Maria não é filha do rei de França, que eu saiba! Ela é muito linda, certamente . ..

— Não venderei minha irmã por dinheiro! — gritou João de Cressay.

Ele tinha uma arcada superciliar mais saliente que a outra e a cólera tornava essa assimetria mais visível.

— Não a venderás, não — replicou Pedro — mas escolherás para ela um barbaça, sem te ofenderes que seja rico, sob a condição que ele possa usar esporas nos calcanhares gotosos. Se ela ama Guccio, tu não a vendes!... A nobreza? Essa é boa! Dois jovens são bastantes para mantê-la. De minha parte, declaro-vos, não veria esse casamento com maus olhos.

— E não verias tampouco com maus olhos tua irmã instalada em Neauphle, no nosso feudo, atrás de um balcão de banco, pesando o bilhão e traficando com especiarias? Tu dispa-ratas, Pedro, e pergunto de onde pode vir tão pouco respeito pelo que somos — disse dama Eliabel. — Em todo caso, enquanto eu viver, não consentirei jamais num casamento desigual e teu irmão também, não é, João?

— Perfeitamente, minha mãe, já discutimos demais e peço-te, Pedro, não tocares mais neste assunto.

— Muito bem, muito bem, és o mais velho, faze como entenderes — respondeu Pedro.

— Um lombardo; um lombardo! — volveu dama Eliabel. — O jovem Guccio vai chegar? Deixai-o comigo, meus filhos. A dívida e as obrigações que temos para com ele impedem-nos de fechar-lhe a porta. Seja, vamos recebê-lo bem; vamos recebê-lo muito bem; mas se ele é velhaco eu o serei também e encarrego-me de lhe tirar a vontade de voltar novamente, se for pelo motivo que tememos!

 

                         A RECEPÇÃO DA DAMA ELIABEL

NO DIA seguinte, desde a madrugada, podia-se pensar que a febre que reinava na agência de Neauphle tinha atacado a mansão de Cressay. A dama Eliabel atropelava a criada, e seis camponeses da vizinhança tinham sido intimados para aquele dia. Lavavam-se os ladrilhos com abundância de água, erguiam-se mesas como para casamento, amontoavam-se, de um lado e de outro da lareira, árvores cortadas; a estrebaria fora forrada com palha fresca, o pátio, varrido com vassouras de bétula e na cozinha, um porquinho montes e um carneiro inteiro já giravam no espeto; os pastelões assavam no forno; e espalhava-se na aldeia o rumor de que os Cressay esperavam um enviado do rei.

A atmosfera estava fresca, com um nada desse sol de janeiro que alegrava as ramadas nuas e colocava, nas poças de água dos caminhos, algumas gotas de luz.

Guccio chegou pelo fim da manhã, coberto com uma capa forrada de boas peles, usando um grande capuz de pano verde, cujo penacho caía até aos ombros, montado num belo cavalo baio, bem nutrido e finamente arreado. Seguia-o um criado, também a cavalo e que dava a perceber, a uma légua, seu rico amo.

Ele encontrou dama Eliabel e seus dois filhos em traje de gala e alegrou-se com a acolhida que lhe dispensaram. Na grandeza da hospedagem, na pressa dos que serviam, nos abraços da dama Eliabel, na grande alegria que lhe testemunhavam, ele não podia deixar de ver felizes indícios. Certamente Maria tinha-lhes comunicado seu projeto, o qual devia ter sido recebido com entusiasmo. Sabiam por que ele ali estava e já o tratavam como noivo. Somente Pedro de Cressay parecia um pouco desajeitado.

— Meus bons amigos — exclamou Guccio — que alegria em vos rever! Mas não era preciso fazer tantas despesas. Tratai-me como se eu fosse de vossa família.

A palavra desagradou a João, que trocou um olhar de lado com a mãe.

Guccio mudara um pouco de aspecto. Do acidente lhe ficara uma ligeira rigidez na perna direita, o que lhe dava certa elegância altiva ao andar! Ao mesmo tempo tinha tido, durante a estada no hospital, sua última fase de crescimento; crescera bem uma polegada, seus traços tinham-se acentuado e o rosto adquirira essa expressão mais séria, amadurecida, que surge após as longas provas de sofrimentos físicos. Saíra da adolescência e tomara aparência de homem.

Sem ter perdido nada de sua segurança de outrora, bem ao contrário, ele fazia menos esforço para impor-se a outrem. Seu francês tinha melhorado; falava com menos sotaque e um pouco mais lento, mas sempre com bastante gesticulação.

Guccio olhava as paredes ao redor como se já fosse o seu dono. Informava-se dos projetos de Pedro e de João. Não tinham eles a intenção de realizar algumas reparações na mansão? Certas transformações para pô-la ao gosto do dia?

— Vi, na Itália — dizia ele — alguns tetos pintados que fariam aqui um grande efeito. E a sala da estufa, não pendam reconstruí-la? Fazem-nas, hoje, pequenas, com bastante comodidade e, na minha opinião, isso é indispensável aos cuidados do corpo para as pessoas de qualidade.

Cumpria compreender, em subentendido: "Estou pronto a pagar tudo isso, pois é assim que gosto de viver". Tinha, também, idéias a respeito do mobiliário, da tapeçaria suspensa das paredes para alegrá-las. Ele começava a desgostar seriamente de João de Cressay, e o próprio Pedro achava que ele estava sendo precipitado, falando, logo na chegada, em refazer já toda a casa.

Guccio ali estava há meia hora e Maria não aparecia. "Talvez, pensava ele, deva declarar-me primeiro..."

— Teria prazer em ver damoiselle Maria; far-nos-á companhia à mesa?

— Certamente, certamente; está se aprontando, descerá daqui a pouco — respondeu a dama Eliabel. — Ides encontrada bem diferente; só pensa na sua nova felicidade.

Guccio ergueu-se, com o coração batendo e a tez escureceu-se-lhe um pouco. 0 que fazia ruborizar os outros, tornava-o cor de oliva.

— Realmente? — exclamou Guccio. — Oh! dama Eliabel, que alegria me causais!

— Sim, e nós também, estamos bem alegres de nos podermos gabar desta boa nova com um amigo como vós. Nossa querida Maria está noiva . . .

Deixou passar um instante, para saborear o prazer de ver Guccio mudar de feições.

— . . .ela está noiva de um de nossos parentes, o Sire de Saint-Venant, um gentil-homem do Artois, de nobreza muito antiga, que se apaixonou por ela e pelo qual ela também se apaixonou.

Sentindo os olhares que se fixavam nele, Guccio fez um esforço para poder gritar:

— E quando serão realizadas as núpcias?

— Nos primeiros dias do verão — respondeu a dama Eliabel.

— Mas é, justamente, como se estivesse feito — precisou João de Cressay — pois as palavras já foram trocadas.

Guccio ficou um instante como nó nevoeiro, incapacitado de falar, mexendo maquinalmente no relicário de ouro que lhe dera a rainha Clemência e que brilhava sobre o seu gibão de duas cores, na última moda italiana. Ouviu João de Cressay abrir uma porta e chamar a irmã. Depois, reconheceu os passos de Maria; o orgulho arrebatou-o e ele se obrigou a fazer boa figura.

Maria entrou, com o porte ereto, distante, mas com os olhos vermelhos. Desejou, com a ponta dos lábios, boas vindas a Guccio, que pôs toda a naturalidade que pôde para felicitá-la, e ela outro tanto da dignidade que lhe foi possível para receber seus cumprimentos. Não estava longe de explodir em soluços, mas somente ela o sabia, e conseguia dominar-se tão bem que Guccio tomou por verdadeira frieza o que em Maria era apenas medo de se trair e de sofrer os castigos com que a tinham ameaçado.

A refeição, bastante copiosa, foi-lhe angustiante. Dama Eliabel, gozando com a própria perfídia, exibia uma falsa alegria, obrigando o hóspede a repetir os pratos, e mandando, sem cessar, que os criados pusessem novo quarto de carneiro ou de porco montes sobre sua côdea de pão.

— Perdestes o apetite em vossas longas viagens? — exclamou — Vamos, vamos, Messire Guccio, precisais alimentar-se bem na vossa idade, Não gostais disto? Servi-vos mais desta torta.

Guccio sentia vontade de lhe atirar a escudela ao rosto.

Não pôde encontrar, em nenhuma vez, o olhar de Maria; "ela não parece tão orgulhosa por haver renegado a fé que me jurara", pensava Guccio. "Não escapei da morte para receber afronta semelhante. Ah! como tinha razão para temer, quando me desesperava no Hospital Geral. E todas essas cartas que lhe mandei! Mas por que responder-me, por Ricardo, que continuava pensando do mesmo modo e que languescia de esperar-me... quando se comprometia alhures? Isto é traição e jamais a perdoarei! Ah! que péssimo jantar este! Não me recordo de ter comido outro pior!"

A procura de uma vingança é sempre um derivativo da tristeza. Guccio tentava achar um meio de responder à humilhação que lhe era infligida. "Poderia, é claro, exigir, imediatamente, o reembolso da dívida e isso talvez os pusesse em tal dificuldade que precisassem renunciar ao casamento." Mas esse procedimento pareceu-lhe de uma inadmissível baixeza. Com os burgueses talvez ele fizesse assim; com os fidalgos que queriam esmagá-lo com sua nobreza, ele procurava uma resposta * de fidalgo. Desejava provar-lhes que era maior Senhor que todos os Cressay e todos os Saint-Venant da terra.

Aquela inquietação ocupou-o durante todo o tempo do manjar-branco e do queijo. Como tinham chegado ao fim da refeição, retirou, de repente, o seu relicário e o apresentou à jovem, dizendo:

— Aqui tendes, bela Maria, o presente que vos faço pelas vossas núpcias. Foi a rainha Clemência... e Guccio pronunciou bem alto esse nome... foi a rainha de França que pessoalmente mo colocou ao pescoço, pelos serviços que lhe prestei e pela amizade com que me honra. Contém uma relíquia de Monseigneur São João Batista. Nunca pensei separar-me dela; mas parece que nos podemos desfazer sem sofrimento daquilo que consideramos como o bem mais querido... e serei feliz se o usardes de hoje em diante para que ele vos proteja, assim como aos vossos filhos que, faço votos, tereis com esse gentil-homem do Artois.

Somente encontrara aquela maneira de lhe mostrar seu desprezo. Era pagar caro a oportunidade de uma frase. Decididamente, os grandes impulsos de alma de Guccio para com os Cressay acabavam sempre por um gesto custoso. E vindo para tomar, partia depois de, infalivelmente, ter dado qualquer coisa.

Se Maria, naquele momento, não se desmanchou em lágrimas, foi porque nela o medo da mãe e dos irmãos era ainda mais forte que a desgraça que a arrazava; seus dedos, porém, tremiam quando recebeu o relicário das mãos de Guccio. Levou-o aos lábios; podia fazê-lo, pois continha uma relíquia. Guccio, porém, não viu o gesto, pois já se tinha virado.

Pretextando seu recente ferimento, o cansaço da viagem e a obrigação que tinha de regressar a Paris, no dia seguinte, despediu-se logo, chamou o criado, vestiu a capa forrada, saltou para a sela e abandonou o pátio de Cressay com a certeza de que ali não poria mais os pés.

— Agora, de qualquer forma, precisamos de escrever ao primo de Saint-Venant — disse dama Eliabel para seu filho João — assim que Guccio transpôs o portão.

Voltando à agência de Neauphle, Guccio não abriu a boca durante a noite. Mandou trazer uns livros e fingiu absorver-se no exame das contas. O caixeiro Ricardo, que o vira partir tão alegre pela manhã, compreendeu perfeitamente que as coisas não tinham dado certo. Guccio avisou-o que partiria na manhã seguinte; parecia pouco inclinado a confidencias e Ricardo julgou prudente abster-se de qualquer pergunta.

Guccio passou uma noite insone no quarto que lhe prepararam com tanto cuidado para uma longa estada. Agora, deplorava o seu relicário e julgava seu gesto simplesmente absurdo. "Ela não merecia tanto; não passo de um bobo. . . E meu tio Spinello, como irá receber minha decisão? pensava ele, revirando-se entre os lençóis rugosos. Vai dizer que não sei o que quero, após tanto pedir que me desse esta agência. . . Decididamente, não cairei noutra. Podia voltar na comitiva da rainha e ter uma situação em sua casa; por ter pulado muito depressa, o cais me faltou e me vi no hospital durante seis meses. Em lugar de ir para Paris e de aí trabalhar pela minha fortuna, precipito-me nesta vila perdida para desposar uma moça do campo que me subiu à cabeça há dois anos, como se não houvessem outras mulheres no mundo!... e isto para que ela viesse a preterir-me por qualquer papalvo da sua raça. Bel lavoro! Bel lavoro! Isto servir-me-á de lição; vamos, a mocidade terminou." De manhãzinha tinha quase conseguido persuadir--se de que fora um grande serviço o que a sorte acabava de lhe prestar. Chamou o criado, mandou afivelar a bagagem e arrear o cavalo.

Engoliu uma tigela de sopa, antes de partir, quando a criada que ele vira, na véspera, em Cressay, apareceu na agência, pedindo para falar-lhe a sós. Estava encarregada de uma mensagem: Maria, que conseguira fugir por uma hora, esperava Guccio a meio do caminho, entre Neauphle e Cressay, à margem do Mauldre, "no lugar que conheceis", acrescentou ela.

Como Guccio tinha visto Maria apenas uma vez fora da mansão, compreendeu que se tratava do cercado de macieiras, à margem do rio, onde tinham trocado seu primeiro beijo! Respondeu que devia haver equívoco, que, de sua parte, nada tinha que dizer a Madame Maria e que era muita pena que ela tivesse de sair de casa para encontrá-lo.

— Dá pena ver Madame Maria — disse a criada. — Juro--vos, Messire, que deveríeis ir encontrá-la; se vos ofenderam, isso não partiu dela.

Sem dignar-se responder, ele saltou para a sela e alcançou a estrada. "O cais de Marselha! O cais de Marselha! repetia ele. Quantas tolices; quem sabe o que ainda me esperava se tornasse a vê-la. Que ela engula as lágrimas sozinha se lhe der vontade de chorar!"

Percorreu, assim, duzentas toesas em direção a Paris; repentinamente, diante do criado estupefato, fez o cavalo dar uma volta e pô-lo a galope através do campo.

Em alguns minutos estava às margens do Mauldre; percebeu o cercado e, sob as macieiras, Maria, que o esperava.

 

                           AS NÚPCIAS DA MEIA-NOITE

QUANDO Guccio apeou, pouco depois das vésperas, na rua dos Lombardos, de fronte do banco Tolomei, o pêlo do cavalo estava coberto de espuma.

Atirou as rédeas para o criado, atravessou a grande galeria onde estavam instalados os balcões e subiu, tão depressa quando lhe permitia a perna dura, a escada que conduzia ao escritório do tio.

Abriu a porta; a luz estava tapada pelas costas de Roberto d'Artois, que se voltou.

— Ah! mas é a providência que vos envia, meu amigo Guccio — exclamou ele, abrindo os braços. — Pedia justamente a vosso tio um mensageiro diligente e seguro para ir imediatamente a Arras, encontrar João de Fiennes. Mas é preciso que sejais prudente, jovem — ajuntou ele, como se a aquiescência de Guccio não pudesse ser posta em dúvida — pois os meus bons amigos d'Hirson não poupam castigos e açulam os cães contra todos os que vão de minha parte.

— Monseigneur — respondeu Guccio, ainda todo ofegante por causa da corrida — só me faltou vomitar a alma no mar, no outro ano, para servir-vos na Inglaterra; acabo de passar seis meses de cama por ter ido a Nápoles a serviço do rei e todas essas correrias em nada contribuíram para a minha felicidade. Permiti que, desta vez, não vos obedeça, porque tenho meus próprios compromissos que não podem ser adiados.

— Pagar-vos-ei tão bem que não vos arrependerei — disse Roberto.

— Com o dinheiro, sem dúvida, que precisarei ainda emprestar-vos Monseigneur — disse suavemente o tio Tolomei que se mantinha na sombra, com as mãos pousadas na barriga.

— Nem por mil libras, Monseigneur, eu iria! — exclamou Guccio. — E especialmente ao Artois.

Roberto virou-se para Tolomei:

— Dize-me, amigo banqueiro, ouvistes alguma vez coisa parecida? Para que um lombardo recuse mil libras, que não lhe foram oferecidas, aliás, é preciso ter motivos muito sérios. Vosso sobrinho não estaria sendo pago pelo mestre Thierry... que Deus o estrangule e com suas próprias tripas, se for possível!

Tolomei pôs-se a rir.

— Nada temais, Monseigneur; suspeito que meu sobrinho esteja enamorado e haja conquistado o coração de uma dama de alta estirpe.

— Ah! se é por questão de mulheres, nada posso e perdoo-lhe a recusa. Mas mesmo assim continuo necessitando de alguém para levar o que vos disse.

— Sei o que vos é necessário, não vos preocupeis; um excelente mensageiro que vos servirá tanto mais discretamente porque não vos conhece. E depois. . . um hábito de monge é pouco notado nas estradas.

— Um monge? — perguntou Roberto, fazendo uma careta.

— . . .italiano.

— Ah! já é melhor. . . porque, vede, Tolomei, quero um grande golpe. Uma vez que o rei proibiu minha tia Mafalda de se afastar de Paris, vou aproveitar para fazer com que os aliados tomem o seu castelo de Hesdin... ou melhor, meu castelo de Hesdin! Comprei... sim, com o vosso ouro, ides dizer!... comprei a consciência de dois meirinhos dessa boa condessa, dois canalhas como todos quantos ela emprega, vendáveis a quem mais der, e que deixarão meus amigos penetrar na praça forte. E se não posso gozar do que me pertence, pelo menos prometo-vos uma grande pilhagem, da qual vos encarregarei de vender o saque.

— Eh! Monseigneur, meteis-me num belo negócio!

— Ora, enforcado por enforcado, então que seja por alguma coisa. Pois que sendo banqueiro, sois ladrão e a receptação não vos amedronta; nunca desvio alguém da sua condição.

Ele estava de melhor humor após a arbitragem.

— Adeus, amigo, eu vos estimo muito — volveu ele. — Ah! esquecia-me... o nome dos meus dois meirinhos. Dai-me uma folha de papel.

E enquanto redigia a mensagem, acrescentou:

— Ao Sire de Fiennes e a nenhum outro. Souastre e Caumont estão sendo muito vigiados.

Levantou-se, fechou a fivela de ouro da capa e depois, colocando as mãos nos ombros de Guccio, que se sentiu encolher pela metade, lançou-lhe:

— Tendes razão, meu engraçadinho, diverti-vos com as damas de alta linhagem, estais na idade. Quando tiverdes adquirido mais alguns anos, sabereis que elas são tão safadas como as outras, e que os prazeres de que elas se fazem merecedoras, têm-se por dez sois no alcouce.

Saiu e ouviu-se ainda, durante muitos segundos, seu riso sonoro que fazia tremer a escada.

— Então, meu sobrinho, quando é o casamento? — perguntou Messer Tolomei. — Não te esperava tão cedo.

— Meu tio, meu tio, é preciso que me ajudeis! — gritou Guccio. — Sabeis que aquelas pessoas são uns monstros, que proibiram Maria de me rever, que seu primo do Norte é disforme de feiúra e que ela vai certamente morrer!

— Que pessoas? que primo? — perguntou Tolomei. — Tenho a impressão, meu rapaz, que os teus negócios não andaram tão bem como pensavas. Conta-me, pois, isso, com um pouco de ordem.

Guccio contou, então, ao tio a história da sua visita a Neauphle. Com o senso latino da tragédia, ele não se esqueceu de enegrecer o quadro. A jovem estava seqüestrada e arriscara a vida para correr, através dos campos, ao encontro de Guccio, suplicando-lhe que a salvasse. A família Cressay, tendo descoberto os projetos de Maria desejava casá-la à força com um parente longínquo, personagem carregado de todas as desgraças físicas e morais.

— Um velho de quarenta e cinco anos! — exclamou Guccio.

— Obrigado — disse Tolomei.

— Maria, porém, me ama, somente a mim, ela me disse — repetiu-me. — Não quer outro para marido e sei perfeitamente que ela morrerá se a obrigarem a desposar outro. Meu tio, precisais ajudar-me.

— Mas como queres que te ajude, meu amigo?

— É preciso ajudar-me a raptar Maria. Leva-la-ei para a Itália, morarei lá...

Spinello Tolomei, com um olho quase fechado e o outro bem aberto, observava o sobrinho com um ar meio inquieto, meio divertido.

— Já te havia dito, meu rapaz, que isso não era tão fácil, e que erravas em te apaixonares por uma fidalga. Essa gente não possui nem a camisa; eles comem graças a nós. . . mas sim! estou a par... eles nos devem até a cama em que dormem, mas nos cospem na cara quando nossos rapazes se querem deitar nela. Esquece tudo isso. Quando nos fazem um insulto, é geralmente porque apresentamos a cabeça para recebê-lo. Escolhe, pois, uma bela jovem de nossas famílias, bem provida do ouro de nossos bancos, que te dará belos filhos e cujo carro salpicará de lama os pés sujos da tua moçoila de aldeia.

Guccio teve uma súbita inspiração.

— Saint-Venant, não faz parte dos aliados do Artois? — perguntou ele. — E se eu fosse levar a mensagem de Monseigneur Roberto e depois, ao encontrar esse Saint-Venant, o provocasse e o matasse?

Já tinha a mão sobre o punhal.

— Boa coisa — disse Tolomei. — E que não fará barulho. E depois os Cressay escolherão um outro noivo na Bretanha ou no Poitou e será preciso que vás matá-lo também! Ah!. . . como procuras trabalho!

—Desposarei Maria ou ninguém, meu tio, e não deixarei nenhum homem casar-se com ela.

Tolomei levantou as mãos acima da cabeça.

— Eis aí a juventude! Dentro de quinze anos, de qualquer maneira, tua mulher estará feia, figlio mio; e perguntarás, ao olhá-la, se aquele rosto enrugado, aquela barriga enorme, aquelas mamas pendentes valeram o que sofreste por ela.

— Não é verdade! não é verdade. Além disso, não é daqui a quinze anos que eu penso, mas no dia em que vivo e sei que nada no mundo poderá substituir Maria. Ela me ama.

— Ela te ama? Pois bem, meu rapaz, se ela te ama tanto. .. — sobretudo não vás repetir as minhas palavras ao nosso bom amigo, o arcebispo de Sens... — se ela te ama tanto, acredita-me, o casamento não é uma condição indispensável para serem felizes a dois. Alegra-te por lhe terem escolhido um marido escrofuloso, disforme e que perde os dentes, de acordo com o retrato que dele me fizeste sem nunca o teres visto. . . Nada melhor para arranjar o teu caso.

— Schifoso! Queste sono parole schifose! Vengono da un uomo che non conosce Maria!* Não conheceis a sua pureza, a força de sua religião. Ela só será minha pelo casamento e somente pertencerá àquele com o qual se unir diante de Deus... Se é assim, rapta-la-ei sem tua ajuda e andaremos pelas estradas como pobres miseráveis e teu sobrinho acabará por morrer de fome e de frio nas montanhas.

 

* Ignóbil! Isso são palavras ignóbeis! Vêm de um homem que não conhece Maria!

 

Agora as palavras italianas e francesas, o "tu" e o "vós" se misturavam no seu discurso; e ele falava com as mãos mais do que de costume.

— E antes de mais nada — continuou ele — não tenho necessidade de tua ajuda, vou procurar a rainha.

— Tolomei bateu ligeiramente na mesa, com a palma da mão.

— Agora, vais calar-te — disse ele sem quase levantar a voz, mas o olho, comumente fechado, tinha-se aberto bruscamente. — Não irás procurar ninguém e especialmente a rainha, pois nossos negócios não vão tão bem, depois que ela chegou, e não precisamos de um escândalo para chamar a atenção sobre nós. A rainha é toda bondade, toda caridade, toda religião, sim, eu sei! Dá esmolas a quem apareça no seu caminho, mas, no entanto, depois que ela dominou o espírito do rei, nós, os pobres lombardos, somos sugados até ao sangue. É com os nossos bens que o tesouro dá esmolas! Acusam-nos de sermos usurários e qualquer ocasião serve para ,nos acusar de tolices que os outros cometem. A começar por Monseigneur de Valois, que muito nos engana. A rainha Clemência dar-te-á boas esperanças e abundantes bênçãos; mas muita gente à sua volta ficaria feliz em mandar prender-te e aplicar-te o castigo reservado aos sedutores de mocinhas nobres, nem que seja apenas para voltar a ofensa contra mim. Esqueces que sou o Capitão Geral dos lombardos de Paris? 0 vento virou enquanto não estavas aqui. Os melhores amigos de Marigny, que não me vêem com bons olhos, foram libertados e formam um partido em torno do conde de Poitiers. . .

Guccio, porém, nada ouvia; não se incomodava, no momento, com as taxas, ordenações, jurisconsultos e flutuações do poder. Obstinava-se no seu projeto; raptaria Maria sem o auxílio de ninguém.

— Segnato da Dio! — disse Tolomei tocando na fronte como se tratasse com um desmiolado. — Mas, pobre desgraçado, não andarás dez léguas sem seres detido. Tua donzela será agarrada novamente e mandada para o convento; quanto a ti... Queres esposá-la, pois bem! Casarás com ela, pois parece que este é o único meio de curar-te... Vou ajudar-te.

E o olho esquerdo fechou-se-lhe novamente:

— Loucura por loucura, pois que isto é de louco, será sempre menos grave do que deixar-te agir sozinho — ajuntou ele. — Mas por que devo ser responsável pelas idiotices da família!

Agitou uma campainha e um empregado apareceu.

— Vai ao convento dos frades agostinhos — disse-lhe Tolomei — buscar-me Frei Vincento que chegou ontem de manhã de Perugia. . .

Dois dias mais tarde, Guccio retomava o caminho de Neauphle em companhia de um monge italiano que ia levar para Artois a mensagem de Monseigneur Roberto. Como a viagem fosse bem paga, Frei Vincento não hesitara em fazer um desvio e prestar a Tolomei dois serviços em lugar de um.

O banqueiro soubera, aliás, apresentar-lhe a coisa sob um aspecto bastante aceitável. Guccio tinha seduzido uma jovem e cometido com ela pecados carnais e Tolomei não queria que essas duas crianças vivessem mais tempo em pecado. Era preciso, porém, proceder discretamente, para não despertar as suspeitas da família.

Sendo essas boas razões acompanhadas de uma pequena bolsa de ouro, frei Vincento achou-as bastante admissíveis. Além disso, como todos os seus compatriotas, mesmo que fossem religiosos, ele estava sempre pronto a servir a um romance de amor.

Guccio e o monge apresentaram-se, ao cair da noite, na mansão de Cressay. Dama Eliabel e seus filhos estavam prestes a recolher-se.

0 jovem lombardo pediu-lhes hospedagem por aquela noite, pretextando que não tivera tempo de prevenir Ricardo e que a sua casa de Neauphle não eslava pronta para receber dignamente um sacerdote. Como Guccio, no passado, ali dormira várias vezes, devido à insistência dos próprios Cressay, seu pedido nada linha de surpreendente; a família esforçou-se em proporcionar boa acolhida aos viajantes.

— Frei Vincento e eu dormiremos de bom grado no mesmo quarto — disse Guccio.

Frei Vincento tinha uma cara redonda que inspirava confiança tanto quanto seu hábito; além disso, só falava italiano, o que o eximia de responder a perguntas indiscretas.

Pronunciou com bastante piedade a bênção antes de tocar nos alimentos que lhe apresentaram.

Maria não ousava olhar Guccio de frente; mas o rapaz aproveitou-se de uma ocasião em que ela passava perto para lhe murmurar:

— Esta noite, não dorme.

No momento de se recolher, frei Vincento dirigiu a Guccio uma frase incompreensível para os Cressay, onde havia referências a chiave e a capella.

— Frei Vincento me pede — traduziu Guccio para dama Eliabel — se podeis confiar-lhe a chave da capela, pois ele deve partir bem cedo e quer dizer missa antes.

— Mas é claro — respondeu a castelã — um de meus filhos poderá levantar-se à mesma hora para ajudá-lo a dizer o ofício.

Guccio protestou vivamente: que sobretudo ninguém se incomodasse. Frei Vincento acordava realmente muito cedo, de madrugada, e ele mesmo teria a honra de lhe servir de sacristão. Pedro e João abstiveram-se de insistir.

Eliabel entregou ao monge um castiçal, as chaves da capela e do tabernáculo e, depois, todos se separaram.

— Esse Guccio, creio sinceramente que o julgamos mal — disse Pedro à mãe na hora de deixá-la. — Ele é respeitador das coisas da religião.

Por volta da meia-noite, quando toda a mansão parecia mergulhada no sono, Guccio e o frade saíram, pé ante pé, do quarto. O rapaz raspou suavemente a porta de Maria, que logo apareceu. Sem uma palavra, Guccio tomou-lhe a mão, desceram a escada de caracol e saíram para o exterior pelas cozinhas.

— Vede, Maria — murmurou Guccio -— há estrelas... O frade vai nos unir.

Ela não pareceu nem mesmo surpresa. Ele prometera voltar e voltara; desposá-la e ia fazê-lo. Pouco importavam as circunstâncias; estava inteira e totalmente submissa a ele. Um cachorro rosnou mas, tendo reconhecido Maria, calou-se.

A noite estava gelada, mas nem Guccio nem Maria sentiam frio.

Entraram na capela. Frei Vincento foi acender a mecha da lamparina minúscula que ardia sobre o altar. Embora ninguém pudesse ouvi-los, continuavam a falar em voz baixa. Guccio traduziu para Maria a pergunta do sacerdote que desejava saber se a noiva se tinha confessado. Ela respondeu que o fizera na antevéspera e frei Vincento deu-lhe a absolvição pelos pecados que poderia ter cometido posteriormente, com tanto mais confiança dado que, se ela os confessasse, ele seria incapaz de compreender. Para Guccio a formalidade tinha sido cumprida antes de descerem.

Alguns minutos mais tarde, pela troca de dois "sim" abafados, o sobrinho do Capitão Geral dos lombardos e a bela Maria de Cressay estavam unidos diante de Deus, quando não diante dos homens.

— Desejaria oferecer-vos núpcias mais suntuosas — murmurou Guccio.

— Para mim, meu doce amado, não poderiam ser mais belas — respondeu Maria — pois é a vós que elas me ligam.

No momento de sair da capela, o monge deu sinais de viva inquietação.

— Che cosa? — sussurrou-lhe Guccio.

Frei Vincento observou-lhe que a porta estivera fechada durante o casamento.

— E allora?

O monge explicou-lhe que para que um casamento fosse válido era preciso deixar abertas as portas da igreja, a fim de que qualquer pessoa estranha pudesse, teoricamente, ser testemunha de que os votos tinham sido pronunciados, regularmente e sem constrangimento. De outra forma, seria caso de anulação.

— Que diz ele? — perguntou Maria.

— Aconselha-nos a entrar depressa — respondeu Guccio.

Voltaram para casa, tornaram a subir a escada. Chegados diante da porta de Maria, o monge, cujos escrúpulos se tinham acalmado, tomou Guccio pelos ombros e empurrou-o suavemente para o quarto.. .

Maria amava Guccio há dois anos. Há dois anos só pensava e vivia do desejo de pertencer-lhe. Agora que a sua consciência estava em paz e que o medo da maldição tinha sido afastado, nada a obrigava a reter a paixão.

Ela crescera no fundo do campo, isolada, não estragada pelos floreios que os falsos pudores criam. Tinha o prazer do amor antes de o ter conhecido; abandonou-se com franqueza, com deslumbramento.

0 sofrimento das jovens, no instante das verdadeiras núpcias, provém sempre mais do medo que da natureza. Maria desconhecia esse medo. Guccio, embora tivesse apenas dezenove anos, possuía já bastante experiência para evitar a imperícia, mas não tanto para ter esquecido a emoção. Ele tornou Maria, naquela noite, uma mulher feliz e como, no amor, só se recebe na medida do que se dá, ele próprio sentiu-se satisfeito.

Pelas quatro horas, o monge foi acordá-los e Guccio voltou para o seu quarto, do outro lado da casa! Depois frei Vincento desceu, fazendo tanto barulho quanto podia, passou pela capela, tirou a mula da estrebaria e desapareceu na noite.

Aos primeiros resplendores da aurora, dama Eliabel, desconfiada, entreabriu a porta do quarto dos viajantes e lançou uma olhadela dentro. Guccio dormia bom sono, com respiração regular; os cabelos pretos anelavam-se sobre o travesseiro; a fisionomia tinha uma expressão de paz e de puerícia.

"Oh! Que lindo galã!" pensou dama Eliabel, suspirando.

Guccio estava tão profundamente adormecido que ela ousou aproximar-se do leito, na ponta dos pés, e por-lhe nos cabelos um beijo que teve, para ela, todas as seduções do pecado.

 

                                   O COMETA

POR ESSE mesmo tempo de fins de janeiro em que Guccio acabava de desposar, secretamente, Maria de Cressay, a rainha, o rei e parte da corte tinham ido em peregrinação a Amiens.

Após ter patinhado na lama, o cortejo percorrera, de joelhos, a nave da catedral; os peregrinos mantiveram-se em recolhimento, durante muito tempo, numa capela gelada, diante da relíquia do Batista trazida da Terra Santa, um século antes, por um tal Wallon de Sarten, cruzado em 1202, que lá se transformara em descobridor de despojos religiosos e trouxera, na bagagem, três peças inestimáveis: as cabeças de São Cristóvão, de São Jorge e uma parte da de São João.

A relíquia de Amiens era constituída apenas dos ossos do rosto; estava incrustada num relicário de prata dourada, cuja cúpula, em forma de solidéu, substituía o alto do crânio. Este rosto de esqueleto, inteiramente negro sob a coroa de safiras e de esmeraldas, parecia rir e era verdadeiramente amedrontador. Via-se-lhe, acima da órbita esquerda, um buraco que, segundo a tradição, era a marca do golpe de punhal desferido por Herodes, quando lhe apresentaram a cabeça do precursor. O todo repousava sobre um prato de ouro.

Clemência, abismada em devoção, não parecia perceber o frio, e o próprio Luís X, imbuído de fervor, conseguiu conservar-se imóvel durante toda a cerimônia, com o espírito pairando em alturas a que não costumava atingir. O gordo Bouville. porém, apanhou uma dor de peito da qual levou dois meses para curar-se.

Os bons resultados dessa peregrinarão não custaram a manifestar-se. Pelo fim do manjo, a rainha apresentou sintomas que pareciam atender às suas preces; neles reconheceu a benfazeja intercessão de Monsieur São João Batista.

Entretanto, os físicos e parteiras que observavam Clemência não tinham podido pronunciar-se ainda, declarando que precisavam de lodo um mês antes de dar uma certeza.

A medida que a espera se prolongava, o misticismo da rainha assenhoreava-se do esposo. A fim de atrair as bênçãos divinas, o Turbulento governava como se lhe metesse na cabeça ser canonizado.

Devemos acreditar ser nefasto tirar as pessoas de sua natureza: mais valo deixar um perverso em sua perversidade, que transformá-lo em ovelha. 0 rei. com efeito, imaginando resgatar suas falta?, resolvera esvaziar as prisões: e tão bem, que o crime floresceu em Paris onde não era possível sair. quando a noite chegava, sem risco de ser saqueado. Cometiam-se roubos, agressões e assassínios como não era isto há quarenta anos c a ronda estava exausta de fadiga. Como se houvessem rechaçado as meretrizes para dentro dos limites exatos do quarteirão que São Luís lhe linha demarcado, a prostituição clandestina se desenvolveu nas tavernas e. sobretudo, nas casas de banho, a ponto de um homem decente não mais poder ir tomar seu banho de água quente sem ficar exposto às tentações da carne, que se lhe ofereciam abertamente.

Carlos de Valois sentia-se transbordar: mas, após ter-se feito, em seu proveito, o campeão da religião e dos costumes de outrora, dificilmente se podia opor a medidas tomadas em nome da ordem moral.

Sentindo-se mal vistos, os lombardos manejavam menos facilmente as chaves de seus cofres quando se tratava das necessidades da forte. Ao mesmo tempo, os antigos jurisconsultos de Filipe, o Belo, com Raul de Presles à frente, formavam novamente um partido de oposição em torno do conde de Poitiers. ao lado do qual o condestável Gaucher de Châtillon se tinha declarado francamente.

Clemência chegara a pedir a Luís que retomasse dela as lonas de Marigny, que lhe dera. a fim de restituí-las aos herdeiros do ex-administrador do reino.

— Ah! isso, minha querida, não posso fazê-lo — respondera o Turbulento — pois não poderia retratar-me a esse ponto; o rei não pode errar. Mas prometo-vos, desde que o estado do Tesouro e permita, constituir para o meu afilhado Luís de Marigny uma pensão que o reembolsará largamente.

No Artois. a situação não melhorava. A despeito de Iodos os tratos, confabulações e propostas, a condessa Mafalda continuava irredutível. E se queixava de que os barões tivessem querido, de surpresa, tomar-lhe o castelo(21). A traição dos dois meirinhos, que deveriam entregar a praça aos aliados, fora descoberta a tempo e agora dois esqueletos pendiam, para exemplo, das seleira- de Hesdin. A condessa, no entanto, obrigada a curvar-se a decisão do rei. não voltara ao Artois após a arbitragem de Vincennes. nem tampouco algum dos Hirson. A confusão também era grande cm Iodas as terras cm torno de Arras, cada qual reclamando do poder o que lhe aprouvesse, e as boas palavras tinham tanto efeito sobre os barões como leite que lhes escorresse sobre as couraças.

Nada de sangue, meu doce Senhor, nada de sangue! — aconselhava Clemência. — Levai vosso povo à razão pela fé.

Isto não impedia que alguém estripasse livremente nas estradas dos norte.

Os tesouros de paciência do Turbulento, adquiridos recentemente começavam a esgotar-se. Talvez ele tivesse usado de mais energia para resolver o caso se. no mesmo momento, pela época da Páscoa, sua atenção não fosse solicitada pela situação da capital.

O verão de 1315 linha sido tão funesto para as colheitas como para a guerra, e se o rei deixara suas vitórias na lama. o povo ai deixava o seu pão. Entretanto, advertidos pela experiência do ano precedente, os camponeses, por mais pobres que fossem, não tinham cedido, depois da ceifa, o pouco de trigo colhido. fome mudou-se das províncias para a capital. Jamais o trigo fora tão caro e nunca as pessoas tão magras.

— Meu Deus, meu Deus. que lhes dêem de comer — dizia a rainha Clemência vendo as hordas famélicas que se arrastavam até Vincennes para pedir alimentos.

E chegou tanta gente que foi preciso proibir, com a tropa, o acesso ao castelo. Clemência aconselhava grandes procissões do clero através das ruas e impôs a toda a corte, depois da Páscoa, o mesmo jejum da Quaresma. Monseigneur de Valois obedeceu complacentemente e fez repetir a novidade pelo povo, para que este ficasse sabendo que compartilhavam de seus sofrimentos. Mas ele próprio traficava cereais do seu condado.

Roberto d'Artois, quando precisava de ir a Vincennes, mandava antes que o servissem, por seu fiel Lormet, a refeição de quatro homens e a engulia repetindo uma de suas máximas preferidas: "Vivamos bem, morramos gordos". Depois, à mesa da rainha, podia fingir-se de penitente.

No meio dessa péssima primavera, um cometa apareceu no céu de Paris, onde permaneceu visível durante três noites. Nada separa a imaginação da desgraça. O povo quis reconhecer nele o sinal de piores calamidades, como se aquelas que sofriam não bastassem. O pânico apoderou-se da multidão e explodiram revoltas em vários pontos, sem que se soubesse justamente contra quem eram dirigidas.

O chanceler aconselhou o rei a voltar para a capital, ao menos por alguns dias, a fim de se mostrar à população. Assim, no momento em que os bosques começaram a tornar-se novamente verdes em torno de Vincennes e quando Clemência começava a encontrar encanto naquela estada, toda a corte se transportou para o grande palácio da Cidade que parecia à rainha tão hostil e tão frio.

Foi lá que se deu a consulta dos físicos e das parteiras que se deviam pronunciar sobre o estado da gravidez.

O rei estava bastante agitado na manhã dessa reunião e, para enganar a impaciência, organizava uma partida de pelota no jardim do palácio. O local em que se jogava dava precisamente para a ilha dos Judeus. Mas em dois anos as recordações se esfumaçam e Luís não experimentava nenhum mal-estar, tanto se sentia remido por sua conversão, ao correr atrás de uma bola de couro, no mesmo local em que seu pai e ele, vinte e cinco meses antes, se tinham ouvido amaldiçoar por uma boca envolta em chamas. . .

Estava banhado em suor e orgulhava-se de um ponto que os gentis-homens lhe tinham deixado ganhar, quando Mateus de Trye, seu camareiro-mor, se aproximou com passo apressado. Luís interrompeu a partida e perguntou:

— Então, a rainha está grávida?

— Não se sabe ainda, Sire, pois os físicos começaram a deliberar agora. Mas Monseigneur de Poitiers vos pede, se for possível, para irdes encontrá-lo com urgência. Ele se fechou com vossos dois irmãos e Messire de Noyers.

— Não quero que me importunem; não tenho agora cabeça para negócios.

— O assunto é grave, Sire e Monseigneur de Poitiers afirmou-me que ele vos interessa. As palavras que vão ser ditas precisam ser ouvidas por vossos próprios ouvidos.

Luís olhou de má vontade a bola de couro, enxugou o rosto, vestiu a roupa por cima da camisa e disse: — Continuai sem mim, Messeigneurs!

Depois entrou no palácio, ajuntando ao seu camareiro:

— Assim que souberem, Mateus, vem prevenir-me.

 

                     O CARDEAL ENFEITIÇOU O REI...

O HOMEM que se encontrava na sala tinha o rosto agitado por tiques, os olhos negros muito aproximados do nariz e a cabeça raspada como a de um monge. Era alto, mas perdia um pouco da altura por causa do encurtamento da perna direita.

Não estava guardado por dois meirinhos, como um réu comum; eram dois bacharéis do Conde de Poitiers, Adão Heron e Pedro de Garancière que o enquadravam.

Luís X prestou-lhe pouca atenção. Saudou com a cabeça seu tio de Valois, seus irmãos de Poitiers e de Ia Marche, seu primo de Clermont, e Miles de Noyers, cunhado do condestável e conselheiro do Parlamento, que se tinham levantado à sua entrada.

— De que se trata? — perguntou tomando lugar no meio deles e fazendo sinal para que se sentassem.

— De um grave caso de bruxaria, garantem-nos — respondeu Carlos de Valois, com um ar de ironia.

— Não poderíeis encarregar o guarda dos selos de instruí-lo, sem me incomodardes num dia como este?

— Era precisamente o que fazia ver a vosso irmão Filipe — disse Valois.

O Conde de Poitiers uniu os dedos com um gesto tranqüilo, apoiando neles o queixo.

— Meu irmão — disse ele — o assunto é grave, não tanto pela questão da bruxaria, que é comuníssima, mas porque essa feitiçaria ocorre no próprio seio do conclave e nos abre os olhos para os sentimentos que certos cardeais nutrem a nosso respeito.

Um ano antes, somente ao ouvir a palavra "conclave", o Turbulento teria entrado em transe. Mas depois da morte de Margarida, essa era uma questão da qual se desinteressara completamente.

— Este homem chama-se Everardo — continuou o Conde de Poitiers.

— Everardo... — repetiu maquinalmente o rei para mostrar que ouvia.

— Ele é clérigo em Bar-sur-Aube, mas pertenceu outrora à Ordem dos Templários, onde tinha o grau de cavaleiro.

— Um templário, ah! sim!... — disse o rei.

— Ele foi entregar-se há duas semanas à nossa gente de Lião, que no-lo enviou.

— Que vo-lo enviou, Filipe — precisou Carlos de Valois.

O Conde de Poitiers não pareceu prestar atenção àquela observação, que dizia respeito a um pequeno conflito de poderes, mas Valois sentia-se ofendido por ter o caso passado por cima dele.

— Everardo disse que tinha revelações a fazer — continuou Filipe de Poitiers — e foi-lhe prometido que nada sofreria, sob condição de confessar toda a verdade, promessa que nós lhe garantimos aqui: segundo suas declarações...

O rei tinha os olhos fixos na porta, espreitando o aparecimento do seu camareiro; a esperança da paternidade era, no momento, sua única preocupação. O grande defeito deste soberano, como governante, era talvez o pensamento sempre solicitado por outra coisa que não o assunto em curso. Era incapaz de dirigir sua atenção, o que constitui a pior inaptidão para o poder.

Surpreendeu-se com o silêncio que se fizera e saiu de seu sonho.

— Pois bem, meu irmão... — disse ele.

— Meu irmão, não desejo absolutamente perturbar vossos pensamentos. Espero que acabei de sonhar.

O Turbulento ruborizou-se um pouco.

— Não, não, estou ouvindo, continuai.

— Segundo suas declarações, — recomeçou Poitiers — Everardo teria ido a Valença para lá pedir a proteção de um cardeal, a respeito de uma desavença que ele tinha com seu bispo... É preciso, aliás, pôr a limpo um pouco esse ponto — ajuntou ele, dirigindo-se a Miles de Noyers, que conduzia o interrogatório.

Everardo ouviu, mas não abriu a boca. Poitiers prosseguiu:

— Ele conheceu, por acaso, segundo diz, o Cardeal Francisco Caetani...

— O sobrinho do papa Bonifácio — disse Luís para provar que acompanhava.

— É esse mesmo... e ele teria entrado na intimidade desse cardeal, bastante versado em alquimia, pois que há, em sua casa, diz-nos Everardo, uma divisão inteiramente cheia de fornos, de retortas e de diversos pós.

— Todos os cardeais são mais ou menos alquimistas; é a sua mania — disse Carlos de Valois sacudindo os ombros. — 0 próprio Monseigneur Duèze, parece, escreveu um tratado a respeito . . .

— É exato, meu tio; li, em parte, sem compreender grande coisa, confesso, esse tratado de arte transmutatória que tem fama. Mas o presente caso excede em muito a alquimia, que é uma ciência muito útil e respeitável... 0 Cardeal Caetani queria encontrar alguém que pudesse evocar o diabo e proceder a bruxarias.

Carlos de Ia Marche, imitando a atitude irônica de seu tio Valois, disse:

— Eis um cardeal que cheira, curiosamente, a herege.

— Pois bem, queimem-no — disse com indiferença o Turbulento, que novamente fixava a porta.

— Quem desejais queimar, meu irmão? O cardeal?

— Ah! é o cardeal?... Então, não, não é preciso.

Filipe de Poitiers deu um suspiro de lassidão antes de recomeçar, sublinhando um pouco as palavras:

— Everardo respondeu ao cardeal que conhecia um homem que fabricava ouro para o Conde de Bar. . .

Ouvindo esse nome, Valois levantou-se indignado, e gritou:

— Na verdade, meu sobrinho, fazem-nos perder nosso tempo! Conheço suficientemente o Conde de Bar e sei muito bem que não iria entregar-se a essa espécie de tolices! Estamos diante de uma falsa denúncia de bruxaria, como são feitas vinte por dia, e isto não merece que lhe demos ouvidos.

Por mais calmo que procurasse ser, Filipe acabou por perder a paciência.

— Vós abristes bastante os ouvidos às denúncias de feitiçaria quando elas atingiram Marigny — replicou-lhe bem secamente. — Desejai ao menos ouvir esta. Antes de mais nada. não se trata de vosso amigo o Conde de Bar, como ides ver. Everardo não foi procurar o homem a que se referira, mas apresentou, em seu lugar, ao Cardeal, um tal João du Pré, um outro antigo templário, que se encontrava, também, em Valença, por acaso... É isto mesmo, não é, Everardo?

O interrogado aprovou silenciosamente, baixando o crânio negro.

— Não achais, meu tio — volveu Poitiers — que há vários acasos juntos, e muitos templários pelos lados do conclave, precisamente nas paragens do sobrinho de Bonifácio?

— Com efeito, com efeito... — murmurou Valois um pouco vencido.

Voltando-se novamente para Everardo, Poitiers perguntou-lhe repentinamente:

— Conheces Messire João de Longwy?

O rosto de Everardo foi agitado pelo seu tique habitual e suas mãos de longos dedos chatos agarraram o cordão do hábito.

— Não, Monseigneur, só o conheço de nome. Sei apenas que é o sobrinho do nosso falecido Grão-Mestre.

— Falecido... a expressão é boa! — observou Valois em surdina.

— Estás bem certo de não teres tido relações com ele? — insistiu Poitiers. — Nem de haveres recebido, através de antigos companheiros teus, alguma notícia de sua parte?

— Ouvi dizer que Messire de longwy procura manter ligação com alguns de nós, nada mais.

— E não ficaste sabendo, por João du Pré, por exemplo, o nome de um antigo templário que foi ao exército de Flandres entregar mensagem ao Sire de Longwy e levar as dele?

Os dois Carlos, Valois e de Ia Marche, tiveram a mesma expressão de surpresa. Decididamente Filipe sabia mais que todos a respeito de muitas coisas; mas por que guardava consigo as informações?

Everardo sustentara o olhar do Conde de Poitiers que pensava: "Tenho quase a certeza de que é ele, ele corresponde perfeitamente à descrição que me deram. Um coxo..."

— Foste torturado outrora? — perguntou ele.

— Minha perna, Monseigneur, minha perna responde por mim! — exclamou Everardo, pondo-se a tremer.

O Turbulento começava a inquietar-se. "Esses físicos levam muito tempo. Clemência não está grávida e ninguém ousa avisar-me". Foi chamado à realidade por Everardo, que se arrastava de joelhos diante dele, pondo-se a urrar:

— Sire! Sire! suplico-vos, não mandeis torturar-me de novo! Juro por Deus que digo a verdade!

— Não é preciso jurar; é pecado — disse-lhe o rei.

Os dois bacharéis forçaram Everardo a erguer-se.

— Noyers, será preciso esclarecer também esta questão do exército — disse Poitiers dirigindo-se ao conselheiro do Parlamento. — Continuai o interrogatório.

Miles de Noyers, um homem de uma trintena de anos, de cabelos espessos e testa atravessada por duas rugas profundas, perguntou:

— Então, Everardo, que vos disse o cardeal?

0 antigo templário, mal refeito do pânico, respondeu com voz precipitada — e era duvidoso, agora, que mentisse:

— O cardeal nos disse, a João du Pré e a mim, que desejava vingar a memória de seu tio e tornar-se papa; e que para isto precisava destruir os inimigos que lhe opunham obstáculos; e ele prometeu-nos trezentas libras se pudéssemos auxiliá-lo. E os dois primeiros inimigos que ele nos indicou. . .

Everardo olhou para o rei, hesitando.

— Vamos, prossegui — fez Miles de Noyers.

— Ele nos indicou o rei de França e o conde de Poitiers, dizendo-nos que ficaria satisfeito se os visse de pés juntos.

0 Turbulento olhou, maquinalmente, para os sapatos; depois sobressaltou-se na cadeira, exclamando:

— De pés juntos? Mas é precisamente minha morte que desejava esse cardeal perverso!

— Perfeitamente, meu irmão — disse Poitiers, sorrindo. — E a minha também.

— E tu, coxo, não sabias que por tal crime serias queimado neste mundo e danado no outro? — continuou o Turbulento.

— Sire, o Cardeal Caetani garantiu-nos que quando fosse papa, mandaria absolver-nos de tudo.

Com o tronco curvado, as mãos nos joelhos, Luís olhava, com estupor, o antigo templário.

— Detestam-me tanto assim para quererem matar-me? •— disse ele. — E de que modo o cardeal desejava ver-me de pés juntos?

— Disse-nos que éreis muito bem guardado, Sire, para que fosse possível atingir-vos com o ferro ou com o veneno e que era preciso proceder por feitiçaria. Para esse fim, ele nos entregou uma libra de cera virgem, que pusemos a amolecer numa bacia de água quente, no quarto dos fornos. Depois, João du Pré modelou, muito habilmente, uma imagem com uma coroa por cima...

Luís X fez um rápido sinal da cruz.

— . . .e em seguida uma outra menor, com uma coroazinha. Durante o nosso trabalho, o cardeal nos foi visitar; parecia bastante alegre e pusera-se mesmo a rir ao ver a primeira imagem, e nos disse: "Ele tem um membro muito grande" (22)

Carlos de Valois não pôde reprimir o riso.

— Sim, deixemos isso — disse o Turbulento, nervosamente. — Que fizeste dessas imagens?

— Pusemos os papéis dentro delas.

— Que papéis?

— Os papéis que é preciso colocar na imagem com o nome daquele que ela representa e as palavras da conjuração. Mas juro-vos, Sire — exclamou Everardo — que não escrevemos vosso nome, nem o de Messire de Poitiers! Na última hora ficamos com medo e escrevemos os nomes de Tiago e Pedro de la Colonna. . .

— Os dois cardeais Colonna? — perguntou Poitiers. — . . .porque o cardeal os tinha citado também como seus inimigos. Eu juro, eu juro que foi assim!

Luís X, agora, não perdia uma palavra do caso e parecia procurar apoio junto do irmão mais novo.

— Achais, Filipe, que esse homem diz a verdade?

— Não sei — respondeu Filipe.

— É preciso mandar torturá-lo bem pelos verdugos — disse Luís.

As palavras "torturar" e "verdugos" pareciam ter sobre Everardo um poder funesto, pois caiu segunda vez de joelhos e arrastou-se até ao rei, com as mãos juntas, repetindo que lhe tinham prometido não torturá-lo se ele fizesse confissões completas! Um pouco de espuma molhava-lhe o canto dos lábios e o medo dava-lhe um ar de demente.

— Segurai-o! Impedi que ele me toque! — gritava Luís X.

— Esse homem está possesso!

E não se poderia dizer qual dos dois, o rei ou o enfeitiçado, se sentia mais amedrontado pelo outro.

— As torturas não servem para nada — urrava Everardo.

— Foi por causa das torturas que reneguei a Deus.

Miles de Noyers tomou nota daquela confissão espontânea.

— Agora é o arrependimento que me guia — continuou Everardo, sempre de joelhos. — Vou dizer tudo. Não tínhamos santos-óleos para batizar as imagens. Avisamos em voz baixa o cardeal que se encontrava no consistório na igreja grande e que mandou que nos dirigíssemos a tal padre, em tal igreja, atrás do açougue, fingindo que esses santos-óleos seriam destinados a um doente.

Não havia mais necessidade de fazer perguntas a Everardo. Espontaneamente, ele soltava os nomes das pessoas que estavam a serviço do cardeal. Ele citou, assim, o capelão-secretário André, o padre Pedro e o frade Bost.

— Depois, pegamos nas duas imagens e em duas velas bentas e mais um pote de água benta, escondendo tudo sob o hábito e fomos até ao ourives do cardeal, chamado Baubon, que tinha uma esposa jovem e muito graciosa e que deveriam servir de padrinhos. Batizamos as imagens num prato de barbeiro. Depois, voltamos a levá-las ao cardeal que nos agradeceu muito, e nelas enfiou, pessoalmente, alfinetes no coração e nas partes vitais.

Houve um momento de silêncio, a porta entreabriu-se e Mateus de Trye mostrou a cabeça. Mas o rei, com a mão, fez-lhe sinal para se retirar.

— E depois? — perguntou Miles de Noyers.

— Depois o cardeal pediu-nos para fazer outros enfeitiça-mentos — respondeu Everardo. — Mas então fiquei inquieto porque muitas pessoas começaram a ficar a par, e fui para Lião, onde me apresentei à gente do rei, que para aqui me mandou.

— Recebeste as trezentas libras?

— Sim, Messire.

— Cáspite! — exclamou Carlos de Ia Marche. — Para que tem um clérigo necessidade de trezentas libras?

Everardo baixou a cabeça.

— As mulheres, Monseigneur — respondeu baixinho.

— Ou o Templo... — pronunciou, como para si próprio, o conde de Poitiers.

O rei nada dizia, abismado em secretas angústias.

— Para o Petit Châtelet! — disse Poitiers aos seus dois bacharéis, apontando Everardo.

Este deixou-se levar, sem esboçar a menor resistência. Parecia, repentinamente, exausto.

— Esses antigos templários parecem formar um belo viveiro de feiticeiros — tornou Poitiers.

— Não se devia ter queimado o Grão-Mestre — murmurou Luís X.

— Ah! isso eu já o dissera! — exclamou Valois.

— De fato, meu tio, já o dissésteis — respondeu Poitiers. — Mas não é disso que se trata. Salta aos olhos que os sobreviventes do Templo formam uma rede e que estão prontos para tudo, a serviço de nossos inimigos. Este Everardo não diz a metade do que sabe. Sua história estava preparada, pensai bem, e ele só se abriu no final. Parece também que esse conclave que se arrasta de cidade para cidade, precisamente há dois anos, desonra a cristandade, ao mesmo tempo que começa a prejudicar o reino; e os cardeais nele se comportam, pela grosseria de conseguir a tiara, precisamente de maneira a merecer a excomunhão.

— Não será o Cardeal Duèze — disse Miles de Noyers — que nos mandou este homem para prejudicar Caetani?

— É bem possível — disse Poitiers. — Everardo parece--me dessa espécie de revoltosos que se nutrem em todas as manjedouras, desde que a forragem delas esteja um pouco apodrecida.

Foi interrompido por Monseigneur de Valois, cuja fisionomia assumira um ar de seriedade e de reflexão.

— Não pensais, Filipe — disse ele — que devíeis ir pessoalmente dar uma volta pelos lados do conclave, cujos negócios pareceis conhecer bem, e pôr-lhe ordem, dando-nos um papa? Pareceis assás indicado. . .

Filipe esboçou um ligeiro sorriso. "0 tio Carlos se julga bastante hábil neste momento! pensou ele. Descobriu, por fim, a ocasião de afastar-me de Paris e de enviar-me para um belo vespeiro..."

-— Ah! sábio conselho que nos dais, meu tio! — exclamou Luís X. — Certamente, é preciso que Filipe nos preste este serviço, e somente ele pode fazê-lo. Meu irmão, ficar-vos-ia agradecido se o aceitásseis e se fósseis pesquisar pessoalmente a respeito desses papéis que puseram nas imagens, e se elas foram batizadas com os nossos nomes. Ah, sim! é urgente e sois tão interessados quanto eu. Sabeis por que meio religioso nos podemos defender do enfeitiçamento? Apesar de tudo, Deus é mais forte que o diabo. . .

Ele não dava a impressão de estar tão certo disso.

0 conde de Poitiers refletia. No fundo, a proposta o tentava. Deixar por algumas semanas a corte, onde não podia impedir nenhuma tolice e entrava constantemente em conflito com a facção contrária... e ir cumprir enfim uma obra útil. Levar consigo seus fiéis, Gaucher de Châtillon, Miles de Noyers, Raul de Presles... E depois, quem sabe? Aquele que fez um papa fica em boa situação para receber uma coroa. 0 trono do império da Alemanha, que seu pai já sonhara para ele, e o qual tinha o direito de pretender, como conde palatino, podia um dia tornar-se vago...

— Pois bem, seja, meu irmão, aceito para vos servir — respondeu ele.

— Ah! o bom irmão que sois! — exclamou Luís.

E levantou-se para abraçar Filipe mas não completou o gesto, dando um urro.

— Minha perna! minha perna! está inteiramente fria e agitada por tremores, e não sinto mais o chão em baixo!

Dir-se-ia que o demônio já o agarrava pela barriga da perna.

— Mas que;! meu irmão! — disse Filipe — estais com formigamento no pé, mais nada. Esfregai-vos um pouco.

— Ah! pensais que é só isso? — perguntou o Turbulento.

E saiu coxeando, como Everardo.

Ao entrar novamente em seus aposentos, soube que os físicos se tinham pronunciado afirmativamente e que seria pai, com a ajuda de Deus, aí pelo mês de novembro. Ele mostrava, nesse instante menos alegria do que se esperava.

 

                       PONHO O ARTOIS SOB MINHA MÃO!

NO DIA seguinte, Filipe de Poitiers fez uma visita a sua sogra, para anunciar-lhe a partida. A condessa Mafalda residia, então, no seu novo castelo de Conflans, assim chamado por estar situado precisamente na confluência do Sena e do Marne, em Charenton.

Beatriz d'Hirson assistiu à conversa. Quando o Conde de Poitiers narrou o interrogatório do feiticeiro, ela trocou um rápido olhar com Mafalda. As duas mulheres tiveram o mesmo pensamento. O homem do Cardeal Caetani coincidia singularmente com aquele de quem se tinham servido, dois anos antes, para envenenar Guilherme de Nogaret.

"Seria bastante espantoso houvesse dois antigos templários com o mesmo nome e ambos versados em bruxaria. A morte de Nogaret serviu-lhe de pretexto para se aproximar do sobrinho de Bonifácio. Ele fez-se pagar também desse lado. Oh! que negócio nojento..."' pensava Mafalda.

— Como se apresentou esse Everardo. . . quanto ao físico? — perguntou ela.

— Magro, preto, o ar um pouco louco — respondeu Poitiers — E coxo.

Mafalda observava Beatriz, que fez um sinal afirmativo, com as pálpebras; era justamente o mesmo. A Condessa d'Artois sentiu a desgraça agarrá-la pelos ombros, iriam certamente interrogar demais Everardo, com bons instrumentos de explorar a memória das pessoas. Se já não estivessem prestes a fazê-lo, justamente àquela hora. E se ele falasse... Não que alguém se condoesse muito de Nogaret nas rodas chegadas a Luís X. Mas ficariam muito contentes em usar aquele crime para instaurar processo contra ela! Que partido seu sobrinho não tiraria disso!... Com extraordinária rapidez de imaginação, ela esboçou planos. "Fazer desaparecer um prisioneiro do fundo da prisão real não era fácil. . . Quem poderá ajudar-me, lá dentro, se for ainda tempo? Filipe, apenas Filipe, é preciso confessar-lhe. Mas como irá Filipe receber isto? Se ele recusa apoiar-me, é o meu fim..."

Beatriz também tinha a garganta seca.

— Torturaram-no? — perguntou Mafalda.

— Não houve tempo... — respondeu Poitiers, que se abaixara para recolocar no lugar a fivela do sapato. — Mas...

"Deus seja louvado, pensou Mafalda, nem tudo está perdido. Vamos, joguemo-nos à água!"

— Meu filho... — disse ela.

— ... mas é muita pena — continuou Poitiers, sempre abaixado — pois naturalmente não saberemos mais nada. Everardo enforcou-se esta noite no seu cubículo do Petit Châtelet. Com medo, sem dúvida, de ser torturado novamente.

Ele ouviu dois suspiros profundos; ergueu-se um pouco surpreso pelo fato de aquelas duas mulheres sentirem tanta compaixão pela sorte de um desconhecido, e de tão baixa espécie.

— Ias dizer-me algo, minha mãe, e eu vos interrompi.. .

Mafalda, instintivamente, tocava, através do vestido, a relíquia que trazia ao peito.

— Queria dizer-vos. . . Que queria dizer-vos na verdade?... — respondeu Mafalda. — Ah! sim. Queria falar-vos de Joana. Vejamos... Primeiro, leva-la-eis convosco?

Ela reencontrara o ânimo e retomou o tom natural. "Mas, Senhor! que susto!"

— Não, o estado dela, parece-me, não o permite — respondeu Filipe — e desejava justamente falar sobre ela. Daqui a três meses ela dará à luz e não quero que se aventure por maus caminhos. Sou obrigado a partir...

Beatriz d'Hirson, durante esse tempo, vagava no mundo das recordações. Eslava a ponto de rever a casa de dentro contígua à loja da rua dos Bourdonnais; respirava o odor de cera, de sebo e de vela; tornava a sentir o contato das mãos duras de Everardo sobre a sua pele e aquela impressão estranha que tivera de unir-se ao diabo.

— Por que sorris, Beatriz? — perguntou de súbito o conde de Poitiers.

— Por nada. Monseigneur. . . a não ser porque sempre tive prazer em vos ver e vos escutar.

— Na minha ausência, minha mãe — volveu Filipe — gostaria que Joana vivesse aqui, perto de vós. Podereis rodeá-la dos cuidados necessários e sabereis protegê-la melhor. Numa palavra, desconfio das maquinações do nosso primo Roberto que, quando não pode triunfar sobre homens, ataca as mulheres.

— O que significa, meu filho — respondeu Mafalda — que me classificais entre os homens. Se é um cumprimento, não me desgosta.

— Mas é um cumprimento? — disse Filipe.

— Estareis, todavia, de volta para o parto de Joana? — perguntou Mafalda.

— Desejo-o ardentemente e tudo farei para isso; mas não posso garantir nada, porque esse conclave me parece ser uma meada tão confusa que não conseguirei desatá-la em poucos dias.

— Ah! inquieto-me bastante ao ver-vos longe por tanto tempo, Filipe, pois meus inimigos certamente vão aproveitar-se disso com referência ao Artois.

— Muito bem! Por isso mesmo; alegai a minha ausência e não cedais em nada — disse Filipe, despedindo-se.

O conde de Poitiers partiu dois dias mais tarde para o sul e Joana foi instalar-se em Conflans.

Como Mafalda previra, a situação do Artois tornou-se logo alarmante. Voltando os belos dias, os barões tinham necessidade de se agitar. Guiados de longe por Roberto e sabendo a Condessa bastante isolada, tinham decidido agora administrar diretamente a província e a administravam bem mal. 0 estado de anarquia era-lhes bastante favorável e receava-se que o exemplo se espalhasse pelas províncias vizinhas.

Luís X, que voltara para a residência de Vincennes, resolveu-se a acabar com aquilo de uma vez. Era vivamente encorajado pelo seu tesoureiro, pois os impostos do Artois não eram absolutamente arrecadados. A ocasião era propícia a Mafalda, para dizer que a tinham tornado incapaz de receber os impostos; e os barões davam a mesma resposta. Este era o único ponto, aliás, a respeito do qual os adversários estavam de acordo.

— Não quero mais grandes conselhos, confabulações de enviados parlamentares, onde uns mentem aos outros e onde nada progride — declarou Luís X. — Desta vez vou proceder por prática direta e levar a condessa Mafalda a ceder-me.

A impressão deixada no espírito do rei pelo caso Caetani, se tinha sido violenta, fora de curta duração.

Durante as semanas que se seguiram às confissões do antigo templário, Luís X mostrou-se melhor do que nunca. Pouco sofria dos males de ventre a que estava sujeito; os jejuns religiosos impostos por Clemência tinham-lhe certamente, sido salutares. Ele se persuadiu, pois, de não ter sido envenenado. Não obstante, por precaução, comungava várias vezes por semana.

Rodeou a rainha não apenas das mais reputadas parteiras do reino, mas também dos santos mais milagrosos do paraíso: São Leão, São Norberto, Santa Colette, Santa Juliana, Santa Margarida e Santa Felicidade, esta última porque só teve filhos varões. Diariamente chegavam novas relíquias; tíbias e pré-molares acumulavam-se na capela real. A perspectiva de uma progenitura que tinha certeza fosse sua, produzira no Turbulento os melhores efeitos; Clemência, tornando-o pai, tinha completado a transformação. Não o tornou inteligente, pois isso era uma obra impossível, mas fez dele um homem normal; melhor rodeado em seu governo, poderia ser, com o passar do tempo, um rei comum.

Ele estava aparentemente calmo, cortês, desanuviado no dia em que convocou a condessa Mafalda. De Charenton a Vincennes era um passo. Para dar à conversa mais familiaridade, recebeu Mafalda no aposento da rainha, que bordava. Estava-se em plena intimidade familiar. Luís falou num tom conciliador:

— Selai a arbitragem como a fiz, minha prima — disse ele — pois parece que somente a esse preço poderemos obter a paz. E depois veremos! Esses costumes de São Luís, afinal, não estão bem definidos e sempre tereis meios de retomar com uma mão o que tiverdes fingido dar com a outra. Foi o que eu mesmo fiz com os champanheses, quando o conde de Champanha e o senhor de Saint-Phalle vieram reclamar seus privilégios. Acrescentou-se "exceto os casos que tocam a nossa real majestade", e, agora, quando um caso litigioso aparece, sempre depende da real majestade.

Ao mesmo tempo empurrava para ela, com um gesto amigável a bomboneira da qual, enquanto falava, tirava confeitos.

— Não foi vosso irmão Filipe que encontrou essa engenhosa fórmula? — perguntou Mafalda.

— Claro, claro, foi Filipe, com efeito que a precisou; mas eu pensava nela também, e ele, com isso, não fez mais que vir ao encontro da minha idéia.

— Mas, vede, Sire meu primo, o fato não se apresenta da mesma forma comigo — disse calmamente Mafalda. — Não tenho a real majestade; sou soberana, mas não rainha.

— Pois bem! Ponde, assim mesmo, "a real majestade", pois que eu a exerço acima de vós! Se houver reclamação, ela me será trazida e eu a resolverei.

Mafalda tomou um punhado de confeitos, já que não havia, por perto, outro alimento.

— Muito bons, muito bons — dizia ela, com a boca cheia, esforçando-se para ganhar tempo. — Não sou gulosa por doces e, no entanto, devo dizer que estes são muito bons.

— Minha bem-amada Clemência sabe que eu gosto de mascar a qualquer hora e vela para que o seu quarto esteja sempre provido — disse Luís, virando-se para a rainha com ar de marido que deseja mostrar-se satisfeito.

Clemência ergueu os olhos do seu bordado e devolveu a Luís o sorriso.

— Então, minha prima — volveu Luís — ides selar?

Mafalda acabou de mastigar uma amêndoa coberta de açúcar.

— Pois bem! Não, Sire meu primo, não posso selar — disse ela. — Porque hoje temos em vós um bom rei; não duvido que agireis de acordo com os sentimentos que me dizeis, para usar a real majestade em meu favor. Mas não vivereis sempre e eu menos ainda. Podem vir depois de vós... o mais tarde possível, Deus o queira — ajuntou ela persignando-se — reis que não julgarão com a mesma eqüidade. Sou forçada a pensar nos meus herdeiros e não posso fazê-los depender da discrição do poder real, por mais que lhe devemos.

Por mais velada que fosse a forma, a recusa não era menos categórica. Luís, que tinha afirmado aos que o rodeavam que venceria a condessa pela sua diplomacia pessoal bem melhor do que pelas grandes audiências públicas, perdeu a paciência rapidamente; sua vaidade estava em jogo. Começou a andar pelo quarto, alteou a voz, bateu num móvel; encontrando, porém, o olhar de Clemência, parou, ruborizou-se, esforçando-se por retomar o garbo real.

No jogo dos argumentos, Mafalda era mais forte que ele; daquela maneira jamais a venceria.

— Colocai-vos em meu lugar, meu primo — dizia ela. — Ides ter um herdeiro; suportaríeis transmitir-lhe um poder diminuído?

— Bem! Justamente, Madame! não lhe deixarei um poder diminuído nem a recordação de que teve um pai fraco. Afinal é desaforo fazer-me frente! E uma vez que vos obstinais em afrontar-me, ponho o Artois sob minha mão! Está dito! E podeis arregaçar as mangas do vestido que não me fazeis medo. De agora em diante, vosso condado será governado diretamente em meu nome, por um dos meus senhores que vou nomear para lá. Quanto a vós, só tereis direito de vos afastardes duas léguas da residência que vos designei. E não vos apresenteis mais diante de mim, pois não terei prazer em ver-vos. Podeis retirar-vos.

O golpe era de mestre e Mafalda não o esperava. Decididamente, o Turbulento tinha mudado muito.

As desgraças vêm em série. Mafalda tinha sido despedida e tão bruscamente que, saindo do aposento da rainha, ainda segurava um confeito. Meteu-o maquinalmente na boca e mordeu-o com tanta violência que partiu um dente.

Mafalda, durante uma semana, em Conflans, parecia uma pantera enjaulada. Com suas grandes passadas masculinas, ia e vinha das divisões do castelo, que dominavam o Sena, ao pátio principal, rodeado de galerias e de onde, por sobre as folhagens do bosque de Vincennes, podia perceber os cataventos do castelo real. Sua raiva atingiu o limite quando, a 15 de maio exatamente, Luís X, pondo seus projetos em execução, nomeou governador do Artois o marechal de Champanha, Hugo de Conflans. Mafalda viu, na escolha desse Governador, cujo nome era o mesmo do seu castelo, o desejo do escárnio e como que um supremo ultraje.

— Conflans! Conflans! — repetia ela — fecham-me em Conflans e nomeiam um Conflans para roubar-me os bens.

 

Ao mesmo tempo o ciente partido fazia-a sofrer cruelmente, pois formara um abcesso. Mordia a língua sem cessar, não conseguindo conter-se em avivar o mal. Descarregava a cólera sobre os que a rodeavam; esbofeteara o mestre Renier, ajudante de cantor de sua capela porque o achara desafinado durante um ofício; Joãozinho de Follet, o anão, ocultava-se nos cantos que estivessem mais longe do seu olhar; arremeda contra Thierry d'Hirson a quem acusava, a ele e à sua inumerável família, de ser a causa dos seus atuais aborrecimentos; reprovava até mesmo a filha Joana, por não ter sabido impedir o marido de correr para o conclave.

— Que nos importa um papa! — gritava ela — quando estão a ponto de nos despojar. Não é o papa que nos devolverá o Artois.

Depois, voltando-se contra Beatriz:

— E tu, nada podes fazer, não? Só serves para tomar meu dinheiro, encher-te de vestidos e virar o traseiro para o primeiro cão enfeitado que passa? Decidiste prestar-me alguma ajuda?

— Como, Madame? — dizia suavemente Beatriz. — Os brotos de cravo da índia que vos trouxe não acalmaram vossa dor?

— Não se trata do meu dente. Tenho coisa maior para arrancar e sabes bem como se chama. Ah! quando se trata de fabricar filtros de amor tu te agitas, tu te mortificas, descobres mágicos! mas quando preciso de um verdadeiro serviço...

— Sois injusta, Madame, esqueceis bem depressa como fiz defumar Messire de Nogaret e como me arrisquei por vós.

— Não esqueço, não esqueço. Mas Nogaret hoje me parece caça miúda...

Se Mafalda não recuava diante da idéia do crime, desgostava-lhe ser forçada a falar nele. Beatriz, que a conhecia bem, punha certa perfídia em conduzi-la para ele.

— Realmente, Madame — tornou, olhando a outra através dos longos cílios negros. — É tão importante a morte que desejais?

— E em que julgas, então, que eu penso há uma semana, grande pateta? Que queres que me reste fazer, senão pedir a Deus, de manhã à noite, e da noite à manhã, que Luís quebre o pescoço, numa queda do cavalo ou que se sufoque com uma noz seca?

— Há talvez meios mais rápidos, Madame. . .

— Vai, então, encontrá-los, já que és tão forte! Oh! de qualquer maneira esse rei não está destinado a ter ossos velhos; basta ouvi-lo tossir para ficarmos convencidos disso. Mas é agora que me convém que ele morra. .. Não ficarei em paz enquanto não o tiver conduzido a São Denis.

— Porque assim Monseigneur de Poitiers tornar-se-á, talvez, regente do reino...

— É claro. . .

— ...e vos restituirá o Artois.

— Aí está! Minha pequena Beatriz, compreendes-me maravilhosamente; mas compreendes também que isso não é fácil. Ah! àquele que me fornecer uma boa receita de alforria não regatearei o ouro, garanto-te.

— Isabel de Fériennes conhece muitas boas receitas para produzir o esquecimento.

— Bah! por magia, cera e fórmulas de conjuração! Luís já foi enfeitiçado, ao que parece, e olha-o! Nunca esteve melhor do que nesta primavera. A ponto de se acreditar que tenha parte com o diabo.

Beatriz parecia refletir.

— Se ele tem parte com o diabo, não haverá, talvez, grande pecado em enviá-lo para o inferno por intermédio de comida convenientemente preparada.

— E como conseguirás isso? Vais dizer-lhe: "Aqui tendes uma bela torta que vossa prima Mafalda, que tanto vos estima, envia para vós." E ele vai comê-la de olhos fechados. . . Saibas que após este inverno, por causa de algum medo repentino, ele manda provar três vezes os alimentos que lhe servem, e que dois escudeiros armados acompanham seus pratos desde o fogão até a mesa. Ah! é que ele é tão medroso quanto perverso. Tive informações, pensa bem!

Beatriz fitava o vácuo, acariciando a garganta com a ponta dos dedos.

— Ele comunga sempre, disseram-me, e a hóstia engole-se em confiança. . .

— Pensas que já não pensei nisso? É uma coisa que vem por si ao pensamento — respondeu Mafalda. — Mas o próprio capelão está vigiado e Mateus de Trye, o camareiro-mor, guarda constantemente consigo, na esmoleira, a chave do tabernáculo. É lá que vais pegá-la?

— Bah! quem sabe — disse Beatriz. — A esmoleira se traz à. cintura... Mesmo assim é um meio arriscado.

— Quando batemos, minha filha, devemos fazê-lo com golpe seguro e sem que ninguém possa jamais saber que aí pusemos a mão. . . ou somente quando for bem tarde — ajuntou Mafalda agitando a mão sobre a cabeça.

Permaneceram um momento silenciosas, procurando, cada qual de seu lado, uma solução.

— Queixaste-vos, outro dia — disse subitamente Beatriz — que os veados vos infestam os bosques e comem as árvores novas. Não vejo nada de mais em pedir a Isabel de Fériennes algum veneno com o qual se embebam as flechas para matar os veados... O rei é bastante guloso de caça.

— Certamente, e toda a corte morrerá! Oh! de minha parte não arrisco nada, não sou mais convidada. Repito-te: todos os pratos são experimentados por criados e tocados pelo licorne(23) descobrir-se-ia depressa de que floresta provinha o cervo... Enfim... ter o veneno é uma coisa, usá-lo é outra. Encomenda-o desde já; e que seja de ação rápida e não deixe vestígio. A propósito, Beatriz, aquele manto de tecido jaspeado que usei para ir à sagração, agrada-te muito, não? Pois bem! é teu.

— Oh! Madame, Madame! Que boa alma tendes! — exclamou Beatriz atirando-se ao pescoço de Mafalda.

— Ai! meu dente! — gritou a condessa, levando a mão ao rosto. — E sabes como o parti? Com um desses sujos confeitos que Luís me ofereceu.

Ela parou instantaneamente e seu olho cinza pôs-se a luzir sob o supercílio.

— Os confeitos — murmurou ela. — Pois bem, é isto, Beatriz, faze-me preparar esse veneno, esclarecendo bem que é contra os cervos. De qualquer maneira, ele não será perdido.

 

                         NA AUSÊNCIA DO REI

O REI tinha ido à caça do falcão, num dos últimos dias de maio, quando anunciaram à rainha Clemência a sua cunhada Joana. A proibição que pesava sobre a condessa Mafalda não se estendia à sua filha; a rainha e a condessa de Poitiers viam-se com bastante freqüência e Joana não se esquecia, jamais, de testemunhar à sua real cunhada o reconhecimento que lhe devia por lhe ter obtido o perdão. Clemência, de seu lado, sentia-se ligada à Condessa de Poitiers por essa ternura que se sente tão naturalmente para com as pessoas a quem se fez bem.

Se a rainha teve um momento de ciúme ou mais precisamente a impressão de uma injustiça do destino, quando soube que Joana estava grávida, esse movimento da alma tinha-se dissipado logo que se sentiu em estado semelhante. Melhor ainda, a gravidez parecia ter aproximado as duas cunhadas. Elas se entretinham longamente a respeito da saúde, do regime que observavam, dos cuidados a tomar e Joana, que já dera à luz duas filhas antes de sua condenação, fazia com que Clemência aproveitasse a sua experiência.

Admirava-se da elegância com que, já sete meses passados, Madame de Poitiers carregava seu fardo. Ela entrou nos aposentos da rainha de cabeça erguida, o pé firme, a fisionomia fresca, harmoniosa no seu garbo, como sempre era; o vestido desabrochava à sua volta.

A rainha levantou-se para recebê-la, mas o sorriso que trazia nos lábios desapareceu logo que percebeu que Joana de Poitiers não estava só; atrás dela caminhava a condessa de Artois.

— Madame minha irmã — disse Joana — queria pedir-vos que mostrásseis a minha mãe esses tapetes de belo tecido que estendestes e com os quais dividistes vosso quarto.

— Com efeito — disse Mafalda — minha filha elogiou-os tanto, que fiquei desejosa de admirá-los também. Sabeis que sou bastante conhecedora desse gênero de trabalho.

Clemência estava perplexa. Desgostava-lhe infringir sa decisões do esposo que tinha proibido a Mafalda de reaparecer na corte; mas, de outro lado, parecia-lhe inábil mandá-la embora, agora que ela tinha chegado até ali, abrigando-se por detrás do ventre da filha como atrás de um broquel. "Sua visita deve ter qualquer razão muito séria, pensou Clemência. Talvez ela queira tentar um acordo e procura um jeito de cair em boas graças, sem que o seu orgulho fique muito arranhado. Ver os tapetes não passa, certamente, de uma oportunidade." Fingiu, pois, acreditar no pretexto e conduziu as duas visitantes ao seu quarto, cujo arranjo acabava de ser modificado.

As tapeçarias serviam não apenas para decorar as paredes, mas pendiam do forro de maneira a dividir a peça muito vasta em pequenos quartos mais íntimos, mais fáceis de aquecer e que permitiam, aos soberanos, isolarem-se dos que os cercavam, protegendo as vozes contra os indiscretos. . Era um pouco como se príncipes nômades tivessem erguido tendas no interior do edifício.

A série de tapeçarias que Clemência possuía representava cenas de caça em paisagens exóticas, nas quais uma quantidade de leõezinhos corriam sob as laranjeiras, e onde aves de plumagens estranhas se divertiam por entre flores. Os caçadores, com suas armas, apareciam apenas no fundo dos quadros, meio escondidos pela folhagem, como se o artista tivesse vergonha de mostrar o homem com seu instinto de morticínio.

— Ah! que belas coisas! — exclamou Mafalda — E como dá prazer ver tecido de alto liço tão bem trabalhado.

Aproximou-se, palpou o tecido, acariciou-o.

— Olha, Joana, como o grão é unido e macio e repara no lindo contraste entre este fundo ramado, estas florzinhas picadas de anil e o belo vermelho de quermes de que são feitas as plumas destes papegais (24). Realmente é uma grande arte a do manejo das lãs!

Clemência observava-a com um pouco de espanto. Os olhos cinzentos da condessa Mafalda brilhavam de alegria, sua mão fazia-se leve; com a cabeça um pouco pendida, demorava-se a contemplar a delicadeza dos contornos, o contraste das tintas. Essa estranha mulher, forte como um guerreiro, astuta como um cônego, feroz nos apetites e nos ódios, abandonava-se, repentinamente desarmada, ao encanto de um tapete de alto preço. E de fato ela era certamente, através de todo o reino, a melhor conhecedora que se podia encontrar.

— Foi uma boa escolha, realmente, minha prima — volveu ela — e felicito-vos vivamente. Este estofo dará à parede mais feia um ar festivo. É o estilo de Arras e no entanto as lãs cantam com mais ardor na trama. Quem vos fez isso é muito hábil.

— Foram os grandes tapeceiros que trabalham na minha pátria — exclamou Clemência — mas devo confessar que eles descendem dos vossos, os mestres pelo menos. (25) Aliás, não pessoas que viajam muito. Minha avó, que me mandou esses tapetes com figuras, para substituir meus presentes perdidos no mar, enviou-me também os tecelões. Instalei-os aqui perto por uns tempos para continuarem a tecer para mim e para a corte. E se vos agrada empregá-los, ou se agrada a Joana, podeis dispor. Encomendai o desenho de vossa escolha e eles farão com os dedos e agulhas a figura tal como a vedes.

— Pois bem! está combinado, minha prima, aceito de bom coração — declarou Mafalda. — Tenho grande vontade de enfeitar um pouco a minha morada, onde me aborreço.. . e uma vez que Messire de Conflans manda nos meus tapeceiros de Arras, o rei me perdoará por colocar um pouco os seus tapeceiros de Nápoles sob minhas ordens. . .

Clemência recebeu o chiste como ele tinha sido dito, com um meio-sorriso. Entre ela e a condessa d'Artois insinuara-se por um instante essa cumplicidade de um gosto comum pelo luxo e pelos trabalhos da arte humana.

Enquanto a rainha continuava a mostrar a Joana as tapeçarias murais, Mafalda dirigiu-se para as que isolavam o leito real, perto do qual divisava uma bomboneira cheia de confeitos.

— O rei também se rodeou de tapetes com figuras? — perguntou ela a Clemência.

— Não, Luís ainda não tem tapetes em seu quarto. É preciso lembrar que ele dorme muito pouco lá.

Ela parou, ruborizando-se ligeiramente com essa confidencia involuntária.

— Isso prova que ele aprecia bastante a vossa companhia, minha prima — replicou Mafalda em tom jocoso. — Aliás, que homem não apreciaria tão bela criatura!

— Tinha receio — tornou Clemência, com o tranqüilo impudor das almas puras — de que Luís fosse afastar-se de mim por causa da gravidez. Pois bem! de modo algum. Oh! nós dormimos de forma bem cristã!

— Estou bem certa disso, verdadeiramente bem certa — replicou Mafalda. — Ele continua a dormir convosco; ah! que belo homem!... O meu, que Deus o guarde, não fazia isso. Tendes um bom esposo!

Ela chegara ao lado da mesinha da cabeceira.

— Permitis, minha prima? — perguntou, apontando a bomboneira. — Sabeis que me despertastes o gosto pelos confeitos?

Heróica, a despeito da dor no dente, que continuava a maltratá-la, tomou um confeito e mordeu-o do lado bom da boca.

— Oh! este é feito com amêndoa amarga, quero outro.

Dando as costas à rainha e a Joana de Poitiers, que estavam a menos de cinco passos, Mafalda retirou da esmoleira um confeito fabricado em sua casa e deixou-o cair na bomboneira.

"Nada se parece tanto com um confeito como outro confeito, pensou ela, e se ele achar que este é um pouco amargo na língua, julgará que o amargor é da amêndoa."

Voltou ao encontro das duas mulheres.

— Vamos, Joana, dizei agora a vossa cunhada o que tens no coração e que tanto queríeis que ela soubesse.

— Na verdade, minha irmã — disse Joana, um pouco hesitante — queria confiar-vos a minha aflição.

"Cá estamos, então, pensou Clemência, vou saber por que elas vieram".

— Meu esposo está bem longe — prosseguiu Joana — e essa ausência inquieta-me bastante a alma. Não poderíeis obter do rei que Filipe voltasse por ocasião de eu dar à luz? E" uma hora em que não gostamos de ver o marido longe. Talvez seja uma fraqueza, mas a gente se sente como protegida, e tememos menos as dores do parto quando sabemos que o pai está próximo. Conhecereis logo esse sentimento, minha irmã.

Mafalda procurara não pôr Joana a par do seu plano, mas servia-se da filha para realizá-lo do começo ao fim. "Se o golpe der certo, tinha ela pensado, conviria que Filipe estivesse em Paris o mais cedo possível para assumir o poder de regente".

O pedido de Joana era dos que mais podiam comover Clemência que, receando lhe falassem do Artois, se sentiu quase aliviada, pois se tratava apenas de um apelo à sua bondade. Ela faria tudo para que o desejo de Joana fosse realizado.

Joana beijou-lhe as mãos e Mafalda a imitou, exclamando:

— Ah! como sois bondosa! Eu bem dizia a Joana que somente em vós havia recurso.

Depois se despediram. Mafalda não parecia disposta a permanecer mais tempo naquele lugar.

Saindo de Vincennes para voltar a Conflans, ela pensava: "Está feito. . . Agora só terei que esperar. Em que dia ele o comerá? A menos que Clemência... Ela não é gulosa por doces; mas tomara que ela não vá, por desejo de mulher grávida, comer justamente aquele! Bah! de qualquer jeito magoaria Luís, privando-o, ao mesmo tempo, da mulher e do filho. E seria a ele que acusariam de ter matado a segunda esposa; isto só se atribui aos ricos.

— Estás muito quieta, minha mãe — espantou-se Joana. — A conversa correu muito bem. Tivestes algum aborrecimento?

— Nenhum, minha filha, nenhum — respondeu Mafalda. — Demos um bom passo.

 

                       O MONGE MORREU

O MESMO acontecimento que, na corte de França, tornava tão feliz a rainha e a condessa de Poitiers, ia semear o drama e o desastre numa pequena propriedade, a dez léguas de Paris.

Maria de Cressay, após algumas semanas, estava com a fisionomia devastada pela angústia e pela tristeza. Mal respondia às perguntas que lhe faziam. Os olhos azuis-escuros tinham-se rodeado de olheiras violáceas; uma pequena veia se desenhava sobre a fronte transparente. Havia algo de alucinação em sua atitude.

— Não irá ter novamente aquela fraqueza do outro ano? — perguntava seu irmão Pedro.

— Mas não, ela não emagrece — respondia dama Eliabel. — Uma impaciência de amor, eis do que ela sofre; e penso que esse Guccio não lhe sai da cabeça. Está na hora de casá-la.

Mas o primo de Saint-Venant, previsto pelos Cressay, respondera que estava muito ocupado no momento, guerreando no Artois com seus partidários dos arredores, mas que pensaria no assunto logo que a paz voltasse.

— Ele certamente informou-se a respeito do estado de nossas finanças — dizia Pedro de Cressay. — Vereis, minha mãe, vereis, talvez lamentemos, um dia, haver desprezado Guccio.

O jovem lombardo continuava a ser recebido, de vez em quando, na mansão, onde fingiam tratá-lo como amigo, tal como no passado. A dívida de trezentas libras, como os juros, continuava correndo. De outro lado, a penúria não terminara e tinham notado que a agência de Neauphle só estava provida de víveres precisamente nos dias em que Maria ali aparecia.

João de Cressay, num gesto de dignidade, pedira a Guccio a conta do que lhe deviam por todas aquelas vitualhas fornecidas há mais de um ano; mas, uma vez com a nota na mão, esquecera-se de pagá-la. E dama Eliabel continuava a deixar a filha ir a Neauphle uma vez por semana, mas mandava a criada acompanhá-la e contava cuidadosamente o tempo.

Os encontros dos esposos clandestinos eram, pois, raros. Mas a jovem criada mostrava-se sensível à generosidade de Guccio e, além disso, Ricardo, o primeiro caixeiro, não lhe era indiferente. Ela sonhava com uma posição burguesa e demorava-se de boa vontade entre os cofres e os livros de assentamento, ouvindo o agradável tilintar do dinheiro nas balanças, enquanto o primeiro andar abrigava amores apressados.

Esses minutos roubados à vigilância da família Cressay, e às proibições do mundo, tinham sido, primeiramente, como ilhazinhas de luz para esse estranho casal que não tinha ainda dez horas de vida em comum. Guccio e Maria viviam da recordação daqueles instantes durante uma semana inteira; o maravilhamento da noite de núpcias não fora desmentido. Nos últimos encontros, entretanto, Guccio notara qualquer diferença na atitude de Maria. Ele também, como dama -Eliabel, tinha reparado no olhar estranho de sua jovem esposa, a sombra que se lhe tinha formado sob os olhos e essa pequena veia azul na fronte, sobre a qual ele se enternecia e gostava de pousar os lábios.

Atribuíra essa mudança à impaciência da parte de Maria em suportar aquela situação, falsa como era. A felicidade repartida em pequenas doses e sempre envolta em farrapos de mentira torna-se logo uma tortura. "Mas é ela mesma quem não quer que rompamos o silêncio! pensava ele. Ela pensa que sua família jamais quererá reconhecer nosso casamento e mandará perseguir-me. E meu tio também está bem de acordo com isso. Então, que fazer?"

— Por que te inquietas, minha bem-amada? — perguntou-lhe no terceiro dia de junho. — Acho-te menos feliz nestas últimas vezes em que nos encontramos. Que temes? Sabes bem que estou aqui para defender-te contra tudo.

Diante da janela desabrochava uma cerejeira em flor, toda rumorejante de pássaros e de vespas. Maria voltou-se, com olhos úmidos.

— Do que me sucede, meu doce amado, nem tu mesmo poderás defender-me.

— Que te acontece, então?

— Somente o que deve, por Deus, me vir de ti — respondeu Maria, baixando a cabeça.

Ele quis certificar-se de haver compreendido bem.

— Um filho? — murmurou.

— Temia confessar-te. Receava que me amasses menos. Ele ficou alguns segundos sem pronunciar palavra, pois que nenhuma lhe vinha aos lábios. Depois, tomou-lhe o rosto nas mãos e forçou-a a olhá-lo

Como quase todas as criaturas destinadas às loucuras da paixão, Maria tinha um olho ligeiramente menor que o outro; essa diferença mínima, que não influía na beleza do rosto, acentuava-se no estado de inquietação em que ela se encontrava tornando sua expressão mais comovedora.

— Maria, não te sentes feliz por isso? — perguntou Guccio.

— Oh! é claro, sê-lo-ei se o fores também.

— Mas, Maria, isso é uma maravilha! Aí está o que faltava para nos encher de alegria. Nossas núpcias precisarão ser reveladas. Tua família será obrigada a conformar-se desta vez. Um filho! Um filho! Mas é um milagre.

E olhava-a da cabeça aos pés, inteiramente maravilhado, estupefato por uma coisa tão natural ter acontecido a ambos. Sentia-se homem, sentia-se forte. Por um pouco ter-se-ia debruçado à janela e gritado a novidade a toda a vila.

Esse jovem, em todo acontecimento que lhe sobrevinha, via somente, em primeiro lugar, o seu aspecto bom e a oportunidade de se glorificar com ele. Tinha desposado secretamente a filha de um cavaleiro e eis que ela o tornava pai! Somente no dia seguinte percebia os aborrecimentos que podiam resultar dos seus atos.

— De baixo, subiu a voz da criada, lembrando a hora.

— Que farei? Que farei? — perguntou Maria. — Nunca terei coragem de dar a notícia a minha mãe.

— Pois bem, sou eu quem vai dizer-lhe — respondeu Guccio.

— Espera mais uma semana.

Ele a precedeu na estreita escada de madeira, dando-lhe a mão para ajudá-la a descer, degrau por degrau, como se ela se tivesse tornado profundamente frágil e ele precisasse sustentá-la em cada um dos passos.

— Mas não estou ainda doente — disse ela.

Ele percebeu o quanto a sua atitude tinha de cômica e soltou uma grande risada feliz. Depois, tomou-a nos braços e trocaram um beijo tão longo que ela perdeu o fôlego.

— Preciso ir embora, preciso ir embora — disse Maria.

Mas a alegria de Guccio era contagiosa e ela partiu sossegadamente. Maria tinha recuperado a confiança simplesmente porque Guccio partilhava de seu segredo.

— Tu verás, tu verás, a bela vida que iremos ter! — disse-lhe ele, reconduzindo-a ao portão do jardim.

É um grande ato de sabedoria e de piedade, ao mesmo tempo, da parte do Criador, impedir-nos o conhecimento do futuro quando nos concede as delícias da recordação e as seduções da esperança. Poucas criaturas sobreviveriam ao descobrir o que os espera. Se esse casal, se esses dois amantes tivessem sabido que se reveriam apenas uma vez em toda a sua existência e somente depois de dez anos, provavelmente se teriam matado naquele mesmo instante.

Maria cantou durante o trajeto de volta, entre os prados semeados de botões de ouro e as árvores floridas. Quis parar à margem do Mauldre para colher íris.

— É para ornar nossa capela — disse ela.

— Madame, apressai-vos — respondeu-lhe a criada — ides ouvir admoestações.

Maria entrou na mansão, subiu diretamente para o quarto e, lá chegada, sentiu o chão fugir-lhe sob os pés. Dama Eliabel encontrava-se no meio do cômodo e media, com o olhar, um vestido descosturado ao nível da cintura, no qual Maria trabalhara pela manhã. Todo o guarda-roupa de Maria estava estendido na cama e todos os vestidos tinham sido alargados da mesma maneira.

— De onde vens para chegar tão tarde? — perguntou--lhe dama Eliabel secamente.

Maria não disse palavra e deixou cair a íris que ainda conservava na mão.

— Não tenho necessidade de que fales para sabê-lo — volveu dama Eliabel. — Despe-te.

— Minha mãe!... — exclamou Maria com voz estrangulada.

— Despe-te, ordeno-te! — gritou dama Eliabel.

— Nunca! — replicou Maria.

Uma bofetada sonora respondeu à sua recusa.

— E agora, vais obedecer? Vais confessar teu pecado?

— Não pequei! — respondeu Maria com a mesma violência.

— E essa nova gordura? de onde vem ela? — perguntou dama Eliabel mostrando-lhe os vestidos.

Sua cólera crescia por ter à sua frente não mais uma criança dócil, mas repentinamente uma mulher que lhe fazia frente.

— Pois bem, sim, vou ser mãe; pois bem, sim, foi Guccio! — gritou Maria — E não tenho de que me envergonhar porque não pequei. Guccio é meu marido.

Dama Eliabel não deu fé alguma à história do casamento da meia-noite. Admitiu ela que, aos seus olhos, isso não mudava nada. Maria agira contra a vontade paterna, exercida por ela própria e pelo filho mais velho. Além disso, aquele monge italiano bem podia ser um monge falso. Não, decididamente, não acreditava em tal casamento.

— Na minha morte compreendereis, minha mãe, na minha morte não confessarei outra coisa! — repetia Maria.

A tempestade durou bem uma hora e depois dama Eliabel fechou a filha dando duas voltas à chave.

— Para o convento! É para o convento das moças arrependidas que irás — gritava-lhe através da porta.

E Maria caiu em pranto no meio dos vestidos espalhados.

Dama Eliabel precisou esperar até a noite que os filhos voltassem da caça para pô-los a par da novidade. O conselho de família foi rápido. A cólera assaltou os dois rapazes e Pedro, sentindo-se quase culpado por ter até então defendido Guccio, mostrou-se o mais exaltado e o mais extremado nas soluções para a vingança. Tinham desonrado a irmã, tinham--nos abominavelmente traído sob o próprio teto! Um lombardo! Um usurário! Iriam pregá-lo, pelo ventre, à porta da sua agência.

Armaram-se de seus chuços de caça, retomaram os cavalos que acabavam de levar à estrebaria e correram para Neauphle.

Ora, naquela noite, Guccio, muito agitado para conciliar o sono, caminhava pelo jardim. A noite estava cheia de estrelas, impregnada de perfumes; a primavera da Ilha-de-França estava no apogeu; o ar tinha um sabor fresco, carregado de seiva e de rocio.

No silêncio do campo, Guccio ouvia, com prazer, as solas do sapato rangerem. . . um passo forte, um passo fraco... sobre o pedregulho, e seu peito era pequeno para conter a alegria.

"E dizer que há seis meses, pensava ele, eu jazia num péssimo leito do Hospital Geral... Como é bom viver!"

Sonhava. Agora que o seu destino já estava decidido, sonhava com a futura felicidade. Via crescer, à sua volta, uma prole numerosa, nascida de um amor maravilhoso e em cujas veias o livre sangue sienense se misturava ao nobre sangue da França. Iria ser o grande Baglioni, chefe de uma dinastia poderosa. Imaginava afrancesar o nome, tornar-se Baglion de Neauphle; o rei lhe conferiria um Senhorio e o filho que Maria trazia, pois não tinha dúvida que fosse rapaz, seria um dia armado cavaleiro.

Só saiu de seus sonhos ao ouvir um galope crepitar nas' lages de Neauphle e depois estacar diante da agência, e a aldrava da porta soar com violência.

— Onde está esse canalha, esse patife, esse judeu? — gritou uma voz que Guccio reconheceu logo ser a de Pedro de Cressay.

E como não abrissem logo, os dois irmãos puseram-se a estropear no batente de carvalho com o cabo do chuço. Guccio levou a mão à cinta, mas não tinha o punhal consigo. Ouviu-se Ricardo que, com passadas pesadas, descia a escada.

— Já vou! Já vou! — dizia o primeiro caixeiro com voz de homem contrariado por ter sido arrancado do sono.

Depois houve um barulho de ferrolhos que se abriam, de trancas que deslizavam e, logo após, o ruído de uma discussão furiosa da qual Guccio apanhava apenas trechos.

— Onde está o leu patrão? Queremos vê-lo imediatamente !

Guccio não percebia as respostas de Ricardo, mas as vozes dos irmãos Cressay cresciam.

— Ele desonrou nossa irmã! esse cão, esse usurário. Não iremos embora enquanto não tivermos a sua pele!

A discussão terminou por um grande grito. Ricardo acabava, certamente, de ser atingido.

— Ilumina isto — gritou João de Cressay.

E Guccio percebeu, ainda, a voz de João que gritava pela casa:

— Guccio! onde te escondes? Só tens então coragem de aparecer diante das moças? Ousa aparecer, covarde fedorento!

Algumas janelas que davam para a praça tinham-se entreaberto. Os aldeões cochichavam, mas nenhum deles aparecia. No fundo, não estavam zangados; tinham de que falar durante muito tempo. E depois, essa boa peça pregada àqueles dois pequenos senhores, a esses rapazes que os tratavam de tão alto e os solicitavam sem cessar para corvéias, dava-lhes bastante prazer. A escolher, eles gostavam mais do lombardo, mas não a ponto de se arriscarem a levar bordoadas por tomarem o partido dele.

A Guccio não faltava bravura; mas restava-lhe um pouco de miolo; pouco lucraria, não tendo nem mesmo um punhal consigo, em ir entregar-se a dois furiosos armados.

Enquanto que os irmãos Cressay vasculhavam a casa e satisfaziam sua cólera nos móveis, Guccio correu à estrebaria. A noite lhe trouxe, ainda, a voz de Ricardo que gemia.

— Meus livros! Meus livros!

"Tanto pior, pensava Guccio; eles não conseguirão fazer saltar os cofres."

A lua dava bastante claridade para lhe permitir passar, às pressas, um freio no cavalo e jogar-lhe uma sela no dorso; apertou a cilha às cegas, agarrou-se às crinas para poder montar e escapou pelo portão do jardim. Foi assim que abandonou o banco.

Os irmãos Cressay, ouvindo-o galopar, precipitaram-se à janela da casa.

— Ele foge, o poltrão foge! Toma o caminho de Paris, vamos, a ele! Eia, labregos, cortai-lhe o caminho!

Ninguém, certamente, se mexeu.

Os dois irmãos então surgiram da agência e lançaram-se em perseguição de Guccio.

Mas o animal do jovem lombardo era de boa raça e saiu lépido do estábulo. Os cavalos dos Cressay eram pobres animaizinhos do campo que já estavam com um dia de caçada no lombo. Perto de Rennemoulins, um deles começou a mancar tanto que foi preciso abandoná-lo; e os dois irmãos tiveram que montar num cavalo só que, por luxo, estava com pulmoeira, isto é, fazia com as ventas um barulho de ralador de madeira.

Embora Guccio tivesse bastante tempo para tomar a dianteira, chegou à rua dos Lombardos com a aurora, encontrando o tio ainda na cama.

— O monge! onde está o monge? — perguntou.

— Que monge, meu rapaz? que te acontece? Queres tomar ordens, agora?

— Mas não, zio Spinello, não brinqueis. Preciso achar o monge que me casou. Perseguem-me e estou em perigo de vida!

E contou a sua história de um jacto; precisaria reencontrar o monge para provar que era realmente marido de Maria.

Tolomei ouvia-o, com um olho aberto e o outro fechado. Bocejou duas vezes, o que exasperou Guccio.

— Não te agites tanto. O monge morreu — disse finalmente Tolomei.

— Morreu?... — fez Guccio.

— Sim! essa tolice de casamento evitou, pelo menos, que tivesses a sorte dele: pois se fosses, como Roberto d'Artois queria levar a mensagem, não precisarias, sem dúvida, inquietar-te com os sobrinhos em segundo grau que me dás sem que eu te haja encorajado para isso. Frei Vincento foi morto pelos lados de Saint-Pol pela gente de Thierry d'Hirson, que o tinha na mira. Levava com ele cem libras minhas. Ah! Monseigneur Roberto me custa caro!

— Questo è un colpo tremendo! * — gemeu Guccio.

 

* Isto é um golpe tremendo!

 

Tolomei chamou o criado para que lhe trouxesse uma bacia com água morna e as roupas.

— Mas como farei, zio Spinello? Como provar que sou verdadeiramente o marido de Maria?

— Isso não é o mais importante — respondeu Tolomei. — Mesmo que o teu nome e o da tua donzela tivessem sido escritos num registro, isso não mudaria nada. Terias casado com uma nobre sem o consentimento dos seus. Os valentes que te seguem podem bem tirar-te o sangue do corpo, pois não têm que temer. São nobres e essa gente pode matar impunemente. Teriam, no máximo, de pagar a multa devida pela vida de um lombardo, algumas libras a mais do que pela pele de um judeu e menos que pelos ossos do mais reles labrego, e assim mesmo labrego da França. Por mais um pouco, seriam cumprimentados.

— Bem, meti-me em maus lençóis.

— Podes dizê-lo — respondeu Tolomei, mergulhando o grande rosto na água.

Lavou-se num minuto, enxugou-se com a toalha.

— Tenho a impressão de que não é ainda hoje que terei tempo de fazer a barba... Ah! per Bacco! Fui tão louco como tu.

Pela primeira vez mostrava-se visivelmente preocupado.

— O que é preciso primeiro é desapareceres — tornou ele. — Nada de te esconderes em casa de um lombardo. Se os teus perseguidores amotinaram uma vila, vão também chamar o preboste, não te encontrando aqui, e mandar a ronda revistar todas as casas dos nossos. Antes de dois dias serás preso. Ah! com que cara me fazes ficar perante a Companhia! Há os conventos... certamente...

— Ah! não, nada de monges! — disse Guccio.

— Tens razão, não se pode mais confiar neles. Deixa--me pensar... E Bocácio?

— Bocácio?

— Sim, teu bom amigo Bocácio, o viajante dos Bardi.

— Mas, meu tio, ele é tão lombardo como nós, e além disso, está fora da França no momento.

— Sim, mas ele é muito querido por uma dama da burguesia de Paris e com a qual teve um filho extra-casa-mento.

— É verdade; ele me contou.

— Ela é boa pessoa, eu sei; e pelo menos compreenderá o teu caso. Vais pedir-lhe asilo... E depois receberei teus cunhadinhos; encarrego-me deles... a menos que eles caiam sobre mim e que esta noite não mais tenhas tio.

— Oh! não, meu tio! estou certo de que não sofrereis nada. Eles são violentos, mas nobres. Respeitarão a vossa idade.

— Que bela armadura ter as pernas fracas!

— Talvez mesmo se tivessem deixado ficar pelo caminho e já não venham.

Tolomei emergiu da roupa que vestira sobre a camisa.

— Isso me espantaria muito — respondeu. — Em todo caso irão dar queixa e processar-nos.. . Preciso alertar alguém altamente colocado a fim de abafar o processo antes que faça escândalo... Valois? Valois promete e não cumpre. Roberto? Seria o mesmo que pegar os arautos da cidade e fazê-los anunciar a novidade por trombetas.

— A Rainha Clemência! — disse Guccio... — Ela gostava muito de mim durante a viagem.. .

— Já te respondi na outra vez! Á rainha dirigir-se-á ao rei, que se dirigirá ao chanceler. . . que vai pôr todo o Parlamento a par da questão. Que bela causa teremos que sustentar !

— E por que não Bouville?

— Ah! eis uma boa idéia — exclamou Tolomei — é mesmo a primeira que tivestes nestes seis meses. Bouville... mas sim... ele não tem o espírito brilhante, mas conserva bom conceito por ter sido camareiro do Rei Filipe. Não está comprometido em intrigas e passa por honesto...

— Além disso, ele gosta muito de mim — disse Guccio.

— Sim, nós sabemos! Decididamente todo o mundo gosta de ti! Ah! um pouco menos de amor nos serviria bem! Vai, vai esconder-te na casa dessa dama do teu amigo Boccace e... por favor! que ela não vá se meter a gostar de ti também! Quanto a mim, vou correr até Vincennes para falar com Bouville. Ah! o que não me fazes fazer? Bouville é provavelmente o único homem que nada me deve e é justamente a ele que preciso pedir algo.

 

                           O LUTO ENVOLVEU VINCENNES

QUANDO Messer Tolomei, montado em sua mula baia e acompanhado do criado, entrou no primeiro pátio da mansão de Vincennes, ficou surpreso de encontrar ali grande movimento de gente de toda a espécie, homens de armas, empregados, escudeiros, senhores, jurisconsultos e burgueses: mas essa azáfama transcorria num silêncio total, como se homens, animais e coisas tivessem cessado de fazer o mais leve barulho.

Tinham coberto o chão com espessas braçadas de palha para abafar o rolar dos carros e o som dos passos. Só se falava em voz baixa.

— O rei está morrendo... — disse a Tolomei um senhor do seu conhecimento, a quem aquele se tinha dirigido.

No castelo parecia não haver guarda alguma e os archeiros de vigia deixavam entrar todos os recém-chegados. Assassinos e ladrões podiam introduzir-se nessa desordem sem que qualquer pessoa sonhasse em detê-los. Ouvia-se murmurar:

— O boticário, deixai passar o boticário.

Os criados alcançavam as portas secretas carregando comadres cobertas de pano, que apresentavam aos físicos.

Estes, reconhecíveis pela roupa, confabulavam entre duas portas; os médicos usavam uma murça parda por cima do burel e, na cabeça, um pequeno solidéu parecido com o dos monges. Os cirurgiões trajavam roupa de algodão com longas mangas estreitas e, do gorro redondo, caía-lhes uma faixa branca que lhes cobria as faces, a nuca e as espáduas.

Tolomei informara-se. O rei, que sofria, desde a ante-véspera, de um mal das vísceras, ao qual não dera atenção, pois estava acostumado a essa espécie de indisposição, jogara ainda pelota na tarde precedente; ficara muito encalorado e pedira água para beber. Pouco depois viram-no dobrar-se em dois, começar a vomitar, e precisou ir para a cama. O estado dele piorara tanto durante a noite que ele próprio pedira os sacramentos.

Os físicos não estavam de acordo quanto à natureza do mal; uns, baseados nos sufocamentos que atacavam o rei, asseguravam que a água fria, que ele bebera após o esforço, determinara aquele acesso; outros afirmavam que não podia ser a água que lhe queimara as vísceras a ponto de "defecar sangue".

Confundidos pela origem misteriosa do mal, um pouco paralisados também, como acontece sempre que muitos médicos são chamados à cabeceira de um doente ilustre, eles aconselhavam apenas remédios benignos, nenhum deles querendo assumir a responsabilidade de uma terapêutica enérgica, com medo de ser acusado, em seguida, de ter matado o doente.

Entre os senhores da corte, confiava-se, em meios termos, o caso de enfeitiçamento, assumindo todos o ar de saber mais do que se dizia. Além disso, já se agitavam outros problemas. Quem ia assumir a regência? Alguns lamentavam a ausência de Monseigneur de Poitiers, mas outros, ao contrário, regozijavam-se com isso. 0 rei exprimira vontades formais sobre o assunto? Ignorava-se. Mas ele tinha chamado o chanceler para ditar-lhe um codicilo a seu testamento.

Avançando r.través daquela agitação abafada, Tolomei pôde chegar até ao quarto em que agonizava o soberano. Ali os camareiros continham o povo, deixando em torno do rei apenas os membros da família e os íntimos da sua roda, o que já constituía bastante gente.

Erguendo-se na ponta dos pés, o chefe dos bancos lombardos pôde perceber, por sobre um mar de ombros, Luís X, com o busto sustido por almofadas e cujo rosto encovado, reduzido a metade, mostrava os estigmas do fim. Com uma mão no peito e outra na barriga, a boca cerrada, parecia evitar gemer.

Alguém passou murmurando:

— A rainha, a rainha, o rei pede a rainha.

Clemência estava no quarto vizinho, rodeada de suas camareiras, do gordo Bouville, que sentia dificuldade em reter as lágrimas, e de Eudelina. A rainha não dormia há vinte e quatro horas e apenas se sentara. Ainda naquele momento ela estava de pé, imóvel, com os olhos fixos, semelhante às imagens das igrejas do seu país, enquanto Monseigneur de Valois, inteiramente de preto, como se já estivesse de luto, lhe dizia:

— Minha querida, minha boa sobrinha, precisais preparar-vos para o pior.

"Mas estou preparada, pensava Clemência, e não tenho necessidade dele para sabê-lo. Dez meses de felicidade, é então tudo a que tenho direito? E talvez ainda seja muito e Deus é bom por nos ter concedido; e não lhe agradeci suficientemente. O pior não é a morte, pois que nos encontraremos na vida eterna. O pior será para a criança que vai nascer daqui a cinco meses, que Luís não terá conhecido e que só conhecerá o pai quando ela também chegar ao outro mundo. Por que Deus permite isto?"

— Podes contar comigo, minha sobrinha — continuava Valois. — Continuarei a proteger-vos e não notareis nenhuma diferença. Deveis deixar-me fazer tudo e pensar somente que carregais nossa esperança nos flancos. Conviria realmente que fosse um macho! Certamente, vosso estado não vos permitirá ainda assumir a tarefa de regente; e depois os franceses suportariam mal ser governados por mão de mulher estrangeira. Branca de Castela, dizeis vós? Certo, certo, mas ela era rainha há muitos anos. Os franceses ainda não aprenderam a conhecer-vos suficientemente. Devo aliviar-vos das tarefas do trono, o que não me mudará quase nada, no fundo...

O camareiro que fora dizer à rainha que o monarca chamava, entrou nesse instante, mas Valois fê-lo parar com um gesto e prosseguiu:

— Não me glorifico ao propor-me; sou o único a poder exercer de modo útil a regência; saberei associar-vos a ela, porque quero inspirar aos franceses o amor que devem ter à mãe do próximo rei.

— Meu tio — gritou bruscamente Clemência — Luís ainda respira. Faríeis melhor se rezásseis para que um milagre o salve, e se isso for impossível, pelo menos adiai vossos projetos até sua morte. E em lugar de me reterdes aqui, deixai-me ir para meu lugar, que é ao lado do seu leito.

— É claro, minha sobrinha, é claro, mas há coisas sobre as quais é preciso pensar quando rainha. Não nos podemos abandonar às dores vulgares. Será preciso que em suas últimas vontades Luís indique nominalmente o regente.

— Eudelina, não me abandones — murmurou a rainha. E a Bouville, enquanto se dirigia para o quarto:

— Meu amigo Hugo, meu amigo Hugo, não posso acreditar nisso, dizei-me que não é possível!

Era demais para o bravo Bouville, que se pôs a soluçar.

— Quando penso, quando penso — dizia ele — que fui eu quem foi a Nápoles buscar-vos!

Mais estranha era a atitude de Eudelina após ter-se declarado a doença do rei. Não abandonava a rainha, que se dirigia a ela para todas as coisas de que tivesse necessidade, pelo que as damas da corte começavam a sentir despeito. Diante daquele homem, desse soberano do qual tinha sido a primeira amante e que ela amara com docilidade, e que, depois, odiara com perseverança, Eudelina não sentia nada. Não pensava nele nem nela própria. Parecia que as suas recordações tinham morrido antes de quem as tinha criado. Toda a sua capacidade de emoção estava voltada para a rainha, sua amiga. E se Eudelina sofria naquele instante era pelo sofrimento de Clemência.

A rainha atravessou o quarto apoiando-se, de um lado, no braço de Eudelina, e do outro, no braço de Bouville.

Percebendo o último, Tolomei, sempre no vão da porta, lembrou-se, subitamente, do que fora fazer.

"Na verdade esta não é hora de falar a Bouville. E os dois Cressay estão, sem dúvida, em minha casa, nesta hora. Ah! esta morte é inoportuna", pensava ele.

Nesse momento viu-se empurrado por uma massa poderosa: a condessa Mafalda, com as mangas arregaçadas, abria passagem. A despeito da sua desgraça, ninguém se espantara ao vê-la; era seu papel, como parente próxima e par do reino, fazer-se presente em tal circunstância.

Mafalda compusera a fisionomia para dar a aparência do maior espanto e da mais terrível aflição.

Entrando no quarto, murmurou, mas bem distintamente para que pelo menos dez pessoas a ouvissem:

— Dois em tão pouco tempo! É realmente demais. Pobre França!

Avançou, com grandes passadas de soldado, para a família. Carlos de Ia Marche, com os braços cruzados e o belo rosto um pouco crispado, estava rodeado por seu primo-irmão Filipe de Valois e por Roberto d'Artois.

Mafalda estendeu as mãos a Roberto, fazendo-lhe sinal, com os olhos, de que estava muito comovida para falar e, que num dia como aquele, se esqueciam todas as discórdias. Depois foi cair perto do leito real e com voz magoada, falou:

— Sire, suplico-vos que me concedais perdão pelos aborrecimentos que vos causei.

Luís olhou-a; seus grandes olhos glaucos estavam cercados pelas olheiras profundas da morte. Estavam prestes a trocar a aparadeira à vista de todos; nessa inconfortável posição, procurando conservar autoridade sobre si mesmo, ele assumia, pela primeira vez, um pouco da verdadeira majestade, e qualquer coisa, enfim, de real, que lhe faltara em toda a vida.

— Perdoo-vos, minha prima, se vos submeterdes ao poder do rei — respondeu, enquanto colocavam sob ele nova aparadeira.

— Senhor, faço-vos juramento! — respondeu Mafalda.

E mais de uma pessoa em torno ficou sinceramente consternada ao ver a terrível condessa curvar, finalmente, a espinha e proferir sua submissão.

Os olhos de Roberto d'Artois se diminuíram e ele deixou cair nos ouvidos de Filipe de Valois:

— Não representaria melhor se fosse ela quem o tivesse matado.

A primeira suspeita acabava de nascer nele.

O Turbulento foi presa de um novo acesso de eólica e levou as mãos ao ventre. Os lábios deixaram ver os dentes cerrados; o suor escorria-lhe das têmporas e colava-lhe os cabelos. Após alguns segundos pareceu mais calmo e disse:

— É isto, então, sofrer? É isto então... Ah! que Deus me absolva por ter feito sofrer.

A cabeça inclinou-se-lhe um pouco sobre as almofadas e o olhar pousou sobre Clemência, longamente.

— Minha doçura, minha querida, que pena deixar-vos! Quero que conserveis esta casa, pois aqui nos amamos. Estêvão! Estêvão! -— gritou ele, agitando os dedos em direção ao chanceler de Mornay, sentado à cabeceira, de papel na mão, para receber as últimas vontades do rei. . . — Escrevei que eu lego à rainha Clemência esta propriedade do bosque de Vincennes. . . e quero que lhe dêem igualmente vinte e cinco mil libras de renda.

— Luís, meu doce Senhor — disse Clemência — não penseis mais em mim; já me destes tanto. Mas, por misericórdia, pensai naqueles que lesaste; prometestes-me...

— Dizei, dizei, minha querida, e será feito como desejardes.

Clemência pousou a mão nos braços de Eudelina.

— Vossa filha — murmurou ela.

Os supercílios do moribundo se contraíram, como se ele procurasse transpor as distâncias, já longínquas, da recordação.

— Sabíeis, então, Clemência? — perguntou ele... — Pois bem! que a filha de Eudelina seja abadessa, e de abadia real; eu o quero.

— Deus vos tenha em graça, Monseigneur Luís — disse ela.

— E quem mais? — volveu ele. — A quem lesei? Ah! sim, meu afilhado, Luís de Marigny. Quero que ele saiba que sinto remorsos por lhe ter desonrado o pai!

E mandou que se escrevesse que lhe legava dez mil libras de renda.

— Nem todos têm a sorte de ter um pai enforcado — disse Roberto d'Artois aos vizinhos. — Rende menos tê-lo perdido na guerra, como morreu o meu.

Carlos de Valois, que se aproximara do grupo, respondeu-lhe :

— Legar é fácil, mas onde acharei o dinheiro para tudo isso?

fez sinal a Estêvão de Mornay de que a lista já estava bem comprida e que era preciso apressar a assinatura do codicilo. O chanceler compreendeu logo e obedeceu. Luís raspou o papel com a pena que lhe apresentaram. Depois, re-lanceou o olhar pela assistência, como se estivesse obcecado por uma preocupação e buscasse alguém que deveria estar ali.

— Quem desejais, Luís? — perguntou Clemência.

— Meu pai — murmurou ele.

E os assistentes julgaram que ele começara a delirar. Mas, na realidade, ele procurava lembrar-se de como agira o pai durante a agonia, dezoito meses antes. Virou-se para o seu confessor, um dominicano de Poissy, e disse:

— O milagre. . . Meu pai transmitiu-me o milagre real. . . A quem posso transmiti-lo?

Carlos de Valois avançou, pronto como sempre a recolher qualquer parcela de poder que caísse do trono. Como ele gostaria de impor as mãos e curar as escrófulas!

O dominicano, porém, tinha-se debruçado ao ouvido de Luís X para sossegá-lo. Os reis podem morrer de boca fechada; a Igreja se lembraria. Se Luís tivesse um filho, o rito do milagre ser-lhe-ia revelado em seu tempo.

Então o olhar de Luís passou sobre o rosto de Clemência, desceu-lhe pela garganta, pela cintura, e aí se demorou longamente como se, concentrando as derradeiras forças da vontade, o moribundo procurasse transmitir tudo quanto recebera de três séculos de ascendência real.

Isto se passou no dia 4 de junho de 1316.

 

                     TOLOMEI REZA PELO REI

QUANDO Tolomei, no meio da tarde, tornou a entrar em casa, seu primeiro caixeiro foi logo avisá-lo de que dois homens do campo o esperavam na sala de espera de seu gabinete.

— Mostram-se bastante encolerizados — acrescentou ele. — Estão lá desde a noa, sem terem comido nada e dizem que não sairão enquanto não vos falarem.

— Sim, eu sei quem são — respondeu Tolomei. — Fecha as portas e reúne em meu gabinete o pessoal da casa, caixeiros, empregados, palafreneiros e criados. E que se apressem! Todos lá em cima.

Depois subiu lentamente a escada, adotando os passos de um velho arrasado pela desgraça; parou um momento no patamar, ouvindo a azáfama que suas ordens punham na casa; esperou que as primeiras cabeças aparecessem em baixo da escada e, finalmente, entrou na sala de espera, segurando a cabeça.

Os irmãos Cressay levantaram-se e João, encaminhando-se para ele, exclamou:

— Sim, eu sei! — Falou com voz gemebunda. — Eu sei quem sois e sei também o que viestes dizer-me. Mas isso não é nada perto do que nos aflige.

Como o outro quisesse prosseguir, ele virou-se para a porta e disse ao pessoal que começava a mostrar-se:

— Entrai, meus amigos, entrai todos; vinde ouvir a terrível novidade da boca de vosso patrão! Vamos, entrai, meus pequenos.

O escritório logo ficou cheio. Os irmãos Cressay, se quisessem tentar o menor movimento, teriam sido desarmados num instante.

— Mas, enfim, Messer, que significa isto? — perguntou Pedro, vencido pela impaciência.

— Um momento, um momento — respondeu Tolomei — todos devem saber.

E os irmãos Cressay, bastante inquietos, pensaram que o banqueiro ia revelar publicamente a sua desonra. Era mais do que esperavam.

— Todos estão aqui? — perguntou Tolomei. — Agora, meus amigos, escutai-me.

E nada aconteceu. Houve um grande silêncio. Tolomei ocultou o rosto nas mãos e julgavam que ele chorasse. Quando descobriu a face, seu olho esquerdo, com efeito, tinha-se enchido de lágrimas.

— Meus amiguinhos, meus filhos — disse por fim, — é uma coisa horrível! Nosso rei... sim, nosso bem-amado rei acaba de morrer.

A voz dele estrangulava-se-lhe na garganta: batia no peito como se fosse ele responsável pela morte do soberano. Aproveitou o efeito da surpresa para ordenar:

— Agora de joelhos, todos, e oremos pela sua alma.

Ele próprio, pesadamente, deixou-se cair no chão e todo o pessoal o imitou.

— Vamos, Messeigneurs, de joelhos! — exclamou num tom de reprovação aos dois irmãos Cressay que, espantados pela novidade e completamente petrificados com o espetáculo, eram os únicos que tinham ficado de pé.

— In nomine patris... — começou Tolomei.

Explodiu, então, um concerto de lamentações estridentes. Eram as criadas da casa, todas italianas, que se punham a formar o coro das carpideiras, de acordo com a melhor tradição de sua terra.

— Requiescat. . . — murmuravam os homens juntos.

— Oh! como ele era bom! como era puro! como era piedoso! — urrava a cozinheira.

E todas as moças da copa e da lavanderia se punham a soluçar com calor, levando a saia para cima da cabeça e cobrindo o rosto.

Tolomei levantara-se e circulava através do seu pessoal.

— Vamos, rezai, rezai bem! Sim, ele era puro, sim, era santo! Pecadores, eis o que somos, incuráveis pecadores! Rezai também, jovens — dizia, tocando na cabeça dos irmãos Cressay. — A vós também, a morte vos apunhalará. Arrependei-vos, arrependei-vos!

A representação durou uns bons vinte minutos. Depois Tolomei ordenou:

— Fechai as portas, fechai os postigos. É dia de luto; não faremos negócio esta tarde.

Os empregados saíram, fungando as lágrimas. Quando o primeiro caixeiro passou por ele, Tolomei sussurrou-lhe:

— Sobretudo não pagues a ninguém. A cotação do ouro talvez mude amanhã.

As mulheres ainda gritavam enquanto desciam a escada e seus gemidos continuariam por toda a tarde e por toda a noite. Uma bela emulação vocal as animava.

— Ele era o benfeitor do povo! — gemiam elas. — Nunca, nunca mais teremos um rei tão bom.

Tolomei deixou cair o reposteiro que fechava a entrada do gabinete.

— Eis aí — dizia ele — eis aí! Assim passam as glórias do mundo.

Os dois Cressay estavam completamente desorientados. Seu drama pessoal fora asfixiado pela desgraça geral do reino.

Além disso, estavam provavelmente fatigados. Tinham nas pernas um dia de perseguição às lebres, seguido de uma noite de cavalgada e em que cavalos!

A chegada deles a Paris, de manhãzinha, montados a dois no potro com pulmoeira e trajados com velhas roupas do pai, que vestiam para caçar, tinha despertado o riso à sua passagem. Um bando de garotos barulhentos servira-lhes de escolta. Naturalmente tinham-se perdido no dédalo das ruas da cidade. Tinham a barriga terrivelmente vazia, o' que se suporta mal aos vinte anos. Sua segurança, ou pelo menos o ressentimento, tinha enfraquecido seriamente ao descobrirem a suntuosa residência de Tolomei. Aquela riqueza espalhada por todos os lugares, o pessoal numeroso e mais bem vestido que eles próprios, as tapeçarias, os móveis esculpidos, os esmaltes, os marfins dos quais a menor peça seria suficiente para reconstruir Cressay. .. "No fundo, pensava cada qual, à parte, e sem ousar confiar ao outro, nós erramos, talvez, ao nos mostrarmos tão ciosos do sangue; uma fortuna como esta vale bem a categoria de senhor".

— Vamos, meus bons amigos! — disse Tolomei com a familiaridade que autorizava, agora, sua prece em comum. — Voltemos a esse penoso assunto, visto que depois de tudo é preciso viver e o mundo continua, malgrado os que se vão. Viestes falar-me de meu sobrinho, certamente. O bandido! o celerado! Fazer-me isso, a mim, que o cumulei de atenções! O miserável rapaz sem vergonha! Faltava-me esta dor a mais, hoje... Eu sei, sei de tudo; ele me mandou uma mensagem esta manhã. Estais vendo um homem bastante submetido a provações.

Mantinha-se diante deles, um pouco curvado, com os olhos no chão, na atitude do pior abatimento.

— É covarde por isso — tornou ele. — Covarde! tenho vergonha de confessá-lo, Messeigneurs. Ele não ousou enfrentar a minha cólera; partiu para Siena de repente. Deve estar longe agora. Então, meus amigos, que vamos fazer?

Tinha o ar de quem se entregava a eles, de quase pedir-lhes conselhos. Os dois irmãos entreolhavam-se. Nada se passava como tinham imaginado.

Tolomei observava-os através da pálpebra direita quase fechada. "Está bom, pensava ele. Agora que os tenho nas mãos eles já não são perigosos; preciso apenas de encontrar um meio de reenviá-los para casa sem lhes dar nada".

Levantou-se bruscamente.

— Mas eu o deserdo! ouvis bem, eu o deserdo. — Não terás mais um soldo meu, pequeno miserável! — gritou, agitando a mão na vaga direção de Siena. — Nada! Jamais! deixarei tudo para os pobres e para os conventos! E se ele cair novamente em minhas mãos, entrego-o à justiça do rei. Ai de mim! Ai de mim! O rei morreu!

Quase coube aos dois outros consolá-lo.

Tolomei considerou-os, então, bastante preparados para poder chamá-los à razão. Todas as censuras, todas as ofensas que tinham para fazer, aceitava-as e aprovava; ou melhor: era o primeiro a tomar a dianteira. Mas, agora que fazer? De que serviria um processo, bem dispendioso para gente sem fortuna, quando o culpado se encontrava fora de alcance e teria, antes de seis dias, atravessado as fronteiras? Seria isto que reabilitaria a irmã deles? O escândalo somente serviria para prejudicar os próprios Cressay. Tolomei, mais uma vez, ia sacrificar-se. Ia esforçar-se para reparar o mal cometido; tinha altas e poderosas relações; era amigo de Monseigneur de Valois que visivelmente ia tornar-se regente, de Monseigneur d'Artois, do Messire de Bouville... Encontrar-se-ia para Maria um lugar em que ela pudesse dar à luz o seu pecado no maior segredo, e dar-lhe-iam uma situação. Um convento, durante certo tempo, poderia talvez abrigar o seu arrependimento. Era preciso confiar em Tolomei! Não tinha ele já provado aos próprios Cressay que era homem de bom coração, transferindo aquele crédito de trezentas libras que tinha contra eles.. .

— Se eu quisesse, vosso castelo seria meu há dois anos. Eu o quis? Não. Vede bem.

Os dois irmãos, já bastante abalados, compreenderam facilmente a ameaça que, num jeito tão paternal, o banqueiro fazia pesar sobre eles.

— Entendamo-nos, não vos reclamo nada — ajuntou ele.

Mas, num processo judicial, forçosamente seria obrigado a fazer caso disso e os juizes poderiam apreciar de maneira pouco benevolente para eles o fato de terem recebido tantos presentes da parte de Guccio...

Vamos, eles eram bravos rapazes; iam para uma boa hospedaria, cuja despesa ele pagaria, para aí passar a noite, após se restaurarem bem, e esperar que Tolomei se mexesse por eles. Pensava poder, no dia seguinte, dar-lhes boas novas.

Pedro e João de Cressay renderam-se às suas razões e até mesmo, ao se despedirem, estreitaram-lhe as mãos com alguma efusão.

Após a partida deles, Tolomei deixou-se cair numa cadeira. Sentia-se um pouco fatigado.

"E agora, tomara que o rei morra!" pensou ele. Porque quando deixou Vincennes, Luís X respirava ainda; mas ninguém acreditava que ele tivesse muitas horas à sua frente.

 

                         QUEM SERÁ REGENTE?

LUÍS X, o Turbulento, expirou de madrugada, pouco depois da meia-noite.

Pela primeira vez em cento e vinte anos, um rei da França morria sem deixar herdeiro ao qual, por tradição, a coroa pudesse caber por devolução.

Monseigneur Carlos de Valois, geralmente tão apressado em determinar os faustos da realeza, fossem nupciais ou fúnebres, desinteressou-se completamente das últimas honras que deviam ser prestadas ao sobrinho.

Chamou o camareiro-mor Mateus de Trye e ordenou-lhe como toda instrução:

— Fazei como da última vez!

Tinha ele outros problemas na cabeça. Reuniu às pressas, de manhã, um conselho, não em Vincennes, onde seria forçado a convidar a rainha Clemência, mas em Paris, no palácio da Cidade.

— Deixemos nossa cara sobrinha com sua dor — declarara ele — e não acrescentemos nada que possa prejudicar a vida de sua carga preciosa.

Convencionou-se que Bouville representaria a rainha. Sabiam-no dócil, de raciocínio pouco vivo e nada se temia dele.

O conselho convocado por Luís de Valois fazia as vezes de reunião de família e de conselho do governo. Além de Bouville, nele se sentaram Carlos de Ia Marche, irmão do defunto, Luís de Clermont, Roberto d'Artois, Filipe de Valois, levado pára ali por decisão de seu pai, o chanceler Filipe de Mornay e o arcebispo de Sens e de Paris, João de Marigny, porque era desejável ali estivesse uma alta autoridade eclesiástica e esse Marigny estava ligado ao clã dos Valois.

Não se pôde deixar de convidar também a condessa Mafalda que era, com Carlos de Valois, o único par do reino presente em Paris.

Quanto ao conde Luís d'Evreux, que Valois mandara prevenir da doença do sobrinho, tão tarde quanto possível, chegara da Normandia naquela manhã; tinha o rosto cansado e passava freqüentemente as mãos sobre os olhos.

Confiou a Mafalda:

— É lamentável que Filipe não esteja aqui.

Carlos de Valois sentara-se na extremidade alta da mesa, na cadeira real. Embora impusesse à fisionomia a expressão de tristeza, parecia sentir gosto por essa cadeira.

— Meu irmão, meu sobrinho, Madame, Messeigneurs — começou ele — estamos reunidos, no luto que nos abate, para decidir sobre assuntos urgentes: a designação de curadores do ventre que devem velar, em nosso nome, pela gravidez da rainha Clemência e também a escolha, que é preciso fazer, de um regente do reino, pois não pode haver interrupção no exercício do poder real. Peço-vos vosso conselho.

Ele já empregava expressões de soberano. Essa atitude desgostou bastante ao conde d'Evreux.

"Decididamente a esse pobre Carlos sempre faltará delicadeza e discernimento, pensava ele. Continua a acreditar, na sua idade, que a autoridade vem da coroa, quando é a cabeça que está sob ela que importa".

Não lhe perdoava o exército enlameado nem todas as outras inspirações funestas com as quais ilustrara o curto reinado de Luís.

Como Valois, respondendo-se a si mesmo, começasse a unir as duas questões, propondo que a nomeação dos curadores fosse deixada ao cuidado do regente, Evreux interrompeu-o.

— Se nos convidastes, meu irmão, para vos ouvir discorrer sozinho, poderíamos muito bem ter ficado em casa. Permiti que também falemos quando tivermos alguma idéia para dizer !... A escolha do regente é coisa da qual existem precedentes, e que depende do conselho dos pares. A escolha dos guardas do ventre é outra e poderemos resolvê-la agora.

— Tendes algum nome a propor? Evreux passou os dedos sobre as pálpebras.

— Não, Messeigneurs, não tenho ninguém para propor. Penso apenas que precisamos escolher homens cujo passado seja impecável, bastante maduros, para que possamos descansar em sua prudência, e que tenham dado grandes provas de lealdade e de devotamento para com nossa família.

À medida que ele falava, os olhares convergiam para Bouville, sentado na extremidade mais baixa da mesa.

— Queria dizer, alguém como o Senescal de Joinville — continuou Luís d'Evreux — se a sua idade, que se aproxima do centenário, não o tornasse bem doente... Mas vejo todos os olhares se voltarem para Messire de Bouville, que foi camareiro-mor do rei, nosso irmão, prestou-lhe serviços em tudo com alta fidelidade que precisamos louvar. Neste dia ele representa, entre nós, a jovem rainha Clemência. A meu ver, não poderíamos fazer melhor escolha.

O gordo Bouville baixara a cabeça, inteiramente confuso.

A vantagem dos medíocres é reunir a unanimidade em torno de seu nome. Ninguém receava Bouville; e a função de curador, função de caráter sobretudo jurídico, tinha, na opinião de Valois, uma importância muito secundária. A proposta de Luís d'Evreux recebeu aquiescência geral.

Bouville ergueu-se com a fisionomia consternada. Recebia a consagração de quarenta anos de dedicação à coroa.

— É muita honra, é muita honra, Messeigneurs — declarou. — Prometo velar pelo ventre de Madame Clemência e protegê-la de qualquer ataque ou cometimento, e defendê-la com minha vida. Mas, uma vez que Monseigneur de Valois falou no Messire de Joinville, desejaria que ele fosse nomeado comigo, ou se ele não puder, seu filho, a fim de que o espírito de São Luís... a fim de que seu espírito esteja presente a essa guarda em seu servidor... como o espírito do rei Filipe, meu Senhor... em mim, seu servidor.

Nunca Bouville pronunciara frase tão comprida no Conselho e as coisas que ele queria exprimir eram um pouco sutis para ele. O objetivo dele não era muito claro; mas todos lhe compreenderam a intenção, que foi aprovada, e o conde d'Evreux agradeceu sinceramente.

— Agora — disse Valois — poderemos abordar a escolha da regência...

Foi novamente interrompido, desta vez por Bouville, que tornara a levantar-se.

— Primeiramente, Monseigneur. . .

— Que há, Bouville? — perguntou Valois num tom afável.

— Primeiramente, Monseigneur, preciso pedir-vos, muito humildemente, que deixeis a cadeira que ocupais, pois é a cadeira do rei e não existe rei, no momento, a não ser no seio da rainha Clemência.

Um silêncio caiu sobre a assistência, durante o qual só se ouvia o dobre dos sinos de Paris.

Valois lançou a Bouville um olhar furioso, mas compreendeu ser preciso obedecer e até mesmo aparentar boa vontade: "Assim são os néscios, pensou ele, mudando de lugar, e erram os que lhes dão atenção. Eles têm idéias que não ocorrem a ninguém".

Bouville deu volta à mesa, pegou num tamborete e foi sentar-se, de braços cruzados, na atitude de guardião fiel, à direita da cadeira vazia, que ia tornar-se objeto de tanta cobiça.

Valois falou ao ouvido de Roberto d'Artois, que se ergueu para pôr em execução o plano que tinham combinado.

Roberto pronunciou algumas palavras apenas corteses que significavam claramente: "Basta de tolices, passemos às coisas sérias!" Depois propôs, como se expressasse uma coisa evidente, fosse confiada a regência a Carlos de Valois.

— Não se troca a charrua de mão no meio do sulco do arado — disse ele. — Sabemos bem que foi nosso primo Carlos, quem governou durante todo o tempo que reinou esse pobre Luís. E antes disso pertenceu ele ao Conselho do rei Filipe, ao qual evitou mais de um erro e para quem venceu mais de um combate. É o mais velho da família; fará logo trinta anos que se habituou ao trabalho do rei. . .

Em torno da longa mesa, somente duas pessoas pareciam não aprovar aquelas palavras. Luís d'Evreux pensava na França; Mafalda pensava nela mesma.

"Se Carlos se torna regente, não será ele quem tirará o marechal de Conflans do meu condado, pensava Mafalda.

Talvez me tivesse apressado muito; devia ter esperado a volta do meu genro. Se eu falo por ele, não irei atrair suspeitas sobre mim?"

— Carlos — murmurou Luís d'Evreux — se nosso' irmão, o rei Filipe, tivesse morrido enquanto nosso sobrinho Luís estava ainda na infância, quem seria o regente por direito?

— Forçosamente eu, meu irmão — respondeu Valois crendo que lhe traziam água para o seu moinho.

— Porque éreis o primeiro, meu irmão! Não cabe, agora, por direito, ao nosso sobrinho o conde de Poitiers ocupar a regência?

Seguiu-se viva controvérsia. Tendo Filipe de Valois replicado que o conde de Poitiers não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, tanto no conclave como em Paris, Luís d'Evreux exclamou:

— Lião não é um país do Grão-Cã! É possível voltar em alguns dias... Não somos tão numerosos para decidir neste instante um assunto tão grave. Dos doze pares do reino vejo aqui apenas dois...

— ...e que, ademais, não estão de acordo — disse Mafalda. — Pois estou com as vossas razões, primo Luís, e não com as de Carlos.

— Quanto à família — volveu Evreux — não somente aqui falta Filipe, mas também a nossa sobrinha Isabel de Inglaterra, nossa tia Agnes de França e seu filho, o duque de Borgonha. Se a primogenitura deve prevalecer, então Agnes, que é a última filha viva de São Luís, pode falar mais alto do que todos nós!

Aproveitou-se este nome para fazer oposição a Luís d'Evreux; Roberto d'Artois voou em socorro dos Valois. Agnes de França e seu filho Eudes de Borgonha, eis o que todos temiam... A criança de Clemência estava ainda por nascer; admitindo que nascesse, só então se veria se era macho ou fêmea. Eudes de Borgonha podia muito bem reclamar direito de regência por causa de sua sobrinha, a pequena Joana de Navarra, filha de Margarida. O que era preciso evitar a todo custo, pois que se sabia que a criança era bastarda!...

— Mas não sabeis nada disso, Roberto! — exclamou Luís d'Evreux. — Presunção não é certeza, e Margarida levou o segredo para o túmulo onde vós a colocastes.

Evreux lançara aquele "vós" numa acepção geral, que compreendia, ao mesmo tempo, o morto da noite, os Valois e Roberto d'Artois. Mas este último, que tinha fortes motivos para acreditar que a acusação era dirigida apenas a ele, recebeu-a muito mal.

Julgou-se um momento que os dois cunhados (pois Luís d'Evreux fora casado com uma irmã de Roberto, da qual era viúvo) iam a vias de fato e se desafiariam para um duelo.

Mais uma vez o caso da torre de Nesle dividia essa família antes de destruí-la parcialmente e, com ela, o reino.

Lançavam-se em rosto perguntas que continham, cada uma, perfídias ou insultos. Por que Joana de Poitiers tinha sido libertada e Branca de Ia Marche não o fora? Por que Filipe de Valois era encarniçadamente contra a honra dos Borgonha, quando se tinha casado com a própria irmã de Margarida?

O arcebispo e o chanceler tinham aderido à discussão para dar, um a Valois o reforço dos Evangelhos, e o outro, a autoridade dos costumes da França.

— Enfim, percebo — gritou Carlos de Valois — que o Conselho tem número suficiente para nomear os guardas do ventre, mas não o tem para designar o regente do reino. É , pois, a minha pessoa que desagrada!

Nesse momento, Mateus de Trye entrou e disse que tinha grave comunicação a fazer ao Conselho. Pediram-lhe que falasse.

— Enquanto embalsamavam o corpo do rei — disse Mateus de Trye — um cão que entrara sem ser notado, lambeu os panos ensangüentados que tinham servido para a remoção das vísceras.

— E então? — perguntou Valois. — É essa a vossa grande novidade?

— É que, Messeigneurs, esse cão foi imediatamente atacado por dores, pôs-se a ganir e a retorcer-se, com a mesma doença do rei; talvez mesmo agora ele já esteja morto.

Novamente, durante alguns instantes, nada se ouviu na sala, a não ser o dobrar dos sinos. A condessa Mafalda não se mexeu, mas uma ansiedade atroz a invadira. "Serei descoberta por causa da glutonaria de um cão!" pensava ela.

— Pensais, então, Mateus, que existe veneno? — perguntou, finalmente, Carlos de la Marche.

— Será necessário fazer um inquérito e diligentemente conduzido — disse Roberto d'Artois fixando a tia.

— Certamente, meu sobrinho, será preciso um inquérito — respondeu Mafalda, como se fosse ela quem suspeitasse dele.

Bouville que, durante a discussão toda se tinha conservado calado, próximo à cadeira real, ergueu-se.

Messeigneurs, se quiseram atentar contra a vida do rei, não há razão para que não queiram também atingir a criança que vai nascer. Peço uma guarda de seis escudeiros e bacharéis, armados e sob as minhas ordens, de dia e de noite, para velar à porta da rainha e interditá-la a qualquer mão criminosa.

Responderam-lhe que agisse como entendesse; o Conselho dissolveu-se pouco depois sem ter decidido nada de preciso, a não ser que voltaria a reunir-se no dia seguinte. Os casos comuns, seriam resolvidos, como de costume, por Carlos de Valois e pelo chanceler.

— Ides mandar mensageiros a Filipe? — perguntou Mafalda em voz baixa, ao Conde d'Evreux.

— Certamente, minha prima, vou fazê-lo, e a Agnes também — respondeu ele.

— Então prefiro deixar-vos agir, pois estamos de acordo em tudo.

Bouville, ao sair da reunião, encontrou-se com Spinello Tolomei que o esperava no pátio do Palácio e lhe pediu proteção para o sobrinho.

— Ah! esse caro rapaz, esse bom Guccio! — respondeu Bouville. — Vede, Tolomei! Eis a espécie de homem de que preciso para velar à porta da rainha. Espírito vivo, membros ágeis... A rainha Clemência apreciou bem a sua companhia. É pena que ele não seja bacharel nem mesmo escudeiro. Mas, bem considerado tudo, há ocasiões em que as virtudes do coração valem mais que uma grande estirpe.

—- É justamente o que pensa a menina que o quis em casamento. — disse Tolomei.

— Ah! então ele se casou!

0 banqueiro tentou explicar a aventura de Guccio o mais rapidamente possível. Mas Bouville não prestava atenção. Estava apressado, devia voltar imediatamente para Vincennes e tinha idéia de colocar Guccio na guarda da rainha. Tolomei desejava para o sobrinho um posto menos brilhante e mais afastado. Se pudessem pô-lo a coberto, perto de alguma alta autoridade eclesiástica, um cardeal, por exemplo...

— Pois bem! então, meu amigo, enviemo-lo a Monseigneur Duèze. Dizei a Guccio que vá encontrar-me em Vincennes, de onde não posso afastar-me agora. Ele me contará bem o seu caso. . . Vede, sonho mesmo com isso! Ele poderá prestar-me um grande serviço. Fazei com que ele se apresse; eu o espero.

Algumas horas mais tarde, três cavaleiros, por três itinerários diferentes, galopavam em demanda de Lião.

O primeiro cavaleiro, passando "pela estrada principal", como se dizia então, isto é, por Essones, Montargis e Nevers, levava sobre a cota as armas de França e era portador de uma carta do conde de Valois anunciando ao conde de Poitiers, de uma parte, a morte do rei e, de outra, o desejo do Conselho em designá-lo, a ele, Valois, para exercer a regência.

O segundo cavaleiro, com as insígnias do conde d'Evreux, e tomando a "estrada agradável", por Provins e Troyes, devia fazer uma parada em Dijon, em casa do duque de Borgonha; sua mensagem não tinha o mesmo conteúdo.

Finalmente, o terceiro cavaleiro, vestido com a libré do conde de Bouville e que se servia do "caminho curto", por Orléans, Bourges e Roanne, era Guccio Baglioni. Oficialmente era enviado ao Cardeal Duèze. Mas deveria avisar verbalmente o conde de Poitiers que havia suspeita de veneno na morte de seu irmão e que ele precisava velar pela proteção da rainha.

Os destinos da França estavam nesses três caminhos.


 

NOTAS HISTÓRICAS

(1) Carlos, conde apanagista d’Anjou e do Maine, filho de Luís VIII e sétimo irmão do rei São Luís, casou-se em 1246 com a condessa Beatriz que lhe trouxe, segundo a expressão de Dante, "o grande dote da Provença". Escolhido pe!a Santa-Sé como campeão da Igreja na Itália, foi coroado rei da Sicília em São João de Latrão, em 1265.

Tal é a origem deste ramo meridional da família capetiana, conhecida sob o nome de Anjou-Sicília, cujos poderes se estendem ao mesmo tempo sobre o sul da França e sobre o sul da Itália.

O filho de Carlos I d'Anjou, Carlos II, cognominado o Coxo, rei de Nápoles, da Sicília e de Jerusalém, duque de Pouilles, príncipe de Salerno, de Cápua e de Tarento, casou-se com Maria da Hungria, irmã e herdeira de Ladislau, rei da Hungria. Desta união nasceram:

— Carlos Martel, rei titular da Hungria, morto em 1295;

— São Luís d'Anjou, bispo de Toulouse, morto em 1299;

— Filipe, príncipe de Tarento;

— Raimundo Bérenger, Conde de Provença, do Piemonte e de Andréa;

— João, sacerdote;

— Pierre, conde de Êboli e de Gravina;

— Maria, esposa de Sancho de Aragão, rei de Maiorca;

— Beatriz, que se casou primeiro com Azzon, marquês d'Este, depois com Bertrand de Baux;

— Branca, esposa de Jaime II de Aragão;

— Margarida, primeira esposa de Carlos de Valois, falecida em 1299;

— Leonor, esposa de Frederico de Aragão.

O mais velho, Carlos Martel, casado com Clemência de Habsburgo e para quem a rainha Maria havia reclamado a herança da Hungria, morreu em 1295 (catorze anos antes de seu pai), deixando um filho, Caroberto, que se tornou rei da Hungria, e duas filhas: Beatriz, que desposou João II, delfim de Viena, e Clemência que foi a rainha da França e da qual falamos neste volume.

O segundo filho de Carlos II, São Luís d'Anjou, nascido em Nocera, em fevereiro de 1275, renunciou a todos os direitos sucessórios para abraçar a religião. Nomeado bispo de Toulouse, morreu no castelo de Brignoles, na Provença, aos 19 de agosto de 1298 com a idade de vinte e três anos. Foi canonizado na quinta-feira depois da Páscoa de 1317, pelo Papa João XXII, ex-cardeal Duèze e candidato dos Anjou, eleito no verão precedente. O processo de canonização estava, pois, certamente em curso no ano do qual nos ocupamos. O corpo de São Luís d'Anjou foi exumado em novembro de 1319 e transferido para o convento dos Franciscanos de Marselha, cidade angevina.

Com a morte de Carlos II em 1309, a coroa de Nápoles passou não para a linha mais velha, que se considerava suficientemente provida com o trono da Hungria, mas a Roberto, terceiro filho de Carlos, o Coxo.

Roberto estava presente em Marselha em novembro de 1319, quando se transferiram os despojos de São Luís d'Anjou para o convento dos Franciscanos daquela cidade. O Rei Roberto, aliás, levou para Nápoles, como lembrança, a cabeça de seu irmão. Quarenta anos mais tarde, o papa Urbano V enviou um braço para Montpellier e, finalmente, o rei Afonso V de Aragão, quando tomou Marselha era 1433, carregou com o que restava dos ossos, a fim de transportá-los para Valença.

 

(2) Na Idade Média, a missa celebrada a bordo dos navios, ao pé do mastro principal, era uma missa especial, chamada missa seca, por não haver consagração, nem comunhão do padre. Esta forma litúrgica inusitada era, provavelmente, devida ao receio do enjôo do mar.

 

(3) Marco: medida de peso que valia oito onças, ou seja meia libra, isto é, aproximadamente 244 gramas.

 

(4) A organização e os estatutos internos dos estabelecimentos hospitalares da Idade Média eram inspirados nos estatutos do Hôtel-Dieu (Hospital Geral) de Paris.

O hospital era ordinariamente dirigido por um ou dois provedores, escolhidos dentre os cônegos da catedral da cidade. O pessoal era recrutado entre voluntários, depois de severo exame pelos provedores. No Hôtel-Dieu de Paris o pessoal era composto de quatro padres, quatro religiosos, trinta irmãos e vinte e cinco irmãs. Não se admitiam maridos e esposas entre os voluntários. Os irmãos usavam a mesma tonsura dos templários; as irmãs tinham cabelos cortados como religiosas.

A regra imposta ao pessoal do hospital era severa. Irmãos e irmãs deviam prometer castidade e viver na renúncia de todos os bons. Nenhum irmão podia comunicar-se com uma irmã sem a permissão do "superior" ou da "superiora", nomeados pelos provedores paia dirigir o pessoal. Era proibido às irmãs lavar a cabeça ou os pás dos irmãos; estes serviços só eram feitos aos doentes acamados. Podiam ser aplicados castigos corporais aos irmãos pelo superior; este regulamento era igual para as irmãs. O pessoal do hospital não tinha direito de receber hóspedes. Irmãos e irmãs só podiam tomar duas refeições por dia, mas deviam dar aos doentes tantas refeições quantas necessitassem. Os irmãos deviam dormir sozinhos, vestidos com uma túnica de algodão ou de lã e com um calção; o mesmo para as irmãs. Se um irmão ou uma irmã, à hora da"" morte, possuíssem algum bem ou objeto qualquer de que não houvesse cientificado o superior ou a superiora durante o curso de sua vida, não se deveria fazer por ele nenhum serviço religioso e eram enterrados como excomungados.

A entrada no hospital era proibida a todas as pessoas que trouxessem cães ou pássaros.

Todo doente que se apresentasse ao hospital era primeiro examinado pelo "cirurgião da porta" que o inscrevia no registro. Depois prendiam-lhe ao braço um pequeno cartão, no qual lhe inscreviam o nome e a data da chegada. Deveria logo receber a comunhão; em seguida levavam-no para a cama e era tratado "como o dono da casa".

O hospital devia sempre estar provido de vários roupões forrados e de muitos pares de calçados, igualmente forrados, para o "reaquecimento" dos doentes.

Para os casos graves havia guardas de dia e de noite. Após a cura, com receio de recaída, o doente permanecia sete dias inteiros no hospital.

Os médicos, que se chamavam mires usavam, como os cirurgiões, uniforme.

O hospital recebia não somente pessoas vitimas de doenças passageiras, mas também os enfermos.

A condessa Mafalda d'Artois, que aparece freqüentemente na nossa narrativa, constituiu, no hospital de Arras, uma fundação de dez leitos guarnecidos de colchões, travesseiros, lençóis e cobertas, para dez doentes pobres. No depósito deste hospital, encontram-se muitas cubas enormes de madeira que serviam de banheiras, de bacias, "para pôr sob os pobres, em suas camas", numerosas bacias para as mãos, pratos de barbear, etc. A condessa d'Artois fundou igualmente o hospital de Hesdin, e seu chanceler Thierry d'Hirson o hospital de Gasnary.

Os remédios eram preparados na botica do hospital, segundo as indicações do mire e do cirurgião.

 

(5) Tiago Duèze, nascido em 1244, em Cahors, como o papa Clemente V, a cuja entourage pertencia, foi nomeado bispo de Fréjus em 1299, bispo de Avinhão em 1309 e, finalmente, cardeal-arcebispo do Porto, em 1312; mas Comente V conservou-o perto dele como cardeal da Cúria. Desempenhou papel muito importante no Concilio de Viena, reunido em 1311 para resolver o caso dos Templários. Secretário desse Concilio, Duèze concluiu seu relatório pela supressão da Ordem, decisão que Filipe, o Belo, desejava; atraiu, entretanto, a animosidade desse rei opondo-se à condenação póstuma do papa Bonifácio VIII como herético e recusando-se a profanar-lhe as cinzas.

Com a morte de Clemente V, em Carpentras, em abril de 1314 (um mês após a maldição) Duèze arvorou-se imediatamente em candidato ao trono pontifício. Era fortemente apoiado pela corte de Nápoles, mas tinha contra ele os cardeais italianos e parte dos franceses.

A expedição de Bertrand de Got e Guilherme de Budos, sobrinhos do papa Clemente, enviados pela corte de França com uma poderosa escolta de soldados gascões para impedir a eleição de Duèze, depois de julho de 1314, foi desastrosa: brigas, tumultos, incêndios e pilhagens, refregas entre os soldados gascões e os empregados dos cardeais, na sede do convento em que se realizava o conclave; os membros do Sacro-Colégio fugiram, por fim, através de uma brecha e salvaram-se pelos campos. Dispersaram-se, quer em Avinhão, quer em Orange, Viena ou Lião, formando um estranho conclave errante que durou ainda dois anos, antes de se porem de acordo em torno do nome de Duèze.

Veremos no próximo volume o papel que o conde de Poitiers desempenhou nesta eleição e por que meios bastante violentos forçou os cardeais a fazer a sua escolha.

 

(6) Ost: exército, por deformação do sentido do latim hostis, inimigo. Tem equivalente no português hoste.

 

(7) Nos primeiros dias de julho de 1315, Luís X baixou duas ordenações a respeito dos lombardos. A primeira estipulava que os "caseiros" italianos deveriam pagar um soldo por libra sobre suas mercadorias, permitindo-lhes isenção do exército, de cavalgadas e de qualquer subvenção militar. Era, então, uma taxa excepcional de cinco por cento.

A segunda ordenação, datada de 9 de julho, constituía um regulamento geral sobre a residência e o comércio dos comerciantes italianos. Todas as transações de ouro e de prata em massa ou em bilhão, todas as vendas, todas as compras e trocas de mercadorias diversas eram submetidas a um imposto que variava de um a quatro deniers (dinheiros) por libra, segundo as regiões e segundo o comércio fosse exercido nas feiras ou fora destas. Os italianos somente estavam autorizados a ter domicílio fixo nas quatro cidades de Paris, Saint-Omer, Nímes e La Rochelle. Não parece que esta última disposição tivesse sido escrupulosamente obedecida, mas as derrogações deveriam ter dado bom resultado, tanto para as cidades como para o Tesouro. Corretores, nomeados pela administração real, estavam encarregados de vigiar as atividades comerciais dos lombardos.

 

(8) Carlos de Valois casara-se, em terceiras núpcias, com Mafalda de Châtillon, parente próxima do condestável.

 

(9) Certo número de estudos e testemunhos levam a pensar que a Ordem dos Templários sobreviveu de maneira oculta e difusa durante vários séculos. Citam-se os nomes dos Grão-Mestres secretos até o Século XVIII. Parece pelo menos evidente que os templários, durante os anos que se seguiram imediatamente à destruição da Ordem, procuraram reagrupar-se clandestinamente. João de Longwy, sobrinho de João de Molay, que jurara vingar a memória do tio nas terras do conde de Borgonha (isto é, de Filipe de Poitiers) é considerado, com verossimilhança, como o chefe desta organização.

 

(10) O termo bacharel não era empregado, na Idade Média, na acepção universitária; essa palavra tinha uma significação militar e designava um jovem gentil-homem que, não possuindo ainda a idade ou os meios de levar sua própria bandeira, aspirava a tornar-se cavaleiro. Era uma espécie de ajudante de ordens que fazia parte, com um grau um pouco superior ao de escudeiro, do estado-maior dum chefe de bandeira. (Aliás, na época em que decorre a ação deste romance, a palavra escrevia-se bachaler, de onde vem o português bacharel, o italiano bacelliere e o espanhol bachiller. O étimo da palavra é incerto. Além disso, o bachaler, antes do significado que nos é dado pelos autores franceses, teve em França outros: proprietário rural, vassalo de ordem inferior, embora superior ao servo da gleba (latim bacca-laris). Depois teve o valor de vassalo que luta sob a bandeira de outro, e finalmente o de jovem fidalgo sem idade ou riqueza para levar a sua própria bandeira.

 

(11) A lenda que queria que os Capetos descendessem dum rico açougueiro de Pavis foi espalhada na França pelo cantar de gesta de Hugo Capeto, panfleto composto no começo do Século XIV e logo esquecido, salvo por Dante e, mais tarde, por François Villon. De fato, Hugo Capeto era originário da casa dos duques de França.

Dante acusa também Hugo Capeto de ter deposto o herdeiro legitimo e de tê-lo aprisionado num claustro. Houve aí uma confusão entre o fim dos Merovíngios e o fim dos Carolíngios; foi, com efeito, o último rei da primeira dinastia, Chilperico III, que foi aprisionado num convento. O último descendente legítimo de Carlos Magno, quando da morte de Luís V, o Preguiçoso, era o duque Carlos de Lorraine, que quis disputar o trono com Hugo Capeto; e não foi no claustro que o duque de Lorraine morreu, mas numa prisão em que o jogou seu rival.

Quando, no século XVI, Francisco I mandou ler, por conselho de sua irmã, a Divina Comédia, ao ouvir essa passagem referente aos Capetos, parou imediatamente o leitor e exclamou: "Ah! o pérfido poeta que desonrou minha casa!" e recusou-se a ouvir o resto.

 

(12) Carlos de Valois fora enviado para a Toscana a fim de "pacificar" Florença, dividida pelas dissensões entre Guelfos e Gibelinos. Realmente, tendo entrado na cidade a 1.° de novembro de 1301, Carlos de Valois entregou-se às vinganças dos partidários do papa. As chacinas e pilhagens duraram cinco dias. Depois vieram os decretos de banimento. Dante, gibelino notório e inspirador da resistência, fizera parte, no verão precedente, do conselho da Senhoria; depois, tendo sido enviado, em embaixada, a Roma, aí foi detido como refém. Foi condenado por um tribunal florentino, a 27 de janeiro de 1302, a dois anos de exílio e 5.000 libras de multa, sob falsa acusação de prevaricação no exercício do cargo. No dia 10 de março seguinte, moveram--lhe novo processo e foi condenado, desta vez, a ser queimado vivo. Felizmente para ele, não estava em Florença nem em Roma, de onde conseguira escapar; nunca mais, porém, reveria a pátria. Compreende-se facilmente tenha votado a Carlos de Valois e, por conseguinte, a todos os príncipes franceses, um ódio tenaz. Note-se, além disso, a singular semelhança entre o processo movido contra Dante e o que se fez contra Enguerrand de Marigny, sob a instigação de Carlos de Valois, treze anos mais tarde. Acusações mentirosas sobre a gestão financeira, instrução feita em duas vezes, aumentando as condenações, encontram-se aí os mesmos métodos nos quais se reconhece a marca de Carlos de Valois.

(13) Em francês, goujat, depreciativo no francês moderno. Antes de se tornar expressão de desprezo, a palavra goujat designava apenas um servente do exército.

 

(14) Tref: nome dado à tenda de campanha na época medieval.

 

(15) Lembremo-nos (ver O Rei de Ferro) que Joana de Borgonha, condessa de Poitiers, não tinha sido condenada por adultério, mas por cumplicidade nos adultérios de sua prima Margarida e de sua irmã Branca. Enquanto as duas últimas foram encarceradas no Castello-Gaillard, Joana de Poitiers foi encerrada no Castelo de Dourdan por um período de detenção indeterminado e sob tratamento infinitamente menos severo. Era termos modernos, poder-se-ia dizer que ela tinha sido posta em regime político, enquanto Margarida e Branca em regime de direito comum.

 

(16) Nascido em 1118, no lugarejo de Epinoy, dependendo, então, da diocese de Tournai, depois da de Arras, São Druão veio ao mundo graças a uma cesariana praticada no corpo de sua mãe já morta. Mostrando desde os primeiros anos grande disposição para a piedade, foi alvo de crueldades das crianças da sua idade, que o chamavam de assassino da própria mãe. Acreditando-se culpado, entregou-se a toda a espécie de mortificações a fim de se resgatar desse crime involuntário. Aos dezessete anos distribuiu os consideráveis bens que herdara, e empregou-se como pastor na casa de uma viúva chamada Elisabete Lehaire, na vila de Lebourg, condado de Hainaut, a treze quilômetros de Valenciennes. Tinha tão grande amor aos animais e os curava tão bem que todos os moradores da vila lhe pediam que lhes guardasse as suas ovelhas junto com as da viúva Lehaire. Foi, então, que os anjos começaram a guardar-lhe o rebanho enquanto ele ia ouvir missa. . .

Depois empreendeu uma peregrinação a Roma, tomou gosto por ela e repetiu-a, a. pé, por nove vezes seguidas. Precisou, porém, renunciar às viagens, pois veio a sofrer de uma "ruptura dos intestinos", moléstia que suportou, parece, durante quarenta anos, recusando-se a deixá-la tratar. A despeito do mau cheiro que exalava, suas virtudes atraíram numerosos penitentes da região. Ele pediu lhe "construíssem junto à Igreja de Sebourg um cubículo de onde pudesse ver o tabernáculo, e fez voto de não mais sair dali até o fim de seus dias. Cumpriu fielmente essa promessa, mesmo no dia em que a igreja pegou fogo e a cabana junto com ela; e percebeu-se a sua santidade quando o fogo o poupou.

Morreu no dia 16 de abril de 1189. De várias léguas ao redor o povo acorreu em lágrimas para beijar-lhe os pés, e levar alguns pedaços de trajes miseráveis que o cobriam. Seus parentes, os senhores de Epinoy, quiseram transportar-lhe o corpo para a sua vila natal, mas o carro, em que foram colocados os despojos, imobilizou-se à saída de Sebourg e todos os cavalos que trouxeram como reforço foram incapazes de fazê-lo avançar um passo. Foram, então, obrigados a deixar o corpo do santo onde tinha morrido, contentando-se em erigir-lhe, em Carvin-Epinoy, uma capela onde ele continua sempre venerado.

Era bastante venerado no Artois, em Cambraisis e no Hainaut, onde lhe foram dedicados vários santuários; sua celebridade foi muito aumentada pela cura do conde de Hainaut e da Holanda que, sofrendo horrivelmente de pedras, assim que se ajoelhou diante do túmulo de São Druão, para aí rezar, soltou três pedras do tamanho de uma noz.

São Druão, em razão das circunstâncias de sua vida, é invocado sobretudo nas rupturas, hérnias e "para o feliz parto das mães"; é invocado também para a preservação dos animais contra epidemias.

 

(17) Este filho de Mafalda chamado Roberto, como seu primo, desempenhou papel secundário na história deste período, pois morreu antes de atingir a idade de dezoito anos, em 1317. Enterrado primeiramente nos Franciscanos de Paris, foi o corpo transportado para São Denis, onde seu túmulo ainda é visto. Esta honraria prestada a um personagem desaparecido tão jovem e do qual pouco se falou, somente pode ter partido, com verossimilhança, de uma decisão do rei Filipe V, seu cunhado.

 

(18) A data exata do segundo casamento de Luís X é controvertida. Certos autores fixam-na em 3 de agosto, outros em 13 ou mesmo em 19. O mesmo acontece com a sagração, cuja data varia, segundo os textos, entre 19, 21 e 24 de agosto. A codificação das ordenações dos reis de França, que só foi impressa no século XVIII, e cuja cronologia está longe de ser exata, tende a afirmar que o rei se encontrava, a 3 de agosto, em Reims, a 6 e 17 em Soissons e a 18 em Arras. Ora, partindo-se de que Luís X empunhou a auriflama em São Denis no dia 24 de julho, parece materialmente impossível, por mais curta, que tenha sido a expedição de Flandres, que ele tivesse tempo de voltar da hoste enlameada e chegar à região da Champanha antes de 10 de agosto.

As crônicas da época afirmam, em todo caso, que o casamento foi celebrado a Saint-Lyé, vilazinha a nove quilômetros ao norte de Troyes, onde ainda se pode ver uma torre do antigo castelo. Tal casamento foi realizado às pressas e na maior simplicidade, porque o Tesouro estava vazio e o rei tinha pressa de ser coroado em Reims. Conservamos a data de 13 de agosto, dada pelo padre Anselmo como a mais plausível, pois, sendo a sagração realizada sempre num domingo ou em dia de grande festa religiosa, pensamos que Luís X tenha sido coroado a 15 de agosto; sabemos, de outra parte, que as festas, efetuadas por essa ocasião, se prolongavam por vários dias, o que explica muito bem a variação de datas.

 

(19) Existe, ainda, um grande número de inventários do princípio do século XIV. Conservou-se o que Mafalda d'Artois mandou fazer, com a descrição minuciosa dos objetos e de sua avaliação, após a pilhagem do seu castelo de Hesdin, pilhagem da qual ela pediu indenização.

 

(20) A fortuna de Clemência da Hungria, tanto em terras como em jóias, e constituída essencialmente por presentes de Luís X, era enorme. Clemência da Hungria não recebeu menos que catorze castelos, dos quais alguns estavam entre as mais importantes residências reais.

Quando Clemência da Hungria morreu em 1328, isto é, na começo do reinado de Filipe VI de Valois, seu herdeiro universal, que era seu sobrinho, o Delfim de Viena, vendeu em leilão todas as jóias e peças de ourivesaria, venda que se prolongou por vários dias. O registro dos objetos levados à hasta pública dá para fazer sonhar: três coroas, contendo, no total, trinta e quatro rubis, oitenta e duas esmeraldas, cento e sessenta pérolas; catorze pedras preciosas, cinqüenta e quatro alfinetes de peito — e isto constitui apenas uma parte mínima desse tesouro. Por mais difícil que seja estabelecer o equivalente em dinheiro, pode-se, sem grande risco de errar, avaliar que o total dessa venda se eleva a meio milhão de francos de hoje.

Os maiores compradores foram, de um lado, o próprio rei Filipe VI — que adquiriu, entre outras coisas, o grande relicário com o fragmento da verdadeira Cruz, e também o garfo do qual falaremos mais adiante e, de outro lado, o conde de Beaumont, isto é, Roberto d'Artois.

 

(21) Os barões de Artois saíram vitoriosos desta empresa em setembro seguinte, quando houve a pilhagem de que falamos na nota 19.

Desculpamo-nos da crueza da expressão, mas ela é encontrada textualmente no depoimento do antigo templário Everardo, tal qual foi registrada in extenso.

 

(23) O licorne é um animal lendário que existiu somente nos brasões, mas do qual, no entanto, o único chifre passava como tendo o poder de contra-veneno universal. O que se vendia, a preço muito alto, sob o nome de chifre de licorne, era, na realidade, a presa do narval, cetáceo chamado igualmente licorne do mar.

 

(24) Papegai ou papegaut: papagaio, do italiano papagallo ou do árabe babagga.

 

(25) Todas as oficinas de tapeçaria assinaladas na Europa e notadamente na Itália e na Hungria, no fim da Idade Média, foram fundadas por Lissiers (artistas que fazem os liçaróis para os teares) idos de Flandres ou do Artois; a cidade de Arras é considerada como tendo sido o centro dessa indústria, que nasceu no começo do Século XIV. Ora, esta prosperidade é expressamente atribuída à iniciativa da condessa Mafalda e aos encorajamentos que ela proporcionava às profissões que constituíam a riqueza de sua província.

Quando os tapeceiros parisienses começaram a fazer concorrência às fábricas do Artois, Mafalda não deu preferência exclusiva a um ou a outro e dirigia-se também aos artistas de Paris. Entretanto, sobre esse período, os documentos oferecem poucas minúcias e revelam somente os nomes de alguns tapeceiros, sem nada precisar a respeito de seus trabalhos. O inventário dos bens da rainha Clemência é um dos primeiros em que se encontram citados tapetes de lã "trabalhados com papagaio e compasso" e ainda "oito tapetes com imagens e árvores, da divisa de uma caçada".

 

                                                                                Maurice Druon  

 

                      

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